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Última atualização: 17/01/2020

#1 - Steel Bowl


Final de dezembro.

A rivalidade entre as universidades de Hillford e Stanmore existe desde 1900, a primeira partida aconteceu no dia 16 de Outubro e hoje vamos recapitular os melhores...
— Os melhores momentos são quando os Wombats são humilhados pela nossa faculdade, apenas. — comecei a falar para interromper a matéria jornalística e assim que encontrei o controle remoto desliguei a televisão.
— Ei! — Jessie protestou, arremessando a almofada apoiada em suas pernas em minhas direção, desviei — Eu estava assistindo.
— A gente precisa ir para o estádio, já viu que horas são? — questiono apontando para o relógio na parede à nossa esquerda.
— Só é hora de ir para o estádio quando a transmissão começa na televisão. — ela me olhou com as duas sobrancelhas arqueadas e se levantou do sofá — Eu vou morrer de frio. — resmungou enquanto dobrava a coberta que cobria metade do seu corpo.
— Agora eu entendi o porquê você quer ficar aqui. — semicerrei os olhos e Jess ainda me olhava emburrada como uma criança — Jessie, é o dia mais importante do ano! — fui, literalmente, saltitante até ela e segurei em seus braços, balançando o corpo da minha amiga — Animação! — puxei a coberta de suas mãos, jogando-a no outro lado do sofá.
Cooper, eu vou te matar. — ela disse e eu apenas ri — É sério. — reforçou, rolando os olhos.
— Tudo bem, Jess, você pode me matar depois do jogo. — continuei rindo da feição que ela carregava em seu rosto — Agora, vamos!
Eu concordava com Jess e seu mal humor em relação ao frio, a temperatura estava extremamente baixa naquele fim de mês, mas não estávamos saindo para fazer qualquer coisa. Era o dia do ano com mais importância para nosso time e isso afetava diretamente toda universidade e seus alunos, mas falar apenas da universidade ainda era pouco mesmo que tivéssemos milhares de alunos, a verdade era que o estado de Drale inteiro esperava por esse dia.

O campus estava em festa. O Steel Bowl era o momento mais esperado do ano, não importava como nosso desempenho ou dos Wombats havia sido durante a temporada, o jogo aconteceria. Nosso país podia ter boas rivalidades entre times universitários, mas Drale era pequeno demais para os Wombats e nós, o que caracterizava a rivalidade dos times Hillford e Stanmore como uma das melhores - se não fosse a melhor - do país.
— Você e o Robert conseguiram se acertar? — ela questionou após alguns minutos de silêncio.
— Não muito. — dei de ombros — Nossa conversa de ontem não foi produtiva. — ri.
Cooper, vocês ficaram 40 minutos dentro do quarto e não conseguiram chegar a um acordo? — Jessie me olhou com as sobrancelhas franzidas.
— Eu falo sério! — reforcei firme — Não estamos conseguindo entrar em um consenso. — suspirei, eu não queria demonstrar desânimo com aquele assunto, mas era impossível.
— O Robert é meio chato às vezes, não é? — ela disse usando o mesmo tom receoso de sempre. Jess parecia ter medo de criticá-lo.
— Só às vezes? — rimos — Eu já me acostumei com isso. — confessei, recebendo um olhar de reprovação.
— Você sabe que isso não é certo. — Jess me advertiu — Mas é você quem sabe. — deu de ombros.
— Eu vou resolver isso, prometo. — a abracei, afundando meu nariz em seus cachos castanhos — Seu cabelo é sempre tão cheiroso — elogiei e Jessie passou a mão em seu cabelo com feição orgulhosa.
— Isso são horas de dedicação e cremes com fragrâncias importadas, minha querida. — Jessie empinou o nariz e falou de forma que parecia apresentar um produto em um comercial.
— Idiota. — Bati de leve em seu braço, rindo.

Continuamos por mais vários quarteirões caminhando com o fluxo de pessoas que também ia em direção ao estádio. Meus pensamentos estavam eufóricos com tudo que estava acontecendo, a maior parte deles estava tomado pelo jogo, sempre fui fã assídua do esporte e ter me formado na mesma universidade onde meu irmão se tornou o principal recebedor do time me deixava ainda mais eufórica por todo e qualquer jogo. Porém, algumas coisas ainda não me deixavam focar apenas no Bowl. As festas de fim de ano sempre me faziam ficar ansiosas, porque significava que iríamos para Nova Orleans comemorar com o restante da família na casa da minha avó materna. Mesmo repetindo isso todos os anos, sem exceção, eu ainda me preocupava com os preparativos. Além das duas coisas, ainda havia um terceiro elemento: Robert. Melhor amigo do meu irmão e irmão da minha melhor amiga, nossa relação era extremamente confusa. Eu sempre senti algo a mais entre nós dois do que a amizade por convivência, mas teria sido melhor se apenas continuasse comigo achando que alguma coisa acontecia ao invés de realmente ter acontecido. Estávamos saindo escondidos dos nossos irmãos havia duas semanas, mas Olivia acabou descobrindo e a reação deles foi tão positiva que nos fez ter a nossa primeira discussão sobre o que acontecia ali. Aparentemente, não queríamos a mesma coisa.
Tentei desligar a imagem de Robert no momento em que encaramos a figura imponente do estádio a um quarteirão de onde estávamos. Eu não queria deixar outras coisas influenciarem meus pensamentos durante o jogo.

xxx


Nosso time estava surpreendendo. Meu lema era, nunca subestime o adversário, por isso não costumava dizer ou pensar sobre uma vitória que viria sem complicações, era difícil admitir, mas os Wombats eram tão bons quanto nós.
Os Cougars lideravam o placar com uma diferença de 13 pontos quando voltaram do vestiário para o segundo tempo, com uma grande vantagem como essa, poderíamos dizer que aquele era o nosso jogo. Mas, não. Stanmore Wombats voltou tão sedento pela vitória quanto nós.
Os 13 pontos aumentaram para 16 após uma campanha que acabou sem o touchdown, mas com pelo menos um field goal bem sucedido. Porém, aos poucos a diferença começou a diminuir. Um fumble foi o suficiente para que Stanmore recuperasse a posse de bola e marcasse mais sete pontos com um retorno que eu odiava admitir, mas que havia sido perfeito.
— Fumble é vida. — Ethan repetiu o bordão que costumávamos escutar por parte de um dos narradores da emissora que transmitia os jogos, mas sua voz era desanimada e carregada de ironia.
— Eu odeio um time. — Dei ênfase ao “odeio”, bufando.
— Eles são uns desgraçados, inferno! — Jessie gritou inconformada enquanto assistíamos eles se posicionarem para chutar o ponto extra.
Nosso hobby era reclamar ou ofender os Wombats quando quem tinha culpa pelo ocorrido eram os jogadores do nosso time. O placar era de 17 a 26 para nós. As campanhas frustradas começaram após o intervalo, não parecíamos o mesmo time que começou horas atrás e isso me preocupava. Stanmore estava com a posse da bola novamente, nossa defesa trabalhava bem para não deixar que o ataque avançasse e parecia funcionar. Ryan Meenely, quarterback do Stanmore Wombats, passou a bola para Cooks que correu para algumas jardas, mas foi parado pela colisão contra Foles, nosso jogador defensivo. Ele chocou sua cabeça contra a de Cooks, fazendo o running back cair no chão e a jogada parar. As bandeiras amarelas voaram no campo.
— Falta pessoal, 15 jardas de penalidade, first down automático.
A nossa torcida enlouqueceu. Enquanto Cooks levantava do chão ainda parecendo um pouco desnorteado as pessoas na arquibancada demonstravam sua indignação com Foles. Além daquela falta ter acabado com a chance de recuperarmos a bola sem deixar Stanmore pontuar, era algo que colocava totalmente em risco a segurança do jogador.
Assim como esperado, Stanmore marcou um touchdown, mas falharam miseravelmente no chute do ponto extra. Jogo 23 a 26. O fim se aproximava e nós apenas torcíamos para que se Drale não conseguisse marcar, que a defesa fosse capaz de segurar o ataque feroz dos Wombats pelos próximos dois minutos. Acertamos na primeira previsão de não pontuar, a tentativa de retorno não funcionou, começamos na linha de 10 jardas. Os Cougars conseguiram o primeiro first down, mas bastou três tentativas frustradas para que a bola fosse devolvida a Stanmore. Eles também não foram tão bem, porém, melhores o suficiente para chegarem até o ponto necessário para chutarem um field goal. Eu não me lembrava de ter pedido tanto aos céus para que um vento atrapalhasse um chute como fiz naquele momento, mas claro que não aconteceu. A bola foi exatamente no meio das traves sem nem ao menos nos dar esperanças de um possível erro. Bola dentro, 3 pontos. 26 a 26.
— Eu não acredito nisso. — apoiei os cotovelos em meus joelhos e afundei o rosto entre as mãos, eu queria chorar.
— Detesto prorrogação. — Jessie disse, encostando sua cabeça em meu ombro — Merda.
, faz um cartaz neon dizendo que você vai namorar com o Robert se eles fizerem um milagre. — Nate disse enquanto cutucava minhas costas incessantemente.
— Você é ridículo, meu Deus. — Comecei a rir de nervoso e bati em sua mão para que ele parasse.
Nenhum torcedor deveria passar por uma situação como essa. Prorrogação no Bowl da maior rivalidade do país era algo desesperador. Meu estômago revirava com o que poderia vir a acontecer, eu sentia o nervosismo preencher cada parte do meu corpo. As mãos protegidas pelas luvas formigavam, meus pés não paravam fixos no chão. Estávamos inquietos.
O árbitro se posicionou com os jogadores para jogar a moeda. Stanmore ganhou, começando com a primeira posse de bola. O ataque estava tão bom quanto durante todo o jogo, porém nossa defesa foi impecável. O problema era que nenhum de nós estava ali para brincar e Ryan Meenely mostrou ter um cérebro cheio de táticas juntamente a um braço mágico para lançar a bola. Stanmore Wombats avançou nas jardas, mas ficaram apenas na marcação necessária para entrar na área de chutar um field goal. Ainda tínhamos chances.
Nossa linha ofensiva começou a ser pressionada no mesmo instante em que a bola oval foi parar nas mãos de Robert. Os jogadores do ataque faziam o máximo para tentar conter a defesa feroz dos Wombats, Robert conseguiu escapar de um sack, foi para um lado e voltou para o outro, outros jogadores não focados em mantê-lo protegido já estavam afastados e mesmo que extremamente marcados, esperavam pelo passe. Rob nunca decepcionou lançando a bola por várias jardas de distância. Quando ele resolveu sair do pocket, se deslocando para direita, seu braço recuou e passou a impressão de finalmente ter encontrado o alvo certo para a jogada, mas o que aconteceu a seguir foi mais rápido que um piscar de olhos. , linebacker e dono do número 40 dos Wombats, chegou como um foguete. Foi impossível pará-lo. Seu corpo foi de encontro ao de Robert que com certeza não esperava por aquilo, ele nem ao menos tentou se mover para escapar, a única coisa que nosso quarterback conseguiu fazer foi jogar a bola para a lateral para que aquilo não acarretasse em maiores problemas para nós. o atacou pelo lado esquerdo, seu corpo encobriu o de Robert e a pancada com o capacete no ombro dele fez a jogada parecer pior. O linebacker dos Wombats derrubou Cornwell com muita facilidade. Ele conseguiu driblar a marcação que o impedia de chegar perto de Robert e quando nos demos conta ele já levantava para comemorar enquanto nosso quarterback permanecia no chão, com a bola ao lado do seu corpo.
— Isso foi falta! — gritei inconformada em vê-lo sair de cima do Robert comemorando, outras pessoas ao nosso redor também se manifestavam sobre isso — Por que ele não levanta? — questionei sentindo o desespero preencher meu corpo inteiro. Toda ansiedade havia esvaziado, a pancada poderia ter machucá-lo.
— Meu Deus… — Jess murmurou, parecia tão preocupada quanto eu. As sobrancelhas franzidas e a mão em frente da boca denunciava que assim como eu e tantos outros torcedores, ela também não estava achando aquilo bom.
Tyler correu de volta para perto de onde Robert estava assim que a equipe médica invadiu o campo. Robert levantou em questão de segundos, conseguiu ficar em pé antes mesmo que chegassem perto dele.
— Se aconteceu alguma coisa eu vou ser obrigado a fazer um Twitter para reunir haters do , porque não vai ter ninguém que eu vou odiar mais do que ele. — Ethan disse sério, todos rimos, mas eu com certeza faria parte do time de organizadores desse perfil.
O jogo ficou parado por alguns instantes enquanto apuravam a situação para os dois lados. A equipe médica do time estava preocupada com Robert, mas via ele gesticular a todo momento como se tentasse assegurar a todos de que estava tudo bem. Do outro lado, uma defesa inquieta de Stanmore aguardava pelo o que os juízes decidiriam.
— Acho que ficou tudo bem. — Damien disse com os olhos fixos em toda ação. Robert voltou a se movimentar e a equipe médica do time se retirou do campo tão rápido quanto entrou.
Logo em seguida, um dos árbitros se posicionou ao centro do campo para finalmente poder dar um parecer sobre aquele tackle que pareceu algo extremamente maldoso e que vindo de Stanmore eu não acreditaria se tivesse acontecido sem intenção alguma de machucá-lo.
— Depois do final da jogada, unnecessary roughness. — e então só se ouvia o barulho dos torcedores — defesa, número 40.
saiu de campo sob a revolta dos torcedores de ambos os lados. As 15 jardas de penalidade nos levaram a outro patamar, eu estava eufórica e positiva sobre aquilo, mas a situação me deixou extremamente preocupada com Robert. Ele havia ficado muito tempo parado no chão após a pancada.
Quando Rob recebeu a bola, os jogadores da defesa de Stanmore tentaram atacá-lo como se fossem leões famintos e nosso quarterback uma presa fácil. O bloqueio da nossa linha ofensiva funcionou melhor do que da vez passada, em um misto de ansiedade e puro desespero, sentia meu estômago gelar a cada movimento. Tudo pareceu ter sido arquitetado com o mínimo cuidado em pouquíssimo tempo para pensar. Mas Drale sempre aprendia com os erros, Robert na linha de 40 jardas, lançou a bola e a fez viajar por mais 20. Eu sentia meu estômago gelar com o pensamento sobre uma possível interceptação. E então a bola se aconchegou nas mãos de Tyler, caindo nelas como se um ímã a puxasse para lá. Meu irmão desviou de apenas um jogador e correu para end-zone.
Touchdown Drale Cougars. Final da prorrogação. Havíamos ganhado o Steel Bowl.
xxx

— Ele teve uma ruptura no tendão. — Olivia conta, olhando para os papéis em suas mãos — Não é nada grave, mas vamos ter que operar — disse.
Todos olhamos para Robert ao mesmo tempo, ele parecia cheio de desânimo com aquilo. Antes de nos reunirmos para falar sobre o assunto ele estava feliz, afinal, Rob tinha se machucado em uma jogada e mesmo assim voltou para lançar a bola que nos trouxe a vitória. Talvez se Clowney tivesse entrado nós não teríamos vencido. Não que ele não fosse tão capaz quanto Rob, mas Clowney não entrou em campo nem por alguns minutos, até nosso quarterback secundário entrar no ritmo do jogo levaria tempo, mas a única coisa que não tínhamos naquele momento era tempo. Porém, quando toda agitação passou e o foco mudou do que ele havia feito em campo para o estado do seu ombro, Robert murchou.
é um desgraçado. — Rob resolveu falar depois de tantos minutos em silêncio. Ele encostou a cabeça na parede e suspirou pesadamente.
— Não adianta ficar remoendo isso agora, já aconteceu, Rob — disse, no mesmo instante ele abriu os olhos e me encarou tão sério que eu podia jurar que ali tinha um pouco de raiva. — De qualquer forma, esse era o último jogo da temporada e você vai estar bem para a próxima, isso é o que importa. — Me sentei no braço da poltrona onde meu irmão estava. — Guarda esse ódio pro ano que vem.
— Guarda esse ódio pro ano que vem. — Robert repetiu o que eu havia dito, mas afinando a voz e rolou os olhos. Logo em seguida jogou a bolsa de gelo no chão. — Ele acabou com o meu ombro, me deixa odiar ele em paz.
— Cornwell, não começa com deboche comigo porque eu não te fiz nada. — levantei, puxando a alça da minha bolsa que estava no chão — Fique irritado o quanto você quiser, então, nós só estamos tentando ajudar.
O silêncio se instaurou no quarto. Peguei o cachecol jogado atrás do pescoço do meu irmão e resolvi ir, antes de sair recebi olhares de Tyler e Olivia querendo dizer algo como "tem que ter paciência" enquanto Robert permanecia me olhando daquele jeito. Pensei duas vezes antes de bater a porta do quarto, mas talvez fosse melhor.
Em casa, Tyler nunca teve problemas com lesões, eu não sabia como funcionava a cabeça de um jogador com o sonho de ir para a liga profissional, mas que poderia ter isso interrompido por uma lesão. Mas eu entendia sobre os problemas em campo que se tornavam problemas pessoais, e sabia muito bem que isso não era nada bom. Tyler sempre foi alguém que saía dos jogos guardando o nome de outros jogadores que ele julgava ter prejudicado suas ações em campo.
— Já vai, querida? — Ouvi a voz de Ava ecoar na sala vazia assim que coloquei a mão na maçaneta da porta.
— Já sim, Ava. — Me virei em sua direção, sorrindo para ela. — É melhor deixar o Robert descansar — disse.
— Olivia me contou sobre vocês dois. — Ela me olhou fixamente com uma expressão que eu não sabia decifrar. — Você sabe que ele é difícil, não sabe? — Soltou uma risada anasalada e desviou o olhar.
— Eu sei. — Balancei a cabeça positivamente. — É por isso que já estou indo, não quero discutir com ele — expliquei, recebendo um sorriso de compreensão.
— Tudo bem, . — Acariciou meu braço. — Amanhã ele deve estar mais calmo com a situação e vocês conversam.
— Okay, amanhã eu passo por aqui. — Beijei sua bochecha. — Boa noite, Ava.
— Tchau, . — Passou a mão em meu cabelo enquanto nos abraçávamos. — Dirija com cuidado — advertiu.
Sai da casa dos Cornwell ainda mais atordoada com o assunto. Aparentemente todos faziam questão de que nós fossemos um casal. Essa pressão não me agradava, eu não queria ser namorada do Robert, mas pelo visto a conversa que tivemos no dia anterior não surtiu efeito algum. Talvez fosse realmente melhor apenas esperar.

GLOSSÁRIO: ⚹ Field Goal: forma de pontuação feita pelo kicker do time, acertando a bola no meio das traves. Vale 3 pontos.
⚹ Fumble: imagine que você tem as bolas em mão. Por algum motivo, seja forçado ou natural, você solte ela e antes que ela atinja o chão, um jogador da defesa consegue pegá-la. O fumble acabou de acontecer e o time adversário recupera a posse de bola.
⚹ Sack: quando um jogador da linha defensiva (linebacker ou defensive back) é capaz de passar pelo bloqueio da linha ofensiva, cortando a proteção do quarterback e então o derruba.
⚹ Pocket: formação onde a linha ofensiva diminui os espaços entre si para proteger melhor o quarterback.


#2 - Vortex Company


Fevereiro.

