Última atualização: 10/08/2018
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Prólogo


POV ALEX:
Estava em casa sozinho novamente, e eu já estava cansando-me daquela situação. Era toda hora meu pai chegar em casa completamente bêbado e sem respeito nenhum com minha irmã mais nova. Sei que ele está sofrendo, eu também estou, mas será que ele não liga para os nossos sentimentos? Será que ele não vê que eu e minha irmã precisamos dele?
Estava deitado no escuro de meu quarto quando vejo a porta ser aberta e logo meu colchão afundar, era minha irmã, somente pelo seus bracinhos ao me abraçar pelo pescoço. Anne pegou essa mania de vir até meu quarto, pois não conseguia dormir.
– Lex, saudadi da mamãe. – Fechei meus olhos e a abracei ainda mais forte, deitando-a em meu colo. – Promete que não vai me deixar?
Anne tinha cinco anos e ela era esperta demais para uma criança da sua idade, e isso me deixava cada vez mais orgulhoso da minha irmã.
– Prometo, Anne, agora trate de dormir, ok? – Dou um beijo em sua cabeça.
Ao vê-la dormir, levanto da cama, cobrindo-a com minha coberta, dei um beijo em sua casa e desci até o andar da minha casa. Encontrei meu pai lá juntamente com bebida na mão, ele estava totalmente esparramado no sofá, e ver aquela cena me deu vergonha de ser filho de alguém como ele.
– Pai, chega disso por hoje, sabe que amanhã é um dia especial. Não estraga isso, por favor. – Sentei calmo em sua frente, tentando me controlar. – Você não era assim, papai, o que aconteceu?
– O que aconteceu, moleque? VOCÊ SABE MUITO BEM.
– Sei, fale baixo que Anne está dormindo. Eu também sinto falta da mãe, pai, mas Anne precisa de nós dois, eu não consigo dar conta sozinho. Eu preciso da sua ajuda. Preciso do meu pai de volta.
– Você não se importa comigo, não é? Não vê que estou sofrendo e que eu faço de tudo por vocês?
– Não me importo? Pai, o que eu mais tenho feito é me importar. Eu tenho sido praticamente o dono dessa casa durante esses dois meses, e mesmo sofrendo, eu cuido da Anne, porque sei que ela precisa de mim. Não posso ficar afundando-me em bebidas, não posso sair do meu trabalho, eu sei que esse sentimento é ruim pai, mas...
Respiro fundo sem terminar a minha fala, mas desisto de fazer meu pai entender que ele está deixando-nos. Ele nunca se importou comigo, de qualquer forma, sorte que pelo menos a Anne ainda tinha seu amor. Subi ao meu quarto e abracei minha irmã de conchinha na cama, sentindo sua mão agarrar a minha, sorri com isso e dei um beijo em sua cabeça.
– Vai ficar tudo bem.


Capítulo 1


POV :
Acordei no dia seguinte com uma tremenda ressaca, e o que eu menos queria era levantar daquele sofá. Olho em minha volta, notando a quantidade de bagunça que tinha naquela casa, aliás minhas bagunças. Suspirei, cansado. Eu estava cansado e não via mais razão de viver desse jeito.
Olho para a estante da televisão, encontrando uma foto minha e de Clara, e nem reparo que mais lágrimas começam a surgir no meu rosto. Funguei, passando as mãos nos olhos. Como sentia sua falta.
– Se você estivesse aqui, seria tudo tão mais fácil. – Falei comigo mesmo, segurando a foto, sentindo uma pontada na cabeça. – Eu não sei se vou conseguir sem você, Clara.
– Papai? – Olho em direção à escada, vendo uma menininha de cabelos morenos e olhos castanhos vindo em minha direção, devagar, parecendo com medo.
E foi aí que eu me senti um lixo. Minha filha estava com medo de mim. Fecho meus olhos, abaixando a cabeça, sinto uma mãozinha tocar o meu braço, fazendo carinho, sorri com isso e a olhei. Toda a ressaca parecia ter ido embora enquanto olhava seus olhos brilhantes, mas esse brilho era de lágrimas, só me dei conta disso quando a pequena subiu em meu colo e se aninhou no meu peito, começando a chorar baixinho, enquanto me apertava em um abraço. Automaticamente eu a abracei e comecei a fazer ela se acalmar.
– Calma, filha, não chora. O papai está aqui.
– Papai, a mamãe vai vir no meu aniversário hoje? – Ela se desencosta do meu peito e me olha tristinha, fazendo-me arregalar meus olhos. – Estou com saudades da mamãe, pai.
– Anne, eu já disse que a mamãe está viajando, maninha. – Olho para a escada novamente, vendo meu garoto ali.
Alex estava deixando-me orgulhoso ultimamente, e eu não devia ter sido tão grosso com ele ontem, ele só está preocupado comigo, e isso é o que me mantém vivo, ter meus dois filhos comigo. Mas eu estava com medo, pois meu pai ontem me ligou dizendo que, se eu não melhorar, se eu não começar a reagir, ele vai tirar meus filhos de perto de mim, e isso eu não posso aturar. Foi por esse motivo que perdi a cabeça e comecei a beber.
Muita coisa mudou nesses últimos meses; sai do meu trabalho, coisa que não deveria ter feito, e meu filho, vendo que eu estava na pior, começou a trabalhar em uma lanchonete perto de casa para conseguir sustentar a família. Ele era só uma criança e não precisava lidar com problemas de adulto. Ainda não era a hora. E Anne.. Estávamos tão felizes, Clara estava tão feliz que o aniversário da nossa pequena estava chegando que começou a preparar a festa antes do mês do aniversário. E eu não ajudei. Disse que ainda tínhamos tempo, mas ao ver a carinha de alegria da minha filha quando a mãe falou em festa, da animação das duas em arrumar tudo, deixou-me agora para baixo, pois não iria ter mais festa.
– Mas a mamãe disse que ia chegar a tempo, Lex, ela disse que iria sair da viagem antes do meu aniversário.
Minha filha não sabia que sua mãe partiu, deixou-nos. Achamos melhor não contar, mas sei que fiz errado nisso, ela era apegada demais à mãe. A campainha tocou, e eu franzi o cenho.
– Estamos esperando alguém, filho? – Perguntei a Alex, levantando do sofá, ainda um pouco tonto, mas nada que não pudesse aguentar.
Segurei minha filha nos braços enquanto via Alex caminhar até a porta.
– Chamei o vovô e a vovó para passar um dia com a Anne e...
– Não quero, Alex. Quero passar meu aniversário com o papai e você. – A pequena se aninhou mais em meu colo.
– Calma, baixinha, você vai. Depois que passar pelo menos uma hora com o vovô e a vovó.
Meu filho abriu a porta, revelando meus pais, e eu congelei. Nem deu tempo de arrumar a folia da casa, e com certeza sabia que iria levar um belo sermão. Engulo a seco, olhando para meu filho, enquanto meus pais entraram em casa.
– Mas que bagunça é essa, ? – Meu pai fica em minha frente no meio da sala. – Até no aniversário da sua filha você... – Meu pai respirou fundo. – Quem é você e o que fez com meu filho?
– Richard.
– Pai, eu... – Abracei minha filha.
– Vô, por que vocês não levam Anne passear, enquanto arrumamos a casa, e daí eu chamo vocês?
– É uma boa ideia, querido. Vamos, Richard. – Minha mãe pegou Anne e me deu um beijo na testa. – Fica bem, meu filho. – Minha mãe agradou meu rosto, sorrindo.
Sentia a sua falta.
– Vou tentar.
Minha mãe saiu lá fora, fazendo brincadeiras com Anne, e meu pai ficou ali, olhando-me com aquele olhar decepcionado. Suspirei, olhando para baixo. Eu sabia que ele tinha vergonha, e estava certo, eu só queria poder ter forças para sair desse buraco em que eu me meti.
– Vou voltar com Anne, mas, filho, por favor, pare com esse tanto de bebida. – Forcei-me para não revirar os olhos. – Olha só esse garoto que você tem. – Meu pai caminhou atrás do meu filho e o abraçou como fazia comigo quando era pequeno. – Olha a menininha linda que é a Anne, você quer perdê-los por causa da bebida?
– Você não ousaria os tirar de mim, pai. – Retruquei, nervoso.
– Eu não quero fazer isso, filho, mas se você continuar assim...
– Eu estou bem, que merda. – Gritei, nervoso. – Eu estou tentando lidar com a... – Baixei meu tom de voz para minha pequena não ouvir. – Com a morte da Clara. Você não sabe como é difícil, pai, você não passou por isso.
– Existem outras maneiras de acabar com o sofrimento, com a dor, só pense nos seus filhos, ok? Pense em você. Eu quero ver você bem, moleque.
Meu pai se aproximou de mim, batendo de leve no meu ombro e dando aquele sorriso confiante.
– Eu sei que meu garoto está aqui em algum lugar, só pense no que te falei.
Meu pai saiu, e em casa só ficamos meu filho e eu, o qual eu o ignorei, e subi para meu quarto e eu planejei tomar um banho para me livrar de toda essa angústia que estava sentindo. Mas, ao entrar em meu quarto, ouço passos e soube que meu filho me seguiu. Tiro a camiseta toda suja de vômito e vou até o banheiro, jogando-a no cesto de roupa suja, e foi aí que meu filho se pronunciou.
– Pai, eu quero te mostrar uma coisa. – Olho-o, confuso, e ele engoliu a seco. – É sobre a festa da Anne.
– Filho, já disse que não vamos fazer festa nenhuma, não temos dinheiro para...
– O senhor só pode vir comigo até a cobertura do prédio? Por favor. Só temos duas horas para arrumar toda aquela bagunça.
– Espera, por que nós temos que arrumar a bagunça do prédio?
– Bem, o senhor só vai saber se vier comigo. – Ele sorriu, tímido, e só fazia isso quando estava para aprontar alguma coisa.
– Alex , o que você está aprontando?
– Vem, pai! – Meu filho me puxou pela mão e correu até fora do apartamento.
Ele nem notou que eu estava sem camisa, mas isso não importava ao notar o sorriso do meu filho, que há muito tempo estava sumido. Ao chegarmos na cobertura do prédio, Alex abre a porta, colocando as mãos no bolso e me olhando com expectativa, estranhei seu nervosismo, o que me fez olhar para dentro do salão. E lá tinha um monte de itens de festa infantil, como um bolo, mesa, bexiga, doces, aqueles enfeites de colocar na parede, tudo do desenho preferido da minha menina: Branca de Neve. Olhei para Alex de boca aberta, sua reação por melhor que seja, mexeu comigo. E não de um jeito bom, e com certeza não a que ele estava esperando.
– O que achou, pai? Acha que minha irmã vai gostar?
– Filho. – Aproximei-me, colocando minhas mãos nos seus ombros. – Por que fez isso?
– O quê? – Seu sorriso desapareceu, mas tive que ser forte, ele não podia se preocupar com essas coisas. – Como “por que”, pai? É aniversário da Anne, sua filha, a gente sempre comemorou e fizemos festa, por que esse ano não?
– PORQUE SUA MAE NÃO ESTÁ AQUI. – Gritei, fechando os olhos e esmurrando a porta cobertura. – Filho...
– Não, pai, ela não está, mas Anne não precisa ser punida por causa disso. Pai, você tem que entender que sua vida tem que seguir em frente, nós precisamos de você.
– Não precisam, não, está até gastando dinheiro com bobagens, garoto.
– Bobagens? – Meu filho riu, debochado, fazendo meu coração apertar. – Na boa, pai, é melhor você descer.
– Alex, tenta me...
– Por favor, pai!
E como um belo covarde, obedeci a meu filho. Ao chegar em casa, fecho a porta com raiva no apartamento, encosto-me nela, literalmente caindo até o chão. Passo as mãos pelo cabelo, sentindo-me um completo lixo por deixar as coisas chegarem a esse ponto. Eu estava feliz sabendo que meu filho estava trabalhando, sabendo que estava juntando dinheiro para fazer as suas coisas, mas não sabia que ele estava tão preocupado a ponto de realizar uma festa e pagar as contas de casa.
–Onde foi que eu cheguei? – Bato a cabeça na porta, fechando os olhos. – Clara, por que você tinha que ir? Eu preciso de você, nós precisamos. – Lágrimas começaram a sair do meu rosto e eu não consegui escondê-las. – O que eu vou dizer a Anne, Clara? Eu não quero vê-la triste.
Pensar em Clara, em tudo que a gente viveu era tão dolorido agora, todas as lembranças, os momentos que passamos, o modo engraçado como nos conhecemos. Para espantar esses pensamentos, caminho até o quarto do meu filho e sorrio com a sua bagunça, ele é a minha descrição de quando tinha sua idade. Caminho até sua cama e a arrumo, e quando levanto a cabeça, olho uma foto que me chamou a atenção na mesa do meu garoto. Caminho até lá, franzindo o cenho, pegando o porta-retratos em minhas mãos. Na foto era meu filho com uma menina de sua idade em seus braços, a menina era morena de olhos azuis, ele estava usando uma jaqueta do time de futebol de sua faculdade. Seria a namorada dele? Por que ele não me disse nada?
– Essa é a Melissa, pai. – Pulei de susto ao ver meu filho no batente da porta, com os braços cruzados.
– Não faz mais isso, Alex.
– Por que está aqui?
– Porque eu queria pedir desculpas, filho. – Sento em sua cama e ele faz o mesmo em meu lado. – Sei que fui um idiota lá em cima.
– Só não entendo por que, pai. – Ele me olha, decepcionado. – Eu demorei tanto para conseguir essas coisas para a festa, para ver minha irmã feliz, e pensei que isso podia te ajudar a...
– Não preciso de ajuda, Alex, quem precisa é você, eu vou até lá a ajudá-lo a arrumar a festa. Sua irmã vai ficar realmente feliz. – Apertei seus ombros de leve, sorrindo.
– Então o senhor vai para a festa? – Seus olhos brilharam junto com um sorriso e meu coração acendeu.
– Vou com uma condição.
– Qual?
– Quem é essa Melissa? – E meu filho riu, fazendo-me sorrir.
Eu estava mesmo com saudades de conversar com meu filho, de saber da sua vida. Ultimamente nem isso eu não tenho dado atenção, e sei que eu preciso melhorar. Tenho que me convencer que não posso me deixar consumir pela tristeza, porque tem mais pessoas que precisam de mim. Eu vou dar um jeito, tenho que pelo menos tentar, pelo bem deles.


