Última atualização: 01/11/2017

Parte I – Appetite For Destruction

Capítulo 1 - Here I Am and You’re a Rocket Queen

fechou os olhos em puro êxtase. Seu peito palpitava em uma sintonia perfeita com os últimos acordes das guitarras elétricas e da bateria atrás dele, podia sentir sua respiração falhar e cada pequena parte do seu corpo queimar de excitação. O calor que sentia percorrer e escorrer por todo o seu corpo não era nada em comparação do que aquele que emanava do seu público. Ele inclinou o corpo para frente, fazendo uma pequena reverência de agradecimento. Os gritos e ovações aumentaram e seus lábios provavelmente esboçariam um sorriso ainda maior se ele não tivesse se sentindo completamente esgotado nesse momento. De todas as sensações que ele já havia experimentado em vida, o sabor do reconhecimento de seu trabalho pelo público era uma das melhores.
Quando sentiu a mão de – seu melhor amigo e guitarrista de sua banda – lhe tocar o pescoço, fazendo igualmente uma reverência ao público, acordou de seu transe e levantou seu tronco. Era costume de abraçá-lo todo final de show, como se fosse um prêmio por ambos terem se comportado bem durante toda a noite. Os dois trocaram um meio sorriso, se virou para o público pela última vez e com os punhos voltados para o céu e a respiração ofegante ele abandonou o palco.
As luzes se acenderam e o público pedia por mais. O show daquela noite havia sido um verdadeiro sucesso, mais um para a coleção quase imaculada da Waste, a maior banda de hard rock do final dos anos 80, composta por , , e .
Com a soma de integrantes competentes, um pouco de dinheiro e muita sorte, a banda conseguiu ocupar o topo das paradas musicais norte americanas e mundiais em questão de dias, fazendo com que a Waste saísse do anonimato e conhecesse o glamour, o poder e o sucesso ainda no primeiro CD.
Os rapazes passaram então a conhecer os dois lados da fama. Ao mesmo tempo em que abandonaram o apartamento caindo aos pedaços alugado no Brooklyn para comprar seus próprios carros esportivos e mansões beira praia em Beverly Hills ou luxuosas coberturas em Manhattan, viram as suas responsabilidades aumentando e a liberdade inconsequente de seus 20 e poucos anos se esvair pelo ralo.
Enquanto os críticos musicais exaltavam o entrosamento dos quatro garotos, a originalidade, a irreverência e a energia única que a banda levava em seus shows para todas as partes do mundo. A mídia sensacionalista criticava as ações irresponsáveis de , vendendo-o como um rebelde sem causa, como um filhinho de papai que havia abandonado todo seu império familiar para montar uma banda suja com seus amigos do colegial e torrar todo o seu tempo, dinheiro e vitalidade com whisky, pó e prostitutas.
, após se cansar com o seu nome frequentemente estampado em jornais e tabloides, acabou por criar uma aversão pública a qualquer tipo de mídia, protagonizando inúmeros incidentes e brigas com paparazzi. Ele apenas se sentia confortável para dar entrevistas depois de beber algumas cervejas e fumar um baseado. Sendo adorado por alguns jornalistas, que viam em sua constante embriaguez uma boa maneira de tirar verdades do rapaz e odiado por outros, que se sentiam desrespeitados por sua falta de apatia e respostas concretas.
Mas era inegável a influência positiva e o avanço que essa dualidade de opiniões causava em sua carreira. Tal estardalhaço midiático fazia com que não só os adolescentes americanos, como de todo o mundo, gastasse toda a sua mesada em CD's, camisetas e qualquer outro produto lançado pela Waste.
Após o show, para se livrar do assédio tanto da temida mídia quanto das groupies histéricas, a banda seguiu para um bar meio caído e afastado da cidade. Assim que adentrou no recinto, gostou do que viu. O bar estava quase vazio, com exceção de meia dúzia de rapazes que bebiam destilados no balcão, outros três que se enfrentavam em uma mesa de sinuca e alguns casais sentados em mesas distantes.
Algumas prostitutas vagavam pelo local com roupas tão curtas que com um movimento despercebido, acabariam por nem precisar cobrar pelo serviço prestado.
Quando perceberam e os rapazes da banda na porta do bar, as garotas não pensaram duas vezes antes de se aproximar. Não que elas realmente soubessem quem eles eram, mas, como boas profissionais que eram, sabiam reconhecer um cara rico de um pé rapado.

- Oi, docinho – Uma das garotas se aproximou de . Ela tinha os lábios pintados de vermelho vivo que contrastavam com sua pele clara, os cabelos loiros estavam jogados para o lado e ela tinha uma expressão de caçadora.
- Oi – olhou indiscretamente para o decote avantajado da mulher, seus seios pareciam saltar para fora. Abriu um sorriso pervertido já imaginando como terminaria sua noite.
- Gostariam de uma mesa? – Ela sorriu, suas mãos tocaram e deslizaram pelo braço do rapaz.
- Mas é claro que sim! – Respondeu imediatamente.

mordeu os lábios e a mulher manteve o sorriso sensual nos lábios. Ela o puxou pela jaqueta surrada de couro escuro até uma mesa quadrada no canto do bar, grande o suficiente para caber eles, os demais rapazes da banda e suas colegas de trabalho.
Poucos minutos depois da banda se acomodar na mesa, com garotas e bebidas a sua completa disposição, todos os rapazes pareciam finalmente relaxados. Após shows completamente exaustivos como tinha sido o da noite anterior, não havia nada melhor para ambos os quatro, do que vadiar pelo resto da madrugada. Embora seus hormônios já começassem a formigar por baixo da pele com a aproximação das garotas de programa, ele ainda tentava se manter levemente sóbrio. Albert Carter, seu agente e amigo de confiança, havia lhe avisado há poucos minutos que ele teria, ainda naquela noite, uma pequena entrevista para um jornal regional.
Quando percebeu um homem careca e de meia idade entrar pelas portas duplas do bar, sentiu todo seu corpo se enrijecer. Não sabendo exatamente se era de excitação, nervosismo ou simplesmente raiva por Albert lhe marcar algo tão em cima da hora.

- Boa noite, rapazes – O homem limpou a garganta, com um sorriso profissional nos lábios.
- Oi, você deve ser o Simon Green, não é? – Albert foi o primeiro a pronunciar. Ele pôs se de pé, apertando a mão do jornalista, que concordava lentamente com a cabeça – Estávamos te esperando. Aceita uma cerveja?
- Obrigado. Mas não acho que seria prudente! – Simon agradeceu com um aceno rápido de cabeça e se virou para – Quando estiver pronto para a entrevista, ...

abriu um sorriso amarelo visivelmente incomodado, ainda não conseguia entender porque em uma banda de quatro caras, todos os jornalistas apenas se dirigiam a ele. Foda-se se ele tinha composto quase todas as músicas da Waste sozinho. Nada do que ele dissesse em entrevistas mudaria a imagem negativa que a maioria das pessoas com mais de 30 anos tinham dele. Ele não seria magicamente respeitado por ter dito algo bacana e profundo em alguma entrevista.
Após divagar por mais alguns segundos, Albert o trouxe de volta terra, estralando os dedos na frente de seus olhos.

- ?
- Só um segundo – virou o resto de sua cerveja em uma só golada, passou delicadamente as mãos pelos joelhos da garota que estava ao seu lado e se levantou.

Seguiu com o jornalista em seus calcanhares até uma mesa vazia no outro lado do salão, se jogou no banco acochado da mesma e esperou enquanto Simon tirava seus equipamentos da pequena bolsa transversal que usava. Os olhos de se fixaram no pequeno gravador de fitas que o jornalista acabara de ligar. Só Deus sabia como ele odiava aquele aparelho.