A Vortex tinha um ar completamente diferente de qualquer outro lugar na cidade. Eu não tinha essa percepção porque depois de dois anos frequentando o mesmo local todos os dias eu já tinha me acostumado.
Tirar férias em janeiro não foi tão inútil quanto eu imaginei que seria, mas não podia negar que estava me remoendo por dentro em ter que passar o verão todo trabalhando para poder entregar a nova coleção a tempo.
Assim que entrei no elevador, vi que meu cachecol estava sujo de chocolate. Eu não conseguia tomar nada quente sem queimar minha boca para em seguida derrubar em alguma peça de roupa. Puxei o cachecol e o coloquei dentro da bolsa antes que encontrasse com Charlotte e ela sugerisse que eu estava indo trabalhar com a roupa suja.
Tive uma surpresa quando a porta metálica do elevador se abriu. O andar parecia extremamente morto, eu detestava a ausência das flores e dos quadros que deixavam as paredes enfeitadas. O silêncio dominava o ambiente, as portas das outras salas estavam fechadas, o único barulho que não vinha de fora era o do meu salto batendo contra o piso.
— Bom dia, querida Jessie! — falei alto. Jess apenas esticou o pescoço para me olhar. Eu adorava seu mau humor matinal.
— Essa animação toda é porque você acabou de voltar de férias. — Ela rolou os olhos.
— Também — Pisquei. —, mas você sabe que eu gosto de te importunar pela manhã. — ri enquanto ela balançava seu cabelo cacheado não dando a mínima importância para mim.
— Eu senti sua falta. — sorriu — Esse lugar é terrível com a Charlotte me usando todos os dias. — falou baixinho.
— Agora você é minha de novo. — Fui para trás do balcão e abracei Jessie. — Samantha volta quando de férias? — pergunto.
— Semana que vem. — respondeu mexendo em uma pilha papéis. — Depois eu levo algumas coisas na sua sala, ainda não terminei de arrumar.
— Tudo bem, Jess. Não tenha pressa.
Quando Charlotte me procurou para saber se eu tinha alguém de confiança para preencher a vaga de quem seria minha futura assistente, não hesitei em indicar Jessie. E desde que ela começou a trabalhar na Vortex, eu não me arrependi nenhum dia de ter indicado ela para vaga.
Minha sala estava exatamente do mesmo jeito que havia ficado no último dia em que trabalhei nela. Jessie com certeza abriu a janela e a porta para que ela pudesse ventilar além de usar o habitual odorizador de ambientes, ela não cheirava como um lugar que havia ficado fechado completamente por 30 dias.
Comecei a reorganizar todas as minhas coisas que foram para casa comigo durante esse período, eu tinha a sensação de que perderia o dia todo fazendo isso. Não demorou muito para que Jessie me trouxesse alguns papéis juntamente à minha agenda, como Samantha ainda estava fora, Jess ficou em seu lugar, então eu faria a organização das coisas sozinha. Resolvi que seria melhor começar pela agenda para poder adaptar ao restante do que eu teria para fazer.

3:00-5:00 PM: Ensaio da Nixxie no estúdio.
PS: Charlotte pediu para que você estivesse lá, porque a Amber também vem.

Se não fosse pela observação que Jessie colocou, eu teria ligado para ela no mesmo momento para entender o porquê eu teria que estar no ensaio da Nixxie. Tyler era um dos jogadores selecionados para fazer a nova campanha da marca, mas acabou sendo riscado da lista para dar lugar para alguém de Stanmore. era a nova cara da Nixxie. Se o problema com ele já havia se tornado algo pessoal por causa do que aconteceu com Robert, depois que meu irmão ficou sabendo que faria a campanha no seu lugar, foi o fim de qualquer tipo de trégua entre eles.
Algumas peças que ficaram para confecção no período em que eu estive fora foram marcadas com problemas, analisei as anotações sobre os defeitos e saí da sala, rumo ao andar de confecção. Levei comigo meu cachecol para deixá-lo na lavanderia quando fosse subir para a minha sala novamente.
Fiquei por volta de 40 minutos presa dentro da sala de confecção para tentar arrumar tudo que estava dando errado. Eu odiava quando as coisas fugiam do controle, ainda mais se tratando de algo tão delicado quanto essa coleção. Cada pequeno erro me deixava cheia de decepção, medo e ansiedade, mas conforme íamos achando os defeitos para que tudo pudesse ser consertado, meu corpo ficava mais leve e eu tinha certeza – ou quase isso – de que estava no caminho certo.
Em três anos trabalhando na Vortex eu já havia participado da criação de outras coleções, mas dessa vez era diferente. Eu era a única responsável pelo design das peças e meu nome estaria vinculado ao da marca. Se o público aprovasse eu seria consagrada, mas se detestassem minha carreira ia quebrar em mil pedaços logo no início dela. Eu não gostava de pensar na segunda opção, ela me causava tanto pânico.

Jessie White

Charlotte ligou pedindo para você subir até o estúdio.
O pessoal da Nixxie acabou de chegar.
— Matthew! — Entrei na lavadeira aos berros pelo meu amigo.
— Qual a emergência de moda? — Ele surgiu de trás da imensa arara de roupas cobertas por plástico.
— Meu cachecol. — disse como uma criança manhosa. — Derrubei chocolate, como sempre. — Coloquei o acessório em cima da bancada branca.
— Você precisa de um babador, . — O homem de cabelo azul riu. — Você pega depois do almoço, okay? — Matthew me deu uma senha para retirar a peça mais tarde.

— Tudo bem, é só para a Charlotte não achar que eu venho trabalhar com a roupa suja. — Ri também.
— O bonitinho já chegou? — questionou.
— Não, Matthew. — Rolei os olhos. — E continue chamando de bonitinho, porque ele não é tão bonito mesmo quanto dizem. — contei com certo desdém na voz. Eu não queria que o escolhido tivesse sido . — Tchau, estou atrasada. — Me inclinei para beijar sua bochecha.
— Me chama quando a sessão começar! — gritou.
Matthew era demais. Claro que ele não poderia assistir a sessão, mas como eu sabia que meu amigo ficou completamente caidinho por , eu adorava ver o estúdio cheio daquela forma. As pessoas agitadas andando de um lado para o outro me deixavam animada para o trabalho.
Todos da equipe da Nixxie estavam vestidos com camisetas da marca que designavam a função que cada um desempenhava ali. Percebi que eu não conhecia ninguém e que minha presença ali seria, muito provavelmente, inútil. Eu já me sentia tonta sem executar nada apenas observando as pessoas passarem ao meu redor com pressa e vigor.
Seis minutos haviam passado desde o momento em que a mensagem de Jessie chegou em meu celular, procurei por Charlotte torcendo para que ela não tivesse precisando de nada urgente da minha parte. Suspirei aliviada ao encontrá-la próxima às grandes vidraças da lateral do estúdio, conversando e rindo com Amber.
— Com licença. — pedi assim que cheguei perto o suficiente para que ambas percebessem minha presença.
— Oi, ! — Amber saudou simpática como sempre.
— Quanto tempo! — respondi com empolgação em vê-la. — Como foi de viagem? — Passei a mão na mecha lisa de seu cabelo tingido de rosa.
— Excelente, nós nos divertimos muito. — Sorriu abertamente. — Eu não queria voltar pra essa loucura. — disse suspirando.
— Eu imagino. — ri, olhando para Amber com compreensão. Voltar de viagem sempre foi um processo doloroso.
— Foi horrível voltar para a rotina, mas eu estava sentindo um pouco de falta dessa loucura toda. — Balançou a cabeça negativamente e rolou os olhos.
, podemos falar um minuto? — Charlotte interrompeu o assunto e me olhou, eu assenti prontamente sem pestanejar. — Já volto, querida. — Sorriu para Amber.
Ela segurou minha mão e nos guiou até o mini refeitório do estúdio, vagarosamente. Charlotte não estava agitada ou com indícios de quem me levava a um lugar vazio para me dar uma bronca, eu nem ao menos me lembrava a última vez em que minha chefe me corrigiu por algo feito errado. Antes de se sentar, Charlotte puxou uma pasta de cima da bancada e a estendeu em minha direção.
— Aconteceu alguma coisa? — questionei enquanto abria o material para saber do que se tratava.
— Eu preciso que você cuide das coisas hoje. — disse, eu a olhei sem entender — Não estou me sentindo disposta, . — suspirou — Você é a única capaz de fazer o necessário do jeito que eu gosto — Ela pegou em minha mão, sorrindo para mim —, eu confio em você de olhos fechados.
— Está tudo bem? — Puxei uma cadeira para perto de Charlotte e a olhei com preocupação, seu semblante estava diferente dos outros dias.
— Sim, só acho que estou trabalhando demais. — riu sem graça e suspirou pesadamente. — Pode fazer isso por mim hoje?
— Claro, com certeza! — respondi completamente eufórica em saber que faria todas as tarefas que Charlotte desempenhava em um dia.
— No final das folhas eu anotei todas as instruções que você vai precisar. — explicou — O mais importante é, se algo fugir do controle, não se desespere. — Piscou. — Agora pode ir, . Boa sorte. — Charlotte pegou em minha mão novamente e a acariciou, sorrindo para mim. Eu sentia algo quase como um carinho maternal por ela.
— Okay, tudo bem... — Me levantei da cadeira, respirando fundo. — Eu vou fazer o meu melhor. — disse confiante.
Assim que me despedi de Charlotte, ela juntou todas as suas coisas e saiu do estúdio rapidamente para que ninguém a incomodasse.
Peguei a folha onde ela disse ter anotado todas as instruções e comecei pela primeira: cheque se a equipe e o modelo precisam de algo, deixe-os à vontade antes de começarem as fotos. Fechei os olhos e contei até 10 mentalmente. Eu estava trabalhando e não era nada além de um simples modelo.
Entrei onde ele se arrumava e a equipe da Nixxie fazia alguns últimos ajustes. Debra, a responsável por aquela área, era muito educada e gentil. Conversamos rapidamente sobre suas necessidades e ela deixou explícito que tudo estava sob controle, mas reforcei mais de uma vez a ela que não hesitasse em me procurar caso precisasse de algo.
De repente me senti sem o controle das coisas. Não conseguia reconhecer mais ninguém da equipe da Vortex, então comecei a entender o porquê Charlotte detestava alugar nosso estúdio para outras empresas.
Vestido com as peças exclusivas da marca, saiu do camarim como se estivesse na passarela da Semana de Moda de Milão. Ele circulava imponente pelo estúdio e parecia carregar o mesmo ar de superioridade que tinha em campo.
No tablet em minhas mãos, eu conseguia ter acesso a todos os detalhes da nova coleção da Nixxie, enquanto a equipe aquecia , para o que seria um longo período com muitas fotos, eu apenas lia com atenção as informações sobre a nova linha de roupas que parecia impecável para as necessidades dos atletas.
Abri a foto que tirei do papel para não ficar com duas coisas em mãos ao mesmo tempo, seguindo a segunda instrução que Charlotte havia anotado, não importa se são nossas peças ou de outra marca, você deve divulgar. É o nosso espaço. E foi o que eu fiz, peguei meu celular no bolso e fiz algumas fotos e vídeos curtos para deixá-los em meu perfil e principalmente no da Vortex. Finalizei sinalizando o nome da marca e também o do modelo.
— O que está achando? — Jessie chegou de surpresa me assustando com a manifestação repentina.
— Quer me matar do coração? — questionei e ela riu. — Eu estava 100 por cento absorta nisso. — Bati a ponta dos dedos na tela do tablet.
— Isso é algum tipo de arquivo confidencial? — brincou, espichando os olhos para o aparelho em minha mão.
— Espero que não, porque se for, serei demitida. — ri, virando o tablet para Jessie ler. — Essa coleção é muito completa — comentei —, não canso de elogiar em pensamento.
Meu celular vibrou e eu não hesitei em entregar o tablet nas mãos de Jessie para que eu pudesse checar se acontecia algo de importante. Charlotte era mais direta quando o assunto era comunicação, ela sempre telefonava ao invés de aguardar uma resposta para suas mensagens. Porém, ela parecia tão cansada antes de ir embora que eu suspeitava que ela não teria disposição para me ligar se o caso não fosse urgente.

Tyler Cooper
Espero que o ladrão de vaga de modelo se dê muito mal.
Ri com a mensagem que apareceu na tela de bloqueio. Jessie me olhou com as sobrancelhas franzidas e eu apenas ignorei, preferindo não tocar no assunto ali. Guardei o celular de volta e deixei para responder meu irmão quando a sessão tivesse fim.
Fiquei parada no mesmo lugar com Jess, vez ou outra circulando apenas para me assegurar de que tudo ocorria bem. Com o auxílio da minha assistente, tiramos eventuais dúvidas da Nixxie e arrumamos o que fora necessário, mas tudo seguia bem e com tranquilidade. Jessie e eu estávamos envolvidas em observar , seu comportamento era instigante como se te estimulasse a querer ficar ali pelo tempo que fosse possível somente para observá-lo. — Para, para, para! — Um dos responsáveis pela sessão interrompeu todo o procedimento. Eu cheguei a me assustar com a interrupção. — Estamos com um problema.
A equipe fez exatamente o que o homem havia mandado, pararam e então se reuniram em volta dele, eu me movi rapidamente até a equipe para saber se o problema era com o estúdio ou com particularidades da Nixxie e como poderia ajudar. O mais preocupante é que o que houve foi um erro de principiante, não de uma empresa com o porte deles. Três camisetas com numeração menor do que as outras que usou para fotografar, se eles não encontrassem as peças do tamanho certo, a sessão não seria terminada naquele dia.
Tirando Debra que havia sido completamente atenciosa comigo, o restante da equipe da Nixxie parecia ignorar completamente minha presença como se eu não estivesse ali para ficar no lugar da Charlotte e também não fosse capacitada para tal ato. Eu me sentia excluída do que acontecia enquanto toda a equipe resolvia o problema.
— Amber. — chamei a atenção dela que estava com os olhos fixos na tela do celular. — Conseguiram?
— Aparentemente, sim — sorriu para mim, apoiando a mão em meu ombro. — Obrigada pelo suporte, . Com o tempo eles aprendem quem você é. — Me confortou.
— É a minha primeira vez e eu já acho que fiz tudo errado — suspirei desanimada —, mas pelo visto é assim mesmo, não é? — A olhei, tentando me convencer de que eu não era o problema.
— Não se preocupe com isso, , acontece sempre. — assegurou. — É o mal da primeira vez no ramo, ainda mais com uma posição importante. — Amber passou confiança com seu olhar que logo foi desviado para a tela do celular que vibrava. — Preciso atender, no final do dia conversamos. — Piscou.
O caos que havia se instaurado no estúdio minutos atrás já estava quase desaparecendo. Com Amber me deixando sozinha novamente e sem a presença de Jessie, resolvi circular mais uma vez apenas para me assegurar de que não, eles não queriam a minha ajuda. E eu não estava errada, porém, apesar de querer ajudar, a Vortex apenas cedeu o espaço do nosso estúdio para que eles pudessem fotografar decentemente sem gerar despesas para levar até Massachusetts. Nós não tínhamos roupas deles lá, não recebemos amostras e todas as roupas a disposição em nosso closet eram femininas.
E então eu fui parar com o problema bem na minha frente. Calado e sem se mover, não parecia ser tão arrogante e com o ar de superioridade que ele carregava. Desde que o ensaio começou, eu ainda não tinha conseguido captar a energia que ele emanava, as coisas estavam um pouco confusas entre achar que ele era de fato um grande idiota ou se isso era apenas uma impressão errada que eu tinha sobre ele.
Apenas o olhei e sorri minimamente, pegando o celular para fazer qualquer coisa que não envolvesse uma conversa com .
, é isso? — questionou quebrando o silêncio. Tirei os olhos da tela do celular, me olhava através do reflexo do espelho, apenas balancei a cabeça positivamente — Eles dizem que você só trabalha aqui por causa do seu irmão.
Eu achava impossível a situação piorar, mas depois daquele comentário percebi que o que meu pai sempre dizia era verdade, não há nada tão ruim que não possa piorar. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando não usar a tesoura na bancada atrás de mim para matá-lo.
— O que você acha de estar aqui só porque é irmão da Amber? — rebati e ele riu.
— Quem disse que é por causa disso? — se apoiou na bancada de maquiagens, evidenciando os músculos do seu braço.
— E quem pode provar que eu consegui o meu emprego só por causa do Tyler e não por todo meu esforço? — O olhei com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Eu não estou dizendo isso, até porque não acho que seja verdade. — disse, minha expressão facial foi de super irritada para completamente confusa em dois segundos — Gostei das suas roupas. — Deu de ombros.
— Obrigada, — O olhei com os olhos semicerrados, desconfiando do elogio — mas quando você for discordar de algo não é interessante começar a falar como se concordasse com a coisa. — ri.
— Eu me expressei mal — confessou, torcendo os lábios. — Todo mundo por aqui sabe que eu sou irmão da Amber? — questionou e parecia preocupado com aquilo.
— Eu não sei, . — respondi. — Acho que só as pessoas mais próximas.
— Eu acho que isso pode gerar comentários como esse que você fez que eu só estou aqui por causa dela e tudo mais… — disse, sustentando seu tom de voz mais baixo do que o normal.
— Pode até ser que sim. — confessei e o vi arregalar levemente os olhos —, mas não acho que deva se preocupar, suas fotos estão ficando ótimas. — elogiei, sua expressão facial mudou no mesmo momento.
— Você acha? — Me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Eu… — Comecei a falar, mas fui interrompida pela figura de Debra na porta.
— Problema resolvido! — Ela mostrou animada os cabides cobertos com proteção em sua mão que provavelmente estavam transportando as roupas. — Já vamos continuar.
— Ótimo! Vou voltar para o meu trabalho, com licença. — pedi e acenei brevemente para antes de sair.
Fechei os olhos e suspirei pesadamente. Eu tinha sobrevivido a uma conversa na qual cogitei matar com uma tesoura sem ponta. Obrigada, Debra. Eu só queria que o final do dia chegasse logo.


#3 - Aposta


Março.
Passei algumas semanas sentindo algo que jamais pensei que fosse sentir, constrangimento por um erro dentro de campo. As pessoas no campus pareciam me fuzilar com seus olhares como se a culpa tivesse sido completamente minha. Eu não os julgava, afinal, aquilo não deveria ter acontecido. Mas, a defesa toda cometeu uma série de erros nos quais eu não tive participação e que se talvez não tivessem acontecido, nós teríamos ganhado o jogo.
Porém, desde que a Nixxie publicou minhas fotos, as coisas começaram a mudar. Foi como se o que aconteceu no Steel Bowl tivesse sido esquecido – pelo menos em partes –, para dar lugar a um sentimento de curiosidade. As conversas passaram de ", por que você fez aquilo?" para "Eu não acredito que você saiu na campanha da Nixxie, como foi a experiência?".
Às vezes a única coisa que eu pensava saber fazer era jogar. Já não conseguia mais absorver o que era passado na sala de aula e o único culpado por isso era o futebol. Não o esporte em si ou as pancadas que eu recebia na cabeça que me faziam perder alguns neurônios, como diria minha avó. O problema estava na preocupação que envolvia meu futuro no esporte, eu não queria viver o resto da minha vida trabalhando em um escritório como meu curso sugeria que fosse, eu queria jogar, queria estar na liga profissional e ser lembrado por ser um bom jogador. Mas esse não era só o meu sonho, envolvia muitos outros jogadores tão bons quanto eu para concorrer às vagas.
. — Anna soprou em meu ouvido me fazendo assustar.
— O que foi? — Virei para trás encontrando a morena rindo de mim. — Anda, o que você quer? — insisti enquanto ela permanecia rindo ao invés de falar.
— Está com a cabeça nas nuvens? — Arqueou uma de suas sobrancelhas. — Meenely pediu para você responder ele. — Balançou o celular em sua mão.
— Ele parece uma criança afobada — resmunguei. — Já vou responder. — Voltei a olhar para frente como estava antes de Anna me chamar, mas me curvei para pegar o celular dentro da mochila jogada no chão.
Ryan Meenely
Você tem aula do que agora?
Vamos sair para beber alguma coisa.
.
Onde você está?

