Última atualização: 16/10/2018

Parte I – Appetite For Destruction

Capítulo 1 - Here I Am and You’re a Rocket Queen

fechou os olhos em puro êxtase. Seu peito palpitava em uma sintonia perfeita com os últimos acordes das guitarras elétricas e da bateria atrás dele, podia sentir sua respiração falhar e cada pequena parte do seu corpo queimar de excitação. O calor que sentia percorrer e escorrer por todo o seu corpo não era nada em comparação do que aquele que emanava do seu público. Ele inclinou o corpo para frente, fazendo uma pequena reverência de agradecimento. Os gritos e ovações aumentaram e seus lábios provavelmente esboçariam um sorriso ainda maior se ele não tivesse se sentindo completamente esgotado nesse momento. De todas as sensações que ele já havia experimentado em vida, o sabor do reconhecimento de seu trabalho pelo público era uma das melhores.
Quando sentiu a mão de – seu melhor amigo e guitarrista de sua banda – lhe tocar o pescoço, fazendo igualmente uma reverência ao público, acordou de seu transe e levantou seu tronco. Era costume de abraçá-lo todo final de show, como se fosse um prêmio por ambos terem se comportado bem durante toda a noite. Os dois trocaram um meio sorriso, se virou para o público pela última vez e com os punhos voltados para o céu e a respiração ofegante ele abandonou o palco.
As luzes se acenderam e o público pedia por mais. O show daquela noite havia sido um verdadeiro sucesso, mais um para a coleção quase imaculada da Waste, a maior banda de hard rock do final dos anos 80, composta por , , e .
Com a soma de integrantes competentes, um pouco de dinheiro e muita sorte, a banda conseguiu ocupar o topo das paradas musicais norte americanas e mundiais em questão de dias, fazendo com que a Waste saísse do anonimato e conhecesse o glamour, o poder e o sucesso ainda no primeiro CD.
Os rapazes passaram então a conhecer os dois lados da fama. Ao mesmo tempo em que abandonaram o apartamento caindo aos pedaços alugado no Brooklyn para comprar seus próprios carros esportivos e mansões beira praia em Beverly Hills ou luxuosas coberturas em Manhattan, viram as suas responsabilidades aumentando e a liberdade inconsequente de seus 20 e poucos anos se esvair pelo ralo.
Enquanto os críticos musicais exaltavam o entrosamento dos quatro garotos, a originalidade, a irreverência e a energia única que a banda levava em seus shows para todas as partes do mundo. A mídia sensacionalista criticava as ações irresponsáveis de , vendendo-o como um rebelde sem causa, como um filhinho de papai que havia abandonado todo seu império familiar para montar uma banda suja com seus amigos do colegial e torrar todo o seu tempo, dinheiro e vitalidade com whisky, pó e prostitutas.
, após se cansar com o seu nome frequentemente estampado em jornais e tabloides, acabou por criar uma aversão pública a qualquer tipo de mídia, protagonizando inúmeros incidentes e brigas com paparazzi. Ele apenas se sentia confortável para dar entrevistas depois de beber algumas cervejas e fumar um baseado. Sendo adorado por alguns jornalistas, que viam em sua constante embriaguez uma boa maneira de tirar verdades do rapaz e odiado por outros, que se sentiam desrespeitados por sua falta de apatia e respostas concretas.
Mas era inegável a influência positiva e o avanço que essa dualidade de opiniões causava em sua carreira. Tal estardalhaço midiático fazia com que não só os adolescentes americanos, como de todo o mundo, gastasse toda a sua mesada em CD's, camisetas e qualquer outro produto lançado pela Waste.
Após o show, para se livrar do assédio tanto da temida mídia quanto das groupies histéricas, a banda seguiu para um bar meio caído e afastado da cidade. Assim que adentrou no recinto, gostou do que viu. O bar estava quase vazio, com exceção de meia dúzia de rapazes que bebiam destilados no balcão, outros três que se enfrentavam em uma mesa de sinuca e alguns casais sentados em mesas distantes.
Algumas prostitutas vagavam pelo local com roupas tão curtas que com um movimento despercebido, acabariam por nem precisar cobrar pelo serviço prestado.
Quando perceberam e os rapazes da banda na porta do bar, as garotas não pensaram duas vezes antes de se aproximar. Não que elas realmente soubessem quem eles eram, mas, como boas profissionais que eram, sabiam reconhecer um cara rico de um pé rapado.

- Oi, docinho – Uma das garotas se aproximou de . Ela tinha os lábios pintados de vermelho vivo que contrastavam com sua pele clara, os cabelos loiros estavam jogados para o lado e ela tinha uma expressão de caçadora.
- Oi – olhou indiscretamente para o decote avantajado da mulher, seus seios pareciam saltar para fora. Abriu um sorriso pervertido já imaginando como terminaria sua noite.
- Gostariam de uma mesa? – Ela sorriu, suas mãos tocaram e deslizaram pelo braço do rapaz.
- Mas é claro que sim! – Respondeu imediatamente.

mordeu os lábios e a mulher manteve o sorriso sensual nos lábios. Ela o puxou pela jaqueta surrada de couro escuro até uma mesa quadrada no canto do bar, grande o suficiente para caber eles, os demais rapazes da banda e suas colegas de trabalho.
Poucos minutos depois da banda se acomodar na mesa, com garotas e bebidas a sua completa disposição, todos os rapazes pareciam finalmente relaxados. Após shows completamente exaustivos como tinha sido o da noite anterior, não havia nada melhor para ambos os quatro, do que vadiar pelo resto da madrugada. Embora seus hormônios já começassem a formigar por baixo da pele com a aproximação das garotas de programa, ele ainda tentava se manter levemente sóbrio. Albert Carter, seu agente e amigo de confiança, havia lhe avisado há poucos minutos que ele teria, ainda naquela noite, uma pequena entrevista para um jornal regional.
Quando percebeu um homem careca e de meia idade entrar pelas portas duplas do bar, sentiu todo seu corpo se enrijecer. Não sabendo exatamente se era de excitação, nervosismo ou simplesmente raiva por Albert lhe marcar algo tão em cima da hora.

- Boa noite, rapazes – O homem limpou a garganta, com um sorriso profissional nos lábios.
- Oi, você deve ser o Simon Green, não é? – Albert foi o primeiro a pronunciar. Ele pôs se de pé, apertando a mão do jornalista, que concordava lentamente com a cabeça – Estávamos te esperando. Aceita uma cerveja?
- Obrigado. Mas não acho que seria prudente! – Simon agradeceu com um aceno rápido de cabeça e se virou para – Quando estiver pronto para a entrevista, ...

abriu um sorriso amarelo visivelmente incomodado, ainda não conseguia entender porque em uma banda de quatro caras, todos os jornalistas apenas se dirigiam a ele. Foda-se se ele tinha composto quase todas as músicas da Waste sozinho. Nada do que ele dissesse em entrevistas mudaria a imagem negativa que a maioria das pessoas com mais de 30 anos tinham dele. Ele não seria magicamente respeitado por ter dito algo bacana e profundo em alguma entrevista.
Após divagar por mais alguns segundos, Albert o trouxe de volta terra, estralando os dedos na frente de seus olhos.

- ?
- Só um segundo – virou o resto de sua cerveja em uma só golada, passou delicadamente as mãos pelos joelhos da garota que estava ao seu lado e se levantou.

Seguiu com o jornalista em seus calcanhares até uma mesa vazia no outro lado do salão, se jogou no banco acochado da mesma e esperou enquanto Simon tirava seus equipamentos da pequena bolsa transversal que usava. Os olhos de se fixaram no pequeno gravador de fitas que o jornalista acabara de ligar. Só Deus sabia como ele odiava aquele aparelho.

- E aí – ele resmungou impaciente para Simon, enquanto batia os dedos indicadores pelo tampo grudento da mesa.
- Podemos começar? – Simon analisou , começando a rabiscar algumas palavras em seu bloco de notas.
- Estou apenas te esperando...
- Bom, a turnê de 1988 já está acabando, como você avalia o aproveitamento da banda durante esse tempo? – O jornalista iniciou suas perguntas e se viu pensando na resposta mais adequada.
- Sei lá, acho que nós estamos bem – Deu os ombros. Não sabia realmente o que Simon queria com aquela pergunta.
- E quanto ao seu aproveitamento?
- O que quer dizer?
- Você acha que tem feito bons shows?
- O que você acha? – rebateu revirando os olhos, já pressentindo que aquela entrevista seria um porre.
- Eu acho que sim – O entrevistador vincou a testa, como se estivesse falando algo de extrema redundância - Você é considerado um dos melhores rock stars da atualidade!
- Grande merda! – bufou, passando as mãos desastradas pelos cabelos empastados. Ele bateu as mãos nos bolsos, tirou um maço de cigarros e colocou um nos lábios – Você se importa se eu fumar?
- Não, tudo bem! – Simon balançou a cabeça positivamente, incentivando a se sentir à vontade com seu cigarro - Mas, você não gosta de ser nomeado como um dos melhores músicos de sua época?
- Eu faço música por prazer, e não para aparecer em listas estúpidas! – O rapaz colocou o cigarro entre os lábios, acendendo-o com facilidade. Ele jogou o zippo metálico na mesa.
– Mas ainda acho que ser lembrado como um dos melhores deve ser algo lisonjeio, afinal, é o reconhecimento pelo seu trabalho!
- Bom, essa é a sua opinião! – deu uma tragada longa, expelindo uma nuvem fina de fumaça do lado oposto ao deu entrevistador e acenou para que o garçom lhe trouxesse duas cervejas. Quando uma delas foi servida para Simon, a puxou em sua direção.
- E como anda a sua relação com a bebida? – O entrevistador perguntou ao notar de virou quase dois terços da long neck em uma só vez.
- Não acho que esse seja o assunto principal da entrevistas nesse momento, mas anda bem, eu sei me controlar.
- Você não me parece exatamente sobre controle, agora – Simon respondeu sério, espreitando os olhos para a bebida de .
- Oh, isso? – deu um sorriso irônico para a garrafa com menos da metade de líquido em suas mãos – Isso aqui é só para te fazer ficar um pouco menos cuzão.
- O quê? – Ele demorou alguns segundo para realmente entender o que tinha querido lhe dizer. Deu um sorriso amarelo – Você não quer continuar a entrevista ou algo assim?
- Não, ok – abriu um sorriso chapado, causando dúvidas em Simon por alguns segundos se ele havia sido irônico ou não. O homem hesitou – Qual é, vamos em frente.
- Falaremos de música então – Após algumas novas palavras riscadas em seu bloco de notas, o jornalista retomou a conversa – Vocês planejam voltar para o estúdio ainda esse ano?
- Sim, em outubro ou novembro.
- E o 3º álbum, como será?
- Não sei, cara, ainda não está gravado.
- Alguma expectativa?
- É como eu disse, o álbum ainda não está gravado.
- Mas, pelo menos uma ideia, uma expectativa vocês devem ter! – Simon vincou a testa novamente. Não sabendo exatamente para que rumo guiar aquela entrevista com , já que ele parecia não querer colaborar com o desenvolvimento da mesma.

O rapaz pareceu hesitar por alguns instantes. Deu uma última tragada no cigarro quase morto nos dedos e bebeu os últimos goles da cerveja.

- É, você está certo. Nós temos, – Deu os ombros casualmente, batendo as cinzas e jogando o resto do cigarro dentro da garrafa – mas não acredito que esse seja o melhor momento para falar sobre isso.
- Por que não seria? Conte-me! – pôde ver um brilho se acendendo dentro os olhos pretos de Simon. Era bacana ver que ele ainda acendia aquele olhar, mesmo que fossem em jornalistas mercenários.
- Cara, eu não tenho nada profundo para te falar!
- Eu não estou esperando nada profundo de você. Apenas fale comigo.

vincou a testa, não sabendo se tinha gostado ou não de Simon ter lhe dito que não esperava nada profundo dele. Se ele não esperava nada, por que diabos ele estava pagando uma grana alta para estar ali lutando para falar com um rapaz de 24 anos, semiembriagado? deu os ombros, se sentindo mais desconfortável que nunca naquela noite. Ele só queria chutar a bunda daquele idiota e sair beber com os amigos.

- Olha, cara, Deus, ou seja lá o que for que você acredita, está me dizendo que hoje não é um bom dia para terminar essa entrevista. Então, me desculpe.

Simon pareceu confuso. Ele olhou para com os olhos levemente desfocados. podia ver um novo brilho nascendo nos olhos do entrevistador, mais dessa vez era de decepção e fúria.

- Essa foi sem dúvidas a pior...
- Entrevista da sua vida? – completou a frase do rapaz com um sorriso irônico nos lábios - Ok, acho que eu posso aceitar mais esse rótulo! – Ele se levantou da mesa imediatamente, empurrando a segunda cerveja que tinha comprado, ainda intocada para Simon – Se ajeita com o material que você tem, você é um profissional!

caminhou em passos rápidos até a mesa de seus amigos, sendo saudado por risos e piadas bêbadas. Ele deu um sorriso amarelo, ele ainda não tinha bebido o suficiente para tudo ficar divertido ao seu redor.

- E aí, sobreviveu? – deu um sorriso torto e empurrou do outro lado mesa um copo com o que deveria ser duas doses de whisky puro.

aceitou de bom grado. Mas aquilo não era suficiente, ansiava por mais. Ele coçou a garganta ardente exasperado. Sentiu o salto de uma das garotas da sua frente da mesa roçar em sua canela e as mãos da loira deslizar descaradamente até o interior de sua de suas coxas, ele fechou imediatamente as pernas quando sentiu os dedos da garota passearem pelo cinto de sua calça, impedindo que ela atingisse seu alvo. Ele procurou relaxar e deu outra golada no seu whisky. Quando a língua quente da garota lhe tocou o pescoço e subiu em direção aos seus lábios, se sentiu nauseado. Maldita entrevista que havia lhe tirado o tesão.

- Você tem um isqueiro? Eu deixei o meu na outra mesa – Ele recolocou um cigarro nos lábios numa tentativa desesperada de se livrar da garota e se virou em direção a , baterista da sua banda.
- Eu tenho coisa melhor para você, ! – abriu um sorriso confidente para o amigo, levou uma das mãos até o bolso interior da jaqueta, tirou de lá dentro um pequeno saco plástico e atirou para .
- Valeu, cara!

abriu um sorriso ao se certificar do que era. Tirou o cigarro dos lábios e atirou no chão. Abriu delicadamente o saco plástico e despejou uma pequena quantidade do pó no tampo da mesa, tirou seu documento de identidade da carteira e bateu com as laterais do mesmo em cima do pó, triturando-os levemente. Com as mãos ágeis, enrolou uma nota de dez dólares em um tubo fino e ajeitou delicadamente todo o pó branco em três carreiras. Abaixou-se da altura da mesa, com a mão direita segurava o tubinho feito com a nota e com a esquerda tampava uma das narinas. Aspirou as três carreiras rapidamente e logo em seguida, soltou seu corpo em direção ao encosto do banco em que estava sentado, se sentindo extremamente aliviado.
Cocaína. Era definitivamente dela que estava precisando naquele momento. Ele apertou o nariz e fungou, usando do oxigênio para empurrar o resto de pó mais rapidamente para seu corpo. Fechou os olhos e em questão de segundos já podia sentir o efeito da droga lhe consumindo. Uma euforia tomou conta dele de maneira arrebatadora, olhou para os amigos ao lado se divertindo e ele mesmo não conseguia entender porque é que estava se sentindo tão entediado e aborrecido poucos minutos antes. Entrevista havia sido ruim? Foda-se, definitivamente, foda-se. Ele não estava nem aí pra repórter nenhum, jornal nenhum!
se levantou e acenou para o garçom, pedindo mais uma rodada de destilados para todos os presentes no bar por sua conta. Foi aplaudido animadamente logo em seguida. Porém, dentre as comemorações pela bebida grátis oferecida por ele, o que mais lhe chamou a atenção foi o olhar ardente que uma garota sentada na mesa ao seu lado lhe lançava. sentiu o fogo daquele olhar lhe aquecer o corpo. Ele sorriu marotamente para ela e se sentou novamente à mesa.
A prostituta loira ao seu lado agora tinha um sorriso feroz nos lábios, ela estava gostando do efeito que a droga havia causado em seu cliente. , que ainda se sentia incendiar, a puxou pelo queixo com força e lhe deu um beijo rápido nos lábios vermelhos. A garota o puxou pela jaqueta colando seu corpo no dele, uma das mãos lhe envolveu o pescoço e a língua dela passou a pedir com urgência permissão para adentrar na boca dele. cedeu. O beijo que era para ser rápido e intenso, agora tomava proporções mais eróticas. No entanto, ele ainda se sentia de alguma maneira, magnetizado pelo olhar latejante da garota da mesa vizinha e não conseguia nem ao menos desviar seus olhos dos dela em momento algum durante o beijo.
pode perceber o olhar da garota se intensificando contra o dele, ela sussurrou algumas palavras no ouvido de seu acompanhante e se levantou da mesa, lançando a ele um sorriso levemente pervertido. Ela acenou com a cabeça de maneira discreta o banheiro no fundo do bar e foi caminhando até lá em passos sensuais.
Já graduado em interpretar gestos discretos e flertes silenciosos, teve certeza que ela queria encontrá-lo no banheiro. Ele apartou o beijo com a prostituta de maneira bruta, simplesmente a empurrando contra o assento da cadeira.

- Preciso mijar! – Ele virou com destreza o seu copo de whisky, pegou uma nota de 100 dólares no bolso da calça, enfiou no decote da mulher e caminhou até o banheiro.

Quando se aproximou da porta do banheiro feminino, nem se preocupou em disfarçar a sua entrada, ele tinha certeza que todos no bar estavam bêbados demais para perceber que ele entrava no banheiro errado. Assim que entrou, pode visualizar a garota dos olhos ardentes encostada na pia. Ela tinha mordia os lábios de maneira sensual, correspondeu.

- Achei que você não fosse vir, sabe, aquela garota parecia não querer te soltar – Ela revirou os olhos, mas sorriu logo depois, fazendo sinal para que se aproximasse.
- Eu viria de qualquer jeito! – caminhou até ela e colou seu corpo no da garota, prensando-a contra a pia. Apesar do sorriso sedutor que estampava seu rosto, ele sentia o corpo tremer de adrenalina causada tanto pelo encontro escondido, quando pelas carreiras recém-cheiradas.

Os braços da garota envolveram seu pescoço, seus lábios tocaram o lóbulo da orelha de . Ela suspirou, a voz abaixou um décimo, parecendo mais rouca e sexy.

- Você tem mais daquilo? - Gemeu baixinho no ouvido de . Ele sentiu um arrepio lhe percorrer toda a coluna.
- Pó? – Ele perguntou e a garota concordou com a cabeça – É claro que sim! Eu até poderia te dar um pouco – abriu um sorriso pervertido, desenhando uma linha imaginária nas bochechas da garota - desde que eu seja recompensado por isso.

A garota deu uma risada rouca. Ela trocou as posições, girando pela jaqueta e o pressionando contra a pia. Agachou-se sensualmente na sua frente. As mãos percorreram o zíper do rapaz com avidez, seus olhos brilhavam de desejo. puxou as próprias calças para baixo, apenas esperando que ela começasse a fazer seu serviço.
Fechou os olhos quando sentiu a garota lhe abocanhar o membro, perdeu a noção dos segundos logo depois, quando prazer proporcionado pela boca dela misturados com a adrenalina da cocaína lhe domar todos os sentidos.
Um barulho oco vindo da porta o tirou do transe sexual.

- Mas que porra é essa? - abriu os olhos de supetão. Um rapaz que media pelo menos 1.90 de altura e pesava o dobro dele estava na frente na porta. Sua expressão não era nada amigável.
- Martin? – A garota que até dois segundos atrás lhe levava pros céus, levantou-se no chão, seu rosto estava surpreso. - Não é nada do que você está imaginando. – Ela começou a dizer, mas foi interrompida ao levar um tapa no rosto do rapaz. Ele era o acompanhante dela, provavelmente seu namorado.
- É, estou vendo mesmo! – Ele puxou um desnorteado pela camisa. A pele de sua testa parecia brilhar de suor, os olhos acusavam uma fúria sem tamanho. engoliu seco, se dando conta do quanto estava ferrado – Vou te ensinar a não mexer com a mulher dos outros, seu viadinho de merda!

Uma de suas mãos segurava pelo colarinho da camisa, a outra segurava uma garrafa de cerveja. A última coisa que viu daquela noite foi a garrafa vindo em sua direção e milhares de cacos de vidros lhe cortando o rosto.



Capítulo 2 - We Got Your Disease

Já era manhã quando se mexeu pela primeira vez desde a noite passada, uma fresta de luz solar insistia em focar seu rosto, anunciando que já havia passado da hora de acordar. Ele não se importou. Ninguém nunca lhe dava ordens e não seria um micro raio solar que o atrapalharia. Berrou para Berta, sua empregada, para que subisse e fechasse a maldita cortina de seu quarto. Não obteve resposta.
Tentou então se virar na cama, não conseguiu. Sua cabeça ardeu fervorosamente com a menção do simples movimento. A noite passada provavelmente havia sido violenta. Procurou na memória algum indício do que havia feito, mas a resposta foi negativa, ele não conseguia se lembrar de absolutamente nada. Esticou os braços até a mesa de cabeceira a procura de um maço de cigarros ou um copo de água, nada encontrou. Seus músculos reclamaram do pequeno esforço.
abriu os olhos pela primeira vez então, o clarão do quarto o cegou por um minuto. Ele se levantou da cama com muito custo, sua cabeça definitivamente estava ferrada. Levou uma das mãos até a cabeça para massageá-la, mas a textura de sua pele estava diferente, grudenta. Sentiu os dedos passarem por pequenas ondulações no início de sua testa. Estranhou. Aquilo seriam pontos?
Correu em direção ao espelho de sua suíte, mas não havia suíte. Pelo contrário, deu de cara com uma porta branca simples que dava acesso a um banheiro, igualmente simples, sem banheira ou vista para a praia. Onde é que ele estava e que droga de lugar era aquele?
olhou a sua volta, reparando devidamente pela primeira vez onde estava. Não passava de um quarto estranho, paredes pintadas de verde claro e chão de mármore branco. Uma cama de solteiro de armação de madeira antiga ocupava o centro do quarto, do seu lado, uma pequena mesa de cabeceira onde tinha apenas um abajur. Na parede oposta se encontrava um gaveteiro de madeira clara e uma mala de roupas, que reconhecia ser dele, estava jogada ao lado.
Uma enorme janela revestida de grades iluminava o quarto. Ao lado dela estava uma mesa, com duas cadeiras e uma fruteira repleta de frutas tropicais. Ele sentia seu estômago doer, não sabia ao certo se era de fome ou nervoso por não saber exatamente onde estava. Ele procurou na fruteira algo que o agradasse, mais foi em vão, desde a infância odiava frutas. Um envelope azul de aparência cordial descansava delicadamente sob a fruteira, o puxou e leu em voz alta, achando ser o menu do serviço de quarto.

Prezado Sr. ,
Seja bem-vindo ao instituto St. Lucius de reabilitação. Esperamos que o Sr. aproveite a sua estadia e consiga atingir a sua meta pessoal. Lembre-se, para se recuperar de velhos hábitos e vícios, é necessário que se reconheça que precisa de ajuda e queira se autoajudar. O primeiro passo já foi dado, agora, deixe que nossa equipe de profissionais capacitados faça o resto.
Fique à vontade.
Atenciosamente,
Charles Bennet.
Psiquiatra e diretor do Instituto St. Lucius.

Um acesso de raiva tomou conta de . Instituto St. Lucius de reabilitação? Reabilitação? Aquilo definitivamente não poderia estar acontecendo! Ele correu em direção à porta, suas mãos pousaram na maçaneta e a puxaram com toda a força que podia. Ele quase caiu para trás inúmeras vezes, tamanho seu esforço. Não tinha o que fazer, estava trancada.

- ABRAM ESSA PORRA! – gritou. Seus pulsos batiam desesperadamente contra a madeira pesada. Ele não obtinha respostas. Não era possível que não estivesse ninguém no prédio que o poderia ajudar!

caminhou em direção à janela pensando em pulá-la, mas, no meio do caminho se lembrou que as mesmas eram forradas de fora a fora com grades. Ele deu um pontapé na cadeira que estava ao seu lado, suas mãos pararam no tampo da mesa e sem pensar no que estava fazendo, virou-a de ponta cabeça. Frutas rolaram por todo o chão.

- Mas que merda! – se sentia tonto, sua cabeça latejava de dor pelo excesso de esforço físico. Ele se jogou em um sofá de dois lugares no canto do quarto. Ele daria metade da sua fortuna em troca de um cigarro agora. Sua garganta fechou e a palavra reabilitação ainda martelava seu cérebro.
Ele não precisava daquilo, ele estava bem. Era normal um cara de sua idade beber algumas doses de Whisky e fumar alguns cigarros. Aquilo tudo era um exagero! Ele só precisava, quem sabe, de um bom descanso. fechou os olhos, tentando acalmar seu ritmo cardíaco e sua respiração.
Minutos depois, passos ecoaram pelo corredor e se levantou em um pulo. Ele tinha certeza que os passos uma hora ou outra rumariam para o seu quarto. Escondeu-se atrás do batente da porta, se algum enfermeiro entrasse em seu quarto, ele tentaria driblá-lo e sair correndo pela porta. O tintilar metálico se aproximou, era um molho de chaves, ele tinha certeza. se posicionou como uma cobra prestes a dar o bote.
A porta se abriu silenciosamente. Mas, ao contrário do que imaginava, quem havia entrado em seu quarto era uma garota, pequena, delicada e não um enfermeiro de dois metros de altura que poderia quebrá-lo em pedaços em poucos segundos. A garota depositou uma bandeja com o que parecia café da manhã em cima da cama, seu rosto se moldou em uma máscara de desespero quando ela percebeu os móveis revirados no chão, ela se virou em direção à porta e deu de cara com . Provavelmente seus cabelos bagunçados, as roupas rasgadas e rosto machucado foram demais para a garota. Ela soltou um grito.
ignorou, pegou rapidamente a sua mala que estava no chão e abriu a porta. A garota soltou mais um grito, só que dessa vez, com um pedido de socorro. Ele soltou a mala no chão e caminhou em direção a ela, seus olhos estavam vermelhos de ódio, uma de suas mãos a empurram contra a cama e a outra cobriu a boca da garota.