- E aí – ele resmungou impaciente para Simon, enquanto batia os dedos indicadores pelo tampo grudento da mesa.
- Podemos começar? – Simon analisou , começando a rabiscar algumas palavras em seu bloco de notas.
- Estou apenas te esperando...
- Bom, a turnê de 1988 já está acabando, como você avalia o aproveitamento da banda durante esse tempo? – O jornalista iniciou suas perguntas e se viu pensando na resposta mais adequada.
- Sei lá, acho que nós estamos bem – Deu os ombros. Não sabia realmente o que Simon queria com aquela pergunta.
- E quanto ao seu aproveitamento?
- O que quer dizer?
- Você acha que tem feito bons shows?
- O que você acha? – rebateu revirando os olhos, já pressentindo que aquela entrevista seria um porre.
- Eu acho que sim – O entrevistador vincou a testa, como se estivesse falando algo de extrema redundância - Você é considerado um dos melhores rock stars da atualidade!
- Grande merda! – bufou, passando as mãos desastradas pelos cabelos empastados. Ele bateu as mãos nos bolsos, tirou um maço de cigarros e colocou um nos lábios – Você se importa se eu fumar?
- Não, tudo bem! – Simon balançou a cabeça positivamente, incentivando a se sentir à vontade com seu cigarro - Mas, você não gosta de ser nomeado como um dos melhores músicos de sua época?
- Eu faço música por prazer, e não para aparecer em listas estúpidas! – O rapaz colocou o cigarro entre os lábios, acendendo-o com facilidade. Ele jogou o zippo metálico na mesa.
– Mas ainda acho que ser lembrado como um dos melhores deve ser algo lisonjeio, afinal, é o reconhecimento pelo seu trabalho!
- Bom, essa é a sua opinião! – deu uma tragada longa, expelindo uma nuvem fina de fumaça do lado oposto ao deu entrevistador e acenou para que o garçom lhe trouxesse duas cervejas. Quando uma delas foi servida para Simon, a puxou em sua direção.
- E como anda a sua relação com a bebida? – O entrevistador perguntou ao notar de virou quase dois terços da long neck em uma só vez.
- Não acho que esse seja o assunto principal da entrevistas nesse momento, mas anda bem, eu sei me controlar.
- Você não me parece exatamente sobre controle, agora – Simon respondeu sério, espreitando os olhos para a bebida de .
- Oh, isso? – deu um sorriso irônico para a garrafa com menos da metade de líquido em suas mãos – Isso aqui é só para te fazer ficar um pouco menos cuzão.
- O quê? – Ele demorou alguns segundo para realmente entender o que tinha querido lhe dizer. Deu um sorriso amarelo – Você não quer continuar a entrevista ou algo assim?
- Não, ok – abriu um sorriso chapado, causando dúvidas em Simon por alguns segundos se ele havia sido irônico ou não. O homem hesitou – Qual é, vamos em frente.
- Falaremos de música então – Após algumas novas palavras riscadas em seu bloco de notas, o jornalista retomou a conversa – Vocês planejam voltar para o estúdio ainda esse ano?
- Sim, em outubro ou novembro.
- E o 3º álbum, como será?
- Não sei, cara, ainda não está gravado.
- Alguma expectativa?
- É como eu disse, o álbum ainda não está gravado.
- Mas, pelo menos uma ideia, uma expectativa vocês devem ter! – Simon vincou a testa novamente. Não sabendo exatamente para que rumo guiar aquela entrevista com , já que ele parecia não querer colaborar com o desenvolvimento da mesma.

O rapaz pareceu hesitar por alguns instantes. Deu uma última tragada no cigarro quase morto nos dedos e bebeu os últimos goles da cerveja.

- É, você está certo. Nós temos, – Deu os ombros casualmente, batendo as cinzas e jogando o resto do cigarro dentro da garrafa – mas não acredito que esse seja o melhor momento para falar sobre isso.
- Por que não seria? Conte-me! – pôde ver um brilho se acendendo dentro os olhos pretos de Simon. Era bacana ver que ele ainda acendia aquele olhar, mesmo que fossem em jornalistas mercenários.
- Cara, eu não tenho nada profundo para te falar!
- Eu não estou esperando nada profundo de você. Apenas fale comigo.

vincou a testa, não sabendo se tinha gostado ou não de Simon ter lhe dito que não esperava nada profundo dele. Se ele não esperava nada, por que diabos ele estava pagando uma grana alta para estar ali lutando para falar com um rapaz de 24 anos, semiembriagado? deu os ombros, se sentindo mais desconfortável que nunca naquela noite. Ele só queria chutar a bunda daquele idiota e sair beber com os amigos.

- Olha, cara, Deus, ou seja lá o que for que você acredita, está me dizendo que hoje não é um bom dia para terminar essa entrevista. Então, me desculpe.

Simon pareceu confuso. Ele olhou para com os olhos levemente desfocados. podia ver um novo brilho nascendo nos olhos do entrevistador, mais dessa vez era de decepção e fúria.

- Essa foi sem dúvidas a pior...
- Entrevista da sua vida? – completou a frase do rapaz com um sorriso irônico nos lábios - Ok, acho que eu posso aceitar mais esse rótulo! – Ele se levantou da mesa imediatamente, empurrando a segunda cerveja que tinha comprado, ainda intocada para Simon – Se ajeita com o material que você tem, você é um profissional!

caminhou em passos rápidos até a mesa de seus amigos, sendo saudado por risos e piadas bêbadas. Ele deu um sorriso amarelo, ele ainda não tinha bebido o suficiente para tudo ficar divertido ao seu redor.

- E aí, sobreviveu? – deu um sorriso torto e empurrou do outro lado mesa um copo com o que deveria ser duas doses de whisky puro.

aceitou de bom grado. Mas aquilo não era suficiente, ansiava por mais. Ele coçou a garganta ardente exasperado. Sentiu o salto de uma das garotas da sua frente da mesa roçar em sua canela e as mãos da loira deslizar descaradamente até o interior de sua de suas coxas, ele fechou imediatamente as pernas quando sentiu os dedos da garota passearem pelo cinto de sua calça, impedindo que ela atingisse seu alvo. Ele procurou relaxar e deu outra golada no seu whisky. Quando a língua quente da garota lhe tocou o pescoço e subiu em direção aos seus lábios, se sentiu nauseado. Maldita entrevista que havia lhe tirado o tesão.

- Você tem um isqueiro? Eu deixei o meu na outra mesa – Ele recolocou um cigarro nos lábios numa tentativa desesperada de se livrar da garota e se virou em direção a , baterista da sua banda.
- Eu tenho coisa melhor para você, ! – abriu um sorriso confidente para o amigo, levou uma das mãos até o bolso interior da jaqueta, tirou de lá dentro um pequeno saco plástico e atirou para .
- Valeu, cara!

abriu um sorriso ao se certificar do que era. Tirou o cigarro dos lábios e atirou no chão. Abriu delicadamente o saco plástico e despejou uma pequena quantidade do pó no tampo da mesa, tirou seu documento de identidade da carteira e bateu com as laterais do mesmo em cima do pó, triturando-os levemente. Com as mãos ágeis, enrolou uma nota de dez dólares em um tubo fino e ajeitou delicadamente todo o pó branco em três carreiras. Abaixou-se da altura da mesa, com a mão direita segurava o tubinho feito com a nota e com a esquerda tampava uma das narinas. Aspirou as três carreiras rapidamente e logo em seguida, soltou seu corpo em direção ao encosto do banco em que estava sentado, se sentindo extremamente aliviado.
Cocaína. Era definitivamente dela que estava precisando naquele momento. Ele apertou o nariz e fungou, usando do oxigênio para empurrar o resto de pó mais rapidamente para seu corpo. Fechou os olhos e em questão de segundos já podia sentir o efeito da droga lhe consumindo. Uma euforia tomou conta dele de maneira arrebatadora, olhou para os amigos ao lado se divertindo e ele mesmo não conseguia entender porque é que estava se sentindo tão entediado e aborrecido poucos minutos antes. Entrevista havia sido ruim? Foda-se, definitivamente, foda-se. Ele não estava nem aí pra repórter nenhum, jornal nenhum!
se levantou e acenou para o garçom, pedindo mais uma rodada de destilados para todos os presentes no bar por sua conta. Foi aplaudido animadamente logo em seguida. Porém, dentre as comemorações pela bebida grátis oferecida por ele, o que mais lhe chamou a atenção foi o olhar ardente que uma garota sentada na mesa ao seu lado lhe lançava. sentiu o fogo daquele olhar lhe aquecer o corpo. Ele sorriu marotamente para ela e se sentou novamente à mesa.
A prostituta loira ao seu lado agora tinha um sorriso feroz nos lábios, ela estava gostando do efeito que a droga havia causado em seu cliente. , que ainda se sentia incendiar, a puxou pelo queixo com força e lhe deu um beijo rápido nos lábios vermelhos. A garota o puxou pela jaqueta colando seu corpo no dele, uma das mãos lhe envolveu o pescoço e a língua dela passou a pedir com urgência permissão para adentrar na boca dele. cedeu. O beijo que era para ser rápido e intenso, agora tomava proporções mais eróticas. No entanto, ele ainda se sentia de alguma maneira, magnetizado pelo olhar latejante da garota da mesa vizinha e não conseguia nem ao menos desviar seus olhos dos dela em momento algum durante o beijo.
pode perceber o olhar da garota se intensificando contra o dele, ela sussurrou algumas palavras no ouvido de seu acompanhante e se levantou da mesa, lançando a ele um sorriso levemente pervertido. Ela acenou com a cabeça de maneira discreta o banheiro no fundo do bar e foi caminhando até lá em passos sensuais.
Já graduado em interpretar gestos discretos e flertes silenciosos, teve certeza que ela queria encontrá-lo no banheiro. Ele apartou o beijo com a prostituta de maneira bruta, simplesmente a empurrando contra o assento da cadeira.

- Preciso mijar! – Ele virou com destreza o seu copo de whisky, pegou uma nota de 100 dólares no bolso da calça, enfiou no decote da mulher e caminhou até o banheiro.

Quando se aproximou da porta do banheiro feminino, nem se preocupou em disfarçar a sua entrada, ele tinha certeza que todos no bar estavam bêbados demais para perceber que ele entrava no banheiro errado. Assim que entrou, pode visualizar a garota dos olhos ardentes encostada na pia. Ela tinha mordia os lábios de maneira sensual, correspondeu.

- Achei que você não fosse vir, sabe, aquela garota parecia não querer te soltar – Ela revirou os olhos, mas sorriu logo depois, fazendo sinal para que se aproximasse.
- Eu viria de qualquer jeito! – caminhou até ela e colou seu corpo no da garota, prensando-a contra a pia. Apesar do sorriso sedutor que estampava seu rosto, ele sentia o corpo tremer de adrenalina causada tanto pelo encontro escondido, quando pelas carreiras recém-cheiradas.