Saindo da sala. Vou descer no elevador do bloco B.
Juntei todas as minhas coisas dentro da mochila e usei Meenely querendo se embriagar às dez da manhã como um pretexto para ir embora da aula. Anna balançou a cabeça negativamente ao me ver levantar com minhas coisas em mãos, ela sempre se preocupava com o que eu fazia ou deixava de fazer.
Eu sabia que precisava focar mais nas coisas.
Quando encontrei Meenely apoiado na parede de tijolos marrons antigos repensei no que estava fazendo, já era a terceira aula de economia monetária e financeira que eu não absorvia conteúdo algum por ir embora ou por estar com a cabeça em qualquer lugar que não fosse a voz do Sr. Peterson falando sem parar.
— Ninguém consegue ser o jogador e o aluno perfeito ao mesmo tempo, não é mesmo? — caçoou.
— O pior é você que não consegue ser nenhum dos dois. — Soquei seu ombro.
— Você tem que bater nos outros quarterbacks, não em mim. — Devolveu o soco, começando a andar na direção oposta ao prédio.
— Você é frouxo, Meenely. — falei com firmeza, fazendo-o apenas bufar.
Ele sabia que era um bom jogador, mas Ryan tinha pontos que o derrubavam. Sua resistência era um deles. Eu não gostava de destacar os problemas dos meus irmãos de time, não era correto, mas Meenely praticamente implorava para que todos fossemos tão idiotas quanto ele.
Fomos até seu dormitório. Ryan não dividia com ninguém, era apenas ele, suas bebidas e às vezes as drogas. Meenely sempre conseguiu se sair bem em todos os testes e dopings, mas isso era um caso à parte.
— Você não vai mais pra aula? — Me joguei no sofá.
— Não. — Deu de ombros. — Eu vou pra liga profissional de qualquer forma. — disse com firmeza na voz. Meenely se apoiou na porta da geladeira aberta. — Cerveja?
— Pode ser. — Estiquei meu braço para pegar o controle na outra ponta do sofá. — Você já parou pra pensar que todos nós podemos não conseguir chegar lá? — questionei assim que ele voltou para a pequena sala e me entregou a cerveja. — Obrigado.
— Não, nunca parei pra pensar — Deu um gole na cerveja —, porque não vai acontecer, obviamente — riu com deboche.
Não disse mais nada. Apesar da minha vontade de tentar fazê-lo entrar no mundo real onde as coisas não aconteciam do jeito dele, me abstive. Aquele era o fantástico mundo da família Meenely onde tudo acontecia porque eles podiam pagar por qualquer coisa.
Ficamos em silêncio enquanto bebíamos, o único barulho na sala era da televisão ligada no noticiário esportivo e hora ou outra de alguma notificação nos celulares.
Chad Jones estava no enfoque do que William e Tristan discutiam, apesar dos meus pensamentos estarem uma completa bagunça, eu estava muito focado no que eles diziam sobre ele. Chad era um dos meus caras favoritos da liga universitária. Ele não era um dos primeiros na cotação dos melhores times, mas com certeza conseguiria uma boa vaga. Suas estatísticas eram ótimas, mas havia pelo menos outros 10 jogadores da mesma posição competindo pela mesma vaga de escolha de um bom time. Eu já tinha desencanado de pensar só na opção de ser escolhido por um time do nível do Boston Mustangs, ultimamente se qualquer um que acabasse a temporada com 16 derrotas e uma vitória me escolhesse eu estaria extremamente feliz.
Eu queria que chegasse a minha vez de estar no foco do draft, mas não me sentia preparado. nunca deixou transparecer que tinha medo do seu futuro, mas eu tinha, e muito. O que me aterrorizava era o fato de saber que se eu não fosse draftado pra qualquer time, eu não teria o que fazer, afinal, eu não sabia fazer nada além de jogar.
— Você tem 50 dólares para me emprestar? — Ryan me despertou dos pensamentos sobre o futuro, ele estava com os olhos pregados na televisão. Eu ri assim que processei a pergunta, era bem cômica.
— Você me pedindo dinheiro? Não deveria ser ao contrário? — questionei ainda sem tirar a carteira do bolso.
— Meu pai bloqueou a minha conta. — explicou se virando para mim. — Semana que vem eu te devolvo. — Inclinou sua cabeça para trás, suspirando.
— Tudo bem. — dei de ombros e tirei a carteira do bolso do meu moletom. — Por que ele bloqueou sua conta? — Não me contive em fazer a pergunta.
— Ele acha que eu... — Ryan começou a explicação mas parou e levou sua mão até a minha carteira, tirando-a de minha mão — O que é isso, ?
Meenely começou a puxar um cartão de dentro da minha carteira. Eu não tinha conseguido ligar os pontos porque nada de importante entrava naquela carteira, mas raciocinei assim que vi o papel branco perolado com letras bonitas em sua mão.
.— leu o nome estampado na frente do cartão. — Eu não acredito nisso. — riu.
— Não acredita no quê, cara? — questionei tomando o cartão de sua mão. Peguei o dinheiro que Ryan pediu e joguei em cima da sua perna, colocando o cartão de visitas no meio das notas que sobraram na carteira.
— Você está realmente me perguntando? — colocou o dinheiro rapidamente em seu bolso. Meenely parecia irritado. — O que você quer com a irmã do ?
— Nada. — forcei a firmeza na voz, mas talvez se Ryan não fosse tão desligado perceberia que eu estava mentindo. Mesmo assim ele me olhava com uma das sobrancelhas arqueadas. — Vai se ferrar, Meenely. — Soquei seu joelho, bufando. — Foi um contato profissional, isso é normal. — disse, mas ele continuava parecendo duvidar. Me irritei.
— Ela postou um storie seu no Instagram. — Caçoou. — Mas é claro que você acha isso completamente normal. — Meenely rolou os olhos e esfregou uma das mãos em seu rosto enquanto respirava pesadamente.
— E por que não é? — retruquei irritado. — Ela trabalha lá, faz isso com todo mundo. — Levantei do sofá, puxando minha mochila que estava jogada no chão.
— Você vai fugir do assunto, ? — Meu melhor amigo se colocou, rapidamente, na minha frente. — Todo mundo falou disso, cara. Ela é irmã do , chega a ser ridículo. — argumentou gesticulando com vigor.
— Eu não me importo. — Dei de ombros. — Sinceramente, Ryan, a Vortex é uma empresa enorme, as coisas lá dentro não se misturam. — Joguei a alça da mochila em meu ombro e passei por ele.
— Eu aposto 100 dólares que você não consegue nada com ela — disse me fazendo parar de andar. Me virei em sua direção, ele me olhava com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Quem disse que eu quero algo com ela? — rebati, ele gargalhou. Gargalhou de verdade. — Eu não vou fazer isso. — Balancei a cabeça negativamente. — Não mesmo.
— Tem certeza? — ele estava me desafiando.
— Tenho. — respondi com firmeza.
Ryan riu com sarcasmo. Eu poderia socar ele naquele exato momento, respirei fundo e dei as costas, saindo do seu dormitório.
xxx

Olhei para aquele prédio enorme bem na minha frente e me questionei mais uma vez o que eu estava fazendo ali. Aquela era a hora exata de ir embora e desistir da ideia estúpida que se estabeleceu na minha mente semanas atrás.
Eu deveria ter pedido mais informações à Amber, ela não me negaria isso. Mas ao invés de fazer isso, eu simplesmente preferi ficar plantado na frente da Vortex, apenas esperando.
Uma grande quantidade de pessoas começou a deixar o prédio Meus olhos atentos com certeza denunciavam que eu procurava por algo, ou melhor, por alguém. Cogitei por várias vezes mandar uma mensagem para Amber, questionando se ela estaria trabalhando, existiam algumas possibilidades na minha cabeça que estavam quase me fazendo ir embora e voltar outro dia ou então não voltar nunca mais. Porém, lá estava ela. saía pelas grandes portas de vidro da Vortex e só me fazia ter a certeza de que ela era uma das garotas mais bonitas que eu já tive o prazer de conhecer em todos os meus 21 anos. Ela carregava consigo uma bolsa grande e estava tão estonteante quanto no dia em que nos falamos pela primeira e única vez.
Puxei novamente o capuz da corta-vento que insistia em não parar na minha cabeça e atravessei a rua com pressa. Eu lembrava da garota negra que falava algo fazendo rir, era Jessie. Ela passou pela sessão durante algum tempo, sempre parecendo tão profissional quanto todos ali, mas bem mais extrovertida e alegre.
Me aproximei como quem tenta chegar perto de um pássaro na tentativa de não assustar a ave e fazê-lo voar para longe, mas claro que todo o receio não ia funcionar. Os olhos castanhos de me olharam da cabeça aos pés assim que eu pisei no segundo degrau de mármore da escada de entrada do prédio. Ela não me olhou de um jeito bom.
. — Sua sobrancelha se arqueou levemente. e Jessie desciam os quatro degraus que mantinham nossa distância.
— Oi. — Tentei sorrir minimamente mas até Jessie me olhava com cara de poucos amigos.
— Oi e tchau. — Ela brincou, rindo baixinho. — Eu acho que você não quer falar comigo, não é? — questionou e a olhou, balançando a cabeça negativamente.
— Não. — confirmei. — Mas foi um prazer te ver. — Pisquei, fazendo-a rir mais uma vez.
— Obrigada, , mas meu coração é dos Cougars. — Piscou de volta e se virou na direção da amiga. — Até amanhã, Kath. — Elas se despediram com um rápido abraço.
— Tem certeza de que não quer companhia até em casa? — perguntou enquanto segurava Jessie pelo pulso.
— Absoluta, — balançou a cabeça em sinal positivo — te vejo amanhã — sorriu. — Tchau, . — acenou para mim.
— Tchau, Jessie. — respondi já vendo-a dar as costas para nós dois.
— O que você quer? — questionou prontamente assim que sua amiga se afastou, passando os dedos em sua franja.
— Eu... eu... — Tentei falar diretamente o que queria, mas não saía. Eu estava nervoso.
— Você? — Me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas. Kath cruzou os braços, me esperando continuar.
— Nós podemos conversar? — pedi.
— Já não estamos fazendo isso? — ela riu. — Parece que você estava passando por aqui, me viu e parou para me encher. — disse me fazendo chacoalhar a cabeça negativamente.
— Não! — neguei. — Eu realmente quero falar com você.
— Tudo bem, vamos entrar. — Indicou o prédio a nossa frente com a cabeça. — Não podemos ficar no meio da rua.
E claro, ela tinha toda razão. A partir do momento em que eu não estava dentro da Vortex para ser fotografado, não seria muito indicado ficar à mostra perto de . Ela andava na minha frente como se ignorasse minha presença logo atrás, eu, definitivamente, não sabia onde estava com a cabeça quando pensei que isso seria uma boa ideia.
As paredes de vidro separavam um ambiente quente, com decoração rústica e plantas do restante do prédio moderno. Quando entramos na cafeteria pude abrir o zíper do meu agasalho, a temperatura estava agradável. também puxou a jaqueta jeans que usava enquanto se dirigia para a mesa vaga mais ao fundo do lugar.
Nos sentamos um de frente para o outro. parecia inquieta, olhava para os lados e não parava de se mexer na cadeira como se procurasse uma posição mais confortável. Pela primeira vez eu estava prestando atenção nela e em todos os seus traços, o que me levou a conclusão de que era bem mais bonita do que eu já havia percebido.
— Você ainda não disse o que quer. — Apoiou seus cotovelos na mesa para repousar a cabeça entre suas mãos. — E se alguém ver nós dois juntos, já sabe... — riu.
— A gente pode usar a desculpa que estamos trabalhando. — argumentei e ela balançou a cabeça positivamente.
— Acho que pode até ser. — Deu de ombros. — O que você vai querer? — questionou, passando os olhos pelas linhas do cardápio.
não demorou nem um minuto para escolher o que iria beber, ela com certeza conhecia o menu do local o suficiente para não precisar ler tanto quanto eu estava fazendo. Assim que cheguei a um acordo comigo mesmo sobre tantas opções, chamei a garçonete que atendeu prontamente e logo levou nossos pedidos para o balcão.
— Suas fotos ficaram excelentes. — Quebrou o silêncio após algum tempo em que nós ficamos apenas olhando para pontos aleatórios.
— Obrigado. — agradeci, ela tamborilava as unhas na madeira da mesa. — Você não quer me matar ou algo do tipo? — questionei e ela parou o movimento com os dedos.
— Por causa do Tyler? — riu, eu assenti positivamente — Na verdade, não, — eu a olhei com uma das sobrancelhas arqueadas —, mas só porque você mandou bem.
— Justo. — Dei de ombros, ela sorria discretamente para mim.
... — suspirou — O que você quer? — Voltou a bater a ponta das unhas na mesa, dessa vez em um ritmo menos acelerado.
— Eu vim porque eu...
Então fui interrompido pelas xícaras de café. Passei o caminho todo até Hillford ensaiando uma justificativa boa para aquela ação, afinal, eu tinha o cartão com o número de celular dela. Poderia muito bem ter ligado, mas teria 50% de chance de ser ignorado. Agradecemos assim que a garçonete colocou as xícaras na mesa e então ela se retirou. Pigarreei para tentar continuar.
— Eu queria te chamar para sair, essa é a verdade. — Falei de uma vez, sem cerimônias. arregalou os olhos. — Eu deveria ter preparado essa frase melhor, mas ela ia acabar assim de qualquer forma. — Finalizei frustrado com o quanto ensaiei e acabei fazendo errado. Peguei a xícara, levando-a até a minha boca.
— Quem te mandou aqui? — ela perguntou séria, franzi as sobrancelhas. — , isso não tem graça, sério.
— Como assim quem me mandou aqui? — rebati confuso. Aquela pergunta tinha feito meu estômago gelar.
— Você acha que eu sou idiota? — empurrou o pires com sua xícara em cima, o líquido quase foi para fora.
— Ninguém me pediu para fazer isso, ficou maluca? — me defendi, mas sua expressão era de pura desconfiança.
— Até parece. — relaxou seu corpo na cadeira e cruzou os braços.
Cada vez que atacava minha atitude eu sentia uma pontada na cabeça. Era como se eu estivesse muito ansioso e nervoso para algo prestes a acontecer e a culpa era minha mesma. Minha e do meu melhor amigo.
— Eu não faria isso, é imoral. — disse cogitando toda e qualquer possibilidade do imbecil do Meenely ter feito alguma coisa.
— Hum... — ela murmurou e pegou sua xícara — Não sei.
— Não sabe o quê? — Apoiei os cotovelos na mesa, me inclinando em sua direção.
— Não sei se sairia com você. — respondeu com a xícara em frente aos seus lábios.
Meus nervos relaxaram com aquela resposta, foi como tirar um grande peso dos meus ombros. Quase como quando o ataque está na quarta descida para apenas uma jarda e a defesa ainda consegue parar eles. Suspirei internamente aliviado.
— A rejeição dói. — Coloquei a mão em cima do meu peito com uma feição dramática.
— É bom você se acostumar. — Arqueou uma das sobrancelhas. — Você tem... — ela olhou no relógio em seu pulso — 15 minutos para fingir que isso é um encontro enquanto eu tomo meu chocolate.
era impossível. Ela me olhava com um sorriso no canto dos lábios que estava me matando. Nunca desejei tanto que alguém fizesse parte da família do nosso time.
Eu tentei fazer a situação mais agradável possível depois de ter desconfiado de algo, e deu certo, ela parecia ter quase cedido. A conversa passava perto de chegar em futebol e depois morria para dar início em outro assunto e ainda bem que meu cérebro funcionava para achar temas que não fossem terminar em uma discussão sobre Drale Cougars e Stanmore Wombats.
O papo sobre sua avó que morava Rochdale não poderia ser mais interessante, mas foi sincera nos 15 minutos. Ela já havia terminado o chocolate há muito tempo, porém, quando o relógio marcou seis pra seis ela me deu o aviso. Eu me senti a pessoa mais impotente no mundo naquele momento.
— Você não quer mesmo sair para jantar? — insisti no erro.
— Não, . — Riu. — Mas agradeço o convite, de verdade.
— Tudo bem, mas se mudar de ideia você pode me ligar. — Reforcei.
— Eu com certeza vou. — disse com a voz carregada de ironia.
— Obrigada por 15 minutos. — Ironizei também enquanto me levantava da cadeira. — Tchau, gatinha. — Me inclinei em sua direção e beijei sua bochecha rapidamente.
— Tchau, — ela balançou a cabeça negativamente, sorrindo fraco.
Eu com certeza tentaria a sorte de novo mais tarde.