- Será que seria pedir demais para você calar a porra dessa boca? – Ele pressionou ainda mais a mão sobre os lábios dela. Não se importava se podia estar machucando-a ou não. Sua ira nesse momento era maior do que qualquer outra coisa. – Porque se você ainda não percebeu, eu estou tentando fugir dessa merda!

suspirou nervoso. Ele podia ver nos olhos da garota o terror que ele estava lhe causando. Afrouxou um pouco a pressão sobre os lábios dela.

- Eu não vou te machucar – Ele disse da maneira mais calma que poderia – em troca disso, será que você poderia pelo menos não gritar? - Ela concordou com a cabeça.

soltou a garota, mas os olhos dela estavam fixos no canto esquerdo do quarto.

- O que foi? – Ele indagou antes de se virar para a porta. Mas já era tarde demais, quando deu por si, seus braços estavam imobilizados para trás por um enfermeiro e outro lhe aplicava com precisão uma seringa no braço descoberto.
- Você estragou tudo! – Foram as últimas palavras cuspidas por ele antes de uma estranha dormência tomar conta de todo seu corpo.

[...]

Quando abriu os olhos novamente naquele dia, sua noção de tempo e espaço estava definitivamente afetada. Ele se lembrava vagamente de acordar em alguma clínica de viciados, brigar com alguns enfermeiros e voltar à dormir, porém, não sabia julgar se aquilo realmente tinha acontecido ou então era somente a teoria de Freud lhe pregando uma peça. Ele rezava para que fosse a segunda opção.
Para seu desespero, ainda se encontrava no mesmo quarto apertado no qual havia despertado pela manhã. Suspirou. Não tinha que ele pudesse fazer até então. Levantou-se da cama com certa dificuldade, após passar tanto tempo deitado na mesma posição, seus músculos reclamavam e pediam por liberdade.
procurou pelo banheiro, abriu a torneira e mergulhou seu rosto debaixo d'água fria, deixando que ela refrescasse seu rosto e limpasse seus ferimentos. Ele esfregou as têmporas suavemente, aliviando os resquícios de dor. Enxugou o rosto em uma toalha que estava ao lado e parou para admirar seu rosto machucado no espelho. O que é que ele tivesse aprontado na noite passada, havia sido sério: do topo da sua cabeça até metade da testa estava cortado e suturado com alguns pontos, seu olho esquerdo estava inchado e um pouco roxo. deu um murro na pia, provavelmente havia se envolvido em mais uma briga, mas, como não se lembrava de nada, decidiu deixar quieto.
Decidiu tomar um banho por completo, com certeza algum tempo debaixo do chuveiro o faria bem. Permaneceu dentro do box por cerca de meia hora, até que ouviu o barulho de conversa invadir o seu quarto. Saiu de dentro do box imediatamente, apenas perdendo tempo para amarrar uma toalha em sua cintura.
Quando abriu a porta do banheiro, deu de cara com dois homens, um deles era baixo, careca, um pouco acima do peso e tinha uma cara irritante de pseudo intelectual. Entretanto o outro, era alto, vestia uma jaqueta de couro claro e apesar dos óculos escuro, tinha o rosto que conheceria até mesmo no meio de uma overdose. Era Albert Carter, seu agente.

- Olha só quem finalmente acordou! – O velho saudou. Ele entendeu a mão para cumprimentá-lo, mas se esquivou – Prazer, senhor , eu sou o Dr. Bennett, diretor do instituto St. Lucius!
- Uhum... – respondeu de má vontade para o psiquiatra. Sua atenção estava focada completamente em Albert – Cara, o que é que eu estou fazendo aqui?

Albert, entretanto, não o respondeu, apenas agradeceu a presença do médico presente e lhe fez algumas rápidas perguntas técnicas. Quando Bennett saiu, ele virou-se pela primeira vez para , analisando-o minuciosamente. se irritou.

- Dá para você me dizer por que diabos eu estou em uma clínica de reabilitação?! - Ele estourou, postando-se na frente do agente.
- Qual era o nosso trato? – Albert respondeu secamente.
- Qual trato? – indagou.
- Aquele sobre as brigas de bar...
- Brigas de Bar?
- Sim, , brigas de bar! Nós dois havíamos feito um trato que da próxima vez que você se metesse em uma briga de bar e isso caísse na mídia, eu poderia te trancar em uma clínica! – Albert abriu um sorriso amarelo. Ele odiava o fato de sempre se esquecer dos combinados.
- O quê? Alb, eu não me lembro de nada disso!
- Não se lembra? Ok, vou refrescar a sua memória então! – Albert respondeu ríspido. Ele tirou dos bolsos da jaqueta um pedaço amassado de jornal e jogou sem cuidado algum pra cima de – Leia com carinho, esse seu último feito já está espalhado por todo o estado de Nevada!

coçou a garganta, visivelmente nervoso. Apanhou o jornal com as mãos levemente trêmulas e começou a leitura, que provavelmente, era uma das mais duras que ele tivera nos últimos meses.

Sem propósito ou direção.
A conversa com o vocalista da banda mais superestimada do momento foi tão superficial quando a sua personalidade. E ele não quer fazer absolutamente nada para mudar isso.
Por Simon Green

Quando fui designado para entrevistar , 24, eu já sabia que não poderia esperar grandes coisas. Seu péssimo comportamento midiático não é novidade para ninguém, mas eu não posso deixar de dizer o quanto eu realmente fiquei surpreso.
Assim que cheguei ao Fat Mike, um pub meio caído no fim da cidade e lugar marcado para a entrevista, eu realmente me dei conta de quão árdua seria a minha missão de tentar tirar algumas palavras de .
Avistei a banda sentada em uma mesa quadrada no canto do bar. Caminhei até eles e fui saudado pelo aparentemente responsável agente da banda, Albert Carter. Troquei um aceno rápido de cabeça com os demais integrantes da Waste, que pareciam mais interessados na presença de algumas garotas de programa do que em qualquer coisa.
Chamei por , esperei que ele bebesse o resto da sua cerveja. Ele caminhou ao meu lado até uma mesa na outra extremidade do bar que fedia a mofo e nicotina. Eis então, que tudo desmoronou.
O vocalista carismático e enérgico em palco, é vazio e apático pessoalmente. não pareceu estar contente ou até mesmo interessado em minhas palavras em nenhum momento da entrevista.
Alheio às críticas e fazendo um esforço sobre-humano para permanecer incompreendido, repudia veemente quando digo que ele é um dos melhores rock stars da atualidade e que tal título deveria ser aceito como um elogio, afinal, é um reconhecimento de seu trabalho. é ácido "faço música por prazer, e não para aparecer em listas estúpidas".
Um fato importante sobre : O rapaz tem sérios problemas com alcoolismo e drogas em geral. Após beber em um só gole uma cerveja inteira, pergunto a ele a quantas anda seu problema com o álcool. Alguns palavrões e ofensas depois, ele deixa claro que o hábito ainda está longe de ser encerrado.
Quando resolvo falar finalmente sobre música, o vocalista visivelmente alcoolizado, mostra-se perdido. Sem noção alguma do que planeja fazer em seu terceiro – e inutilmente – tão aguardado álbum de estúdio, para desespero de todos os fãs.
Após esvaziar outra long neck - a terceira, só na minha frente -, não coordena mais as próprias palavras. Ele se levanta da mesa, volta aos tropeços e se senta com seus amigos de colegas de banda. Sem o mínimo pudor ou respeito com as pessoas presentes no bar, à distância consigo ver cheirar algumas carreiras de cocaína. Não sei julgar ao certo quantas foram, mas a ação inteira, não passou de um minuto.
Para finalizar a noite, acaba por arrumar uma briga no local, após arrastar para o banheiro e envolver-se sexualmente com uma garota comprometida. Apenas consegui saber do ocorrido após , colega e guitarrista da Waste, aparecer aos berros do banheiro pedindo por ajuda. Pude ver sangue escorrendo do nariz de . Se foi fruto da briga ou pelo também uso contínuo de cocaína, não ficou claro para mim.
Termino esse artigo, falho em sua essência, com uma inquietação: como é que os jovens de hoje podem idolatrar tanto um rapaz completamente perdido, que não está dando a mínima para nenhum de seus fãs. Se um dia, , serviu de inspiração para nossos rapazes e moças, eu temo pelos frutos que serão deixados para a próxima geração.

Ele suspirou, definitivamente ele havia se envolvido em uma briga noite passada. Os flashes da noite passaram então por sua cabeça, ele se lembrou da entrevista, da presença irritante do jornalista, de tomar algumas cervejas, da cocaína e de ir para o banheiro para dar uns amassos com alguma garota e o namorado dela os pegando no flagra. Depois daquilo, tudo ficou escuro e perdido em sua memória.

- Aquilo não foi minha culpa! – Ele se defendeu e Albert pareceu fazer pouco caso – Aquele cara que veio para cima de mim, eu nem pude me defender!
- É claro que ele foi para cima de você! Você estava com a garota dele! Eu faria o mesmo se fosse ele! – Albert cuspiu algumas palavras, ele definitivamente odiava ser penalizado pelas brigas de e os demais caras - E não pense que o fato de você ser mudaria alguma coisa!
- Eu não tive culpa, porra!
- Você sabe que teve! – Albert explodiu finalizando a conversa. Ainda que não deixasse barato na maioria das discussões, naquele dia ele parecia realmente afetado e simplesmente se sentou na cama, deixando-se vencer por Albert, visivelmente confuso.

O agente sentiu-se minimamente culpado tanto pela explosão quanto por internar na clínica no período que ele havia permanecido desacordado pelo soco do estranho no bar. Ele se sentou na cama ao lado do rapaz.

- Olha, cara, eu sinceramente não ligo que você queira sair por aí, pegar todas, fumar e beber até esquecer completamente de quem você é. Mesmo porque, você sabe como ninguém, que eu também curto amassar uns e arrumar umas gatas fáceis pra levar pra minha cama – Albert tentou se acalmar e procurou sorrir. Levou uma das mãos no pescoço de e o olhou fixamente – Mas você, cara, você é ! Você pode fazer tudo o que você quiser, porém, você é alvo fácil e a mídia cai em cima mesmo! É preciso cuidado, porra!
- A propósito, por falar em mídia, o que esse cara escreveu é um lixo completo! Eu nunca vi tanta merda sobre mim em um único artigo! – amassou o jornal que tinha em mãos e jogou na direção oposta do quarto - O cara simplesmente me esculachou por completo e não disse nada, absolutamente nada sobre o meu trabalho!
- Ah, você jura? – Albert deu um sorriso irônico e diversos tapinhas no rosto de – Depois de você dispensar o cara daquela maneira, você realmente acha que ele iria falar bem de você no jornal? Faça-me um favor, ! Você deveria ter falado algo, dado alguma pauta pra ele, nem que fosse uma mentira!
- Você sabe que eu simplesmente falo o que tem que ser falado! Eu sou completamente honesto nessa hora, Albert! Eu falo o que eu quero falar, o que eu penso, o que eu acho plausível e correto!
- É aí que você erra! Eu acabei de te falar, é preciso cuidado, você está na selva cara! Alimente os leões e saia vivo!

suspirou. Ele sabia que aquelas merdas que Albert havia falado faziam todo o sentido. E ele sabia cada dia mais, o quanto ele odiava qualquer tipo de mídia. Já tinha perdido a conta de quantas vezes havia arrumado briga com fotógrafos e jornalistas.
Às vezes, a preocupação que tinha que ter com a própria imagem o irritava profundamente. Ele tinha o trabalho que queria, mas as consequências eram uma merda!

- Eu sei, Albert, eu sei disso tudo! – Ele desviou o olhar do agente e fitou seus pés, procurando uma resposta que pudesse tirá-lo daquela clínica – Mas, cara, isso nem é o principal. Sabe, eu acho que essa história de clínica de reabilitação é exagero. Eu não estava tão chapado, eu sei me controlar cara! Eu posso ficar limpo a hora que eu quiser!

Albert riu. Tirou um maço de cigarro do bolso da jaqueta, colocou nos lábios e o acendeu, dando uma longa tragada antes de responder. sentiu a garganta fechar assim que sentiu o cheiro da fumaça preencher suas narinas.

- E quem aqui está te pedindo para ficar limpo? – Ele soltou a fumaça e passou o cigarro para , que sem hesitar aceitou – Essa reabilitação é para inglês ver! Ou melhor, é para os executivos chefes da sua gravadora acreditarem que eu estou cuidando de você e pararem de querer me comer cada vez que você faz merda!

riu pela primeira vez no dia. Sentiu uma vontade súbita de beijar Albert por sua resposta. Como ele pode odiá-lo há dois segundos atrás? sempre soube que Albert era uma das pessoas que ele mais poderia confiar em vida. Eles haviam se conhecido há alguns anos em uma escola em Manhattan, Albert era pouco mais velho que e os demais companheiros de banda. Fora na casa dele que havia experimentado a primeira picada.

- Eu te amo, Albert! – o abraçou emocionado. Ele já sentia a nicotina fazer efeito no seu corpo, aquela abstinência não era para ele. Ele sorriu e se soltou do abraço abruptamente – Agora, me tira daqui!
- Não – Albert disse simplesmente.
- Como? – não esperava por essa. Ele deu mais uma tragada nervosa no cigarro e o devolveu para Albert.
- Não, você vai ficar aqui! – Antes mesmo que pudesse protestar Albert o Interrompeu, apontando o dedo indicador para as fuças do rapaz - E não adianta reclamar! Uma mentira tem que ser dita mil vezes para se tornar uma verdade! Para que os grandões acreditem que você está procurando ajuda, você precisa ficar aqui por pelo menos alguns dias.
- Não é justo!
- A vida não é justa, ! Agora pare de reclamar, aproveite a vista e descanse. Fui até sua casa e peguei algumas coisas que talvez você goste. Alguns livros e um violão, aproveite e componha algo!

Albert abriu um sorriso, podia ver cifrões em seus olhos. Ele apagou o cigarro na mesa de cabeceira branca do quarto e guardou o maço no bolso inteiro da jaqueta.

- E lembre-se, cara: seja legal. As pessoas gostam de simpatia!

Albert depositou um beijo exagerado na testa de antes de desaparecer por entre a porta branca de seu quarto.



Capítulo 3 - Everybody Sees Me But It's Not That Easy

ainda fitava a bandeja de prata com o café da manhã recém preparado em suas mãos. Ela respirou fundo, procurando em seu íntimo encontrar coragem para caminhar até o quarto 104 da clínica de reabilitação St. Lucius, na qual trabalhava como estagiária há quase um mês.
cursava psicologia na Universidade Stanford e por mais que não pretendesse trabalhar exatamente com dependentes químicos, aquele emprego havia lhe caído dos céus. Sua família não estava passando por uma situação econômica muito favorável nos últimos meses, sua mãe havia recentemente pedido a conta da escola primária que costumava lecionar. Com apenas o pai trabalhando como policial, o orçamento havia apertado e , como uma boa filha, decidiu começar a trilhar seu próprio caminho rumo ao mercado de trabalho.
Seu nervosismo, no entanto, não era à toa. No dia anterior quando foi levar o café da manhã para o novo paciente, ela havia sido atacada por ele. Ele havia a pressionado contra a cama e tampado sua boca com as mãos. Era óbvio que o rapaz não estava em seu juízo perfeito, mas ainda assim a garota temia pela reação dele. havia tentando conversar com seu chefe para que mandasse algum outro enfermeiro levar a bandeja até o quarto, mas ele havia negado todas as vezes o seu pedido. Ela havia compreendido afinal, que aquilo era um serviço para estagiários e não para enfermeiros. Ela suspirou pesarosa.
alinhou os alimentos na bandeja pela nona vez naquele dia, na intenção de ganhar tempo antes de subir e encontrar com aquele que lhe causara um verdadeiro terror por alguns pequenos segundos no dia anterior. Quando sentiu o olhar do enfermeiro chefe pesar sobre ela, apressou-se e subiu até o terceiro andar.
Não mais na presença de ninguém que pudesse demiti-la, caminhou lentamente pelo corredor bem iluminado pelas janelas coloniais do prédio, absorvendo a maior quantidade de calor que pudesse. A rua da clínica estava estranhamente movimentada naquela manhã, ela parou para espiar os carros que subiam e desciam o morro que levava até a guarita da clínica. Deu de ombros e voltou a caminhar, certamente haveria alguma convenção sobre o abuso das drogas ou do álcool à tarde. Quando chegou à frente da porta branca com o número 104, respirou fundo e bateu lentamente antes de virar a maçaneta e entrar no quarto.
Para a surpresa de o quarto estava estranhamente quieto e arrumado, não havia nada no chão, a cama estava levemente feita, um violão descansava sob a luz solar que vinha da janela e ela podia ouvir um ruído de água corrente que vinha do banheiro. A garota sorriu aliviada, se ela fosse rápida, ela poderia simplesmente colocar a bandeja de café da manhã na mesa e sair imediatamente do quarto, sem topar com o rapaz.
Assim foi feito. Ela caminhou nas pontas dos pés e depositou a bandeja na mesa, procurando fazer o menor barulho possível. Arrumou rapidamente as flores que enfeitavam a mesma, distraindo-se por alguns milésimos de segundos.

- Bom dia – Uma voz ecoou pelo quarto. sentiu seu coração gelar.
- Bom dia – Respondeu, contando mentalmente até dez antes de virar-se para o rapaz e surpreender-se pela segunda vez ao dia.

Lá estava ele, o mesmo rapaz que havia lhe atacado na manhã anterior, encostado na soleira da porta do banheiro, com os cabelos molhados e uma toalha de rosto pendurada no pescoço. Sorrindo quase que de maneira ingênua.

- Espero não ter te assustado - O rapaz pegou a toalha com uma das mãos e levou até seu cabelo, onde com alguns movimentos rápidos enxugou os pingos d'água que escorriam por seu torso. notou então que ele estava sem camisa, seus olhos perderam-se vagamente por seu tórax bem definido, ainda que não fosse exatamente musculoso. Ela piscou constrangida e os lábios dele emolduram-se em um sorriso sacana.
- Não, não me assustou! – sentia seu rosto pegar fogo. Virou-se de costas imediatamente e arrumou pela décima vez naquela manhã a disposição dos itens na bandeja.
- O café chegou em boa hora, eu nem me lembro qual foi a última vez que eu comi alguma coisa! – Ele riu e sentou-se à mesa. Porém, seu sorriso desmanchou-se na mesma hora.
- Algum problema? – Ela indagou.
- Eles só servem frutas nesse lugar? – O rapaz bufou. o fitava com curiosidade e ele continuou – Eu entendo que frutas sejam saudáveis e tudo mais, só que cara, eu simplesmente não consigo comer isso!
- Quer que eu procure algo diferente na cozinha, senhor?
- Não, tudo bem. Eu me viro com o que tem aqui! – Embora visivelmente insatisfeito, o rapaz procurou sorrir. Ele apontou para o bule de café – Já está adoçado?
- Não, senhor – negou com a cabeça. O rapaz sorriu satisfeito pela primeira vez na manhã, despejou uma boa quantidade do líquido escuro e quente em sua xícara e bebeu.

torceu o nariz, ela não conseguia entender como certas pessoas conseguiam tomar café sem açúcar, o dela era na maioria das vezes um melaço. Ela sorriu cordialmente disfarçando seu asco.

– Gostaria de mais alguma coisa?
- Sim – Ele afirmou antes de tomar mais uma golada de café quente – você poderia me fazer companhia enquanto eu termino o café? Eu não preguei os olhos durante a noite toda e ficar nesse quarto sozinho está quase me levando à loucura!

estranhou o pedido do rapaz, não esperava por aquilo de maneira nenhuma. Ela o olhou fixamente pela primeira vez desde que havia entrado em seu quarto, seus olhos castanhos esverdeados brilhavam de expectativa, mas ao mesmo tempo mostravam uma fragilidade indescritível. sentiu uma enorme vontade de pegá-lo no colo e acariciar seus cabelos bagunçados até que ele voltasse a sentir-se bem.

- Tudo bem – Ela admitiu, sentindo-se um tanto quanto fraca sob o impacto daquele olhar de cachorrinho abandonado – Acho que não terei problemas se demorar uns dez minutinhos.

O rapaz sorriu. Empurrou a cadeira ao seu lado na direção dela, convidando-a para sentar-se à mesa. sentou-se, levemente desconfortável com a situação, ela abriu um sorriso tímido e seus olhos pararam novamente no peito do rapaz. Dessa vez não mais estranhando sua nudez e sim as tatuagens quase irreconhecíveis que ele tinha espalhadas, quase fechando todo o seu antebraço esquerdo e a pequena frase que tinha sob o seu peito. Ela espreitou os olhos tentando ler as pequenas letras, mas a voz do rapaz novamente chamou sua atenção.

- Então, partiremos do princípio – Ele disse distraído enquanto dava uma boa mordida em um pão doce - qual é seu nome?
- – Respondeu hesitante – e o seu?

O rapaz terminou de mastigar o pão, suas sobrancelhas arquearam-se céticas.

- Você não sabe qual é o meu nome! – Ele riu e o olhou fixo, procurando saber qual era o motivo do riso. Estranhou – Ok, você não sabe qual é meu nome, mesmo?
- Se soubesse, eu não estaria perguntando! – rebateu, tentando ao máximo não parecer mal educada.

O rapaz riu mais uma vez, só que agora da resposta virada que ela lhe dera. levantou-se da cadeira, ela odiava que rissem da sua cara sem que ela ao menos soubesse o motivo. Se ele quisesse rir, ele poderia muito bem rir sozinho. Ela sentiu a mão do rapaz segurá-la pelo braço.

- Certo, desculpe – Ele havia parado de rir, mas seus lábios ainda emolduram um sorriso debochado – Eu me chamo .
- Ok, sr. , devo informá-lo que eu sou apenas uma estagiária e não tenho a obrigação de saber o nome de todos os pacientes! – rebateu, tirando as mãos dele de seu braço – Agora, se me dá licença, eu devo voltar ao trabalho.
- Não! Por favor, fique! – pediu com sinceridade. estava pronta para rebatê-lo novamente, mas pode ver em seus olhos a urgência do pedido – Eu lhe imploro!
- Tudo bem - Ela suspirou desconcertada e sentou novamente a mesa. - Só não demore muito, eu tenho mais coisas para fazer.
- Não demorarei, eu te prometo – virou-se imediatamente para seu café, devorando o resto de seu pão o mais rápido que podia. Seu estômago roncava de fome, ele poderia arriscar que estava mais de vinte e quatro horas sem colocar nada na boca. O último alimento sólido que se lembrava de ter comido, havia sido um hambúrguer com dose dupla de cheddar no domingo antes de apresentar-se.

o analisou enquanto comia. não deveria ser muito mais velho que ela, devia ter no máximo seus 24 anos e parecia ser bem saudável em comparação com os casos que ela estava acostumava a enfrentar no St. Lucius, embora um pouco mais de peso e massa muscular iria deixá-lo ainda mais bonito. Ele parecia confortável, vestindo apenas uma calça jeans justa e surrada. poderia certamente afirmar que aquele jeans nunca devia ter visto água e sabão desde que fora comprado, mas em , ele caía bem. Os pés descalços lhe davam ainda mais aparência de casualidade. Quando seus olhos se encontram com os de , sentiu um arrepio na espinha e desviou o olhar para qualquer outro canto do quarto, parando na cama do rapaz.

- Você sabe tocar violão? – Ela perguntou tentando parecer tão casual quanto ele.
- , você realmente não tem a mínima ideia de quem eu sou, não é? - Os olhos de arregalaram-se céticos novamente, embora seus lábios parecessem formar um pequeno sorriso.
- Não! – Ela respondeu levemente impaciente – Quem é você , e por que você é tão importante?
- Eu sou ! – Ele disse em seu tom mais óbvio, , entretanto, ainda o olhava sem expressar nenhuma emoção em seu rosto. riu e ela revirou os olhos – Você não ouve rádio, não?
- Não exatamente, a música de hoje não me atrai – Ela deu os ombros e ele novamente caiu na risada. bufou. – Você pode me dizer qual é a graça?
- Digamos que a minha banda toca o tempo todo no rádio e ela provavelmente não te agrada! - Ele disse calmamente, dando uma outra golada em seu café.
- Você tem uma banda? – Ela indagou, seus olhos arregalaram.
- Sim – Respondeu ele com a mesma calma e simplicidade de antes – Waste, conhece?
- Oh meu Deus! É claro que eu conheço! Minha colega de apartamento ama vocês – levou as mãos até a boca espantada. achou graça em seu gesto – Me desculpe, eu não tinha intenção de te ofender.
- Você não me ofendeu, não há de que pedir desculpas – Ele sorriu marotamente. sentiu seu rosto pegar fogo de vergonha. Por que era sempre ela que dava esses foras?
- De verdade, me desculpe, ! – Ela pegou em suas mãos involuntariamente. assustou-se inicialmente com o toque, mas depois relaxou.
- Fique tranquila, sorriu sincero. Ele apertou delicadamente as mãos dela entre as suas – Eu prefiro aqueles que não me conhecem àqueles que fingem serem meus melhores amigos de infância.
- Isso acontece com frequência? Quer dizer, um estranho te tratar como se lhe conhecesse durante toda a vida?
- Mais do que você imagina! – soltou suas mãos e voltou-se para o café. Seu sorriso havia desaparecido do rosto e teve pena dele, procurou em sua mente algo positivo para falar e tentar lhe confortar.
- É só você não ligar... – Ela acariciou os joelhos do rapaz por baixo da mesa.
- Não é tão fácil – Ele suspirou enquanto fitava pensativo o horizonte pela janela – As pessoas são más e invasivas demais quando querem.

