Vida Longa à Rainha

Última atualização em: 01/06/2018

Capítulo 1

A noite havia chegado na cidade e, junto à ela, veio a sombria escuridão consumindo a floresta. Como ordem da Rainha, a floresta não podia ser visitada durante a noite.
Era possível escutar sons de animais pela redondeza, mas isso não atrapalhava a coruja que estava silenciosamente se alimentando de um pequeno roedor, a atenção dela estava totalmente voltada para seu alimento. O barulho de um galho se quebrando foi ouvido, acompanhado por passos apressados, uma pessoa passou correndo logo abaixo do pequeno galho que a ave estava, fazendo a mesma tirar a atenção do roedor -já morto- e acompanhar o caminho que a pessoa percorreu. Perdendo o humano de vista, a ave voltou ao seu jantar.
A mulher corria apressadamente, sentindo sua garganta cada vez mais seca e ardendo, graças ao vento que batia em seu rosto e, consequentemente, em sua boca que já não proferia som. Desistiu de gritar por socorro quando percebeu que não havia ninguém por perto, agora era só ela. Corria como se sua vida dependesse disso...E dependia. Sentiu seus olhos arderem e ficarem lacrimejados, atrapalhando sua visão, vez ou outra olhava para trás tentando ver se ainda estava sendo perseguida. Soltou um grito agudo quando foi de encontro ao chão, tentou levantar, mas foi impedida pela dor cruciante que sentiu em sua perna. Mais uma vez, olhou para trás, suspirou aliviada quando não encontrou ninguém. Respirou fundo levantando-se, ignorando a dor e sentindo lágrimas molhando suas bochechas. A mulher recuperou o fôlego pronta para retomar sua corrida, quando de repente suas pernas travaram e sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Estava ali. Bem na sua frente. A criatura medonha de quem ela vinha fugindo desde a hora que entrou na floresta.
Tentou manter a respiração calma e andar em passos lentos para o lado oposto que estava indo. Sua mente ficando confusa quando percebeu que a criatura não se movera um centímetro, estava parada, quase relaxada, sentiu novamente suas bochechas molharem. Não iria conseguir correr. A criatura se moveu, fazendo a mulher prender a respiração e fechar os olhos, esperando a morte. Percebendo que ainda estava viva e que não havia sido atacada, ela abriu os olhos confusa, encontrando seu perseguidor à centímetros do seu rosto. Olhando nos olhos amarelados da criatura que estava com as presas à mostra, a mulher gritou. Gritou com o susto que havia tomado; gritou de pavor; gritou pois sabia que ali era o seu fim. Sentiu sua garganta arder muito mais, mas isso não cessou seus gritos. Deu passos apressados para trás, ainda sem quebrar o contato visual com a criatura, sentiu suas costas ir de encontro com algo que pensou que fosse uma árvore. Até que alguém a pegou por trás, uma terceira pessoa. Em gestos ágeis, levantou a cabeça da mulher e pegando sua adaga, passou a lâmina afiada no pescoço dela. Silenciando para sempre a mulher.
Freya Elizabeth Coraline, Princesa de Ivanova.


15 anos depois.

– Como a maioria sabe sobre o século XIX: Ele testemunhou o crescimento da influência dos impérios Britânico, Russo, Alemão, Japonês, e dos Estados Unidos. Como consequência, ocorreu A Queda de Ivanova. O que causou isso? – o professor perguntou, pausando o slide. – Vamos, gente, faltam alguns minutos pra terminarmos.
escondeu sua cabeça entre os braços numa tentativa de não ser o alvo do professor para responder. Estava dando o melhor de si para se manter acordada. Como era costume em dia de slide, os alunos estavam imersos em seus pensamentos, alguns até mesmo dormindo.
– A inveja do império Britânico. – um aluno respondeu, ainda com a voz sonolenta e sarcástica, arrancando algumas risadas, até mesmo do professor.
– Justo. Eu dei brecha pra resposta. – ainda rindo, o professor acendeu a luz, alguns alunos resmungaram insatisfeitos com a claridade repentina. – Hoje encerramos mais cedo, já sabem disso. Continuamos na próxima aula.
– O lado bom disso acontecer todo ano é que o dia se tornou feriado. – Liam comemorou, encarando sua amiga.
– Tecnicamente, não. Estamos em aula hoje. – disse ela, revirando os olhos.
– Vocês pediram, lembram? – o professor se envolveu na conversa. – Pediram aula hoje. Falando nisso, mais respeito, por favor. Sabemos como esse dia se tornou delicado para o nosso povo.
Dando o assunto por encerrado, todos saíram da sala.

***


– Então, . – o rapaz quebrou o silêncio, enquanto dirigia.
– Sim, Liam? – encarou o amigo.
– Sua prima chega hoje, uh? – tentou soar indiferente, fixando seu olhar na estrada.
– Sim. Por que a pergunta? – perguntou, segurando a vontade de rir.
– Nada não. – deu de ombros.
– Facilita, Liam. Eu sei qual é o ponto da conversa.
– Sabe? – ele perguntou, surpreso, vendo ela concordar que sim. – Não acredito, ! Agora me sinto idiota. Eu achando que ninguém sabia, principalmente você.
– Eu não sei que você tem uma paixão pela minha prima desde a infância, também não sei que a paixão só aumentou depois que ela foi embora e que você a acompanha diariamente pelas redes sociais.
– Ok, eu não tinha ideia que você sabia tanto.
– Eu sei de tudo, meu caro. – disse em tom convencido, piscando para ele. – Quer que eu consiga um encontro, não quer?
– Você que tá dizendo.
– Liam...
– Tudo bem. Não precisa ser um encontro, só uma festa que meu irmão vai dar hoje, leva ela, por favor?
– Sério que o seu irmão vai dar uma festa hoje? Justo hoje? – não conseguiu conter a incredulidade em sua voz.
– Eu sei. Ele é um idiota, né? Nosso pai está viajando, então ele quer aproveitar.
– Desde quando ele é um rebelde?
– Desde sempre.
– Touché.
–Eu não vou.
– Por que?
– Hoje completa quinze anos que a Princesa morreu, Liam. Sensatez, por favor. – revirou os olhos. – Elena e eu provavelmente passaremos a noite assistindo qualquer coisa e conversando. Minha tia jamais permitiria que ela fosse à uma festa justamente nesse dia. Sinto muito, amigão.
– Tá tudo bem.
– Amanhã que tal? Ela vai ficar mais uns dias. – sugeriu, sorriu vendo o sorriso do seu amigo se alargar.
– Você é a melhor. – a abraçou pelos ombros.
– Eu sei. Chegamos. – pararam em frente à enorme casa. – Nos vemos amanhã. Tente sobreviver sem mim, ok?
– Impossível. – riu beijando a bochecha da amiga, esperou ela descer do veículo antes de seguir o próprio caminho.

