Última atualização: 27/07/2019

Capítulo 20 - Coração Partido

— Eu juro que estava aqui, ! — exclamei, apontando para a árvore onde eu havia visto a silhueta de uma pessoa.
Fazia mais ou menos uns 5 minutos em que eu e estávamos discutindo se a sombra que eu vi era real ou não. Afinal, eu me aproximei da árvore em que a silhueta parecia estar e não tinha encontrado absolutamente nada.
— Mas não tem nada aqui. — respondeu , olhando para mim. — Pode ter sido um animal, ou talvez o reflexo dos refletores da escola.
Ponderei por alguns segundos, enquanto visualizava a sombra em minha memória. Será que eu estava tão paranoica ao ponto de ter imaginado tudo?
— Não, eu tenho certeza do que eu vi. — eu disse firmemente.
Um barulho no campo chamou a nossa atenção.
— O que foi isso? — perguntou, procurando a origem do barulho, e meu coração acelerou quando subimos o morro de terra e vimos a mesma silhueta correr para o lado oposto da escola.
se pôs a correr na direção da sombra.
!
Comecei a correr atrás dele, me sentindo cada vez mais aflita, com a certeza de que era mesmo uma pessoa que estava nos espionando.
Por estar um pouco escuro, eu não consegui enxergar muita coisa. Eu não via mais a silhueta, mas ainda continuava correndo, então imaginei que ele estivesse enxergando a sombra que vimos.
parou de correr abruptamente e eu parei ao seu lado, ofegante. Coloquei as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.
— Ela sumiu. — disse , com o olhar pensativo e distante.
— “Ela?”
— Eu posso estar ficando louco, mas tenho certeza de que a silhueta que vimos era de uma mulher.
Empalideci. Várias coisas começaram a se passar na minha cabeça ao mesmo tempo. Eu tinha mesmo sido descuidada, pois era óbvio que tinham me seguido até aqui.
Queria me convencer de que estava errado a respeito da silhueta, e que havia algum ladrão nos arredores da Wings, mas como eu poderia me convencer de uma coisa que nem eu mesma acreditava?
— E se era a Deborah que estava nos espionando? — indaguei, com as mãos trêmulas e os olhos arregalados. — O que nós vamos fazer?
— Vai ser a palavra dela contra a nossa. — disse . Ele parecia um pouco tenso, e provavelmente se sentia tão preocupado quanto eu, só não demonstrava para que eu não ficasse ainda mais nervosa.
— E se ela tiver provas?
Eu estava prestes a ter uma síncope. Se for a Deborah a dona daquela silhueta, ou até mesmo algum aluno, tenho certeza de que vai ser uma questão de tempo até que o diretor saiba do acontecido. Eu seria desclassificada do concurso.
— Fique tranquila. Caso algo aconteça, eu vou cuidar disso. — disse , tentando me passar calma e confiança. Ele colocou as mãos em meus ombros e fixou seu olhar no meu. Seus lindos olhos azuis conseguiram calar as vozes dentro da minha cabeça. — Vai dar tudo certo, .
Nós nos olhamos profundamente, e quando o sinal do toque de recolher foi anunciado, percebi que era hora de irmos. e eu nos despedimos com um abraço rápido.
Não nos olhamos por muito tempo, acho que tinha medo de me olhar e acabar transparecendo todo o medo que ele sentia. Eu não o olhei, pois estava começando a me sentir cada vez mais culpada.
Enquanto eu ia para o meu alojamento, eu sentia o choro preso em minha garganta, louco para se libertar. Dentre todas as preocupações que circulavam dentro da minha cabeça, a maior delas não era sobre a silhueta feminina.
Alguma coisa em meu peito me dizia que esse era o último abraço que eu e demos, e essa sensação só se intensificava a cada passo que eu dava para longe dele.
Assim que cheguei ao meu alojamento, encontrei sozinha. Ela me olhou com um sorriso ansioso que logo se desfez quando viu a minha cara de choro.
— O que ele fez? — ela rosnou, fechando as mãos em punho. Passei os olhos pelo quarto, com medo de que aparecesse.
— A está por aqui? — perguntei só para confirmar, afinal, eu estava começando a ficar cada vez mais paranoica.
— Não. Acho que ela foi falar algo com o . — disse , cada vez mais séria. — Agora, sente-se aqui e me conte o que aquele ordinário fez.
Sentei em sua cama, bem de frente para ela e respirei fundo antes de soltar a bomba.
— Eu e o vimos alguém nos observando hoje. Ele acha que era uma mulher.
arregalou os olhos.
— O que? Como assim? E agora?
— Se for alguém que me quer fora do concurso, com certeza vai conseguir fazendo isso. — eu disse, já pensando no dia de amanhã. Eu irei arrumar as malas para passar o feriado de Ação de Graças em New Haven e talvez nem precise mais voltar.
— Talvez a pessoa não tenha visto nada. A pessoa estava longe de vocês?
— Um pouco. Parece que estava de mãos vazias, mas é difícil saber.
— Então fique tranquila. Sem provas, ninguém pode falar absolutamente nada. — Concordei com , mas ainda estava absorta em pensamentos. — No que você está pensando?
— Eu e o nunca iremos dar certo, amiga. Está na cara que o nosso “relacionamento” — fiz aspas com as mãos. — Vai acabar destruindo a minha carreira antes dela ter começado. Que futuro nós temos? Não podemos nem ser vistos juntos!
Por incrível que pareça, dizer tudo aquilo fez com que as lágrimas caíssem. Eu não tinha percebido até agora o quanto eu gostava do . O meu peito doía só de pensar na ideia de que nós dois não tínhamos nenhum futuro.
me abraçou apertado, afagando meus cabelos. Enquanto eu chorava, eu pensava em todos os arrependimentos que eu tinha no momento. Todos eles envolviam o .
Eu não devia tê-lo deixado entrar na minha vida. Afinal, quem em sã consciência se apaixonaria por um cara amargurado que te chama constantemente de Litte Rebel? Se eu não tivesse levado isso adiante, provavelmente eu não estaria chorando agora. Se eu tivesse sido cautelosa, não teria deixado nenhuma sombra nos observar. No entanto, chorar por tudo o que eu deixei de fazer não iria me ajudar a sair dessa situação.
Independente do que fosse acontecer de agora em diante, eu precisava manter a cabeça erguida.
Se o meu destino é vencer o concurso, eu vou conseguir chegar até esse sonho, mesmo que eu me machuque no caminho.
Mesmo que eu tenha que fazer sacrifícios.

[...]

O dia estava estranhamente tranquilo. Depois da aula de canto, – que foi totalmente desconfortável por causa de – foi anunciado que as peças que cada turma estava ensaiando seria apresentada daqui há algumas semanas. Porém, como amanhã nós iríamos embarcar para nossas respectivas casas, não haveria mais aulas pelo restante do dia afinal, nós ainda tínhamos que arrumar as nossas malas.
Eu não iria levar muita coisa, só algumas mudas de roupa mais confortáveis, meu dinheiro e alguns itens de sobrevivência, como meu MP4 – música é tudo – e alguns livros. Eu sabia que a viagem seria bem longa e exaustante, mas eu estava animada, apesar dos eventos de ontem à noite.
Eu não vi mais o depois da aula de canto, mas vi a Deborah. Ela não me fuzilou com os olhos quando me viu, mas me cumprimentou educadamente com um animado “Bom dia”. Eu fiquei meio atônita, mas consegui responde-la antes que ela resolvesse voltar a me odiar.
Essa viagem vai ser boa para eu refletir sobre tudo o que me aconteceu nos últimos dias. Talvez o evento de ontem a noite tenha servido para me dar um aviso de que ainda dá tempo de sair de vez dessa maluquice.
Meu pai já estava sabendo que eu o visitaria, e tinha prometido que esse ano nós comemoraríamos o dia de Ação de Graças com tudo o que nós tínhamos direito.
Entrei em meu alojamento depois do almoço para arrumar as minhas malas e encontrei e conversando civilizadamente.
— Estamos tentando escolher a música que iremos apresentar na próxima avaliação. — explicou , vendo a minha cara de interrogação. — Por incrível que pareça, a que deu a ideia de escolhermos a música antes da nossa viagem.
revirou os olhos.
— Eu voto em Britney Spears. — disse , num tom petulante.
— Eu já disse que nós não vamos cantar nenhuma música dela! — ralhou a ruiva, irritada. — Prefiro mil vezes cantar alguma música da Beyonce.
— Se você não gosta da Britney, eu não gosto da Beyonce! — esbravejou , cruzando os braços.
— Porque não cantamos alguma música de girlband mesmo? — indaguei, me juntando a elas. — Vai ficar até mais fácil de dividir as vozes.
— Até que a Little Rebel pensa de vez em quando. — disse , me provocando. Revirei os olhos.
— Que tal Litte Mix? — perguntou , com um sorriso enorme no rosto. Ela estava radiante, pois hoje ela seria uma das entrevistadas do concurso.
— Eu gosto delas... — disse , pensativa.
Depois de muito tempo tentando escolher uma música, decidimos cantar Word Up, da Little Mix. Por incrível que pareça, não houve nenhuma briga entre e , só algumas costumeiras alfinetadas entre as duas.
— Tenho que ir para a minha entrevista! — disse, pulando da cama. — Depois eu arrumo as minhas malas.
— Boa sorte! — eu disse, lembrando-me de como a minha entrevista foi um fiasco. Pelo menos a coletiva tinha sido.
— Depois eu te conto como foi. — saiu do quarto radiante e animada.
Tirei uma mala que estava embaixo da minha cama e comecei a separar os poucos pertences que eu levaria.
Olhei para , que estava sentada na cama observando um ponto fixo dentro do quarto. Seu rosto estava repleto de amargura. Fiquei me perguntando se ela tinha para onde ir no feriado.
— Não vai arrumar a sua mala? — perguntei de forma amigável, recebendo um olhar ferino como resposta.
— Isso não é da sua conta! — bradou ela, irritada. — Afinal de contas, não é como se eu tivesse para onde ir. Briguei com a minha mãe por telefone e provavelmente ficarei trancafiada aqui junto com a grande minoria que ficar.
— Ainda dá tempo de mudar de ideia. — eu disse, mantendo o tom de voz amigável. — Você cancelou seu voo?
— Ainda não. — disse ela, abaixando a cabeça. Coloquei algumas mudas de roupa dentro da mala, sentindo o silêncio que havia se instalado dentro do quarto. — Anda, vai em frente, ri de mim.
A voz de parecia meio melancólica. Percebi que eu não havia visto suas amigas por perto desde ontem.
, eu não sou você. — eu disse, dando um meio sorriso.
Ela me encarou de um jeito diferente. Não havia petulância e nem a sua costumeira arrogância, o que me surpreendeu bastante.
— Me desculpe por falar da sua mãe naquele dia. Acho que eu peguei pesado demais. Não que eu não tenha pegado pesado outras vezes, mas... — disse, se remexendo na cama de forma desconfortável.
— Tudo bem, relaxa.
Nós sorrimos uma para a outra. Pela primeira vez em todo o tempo em que estivemos na Wings, acho que aquela foi a primeira vez que a e eu tivemos uma conversa amigável.
— Acho que eu vou ligar para minha mãe. — se levantou da cama e se dirigiu até a porta. — Ela disse que iria fazer frango assado esse ano.
— Boa ideia. — respondi de forma encorajadora. Ela sorriu para mim e saiu do quarto.
Fiquei olhando para a porta assim que saiu, me perguntando constantemente se aquele diálogo realmente havia acontecido.

[...]

Já era madrugada quando eu acordei. Tanto o meu voo quanto o dos outros alunos sairiam daqui a algumas poucas horas. Eu estava ansiosa em ver meu pai, e Lucy novamente, mas não deixei de pensar em .
Minha mala grande já estava comigo no térreo, enquanto eu e meus amigos esperávamos os ônibus que a Wings tinha alugado para nos levar até o aeroporto.
Procurei , mas ele não estava por ali, o que me fez ficar um pouco chateada.
Olhei para o lado e vi com uma mala e sorri sozinha, vendo que ela realmente tinha mudado de ideia.
Miles era o mais desanimado do nosso grupo em ver a família.
— Ânimo, rapaz! Vai dar tudo certo. — disse , sacudindo os ombros do amigo. Ele deu um sorriso sem humor.
Camerom já estava com o seu chapéu do Texas na cabeça. Ele não conseguia conter a animação que sentia em rever a família.
Quando os ônibus finalmente chegaram, nos organizaram em filas e fizeram uma chamada. Eu e meus amigos queríamos pegar o mesmo ônibus, então ficamos juntos na mesma fila. Percebi que haviam poucos alunos que iriam visitar suas casas no feriado. Quero dizer, em vista dos alunos que ainda tinham dentro do concurso, eu achei pouco.
De tempos em tempos, eu olhava para trás, na esperança de ver o uma última vez antes de ir. Eu sabia que só ficaria fora por três dias, mas eu estava confusa com tudo o que tinha acontecido, e eu precisava ver seu rosto.
Eu gostaria de saber o que eu iria sentir se nossos olhos se encontrassem dessa vez. Se eu me sentiria culpada, nervosa ou feliz... Mas ele não apareceu, e a única conclusão que encontrei para seu sumiço é que se sentia tão culpado quanto eu.

[...]

Apesar de ser três horas da manhã, o aeroporto já estava cheio. Eu e meus amigos já apresentávamos sinais de cansaço, afinal, tínhamos acordado bem cedo para estarmos ali. Quando os nossos respectivos voos foram anunciados, eu e meus amigos nos abraçamos.
— Prometam que não vão se esquecer de mim. — disse, enquanto nos abraçávamos. Nós demos uma risada.
— Só ficaremos fora por três dias, não tem como nos esquecermos um do outro. — disse Camerom, ainda rindo.
— Vou manter contato em nosso grupo do Whatsapp. Por favor, não me deixem no vácuo. Se a minha família me matar e vocês me ignorarem, vocês serão os culpados. — Miles disse, brincando e provocando mais gargalhadas.
— Eu amo vocês.
— Nós amamos você também, .
— Feliz Ação de Graças.
Embarquei em meu voo, com um sentimento esquisito dentro do meu peito. Me instalei em meu lugar e coloquei meus fones de ouvido. Pensando nas longas horas que eu teria dentro daquele avião, acabei adormecendo.
Acordei assim que o avião aterrissou. Meio sonolenta, saí do avião em busca das minhas malas e do meu pai, que disse que me esperaria no aeroporto. Já era dia de Ação de Graças, então corri para pegar a minha única mala logo e comecei a procurar por ele.
Carreguei minha mala com um pouco de dificuldade, e avistei meu pai parado com um buquê de flores na mão, no meio da multidão. Eu comecei a chorar na hora, e me pus a correr com toda a dificuldade que eu tinha até ele.
Me joguei nos seus braços, sentindo os braços quentes de meu pai me envolverem em um abraço apertado e reconfortante. Como eu tinha sentido falta disso.
— Minha pequena ... — sussurrou papai, afagando meus cabelos com carinho. Percebi que a voz dele estava embargada.
— Eu senti sua falta. — eu disse, enxugando as lágrimas que caíram. Ele estendeu o buquê para mim e eu sorri.
— Eu também senti a sua.
Fomos conversando o caminho inteiro, e quando cheguei em casa, encontrei , Lucy, meus tios por parte de mãe e por parte de pai e meus avós por parte de mãe me esperando. A sala estava toda decorada para me receber, e segurava um cartaz que dizia: “Seja bem-vinda, !” que me emocionou ainda mais.
Papai colocou uma enorme mesa no centro da sala que estava regada de comida. Tinha uma travessa com um peru enorme e outra com um frango assado que cheirava muito bem, além de várias outras coisas gostosas, como sobremesas.
atravessou a sala correndo e me deu um abraço apertado.
— Senti sua falta, vaca! Nem respondeu mais os meus tweets... — fez um biquinho dramático que me fez rir.
— Acredite, eu acabaria com todos os caracteres do mundo se eu te contasse tudo o que vem me acontecendo somente pelo twitter.
deu uma risada.
— Eu me convidei para dormir na sua casa então, não se preocupe que você vai me contar tudinho antes de ir embora de novo amanhã à tarde.
Abracei meus avós, Lucy e meus tios e nos sentamos à mesa para comer. Afinal, eu tinha chegado em casa quase duas horas da tarde, e eu só tinha comido uns biscoitos na viagem.
— E então, ? Como é a Wings? — perguntou Lucy, ansiosa.
Eu comecei a me lembrar de quando cheguei à Wings, dos ensaios, das aulas... De . E reprimi o restante dos pensamentos. Limpei a garganta e respirei fundo antes de responder.
— Lá é... Incrível. Os professores são ótimos, só que o ensino e os treinos são bem puxados.
— Eu percebi que você está muito magrinha. A comida que eles servem lá é boa? — perguntou vovó, lutando com o pedaço do frango que estava em seu prato.
— É sim. Nós temos todas as refeições lá no colégio.
— Estamos tão orgulhosos! — disse minha tia por parte de pai, falando de boca cheia e me olhando de forma maravilhada. — Adorei ver você na televisão.
— E o fã clube que fizemos tem crescido a cada dia. — completou , orgulhosa, bebericando seu suco logo em seguida.
— Sua mãe ficaria orgulhosa, disso não tenho dúvidas. — Vovô disse, sorrindo para mim. Eu também sorri, me contendo para não começar a chorar.
— Depois de tanto tempo sem comemorarmos essa data importante, eu finalmente consegui achar um motivo para comemorar o dia de Ação de Graças! — disse papai, pegando em minha mão.
Depois de comermos juntos e agradecermos a Deus por todas as coisas boas que nos aconteceram, ficamos conversando. Meus familiares estavam cada vez mais empolgados a cada detalhe novo que eu contava a eles sobre a Wings.
Quando anoiteceu, me despedi dos meus avós, tios e também de Lucy, que me deu um chaveiro lindo com uma bailarina.
Papai anunciou que iria dar uma passada no supermercado e eu e fomos para o meu quarto. Fazia tanto tempo que eu não entrava ali que um sentimento de nostalgia me atingiu.
Nos sentamos em minha cama e me olhou de um jeito curioso.
— Pronta para me contar as novidades que você não pôde contar para todo o mundo?
Respirei fundo, e hesitei, com medo do que iria pensar de mim.
— Vou começar então. Você sabe que o é o meu professor, não é? — ela acenou positivamente com a cabeça. — Então, nós começamos a nos aproximar um do outro e nós estamos tipo... Juntos.
— O QUÊ?! — arregalou os olhos e cobriu as mãos com a boca, rindo de um jeito histérico. Ela sempre ficava assim quando eu lhe contava algum segredo tenso. — Eu quero muito dizer “, sua maluca!” mas a única coisa que se passa na minha cabeça agora é que isso é muito excitante.
! — ralhei, ficando vermelha de vergonha.
— Eu sabia que tinha alguma coisa entre vocês dois, eu sabia! — ela disse, comemorando de felicidade, como se tivesse acabado de descobrir que unicórnios existiam.
— O problema, é que nós vimos alguém nos observando ontem e eu estou com muito medo. — eu disse, abaixando a cabeça e encarando as minhas mãos. Lembrei-me de que não se despediu de mim, e nem se preocupou em me mandar uma mensagem, e fiquei ainda mais triste do que já estava.
— E você está pensando em terminar tudo. Acertei? — Acenei positivamente com a cabeça mais uma vez. me entendia somente olhando para mim, e eu achava isso incrível. — Amiga, você gosta muito dele?
— Mais do que eu pensava.
— Você acha que vale a pena insistir no que vocês tem?
Os poucos momentos que eu tive com o me proporcionaram mais alegria do que eu podia imaginar. Eu gostava da sensação dos seus lábios contra os meus, e dançar com ele me enchia de paz e tranquilidade. Mas não era só isso. Eu sentia que a cada dia que eu ficava junto com ele era como se o sentimento aumentasse.
— Eu... Não sei. Há muita coisa em jogo.
— Você não vê futuro nisso. — ela observou, me olhando atentamente. Minha amiga estava quase se formando em psicologia, então seu modo de me entender somente me olhando tinha se ampliado com seus conhecimentos. — Amiga, quantas vezes você se permitiu abrir o coração para alguém? Eu acredito que esse não seja um idiota. Se ele se envolveu com você, é porque ele realmente não consegue lidar com esse sentimento. Eu acho que pelo menos dessa vez, você deve se permitir amar.
— Mas...
— Eu sei que é assustador, e que dá um enorme frio na barriga, mas se você se sente bem ao lado dele, que mal tem? E se essa tal pessoa que observou vocês tentar te prejudicar, ligue para mim, que eu saberei resolver o problema. — deu um sorriso predatório que me fez dar uma risada alta. — Daqui há alguns meses o concurso termina, e eu tenho certeza de que você chega a final. Quando isso tudo acabar, vocês podem até assumir o romance.
Eu dei um sorriso para a minha melhor amiga e a abracei fortemente. Eu gostava da forma como ela me vivia me tranquilizando. Era como se as minhas ações não eram tão ruins quanto eu pensava. Claro que aquilo não apagou a culpa que residia em meu peito, mas fez com que um pequeno alívio tomasse conta do meu coração.
Ficamos conversando por um bom tempo, o que me fez contar a ela sobre Deborah e e depois meu pai se juntou a nós.
O cansaço começou a me atingir. Papai percebeu e nos desejou uma boa noite, e e eu adormecemos antes que eu pudesse responde-lo.

[...]

Eu, meu pai, Lucy e já estávamos no aeroporto. Meu dia tinha se passado como um foguete, e eu fiz de tudo para aproveitá-lo. Visitei o estúdio de ballet onde eu fazia aulas junto com meu pai e , e depois tomamos um sorvete. Respirei o ar de New Haven com um sentimento bom dentro do peito.
Quando meu voo foi anunciado, lágrimas preencheram nossos olhos. Abracei fortemente Lucy e - que pediu para que eu convencesse o diretor da Wings a colocar Wi-fi para os alunos - e me joguei nos braços de meu pai.
— Eu te amo, papai. — eu disse, sorrindo em meio as lágrimas que já caíam. Papai enxugou as minhas lágrimas e deu um beijo no topo da minha cabeça.
— Eu também te amo, querida. Cuide-se e arrebente. Nós estaremos aqui torcendo por você.
Acenei para todos e caminhei em direção ao meu voo. Não matei toda a saudade que eu podia, mas pelo menos, deu para amenizar um pouco a angústia em meu peito.
Enquanto eu voava de volta para casa, fiquei pensando nas palavras de incentivo de . Talvez ela esteja certa. Talvez haja esperança para eu e .
Cheguei de madrugada na Wings, junto com meus amigos, que estavam exaustos de suas respectivas viagens. Nós nem conversamos muito, cada um foi direto para seu respectivo alojamento.
Quando eu estava quase me deitando, meu celular vibrou. Eu desbloqueei a tela e levei um susto ao ver uma mensagem de no visor.

“Preciso te encontrar.”
Xx

Minhas mãos começaram a suar e meu coração logo se descontrolou. Saí de mansinho do quarto e caminhei com cautela, olhando para trás de 2 em 2 minutos.
Eu o avistei em pé no morro de terra e grama, com as mãos nos bolsos. A ansiedade corroeu o meu peito e eu corri até , querendo dizer que estava tudo bem, que eu queria ficar com ele, mas quando parei em sua frente, percebi que estava sério e frio.
— Nós precisamos parar com isso.
Uma primeira pontada atingiu o meu coração, me fazendo ficar desnorteada.
— O... O que?
— Eu andei pensando, e acho que é muito arriscado para nós dois continuarmos com isso. Melhor que isso acabe antes que alguém se machuque. — disse, com sua postura firme e inabalável. Meu coração se apertou quando percebi que ele estava voltando a ser o mesmo mau humorado que eu conheci.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu lutei para que nenhuma gota caísse na sua frente.
— Concordo, afinal nós não daríamos certo, não é? Você não poderia mesmo dar a mão para mim na frente de todo o mundo, e nunca poderíamos ir ao cinema. — falei de um modo um pouco agressivo, que não fez com que sua expressão se afetasse.
Eu sabia que estava certo, mas ainda assim, eu sentia raiva por saber que era ele quem desistiria de nós dois primeiro.
— Isso ai. Nós não temos futuro nenhum, e é melhor encararmos isso agora. — ele imitou o meu tom de voz, mas seu rosto ainda era desprovido de emoções.
— Tudo bem. — eu disse, me contendo para não chorar. O olhei com toda a raiva que circulava pelo meu corpo. — Até amanhã, professor .
— Até amanhã, Little Rebel.
Me virei com as lágrimas já escorrendo pelo meu rosto e comecei a caminhar em direção ao prédio da Wings.
Eu fui para New Haven sentindo que tudo deveria terminar, e voltei confiante de que eu e poderíamos passar por todos os obstáculos para ficarmos juntos, mas agora eu percebo que nem via possibilidades nisso. Talvez essa seja mesmo a coisa certa a se fazer, e eu quero muito acreditar que esse é definitivamente o fim, mas eu não consigo ficar bem com isso.
Eu protegi o meu coração de tudo e de todos depois que a minha mãe morreu. O único cara do qual eu não consegui protege-lo conseguiu destruí-lo com meia dúzia de palavras.
Foi com muita tristeza que eu percebi que aquela foi a primeira vez que eu tive o meu coração partido.


