Última atualização: 01/01/2019
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Prólogo


POV ALEX:
Estava em casa sozinho novamente, e eu já estava me cansando daquela situação. Era toda hora meu pai chegar em casa completamente bêbado e sem respeito nenhum com minha irmã mais nova. Sei que ele está sofrendo, eu também estou, mas será que ele não liga para os nossos sentimentos? Será que ele não vê que eu e minha irmã precisamos dele?
Estava deitado no escuro de meu quarto quando vejo a porta ser aberta e logo meu colchão afundar, era minha irmã, somente pelos seus bracinhos ao me abraçar pelo pescoço. Anne pegou essa mania de vir até meu quarto, pois não conseguia dormir.
– Lex, saudadi da mamãe. – Fechei meus olhos e a abracei ainda mais forte, deitando-a em meu colo. – Promete que não vai me deixar?
Anne tinha cinco anos e ela era esperta demais para uma criança da sua idade, e isso me deixava cada vez mais orgulhoso da minha irmã.
– Prometo, Anne, agora trate de dormir, ok? – Dou um beijo em sua cabeça.
Ao vê-la dormir, levanto da cama, cobrindo-a com minha coberta, dei um beijo em sua testa e desci até o andar da minha casa. Encontrei meu pai lá juntamente com bebida na mão, ele estava totalmente esparramado no sofá, e ver aquela cena me deu vergonha de ser filho de alguém como ele.
– Pai, chega disso por hoje, sabe que amanhã é um dia especial. Não estraga isso, por favor. – Sentei calmo em sua frente, tentando me controlar. – Você não era assim, papai, o que aconteceu?
– O que aconteceu, moleque? VOCÊ SABE MUITO BEM.
– Sei, fale baixo que Anne está dormindo. Eu também sinto falta da mãe, pai, mas Anne precisa de nós dois, eu não consigo dar conta sozinho. Eu preciso da sua ajuda. Preciso do meu pai de volta.
– Você não se importa comigo, não é? Não vê que estou sofrendo e que eu faço de tudo por vocês?
– Não me importo? Pai, o que eu mais tenho feito é me importar. Eu tenho sido praticamente o dono dessa casa durante esses dois meses, e mesmo sofrendo, eu cuido da Anne, porque sei que ela precisa de mim. Não posso ficar me afundando em bebidas, não posso sair do meu trabalho, eu sei que esse sentimento é ruim, pai, mas...
Respiro fundo sem terminar a minha fala, mas desisto de fazer meu pai entender que ele está nos deixando. Ele nunca se importou comigo de qualquer forma, sorte que pelo menos a Anne ainda tinha seu amor. Subi ao meu quarto e abracei minha irmã de conchinha na cama, sentindo sua mão agarrar a minha, sorri com isso e dei um beijo em sua cabeça.
– Vai ficar tudo bem.


Capítulo 1


POV :
Acordei no dia seguinte com uma tremenda ressaca, e o que eu menos queria era levantar daquele sofá. Olho em minha volta, notando a quantidade de bagunça que tinha naquela casa, aliás minhas bagunças. Suspirei, cansado. Eu estava cansado, e não via mais razão de viver desse jeito.
Olho para a estante da televisão, encontrando uma foto minha e de Clara, e nem reparo que mais lágrimas começam a surgir no meu rosto. Funguei, passando as mãos nos olhos, como sentia sua falta.
– Se você estivesse aqui, seria tudo tão mais fácil. – Falei comigo mesmo, segurando a foto, sentindo uma pontada na cabeça. – Eu não sei se vou conseguir sem você, Clara.
– Papai? – Olho em direção à escada, vendo uma menininha de cabelos morenos e olhos castanhos vindo em minha direção, devagar, parecendo com medo.
E foi aí que eu me senti um lixo. Minha filha estava com medo de mim. Fecho meus olhos, abaixando a cabeça. Sinto uma mãozinha tocar o meu braço, fazendo carinho, sorri com isso e a olhei, toda a ressaca parecia ter ido embora enquanto olho seus olhos brilhantes, mas esse brilho era de lágrimas. Só me dei conta disso quando a pequena subiu em meu colo e se aninhou no meu peito, começando a chorar baixinho, enquanto me apertava em um abraço. Automaticamente eu a abracei e comecei a fazer ela se acalmar.
– Calma, filha, não chora. O papai está aqui.
– Papai, a mamãe vai vir no meu aniversário? – Ela se desencosta do meu peito e me olha tristinha, fazendo-me arregalar meus olhos. – Estou com saudades da mamãe, pai.
– Anne, eu já disse que a mamãe está viajando, maninha. – Olho para a escada novamente, vendo meu garoto ali.
Alex estava me deixando orgulhoso ultimamente, e eu não devia ter sido tão grosso com ele ontem, ele só está preocupado comigo, e isso é o que me mantém vivo, ter meus dois filhos comigo. Mas eu estava com medo, pois meu pai ontem me ligou dizendo que, se eu não melhorar, se eu não começar a reagir, ele vai tirar meus filhos de perto de mim, e isso eu não posso aturar. Foi por esse motivo que perdi a cabeça e comecei a beber.
Muita coisa mudou nesses últimos meses; saí do meu trabalho, coisa que não deveria ter feito. Na verdade, eu sou escritor, meu pai me afastou da empresa porque, segundo ele, eu não estou em condições de nem criar meus filhos, imagine para ter alguma inspiração para escrever. E foi aí que eu pirei, eu não suporto ficar sem trabalho, porque eu realmente amo fazer o que eu faço, e afastando-me da empresa me deixou mais para baixo ainda. E meu filho, vendo que eu estava na pior, começou a trabalhar em uma lanchonete perto de casa para conseguir sustentar a família. Ele era só uma criança e não precisava lidar com problemas de adulto. Ainda não era a hora. E Anne... Estávamos tão felizes, ela era tão apegada à mãe que eu não tive coragem de dizer que sua mãe nos deixou, ela não ia ficar bem, e é isso que me deixa irritado.
Eu queria fazer tudo certo. Eu não sei como tudo foi acabar desse jeito, estávamos tão felizes, Alex tinha passado no vestibular e final do ano foi sua formatura, o último evento que Clara estava presente e parecia tão feliz. Ela veio a falecer antes do Ano Novo, e uma data que foi tão importante para a gente, esse ano não teve cor. Agora Clara estaria começando a ver os preparativos para a festa de Anne, que vai ser nessa primeira semana de fevereiro. Nossa filha adora seu aniversário, e não ter Clara presente nesse ano e saber que a culpa foi minha, por mais que todos dizem que não, deixa-me muito mal. Como vou dizer a minha filha que sua mãe não estará presente?
– Mas a mamãe disse que ia chegar a tempo, Lex, ela disse que iria sair da viagem antes do meu aniversário.
Minha filha não sabia que sua mãe partiu, deixou-nos, achamos melhor não contar, mas sei que fiz errado nisso. Ela era apegada demais à mãe. A campainha tocou e eu franzi o cenho.
– Estamos esperando alguém, filho? – Perguntei a Alex, levantando do sofá ainda um pouco tonto, mas nada que não pudesse aguentar.
Segurei minha filha nos braços, enquanto via Alex caminhar até a porta.
– Chamei o vovô e a vovó para passar um dia com a Anne e..
– Não quero, Alex. Quero ficar com o papai e você. – A pequena se aninhou mais em meu colo.
– Calma, baixinha, você vai. Depois que passar pelo menos uma hora com o vovô e a vovó, eles estão morrendo de saudades.
Meu filho abriu a porta, revelando meus pais, e eu congelei, nem deu tempo de arrumar a folia da casa, e com certeza sabia que iria levar um belo sermão. Engulo a seco, olhando para meu filho, enquanto meus pais entraram em casa.
– Mas que bagunça é essa, ? – Meu pai fica em minha frente, no meio da sala. – Até um dia antes do aniversário da sua filha você... – Meu pai respirou fundo. – Quem é você e o que fez com meu filho?
– Richard.
– Pai, eu... – Abracei minha filha.
– Vô, por que vocês não levam Anne passear enquanto arrumamos a casa, e daí eu chamo vocês?
– É uma boa ideia, querido. Vamos, Richard. – Minha mãe pegou Anne e deu um beijo na minha testa. – Fica bem, meu filho. – Minha mãe agradou meu rosto, sorrindo. Sentia a sua falta.
– Vou tentar.
Minha mãe saiu, fazendo brincadeiras com Anne, e meu pai ficou ali olhando-me com aquele olhar decepcionado. Suspirei, olhando para baixo. Eu sabia que ele tinha vergonha, e estava certo, eu só queria poder ter forças para sair desse buraco em que eu me meti.
– Vou voltar com Anne. Mas, filho, por favor, pare com esse tanto de bebida. – Forcei-me para não revirar os olhos. – Olha só esse garoto que você tem. – Meu pai caminhou atrás do meu filho e o abraçou, como fazia comigo quando era pequeno. – Olha a menininha linda que é a Anne, você quer os perder por causa da bebida?
– Você não ousaria os tirar de mim pai. – Retruquei, nervoso.
– Eu não quero fazer isso, filho, mas se você continuar assim...
– Eu estou bem, que merda. – Gritei, nervoso. – Eu estou tentando lidar com a.. – Baixei meu tom de voz para minha pequena não ouvir. – Com a morte da Clara. Você não sabe como é difícil, pai, você não passou por isso.
– Existem outras maneiras de acabar com o sofrimento, com a dor. Só pense nos seus filhos, ok? Pense em você. Eu quero ver você bem, moleque. – Meu pai se aproximou de mim, batendo de leve no meu ombro e dando aquele sorriso confiante. – Quero você de volta no trabalho, a empresa não é a mesma sem você, todos sentem sua falta lá, e eu sei que meu filho não é nenhum alcoólatra para ficar bebendo desse jeito, sendo que você nunca tocou em bebida nesse exagero. E eu sei que meu garoto está aqui em algum lugar, e sei que você não vai me decepcionar, .
Meu pai saiu, e em casa só ficamos eu e meu filho, o qual eu o ignorei. Subi para meu quarto, planejando tomar um banho para me livrar de toda essa angústia que estava sentindo. Mas, ao entrar em meu quarto, ouço passos e sei que meu filho me seguiu. Tiro a camiseta toda suja de vômito e vou até o banheiro, jogando-a no cesto de roupa suja, e foi aí que meu filho se pronunciou.
– Pai, eu quero te mostrar uma coisa. – Olho-o, confuso, e ele engoliu a seco. – É sobre a festa da Anne.
– Filho, já disse que não vamos fazer festa nenhuma, não temos dinheiro para...
– O senhor só pode vir comigo até a cobertura do prédio? Por favor. Só temos hoje para arrumar toda aquela bagunça.
– Espera, por que nós temos que arrumar a bagunça do prédio?
– Bem, o senhor só vai saber se vier comigo. – Ele sorriu tímido, e só fazia isso quando estava para aprontar alguma coisa.
– Alex , o que você está aprontando?
– Vem, pai! – Meu filho me puxou pela mão e correu até fora do apartamento.
Ele nem notou que eu estava sem camisa, mas isso não importava ao eu notar o sorriso do meu filho, que há muito tempo estava sumido. Ao chegarmos na cobertura do prédio, Alex abre a porta, colocando as mãos no bolso, e me olhava com expectativa. Estranhei seu nervosismo, o que me fez olhar para dentro do salão. E lá tinha um monte de itens de festa infantil, como um bolo, mesa, bexiga, doces, aqueles enfeites de colocar na parede, tudo do desenho preferido da minha menina. Branca de Neve.
Olhei para Alex de boca aberta. Sua reação, por melhor que seja, mexeu comigo. E não de um jeito bom, e com certeza não a que ele estava esperando.
– O que achou, pai? Acha que minha irmã vai gostar?
– Filho. – Aproximei-me, colocando minhas mãos nos seus ombros. – Por que fez isso?
– O quê? – Seu sorriso desapareceu, mas tive que ser forte, ele não podia se preocupar com essas coisas. – Como “por que”, pai? É aniversário da Anne, sua filha, a gente sempre comemorou e fizemos festa, por que esse ano não?
– PORQUE SUA MAE NÃO ESTÁ AQUI. – Gritei, fechando os olhos e esmurrando a porta cobertura. – Filho...
– Não, pai, ela não está, mas Anne não precisa ser punida por causa disso. Pai, você tem que entender que sua vida tem que seguir em frente, nós precisamos de você.
– Não precisam não, está até gastando dinheiro com bobagens, garoto.
– Bobagens? – Meu filho riu debochado, fazendo meu coração apertar. – Na boa, pai, é melhor você descer.
– Alex, tenta me...
– Por favor, pai! – Fiquei um tempo encarando-o até que, quando fui me virar, meu filho disse baixinho e parecendo segurar o choro. – Vovô tem razão, você agindo desse jeito não parece meu pai.
Respiro fundo, ignorando-o. Começo a descer até nosso apartamento e, ao chegar, fecho a porta com raiva, encostando-me nela, literalmente caindo até o chão. Passo as mãos pelo cabelo, sentindo-me um completo lixo por deixar as coisas chegarem a esse ponto. Eu estava feliz sabendo que meu filho estava trabalhando, sabendo que estava juntando dinheiro para fazer as suas coisas, mas não sabia que ele estava tão preocupado a ponto de realizar uma festa e pagar as contas de casa.
– Aonde foi que eu cheguei? – Bato a cabeça na porta, fechando os olhos. – Clara, por que você tinha que ir? Eu preciso de você, nós precisamos. – Lágrimas começaram a sair do meu rosto e eu não consegui escondê-las. – O que eu vou dizer a Anne, Clara? Eu não quero vê-la triste.
Pensar em Clara, em tudo que a gente viveu, era tão dolorido agora, todas as lembranças, os momentos que passamos, o modo como nos conhecemos. Fechei os olhos para tentar espantar esses pensamentos, enquanto caminho até o quarto do meu filho. Sorri com a sua bagunça. Ele é a minha descrição de quando tinha sua idade.
Caminho até sua cama, arrumo-a e, no momento em que levanto a cabeça, olho uma foto que me chamou a atenção na mesa do meu garoto. Caminho até lá, franzindo o cenho, pegando o porta-retratos em minhas mãos. Na foto era meu filho com uma menina de sua idade em seus braços, a menina era morena, de olhos azuis. Ele estava usando uma jaqueta do time de futebol de sua escola. Seria namorada dele? Por que ele não me disse nada?
– Essa é a Mel. – Pulei de susto ao ver meu filho no batente da porta, com os braços cruzados.
– Não faz mais isso, Alex.
– Por que está aqui?
– Porque eu queria pedir desculpas, filho. – Sento em sua cama e ele faz o mesmo em meu lado. – Sei que fui um idiota lá em cima.
– Só não entendo por que, pai. – Ele me olha decepcionado. – Eu demorei tanto para conseguir essas coisas para festa da minha irmã porque quero vê-la feliz, e pensei que isso podia te ajudar a...
– Não preciso de ajuda, Alex, quem precisa é você, eu vou até lá ajudá-lo a arrumar a festa. Sua irmã vai ficar realmente feliz. – Apertei seus ombros de leve, sorrindo.
– Então o senhor vai para a festa amanhã? – Seus olhos brilharam junto com um sorriso, e meu coração acendeu.
– Vou com uma condição.
– Qual?
– Quem é essa Mel? – E meu filho riu, fazendo-me sorrir.


