Until 15th February
Última atualização: 28/09/2018

Prólogo

Claire Blanchard estava muito perto de conseguir o que queria.
Se encarava no espelho naquele momento ínfimo. A saia justa e preta, que parava nos joelhos, a camisa social cinza. O cabelo cacheado e volumoso, esboçando vida ao seu rosto pétreo. Um olhar de determinação em seus olhos âmbar.
O seu momento havia chegado.
Em cinco minutos apresentaria a sua tese em um dos programas de TV mais assistidos nos Estados Unidos. Falaria sobre os seus estudos, sobre o tempo de validade… e sobre e . Ela estava orgulhosa de si mesma. E de tudo o que conquistara. Lembrou-se de cada palavra amarga de seus colegas e conhecidos. “Um absurdo, uma doença! Psicótico…” e se deliciou com o seu triunfo suplantando-as.
Agora sua tese era moderna, eficaz e estava na moda. Ninguém poderia negar tal sucesso.
O celular vibrou em cima da mesa do camarim e, por um instante, Claire cogitou não olhar a mensagem. Mas a curiosidade foi mais forte e ela viu a pop up na tela de bloqueio.
Era exatamente quem ela esperava que fosse. Um resquício de fracasso do seu plano. Algo que teimava em tirá-la de seu estupor de sucesso.
.
“Você não pode tirá-la de mim por mais tempo. Diga quem ela é! É o mínimo que você pode fazer.”
Ele queria de volta.


Capítulo 01 - Pequenos Passos

Cancun, 07 de Janeiro de 2016.
O nome dela não era . Nem o dele era . Mas era assim que eles chamariam um pelo outro a partir daquele dia.
Por alguns míseros dólares.
No entanto aquele dinheiro faria muito mais diferença na vida de do que na de . Ela precisava desesperadamente do dinheiro.
não estava ali por dinheiro. Na verdade estava, mas não precisava dele. Ele já tinha muito. A ideia do “dinheiro fácil” era o que lhe atraía. Quem, naqueles dias, pagaria para que ele saísse com uma garota bonita? Durante um mês? Era como se alguém estivesse pagando para ele transar. E essa ideia não era nada mal para um cara de vinte e dois, em busca de diversão em Cancun.
O que era satisfatório para , era angustiante para . Ela sabia como os homens pensavam e sabia que mantinha este pensamento, no início de tudo. Ela sentia como se estivesse vendendo o seu corpo, por mais que a Senhorita Blanchard dissesse que não.
“Você não precisa dormir com ele, ”, era o que ela disse nas primeiras discussões.
Mas sabia que não era bem assim que as coisas funcionavam.
Então ela estava ali, caminhando na Playa del Carmen, pensando em sua mãe e em . Os dois precisavam dela. Principalmente sua mãe.
Tentou ajeitar o vestido barato que comprou na barraca de Dona Consuela, ainda na Cidade do México, e encarou as sapatilhas gastas. Enrolou um fio de seu cabelo castanho e emaranhado nos dedos… Estava tão seco. Ela deveria parecer bonita naquele dia.
Levantou os olhos para a orla da praia e viu um garoto alto, de traços orientais e roupas pesadas demais para um dia de praia caminhando para perto de si. Olhou para a foto no celular trincado e reconheceu. O coração parou por breves instantes e ela engoliu em seco.
Aquele rapaz era o tal .
Era .
Ele se aproximou com um sorriso tímido e chegou mais perto. Então hesitou em uma meia reverência, sem saber o que fazer.
“Ah… ?”
Ela assentiu, nervosa e ofereceu a mão para cumprimenta-lo, também hesitante. Não sabia de onde ele era, nem como cumprimentava. Também não sabia como cumprimentar, diante a situação de ambos. Será que deveriam se abraçar? Será que já deveriam se beijar? A ideia deu um leve enjoo em . Não pela aparência do rapaz, já que ela dera a sorte dele ser bem bonito. Mas o enjoo era pelo fato de ter que beijar uma pessoa que não sabia sequer o verdadeiro nome.
Por sorte, ele se limitou a um aperto de mãos.
“Eu sou o … Prazer! Você… é ainda mais bonita pessoalmente.”
Um gaguejar final na afirmação de , fez pensar que ele poderia estar tão nervoso quanto ela.
O pensamento fez nascer-lhe um sorriso.
“O-obrigada. Você também.”
Ele sorriu e seus olhos praticamente sumiram em meias luas. Uma das batidas de seu coração retiniu contra o peito de uma forma diferente diante ao sorriso do garoto desconhecido e temeu por isto.
Me parece perigoso.
“Então… O que vamos fazer hoje, ? Me desculpe, mas eu… estou completamente perdido! Não faço ideia de por onde começar…”
Ele esfregou as mãos no jeans claro, com uma alternação de expressões estranhas no rosto. engoliu em seco, se perguntando se não entrou numa grande enrascada. Ele poderia ser um louco incoerente ou simplesmente um psicopata. Ela forçou um sorriso e olhou ao redor.
“Bem, eu não gosto tanto de praia assim… Podíamos só conversar hoje, sabe… Nos conhecer, na medida do possível.”, olhou para os pés e franziu o cenho.
“Ah… Mas… Como? Nós não podemos.... Falar sobre nós!”, esfregou as mãos de novo.
olhou em volta. Para qualquer coisa que não fosse o garoto estranho.
“A gente pode… Inventar algumas coisas. Acho que qualquer coisa vale. O que importa é vermos como nos comunicamos. Como interagimos e tudo mais. Acho que é melhor que nada”, ela deu de ombros.
assentiu e fez um gesto com a cabeça para que ele a acompanhasse.
Ela sentiu-se grata por ele não segurar em sua mão.

***

Estavam sentados em uma mesa externa de uma lanchonete barata. Ele tinha um copo de suco de toranja nas mãos e tacos num prato de plástico. pedira praticamente o mesmo, porém seu suco era de uva. Ela amava suco de uva.
Ponderou que isto era uma das coisas que poderia contar para ele.
“Então, … Você é daqui mesmo? Cancun?”
“Ah… sim…”
Falso. Ela era da Cidade do México.
“E você, de onde é?”, ela perguntou.
“Hong Kong”, a falta de hesitação na resposta a fez pensar que talvez ele falasse a verdade. “Quantos anos você tem?”
“Dezenove”.
Verdadeiro, mas ela não sabia o porquê.
“Vinte e dois. Faz o que da vida?”
Ela riu, com um desdém irritante demais para o seu próprio gosto e segurou no copo úmido pelo líquido gelado.
“Acho que os direitos de interrogatórios sempre pertencem a garota.”
Ele piscou algumas vezes e riu nervoso. Novamente os olhos em meia lua. Deu um gole no suco e soluçou antes de replicar.
“Me preocupo em saber sobre as pessoas com quem me relaciono.”, ele disse de maneira simplória.
quis morrer com o quão sarcástica soou essa afirmação. pareceu notar seu desconforto e disfarçou com um pigarro.
“Pode perguntar o que quiser também.”, disse, com a voz intrínseca.
riu para tentar quebrar a densidade gradativa daquele ar.
“Eu trabalho com tudo um pouco. Já fui motogirl, auxiliar de almoxarifado, até vendedora de rua… Isso te incomoda?”
Ele riu. Todas as respostas verdadeiras.
“Não… eu já fui muitas coisas também. Atualmente sou… Um mísero estagiário. No entanto, feliz.”
assentiu e deu um meio sorriso.
“Sabe que não podemos passar as informações verdadeiras, certo?”
Ele também sorriu, se inclinando mais sobre a mesa.
“Quem disse que as informações são, de fato, reais?”
“Sua falta de hesitação.”, ela concluiu.
“Talvez eu apenas seja um bom mentiroso”, ele arqueou as sobrancelhas, com um sorriso travesso, diferente dos primeiros, sinceros.
tentou imitá-lo, mas teve certeza de que não passara de uma expressão de dor de barriga ou disenteria.
“Então, se é um mísero estagiário, está nessa por causa do dinheiro?”
“Não”, ele respondeu, simplório, dando um gole no suco.
suspirou, mas decidiu deixar as palavras pularem de seus lábios.
“Espero que não esteja nisso pelo sexo.”
Ele tossiu, deixando todo o suco que engolira entrar pelas narinas.
“O quê?”, perguntou com a voz subindo três oitavas.
suspirou, ajeitando-se na cadeira e aproveitando de sua recente e efêmera coragem.
“Eu… só queria deixar claro que… não vou… dormir com você.”
piscou pelo menos dez vezes, com a boca entreaberta, chocado com o rumo que a conversa tomou. Esperava que uma hora tocassem neste assunto. Só não sabia que seria tão cedo.
Nem de forma tão negativa.
“Você quer dizer tipo… Nunca… Nunca?”, ele sussurrou.
“Sinto muito. Não quero que você tenha uma ideia ruim de mim. Se… quiser reclamar com a senhorita Blanchard, fique à vontade, mas não estou nesta por isso.”
Só então notou o rubor crescendo desde o pescoço até as maçãs do rosto de , por sua pele leitosa. Notou também o calor em si mesma, e supôs que estava ruborizando também.
“Por mim… Tudo bem.”, ele finalizou sem graça.
Uma garçonete se aproximou da mesa e perguntou, em espanhol, se eles iriam querer algo mais. No entanto, encerrou a refeição, jogando uma pilha exagerada de pesos mexicanos na caderneta negra. arregalou os olhos e percebeu que, talvez, não fizesse ideia do quanto de gorjeta acabara de dar àquela mulher. E antes que a espertinha pudesse se aproveitar da ignorância do estrangeiro, tirou mais da metade das notas e encaixou nas mãos quentes e levemente suadas de .
Um toque tão simples quanto uma brisa antes de uma tempestade. Um brisa antes de uma tempestade… é uma forma mais do que adequada para definir aquele momento do relacionamento deles.
E pressentiu isto, por mais que tentasse negar ela sentiu e temeu no mais profundo de sua alma os inevitáveis sentimentos por aquele estranho de olhos negros e intensos.
Como tinha um coração inocente, na maioria das vezes, se deixava levar. Sempre foi como uma pessoa de imunidade fraca, muito suscetível a qualquer doença. Ela sabia de suas fraquezas e seus temores. E o maior deles era este… Não era o medo dele ser psicopata, ou de obrigá-la a fazer algo que não queria.
O maior medo era que ela realmente se apaixonasse por aquele garoto.
Então, assim que a garçonete saiu com a cara feia, por perder a bagatela que iria ganhar, decidiu dissipar a névoa efêmera dos seus temores e sentimentos e decidiu se tornar a pior inimiga de .
Não que ela de fato atrapalharia o relacionamento deles ou seria extremamente chata. Mas ela torceria por dentro para que ele fosse um otário, ou um fracassado – ainda mais do que ela mesma – e que fosse detestável. Ou que simplesmente não houvesse química entre eles, ou uma mínima atração sequer. Assim seria muito mais fácil não se apaixonar por ele e sair ilesa disto tudo.
Por sorte, logo depois do almoço, a última conversa o fizera desistir de terminar o dia com ela.
“Nos vemos amanhã, na praia. Vou escolher alguma coisa legal para fazermos.”, ele disse, com a voz desanimada.
“Certo.”, ela assentiu.
E se despediram com um simples aceno.
Ao avistar a silhueta distante de , após alguns minutos, suspirou e sorriu.
O primeiro dia havia sido horrível. Agora era torcer para que os demais fossem também. Assim seria muito mais fácil receber o dinheiro e suplantar qualquer chance de sentimento idiota.
Tinha de ser assim.


Capítulo 02

Cancun, 08 de janeiro de 2016
Ele tinha que pensar em algo.
Algo melhor, algo que valesse a pena e compensasse a cara de idiota que fizera no dia anterior.
Como se algo pudesse compensar aquilo, pensou.
Esfregou as têmporas ainda envolto do suave lençol de seda branca, que lhe dava a sensação de dormir nas nuvens. Então pensou em desistir de tudo. Não esperava que aquilo fosse chegar onde chegou em apenas um dia: a garota bonita negando qualquer toque físico. No entanto, sabia que já havia assinado um contrato e receberia um maldito processo se ele fosse quebrado. Tinha que ficar com aquela menina até dia 15 do mês seguinte.
Pensar em como ele estava desmotivado o fez arder de culpa também. “Não vou dormir com você”. Ele era um animal ou o quê? Se deixar desanimar apenas por causa de sexo? Ou da ausência dele, no caso? Mas a quem ele queria enganar... era por causa dele que ele tinha topado. Seria divertido. Supriria algumas carências e tornaria a viagem mais interessante, por assim dizer.
E eram patéticas essas conclusões.
Irritado, chutou os lençóis e se levantou da cama. Caminhou até a sacada, sentindo uma mistura de sol da manhã e brisa marítima bater em seus braços nus. Suspirou e começou a separar cada pensamento desconexo na mente, em caixas separadas.
Ele continuaria.
Ele venceria.
Seria como um jogo. O jogo seria fazer feliz até dia 15 de fevereiro. Ele conseguiria. Porque nunca aceitou a suposta sina de derrotado.
Desde pequeno, ele colocara metas para si mesmo. Cada palavra negativa fazia sua motivação alcançar voo e só parava quando conseguia o que queria. só aceitava vitórias. Então ele venceria esse jogo também.
Determinado, foi correndo até o chuveiro, mas não antes de mandar uma mensagem a garota, no chip que ambos usavam exclusivamente um para o outro.

[]: Na orla. Às 11h. Serei melhor.

Animado, ele se vestiu e partiu para encontrá-la.
Já tinha a ideia perfeita.