Capítulo 21 - A Aluna Enfrenta o Professor

Estar rodeado por tantas pessoas era cansativo para alguém como eu, que já estava acostumado a ficar solitário em minha própria bolha de amargura e infelicidade. O dia de Ação de Graças foi tão hipócrita quanto o meu pai e seu círculo seleto de amizades.
Inicialmente não era nem para estarmos comemorando um feriado daquele tipo, mas meu pai insistiu que seria bacana entrar no clima de harmonia junto com os alunos da Wings e eu resolvi que era melhor não contrariá-lo. Dei sorrisos fingidos, fiz parte de assuntos dos quais eu não entendia e nem fazia a mínima questão de entender e fingi que eu e meu pai éramos um exemplo de família feliz, o que não era nem de longe, verdade.
Deitado em minha cama, eu só conseguia pensar no quanto era ruim estar ali naquele alojamento sozinho. Eu havia acabado de chegar na Wings e já havia quebrado o coração de uma garota que eu já começava a achar incrível.
Quando eu a vi pela primeira vez, entrando no estúdio de dança daquele jeito inseguro e afobado, eu pensei que ela seria a primeira garota que eu teria prazer de eliminar do concurso. Porém, quanto mais eu a via, mais eu sentia que ela tinha um tipo diferente de potencial, um potencial que me agradava, e que se fosse trabalhado, poderia realmente ser capaz de chegar até as finais desse concurso, o que só me deixava mais intrigado.
Eu queria fazê-la chegar ao limite, testando-a ao máximo, e me surpreendi quando vi que era mais forte do que aparentava ser.
Eu enxergava nela muita dor, tristeza e vulnerabilidade. Mas também enxergava potencial, talento e força. Acho que nem sabe do que é capaz, e isso me assusta, porque na maioria das vezes, nem eu mesmo sei.
Não estava nos meus planos beijá-la, ou me envolver com ela, mas aconteceu e eu me arrependo amargamente disso. é minha aluna, e eu sei que ela pode sair muito mais prejudicada do que eu nessa história toda, e eu não podia permitir que a minha garota fosse eliminada do concurso por meu egoísmo.
Claro que antes de tomar essa decisão, eu conversei com os caras. Depois que eu e vimos aquela sombra, eu ainda tinha dúvidas sobre o que fazer com o nosso... Relacionamento.
Foi no dia de Ação de Graças, quando meu pai e todos os seus amigos saíram para beber que me abordou, olhando-me como se estivesse diante de uma pesquisa muito intrigante.
— Danny, você está com a mesma cara de quando comeu aquela garota horrorosa do 3° ano na casa dela e os pais pegaram vocês dois no flagra. — disse , divertido, tamborilando os dedos nos lábios logo em seguida, enquanto olhava para cima e franzia o cenho. — Qual era mesmo o nome dela? Nancy?
— Era Tracy, e cale essa boca! — exclamei, dando um tapa no braço do meu melhor amigo. e se juntaram a nós dando risadas.
— Foi realmente uma cena engraçada. — disse, fingindo que estava segurando uma arma imaginária. — O pai apontou uma espingarda para você e te expulsou da casa dele. Você teve que sair correndo de lá pelado.
— As pessoas falaram disso por diversas semanas! — disse em meio a risadas, imitando o jeito desesperado como corri aquele dia. Eu estava completamente bêbado quando fiquei com ela, mas os caras riam de mim até hoje quando lembravam da história.
Quando as risadas cessaram, colocou uma das mãos em meu ombro e me olhou de um jeito preocupado.
— Dude, agora eu falo sério. O que aconteceu com você?
— É, cara você tá péssimo. — completou , e eu senti a preocupação dos meus melhores amigos em cima de mim.
— E eu sei que não é só por causa dos canapés que o seu pai serviu hoje. — A frase de arrancou risadas dos meus amigos, e de mim, apenas um riso baixo e sem muito entusiasmo.
Eu queria muito falar sobre o que estava acontecendo, mas tinha muito medo da reação que os meus amigos teriam. Eu sei que eles não são santos, mas eu ainda tinha um pouco de medo dos julgamentos das outras pessoas, mesmo que essas pessoas sejam meus melhores amigos.
Suspirei, sentindo que eles não me deixariam em paz enquanto eu não dissesse logo o que estava acontecendo.
— Vocês prometem que não irão me julgar? — perguntei, fazendo com que os três acenassem de forma positiva com a cabeça. — Se lembram da , aquela minha aluna? Então, eu meio que estou ficando com ela.
, e me olharam como se estivessem diante de um E.T.
— O QUE?!? — gritou, olhando-me espantado.
— E o pior é que nós vimos alguém nos espionando e agora eu não sei o que fazer, porque parece que as coisas estão ficando cada vez mais sérias entre nós e...
— Como isso aconteceu? — perguntou , curioso enquanto me interrompia.
— Nós fomos nos aproximando aos poucos, e quando eu percebi, nós já estávamos juntos. As coisas ficaram mais intensas do que eu pude imaginar e sei lá, parece que eu realmente estou gostando dela, o que é esquisito, já que faz um bom tempo que não me sinto assim em relação a ninguém. — confessei, olhando para baixo.
A verdade é que desde que eu e a começamos a nos envolver que nós não pensamos nas consequências disso. Eu não queria admitir que ela realmente mexia comigo, mas agora, falando em voz alta tanto para mim quanto para os meus amigos, eu percebi que eu realmente sentia aquilo. E por mais que eu não quisesse sentir, eu não conseguia me livrar desse sentimento.
— Danny, nós somos seus amigos. — disse , me olhando fixamente. — Nós nunca te julgaríamos. Eu só acho que isso é perigoso tanto para você, quanto para ela.
— Principalmente para ela. — completou , recebendo de um tapa na nuca.
— Eu tenho uma queda por uma aluna, e sempre que ela tem a oportunidade de flertar comigo, ela a agarra com unhas e dentes, mas eu tenho resistido porque sei que essa história pode acabar mal. — disse, olhando-me como se compreendesse a forma como eu me sentia.
— Mais cedo ou mais tarde, as pessoas irão descobrir sobre vocês. Se essa pessoa que os viu resolver abrir a boca, as chances dessa menina no concurso estarão arruinadas. E mesmo que vocês tenham sorte de ninguém descobrir nada durante o concurso, vocês não poderão namorar escondido a vida toda. — disse, soando sincero. Eu assenti com a cabeça, tendo a plena consciência de que ele estava certo.
— Não cabe a nós dizermos o que você tem que fazer afinal, eu imagino como deve ser difícil estar numa situação como essa. Nós sabemos que faz tempo que você não se relaciona com ninguém, e que essa situação é bem excitante, mas quero que você esteja ciente dos riscos que está correndo caso decida seguir adiante com essa situação. — alertou-me , abraçando-me de lado.
— Independente da decisão que você for tomar, pode contar conosco. — completou , sorrindo.
— Seu segredo está a salvo com a gente, Danny. — disse, apertando meu ombro e dando tapinhas amistosos nas minhas costas.
Quando os meus amigos foram embora, eu fiquei pensando na conversa que tivemos. Foi difícil tomar essa decisão, mas eu sabia que a estava tão aflita quanto eu em relação a mulher misteriosa que nós vimos. Talvez aquilo tenha sido um aviso de que ainda há tempo de sair dessa, e eu não podia mais ignorar o perigo que nós estávamos correndo somente por estarmos juntos. Eu queria entender todos esses sentimentos, e talvez a melhor maneira de fazer isso seja estando longe dela.
E foi o que eu fiz. Foi difícil encarar seus olhos cheios de lágrimas, e seu tom de voz ressentido, mas eu não podia vacilar. Eu sempre fui um perito em esconder as minhas emoções, e essa habilidade foi bem útil na hora de dizer a que nós não podíamos seguir adiante com aquilo.
No entanto, por mais que eu tentasse me convencer de que fiz a coisa certa, algo dentro de mim me dizia que afastá-la de mim tinha sido um dos maiores erros que eu já pude cometer.
Estar naquele alojamento estava me sufocando, parecia que eu ainda conseguia ouvir a voz de e seu choro enquanto ela se afastava. Acho que aquilo iria me assombrar pelo resto da vida.
Fechei os olhos, tentando me concentrar na fachada despreocupada e fria que eu iria ter que aderir amanhã diante dela, mas o meu coração já doía só de pensar em ter que fingir para .

[...]

No dia seguinte, eu caminhei de forma robótica até o estúdio de canto, deixando todas as pessoas que me cumprimentavam falando sozinhas. A maioria eram alunos que gostavam de puxar saco dos professores, achando que assim teriam alguma preferência na hora das avaliações.
Professoras como Deborah adoravam alunos puxa saco. Quanto a mim, se pudesse, eliminaria a maioria dos alunos que acham que irão ganhar alguma coisa bajulando os professores.
Entrei mais cedo do que de costume no estúdio. Arrumei algumas partituras que usaria na aula para me distrair, mas a minha cabeça continuava presa no que tinha acontecido ontem. Como é possível um homem como eu se apaixonar de novo depois de tanto tempo? Eu já tinha me convencido de que meu coração não era mais capaz de se interessar por alguém, e apareceu na minha vida para me provar justamente o contrário.
A minha vida sempre foi bem complicada. Meu pai nunca demonstrou o menor tipo de afeto por mim. Estava sempre me criticando, dizendo que eu tinha que ser o melhor. Por mais que eu seja um dos artistas mais consagrados atualmente, para ele, eu ainda estou longe de ser o melhor. Na verdade, acho que para meu pai, eu nunca serei bom o suficiente em nada.
Eu o culpo até hoje por minha mãe ter nos abandonado, e sei que a maior parte do meu jeito frio de ser foi por conta do tratamento que meu pai me deu desde criança. Ele me fez odiá-lo, e odiar também a maioria das pessoas. Não sei como eu ainda tenho a amizade dos caras. Acho que eles são os únicos que me conhecem de verdade.
também conheceu uma parte de mim. Uma parte legítima de como eu era antes de começar a me tornar o cara amargurado que eu sou hoje. Ninguém além dos caras tinha me visto sorrir como viu. Nenhuma das garotas com quem eu já me relacionei – e isso inclui a Deborah – me viram como eu sou.
Na verdade, acho que elas nem se importavam muito com o meu jeito reservado, fechado e calado de sempre. Claro que as garotas reclamavam algumas vezes, mas eu sabia que eu não ficava em suas cabeças de vento por mais de 5 segundos.
O barulho da porta se abrindo me assustou, e eu parei de arrumar as partituras. Os alunos foram entrando na sala, mas eu não a vi.
O estúdio foi enchendo de alunos animados, que conversavam sobre as visitas que fizeram aos seus parentes. Vi Camerom, um dos seus amigos entrar sozinho e comecei a me preocupar. E se não viesse a aula por minha causa?
Essa dúvida não ficou por muito tempo em minha mente, pois eu logo a avistei, entrando na sala daquele jeito tímido de sempre. Ela não me encarou nenhuma vez, e foi se sentar ao lado de Camerom. Eu não gostava muito do cara, mas vivia grudada com ele e com o restante do seu grupo de amigos. Era bem nítido o interesse que ele tinha nela. Será que não percebia isso?
Fechei as mãos em punho e decidi começar logo a aula de hoje, que seria mais teórica do que prática. Dei um bom dia frio para a turma e comecei a encher o quadro de informações. Ouvi alguns suspiros desanimados, mas eu não estava com saco de ouvir ninguém cantando. Eu só queria explicar tudo o que eu estava escrevendo e deixa-los copiando até que essa aula terminasse.
Enquanto eu explicava a matéria, percebi que e Camerom estavam cochichando um com o outro. Aquilo me irritou profundamente. Eu tentei ignorar e continuar a minha aula, mas a raiva que tomou conta de mim começou a tomar proporções gigantescas.
— O cochicho de vocês deve estar mais interessante do que a aula não é mesmo, Little Rebel? — indaguei, lançando em sua direção um dos meus melhores sorrisos sarcásticos. Ela empalideceu em seu lugar, mas se recompôs em questão de segundos.
— Eu prefiro que você me chame pelo meu nome. — disse , séria em seu lugar. Percebi que ela parecia um pouco insegura em me enfrentar, mas conseguiu dizer o que queria sem parecer uma garotinha assustada.
— Essa é a minha aula, e eu chamo você do que eu bem entender.
Eu dei uma risada repleta de escárnio. Vi que ficou ainda mais irritada com a minha atitude.
— Acontece que Little Rebel não é o nome que consta na minha certidão de nascimento.
Confesso que fiquei surpreso com aquela atitude. Disfarcei ao máximo a expressão perplexa que queria tomar conta do meu rosto, substituindo-a por fúria e indignação. O restante dos alunos olhava para nós dois com o mesmo nível de perplexidade que eu estava lutando para disfarçar.
— Pessoal, continuem copiando a matéria. — eu disse para a turma, direcionando o meu olhar a no instante seguinte. — Little Rebel, venha comigo, por favor.
se levantou, e parecia nervosa de todas as formas possíveis. Ela me seguiu para fora da sala e eu a levei para o escritório onde eu costumava ficar quando não estava em horário de aula.
Tranquei a porta atrás de mim, sentindo-me nervoso por estar sozinho com ela e também desconfortável por ter que fingir que nada tinha acontecido desde que voltamos para a Wings.
— Você quer levar uma advertência? — perguntei, cruzando os braços e assumindo uma postura de seriedade.
me olhou de forma incrédula.
— Advertência? Você está me tratando como se nós... Como se eu fosse aquela mesma aluna que você achava ser um problema.
— E como você quer que eu te trate depois dos cochichos que você e seu amiguinho estavam dando na minha aula? — Levantei uma das sobrancelhas e a encarei de forma irônica. Eu estava tão exaltado quanto ela, mas não queria dar o braço a torcer.
— Ele só estava me pedindo uma caneta emprestada! E eu respondi com uma piada sobre eu não ter canetas sobrando!
— Pois me pareceu muito mais do que isso.
— Você não precisa me tratar daquela forma! — ela exclamou, indignada e com o rosto vermelho. Percebi que ficava ainda mais bonita irritada. Era um lado dela que eu ainda não tinha visto de perto. — Nós não estávamos atrapalhando a sua aula!
— Você é muito ingênua mesmo. – eu disse, cansado de fingir que não estava ligando para ela. — Aquele garoto só estava arrumando uma desculpa para falar com você.
— E porque ele faria uma coisa dessas, ? — ela indagou, aproximando-se de mim de forma arfante.
— Porque ele gosta de você! — exclamei, levantando o tom de voz mais do que gostaria. parou por uns instantes, me olhando de um jeito que quase me enlouqueceu.
Eu só queria prensá-la contra a parede e beijá-la como se fosse a primeira vez.
— E qual é o problema nisso? Não é possível que você esteja com ciúmes de mim. — ela disse, negando várias vezes com a cabeça.
— Talvez eu esteja! — falei, encarando a sua boca com desejo. Os olhos de se tornaram mais amáveis quando ela ameaçou tocar meu rosto.
— Danny, você disse que nós...
Ouvi um barulho perto da porta da sala em que estávamos e abri a porta, interrompendo-a, temendo que alguém estivesse ouvindo tudo atrás da porta.
— Espera um pouco...
Saí da sala, virei o corredor e vi e Deborah conversando de uma forma bem suspeita. Elas estavam sussurrando e pareciam não querer que as vissem. veio atrás de mim, mas eu segurei seu braço e pedi que ela fizesse silêncio. Apesar de ter quase certeza de que ninguém tinha ouvido nada do que eu e dissemos, algo dentro de mim me dizia que aquelas duas tinham tentado.
E, se uma delas fosse dona da silhueta da última noite que e eu estivemos juntos de verdade, eu iria me vingar. Enquanto eu fosse um dos professores dessa escola, ninguém mais ia se meter com os sonhos de .


Capítulo 22 - 27 chamadas perdidas

O clima Londrino estava agradável naquele dia, o que fez com que um pouco da tristeza que eu sentia saísse do meu peito. Fazia quase uma semana que eu e não nos falávamos, e ficava cada vez mais difícil aceitar que nós terminamos algo que eu ainda tentava entender como havia começado.
Temos evitado nos olhar durante as aulas e Cameron acabou ficando ligeiramente desconfiado, já que eu agia de forma estranha durante as aulas de . Por sorte, convencê-lo de que o meu comportamento se devia ao fato de que eu estava preocupada com a Deborah foi mais fácil do que eu pensava.
Desde que eu e a vimos acompanhada de que eu me sinto incomodada. As desconfianças de em relação ao caráter de nossa companheira de quarto logo invadiram a minha mente, e eu comecei a me sentir desconfortável perto dela.
Os nossos ensaios para a próxima avaliação estão sendo um desastre, pois discorda das minhas ideias e as de o tempo inteiro, e eu tenho quase certeza de que se continuar desse jeito, nós seremos eliminadas do concurso.
A única coisa que me anima é que a peça que todas as turmas estão ensaiando serão apresentadas amanhã à noite. Hoje faremos um ensaio geral incluindo iluminação, sonoplastia e figurino.
Eu andava pelo corredor da Wings de forma tranquila quando vi Deborah segurando um copo de cappuccino da Starbucks. Ela falava baixo ao telefone, mas parecia exaltada de alguma forma. Assim que ela me viu, desligou o telefone e ficou me encarando fixamente antes de caminhar na minha direção.
Parei no meio do caminho e olhei para os lados, percebendo que o corredor estava completamente vazio. Tentei parecer tranquila, mas algo dentro do meu estômago se revirava de nervoso.
— Faz tempo que não nos falamos, . — Deborah parou em minha frente e me lançou um sorriso repleto de malícia. Seus olhos me analisavam como uma raposa faz com a sua presa quando está prestes a dar o bote.
— É. Se não se importa, eu estou atrasada.
Desviei de seu corpo e fiz menção de que continuaria o meu caminho, mas Deborah se colocou novamente em minha frente.
— Pra quê a pressa? Está indo se encontrar com alguém?
Seu tom de voz era fingido e repleto de insinuações, o que fez com que eu ficasse em estado de alerta. Deborah sabia que havia algo entre eu e o e se ainda não sabia, estava desconfiada disso.
Cruzei os braços acima do peito e franzi o cenho, fingindo que estava confusa com a sua pergunta.
— Porque quer saber?
Deborah abriu mais um sorriso indolente. Seus olhos azuis carregavam um brilho esquisito, e ela se aproximou um pouco mais de mim, tentando me intimidar.
— Então os boatos são mesmo verdadeiros...
— Que boatos?
— Os boatos de que você respondeu o professor na aula. — disse ela, citando-o pela primeira vez na conversa. Respirei fundo e tentei me manter séria e inexpressiva. — Sabe, eu estou muito curiosa para saber de onde você tirou tanta coragem para respondê-lo.
— Não foi tão difícil quanto você faz parecer. — eu disse, fazendo com que Deborah me encarasse de um jeito estranho. O sorriso falso que ela estava esboçando finalmente tinha sumido, mas o tom de sua voz ainda soava de forma natural.
— Sabe , garotas como você são facilmente iludidas. Acho que você deveria tomar cuidado com o que faz aqui dentro.
— Onde quer chegar? — perguntei, sentindo-me completamente irritada pelas suas provocações.
Antes que Deborah pudesse me responder, apareceu.
— O que está acontecendo aqui? — ele indagou, olhando para Deborah de forma furiosa e depois pousando seus olhos em mim. —, você não deveria estar ensaiando sua coreografia com as meninas?
— Nós só estávamos... — tentou Deborah, sendo brutalmente interrompida por .
— Não me interessa ouvir a sua voz, Deborah. Não quero você importunando a minha aluna outra vez. — disse ele, fazendo com que Deborah arregalasse os olhos em ultraje. Contive a vontade de dar uma risada. — , vá para o estúdio. As meninas já estão lá te esperando e é bem capaz que elas se matem se você não chegar logo.
— Tudo bem.
Ignorei os olhares furiosos de Deborah e sibilei um obrigada para antes de seguir o meu rumo. Senti seu olhar nas minhas costas enquanto eu me afastava e me arrisquei a olhar para trás. e Deborah pareciam discutir de uma forma contida, o que fez o aperto no meu peito diminuir um pouco. A intervenção dele ao mais recente ataque de Deborah me fez perceber que o ainda se importava comigo.
Entrei no estúdio de dança em que e se encontravam e me surpreendi ao constatar que elas ainda não haviam se matado. As duas estavam sentadas mexendo em seus respectivos celulares, e não perceberam o momento em que eu entrei.
— Vamos começar? — perguntei, colocando minhas sapatilhas para poder me aquecer.
— Até que enfim! — bradou , guardando o celular na bolsa e se levantando. — Onde foi que você se meteu?
— Culpe a Deborah pelo meu atraso. — respondi, sentindo que me olhava. abriu a boca para dizer algo, mas a fechou quando se lembrou que não estávamos sozinhas.
— Depois você me conta o que aconteceu. — disse ela, ajudando-me a me levantar. Apoiei a minha mão em uma das barras e comecei a me aquecer.
— Eu quero deixar avisado desde já que eu só participo se cantar a parte da Jade. — disse quando se levantou. a olhou com escárnio.
— Quantas vezes eu vou ter que dizer que a parte da Jade já é minha?
— E quem disse isso? — ela indagou, assumindo a postura petulante que eu já havia me acostumado a ver.
— Eu, ontem à noite, enquanto você mandava mensagens de texto idiotas pro só para ter um pretexto para falar com ele!
— Como você sabe disso? Você... mexeu no meu telefone? estrilou, ficando vermelha e ainda mais irritada. Fechei os olhos, já prevendo que não ensaiaríamos mais uma vez por causa das duas.
— Meninas, se acalmem! Nós temos apenas cinco dias para montar e ensaiar a coreografia e as nossas vozes. Essa música é um tanto difícil, então seria legal se nós pud...
— Responde agora, sua cadela! — esbravejou a loira, ignorando-me.
— Eu não mexi nessa porcaria! Eu vi sem querer quando passei para ligar o rádio e você estava sentada quase embaixo da prateleira com seu celular! E não me chame de cadela, sua loira falsa! — avançou alguns passos na direção da e eu me coloquei no meio das duas.
— Você é uma fofoqueira! — gritou , apontando o dedo na direção de minha amiga.
— O que está acontecendo aqui? — indagou , acompanhado de , e . Esses três últimos nos olhavam com um brilho divertido no olhar.
— Não há um jeito de fazermos essa avaliação com outra pessoa? — perguntei de forma esperançosa.
— Não mesmo! E, se vocês três não conseguem se entender, significa que precisam passar mais tempo juntas.
— O problema não somos nós. É ela. — disse, apontando com a cabeça para .
— Passar mais tempo juntas? Como assim? — perguntei, confusa. deu um sorriso sarcástico que fez meu coração palpitar.
— Depois das aulas vocês ficarão aqui no estúdio até a noite. Enquanto não se entenderem, terão menos tempo para a vida social que tanto prezam. Como amanhã vocês apresentarão as peças de teatro, não precisarão ficar aqui então, aproveitem seu último dia de liberdade. — disse, dando um sorriso plastificado na minha direção. Ele parecia estar tão triste quanto eu por ter que fingir que nada havia acontecido entre nós.
— Meninas, vocês precisam aprender a trabalhar em equipe. — disse de modo sorridente. Os outros meninos concordaram e pareceu entrar em transe enquanto olhava para . Reprimi a risada que eu queria soltar pela cara que a minha amiga estava fazendo e bufou ao meu lado.
— Nós não temos escolha, temos? — ela perguntou, mau humorada.
olhou fixamente para mim antes de respondê-la:
— Não, vocês não tem.

[...]

