CAPÍTULOS: [prólogo] [1] [2] [3]





Última atualização: 31/12/2016

Meilleure Journée = do francês, Melhor Dia
"Don't know how long it's gonna take to feel okay
But I know I had the best day
With you
Today"


Prologue


7 de outubro de 2013, Casa do , Belo Horizonte, Brasil.


Você sabe que se você ficar fazendo um teste a cada dia só vai ser pior, não é? — Jennifer falou. Eu nem absorvia direito o quê ela falava. Talvez ela estivesse certa, talvez não. Eu só precisava de dois tracinhos. E de algum ouvido para aguentar minha ansiedade.
Jennifer, claro. Era, sem um pingo de dúvidas, a melhor ouvinte. E para aquele caso, a única. Afinal, ninguém - exceto nós duas e - sabia dos nossos planos mais recentes.
Quantos mil reais você já gastou comprando testes, hein? Já foram muitos. Esse dinheiro todo dava para me levar pra Paris. — eu ri. Era verdade. O banheiro da suíte agora tinha duas lixeiras. Uma para os papéis higiênicos e todas as outras futilidades. A outra era para os trocentos testes de gravidez que eu fiz nos últimos meses.
— Eu já te disse que eu vou te levar para Paris. Calma, mulher! — ri. Ri de nervoso, porque eu não via graça nenhuma em nada ali. Só veria nas fitinhas positivas, se viessem.
Ah, sempre esqueço de que você é milionária agora. — e era por isso que eu evitava tocar no assunto dinheiro. Era impossível não lembrar de Eleanor e não sentir dor. — Relaxa, quando você menos esperar dá certo.
— Esse é o problema. Eu estou constantemente esperando. — bufei. — merda, três minutos demoram demais!
Se você ficar esperando o tempo passar olhando essa fita, com certeza demorará. Vá dar uma volta, enquanto isso. — riu. Eu queria ser a mãe da paciência igual minha amiga.
— Sem chances. Preciso destes dois tracinhos.
Você precisa é deixar a coisa fluir. O médico disse que vocês podiam tentar depois da sua primeira menstruação após… — suspirei e ela escutou, repetiu o que eu fiz. — bem, desculpe. Depois daquilo. — meu coração apertou.
Angel Delavoux. Também era impossível pensar nela sem doer.
— E pela primeira vez na vida meu período veio exatamente um mês depois. Ou vinte e oito dias, se preferir. Só que eu já estou desde maio tentando, Jen! — lamuriei. — cacete, da primeira vez foi tão fácil! E de maio até aqui eu já menstruei umas quatro vezes! Não acredito que eu precisei perder um bebê para essa maldita menstruação normalizar. — meu tom de voz aumentou. Eu estava à beira das lágrimas olhando para aquele teste na minha mão. Minha visão estava turva. Se desse só uma fita mais uma vez, eu atirava ele pela janela.
Ei, ei… Relaxa. Vamos lá, inspira pelo nariz e solta pela boca.
— Isso já não funciona mais comigo. Terá de tentar algo mais forte. — ri. Aos poucos, Jen realmente conseguia desviar meu foco do resultado. Maldita. Pelo menos passaria mais rápido.
Ah, tente ver o lado positivo da situação. Você está morando com o .
— Quase morando. — corrigi. — ainda não me mudei oficialmente, e você sabe muito bem quando isso acontecerá. E não é agora...
Deixa eu terminar de falar! — ela me interrompeu — o lado positivo de você ficar aí quase todos os dias e ir para o seu apartamento uma vez em nunca, é que vocês transam todo dia! E sem proteção! Quer coisa mais maravilhosa do que essa? — aquela foi o fim da meada. Eu quase caí do vaso sanitário direto pro chão quando ela disse aquilo. Caí na gargalhada, ela também. E não parou por ali. — sério! A gente sabe que homem odeia ficar usando preservativo — concordei. — aí a gente faz aqueles exames de DST, começa a usar pílula e tudo fica lindo.
— Exceto pela parte que você enche a cara de hormônio — apontei o lado negativo e ela concordou.
Continua sendo mais gostoso. Fala sério! Carne com carne é uma delícia, até pra gente! Vamos parar de culpar o gosto masculino. Eu odeio fazer sexo com um plástico entre eu e Miguel.
— Jennifer, você tomou seu remédio de loucura hoje? — perguntei rindo. Ela não era tão fogosa assim. Pelo menos não me recordo de uma época em que conversávamos sobre sexo tão abertamente.
Culpa sua! Está vendo o tanto de besteira que eu falo? Você me contagiou, Safada Delavoux! — riu.
— Desde quando sexo é besteira? Cala essa boca! Se fosse besteira você não teria me falado esse tanto de coisa. — ela grunhiu e concordou comigo. — e sim, você está certíssima. Tentar engravidar tem lá seus diversos benefícios e… — minha voz morreu. Eu não tinha desviado o olhar daquela coisa branca, mas tinha me entretido com Jennifer e havia esquecido de reparar no resultado.
E o quê, amore? — eu não consegui responder. Meu coração batia rapidamente e fora do ritmo. Eu quase podia senti-lo em minha garganta. — ? — ela me chamou mais uma vez, mas eu não consegui nem balbuciar uma resposta. Aqueles dois tracinhos haviam roubado totalmente meu foco e minha atenção. — você ainda está aí? — ela perguntou e eu voltei novamente ao planeta.
— Ahhhhhhhhhhh! — gritei. Levantei-me do vaso, onde estive sentada e comecei a pular feito uma criança numa cama elástica pelo banheiro. — deu positivo, caralho! — respondi com o celular ainda à orelha. Jennifer estava loucamente gritando meu nome perguntando o quê havia ocorrido. Depois da minha explicação breve, ela começou a gritar comigo.
Eu vou ser tia, porra! E madrinha!
— Eu vou ser mãe de novo!
Ai meu Deus, eu vou morrer!
— Eu também! Socorro, Jen! — gritávamos e ríamos. Parecíamos duas loucas. — puta que pariu, eu não acredito!
Para de falar palavrão! Meu afilhado ou afilhada já vai nascer falando bobagem! Credo! — repreendeu e eu só conseguia rir.
Eu era a maior boba alegre daquele mundo.
Eu sentia que meu corpo estava em combustão. Eu explodiria de alegria, felicidade e de tudo a qualquer momento!
MEU DEUS!
EU ESTAVA DEFINITIVAMENTE GRÁVIDA!
Viu? Eu falei que uma hora dava certo e você só precisava esperar!
— Deu! Socorro! Você estava certa! Por que comprei tantos testes? Puta merda. — eu ainda gritava. Mas saí correndo do banheiro até o closet e calcei o primeiro sapato que encontrei. Tropecei em Thor ou em Joy, não sabia qual era e nem olhei. Estava a mil. Minha mala estava aberta sob uma cadeira e estava parecendo um lixão de tão bagunçada. Só calcei a primeira sapatilha que encontrei e peguei as chaves da minha Range Rover Evoque. Foi a primeira coisa que comprei com a minha herança. Agora o que babava na minha, pois ela era modelo 2013 e a dele 2011. — ai caralho, eu preciso ligar pra todo mundo! — Levei a mão à testa e sai correndo mais uma vez. Agora os cães me seguiam.
Quase caí na escada. Desci feito louca e nem prestei atenção nos degraus.
Posso contar pra minha mãe? Vai, deixa!
— Depois que eu contar pro , a gente vai contar pro mundo inteiro! — dei um gritinho histérico. Peguei minha bolsa no aparador próximo a porta e saí. Tranquei a porta e fui pro carro.
Eu não acredito que sou a primeira a saber! Ahhhhh - afastei o celular do ouvido devido ao seu grito. Conectei ao dock do carro e meus problemas acabaram. Sua voz saía pelos alto-falantes.
— Eu preciso comprar um sapato, ai meu Deus! — eu não sabia quem estava mais louca, se era eu ou ela.
Eu não acredito que você fica grávida e a primeira coisa que vai fazer é comprar um sapato! — ela me xingou.
— Não é pra mim, não, sua louca! É pro bebê. Na verdade, pra contar a novidade ao e aos outros. — sorri. Era clichê demais aquela forma, mas eu achava fofo.
Que gracinha! Eu quero! Deixa eu ir comprar com você? — concordei e mudei a direção, indo até o trabalho dela. Já eram cinco horas, ela sairia da escola em breve. — vamos comprar a loja inteira! — eu ri.
— Estou indo aí pra escola te pegar. Tive uma ideia pra contar a surpresa a eles!
Agora? Ai meu Deus, ok! E não me mata de curiosidade, me conta a ideia!
— Vou chamar todos para um jantar no Épicure e…