Capítulo 2


POV :
Era um domingo de manhã, e só de pensar que amanhã irei começar a trabalhar, ao mesmo tempo que me dá uma alegria, dá-me um medo. Medo de não conseguir cumprir as atividades realizada naquela escola, medo das crianças não gostarem de mim.
– O que eu faço, mãe? – Agrado uma foto minha e da minha mãe. – Se você estivesse aqui, seria tudo tão mais fácil.
Eu vivo sozinha, em um quarto, não tinha muito dinheiro e vivia apenas do dinheiro que me restava do meu último trabalho. Eu praticamente ajudava minha mãe em consultas no médico, mas o câncer não a deixou realizar seu sonho de me ver casando, de ver seus netos...
Na vida éramos só eu e minha mãe, nunca conheci meu pai, e sempre que perguntava, ela sempre desconversava. Até que uma hora eu não tive mais interesse, pois sei que isso a fazia sofrer. Agora analisando essa foto de nós duas quando eu era criança, dá-me um aperto no coração.
– Eu preciso de seus conselhos agora.
Meu celular começou a tocar, e quando fui ver quem era, era minha irmã. Ela sempre me liga para saber como estava.
Candy era um amor de pessoa, mamãe a adotou quando eu ainda tinha dezoito anos, saudades daquela época. Porém, quando Candy começou a querer saber dos seus pais verdadeiros, foi atrás. Mamãe brigou um monte com ela, mas entendeu seus motivos, e então estávamos eu e minha mãe novamente sozinhas.
– Oi, maninha. – Candy disse, sorridente. – Como você está?
– Estou nervosa, para falar a verdade. É meu primeiro emprego em uma escola, eu não se as crianças irão gostar de mim.
– Quem não gosta de você ? Me diz! Uma só pessoa. – Revirei os olhos.
– Eu não tenho amigos e...
– Você tem a mim, sua chata. – Ri. – Enfim, só liguei para saber como estava e para avisar que estou esperando uma menininha.
– HÁ. Falei que era uma menina.
vai ser um papai babão.
– Coitada dessa criança. – Rimos.
– Bom, mana, tenho que ir, está chamando.
– Vai lá, estou no aguardo por mais notícias. Também tenho que desligar para preparar as aulas de amanhã. Um beijo.
Desligamos o telefone, e como ainda eram onze horas, resolvi sair para almoçar e fui em uma lanchonete aqui perto. Eu moro no centro, então a localização para as lojas, restaurantes ficava tudo bem perto, e o bom é que eu conhecia uns estabelecimentos em conta.
Ao ir para o balcão, fui atendida por um menino que parecia ter dezoito anos. Ele era moreno e tinha lindos olhos castanhos.
– O que vai pedir, moça? – Notei que ele estava meio apressado na voz, então não demorei muito a fazer meu pedido.
– Um hambúrguer com batata frita. – Sorri e ele fez o mesmo.
– Alguma bebida? – Disse depois de anotar o pedido.
– Não, muito obrigada.
Tirei o valor da compra e acabei notando que ele já estava tirando o uniforme de trabalho, ficando apenas com sua roupa que veio trabalhar, que era uma camisa polo e uma calça jeans. Ele pegou o dinheiro e foi conferindo o quanto tinha que me dar de troco.
– Desculpa a pressa, moça, mas meu pai está esperando-me em casa para o aniversário da minha irmã mais nova.
– Que isso, não tem problema nenhum, E parabéns para sua irmã.
– Obrigado. – Ele sorri, dando-me o troco. – Está tudo certo?
– Está sim.
– O seu pedido é só pegar com meu amigo, mas agora tenho que ir.
O garoto se despediu dos amigos e de mim, saindo apressado da lanchonete, subindo em sua bicicleta, indo para sua casa. Sorri com a atitude dele enquanto ia até a mesa, lembrei uma vez de quando eu fiz uma festa surpresa para minha irmã, quando ela se mudou do orfanato lá para casa. Bons tempos.
Fui chamada para pegar meu almoço e nem vejo o tempo passar enquanto eu como, olhando as pessoas na janela, indo ao seu rumo, algumas com pressa, outras nem tanto... Às vezes fico notando o quanto nossa vida mudou depois que... bom. Suspiro fundo. Sinto saudades da minha mãe.
Ao chegar em casa, faço cara para o tanto de bagunça que tenho que arrumar, e meu dia logo foi somente arrumar o apartamento, e quando vi, acabei caindo de sono na cama.