Capítulo 2


POV ALEX:
Caramba, fiquei tão feliz que meu pai queria pelo menos me ajudar a arrumar a festa da minha irmã. Eu fico tão mal vendo que ele está para baixo, e eu sei que ele não é assim. Ele mudou muito com a morte da mamãe, ele nem parece o mesmo homem, aquele homem que era meu herói. Eu não quero que o vovô me afaste dele, por mais que ele esteja no momento agindo assim. Sei que ele, para reagir, precisa de mim e da minha irmã, das pessoas que ele ama, por perto.
Meu pai é um cara família, para ele o que mais importa é ver todo mundo feliz, ele se preocupa muito com os outros e se esquece de cuidar de si mesmo. E isso, na minha concepção, é meio errado. Claro que temos que nos preocupar com nossa família, mas também temos que tirar um tempo para nós mesmos, saber conciliar, e esse é o grande problema do meu pai.
– A Mel é uma amiga, pai. – Respondi sua pergunta, sorrindo.
Afinal, a Mel é minha melhor amiga, e eu sou um cara que não consigo me relacionar muito bem com as pessoas. Na verdade, consigo, mas eu não consigo confiar de cara em um outro alguém, e com ela eu consegui, apesar de ter conhecido ela há somente um ano.
– Uma amiga? – Ele sorriu malicioso, erguendo as sobrancelhas. – Tem certeza?
– Está vendo por que não queria te contar? – Bati em seu ombro com o meu, rindo. – Você sempre com pensamentos impróprios.
– É que, agora que eu estou notando, você nunca trouxe nenhum dos seus amigos aqui em casa, filho. Por que isso?
– Não sei, pai. – Meu tom mudou para triste. – Eu não sou um cara de fazer muitos amigos, que nem você e o tio faziam na minha idade.
– Por quê? O que te impede de fazer amigos?
– Não é que eu não tenha, pai. Eu tenho, mas poucos.
– Assim que é bom, muita amizade só cria intriga, e às vezes eles nem são seus amigos. Para você ter noção, meus únicos amigos verdadeiros e que eu carrego até hoje são seu padrinho e Cody. Esses, sim, que eu posso dizer que são meus amigos.
– É assim que eu me sinto com a Mel, pai, e engraçado que eu nunca tinha sentido antes por ninguém, eu só queria passar em uma faculdade e do nada ela apareceu. Faz um ano que a gente se conhece, mas parece que faz anos, e eu me sinto bem com ela.
– Estou sentindo que tem um “mas” por aí...
– Mas ela vai se mudar de cidade com o pai dela. – Desfiz o sorriso. – E eu não queria que ela se afastasse.
– Você sabe que não precisa.
– Então eu tenho que ir com ela? Pai, minha faculdade é aqui mesmo. Aliás, nem sei se eu vou fazer faculdade.
– E por que não, Alex ? – Meu pai fechou a cara e eu já sabia que o rumo da nossa conversa iria mudar.
– Porque, pai, alguém precisa cuidar da casa.
– E eu aqui? Estou fazendo o quê?
– Ultimamente? – Fui sincero. – Nada. Você se fechou nesse seu mundo. Eu também estou sofrendo, pai, mas nem é por isso que vou deixar de viver.
Meu pai levantou irritado da cama, caminhando de costas para mim. Ficou um tempo encarando a parede.
– Pai, não quero que fique irritado, mas, se você quiser recuperar na editora do vovô, você sabe que precisa reagir. Pode conseguir um emprego, porque meu salário na lanchonete é pouco e o máximo que dá é pagar a escola da Anne e...
– Sabe, eu já tenho um pai, Alex. – Seu olhar estava em chamas quando retorna seu olhar para mim. – Eu não preciso de outro, e quem é o pai nessa casa sou eu.
– Sabe, você conseguiu estragar meu dia. – Levantei-me irritado da cama. – Muito obrigado, de verdade.
Sai às pressas daquela casa. Não quero ver a cara do meu pai hoje, quero estar bem para o aniversário da minha irmã amanhã. Ela não merece a raiva que eu sinto do meu pai.
**

– Obrigado, cara. – Agradeci a Bruce. – Isso vai me fazer bem por hoje.
– Tem certeza que quer isso, Alex? Sabe que eu sempre usei, mas nunca influencie você. Você é um garoto legal, por que usar isso?
– Não é da sua conta. – Tirei o dinheiro e o paguei. – A gente se vê por aí.
Fui em um beco perto de minha casa e sentei no chão úmido da rua, peguei uma caderneta que eu tinha e pensei mil vezes se estava fazendo a coisa certa. Uma lágrima escorreu em meu rosto quando fechei os olhos pensando em minha mãe.
– Desculpe, mãe, mas eu preciso fazer isso. Eu estou com uma dor tão grande no peito que eu não consigo aguentar.
Arrumei o pó rapidamente em cima da caderneta e inspirei, sentindo o efeito rapidamente.
O que eu estava fazendo da minha vida?