***


– Mãe? Cheguei. – anunciou, adentrando na sala. – Mãe?
– Na cozinha. – sua mãe gritou.
Caminhou até o cômodo estranhando o silêncio da casa.
– Pensei que estaria pronta. – comentou quando chegou no cozinha, olhando sua mãe preparar alguma coisa no fogão.
– Pronta para...? – perguntou sem tirar o olho do fogão.
– Buscar a Elena, mãe. Lembra? Tia Jenna nos chamou para ir no aeroporto com ela.
– Ah, sim. Já estou pronta. – apontou para si mesma, encarando a filha. – Só vou deixar essa torta no fogo, Janet está de folga então não tem mais ninguém para olhar, mas é tempo de ir lá e voltar.
– Onde está o Caleb? Ele não vai junto? – perguntou pelo irmão, abrindo a geladeira e pegando uma água.
– Ele mandou mensagem avisando que vai nos encontrar lá.
– Ah. – murmurou. – Vamos? Vou com essa roupa mesmo. Elena não merece tanto. A mais velha riu.
– Não vê sua prima há quatro anos, . Vá se arrumar. – se aproximou da filha a guiando para a saída da cozinha.
– Não precisa de tanto, mãe. Nem ‘tô fedendo e...Espera, você tá me escondendo algo? – se virou para a mulher, arqueando as sobrancelhas. – Dona Olivia, está me escondendo algo?
– Impossível esconder algo de você, Dona . – a mãe usou o mesmo tom da filha. – Agora vai, sua tia já deve estar chegando.
Mesmo desconfiada, seguiu as ordens de sua mãe e caminhou para seu quarto. Diminuiu os passos quando encontrou a porta entreaberta e escutou um barulho vindo de dentro do cômodo. Se aproximou da porta colocando a mão na maçaneta, ouviu outro barulho. Pronta para dar meia volta e avisar a sua mãe que a casa tinha sido invadida, parou no caminho como se uma lanterna de desenhos animados tivesse sido ligada acima de sua cabeça. Voltando rapidamente pronta para entrar no quarto, colocou a mão na maçaneta e respirou fundo, sorrindo e entrando:
– Você sempre foi péssima em me assustar, Elena.
Encontrou sua prima caminhando até seu closet, na ponta dos pés, tentando ser silenciosa.
– Droga! – a menina resmungou. – Oi, prima!
Não teve tempo para responder, sentindo os cachos de sua prima cobrirem todo seu rosto, logo os braços da mesma envolviam seu corpo em um abraço apertado.
– Pensei que iríamos buscar você no aeroporto. – disse desfazendo o abraço.
– Meu voo chegou mais cedo, você estava na aula então resolvi fazer uma surpresa. – explicou sentando na cama. – Surpresa!
riu.
– Deu certo? – Olivia perguntou, colocando a cabeça dentro do quarto, Elena negou, fazendo a mulher rir. – Imaginei. Caleb e Jenna já estão chegando. Coloquem o papo em dia e depois desçam, vamos jantar na casa de Jenna.
– Já viu o Caleb? – virou-se para a prima.
– Ele foi me buscar. – respondeu. – Disse que adoraria ver sua cara com a surpresa, mas tinha que ir na casa do Josh resolver alguma coisa do trabalho.
– Elena, hoje é feriado. Ele queria se livrar de você e ir ver o namorado. – revelou, rindo. – Que mentiroso. – resmungou surpresa. – Enfim, me conte as novidades por aqui.
– Tudo na mesma. – deu de ombros. – Não tem internet nos Estados Unidos?
– Engraçadinha. – soltou uma risada falsa. – Você sabe oque eu quis dizer. Mas, sim, temos internet e Ivanova é bastante comentada nela. Uma Rainha? Fala sério!
– Ué, esqueceu da Inglaterra? Não somos os únicos.
– Eu sei. Mas a Rainha da Inglaterra já está velha e não se veste como a Rainha de Ivanova. Por que ela usa aqueles vestidos? Como se não saísse do século passado. – comentou.
– Na verdade, ninguém sabe bem o porquê, mas acabou se tornando uma tradição do trono. Eu acho elegante. – respondeu. – Você está falando como uma americana, Elena. Que vergonha.
– Obrigada. – forçou uma voz melosa, arrancando uma risada da prima. – Depois de anos morando nos EUA, acabei pegando o costume de zoar meu próprio país.
– Percebi isso. Tia Jenna te mata se ouvir você falando como uma americana. – riu, deitando-se na cama.
– Nem me fale. Ela fez chantagem emocional para que eu aceitasse passar esse feriado aqui.
– Ela é devota ao reino, Elena, como qualquer cidadão de Ivanova. Acabou se tornando uma tradição o país inteiro ficar de luto neste dia. Acho que é importante pra ela ter você aqui.
– Credo, . Quando você cresceu? – brincou, embora soubesse que era verdade. – Vou tentar me esforçar. Falando nisso, não teve mais novidades sobre a morte da princesa?
– Um oficial foi preso logo após o assassinato, não lembra?
– Sim, eu sei. Mas digo, não teve um motivo? – aconchegou-se deitando ao lado da prima.
– Se teve, a família real preferiu manter em segredo. Nada veio à público.
– Estranho. Ela era tão nova, tinha uma beleza marcante, ainda seria Rainha de Ivanova. É triste saber que tudo foi tirado dela assim.
– Não lembro muito da época, afinal éramos crianças, mas alguns comentam que as atitudes dela não eram dignas de uma princesa.
– Como assim? – encarou a prima.
– Não sei, o povo comenta que na noite em que foi morta, a Rainha e ninguém do palácio sabiam que a princesa estava fora. Dizem que ela saiu escondida para uma festa.
– Mas isso não justifica a morte dela, não é?
– Não justifica. Ivanova nunca mais será a mesma.
– Por que?
– Não conhece mais seu país, Americana? – riu. – Desde o século XIX, o reino de Ivanova passou a ser governado apenas por Rainhas. Você sabe que como determinado, só herdeiro legítimo pode ser Rei ou Rainha, e desde o século XIX não temos um herdeiro masculino. Princesa Freya era a primeira na linha de sucessão, com a morte dela, Príncipe Lucien pegou o lugar na fila, se tornando o primeiro, Príncipe é o segundo. – explicou.
– Monarquia é uma droga. Mas não entendi porque nunca mais será a mesma.
– Dizem que uma maldição se instalou aqui desde A Queda de Ivanova.
– Que país atrasado, uh?
– Seu país, amor.
– Tanto faz. – Elena abandonou a mão. – Falando no Príncipe , ele é bastante comentado como alguém que renegou seu país e que é negligente com seu povo.
– Já ouvi falar sobre. Príncipe Lucien se casou recentemente, se ele e a Duquesa tiverem um filho, a criança também entra na fila pro trono. Basicamente ela fura a fila entrando na frente do Príncipe . Até a Rainha morrer, Príncipe Lucien terá outros filhos. O Príncipe não está tão perto do trono, então ele não tem tantas obrigações. – explicou. – Gostam de comentar bastante o fato dele quase não parar em Ivanova, viver viajando.
– Se até o Príncipe não aguenta Ivanova, porque eu aguentaria?
– Idiota. – resmungou. – Ele era bastante próximo à Princesa Freya, você lembra? Éramos crianças, mas consigo lembrar um pouco.
– Lembro vagamente. Acha que ele se mantém longe por causa da morte?
– Pode ser. O que você faria no lugar dele? – perguntou, arrependendo-se no segundo que viu a expressão de sua amiga mudar. O sorriso tinha sumido de seu rosto. – Enfim, me diga como está sua vida de americana.
– Não é igual aos filmes que assistíamos juntas, mas estou satisfeita. – sorriu agradecendo mentalmente por mudar de assunto. – Consegui estágio numa agência, não pagam muito, mas é o suficiente para me manter lá.
– Tia Jenna não te ajuda?
– Ajuda, mas prefiro não depender muito disso. E como está na Universidade?
– Bem, tenho sorte de amar muito jornalismo, quis desistir no primeiro ano.
– Ainda está namorando o Jackson? – questionou.
– Daniel? Não, terminamos.
– E você não me conta nada, ? – exclamou, apoiando o corpo em seus cotovelos para encarar a prima.
– Terminamos há quatro meses, Lena. Foi um término amigável, se quer saber. – suspirou ela.
– Continua, eu finjo que acredito. – revirou os olhos. – Aquele cara era louco por você desde que éramos crianças, . Lembro de você e o irmão dele se meterem em confusão, Daniel Jackson ia socorrer você. Detalhe que eu disse você, não vocês. E o irmão dele? Luke?
– Liam. – corrigiu, lamentando pelo amigo, ele tinha uma paixão por sua prima e ela nem lembrava o nome dele. Elena não tem a obrigação de gostar de Liam, ou saber o nome dele, sabe disso. Mas sabe como Liam é intenso com seus sentimentos, se ele diz que gosta, ele realmente gosta. Conhece o garoto desde criança, ele é seu melhor amigo. Elena sempre sentia ciúmes quando o apresentava assim, acha injusto outra pessoa ganhar o título que merecia ser dela, mas admitia que Liam era um bom amigo. Desde criança o garoto sempre se mostrou ser um bom amigo e um cavalheiro até com ela, que as vezes não merecia tal atitude. – Como não lembra o nome dele? Crescemos juntos.
– Só lembro o seu porque somos primas, não me julgue. – se defendeu.
Sorriu e não disse mais nada, apreciando o silêncio do ambiente. Sentiu saudades de Elena. Desde que a prima se mudou, teve Liam ao seu lado, como o bom melhor amigo que ele sempre foi, mas sentia saudades de uma amizade feminina. As garotas de sua infância e do colegial sabiam ser bem cruéis, na universidade não tem muito tempo para amizades, então acaba sendo só ela e Liam. Conversa com Elena pela internet sempre que consegue, mas com o estágio da prima e com os estudos, é inevitável acabarem se distanciando um pouco. Quando Elena disse que iria embora, soube que isso ia acontecer e ficou sem falar com a prima durante os dias – atitude infantil da qual ela não se orgulha – Mas como sempre, Liam abria seus olhos. Desde a morte do pai de Elena, sua mãe tentava controlar a vida da filha, talvez por medo de perdê-la também, isso acabou assustando Elena, que desde pequena já tinha o sonho de ir morar em outro país, acabou intensificando o sonho dela.