**


No dia seguinte lá estava atrasada, para variar. Logo no meu primeiro dia, mas que merda. Chego na sala da diretora, que está esperando-me de braços cruzados e uma cara nada boa. Sorri sem jeito, arrumando meus óculos, e falo a pior desculpa que poderia inventar agora.
– Desculpe a demora, o trânsito estava horrível.
– Hum, quero mais pontualidade, senhorita . – Virou-se e se sentou na sua cadeira atrás da mesa. – Está preparada?
– Estou. – Sorri e tenho certeza que não soei convincente.
– Bom, já vamos avisando que estamos chegando próximo ao dia das mães, e todo ano a turma em que a senhorita irá dar aula faz uma apresentação para o dia das mães, e este ano você irá coordenar a peça para turma.
A diretora falou, cruzando as mãos na mesa, enquanto eu literalmente abria minha boca em um “o”. Como ela queria que eu fizesse isso em tão pouco tempo? Tínhamos apenas três semanas até o dia das mães.
– Mas...
– Senhorita , você disse na sua entrevista que estaria disposta a correr qualquer desafio a nossa escola a propusesse a fazer. Este é um deles, estaremos avaliando-te. Então espero que não desista e que tenha boa sorte com as crianças. Agora, pode ir para sua sala.
A inspetora me levou para a sala da minha turma, e eu fico surpresa que os pequenos já estão ali, correndo em círculos, fazendo a maior bagunça na sala. Respiro fundo, enquanto a inspetora chama a atenção deles, que ficam quietinhos e vão para seus devidos lugares.
– Bom dia, alunos.
– Bom dia, tia Laura. – Responderam em coro, fazendo-me sorrir. – A sua nova professora chegou.
– Onde está a professora Kátia? – Um dos meninos perguntou ao levantar a mão.
– Ela teve que sair da escola. – Ambos fizeram um “aaaah” de triste. – Sem essa carinha, ela gostava muito de vocês, é verdade, mas ela casou e mudou de cidade junto com o marido, então a professora estará no lugar dela. Então espero que sejam receptivos e que obedeçam a sua nova professora.
Laura me desejou boa sorte, saindo da sala, e ao fechar a porta, volto a olhar para minha turma, que agora me encarava como se eu pudesse sair do mapa a qualquer instante. É, realmente estava acontecendo, e não era brincadeira. Eu sou uma professora.
– Professora . – Um dos meninos ergueu a mão. – O que vamos fazer hoje?
– E-uu, é bem...
Sou interrompida pela porta abrindo-se, e quando vejo, era uma das alunas, acompanhada de um adolescente. Franzi o cenho para o menino e depois olhei para a pequena que estava com uma carinha triste.
– Desculpa pelo atraso. – Sorri. – Prometo não acontecer de novo.
– Pode ficar tranquilo, como é seu nome, garoto?
– Alex. – O menino respondeu tímido. – Por quê?
– Bom, vamos lá fora? Pode ir se sentar, querida. – Abaixo na altura da menina que se esconde na perna de Alex. – Não precisa ficar com medo. Sou sua professora.
Alex a pega no colo e me olha um tanto orgulhoso da irmã, típico irmão babão.
– Quer ir com seus amiguinhos, Anne? – A garota nega com a cabeça, abraçando o pescoço do irmão. – Tudo bem, vamos lá fora. – Segui-os, fechando a porta. – O que queria me falar, professora?
– Só queria dizer que a professora que costumava a dar aula para a Anne teve que mudar de cidade, e eu entrei no lugar dela, então vou dar os recados para todos os pais, que caso tenham algum problema venham falar comigo, tudo bem? E se o aluno ou aluna tiver com algum problema de desenvolvimento na classe, irei contatá-los imediatamente.
– Obrigado por avisar, professora...
. – Ergui minha mão em sua direção. – Mas pode me chamar de , se quiser.
– Obrigado, de verdade. Eu venho buscar minha irmã todo dia, então se acontecer algo, é só me avisar.
– Pode deixar, agora vou ter que levar essa bonequinha para a sala.
– Não quelo. – Anne abraçou o pescoço mais forte do irmão, que suspirou. – Quero o papai, Alex.
– Pequena... Vamos fazer o seguinte? Que tal se você for para a aula, eu te dou um sorvete bem grandão de onde eu trabalho?
– Com algodão doce? – Os olhinhos da pequena Anne brilharam quando o irmão acenou com a cabeça em concordância. – Eu vou para a aula.
– É assim que se fala, maninha. – Alex beijou a irmã, entregando-me no colo. – Se tiver algum problema, avise-me professora.
– Pode deixar.
Alex se afastou em direção à saída, enquanto Anne me olhava. Ao mesmo tempo em que abria a porta, coloquei e pequena no chão e tirei sua mochila das costas, levando-a até a segunda carteira da fileira do meio, onde estava escrito seu nome, e logo a pequena se sentou em lugar, então pude iniciar as aulas normalmente. Fiz a chamada, e como era meu primeiro dia, quis pegar um pouco leve com as crianças, então fiz uma brincadeira com elas, e todos, inclusive eu, entramos na bagunça, porém noto um rostinho cabisbaixo querendo disfarçar, era Anne.
No final da aula, peguei a agenda de cada aluno, anotando um bilhete de reunião com os pais para me apresentar e dizer como vai ser meu método educativo com os pequenos. O sinal bateu e todos já tinham guardado seu material, inclusive eu, e foram ao pátio esperar por seus pais, porém a pequena Anne terminou de arrumar sua mochila depois de todo mundo e veio até mim.
– Tia , a senhora precisa ir logo para casa?
– Por que, meu amor? – Abaixo até sua altura, tirando um pouco de cabelo do seu rosto.
– Pode ficar esperando meu irmão comigo? Eu não quelo ficar sozinha hoje.
Pensei um pouco e, bom, não tinha nada para eu fazer em casa que não pudesse me esperar mais algumas horas. Concordei em ficar, e a menina me abraçou, deixando-me feliz. Eu sempre amei crianças, por isso amei meu primeiro dia de trabalho, espero que os pequenos tenham gostado também.
Fomos até a frente do colégio, onde fiquei sentada com a pequena em meu colo. Ela parecia tímida, mas assim que viu a bicicleta do irmão, pulou de alegria.
– Tia , meu irmão chegou. – Soltou minha mão e foi correndo até o irmão, abraçando-o. – Tava com saudadi, Alex.
– Eu também, pequenininha. – Abraçou mais a irmã. – Desculpa a demora, a lanchonete estava cheia hoje.
E foi aí que eu lembrei de onde ter visto o menino. Alex era o atendente da lanchonete onde fui ontem. Mas que coincidência.
– Então era você o menino da lanchonete. – Sorri, aproximando-me de Alex. – Que coincidência.
– É verdade, professora, agora me lembrei de você.
– Pode me chamar de .
– Tudo bem, . – Sorri de lado. – Obrigado por ficar com minha irmã, agora eu tenho que ir, nosso pai está esperando em casa.
– Tome cuidado.
– A senhorita também.
Fiquei observando os dois irem embora e, não sei por que, quis ir junto com eles, só para me certificar de que eles chegariam bem em casa.


Capítulo 3


POV :
O que eu estou fazendo com minha vida, alguém me diz? Controlo minha raiva, apertando fortemente minha mão, enquanto na outra eu tinha uma lata de cerveja. Eu estraguei tudo. Bebo um gole da bebida em minhas mãos. O aniversário ontem da minha filha, eu estraguei seu sonho por causa da porra de um deslize. Agora minha baixinha estava sem falar comigo. E meu garoto também.
– Droga. – Jogo a longneck na parede, baixando a cabeça, tentando respirar fundo. – Você precisa se reerguer, . Você precisa.
– Papai?
Minha baixinha me chamou. Assim que ouço a porta ser aberta, olho na direção do barulho, enquanto Anne tira a mochila, jogando no chão, vindo em minha direção. Dei uma olhada em meu filho, mas este ainda estava com a cara fechada e logo foi subindo para seu quarto. Respiro fundo, abraçando minha pequena. Sei que fiz merda, mas eu não tive culpa. Fiz sem pensar, e meu filho precisa entender isso.
– Oi, amorzinho. Como foi de aula? – Dou um beijo em seu rosto, fazendo-a rir.
– Foi legal.
– Ah, é? O que aprendeu? – Ergui a sobrancelha.
– O papai quer saber? – Ela abriu os olhinhos, surpresa.
– Filha, o pai só parou de perguntar porque estava num momento difícil. Tenta entender o papai, ok? Eu prometo que as coisas vão voltar a ser o que eram, meu anjo.
– Papai promete? – Mostrou o dedo mindinho e eu sorri, cruzando o meu dedo com o dela.
– Juro, juradinho.
– Não prometa, pai. – Alex chegou na sala com os braços cruzados. – Não iluda minha irmã.
– Filho. – Levantei do sofá com Anne em meu colo, indo em direção ao meu garoto. – Desculpe-me por ontem, ok? Eu só...
– Vem, Anne, vamos para o banho. – Minha pequena apenas se abraçou em meu pescoço quando Alex tentou pegá-la. – Qual é, Anne, não vai querer ficar sem janta, vai?
– Eu faço hoje, filho. Pode ir descansar, prometo cuidar bem da minha filha.
– Ah, é? Então o que é aquele vidro jogado no chão de garrafa, pai? Quando parar de beber, venha conversar comigo.
Anne dessa vez foi com o irmão, e quando eles estavam longe, eu simplesmente peguei minha chave de casa e saí, batendo a porta. Eu preciso de um pouco de ar. Fui até a praça que tinha perto de casa e sentei no banco que costumava sentar quando tudo era melhor.
Por que eu tive que gritar com minha filha ontem e não participar de seu aniversário? Eu sou um pai terrível, mas ninguém me deu um manual de como saber cuidar deles, após a...
Sinto meus olhos encherem de lágrimas e dessa vez tento segurá-las, quando escuto uma voz conhecida.
– Hey, . – Olho para frente, encontrando . – O que está fazendo aqui?
– Pensando. – senta em meu lado, enquanto suspiro.
– Tem certeza?
era meu melhor amigo, mora a poucos metros da minha casa. Soube que ia ter uma filha com Candy, sua esposa, porém faz tempo que não nos víamos, desde que eu virei um completo babaca. E eu não me orgulho de tê-los afastado.
– Cara, eu não consigo ficar lá em casa, não consigo ficar num mesmo teto que meu filho me olhe com decepção. Eu tento fazer de tudo para voltar a ser o que era antes, para ter a alegria que era aquela casa, mas... não dá. Não consigo.
, você sabe que não foi sua culpa aquele acidente. – falou, manso, colocando a mão no meu ombro quando eu desviava o olhar. – Não fique materializando-se, sei que Alex só quer o seu bem, meu amigo, e eu sinto falta de você, cara, todos nós sentimos.
– É claro que foi minha culpa, . – Olhei-o, indignado. – Nós brigamos no dia, por uma... por uma bobagem. Eu tento seguir em frente, mas... meus filhos tem os olhos dela, cara, e...
, faz o seguinte, se quer seguir em frente, você precisa voltar a sua rotina de antes, ser o pai que você era antes. Alex sente falta daquele cara que ele conheceu, não de quem você se tornou agora. Nem eu te reconheço. – Olho-o sério, bufando. – Eu te vi e estava contente por te dizer uma novidade que eu e Candy decidimos, mas... Não sei se agora é a hora, eu preciso do meu amigo de volta.
...
– Eu tenho que ir. Candy está esperando-me em casa.
se afastou e suas palavras mexeram comigo. Ele tinha razão, mas aquele do passado está no passado, eu não posso fazer nada para trazê-lo de volta.
Levanto-me, percebendo que o sol está se pondo, resolvo dar uma corrida pela praça antes de realmente voltar para a casa. Eu preciso conversar com meu filho.