Ele abriu um sorriso triste.

- E é por causa delas que eu estou aqui!

sentiu a garganta secar, tudo de repente fazia sentido. Toda aquela movimentação na rua, todos aqueles fotógrafos que estavam sorrateiramente escondidos entre as árvores e arbustos na frente do portão da clínica desde o início da manhã eram por causa de . Todos queriam tirar uma maldita foto de seu momento de maior sofrimento e humilhação para vender por milhões de dólares para algum tabloide. O mundo da fama deveria ser realmente cruel e não gostaria de estar dentro dele e muito menos de ser nesse exato momento.

- Sinto muito por tudo isso! - Ela abriu um sorriso fraco, o melhor que conseguia e apanhou novamente as mãos de , querendo passar-lhe um pouco de calor humano.
- Está tudo bem – abriu um sorriso amarelo e deu os ombros – fui eu quem escolhi esse destino.

A porta do quarto abriu-se com violência atrás deles, deu um pulo e a sua frente apenas revirou os olhos virando-se novamente para a janela. O rosto sorridente de Dr. Bennett apareceu entre a porta e o batente.
- Já tomou seu café, sr. ?
- Sim – respondeu secamente.
- Então o senhor poderia me acompanhar até meu escritório? Precisamos conversar sobre seu caso e fazer alguns exames para garantir que a sua reabilitação seja um sucesso!
- Isso é mesmo necessário? – indagou. Ele definitivamente não estava com saco para consultar-se com um psiquiatra irritantemente sorridente a essa hora da manhã.
- Infelizmente sim, sr . São as ordens expressas do seu agente, o sr. Carter! – Dr. Bennett havia mudado a sua abordagem, embora seu rosto ainda estivesse estampado um sorriso idiota, podia sua voz ficando mais enérgica. Ele amaldiçoou Albert mentalmente, ele havia sido um grande filho da puta de abandoná-lo daquele jeito na clínica. entendia seus motivos, mas, não poderia deixar de sentir raiva dele.
- Ok. Me dê dois segundos, então – Ele levantou-se e levou as mãos até os cabelos molhados e chacoalhou-os novamente. Procurou por uma camisa em sua mala e a vestiu, sem nem mesmo reparar em qual era. Calçou os tênis de cano médio de qualquer jeito e virou-se para , agradecendo-a com apenas um olhar e saiu pela porta no encalço do médico.

sentiu pena de novamente, ele parecia totalmente infeliz quando acompanhou Dr. Bennett para seu escritório. Desde que havia começado a estagiar na clínica, havia deparado-se com muitas histórias tocantes, desde usuários de drogas sintéticas até casos de depressão. Mas nenhum daqueles casos havia lhe tocado como o de , o que era bem irônico. Afinal, ele era um cara rico, famoso e provavelmente tinha tudo àquilo que desejasse em suas mãos. Porém, havia algo a mais naquele olhar triste e perdido de e ela, a partir de agora, faria tudo o que pudesse para ajudá-lo a recuperar-se e voltar a sorrir.



Capítulo 4 - Hysteria

acordou sentindo-se incrivelmente indisposto e mal humorado. Embora tivesse tido uma boa noite de sono, já se fazia mais de quatro dias completos que ele estava em completa abstinência: sem álcool, sem cigarros e sem pó.
Ele remexeu-se na cama. Não sentia vontade alguma de levantar-se da cama e descer para o refeitório para tomar café da manhã. Queria apenas fechar seus olhos e voltar dormir até o final do dia quando Albert finalmente viria buscá-lo desse pesadelo.
Seu desejo, no entanto, não poderia realizar-se, já que desde terça-feira de manhã, após sua consulta com o Dr. Bennett, as regras do Instituto St. Lucius haviam ficado pouco mais rígidas. havia sido colocado em regime aberto, podendo circular por todas as dependências e áreas externas da clínica. É claro que toda essa suposta liberdade tinha um preço, ele estava sendo obrigado a participar de reuniões de apoio com todos os outros dependentes químicos do prédio.
Dr. Bennett havia lhe explicado que sua participação durante as reuniões era de extrema importância e fazia parte das regras da casa, mas a pedido do próprio Albert para resguardar sua imagem pública, ele deveria apenas dizer seu nome e de quais substâncias químicas que era vítima. agradeceu mentalmente por não ter que expor detalhes de sua vida pessoal e também o fato de que ninguém ali parecia realmente importar-se com sua fama, ainda que vários olhares curiosos fossem lançados em sua direção, e nem com a quantidade de droga que ele poderia chegar a usar em um único dia.
Um enfermeiro bateu em sua porta pela quarta vez apressando-lhe para o café. havia o ignorado desde às 8 da manhã, horário em que todos os pacientes deveriam levantar e iniciar as atividades diárias. Seus dias de café da manhã no quarto e dormir a hora que desejasse, também haviam sido retirados pelo médico. suspirou, vestiu apenas uma bata indiana branca e decidiu descer, levou consigo apenas seus óculos escuros e um livro de brochura de baixo dos braços.
Quando chegou ao refeitório, sentiu novamente olhares curiosos em sua direção e embora todos os rostos dos jovens no salão pareciam excitados ao vê-lo, nenhum deles se aproximou. Ele agradeceu mentalmente por isso também e procurou uma mesa afastada, tomando apenas uma xícara de café preto. Ainda que tivesse comido pouco nos dias anteriores, sua abstinência o deixava sem fome. , que sempre fora magro, já sentia sua calça ficando larga na cintura. Isso não era bem uma novidade pra ele, pelo contrário, suas perdas e ganhos de peso intercalava-se com períodos de abstinência ou excesso de determinada droga.
Ele procurou pelo rosto de , a garota com quem ele havia conversado algum tempo desde seu primeiro dia de internação. Ele sentia-se estranhamente bem na sua companhia. Quando não a viu, partiu para a área externa da clínica para tomar um pouco de sol e ler seu livro em um ambiente um pouco menos doentio e depressivo que seu próprio quarto ou os corredores frios do prédio principal.
caminhou pela grama recém aparada do jardim, sentindo a textura úmida e reconfortante das pequenas folhas tocarem seus pés descalços. Sentou-se em baixo de uma árvore gigantesca com aparência tão velha quanto à arquitetura colonial da própria clínica. Uma fonte de água caía logo atrás dele, formando ao seu lado uma pequena lagoa artificial.
A junção da lagoa com as árvores e arbustos naturais do campo, compunham a paisagem ideal para aqueles que procuravam a paz interior. Apesar de sentir-se sensivelmente mais relaxado, ainda mantinha-se extremamente mal humorado, afinal, ele era um astro da música com fama internacional e dotado de plena consciência que ele não pertencia àquele lugar! Se ao menos tivesse uma garrafa de Jack Daniel's ou algum maço de cigarro escondido em suas coisas, talvez fosse mais fácil a aguentar aquela batalha.
suspirou vencido. Abriu seu livro e mergulhou na história, tentando energicamente ocupar sua mente e quase não percebeu quando uma garota ocupou delicadamente um lugar ao seu lado.

- Oi – disse ela.
- Oi – disse desviando os olhos do livro, tentando ao máximo não parecer incomodado com a sua presença, por mais que estivesse absorto em sua história, ele gostava da companhia dela.
- Espero não estar te incomodando! – Ela deu um sorriso tímido que contagiou quase que imediatamente .
- Você nunca incomoda, – Ele igualmente sorriu e fechou o livro com um baque.
- Felicidade Conjugal? – Ela indagou referindo-se ao livro, um sorriso desconfiado apareceu em seus lábios.
- Sim – abriu um outro sorriso, entretanto, agora ele parecia um tanto quanto tímido passando os dedos magros e machucados na capa dura e surrada do livro – Não que eu seja casado ou planeje isso tão cedo!

riu e virou-se para ela.

- O que foi?
- Não é nada – deu os ombros - Simplesmente achei que ler não fazia muito seu estilo...
- Você só pode estar brincando! – Ele fingiu-se de ofendido.
- Não! – Ela riu novamente - Todas essas tatuagens, uma banda de rock barulhenta e uma tendência quase que assassina para assustar enfermeiras de plantão, apontam para a rebeldia e não para a literatura!
- A senhorita está sendo preconceituosa! – espreitou os olhos, sentindo-se levemente afetado pela afirmação de . Ele tentou controlar a voz para não parecer extremamente grosseiro.
- Não foi a minha intenção, desculpe!
- Tudo bem – Ele voltou a fitar a capa do livro. pôde ver uma ponta de carinho em seus olhos.
- Tolstoi? Lê um pedaço para mim? – Ela sorriu e apontou com a cabeça para o livro.

assentiu, embora visivelmente desconfortável com a situação. Felicidade Conjugal tinha um significado extremamente intimista para ser compartilhado com os outros. Entretanto, ele sentia-se bem na companhia de e ela parecia digna para ouvi-lo. percorreu os dedos pelo livro e procurou pelas páginas grifadas por ele.

- "O que eu achava pior era a sensação de que a cada dia os hábitos aprisionavam nossa vida de uma determinada forma, e que nossos sentimentos já não eram livres, estavam subordinados ao curso monótono e impassível do tempo".

Apesar de fazer uma leitura simples e sem maiores entonações, havia ficado abismada com aquele pequeno trecho, aquelas poucas palavras tinham uma incrível veracidade que jamais havia sentido antes. Ela pode perceber uma certa identidade entre e aquele personagem, ambos tinham um toque de melancolia na fala. Seus lábios abriram-se para falar, mas não emitiram som nenhum. soltou uma risada rouca e embora seus lábios esboçassem um sorriso, seus olhos, aqueles olhos que estavam intrigando-a desde terça-feira pela manhã, pareciam infelizes e sem vida.

- Você parece gostar bastante desse livro – sorriu amigavelmente, uma de suas mãos pressionaram carinhosamente os nós dos dedos de .
- Mais do que você pode imaginar! – Ele disse simplesmente e seus olhos vagaram desfocados pela paisagem.
- E por que ele é tão especial? - Arriscou.
- Você se importa se nós não falarmos sobre isso? - Os olhos de demoraram enquanto ele fitava os próprios pés. Ele puxou um chumaço de grama com as mãos, visivelmente ainda mais desconfortável e com muito custo abriu um meio sorriso tímido – Sabe, é meio pessoal!
- Tudo bem, – Ela manteve o sorriso amigável nos lábios. , como uma boa estudante de psicologia, tinha uma incrível facilidade de colocar-se no lugar dos outros. Ela respeitava a posição .
- Valeu por entender – Ele suspirou pesaroso – as pessoas daqui tem a mania de querer saber de tudo.
- É o trabalho delas. Elas precisam saber de tudo do que está acontecendo com você para te ajudar da melhor maneira possível.
- E quando as pessoas não querem ser "ajudadas"? – fez as aspas com as mãos e suspirou.
- Quando elas não querem ajuda, elas não procuram por uma clínica!
- Para a sua informação, existem aquelas que são obrigadas! – Ele explodiu, não se preocupando mais em não parecer grosseiro para a garota. Ele definitivamente não estava em um bom dia – Eu não estaria aqui se pudesse escolher, caramba!

suspirou. Sabia que um longo surto estava por vir, resultado direto da abstinência pela qual estava passando. Ela novamente segurou os dedos dele com as mãos, apertando-os levemente, procurando passar-lhe confiança e calma.

- Fique calmo, . Eu te entendo. Você está apenas tenso com a falta de aditivos químicos em seu corpo, todo esse nervosismo é uma resposta imediata do seu organismo! – Ela disse pausadamente, tentando fazer com que ele se acalmasse.
- Você não me entende, ! Eu sei me controlar! Eu não preciso dessa merda de terapia! – Ele gritou novamente e soltou as mãos da garota.
- Seu agente sabe o que faz!
- Você não o conhece! Você nem ao menos me conhece! – Levantou-se abruptamente no mesmo segundo e deixou sozinha encostada na árvore, ela tinha um semblante calmo, embora seus olhos estivessem arregalados.

saiu pisando fundo, sentindo espasmos percorrerem toda a extensão do seu corpo, devido ao seu estado de nervos. Sentia-se incrivelmente puto tanto com , quando com a situação. Por mais que ele entendesse que ela estava apenas fazendo o seu trabalho, a garota havia passado dos limites que sua paciência já escassa havia fornecido. precisava com urgência falar com Albert e exigir a sua alta.
Bateu com as mãos agressivamente na bancada da recepção, a secretária que preenchia calmamente alguns formulários médicos deu um pulo em sua cadeira.

- Cadê o Albert? – Ele vociferou.
- Desculpe, Albert? – A mulher ainda recuperando-se do susto ofegou.
- Sim, Albert, porra! – Impaciente ele bateu novamente com as mãos na bancada – Cadê ele?
- Senhor, eu não sei do que você está falando – Ela afirmou tentando parecer calma.
- Albert Carter, meu agente! Ele vem me buscar hoje para me levar embora dessa merda! – debruçou sobre a bancada, seus olhos estavam atingindo uma cor vermelha de cólera.
- Eu não tenho nenhum papel de alta pra hoje, creio que o senhor deve ter se enganado – A secretária deu um sorriso cortês, embora seus lábios tremessem para mantê-lo.
- Então liga para o desgraçado do Albert! – Ele berrou e num gesto desastrado derrubou um dos vasos de cristal que enfeitava a quina da bancada. O vidro espalhou-se por todo o hall de entrada atraindo inúmeros olhares para a discussão.
- Devo pedir que mantenha a calma, senhor, antes que eu tenha que ligar para os seguranças – A secretária alertou. Ergueu seus braços e pediu por auxílio para um enfermeiro que estava por perto.
- Isso não será necessário desde que você use essa merda de telefone para ligar para o Albert! – rosnou. Fechou os olhos coléricos quando sentiu a mão do enfermeiro tocar-lhe o ombro esquerdo – Tire suas mãos de mim! – Não houve resposta e nenhuma ação por parte do enfermeiro - Eu não vou avisar novamente!
- Algum problema por aqui, sra. Austin? - A voz grave do rapaz atenuou a tensão já existe. Ao seu ignorado pelo enfermeiro, fechou os pulsos instintivamente.
- Não, acho que agora está tudo bem – A secretária suspirou e abriu um sorriso amarelo para , o que o irritou ainda mais – Obrigada, Fernando!
- Que bom! – Fernando, o enfermeiro, forçou uma risada irônica e apertou o ombro de – Talvez o rapazinho aqui somente precise descansar um pouco.

Aquilo havia sido a gota d'água.

- Depois não diga que eu não avisei! – virou-se rapidamente, seu pulso cerrado atingiu com exatidão o queixo do enfermeiro.

Os corpos de ambos os rapazes enrijeceram-se, arfava pelo movimento repentino, Fernando com uma das mãos massageava o queixo atingido, concentrando-se para não revidar o golpe. Um segundo enfermeiro aproximou-se para tentar contornar a bagunça que se desenvolveu no saguão, ele correu para o lado de e imobilizou seus braços para trás. O rapaz remexeu-se desesperado.

- Me solta, cacete! – Ele berrou.

A visão de estava começando a enturvar-se devido ao seu extremo cansaço físico e mental, por sorte, conseguiu distinguir o rosto aflito de abrindo caminho entre a multidão que os cercavam.

- Solta ele, Anthony! – Ela pediu de maneira educada, porém decidida.
- Mantenha-se afastada, , o paciente está extremamente agressivo – O enfermeiro respondeu, segurando os braços de com ainda mais força.
- Eu estou vendo, mas eu tenho ordens expressas do Dr. Bennett para cuidar desse caso em especial! - Ela disse ríspida.
- Eu não posso e não vou soltá-lo! – Anthony foi objetivo - Esse rapaz acabou de agredir o Fernando!
- Você será o próximo! Eu posso garantir! – vociferou enquanto tentava se soltar, sem sucesso, dos braços do enfermeiro. Anthony o puxou e torceu um de seus braços, ele urrou.
- Será que você não consegue ver que está machucando ele?! – aproximou-se desesperada do enfermeiro, puxando seus braços para soltasse .
- Anthony, solte-o imediatamente! – Uma voz grave tomou conta de todo o salão. Era Dr. Bennett, que pela primeira vez, não estava sorrindo igual a um idiota.

A pedido do chefe, Anthony soltou os pulsos de e recuou. pensou em revidar, mas seu corpo reclamava de dor e ele sentia-se incapaz de acertar um soco certeiro no enfermeiro.

- Mas o que é que está acontecendo aqui? – A voz de Bennett era autoritária.
- Esse rapaz, primeiro veio aqui ameaçar a sra. Austin e depois partiu para a agressão em minha direção, acertando meu queixo! – Fernando, o primeiro enfermeiro, reclamou.
- Ele estava descontrolado, então eu tive que intervir! – Anthony complementou. espreitou os olhos sob tamanha calúnia. Não havia sido exatamente daquela maneira o desenrolar da história.
- Isso é apenas um quadro de agressividade durante o início da abstinência, para a autopreservação! – havia tomado às dores de e ela saberia usar termos técnicos para comprovar sua teoria e sua promessa de ajudar o rapaz – O senhor sabe, acontece na maioria dos casos.
- Sim – Dr. Bennett olhou dos pés a cabeça. Ele parecia um tanto menos colérico quanto a dois segundos atrás. Ele deu os ombros e chamou por um outro enfermeiro - Afonso, ajude-me a levar o sr. para o quarto dele.
- Não precisa, eu sei andar sozinho! – vociferou quando sentiu o outro enfermeiro tocar-lhe a pele já machucada dos pulsos.
- Creio que não seja uma boa hora para esse tipo de reclamações, sr. – Dr. Bennett respondeu ríspido caminhando logo atrás de . Ele virou-se para , venha conosco!

Depois de subir até o quarto de em silêncio quase absoluto, Dr. Bennett chamou a atenção do rapaz dizendo-lhe que seu comportamento era inadmissível para as regras do Instituto St. Lucius e que ele poderia muito bem ser expulso da clínica por isso. O rosto de se iluminou espontaneamente, ele não podia acreditar que seria expulso da clínica de maneira tão fácil e rápida, se soubesse dessa regra, ele teria brigado com alguém logo na terça-feira à tarde.
Entretanto, sua alegria acabou-se quase que no mesmo instante, após informá-lo com a ideia de expulsão, Dr. Bennett disse que dessa vez seria complacente e o perdoaria, afinal, ele não era um paciente comum. amaldiçoou Albert mentalmente, ele provavelmente estaria deixando uma pequena fortuna no St. Lucius para cada dia que permanecesse lá.
Dr. Bennett ainda havia deixado claro para , que devido ao acontecimento do dia, ele voltaria para o regime fechado, recebendo as refeições diárias todas no quarto e permanecendo no mesmo durante as próximas 72 horas.
agradeceu mentalmente, regime fechado significava que ele permaneceria em seu quarto, poderia dormir o quanto quisesse e apenas veria o rosto amigável de . Ele abriu um sorriso forçado, concordando com tudo, admitindo sua culpa e agradecendo – ironicamente – por poder permanecer mais tempo na clínica. Dr. Bennett abriu um sorriso satisfeito e chamou por Afonso e para deixarem o rapaz sozinho.

- Será que eu posso ter um segundo com a garota? - perguntou ao psiquiatra que assentiu desconfiado.

sentou-se na cama e abriu um sorriso derrotado para a garota.

- Obrigado por me ajudar com o lance dos enfermeiros – Ela apenas assentiu e murmurou um "de nada" – E, bom... Desculpe-me por gritar com você daquela maneira.

abriu um sorriso e sentou-se ao lado de .

- Não tem problema. Eu realmente lhe entendo.
- Ainda assim, obrigado!
- É uma pena que você tenha que voltar ao regime fechado, deve ser horrível ficar o dia todo nesse quarto.

deus os ombros e pela primeira vez tomou a atitude pegando nas mãos de . Ele tinha um leve sorriso estampado em seu rosto.

- A parte boa de tudo isso é que eu vou te ver no meu quarto todos os dias.

O sorriso de aumentou, estendendo-se por seus todos seus lábios. Ela não esperava por aquilo, mas, havia achado meiga à atitude dele.

- Só temos um pequeno probleminha – riu e olhou para – Eu não trabalho durante os fins de semana!

pode ver o brilho nos olhos de apagar-se instantaneamente.

- Como assim, não trabalha?
- Eu sou apenas uma estagiária.
- E quem vai cuidar de mim? – Ele choramingou.
- Alguém que esteja qualificado para isso.
- Mas, ninguém me entende como você!
- Me desculpe, , mas eu não posso fazer muitas coisas a respeito disso – Uma batida seca na porta os interrompeu, abriu um sorriso tímido e levantou-se da cama no mesmo instante – Preciso ir, agora, tenha um bom fim de semana!
- Você também - murmurou.

Ao ouvir as travas de sua porta fechando-se e prendendo-o naquele quarto, sozinho, pelos próximos 3 dias e principalmente ao ver desaparecer pela porta na companhia de Dr. Bennett, arrependeu-se de ter discutido com ela e com os outros enfermeiros naquela manhã, sem a companhia da garota, ele provavelmente ficaria louco durante todo o fim de semana. Não era preciso prever o futuro para sacar que com certeza o pior fim de semana da sua vida estava por vir.



Capítulo 5 - Tell Me That I Won't Feel a Thing so Give Me Novacaine

O fim de semana não parecia ter fim. Definitivamente não. E ele precisava sair fora dali. olhava pela janela forrada de grades do St. Lucius o fim do pôr do sol. O céu avermelhado tornava-se mais escuro a cada segundo e o que costumava a ser um espetáculo belíssimo na maioria das vezes, apenas estava dando-o náuseas. Sem falar da sensação de profunda depressão.
socou a mesa à sua frente. Era horrível estar ali, internado em uma clínica para viciados. Era horrível estar há horas completamente sozinho, preso naquele cubículo infernal. E era ainda mais horrível lembrar-se que em menos de uma semana atrás ele era um cara livre, circulando pelos palcos e cidades Norte Americanas vivendo exatamente como queria.
Ele nunca havia realmente parado para pensar em internar-se em uma clínica de reabilitação. Suas festas, descontrações e noitadas simplesmente lhe pareciam inofensivas. sempre tivera certeza que poderia parar quando quisesse com as drogas, afinal, ele não era exatamente o tipo de junkie completamente perdido e irresponsável como costumavam rotulá-lo.
Pelo contrário. sabia das suas responsabilidades e travava diariamente uma batalha interna para que conseguisse corresponder a todas elas. Poucos sabiam disso, mas ele era extremamente perfeccionista com tudo aquilo que fazia. Para , não existia música mais ou menos, ou ela era boa ou então, poderia jogá-la diretamente no lixo. Talvez fosse essa sua intensa cobrança sobre seu trabalho que fizeram a Waste, pelo menos musicalmente, ser exaltada desde o lançamento do seu debut.
Ele costumava pensar em clínicas de reabilitação como um lugar para os fracos, para aqueles que não tinham peito suficiente para arcar com as suas decisões e saber parar quando necessário. Aquele costumava não ser seu caso.
Mas, naquele fim de semana, toda a sua confiança tinha caído por terra. sentiu-se fraquejar pela primeira vez, percebeu que talvez ele não soubesse controlar-se tão bem assim e que não pudesse escolher com tanta facilidade quando e como parar com as substâncias que usava.
Cerca de dois dias atrás, a abstinência parecia somente incomodar, somente deixando-o indisposto e mal humorado. Mas agora, uma onda de sentimentos de autodepreciação realmente havia o pegado de jeito. Ele simplesmente poderia matar para livrar-se da dor física e psicológica que sentia.
levou as mãos às têmporas, massageando lentamente a bomba relógio que a sua cabeça havia se tornado. Ele precisava acalmar-se, ele precisava de um anestésico qualquer. Ele precisa de heroína.
Ao lembrar-se dos efeitos da droga, da calma e do prazer que ela lhe trazia, sentiu seu coração começar a bater mais rápido, rápido até demais. As suas mãos começaram a tremer, ele tentou secar a fina camada de suor que se instalou em baixo das suas palmas nos jeans, mas foi em vão. Ele definitivamente precisava tranquilizar-se, ou então, morreria ali mesmo, vítima de um enfarto.
encheu um copo d'água e sentou-se na sua cama. Tomando pequenas goladas do líquido transparente, como se aquilo fosse acalmá-lo. "Calma, você é mais forte do que isso" repetiu para si mesmo, procurando respirar e inspirar lenta e profundamente.
Por alguns minutos, a sensação desesperadora de pareceu desaparecer e ele pode respirar com um pouco de alívio. Suas pálpebras pesaram, cansadas demais para dar continuidade para aquele pesadelo. Ele fechou os olhos.
Mas ao contrário de cair no sono como planejava, não conseguiu desligar-se, sua cabeça maquinava os motivos pelos quais ele ainda estava ali. Albert, certamente não era o único culpado, ele deveria estar apenas seguindo ordens de algum dos empresários da sua gravadora. Ele sabia que poderia confiar em Albert, eles eram acima de tudo, amigos. Ou então, estaria errado? Será que Albert havia o colocado naquela clínica somente para tirá-lo do jogo? E que jogo seria esse? Será que alguém havia sido pago para dar um sumiço nele? Se sim, qual seria o próximo passo?
Quando estava prestes a afundar-se em profunda paranoia, houve uma batida seca na porta e um enfermeiro carismático entrou em seu quarto. Ele trazia nas mãos uma bandeja prateada, milimetricamente bem arrumada.

