FFOBS - VERSUS, por Bruna Cruz

Última atualização: 22/05/2018
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“And in the years after, with tears or with laughter, we’ll always remember our dear Kappa days."


Capítulo 15

’s POV


— Parabéns, ! Você acabou de destruir o pequeno passo que demos.

Ele deu alguns passos para trás. O arrependimento por ter tido a ideia estúpida de descer até ali era claro em sua expressão, mas eu não vacilei. Por mais perdido e desolado que seu olhar se mostrasse, eu me recusava a aceitar que aquilo estava acontecendo de novo, e dessa vez ainda mais sem motivo, coisa que eu nem achava ser possível.
Eu não era sua namorada, não devia explicações sobre o que eu fazia ou deixava de fazer, especialmente quando ele estava por aí fazendo a mesma coisa. Eu não era sua propriedade para guardar e manter todo o resto do mundo – ou, no mínimo, aquela parte do sexo masculino – afastado. Nunca fui.
Eu sempre soube que aquele papo de “eu mudei" era conversa furada, mas, pela primeira vez, eu fiquei decepcionada por ver aquilo se confirmar em frente aos meus olhos. Nesse rápido segundo, eu percebi que uma pequena parte de mim gostaria que pelo menos esse pedacinho fosse verdade. Descobrir que não era doeu mais do que eu gostaria. Ser parte de uma cena daquelas mais uma vez doeu mais do que eu gostaria. Todas as lembranças ruins voltarem mais fortes do que nunca, doeu mais do que eu gostaria. Porém nada superava o desapontamento comigo mesma de ainda ser afetada por coisas que ele fazia.
Não pude deixar de pensar que o efeito talvez não viesse com tanta força se eu não tivesse abaixado tanto a minha guarda nas últimas semanas. Eu me permiti deixar de provocá-lo a cada segundo, deixar de tentar machucá-lo com as minhas palavras, ter rapidamente interrompidas, mas ainda assim pequenas conversas com ele. Deus, eu me permiti flertar! Não porque eu tinha a intenção de fazer algo a mais do que isso, eu só adorava ver a cara abobalhada dele quando o fazia. Era um jogo perigoso, pois não tem nada de repulsivo em sua aparência e, se eu não fosse tão orgulhosa, correria o risco de deixar o meu corpo falar mais alto. Ainda assim, era divertido. Até ele estragar tudo. Porque é isso que e fazem: fodem com tudo e todos no mais leve vacilo.
Deviam nos dar um prêmio ou algo do tipo.
Porque o meu dia não estava ruim o suficiente (alô, lavadora de carros, coisa criticada por mim mesma no meu primeiro dia nesse campus), avistei Ryan se aproximando alguns metros à frente. Espera que fica pior... Ele vinha com o Nick a tiracolo, cara que eu rejeitei há pouco tempo e parcialmente culpado pelo ataque do . Eu o daria 10% porque a culpa ainda era quase que totalmente do sem noção que agora me encarava com cara de cachorro com fome.

, eu preciso de você lá em cima. Agora! – o nervosinho de sempre disse quando chegou perto o suficiente.

Se você está pensando que ele iria resistir, jogar motivos para ficar ali estendendo o meu sofrimento ou apenas ignorar Ryan e qualquer coisa que saia da boca dele, você se enganou. Muito ciente da merda que havia acabado de fazer, ele apenas olhou rapidamente para cada um de nós e forçou um sorriso que mais parecia lhe causar dor.

— Ok. – falou simplesmente e saiu andando, tão rápido quando havia chegado até ali.
— Viu como foi fácil, Nick?

O meu ex-peguete assentiu e sorriu educadamente para mim antes de seguir o amigo. Que na verdade não era tão seu amigo assim. Ryan ficou para trás por mais alguns segundos.

— Você! – começou enfiando aquele dedo intrometido na minha cara. – Para de mexer com a cabeça dos meus competidores!
— Cai fora, Ryan! – disse, saindo de algum lugar atrás de mim. Sem muito mais o que dizer, ele obedeceu. – O que foi isso? – perguntou, tomando o lugar dele a minha frente.
— E eu sei? O tem algum tipo de problema naquela cabecinha dele. – respondi, engolindo em seco.
— Tá tudo bem?

Dei de ombros.

— Vai ficar. Isso só me trouxe... Lembranças, sei lá. Culpa minha por começar a acreditar que ele realmente havia deixado esse lado para trás. – disse e ela assentiu, concordando, apesar de eu ter certeza que lá no fundo ela queria defender o amigo.
— Você quer ir trabalhar em outra coisa? Posso te colocar na lanchonete.

Ri, negando prontamente.

— Eu quero manter a maior distância possível da Mina e seus brownies especiais. Já tenho confusão demais para o meu lado! Além do mais, eu prometi que ficaria pelo menos algumas horas aqui, certo? Então vou ficar.

E lá fui eu tentar, pela terceira vez, fazer a simples a ação que era encher um balde de água. não teimou comigo. Ela estava sendo consideravelmente mais fácil de lidar ultimamente. Comigo, pelo menos. Culpada por causa do que me escondeu? Talvez. Eu que não iria reclamar.

— Tudo bem, qualquer coisa me chama.

Eu odiava estar ali na lavagem de carros. Não importava o quanto me dissessem que não era algo sexy nem nada do tipo, eu ainda tinha plena consciência de que esse não era o pensamento de todas aquelas pessoas, especialmente caras, que passavam na esperança de ver alguma camiseta branca molhada. Mas Nikki havia me colocado ali, então eu lavaria o meu máximo de carros e conseguiria muito dinheiro pelo bem da minha irmandade. E pela queda da Lambda.
Falando nela, os rapazes decidiram nos copiar e fazer uma também. Não que aquilo fosse uma exclusividade da Kappa Kappa Gamma, só que eles não faziam algo assim há anos. Talvez nunca. Provavelmente na correria da preparação às pressas, eles ficaram sem opções e optaram por roubar o nosso ato clássico. Foi injusto, mas esperto, mesmo que todo o dinheiro viesse em uma quantidade absurda de moedas. Aquela era uma rua movimentada, não só por causa das pessoas que passavam ali diariamente, mas também pelas que decidiam cortar caminho por dentro do campus. Isso sem falar nos espertinhos que já sabiam as datas de tudo que acontecia naquela universidade. No final, era um dos dias mais lucrativos da semana, perdendo apenas para o último.
Os três últimos dias da semana da inclusão eram abertos para todo e qualquer público. E quando eu digo todos, eu digo todos: muitos pais apareciam por aqui nesses dias. Eu mesma estava esperando os meus a qualquer momento. O público principal ainda eram os universitários porque, sejamos sinceros, não tem nada melhor que um cardápio inteiro de coisas divertidas, gostosas e interessantes para fazer depois de um dia de aula. Contudo, toda a divulgação feita semanas antes nas redes sociais traziam também pessoas de fora, ex-estudantes, membros daquelas instituições gregas que já haviam se formado, próprios funcionários dali etc. Esse era um dos motivos pelo qual devíamos ter deixado de vender certas coisas a partir dali, mas o número final dos nossos ganhos no dia anterior fora tão grande que Nikki deu a permissão que a Mina precisava para continuar os seus negócios, desde que triplicasse o cuidado. Nós já sabíamos que os rapazes venderiam drinks que realmente vinham com álcool e aquilo era bem mais arriscado. Tínhamos uma receita para o desastre, ao ponto de não desejarmos que eles fossem pegos, pois isso poderia significar algum tipo de inspeção no nosso lado também e aí, sim, a coisa ficaria feia.
Depois de quase uma tarde inteira lavando o carro dos outros, ouvindo cantadas que ficaram cada vez mais vergonhosas, mostrando o dedo do meio para algumas pessoas, xingando alguns clientes, Nikki fez um convite para que eu me retirasse daquele lugar. A lanchonete era o único lugar precisando de gente, então fui obrigada a ir para lá. Cheguei a tempo da visita da coordenadora, que não perdeu a oportunidade de experimentar praticamente tudo do que tínhamos disponível. Mina, como a perfeita mentirosa que era, passou pelo teste sem maiores problemas.
No final da tarde, nós fomos direto para casa para ter uma reunião e, de quebra, evitar os rapazes e qualquer problema que eles pudessem nos trazer. Como de costume, todas nos sentamos ao redor da sala de estar, atentas para o que quer que fosse que a Nikki tinha a dizer. Aqueles pequenos encontros geralmente funcionavam apenas para que discutíssemos pequenas coisas, aperfeiçoamentos e coisas do tipo. Por exemplo: se no dia seguinte houvesse mais uma lavagem de carros, ficaria definido ali que eu não participaria mais. Nada de decisões grande, pois essas já estavam tomadas. Ou pelo menos era o que pensávamos. Por isso, todas ficaram surpresas com o que a nossa líder tinha a dizer.

— Nós precisamos bolar algo novo para amanhã. Algo espetacular!

O choque foi unânime. Era certo que amanhã nós teríamos vários foodtrucks, o que já chamava pessoas, além da volta de algumas Kappas formadas que vieram dar palestras sobre seus trabalhos e experiências no primeiro e segundo dia. Uma delas estava trabalhando no desenvolvimento do protótipo de um robô com sua equipe e o traria para exibição! Era incrível! Nós estávamos dispostas a conquistar aquela vitória pelos estômagos e pelo cérebro. No entanto, aquilo não parecia mais ser o suficiente.

— O que você quer dizer? – alguém que eu não via perguntou.
— Exatamente o que eu disse! Eu sei que nós temos tudo pronto e tudo mais, só que eu tenho essa sensação muito grande de que os rapazes têm algo a mais preparado para amanhã. Nós precisamos nos garantir porque eu posso não ter entrado nisso por boa vontade, mas se viemos até aqui, é para vencer!

Um pouco afetadas pela intensidade do seu tom de voz ao dizer aquelas palavras, todas nos calamos por algum tempo. Eu tentei pensar em algo que já não tivéssemos trazido ou que os rapazes não tivessem trazido e nada me vinha à mente. Não parecia haver atração – possível na última hora – no mundo que ainda não tivesse sido usada.

— Mas... Você quer o que? Sei lá, um artista? Como eles trouxeram a contorcionista no primeiro dia? Ela fez sucesso. – Mina disse.
— Qualquer coisa boa o suficiente que consigam pensar. Qualquer coisa!

Eu conseguia entender a vontade gigantesca da Nikki de melhorar ainda mais a nossa semana da inclusão. Ryan ficava no pé dela o tempo todo, para se vangloriar ou apenas para encher o saco, como se ele não tivesse nada o que fazer a tarde inteira. Eu havia decidido entrar em uma irmandade por muito menos do que aquilo.

— Que tal um malabarista?! – Mina sugeriu. – Malabarismo com pinos, espadas, bolinhas, arcos e...
— Já sei! – Ashley a interrompeu. – Que tal um cinema ao ar livre?

Todas ficamos maravilhadas com a ideia imediatamente, esquecendo do que a Mina falava. Ela bufou, nada feliz com aquilo, especialmente com quem havia tirado a atenção da sua ideia. Eu concordava que a Ashley podia ter esperado para falar, poderia ter usado um pouco daquela tão famosa educação, mas também concordava que sua sugestão era boa demais para ser ignorada.

— Como nós faríamos isso? – Nikki perguntou a questão que estava na cabeça de todas nós.
— Bom, eu tenho um amigo que trabalha com isso e ele meio que me deve um favor por ter divulgado um desses no meu canal há um tempo. Eu posso pedir a ajuda dele e, com sorte, talvez seja possível organizar tudo em tão pouco tempo.
— Mas não vai ser de dia, vai? – April perguntou.
— Não, amanhã nós vamos até de noite! E sabe o que é melhor? Nós podemos aceitar o pagamento para participação em dinheiro ou alimentos para doação. Eu converso com a Alice, vejo se dá para converter o valor deles depois.
— Genial! Eu vou ir agora mesmo fazer o design dos panfletos para a gente divulgar amanhã durante a tarde! Se eu terminar a tempo, consigo mandar imprimir ainda hoje para pegar no horário do almoço. – dizia, já de pé e a um passo de correr escadas acima, esperando apenas pela resposta da Nikki.
— Perfeito, ! Obrigada! Enquanto isso a Ashley vai ligando para o amigo dela e eu vou atrás de uma boa localização, assim temos certeza que é possível e não gastamos dinheiro com impressão à toa.

Em não mais que dez segundos, as três haviam desaparecido, nos deixando sozinhas na sala. Como não podíamos nem queríamos ficar ali paradas, de braços cruzados, sem fazer nada, começamos a discutir outras coisas, como: o que vender de comida. Ficamos com nachos, pipoca, cachorro quente e as usuais bebidas, tudo fácil e rápido. Usaríamos a lanchonete 360°, pois não compensava montar outra estrutura para aquilo. Além do mais, aquele seria o último dia de uso dela, então o trabalho para desmontar e montar novamente no lugar do cinema (que provavelmente seria afastado de onde estávamos) não se tornaria um problema tão grande.
Também definimos alguns horários e pontos de divulgação dos panfletos para que pegássemos não só o público que já estaria lá como também aquele passando por perto. A cereja do bolo foi decidir convidar todos os rapazes gratuitamente, só para observá-los assistir a nossa vitória. Não podíamos cobrar porque eles não eram tão estúpidos a ponto de contribuírem para o nosso caixa diretamente. E depois da pequena visita que fizemos a eles no dia da feira de adoção, Ryan com certeza não resistiria e nos daria o desprazer da sua presença.
Não muito tempo depois, Nikki e Ashley voltaram com os oks que precisávamos. Já ficou enfiada com a cara no seu notebook pelas próximas duas horas e ai de quem a interrompesse em seu processo de criação.
Mais tarde, com a encomenda dos panfletos feitas, não nos restava muito o que fazer naquele dia, então acabamos indo para a cama cedo a fim de descansar muito para amanhã. Cansada como eu estava, o sono chegou facilmente, mas como nada na minha vida é fácil assim, uma DR me impedia de mergulhar nele.

— Não foi de propósito. – se defendeu falando baixinho.

ALÔ! Estávamos no mesmo quarto. A única maneira de eu não ouvir seria com mímica. Eu cheguei a sugerir a ideia, no entanto, elas não ficaram muito felizes.
Por mais que gostasse de todo o negócio do cinema ao ar livre, Mina ainda estava sentida pela ter se apressado tanto para abraçar a atração. Ela podia lidar com o resto da casa deixando sua ideia de lado tão facilmente. Com a sua namorada, não.

— Você podia pelo menos não ter corrido para fazer o design tão rápido.
— Eu não pensei! Você sabe como eu me animo com essas coisas. Não quis te deixar mal.
— Mas deixou.

Se eu não tivesse com tanto sono, acharia engraçado a Mina ser tão relaxada com tudo, menos com coisas que envolviam sua ex-namorada. Não que eu tivesse muita moral nesse departamento.

— Ah, Mina! – resmungou, revirando em sua cama.

Agora que eu e a April sabíamos de tudo, elas dormiam uma na cama da outra de vez em quando. Porém, hoje o casal estava separadíssimo.

— Agora a Ashley deve estar lá, zombando sobre o que aconteceu mais cedo com as amiguinhas dela.
— Agora a Ashley deve estar dormindo, como o resto da casa também está e como eu queria estar. – Me intrometi, falando abafado por estar com o rosto jogado contra o travesseiro. – Aliás, desde quando você se importa?
— Eu não me importo. – Mina respondeu. – Só é um bom argumento para ser usado.
— Vocês têm o dia inteiro para discutir isso amanhã. Vamos dormir! – implorei.
— Para de drama, . A April tá dormindo, você também consegue. – disse e eu senti o impulso de mostrar a língua para ela, se não fosse o escuro e a voz que soou acima de mim.
— Na verdade, eu não estou. É que eu sou quieta, diferente da . – April falou baixinho, como de costume.
— Eu senti uma amargura nesse tom, April Spring?
— Sim. Fica quieta porque até você se intrometer elas eram duas, agora somos quatro.

Abri a boca, em choque com a audácia do pequeno ser humano. E então sorri.

— Nós estaríamos começando outra DR agora mesmo se eu não estivesse tão orgulhosa do tamanho dessa atitude.

Isso não fez com que a Mina e a desistissem de teimar uma com a outra. Eu sabia que havia durado ainda mais que trinta minutos, mas nesse ponto meu cérebro já estava muito cansado com a repetição infernal e decidiu finalmente dormir um pouquinho.

Aquela quinta-feira foi tão, tão, tão cansativa que em alguns momentos eu considerei simplesmente jogar a toalha e parar por ali mesmo. Se meu orgulho não fosse tão gigantesco e a diversão não valesse tanto à pena no final do dia, há grandes chances de que eu o teria feito.
Nikki acabou estando certa: a Lambda realmente preparou algo incrível para aquele dia. Eles não só expandiram o Lambda Chinder como também investiram em um playground! Montaram uma área ainda mais cheia de jogos, desde pac man até ping pong. Isso sem falar na cabine de fotos que era um assalto de cara e mesmo assim havia uma fila gigantesca de pessoas esperando pela sua vez. Eles não estavam exagerando quando disseram que iriam investir na diversão... Eu duvidava que existisse um jogo no mundo não contemplado por aqueles rapazes.
Eu e mais algumas garotas fomos fracas e passamos uns bons minutos encarando toda a estrutura, tentando conter o impulso de ir lá jogar só em uma ou duas máquinas. Mas sabíamos que se Nikki nos pegasse, voltaríamos para o nosso lado puxadas pelas orelhas, então não arriscamos e cada uma foi para a sua função do dia.
Me colocaram como responsável por controlar o fluxo na demonstração da mulher que trabalha com robótica. Seu nome era Catherine Sullivan e ela fez bastante sucesso, o responsável sendo o estranho pedaço de lata que ela trouxe. Feio, porém bem incrível. Apesar dela falar um pouco sobre si mesma e sua carreira, era óbvio no que as pessoas realmente se interessavam. Tudo acontecia em uma tenda fechada para que o barulho do lado de fora não atrapalhasse e cada sessão durava cerca de 20 minutos. Eu cuidava disso e controlava a entrada e saída de todos, o que significava passar a tarde ouvindo praticamente a mesma coisa dezenas de vezes. No final do dia, eu sabia até o horário em que ela havia nascido.
O dia até foi interessante, mas todas ansiávamos mesmo pela noite. Começaria às 21hrs e o filme escolhido para exibição foi Ghost. Particularmente, eu escolheria outro, mas foi esse que a votação elegeu, então fiquei quieta. Eu cheguei uma hora antes para ajudar nos últimos detalhes e acabei perdendo meu tempo, pois tudo já estava praticamente pronto. Nós não tínhamos uma tela gigantesca e moderna porque tudo foi feito em cima da hora, mas tínhamos uma grande parede branca e uma espécie de tecido trazido pelo amigo da Ashley, que teoricamente melhoraria a imagem. Também não tínhamos cadeiras, mas essa parte foi de propósito. Convidamos as pessoas a trazerem panos, cobertores ou edredons onde pudessem deitar e ficar mais confortáveis do que numa cadeira de plástico que pode ceder facilmente na grama do terreno.
Logo as pessoas começaram a chegar e ficou claro que usar um lugar com espaço de sobra foi uma ótima ideia, pois elas se acomodavam aos montes. Pouco antes do filme começar, os rapazes também deram as caras. Alguns pareciam realmente animados com a ideia do cinema ao ar livre enquanto outros tinham o bico lá no chão. Não preciso dizer que o Ryan fez um escândalo mais cedo quando ficou sabendo, preciso?

— Isso é contra as regras, Nichole! As atrações acabam às 19, no máximo 20hrs, e tem sido assim por anos! Você não pode chegar com as suas ideias novas e mudar todo um sistema! – ele tagarelou.

Acabou que conseguiu o que queria, se o que ele queria era arrastar a Nikki para o escritório da Alice, que já não aguentava mais a nossa presença, e confirmar que nós tínhamos toda a autorização necessária para fazer aquilo.
Eu não vi imediatamente e agradeci por isso. Ainda estava surpresa e um pouco chateada pela cena do dia anterior. Só um pouco porque eu me recusava a deixar atitudes como aquelas voltarem a infernizar a minha vida. No entanto, eu sabia que aquilo não duraria para sempre. Ele só precisava de um tempo para se preparar e vir me encher o saco. Nem um pouco a fim de ouvir, eu o daria o tempo que ele quisesse.
Como previsto, o lugar lotou ao ponto de algumas de nós termos que trabalhar como guias, encontrando lugares vazios para os que não saíram de casa cedo o suficiente. Não estava reclamando, é claro. Mais dinheiro para o nosso bolso, mais próximas da vitória ficávamos.
No meio do filme, chegou a minha hora de trabalhar na lanchonete junto com a April. Eu fui animadamente, pois já havia assistido àquele filme vezes demais com a minha mãe, a fã número um da Demi Moore. Crianças normais assistiam a filmes da Disney, eu assistia Ghost pelo menos uma vez na semana.

— Será que nós podemos comer? Eu tô com fome. – April perguntou, olhando com grande interesse para as salsichas cozidas.
— Não tem ninguém aqui agora, acho que sim. – respondi enquanto colocava uma boa quantidade de milho na panela para fazer mais pipoca.
— Eba!

Animada, ela se pôs a montar um hot dog especial, com direito a duas salsichas e molho extra. Observei admirada a fome da garota que havia jantado há não mais que duas horas e acabei por concluir que era tempo o suficiente, eu mesma estava ficando tentada a preparar um para mim. Enquanto não fazia isso, eu dei atenção a minha pipoca, sem nunca deixar de ouvir o quanto a refeição dela estava boa com vários “hmmm", “yammm", entre outros.

— Ei! – eu ouvi dizer não muito tempo depois, mas os meus olhos foram pra reação da April. Ele pegou ela bem no meio de uma grande mordida, o que a constrangeu tanto que sua pele mudou drasticamente do pálido ao vermelho.
— Oi. – ela respondeu, tampando a boca cheia.

Eu ri e balancei a cabeça antes de fazer o mesmo.

— E aí.

Notei que estava ao seu lado, mas se ele queria me ignorar, ele também seria ignorado. O único envergonhado ali era ele.

— Nossa, isso parece bom. – o também esfomeado disse, encarando o lanche dela.
— Quer?

Sendo o que era, ele estendeu as mãos para aceitar. A minha foi mais rápida e estapeou a dele antes que chegasse ao hot dog.

— Se quer, compra! São três dólares e nós precisamos do seu dinheiro.

Ele me encarou de boca aberta, extremamente ofendido. April riu e colocou o seu de lado para preparar outro.

— Tá tudo bem, eu monto um tão especial quanto o meu para você.
— Se ir com salsicha extra, são quatro dólares. – informei.
— O que!? , quando o sistema capitalista tomou conta de você? – questionou e eu dei de ombros.
— Quando a fraternidade do seu amigo nos desafiou.
, você me deve quatro dólares.
— Então, ... – eu comecei, com um sorriso maldoso nos lábios enquanto a April trabalhava. – Comprando comida agora, no meio do filme? É quase como se você tivesse esperando alguém... Não é engraçado, April?