**


Chego no apartamento todo molhado de suor. Retiro a camiseta, sentindo um cheiro de macarrão com almondegas vindo da cozinha. Fecho a porta, notando algumas vozes na televisão, de um dos desenhos animados que Anne gostava de assistir, e a mesma estava dormindo no sofá com um ursinho. Sorri, sentando na ponta do sofá, e agradei seu cabelo, arrumando a coberta para não passar frio.
– Papai te ama, baixinha. – Desliguei a televisão, dando um beijo em sua testa.
Levanto do sofá, vou de encontro à cozinha, vendo meu garoto comer sua comida de cara emburrada e parecendo não gostar do sabor, mas eu sabia que meu filho sabe cozinhar muito bem. Assim que sento na mesa, Alex ia levantar, porém seguro sua mão, forçando-o a sentar novamente, e vejo meu filho virar os olhos para mim.
– Não vire os olhos, Alex, eu ainda sou seu pai.
– Meu pai? Um pai que nem se importa em saber como foi meu dia no trabalho ou como a minha irmã foi na escola? Ou melhor... gritar com minha irmã porque ela perguntou da mãe e ferrar tudo na festa ontem? – Alex grita, jogando o garfo na mesa, fazendo-me respirar fundo.
– Filho, eu estou tentando melhorar, ok? Eu vou parar com as bebidas, eu prometo. – Alex ri, sínico. – Você sabe que eu nunca fui de beber assim garoto, mas é...
– Eu sei que não, pai, só não precisa fazer isso na frente da Anne. Ela te adora.
– E você não? – Ergo a sobrancelha.
– Meu pai não é esse cara que eu estou vendo.
– Alex...
– Eu vou te atualizar sobre a Anne, pai. Entrou uma professora nova na escola, e ela quer marcar uma reunião com os pais, então o senhor poderia por favor comparecer? Eu não posso ir por causa do meu trabalho.
– Quando é essa reunião? – Franzi o cenho, colocando o macarrão em meu prato.
– Está na agenda da Anne, mas parece que é amanhã de manhã. Pelo o que eu li, ela não terá a aula justamente por causa dessa reunião, então levarei ela no meu trabalho de manhã, a Mel pode ficar com ela.
– Vou tentar ir.
– O senhor vai. – Alex ordenou, comendo, e eu não gostei nada disso.
Da onde já se viu um filho tratar um pai assim? Está certo que eu estou passando por um péssimo momento, mas jamais vou aceitar receber uma ordem de meu filho.
– Como é? – Franzi o cenho, fazendo meu filho me encarar, sério.
– O senhor vai, pai, eu não tenho como ir.
– Filho, não pense que só porque você assumiu a casa durante esse tempo que já pode mandar em mim, garoto.
– Então se mexa. – Alex gritou, fazendo-me respirar fundo. – Eu não aguento assumir tanta responsabilidade sozinho, pai! Eu não estou nem conseguindo pagar as contas dessa casa.
– Alex ... – Respirei fundo, acalmando-me. – Você assumiu porque quis.
– Porque eu estava preocupado quando o senhor saiu do emprego. Não queria que a gente morasse na rua.
– Eu vou a essa reunião. – Desconversei. – Fica tranquilo.
Terminamos a janta em silencio, o que estava me deixando perturbado. A comida estava excelente.
tinha razão, meu garoto não precisa ter tanta responsabilidade agora com apenas dezoito anos, nem meu pai me obrigou a isso. Eu também estava sentindo falta daqueles momentos de pai e filho, mas...
– Pai, eu esqueci de avisar, mas depois do trabalho tio me chamou para sair, não tem problema?
– Como assim te chamou para sair? – Franzi o cenho. – Eu encontrei ele hoje, e ele não me disse nada.
– Ele vai me ensinar a tocar violão e vamos num boliche depois.
Pensei melhor, seria bom Alex se divertir um pouco, ele é apenas um adolescente. Merece um descanso, e Alex adora , então não vejo um mal deles sair. Só fiquei surpreso por não me terem chamado, antigamente tínhamos um dia da semana que tirávamos para sair nós três, Clara ficava louca com o que eu e o podíamos aprontar com o menino.
– Pai, do que está rindo? – Meu filho perguntou, e no que eu o olhei, notei que ele também estava segurando o riso.
– Sua mãe ficava doidinha quando nós três saímos juntos.
– E ela estava mais que certa, vocês me faziam pagar cada mico.
– Não se esqueça que você já nos colocou em uma baita furada, menino. Eu e tivemos que dormir no sofá por uma semana depois daquela, e você saiu ileso.
Meu filho gargalhou, o que me fez me sentir mais tranquilo. Falar de Clara ainda era difícil, mas eu preciso entender que tenho mais duas pessoas que precisam de mim. E estar relembrando esses momentos com o meu filho, sorrindo, como há dois meses não fazia, deixou-me um pouco mais leve.
– O que eu tinha feito mesmo, pai? – Ele perguntou aos risos.
– Você não lembra? Você tinha treze anos.
– Foi aquela vez que vi duas meninas passando e assobiei?
– Exatamente. – Olhei-o, rindo. – Você era um espertinho, viu as garotas, mas teve a oportunidade de se esconder atrás do meu carro, e como eu e estávamos em pé, a gente apanhou no seu lugar. – Olhei-o, serrando os olhos, enquanto meu filho ria. – E sua mãe e Candy estavam saindo da loja nesse exato momento, fazendo-nos apanhar em dobro.
– Eu lembro que a mamãe ficou uma fera.
– E ficou mesmo. – Ri baixinho. – Mas...
– Papai...
Olhei para a entrada da cozinha, vendo minha filha entrar, coçando os olhinhos e bocejando.
– Oi, bonequinha.
Minha princesa veio até mim e eu a segurei no colo. Anne encostou a cabeça em meu peito, fazendo-me a olhar sorrindo de boca fechada e dando um beijo em sua cabeça.
– Estou com fome.
– Temos macarrão com almondegas do Alex hoje, vai querer?
– Não. – Olhei Alex, segurando o riso com o olhar indignado dele. – O Alex só sabe fazer macarrão, papai.
– Maninha, nunca mais te dou sorvete e algodão doce depois da aula.
– Você comeu algodão doce, meu amor?
– Sim, papai. Alex me deu enquanto se despedia da tia .
Franzi o cenho, olhando meu filho, que deu de ombros, abrindo o refrigerante, colocando num copo. Alerta de algo errado.
– Quem é essa , Alex?
– A professora da Anne. – Meu filho tomou o refrigerante, olhando para o chão. – Ela ficou com Anne, a pedido da mesma, enquanto me esperava para não se sentir sozinha.
– É a mesma que irá dar a reunião?
– Sim.
– Tudo bem. – Suspiro, olhando meus filhos. – Vocês sabiam que são minha maior alegria? – Sorri, olhando para Alex, que me olhou confuso.
– Aonde quer chegar, pai?
– Em lugar nenhum, só quero que os dois lembrem que, se precisarem, eu estarei aqui. – Coloquei minha filha de pé em meu colo, fazendo cocegas em sua barriga, fazendo-a rir. – Eu vou procurar um emprego essa semana, filho. – Olhei-o e vi os olhos de meu garoto brilharem. Sorri.
– Sério? – Concordei com a cabeça. – Isso é muito bom, pai.
– As coisas vão voltar como antes, filho, estou sentindo isso.
– Você só precisa querer mudar, pai. E eu estou aqui para o que precisar da minha ajuda. – Meu filho estendeu a mão para mim na mesa, fazendo-me a segurar e o olhar, orgulhoso. – Agora tenho que ir dormir, amanhã será um dia cheio.
Alex, depois de lavar a louça enquanto eu dava a janta para Anne, deu um beijo na cabeça da irmã assim que eu prometi colocá-la para dormir hoje. Minha menina terminou de comer, então eu coloquei a louça suja na pia, amanhã eu lavaria. Estava pretendendo fazer uma surpresa para meu filho e quero demonstrar que seu pai estava ali.
Anne estava agitada no meu colo. Quando fui levá-la para seu quarto, coloquei-a na cama. Ela não parava de pular na mesma, sorrindo, enquanto eu pegava seu pijama no armário de seu quarto.
– Qual pijama será hoje, princesa? – Olhei para trás, vendo ela pular e rindo. – Anne, para de pular, anjinho, vai se machucar.
– Vou não, papai. Eu quero brincar.
– Amanhã o papai brinca com você, pestinha, já está na hora de dormir. Agora qual dos dois? – Mostrei os dois pijamas para ela.
Anne sentou na cama, virando a cabecinha, como se estivesse analisando algo, e eu ri. Ela colocou o dedo no queixo e apontou para o pijama da Valente em minha mão esquerda, fazendo-me piscar para ela.
– Boa escolha, baixinha. – Coloquei o outro sobre o criado-mudo, colocando-a de pé na cama. – Ergue os bracinhos. – Por que escolheu a valente hoje?
– Porque lembra o papai.
– Eu? Mas eu não sou uma menina, meu amor. – Comentei, rindo, fazendo beijinho de esquimó, e minha filha segurou meu rosto com suas mãozinhas, segurei-as sorrindo.
– Ora, o papai é o príncipe da valente. – Comentou, fazendo um biquinho, e eu ri. – O papai é valente por cuidar de mim.
Sorri e a abracei forte, recebendo seu abraço. O melhor abraço do mundo, e eu prometo a Clara que irei cuidar muito bem dele, irei cuidar do nosso tesouro.
– Agora, anjinho, vamos para a cama. – Terminei de colocar seu pijama e Anne já deitou, cobrindo-se.
– Papai, lê uma história, igual a mamãe faz para mim?
Senti meu coração ser apertado por essa pergunta. Todo dia antes de irmos dormir, Clara sempre contava histórias para nossos filhos. Isso começou quando Alex ainda era pequeno, era uma maneira dela se tranquilizar por saber que ele estaria dormindo bem.
– Leio, meu amor, qual vai querer hoje?
– Quero que o papai invente. – Olhei-a, confuso. – Mamãe sempre me conta história de princesa, papai, Alex me disse que o senhor contava história de super-herói para ele.
– Você quer, é? – Olhei-a, sapeca, fazendo ela rir. – Então vamos começar.
Joguei-me na cama ao seu lado, fazendo-a gargalhar. Era tão bom ouvir o som da risada de minha garotinha, era como um alívio para tudo o que nossa família estava passando. Comecei a contar uma história, usando eu e Clara, claro que com nomes diferentes e um jeito parecido, com algumas mudanças de como nos conhecemos, e minha filha ouvia atentamente, perguntando-me algumas coisas no meio do caminho, até que se aproximou do meu corpo e deitou a cabecinha no meu colo. Abracei-a, dando um beijo em sua cabeça.
– Boa noite, gatinha. Papai vai estar aqui quando acordar. – Sorri quando ela bocejou.
– Prometi? – Bocejou novamente.
– Juro, juradinho.
Encosto minha cabeça na sua, nem percebo quando durmo, em meios a tantos pensamentos e tantas decisões que tenho que fazer amanhã. É, será um longo dia.