– Lena? – chamou pela prima, depois de um tempo.
– Sim?
– Senti sua falta. – declarou, ainda encarando o teto.
– Eu também senti sua falta, .

***


– Oi, Liam. – colocou o celular em seu ouvido o apoiando com o ombro, enquanto calçava seu tênis.
Atrapalho?
A voz soou meio abafada graças à música do outro lado da linha, presumindo que ele estava na festa que o irmão daria naquela noite.
– Sempre. – respondeu levantando da cama.
Rude. – resmungou. – Só quero saber como foi a chegada da sua prima.
– Foi bem. Ela está bem, tão bem e irritante como antes, se quer saber. – Caleb entrou no quarto, percebendo que a irmã estava no celular, indicou o relógio em seu pulso. – Estamos indo jantar na casa dela agora. Posso te ligar quando voltar?
Claro, claro! Bom jantar. – ele disse rapidamente, finalizando a ligação, fazendo a amiga franzir o cenho confusa com a atitude do amigo.
– Liam? – questionou Caleb, concordou com um aceno. – Ele ainda tem uma queda pela Elena?
– Como sabe?
– Todo mundo sabe. – respondeu, fazendo a irmã rir. – Ser discreto não é uma característica dos Jackson. Daniel está dando grande uma festa.
– Eu sei, Liam me chamou e pediu para levar Elena. – lembrou ela.
– Mamãe quis ajudar tia Jenna com o jantar, então foi na frente. Vamos? – ofereceu o braço à irmã, fazendo a mesma entrelaçar o dela ao do irmão.