#4 - ELA


Abril.
O telefone não parava de tocar.
Na minha frente, uma pilha de papéis para serem lidos e assinados. Cada toque do telefone, representava um golpe, forte o suficiente para matar, na minha cabeça.
Em menos de dois meses, eu devo ter cogitado pedir demissão por volta de 20 ou mais vezes se Charlotte não voltasse. Eu nunca pensei que o que ela fizesse fosse fácil, mas executando cerca de 40% das suas tarefas, eu não conseguia entender como ela ainda não tinha enlouquecido. Talvez tenha sido por isso que, desde fevereiro, ela trabalhava em casa e não aparecia na Vortex.
Suspirei aliviada quando o barulho do telefone parou de ecoar pela sala. Foram minutos de paz em que eu avancei algumas linhas daquele contrato em Rochdale, mas durou pouco, logo o toque incessante voltou, mas não era do telefone fixo, era do meu celular. Era só o que me faltava.
— Alô? — Atendi me arrependendo disso, mas poderia ser importante.
? — A voz do outro lado da linha era quase familiar. — , aqui é a Teresa.
— Oi, Teresa! — mudei meu tom, demonstrando um pouco de animação. Teresa era quem cuidava das coisas na casa da Charlotte. — Tudo bem? — perguntei como algo natural, mas sentia uma pontinha de preocupação com aquela ligação.
— Tudo sim. — ela respondeu rapidamente, pigarreando. — Estou ligando para pedir que você venha até aqui hoje de noite, se não tiver outro compromisso marcado, é claro. — Teresa tinha o tom de voz calmo, mas falava muito rápido como sempre fez.
— Eu não tenho outro compromisso — falei rapidamente — Que horas posso chegar?
— Se quiser vir depois das sete, seria ótimo. — respondeu calmamente. — Podemos te esperar, então?
— Sim, claro. — confirmei balançando a cabeça positivamente mesmo que ela não pudesse me ver. — Obrigada, Teresa, até mais tarde.
— Até, .
Finalizei a ligação e joguei o celular em cima do monte de papéis. Meus cotovelos se apoiaram no vidro da mesa e eu repousei a cabeça entre minhas mãos. Algo estava errado e eu tinha a sensação de que estava muito próxima de descobrir.
O tempo se arrastou até chegar a hora de ir embora. Consegui eliminar quase todos os itens atrasados na agenda e ainda tive 40 minutos para passar na confecção e analisar o andamento da nova coleção.
O grande impasse ainda estava sendo com os fornecedores e a resistência de fecharem qualquer acordo sem a Charlotte, eu tentava contornar a situação e passar a segurança necessária para eles em nome dela e da Vortex, mas havia uma barreira entre nós.
Não contei para Jessie sobre a ligação que recebi mais cedo, gostaria que Charlotte antes conversasse comigo para que eu pudesse dar um parecer sobre a sua atual situação e quando ela retornaria, ou se retornaria. Apenas pedi para que ela ligasse na confeitaria que ficava a poucos metros do prédio da Vortex para encomendar uma torta que Charlotte tanto amava e comia toda semana, mas isso não denunciava que eu faria uma visita para nossa chefe, qualquer pessoa em sã consciência ia se apaixonar por qualquer doce feito lá.
Eu ainda não tinha ido até a nova residência de Charlotte, ela era bem mais bonita do que a antiga, porém, bem menor. Ela sempre dizia que não gostava de grandes casas vazias, e afinal de contas, qualquer boa casa era grande demais para ela e Teresa. Sem marido, sem filhos, sem netos, sem irmãos na cidade, a mãe havia falecido alguns meses depois que entrei como estagiária na Vortex, uma senhora extremamente doce. Foram tempos difíceis para Charlotte, eu insisti muito na ideia de um cachorro para lhe fazer companhia, mas ela não aceitou.
A fachada da casa combinava com Charlotte. Inteira branca com todos os detalhes em preto, grandes janelas revelavam o ambiente bem iluminado, e o jardim bem cuidado em frente à casa, deixava o lugar mais alegre.
Deixei dentro do carro as pastas da Vortex que iam para minha casa toda noite, talvez as levasse para Charlotte caso ela pedisse, então desci apenas com o pacote da torta em mãos.
Não precisei tocar na campainha, assim que coloquei meus pés no tapete de entrada, a grande porta preta se abriu.
— Oi, ! — Teresa saudou com um sorriso aberto. — Pode entrar, por favor. — Ela me deu passagem.
— Com licença. — pedi e entrei, limpando meus pés no tapete antes. Atrás dela havia uma grande mesa redonda de madeira super brilhante com um arranjo cheio de flores, a luz amarela decorativa bem em cima dele deixava-o ainda mais atraente. — Eu trouxe uma torta para Charlotte. — mostrei o embrulho em minhas mãos.
— Ah, ela vai adorar! — Pegou o pacote. — Ela está te esperando na sala, eu vou guardar isso e terminar o jantar. — Teresa indicou o corredor ao lado direito.
— Tudo bem, muito obrigada. — Balancei a cabeça positivamente e sorri para ela.
Aquela casa não poderia ser de ninguém além da Charlotte. Tudo parecia ter sido feito minimamente analisado para ela. O corredor branco era iluminado por spots amarelos bem fracos e foscos deixava o ambiente extremamente confortável e intimista.
— Charlotte? — Chamei por ela assim que coloquei meus pés no piso da sala.
— Oi, . — Ela acendeu um abajur, revelando que estava sentada em uma poltrona branca no canto escondido da sala.
— Eu cheguei em uma má hora? — questionei, apesar de ter sido pontual no que combinei com Teresa, ela parecia cansada.
— Claro que não. — Charlotte se levantou. — Como você está? — perguntou quando parou de frente à mim, ela segurou em meu braço e sorriu.
— Bem, — balancei a cabeça positivamente — e você?
— Eu também. — Ela ajeitou o roupão cinza em fleece. — Vem, vamos sentar.
Charlotte ligou as luzes, deixando a sala extremamente iluminada, minha cabeça chegou a doer com tamanha claridade repentina. O centro da sala tirava a mesmice do porcelanato branco com um grande mosaico preto e marrom, quase o mesmo desenho da sua antiga casa, mesmo assim, eu ainda fiquei impressionada com a beleza no design.
Esperei que ela escolhesse o lugar que iria se sentar e então fiz o mesmo, escolhendo o sofá do lado esquerdo, de frente para ela.
— Eu trouxe a torta que você gosta. — Quebrei o silêncio e ela sorriu para mim. — Imagino que você não esteja comendo como sempre fez. — Sorri de volta, arrumando a franja que insistia em incomodar meus olhos.
— Não precisava, . — falou daquele jeito que sugere que, na verdade, precisava sim. — Obrigada, querida.
— Não precisa agradecer. — Relaxei meu corpo no sofá, mas logo voltei a postura ereta. Charlotte sempre me chamava a atenção quando estava curvada. — Como estão as coisas? — questionei ansiosa pelo motivo que ela pediu para que eu fosse até lá.
— Você sabe que eu não me sinto bem há meses, não é, ? — Ela passou a mão em seu cabelo e cruzou as pernas.
— Sim, você foi ao médico? — Esfreguei minhas mãos uma na outra, não queria demonstrar ansiedade, mas estava claro.
— Fui. — Charlotte tirou os óculos. — E por isso que eu te chamei aqui. — Sorriu para mim, mas nem de longe parecia feliz. — Como estão as coisas na Vortex?
— Está tudo bem. — respondi afirmando em positivo com a cabeça. Eu ainda não estava entendendo aonde ela queria chegar.
— E está gostando de ficar como minha assistente? — Me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Sim, muito. — Grande mentira, eu estava ficando louca.
— Eu fui ao médico, e bom... — Charlotte esfregou as mãos no rosto e suspirou pesadamente — Não há outra forma de te contar isso sem ser assim — me olhou com um semblante triste que há tempos eu não via. Senti meu estômago gelar. — , eu fui diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica.
Ouvir aquilo foi quase como se eu tivesse levado um soco no estômago, meus olhos se encheram de lágrimas e o choro ficou entalado na minha garganta assim que processei a noticia. Eu não sabia muito sobre a doença, mas o que já tinha visto foi bastante devastador e saber que Charlotte estava com isso doía como se fosse alguém da minha casa em seu lugar.
— Charlotte, eu não... — Senti a angústia do choro entalado na minha garganta, eu não queria desabar na frente dela.
— Eu não queria te chatear, . — Ela parecia tão firme falando que era quase de se suspeitar que aquilo fosse uma pegadinha. Não havia nenhum tom de abalo em sua fala.
— Não, tudo bem. — Controlei a voz já embargada pelo choro. — Eu só não consegui processar ainda, — acabei soluçando no meio da fala, parei por alguns instantes e olhei para cima tentando me desvencilhar da vontade de chorar — me desculpa — pedi, por fim.
Charlotte nunca foi fã de contato pessoal, desde que eu entrei na Vortex tive grande afeto por ela, porém, Charlotte talvez tenha dado espaço para um abraço no máximo quatro vezes ao ano.
Eu a olhava de longe, com o coração partido, foi um golpe muito duro saber daquilo. Uma lágrima escorreu em sua bochecha quase que discretamente, eu não conseguia imaginar como Charlotte estava se sentindo com aquilo e o quanto ela já havia chorado. Parecia que naquele momento ela já estava na fase de aceitação.
, — ela chamou novamente, levantei o rosto em sua direção — vem aqui, por favor. — Pediu indicando o lugar vago ao seu lado. Fiz o que ela havia dito e logo estava sentada no mesmo sofá que Charlotte, segurando sua mão. — Eu preciso te pedir algo. — Olhou fundo em meus olhos, eu balancei a cabeça positivamente.
— Pode dizer. — respondi para que ela prosseguisse.
— Você vai fingir que essa conversa nunca aconteceu, ninguém pode saber disso por enquanto. — Ela apertava minha mão e me olhava com seriedade, eu ainda tentava aceitar de que aquilo realmente estava acontecendo.
— Mas, Charlotte... — tentei argumentar, ela me interrompeu antes que continuasse.
, por favor, guarde segredo ou está demitida. — disse e eu a olhei com os olhos arregalados.
— Tudo bem. — concordei para não ter minha vida profissional jogada no lixo enquanto, ao mesmo tempo, Charlotte adoecia. Usei a mão direita que ela não segurava para secar meus olhos. — Quem sabe?
— Você, Teresa e Lucy, minha prima que deve chegar no final do mês para me ajudar. — explicou. — Me promete que não vai contar isso para absolutamente ninguém, .
— Eu prometo, Charlotte. — Assenti com a cabeça, olhando-a nos olhos.
Nem de longe eu esperava uma notícia maravilhosa após a ligação que recebi de Teresa pouco antes do almoço, mas aquilo tinha sido muito mais cruel do que as minhas expectativas.
Charlotte não teve interesse em nenhuma das coisas da Vortex que estavam no meu carro, pelo contrário, não falamos de nenhum outro assunto após ela me fazer jurar por mais de uma vez que aquilo permaneceria em segredo até que ela resolvesse deixar o restante da empresa ciente do que acontecia.
Ficamos em silêncio por quase 10 minutos, os mais longos e torturantes 10 minutos da minha vida. Ainda me lembrava bem do dia em que meu avô nos deixou, a morte chegou de maneira natural, levando-o aos seus quase 85 anos. Ele não adoeceu, estava são e sadio para um idoso de quase 90 anos, um pouco surdo, mas isso era apenas um pequeno detalhe. Eu vivi em um luto particular por meses, nossa ligação era muito forte e eu me preocupava muito com a minha avó que começou a nos indicar pequenos sinais de depressão.
Entretanto, a morte dele, nem de longe o fez sofrer, a certeza de que ele foi em paz e sem dor alguma, estava comigo desde o momento em que recebi a notícia do seu falecimento. E bom, não era isso que aconteceria com Charlotte. Minha avó foi motivo de preocupação nos seis primeiros meses, mas ela ainda estava com menos de 73, se casou com um homem muito mais velho e que sabia que pela lei natural das coisas iria deixá-la bem antes da sua própria partida, mas ela aceitou a ideia de um novo companheiro e nós o acolhemos como um segundo avô. Saber que tudo aconteceu dessa forma me ajudou a superar o trauma. Mesmo sabendo que eu poderia sair daquela casa, sofrer um acidente e morrer bem antes que Charlotte, eu só conseguia pensar no quanto eu iria sofrer vendo ela adoecer e perder sua vida caso as coisas ocorrerem da forma que devem ser.
Fui embora com uma despedida quase silenciosa, Teresa me acompanhou até a porta e também preferiu ficar calada, apenas me desejou uma boa noite e agradeceu mais uma vez pela torta. Eu imaginava o quanto estava sendo difícil para ela, Teresa trabalha para Charlotte há pelo menos sete anos e ela sempre foi tratada como alguém que fosse da sua família e não uma simples empregada.
Nunca foi tão difícil dirigir de volta para casa. O estresse me causava uma desatenção instantânea para fazer qualquer coisa, eu simplesmente me sentia incapaz. O lugar onde morava com os meus pais não era longe da nova casa da Charlotte, mas levei quase o dobro do tempo andando bem abaixo dos limites de velocidade enquanto escutava buzinas vez ou outra para reclamar da lentidão.
Quando cheguei em casa, me arrependi por ter guardado o carro na garagem, porque eles com certeza notariam que eu já estava ali. Sem ter como voltar atrás, desliguei o veículo e respirei fundo, me olhando pelo espelho retrovisor. Eu estava visivelmente abalada. Não queria sair do carro e deixar que me encontrassem daquela maneira, seria ainda mais torturante receber um monte de perguntas e ter que dizer que não era nada como resposta.
Tomei quase meio litro de água da garrafa que estava no carro enquanto tentava me acalmar e perder a coloração avermelhada em todo meu rosto. Eu não me lembrava de ter me sentido tão triste daquela forma nos meus últimos anos de vida, isso porque quando meu avô paterno faleceu, até então, eu não tinha lidado com a perda de alguém tão querido.
Peguei minhas coisas no banco de trás, respirei fundo e bati a porta do carro, pronta para inventar qualquer história para todas as perguntas que provavelmente me fariam.
Quando coloquei meus pés na sala, já pude sentir o aroma maravilhoso de algo que meus pais estavam cozinhando. Os dois na cozinha era o verdadeiro paraíso na terra, o cheiro fez com que a fome fosse despertada em mim, porém meu estômago ainda embrulhava com o que tinha acontecido.
— Que cheiro é esse? — Coloquei a cabeça para dentro da cozinha, apoiando minhas mãos no batente da porta. Meu pai me olhou por cima da revista em suas mãos enquanto minha mãe só se virou quando tirou a travessa do forno.
— Macarrão com queijo. — os dois responderam quase ao mesmo tempo. — Você demorou, , já estava preocupada. — Minha mãe continuou enquanto eu caminhava em sua direção.
— Desculpe não ter avisado, — a abracei — ficamos distraídas com o trabalho. — Engoli seco com a mentira, recebendo um beijo no topo da cabeça. — Eu senti o cheiro da garagem. — brinquei porque estava realmente bom e fui até meu pai, ele fechou a revista e a deixou em cima da mesa. — Tudo bem? — questionei, beijando sua bochecha.
— Tudo, — ele balançou a cabeça parecendo entretido demais com o que lia, eu me sentei na cadeira ao seu lado esquerdo — e com você? — perguntou de volta me olhando por alguns segundos com um sorriso no rosto.
— Tudo bem. — Menti sentindo meus olhos se encherem de lágrimas, discretamente respirei fundo e controlei minhas emoções. — O que você está lendo? — Direcionei meu olhar até a revista que estava em suas mãos. — Esportes?
— Ele não largou essa revista desde que chegou. — minha mãe respondeu por ele.
— Estou lendo a matéria da Nixxie. — Meu pai quebrou o silêncio da sua parte e levantou o olhar em minha direção. — , — William virou a revista para mim, me deixando ver a página dupla que o linebacker dos Wombats ocupava, senti algo estranho ao me lembrar do dia em que aquelas fotos foram tiradas — Tyler ficaria muito melhor. — Bufou.
— Seu irmão ficou louco com a Nixxie. — Minha mãe tirou o sarro enquanto meu pai chacoalhava a cabeça negativamente. — Ah, William, isso acontece, ele nem é modelo profissional. — Ela rolou os olhos.
também não é. — Rebateu.
— Pai, — olhei para ele enquanto ria — acho que pelo menos outros 30 jogadores queriam fazer a campanha — expliquei. — Tyler não é o único menino de ouro. — Minha mãe arqueou uma das sobrancelhas me fazendo ter plena certeza de que ela queria rir da feição do seu marido.
— Tanto faz. — Deu de ombros. — Não vamos comer?
A habilidade de mudar de assunto quando não existiam mais argumentos, eu herdei do meu pai.
Desde que Tyler nasceu eu perdi o lugar de princesa do papai. Não era como se ele não ligasse mais para mim, mas assim que minha mãe deu a notícia de que eu ganharia um irmão, eu já soube que ele seria o centro das atenções para o meu pai. Eu não gostava disso, era uma criança ciumenta, eu nem ao menos queria um irmão, eu queria um cachorro. Mas, aprendi a superar qualquer sentimento negativo em relação a Tyler e entendi que meu pai só fazia isso porque ele queria que Tyler tivesse a vida que ele não pode ter.
Enquanto conversávamos durante o jantar eu consegui esfriar um pouco a cabeça. Quando terminamos de lavar e guardar a louça, dei a desculpa de que estava com muito sono para fugir da habitual sessão de filmes que fazíamos às sextas-feiras, eu realmente precisava deitar minha cabeça no travesseiro e dormir para amenizar a confusão mental.
Entrei no quarto sufocada pela vontade de chorar. Respirei fundo, tentando controlar as lágrimas que se viessem provavelmente demorariam a cessar. Charlotte me pediu o mais absoluto sigilo sobre o que estava acontecendo com ela, se eu contasse para minha mãe isso significava que havia uma pequena porcentagem dela contar para a Suzan, minha tia e grande amiga da Charlotte que tinha se mudado para Budapeste. Significava também que eu teria quebrado sua confiança em mim e que Charlotte não poderia contar comigo.
De qualquer forma, meus pais perceberam que eu estava abatida e talvez não viriam até o meu quarto para fazer perguntas sobre o meu dia.
De banho tomado, tirei a roupa que usava para colocar meu pijama. Suspirei pesadamente ao afundar o meu corpo no colchão, eu sabia o que queria fazer, mas sabia também que isso ia me deixar mal. Mesmo sabendo que ficaria ainda mais preocupada, me levantei e peguei o notebook em cima do tampo de vidro da escrivaninha branca, voltei para a cama e me arrumei com ele em minhas pernas.
Digitei "Esclerose Lateral Amiotrófica" na barra de pesquisa, respirei fundo, ainda não tinha certeza se eu realmente queria colocar ainda mais informações sobre isso na minha cabeça naquele momento. Como uma luz para a minha dúvida, antes que eu pudesse ler o conteúdo do primeiro site da busca, meu celular vibrou três vezes seguidas. Tirei o notebook do meu colo e o deixei de lado para me deitar confortavelmente na cama com o celular em mãos.
10:48PM ? Oi. É o .
Quase tive uma crise de risos. Risos de puro nervoso. O único que eu conhecia e que poderia me enviar alguma mensagem era , principalmente com um número com o código de outro estado.
10:50PM ?
Digitei o sobrenome para confirmar que se tratava dele mesmo.
10:52PM Sim. Oi, gatinha.
10:53PM Para de me chamar de gatinha, .
10:53PM Ok, gatinha.
Senti o meu rosto esquentar com o nervoso. não era abusado somente dentro de campo.
10:54PM Desculpa, Cooper. Você não quer tomar outro café?
Soltei o celular em cima da minha barriga e dessa vez comecei a rir de verdade. Isso não estava acontecendo. Era um sonho, sim, eu só podia estar sonhando.
10:56PM Não, obrigada.
10:58PM Ok, eu não queria muito, de qualquer forma. Preciso focar em outras coisas.
10:59PM Tipo?
11:00PM No draft.
11:00PM É bom você focar nisso mesmo, porque tem muita gente melhor que você.
11:03PM Essa doeu. Mas eu continuo sendo o melhor.
11:04PM É o que você acha, né?
Olhei para o notebook aberto em cima da cama com o texto enorme na tela de fundo branco que fazia meus olhos doerem com tamanha claridade em contraste com a escuridão do quarto, resolvi fechar a janela do navegador e coloquei o notebook no chão, ao lado da cama. Seria melhor me aprofundar quando acordasse, com as ideias no lugar, eu ainda estava sendo controlada pelas emoções afloradas daquela noite.
11:07PM É o que todo mundo acha, menos você. Boa noite, Cooper.
11:08PM Realmente, eu não acho mesmo. Boa noite, .


#5 - Lesões


Maio.
Senhorita Cooper,
Informamos que, infelizmente, sua solicitação foi recusada.
No momento não podemos atendê-la, mas futuramente seria um prazer fazer negócios com você.
Atenciosamente,
Marta Eliott.