***


usava o mesmo vestido da noite anterior. Os mesmos sapatos gastos, o mesmo cabelo seco e ondulado, quase crespo caindo sobre os ombros bronzeados. De uma forma quase maldosa, imaginou se ela teria tomado banho de um dia para o outro. Mas o aroma de sândalo que ela tinha desmentiu suas teorias quase no mesmo instante que se aproximou.
olhava para o mar, sentada em um muro de pedras num canto remoto da orla. se sentou ao seu lado, sem cerimônia alguma. Sem sequer um olá.
se sobressaltou a princípio, mas logo voltou a ficar estática. Com os olhos âmbar focados no mar.
“Me desculpe por ontem.”
“Desculpar? Pelo quê?”, ela questionou, sem olhar para ele. Sem alterar o tom da voz.
“Por... ter fugido?”, ele hesitou, olhando para os rasgos artísticos do próprio jeans.
Ela riu consigo mesma e passeou os dedos nas dobras do vestido amarrotado.
“Eu sabia que você ia fugir. Negue sexo a um homem que ele foge na hora. Todos são assim.”
“Olhe, eu não sou qualquer homem.”, ele se defendeu, porém suas palavras saíram tão balbuciadas que pareceu que ele mesmo não acreditava nelas.
“Não disse isso. Só disse o que eu vi.”
Garota difícil, ele pensou. Difícil e irritante. Não vai ser nada fácil.
“Bom, eu vou te provar o contrário então.”
“Faremos um jogo dentro de um jogo?”
Ele meneou a cabeça, encarando os cabelos dela.
“Como assim?”
“O jogo que você me prova que é um príncipe encantado dentro do jogo de ter um relacionamento perfeito em um tempo limitado.”
Logaritmos e fórmulas químicas fariam mais sentido a do que aquelas palavras de .
“C-como assim?”
“Esquece”, ela finalizou. “Só... me diga o que você tem em mente.”
Um sorriso nasceu, mas não chegou aos seus olhos negros. Foi tímido, e impreciso.
“Estava pensando em colocarmos nosso relacionamento em uma espécie de cronograma”, por fim, expôs sua ideia.
“Cronograma? Como assim?”
“Bom, temos um tempo muito curto para viver todas as etapas de um relacionamento comum. Primeiro, os casais se conhecem. Encontros. Depois, se percebem que têm coisas em comum, partem para o namoro. Uma coisa idiota acontece e eles terminam. Em tese, é o ciclo de vida do relacionamento.”
“Uau...”, ela arquejou. “Você estudou bastante do material da senhorita Blanchard.”
“É... eu tinha que saber onde eu estava me metendo.”
“E já se arrependeu da escolha?”, ela o desafiou.
Ele estalou a língua.
“Hum... não. Ainda não. E o mais legal disso é que podemos evitar toda a parte chata e dolorosa de brigas e término. Apenas paramos.”
“Não era esse o combinado desde o início?”, ela questionou, cética.
“Sim. Mas eu preciso falar as coisas em voz alta e montar planos pra conseguir raciocinar direito.”
“Não me parece algo muito inteligente.”
Garota petulante.
Ele suspirou, tentando suplantar uma faísca de irritação que nascia de seu peito. Ela definitivamente era mais que difícil.
“Posso explicar o cronograma ou vai continuar me chamando de burro?”, ele perguntou, surpreendendo a si mesmo com a calma de sua voz.
Ela bocejou e coçou a cabeça.
“Claro. Vá em frente.”
“Certo.”, tentou organizar os pensamentos, para não parecer ainda mais idiota para a garota. “Bom, vamos começar com os encontros. Até mais ou menos dia dezessete deste mês. Depois namoramos. Ficamos bem próximos... todos os dias.”
“Sem sexo.”
“Eu...”, ele respirou fundo, tentando não perder de uma vez a paciência. “Eu já entendi muito bem essa parte. Posso continuar, por favor?”, perguntou entredentes.
Ela assentiu, um pouco ruborizada e ele quase se sentiu culpado pelo recente pico de estresse. Quase.
“Ficamos próximos”, retomou. “Andamos juntos, fazemos tolices de namorado... Depois nos distanciamos aos poucos e terminamos. Tudo bem pra você?”
Ela olhou para a areia, que inconvenientemente entrava pelos furinhos de suas sapatilhas. Os cabelos caindo sobre o rosto e deixando desconfortável. Não dava para dizer se ela estava pensativa, distraída ou triste. E veio um desejo profundo de querer tentar compreender o que se passava na cabeça dela.
Ele pigarreou, encorajando-a a responder.
“Ok. Feito”, por fim disse, com uma voz mecânica.
Ela se levantou, desamarrotando o vestido com os dedos. a imitou, tirando um pouco da areia do muro das pernas e dos bolsos traseiros.
“Certo, o que tem planejado pra hoje... a-amor?”
As últimas palavras saíram gaguejadas. Porém mais convictas do que deviam parecer.
Novamente, se viu intrigado.
No início de tudo, ele tinha a convicção de que Claire Blanchard deveria ser, nesta equação, a pessoa indecifrável e intrigante. Porque, o que levaria uma pessoa a usar desconhecidos para provar que relacionamentos eternos são mentirosos? Mas, com apenas dois dias de convivência, ele concluiu que era o verdadeiro mistério da natureza.
Amor?
Uma ótima oportunidade de desafiá-la também. Assim como ela vem fazendo.
“Ah... acho que você não deveria me chamar assim.”, ele disse, com um meio sorriso esperto.
“Por que não? Não somos namorados?”, ela perguntou, inocente. Completamente diferente da garota que o questionava há pouco.
“Ainda não. Estamos saindo. Se ainda quiser me chamar de amor, espere os encontros terminarem.”
Ela estreitou os olhos para ele e riu, voltando a caminhar.
“Ok, chefe. Para onde vamos?”
E o desdém voltou.

***

tinha pouca experiência. Mas já podia destacar algumas diferenças entre e os dois únicos garotos que já saira. Podia distinguir ele até mesmo dos encontros das amigas do bairro.
Primeiro: sequer encostava nela.
Ela chegou a se perguntar se ele estava assim por causa de suas condições impostas antes ou se simplesmente era assim, por causa de algum aspecto cultural.
Quando Alexandro e José saíram com ela, eram só abraços, isso se citar apenas casos românticos. Em seu dia-a-dia, abraçava várias pessoas, que não precisavam ser tão chegadas assim. Então o fato de sequer tocá-la era no mínimo estranho. Mas também era bom. Poupava desconfortos.
Segundo: apesar de não tocá-la, ele demonstrava alguns gestos simplórios de cavalheirismo como pagar o cinema para ela, deixar que ela passasse por todas as portas que eles cruzavam primeiro e até oferecer o casaco, como se ambos residissem em um filme romântico de época.
Mas nenhuma dessas vantagens fizeram com que o encontro ficasse menos terrível do que foi.
O filme era péssimo. Parecia muito mais um pornô de quinta do que um filme de terror, de fato. Fora o excesso astronômico de sangue. As vezes dava a impressão de que até mesmo as paredes sangravam naquele filme. não sabia se ria, chorava ou corava com as cenas exageradas do tal “A Seita Profana”.
As caras que fazia também lhe indicavam que ele não estava gostando nem um pouco do filme que escolhera.
Assim que a desgraça cinematográfica acabou, enquanto eles andavam em silêncio pelas ruas já escuras do paraíso tropical, sussurrou:
“Pelo menos o ator principal era bom.”
E era mesmo. A única coisa que, de fato, salvava aquele filme. Mas não queria olhar os pontos positivos. Nem daria aquela risada fofa que as garotas do filme davam, a fim de melhorar o clima de alguma coisa ruim.
Ela não podia facilitar para ele. Então decidiu não falar nada. E continuaram caminhando em silêncio, e ficou satisfeita com isto. Porque até àquele momento, o encontro estava terrível. Mais um dia em que as coisas estavam dando errado significa mais um dia livre de uma eminente dor lancinante no coração. Porém, ao ver que nada poderia salvar o péssimo encontro, sentiu o frescor do alívio em seus ossos.
Dia dois, ok.
Ela imaginou então que talvez eles não tivessem mesmo química. Não sentia nada, de fato. Talvez os dias recorrentes seguissem assim. Sem química. Sem aproximação. Mais de trinta dias de encontros ruins. E seria fácil.
pisou em uma calçada molhada e escorregou. A queda atrapalhando seus pensamentos e as pernas se abrindo como as de uma bailarina. Ela gritou assim que caiu de uma vez no chão, de joelhos.
“A-ai!”, ela arquejou.
, que estava alguns passos à frente, se virou e a viu esfregando os joelhos ralados. Correu até ela e se abaixou.
“Você está bem?”
“Tô, eu... só caí, estou bem.”
Enquanto ela tentava se levantar, tocou com alguns dedos o joelho de . Foi o bastante para o rubor nascer em suas maçãs do rosto.
Ela abaixou a saia do vestido, tímida, tentando cobrir o que devia ser coberto.
“Machucou mais algum lugar?”
A mesma mão que analisava os seus joelhos pousou leve na coxa direita dela. Ele não pareceu perceber, mas aquilo... aquele simples toque já matava aos poucos por dentro.
E, para piorar tudo, os seus olhos... estavam fixos nos dela. Bastou um momento para aquilo. Uma queda. Um contato. Os dois se encarando, caídos na rua molhada. Os cabelos dela escorrendo pelo rosto quente, a boca dele levemente aberta.
“Caramba.”
“Caramba o quê?”, ela balbuciou.
“Você... você é muito linda, .”
Qualquer teoria dela foi descartada com aquelas palavras. Aquele momento.
Sim, eles tinham aquilo. A tal química. Eles eram núcleos atômicos que, se fundidos, liberariam uma energia caótica e poderosa. Dava para notar aquilo... com apenas um toque.
Não podia acontecer.
Ela se levantou abrupta. Suspirou e procurou em si toda a segurança que não tinha.
“O encontro foi péssimo. Espero que melhore amanhã... senão...”
Ela estava gaguejando. Estava perdida e ofegante. E ruborizada. E o olhar convencido de a deixava pior.
“Melhore. Vou pra casa.”
E se virou, andando rápido e torcendo para que ele não a seguisse e não tentasse nada. Por sorte ele não o fez.
Quando subiu no ônibus, quase chorou. De ódio.
Aquele cara poderia fazê-la em pedacinhos em poucos dias. Ela e o coração dela. Não seria nada difícil para ele.
Bastava tocá-la só mais algumas vezes.


Capítulo 03 - Sereias e Golfinhos

Cancún, 09 de Janeiro de 2016
Uma chamada o despertou pela manhã.
Demorou um bom tempo para que ele saísse dos sonhos desconexos e reconhecesse o toque padrão do seu smartphone.
Ele rolou na cama e apertou os dedos nas têmporas, temendo que fosse o seu pai.
Logo cedo não.
Arrastou o braço para fora do edredom branco e agarrou o celular na mesa de cabeceira. Quando leu o nome na tela, se aliviou.
Park
Só depois de um suspiro profundo, atendeu, em sua língua nativa.
“Sabe que horas são agora?”
“Não. E não me importa.”, replicou e após um segundo longo continuou. “Você não me liga há dois dias, seu grande idiota. Quero que me conte as coisas”
suspirou e sentou-se na cama, sentindo os ossos da coluna estalarem.
“Você parece uma garota clamando por fofocas.”
“Rá, não me importo. Conte logo. Já dormiu com ela?”
“Aish!”, ele esbravejou. “Você é um animal. Claro que não.”
“Então vou desligar. Tchau. Mentira, me conte.”
bocejou e tomou coragem para se levantar. Caminhou até a sacada,pensando em formas de contar as coisas que ocorreram para seu amigo, sem passar tanta vergonha.
“Bom… ela é bonita. Tipo, muito bonita. Mas ela é…”
Silêncio. Nem mesmo um dicionário ajudaria a encontrar a palavra certa para definir aquela garota.
“Ela é…”, encorajou.
“Ela é… difícil. De uma forma estupidamente atraente.”
“Isso é bom ou ruim?”
“Ainda não sei. Mas estou com medo.”
“Do que exatamente?”
Ele olhou para os pés descalços e para os desenhos do piso azul claro da sacada, com medo de tornar palpáveis os seus pensamentos, assim que falados.
“Medo de ela brincar comigo.”
“Brincar?”
“Sim…”
“Cara esquece a . Isso aí que você e a garota mexicana estão tendo é só por um mês. À prova de qualquer preocupação.”
O nome dela. … citá-lo sequer o surpreendeu. Porque era exatamente nela que ele estava pensando.
Estava comparando as situações. Mesmo sabendo que era errado fazê-lo.
“Será mesmo, ?”
“Esperamos que sim, irmão.”
Depois de um longo silêncio, observando as praias e o mar azul, bem como o manto negro da noite sendo invadido pelos resquícios laranjas do Sol nascente, perguntou hesitante.
“E o papai?”
Seu amigo bufou.
“Está uma fera.”
“Era de se esperar.”, disse apenas.
E depois de outra das muitas pausas irritantes, por fim finalizou.
“Volte logo, irmão.”
“Volto depois do dia dos namorados.”
E desligou.