Os braços da garota envolveram seu pescoço, seus lábios tocaram o lóbulo da orelha de . Ela suspirou, a voz abaixou um décimo, parecendo mais rouca e sexy.

- Você tem mais daquilo? - Gemeu baixinho no ouvido de . Ele sentiu um arrepio lhe percorrer toda a coluna.
- Pó? – Ele perguntou e a garota concordou com a cabeça – É claro que sim! Eu até poderia te dar um pouco – abriu um sorriso pervertido, desenhando uma linha imaginária nas bochechas da garota - desde que eu seja recompensado por isso.

A garota deu uma risada rouca. Ela trocou as posições, girando pela jaqueta e o pressionando contra a pia. Agachou-se sensualmente na sua frente. As mãos percorreram o zíper do rapaz com avidez, seus olhos brilhavam de desejo. puxou as próprias calças para baixo, apenas esperando que ela começasse a fazer seu serviço.
Fechou os olhos quando sentiu a garota lhe abocanhar o membro, perdeu a noção dos segundos logo depois, quando prazer proporcionado pela boca dela misturados com a adrenalina da cocaína lhe domar todos os sentidos.
Um barulho oco vindo da porta o tirou do transe sexual.

- Mas que porra é essa? - abriu os olhos de supetão. Um rapaz que media pelo menos 1.90 de altura e pesava o dobro dele estava na frente na porta. Sua expressão não era nada amigável.
- Martin? – A garota que até dois segundos atrás lhe levava pros céus, levantou-se no chão, seu rosto estava surpreso. - Não é nada do que você está imaginando. – Ela começou a dizer, mas foi interrompida ao levar um tapa no rosto do rapaz. Ele era o acompanhante dela, provavelmente seu namorado.
- É, estou vendo mesmo! – Ele puxou um desnorteado pela camisa. A pele de sua testa parecia brilhar de suor, os olhos acusavam uma fúria sem tamanho. engoliu seco, se dando conta do quanto estava ferrado – Vou te ensinar a não mexer com a mulher dos outros, seu viadinho de merda!

Uma de suas mãos segurava pelo colarinho da camisa, a outra segurava uma garrafa de cerveja. A última coisa que viu daquela noite foi a garrafa vindo em sua direção e milhares de cacos de vidros lhe cortando o rosto.



Capítulo 2 - We Got Your Disease

Já era manhã quando se mexeu pela primeira vez desde a noite passada, uma fresta de luz solar insistia em focar seu rosto, anunciando que já havia passado da hora de acordar. Ele não se importou. Ninguém nunca lhe dava ordens e não seria um micro raio solar que o atrapalharia. Berrou para Berta, sua empregada, para que subisse e fechasse a maldita cortina de seu quarto. Não obteve resposta.
Tentou então se virar na cama, não conseguiu. Sua cabeça ardeu fervorosamente com a menção do simples movimento. A noite passada provavelmente havia sido violenta. Procurou na memória algum indício do que havia feito, mas a resposta foi negativa, ele não conseguia se lembrar de absolutamente nada. Esticou os braços até a mesa de cabeceira a procura de um maço de cigarros ou um copo de água, nada encontrou. Seus músculos reclamaram do pequeno esforço.
abriu os olhos pela primeira vez então, o clarão do quarto o cegou por um minuto. Ele se levantou da cama com muito custo, sua cabeça definitivamente estava ferrada. Levou uma das mãos até a cabeça para massageá-la, mas a textura de sua pele estava diferente, grudenta. Sentiu os dedos passarem por pequenas ondulações no início de sua testa. Estranhou. Aquilo seriam pontos?
Correu em direção ao espelho de sua suíte, mas não havia suíte. Pelo contrário, deu de cara com uma porta branca simples que dava acesso a um banheiro, igualmente simples, sem banheira ou vista para a praia. Onde é que ele estava e que droga de lugar era aquele?
olhou a sua volta, reparando devidamente pela primeira vez onde estava. Não passava de um quarto estranho, paredes pintadas de verde claro e chão de mármore branco. Uma cama de solteiro de armação de madeira antiga ocupava o centro do quarto, do seu lado, uma pequena mesa de cabeceira onde tinha apenas um abajur. Na parede oposta se encontrava um gaveteiro de madeira clara e uma mala de roupas, que reconhecia ser dele, estava jogada ao lado.
Uma enorme janela revestida de grades iluminava o quarto. Ao lado dela estava uma mesa, com duas cadeiras e uma fruteira repleta de frutas tropicais. Ele sentia seu estômago doer, não sabia ao certo se era de fome ou nervoso por não saber exatamente onde estava. Ele procurou na fruteira algo que o agradasse, mais foi em vão, desde a infância odiava frutas. Um envelope azul de aparência cordial descansava delicadamente sob a fruteira, o puxou e leu em voz alta, achando ser o menu do serviço de quarto.

Prezado Sr. ,
Seja bem-vindo ao instituto St. Lucius de reabilitação. Esperamos que o Sr. aproveite a sua estadia e consiga atingir a sua meta pessoal. Lembre-se, para se recuperar de velhos hábitos e vícios, é necessário que se reconheça que precisa de ajuda e queira se autoajudar. O primeiro passo já foi dado, agora, deixe que nossa equipe de profissionais capacitados faça o resto.
Fique à vontade.
Atenciosamente,
Charles Bennet.
Psiquiatra e diretor do Instituto St. Lucius.

Um acesso de raiva tomou conta de . Instituto St. Lucius de reabilitação? Reabilitação? Aquilo definitivamente não poderia estar acontecendo! Ele correu em direção à porta, suas mãos pousaram na maçaneta e a puxaram com toda a força que podia. Ele quase caiu para trás inúmeras vezes, tamanho seu esforço. Não tinha o que fazer, estava trancada.

- ABRAM ESSA PORRA! – gritou. Seus pulsos batiam desesperadamente contra a madeira pesada. Ele não obtinha respostas. Não era possível que não estivesse ninguém no prédio que o poderia ajudar!

caminhou em direção à janela pensando em pulá-la, mas, no meio do caminho se lembrou que as mesmas eram forradas de fora a fora com grades. Ele deu um pontapé na cadeira que estava ao seu lado, suas mãos pararam no tampo da mesa e sem pensar no que estava fazendo, virou-a de ponta cabeça. Frutas rolaram por todo o chão.

- Mas que merda! – se sentia tonto, sua cabeça latejava de dor pelo excesso de esforço físico. Ele se jogou em um sofá de dois lugares no canto do quarto. Ele daria metade da sua fortuna em troca de um cigarro agora. Sua garganta fechou e a palavra reabilitação ainda martelava seu cérebro.
Ele não precisava daquilo, ele estava bem. Era normal um cara de sua idade beber algumas doses de Whisky e fumar alguns cigarros. Aquilo tudo era um exagero! Ele só precisava, quem sabe, de um bom descanso. fechou os olhos, tentando acalmar seu ritmo cardíaco e sua respiração.
Minutos depois, passos ecoaram pelo corredor e se levantou em um pulo. Ele tinha certeza que os passos uma hora ou outra rumariam para o seu quarto. Escondeu-se atrás do batente da porta, se algum enfermeiro entrasse em seu quarto, ele tentaria driblá-lo e sair correndo pela porta. O tintilar metálico se aproximou, era um molho de chaves, ele tinha certeza. se posicionou como uma cobra prestes a dar o bote.
A porta se abriu silenciosamente. Mas, ao contrário do que imaginava, quem havia entrado em seu quarto era uma garota, pequena, delicada e não um enfermeiro de dois metros de altura que poderia quebrá-lo em pedaços em poucos segundos. A garota depositou uma bandeja com o que parecia café da manhã em cima da cama, seu rosto se moldou em uma máscara de desespero quando ela percebeu os móveis revirados no chão, ela se virou em direção à porta e deu de cara com . Provavelmente seus cabelos bagunçados, as roupas rasgadas e rosto machucado foram demais para a garota. Ela soltou um grito.
ignorou, pegou rapidamente a sua mala que estava no chão e abriu a porta. A garota soltou mais um grito, só que dessa vez, com um pedido de socorro. Ele soltou a mala no chão e caminhou em direção a ela, seus olhos estavam vermelhos de ódio, uma de suas mãos a empurram contra a cama e a outra cobriu a boca da garota.

- Será que seria pedir demais para você calar a porra dessa boca? – Ele pressionou ainda mais a mão sobre os lábios dela. Não se importava se podia estar machucando-a ou não. Sua ira nesse momento era maior do que qualquer outra coisa. – Porque se você ainda não percebeu, eu estou tentando fugir dessa merda!

suspirou nervoso. Ele podia ver nos olhos da garota o terror que ele estava lhe causando. Afrouxou um pouco a pressão sobre os lábios dela.

- Eu não vou te machucar – Ele disse da maneira mais calma que poderia – em troca disso, será que você poderia pelo menos não gritar? - Ela concordou com a cabeça.

soltou a garota, mas os olhos dela estavam fixos no canto esquerdo do quarto.

- O que foi? – Ele indagou antes de se virar para a porta. Mas já era tarde demais, quando deu por si, seus braços estavam imobilizados para trás por um enfermeiro e outro lhe aplicava com precisão uma seringa no braço descoberto.
- Você estragou tudo! – Foram as últimas palavras cuspidas por ele antes de uma estranha dormência tomar conta de todo seu corpo.