O dia da apresentação da peça teatral chegou junto com o meu nervosismo. Fiquei o dia inteiro inquieta, e percebi que e Miles estavam tão nervosos quanto eu, apesar dos seus esforços para disfarçar. O único tranquilo de nosso grupo era o Camerom.
e Miles estavam na mesma peça, assim como eu e Camerom. A turma de seria a última a se apresentar e a de – que é a turma onde e Miles se encontravam – seria logo a primeira, o que os deixava ainda mais aflitos.
Eu e os meus amigos estávamos sentados num banco que tinha no campus da Wings, relaxando um pouco antes de irmos para os camarins nos arrumar. ainda estava inconformada com o fato de que teria que passar mais tempo com , e sempre que tinha a oportunidade, falava sobre o assunto.
— Vai dar tudo certo, galera. — disse Cam, observando a inquietação que tomou conta de nós. — Essa peça não é um teste e nem nada do tipo, relaxem!
— Até parece que eles não vão reparar nem um pouquinho no nosso desempenho. — Miles disse, encarando a tal menina que ele estava afim.
— Concordo com o Miles. — disse, fuçando o Facebook de . — Você é muito ingênuo se acredita nisso.
— Se eles vão avaliar ou não, não importa. — Cam deu de ombros, despreocupado.
— Eu tenho inveja de você. — eu disse, fazendo com que ele desse uma risada. Cam passou um dos braços por cima dos meus ombros, o que fez com que eu enrijecesse na mesma hora.
— Nós faremos um ótimo par na peça de hoje, não se preocupe.
Olhei para o rosto de Cam de um jeito envergonhado. Se estivesse ali naquele instante tenho certeza de que ela diria que ele estava me paquerando. Camerom tinha as bochechas avermelhadas, mas o sorriso galanteador que ele me lançou logo fez com que o rubor de suas bochechas se afastassem.
Eu dei um sorriso sem graça para ele e quando olhei para a frente, vi que nos encarava com um olhar de desagrado. cochichava algo no ouvido dele enquanto o levava para longe dali, e eu senti meu estômago embrulhar.
Eu queria poder alcança-lo, e dizer a ele que eu e o Camerom nunca teríamos nada porque era dele que eu gostava, mas eu não podia fazer nada, e isso já era ruim o suficiente.
Enquanto o levava, nossos olhares se cruzaram. Ele parecia magoado e irritado, e aquilo partiu meu coração.

[...]

O reflexo do espelho em minha frente me dizia que eu era realmente bonita. A maquiagem que haviam feito em meus olhos me deixou com uma aura angelical que combinava com o papel que eu iria interpretar naquela noite.
O vestido longo e branco de seda se ajustava perfeitamente ao meu corpo, e meus olhos brilhavam. Meus cabelos longos estavam soltos e com ondas magníficas. Eu estava completamente admirada. E nervosa.
Como eu seria a última a me apresentar, me dirigi até o backstage, onde fiquei junto com os outros alunos esperando as cortinas se abrirem para a turma de . faria o papel de uma vilã e Miles era um dos amigos do protagonista. Segundo ele, seu papel era tão importante quanto o de .
Eu não sabia sobre o que a peça deles falava, mas estava prestes a descobrir.
Procurei por e o encontrei do outro lado do backstage, junto com , e . Ele não me viu, e eu senti a tristeza preencher meu peito. Eu queria muito falar com , mas acho que nunca teria uma oportunidade de fazê-lo enquanto ele só andasse acompanhado.
— Nossa, tem muita gente! — exclamou uma menina, olhando para a plateia. Arregalei os olhos ao notar que o teatro estava lotado de gente. A imprensa também estava presente, e eu senti vontade de vomitar ao ver a quantidade de pessoas que estava lá fora.
— Preparada? — Cam perguntou, aparecendo ao meu lado.
— Já viu a quantidade de pessoas que está lá fora?
— Sim. Confesso que eu estou com um frio na barriga.
Nós dois rimos. O instrumental de uma música começou a tocar e foi para outra parte do backstage para olhar melhor a peça que havia ensaiado.
Observei meus amigos atuarem com perfeição, e meu coração acelerou ao pensar que daqui há alguns instantes seria eu ali no palco.

[...]

Quando a última turma estava terminando de se apresentar, saí de perto dos meus amigos com a desculpa de que eu iria ao banheiro. Me dirigi até onde estava e parei em sua frente. Ele me olhou com frieza, e eu limpei a garganta para tomar a coragem necessária para falar com ele.
— Vá para a sua posição inicial, . — disse ele, mal olhando para mim. — A apresentação já está acabando.
Respirei fundo e segurei em seu braço. Ele me lançou um olhar de censura que me fez largar seu braço imediatamente.
— Eu preciso falar com você sobre o Camerom.
, você não me deve satisfação nenhuma.
Eu olhei dentro dos seus olhos, e parei de prestar atenção no que acontecia ao meu redor. Eu só queria que ele soubesse que por mais que não pudéssemos ficar juntos, era dele que eu gostava. Seus olhos foram perdendo a frieza lentamente, e eu senti que queria que eu falasse algo, qualquer coisa. Mas eu não consegui.
— Eu sei, mas... É que eu...
— Danny, sua turma já pode ir se posicionando.
Levei um susto ao ouvir a voz de um dos ajudantes de palco. se recompôs em questão de segundos, e não me olhou mais nos olhos.
— Vá para a sua posição, por favor. — eu assenti, indo para o meu lugar atrás da cortina. Engoli o choro e comecei a entrar no personagem antes mesmo que as cortinas se abrissem.
A peça falava sobre um anjo da canção que havia perdido a sua melodia enquanto observava um humano e cobiçava o mundo dele. Eu era o tal anjo, e Camerom o humano. Enquanto a minha personagem começa a sua busca pela melodia, ela encontra o humano no qual se apaixonara.
As cortinas se abriram e essa foi a minha deixa para entrar em cena. E, quando entrei no palco, tudo foi tão mágico que eu acabei me esquecendo de todos os meus problemas. Eu cantei, dancei e atuei como nunca antes. Eu senti que a minha mãe estava comigo ali no palco e aquilo me deixou ainda mais segura.
Meus movimentos fluíam de forma natural, e meus pés não me traíram um momento sequer. Os outros alunos também atuavam bem, e me passaram tanta segurança quanto Camerom costuma me passar. As luzes em cima de nós não nos intimidaram em nenhum instante, e se a plateia ou as câmeras queriam nos intimidar, elas não haviam conseguido.
E, quando a peça acabou, todos se levantaram para nos aplaudir. O sorriso que se formou em meu rosto era totalmente real, e meu coração ficou feliz ao perceber isso.
Depois de agradecermos, voltamos felizes para a coxia. Eu, Camerom, e Miles nos abraçamos, ambos parabenizando uns aos outros pelos nossos desempenhos.
veio parabenizar a nossa turma com um sorriso satisfeito e se retirou. Aproveitei a distração da galera e dos meus amigos para correr atrás de . O empurrei para um dos corredores vazios e o beijei com cada célula do meu corpo.
Surpreso, ficou alguns segundos em choque, mas quando se recuperou do susto, ele agarrou a minha cintura e me puxou para si com força e intensidade. Nosso beijo foi ficando cada vez mais voraz, e eu senti que poderia explodir a qualquer momento, pois haviam milhares de sensações se passando pelo meu corpo naquele instante.
mordiscou meu lábio inferior, mas não partiu o beijo. Nos apertamos um contra o outro com uma força descomunal, mas ele não me machucava. Eu só queria senti-lo cada vez mais perto de mim até que nossos cheiros se misturassem e o calor de seu corpo me deixasse febril.
Fiquei um pouco impressionada com a veracidade dos meus pensamentos e sentimentos. Eu nunca tinha sentido aquilo antes, e estar descobrindo tantas sensações novas era um pouco assustador.
Fui obrigada a separar nossos lábios quando ouvi as vozes de alguns alunos que se aproximavam.
— Eu sei que você tem me tratado com frieza porque quer me proteger. Eu sei que nós não podemos ficar juntos. Mas, isso não vai me impedir de continuar gostando de você.
Eu o olhei intensamente. estava escorado na parede, respirando de forma ofegante. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, eu o deixei ali e corri até o camarim de forma contente. Meu coração estava acelerado e a adrenalina ainda corria pelas minhas veias quando peguei o celular e vi 27 chamadas perdidas de .
Achei estranho e decidi retornar quando vi que ali tinha sinal. Ela atendeu depois de 4 toques.
Até que enfim você me atendeu! — disse ela esbaforida do outro lado da linha.
— Me desculpe, amiga! Acabei de me apresentar e...
Nós precisamos conversar. disse, tropeçando nas palavras de um jeito que fez com que eu engolisse em seco. A adrenalina sumiu das minhas veias no momento em que notei que algo estava errado no tom de voz de minha amiga.
— O que aconteceu?
É o seu pai, . Ele está internado no hospital. O estado dele é grave.


Capítulo 23 - A Confissão

Eu ainda não acreditava que aquilo estava acontecendo de novo.
Eu não queria acreditar.
Enquanto eu entrava no hospital, afoita e desesperada, eu senti como se um flashback estivesse passando diante dos meus olhos. Era como se eu estivesse revivendo momentos de terror estando ali dentro.
Lembrei-me de minha mãe, e do quanto ela tinha sofrido antes que a morte a levasse, e meu coração se apertou dentro do peito. As lágrimas escorriam pelo meu rosto incessantemente, enquanto as imagens do corpo já sem vida da minha mãe entravam nesse mesmo hospital.
Depois que a me ligou dizendo que papai tinha passado mal, eu praticamente surtei. Eu tive que insistir muito para que me deixasse voltar para New Haven, e ele só permitiu por causa de , e ainda impôs duas condições: A de que eu voltasse dentro de 2 dias, e a de que o me acompanhasse.
Claro que isso me pegou de surpresa, já que iria deixar a classe dele sem aulas enquanto me acompanhasse, mas disse que Lena e ele iriam cobrir as aulas de nesse pouco tempo de viagem.
Nós embarcamos em um avião particular que o próprio contratou, e ficamos quietos no caminho que fizemos até entrarmos no avião. sentou-se ao meu lado, e me olhou com preocupação o tempo todo.
... Você quer conversar? — ele perguntou, estudando meu rosto com atenção.
— Não, eu só quero chegar logo. — Virei meu rosto em sua direção, sentindo-me ansiosa. Eu apertava os nós dos meus dedos e já os sentia ficando brancos, mas eu não conseguia parar. viu a aflição em meu olhar e segurou a minha mão. — Falta muito para chegarmos?
deu um meio sorriso para mim, acariciando a minha mão suavemente.
— O avião acabou de decolar.
Apertei meus lábios em uma linha fina, tentando a todo o custo não chorar em sua frente. Mas eu fracassei no momento em que olhei para ele.
se curvou em sua poltrona e me abraçou apertado, e eu senti as minhas lágrimas molhando o seu pescoço. Ficamos assim até eu cair no sono, e quando acordei, já tínhamos chegado em New Haven.
Me debrucei no balcão da recepção do hospital assim que voltei a realidade, mas surgiu do meu lado e perguntou pelo meu pai antes que eu o fizesse.
Ouvi atentamente as informações que a recepcionista nos passava, e percebi que ela não tinha reconhecido . Fiquei um pouco mais calma quando ela me disse que meu pai estava bem, mas que só o médico poderia me dar informações mais precisas sobre o caso.
Ela nos indicou a sala de espera — que era onde todos estavam aguardando por notícias — e nós seguimos suas instruções para chegarmos até lá.
Encontrei e Lucy sentadas uma ao lado da outra na sala de espera, e minha tia Darcy em pé, andando de um lado para o outro. Assim que me viu, praticamente saltou da poltrona e me abraçou.
— Como ele está? A recepcionista disse que ele está bem, mas eu quero ter certeza. — eu disse, desfazendo o abraço. Lucy e tia Darcy também vieram me abraçar. Ambas cumprimentaram com um sorriso e um aperto de mão.
— Os médicos fizeram alguns exames, mas eles ainda não têm certeza do que pode ter acontecido para que o seu pai desmaiasse. Os médicos suspeitam de algumas doenças, mas só um diagnóstico mais preciso fará com que eles descubram o que há com o seu pai. — disse Lucy, afagando a minha bochecha.
Apresentei oficialmente a Lucy, minha tia e a , que ficou um pouco empolgada demais ao ver que ele estava me acompanhando.
O médico, que segurava uma prancheta, apareceu em meu campo de visão. Ele tinha acabado de sair do quarto onde o meu pai estava, e seu semblante se encontrava desprovido de emoções. Ele caminhou em minha direção e esboçou um pequeno sorriso, que por algum motivo me fez lembrar do Dr. Carlisle de Crepúsculo, só não me pergunte o porquê.
— Olá, eu sou o Doutor Holden. Você deve ser . — ele disse, ainda com o sorriso no rosto. Acenei de forma afirmativa com a cabeça, e nos cumprimentamos com um aperto de mão.
— Sim, sou eu. Como o meu pai está?
— Seu pai está bem melhor, mas ainda estamos fazendo alguns exames e ele terá que ficar em observação por mais alguns dias. Ele está acordado, você quer vê-lo?
Balancei a cabeça várias vezes de forma positiva, e o médico logo sentiu a urgência que havia no meu olhar.
— Quero, por favor.
O Doutor Holden indicou a porta do quarto do meu pai com a mão e eu caminhei rapidamente até lá. Assim que entrei, encontrei o meu pai de olhos abertos, e todo entubado. Haviam fios em seu peito, em um de seus pulsos, e um fio preso em seu nariz.
Corri até a sua maca e o abracei com cuidado, depositando todas as lágrimas que eu prendi do lado de fora do hospital. Papai colocou uma das mãos em minha cabeça, fazendo um carinho naquela região. Aquele gesto me confortou muito.
Eu estou com tanto medo de perdê-lo que sinto que devo desistir da Wings para poder cuidar do meu pai. Não posso deixa-lo, ele precisa de mim.
— Querida... Você não precisava ter vindo. — disse papai, com a voz baixa e contida. — Eu estou bem.
Levantei a cabeça para olhá-lo e segurei a sua mão, as lágrimas ainda rolando pelas minhas bochechas.
— Mas é claro que eu precisava, papai. Eu fiquei preocupada... — fiz uma pausa e soltei um suspiro. — O que aconteceu?
— A Lucy me encontrou desmaiado na cozinha de casa. Eu tinha acabado de chegar do trabalho, e estava planejando cozinhar uma lasanha, mas comecei a sentir fortes dores e uma tontura que não permitiu que eu ficasse de pé.
Papai afagou meu queixo com carinho e eu sorri, ficando séria logo em seguida.
— Pai, acho melhor eu voltar pra cá definitivamente para cuidar de você. Eu não me importo de sair da Wings, eu posso muito bem voltar a treinar na minha antiga academia de ballet e...
— Nada disso! — exclamou papai, me interrompendo. — A Lucy e a sua tia Darcy estarão cuidando de mim no tempo em que você estiver fora, não se preocupe. O que eu quero mesmo é te ver lá naquele palco, dançando, cantando e fazendo tudo aquilo que você sempre sonhou. , eu nunca te apoiei como a sua mãe te apoiava, e agora sinto que é meu dever te dar todo o amor e suporte que você precisa para seguir em frente com isso.
Eu abri um sorriso largo e apertei com força a mão de meu pai. Ele sorriu de volta, e com a mão livre enxugou uma lágrima que rolava pela minha bochecha.
— Mas pai...
— Eu vou ficar bem, minha princesa. Eu só quero que você seja forte. Lute pelos seus sonhos, e não deixe que ninguém os destrua. “Abra as suas asas, minha pequena borboleta.” Lembra? Era isso o que a sua mãe lhe dizia quando você queria desistir. — ele disse, e seus olhos ficaram marejados quando citou mamãe na conversa. — Sei que você pensa que tem sonhos muito grandes, mas eles são seus sonhos e ninguém pode tira-los de você. Querida, acredite na magia. Seus sonhos estão lá na Wings, e eu não vou permitir que você desista deles agora. Afinal, eu criei um Facebook só para administrar o seu fã-clube, e isso seria muito injusto. Eu paguei muito caro pelas aulas de informática.
Gargalhei quando ouvi o que papai tinha dito, e ele sorriu para mim quando viu que suas palavras haviam surtido o efeito que queria. Fiquei emocionada e encantada e o abracei forte novamente. Cortava o meu coração vê-lo naquele estado, uma vez que os médicos ainda não sabem o que o papai tem.
O que me resta é ter esperança e fé.
Fechei meus olhos e apertei ainda mais meus braços no corpo de meu pai, pedindo silenciosamente a Deus que tudo desse certo, e aproveitando o abraço aconchegante e cheio de amor do senhor , o homem que me criou e que eu amo mais do que qualquer coisa que possa existir.
Eu não vou sair da Wings porque essa é a vontade do meu pai, mas se eu vou ter mesmo que voltar para lá, vou precisar ser forte. Muito forte.

[...]

Abri a porta da minha casa e me joguei no sofá. Já era noite quando eu e deixamos o hospital, e eu só queria descansar. Papai teria que ficar internado por mais alguns dias, e minha tia acabou ficando com ele. Lucy tinha ido resolver algumas coisas da sua academia de ballet e foi para a sua casa estudar para um vestibular que ela havia se inscrito.
Tia Darcy não ficou muito feliz em saber que eu iria ficar sozinha com na casa, mas eu lhe garanti que ele é um cara que sabe respeitar suas alunas. Ela não ficou muito convencida disso, mas pelo menos não ficou mais reclamando.
se sentou ao meu lado no sofá, de um jeito quieto e pensativo. Percebi que ele olhava tudo a sua volta, provavelmente reparando no quanto a minha casa era simples se comparado a todos os lugares que ele costumava frequentar.
Eu tinha tantas coisas na minha cabeça que só agora eu tinha parado para pensar que era ao meu lado naquele sofá. Ele não é só o meu professor, mas também é o cara que eu agarrei nos bastidores de uma peça de teatro algumas horas antes de estarmos bem aqui.
E eu estou completamente apaixonada por ele.
— Sua casa é legal. — disse , depois de muitos minutos constrangedores de silêncio.
— Obrigada.
— E aí, como você está? — perguntou, olhando fixamente para mim. Suspirei pesadamente, ainda sentindo-me um pouco nervosa por tudo o que tinha acontecido.
— Estou preocupada. Enquanto os médicos não descobrirem o que o meu pai tem, eu não vou descansar.
— Fique tranquila. — ele colocou a mão por cima da minha, e meu coração acelerou com o contato. Engoli em seco e quebrei o contato visual, ficando terrivelmente constrangida ao me lembrar da minha audácia em beijá-lo daquela forma depois da peça de teatro. — Vai dar tudo certo, .
Ele apertou a minha mão com força, o que fez com que eu levantasse a minha cabeça e olhasse para ele. me encarava de um jeito intenso, e a minha pele começou a formigar.
— Posso te contar uma coisa? — ele perguntou, e eu assenti de forma afirmativa com a cabeça. — Quando eu era adolescente, eu e meus amigos montamos uma banda. Essa banda fez com que eu me sentisse feliz como há muito tempo eu não me sentia, e fez com que eu recuperasse um pouco a essência que eu tinha perdido por ter que conviver com o meu pai. Eu depositei todas as minhas forças na banda e em tudo o que fazíamos em conjunto: letras de músicas, arranjos, acordes... O McFly era a minha válvula de escape naquela época.
“Eu amava dançar, mas eu não conseguia mais sentir a dança como eu sentia. Claro que isso mudou depois que eu e você dançamos juntos pela primeira vez. Porém, nós começamos a fazer sucesso, e o disse que alguns empresários tinham entrado em contato com ele, mas meu pai deu um jeito de destruir os nossos sonhos. Ele disse que se eu fosse em frente com a banda, que ele queimaria o nosso filme para todos os empresários que tentassem nos contatar e ainda me expulsaria de casa. Eu fiquei muito mal, é claro. Cheguei a entrar em depressão profunda afinal, eu tinha perdido a minha válvula de escape. Os caras ficaram tristes também, mas não quiseram seguir sem mim. Depois disso, eu não consegui mais compor nenhuma música. Mas ai eu conheci você, e pensando na sua dança, eu consegui escrever The Heart Never Lies.”
Olhei para de uma forma que eu não consegui descrever. Seu rosto, sempre tão sério e amargurado, estava totalmente triste e vazio. Meu coração se entristeceu ao vislumbrar a sua dor, então apertei de volta a sua mão. Pela primeira vez eu estou vendo todas as marcas que possui. Tanto as externas quanto as internas. Em seus pulsos, haviam cicatrizes. Eu nunca tinha reparado nelas antes, mas sempre estiveram ali.
é um péssimo pai.
— Posso te levar em um lugar? — perguntei, me corroendo em expectativa. assentiu com a cabeça.
Ainda segurando a sua mão, o conduzi para fora de casa. O tempo estava úmido naquela noite, mas eu não me importava. Caminhamos rapidamente e de mãos dadas até um parque abandonado que ficava atrás da minha rua.
Apesar de abandonado, eu sempre gostava de ir pra lá, pois é um lugar que sempre me inspirou. O gramado já estava crescendo — um vizinho e o meu pai costumam fazer a manutenção do lugar aparando a grama — e os balanços já começavam a apodrecer.
Haviam refletores posicionados de forma estratégica pelo local, e algumas corujas descansavam em cima dos postes de luz.
Me virei para e segurei seu pulso com ternura, passando os dedos levemente pelas cicatrizes que existiam ali.
— Eu sinto muito. Por tudo o que você passou. Sei que ainda há coisas que você não tem coragem de compartilhar comigo, mas eu agradeço de qualquer forma por confiar em mim. Eu sei que o que há entre nós não pode acontecer, mas quando eu estou com você, eu me sinto livre e desperta. Mais do que isso, eu sinto que o que temos é mais certo do que muitas coisas em minha vida, como o meu relevé*, por exemplo. — deu uma genuína risada com a minha piadinha, mas logo ficou sério novamente.
Ele fechou os olhos para sentir o carinho que eu fazia em suas cicatrizes e me puxou para perto de si, movendo seu corpo e me conduzindo em uma dança sem música.
A dança começou lenta e calma. Eram só nossos corpos se movendo de um lado para o outro. Seus olhos estavam grudados em mim, e os meus, se encontravam perdidos na imensidão azul dos dele.
Até que me girou e me suspendeu no ar, surpreendendo-me. Ele deu uma risada e me colocou no chão, e continuou me guiando na dança improvisada. Estiquei a minha perna o mais alto que conseguia usando jeans e virei de costas para ele, fazendo alguns passos de dança individuais. me virou para si outra vez, encerrando a nossa pequena dança.
, você me devolveu o amor pela dança. Mais do que isso, você trouxe de volta a minha inspiração. Eu não quero mais ficar longe de você. Eu só não sei se isso vai ser seguro, por causa do concurso e...
— Eu quero estar contigo, . Não me importo em termos que agir em segredo e de forma mais cautelosa. Eu só não quero mais ter que ficar fingindo que não te quero.
abriu um largo sorriso com o que eu disse. Seus olhos brilhavam tanto quanto os meus deviam estar brilhando naquele momento. Até que ele diminuiu a distância entre nossos lábios, beijando-me com urgência.
Senti as suas mãos subindo e descendo por toda a extensão da minha coluna enquanto seus lábios me beijavam com destreza e fervor. As minhas mãos pareceram criar vida própria, e se enfiaram por dentro de sua camiseta, sentindo o quanto seu corpo estava quente. soltou um grunhido no meio do beijo com o carinho tímido que eu fazia e desceu os lábios para o meu pescoço, beijando-me languidamente e de um jeito que me deixou totalmente entorpecida.
Segurei sua nuca com uma das mãos e arfei quando senti me puxar para ainda mais perto de si. Parecia que o meu coração ia sair pela boca a qualquer momento.
voltou a beijar a minha boca, mas dessa vez, de forma mais calma. Ele sabia dos meus limites, e estava me respeitando mais uma vez.
— Acho melhor nós irmos dormir. — eu disse, entrelaçando os nossos dedos. — Amanhã de manhã nós iremos passar no hospital antes de voltarmos para a Wings.
— É uma boa ideia.
Nós voltamos para a minha casa rapidamente. O clima estava mais leve do que antes, e eu já não estava me sentindo mais tão preocupada. Emprestei uma muda de roupa de meu pai para usar, mas elas ficaram um pouco largas, e se moldaram de um jeito engraçado ao corpo do meu namorado secreto.
— Acho que as roupas do senhor não ficaram muito bem em mim. — disse de forma risonha, enquanto eu arrumava o sofá para que ele pudesse dormir.
Eu parei o que estava fazendo para dar uma risada.
— Você acha?
Levantei uma das sobrancelhas e vi me olhar com uma expressão desafiadora. Tarde demais eu entendi o que ele pretendia, e quando percebi, ela estava sentado em cima de mim me fazendo cócegas.
Eu comecei a rir e a me contorcer feito uma descontrolada, sentindo meus olhos lacrimejarem. Eu odeio quando as pessoas me fazem cócegas, a sensação de impotência que me acomete é sempre desesperadora.
... Pare... Com... Isso!
Arfei, sem conseguir de fato terminar a frase direito.
continuou gargalhando, e foi parando de fazer as cócegas, mas não saiu de cima de mim. Minhas bochechas doíam de tanto rir, e as dele estavam coradas e fofas.
Seu rosto se aproximou do meu, e quando menos percebi, já estava me beijando.
Sentir seu corpo tão perto do meu estava fazendo com que eu sentisse coisas que até então eram desconhecidas por mim. Meu corpo parecia estar febril, e eu sentia seu cheiro por toda a minha pele.
O beijei com todo o fôlego que eu tinha, tentando compensar todas as vezes que não pudemos estar juntos, e despejando toda a minha angústia de não poder estar com da forma que eu gostaria, já que o concurso não permitia isso.
Ele se deitou ao meu lado assim que quebrou o beijo, e nós ficamos nos olhando por um tempo que me pareceu infinito. Seu peito subia e descia, e o sorriso de felicidade que estava em seu rosto só fez com que o meu sorriso tímido aumentasse de tamanho.
, seria loucura se eu dissesse que amo você?
*Um movimento em que os calcanhares são levantadas do chão, iniciando com plié.


