PARTE UM • O ARAUTO.
PRÓLOGO
BIELORUSSIA • 13 ANOS ANTES.
Tudo pareceu desacelerar ao seu redor, como se ela estivesse presa em um pesadelo horrível. Por mais que ela corresse o mais rápido que conseguisse, não parecia o suficiente.
Os olhos da menina se arregalaram, e ela lançou seu tronco para frente, por puro instinto, o grito desaparecendo em sua garganta até ter ficado completamente mudo. Tentou olhar para trás, tentou localizá-lo por entre as árvores que compunham a floresta densa, mas não viu nada. Seu tronco se torceu um pouco, os lábios ressecados pelo inverno e falta de água, entreabertos, deixavam escapar os arfares crescentes, o hálito da menina condensando-se no ar ameno, espiralando ao redor de sua face como fumaça. A roupa fina que usava, apenas uma blusa de manga longa suja com a lama gélida do chão da floresta, e parcialmente molhada pela a água do riacho que ela havia atravessado antes, grudava a seu corpo, pouco fazendo para protegê-la do frio cortante que espalhava-se pela floresta. As calças de moletom, rasgadas e ensanguentadas, que outrora enroscavam-se ao redor de suas pernas, agora grudavam como uma segunda pele, os cortes mais profundos onde o tecido molhado e gélido pelo riacho adorava, latejavam, a dor aguda quase a cegando. Mas ela não para de correr. Ela não pode parar.
Se ela o fizer ele vai encontrá-la. Ele vai alcançá-la, e então…
O disparo feito do rifle de caça rasgou o ar com violência, enterrando-se no tronco ao lado da cabeça dela. gritou baixinho, sentindo a explosão de estilhaços do tronco da árvore chocar-se contra seu rosto, os pedaços afiados de madeira fincando-se superficialmente na lateral esquerda de seu rosto, a ardência, como se fogo tivesse tocado superficialmente sua pele, de onde os fragmentos haviam se cravado sequer foram registrados por ela, tentando obrigar a correr com mais força. O terror parecia esculpido, preciso e visceral pelo rosto ensanguentado e coberto de suor da menina, mesmo que as temperaturas estivessem abaixo de zero, e que a neve se acumulasse em bolsões no solo irregular da floresta, mandando-a para o chão, por vezes.
O frio invernal era cruel, e mordia a pele de com agressividade. O vento forte, oferecia um pequeno prenúncio da tempestade que estaria se aproximando, evidenciando que aquela noite seria, mais uma das mais frias que ela já havia sentido em sua vida. Evidenciando que se ela falhasse nesse teste, acabaria largada outra vez no celeiro dele, e se fosse este o caso, ela não sobreviveria. Estava dormindo no celeiro fazia dois dias, ainda de madrugada, naquele dia, havia acordado chorando de dor, quando percebeu que os músculos de seus pés não apenas estavam atrofiados pelo frio, como sua pele estava começando a ficar arroxeada. Estava cobrindo-se com as peles das ovelhas que ela havia matado quando o frio se tornou enlouquecedor demais para aguentar, ainda assim, com as peles sem tratamento, estavam apodrecendo, o cheiro tornou-se comum, tal qual a sensação do rastejar das larvas sobre sua pele, pouca diferença fazia para aquecê-la.
Na primeira noite, ela havia conseguido até mesmo dormir, mesmo que estivesse tremendo da cabeça, as pontas de seus pés. Ela havia desmaiado de cansaço. Os olhos semicerrados, nem completamente fechados, nem completamente abertos, aproveitaram a escuridão do celeiro para ceder à exaustão que se acumulava de semanas. A segunda noite, todavia, fora completa tortura. Ela tivera certeza que iria morrer se precisasse dormir lá por mais uma noite. Sabia igualmente que tampouco ele iria se importar se ela estivesse viva ou não; não era assim que as coisas funcionavam ali. Precisava voltar para a cabana. Mesmo que não tivesse o luxo da solidão reconfortante que havia no celeiro, longe da presença fantasmagórica dele caminhando pela casa sem dizer uma palavra, murmurando apenas aquela maldita música baixinho, quase distraidamente: “eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só”. Houve uma época que teria cantado com alegria e excitação em conjunto a quem quer que estivesse recitando as palavras, em uma roda de capoeira enquanto provocava Beatriz, mas esta época, agora, era longínqua tal qual um sonho distorcido por febre.
Ela precisava dormir. A privação de sono estava a deixando errática, letárgica, as alucinações estavam começando a se tornar mais intensas, reais demais. Começavam a se misturar com a realidade, fazendo-a pegar-se resmungando com o vazio ou sem reagir a um som de animal selvagem na floresta perdida em um estado de transe. Até mesmo seus olhos pareciam estar dispostos a traí-la, em alguns momentos ficando completamente desfocados, não importava o quanto ela se esforçasse para enxergar o que estava à sua frente. Precisava passar neste teste, custasse o que custasse —— não que não houvesse incentivo, ele só não acreditava em falhas, por isso os testes eram simples, para passar, ela deveria sobreviver e evidenciar a graça de um verdadeiro guerreiro, e se ela falhasse? Bem, estavam no meio da floresta, seu corpo seria digerido pelos animais que viviam ali.
O assobio da música começou a ficar mais alto, e a menina entrou em pânico. O rosto aterrorizado permaneceu fixo no caminho à sua frente, forçando suas panturrilhas doloridas e latejantes a continuar o ritmo, tentando correr o mais rápido que seu corpo permitia. O problema era que ela não tinha ideia de para onde ela estava indo. Outro disparo ecoou da carabina de Edgar, a bala atravessou o ar como um flash acertando de raspão a lateral da panturrilha direita de . Ela não gritou, sufocando o choro pela dor causada com um fungado alto, mas seu corpo ainda se projetou para frente, desabando com uma força que roubou o ar de seus pulmões e fez seus ossos vibrarem por baixo de sua carne, rolando ladeira abaixo.
Tudo girou ao seu redor. Dedos feridos se curvaram em garras tentando desesperadamente agarrar-se ao que quer que encontrasse pelo caminho, tentando recuperar-se. Galhos secos, espinhos e raízes fincaram-se em sua pele, retalhando-a, sua cabeça acertou com um tronco de árvore caído e por uma fração de meros segundos, ela desmaiou. Seu corpo ficou completamente mole, e sua visão escureceu. O desespero gritava em sua mente quando recobrou sua consciência arrastando-se pelo chão irregular da floresta, sentindo a neve molhar ainda mais suas roupas e seus dedos ficaram mais e mais amortecidos. O tremor violento da queda de seu corpo começava a transformar-se em espasmos forte, dificultando para que a menina conseguisse se levantar e voltasse a correr.
Apenas correu. Obrigando-se a ir mais rápido, mesmo que suas pernas estivessem começando a ceder ao peso de seu corpo e exaustão, mesmo que seus pulmões estivessem pegando fogo, e o ar gélido queimasse suas veias respiratórias, fazendo com que sangue começasse a escorrer, deslizando pelo lábio superior dela e pingando dentro de sua boca entreaberta. Um ruído alto, clic clac, e então mais um disparo.
Este acertou-a na altura do ombro, projetando-a para frente, mas ela não parou.
E foi naquele momento que ela teve a completa certeza de que, desta vez, ela não escaparia da morte. Ele iria matá-la, eventualmente ela iria falhar e ceder ao seu cansaço, e sua corrida em zigue zague pela floresta daria a ele a posição perfeita para que explodisse sua cabeça. As lágrimas ameaçavam escorrer por seu rosto, mas ela sabia que era melhor não chorar. Tudo era melhor do que chorar, então ela apenas engasgou-se com o ar, fungando e arfando, tentando desesperadamente encher seus pulmões de ar, e continuar correndo. Não podia parar… não podia…
Mais um disparo. Em desespero, ela se lançou para frente, deixando-se cair outra vez, o baque reverberou por seu corpo inteiro, uma dor aguda envolveu seu corpo e estrelas explodiram por trás de seus olhos, dançando em meio a escuridão de suas pálpebras, seu corpo rolou outra vez pelo terreno irregular da floresta, mais e mais rápido, a náusea do giro constante a desorientado, mas ela não fez menção alguma de parar dessa vez. Porque a menina tinha acabado de perceber que iria morrer. Se nos próximos segundos, ou nos próximos minutos, qual diferença faria? A morte estendia seus braços a sua frente, esperando-a como uma velha amiga, e ?... pela primeira vez percebeu que não precisava lutar. Que seria melhor entregar-se, de bom grado a ceifadora que lhe aguardava, do que ficar. Se ela não morresse agora, então morreria aquela noite, e então na manhã seguinte e por aí em diante. Era um jogo de trapaça, não tinha como ela ganhar.
Então quando seu corpo parou de rolar declive abaixo em meio a neve gélida e cortante, amortecendo seus músculos, ela viu o precipício que abria-se alguns metros à frente, em direção a um lago congelado, revolto e de gelo com aparência fina. E foi ali, se tomada por sua teimosia, ou pela vã esperança de conseguir finalmente escapar do inferno que vivia —— e especialmente de Edgar ——, se levantou cambaleante, parcialmente arrastando-se, tentando obrigar-se a mover-se, tentando obrigar-se a correr, uma última vez, antes de saltar. Por um breve segundo, ela sentiu-se pairar no ar, e ela sentiu-se livre. Teve esperanças que mesmo que a queda não a matasse, ela ainda tivesse algum resquício de força para continuar fugindo. Lá embaixo, Edgar não a alcançaria. Lá embaixo nem mesmo sua carabina funcionava. E ela seria livre. Finalmente, livre, depois de tanto temp…
O disparo atravessou a parte superior do abdômen da menina. Sangue projetou-se à frente da blusa fina e desgastada dela, espalhando-se rapidamente quando o corpo, inerte, chocou-se contra o gelo. Havia uma única verdade naquela floresta e era simples.
Edgar nunca errava.
LONDRES • AGORA.
Ela acordou como sempre: vomitando, coberta de suor e vendo fantasmas.
Levou cerca de vinte minutos para que ela compreendesse onde estava e o que estava acontecendo. O grito emudecido para seus ouvidos, espalhava-se pelo apartamento modesto no centro da cidade alto e aterrorizado, o zumbido intenso em seus ouvidos, todavia, havia silenciado tudo. Sua pulsação confundiu-se com a memória traumática dos disparos, alta e colocando-se em hiper alerta novamente. O impulso de correr, ou lançar-se em direção ao chão tornando-se instintivo, a fazendo tropeçar em seus próprios pés e cambalear cegamente pela mesa de centro do apartamento. Seu coração ainda estava acelerado, martelando com uma força quase dolorosa contra sua caixa torácica, o peito doía como se houvesse algum tipo de pressão invisível, uma parede massiva de cimento sobre si, esmagando-a, parecia que iria explodir. Os instintos em alerta, sensíveis, enviavam estímulos desesperados, a fazendo desviar e proteger sua cabeça de meras sombras ou ruídos baixos. Vidro se quebrou abaixo de si, fazendo-a chocar-se contra o assoalho de madeira, sem perceber o caos que havia acabado de criar. De quatro, ofegante, levou cegamente suas mãos trêmulas em direção a gola de sua blusa, as lágrimas que escorriam por seu rosto, pingando de seu queixo e misturando-se com os cacos de vidro abaixo de si, amortecidos, mal estavam lá. A respiração dela era pesada, irregular e rarefeita. Apenas piorou quando a tosse tomou conta de seu ser, mais nervosa do que qualquer outra coisa, sua mente só registrou meio a parte a falta de ar.
Então tudo começou a girar.
Ela tentou respirar, mas quanto mais força o fazia, quanto mais tentava sugar o máximo de ar que podia, mais parecia que lhe faltava. rolou para o lado, sem perceber que havia acabado de enfiar sua mão trêmula na poça de seu próprio vômito, tentando escorar-se contra a primeira coisa que encontrasse, a lateral do sofá preto de couro que havia comprado da segunda mãe de Lorraine. Buscou, por puro instinto, por uma arma, qualquer coisa que ela pudesse usar para se defender, o nome de Beatriz escapando por seus lábios quase como uma oração, desesperada e não atendida. Os olhos embaçados não identificavam de imediato o que estava à sua frente, se era a televisão parcialmente quebrada na ponta direita, ou se era a maldita floresta, se era o corpo de Beatriz, retorcido como o de uma marionete. Ela arfou, os soluços mais altos e dolorosos, a cabeça pendendo para trás, como se desta forma ela pudesse obstruir suas veias respiratórias, mesmo que fosse somente sua garganta. Ela encarou diretamente o fantasma da televisão ligada, observando-a sem ver o canal de segunda mão, exibindo o primeiro jornal matinal.
A estática da televisão de tubo fazia não apenas com que a imagem ficasse instável, como, aumentava a sensação de desconforto silencioso dos ouvidos emudecidos dela. Franziu o cenho, tremendo, hiperventilando, confusa por não estar conseguindo entender nada do que estava sendo pronunciado, sentindo como se algo estivesse completamente errado. A sensação de desorientação pareceu apenas aumentar, uma careta de pura dor espalhando-se por seu rosto, ao chacoalhar sua cabeça tentando livrar-se daquela maldita sensação. Foi após longos minutos de pura confusão e desespero —— questionando-se para onde diabos havia sido levada dessa vez —— que ela percebeu. Inglês. Era inglês! Porra! fechou os olhos, deixando-se recostar contra o sofá atrás de si, sentindo o alívio ao menos oferecer-lhe um pequeno consolo para concentrar-se somente em sua respiração. Ela estava em Londres. Não estava na Bielorrússia, nem no México e muito menos no Brasil. Inglaterra. Certo, certo… ela havia se esquecido disso. Porra!
Inglaterra, merda, ela estava na Inglaterra, ótimo, porra, fantástico.
Suor empapava seus cabelos, a sensação dos fios grudando ao redor de seu pescoço e têmporas apenas aumentavam o incômodo por ter algo tocando sua pele. Na maior parte do tempo, conseguia facilmente ignorar aquela parte de sua mente que repudiava até mesmo os mínimos toques. A ideia de um estranho tocando sua pele exposta era o suficiente para fazer com que seu estômago se contraísse e ela entrasse em uma espiral desesperada para escapar do toque, mesmo que tivesse que rasgar seu caminho com unhas e dentes, mas às vezes, em estranhos momentos como aquele, quando sentia-se uma espectadora dentro de seu próprio corpo, sentia aversão de si mesma. Puta merda, apertou os olhos fechados com mais força, tentando ignorar o gosto amargo de bile em sua boca, espalhando-se e misturando-se contra sua saliva, fazendo-a crescer, como se estivesse à beira do desespero para cuspi-la. Havia o gosto de sangue também, mais discreto, porém presente, o que significava que ela deveria ter cortado alguma parte interna de sua boca outra vez. Deixou-se recostar pesadamente contra as pernas do sofá de segunda mão, sentindo-se zonza, e quase desabando para o lado ao calcular mal a distribuição de seu peso.
A crise estava passando, e uma pequena dor de cabeça começava a se instalar em suas têmporas, como todas as vezes. Ainda estava hiperventilando, e o desconforto começava a alterar-se ao dar os primeiros indícios de dor: o peito dolorido, a garganta seca, raspando a cada arfar. levou sua mão em direção ao pescoço, tentando massageá-la quando o cheiro fétido de seu próprio vômito —— algo que misturava vinho, uísque barato e alguma coisa esquisita que ela havia comido na rua aquela noite —— atingiu seu nariz e ela se impediu antes que pudesse sujar a si mesma. Ela praguejou entre dentes, as palavras em português escapando como uma segunda natureza, instintivas. Ainda pareciam desconhecidas aos seus lábios, tanto tempo longe de sua terra natal havia a feito perder o que ela supunha que deveria ser sua essência, mas se havia algo que havia aprendido em sua vida era que não se dava para fugir do que se era. Você poderia se cegar para o que era, mas não fugir. Fez uma careta arrancando com seu braço esquerdo sua blusa e então usando-a para limpar o estrago em sua pele. Quando terminou o trabalho, arremessou a blusa em direção ao lixo e cuspiu no chão, sem conseguir evitar o movimento espasmódico. Usando o antebraço para afastar as mechas revoltas de seus cabelos para longe de seu rosto, olhos e pescoço, ela piscou algumas vezes, tentando clarear sua visão embaçada.
Estava encharcada de suor, e apesar de ter a sensação de estar febril, o suor frio lhe dava a certeza de que não era uma intoxicação alimentar, tampouco algo provido apenas de uma reação física externalizada por algum de seus inúmeros pesadelos. Ela sabia o que era, o que seu corpo estava demandando, e que ela ainda não havia se dado ao trabalho procurar.
O vento outonal londrino adentrou pela janela entreaberta do corredor, o aroma pungente de carbono queimado, terra molhada e poluição enviou uma sensação de alívio por sua mente, estabilizando a parte que ainda não conseguia reconhecer completamente o espaço como real, mas o arrepio que percorreu por sua pele com a toque gélida do vento, a incomodou. Ativou a memória que estava tentando fugir naquela noite, e antes que ela pudesse se refrear, ela lembra-se da sensação. A queda violenta, a maneira como seu corpo havia se torcido e músculos havia se distendidos, e então, havia água, por todo lado, fria, cravando-se em sua pele como garras afiadas, dilacerando o que havia restado de si mesma enquanto a puxava mais e mais para dentro da escuridão. Para dentro do vazio. quase morrera naquele dia, quando caiu dentro do lago congelado, mas também, já havia quase morrido inúmeras vezes, de inúmeras formas.
tinha poucos medos, e a morte, estava longe de ser um deles, mas isso não significava que ela gostasse de sentir desconforto. Não gostava de ser lembrada de seu desconforto.