xx


— O quê deu em você para reunir todos em um jantar em plena segunda-feira?
— Por que nós não podemos cozinhar?
— Calem a boca, comida de graça não é todo dia.
Eu perdi a conta de quantas frases parecidas com aquelas eu ouvi desde o momento em que convidei o pessoal. A do Miguel era a melhor de todas, só falava na comida de graça.
se resumia a rir. Hora ou outra ele chegava até minha orelha e me dava um beijo abaixo dela. Ora mordia meu lóbulo, ora beijava minha bochecha. Eu só sabia sorrir e encolher quando ele fazia aquelas coisas.
Eu tremia feito alguém que tinha Parkinson. Mas de nervoso, ansiedade.
me beijou mais uma vez. Ah, amor... se você ao menos desconfiasse o motivo daquilo... beijos não seriam suficientes.
Do lado contrário, Jen apertava minha mão às vezes, me acalmando. Funcionava por breves minutos, depois minhas mãos voltavam a tremer. Ninguém via.
O jantar daquela noite era por minha conta. Havia convidado a família de , que se resumia em Jennifer, sua mãe Giane e seu pai Felipe. Claro que Miguel também. Era além de namorado da minha amiga, o melhor amigo do meu . Minha “pequena” família também estava presente; apenas meus pais. Se eu chamasse toda minha família materna, precisaríamos fechar o Épicure por serem muitos, então eles desconfiariam ainda mais que tinha algo diferente. A família da França ficaria sabendo depois, quando eu ligasse para Mat numa das nossas conferências no dia seguinte. E depois, minhas amigas; , Patrícia e Andressa.
Na verdade, todos ali eram como família para mim.
Minha pequena grande família.
— Serviremos o jantar agora — o terceiro chef do Épicure, meu tio Leonardo, foi até nossa mesa avisar. Os murmúrios diminuíram e a conversa foi morrendo aos poucos.
Jennifer veio até meu ouvido e sussurrou:
— Mantenha a calma.
Eu não mudei a posição para não dar na cara. Apenas assenti com a cabeça enquanto olhava para algo que estava me mostrando. Não sabia o quê era. Não consegui prestar atenção.
Louis, Marisa e meu tio Leonardo, irmão da minha mãe, eram os três chefs do Épicure. Eu havia proibido meus pais de pisarem naquela cozinha para ajudarem a preparar nosso jantar. Um dia só não faria falta, e também, eles eram meus convidados.
Todos se calaram quando os garçons chegaram e começaram a distribuição. Uns entregavam os pratos e talheres e outros traziam a entrada.
Por fim, tio Leonardo voltou. Ele era um ator e tanto.
Carregava a maior bandeja de inox. Ela estava com o prato principal da noite, tampada. Parecia um filme de Hollywood. Ele se esgueirou entre meus pais, que estavam sentados de frente para mim, e colocou a bandeja sob o suporte, no centro da mesa. Antes de se afastar, piscou pra mim com um olho só. Eu senti meu estômago afundar.
Eu ia morrer.
Deus, não me levasse ali. Eu ainda tinha muita coisa pra viver.
Jennifer tinha suas duas mãos agarradas ao meu braço. Ela tentava me acalmar, mas eu achava que ela estava tão nervosa quanto eu. Tio Leonardo era o único cúmplice meu calmo ali. Quase pirou quando eu entrei na cozinha e lhe entreguei o par de sapatinhos brancos. Ele entendeu na hora.
Então, ele destampou.
Meu coração parou no tempo.
Não havia batidas.
Eu escaneei o rosto de cada um em busca de suas reações. Todos estavam entretidos com a entrada, sendo servidos.
Andressa foi a primeira que deu sinal de vida.
— Ai, meu Deus! — ela gritou alto e rapidamente. Embolou uma palavra na outra e levou as mãos à boca. Jurei que seus olhos sairiam da orbe por estarem tão arregalados.
Depois eu não vi mais nada, só escutei e senti.
se levantou de sua cadeira ao meu lado e me puxou com cautela para um abraço.
As pessoas gritavam. Alguns batiam palmas.
Mas eu só prestava atenção no rosto dele.
Todo bobão.
Todo lindo.
Todo meu.
— E-eu... — ele tentou. — v-você... — ele apontou para a bandeja onde os dois sapatinhos brancos estavam. Eu apenas assenti.
Ele abriu o maior sorriso que eu já vi. Só senti minhas bochechas encolherem também, abrindo um enorme sorriso, contagiada por ele.
Ele me beijou. Eu retribuí.
Nunca havia me sentido tão completa antes.
— Nós vamos ter um bebê! — ele gritou pra todo mundo da mesa quando nós nos afastamos. Mas o restaurante inteiro comemorou conosco, batendo palmas e assobiando.
Mas eu não consegui desviar o olhar da cara enfezada do meu pai. Minha mãe estava neutra, ininteligível. Ele estava com a cara de poucos amigos.
Engoli seco.
Ainda vinha bomba pela frente.


Une


30 de junho de 2014, Hospital da Mulher e Maternidade Santa Fé, Belo Horizonte, Brasil.


Vinte e dois semáforos.
Ela estava contando em quantos passariam desde sua casa até chegarem ao hospital. E ainda não tinham chegado. A cidade estava um inferno, o trânsito nem se falava. Nunca viu tantos gringos em Belo Horizonte de uma só vez. Olhava para um lado e via chilenos, olhava para o outro e encontrava ingleses, argentinos, iranienses, tudo.
— Eu não acredito que você está me fazendo perder o jogo da França. — ela falou e bufou. Marisa riu e manteve o foco na direção.
e o seu bebê que se recusava a vir no mundo com 40 semanas estavam sob sua responsabilidade, ela guiava a Range Rover da garota até a Maternidade Santa Fé. Segundo ela, algo estava extremamente errado, pois a data prevista para o nascimento era de três dias atrás e nada de bebê até então.
— Você lê a matéria detalhada mais tarde. — ela sorriu de lado, enquanto ficou parada no último semáforo, pelo que se recordava. Passou milhares de vezes por aquele trajeto nos últimos nove meses.
— Não é a mesma coisa! — cruzou os braços sobre a barriga e tomou um chute. — o bebê concorda. Está chutando. Quer ver uma de suas nações jogando.
— Então ele terá que assistir três quando nascer. Ainda há muita Copa do Mundo pela frente, querida. A França com certeza vencerá da Nigéria e então você poderá vê-los na quartas-de-finais. — o sinal abriu e ela arrancou com o carro. Mais um chutinho. levou a mão à barriga e a acariciou.
— Ele não vai torcer pra Inglaterra. Primeiro porque já foi eliminada. Segundo, surtaria. — enumerou nos dedos.
— Ele não gosta do país natal. — Marisa notou.
— Ele não gosta das lembranças que tem de lá. — corrigiu e levou mais um chute. — tem alguém bastante agitado por aqui, hoje. — sorriu e a futura vovó também.
— Como você consegue pensar na Copa, sabendo que o bebê está prestes a chegar? — sua mãe falou e lhe lançou um olhar intrigante.
— Mas como não pensar? — devolveu e ela se calou.
— Mas nada! Você está de 40 semanas e meia! — olhou para a barriga de sua filha. Ainda não acreditava muito que ela realmente estava grávida, parecia que era um sonho, não a realidade. Era uma realidade bem distorcida do quê ela imaginava para o futuro de . — não é a prioridade!
— E forçar o bebê vir ao mundo antes de seu próprio tempo? — retrucou. lutaria para que tivesse um parto humanizado até suas últimas forças. Marisa se calou, sorriu e virou à direita, parando em frente a entrada do hospital.
Ela decidiu que era hora de levar à maternidade, visto que já haviam se passado três dias desde a data que foi programada para o nascimento do bebê. Ela passou a dormir na casa dos futuros papais de primeira viagem desde a última semana, já que, supostamente, ele chegaria dia 27. Ou ela.
Não sabiam.
Ninguém sabia. não quis deixar.
Aquela gravidez já estava sendo tão especial e diferente que aquele pensamento a incentivou a fazer propostas ousadas a e, surpreendentemente, ele acatou todas. Contando com essa, a mais louca se pensar na ansiedade que tinham, de descobrir o sexo do bebê apenas no parto.
Haviam apostas. Valendo dinheiro, valendo bobeiras do tipo vestir a camisa do time alheio ou até mesmo financiar um churrasco... A maioria colocava suas fichas em uma menininha, inclusive . não quis envolver, mas acreditava piamente ser um menino pelos seguintes motivos:

1- Ela só teve desejo de coisas salgadas.
2- Ela estava sempre feliz, nada bipolar -o que era um milagre, segundo -.
3- Sua pele estava exageradamente seca.
4- Tinha muita dor de cabeça.
5- Isso eram crenças dos antigos. Ela só descobriria se eram verdades quando o bebê chegasse.