Capítulo 24 - Dose de Coragem

, seria loucura se eu dissesse que amo você?
Quando eu vi o pela primeira vez na tela da minha televisão, com um talento imensurável e bem mais jovem, eu não percebi o quanto aquele rapaz carregava tristeza em seu coração. Eu não sabia que as nossas vidas iam se cruzar dessa forma, e não consegui compreender em que momento eu comecei a nutrir sentimentos por ele.
Eu o admirava, e sempre me sentia estranha quando me olhava de um jeito diferente, e que era capaz de aquecer a minha alma. Eu sabia que tinha algo errado comigo, mas eu não conseguia simplesmente tirá-lo da minha cabeça.
E agora, estávamos os dois aqui, dividindo um colchão do meu pai no meio da sala de estar. Mas não era só isso que dividíamos naquele momento. havia acabado de confessar que me ama.
Ao olhar para os seus olhos, tão doces e sinceros como eu nunca tinha visto, o meu coração acelerou. Meus olhos começaram a lacrimejar, e uma grande porção de felicidade começou a inundar todo o meu ser, porque eu tenho certeza de que o amo também.
Amo desde a primeira vez que o vi na televisão, dançando como se estivesse entregando a sua alma. O amo desde que eu pus os pés na Wings e olhei dentro dos olhos dele. O amo desde que ele começou a me chamar de Little Rebel, e quando ele me olhava de um jeito intenso, eu sentia que poderia pegar fogo a qualquer momento, e isso era outra coisa que eu definitivamente havia aprendido a amar.
Quando o conheci, ele era frio como o granizo, e quando comecei a desvendá-lo e a sentir o peso de seu olhar sobre mim, percebi que também podia ser quente como uma fogueira, e eu amava cada parte dele.
— Eu... Eu amo você também, . — confessei, segurando a sua mão com firmeza. abriu um largo sorriso, apertando de volta a minha mão. —Eu nunca amei um cara em toda a minha vida, mas tenho certeza de que o que eu sinto aqui dentro de mim agora só pode ser amor.
segurou meu rosto com as duas mãos e depositou um beijo carinhoso e demorado em minha boca, que fez com que todos os meus medos desaparecessem. Naquele momento, eu acabei me esquecendo de que nós tínhamos que lidar com muitos problemas ao assumir esse relacionamento, o que fez meu coração ficar ainda mais leve.
Acabamos adormecendo alguns minutos depois, na sala de estar da minha casa. Repousei minha cabeça no peito de e ele envolveu seus braços em torno do meu corpo.
Nunca dormi tão bem em toda a minha vida.

[...]

Assim que passei pelos portões da Wings, , Miles e Camerom vieram correndo me abraçar. se despediu de mim de forma cordial para que não levantássemos suspeitas e eu pude dar a devida atenção aos meus amigos.
— Como está o seu pai? — perguntou, olhando-me com preocupação.
— Ele está bem melhor, mas os médicos ainda não sabem o que ele tem.
Antes de ir embora, eu e passamos no hospital para ver como meu pai estava. Ele parecia mais corado e falante, o que definitivamente era um bom sinal. , Lucy e minha tia me prometeram que iriam me manter informada, e com essa garantia eu consegui voltar para a Wings me sentindo um pouco mais tranquila.
— Ele vai ficar bem, . — disse Camerom, afagando o meu ombro com carinho ao ver meu semblante preocupado.
Eu dei um sorriso agradecido para meus amigos e juntos, caminhamos para dentro do prédio da Wings. Eu e havíamos desembarcado no horário de almoço e descanso dos alunos, o que significava que eu ainda tinha uma aula pela frente e ensaio com e .
— Você já almoçou? — Miles perguntou, preocupado.
— Eu e comemos no aeroporto. Estou meio sem fome.
— O está vindo para cá! — praticamente gritou enquanto ajeitava suas roupas e cabelo. Ela olhava para de forma furtiva e sedutora.
, se controle! — ralhei, segurando o braço dela.
— Eu não consigo! — ela disse, praticamente despindo com os olhos enquanto ele passava. Acho que percebeu, mas não se sentiu envergonhado ou intimidado pelo flerte descarado de minha amiga. Ele só a olhou de um jeito meio vazio. Era como se ele estivesse se controlando para não demonstrar nada. — O é lindo demais e eu estou apaixonada por ele.
ficou olhando para o enquanto ele se distanciava com a boca meio aberta. Seus olhos brilhavam.
— Eu vou atrás dele! — anunciou, já andando na direção para onde havia ido.
, não faça isso! ! — Camerom gritou, indo atrás dela no instante seguinte.
— DEIXA A MENINA SER FELIZ, CAMEROM! — Miles berrou, fazendo com que todos que passavam pelo corredor o fitassem de forma estranha. Ele apenas deu de ombros, sorrindo, mas ao ver que Emily, a menina que estava balançando seu coração o olhava de um jeito risonho, ele se encolheu.
— Por que você não fala com ela? — perguntei, apontando com a cabeça para a menina, que agora mexia em seu celular.
— E o que eu vou dizer? Ela acha que eu sou gay! — exclamou, olhando para a menina com um certo tipo de nervosismo.
— Você quer conquista-la?
— Eu... Eu não sei! — estrilou, puxando os cabelos para cima e me olhando de um jeito espantado. — Isso me faz ser bi e eu estou confuso com toda essa situação.
— Do que você tem medo, Miles? — Coloquei a minha mão em seu ombro e olhei dentro dos olhos dele. Meu amigo estava com medo, desesperado e confuso, e eu queria muito ajuda-lo. Eu tenho a plena consciência de que eu tenho uma mala para guardar e um collant para vestir, mas o meu melhor amigo precisava de mim.
Miles abaixou a cabeça, e quando voltou a me olhar, ele disse:
— De nunca saber qual é a minha verdadeira essência.
— Você só vai saber se tentar. Se o seu coração quer a Emily, não custa nada arriscar, não é mesmo?
— Vou precisar de roupas novas para isso. — ele disse, olhando para a sua blusa regata rosa que dizia: “Eu amo lantejoulas e ursinhos carinhosos”.
Nós dois demos uma risada espalhafatosa.
— É, nisso eu tenho que concordar com você.
Miles pegou a minha mala, dizendo que ia me ajudar a leva-la até meu alojamento. Eu o agradeci, e comecei a zoar a calça de oncinha que ele estava usando. Nós dois demos mais umas boas gargalhadas até chegarmos ao meu dormitório.

[...]

A aula de jazz estava quase no fim, e eu ainda tentava me preparar psicologicamente para o ensaio com e . Eu estava realmente preocupada com essa avaliação, já que nós três juntas ainda não tínhamos conseguido entrar em um consenso na hora da divisão das vozes e da coreografia.
A única coisa que me deixava sã, era ver o me olhando de canto de olho enquanto eu e os outros alunos dançavam a sequência difícil e elaborada que ele tinha feito especialmente para aquela aula.
Eu dei um sorriso discreto para , que se levantou para desligar o rádio. Ele abaixou a cabeça e deu uma risada, o que me deixou um pouco envergonhada.
— Por hoje é só, pessoal. Não se esqueçam de ensaiar para a avaliação. Até amanhã!
Eu e os outros alunos aplaudimos , que não esboçou nenhuma reação. Ele tinha voltado a ser o mesmo cara fechado de sempre, mas agora pelo menos eu sabia o porquê dele agir assim.
Comecei a recolher as minhas coisas de forma mais lenta do que o normal, afinal, eu queria ter uns minutos a sós com o meu... Namorado.
— Vamos para o pátio juntos hoje? — Camerom perguntou, parando ao meu lado e sorrindo animadamente.
— Hoje não dá. Eu preciso falar com o... Professor antes de ir ensaiar com e . Esqueceu que agora teremos que ficar o dobro do tempo juntas depois das aulas?
— Você chama o de professor ? — indagou, franzindo as sobrancelhas. — De qualquer forma, eu me esqueci que também preciso ensaiar. Os caras do meu dormitório são um saco. Talvez a gente possa se encontrar mais tarde...
Camerom parecia meio desconfiado e ansioso por minha companhia, o que me fez lembrar do que tinha me dito sobre Camerom gostar de mim. Haviam momentos em que isso parecia ser uma ideia totalmente ridícula, e existiam momentos como esse em que eu começava a achar que essa ideia não era tão absurda assim.
— Acho que não vai dar mesmo... Enquanto esse “castigo” não acabar, eu e não vamos poder nos reunir com vocês. — eu disse, me sentindo inquieta em meu lugar. Camerom me olhou de um jeito ainda mais desconfiado.
— Você parece meio nervosa... Aconteceu alguma coisa em New Haven? — Cam perguntou, olhando para e para mim. Ele franziu o cenho, e eu pude sentir que a sua desconfiança aumentou quando eu comecei a suar frio de nervoso.
— Não, mas é claro que não! É só impressão sua. — dei uma risada nervosa, passando a mão pela nuca para tentar disfarçar meu nervosismo. Camerom assentiu com a cabeça, mas não pareceu totalmente convencido. Para uma garota que quer ir para a Broadway, eu tenho que começar a usar mais o meu talento para atuação na vida real também.
— Entendi. Eu vou nessa, depois nos falamos.
Camerom me deu um abraço rápido e saiu da sala junto com os poucos alunos que ainda estavam ali. Olhei para , que conversava com um grupo de alunos e decidi que era melhor sair logo da sala antes que as coisas piorassem, afinal, eu já estou atrasada para o ensaio com e .
Corri em direção ao estúdio que tinha reservado para usarmos e encontrei o Dragão Deborah caminhando na direção contrária da que eu estava seguindo. Respirei fundo e apressei ainda mais o passo, mas ela não perdia a oportunidade de me provocar, e eu sabia que agora não seria diferente.
eu estava louca para falar com você. — Deborah disse, sorrindo e falando daquele jeito falso que eu e todo o mundo já conhecia.
— Eu estou atrasada, professora.
Tentei continuar meu caminho, mas Deborah foi mais rápida, e pegou em meu braço.
— Fiquei sabendo do que aconteceu com o seu pai. Ele está bem? — ela perguntou, sem se preocupar em demonstrar que não estava nem ligando para o meu pai.
— Ele está bem melhor, muito obrigada pela preocupação. — dei um sorriso forçado e tentei mais uma vez continuar meu caminho, mas ela apertou meu braço com um pouco mais de força. Minhas mãos começaram a tremer, e eu tive que me controlar para não empurrá-la.
— Em breve você vai ter uma grande surpresa! — ela disse, aproximando a boca do meu ouvido para sussurrar. Fiquei me sentindo nauseada ao sentir seu perfume tão perto, e mais uma vez, me controlei. — Tenho certeza de que deixará a sua estadia aqui na Wings mais... Animada.
— Seja lá o que for, eu não quero. Se me der licença, eu realmente preciso ir.
Me soltei do aperto que sua mão exercia em meu braço e praticamente corri pelo corredor. Eu ainda me sentia nervosa e com raiva de suas insinuações. Seja lá o que Deborah esteja tramando, sei que não é boa coisa.
Quando entrei no estúdio, e já discutiam. Juro que por um momento eu senti vontade de dar meia volta e ir para meu dormitório. Meus últimos dias haviam sido cheios demais, e eu ainda não tinha conseguido descansar o suficiente. Era muita pressão na minha cabeça, e eu precisava de um pouco de paz. Mas, eu tenho certeza de que paz é a última coisa que eu terei aqui na Wings.
Coloquei minha bolsa no canto do estúdio e me aproximei das duas, que vociferavam xingamentos uma para a outra.
— Eu já disse que faremos do meu jeito! — esbravejou a loira, com o rosto vermelho de raiva. — É a única forma de ganhar!
— Nós temos que fazer do NOSSO jeito, . Do NOSSO! Aprenda a trabalhar em equipe pelo menos uma vez na sua vida! Eu sei que a água oxigenada do seu cabelo matou quase todos os seus neurônios, mas pelo menos TENTE! — respondeu, a ira transbordando de seus olhos cristalinos.
levantou a mão para acertar um tapa no rosto de minha amiga, mas eu segurei sua mão a tempo.
— PAREM COM ISSO! — eu gritei. No instante seguinte, vi avançar em minha direção. Ela me jogou no chão e começou a me estapear.
— Sai de cima de mim! — vociferei, tentando segurar suas mãos. — Sai de cima de mim, sua louca!
— Você acha mesmo que eu me esqueci do tapa que você me deu? Acha? — ela perguntou, transtornada. Agarrei seus cabelos e puxei sua cabeça para baixo, o que fez com que a gritasse descontroladamente. A loira começou a puxar os meus cabelos também, o que me fez soltar um grito de dor.
— Larga a minha amiga, sua idiota! — empurrou para o lado e começou a estapear seu rosto.
— PAREM!
As duas se soltaram, assustadas com o meu grito. Ficamos em silêncio por um tempo que me pareceu mais longo do que o normal, até que olhou para seu reflexo no espelho e começou a rir.
Então, eu e também nos olhamos no espelho e começamos a rir de nossas aparências destruídas. Nós três estávamos com o rosto vermelho e suado, e nossos cabelos pareciam ninhos de passarinhos de tão desgrenhados que eles estavam. Eu nunca me senti tão descabelada na vida.
Quando o acesso de riso passou, nós nos entreolhamos, ainda meio risonhas pelas cenas estranhas que tínhamos acabado de participar.
— Meninas, nós temos que começar a nos entender. Sei que todas nós temos ideias legais, e eu acho que se juntarmos tudo dá para fazer algo bacana. — falei, olhando para as duas de forma séria. Elas pareceram concordar.
... Você pode ficar com a parte da Jade, se quiser. — disse, fazendo com que eu e ficássemos surpresas.
— Obrigada, .
Me levantei do chão, me sentindo animada de repente.
— E então... Vamos começar?

[...]

Por incrível que pareça, o ensaio hoje tinha sido bastante produtivo. Eu, e concordamos com a maioria das ideias umas das outras, e conseguimos montar uma parte do nosso número e ensaiar a divisão das vozes.
Eu iria cantar as partes da Perrie, e decidiu cantar as partes da Jesy. Iríamos nos revezar para cantar as partes da Leigh-Anne.
Estávamos arrumando as nossas coisas quando , , e entraram no estúdio. Eles sorriram ao ver que estávamos nos dando bem e ficou mais agitada ainda ao ver que estava ali.
— Fico feliz ao ver que estão se entendendo. — disse, dando um meio sorriso.
Os outros ficaram rindo do jeito contido de .
— Vocês são espertas, meninas. — disse, olhando fixamente para . A minha amiga permaneceu imóvel em seu lugar. — Se metade das garotas fossem como vocês, o mundo seria menos turbulento.
e deram altas risadas, empurrando para a frente.
— Agora, se nos derem licença, precisamos ir. — disse , sorrindo. Ouvi suspirar ao meu lado.
— Little Rebel, posso falar com você?
Fiz que sim com a cabeça e me dirigi as meninas antes de seguir para fora do estúdio.
— Meninas, me esperem aqui para acertarmos os últimos detalhes da parte que montamos, tudo bem?
As meninas assentiram com a cabeça enquanto eu saía da sala acompanhada de . Me escorei no batente de uma das salas mais afastadas quando percebi que a mesma estava vazia. parou em minha frente, e parecia meio nervoso.
— Eu e os caras vamos para aquela danceteria que eu te levei. está meio confuso em relação à , e quer descarregar um pouco as frustrações bebendo e dançando um pouco. Você não se importa, não é?
Eu deveria me importar? Eu não sabia o que responder. Eu me importava? Sim, claro que sim! Afinal, iria sair para uma danceteria cheia de mulheres bonitas. E ele, bonito e mulherengo — eu também leio tabloides de fofoca — nunca perdeu a chance de ficar com mulheres bonitas.
— Acho que não... Quero dizer, nós confessamos os nossos sentimentos, mas isso não quer dizer que sejamos namorados. — eu disse, me sentindo desconfortável por ter tocado naquele assunto. ficou meio sem jeito também, quase como se estivesse decepcionado.
— Nós não somos namorados?
— Eu não sei... Eu quero ser a sua namorada, mas eu não sei se você quer.
— Mas é claro que eu quero, ! — ele disse, fazendo menção de segurar em minha mão, e desistindo no instante seguinte. — E eu vou apenas para dançar e apoiar meu amigo, não para ficar de olho em outras mulheres. Você confia em mim, não confia?
Ao olhar para o rosto do , eu tive a certeza de que ele nunca faria nada para me magoar. Afinal de contas, ele me ama, e só queria dar um pouco de apoio ao amigo que não estava disposto a ficar na mesma situação que estava. Eu entendia, e iria apoiá-lo.
— Eu confio.
— Por favor, não conte a o que eu te disse sobre o .
— Pode deixar.
Eu e ficamos nos encarando com desejo. Eu sabia que ele queria me beijar tanto quanto eu, mas só de saber que não podíamos fazer isso, já me deixava triste.
— Eu queria muito te beijar agora. — disse , me olhando daquele jeito intenso que eu já conhecia. Sua afirmação fez minhas pernas tremerem. — Você não sabe o quanto é difícil para mim ficar perto de você sem poder te tocar.
— É difícil para mim também.
— Eu vou te mandar uma mensagem durante a semana. Vamos tentar fazer com que isso dê certo. Quero te levar para sair quando o liberar de novo os passeios.
Abri um sorriso radiante com o que havia me dito. Eu queria muito que esse dia chegasse logo, pois nunca tínhamos ficado tão à vontade quanto estivemos em minha casa, em New Haven.
— Esperarei ansiosamente por isso.
deu um sorriso esperto para mim antes de me deixar ali no corredor. Voltei para o estúdio, onde e conversavam civilizadamente.
— Amiga, prepare seu vestido que hoje nós vamos sair! — disse , animada. Fiquei olhando para ela com uma expressão confusa. — Lembra quando eu segui o hoje mais cedo? Então, eu ouvi uma conversa dele ao telefone e sei que ele estará hoje numa danceteria. Eles sairão daqui a pouco e nós precisamos segui-los! A sabe onde fica o estabelecimento.
O relato de fez com que eu ficasse ainda mais confusa. Desde quando a era confiável para falar de ou de seu plano de seguir os professores até uma danceteria? Ela pode muito bem dedurar a gente.
— Se vocês forem mesmo, eu vou querer ir junto. — disse, olhando de forma entediada para as suas unhas. — Estou precisando sair, não aguento mais ficar presa nesse lugar.
— Nós não podemos sair assim! Se formos pegas, seremos expulsas na hora.
— Nós seremos cautelosas, ... — disse , de forma despreocupada.
Olhei fixamente para a ruiva, mas ela não captou meu olhar.
, posso falar com você aqui fora um instante?
— Claro!
se levantou e me seguiu até o corredor dos estúdios de dança.
— Desde quando você confia na ? — sussurrei, cruzando os braços.
— E eu não confio. Acabei falando sem querer a parte do e a danceteria para ela enquanto você se agarrava com o .
— Nós não estávamos nos agarrando. — falei em minha defesa, vendo que minha amiga me olhava de forma maliciosa.
— Ela irá com a gente. Você acha mesmo que a vai nos prejudicar estando junto conosco? Eu duvido! E eu vou ficar de olho nela o tempo todo.
— O estará lá! Ele veio me perguntar se eu confio nele. O que acha que vai acontecer se ele me vir nessa danceteria? — indaguei, sentindo que aquele plano iria dar errado. Mas não sentia aquilo, e estava pronta para rebater meus argumentos.
— Esse é mais um motivo para você ir! Ou você não quer ficar perto dele? Amiga, pelo que eu te conheço deu para sacar que você é uma garota que faz tudo certinho. Se divirta um pouco, faça pelo menos uma coisa diferente na sua vida! Você é jovem, e está descobrindo agora o amor. Que tal descobrir o que alguns copos de tequila podem fazer com você? Brincadeira! — ela levantou as mãos no ar quando viu meu olhar horrorizado. Nós demos uma risada. — Faça isso por mim também. Eu tenho quase certeza de que o sente algo por mim, e essa é a chance que eu preciso para ouvi-lo confessar. Estaremos longe da Wings e de todas as pessoas. Eu preciso tentar.
O rosto do gatinho do Shrek de conseguiu me convencer. Os sentimentos que ela nutria pelo eram tão fortes que ela nem ligava mais para o fato de que ele era o seu professor. Seus olhos brilhavam quando ele passava perto dela, e isso era um fato que todo o mundo já sabia, inclusive ele.
Se ela soubesse que o motivo do ir para essa danceteria é somente para tentar tira-la da cabeça, acho que ficaria maluca.
— Tudo bem, eu topo embarcar nessa loucura. Mas, se alguma coisa der errado, nós iremos embora.
deu um gritinho agudo e me abraçou.
— Você é a melhor amiga que alguém poderia ter.

[...]