***


Ela quase se sentiu incomodada por usar aquele vestido outra vez..
Quando veio para Cancún, pensou involuntariamente que iria conseguir retornar para casa rápido, apesar da viagem em si durar quase um dia. Mas, querendo ou não, o tempo passava muito rápido quando estava com .
Não teria sequer lugar para dormir ou tomar banho se não fosse Maribela.
Conhecera ela há alguns anos, desde que sua mãe fechara contratos com novos fornecedores de tecido. Os comerciantes da Cidade do México, em sua maioria, haviam aumentado os seus preços e as coisas não ficaram nem um pouco fáceis depois da morte do pai. Então sua mãe passara a procurar em cidades diferentes, até que chegou a Cancún e encontrou Maribela, que se tornou amiga da família desde então.
lembrou que Mari oferecera roupas novas a ela e lembrou também de que as negou de propósito.
Não estava tentando impressionar . Muito pelo contrário. Então, ele teria que se contentar com o vestido velho, bege e florido por mais um dia.
Quando viu ele, se surpreendeu com suas roupas.
Nos dias anteriores, apesar do mesmo calor, aparecera com roupas pesadas e, apesar de diferentes, nos dois dias foram uma combinação de jeans escuro e camisa preta. até mesmo imaginou que ele poderia muito bem ser um clássico bad boy roqueiro, com apego a cores escuras e coturnos, assim como aqueles dos filmes e só lhe faltava os cabelos longos e as tatuagens.
No entanto, naquele dia. usava apenas uma camisa branca de manga longa e uma bermuda cáqui. Os cabelos negros, desta vez, caindo sobre a testa, sem resquício algum do gel que os fixara para o alto nos dias anteriores.
se condenou por ter de prender a respiração. Ele era com um anjo, nascido do calor da manhã, ou um deus do mar. Se condenou, também, pelos pensamentos cafonas e infantis.
“Está atrasado”, ela resmungou, quando ele estava próximo o suficiente.
Ele suspirou e coçou a cabeça.
“Acordei cedo demais. Então dormi de novo, aí acordei tarde demais.”
“Hoje eu tenho que voltar mais cedo.”
“Que horas?”
“Tenho até as cinco. E amanhã provavelmente não poderemos nos ver. Só no outro dia e... Acho que só poderemos sair à noite.”
“Nossa…”, ele se recostou no mesmo muro de pedras que sempre se encontravam. “Mas por quê?”
“Ah... “, ela gaguejou. “São detalhes que podem comprometer a minha identidade secreta. Digamos que terei que fazer uma viagem longa.”
“É assim que chama agora? Identidade secreta?”, ele perguntou com um meio sorriso e uma voz mais rouca que o comum.
“Não vejo como definir melhor isto. Mas, pra ser mais precisa, são problemas familiares que eu preciso resolver.”
Ele encarou os seus olhos suplicantes por alguns segundos, porém, foi tempo suficiente para que a deixasse ruborizada. Depois ele riu.
“Ok. Saímos de novo daqui dois dias.”
“E o que vamos fazer hoje? Espero que seja melhor do que ontem porque, meu Deus, você foi terrível.”
Ele riu.
“Você sabe ser difícil.”
“Sei ser sincera.”
“Então já que sabe...”, ele deu alguns passos para mais perto. Tão perto que ela sentia o aroma de sabonete e perfume masculino emaranhados em apenas um odor. Sentiu as bochechas esquentarem. “Pode me explicar por que fugiu ontem?”
Por um breve momento, pareceu-lhe que todas as palavras, sílabas e letras foram tomadas de seu vocabulário mental e só lhe restava o ar para arquejar.
Ele está muito perto.
“Eu…”, ela balbuciou. “Não fugi.”
Os olhos dele, escuros como uma noite de Lua Nova, permaneciam curiosos, estudando cada uma de suas expressões.
Como se lesse os seus pensamentos.
“Bom, acredito que você seja mesmo muito sincera. Porque, a verdade, é que você mente muito mal.”
Ele começou a caminhar pela calçada, se afastando dela, que finalmente pôde respirar.
pensou em uma resposta inteligente, algo que pudesse refutar sua última afirmação. Mas, pela primeira vez, havia deixado-a sem palavras. Então, ela se contentou em segui-lo e perguntar aonde eles iriam.
“Tentar ter um encontro decente.”
“Quero só ver”, ela desdenhou, ainda irritada pelo fato dele vencer a última discussão.
“Você poderia ajudar, não acha? Tipo me falando as coisas que gosta de fazer.”
“E por que eu te ajudaria?”, ela debochou.
“Porque é o seu trabalho. E o meu também, esqueceu?”
Novamente, sem palavras para refutar. E a frequência recente com que aquilo estava acontecendo a irritava.
“Certo, certo! Me pergunte qualquer coisa e eu te respondo!”
Ele parou e se virou, sorrindo, fazendo ela se chocar contra o seu peito. Se afastou, de cara fechada e agarrando uma das dobras do vestido.
“Seu nome?”
“Não seja idiota.”, ela ralhou.
“Ok. Gosta de animais?”
Ela estranhou a pergunta, mas assentiu lentamente.
“Sim, por quê?”
Ele olhou para o céu, depois para ela.
“Vamos ao Aquário.”
E, num gesto abrupto, tomou uma de suas mãos nas dele, entrelaçando os seus dedos nos dela. O coração de saltou do peito e fez um tour completo pelo seu corpo. Sem ter forças para tirar as mãos dali, tudo o que fez foi perguntar:
“O que é isso?”, ergueu as mãos coladas.
“Vamos de mãos dadas desta vez.”
“Por quê?”
Ele sorriu e começou a caminhar, levando-a consigo.
“Está fazendo perguntas demais. Apenas aproveite o dia. Porque hoje, não vou te dar razões de reclamar deste encontro.”


***


As paredes de vidro lhe assustavam. Parecia que a qualquer momento iam estilhaçar e inundar todo o lugar. Mas, olhar para deixava de lado qualquer uma de suas paranóias bobas sobre tragédias.
Ela parecia estar gostando desta vez. Se maravilhava com os animais nadando, os corais altos e bulbosos dançando dentro da parede de vidro, as estrelas do mar.
Ele não tinha mentido na noite passada. Ela era linda. Tanto que olhar para ela e não poder tocá-la de verdade doía.
No caminho para praia, ele notara que as pessoas não ligavam de demonstrar afeto em público naquele país. Muito diferente do lugar de onde ele vinha. Então decidira que segurar as mãos de sua suposta namorada não seria ruim. Nem um pouco ruim. Fora que seria uma boa oportunidade de poder tocá-la, mesmo que de uma forma tão simplória.
Mas não adiantou tanto. Pois os nós de seus dedos entrelaçados aos dela só o estimulava a querer tocá-la mais.
Mas não podia. Estavam apenas no terceiro dia. E ela ainda não parecia gostar dele nem um pouco.
Ainda assim, não dava para negar que sua reação do dia anterior foi, no mínimo, intrigante. De alguma forma, sua espontaneidade mexeu com ela.
Com isto, ele decidiu ser totalmente espontâneo. Não tinha nada a perder, de fato. Dia 15 do mês seguinte, tudo acabaria. E que outra chance ele teria de ser assim outra vez? Não pensar, só ser?
Pelo menos uma vez na vida ele teria que viver assim. Seria a sua primeira vez vivendo assim. E, ao menos tentaria fazer ver as coisas assim também. Ver que, este tempo, pode ir além de uma forma estranha de ganhar dinheiro.
Pode ser uma oportunidade de viver coisas que, em circunstâncias normais, nenhum dos dois viveriam.
Depois de passarem por todo o roteiro interno do aquário, admirando todas as águas vivas, as anêmonas, cardumes de peixes e cobras marinhas, puxou para fora da falsa profundidade oceânica.
“Vem. Vamos nadar com os golfinhos.”
Mas travou ambos no meio do caminho, com uma força que jamais suspeitaria que ela tivesse.
“Nem por cima do meu cadáver.”
Ele riu e deu um de seus sorrisos tortos. Um dos mais maliciosos.
“A senhorita tem medo de golfinhos?”
“Não mesmo! Eu só… não trouxe roupas de banho. E nem quero usar roupas de banho do seu lado.”
“Como se eu fosse ficar olhando o seu corpo”, ele revirou os olhos, tentando acentuar bem o sarcasmo.
Mas ela não pareceu entender, já que ruborizou e estreitou os olhos, um tanto irritadiça.
Ele suspirou, fazendo questão de emaranhar ainda mais os dedos nos dela. A sensação lhe agradava mais do que deveria.
, estamos em Cancún. Uma hora você vai ter que usar roupas de banho.”
“Não se eu não for à praia.”
Ele arqueou as sobrancelhas e ela deixou os ombros caírem.
“Meu corpo é muito feio.”
“E desde quando você se importa com a minha opinião sobre você?”
“Eu ainda tenho orgulho feminino, mesmo que não pareça.”
“Finge que eu sou só uma amiga sua.”, ele riu.
Ela o olhou, da cabeça aos pés e estalou a língua.
“Claro. Você é exatamente como a maioria das minhas amigas.”
“O que tem de tão errado com o seu corpo?”
“Tenho estrias. E uma cicatriz nas costas, do dia em que eu caí do balanço, aos 9 anos. E também gordura no lugar onde deveria haver só osso, e osso onde deveria haver gordura.”
“Está mesmo usando estrias pra formar seu argumento?” ele meneou negativamente a cabeça e a puxou consigo, mesmo com todos os protestos.
!”, ela aumentou o tom. Só então ele parou.
se virou para ela, sentindo o corpo de alguns dos visitantes do aquário esbarrar neles, mas não se importou.
“Por favor… eu tenho vergonha.”, olhou para os pés, como uma criança constrangida.
Novamente aquela sensação. A imagem de em sua mente era cada vez mais enevoada. Não sabia ao certo como defini-la. Geralmente, era bom em ler as pessoas. Mas não sabia mesmo definir um padrão de personalidade para a garota mexicana. Ela era grossa, espontânea e madura. Ao mesmo tempo, mantinha resquícios de ingenuidade e uma aura inocente.
Ele concluiu que ela era perigosa. Mais do que perigosa. Porque tudo o que ainda não foi definido, ou estudado, a determinante é ser perigoso. E apesar dos olhos envergonhados de brilharem com uma sinceridade indiscutível, não se deixou enganar. Ela poderia ser uma mentirosa ainda melhor do que ele. De fato, era estratégica pois ele não poderia negar: ela estava fazendo daquilo um jogo e estava jogando bem.
Ele também melhoraria o seu jogo.
“Tudo bem.”, aceitou por fim a decisão dela, com um sussurro. “Então, teremos que fazer algo mais simples… e clichê.”
“O quê?”, ela piscou, olhando finalmente para os seus olhos.
“Transar.”, ele forçou a voz no tom mais sério que tinha, mas não pode conter a explosão de risos quando a boca dela se abriu em um O gigantesco. “Brincadeira. Vai ter que se contentar com uma caminhada na praia.”

***


Estavam tomando sorvete, enquanto aos poucos a noite caía. O Sol sendo enterrado no horizonte azul enquanto as tímidas estrelas nasciam no manto híbrido de dia e noite que era o céu.
O que mais apreciava em tudo aquilo era o silêncio entre eles. Um silêncio dotado de sorrisos e olhares de soslaio. Um calor constante das mãos entrelaçadas que esquentava até mesmo a garganta gelada da massa da casquinha.
“Qual a nota?”, perguntou, após contornarem uma grande extensão da praia, bem onde as ondas batiam na areia.
“Nota? Que nota?”
“Do encontro.”
Ela tentou encontrar algo nas entrelinhas. Se a pergunta tinha alguma segunda intenção, ou se o levaria a se sobressair sobre ela, de alguma forma. Mas percebeu que se demorasse a responder, só demonstraria a sua fraqueza.
“Um sete.”
“Sete?”, ele franziu o cenho.
“Poderia ser oito. Mas você tentou me obrigar a ficar seminua, então…”
Ele riu e ela acabou rindo junto, surpreendida pela forma que caminhavam pela praia, pelas mãos entrelaçadas e pelos sorrisos fáceis.
Como um casal comum. Não um casal que se conhecera há apenas três dias.
“Bom, acho que depois do que eu vou fazer, a nota vai diminuir drasticamente.”
“O q…”
As suas palavras foram cortadas quando tirou os seus pés do chão e a pegou no colo. Séria, ela começou os protestos.
, me põe no chão. AGORA!”
Então, se lançou rindo nas ondas baixas e ainda mornas. sentiu água adentrando em suas narinas e tossiu.
“Idiota!”, resmungou dando tapas nele enquanto só ria.
Quando levantou a cabeça, percebeu a proximidade deles. O corpo de inclinado sobre o dela, os cabelos úmidos, a água escorrendo pelo nariz e a camiseta branca, pegajosa nos músculos esguios dele.
Caiu por si apenas quando o flagrou olhando fixamente nos seus lábios.
Se levantou, praticamente o empurrando.
“Tenho que ir. Preciso voltar pra casa cedo.”
Ele arquejou, como se há pouco o ar fosse tirado dele.
“Ok. Nos vemos em dois dias.”
Molhada de água salgada da cabeça aos pés e entorpecida pelo momento, caminhou rápido para longe daquela praia, desejando apenas a sua casa e sua família. Desejando esquecer aquele momento efêmero que só confirmara o que ela já sabia.