Capítulo 3


POV :
Já era de noite, e nada de Alex chegar. Passaram-se quatro horas. Ele não gostava de ficar longe tanto tempo assim. Minha filha estava com meu pai, pediu para ficar o dia inteiro lá, e era até bom, pois se meu pai soubesse que eu e Alex brigamos e ele sumiu de casa, eu estaria morto. Fiz a única coisa que eu poderia fazer.
? – atendeu.
– Preciso da sua ajuda, cara. – Senti um bolo na minha garganta. – É, é importante.
– Primeiro se acalma e me diz o que houve.
– Não posso me acalmar. – Gritei, com raiva. – É sobre meu filho, .
– O que houve com meu afilhado?
Sua voz automaticamente mudou. adora Alex como se fosse seu próprio filho. A conexão deles é muito forte.
– Eu e ele brigamos, então ele saiu de casa de tarde e não voltou até agora, . Já se passaram quatro horas, e são oito horas da noite.
– Calma. Respira, . – Fiz o que ele mandou. – Alex é um bom garoto, ele não ia se meter em problemas, nunca foi de fazer isso. Vamos pensar, onde ele pode estar?
– Eu sei que ele nunca foi de fazer isso, mas é culpa minha, eu estou deixando ele sobrecarregado demais, cara! Eu não sei onde ele pode estar, essa é a questão, e se meu pai descobrir isso...
– Vai ficar tudo bem. Faz o seguinte, , se acalma, eu vou com o Cody procurar por ele, busque Anne e fique com ela. Não vá fazer nenhuma besteira que irá se arrepender depois. Pense no bem do seu filho. Fique em casa, ok?
– Obrigado, . De verdade.
– Estamos aí para isso, agora tenho que desligar, . Quando tiver notícias, te aviso.
– Tudo bem. Valeu, cara.
**

Era quase meia-noite, tinha buscado minha filha e tentei ao máximo não demonstrar que estava apavorado só de pensar na possibilidade de Alex ter se metido em problemas. Eu não consegui dormir, e isso parece ter dado efeito na minha filha, que estava vendo desenho no meu colo.
– Papai, já passou da meia-noite. – Sua mãozinha no meu rosto fazendo carinho me acordou dos meus pensamentos, fazendo-me sorrir.
– Feliz aniversário, minha princesa. – Beijei sua testa e ela me abraçou. – Eu acho que vou ter que começar a ficar esperto, minha filha está ficando linda demais. – Ela riu enquanto eu a coloquei de pezinho no meu colo.
– Você é tão bobinho, papai.
– Sou, é? – Dei risada. – Eu só quero seu bem, meu amor. – Dessa vez fui eu a receber um beijinho na testa. – Ai, que delícia. Melhor beijo do mundo.
– Te amo, papai. – Agradei seu cabelo. – Papai, cadê Alex?
– Eu não sei, meu amor. – Suspirei. – Mas não se preocupe que amanhã ele vai...
Meu telefone começou a tocar e eu mais que rapidamente peguei-o no criado-mudo. Tirei um peso enorme das costas quando eu vi “Filho “e uma foto de Alex comigo. Na hora atendi.
– ALEX, ONDE VOCÊ SE METEU? – Gritei com ele, tampando os ouvidos de minha menina.
– Senhor ? – Fiquei quieto. Era uma voz de menina, parecia ser adolescente. – Eu só liguei para dizer que Alex está aqui na minha casa.
– Quem é você e o que faz com o meu filho? Onde ele está? – Perguntei, desesperado.
– Calma. Eu sou a Mel, a melhor amiga de Alex, senhor . – Relaxei meus músculos, fechando meus olhos. Obrigado, Deus. – Eu encontrei Alex na rua, ele não estava bem, trouxe ele para minha casa e ele acabou dormindo no quarto de hospedes. Tem algum problema?
Congelei meus músculos. O que Alex fazia na rua todo esse tempo? Sozinho? Se esse moleque estiver aprontando alguma...
– Não, Mel. Posso te chamar assim, né? Sei que não nos conhecemos ainda, mas sei que é importante para meu filho, isso basta. Sim, ele pode ficar aí, vai ser até melhor para ele arejar a cabeça um pouco. Só não esquece de avisar para ele da festa da irmã, ok?
– Não se preocupe com isso, senhor , estaremos amanhã no horário.
**

E, como me foi prometido, Alex estava em casa até antes do horário combinado para a festa. Eu e minha pequena estávamos fazendo um milk-shake, porque ela queria e pronto. Estávamos nos divertindo até meu filho chegar. Alex estava sério, com uma expressão fechada, e meu filho não é assim.
– Onde você estava? – Perguntei.
Eu queria mesmo era confrontar ele, mas por causa de Anne vou deixar passar essa. Anne foi até o irmão, que praticamente a ignorou, indo em direção à escada para seu quarto, e Alex nunca tratou Anne desse jeito.
– Isso é jeito de tratar sua irmã? E ainda mais no aniversário dela? – Perguntei, seguindo-o. – Alex, me responda.
– Vai se foder.
– Como é? – Parei no meio da escada.
– É isso que você ouviu, vai se foder. – Ele se virou na minha direção.
Eu podia estar chocado demais, mas o que eu notei me deixou preocupado, Alex estava com olhos vermelhos, e isso só podia significar três coisas...
– Andou bebendo?
– Por que quer saber?
– Alex, eu estou falando sério, você sumiu por uma noite inteira. Deixou-me preocupado na véspera do aniversário da sua irmã. Aquela que você ignorou e que ela te admira. Meu filho, você não é assim, e está começando a preocupar-me.
– Por que se importa comigo? Quando mamãe estava aqui você nem se importava. Só ligava para a Anne.
– Isso é mentira. Eu te dei tudo e te dou tudo. Meu filho, o que eu falei ontem, eu estava de cabeça quente, eu estava pensando que como eu fui chegar num ponto onde meu filho tinha que cuidar de mim e de sua irmã? Isso é vergonhoso para mim, porque é minha obrigação cuidar de você e de sua irmã, não ao contrário. Eu quero que você estude, filho, para ter uma vida melhor que eu e não ter que cuidar de uma casa, de uma família, pelo menos não agora, mas sim quando você tiver a pessoa certa, entende? Isso não quer dizer que eu não me importe com você, eu me importo com você e sua irmã mais do que comigo mesmo. E eu só estou aqui aguentando tudo, tentando superar, passar por essa situação, por você e sua irmã. Vocês são minha vida, filho, e uma coisa que sua mãe não iria gostar que eu fizesse seria abandonar vocês, e isso está fora de questão.
– Mesmo com o vovô ameaçando tirar a gente de você?
– Ele nunca vai fazer isso. – Disse com convicção. – Tenha uma coisa em mente, filho, ninguém, ninguém mesmo, vai tirar vocês de mim, e eu vou passar por isso. Por essa situação, eu só preciso dirigir o que está nos acontecendo.
– E eu vou te ajudar, pai.
Meu filho me abraçou apertado. Sorri, abraçando-o de volta. Eu vou encontrar minhas forças de volta, eu não posso ficar me culpando pelo acidente de Clara, eu tenho duas vidas para cuidar e amar. Eu só preciso de tempo. Dois meses e meio é um curto espaço de tempo.