Eu, e paramos na frente da danceteria quase que ao mesmo tempo. Muitas pessoas entravam e saíam constantemente, e o barulho da música que tocava já parecia ensurdecedor estando do lado de fora.
Os rapazes já estavam ali dentro, e eu tinha decidido que só iria ajudar a falar com o , mas que não deixaria que o ou os outros me vissem afinal, eu não queria que ele pensasse que eu estou desconfiando dele.
Nós pagamos nossas entradas e adentramos o estabelecimento. A danceteria não tinha mudado nada desde a última vez que estive ali. As luzes coloridas ainda dançavam ao redor dos casais que se acabavam na pista de dança, e os mesmos movimentos sensuais podiam ser vistos. e abriram um largo sorriso ao ver a forma como as pessoas se movimentavam.
Apesar de estar de vestido, eu comecei a sentir calor ali dentro. Eram muitas pessoas juntas dentro de um lugar só, e apesar de ter ar condicionado, o mesmo não parecia estar funcionando muito bem.
Arregalei os olhos ao ver e os outros sentados em um enorme sofá vermelho. Os 4 tinham bebidas nas mãos, e pareciam rir de alguma piada que tinha dito.
Cutuquei e apontei o local onde os caras estavam.
— Eles estão aqui mesmo! — ela gritou, sorrindo de forma radiante.
— Vai até lá! — Eu a incentivei, afinal, era só por isso que estávamos ali. Quanto menos tempo nós perdêssemos ali, mais rápida e segura seria a nossa volta para a Wings.
O sorriso de foi se desmanchando e ela nos encarou com um pouco de pânico.
— Eu... Eu não consigo! — ela disse, andando em direção à saída. segurou seu braço, impedindo-a de continuar. — Eu não posso fazer isso!
— Mas é claro que você consegue! Nós chegamos até aqui. Vai mesmo desistir agora que está tão perto? — indaguei, segurando firme em seus ombros.
— Você precisa de uma dose de coragem! — disse , nos chamando com a mão. — Me acompanhem.
Nós a seguimos até o bar da danceteria que ficava longe de onde e os outros se encontravam.
— Três doses de tequila, por favor. — se debruçou no balcão e deu uma piscadela para o barman.
— O que você está fazendo? — perguntei, arregalando os olhos ao ver o barman depositar três copinhos da bebida no balcão.
— Dando coragem a nossa amiga aqui.
pegou dois dos três copos, colocando um na minha frente e outro na frente de , pegando o que sobrou para si.
— Tem certeza de que quer fazer isso? — perguntei a assim que ela segurou o copo de tequila com uma das mãos.
— Essa não é a primeira vez que eu bebo. E se for para me dar coragem, eu vou beber todos os shots de tequila que forem necessários.
virou o copo dela e virou o seu. As duas fizeram careta para engolir o conteúdo, e eu fiquei olhando para o meu copo cheio repleta de dúvidas.
estava certa quando disse que sou certinha. Até mesmo vivia falando isso para mim. Claro que uma parte de mim desejava ser uma garota mais aventureira, que faz grandes loucuras, mas a outra parte que me dominava, a mais medrosa, me freava sempre que eu tinha esses tipos de pensamentos.
Talvez estivesse na hora de mudar isso.
Peguei o copo que estava no balcão sob os olhares atentos de e , virando o líquido na minha boca de uma só vez e sentindo uma ardência horrível quando a tequila passou pela minha garganta.
As meninas riram e comemoraram quando eu bebi, e assim, acabou pedindo outras doses para nós.
Eu olhei para , que ria de forma espalhafatosa do barman que nos servia. Era nítido que nós estávamos perto de perder o pouco juízo que nos restava, mas eu não me importava. Minha cabeça começou a girar, e eu tive que colocar as duas mãos em cima do balcão do bar para poder recuperar o equilíbrio.
Por um momento, eu fiquei lúcida de novo. Pude ver a minha mãe me olhando de forma desaprovadora na minha mente, e a culpa começou a fazer um buraco no meu peito.
Fugir da Wings no meio da semana para ir à uma danceteria com e é ainda mais estranho do que eu consigo admitir. Eu sabia que se fôssemos pegas iríamos ser severamente punidas, mas era como se eu estivesse totalmente anestesiada e despreocupada, de forma que aquilo não me afetou da forma que deveria.
Afastei a imagem da minha mãe da cabeça e peguei o copo da mão de , que sorriu de uma forma vitoriosa. Eu virei o shot de uma só vez, sentindo a minha garganta queimar e minha cabeça girar de novo. Sacudi a cabeça e levantei os braços para o ar, gritando um sonoro "Uhul", e e se apoiaram em mim, rindo e gritando junto comigo, tão desajeitadas quanto eu.
Esbocei um sorriso para o barman e pedi mais um shot de tequila.
A diversão estava prestes a começar.
Depois de várias doses de tequila, se sentiu encorajada o suficiente para ir falar com o . Ficamos esperando que ela voltasse perto do balcão da danceteria, e apesar de estar vendo tudo dobrado devido às várias doses que eu tinha bebido, ainda pude perceber que parecia mais sóbria do que eu e , mesmo tendo bebido a mesma quantidade que a gente.
Porém, antes que eu pudesse pensar mais nesse fato, avistei caminhando de forma desajeitada em nossa direção. Mas ela não estava sozinha. Ela trazia , , e . Esse último me olhava de um jeito que eu não pude descrever. Apesar de toda a tontura, ainda pude reparar que ele parecia completamente furioso.
Os 4 pararam em nossa frente, e cambaleou para o lado, rindo como uma hiena. me pegou pelo braço com firmeza, mas sem me machucar e me levou para um canto afastado da danceteria.
— O que deu em vocês? Perderam o juízo? — ele perguntou, parecendo extremamente nervoso. Tentei organizar a minha mente antes de responder, porque eu sabia que não estava sóbria o suficiente para ter um diálogo com uma versão tão transtornada do .
— A queria se declarar para o e disse que só conseguiria fazer isso fora da escola.
— E você a acompanhou nessa loucura por quê? Achei que você confiasse em mim!
— Mas eu confio! — gritei, tentando pegar o rosto de , mas ele se afastou do meu toque. — Eu só vim porque a me implorou. Não tem nada a ver com você.
— Vou te levar de volta pra Wings.
Puxei o braço de antes que ele dessa mais um passo e grudei meu corpo ao dele. A música envolvente que tocava e a bebida em meu sangue fizeram com que o pouco juízo que restava em mim desaparecesse.
A princípio, tentou se afastar, mas eu continuei pressionando meu corpo ao seu em movimentos intensos e torturantes que fizeram com que ele respirasse fundo.
... O que você está fazendo?
Enlacei seu pescoço com meus braços e continuei esfregando meu corpo no dele, imitando alguns casais que estavam ali por perto. Me virei de costas e senti as mãos de passearem por minha cintura e traçarem um rastro de desejo por minha pele.
Senti a boca de beijar meu pescoço exposto. Fechei os olhos e segurei suas mãos, passando-as por várias partes do meu corpo. arfou, subindo os beijos para a minha orelha, onde mordiscou e lambeu. Meu coração acelerou e eu comecei a me sentir quente quando ele começou a se esfregar com mais força em mim.
me virou e me puxou para si em um beijo que eu nunca tinha experimentado antes. Era um beijo cheio de desejo, que fez com que as minhas pernas ficassem bambas e com que um formigamento estranho e bom se alastrasse por dentro de mim, arrepiando cada pedacinho da minha pele.
Nossas bocas estavam famintas, e buscavam desesperadamente matar a vontade que tinha se espalhado por nossos corpos. Eu não sabia bem de onde tinha vindo tanta coragem para fazer o que eu estava fazendo naquele momento, mas sabia que não era somente culpa do álcool. Teríamos ficado nos beijando ali para sempre, se não tivesse nos interrompido com um sorrisinho irritante nos lábios. Droga, agora ele sabe sobre nós. Ou será que ele já sabia?
— Está na hora de levar as meninas encrenca de volta para a Wings. — disse para um meio desnorteado.
Caminhamos em silêncio até o carro de , onde e já se encontravam. Tive que me apoiar em para conseguir chegar até o carro e quando entrei, percebi que a minha amiga chorava.

[...]

O caminho até a Wings foi silencioso dentro do carro. Eu ainda estava um pouco alta, e além de bêbada, parecia desnorteada. A única que parecia estar com a aparência melhor era .
se despediu de mim dizendo que conversaríamos amanhã, e deu um beijo na testa de , o que eu achei bem fofo. encarou estranho por todo o trajeto, o que eu não entendi muito bem, e era o único que parecia estar tranquilo com toda a situação.
Assim que entramos no quarto, correu para o banheiro para vomitar. Eu fui atrás dela com cuidado por causa da tontura, e segurei seus cabelos.
— O que aconteceu lá com o ?
— O disse que mesmo que ele sinta algo por mim, que nós não podemos ficar juntos. Eu sou uma idiota! Uma idiota bêbada! — ela exclamou assim que parou de vomitar. Fiquei me sentindo mal por , pois minha amiga parecia gostar muito dele.
— Você não é a única bêbada da história.
Nós duas rimos e encontramos parada na porta, nos olhando de forma risonha também. Parecia ser o início de uma estranha e maluca amizade.

[...]

Minha cabeça latejava, e eu não conseguia abrir os olhos. Eu ainda me sentia cansada, e com dificuldades de me lembrar da noite passada. Tentei me virar na cama, mas só o pensamento já fez com que a minha cabeça doesse mais.
— Deixe elas aí e vá logo! — disse Deborah do outro lado da porta. Abri os olhos assustada, mas o sono falou mais alto e eu acabei fechando-os de novo outra vez.

— Eu não posso fazer isso! — exclamou, parecendo aflita.
— Vamos logo, Deborah. O está nos esperando. — disse uma terceira voz, meio impaciente.
— Você vai se arrepender disso, ! Você não cumpriu o nosso acordo. Depois disso, eu não ouvi mais nada.

, acorda! ! — Senti que alguém me sacudia e acordei assustada. A minha cabeça doía e meu corpo estava esquisito. Parecia que tinham dançado rumba em cima de mim.
— Estamos atrasadas! —disse , sacudindo enquanto terminava de se vestir. — O convocou uma reunião com todos os alunos e professores no salão principal.
Comecei a me lembrar da noite passada e a vergonha de tudo o que eu fiz me deixou completamente tentada a voltar para a cama.
acordou assustada também, e pela expressão em seu rosto, a sua cabeça doía tanto quanto a minha.
Lembrei de ter ouvido falando com alguém no corredor, mas tudo parecia borrado na minha mente, o que julguei ser um sonho muito esquisito que eu tive antes de acordar.
Nos levantamos da cama rapidamente e tentamos nos vestir o mais rápido que conseguimos, levando em consideração o fato que nós estávamos completamente ruins por conta das doses de tequila de ontem.
Passaram-se bons 15 minutos até que nós três estivéssemos prontas.
— Droga, nós estamos atrasadas! — exclamou, abrindo a porta do alojamento.
Corremos o mais rápido que pudemos até o salão principal. Quando entramos, pudemos perceber que todos já estavam lá, inclusive , que tinha parado de falar para nos fuzilar com os olhos.
O olhar de todos os presentes estava em cima de nós, e eu me senti uma estupida por ter concordado em sair e beber ontem à noite. Se eu tivesse insistido para a que aquela era uma má ideia, talvez não estivéssemos aqui agora, sendo o centro das atenções.
Ao vermos o olhar de em cima de nós, eu, e engolimos em seco.
— E então? Qual das moças bonitas vai me explicar o que fizeram vocês se atrasarem?
Nós três nos entreolhamos, nervosas e aflitas. Olhei para todas aquelas pessoas e encontrei o rosto de , Cam e Miles. Esses dois últimos não estavam entendendo nada.
Com o coração acelerado de pavor, eu me joguei no chão, e esperei que o caos se instalasse ao meu redor no momento em que fingi que tinha desmaiado.


Capítulo 25 - Amigos ou Inimigos?

Depois que eu me joguei no chão, o caos se fez presente. e correram para me amparar, e todos começaram a falar ao mesmo tempo. Abri minimamente um dos meus olhos e pisquei para as duas, que entenderam que era tudo fingimento.
— Nós nos atrasamos porque a nossa amiga estava passando mal. — disse de supetão. Senti que alguém me pegou no colo e me carregou para fora da sala.
— Então porque não a levaram para a enfermaria? — perguntou , comigo nos braços e em seu encalço. Ele parecia desconfiado só pelo seu tom de voz.
— A não queria ir para a enfermaria. — justificou-se por mim, já que eu estava “incapacitada” de me defender — Ela disse que já se sentia bem para ir para a aula.
Senti que alguém me colocava com delicadeza numa maca cujo o colchão era macio e o lençol, bem gelado.
— Essa história está muito mal contada... — ponderou , transparecendo irritação — Eu vou voltar para a sala, . Depois conte às mocinhas o que eu vou comunicar ao restante dos alunos.
Assim que eu percebi que realmente havia se retirado da sala, eu abri os olhos.
— Onde está a enfermeira? — perguntou , tentando sustentar a mentira.
— Eu não preciso de uma enfermeira. — respondi, dando um sorriso esperto. Porém, quando olhei na direção de , percebi que ele me fuzilava com o olhar.
— Eu não quero saber o que aconteceu, mas imagino que tenha algo a ver com a bebedeira de ontem à noite. — disse ele, balançando a cabeça. Eu e abaixamos a cabeça, envergonhadas — Eu tenho uma notícia boa e duas ruins. Quais vocês querem ouvir primeiro?
— Quero ouvir as ruins primeiro, se vocês duas não se importam. — disse, com um certo tipo de nervosismo no olhar. Eu e demos de ombro, mas eu já me sentia apreensiva antes mesmo de saber o que o iria nos contar.
— A primeira notícia ruim é que a avaliação terá que ser antecipada para daqui há 3 dias.
— O QUÊ?!? — eu, e gritamos em uníssono.
Eu e as meninas tínhamos começado a montar o nosso número não tinha nem um dia direito. Nem em um milhão de anos nós iríamos conseguir terminar de ensaiar a harmonia das vozes e terminar a coreografia antes do prazo estipulado.
— O quer diminuir o número de concorrentes. Segundo ele, existem muitos de vocês aqui ainda. Vai fazer 2 meses que o concurso começou, e ele está incomodado com a quantidade de alunos que ainda circulam pelo campus. — abriu um sorriso repleto de sarcasmo para nós. Ele está se divertindo com o nosso desespero, disso eu tenho certeza. — O lado bom é que em épocas de avaliação a carga horária de vocês em relação às aulas irá diminuir. Ou seja, a partir de hoje vocês só terão aula pela manhã até que o dia da avaliação chegue.
— Estamos ferradas. — eu disse, sentindo a minha pressão baixar.
— E a outra notícia ruim? — indagou , tão nervosa quanto eu.
— Parece que o quer acelerar o ritmo das avaliações também, mas isso ainda não é certo. A notícia boa é que depois dessa avaliação vocês terão dois dias livres para passear pela cidade. — disse , e eu pude sentir uma pontinha de animação que fez o meu coração acelerar. Se tudo der certo, nós dois poderemos passar um tempo juntos sem ser dentro da Wings.
— Nós podemos voltar para a aula? — perguntei, me sentindo inquieta de repente. olhou fixamente para o meu rosto com uma expressão risonha. A enfermeira apareceu, e ficou me observando de modo atento.
— Você está incapacitada de dançar hoje, . Fique ai de repouso e depois encontre suas amigas para ensaiar. — disse meu professor piscando para mim. e o seguiram para fora da sala, me deixando sozinha com a enfermeira.
Já era hora do almoço quando a enfermeira finalmente me liberou. Ela me deu uns analgésicos para dor de cabeça, e eu fiz uma nota mental de nunca mais beber daquele jeito. Entrei no refeitório e avistei Miles, Cam e almoçando. Peguei uma bandeja, me servi e caminhei até os meus amigos, mas parei no meio do caminho quando vi que almoçava sozinha. Suas aparentemente ex’s amigas, estavam na mesa ao lado, e pareciam caçoar dela junto com Brendan Rogers, o bailarino que fez a entrevista coletiva junto comigo e .
Parei em frente à sua mesa e pigarreei.
A loira me olhou de um jeito meio triste.
— Quer se sentar conosco? — perguntei de forma amistosa. assentiu com a cabeça e me deu um sorriso mínimo e desanimado antes de se levantar e pegar a sua bandeja de comida.
Fomos juntas até a mesa dos meus amigos, que me olhavam como se eu tivesse me vestido de banana Split e iniciado uma dancinha ridícula no meio do corredor.
cumprimentou meus amigos e se sentou ao meu lado e de frente para Miles, que sibilou um “Você ficou maluca?” com a boca cheia de espinafre.
Eu apenas balancei a cabeça e comecei a comer, já que eu estava faminta.
— O que aconteceu com você hoje de manhã? — Cam perguntou, direcionando a mim o seu melhor olhar de 007. Aquilo gelou a minha espinha.
— É, a contou que você estava passando mal. Ficamos muito preocupados. — completou Miles, esquecendo-se momentaneamente de que estava comendo junto conosco sem atacar ou humilhar ninguém.
— Eu tive uma queda de pressão pela manhã. Essa rotina da Wings tem me deixado maluca. — respondi, dando um gole na minha Coca cola para disfarçar a expressão fajuta no meu rosto. Ainda senti o olhar de Camerom em cima de mim por um tempo, o que fez com que o encarasse de um jeito desconfiado.
— Eu reservei um dos estúdios para nós ensaiarmos hoje. — disse , olhando para mim e para .
— Até que enfim você fez alguma coisa que preste. — disse Camerom, desafiando com o olhar. Eu, Miles e ficamos observando a cena de modo estupefato. Nunca tínhamos visto o Camerom tão revoltado antes, e era estranho vê-lo provocando daquela forma.
— Você não sabe nada sobre mim, Camerom. Não me provoque.
— Sei o suficiente para saber que você não seria capaz de fazer nada contra mim. Ou seria? Pelo que eu saiba, você e a professora Deborah são muito íntimas. — Camerom se inclinou para a frente na mesa e olhava para a como se a desafiasse com o olhar. Havia um fulgor jamais visto antes nos olhos do meu amigo, e por um momento, eu não o reconheci.
— O que a professora Deborah tem a ver com o assunto? — ela indagou, já alterada pelas insinuações de Camerom.
— Ah, então você não sabe? Eu vejo você e a Deborah cochichando pelos cantos desde que eu misteriosamente fiquei trancado no banheiro masculino. Quase ninguém suporta aquela mulher, só você. Isso me deixou bastante intrigado... — ponderou Cam, colocando a mão no queixo e fingindo pensar. No canto dos lábios dele havia um sorrisinho irritante e sarcástico. — Você nunca se deu bem com a e com a , e está se aproveitando da bondade das duas para derrubá-las, não é? Confessa logo! — exclamou, aumentando o tom de voz e fazendo pular para trás com o susto. Miles também estava meio estarrecido com aquela explosão repentina, mas não soubemos o que fazer para que aquilo parasse.
— Você não sabe o que está falando! — ela gritou, se levantando — Me deixa em paz!
Eu, Miles e encaramos Camerom de um jeito perplexo. Seu rosto estava vermelho e seus olhos, raivosos.
— Camerom, o que foi isso? — perguntei, tentando alcançar seu braço, mas meu amigo se esquivou do meu toque.
— Com licença, eu perdi a fome.
E assim, Camerom se levantou, deixando sua bandeja de comida e toda a sua raiva pairando no meio de nós.

[...]

— Vamos, mais uma vez! — gritou , se posicionando no centro do estúdio de dança. Coloquei o playback da música para tocar de novo e cantamos juntas a primeira estrofe da música com os microfones sem fio que o e o haviam arrumado para nós.
O ensaio corria bem até então. Apesar da parecer um pouco aérea, nós conseguimos montar a coreografia quase toda e a harmonia das vozes estava funcionando bem. Por sorte, as nossas vozes combinavam de um jeito bem bacana.
Nossos collants estavam suados e o meu coque já se desfazia. Nós já estávamos ali ensaiando há mais de 3 horas, onde a primeira hora foi somente para organizar as vozes e terminar de montar a coreografia, mas eu estava confiante de que tudo iria dar certo.
Apesar de estar animada com o nosso número, confesso que o jeito que o Camerom me olhou e tratou a de certa forma me espantou. Eu nunca tinha visto meu amigo daquele jeito, e aquilo me preocupava. Eu não sei o que está se passando com ele, mas tenho o palpite de que não é nada bom.
Ensaiamos o nosso número até a parte que tínhamos criado, e nos sentamos no meio do estúdio para descansar e terminar de montar o nosso número. Nós só tínhamos mais dois dias até a avaliação, e eu queria pelo menos terminar de montar o nosso número antes de irmos jantar e dormir.
, o que foi aquilo hoje no almoço? — indagou, olhando fixamente para , que empalideceu com aquela pergunta. — Você e o Camerom tiveram algum problema antes de hoje?
— Não quero falar sobre isso. — respondeu a loira, mordendo o lábio inferior. —Temos que nos concentrar somente no nosso número agora.
— Antes de voltarmos a ensaiar, eu só quero que saiba que se você estiver tentando nos ferrar, você vai se dar muito, muito mal. — ameaçou, olhando para como uma felina pronta para dar o bote.
sustentou o olhar, mas percebi que ela havia se afetado com as palavras da minha amiga.
Decidi intervir antes que todo o progresso que fizemos fosse para o espaço.
— Meninas, temos pouco tempo. Vamos focar a nossa pouca energia no que realmente importa, ok?
As duas assentiram com a cabeça e nós voltamos a nos concentrar no ensaio.

[...]

No dia seguinte, enquanto íamos para a única aula do dia, esperei Camerom na porta da sala de aula para conversar, já que eu não o vi na hora do café da manhã. Ontem eu não consegui falar com ele, pois saímos muito tarde do estúdio de dança e tivemos pouco tempo para comer, tomar banho e dormir antes que o toque de recolher iniciasse.
O avistei no fim do corredor, com uma expressão fechada que não lhe era característica. Ainda era cedo, nenhum aluno se encontrava no estúdio e nem o havia chegado ainda. Era a oportunidade que eu precisava para tentar esclarecer as coisas.
— Oi, Camerom. Você está bem? — eu sorri, mas Camerom me olhou com indiferença.
— Hoje eu não estou afim de papo, .
— Mas o que aconteceu? Eu fiz alguma coisa? — perguntei, exasperada — É por causa da ?
Camerom deu uma risada repleta de escárnio.
— Se a fosse o único problema...
— O que aconteceu, Camerom? — perguntei, cruzando os braços acima do peito enquanto tentava assimilar tudo o que estava acontecendo.
— Nada, ! Me esquece! — esbravejou, entrando na sala de forma bruta. Fiquei olhando para ele de forma magoada e nem percebi que o tinha parado na minha frente e olhava para Cam de um jeito que me deu medo.
— O que está acontecendo aqui?
— Não é nada, pro-pro-fessor. Está tudo bem. — gaguejei, vendo arquear uma sobrancelha e olhar para mim de um jeito bem desconfiado.
Entramos no estúdio de dança juntos, e pude sentir o olhar de Camerom em cima de nós. Fiquei com tanto medo por não saber com que tipo de situação eu estou lidando que quase contei tudo para o por mensagem de texto.
O que estava acontecendo com o Camerom? Por que ele está agindo desse jeito?
A princípio, eu pensei que o problema era só a . Mas agora eu vejo que eu também estou inclusa nesse problema. Mas por qual motivo? Isso eu não sabia responder.

[...]

— Eu não sei porque o Camerom está agindo desse jeito. — disse , perplexa, após ouvir o relato do que houve hoje antes da aula. Eu e ela estávamos indo ao estúdio de dança ensaiar com , que disse que tinha uma surpresa para nós. Do jeito que as coisas estão, tenho até medo de saber do que se trata essa surpresa. — Ele não apareceu na hora do almoço, não falou com o Miles quando ele o cumprimentou e me ignorou completamente hoje de manhã. Estou preocupada.
— Confesso que eu também estou.
e eu entramos juntas no elevador a tempo de ver Miles correndo com seu grupo na nossa direção. Coloquei o braço na porta para que a mesma não se fechasse e ele entrou esbaforido na companhia de mais dois caras.
— Obrigado, Lenda Wings! — disse Miles, mandando um beijinho no ar para mim. Percebi que hoje ele estava usando roupas escuras, trocando as famosas regatas de oncinha e as camisetinhas rosa. Seu cabelo estava diferente também. Ao invés do costumeiro topete, seu cabelo estava despenteado e caindo todo para o lado.
— Você está um gato, Miles! Sério, eu te pegaria se eu ainda tivesse dúvidas em relação as suas preferências. — disse , olhando meu amigo de cima a baixo.
entrou no elevador no mesmo instante, demonstrando que tinha ouvido a frase de minha amiga. Acompanhado de e , os três tinham entrado dando uma risada e ficaram em silêncio no momento em que nos viram.
— Eu sei que eu sou um pedaço de mau caminho, linda. — Miles deu uma piscadela para minha amiga, que deu uma risada. Os caras do grupo de Miles também riram.
Apesar do climão instalado no elevador, eu posso dizer que está se saindo bem em sua tarefa de fingir que o não existe.
— Vocês estão indo ensaiar? — perguntou diretamente a , que arregalou os olhos ao perceber que era com ela que ele falava.
— Sim, já terminamos de montar a nossa apresentação. — ela disse, fingindo que estava indiferente ao e a todo o resto. Eu e Miles nos olhamos e prendemos a risada.
abriu um sorriso que não chegou aos seus olhos. e também prenderam o riso.
— Que ótimo.
As portas do elevador se abriram no nosso andar, e eu tive que pedir licença para os professores para poder sair. agarrou o meu braço com força e saiu sem olhar para trás. Miles e seus colegas nos acompanharam.
— Fiquem quietos. — disse para nós. Miles e eu começamos a rir.
— Esses amores adolescentes... — debochou ele, fazendo estapear o seu braço.
Nos despedimos de Miles e seus colegas e entramos em nossos respectivos estúdios. Meus olhos brilharam ao ver em pé, perto de uma arara gigantesca e repleta de roupas divinas.
— O que é isso? — indagou, apontando para todas as peças de roupa.
deu um sorriso animado e pediu para que nos aproximássemos.
— Vamos escolher o nosso figurino! — disse ela, pegando um vestido de saia rodada.
Eu e olhamos uma para a outra e soltamos gritinhos repletos de empolgação enquanto corríamos na direção dos figurinos que estavam nas araras.
Esse ensaio vai ser longo!