- Boa noite, sr. ! - Ele disse com um sorriso animado. Irônico, tinha certeza! – Aqui está seu jantar.


O estômago de roncou perante à comida, mas uma voz em sua cabeça dizia: "Não coma, está envenenada".

- Coma você primeiro – Ele disse.
- Como?
- Coma primeiro! Como é que eu vou saber que esta comida não está envenenada?
- Envenenada? – O enfermeiro fincou a testa. Ele olhou para os pratos em suas mãos e para o rosto pálido de logo em seguida – Você está bem, sr. ?
- Não, nenhum um pouco – admitiu com fraqueza. Ele passou desajeitadamente às mãos pelos cabelos, puxando-os pra trás.
- Coma, vai te fazer bem – O enfermeiro deu um sorriso complacente, colocando na mesa a bandeja com o jantar de .

O rapaz, mesmo a contragosto, sentou-se à mesa. Puxou a tampa que fechava sua refeição e deixou que o delicioso aroma de peixe com legumes invadisse suas narinas. Por alguns segundos, aquela foi melhor sensação do dia. beliscou um pedaço da carne, de primeiro impulso ela vagou sem rumo por seus dentes, no entanto, quando se deu conta, todo o filé que estava em seu prato havia sido devorado.

- O que foi que eu disse? – O enfermeiro deixou que terminasse de comer algumas rodelas de cenoura para retirar o seu prato – Precisa de alguma coisa?
- Sim – Ele respondeu quase que involuntariamente – Preciso de algo que me faça dormir!
- Já tentou a sua cama? É o máximo que eu posso te oferecer, sr. !
- Não, cara, você não está entendendo – segurou os braços do enfermeiro com firmeza. – Eu preciso de algo que me faça dormir até amanhã, eu não consigo ao menos fechar os olhos com tranquilidade.

O enfermeiro sentiu os dedos de forçarem contra a pele de seu braço. Mas ele sabia que aquela não era uma atitude colérica, como o rapaz apresentou na sexta-feira anterior, era uma atitude quase que angustiada. Ele assentiu com a cabeça, analisando atentamente o rapaz na sua frente.

- Eu preciso de ordens do Dr. Bennett para te dar qualquer medicamento. Eu vou descer e tentar entrar em contato com ele, mas não acho que o doutor vá liberar nada para você - Ele disse com sinceridade. Conhecia os casos do Instituto St. Lucius como a palma da sua mão e sabia que as atitudes desesperadas de eram completamente comuns.

assentiu com a cabeça, embora esperasse que o enfermeiro lhe trouxesse alguma medicação, temia pelas consequências. Ele levou o polegar até os lábios, roendo o resto da unha que ainda possuía. Quando o rapaz apareceu na porta de seu quarto, minutos depois, carregando apenas um copo de água e um a pílula branca na mão, não conseguia disfarçar seu alívio.

- Graças a Deus! – Ele disse.
- Eu não ficaria tão feliz se fosse você – O enfermeiro respondeu, dando a o medicamente. O mesmo engoliu a pílula sem hesitar – Por minha vontade, eu não te daria nada, mas, o Dr. Bennett me garantiu que seu caso é especial.
- E é por isso que o Dr. Bennett é o diretor dessa espelunca, e não você! – sorriu. Terminou de tomar o resto da água e devolveu o copo pra o enfermeiro carrancudo a sua frente. – Obrigado, de qualquer forma.
- Acho melhor deitar-se, sr. , o efeito dessa pílula é rápido. – O rapaz respondeu secamente e desapareceu por entre o corredor branco e frio da clínica.

seguiu seus conselhos. Assim que o enfermeiro o deixou sozinho, ele procurou pela sua cama. Passou as mãos rapidamente pelos braços, sentindo uma estranha sensação de frio, deu tempo apenas dele buscar outra coberta na cômoda do quarto, antes suas pálpebras pesaram sobre os olhos e fechassem pelo resto do dia.

[...]


Na manhã seguinte, o rapaz acordou em um pulo. Arreganhou os olhos e por um minuto ficou cego pela iluminação repentina. bocejou, coçando a fina cobertura de barba que surgia em seu rosto. Ele não costumava usar barba, mas desde que fora internado, ele ainda não vira um barbeador por perto.
A manhã estava quente. podia sentir os cabelos levemente molhados na região nuca, além da blusa que usava desde a noite anterior, estar ligeiramente grudada no seu corpo. No entanto, ele sentia-se bem, ou pelo menos melhor que no dia anterior.
Depois de ter tomado um calmante, havia apagado. Desligando-se totalmente de seus pensamentos e neuroses, inclusive, ele nem ao menos tinha sonhado com nada preocupante. Era disso que ele precisava depois de surtar sozinho por duas tardes, uma noite tranquila de sono.
Ele levantou e dirigiu-se em direção banheiro. Tomou um banho rápido, tentando livrar-se do suor e das aflições do fim de semana. Quando saiu do box, colocou um jeans que costumava ficar justo, agora sobrava em sua cintura, e uma camisa qualquer.
Sentou na mesinha ao lado da janela, buscando absorver um pouco de luz e calor solar. Permaneceu lá por alguns minutos, até que batidas tímidas na sua porta indicaram que o café da manhã havia finalmente chegado.

- Entre – Disse calmamente. Ele tirou os pés do beiral da janela e virou-se para a porta.
- Bom dia, ! – Uma voz feminina ressoou pelo quarto. Era , e ele, havia sido pego de surpresa.
- Oi – Respondeu.

não havia ficado feliz na presença da garota. Pelo contrário, alguma coisa dentro dele ferveu de ressentimento. Ela estava ali na porta, toda feliz, de sorriso de orelha a orelha, enquanto ele estava no período de maior miséria na sua vida. Isso não estava certo e ela parecia não se importar.

- Como passou o fim de semana? – Ele perguntou num tom irônico e garota titubeou.
- Bem e você?
- Adivinha! – Respondeu mal humorado - Foi ótimo! Nem mesmo o inferno é tão atrativo quanto esse quarto!

mordeu os lábios, incerta sobre o que falar. Mas falou por ela.

- Deixa essa merda de café aqui e sai fora!
- ! – Ela exclamou desesperada por uma explicação – O que é que você tem?
- Quer que eu faça uma lista? Se começarmos pelo fato de que eu estou preso em um quarto por quase três dias seguidos, é suficiente para você? Que tal então pensar que eu estou internado em uma clínica de reabilitação à força? Explica a minha situação?
- Sim, é claro que explica – mirou os próprios pés e perguntou-se se ela estava apenas envergonhada ou com pena dele.
- Que tal deixar esse café em cima da minha mesa e sumir por essa clínica?
- , você está sendo grosseiro! – A garota disse em meio a uma confusão de sentimentos. Ela sentia-se rejeitada, humilhada, mas ao mesmo tempo entendia as razões de estar incrivelmente agressivo naquela manhã. Ela nunca tinha fumado nem mesmo um cigarro na sua vida, mas tinha uma ideia de como deveria ser complicado livrar-se de vício em outras drogas.
- Você ainda espera que eu seja amável? – Ele riu.
- Não, eu espero que você seja racional e veja como está sendo grosseiro comigo – Ela respondeu firme, mas ainda com um toque de doçura.

As palavras de pareceram fazer sentido. suspirou pesadamente na sua frente. A máscara cruel que ele estava usando instantes atrás foi dissolvendo-se aos poucos em um rosto confuso e dolorido.

- Desculpe, – Ele disse lentamente – Acho que eu perdi a racionalidade desde que eu pisei nessa clínica.
- Eu imagino que sim. – Ela abriu um pequeno sorriso. ao menos parecia mais calmo e tranquilo ao seu olhar. deixou a bandeja com o café da manhã ao lado dele.
- Por que você é sempre tão gentil comigo, hein? – perguntou enquanto derramava café preto em sua xícara – Até mesmo quando eu sou um bosta com você?
- Eu estou apenas fazendo meu trabalho, sr. respondeu mecanicamente, como responderia para qualquer outro interno. Menos para ele.
- Você sabe que não está.
- Como assim?
- Você me faz companhia durante o café da manhã, toma as minhas dores e mantém-se do meu lado quando até o Dr. Bennett quer me enforcar – Ele abriu um sorriso sincero. ficou em silêncio por alguns segundos, perdida em pensamentos – Isso não parece fazer parte do trabalho de mais ninguém nessa clínica.

sabia que importava-se com ele, sabia desde o primeiro dia, quando ela se dispôs a permanecer pelo primeiro café da manhã. E ele sabia ainda que não estivera realmente com raiva dela minutos atrás, estava apenas frustrado por não ter ao seu lado justamente na hora que ele mais precisava a única pessoa que realmente parecia interessar-se por ele naquela clínica. Era bom vê-la de novo.

- Eu não sei – mordeu os lábios. Levou uma mecha que caia do seu cabelo atrás das orelhas de maneira graciosa. sorriu, ela fazia esse gesto se tornar meigo, enquanto todas as garotas que ele havia conhecido apenas o vulgarizavam - Mas tem algo em você, ou melhor, no caso, que me chama a atenção.
- A minha banda que não é, afinal, você nem ao menos sabia quem eu era! – Ele riu e corou levemente por isso.
- Eu já pedi desculpas por isso – Ela cobriu o rosto com as palmas das mãos, envergonhada.
- E já foi desculpada por isso também.
- Eu me sinto uma idiota por isso. Quem, hoje em dia, não sabe quem é ? O astro da Waste? – Ela riu, corando novamente.
- Eu não sou o astro. Eu sou, muito provavelmente, o cara que mais fode com a própria banda no universo – Ele deu uma garfada no bacon, incrivelmente bem preparado, que estavam em seu prato.
- Não diga isso, , você é uma ótima pessoa! – o advertiu. negou com a cabeça, achando graça.
- Você definitivamente não me conhece, . Eu sou um péssimo exemplo de pessoa!
- Todo mundo erra. Com você, não seria diferente – Ela disse simplesmente.

Um filme se passou pela cabeça de naquele instante. Ele poucas vezes tinha errado por pura inocência. Na maioria das vezes ele sabia muito bem o que estava fazendo e quais eram as consequências de seus atos. Ele havia começado a beber cedo demais, nunca dissera não para nenhum tipo de droga, sempre estava envolvido em algum tipo de briga e encrenca. Tinha uma péssima relação com pai e não gostava nem ao menos de tocar no assunto. Era modelo de vida para os jovens da época e não fazia nada que fosse realmente positivo e digno de aplausos.
Se por alguns segundos havia ficado indeciso se era ou não uma boa pessoa, agora ele tinha certeza de que não era. Bem ao contrário, ele percebeu que definitivamente era um rebelde, uma pessoa mesquinha e sem o mínimo de escrúpulos. Ele se sentia impuro demais para ao menos ficar perto de uma pessoa com uma áurea tão boa quanto a de . Ela não merecia aguentar os problemas e os surtos de alguém como ele. trincou o queixo.

- Tudo bem, mas já está na hora de você ir embora!
- Oi? – pareceu confusa.
- Não me leva a mal, mas eu preciso ficar um pouco sozinho, ! – Ele empurrou na direção da garota a bandeja do café da manhã.
- Termine ao menos de comer, . – Ela falou delicadamente, recuperando-se da nova atitude abrupta do rapaz.
- Eu não estou com fome.
- Tem certeza? – perguntou.
- Sim! – respondeu rapidamente.
- Eu vou indo então – apanhou a bandeja de prata mal tocada por e parou entre o batente a porta – Se precisar de qualquer coisa, peça para me chamarem.
- Pedirei – Mentiu.

esperou que sumisse de seu campo de visão para levar as mãos nos cabelos e os puxarem em seco. O dia mal havia começado e ele já estava sentindo-se mal novamente. Mas, ao contrário dos dias anteriores, percebeu que ele só estava ali, internado naquelas condições, porque ele era um cretino indigno de tudo aquilo que tinha.
Ele queria ao menos poder fechar os olhos e acordar no fim do seu tratamento. Ele buscaria a redenção, buscaria ser alguém melhor. Mas ele teria que esperar e a espera para esse dia era longa.
desejou que ele ao menos conseguisse pegar no sono novamente. Mas, é claro que ele não conseguiria o feito, não pelo menos nas próximas 18 horas.



Capítulo 6 - I Saw Your Ghost Tonight, The Moment Felt so Real

Uma nuvem escura e sombria cobria o céu noturno e sem estrelas da Califórnia. Após dois dias sem dar trégua, a chuva torrencial havia potencialmente se juntado com uma lufada de ventos frios, trazendo para a costa dourada uma noite de tempestade. Um trovão rompeu pelo céu escuro, sua estranha iluminação seguida do grandioso estrondo fez remexer-se desconfortável pelo sofá.
Devido ao mal tempo, as atividades dos internos foram encerradas mais cedo e desde então, às 21 horas, a clínica estava completamente vazia e silenciosa, com exceção dos demais enfermeiros e faxineiros que transitavam cumprindo o resto de sua carga horária.
, no entanto, não tinha o que fazer. Como estagiária, ela não tinha uma função fixa na clínica, ela costumava fazer aquilo que lhe era informado pelo enfermeiro chefe ou então auxiliava com a alimentação e/ou medicação de pacientes cujos regimes eram fechados. Sua mente vagou pesadamente até , o rapaz com tendências agressivas e um tanto quanto problemáticas que ela havia acompanhado desde o início e sua internação.
Por alguma razão que desconhecia, estava evitando-a desde o início da semana, quando ela havia o encontrado pela primeira vez após ele passar o fim de semana todo em regime fechado, como foi indicado pelo Dr. Bennett. Ele havia sido extremamente grosso desde que ela havia colocado os pés dentro seu quarto, e mesmo quando parecia estar derrubando as suas barreiras internas, ele as ergueu de maneira tão rápida que mal pode acompanhar seus movimentos.
A garota sentia-se frustrada, na sexta-feira quando deixou sozinho em seu quarto no final do expediente, ele parecia compreensivo, lhe pedindo desculpas pelo estrago feito no hall da clínica St. Lucius, quando em um momento de desespero ele brigou com a recepcionista por sua alta e socou um enfermeiro quando o mesmo tentou segurá-lo. Mas, na segunda, não havia sequer um resquício de razão no pobre rapaz. Ela entendia que as alterações de humor durante o período de abstinência eram comuns, mas em , os efeitos da falta da droga eram potencializados.
Mas realmente não se importava. Ela ainda estava intrigada pelo olhar de . O mesmo olhar de desolado e vazio que chamou a sua atenção desde o primeiro dia na clínica, só havia piorado. podia ver, conforme os dias iam se passando, que o brilho do olhar do rapaz diminuía gradativamente, fazendo ele parecer uma criança pequena e desolada à procura de um colo. Ela sentia-se disposta a dar-lhe esse colo e qualquer outra ajuda que o rapaz precisasse em troca de fazê-lo sorrir novamente, em troca de desvendar aquele olhar perdido e sem vida. A garota balançou negativamente a cabeça quando caiu em si, em que diabos ela estava pensando?!
Um outro trovão despertou de seu torpor e ela desejou como nunca estar em casa, longe de todos aqueles problemas e longe da inquietação que ela adquiria toda vez que pensava em . Ela tentava se convencer que era normal aquela sensação anestesiante que sentia na presença dele. Afinal, era um astro do rock internacionalmente conhecido e ela era apenas uma estudante universitária. Os dois mundos eram completamente diferentes e milhões de garotas no mundo dariam a própria vida para estar no lugar dela. Mas sabia que sua sede e curiosidade por era mais profunda do que um simples ataque de fã.
Ela levantou-se bruscamente da cadeira à procura de um copo d'água. Adentrou na sala dos funcionários passando uma das mãos no pescoço dolorido por permanecer na mesma posição por tanto tempo e se encostou ao bebedouro. Cumprimentou rapidamente alguns enfermeiros que jogavam uma partida de truco na mesa central.

- Vem jogar conosco, estagiária! – Um rapaz moreno de cabelos ralos gritou. Seu nome era Ethan e era o companheiro de turno de .
- Obrigada, Ethan, eu não sei jogar.
- Não tem problema, . Nós te ensinamos.

sorriu fraco, talvez uma pequena partida de truco fosse suficiente para dispersar seu pensamento em . Ela aproximou-se e sentou-se à mesa.
Os demais enfermeiros pareceram animados com a sua presença. Ethan arrumou um lugar ao seu lado para , ele separou o baralho nas mãos para explicar a função de cada carta, os objetivos e as regras do jogo. Ainda que dentro da sala o falatório estivesse alto, os trovões ainda eram ouvidos com facilidade. estava quase pegando prática no jogo quando uma das faxineiras da clínica entrou aos berros na sala, ela estava assustada e declarou que ouvira gritos histéricos e pedidos de ajuda no segundo andar, um paciente, provavelmente o do quarto 104, havia se ferido.
A reação de Ethan, assim como de todos os demais funcionários foi levantar-se imediatamente para investigar o acontecido. demorou alguns segundos até se lembrar que paciente do quarto 104 era o próprio . Ela também se levantou e postou-se ao lado de Ethan e os demais colegas.

- Eu vou com vocês!
- Não precisa, , não é seu serviço esse tipo de ocorrência – Ele disparou olhando-a nos olhos por alguns milésimos de segundos antes de voltar sua atenção para o quadro de chaves à procura da de número 104.
- Não importa, eu conheço o paciente! – Ela respondeu de maneira firme e rapaz não teve nem como dispensá-la.

Os batimentos cardíacos de estavam acelerados e nunca a distância entre a sala dos funcionários até o quarto de parecia tão longa. Assim que entrou no corredor do segundo andar, ela pôde ouvir um pedido de socorro desesperado e vários barulhos ocos vindos da porta de madeira pesada.

- Está tudo bem. Agora se afaste da porta, eu vou abri-la – A voz grave de Ethan sobrepôs-se aos berros de . Ele colocou as mãos fortes na maçaneta e abriu a porta em um tranco.

Sob os braços de Ethan, pôde ver recuar assustado da abertura repentina da porta aos tropeços. Seu rosto estava pálido, seus olhos estavam vermelhos e arregalados. Ele tinha uma das mãos cobertas com uma toalha de rosto, que anteriormente fora branca e agora estava vermelha de sangue.

- O que houve aqui? – Ethan perguntou quando finalmente entrou no quarto com em seu encalço.

gaguejou, ele não conseguia formular uma frase inteira. Ele apenas olhava de um lado para o outro, tentando recuperar o ritmo respiratório.

- O que houve aqui? – Ethan refez a pergunta, embora mais sério que da primeira vez. Quando novamente não obteve resposta, puxou bruscamente a mão machucada de – Como foi que você se machucou?

O rapaz não respondeu, apenas urrou de dor e puxou o braço novamente e o segurou próximo ao seu peito.

- Por favor, sr. , eu preciso que o senhor colabore comigo e me diga o que aconteceu por aqui!

Ethan engrossou a voz e outro trovão rompeu no céu. assustou-se e esbarrou na mesa, uma série de artigos pessoais rolaram pelo chão.

- Eu vou buscar uma injeção para acalmá-lo. Por favor, mantenha-se afastada, ! – Ethan disse antes de desaparecer pelo corredor escuro.

suspirou e caminhou lentamente na direção de .

- Se acalme, está tudo bem agora, . Venha, sente-se comigo...

Ela a tocou o braço do rapaz de maneira delicada e abaixou um oitavo de sua voz, guiando-o até o sofá mais próximo. , ainda que estivesse completamente transtornado, sentou-se.

- Ela... – tentou falar, mas suas palavras não acompanhavam sua respiração acelerada. Ele gaguejou - Ela... ela está aqui!
- Ela quem? – arriscou enquanto afagava delicadamente o braço dele.
- Minha mãe – Ele respondeu, os olhos vermelhos alarmados após o som de um outro trovão.
- Não tem ninguém aqui, , fique calmo!

sentia-se cada vez mais tensa. Era óbvio que estava tendo alucinações e ela infelizmente não sabia como agir em um momento daqueles.

- Eu também achava que não – Ele engasgou mais uma vez, sua voz saía cada vez mais baixa e afobada - mas ela voltou depois de quase 15 anos para me buscar!
- Onde ela estava para demorar tanto tempo?
- Morta. Ela morreu quando eu tinha apenas 10 anos – disse lentamente. Seus olhos focaram-se no canto do quarto, uma expressão de terror o consumiu. sentiu um frio na espinha e ele berrou - Ela voltou, , por favor, me ajude! Eu não quero morrer!
- Não tem ninguém aqui! Se acalme, , você não vai morrer! – o envolveu nos braços e o apertou, como faria com um irmãozinho mais novo que acabou de acordar de um pesadelo.

Seus olhos fitaram o canto do quarto em que estava encarando até então, ele estava vazio, exceto por cacos espalhados pelo chão. Ela subiu o olhar e percebeu pela primeira vez que o espelho que ficava em cima da cômoda do quarto estava rachado e despedaçado em mil pedaços. Ele provavelmente teria quebrado o espelho após ter visto a imagem da mãe.
A porta do quarto escancarou-se e não pode segurar o grito de terror que saiu pela sua boca. abriu os olhos aflitos, um tremor intensificou-se percorreu todo o seu corpo.

- O-o que é isso? – gaguejou.
- Está tudo bem, , tudo bem! – apertou a mão dele contra as dela, tentando desesperadamente chamar a sua atenção – Esse é o Ethan, é um enfermeiro.
- Ele te fez alguma coisa? ? – Ethan adentrou o quarto, sua testa estava vincada de preocupação.
- Não... Ele vai me matar não vai?!
- Mas é claro que não, ! – levou uma de suas mãos até os cabelos do rapaz, que mais que nunca pareciam sujos e pegajosos após o suor exacerbado liberado pelas alucinações.
- ?! – Ethan aproximou-se dos dois, em uma de suas mãos estava uma seringa com algum tipo de calmante potente. Ao notar isso, recuou novamente nos braços da garota.
- Não, ele não me faz nada! Agora abaixe essa seringa que você está deixando ele assustado, Ethan!
- , você acha que consegue segurá-lo dessa maneira para que eu possa aplicar a injeção?
- Não! Não! Você não vai aplicar nada em mim! – vociferou, tomando coragem pela primeira vez na noite.
- Desculpe, garoto – Ethan aproveitou-se da coragem momentânea de , quando ele havia abaixado a guarda para enfrentá-lo, e imobilizou o braço do rapaz para trás para aplicar-lhe a dose de calmante. tentou protestar e no mesmo segundo, suas ofensas e ameaças transformaram-se em um gemido de dor.

Apesar da pouca idade, Ethan, era um dos enfermeiros de maior habilidade da clínica St. Lucius. Por tal motivo e por seu espírito de liderança, ele era sempre escalado para os turnos da noite. Em casos de emergência, com poucos enfermeiros ou nenhuma supervisão do Dr. Bennett, ele poderia usar a força bruta.
olhou horrorizada a cena, ela sentiu uma vontade súbita de esmurrar a cara de Ethan. Mesmo que ele tivesse feito seu trabalho, a maneira com que ele havia imobilizado e aplicado-lhe a força o calmante apareceu extremamente cruel para ela.
A garota pôde sentir a pressão causada pela mão boa de se esvanecer da sua, ele já estava sentindo os efeitos do calmantes percorrer-lhe o corpo magro. Ethan o pegou no colo e o transferiu do pequeno sofá até a cama. Com rapidez o enfermeiro limpou superficialmente a mão machucada de .

- Eu vou esperar ele adormecer para limpar o resto, pode ser meio dolorido – Ele disse com naturalidade – Vamos, ? Não há nada para fazermos até que ele se acalme.

concordou, ela acompanhou Ethan até a porta quando sentiu seu coração apertar. Ela não poderia deixar sozinho daquela maneira.

- Quer saber?! Pode indo na frente, Ethan, eu vou esperar até que ele durma – olhou para deitado na cama. Ele parecia incrivelmente frágil essa noite. Ela deu um sorriso fraco. - Esses calmantes agem muito rápido, ele pode ter uma parada cardíaca.

Ethan lançou-lhe um olhar de censura. poderia ser ingênua, mas no final sabia cuidar-se sozinha.

- Tudo bem... – Ele suspirou, recolhendo do chão a toalha suja de sangue – Mas já sabe, qualquer coisa é só gritar.

Ela assentiu.

- Você vai ficar comigo, ?! – perguntou com a voz grogue, ignorando a saída de Ethan.
- É claro que sim, ... - concordou. Ela deu um sorriso simpático e postou-se ao pé da cama dele.
- Deita aqui... – O rapaz encolheu-se na cama e bateu com as costas da mão no lugar vago por ele - Por favor!

hesitou, mas, ao perceber a necessidade em sua voz e desespero em seus olhos marejados, não pode recusar. Ela deitou-se ao seu lado, deixando um pequeno espaço entre os corpos.

- Eu posso te pedir um favor? – Ele pediu com a voz fraca e ela assentiu – Quando sair desse quarto, não chame o Dr. Bennett e nem nada parecido, apenas ligue para o meu agente, eu não posso ficar mais aqui!
- Eu não sei se posso fazer isso, ...
- Por favor, – Ele fechou os olhos marejados. Novamente toda aquela tristeza e melancolia estavam presentes neles. Sua boca engasgou em palavras devido à ação do calmante - eu estou desesperado!
- Eu não sei...

fechou os olhos, procurando privar-se daquela tortura. Suas mãos percorreram lentamente pelos cabelos sujos e bagunçados de . A única coisa que diferia o rapaz e um pequeno garotinho assustado, era a barba mal feita que emoldurava sua face. Ele parecia ainda mais lindo com ela.
aproximou-se de , colando os dois corpos. Ele a olhou nos olhos e suspirou, sua respiração já estava mais lenta que o normal. Um arrepio percorreu a sua espinha quando sentiu o hálito quente de perto de seu pescoço. Ela estava rendendo-se.