***


– Não, Caleb. Você não vai contar essa história. – a mãe repreendeu, causando risadas na mesa. – Ele se orgulha dessa história.
– Não é da história em si, mãe. É da expressão que a mulher fez. – ele disse em meio a risada, bebendo seu suco. – Eu posso estar no meu pior dia, mas lembro daquela mulher e meu humor melhora em cem por cento. Ela se tornou minha deusa.
– Agora eu quero saber. Conta, Caleb. – Elena pediu, animada.
e eu fomos visitar o papai dois meses atrás, mas foi algo do nada, ele não sabia que a gente ia. – começou, ignorando os protestos da mãe. – Chegamos em Seattle sem ao menos saber o endereço dele já que ele se mudou recentemente, então eu tive a ideia de ir direto na empresa dele. Chegamos na empresa, de cara já nos disseram: “Entregadores são pelo fundo.” Ignoramos e pedimos para falar com Jeremiah e fomos barrados na recepção. Uma ruiva, de dois metros de altura, nos olhou dos pés à cabeça e disse que não podíamos entrar. Eu disse que somos filhos dele, ela entortou o nariz e disse: Não, vocês não são. – forçou uma voz esganiçada.
– Que vadia. – Elena exclamou, interrompendo o primo.
– Agora vem a melhor parte. Ela continuou nos impedindo dizendo que estávamos tentando invadir e ameaçou de chamar o segurança. – riu, lembrando da cena. – Eu me aproximei do balcão e disse: Eu sou gay e sou negro, você vai precisar mais do que uma cara de nojo para me intimidar, senhorita. Meu sobrenome está na frente dessa empresa. Aquele enorme na entrada. Faça o favor de chamar meu pai.
– E ela chamou. Papai a repreendeu na nossa frente. – completou.
– Não me orgulho dessa história. – resmungou Olivia, sem tirar os olhos de seu prato.
– E nem deveria. – Jenna apoiou. – Sabemos o porquê dela ter barrado vocês e ter agido daquela maneira.
– Credo, gente. – disse Elena, percebendo o clima pesar sobre a mesa. – Como está o seu trabalho, Caleb?
– Você já pergun... – sentiu a irmã chutar sua canela por baixo da mesa, entendo recado, mesmo com a dor. – Está bem. Digo, arquitetura não é fácil e é cansativo, mas eu me viro.
– Mas você trabalha na empresa do seu sogro, não é? Seu namorado trabalha lá. Duvido se não dão uns amassos escondidos pra aliviar a tensão do trabalho. – sorriu maliciosa, fazendo todos rirem baixo, exceto sua mãe.
– Elena! – Jenna repreendeu a filha.
– Tá tudo bem, tia. – Caleb tranquilizou, rindo. – E como está sendo sua vida americana? – Ainda não chegou a parte que eu esbarro com o amor da minha vida em uma cafeteria, mas eu me viro. – deu um sorriso amarelo.
– Nenhum namorado, querida? – Olivia perguntou à sobrinha.
– Não, tia. Ninguém digno. – respondeu com tom de superioridade, fazendo a tia rir.
– Falando em namorado. – Jenna limpou sua boca com o guardanapo. sentiu que não vinha boa coisa, e todos na mesa compartilhavam dessa sensação. – , eu soube que seu namorado está dando uma festa hoje.
– Ex namorado, mãe. – Elena corrigiu, receosa.
– Sim, ex namorado, tia. – reforçou a resposta de sua prima.
– Tanto faz. – Jenna deu de ombros. – Atitude lamentável desse garoto. Quantos anos ele tem?
– Vinte e cinco. – respondeu, a contragosto.
– Ainda mais lamentável. Uma afronta comemorar no dia da morte da princesa. – disse.
– Não, mãe. Ele está dando uma festa, por coincidência, caiu no dia que a princesa morreu. Mas ela morreu quinze anos atrás, ou seja, hoje se tornou um dia qualquer, ninguém precisa passar o dia lamentando, ficar de luto ou atravessar o país por causa de um dia qualquer! – Elena disse irritada, apertando o talher contra seus dedos. Jenna encarava a filha estática, mas logo abrindo um sorriso forçado, todos na mesa prenderam a respiração, já esperando uma calorosa discussão entre mãe e filha, mas ela disse algo mais assustador:
– Alguém quer vinho? – perguntou sem esperar respostas, indo em direção a cozinha.
– O que aconteceu? – Caleb sussurrou para a irmã, recebendo uma cara mais confusa que a sua.
– Ela é impressionante. – Elena disse, encarando a cadeira – agora vazia – de sua mãe.
– Elena querida, é um jantar com a família reunida. Uma coisa rara. Por favor, sem discussão. – Olivia pediu, olhando carinhosamente para a sobrinha.
– Diz isso pra ela. – murmurou vendo Jenna voltar.
– Então, souberam que o Príncipe já está entre nós? – Jenna perguntou, sentando-se novamente em sua cadeira, pegando todos de surpresa com a pergunta.
– Sim, vi que ele chegou hoje. – Olivia respondeu, ainda receosa com a atitude de sua irmã.
– Acho que a estadia dele não dura muito tempo. –Caleb comentou. – Ultimamente ele quase não para no país.
– É lamentável o descaso do primo com o nosso povo. – Jenna não escondeu o desprezo em sua voz.
– Ele faz muito por Ivanova, tia. A maioria das viagens dele são por isso, principalmente depois da aliança feita em Ivanova e Inglaterra. – disse em defesa do príncipe.
– Ah, ainda tem essa aliança. – a mulher disse com desgosto.
– Não apoia a aliança, mãe? – Elena perguntou, mesmo já sabendo a resposta de sua mãe.
– Óbvio que não. O império Britânico causou a queda do império de Ivanova no século XIX. Essa aliança é uma afronta à memória dos nossos ancestrais. – alterou o tom de voz.
– Mas teve o lado bom da aliança, certo? – Olivia disse.
– Sim, tia. – Elena concordou. – Mas algumas coisas ainda não mudaram. Politicamente falando, a aliança facilitou muito e ajudou bastante. No entanto, ainda tem a famosa xenofobia. Em ambos os lados.
– Mas não é só entre Inglaterra e Ivanova, não é? Digo, muitos lugares ainda discriminam Ivanova. – disse .
– Sim, prima. – Elena concordou. – Uma amiga minha, que está nos Estados Unidos comigo, também é de Ivanova. Ela foi passar uns dias na Inglaterra e disse que foi a pior experiência da vida dela. Você diz que é de Ivanova e automaticamente eles te olham torto.
– Aconteceu algo parecido com você? – Caleb perguntou, interessado na conversa.
– Não por esse motivo. – suspirou. – Mas como nem tudo são flores, eu fui vítima de racismo logo no início, confesso.
– Isso é horrível. – lamentou pela prima.
– Eu não sei como você continua sendo devota à esse lugar, Elena. – Jenna disse, revoltada.
– Não sou devota, mãe. Lá é minha casa agora.
– Nunca mais repita isso! Aquele lugar não é a sua casa. – alterou o tom de voz. – Sua casa é aqui. – Já chega, mãe. Não começa, por favor. – Elena pediu. – Tivemos essa conversa antes e sabemos que não termina bem.
– Não termina bem porque você é mimada, Elena! Poderia facilitar tudo, mas sempre prefere complicar, fazer o seu drama.
– Drama? – questionou incrédula. – É o meu sonho. Sempre foi. Você deveria entender isso, o papai entenderia.
– Seu pai está morto, Elena. Cresça! – Jenna gritou, assustando todos na mesa.
Elena sentiu como se tivessem desferido um soco em seu estômago. Murmurou pedindo licença e saiu apressadamente dali, em direção ao seu quarto. Era sempre assim, qualquer discussão com sua mãe terminava com Elena chorando e lembrando de seu pai. Todos os dias sente falta dele. Em todas as brigas com sua mãe, ela respira fundo e pergunta oque seu pai faria naquela situação. Nunca chega em uma resposta. Imagina como seria se ele ainda estivesse ali, se sua mãe seria tão infeliz. Na maioria das vezes, Elena evitava briga imaginando que sua mãe sofre igual à ela pela ausência do marido. Mas Jenna nunca facilita o lado da filha, talvez seja o medo de acabar perdendo a filha. Elena lembra de quando foi embora, sua mãe se recusou a deixá-la no aeroporto, alegando que logo ela estaria de volta pois não saberia se virar por muito tempo. Talvez isso tenha servido de inspiração para ela. Nunca pediu ajuda financeira da mãe ou usou a herança de seu pai com futilidades. Desde que pisara fora de casa, Elena tem batalhado por cada centavo próprio, procurando depender da mãe o mínimo possível. Sente-se orgulhosa de si mesma, e queria que sua Jenna sentisse o mesmo.