Ela deu um sorriso nervoso, ciente de onde eu estava indo, e não me respondeu. , entretanto, não se deixou abalar.

— Com toda essa correria, eu não via a April há alguns dias. Senti a falta dela. Tem algum problema com isso?

Eu definitivamente não tinha problema nenhum. Muito ao contrário, aquilo me mostrava que ele havia decidido investir no que quer que fosse aquilo e só me deixava mais animada ainda. Não podia dizer o mesmo da minha amiga, que parecia querer se esconder debaixo do balcão.

— A-a-aqui o seu la-anche. – ela gaguejou, entregando a ele e eu juro que sua mão tremia.
— Problema nenhum. – respondi, sem deixar de sorrir.

Ele percebeu o tamanho do nervosismo dela, então se apressou para se retirar, entendendo que as coisas com a April nunca eram simples.

— Ai meu Deus, meu corpo inteiro tá suando! – ela disse assim que ele saiu, se apoiando no balcão e procurando qualquer objeto para se abanar.

Eu ri, me divertindo mais do que nunca com aquela visão.

— Vocês dois ainda vão me garantir situações hilárias!

Aquela noite foi longa. Quando todos foram embora, nós ainda tivemos que ficar para arrumar tudo, inclusive limpar, já que as pessoas de Los Angeles não eram lá muito educadas. Além disso, se você pensou que o Ryan iria embora sem mais uma de suas provocações, você errou rude.
April, Nikki, e eu estávamos na lanchonete fazendo a última contagem do dinheiro e alimentos arrecadados com os ingressos para o cinema + as comidas vendidas quando ele chegou, acompanhado do garoto com cara de criança que eu nem sabia o nome, mas me irritava por existir. Eles pigarrearam para chamar a nossa atenção.

— Nós também decidimos inovar, sabem? – Ryan falou diante das nossas expressões de tédio, nos recusando a dar algum tipo de atenção para o comportamento desagradável dele. – Conversamos com a Alice e ela aprovou a ideia.
— Legal, Ryan. – Nikki murmurou mais irônica do que nunca.
— O nosso playground vai abrir amanhã de tarde para quem quiser jogar um pouco. – ele informou.

Para ser honesta, eu quis xingar. Amanhã nós tínhamos uma festa de noite e nada além disso, todas as casas do campus faziam igual nesse quesito. Mas ao ver a calma das outras garotas, eu segurei a minha língua.

— Nós realmente não nos importamos com o que você faz ou deixa de fazer. – a Nikki continuou.

Ambos sorriram.

— Vão se importar amanhã quando for anunciado quem venceu. – ele disse antes de sair andando cheio de gracinhas.
— Merda! Quem eles pensam que são, em?

Olhei surpresa para a nossa líder que se irritou no minuto em que eles se retiraram.

— Tá tudo bem. – disse para acalmá-la.
— Nós estamos ferradas... Deus! Eu não aguento mais!
— Nikki, sério! Tá tudo bem. – ela repetiu, largando o dinheiro numa caixinha no balcão. – Nós temos dinheiro pra caramba! Eles teriam que deixar aqueles jogos lá o dia inteiro para conseguir tudo o que temos. O valor que eles podem cobrar pelas fichas é muito pequeno, a vitória é nossa.

Nikki suspirou. Ela parecia querer confiar e poder se apoiar nas palavras da , porém podíamos ver o medo no fundo dos seus olhos.

— Ok, mas nós vamos ter que vender muito mais do que o normal na festa de amanhã só para garantir.

Esse “só para garantir" quase matou eu e algumas garotas na noite do dia seguinte. Ninguém sabia onde, como, nem quando, mas a Nikki arrumou mais bebida do que eu achava ser possível e criou todos os tipos de promoções para que vendessem como água. No fundo, nós só desejamos que ela não tivesse sacrificado muito do nosso dinheiro.
Como tudo naquela semana da inclusão, o bar era dividido. Tínhamos o lado Kappa, com algumas decorações azuis, e o lado Lambda, verde. Dessa maneira, os convidados de cada casa sabiam bem onde deviam comprar. Enquanto estivessem sóbrios, pelo menos. Já os que vinham apenas pela festa, adquiriam suas bebidas onde quer que achassem melhor e, felizmente, nós tínhamos muitos atrativos.
Já a balada em si era misturada, os lados da guerra acabavam se perdendo no meio da multidão e, de certa maneira, isso era bom. Apesar de nós termos mudado drasticamente o objetivo da semana da inclusão naquele ano, costumava ser, acima de tudo, fazer a diversão das pessoas que nos ajudavam comparecendo, e uma fita dividindo a balada ao meio não era exatamente sinônimo de diversão.
Apesar dos apesares, eu estava tendo um dos dias mais estranhamente incríveis da minha vida. Era ruim que isso viesse de uma grande briga? Sim, mas você tem que admitir que ver um bando de “adultos" agindo como crianças de doze anos era divertido. Um pouco vergonhoso também. A vida tem dessas coisas.
Ainda assim, até eu precisava de um descanso. Nós tínhamos uma balada lotada com pessoas dançando sob um som alto demais para quem estava ali para trabalhar, como eu, e um número muito grande de bêbados para o meu gosto. Eu não podia reclamar, pois quanto mais os nossos convidados consumiam, mais dinheiro nós levaríamos para casa no final do dia, porém isso não me impedia de me sentir sufocada.
Puxei a Katy para o meu posto no balcão, perguntando se ela podia cobrir para mim por dez ou quinze minutos. Sempre disposta a ajudar, ela pegou o meu lugar e eu pude me retirar para descansar os meus ouvidos, os meus pés e as minhas mãos também. Fui até a área dos fumantes e subi em uma pequena plataforma onde ficaria um DJ em dias que havia música também do lado de fora. Sentei confortavelmente no chão mesmo, encostei minhas costas e nuca na parede, fechei os olhos e fiquei quietinha, respirando o ar fresco da madrugada. Eu sabia que não teria paz por muito tempo.
Dito e feito. Não demorou muito para que eu ouvisse a portinha próxima a mim se abrindo. A minha mente já gritava a presença do antes mesmo dele se aproximar e o cheiro do seu perfume quando ele se sentou ao meu lado apenas confirmou o óbvio. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que ele nunca deixaria passar a oportunidade de encher o saco ao me vê afastar dos outros, especialmente depois de ter o seu tempo para pensar por causa da discussão ridícula que me obrigou a ter dois dias antes. Classic .
Eu não me mexi, ele ficou quieto e eu agradeci por isso. Ainda podíamos ouvir a música do lado de dentro, dezenas de pessoas conversaram ao nosso redor, mas naquele pequeno espaço, tudo ficou em silêncio por alguns minutos. Eu podia ouvir a sua respiração irregular e sentir seu braço roçar levemente no meu. Dessa vez, não quis me afastar. O toque dele – mesmo o mais sutil – me trazia lembranças, em sua maioria boas, e no auge da minha raiva era como levar um choque. Dos ruins. Agora, naquele exato momento, eu só conseguia sentir uma decepção muito grande. É claro que a raiva eventualmente daria as caras novamente, se tratando de mim, no entanto, isso não apagava o fato de que eu estava em uma situação ridícula, pois, para que role uma decepção, a expectativa tem que vir antes.
Eu não era exatamente boa entendendo coisas desse tipo e essa sensação sempre me matou. Quando éramos apenas melhores amigos, até quando namoramos, eu achava ter certeza dos meus sentimentos em relação a ele, até que algo acontecia e me fazia rever tudo. De qualquer maneira, tudo sempre voltava ao seu encaixe normal.
Com todas as brigas recentes, eu mais uma vez pensei ter tudo definido. Raiva e ódio, apesar de todas as variantes que eu sempre optei por ignorar. Aquelas duas coisinhas continuavam reinando. E então, de repente, eu me vejo desapontada por algo que eu sempre afirmei para Deus e o mundo ainda estar ali. Tá vendo o tamanho da minha confusão? Da tortura que é ser ?
Talvez eu apreciasse tanto o caos do lado de fora porque assim podia me desligar daquele que também se encontrava no lado de dentro. É até poético, se pararmos para pensar.

— Eu fiz algo ruim. – ele murmurou alguns longos minutos depois.
— Nada com que já não estejamos todos acostumados. – retruquei, dando um sorriso de lado, mas mantendo meus olhos fechados.

Ele soltou uma risadinha nervosa.

— Engraçadinha... Tá vendo? Normalmente, eu te chamaria de hipócrita. Eu só não tô com essa bola toda no momento.

Eu assenti e fiquei quieta, pois já sabia aonde aquela conversa iria. Era uma rota já conhecida por mim e extremamente desanimadora. Achava frustrante que, não importa o quanto eu tente fazer diferente, e eu parecemos funcionar em ciclos. Repetitivos e irritantes.

— E-eu não sei bem o que aconteceu, ... A parte racional do meu cérebro simplesmente desaparece nessas horas. – ele voltou a falar algum tempo depois, incomodado com o silêncio.
— Agora você tá mentindo e essa não é a melhor maneira de se redimir. – falei, me virando para olhá-lo finalmente. Ele parecia confuso. – Como você gosta de lembrar: eu também faço coisas ruins. E não importa o tamanho da minha dedicação ou da raiva que me levou a fazer aquilo, eu sempre me lembro de que há outras maneiras de agir. Só opto por ignorá-las.

Sua expressão de culpa denunciou que eu tinha razão. Eu podia agir com estupidez mais vezes do que o resto do mundo achava necessário, mas gostava de apreciar a minha capacidade de ser sincera quanto às motivações que me levaram até ali.
suspirou, correndo uma das mãos ansiosamente pelos cabelos curtos.

— É que... Nós temos tanta história! É difícil para mim te ver com outro cara, especialmente um com quem eu vivo.
— Isso não te dá o direito de ser um idiota machista. – Cortei-o na mesma hora. Se quisesse gastar o meu tempo com explicações, que fossem ao menos boas.
— Eu não sou machista! – Ele exclamou, de repente muito ofendido com as minhas palavras.
— Não seja besta, é claro que é!

Ele queria retrucar, porém o olhar que lancei o impediu. Eu esperava que dissesse: “você não quer entrar nessa discussão agora, quer?". Aparentemente, ele não queria. Nada muito surpreendente, pois fazer aquilo também significaria rever toda e cada atitude que ele tinha em seu dia-a-dia. A ignorância é muito mais confortável.

— O que eu tô tentando dizer é que eu sei que estava errado e por isso tô aqui. Vou ser maduro o suficiente para admitir que eu te devo um pedido de desculpas. Além de não ser da minha conta, eu deixei você e todos ao redor desconfortáveis, eu me expressei mal, só... Me desculpe pela cena.

Balancei a cabeça, a fim de mostrar que eu prestava atenção no que ele tinha que dizer, mesmo que depois que eu me pronunciasse, isso não fosse fazer tanta diferença assim.

— Eu não sinto que eu deva te desculpar, sabe? – disse, mexendo os ombros.
— Como? Por... quê?
— Ah, eu tenho vários motivos. Você quer ouvir todos? – ele assentiu lentamente, incerto. Era o suficiente para mim, então me virei para que ficasse frente a frente com ele, sentada com as pernas cruzadas. – Razão número um: você foi muito imbecil naquele dia, talvez até mais do que você tenha sido esse tempo inteiro; dois: você foi muito imbecil depois de afirmar por aí que havia mudado. Eu estava começando a acreditar, então você me enganou. Isso faz de você imbecil duas vezes; número três: uma porcentagem bem pequena do que houve talvez seja minha culpa. Eu fui ingênua e deixei você acreditar que estávamos próximos o suficiente para fazer algo do tipo quando não estávamos de verdade. Não vou me perdoar tão cedo por isso, logo, não acho justo comigo perdoar você; número quatro: eu não tenho um número quatro.

Na minha cabeça, entrava no número quatro o fato dele ter me decepcionado, mas eu não acreditava que ele merecia essa informação.

— Isso talvez soe como novidade para você, , mas perdoar alguém não significa que essas coisas não entrem no caminho e sim que você está disposta a passar por cima delas por um bem maior.
— Você seria o bem maior, ? – perguntei com um sorriso brincalhão.
— O bem maior seria a nossa amiza... A nossa boa convivên... Talvez a nossa relação como dois seres humanos que frequentam o planeta Terra e possuem o mesmo grupo de amigos.

Assenti, ponderando o quanto daquela resposta eu poderia levar em conta. ‘Nada’ foi a resposta.

— Escuta... Eu tô ocupada demais com esse negócio de semana da inclusão para me preocupar com isso. Nós vamos vencer e depois tudo vai voltar a ser como era antes. O seu erro é acreditar que as coisas estão melhorando só porque eu agora tenho uma casa inteira para odiar! E por eu ter ficado levemente grata por episódios do passado, grande coisa! Vire a página, .
— Claro! Você está dizendo, então, que vamos voltar para as brincadeiras e vinganças infantis? Não foram elas que nos colocaram aqui em primeiro lugar?

Eu parei por um momento, pois não tinha realmente pensado naquilo. Estava tagarelando sobre ciclos e repetições, mas precisei da fala do para perceber que eu mesma poderia estar me levando a isso. Chegar a esse ponto era sempre um problema.

— Quem sabe, talvez, seja o que o carinha lá de cima quiser... – respondi logo, rápido o suficiente para não mostrar a ele a minha leve confusão. – Eu não sei se isso te surpreende, mas eu não planejo cada passo que nós damos. O que eu posso fazer se o destino te colocou frágil e influenciável naquela fatídica noite da iniciação? Ele pode vir a jogar ao meu favor novamente. Até ao seu, apesar de eu acreditar ser improvável.

Ele suspirou, frustrado, balançando a cabeça como se não acreditasse realmente nas minhas palavras. Ou em toda a situação. Era difícil dizer.

— Por que você tem que ser tão complicada?
— Sei lá, . Eu só te peço uma coisa: não me faça ter que te perdoar pelo que você fez mais uma vez. Eu já o fiz vezes o suficiente por uma vida inteira. – respondi, querendo encerrar aquele assunto.

Na minha cabeça, eu tinha muito claro que um de nós dois era complicado demais e com certeza não era eu.
Eu sabia que ele tinha mais a acrescentar porque e eu não éramos muito bons em uma coisa e isso era saber quando calar a boca. Mas, porém, entretanto, a nossa atenção foi desviada para uma grande movimentação abaixo de nós. Um grupo muito grande de pessoas que eu rapidamente reconheci como irmãs e irmãos da Kappa Kappa Gamma e da Lambda Chi Alpha foram saindo da portinha que os levava até ali e se amontoando ao redor de um dos bancos do lugar.

— Que horas são?! – perguntei afobada, já puxando os pulsos dele para mim a procura da minha resposta. Não encontrei. – Você não tem relógio? Caralho, ! O que aconteceu com o que eu te dei?
— Fazem mais de dois anos, ! – ele respondeu aborrecido. – Olha no seu próprio celular!

Eu jurava pela morte de todas as pessoas que eu conhecia que vi um bico se formar nos lábios dele. Quem era o complicado ali mesmo?

— Eu não trouxe o meu celular! Vai logo, !

Ele bufou (uma característica clássica do seu drama), mas pegou o celular no bolso da calça e o virou para mim com a tela acesa. 03:03. Era hora! A hora da contagem final!
O meu primeiro impulso foi sair correndo dali e me aproximar do Ryan e da Nikki, no centro da movimentação, até eu perceber que eu tinha uma visão privilegiada ali, especialmente considerando que eu nunca conseguiria chegar perto o suficiente com tantas pessoas tão ansiosas para esse resultado quanto eu. Então eu simplesmente me levantei e apoiei os braços no corrimão, observando cada movimento com atenção. Não tão interessado quanto eu, fez o mesmo.
Se você está imaginando algum tipo de cerimônia com urnas... Não aqui, meu amor. Todo o dinheiro se encontrava em quatro grandes caixas de sapato, duas de cada casa, o que já nos mostrava que a diferença podia não ser tão grande assim. É claro que ainda tínhamos o dinheiro que foi direto para as contas bancárias, pago com o cartão, e o que foi “transferido" dos alimentos, mas quem tinha o controle dessa parte naquele momento era a Alice. Alice essa que ainda não havia chegado e sem ela, sem resultado.
Mas podíamos adiantar as coisas, então, cada um em seu canto, Nikki e Ryan foram responsáveis por contar o dinheiro um do outro. Sim, ao contrário. E depois eles trocariam e contariam novamente, dessa vez cada um o seu. Era uma maneira de garantir que os dois lados aceitassem com um pouco mais de tranquilidade a derrota, mesmo que a coordenadora e a sua equipe fossem contar ainda mais uma vez para confirmar.
O clima estava tenso e ainda podíamos ouvir a música tocando no lado de dentro, mantendo os nossos convidados distraídos. Ali fora, algumas frases eram ouvidas aqui e ali, mas nos mantínhamos em silêncio para que os líderes pudessem fazer suas contas sem distrações exteriores.
Dez minutos depois, eles ainda estavam no meio da contagem e fazia sons extremamente irritantes ao meu lado na tentativa de chamar minha atenção. Eu consegui ignorar por um tempo, mas a vontade de socar ele estava vindo com tudo. Quando eu disse que a minha raiva logo voltaria, era desse tipo de situação que eu estava falando.

— Que é?!

Eu mal terminei de falar e a resposta já veio.

— Eu não entendo porque você não pode me perdoar! Ou porque não pode realmente tentar deixar todo rancor de lado e ao menos conviver amigavelmente comigo.
— Meu Deus, , troca o disco! Essa sua obsessão com as coisas não faz bem, sabia? – avisei, o olhando de lado. Seu rosto adquiriu uma expressão desacreditada.
A minha obsessão?! – exclamou com a voz estridente. – Você não tem vergonha não?

Dei de ombros. Já havia passado daquele estágio há um longo, longo tempo.

— Fica quieto, por favor. Eu não quero perder o que está por vir.

Ele resmungou algo antes de focar seu olhar lá embaixo. realmente sabia agir como um bom garoto de 12 anos quando queria. Para completar a imagem, só faltava ele cerrar os punhos e ficar batendo os pés no chão em manha. Felizmente, ele ainda tinha um pouco de noção de sobra.

— Pronto? – ouvi Nikki perguntar cerca de quinze minutos mais tarde. Ryan assentiu e se juntou a ela no meio da multidão. Enquanto isso, Alice ainda não havia nos presenteado com a sua presença.

Já sabendo o resultado do dinheiro que tinham em mãos, eles trocavam olhares desafiadores, nos deixando ainda mais curiosos para saber o valor de cada monte, agora já guardados de volta em suas caixas.

— Não acha que a gente devia esperar a Alice? – Ryan falou de repente, chocando todos ansiosos para ouvir as palavras.

A risada da Mina se destacou e ela deu um passo à frente.

— Por quê? Sabe que perderam e querem se agarrar às últimas esperanças?

Ele estava pronto para responder a provocação, mas a Nikki foi mais rápida.

— É, talvez nós devêssemos esperar. – Ela concordou, criando todo um burburinho de vozes dando suas opiniões. No final, nenhuma era ouvida.

Grunhi, sem acreditar que teria que esperar sabe-se lá mais quanto tempo para saber quem levaria para casa toda aquela grana. Além do título de vencedoras da “Primeira Edição da Guerra entre Fraternidades e Irmandades da UCLA".
Acredite ou não, a minha reação foi uma das mais tranquilas daquele ambiente. Eu diria que a raiva de todo mundo com aquela decisão era justificável. Nós estávamos trabalhando sem parar há semanas, sem folga, tínhamos aula, trabalhos, e não muito tempo até provas começarem a chegar também. Antes, estava tudo bem, pois todos tinham a energia da busca pela vitória, mas agora, quando tudo estava feito, e tudo que precisávamos era um pré-resultado, era difícil manter a sanidade. Era quase como desejar que aquilo tivesse um fim.
Essa última parte não me agradava muito porque a ideia de voltar para a minha rotina normal depois de toda a excitação das últimas semanas era desanimadora. E não podia mentir: eu não tinha palavras para expressar o quão maravilhada eu estava com a cena diante dos meus olhos. Uma mistura de surpresa, admiração e divertimento. Achava realmente incrível a maneira como aquelas duas casas haviam se mobilizado para acabar uma com a outra. Por um milésimo de segundo, me passou pela cabeça o questionamento de o que seríamos capazes de fazer se usássemos toda aquela força para algo bom. Foi muito rápido.
Logo eu estava admirando novamente a troca de farpas, xingamentos, algumas conversas mais calmas, pedidos para que, por favor, liberassem os valores. Ryan e Nikki foram muito fortes. Se juntaram em um canto e ignoraram lindamente a pequena batalha diante dos seus olhos, ambos decididos sobre o que queriam fazer.
Dei alguns passos para trás e encostei a minha cintura no outro lado da pequena plataforma, observando cada metro quadrado abaixo com todo o prazer que aquele momento pedia. Eu sabia que não devia estar orgulhosa daquilo. Sabia que podia ter evitado essa situação se não tivesse insistido nas trapalhadas com o , mas vamos ser honestos: não era melhor assim? Nos custou uma casa prima, mas a Kappa Kappa Gamma estava mais harmônica e unida que nunca. No meio daquela confusão toda, eu até havia encontrado espaço para admirar algumas atitudes da Ashley, ainda que me sentisse como se estivesse traindo a Mina em momentos do tipo.
Eu estava ansiosa, quase pulando de antecipação pelo resultado. Porém, eu conseguia facilmente esperar enquanto apreciava aquilo que poderia ser considerado uma obra de arte.
Olhei rapidamente para o meu parceiro no crime, arrastado contra sua escolha para o meio do furacão, e percebi que era observada com curiosidade. Eu não soube adivinhar o que se passava pela sua cabeça, mas na minha eu concluí que ele estava mais atraente que nunca. Parecia improvável quando minutos atrás eu queria arrancar a sua cabeça fora, no entanto, ali estava ele, de braços cruzados, destacando os músculos na camisa social preta, cenho franzido em preocupação, lábios entreabertos, distraído com o que quer que se passava naquela mente.
Não pude deixar de me lembrar da noite em que eu dei o primeiro passo para que chegássemos até a noite de hoje. De todos os que demos depois daquele, eu achava ele o mais divertido de todos. Era um pouco estranho pensar no quanto as coisas haviam mudado de lá até esse ponto. Ter ele por perto ainda era uma novidade, a minha raiva era maior, a vontade de fazê-lo sofrer mais ainda, e mesmo assim, eu soube apreciar muito bem o toque dele. Naquele momento, havia sido especialmente difícil abominar suas mãos sobre mim. Como seria agora? Melhor? Igual? Chato? Não, chato era improvável. tinha uma pegada boa demais para decepcionar alguém, eu era obrigada a admitir, assim como todas as garotas que vieram antes e depois de .
Entretanto, eu também me lembrei do porque não havia permitido que nada mais acontecesse entre nós até aquele momento. Casais normais tem o popular remember, nós então seríamos mais que ideias para ter essa experiência. O problema é que, para ele, as coisas nunca eram simples, por mais que ele gostasse de acreditar que sim. sentia com intensidade cada toque, cada beijo, mesmo que dado em alguém que acabara de conhecer em uma balada por aí. Eu não quero soar muito metida nem nada, mas eu causaria um estrago especial no rapaz. Como ele disse mais cedo, nós temos história demais. Talvez fosse uma ideia terrível complicar a nossa situação mais ainda.
E aí eu pensava no quão divertido havia sido provocá-lo poucos dias antes. Eu nunca tive a intenção de beijá-lo naquela data, estava apenas extravasando um pouco toda a tensão que me perseguia. Apesar disso, eu não podia negar que durante longos segundos, eu cheguei a considerar a ideia. E se não tivéssemos sendo observados por um pequeno grupo de cachorros, quem sabe o que teria acontecido? Poucas coisas são mais quentes do que ver nos olhos de alguém todo o desejo que ele tem por você, a vontade de tomá-la para si.