Futuramente. Essa maldita palavra estava em quase todos os e-mails da minha caixa de entrada e eu não conseguia entender. Charlotte fazia as coisas parecerem fáceis demais, mesmo falando em nome dela e da Vortex, eu continuava sendo recusada para todas as propostas de negócios.
Ignorei o fato de que tudo estava dando errado e respondi ao e-mail praticamente implorando para que aceitassem ao menos conhecerem a Vortex na semana em que Charlotte estivesse aqui. Eu sabia que o motivo para todas as coisas estarem dando errado era esse, tudo era sobre a ausência da minha chefe.
, — Jessie chamou, me fazendo perder a atenção naquele maldito e-mail — qual a probabilidade de mandarmos um vestido para a Itália? — questionou enquanto parecia ler algo na tela do computador.
— O quê? — devolvi a pergunta um pouco confusa. Vestido? Itália?
— Aparentemente é para a inauguração de um hotel, — ela continuava com os olhos fixos na tela — da Morgan Howard — completou. Eu já tinha ouvido aquele nome em algum lugar. — Vou te encaminhar o e-mail.
Jessie estava cuidando das minhas coisas e isso incluía minha caixa de e-mails que ficou mais organizada do que em qualquer momento dos anos em que trabalhei na Vortex.
O pequeno texto enviado por sua assessoria estava apresentando a Senhorita Howard e seus negócios. Abri uma nova janela do navegador e joguei o seu nome no Google, o que eu vi na pesquisa foi simplesmente inspirador e até um pouco invejável. Ela tinha apenas 22 anos e além de ser uma das mulheres mais bonitas que eu já vi na vida ainda era dona de um império. Com 22 anos.
Mas, afinal, o que Morgan Howard queria com a mera mortal Cooper? Comprar um vestido de modelo exclusivo que eu desenhei dois meses atrás e que não havia sido comprado pelo alto valor. Ele era vinho, seu body levou aproximadamente três dias para ser bordado com pedras preciosas coloridas e ele tinha uma cauda enorme que também foi bordada cuidadosamente. Era o meu favorito e um dos mais bonitos que eu já havia criado.
Pelo menos algo estava dando certo.

xxx


Consegui escutar as risadas do lado de fora da sala de reuniões, a porta estava com uma fresta aberta, mas quando entrei, vi que o motivo do barulho já estava na sua cadeira, com uma feição de alto astral e 20 minutos adiantada. Era como se nada acontecesse com Charlotte.
Me acomodei em uma das cadeiras vazias, ela olhou para mim e sorriu, fiz o mesmo, mas permaneci sentada em meu lugar, o número de pessoas em volta dela já era o suficiente para que eu não ousasse chegar perto.
Eu tinha muito a dizer para Charlotte, ela estava bem atualizada sobre as atuais produções para a inauguração da nova loja em setembro e a confecção das peças estava sendo pontual quanto aos prazos, mas a obra estava completamente abandonada quanto a supervisão e alguns outros vários detalhes também estavam em aberto.
Charlotte começou a dispersar as pessoas que a cercavam, ela sentou em sua cadeira e esperou que os outros fizessem o mesmo. Assim que a sala atingiu sua lotação máxima, Charlotte foi até a porta e a fechou, trancando em seguida.
— Boa tarde a todos. — Ela saudou enquanto caminhava de volta para o seu lugar. — Reuni vocês aqui hoje para falarmos sobre a minha ausência e como as coisas foram nesse durante esse tempo.
Ela não começou como eu imaginei que seria, Charlotte buscou saber realmente como as coisas estavam acontecendo, apesar de estar sendo informada sobre tudo, foi melhor que ela tivesse essa conversa pessoalmente com o responsável de cada setor, mesmo porque éramos todos interligados, então o bate-papo em conjunto era importante.
Quando finalizamos com Maria, responsável pela confecção no quarto andar, Charlotte pode dar o seu feedback e dizer que precisava fazer um comunicado importante. Eu já sabia o que estava por vir, mas já não me sentia tão abalada quanto no começo.
Quando ela começou a falar sobre a doença em si, todos já conseguiram captar a mensagem, ao menos era o que as feições das pessoas na sala mostrava. Enquanto Charlotte explicava sobre o que acontecia, meu celular começou a vibrar, tirei o aparelho rapidamente de cima da mesa e não ousei olhar para ver se eram muitas mensagens seguidas ou uma ligação em que a pessoa não teve muita paciência para esperar chamar. Erro grave e pelo menos ninguém além de Jayden e Emma, que se sentavam um de cada lado meu, percebeu.
Eu não estava prestando muita atenção no que ela dizia, estava imersa nos meus pensamentos sobre aquilo que não mudaram desde o dia em que Charlotte me deu a noticia. Eu apenas assistia aos seus movimentos, mas não absorvia nenhuma das suas palavras. Estava com sono, triste com a situação e completamente informada de tudo que acontecia. A situação me lembrava um pouco qualquer aula que envolvesse cálculos e fórmulas, a única diferença era que eu não sabia absolutamente nada sobre o assunto e não fazia muita questão de entender.
— Eu realmente estou doente, mas isso não vai me impedir de trabalhar. — Charlotte se levantou em meio às feições chocadas. — Vocês vão notar alguns comportamentos diferentes, mas eu vou continuar aqui fazendo tudo que sempre fiz. — Ela sorriu e olhou de relance para mim. — Eu emiti um comunicado para vocês entregarem no setor em que cada um trabalha, Samantha vai entregar para vocês na saída. — Caminhou até a porta e abriu, vi a mulher ruiva parada do lado de fora esperando que saíssemos. — Obrigada pela presença e uma boa tarde.
Foi incrível como, mais uma vez, Charlotte foi tão natural ao contar algo tão grave. A reunião foi finalizada com um grande silêncio e ela sentada em sua cadeira, lendo um papel que estava ali. Claro que Charlotte não deu espaço para conversarem sobre aquilo com ela, mas esperei que todos se retirassem da sala para que eu pudesse chegar até minha chefe.
— É sobre o vestido? — Ela me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas assim que eu me levantei da cadeira e caminhei em direção a ela.
— É… — respondi um pouco vacilante, sem entender como ela já sabia — Falaram com você?
— Eu já me hospedei em um dos hotéis da Morgan, — contou — a assessora dela veio falar comigo, passei o seu e-mail. — Piscou. — Já fecharam negócio?
— Ainda não, — suspirei — mas fiquei animada.
— Por que ainda não? — ela rebateu.
— Precisamos arrumar um jeito de enviar ele para lá. — expliquei e ela riu.
— Isso é fácil, querida. Não se preocupe. — Gesticulou com a mão em sinal para que eu deixasse para lá.
— Tudo bem, eu vou voltar a fazer contato com ela. — Balancei a cabeça positivamente e sorri. — Obrigada, Charlotte. — Agradeci e antes de ir embora fiz a pergunta de ouro — Como você está?
— Bem, . Obrigada por perguntar.
Charlotte olhou para mim de uma maneira que eu não soube decifrar o que ela queria me passar naquele momento. Não me aprofundei nas perguntas e ela não parecia nem um pouco aberta para diálogo após a reunião. Apenas pedi licença e me retirei da sala, finalmente pude ver o que acontecia no meu celular.

4:34PM
!
?
Sério, eu preciso falar com você.
Vem pra casa depois do trabalho!
É super urgente.
De verdade.
Vem pra cá.

Estranhei o drama pulsando naquelas mensagens. Olivia não era o exagero em pessoa e geralmente quando ela parecia um pouco fora de si era porque algo realmente acontecia. Fiquei com aquilo martelando na minha cabeça e perguntei a ela o que havia acontecido, mas que iria até lá assim que saísse do trabalho.
Como se já não bastasse o tanto de informações daquele dia que eu ainda estava tentando processar, Olivia tinha que colocar mais peso na minha cabeça e desaparecer quando questionada sobre o que aconteceu. Eu poderia mandar uma mensagem para o Robert perguntando se ele sabia de algo? Sim, poderia. Até porque os dois eram como gêmeos siameses e seja lá o que tivesse acontecido, aconteceu dentro da casa deles. Porém, Cornwell e eu não nos falávamos direito desde que resolvemos que não iríamos namorar. Talvez ele tivesse ficado um pouco... sentido.
!
A voz feminina me tirou do transe que fazia minha cabeça doer enquanto eu caminhava pelo corredor extenso. Me virei para trás e encontrei Amber vindo em minha direção com seu cabelo perfeito em movimento. Eu já não conseguia mais olhar ou pensar nela sem lembrar de . E eu não deveria estar pensando nele, não mesmo.
— Oi, Amber! — Sorri para ela, parando no meio do corredor para esperar que a mais velha chegasse até mim.
— Eu acabei de chegar da rua, quase não te encontro. — Amber apoiou uma das suas mãos em meu ombro e suspirou. — Charlotte conversou comigo ontem, hoje eu tive que resolver mil coisas, — ela gesticulava enquanto falava rápido como sempre fez. Ela parecia sempre acelerada — que coisa, não? Eu ainda não me recuperei, ela é como uma mãe pra mim! — Respirou fundo e vi seus olhos se encherem de lágrimas.
— Eu fiquei sabendo já faz um tempo, mas também não me acostumei com isso e acho que nem vou. — respondi me concentrando para não me emocionar.
— Infelizmente não há nada que a gente possa fazer. — Amber apertou o meu ombro e deu um pequeno sorriso de conformação, era difícil de aceitar, mas ela estava certa. — Mas, eu preciso te falar outra coisa, — tratou de mudar de assunto rapidamente e abriu a sua bolsa, parecia procurar algo — estava te procurando para entregar o convite do meu casamento! — disse animadamente enquanto puxava o papel branco perolado de dentro de uma pasta.
— Ai meu Deus! — exclamei assim que o peguei em mãos. Era lindo. — Obrigada, Amber. — agradeci com um abraço. — Com certeza estarei lá. — disse o que já havia dito quando ela mencionou pela primeira vez que eu seria convidada, casamentos na praia eram minha verdadeira paixão, ainda mais sendo de uma pessoa tão querida quanto ela.
— Se você não for, faço Charlotte te demitir por justa causa.. — ela disse e nós rimos. — Eu preciso ir, . Tenho um milhão de coisas para fazer ainda, nos vemos amanhã. — Amber beijou minha bochecha e se afastou arrumando a alça da bolsa em seu ombro.
— Boa sorte com as coisas, — ela riu fazendo uma cara de exaustão — até amanhã! — Me despedi com um aceno.
Continuei meu percurso até o elevador pensando no quanto já havia acontecido em tão poucas horas do dia. Com o convite em mãos, eu não conseguia parar de pensar em e em como eu talvez tenha agido de maneira um pouco grosseira com ele da última vez. Eu não podia ser agradável, doce e gentil com quem estava em território inimigo. Não podia e não seria, mas minha estupidez falou mais alto e eu corri socializar com o adversário. Fotografei o convite e fui até a nossa conversa que havia se encerrado comigo duvidando da sua capacidade quanto jogador. Claro que era um bom linebacker, mas eu jamais admitiria isso, em pensamento já parecia absurdo concordar com esse fato, falar isso para o próprio seria suicídio. Enviei a foto do convite sem nada escrito, ele entenderia a mensagem, eu não esperava que me respondesse, mas queria que ele o fizesse.
Quando cheguei até a minha sala encontrei Jessie me esperando ansiosamente para me bombardear de questões sobre Charlotte, eu contei desde o início que guardei segredo até a reunião em que ela não fez muita questão de dizer como se sentia de verdade. Charlotte repetiu inúmeras vezes que estava bem, mas talvez aquilo fosse o que ela quisesse sentir e não o que de fato acontecia.
Enquanto Jessie organizava as coisas para irmos embora, eu escrevia um e-mail para a assessoria de Morgan Howard, acertando mais detalhes sobre o vestido. 15 minutos após o fim do expediente fechamos a sala e não havia dado nem sinal de fumaça, ele nem ao menos visualizou minha mensagem. Olivia também não fez questão de me responder. Talvez todos tivessem tirado o dia para ignorar minhas mensagens.

xxx


Estacionei o carro no mesmo lugar de sempre e me deparei com Tyler em frente à porta de entrada, de braços cruzados, como um segurança. Antes de descer do carro, meu celular vibrou. Finalmente uma resposta. Eu não conseguia aceitar que estava olhando para aquelas mensagens e rindo de divertimento, querendo puxar mais assunto com . Os Cougars e os Wombats finalmente concordariam com uma coisa: nós dois éramos dois traidores.

8:27PM
Não sei se é justo você ir ao casamento da minha irmã e não sair comigo antes.
Vai ser um final de semana interessante;
O convite para sair ainda está de pé, mesmo você me achando um jogador horrível, ok?
E eu não concordo com a sua opinião, só pra deixar claro.

8:29PM
Vai ser interessante mesmo, eu vou estar em uma praia maravilhosa e hospedada em um lugar mais bonito ainda, o que mais poderia querer?
O convite ainda continua não aceito hahaha.
E minha opinião é a única que importa.

Guardei o celular na bolsa e saí do carro antes que Tyler achasse que eu tivesse morrido ali dentro. Meu irmão não esboçou nenhuma reação ao me ver, geralmente quando passávamos semanas sem muito contato, Tyler virava a pessoa mais carinhosa do mundo, mas naquele momento nem ao menos um sorriso. Isso cheirava a problema.
— Tudo bem? — questionei segurando em um dos seus braços, ele estava com o maxilar travado.
— Tudo ótimo, . — ele respondeu ironicamente, parecia um pouco irritado.
O jeito com que meu irmão estava agindo fazia a situação parecer que eu tinha feito alguma coisa e o primeiro motivo a vir na minha cabeça foi . Antes que eu pudesse questionar qualquer coisa ou começar a pedir desculpas por ter dado atenção àquele idiota, Tyler abriu a porta e me deixou passar, a cena que acontecia na sala era parecida com a de um velório feito em casa. Robert Cornwell era o defunto.
Engoli seco, processando todas as informações enquanto juntava os pontos. Olivia não era tão afobada ao ponto de me chamar a atenção por conta de qualquer besteira, de tarde já havia constatado que era algo realmente importante. Robert estava suado, sentado no sofá, sua perna esquerda estava suspensa em cima da mesa que ficava com algumas revistas no centro da sala, uma bolsa de gelo estava em cima do seu joelho e ele com os olhos fechados. Noah, o pai dos Cornwell, mal respirava enquanto olhava na direção do filho. Olivia e Ava mexiam no tablet e pareciam ler algo. Tyler, atrás de mim, pigarreou e fez com que os quatro olhassem para mim.
— O que aconteceu? — Soltei a bolsa que estava pendurada na minha mão e escorei meu corpo no braço do sofá ao lado de Robert. — Você está bem? — Apertei o ombro dele e Cornwell grunhiu.
— Não muito… — ele começou a falar, mas Olivia o parou.
— Ele é um verdadeiro idiota! — A irmã mais nova alterou seu tom de voz, apontando para Robert.
— Olivia! — Noah olhou para trás com um olhar matador para a filha, ele parecia tão irritado quanto Tyler no lado de fora. Troquei olhares com todos os Cornwell, menos Robert, ele continuava com os olhos fechados.
— Ele rompeu o ligamento enquanto jogava futebol. — Tyler contou. Eu amava o quanto meu irmão era intrometido na vida dos outros, mas, espera, rompeu o ligamento?
— O quê? — Olhei para Robert com os olhos arregalados.
— Foi isso mesmo que você ouviu — Olivia respondeu olhando para o irmão como se pudesse voar no seu pescoço naquele exato momento. — Eu te disse que ele é um idiota! — Atacou mais uma vez.
— Eu já te mandei parar. — Noah subiu seu tom de voz e olhou sério para sua filha mais nova, que balançava a cabeça negativamente.
, não liga, eles estão alterados — Ava disse com calma, caminhando até Robert. — Aconteceu, foi um acidente e agora já está feito. — Ela parou ao lado da perna suspensa e tirou a bolsa de gelo, Robert resmungou. — Eu vou trocar isso, está derretendo.
— Foi um acidente, mas podia ter sido evitado. — Tyler disse, seus braços estavam cruzados e ele não se moveu para mais perto de nós. Parecia tenso.
— Você vai perder a temporada do draft, seu imbecil! — Olivia gritou com o irmão.
— Chega, Olivia! — Noah se levantou da poltrona e meu corpo entrou em alerta. Em todos esses anos eu nunca o vi tão irritado com sua filha daquele jeito. — Vai ajudar sua mãe com o gelo, por favor. — Ele respirou fundo e tocou em seu braço, indicando para ela sair. Olivia bufou e saiu pisando duro em direção a cozinha.
O silêncio tomou conta do ambiente.
— Eu sinto muito, Rob. — Peguei em sua mão e suspirei. Não sabia nem o que dizer.
— Obrigada, . — ele olhou para mim e sorriu.
Eu estava me sentindo mal de verdade por ele, a notícia de que Cornwell havia rompido o ligamento do joelho me atingiu diretamente como amiga que se importa, mas também como torcedora do Cougars que não podia ficar sem o seu quarterback. Clowney ia ter que ralar para chegar até onde Robert estava.
Olhei para Tyler que apenas balançou a cabeça negativamente enquanto Noah e seu filho continuavam como se estivessem em um velório. E talvez de fato estivessem, porque a carreira de Robert Cornwell tinha acabado de morrer junto com aquela lesão.