Capítulo 4


POV ALEX:
Fiquei feliz que a festa toda foi um sucesso. Meu pai tentou pelo menos não exagerar na bebida por causa do meu avô. Eu queria tanto poder ajudá-lo, mas eu já tenho os meus problemas.
Passo as mãos pelos meus cabelos, como se de alguma forma isso fosse me aliviar, e deixo cair uma lágrima no desenho que eu estava fazendo na minha mesa. Pego-o e olho para a foto de meus pais comigo e minha irmã que tinha em cima da minha mesa no quarto.
– Mãe, minha irmã ficou tão feliz. A senhora tinha que ver a alegria dela abrindo os presentes. O brilho no olhar dela era tão mágico. – sorri. – Eu prometo que vou fazer de tudo para ela ser feliz.
Ouvi batidas na porta e, quando olhei, era meu pai, que acendeu a luz do quarto e ficou sorrindo do batente da porta. Suas mãos estavam dentro do bolso da calça. Meu pai parecia feliz. Diferente do meu pai de ontem.
– Sua mãe ficaria feliz, meu filho. – Ele apontou a cabeça para o desenho. – Está muito lindo.
– Obrigado, pai, eu estou pensando em seguir na carreira de Designer, para de alguma forma ter a mamãe por perto.
Meu pai suspirou, sentando na cama. E eu sabia que isso não é coisa boa, então eu apenas girei minha cadeira em sua direção e fiquei o encarando.
– Sabe, filho, isso tudo o que está fazendo para suprir a falta da sua mãe é muito bom, eu deveria fazer isso também. – Ele disse, olhando-me nos olhos seriamente. – Mas não veja isso como um escape para fugir da realidade, ok?
– Pai...
– Eu sei o que vai dizer, filho, mas o que estou falando é para seu próprio bem, ok?
Meu pai parecia saber que eu estava entrando num caminho que não tinha mais como voltar atrás. Mas ele não entende como é não ter alguém como mamãe perto. Ela tinha os melhores conselhos, a melhor diversão, sempre do meu lado. Eu sabia que com ela não estaria sozinho, com meu pai... ele até era presente, mas sempre focado nos seus livros, nos seus personagens, e em outros autores, que às vezes esquecia que tinha sua própria família, e isso era uma das desavenças entre meus pais.
Mamãe achava que ele estava um pouco distante antes do acidente, e eu também, até porque aqui em nossa família, quando chega final do ano, é sempre momento de festa, mas nesse ano não teve, minha mãe faleceu no começo de dezembro. Num mês tão importante para nós. E eu sei que não deveria ter começado a me envolver com drogas. Mas... Suspirei.
– Será que essa dor ainda vai passar, pai?
– Com o tempo, Alex. Isso não significa que você vai deixar de amar sua mãe, ela sempre estará com você. – Meu pai se levantou da cama e se abaixou no tamanho que estava sentado na cadeira, olhando diretamente nos meus olhos enquanto segurava minha mão. – Essa dor com o tempo, Lex, vai virar saudade. E é sentindo essas saudades que temos que nos lembrar daquele tempo bom que passamos com ela. – ele bagunçou meu cabelo. – Eu estou tentando fazer isso, mas você podia começar a fazer também, ok?
Abracei-o, escondendo meu rosto em seu ombro. Meu pai sempre tinha o que falar, na hora que era preciso.
– Por exemplo – ele agradou meu cabelo, apoiando sua cabeça na minha –, quando você era mais novo, lembra que sua mãe tinha pavor quando eu você e seu padrinho saímos juntos e levávamos você?
Comecei a rir, lembrando-me de uma situação, e meu pai também. Então me afastei de seu abraço, ele estava com o olhar distante, mas assim que percebeu que eu estava o encarando, olhou-me sorrindo.
– Lembro, e ela estava mais que certa, pai, vocês me botavam em cada fria.
– Não se esqueça que você já nos colocou em uma baita furada, garoto. Eu e tivemos que dormir no sofá por uma semana depois daquela, e você saiu ileso.
Era tão legal naquela época, meus pais e eu morávamos junto com tio , eu e meu padrinho deixávamos meus pais doidinhos.
– O que eu tinha feito mesmo, pai? – perguntei aos risos.
– Você não lembra? Você tinha treze anos.
– Foi aquela vez que vi duas meninas passando e assobiei?
– Exatamente. – Olhei-o, rindo. – Você era um espertinho, viu as garotas, mas teve a oportunidade de se esconder atrás do meu carro, e como eu e estávamos em pé, a gente apanhou no seu lugar. – ele me olhou, cerrando os olhos enquanto ria. – E sua mãe estava saindo de uma loja nesse exato momento, fazendo-nos apanhar em dobro.
– Eu lembro que a mamãe ficou uma fera.
– E ficou mesmo. – ri baixinho.
Estava mais tranquilo de falar com meu pai sobre a mamãe, hoje foi mais um dia especial sem ela, e principalmente para minha irmã, que ficou o tempo todo perguntando da mãe. Lembrando disso, desfiz meu sorriso, que não foi despercebido meu pai.
– Ei, o que houve?
– Pai, quando vamos contar a Anne a verdade? – olhei-o com súplica. – Ela já não está mais acreditando nessa história de viagem, ela sabe que mamãe nunca foi de ficar tanto tempo fora.
– Eu sei, ela me perguntou de sua mãe antes de eu colocá-la para dormir. Eu só acho que ainda não é o tempo certo, entende? Eu preciso arranjar um jeito de conseguir bolar uma coisa, de como conta-la, mas está meio impossível.
– Ela merece saber a verdade, pai.
– Sei disso, Alex, mas não hoje e nem essa semana. Eu ainda preciso de um tempo, ok? Agora vamos dormir, que alguém tem trabalho amanhã, não é? – Ele bagunçou meu cabelo e eu ri. Meu pai tinha essa mania. – Amanhã vou levar sua irmã na escola, não se preocupe com isso, ok?
– Ok, pai, boa noite.
– Boa noite, garoto. – meu pai bateu no meu ombro e saiu do quarto.
Assim que ele fechou a porta, joguei-me na cama. Eu estava feliz, meu pai estava começando a voltar a ser que nem ele era, só espero que nada aconteça de ruim para ele voltar a beber. Olhei para uma foto de minha mãe ao lado do meu criado-mudo, dei um beijo nela, apagando o abajur e logo caindo no sono, com a sensação de dever comprido. Minha irmã estava feliz, e era isso que me importava.


Capítulo 5


POV :
A conversa com meu filho tinha me feito tão bem. Eu sei que faço coisas erradas, mas minha dor é muito mais forte que não consigo suportar. Eu e Clara nos conhecemos quando éramos crianças, pois nossos pais eram melhores amigos. Estava sendo muito difícil, mas meu filho não precisava ir pelo mesmo caminho que o meu. Ele tem que seguir a vida dele e saber que sempre estarei lá para apoiá-lo. Alex é um garoto de ouro, nunca me deu problemas, é responsável, e isso me deu certeza que eu e Clara o criamos muito bem, mas o problema é que eu tenho percebido meu filho muito distante. E isso, definitivamente, não é bom sinal.
Agora, já Anne é um amor, mas ultimamente está me perguntando muito da mãe, e eu não sei o que responder. Isso está me deixando louco.
– Bom dia, pai. – Alex me deu um beijo no cabelo e dois tapinhas no ombro. – Lendo jornal? Quem lê jornal hoje em dia quando se tem internet?
– Seu pai, oras. – ele riu, enquanto eu fechava o jornal. – Cadê sua irmã?
Ouvi um risinho atrás do balcão da cozinha, e Alex me trocou um olhar silencioso, rindo.
– Eu não sei não, pai.
– Tem certeza? – ergui a sobrancelha. – Porque, se uma garotinha chamada Anne não aparecer em cinco segundos, não irá ganhar panqueca com choco...
Minha filha veio correndo e eu a peguei no meu colo, rindo e dando um beijo em sua cabeça.
– Bom dia, papai.
– Bom dia, minha princesa.
Olhei Alex, que estava tomando café, olhando a janela, depois retomei o olhar para minha pequena.
– Preparada para ir à escolinha? Está até de uniforme já.
– Eu não quero ir, papai. – fez beiço, abraçando-me apertado. – Lá é muito chato.
– Não é chato, meu amor, lá você tem amiguinhos para brincar. Você não gosta de seus amiguinhos?
– Gosto, papai, mas eu não quero ir, a professora Grace saiu da escolinha. E se a professora nova não gostar de mim? – fez beiço de novo e eu ri.
Minha filha adorava conversar, especialmente com seus professores, que sempre a elogiavam para mim e Clara. Minha filha costumava a ser uma das melhores alunas da turminha dela, justamente por essa vontade de sempre querer saber mais do que já sabe. Levantei-me da cadeira e fui até o balcão, pegando sua lancheira e entregando-a, que prontamente segurou.
– Ela vai te adorar, não se preocupe. – pisquei para minha princesa. – Agora, mochila?
– Confere.
– Lancheira?
– Confere, papai. – ela riu.
– Fez a tarefa de casa?
– Papai, é meu primeiro dia de aula.
– Eu sei, meu amor, estava brincando com você.
Rimos, olhei Alex, que estava um pouco aéreo olhando a janela. Preocupei-me.
– Filho, já vou levar sua irmã, quer que eu te dê carona para o trabalho?
– Não precisa, pai, eu...
– Faço questão.
– Tudo bem.
Peguei o molho de chaves e Alex saiu correndo atrás da irmã até o carro, sorri lembrando de tempos passados que já não voltam mais. E, da casa da frente... Pude observar meu pai observando-me da janela, com uma cara fechada e tomando seu chá. Suspirei, entrando no banco do motorista e indo levar minhas crianças aos seus destinos. Sinto que hoje irá acontecer uma coisa nova, algo diferente e uma sensação boa, e faz tempo que não me sentia assim. Nem mesmo o olhar do meu pai vai acabar com minha alegria.
**

Chegando na escola da minha filha, acompanho-a até sua sala, mas assim que chego, ela se agarra a minha perna. Suspiro e me abaixo a sua altura, agradando seu cabelo. Ela precisa saber que voltarei para pegá-la.
– Meu amor, você tem que ir agora, eu prometo que voltarei.
– Mas, papai, e se ninguém gostar de mim? – Ela ergue seus olhinhos, chorando, logo os enxuguei.
– Quem não gostaria de você, meu amor? – Agradei seu cabelo, passando-lhe segurança. – Hoje você vai se divertir, conhecer coleguinhas novos. Você estava tão empolgada, e além do mais olha quem está vindo ali.
Minha filha olhou na direção do corredor e logo ficou empolgada, e eu fechei a minha cara, fingindo estar bravo.
– Thiiiiiiii...
Minha filha e seu melhor amigo se abraçaram quando correram em direção um ao outro.
– Ann, que saudadi. – Sorri ao ver os dois se abraçarem, Thierry olhou em minha direção enquanto abraçava minha pequena. – Oi, tio .
Ele se soltou de minha menina e veio em minha direção, esticando seu bracinho. Ergui a sobrancelha, fingindo-me de bravo. Adorava provocá-lo.
– Você vai cuidar da minha menina, Thierry?
– Papai...
– Eu sempre faço isso, tio . – apertei a mão dele e sorri.
– Então pode me chamar de tio , ok? – ele balançou a cabeça. – Filha, o papai tem que ir agora, mas prometo que volto, ok?
– Tudo bem. – Ela beijou meu rosto. – Tchau, papai. Vamos Thi, a professora está vindo.
Olhei para ver a nova professora da minha filha e não sei por que meu coração bateu mais rápido. Ela estava com o cabelo preso e ele era castanho, segurava os materiais que provavelmente usaria para a aula, usava uma jaqueta de couro e uma calça jeans.
Devia estar muito na cara quando ela passou a mão no fio solto do cabelo e colocando atrás da orelha que ela me chamou a atenção, pois ela me deu um sorriso tímido assim que se aproximou de mim.
– Olá. – disse ela ao parar na porta, e foi ai que eu sai do transe.
– Oi. – sorri, tímido. Olhei para minha filha e então para a porta, dando a passagem para ela. – Desculpe por isso.
– Sem problemas, vejo que já conheci uma de minhas alunas. Como é seu nome, princesa? – A professora se abaixou na frente de minha filha, que agarrou minha perna. – É tímida? – perguntou, olhando para mim.
– Que nada. Só está assim com medo da professora nova não gostar dela.
– Papai. – minha filha olhou brava para mim e nós dois rimos. – Oi, professora.
– Oi, lindinha, como se chama?
– Anne, e você? – sorri.
– Me chamo .
Nome bonito ela tinha, combinava com ela. Mas eu tinha que me apressar. Tentarei arranjar um emprego hoje, porque caso ao contrário, eu nunca vou conseguir voltar para meu cargo na empresa do meu pai.
– Sinto que vamos ser grandes amigas, Anne. – bagunçou o cabelo da minha pequena, que riu.
– Bom, eu tenho que ir agora. Thierry, cuide da minha menina. – Olhei para ele sério, notando a mulher a minha frente rindo da minha brincadeira com Thierry.
– Pode deixar, tio . Vem, Anne.
Os dois entraram na sala, e eu suspirei. Só espero que o que aconteceu com Clara não afete o desenvolvimento escolar de minha menina.
– Ela vai ficar bem, não se preocupe. – sinto uma mão no ombro, e a dona da mão era a professora. – Ela é aluna nova?
– Não. – sorri, tímido. – É só que... eu estou preocupado com umas coisas, e deixar minha pequena na escola no meio disso tudo...
– Eu não sei o que está acontecendo e eu não quero ser intrusa, mas se alguma coisa acontecer com a menina, pode contar comigo que irei avisá-lo.
– Obrigado, professora, agora tenho que ir, não vou tomar muito mais do seu tempo.
– Que isso, foi um prazer conhecê-lo...
, mas pode me chamar de .
– Certo, . Até a hora da saída então.
– Até. – respondi, sorrindo.
Caminhei até fora da escola, com um pedaço do coração na mão. Minha filha precisa se recuperar dos estudos, e eu preciso conseguir um trabalho. As coisas precisam voltar como eram antes, pelo bem dos meus filhos.