estava vetada de dirigir devido ao período da gestação, então sua mãe pegava a Rangie dela e a levava onde quer que precisasse. Naquela manhã de uma sexta-feira, estava dando sua última aula antes das férias. Ele queria muito acompanhá-las, mas não podia faltar naquele dia pois tinha várias coisas pendentes a serem resolvidas. Ele já sabia da decisão de Marisa desde a noite anterior e concordava com a mesma, sobre ir checar as condições do feto. Só que não.
Às vezes adorava aquela história de parto humanizado. Às vezes não. Principalmente quando ficava tão cabeça dura daquele jeito.
Quantas reportagens ele cansou de ver nos jornais falando que inúmeros bebês nasceram mortos por causa daquilo? Esperar demais? A maioria era por erro médico, que simplesmente mandavam a gestante voltar para casa. Ele temia, já que nem no hospital tinha chegado a ir. Só ficou tranquilo quando ele sentiu o bebê mexer.
Desde o dia 9 havia parado de frequentar a aula, mas para não perder o período, Patrícia funcionava como uma ponte entre ela e os professores. Graças a Deus todos eles foram super compreensivos. E também, nada que uma forcinha de não ajudasse. Eles fizeram as provas finais especiais para ela, Patrícia levava só o que fosse de conteúdo novo indispensável.
Marisa ajudou a filha a sair do carro. O bebê já estava enorme e ela constantemente se questionava como era capaz de sustentar seu corpinho e o dela, que por sinal, se assimilava ao de uma baleia.
Mas ela jurava que era a baleia mais feliz do mundo. Estava gordinha e fofinha, abraçando cada pequena mudança do seu corpo como se fosse um tesouro. E realmente era.
Uma vida que crescia dentro de si.
Uma vida que foi gerada pelo amor e loucura de duas pessoas. Ela até ria quando pensava naquilo.
Era seu encanto.
E ela mal podia esperar para tê-lo ou tê-la em seus braços. Uma menininha para ficarem horas a fio conversando de moda e cabelo, ou um menininho para chamar de príncipe e educá-lo como um. Se bem que, só de ter o genes do pai, ele já seria um gentleman de natureza.
amava aquele homem com cada célula de seu corpo.
E o admirava com cada uma, também. Apesar de ter seus -imperceptíveis e relevantes- defeitos, ele era perfeito para ela. Ai de quem dissesse que a perfeição não existisse.
Perfeição estava ali o tempo todo. Ela só demorou demais para perceber.
Perfeição era a sincronia entre os dois. O fluxo, o amor, o jeito com que se tratavam e faziam aquilo valer a pena a cada novo dia.
Marisa a levou até a ala de pronto atendimento e deu entrada numa ficha para sua filha, enquanto ela ficou sentada olhando para o celular e para a TV da sala. Ainda faltava muito para o jogo da França, que aconteceria em Brasília.
Era uma pena que não pôde e nem poderia ir a nenhum jogo da copa. Como ir a um estádio com uma barriga daquela dimensão? Ou até mesmo tendo já o seu filho? Porque ele nasceria durante a copa. Ela não teria como ir no estádio de jeito nenhum.
Mas era por uma causa maior. E era exatamente devido a esse pensamento da causa maior que ela não ficava chateada de perder uma partida. Era bom que até economizaria na viagem que faria para ir atrás da seleção da França ou a do Brasil.
Como se fizesse falta. Na verdade, era apenas mais uma desculpa para servir de consolo.
jamais imaginava que a avó era tão rica daquele jeito. E olha que o quê ela herdou ainda era metade, já que Mateo tinha os outros 50%. O quê esse povo fazia com tanto dinheiro, mesmo? Nada.
Ela ia mudar aquilo. Oh, se ia. Só precisava de ideias para empreender.
Ela já havia ligado umas trocentas vezes no celular do Doutor Cláudio Castilho e não obteve resposta alguma. Ele estava cuidando de desde quando ela retornou ao Brasil, após o ocorrido com a Angel e, se tudo desse certo, ele “faria” o parto.
Que talvez fosse naquele dia. Era por esse motivo que queria tanto que ela fosse ao hospital; talvez já estivesse na hora, ou até mesmo passado da hora. Não podiam saber sem exames se o bebê já estava em sofrimento. E se estivesse, os médicos não hesitariam em fazer um parto.
E onde o pai estaria? Na UFMG.
Que merda. Eles passaram tanto tempo planejando o momento do parto, com tanto carinho, tanto afeto... Precisava sair do jeito imaginado. Se não, não teria nem tempo para assistir o filho ou a filha nascer.
Mas doutor Cláudio não atendeu. Então, e Marisa falaram que precisaria fazer uns exames para ver se estava tudo bem, que o bebê estava longe de riscos.
Assim, pararam ali. Ela rezava para não ter que passar o dia inteiro no hospital e já estar de volta em casa às três da tarde para ver sua seleção jogar, ou, no mínimo, um lugar que tivesse TV. Uma das seleções, aliás. Ainda tinha o Brasil.
Delavoux? — uma médica novinha a chamou da porta de seu consultório, assim que outra grávida saiu. Marisa a ajudou a levantar e caminhou atrás dela, carregando a bolsa enorme de maternidade. Ainda não era a definitiva que fazia conjunto com a do bebê, pois tinha visto umas lindas na internet que eram personalizadas com o nome da criança, e eles ainda não tinham um nome para ela ou ele. Só quando vissem seu rostinho o escolheriam, e então, mandaria fazer a coleção completa.
disse que estava com muita frescura. Ela discordava. Achava que tudo aquilo era sinônimo de aproveitar cada segundo intensamente. Para terem uma noção, um de seus primos era fotógrafo junto com a namorada, o Vicente, irmão do médico Diego, filho do chef Leonardo. Só tinha figuras ilustres na família.
Daí ela contratou Vicente e Izabel no mesmo dia que descobriu a gravidez e fechou “o pacote dos pacotes”, como eles disseram. Com direito a ensaio fotográfico a cada mês de gestação e até durante o parto. Tudo proposta e ideia da Bel, mas ela a-m-o-u.
De acordo com Jennifer, tinha ficado rica e não sabia como gastar. Ela discordava, achava que não havia maneira melhor de manter recordações do quê com fotografias.
— Bom dia, sou a Doutora Sabrina! — ela estendeu a mão para cumprimentar e depois Marisa. Elas retribuiram e depois Marisa ajudou a filha a se sentar de frente para a mesa da médica. — o quê traz vocês aqui? — depois ela também se sentou, toda sorridente.
— Uma certa pessoinha que ainda não deu as caras. — Marisa falou e apontou para o futuro centro de todas as atenções daquela família. Ou melhor, para a barriga da filha que abrigava o bebê.
— Qual era a data prevista?
— Dia 27. — falei. Comecei a cutucar o canto das minhas cutículas com a unha. Eu fingia não estar nervosa ou ansiosa. Fingia.
— E seu tampão mucoso* já saiu?
— Já, sim. Deve ter uma semana e meia. — fechou os olhos e começou a relembrar as datas.
— E você sente contrações de Braxton Hicks*? — a médica passou a encarar suas unhas, depois começou a batucar com o celular na mesa. Aquilo começou a deixar incomodada.
— Sinto... — falou incerta, com os olhos estreitos. Aquilo não tinha o melhor cheiro.
— Ah, então está tudo sobre ordem. Pode voltar pra casa e aguardar o momento certo! — ela finalmente olhou . Ela não se convenceu, mas já estava prestes a se levantar da cadeira e acatar o quê a médica disse, quando Marisa interveio.