#6 - Apolo


Maio.
Bati a mão com força contra a mesa da cabeceira da cama, fazendo aquele barulho infernal parar. Eu havia dormido por 13 horas e ainda me sentia exausto. Patrick Meenely era especialista em nos fazer treinar pesado mesmo quando não precisávamos e mesmo não sendo o nosso treinador, mas ele era rico o suficiente para contratar alguém para fazer isso sob sua supervisão.
Me arrastei até o banheiro sabendo que se não fosse mais rápido me atrasaria e Amber com certeza não teria a boa vontade de me esperar, afinal, ela tinha seus compromissos e eu estava apenas indo acompanhá-la. Joguei água no rosto, encarando meu reflexo no espelho. Estava cheio de hematomas no corpo, passei a me machucar muito mais do que deveria nos últimos dias, mas quase não sentia.
Olhar no celular e só encontrar mensagens da minha família ou relacionadas ao time era deprimente. Minha vida social simplesmente ia por água abaixo naquele ano, se no final eu ainda tivesse a recompensa que estava no meu principal objetivo de vida, valeria a pena. Minha cabeça estava desgraçada de tanto pensar nisso. Era tudo sobre futebol, draft, liga profissional, treinos e qualquer outra coisa relacionada a isso. Eu sentia muito o peso das consequências de não conseguir, afinal, apesar de estar me formando a única coisa que eu sabia fazer bem era jogar futebol e viver na rotina de um escritório era tudo que eu não queria, isso seria como ficar preso a um castigo eterno.
Comecei a juntar minhas coisas espalhadas pelo quarto de hóspedes dos Meenely, precisava ficar pronto o mais rápido possível antes que Amber chegasse para me dar uma carona.
Quando saí no corredor dos quartos já pude escutar as vozes de Chris e Brennan, apresentadores do principal programa de esportes que costumávamos assistir. Eles falavam sobre Drale e as dificuldades que iriam enfrentar, já que o quarterback titular estava fora da temporada. Quase tropecei nos degraus da escada com tamanha pressa que tive para chegar até a sala.
— Robert Cornwell não vai mais jogar? — questionei incrédulo olhando para a televisão. Ryan pulou do sofá, me olhando com as sobrancelhas franzidas.
— Você morreu ou o quê? — Rebateu e voltou a olhar para o programa. — Só estão falando nesse otário desde às sete da manhã.
A gargalhada ecoou pela sala vazia da casa dos Meenely depois de Ryan ter respondido minha pergunta. Evidente que ele estava feliz, um quarterback idiota com boas habilidades a menos no Cougars.
Parei por mais alguns segundos em frente a televisão, mas não consegui muitas informações, o time da notícia já tinha passado. Então era por isso que o grupo do time acumulava mais de 300 mensagens. Robert Cornwell havia rompido o ligamento jogando bola. O quarterback titular de Drale teve uma lesão antes da temporada começar. No ano do draft. Quando eu dizia que ele era um completo idiota eu tinha provas para isso. Além de ser imbecil como jogador, não teve a mínima competência de ficar com Cooper por muito tempo. Como eu disse, um idiota.
Fui para a cozinha rapidamente e enchi uma tigela com cereais enquanto lia tudo que discutiram na noite passada. Dormir por muitas horas tinha suas vantagens, mas não ficar sabendo dessa notícia logo quando ela saiu foi algo realmente decepcionante.
— Eles tiveram treino na sexta-feira, — comentei enquanto voltava para a sala. Me deparei com uma estátua gigantesca de algum deus grego que Amelia Meenely havia colocado bem ao lado da porta, franzi as sobrancelhas involuntariamente olhando para aquilo — imagina o quanto Sebastian está puto. — Balancei a cabeça negativamente pensando na irresponsabilidade do imbecil e pelo exagero da casa dos Meenely.
— Eles são todos burros em Drale — disse enquanto mudava de canal e eu me sentava no sofá —, você viu que ele estava em um lugar que nem deveria estar?
— Como assim? — perguntei enquanto mastigava os cereais. Minha mãe teria um infarto se visse a cena.
— Cara, — Meenely levantou do sofá e se espreguiçou — você não vai jogar futebol com quem você não conhece, sabe? Qualquer um pode querer te machucar. — Ele gesticulou com as mãos e soltou um riso anasalado.
— Como você sabe onde ele estava jogando? — Olhei para ele com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Eu não sei, — deu de ombros — mas é o que estão falando.
Ryan às vezes parecia saber demais de todo mundo. O tipo de pessoa que podia te ferrar com qualquer coisa, porque ele provavelmente sabia de algum podre seu ou então descobriria.
Ele saiu em direção a cozinha e eu aproveitei o silêncio para terminar de comer, ainda estava com fome, cereais na maioria das vezes não me saciavam ao menos que eu comesse um pacote inteiro deles. Mas pelo horário eu almoçaria com Amber e se tivesse muita sorte, com uma outra certa pessoa.
— Sebastian tinha que ensinar àqueles palhaços a fazerem escondido as coisas erradas, — Ele voltou para a sala falando com uma garrafa de cerveja em mãos — assim como eu faço. — Riu.
— Você ainda vai se ferrar. — Joguei uma almofada em sua direção, mas Meenely desviou.
— Quem vai se ferrar é você se continuar atrás de certas pessoas. — Me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Eu não estou atrás dela. — respondi firme, Ryan pegou a almofada e jogou de volta para mim.
— Eu nem precisei citar nomes pra você saber de quem eu estou falando — falou. Eu engoli seco, estava dando muita bandeira? Talvez. — O que você vai querer se ganhar a aposta? — Ryan esticou seu corpo no sofá enquanto mexia no celular.
— Já te disse que eu não apostei nada com você, Meenely — reafirmei o que já havia dito outras duas vezes. Ele riu olhando para mim.
— Você me decepciona às vezes. — Ele resmungou algo, mas permaneceu deitado digitando algo no seu celular. Ryan era o próprio diabo no meu ouvido tentando me convencer de fazer as coisas erradas.
Na maioria das vezes era inútil argumentar com ele, sobre qualquer coisa. Eu ainda me questionava o porquê me prestava ao papel de conviver com Meenely, talvez porque ele fosse meu quarterback ou então por consideração aos anos em que ele não agia como um completo idiota.
Mesmo que ela não respondesse minhas mensagens, eu sabia que não havia a mínima possibilidade de Amber estar atrasada, então levei a tigela com a colher que usei para a cozinha e passei no banheiro para escovar os dentes. Ryan continuava vegetando no sofá, eu tinha plena certeza que se ele não fosse continuar no futebol era bem provável que Meenely virasse um sedentário de merda que vive às custas da fortuna da família e só bebe e come o dia todo.
— Eu vou embora — disse e puxei a alça da minha mala até o ombro. — Até amanhã. — Ryan apenas esticou o braço para trás para que eu pudesse bater em sua mão.

Amber já deveria estar chegando e eu preferi esperar no lado de fora, não pensei muito antes de pegar minhas coisas e sair daquela mansão extravagante digna de algum jogador da liga profissional. Ryan nem ao menos precisava ir para algum time para ganhar dinheiro, ele já tinha o suficiente para viver bem o resto da sua vida e por esse lado ele poderia se drogar e fazer merda sem se importar com as consequências de um time em cima dele.
Já tinha um tempo que minha mãe falava sobre ter um animal em casa, de preferência um cachorro. Desde que o seu ex-marido simplesmente nos deixou sem mais explicações ela se sentia um pouco sozinha e triste, Amber e eu tínhamos nossas ocupações e não passávamos mais muito tempo com ela. Quando minha irmã contou que a Vortex faria uma feira de adoção no final de semana eu me animei para encontrar uma companhia para nossa mãe. A pior parte era que eu poderia ter feito isso antes, mas não o fiz por pura preguiça e quando a Vortex entrou na jogada eu automaticamente associei isso a ver Cooper, eu me animei porque encontraria ela e isso era ridículo.
Quando vi o carro da Amber se aproximar em baixa velocidade já fui ao seu encontro para que ela não precisasse estacionar. Bati no vidro quando tentei abrir a porta e não consegui, minha irmã então destravou e rapidamente coloquei minhas coisas no banco de trás e entrei no da frente, ao seu lado. Ela estava com um sorriso enorme no rosto, ultimamente Amber andava euforicamente feliz por conta do casamento, isso era bom, mas quando esse sentimento passava minha irmã ficava estressada e chorava por horas. Ela não conseguia balancear as coisas.
— Você 'tá acabado, . — Amber tirou o óculos de sol e me olhou com os olhos semicerrados. — Não dormiu direito? — questionou e em seguida voltou sua atenção para a rua, saindo com o carro do lugar.
— Bom dia para você também. — respondi mal humorado com a observação da minha irmã.
— Já vi que não dormiu mesmo. — ela caçoou, rindo. — Melhora esse astral porque se não os cachorros não vão gostar de você. — Amber me olhou pelo canto dos olhos, ainda não tínhamos nem chegado na hora do almoço e ela já estava torrando minha paciência.
— Pode deixar. — Cruzei os braços, balançando a cabeça negativamente.
Eu estava fingindo não me importar com o que aconteceu com Robert Cornwell, porque não queria parecer uma criança comemorando a lesão de alguém, mas todo o discurso de uma competição saudável onde não podíamos celebrar que nossos adversários se machucassem entrava por um ouvido e saía pelo outro. Então, eu estava quase contente. Talvez se ele estivesse em outra cidade, em outro time eu não faria tanta questão de me importar, mas Cornwell era um dos Cougars, claro que eu queria mais que ele perdesse a temporada e não chegasse ao draft. Eu não queria ter feito tanto esforço para acabar indo para a liga profissional junto com ele. Nem com nenhum deles. A única coisa daquela família maldita que eu queria era uma torcedora em específico.
— Eu não sabia que a ia no seu casamento — comentei aleatoriamente quando lembrei pela milésima vez dela naquele dia. Amber deu uma risada fraca. — O que foi?
— É claro que ela vai, trabalhamos juntas há anos, — respondeu como se fosse óbvio — quem te contou?
— Ela mesma. — Dei de ombros.
— Deixa o Tyler ficar sabendo disso. — Minha irmã gargalhou. — Se você apanhar dele e de todo o resto do seu time, eu vou achar bem feito. — disse séria.
— Obrigada pela motivação. — Bufei.
, a não é pra você. — Suspirou. — Eu adoraria que fosse, mas não acho que vá valer a pena o sofrimento. — Amber tirou uma das mãos do volante e apertou a minha, sorrindo.
— Eu não vou fazer nada. — Afirmei. — Ela é muito arrogante. — Encostei minha cabeça na janela e relaxei meu corpo no banco.
— Você é ridículo tentando esconder que quer sair com ela. — riu para me provocar.
— Idiota. — Rolei os olhos.
Entretanto, era óbvio que eu nunca admitiria isso para outra pessoa além de mim mesmo. Jamais. Mas eu queria, e muito.

O caminho até a Vortex era longo e entediante com Amber. Minha irmã só sabia falar sobre o casamento dela e eu não conseguia interagir com ela sobre isso. Vestidos, decoração, comida que seria servida aos convidados e mais uma infinidade de assuntos que ninguém mais aguentava, nem mesmo nossa mãe. Talvez ela tenha percebido que eu não estava muito interessado ou então inteirado sobre os assuntos do seu casamento. Eu estava extremamente feliz por Amber, gostava de Carter, eles estavam juntos há sete anos e já tinham passado por muita coisa, mas eu achava essa loucura toda um pouco exagerada, Amber tinha pessoas profissionais cuidando de tudo para eles. Mesmo assim tudo era sobre o casamento. Desde o ano passado tudo que faziam era se preocupar com isso enquanto outras coisas aconteciam e o fato era que às vezes eu me irritava com essa coisa toda.
Quando chegamos na Vortex automaticamente me lembrei do dia que inventei de ir atrás de e que talvez ela tenha sido boazinha demais em ter me levado para dentro tomar um café. Eu me deixaria pro lado de fora.
, — ela chamou minha atenção enquanto caminhávamos em direção a escada. Tirei os olhos da tela do celular para prestar atenção nela — não perturbe a , por favor. — Pediu me fazendo rir. — Eu estou falando sério. — Ela me olhou com as sobrancelhas arqueadas.
— Fica tranquila, ok? Eu não vou fazer nada. — Rolei os olhos.
Eu não estava ali para encher com besteira sobre futebol ou qualquer coisa do tipo, estava ali unicamente para fazer algo que pudesse ajudar nossa mãe. E aliás, já era possível escutar alguns latidos do meio do lance de escadas do subsolo para o térreo. Quando chegamos foi verdadeiramente desesperador, havia muitos deles, de todos os tipos. Seria muito difícil escolher apenas um.
Amber me deixou sozinho para encontrar alguém enquanto eu dava uma primeira olhada nos animais, já estava infeliz em estar ali, eu não queria levar um e deixar os outros sem uma casa, mas teria que escolher. Estava andando entre as pessoas que também estavam ali para adotar, estalando os dedos para chamar a atenção dos cães, quando enxerguei mais a frente quem eu tanto queria ver. estava linda, como sempre. Mas, quando ela brincava com um filhote no seu colo parecia ainda mais adorável.