Capítulo 6


POV ALEX:
Hoje o dia no trabalho foi corrido demais, estava morto. Uma galera não foi e tive que fazer a maior parte sozinho. Mas eu estranhei uma coisa: ninguém estava em casa, nem meu pai, nem minha irmã. Já procurei pela casa inteira, e nesse horário... eles já deveriam ter chegado.
– Pai? – chamei-o de novo. Estava começando a ficar nervoso.
Ia chamar de novo, mas deu para ouvir a voz do meu avô da casa da frente, discutindo com a vovó.
– EU VOU MATAR ESSE MOLEQUE.
O que meu pai aprontou dessa vez? Corri até a casa e não resolvi entrar, fiquei observando pela janela. Detestava brigas, mas uma coisa me chamou a atenção, minha irmã estava chorando no sofá. E nenhum sinal do meu pai.
– RICHARD, PARE COM ISSO. VOCÊ SABE COMO ESTÃO DIFÍCEIS AS COISAS.
– NÃO VENHA O DEFENDER, OLIVIA, SEU FILHO TEM 35 ANOS E NÃO É MAIS UM MOLEQUE. ELE PRECISA TOMAR UM JEITO NA VIDA.
Estou começando a ficar preocupado, meu pai estava indo tão bem... até levando minha irmã na escola e levando-me no trabalho.
– Vovô, não briga com o papai.
– Fica quieta, Anne, isso é assunto de adultos. Criança não se mete.
Fiquei com raiva do meu avô. Quem ele pensa que é para falar assim com minha irmã?
– Não fale assim com a menina, fique calmo, deve ter uma boa explicação.
– Ollie...
– Vovô, foi minha culpa, o papai não deve levar bronca por minha causa.
Sinto alguém se aproximando, e quando olho na direção de minha casa, era meu pai. Caminhei até ele.
– Onde estava? – perguntei, ríspido.
Meu pai se virou para mim e aparentemente ele parecia nervoso, pois estava ofegante.
– Procurando emprego.
Aquilo me deixou um pouco aliviado por ver que ele estava com vontade de seguir em frente, mas isso mexeu comigo, porque ele esqueceu da minha irmã na escola.
– E você não tinha outro compromisso?
– Tipo o quê?
– Deixa de ser idiota. – alterei meu tom, aproximando-me com raiva do meu pai. – Você sabe muito bem o que fez, ou você esqueceu que tem uma filha?
– Merda. – Meu pai passou a mão no cabelo.
Quando ele olhou para a casa da frente, seu olho arregalou ao ver minha irmã na casa dos meus avós. Ele engoliu a seco.
– Filho, eu juro que eu não fiz por mal, eu estava preocupado procurando trabalho, e em todos os lugares que eu ia, não encontrava. Por favor, não fique irritado comigo, eu estava sem celular, nem sei que horas são, eu perdi a noção do tempo, desculpe-me Alex.
Senti o desespero do meu pai, então descruzei meus braços. Ele estava sendo sincero, dava para ver, o que eu sentia pena do meu pai é como ele vai explicar isso para o vovô. Mesmo dizendo que estava indo atrás de emprego, vai ser muito difícil meu avô acreditar.
– Tudo bem, pai, você não me deve explicação, afinal sou seu filho. – Senti a calma no olhar do meu pai. – Vai para dentro, relaxe, vou buscar a Anne e tentar acalmar o vovô.
– Seu avô é um cabeça dura, ele não vai acreditar em mim, Alex... Eu não sei o que eu faço. – passou de novo a mão no cabelo, olhando para o céu. – Seu avô vai jogar um monte de coisa na minha cara depois dessa, e não sei se estou preparado para isso.
– Vai dar tudo certo, pai. Só faz o que eu disse. Ok?
– Obrigado, filho.
– De nada. – sorri.
**

– E como estão as coisas aí, Ale? – era Mel.
Nós dois estávamos conversando em vídeo, já tinha buscado Anne no vovô e tentado falar com o mesmo, mas ele sequer queria me ouvir, já minha avó disse para deixar ela falar com ele e com meu pai. Eu estava no meu quarto, sem saber o que fazer.
– Na mesma, Mel. Meu avô está com raiva do meu pai porque ele esqueceu minha irmã na escola, mas... não foi culpa dele dessa vez.
– Tadinha da Anne, seu pai devia ter um motivo, você não me disse que ele estava tentando seguir em frente?
– Disse, e é verdade, tanto que ele se atrasou porque ele estava procurando emprego, já que meu avô não o quer mais na editora. Mel, eu não sei o que fazer, as coisas estavam tão boas e do nada minha mãe nos deixa, minha vida vira um inferno. A gente não era assim, quando você me achou na rua naquele estado... Aquele não era eu. Sinto muito você ter me visto daquele jeito.
– Ei, eu já te disse o que eu acho sobre ter visto você naquele dia, não precisa ter vergonha, Alex e...
– É claro que eu fico, MeL. – Suspirei, fechando os olhos. – Eu nunca tinha usado antes, nunca. Eu perdi a cabeça. Estava tão irritado e magoado que não pensei no que aquilo pode trazer de ruim para mim.
– Só me prometa que não vai usar aquilo de novo. Você sabe como eu me senti vendo você naquele estado.
– Só peço que me perdoe e...
– Lex, lex... – minha irmã entra correndo e chorando no quarto.
– Mel, tenho que desligar, amanhã a gente se fala.
– Beleza, se cuida.
Quando Mel desligou o celular, minha irmã pulou no meu colo, e eu já fiquei nervoso ao ver minha irmã chorando. Anne se escondeu em meu peito, então ergui sua cabeça, limpando seus olhinhos.
– O que houve, pequena?
-Lex...
– O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO DA VIDA, MOLEQUE?
Minha irmã não precisou dizer mais nada, já deu para perceber o motivo dela estar chorando e vir para o meu quarto. Era sempre assim, quando tinha briga dos nossos pais, ela sempre vinha aqui, parece que meu quarto era seu refúgio.
– Pai, Alex e Anne devem estar ouvindo por...
– POR FAVOR O CARAMBA, EU TE DEI UMA CHANCE DE VOCÊ SAIR DESSA, MAS VOCÊ NÃO ME ESCUTA.

Fechei os olhos, odiava quando os dois brigavam e eu não podia fazer nada para pará-los. Anne se agarrou na minha blusa novamente, eu comecei a balançá-la, tentando acalmá-la.
– Eu não queria que o papai e o vovô brigassem por minha culpa, Lex. – cortou-me o coração ouvir minha irmã dizendo isso, ainda mais fungando.
– Calma, meu amorzinho, não é por sua culpa, ok? E...
– ONDE VOCÊ ESTAVA HOJE QUE NÃO FOI NEM CAPAZ DE CUMPRIR UMA PROMESSA PARA SUA FILHA? NÃO FOI CAPAZ NEM DE BUSCA-LÁ NA ESCOLA.
– EU ESTAVA PROCURANDO EMPREGO, OK? JÁ QUE ATÉ ISSO O SENHOR TIROU DE MIM, SE NÃO FOSSE POR VOCÊ, CLARA ESTARIA... – meu pai se silenciou.
– Você não tem direito de falar isso para o seu próprio pai. – meu avô estava mais irritado, só pelo tom de voz.
– Agora você vem dar uma de pai? VOCÊ SÓ FERROU COM A MINHA VIDA.
– CHEGA, EU NÃO VOU ATURAR DESAFORO VINDO DE VOCÊ, MOLEQUE, AINDA BEM QUE SUA MÃE NÃO ESTÁ AQUI, PORQUE EU QUERO VOCÊ FORA DESSA CASA.