Capítulo 04 - Péssimos Mentirosos

Cidade do México, 10 de Janeiro de 2016
Virou a noite em um ônibus lerdo. E ponderou se tudo aquilo compensava financeiramente. Ou até mesmo no quesito tempo.
Porque o tanto que ela gastava em passagem e o tempo que levava para chegar até a sua casa não era algo a ser ignorado.
Quando ela percebeu que só chegaria em casa no final da tarde do dia seguinte a sua partida, ela considerou a possibilidade de migrar para a Cidade do México.
Mas seria perigoso demais, ela repetiu para si mesma diversas vezes.
Depois da viagem cansativa de várias paradas, o ônibus finalmente chegou a estação de sua cidade natal. Tão grandiosa, tão monstruosa, tão familiar...
pulou do banco e adorou a sensação de esticar as pernas. Do lado de fora, já podia ver as estrelas brilhando no céu que escurecia calmo.
Segurou firme a única bolsa que levara para o extremo do país e caminhou para longe da estação agitada. Por sorte, morava ali por perto. Em uma das periferias da cidade, os famosos cortiços.
achava graça na forma que as novelas retratavam aqueles lugares. Apesar da pobreza ser bem acentuada nos lares das mocinhas pobres, a TV não mostrava os viciados nas esquinas, muito menos os assaltantes e estupradores a espreita dos bairros deploráveis e esquecidos pela grandiosidade da capital.
As ruas úmidas e o cheiro fresco no ar que, geralmente, era tóxico demais, mostrava que choveu não fazia muito tempo.
caminhou rápido pelas calçadas, até chegar à entrada de seu cortiço. Ali, sentado sobre uma das pilastras lascadas, pintadas no mesmo tom de amarelo-vômito das paredes do casebre de vários andares, estava , mexendo em seu celular velho que tanto lutou para comprar no ano anterior.
“Não devia estar mexendo nisto por aqui. Você pode ser roubado.”
O garoto, que tinha os olhos de e os cabelos negros e lisos da mãe, se sobressaltou com a voz da irmã e se levantou. Depois, sua expressão voltou a ser entediada como sempre.
“Droga, não diga que já estragou tudo com o estrangeiro!”
fechou a cara e deu uma palmada na cabeça do garoto.
“Tenha mais respeito comigo!”
Só então o abraçou.
“Senti sua falta.”
“Mas não fazem nem três dias!”, ele resmungou contra o vestido da irmã.
“Bem… eu sei. Mas três dias sem vocês é estranho.”
“Me conta… como foi?”, ele perguntou, de desvencilhando dela.
“Conto mais tarde. Primeiro me diga como está a mamãe.”
Citar a sua mãe fez murchar rápido. Como uma rosa mal regada após colhida.
Câncer não é a única doença que mata. sabia disso de uma forma que adoraria não saber.
E por mais esperançosos que os médicos são a respeito do tratamento de Lúpus, uma família pobre não poderia manter as mesmas esperanças de qualidade de vida que alguém com dinheiro tem.
Sua mãe estava morrendo porque os rins já não eram como antes. Um já não funcionava mais, e o outro…
Fila de transplante? Era como aguardar um milagre. Havia a cirurgia paga, que seria a última esperança dela. Mas já tirara isso da cabeça.
A mãe morreria. A única coisa que ela podia fazer era dar uma morte confortável a ela. E o dinheiro de Claire Blanchard lhe proporcionaria isto.
“Ela está bem. Eu… acho. Ainda faz tudo, mas anda com dores. Falei para ir ao médico.”
“E ela disse não, não foi?
assentiu.
“Ela disse que médico é coisa de maricas.”, ele riu.
“Ela está lá em cima?”, gesticulou em direção ao pequeno quarto deles.
Ele assentiu, mas ela não subiu. Sentou ao seu lado e começou as explicações.
“Acho que terei que ficar por lá até tudo acabar.”, ela sussurrou.
“Sério? Mas por quê?”
“Porque não tenho dinheiro pra uma viagem dessas toda hora.”, ela replicou, impaciente.
Ficaram alguns momentos em silêncio. Ambos olhando para os pés.
“E ele é legal?”
“Ainda não sei dizer.”, ela mentiu.
“Seu nariz tremeu.” apontou para o rosto dela, enquanto a garota se encolhia. “Você gosta dele.”, e riu.
“Não, eu… não gosto.”, ela gaguejou.
“Alguém já te disse que você mente muito mal?”
teve de morder os lábios para segurar o comentário irônico. já dissera aquilo há menos de dois dias.
“Isso não te importa”, ela disse, tentando parecer brava. “O que importa é a grana que vou conseguir com isto.”
“Ainda bem. Já ia pedir para me poupar dos detalhes nojentos, de qualquer forma.”
“Não há detalhes nojentos!”, ela ralhou, quase ofendida.
“Se não há, vai ter.”, ele riu, mas depois pareceu enojado.
“Não estou gostando desses papinhos…”, ela deu um tapa na cabeça dele outra vez e o garoto esfregou os cabelos, irritado. “É novinho demais para concluir coisas assim.”
“Já tenho 12 anos, trouxa. Tem garotos da minha idade que já fizeram mais coisas do que você, virgem Maria.”
“Isto mesmo. Garotos da sua idade. Outros garotos. Você não. Não saia da linha moleque.”
Ela se levantou e esfregou os farelos de concreto da saia do vestido.
“Vamos ver a mamãe.”, ela o chamou, já caminhando para as escadas.

***


A mãe era teimosa. Não importava as dores, ou as palavras do médico, exigindo seu descanso. Muito menos importava as chances dela morrer. Ela sempre estava de pé, fazendo alguma coisa.
Quando apareceu escorada no batente da porta, a mãe limpava o chão com um rodo curto e um pano encardido demais.
“Já disse pra colocar pra fazer alguma coisa.”, resmungou.
A mãe se sobressaltou, mas assim que viu as feições familiares da filha, sorriu.
“Nós duas sabemos que não adiantaria de nada. O garoto é inútil.”
passou pela porta, empurrando o quadril da irmã.
“Ei, eu tô aqui, ok?”
As duas riram e pulou para os braços magros da mãe.
“Está bem, mamãe?”
“Estou sim, meu bem. Já estava me perguntando quando você voltaria.”
Ela se desvencilhou e arrumou alguns fios bagunçados do cabelo de .
“Bom, não aguentei a vontade de ver vocês. Mas parto amanhã de novo. E provavelmente só volto depois do dia de São Valentim.”
A mãe se sobressaltou.
“Mais de um mês fora?”
ergueu as mãos.
“Eu sei. Eu sei, mas não posso gastar tanto com passagens, mamãe. E a temporada lá está muito boa. Muitos… Turistas. Estamos vendendo bem.”
Ela bufou, mas assentiu.
“Não está se matando muito debaixo daquele Sol, bebê?”
podia ser uma péssima mentirosa, mas de alguma forma, finalmente uma de suas mentiras enganou alguém: sua mãe.
dissera que Maribela a chamou para trabalhar vendendo tecidos na praia. E pagaria bem. Mas, para sustentar a história, ela teve de contar, pelo menos em partes, que, em paralelo, ela faria um trabalho que, se a mãe ao menos sonhasse, não permitiria jamais. E teve que jurar que não era prostituição.
A única pessoa que sabia de tudo era o irmão. E ele só sabia porque era impossível esconder qualquer coisa daquele menino.
Por sorte ele era bom em guardar segredos na mesma proporção que era bom em descobri-los.
“Não…”, ela gaguejou e, atrás da mãe, apontou para o próprio nariz.
O dela deveria estar tremendo.
“Não…?”, a mãe encorajou.
E procurou relaxar.
“Um pouco.”, ela riu. “Mas valerá a pena, mãe. Olha, vou transferir o dinheiro toda semana. Gaste com sabedoria.”
“Então, já que só volta mês que vem, leve roupas. Muitas. E leve comida.”
“Vim por isto também. Preciso abastecer.”, ela se jogou no sofá. “Esse vestido já está pesado de tanta areia.”
“Devia ter pedido roupas a Maribela.”, a mãe resmungou, torcendo o pano no balde.
“Não queria incomodar.”
Novamente, sua mãe bufou e a espantou do sofá com as mãos.
“Vamos, garota. Ou está pensando que veio pra cá pra ficar deitada? Vamos, vá preparar uma sopa. Temos que jantar.”
riu e se levantou, já abrindo o pequeno e acabado armário da cozinha e tirando uma panela de dentro dele.
Ao menos, a mãe parecia bem.


***


Claire Blanchard caminhava em sua cobertura na Park Avenue. As luzes da cidade substituindo as estrelas ocultas pela poluição da metrópole. Somente o barulho dos saltos batendo no chão nu da sacada.
E o barulho da chamada.
Era a terceira vez que ela ligava para aquele garoto e ele não atendia. Só o fato do telefone estar desocupado já lhe dava náuseas e angústia.
Combinara com ele. A chamada permaneceria durante o dia todo. Ou, pelo menos, enquanto ele estivesse com a garota.
Poderia ser trabalhoso para ele, mas com certeza não tão trabalhoso quanto era para ela, que tinha que ficar horas ouvindo as gravações dos diálogos irritantes de dois jovens que, até o mês passado, não fazia ideia que existiam.
Mas o sucesso vinha com trabalho árduo. No entanto, não bastava apenas o trabalho árduo dela. e tinham de se esforçar também. E já fazia quase um dia que eles não se viam.
Quase um dia perdido, sem gravação nenhuma.
Finalmente, depois de muitos palavrões soltados no apartamento vazio, atendeu com a voz rouca e um chiado no fundo da ligação.
“Alô?”
“Por que não me ligou hoje?”
“Quê? Quem fala?”
“Quem fala?”, Claire soltou um longo suspiro. “Buda. É Buda quem está falando.”
Ela não pôde deixar de notar a leve cadência xenofóbica no comentário, já que nem todo asiático tinha, necessariamente, a obrigação de ser budista. Mas ela não estava nenhum pouco disposta a ser simpática.
“Ah… Claire.”, ele suspirou. “Pode me retornar daqui uns minutos? Estou tomando banho.”
“Espero que esteja com você neste banho. Porque só aceitaria essa desculpa se este fosse o caso! Mas pelo o que eu ando escutando das gravações, duvido que seja isso.”
“Como assim?”, a voz dele subiu algumas oitavas.
“Quero saber por que não me ligou. Quero saber onde ela está e porque não estão juntos.”
O barulho do chuveiro cessou.
“Escute, foi ver a família dela. Ela volta amanhã, ok?”
“Eu pago vocês para estarem juntos todos os dias, lembra?”
suspirou atrás da linha, então Claire aproveitou para despejar em palavras toda a sua insatisfação.
“Ando escutando as gravações de vocês. E realmente não gosto do que eu ouço.”
“Ah é? Por quê?”, perguntou e Claire notou sarcasmo em sua voz.
“Porque vocês estão se repelindo. Três dias e eu só escutei brigas e mais brigas. E logo quando finalmente comecei a notar algo, você deixa ela sair da cidade.”
“Eu não mando nela, Claire. Ou você acha que eu simplesmente poderia chegar e falar ‘te proíbo de ver a sua família’?”
“Quero dizer que quero ver empenho. Vocês se comportam mais como dois brutamontes brigões do que um casal de namorados. E eu fui bem clara no início de tudo que precisava analisar nesse único mês todas as fases de um relacionamento comum. E não posso fazer isto se vocês gastam os dias enrolando com besteiras.”
Claire sentou-se na cama, tirando os saltos e olhando o relógio na parede.
Marcus chegaria a qualquer momento.
“Você também disse que queria ver espontaneidade e sinceridade. Estamos sendo sinceros. Não posso fazê-la se apaixonar por mim de um dia para o outro. E só se passaram três dias. Pega leve.”
“Não, eu não pego leve. E sim, você pode. Porque estou te pagando.”
“Tem certeza de que você é psicóloga de casais?”
As mãos de Claire tremeram e o rosto esquentou. Ela teve certeza de que, se estivesse ali, poderia matá-lo usando só as suas unhas artesanais.
“Quero esforço. Quero empenho. Avise . Afinal ela precisa do dinheiro mais do que você.”
E desligou. Olhando para o teto. Pensando em e . e . Pensando se Marcus demoraria mais.
Pensando se aquilo tudo daria certo. Ela analisara os dois. Eram compatíveis. Estavam dispostos a continuar, mesmo que a ideia parecesse maluca.
Tinha que dar certo. Ela se esforçara muito para isto.