[...]

2 dias depois...
Dia da avaliação


O meu reflexo no espelho estava irreconhecível naquele instante, pois tinha feito um ótimo trabalho me maquiando e modelando os meus cabelos. Eu usava um vestido decotado da cor rosa bebê que ia até a metade das minhas coxas. Ele era brilhoso e bonito, e combinava com a minha sapatilha de ponta.
O vestido de era igual ao meu, exceto pela cor. O seu vestido era vermelho e o de era preto. A maquiagem e o cabelo delas também estava modelado com babyliss.
Por incrível que pareça, eu me senti a vontade na presença de . Eu e não sentíamos mais que ela era uma pessoa ruim, mas a ruiva ainda tinha medo de confiar plenamente nela.
Nós fomos para o auditório quando a hora chegou, e observamos os outros concorrentes com figurinos extravagantes e acessórios ainda mais chamativos. Vimos bailarinas fantasiadas de palhaça e bailarinos de salto alto, enquanto plumas e lantejoulas voavam em nossa direção.
torceu o nariz para alguns figurinos que viu.
Nos acomodamos nas primeiras fileiras do auditório, fazendo comentários engraçados para espantar o nervosismo. Os professores ainda não haviam chegado. Pude perceber que na bancada deles havia microfones e plaquinhas indicando os lugares de cada um.
Será que eles iriam comentar todas as apresentações? Meu coração acelerou só de pensar na hipótese de ter comentando a nossa performance.
A sala se encheu rapidamente. Vi Brendan entrar no auditório acompanhado dos integrantes do seu grupo nos encarando com deboche. O figurino deles estava ridículo, e deu uma risada espalhafatosa da cara dele.
— Que otário!
As “amigas” de também já estavam ali, dando risinhos nervosos entre si. Miles passou pela porta junto com seu grupo e fez sinal para que ele se aproximasse.
O figurino deles era bonito e masculino. Miles realmente estava querendo conquistar aquela garota. Ele se sentou perto de mim e seus amigos sentaram ao seu lado.
— Vocês viram o Camerom? — eu perguntei, procurando-o pela multidão.
— Esquece ele, ! Esse cara tá maluco. Quando ele parar de agir como um animal, ele virá conversar conosco. — disse Miles. Ele estava tão magoado quanto eu com toda essa atitude rebelde do Camerom.
— Falando no dito cujo... — disse , olhando na direção da entrada do auditório.
Camerom passou pela porta vestido para a apresentação. Ele e seu grupo se sentaram bem longe de nós. Nossos olhares se cruzaram, mas ele fez questão de demonstrar que não queria papo comigo me fuzilando com os olhos. Desviei o olhar, me sentindo magoada com toda aquela fúria repentina e me virei para frente. afagou o meu ombro com carinho, me deixando surpresa com aquela atitude.
— Os professores chegaram! — Miles cantarolou, apontando para a porta.
O primeiro a entrar foi o , lindo e simpático como sempre. Logo em seguida veio , , e o Dragão Deborah. Todos se dirigiram até seus respectivos lugares e o frio na barriga começou a me invadir.
subiu no palco com um microfone na mão.
— Boa noite a todos! Daremos início agora a mais uma avaliação. Lembrem-se que os professores estarão avaliando como vocês se portam no palco, se possuem energia e presença, além da afinação, desenvoltura e a coreografia que montaram. A avaliação dessa semana é única, mas a dificuldade é maior então, deem tudo de si hoje!
A galera gritou, contagiada com a estranha animação de .
As câmeras localizadas em cada canto do palco e os cinegrafistas presentes me deixaram ainda mais nervosa, mas eu tentei me conter, afinal, eu não podia deixar isso me atrapalhar.
O primeiro trio foi chamado para o palco para se apresentar. Eles tiveram um problema com os adereços de seu figurino, e um dos bailarinos escorregou enquanto andava pelo palco. Miles quase se engasgou de tanto rir.
Deborah e comentaram a apresentação deles. Ela foi um tanto cruel, mas a cortou antes que todos nós começássemos a vaia-la.
Quanto mais apresentações eu via, mais eu ficava nervosa com a possibilidade de que a Deborah fosse comentar a nossa apresentação de forma maldosa só para me humilhar. Os pensamentos que me atingiam eram tão fortes que eu nem percebi quando a minha vez finalmente foi anunciada.
— Acorda, ! — deu uma pequena sacudida em meu ombro, me fazendo despertar do meu transe. — Somos nós agora.
Eu, e caminhamos até o palco. O silêncio que nos envolveu me fez ter medo do que aconteceria no momento em que começássemos a nos apresentar.
Lembrei do que me disse quando comecei a estudar na Wings a respeito da minha dança. Eu precisava ser uma versão de mais decidida de mim mesma pelo menos naquele momento. A apresentação pedia isso. Eu pedia isso.
E é claro que eu iria acatar esse pedido.
Começamos a cantar a primeira estrofe da música de forma sincronizada. Eu estava no meio, do meu lado esquerdo e do direito. Dei um gritinho igual ao que a Perrie dava na música e as meninas foram cada uma para um canto do palco com animação.
Cantei a parte da Perrie e me movi pelo palco com precisão, segurança e (pasmem!) sensualidade.
Movi meu quadril de um lado para o outro e sorri o tempo todo.
veio para o meio do palco cantar a sua parte da música. Ela já era sensual por natureza. Seus cabelos, seu jeito de andar e falar já diziam muito sobre ela, e claro que não foi difícil colocar isso em prática ali no palco.
Nos juntamos para cantar o refrão da música e dançar a coreografia que montamos. A plateia quase toda batia palmas na nossa apresentação, e eu me senti feliz ali no palco.
Por um momento, o rosto da minha mãe me veio à mente. Ela sorria para mim, e tirava uma mecha de cabelo do seu rosto. Eu sabia que naquele momento ela estava orgulhosa de me ver ali em cima, e aquilo me deu coragem para manter o ritmo da apresentação. A também cantou a sua parte de forma impecável, e nós três nos divertimos no palco.
Nós dançamos, cantamos e rimos juntas. Fizemos poses, caras e bocas em determinadas partes da música, e vi pela minha visão periférica que todos os professores pareciam se divertir com a nossa apresentação. Todos menos Deborah, é claro. Mas quem se importa com um Dragão quando se tem a maioria dos professores sorrindo para você? Isso mesmo, ninguém!
Quando terminamos a nossa apresentação, toda a plateia se levantou para nos aplaudir. O primeiro a comentar a nossa apresentação foi o :
— Eu acho que nunca vi vocês três se divertindo tanto quanto hoje aqui nesse palco. Foi uma das melhores apresentações de hoje, disso eu não tenho dúvidas. Vocês tem presença de palco, simpatia, atitude e são entrosadas. Parabéns, vocês fazem um bom time!
— Obrigada, . — disse timidamente enquanto toda a plateia vibrava.
, você evoluiu muito da primeira avaliação para essa. Eu estou impressionado com o seu progresso! , você tem uma voz limpa e um gingado tão incrível quanto o de e , essa noite você conseguiu colocar em prática tudo o que temos te ensinado. Sua potência vocal é incrível e essa música só te favoreceu. Parabéns a todas! — disse , nos olhando com orgulho.
Nós saímos do palco com uma sensação de felicidade que era difícil de descrever em palavras. nos puxou para um abraço apertado que rapidamente foi retribuído, e nós comemoramos com vontade. No fim das contas, nós descobrimos que realmente fazemos um bom time, e aquilo fez toda a diferença naquele momento.

[...]

Os resultados da avaliação não tinham saído ainda, mas tinha liberado a saída dos alunos para passear pela cidade por dois dias. Eu, , Miles e iríamos no shopping mais tarde.
Enquanto eu conversava por SMS com a , — tem um lugar estratégico em cima do armário que pega um pouco de sinal. Duas barrinhas, para ser mais exata — recebi uma mensagem de no Whatsapp. Por um momento, meu coração disparou ao ver o nome dele na tela do meu celular. O sinal da internet era tão precário na Wings que eu tinha me esquecido que o Whatsapp existia. Visualizei a mensagem e cliquei sobre a foto de perfil dele. A fotografia era linda. Seus cabelos estavam despenteados na foto, mas a sua expressão era de um homem sério e carrancudo. Dei uma risada baixa e decidi que iria fazê-lo tirar uma foto mais amistosa que aquela.
:
Pode sair hoje?
:
Sim, mas tenho que voltar antes das 17h. Eu e meus amigos vamos ao shopping.
:
Te encontro daqui há 15 minutos na esquina da Wings. Estarei dentro de um carro prateado.
:
Tudo bem.
Vou me arrumar.
:
Mal posso esperar para te ver.
: Você é lindo. <3
Joguei o celular na cama com um sorriso bobo no rosto e comecei a andar nervosamente de um lado para o outro. , que estava jogada na cama lendo um livro, logo percebeu que havia algo errado.
— Vai se encontrar com ele? — ela indagou, me olhando maliciosamente.
— Sim, mas eu não consigo pensar no que tenho que fazer! Meu cérebro parece que foi fritado!
— Amiga, respira. — se levantou e colocou as mãos no meu ombro para tentar me acalmar.
Ela soltou o meu cabelo, que caiu pelas minhas costas de uma só vez e pegou uma muda de roupa no meu guarda roupa.
— Vista isso e estará linda!
A peça que havia me dado consistia em um short jeans escuro, botinhas e uma camiseta preta escrita “Peace and love”.
— Eu não estou parecendo muito adolescente com essa roupa? — perguntei assim que vesti o look que tinha atirado em minha direção. — O é bem mais velho que eu.
— Você é jovem! E ele nem é tão velho assim. — disse ela, revirando os olhos — Você está linda e estilosa.
— Tudo bem, eu já vou. — eu disse, colocando o celular no bolso e caminhando até a porta.
— Divirta-se por mim!
Eu andei de forma apressada pelos corredores da Wings, me sentindo verdadeiramente feliz por saber que eu iria estar com o cara que eu amo. Mandei uma mensagem para avisando que já estava chegando, e apressei ainda mais o passo quando avistei Miles no campus. Não queria ser parada por ninguém para evitar o trabalho de ter que dar satisfações.
Meu celular vibrou no bolso com uma mensagem de . Eu a respondi rapidamente dizendo que eu iria me encontrar com e que nos falávamos mais tarde. Pedi para que ela continuasse me atualizando sobre o estado de papai e guardei o telefone no bolso novamente.
Porém, quando eu estava saindo da Wings, eu vi Camerom conversando com Deborah do outro lado da rua. Apertei os olhos na direção dos dois, ainda sem acreditar no que eu estava vendo, mas eu não tinha dúvidas. A minha visão não estava me pregando peças.
Aquele era mesmo o Camerom, e ele não estava sozinho.
estava lá também.


Capítulo 26 - Exposta

A minha amizade com o Camerom começou assim que entrei na Wings. Na época eu tinha muito medo do , e poucas pessoas falavam comigo. Na verdade, eu só conversava com a .
Eu e Cam nos sentamos juntos na aula de Teatro, e o fato do estar humilhando duas alunas que conversavam em sua aula foi o que nos uniu.
Ao olhar para o meu amigo que conversava de um jeito suspeito com e Deborah, eu me entristeci. Me entristeci porque eu não consigo pensar em um motivo que justifique essa mudança repentina. Eu simplesmente não sei o que eu fiz para o Camerom começar a me tratar com tanta frieza.
Desviei o olhar daquela cena estranha e apertei o passo, com medo de que eles me vissem observando-os. Eu me sentia nervosa da cabeça aos pés, e não era por estar indo encontrar o que eu me sentia daquele jeito. A verdade é que eu estou com medo do que a Deborah está tramando.
— Little Rebel! — exclamou , me assustando. Ele abaixou o vidro do carro e me chamou para entrar, destravando a porta do carona. Eu dei um sorriso trêmulo para ele e entrei no carro, afivelando o cinto de segurança logo em seguida.
Nos cumprimentamos com um selinho demorado que fez o meu coração se aquecer. Nós nos afastamos e deu a partida no veículo.
— O que aconteceu? — indagou , olhando para o meu rosto rapidamente antes de voltar a olhar para a estrada — Você parece preocupada.
— É o Camerom. Ele não fala comigo e nem com a e o Miles, e está sombrio e obscuro.
Meu melhor amigo não era sombrio e obscuro, mas agora estava agindo assim.
Mas por qual motivo?
— Sombrio e obscuro combina com ele. — disse , risonho. Acho que o Camerom está longe de ser seu aluno favorito.
— Tem mais uma coisa. Eu acabei de vê-lo conversando com a Deborah e a .
desfez o sorrisinho brincalhão que estava no canto dos seus lábios e adquiriu uma expressão pensativa e preocupada, que fez com que a minha preocupação aumentasse ainda mais.
— A Deborah não costuma conversar com alunos, principalmente com o Camerom. A única aluna que eu sei que a Deborah conversa é a . Sem contar que você tinha me dito que o Camerom estava achando que foi a Deborah que o trancou no dia da avaliação em dupla.
— Se a Deborah não costumava fazer amizades com alunos antes, agora ela faz. Eu tenho certeza de que ela está tramando alguma.
— Você acha que o seu amigo se envolveria nisso? — perguntou , parando o carro no sinal vermelho.
— Ela pode estar obrigando-o a fazer isso.
Eu ainda não tinha absoluta certeza dos planos da Deborah, mas sabia que ela estava tramando alguma coisa contra mim. Ela foi capaz de me trancar numa sala somente para que eu não participasse de uma avaliação, e tentou me prejudicar desde que entrei na Wings.
— Mas por qual motivo ela estaria empenhada em destruir a sua carreira? Eu não consigo entender. — disse , prestando atenção na estrada agora que o sinal estava aberto novamente.
— Quando nos conhecemos, eu derramei café na sua blusa de grife e desde então, a Deborah começou a me perseguir.
— Você acha mesmo que a implicância da Deborah com você é por causa de um pouco de café? — deu uma pequena risada — A Deborah é louca por natureza, mas eu tenho certeza de que ela não se daria ao trabalho de recrutar um exército de alunos para acabar com uma garota só por causa da sua blusa de grife manchada. Eu tenho certeza de que tem mais coisa aí.
— Mais coisa? Eu não a conhecia antes de entrar na Wings. Eu nunca a vi na vida! Eu morava em New Haven, e até onde eu sei, a Deborah sempre morou aqui, não é?
— Na verdade não. Houve uma época em que ela morou em Los Angeles.
— Isso ainda não explica as suas motivações em querer que eu saia do concurso. Passei a minha vida inteira em New Haven, estudando e fazendo as minhas aulas de dança, canto e teatro. Não é possível que ela tenha me odiado nessa época.
ficou em silêncio por um tempo. Ele parecia pensativo, e eu fiquei me perguntando o que estaria se passando pela sua cabeça. Eu quase conseguia sentir a sua preocupação, e eu comecei a criar um monte de teorias malucas em minha mente apenas para explicar o motivo da Deborah estar querendo destruir a minha carreira dentro da Wings. Porém, por mais que eu pense, nada consegue explicar as motivações dela. Nada mesmo.
— Você não está sozinha nessa, . Eu vou começar a investigar a Deborah. Ela não vai te tirar do concurso, não se preocupe. — afagou o meu joelho com carinho e sorriu. Esbocei um sorriso fraco, e deixei os pensamentos paranoicos me dominarem novamente.
— Obrigada.
entrou em uma rua bonita e diminuiu a velocidade até parar em frente a um condomínio grande e luxuoso. Ele era bem afastado da cidade, e por um momento eu senti que estava fazendo algo ilegal.
O portão foi aberto para nós e estacionou o carro no próprio estacionamento do condomínio. Entrelaçamos as nossas mãos e eu me senti mais calma ao sentir a mão quente de tocar firmemente a minha.
Caminhamos em silêncio até a sua casa, que ficava quase no fim da rua do condomínio. As casas por onde passamos eram bem bonitas e luxuosas, e me surpreendi ao ver que a de parecia ser menos chique que as outras.
A entrada da casa era bonita, mas simples. A varanda estava um pouco suja e tomada das folhas das árvores do jardim que ficava dentro do condomínio. destrancou a porta e nós entramos, e me surpreendi ao ver o quanto a casa parecia conservada e limpa por dentro.
Na sala não havia muitos móveis, somente uma escrivaninha, uma mesinha de centro e um sofá cinza. me pegou pela mão e me levou até o andar de cima, direto para o seu quarto. Meu coração acelerou de uma forma absurda, mas eu tentei me manter calma.
— Me desculpe pela poeira. A moça que limpa não pôde vir essa semana e eu não tive como contatar ninguém. — disse ele, meio envergonhado, colocando as mãos no bolso da calça.
— Tudo bem, não se preocupe.
Andei pelo quarto de como se estivesse prestes a conhecer um outro lado dele que eu ainda não tinha visto. Passei os olhos pela cama de casal bastante convidativa, pelo armário grande e pelo violão encostado a parede, mas parei na janela. A paisagem era linda, e por um momento eu perdi o fôlego. De onde eu estava, eu conseguia ver o jardim bonito e bem cuidado do condomínio, que exibiam flores de todos os tipos, cores e tamanhos. Acho que eu nunca tinha visto um jardim tão bonito de perto antes.
— Gostou da vista? — me abraçou por trás, repousando o queixo no meu ombro. Seu rosto tão perto do meu fez o meu estômago se revirar de nervoso. O calor do seu corpo, seu cheiro, tudo nele parecia me chamar.
— Sim, eu nunca tinha visto um jardim tão bonito antes.
— Só os caras sabem que eu venho aqui. Sempre que estou precisando ficar em um lugar calmo, eu venho para cá. Essa vista é inspiradora. — disse , beijando o meu ombro demoradamente.
Soltei um suspiro e inclinei a cabeça para trás, fazendo com que começasse a subir os seus beijos pela minha clavícula até chegar ao meu pescoço, despertando em mim uma série de espasmos de prazer.
A temperatura do meu corpo começou a subir, e tudo se intensificou quando me virou de frente para si e depositou um beijo cheio de vontade em minha boca. As suas mãos começaram a percorrer a minha coluna, seus dedos arranhando-me de forma vagarosa e torturante enquanto a sua boca se chocava com a minha, ambos embriagados de desejo.
As minhas mãos pareciam que tinham criado vida própria, pois quando dei por mim elas já estavam se embrenhando por dentro de sua camisa social. Sua barriga se contraiu com os meus toques tímidos, e eu senti a sua pele queimar como a minha queimava.
Caminhamos para a cama a passos trôpegos e desajeitados, e eu senti o colchão macio embaixo de mim. deitou em cima de mim com cuidado, depositando uma mordida no meu queixo e um rastro de beijos e mordidas pelo meu pescoço. Meu corpo se contorceu e eu arfei, sentindo-me completamente ensandecida ao sentir o calor do corpo dele ainda mais próximo ao meu.
Segurei firme os seus cabelos quando começou a distribuir beijos no vão dos meus seios. Eu nunca tinha ficado daquela forma com um rapaz antes, mas eu sabia o que tudo isso significava. Enquanto subia novamente a sua trilha de beijos até chegar em minha boca, eu comecei a desabotoar a sua camisa, pensando se eu realmente queria aquilo.
Eu sempre pensei que a minha primeira vez aconteceria a partir do momento em que eu tivesse certeza dos meus sentimentos e dos sentimentos do rapaz. Eu tinha aquela certeza, e sabia que o também tinha, mas será que eu estava mesmo preparada para dar esse grande passo? O meu relacionamento com o é proibido afinal, ele é o meu professor. Eu ainda não sei se consigo lidar com isso agora.
Não sei se estou preparada para dar esse passo.
Com a ajuda de , eu retirei a sua camisa, e pude ver o quanto o seu peitoral era bonito e definido. Meus pensamentos ficaram turvos quando eu passei as minhas mãos pelos seus ombros, e eu me esqueci completamente de tudo o que eu estava pensando.
Nossas bocas se encontraram novamente, e meu corpo se aqueceu ainda mais com o contato. Eu senti que meu corpo parecia estar eletrificado, e não consegui mais parar. arfava baixinho em meu ouvido, com sua voz rouca e sexy toda a vez que ele se esfregava em mim. Eu consegui sentir o volume de sua calça me tocar e fiquei rígida.
No mesmo instante, os pensamentos temerosos que rondavam a minha cabeça voltaram, e eu parei de responder ao corpo de . Ele também percebeu e parou na mesma hora o que estava fazendo para me olhar. Ele estava suado e ofegante.
— Me desculpe, eu... Eu acho que ainda não consigo. — eu disse, envergonhada. Meu rosto devia estar mais vermelho do que um tomate.
— Está tudo bem, . — disse, com ternura — Não quero que você se sinta forçada a nada. Eu vou te esperar o tempo que for necessário.
afagou o meu rosto e eu fechei os olhos para sentir o carinho. Me aninhei em seus braços, descansando a cabeça em seu peito. Eu sabia que era difícil para ele parar, mas o tinha feito mesmo assim, o que só prova que ele realmente me respeita.
— Eu amo você, Danny.
— Eu também te amo, minha .
Eu dei um sorriso quando depositou um beijo no topo da minha cabeça. Quando dei por mim, eu já estava adormecida em seus braços.

[...]

me acordou antes das 17h para poder ir encontrar meus amigos no shopping. Eu tinha dormido feito uma pedra nos braços dele, e ele ficou me zoando por um tempo por conta disso.
me levou de volta e nós nos despedimos com a promessa de que passaríamos o dia de amanhã todo juntos. Ele disse que iria abastecer a geladeira com um monte de coisas gostosas, e que alugaria alguns filmes. Claro que eu fiquei ansiosa para que o amanhã chegasse.
— Adorei essa blusa de oncinha! — exclamou Miles, apontando para uma blusa feminina do manequim de uma loja. Nós olhamos feio para ele. — É brincadeira, meninas!
Eu e estávamos no shopping ajudando Miles a escolher roupas mais masculinas para o seu novo visual. Já tínhamos rodado quase todas as lojas do 1° piso sem Miles se decidir quando ele avistou uma loja masculina que fez os seus olhos brilharem.
— Essa loja tem o que eu quero, eu sinto isso! — ele exclamou, entrando na loja quase que saltitando.
Eu e começamos a dar uma olhada em algumas peças de roupa, mas Miles já tinha escolhido tudo o que iria experimentar.
— Experimenta essa aqui, Miles. — eu disse, jogando em sua direção uma camiseta de manga curta azul marinho com uma prancha de surf na frente. Ele pegou a blusa da minha mão, e levou junto com as outras peças de roupa que ele tinha separado.
— E aí, como foi o encontro com o seu professor? — perguntou com a voz baixa, mexendo em algumas roupas da loja. Meu rosto ficou vermelho só em lembrar de tudo o que tinha acontecido.
— Nós quase chegamos a...
arregalou os olhos e me lançou um sorriso indolente e malicioso.
— Vocês transaram?
— Não, mas é claro que não! — exclamei, constrangida e nervosa.
— Mas chegaram perto? O quão perto chegaram? O parece ser bem sensual, ele tem pegada?
Arregalei os olhos com a pergunta de , mas ela parecia se divertir com todo o meu constrangimento.
!
— Desculpe, amiga. — pediu, fazendo carinha de cachorro abandonado — Mas eu quero detalhes!
Miles abriu a cortina do provador e mostrou o look que havia montado. Ele colocou as mãos na cintura de um jeito engraçado e sorriu, fingindo uma sensualidade que não existia.
Ele estava usando um jeans rasgado nos joelhos propositalmente, uma blusa preta e uma jaqueta jeans estilosa. Nos pés, ele usava um All Star vermelho.
— Você está parecendo o Camerom, Miles! — bateu palmas e assobiou, chamando a atenção de alguns clientes que estavam dentro da loja. — Tá lindo.
— Não me compare aquele traidor! — Miles esbravejou, contraindo o rosto em uma carranca.
— Eu adorei esse look. Combina muito com você! — eu disse com sinceridade. Miles deu um sorriso singelo e agradecido para mim antes de entrar novamente no provador. — Por falar no Camerom, eu o vi hoje conversando com a Deborah e a .
— E o que ele fazia com aquelas bruxas? — perguntou Miles com indignação dentro do provador.
— Isso é muito estranho... Acho que não podemos confiar muito na , não é? — indagou, parecendo um pouco desapontada. Confesso que desde a última avaliação nós nos aproximamos bastante da . Porém, não podemos deixar de lado o fato de que ela possui uma “amizade” muito estranha com a Deborah.
— Do jeito que as coisas estão, acho que não podemos confiar nem na nossa própria sombra.