— Como assim, “tudo sobre ordem”? — rugiu. — você nem conferiu a pressão dela, batimentos cardíacos... nada! E nem do bebê! Como você saberá que ele não está em sofrimento? Se ainda há líquido suficiente no saco aminiótico? — olhou de boca aberta para minha mãe. Desde quando ela entendia de medicina? Nem mesmo ela, que fez uma série de pesquisa nos últimos meses, sabia daquilo tudo que Marisa questionou. E olha que não foram poucas pesquisas.
— Não há necessidade, senhora. — a médica se limitou a dizer. bufou e a doutora olhou para ela com descaso.
— Como não há? — Marisa se levantou de uma vez e sua cadeira caiu para trás. Ela estava extremamente puta de raiva, jurou que quebraria a mesa da médica devido a força que ela se segurou na borda. — e se acontecer algo com eles? — apontou pra filha. — eu não saio com a daqui enquanto você não examiná-la! — gritou e deu um tapa na mesa. arregalou os olhos e deixou um silvo escapar, consequência de ficar segurando o riso.
— Senhora, por favor, acalme-se. — ela suspirou. apenas queria uma pipoca para assistir sua mãe fazendo barraco. Era o máximo! Ela se segurava para não rir na cara da doutora.
— Como acalmar? Estamos falando da vida da minha filha e do meu neto, ok? — ela gesticulava com os braços e mordia o lábio com força. Ela sentia sua barriga doer, devido a força que fazia para não rir. — ou neta. — completou e suspirou. — quer saber, vou procurar outro médico. Vem, . — deu a mão para que a filha se levantasse, mas ela ficou estática. — anda, . Vamos! — estalou os dedos rente aos seus olhos e ela lhe deu a mão. Com um pouco de esforço, caminharam para fora do consultório e a médica nada fez para impedir aquilo. Marisa freou a filha ainda na porta, ficou para trás e disse uma última coisa para a médica — e se acontecer alguma coisa com ela ou com o bebê, eu te processo. — segurou no antebraço e a guiou para distante dali. Assim que ficou distante o suficiente, soltou toda a gargalhada que prendeu nos últimos minutos.
— Arrasou, mãe. — falou entre risos. Não podia forçar muito, se não a barriga doía.
— Fiz o necessário. — ela sorriu para a filha e passou a mão pelo seu cabelo. — o que eu achava ser necessário. Vou até checar isso com Diego. — então ela pegou seu celular no bolso e fez uma ligação. com aquele peso todo, caminhou até as poltronas mais próximas e sentou. Ela seguiu a grávida enquanto conversava com o sobrinho médico. Ele era cirurgião geral — Diego, você acredita que ela nem tocou na ? — fez uma cara de indignação impagável. Ela estava amando aquilo. — então eu posso procurar outro médico mesmo, certo? — ela aguardou a resposta dele, agradeceu e encerrou a ligação. — seu primo achou um absurdo. Ele disse para procurar uma enfermeira que ela deve agilizar com outro médico, já que já passaram sua ficha. — assentiu.
Deus, por que seu maravilhoso obstetra Cláudio não estava ali? Não maravilhoso de beleza, mas de caráter e índole. Cuidava dela com um carinho, cuidado e carisma imenso.
? — alguém tocou seu ombro. Virou o rosto apenas para ver quem era.
Deus, você era tão maravilhoso quanto o doutor Cláudio.
— Doutor Cláudio! — e Marisa o cumprimentaram, mas a mais velha praticamente berrou. Seu desespero era notável aos olhos de qualquer um. olhava para aquilo e se sentia realmente muito sem noção, por não estar despirocando como a mãe e o parceiro. Era algo natural, ué. Algo biológico. Da força da natureza, não da intervenção humana. Se o bebê ainda não havia nascido, era porque não estava na sua hora.
— Olá, Marisa. — ele a apertou no ombro e lhe abraçou de lado. — , vi suas ligações e estava no trânsito, por isso não pude atender... Aconteceu algo?
— Acontece que nosso bebêzinho ainda não deu o ar de sua graça. — ela olhou para a sua barriga e a tocou com as pontas dos dedos. Aquilo lhe transmitia uma calmaria fora do normal. — como já se passaram três dias, Marisa achou melhor ver o quê está acontecendo. — ergueu o olhar para ele.
— Mas a médica que nos atendeu disse que não havia necessidade de exames e mandou voltarmos para casa. — Marisa completou e viu em seus olhos que ela se controlava para não falar mais que o necessário, defamando a outra profissional. — eu não me conformei com isso e estava indo procurar outro para atendê-la e...
— E aí você chegou! — a interrompeu. Por tudo que havia de mais sagrado naquele mundo, ele precisava atender . Ela confiava nele, apenas nele. Não foi a toa que parou em suas mãos. Assim que chegou em Belo Horizonte, a primeira coisa que procurou foi profissionais que eram a favor do parto humanizado.
Mas assim como todo médico, doutor Cláudio sabia os limites. Coisa que ainda se negava a aceitar.
Ele estava de olhos levemente arregalados. Ela realmente era a única ali que não estava a mil com a situação. Talvez porque sabia que aquilo provavelmente terminaria como uma cesariana, e definitivamente, ela não passou a gravidez inteira planejando com um parto natual a toa. Logo no começo de suas pesquisas, ainda em Bergerac, ela descobriu uma maravilha chamada “parto humanizado” e não largou mais. Virou sua obsessão. E a “violência no parto” virou algo que ela evitaria a todos os custos.
— Sim, claro! Vamos até meu consultório! — ele a ajudou levantar e Marisa lhe deu a mão. Caminharam juntas seguindo-o até sua sala.
Ele fez as mesmas perguntas que a outra médica já havia feito, mas com uma grande diferença; no final, ele pegou seu barômetro e seu estetoscópio e examinou a paciente. Ainda faltava o bebê.
Ele constatou que tanto a pressão quantos os batimentos da mãe estavam um pouco alterados. Palmas para o seu médico. Com isso, lhe passou um pedido de ultrassom urgente para checar os níveis do bebê, providenciou uma cadeira de rodas para que ela não precisasse ficar andando para lá e pra cá sempre e ainda a levou até a porta da sala do exame.
A médica responsável pela ultrassonografia lhe garantiu que tudo estava bem com seu bebê, mas naquela altura do campeonato ela já não confiava em qualquer um. Esperou a conclusão de Cláudio, que apenas confirmou o que foi dito anteriormente.
Mas tinha um porém.
, infelizmente não posso deixar que você volte para casa hoje. Sua pressão está alta, portanto precisarei manter um olho em você. — ela suspirou. O olhar de Cláudio estava carregado de dó. — precisamos checar o nível de fluido aminiótico constantemente também, pois se abaixar, será necessário a intervenção para uma cesariana.
Ai, merda.
Não, não, não! Era tudo que ela não queria. Queria sentir a dor de cada contração, queria passar pela experiência completa e ter seu bebêzinho da maneira menos intrusiva o possível. Passou nove meses planejando para saísse conforme suas vontades...
Mas ela também não podia colocá-lo em risco. Ou ela. Não por um luxo seu, que inicialmente seria melhor para os dois.
Ela assentiu e ele deu entrada na sua internação. Enquanto Marisa ficou preenchendo aquelas fichas e cuidando das burocracias, ligou para . Pelo horário, ele deveria ter acabado a última aula há dez minutos. Ela se sentou e deixou suas mãos brincarem com seu filho através da barriga. Mal podia esperar para ver seu rostinho, descobrir seu sexo e, finalmente, dar-lhe um nome.