***


Quase duas noites mal dormidas.
Na noite antes de voltar a Cancún, ela fez questão de arrumar as coisas para a sua partida e deixar a casa bem limpa para mãe, apesar de saber que seria inútil. Em dois dias a mãe estaria limpando tudo de novo.
chegou praticamente na madrugada do outro dia e sabia que tanto ela, quanto , estariam bem encrencados por perderem tantos dias de interação.
Passou a viagem toda pensando nisto. No tempo perdido. Mas não somente nisso. Recostada no assento estofado do ônibus, encarando a penumbra densa do exterior do vidro, a estrada se perdendo e as faixas amareladas ficando para trás em um movimento vicioso… pensou na mãe e em sua doença. Pensou o que seria dela e de depois que ela morresse. E se condenou por ela mesma desenganar a sua mãe.
Pensou em e as inúteis tentativas de não se aproximar dele, mesmo quando eram pagos para isto. Pensou nele, não só como uma ideia, mas como pessoa. Pensou nos olhos escuros, quase tão densos quanto a madrugada externa. Pensou em seus dedos emaranhados aos dela. Pensou na proximidade de ambos na praia...
E pensou na forma perigosa que ele já lhe atraía, temendo o que viria depois. Porque depois da atração, era mais fácil e suscetível o famoso sentimento que ela queria evitar.
Só então deixou os devaneios seguirem até Claire Blanchard. A mulher forte e independente de Manhattan e o que ela falaria a respeito destes três dias separados. Certamente não gostaria disto.
Quando viu na orla da praia, no final daquela praia, ficou surpresa com a forma que, pelo menos, um de seus pensamentos se concretizaram.
Ele parecia tenso. Antes de vê-la se aproximando, torcia o tecido da camiseta preta nos dedos, batucava os pés silenciosamente no chão, os tênis All Star imundos. O cabelo bagunçado, fora do habitual topete e fora até mesmo do alisado desleixado que caía na testa, como também já vira antes. Estava um caos.
imaginou de antemão que o dia dele poderia estar tão difícil quanto o dela. Assim que seus olhos se encontraram, ele se levantou, hesitante.
“Precisamos conversar.”
se sobressaltou com a forma que ele a abordou.
“Qual o problema?”, ela franziu o cenho.
“Claire… ela é o problema. E precisamos discutir sobre isso rápido. Eu prometi que ligaria pra ela às seis da tarde. E já são seis da tarde.”
se sentou no mural de pedras e o imitou, sentando bem ao seu lado. Finalmente estava com uma roupa diferente: uma calça capri jeans, tênis velhos e uma camiseta rosa listrada. Mas ele pareceu não notar isto. E se condenou por se importar tanto com um fato tão inútil.
Em poucos minutos, contou sobre a ligação, as coisas que Claire disse e até as ameaças sobre o dinheiro. escutou, atenta, ruminando cada palavra e refletindo sobre a atitude de Claire, como se ela fosse a psicóloga.
Ela já deduzira há muito tempo que Claire era louca. Quando conheceu sua teoria e conversou com a mulher que ofereceu dinheiro fácil por ela, soube na hora que aquela mulher carregava feridas na alma. Feridas por causa de um amor. E agora, estava disposta a provar que o amor não existia e, se existia, era limitado. Finito.
As palavras de só reforçaram ainda mais a sua certeza.
“Claire Blanchard é louca. Concorda comigo? Porque… Que pessoa faria o que ela faz? E pensa como ela pensa?”, desabafou.
olhou para os pés, pensando se deveria falar o que acha ou não.
“Olhe… não sei bem se discordo totalmente do ponto de Claire. Mas, de fato, a mulher é bem psicótica.”
Ela, que esperava uma concordância unânime, ficou surpresa pela sua resposta. No entanto assentiu.
Depois, mordeu os lábios e pensou em uma forma de tentarem resolver aquilo. E rápido. Sabia que o diálogo seria a melhor forma, mesmo querendo, com todas as suas forças, evitá-lo.
, qual vem sendo a sua maior dificuldade em nosso relacionamento?”
Ele piscou, surpreso inicialmente, mas pensou. E pensou. Então falou.
“Acho que a maior dificuldade é fazer você se abrir pra mim.”
As bochechas dela queimaram. Ela não imaginava que ele atribuiria a dificuldade a ela, por mais que ela soubesse que isto era, de fato, verdade.
“Você…”, continuou. “Parece que tem medo… de mim. Toda vez que nós estamos quase nos desprendendo da vergonha inicial de nos conhecer e começando a nos dar bem, pelo menos como amigos, você se fecha e me repele. Essa é a dificuldade.”
demorou alguns instantes para assimilar suas palavras. Como se procurasse significados ocultos nelas, explorando letra por letra e cavando as sílabas, em busca de um suposto tesouro ou artefatos. Notou que aquelas letras e sílabas formavam as palavras mais francas que já lhe disse. E mesmo ele aparentando ser um ótimo mentiroso - ao contrário dela -, sabia, ao encarar bem os olhos eclipsados dele, que ele falava a verdade.
Então, pela primeira vez, ela também foi franca com ele.
“Me afasto porque tenho medo do que você pode fazer comigo.”
bufou.
“Eu jamais lhe faria mal, . Céus eu… você nem me conhece pra ter medo de mim.”
“Por não te conhecer é porque tenho medo de você. E não medo de você me machucar ou ser um otário. Esse medo é mínimo comparado ao medo real que eu sinto.”
“E que seria?”
“Tenho medo de me apaixonar por você. De verdade!”, ela falou de uma vez.
olhou para o mar. Para as ondas batendo na areia marfim, o céu beijando o horizonte do oceano e o Sol querendo se esconder por detrás dele.
Ele entrelaçou os dedos aos dela e pousou ambas as mãos em seu colo. Ela olhou em seus olhos, que transbordavam uma pena que, por incrível que pareça, não era irritante.
“Eu te entendo, mesmo. Mas não sofra por antecipação, .”
“Como não? O que eu vou fazer se eu gostar de você? Você vai embora.”
“Você estar namorando comigo porque alguém está pagando não significa necessariamente que vai, de fato, se apaixonar por mim.”
“Eu gosto rápido das pessoas.”
“Mesmo? Isso não me parece coisa da garota que me pôs pra correr em três encontros consecutivos.”
riu e enxugou uma lágrima indesejada. Queria se matar por estar chorando e expondo todas as fraquezas que prometeu a si mesma que não revelaria a .
“A gente podia ser só amigos. E fingir que se gosta. Como Claire poderia saber?”, ele falou, como se o pensamento fosse bobo demais.
Mas, de repente, as palavras processadas pela mente de lhe pareceram a coisa mais genial que já ouviu.
“É ISSO!”, ela gritou, desvencilhou e soltou a mão da de , saltando do muro.
“Isso o quê?”
“Não precisamos nos forçar a nos gostar de verdade. Meu Deus, por que não pensamos nisso antes?
“No quê? , se explique, eu sou levemente lerdo e não entendo as coisas tão rápido.”
Ela sorriu e estalou os dedos.
“Claire Blanchard se acha onisciente e onipresente mas ela não é. Ela não pode saber o que é real ou não. Então por que não fingimos esse relacionamento todo?”
franziu o cenho e continuou.
“Montamos um roteiro. Fingimos estar nos gostando. Alguns diálogos pensados. Beijos…”, ela hesitou. “Beijos programados. E depois acabamos tudo no dia 15, como ela quer. Dane-se se a teoria dela for verídica ou não. Teremos o nosso dinheiro.”
desceu do muro e sorriu, malicioso.
“Que mente maligna. Gostei muito”, e riu. “Acho que esta é a melhor forma.”
“E vamos fazer tudo certo. Porque me parece que não é só por ligação que Claire vem nos observando.”
“A ligação!”, se sobressaltou e pegou o celular. “Ok, . Faremos assim. Mas eu preciso mesmo ligar pra ela agora.”
assentiu, mordendo o canto da bochecha e pensando se conseguiria mentir assim. Se conseguiria convencer a louca e pegar aquele dinheiro.
Mas algo nela tinha mudado: o medo era menor. Agora se sentia mais segura de tentar, sabendo que nada seria real.
Mesmo que um certo resquício do medo permanecesse no seu coração. Pois temia que o famoso clichê se tornar real e ela realmente acabar se apaixonando por ele. Mas não pensaria nisto, por ora.
Assim que o telefone foi atendido, as cortinas do teatro foram abertas.

Betada até aqui por Letty


Capítulo 05 - Medo

Cancún, 15 de Janeiro de 2016

As trevas densas da noite beijavam as janelas do quarto daquele Hotel, entrando em paradoxo com o quarto bem iluminado.
não conseguia manter o nervosismo em seus pensamentos. Ele pulava de sua mente para as suas mãos, que o delatavam, tremendo incessantes. estava sentado ao lado dela, porém a uma distância respeitosa de um braço de distância. Ela lia o caderno com suas anotações. Seus planos… para o relacionamento falso deles que, a partir daquele dia, duraria um mês.
Os encontros durariam até o dia 24, um domingo e, a partir dali, o namoro começaria. Até o domingo, dia 14 de fevereiro, onde fariam algo especial para comemorar o “término”. O que incomodou não foram as datas. O que incomodou foram as informações anotadas nas páginas seguintes, junto com mais outras datas. Os tipos de encontros, os temas das conversas de cada um deles, o dia do primeiro beijo… até mesmo a data de uma suposta “primeira vez” estava anotada.
empalideceu e engoliu em seco. Quando se inclinou e viu quais dos rabiscos ela lia, ruborizou e começou rápido a explicar-se.
“Não eu… eu sei o que você está pensando e não é nada disso nós… nós só precisamos fazer parecer que dormimos juntos neste caso.”
“O que quer dizer?”, a voz de saiu rouca e baixa. Não tirava os olhos do papel. Não poderia olhá-lo nesta hora.
“Quero dizer que… Uma das coisas que ficou implícita na minha conversa com Claire é que ela queria isto de nós também…”
“Ela não me falou nada disso!”, se exaltou.
“Eu disse implícito.”, ele se defendeu. “Disse que queria ver todas as etapas de um relacionamento.”
“Saudades do tempo em que esta etapa só acontecia depois do casamento.”
“No século 12, você quer dizer, não?”
bufou e se levantou, largando o caderno no colo de e caminhando em direção a uma das janelas de trilho, que dava para a sacada. Ele se levantou caminhando hesitante até ela, no entanto, parou na janela, olhando para o chão. Depois se virou para ele e finalmente, depois de alguns segundos, olhou em seus olhos.
Tão escuros quanto o ébano, tão fáceis de se perder.
“Praticar sinceridade nos ajudou da última vez, então farei o mesmo desta vez. Ainda estou com medo, Sky.”
Ele deu alguns passos para mais perto, ainda não tão perto quanto ela realmente desejava. Queria morrer por desejá-lo tão próximo assim, sendo estes pensamentos uma terrível refutação às suas palavras de negação.
“Não vai ser de verdade, . Eu juro.”
“Não é isso.”, ela meneou a cabeça. “Eu ainda tenho medo de isso tudo acabar nos ferindo, Sky. Mesmo fingindo.”
correu os dedos pelo tecido do pijama azul, com a língua entre os dentes.
“Você fala como se fosse inevitável se apaixonar por mim. Olhe, eu sei que eu sou mesmo um exagero de beleza masculina. Mas eu tenho defeitos, tá?”
Toda a hesitação de se transformou em irritação e ela o empurrou, voltando ao sofá, revirando os olhos e bufando.
“Pelo amor de Deus, não faça graça com isto.”
“É sério, . Acho que você não parou para mensurar as suas constatações. O seu medo está totalmente fundamentado em uma paixão iminente, mas a gente nem se conhece. Se me conhecesse, me odiaria.”
“Primeiro, não se ache tanto, moço. Quem disse que eu te acho bonito?”
“Oi?”, arqueou as sobrancelhas
o encarou da cabeça aos pés. Os cabelos negros desgrenhados, os lábios provocantes, o corpo esguio que, em um primeiro olhar parecia comum, mas ela lembrava bem do tecido branco e úmido da camisa grudado em seus músculos trabalhados.
pigarreou, expulsando os pensamentos irritantes.
“Você é branco demais. Simples demais. Magro demais, tem cara de criança. E seu rosto é muito… Fininho. Tanto que parece uma garota.”
“É o que?”, ele deu um riso afetado.
“Quero dizer, você não esboça masculinidade nenhuma. Não tem atrativos, é um sem graça.”
“Espere aí, docinho, eu sou…”, ele gaguejou. “Considerado um homem muito bonito no meu país”.
“Uma pena, aqui não. Aqui gostamos de homens mais viris. Com cara de homens mesmo. Altos, corpulentos… de barba e…”, ela gesticulava e cerrava os olhos.
“Um homem das cavernas, então.”
“Tipo os atores de novelas. William Levy, Sebastian Rulli, Daniel Arenas…”
“Todos gays!”
“Homens de porte e desejados por todo mundo. Esses sim me levariam à loucura. Você é no máximo bonitinho.”
bufou.
“Também não te acho lá essas coisas. Você é muito gorda.”
Os olhos de saltaram dos lóbulos.
“O quê?!”, a voz subiu dez oitavas.
“E se eu fosse tão feio assim, por que o medo de se apaixonar por mim então?”, ele a desafiou.
“Oras porque eu não me apaixono pela aparência. Eu me apaixono pelo o que há no interior da pessoa.”
“E você por acaso é o Superman e tem visão de raio X pra ver o interior de alguém? Para se interessar por alguém à primeira instância precisa, no mínimo, se sentir atraída fisicamente, não acha?”
“Não acho não.”, replicou. “O caráter é tudo.”
“Eu sou uma pessoa horrível.”, ele contra argumentou.
“Tô percebendo isto muito bem agora.”, ela ironizou.
“Eu sou grosso e mentiroso.”
“Não diga…”
“Sério, eu minto muito. Por qualquer coisa. Acho que por isso trabalho tão bem em nossa farsa. Eu minto até sobre o que eu comi no café da manhã, se me der na telha.”
“Menos um ponto pra você.”
“E eu sou muito, mas muito tarado.”
“Olha isso não é bem o tipo de informação que eu considere necessária.”
“Não estou brincando. Eu tenho uma pasta de 89 gigas só de pornô no meu computador.”
“Novamente esse não é o tipo de informação que eu queira saber e… sério que você tá tentando tirar o meu medo assim? Só… Tá conseguindo me assustar mais.”
Ele riu e se sentou ao lado dela. A descontração da conversa já não a fazia se encolher como antes, com a sua proximidade. Talvez a ideia dele estivesse dando, de fato, certo.
Vê-lo como um garoto bobo poderia mesmo ajudar a manter as coisas entre eles só na amizade.
“O ponto é que se você não se sente atraída por mim e eu não me sinto atraído por você, não tem o porquê ter medo da nossa separação, . Vai doer? Sim, claro que vai. Porque estaremos juntos durante trinta dias ininterruptos. Mesmo como amigos, não nos veremos mais. Mas isso passa. Olhe, eu vou te falar algo muito… constrangedor agora. Mas precisa me prometer que não vai me matar.”
Ela olhou para as mãos. Finalmente não tremiam mais. Mas um frio na boca do estômago permanecia ali.
“Fale…”
“Eu… realmente pensei que essa coisa do relacionamento com data de validade seria tipo as minhas ‘férias safadas’. Sendo direto e franco, você estava certa, . Eu só entrei nisso pra transar com você.”
As palavras de demoraram a ser processadas por . Foram como pedras engolidas, descendo pela sua garganta e entalando em seu esôfago. As mãos ameaçaram tremer outra vez e ela apertou firme o tecido do vestido. Não o mesmo vestido que ela usara nos outros dias, mas um outro, ainda mais simples. Um rosa desbotado e com alguns fios soltos nas costas. Ela arquejou e se endireitou, sem ser capaz de tirar os olhos do próprio colo.
“E…”, cada palavra era uma tortura a ser dita. “Por que ainda está nessa então?”
Ele suspirou. Quando o olhou, percebeu que ele estava ereto, pouco à vontade. Possivelmente arrependido por ter sido tão direto.
“Porque Claire disse que você precisava. E eu sinto… que você precisa. E odeia tudo isto, mas continua aqui. Tentando. Porque precisa. Nunca fiz nada que realmente fosse útil e altruísta em toda a minha vida, . Mas eu quero fazer isto por você. Então me deixe te ajudar. Não tenha medo de se apaixonar por mim porque eu não sou mesmo um cara pra se apaixonar. Nem um que se apaixona, então não se preocupe comigo também.”
Ela viu pela primeira vez um lapso de sinceridade em seus olhos. nos últimos dias, desde que ela pousou o primeiro olhar nele, parecia-lhe um mistério. Verdade enterrada em camadas em camadas de supostas mentiras e enganações, camuflada como um camaleão selvagem, se defendendo de um predador.
Mas ali não havia camuflagem. Havia verdade brilhando na escuridão densa de sua íris enegrecida.
assentiu e pousou mão sobre a dele, surpresa pela naturalidade do gesto e pela falta de medo.
“Não vou ter mais medo.”
“Ok.”, ele sorriu.
“Seremos só amigos e não teremos problemas com isso.”
“Isso.”
“E vamos pegar a grana daquela maluca.”
“Amém.”