Capítulo 4


POV ALEX:

Por incrível que pareça, o dia amanheceu com um sol diferente do normal. Eu senti que hoje seria um dia diferente do que estava sendo esses últimos meses, a começar pela atitude do meu pai ontem. Ao vê-lo sorrindo ao contar da mamãe, parecia que estava presenciando de novo aquele dia. Por um momento, ele voltou a ser o pai que ele era, e eu estava tão mais tranquilo em relação a isso, a saber que ele estava disposto a mudar.
Vesti meu uniforme do trabalho, pegando meu celular para ver se tinha mensagens de Melissa, e sorri ao constatar que sim. Respondi mandando um bom dia com um beijo, logo descendo para a cozinha. Teria que correr com meu café da manhã, mas ao chegar lá senti o cheiro das tão conhecidas panquecas do meu pai, só ele sabia fazer a melhor panqueca da cidade. Sorri ao ver isso, e não notei que esbarrei em uns dos brinquedos da minha irmã, atraindo a atenção do meu pai.
– Bom dia, filho. – Ele se virou, sorrindo, novamente prestando atenção às panquecas. – Já de pé?
– É, eu tenho que correr para o trabalho. Aliás, Anne está dormindo? – Meu pai concorda com a cabeça. – Vou lá acordar a baixinha.
– Na verdade, deixa ela dormindo, filho. Eu acho melhor ela ir comigo para a reunião.
– O senhor tem certeza disso?
– Tenho, sim. – Meu pai termina de colocar as panquecas no prato, desligando o fogo. – Está muito atrasado para o trabalho?
Olhei meu relógio e constatei que ainda tinha uma hora. A lanchonete não era tão longe, então daria tempo. Meu pai me encarava com expectativas.
– Ainda tenho um tempinho. – Sorri ao ver ele sentar, então fiz o mesmo. – Mas me diz, por que resolveu fazer o café hoje?
– Bom, eu não disse que as coisas voltariam a ser como antes? – Concordei, meio relutante, ao pegar umas das panquecas com calda de chocolate. – Então, resolvi fazer esse pequeno agrado ao meu filho.
– Papai...
Olhei para a entrada da cozinha, vendo minha irmã, e sorri, indo pegá-la no colo. Dei um beijo em sua bochecha, recebendo um beijo molhado, do jeitinho que eu adorava. Minha irmã sorriu, sapeca, fazendo eu piscar o olho para a mesma.
– Ei, o que os dois estão aprontando? – Meu pai nos olhou ao sentar-se na cadeira à nossa frente. – Conheço esses olhares.
– Nada, pai. – Sorri, sentando com minha irmã no colo.
– Papai, o senhor vai na apresentação da escola? – Minha irmã perguntou de boca cheia, fazendo-me rir. – O Alex vai.
– Que apresentação, gatinha?
– Do dia das mães.
Meu pai ficou sem responder. Olhei-o, e ele estava me encarando, apreensivo. Apenas o olhei suplicando que fosse, que fizesse o mínimo de esforço para isso. Afinal, ele já havia faltado à apresentação de balé da minha irmã, não poderia faltar essa também.
– Vou tentar, filha.
– Pai...
– Já disse que vou tentar, Alex. – Meu pai rosnou baixinho, fazendo-me ficar quieto. – Acho melhor Anne ir com você mesmo hoje, eu preciso pensar.
– Pai, nem pense em faltar à reunião.
– Eu não vou faltar.
– É o que eu espero. Vamos, Anne.
Segurei minha irmã pelas mãos, mal terminando de comer. Eu não acredito que meu pai disse que ia tentar ir na apresentação da minha irmã. Poxa, eu pensava que tudo estava indo tão bem ontem à noite, pensei que ele iria melhorar, mas, não, ele me apronta uma dessas.
Ao chegar no trabalho, coloquei minha bicicleta na garagem da lanchonete, tirando minha irmã com cuidado dela.
– Alex, a Mel vai estar aqui hoje? – Minha irmã sorriu, segurando sua boneca da valente.
– É claro, baixinha. – Dei um beijo em sua cabeça. – Mas vou relembrar os avisos: nada de sair de perto da Mel e nem de criar confusão, tudo bem?
– Sim. – Ela sorriu, fazendo-me rir junto.

**


O trabalho na lanchonete até que era tranquilo, mas meu chefe tinha me dado bronca por chegar um pouco atrasado e disse que não tinha problema nenhum eu ter levado minha irmã, mas disse que não poderia levá-la sempre, e isso era um problema. Mel hoje estava de folga do trabalho da loja de sua mãe, então podia, mas meu medo era de que algo parecido com hoje acontecesse e eu não pudesse ficar cuidando da minha irmã.
É claro que poderia deixá-la com meus avós, porém eles iriam desconfiar do papai, e eu não queria que eles me tirassem e tirassem minha irmã dele. Apesar de ele estar afastado nos últimos meses, sabia que ele podia melhorar. Todo mundo tem recaída, e melhora se tiver o apoio de quem ama. E eu faria de tudo pelo meu pai, assim como ele faria por mim.
Terminei de atender uma cliente e passei o balcão para meu colega, que cobriu sem problemas, afinal era meu intervalo. Cheguei no local onde Mel e Anne estavam e a vi contando uma história de um jeito engraçado para Anne, que estava toda suja de chocolate. O que essas duas estavam aprontando?
– Aí estão as duas mulheres mais lindas da minha vida.
Aproximo-me de Mel por trás, dando um beijo nela em seu pescoço. Anne estava rindo, sentada no colo de minha namorada.
– O que estavam aprontando?
– Aprontando? – Anne fez cara confusa, imitando Mel, fazendo-me rir ao sentar ao lado das duas. – Estava aprontando nada.
– Ah, é? E o que é essa boca suja, senhorita Anne? – Ela fez uma carinha de culpada, dizendo um “ops”, fazendo-nos rir. – Sabe que não vou lavar sua blusa também.
– Mas, Alex... foi só um sorveti. – Anne fez beiço, virando a cabeça de lado. – Papai faz tempo que não compra.
– Eu sei, maninha, vem aqui. – Peguei-a no colo. – Será que papai foi na sua reunião?
Mel pegou um guardanapo que estava por perto, entregando-me. Limpei a boquinha de minha irmã, que fez beiço.
– Alex, já sou grandinha.
– Eu acho que não. – Franzi o cenho, segurando o riso ao ver o beiço dela aumentar. – Você ainda dorme no meu quarto.
– Então você está roubando meu namorado de mim, mocinha? – Olhei para Mel, segurando o riso.
– Mel, ele é meu irmão. – Anne me abraçou com força, fazendo-me retribuir. – Eu posso.
– Tudo bem, mas só divido ele com você.
As duas fizerem um toque com a mão, fazendo-me ter a certeza que escolhi a namorada certa. Mel era excelente com crianças, e por isso, depois que contei da minha mãe, ela entendeu o meu lado. A gente não saía mais como antes, no colégio, ano passado, mas sempre que podia eu estava presente. Não queria puxar o meu pai nesse quesito.
Antes do dia do acidente, meus pais brigavam muito. Eu via minha mãe chorar no quarto, enquanto o pai estava trabalhando, porque ele estava se distanciando da gente aquela época já, mas minha mãe sempre tentava conversar com ele e resolver as coisas. Minha única preocupação era minha irmã, que sempre ia para o meu quarto quando as brigas aconteciam. Às vezes, eu tinha vontade de sair de casa com ela e ir para a casa dos meus avós, porém as coisas sempre acabavam bem, até aquele dia...
– Você é a melhor namorada do mundo, sabia? – Mel sorriu aquele sorriso doce que eu tanto amava. – Eu não sei o que fiz para merecer você.
– Eu te amo, Alex, muito.
Mel se aproximou e meu coração já estava acelerado. Segurei minha irmã com um braço e o outro fiz carinho na bochecha de Mel, trazendo-a mais perto, fechei os olhos e a beijei. Seu beijo era calmo, delicado, exatamente como a dona dele. Senti ela sorrir, e, quando ia aprofundar o beijo, ouvi meu celular tocar.
– Droga. – Resmunguei e minha namorada riu baixinho. – Numero desconhecido, que estranho.
– Atende, pode ser importante. – Mel me incentivou, pegando Anne no colo.
Distanciei-me das duas e atendi o telefone.
– Alô?
– Alô, senhor Alex ?
– Ele mesmo. – Franzi o cenho. – Quem é?
– Aqui é da escola da Anne. Queríamos saber se irá comparecer à reunião de hoje, afinal é muito importante.
– Mas, meu pai foi à reunião, ele já devia estar aí. Eu estou trabalhando e não vou...
– Não chegou nenhum até o momento, e a professora só irá começar a reunião assim que tiver todos os responsáveis.
Respirei fundo. Eu irei matar meu pai assim que chegar em casa, ele tinha me prometido.
E agora, o que eu vou fazer? Onde vou deixar Anne para ir à essa reunião? Meu chefe não vai gostar nada de saber disso.
– Tudo bem, dentro de uma hora eu estou aí.
– Agradecemos a compreensão e tenha um bom dia.
A ligação foi encerrada, fazendo-me respirar fundo ao voltar para o canto da lanchonete, onde minhas meninas estavam.
– O que houve, amor?
– Eu vou ter que ir à escola de Anne, meu pai não compareceu à reunião. Só que o problema é que não tenho onde deixar minha irmã.
– Eu posso ficar com a Mel, Lex.
– Sei que pode, baixinha. – Fiquei na altura da minha irmã, agradando seu cabelo. – Mas a Mel tem mais coisas para fazer e...
– Eu fico com ela, amor. – Mel me beijou. – Fica tranquilo, ok?
– Obrigado, linda. – Abracei-a, beijando seu pescoço. – Prometo recompensar depois. – Pisquei.
– Alex, está no seu horário de novo, garoto. – Meu chefe aparece na sala.
– Sobre isso... Eu posso sair mais cedo? Surgiu algo importante.
– Algo importante? Garoto, já é a segunda vez que você sai mais cedo, além de trazer sua irmã e namorada para o trabalho e...
– Por favor, senhor Hector, é só durante essa manhã, é da escola da minha irmã. É urgente.
– Tudo bem, vai.
– Obrigado, de coração.
– Final de semana quero você aqui, rapaz.
– Estarei.
Mel me acompanhou com Anne até fora do estabelecimento e disse que levaria Anne para a casa dela, para depois eu ir buscá-la lá. Despedi-me das duas e segui rumo ao colégio. Só sei que, se meu pai não tiver faltado por um bom motivo, eu contaria para meus avós, e ele que se virasse para conseguir ficar conosco e não ficar sozinho.
Não me levem a mal, não queria mal para o meu pai, mas, poxa, ele tem que ter de volta a responsabilidade dele de cuidar da minha irmã. Pelo menos ela merece ainda ter um pai.