***


pediu licença e foi atrás de sua prima.
Abriu a porta devagar, encontrando Elena deitada de bruços em sua cama, seus ombros se mexiam em pequenos intervalos. Ela estava chorando.
Aproximou-se da cama e, delicadamente, tocou o ombro de Elena:
– Lena? Quer conversar?

Flashback

A garotinha ia em direção ao quarto da prima, chamar a mesma para brincar junto com seu amigo, Liam. Estranhou a prima não ter ido ao encontro deles. Sempre combinavam de se encontrarem naquele mesmo horário. Sua tia explicou que Elena não estava se sentindo bem, e pediu que a sobrinha fosse conversar com a prima.
bateu na porta, chamando por Elena, mas não obteve resposta. Mais duas batidas. Resolveu entrar.
Elena estava deitada de bruços em sua cama. se aproximou da prima, chamando-a, mas ainda não obteve resposta. Se não fosse pelos ombros se mexendo, iria jurar que a prima estava dormindo. Mas ela estava chorando.
– Lena? Você está chorando. – deitou-se próximo a prima, afastando os cachos do rosto da mesma. – O que aconteceu?
– Kimberly estava rindo de mim. Ela disse que nem meu pai me aguentou, então ele resolveu se matar, . – a pequena respondeu entre soluços.
– Eu queria ter idade suficiente para dizer um palavrão feio. – disse irritada, acariciando os cabelos de Elena. – Não chora por causa dela, Lena. Liam e eu podemos vingar você.
– Vocês são mais novos, . Isso pioraria meus lado, ser defendida por dois pirralhos.
– Mas você só anda com os pirralhos.
– E é a minha melhor escolha. – tentou sorrir, sentiu as pequenas mãos de pararem de acariciar sua cabeça, levantou a cabeça procurando por sua prima e a encontrou mexendo em seu computador. – O que está fazendo?
– Uma vez eu estava assistindo um desenho com o Caleb. Duas meninas começaram a dançar, elas falaram que isso tira a tristeza. – explicou. – Vamos dançar.
– Isso não é um desenho, . – respondeu, mas aceitando a ideia da prima.
– Mas você está triste. – deu play na música, mais uma vez chamando Elena para a pequena dança no meio do quarto.

Fim do flashback


– É tão difícil assim pra ela me apoiar? – a voz dela saiu abafada. – Eu não odeio Ivanova, minha mãe me faz odiar. Sempre a mesma briga, . Eu to cansada disso.
levou suas mãos aos cachos da prima, em um delicado cafuné.
– Sinto muito. – disse se sentindo inútil por não conseguir pensar em nada para dizer que pudesse ajudar sua prima.
– Era pra ser um jantar em família, lembra? Ela esqueceu disso. – não sentiu mais o cafuné de e levantou a cabeça à procura das mãos da mulher. – O que está fazendo?
– Um gênio uma vez disse que dançar ajuda a tirar a tristeza. – respondeu encarando seu celular e procurando uma música. – Vamos testar.
– Isso ainda não é um desenho, . – respondeu, mas sorrindo com a pequena lembrança.
– Mas você ainda está triste. – deu play na música, largando o celular e estendendo sua mão. – Vamos dançar.
Pocketful of Sunshine? – reconheceu a música. – Pior música de todas, .
– É agitada e viciante. Tudo que precisamos. – deu de ombros começando a dançar.