>>>


Ele se revirava na cama, mais inquieto do que nunca. Lembrando dos fatos da madrugada e desejando profundamente desligar a mente e dormir.
Mas não conseguia. E o motivo era o pior de todos.
pensava que, ao deixar bem claras e delineadas as coisas com , tornaria tudo mais fácil para eles. Mas, apesar dela ter deixado o seu quarto com uma expressão satisfeita, ele não conseguia parar de se condenar pelas besteiras que havia falado.
Havia dito a verdade sobre as suas intenções lascivas, bem como pintado a pior figura de si mesmo. O que ela pensaria dele? Mas não era mesmo essa a intenção? Mostrar a ela que não havia o que temer e que ele era só mais um idiota como tantos outros?
Mais um idiota. Não deveria querer impressioná-la, mas sim afastá-la.
Então pensou na pior das besteiras que falara: que ela era gorda.
Porque, céus, a última coisa que um homem deve falar para uma mulher é que ela é gorda. É terminantemente proibido, desde a criação, chamar qualquer mulher de gorda, mesmo ela sendo gorda.
E definitivamente não era gorda.
Talvez fosse considerada gorda por seus conterrâneos, mas lá todos sempre foram magros. É algo no padrão de beleza. Mas o padrão de beleza de sempre foi um tanto diferenciado. Ocidentalizado.
não era gorda. Tinha algumas curvas e o corpo se avolumava nos lugares certos. Não que ela fosse uma modelo atlética e bem definida como as atrizes de novelas mexicanas que pipocavam nas emissoras de TV daquele país, e que ele vinha assistindo nos tempos vagos. Aquelas mulheres tinham cinturas finas e seios fartos. As pernas torneadas e grossas e um bronzeado artificial. Pessoas criadas para serem apreciadas visualmente por outras pessoas.
Se comparasse com aquelas mulheres, encontraria muitos defeitos. A cintura seria grossa demais na comparação. Com certeza, com alguma gordura abdominal, oculta pelo tecido volumoso do vestido. As pernas e o bumbum um tanto magros, desproporcionais ao tamanho dos seios que, com certeza, eram bem exagerados. Grandes demais. Um corpo comum naquele país. Nada de tão impressionante. Comum, com defeitos, como ela mesma havia salientado no dia do aquário.
queria que aqueles defeitos fossem suficientes para deixá-lo neutro em relação a ela. Mas era inútil. Quanto mais pensava no corpo de , mais perdido e frustrado ficava. Não só no corpo, mas em toda a sua personalidade, em sua teimosia.
Quanto mais pensava, mais desejoso ficava.
“AISH!”, ele gritou para o teto e se levantou da cama, nervoso.
Idiota.
Idiota.
Você é um grande idiota, mentiroso… e não vale nada mesmo.

Como poderia fingir estar tão indiferente com a situação deles? Fingir que não sentia nada e que conseguiria passar todo esse tempo com ela, como um amigo qualquer, sendo que desde o primeiro dia não parava de pensar nela… por isso se odiou tanto por ter vendido a ela uma péssima imagem de si mesmo. Por que queria que ela o visse de forma positiva. Queria que o achasse atraente tanto quanto ele a achava e queria que…
Queria que os próximos trinta dias fossem pra valer.
Sim, ele queria. E era tão tolo. Porque nem sabia o verdadeiro nome daquela garota. Nem nada sobre ela, e vice versa. Então, porque ser tão idiota ao ponto de querer que aquilo aconteça de verdade? Ela não o achava bonito. Não queria que ele tocasse nela. Deveria só cair fora. Não precisava de dinheiro. Tinha muito, o suficiente.
Então por quê? “Porque eu sou doente.”, ele respondeu ao nada, aos próprios pensamentos.
E se jogou na cama, frustrado.
A verdade era que ele deveria estar com medo, não .
Ele deveria estar apavorado. Deveria sair correndo enquanto havia chances. Antes que o coração fosse arrancado de seu peito mais uma vez, como todas as pessoas que já amou sempre o fizeram.
Deveria estar apavorado.
Porque tinha medo de sentir algo por ele… Mas ele já sentia algo por ela.
E bastou poucos dias para isto. E bastou saber pouco sobre ela. E não sabia ainda definir aquele sentimento. Talvez fosse uma rebeldia natural pela ordem da vida. Não pensar em foi o que mandaram. Pensar nela era tudo o que ele conseguia fazer.
Frustrado, fechou os olhos novamente e tentou pensar em qualquer coisa que não fosse . Até mesmo, pensar nos problemas da vida fora de Cancún lhe ajudariam naquela hora.
Mas logo estava lá. Ela, de novo.Invadindo cada um de seus pensamentos de todas as formas possíveis.
Ele deveria estar apavorado.


Capítulo 06 - Luzes e Música

Cancún, 16 de Janeiro de 2016

Antes de sair do quarto, ele mesmo havia pedido para ela usar roupas leves no dia seguinte, levar outra muda de roupas também e uma mochila com lanches.
O pedido deixou curiosa, mas ela o acatou. Havia achado uma péssima ideia ir ao quarto de hotel dele na madrugada passada mas, por fim, foi o melhor a ter sido feito. Agora sabiam tudo o que tinham que fazer para que o plano desse certo.
Na noite do retorno de , quando decidiram fingir a coisa toda, não tinham ido bem no encontro. Fizeram algo simples como ir ao cinema, desta vez, vendo um filme melhor. No entanto, tudo o que puderam partilhar foi o silêncio, as mãos dadas e sorrisos falsos. Assim, não enganariam a senhorita Blanchard de jeito algum.
Naquele novo dia, ambos estavam decididos a melhorar. E agora tinham base para isso. Assim que viu vindo até a orla, sorriu. Ele usava, novamente, uma camiseta branca, acompanhada dos seus clássicos jeans rasgados e, desta vez, colocara um brinco pequeno e prateado em uma das orelhas furadas.
já havia reparado nisto outrora. As orelhas, que eram furadas, mas não tinham piercing ou brinco algum. Imaginava se não fosse apenas um traço de passado adolescente. chegou mais perto e ela percebeu que ele retribuia o sorriso. E quando finalmente chegou aonde ela estava, pegou sua mão e a surpreendeu com um abraço.
Os braços a envolveram completamente e o queixo se afundou em seu cabelo indefinido. Nunca havia reparado em como ele era infinitamente mais alto que ela. Ela mesma nunca se considerou uma garota tão baixa. Tinha uma altura comum, mas era mais alta que muitas garotas por aí. Sentiu-se diminuida, quase se encolhendo como uma criança prestes a levar uma surra de um adulto irritado. Mas o sentimento que veio depois foi ainda mais perigoso.
Pois, enquanto ele lhe afagava as costas, deslizando os dedos e a palma da mão de cima à baixo, ela pode sentir algo ali: afeto. Do garoto sem nome. Estava prestes a se afastar e perguntar o porquê daquilo, mas o pensamento foi dissipado quando sentiu os lábios quentes dele em sua têmpora.
Um arrepio percorreu caminhos dos pés até a nuca e ela arquejou, torcendo para não demonstrar como aquele mísero contato mexia com ela.
Só então pode perguntar.
“Por que tudo isto?”
Ele riu, se afastando um pouco, mas ainda a envolvendo, com os braços envolta da sua cintura, como se a guiasse em uma dança.
“Por motivo algum. Só queria… dar mais um passo.”
Dar mais um passo. Claro.
não deveria estranhar as demonstrações de afeto recorrentes. Não depois da conversa da noite anterior. Porque seriam todas falsas, apenas para enganar a senhorita Blanchard.
notou algo nos últimos dias que a própria jamais havia suspeitado: Havia pessoas olhando para eles… vigiando-os. desconfiava que fossem detetives particulares. Aqueles que sempre eram contratados para comprovar por imagens uma traição conjugal, agora foram contratados para comprovar a veracidade do relacionamento dos dois. Só áudios não bastavam à psicóloga.
Por isso o abraço. Por isso as palavras “Dar mais um passo”. Era o código que eles combinaram para demarcar os avanços que precisavam dar um com o outro durante o encontro.
Fingir tudo isto era mais difícil do que parece.
o respondeu com um dar de ombros animadinho e eles se desvencilharam. Ele, esfregou as mãos no jeans, parecendo nervoso. Ou, apenas fingindo estar nervoso. Então, ela arqueou as sobrancelhas e colocou as mãos nos bolsos do jeans largo.
“E então… porque mochila e roupas? Vamos explorar uma caverna?”
“Ah… não. Vamos pra Cidade do México.”
O sorriso saiu do rosto de e ela fez um esforço astronômico para disfarçar a surpresa e o desespero súbito. Ele sabia que ela e sua família moravam longe de Cancún. No entanto não fazia ideia de que a casa dela ficava justamente na capital do país. E não poderia saber. Saber disto só pioraria as coisas ainda mais.
A Cidade do México é grande, ele não vai saber.
Ele não vai saber.

“Mas isso é quase um dia de distância daqui. É no meio do país!”
“Nós vamos voltar, eu prometo. É que eu queria fazer algo diferente com você e dia 18 vai ter um festival de música eletrônica lá.”
Ela suspirou, estalando os dedos.
eu não conheço nenhuma dessas músicas. Na verdade, eu nem gosto de música. Eu… O máximo de música que eu sei são as que eu cantava quando fazia bico de mariachi.”
“Bico de Mariachi?”, ele estreitou os olhos. “Por Deus, você é o estereótipo mexicano encarnado.”
“Engraçadinho.”
“Nós vamos ficar vinte e quatro horas em um ônibus. Vai dar tempo de te mostrar as músicas tranquilamente.”, ele a puxou pela mão. “Falando em ônibus, vamos. Não podemos perdê-lo”

>>>


O cheiro salgado do ar litorâneo e o céu aberto e quase tão límpido quanto as águas do mar ficaram para trás há horas. Tudo o que via-se fora daquela janela era a estrada escura.
e mal trocaram palavras desde a partida, há quase sete horas. Já haviam feito duas paradas, onde ele precisou ir ao banheiro urgentemente. Em uma delas, abasteceram a mochila de comida com mais salgadinhos, refrigerantes e chocolates.
Durante essas horas eles se contentaram em apenas comer e escutar música. Depois de partirem da segunda parada, em um certo ponto da estrada, o sinal do telefone caiu e ambos se viram libertos para conversar sobre o que fariam na Cidade do México.
“Ok, agora pode me explicar o porquê de estar me arrastando pra essa viagem sem noção?”
arquejou e roubou alguns salgadinhos do pacote pousado no colo de .
“É uma forma de tentar despistar os caras. E também uma boa forma de ganhar tempo.”
“Ganhar tempo?”, ela franziu o cenho.
Ele suspirou e deu um gole no refrigerante. focou por alguns segundos no pomo de Adão dele, subindo e descendo enquanto bebia, irritada com a demora para explicar-se logo. Depois de mais um suspiro, prosseguiu.
“É uma longa viagem. Quase um dia sem precisar fazer nada de impressionante para a nossa espiã onipresente. Eu até nomeei esse processo novo. Chamei de Pontos de Intervalo.”
“O que são Pontos de Intervalo?”
“Bom, são algumas ocasiões em que literalmente podemos ‘enrolar’ a senhorita Blanchard. Viagens longas, acampamentos em lugares remotos e sem sinal… uma quase lua de mel falsa. Não podemos fazer isso direto, pois ela pode desconfiar disso. Mas marquei alguns dias no nosso calendário para os Pontos de Intervalo a achei interessante a gente testar.”
“Olha, devo te dar o crédito. Achei isso genial.”, ela engoliu um salgadinho.
“Eu disse que sou um gênio.”
“Um gênio bem modesto, pelo o que eu posso ver.”, debochou. “E quais serão os próximos Pontos de Intervalo?”
“Depois do primeiro beijo.”
sentiu um calor nascer no pescoço e subir até as bochechas. O beijo… Apesar de terem uma data mais ou menos definida para ele, não sabiam onde, nem como seria.
“E como vai ser esse festival? Quer dizer… o que vai ter de diferente nesse encontro?”
“Eu tava pensando da gente chegar muito perto de um beijo.”
“Como assim?”
Mais um gole na bebida. Ela começou a se irritar. Parecia que ele o fazia de propósito, bebia bem na hora de responder uma pergunta importante. Ele abaixou a latinha no suporte do banco e começou a gesticular.
“Você vai dar uma de clássica, relutar… ser chata…”
“Obrigada pelos elogios.”, ela ironizou.
“Depois vai curtir a festa. Vai se animar, subir nos meus ombros.”
“Nem morta, já te deixo avisado.”
“Depois vamos pra uma daquelas barraquinhas hippies do exterior, comprar uma daquelas saídas de praia e estender no gramado pra comer. Ai eu vou tentar te beijar.”
“E eu saio correndo, igual novela?”
“Não você só fala que não está pronta.”
“Não será preciso fingir muito.”
“A gente não precisa deixar tudo pré-programado nos nossos encontros. Só precisamos ter uma linha cronológica dos acontecimentos em mente. Tudo bem pra você o meu plano?”
olhou pela janela. A noite já densa, sendo possível ver apenas a luz dos faróis dos outros carros e caminhões na estrada. Pensou em como toda aquela situação era estranha. Nunca se acostumaria com aquilo.
Todavia, ela assentiu e se recostou em cima da cortina da janela.
“Por mim, tudo bem. Só preciso descansar um pouco, ok?”
Ele fez que sim e também se recostou no banco.
“Boa noite, .”
“Boa noite, .”