?
— Uhn? – murmurei, aproveitando para observar a maneira com que os seus lábios se moviam, provavelmente com a mesma cara de hipnotizada que ele no outro dia.
— Por que tá me encarando assim? – ele perguntou e eu quase sorri, achando divertido que ele às vezes demorasse tanto para decifrar certas coisas.
— Eu não tenho certeza...

Eu definitivamente sabia que devia estar observando algo, mas se esse algo não eram as veias salientes em seu braço, eu estava perdida. Minha mente continuava a me jogar imagens de tudo o que fizemos até chegar ali, naquele momento, naquela plataforma, tudo o que causamos e só isso bastava para que eu sentisse a necessidade de pular nos braços dele.
Por um rápido segundo, eu voltei para alguns minutos atrás, quando expliquei a ele sobre os dois caminhos que eu sempre tinha a opção de seguir. Dessa vez, ambos pareciam me levar em uma única direção: os lábios dele. Com mais velocidade do que qualquer um de nós dois era capaz de acompanhar, eu avancei, chocando nossas bocas desajeitadamente. Não deixava de ser bom, macio e nostálgico.
Não tive muito tempo para apreciar aquelas sensações, pois logo senti duas mãos me segurarem pelas bochechas e ao invés de serem usadas para aprofundar o que poderia ser um ótimo beijo, elas empurraram a minha cabeça para trás.

— Eu sei que isso é incrivelmente estúpido, mas... O que nós estamos fazendo? – questionou.
— Você tem razão. – sorri sarcástica. – Isso foi incrivelmente estúpido.

Tudo me dizia que agora ele iria querer entrar em alguma conversa desnecessária sobre o que aquilo significava e o meu próximo passo seria correr, mas fui eu quem fui surpreendida dessa vez. Ao invés de tagarelar, seu corpo se juntou ao meu, me empurrando até que eu estivesse encostada no corrimão dessa vez. Ele abaixou a cabeça, eu levantei e os nossos olhares se encontraram pelo que me pareceu dois segundos. Não sabia dizer se haviam sido longos ou curtos, mas podia afirmar que foi o suficiente para o meu corpo inteiro se arrepiar com a intensidade daquela troca de energias. Naquele momento, toda e qualquer barreira parecia ter sido derrubada, dando todo o espaço que o nosso desejo precisava para tomar conta.
Talvez vocês queiram ouvir que eu senti um explodir de emoções quando nossas bocas voltaram a se encontrar... Choques elétricos por todo o meu corpo. Me desculpe desapontar, mas não teve nada disso. Ao sentir o toque da sua língua na minha, o moldar dos nossos lábios juntos no verdadeiro beijo que nós merecíamos depois de tudo aquilo, eu senti calor. Senti algo queimando dos pés à cabeça, e era bom, me fazia querer buscar cada vez mais, e eu sabia exatamente onde conseguir.
Deixando o espanto de lado, eu passei os braços ao redor de seus ombros, puxando ele o mais perto quanto era possível estar, sentindo todo seu corpo se encaixar como um perfeito quebra-cabeça ao meu. Aproveitei para puxar seu lábio inferior para mim em uma mordida leve, mas firme, sentindo a suavidade daquela pequena parte combinada com o áspero da barba por fazer. deixou escapar um suspiro de prazer e em qualquer outra situação, eu poderia sorrir pela vitória. Ali, no entanto, não havia tempo para provocações, sequer espaço, pois tudo que se passava na minha cabeça era o quanto aquilo era bom. O deslizar das nossas línguas uma na outra, urgente, intenso, familiar. Cada pedacinho nosso conhecia um ao outro, nossos gostos, prazeres, e ele deixava isso claro na maneira como me segurava pela cintura ou no modo como posicionava uma de suas mãos na minha nuca, leve, quase como um cafuné, indo contra todas as características daquele beijo.
Em momentos como aquele, era difícil pensar. E ao contrário da última vez em que havíamos nos beijado, eu deixei que fosse. Não lutei pela razão, não procurei motivos para aquilo estar errado, eu só aproveitei o calor, a vontade de estar ali e permanecer assim pelo tempo que fosse. Eu merecia, afinal de contas! Depois de semanas como as últimas, era apenas justo que eu encontrasse uma maneira de relaxar, mesmo que ela fosse o meu ex-namorado. Se eu voltaria a odiá-lo assim que meus olhos se abrissem e a realidade batesse? Bem...

Ora, ora... Se não é o casal que nos trouxe até aqui se pegando! – eu ouvi a voz do Ryan dizer muito mais perto do que da última vez que o havia visto e imediatamente empurrei pelo estômago para longe de mim. – Eu vi isso mesmo, Nikki?
— Viu, Ryan. Viu sim.

Eles estavam parados no último degrau que levava até a plataforma, nos encarando. Logo atrás, Alice tentava enxergar com curiosidade. Suas expressões eram incógnitas para mim. Eu não vi decepção, fúria, nem arrependimento. Talvez estivéssemos cara a cara com a inusitada junção de todas elas. De qualquer maneira, foi o suficiente para me causar arrepios frios como gelo, o completo oposto dos anteriores.
O silêncio era tão profundo que eu me virei rapidamente para trás, na esperança de encontrar aquela área vazia. O que eu vi foi vários rostos nos encarando com expressões assustadoramente parecidas às dos dois líderes a nossa frente. Tudo foi por água abaixo daí para frente.
Eu ouvi gritos e ofensas, senti meu corpo ser levado sem que eu tivesse a real intenção de me mover, ouvi gritos e sermões, me deixei ser levada na expectativa de que aquilo facilitasse o que quer que estava por vir, ouvi gritos, ofensas e sermões. Nem mesmo soube o que havia acontecido com o até que fosse jogada sem delicadeza nenhuma dentro do meu próprio quarto. Quando me virei para ver o que diabos estava acontecendo, tive uma boa visão dele também sendo jogado pelos rapazes com muito mais violência que eu e então, a porta de madeira foi fechada e trancada do lado de fora, nos deixando presos ali dentro.



Capítulo 16

[Teremos musiquinha nesse capítulo sim: let it go, do James Bay. Tá aqui o link para quem já quiser deixar carregando: aqui. Eu vou avisar a hora certa para dar play.]


Um ano e alguns meses antes...



Eu sou a e se tem uma coisa que sabe fazer bem é entrar no próprio colégio com o peito erguido, nem aí para o que qualquer um ali poderia pensar sobre sua vida.

Ainda assim, eu continuava sentada no banco de carona do carro do meu pai, sem coragem para mexer um músculo sequer.
Eu já havia arrumado um bom número de confusões naquela instituição, sabia que estava longe de ser a garota que todos amavam, mas uma coisa era saber que tinham pessoas do lado de dentro que ficariam mais do que felizes em me dar um bom soco, outra completamente diferente era ter certeza que havia sido o assunto principal de cada aluno dali nos últimos sete dias. A pobrezinha para alguns, a que mereceu para outros ou simplesmente a chifruda para um pessoal. Eu não queria ser nenhum daqueles. Queria ser eu mesma, algo que estava se mostrando impossível depois de ver e sentir uma parte gigantesca do meu mundo despencar sobre a minha cabeça.

— Não quer ficar em casa mais um dia, meu amor? – meu pai perguntou, preocupado, e eu rapidamente neguei, balançando a cabeça.

Já havia perdido uma semana de aula por causa do imbecil do e não perderia mais um minuto sequer. Não só por causa do meu orgulho, mas também porque faltavam poucas semanas para o fim das aulas e a minha vida poderia estar um inferno que ainda assim eu nunca permitiria que o próprio capeta entrasse no meu caminho para a UCLA, mesmo que eu ainda tivesse um ano até lá.

— Eu já tô indo. Vai ficar tudo bem. – minhas mãos foram para a trava da porta rapidamente, assim eu tinha algo para agarrar e disfarçar o tremer delas. – Obrigada por me trazer.
— Não há de quê. Qualquer coisa, me liga, ok?

Assenti e abri a porta, dando meus primeiros passos no lado de fora. Uma parte muito grande de mim gritava para que eu corresse de volta para o lado do meu pai, onde eu sabia ser seguro, mas eu me obriguei a continuar seguindo em passos lentos. Eu já havia trazido preocupação demais para os meus pais na última semana, até eles precisavam de uma folga da garota que se descobriu chorona pela perda do namorado e melhor amigo.
Ainda era cedo, então haviam poucas pessoas no estacionamento. No entanto, era o suficiente para me incomodar. Não que as pessoas de fora pudessem ver isso, é claro. Apesar do lado de dentro fodido, a minha aparência estava melhor do que nunca. Roupas novas, cabelo escovado, maquiagem e unhas feitas e uma postura de dar inveja. Considerando que o fato de eu decidir pentear o cabelo antes de ir para escola em um dia comum já era um milagre, eu estava um arraso, de armadura vestida, pronta para enganar qualquer um que entrasse no meu caminho. Coisa que eu esperava que não acontecesse.
Com passos certeiros, eu fiz meu caminho por aquele espaço fingindo não notar as cabeças que se viravam em minha direção. Não era para mim que eles olhavam, eu queria acreditar. Nunca na minha vida eu havia me importado em chamar atenção, de maneira boa ou ruim, e lá estava agora, querendo enterrar minha cabeça naquele asfalto.
Havia acabado de entrar no bloco da minha primeira aula – o que poderia significar algo ruim, pois lugar menor = sufoco maior, mas também significava que eu estava mais perto da minha sala, onde poderia me esconder em um lugar e ficar quieta por um tempinho – quando fui parada por um grande jogador de futebol afobado.

! !

Infelizmente, não era , e sim Chad, um cara que eu abominava desde que me entendia por gente. Ele também não era exatamente meu fã.
— O que?
— Tá tudo bem? – ele perguntou, me segurando pelos ombros e parecendo realmente preocupado com algo.

Aquilo me deixou aflita. Tinha alguma coisa na minha cara? Meus óculos estavam manchados? Minha roupa rasgada? Uma parte do meu cabelo para cima? Independente do quê, achei legal da parte dele vir até mim, mostrar que se importa. Quem imaginou que até o rei dos imbecis seria tocado pela merda que meu ex-namorado fez?
— Eu acho que sim, o que houve?
— Todos nós estávamos preocupados em saber como conseguiu passar pela porta. – ele respondeu, me fazendo olhar para o lado, onde mais três rapazes se amontoavam segurando a risada. Voltei para Chad, ainda mais confusa. – Você sabe, por causa dos chifres. São gigantes, não são?!

Na mesma hora, sua expressão preocupada se desfez em uma gargalhada enquanto eu engolia em seco, me xingando por cair naquela brincadeira infantil. Forcei meus lábios, que antes formavam uma linha reta, a se erguerem em um sorriso forçado. Distraído se pagando de descolado para os seus soldadinhos, ele não viu meu punho fechado se aproximando do seu rosto.
Doeu como se eu tivesse acabado de quebrar todos os meus dedos de uma vez, mas ver o roxo se alastrar imediatamente pela área atingida compensou cada cubo de gelo que eu teria que manter sobre a minha mão mais tarde.

— Eu juro que estou bem! Já chorei tudo o que tinha para chorar, vocês viram. E seria ótimo se esquecessem também. – eu tentei concluir, sendo interrogada por , e . Já estávamos no intervalo e eles continuavam esperando que eu desabasse.

Obviamente, eu estava mentindo. Na verdade, nas três aulas que se passaram eu tive que conter o impulso de fingir estar passando mal para ir embora algumas dezenas de vezes. Era terrível ficar olhando para baixo simplesmente porque eu não aguentava a pressão de devolver todos aqueles olhares e era pior ainda ouvir cochichos o tempo todo e saber que a sua humilhação em praça pública era o assunto principal.
“Nossa, , as pessoas têm coisa melhor para fazer do que só falar sobre você, sua egocêntrica.”
Não, elas não têm. São um bando de adolescentes sustentados pelos pais, eles só acham que têm preocupações sérias. Além do mais, os alunos daquele colégio em especial não pareciam ser muito bons na arte de disfarçar.

— O não tentou chegar perto de você, tentou? – perguntou.
— Não, eu nem vi ele ainda.

No entanto, eu sabia que aquilo não duraria muito tempo, pois a última aula do dia era Educação Física e ele estava na minha turma. Mesmo que fossemos de anos diferentes, nós fazíamos algumas poucas aulas juntos, só por diversão. Anos atrás, parecera uma boa ideia quando sentávamos para organizar nossos calendários juntos, até chegar o dia em que ele simplesmente fodeu com tudo.

— Talvez fosse melhor você ir embora antes da última aula... – sugeriu, mas eu neguei rapidamente.
— Não, tá tudo bem. Eu não ligo. Já superei, sabe? Não tô nem aí para ele. – menti.
— Você não precisa ficar mentindo para a gente, . – disse suavemente, pegando na minha mão.
— Não tô! – me apressei para rebater. – Eu me recuso a amar alguém que faria o que o fez comigo, tá legal? Vai contra as minhas regras e eu sou muito severa quando se trata das minhas regras pessoais.

Todos eles suspiram, trocando olhares de derrota entre si. Encolhi os ombros, fingindo não notar. Não deviam estar felizes? Eu passei a última semana jogada na cama, chorando até com a menção do nome “”, me ouviram reclamar, sofrer e xingar durante todos aqueles dias, logo, mereciam uma folga. Assim como os meus pais. Tudo bem que eu sofresse, afinal, eu era a maior prejudicada da história, perdendo não só meu namorado, mas também meu melhor amigo, o meu porto seguro, o cara que tinha toda a minha confiança, ninguém mais precisava ser levado ladeira abaixo comigo.

— Escuta, eu acho que já vou indo para a minha próxima aula. – falei, a fim de me livrar daquela situação.
— Eu vou com você. – afirmou. – Minha sala é próxima a sua.

Assenti, mesmo que minha vontade fosse de ir sozinha. Não queria criar mais problemas e desconfianças.
No caminho, acho que ele pode sentir um pouquinho na pele do que estava sendo a minha vida naquele dia. Atenção, atenção e atenção que eu não queria. Me sentia estranha, como se não fosse mais eu mesma, ao perceber que eu não sabia o que fazer naquelas horas. Pelo menos, nada além de abaixar a cabeça e olhar para os meus pés, pois nesse ponto do dia eu já tinha perdido até a energia para manter algum tipo de pose.
Não adiantava. Nada adiantava. Não importava o que eu fizesse, eu ainda me sentia uma merda por dentro. Em todos os sentidos possíveis da palavra.

— Ei, tive uma ideia! Que tal a gente matar as próximas aulas? Eu não tô a fim de ouvir ninguém falar pelas próximas horas, vamos? – sugeriu, se esforçando para fazer com que a ideia soasse como algo bom para ele. Não funcionou.
— Melhor não. Eu já perdi muitas aulas na última semana. Mas você pode ir sozinho, eu não me importo.

Ele abaixou os ombros, perdendo sua empolgação.

— Ah, sem companhia eu não quero.

Chegamos em frente a sala dele e eu peguei sua mão rapidamente, forçando mais um sorriso.

— Eu tô bem, . De verdade.

Não aguentava mais dizer aquelas palavras, porém tinha esperanças de que eventualmente alguém começaria a acreditar. Com sorte e tempo, talvez eu também acreditasse nelas.

— Eu não acredito nem um pouco, mas não sei mais o que fazer, então... – me deu um beijo na bochecha. – Te vejo no final da aula.

Saí em direção a minha sala logo ao lado com um nó na garganta. Eu sabia que tinha amigos incríveis que moveriam o mundo inteiro para tentar me ajudar e mesmo assim não conseguia dar abertura alguma a eles. Levaram anos até que chegasse ao nível em que se encontrava. Agora, ele não estava mais lá, eu voltaria a guardar tudo para mim e não havia ninguém a culpar além de mim mesma.
E ele. Mas, naquele momento, eu não tinha energia nem para odiá-lo.
Quando eu pensei que aquele dia não poderia ficar pior, a minha professora de biologia decidiu passar uma atividade em dupla. Até tentei ficar por minha conta e falhei, pois uma outra pessoa sobrou e a matemática era óbvia. Por pena do universo de mim, ela era do grupo “foda-se o mundo” e tinha zero interesse em mim ou meus dramas amorosos. Cada uma fez a sua parte rapidamente, mal trocando palavras, e fomos as primeiras a terminar, o que me deu um tempinho para fingir ler um livro quando na verdade eu estava me preparando mentalmente para o que viria a seguir.
Foi estúpido da minha parte achar que eu já teria condições de enfrentar uma aula com o ? Foi, sim. Não podia nem dizer que parecera uma boa ideia na hora porque me senti aterrorizada o tempo inteiro. De qualquer maneira, indo contra todas as obviedades, segui em frente numa tentativa idiota de provar algo para mim mesma. Mais uma vez, meu orgulho me ferrou.
No vestiário, várias garotas vieram falar comigo, nunca sobre O caso, se esforçando para agirem normalmente, como em uma aula de Educação Física comum. Eu também fiz o meu máximo para parecer normal e, acima de tudo, bem. Então, alguns minutos depois, ouvimos o apito do professor indicando que devíamos estar na quadra. Observei-as saírem, uma a uma, animadas porque, por mais que elas soubessem que aquele não era um dia comum por causa de tudo o que aconteceu, elas ainda sentiam a liberdade de agir como sempre agiram. Eu não as culpava nem um pouco, pois já estive do outro lado, mas aquilo me dava um sentimento estranho de solidão.
Esperei que todas saíssem para fazer o mesmo e diria que fui até consideravelmente longe. Eu dei três passos dentro da quadra antes de olhar para frente e meus olhos pousarem imediatamente nele, sem que eu tivesse que procurar. estava sentado na arquibancada, com os cotovelos apoiados nos joelhos, parecendo desanimado, mas surpreso ao me ver. Não era para menos, afinal, ele havia passado a semana inteira atrás de mim, tentando falar ou simplesmente me ver de qualquer maneira, e o meu estar trancada em meu quarto tornou aquilo impossível. Agora, quando ele finalmente parecia ter desistido, eu aparecia em sua frente de boa vontade.
Mesmo de longe, eu podia ver que seu olho ainda não estava totalmente curado pelo belo soco que levou do alguns dias antes. Pelo menos tinha aquele pequeno detalhe indo ao meu favor.
Pensei que conseguiria passar por aquela aula com muita dificuldade e incômodo, no entanto, apenas a visão dele pela primeira vez depois da briga que tiveram me desestabilizou por completo. Não que eu estivesse muito estabilizada antes. Eu senti o nó tomar conta de vez da minha garganta, uma onda de pânico me atingiu e todo o meu corpo ficou de repente trêmulo. Eu não podia, não tinha forças para fazer aquilo ainda. Aquele não era o rosto do meu melhor amigo, era o rosto do cara que havia pisado no meu coração tantas vezes e de tantas maneiras que naquele momento não parecia ter conserto.
Sem me importar com os olhares que poderiam estar em mim naquele momento, eu voltei os pequenos passos que havia dado antes de me virar com calma e dar o fora dali. Não podia deixar que ele visse o que fez comigo de novo, dessa vez sem precisar mover um dedinho sequer.
Corri apenas quando tinha certeza que não era observada por ninguém e em poucos minutos me encontrei no fundo do colégio, onde só iam para fazer coisas que a escola não permitia. Felizmente os rebeldes da Sensille High tiraram aquele dia para não matar aula, permitindo que eu me encolhesse em um canto da grama e chorasse o quanto eu quisesse, longe de qualquer um.
Apertei meus olhos com força numa tentativa falha de expulsar todas as lágrimas que meu organismo produziu e nunca mais chorar por causa dele, mas tudo o que consegui foram vários flashes da imagem que dividiu minha vida ao meio. Antes de e depois de . Até agora, eu não gostava nada do depois. Tinha muita fossa e chocolate para o meu gosto, e eu nem era muito fã de chocolate. Me matava dar tanta importância a um garoto, porém aquele garoto era a minha vida inteira, e não por algum tipo de dependência romântica, mas porque ele sempre esteve ali, desde antes de eu aprender que “muito” não leva um n.
Eu queria ser forte, estava dando o meu melhor, só que... Bem... Era difícil desabar. Ainda mais sozinha.
Peguei o meu celular, estrategicamente escondido no meu top, e disquei o primeiro número que veio a mente, me prometendo que aquela seria a última vez. Eu só precisava de um ombro por mais aquele dia porque no outro, tudo seria diferente. Tinha certeza que sim.
Por estar em aula, ela só atendeu vários toques depois.

, tá tudo bem? – começou já preocupada, como se costume.
— Eu não consigo fazer isso hoje, . – disse com a voz embargada pelo choro, sentindo novas lágrimas escorregarem pela minha bochecha.
Eu sei... Eu sei, amor, não tem problema. Onde você tá?
— Aqui nos fundos. Vem correndo, por favor.

Só mais aquele dia.


Atualmente



— O QUE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO? – eu gritei para aqueles que se encontravam livres, do lado de fora da porta.

Podia até ter me mantido passiva até chegar ali, mas ser trancada em um cômodo com o seu ex-namorado pode dar uma boa transformada nas atitudes de uma pessoa.