Nossos olhares se encontraram, mas não esboçou nada além de reações ruins. Eu nem deveria estar olhando para ela daquele jeito, com aquelas intenções, mas foi mais forte do que eu e minha consciência gritando para que eu parasse imediatamente de querer a irmã do Tyler Cooper. Não havia a menor possibilidade de dar certo.
sustentou o contato visual até que pareceu sair do transe quando o filhote lambeu sua mão, ela chacoalhou a cabeça negativamente e com os olhos semicerrados, deu as costas. Ri sozinho da minha idiotice, de como eu estava atrás de uma pessoa inacessível enquanto tantas outras estavam disponíveis. Além disso, aparentemente, a família Cooper possuía um ar de superioridade que mesmo em um universo paralelo onde estivéssemos no mesmo time, ela ainda não olharia para mim. se achava muito e isso acabava com toda a beleza e a simpatia que eu a vi ter com os outros.
A feira não estava cheia, havia um número considerável de pessoas circulando entre os cercados, mas não tão lotado. Talvez pelo horário, não tinha nem 10 minutos que as portas tinham sido abertas ao público geral. Conforme circulava, notei que os cães em sua grande maioria eram filhotes, diferentemente dos gatos. Mais ao fundo havia um único cercado com cachorros de grande porte, que não faziam a bagunça que os mais pequenos estavam fazendo entre si. No dia anterior, Amber me aconselhou a levar um animal que já fosse adulto, porque geralmente as pessoas optam pelos filhotes, fiquei por alguns minutos pensando sobre isso enquanto olhava todos aqueles filhotes fofinhos, brincalhões e quase pulando no seu colo para ir embora e acabei voltando para os mais velhos.
— Olha só, ! — O homem de cabelo azul que tomava conta daquele cercado se levantou quando eu me aproximei, tentei evitar a feição confusa, mas não me lembrava de ter conhecido ele. — Meu nome é Matthew, eu te vi de longe fazendo a campanha para a Nixxie, — riu — eu trabalho na lavanderia daqui. — ele me explicou e então tornou a situação mais clara.
— Ah sim! Foi mal, cara, eu achei que tinha esquecido quem você era. — Cocei a nuca um pouco desconfortável. Eu me tornava um tanto introvertido quando submetido a alguma situação onde eu provavelmente estava passando vergonha, ainda mais desse tipo, esquecer quem era alguém. — Eles já são adultos? — questionei olhando os cachorros por cima.
— Você não tinha como me reconhecer. — Matthew riu novamente e passou a mão nos fios azuis de cabelo, para organizá-los. — Sim, , todos adultos. — Ele confirmou sobre a idade dos cães, se sentou na cadeira novamente e pegou um papel do chão — Esses dois têm aproximadamente dois anos, — indicou um branco com manchas pretas e o outro inteiro marrom — e ele por volta de cinco. — Apontou para o inteiramente preto. A única coisa que tinha outra cor nele era o branco do fundo dos seus olhos, de resto, nenhuma manchinha.
— Ei, eu gostei de você. — Me inclinei na direção do cachorro e estalei os dedos, ele latiu para mim enquanto abanava o rabo. Os outros dois não fizeram muita questão de interagir comigo enquanto aquele já queria pegar a minha mão com aquela boca cheia de dentes enormes mas que não parecia ter pretensão alguma de machucar alguém. — É ele. — afirmei fazendo carinho na sua cabeça, ele estava bem mais eufórico do que os outros e parecia ter gostado de mim.
— Que rápido! — Matthew exclamou animado e parou como se procurasse alguma coisa. — Tem certeza que vai querer ficar com ele? — questionou e eu confirmei com a cabeça. — Okay, espera um minutinho.
Matthew pegou seu celular e ficou por poucos segundos com ele em mãos, voltando a se sentar para anotar algo em um papel. Fiquei agachado para estar na mesma altura daquele que seria o novo integrante da família, os outros dois já haviam se deitado e estavam sossegados enquanto ele se comportava de maneira eufórica e às vezes tentava morder minha mão enquanto brincava.
— Matthew, pediu para me chamar?
Aquele tom de voz não era estranho, levantei o olhar e encontrei aquela bela figura feminina parada logo atrás de Matthew, com os braços apoiados no balcão. estava com uma roupa diferente da que vi mais cedo, parecia mais confortável, e o cabelo preso mostrava bem seu rosto. Fiquei encarando Cooper durante os segundos de silêncio de Matthew, mas ela nem ao menos pareceu deslocar minimamente seu olhar em minha direção.
— O irmão da Amber vai ficar com esse aqui, — ele indicou o cachorro colocando a mão em sua cabeça, então olhou para nós dois e arqueou uma das sobrancelhas, torcendo de leve a boca. Aquilo não era bom sinal, não é? — você está organizando os papéis ainda? — perguntou olhando fixamente para ela.
— Estou. — sorriu abertamente e deu a volta no balcão parando ao meu lado. Aquele ar de bom humor perto de mim parecia que ela tramava algo maligno. — Pode me dar a coleira, por favor? — Pediu gentilmente, com um sorriso que faria qualquer um cair de amores por ela, mas sem olhar para mim. — Você ganhou uma casa, meninão. — disse com aquela voz afetada que usamos com animais e bebês enquanto passava a coleira no pescoço do cachorro e fazia carinho nele — Dá tchau para seus amigos — disse enquanto abria o portão para tirá-lo de lá de dentro. Ele parecia muito maior do lado de fora. — Vamos, . — Voltou a usar o tom de voz normal e saiu com o meu cachorro na coleira.
Matthew me olhava com um sorriso bem sugestivo e com uma das sobrancelhas inclinadas indicou com a cabeça a direção que ia. Agradeci pela atenção que ele havia me dado quando cheguei e fui atrás dela que já tomava uma distância significativa sem olhar para trás, consegui alcançá-la e Cooper percebeu minha presença, dando uma olhada discreta, mas não disse nada. continuou caminhando em um silêncio extremamente desconfortável entre nós dois acompanhada pela forma desajeitada que o cachorro andava, batendo o rabo em suas pernas. Eu já estava feliz em tê-lo, mas não era comigo que ele passaria a maior parte do tempo, aliás, era com alguém bem melhor. Tinha certeza de que eles se dariam muito bem e que minha mãe trataria ele como ela tratou seus filhos. Era importante ela ter uma companhia naquela fase tão frágil e ridícula de certa forma que aquele homem a fez passar.
, — parou de andar e me livrou do tanto de pensamentos que estavam na minha cabeça naquele momento. Onde estávamos havia mesas brancas de plástico com uma cadeira de um lado e duas do outro, uma delas era ocupada por pessoas que em sua maioria estavam vestidas quase que da mesma maneira e do outro pessoas com animais na coleira — eu deveria te entrevistar e tudo mais, — ela se virou para mim e indicou um lugar para sentarmos, antes disso me entregou a coleira para que então eu segurasse o cachorro — mas você é irmão da Amber, então vamos pular algumas etapas. — Sorriu enquanto se sentava. Ela estava sendo simpática?
— Tudo bem, você quem sabe. — Dei de ombros, sorrindo de volta.
começou me perguntando algumas coisas sobre mim e a nossa casa, depois foi para algumas informações sobre o cachorro, enquanto ela falava eu fazia carinho nele que naquele momento já tinha parado quieto, mas estava ofegante. Ela me deu algumas instruções e mostrou papéis sobre vacinas, como funcionava o ciclo de idade dos cães e outras tantas coisas que eu teria que mostrar tudo pra minha mãe porque se não ia esquecer de algum detalhe.
— E como ele vai se chamar? — ela perguntou enquanto anotava algo, fiquei em silêncio e então me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Eu não pensei nisso. — respondi com sinceridade e ela riu rolando os olhos.
— Você quer um cachorro e nem ao menos sabe que nome daria pra ele? — me olhou daquele jeito de quando nos vimos no começo. Eu parecia o ser mais burro existente no mundo com ela me questionando daquela forma.
— Que nome você daria a ele? — perguntei e ela desviou o olhar para o cachorro preto que já estava quase do tamanho de um bezerro e que eu segurava na coleira.
— Apolo. — sorriu e se inclinou para ficar na altura dele. — Você gosta de Apolo, não gosta? — Ela envolveu a cabeça do cachorro com as duas mãos, coçando suas orelhas. Ele tentava se desvencilhar para morder como fazia de brincadeira.
— Vai ser Apolo, então — concluí e consegui arrancar um sorriso de em minha direção e não na do cachorro.
— Okay, então Apolo! — disse com o tom de voz aparentemente animado e anotou no papel que estava em sua prancheta. — É só isso, , — ela intercalou seu olhar entre o cachorro e eu — espero que você cuide bem dele. — agachou e colocou a prancheta no chão para poder passar as mãos em Apolo. — Boa sorte na sua nova casa, gracinha. — Segurou a cabeça do cachorro com as duas mãos e tentou beijar seu focinho, mas ele foi mais esperto em lamber seu rosto antes. Eu ri da cena e quando percebi ela também estava rindo, discretamente e olhando para ele, mas estava. — Ganhei um beijinho de despedida. — Ela se levantou do chão ainda sorrindo, era incrível como um animal podia mudar tanto o humor de uma pessoa, não estava nem se esforçando mais para ficar de cara fechada.
— Se quiser visitar ele, pode ir. — disse e me olhou com os olhos semicerrados, mas não desmanchou o sorriso.
— No dia que em que você não estiver em casa pode ter certeza que eu farei uma visitinha para ele. — Ela deu dois tapinhas no meu ombro e riu debochada. Era muito bom pra ser verdade toda aquela simpatia. — Agora eu preciso ir, tchau, bonitão, — se inclinou para Apolo e coçou suas orelhas — Amber vai pegar algumas coisas sobre a adoção e te entregar — explicou — tchau, . — Deu um sorriso forçado sem mostrar os dentes, juntou a caneta na prancheta e acenou, saindo logo em seguida.
Fiquei alguns segundos paralisado, assistindo ela ir embora até Apolo latir me fazendo acordar para o fato de que eu deveria ligar para Amber e ver o que faríamos a seguir ao invés de ficar cogitando coisas com Cooper
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Apolo estava adorando a nova casa. havia dito que ele podia ficar um pouco agitado com o novo ambiente, mas muito pelo contrário, ele estava calmo e ainda não tinha destruído nem metade dos móveis. Só comeu algumas revistas que Amber deixava na mesa de centro da sala e derrubou uma peça de gesso de decoração, mas nada tão significativo, minha mãe achou até fofa a bagunça. Tirei algumas fotos dele e enviei para , mas claro que ela não fez questão de responder. Ou talvez só não tivesse tido tempo pra isso. Eu esperava que a segunda opção fosse real.
Eu estava assistindo TV com Apolo no outro canto da sala, na sua cama. Amber e minha mãe estavam na cozinha com Carter resolvendo algo sobre os convites de casamento onde eu fui praticamente expulso e me larguei no sofá com um prato com queijo e duas cervejas.
Era profundamente desesperador assistir coisas sobre futebol antes da temporada começar. As projeções que os especialistas dos programas faziam colocavam muita expectativa em cima de alguns jogadores e times. Eu me sentia confortável quando não estava na mira deles, mas desde que a Nixxie me colocou como a cara de uma campanha foi como se eu tivesse adquirido super habilidades para quase sempre citarem meu nome quando o assunto era os jogadores da defesa. Terrivelmente, eu não estava tão confiante mesmo com os bons palpites.
— Sabe que eu nunca pensei em fazer isso? — Escutei a voz do meu cunhado bem próxima, estiquei meu pescoço para olhar para trás e vi que Carter vinha com uma garrafa de cerveja na mão também. — Meu pai bem que tentou, mas eu nunca levei jeito. — Ele concluiu enquanto se sentava no outro sofá e então eu entendi que estava falando sobre futebol.
— Eu não consigo te imaginar jogando — confessei e Carter riu. Era impossível mesmo, meu cunhado mal assistia aos jogos.
— Quando eu tinha uns cinco anos eu até tinha algum interesse, — contou, pegando alguns pedaços de queijo do meu prato — mas depois minha coisa sempre foi com a arquitetura.
— Mas é assim mesmo, — disse e antes que pudesse completar, escutei Apolo resmungar enquanto me olhava da cama dele — nem todo mundo gosta das mesmas coisas, ou leva jeito pra fazer. — Me levantei do sofá e peguei a garrafa que tinha deixado em cima da mesa — Acho que ele deve estar com fome, vou pegar alguma coisa para ele comer. — Avisei.
Carter continuou no sofá enquanto eu fui em direção à cozinha para pegar o pote de comida do Apolo, Amber e minha mãe estavam cozinhando algo que cheirava muito bem, provavelmente nosso novo amigo faria parte da refeição. Mesmo que não quiséssemos, do tamanho que ele era seria muito fácil roubar qualquer coisa de cima da mesa.
Entrei na cozinha e encontrei alguns convites espalhados na ilha, com nome e endereço para quem seriam enviados por correio, Amber conhecia muitas pessoas que moravam longe de nós. Quando me peguei lendo os nomes e percebi que as duas haviam parado de fazer o que estavam fazendo para me encarar notei que algo estava errado. Ali no quinto ou sexto convite, praticamente escondido. Aquele nome, com o endereço de outro estado.
— Eu não acredito nisso, de verdade. — passei a ponta do dedo em cima do papel com a identificação. A minha vontade era de picar aquele convite em mil pedaços — você vai mesmo convidar ele? — bufei irritado.
, ele é nosso pai. — Amber respondeu me fazendo soltar um riso anasalado. Esfreguei as duas mãos no rosto, suspirando — Eu não posso deixar de convidar, é o meu casamento. — argumentou. Minha mãe estava muda, olhando para o nada. E era isso que me deixava mais irritado.
— Ele é o seu pai — dei enfâse ao "seu", apontando o indicador para ela — não o meu. — Torci a boca, sentindo o bolo se formar em minha garganta. Odiava falar sobre aquilo, odiava chorar por conta de um homem tão ridículo e baixo. — Faz o que você quiser, mas não conte comigo no mesmo lugar que ele. — Dei de ombros e respirei fundo, olhei para o lado e Apolo estava parado na porta observando a cena. Lembrei do que fui fazer lá antes de encontrar aquilo.
— Você não vai no meu casamento só porque eu convidei o nosso pai? — ela questionou elevando seu tom de voz enquanto eu pegava o saco de ração para Apolo.
— Eu já disse que ele não é o meu pai! — Gritei de volta com ela e o nosso cachorro latiu, nós três olhamos para ele.
— Chega vocês dois, por favor. — Minha mãe interviu. — Amber convida quem ela quiser, o casamento é dela, quem está pagando é ela e o Carter. — disse me fazendo explodir por dentro. Incrível como até ela, a mais prejudicada na história, continuava engolindo aquele homem. — Mas eu também não concordo com a ideia, — franzi as sobrancelhas quando ela pareceu baixar a guarda. Então eu não estava completamente errado, não era? — e eu já te falei isso. — Olhou para Amber que não esboçou muita reação. — Só que agora você vai me ajudar a terminar o jantar, — apontou para minha irmã. — e você vai colocar comida para o coitadinho que não para de olhar para a gente sem entender nada.
Usar Apolo como desculpa para encerrar aquela discussão foi a coisa mais sensata que minha mãe resolveu fazer. Eu ainda estava irritado, muito mais do que isso, havia um misto de mágoa, ressentimento e ódio dentro de mim. Toda vez que ele era o assunto isso acontecia. Sempre.
Peguei a vasilha de Apolo e enchi com ração, cogitei roubar um pedaço de carne, mas minha mãe estava muito em cima das panelas para que eu fizesse isso. Mas, ele não pareceu se importar muito, Apolo devorou os grãos de ração em pouco tempo, sem muita seletividade sobre a comida.
Coloquei as coisas na mesa da sala de jantar sob o olhar de Carter que com certeza ouviu a discussão, mas que não tinha voz ativa sobre aquele tópico. Eu nunca ouvi a opinião dele sobre aquilo, afinal, não era o pai dele, mas talvez ele também discordasse.
O clima no jantar não estava dos melhores, Amber me olhava de um jeito péssimo, como se eu fosse o errado. Entretanto, foi meu cunhado fazer um comentário sobre como a comida estava boa e dar um pouco para Apolo para que a situação se amenizasse. Apesar de ter mostrado educação quando falávamos "não", após Carter alimentá-lo com a nossa comida, Apolo estava com as duas patas em cima da mesa, colocando o focinho em tudo. Tive que me levantar, pegar sua vasilha e colocar algo nosso para ele comer, mesmo assim a paz durou por apenas alguns pequenos minutos. Pelo menos ninguém parecia irritado ou incomodado com aquilo, todos pareciam incrivelmente alegres com ele. Amber teve razão quando disse que um cachorro faria bem tanto para a casa quanto para nossa mãe.
Quando todos terminaram de comer, Carter e eu fomos recolhendo as coisas e levando de volta para a cozinha enquanto elas subiram para conversar sobre algo.
— Eu não queria que ela convidasse ele, — meu cunhado soltou. Parei de colocar algumas coisas no lixo e virei minha cabeça para o lado, olhando para ele — eu também presenciei a situação, , sua mãe quase morreu de desgosto. — Finalizou enquanto colocava as sobras da comida dentro da geladeira.
— Finalmente uma opinião sensata. — Ri irônico. — Eu não sei qual é a da Amber com esse homem, sério. — resmunguei ainda completamente transtornado com a situação.
— Sempre foi assim, — Carter disse balançando a cabeça negativamente. — Ela sempre foi a princesinha do papai, acho que esse é o problema, — colocou duas travessas em cima da pia — amor demais faz ela passar por cima de todas essas merdas.
— Às vezes eu acho que ela não consegue parar pra pensar nos outros. — conclui e Carter apenas torceu a boca, balançando a cabeça positivamente.
O silêncio do meu cunhado mostrava que eu não era o único que achava essa história maluca. Carter tinha um bom ponto, Amber sempre foi muito ligada ao seu pai, e conviveu com ele por muito mais tempo do que eu. Uma convivência pacífica, cercada de amor e de coisas que ele fazia por ela. Diferentemente da nossa conturbada relação onde ele sempre cobrou treinamento físico e notas boas na escola para me manter como um jogador exemplar de 12 anos de idade. Entretanto, mesmo com essa diferença eu não fazia muito esforço para tentar entender a minha irmã. Ela estava errada e nada mudaria isso.
Não tocamos mais no assunto, nem em nenhum outro, Carter e eu terminamos de arrumar as coisas da cozinha em silêncio e quando acabamos fui tentar me despedir de Amber, mas ela já estava dormindo no sofá ao lado da minha mãe, com Apolo nos pés delas. Ele já estava bem acomodado em casa. Dei tchau para Carter que ia acordar Amber para que fossem embora e subi para o meu quarto, estava exausto. Me joguei na cama e puxei o celular do carregador em cima da mesa de cabeceira, quando olhei as últimas notificações que estavam na tela até cocei os olhos para me certificar de que não estava dormindo e sonhando com aquilo.
11:17PM Ele gostou da casa, né? Uma gracinha, pode mandar mais coisas dele.
11:17 tinha sido três minutos atrás. levou um pouco mais de 10 horas para me responder e eu já estava pronto para tentar puxar conversa de novo. Automaticamente lembrei da minha irmã falando mais cedo para não incomodá-la, talvez eu estivesse sendo inconveniente, mas se , com toda aquela pose e personalidade forte, ainda não tinha bloqueado meu número talvez não estivesse sendo tão ruim assim.
11:19PM Sabe o que seria mais legal do que receber fotos dele? Ver ele ao vivo. Vamos sair.
Enviei a mensagem e fui tomar banho, estava me sentindo um pouco mais idiota do que deveria ser, eu ainda estava tentando entender de onde surgiu a vontade de insistir tanto em algo que não estava funcionando, pelo menos não por enquanto e eu não deveria estar pensando nisso. Minha cabeça não tinha mais espaço para nada além da faculdade e do draft, já tinha meses que eu mal conseguia manter uma conversa com qualquer pessoa fora do futebol. Essa insistência toda parecia um grande delírio que precisava acabar.
Apesar da minha consciência estar gritando para deixar isso de lado, quando saí do banheiro, fui direto para o celular e, bom, aquele não era meu dia de tomar decisões porque tinha respondido e talvez não fosse a melhor hora para decidir parar.
11:24PM Hahaha você é insistente. Eu não posso de repente sair só com o Apolo? Às vezes você pode deixar ele aqui algumas horas comigo.
11:40PM Aqui o pacote é completo Cooper. Não vou deixar meu cachorro sozinho com você.
Enviei e esperei alguns segundos. A mensagem apareceu como lida, e logo o balão com três pontos que indicavam que ela estava respondendo, também.
11:42PM Você falou em tom pejorativo sobre deixar ele comigo. Achei ridículo. O que eu ganho saindo com você junto? Nada.
11:42PM Sair comigo e com o Apolo. Vantagens: eu e o Apolo. Desvantagens: não tem. Deixa de ser chata.
Talvez eu tenha forçado um pouco mais do que deveria. visualizou a mensagem, mas três minutos haviam se passado e nada de respostas. Algo dentro de mim me fazia querer mandar outra mensagem, mas outro algo também me parava me fazendo constatar que seria burrice cobrar uma resposta dela.
Desisti e abri o navegador de internet, procurando por notícias sobre futebol. Pouco menos de três meses para o início da minha última temporada aquilo era a única coisa que eu conseguia pensar. Entretanto, eu preferia fugir sobre as reportagens que diziam sobre os principais jogadores cotados para o draft. O que mais me enchia a cabeça era ler sobre como os outros times estavam se preparando, afinal, eu teria que enfrentá-los e saber como estava sua preparação era importante também, mesmo que o segredo em torno dessas informações não me deixassem saber de muita coisa. De qualquer forma, não havia nada de útil além de todas as manchetes sobre como Robert Cornwell destruiu sua vida esportiva. Ele era mesmo muito imbecil.
As coisas não estavam fáceis. Eu estava fazendo de tudo para agarrar essa oportunidade, e isso estava acabando comigo. Acabei largando o celular ao lado do meu corpo naquele grande e macio colchão que ainda assim não era capaz de me fazer relaxar. Olhando fixamente para o teto branco do meu quarto me peguei pensando que um dos melhores agentes esportivo havia conversado comigo no início do ano, mas nunca mais me chamou. Eu sabia que Thomaz Füller também cotava Andrew Samuels, Tyler Cooper e Bradin Fallen para agenciar, entretanto, não sabia a que passo andava o trato com esses jogadores. Todos de posições e universidades diferentes. Pensar que talvez Füller tivesse desistido de mim era extremamente desanimador. Ele me visitou na academia várias vezes para checar se eu estava me preparando fisicamente e eu aposto que não errei em nenhuma conversa com ele ao falar sobre futebol. E nos últimos dois meses eu estava dobrando o ritmo de preparação além de estudar como um condenado para manter minha ótima média de um aluno razoavelmente aplicado, não era possível que eu não merecesse aquilo.
Eu estava em completo transe quando meu celular vibrou algumas vezes repetidas e me fez acordar como se alguém estivesse estalando os dedos bem na frente do meu rosto. Peguei o aparelho enroscado nos lençóis e constatei que 15 minutos haviam se passado. 15 minutos de pensamentos de puro desespero. Mas ali estava para aliviar a situação.
12:03AM Você sabe que vão querer te matar se virem nós dois juntos, né? E que eu posso se expulsa da minha família. Eles odiaram saber que eu trabalhei com você na campanha da Nixxie.
12:03AM Eu conheço um parque ótimo em Prumville que o Apolo pode correr à vontade.
12:04AM Prumville? Você tá de brincadeira? Isso fica há quase duas horas daqui.
12:04AM Vamos sair para algum local bem público aqui em Stanmore, o que acha? É a única opção que eu conheço. O Apolo vai adorar.
12:06AM Ok, . Mas já aviso que eu não vou dirigir até lá.
12:06AM Onde eu posso te buscar?
12:07AM Nos encontramos no prédio da Vortex, ok?
12:07AM No próximo domingo?
12:09AM Pode ser. Bem cedo, não posso voltar tarde, segunda eu trabalho.
12:09AM Você não tá brincando comigo, né?
12:09AM Não, . Mas não fica me perguntando muito porque eu talvez mude de opinião
12:10AM Ok, sem mais perguntas.
Foi um prazer conseguir te convencer, Cooper.