Capítulo 5


POV :

Primeiramente, eu sei que, assim que chegar em casa, com certeza serei recebido por um filho nada contente por eu ter faltado à reunião do colégio da sua irmã. Mas é que eu não vejo razão para ir à uma reunião besta só para conhecer a professora e seus métodos de dar aula. Ela não tinha que só chegar lá e dar aulas, para que querer conhecer os pais?
Segundo, o motivo por que eu faltei não foi porque eu quis, e sim porque tinha ido atrás de um emprego, qualquer que seja. Estou com um peso na consciência de deixar meu filho pagar as contas da casa sozinho, ele também merece ter um dinheiro para comprar as coisas para ele.
Terceiro, eu consegui uma vaga em um restaurante, já que entendo um pouco de cozinha por causa da Clara, porém as vagas na maioria dos restaurantes já estavam ocupadas, então trabalharia como garçom em um restaurante perto de casa. Só espero que meu filho entenda que eu não fiz por mal faltando à essa reunião.
Olha onde eu fui parar, tendo que dar satisfação para meu filho mais velho. Suspiro, cansado, andando pelo parque da cidade, onde famílias vinham se divertir, e ao notar uma moça com uma filha pequena ao longe, brincando, sorri. Essa cena me trouxe uma sensação de paz, de alivio, era como se eu voltasse dois meses atrás. Ou melhor, alguns anos atrás, quando Anne ainda estava na barriga da mãe.

FLASHBACK ON.
– Clara, espere. – falava, sorrindo e correndo atrás da minha mulher. – Eu não estou tendo mais esse pique todo, não.
– Ah, , você está muito devagar. – Clara fez beiço, virando de frente, e continuou correndo.
– Amor, sabe que não pode se esforçar muito, é melhor pararmos por hoje.
Clara adorava tirar um dia da semana para vir correr no parque, e mesmo com a médica recomendando-a ficar em casa, quem disse que essa menina fica? Desconheço alguém mais teimosa que Clara. Ela era como um passarinho, não aguentava ficar muito tempo em um só lugar.
– Claro que não, nosso bebê não vai...
– Clara, olha para frente. – gritei, arregalando os olhos.
Clara, notando minha reação de desespero, assustou-se, virando, mas já era tarde demais. Alcancei-a o mais rápido que pude antes de bicicleta por pouco não a atropelar, caímos na grama e eu em cima dela, respirando fundo. Meu coração estava acelerado só com medo de pensar em perdê-las.
– É melhor voltarmos para casa.
...
– Por favor, Clara, eu quase perdi vocês. – Fiz cara emburrada e ela gargalhou.
– Amor, era só uma bicicleta. Acalme-se, está bem? Não vai acontecer nada comigo e com nossa bebê.
Clara segurou meu rosto, fazendo um carinho delicado e que eu adorava. Fechei os olhos, sentindo esse carinho, dando um beijo em sua mão.
– Acho melhor nós irmos. – disse após ouvir um trovão. – Vai chover daqui a pouco.
– Tudo bem, vamos, mas antes.. – Olhei-a depois de ajudá-la a levantar-se. – Saiba que nós te amamos, nosso príncipe. – Sorri, beijando-a, enquanto a abraçava pela cintura.
– Alex vai ficar louco, ele diz que ele é o príncipe da mãe. Mesmo tendo treze anos.
– Deixa o menino, amor.
Entrelaçamos nossas mãos e fomos caminhando até a casa, que não era muito longe.

FLASHBACK OFF.

Era por esses momentos que tinha saudade de Clara. Ela era uma mãe maravilhosa, sempre atenciosa. Era eu chegar do trabalho, encontrava ela rindo e divertindo-se com nossos filhos, escutando música alta e fazendo janta. Agora cheguei em casa, nenhum dos meus filhos estavam em casa e a casa estava em um silêncio total.
Não era a mesma coisa chegar em casa, mas ao olhar em volta, tinha muita bagunça, tanto brinquedos de Anne quanto roupas de Alex e algumas minhas. Ri com isso e decidi que faria uma limpeza na casa. Se Clara estivesse aqui, com certeza brigaria pela bagunça.
Algum tempo depois, olhei no relógio e já eram umas 18 horas, e já ia perguntar onde estavam Alex e Anne quando ouço a porta ser aberta da cozinha e uma Anne vindo correndo em minha direção.
– Papai, papai, hoje o dia foi muito legal. – Anne gargalhou quando a peguei no colo, fazendo-me rir. – Alex e Mel me deram algodão doce.
– De novo, princesa? – Olhei-a, meio bravo. – Então acho que alguém vai ficar sem a sobremesa que fiz.
– Que sobremesa, papai? – Anne me olhou com o olhar pidão.
– Isso você só vai saber depois que a senhorita ir tomar um banho e, durante o jantar, contar-me o que aprontou hoje.
– Tudo bem, papai. – Ela me deu um beijo no rosto, então a coloquei no chão, que logo foi para seu quarto.
Agora seria o momento difícil. Assim que Anne sumiu no corredor, indo para seu quarto, levanto meu olhar em direção ao meu filho. Alex estava parado na porta da cozinha, com os braços cruzados e uma cara não muito feliz.
– Filho...
– Por que faltou, pai? – Ele me interrompeu, fazendo-me respirar fundo. – Você prometeu! – Alex quase grita.
– Abaixa a voz, garoto. – Rosnei em sua direção. – Eu não faltei por causa de uma recaída.
– Ah, não? – Ele me olhou com sarcasmo. – Você tem faltado a muitos compromissos, pai. Coisas importantes na vida da minha irmã, e eu não vou admitir o senhor estragar a vida dela também.
– Você está muito abusado, Alex. – Respondi, não gostando nada do seu tom. – Você é meu filho, deveria me apoiar nesse momento. Se acontecesse algo parecido com a Mel, não que eu queira que aconteça, mas eu seria o primeiro a te apoiar. E não iria dizer que você está me decepcionando.
– Pai, é diferente. – Meu filho me olhou com um olhar de quem estava desistindo de mim. – Eu não tenho mais como levar a Anne para meu trabalho, meu chefe vai me fazer trabalhar final de semana, o tempo que tinha livre com minha irmã. Por causa da sua falta de responsabilidade, pai, eu estou tentando fazer de tudo por essa família, e o senhor não vê nada disso. Seja sincero comigo, por que você não é como antes, por que parece que desistiu de mim e da minha irmã?
Abri a boca, indignado. Como meu filho me diz uma coisa tão absurda como essa? Era verdade que eu estava distante, mas eu nunca, nunca, afastaria-me de meus filhos, nunca desistiria deles. Eles são minha vida, e não sei o que faria se algo me tirasse deles. Alex sempre foi um menino maduro, e isso me orgulha de tê-lo ensinado tão bem, mas era fato que eu sempre tinha minhas indiferenças com ele, de vez em quando, por ele sempre reclamar que eu estava ficando ausente, e vejo que isso o está afetando agora.
– Alex, eu sei que fui ausente esse ano passado, mas, filho, vocês são minha vida, ouviu bem? Jamais abandonaria vocês, você veio brigar por eu ter faltado, mas nem me deixou explicar o motivo. Eu fui atrás de um emprego, e consegui um. Começo a trabalhar amanhã mesmo como garçom em um restaurante aqui perto. Sei que não ganha muita coisa, mas pelo menos já ajuda aqui em casa, até eu conseguir voltar a entrar na minha profissão.
– É sério, pai? – Vi seus olhos brilharem, e deixei um sorriso escapar. – Você não está blefando, está?
– Claro que não, filho. Vem aqui, vem.
Abri os braços para Alex e ele veio correndo me abraçar, exatamente como ele fazia quando era pequeno, fecho os olhos a sentir seu abraço e dei um beijo na sua cabeça, como eu tinha orgulho do homem que meu garoto se tornou. Fazia tempo que não dávamos abraços assim.
– Eu te amo, filho. – Sussurrei, sorrindo. – Nunca se esqueça disso, ouviu bem? – Meu garoto acenou com a cabeça, saindo do abraço sorrindo.
– Eu também te amo, pai.
– Eu também quero abraço, papai.
Alex virou para trás, ficando em meu lado para ver Anne sorrindo, mas a irmã estava com um bico e braços cruzados. Amo essas crianças mais do que a mim mesmo.
– Olha, pai, acho que tem alguém com ciúme nessa casa.
– Quem será, Alex, será que é uma menina chatinha que está ali na escada? – Minha filha fez um bico maior, fazendo-nos rir.
– Não sou chata, pai.
– Aham. – Alex respondeu por mim, segurando a irmã no colo. – Vou levar ela para a sala, enquanto o senhor termina a janta, ok?
– Claro, chamo vocês assim que terminar.
Vi meus filhos sentarem no sofá e Alex ensinando a irmã a jogar vídeo game. Sorri com isso, voltando a terminar nosso macarrão com queijo e lasanha para a janta. Era a comida preferida dos dois.
Assim que terminei, chamei-os e começamos a comer.
– E como está o namoro com a Mel, filho? – Olho para a minha direita, encarando Alex. – Você não tem me contado nada.
– Está indo bem, pai, mês que vem vamos fazer um ano de namoro.
– Sério? – Arquei a sobrancelha. – Por que nunca me contou dela filho?
– Porque não era a hora ainda, pai, não estava preparado. Quer dizer, ela não estava.
– Por quê?
– A Mel foi adotada há pouco tempo. – Olhei-o, surpreso. – É, ela morava num orfanato, e, desde quando a mamãe viajou – ele ressaltou, por causa de Anne –, achei melhor ela se acostumar com seus próprios primeiro, antes de conhecer os meus.
– Fez bem, filho. Imagino o quanto deve ter sido difícil para ela essa mudança.
– Foi, mas ela me deixou ir junto para a família no dia que ela foi, e passei a noite com ela, dizendo que tudo ia ficar bem e que eu sempre estaria ali por ela. E eu queria fazer uma surpresa para ela, sabe, de um ano, então acho melhor ela jantar aqui em casa conosco, o que acha?
– Claro, e se quiser seu pai pode ajudar na decoração. – Olhei Anne e ela estava com a boca toda suja. – Filha, deixa o pai limpar sua boca, que está toda sujinha. – Comentei, rindo e limpando a boca de Anne. – Eu surpreendi sua mãe no nosso primeiro ano, sabia?
Arqueei a sobrancelha na direção de Alex, enquanto comia um pouco de lasanha.
– O que o senhor fez?
– Sua mãe não era muito de romance. Quer dizer, era, mas ela também gostava de fazer várias coisas que as meninas da nossa idade na época não gostavam.
– Quantos anos vocês tinham mesmo?
– Tínhamos 14 anos quando começamos a namorar. A gente se conheceu desde pequenos, a mãe dela era a melhor amiga da minha.
– Igual à tia Candy e o tio , papai? Eles são os melhores amigos do papai, né?
– Sim, meu amor. – Agradei o cabelo de Anne. – Mas, na época, todas as meninas ainda gostavam de brincar de boneca, fazer festa de pijama, essas coisas... – Alex concordou a cabeça. – Sua mãe já gostava de jogar boliche, dançar, futebol e tocar violão, então levei o jantar surpresa até a área de boliche.
– Mamãe tocava na época? – Alex se surpreendeu e eu ri com isso. – Ela nunca me contou.
– Sim, ela tocava, muito bem, aliás. Ela sempre teve o sonho de fazer música, mas seu avô nunca permitiu.
– Eu sempre desconfiei essa vontade minha de fazer música, um dia quero ser um grande cantor, pai.
– E você vai ser, filho.
– Alex, canta para a gente? – Anne perguntou, fazendo-nos olhá-la, risonhos. – Por favor.
– Se você quiser que eu destrua a casa, eu posso.
– Vai, filho, eu posso tocar o violão e você cantar, sua irmã será nossa fã. – Rimos.
– Papai, depois posso brincar de ser cantora também?
– Você gosta de cantar, baixinha?
– Sim. – Anne bateu as palmas, fazendo-nos rir. – Mamãe cantava para mim antes de dormir, depois de contar uma história.
– Anne... – Meu filho mais velho chama a atenção da irmã.
– Está tudo bem, filho, vai lá pegar o violão.