3 de julho de 2014, Hospital da Mulher e Maternidade Santa Fé, Belo Horizonte, Brasil.


Três leves batidas na porta da suíte. se levantou e foi até lá atender. Voltou com uma médica em seu enlaço.
— Bom dia! — ela sorriu para a paciente e correspondeu após respondê-la. — como vai a nossa gravidinha favorita? Aliás, gravidona. Olha só, que barrigão mais lindo!
É... era a mascote da equipe. Segundo elas, a garota mais nova que apareceu ali com uma gravidez desejada. A doutora Lucianna já havia feito o parto de várias meninas de quatorze anos, mais ou menos. Mas todas engravidaram acidentalmente.
— Vou bem... — sorriu. — acho. — deu a língua e ergueu os ombros. riu. — quero meu bebê.
— Pode apostar que todos nós queremos. — a médica sorriu. Lucianna era a médica que cuidava de na internação, a simpatia em pessoa. já havia lhe pedido descaradamente para fazer seu parto, ao invés de Cláudio. Pensou que talvez ficasse mais confortável com a presença de uma mulher do quê com a de um homem. Na verdade, o planejamento era ter apenas consigo no momento do parto. — e é sobre isso mesmo que eu vim para nós conversármos. — consertou sua postura. Algo no tom de voz da doutora a incomodava. — sobre o resultado dos exames de hoje. — ela sorriu.
— Lá vem bomba. — murmurou, fechou os olhos com força e suspirou. Fosse o que Deus quisesse.
— A quantidade de fluído aminiótico do bebê diminuiu consideravelmente de ontem para hoje. — Delavoux sentiu sua garganta fechar. Olhou no fundo dos olhos de Lucianna e não encontrou a esperança que buscava — estamos próximos do limite e amanhã você completará 41 semanas.
— E isso significa que... — incentivou. Lucianna respirou fundo e soltou a bomba que definitivamente não queria ouvir.
— Precisaremos induzir o parto ou fazer uma cesariana.
...
...
...
tomou as mãos da parceira para si e as apertou. Depois deu um beijo em sua testa em seguinte em suas mãos entrelaçadas.
— Posso esperar ainda hoje e amanhã repetiremos o exame. Se os níveis reduzirem ainda mais, não haverá outra opção. — a futura mamãe engoliu seco e olhou mais uma vez para a médica. — sinto muito, . Mas é para o bem de vocês dois. — a garota assentiu. — agora, preciso ver minhas outras mamães. Voltarei depois, sim? Se precisar, sabem onde me encontrar. — ela sorriu e se foi. E ficou ali, olhando para a porta fechada e com mil pensamentos na cabeça.
Mas ela não aceitaria aquilo quieta. Não ficaria de braços cruzados vendo seu corpo ser submetido a uma cesariana, sabendo que poderia ter lutado, que poderia ter ido contra aquilo e ter feito sua vontade prevalecer.
Não mesmo.
Soltou a mão de e ele entendeu a deixa; voltou para a sua cadeira, pegou um livro do Stephen Hawking e continuou a sua leitura. Já ela pegou seu iPhone, abriu a internet e digitou: “formas naturais de induzir o parto”.
— Arruma um Abacaxi para mim? — ela disse do nada e ele soltou uma risada linda, daquelas que faziam as pernas da moça bambearem. Sorte que ela estava deitada sob a maca, tomando soro na veia e sendo monitorada vinte e quatro horas por dia.
— Para quê você quer um abacaxi? — ele perguntou e se levantou da poltrona. Suas costelas estalaram. Ele voltou até a maca que ela estava -muito espaçosa, por sinal- e se acomodou ao seu lado. Ela não pensou duas vezes para deitar sua cabeça em seu peito e lhe mostrar a tela do celular. — maneiras naturais de induzir o parto? — ele riu. — não seria você se não recorresse ao google. — ele pôs seu livro em seu colo e afagou os cabelos finos da namorada. — você vai mesmo me fazer ir atrás de um abacaxi?
— É... — ela deu de ombros. — não estou com desejo.
— Graças a Deus. — ele suspirou. riu e lhe deu um soquinho no peito. — quantas vezes mesmo você me tirou da cama na madrugada? Umas vinte?
— Para! — gritou e deu outro soquinho. Ele segurou seus pulsos e a puxou para si. — foram menos.
— Dezenove? — ele riu. — mas aposto que o google tem outra opção para nós.
— Certo... — ela pescou seu celular na maca. Estava entre suas pernas. — alimentos picantes... não. Alcaçuz... não. O que é isso, na verdade? — se virou e olhou para ele, que deu de ombros. — não importa. O nome não atraiu. — ele riu — que tal... melhor não. — deslizou a tela rapidamente. Pelo o quê ela muito conhecia , ele adoraria aquela. Ela não.
— Não o quê? — ele perguntou. Já era tarde demais quando ela notou a mão dele passando rente ao seu rosto e pegando o celular. Não conseguiu esquivar.
— Hey! — gritou e se virou novamente para tentar resgatá-lo. estendeu a mão para longe do seu alcance e começou a ler.
— Fique de quatro por dez minutos, várias vezes ao dias, para ajudar a cabeça do bebê a pressionar o colo do útero. — ele fungou. — gostei dessa. É uma posição formidável.
— Estou grávida e gorda. Não é nada atraente.
— Você é linda e gostosa de qualquer jeito. Empina essa bunda pra mim, vai? — ele passou o nariz por trás do ouvido dela e ela se encolheu naquela direção. Sentiu cada poro do seu corpo ficar eriçado.
— Não. Próxima dica. — ele soltou um muxoxo e voltou a recostar-se na maca. aninhou em seu peitoral.
— Caminhar entre quinze ou vinte minutos.
— Estou com preguiça de sair daqui. — resmungou.
— Mas você também, hein! Não colabora — ele repreendeu em um tom amistoso. Ela só sabia rir. — puta merda.
— O quê? — se afastou dele e já se virou para olhá-lo.
— Eu gostei muito dessa daqui. — ele sacudiu o celular e mordeu os lábios. Ali tinha. Ela mordeu os seus antes de perguntar o quê era. — faça sexo! — ele leu com a voz diferente e arregalou os olhos — “a relação sexual libera as prostaglandinas, as quais são sinais químicos parecidos com hormônios e podem induzir o parto. Além do mais, o esperma, quando entra em contato com a vagina, ajuda a dilatar o colo do útero.” Muito interessante. — ele a encarou. Seus olhos lhe pediam uma resposta em silêncio.
— Você não está sugerindo que façamos sexo aqui, está? — ela arqueou a sobrancelha.
— Claro que estou. — sorriu. Seus dentes brancos atraíram o olhar da moça e ele quase a convenceu com aquele sorriso.
! — repreendeu.
! — ele falou no mesmo tom de voz que ela, brincando.
— Por que isso? — voltou a se apoiar em no peitoral dele.
— Por que não? — ele devolveu. Ela quis rir de nervoso.
O seu lado insano estava tentadíssimo com aquela proposta. Seu lado são estava analisando o ambiente. Mordeu o lábio.
— As chances de alguém abrir aquela porta são enormes. E eu não quero transar numa maca. É nojento. — tentou soar o mais convincente possível. Mordeu a língua e fechou os olhos. Só faltou cruzar os dedos e rezar que ele não percebesse que eram desculpas esfarrapadas.
Mas ele só beijou sua bochecha.
E a tensão que estava em seus ombros foi toda embora.
Olhou para ele, desconfiada.
— Fala sério. Eu não te pressionaria nunca. Às vezes você me surpreende, Delavoux. — ele falou sério.
Ai, merda. Ele tinha percebido a dúvida em seus olhos.
Ele a conhecia melhor do quê ela mesma.
— Não duvidei de você. — deu de ombros e desviou o olhar.
— Eu sei que não. — ele se levantou e desceu da maca. afastou e ficou sentada nela com as pernas pra fora, o observando de costas. Ele caminhou até a janela do quarto e se apoiou ali por um breve tempo, até sua voz macia voltar a preencher o ambiente. — mas sei outra maneira de fazê-la liberar prostaglandinas. — ele se afastou e caminhou até ela novamente, determinado. arrepiou todinha. Logo, ele estava entre suas pernas. Ela arfou quando seu corpo se inclinou de encontro ao dela, só então percebeu que já estava morrendo de tesão, mais uma vez. Entrelaçou suas pernas na cintura dele e o puxou para o mais próximo possível. Ergueu a cabeça e se viu presa aos seus olhos . A olhavam com uma intensidade intimidante, fazendo cada célula do seu corpo tremer.
Seus lábios tocaram os dela e tudo que ela fez, foi beijá-lo com força.
Com vontade.
Como se nunca tivesse beijado-o antes.
Como se provasse o doce sabor de sua boca pela primeira vez.
Como se ansiasse aquilo há décadas e, finalmente, havia conseguido.
É... ele realmente sabia uma maneira de fazê-la liberar prostaglandina. Seja lá o quê aquilo fosse, estava dando certo.


x Tampão mucoso é um corrimento espesso liberado até 2 semanas antes do nascimento.
x Contrações de Braxton Hicks são as “falsas” contrações, também conhecidas por “contrações de treinamento”


Deux


3 de julho de 2014, Hospital da Mulher e Maternidade Santa Fé, Belo Horizonte, Brasil.


Ele foi se aproximando cada vez mais, enquanto ela recuava aos poucos. Suas mãos estavam espalmadas sob a cama e recuavam junto consigo. Parou quando elas encontraram o limite da cama. Uma escorregou e ela quase caiu, mas a segurou.
— O-o quê você vai fazer? — sua voz vacilou.
— Já ouviu aquele ditado: “relaxa e goza”? — assentiu. Ele sorriu e se afastou completamente. Ela aproveitou para ficar na posição correta de acordo com a maca, pois já tinha se aventurado demais, ainda por cima, tinha um acesso ligado à sua veia, por onde recebia soro para manter a hidratação. — então cuida da parte de ficar relaxada, meu amor. — ele voltou e lhe beijou na cabeça. Era um sinal de que tudo ficaria bem. Voltou a deixar seu corpo mais livre, menos rígido. notou e sorriu. — porque enquanto você relaxa, eu faço você gozar. — ele murmurou em sua orelha, seus lábios raspavam na contra sua pele. Ela quis morrer com aquele atrito, era como se correntes elétricas leves percorressem todo o seu corpo a partir dali.
voltou a subir na maca, mas estava aos pés. Ele se sentou de pernas cruzadas de frente para ela. Como se cuidasse de uma criatura extremamente frágil, cada mão sua se dedicou a um pé de . Seguraram pelos calcanhares e os afastaram um do outro, deixando-lhe com as pernas abertas. Levou um dos seus pés até o rosto e deu um selinho. Ela não sabia o quê fazer, só sentir. E ela era pura sensação.
— Já ouviu falar em massagem tântrica? — ele ergueu o olhar para . Suas globes tinham o poder de penetrar sua alma e a deixar ainda mais apaixonada por ele.
— Esqueceu quem te contou sobre ela, ? — sorriu de lado. Ele negou com a cabeça.
— Jamais me esquecerei do dia em que me apresentou à Negligee, meu amor. — ele passou a encarar seu corpo. Mesmo se achando o cúmulo da obesidade, ele não mudou seu olhar para ela, carregado de paixão.
Mas já havia aprendido que o quê realmente importava era a beleza interior, pois a exterior estava sujeita à constantes mudanças, alterações. Já a essência da pessoa era algo único, puro e imutável.
Ela havia se sucedido extremamente bem na tarefa de viciar na literatura erótica. Chegaram ao ponto de brigar por um exemplar de “Lick” da Kylie Scott. E brigaram também por causa do Sven Delvak, da Julianna Costa.
Puta merda, o cara era a tesão em pessoa. Ou melhor, o personagem era. E aquele pensamento de Delavoux disseminou uma discórdia entre os dois. morria de ciúmes e ela ficava contente por não ser a única a ter aquele sentimento, por mais que o seu fosse mais anormal.
— E agora — ele voltou a falar, chamando a atenção de , visto que ela havia parado em um universo paralelo — eu vou fazer um bom uso dos livros que você me fez ler.
Suas mãos inicialmente tocaram em nas panturrilhas. Ele as apertou com firmeza, em um silencioso pedido para que relaxasse. Ainda não estava completamente certa sobre aquilo.
Seus dedos subiram pelas pernas de com precisão e apertavam os lugares certos na força certa. Por vezes tentou juntá-las e apertá-las uma contra a outra, para matar um pouquinho daquele desejo, mas ele impedia. Estava firme e forte.
Suas mãos alcançaram sua virilha e alguns dedos escorregaram para dentro da calcinha, pelas laterais. Ele os deslizou até chegar a barra, para depois puxar o pedaço de pano.
Aí foi como se alguma alavanca houvesse sido acionada. Ela travou.
Ele não tinha suas mãos para segurar as pernas e impedir que elas se fechassem. Então as uniu e ele ficou com os braços presos entre seu aperto.
Fechou os olhos, inclinou a cabeça para trás e suspirou.
— O quê foi, amor? — ele se levantou. Ela sentiu a presença de seu corpo sob o dela e abriu os olhos. Ele a beijou na testa.
— Estamos em um hospital! — resmungou. — e não temos óleo. — ela riu. — como você espera massagear minha yoni? — soltou um suspiro sôprego. riu e se deitou ao lado dela.
— Então acho que só lhe resta a caminhada. — ele a puxou pela cintura com cuidado, até que ela ficasse confortável junta ao seu corpo. — já tentamos todas as formas, meu amor. Se a senhora insaciável não quis sexo…
— Obrigada pela compreensão. — ela o interrompeu. Como o próprio havia dito, não era algo tão normal. Aliás, não havia tido um bloqueio para sexo até então.
— Não é mais do que minha obrigação. — ele passou o nariz pela bochecha dela e depois deu um beijo no local.
Eles escutaram a porta do quarto abrir e olhou para ele com sarcasmo, pensando “eu te avisei”. Lucianna voltou a entrar no quarto e pôs ambas as mãos na cintura ao vê-los juntos na maca. Fez um bico e entrou na brincadeira, franzindo a testa pra fingir uma repreensão.
— Xispa daí. — ela olhou para . Ele não hesitou para levantar-se e ficar de pé ao lado de , que ria. — é assim que você quer que o bebê venha ao mundo de uma forma natural? — ela passou a encarar , que engoliu seco e prestou ainda mais atenção às falas dela. — levanta essa poupança daí agora e vamos caminhar. Vou te levar para conhecer o berçário, que tal?