#7 - Passado e Presente


Maio.
— Sabe o que eu acho? — questionei de repente enquanto levava a colher ao pote de sorvete mais uma vez, Olivia soltou um murmúrio sinalizando para eu continuar — Tudo isso é uma grande mentira, ninguém tem um romance assim com um jogador de futebol na faculdade, é humanamente impossível. — Coloquei a colher cheia de sorvete de volta na boca, sentindo a massa gelada fazer meus dentes doerem, ela riu da minha observação.
— E eu acho que você ainda não superou seu namoro com o Chad Jones. — Olivia debochou me olhando pelo canto dos olhos.
— É claro que eu não superei, eu vejo Chad toda semana. — disse e minha amiga riu ainda mais para depois me acertar com uma almofada. — Aí! — resmunguei, empurrando-a de volta para ela.
— Você é ridícula, mas não vou te julgar, — Olivia tombou a cabeça para trás, coçando os olhos — se meu ex-namorado tivesse jogando na liga profissional com o reconhecimento que ele tem, eu também não teria superado. — Finalizou com o olhar fixo no teto e as sobrancelhas arqueadas. — Era tão ruim assim?
— Ruim é pouco perto do inferno que nossa relação virou, — ri, completamente conformada. Na época eu queria me trancar no quarto e chorar o ano todo, mas depois eu finalmente tomei consciência do quanto não daria certo — se Robert não tivesse feito o favor de acabar com o joelho dele, você ia ver o quanto esse último ano ia ser infernal para o quarterback titular de Drale. — comentei sentindo tanta pena de Cornwell como não havia sentido nos últimos dias, eu gostaria que ele tivesse que passar por toda aquela rotina conturbada, Robert merecia.
— Meu irmão é burro. — Olivia reclamou, era quase engraçado a forma como ela falava e tratava de algo tão sério como aquela lesão. — E você perdeu, mais uma vez, a chance de casar com um astro da liga profissional. — Ela tirou o sarro me fazendo rir enquanto eu olhava fixamente para a televisão, mas sem prestar atenção no conteúdo que passava.
— Estou fadada a ser a irmã do jogador famoso, e só isso. — Levantei do sofá e puxei o pote de sorvete que já começava a molhar o estofado marrom mais do que o permitido.
— É porque você vai ser a mulher famosa, não precisa de nenhum jogador. — Olivia piscou e esticou o seu pote em minha direção para que o levasse para a cozinha também.
Ela tinha um bom ponto. O tanto de trabalho que a Vortex me exigia se eu não me firmasse como um grande nome no ramo ao menos dentro do estado seria bem preocupante o rumo que minha carreira tomaria.
O sol estava se pondo e a casa com as luzes apagadas ficava escura, coloquei os dois potes de sorvete quase vazios dentro do freezer e fiz meu caminho de volta para a sala. A casa dos Cornwell era quase a mesma de 10 anos atrás, eu conseguia me lembrar bem de quando no auge da minha adolescência conheci Olivia, nós duas éramos as irmãs mais velhas que sempre conseguíamos o que queríamos porque nossos pais estavam estressados demais com as crianças indisciplinadas para nos dar muita atenção. Tyler principalmente, eu nunca cogitei a possibilidade do meu irmão ter metade do foco que ele adquiriu com o passar dos anos.
Quando voltei pra sala, Olivia assistia o filme com atenção. Todo o seu esforço para não se envolver com alguém do time na faculdade porque sempre quis ser a médica deles, talvez tenham feito ela achar graça naqueles tipos de romances clichês.
Quando me dei conta estava olhando o perfil de Chad Jones no Instagram. Eu não tinha o costume de fazer isso, Jones e eu acabamos tão rápido quanto começamos. Sete anos atrás eu só estava na metade do meu curso e ele ia para a sua última temporada, no início do ano o relacionamento ia bem, até meados de fevereiro. Depois disso, Chad precisou começar a pegar mais firme, mesmo faltando seis meses para os jogos começarem de fato. O surto dos jogadores essa época era algo comum, Chad, assim como todos os outros, estabelecia a rotina de estudar, treinar e mais nada. E claro que eu não estava inclusa nessa loucura. Em meados de Maio, surgiu um boato de que ele me traía, mas eu duvidava muito, Chad mal tinha tempo para pensar em fazer isso. A vida dele foi resumida em manter suas notas altas e adquirir o necessário passar nos testes físicos e mentais do pré draft.
Em agosto nós terminamos. Drale teve uma campanha impecável naquele ano, Chad foi o linebacker com melhores números dentre os outros da liga universitária, mas eu estava tão magoada que não quis procurá-lo para dar os parabéns. Apesar da ótima campanha, nós perdemos o Steel Bowl para Stanmore, um placar sofrido de 48 a 45 para eles. E esse jogo foi a última vez em que vi Chad de perto.
Mesmo com toda angústia que eu sentia por não superá-lo, acompanhei ele mostrar suas habilidades para os olheiros da liga profissional e assisti o draft até ele ser escolhido por um dos melhores times profissionais da liga. Chad mereceu tudo aquilo. Na época eu senti meu mundo desabar por não estar vivendo aquilo com ele, mas a verdade era que, Chad não me amava. Ele, no máximo, gostava um pouco de mim. Enxerguei isso porque ele poderia, ao menos, ter me procurado depois do fim daquela loucura. Como se não bastasse lidar com isso, eu ainda tinha que lidar com todos falando para mim que eu poderia estar com o novo linebacker do Westernburn Mustangs.
De qualquer forma, isso tudo tinha ficado para trás. Eu ainda o via toda semana, pela televisão e na época de futebol, mas via. Não sentia mais nada, era como se eu nunca tivesse o conhecido pessoalmente. Ele era linebacker de um dos maiores times do país, daqueles que você gostando ou não iria saber tudo sobre ele, mas todos ao meu redor também fizeram o favor de esquecer desse capítulo da minha vida e da convivência com ele.
Sete anos depois, Chad tinha 800 mil seguidores, alguns músculos a mais e um contrato de cinco anos por 82 milhões de dólares, mais os bônus. Eu realmente preferia esquecer que um dia namorei ele.
O que era mais engraçado era que eu estava na véspera de um encontro com um linebacker que estava no seu último ano e que tinha estatísticas muito boas comparado aos outros. As chances de já estar beirando a loucura com isso eram grandes, logo ele também estaria mostrando suas habilidades para que um time o escolhesse. E tudo isso era a prioridade na vida de todos eles. Talvez eu devesse cancelar nosso encontro que já era uma idiotice, afinal, qualquer um que soubesse que um Wombat estava saindo com uma ex Cougar, irmã do Tyler Cooper, pediria nossas cabeças em uma bandeja.
Entretanto, eu estava disposta a ir nesse encontro. Apesar de querer distância de qualquer jogador que se encontrasse na mesma posição que Chad estava quando terminamos e de qualquer homem mais novo do que eu, o meu último quase namoro batia com todas essas características. Robert estava no último ano da faculdade, era um atleta bem cotado e possuía sete anos a menos que eu. E eu ainda não sabia onde estava com a cabeça quando quis tentar algo com ele, Rob era uma ótima pessoa, um excelente amigo, mas um péssimo companheiro. Ele queria namorar, casar e ter três filhos logo depois do primeiro encontro, mas ele não gostava de mim. Na verdade, Robert não gostava de ninguém além dele mesmo, ele queria alguém para poder viver com ele, mas não que isso fosse um símbolo de amor, companheirismo e fidelidade. E eu pensava o contrário.
Eu não estava com pretensão alguma de cancelar, mesmo com todas essas coisas apitando na minha cabeça sem parar como um alarme disparado.
— Você vai querer jantar o quê? — Olivia questionou assim que o filme acabou.
— Pizza? — Olhei para ela com uma das sobrancelhas arqueadas e ela riu.
— A mesma de sempre? — rebateu enquanto espreguiçava o corpo que estava em repouso havia mais de quatro horas, assistir dois romances clichês seguidos era nosso esporte favorito. Eu balancei a cabeça positivamente. — Meu consciente está gritando para eu cozinhar algo saudável. — riu.
— Que falta sua mãe faz. — disse lamentando a ausência de Ava que foi bem esperta em tirar um final de semana na praia.
— Eu vou ver se tem algo fácil na geladeira, — Olivia se sentou no sofá e soltou um grunhido preguiçoso — eu acho que não, mas não custa tentar. — Deu de ombros.
Liv estava certa se a gente analisasse o fato de que cada uma tomou quase um pote inteiro de sorvete, além das outras besteiras que estávamos comendo desde que decidimos não almoçar nada que fosse preencher nossos estômagos de maneira relevante.
— Nós vamos ter que apelar para a pizza mesmo. — Olivia gritou da cozinha e eu a escutei fechando as portas do armário. Meu corpo reclamou com aquela fala, eu já estava no limite de comidas não saudáveis.
O celular apoiado em minha coxa vibrou e àquela hora eu até suspeitava de quem fosse.
6:37PM Posso mesmo ir para Rochdale te encontrar ou você vai me dar o bolo?
Ri com a mensagem. Eu, com quase 30 anos nas costas, por acaso tinha cara de quem marcava de sair e não ia?
— Rindo para o celular, ? — Ouvi a voz da minha melhor amiga soar e quase pulei de susto. Ela me lançava um olhar suspeito, com a expressão divertida.
— Era besteira, mas meu feed atualizou e eu perdi o vídeo. — Dei de ombros, eu mentia muito espontaneamente.
— Eu vou pedir a pizza, okay? — disse já com o telefone em mãos.
— Robert vem jantar? — questionei porque diferentemente de sempre, Olivia não tinha dito uma só palavra sobre o irmão que não deveria nem estar fora de casa, já que seu joelho estava estourado e ele ainda não havia feito o procedimento cirúrgico.
— Não vem. — respondeu simples — Por que?
— Porque se viesse eu ia dizer para você pedir duas pizzas. — expliquei e ela balançou a cabeça positivamente sem dizer mais nada. Eu não ia perguntar onde ele estava, mesmo que eu quisesse saber.
6:39PM É claro que pode. Aliás, se você não for, a gente não sai. Já te disse que não vou dirigir até lá.
6:40PM Viu a mensagem e demorou pra responder, achei que tinha desistido.
6:40PM Que insegurança é essa, ? Eu só não respondi porque estava ocupada.
6:41PM Posso te fazer uma pergunta?
6:41PM Desde que não seja sobre o livro de jogadas de Drale, tudo bem.
6:42PM Você e o quarterback mais burro do mundo ainda tem alguma coisa?
Olhei para aquela mensagem e ao mesmo tempo que achei engraçado como se referiu a Robert, também senti um leve incômodo. Talvez se ele fosse do nosso círculo de amigos eu não me sentiria mal com aquilo, até porque Olivia não cansava de insultá-lo pelo acontecido, e com Tyler isso também já tinha virado piada. Mesmo assim, eram piadas de péssimo gosto. Robert deveria estar arrasado e mesmo achando graça de todas aquelas piadas eu tinha certeza de que aquilo tudo era um grande fingimento, e que ele nem de longe se sentia confortável com a situação.
6:46PM Não temos.
Foi a única coisa que eu respondi e também não disse mais nada, talvez tivesse percebido o tom que quis usar. Meu humor havia se transformado de tal forma com uma única mensagem que eu não sabia explicar, mas ainda estava animada para vê-lo no outro dia se ele conseguisse ficar sem falar mais nada idiota.
Olivia pediu nosso jantar e demorou um tempo razoável para chegar, enquanto isso não acontecia, permanecemos uma em cada sofá, mexendo em nossos celulares com o barulho da televisão de fundo.
Eu não costumava trabalhar aos finais de semana, mas desde que Charlotte contou que estava doente, vez ou outra aos sábados e domingos eu acabava acessando a nuvem com os arquivos da nova coleção para ver se havia algo que eu pudesse adiantar e, como sempre, não havia nada a ser feito fora da Vortex. Eu não recebi nenhuma outra atualização sobre sua situação e isso me deixava com receio em relação aos próximos acontecimentos. A única coisa que eu sabia era que Charlotte não deixaria de fazer nada até que ela ficasse completamente impossibilitada.
Segui meu lema de não trabalhar fora do escritório e deixei as coisas da Vortex de lado, até porque nossa pizza tinha chegado e eu estava com bastante fome.
— Que horas você vai precisar ir amanhã? — Olivia questionou enquanto pegava pratos dentro do armário.
— Bem cedo, tipo umas oito. — disse ajudando a pegar os utensílios que estavam em cima da mesa para levá-los para a sala. — Por que? — rebati a pergunta notando um interesse descomunal por parte de Olivia, ela já havia me dado indiretas o dia todo sobre horários.
— Nada, — deu de ombros — é que acho que vou precisar sair amanhã, mas ainda não tenho certeza. — completou.
— Eu posso não dormir aqui. — sugeri quando chegamos ao outro cômodo, Olivia estava tirando as coisas da mesa de centro enquanto eu segurava o que íamos pôr em cima.
— Imagina, , não tem problema algum. — respondeu firme me dando um sorriso fraco.
— O que você vai fazer? — perguntei e não me sentia nem um pouco intrometida, não havia muitos segredos entre nós duas, a menos que uma das duas estivesse saindo com alguém de Stanmore, aí sim seria um segredo, mas o jeito que Olivia me olhou não foi muito convidativo. — Você tem um date? — insisti e ela soltou uma gargalhada, tomando a caixa de pizza da minha mão.
— Você acha que eu tenho tempo pra isso? — Ela balançou a cabeça negativamente — Eu vou resolver algumas coisas para o Robert. — contou e em reflexo levantei minhas duas sobrancelhas percebendo que ele ainda não havia operado e que provavelmente teriam muito trabalho com tudo isso.
Olivia e eu comemos praticamente em silêncio, depois de tantos anos de convivência nós já não tínhamos assunto em 100% do tempo. De qualquer forma, o tanto de coisas que estavam na minha cabeça criavam nós nos meus pensamentos e nem tudo podia ser compartilhado, assim como eu também imaginava que Olivia deveria estar ficando louca para cuidar do bem estar do seu irmão ao mesmo tempo que estava tendo uma oportunidade única de fazer parte da comissão de médicos do time da universidade.
Quando ficamos satisfeitas com as fatias cheias de calorias, levamos as coisas para a cozinha e enquanto eu lavava a louça, Olivia organizava a bagunça que tínhamos feito na sala. Assim que terminamos nossas tarefas e com mais ninguém na casa além de nós duas, fomos para o quarto da Olivia, revezamos o banheiro para tomarmos banho e na vez dela eu aproveitei para confirmar o horário que me buscaria e para conferir se não tinha esquecido em casa nada que ia precisar. Com tudo certo, só terminei de arrumar minhas coisas para dormir e nos deitamos, eu precisava de pelo menos seis horas de sono caso contrário não havia a menor possibilidade daquele encontro acontecer.
xxx

Quando o despertador tocou e eu abri os olhos, senti minha cabeça latejar no mesmo instante. Tratei de desligar o som irritante e contínuo rapidamente antes que Olivia acordasse, já que olhei para o lado e a mesma dormia como uma pedra, sem parecer se abalar com os poucos segundos de barulho.
Me sentei na cama e parei para refletir, eu realmente ia fazer aquilo? Parecia bem absurdo, mas ao mesmo tempo eu não achava que tinha mais idade para surtar com um encontro só porque meu pai e irmão eram torcedores fanáticos que, com certeza, iriam querer me deserdar por conta disso. É, eu realmente já era bem grandinha para tomar minhas próprias decisões e escolher com quem eu saía ou não. Vez ou outra eu me preocupei com , mas ele também já deveria saber muito bem o que fazia naquela altura do campeonato.
Olhei no celular, mas ele ainda não tinha dado sinal de vida, talvez porque ainda estivesse muito cedo, eu adiantada e ele dormindo. De qualquer forma, precisava começar a me arrumar, então peguei minhas coisas da maneira mais silenciosa possível, mesmo que Olivia não esboçasse nenhum desconforto com o barulho e fui para o banheiro.
Tranquei a porta para poder tomar banho e escutei alguma movimentação do lado de fora, cogitei ser Robert, já que sua irmã dormia tanto que não era possível ela já estar de pé, perambulando pelo corredor. Além disso, quando passei em frente ao quarto de Robert a porta estava fechada, diferentemente da hora de quando fomos dormir, ele provavelmente havia chegado na madrugada.
Eu não sabia o quanto ele estava com dificuldades e dores em relação ao joelho, porque não conversávamos já havia um bom tempo, mas talvez se eu estivesse no lugar dele também estaria saindo e fazendo várias coisas que a posição de quarterback em Drale me impossibilitaria de fazer. Eles tinham muitas restrições na vida fora da universidade e aquilo deveria ser uma grande chatice. Robert, com certeza, faria muitas coisas para esquecer o fato de que ele não estaria elegível para o draft justo no seu último ano.
Terminei de tomar banho bem na hora que meu celular vibrou algumas vezes em cima da pia.
7:34AM Bom dia, gatinha. O Apolo já tá esperando
Ri com aquela mensagem, era ridículo pensar que usei o cachorro como pretexto para sair com alguém que eu senti atração desde a primeira vez que vi. Literalmente desde a primeira vez, era aquele jogador bom que ganhava um pouco mais de destaque pela figura masculina que era e deixava todas babando em cima dele. Eu via sua cara com bastante frequência, e ele não era o único Wombat super bonito, mas jamais poderia admitir isso.
7:35AM Que fofinho! Já estou me arrumando para encontrar com ele. Até mais tarde.
Apoiei minha bolsa de maquiagens em cima da tampa do vaso sanitário e comecei a retirar de dentro tudo que precisaria para então espalhar tudo aquilo na pia.
Desde que comecei a trabalhar na Vortex a obsessão por andar sempre muito arrumada tomou conta de mim, mas às vezes eu só precisava respirar e notar que nem todos os lugares exigiam tanta produção como as que eu estava acostumada. Um parque no interior de Drale com certeza era um desses lugares.
Reduzi pela metade os cosméticos e maquiagens, deixando o que me possibilitava fazer o básico. Óbvio que isso também me fez diminuir pela metade o tempo que eu havia calculado para ficar pronta. Me livrei do pijama que coloquei novamente após o banho e vesti a roupa confortável que havia separado para usar, Drale era um estado com temperaturas mais altas do que os outros, nosso inverno era um pouco menos rigoroso do que o de outros estados e o verão quente como o inferno, com a chegada da estação os dias já eram quentes o suficiente para camisetas simples, de tecido leve e shorts jeans. A sensação de usar um tênis confortável ao invés do habitual salto alto era libertadora, e meus pés agradeciam.
Juntei todas as minhas coisas e me certifiquei de que não havia deixado nenhum rastro de sujeira na pia nem no chão, quando coloquei a mão na maçaneta dourada para abrir a porta, ouvi batidas contra a madeira. Abri no mesmo instante me deparando com uma figura feminina completamente desconhecida. Ela usava um baby doll preto de seda, tinha cabelos castanhos ondulados até a altura da cintura, o corpo bronzeado exibia bem uma marca de biquíni, e me olhava com aquele par de olhos verdes de maneira não muito amigável.
— Robert não tinha dito que você estava aqui. — Ela sorriu sem graça e eu automaticamente franzi o cenho.
— Desculpa, eu te conheço? — questionei sem querer parecer grossa, mas meu tom de voz talvez tenha soado um pouco ríspido, afinal, eu costumava falar assim com quem tinha esse ar de superioridade.
— Provavelmente não, meu nome é Riley, — dessa vez ela sorriu mostrando bem a fileira de dentes super brancos que mais pareciam ter lentes de contato. Aliás, ela inteira parecia uma boneca sem defeitos — e você é a , irmã do Tyler, certo? — Riley me deu uma olhada dos pés à cabeça, ainda com aquele sorrisinho irritante. Era difícil ser anos mais velha, uma designer bem sucedida para a minha idade e ainda ser reconhecida como a irmã de alguém.
— Sim, sou eu. — respondi ainda com o cenho levemente franzido. — Acho que você quer usar o banheiro, não é, Riley? — tentei sorrir simpática e fiz menção de sair de frente da porta, ela abriu caminho.
— Obrigada. — Ela entrou assim que eu saí, batendo a porta com mais força que o necessário.
Olhei na direção do banheiro sem entender o que tinha acabado de acontecer e dois metros à frente estava Robert escorado no batente da porta. O encarei por alguns segundos sem saber o que dizer, ele sorriu minimamente e eu tentei fazer o mesmo, mas estava incomodada com algo.
— Bom dia, Robert. — disse quando passei por ele, sem esperar resposta e entrei novamente no quarto da Olivia.
Encontrei minha amiga sentada na cama com cara de quem havia acabado de acordar. Eu não queria criar uma situação àquela hora da manhã, mas não aguentava ficar calada.
— Foi por isso que o Robert sumiu? — questionei levemente irritada.
— A Riley? — Olivia rebateu me olhando com cara de peixe morto.
— Sim, — respondi pegando minha mochila do chão para guardar as coisas que usei — ela disse que o Robert não disse que eu estava aqui. — Dei risada achando a situação bem cômica de verdade, soquei minhas coisas dentro da mochila com a mesma irritação que senti com a situação na porta do banheiro.
— Eu não sei de onde ela veio e nem o que eles têm. — Olivia deu de ombros e calçou seu chinelo para levantar da cama — Ela é bem esquisita. — Veio até mim e parou para me encarar séria. — Eu não queria que vocês se encontrassem, por isso que ontem estava meio preocupada com o horário — explicou e tudo fez sentido, me fazendo ficar mais irritada ainda.
— Tudo bem, — fingi a não indignação que sentia e fechei o zíper da minha mochila — eu já estou indo, nos falamos depois. — Beijei sua bochecha e dei as costas vendo de relance Olivia apenas acenar na minha direção.
Sai da casa dos Cornwell e não encontrei com Robert no caminho, muito menos com Riley. Olivia sabia que eu estava nervosa com aquilo, mas quem não ficaria? Robert e eu já éramos algo completamente superado, mas da última vez que nos falamos isso não ficou subentendido, aliás, ele tinha quase implorado para que continuássemos juntos e depois simplesmente sumiu. A minha sorte era que eu tinha conseguido passar rapidamente por cima disso, o meu histórico de ser abandonada por jogadores universitários era incrível, mesmo eu já tendo saído dela há seis anos. O que me deixava mais irritada com isso tudo era que Olivia, minha melhor amiga, aparentemente sabia de tudo e não me falou nada. Respirei fundo e decidi esquecer essa história, eu nem queria mais estar com Robert, não havia motivos para ficar abalada. Afastei a confusão mental e peguei meu celular para avisar que estava indo para Rochdale encontrá-lo.
Em alguns minutos eu estaria com e eu passei a cogitar desistir disso.




Continua...



Nota da autora: Olá! Dessa vez eu não demorei tanto e perdoem se vocês já queriam ler o encontro nesse capítulo, mas ia ficar super extenso e eu preferi dedicar um só para ele hahaha. Eu tinha que mostrar essas coisas da pp sobre o passado dela com um linebacker e agora também a nova namoradinha do Robert, quero saber o que vocês acharam dos dois! Não esqueçam de comentar, é super importante pra mim ❤




Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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