— Vocês não podem continuar fazendo isso, . – ouvi dizer calmamente, parecendo até triste.
— Fazendo o que, ? Aquilo não foi nada, só um momento. Eu ainda o odeio, me tira daqui e vamos atrás da nossa vitória, por favor! – implorei, de corpo e rosto colados na porta. continuava atrás de mim sem soltar um a sequer.
— Eu não posso fazer isso, me desculpe. Vocês precisam se resolver.
— Não, eu não quero, eu não vou!
— Por culpa de tudo o que vocês causaram, o que querem não importa mais! – ela me repreendeu. – Não são mais crianças, precisam começar a fazer o melhor para o grupo e não para vocês mesmo.
— Você sabe que eu não posso voltar a ser amiga dele, sabe mais do que ninguém. – eu disse baixinho, porém alto o suficiente para que ela conseguisse ouvir através do grande pedaço de madeira.
— Não precisamos que virem melhores amigos, só que cheguem a um acordo de viver em paz e manter todos nós fora do seu caminho.
, me deixa sair! – exclamei, ignorando as suas palavras e forçando a fechadura.
! – me repreenderam novamente e dessa vez foi a Nikki, naquele tom de voz que me dava arrepios. – Você talvez tenha se esquecido, mas eu deixei bem claro algumas semanas atrás que nós não vamos mais tolerar os truques de vocês. Acabamos nos deixando levar por essa rixa sem sentido, passamos a semana inteira no inferno apenas para encontrar vocês dois se agarrando no final de tudo. Vocês não podem mexer com a nossa cabeça desse jeito! Então eu acabei de adaptar o que te passei: resolva os seus problemas com o ou já aproveita o lugar em que está para fazer as suas malas!
— O mesmo para você, . – Ryan se pronunciou. – Vamos voltar daqui algumas horas e a escolha é toda de vocês. Saiam dessa ou saiam das nossas casas... Juntos!

Eu não acreditei que eles nos deixariam ali por horas até que ouvi vários passos se afastando, me fazendo realmente entrar em pânico.

— Não, não, não, não, não! Nikki, por favor! ! ALGUÉM! – gritei, lançando meus punhos contra a porta, mas tudo que recebi de volta foi silêncio. – ME DEIXEM SAIR! EU NÃO POSSO FICAR AQUI! POR FAVOR!

No meio de tantas outras preocupações, eu realmente havia me esquecido do ultimato que recebi da Nikki semanas antes. Nunca considerei voltar com as vinganças de verdade (a não ser em oportunidades muito boas, como a épica do desfile nu), só gostava de fazer o pirar de vez em quando, especialmente por eu não ter que dizer muito para que ele tirasse suas próprias conclusões equivocadas. Ficaria mais do que feliz com as boas e velhas discussões, apesar de saber bem até onde elas me levavam: truques, que por si só já me levavam também para o ciclo que eu queria sempre evitar, mas continuava trombando.
Mesmo ouvindo todas as ameaças, eu continuei socando a porta por um longo tempo, no entanto, eu parecia ser fraca demais para causar sequer um arranhão ou o material era super resistente. Ainda assim, eu tinha que tentar. Na pior das hipóteses, alguém eventualmente se cansaria de ouvir meus gritos e socos e viria me salvar daquela situação.
Era como se meu julgamento final tivesse chegado adiantado e nada no mundo poderia ser pior que aquilo.

— Quer parar? Só vai machucar suas mãos e os meus ouvidos desse jeito. – finalmente se pronunciou, me fazendo desejar que ele voltasse a fechar a boca.
— Não enche. Você deveria estar me ajudando.

Ele riu.

— A fazer papel de idiota? Não, obrigado.
— Está certo. Você precisa de uma pausa nesse quesito, não? – retruquei, sem nunca parar para olhá-lo.

voltou a ficar em silêncio depois disso e eu a me concentrar em meus socos e gritos.

— ME TIRA DAQUI! ALGUÉM ME SOCORRE! EU PAGO! – menti, pois se tinha cinco dólares na minha carteira, era muito.

Algum tempo depois, minhas mãos vermelhas e quentes se cansaram. Porém minha energia continuava lá em cima, então eu preparei minha perna direita para o chute que explodiria aquela casa. A coloquei para trás, mas quando ia jogá-la para frente, uma mão se fechou ao redor do meu calcanhar. Encontrei me encarando lá debaixo.

— Você não devia fazer isso. – ele me alertou.
— Me solta, agora! – ordenei, sacudindo minha perna até que largasse. Dando de ombros, ele ficou de joelhos e foi um pouco para trás, me dando espaço para seguir com o meu plano.

Eu não estava usando um tênis esportivo, mas tive esperanças de que aquele moderninho fosse conter um pouco do impacto. Não rolou. Quando meu pé encontrou a madeira dura, eu senti que havia acabado de perdê-lo tamanha a dor que senti e o barulho nem foi tão grande assim. Entretanto, fiz o meu melhor para disfarçar o meu desespero do guarda observando cada movimento meu.

— Vai parar agora? – ele teve a audácia de perguntar.
— Por que eu deveria?
— Porque você parece estar sentindo muita dor nesse momento. – eu realmente estava, mas dei de ombros. – Vem, deixa eu dar uma olhada nisso.

Suas mãos voltaram a tocar o meu tornozelo, dessa vez com mais cuidado, e eu rapidamente me afastei, mancando até o outro lado do quarto.

— Me deixa!

suspirou, parecendo frustrado. Eu, sim, tinha motivos para ficar frustrada. Estava presa no meu próprio quarto, cansada, com fome e agora com a porra de um pé latejante de dor, tudo por culpa dele e toda sua existência.

— Sério? Está me dizendo que vai voltar para a sua política do “não me toque” minutos depois de me agarrar? – ele questionou, se levantando para ir sentar na beira da cama da .
— Por favor! Quem me agarrou foi você!

Ele riu, balançando a cabeça em descrença.

— Alguém te bateu na cabeça no caminho para cá e te fez perder a memória? Porque olha... Você tá indo cada vez mais para baixo.
— Tudo que eu fiz foi te dar um selinho, . Rápido e sem graça, só porque eu estava envolvida no momento. Quem não resistiu e procurou mais foi você! Logo, a culpa por estarmos aqui é sua. Logo, eu não quero olhar para a sua cara. – falei, me virando de costas e encarando a rua vazia através da janela.

O quão difícil seria sair por ali? Considerando que havia completamente nada além da pequena janela quadrada, mesmo do lado de fora, provavelmente muito, mas o que era uma perna quebrada quando já se tinha um tornozelo fodido? Não arriscaria naquele momento. Em duas ou três horas, no entanto...

— Tentar derrubar a porta ou ficar de costas para mim não vai resolver essa situação, ! Quanto tempo você vai precisar para entender isso? Porque eu tenho a noite inteira...

Eu não precisava de tempo algum. Sabia bem que a hora havia chegado para termos A conversa, só não queria. Eu não estava pronta para lidar com aquilo, e achava que poderia nunca estar. Por fora, me sentar e ter uma conversa aberta com ele parecia simples. Por dentro, significava visitar lugares, lembranças e histórias que eu vinha me esforçando ao máximo para manter enterradas. Assim não poderiam me machucar de novo.

— Se você acha que me prenderem em um cômodo com você durante horas vai me fazer ceder, você não me conhece de verdade. – disse.
— Acho que está enganada. – ele rebateu.
— Não ligo. Nós não estamos em algum tipo de filme adolescente, tá legal? Nem tudo pode ser resolvido com uma longa e tediosa conversa.
— Coisas podem começar a ser resolvidas assim.

Revirei os olhos, me virando para trás rapidamente só para dizer a próxima frase.

— O que é você, afinal? Algum príncipe da Disney? Acorda, !
— Não acho que seja eu quem está dormindo. – ele murmurou, calmo. Aquilo fez meu sangue ferver, mas não deixei que ele me atingisse.
— Quer saber? Fica na sua que eu vou ficar na minha. Uma hora eles vão voltar, algo vai causar uma briga e tudo vai voltar ao normal. Tudo vai ficar bem! – afirmei, tentando passar confiança. Para mim e para ele.
— E sou eu quem está vivendo no mundo da Disney...

Não respondi. Mordi minha língua, mas sucedi ao ignorá-lo.
Por estar sem meu celular que devia se encontrar em algum canto da cozinha, eu não tinha certeza, só acreditava ter ficado encarando a rua pela janela durante quase uma hora, me perguntando o tempo todo onde é que estavam a irmandade e fraternidade que nos queriam no espeto. Já passava das quatro e nenhuma alma viva passou por ali. Eu poderia gritar mais, porém acreditava estar começando a perder a minha voz e eu precisaria dela para meter a boca em todas as garotas que achavam aquilo uma boa ideia.
Olhei para o , sentindo meus músculos protestarem por todo aquele tempo sem movimento algum, e vi o motivo de tanto silêncio. Ele dormia todo torto na cama que se tornou pequena demais com um cara daquele tamanho em cima. Observei-o por um tempo, sereno, como se não tivesse preocupação alguma no mundo. Era difícil odiá-lo daquela maneira. Tinha que manter em mente que era acordado que ele fazia suas besteiras e me deixava louca, mais ou menos como funcionam as coisas com crianças. Se dormem, são anjos. Quando acordam, descem direto para o inferno.
Eu não era uma pessoa ruim. Por isso, busquei no armário um edredom e joguei sobre o seu corpo. A noite estava gelada, combinando com tudo que acontecia, e tudo que ele vestia era uma regata que mal cobria seus ombros. Depois disso, aproveitei seus olhos fechados para me enfiar em um pijama confortável. Se ele iria dormir, eu seguiria seus passos. Dessa maneira, o tempo passaria mais rápido e quando acordássemos, seríamos liberados daquela prisão temporária. E aí tudo ficaria bem.


Algumas vozes me puxaram para fora do meu sono e, inicialmente, eu mantive meus olhos fechados, como se aquele fosse um dia normal. Eu estava na minha cama, com o meu travesseiro, dentro do meu quarto depois de uma noite que consagrou a Kappa Kappa Gamma como... Mais ou menos aí a minha memória voltou a funcionar.
Arregalei os olhos na mesma hora, vendo que conversava com alguém que eu não podia ver por se encontrar do lado de fora da porta. E ELA ESTAVA ABERTA!

— Tudo bem, obrigada. – ele murmurou e a bendita começou a fechar.
— EI!

Parecendo ter sido atingida por um raio (se minha vida fosse um desenho animado), eu me levantei em um único movimento e comecei a correr. A única falha do meu impulso foi me esquecer completamente da cama da no meu caminho. Eu não a vi, apenas senti o impacto e meu corpo ser arremessado para frente. No final das contas, acabei tendo um pouco de sorte, pois meu nariz parou há um centímetro do chão graças ao colchão que me impediu de deslizar mais ainda piso abaixo.
O tempo perdido ali foi o tempo que levou para a porta ser fechada e trancada novamente.
Me apressei para me levantar e ir para cima de a fim de socá-lo. Uma bandeja cheia de comida em seus braços impediu que meu plano se concretizasse, mas o olhar matador estava armado. Não afetou nem um pouco ele, que ainda segurava a risada.

— Qual é o seu problema?! – exclamei, chocada com a pequena cena que havia visto.
— De acordo com você, eu tenho muitos. Seja mais específica. – respondeu tranquilamente, levando toda a comida para uma das nossas escrivaninhas. Eu o segui, pisando fundo.
— Por que você não saiu!? – perguntei num tom estridente que doeu até os meus ouvidos.

deu de ombros.

— Não estava a fim. – pegou um sanduíche. – Quer?
— Eu... Por... Caralho, ! Olha o que você fez!!!

Ele revirou os olhos dessa vez, entediado com o meu drama. Como se ele fosse a pessoa mais despojada do universo!

— Você sabe o que eu penso da nossa estadia aqui, . Vamos nos resolver, de uma vez por todas, nem que tenhamos que passar uma semana presos nesse quarto.

Respirei fundo, tampando meu rosto. Ele era inacreditável! Será que ninguém entendia que eu não queria fazer aquilo? Porque todos pareciam muito satisfeitos me forçando àquilo. Mas se eles pensavam que eu me renderia sem uma boa luta... Não acho que alguém realmente pensava isso, mas se pensassem, eu iria mostrar quem é .

— Me dá isso aqui! – disse, arrancando o sanduíche de suas mãos. Peguei também uma latinha de coca no nosso frigobar e voltei para o meu canto próximo à janela.

Se eu ia realmente ser obrigada a passar por aquilo, acabaria com o estoque das garotas por permitir que aquilo acontecesse.


Cerca de duas horas depois, eu estava encarando os últimos pedaços do meu sanduíche, refletindo comigo mesma. Para ser mais honesta, pensando em maneiras de sair dali que não me custassem minha vida na Kappa Kappa Gamma ou o meu pé que ainda estava saudável.
estava congelado na mesma posição há algum tempo, encarando o teto. Ele parecia tão infeliz por estar ali quanto eu, mas se recusava a ceder.

— E se eu comer toda a comida? – questionei. Minha voz o assustou depois de tanto silêncio e ele inclinou suavemente a cabeça em minha direção, perdido. – Se eu comer todos esses sanduíches agora, não vamos ter mais nada para comer. Alguém vai ter que trazer mais e, a não ser que arremessem pela janela, essa porta vai ter que se abrir. – terminei de compartilhar minha teoria.

Ele riu.

— Se você comer todos os sanduíches, nós vamos passar fome. – disse, me corrigindo.
— Besteira! Eles não podem nos deixar dias sem comer.

arregalou os olhos em surpresa, se virando inteiramente para mim agora.

— Dias?! Eles nem mesmo esperavam ter que nos fazer café da manhã. Ninguém vai passar dias aqui, ! – afirmou, mais tentando convencer ele mesmo do que a mim.
— Se vão me esperar ceder, meu amigo... Espera deitado. E acordado porque eu me recuso a dormir de novo, logo, você também não vai. – falei, com um sorrisinho provocante.

Ele jogou a cabeça para trás, soltando um longo gemido de desespero. Eu não iria ceder, mas com certeza faria com que ele o fizesse. Todos nós sabemos o estrago que eu posso fazer quando devidamente motivada.

— Por que você é assim? – grunhiu com as mãos no rosto.
— Uma arte de Deus, sei lá... – dei de ombros. – Não se irrite tão cedo. Você ainda tem muito tempo comigo aqui dentro. – e fiz questão de estender o ‘muito’ para que ele tivesse noção do quão empenhada eu estava.
— Não me importo. – disse, cruzando os braços.
— Não agora, mas daqui horas ouvindo a minha voz, os meus insultos, meu mau humor... Não acho que vá resistir, .
— Vamos fazer um acordo? Não fale comigo a não ser que você queira finalmente resolver isso.
— Ah... Não.

Eu enchi o saco dele pela próxima hora inteirinha, deixando-o jogado na cama da com o travesseiro sobre a cabeça no final. Gostaria de insistir mais, porém o tempo naquele quarto parecia andar com muito mais lentidão do que no resto do mundo. Resultado: cheguei a um ponto em que nem eu mesma aguentava ouvir a minha própria voz.
Odiava aquilo. Tinha um sorriso maldoso no rosto que me fazia parecer confiante quando na verdade eu me sentia desesperada para sair correndo dali. O ar naquele cômodo pesava. Era difícil respirar com medo do que viria a seguir.
No meio da tarde, minha mente estava tão cansada que eu cheguei a considerar a ideia de agarrá-lo de novo. Inicialmente, aquela parecia uma ótima e sempre certeira maneira de melhorar o clima entre nós, isto é, se não houvesse um depois. O nosso último beijo havia me colocado ali e por mais que eu não achasse que poderia ficar pior do que aquilo, o universo tinha um jeito interessante de provar que eu estava errada.
Meu corpo seguia um caminho completamente diferente, no entanto. De pé, atravessando o quarto de um lado ao outro, eu só queria arrumar algo para fazer que não fosse sentar em algum canto e esperar alguém me resgatar daquela torre moderna. Se me dessem uma bola, encheria o saco do até que ele brincasse comigo. Esse era o nível do meu desespero.
No meio do meu zig zag, ouvi alguns passos vindo no corredor que pararam assim que chegaram até a minha porta. Sob os olhos atentos do meu parceiro de confinamento, eu corri para lá, esperando que ela se abrisse. Na minha mente, já podia me imaginar pulando para fora mais rápido do que qualquer um seria capaz de acompanhar e ganhando minha tão sonhada liberdade.
Mas os segundos foram se passando até se tornarem um longo minuto e nada aconteceu.

— Olá!? Eu sei que tem alguém aí, abre a porta!

Forcei a fechadura, que permaneceu tão fechada quanto estava naquela madrugada.

— Não é ninguém. – murmurou e eu decidi ignorá-lo.
, é você? – nada. – April? Mina? – nada. – Nikki, me deixa sair, eu prometo que vou me comportar.

Meu colega de confinamento riu nessa parte.

— Tá bom...

Mais uma vez, ignorei.

No meio do meu desespero para dar o fora, me abaixei para tentar ver algo por debaixo da porta, conseguindo ver a parte de baixo do que me parecia uma sandália com pedras demais para pertencer a alguém que não fosse a minha melhor amiga. Apesar de, depois daquilo, eu ter que reconsiderar seu cargo.

, eu sei que é você, tô sendo cegada com tanta pedraria! – imediatamente, seus pés começaram a se comer sem que ela soltasse uma palavrinha sequer. – Não! Volta, por favor!

Ela não voltou naquele momento nem em todas as duas horas que eu passei deitada no chão, espionando aquela fresquinha de visão que eu possuía. Alguns outros pés passaram silenciosamente nesse período de tempo, porém saiam apressados no momento que eu começava a gritar por ajuda.

— Você pode parar de gritar? Não está sozinha aqui dentro e não está sendo atacada para fazer esse escândalo todo! – reclamou.
— Bom, elas não sabem disso, sabem? Tudo que elas sabem é que me prenderam em um quarto com um cara muito mais forte que eu, não acha que eu mereço ao menos um pouco de preocupação?
— Elas me conhecem, sabem que eu nunca levantaria um dedo para você.

Dei de ombros. Eu também sabia que ele nunca faria aquilo. Eu já havia presenciado uma quantidade considerável de momentos de raiva dele e em nenhum deles havia dado um mínimo sinal que fosse de violência em minha direção. Não que isso fosse mais do que a obrigação dele...
Além do mais, descontar seu temperamento nas coisas ao redor não fazia dele exatamente um cavaleiro.
Levantei do chão, já sentindo meus braços e peitos doerem pelo apoio.

— EI! ME TIRA DAQUI! – tentei uma última vez. Nessa, nem fiquei decepcionada pela falta de resposta. Meu coração estava se acostumando a ser ignorado, por mais dramático que aquilo fosse. Quando virei de volta para o meu ex-namorado, ele me encarava com cara de poucos amigos, cobrindo os ouvidos com as mãos. – Aguenta, bebê. Quem não saiu correndo na primeira oportunidade foi você.


Muitas horas e uma bandeja de sanduíche vazia depois, eu sentia que estava prestes a enlouquecer. Por tudo que eu sabia, o mundo poderia estar desmoronando por completo lá fora e cheguei ao ponto de torcer para que me atingisse, assim a porta seria quebrada e eu estaria livre para viver aquele que realmente era o inferno, mas ainda soava melhor para mim do que estar presa naquele quarto com .
Já era madrugada novamente e eu abraçava os meus joelhos, imaginando estar em um universo onde eu não me sentia miserável. De olhos fechados no completo silêncio, meus ouvidos captaram os movimentos de rapidamente, especialmente quando ele se sentou na beirada da cama frente a mim.

— Quer conversar? – balancei a cabeça para os lados, esperando que aquilo fosse suficiente. – ... Por favor! Se nos acertarmos, podemos estar fora daqui em dez minutos. – não respondi e ele suspirou. – Eu realmente tô perdendo a minha paciência.
— Interessante. Eu perdi a minha horas atrás.
— Então por que ainda estamos aqui?

Ergui a cabeça, sentindo ter algum tipo de marca na minha testa por estar há tanto tempo naquela posição. Ele não riu. Estava desanimado demais para achar graça na minha cara.

— Você sabe muito bem o por que. Não diz me conhecer tão bem? – questionei e ele deu de ombros.
— Você mudou muito no último ano. Te conheço bem, mas não acho que possa mais dizer que te conheço por completo.
— Está certo, não pode.

Nós ficamos em silêncio por algum tempo, mas eu sabia que ele não desistiria com tanta facilidade dessa vez. Simplesmente tinha um sentimento sobre. Ou apenas a visão para ver todo o desgaste que quase 24 horas preso comigo havia feito a ele.

— Escuta: nós dois fizemos algumas besteiras no caminho até aqui, umas piores do que outras e... Bom, não podemos voltar no tempo, porém, nós podemos tentar fazer diferente daqui para frente. Olha para essa universidade e o tanto de coisa que ela nos oferece! Você realmente gosta tanto dessas brigas a ponto de deixar elas entrarem entre você e a total experiência universitária?

Talvez eu devesse parar para refletir sobre aquilo. Ele tinha um bom argumento, afinal de contas. Mas isso significaria ceder ou pelo menos chegar muito perto disso. Não estava pronta e diria mais mil vezes se fosse necessário.

— Eu não quero fazer ou pensar nisso agora.
— Sinto muito porque você vai! Vai porque essa é a única coisa na minha cabeça e não me parece justo que eu seja o único a se sentir torturado nesse lugar. – disse, me fazendo querer revirar os olhos. Aquilo, sim, estava ficando repetitivo.
— Você não é o único a se sentir assim, não se preocupe. Agora mesmo, eu acho que preferiria uma tortura física do que isso.

Me levantei do cantinho que sua presença havia me roubado para ao menos me afastar.

— Precisa parar de fazer isso, ... Guardar rancor é pior para você do que para os outros. Não costumava ser assim.

A alguns metros de distância, eu parei para encará-lo novamente com as mãos na cintura, uma posição que já dizia muito do que eu pensava.

— Sério? – questionei e a confusão tomou sua face, sem saber para quê exatamente eu estava falando aquilo. – Você vai ficar citando defeitos meus como uma maneira de me incitar a conversar? Porque a esse ponto já devia saber que tudo que vai ganhar é uma briga. Você não é perfeito, sabia? Claramente não é tão compreensivo quanto à imagem que estava vendendo, todos viram!
— Nunca disse ser perfeito... Especialmente para você eu nunca diria ser. Conhece todos os meus defeitos.
— Então pare de bancar o menino injustiçado que só quer resolver as coisas! Você era o vilão, lembra? Como é que eu me sinto como a própria rainha má? – desabafei. Era a única coisa que ele arrancaria de mim naquela noite. Pelo menos, aquele era o plano.

Eu nunca quis ser a vítima, a garotinha que foi enganada pelo rapaz. Quando parecia ser inevitável que pensassem assim, eu dava o meu jeito de tentar reverter à situação, ainda que nunca tenha realmente funcionado. No final das contas, acabava sempre sendo a pobrezinha enquanto gostaria de ser só a . Nunca havia parado para pensar de verdade no papel que interpretava naquele conto de fadas destorcido.

— Mas eu só quero resolver as coisas! Não estou mentindo agora e não estava mentindo na festa de iniciação meses atrás, eu quero que as coisas fiquem bem.
— Bem, eu não. E a sua vida vai ficar muito mais tranquila a partir do momento que você aceitar isso.