4 de julho de 2014, Hospital da Mulher e Maternidade Santa Fé, Belo Horizonte, Brasil.


despertou em sua plenitude às oito e meia da manhã com uma pressão infernal em sua bacia. Ela suava frio.
Era como se estivesse revivendo o aborto.
Ela entrou em pânico ao imaginar a situação e começou a ofegar, enquanto tentava alcançar o controle da maca. Assim que o alcançou, ela mordeu os lábios para reprimir um grito de dor e a acionou para que ficasse sentada. Ela ergueu o braço e apertou a campainha da enfermaria assim que a alcançou.
Ia nascer.
Só podia ser.
Dois toques fracos na porta foram ouvidos antes de ela ser aberta por uma enfermeira. Ela deu um sorrisinho para , que mal conseguiu corresponder, devido à dor e caminhou até ela.
— Bom dia, querida. O quê foi?
Ela resmungou e mordeu o canto da boca antes de responder.
— Acho que está na hora.
acordou com os movimentos no quarto e se espreguiçou no sofá-cama ao lado antes mesmo de abrir os olhos.
— O que você sente?
— Cólicas.
A profissional mordeu os lábios.
— Bem, acho melhor você ficar no chuveiro quentinho por uns vinte minutos, que tal? Se quando você sair as dores tiverem passado, sinal de que foi apenas um alarme falso.
Ela assentiu.
Tudo de forma natural. Do jeito que ela queria.
olhou para , ele já estava sentado na cama, apenas aguardando sua convocação. Bastou apenas que ela espremesse os olhos, refletindo sua dor, para que ele se levantasse e a ajudasse a sair da maca. A enfermeira foi na frente preparar o banho, enchendo a banheira d'água. Enquanto se despia, ela saiu.
— Daqui a meia hora volto para checar você.
O casal apenas assentiu e ajudou a namorada acomodar-se na banheira. Ele ficou o tempo todo ao lado dela, sentado na tampa da privada, segurando sua mão, praticamente dormindo apoiado à parede.
Nenhum dos dois notou quando ele adormeceu. Voltou a despertar apenas com as novas batidas na porta do quarto, a enfermeira obstetra estava de volta.
— E então, como se sente?
suspirou.
— Relaxada, porém ainda sinto dores.
Ela assentiu. leu o nome “Brenda” bordado em seu jaleco.
— E agora, Brenda? — ele se levantou e foi ajudar a sair da banheira, mas na mesma hora ela se curvou e gritou.
se desesperou e agarrou a mulher pela cintura, enquanto ela fazia caras e bocas, descontando sua dor, mas logo ela passou.
se ergueu, arfando, e enrolou-se na toalha.
— E agora vocês podem oficialmente se prepararem para receberem o novo membro da família. — ela sorriu para o futuro pai e o ajudou a vestir em um vestido solto, numa fração de tempo exata para que a próxima contração voltasse.
— Ah, meu Deus, eu não dou conta. — ela se sentou no vaso e retorceu de dor. ajoelhou-se na frente dela e entrelaçou suas mãos.
Mal ele imaginava que ia descontar toda sua dor ali.
Ela começou a apertá-las na mesma hora. respirou fundo e manteve-se firme e forte, apenas assistindo sua mão ficar vermelha. Aquilo provavelmente não era nada comparado ao que sentia.

XX


A enfermeira fez o primeiro toque assim que as dores deram uma trégua, estava com quatro centímetros de dilatação. Elas disseram para que ela descansasse entre contrações, pois daria muito de si. A cada uma hora, a enfermeira obstetra verificava os batimentos cardíacos do bebê, para garantir que estivesse sempre ok.
Às dez da manhã, voltou para o chuveiro com a doula que haviam contratado, ela fez massagem nas costas da garota enquanto ela estava apoiada na parede. Dali, saíram da água e foram para o quatro de delivery, onde haviam instrumentos que as mamães poderiam fazer exercícios para ajudar no parto natural. Ela passou em todos eles, e a cada momento, as dores pioravam.
E assim se foi a parte da manhã. Doula e se alternavam para massageá-la, levá-la para a banheira quente, oferecer-lhe o café da manhã que ela mal tocava… Praticamente não tinha trégua com as dores, e quando tinha, só pensava em ficar quietinha e descansando para a próxima. Enquanto a doula cuidava de , , fazia uma ligação e outra. Marisa, Louis, Jennifer, Tia Giane, Tio Felipe, Miguel, , Patrícia... Era tanta gente pra avisar, que ele ficou com medo de esquecer alguém.
Ao meio-dia, a obstetra fez mais um toque e avisou para que Lucianna já estava à caminho da maternidade. Ela estava com sete centímetros de dilatação. Brenda disse que já estava chegando a hora.
Era uma e meia quando Lucianna chegou e levou para o chuveiro mais uma vez.
Eram três horas quando a bolsa rompeu. estava deitada em um milagroso momento de sossego, mas logo que o líquido amniótico se espalhou pela cama, as dores voltaram na mesma hora e ficaram ainda mais intensas.
Às cinco, ela já não aguentava mais o cansaço. Havia dado tudo de si, ou tudo que ela acreditava que tinha. Havia escutado os conselhos de sua mãe sobre mergulhar na dor e pensar que ela era forte, que daria conta, mas chegou ao ponto que ela já não acreditava naquilo mais. Estava completamente suada, derrubada e maltrapilha. Duvidava que pararia de pé. Só não pagou pra ver, pois tinha medo de definitivamente não conseguir parir.
— Você quer algum remedinho, ? — Brenda se ajoelhou em frente à garota e segurou os joelhos dela. agarrou as mãos da enfermeira e grunhiu:
— Não.
Claro que não. Ela queria um parto humanizado. Já estava nove horas em trabalho de parto, se aguentou até ali, aguentava até o fim.
acenou para Brenda, pedindo que ela se afastasse. Ele assumiu a posição dela e acariciou , que agarrou seus braços, mas ele não parou com os toques.
Já eram quase seis e ela ainda estava lá, tentando parir, sofrendo. Desidratada, exausta, cansada.
— Sabe de uma coisa, Delavoux? — ela ergueu a cabeça e o olhou, arfando, durante mais uma pausa das dores. — se eu pudesse, dividia essa dor com você. Mas como ainda não somos evoluídos a tal ponto, eu precisarei me manter nos bastidores. Mas sabe o que é o mais importante? — ela não falou nada, apenas ficou esperando que o próprio prosseguir. — eu nunca vou conseguir ser grato o suficiente por isso que você está fazendo por nós dois.
Aquilo foi como uma injeção de ânimo.
Ela sorriu e chamou Fernanda.
aceitou tomar o remédio que estimulava as contrações e foi para o chuveiro de novo, na companhia da doula, Mirtes.
Quando ficaram à sós no banheiro, ela se manifestou.
— Você não acha que já estamos em uma boa hora para irmos para a sala de parto?
suspirou. Ela não poderia estar mais certa. Já havia tomado até hormônio para agilizar aquilo de uma vez, agora teria que fazer sua parte também. Já estava dez centímetros dilatada.
Eles a levaram para a sala de parto, acompanhada de , que finalmente teve tempo para um breve telefonema à sua tia, dando notícias aos amigos e familiares que esperavam na entrada do hospital, sequer sabiam quantos e quem eram.
Lucianna já a aguardava, e sorriu ao vê-la ali. Teve uma empatia inexplicável com a médica, e gostou ainda mais quando percebeu que ela também a auxiliaria no parto, já que normalmente apenas enfermeiras já eram o suficiente para os naturais.
— Não podia perder essa. — ela murmurou para , que agarrou à sua mão. Ela já não sabia mais em quê agarrar-se.
Sentada na cadeira de parto, Fernanda deu o veredicto final para a futura mamãe. O bebê já havia coroado.
ficou atrás de e segurou em suas duas mãos, enquanto Mirtes estava ao lado, conversando com ela, para deixá-la mais tranquila.
— Agora é uma boa hora para começar a empurrar. — Lucianna se aproximou do outro lado e passou as mãos pelo ombro de .
Ela obedeceu.
De alguma forma, após todo aquele cansaço, toda aquela luta, tirou forças do além e conseguiu.
— Está apontando. Continue firme, . — a doula falou.
Atrás dela, ficou na ponta dos pés para ver.
— Meu Deus, tem muito cabelo.
riu e fez força novamente.
— Olha só!
— É menino ou menina? — ela estava ofegante. Algumas pessoas na sala riram.
— Por enquanto é só a cabecinha, continue firme! — Lucianna incentivou.
Quando aquilo ia acabar? Ela queria o bebê em seu colo loooooogo.
E aquilo lhe incentivou. urrou e gastou toda a força que tinha em restante.
E relaxou ao ouvir um chorinho preencher o ambiente. Cada célula de seu corpo agradeceu ao ter uma trégua. Ela fechou os olhos.
Nem lembrou de perguntar o sexo. Logo, o serzinho estava em seus braços.
Um fruto dela.
E de .
Lindo.
Ela olhou para o meio das perninhas do bebê. Havia um órgão igual ao de .
— É um menino. — ela ofegou e olhou para cima, em busca do rosto de . Eles sorriram um para o outro.
passou seu dedo indicador pela mãozinha do bebê e ele a agarrou. Sua visão ficou embaçada, tomada pelas lágrimas.
Ele nasceu às dezoito horas e quarenta e sete minutos, medindo cinquenta e dois centímetros e pesando quatro quilos e duzentas e dez gramas.
Seu cordão umbilical foi cortado pelo papai e eles receberam alta na manhã seguinte.