E ali percebeu, que nem tudo havia mudado.


Capítulo 2 - Fallen

Cabeça erguida. Postura impecável. Não demonstre fraqueza. Não demonstre emoção. Você nasceu com um legado nas costas. Honre sua linhagem.
crescera ouvindo essas exatas palavras. Elas o perseguem até hoje. A cada momento de quase fraqueza, escuta a voz de sua mãe, em sua cabeça, o repreendendo antes que faça algo estupido, ou que não vá de acordo com o rigoroso protocolo real.
nunca foi o tipo de pessoa que quebrava regras por diversão, mas também nunca foi o tipo certinho, que andava na linha. Desde criança, gostava de se esconder no grande Castelo Real, fazendo suas babás procurarem por ele, indiretamente, iniciando uma pequena brincadeira. Quando criança queria brincar o tempo todo, o tédio dominava o pequeno príncipe. Seu irmão Lucien, diferente de , não gostava de procurar diversão a cada instante. odiava a forma em que, desde pequeno, Lucien seguia rigorosamente as regras e também ia além delas, sempre evitando ser repreendido por qualquer passo em falso.
Com Lucien sendo a cópia viva de seu pai, recorria a Freya, sua irmã, e também companhia no castelo.
Apesar da diferença de idade, sendo o irmão mais novo, Freya sendo a primogênita da família real, nada disso impedia a forte ligação que unia os dois.
Freya, sendo a primeira na linha de sucessão ao trono, sempre fora criada como um precioso diamante. Desde o seu nascimento, a princesa já nasceu com uma lista de obrigações. Estando sempre visível aos olhos de todos, sendo pressionada e, constantemente, lembrada de que sua mãe era uma das figuras mais importantes da monarquia, Freya se sentia sufocada.
Tudo piorou quando a princesa menstruou pela primeira vez. Sendo tradição da Família Real de Ivanova, quando uma princesa atinge a idade perfeita, ela entra em processo de preparação. Quando seus ancestrais viviam em guerra, os antigos reis preparavam suas futuras rainhas desde cedo, para assumirem o trono caso o pior acontecesse, com o histórico de Ivanova, sempre acontecia. Muitas rainhas assumiam o trono mais cedo que o esperado. A Rainha que mais cedo assumiu o trono, na história de Ivanova, tinha apenas quatorze anos. Quando o tratado de paz foi assinado, e as guerras cessaram consideravelmente, as coisas mudaram em Ivanova. Novas leis foram postas na família real, dentre elas, a exigência de preparação para a primeira na fila ao trono.
Dando início a preparação, as discussões entre Freya e a Rainha aumentaram. A Família Real de Ivanova tem uma característica um tanto tradicional, isso sempre divertiu Freya, até que essa característica a atingiu diretamente. Como tradição do trono, toda Rainha e futuras rainhas – em processo preparação – deviam vestir sempre um vestido medieval. Antigamente, em Ivanova, os vestidos de suas rainhas e guerreiras,
demonstravam poder, os vestidos eram suas grandes marcas. Ivanova mudou nos últimos séculos, no entanto, como uma história importante e de grande significado na família real, essa tradição foi seguida por seus sucessores e mantidas, até hoje. Freya sempre achou a história linda e encorajadora, mas odiava os vestidos, apesar de serem lindos. Segundo ela, não combinavam com o século vinte e um. O vestido foi o primeiro assunto da discussão entre ela e a rainha.
Desde criança, Freya sempre escutou tudo sobre ser uma rainha, e de como ela seria futuramente. Antes de nascer, o futuro dela já estava planejado. A vida dela já estava escrita. Ela só devia nascer, o resto era apenas seguir o roteiro. E ela se acostumou com a ideia, sempre tinha alguém empurrando em sua cabeça a ideia de ser a futura rainha. Isso nunca a incomodou. Até que o plano saiu do papel e ela passou a praticá-lo. Era assustador. Sempre foi uma ideia, mas agora ela estava vivendo aquilo. Ela não queria, mas aceitou em silêncio pelo seu povo e por sua rainha.
Quando se deu conta de que estava realmente acontecendo, Freya passou a observar com mais atenção sua mãe. A rainha Caterina parecia ser tão intocável, sempre majestosa e com um singelo sorriso em seu rosto. Uma das figuras mais importantes da atualidade, respeitada e poderosa. Freya sabia que nunca seria como sua mãe, ou alcançaria tantas glórias como a mesma. A ideia de fracassar e decepcionar a rainha atormentaram a princesa por anos.
viu a irmã se distanciar dele. A viu seguir o protocolo real ao pé da letra; usar os mesmos vestidos de sua mãe; ir em reuniões da família real; a viu seguir em modo automático. conhecia Freya o suficiente para saber que aquilo estava a matando por dentro. Ele a viu morrer.
Quando a notícia da morte da princesa atingiu o mundo, Ivanova se tornou o próprio inferno, no ponto de vista de . A cada lugar que ele olhava, lá estava o rosto de sua irmã. Sempre tinha algum desconhecido dando condolências ao príncipe. No grande funeral dedicado a sua irmã, se recusou a ir. Não queria que vissem ele chorando. Seu pai sempre dizia que isso era sinal de fraqueza. No entanto, pela primeira vez, naquele dia, viu seu pai chorando. Saindo de sua pequena bolha, ele soube que assim como ele, seu pai também estava sentindo dor, e que aquelas pessoas na entrada do castelo estavam sendo sinceras sobre seus sentimentos. Ivanova inteira estava sofrendo com a morte de Freya. Ivanova estava de luto.