Me virei de costas para ele, querendo fazer algum tipo de saída dramática até lembrar que eu não tinha para onde ir. O mais longe dele seria a cama de cima de um dos beliches. No entanto, não tive que pensar naquilo por muito tempo, pois logo senti sua mão segurar o meu braço, me movimentando até que eu estivesse virada de volta para ele e muito próxima do seu corpo.

— Não vou permitir que você fuja dessa vez, . Não vai me beijar para me distrair ou se encolher em um canto desse quarto porque eu quero ter essa conversa, agora! Você fala comigo quando quer, briga quando quer, faz tréguas quando quer, me ignora quando quer... Eu tô cansado de seguir o seu cronograma, de fazer tudo no seu tempo.
— Terminou? – perguntei sarcasticamente quando ele fechou a boca. – Então me solta! – não precisei falar outra vez, sua mão caiu ao lado do corpo na mesma hora. — Agora pare de agir como um idiota e me deixa em paz!
— Eu estou agindo como um idiota?! Você se olhou no espelho nessas últimas semanas? Parou para pensar em tudo que tem acontecido por um segundo sequer?! – exclamou, parecendo ter zerado sua paciência por ali.

Eu havia parado, sim. Não por muito tempo, com medo de que uma reflexão profunda fosse me fazer questionar e me arrepender de tudo. Mais ou menos a mesma razão para que eu estivesse tão negativa quanto aquela conversa.
Se ele queria começar a erguer a voz, eu definitivamente não ficaria para trás. Quem sabe, com muita sorte, alguém ficaria preocupado o suficiente para vir checar se estava tudo bem.

— Tá me forçando a fazer algo que eu não quero, não tá vendo!?
— Ah, é? Da mesma maneira que você e suas ações têm me colocado nas piores situações possíveis? Quando você força, é bonito, né? Não imaginei que fosse ter que adicionar hipócrita a sua lista de defeitos.
— É DIFERENTE! Você sabe que é! Ao menos, devia saber.
— Diferente como, ?! Quando é você, tá tudo bem, mas quando sou eu, é abominável? Porque essa é a única diferença que eu vejo.

Balancei a cabeça, inconformada, me afastando um pouco antes que eu sentisse a necessidade de partir para violência física. Ele poderia estar muito perto, mas, diferente das outras vezes, nessa não sobrava espaço para desejo algum. Só um grande desespero e muita raiva, ao ponto de eu já nem ter certeza do que estava falando, estava apenas botando para fora o quanto eu odiava estar ali. E o arrependimento por me deixar levar pelo meu corpo, 24 horas atrás. Só o pensamento de que uma pequena mudança de decisões faria com que eu não estivesse presa naquele quarto me deixava possessa.

— Se você não consegue desvendar essa sozinho, não sou eu que vou te explicar! O babaca completo que está sendo nesse momento não merece!
— Ah, claro! Me desculpe por tentar me resolver com você para facilitar as nossas vidas! – ele praticamente gritou, abrindo os braços para se mostrar inconformado com aquilo.
— Deus, , por que é que você quer tanto isso?!
— Por quê? Você quer mesmo saber o por que? É porque essa é a nossa última chance, ! Não entende?

A confusão me fez parar imediatamente. Do que ele estava falando?

— Como assim?

Ele respirou fundo. Parecia mais exausto do que nunca.

— Podemos sentar e ter uma conversa sem gritos? Por favor. Não aguento mais.

Eu imaginava que uma verdadeira expressão de terror tomava conta da minha face. Ele ia anunciar que estava morrendo ou algo do tipo? Porque eu não aguentaria ouvir aquilo.

— Do que você tá falando?
, do que tem tanto medo? – questionou, ignorando a minha pergunta. – Não precisa falar nada que não queira. Eu posso fazer toda a falação e no final, tudo que terá que fazer é concordar e pronto, está livre de mim. Não é o que quer?

Não era! Minha mente dizia que sim, porém meu coração ia em um caminho completamente diferente.
Ainda sentindo certo choque por todas as mudanças bruscas de clima naquele quarto e me dando por vencida, eu decidi me sentar. Mas só para ouvi-lo melhor e com mais calma, é claro. Um colchão não parecia bom o suficiente, então escolhi o chão. De alguma maneira, combinava com o meu estado de espírito. Apoiei as costas na cama da e me acompanhou ao chão, ficando frente a frente comigo e, felizmente, não forçando a proximidade.
Eu não gostava nada do caminho em que estávamos indo. No entanto, precisava saber exatamente o que ele queria dizer com aquelas palavras de despedida. Ele não podia se despedir, não era óbvio? Podia apenas quando eu o liberasse, por mais egocêntrico e egoísta que aquilo fosse.

— Fala! – o apressei quando ele não abriu a boca imediatamente.
— Bom... – fez uma pausa, parecendo se preparar para o que tinha que falar. – Você sabe como eu me sinto em relação a você e...
— Como? – interrompi.
— Não sabe?
— Eu tenho uma ideia, mas quero ouvir.

Ele deu uma risada nervosa, surpreso com o que eu disse. Talvez não fosse uma boa ideia, mas se eu me sentei para ouvir, queria ouvir absolutamente tudo!
— Você quer ouvir os meus sentimentos? Da minha boca? Você, ?
— Apaga essa cara e começa a falar logo antes que eu mude de ideia, tá legal? Se eu voltar a gritar ali na porta, não quero ninguém reclamando!
— Tá bom! – disse, erguendo as mãos em rendição. Aos poucos, ele neutralizou sua expressão e encostou as costas na cama, respirando fundo. – Eu tenho questionado muito a maneira como eu me sinto porque às vezes não é algo que eu queira realmente sentir, sabe? No final das contas, eu chego sempre à mesma conclusão: não te superei. Nunca tentei de verdade também... Eu sei que você está em um lugar completamente diferente agora. O que eu fiz deixou só ódio e eu entendo... Não completamente, mas entendo. Não espero que você me ame de repente, só que me dê algum espaço por perto. Esse tempo todo eu peguei o que consegui, . Eu levei os socos e tapas, aguentei as ofensas, tentei entrar no espírito da coisa e te dar o que você queria só para estar perto, mas não suporto mais. Por isso, estar aqui é tão importante para mim... Porque se não der certo, eu vou sair dessa sem nada.

A última frase tirou o meu ar e eu não sabia dizer o por que. Eu não devia me importar. No minuto em que eu pisei o pé naquela universidade, eu desejei que ele se mantivesse longe de mim. Não fazia sentido algum que agora me incomodasse. Eu não estava fazendo sentindo algum!

— Teria coragem de se afastar completamente? – perguntei depois de alguns segundos absorvendo as suas palavras.
— Eu não sei se coragem é a palavra certa. É mais uma necessidade. Não aguento mais as brigas, todos os ataques. Quer dizer, olha o que eu fiz! Armei um escândalo na frente de todo mundo por causa de um ciúme que eu nem deveria sentir... Não mais, pelo menos. Eu trabalhei duro para melhorar, para deixar de ser o cara que ferrou com o nosso relacionamento, não posso jogar tudo aquilo fora. Essas situações só nos fazem mal e se o meu afastamento for o que é preciso para que as coisas se acalmem, é o que eu vou fazer.

Algo estava causando um aperto no meu coração, que aumentava a cada palavra que ele dizia. É, saber como ele se sentia definitivamente não havia sido a melhor ideia, pois estava me permitindo ver. Eu havia fechado os olhos há um bom tempo, pela minha sanidade, agora as coisas estavam vindo à tona aos poucos e não era agradável. Ainda assim, não me arrependia de ouvi-lo.

— E os nossos amigos?

deu de ombros.

— Eu tenho outros amigos, sabia? De resto, teríamos que dividir. Eu sei que sairia como perdedor nessa história porque você é a princesa dos olhos deles, mas é melhor do que nada.

Dessa vez, ele não falou a palavra “princesa” com ódio, como em todas as outras em que havia dito, parecia apenas conformado e eu não gostei nada daquilo. Ninguém devia se contentar com tão pouco, especialmente sendo ele a pessoa que havia me apresentado aos outros.
Arregalei os olhos levemente quando me toquei do que havia acabado de pensar. Era assim se importar com o que ele sentia? Em dias normais, eu simplesmente viraria minhas costas para ele, assim não precisava ver, e seguiria minha vida como se nada tivesse acontecido, ignorando completamente aquele pequeno momento. No entanto, agora ele estava na minha frente, bem diante dos meus olhos que permaneceram cravados na sua figura, sem a intenção de fugir dessa vez. Ainda que eu soubesse que esse seria o caminho mais fácil a ser seguido. Para mim, pelo menos.

— Eu não quero as coisas assim. – disse baixinho, mais por impulso do que qualquer outra coisa.
— Não? – ele questionou, surpreso.
— Não. – abaixei a cabeça apenas por alguns segundos, pensando em qual seria o meu próximo passo e ele esperou, talvez com medo de falar algo que me fizesse mudar de ideia. Eu voltei a encará-lo tão confusa quanto estava quando deixei seus olhos, mas dessa vez com a consciência de que eu estava prestes a dizer algo que poderia levar todo o meu esforço para manter minha armadura água abaixo. – Uma vez... Ahn... Uma vez eu li em algum lugar que o oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. Eu acho que concordo.

Eu vi seus olhos criarem algum tipo de expectativa imediatamente, como eu imaginei que aconteceria porque aquele era o . Eu não queria dar expectativa alguma, só ser sincera com nós mesmos. Naquele momento, era como se merecêssemos. Também queria que fosse rápido, pois tinha a impressão de que a qualquer hora eu acordaria e voltaria a atacar mais ainda, para compensar aqueles minutos de fraqueza.

— O que quer dizer exatamente? Porque eu não quero correr o risco de errar na interpretação.

Sorri rapidamente com o leve desespero em sua voz.

— É que as pessoas colocam o amor e o ódio como completo opostos um do outro. Quando o objetivo não é romantizar, eles são proibidos de coexistir, sem consideração alguma às variações. Já o amor e a indiferença realmente não podem existir juntos. Eu não posso ser indiferente a você e me importar ao mesmo tempo. E acho que nós dois vimos bem que eu não consegui ser indiferente a sua presença. – expliquei, tentando passar para palavras o que se passava na minha cabeça. Não cheguei nem perto, porém esperava ter sido clara o suficiente para que ele entendesse.
— Então quando você disse que devia me ignorar, mas achava mais divertido fazer da minha vida um inferno, era porque você não conseguia ser indiferente a mim?

Assenti.

— A sua presença realmente me irrita.
— Certo. E isso não quer dizer exatamente que você me ama? – neguei. – Como se sente sobre mim, então?

Eu acabei rindo, acreditando que ele estava fazendo alguma de suas brincadeiras, mas ele permaneceu sério.

— Não está realmente me perguntando isso, né?
— Eu acabei de te dizer como me sinto, por que não pode fazer o mesmo? – questionou e eu imediatamente abri a boca para dar uma resposta daquelas, até perceber que eu não tinha uma. Era justo que eu falasse também. Só não queria.
— Acabei de dizer que você me irrita.
— Mas não pode ser só isso e nós dois sabemos que não é! Se fosse, essa conversa teria terminado há um tempo.
— Tudo bem. Vou parar de falar, então. – ameacei, cruzando os braços.

Ele riu da minha expressão zangada.

— É isso mesmo que quer?

Não era. Não que eu estivesse me divertindo, fazer aquilo era realmente terrível. Mas um terrível certo, se é que aquilo existia. Nem chegava perto da tortura que imaginei. Quando namorávamos, nós costumávamos ter sempre essas longas conversas e talvez eu sentisse falta delas. Ou gostava apenas daquela clareza que algumas de suas respostas me davam. Ou do alívio de ter a coragem de liberar algo, mesmo que mínimo, pois ele também estava liberando. Todos juntos, quem sabe.
Se na minha mente era difícil admitir, em voz alta me parecia quase impossível. No entanto, aquela parecia uma boa hora – com certeza, melhor do que todas as outras – para deixar um pouco do orgulho de lado.

— Eu não te amo. – comecei, já arrancando uma careta dele. – E não vou me desculpar por isso. Nós vivemos muita coisa juntos. Pode ser o fundo de amizade, a intensidade da nossa relação, o primeiro amor, eu não sei... Algo me garante que você nunca vai ser apenas um cara do passado para mim. Mas... Tudo o que você fez me machucou pra caramba e eu não sei como esquecer isso.

Fraca como eu era, disse cada palavra encarando as minhas mãos. Quando voltei a olhar para ele, fiquei surpresa – quase ofendida – com o sorriso em seu rosto.

— Percebeu o que você acabou de fazer? – neguei com a cabeça. – É a primeira vez que você admite para mim que eu te machuquei.
— E você tá feliz com isso?!
— Sim! Porque de alguma maneira, você se abriu para mim, mesmo que por apenas um segundo.

Poucas vezes na vida, nós temos momentos em que o universo vem e nos dá um tapa na cara. Sentada ali, encarando um dos mais lindos sorrisos que o via dar em algum tempo, eu me peguei em um desses.
e eu costumávamos ser tão próximos que nada passava despercebido um pelo outro. Nós compartilhávamos tudo, segredos, planos, comida, às vezes até roupas. E agora, ele morria de felicidade apenas por ouvir da minha boca algo que ele já sabia. Não mais que uma frase, só uma confissão, uma confirmação de tudo que as minhas atitudes vinham mostrando.
Durante alguns milésimos de segundos, me senti realmente mal. Havia me tornado uma pessoa tão amarga com ele ao ponto dele achar que aquilo era grande coisa. Por mais que eu quisesse acreditar que ele merecia tudo aquilo e muito mais, uma vozinha irritante na minha cabeça dizia que talvez eu tivesse ido longe demais. Eu não gostava daquilo. Não bastava o resto do mundo questionando meu comportamento, era inaceitável que eu mesma também o fizesse.
Aparentemente já sem a capacidade de controlar meus próprios pensamentos, que eram jogados contra mim desordenados e com uma força surpreendente, eu pensei rapidamente que não me reconhecia mais. Lembrei da de tempos atrás, que criava alguns problemas, mas acima de tudo conseguia administrar a maioria das situações, deixava a razão sempre em primeiro lugar e que tinha maturidade para escolher se afastar de vez daquele que a causava dor, sem maiores intrigas. Ela não existia mais. Na verdade, ela poderia muito bem ser aquela voz da razão sendo constantemente ignorada em minha cabeça.
Agora, ao invés de organização, eu trazia mais bagunça ainda por onde passava e por mais divertido que eu achasse, aquele era o motivo da minha pena de quase vinte e quatro horas até aquele momento em meu próprio quarto.
Em algum ponto, eu virei a vilã da história. E em outro muito louco, se tornou tão vítima que até eu sentia pena do garoto. Senti meus olhos se arregalarem levemente enquanto eu encarava o espaço vazio entre nós dois. O que diabos havia acontecido com o mundo!?

— Ei, tá tudo bem? – o mocinho questionou, jogando as mãos para todos os lados na tentativa de chamar minha atenção. Eu quase ri porque ficou parecendo uma dança muito ruim.
— Sim, só estava pensando...
— No que?

Travei de novo.
O motivo para eu colocar a minha bunda naquele chão era para ouvi-lo falar. No meio disso, eu já havia soltado informações que não pretendia, mas não foi de todo terrível. Responder aquela pergunta significaria realmente me engajar naquele diálogo, dar um passo na direção das pazes que queriam forçar da gente, e eu precisava ponderar se aquilo era algo que eu gostaria de fazer.
O problema era que nem todo pensamento no universo me faria ter certeza. Eu sabia que era algo que tinha que fazer e o resultado só viria depois, com o tempo e o amadurecimento daquela relação. Se é que tínhamos uma.
Decidi arriscar. Ainda que pudesse ser um passo a frente para nós naquele momento, aquela não era uma decisão sensata, que a antiga faria. Na verdade, se eu estivesse naquele mode, teria concordado com a ideia dele se afastar. Ele era meu ex, o cara que me fez mal por muito tempo, apesar de nós simplesmente termos ignorado, e nada bom pode sair desse tipo de convivência.

— Só estava pensando que eu não tenho sido muito justa com você. – confessei.

Ele se surpreendeu mais uma vez.

— Ah, é? Por quê?
— Acho que perdi o controle de tudo. Bom... Se eu estou sendo sincera, acho que nunca tive controle de nada. Desde o momento que te vi no meu primeiro dia aqui, tudo ficou bagunçado. Olhando para trás agora, é como se eu estivesse sendo jogada para todo lado, pelos outros, por mim mesma, por você... Convivência, iniciação, vingança, provocações, irmandade, aulas, tanta coisa nova.
— Então... Você se arrepende de tudo? – perguntou hesitante, parecendo ter medo de que eu fosse jogar algo nele ou coisa do tipo.
— Não! – respondi imediatamente. – Quer dizer, é complicado! Ao mesmo tempo em que eu acho que poderia ter pegado um outro caminho, penso que tudo que eu fiz me ajudou a extravasar aquela raiva que eu não consegui sentir antes. Talvez eu poderia ter feito uma outra abordagem, sei lá, O CONTROLE, ! EU PERDI!

Eu via claramente o esforço que ele fazia para se manter sério diante do meu surto. Quis socá-lo por aquilo, porém sabia que faria o mesmo em seu lugar.

— Fica calma, desenvolve uma coisa por vez. Por que não conseguiu sentir raiva antes?
— O que é você? Meu psicólogo?! – exclamei, não podendo conter o aumento da minha raiva pelo tom sereno que ele insistia em usar.
— Não. Relaxa, não fica brava de novo. – disse e lá no fundo, eu pude ouvir o desespero de quem já não sabia mais o que fazer caso acontecesse.
— Então para de fazer esse tom zen, pelo amor de Deus!

Ele assentiu.
— Certo, ! – agora ele investiu na voz forçada de um apresentador de televisão, esticando o final das frases. – Vamos então para a próxima perguntaaa: por que você não conseguia sentir raivaaa?
!

Estiquei uma das minhas pernas para chutar a dele, que riu.

— Desculpa, só queria tirar um pouco do seu estresse. – funcionou, mas tudo que fiz foi soltar um sorrisinho para mostrar que eu estava bem novamente. – E então? Por quê?
— Eu não tenho certeza. Acho que só estava tão mal com o que havia acontecido que não sobrava espaço para a raiva. Além do mais, eu estava meio ocupada tentando fingir que não me importava, não sobraria tempo para armar contra você nem se eu quisesse.
— Você fingia?! – ele exclamou, chocado com a nova informação. Encolhi os ombros e assenti. – Você tem ideia do quão miserável me fazia ao andar por aí como se nada tivesse acontecido? Como se o fim do nosso relacionamento tivesse sido bom para você?
— Na verdade, eu tenho sim, mas eu não acho que você queira comparar dores.

não precisou de mais que um segundo para concluir que realmente seria uma péssima ideia. No entanto, algo em sua mente parecia deixá-lo nervoso pela careta que fazia. Apesar da curiosidade, eu não perguntei, pois imaginava que me arrependeria logo depois. Porém, sendo a pessoa que era, ele não demorou muito para verbalizar seu incômodo.

— Posso fazer uma pergunta? – assenti, afinal de contas, eu já estava respondendo milhares, por que não adicionar mais uma? – Promete que vai se controlar para não ficar brava? É uma curiosidade. Inocente!
— Eu prometo não ficar brava se a pergunta não me deixar brava. – respondi com um sorrisinho, mas sua careta foi intensificada.
— É, isso não vai ser suficiente para essa pergunta. Realmente preciso que prometa.

Suspirei. Agora eu estava ficando preocupada. Estúpida como era, a curiosidade crescia paralelamente.

— Tá! Vou tentar. Mas pergunta logo.
— Ok... O que eu quero saber é: por que agora você carrega todo esse ódio? – ergui as sobrancelhas, me perguntando se eu realmente havia acabado de ouvir aquilo. – Espera! Me deixa explicar! Tô querendo dizer que... Bem, muitas pessoas são traídas ao redor do mundo e não acho que uma parcela muito grande passa a carregar tanto ódio. , você mal permite que eu te toque! Você pega qualquer oportunidade que tem para me fazer sentir mal e... Isso não é normal, é? Até o Ross e a Rachel eventualmente deixaram as brigas de lado e se tornaram amigos, já que você gosta tanto de nos comparar a eles.

Fiquei quieta, uma atitude sempre estranha quando partia de mim. Sentia que deveria pular nele e partir para a briga por sequer ter a coragem de fazer uma pergunta daquelas, mas eu só fiquei triste por ele ter que fazê-la. Finalmente, dessa vez a tristeza não era comigo.
Depois do que havia acontecido alguns dias antes, era muito estúpido que eu ainda tivesse expectativas em relação a ele. No entanto, aquela vinha de muito tempo atrás. Eu nunca havia confirmado se ele sabia ou não antes, simplesmente porque não queria entrar naquele assunto de jeito nenhum, a fim de evitar visitas desnecessárias a certos lugares. Naquele momento, acabei descobrindo que ele não sabia e era mais decepcionante do que pensei que seria. Não que eu passasse muito tempo pensando naquilo.

— Eu não quero responder essa pergunta. – disse de uma vez só, esperando não ter que repetir.

Eu continuava aterrorizada apenas com a ideia de visitar aquele cantinho do meu cérebro porque doía e doía muito. Talvez eu não ficasse tão apavorada ao ponto de tremer só com a possibilidade se em todo aquele tempo tivesse pensado e trabalhado com aquilo ao invés de apenas ignorar a existência. O mal já estava feito, de qualquer maneira.

— Por quê?
— Só não é um assunto que eu goste de entrar.
Por quê?

Revirei os olhos.

— Porque não, ! Dói, tá bom? Nós já não fizemos um grande avanço hoje? Não tá ótimo para você?
— Sinceramente? Não. Porque eu tenho certeza que no momento em que sairmos desse quarto, você vai agir como se nada tivesse acontecido. Me atrevo até a dizer que vai voltar com todas aquelas implicâncias como uma forma de compensar pelo pouco que falou. – explicou. Eu queria não concordar, mas ele me conhecia bem demais em alguns aspectos.
— Deus, ! O que quer de mim?!

Ele se aproximou, ficando um pouco a frente de mim. Perto o suficiente para alcançar uma das minhas mãos, que segurava os meus joelhos. Mais do que nunca, eu fiquei com medo. Não do seu toque ou que ele fosse fazer algo ruim, muito ao contrário, pois nem o afastei. Eu tinha medo dele arrancar aquilo de mim. Tinha mais medo ainda de como meu emocional iria reagir com aquilo. Não queria chorar, não queria mostrar fraqueza ou vulnerabilidade alguma.

— Só quero que seja honesta comigo. – respondeu, calmo, me olhando nos olhos. – Quero poder sentar do seu lado no café da manhã sem ouvir nada, andar juntos até a próxima aula porque nossas salas são próximas, te convidar para ir beber alguma coisa só nós dois, quero ser seu amigo, . E eu sei que, para isso, você precisa colocar tudo o que tem guardado aí dentro para fora, então vamos! Eu não me importo.
— Você definitivamente não quer ouvir tudo que eu tenho guardado! – disse, deixando uma risada leve escapar junto. Qualquer um poderia ver que era puro nervosismo.
— Eu quero mais do que qualquer coisa.