Ela poderia ser maluca, mas não era sádica. Bem, não com ela mesma, pelo menos.
Puxou os joelhos na direção de seus seios, agora apenas envoltos pelo sutiã vermelho de renda que era uma das poucas peças que ela havia se dado ao trabalho de comprar em quase três anos vivendo em Londres. Apoiou os dois cotovelos sobre o topo de seus joelhos dobrados, e então permitiu-se inclinar a cabeça para trás, até que sua nuca estivesse repousada contra o estofado macio do sofá. Sua cabeça estava explodindo, e ela ainda tinha aquela sensação desorientadora de estar presa na névoa causada pelo medo e instinto. Ela ainda tinha aquele sentimento esquisito de que a qualquer momento ela iria acordar e se depararia com Edgar a sua frente, olhos desprovidos de alma ou consciência, frios como gelo e afiados como navalha, presos em seu rosto, inexpressivos, esperando para que ela se movesse. Para que fizesse o que ele havia acabado de comandar. inspirou fundo e exalou por entre seus lábios, antes de acertar alguns tapas fortes em seu próprio rosto, tentando despertar-se da letargia causada pelo sono e desorientação, e o torpor que sempre se seguia com o ataque de pânico.
A dor clareia sua mente com mais eficácia do que qualquer exercício de respiração que Lorraine pudesse ter tentado ensiná-la, e sua colega de trabalho havia tentado convencê-la a fazer esses exercícios. Havia tentado mesmo até pagá-la. Por breves momentos, até mesmo havia se permitido entreter a ideia. Havia considerado, talvez por curiosidade, talvez por não ter mais nada a perder, fazer exatamente como Lorraine havia ensinado: respirar fundo, segurar, e então exalar contando até cinco. Mas isso nunca havia a ajudado de fato. Era volátil demais para conseguir conter-se apenas com uma mudança de respiração, era treinada demais para estar em alerta até mesmo em momentos de relaxamento, priorizando sempre a resposta. A dor era seu único recurso. Não era o melhor, ela sabia, mas funcionava, então, ela não se importava.
Seus olhos dispararam de um lado para o outro, as pupilas contraindo-se, tentando fixar-se na televisão ligada à sua frente. Ela exalou por entre os dentes, o ruído escapando mais alto do que pretendia e com um pequeno assobio ridículo, que ela tentou obrigar-se a ouvir.
Aquela era uma das piores partes. Para além das alucinações, em que não seria capaz de dizer o que era real e o que não era, mesmo que estivesse a um palmo de distância de si, era o ruído em seu ouvido, abafando tudo ao seu redor, deixando-a vulnerável e exposta. Edgar poderia ser muitas coisas, mas a viciou nos mesmos erros que ele possuía. era uma pessoa auditiva antes de mais nada, sua audição era sua principal arma para se localizar. Era por isso que ela era boa no que fazia, porque seus instintos eram calibrados para reações rápidas e precisas, porque ela não se baseava somente em sua visão, mas em sua audição. Isso com o reconhecimento de padrões treinado por Edgar, havia tornado o que era. Então quando a perdia, o medo tornava-se maior, porque, houve uma época, no passado, que ela igualmente não tinha nenhuma de suas habilidades, que ela era vulnerável igual.
Nunca mais. Nunca mais custasse o que custasse.
Engoliu em seco, sua garganta ainda dolorida pela hiperventilação, esforçando-se para encarar a televisão, sentindo como se estivesse submersa. tencionou sua mandíbula com força, o músculo de sua bochecha se projetando suavemente pela pele intocada de seu rosto, focando nos sons que o aparelho decrépito e inconvencional, estava fazendo. A distorção da voz por um segundo quase a fez rir, antes de seu olhar se estreitar com a imagem que via à sua frente.
——.... de acordo com o Parlamento Canadense, a ação foi necessária para manter a integridade do sistema de justiça —— a âncora anunciava. inclinou sua cabeça suavemente para o lado. Não era particularmente fã de política; alguns anos como sargento na SAS havia lhe dado as respostas que precisava para saber para o que que todo aquele sistema funcionava, e não era para pessoas como ela. —— O Primeiro Ministro Canadense, David … —— Desta vez quase sorriu, uma ponta sardônica de humor envolveu seus olhos. , o sobrenome ecoou em sua mente soava como um cuspe, vibrando por sua pele com uma familiaridade enfurecida, tensionando músculos, causando espasmos em suas mãos e ombros, como se estivessem prontos para o ataque. —— Declarou esta manhã sobre as investigações ao escândalo de corrupção e desvio de verbas na bancada republicana do Parlamento o qual o representa. Em seu discurso, durante a abertura de um dos novos hospitais para auxílio psiquiátricos para crianças que sofreram abusos, o Primeiro Ministro fez questão de frisar seu compromisso com a verdade, e que está disposto a oferecer todo o auxílio possível para as autoridades… —— A imagem na televisão mudou, da âncora loira elegante envolta em roupas profissionais e sérias, para o rosto igualmente sério, mas caloroso de um homem engravatado diante de um púlpito.
David . .
moveu sua boca sem fazer um som, saboreando a pronúncia do nome, carregando no sotaque cajun zombeteira, ela quase podia sentir o desprezo e o prazer escorrendo pelos cantos de seus lábios. Oh, ho-ho, alguém não iria ficar nem um pouco feliz de ver essa notícia hoje.
Bom. Muito bom. Era o que ele merecia.
Aquela fagulha familiar gerada por uma ira bem mais profunda do que ela havia começado a se dar conta aqueceu sua corrente sanguínea e criou um pequeno incêndio ao centro de seu peito. A adrenalina outrora usada em uma vã tentativa de fazê-la focar, jorrou por suas veias, deixando-a desperta e ansiosa. Mas havia um brilho perigoso pairando por seus olhos. Um prazer pessoal que ela nunca se negaria a deleitar-se sempre quando pensava na miséria dele. fechou suas mãos em punhos firmes, suas unhas, maiores do que deveriam, fincando-se nas palmas de suas mãos, cravando fundo o suficiente para conseguir arrancar sangue, ao observar o mais velho. Um letreiro decorado com as cores do jornal surgiu abaixo, junto com a legenda da reportagem, acompanhando pela identificação e profissão do homem na tela. David , Primeiro Ministro Canadense. David era um homem imponente, sério, e de aparência capaz. Mas tirando o que era apenas encenação e teatro para as massas, havia uma gentileza em que era capaz de fazer o estômago dela revirar-se somente de olhar. Tinha os olhos azuis escuros, cabelos grisalhos nas laterais, penteados elegantemente em um slideback que pendia sobre suas têmporas de forma elegante, sempre perfeitamente alinhados. A coloração de seus cabelos se alterava minimamente para um platinado ao topo, dando a David o ar de um homem de idade bem conservado.
Havia nascido para ser a porra de um galã grisalho hollywoodiano, barba perfeitamente aparada, roupas impecáveis, sorriso encantador e olhos que brilhavam com aquele carisma que ela viera conhecer muito bem, e bem de perto. Em uma dose maior e enlouquecedora. Se David conseguia encantar o público apenas com uma dose do que era o aquele maldito chame, dava para entender porque ela havia se deparado com o monstro. não conseguiu conter um sorriso de desgosto e nojo, seus pensamentos uma tempestade incoerente de ressentimento, raiva e o desejo por poder acertar as contas, por poder vingar aquilo que lhe foi roubado. conhecia aquele jogo com perfeita familiaridade: eram as pessoas que se apresentavam com maior perfeição e morais que costumavam a se provar as mais corruptas. Ou, ao menos, as mais fáceis de serem corrompidas. Talvez, ela estivesse sendo cínica demais, talvez fosse sua criação que havia a tornado desse jeito. Que havia quebrado dessa forma, mas verdade seja dita, todo mundo tinha algo que repetia em alto e bom tom para se convencer disso.
Os olhos dela desviaram-se da televisão, repousando nos familiares e fantasmagóricos de Beatriz. Ela trincou os dentes com força. Os olhos de sua irmã gêmea sempre haviam sido mais castanhos, como mel dos que os dela, eram puxados para uma tonalidade doce, ou fosse apenas a maneira com que ela encarava a todos. Expressivos, Beatriz sempre havia carregado seu coração em suas mãos, era fácil lê-la, era por isso que sempre conseguia levar a melhor durante suas brigas, Beatriz sempre havia sido melhor do que jamais poderia imaginar ser. Agora, aqueles olhos a encarava fixamente, arregalados, os braços cruzados a frente de seu corpo, em zombaria, como se estivesse provocando , expondo o que ela já sabia sobre si mesma, mas faltava-lhe os pulsos e as mãos, os ossos expostos são brancos como porcelana, quebradiços e frágeis como ela se lembrava vividamente de terem parecido sob seu toque. A cabeça dela pendia para o lado, sobre o ombro esquerdo, mas não como ela costumava a fazer quando estava com sono ou tentando convencer
piscou os olhos rapidamente, encarando as próprias mãos trêmulas, seu peito ardendo, dolorido, e sua respiração insuportavelmente superficial. Tentou alongar os músculos de seus ombros e pescoço com um espaço, movendo a cabeça em um círculo, como se o gesto pudesse aliviar a pressão crescente em seu peito, ou o tremor em suas mãos, mas é claro que não ajuda. A notícia com David altera-se para a próxima, exibindo o conflito no Oriente Médio. Não é a explosão no vídeo, ou a claridade do mesmo que a perturba, é a porra do som. Os gritos por ajuda das vítimas. Foi como receber um golpe em seu estômago, ela ofegou, levantando-se com toda sua agilidade e agarrou a lateral da televisão com as duas mãos, e com um grito sufocado, a empurrou em direção ao chão, cambaleando para trás. O estrondo do objeto estatelando-se no assoalho velho de seu apartamento modesto, reverberou pelas paredes, o vidro misturou-se com o resto do que fora outrora sua mesa de centro, arranhando as solas de seus pés e cortando-as sem que ela se importasse com a sensação.
fincou suas unhas em seu pescoço, sentindo-as mais afiadas do que deveriam ser, cortando a pele sensível de seu pescoço enquanto ela tentava arranhar um buraco aberto em seu pescoço, um lugar pelo qual ela pudesse respirar. Não conseguiu, é claro, mas a dor novamente ajudou a clarear seus pensamentos. Trincou os dentes com força, irritada. Havia perdido a porra de 400 libras só naquela merda de manhã, e a menos que ela tivesse intenção de dar o cu na esquina —— o que jamais funcionaria para ela, devido sua aversão a toque ——, ela precisaria de mais dinheiro. Sua vida era simplesmente incrível, não? fechou os olhos novamente, exalando frustrada, ao apoiar as duas mãos ao redor de seu pescoço, e deixar sua cabeça pender para trás com uma careta.
Ao menos havia silêncio.
Não era que ela gostasse de silêncio, na verdade, sentia tanta repulsa quanto por algum toque estrangeiro. Havia algo na imprevisibilidade e na paranoia constante, a necessidade de sempre estar alerta que a configurava naquela dicotomia ridícula. Ao mesmo tempo que ansiava para que tudo estivesse em silêncio, entrava em um estado de hiper alerta pior e mais profundo, esperando de onde viria o próximo ataque, ou quem iria agarrar seus cabelos dessa vez e arrastá-la para algum canto escuro. Igualmente, não era como se ela quisesse ouvir as batidas em sua porta, anunciando que, mais uma vez, teria a reclamação de algum dos desgraçados de seus vizinhos pelos gritos e barulhos, mesmo que tivesse apresentado um diagnóstico de terror noturno.
Era falso, é claro, ela havia conseguido com Madoc por baixo dos panos, mas havia servido para que a deixassem em paz por um tempo. fizera sempre questão de deixar claro que não se importava com o barulho, gravando e apresentando a seus vizinhos os barulhos de gemidos altos e o contínuo assalto contra o seu lado da parede da cabeceira da cama batendo ritmadamente. Algo havia acontecido, porque até onde se lembrava, o rosto da mulher, Summer, era seu nome, havia empalidecido, e o cara, um idiota que ela não havia importando-se em sequer reconhecer como ser humano, havia se tornado vermelha como um pimentão. havia feito pipoca de micro-ondas naquela noite, e se sentado abaixo do quarto deles, adorando ouvir os gritos e acusações sobre a traição de Summer. De qualquer forma, o recado havia sido preciso e efetivo. Mas sempre havia alguém tentando ser herói de sua própria história.
odiava esse tipo de pessoa.
Chutou para fora de seu caminho uma das pernas de madeira da mesa de centro, ignorando o barulho do crack abaixo das solas de seus pés, marchando em direção à sua porta com preguiça. As batidas se tornaram mais insistentes, o que a fez parar a frente do objeto de madeira revestida de metal, com consideráveis trancas para tornar, no mínimo difícil que algum idiota entrasse ali. apertou os cantos de seus lábios, dando um passo instintivo para trás, os olhos fixos na tranca, sentindo seus músculos tensos se moverem por baixo de sua pele, tencionando-se um pouco mais ao inclinar-se para frente. Sua respiração desacelerou, como havia sido treinada e ela buscou com o olhar alguma coisa que pudesse usar para defender-se.
Pisando com o pé inteiro, começando pelos dedos, seguido da planta do pé, e então o calcanhar, treinada para não fazer sequer um ruído. O sangue que se acumula em suas solas dos pés, as deixam escorregadias, fáceis de tornarem-se um problema para ela, mas tinha experiência a tempo o suficiente para saber como se adaptar a situação. Era nisso que ela era boa, adaptar-se. Ela exalou por entre os dentes, retirando de um pequeno compartimento no armário em que ela guardava seus sapatos, ela alça a 9mm, destravando-a e engatilhando-a em poucos segundos, sem sequer precisar olhar para a arma, antes de erguer seus braços, firmes e imóveis como os de um cirurgião, precisa em sua arte sangrenta, inspirando fundo, concentrando-se.
Tudo ao seu redor parece desacelerar, o foco travado apenas na tarefa em suas mãos, em sobreviver. Mirou na porta, mas não disparou, ela esperou, controlando sua respiração, concentrando-se em manter sua posição firme e em detectar quaisquer ruídos que encontrasse, por menores que fossem. Seus olhos cintilavam como os de um gato, movendo-se para acompanhar o que ouvia do outro lado. Mais duas batidas e então houve apenas silêncio.
Ela quase sorriu, desgostosa.
Agora, isso era amadorismo. Se a intenção era distraí-la de suas janelas usando a porta, o único lugar que ela possuía para escapar de seu apartamento, então era estupidez tentar entrar pela janela. Se a intenção era esperar que ela abrisse a porta para verificar o que estava acontecendo do lado de fora como uma mulher inocente, atraída para fora de seu apartamento por não saber melhor, então estavam duplamente enganados. quase sorriu consigo, seus dedos envolvendo com mais força a coronha da arma, o metal gélido pressionado contra as palmas calejadas de suas mãos enviando uma sensação de conforto e familiaridade como se fosse uma mera extensão de seus braços. E de certa forma, era.
Os olhos dela registraram quando a tranca de seu apartamento girou devagar, como se estivessem testando a firmeza do ferro e localizando os últimos pinos a serem erguidos. Deparar-se-iam é claro com o restante das outras trancas, mas era quase fofo ver a dedicação em assumir que ela era uma completa idiota. Estreitou os olhos, esperando. Por uma fração de segundos, podia ter jurado que algo atravessou seu campo de visão pelo lado direito, vindo de sua cozinha. Uma mancha escura que sua visão periférica havia feito pouco uso de registro. Poderia ser um invasor, é claro, mas arriscar sair de sua posição para verificar algo na cozinha era dar uma abertura, mesmo que pequena para quem quer que estivesse tentando entrar em seu apartamento, ou poderia ser somente sua mente traiçoeira, a traindo outra vez.
Concentrou-se nos sons. Ruídos baixos de troca de peso vindo do outro lado da porta, a respiração acelerada, provavelmente estavam mais tensos e ansiosos do que , ou era a porra de um novato, ou o infeliz a quem esse trabalho foi conferido sabia quem ela realmente era. Para ambos efeitos não seria difícil lidar com ele. O problema seria o barulho do disparo, e ocultar o cadáver. Ela já tinha olhos de mais em suas costas para querer atrair a atenção de seus vizinhos. Não havia ruído em sua cozinha, apenas um pequeno chiado debaixo de uma torneira esquecida aberta por ela na noite anterior. Fez uma anotação mental para parar de beber com tanta frequência —— estava gastando suas próprias palavras consigo mesma, e sabia disso.
Tudo o que silenciasse a voz de Beatriz em sua mente, era algo que aceitaria de bom grado. Mesmo uma tentativa de assassinato.
Ela deu um passo silencioso para frente, trocando seu peso de perna devagar, deliberadamente aproximando-se da porta. Então algo aconteceu.