>>>


não esperava respirar os ares pesados da Cidade do México tão cedo, mas se surpreendeu com a sensação que a cidade lhe transmitia. Sensação que somente um lar dava.
Estavam em um ônibus comum agora. Lotados de pessoas de todos os tipos. Inclusive pessoas pintadas com tinta fluorescente e roupas chamativas.
“Não entendo como em plena terça-feira tem tanta gente indo pra essa bobagem.”, pensou alto.
olhou para os lados e viu alguns olhares reprovadores dos fãs que iam para o festival. Deu um sorriso sem graça e sussurrou em seu ouvido.
“Somos um deles, esqueceu?”
“Só porque você insistiu. Preferia uma caminhada na praia com você. Seria melhor.”
Claire retornara a ligação antes mesmo de amanhecer. imaginou a mulher ficando acordada a noite toda, até o celular pegar outra vez e riu consigo mesma. Era tão patético que chegava a ser trágico. Mas ela estava pagando, então não seria ela que a questionaria.
E, como Claire já voltara a vigiá-los, estava praticando o seu lado de namorada fofa com . No entanto, aquilo era o máximo de personalidade fofa que ela conseguia transmitir.
“É o próximo ponto, eu acho.”, ele olhou o Google maps. “Vamos descer.”
Ele a puxou pelo braço e ela sentiu-se tentada a se desvencilhar. Odiava quando as pessoas a guiavam com puxões. Se sentia como um cachorro desorientado. Mas forçou a si mesma a ficar na sua. O dia tinha de ser perfeito.
Assim que desceram no ponto, em frente ao espaço campado do festival, ela arquejou.
Eram quatro palcos pequenos e um enorme e pulsante no horizonte. Diversas barraquinhas de lanches e bebidas. Só a barraca de cervejas já estava entupida de gente. Pessoas de fantasias, sungas, biquinis, turbantes coloridos... queria sair correndo dali.
Não era o seu lugar.
, não sei não…”, ela agarrou o pulso dele.
Ele riu e colocou ela em frente ao seu próprio corpo, como se a protegesse da multidão. Como se ela fosse feita de porcelana e pudesse rachar a qualquer toque.
“Vai ser legal. Confia em mim.”
“Não confio não.”, replicou num tom agudo.
Ele riu e a puxou até a multidão acumulada ao redor do palco principal, onde o Dj que assumira já fazia todos pularem com um ritmo eletrônico frenético e jatos de água, fumaça e até fogos.
parou depois de se enterrarem bem na multidão e começou a dançar. esperava uma dança sofisticada, ou sensual, mas tudo o que ele parecia era uma enguia elétrica se contorcendo. Ela começou a rir.
“Tá horrível!”, ela gritou e ele segurou em suas mãos.
“Pula, . PULA!”
A música chegou a um ponto em que toda a multidão pulava. seguiu o embalo e pulou junto de , rindo das caretas de cansaço sedentário dele. Sentiu a onda de entusiasmo e adrenalina em cada osso do seu corpo. O suor escorrendo pelas costas e grudando a camiseta rosa na pele.
“Sobe no meu ombro!”, ele gritou.
“Não!”
Então ele abaixou e gritou outra vez.
“Sobe logo. Para de ser chata e ranzinza!”
pisou propositalmente na mão dele, antes de colocar as pernas em seus ombros. Quando ele levantou, ela gritou, com medo de cair.
, se você me derrubar eu te mato.”
Ele riu e segurou as suas mãos, para sustentá-la. Então ela pode ter uma boa visão do palco pulsante de luzes, do jovem DJ de mãos rápidas e do mar de corpos abaixo de si. Então gritou, a plenos pulmões, sentindo-se contagiada por tudo aquilo. Contagiada pelo som.
Contagiada por .
Quando, em toda a sua vida, ela faria aquilo por conta própria? Gostaria daquilo por conta própria?
Ela odiava aquele garoto.

>>>


Mais tarde, estavam na saída de praia. brincava com os fios soltos do pano, enquanto comia um taco, com a cabeça apoiada em um dos braços, para não engasgar, mas ao mesmo tempo, permanecendo deitado.
O coração de parecia se despedaçar com cada minuto de silêncio. Estava suando demais, já que passaram quase duas horas pulando juntos em meio a redoma humana. Agora sabia que ele faria o que dissera no ônibus.
Depois de terminar o taco ele se inclinou para ela, sorrindo.
“O que disse mesmo no ônibus? Tanta gente indo pra essa bobagem…”
Ela deu um tapa em seu cotovelo.
“Idiota. Foi até… legalzinho... “
“Legalzinho? Você não parava de gritar.”
“Porque é meio contagiante. Um monte de idiotas gritando, é claro que eu ia gritar também.”
Ele estava perto. Os cabelos úmidos com o suor, os olhos bem abertos, o sorriso ao pouco se desfazendo. Quase a mesma proximidade daquela praia. A diferença é que, desta vez, ela não poderia fugir.
…”, ele sussurrou. “Você tá nervosa?”
Ela se sobressaltou, e sentiu o coração pulsar ainda mais forte. Engoliu em seco e gaguejou.
“Ah… não, por quê?”
“Sua veia aqui…”, ele tocou em uma veia sobressalente do pescoço dela. “Dá até pra ver o sangue sendo bombeado.”
“Ah… não eu…”, ela balbuciou. “Eu to bem eu só… tô cansada.”
Ele assentiu, depois chegou mais perto. Entrelaçou os dedos nos dela e encarou firme o âmago de seus olhos. Beijou os nós de seus dedos lentamente e sentiu-se à beira de um precipício mortal.
Enterrou a mão livre no tecido em que estavam deitados quando percebeu que, agora, ele encarava os seus lábios.
Respire. Ele… já lhe avisou sobre isso. Só está fingindo.
Fez um círculo na maçã direita do rosto dela, subindo as mãos até os cabelos.
Respire.
“Você… é tão linda, que eu tenho medo de te machucar.”, ele disse.
Palavras sem sentido. Totalmente sem sentido.
“Você já está me machucando.”
E a forma como tão naturais as palavras escaparam de seus pensamentos fez com que sentisse vontade de chorar. Chorar até que as lágrimas a afogasse e a matasse.
Então ele se inclinou ainda mais, até que seus lábios estivessem quase encostados.
Diga. Diga agora que não está pronta.
Faça o combinado, . Faça o combinado.

Ele esperava. Esperava que ela hesitasse, como foi previamente acordado. Mas ele estava ali.
Ele estava ali.
E ela estava cansada demais para lutar contra a sua própria vontade e sua própria sanidade.
Então avançou o espaço que restava e selou os lábios nos dele.
Mas não durou um segundo sequer. Porque ele se desvencilhou. Chocado, corado… com os olhos confusos e…
Então se levantou e sentou. fez o mesmo se odiando e perguntando porque raios fez aquilo, porque raios. Mas antes que pudesse falar qualquer coisa, uma voz feminina os emergiu do momento constrangedor.
“Oppa?”


Capítulo 07 - Finito

Cidade do México, 19 de Janeiro de 2016


Assim que ouviram a voz da garota, e se entreolham, ainda próximos e ruborizados. Ela ergueu os olhos para a garota diante deles, que estagnou em uma expressão estranha. Um sorriso paralisado em uma expressão surpresa. A garota, que tinha as feições orientais como , cabelos longos e negros cascateando sobre os ombros e respingos de tinta nas roupas curtas, alternava o olhar entre ele e .
Depois do segundo demorado de estranheza mútua, soube o que fazer. Se lembrara das instruções que ela e receberam antes de tudo começar.

Quando alguém que os conhece aparecer, saíam correndo se for preciso. Não importa a situação, ou a falta da educação.
Só saiam.


E foi exatamente o que ela fez. Agarrou a bolsa, se levantou da saída de praia e correu, como se tivesse cometido o maior crime do mundo, esbarrando em corpos suados e seminus e suportes de barracas, com os pulmões explodindo no peito pelo esforço e a camiseta grudando em suas costas.Por sorte, estava na cidade do México. Poderia ir para casa, até que a conhecida de fosse embora. Ou até que a vergonha pelo o que fizera há pouco passasse. Não queria lembrar daquilo de forma nenhuma.
Ela o beijara. Quando estava claro que ainda não era a hora. Combinaram que ela deveria se afastar, demonstrar relutância. Então, por quê? Por que o beijou? O pior de tudo foi a reação dele no final. Surpresa? Repulsa?
queria desesperadamente se jogar na frente de um dos carros que passavam naquela avenida. Como poderia ter sido tão idiota? Assim que parou no ponto de ônibus, já fora de perigo, foi ainda mais atormentada pelo arrependimento e vergonha.

Você é muito burra.

>>>

. No México. Em todos os lugares do mundo, em todos os momentos possíveis, ela estava mesmo no México, e não só no México, mas exatamente no mesmo festival de música. ficou alguns minutos encarando sumindo no meio da multidão. Depois, voltou se para com um meio sorriso.
“Tá, vamos ver o que eu pergunto primeiro...”, ela colocou o indicador no queixo e depois apontou para trás dele. “ Quem era ela?”
Ele bufou e esticou as pernas.
“Te importa? É uma garota que eu tô saindo”
“E ela saiu correndo por quê?”
esfregou as têmporas, tentando parecer calmo e indiferente. Mas as batidas fortes ricocheteavam em seu peito.
“Ela tem medo de estranhos.”, disse, por fim.
“Engraçado. Não parecia nem um pouco com medo quando estava sentada no seu colo.”, replicou com desdém.
“Primeiro que ela não estava no meu colo, segundo, você não vai começar com esse ciúmes chato, vai?”
“Não. Só quero saber quem é!”
Ele se levantou, recolhendo a saída de praia e enfiando com raiva na mochila cheia.
“Já falei que não é importante! É só uma menina que eu tô pegando, droga.”
As palavras saíram amargas de seus lábios, porém ele não se arrependeu delas. Não podia expor e tirar a importância dela era a melhor das táticas.
“Perfeito. Continue aí, pegando garotinhas mexicanas e esquecendo os problemas de casa.”, ela cruzou os braços.
“E o que exatamente você está fazendo aqui, ? Resolvendo assuntos internacionais pro papai, eu tenho certeza que não.”
Ela fechou a cara.
“Mamãe está promovendo um desfile em Acapulco e eu estou modelando. Hoje é meu dia de folga. Essa é a minha desculpa, qual é a sua?”
agarrou as alças da mochila, com os nós dos dedos doendo pela força. Só notou que mordia forte o lábio inferior, quando sentiu o gosto de uma gota de sangue.
“Não te interessa, já disse.”
“O papai está furioso.”
O riso dele saiu forçado. Chutou uma pedra e cuspiu as palavras.
“Quero que o papai se dane. Que vocês todos se danem, aliás.”
“Engraçado que você quer que o papai se dane, mas o dinheiro que você tá gastando aqui com essas vadias não é seu. É dele!”
“Como se fosse diferente com você”, ele ralhou.
“Pelo menos estou fazendo alguma coisa!”, a frase saiu com um grito.
“Fazendo o que?”, ele gritou de volta, se aproximando mais dela. “Posando de biquínis por aí e dormindo com os parceiros do papai?”
deu tapa forte na bochecha direita dele. As marcas dos dedos começaram a queimar e não olhou para ela depois disso. Só olhou para o chão. Mas percebeu o choro só de ouvir sua voz.
“E pensar que eu fiquei mesmo feliz por te ver. Mas você não mudou nada. Vê se cresce, .”
E saiu, sem esperar que seu irmão a olhasse nos olhos.