5 de julho de 2014, Casa do e da Delavoux, Belo Horizonte, Brasil.


— Então… — ela respirou fundo e apertou o embrulho em seus braços com carinho, trazendo-o para mais perto de si. Ela se sentia enorme, porém vazia, por não tê-lo mais dentro de si, entanto ainda estava inchada e com seus belos quilos que ganhou na gravidez. — eu finalmente vou poder conhecer o quartinho?
sorriu e se virou de lado com a boca entreaberta, segurando chave no trinco da porta do quarto de seu filho e observou cada pessoa ali presente, deixando por último e sorriu para a namorada.
— Você e todos nós. — Marisa apoiou-se nos ombros da filha e olhou para o genro. — , você já nos deixou curiosos por tempo demais.
Houveram alguns que assentiram, outros murmúrios aqui e ali, todos concordando.
— Bem, exceto eu… — Jennifer comentou como quem não queria nada e levantou as mãos.
— Jen… — e resmungaram juntos. — o que eu te disse sobre esse ser o nosso segredo?
bufou e tomou a frente, tirando a mão do namorado da chave e, finalmente, abrindo o quartinho do bebê.
Quarto aquele que anteriormente era vazio e trancado naquela casa e que foi fechado há cinco meses, desde quando o papai resolveu contratar uma designer de interiores para montar um quartinho neutro e que aquilo fosse uma novidade a todos, a ser revelado apenas quando seu dono chegasse. Inclusive para .
Ele escondeu a chave por cinco malditos meses.
Mas que teve certeza que valeu a pena esperar assim que seus olhos caíram sobre o resultado.
De queixo caído e observando cada detalhezinho, ela entrou, seguida pelos seus pais, Jennifer e os tios de , todos tão encantados com o quarto quanto ela.
foi o último e caminhou até , passando sua mão ao redor de sua cintura.
— Gostou?
Ela apenas assentiu, ainda com a boca aberta.
O quarto era ornamentado em tons brancos e cinzas. As paredes tinham listras horizontais grossas alternando entre as duas cores. De baixo da janela, uma cama de solteiro. Nas laterais, um berço de um lado e o trocador do outro, junto com uma poltrona que parecia tão macia quanto uma nuvem. caminhou até ela e se sentou com o bebê.
— Um quarto lindo para o bebê mais lindo do mundo, — ela ergueu o olhar até , que sentou-se no braço da poltrona. — não é, meu amor? — baixou o olhar para o bebê e acariciou seu rostinho. Ele remexeu em seu colo e coçou os olhinhos fechados com a mão, fazendo o coração da mãe derreter.
— Um bebê lindo merece um nome lindo. — Giane sorriu e Felipe a puxou para um abraço. Eles eram tão próximos como pais para e Jennifer como a irmã que ele nunca teve.
abriu a boca para falar mas transformou aquilo em um sorriso, correspondendo ao do filho. quem respondeu.
— Sobre isso… — ele mordeu o lábio e todos ficaram em silêncio, aguardando para que ele completasse sua fala.
— Vocês ainda não decidiram. — foi Louis quem notou, estalando a língua. riu.
— A gente queria ver o rostinho dele antes!
— Vocês já viram. Estamos curiosos! — o avô retrucou e se aproximou para pegá-lo no colo. relutou em deixá-lo ir, mas cedeu. Ele sempre voltava para seu colo.
— Não têm nenhuma opção? — Marisa falou, caminhando com o marido até a cama de solteiro e sentando-se com o bebê. indicou para que seus tios fizessem o mesmo e arredou para o canto da poltrona, chamou Jennifer e dividiu o espaço com ela.
— Estamos abertos à sugestões. — falou, debruçando-se sobre as duas garotas e as abraçou.
— Voto em Miguel. — Louis falou, sorrindo para o bebê.
— Mas Miguel é o nome do meu namorado. — Jennifer falou.
— E padrinho do bebê. — arqueou as sobrancelhas e estreitou os lábios.
— Mas o nome é lindo… — cruzou os braços.
Ótimo.
Um perfeito começo.
— Bernardo? — Giane ergueu uma sobrancelha para o casal.
— É um bom nome… — assentiu e deu um toque no ombro de .
— Não acho que combine com ele. — ela deu de ombros.
Todos ficaram em silêncio.
— Talvez devam decidir isso a sós. — Felipe opinou após ver o climão.
— Não! — gritou e o bebê deu um pinote no colo do seu pai, chorando logo em seguida. Ela tampou o rosto com uma mão. Ah, claro, ainda precisava se adaptar em conversar baixinho, coisa que ela não tinha nenhum costume. — a opinião de vocês é importante pra nós. — ela segurou o joelho de , que assentiu, enquanto o avô acalmava o bebê balançando-o levemente. Marisa lhe deu a chupeta e ele começou a ficar mais calminho.
Ela estava tão cansada.
Tão exausta…
Só precisava dormir por vinte quarto horas seguidas e estaria novinha em folha.
Se sentia péssima por não ter sequer aguentado ficar de pé para ajudar com o bebê quando ele chorou.
Estava começando a vida de mãe muito bem, obrigada.
Suspirou e encostou a cabeça em . Ela estava ansiosa demais para decidirem o nome dele, não ia relaxar e dormir em paz enquanto não o fizessem. O homem fez massagem nos ombros dela, que ajudou para aliviar um pouco.
— Ok… Nada de Miguel, nem Bernardo.
— Falando em Miguel, ele está demorando para chegar. — Jennifer resmungou, só ouviu e apertou sua mão.
— Deve ser o trânsito. A cidade está um caos na copa. — murmurou para a amiga, que assentiu.
— Que tal Theo? — Giane voltou a perguntar, com um sorriso no rosto.
— Que nome mais lindo! — se exaltou e todos atravessaram olhares para ela.
Ah, claro.
Conversar baixinho.
Ela ia conseguir.
— Vamos ficar com Theo, ? — ela falou mais baixo e ergueu o olhar para o namorado, sorrindo.
— A-ah, assim? Logo de cara? Digo… Sem considerar nenhuma outra opção?
O sorriso de morreu.
— Meu amor, não estou descartando a opção… Só acho que devemos pensar melhor.
— Ok. — ela suspirou. — mais algum?
— Você não tem nenhum? — Jennifer perguntou à amiga, devolvendo o aperto em sua mão.
— Bem, eu considerei vários durante a gravidez… — deu de ombros.
— Conte-nos. — Marisa pediu, tomando o neto do marido e ficando com ele em seu colo. Era muito fofinho e tentador, não dava vontade de largar nunca, às vezes discutiam para ficar com ele.
Todos.
Pais, avós, tios, padrinhos. Todo mundo queria carregar o bebê.
— Vocês sabem que eu nunca fui muito apegada com nomes “nacionais”, né? — ela fez aspas com os dedos e alguns assentiram. — considerei Henry.
— É lindo, mas não acha um pouco infantil? — Jennifer falou. — digo, eu não consigo imaginar um adulto que se chame Henry.
— Queridíssima, caso você tenha se esquecido, existe um ator muito gostoso lá na Inglaterra que se chama Henry Cavill… sim?
Jennifer abriu a boca e riu.
— Hey! — reclamou.
— Você é mais gostoso, meu amor. — ergueu a cabeça e sorriu, dando um beijo em sua testa. — e o quê acha de Henry?
— É um nome lindo, mas eu ainda concordo com Jennifer. — ele mordeu os lábios e assentiu.
— Também gosto de James, Oliver, Charles…
— Charles parece tão século passado, . — Jennifer riu.
— Pior que é. — concordou, rindo. — mas o meu preferido mesmo, é Noah.
Todos os murmurinhos e conversas paralelas pararam na hora e foi o primeiro a se manifestar.
— É um nome lindo. — apertou o ombro dela, que finalmente sorriu. Parecia que havia algo se formando ali.
— E olha só, é a carinha dele. — Marisa comentou, enquanto acariciava no neto em seu colo. Giane ao seu lado assentiu e também fez carinho no pequeno.
— E qual é o significado do nome? — Felipe levantou o olhar até , que deu de ombros.
— E-eu não sei. — ela abaixou a cabeça.
— A internet sabe. — Jennifer riu e pegou o celular no bolso, todos aguardaram até que ela tivesse a resposta. Enquanto isso, tocaram no interfone da casa e desceu para atender, devia ser seu amigo, Miguel. — significa conforto, descanso.
— E Theo?
Ela voltou a pesquisar no smartphone.
— Abreviação de Theodoro, derivado de theos, grego, que significa Deus.
entortou o rosto e chegou com o amigo, que cumprimentou todos e entregou um presente para a nova mãe.
— Me desculpem por não poder ter ido ao hospital ontem. — ele demonstrou frustração e segurou em seu braço.
— Isso não te faz um mau padrinho, se é isso que você está imaginando.
Eles riram.
— Obrigado, . Agora… — ele se virou e caminhou até os pais da garota, que estavam com o bebê. — eu quero conhecer meu afilhado.
Marisa se levantou e entregou o bebê todo enroladinho para Miguel, que estava um pouco trêmulo e desajeitado.
Ele abriu os olhinhos após a movimentação diferente e sacudiu os membrinhos.
— Ah, oi, bebê.
Ele sorriu para o garotinho. se levantou e indicou para que Miguel sentasse em seu lugar, ao lado da namorada, que também era a madrinha.
— Chame-o de Noah. — piscou com um olho para a namorada e a puxou pela cintura.
sorriu e beijou o queixo do namorado, deixando a barba pinicar sua pele. Ah, como ela amava aquela barba.
— Noah Delavoux? — ela murmurou para o parceiro, encarando-o em seus olhos . Ele sorriu e assentiu,
— Noah Delavoux. — deu um beijo na testa de .