Havia sido rápido o suficiente para que ela não tivesse compreendido direito o que ocorrera do outro lado da porta, mas ela havia registrado os barulhos como um gato. Um ruído abafado, metal acertando o chão e então algo pesado ao longe. estreitou os olhos. Agora isso era algo estranho. Repassou em sua mente quem diabos poderia ter enviado alguém para tentar matá-la.
Veja bem, ela tinha inimigos. Muitos inimigos. Para ser sincera, ela nunca tivera era um amigo digno de confiança —— e os que tivera, ela havia metido a porra de uma bala em seus crânios e encerrado o dia. Mas havia poucas pessoas em Londres que se dariam ao trabalho de tentar matá-la. Ziyad Karam, ou simplesmente Doc, o chefão dos gangsters ali, era um excelente nome para começar. Havia Cortez, e sua gangue de rua ridícula, Los Gigantes em Bethel Greens, no East End, provavelmente frustrado pela contínua extorsão que , com prazer, fazia com Madoc. Não seria a primeira vez que Cortez tentava convencer idiotas a entregar-lhe sua cabeça em uma bandeja, mas era a primeira vez que esses idiotas haviam encontrado sua verdadeira localização. chiou entre dentes relaxando sua postura quando o silêncio se prolongou por mais trinta minutos inteiros, evidenciando para ela que o corredor do outro lado de sua porta, provavelmente estava limpo.
Não hesitou em agir. Com um puxão brusco e mais violento do que desejava, ela abriu a porta com força, empurrando-a com cuidado para trás, ainda empunhando sua arma. Os olhos de percorreram com cuidado toda a extensão mal iluminada do corredor externo do prédio residencial. Com assoalhos de madeira, com corredores estreitos e portas tingidas de branco amarelado pela passagem de tempo, números irregulares e mal feitos identificavam quais apartamentos pertenciam a quem. Os tapetes de entradas revelavam um pequeno vislumbre das personalidades de cada morador ali, exceto . Ela detestava aquele tipo de coisa, e, se fosse ser honesta, tinha prioridades bem maiores do que a porra de um tapete com uma piadinha genérica convidando alguém para entrar. Ela abaixou sua arma, apoiando-a em suas costas, sem importar-se por estar apenas com calças de moletom sujas e sutiã em meio à local público, franzindo o cenho.
Embora as luzes do local oscilassem, e tivessem duas lâmpadas queimadas entre o patamar das escadarias daquele andar e do último, podia ver com clareza de detalhes que não havia ninguém. Isso, para muitos, acabaria servindo como conforto. Quem quer que estivesse tentando invadir seu apartamento, havia desaparecido e muito provavelmente não voltaria, mas para , soava como sua sentença de morte. Porque só havia uma pessoa que se movia silenciosamente daquela forma, e não o via fazia anos, e, se tudo não havia passado de apenas uma alucinação de sua parte, então estava piorando e rápido. Precisava ir até Madoc novamente, conseguir mais da porra da droga que ele fornecia antes que perdesse completamente o controle sobre si.
engoliu em seco, assentindo para si mesma quando virou para a esquerda, para voltar para dentro de seu apartamento e deparou-se com uma faca, ensanguentada, fincada na porta. O sangue ainda que mínimo havia deixado uma mancha escura na madeira com metal da porta de entrada de seu apartamento, obscurecendo a superfície que tocava, como se ela tivesse derramado alguma coisa ali. Ao centro da ponta em que a faca se fincava havia apenas um cartão de feliz aniversário embebido em sangue.
Por um breve momento, ela apenas encarou a faca e o cartão cravados em sua porta, cobertos por um sangue que não lhe pertencia. Seu queixo se contraiu e os dedos que seguravam a coronha de sua arma apertaram-se com mais força, os músculos tensionados começando a tremer. Os espasmos percorrendo seu corpo. Os olhos percorreram minuciosamente cada detalhe, da maldita faca, para o cartão cravado em sua porta. Faca de assalto, serrilhada, desgastada pelo uso se fosse levar em consideração os pequenos indícios de ferrugem que tinham na conjuntura de sua empunhadura e nas serras. O cartão de feliz aniversário era de uma loja de conveniência, descuidado e havia uma rasura em uma das palavras, como se a pessoa tivesse tentando “consertar” a frase rabiscando-a com força e então adicionado um agressivo “nós”. Parabéns para nós, ficava, e a respiração de se perdeu em algum lugar de sua garganta.
O mundo começou a mover-se novamente ao redor de , intenso e girando com uma velocidade nauseante. Seu único ponto sólido era aquela maldita faca e aquele maldito cartão. O gelo de sua tensão e alerta misturou-se com o fogo de sua ira e crescente frustração, em ebulição, sufocante, deixando-a à beira de uma explosão. O amálgama de emoções, todavia, permaneceu sob controle, abaixo de sua máscara de neutralidade, mas seus olhos queimavam. Ela arrancou a faca com um movimento rápido e preciso, arremessando-a no assoalho de seu apartamento, e então alçou o cartão, seus dedos trêmulos envolveram o papel manchado de sangue, curvando-se como garras e o amassando-o.
Abriu a parte interna, sem saber ao certo o que deveria esperar encontrar ali, mas definitivamente, não era a caligrafia elegante e vagarosamente familiar com os únicos dizeres:
Vermelho é sua cor. Use-a.
sentiu seu rosto empalidecer, engolindo em seco, como se de repente sua garganta estivesse seca demais para que ela pudesse engolir apropriadamente, sua pulsação dando um salto em seus ouvidos, fazendo-se perceber em seu pescoço, sua respiração escapando por entre seus lábios, mas sem nenhum resquícios de oxigênio enchendo seus pulmões. Ela amassou com força o cartão, desejando que fosse a porra do desgraçado que ela sabia que deveria ter enviado aquela merda de cartão. Seu coração martelava com intensidade contra sua caixa torácica, expandindo e contraídos de forma errônea, suas pupilas se contraíram, e o movimento de seu peito subindo e descendo era apenas mecânico porque nada passava por sua garganta, apenas frustração e fúria.
Fechou a porta atrás de si, sem se importar com o barulho, antes de se permitir sentar-se no chão, arfando, mais uma vez, ainda segurando a arma como se sua vida dependesse disso —— e de fato, dependia —— ela pressionou o metal gélido contra a boca de seu abdômen liso, o toque enviou um arrepio pelo corpo dela, mas o incômodo serviu para mantê-la ali, presente. Quando ela ergueu seus olhos, deparou-se com Beatriz a poucos centímetros de distância de seu rosto, a cabeça torta, oscilando para frente e para trás, mas era seu sorriso que era perturbador. Largo, deixando à mostra quase todos seus dentes enquanto sangue escorria lentamente por entre os cantos de seus lábios e dentes. Estava rindo, o som fantasmagórico soando como vermes, infestando os braços de e corroendo-a de dentro para fora, ainda assim, ela ergueu o queixo, sustentando o olhar de sua irmã gêmea morta.
Sustentando a alucinação do fantasma que apenas ela carregava consigo.
—— , , … tsc, tsc, tsc, ah, —— cantarolou sua irmã gêmea, divertida. A cabeça torta se virou para a direita, ajustando-se no pescoço quando Beatriz parou a um fio de cabelo de distância do rosto de uma imóvel. —— Você realmente achou que conseguiria escapar dessa vez? —— Provocou Beatriz, e a frustração queimou por trás dos olhos de , mesmo que nenhuma lágrima fosse escorrer por seu rosto petrificado e pálido. Um arrepio gélido, forasteiro para ela até então percorreu por sua espinha, espalhando-se rapidamente por suas veias. Um sentimento que ela não tinha fazia anos, talvez décadas.
Medo. Puro e profundo medo.
CAPÍTULO 01 • UNDER THE DEMON’S SIGHT
LONDRES • AGORA.
O carro havia sido deixado para trás às pressas. Mal estacionado, parcialmente sobre a guia, com o pisca alerta ligado, e as portas destravadas. Miguel Cortez havia sido descuidado, e isso era tudo o que ele precisava; um deslize.
Os olhos dele percorreram o restante da rua residencial, agora deserta. A falta de movimentação era um convite para a conclusão errática de que não haveria perigo, exceto que não era esse o caso, certo? Sempre havia alguém nas sombras, se você tivesse paciência o suficiente. É claro que ele havia verificado aquela rua pelo menos duas vezes, suas ordens haviam sido precisas, econômicas, ele não gostava de trabalhar com muito; Jean-Luc estava na entrada do quarteirão, no início do Hyde Park a duas ruas de onde ele estava, enquanto René a dois prédios atrás, em um apartamento alugado por ele por fachada, permanecia posicionado entre a segunda janela, com uma visão clara da rua, mas especialmente do carro de Cortez, sniper na mão, aguardando qualquer ordem que pudesse lhe comandar. Ele era cuidadoso demais para deixar-se acreditar que somente aquilo funcionária.
sempre tinha um plano.
Para cada potencial falha que poderia vir a ocorrer, o demônio tinha um plano de contingência e uma nova rota a ser percorrida. Se acaso o plano A falhasse, haveria o B e o C, e se estes também viesse a tornar-se um problema, então ele simplesmente iria seguir para o D, e então o E, posteriormente o F, o nomeado com a letra G, talvez até considerasse o H, e se acaso… bem, você já entendeu. Mas ele precisava admitir, mesmo para seus próprios métodos, aquele plano havia sido minuciosamente calculado; sua meticulosidade se dera por deliberação, talvez até mesmo um desejo de retribuição. Se ela queria brincar de morta, então lhe ofereceria o melhor enterro que poderia ter; faria questão de estar presente segurando a porra da pá.
E ele começaria por Cortez.
Deixe-se recostar contra o estofado macio de seu Corvette Stingray C7, ouvindo o ruído suave de sua jaqueta de couro misturar-se com o couro do assento, repousou seu cotovelo esquerdo sobre o apoio da porta, seus olhos se estreitando brevemente, tocou com a ponta de seu polegar o material liso de ouro que envolvia seu dedo anelar, girando-a, por hábito, contra sua pele. A aliança de casamento, uma faixa de ouro puro, era simples, apenas uma faixa grossa sobre o dedo dele, uma parte de seu corpo, àquela altura —— ou talvez estivesse sendo apenas dramático. Carregava agora alguns arranhões mais profundos onde seu descuido havia custado um pouco caro, mas permanecia ali, intacta. Assim como a memória dela.
Vadia maldita…
O sorriso amargo quase pintou seu rosto neutro, sua unha fincando no veio mais fundo que se formava no ouro da aliança, distraído, antes de afastar o pensamento de sua mente. Desviou seu olhar da aliança para a entrada do prédio residencial onde Cortez havia sumido alguns minutos. Foi recompensado, no entanto, com uma visão interessante. Cortez, com todas suas tatuagens e marcas dos Gigantes, capuz sobre a cabeça e expressão ansiosa, discutindo com uma bela morena, de calça jeans justa e cabelos longos lisos presos em um rabo de cavalo. Ela gritava alguma coisa em espanhol, que não se deu ao trabalho de tentar entender. Um nome destacou-se todavia, Isabella. estreitou os olhos, inclinando sua cabeça um pouco para trás deixando seu olhar vagar por um momento, buscando por qualquer coisa que pudesse encontrar que revelasse onde a mulher que discutia com Cortez provavelmente vivia, e algo que pudesse usar para sua vantagem.
Não precisou de muito, com o rostinho miúdo projetando-se precariamente por entre as persianas, olhinhos arregalados, tentando assistir a confusão que seus pais estavam fazendo na rua. parou momentaneamente de girar sua aliança, observando o rosto da criança e considerando as informações que ele tinha em suas mãos: pelo tamanho, tinha no máximo 3 anos, pela janela que tentava assistir, o apartamento deveria ficar no térreo, e pelo tom da mulher, Cortez não era bem-vindo ali. Bom, muito bom. alçou seus óculos escuros do porta luvas do carro de luxo, descendo com movimentos deliberados, calculadamente casuais, ao ajustar os óculos em seu rosto.
O vento outonal atingiu seu rosto, afastando algumas mechas de seus cabelos lisos, alguns centímetros maiores do que de fato ele apreciava, o corte curtain a essa altura perdido ainda que a franja repartida no centro pendesse por seus olhos . Carregava consigo o aroma de Londres, aquela mistura única de gases tóxicos automotivos queimando a céu aberto, terra molhada, lixo a céu aberto e até mesmo notas do Tâmisa naquele emaranhado. O primeiro instinto que se tinha era de cuspir no chão, ou vomitar dependendo da fragilidade de seu estômago, mas conteve uma careta ao caminhar vagarosamente na direção do carro de Cortez. Franziu o cenho por um breve momento, fingindo ter um interesse maior do que de fato possuía para o céu, observando as nuvens nubladas que se formavam no horizonte, ainda aquela noite choveria, teria dito sua tia como se aquela porra de informação significasse algo importante. afastou o pensamento com um quase sorriso irônico, ajeitando apenas por hábito sua jaqueta de couro, verificando o relógio caro no pulso direito antes de convenientemente atravessar a rua no momento em que Cortez marchou furioso em direção ao carro largado precariamente na rua.
abriu a porta dos bancos traseiro sem a menor cerimônia, adentrando no lowrider importado de Cortez, o cheiro de maconha, desinfetante e algo que lembrava vagamente a jasmim. É claro, aromatizante para fingir que a porra do carro estava limpo, como se jogar uma série de perfumes caros sobre um corpo ocultaria o estado de putrefação avançado, genial. ajustou-se no banco, sentindo-o ceder o peso de seu corpo, abrindo as pernas propositalmente para ocupar o espaço do banco traseiro, apoiou o braço direito sobre o encosto do carro, com o olhar fixo em Cortez.
De primeira o mexicano soltou um palavrão de alto e bom tom, virando-se na direção do banco traseiro do carro, tentando entender o que estava acontecendo, mas então, seus olhos escuros pareceram registrar o semblante deliberado de . Os ângulos elegantes e afiados do rosto de acentuados pela penumbra projetada pelo carros, acentuando as maçãs do rosto altas e elegantes, além da curva perigosa de seus lábios, revelando o sorriso afiado, torto. Um sorriso despreocupado, enviesado, mas com algo perigoso, uma linha invisível . Um vago lembrete do porquê ele havia ganhado a alcunha que tinha.
Cortez alçou o revólver de 38mm com um movimento atrapalhado, a mão que empunhava a arma tremendo enquanto apontava na direção do peito de . De onde estava, o tiro seria a queima roupa, uma morte instantânea e indubitável. Não tinha como sobreviver aquilo, e no entanto, não havia nenhum pingo de medo no rosto de , pelo contrário, o homem deixou-se relaxar um pouco mais no assento, escorando suas costas no encosto do carro, esperando, paciente, para a próxima ação de Miguel. Seu sorriso, todavia, se tornou mais afiado, perigoso, desprovido de quaisquer traços de humor. Era como observar o diabo à sua frente, observando-o entreter-se com a pequenez de seus pecadores implorando por misericórdia.
Misturado com o perigo que emanava de , havia igualmente aquela ponta sádica de prazer ao observar seu alvo exatamente no lugar que ele desejava. Um prazer um pouco mais profundo e pessoal de observar as peças se moverem de acordo que ele havia previsto.
—— Vá em frente —— pronunciou-se finalmente quebrando o silêncio tenso que havia se instalado dentro do lowrider, erguendo o queixo, desafiador, retirando o óculos escuro de seu rosto para que Miguel pudesse encará-lo nos olhos. gostava de encarar as pessoas no fundo de seus olhos; os olhos nunca mentiam. ergueu uma sobrancelha, seu sorriso aumentando um pouco mais. —— Atira.
Era um jogo com sorte. Estupido e inconsequente, até mesmo suicida de certa forma, mas ainda assim, calculado. Não passava de uma demonstração de poder, um flerte com a morte, evidente, mas ainda assim, um desafio silencioso para qualquer um que se atrevia a colocar-se em seu caminho, um jogo justo: Miguel poderia matá-lo ali mesmo, poderia atirar em seu peito e morreria em menos de cinco minutos. Mas Cortez não faria isso, porque sabia o peso que tal ação carregaria. Se Miguel estivesse fora de si, e apertasse o gatilho, o problema dele não acabaria com a morte de , se iniciaria. Porque a morte de não alterava as peças no tabuleiro, ele ainda seria o Demônio Branco na porra de um caixão, as ordens ainda valeriam, e Miguel perderia tudo o que possuía. Porque o truque não estava na força física que um demonstrava, ou na monstruosidade e atrocidades que se era capaz de fazer, céus, nem mesmo na frieza que alguns gostavam de mostrar como se isso significasse algo. O truque era encontrar o ponto fraco, a vulnerabilidade que se possuíam, a exceção que eles estariam dispostos a salvar custasse o que custasse, e usá-la como bem lhe servia.
E a de Cortez encontrava-se no apartamento térreo, à esquerda, a alguns metros distantes de onde o carro dele estava estacionado. Miguel não arriscaria, porque simplesmente não podia.
Cortez xingou por baixo de sua respiração, mas as mãos dele tremeram. Os olhos de brilharam, como os de um gato. Obscurecidos parcialmente pela penumbra do carro, as íris pareciam ficar ainda mais intensas, a cor mais vívida. inclinou a cabeça um pouco para a direita, seu sorriso aumentando minimamente.