[...]
Nós chegamos na Wings felizes e contentes. Miles estava cheio de sacolas que definiam quem ele queria ser de agora em diante. Já , estava um pouco mais animada, mas eu sabia que ela ainda se sentia triste por gostar tanto do . E eu, estava com o coração bobo e apaixonado, mas com a mente repleta de preocupações.
Nós nos despedimos de um Miles sorridente e esperançoso e fomos as duas juntas para o nosso alojamento. Porém, estava na porta da sala de informática acenando para nós. Ela parecia ter visto um fantasma, e eu fiquei assustada ao vê-la daquele jeito.
— Vocês precisam ver isso. — disse ela, parando em frente a um dos computadores da Wings. Eu me sentei em frente à tela, e empalideci.
O navegador estava aberto na página da Wings e no Youtube, onde um vídeo meu dançando com no dia da avaliação em dupla era reproduzido. O Camerom era o meu par nessa apresentação, mas ele tinha sido trancado no banheiro masculino e não pôde se apresentar. O me salvou de ser desclassificada, mas depois o Camerom apareceu e o nos deixou repetir a coreografia.
O choque tomou o meu rosto quando eu vi que o vídeo estava circulando livremente pela internet, e que tinha mais de 400 mil acessos. O título do vídeo no Youtube era: “Vaza vídeo de protegendo aluna em concurso da Wings”.
O pior nem era o título do vídeo, e sim os comentários. A metade dos internautas dizia estar shippando a gente, e a outra metade destilava ódio e comentários ofensivos, que em sua grande maioria, eram destinados a mim. Eram comentários machistas, odiosos e que me deixaram com uma grande dor de cabeça.
Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu lia tudo o que estava escrito.


Capítulo 27 - Encurralada

“Desde o início eu sabia que essa garota é a preferida do concurso.”
“Como você conseguiu convencer a dançar com você, ? Com uma rapidinha? Você é menos ingênua do que eu pensava.”
“Já sabemos quem é que vai ganhar esse concurso.”
“O que deixou a coreografia bonita foi o dançando. Pelo amor, né gente? Essa é muito sem sal.”

Paralisada. Era assim que eu me sentia no momento. Não havia nada nesse mundo que iria conseguir me descongelar. Eu simplesmente não conseguia desviar o olhar de todos os comentários maldosos que apareciam naquele vídeo. Minha mão era a única que se mexia, e ela direcionava o mouse para baixo, para que eu conseguisse ler mais comentários.
Eu conseguia ouvir um zumbido bem longe em meus ouvidos, mas se alguém me perguntasse o que acontecia a minha volta, eu tenho certeza absoluta de que não conseguiria responder nada.
! — exclamou, puxando a cadeira de rodinhas em que eu estava sentada para trás e se posicionando na frente da tela do computador. — Chega de olhar pra essas coisas. São comentários de haters idiotas que não tem mais o que fazer além de odiar a própria vida e a vida dos outros. São pessoas que se odeiam tanto que querem arruinar a vida de todas as pessoas que puderem só para que elas se odeiem também.
Uma vez eu disse para a minha mãe que não sabia se seria capaz de lidar com a fama que a minha carreira provavelmente me traria, e ela respondeu que eu sou mais forte do que penso. No entanto, eu não consigo enxergar toda essa força que ela disse em mim. Eu só consigo enxergar o desespero que eu sinto ao ler tantos comentários horríveis.
A culpa começou a massacrar o meu peito quando eu lembrei o que eu e estávamos fazendo, e eu me senti cada vez pior.
— Eu não sei como o vídeo foi parar ai, só sei que um anônimo me mandou esse link do Youtube pelo Facebook. — disse , parecendo se justificar.
— Tem certeza de que não foi você que pôs esse vídeo ai? — indagou , apontando para a loira com os olhos acusatórios.
— Eu nunca faria isso! — ela gritou, olhando para nós com certo desespero.
— Eu preciso ficar sozinha. — eu disse, me levantando e saindo de perto das duas.
Os corredores da Wings pareceram ficar maiores a medida que a minha vontade de sair dali ia aumentando. Alguns alunos olharam para mim com superioridade, como se realmente gostassem de me ver daquele jeito.
O canal do Youtube que tinha postado o vídeo era novo, e só tinha esse vídeo postado, o que me fez crer que alguém tinha feito uma conta fake de propósito somente para me prejudicar.
Comecei a correr quando percebi que não iria suportar tantos olhares de desprezo, e quase trombei com a Deborah quando eu estava saindo da Wings. Ela tentou me parar segurando meu braço, mas eu me desvencilhei antes que ela conseguisse. O dragão me olhou de um jeito vitorioso, e isso me irritou tanto que eu tive vontade de voltar e estapear o rosto dela.
Eu nunca tinha sentido tanta raiva em toda a minha vida.
Diminuí o passo quando vi que haviam poucas pessoas no campus do colégio e me senti mais relaxada com o vento frio que envolvia meu corpo. Deixei algumas lágrimas rolarem pelo meu rosto e senti meu corpo todo tremer.
— Eu não vou conseguir, eu não sou forte o bastante, mãe. — sussurrei com tristeza, me afastando das pessoas que estavam no campus.
Se eu pudesse, eu já estaria longe da Wings há muito tempo, mas já estava anoitecendo e eu não podia mais sair, o que dificultava ainda mais a minha situação, já que eu não queria ficar aqui.
Encontrei Camerom encostado em uma árvore me encarando. Ele tinha um semblante muito estranho no rosto, e parecia abatido. Ele me olhava com os olhos semicerrados, e seu cabelo estava despenteado não de um jeito charmoso, mas de um jeito desleixado que me preocupou. Porém, assim que Camerom percebeu que eu o encarava, ele sumiu por entre as árvores, me deixando ainda mais triste e vazia.
. — disse , pegando em meu braço com delicadeza. — O quer falar conosco. A sós.
Assenti fracamente com a cabeça e andamos em silêncio até a Wings. Ele acariciava de forma disfarçada as costas da minha mão, e olhou feio para todos os alunos que ousaram me olhar com desprezo, fazendo com que todos se encolhessem e desviassem o olhar de forma constrangida. Dei um mínimo sorriso com isso.
Eu não sei o que vai acontecer comigo depois de hoje. O quer nos ver, o que provavelmente quer dizer que ele acredita nos boatos. Talvez eu seja desclassificada do concurso.
Talvez eu mesma desista dele.
Entramos na sala e encontramos em pé, com a expressão fechada de sempre. Ele pediu para que encostasse a porta e eu esperei o esporro que eu provavelmente levaria.
— O site da Wings foi hackeado essa manhã, mas nós já conseguimos recuperar a conta e estamos fazendo de tudo para encontrar o engraçadinho que fez isso. O vídeo não está mais disponível em nosso site. Também estamos tomando todas as providências para que o Youtube retire o vídeo e o canal fake do ar. — disse , sério e direto. — Ou alguém te odeia muito para se dar ao trabalho de fazer isso, ou você é mesmo muito talentosa para quererem tanto te sabotar. O que o meu filho fez te defendendo no dia daquela avaliação foi imprudente e errado, mas eu não acredito nos boatos que estão rolando por aí. O que acontece é que o é impulsivo e prestativo, e talvez isso seja mais um defeito do que uma qualidade. — continou ele, olhando fixamente para mim. — De qualquer forma, não se preocupe. Você não será afetada de nenhuma maneira em relação ao concurso. Você é uma participante como todos os outros, mas o que eu não tolero é que tentem denegrir a imagem do concurso dessa maneira. Eu convoquei uma reunião com todos os alunos e professores agora para falar sobre o ocorrido. Se você não quiser participar, não precisa. Tire o dia de folga amanhã para passear por Londres e esfriar a cabeça. Amanhã as aulas estarão suspensas, mas depois tudo vai voltar ao normal.
— Obrigada, Sr. . — eu disse, sentindo-me aliviada por ele não ter desconfiado de nada.
— Disponha. , leve a senhorita até o seu alojamento e depois me encontre no salão para a reunião que eu convoquei.
Eu e saímos da sala e caminhamos lado a lado até o meu alojamento.
— Isso foi mais um monólogo do que uma conversa, mas tudo bem. — disse ele, dando uma risadinha. Eu dei um pequeno sorriso, mas continuei calada. — Olha, me desculpe por tudo. Eu só te ajudei aquele dia porque eu realmente vi que você estava precisando de um parceiro. Eu não podia te deixar lá em cima sozinha.
— Eu sei disso. Não se sinta culpado por ter tentado me ajudar.
— O vídeo foi vazado. O meu pai não queria que o publicassem e não queria que ele aparecesse em lugar algum. Só pode ter sido a Deborah que fez isso.
Parei em frente ao meu alojamento, olhei para o rosto do e desejei que as coisas fossem diferentes. Desejei que tivéssemos nos conhecido em outro lugar e de outra forma, e principalmente, desejei não ser a sua aluna.
— Nós temos que fazer alguma coisa. Eu não vou aguentar ficar aqui se ela continuar me infernizando. Já vai fazer 3 meses que estou aqui e eu já estou chegando ao meu limite.
— Nós não devíamos estar fazendo isso, não é? — ele indagou, e eu senti a dor ao olhar em seus olhos, principalmente porque eu não sabia bem como responder essa pergunta.
Por um lado, eu sinto que o que eu mais quero é ficar com , mas por outro, eu não consigo parar de pensar em todos os comentários daquele vídeo, na minha carreira e em tudo o que pode acontecer caso eu leve isso adiante.
Abaixei a cabeça e respondi:
— Eu... Eu não sei.
— Eu vou começar a investigar a Deborah amanhã. Qualquer informação nova que eu descobrir, estarei te mandando uma mensagem no Whatsapp. — disse , me olhando com determinação. Acho que ele tinha tanto medo quanto eu de que tudo acabasse mal para nós dois.
— Tudo bem. Boa noite.
— Boa noite. Até amanhã.
Entrei no meu alojamento e me senti melhor ao ver que o quarto estava vazio. Me joguei na cama de qualquer jeito e comecei a chorar, sentindo a preocupação que eu sentia com a saúde do meu pai e com tudo o que tinha acontecido hoje desencadeando em mim uma avalanche de desespero.
Eu queria muito poder dizer que aquilo tudo não me afetou, mas de uma forma muito ruim eu me senti suja e culpada ao lembrar de todos aqueles comentários.

[...]

Acordei com o meu celular vibrando com uma mensagem de me pedindo para encontra-lo daqui há meia hora na mesma esquina de ontem. Joguei a coberta para o lado e encontrei e me olhando com preocupação.
— Você está bem? — perguntou assim que eu me levantei da cama.
— Me sinto um pouco melhor. — eu disse, dando um sorriso forçado.
— O Miles está preocupado com você.
— O ontem fez um comunicado que deu medo. — disse , tentando me animar. — Ele disse que sabe que quem fez aquilo com você está aqui dentro, e que se a pessoa se entregar logo vai ser melhor.
— Eu vou me arrumar pra sair, mas depois eu volto e conversamos melhor. — eu disse para as duas, que continuaram me olhando com preocupação.
Peguei uma muda de roupa e fui direto para o chuveiro tomar um banho e escovar os dentes e quando terminei, mandei uma mensagem para avisando que já estava a caminho.
Nos encontramos na mesma esquina de ontem. Pelo menos dessa vez, quando passei pelas pessoas, ninguém me olhou com desprezo. Acho que o pessoal estava com medo do , já que ele consegue ser intimidador quando quer.
Quando cheguei, o carro de já estava lá. Eu entrei no banco do carona e fui recebida com um selinho carinhoso que me fez sentir um pouco melhor.
, precisamos conversar. — disse , sério. — Eu descobri umas coisas sobre a Deborah.
— Vamos até o seu apartamento. — eu disse, sentindo o meu coração disparar de nervoso e medo.
Quando chegamos ao apartamento, me ofereceu um suco de morango que aceitei de bom grado. Nós nos sentamos lado a lado no sofá da sala e estendeu em minha direção algumas folhas que ele parecia ter imprimido da internet.
— O que é isso? — perguntei, pegando as folhas de suas mãos.
— Eu descobri que a Deborah já morou em New Haven antes de ir para Los Angeles. — disse , me mostrando uma folha com a foto da Universidade de Yale — Ela e sua mãe frequentaram a mesma universidade.
— A minha mãe dava aulas lá. — eu disse, arregalando os olhos de forma horrorizada.
— Eu entrei em contato com uma irmã da Deborah hoje mais cedo, e descobri que ela começou a ter alguns problemas psicológicos quando era mais nova. Sua irmã não quis me dar muitos detalhes, mas eu posso investigar mais a fundo e descobrir que problemas eram esses.
Fiquei pensando em todas as informações que recebi, percebendo que agora tínhamos alguma coisa que realmente fazia sentido.
— Será que a Deborah odiava a minha mãe por algum motivo e agora quer descontar em mim?
acenou de forma afirmativa com a cabeça.
— Pode ser. Dependendo do problema que ela tem, e eu imagino qual seja, talvez explique porque ela age desse jeito. A Deborah é uma pessoa extremamente narcisista e impulsiva.
— Concordo com você.
pegou em minhas mãos e as segurou firme entre as suas. Ele me olhou de um jeito tão lindo que eu fiquei extremamente balançada. Eu quero muito estar com , muito mesmo, mas parece que o universo está conspirando contra o que sentimos um pelo outro.
— Olha, eu sei que você está com medo disso tudo, mas eu te prometo que vai dar tudo certo. Eu quero muito estar com você, e não quero que essas coisas destruam o que nós temos. Por favor, não desista de nós.
— Eu vou pensar nisso, ok? — eu disse, me desvencilhando de suas mãos. ficou tão desapontado que abaixou a cabeça. Meu coração doeu. — Esse não é o fim, eu só quero organizar a minha cabeça que está uma bagunça nesse momento.
— Tudo bem.
Nós nos olhamos mais uma vez e eu me joguei em seus braços. Me joguei porque eu sabia que não conseguiria ficar sem seus braços em envolvendo, e porque só o tinha o poder de me acalmar. Senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto, e quando menos percebi, eu estava chorando de soluçar. me apertou contra seu corpo e afagou o meu cabelo, dizendo que tudo iria ficar bem.
Se ele estava mentindo, eu não sei. A única coisa que eu sei, é que enquanto eu estiver em seus braços, nada pode me atingir.

[...]

Já era noite quando eu voltei do apartamento do . Nós ficamos conversando e maratonando Greys Anatomy na televisão. O Danny não gostou muito da série, mas me acompanhou só para me agradar.
Também prometi a ele que o faria tirar uma foto mais apresentável para postar no perfil do Whatsapp, mas disse que sua foto está ótima e que não tem nada de errado nela. Iludido.
O campus da Wings estava vazio, escuro e silencioso, e eu me assustei ao ver Camerom jogado no chão entre as árvores.
— CAMEROM! — gritei, já me pondo a correr até ele quando o mesmo se levantou e me olhou de um jeito que me deu calafrios. — Você está bem?
Me aproximei dele a passos hesitantes, temendo que se eu me aproximasse demais que ele começasse a brigar comigo ou se afastasse.
— Você tem que sair daqui.
— O que? Porque?
— Sabe o que é estranho? — ele perguntou, ignorando totalmente a minha pergunta — A sua capacidade de se preocupar comigo mesmo depois de todas as coisas que eu fiz.
— O que você fez, Camerom?
Ele deu um sorriso doentio e se aproximou de mim.
— Eu não mereço a sua amizade. — Camerom disse, com lágrimas nos olhos. — Eu te maltratei, te ignorei e até gritei com você! É imperdoável, tudo imperdoável!
Ao chegar mais perto do meu amigo eu percebi o quão descontrolado e abatido ele estava. Haviam círculos profundos embaixo de seus olhos, e sua expressão facial parecia diferente da que eu estava habituada a ver. O Camerom nunca teve aquela expressão, ele sempre me tratou amigavelmente, e agora ele parecia até outra pessoa.
Os olhos azuis profundos ainda estavam ali, mas eles não eram mais amáveis: eram assustadores.
— O que está acontecendo com você? — perguntei de forma preocupada, segurando suas mãos.
Camerom parou por um momento e ficou me encarando fixamente por alguns segundos antes de me encurralar contra uma árvore.
— Me perdoe, .
Foi a última coisa que eu ouvi antes de começar a gritar.


Capítulo 28 - Notícia Boa vs Notícias Ruins

— Pare de gritar, . — Camerom sussurrou, tampando a minha boca com agilidade. Suas mãos tremiam tanto quanto as minhas, e pela primeira vez, eu realmente senti medo do meu melhor amigo. — Preste atenção no que eu vou te dizer.
Meus olhos arregalados de pavor encaravam Camerom com assombro. Eu só queria chuta-lo e sair correndo dali, mas o medo me impedia. Eu nunca lidei muito bem com situações perigosas, e acho que isso se deve ao fato de que eu quase não passei por nada muito sério na minha vida. Claro que bastou eu entrar na Wings para que tudo mudasse, mas isso não vem ao caso agora.
— Você tem que ir embora agora, .
— O... O que? — indaguei assim que Camerom tirou a mão da minha boca. Eu estava tão confusa que até me esqueci do medo que eu senti do Camerom descontrolado e de olhos vermelhos parado em minha frente.
— Ela está em toda a parte, e quer te ver mal. — disse ele, com os olhos assustados — Eu sei sobre o , mas não sou o único. Tome cuidado, .
Um suspiro angustiado escapou de meus lábios e meu coração se encheu de pavor, mas agora, o motivo do meu medo tinha outro nome.
Deborah.
— Você está falando da Deborah, não está? — Camerom deu dois passos para trás com a minha pergunta, fazendo que não com a cabeça logo em seguida. Ele estava se negando a compartilhar comigo as informações, mas eu precisava continuar tentando — Por que ela está fazendo isso comigo?
Eu precisava de respostas concretas. O que o descobriu me situou um pouco de tudo o que está acontecendo, mas ainda não é o suficiente.
Eu lembro que nos meus primeiros dias dentro da Wings eu ouvi a Deborah falando com um homem muito sinistro que a minha mãe tinha arruinado a vida dela, e que ela me queria fora do concurso. Na época eu não tinha certeza de que a Deborah falava de mim, mas agora não me restam dúvidas.
A minha mãe nunca faria mal a ninguém. Eu não consigo imaginar o que ela possa ter feito para a Deborah criar tanto ódio a ponto de querer se vingar.
— Corra para o seu alojamento sem olhar para trás. — instruiu, olhando para o prédio imponente da Wings.
— Mas... Cam...
Me aproximei dele e tentei tocar em seu braço, mas Camerom se esquivou do meu toque e gritou com energia:
— Agora!
Movida pelo susto, corri o mais rápido que pude para dentro do prédio da Wings. Meu calcanhar doía, e eu não sabia bem o porquê, mas me recusei a parar. Porém, contrariando as instruções de Camerom, eu olhei para trás.
Deborah e ele pareciam estar tendo uma espécie de discussão. Voltei meus olhos para a frente e tropecei em minhas próprias pernas, mas retomei a corrida antes que eu piorasse ainda mais a minha situação. Só parei de correr quando cheguei ao elevador, onde, com as mãos trêmulas, peguei o celular e enviei uma mensagem para o Whatsapp de . Eu precisava alerta-lo sobre tudo o que estava acontecendo.
As portas do elevador mal se abriram quando passei por elas, totalmente nervosa. Abri a porta do meu alojamento e encontrei deitada na cama lendo uma revista enquanto dormia com uma máscara de dormir.
— O que houve, ? Viu um fantasma? — largou a revista de lado e veio ao meu encontro com um olhar preocupado. Uma falta de ar começou a me consumir e eu me curvei para a frente tentando respirar melhor. — , o que aconteceu?
Lágrimas grossas começaram a escorrer pelo meu rosto. Meu peito queimava, e o choro piorou ainda mais a falta de ar que eu estava sentindo. Eu estava tão nervosa com tudo o que estava acontecendo comigo que a crise de choro e a falta de ar não queriam parar. Eu simplesmente não conseguia me controlar.
se curvou para me abraçar e , acordada e sonolenta, também se juntou a nós. O choro foi aumentando gradativamente junto com a falta de ar, e eu já me via desmaiando a qualquer instante.
Pensei em meu pai doente, na minha mãe que infelizmente tinha partido, no Camerom que obviamente estava fazendo coisas que não queria por causa da Deborah, nas sabotagens recentes que eu estava sofrendo e nos meus sonhos. Será que valia mesmo a pena continuar lutando por esse concurso? As coisas começaram a ficar sérias, e não falo sobre as aulas de dança e de canto. Havia tanta maldade e tanta pressão aqui dentro da Wings, que estava ficando insuportável ser forte para aguentar tudo.
Acho que eu não sou tão forte no fim das contas.
e me acalmaram depois de muitos minutos e várias tentativas. Contei as duas o que tinha acontecido, já que naquela altura do campeonato, se a Deborah realmente estava em todos os lugares, não adiantava mesmo esconder nada da .
Eu tinha muitas preocupações na minha cabeça, e ainda não tinha respondido as minhas mensagens. Eu não sei se ele viu a Deborah e o Camerom discutindo ou se ele demorou mais para entrar na Wings. Eu só sei que estou com medo.
No dia seguinte, levantamos bem cedo para a aula de dança. Hoje teríamos ballet e jazz. estava sério quando começou a ministrar a aula, e meu calcanhar doía tanto que eu mal consegui me aquecer na barra.
Eu queria questioná-lo, já que ele não tinha respondido a minha mensagem ontem. Busquei seus olhos todas as vezes em que ele passou perto de mim, mas ele não devolveu o olhar. Se eu já estava aflita antes, agora eu me sentia 10 vezes pior.
— A próxima avaliação de vocês será em grupo de 5 a 10 participantes de sua escolha. Vocês terão que fazer um número de dança e atuação dessa vez. O número deverá ter de 5 a 15 minutos, e será bem mais trabalhoso. Na aula de teatro eu orientarei vocês melhor sobre a proposta do próximo desafio. — disse por cima da música clássica que tocava no rádio.
Procurei por todos os cantos da sala pelo Camerom, mas não o encontrei em lugar algum, e pediu para que fizéssemos uma sequência de passos de dança que ele tinha criado.
A música clássica e lenta foi substituída por uma mais rápida. Fomos divididos em pequenos grupos, para que não trombássemos uns nos outros. Quando chegou a vez do meu grupo, meu calcanhar já latejava tanto que eu mal conseguia pensar. Eu consegui fazer o começo da sequência sem maiores complicações, mas foi na pirueta em dehor* que eu me desequilibrei e caí no chão. Meu calcanhar já doía tanto que eu mal conseguia pensar.
— Você está bem? — perguntou, se agachando ao meu lado.
Apertei meu calcanhar e fiz que não com a cabeça. Ele me olhou com preocupação, me pegou no colo e me levou até a enfermaria da Wings.
Um médico examinou o meu calcanhar com um olhar sério e preocupado, e eu logo comecei a pensar no pior. teve que voltar para a aula, mas disse que depois nós iríamos conversar, o que me deixou ainda mais aflita. Tive que fazer alguns exames que demoraram mais do que deveria para ficarem prontos, mas quando os resultados saíram, desejei nunca ter caído no estúdio de dança.
— Eu dei uma olhada nos resultados do seu exame e constatei que você está com uma inflamação no tendão de Aquiles. — disse o médico, anotando algumas coisas num papel.
Arregalei os olhos, tentando conter o nervosismo que já estava começando a se apossar do meu corpo.
— E isso é grave?
— Se você seguir todas as minhas recomendações, isso não se agravará. — ele disse, dando um sorriso confiante. Acho que ele estava tentando me animar, mas não surtiu muito o efeito desejado — Eu vou te receitar um anti-inflamatório e também muita fisioterapia. Você terá que vir aqui todos os dias para tratar do seu calcanhar. Faremos de tudo para que a sua recuperação seja rápida.
— Recuperação? — indaguei, me sentindo cada vez mais aflita sentada ali na cadeira daquele consultório.
Faz tempo que eu não tenho um dia normal dentro da Wings, e eu estava começando a sentir falta disso.
— Você terá que ficar sem dançar por enquanto se quiser se recuperar. Se você forçar ainda mais o seu calcanhar, poderá agravar a sua lesão a ponto do tendão se romper. É preciso que você faça um tratamento para poder continuar dançando sem causar mais danos ao seu calcanhar. Vou escrever na receita algumas coisas que você precisará fazer caso a dor não passe, tudo bem? — assenti lentamente, tentando não ter uma crise em sua frente — Você vai ter que aplicar umas compressas de gelo sobre o calcanhar por 8 minutos, e depois fará o mesmo só que sem gelo por 3 minutos repetidamente até completar 30 minutos por 3 ou 4 dias até que a dor desapareça. Entendido?
— Entendido.
— Venha aqui amanhã às 13h para que possamos começar. Até amanhã, .
— Até amanhã, doutor.
O meu calcanhar ainda queimava um pouco quando eu saí do consultório. A falta de ar recomeçou a tomar conta de mim, me fazendo correr com dificuldade para o banheiro mais próximo. Eu suava frio, e tinha certeza de que estava mais pálida do que um fantasma, mas eu estava com tanto medo de tudo o que estava me acontecendo que eu não sentia mais coragem de fazer nada.
Apoiei a minha testa na porta de um dos reservados e fiquei inspirando e expirando por alguns minutos. Percebi que comecei a respirar melhor, e consegui ficar mais aliviada.
Eu não posso ficar sem dançar, não mesmo. Eu gosto mais de dançar do que de cantar ou atuar. Se eu parar de ir às aulas de dança, ficarei em desvantagem. A próxima avaliação já foi anunciada, e provavelmente eu não poderei participar se ainda estiver desse jeito. Eu tenho que dar um jeito nisso. Já tiraram muitas coisas de mim, não vou deixar que me tirem a dança também.