***


assistiu Lucien pacientemente andar de um lado para o outro, em uma tentativa de gastar um pouco da ansiedade que dominava o príncipe. Cinco minutos atrás, David, seu fiel conselheiro e assistente, estava nos aposentos do príncipe informando que a Rainha em pessoa estava indo ao quarto de seu filho. Pegando todos de surpresa, inclusive Lucien, que havia passado para cumprimentar o irmão. sentia a paciência se esvaindo de seu corpo, já podia sentir sua cabeça dar sinais de incômodo após tentar acompanhar os passos nervosos de seu irmão. Revirou os olhos, impaciente, achando a reação do outro príncipe um tanto exagerada:
– Já chega. – disse por fim, parando de frente ao irmão. Lucien não mudara nada, por um breve momento, sentiu a nostalgia lhe atingirem o peito. – Lucien, respira.
Tendo prática no assunto, sentiu os músculos de Lucien relaxarem e viu a respiração do irmão se regularizar. Apesar de ser o mais novo, aprendeu a tranquilizar o irmão em casos assim, já tinha um histórico em lidar com o pânico de Lucien, principalmente quando envolviam a rainha. Lucien, entre os três irmãos, sempre foi o mais certinho, o mais devoto. Após a morte de Freya, ser o melhor em tudo se tornou seu único foco. Não, não ligava para ego ou reputação. Essa nunca foi a questão. Lucien assumiu o lugar de Freya, sentia-se na obrigação de honrar sua irmã.
– Por que ficou tão nervoso? – perguntou franzindo o cenho, após Lucien se recompor.
– É esse dia, . Só isso. – o príncipe sussurrou. – E também é estranho ela querer vir aqui. Ela sempre manda alguém ir ao encontro dela.
– Ainda não tive tempo de conversar com ela, desde que cheguei. Ela é a rainha, Lucien, mas ainda é nossa mãe. Pode estar querendo abraçar o filho favorito. – tentou usar o humor para fazer seu irmão ficar menos tenso. – Relaxa, cara. Se fosse algo sério o comitê já teria nos avisado.
Se deu por vitorioso vendo a expressão de Lucien suavizar. – Você tem razão. – sorriu para o irmão. – Já sabe quem será sua acompanhante no jantar de hoje?
– Ninguém. – respondeu, dando de ombros. – Cheguei hoje, irmão, não vou ter tempo de conseguir uma acompanhante.
– A prima de Alice pode acompanhar você. – Lucien sugeriu.
– Lucien, o não vou ter tempo foi uma desculpa, não quero uma acompanhante. – disse simplesmente.
– Como assim nã... Meu Deus! Você conheceu alguém durante a viagem!
– Não conheci ninguém. – riu da cara de seu irmão. – Apenas não acho que seja adequado, e também não quero. Não agora. Como se a resposta estivesse escrita na testa de seu irmão, Lucien entendeu o raciocínio de , consequentemente sentiu-se um idiota.
– Confesso que daria tudo por uma viagem igual a sua. – percebeu a mudança de assunto do seu irmão, agradeceu mentalmente por isso.
– Você sabe que não é bem uma viagem à lazer. – murmurou .
– Eu sei. É que esse castelo parece me sufocar. – disse Lucien, percebendo a hesitação em sua própria voz. – Eu sei das minhas obrigações, , e sempre soube. Isso nunca foi problema. Só que eu preciso de férias, preciso relaxar. Tudo aqui me deixa com essa sensação, como se algo quisesse sair do meu estômago, voltando pela boca. Tudo me deixa nervoso.
– A Duquesa de Vernix sabe disso? – questionou, arqueando as sobrancelhas.
– Tanto sabe como também daria tudo por uma viagem. – Lucien riu.
– Não entendi.
– Você sabe que eu me casei para agradar nossos pais e por causa do índice de aceitação fora do castelo. – disse, gesticulando. – Eu amo a Alice, sempre amei, e é recíproco. Mas somos o casal modelo da família real, isso é cansativo. Passamos o dia em eventos sociais, fundações, visitando os necessitados. A rainha que me perdoe, mas isso é entediante. Sinto que enfiei Alice em um casamento chato e sem graça, nunca fazemos algo emocionante, ou saímos com nossos amigos, amigos de verdade.
– Já conversou com ela sobre isso para saber se ela realmente se sente assim?
– Quando namorávamos na adolescência todos pensavam que seria só mais um dos meus namoros, isso não a atingia tanto. Ela continuava sendo a Alice, eu continuava sendo o príncipe. Agora a maioria dos que se aproximam dela não fazem isso com interesse na mulher magnífica e surreal que ela é, fazem isso com interesse na Duquesa de Vernix.
– E você se sente culpado por isso. – deduziu.
– Sinto que faço a mulher que eu amo perder a identidade. Confesso que tenho medo de um dia ela acordar e perceber que não quer isso.
– Ok, vou fazer meu papel de irmão. Lá vai. – encarou o irmão. – Alice te ama, é louca por você e sempre foi, você sabe disso. Também sabe que é verdade: ela pode ficar insatisfeita futuramente com isso, a solução é agir agora no presente. Converse com ela, não espere ela acordar e perceber que não quer isso, faça algo agora. Vocês se amam.
– Eu odeio quando você incorpora meu personagem. – Lucien sorriu, abraçando o irmão. – Senti sua falta.
– Eu sei. Se eu fosse você também sentiria. – brincou. Batidas soaram na porta, fazendo-os interromper o abraço:
– Entre. – Disse o príncipe. Viu David adentrar no ambiente, conhecia bem o amigo para perceber que ele estava nervoso. David, apesar de ser um amigo íntimo e de longa data, nunca se acostumara com a presença da realeza. Ainda mais quando o contato era direto com a rainha.
– Altezas. – David fez uma breve reverência diante os homens. – Sua Majestade deseja conversar com o Príncipe , a sós.
Dessa vez permitiu a curiosidade lhe dominar.
Estranhando a exigência de sua mãe.
David abriu inteiramente a porta e curvou a cabeça, dando passagem de entrada para a rainha. e Lucien acompanharam o gesto do assistente, curvando suas cabeças. Lucien pediu permissão para se retirar do ambiente, sendo seguido por David.
levantou a cabeça para encarar a mãe, parada a sua frente. O príncipe aprendeu a se acostumar com um detalhe: Ele nunca conseguia ler as expressões da Rainha. Rara eram as vezes em que ela vacilava e demonstrava qualquer tipo de sentimento, isso sempre revoltou .
– Cogitei convocar sua presença, mas levando em consideração o tempo que você passou fora, não seria uma recepção agradável. – A rainha foi a primeira a quebrar o silêncio, mantendo seu tom firme.
– Peço desculpa, Majestade.
Caterina, vendo a hesitação do filho, deixou de lado a rainha, e sorriu para seu ultimogênito.
– Sei como deve estar cansado, . Entendo. – disse a rainha, abrindo minimamente seus braços. – Dê um abraço na sua mãe.
sorriu genuinamente aliviado, abraçando a mulher a sua frente.
– Parece que não o vejo há anos. – disse Caterina, com a voz levemente abafada pelo abraço apertado. Desfazendo o abraço, colocou o rosto do filho entre suas mãos. – Como você está?
– Estou bem, mãe. Cansado, mas bem. – respondeu o príncipe.
– Você tem feito um ótimo trabalho. – sorriu, se afastando do filho. – Quando o Tratado de Dependências da Coroa foi assinado, soube imediatamente que você seria a pessoa certa.
– Obrigada, mãe. – encarou o chão, hesitando sobre continuar ou não o assunto. – Foram meses viajando por cada canto do Reino Cosmo.
– Agora você está em casa. Representou muito bem o nosso povo. Ivanova está em dívida com você, meu filho.
– Boa parte do comitê foi comigo, mãe, até mesmo meu pai foi em algumas. – retrucou ele logo.
– Algo está incomodando você. – Disse a rainha, pegando desprevenido.
O príncipe respirou fundo. Ensaiou cada palavra que deveria ser dita, mesmo sabendo que no mesmo instante em que abrisse a boca nada sairia como planejado.
– É que todo o Reino Cosmo assinou o Tratado, você conseguiu nos tornar o maior império da história. – alterou suas palavras e soltou um muxoxo. – Ivanova fez história, mas-
– Hoje é o dia dela, . Tratado algum irá mudar isso. – a rainha cortou, um tanto impaciente com a hesitação do filho em dizer tais palavras. – Agora eu preciso ir. Nos vemos à noite, meu filho.
Caterina se aproximou do filho lhe dando um singelo beijo no rosto, logo em seguida indo rumo à fora do quarto. , ainda digerindo a última parte da conversa, encarava a porta pela qual sua mãe acabara de passar.