—— Quem é vivo sempre aparece, huh? Miguel Cortez, el Gigante, em carne e osso —— se pronunciou, deliberado e com um divertimento sombrio, seu sotaque cajun escapando por entre suas palavras, envolvendo-as quase como um ronronar felino, pelo tom de voz baixo e áspero de sua voz. Os olhos permaneceram fixos, vidrados nos de Miguel, observando-o com intensidade. A arma apontada para seu peito ainda com a mira travada apesar da mão trêmula do outro homem. estreitou os olhos, inclinando-se um pouco para frente, propositalmente colocando-se mais perto da arma apontada. —— Sabe, eu ouvi muitas histórias sobre você. A fronteira? Oh, eu preciso admitir, eu gostava do seu estilo. Implacável, preciso, mandava o recado, huh? Mas então, de uma hora para outra a grande lenda das ruas de El Paso simplesmente entrega o cargo para Javier, e então desaparece —— ajustou seus quadris no assento, deixando-se deslizar um pouco mais para frente, dando de ombros. Ergueu o queixo, mais de forma desafiadora do que qualquer outra coisa, usando a ponta de seu óculos escuros para coçar a lateral de sua mandíbula bem marcada e cortante como uma navalha. A barba por fazer roçando o material caro do óculos. —— Cria perguntas, non?
O rosto de Miguel se crispou um pouco mais, o medo misturando-se com a raiva, enquanto a adrenalina da surpresa começava a diminuir e seu cérebro começava a registrar o que estava acontecendo. permaneceu imperturbável.
—— Você… como… quando… —— Miguel gaguejou, as palavras em inglês misturando-se com o espanhol pesado, evidenciando seu nervosismo. ergueu uma sobrancelha, indicando com a mão para que Miguel tomasse o tempo que precisava para formular uma frase coerente. O ato deliberado de desprezo pareceu apenas inflamar mais a raiva de Cortez. segurou-se para não rir. —— Ay que estás muy lejos de casa, pendejo de mierda —— cuspiu Miguel. Os dedos do mexicano apertaram com mais força a coronha, o dedo se curvou um pouco mais no gatilho. —— Caí fora do carro agora, cê não comanda nada aqui, caí fora antes que eu…
—— E arriscar sua Isabella? —— pronunciou o nome com ênfase, desafiando Miguel a negar ou ignorar o aviso silencioso em suas palavras, a informação compartilhada e o conhecimento de sobre a criança. O sorriso de desapareceu de seu rosto. —— Você não é assim tão ousado, é? —— inclinou-se mais para frente, sustentando o olhar do outro. Os olhos , vidrados nos de Miguel, pareceram adquirir uma sombra profunda. Não era o olhar de uma ameaça, não ameaçava ninguém. apenas avisava os outros do que iria fazer, cabia à pessoa acreditar no aviso ou não, mas ele sempre fazia. —— Quantos anos ela tem agora, Cortez? 3 anos? 4 anos? Menores que ela já desapareceram por muito menos —— sugeriu com o fantasma de um sorriso pairando por seus lábios, mas era frio e desprovido de humor. Ele inclinou a cabeça para o lado novamente apontando na direção do prédio. —— Quanto tempo até perceberem que ela se foi? Você sabe, querendo ou não, crianças são um bom commodity hoje em dia. É bem mais fácil de domesticar.
Miguel viu vermelho, por um segundo tentou avançar no pescoço de , mordendo a isca que ele havia jogado. É claro que o faria, se a garotinha fosse seu ponto fraco, então Miguel estava disposto a fazer de tudo para mantê-la a salvo. E então, é quando ele percebe. A menina foi a motivação para sua saída de El Paso, mas a pergunta principal era como, ou melhor, quem o ajudou. Naquele mundo não havia saídas fáceis, ou aposentadorias, havia apenas uma forma de sair e era dentro da porra de um caixão. Miguel, evidentemente, não estava morto.
Se aquela não era a sorte de , de repente, todos os mortos estavam voltando à vida.
Trincou a mandíbula com um estalo baixo, um músculo saltando por suas bochechas com a tensão e o movimento, acentuando mais ainda sua mandíbula cortante. Os olhos se estreitaram observando em silêncio Miguel. Era como encarar a porra de um cachorro, podia ver a saliva escorrendo entre os xingamentos que eram latidos, a violência desesperada escrita em seus olhos enquanto calculava se valia mesmo apenas condenar tudo o que mais queria proteger por mero orgulho e ego.
—— Chega, Cortez —— Cortou sentindo uma ponta de impaciência começar a tingir seu tom de voz baixo. Ele ajeitou sua jaqueta, oferecendo seu sorriso afiado mais charmoso para o mexicano, dando de ombros. —— Tsc, couillon, eu não tenho interesse algum em tornar você meu inimigo —— chiou com falsa serenidade. Ergueu então o indicador silenciando Cortez antes que o outro pudesse dizer algo mais. Sustentando o olhar de Miguel, enfiou sua mão esquerda dentro do bolso de sua jaqueta de couro, e então arremessou o saco de papel com o fundo molhado e obscurecido por sangue no assento do passageiro ao lado de Miguel. O rosto de agora era pétreo, intenso. —— Então não me torne o seu. Vá em frente, abra seu presente —— indicou com seu queixo na direção na direção do saco de papel, mas Miguel não fez menção alguma de alçá-lo.
moveu sua mandíbula, suas mãos tremendo com um espasmo inconsciente. Fechou-as em punhos firmes, tensos, controlando seu próprio temperamento.
Um longo silêncio recaiu sobre os dois homens que se encaravam como animais selvagens prontos para brigar. A diferença era nítida, todavia, a postura de Cortez evidenciava uma tensão gritante pronta para fuga, o desespero e o medo permeando seus olhos, mesmo que estivesse tentando ocultá-las pelo véu intenso da raiva, havia medo puro, o mesmo medo que animais selvagens sentiam quando se percebiam encurralados. E então, havia , encarando-o como se pudesse enxergar o mais profundo de sua alma, e exatamente onde fraturou-se, como se já soubesse a resposta que buscava, mas estivesse deliberadamente brincando com seu alvo como um gato preguiçoso. A presa já estava capturada, um ataque fatal seria misericórdia.
Mas não gostava de misericórdia. Nem o demônio.
—— A quanto tempo sabe? —— comandou, sua voz baixa, perigosa e contida, os olhos fixos no rosto de Miguel, cuidadosamente analisando cada uma das mínimas expressões que o mexicano poderia tentar conter, tentando identificar a verdade da mentira, não que fosse assim tão difícil. Miguel estava vulnerável, mesmo que estivesse com um revólver apontado para o peito de , o jogo de poder ali era explícito e claro como o dia, não oferecia vazão e muito menos espaço para manipulação.
Miguel engoliu em seco, apertando com mais força a arma que empunhava, os nós dos seus dedos ficando esbranquiçados pela intensidade que a segurava.
—— Tempo suficiente.
As palavras são mais amargas para engolir do que ele esperava, então recusasse. Os cantos de seus lábios tremeram, o sorriso afiado pareceu tornar-se quase uma careta, os olhos cintilando com uma intensidade penetrante. Uma raiva fria, perigosa espalhou-se pela corrente sanguínea do demônio. Não era como fogo que o consumia e o cegava por vezes, que o alimentava com um propósito fixo e direto, que o satisfazia, não, esta era diferente, mais perigosa porque era controlada. Mais profunda do que ele esperava, autodestrutiva. E ele não tinha certeza se poderia controlá-la; ele não tinha certeza se queria. Havia uma sensação plácida de falsa calmaria, não consumia sua alma, mas envolvia seus músculos, tencionando-os como se estivesse esperando as palavras certas para serem detonadas. O gosto de seu próprio sangue invadiu sua língua, espalhando-se, pungente e vagaroso por sua garganta, enquanto seus ombros se tencionavam para frente, em um gesto quase felino, como se a qualquer momento estivesse preparando-se para atacá-lo.
—— Então, você quer dizer que minha esposa estava viva este tempo todo, e somente agora que eu descubro sobre? Ouch, Cortez, achei que éramos amigos —— o sarcasmo escorria por entre as palavras perigosamente aveludadas dele. Os olhos se estreitaram, as mãos fechadas em punhos firmes tiveram mais um espasmo, como se estivessem desesperadas para enterrar-se em alguma coisa. Sangue, pedia seu corpo inteiro. E porra se ele não queria ceder aquela merda de pedido. Miguel pareceu perceber alguma coisa no tom de , porque pareceu desviar os olhos e pressionar o ombro direito contra o banco estofado de sua lowrider, as mãos trêmulas empunhando o revólver, vacilando momentaneamente, antes de voltar a mantê-la mirada no peito dele.
—— O que você quer ? —— A voz baixa, os olhos queimando com frustração, mas igualmente a percepção resignada que não havia como lutar, não contra . Era em vão e estupido resistir. A revelação já havia o condenado, e percebeu com uma ponta de satisfação sombria que Cortez estava lentamente percebendo isso, percebendo que ele estava condenado, agora era questão apenas de entender o que ele queria fazer: se iria condenar a filha e sua ex a morte também, ou se dar-se-ia, diante da morte, este momento nobre com a esperança de ganhar alguma redenção antes da morte.
Os olhos de desviaram-se momentaneamente do rosto do mexicano, e então repousaram no pescoço dele, observando a característica corrente de ouro com um pingente de crucifixo ao centro. Se a fé não criava os mais tolos naquele mundo, huh? Ou talvez ele apenas soubesse e gostasse da ideia de que ele iria para o inferno. Se era real ou não, não importava para quando ele poderia usar o moralismo, a sensação de direito de fariseus e especialmente o “altruísmo” que a religião oferecia. Eram como pequenas cordas esperando ansiosamente para envolverem-se em seus dedos; e você poderia apostar que ele não hesitaria em tomá-las para si.
Ele recostou-se novamente no banco da lowrider de Cortez, estalando com o polegar seus dedos por puro hábito, antes de sua expressão cair novamente. O olhar afiado, estreitado analisando cuidadosamente sua presa, o queixo erguido em um desafio silencioso, a respiração controlada e superficial.
—— Muitas coisas… você vê, o pagamento dos débitos dos filhas da puta que me devem, dinheiro, fama, sucesso, talvez expandir meu território para a Europa, matar a porra da minha esposa morta —— listou com um tom deliberado e preguiçoso. Abriu um sorriso torto, inclinando a cabeça para a esquerda, fingindo uma falsa cumplicidade com Cortez que o assegurava de que estava seguro com . As sombras criadas pela penumbra no carro repousaram novamente sobre o rosto dele, acentuando os ângulos elegantes e bem marcados, de seu rosto rudemente bonito. —— Mas você pode começar me dando algumas respostas. Vamos lá, tome o seu tempo, eu espero.
Ele não estava mentindo, estava determinado a esperar o dia inteiro se fosse preciso para ter as respostas que desejava. Cortez poderia tentar resistir por alguma falsa necessidade de afirmação de ego ou até mesmo por medo, mas não iria sair dali até que tivesse as respostas que precisava e o quadro geral de suas ações clarificado. E se Cortez possuía as respostas, então que se foda, ele as entregaria. Por bem, ou por mal, o faria. As mãos de nunca haviam sido limpas, era suficientemente divertido observar como algumas pessoas o menosprezava com algum senso de humanidade que poderia restar ali; não havia nada, ele havia feito questão de exterminá-la a muito, muito tempo atrás. Ele era o que haviam criado para ser, mas era irônico como se surpreendiam com isso.
Se fossem inteligentes, iriam entender exatamente porque o chamavam de Demônio.
Por um longo momento, o lowrider foi tomado por um silêncio gritante. Espalhava-se pela pele de ambos os homens como eletricidade, a antecipação pela violência, uma promessa não dita, mas aguardada pulsando a cada respiração exalada, a cada mínimo movimento. Cortez era como a porra de uma presa, encurralada, buscando, desesperada, por uma maneira de escapar dali, de fugir e conseguir sobreviver; era a porra de um predador que gostava de brincar com sua comida.
—— Alguém financiou sua escapada. Quero saber quem foi. —— desviou por uma fração de segundos seu olhar para a rua, observando-a com cuidado, verificando os rostos e as pessoas que transitavam, buscando algum padrão familiar antes de voltar a encarar o outro homem. Tencionou a mandíbula com um estalo, esperando pela resposta.
—— Karam —— Miguel respondeu por fim. O peso de suas palavras reverberaram por alguns minutos em meio ao silêncio crescente e tenso na lowrider. bufou, sarcástico para si. Ele deveria ter esperado por isso, é claro que o lobo velho não teria deixado seus meios e maneiras no segundo que havia conseguido o que queria. havia considerado oferecer ao velho a dádiva da dúvida, mas bem, não dava para dizer que o merecia, certo? Uma vez um filho da puta, sempre um filho da puta. Era o que eles eram, era o que eles faziam. Ato e consequência.
moveu sua mandíbula, impaciente, estalando o pescoço tenso.
—— E quanto a minha esposa?
Miguel lançou um olhar surpreso na direção de , como se ele tivesse acabado de dizer alguma coisa inesperada, ou que o pegou desprevenido. permaneceu com uma expressão neutra, impossível de ler, observando o mexicano aos poucos descender para a completa histeria. Miguel soltou um riso alto, rico, mas não havia humor algum ali. Era o tipo de riso que estava familiarizado a ouvir, quando homens começavam a ceder à histeria, a evidenciar pequenos indícios de seu desespero, quando a emoção se tornava tão sobrecarregada que os empurrava, mais e mais, para o precipício da loucura. Tornavam-se voláteis, perigosos, e exatamente o que gostava de ver.
—— No mames! No mames guero! —— Riu alto. permaneceu encarando-o em um silêncio sufocante, inexpressivo. Os olhos, todavia, têm as sobrancelhas grossas unidas. —— ¿Qué te pasó, guero? Se apaixonou mesmo foi? —— Miguel negou com a cabeça, em uma crise de riso. —— Esa perra de merda é só a porra de uma viciada, a porra de um peso morto, e se quer saber, bem fácil de agradar… —— a voz de Cortez metamorfoseou-se, para uma mais segura, confiante, o sarcasmo e o duplo sentido escapando por sua entonação histérica.
Por um segundo, o rosto de alterou-se, os olhos cintilando como os de um gato pareceram se arregalar um pouco, e ele se permitiu rir com Miguel, como se estivesse achado o comentário a coisa mais engraçada que já havia ouvido. Então foi como se algo tivesse estalado. Um clic fora do lugar, e antes que Miguel pudesse fazer alguma coisa, pudesse sequer considerar disparar a porra do revolver no peito de , já estava em cima de Cortez. Um golpe preciso nas juntas de seu cotovelo, projetou o antebraço do mexicano para cima, dando espaço o suficiente para que agarrasse o pulso do homem, e então enterrasse o revolver que Miguel ainda segurava, abaixo da mandíbula do mexicano. O aperto das mãos de no braço do mexicano era como aço, as luvas gélidas contra a pele do outro estalando pela maneira com que havia flexionado seus dedos em garras.
Miguel se debateu, percebendo tardiamente com horror, as luvas.
Os olhos se tornaram aterrorizados, mas, ao deparar-se com o semblante frio e inexpressivo de , tudo o que encontrou era aquela familiar raiva visceral controlada, fria como gelo, precisa como uma serpente, sustentando seu olhar silenciosamente, desafiando-o a dizer alguma coisa, a fazer alguma coisa que testasse o limite de sua paciência esgotada. Os olhos do Demônio Branco estavam vidrados nos de Miguel.
—— O que? Sem mais piadas, chico? —— provocou, sua voz baixa reverberando pela pele do outro como uma onda de arrepios aterrorizantes. Tão perto como estava, podia ver tudo. O pavor estampado nos olhos de Cortez, a realização de que havia subestimado sua importância para , ou quaisquer que fossem as intenções do demônio ali. sorriu novamente, mas não havia humor algum em seu sorriso, apenas uma satisfação sombria que se espalhava pelas veias de , pulsante como eletricidade. —— Vá em frente, me conta como a minha esposa é uma vadia.
Miguel, o cholo coberto em tatuagens e marcas das gangues de rua que havia comandado. Miguel, el Gigante, que sempre havia bragado sua invencibilidade, fedia a porra de urina deparando-se com a morte.
—— Quem está fornecendo o dinheiro para Karam? —— questionou entre dentes, um tom de voz perigoso, calculado e baixo. Miguel tentou se soltar do aperto das mãos de , mas apenas projetou-se um pouco mais para frente, forçando o pulso de Cortez para trás até a mandíbula do mexicano. Era um beco sem saída, não poderia quebrar o pulso de Cortez se queria o resultado planejado, mas igualmente era tentador apenas quebrar a porra do pulso do filha da puta, ao menos pelo desencargo de seu próprio orgulho. Miguel tremeu, mas não respondeu.
tencionou a mandíbula com mais força, erguendo o queixo, os olhos fixos, profundos, nos de Miguel, como se quisesse convir silenciosamente que Cortez havia trazido aquilo para si mesmo. Não era que tivesse algum conceito deturpado de justiça, ele deixava bem claro a todos que entravam em seu caminho que ele não tinha um código de honra, apenas o que ele queria, e o resultado final. Mas também não era a porra de um sociopata, ele gostava de deixar bem claro que cada ato havia uma reação. Miguel havia escolhido fugir, se esconder como a porra de um rato e reconstruir seu império na porra de outro continente? Não. Não quando se possuía a porra de um débito com , não quando havia escondido a porra da verdade.