[...]

Quando abriu os olhos novamente naquele dia, sua noção de tempo e espaço estava definitivamente afetada. Ele se lembrava vagamente de acordar em alguma clínica de viciados, brigar com alguns enfermeiros e voltar à dormir, porém, não sabia julgar se aquilo realmente tinha acontecido ou então era somente a teoria de Freud lhe pregando uma peça. Ele rezava para que fosse a segunda opção.
Para seu desespero, ainda se encontrava no mesmo quarto apertado no qual havia despertado pela manhã. Suspirou. Não tinha que ele pudesse fazer até então. Levantou-se da cama com certa dificuldade, após passar tanto tempo deitado na mesma posição, seus músculos reclamavam e pediam por liberdade.
procurou pelo banheiro, abriu a torneira e mergulhou seu rosto debaixo d'água fria, deixando que ela refrescasse seu rosto e limpasse seus ferimentos. Ele esfregou as têmporas suavemente, aliviando os resquícios de dor. Enxugou o rosto em uma toalha que estava ao lado e parou para admirar seu rosto machucado no espelho. O que é que ele tivesse aprontado na noite passada, havia sido sério: do topo da sua cabeça até metade da testa estava cortado e suturado com alguns pontos, seu olho esquerdo estava inchado e um pouco roxo. deu um murro na pia, provavelmente havia se envolvido em mais uma briga, mas, como não se lembrava de nada, decidiu deixar quieto.
Decidiu tomar um banho por completo, com certeza algum tempo debaixo do chuveiro o faria bem. Permaneceu dentro do box por cerca de meia hora, até que ouviu o barulho de conversa invadir o seu quarto. Saiu de dentro do box imediatamente, apenas perdendo tempo para amarrar uma toalha em sua cintura.
Quando abriu a porta do banheiro, deu de cara com dois homens, um deles era baixo, careca, um pouco acima do peso e tinha uma cara irritante de pseudo intelectual. Entretanto o outro, era alto, vestia uma jaqueta de couro claro e apesar dos óculos escuro, tinha o rosto que conheceria até mesmo no meio de uma overdose. Era Albert Carter, seu agente.

- Olha só quem finalmente acordou! – O velho saudou. Ele entendeu a mão para cumprimentá-lo, mas se esquivou – Prazer, senhor , eu sou o Dr. Bennett, diretor do instituto St. Lucius!
- Uhum... – respondeu de má vontade para o psiquiatra. Sua atenção estava focada completamente em Albert – Cara, o que é que eu estou fazendo aqui?

Albert, entretanto, não o respondeu, apenas agradeceu a presença do médico presente e lhe fez algumas rápidas perguntas técnicas. Quando Bennett saiu, ele virou-se pela primeira vez para , analisando-o minuciosamente. se irritou.

- Dá para você me dizer por que diabos eu estou em uma clínica de reabilitação?! - Ele estourou, postando-se na frente do agente.
- Qual era o nosso trato? – Albert respondeu secamente.
- Qual trato? – indagou.
- Aquele sobre as brigas de bar...
- Brigas de Bar?
- Sim, , brigas de bar! Nós dois havíamos feito um trato que da próxima vez que você se metesse em uma briga de bar e isso caísse na mídia, eu poderia te trancar em uma clínica! – Albert abriu um sorriso amarelo. Ele odiava o fato de sempre se esquecer dos combinados.
- O quê? Alb, eu não me lembro de nada disso!
- Não se lembra? Ok, vou refrescar a sua memória então! – Albert respondeu ríspido. Ele tirou dos bolsos da jaqueta um pedaço amassado de jornal e jogou sem cuidado algum pra cima de – Leia com carinho, esse seu último feito já está espalhado por todo o estado de Nevada!

coçou a garganta, visivelmente nervoso. Apanhou o jornal com as mãos levemente trêmulas e começou a leitura, que provavelmente, era uma das mais duras que ele tivera nos últimos meses.

Sem propósito ou direção.
A conversa com o vocalista da banda mais superestimada do momento foi tão superficial quando a sua personalidade. E ele não quer fazer absolutamente nada para mudar isso.
Por Simon Green

Quando fui designado para entrevistar , 24, eu já sabia que não poderia esperar grandes coisas. Seu péssimo comportamento midiático não é novidade para ninguém, mas eu não posso deixar de dizer o quanto eu realmente fiquei surpreso.
Assim que cheguei ao Fat Mike, um pub meio caído no fim da cidade e lugar marcado para a entrevista, eu realmente me dei conta de quão árdua seria a minha missão de tentar tirar algumas palavras de .
Avistei a banda sentada em uma mesa quadrada no canto do bar. Caminhei até eles e fui saudado pelo aparentemente responsável agente da banda, Albert Carter. Troquei um aceno rápido de cabeça com os demais integrantes da Waste, que pareciam mais interessados na presença de algumas garotas de programa do que em qualquer coisa.
Chamei por , esperei que ele bebesse o resto da sua cerveja. Ele caminhou ao meu lado até uma mesa na outra extremidade do bar que fedia a mofo e nicotina. Eis então, que tudo desmoronou.
O vocalista carismático e enérgico em palco, é vazio e apático pessoalmente. não pareceu estar contente ou até mesmo interessado em minhas palavras em nenhum momento da entrevista.
Alheio às críticas e fazendo um esforço sobre-humano para permanecer incompreendido, repudia veemente quando digo que ele é um dos melhores rock stars da atualidade e que tal título deveria ser aceito como um elogio, afinal, é um reconhecimento de seu trabalho. é ácido "faço música por prazer, e não para aparecer em listas estúpidas".
Um fato importante sobre : O rapaz tem sérios problemas com alcoolismo e drogas em geral. Após beber em um só gole uma cerveja inteira, pergunto a ele a quantas anda seu problema com o álcool. Alguns palavrões e ofensas depois, ele deixa claro que o hábito ainda está longe de ser encerrado.
Quando resolvo falar finalmente sobre música, o vocalista visivelmente alcoolizado, mostra-se perdido. Sem noção alguma do que planeja fazer em seu terceiro – e inutilmente – tão aguardado álbum de estúdio, para desespero de todos os fãs.
Após esvaziar outra long neck - a terceira, só na minha frente -, não coordena mais as próprias palavras. Ele se levanta da mesa, volta aos tropeços e se senta com seus amigos de colegas de banda. Sem o mínimo pudor ou respeito com as pessoas presentes no bar, à distância consigo ver cheirar algumas carreiras de cocaína. Não sei julgar ao certo quantas foram, mas a ação inteira, não passou de um minuto.
Para finalizar a noite, acaba por arrumar uma briga no local, após arrastar para o banheiro e envolver-se sexualmente com uma garota comprometida. Apenas consegui saber do ocorrido após , colega e guitarrista da Waste, aparecer aos berros do banheiro pedindo por ajuda. Pude ver sangue escorrendo do nariz de . Se foi fruto da briga ou pelo também uso contínuo de cocaína, não ficou claro para mim.
Termino esse artigo, falho em sua essência, com uma inquietação: como é que os jovens de hoje podem idolatrar tanto um rapaz completamente perdido, que não está dando a mínima para nenhum de seus fãs. Se um dia, , serviu de inspiração para nossos rapazes e moças, eu temo pelos frutos que serão deixados para a próxima geração.

Ele suspirou, definitivamente ele havia se envolvido em uma briga noite passada. Os flashes da noite passaram então por sua cabeça, ele se lembrou da entrevista, da presença irritante do jornalista, de tomar algumas cervejas, da cocaína e de ir para o banheiro para dar uns amassos com alguma garota e o namorado dela os pegando no flagra. Depois daquilo, tudo ficou escuro e perdido em sua memória.

- Aquilo não foi minha culpa! – Ele se defendeu e Albert pareceu fazer pouco caso – Aquele cara que veio para cima de mim, eu nem pude me defender!
- É claro que ele foi para cima de você! Você estava com a garota dele! Eu faria o mesmo se fosse ele! – Albert cuspiu algumas palavras, ele definitivamente odiava ser penalizado pelas brigas de e os demais caras - E não pense que o fato de você ser mudaria alguma coisa!
- Eu não tive culpa, porra!
- Você sabe que teve! – Albert explodiu finalizando a conversa. Ainda que não deixasse barato na maioria das discussões, naquele dia ele parecia realmente afetado e simplesmente se sentou na cama, deixando-se vencer por Albert, visivelmente confuso.

O agente sentiu-se minimamente culpado tanto pela explosão quanto por internar na clínica no período que ele havia permanecido desacordado pelo soco do estranho no bar. Ele se sentou na cama ao lado do rapaz.