***


No pôr do sol, todos os membros da família real foram para a sacada principal, acompanhar a Troca de Guarda no Palácio de Nortman. Ao ver de todos, aquela era uma das cerimônias mais famosas de Ivanova, nunca perderia a graça. Como de costume, os visitantes estavam postos na entrada do Palácio. Mesmo não tendo uma vista privilegiada, ainda ficavam extasiados com tamanha cerimônia. Sendo tradição, desde a morte da princesa Freya, a cada ano os visitantes enchiam a frente do palácio principal da família real com flores. O palácio onde a princesa cresceu.
Após a cerimônia, a família real deu início ao grande jantar. Mantendo sua palavra, a rainha Caterina pediu para que os convidados não ignorassem o verdadeiro motivo de estarem ali: Freya.
Sendo um jantar íntimo, poucas pessoas estavam presentes, agradeceu por isso. Mas esse detalhe não o impediu de passar a maioria da noite fugindo de alguns que, discretamente, ignoraram o pedido da rainha, iniciando uma pequena e baixa conversa sobre a última conquista do Império de Ivanova.
Lucien se divertia assistindo o irmão se esquivar elegantemente de Duques que tentavam insinuar suas filhas ao príncipe. Afinal, uma aliança com o Império de Ivanova no seu auge de poder traria vantagens a qualquer lado.
Foi uma longa e cansativa noite, mas Sebastian sentiu a nostalgia lhe dominar. Estava em casa.

***


O homem entrou no quarto, mas antes, encarou o corredor, se certificando de que ninguém o seguiu durante o caminho. Fechando a porta silenciosamente, evitando os mínimos barulhos possíveis, tirou seu casaco, o colocando sobre a cama. Encarou as costas da pessoa que estava admirando a lua pela janela, ou simplesmente evitando contato visual com ele. Pigarreou tentando chamar a atenção para si. Sem sucesso.
– Já está perto. – quebrou o silêncio, engolindo a seco. Conhecia a pessoa tão bem que, mesmo de costas, podia jurar ter visto ela revirar os olhos. – Não vai dizer nada?
– A Lua é tão enigmática, não acha?
Você é mais. Pensou ele.
– Enfim. – finalmente o encarou. – Quinze anos já se passaram.
– Então está na hora. – passou os dedos entre seus cabelos.
Estava nervoso.
– Esperamos quinze anos. Aguentamos mais alguns meses. – sua voz, apesar de baixa, fez os pelos do homem se arrepiarem.
– Tem certeza? – perguntou, apertando os lábios.
Ele odiava aquelas conversas vazias. Sentia como se não soubesse de nada, se sentia uma marionete. Mas ele realmente era. Uma maldita marionete. Se repugnava por gostar daquilo. Pelo rolar de olhos ele soube que já estava tudo planejado, mas, como de costume, ele só saberia nos últimos quarenta e cinco segundos.
Você não tem?




Continua...



Nota da autora: Se você chegou até aqui, obrigada por ler.
Detalhes importantes: a história se passa no século 21, o Império Ivanova foi incluído no nosso século. Alguns fatos que vão ocorrer na história, de fato aconteceram na vida real.
A ideia da história surgiu com umas teorias sobre uma família real que eu não vou citar nomes hahaha (mas ficou óbvio, eu acho).
Espero que gostem e consigam me acompanhar. Dúvidas ou críticas, estou aceitando.







Qualquer erro no script dessa fanfic, favor avisar no meu e-mail ou twitter.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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