Ele desviou o olhar do rosto de Cortez, buscando pela jaqueta e bolsos das calças do outro por algo que pudesse o auxiliar mais tarde. Encontrou por fim, após alguns minutos, o aparelho celular do idiota no bolso interno de sua jaqueta. Não se deixou acreditar, ele conhecia muito bem qual era a estratégia, e qualquer idiota com um número aceitável de neurônios sabia que era melhor apenas separar os negócios de sua vida pessoal, especialmente se você não queria criar provas contra si mesmo. Permitiu que sua mão direita, firmemente fechada ao redor do pulso de Cortes deslizasse um pouco mais para cima, o indicador repousando sobre o indicador de Cortez que se mantinha sobre o gatilho do revólver. A presença fantasmagórica do indicador dele sobre o de Cortez, uma promessa silenciosa.
Os olhos dele demoraram um pouco mais no espaço frontal da lowrider, seu olhar finalmente encontrando o tapa sol. Com um movimento rápido, puxou o compartimento para baixo com sua mão esquerda, observando o segundo aparelho celular desabar nas pernas de Cortez. Alçou o aparelho em sua mão, girando-o brevemente ao analisar que tipo e marca eram, antes de voltar o aparelho na direção do rosto de Cortez. Usou o reconhecimento facial para desbloquear o aparelho.
Então forçou seu indicador sobre o de Cortez, disparando.
Um flash iluminou brevemente o banco do passageiro. O empuxo da arma reverberou pelo braço direito de , obrigando-o a tencionar os músculos de seu braço não dominante, tencionando a mandíbula ao contê-lo. A cabeça de Cortez explodiu à sua esquerda, o sangue explodiu, quente contra a lateral de seu rosto, pedaços de carne e cérebro se chocam, manchando de vermelho profundo a janela da lowrider. Mas a atenção de não estava na maneira com que o corpo de Cortez amoleceu, projetando-se para o lado, sua atenção estava fixa no aparelho celular.
Soltando o pulso de Cortez, arrastou-se para o banco ao lado, abrindo a porta e saindo pela porta contrária à que havia entrado. Seus olhos buscando pelas câmeras de rua, para ter certeza de que estaria no ponto cego das mesmas, antes de colocar os óculos escuros de volta em seu rosto. Levou o indicador de sua mão direita em direção aos lábios, os dentes fincando-se no couro, ao puxá-la, liberando sua mão direita, e então passou o celular da esquerda para a direita, scrolling e abrindo todos os aplicativos de comunicação, banco de Cortez.
Usando a luva, ele limpou os pedaços de cérebro e sangue de Cortez que escorria por sua bochecha e mandíbula, acumulando-se na gola de sua jaqueta, ignorando completamente o ruído alto que o disparo próximo a sua cabeça havia deixado em sua orelha esquerda. Era comum, a essa altura, apenas um dos danos calculados colaterais que acabava lhe causando. abriu a porta de seu Corvette Stingray C7, adentrando com um movimento econômico. Transferiu parte do dinheiro de Cortez para a mulher que ele assumiu ser a mãe da pequena Isabelle. 500 mil libras deveria ser o suficiente para dar a ela uma chance de desaparecer dali, e se ela fosse esperta, o faria assim que descobrisse sobre o “suicídio” do ex, mas, então, de novo, aquele não era mais o problema dele. O restante do dinheiro de Cortez, enviou para Ziyad Karam, Doc, com o fantasma de um sorriso preso em seus lábios.
Ziyad Karam era um velho old school. Sabia que o montante em breve tornar-se-ia não rastreável e era disso que precisava. Buscou então pelos aplicativos de mensagem de Cortez, observando algumas conversas ridículas e embaraçosas com algumas putas, ordens recentes com o endereço em específico e familiar para alguns homens, quase quinhentas mensagens de um tal Madoc em completo desespero, e então um contato. Não possuía foto, mas ele conhecia aquele nome como uma parte de sua própria alma. Sentiu novamente aquela descarga cálida de fúria que se infiltrou por sua corrente sanguínea sempre que seus pensamentos se desviavam para ela.
Butcher. Açougueira.
Era assim que eles a chamavam. Era assim que onde quer que ela fosse, seria chamada. A açougueira. Ele tencionou a mandíbula, sentindo os músculos de seus ombros e braços se tencionarem, a necessidade de explodir, de avançar em direção de alguém e deixar toda aquela raiva esvair-se de si gritante, mas não era do tipo que se permitia a perder o controle se não tivesse uma boa motivação por trás. Ele tinha problemas com raiva, é claro, isso qualquer um poderia perceber, mas sua raiva não era sua inimiga, era sua arma pessoal. Transformá-la em apenas um impulso era apenas ridículo. Então, ao invés de quebrar o aparelho, ele tocou na conversa, abrindo-a com uma ponta de curiosidade.
Não se surpreendeu ao ver as tentativas falhas e ridículas de Cortez de levá-la para cama. conhecia bem o suficiente sua esposa para saber que ela não deixava ninguém a tocar, mas ainda assim sentiu aquela familiar sensação de posse incomodá-lo. Como a porra de uma coceira, espalhando-se por sua mente devagar e corrosiva. Encontrou algo interessante, no entanto, uma localização. estreitou os olhos. Orquídea. Huh, você poderia mudar de lugar, mas não de essência. É claro que Doc teria a porra de um prostibulo por ali.
Orquídea. 00:30.
Ele apertou o botão de envio, sem esperar por uma resposta. Ele sabia que ela viria.
sempre aparecia quando havia vantagem para si. Mesmo que fosse a porra de uma armadilha.
NOVA ORLEANS • 15 ANOS ANTES.
Uma parte de si queria explodir, xingá-la até que sua voz estivesse rouca e falha, até que a pressão de sua raiva fosse aliviada de seu peito, já a outra parte, a que a conhecia como a porra da palma de sua mão, sabia que era simplesmente inútil. Marcelle não fazia nada que não quisesse, e não tinha nada que pudesse fazer sobre, por mais que seu instinto fosse protegê-la. Sua irmã gêmea sempre havia sido a mais impulsiva entre eles; às vezes o fazia querer esganar ela por isso. Todavia, ele fez a única coisa que poderia fazer em uma situação como aquela, ficou sentado ao seu lado, com a porra do pano ensanguentado em mãos, concentrado na tarefa em mãos.
Pressionou com um pouco mais de força do que deveria o pano molhado com álcool isopropílico contra o ferimento dela. Trincou os dentes, segurando-a por instinto, as unhas fincando-se na pele dela quando ela tentou se debater contra ele e livrar-se de seu toque. Os olhos de Marcelle cintilaram com um aviso silencioso, os lábios retorcidos para cima de seus dentes, como se ela estivesse prestes a grunhir como a porra de um gato, enquanto unia as sobrancelhas, fuzilando-a com o olhar. Um comentário silencioso pairando pela expressão irritada dele: “Era o que você queria não era? Então aguenta”. Mas de todos que ele conhecia, Marcelle era a última pessoa que aceitava de bom grado o que quer que comandasse.
Não, sua irmã gêmea era volátil, impulsiva e teimosa como a porra de uma porta. Às vezes o fazia se questionar porque diabos ainda tentava protegê-la quando ela parecia estar em uma missão pessoal para se machucar. Mas então ele rapidamente se culpava e censurava, se ele fazia o que fazia era para ter certeza que ela tivesse a porra de um futuro. Algo melhor do que aquilo. Só porque ele estava condenado, não significava que ela também precisava estar.
—— Para porra! Se vai continuar fazendo isso, então não precisa continuar tentando me ajudar com meus ferimentos, ! —— Rosnou Marcelle, sua voz rouca evidenciando o desgaste da luta perdida naquela noite, estava com raiva, estava querendo discutir, e como era o que estava mais perto, ele sabia que ela explodiria com ele. Não se importava, mas igualmente não era exatamente do tipo que perdoava fácil. não se moveu, apenas empurrou o braço de —— Me solta, . Agora!
a soltou, mas inclinou-se para frente, invadindo o espaço pessoal dela e trincando os dentes, sustentando o olhar dela com uma fúria gélida crescente.
—— O que? Eu achei que você gostasse de sentir dor, tá reclamando por que agora? —— Cuspiu ele, entredentes. Marcelle fuzilou-o com o olhar, parecendo estar considerando acertá-lo. —— Vai em frente, me acerta, porra. Quebra a minha cara, é o que você quer fazer agora? Depois de apanhar como a porra de uma cadela de rua? Vai em frente então, porra, to esperando. Banca a durona comigo.
—— Você quer falar alguma coisa sobre apanhar como a porra de um cachorro, ? Logo, você? —— Marcelle soltou uma risada afiada, e ignorou a maneira com que seu próprio temperamento estava começando a ceder. Marcelle costumava ser uma parte de si, uma parte de sua alma, e sempre seria. não tinha dúvidas disso, eles eram gêmeos, não havia um mundo que ele conhecia em que ela não estivesse, e ele sabia que não haveria um mundo para ele se ela não estivesse mais ali. Mas igualmente, Marcelle era um constante teste para sua própria paciência: porque ele sabia que ela merecia melhor do que aquela vida, porque ele sabia que ela conseguiria ter uma vida melhor que aquela, e todavia, por algum motivo que ele não conseguia compreender, a desgraçada parecia desesperada para parecer durona e no controle.
As palavras dela doeram. Mais do que ele iria querer admitir. O gosto amargo em sua boca era pungente, e por uma fração de segundos ele a encarou com ressentimento. Mas , como sempre, não respondeu. Deixou que as palavras dela afundassem no silêncio que agora se estendia entre os dois. Por uma fração de segundos, ele viu a incerteza brilhar pelos olhos dela, a dúvida carregada pela certeza de que ela havia ultrapassado uma linha com ele, mas então havia desaparecido. não se deu ao trabalho de respondê-la, voltando a linha de seu olhar para o corte na nuca dela.
Sentiu a familiar emoção, espiralando por entre sua própria raiva, perdido como um navio à deriva, estava a culpa. A culpa por vê-la se tornar uma extensão de uma parte de si que odiava. A culpa por não ser capaz de oferecer uma vida tranquila e segura para ela. A culpa de vê-la tentar se autodestruir como se essa fosse a saída. Era estranho, e até mesmo hipócrita de sua parte tentar censurá-la por suas escolhas, quando era o filho da puta que tomava as piores decisões.
—— Se quer morrer, me poupe o trabalho de ter que assistir, Marcelle —— Foi tudo o que disse, jogando o pano ensanguentado sobre a perna de Marcelle e levantando-se da cadeira. Ele estalou o pescoço, caminhando descalço em direção ao banheiro único do pardieiro que Doc havia permitido que eles vivessem. Não era muito, sequer parecia limpo na maioria das vezes, e somente nas últimas semanas, havia gastado uma nota consertando o vazamento de gás e se livrando de um rato, ainda assim, era o único lugar que eles tinham.
Marcelle e eram ambos orgulhosos. O traço compartilhado talvez fosse a única memória de sua mãe, embora fosse Marcelle a ter os olhos dela. Não que fosse uma boa memória para se guardar, ou que gostasse de pensar sobre.
Não haveria desculpas ali; Marcelle não se desculpava, tinha aquela necessidade estúpida de sentir-se certa sobre tudo, de achar que suas justificativas eram as que apenas as que importava, apesar dos ferimentos que causava, não reconhecia seus defeitos, e se o fazia, justificava-os com os dos outros. E era rancoroso o suficiente para não querer perdoar, implacável demais para possuir o sentimento de esperança por qualquer coisa, para ser algo além da figura estoica que havia se tornado. Ele não queria ser. Funcionava de forma simplória, até mesmo prática: ato e reação, nada mais.
Abriu a torneira, deixando a água escorrer por entre seus dedos, esfregando-os com as unhas, com irritação e prática ensaiada. Era normal tentar esfregar sangue de suas mãos para ser sincero, tirando as tatuagens que as cobriam ocultando cicatrizes e expondo suas ligações com determinadas gangues ao redor de Nova Orleans, sangue era o que mais cobria e impregnava suas mãos. Manteve seus olhos fixos em suas mãos, sem arriscar erguer o olhar e encarar seu próprio reflexo. Da última vez que o fizera havia quebrado com socos até que suas mãos estivessem em carne viva, tivera que conseguir um melhor e mais caro para Marcelle, e prometer que não o faria mais. A ideia, todavia de erguer seu olhar e deparar-se com o que voltaria a encará-lo era o suficiente para o colocar no limite de seu controle. Não era nada relacionado a sua aparência, na verdade ele sabia que era a porra de um gostoso, os olhares que recebia, os flertes que se permitia entreter-se deixava bem claro que era atraente e bonito, o problema era o formato de seu rosto, os cabelos, a cor de sua pele, mesmo os olhos.
nunca enxergava a si mesmo no reflexo de espelhos.
Mal havia conseguido limpar todo o sangue de Marcelle de suas mãos quando desligou a torneira, alçando uma toalha de rosto qualquer que estava na bacia de roupas sujas e então voltou para o único outro cômodo que ele dividia com Marcelle. A cama havia ficado para Marcelle, é claro, quase nunca estava em casa, e quando estava, preferia dormir no chão, perto da janela, sobre o velho tapete. Às vezes Marcelle tentava o arrastar para a cama, mas ele sempre acordava antes que ela sequer pudesse tocá-lo.
—— Russo ou Irlandês? —— Foi tudo o que questionou, seu tom baixo e terrivelmente calmo.
Marcelle tencionou-se no ato de pegar o band-aid para colocar sobre sua sobrancelha, as mãos ainda envoltas nas faixas de luta que ela usava para as lutas clandestinas que Doc incentivava em um dos subsolos da Boca do Inferno. não ergueu seu olhar, permaneceu concentrado no trabalho de enxugar suas mãos, esfregando-a os calos que se revestiam suas mãos, as palavras em latim “Averno Mori” estavam tatuadas, cada letra em um dedo respectivo, com uma tipografia gótica e grossa. Eram um bom lembrete para ele; um lembrete de qual era sua meta pessoal. esperou pacientemente pela resposta de Marcelle, tencionando sua mandíbula com força. Ele não sairia dali sem uma resposta, e Marcelle sabia.
—— Javier, na verdade —— Marcelle sussurrou, hesitante, parecendo tentar ler a expressão de , e teria conseguido, se ele não tivesse escolhido empurrá-la para longe. As palavras dela ainda estavam frescas e pairando pelo espaço do apartamento pequeno, martelando ao fundo da mente dele, não iria mais trazer aquele tópico para Marcelle. Talvez estivesse sendo duro demais com sua irmã gêmea, talvez estivesse sendo até mesmo cruel, mas se ela queria bancar a durona, a impenetrável, então ele a trataria como desejava. —— … , o que você vai fazer?
abriu um sorriso sarcástico, encarando Marcelle. Não disse nada, não precisou dizer, ele sabia que ela tinha consciência do peso de seu silêncio, sabia que ela podia identificar nas entrelinhas o que diabos estava passando pela mente de e exatamente o que ele iria fazer agora.
—— René chegará em 15. Você vai ficar aqui até eu voltar. —— retirou dois cartões de sua carteira jogando na direção das mãos de Marcelle, dando de ombros, com indiferença. —— Compra o que quiser.
—— Ficou maluco? Eu não vou ficar…
—— Eu não estou pedindo, Marcelle! —— a cortou sentindo sua voz se elevar alguns tons acima, e uma parte de si teria se sentindo culpado por o fazer, especialmente pela maneira que ela havia se encolhido. Ele poderia querer esganar ela muitas vezes, ele podia não colaborar ou aceitar suas palavras, mas eles vinham do mesmo lugar, havia crescido e escapado do mesmo inferno, ela era, de certa forma, a outra parte de sua alma, ele a conhecia bem o suficiente para ter cuidado com seu tom de voz, para medir suas palavras e tentar ser mais pacífico do que de fato ele era, mas as palavras dela ainda estavam pulsando por seus ouvidos, ainda estavam frescas demais. Então ele não se importou. Resolveria isso mais tarde, eventualmente ele sempre pedia desculpas mesmo que fosse apenas para manter uma falsa sensação de paz: nunca Marcelle. —— Você fica, entendeu?! Quando eu voltar, quero encontrar você aqui, com René. Se pensar em fazer alguma coisa, se pensar em fugir, seja para o que for, você não vai ligar para mim, entendeu, Marcelle? Vai resolver sua merda sozinha, de acordo?
a conhecia bem o suficiente para saber que Marcelle nunca resolvia nada sozinha; existia para isso, certo? Concertar e mediar as merdas que ela fazia.
Sem mais nenhuma palavra, marchou para fora do apartamento, parando apenas para pegar sua jaqueta e jogá-la por seus ombros, cobrindo seu rosto com o boné escuro e o gorro da jaqueta. Não o fazia por paranoia, na verdade, boa parte do submundo criminoso de Nova Orleans sabia onde ele vivia, não era o tipo de pessoa que se escondia, muito menos fugia, mas com Marcelle no apartamento, ele não arriscaria. Não com ela ferida.