- Olha, cara, eu sinceramente não ligo que você queira sair por aí, pegar todas, fumar e beber até esquecer completamente de quem você é. Mesmo porque, você sabe como ninguém, que eu também curto amassar uns e arrumar umas gatas fáceis pra levar pra minha cama – Albert tentou se acalmar e procurou sorrir. Levou uma das mãos no pescoço de e o olhou fixamente – Mas você, cara, você é ! Você pode fazer tudo o que você quiser, porém, você é alvo fácil e a mídia cai em cima mesmo! É preciso cuidado, porra!
- A propósito, por falar em mídia, o que esse cara escreveu é um lixo completo! Eu nunca vi tanta merda sobre mim em um único artigo! – amassou o jornal que tinha em mãos e jogou na direção oposta do quarto - O cara simplesmente me esculachou por completo e não disse nada, absolutamente nada sobre o meu trabalho!
- Ah, você jura? – Albert deu um sorriso irônico e diversos tapinhas no rosto de – Depois de você dispensar o cara daquela maneira, você realmente acha que ele iria falar bem de você no jornal? Faça-me um favor, ! Você deveria ter falado algo, dado alguma pauta pra ele, nem que fosse uma mentira!
- Você sabe que eu simplesmente falo o que tem que ser falado! Eu sou completamente honesto nessa hora, Albert! Eu falo o que eu quero falar, o que eu penso, o que eu acho plausível e correto!
- É aí que você erra! Eu acabei de te falar, é preciso cuidado, você está na selva cara! Alimente os leões e saia vivo!

suspirou. Ele sabia que aquelas merdas que Albert havia falado faziam todo o sentido. E ele sabia cada dia mais, o quanto ele odiava qualquer tipo de mídia. Já tinha perdido a conta de quantas vezes havia arrumado briga com fotógrafos e jornalistas.
Às vezes, a preocupação que tinha que ter com a própria imagem o irritava profundamente. Ele tinha o trabalho que queria, mas as consequências eram uma merda!

- Eu sei, Albert, eu sei disso tudo! – Ele desviou o olhar do agente e fitou seus pés, procurando uma resposta que pudesse tirá-lo daquela clínica – Mas, cara, isso nem é o principal. Sabe, eu acho que essa história de clínica de reabilitação é exagero. Eu não estava tão chapado, eu sei me controlar cara! Eu posso ficar limpo a hora que eu quiser!

Albert riu. Tirou um maço de cigarro do bolso da jaqueta, colocou nos lábios e o acendeu, dando uma longa tragada antes de responder. sentiu a garganta fechar assim que sentiu o cheiro da fumaça preencher suas narinas.

- E quem aqui está te pedindo para ficar limpo? – Ele soltou a fumaça e passou o cigarro para , que sem hesitar aceitou – Essa reabilitação é para inglês ver! Ou melhor, é para os executivos chefes da sua gravadora acreditarem que eu estou cuidando de você e pararem de querer me comer cada vez que você faz merda!

riu pela primeira vez no dia. Sentiu uma vontade súbita de beijar Albert por sua resposta. Como ele pode odiá-lo há dois segundos atrás? sempre soube que Albert era uma das pessoas que ele mais poderia confiar em vida. Eles haviam se conhecido há alguns anos em uma escola em Manhattan, Albert era pouco mais velho que e os demais companheiros de banda. Fora na casa dele que havia experimentado a primeira picada.

- Eu te amo, Albert! – o abraçou emocionado. Ele já sentia a nicotina fazer efeito no seu corpo, aquela abstinência não era para ele. Ele sorriu e se soltou do abraço abruptamente – Agora, me tira daqui!
- Não – Albert disse simplesmente.
- Como? – não esperava por essa. Ele deu mais uma tragada nervosa no cigarro e o devolveu para Albert.
- Não, você vai ficar aqui! – Antes mesmo que pudesse protestar Albert o Interrompeu, apontando o dedo indicador para as fuças do rapaz - E não adianta reclamar! Uma mentira tem que ser dita mil vezes para se tornar uma verdade! Para que os grandões acreditem que você está procurando ajuda, você precisa ficar aqui por pelo menos alguns dias.
- Não é justo!
- A vida não é justa, ! Agora pare de reclamar, aproveite a vista e descanse. Fui até sua casa e peguei algumas coisas que talvez você goste. Alguns livros e um violão, aproveite e componha algo!

Albert abriu um sorriso, podia ver cifrões em seus olhos. Ele apagou o cigarro na mesa de cabeceira branca do quarto e guardou o maço no bolso inteiro da jaqueta.

- E lembre-se, cara: seja legal. As pessoas gostam de simpatia!

Albert depositou um beijo exagerado na testa de antes de desaparecer por entre a porta branca de seu quarto.



Capítulo 3 - Everybody Sees Me But It's Not That Easy

ainda fitava a bandeja de prata com o café da manhã recém preparado em suas mãos. Ela respirou fundo, procurando em seu íntimo encontrar coragem para caminhar até o quarto 104 da clínica de reabilitação St. Lucius, na qual trabalhava como estagiária há quase um mês.
cursava psicologia na Universidade Stanford e por mais que não pretendesse trabalhar exatamente com dependentes químicos, aquele emprego havia lhe caído dos céus. Sua família não estava passando por uma situação econômica muito favorável nos últimos meses, sua mãe havia recentemente pedido a conta da escola primária que costumava lecionar. Com apenas o pai trabalhando como policial, o orçamento havia apertado e , como uma boa filha, decidiu começar a trilhar seu próprio caminho rumo ao mercado de trabalho.
Seu nervosismo, no entanto, não era à toa. No dia anterior quando foi levar o café da manhã para o novo paciente, ela havia sido atacada por ele. Ele havia a pressionado contra a cama e tampado sua boca com as mãos. Era óbvio que o rapaz não estava em seu juízo perfeito, mas ainda assim a garota temia pela reação dele. havia tentando conversar com seu chefe para que mandasse algum outro enfermeiro levar a bandeja até o quarto, mas ele havia negado todas as vezes o seu pedido. Ela havia compreendido afinal, que aquilo era um serviço para estagiários e não para enfermeiros. Ela suspirou pesarosa.
alinhou os alimentos na bandeja pela nona vez naquele dia, na intenção de ganhar tempo antes de subir e encontrar com aquele que lhe causara um verdadeiro terror por alguns pequenos segundos no dia anterior. Quando sentiu o olhar do enfermeiro chefe pesar sobre ela, apressou-se e subiu até o terceiro andar.
Não mais na presença de ninguém que pudesse demiti-la, caminhou lentamente pelo corredor bem iluminado pelas janelas coloniais do prédio, absorvendo a maior quantidade de calor que pudesse. A rua da clínica estava estranhamente movimentada naquela manhã, ela parou para espiar os carros que subiam e desciam o morro que levava até a guarita da clínica. Deu de ombros e voltou a caminhar, certamente haveria alguma convenção sobre o abuso das drogas ou do álcool à tarde. Quando chegou à frente da porta branca com o número 104, respirou fundo e bateu lentamente antes de virar a maçaneta e entrar no quarto.
Para a surpresa de o quarto estava estranhamente quieto e arrumado, não havia nada no chão, a cama estava levemente feita, um violão descansava sob a luz solar que vinha da janela e ela podia ouvir um ruído de água corrente que vinha do banheiro. A garota sorriu aliviada, se ela fosse rápida, ela poderia simplesmente colocar a bandeja de café da manhã na mesa e sair imediatamente do quarto, sem topar com o rapaz.
Assim foi feito. Ela caminhou nas pontas dos pés e depositou a bandeja na mesa, procurando fazer o menor barulho possível. Arrumou rapidamente as flores que enfeitavam a mesma, distraindo-se por alguns milésimos de segundos.

- Bom dia – Uma voz ecoou pelo quarto. sentiu seu coração gelar.
- Bom dia – Respondeu, contando mentalmente até dez antes de virar-se para o rapaz e surpreender-se pela segunda vez ao dia.

Lá estava ele, o mesmo rapaz que havia lhe atacado na manhã anterior, encostado na soleira da porta do banheiro, com os cabelos molhados e uma toalha de rosto pendurada no pescoço. Sorrindo quase que de maneira ingênua.

- Espero não ter te assustado - O rapaz pegou a toalha com uma das mãos e levou até seu cabelo, onde com alguns movimentos rápidos enxugou os pingos d'água que escorriam por seu torso. notou então que ele estava sem camisa, seus olhos perderam-se vagamente por seu tórax bem definido, ainda que não fosse exatamente musculoso. Ela piscou constrangida e os lábios dele emolduram-se em um sorriso sacana.
- Não, não me assustou! – sentia seu rosto pegar fogo. Virou-se de costas imediatamente e arrumou pela décima vez naquela manhã a disposição dos itens na bandeja.
- O café chegou em boa hora, eu nem me lembro qual foi a última vez que eu comi alguma coisa! – Ele riu e sentou-se à mesa. Porém, seu sorriso desmanchou-se na mesma hora.
- Algum problema? – Ela indagou.
- Eles só servem frutas nesse lugar? – O rapaz bufou. o fitava com curiosidade e ele continuou – Eu entendo que frutas sejam saudáveis e tudo mais, só que cara, eu simplesmente não consigo comer isso!
- Quer que eu procure algo diferente na cozinha, senhor?
- Não, tudo bem. Eu me viro com o que tem aqui! – Embora visivelmente insatisfeito, o rapaz procurou sorrir. Ele apontou para o bule de café – Já está adoçado?
- Não, senhor – negou com a cabeça. O rapaz sorriu satisfeito pela primeira vez na manhã, despejou uma boa quantidade do líquido escuro e quente em sua xícara e bebeu.

torceu o nariz, ela não conseguia entender como certas pessoas conseguiam tomar café sem açúcar, o dela era na maioria das vezes um melaço. Ela sorriu cordialmente disfarçando seu asco.