Isso foi o cúmulo para mim. Eu amo meu avô, mas quem ele pensa que é para expulsar meu pai da própria casa? Preciso interferir, pois seu que meu pai irá falar merda, e isso não é nada bom.
– Anne, não saia daqui, ok? Fique jogando um jogo no meu celular, mas não saia daqui.
Coloquei minha irmã na cama e saí correndo até lá embaixo. Papai e vovô estavam no hall do corredor, meu pai apoiado no sofá, olhando para baixo. Tenho medo quando ele fica assim, porque sei que ele vai explodir, e só não faz em respeito ao meu avô.
– Gente, chega, Anne está chorando lá no quarto e ela nem sabe o que está acontecendo. – tentei ser o mais calmo possível, porém nenhum dos dois olharam para mim. – Vamos tentar nos acalmar por ela, ok? Ela não sabe o que aconteceu com a mamãe.
Meu avô estava demonstrando ódio para meu pai no olhar e meu pai não olhava para meu avô, mas olhou para mim sorrindo de leve, o que desapareceu quando meu avô abriu a boca.
– Alex, suba para o quarto, isso aqui não é assunto para você.
– Como não é? – exaltei-me.
– Filho, calma. – meu pai tentou se aproximar, mas dei um passo para trás. – Está tudo bem.
– Não está. Como que o vovô tem coragem de expulsar você daqui, sendo que aqui é a nossa casa? Eu não vou permitir.
– Você não tem que permitir nada, moleque, essa casa fui eu que dei para vocês. Agora se quer tanto proteger esse merda que chama de pai, pode ir com ele.
– CARALHO, PAI. – Meu pai se exaltou, ficando em minha frente. – Eu sou um bom pai, sempre dei o melhor para meus filhos. Agora, se o problema é comigo, lide comigo, não desconte nos seus netos. QUE MERDA. Você sempre adora jogar na cara das pessoas que eu sou um lixo e dependo de você, que você pode tirar tudo de mim a qualquer momento, mas não é bem assim, não mais. EU CRESCI, e ainda bem que eu puxei à mamãe.
Só deu para perceber o tapa que meu pai levou. Arregalei meus olhos. Durante toda minha vida, nunca vi o meu avô erguer a mão para o meu pai.
Meu pai passou a mão no rosto, e mesmo estando de costas para mim, sei que estava em choque, ele se virou para mim e pude ver uma lágrima de seu rosto, e meu pai nunca chora. Apenas sussurrou com a boca que estava tudo bem e virou para meu avô, logo em seguida saindo de casa. Fiquei encarando aquele que eu considerava um máximo, mas a partir de agora...
– Alex, o que aconteceu aqui...
– Vai embora. – cuspi, ríspido. – Como pôde fazer isso com seu próprio filho?
– Ele é homem adulto e sabe se virar, agora invente uma desculpa para sua irmã, arrumem suas coisas e venham...
– Não vamos sair daqui, esquece. Aqui é nossa casa, você pode mandar no papai, mas em mim e na minha irmã não. Só obedeço às ordens vindas do meu pai.
– Que isso, moleque? Você nunca foi de me responder desse jeito. O que acontece entre mim e seu pai não precisa afetar nós dois, entendeu?
– Claro que afeta, a partir do momento em que você o ofende, está ofendendo a mim também. O papai estava indo tão bem vô, dessa vez ele não teve culpa, tenta relevar.
– Relevar, Alex, você não sabe o que realmente aconteceu entre mim e seu pai para pedir para eu relevar.
Senti o clima mudar de tão entretido nesse mundo dele que me deu medo e eu preferi continuar quieto. Sem saber o que fazer.
– Mel irá vir aqui, então me deixe sozinho com minha irmã, por favor.
Meu avô aparentemente abaixou a guarda e saiu. Tenho certeza que ele vai se arrepender do que fez. É sempre assim, mas acho que agora ele pegou muito pesado. Peguei o telefone e liguei para a única pessoa que podia me distrair desse momento, para eu tentar pelo menos pensar em algo sobre o que aconteceu. Eu sei que o papai vai voltar para a casa, mas e se ele não voltar? Esse é meu medo.


Capítulo 7


POV :
Que merda de vida.
Chutei uma pedra no meio do caminho e ignorei as ligações do meu celular que eram da minha mãe. Sei que ela iria me apoiar, mas eu preciso desse tempo sozinho. Eu preciso pensar.
Tinha caminhado até uma pizzaria e sai de lá com duas pizzas com os sabores preferidos das crianças. A salgada, de calabresa e quatro queijos, e a doce, morango com chocolate.
Em outros tempos, eu teria ido direto para um bar encher a cara, mas sei que tenho que mudar. Eu não vou ficar tranquilo sabendo que as crianças precisam de mim, e eu bebendo não iria ajudar em nada, nem para elas e nem para mim.
Clara foi a mulher da minha vida, ainda é, mas ela não iria querer que eu me deixasse levar pelos problemas com meu pai. E ela sempre foi meu refúgio, quando nós dois brigávamos, ela sempre esteve no meu lado, e não ter ela aqui... prejudica muito as coisas, mas eu preciso ser firme e não cair em recaída.
– Opa, desculpa. – segurei a moça que eu esbarrei sem querer na porta da pizzaria e, para minha surpresa, era . – ?
– Vejo que é bom de guardar nome, . – sorri e ela também, colocando uma parte do cabelo atrás da orelha. – Tudo bem?
– É, podemos dizer que sim. – Coloquei a mão no bolso, olhei para os lados da rua e, notando que não tinha ninguém, olhei-a confuso. – Sem querer intrometido, mas já sendo... Você veio sozinha para cá? Precisa de uma carona?
Achei fofo a tonalidade que seu rosto mudou de cor para um leve rosado. Ela ficou linda... Espere, , você não é para fazer isso com a Clara, ela não iria gostar.
Fiquei alguns minutos esperando sua resposta, até que finalmente ela falou.
– Sim, vim sozinha, mas moro perto daqui, então não precisa, vou a pé. Mas agradeço a carona.
– Que isso, onde estaria a minha educação? Não vou deixar uma garota voltar para a casa sozinha a essa hora da noite a pé. É muito perigoso.
– Olha, ...
– Eu insisto, por favor.
Ela bufou e eu sorri vitorioso.
– Vai ter que me esperar fazer o pedido, e suas pizzas vão esfriar do jeito que está cheio aqui.
– Não tem problema. – pisquei para ela.
**

Eu e estávamos esperando o pedido de sua pizza, e eu estava nervoso, fazia tempos que eu não saia com ninguém, não queria que estivesse nesse silêncio, então tomei a iniciativa de puxar assunto.
– Então começou a trabalhar esse ano na escola, né?
, que até então estava distraída, olhando pela janela, voltou sua atenção para mim.
– Sim. – ela mordeu o lábio, parecendo envergonhada e triste. – Estou meio nervosa.
– Vai dar tudo certo. – sorri. – Minha filha adorou você.
– Sua filha é um doce de menina, , e...
– Por favor, apenas .
– Tudo bem, sua filha é um doce de menina, . – Sorri de verdade. – Ela é muito curiosa e muito participava na aula.
– Ela puxou a mãe nisso.
Sinto que falei merda, só pela expressão de mudar, ela ficou com os olhos arregalados. Droga.
– Você é casado? Desculpa, mas...
– Ei, não é nada disso que você está pensando, ok? – Segurei sua mão quando ela já estava levantando. – É meio complicado de explicar, mas eu não estou querendo fazer nada com você, só quero te acompanhar até em casa.
Isso pareceu convencê-la, pois relaxou e sentou de voltar no lugar. Fiquei mais calmo, iria falar novamente, mas a senha de foi chamada, então ela pediu licença para ir buscar. E só agora que eu percebi que essa era a primeira vez que eu saía de casa depois de tudo o que aconteceu.
? – olhei-a, acordando dos meus pensamentos. – Já podemos ir.
– Claro, claro.
Levantei sem jeito, peguei minhas pizzas e saímos do restaurante. A noite estava fria e o chão coberto por neve. Caminhamos em silêncio por um tempo, mas não um silêncio desconfortável, era tranquilo, até que ela o quebrou.
– Então, como está a Anne? – avistei-a de lado, levantando minha sobrancelha, mas com um leve sorriso.
– Ela está bem, deve estar fazendo arte com o irmão. – ela sorriu.
Que risada tranquila. Vou anotar para fazer ela sorrir mais vezes.
– Ela não parece arteira na escola.
– Só parece, mas tem um pique aquela menina, que tem de ficar esperto, diferente do meu filho. Ele é mais tranquilo.
– Quantos anos ele tem?
– 18.
– Eles crescem rápido, né?
– Sim. Mas é bom ver que eles estão indo para o caminho certo, com boas pessoas em sua volta, trabalhando. Meus filhos são o meu maior orgulho, pois apesar de ter tido eles muito jovem, sei que eu e minha mulher criamos eles certo.
– Com certeza.
Notei ela ficar sem jeito, eu também ficaria, mas é só que... Eu não consigo aceitar que clara seja minha ex-mulher. Não por enquanto. Eu a amo.
Novamente o silêncio pairou no ar, só que dessa vez eu me sentia desconfortável, sei que não deveria falar de outra mulher na presença de uma, mas... é mais forte. Depois de alguns minutos caminhando, chegamos numa rua conhecida minha e em uma casa conhecida.
– Espera. – fitei-a, sorrindo, olhando a casa. – Você é minha vizinha?