Não demorou muito para chegar a Boca do Inferno. Os letreiros vermelhos da boate piscavam, chamando a atenção de qualquer desesperado ou idiota o suficiente que desejasse ter uma noite regada a prazeres carnais, drogas e a completa obliteração de suas morais e consciência. não podia culpar ninguém que estava na fila de querer entrar no lugar, todo mundo possuía seus próprios demônios para lutar, se pudesse os fazer amortecido, que mal teria? havia tido o cuidado de não trazer uma arma ali, então quando o segurança, Jack —— ou era Jerry? —— o revistou, tudo o que fez, foi abrir um sorriso sarcástico e lançar uma piscadela, flertando com o segurança.
Jack —— ou Jerry —— não havia ficado feliz.
caminhou por entre os corpos movendo-se em sincronia ao ritmo de alguma música trance eletrônica que parecia vibrar por seus ossos. As luzes estroboscópicas giravam ao redor criando padrões aleatórios e abstratos pelos corpos e superfícies impecáveis de mogno que cobriam o espaço. O assoalho de madeira escura abafaram as solas de suas botas de combate, esforçadas e sujas permanentemente de sangue seco. alçou de uma mesa qualquer um copo pela metade com whisky, girando para a esquerda ao desviar de alguns bêbados rindo e apostando sobre quem iria comprar o que aquela noite, passando por Ivy e Beatriz disfarçadas, com a mercadoria em suas bolsas a tiracolo para espalhar e vender para o máximo de compradores que conseguissem. Os pequenos pacotes com pó ou balas coloridas, uma indicação da verdadeira motivação de estar-se ali.
marchou na direção de Chase, um dos seguranças internos de Doc, fazendo questão de esbarrar no peito dele, derramando o copo pela metade de whisky em suas roupas e fazendo uma cena de arrependido, mantendo o olhar de Chase no copo e na mão dele tentando ajudá-lo a enxugar o estrago, ocultando sua mão dominante, esquerda, que disparou para a arma no coldre do homem. Regra número um do furto: sempre que for roubar a carteira, aponte para o relógio. piscou para Chase, tentando provocá-lo antes de voltar a caminhar.
Com um gesto rápido retirou o tambor da Glock 12mm, contando-a mentalmente. 9 balas. voltou a colocar o tambor no lugar, e então destravou a arma, engatilhando-a com um movimento rápido. Serviria. Mirou no teto e disparou: uma, duas, três vezes, propositalmente para criar um pandemônio no lugar. caminhou até o bar, escorando-se em um dos bancos, apoiando seus cotovelos sobre o mogno frio, enquanto assistia, desinteressado as pessoas se empurraram e gritaram umas com as outras, tentando escapar dali. não precisou virar seu rosto para a esquerda para saber que Chase estava correndo em sua direção. Então , igualmente não hesitou. Estendeu o braço esquerdo na direção de Chase e disparou.
O corpo desabou com um baque audível e molhado, acompanhado de gritos em pânico dos bêbados tentando escapar dali. Mas a confusão toda havia tido o efeito que ele queria. De algum lugar do primeiro andar, Ziyad Karam, ou simplesmente Doc estava descendo a passos vagarosos. Estava com seu terno impecável, de corte italiano e visivelmente caro, de um azul profundo quase preto. O rosto simétrico e equilibrados revelavam uma cicatriz sobre o olho direito, mas sua visão permanecia impecável, sombras se projetavam em sua face pelas, agora, luzes acesas do espaço, acentuando as maçãs do rosto altas e elegantes, o nariz reto e proporcional, os cabelos cortados bem curtos eram crespos, levemente grisalhos nas laterais, mas ainda escuros como a noite no topo. Carregava enrolado no pulso direito um rosário de contas de olhos de tigre, a cruz, de metal, era elaborada e possuía um belo rubi ao centro. Atrás dele, mais dois seguranças caminhavam, prontos para atirarem em , se Ziyad não tivesse estendido a mão para os impedi-lo.
A expressão de permaneceu vazia. Terrivelmente calma.
—— Que bom que agora tenho sua atenção, Doc —— murmurou calmamente, sua voz escorrendo, aveludada, com falsa simpática. Ele inclinou sua cabeça para o lado, sustentando o olhar de Doc, seus olhos, insondáveis, cintilando como os de um gato. —— Vamos conversar. —— Ele não estava fazendo um pedido.
CAPÍTULO 02 • CHESHIRE’S SMILE
LONDRES • AGORA.
Orquídea. 00:30.
—— Filho da puta pau no cu do caralho! —— Ela rosnou entre dentes, arremessando o aparelho celular contra a parede do banheiro, e então curvando-se para frente. Fechou os olhos com força, tentando controlar seu próprio temperamento, mas bem, aquela era uma luta que ela nunca havia se importado em sequer começar. Estalou seu pescoço tenso, curvando-se sobre o porcelanato encardido e fedendo a água sanitária, derivados de limpeza e urina que as mulheres da delegacia costumavam usar. O banheiro feminino no segundo andar, era uma maneira discreta de estabelecer dominância para um bando de pau no cu bunda mole querendo pagar de machão. Mas a pior parte? Era que funcionava; oferecia a ela, igualmente, tempo para pensar sem ter que usar a maldita máscara de autocontrole. Merda, merda!
Ela exalou outra vez, tentando descomprimir o aperto em seu peito, sem obter sucesso. Os arrepios que percorreram seu corpo e os espasmos que começavam a se apoderar de suas mãos e ombros evidenciaram que a falta da droga estava começando a ser notada. Merda, porra, caralho! Acertou com força outra vez o espelho a sua frente, antes de endireitar-se apoiando as duas mãos em seus quadris. Que porra de situação ela havia se enfiado, huh? Seus olhos repousaram no aparelho quebrado no canto da porta, praguejando baixo. Que escolha tinha? Miguel estava fazendo aquele jogo com ela, e ela precisava da porra da droga para manter a cabeça no lugar —— para manter Beatriz longe ——, não havia outra forma de lidar com aquela situação se não fosse passando por Miguel. Estava fodida, uma compreensão simplória e clínica de sua situação; fodida para um caralho!
Abriu novamente a torneira do banheiro, unindo suas mãos abaixo da torneira e então jogou a água gelada em seu rosto, a sensação gélida assemelhando-se com um soco potente em seus sentidos, livrando-a do torpor crescente causado pelos resquícios da ressaca e o começo de sua abstinência, ainda assim, não resolveu em nada o ar febril que sua pele começava a exibir. Apoiou as duas mãos contra as laterais da pia de porcelanato decrépita e suja, engolindo em seco, e então encarando seu reflexo. O gosto amargo percorreu sua garganta, a bile subiu, e ela conseguiu sentir o refluxo subindo por sua garganta. Se ela tivesse comido algo naquela manhã, certamente, já teria esvaziado seu estômago por completo a essa altura, ao em vez disso, cuspia apenas aquela maldita bile que voltava de seu estômago. Estava uma merda, olheiras abaixo dos olhos, a pele mais pálida que o normal, com um aspecto doentio e quase sujo, o acúmulo de suor em suas têmporas, brilhando discretamente era indicativo necessário para que evidenciasse seu estado febril. Ótimo, como se ela já não fosse ter perguntas direcionadas ao seu estado. Os lábios ressecados, exibiam agora pequenos cortes causados por ela mesma, ao arrancar a pele e fazê-los sangrar. Dois pequenos cortes latejavam, ardendo como fogo nos canto esquerdo de sua boca, o gosto de sangue que outrora havia invadido sua boca, agora já havia secado, começando a formar uma casca de proteção. soltou um chiado entre dentes, desviando os olhos quase segundos após encarar-se no espelho, como se sua imagem queimasse, afastando-se da pia do banheiro, esfregando suas luvas, agora, molhadas, em seu rosto, tentando clarear seus pensamentos.
Resolveu focar no prático: parecer estável e controlada.
Mas ela não conseguiria fazer isso sem a porra da droga! Merda!
Isso não poderia estar acontecendo, como se ela precisasse de mais um problema enfiado no meio da sua… congelou no lugar, unindo as sobrancelhas. Não, espera, o que ela estava fazendo? Ir atrás de Miguel? Quando ela trabalhava na porra da delegacia? Tinha pelo menos uns três ratos de laboratório que eles prendiam por dia, e ela estando localizada estrategicamente no centro? Qual é? Quando ela se permitiu ser tão burra assim e se desesperar? Era melhor que isso porra! Ela havia sido treinada para ser melhor que isso. O que ela precisava já estava ali, ela só precisava dar um jeito de pegar —— e se havia algo em que ela era boa, era encontrar o que precisava.
Ajustou suas roupas, puxando um pouco mais para cima a gola alta de sua blusa preta, tomando cuidado para mantê-la o mais alto possível, onde a base e o corretivo ocultavam suas tatuagens e cicatrizes, antes de voltar sua atenção para seus antebraços. As marcas estavam ali, é claro, as cicatrizes que ela não conseguiria escapar mesmo se tentasse, mas foi a tatuagem elaborada com a víbora preta enroscada em uma cruz quebrada, que tomou seus olhos, os dizeres: “Memento Mori” cravados em sua pele, uma lembrança distante, porém amarga que ela estava tentando esquecer. Tencionou a mandíbula. Ela havia tentado cortar a pele fora logo quando chegara a Londres, era por isso que o topo da tatuagem revelava uma cicatriz grotesca de raspagem, mas a dor havia sido o suficiente para desorientar, que havia acabado por desistir, agora, ao observá-la, se arrependia de não ter ido até o final. Puxou com mais força do que necessário as mangas para baixo, tomando cuidado para não deixar nenhuma parte de sua pele exposta.
Não era a ideia de seus colegas de trabalho descobrindo sobre suas tatuagens que a incomodava, embora fosse o suficiente para colocá-la em perigo se estivesse considerando as gangue que marcaram sua pele ao longo dos anos; era a ideia de que qualquer um, a qualquer momento, poderia tocá-la sem que ela sequer pudesse impedir, que a fazia querer vomitar. Era a possibilidade de sentir a textura desconfortável de uma mão desconhecida, o pânico aterrorizante e quase enlouquecedor de não ter controle sob aquele toque, de estar vulnerável a suas intenções que a fazia tremer e contorcer-se em espasmos irregulares. Era o suficiente para começar a despertar a parte de sua mente que não queria lidar naquele momento, a parte de sua mente que precisava das drogas para manter sob controle. O monstro que ela havia alimentado por tanto tempo que, agora, tornava-se difícil saber diferenciá-lo; onde ele terminava, e onde ela começava? Ainda restava algo ali que fosse ela?
Exalou devagar, assentindo para si mesma, alçando o celular do chão e então saindo do banheiro feminino. O barulho contínuo na delegacia era um eco familiar, um ruído branco que ela havia aprendido a ignorar, apesar da constante paranoia. Veja bem, a ideia de estar no centro do perigo, correndo o risco de ser descoberta e presa —— ou pior, localizada —— era o suficiente para deixá-la no limite da ansiedade, mas ainda assim, era melhor estar infiltrada dentro daquele lugar, tomando cuidado e ciência do que acontecia ali, do que estar fora. Era prático, um mal necessário; era o que ela foi treinada para fazer. Mas forçar uma personalidade e um sorriso que não sentia vontade de expressar, era irritante. E naquele dia, sua máscara estava caindo mais rápido do que ela conseguia impedir-se.
Os olhos dela percorreram os rostos, alguns familiares, outros recentemente adicionados, buscando aquele tipo de olhar, aquele cinismo ou precisão ao localizá-la, buscando um reconhecimento que diferia do “ah, é a de novo” que havia se tornado um padrão ali. Buscando uma falha no status quo, mesmo que, muito provavelmente, fosse uma batalha perdida. Talvez, estivesse realmente começando a perder sua mente, talvez a paranoia estivesse espiralando fora de controle e não fosse demorar muito para que ela tivesse algum tipo de ataque psicótico, mas não se importava. Sabia dos riscos, do que estava em jogo, e não se deixaria acreditar que estava a salvo —— ela nunca estaria. Virou para a esquerda no corredor largo e cuidadosamente limpo, pálido, os murais com eventos pela cidade e a programação dentro do quartel se expunha firmemente na parede, havia também uma nota de Zhao reclamando sobre materiais do laboratório que estavam desaparecendo com frequência. Ela quase teria sorrido, com desprezo, da ideia de Zhao estar desconfortável com furtos ali dentro, se um panfleto adicional não tivesse chamado sua atenção. Haveria um comício político, parlamentares de extrema direita tentando tirar mais algum tipo de direitos ou coisa do tipo —— conhecia a linha de pensamento, e nunca era sobre retirar direitos deles, só de qualquer outra pessoa que não fosse eles; patético. Não foi o discurso ou as promessas que chamaram a atenção dela, foi a fotografia.
Em frente do palanque, ela reconhecia facilmente o semblante de Ziyad Karam, se passando perfeitamente como um parlamentar britânico nacionalista, sendo um imigrante; os traços eram familiares, o rosto oval com contornos bem acentuados e maçãs do rosto altas. Os olhos intensos e marcantes levemente puxados para cima, castanhos escuros, semicerrados exibiam aquela expressão inteligente e, ao mesmo tempo, esnobe. Os cabelos grisalhos nas laterais, permaneciam impecáveis, destacando-se levemente na pele marrom que possuía, a barba bem aparada impecável, além das roupas pesadas de grife. Aos olhos de qualquer um, era um digno empresário, um perfeito político entrando em ação. Para ela, ficava mais e mais claro que sua presença ali, naquele lugar, era, na verdade, apenas um dos inúmeros jogos de sombras que se envolvia para conseguir um maior controle sobre a cidade em que se instalava —— a porra de um parasita. Mas era a figura que se encontrava no canto inferior, parcialmente voltada para trás, como se tivesse percebido tardiamente a fotografia, e tivesse se voltado para trás a fim de ocultar sua presença da forma que conseguia, ocultado pelas sombras.
Um tremor percorreu pelo corpo de , as mãos, espasmódicas, pareceram ficar amortecidas de repente, dificultando o ato de alçar o panfleto do mural, dificultando até mesmo segurar a merda do pedaço de papel. As pontas dos dedos formigavam, pequenas agulhas afiadas e dolorosas sendo fincadas, por vezes, contra suas digitais, contorcendo-se por sua pele e espalhando-se mais e mais rápido, mesmo com a pressão do couro de suas luvas. Seu coração disparou, doloroso, contra sua caixa torácica, acelerado. O gelo pareceu percorrer por sua corrente sanguínea e a deixou ainda mais sensível a todos os estímulos ao seu redor.
Reconhecia os poucos traços que estavam expostos por entre as sombras e o movimento, lhe era familiar como sua própria respiração. Ela sabia a quem pertencia aquele maldito formato de rosto, bem pronunciado e marcado, retangular, a mandíbula forte e arga, acentuada, um orgulho de virilidade pessoal. Sabia a quem pertencia aquele maldito sorriso assimétrico, e os cabelos escuros como a noite, agora permeados por tons cinza-prateados, curtos, perfeitamente penteados, acompanhados pela barba espessa, bem cuidada. As roupas pesadas, escuras, discretas e projetadas para se misturar entre a multidão de pessoas. buscou, ansiosa, pela data da fotografia, mas não estava no panfleto. Sentiu o gosto da bile atingir sua língua outra vez, o tremor em suas mãos a fazendo soltar a porcaria do panfleto, enquanto piscava algumas vezes, tentando manter sua mente, ao menos, centrada na tarefa em mãos —— porra ela realmente precisava achar logo aquela merda de drogas! ——, tentando não se permitir perder-se em seus pensamentos, outra vez.
Não se Edgar estava em Londres.
Merda! Porra! Puta que pariu, se ela não estaria mais do que fodida agora. Voltando a caminhar, dessa vez com um andar mais rápido e agitado, ela repassou o incidente naquela manhã. Repassou a quase invasão, a sombra que havia visto em sua cozinha, a porcaria do cartão. Sem perceber, sua respiração passou a escapar em rápidos arfares, baixos ainda, até mesmo controlados, mas estavam começando a ficar mais intensos. Os olhos percorreram ansiosamente pelos corredores, repousando brevemente no laboratório de perícia, antes de virar para a esquerda, subindo quase correndo a escadaria de metal. O contato de suas botas pesadas, militares, soando um pouco mais alto do que ela gostava que ocorresse, evidenciando mais do que deveria sua presença naquele maldito espaço. Mal havia virado para a direita quando se deparou com Lorraine Ryder.
A loira soltou uma exclamação baixa, erguendo a linha de seus olhos dos papeis espessos que carregava da nova perícia do caso que o departamento estava cobrindo aquela semana inteira, imediatamente colocando-se em movimento, tentando alcançar . Ela xingou em português, girando em seus calcanhares e refazendo seus passos, desceu em dois e dois degraus, ignorando os chamados de Lorraine, ou os olhares exasperados que recebia de alguns colegas de trabalho, marchando o mais rápido em direção de uma sala, qualquer sala que encontrasse pelo caminho, fechando a porta atrás de si com um clique alto antes de disparar em direção a janela.