- Ok, eu ligo...
- Obrigado!

Um breve sorriso apareceu nos lábios de , ele segurou o queixo de , seus lábios ofegantes tocaram os dela delicadamente antes de seu corpo todo imergir em trevas.

Betada até aqui por Thay Sandes


Capítulo 7 - Help Me, I Broke Apart My Insides


Os olhos de vagavam pelos azulejos brancos do banheiro do seu quarto no Instituto St. Lucius, ele mal podia acreditar que era a última vez que ele precisaria olhar para aquele lugar. Fechou os olhos e deixou água do chuveiro retirasse toda a espuma de seus cabelos e com ela toda a imundice que se resumia sua vida nos últimos tempos. Hoje, ele finalmente voltaria a ser e seria tratado como tal.
Envolveu uma toalha de banho na cintura ao sair do box, olhou-se no espelho e odiou aquilo que viu. Seu rosto estava magro, abatido, além das olheiras e da barba grossa que nascia por todos os lados. Torceu o nariz, não gostava do próprio rosto barbado. Procurou por um barbeador pelo banheiro e por motivos de segurança da clínica, não encontrou. Procurou por um na mala recém trazida por Albert, que além do barbeador contava com roupas limpas e dignas da sua alta. Após tirar toda a camada de pelos escuros do rosto se sentiu bem, reconhecendo finalmente pela primeira vez sua imagem no espelho.
caminhou até o quarto, procurou pela muda de roupa limpa que havia separado ainda a pouco. Ficou um tanto quanto descontente ao perceber como seus jeans estavam largos desde que entrara na clínica. Ele temeu por um instante que seu emagrecimento rápido caísse em controvérsia na mídia. Em tese, quando usuários de droga largam seu vício, ganham peso e não ao contrário. respirou fundo, não deveria se preocupar com isso agora. Apenas apertou um pouco mais o cinto, vestiu uma camiseta branca puída e logo depois sua velha jaqueta de couro preta. Terminou calçando o mesmo par de botas que e ele usara quando havia sido internado.
Sentou-se na cama apenas esperando que Albert terminasse de acertar sua alta com o Dr. Bennett. imaginou a fortuna extra que seu agente estaria desembolsando para ele abandonar a clínica no meio de seu tratamento e ainda pedir pelo consentimento médico de Bennett, afinal, sua internação deveria fazer efeito para a mídia e para os executivos de sua gravadora. Ele riu prazeroso. Albert poderia descontar toda aquela grana do seu próprio fundo bancário e ele nem ligaria. A sensação de abandonar aquela clínica era melhor do que qualquer coisa, até mesmo, um porre daqueles.
O sol já estava se pondo no horizonte da Califórnia e pela primeira vez sentiu uma inquietação tomar conta de si. A conversa de Albert e Dr. Bennett estava se estendendo mais do que o esperado e ele temeu que Albert tivesse novamente o abandonado naquela clínica. se levantou da cama impaciente, tentando em vão abrir a porta de seu quarto. Levou as mãos até os cabelos, puxando-os para trás em sinal de nervosismos, se ao menos trabalhasse nos finais de semana, ela poderia acalmá-lo agora.
. Era pelo menos a vigésima vez que ele havia pensado nela desde o momento que abrira os olhos totalmente confuso essa manhã. Ele se lembrava vagamente da noite anterior, entretanto, lembrava-se bem de seu rosto angelical tentando desesperadamente ajudá-lo a se encontrar no meio de todas aquelas imagens aterrorizantes que o atormentavam. sentiu um ligeiro mal estar ao se lembrar da imagem de sua mãe assombrando-o por horas a fio, mas a paz de espírito que ele havia encontrado nos braços de logo em seguida havia lhe valido a noite. Ele ainda se lembrava de beijá-la noite passada, do toque macio de seus lábios rosados aceitando com urgência os deles. Mas então tudo ficou escuro e ele não conseguia julgar se tal beijo havia realmente acontecido ou era somente uma brincadeira da sua mente anestesiada.
Ainda com o pensamento em , ainda procurava uma palavra para descrever o que ele sentia por ela agora, já que a palavra gratidão parecia extremamente vaga. Ele precisava arrumar uma maneira de agradecê-la por ter ligado para Albert na noite passada. Esse simples gesto, se descoberto, poderia comprometer toda a sua carreira dentro da clínica. vasculhou por sua bolsa a procura de seu bloco de notas e uma caneta, uma pequena carta parecia uma maneira educada e pessoal de registrar seus eternos agradecimentos.
Iniciou a carta de maneira efusiva, milhares de palavras parecia brotar de seus dedos, mas nenhuma delas fazia sentido quando combinadas. puxou outra folha de seu bloco e então percebeu o quão estúpida era sua ideia. não trabalhava aos finais de semana, como é que ele poderia deixar para ela a carta? Ele não confiava o suficiente no Dr. Bennett para deixar em suas mãos a carta, ele não teria garantia nenhuma que ela chegaria nas mãos da garota. bufou e jogou seu bloco dentro da bolsa novamente.
Dez minutos se passaram – embora para parecesse uma eternidade – quando finalmente a porta de seu quarto se abriu e por ela passou um sorridente Albert e um ainda mais rico Dr. Bennett.
- Você já está pronto, ? – Albert perguntou, abrindo um sorriso divertido.
- Mais pronto do que nunca! – saltou de sua cama no mesmo instante. Pegou o case de seu violão em uma mão e pequena mala na outra – Podemos ir então?
O agente assentiu para e pegou a mala de sua mão. Antes de passar pela porta, ele se virou para Dr. Bennett .
- Obrigado novamente, Doutor, por toda a ajuda que o senhor deu para meu garoto! – Um sorriso debochado apareceu nos seus lábios e ele bateu amigavelmente a mão no bolso interno do terno claro do médico, provavelmente onde ele escondia uma montanha de dinheiro – Espero que o senhor guarde nosso pequeno segredinho!
- Eu é que lhe agradeço, Sr. Carter, foi um ótimo negócio! – Bennett soltou uma risada abafada e deu uma piscadela para . – Cuide-se garoto, fico feliz que você esteja limpo, embora reze para que você volte a me procurar num futuro breve.
forçou um sorriso. Ele não se importava o que o Dr. Bennett achava e muito menos por quanto ele havia se vendido. A única coisa que queria agora era se ver longe daquela clínica.
- Podemos ir andando agora? – Ele se virou para Albert.
- Mas é claro! – Ele sorriu divertido – Suba por aqui, temos um helicóptero nos esperando!
A sensação de finalmente ir embora daquela clínica liberou em uma corrente de adrenalina, durante toda a viagem de 40 minutos até sua casa na beira da praia, ele não conseguia parar de falar ou então de sorrir como um idiota. Albert lhe deu durante o voo uma sacola com um kit completo de fastfood: hambúrguer, batatas e para a infelicidade de uma Coca-Cola e não uma garrafa de Heineken.
- Você tem um cigarro? – Ele perguntou enquanto lambia os dedos engordurados pela batata frita.
- Tenho... – Albert disse relaxado enquanto tentava não rir ou censurar o comportamento infantil do amigo.
- Me dá um.
- Não! – Disse categoricamente.
- Qual é, Albert, minha sina já acabou! – argumentou. Ele se remexeu nervosamente no banco do helicóptero e Albert negou com a cabeça.
- Não acabou não! Você já passou duas semanas em um regime com zero tolerância para as drogas, agora basta estender tudo isso para o resto da sua vida. – Albert completou com um sorriso. – É fácil!
- Que porra é essa? De que merda você está falando, Albert? Há duas semanas você disse que eu não precisava ficar limpo e agora você falar isso? Mas que porra!
fez menção de se levantar e Albert riu. Ele empurrou o rapaz com uma das mãos de volta ao seu assento.
- De que merda você está rindo? Isso não é engraçado!
- Eu estou brincando, ! Relaxa, tá? – Ele riu novamente e pareceu relaxar um pouco.
- Eu estou relaxado. – Ele forçou uma risada. – Agora me dá um cigarro, filho da puta!
Albert rolou os olhos, perdendo um pouco da sua paciência.
- Você sabe que não pode fumar durante o voo! Sossega, daqui a dez minutos você estará em casa e pode fumar quantos maços quiser!
bufou. Ele já estava ficando fissurado, ele precisava de um trago, de qualquer coisa! Ele deu uma última golada em seu refrigerante e procurou ocupar sua mente nos minutos finais de seu voo. Ele tentou convencer Albert a levá-lo em uma boate antes de descer em casa, mas, o agente negou sem ao menos parecer pensar em seu caso. Albert era um tremendo pé no saco quando queria.
A impaciência de pareceu cessar apenas quando ele desceu do helicóptero e finalmente sentiu a grama gelada de seu jardim molhar o couro de suas botas. Toda a casa parecia apagada, com exceção da sala, que parecia meramente iluminada. Ele podia ouvir um som alto saindo pelas janelas fechadas. Uma inquietação tomou conta dele novamente.
- O que você está aprontando? – Perguntou para Albert.
- Anda, vai ver! – Ele sorriu e empurrou por todo o jardim até a varanda da casa.
Quando abriu a porta de vidro, sua surpresa não poderia ser maior, a sala de sua casa lotada com seus amigos mais próximos. Embora não fosse como uma festa surpresa de aniversário, todos o saudaram quando ele entrou na sala. Ele pode visualizar lá, , e , seus colegas de banda e outros caras os quais pertenciam a algumas outras bandas que costumavam abrir seus shows, além da pancada de groupies e garotas de programa.
- Se não vai até a boate, a boate vem até ! – Albert sussurrou em seu ouvido e lhe deu um copo de whisky. – Agora cai fora e vai curtir sua festa!
ignorou seu agente e deu uma golada urgente em seu copo. O líquido caramelo desceu queimando sua garganta, ele pode sentir seus olhos marejarem por alguns segundos. Ele riu sob o efeito ardente e maravilhoso que a bebida lhe proporcionou. Tossiu rapidamente e deu outra golada.
Sua visão logo se acostumou com a pouca presença de luz na sala. Somente os abajures e os archotes das paredes estavam acessos. O ar estava quente, cheirava à cigarros, perfume importado e velas aromatizadas. deu um passo à frente, seus pés chutaram uma garrafa de Jack Daniel's completamente vazia.
Atrás dele, os alto falantes de seu rádio berravam blues. sentiu o próprio corpo se aquecer. Era bom estar em casa, rodeado de amigos e fazendo aquilo para o que ele nascera: festejar até o dia amanhecer. Uma garota passou esbarrando em seu ombro, ela mordeu os lábios e sussurrou algo que ele não conseguiu entender devido ao barulho.
Sentiu um par de mãos puxando seu braço para baixo enquanto andava, era , baterista da sua banda. se levantou do sofá velho de tropegamente e deu um meio abraço no amigo. Ele parecia pouco sóbrio, com um charuto pendendo nos dedos e um sorriso torto nos lábios. Ao seu lado estava Noel Davis, também baterista de uma banda conhecida a qual não conseguia lembrar o nome naquele momento. Uma mulher de cabelos ondulados e maquiagem forte, estava postada entre os dois, ela sorriu animadamente para . Provavelmente farta de assuntos sobre percussão.
- Bem-vindo à ativa, irmão! – disse simplesmente. Ele deu uma piscadela e ofereceu uma tragada do cigarro para , que aceitou de imediato.
- Valeu! – Ele respondeu soltando a fumaça em direção oposta e devolveu o charuto para – Eu vou indo, não quero interromper vocês.
Deu uma piscadela para a mulher entre e Noel, ambos trocaram olhares animados. caminhou em direção a mais alguns amigos que estavam dispostos pelos sofás da sua sala e em alguns minutos ele já havia cumprimentado pessoalmente toda a festa e já estava em seu terceiro copo de whisky, roubado diretamente das mãos de Albert.
- Cara, eu devo confessar! – pisou em falso quando , o baixista de sua banda, pendeu-se em seu ombro, completamente bêbado. Ele tinha marcas de batom por todo seu pescoço e se sentiu ainda mais zonzo quando sentiu o hálito quente e fedendo a whisky do amigo. – , você é meu herói! Você sabe, eu não conseguiria ficar um dia sóbrio de se quer... Mas você não, você conseguiu, duas semanas inteiras! Porra, você é demais e eu te amo, cara!
Antes mesmo de pudesse responder, deu-lhe um beijo estralado na cara e saiu cambaleando com duas prostitutas, uma em baixo de cada braço. Ele riu e olhou perifericamente por toda a sala à procura de alguma garota livre, para que ele, a exemplo de todos os caras da sala, pudesse se divertir um pouco. Não foi preciso muita pesquisa, assim de virou-se para o bar buscar mais uma dose, uma ruiva estonteante apareceu em seu caminho. Ela tinha os peitos espremidos em um corsete e uma micro saia de couro que mal escondia suas intimidades.
- Eu estava esperando por você! – Ela disse pegando das mãos o copo de bebida de e bebendo todo o líquido. O rapaz não sabia julgar se aquela ação havia sido ousada ou sexy demais. Ele mirou os olhos para os seios dela.
- Você tem peitos maravilhosos! – Ele abriu um sorriso sacana, puxou a garota pela cintura e a prensou contra o bar. Não tinha vontade e nem tempo para ter uma conversa racional com ela nesse momento. Ele só queria sentir todo aquele corpo quicar sobre o seu.
- Talvez você queira vê-los sem nada então... – A garota arriscou. Ela envolveu em seus braços, suas unhas desceram em linha reta pela sua nuca até o meio de suas costas.
Um arrepio percorreu por todo seu corpo e antes mesmo que pudesse beijar a garota, a puxou pelas mãos escada a cima. Ao entrar em seu quarto, a empurrou contra a parede e só então deixou que seus lábios tocassem os dela. Enquanto uma de suas mãos seguravam de maneira grosseira os cabelos, a outra explorava toda a coxa e a intimidade da prostituta. O beijo que em hora alguma havia sido lento ou terno, se intensificada mais a cada segundo, mas não conseguia se satisfazer apenas com a língua dela.
Suas ávidas mãos procuraram pelo nó do corset e o desatou, deixando os voluptuosos seios da prostituta à mostra. abaixou seus beijos até os seios da mulher, tocou delicadamente um de seus mamilos, pressionando-o entre o polegar o indicador. Levou o outro até a boca, sugando-o aos poucos, deixando rígido o mamilo rosado. A mulher arfava sob seu toque. apertou os seios um contra o outro, enquanto buscava por ar.
As mãos da prostituta que até poucos segundos estavam em seus cabelos, puxando-os sensualmente, agora arrancam sua camisa a força e o empurravam para a cama. Ela deu um sorriso feroz enquanto abria o cinto da calça de e puxava para baixo a calça e a cueca, para então começar seu trabalho. fechou os olhos quando sentiu os lábios da mulher o engolir aos poucos, fazendo um vai e vem delicioso. Deus, como ele sentira falta daquilo.
A porta do quarto se abriu, nem ao menos pareceu se incomodar. Sua casa nesse exato momento, deveria estar pior do que um motel em beira de estrada. Apenas abriu os olhos para saber do que se tratava. Viu um corpo magro se esgueirando pelo batente da porta.
- Hey, , quer uma bala? – adentrou o quarto. Ele estava descabelado, sua camisa estava molhada de suor e ele parecia bastante empolgado trazendo uma bala e uma garrafa de whisky nas mãos.
apenas assentiu com a cabeça e estendeu a língua para o colega. se aproximou cambaleando um pouco, colocou o comprimido no centro da língua de e jogou uma boa quantidade de whisky por cima. permaneceu com os olhos fixos no amigo enquanto ele terminava de engolir a bala.
- Você fez falta, cara! – se aproximou, colando sua testa na de , suas mãos invadiram os cabelos do rapaz e os puxaram desde a raiz. Os olhos se miravam fixos e os lábios trêmulos de tocaram urgentes nos de .
De ímpeto de tentou empurrar , mas aos poucos devido ao seu estado de tesão, ele se acostumou com a boca do amigo invadindo a sua. A língua de , apesar de nunca ter sido explorada, lhe parecia agradável e de alguma maneira até familiar. puxou sua camisa para frente institivamente, diminuindo a distância entre os dois corpos.
Ele arfou enquanto os lábios do amigo lhe deram folga por alguns minutos, enquanto desciam e subiam por seu pescoço. No entanto, com o mesmo impulso que o levou a beijá-lo, apartou o beijo abruptamente. Um sorriso infantil e maníaco estampava seus lábios vermelhos.
- Vem cá, belezinha, que tal cuidar um pouco do tio agora, hein? – Ele jogou seu corpo na cama ao lado de . Ele abriu a própria calça e puxou a prostituta de em direção ao próprio órgão genital.
Normalmente aquela ação deixaria puto, mas não hoje, não naquelas circunstâncias. Ele já começava a sentir os primeiros efeitos do ecstasy, cada terminação nervosa de seu corpo parecia pulsar de tesão tanto por , quanto por aquela mulher e aquela ereção gigantesca entre as pernas. desceu da cama, tirou aos tropeços o resto da sua roupa e se colocou atrás da prostituta no chão. Ele não pensou duas vezes antes de penetrá-la.
permaneceu em um vai e vem primeiramente com a garota, apenas intensificando os movimentos e dando tapas de leve na bunda da mesma, quando queria alguma dedicação a mais. Ele deixou que a fodesse um pouco, enquanto ele recebia novamente um oral. Quando gozou pela primeira vez, ele se jogou na cama, acendeu um baseado e apenas ficou admirando a ação de com a puta.
manteve a garota de quatro no chão, uma de suas mãos ficou na cintura dela e a outra envolveu seus cabelos, puxando-os desde a nuca, fazendo-a quase ficar ereta. Seus olhos viam pontos coloridos por toda a extensão de seu quarto e ele podia sentir o suor escorrendo pelas costas. acelerou o movimento e depois de umas três estocadas ele sentiu sua alma se desprendendo do seu corpo e se fundindo em sintonia com os cosmos, vendo todos aqueles pontos coloridos explodirem bem diante de seus olhos.
O corpo todo da prostituta tremeu e despencou em direção ao chão, deixou que seu corpo desabasse sobre o dela até que sua respiração voltasse a se regularizar. De olhos fechados, ele ainda conseguia ver a imagem dos cosmos sorrindo pra ele.
- Uau, você realmente fodeu com a garota! – A voz de o trouxe de volta a realidade. Ele apontou para a garota desacordada no chão, ela provavelmente estaria completamente chapada, e depois estendeu para um cigarro.
se levantou cambaleante do chão e deitou na cama ao lado de , aceitando seu cigarro. Ele deu uma longa tragada no baseado e soprou a fumaça na direção do amigo. abriu os lábios e absorveu a maior quantidade de fumaça que podia.
- E você ainda não viu nada! – sussurrou, seus olhos ainda brilhavam de tesão.
Ele deu uma última tragada no baseado antes de apagá-lo na mesa de cabeceira, suas mãos tocaram delicadamente o pescoço de , antes de subirem e puxarem com força os cabelos cacheados do amigo em sua direção. entendeu o recado, abriu um sorriso pervertido e beijou pela segunda vez naquela noite.

*O ecstasy é conhecido popularmente como bala ou droga do amor. Leva esse último nome por aumentar a socialização e a extroversão, deixando a pessoa 'cheia de amor pra dar'. É bem comum em baladas, aumenta o estado de alerta, o apetite sexual, dá sensação de grande capacidade física e mental. Atrasa a sensação de fadiga e sono.