– Gostaria de mais alguma coisa?
- Sim – Ele afirmou antes de tomar mais uma golada de café quente – você poderia me fazer companhia enquanto eu termino o café? Eu não preguei os olhos durante a noite toda e ficar nesse quarto sozinho está quase me levando à loucura!

estranhou o pedido do rapaz, não esperava por aquilo de maneira nenhuma. Ela o olhou fixamente pela primeira vez desde que havia entrado em seu quarto, seus olhos castanhos esverdeados brilhavam de expectativa, mas ao mesmo tempo mostravam uma fragilidade indescritível. sentiu uma enorme vontade de pegá-lo no colo e acariciar seus cabelos bagunçados até que ele voltasse a sentir-se bem.

- Tudo bem – Ela admitiu, sentindo-se um tanto quanto fraca sob o impacto daquele olhar de cachorrinho abandonado – Acho que não terei problemas se demorar uns dez minutinhos.

O rapaz sorriu. Empurrou a cadeira ao seu lado na direção dela, convidando-a para sentar-se à mesa. sentou-se, levemente desconfortável com a situação, ela abriu um sorriso tímido e seus olhos pararam novamente no peito do rapaz. Dessa vez não mais estranhando sua nudez e sim as tatuagens quase irreconhecíveis que ele tinha espalhadas, quase fechando todo o seu antebraço esquerdo e a pequena frase que tinha sob o seu peito. Ela espreitou os olhos tentando ler as pequenas letras, mas a voz do rapaz novamente chamou sua atenção.

- Então, partiremos do princípio – Ele disse distraído enquanto dava uma boa mordida em um pão doce - qual é seu nome?
- – Respondeu hesitante – e o seu?

O rapaz terminou de mastigar o pão, suas sobrancelhas arquearam-se céticas.

- Você não sabe qual é o meu nome! – Ele riu e o olhou fixo, procurando saber qual era o motivo do riso. Estranhou – Ok, você não sabe qual é meu nome, mesmo?
- Se soubesse, eu não estaria perguntando! – rebateu, tentando ao máximo não parecer mal educada.

O rapaz riu mais uma vez, só que agora da resposta virada que ela lhe dera. levantou-se da cadeira, ela odiava que rissem da sua cara sem que ela ao menos soubesse o motivo. Se ele quisesse rir, ele poderia muito bem rir sozinho. Ela sentiu a mão do rapaz segurá-la pelo braço.

- Certo, desculpe – Ele havia parado de rir, mas seus lábios ainda emolduram um sorriso debochado – Eu me chamo .
- Ok, sr. , devo informá-lo que eu sou apenas uma estagiária e não tenho a obrigação de saber o nome de todos os pacientes! – rebateu, tirando as mãos dele de seu braço – Agora, se me dá licença, eu devo voltar ao trabalho.
- Não! Por favor, fique! – pediu com sinceridade. estava pronta para rebatê-lo novamente, mas pode ver em seus olhos a urgência do pedido – Eu lhe imploro!
- Tudo bem - Ela suspirou desconcertada e sentou novamente a mesa. - Só não demore muito, eu tenho mais coisas para fazer.
- Não demorarei, eu te prometo – virou-se imediatamente para seu café, devorando o resto de seu pão o mais rápido que podia. Seu estômago roncava de fome, ele poderia arriscar que estava mais de vinte e quatro horas sem colocar nada na boca. O último alimento sólido que se lembrava de ter comido, havia sido um hambúrguer com dose dupla de cheddar no domingo antes de apresentar-se.

o analisou enquanto comia. não deveria ser muito mais velho que ela, devia ter no máximo seus 24 anos e parecia ser bem saudável em comparação com os casos que ela estava acostumava a enfrentar no St. Lucius, embora um pouco mais de peso e massa muscular iria deixá-lo ainda mais bonito. Ele parecia confortável, vestindo apenas uma calça jeans justa e surrada. poderia certamente afirmar que aquele jeans nunca devia ter visto água e sabão desde que fora comprado, mas em , ele caía bem. Os pés descalços lhe davam ainda mais aparência de casualidade. Quando seus olhos se encontram com os de , sentiu um arrepio na espinha e desviou o olhar para qualquer outro canto do quarto, parando na cama do rapaz.

- Você sabe tocar violão? – Ela perguntou tentando parecer tão casual quanto ele.
- , você realmente não tem a mínima ideia de quem eu sou, não é? - Os olhos de arregalaram-se céticos novamente, embora seus lábios parecessem formar um pequeno sorriso.
- Não! – Ela respondeu levemente impaciente – Quem é você , e por que você é tão importante?
- Eu sou ! – Ele disse em seu tom mais óbvio, , entretanto, ainda o olhava sem expressar nenhuma emoção em seu rosto. riu e ela revirou os olhos – Você não ouve rádio, não?
- Não exatamente, a música de hoje não me atrai – Ela deu os ombros e ele novamente caiu na risada. bufou. – Você pode me dizer qual é a graça?
- Digamos que a minha banda toca o tempo todo no rádio e ela provavelmente não te agrada! - Ele disse calmamente, dando uma outra golada em seu café.
- Você tem uma banda? – Ela indagou, seus olhos arregalaram.
- Sim – Respondeu ele com a mesma calma e simplicidade de antes – Waste, conhece?
- Oh meu Deus! É claro que eu conheço! Minha colega de apartamento ama vocês – levou as mãos até a boca espantada. achou graça em seu gesto – Me desculpe, eu não tinha intenção de te ofender.
- Você não me ofendeu, não há de que pedir desculpas – Ele sorriu marotamente. sentiu seu rosto pegar fogo de vergonha. Por que era sempre ela que dava esses foras?
- De verdade, me desculpe, ! – Ela pegou em suas mãos involuntariamente. assustou-se inicialmente com o toque, mas depois relaxou.
- Fique tranquila, sorriu sincero. Ele apertou delicadamente as mãos dela entre as suas – Eu prefiro aqueles que não me conhecem àqueles que fingem serem meus melhores amigos de infância.
- Isso acontece com frequência? Quer dizer, um estranho te tratar como se lhe conhecesse durante toda a vida?
- Mais do que você imagina! – soltou suas mãos e voltou-se para o café. Seu sorriso havia desaparecido do rosto e teve pena dele, procurou em sua mente algo positivo para falar e tentar lhe confortar.
- É só você não ligar... – Ela acariciou os joelhos do rapaz por baixo da mesa.
- Não é tão fácil – Ele suspirou enquanto fitava pensativo o horizonte pela janela – As pessoas são más e invasivas demais quando querem.

Ele abriu um sorriso triste.

- E é por causa delas que eu estou aqui!

sentiu a garganta secar, tudo de repente fazia sentido. Toda aquela movimentação na rua, todos aqueles fotógrafos que estavam sorrateiramente escondidos entre as árvores e arbustos na frente do portão da clínica desde o início da manhã eram por causa de . Todos queriam tirar uma maldita foto de seu momento de maior sofrimento e humilhação para vender por milhões de dólares para algum tabloide. O mundo da fama deveria ser realmente cruel e não gostaria de estar dentro dele e muito menos de ser nesse exato momento.

- Sinto muito por tudo isso! - Ela abriu um sorriso fraco, o melhor que conseguia e apanhou novamente as mãos de , querendo passar-lhe um pouco de calor humano.
- Está tudo bem – abriu um sorriso amarelo e deu os ombros – fui eu quem escolhi esse destino.

A porta do quarto abriu-se com violência atrás deles, deu um pulo e a sua frente apenas revirou os olhos virando-se novamente para a janela. O rosto sorridente de Dr. Bennett apareceu entre a porta e o batente.
- Já tomou seu café, sr. ?
- Sim – respondeu secamente.
- Então o senhor poderia me acompanhar até meu escritório? Precisamos conversar sobre seu caso e fazer alguns exames para garantir que a sua reabilitação seja um sucesso!
- Isso é mesmo necessário? – indagou. Ele definitivamente não estava com saco para consultar-se com um psiquiatra irritantemente sorridente a essa hora da manhã.
- Infelizmente sim, sr . São as ordens expressas do seu agente, o sr. Carter! – Dr. Bennett havia mudado a sua abordagem, embora seu rosto ainda estivesse estampado um sorriso idiota, podia sua voz ficando mais enérgica. Ele amaldiçoou Albert mentalmente, ele havia sido um grande filho da puta de abandoná-lo daquele jeito na clínica. entendia seus motivos, mas, não poderia deixar de sentir raiva dele.
- Ok. Me dê dois segundos, então – Ele levantou-se e levou as mãos até os cabelos molhados e chacoalhou-os novamente. Procurou por uma camisa em sua mala e a vestiu, sem nem mesmo reparar em qual era. Calçou os tênis de cano médio de qualquer jeito e virou-se para , agradecendo-a com apenas um olhar e saiu pela porta no encalço do médico.

sentiu pena de novamente, ele parecia totalmente infeliz quando acompanhou Dr. Bennett para seu escritório. Desde que havia começado a estagiar na clínica, havia deparado-se com muitas histórias tocantes, desde usuários de drogas sintéticas até casos de depressão. Mas nenhum daqueles casos havia lhe tocado como o de , o que era bem irônico. Afinal, ele era um cara rico, famoso e provavelmente tinha tudo àquilo que desejasse em suas mãos. Porém, havia algo a mais naquele olhar triste e perdido de e ela, a partir de agora, faria tudo o que pudesse para ajudá-lo a recuperar-se e voltar a sorrir.