**


Depois de cantarmos algumas músicas na sala, colocamos um filme para assistir de desenho animado com Anne, e eu ri da cena ao meu lado do sofá. Anne estava dormindo de boca aberta no colo do irmão, e Alex deitado em meu ombro do mesmo jeito. Não resisti e tirei uma foto de nós três. Peguei Anne no colo e a levei no quarto, cobrindo-a, sentei na cama, observando minha filha. Como era sortudo em tê-la, ela era a cara da mãe.
– Durma com os anjos, pequena. Papai te ama muito. – Beijei sua cabeça e saí do seu quarto.
Desci as escadas, pensando se deveria acordar o meu filho, ou deixa-lo dormindo, ou levá-lo para o quarto, apesar de que ele já é grande, mas decidi acordá-lo.
– Filho. – Toquei seu ombro devagar. – Alex, acorda.
– O que foi, pai? – Alex falou lentamente, fazendo-me rir.
– Antigamente eu te levaria até a cama, mas... Acho que você não precisa mais disso, não? – Ergui a sobrancelha. – Vai dormir, filho, já coloquei sua irmã na cama.
– Obrigado, pai, durma bem. – Sorri, sussurrando um “você também.”
– Amanhã vou levar a Anne na escola, então pode ficar tranquilo.
– Vai dar tempo de o senhor chegar no trabalho?
– Vai sim, filho. – Sorri e meu garoto fez o mesmo, indo para seu quarto. – Amo vocês.
Já tinham passado algumas horas que meus filhos foram dormir, e eu fiquei encarando a rua da janela do apartamento. É, , está na hora de recomeçar. Você precisa ser forte. Por seus filhos.


Capítulo 6


POV :

Era uma quarta-feira, e novamente quase acordei atrasada. Ontem, na reunião, eu estranhei o fato de que o pai de uma das alunas não apareceu, e sim o irmão mais velho, aquilo me deixou curiosa. Por que um pai não iria na reunião da escola da própria filha? Será que estaria muito ocupado com o serviço? É, deve ser isso.
Depois de ter tomado um banho, peguei meu telefone, minha bolsa e, enquanto discava para minha irmã, saía correndo de casa, fechando a porta, descendo as escadas correndo, porque nem elevador tinha no meu prédio.
– Hey, Candy.
– Hey, maninha, tudo certo para hoje?
– Certo. Só que terá que ser depois da minha aula, pode ser? Aí a noite será toda nossa.
– Tudo bem, fechado. O disse que vai ter que ficar mais tarde no trabalho, então a gente pode ficar até mais tarde, o que acha?
– Fechado. Agora preciso ir, manda beijo para o e um queijo para você.
Desliguei o telefone, ouvindo ela resmungar sobre o beijo para o , e ri ao saber disso. Minha irmã era a melhor.
Depois de quase ter corrido uma maratona até o colégio, consegui chegar a tempo, porém esbarro em um corpo, fazendo-me dar um grito ao quase cair, se não fosse pelo ser segurando-me. Arrumei meus óculos timidamente ao me afastar.
– Desculpa por isso. – o homem se desculpou. – É só que vou chegar atrasado no trabalho, vim deixar minha filha correndo.
– Tudo bem, eu sou meio distraída por natureza e sempre estou caindo por aí. – O moço riu.
Ele tinha uma risada gostosa e que me fez parar para observá-lo. Como ele era lindo. Céus. Disfarça esse olhar, , ele deve ser comprometido.
– Papai.
Olhamos a menininha loira que estava na frente do homem, e imediatamente a reconheci como minha aluna, Anne.
– Oi, Anne. Chegamos juntas hoje, hein, pequena. Toca aqui. – abaixei-me na altura da minha aluna, colocando minha mão em sua direção para ela tocar, que o fez assim que mostrei a mão.
– Conhece minha filha? – o moço perguntou, intrigado.
– Sim, ela é minha aluna, meu nome é .
. – Sorriu o rapaz, quando me levantei, e ele pegou sua filha no colo. – Olha, já que você é a professora, tem problema de você levar minha filha? Você vai se comportar, né, pequena? – Anne assentiu. – É meu primeiro dia no trabalho, então tenho que correr.
– Claro que sim, boa sorte. – Sorri, pegando Anne no colo.
– Obrigado, vemo-nos mais tarde. Tchau, amor. – beijou a filha, depois saiu correndo para o trabalho.
– Vamos então, baixinha?
– Sim. – Anne falou com sua voz de criança, fazendo-me rir ao segurar sua mão.
**

Chegando na sala, vejo meus alunos brincando e correndo, logo Anne foi junto com suas amiguinhas. Como eu adorava essas crianças.
– Bom dia, alunos. – Disse ao sentar na mesa e todos voltaram seu olhar para mim.
– Bom dia, tia . – sorri.
– Bom, ao final da aula só vai ganhar chocolate quem se comportar e prestar atenção na aula.
Imediatamente meus alunos se sentaram na mesa, fazendo-me rir ao pegar o caderno de chamada. Comecei a dizer os nomes e, vendo que todos estavam presentes, comecei a explicar o que faríamos hoje, que, no caso, explicaria um pouco da matéria e o restante da aula começaria a colocar em pratica minha apresentação de dia das mães. Espero que dê tudo certo.
– Bom, crianças... – Falei depois de ter explicado um pouco de português para eles. – Vocês sabem que dia especial está chegando? – Arqueei a sobrancelha. – Quem adivinhar vai ter o privilégio de ganhar mais um chocolate.
– Eu, professora. – Jonas falou. – Meu aniversário.
– Seu aniversário não é especial, Jonas. – Thierry, outro menino, disse. – Está chegando o aniversário de meu cachorro, professora.
– Meu aniversário é, sim, especial, Thierry.
– Ei, ei, ei... – Os dois olharam para mim. – Sem brigas. Jonas, seu aniversário é especial, é um dia só seu, ok? – Jonas concordou a cabeça. – E, Thierry, isso não se fala para seu colega, todos os aniversários são especiais.
– É verdade, desculpa, Jonas. – Jonas concordou com a cabeça.
– Muito bem, Thierry. Agora, alguém mais gostaria de saber que dia está chegando?
Todos os alunos ficaram quietos durante um bom tempo, e quando eu já ia responder minha própria pergunta, uma mãozinha na primeira carteira no meio se levantou. Era Anne.
– Pode dizer, Anne.
– É o dia da mamãe, não é, professora? – Notei seus olhinhos tristes.
– Isso mesmo, pequena Anne. O dia das mães está chegando, e vocês já sabem como vão homenagear as mães de vocês?
– Papai vai levar a gente para um restaurante. – Gabriela diz. – E disse que vai fazer uma surpresa.
– Meu papai vai sair com a mamãe. – Jonas respondeu.
Depois de cada aluno ter me dito o que suas famílias fariam, eu sorri. Que sorte que eles ainda têm a mãe por perto.
– E você, Anne? – perguntei.
Anne era a única que não me tinha respondido nada até agora, e isso me deixou levemente curiosa, afinal ela é participativa na aula.
– Não sei, tia, ano passado papai a levou onde eles se conheceram, mas não sei se vai fazer de novo esse ano.
– Por que não, lindinha? – sentei-me em frente a sua carteira.
– Mamãe está viajando.
– E ela não vai voltar até o dia das mães?
– Não sei, papai não fala muito dela.
Respirei fundo e agradei seu cabelo, sorrindo, dizendo que ela voltaria, mas mesmo assim ela ainda ficou para baixo. Levantei-me e expliquei para meus alunos brevemente e os levei até o pátio para começarmos a ensaiar para a apresentação.

