Vinho Tinto

Última atualização: 01/10/2018

Prólogo


O som dos saltos do coturno preto ecoavam pelo corredor inteiramente feito de mármore, enquanto ainda tentava controlar a respiração.
Caminhava com rapidez, nervosa. Assistia seu reflexo na parede branca à espera de ver marcas ou arranhões que pudessem evidenciar o que ocorreu mais cedo naquela noite quente de verão.
Parou em frente à imponente porta de madeira, esperando que esta se escancarasse como mágica, sem a necessidade de seu esforço. Respirou fundo uma última vez e ajeitou seus longos cabelos castanhos ondulados, como de uma encantadora sereia, em uma tentativa falha de desenredá-los.
Estava hesitando em adentrar o cômodo. Não sabia o que esperar.
Giovanni a havia ligado no início daquela semana, marcando uma
reunião para aquele dia. Também fizera suspense, não havia dito à garota do que se tratava.
Olhou para trás, ainda encontrava-se no imenso corredor de mármore com um rastro de sangue atrás de si deixado pelos coturnos.
Reuniu toda sua força e empurrou a porta, entrou na sala enquanto todos os presentes à olhavam caminhar em direção à Don Vincenzo, destemida.
Agachou-se junto ao homem mais velho de cabelos grisalhos, e beijou-lhe a mão.
- O Senhor Don pediu uma reunião para comigo?
- Chegou com meia hora de atraso. Será punida por isso.
- Sim, Senhor Don.
O velho fez um gesto com mão para que levantasse do chão.
- Por favor, deixem-nos à sós - levantou a voz para que todos no local lhe ouvisse claramente. Ela observou as pessoas saírem de cômodo, vagarosamente, com o clack clack dos sapatos sociais sendo escutados em bom som.
A porta rangeu e finalmente se fechou.
Pode respirar aliviada quando ouviu Don Vincenzo falar:
- , minha filha, precisa ser cuidadosa. Temos de manter as aparências, você sabe.
- Sei bem, papà. Desculpe-me.
- Por que a demora, ?
Respirou fundo:
- Dessa vez houve luta. Tomou-me boa parte do tempo.
- O indivíduo foi, de fato, eliminando?
- Sim, Senhor. Apenas ...
- Apenas?
- Temos um problema.
- Que espécie de problema?
- Creio que o descobriram, papà. Tanto a Inteligência Americana, quanto a Britânica estão atrás de você, e será apenas uma questão de tempo para virem atrás de todos nós.
O homem, perplexo, respondeu: - Daremos um jeito. Tenho a solução para acabar com nossos problemas de uma vez por todas.