Capítulo 4 - Hysteria

acordou sentindo-se incrivelmente indisposto e mal humorado. Embora tivesse tido uma boa noite de sono, já se fazia mais de quatro dias completos que ele estava em completa abstinência: sem álcool, sem cigarros e sem pó.
Ele remexeu-se na cama. Não sentia vontade alguma de levantar-se da cama e descer para o refeitório para tomar café da manhã. Queria apenas fechar seus olhos e voltar dormir até o final do dia quando Albert finalmente viria buscá-lo desse pesadelo.
Seu desejo, no entanto, não poderia realizar-se, já que desde terça-feira de manhã, após sua consulta com o Dr. Bennett, as regras do Instituto St. Lucius haviam ficado pouco mais rígidas. havia sido colocado em regime aberto, podendo circular por todas as dependências e áreas externas da clínica. É claro que toda essa suposta liberdade tinha um preço, ele estava sendo obrigado a participar de reuniões de apoio com todos os outros dependentes químicos do prédio.
Dr. Bennett havia lhe explicado que sua participação durante as reuniões era de extrema importância e fazia parte das regras da casa, mas a pedido do próprio Albert para resguardar sua imagem pública, ele deveria apenas dizer seu nome e de quais substâncias químicas que era vítima. agradeceu mentalmente por não ter que expor detalhes de sua vida pessoal e também o fato de que ninguém ali parecia realmente importar-se com sua fama, ainda que vários olhares curiosos fossem lançados em sua direção, e nem com a quantidade de droga que ele poderia chegar a usar em um único dia.
Um enfermeiro bateu em sua porta pela quarta vez apressando-lhe para o café. havia o ignorado desde às 8 da manhã, horário em que todos os pacientes deveriam levantar e iniciar as atividades diárias. Seus dias de café da manhã no quarto e dormir a hora que desejasse, também haviam sido retirados pelo médico. suspirou, vestiu apenas uma bata indiana branca e decidiu descer, levou consigo apenas seus óculos escuros e um livro de brochura de baixo dos braços.
Quando chegou ao refeitório, sentiu novamente olhares curiosos em sua direção e embora todos os rostos dos jovens no salão pareciam excitados ao vê-lo, nenhum deles se aproximou. Ele agradeceu mentalmente por isso também e procurou uma mesa afastada, tomando apenas uma xícara de café preto. Ainda que tivesse comido pouco nos dias anteriores, sua abstinência o deixava sem fome. , que sempre fora magro, já sentia sua calça ficando larga na cintura. Isso não era bem uma novidade pra ele, pelo contrário, suas perdas e ganhos de peso intercalava-se com períodos de abstinência ou excesso de determinada droga.
Ele procurou pelo rosto de , a garota com quem ele havia conversado algum tempo desde seu primeiro dia de internação. Ele sentia-se estranhamente bem na sua companhia. Quando não a viu, partiu para a área externa da clínica para tomar um pouco de sol e ler seu livro em um ambiente um pouco menos doentio e depressivo que seu próprio quarto ou os corredores frios do prédio principal.
caminhou pela grama recém aparada do jardim, sentindo a textura úmida e reconfortante das pequenas folhas tocarem seus pés descalços. Sentou-se em baixo de uma árvore gigantesca com aparência tão velha quanto à arquitetura colonial da própria clínica. Uma fonte de água caía logo atrás dele, formando ao seu lado uma pequena lagoa artificial.
A junção da lagoa com as árvores e arbustos naturais do campo, compunham a paisagem ideal para aqueles que procuravam a paz interior. Apesar de sentir-se sensivelmente mais relaxado, ainda mantinha-se extremamente mal humorado, afinal, ele era um astro da música com fama internacional e dotado de plena consciência que ele não pertencia àquele lugar! Se ao menos tivesse uma garrafa de Jack Daniel's ou algum maço de cigarro escondido em suas coisas, talvez fosse mais fácil a aguentar aquela batalha.
suspirou vencido. Abriu seu livro e mergulhou na história, tentando energicamente ocupar sua mente e quase não percebeu quando uma garota ocupou delicadamente um lugar ao seu lado.

- Oi – disse ela.
- Oi – disse desviando os olhos do livro, tentando ao máximo não parecer incomodado com a sua presença, por mais que estivesse absorto em sua história, ele gostava da companhia dela.
- Espero não estar te incomodando! – Ela deu um sorriso tímido que contagiou quase que imediatamente .
- Você nunca incomoda, – Ele igualmente sorriu e fechou o livro com um baque.
- Felicidade Conjugal? – Ela indagou referindo-se ao livro, um sorriso desconfiado apareceu em seus lábios.
- Sim – abriu um outro sorriso, entretanto, agora ele parecia um tanto quanto tímido passando os dedos magros e machucados na capa dura e surrada do livro – Não que eu seja casado ou planeje isso tão cedo!

riu e virou-se para ela.

- O que foi?
- Não é nada – deu os ombros - Simplesmente achei que ler não fazia muito seu estilo...
- Você só pode estar brincando! – Ele fingiu-se de ofendido.
- Não! – Ela riu novamente - Todas essas tatuagens, uma banda de rock barulhenta e uma tendência quase que assassina para assustar enfermeiras de plantão, apontam para a rebeldia e não para a literatura!
- A senhorita está sendo preconceituosa! – espreitou os olhos, sentindo-se levemente afetado pela afirmação de . Ele tentou controlar a voz para não parecer extremamente grosseiro.
- Não foi a minha intenção, desculpe!
- Tudo bem – Ele voltou a fitar a capa do livro. pôde ver uma ponta de carinho em seus olhos.
- Tolstoi? Lê um pedaço para mim? – Ela sorriu e apontou com a cabeça para o livro.

assentiu, embora visivelmente desconfortável com a situação. Felicidade Conjugal tinha um significado extremamente intimista para ser compartilhado com os outros. Entretanto, ele sentia-se bem na companhia de e ela parecia digna para ouvi-lo. percorreu os dedos pelo livro e procurou pelas páginas grifadas por ele.

- "O que eu achava pior era a sensação de que a cada dia os hábitos aprisionavam nossa vida de uma determinada forma, e que nossos sentimentos já não eram livres, estavam subordinados ao curso monótono e impassível do tempo".

Apesar de fazer uma leitura simples e sem maiores entonações, havia ficado abismada com aquele pequeno trecho, aquelas poucas palavras tinham uma incrível veracidade que jamais havia sentido antes. Ela pode perceber uma certa identidade entre e aquele personagem, ambos tinham um toque de melancolia na fala. Seus lábios abriram-se para falar, mas não emitiram som nenhum. soltou uma risada rouca e embora seus lábios esboçassem um sorriso, seus olhos, aqueles olhos que estavam intrigando-a desde terça-feira pela manhã, pareciam infelizes e sem vida.

- Você parece gostar bastante desse livro – sorriu amigavelmente, uma de suas mãos pressionaram carinhosamente os nós dos dedos de .
- Mais do que você pode imaginar! – Ele disse simplesmente e seus olhos vagaram desfocados pela paisagem.
- E por que ele é tão especial? - Arriscou.
- Você se importa se nós não falarmos sobre isso? - Os olhos de demoraram enquanto ele fitava os próprios pés. Ele puxou um chumaço de grama com as mãos, visivelmente ainda mais desconfortável e com muito custo abriu um meio sorriso tímido – Sabe, é meio pessoal!
- Tudo bem, – Ela manteve o sorriso amigável nos lábios. , como uma boa estudante de psicologia, tinha uma incrível facilidade de colocar-se no lugar dos outros. Ela respeitava a posição .
- Valeu por entender – Ele suspirou pesaroso – as pessoas daqui tem a mania de querer saber de tudo.
- É o trabalho delas. Elas precisam saber de tudo do que está acontecendo com você para te ajudar da melhor maneira possível.
- E quando as pessoas não querem ser "ajudadas"? – fez as aspas com as mãos e suspirou.
- Quando elas não querem ajuda, elas não procuram por uma clínica!
- Para a sua informação, existem aquelas que são obrigadas! – Ele explodiu, não se preocupando mais em não parecer grosseiro para a garota. Ele definitivamente não estava em um bom dia – Eu não estaria aqui se pudesse escolher, caramba!

suspirou. Sabia que um longo surto estava por vir, resultado direto da abstinência pela qual estava passando. Ela novamente segurou os dedos dele com as mãos, apertando-os levemente, procurando passar-lhe confiança e calma.

- Fique calmo, . Eu te entendo. Você está apenas tenso com a falta de aditivos químicos em seu corpo, todo esse nervosismo é uma resposta imediata do seu organismo! – Ela disse pausadamente, tentando fazer com que ele se acalmasse.
- Você não me entende, ! Eu sei me controlar! Eu não preciso dessa merda de terapia! – Ele gritou novamente e soltou as mãos da garota.
- Seu agente sabe o que faz!
- Você não o conhece! Você nem ao menos me conhece! – Levantou-se abruptamente no mesmo segundo e deixou sozinha encostada na árvore, ela tinha um semblante calmo, embora seus olhos estivessem arregalados.

saiu pisando fundo, sentindo espasmos percorrerem toda a extensão do seu corpo, devido ao seu estado de nervos. Sentia-se incrivelmente puto tanto com , quando com a situação. Por mais que ele entendesse que ela estava apenas fazendo o seu trabalho, a garota havia passado dos limites que sua paciência já escassa havia fornecido. precisava com urgência falar com Albert e exigir a sua alta.
Bateu com as mãos agressivamente na bancada da recepção, a secretária que preenchia calmamente alguns formulários médicos deu um pulo em sua cadeira.