>>>


“O que faz aqui?”
O irmão dela estranhou vê-la, ainda mais depois que ela avisara que só voltaria no próximo mês. Ainda suando e ofegante, ela se jogou no velho sofá florido, sentindo uma das molas espetando suas costas e mirou o teto.
“Longa história, nem pergunte.”
“Terminou com o namoradinho de aluguel?”, ele riu, com os olhos vidrados no jogo do celular.
“Eu já disse, longa história.”, se virou para ele, com as mãos embaixo da almofada. “Mas não, a gente não terminou. Eu só...” ela hesitou. “Fiz besteira.”
“Besteira como o que? Falou seu endereço pra ele?”
“Não. Eu o beijei.”
“Que nojo.”, ele torceu o nariz. “Mas espera, não era essa a intenção?”
“Não agora. A gente devia se beijar depois, no dia que combinamos.”
“Achei que vocês tinham que ter um namoro normal. O que tem de normal em combinar os dias em que vocês vão se beijar?”
“E o que você entende das coisas, pirralho? Nada né?”
Ele riu, girando o celular como se fosse um volante. virou para o teto de novo, apreciando o aroma de lavanda do desinfetante na casa.
“E a mamãe?”
largou o celular.
“Médico.”
“E você não foi com ela?”, ela se sentou no sofá, irritada. “Eu disse para sempre ir com ela, !”
“Eu estava na escola!”, ele chacoalhou as mãos. “E ela não foi sozinha. A dona Carmela foi junto.”
“Humf, menos mal!”, ela coçou o ombro, se levantando. “Então eu já tô indo.”
“Não vai esperar ela?”, franziu a testa.
“Não e graças a Deus por ela não estar aqui. Não seria bom ela saber que estou na cidade, por ora. Não sei quanto tempo eu e ficaremos, mas isso iria deixá-la com dúvidas.Nem sei porque voltei pra casa.”
Foi caminhando até a porta, mas parou antes de sair, segurando no batente.
, você acha que eu estou cometendo um erro?”
não sabia o porquê daquela pergunta. Era óbvia resposta. O que ela vinha fazendo era, no mínimo, antiético.Talvez tivesse perguntado isto para procurar um falso consolo ou uma justificativa, além das próprias que tinha criado, para tudo aquilo. Ultimamente, a auto acusação lhe atormentava com frequência.
pensou e finalmente, desde que chegara, parecia prestar, de fato, a atenção nela.
“Acho que você só quer ajudar. Então não vejo nada de errado”, e voltou para o jogo.
Ela sorriu e agradeceu o irmão em pensamento, antes de sair de casa.

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Ficou andando por quase duas horas nas ruelas de seu bairro, pensando onde dormiria naquela noite. Ria consigo mesma de sua situação deplorável. Estava na própria cidade e não fazia ideia para onde iria ou que faria.
Depois de pisar em algumas poças de água imunda na calçada, lembrou-se de Lucinda e sorriu, tirando o celular quase sem bateria da bolsa, pedindo a Deus que a carga que tivesse fosse suficiente para uma ligação.
Procurou o número da amiga na lista de contatos mas hesitou antes de ligar. O que falaria a ela que justificasse a ligação àquela hora da noite? Mas as faltas de opções acabaram deixando o receio para trás.
“Alô?”, a voz da amiga saiu rouca e baixa. Estava dormindo.
“Luci? Sou eu.”
“Amiga? Por que tá me ligando essa hora?”
“Preciso de um socorro. Posso dormir na sua casa?”
A amiga bocejou atrás da linha.
“O que aconteceu?”, perguntou com a rouquidão da voz desaparecendo.
“Me deixa dormir aí que eu te conto.”
“Não nego uma fofoca, . Pode vir.”
desligou o telefone e saiu pulando as poças das calçadas, aliviada por finalmente ter lugar aonde ficar, mas tensa sobre o que falaria para Lucinda. Teria de contar a verdade ou inventar uma boa mentira. Quando chegou na porta da pequena casa de Lucinda, que também ficava em um conjunto de casas humildes, bateu três vezes pausadas e depois quatro seguidas e bem rápidas. Não sabia porque ainda usava esse código de batidas idiota que elas haviam inventado na infância. Era mais um hábito, do que qualquer coisa.
Depois de três segundos, Lucinda apareceu, com um pijama curto de shorts e blusas com alcinhas. O cabelo estava amarrado em um coque estranho e alto e ela carregava um pote de sorvete na mão.
“Eu acho bom a fofoca ser boa. Você atrapalhou a minha maratona de Grey’s Anatomy!”
riu e entrou de braços cruzados na pequena cozinha de Luci.
“Posso tomar um banho? Eu tô suada demais…”
“Nananinanão, querida. Você não chega na minha casa quase uma hora da manhã, sabendo que amanhã eu trabalho pra fugir do assunto.”
“Mas você não acabou de dizer que estava numa maratona de Grey’s Anatomy?”
“É, já que você me acordou, fui assistir um episódio enquanto te esperava.”, ela puxou uma das cadeiras brancas, enferrujada nas pernas e apontou para o assento. “Sente aqui, . Vai me contar tudo.
mordeu o lábio inferior, se sentindo arrependida outra vez por ter escolhido ir para lá ao invés de simplesmente ir a um hotelzinho barato. Eram besteiras demais para um dia só. No entanto, considerou as coisas boas que viriam se contasse para a melhor amiga tudo o que estava acontecendo. Desde que tudo começou, só sabia a verdade e ela não podia esperar bons conselhos de um garoto da idade dele, por mais inteligente que ele fosse. Ela suspirou e sentou na cadeira.
“Sente-se. A história é longa.”
Então contou tudo. E conforme ela contava, mais estranhas as palavras soavam aos seus próprios ouvidos. Imaginou como seria se ela estivesse ouvindo outra pessoa contando aquela história. Como reagiria? Provavelmente xingaria a pessoa, ou a chamaria de insensata. Explicaria o quão absurdo era tudo aquilo e listaria os motivos de achá-la louca.
Torceu para que Luci não fosse assim. Mas durante o relato, era difícil decifrar a amiga. Primeiro, houveram alguns “o que?!” surpresos. Depois, apenas algumas perguntas curtas durante o relato como “quanto dinheiro?”, “ele é de onde?” e a pior delas “Você vai ter que dormir com ele?”.
Assim que concluiu, Luci raspou o fundo da lata de sorvete, pegando-o já totalmente líquido com a colher, parecendo muito mais uma sopa de feijão do que sorvete de chocolate. engoliu em seco, se preparando para o veredito.
“E ele é gato?”
bufou, mas depois riu. Luci riu junto com ela.
“Falando sério agora, amiga… eu acho tudo isso uma loucura.”
Ela abaixou a cabeça, já se abatendo com as palavras que viriam a seguir.
“Mas eu te entendo totalmente. Sua mãe precisa do dinheiro e…” ela suspirou. “Só quem vive o que vivemos sabe como é tentar arrancar grana de onde podemos pra ajudar a família.”
Luci apertou a sua mão, com um olhar compreensivo.
“Mas você tem que tomar cuidado. Você não sabe nem quem ele é. Pode ser perigoso.”
“Não acho que ele possa me fazer algum mal. Meu maior medo é acabar me apaixonando por ele. Luci, você sabe como meu coração é idiota! Eu tenho medo de acabar gostando mesmo dele e sofrer quando ele for embora. Nunca mais vamos nos ver!”
Ela assentiu, soltando as mãos de .
“E outra…” continuou. “Acho que já estou gostando dele. Nós combinamos um ‘quase’ beijo e eu me deixei levar e acabei beijando ele!”
“Nossa, ele deve ser gato então!”, Luci riu.
revirou os olhos.
“A quem eu vou enganar? Eu já tô afim dele e nem sei porquê. Ele é meio babaca e branquelo demais. E muito magro. Tá, talvez não tão magro. Ele tem uns músculos que nossa…”
“Cada vez que você fala, mais eu fico curiosa pra conhecer ele!”
grunhiu, se levantou da mesa e caminhou até o quarto, com Luci a seguindo.
“Não sei o que eu faço. Eu não sei…” ela bagunçou os cabelos e se jogou na cama de Luci, cobrindo os olhos com as mãos. Sentiu o colchão afundando mais, quando Luci sentou ao seu lado.
“Já considerou deixar de lado os seus medos e namorar ele de verdade?”
“O que quer dizer?”, tirou as mãos dos olhos.
“Quero dizer que ao invés de fingir e lutar contra os seus próprios sentimentos, você devia namorar com ele mesmo. Veja bem, a tal Claire é psicóloga. Ela estudou muito essa tese antes de tentar por em prática.”
“Prossiga.”, encorajou.
“Ela também analisou as personalidades de vocês, possivelmente na intenção de juntar duas pessoas que não ficariam mais de um mês juntas. Já tentaram confiar nela?”
“Claro que não, Lucinda. A mulher é louca! Você acredita mesmo que relacionamentos nunca duram pra sempre? Que têm, de fato, uma data de validade?”
“Olha, meus pais se separaram. Os seus também. Hoje em dia, eu não acredito tanto em amor eterno. Mas, ainda assim, não tô querendo dizer que Claire está certa. Só quero dizer que você devia viver um dia de cada vez e parar de lutar tanto consigo mesma. Se dedique totalmente a esse . Faça as coisas entre vocês dar certo e não pense no dia quinze. Eu já namorei, amiga. Namoro enjoa. Até lá, convivendo com ele todos os dias, a paixonite acaba.”
estava prestes a rebater as palavras da amiga.
Mas… quem sabe...
Quem sabe Lucinda não estivesse certa?
Naquelas quase duas semanas com ela já tentara de tudo. Evitar ele, sabotá-lo e, por fim, fingir o relacionamento. Mas, nenhuma daquelas tentativas de segurar os seus sentimentos crescentes vinha dando certo. Não seria melhor deixá-los extravasar de uma vez? Ela mal pregou os olhos durante a noite. Pensou a noite toda em tudo o que a amiga falara. Pensou em sua situação atual e pensou em . Pensou nos olhos e nos cabelos negros dele e no seu perfume.
Nos lábios que ela pode sentir apenas por segundos tão efêmeros.
Aqueles sentimentos novos não eram para ser oprimidos. Fazer isso só resultaria em catástrofe. Eles tinham que ser soltos. Só assim os compreenderia melhor. Quem sabe, até não desencantar. Poderiam não ser tudo isso o que ela vinha imaginando.
Ela acordou com uma determinação diferente naquele dia. Se levantou cedo e vestiu a outra muda de roupas, shorts e camiseta preta e lisa, com os mesmos tênis do dia anterior. Odiou o visual, mas teve de se conforma. Prendeu os cabelos e pegou o celular, que passara a noite toda carregando. Quando o ligou, viu as mensagens de .
Encontre comigo na Praça Garibaldi.
Ela pegou o ônibus até a praça, admirando o céu estriado por faixas alaranjadas do nascer do sol e as pombas alçando voo das calçadas ainda vazias. Aos poucos o ônibus ia enchendo e o coração dela acelerava ainda mais, tentando ignorar os pensamentos negativos.
Assim que desceu, viu sentado em um banco, olhando o celular. sorriu e caminhou, tentando ajeitar os fios rebeldes do cabelo. Sentou-se ao lado dele, que se sobressaltou com a chegada silenciosa dela.
“Ah… oi.”, ele sorriu.
“Oi.”
Ficou olhando para os pés esperando ele falar alguma coisa. Qualquer coisa que levasse a confissão dela. Mas demorou até que qualquer palavra fosse trocada.
“Quem era a garota de ontem?”, ela se odiou por começar assim.
“Era a minha irmã.”, ele riu.
“Nossa! E aí ela perguntou algo de mim?”
“Sim, mas não precisa se preocupar. Já resolvi as coisas.”
Ela entendeu que não deveria mais tocar no assunto.
“Claire já ligou ai?”, ela apontou para o bolso dele.
“Não.”
Ela suspirou e esfregou os joelhos.
“Ótimo. Precisamos falar do beijo.”
eu…”
“Deixa eu falar primeiro.”, ela se surpreendeu com a sua própria coragem. “ eu sabia que não devia ter te beijado ali. Mas acabei deixando me levar.”
“Me desculpe, eu posso ter exagerado na aproximação e…”
“Deixa. Eu. Terminar”, ela disse, em pausas. “Eu preciso falar antes que eu me arrependa. você já sabe muito bem que eu temo o que eu possa sentir por você. Mas...”, ela gaguejou. “Mas esse medo anda me atrapalhando.”
“Já disse que não precisamos ter nada. É só fingirmos e…”
“Eu não quero mais fingir, .”
Os olhos dele saltaram e ele mudou de posição no banco, ficando de frente para ela.
“Como assim?”
“Eu quero ficar com você, de verdade.”
“Uou!”, ele olhou para o próprio colo e depois encarou os seus olhos. “Você quer dizer que…”
“Cansei de lutar com você. E fingir também não é uma boa ideia. Claire nos contratou para ficarmos juntos de verdade. E eu sei que não começamos do jeito mais tradicional do mundo mas…”, ela segurou a mão dele. “Mas eu gosto de você.”
A boca dele estava entreaberta durante todo o discurso. Não parecia ser real.
“Eu sei que talvez você não sinta nada. Mas você pode tentar. Talvez depois de algumas semanas…”
“Eu também gosto de você.”
Quem ficou espantada desta vez foi ela.
“O que?”, balbuciou.
Ele apertou sua mão e chegou mais perto.
“Eu também gosto de você. Não digo que amor, mas… eu não paro de pensar em você.”
Ela tremeu, sentindo como se a alma tivesse se tornado algo físico e agora circulava pelo seu corpo, misturada ao seu sangue, em uma maré bruta.
“Mas você… se espantou tanto quando eu te beijei e…”
“Eu só não esperava. , todas as vezes que eu disse que você era linda, não foi mentira.”, ele beijou a sua mão. “Ontem, quando disse que tinha medo de te machucar, não estava fingindo.”, ele beijou a sua têmpora e ela engoliu em seco. “E eu também não menti quando disse que sou um idiota.”, depois beijou bem perto da orelha. Cada beijo, disparava um arrepio novo nela. “Eu não sei o que é isso, mas eu sei que eu quero descobrir.”
Ela sorriu. Os dedos dele acariciavam a sua nuca. Assentindo, respondeu quase sem voz.
“Eu também quero.”
Sem permitir que ela falasse mais alguma coisa, ele esmagou os seus lábios nos dela. Com uma onda de ansiedade, de certo medo, e de liberdade. Porque finalmente, naquele beijo, tudo estava às claras. Tudo estava certo como a água da chuva em um campo no interior, ou como o céu aberto no verão em uma ilha.
O beijo, o tempo deles, a vida, tudo era finito. Mas, enquanto estavam ali, presos naquele momento, era como se a eternidade fosse deles. E eles fariam o que quisessem com ela.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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