**


Chegou o final do dia, que foi muito divertido, aliás. As crianças eram tão incríveis que às vezes fico me perguntando como eu seria se fosse mãe. Hoje, depois de ensaiarmos, ou melhor, escolhermos uma música para o dia das mães, como tinha um restinho de aula, fiquei brincando com meus alunos, afinal era importante fazê-los interagir nessa idade.
Após guardar meu material, eu era a única professora que estava no colégio ainda, então, ao sair, vi Anne sentada com os bracinhos no joelho, apoiando a cabeça nas mãos, sentada na escada. Sentei-me ao seu lado e notei que ela estava quase dormindo.
– Ei, meu amor, quem vem te buscar hoje?
– Papai. – Ela me olhou sem sorrir. – Ele já devia ter chegado, tia.
– Já está escurecendo, e é perigoso para você ficar sozinha, vou lhe fazer companhia. Ou prefere que eu te leve para a casa?
– Pode me levar para casa, tia? Eu sei onde é.
– Claro, baixinha.
Segurei sua mão e rumei à casa da pequena. Que tipo de pai esquece uma criança na escola? Tinha algo errado nessa história, e sabia que não deveria me meter, mas minha curiosidade estava falando mais alto e eu precisava saber.
Dentro de uns dez minutos de caminhada, Anne parou em um prédio nem tão grande, mas também não tão pequeno. Entramos no prédio e logo o porteiro reconheceu Anne.
– Chegamos, tia. – Anne pulou, alegre. – Oi, tio Pedro.
– Hey, bonitinha. – O porteiro veio até Anne, pegando-a no colo. – Cadê seu pai?
– Ele não apareceu na escola, tio.
Pedro, o porteiro, olhou para mim, confuso, e com certeza devia estar estranhando o fato da menina estar comigo.
– Seu irmão já está em casa e seu pai não apareceu ainda, lindinha. Quem é essa moça com você?
– Ela é minha professora, pedi para ela me trazer.
– Nunca mais faça isso, lindinha, pode ser perigoso.
– Mas, tio, a tia não faria mal a uma mosca. – Rimos, e eu sabia que era bem verdade.
– Vou chamar seu irmão. Espera só um minuto? – Pedro olhou para mim. – Pode olhar ela um pouquinho, senhorita ?
– Claro.
Dentro de alguns minutos, Alex apareceu correndo, com um pano de prato no ombro, parecendo preocupado.
– Pequena, o que faz aqui? – Alex pegou a irmã no colo, que depositou um beijo no rosto do irmão. – Meu pai não foi na escola buscá-la, professora ?
– Eu estava indo embora, e a única aluna ali presente era Anne, fiquei com medo de deixá-la sozinha e resolvi fazer companhia, porém nada de seu pai. Anne me pediu para trazê-la em casa.
Alex respirou fundo, e claramente tinha algum problema ali.
– Bom, já que a pequena está em segurança em casa, eu já vou indo. – Agradei o cabelo da baixinha, que riu.
– Que isso, professora, fique para o jantar. É um agradecimento, por favor.
– Não quero atrapalhar, é um momento em família, eu realmente tenho que ir.
– Por favor, tia , vai ser legal.
A pequena fez sinal de reza, olhando-me com um olhar de filhotinho, que não resisti, apenas concordei, mesmo sentindo-me uma intrusa. Peguei meu celular e digitei para Candy que hoje não ia dar para nos encontrarmos. Não demoramos a subir, pois o elevador já estava no térreo, e quando entramos, puxa, o apartamento era lindo. Não era tão grande, mas bem organizado, bem diferente do meu pequeno apartamento.
– Sinta-se à vontade, professora.
Alex soltou a irmã, que logo correu para dentro dos corredores até seu quarto, provavelmente. Fiquei tímida na sala e arrumei meus óculos, olhando o garoto, que assim como eu, estava tímido, ou diria tenso.
– Pode me chamar de , Alex.
– Tudo bem, . – Ele sorri. – Meu pai deve chegar logo, vamos até a cozinha? Estou terminando de fazer a comida.
Segui o garoto até a cozinha, sentando no banco, e me apoiei no balcão enquanto observava o rapaz cozinhar. Sentia que ele estava nervoso.
– Está tudo bem, Alex?
– Está sim, , é só que... – O garoto respirou fundo, de costas para mim, mexendo em algo na panela. – É meu pai. Ele me prometeu que ia buscar minha irmã hoje.
– Ele me disse, quando nos esbarramos na entrada do colégio, que era o primeiro dia de trabalho dele, vai ver que teve um imprevisto.
– Você não entende. Se fosse mesmo, ele teria me avisado. Ele esqueceu da minha irmã, e isso é o cumulo.
No momento que ia respondê-lo, ouvimos a porta da casa ser fechada. Claro, assustamo-nos. Alex olhou para a porta e sua feição ficou logo irritada, e eu o olhei confusa. Quando ele desligou o fogão, indo apressadamente até a porta, levantei-me assim que ele passa por mim, quase gritando.
– Você é um idiota? – Alex segura a gola da camisa do homem que vi mais cedo.
Ele parecia ser pego de surpresa pelo que apenas se deixou levar até a parede, onde teve tempo de processar o que estava acontecendo. E nem tinha notado minha presença ainda.
– Isso já é o cumulo, pai. Você prometeu. – Alex o empurrou contra parede, fazendo arfar e logo reverter as posições, pegando o filho desprevenido. – Como você pôde esquecer Anne na escola?
– Primeiro, que atitude é essa, moleque? – estava irritado, e eu já sentia que nada seria bom dali. – Essa não foi a porra da educação que eu lhe dei. Eu não esqueci da sua irmã, está legal? O movimento do restaurante estava grande e eu me atrasei, mas quando cheguei lá, sua irmã não estava mais, e eu já estou muito desesperado para você vir dar uma de machinho para cima de mim.
soltou o filho, que ficou observando o pai sem dizer nada, só então notando a minha presença quando Alex olhou para mim. Senti umas mãozinhas pequenas abraçarem minhas pernas e olhei para baixo, era Anne, ela estava assustada.
– Vocês estão brigando? – Ela pergunta com a voz chorosa.
– Filha, graças a Deus.
veio até mim e a pegou no colo. A menina o abraçou pelo pescoço, ainda chorando. , apesar de tê-la esquecido na escola, dava para ver o amor que ele tem pelos filhos. Ele direcionou o olhar até meus olhos e eu congelei. Que olhos lindos. Seus tons verdes claros eram hipnotizantes, e eu tinha certeza que, se ficasse olhando muito, não iria conseguir sair dali.
– Obrigado. – Ele agradeceu. – Prometo que isso não vai se repetir.
Não o consegui responder, só sabia que agora, com mais tempo observando-o, ele tinha uma semelhança parecida com um garoto que morava na minha rua quando eu era pequena, mas devia ser coisa da minha cabeça.
– Eu vou lá para cima.
Fomos interrompidos dessa conexão de olhar e senti que sentiu a mesma coisa que eu. Sei que é loucura, mas... Eu não sei dizer por que esse sentimento passa por mim, de que ele já é conhecido.
– E o jantar? – respondeu.
– Já está pronto, , é só colocar no prato.
– Alex... – Seu pai chamou a atenção, parecendo envergonhado. – Desculpa, , você quer ficar para o jantar? É um agradecimento.
– Tudo bem. – Sorri. – Alex já tinha me oferecido para ficar.
Alex passou por mim e subiu em direção ao seu quarto, creio eu, e notei suspirar, e claramente percebi a tensão entre os dois.
– Filha, por que não vai lá na sala desenhar, enquanto o pai arruma a mesa?
– Tudo bem, papai.
Anne desceu do colo do homem em minha frente e foi correndo para a sala, onde deitou no chão, que tinha uns brinquedos e uns lápis de desenhos espalhados. Nesse momento, olhei para , que observava a filha.
parecia ser um homem calmo, porém cheio de bagagem emocional. Nota-se de longe que ele carrega um grande peso nas costas e não consegue ser feliz.
? – Acordei com chamando-me e eu corei, fiz ele rir. – Tudo bem?
– Tudo sim, desculpe.
– Não precisa pedir desculpas, eu estava perguntando se você quer me ajudar a colocar os pratos, para conversarmos depois.
– Vamos nessa. – ele riu.
É, a noite seria longa. Muito, muito longa. Candy terá que entender que nossa reunião terá que ser remarcada para o final de semana, pois surgiu um compromisso inesperado, e espero que ocorra tudo bem nesse jantar, pois estou realmente nervosa para o que vai acontecer.
Eu não esperava que no início de minha carreira já ia começar a fazer algo que não podia: envolver-me com a família dos meus alunos. Porém, eu não vejo mal em começar apenas uma amizade, certo? Certo.
Eu preciso me acalmar, não posso ficar tão nervosa assim só porque fazia um ano e meio que não me relacionava com ninguém e, bom, meu último namoro não acabou nada legal. Mas isso não importa agora, até porque é passado e, bom, não podia considerar esse jantar como um encontro, não é? Até porque eu o conheci hoje. Então se acalme, , uma voz falava em minha cabeça. Daria tudo certo no final.


Continua...



Nota da autora: Mas uma att de We Need Love, nessa att finalmente a pp apareceu <3 Como será que ela irá reagir com seu passado na fic? Será que será isso que vai ajudar os pps nesse encontro? Fiquem ligadas que o encontro dos dois já está próximo! Hehehe
Espero que tenham gostado! ^^
Um beijo e um quejito pra vocês meninaaaxxxxx :*



Outras Fanfics:
You Me And A Baby
She Forgot Us
Duas Irmãs e os Winchesters
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Amor de Rua

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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