- Cadê o Albert? – Ele vociferou.
- Desculpe, Albert? – A mulher ainda recuperando-se do susto ofegou.
- Sim, Albert, porra! – Impaciente ele bateu novamente com as mãos na bancada – Cadê ele?
- Senhor, eu não sei do que você está falando – Ela afirmou tentando parecer calma.
- Albert Carter, meu agente! Ele vem me buscar hoje para me levar embora dessa merda! – debruçou sobre a bancada, seus olhos estavam atingindo uma cor vermelha de cólera.
- Eu não tenho nenhum papel de alta pra hoje, creio que o senhor deve ter se enganado – A secretária deu um sorriso cortês, embora seus lábios tremessem para mantê-lo.
- Então liga para o desgraçado do Albert! – Ele berrou e num gesto desastrado derrubou um dos vasos de cristal que enfeitava a quina da bancada. O vidro espalhou-se por todo o hall de entrada atraindo inúmeros olhares para a discussão.
- Devo pedir que mantenha a calma, senhor, antes que eu tenha que ligar para os seguranças – A secretária alertou. Ergueu seus braços e pediu por auxílio para um enfermeiro que estava por perto.
- Isso não será necessário desde que você use essa merda de telefone para ligar para o Albert! – rosnou. Fechou os olhos coléricos quando sentiu a mão do enfermeiro tocar-lhe o ombro esquerdo – Tire suas mãos de mim! – Não houve resposta e nenhuma ação por parte do enfermeiro - Eu não vou avisar novamente!
- Algum problema por aqui, sra. Austin? - A voz grave do rapaz atenuou a tensão já existe. Ao seu ignorado pelo enfermeiro, fechou os pulsos instintivamente.
- Não, acho que agora está tudo bem – A secretária suspirou e abriu um sorriso amarelo para , o que o irritou ainda mais – Obrigada, Fernando!
- Que bom! – Fernando, o enfermeiro, forçou uma risada irônica e apertou o ombro de – Talvez o rapazinho aqui somente precise descansar um pouco.

Aquilo havia sido a gota d'água.

- Depois não diga que eu não avisei! – virou-se rapidamente, seu pulso cerrado atingiu com exatidão o queixo do enfermeiro.

Os corpos de ambos os rapazes enrijeceram-se, arfava pelo movimento repentino, Fernando com uma das mãos massageava o queixo atingido, concentrando-se para não revidar o golpe. Um segundo enfermeiro aproximou-se para tentar contornar a bagunça que se desenvolveu no saguão, ele correu para o lado de e imobilizou seus braços para trás. O rapaz remexeu-se desesperado.

- Me solta, cacete! – Ele berrou.

A visão de estava começando a enturvar-se devido ao seu extremo cansaço físico e mental, por sorte, conseguiu distinguir o rosto aflito de abrindo caminho entre a multidão que os cercavam.

- Solta ele, Anthony! – Ela pediu de maneira educada, porém decidida.
- Mantenha-se afastada, , o paciente está extremamente agressivo – O enfermeiro respondeu, segurando os braços de com ainda mais força.
- Eu estou vendo, mas eu tenho ordens expressas do Dr. Bennett para cuidar desse caso em especial! - Ela disse ríspida.
- Eu não posso e não vou soltá-lo! – Anthony foi objetivo - Esse rapaz acabou de agredir o Fernando!
- Você será o próximo! Eu posso garantir! – vociferou enquanto tentava se soltar, sem sucesso, dos braços do enfermeiro. Anthony o puxou e torceu um de seus braços, ele urrou.
- Será que você não consegue ver que está machucando ele?! – aproximou-se desesperada do enfermeiro, puxando seus braços para soltasse .
- Anthony, solte-o imediatamente! – Uma voz grave tomou conta de todo o salão. Era Dr. Bennett, que pela primeira vez, não estava sorrindo igual a um idiota.

A pedido do chefe, Anthony soltou os pulsos de e recuou. pensou em revidar, mas seu corpo reclamava de dor e ele sentia-se incapaz de acertar um soco certeiro no enfermeiro.

- Mas o que é que está acontecendo aqui? – A voz de Bennett era autoritária.
- Esse rapaz, primeiro veio aqui ameaçar a sra. Austin e depois partiu para a agressão em minha direção, acertando meu queixo! – Fernando, o primeiro enfermeiro, reclamou.
- Ele estava descontrolado, então eu tive que intervir! – Anthony complementou. espreitou os olhos sob tamanha calúnia. Não havia sido exatamente daquela maneira o desenrolar da história.
- Isso é apenas um quadro de agressividade durante o início da abstinência, para a autopreservação! – havia tomado às dores de e ela saberia usar termos técnicos para comprovar sua teoria e sua promessa de ajudar o rapaz – O senhor sabe, acontece na maioria dos casos.
- Sim – Dr. Bennett olhou dos pés a cabeça. Ele parecia um tanto menos colérico quanto a dois segundos atrás. Ele deu os ombros e chamou por um outro enfermeiro - Afonso, ajude-me a levar o sr. para o quarto dele.
- Não precisa, eu sei andar sozinho! – vociferou quando sentiu o outro enfermeiro tocar-lhe a pele já machucada dos pulsos.
- Creio que não seja uma boa hora para esse tipo de reclamações, sr. – Dr. Bennett respondeu ríspido caminhando logo atrás de . Ele virou-se para , venha conosco!

Depois de subir até o quarto de em silêncio quase absoluto, Dr. Bennett chamou a atenção do rapaz dizendo-lhe que seu comportamento era inadmissível para as regras do Instituto St. Lucius e que ele poderia muito bem ser expulso da clínica por isso. O rosto de se iluminou espontaneamente, ele não podia acreditar que seria expulso da clínica de maneira tão fácil e rápida, se soubesse dessa regra, ele teria brigado com alguém logo na terça-feira à tarde.
Entretanto, sua alegria acabou-se quase que no mesmo instante, após informá-lo com a ideia de expulsão, Dr. Bennett disse que dessa vez seria complacente e o perdoaria, afinal, ele não era um paciente comum. amaldiçoou Albert mentalmente, ele provavelmente estaria deixando uma pequena fortuna no St. Lucius para cada dia que permanecesse lá.
Dr. Bennett ainda havia deixado claro para , que devido ao acontecimento do dia, ele voltaria para o regime fechado, recebendo as refeições diárias todas no quarto e permanecendo no mesmo durante as próximas 72 horas.
agradeceu mentalmente, regime fechado significava que ele permaneceria em seu quarto, poderia dormir o quanto quisesse e apenas veria o rosto amigável de . Ele abriu um sorriso forçado, concordando com tudo, admitindo sua culpa e agradecendo – ironicamente – por poder permanecer mais tempo na clínica. Dr. Bennett abriu um sorriso satisfeito e chamou por Afonso e para deixarem o rapaz sozinho.

- Será que eu posso ter um segundo com a garota? - perguntou ao psiquiatra que assentiu desconfiado.

sentou-se na cama e abriu um sorriso derrotado para a garota.

- Obrigado por me ajudar com o lance dos enfermeiros – Ela apenas assentiu e murmurou um "de nada" – E, bom... Desculpe-me por gritar com você daquela maneira.

abriu um sorriso e sentou-se ao lado de .

- Não tem problema. Eu realmente lhe entendo.
- Ainda assim, obrigado!
- É uma pena que você tenha que voltar ao regime fechado, deve ser horrível ficar o dia todo nesse quarto.

deus os ombros e pela primeira vez tomou a atitude pegando nas mãos de . Ele tinha um leve sorriso estampado em seu rosto.

- A parte boa de tudo isso é que eu vou te ver no meu quarto todos os dias.

O sorriso de aumentou, estendendo-se por seus todos seus lábios. Ela não esperava por aquilo, mas, havia achado meiga à atitude dele.

- Só temos um pequeno probleminha – riu e olhou para – Eu não trabalho durante os fins de semana!

pode ver o brilho nos olhos de apagar-se instantaneamente.

- Como assim, não trabalha?
- Eu sou apenas uma estagiária.
- E quem vai cuidar de mim? – Ele choramingou.
- Alguém que esteja qualificado para isso.
- Mas, ninguém me entende como você!
- Me desculpe, , mas eu não posso fazer muitas coisas a respeito disso – Uma batida seca na porta os interrompeu, abriu um sorriso tímido e levantou-se da cama no mesmo instante – Preciso ir, agora, tenha um bom fim de semana!
- Você também - murmurou.

Ao ouvir as travas de sua porta fechando-se e prendendo-o naquele quarto, sozinho, pelos próximos 3 dias e principalmente ao ver desaparecer pela porta na companhia de Dr. Bennett, arrependeu-se de ter discutido com ela e com os outros enfermeiros naquela manhã, sem a companhia da garota, ele provavelmente ficaria louco durante todo o fim de semana. Não era preciso prever o futuro para sacar que com certeza o pior fim de semana da sua vida estava por vir.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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