Capítulo 8 - Last Night Was Shaking And Pretty Loud


Já era manhã quando acordou pela primeira vez desde a noite passada. Ele sentia um formigamento estranho no braço esquerdo, tentou mover-se, mas foi em vão, algo o segurava contra a cama.
sorriu fraco, era óbvio que ele havia dormido com alguma garota na noite anterior. Ele se virou na cama, encaixando seu corpo no da garota ao seu lado. Suas pernas se envolveram nas dela e seus braços tocaram-lhe a cintura nua. Embora estranhasse a textura da pele da garota, o cheiro erva e whisky que emanavam dela o inebriava.
Com certo esforço, devido à excessiva iluminação que vinha da janela de sua sacada, abriu os olhos e o corpo adormecido em seu lado. A primeira coisa que viu foi um tufo de cachos negros logo em baixo de seu nariz. Estranhou. Ele se lembrava de sair com uma garota ruiva na noite passada e não morena de cabelos cacheados. Aqueles cabelos, entretanto, lhe pareciam familiares, pareciam com os cachos armados de .
subiu lentamente o tronco até conseguir enxergar o rosto pertencente aquele corpo, quando se certificou que era , o empurrou para o lado, puxando de baixo dele seu braço amortecido.
levou as mãos até a cabeça, sentindo-a latejar instantaneamente. Olhou para dormindo nu ao seu lado e os flashes da noite anterior invadiram sua cabeça: primeiro o amigo aparecendo em seu quarto com Ecstasy, depois ele partindo para cima de e o beijando, os amassos depois de juntos finalizarem uma garota e por fim, o sexo chapado e inconsequente.
O rapaz então se sentiu nauseado, aquela transa não fazia sentido nenhum. não era gay, nunca fora, nem ao menos havia tido desejo por ou qualquer outro cara. Ele se voltou para mais uma vez, contendo-se para não quebrar o amigo no meio.
A combinação bombástica de álcool e ecstasy da noite anterior somada com a náusea causada por acordar ao lado de , já faziam efeito no estômago de . Ele se levantou da cama rapidamente, com as mãos tampando a boca, procurou por seu banheiro conjugado. Ajoelhou-se na frente do vaso sanitário e lá vomitou todo o seu asco e os restos de sua escassa alimentação.
Uma sensação de fraqueza tomou conta de todo seu corpo, ele mal conseguia manter erguida a própria cabeça. tentou se levantar, mas um novo jorro de vômito o fez recuar. Suas mãos, presas na cuba do vaso sanitário tremiam, ele precisava com urgência de um pouco de água e ar fresco.
Após ter certeza que seu corpo poderia aguentar, guinchou-se para cima e com esforço se jogou na banheira ao lado. Ao deitar, se posicionou logo em baixo da torneira, deixando a água inundar seu rosto e então saciar sua sede.
Minutos depois, já se sentia levemente melhor, embora se amaldiçoasse mentalmente por ingerir ecstasy novamente. Aquelas balas incitavam loucamente seu desejo sexual e toda vez, após seu uso, ele acordava na merda.
Depois de tanto esforço físico que fizera para vomitar, seu corpo estava mole e a sua cabeça latejava ainda mais. Ele fechou seus olhos em uma busca desesperada para diminuir os sintomas da ressaca. Dormiu por mais por cerca de uma hora, embora a mesma parecesse milésimos de segundos para ele.
- Acorda , mais que porra! – Foram as primeiras palavras que ele ouviu naquela manhã, energéticas e ríspidas. Seu corpo respondeu imediatamente, levantando em um pulo.
- O que está acontecendo? - Ele berrou tentando se manter de pé. Seus olhos tentavam focalizar um rosto barbado na sua frente que ele julgava ser de Albert.
- Faz dez minutos que eu estou tentando te acordar e você nem se mexe! – O agente o segurou pelos ombros, dando apoio antes de caísse pelo chão do banheiro.
- Me deixa dormir Albert, não estou legal – Murmurou. Ele se virou para deitar na banheira novamente, mas Albert o segurou.
- Não vai dar não, cara.
- Por que não? - Resmungou.
Embora parecesse uma criança birrenta de dez anos de idade, Albert suspirou procurando por paciência. Ele já imaginava o surto que o rapaz daria em poucos segundos.
- Porque nós temos uma coletiva de imprensa para daqui à uma hora – Ele deu um sorriso amarelo e ficou colérico no mesmo instante.
- Coletiva de imprensa?! Você 'tá ficando louco? - retrucou alterado, tanto pela ressaca, quanto pelo sono e também por sua fobia da mídia - Mas que porra, Albert!
- Sem ataque, princesa, você sabe tanto quanto eu como essa coletiva é importante! – Albert levou as mãos até o rosto de , obrigando-o a olhar em seus olhos – Você é uma estrela , todo mundo lá fora está preocupado em saber como foi a sua rehab!
- Aquela que nunca existiu? - Ele ironizou.
- Se dê um pouco de créditos meu caro, você ficou duas semanas inteirinhas sem pó. Seu dever está mais do que cumprido! – Albert deu um sorriso convincente, se lembrou como seu agente era tão bom de negociações.
- Minha rehab era só para me livrar do pó?
- Basicamente. Achei que seria legal da minha parte te liberar o álcool – O agente parou, levou as mãos até o bolso e pegou um cigarro. Após o acender, deu uma longa tragada e soltou a fumaça no rosto de , que desviou. O cheiro do cigarro só reacendeu as suas náuseas – Só Deus sabe como nós dois estaríamos fodidos se pegassem você bebendo alguma coisa logo depois.
- Eu sei, porra! – disparou e no mesmo instante, uma sensação de pânico o invadiu. Será que Albert havia flagrado , completamente nu, em sua cama? – Você viu o ?
Albert arqueou uma sobrancelha.
- Sim, agora a pouco na cozinha. Por quê?
suspirou aliviado. Pela expressão no rosto de Albert, ele conseguiu concluir que estava a salvo. Ninguém além dele e saberiam da noite anterior, ele se certificaria de garantir isso no próximo momento em que encontrasse o amigo.
- Nada, esquece – Ele balançou a cabeça negativamente.
- Agora anda, toma esse banho logo. Daqui a quarenta minutos estarei na sala de música te esperando com os outros caras, para gente debater e planejar as respostas para a coletiva!
se sentou desconfortável na banheira, ele ainda estava sem roupa. Ele coçou os cabelos que estavam úmidos e grudados na testa. Albert lhe jogou um sabonete antes de deixá-lo sozinho no banheiro. Sua mente vagou para não muito longe, lembrando-se da última coletiva de impressa que ele havia dado. Se normalmente as perguntas dirigidas a ele eram invasivas, imagina o quanto seriam agora, quando ele estava supostamente voltando de uma reabilitação?!
Ele caminhou para o chuveiro, tomou um banho demorado, tentando não pensar muito mais no assunto e nem sofrer por antecedência, embora não atingindo nenhum êxito. Saiu do banho sentindo-se um pouco mais leve, ao menos estava limpo de toda a nojeira do toque de . Procurou em seu guarda roupa algo que lhe caísse bem e mascarasse a sua magreza excessiva após os dias de abstinência. Vestiu uma calça jeans vermelha e uma camisa puída de listras transversais preta e branca, nos pés uma bota de couro claro.
Apesar do banho demorado, sabia que ainda tinha um pequeno tempo antes de se apresentar na sala de música para Albert e o resto de sua banda. Como seu estômago roncava de fome, ele buscou na cozinha algo para comer. A enorme cozinha azulejada de cores claras estava vazia, provavelmente sua discreta e fiel empregada, Berta, estava limpando os restos de bebida e droga que havia pela sua casa depois da festa na noite anterior. Abriu a geladeira e apanhou os restos de um bolo gelado e uma garrafa d'água.
Quando olhou pela enorme janela da cozinha, visualizou uma quantidade razoável de jornalistas montando seus equipamentos no gramado ao lado da área da piscina e pela primeira vez naquela manhã ele realmente sentiu a raiva tomar conta de si. Antes que os jornalistas pudesse vê-lo, subiu em pesados passos até a sala de música, onde para sua surpresa, todos já estavam o esperando.
- Mais que merda é essa no meu gramado? - Perguntou grosseiramente dirigindo-se a Albert.
- Jornalistas... - O mesmo respondeu de maneira indiferente – Lembra-se da coletiva de imprensa que eu lhe disse agora a pouco?
- É claro que eu lembro! Eu só quero saber por que diabos tinha que ser na minha própria casa!
- Corta essa cara, era o lugar mais fácil! Todos vocês já estavam aqui por causa da festinha da noite passada e que por sinal, foi demais!
- Com certeza, Alb! – levantou uma das mãos para um high Five com Albert. que dividia um sofá de três lugares com apenas concordou com a cabeça, um sorriso sacana apareceu em seus lábios.
- Totalmente! – Finalizou.
- É.. foi! – ouviu a voz de , uma oitava mais baixa do que costumava ser. Ele estava sentado sozinho em uma poltrona no canto da sala. Ele tinha um violão em mãos e dedilhava uma música aleatória. evitou olhar para o amigo e apenas assentiu para Albert.
- Você me deve essa, ! – Albert riu e apontou para uma poltrona ao seu lado – Agora senta aí e vamos combinar o que será falado.
obedeceu e se sentou em uma poltrona ao lado dos amigos. Embora ele devesse prestar a atenção nesse instante, sua mente vagou novamente e deixou Albert tagarelando ao seu lado.
A sala de música era sem dúvidas o seu lugar favorito na casa. As paredes em dois tons de cinza combinavam com o carpete escuro, os móveis de madeira e os sofás de couro preto mostrando extremo luxo e bom gosto, o destaque ficava por conta das guitarras e violões pendurados pela parede, raríssima coleção de vinis e a vitrola antiga por qual havia pagado uma pequena fortuna em um antiquário em Nova York. No entanto, a grande atração era na realidade, o piano de cauda presto lustroso que ficava no canto extremo da sala. Era lá que passava horas compondo ou então matava seu tédio nos períodos de sobriedade.
Durante o pequeno período em que fora matriculado à força em um internato na Suíça pelo seu próprio pai, havia se destacado nas aulas curriculares de música clássica, mostrando uma aptidão invejável com o velho piano. Fora devido as suas notas altas nas aulas de música que o impediram de ser expulso logo no primeiro semestre. Tal fato acontecera no segundo, quando ele fora pego pela inspetora fumando um baseado em um armário de vassouras.
ainda se lembrava com exatidão da frieza a qual seu pai havia lhe tratado após sua expulsão. Na época, ele preferia mil vezes uma boa surra à tamanha indiferença do pai. Hoje, tal sentimento não fazia mais sentido, afinal, era ele quem estava indiferente para as questões familiares agora.
- , você ouvindo alguma maldita palavra que eu estou te dizendo? - Os dedos de Albert se estralaram na frente de seus olhos, piscou.
- É claro que sim, Alb!
- Então sobre o que é que eu estava falando?
Albert espreitou os olhos e pigarreou.
- Acho que eu me perdi um pouco...
- Cara, eu preciso que você preste a atenção no que eu vou falar agora! - O agente respirou fundo e mirou nos olhos. O rapaz concordou com a cabeça – Eu preciso que você elogie a clínica, diga que apesar de ser um tratamento difícil você encontrou toda a ajuda necessária com o Dr. Bennett e toda a sua equipe no St. Lucius.
torceu o nariz e Albert suspirou, parecendo pela primeira vez cansado.
- Foi o meu trato com o Dr. Bennett. Ele te deu alta, assinou os papéis e vai garantir para todo mundo que você esteja realmente reabilitado, em troca disso, você vai falar bem da clínica dele. É simples.
- Então eu sou simplesmente um produto para o marketing daquela clínica nojenta?
- Não torne tudo mais difícil do que já é, ! A única coisa que você tem que fazer é falar bem daquele lugar, ou era isso, ou então você ficaria lá pelo menos uns seis meses.
- Talvez, eu consiga falar alguma coisa boa sobre aquela clínica então...
- De resto é só falar sobre as suas experiências pessoais lá dentro e como foi difícil o pó de lado, ok?
- Agora vamos, todos os jornalistas devem estar ansiosos para entrevistá-los.
Albert levantou-se do sofá, acompanhado por e Jamie. deu uma última admirada na sua sala de música, esperançoso por poder ficar sozinho e em paz na sua própria casa.
- Podemos conversar? - A voz baixa de , o tirou daquele torpor.
- Agora não dá , nós estamos atrasados – Levantou-se da cadeira rapidamente, bateu as mãos levemente por seu jeans. Ele sentiu as mãos de segurar-lhe os braços.
- É coisa rápida. Por favor!
- Depois, tentou se esquivar, mas as mãos fortes de ainda o seguraram. Ele engoliu seco e vencido, virou-se para o amigo – ok, fala!
- É sobre noite passada... – olhou para os lados para se certificar que não havia ninguém os ouvindo. Sua voz, entretanto, estava ainda mais baixa - Cara, o que foi que a gente fez? Eu estou confuso pra caralho!
- Nada aconteceu noite passada! – Ele afirmou. abriu a boca para contra argumentar. o interrompeu de maneira ríspida – O que aconteceu não importa, nós dois estávamos chapados o suficiente para fazer qualquer merda! É só você não abrir a boca e nunca ninguém vai ficar sabendo do que rolou!
- Pela minha boca ninguém vai saber de nada! - garantiu, seus olhos estavam caídos pela timidez e também pela falta de sono – Além disso, eu estou com dor e constrangido demais para tocar nesse assunto com outro alguém.
riu. Embora ele ainda se sentisse estranho pelo ocorrido na noite passada, ele não poderia continuar a destratar daquela maneira, eles eram melhores amigos e já haviam passados por poucas e boas juntos. Além do que, a ideia de estar com dor por trepar com um cara lhe parecia engraçada. Ele somente preferia pensar que não era ele o cara que havia feito um estrago em .
- Não é engraçado, porra!
- Eu sei que não, ! - Ele deu um empurrão amigável no corpo mole de , derrubando-o no sofá. posicionou-se ajoelhado no sofá sobre , ele tinha um sorriso divertido nos lábios. - Eu só quero deixar bem claro que, por mais que você tenha gostado da noite passada, isso nunca mais vai acontecer.
- Vai se foder, Jules! – rolou os olhos, com as duas mãos espalmou o peito de , empurrando-o para trás e saindo do sofá.
- Não, eu não quero te foder ! – riu divertido, enquanto se levantava do sofá. lhe mostrou o dedo do meio antes de desaparecer pelas escadas a baixo.
se sentiu idiota no mesmo segundo. Depois do que ocorrera na noite passada, não era hora para ter esses tipos de brincadeiras com . Mas aquilo não era mais e nada menos que o nervosismo da coletiva batendo em sua porta. Ele suspirou, alisou a própria roupa e desceu as escadas modulares de sua casa em direção ao fundo, onde pequenos matadores o esperavam para a hora do abate.
Quando se aproximou do lugar onde aconteceria a sua coletiva, se sentiu estranho novamente. Era quase que uma segunda versão do seu enjoo matinal, mas dessa vez o nervosismo era maior do que o nojo de dormir com seu melhor amigo.
Ele respirou lenta e profundamente procurando limpar a sua mente. Se ele queria sair vivo daquela coletiva, ele precisava estar calmo e responder todas as perguntar com a máxima atenção. ultrapassou o gramado de seu quintal concentrado, evitando passar se quer ao lado da massa de jornalistas. Quando alcançou a área coberta na companhia dos outros três companheiros de banda, ele pareceu se acalmar. Seus lábios até se curvaram em um pequeno sorriso quando o primeiro flash o encontrou.
- Boa tarde senhoras e senhores! Peço que cada um antes de fazer sua pergunta, estenda a mão para cima, espere por sua vez até ser chamado e se identifique – Era Albert, ele estava ao lado de com cara de poucos amigos. Ele entregou um microfone para cada um de seus garotos e deu por iniciada a entrevista.
Antes mesmo que pensasse em dizer alguma coisa, uma dezena de mãos se ergueu diante dele. Ele procurou pela garota mais gostosa que achasse, mas não conseguiu se decidir. Afinal, a mídia era esperta o suficiente para entender que garotas bonitas tiram verdades mais fáceis de quatro caras do que um bando de velhos. Ele mesmo era capaz de transar com qualquer uma delas sem pensar duas vezes. Arqueou os ombros e passou para a função de escolher o primeiro entrevistador.
Após ser escolhida, uma garota morena se levantou. Ela sorriu em forma de agradecimento para , mas imaginou que ela deveria é agradecer a Deus por ser tão gostosa daquele jeito.
- Oi, meu nome é Aline Malkin e eu gostaria de saber de você, , como foi todo o período de reabilitação?
assentiu com a cabeça. Ele sabia que a maioria das perguntas – se não todas – seriam a respeito da sua reabilitação. Mas ele não imaginava o quão difícil seria para respondê-las.
- Não foi nada fácil para ser bem sincero – Ele suspirou. Seus olhos que antes miravam o rosto da mulher, agora tinham dificuldade para executar a mesma tarefa, preferindo olhar para os próprios pés. – Foram dias duros, dos quais alguns eu não tinha a mínima vontade de levantar da cama ou então eu simplesmente queria quebrar tudo o que eu via pela frente! - sentiu os olhos fixos de Albert pesaram sobre ele, encorajando-o a continuar. Ele sabia que os elogios à clínica deveriam acontecer agora. Fingiu um sorriso – Mas, por sorte, eu encontrei toda a ajuda necessária com o Dr. Bennett e sua maravilhosa equipe no St. Lucius! Eu só tenho o que agradecer a eles.
A repórter pareceu se satisfazer com a resposta de , ela deu um pequeno sorriso e voltou a se sentar. Um rapaz careca ao lado dela, ergueu as mãos para sua pergunta, sendo instantaneamente recebido por .
- Eu sou Jonathan Smith - Ele se apresentou rapidamente e ergueu seu gravador de voz na direção dos músicos - Como você se sente agora, livre da cocaína?
olhou para o rosto do rapaz, conhecendo-o de algum lugar. Ele não se lembrava do seu nome, somente daquele rosto careca e meia dúzia de palavras ditas quando estava completamente bêbado para alguma revista alguns meses atrás.
- Me sinto limpo. – respondeu simplesmente.
Ele era conhecido por sua objetividade, quase beirando a grosseria, quando estava sóbrio. O que ele sabia que não era sua vertente mais agradável para os jornalistas em geral. Quando concedia uma entrevista chapado, ele era capaz de falar por horas, rir de qualquer coisa, muitas vezes se perdendo em pensamentos e tendo que voltar ao seu ponto de vista inicial.
Ávidos, os entrevistadores se aproveitavam de cada mísero deslize para aumentar e distorcer suas palavras. Por isso então que criara a sua aversão pela mídia, nunca sabendo se deveria ou não beber alguma coisa antes de uma entrevista.
O entrevistador pareceu aceitar a resposta curta e grossa de , com certeza não esperando nada profundo ou então detalhada da parte dele.
Um jornalista barbudo da primeira fileira ergueu uma das mãos, mas, não esperou nem que ou qualquer outro rapaz da banda o chamasse e já lhes lançou a primeira de suas perguntas.
- E aí, eu sou o Jake e queria saber quem te incentivou a procurar ajuda em uma clínica de reabilitação, você próprio ou foi uma decisão conjunta?
- Foi uma decisão conjunta – pigarreou e olhou para Albert. Ele contaria a verdadeira história por trás de sua reabilitação. Acreditando sinceramente que tal revelação não fosse atrapalhar sua carreira – Eu fiz um acordo com o meu agente, dizendo que dá próxima vez que eu estivesse chapado e entrasse em uma briga de bar, ele poderiam me trancar em uma clínica. E então de resto você já deve saber melhor do que eu o que aconteceu.
- E como foi que vocês reagiram a tudo isso? – O rapaz se virou para os demais companheiros de banda. fez o mesmo, dessa parte da história, ele ainda não sabia.
- Foi tranquila – se pronunciou pela primeira vez. Quando estava impossibilitado ou então se recusava a responder algo, a função de frontman passava para . e preferiam ficar na deles, respondendo somente o que fosse extremamente necessário – Nós todos sabíamos da decisão de Jules e o apoiamos sem pensar duas vezes.
Os olhos de se encontraram com o de , ele apertou delicadamente os joelhos do amigo e sorriu. Apesar de todas as merdas da noite passada, ele tinha visto no olhar de e ouvido da própria boca do amigo o quanto ele tinha feito falta. Talvez aquelas pequenas palavras é que haviam sido a fagulha dos amassos que se seguiram logo depois, porque, nesse mesmo instante, teve vontade de beijá-lo.
- É isso que os amigos fazem! – concluiu. Seus olhos desviram dos de e ele se remexeu desconfortável na cadeira.
O momento afeminado terminou com a mesma efemeridade que começou. Quando uma loira incrível estendeu uma de suas mãos para o alto e no mesmo segundo ela ganhou a permissão para a próxima pergunta tanto de , quanto do resto de toda sua banda.
- Olá, eu sou Kelly Bradbury e gostaria de saber como você, , consegue dormir à noite sabendo que tantos jovens idolatram e se inspiravam em seu padrão de vida boêmio repleto de abusos químicos e prostitutas?
permaneceu em silêncio por alguns segundos tentando entender o que ele realmente estava sentindo após aquela pergunta. Seu sangue correu rápido nas veias e ele só não sabia se era de raiva por tamanha agressividade carregada naquela pergunta ou então excitação pela combinação da audácia e do corpo escultural daquela repórter. Ele coçou a nuca com sempre fazia quando estava nervoso e a repórter lhe fuzilava com um sorriso maligno.
- Bem, eu acho. – Ele respirou fundo e procurou responder o mais calmo possível. Um sorriso cínico apareceu em seus lábios – Primeiramente, eu nunca aconselhei que ninguém se inspirasse em mim, eu sei que sou um péssimo modelo para qualquer um. Mas, pelo menos eu tenho a minha integridade, assumindo todos os meus erros e uso as minhas frustrações pessoais a favor do meu próprio trabalho e não contra o trabalho alheio. Acho que é isso que nos difere atualmente, senhorita Bradbury.
A repórter deu um sorriso desdenhoso e voltou a se sentar. sabia que havia conseguido deixá-la irritada, mas, ele tinha ainda mais certeza é que em uma próxima oportunidade que ele tivesse ao seu lado, ele a faria gemer a noite inteira.
Uma voz ecoou do meio do mar de repórteres e tirou de seus pensamentos pervertidos. Era um homem de meia idade, usava um óculos de grau com uma armação grande demais para o seu rosto e um bigode escuro logo em baixo do nariz fino. o conhecia de outros lugares, apenas não conseguia saber exatamente de onde.
- E aí rapazes, eu sou o Dave McMillian da Rolling Stone e eu gostaria de saber sobre a data de gravação do terceiro álbum. Há dois meses, em uma entrevista exclusiva pra revista, o garantiu que vocês voltariam para os estúdios por volta de novembro. A data ainda continua em pé, mesmo com essas duas semanas parados?
- Sim, a data continua em pé! – garantiu. agradeceu pelo amigo responder aquela pergunta, afinal, ele pouco sabia sobre as conclusões finais da sua carreira. Ele ainda não havia conversado com Albert sobre esses assuntos – Inclusive nós achamos que o processo criativo vai ajudar o a se manter firme longe da cocaína!
- E os shows que foram cancelados? Alguma data certa para que eles aconteçam?
- Ainda não sabemos de nada – disse simplesmente – Nosso agente ainda está cuidando disso.
O jornalista balançou a cabeça como agradecimento e voltou a sentar-se. O rapaz que estava seu lado fez a próxima pergunta. não o conhecia, ele tinha os cabelos castanhos bagunçados e uma barba grossa por toda a cara.
- Oi, eu sou o Michael White. Como vocês esperam que a abstinência da cocaína, uma droga conhecida por aumentar a autoestima, liberar a adrenalina e o libido, vai interferir diretamente no terceiro álbum? Podemos esperar músicas mais melódicas e shows menos explosivos?
mordeu os lábios. Ele realmente não sabia o que responder para o jornalista. Aquela, de longe, havia sido a pergunta mais difícil e inteligente que haviam feito durante aquela tarde.
- Cara, eu sinceramente não sei! Vou ficar te devendo essa resposta – Ele deu um sorriso embaraçado e coçou o queixo, movendo-se desconfortável na cadeira – Acho que nós vamos ter esperar para ver no que dá.
O rapaz assentiu e se viu levemente atormentado por aquela pergunta. Ele ainda não havia começado a compor efetivamente para o próximo álbum, e, por mais que ele já tivesse escrito algumas coisas casualmente, ele sabia que a sua escrita havia mudando muito desde o começo da Waste.
As suas composições no início da carreira eram mais sujas, jogadas e sem o mínimo de primor poético. Hoje em dia, mais maduro, tinha maiores preocupações com as suas letras e ele sentia toda a pressão do mundo em seus ombros para que esse novo álbum superasse os dois anteriores. Ele, então, se sentiu frustrado. Talvez fosse a sua enlouquencia desbocada e sem medo do risco, que foram responsáveis pelo sucesso absurdo da banda. Era muito provável que um disco mais polido, não fizesse muito a cabeça do seu público. suspirou censurando-se, essa não era a hora de pensar sobre a recepção de álbum que ainda nem fora gravado. Ele nunca teve medo de ousar e ser autêntico em seu trabalho, porque começaria a temer agora?
Tomou um gole de água e voltou a sua atenção para a pergunta de um senhor que estava sentado na última fileira. Ele tinha uma carranca estampada no rosto e uma voz autoritária, que beirava a grosseira. não o conhecia, ele não parecia ser um repórter e nem mesmo parecia entender de música.
- Como foi à reação do seu pai ao saber dessa reabilitação? – o velho pigarreou – ele não parece apreciar muito o seu comportamento não é mesmo rapaz?
espreitou os olhos. Ele não conseguia nem ao menos se concentrar para responder ao nível aquela pergunta. Suas mãos apertaram instantaneamente a garrafa que estava em sua mão. não conseguia entender porque sempre os entrevistadores mais velhos, citavam seu pai em uma hora ou outra na conversa. Ele odiava aquilo. E como odiava.
- Eu não acho que essa pergunta seja apropriada para esse momento! – disparou. Ele olhou para , seus olhos pediam desesperadamente por calma. Ele conhecia e sabia que qualquer assunto envolvendo sua família era um tabu.
- Por que você não pergunta isso para ele? Nós dois não temos nos vistos muito – nem pode perceber o olhar de , seus olhos estavam fixos naquele velho. Ele abriu um sorriso provocador – Quando o ver aproveita e manda para um abraço meu.
- Você não cansa de humilhá-lo? – O senhor arqueou as sobrancelhas, descrente no comportamento que a via a sua frente.
- E vocês não cansam de serem intragáveis, não é? – Ele respirou fundo, tentando manter a calma. Mas, quando viu o velho balançar a cabeça em sinal de reprovação e escrever algumas palavras rápidas no seu bloco de notas, não pode segurar a explosão que veio logo em seguida:
– Quer saber? – Ele berrou – Eu me retiro, eu não sou obrigado a responder essas perguntas estúpidas! Se a sua intenção era ver o circo pegar fogo, parabéns velhote, você conseguiu!
se levantou instantaneamente a sua cadeira, derrubando os microfones e o tripé que segurava uma câmera no lugar. Ele chutou para longe um dos microfones e fez seu caminho para dentro de sua casa, sentindo extremamente puto. Ele não conseguia entender porque é que as pessoas insistiam em falar de seu pai mesmo sabendo que eles não se falavam a pelo menos três anos. Ele tentava não se importar. Sua vida era assim, ele seria julgado até o dia da sua morte por seus atos, mas, ele não se arrependia de nada até então.