Capítulo 1


Esfregava freneticamente a pele, deixando-a vermelha como cereja. Esfregava tão forte que podia sentir a ardência que a esponja de banho deixa na pele delicada, e a cada gota de água era como um choque elétrico.
Via o sangue escorrer pelo relo do banheiro, junto à outras impurezas do seu corpo.
Ser a executora dos planos do pai não era nem um pouco fácil. Ela basicamente executava. Literalmente. Fora treinada para matar, e muito bem treinada. Era a melhor e graças à que o Império de seu pai ainda estava sólido no mundo do crime organizado. Mas até quando poderia fazer o que Don Vicenzo mandasse?
Não tinha dificuldades em matar, mas não era algo que queria fazer para o resto da vida. O desgaste físico depois de um assassinato era enorme: hematomas por todos os lados, dores, cortes e cansaço, mas nada se comparava ao desgaste emocional que a mulher sentia. Tirar a vida de alguém não era certo, não importando o quão má ela seja. Era uma decisão que não competia à , apenas à Deus.
Ela não era religiosa ao algo do parecido, mas para equilibrar a balança ia todos os domingos durante a manhã à missa em uma igrejinha espanhola próxima ao seu apartamento. Ouvia o padre dizer em como o mundo atual era corrompido, cheio de pecado e maldade, em como o amor ao próximo era necessário. Depois da missa, sentava-se esperando para se confessar. Contava ao padre como era uma pecadora sem volta, e que Deus nunca a aceitaria no reino dos céus. O padre a consolava, todo o domingo, dizendo-a que de Deus conhece o coração de seus filhos e sempre haverá um lugar para ela junto com o Senhor.
O gentil padre acabou por se tornar seu único amigo. Confiável e acolhedor.
Desligou o chuveiro e pegou a toalha branca à sua espera, finalmente sentindo- se limpa. Secou-se e saiu do banheiro em direção ao quarto, olhando triste para a cama, desejando poder dormir ao menos uns minutos antes de sair novamente.
No restaurante, permitiu-se relaxar um pouco. Precisava admitir que o agente tinha um bom gosto. O Il Tiránno era um dos seus favoritos, sempre indo ao estabelecimento quando precisava de um tempo para si mesma. Era confortável, elegante e a comida era deliciosa.
Entretanto, nesse momento, preferia estar em casa. Ela não conseguia sentir os pés e a dor na perna esquerda a estava matando lentamente. Só queria ir para sua casa e jogar-se na cama. Mas, como na maioria das vezes, o dever a chamava.
Quando começou a trabalhar para o pai, sentia-se excitada para finalmente “vestir-se para matar”, assim como nos filmes. Só não pensou que fosse se tornar tão difícil.
No início, gostava da sensação de poder sobre outrem, gostava de vestir seu vestido curto e sexy, e pôr seu scarpin mais alto. Sair por aí seduzindo homens e dando-os uma lição. Mas agora tudo parecia tão cansativo. Não compensava. Queria ser capaz de livrar-se dessa vida.
E apesar de estar cansada do estilo de vida e com uma dor aguda nas pernas, ela estava lá. Fazendo o que foi requisitado, usando seu provocante vestido vermelho, saltos altos e atitude atrevida. Pronta para brincar de gato e rato.
Sentada na mesa, na parte a céu aberto do restaurante, avistou seu alvo. Veio em sua direção, caminhando confiante e sentou-se na mesa ao lado enquanto a mulher o espiava com um olhar curioso por cima do menu.
era alto e sexy. Tinha os olhos azuis como o oceano e cabelos castanhos levemente ondulados, penteados para trás. Podia escutar seu sotaque britânico, com sua fala baixa e áspera, completamente penetrante enquanto pedia uma garrafa de vinho branco ao cameriere¹.
- Quando me disseram que britânicos só entendiam sobre bebidas quando o assunto era chá, pensei que fosse algum tipo de mito.
levantou de forma lenta seus olhos do menu em direção a garota a quem pertencia a voz atrevida. Estalou a língua no céu da boca, deixando sair um leve “tsc” dos seus lábios.
- E que outros “mitos” também te contaram?
- Que dirigem do lado direito dos automóveis, – deu de ombros – mas também descobri ser verdade.
deixou um sorriso desacreditado dançar em seus lábios finos, estreitando seus olhos em desafio.
- Já que a Senhorita entende tanto de bebidas, deveria fazer o pedido por mim.
- Seria um prazer, no entanto, estou ocupada com meu próprio pedido.
gargalhou.
- Você joga no ar sua opinião sobre o pedido dos outros quando sequer decidiu sobre o seu?
fechou o menu, largando-o sobre a mesa, virando em direção ao homem.
- Veja bem, eu posso não ter escolhido o meu, mas sei reconhecer uma decisão ruim quando vejo uma.
- Então me ilumine com sua sabedoria, oh Dionísio² dos tempos modernos!
levantou-se e dirigiu-se à mesa de , sentando confortavelmente frente a frente ao homem.
Inclinando-se em direção ao homem, emitiu uma voz baixa, para que só ele fosse capaz de escutar.
- Deixe eu te contar um segredo Senhor ...?
- . .
- Então, Senhor . A verdade é que eu não entendo nada de vinhos. Porém, meu pai sempre diz que que qualquer coisa vai bem com vinho tinto.
- E você compartilha o mesmo pensamento?
- Oh, sim! Entenda que meu pai, na maioria das vezes, está equivocado, mas entende muito sobre vinhos. É como um hobby.
Os cantos dos lábios de curvaram-se para cima, expressando contentamento.
- Cameriere, por favor!
O homem, vestido de preto, aproximou-se da mesa.
- Sim, senhor?
- Eu gostaria de dois pratos de spaghetti ala carbonara³. E uma garrafa de vinho tinto, por favor?
- Duas taças, senhor?
- Sim, obrigado.
suspirou aliviada. Ele havia mordido a isca.
Em um primeiro momento, ela ficou impressionada de ter conseguido enganá-lo. Quero dizer, ele, juntamente com as Inteligências britânica e americana, destruiu e esmagou o tráfico de armas controlado por Richard Roper no sul da Europa e no norte da África.
era bom.
Entretanto, era tão boa quanto ele.
poderia ser um agente treinado, mas ela era uma assassina profissional e sabia mentir como ninguém.
A mentira era um talento natural aprimorado com o tempo, tão lindo e sensual quanto uma canção de sereia.
De uma coisa ela tinha certeza.
Dois podiam jogar o jogo.
E ela nunca perdia.

Cameriere¹- Significa garçom, em italiano.
Dionísio²- É o Deus grego do vinho.
Spaghetti ala carbonara³- Prato típico italiano.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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