A queda era uma possibilidade? Evidentemente, mas nem fodendo que iria lidar com Lorraine e as perguntas da loira sobre o porquê ela parecia estar tão fora de si aquele dia. puxou a janela antiquada, vitoriana para cima, sentindo o vento suave outonal, carregado pelo cheiro de chuva característico naquele país depressivo e sem cor, inclinando-se para frente para investigar a estrutura das paredes externas e os parapeitos, antes de praguejar entre dentes. O espaço era pequeno, estreito e ela teria mais chance simplesmente enfrentando Lorraine e ignorando as perguntas sobre sua aparência e seus tremores, mas o instinto falava sempre mais alto. Sempre a comandavam a fugir. Ela engoliu em seco, chiando entre dentes, antes de esticar-se ao máximo que conseguia na direção da estrutura do exaustor externo, usando-o como recurso para alcançar o topo da janela que era a única coisa com mais de cinco centímetros que ela poderia usar para escorar seus pés. Grunhiu entre dentes, tentando sufocar um rosnado frustrado quando ouviu a porta da sala ser fechada e a voz de Lorraine envolver a sala, escapando pela janela aberta.
trincou os dentes, fechando os olhos e se pressionando contra a parede externa do departamento de polícia, pendeu sua cabeça pendeu sua cabeça para trás, escorando entre os tijolos vermelhos característicos da Revolução Industrial renovadas para uso após anos servindo como localidades histórias que se espalhavam pelo centro de Londres. Seu coração estava batendo com tanta intensidade que ela tinha quase certeza que poderia ver o movimento contra o tecido de sua blusa, sua visivelmente perceptível em seu pescoço, mas ela não ousou fazer um som, muito menos olhar para baixo.
Puta que pariu quando não dava para piorar a situação…
Exalou baixo, tentando focar em encontrar uma forma de escalar até a janela superior do terceiro e último andar do prédio, sem se atrever a olhar para baixo. A vertigem ainda assim a atingiu, e sua garganta havia ficado perigosamente seca, o suficiente para que até mesmo o ato de engolir se tornasse desconfortável. Se antes estava tremendo pelo princípio de abstinência, agora arfava pesado e rápido por entre os dentes. Os olhos, arregalados, estavam com as pupilas contraídas, movendo-se, rápido e ansioso, por entre as fissuras e lacunas que se formavam na parede. Obrigou-se a escalar, sem atrever-se a olhar para baixo, com a certeza de que, se o fizesse, ela iria cair. A sensação do vento a envolvendo seu corpo um manto não era reconfortante, mas apenas enfatizava que ela estava em um lugar alto; o medo não demorou a percorrer por suas veias, travando e tensionando seus músculos mais do que deveriam estar tensionados dificultando ainda mais sua escalada.
Quando finalmente alcançou a janela, percebeu com uma fúria contida, movida puramente pelo próprio desespero e medo, que a janela estava trancada. Considerou por um segundo quebrar com seu cotovelo o vidro, mas a última vez que ela havia quebrado um vidro, Zhao havia ficado muito satisfeito em delatar todo o ocorrido para o Delegado Rhodes o incidente. tivera um desconto considerável de seu salário e havia recebido uma advertência —— porque Rhodes poderia ser um pau no cu, mas não era idiota de perder uma pessoa como em seu time; mesmo que ele não tivesse ideia da metade do que fazia de fato. Ofegou, irritada, buscando com um olhar pela próxima janela, calculando à distância, e empertigando-se.
Não estava assim tão longe, mas igualmente, não era perto o suficiente para que ela tivesse certeza de que conseguiria fazer o salto. Mas que outra escolha ela tinha? Se quebrasse a porra do vidro, chamaria atenção de qualquer forma, seria mais um dos motivos para Zhao a usar como alvo, e querer investigar, e céus sabiam o quanto ela estava muito, muito perto de matar seu colega de trabalho detetive para ter a certeza de que ninguém, ninguém teria acesso ao seu passado.
Afastou-se até a outra ponta do parapeito da janela, assentindo para si mesma, como se estivesse tentando se convencer de que aquilo era uma boa ideia —— não era ——, tentando conseguir o máximo de distância possível para ganhar impulso o suficiente para saltar. Oh, isso vai dar merda, vai dar tanta merda… disparou o mais rápido que conseguia, saltando e esticando-se ao máximo que conseguia na direção do parapeito da outra janela.
E não conseguiu chegar nem perto de alcançá-la.
O grito estrangulado escapou de sua garganta quando a queda começou. Movida pelo próprio desespero, os dedos curvados em garras, buscaram algum lugar, qualquer coisa em que pudessem se apoiar. Sua mão escapou por entre os tijolos vermelhos velhos, e ela teve certeza de que levaria dois segundos para atingir o chão. Talvez morresse, o que não seria algo ruim considerando sua situação, ou talvez quebrasse só uma perna, as possibilidades eram inúmeras, mas então ela conseguiu agarrar alguma coisa. O instinto gritante de sobrevivência, sequer registrando o corte que se abre no interior de sua palma da mão esquerda, cortando o couro como papel, e fincando-se em sua pele, o sangue escorreu por seu pulso e antebraço, dificultando seu aperto. Pendurada, os olhos dela repousaram com horror na distância entre ela e o chão e na percepção de que: com os braços amortecidos, trêmulos e espasmódicos, estava agarrando aquela maldita lacuna puramente devido a adrenalina, mas não demoraria para que seu braço se cansasse de sustentar seu peso e ela caísse de vez.
Teria xingado, é claro, mas seu cérebro sequer estava registrando outra coisa que não fosse a potencial queda e sua morte iminente. Obrigou-se a escalar o restante de distância que havia entre ela e o parapeito, prendendo a respiração, tremendo, e ignorando a ardência irritante que começava a instalar-se no corte aberto de sua mão, até conseguir, finalmente, alcançar a janela. Para sua sorte, desta vez, esta estava aberta, tudo o que ela precisou fazer foi apenas se lançar para dentro do Arquivo, ofegante, soluçando em busca por ar e tremendo violentamente contra o chão. Seus ouvidos emudeceram outra vez, acompanhados apenas de um ruído contínuo e frustrante. Os olhos se fecharam com força, enquanto o cérebro registrava, com evidente alívio, a superfície plana, fedendo a produto de limpeza e cera do assoalho abaixo de si.
Puta merda, ela odiava altura…
Não sabia quando o medo havia criado raízes tão profundas dentro de si, tendo em consideração quem ela era e como havia sido criada, mas havia certamente uma marca infectada em algum lugar de seu inconsciente. Algo crescente, que havia se alterado desde seu aniversário de 12 anos, e que agora, apenas retornava quando colocava de frente com a situação. Ela exalou algumas vezes, tentando normalizar sua própria respiração e então se sentou. Tivera a péssima ideia de afastar algumas mechas rebeldes de seus cabelos para longe de seu rosto, apenas para manchar sua testa e têmpora com a porra de seu próprio sangue, e grunhiu baixo, frustrada. Mas que caralho, hoje nada iria dar certo?! Pelo menos estava na porra da sala de arquivos.
Levantou-se com um grunhido, resmungando para si mesma como seria bom se aposentar, antes de caminhar por entre as estantes e provas cabais dos crimes, tanto arquivados quantos os em andamento. Ela buscou com o olhar a numeração familiar dos casos que eram relacionados a Cortez. Tivera um ano para memorizar o sistema de protocolamento daquela estação policial, e mais ainda para decorar a planta daquele lugar; havia conseguido em 6 meses, os outros 6 havia usado para explorar e criar estratégias de contenção, especialmente para manter sua própria história enterrada, então não foi difícil para que encontrasse o frasco fechado com a droga que Cortez vendia na boate Orquídea —— uma mistura química potente entre Xanax, LSD e muita, muita cafeína ——, os comprimidos envoltos por cápsulas de gel transparentes não eram atrativos, mas eram suficientemente discretos. Lançou um olhar impaciente na direção da porta, erguendo o pescoço e inclinando-se na diagonal para conseguir enxergar a porta, no fundo da sala que agora encontrava-se, antes de concentrar-se em destruir a evidência.
O plano era simples e ela executou com praticidade: retirou o potinho de dentro do saco de plástico catalogado com o número do processo e identificação de quem havia catalogado a evidência, —— ainda em espera de análise, aparentemente ——, pausando apenas para retirar algumas cápsulas —— três —— de dentro do pote, e engolindo-as a seco, duas de uma vez, e então uma terceira apenas para não ter que lidar com o fantasma de Beatriz no momento. O exalo de alívio que se seguiu foi substituído por uma rápida frenesi, entre encontrar outro pote vazio, e preencher a etiqueta com “produto corrompido”, tentando emular ao mais próximo que conseguia, a caligrafia do responsável pela arquivação da prova.
Quando teve certeza de que a letra estava próxima o suficiente para não levantar suspeitas, colocou o saquinho de volta na gaveta a fechando, no segundo que a porta de entrada do arquivo foi aberta. Ela arregalou os olhos, contendo um praguejar, girando para a esquerda e então colocando-se de cócoras, tentando desaparecer por entre as caixas maiores que eram deixadas no chão. Duas voz se sobressaiam em uma discussão até mesmo acalorada, e ela as reconheceria facilmente, independentemente de onde estivessem.
A primeira, com o sotaque britânico pesado e o tom de voz grave, áspera, só poderia pertencer a Rhodes. Já a segunda, com um sotaque puxado, acentuando as letras Rs com mais enfatização, evidenciando alguma parcial origem eslávica, havia a voz irritante de Markus Zhao, seu colega de trabalho —— e babá se fosse levar em consideração como o outro detetive parecia muito mais interessado em observar os passos delas do que fazer seu trabalho; não que fosse o exemplo de diligência ali. Estreitou os olhos, inclinando a cabeça para o lado, tentando ouvir o que estavam discutindo, enquanto guardava o potinho com a droga dentro de sua bota militar esquerda, calculando o que diabos teria que fazer agora.
—— Só estou dizendo que não acha estranho, Jack? —— Zhao parecia mais do que exasperado, parecia estar perdendo sua paciência, e quase sorriu com a ideia. Porra, ela odiava aquele pau no cu. Não era apenas pela propensão em intrometer-se em assuntos que não lhe diziam respeito; ele era ético, heroico, e detestava isso, porque significava que em algum momento, ou ela teria que matá-lo ou teria que desaparecer de novo. Era a porra de um problema, instigando a acontecer na vida de . —— Desculpe, Rhodes, não quis faltar com respeito —— corrigiu-se no mesmo segundo que percebeu a intimidade que usara o primeiro nome de seu chefe. não o teria feito se estivesse no lugar dele. —— Ouça, eu sei que posso estar soando fora da linha agora, que talvez esteja até mesmo comprometendo o trabalho em equipe do time, mas porra, Rhodes, veja as evidências! tá escondendo alguma coisa, e algo muito sério!
Ah, filho da puta…
Rhodes não respondeu, então Markus pareceu tomar isso como incentivo para continuar com seu monólogo. Os pelos da nuca se eriçando com a ameaça em potencial que havia ali. Ela trincou os dentes com força, estreitando os olhos, tentando absorver as suspeitas de Markus e elaborar uma contingência —— independente do que fosse preciso.
—— Agente da SAS? Ela foi expulsa daquele lugar, Rhodes! Como uma criatura com 21 anos consegue subir assim tão rápido no pelotão? Ela era a porra da Segunda Tenente da divisão não era? Tenho quase certeza de que foi por ter dormido com algum superior, não há outra explicação! E para ter sido desligada com desonra? Qual é, chefe! Leia as entrelinhas! Além disso, eu estive pesquisando mais a fundo, ninguém faz ideia de onde estão os outros colegas de time dela! —— Markus começou a dizer impaciente, e ela tencionou sua mandíbula com força, prendendo a respiração e inclinando a cabeça para trás. Algo sombrio pareceu pairar pelos olhos da brasileira, um aviso silencioso do perigo que estava começando a aumentar com sua presença ali. Porra, se Zhao estava começando a vasculhar e encontrar a superfície do problema que ela era, se ele estava começando a ligar os pontos, quanto tempo até chegarem a conclusão de que ela era o rato de Doc ali? Quanto tempo até ligarem ela com Cortez e a gangue dele? Pior, quanto tempo até que aparecesse em seu caminho outra vez? Quanto tempo até que Edgar a encontrasse? Desta vez, sabia que não conseguiria fugir. Ela havia dado sorte uma vez, mas duas? Duas não aconteceriam. Merda. Porra! PORRA! —— Não há registro de mais nada, nenhum contato com familiar, todos decidiram apenas virarem operadores solos e trabalhar com infiltração agora? A conta não fecha, Rhodes, estou falando!
Puta merda, …
—— Detetive Zhao, já chega —— cortou Rhodes, para o alívio e frustração de . Uma parte dela estava grata pela interferência do delegado, isso significava que Markus Zhao ainda era descredibilizado em suas teorias. A outra parte dela estava frustrada, porque com Rhodes interrompendo Zhao, ela perdia o que o desgraçado poderia saber e ter além daquelas malditas suposições. Até onde ele havia conseguido cavar em sua investigação sobre o passado dela. Rhodes suspirou pesado, e ela teve quase certeza que Rhodes havia assumido aquela postura paternalista frustrante, compreensivo, porém firme. —— Eu sei que você está preocupado com o time, mas você precisa parar com isso. Kieran saiu deste lugar, e não vai voltar, sei que gostava de trabalhar com ele, céus, até mesmo eu posso dizer que lidar com Russ era mais fácil do que ter que lidar com , mas ela é o que temos, e embora não seja um fã dos métodos dela, é a melhor que temos aqui —— estreitou os olhos, sufocando um bufar descrente, trocando o peso de perna. —— Vou te dizer uma coisa, encontre provas, filho, e então conversamos sobre isso novamente. Mas preciso que encontre provas, Mark, do contrário, estarei com as mãos atadas.
sentiu a familiar fúria começar a se espalhar por seu peito, misturada com a frustração e até mesmo o medo, mas obrigou-se a ignorar o sentimento, focando-se no trabalho em mãos, em encontrar uma saída dali sem que Zhao e Rhodes ficassem desconfiados, e, ao mesmo tempo, acertar sua postura ali como uma mera investigadora descompromissada e com problemas com álcool. Ao fundo de sua mente, todavia, um plano começava a se formar, ela só precisava ser cautelosa o suficiente para arquitetá-lo da forma correta. O problema de tudo aquilo? A droga estava começando a fazer efeito agora, e ela não percebeu quando derrubou acidentalmente uma pilha com as provas de um caso já resolvido.
Os dois homens voltaram seus rostos na direção de , quase no mesmo segundo. Porra, mas que caralho, ela não tinha como se foder mais ainda teria?
—— Capitão, Zhao, que prazer vê-los aqui —— murmurou, abrindo um sorriso divertido, falso como a animação que ela fingiu sentir. Alçou do chão a caixa que havia derrubado, tentando ignorar o impulso de fazer uma careta, concentrando-se apenas em aproximar-se dos dois homens com calmaria e desinteresse absoluto.
Rhodes teve pelo menos a decência de parecer constrangido por ter sido pego infringindo a ética de trabalho ali, mas Zhao, estreitando os olhos escuros, não parecia nem um pouco convencido com o espetáculo de inocência dela. Rhodes era um homem musculoso, com um bigode grande e bem aparado, e o rosto que a lembrava de uma mistura entre um castor e um esquilo, não que suas bochechas fossem grandes, mas ele era definitivamente um britânico. Já Zhao… bem, era outra história. Era alto —— mesmo para a estatura mediana de ——, talvez apenas alguns centímetros mais alto que ela, cabelos escuros como a noite, lisos e desalinhados, perfeitamente aparados, os olhos puxados nos cantos e tão escuros como os cabelos e sobrancelhas grossas, era esguio, mas com alguns músculos, e o marrom claro de sua pele indicava uma ascendência romani. Era bonito, precisava admitir, e um charme quando queria —— não à toa possuía um histórico de envolvimento entre algumas mulheres tanto da delegacia quanto conhecidas dos policiais dali ——, mas o que mais a incomodava era sua inteligência. Markus Zhao era afiado, tivera uma infância pacata, uma família bem estruturada, e havia se formado como o primeiro de sua turma na academia, ainda assim conseguia enxergar por trás dos viés que lhe eram apresentados. A única vantagem de era usar a impulsividade dele contra ele mesmo.
—— Está aqui a quanto tempo? —— Os olhos de Zhao pareceram se fixar com ainda maior intensidade no rosto de , que inclinou a cabeça para trás, com um sorriso afiado.
—— Não muito —— mentiu. Rhodes pareceu acreditar, ou apenas preferir a resposta para aliviar sua própria consciência pesada, mas Markus não. Os olhos do mais novo percorreram o semblante de , parecendo buscar alguma coisa, antes de repousar na mão esquerda dela, com o corte aberto.
—— E cortou sua mão com o quê? —— Ele pressionou. abriu um sorriso largo, sustentando o olhar dele, em um desafio silencioso.
—— Às vezes tudo o que a gente precisa é só a dor para clarear os pensamentos, não é, detetive Zhao? —— Ela lançou uma piscadela conspiratória para Markus que pareceu levemente surpreendido. Se havia acreditado ou não, não importava. Ela empurrou a caixa que segurava contra o peito dele, aproveitando o momento de choque para sair dali.
O truque tinha sido ensinado por . O cajun era um bastardo filho da puta que não valia o oxigênio que desperdiçava, mas nisso, ela precisava admitir que ele era bom. Vinha sempre a calhar, quando impedido de mentir, encurralado em sem outra alternativa, simplesmente dizer uma meia verdade, algo sombrio, e que possua peso, algo que irá deixar as pessoas ao seu redor em choque, se conseguir os fazer sentir-se culpado por sequer terem pensado em questionar algo, melhor ainda. Murmurando uma desculpa sobre encontrar com Lorraine, colocou-se, a passos rápidos, a se afastar de onde os outros dois oficiais encontravam-se.