Capítulo 9 - I'm Always Losing To Win

Com os olhos fixos no ventilador de teto luxuoso do hotel que estava hospedado, a mente de vagava pelos últimos acontecimentos de sua vida. Já se fazia mais de duas semanas desde que fora resgatado por Albert da clínica de reabilitação St .Lucius, onde havia sido internado por uso abusivo de cocaína após uma briga de bar e, desde então sua vida tinha voltado ao normal. Ou aparentemente.
É claro que ele ainda estampava as capas de revistas de música, era constantemente cercado pela mídia em geral e principalmente era interrogado sobre como estava lidando com a suposta abstinência nesses dias. era cordial, respirava fundo e tentava responder de maneira prática as perguntas que lhe eram enviadas.
Depois de interromper a turnê pelos EUA por causa da internação de , a Waste estava com a agenda lotada para os próximos dias. Talk shows e entrevistas variadas ocupavam as manhãs de e seus companheiros de banda, e nas noites, ocorriam os shows que haviam sido remarcados. Para completar, a banda estava na pré-preparação para a gravação do 3º álbum de estúdio, mas ainda que com todo esse trabalho e sua carreira deslanchando, sentia-se frustrado, infeliz.
Com os braços cruzados em baixo de sua cabeça, ele se sentia desconfortável e não entendia bem de onde vinha sua frustração matinal. Involuntariamente, o dedão direto tocou lentamente o meio de seu braço esquerdo, onde estava sensível e levemente avermelhado devido à picada de heroína que ele havia usado na noite anterior. Chegou à conclusão que talvez toda aquela sensação ruim fosse só uma badtrip.
Ele suspirou. Levantou uma das mãos e procurou pelo criado mudo seu maço amassado de cigarros. Apanhou um, levou até os lábios e o acendeu, sorvendo a maior quantidade de fumaça que pode. Sua mente novamente vagou, dessa vez, desprendeu-se completamente da realidade presente e só voltou quando sentiu um par de mãos dormentes passearem por seu dorso e beijos úmidos lhe tocar o peito. Por alguns minutos ele havia se esquecido de que tinha companhia.
- Bom dia!
A voz rouca e feminina ecoou pelo quarto. murmurou algo incompreensível e voltou sua atenção para o resto do seu cigarro, procurando por mais alguns momentos em alfa. Os beijos da garota se intensificaram e subiram para o pescoço e as mãos tocavam indiscretamente as coxas e as intimidades do rapaz, querendo obviamente mais do que tivera na noite anterior. rolou os olhos, ele definitivamente não estava no clima para comer ninguém.
Ao finalizar o cigarro, jogou a guimba no carpete caro e empurrou a garota que estava deitada sobre ele para longe, levantando-se bruscamente da cama. Procurou por sua cueca boxe perdida pelo chão e a vestiu. Ainda que caminhasse desorientadamente pela iluminação, alcançou a enorme janela de vidro laminado do quarto. Seus olhos percorreram ávidos pela rua movimentada de Nova Iorque, a cidade que nunca dorme.
Seus sentimentos pela cidade eram conflituosos: ele a amava, amava suas ruas, seus bares, sua eloquência e sua mistura única de diferentes culturas e etnias. Entretanto, não podia negar que mudar-se para a Califórnia fora a melhor coisa que ele havia feito na vida. Quando se é famoso e se tem uma queda especial por atividades ilícitas é melhor sair de jogo e afastar-se dos flashes.
Em meio à multidão lá em baixo, uma cena um tanto quanto ordinária chamou atenção de : um casal de namorados andava de mãos dadas pela cidade, a garota ria enquanto o rapaz narrava alguma história idiota. fincou o cenho, estranhando a sensação de vazio que o invadia naquele momento, ele tinha tudo, menos aquilo. Ele tinha tudo aquilo que supostamente desejava instantaneamente em mãos, mas faltava-lhe afeto, faltava-lhe carinho, faltava-lhe alguém que realmente se importasse com ele. Alguém que se importasse somente com ele, um cara como qualquer outro de 24 anos e não com o , o vocalista excêntrico de uma banda de rock.
Ao contrário do que muitos pensavam - inclusive ele próprio – a sua vida perdeu um pouco a graça quando ele podia dormir com qualquer garota no mundo, bastava ele se apresentasse ou então desse um sorriso para uma delas e o fim de noite estaria garantido. não demorou a perceber que desde sua ascensão no mundo na música, suas conquistas amorosas haviam sido reduzidas a pó. Não que ele não se encontrasse com garotas, pelo contrário, mas, todas aquelas que ele se relacionava desde então só estavam interessadas em seu dinheiro ou em sua fama.
Ele olhou para a garota que estava deitada em sua cama e sentiu pena pela primeira vez. Ela não deveria passar dos 20 anos, tinha toda uma vida pela frente e estava lá, desnuda, implorando por sexo e talvez um pouco de amor de astros do rock que, como ele, não davam a mínima para ela. Sentindo o olhar de , a garota sorriu e chamou com as mãos.
- Vem para cá, – Ela chamou manhosa.
franziu o cenho, sentindo-se um tanto quanto nauseado. Procurou por sua calça jeans jogada pelo chão, sacou da sua carteira umas notas de 20 dólares.
- Quanto é que eu te devo mesmo? - Perguntou, estendendo as notas para ela.
- Não me deve nada. Por quê? - A dúvida momentânea no rosto da garota se transformou em uma carranca - Você por acaso está achando que eu sou uma puta?
deu os ombros e voltou às notas de 20 para a carteira.
- Sei lá, talvez fosse.
- Qual é! você não se lembra de mim? – negou com a cabeça, ele não se lembrava de absolutamente nada da noite passada. Aquela merda de heroína tinha fodido com sua cabeça. Ela mordeu os lábios e deu um sorriso sacana – A Kitty, nós nos conhecemos ontem, no bar aqui em baixo!
- Ok, Kitty... – se sentou na cama, forçando um sorriso. Passou as mãos pelos cabelos desgrenhados, deixando-os ainda mais zoneados – Cai fora!
- Como? – Ela estranhou.
- É, isso mesmo que você ouviu – Respondeu grosseiro, desesperado por ficar sozinho.
- Mas, por quê? – Kitty tinha um olhar confuso, parecendo ligeiramente ofendida - O que eu fiz de errado, baby?
- Nada – levantou-se, pegou do chão a roupa da garota e a jogou para ela - eu só quero ficar sozinho, porra!
Kitty respirou fundo, se levantou e vestiu o vestido curto de couro que usava na noite anterior. Sentindo-se completamente ofendida, ela caminhou em direção de .
- Você vai se arrepender disso, – Kitty disse com desprezo, evidenciando seu ódio enquanto dizia o nome dele. Seus olhos estavam vermelhos de fúria
- Ah é? O que você vai fazer? - riu. Ela obviamente não era uma groupie de muita experiência, ainda sentia-se ofendida ao ser dispensada de qualquer jeito na manhã seguinte.
Kitty levantou uma das mãos e antes que ela pudesse chocar-se com seu rosto, segurou o braço da garota.
- Acho melhor você não fazer isso! - Ele disse ríspido. Ao ver a fúria dissolver-se do olhar de Kitty, dando o lugar para um ligeiro temor, ele a soltou – Agora vai, dá o fora!
A garota apressou-se para pegar o que mais lhe pertencia no quarto antes de decidisse levá-la a força para o lobby do hotel, aquilo seria humilhação demais. Vestiu as botas pontudas de cano médio e caminhou até a porta. Ela mordeu os lábios e virou-se novamente para o rapaz.
- Você tem certeza que quer eu vá embora? – Arriscou finalmente.
nem se deu o trabalho de responder, apenas caminhou até a extremidade do quarto e fechou a porta na cara da garota. Deu uma olhada rápida para a bagunça que se encontra seu quarto de hotel, provavelmente a afterparty da noite anterior acontecera ali. Garrafas de whisky e cerveja estavam espalhadas pelo chão, amendoins, cartas de baralho, guimbas de cigarro, embalagens de camisinha e um pó um tanto quanto suspeito ocupava o tampo da mesinha de centro. Do lado da sua cama, encontrou uma seringa e uma colher usados para injetar heroína, ele apertou o embolo para ver se tinha mais um pouco da droga, mas foi em vão. Pequenas gotas de sangue enfeitavam o carpete naquela parte do quarto, suspirou e se jogou na cama. O que diabos é que ele estava fazendo com a sua própria vida?!
Sua cabeça voltou a atormentá-lo. Será que ninguém realmente se importava com ele? Será que ninguém sentiria falta se um dia ele morresse em meio a uma overdose? Era provável que não. Talvez toda a mídia estivesse certa, ele não passava de um moleque inconsequente, rebelde e mimado ao ponto de descontar toda a sua frustração infantil em seu próprio corpo.
fechou os olhos quando sentiu suas pálpebras pesarem, talvez fosse a hora de procurar uma reabilitação de verdade. Quem sabe ele teria a mesma sorte que teve no St. Lucius e encontrasse uma garota decente como , a pequena enfermeira que acompanhava seu caso.
abriu os olhos em ímpeto, sentindo-se levemente abobalhado. A resposta de todas as suas dúvidas e crises de identidade estavam do outro lado país e atendia pelo nome de . Durante as duas semanas que estivera internado, havia o ajudado a se sentir melhor em diversos momentos: tantos naqueles de rebeldia pura quanto aquele episódio de alucinações que até hoje lhe causavam arrepios na espinha. E o mais importante, havia o ajudado a cair fora daquela clínica sem pestanejar quando ele mais precisou. havia gostado de desde o primeiro dia em que eles se encontraram e ela não fazia a mínima ideia de quem ele era. Talvez fosse isso que a fizesse tão especial! pouco sabia da vida de e o tratava bem pela pessoa que ele era e não pelo cara famoso que ele estava cansado de ser.
se levantou em pulo, ele precisava ver e precisava disso com urgência. Antes mesmo que pudesse dar contas de seus próprios passos, estava de banho tomado, esmurrando a porta do quarto de Albert.
- O que é, porra? – pode ouvir a voz baixa e rabugenta de Albert. Sem dúvidas alguma ele ainda estava dormindo.
- Sou eu, ! Abre essa porta, Alb! – Ele berrou e deu mais alguns socos na porta do agente. Houve um breve momento de silencio.
- Que diabos você quer a essa hora da manhã, ? – Albert apareceu entre o batente da porta, tinha os cabelos desgrenhados e uma cara de poucos amigos. Ele vestia somente o robe branco e felpudo do hotel.
- Um avião!
- O quê? Um avião? – Albert tentou acompanhar o raciocínio de , mas estava positivamente de ressaca – Você já está chapado?
empurrou a porta e encontrou no quarto de Albert. Uma garota estava deitada de bruços em sua cama e parecia dormir relaxadamente. Ele balançou a cabeça negativamente e apanhou uma garrafa de água gelada no cooler do quarto.
- Não cara, mas eu preciso ir imediatamente para a Califórnia!
- Califórnia? Não tem ninguém acordado lá nesse horário. Cara, volta a dormir!
- Não dá! Eu preciso ir para lá agora! - Ele afirmou veemente. Não tinha tempo para ficar batendo boca com Albert.
- O que você quer fazer na Califórnia?
- Eu preciso ver uma garota.
- Por falar em garotas – Albert deu um sorriso sacana e passou os braços em volta dos ombros de – Cara, a gente se deu muito bem noite passada!
- Albert, você consegue me arrumar a porra de um avião? – empurrou o agente, visivelmente irritado. Albert bufou.
- É claro que eu consigo. O que você faria sem mim, seu merda? – Albert procurou por sua agenda de contatos dentro da mala. Lá ele tinha todos os números telefônicos que poderia em algum momento vir a precisar – Pra que lugar da Califórnia você quer ir?
- Não sei exatamente, você precisa me ajudar com isso – encolheu os ombros e sentou-se no sofá de couro marrom levemente desbotado do hotel – Onde é que fica a clínica que eu estava internado?
Albert o olhou com os olhos arregalados, ele não podia acreditar que estivesse perguntando uma coisa tão absurda quanto aquela.
- você ficou louco? Você está querendo comer uma interna?
- Não quero comer ninguém! – Ele garantiu. O que era meio verdade, afinal, ele queria conversar com . Mas, ela era gostosa e ele não teria problema algum em aceitar caso ela demonstrasse que queria ir para a cama com ele – E não é uma interna, é uma enfermeira!
- Agora sim! Eu sempre quis comer uma enfermeira! - Os olhos de Albert, antes arregalados agora continham um brilho infantil. Ele balançou a cabeça positivamente, seus lábios se curvaram em um sorriso pervertido – Eu achando que você estava sofrendo com a abstinência naquela clínica e você recebendo um tratamento especial de alguma enfermeira safada?
- Dá pra você ligar pra essa droga de avião logo, Albert? – perdeu a paciência. Ele não gostou do fato de Albert tratar supostamente como uma "enfermeira safada". Ela não era aquele tipo de garota.
- Eu já estou fazendo isso! – Albert vociferou e riu por conseguir deixá-lo irritado.
Por alguns segundos o quarto ficou silenciosos, apenas ouvia-se Albert falando baixo no telefone dentro do banheiro. dividiu sua atenção entre a garrafa plástica de água em sua mão e o corpo exuberantemente nu da garota que dormia pacificamente na cama de Albert. O agente apareceu novamente no quarto, ele coçou o pequeno bigode que havia deixado crescer.
- Seu avião chega daqui à meia hora aqui no hotel e ele volta pra te buscar na Califórnia no domingo de manhã – fez menção de reclamar devido ao pouco tempo que teria para conversar e quem sabe ter algo mais com , mas lembrou-se que domingo à noite ele teria um show grande em Washington, DC. Era melhor não reclamar nesse momento.
– Te fiz uma reserva de duas diárias no Ritz, o único hotel mais ou menos nas proximidades da clínica - Ele assentiu com a cabeça e Albert retornou, pesaroso – , por favor, se cuida cara. Não fode a nossa situação, pela primeira vez em anos nós estamos com a moral alta!
- Relaxa Alb, eu sei me cuidar! – procurou sorrir. Ele queria apenas visitar uma garota decente e não ir para uma balada muito louca em Saint Tropez.
Em pouco mais de meia hora, despediu-se dos colegas de banda e de Albert e embarcou em uma viagem de 6 torturantes horas para a Califórnia. Normalmente ele não sentiria essa viagem passar, mas, devido ao seu estado de excitação para ver , as horas pareciam não passar.
havia levado um livro para ler durante a viagem, mas ele havia ficado intacto, ele simplesmente não conseguia se concentrar em nada que não fosse naquela garota e no medo terrível que ele sentia dela ter mudado de horário ou então não trabalhar mais na clínica St. Lucius. Ele respirou fundo e parou para analisar de que maneira iria fazer para contatá-la.
Albert, alguns minutos antes de embarcar, havia o pedido para que não entrasse na clínica, ele deveria esperar para que estivesse na rua, para só então conversar com ela. Embora o plano parecesse absurdo e com certeza, quando um enorme carro preto e de vidros fumê parasse ao seu lado, fosse assustar a garota, não tinha outra ideia.
Assim que chegou a seu hotel, um carro luxuoso e com motorista já estava esperando por na rua. Ele riu, Albert sem dúvida alguma sabia ser eficiente. Assim que o carro estacionou atrás de umas árvores, na rua que supostamente era a da clínica, o coração de martelou lhe o peito, ele estava nervoso pela reação de .
Alguns segundos depois, pode finalmente vislumbrar a garota. Ela estava mais graciosa do que nunca, andando distraída pela rua. Ele deu sinal para que o motorista se aproximasse lentamente com o carro para perto de . achou divertido o fato de que cada aproximação do carro, ela apertava o passo ansiosa para chegar até portão da clínica. Após a terceira aproximação, decidiu acabar com a apreensão da garota e abaixou o vidro escuro do carro.
- Olá, srta. – Disse em voz formal, chamando-a pelo sobrenome. parou o fitou com os olhos aflitos. Ele riu – Não se lembra mais de mim?
- ? – Ela fixou os olhos nele e aos poucos, toda a aflição estampada neles se esvaiu. Seus lábios formaram um sorriso. sentiu-se bem só de olhá-los – O que você está fazendo aqui?
- Você pode entrar no carro? Eu gostaria de conversar com você, mas não posso descer! – Ele pediu com sinceridade. ponderou por alguns segundos e aceitou.
- Só que tem que ser rápido, eu tenho que trabalhar! – Ela apontou para o relógio e concordou com a cabeça, abriu a porta e deixou um espaço para que sentasse.
- Eu prometo não ocupar muito o seu tempo – Ele garantiu. Assim que entrou no carro, não pode deixar de abrir um sorriso infantil. Era realmente bom pode se encontrar com ela. Percebendo a fixação do rapaz mordeu os lábios, não sabendo exatamente aonde aquilo iria levar. Ela pigarreou
- Sim, ...
- Bom... - mordeu os lábios e puxou uma das mãos da garota – , eu não tenho nem palavras para agradecer tudo o que você fez por mim durante os dias que eu fiquei nessa clínica.
- Não tem o que agradecer , eu só estava fazendo o meu trabalho. – se interpôs e levou um dos dedos nos lábios delas, pedindo para que ela se calasse.
- Você sabe, ainda melhor do que eu, que você não fez só o seu trabalho! –Ele deu um sorriso e puxou delicadamente o rosto de para cima, ela insistia em fitar os próprios pés – E eu sou muito, muito grato a isso!
- Não há de quê... – Ela respondeu timidamente.
- E eu gostaria de poder te dar algo em troca por isso.
- Está tudo bem , eu fiz porque achei que deveria e não porque esperava algo em troca – o olhou nos olhos pela primeira vez, ela tinha uma expressão séria no rosto – Você não se lembra? Eu mal sabia quem era você!
riu divertido. Era por isso que ele tanto gostava dela.
- Sim , eu lembro. E eu não estou falando que eu vá te dar dinheiro ou coisa assim.
- Ah, não? – franziu o cenho, visivelmente confusa.
- Não – Ele concordou e abriu o sorriso mais sincero que podia – Eu quero que você jante comigo e não aceito não como resposta!
Os olhos de se arregalaram novamente. Nem em seus maiores sonhos ela poderia imaginar que , ou melhor, qualquer cara famoso ou bonito como ele, fosse convidá-la para jantar. Ela mordeu os lábios censurando-se por estar tão deslumbrada. Embora ela quisesse aceitar, temia qual poderiam ser as intenções secundárias de . Afinal, uma vez apesar de estar em estado de inconsciência, ele já havia a beijado e aquele simples beijo havia a atormentado por dias a fio.
- É uma pena – ela deu um sorriso tímido e voltou a fitar seus sapatos – Eu não posso. Eu tenho que trabalhar hoje.
- Que tal amanhã? – Ele arriscou.
- Eu não sei se seria certo ...
- Eu prometo não me aproximar de você – garantiu, percebendo que a sua proximidade deixava a garota insegura. Ele ergueu seu queixo novamente, fitando seus olhos – É só um jantar, por favor !
Quando sentiu os olhos de presos no seu, não teve escapatória. Aqueles olhos, aqueles malditos olhos que desde o primeiro dia que ela o vira havia chamado a sua atenção. Era um misto tão intenso de solidão, confusão e esperança, que não poderia haver mentiras escondidas neles. Ela suspirou ainda paralisada por aquele olhar e concordou levemente com a cabeça.
- Tudo bem – disse com uma voz um oitavo mais baixa que a natural – eu aceito.
deu um sorriso tão grande e tão infantil que não pode deixar de contaminá-la, sorriu junto. Ele não podia acreditar que ela realmente havia aceitado jantar com ela. Durante todo o caminho para a Califórnia, o medo da rejeição havia o dominado. Mas agora que a parte mais difícil tinha passado, ele não poderia deixar de sorrir.
- Obrigado por isso , eu garanto que você não vai se arrepender! - Ele pegou novamente uma de suas mãos e deu um beijo delicado.
- Espero que sim – riu, empurrando delicadamente pro lado – Agora me dê licença que eu preciso trabalhar.
- Ok, amanhã às 20 horas esse mesmo carro passará na porta de sua casa e te levará ao meu encontro!
- E como você vai descobrir meu endereço? - que já estava na calçada, estranhou. Ela colocou o rosto bonito entre a janela semi aberta do carro. teve que se segurar para não puxá-la novamente para dentro.
- Eu já tenho tudo em mente! – Ele sorriu e abanou uma mão ao vê-la avançar, sorridente, a guarita da clínica St. Lucius. Sussurrou - Até amanhã, !
se encostou satisfeito no banco traseiro do carro. Amanhã ele finalmente jantaria com e ele tinha certeza que as poucas palavras quais ela proferisse já serviram para colocar a sua vida novamente nos trilhos. Quem sabe ele realmente optasse por uma nova reabilitação e essa reabilitação o levasse a acordar nu e abraçado ao corpo dela. não conseguia tirar sorriso do rosto, sua única preocupação naquele momento era planejar um jantar inesquecível para o dia seguinte.


Capítulo 10 - Love Is Strong and You're so Sweet

Já havia caído a noite na Califórnia. Uma brisa agradável tocava delicadamente os cabelos e os ombros nus de , enquanto ela era formalmente guiada pelo motorista uniformizado do carro até a porta luxuosa do hotel onde ela se encontraria com muito em breve. Alisou a parte frontal do comportado vestido preto que usava, comportado sim, não antiquado. havia sido cuidadosa para escolher a roupa para essa noite, ela queria algo que soasse comportado e, bom, um pouco sexy a sua maneira.
Ela estava extremamente nervosa, não sabia exatamente o que fazer dali para frente. Ela não sabia nem ao menos como encararia . Afinal, se durante a pequena estada na clínica St. Lucius a presença dele já a deixava inquieta, imagine agora, sozinha com ele em um quarto de hotel. respirou fundo e adentrou pelo hall de entrada, os saltos dançaram pelo chão de mármore escuro em um tiquetaquear um tanto quanto irritante. Ela odiava usar sapatos de salto e odiava ainda mais a sua inaptidão ao caminhar.
- Olá – Ela sorriu timidamente para o recepcionista bem arrumado do hotel. Levou uma mexa delicada do cabelo loiro atrás da orelha, procurando pelas palavras exatas que o motorista de havia lhe pedido para repetir quando chegasse no hotel – Eu vim ver o senhor Alexander Followil.
- Certamente, senhorita – O rapaz deu um sorriso complacente e a guiou para o elevador – o sr. Followill está hospedado na nossa cobertura, no 14º andar.
apenas assentiu. Entrou dentro do elevador, sentindo um arrepio na espinha instantaneamente. Ela e elevadores não se davam muito bem desde a infância, quando por uma falha técnica, ela ficou presa com a mãe dentro de um por alguns minutos. Chacoalhou a cabeça para se livrar das antigas más impressões e fixou seu olhar na mudança de cor dos botões conforme avançava os andares. Quando o botão de número 14 ficou vermelho, sentiu seu coração acelerar. Assim que as portas eletrônicas se abriram, a garota percebeu que já estava dentro do quarto de .
Ela sorriu maravilhada. A iluminação do cômodo estava baixa, sendo iluminado apenas por inúmeros castiçais de vela. Rosas estavam presentes em diversas formas: em grandes apanhados em vasos de cristal ou então suas pétalas estavam ocasionalmente jogadas pelo chão. Ao fundo, ouvia notas de música erudita e surpreendeu-se ao encontrar jogado sobre um piano branco de cauda longa. Ele estava tão absorto em sua música que mal parecia notar a presença de , que decidiu somente caminhar em sua direção e não atrapalhá-lo.
Quando terminou de tocar a melodia, bateu lentamente com as duas mãos sobre as teclas e virou-se para ela com um sorriso gentil nos lábios. Seu rosto estava sereno.
- Gostou?
- Muito – abriu um sorriso amável e apontou para o piano – Eu não sabia que você tocava piano.
- Toco desde os treze anos – fechou lentamente as teclas do piano e levantou-se com maestria do piano – Na época eu não tive escolha. Hoje, entretanto, eu agradeço as minhas aulas particulares.
Ele deu um sorriso afetado e se aproximou de . Como prometido, nem ao menos se encostou nela, apenas a guiou para a mesa de jantar incrivelmente bem decorada. mordeu os lábios sentindo se ligeiramente frustrada. Ela concordava – e preferia –que mantivesse certa distância dela, mas ele estava incrivelmente irresistível os vestindo um jeans claro, uma camisa branca levemente aberta nos botões superiores e os pés novamente descalços. Ele parecia bem cuidado, um milhões de vezes mais saudável e limpo do que aquele como ela costumava o ver na clínica. A sua única característica pertinente – embora fosse totalmente do agrado de - eram os cabelos desgrenhados, jogado para todos os lados e caindo levemente sobre seus olhos.
- Espero que goste de comida italiana – a olhou com expectativa. Ele puxou uma das cadeiras para que se sentasse.
- Eu adoro! – E se sentou animada. Seus olhos brilhavam sobre as chamas dos castiçais – E eu não sabia que rock stars tivesse um código de etiqueta tão apurado assim!
deu uma gargalhada gostosa e sentou-se ao seu lado.
- Mesmo os rock stars sabem tratar bem uma visita quando ela é especial – Ele deu uma piscadela rápida. se perguntou se aquilo era somente uma frase feita – Vinho?
- Um pouquinho, por favor.
apanhou uma garrafa de vinho do balde de gelo, no centro da mesa. Serviu em duas taças altas de cristal, sem ao menos derrubar uma gota se quer na toalha branquíssima. se surpreendeu com a delicadeza com que ele os servia, ele simplesmente não parecia aquele mesmo rapaz agressivo que havia pulado em cima dela no primeiro dia em que se conheceram, que distribuiu socos no rosto de um enfermeiro e muito menos aquele que estava internado para livrar-se do vício em cocaína. Ele parecia bem demais e sorriu divertida para ele.
- O que foi? – Ele perguntou descontraído depois de servi-los de uma boa quantidade de capelete e suas mãos foram parar nos talheres do lado exterior do prato.
- Você realmente tem boas maneira a mesa! Eu mesmo mal sei usar o garfo e a faca, quando mais todos esses talheres. Onde aprendeu tudo isso?
O sorriso de se dissipou no mesmo instante. o analisou procurando entender sua mudança repentina de humor.
- Desculpe – Ela colocou uma mexa do seu cabelo atrás da orelha - Fiz alguma pergunta indevida?
- Não, é claro que não! - suspirou, balançou a cabeça negativamente e sorriu para a garota a sua frente - Eu aprendi isso ainda moleque, minha mãe costumava dar inúmeros jantares formais! Mas não se engane, eu ando bem enferrujado!
- Porque enferrujado? Agora que ficou famoso não tem mais tempo para os pais? – riu e tomou um pequeno gole de seu vinho. O líquido púrpura, embora saboroso, desceu queimando sua garganta que não estava acostumada a beber.
instintivamente bateu os talheres contra o prato de louça. Aquela era a parte ruim de não saber absolutamente nada da vida dele. Qualquer outra pessoa nunca perguntaria nada relacionado aos seus pais logo no primeiro encontro, mas ela, com sua doce inocência havia acabado de cruzar a linha para um território perigoso. abriu um sorriso amarelo, buscando em seu íntimo paciência e coragem para aquele tipo de conversa.
- Caso você tenha se esquecido, a minha mãe não está mais entre nós - Ele passou as mãos pelos cabelos, desconfortável e limpou os lábios no guardanapo que tinha sobre os joelhos. Seus olhos perderam o foco por alguns segundos, mas, ele deu os ombros e deu uma longa golada em seu copo de vinho – e eu não tenho visto meu pai desde meus 18 anos.
sentiu seu rosto pegar fogo. já havia mencionado para ela que perdera a mãe aos 10 anos durante a sua assustadora alucinação, na noite final da sua estádia no St. Lucius e ela não havia prestado nem para ter esse cuidado. Ela mordeu os lábios, se sentindo extremamente culpada. Procurou por um pedido de desculpas que lhe parecesse adequado, mas nada parecia bom o suficiente para tamanha gafe.
- , meu deus, me perdoe! – Ela pediu desesperada. Sentiu lágrimas de vergonha brotarem nas bolsas de baixo de seus olhos.
- Não foi nada , de verdade! – sorriu verdadeiramente. Ele sabia que ela não havia feito por mal. Ele deu uma piscadela rápida e voltou a atenção para sua comida – Você não tem obrigação de saber esse tipo de coisa.
- Mas eu deveria saber! Ao menos sobre sua mãe, aquela noite da clínica...
- Podemos não tocar nesse assunto? – pigarreou e a interrompeu tentando não parecer tão grosseiro.
Houve um silêncio. Um silêncio maior do que os dois gostariam. se serviu de mais uma taça de vinho e apenas empurrava a comida em seu prato de um lado para o outro. O rapaz pareceu perceber isso.
- Não gostou da comida? – Perguntou descontraído, enfiando mais uma garfada na boca.
- Posso te fazer uma pergunta? – ignorou a de . Ela levantou seu olhar do prato e visualizou o rosto magro do rapaz na sua frente.
- Claro.
- Qual é o seu problema com seu pai? Quer dizer, você parece se emocionar ao falar da mãe, mas se retrai ao falar dele.
- É um assunto complicado e logo demais, mordeu os lábios. Ele não tinha certeza se gostaria de tocar naquele assunto naquela noite.
- Nós temos tempo... – Ela sorriu doce, procurando depositar na curvatura de seus lábios algum tipo de confiança e ela faiscasse sob os olhos de . Só não esperava que fosse surtir efeito tão rápido. Lucky Girl, confiava nela.
Talvez pelo clima agradável. Talvez pela estranha ligação que sentia com aquela garota. Talvez ainda pela quantidade razoável de vinho que tinha tomado desde a noite anterior, respirou fundo e se sentiu confortável para desnudar sua alma para .
- Nós dois nem sempre fomos assim – Ele virou chacoalhou lentamente o vinho dentro de sua taça, deu um pequeno gole e recomeçou a falar – Pelo contrário, eu, minha mãe e meu pai costumávamos ser uma família feliz. Todo verão nós íamos para nossa casa nos Hamptons, era uma semana realmente divertida.
sorriu com os olhos, pôde ver. Embora seus lábios formassem uma linha reta, ele estava com um semblante sereno e até mesmo divertido, era como se aquelas férias fossem as suas melhores lembranças de infância. A garota balançou a cabeça positivamente em sinal de interesse e ele prosseguiu.
- Mas as coisas começaram a ficar obscuras. No verão de 1973, nós não fomos aos Hamptons. De um verão para o outro a minha mãe havia ficado extremamente doente e eu, nos meus 10 anos não sabia quanta dor que a palavra "câncer" poderia causar nela e em toda a minha família.
A voz de foi sumindo aos poucos, precisou se esforçar para entender o que ele estava dizendo. O rapaz virou o resto do vinho que tinha em sua taça, fechou os olhos ao sentir o gosto do álcool invadir a sua garganta. A garota pegou as suas mãos, sabendo que o pior estava por vir.
- E então, em dezembro daquele mesmo ano, ela nos deixou para sempre.
- Sinto muito, ! – Ela apertou os nós de seus dedos e abriu seus marejados olhos. Aqueles mesmos olhos que sempre traziam uma maré de sensações em , dessa vez, só trouxeram o desamparo.
- Eu sei que sente , obrigado - Ele tentou sorrir. Ele procurou por cigarros dentro do jeans e antes que pudesse sacar um, apontou o maço para ela – Você se importa?
- De maneira alguma.
acendeu o cigarro cuidadosamente, dando uma pequena tragada antes de recomeçar sua história. ficou surpresa, ela não esperava que ele ainda pretendesse continuar naquele assunto. Levemente transtornado, respirou fundo, limpando sua garganta e os olhos na manga da camisa.
- E desde o dia da morte de minha mãe, Robert, como eu costumo chamá-lo agora, nunca mais foi o mesmo – deu mais uma tragada em seu cigarro com dificuldade, ele sentiu suas mãos começarem a tremer – O luto dele se transformou em dedicação total ao trabalho. Eu mal via sua cara durante a semana, ele saía cedo e chegava tarde demais. Foi uma fase complicada, eu tinha pesadelos quase todas as noites e ele nunca estava lá para me ajudar. Eu somente tinha a Peter, o nosso mordomo.
- Meu deus! Como ele pôde fazer isso com você, ?
Ele deu um riso rouco e se sentiu ainda mais mal.
- Anos mais tarde, ele ainda mantinha essa conduta distante comigo. Mas eu já estava farto, farto de ser ignorado pelo meu próprio pai, farto de ser tratado com uma aberração no colégio, porque eu simplesmente não conseguia jogar bem em nenhum time e também havia perdido a vontade de me enturmar e fazer amigos. Eu passava horas do meu dia trancado na biblioteca que pertencia a minha mãe, lendo e tentando entender obras de Tolstoi, Dostoievski, Hemingway, Kerouac etc.
pegou a garrafa de vinho em mãos, olhou atentamente para seu rótulo e virou o restante do líquido em sua taça. mordeu os lábios, arrependida de começar aquele assunto, visivelmente não sabia como lidar com ele.
- Ainda que nossa relação fosse distante, pelo menos nós não brigávamos. Até o dia em que eu comecei a beber, eu tinha meus 12 anos...