Ele não fez nenhuma gracinha nem piscou enquanto dizia aquelas palavras. Seus olhos estavam fixos em mim de uma maneira que não aguentei a pressão e acabei desviando. Meu olhar caiu na mão que ele segurava com firmeza, tentando passar alguma força. Era fofo. Me fazia querer dizer tudo e acabar com aquilo de uma vez por todas, mas quando eu abria a boca para tentar, a minha garganta parecia se fechar completamente.

— Eu não quero chorar. – sussurrei.
— Eu sei. Você nunca quer. – ele disse, também baixinho. Estávamos próximos, não precisávamos de mais do que aquilo. – Mas, ... Pensa no peso que você vai tirar do seu coração. Eu sei que você tem a tendência de guardar as coisas até que elas começam a te intoxicar e não quero isso para você de novo.

De todas as palavras que ele disse, foi o ‘de novo’ que me pegou. Eu sabia a quê ele se referia, aquela que foi definitivamente a pior fase da minha vida: meus doze anos, a época em que eu decidi abandonar completamente as coisas que gostava de fazer apenas para me encaixar no padrão que todos pareciam ter de garotas da minha idade. Foi quem me tirou daquela também.
Eu tinha que admitir de que o sentimento de sair daquela posição em que eu mesma me enfiei havia sido libertador. Como se eu tivesse acabado de voltar a respirar depois de muito tempo. Não deixava de ser difícil.
Pelo meu bem pessoal, decidi começar aos poucos, de maneira que eu pudesse parar a qualquer momento se sentisse grande necessidade.

[Deem o play aqui, bebês. Se a música acabar no meio da leitura, é só dar play de novo.]

— Você lembra aquele dia em que estávamos na casinha da árvore e você me fez todas aquelas perguntas sobre as minhas mudanças. Depois, em uma conversa muito parecida com essa, você acabou me convencendo a soltar tudo àquilo que eu estava segurando há meses, não é?
— Sim, eu me lembro. – respondeu e eu soube que ele sorria pelo tom, pois meus olhos continuavam firmes em nossas mãos juntas. Apesar dele ser o único segurando enquanto eu só a mantinha ali, não quis largar.
— Eu acho que não te contei o que aquilo significou para mim.
— Quer contar? – eu assenti rapidamente. – Tudo bem.

Eu continuei em silêncio por alguns bons minutos, mas ele esperou pacientemente. Queria ter certeza da abordagem certa ao fazer aquilo. Sabia que estava trêmula e que ele sentia, porém aquela era a menor de suas preocupações.

From walking home and talking loads | De ir para casa a pé e conversar muito
To seeing shows in evening clothes with you | Até assistir shows usando roupas de gala com você
From nervous touch and getting drunk | De toque nervoso e ficar bêbado
To staying up and waking up with you | Para ficar acordado e acordar com você


— A maioria das pessoas tem certa facilidade para se abrir. Talvez não com todo mundo, mas pelo menos sua família ou melhores amigos. Todos parecem ter algum tipo de confidente com quem compartilham tudo aquilo que causa dor, aflição ou felicidade. Você sabe que comigo nunca foi tão simples assim. Eu sempre soube que podia confiar em você, te falar qualquer coisa, isso sempre foi claro para mim. Só que... Bom, na hora de desabafar sobre aquilo que me incomodava mais do que tudo, eu parecia ter algum tipo de bloqueio. Eu não queria te incomodar com os meus problemas, não queria que pensasse que eu era fraca para deixar besteiras de adolescente me incomodar, simplesmente não conseguia dizer as palavras. Quando você arrancou elas de mim, eu vi o quão incrível era ter alguém para me dizer que tudo ficaria bem, mesmo que as chances fossem mínimas. Eu senti liberdade, conforto, você acabou se tornando de uma vez por todas o meu porto seguro, aquele para quem eu corria a qualquer momento. Eu nunca me senti sozinha no mundo, sempre soube que tinha pessoas maravilhosas ao meu redor e sempre me senti muito sortuda por isso, mas, de alguma maneira, ter a liberdade de compartilhar levou uma certa solidão que as vezes pairava sobre mim... Sabe qual é o problema de ter um porto seguro?
— Qual?
— Quando ele afunda, você acaba indo junto. Apenas porque nunca largou, confiando que ele sempre te daria segurança.

Now we’re sleeping at the edge | Agora estamos bem no limite
Holding something we don’t need | Segurando algo que não precisamos
All this delusion in our heads | Toda esta desilusão em nossas cabeças
Is going to bring us to our knees | Irá nos colocar de joelhos


Ele ficou calado por um tempo, pensando no que eu havia acabado de dizer. E eu aproveitei para tentar acalmar o meu coração que parecia querer pular direto para fora do meu corpo.
Respirei fundo duas, três, quatro vezes. Aquela era a parte mais fácil de dizer em voz alta e mesmo assim eu já sentia meus olhos úmidos. Um outro motivo para não olhar para cima. No entanto, só nesse momento percebi que eu segurava a mão dele agora. Com força, pelos nós saltados dos meus dedos. A sua mão ali, sem mexer um centímetro sequer mesmo depois das minhas últimas frases, me deu algum tipo de conforto. O tipo de conforto que eu precisava para continuar falando.

— O que você quer dizer? – ele finalmente perguntou.
— Eu sei que você não é o único questionando a maneira com que eu ajo. – comecei, não respondendo sua pergunta diretamente, mas no final ele teria a resposta. – Sei que a maioria das pessoas acha anormal, até patético, tudo o que eu faço para ferrar um cara que clamo ter superado. Aposto que nenhum de vocês pararam para pensar que talvez você ter ficado com a Hailey não seja o problema maior.

Mais uma vez, silêncio.

— O quê? Como assim? – ele voltou a perguntar algum tempo depois.

So come on, let it go. Just let it be | Então vamos, deixe ir. Apenas deixe acontecer
Why don’t you be you and I’ll be me? | Por que não pode ser apenas você e serei apenas eu?
Everything that’s broke, leave it to the breeze | Tudo que está quebrado, deixe o vento levar
Why don’t you be you and I’ll be me? | Por que não pode ser apenas você e serei apenas eu?


— Antes de ser meu namorado, você era meu melhor amigo. E você não tem ideia de como dói à traição de um amigo. Não tem ideia do que foi, para mim, sentir todos aqueles olhares nas minhas costas logo depois de descobrir que você beijou outra garota e escolheu não me contar. Todos estavam esperando a minha reação, ... Todos eles atentos a qualquer lágrima que eu pudesse derramar para sair por aí contando da garota que ficou aos prantos ao descobrir que seu namorado a havia traído. – fiz uma pausa, sentindo algumas lágrimas escaparem. Eu ia encostar minha cabeça no meu joelho dobrado a fim de esconder, mas desisti no meio do caminho. Soltei sua mão e ergui o rosto e pude ver que ele não tinha reação, apenas me encarava tentando assimilar o que eu dizia. Havia começado, agora iria terminar. – Não foi o beijo, não foi nem mesmo a divulgação da foto porque eu sei que você não esperava que aquilo acontecesse. O que me machucou mais do que qualquer coisa foi que você escolheu esconder aquela informação, você me tirou o direito de estar preparada para o que viria. Eu ficaria chateada pela Hailey na hora, como fiquei, mas nós tínhamos terminado, seríamos capazes de superar. Já tivemos brigas piores do que aquela! Nós sempre fomos honestos um com o outro em relação a tudo e daquela vez, você decidiu ir em outro caminho e me fez vulnerável em frente a um colégio inteiro. Pegou toda aquela confiança e coragem que eu me esforcei tanto para construir, amassou e jogou de volta na minha cara. Deu a munição que algumas pessoas precisavam para fazer a minha vida um inferno pelos próximos dias. Me deixou completamente sem chão só para esconder um erro que poderíamos ter contornado. Então quando eu digo que você me traiu, foi porque traiu, sim, a sua melhor amiga, traiu todo o valor que te foi dado, toda a confiança, e ela e sua namorada precisaram sofrer as consequências. Elas precisaram colocar um sorriso falso no rosto e ao menos tentar passar por cima daquele escândalo quando estavam em pedaços por dentro. Você perdoaria isso?

From throwing clothes across the floor | De jogar roupas pelo chão
To teeth and claws and slamming doors at you | A ranger os dentes e bater a porta na sua cara
If this is all we’re living for | Se isto é tudo para o que estamos vivendo
Why are we doing it, doing it, doing it anymore? | Por que continuamos fazendo isto?


Eu realmente senti a leveza, mas foi porque ela deixou um vazio. Quando eu terminei de falar, perdi completamente a força momentânea que adquiri e me senti forçada a deixar seus olhos de novo, dessa vez opacos, tremendo pelas lágrimas que o cercavam. Tampei o rosto, sentindo como se tivesse acabado de perder o meu chão de novo. Eu sabia que devia ver aquilo como algo bom, um verdadeiro avanço, porém o que eu sentia ia completamente em outra direção. Foi como se uma onda, grande e gelada, me atingisse, carregando consigo toda a dor por termos chegado a aquele ponto.
Me sentia estranha, como se estivesse passando mal. Pensei na noite anterior e em todo o prazer que havia sentido ao observar duas casas ao ponto de se enforcarem por causa de algo em que eu dei o pontapé inicial e nem aquilo me confortou. Na verdade, fez com que me sentisse mais mal ainda, pois tudo aquilo parecia tão pequeno e superficial perto de todas as coisas que eu havia acabado de dizer. E eu sabia que pensar aquilo era completamente estúpido e egoísta da minha parte, pois, para todas as pessoas que moveram os céus para fazer aquela semana da iniciação acontecer, aquilo não tinha nada de pequeno. Definitivamente não parecia superficial na hora. E a culpa da proporção que tudo havia tomado era unicamente minha.
Eu não sabia o porquê, mas de repente eu me senti idiota pra caralho. Até doente por sentir algum tipo de prazer ao observar duas casas querendo matar uma a outra. Duas casas que costumavam fazer uma parceria incrível! Agora eu havia infernizado tanto a vida de tantas pessoas que a única solução que encontraram foi me trancar dentro de um quarto. Pessoas não deviam precisar disso para aprender algo, para acordar para a vida! Pessoas deviam ouvir e ponderar, procurar a melhor solução para todos, coisa impossível de se fazer quando sua cabeça está tão fechada em um único objetivo!
Eu criei uma caixinha no fundo da minha mente e joguei lá tudo que me machucava. Em algum momento, acabei me trancando junto.

I used to recognize myself | Eu costumava me reconhecer
It’s funny how reflections change | É engraçado como os reflexos mudam
When we’re becoming something else | Quando estamos nos tornando outra coisa
I think it’s time to walk away | Eu acho que é hora de ir embora


Era maldoso comigo mesma retomar aquele assunto, mas não pude deixar de pensar que estava ali mais milhares de razão para a ter escolhido esconder coisas tão importantes de mim. Eu estava sendo insuportável! Quando até considera desistir completamente de você, tá na hora de ficar preocupada.

, olha para mim. – o ouvi dizer com a voz embargada e balancei a cabeça, negando. – Por favor, ! Olha, eu tô chorando também.

Ergui o rosto dessa vez e ele realmente estava. Não tinha uma cachoeira sob os olhos como eu, mas eu podia ver as marcas que algumas lágrimas deixaram. Ao invés de esperar que ele dissesse algo mais, eu simplesmente desabafei, esquecendo completamente que ele poderia ter algo a dizer sobre o meu pequeno discurso.

— Eu não sei o que eu tô fazendo, todos esses sentimentos ruins... Eu não quero mais eles, . Eu só quero esquecer.

So come on, let it go. Just let it be | Então vamos, deixe ir. Apenas deixe acontecer
Why don’t you be you and I’ll be me? | Por que não pode ser apenas você e serei apenas eu?
Everything that’s broke, leave it to the breeze | Tudo que está quebrado, deixe o vento levar
Why don’t you be you and I’ll be me? | Por que não pode ser apenas você e serei apenas eu?


Obviamente, ele não reclamou por um segundo sequer. Apenas se aproximou mais para que pudesse me envolver em um abraço. Passei os braços ao redor de sua cintura e me grudei a ele, mesmo que sua forma, seu cheiro, tudo sobre ele fizesse meu coração doer naquela hora. Entretanto, se eu fechasse os olhos, poderia fingir que o último ano e meio havia sido apenas um sonho e pensar apenas na confiança, em todo o carinho que eu sentia por aquele garoto.

— Tá tudo bem. Deixa eles irem embora com as suas lágrimas, tá bom? – ele sussurrou no meu ouvido e eu segui seu conselho.

Não queria mais ter que fingir que não me importava com nada, que era inatingível, ninguém poderia me machucar porque eu tinha uma armadura que me protegia. A minha armadura vinha sendo eu mesma. As coisas batiam contra mim e eu simplesmente as jogava para dentro, agia como se não estivessem lá. Ele estava certo. Aos poucos, elas iam me intoxicando. E não só a mim, mas a todos ao meu redor.

Trying fit you hand inside of mine | Tentando encaixar sua mão dentro da minha
When we know it just don’t belong | Quando nós sabemos que elas apenas não se pertencem
There’s no force on earth could make me feel alright, no | Não há força na terra que pudesse me fazer sentir tão bem


Eu cheguei naquela universidade como uma garota divertida. De personalidade forte, mas alguém que as pessoas queriam estar junto. Eu consegui entrar na Kappa Kappa Gamma não por causa do teatrinho que armei e sim porque aquelas garotas viam algo de verdadeiro em mim, algum potencial que somaria àquela casa. E então eu decidi usar o meu potencial para fazer um desfile nu... Contra a vontade do modelo. Surpreendentemente, agora não tinha mais tanta graça, e eu aposto que as garotas não teriam achado tão impressionante se soubessem aonde aquilo as levaria.
Mais confortável do que eu estive em algum tempo, eu chorei. Molhei completamente a camiseta dele sem ouvir um ‘a’. Eu sabia que aquilo aconteceria no exato momento em que percebi que estava trancada com o , por isso fiquei tão apavorada. Chorar me apavorava porque mostrava fraqueza. Era importante para mim que ele não soubesse o quão fraca eu era. Só me esqueci quem era a pessoa com quem eu estava presa. Ele nunca veria aquilo como fraqueza e certamente não a usaria contra mim porque, ao contrário de uma certa alguém, ele tinha escrúpulos, bom senso, talvez amor. Um amor que eu definitivamente não vinha merecendo.

Trying push this problem up the hill | Tentando empurrar este problema para cima do morro
When it’s just to heavy to hold | Quando é muito pesado para segurar
Think now’s the time to let it slide | Acho que chegou a hora de deixá-lo deslizar


Não tenho certeza de quanto tempo se passou, mas eventualmente eu tive que deixar o seu abraço e o cafuné que ele fazia na minha cabeça. Quando o encarei, de volta a minha posição, ele abriu um sorriso leve. Acabei retribuindo, mesmo não sentindo nada bom o suficiente que me custasse um sorriso por dentro.

— Melhorou?
— Mais ou menos.

Minha voz falhou. Depois de todo aquele choro, eu não queria nem imaginar o estado do meu rosto.
Colocar as coisas para fora parecia agora uma ideia boa. O problema é que aquilo me trouxe a noção do impacto de tudo o que eu estava fazendo naquele campus e aquilo definitivamente levaria um tempo para passar. Abrir os olhos... Não é tão fácil quanto parece.

So come on, let it go. Just let it be | Então vamos, deixe ir. Apenas deixe acontecer
Why don’t you be you and I’ll be me? | Por que não pode ser apenas você e serei apenas eu?
Everything that’s broke, leave it to the breeze | Tudo que está quebrado, deixe o vento levar
Let the ashes fall, forget about me | Deixe as cinzas caírem, me esqueça


— Quer conversar com calma agora? – dessa vez, eu concordei imediatamente. Parecia apenas certo que eu concluísse o que havia começado de uma maneira muito estranha. – Posso começar dizendo que eu me sinto o cara mais imbecil do mundo por ter visto apenas a superfície do que realmente aconteceu no dia em que terminamos? Para alguém que se orgulhava de te conhecer tão bem, é patético que eu não tenha percebido isso. Você estava certa, afinal de contas, eu sou bem patético.
— Não, não é assim. – o interrompi, com a lembrança do dia em que joguei todo o meu veneno para cima dele. Se lá, com o meu ódio em seu ápice, eu me senti mal, hoje eu poderia facilmente me socar. – Você não é patético, só meio trouxa. Mas eu também sou de vez em quando.
— Ainda assim, é inaceitável que você tenha tido que me falar isso. Eu sinto muito, , muito! Não tinha ideia da profundidade daquele problema. Fui um idiota completo e nem sei mais se eu mereço o perdão que tanto peço. Apesar disso, eu vou continuar pedindo. Vou esperar o dia em que você vai estar pronta para me perdoar, mesmo sem garantia de que ele vá chegar.
— Tudo bem. Só não quero que fique exigindo. Preciso de tempo e de espaço para rever muita coisa, e a culpa é meio que tua. – afirmei e ele sorriu.
— Sei que meti os pés pelas mãos milhares de vezes nessas últimas semanas, mas eu mudei, . Aprendi muita coisa nova, não sou mais aquele cara sufocante.
— Aprendeu mesmo, ? – ele franziu o cenho, confuso. – Como estão você e a Nikki?

E então ele entendeu.

— Com a Nikki é... É diferente. O que nós tínhamos era diferente. – ele tentou se explicar, porém não colou.
— Ah, é? Se lembra quando nos beijamos na noite da iniciação? Eu ainda não sabia, mas vocês já tinham algo. Acha que ela gostou de ver a gente se agarrando ontem? Eu sei que eu não tô com a razão aqui, também errei, mas eu não tô afirmando ter mudado. Na verdade, a cada segundo que passa eu me lembro de outra merda que fiz e me martirizo por ela na minha cabeça.

Ele suspirou, cabisbaixo.

— Nós nunca tivemos algo sério. Eu até tentei transformar o nosso relacionamento em algo sério no final do ano passado, mas ela não quis! O que eu posso fazer?
— Se resolver com ela é o que você pode fazer! Não importa que vocês não tenham nada sério, aquela garota guarda um carinho gigantesco por você e não merece te ver se agarrando ou correndo atrás de outra pessoa quando vocês ainda estão mal resolvidos.
— Eu sei, eu sei. – admitiu, frustrado. – Vou consertar isso, eu prometo.
— Ótimo.

Achava irônico que eu ainda me atrevesse a dar conselhos quando a minha própria vida estava mais bagunçada do que nunca. Eu pensava que havia deixado todas as minhas incertezas no ensino médio, porém agora me encontrava mais confusa do que nunca. Tão confusa quanto me senti depois que e eu terminamos, sem saber para onde ir. Tinha a impressão de que no segundo em que eu pisasse para fora daquela porta, eu teria que recomeçar, desfazer os estragos que causei, refazer as amizades que perdi, trazer essas casas de volta uma para a outra.
Não tinha ideia de por onde iria começar, então foquei apenas na hora em que eu daria aquele passo para fora.

— Posso fazer uma pergunta?

O olhei desconfiada. Na última vez em que me perguntou aquilo, eu acabei chorando toda a água do meu corpo para a regata dele. Ainda molhada, aliás.

— Se ela não envolver o passado, pode.
— Você não se vê mais comigo? – ele jogou imediatamente, fazendo com que eu me arrependesse da permissão.

Nós estávamos sendo sinceros, não é? Na verdade, toda aquela conversa sempre acabava voltando para a sinceridade. Parecia ruim começar aquela que parecia ser uma nova fase já ferindo os seus sentimentos.

— Quer mesmo saber? – ele assentiu. – Não, eu não me vejo.

Ele tentou disfarçar a expressão de tristeza, mas não era muito bom naquilo.

— Por quê? – sussurrou.
— Eu não posso voltar para o que a gente era, . Simplesmente não posso. Desculpa.
— Mas nós éramos incríveis, ! Todos naquele colégio sonhavam em ter um relacionamento como o nosso, sem rotina, cheio de cumplicidade... Você não pode voltar para o casal perfeito?

Talvez ele tivesse mudado mesmo. No entanto, essa mudança não afetou a visão que ele tinha de nós dois. Já eu agora nos via com olhos completamente diferentes.

— Nós não tínhamos rotina porque brigávamos o tempo todo! Brigas constantes assim só não bonitas na ficção. Na vida real, elas desgastam, causam feridas... Me surpreende que você abomine as que temos agora, mas de alguma forma admire as antigas.
— Eu não as admiro. Pelo menos naquela época nós estávamos juntos e os nossos momentos bons faziam todas elas valerem à pena, não se lembra? – ele insistiu.
— Me lembro bem. – sorri, tentando confortá-lo. – Ainda assim, não era certo. Eu sei que é difícil aceitar, eu mesma levei muito tempo para conseguir, mas o nosso relacionamento era terrível. E eu não falo só do seu ciúme, quer dizer... Eu odeio mais que tudo admitir, mas eu era, sim, controladora. Talvez ainda seja e preciso trabalhar nisso, assim como você trabalhou nos seus defeitos.

De ombros caídos e olhos no chão, parecia ter perdido toda a alegria pelo que havia conquistado. Não queria começar daquela maneira. Eu não podia negar para ninguém (apesar de o fazer) que sempre teria sentimentos por ele e seria fácil para mim simplesmente fechar os olhos e beijá-lo até que não aguentássemos mais. No entanto, aquela seria uma decisão da que eu estava apavorada por ter me tornado.

— Eu sei que isso é estúpido, mas eu posso ao menos tentar? – ele perguntou, erguendo seus olhos azuis pidões para o meu lado.
— O que quer dizer?
— Posso tentar te reconquistar? Vou me contentar com a sua amizade se me disser não, é claro.

Eu não sabia se gostaria daquilo. Especialmente porque eu poderia não resistir. Deus e o mundo sabem o quão atraente é aquele garoto a minha frente. Porém não me sentia no direito de negar aquilo a ele.

— Pode. Mas só depois que você se resolver com a Nikki!

Seu sorriso voltou, tão iluminado que nunca parecia ter desaparecido.

— Perfeito! – exclamou.
— O que nós fazemos agora? – questionei, olhando ao redor.
— Você tem mais alguma coisa que precise me dizer?

Neguei com a cabeça.

— Não agora, pelo menos. Talvez com o tempo.
— Então tudo que temos que fazer é chamar alguém, sair daqui e tentar manter uma boa convivência um com o outro.

Parecia bom para mim. Isto é, até ele tirar o celular do bolso de sua calça jeans. Abri a boca, chocada com o pequeno aparelho tão próximo de mim e ainda funcionando.

— Você disse horas atrás que sua bateria acabou! – ele apenas deu de ombros. – Eu sinto que deveria te odiar pra caralho agora.
— Você pode me odiar de vez em quando, sabia? É como o mundo gira. Mas só de vez em quando. – disse com o dispositivo no ouvido.