Trois


Parte I


21 de julho de 2014, Casa dos , Belo Horizonte, Brasil.


… acorda, amor.
— Só mais cinco minutinhos… — ela resmungou e virou a cara pro outro lado.
, sem saber o quê fazer, levantou e voltou até as meninas que aguardavam na porta.
— Vamos deixar ela dormir mais um pouco… está muito exausta. — falou após fechar a porta de seu quarto.
— Ai, mas você é muito empata-foda mesmo, viu? — Jennifer passou direto por ele e abriu a porta, , Patrícia e Andressa foram atrás, carregando um bolo.
— Parabéns pra você… — elas cantaram em sintonia e a aniversariante deu um pulo na cama, encarando-as preguiçosamente.
— Parem! — resmungou baixinho, ninguém ouviu.
— Nesta data querida… — acabou se juntando às meninas, e apenas ele tinha noção do quanto aquele barulho era um inferno para ela, mas parecia não se lembrar.
— Vocês vão… — continuou falando, mas ninguém ouviu.
— Muitas felicidades…
Um choro começou lá de longe e a cada milésimo tomava proporções maiores e estridentes.
— Acordar o bebê. — ela suspirou e coçou o rosto.
— Muitos anos de vida! — terminaram sorrindo e a encarando, esperando alguma reação. Naqueles breves segundos, o choro se cessou, mas ela ainda não os encarava.
— Feliz aniversário, amiga! — pulou na cama do casal e abraçou .
— Anh, obrigada. — ela retribuiu o abraço e fitou . Como ele deixou aquilo acontecer? — obrigada a vocês todos, muito lindo acordar com um bolo enorme na minha frente. Meus hormônios amam, vocês não têm noção. — ela sorriu amarelo.
Logo em seguida, o choro voltou, ainda mais alto.
— Pode deixar que eu cuido. — Andressa saiu do quarto com a desculpa perfeita após ver a cara de bosta da aniversariante.
— Mas, sério, de quem foi essa ideia de gerico pra chegar aqui me acordando aos berros? Vocês têm noção de quantas vezes aquela coisa fofa no quarto ao lado chora na madrugada? — o sorriso de todos os três sumiram. — ! Por que você não fez nada?
— Eu tentei, , mas elas…
— Não tentou o suficiente. — bufou. — eu adorei acordar com esse bolo de churros na minha frente, mas vocês bem que podiam me acordar mais tarde, não?
— Ih, ela tá azeda. — Jennifer sussurrou no ouvido de .
— Não estou! Isso é culpa dos meus hormônios idiotas! — ela começou a coçar a cabeça e chorou. — que droga, quando que isso acaba?
— Toma, come um docinho que ajuda. — Jennifer sentou ao seu lado com o bolo, tirou um dos churros e estendeu pra .
— Vem cá, eu não sei trocar fralda cagada. — Andressa voltou ao quarto carregando Noah com os braços esticados.
terminou de comer um churros e esticou os braços para ele.
— Deixa que eu cuido.
Ela se levantou e foi cuidar do filho, no quarto dele. Quando saiu, já não havia mais ninguém no andar de cima. Ela ouviu o barulho de uma conversa distante vir do piso de baixo e desceu as escadas.
logo apareceu em sua frente com as mãos esticadas para Noah e o entregou. Estava morrendo de fome.
— Ah não, é minha vez! — Jennifer reclamou da cozinha quando viu o bebê em outros braços.
— Cagado ninguém quer, né? — a mãe reclamou.

XX


— Eu preciso conversar com você. — inclinou-se em direção à Patrícia, sussurrando.
— Você está precisando de algo? — ela aconchegou-se ainda mais com o bebê no colo.
— Mais ou menos, por quê? — a mãe vincou a testa.
— Porque quando você fala “preciso conversar com você” é sempre pra pedir algo ou pra dar má notícia. Você não tem notícia nenhuma pra me dar. — deu de ombros.
— Ela tem razão. — deu um beijo no topo da cabeça dela e deu a volta no sofá, sentando-se ao lado da namorada.
— Não é verdade!
— É sim. — Marisa concordou, deixando as chaves do carro e a bolsa no aparador, indo para o sofá de frente a eles.
— Mãe! Você tem que me defender. — lamuriou.
— Enfim, o que você quer? — Patrícia riu.
A garota levantou a cabeça e olhou ao redor, todos da sala a encaravam. A humilhação só não era maior porque as piadistas da turma Andressa e Jennifer tinham saído para dar uma volta no shopping com .
— Não vou falar pra vocês todos ouvirem. — ela cruzou o braço, encarando a mãe e o namorado.
deu um beijo na bochecha dela.
— Não vamos te zombar.
— Não é isso. — ela estalou a língua. — só não é algo que envolve vocês. — deu de ombros.
— E o que seria? — ele sorriu, sem vergonha. bufou.
— Eu queria conversar com ela sobre meus estudos, ela é minha colega de classe…
— E como isso não me envolve? Eu sou seu professor!
— Não é mais, bebê. Graças a Deus eu aprovei na segunda tentativa.
— Graças a Deus, a mim e à Andressa. — corrigiu.
— Você o caramba! Se fosse assim, você não teria me dado dp da primeira vez. — ela pegou uma almofada nas suas costas e jogou no homem, ele defendeu com os braços enquanto ria, depois os passou ao redor da garota e a puxou para si.
— Você é adorável. — deu-lhe beijos na testa.
— Para, ! — deu um gritinho. — é sério, será que eu posso? — sua voz assumiu um tom sério e ela indicou para as mãos dele que a seguravam. Ele parou de rir e a soltou.
— Eu decidi que não vou trancar a universidade. — a garota suspirou e disse.
Todos da sala voltaram a encarar a garota.
— Ok. — Marisa deu de ombros e voltou a mexer no celular.
— Ok? — ergueu a sobrancelha. — “ok?” — ela virou-se para , que assentiu. — como assim, nenhum de vocês vai me xingar e falar que é uma má ideia?
— A gente já imaginava que você ia fazer isso — Patrícia confessou e recebeu um olhar ultrajado de .
— Eu já conversei com seus professores do próximo semestre — disse.
— E eu vou trazer as matérias, trabalhos e essas coisas pra você, vamos estudar juntas — Patrícia disse.
— Droga, era exatamente isso que eu ia pedir. — soltou um muxoxo.
— E quando sua licença acabar, eu vou ficar cuidando do meu netinho fofo — Marisa completou e se levantou para pegar o bebê.
— Vocês fizeram isso tudo por mim? Que amores!
Eles sorriram.
A porta da entrada foi aberta e as meninas entraram fazendo a maior algazarra, carregando inúmeras sacolas, acordando o bebê com o barulho.
— Chegamos! — Andressa disse.
— Fizemos comprinhas para o bebê mais lindo do mundo. — Jennifer disse.
— Você deu a chave daqui de casa pra todo mundo? — ergueu a sobrancelha.
— Talvez. — ela deu de ombros, estreitou os olhos — elas tinham uma cópia do apartamento!


Continua...


Nota da autora: Eu sei que ficou pequeno, me perdoem <\3 mas eu precisava dar uma att à vocês, né non? Então me esforcei pra conseguir algo pro All Stars, e tudo que consegui foi metade do capítulo, por isso acabei dividindo-o em duas partes. Espero não demorar com a segunda hehe
Enquanto eu não me resolvo com Vide 2, convido vocês à lerem minha (não tão) nova fic, Best Nanny Ever e participar do grupo do face! Links na caixinha vip!
Beijos e feliz ano novo!






comments powered by Disqus




Qualquer erro nessa fic são apenas meus, portanto para avisos e reclamações somente no e-mail.



TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE FANFIC OBSESSION.