"Era uma manhã de Domingo, meu pai estava na Suíça em uma viagem de negócios e eu esperava ansiosamente para que Peter pegasse com meu motorista uma carona até o centro de Manhattan, ele iria fazer uma visita para uma prima que estava internada com pneumonia no hospital local. Ele foi ao meu quarto despedir-se de mim e jurar que voltaria rápido, mas caso eu necessitasse de algo, Adélia, a empregada mexicana da minha casa, estaria lá para me atender. Ainda que gostasse de Adélia e apreciasse demasiadamente sua comida, eu não precisaria dela, eu tinha outros planos.
Assim que eu ouvi o ronco do carro de meu pai passar reto pelos portões de minha casa, corri para a cozinha ver o que a empregada estava fazendo. Ela estava ocupada, dividida entre a louça do almoço e os preparativos para o jantar. Na ausência de Peter, ela que deveria coordenar todas as tarefas de casa. Respirei aliviado, teria muito tempo ainda pela frente.
Caminhei em passos rápidos até o escritório de meu pai. Era lá que ele passava o pouco tempo em que ficava em casa. Sentei-me em sua cadeira de couro escuro, de rodinhas e dei um giro completo, sentindo o medo e a indecisão formigar por toda a minha pele. Eu queria fazer aquilo, mas temia as consequências.
Hesitei por uns instante e caminhei de pernas bambas até o pequeno bar que ele tinha instalado em seu escritório. Lá, haviam inúmeras garrafas de bebidas e eu nem ao menos sabia escolher qual delas deveria provar pela primeira vez. Peguei uma garrafa, sua forma era um pouco mais quadrada que as outras e ela estava aberta. Seu líquido era caramelo e tinha um cheiro forte. Sua embalagem dizia que aquela bebida era o famoso whisky. Preenchi meu copo até a metade com o liquido, tomei coragem e dei o primeiro gole. Foi horrível, eu me lembro até hoje do ardume descendo por minha garganta, fazendo meus olhos lacrimejarem. Tossi feito louco. Mas ainda não estava satisfeito. Após mais algumas goladas, o gosto já aparecia agradável em meu paladar e quando terminei o copo, eu já não sabia discernir entre o certo e o errado. Meu corpo cambaleava para todos os lados, minhas ações não pareciam mais obedecer meus comandos e aquela sensação era maravilhosa. Acalmava minhas inquietações e fazia tudo, absolutamente tudo em minha volta de girar e aparecer muito mais divertido do que realmente era.
Os roubos no bar do meu pai começaram a ser mais constante do que eu mesmo imaginava, a cada oportunidade que eu tinha, ia até lá beber um pouco daquele líquido milagroso. Mas era um pouco arriscado, um dia quase que Peter me pegou entrando no escritório. Então, naquele mesmo dia, desci até o escritório do meu velho e peguei uma garrafa cheia e escondi dentro do meu quarto.
Mas aos poucos, a quantidade inicial de bebida que eu me permitia beber, já não me causavam mais nenhum prazer, pelo contrário, só me deixava ainda mais inseguro. Decidi aumentar a dose e foi em uma tarde de sexta-feira, que eu tomei meu primeiro porre de verdade.
Meu pai estava novamente viajando e Peter havia me deixado para ir ao mercado na companhia de Adélia. Como nunca fora um garoto com histórico para problemas, ambos não se preocuparam em me deixar sozinho, supostamente lendo na biblioteca. Engano gentil.
Assim que notei que estava realmente sozinho em casa, subi correndo para meu quarto. Meu coração batia a mil por hora, eu havia esperado por aquele momento havia minha semana inteira. Entrei com pressa em meu quarto, encostei a porta com os pés e corri para encontrar a minha garrafa dentro da caixa abarrotada de brinquedos que eu tinha dentro do meu guarda roupa. Dei um sorriso vitorioso e dei o primeiro gole na garrafa, sem nem mesmo me preocupar com procurar um copo. O primeiro gole, como sempre desceu queimando, mas, os outros que o sucederam ajudaram a relaxar e me divertir. Para ser sincero, eu não fazia noção de quanto tinha bebido. Meu cérebro definitivamente não estava em condições para assimilar mais nada. Caminhei com dificuldade até a minha cama, o mundo girando em extrema velocidade ao meu redor não estava me ajudando em nada. Quando deitei na minha cama, as imagens do meu lustre pareciam triplicar, pisquei intensamente para conseguir fixar a visão e nada adiantou. Fechei os olhos por alguns instante, segurando a garrafa de whisky bem rente ao meu corpo. Eu sentia ânsia até para respirar.
Acordei com duas mãos me puxando para cima. Era meu pai, ou melhor, três versões bem zangadas do que costumava ser meu pai.
- O que você pensa que está fazendo ? – Ele perguntou com a voz autoritária. Como sempre.
- Eu estava só dormindo, pai – Eu disse lentamente. Fiz força para conseguir coordenar a minha própria boca.
- Com uma garrafa de whisky na mão? – Robert me puxou com força pelo braço. Me fazendo ficar de pé. Ele abriu minha boca à força e sentiu o bafo alcoólico. Eu o empurrei para longe, quase perdendo meu próprio equilíbrio.
- Eu só queria me divertir, como você faz! - Eu disse sincero, e ele recuou com a testa vincada.
- O do que é que você está falando?
- Você sabe! – Respondi um pouco zangado, um pouco bêbado e tudo mais.
- Acho melhor você explicar melhor o que quer dizer! – Robert me olhou com os olhos frios. Ele pegou no bolso interno do terno um lenço e o passou rapidamente pela testa – Agora!
- Basta você beber esse tal de whisky que você simplesmente esquece da mamãe e passa a rir com outras mulheres dentro da nossa própria casa! – Eu explodi. Sentindo todo o meu corpo estremecer-se. Já havia muito tempo que eu gostaria de falar aquelas palavras para meu pai e nunca havia conseguido.
A resposta de Robert foi ainda mais rápida que a minha explosão, antes mesmo que eu pudesse ver o que estava acontecendo, senti a mão dele queimando contra o meu próprio resto. Ele tinha a respiração ofegante.
- Nunca mais diga nada parecido com isso, seu moleque! Você não sabe o que eu passo!
- E você por acaso sabe o que eu passo? Eu não tenho amigos no colégio, eu não tenho mais a minha mãe. A única coisa que eu tenho é um pai que não para dentro de casa e não dá a mínima para o próprio filho, porque só pensa em dinheiro ou então em outras mulheres! – Berrei, embora soubesse intimamente que não deveria. Robert espreitou os olhos frios, me olhando fixamente, suas mãos foram parar imediatamente em sua cintura, desabotoando o cinto que usava. "


olhou horrorizada para . Ele ainda estava absorto em suas próprias lembranças. Deu um trago longo no cigarro e soltou a fumaça para o lado contrário de .
- Eu não sei nem o que te dizer! – Ela garantiu. Acariciando o braço tatuado do rapaz.
- Me lembro ter apanhado para caralho nesse dia - Ele deu os ombros e encarou a menina, tinha um sorriso irônico nos lábios – E foi assim que a nossa historinha começou...
- Você chegou a parar de beber?
- A ideia de parar nunca nem chegou a passar pela minha cabeça. Pelo contrário – Ele coçou a cabeça, sentindo-se um pouco desconfortável – Foi nessa época que eu comecei a andar com uma turma mais pesada e procurar por outras drogas.
- Como? – perguntou, confusa – Seu pai não tinha acabado de descobrir sobre as bebidas?
- Sim, havia. E deixar ele puto daquela maneira havia me dado barato incrível. Era bom saber que de um jeito ou de outro ele estava sabendo da minha existência – Ele riu, mordendo os lábios – Ainda me lembro da diversão que eu senti quando dei a minha primeira suspensão para ele assinar por frequentar a aula de educação física completamente bêbado.
- E a sua escola não tomava nenhuma atitude quanto a isso? – A garota perguntou e se arrependeu no mesmo segundo. Não queria pagar de chata e antiquada para , ainda que ela fosse.
- É claro que tomava. E essa era inclusive a parte mais chata, eu tinha detenções quase toda semana – Ele balançou a cabeça negativamente e olhou para o rosto de – Mas você conhece os esquemas de escola exclusivas, eles te dão todas as chances possíveis. Afinal, se eu fosse expulso, eles ganharam uma tonelada a menos de dinheiro.
A garota concordou com a cabeça. Ainda que não tivesse frequentado uma escola exclusiva como , ela sabia que o dinheiro era quem controlava as pessoas. E ele, sendo supostamente um garoto rico, teria direito todos os benefícios e segundas chances antes da decisão final.
- Mas a minha vida só foi ficar chata quando eu fui expulso daquela escola. Depois da minha terceira suspensão em um mês, o reitor chamou meu pai e disse não havia nada para ser feito dessa vez. Eu sorri vitorioso naquele dia, eu havia ganhado a disputa contra a escola. Mas, o meu sorriso durou por muito pouco tempo. A tarde, depois de me dar uma outra surra, meu pai entrou no meu quarto na companhia de Peter, ele mandou que eu ajudasse o meu velho mordomo a fazer as minhas malas, porque eu estaria mudando ainda naquela noite para um internato na suíça...

"Naquela hora que eu realmente senti o desespero tomar conta de mim. Na época, eu simplesmente queria um contato meu pai, dizer que eu precisava de um pouquinho daquela merda de atenção que ele se negava em me dar, se eu fosse para a Suíça, todas as minhas possibilidades de conseguir aquilo estariam aniquiladas. Mesmo depois de muita insistência e promessas de bom comportamento por minha parte, como meu pai estava irredutível e eu me mudei para a Suíça na mesma noite.
A mudança foi cruel e a vida no internato era ainda pior. Por mais que todos os alunos de lá fossem ricos e de família nobre, ninguém era tratado como tal. Todos tinham horários fixos e inflexíveis para acordar, dormir, estudar e quando dava, divertir-se. Devido a postura agressiva que eu assumira lá dentro, eu não tive muitos amigos. A minha sorte grande foi encontrar, depois de um passeio rápido pelo centro da cidade, uma loja de discos e livros antigos. Sebastian, o dono da loja, me saiu mais útil do que eu imaginava. Ele me visitava na escola a cada final de semana, trazendo em uma mão um cd ou um livro e na outra um pacote de maconha. E assim eu sobrevivi um semestre inteiro, dividindo-me entre apertar um baseado nas horas possíveis e me dedicar ao máximo na aula de música.
Sim, música. Foi durante a minha experiência naquele internato que eu aprendi a realmente apreciar uma boa música e me dedicar para aprender algum instrumento. Mostrei uma aptidão invejável no piano, ainda que soubesse alguma coisa das aulas particulares que eu tinha quando era menor, eu realmente estava aprendendo tudo pela primeira vez. Minhas notas nas aulas de música eram incríveis e foram elas que me sustentaram durante o primeiro semestre inteiro.
Quando o segundo semestre começou, eu já tinha uma pequena fama pelo colégio. Uma parte por ser o primeiro aluno nas aulas de música e outra pela minha amizade com Sebastian, todos achavam bizarra a minha aproximação com o cara estranho da loja de música. Quando o primeiro boato que Seb me trazia maconha escondida estourou, fez-se uma fila na porta do meu quarto. Todos querendo experimentar a minha erva.
É claro que eu nunca dei para nenhum deles, pelo contrário, eu acabei tomando mais cuidado para procurar um lugar ideal para fumar. Um dia, sem ninguém desconfiar, me tranquei em um armário de vassouras dentro do colégio, aquele parecia ser o lugar perfeito! Peguei no bolso interno da minha mochila uma folha de seda e o pacotinho de erva. Bolei um baseado ideal, de tamanho agradável e fumei a metade dele. Quando estava prestes a sair do armário, a velha inspetora me pegou no flagra. Ela me levou imediatamente para a direção, que ao contrário das escolas exclusivas de Nova York não fez pouco caso e me expulsou do colégio no mesmo instante. Parte de mim estava contente por cair fora de lá, mas outra estava apreensiva pelo meu encontro com meu pai que aconteceria em breve.
Ao contrário de uma surra daquelas que eu imaginei que iria levar, Robert me tratou com indiferença. Ele puxou-me pelo colarinho e me jogou na cama, sua feição estava cansada.
- Essa escola foi a última que eu paguei para você. Se você não estudar, ok, o problema é todo seu. Mas não ache que eu vou pagar qualquer outra coisa para você! É melhor que você comece a trabalhar para aprender a se sustentar.
Quando eu cheguei em Nova York, ele me matriculou em uma escola pública que era razoavelmente perto de casa. Eu não reclamei, pelo contrário, acabei gostando muito mais da pública do que qualquer outra escola que ele já havia me matriculado. Foi lá onde eu conheci todos os caras da minha banda e o meu agente. Durante uma festa na casa de Albert, nós quatro tentamos tirar um som dos instrumentos velhos que ele tinha em casa. Nossa ligação foi instantânea. Albert havia me dito que eu era um merda na guitarra, mas, tinha uma voz do caralho e em menos de um ano depois, nós estamos fazendo o primeiro show oficial da nossa banda. Enquanto isso, eu fazia uns bicos de bartender em um pub qualquer, ganhava pouca grana, mas era vital para a minha sobrevivência na época.
Quando meu pai, quando descobriu que eu estava fazendo parte de uma banda, ficou puto da vida. Em uma noite qualquer ele entrou batendo a porta em meu quarto.
- Se você pensa que vai começar qualquer bandinha com esse bando de marginais, você está completamente enganado.
Eu o ignorei. Continuei folheando a revista de cifras que eu tinha nas mãos. Robert, percebeu isso, puxou-a de mim e a jogou pela janela. Eu levantei de supetão da cama e ele me puxou pelos ombros.
- Você está ouvindo o que eu estou falando ?
- Sim, estou. É a mesma merda de sempre, porra! – Eu me soltei e o empurrei para trás.
- Você não vai fazer parte de banda alguma!
- E quem vai me obrigar? Você? – Eu ri desdenhoso e ele ficou ainda mais nervoso.
- Sim, sou eu! Eu sou o seu pai e você ainda me deve respeito enquanto viver sob o meu teto! – Ele esbravejou e eu tive a melhor ideia da minha vida. Dei as costas para o velho e saí para o meu closet. Procurei por uma mala e joguei as primeiras mudas de roupa.
- Ótimo, não vou precisar mais te respeitar então!
- Do que é que você está falando? – Ele entrou no closet, logo atrás de mim. Ele tinha novamente o cinto de couro nas mãos.
- Quer me bater? Ok, vai nessa então! – Eu soltei um riso irônico. Ele recuou ao me ver desmanchando o meu closet.
- Para onde você vai? – Perguntou autoritário.
- Você não reparou ainda, Robert? - Vesti uma jaqueta jeans e fechei a minha mala com um baque - Eu estou vazando!
- Se você sair dessa casa, você não volta nunca mais! – Ele berrou para sim, puxando-me pelo braço.
- E isso vai ser um prazer! – Puxei meu braço com força, tirando-o equilíbrio de Robert e o fazendo cair no chão. Eu nem mesmo virei-me para trás e saí definitivamente da minha casa. "


- E essa foi última vez que você viu seu pai? – perguntou atônica. Ela massageou o braço esquerdo de , sentindo pena do rapaz a sua frente.
- Basicamente sim – respondeu visivelmente transtornado. Ele estava com os olhos fechados, com a cabeça apoiada em seu braço esquerdo. Das suas mãos, as cinzas do segundo cigarro fumando em menos de meia hora, escorria.
- Eu gostaria de poder te ajudar, de verdade – subiu as mãos do braço de , até seu pescoço. Fazendo-o virar pra ela.
deu um sorriso fraco e se virou para ela. Seus olhos estavam vermelhos, e ainda que não estivessem marejados, parecia estar prestes a desabar.
- Desculpa por fazer desse, o pior primeiro encontro do século – Ele mordeu os lábios. Sentia-se estranhamente envergonhado agora.
balançou a cabeça, profundamente comovida. Aquele não havia sido o pior encontro de todos, pelo contrário, havia sido melhor do que ela imaginava. Ela finalmente conhecera , conhecera o rapaz atrás de aquele olhar que tanto a confundia. Agora, sabia de onde vinha toda a fraqueza, a solidão e a esperança por atrás daqueles olhos castanho esverdeados. Ela deu um pequeno sorriso, não conseguindo impedir o impulso que ela sentia naquele momento.
- Obrigada por fazer desse, o melhor encontro que eu já tive! – Antes mesmo que pudesse responder, ela se aproximou, colando seus lábios nos aflitos dele.
Antes mesmo que pudesse analisar o que estava fazendo, foi guiada, aos beijos, por até cama do rapaz. Ela sabia que não pretendia dormir com ele naquela noite, mas, depois de umas taças de vinho, ela simplesmente não conseguir resistir aos lábios do rapaz colados nos seus.
deitou ternamente na cama, deitando-se levemente por cima dela. Com umas das mãos ele segurava seu próprio peso no colchão, a outra estava na bochecha da garota, alisando-a. sorriu antes de beijá-la novamente, ele se sentia incrivelmente anestesiado, era como se ele acabasse ingerir alguns comprimidos de Valium. A única diferença e que o Valium lhe causava sono e os lábios de o faziam querer mais. Ele intensificou o beijo e sentiu a língua quente de voltar a explorar cada canto de sua boca. Ela o correspondeu, envolvendo suas mãos no cabeço bagunçado do rapaz.
Ficaram assim por algum tempo, matando o recém-descoberto desejo que sentiam um pelo outro. desceu seus beijos para o pescoço de , a garota mordeu os lábios sentindo um arrepio por toda a espinha. Ela puxou carinhosamente os cabelos dele e só voltou a ficar tensa quando sentiu as mãos de passearem pela parte interna sua coxa, por baixo do vestido. Ela travou no mesmo instante, parando de corresponder o beijo e as carícias do rapaz.
- O que foi? – apartou o beijo delicadamente, dando um selinho logo em seguida. Ele tinha uma expressão relaxada e curiosa no rosto.
- Eu não... – Ela gaguejou. Quando reparou no inchaço nos lábios vermelho do rapaz, sentiu-se ainda mais envergonhada. a olhava interessado – Eu... eu não vou conseguir ir até o fim.
- Eu fiz alguma coisa errada? – Ele perguntou interessado.
- Não – Ela garantiu – é que eu simplesmente... não consigo.
- ?
- Sim.
- Você é...? – Ele perguntou meio sem graça, não sabendo exatamente como articular as palavras.
- Virgem? – Ela completou. acenou positivamente com a cabeça e admitiu, sentindo-se imensamente constrangida – Sim.
A expressão serena no rosto de ficou um pouco afetada. Ele saiu de cima da garota, que se encolheu no meu instante. Passou as mãos nos cabelos, ajeitando os para trás.
- Me desculpe por isso. – Ela pediu, definitivamente constrangida.
Um sorriso involuntário apareceu nos lábios de . Ele se aproximou dela novamente, puxando levemente pelo queixo. Depositou um beijo carinhoso nos lábios da garota.
- Não há nada para pedir desculpas – Ele passou o polegar pela bochecha de . Adorando a tonalidade rosada que ela estava – Isso te faz ainda mais especial para mim!
mordeu os lábios, não conseguindo aguentar o sentimento de admiração que sentia por nesse momento. Ele a entendia, ele não a achava infantil. beijos os lábios de mais uma vez.
- Você sabe que horas são? – Ela apartou o beijo com um sorriso infantil no rosto.
riu e analisou com dificuldade o relógio de ponteiros na mesinha de cabeceira.
- Uma e dez.
- O que? – Os olhos de se arregalaram. Ela havia perdido completamente a noção da hora – , eu preciso ir!
- Por quê? – Ele estranhou.
- Eu disse para os meus pais que ia jantar com algumas amigas. Nenhum restaurante aqui fica aberto até depois da meia noite, eles devem estar surtando completamente! – Ela se levantou da cama de supetão, calçando as sandálias de salto que havia jogado antes de se deitar.
- Já? – perguntou manhoso. Ele não queria terminar a noite sozinho.
- Já! – ajeitou os cabelos com as mãos. ajoelhou-se na cama e a puxou pela cintura, dando um último beijo antes que sumisse pela noite a fora.
- Eu posso te ligar? – Ele disse sorrindo, ainda de olhos fechados, após beijá-la.
- É claro que pode! – sorriu. Ela pegou uma caneta da mesinha de cabeceira, puxou o braço de e escreveu lá seu número.
- Obrigado – Ele sorriu amavelmente.
– Obrigada você pelo jantar, foi realmente incrível – riu e o beijou pela última vez.
Durante todo o caminho de volta, manteve os olhos fechados, lembrando cada pequeno detalhe da sua noite. Ela não podia acreditar em como era sortuda de conhecer um cara como . Ele era amável, talentoso, bonito e extremamente sentimental, embora tentasse se esconder naquela pose irresistível de bad boy inconsequente.
Ela somente temia que a noite não tivesse sido exatamente agradável para como foi para ela. Afinal, e ele não tinham exatamente ido para a cama. Mas ela ainda conseguia se lembrar da sensação única do toque do rapaz, do sabor do seu beijo e o arrepio gostoso que ele a fez sentir. Ela nunca havia ficado tão íntima de cara nenhum daquele jeito.
então desejou que pudesse voltar atrás e cair novamente nos braços de . Um sorriso involuntário surgiu nos seus lábios, ao imaginá-lo sentado naquela cama, sorrindo para ela. A noite tinha definitivamente melhor do que ela imaginava e ela apenas rezava para ter sido boa o suficiente para que a chamasse para um segundo encontro. Mas isso era coisa para se pensar amanhã e tudo dependeria de uma certa ligação em seu telefone.


Continua...



Nota da autora: Olá meninas, tudo certo? Espero que vocês estejam gostando de Wasted. Lendo alguns comentários, vocês me perguntam muito se eu abandonei a história e a resposta é não. Eu não abandonei e nem pretendo abandonar, só conto com um pouquinho de paciência de vocês com as atualizações, a vida adulta e cheia de compromissos, infelizmente, já bateu na minha porta. De qualquer forma, comentem muito e sintam-se à vontade para me cobrarem no grupo lá do Facebook. Beijos e até a próxima.





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