Podia, porém não queria começar as nossas meia-pazes desse jeito. Apenas meia porque ainda tínhamos um milhão de coisas para resolver, mas disso trataríamos com o tempo. e eu tínhamos tanta bagagem que nem semanas presos naquele quarto dariam conta.

— A Nikki não tá atendendo.

Muitas tentativas foram feitas depois daquela até que o telefone realmente perdeu toda a sua bateria. Depois de tudo o que aconteceu, nós acabamos voltando para o lugar onde as coisas se iniciaram: batendo na porta e gritando.

— EI, NÓS JÁ ESTAMOS BEM. PODEMOS SAIR! – ele gritava.
— EU TÔ COM FOMEEEEEE!
— Ai!
— Desculpa.

Enquanto continuou o trabalho, eu me virei e encostei as costas na porta, sentindo minhas mãos voltarem a doer. Por estar de costas para janela, só então eu notei luzes vermelhas e azuis do lado de fora. Dei alguns tapas no braço dele para chamar sua atenção e corri até lá. Lá embaixo, estacionada pobremente em cima do nosso gramado, estava uma viatura da polícia.

— Que porra é essa? – murmurou quando teve a mesma visão que eu.

Não tive tempo de responder, pois ouvimos o barulho da porta sendo destrancada e corremos de volta para lá. Era April no corredor e eu tratei de pular nos braços dela assim que a vi, feliz por ver olhos que não eram azuis.

— Viu? Eu consegui!
— Legal, . – disse, me afastando com delicadeza. – Mas nós temos outro problema bem mais grave agora.

e eu trocamos um olhar confuso e preocupado. Antes que percebêssemos, ela já virava no corredor em direção as escadas. Nós seguimos.



Capítulo 17

Tragédias acontecem o tempo todo, todos os dias.
Enquanto você toma seu café da manhã, centenas de pais, mães e filhos são mortos no Oriente Médio. Enquanto posta no instagram uma foto do seu almoço, dezenas de mulheres são agredidas por seus companheiros. Ao mesmo tempo em que você reclama pela demora do ônibus, crianças vivendo isoladas lamentam a chuva que vai impedir que o transporte as leve para a escola, mais uma vez.
Nós vemos as fotos no facebook, acompanhamos as hashtags temporárias no twitter e, por um momento, questionamos o que há de errado com o mundo. Ou melhor, com as pessoas fazendo ou permitindo que essas barbaridades aconteçam. E então, pouco tempo depois, voltamos a nossa rotina, afinal de contas, o mundo não pode parar de girar... Certo? A comoção temporária que leva o mundo inteiro a compartilhar, tuitar, reagir, pedir orações e esquecer. Em não mais que um dia – uma semana se derem sorte – nossas vidas estão correndo como sempre estiveram e aqueles cuja vivência foi afetada por n acontecimentos são deixados sozinhos para recolher os cacos. É mais fácil dessa maneira.
Só quando nos vemos inseridos no meio da tragédia que acordamos para a real gravidade. Quando ela está bem em frente aos seus olhos, com o rosto vermelho e inchado por todas as lágrimas que derramava e que já derramou, de roupas rasgadas e marcas roxas distribuídas por todo o seu corpo, não existe botão para fechar a aba nem bloqueio de tela para levar a imagem embora.
Sentindo como se eu tivesse sido jogada em uma outra realidade de repente, eu fiquei observando a cena parada por alguns segundos, na tentativa de absorver tudo que acontecia ali. Uma policial estava sentada ao lado da Katy se esforçando para acalmá-la enquanto seu parceiro permanecia afastado. Ao redor, uma casa inteira de garotas, tão preocupadas que pareceram esquecer a regra n° 1 em qualquer situação estressante como aquela: deixar a vítima respirar.


— Acho melhor eu ir embora... – disse baixinho ao meu lado, para que apenas eu ouvisse.
— É, é melhor.

Antes de sair, ele se inclinou para deixar um beijo em minha bochecha. Mais tarde, eu acharia o ato doce, porém naquele momento eu estava atônita demais com a cena a minha frente para sequer notar. Eu sabia o que havia acontecido. Torcia com toda a força do meu ser para que estivesse errada, mas todos os sinais apontavam fortemente para um lugar.
Alguma coisa estava extremamente errada. Na minha mente, era improvável que uma pessoa tão boa, sorridente e carinhosa como a Katy passasse por algo tão ruim a ponto de deixá-la daquela maneira, derrubando uma lágrima atrás da outra.
Engoli em seco, nervosa. Queria tanto fazer algo, tentar ajudar de alguma maneira, mas não tinha ideia de como. Porque uma coisa era ler notícias sobre, um textão no facebook, documentários, pesquisas... Outra completamente diferente era ter parte dos dados ali, na minha frente, na carne e osso de uma das minhas pessoas preferidas naquela casa. Alguém que eu poderia passar dias dando apenas bom dia e boa noite, porém no momento em que nos sentávamos para conversar, sentia ter ali uma verdadeira amiga. Uma amiga que não merecia chorar por... Não conseguia nem queria pensar na palavra.

— April, o que tá acontecendo? Não é o que tô pensando, é? – sussurrei, desviando meus olhos por apenas alguns segundos. Ela encolheu os ombros, ainda encarando com dor a sua frente.
— Nós ainda não temos certeza. Ela não soltou muita coisa, mas estava numa festa da Sigma Nu, então... Eu não sei, não sei! – exclamou, tão nervosa quanto eu.

Eu não queria soar como se acreditasse que exista alguma pessoa no mundo inteiro, não importa o quão ruim seja, que mereça estar em uma posição sequer parecida com aquela, mas... a Katy?! Imediatamente me veio à cabeça a lembrança do curto café da tarde que tomamos na minha casa quando eu, ela, e a moça da ONG estávamos dando apenas os primeiros passos para a grande feira de adoção, sem ideia do inferno/paraíso que tudo se tornaria. Naquele dia, ela contou que foi adotada e criada por um casal de mulheres quando ainda era muito pequena, contou um pouco sobre os valores que lhe foram passados e no nosso dia-a-dia na casa, eu pude ver o quão fiel era a todos eles. Bondosa, educada e extremamente arisca no momento em que via ou ouvia coisas ruins. Não podia mentir e dizer que eu mesma não havia levado uns sermões aqui e ali. O ponto era que eu nunca imaginei que fosse chegar o dia em que alguém fosse causar um mal tão grande a ela... Especialmente aquele que rondava a mente de todas ali.
Os minutos foram passando com uma lentidão absurda. Isso vindo de uma garota que havia acabado de sair de um confinamento de pouco mais de 24 horas. Muito tempo depois, alguém finalmente percebeu que nada poderia sair daquela exposição toda. Com a ajuda de Suzy, melhor amiga da Katy, ela subiu rapidamente para trocar de roupa e partiram para o hospital, onde ela não teria tantas dezenas de olhares preocupados em cima dela. Depois iriam para a delegacia e ela poderia fazer um boletim de ocorrência contando o que é que havia realmente acontecido.
No exato momento em que a porta foi fechada, um grande choque de realidade pareceu atingir a todas nós. Não era nem um pouco bonita. Se estávamos certas sobre o que ocorreu com ela, as coisas haviam acabado de atingir um nível completamente novo de estresse. Bem... Para ser sincera, estava ali há muito tempo, nas informações que passavam de boca em boca pelo campus e eu não queria nem pensar no porquê da minha ficha só ter caído completamente naquele momento.
Cada uma permaneceu em seu canto, em silêncio. Ninguém sabia o que dizer nem como reagir a algo daquele tamanho. Não havia muitas coisas mais angustiantes do que aquele sentimento de impotência diante de algo tão grande e terrível. Todo esforço que havíamos feito naquela semana para vencer os rapazes parecia nada, apenas zero, comparado àquilo.
Alguns minutos depois, todas se voltaram para a Nikki, como sempre, na esperança de que ela tivesse alguma ideia da direção em que devíamos seguir. No entanto, ela estava tão perdida e devastada quanto qualquer uma de nós. E dessa vez, não se esforçou para tomar o controle da situação. Ao invés disso, ela saiu andando e subiu as escadas rumo ao seu quarto. Havia atingido seu limite. Eu estava surpresa por ela ter aguentado tanto tempo.


Katy não voltou na manhã seguinte e ninguém pregou o olho naquela madrugada.

— Então... Tá tudo bem entre você e o ? – Mina perguntou quando o sol começava a aparecer.

Cada uma estava deitada em sua cama, encarando o vazio do teto, sem conseguir tirar nossas mentes do que havia acontecido. Depois de passar tanto tempo tentando dar o fora daquele cômodo, era irônico que agora eu desse qualquer coisa para ficar ali para sempre, sem precisar encarar tudo que acontecia do lado de fora.

— Mais ou menos. – respondi.
— Mais ou menos? Deviam ter se resolvido. – se pronunciou. Em qualquer outra hora, ela falaria aquilo inconformada, mas ali só dizia as palavras quase que roboticamente.
— Não podemos resolver todos os nossos problemas de uma vez só! Nós criamos o caminho, não se preocupem. Agora só temos que segui-lo.

Silêncio.
Não adiantava. Por mais que tentássemos mudar de assunto e nos preocupar com outras coisas, o amargor de imaginar tudo que Katy havia passado e ainda estava passando continuava ali.
Me sentei rapidamente, concluindo que a melhor opção para digerir os últimos acontecimentos era encará-los.

— Vocês acham que foi algum cara da Sigma Nu? – questionei.

Para ser sincera, eu ainda não conhecia muito sobre as outras fraternidades e irmandades daquele campus. Tinha zero interesse. Se me perguntassem quantas casas a UCLA possuía, nem isso eu saberia dizer.

— Talvez. Eles não têm uma fama muito boa, aqui ou em qualquer outra universidade. – April respondeu.
— Mas como pode acontecer algo assim lá quando eles têm uma casa-prima?
— Esse projeto é falho, . – começou a explicar. – É só uma maneira encontrada para diminuir acontecimentos do tipo, não quer dizer que todos os caras de todas as fraternidades com parceria deixaram de ser escrotos. Só quer dizer que agora eles sabem que têm alguém os vigiando de perto, mas sejamos honestas, nesse sistema que nós alimentamos todos os dias isso significa muito pouco.

Por um momento, eu me senti burra. No mínimo, ingênua. Quer dizer... Eu sabia que nada era justo no nosso sistema universitário, que tudo girava ao redor do dinheiro e que se foda o resto, no entanto, eu realmente acreditava no potencial daquele projeto. Tinha consciência de que ele estava longe de ser o ideal, mas acreditava.
Agora, a minha crença nele parecia ser apenas uma maneira de acalmar minha consciência que estava ocupada demais tendo outras preocupações.

— Jesus! O que vamos fazer agora?! – exclamei, puxando meu travesseiro para frente do meu rosto e desejando que fosse um sonho.

Simplesmente porque era difícil de acreditar que um cara se forçando para dentro de uma garota fosse algo que acontecesse na realidade.

— O mesmo de sempre, eu acho... – Mina respondeu.
— O mesmo de sempre?! – continuei, tirando um pedaço do meu rosto para fora. – Claramente o mesmo de sempre não funciona, ou ainda não teríamos esse problema.

suspirou e virou de lado em sua cama, me encarando.

— As coisas não são tão simples quanto parecem, . Gerações de Kappas, Alphas, Sigmas etc. já tentaram acabar com essa situação e, de alguma maneira, nós sempre acabamos voltando para o mesmo lugar. É difícil acabar com isso quando a própria universidade fica do lado dos rapazes.

Franzi o cenho, sentindo o nó dentro da minha cabeça ser cada vez mais firmado. Desde quando uma universidade tinha lados? E desde quando escolhia os rapazes? Não é óbvio que eles são os únicos criminosos ali? O que temos feito de errado? Nunca vamos conseguir reverter às coisas?

— É claro que não abertamente. – Mina completou. – Mas, apesar das dezenas de denúncias que acontecem todo o ano, muito poucos são expulsos. Só o fato da Katy já ter envolvido a polícia no assunto vai dar muita dor de cabeça para ela, escutem o que eu tô falando. A universidade nunca quer envolver a polícia nesse tipo de assunto que consideram “privado”.
— Nossa! Eu não sabia que as coisas estavam ruins assim. – April murmurou, tristonha.
— Ninguém sabe de verdade até chegar aqui dentro e ver com os próprios olhos. E muitos saem sem ver.

Forcei meus olhos fechados, percebendo que eu podia ver. Podia ver com detalhes a imagem de integridade e grandeza que eu tinha daquela instituição se esvaindo aos poucos e definitivamente não gostava da sensação. Eu havia trabalhado tão duro para estar ali... Odiava descobrir que talvez não fosse o lugar ideal para mim. Mas, para ser honesta, que lugar no mundo era?

— Alguma coisa tem que dar certo! Quer dizer... Talvez ninguém ainda tenha pensado na solução ideal, só isso. – eu disse.
— Você tem alguma sugestão? – perguntou.

Eu não tinha. Pelo menos, nada que não envolvesse a castração geral da população masculina.

— Bom, eu posso tentar pensar em algo...
— Tudo bem. Eu só espero que realmente pense dessa vez porque na última não deu tão certo. – a encarei, levemente confusa. Mais um disfarce do que qualquer outra coisa. – , você foi a mais ultrajada quando descobriu que não podíamos fazer festas com bebidas alcoólicas e o resultado disso, até questionou a Nikki diversas vezes e então esqueceu.

Apertei minha boca em uma linha reta, querendo dizer que ela estava errada. Porém eu sabia que não. Eu já vinha questionando as minhas prioridades nas últimas semanas há algumas horas e consequentemente me sentindo terrível com elas. Decidi ficar em silêncio. sabia que tinha razão e o meu silêncio acabava por confirmar.
Em algum momento no meio de todos aqueles pensamentos novos e estranhos, eu finalmente apaguei. Estava exausta. Mais emocional do que fisicamente, para ser honesta. Precisava daquele descanso. Especialmente porque algo me dizia – e acabei estando certa – que os próximos dias seriam ainda mais difíceis e confusos.


Katy voltou alguns dias depois e era difícil dizer se ela estava mais desolada ou puta da vida com o que aconteceu. Havia dias em que ela simplesmente seguia sua rotina de ir e voltar da aula, não falava muito, não sorria muito, só estava por aí. Às vezes descendo as escadas para ir à cozinha ou passando pelo corredor, mas na maior parte do tempo, seu abrigo era o seu quarto.
Ao mesmo tempo, havia dias em que ela não parava em casa. Estava fazendo reuniões atrás de reuniões com a coordenação da universidade a fim de conseguir algum tipo de justiça pelo que aconteceu. Todas as vezes que voltava para casa com sangue nos olhos, nós sabíamos que não facilitaram as coisas para ela, exatamente o que Mina disse que aconteceria.
Pouco mais de uma semana depois, estávamos em um dia desses. Ela apareceu batendo a porta da frente e se jogou em um dos sofás, do lado de onde eu, a April e a Nikki estávamos sentadas, soltando algumas frases tão insignificantes que já eram esquecidas no segundo seguinte.

— E aí? – Nikki perguntou hesitante.
— Aquelas pessoas são apenas... Nojentas. Vocês não têm ideia! Eu... eu...

Sua frase foi completada com as suas mãos cobrindo violentamente o seu rosto. April e eu trocamos um rápido olhar preocupado.

— O que aconteceu? – April questionou em seu tom suave, sendo exatamente a pessoa certa para fazer aquilo.
— Ela me fez todas essas perguntas ridículas sobre o meu comportamento naquela noite, tentou me convencer de todas as maneiras possíveis a retirar a minha queixa na polícia. Deus! Eu saí de lá mais na merda do que entrei!

As meninas suspiraram.
Eu sabia que tudo ali era ruim, mas não pude deixar de dar mais atenção a palavra que se destacou para os meus ouvidos.

— Ela?
— Triste, não é? Jogaram para o meu lado essa mulher que deveria resolver problemas do tipo quando tudo que ela faz é tentar camuflar. O reitor é esperto demais para sujar as próprias mãos nessa bagunça.
— Sinto muito, Katy. Nós podemos ir com você na próxima vez, para dar uma força. – Nikki sugeriu. Aquelas não eram águas novas, no entanto.
— Não, eu já disse, não quero envolver a casa inteira nisso.
— Nós meio que já estamos envolvidas, não percebeu? Somos suas amigas, é apenas justo que te ajudemos a passar por algo assim.
— Nós podemos até não ajudar muito, mas com certeza não vamos atrapalhar. – April completou.

Katy respirou fundo e ficou quieta por algum tempo, olhando para todos os lados, provavelmente tentando pensar em uma solução para aquele problema, o que não aconteceu por que: 1. Naquele momento, a solução não estava exatamente em nossas mãos. 2. Nós tínhamos razão. Mas, justamente quando pensamos que ela ia nos dar aquele espaço...

— Não! Esse assunto é meu.

Nós trocamos alguns olhares preocupados, porém ninguém disse nada. Aquela era a sua escolha e não cabia a nenhuma de nós três tentar convencê-la do contrário, especialmente com tudo que estava acontecendo. Ninguém tinha um manual do que fazer em situações como essa, então deixá-la fazer suas próprias decisões, mesmo que não concordássemos, era sempre a melhor opção. Até porque ainda sabíamos pouco sobre o que realmente houve naquela noite.
Na verdade, não sabíamos praticamente nada, apenas que um estupro havia acontecido. Não sabíamos quem, quando, apenas onde e não nos importávamos com o porquê. Por mais que quiséssemos ao menos saber o nome do desgraçado que havia feito aquilo, pois assim teríamos um alvo em específico e não só o ranço pela fraternidade inteira, tínhamos consciência do quão doloroso devia ser para a Katy contar o que houve e reviver os piores momentos de sua vida. Então ficávamos caladas e abertas para o que quer que ela sentisse a necessidade de dizer.


Você já teve a sensação de estar simplesmente boiando vida afora? Quer dizer... Eu vivia em uma irmandade em crise, tinha mais trabalhos do que nunca para fazer, provas chegando e não conseguia lidar com nada daquilo. Pela primeira vez em algum tempo, eu não tinha uma pessoa para culpar por todos os meus problemas e era desconcertante.
Na verdade, agora a culpa por tudo o que eu causei era unicamente minha. Eu não sabia dizer se estava arrependida do que fiz, mas definitivamente sentia vergonha. Vergonha de deixar minhas obsessões pessoais se tornarem tão grandes a ponto de eu tomar atitudes que nenhum ser humano normal e em boas condições mentais tomaria. E carregar esse peso para todos os lados não era nada divertido.
havia dito que desabafar levaria esse peso embora, no entanto, ele estava errado. Muito errado por não considerar que algo desastroso poderia acontecer e tornar as coisas infinitamente piores.

!

Falando no diabo...
Só então percebi que ele estava ao meu lado, se controlando para não entrar na minha frente, e também que eu passava agora na frente da casa das Kappa Delta. Eu nunca passava na frente daquela casa no meu caminho para a aula.

— Por que tá gritando?!
— Porque você tá indo pelo caminho errado e não ouviu nenhum dos meus gritos a distância! – explicou. Apesar disso, eu continuei indo na mesma direção que já estava.
— Bom, já passou pela sua cabeça que eu só tenha decidido andar um pouco mais nessa manhã? Estou caminhando, ! Não posso?

Ele não respondeu imediatamente, só me encarou por alguns bons segundos. Aos poucos, seus olhos foram se arregalando ao mesmo tempo em que o pânico tomava conta deles.

— Você não voltou atrás, voltou?
— Como?
— Tá me tratando exatamente como me trataria antes do nosso... Confinamento. Voltou atrás, ?!

Revirei os olhos. Qual o motivo para tanto desespero?

— Não! Relaxa aí.

E ele realmente o fez, dando um grande suspiro.

— Qual o seu problema, então? – ele perguntou. Tá aí um questionamento em que eu não gostaria de entrar. – Você não parece bem.
— Ei, estou ótima! Não vai ficar tentando me decifrar agora, vai?
— Não... É que você continua indo pelo caminho errado.

Parei.

— Ah, é. – disse, me virando. Nem valia a pena fingir que sabia o que estava fazendo, pois nós dois sabíamos bem que era apenas uma desculpa.
— E então? – ele voltou a perguntar quando eu continuei em silêncio, sem responder com calma sua pergunta anterior.
— Tô bem, . Não se preocupe. – afirmei.

Eram sete horas da manhã, justamente o pior horário do dia para se ter uma conversa sobre sentimentos e... Bem, coisas. Não que eu fosse tê-la feliz em alguma outra hora.

— O que aconteceu com a Katy foi terrível, . A não está bem, a Nikki não está bem, nem a April está bem, por que você estaria?

Ergui os ombros, fazendo à desentendida.

— Eu sou uma pessoa forte.
— Eu sei.

Ele não precisou dizer mais nada, eu entendi. Como a boa que eu era, tentei desviar o assunto, pelo menos por um tempinho. Eu não conseguia simplesmente voltar a colocar toda a minha confiança nele poucos dias depois, especialmente quando a minha cabeça ainda pesava de tão cheia que se encontrava.

— Desde quando você fica de papo com a April para saber se ela está bem ou não? – questionei, o olhando de lado.
— Não fico. O me falou. Ela tem cancelado os encontros na biblioteca para aquele projeto secreto deles. Ele tá bem pirado, achando que ela está com medo dele depois do que houve.
— A April não tá com medo dele! – exclamei, rindo rapidamente.

Ou estava? Não é como se eu tivesse sendo a amiga mais lúcida para notar esse tipo de coisa ultimamente.

— Eu disse isso para ele, mas não adiantou. Talvez você devesse ter uma conversa com os dois. Por algum motivo, eles levam a sua palavra mais a sério do que a minha.
— É porque eles sabem que eu sou sincera. Você mente para não machucar. – afirmei. – Isso que dá ficar bancando o queridinho.
— Eu não banco o queridinho, ! Sou uma pessoa adorável, você aceite ou não. – disse e eu dei de ombros. Ele podia ser adorável de vez em quando, porém definitivamente não o daria o título integral.
— Tá, tá! Vou ver o que eu faço. Talvez demore porque não sei se tô com cabeça para isso.

Ou qualquer outra coisa que exigisse algum tipo de reação.

— Tá vendo? Não está bem! Me diz o que está havendo, ! – insistiu e eu suspirei, sem certeza do que fazer.
— Como posso te dizer se nem eu mesma tenho certeza?

Ele não soube o que responder para isso. Finalmente! Nós dois tínhamos a terrível mania de sermos insistentes e por mais que eu apreciasse aquela característica quando bem usada, odiava que fosse contra mim.

— Ahn... Já pensou que dizer em voz alta talvez te ajude a entender?
— Não, , eu não pensei nisso.
— Devia. Às vezes a nossa mente só precisa de um empurrão para chegar aonde queremos que ela esteja. Parece mais difícil do que realmente é.