Estaria fora do radar deles por hora, mas isso não significava que ela estava a salvo. Precisava dar um jeito de escapar dali, o quanto antes, e o plano formando-se por sua mente não era brilhante, mas era uma solução. E começaria por Zhao.
•••
Ao fim do dia, havia levado mais uma advertência de Rhodes por ter perdido seu temperamento com uma testemunha de um dos casos de venda de drogas que estavam sendo investigados —— não ajudou muito que fosse Esteban, o braço direito de Miguel ali, ameaçando expor tudo o que ele sabia sobre ela. Devido a isso, todavia, ela havia ficado de fora do restante da investigação, incluindo a adição de um novo suicídio que havia ocorrido durante aquela manhã. Tentou especular com Lorraine o que poderia ter acontecido, mas tudo o que a loira havia lhe dito se resumia bem a apenas: homem, 35 anos, imigrante, o que se fosse levar em consideração poderia ser qualquer filho da puta que estivesse caminhando de volta para casa e tivesse dado a má sorte de perceber a realidade que encontrava-se. Seja lá como fosse, ela havia usado essa desculpa para sair mais cedo. Quase quebrou o nariz de Zhao pelo caminho, mas controlou-se, ao em vez disso conseguiu roubar o celular do investigador, substituindo-o pelo, agora, completamente limpo e reconfigurado dela. Não era o mesmo modelo que o dele, mas era o suficiente para que ele não percebesse até que estivesse de fato usando-o. Até que ele conseguisse perceber que aquele aparelho não era o dele, ou que não era apenas uma pegadinha do departamento ao fingir que haviam apagado todos os arquivos que ele tinha, já estaria longe o suficiente para não ser pega.
Foi direto para seu apartamento de merda, com a única intenção de limpá-lo o suficiente para que não deixasse nenhum rastro solto seu para trás e desaparecesse novamente. Mas é claro que não seria assim tão fácil, porque Summer estava a esperando com uma expressão de poucos amigos, e braços cruzados sobre os seios cobertos pela blusa de crochê leve. abriu seu melhor sorriso falso passando pela mulher, tentando entrar em seu apartamento, mas a filha da puta tinha que a empurrar para trás, querendo tirar satisfação. O toque da maldita, mesmo que tivesse sido por sobre o tecido espaço de sua jaqueta foi o suficiente para colocar em alerta, puxou seu ombro bruscamente para trás, o punho direito conectando-se contra o nariz arrebitado da patricinha, ouvindo o som satisfatório da cartilagem quebrando-se, seguido pelo grito estrangulado dela. estreitou os olhos, observando a mulher e considerando se deveria entretê-la um pouco mais, é claro que aquilo ainda iria voltar para morder sua bunda —— tudo sempre voltava ——, mas ela lidaria com aquilo mais tarde.
Aproveitou a distração de sua vizinha desprezível, e adentrou em seu apartamento, fechando a porta com um clique. Buscou com o olhar os espaços que se lembrava de ter escondido as armas e especialmente seus documentos. Revirou tudo pelo espaço, empurrou garrafas para o chão, quebrando-as abruptamente, até conseguir encontrar o fundo falso de uma de suas gavetas retirando-o com um grunhido, finalmente deparando-se com as quantias de dinheiro consideráveis que ainda tinha de seus antigos trabalhos para Doc, e os passaportes. Tencionou sua mandíbula com força, considerando as possibilidades, ela não teria outra escolha senão levar apenas um —— o que era uma merda porque ela não teria como encontrar outra pessoa que fosse boa o suficiente para fazer um passaporte falso como fazia ——, analisando qual seria o lugar mais afastado e reservado que ela poderia escolher. Tóquio era uma boa, mas sabia pouco japonês ou tinha paciência para aprender. Ela poderia voltar para Salvador, mas as chances de ela encontrar com alguém de Cortez, ou pior, esbarrar com o monstro que a perseguia eram piores do que recomeçar em um lugar sem ter ideia da linguagem. Então ela pegou o passaporte canadense.
Girou em suas mãos por um momento, abrindo o pedaço de papel para verificar o nome que teria que usar no lugar, Beatriz Monteiro. trincou os dentes, sentindo um riso desprovido de humor, e carregado de frustração escapar por sua garganta ao observar o nome. É claro que o desgraçado pau no cu colocaria uma pegadinha, huh? Era bom o suficiente. O Canadá era muito provavelmente o único lugar que não ousaria colocar seus pés, e que Karam não teria acesso de imediato. Teria que servir. Alçou a mochila de dentro da gaveta, desdobrando-a e então enfiando tudo o que precisava, variadas notas de dinheiro, cartões, e identificações. Alçou do chão uma das garrafas de vodca, espalhando-a sobre o conteúdo do fundo falso antes de arremessá-la de qualquer forma pelo chão, preparando-se para retirar as três armas que tinha escondido pelo apartamento quando Summer, ainda segurando seu nariz entre as mãos, sangrando, projetou-se para dentro de seu apartamento.
arregalou os olhos, congelando no lugar, encarando a mulher maluca com genuína surpresa. Quer dizer, Summer não era assim tão pequena, só alguns centímetros menor que , mas era definitivamente mais magra e delicada do que jamais seria; era surpreendente que ela tivesse conseguido chutar a porta de seu apartamento e invadi-lo apenas para tirar satisfação pelo nariz quebrado. Mas então se inclinou para a esquerda, a fim de verificar a porta e percebeu, com exasperação que não, na verdade Summer não era forte, nem mesmo genial, havia sido apenas muito burra para variar. Havia esquecido a porra da chave na tranca —— genial.
—— Olha, cupcake, se eu fosse você, fingia que não vi nada e voltava para o conforto do seu apartamento antes que algo ruim… —— começou a dizer, jogando a mochila por seus ombros, e erguendo as mãos para o alto em uma postura defensiva, antes de se silenciar. Seus olhos repousaram no rosto agora tenso e levemente confuso, apesar da clara raiva evidente no semblante de Summer, para então na porta, antes de repousar novamente em Summer. Tivera uma epifania; era um risco demasiado, um desvio de seu plano original, mas bem, se havia funcionado uma vez antes, talvez funcionasse também agora. Ela só precisava encontrar uma maneira de livrar-se das digitais, do cabelo e evitar que Summer derramasse seu sangue ali. Mas ela havia acabado de encontrar seu ticket para desaparecer outra vez. abriu um sorriso preguiçoso, pendendo sua cabeça para trás, estendendo os braços, em um convite silencioso. —— Quer saber? Você tá certa, sobre tudo, sobre minhas intenções, sempre achei você patética, e acredite, não sou a única, uma garotinha insegura, desesperada pela validação alheia para se sentir bem, que gosta de fingir que não suporta vitimismo sendo sempre a maior vítima em todas as situações? —— Provocou, seu sorriso se alargando conforme a raiva de Summer foi aumentando. Bom, mas não o suficiente, ela precisava de mais. —— Qual é? É claro que eu conseguiria facilmente substituir você. Eu poderia divertir bem mais aquele seu namoradinho patético, eu sei que ele já considerou a ideia. Qualquer um consegue, sabe porquê? Você é patética, uma desculpa miserável que finge ser amável só para conseguir o que quer, e fica surpresa quando as pessoas desprezam você, não é? Quer saber porque todo mundo vai embora da sua vida? Porque você não é o suficiente, nunca foi, e nunca vai ser. —— Dor apareceu nos olhos de sua vizinha. Bom, só mais um pouco… —— Porque o seu carinho não vale um centavo, exatamente como você, Summer. Você não é inesquecível, céus, se você for algo, é somente uma casca, facilmente descartável. Não é uma surpresa que você sempre esteja desesperada para se jogar na primeira cama que aparência, sabe que teria um futuro brilhante em um bor… —— O choque do soco que atingiu seu rosto vindo de Summer, atrapalhado e fácil de redirecionar, mas o recebeu como uma campeã.
Cambaleou para trás, um pouco desorientada com a dor que se espalhou por seu nariz. Seus olhos lacrimejaram, algumas gotas escorrendo por suas bochechas, sua respiração se perdendo por entre sua garganta, a dor aguda fez tudo girar ao seu redor, a desequilibrando por um momento, mas não o suficiente para que ela não visse o outro tapa chegando. O estalo ecoou pelo apartamento, alto, doloroso, o zunindo formou-se em seu ouvido esquerdo. Summer jogou-se contra ela, agarrando a lateral de seus cabelos e empurrando para trás. O estômago de se contraiu, e por um segundo as mãos dela voaram em direção ao pescoço de Summer, o desespero aumentou, e ela sentiu a bile atingir sua língua outra vez. O gosto amargo aumentou a saliva que se acumulava em sua boca, seu estômago se contraiu, e ela sentiu o espasmo quando o vômito atingiu sua garganta. Ainda assim, obrigou-se a aguentar, precisava o fazer.
Unhas ficaram em seu rosto, joelhos conectaram-se em seu abdômen e peito, tapas e socos dolorosos acertaram a lateral esquerda de seu rosto. permitiu-se desabar para trás, sua cabeça acertando com violência o canto do balcão da cozinha, abrindo um corte largo, enquanto seu sangue escorria, não só pela lateral de seu rosto, como criando uma poça no assoalho de madeira. Mais um soco que reverberou por seu crânio, sua têmpora latejou perigosamente, a dor a despertando para o peso da outra sobre seu tronco, as unhas grandes cortando a lateral de sua bochecha direita. usou sua mão cortada para a impedir de atingir-lhe mais um sangue, um grunhido escapando por entre seus dentes quando as unhas grandes de Summer abriram o ferimento, espalhando-se não somente pelas roupas de e pulso outra vez, como igualmente por entre os dedos e unhas da mesma. Era o suficiente.
Summer estava pronta para atingir o rosto de outra vez, mas desta, a brasileira foi mais rápida. Segurou o pulso de Summer no ato, e com os olhos cintilando em uma fúria pouco contida, o torceu, ouvindo o satisfatório crack do osso quebrado seguido do grito angustiado de Summer. usou parte de sua força para arrancar a criatura molenga que se empoleirou sobre si, engasgando com o próprio vômito, obrigando-se a cuspir no chão, sufocando o impulso de permitir que o vômito escapasse e escorresse por seu queixo, antes de voltar-se na direção Summer.
Algo deveria ter surgido no rosto de , algo perigoso, sombrio até mesmo, que fez Summer empalidecer, e tentar escapar, mas não vai muito longe. Porque a brasileira se lançou contra Summer com um movimento rápido e econômico. Os braços envolveram o pescoço dela, e com um puxão brusco, quebrou o pescoço dela. O corpo caiu inerte abaixo de si, e não conseguiu conter-se dessa vez, o vômito, um mero aglomerado de bile apenas escapou por entre sua boca, desabando no chão ao lado do corpo de sua vizinha, o tremor aumentando por seu corpo enquanto ela tentava manter sua mente focada no problema em mãos. Mas era impossível esquecer-se da sensação da mão de Summer em seus cabelos. Era impossível conter a aversão que percorria seu corpo agora, o tremor que arrepiava sua pele e o zumbido crescente em seus ouvidos. Teve vontade de arranhar sua pele até que estivesse em carne viva, porém limpo do toque da outra. Teve vontade de cortar o local tocado, mas não o fez. Ao contrário, agarrou o corpo inerte de Summer, empurrando-o na direção de onde a poça de seu sangue havia se formado.
O trabalho era porco, desleixado e de última hora, mas que investigador britânico iria ter interesse em resolver um crime relacionado a uma imigrante? Por favor, nunca havia sido idealista. Esfregou o rosto de Summer em seu sangue, sem conseguir conter um sorrisinho de satisfação —— não porque havia gostado, mas porque era ridículo a situação; faria tudo novo se fosse preciso ——, antes de abrir o forno acoplado ao balcão, e jogá-la ali dentro. apalpou os bolsos de Summer, em busca de seu aparelho celular, usando a digital de sua vizinha para destravá-lo e então mandar uma mensagem simples para os quatro namorados dela, rindo baixo, cínica ao enviar para os nomes errados que ela estava fugindo com o amor da vida dela, antes de usar o aparelho de Summer para ligar para o de Zhao. salvou o número como “” no aparelho de Zhao antes de jogar o aparelho de Summer dentro do forno. Cuspiu mais uma vez antes de colocar-se de pé.
Retirou rapidamente debaixo da mesa a Glock 19mm, antes de marchar em direção ao seu quarto, retirando a beretta storm de baixo de sua cama, assim como a faca de assalto que deixava a baixo de seu travesseiro, prendeu a beretta em seu cinto, atrás de suas costas, e a glock em um coldre axilar na altura de suas costelas, ajustando sua jaqueta, antes de marchar de volta para a cozinha. Pegou o restante das garrafas de bebida, despejando o conteúdo sobre o corpo de Summer, e espalhando pelo espaço, antes de apagar todas as luzes. Com a faca de assalto ainda em mãos, então cortou os tubos de gás que aqueciam a água da pia e o gás usado para cozinhar no forno, finalmente encontrando uma utilidade para o forno em questão. Marchou em direção às janelas, tomando cuidado para ter certeza que todos estavam fechados, antes de trancar a porta de seu apartamento.
Usou a janela da varanda para escapar, fechando-a o mais rápido que conseguia, antes de saltar na escada de incêndio, grunhindo baixo quando seu pé esquerdo escorregou no metal umedecido, e ela acabou desabando alguns degraus até conseguir se jogar sobre uma lata de lixo abaixo do final da escadaria de emergência. grunhiu, a dor reverberando por seu corpo com o choque e o desconforto. Alguma coisa afiada quase rasgou sua jaqueta, e ela tinha quase certeza que o cheiro de alguma coisa podre se infestou em sua manga direita. Lançou-se para fora da lixeira, cuspindo e grunhindo, ajeitando suas roupas antes de puxar o gorro de sua jaqueta, e alçar o celular de Zhao de seu bolso interno. Apoiou a mão esquerda na alça de sua mochila, marchando tranquilamente por entre as pessoas na calçada, até conseguir uma distância o suficiente para discar para o número de Summer. As letras de seu próprio nome reluzindo contra seu rosto com um brilho suave azulado, seguidos pelo buzinar contínuo do outro lado da linha. virou-se por um momento em direção de onde seu apartamento ficava, estreitando os olhos e esperando pelo resultado de sua criação.
Mas nada aconteceu. Merda!
ligou outra vez e esperou, mas nada ocorreu. Ligou uma terceira, e então uma quarta. É somente na quinta vez que o apartamento explodiu. O acúmulo do gás com a tela ligada do aparelho de Summer finalmente dando o resultado que ela precisava. Gritos desesperados ecoaram pela rua, destroços dos tijolos, vidro e madeira atingiram carros e desabaram pelo buraco aberto onde a explosão havia acontecido. E então, o fogo envolveu o apartamento. sentiu a adrenalina percorrer por sua corrente sanguínea, ajustando a alça de sua mochila antes de voltar a caminhar, em direção ao Orquídea.
Guardou o celular em seu bolso outra vez, catalogando seu próximo passo para resolver aquela merda: lidar com Miguel. Mas antes disso, ela precisava encontrar Madoc, precisava de um estoque, e um novo fornecedor, e se havia alguém que poderia lhe entregar isso, era o desgraçado. Ela só precisava ser um pouco mais criativa para conseguir o que desejava. Trincou os dentes, mantendo sua cabeça baixa, e desviando das pessoas, usando as sombras delas e a movimentação deliberada para manter-se em incógnito quando os carros policiais viraram pelas ruas, direcionando-se para o antigo prédio que vivia. O tempo estava correndo e ela estava perdendo mais rápido do que poderia calcular com certeza, mas correr não era uma opção. Ela chiou entre dentes, virando para a direita e então passando a usar os cortes e vielas que ela se lembrava de formar atalhos em direção ao Orquídea.
Por uma fração de segundos, muito rápido para que ela se preocupasse em memorizar algo, tivera a sensação que alguém a observava. Dentro de um Corvette Stingray preto, um olhar se prendeu ao seu rosto. Em qualquer outra situação, teria voltando-se na direção de onde o olhar se mantinha, teria até mesmo se permitido a investigar, mas naquele dia, ela tinha pouco tempo, e problemas maiores para lidar. Este foi seu grande erro.
Quando finalmente alcançou o restaurante de fachada nomeado como Orquídea um pouco mais além do centro de Londres, virou bruscamente para a esquerda, adentrando em um prédio residencial capenga que as prostitutas de Cortez usavam como motel para trazer seus clientes da boate que existia abaixo do restaurante. subiu rapidamente as escadarias até o sétimo e último andar, tentando lembrar-se de como poderia abrir uma porta, quando se deparou com a mesma aberta. Ela estreitou os olhos, exasperada, percebendo a armadilha evidente ali. Sim, sim, porque a porra de um traficante iria deixar sua porta aberta para qualquer um entrar e sair dali, claro que sim, fazia muito sentido. trincou os dentes, revirando os olhos, e empurrando a porta.
Click clack. O metal gélido e liso da arma tocou a lateral direita de seu pescoço, e parou no lugar, erguendo deliberadamente suas mãos para cima, quando a voz ecoou pelo espaço, baixa e perigosa, uma promessa de violência pulsando:
—— Um movimento, e eu atiro.
Continua...
Nota da autora: 🫂tamo junto.
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