Capítulo 8


POV ALEX:
– Obrigado por vir, Mel, de verdade, eu precisava conversar com alguém, e na minha mente só veio você.
Sorri, tímido, e notei suas bochechas tornarem um tom rosado e eu me arrepiei. Eu e Mel estávamos no meu quarto, ela na cama e eu na minha cadeira da escrivaninha, desenhando. Tinha uma leve música no quarto, do estilo dela, pop.
– Só me chamar. O que você está desenhando aí, futuro designer? – Ri.
– Minha mãe.
O quarto fez um breve silêncio, e eu voltei minha atenção para Mel. Ela estava com aquele olhar de pena, percebeu que eu não gostei e tentou disfarçar a situação.
– Era ela linda, né?
– Sim, ela era. Você a conheceu, né?
– Conheci, sim, você me trouxe uma vez aqui quando seu pai estava no trabalho. Ela era uma pessoa muito divertida e sempre alegre. Lembra daquela vez que ela fez pipoca e a gente estava dançando Just Dance na sala e ela entrou no meio? Foi muito divertido, nunca esqueço.
– Minha mãe era uma figura e...
Ouço batidas na porta e era meu pai com minha irmã. Meu coração se tranquilizou em ver que ele voltou para casa.
– Então você é a Mel?
Meu pai soltou Anne no chão, que foi direto no colo de minha melhor amiga e deu um beijo em seu rosto, abraçando-a. Sorri emocionado com a cena, elas realmente se adoravam, era lindo de ver.
– Mel, te amo.
– Hey, como assim você chega no meu quarto, abraça a Mel e diz que a ama, e eu não ganho nenhum abraço? – faço um bico emburrado, escutando a risada do meu pai.
Quando o olho, ele está de braços cruzados na porta, parecendo verdadeiramente feliz, e há muito tempo não o via assim, mesmo com o vovô dizendo aquelas idiotices para ele. Ele volta seu olhar para mim, piscando, como se falasse que está tudo bem, foi aí que eu me tranquilizei.
– Eu te vejo todo dia, Lex, a Mel não.
– Mas, Anne, olha a educação. – Meu pai ralhou.
Minha irmã se encolheu, enquanto eu dava risada, e Mel me fuzilava, apertando Anne ainda mais no abraço.
– Não tem problema, senhor , eu adoro Anne.
– Por favor, só . Amiga de Alex é minha também. Então, pessoal, eu trouxe pizzas e também tem gente aqui, já coloquei os pratos, vamos jantar?
Ah, não, pizza, a Anne vai....
– PIZZAAAAAAAAAAAAAA
Minha irmãzinha saiu correndo em disparada até a sala eu e meu pai nos encaramos e começamos a rir, tipo um monte. Minha irmã era viciada em pizza. Culpem o meu pai por isso, um viciado em pizza passa o vício para os filhos.
Chamei Mel, enquanto meu pai estava mais à frente.
– Pai. – chamei-o e o mesmo me encarou, parando de andar. – Quem está aqui para jantar conosco? Tio Jared ou Cody?
– Filho, você sabe que eu não estou falando com Cody há um bom tempo, e não, não é seu padrinho, é uma vizinha nossa.
– Pai...
– Não é isso, ok? Eu não estou pronto para me relacionar com ninguém, eu só quis ser gentil com a moça.
– Desculpe me intrometer, mas seu pai fez bem em convidá-la Lex. – revirei meus olhos.
Eu sei que deveria ficar feliz, mas não sei por que acho que tem osso nesse angu. Sei que meu pai merece alguém tão bom quanto ele, mas ainda não estou pronto para vê-lo com alguém, e ainda mais dividir a atenção que já está sendo pouca.
– Alex, só seja gentil, ok? Ela é nova aqui na rua. Só quis dar boas-vindas.
– Tudo bem. – ele sorriu.
– Sabia que podia contar com você. E, Mel, quero saber mais sobre você no jantar, não é justo a mãe de Alex já ter te conhecido e eu ainda não.
– Pode deixar, senhor . – Meu pai a olhou, pensativo, e eu ri. Ele detestava ser chamado de senhor. – Tudo bem, .
– Bem melhor. – ele piscou e caminhou até a cozinha.
– Seu pai é legal, eu pensava que ele era um pouco mais rude.
– Ele é legal, sim, só que agora com tudo o que está acontecendo, ele tem momentos que está bom e tem momentos que está muito ruim. Eu só queria poder ajudá-lo.
– Você já faz isso, Lex, trabalhando, ajudando-o a cuidar de sua irmã... Isso já é muita coisa.
– É, mas eu tive que me privar de meus estudos, não consegui entrar no começo do ano, agora só na metade.
– Mas vai dar tudo certo, você vai ver. Vocês vão passar por essa.
– Obrigado, Mel. – encaramo-nos e eu sorri para ela.
Quando chegamos na cozinha, meu pai tinha terminado de colocar a pizza no prato da minha irmã, que estava sentada na ponta da mesa, e ela bateu palmas, fazendo todo mundo sorrir, depois de ganhar um beijo do meu pai no rosto. Na mesa, eu e Mel estávamos em um lado, meu pai e a nossa vizinha, , estavam sentados no outro, e tenho que confessar, essa parece bacana. É um tanto tímida, mas já deu para ver que ela adorou minha irmã. Espero que podemos ser bons vizinhos.
– Tia , o que vamos aprender amanhã? – minha irmã perguntou e eu sorri, comendo meu pedaço de pizza.
Até parece que ela era estudiosa desse jeito, aposto que só estava fazendo charme para ganhar a professora como amiga e ter notas extras. Minha irmã, apesar de pequena, é esperta demais.
– É surpresa, pequena, mas não estamos aqui para falarmos sobre estudos, certo?
Minha irmã cruzou o braço, fazendo bico emburrado, e todo mundo na mesa riu, principalmente meu pai, que olhou para minha irmã.
– Falando nisso, já fez a tarefa, filha?
– Tarefa? – minha irmã desviou do assunto. – Já sim, papai.
– Vou conferir depois com você, em. – entrou na brincadeira.
Minha irmã fez carinha de cachorro quando quer comida e, fazendo desenhos aleatórios na mesa, confessou o que eu já sabia.
– Eu não sabia como fazer, tia , minha mamãe ainda não chegou de viagem, e ela entende de matemática.
Todo mundo na mesa ficou em silêncio. Meu coração apertou ao ver a minha irmãzinha falar da nossa mãe. Olhei para meu pai, que estava quieto até o momento, ele então olha para mim, transmitindo-me o que eu já sabia, ele ficou mal de novo. Era só tocar na mamãe que as coisas pioravam.
Meu pai pediu licença, indo até lá fora. Eu quase fui, mas Mel me impediu.
– Ele precisa desse tempo. – suspirei e concordei.
– Está tudo bem, Alex? – perguntou.
E agora, devo ou não devo falar? Estou angustiado, ao mesmo tempo que sei que devo ir confortar meu pai, apesar de ele ser mais velho e saber melhor a lidar com sentimentos... Mas só sinto que, como filho, é ficar ao lado, mas também sei que ele precisa de seu tempo e, que nem eu, ele tem que saber lidar com o luto e voltar a viver, mas isso tem que ser no seu tempo. Espero só que ele não demore. Por isso sei que contar, ele vai ficar irritado comigo, principalmente por minha irmã estar presente.
– Está sim, professora. – Sorri meio forçado, mas tentei disfarçar.
Sou péssimo ator.
– Ann, vamos subir? Tenho uma coisa muito legal para te mostrar.
– Jura, Mel? – minha irmã ficou feliz, ela estava tristinha.
– Sim, mas primeiro vamos fazer a lição, senão a tia vai ficar triste. Não é, ?
Deus, muito obrigado por Mel existir em minha vida. Agradeci-a silenciosamente com o olhar e ela sorriu.
– Vai lá, pequena. – agradou minha irmã, que subiu correndo com Mel.
Enquanto elas subiam, senti o ambiente ficar mais tenso. Eu não sei por que, mas minha vontade era de falar tudo de uma vez para , mas eu a acabei de conhecê-la. Não sei se merece minha confiança ainda. Por um outro lado, não argumentou nada, ficou me esperando falar, mas eu não consegui, então desviei a atenção do seu olhar, porém por apenas alguns segundos, pois a cozinha foi preenchida por uma voz conhecida muito bem por mim.
– Ué, cadê as meninas?
Olhei-o apreensivo. Ele não se isolou dessa vez, o que é raro. Meu pai levantou a sobrancelha, alternando seu olhar entre mim e , porém não pude dizer nada.
– Elas subiram, a amiga de Alex chamou Anne.
– Há muito tempo? – meu pai perguntou, um pouco sério.
– Não, subiram antes de você entrar. – respondeu calmamente, com um leve sorriso.
Meu pai pareceu relaxar e ficar sem jeito, pois gaguejou um pouco ao sentar no lugar que antes minha irmã estava.
– Desculpe-me, , eu... eu não queria deixar esse jantar com uma situação constrangedora, mas...
– Ei, está tudo bem. Se vocês quiserem, eu posso ir embora... Sei que provavelmente estou interrompendo um momento familiar de vocês e....
– Que isso, , eu convidei, você não está.
– Mas e sua...
– Não vamos falar na mamãe, pode ser assim? – tentei ser educado, mas acho que saiu um pouco rude pela expressão nada amigável do meu pai. – Ela está viajando, e meus pais brigaram antes disso, foi por isso que minha irmã a citou. Desculpe, .
– Está tudo bem. Desculpa se fui invasiva. – Ela respondeu tímida.
– O que vocês acham de esquecer essa parte? E pular já para a comida? Estou morto de fome, e as pizzas vão esfriar.
Eu e olhamo-nos, sorrindo. Meu pai ganhou pontos com essa atitude, irei contar para o vovô mais tarde, ele precisa saber disso, que meu pai está voltando a vida.


Capítulo 9


POV :
Sonho on:

Eu estava num lugar que eu me lembrava bem. Sentia-me bem, e há muito tempo não vinha aqui. Dou uma olhada em volta, e aquela sensação de nostalgia volta para mim, fazendo-me sorrir, mas somente por pouco tempo, pois logo que eu olho para o lado vejo uma mulher loira de costas, com o mesmo vestido daquele dia. Um vestido vermelho florido, bem típico de campo. Seus cabelos estavam soltos e balançaram junto ao vento, sem direção.
– Hey. – aproximei-me, e ela continua de costas. – Quem é você?
– Não lembra de mim, ?
Quando ela se virou, meu coração disparou. Ao se levantar e vir até mim, arregalo os olhos ao notar que seu sorriso só aumentava. Com um misto de saudade. Seus olhos verdes brilhavam mais que o mar. Apenas... Apenas ao me ver. Não respondo.
– Estou com saudades, meu amor, estou com muitas saudades.
Ela coloca sua mão em meu peitoral, fazendo levemente um agrado, e no meu rosto também, com a outra. Fecho os olhos, deixando uma lágrima cair, a qual ela seca.
– Sinto tanto sua falta, Clara.
– Eu sei, eu também sinto, .
– Por que você teve que ir embora? Está tudo tão difícil sem você.
– Minha hora chegou, você tem que aceitar e entender, e você vai. Está tudo desenhado e seguindo como foi prometido ao seu destino, meu amor, e não se culpe, você não tem culpa de nada do que aconteceu comigo, ok?
– Não, não tenho que aceitar, não tem como não me sentir culpado, Clara, aquela briga... Não era para ser assim. Era para eu ter ido antes de você.
Ela tapou minha boca. Olhei em seus olhos, e eles estavam tristes com o que eu acabei de dizer.
– Nunca mais diga isso, querido, nunca. – continuou com o agrado em meu rosto. – Você tem um longo caminho pela frente ainda, mas que não é ao meu lado, e eu estou bem. Saiba que... eu estou bem!
– Como você pode estar bem? – soei mais com raiva do que eu queria. – Você saiu de casa porque eu te fiz chorar, por ciúme idiota.
– Você estava com a razão. Você sabe disso, o erro foi meu ao dar conversa para o Cody.
– Não se culpe, sabe que ele foi idiota o bastante ao se jogar para cima de você, sendo que você estava alterada já por causa da bebida naquela festa e não sabia o que estava fazendo. Eu estava conversando com Jared e não estava olhando, a culpa de tudo foi minha.
– Não foi e para de se culpar, eu estou bem aqui e ao lado de vocês, vigiando e cuidando, mesmo que vocês não possam me ver. E tenho uma coisa para lhe dizer: você vai se surpreender ao longo desses dias, querido, uma enorme surpresa vai chegar em sua vida. Eu só estou aqui para saber uma coisa.
– O quê?
– Como você e as nossas crianças estão?
Sabia que ela iria perguntar de nossos filhos. Apesar de estar curioso para saber que surpresa é que vai aparecer, sei que devo esperar.
– Alex está triste, magoado, mas ele está sabendo lidar melhor do que eu. – ela sorriu.
– Ele, apesar de ter menos idade, sabe lidar com situações em que às vezes nós não iríamos conseguir. – ela respondeu, orgulhosa.
– Sim, e isso me dá muito orgulho de saber que o criamos muito bem, agora Anne... Você vai me matar, mas eu não contei para ela o que realmente aconteceu.
....
– Desculpe-me, Clara, mas como quer que eu diga para nossa filha de cinco anos que a mãe dela que ela tanto ama e admira morreu? – falei, indignado.
– Contando de uma forma mais branda. De uma forma que ela fosse entender, e não escondendo a verdade.
– Clara...
De repente começou a tocar um sino, e notei minha esposa ficar assustada.
– Clara, o que foi?
– Desculpe-me, meu amor. Mas você tem que acordar.
– O quê?
Clara colocou sua mão na minha testa e me olhou emocionada, dando-me um selinho, afastando-se rapidamente.
– Não esquece que eu te amo.
– Eu amo você mais.

Sonho off.
– PAI.
Acordei com o grito de Alex ao me remexer na cama, passo a mão no cabelo que estava completamente suado, e não, não era de calor. Olhei para meu filho, seu olhar era preocupado.
– Pai, está tudo bem? Você estava gritando durante a noite.
Olhei para o relógio e suspirei. Eram três horas da manhã. E meu filho levantava cedo. Merda, eu só dou prejuízo para esse menino.
– Está sim, filho. – encarei-o, tentando demonstrar confiança. – Pode voltar a dormir, ok? Agradeço sua preocupação, mas sei que você tem trabalho amanhã. E, filho, eu queria lhe fazer uma pergunta.
– Tudo bem.
– Pode levar sua irmã amanhã na escola? Quero ter uma conversa com sua avó logo cedo, antes de seu avô chegar da delegacia.
– Tranquilo, pai. Dorme bem, ok? Qualquer coisa, grita. – ri com isso ao receber um beijo do meu filho na testa. – Te amo, pai.
– Eu também, durma bem.
Assim que Alex saiu do quarto, apaguei a luz do abajur e não consegui pregar mais no sono. Merda de sonho. Por que agora? Por que parecia tão real?
**

– Vó, eu estou te dizendo. – ouvia o meu filho falar, desesperado, na sala.
Aparentemente ele descobriu, não sei como, que eu não fui conversar com minha mãe de manhã. Na verdade, eu não sai do quarto o dia todo, estava na mesma posição de quando fui dormir. Embaixo das cobertas. Eu só... não tinha vontade de ver ninguém, e meu filho não entendia isso.
– Ele não saiu do quarto o dia todo, ele está voltando como no começo de tudo, vó, eu estou ficando com medo, eu já não sei mais o que fazer. – ele estava chorando.
Droga. Meu filho nunca chora. Eu sou um merda de pai e, cara... Por que esse sonho parecia tão real? Por que Clara tinha que aparecer daquele jeito, bem como ela estava como nos conhecemos e naquele lugar... onde Alex foi feito. DROGA.
– Meu amor, dê tempo ao seu pai, sei que é difícil, sei que tem seus compromissos, mas nós precisamos ficar unidos agora por ele. Você não quer que seu pai entre em depressão, não? – um breve silencio. – Então, assim como eu... Precisa me fazer um favor, vamos fazendo as coisas aos poucos, não exigindo tudo dele. O que ele precisa agora, meu amor, é de carinho e dos filhos ao lado. Acha que consegue fazer isso pela sua avó?
Sorri. Minha mãe não existia. Só podia ser, se fosse o meu pai... Eu estaria morto.
– Filho, posso entrar? – minha mãe apareceu no quarto alguns minutos depois.
Concordei com a cabeça, enquanto ela fechava a porta e se sentava na beirada da cama, ao meu lado. Minha mãe como sempre sabia o que dizer, na hora certa e o que fazer, como agora. Ela apenas pegou minha mão e começou a fazer um carinho, que eu só senti um líquido descendo na minha bochecha, o que não passou despercebido pela dona Wendy.
– Oh, meu filho... – minha mãe deitou na cama e eu me virei de lado, tentando me esconder, para ela não me ver chorando. O que foi um enorme fracasso.
Não importa se um filho tem 50 anos, dona Wendy sempre faz um filho parecer um bebê nessas situações. Era sempre assim desde pequeno. Quando eu e meu pai brigávamos, ela sempre ia até meu quarto e ficava até essa dor passar. Ela me abraçou de conchinha, fazendo aquele carinho de mãe. Senti seu rosto em cima do meu, e confesso que estava ridículo, mas não consegui esconder as lágrimas quando senti ela me dar um beijo no cabelo.
– Quer me contar o que aconteceu hoje? – Ela perguntou em tom suave.
– Mãe... eu só preciso ficar um tempo sozinho.
– Negativo, meu amor, eu estou aqui para te ajudar. E sinto que não estou fazendo o meu papel de mãe ficando afastada de você, eu só não pude vir antes...
– Por causa do pai, eu sei. Mas não precisa se preocupar, mãe, foi só um sonho estúpido que mexeu comigo.
– Será que foi tão estupido assim, para você ficar o dia inteiro na cama e deixar a sua vizinha cuidando de seus filhos?
Virei em sua direção, e ela sorriu, notando minha surpresa, e secou meus olhos.
está aí?
– Está, está fazendo o jantar com Alex e brincando com Anne.
Suspirei. A que ponto cheguei em deixar a professora da minha filha cuidando dela?
– Foi com a Clara, mãe. Ela estava tão feliz, o sonho parecia tão real, a gente estava naquela fazenda onde fui no acampamento do colégio, lembra? Eram as últimas semanas de aula, e foi lá onde Alex...
– Eu sei, meu amor, foi o dia mais feliz da sua vida e da nossa, né?
– Nem de todos...
– Seu pai é um besta. – ri. – Clara falou mais alguma coisa nesse sonho?
– Disse que era para eu parar de me culpar, que ela estava bem, que sente minha nossa falta e que algo ainda vai me surpreender pela frente.
– Então, , por que você não tenta seguir um conselho da sua mãe? Por que você não pega essa dor que você está sentindo e transforma em saudade? Lembre dos bons momentos ao lado dela.
– Eu não consigo, mãe, não é tão fácil.
– Sei que não, mas se eu consegui fazer isso um dia, , você também consegue.
Fiquei em silêncio, o que minha mãe quis dizer com isso? Vendo que eu não iria falar nada, ela apenas suspirou e começou a falar.
– Antes de conhecer seu pai, filho, eu era apaixonada por um amigo meu, Carl. A gente passou por muita coisa juntos, até que um dia... – ela sorriu, lembrando de seu passado. – Ele me pediu em namoro e eu aceitei.
– Então a senhora se envolveu em uma história de novela, senhorita Wendy? – Sentei na cama, olhando-a sapeca, o que fez ela revirar os olhos e eu ri.
Minha mãe não gostava muito de romances mexicanos – como ela mesmo chamava –, mas sei que ela gostaria de ter vivido uma história melhor do que viveu ao lado do meu pai.
– Não é bem assim, preste atenção, menino. – deu-me um leve tapinha, fazendo-me rir. – Como estava dizendo, eu aceitei namorar com ele, mas seu avô e seu pai não aprovavam, seu pai era meu melhor amigo naquela época e...
– Difícil de acreditar, mãe.
Falei baixinho, mas ela escutou. Só pelo suspiro dela.
– Filho, não seja duro com seu pai. Sim, sabemos que passamos momentos ruins ao lado dele, mas ele não foi assim antes do casamento.
– Como quer que eu não seja duro com ele, mãe? Olha o que ele fez com a gente, ele batia na gente, mãe, e eu não podia fazer nada para te ajudar, você não me permitia. Se fosse por mim, você nunca mais estaria lá, já te convidei para vir aqui, mas até hoje não entendo como pode viver com aquele homem que me expulsou de casa várias vezes, principalmente quando eu tive o Alex, com 18 anos. Ele me forçou a casar com a Clara, e a gente não queria aquilo no momento, queríamos curtir, ir devagar, estávamos começando nosso namoro.
– Então você não me queria, pai?
Congelei. O quanto meu filho ouviu dessa história? Olhei para a porta e meu filho estava sério, com os braços cruzados. Alex era maduro, e com certeza não iria deixar aquelas lágrimas nos olhos cair, mas sei que o deixei magoado, e eu não queria que ele interpretasse dessa maneira, pois não era nesse sentido que eu estava falando as coisas. Merda, merda, merda.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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