Revirei os olhos. Esse era o tipo de coisa que ele fazia que costumava me irritar mesmo quando estávamos na mais profunda paz um com o outro. Não me irritava tanto assim quando outras pessoas eram vítimas, era até engraçado, mas eu, particularmente, odiava essas incansáveis tentativas de me dar soluções para um problema em que eu preferiria só me afundar. De olhos bem fechados para fingir que tá tudo certo.

— Você devia tentar um emprego como guru espiritual. Tem gente que paga uma grana boa para ouvir essas baboseiras, sabe?

Ele suspirou.

— Tô falando sério, ! Você não parece nada bem, tem estado estranha há vários dias, me fala! Porque eu tô começando a me sentir culpado, sem nem saber de quê!

Ri, balançando a cabeça.

— Com isso você não tem que se preocupar, amigo. A única culpada nessa história toda sou eu. – afirmei. Não gostei da sensação, mas estava sendo sincera. E não queria que ele se sentisse mal por algo que não lhe dizia respeito. Não mais, pelo menos.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que se eu não tivesse sido tão estúpida e egocêntrica esse tempo todo, talvez isso não tivesse acontecido com a Katy! É isso que quero dizer! – disse por fim, me arrependendo na mesma hora.

Para ser honesta, me senti estúpida. Eu era muito boa disfarçando coisas sobre as quais não queria conversar com todo o resto do mundo, mas tinha um dom especial para arrancar elas de mim. Eu tinha a teoria de que isso acontecia porque poucas pessoas no mundo sabiam me irritar tanto quanto ele, sendo namorado, melhor amigo ou apenas inimigo. Eu simplesmente falava na esperança de que aquilo fosse tirá-lo do meu pé. Nunca funcionava.

— Não tá falando sério, né? Não tá realmente arrumando uma maneira de se culpar pelo que aconteceu? – questionou, incrédulo.
— Eu tenho razões, !
— Então me diz quais são porque eu não vejo ligação alguma! A Katy estava numa festa, você estava presa dentro de um quarto comigo, um imbecil nasceu há alguns anos... Não tem conexão alguma, !

É claro que não tinha olhando daquele ângulo. Com aquela vista, eu só parecia paranoica.

— Você não está lá quando as meninas nos informaram que nós não podíamos fazer festas com bebidas, tá legal? Não viu como eu me senti injustiçada, como me preocupei, o tempo que passei tentando pensar em uma solução que já não tivessem tentado para o problema até que a minha rixa com você cresceu de uma maneira que todas essas preocupações simplesmente desapareceram da minha mente. – expliquei, percebendo até que agora eu estava parada e virada para ele, como se aquilo fosse fazer o que eu tinha a dizer entrar naquela cabeça dura com mais facilidade. Eu sabia que me atrasaria para a primeira aula, mas ainda assim sentei em um tronco que encontrei por ali, apoiando as minhas bochechas nas mãos. Parecia uma criança emburrada, exatamente como eu me sentia. me acompanhou e se sentou na calçada mesmo, frente a mim. – Eu sei que as chances são muito baixas, só que... Bom, talvez eu tivesse chegado a algum lugar. Eu tinha tempo e disposição, sabe?! Na melhor das hipóteses, todas nós estaríamos naquela festa e não enfiadas dentro de casa por causa de uma bagunça que eu aprontei. Com você. Não vou tirar seu mérito.

Ele apertou os olhos em minha direção, me olhando como se eu fosse louca. Isso porque ele só estava sabendo de uma parte muito pequena de todas aquelas rodando pela minha cabeça, realmente querendo me colocar em um hospício.

— Seu cérebro funciona de um jeito muito especial, não é? – dei de ombros. – Escuta: eu não quero agir como se o que aconteceu devesse ser encarado como algo normal, mas sejamos honestos, acontece muito! E eu garanto para você que em todas as vezes alguém acaba se martirizando por uma culpa que não é realmente dessa pessoa. A própria vítima, a amiga que não estava a fim de sair naquele dia, os pais que deram permissão... De alguma maneira, isso alivia para o lado do que é realmente culpado, estando bêbado ou sóbrio. Muitas pessoas fizeram coisas que levaram a Katy até aquela casa naquele sábado, . Isso não significa que devemos culpar todas elas.

Sabia que ele tinha razão desta vez. No entanto, não podia impedir uma voz irritante na minha cabeça de dizer que eu achava aquilo apenas porque me fazia sentir melhor comigo mesma, e isso era ser egoísta. De novo.

— Mas de que adianta culpar o infeliz quando ele tem uma aura ao redor dele impedindo que qualquer denúncia o atinja? A universidade tá praticamente defendendo ele, ! Se não podemos culpar quem realmente merece, alguém tem que carregar o fardo.

Mais uma vez, seu olhar dizia: louca.

— Não acho que as coisas funcionem assim.
— Então me diz como elas funcionam, oras! Porque eu não sei o que fazer. A Katy não sabe o que fazer, nenhuma de nós sabemos e não conseguimos seguir a nossa rotina normalmente quando um filho da puta daqueles ainda deve estar andando por aí como um gostosão da faculdade!
— Ei, ei, ei! Calma. – disse, erguendo as mãos em minha direção. Senti vontade de chutá-las para fora dali, porém me controlei porque ele estava apenas tentando ajudar. Não era sua culpa que o mundo inteiro me frustrasse naquele momento. – Eu gostaria de poder ajudar, mas, sinceramente, não faço ideia do que vocês podem fazer.

Balancei a cabeça, compreensiva. Ele não podia me dar todas as respostas do mundo, de qualquer maneira. Já me dava alguns empurrões dos quais eu não podia, mas sempre achava uma maneira de reclamar, e isso devia ser o suficiente.

— Tudo bem.
— Só não acho que vai chegar a alguma resposta se ficar se estressando por causa disso. Dá uma relaxada, faz algo que você gosta, esvazia a mente, me liga se precisar. Você sempre dá um jeito nas coisas. – afirmou e eu soltei um sorriso de lado. Realmente.
— É claro que dou.

O problema era que eu nunca precisei lidar com algo nesse nível de seriedade. O mundo real bateu na nossa porta e decidiu ficar. Definitivamente não sabia como lidar com aquilo e, mais ainda, não sabia se descobriria um jeito de lidar com aquilo, então decidi, a partir daquele momento, dar um passo de cada vez. Eu não precisava me atropelar, só andar calmamente ao lado de Katy e tentar trazer todas as garotas no mesmo ritmo.
Com um pé na confiança que só uma história da Disney poderia trazer, talvez chegássemos a algum lugar.

— Vem. – disse, se levantando.

Ele bateu as mãos ao redor da bermuda jeans, a fim de se livrar de qualquer sujeira que poderia ter adquirido, e então me estendeu uma delas, sorrindo. Sem pensar demais pela primeira vez em algum tempo, eu simplesmente a agarrei.


Um passo de cada vez... Certo.
Primeiro, eu preciso fazer todos aqueles trabalhos atrasados que eu deveria ter feito quando fiquei encarando o teto do meu quarto, pensando no quão burra eu era.
Número dois: dormir bem. Eu não posso ajudar ninguém se passo meus dias parecendo um zumbi.
Três: passar menos tempo pensando no quão estúpida eu tenho sido nas últimas semanas e mais no que eu posso fazer para melhorar daqui para frente.
Quatro e aparentemente impossível: garantir que a Katy saiba que eu estou ali, para o quê ela quiser, para quando ela quiser, sempre que precisar. Mas sem sufocar. Eu não posso encher o saco dela o tempo todo. Nesse momento, ela quer seu espaço e não garotas que, na tentativa de ajudar, acabavam por fazê-la sair correndo e se afastar ainda mais.
Isso acabava resultando em vários sorrisos aleatórios e o oferecimento de várias comidas em diferentes horas do dia, pois eu queria me certificar de que ela estava se alimentando bem. No final das contas, eu sempre ganhava um sorriso leve que me dizia que ela sabia o que eu estava tentando fazer e, de alguma maneira, apreciava a preocupação.
Alguns dias depois, eu descobri que ela apreciava muito mais do que eu pensava. , April e eu estávamos sentadas no nosso quarto, cada uma em seu canto trabalhando em coisas pessoais, quando a Katy abriu a porta e colocou sua cabeça para dentro.

— Posso interromper? – ela perguntou e no minuto em que percebemos que era ela ali, toda nossa atenção mudou de direção.
— Claro!
— Nem precisa perguntar!
— Entra!

Só para você ter ideia do tamanho da nossa necessidade de fazê-la se sentir acolhida onde quer que fosse.

— Não precisa. – disse, rindo rapidamente da nossa afobação. – Na verdade, queria conversar com vocês. Podem vir no meu quarto?

Nos poupando de repetições, eu e as meninas simplesmente a seguimos dessa vez. Ao chegar algumas portas a frente, descobrimos que não éramos as únicas. Nikki também estava ali, assim como a Suzy, a Anne, sua outra colega de quarto, e mais um par de garotas da qual eu não era tão próxima, mas conversava de vez em quando.

— Acho que estão todas aqui. – Katy disse para si mesma, olhando ao redor, e então foi se sentar em sua cama. – Vocês não precisam ficar tão tensas.

Só assim eu percebi que todo o meu corpo estava enrijecido, curiosa e com medo do que estava por vir. As notícias que eu vinha recebendo não eram lá das melhores.

— Então fala logo porque chamou a gente aqui! Tá me matando aos poucos. – a Anne disse, arrancando uma risada da anfitriã da reunião.
— Não seja tão dramática! Eu vou dizer... – ela respirou fundo e deu uma boa olhada em cada uma de nós antes de voltar a falar. – Eu pensei muito nesses últimos dias sobre tudo que aconteceu, sobre todas às vezes que vocês colocaram na mesa todo o apoio que tinham para me dar e acabei decidindo que já passou da hora de eu esclarecer o que houve.

Meu coração deu um pulo no peito e eu fiquei de boca aberta. Me senti honrada por ser uma das escolhidas para aquele momento. Ao mesmo tempo, o medo pelo que eu teria que ouvir era mais forte que nunca.

— Tem certeza, Katy? Não quero que se sinta obrigada a nos contar nada a não ser que esteja realmente pronta.

A parte sensata de mim sabia que a Nikki tinha razão. No entanto, havia uma outra que queria tirá-la daquele quarto por sequer questionar a decisão. Eu sabia que estava sendo equivocada ao pensar aquilo, mas, por algum motivo, eu tinha comigo que a partir do momento que soubéssemos exatamente com o que estávamos lidando, tudo ficaria mais claro. As probabilidades não estavam a meu favor, eu tinha que admitir.

— É difícil ter certeza sobre qualquer coisa nesse momento. – disse, encolhendo os ombros. – Mas eu definitivamente acredito que me abrir para vocês vai me fazer sentir melhor, talvez até me dar um pouquinho da força que eu preciso para continuar indo atrás de algum tipo de justiça...

Nikki sorriu abertamente.

— Tudo bem então. Estamos aqui para o que precisar. – afirmou.
— Eu sei. Não quis falar tudo na frente de toda a casa porque não me sentiria nem um pouco confortável nessa posição, por isso escolhi vocês. Se sintam à vontade para contar a história para quem quiser também... Não quero mais ficar escondendo. Eu amo e acredito na integridade de cada garota dessa casa, sei que vão fazer bom uso dessas informações.

Katy ainda nem havia começado e eu já sentia meu coração tão apertado que poderia se desintegrar a qualquer momento. Eu sabia que ouvir aquela história me destruiria por completo, mais do que assistir a um filme ou ler um depoimento de alguém que eu nunca realmente convivi. Entretanto, eu tinha certeza que o sofrimento maior ali não era nem nunca seria meu. E se ela conseguia juntar forças para me contar, eu conseguia sentar e prestar atenção em cada palavra, por mais doloroso que fosse para cada uma naquele cômodo.

— Bem... Estamos aqui... Comece quando quiser. – April disse suavemente e ela assentiu, dando uma boa inspirada para se preparar.

Ela levou algum tempo para começar a falar, mas fomos pacientes. Poucas coisas no mundo devem ser mais difíceis do que tentar colocar em palavras um momento como aquele.

— Ok... Bom... Depois de tudo que havia acontecido nos últimos dias, eu só queria relaxar, então fui na festa da Sigma. Eu sempre evitei um pouco elas pela fama dos garotos, mas era basicamente a única festa além da nossa naquele final de semana, a Suzy estaria comigo o tempo todo, nada ruim poderia acontecer. Agora, eu me sinto meio estúpida por pensar isso porque... Eu não sei, é só aquele sentimento de que coisas ruins não podem me atingir, elas chegam apenas para as outras pessoas. Acho que eu me apoiei demais nessas sensações... Eu não quero me culpar. Tenho me esforçado para não fazer isso porque eu sei, agora por experiência, que essa é a tendência, mas é tão difícil não passar meus dias pensando nos ‘e se...?’. Um passo diferente e eu poderia não precisar ter que contar essa história para vocês. Só que nada me garante que uma outra garota não estaria no meu lugar e eu sei que isso é algo terrível para se dizer, mas prefiro que isso tenha acontecido comigo, que tenho todo o apoio de dezenas de pessoas para me ajudar a passar por cima, do que com alguém que poderia reagir de maneira... Definitiva quanto a isso.

É claro que a nossa reação à última frase não foi das melhores. Entre reclamações do quão errado era para ela se colocar nessa posição, como algum tipo de mártir, a Katy pareceu arrumar algum tipo de energia para continuar fazendo seu depoimento.

— Eu sei, eu sei de tudo isso! Eu vivo nesse mundo onde garotas são violentadas o tempo todo, eu converso, eu leio, mas vocês sabem tanto quanto eu que a mente de cada um recebe informações de uma maneira. Não é algo que eu goste de pensar, são pensamentos que simplesmente vem e na maioria do tempo, eu não consigo controlá-los. Vocês sabem como é. – eu tinha uma ideia. – Não me levem a mal, mas vou pedir para que me deixem contar tudo sem expressar suas opiniões. Eu provavelmente vou dizer coisas que vocês não concordam, é que... Isso é difícil. E eu entendo que, assim como eu fazia, vocês estão tentando se colocar no meu lugar, sentir a minha dor, suas cabeças estão a mil na busca de algo que possam dizer que vá me ajudar de alguma maneira, mas, nesse momento, ouvir é o suficiente. Saber que eu posso correr para o braço de vocês é mais que o suficiente! Podem fazer isso?

Nós assentimos rapidamente. Talvez porque fazer o que ela nos pedia já era uma forma de dar toda a ajuda e apoio que tanto queríamos.

— Obrigada. Enfim... Nós fomos à festa e inicialmente tudo parecia bem, estávamos nos divertindo, não é? – ela perguntou para a Suzy, que assentiu, sentada em um canto, parecendo mais desconfortável que nunca. Até aquele momento, não tinha parado para pensar que era ela quem provavelmente estava se culpando mais do que qualquer outra de nós. – Considerando a casa onde estávamos, era surpreendente o fato de já ser quase uma da manhã e ainda não ter rolado nenhuma briga ou escândalo. No máximo, eu vi algumas pessoas vomitando pelos cantos, porém isso é quase normal. Suzy e eu ficamos juntas o tempo inteiro até que eu conheci esse cara... Ruivo, alto, forte, olhos claros, vocês sabem, o pacote que faz a maioria das garotas pirarem, inclusive eu. Então, depois de se certificar que estava tudo bem, ela nos deixou a sós.

Como se soubessem o quão importante era a conversa que acontecia naquele cômodo, o resto da casa parecia estar em completo silêncio, dando ainda mais destaque a voz da Katy. Nós mal respirávamos, compenetradas demais na história. Por isso, eu acabei notando quando a boca da Nikki começou a se abrir em surpresa ao descobrir algumas características físicas do rapaz. Ela não disse nada, e eu muito menos, mas o momento com certeza me deixou com uma pulga atrás da orelha.

— Vocês sabem o que vem depois. Nós conversamos um pouco, ele me disse que é atleta, mas, para ser honesta, quando ele começou a querer falar demais sobre isso, eu cortei. Vocês também sabem como. Falar com ele estava arruinando a imagem boa que eu tinha com aquele rosto, eu não podia deixar isso acontecer. Não tinha a intenção de fazer nada além de beijar um pouco, mas... Ele beijava bem, perguntou se eu queria ir para um lugar quieto e na hora me pareceu uma boa ideia. – ela parou para respirar fundo, encarando seus próprios dedos, que mexiam uns nos outros incansavelmente. – Eu fui tão... Inocente. – concluiu. E nós sabíamos que “Inocente” não era exatamente a palavra que ela pretendia usar. – Eu entrei no quarto dele por livre e espontânea vontade, me coloquei naquela situação!
— Isso não muda nada! – Suzy não se conteve e exclamou.
— Eu sei, mas vocês não têm ideia do quão terrível é ter que explicar isso, que fui para o quarto dele porque eu quis, e depois ver a expressão de “Eu sabia” na cara das pessoas. Eu não sabia, ainda que devesse imaginar. Não posso nem dizer que fiz aquilo porque estava bêbada, pois não! Eu estava completamente sã dos meus atos, havia bebido apenas um copo de cerveja na tentativa de não ficar mais vulnerável do que já estava simplesmente por estar naquele ambiente e ser do sexo feminino. Dessa maneira, se algo ruim acontecesse, eu poderia lutar, eu iria gritar e nada tão ruim aconteceria. Mas eu não pude. Diria até que tentei inicialmente, com esperanças de que eu ainda tinha chances de sair daquela situação, mas no momento em que... Não consegui me mexer, não consegui gritar, simplesmente não reagi. O único pensamento claro que eu tenho na minha cabeça é do quanto eu não queria estar ali porque doía... Fisicamente, emocionalmente, doía muito! O resto é apenas uma confusão de muito medo, angústia, nojo e pressa. Aquilo tinha que acabar eventualmente e, se eu tivesse condições, teria contado os segundos. Não sabia que o depois era tão ruim quanto.

Eu só via lágrimas nos rostos de todas sentadas ao meu redor e a visão era embaçada pelo efeito das minhas próprias. Chorar poderia não trazer solução alguma para a Katy ou qualquer outra garota que vivenciou aquilo, mas era a única coisa que tínhamos naquele momento.

— Esse pode ser um pensamento extremamente burro da minha parte, mas às vezes eu desejo ter virado todas as bebidas que me ofereceram naquela festa. Assim eu não me lembraria de nada, nem mesmo da expressão doente de prazer no rosto dele que insiste em voltar a me aterrorizar, não importa quantos dias tenham passado. Eu era mesquinha e pensava que, depois de ouvir tantas histórias como essa, saberia exatamente o que fazer para me safar de uma situação do tipo, estava pronta para qualquer coisa, porém eu acho que não existe nada nesse mundo capaz de preparar alguém para estar nessa posição. É inacreditável, é humilhante! Todos os dias eu vou dormir pensando em novas maneiras de lidar melhor com tudo e todas as manhãs eu descubro que errei, mais uma vez. Contar isso para vocês é só mais uma das minhas tentativas de fazer algo com tudo àquilo que eu sofri, porém nada me garante que daqui algumas horas eu não vou me arrepender e evitar vocês apenas porque me viram nas condições em que estou agora. Assim como passar alguns dias longe foi uma maneira de evitar todas pela cena depois que tudo aconteceu. Eu ainda me sinto horrível por aquilo porque não acho que alguém no mundo mereça estar exposto daquela maneira, mas, quando me encontraram e me perguntaram para onde eu queria ir, essa casa foi o primeiro lugar no qual pensei. Meus pais estavam longe demais, então eu recorri a minha segunda família e não me arrependo disso, apesar de tudo.

Quando ela parou de falar, nenhuma de nós teve ideia do que dizer. No final de tudo, ela não precisava de mais palavras genéricas dizendo que tudo ficaria bem ou que ela superaria logo aquilo. Dessa maneira, optamos por abraços. Abraços que passavam a mensagem melhor do que qualquer palavra em qualquer língua poderia. Abraços que diziam que estaríamos com ela nesse processo de melhora. Independente de qual ela escolhesse, poderia contar com a gente.
Aquele era o momento da Katy, um que todas nós esperávamos que ela não precisasse ter. Por isso, eu não acreditava ter direito algum de sequer pensar no que eu estava sentindo, mesmo que todos os sentimentos que um ser humano deve ser capaz de ter estivessem me bombardeando. E ainda assim, desde o começo do relato, eu vinha pensando novamente que a presença dela na casa da Sigma Nu, naquela noite, estava diretamente ligada ao fato de termos trabalhado à exaustão naqueles dias... Por minha causa. E então eu ouvia a voz de na minha cabeça, me lembrando de não desviar a culpa daquele que realmente a merecia e por alguns segundos eu até conseguia manter isso em mente. Nos outros, a dúvida voltava a dominar e o ciclo continuava se repetindo. Eu tinha que sair daquela, tinha que fazer algo realmente útil. Agora sentia isso mais do que nunca
Eu gostava de pensar que, pouco a pouco, estava chegando perto de algum tipo de clareza. As peças estavam se encaixando na minha mente, pela primeira vez em tanto tempo, que não pude perder a oportunidade de adicionar mais uma ao quebra-cabeça.

— Por que ficou tão preocupada com a descrição física do cara? – eu perguntei baixinho para a Nikki assim que tive oportunidade, quando tudo se acalmou.

Ela suspirou.

— Eu conheço ele...
— É seu amigo?! – exclamei.
— Não! Nós já saímos no mesmo grupo porque ele é do time e eu faço a torcida, mas o país inteiro o conhece, . Pelo menos, a parcela que acompanha os esportes universitários. Ele é um dos principais jogadores da liga, traz milhões para a conta da universidade toda temporada. – explicou. Na sua face, uma preocupação que eu me atrevia dizer que nunca havia visto antes, mesmo depois de tudo que havia aprontado.
— E isso significa...
— Isso significa que se a gente pensou que seria difícil fazer o abusador da Katy pagar pelo que fez, agora é quase impossível. E o ‘quase’ é apenas eu tentando ser positiva.





Continua...



Nota da autora: alô, alôôôô! Como vocês estão? A história tá tomando um outro rumo, não? Dá medo, né? Mas quero esclarecer que nenhuma mudança extremamente brusca vai ser feita. VERSUS ainda é uma história cheia de humor, leve, para esfriar a cabeça, eu só to tentando, a partir de agora, falar sobre algo um pouco mais sério e dar uma amadurecida nesses personagens. O plot tá por aqui desde o começo, não é uma decisão que eu fiz do dia para a noite, então não se preocupem, vai dar tudo certo!
Espero que tenham gostado desse capítulo! Eu vou adorar ler o que acharam dele nos comentários. Falando neles, preciso agradecer cada uma que tem comentado aqui porque olha... Eles aumentaram muito! E cada novo que chega me dá gás para continuar trazendo o meu melhor para vocês. Muito obrigada!



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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