[...]

Alô.
— Oi, pai... Como você está? Já recebeu alta do hospital?
Eu estou novinho em folha, querida! Os médicos disseram que eu vou ficar bom logo, só preciso tomar meus remédios direitinho. — disse papai, com a voz forte e ligeiramente animada.
Soltei um suspiro aliviado, feliz por saber que pelo menos havia uma notícia boa no dia.
— Fico feliz em saber disso.
E você, como está? Eu deixei o fã-clube nas mãos da Lucy enquanto eu me recupero em casa. Sua tia está aqui cuidando de mim.
— Eu estou bem. Só estou com saudades de você e do pessoal.
Eu também estou com saudades, minha linda. — houve uma pausa do outro lado da linha. Meus olhos começaram a marejar, mas tentei me conter. Eu não queria que o meu pai me ouvisse chorando — Você não me parece bem... O que aconteceu, ?
— Nada, eu só... eu só estou com saudades. — eu disse, empurrando o choro para o fundo da alma.
Tem certeza? Pois se estiver acontecendo alguma coisa ficarei feliz em viajar até ai para resolver.
— Não exagera, pai. Você precisa se recuperar. Eu estou bem.
Eu sabia que estava mentindo para o meu pai, mas era o melhor no momento. Eu não podia preocupa-lo de forma alguma.
Eu te amo, minha querida.
— Eu também te amo, pai.
Encerrei a ligação e chorei feio um bebê dentro da cabine telefônica.

[...]

Eu estava evitando os meus amigos a tarde inteira. A minha cabeça não parava de trabalhar, e eu não gostava do rumo que os meus pensamentos estavam tomando. Eu tinha tomado os medicamentos que o médico havia passado, e torcia para que a dor no calcanhar passasse logo.
me mandou uma mensagem pedindo para encontra-lo em sua sala antes da aula de teatro. Não era um local suspeito, já que ele atendia diversos alunos ali.
Quando eu entrei na sala, eu percebi que as coisas estavam estranhas. Primeiro porque ele mal me olhou quando me sentei em sua frente, e segundo porque ele parecia aflito.
E lá vem mais notícias ruins...
— A irmã da Deborah não quis me contar qual era o problema dela, mas disse que a Deborah largou o tratamento há uns 3 anos atrás. Eu acho que a Deborah pode ser mais perigosa do que pensamos. — disse , encarando um ponto fixo em meu ombro.
— Por que você não está olhando direito para mim? — indaguei, buscando mais uma vez os olhos dele. me olhou, e eu vi que ele estava tão angustiado quanto eu.
— Eu só estou nervoso com tudo isso, sem saber o que fazer.
— Eu também estou.
— Vai dar tudo certo, . — disse, pegando delicadamente em minha mão. Desejei que ele me abraçasse, mas nós não podíamos fazer isso — Eu estou com você.
Eu abri um sorriso fraco em resposta e me preparei para sair da sala quando fui surpreendida com uma pergunta:
— Como foi no médico?
— Está tudo bem, foi uma leve torção no tornozelo, nada demais. — eu disse, me amaldiçoando por ter respondido rápido demais.
— Entendi. Nos vemos na aula. — assenti, torcendo para que ele tivesse acreditado em mim — Lembre-se sempre que eu estou com você.
me lançou um olhar desconfiado, me fazendo crer que ele não tinha acreditado muito em mim. Droga.
— Eu sei. — eu dei mais um sorriso falso e saí da sala o mais rápido que pude, julgando o estado do meu tornozelo.
Avistei Camerom andando normalmente pelo corredor. Ele também me viu, mas não falou comigo. Ele parecia bem fisicamente, mas não tenho certeza se o seu psicológico está da mesma forma. Acho que ele está tão danificado quanto eu.
Meu celular vibrou na minha mão com uma mensagem de texto. Incrível como o sinal do telefone milagrosamente tinha resolvido funcionar dentro das instalações da Wings. Abri a mensagem esperando que fosse alguma notificação qualquer, mas levei um susto quando abri o conteúdo multimídia da mensagem.
Havia uma foto minha com , no dia em que achamos ter visto a sombra de uma mulher no nosso local de encontro secreto dentro da Wings. Nós estávamos nos beijando.
Apertei o celular contra o peito e entrei em um dos reservados do banheiro feminino para ler o texto da mensagem.
Termine tudo com o até o fim da semana. Se isso não acontecer, essa foto vai parar na mesa do diretor da Wings.
Ah, sinto muito pelo seu calcanhar. Você não é tão perfeita no fim das contas.


*Pirueta em dehor: é a pirueta que gira para fora. O corpo se transforma para a perna levantada, por isso, se o dançarino gira sobre o pé direito, o dançarino se vira para a esquerda.


Capítulo 29 - Fugas, Choros e Términos

A semana já estava chegando ao fim, mas a mensagem que eu tinha recebido ainda não havia saído da minha cabeça. Eu ando evitando o por toda a semana dando a desculpa esfarrapada de que estou muito ocupada treinando para a próxima avaliação, e que não tinha tempo para conversar.
Eu sabia que era a Deborah que tinha me enviado aquela mensagem, mas só o fato de que existe mesmo uma foto bem concreta dos meus encontros com o já faz o meu estômago se retorcer. já estava a par de tudo o que tinha me acontecido, — inclusive a parte do quase rompimento do meu tendão, mas ocultei a parte em que o médico disse que eu não posso dançar enquanto não terminar o tratamento, é claro — e ela sugeriu que eu tentasse falar com o Cameron sobre tudo o que está acontecendo.
A próxima avaliação está se aproximando, e eu não consigo pensar em nada além da Deborah me ameaçando, principalmente porque esta avaliação é muito mais complicada do que as outras. O Cameron está no nosso grupo, e as coisas andam bem estranhas entre nós por conta disso.
— Temos aula de ballet e jazz pela manhã e a tarde ensaiaremos o nosso número. — disse , colando com fita adesiva um cronograma das aulas e ensaios que ela mesma havia feito. — Eu reservei um dos estúdios para nós pelo resto da tarde.
— Você está levando muito a sério esses ensaios. — disse para a loira em tom de zombaria. estirou a língua na direção da ruiva e riu.
— Nós precisamos de foco, e para mim, a organização faz parte de se estar focada.
— Vou anotar essa frase na testa! — exclamei, ajeitando o meu collant e colocando na bolsa a minha sapatilha de ponta. Senti uma pontada no tornozelo e me sentei na cama para disfarçar, mas percebeu que eu não estava bem e ficou me observando.
— Eu vou indo na frente porque preciso conversar com o Miles. — disse, colocando sua bolsa no ombro e abrindo a porta do dormitório — Se ele continuar encarando o Cameron nos ensaios, o nosso número vai ficar uma porcaria.
Eu concordei com a cabeça e me voltei para a bolsa, torcendo para que a se esquecesse do que tinha visto.
— Você está bem? Eu soube do seu acidente na aula do .
— Não muito. Estou com uma inflamação no Tendão de Aquiles, mas estou resolvendo isso.
Todos os dias, eu vou escondida para o consultório do médico da Wings para a sessão de fisioterapia. Apesar de estar desconfiado de que eu ainda esteja dançando, ele não tomou nenhuma providência. Tenho pensado no que farei no momento em que ele resolver investigar o que tenho feito antes e depois das sessões de fisioterapia.
— A sabe disso? — indagou, parecendo já saber a resposta.
— Sim.
— Você ainda não confia muito em mim, não é? — ela perguntou, mordendo os lábios de um jeito incerto.
— É que tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que eu nem sei mais em quem confiar. Me desculpe, é que até algumas semanas atrás nós éramos inimigas. — e acho que você está trabalhando com a Deborah, completei em pensamentos.
Ela assentiu com a cabeça, parecendo um pouco chateada.
— Eu entendo. Espero que um dia possamos ser amigas de verdade.
— Eu também espero. — dei um meio sorriso.
Nós caminhamos juntas para a aula, mas não tocamos mais no assunto. Eu poderia ser franca e perguntar a se ela tem algum envolvimento com a Deborah. Talvez ela queira mesmo ser minha amiga, talvez me conte tudo o que está acontecendo, mas eu não tenho coragem de perguntar. Tenho medo de que ser franca com ela faça com que a Deborah piore as coisas para ela ou para mim.
Ou para o .
Fui para o estúdio de dança onde dava suas aulas e seguiu para a aula com o . Nós nos despedimos e ficamos de nos encontrar para almoçarmos juntas.
Quando cheguei, o estúdio já estava cheio. me olhou por alguns segundos, mas abaixou o olhar de um jeito que me deixou bem arrasada.
Cumprimentei Cameron de longe, coloquei as minhas sapatilhas e guardei a bolsa num canto antes de ir para a barra me aquecer.
Enquanto eu me aquecia, a minha cabeça permanecia bem longe dali. Eu precisava terminar logo com o , pois o prazo da mensagem já estava quase esgotado. Apesar de me manter distante dele, eu sabia que não era o suficiente para a Deborah. Nunca seria.
Eu tenho que fazer isso.

[...]
Saí da aula do praticamente correndo, levando em conta o estado do meu tornozelo, que latejava demais. Ele até que tentou falar comigo, mas eu previ seus movimentos e corri para fora sem ao menos tirar as sapatilhas.
Durante o almoço, Miles e conversavam civilizadamente. Ele estava nervoso pois Emily, a garota que ele parecia estar afim, também faria a próxima avaliação conosco.
— O que eu faço agora? — ele indagou, de boca cheia.
— Você pode começar convidando-a para almoçar conosco amanhã. — sugeriu, revirando a comida em seu prato de um lado para o outro.
— Ficou doida? — Miles perguntou com a voz esganiçada, engasgando com a comida e tossindo loucamente.
— Você quer descobrir o que sente por ela? Pois bem, faça o que eu te disse sem contestar.
Eu e nos entreolhamos com a resposta de . Ela era sincera ao extremo, e Miles apesar de se sentir contrariado, parecia gostar disso.
— Tudo bem, dona da verdade. — Miles bateu continência e deu um gole na sua lata de refrigerante diet.
— Eu não sou a dona da verdade.
— Você fala de mim com a Emily, mas nunca convidou o para almoçar. — disse ele, em tom de desafio.
— Porque ele é meu professor! Isso não tem cabimento, Miles. — revirou os olhos, mas pude jurar que vi as suas bochechas corarem.
— Mas é claro que tem! Todo o mundo aqui sabe que você gosta dele. Tudo bem gostar do loirinho, aqui na mesa todos concordam com o fato de que ele é um pedaço de mal caminho.
— Eu concordo mesmo. — admitiu , se metendo no assunto — Ele é um gato. Pena que eu ainda gosto do .
— Mesmo que eu goste dele, é platônico. Prefiro me concentrar em ser uma ótima artista do que ficar pensando em caras, principalmente em algo que eu sei que nunca vai acontecer.
— Nunca diga nunca. Quando é para ser, acontece. Não tem jeito. Você ama a pessoa e isso te consome tanto que você não consegue mais separar o que é certo do que é errado. Não dá para se conter. — eu disse, pensando em e em tudo o que tínhamos vivido. Meu coração se apertou e eu senti uma vontade louca de chorar.
— Ai meu Deus! — Miles gritou, rindo um bocado — A tá apaixonada pelo !
— O que? Mas é claro que não! — neguei, sentindo que o meu coração estava quase saindo pela boca. O Miles ainda não sabia de nada, e eu queria que tudo permanecesse igual, pelo menos por enquanto.
— E esse discurso inspirado e apaixonado foi pra quem então? Pra mim? Eu sei que sou irresistível, ainda mais agora com meu novo visual hétero, mas eu ainda sinto atração por homens e estou tentando entender o que sinto pela Emily então não se iluda.
— Você é um idiota! — exclamei, jogando algumas fritas do meu prato em cima do meu amigo. Ele gargalhou de um jeito engraçado que me contagiou instantaneamente. Logo, toda a nossa mesa estava repleta de gargalhadas. As pessoas que passavam olhavam para nós como se fôssemos loucos, mas eu não me importei. Pela primeira vez eu consegui sorrir sem medo do que as outras pessoas iriam pensar, e isso me fez um bem danado.
Cameron passou pela nossa mesa com a bandeja já vazia. Miles lhe lançou um olhar enviesado que Cameron fez questão de ignorar.
Nem tudo estava bem entre nós, mas eu ainda tenho esperanças de que pelo menos a nossa amizade vai curar todas as feridas.

[...]

A minha consulta com o médico foi estranha. Ele parecia tenso enquanto fazíamos a fisioterapia rotineira, mas tentei não ligar muito. Todos nós temos dias ruins dentro da Wings, acho que essa regra não se aplica só aos alunos.
Eu caminhava até o estúdio de dança que havia reservado para o nosso ensaio de forma desleixada e distraída. Já passavam das 15h e os corredores pareciam assustadoramente vazios, mas essa sensação se intensificou depois que a Deborah praticamente se materializou na minha frente.
Ela sorriu, cruzando os braços acima do peito, e trazia consigo uma postura de superioridade que me irritou.
— Como foi à consulta com o médico? — perguntou, se aproximando um pouco mais de mim.
— Ótima, como sempre.
— Eu soube do seu tornozelo. — disse ela, com sarcasmo — Eu sinto muito.
Mas dava para ver pelo tom de voz que Deborah usou que ela não sentia nada mesmo. Nem pelo meu tornozelo, e provavelmente por coisa alguma.
— Eu tenho que ir. Estou atrasada para o ensaio. — eu disse, tentando passar, mas Deborah se pôs a minha frente com uma expressão que me deixou nervosa. Seus olhos pareciam lâminas afiadas, e me olhavam como se pudessem me perfurar a qualquer momento.
— Sempre tão aplicada... O que será que as pessoas pensariam se soubessem que a perfeita e talentosa não é tão perfeita assim?
— O que você quer dizer com isso? — indaguei, já imaginando o que ela diria a seguir.
— Quero dizer que você gosta de seduzir os professores.
— Eu não gosto de seduzir ninguém! Você está dizendo mentiras ao meu respeito e eu posso falar com o Sr. tudo o que você está fazendo! — exclamei, sentindo-me cansada de tantas ironias e ameaças.
Eu nunca planejei ficar com o . Eu não o seduzi! Simplesmente aconteceu.
— Qual dos você se refere? O pai ou o filho?
— Eu tenho que ir. — tentei passar mais uma vez, mas Deborah continuou bloqueando a passagem. Ela parecia triunfante, sabia que suas palavras estavam me atingindo e adorava isso.
— Sabe, , aquela mensagem que você recebeu é uma tentativa minha de te ajudar.
— Ajudar? — indaguei, com escárnio — Tudo o que você tem feito desde que eu cheguei aqui é infernizar a minha vida!
— O que você acha que vão pensar quando descobrirem o seu casinho com o ? Você será banida do concurso. Você pode não perceber, mas eu te observo desde que chegou. — disse ela, me desafiando com o olhar — Você não é tão talentosa, . Você nunca vai conseguir. Existem muitas pessoas mais talentosas do que você nesse concurso.
— Me deixe em paz! Eu vou fazer o que você me pediu, Deborah. Mas você não vai mais controlar a minha vida. — esbravejei, empurrando-a para o lado e andando firmemente pelo corredor. Ainda pude ouvir a sua risada às minhas costas, mas eu fiz de tudo para que aquele som não penetrasse a minha mente.

[...]
Precisei de alguns minutos para me recuperar da discussão com a Deborah, mas quando cheguei ao estúdio de dança, percebi que todo o meu grupo se encontrava jogado no chão de forma desanimada.
Essa avaliação parecia bem mais difícil e complexa do que achávamos que seria, e a nossa criatividade não estava ajudando como deveria. O nosso nível de entrosamento também não era dos melhores, levando em conta que Cameron continuava agindo de forma estranha.
— Acho que nós precisamos sair daqui. — disse, se levantando com a graciosidade de uma felina.
— Sair? Nós não podemos sair! — estrilou — E eu reservei o estúdio pelo resto da tarde, nós não podemos mexer no cronograma dessa forma.
— A nossa fonte de inspiração precisa ser encontrada, e eu tenho certeza de que não a encontraremos aqui na Wings.
— Eu concordo. — eu disse, me levantando também. Os outros, mais relutantes e desanimados do que eu, também se levantaram, inclusive a .
Andamos pelos corredores da Wings como se estivéssemos praticando algo ilegal. Afinal, nós estávamos prestes a sair da Wings de forma clandestina.
— Vocês acham que essa é uma boa ideia mesmo? Ainda temos tempo de desistir. — disse Emily, a crush de Miles, para nós.
, sem sombra de dúvidas a mais corajosa de todos nós, foi a primeira a se embrenhar no muro da Wings.
— Eu sou . Eu nunca desisto, principalmente quando tenho certeza de que a minha intuição está certa.
Os outros só assentiram com a cabeça.
Cameron parecia um fantasma. Ele agia como se fosse um robô, e aquilo estava começando a me assustar. Até agora estou tentando descobrir se ele está aqui conosco porque concorda com a teoria da , ou se está apenas no piloto automático. Estou tendendo para a segunda alternativa.
— Aqui nos fundos não tem câmera não, né? — indagou, temerosa.
— Não, é tranquilo. — revirou os olhos, impaciente — Relaxem e subam logo!
Eu e os outros fizemos o que pediu. Logo, estávamos do lado de fora da Wings.
— Para onde vamos agora? — perguntei, temendo ser vista por algum funcionário da Wings. Eu já estava metida em confusão dos pés a cabeça, não precisava de mais um motivo para ser punida.
Mas também não sabia para onde ir.
— Não acredito que saímos da escola à toa! — exclamou Miles, irritado.
— Não foi à toa, eu estou pensando. Me deixem pensar! — disse, colocando as mãos na cabeça.
— Porque apenas não caminhamos? Conheço um lugar bacana que me deu muita inspiração quando nos deixaram sair da Wings para passear. — Cameron sugeriu, abrindo a boca pela primeira vez no dia e surpreendendo a todos.
— E que lugar seria esse? Um onde só deixam idiotas entrarem? Porque se for, você deve ter passe livre! — esbravejou Miles, ainda mais irritado do que antes.
— Olha Miles, eu sei que eu errei em agir como um idiota. Me desculpe por tudo. Me desculpem por tudo. Eu tive os meus motivos para fazer o que fiz e agir como agi, mas o carinho que sinto por todos vocês é tão grande que eu só quero proteger cada um, e se eu tiver que agir como um babaca só para que vocês fiquem seguros, é assim que eu irei agir.
— Isso foi muito profundo, Cam. — disse , emocionada.
— Você está desculpado, mas avise quando for ser um babaca, por favor. — Miles disse, parecendo aliviado com a sinceridade de Cameron.
— Pode deixar.
Os dois sorriram um para o outro antes de se abraçarem.

[...]

Fomos parar num dos lugares mais lindos e escondidos que eu já havia visto. Tenho certeza de que este lugar nunca apareceu nos catálogos de turismo de Londres.
Havia um jardim florido e um gramado verde vivo que fez os meus olhos brilharem. Também havia uma lagoa que ficava linda com os fracos raios de sol que a iluminavam. Assim que avistamos esse lugar nós soubemos que era aqui que criaríamos a nossa próxima apresentação.
Eu e Miles começamos criando algumas ideias, e como eu tinha trago meu celular, comecei a fazer um pequeno esboço do roteiro de ideias da nossa apresentação. já pensava nas músicas e nas coreografias junto com e Cameron enquanto Emily pensava em como seriam construídas as falas que já tínhamos criado para o nosso número.
O nosso entusiasmo era tão grande que a atmosfera parecia estar modificada. Eu consegui esquecer dos meus problemas e pela primeira vez no dia, me foquei no que realmente importava.
Ficamos lá quase a tarde inteira, e quando nos cansamos, ficamos sentados lado a lado observando o pôr do sol. Miles e Emily, que pareciam mais próximos do que nunca, caminhavam e conversavam como se fossem amigos de longa data. Eu e , que observávamos com afinco o pseudo casal, demos um sorriso cúmplice.
Cameron ainda permanecia distante de mim, apesar de ter interagido comigo. Eu acho que ele queria me contar o que estava acontecendo, mas ainda não se sentia preparado para isso, e eu iria respeitar o seu momento. Na hora certa ele viria falar comigo, disso não tenho dúvidas.
Agora que estou aqui compartilhando esse momento de felicidade com os meus amigos, eu me dei conta de que eu precisava conversar com o hoje. Disfarçadamente, peguei o telefone e mandei uma mensagem para ele.
Me encontre no estúdio de dança 3 daqui a 1 hora. Precisamos conversar.
— Vem, vamos dançar, ! — se levantou, puxando-me pela mão logo em seguida.
Miles, que havia se aproximado de nós com a Emily, colocou uma música agitada para tocar. Logo, todos nós, até mesmo Cameron, estávamos dançando loucamente pelo gramado. Nossos passos de ballet eram genuínos e leves, mas felizes ao mesmo tempo.
fez uma série de piruetas e Cameron a seguiu, e logo todos fazíamos uma série de piruetas desconjuntadas por conta do acesso de riso que nos atingiu.
O meu celular vibrou no bolso com a resposta de .
Ok. Foi tudo o que ele respondeu.
O meu coração se apertou e o momento de felicidade se partiu.
Era a hora de acabar com o que tínhamos.
Para sempre.

[...]

Entrei no estúdio de dança com o coração já retumbando dentro do peito. já estava lá me esperando, e eu podia ver a apreensão em seu rosto. Fiquei um tempo admirando-o, já que ele estava tão perdido em pensamentos que ainda não tinha me visto. Ele era lindo, e tinha um coração cheio de marcas, mas também era uma das pessoas mais doces que eu pude conhecer.
Seria doloroso, mas era melhor assim.
Para nós dois.
— Oi, eu não te vi parada aí. — disse, meio nervoso — Achei que você não se cansaria de me evitar.
, nós precisamos conversar. — falei sério enquanto entrava na sala.
— O que aconteceu? — ele perguntou, parecendo aflito — A Deborah fez alguma coisa com você?
Respirei fundo antes de começar a falar. Eu sabia que isso seria uma das coisas mais difíceis que eu faria na vida, mas eu tinha que ser dura. Eu o amava, mas agora que eu sei do que a Deborah é capaz, não quero mais arriscar. Ela é perigosa.
Não é só com a minha carreira ou com o concurso que eu me preocupo. Na verdade, essa é a última preocupação que eu tenho na cabeça. O problema, é que agora eu sei que a Deborah pode ser capaz de qualquer coisa, e eu não quero que o saia ferido por minha causa.
— Não, eu só percebi que isso não está mais funcionando.
— Isso o que?
— Eu me tornei uma pessoa muito distraída, e eu acho que isso não é bom para a minha carreira. Eu acho que nós dois não vamos dar certo. — eu disse, sem responder a sua pergunta.
Seu semblante mudou e ele ficou decepcionado e desesperado ao mesmo tempo. Senti o meu coração se apertar dentro do peito e meus olhos começaram a arder. Eu queria chorar, mas não podia.
Eu tinha que ser forte por nós dois.
— E porque você acha isso? Eu entrei nessa de cabeça no momento em que eu soube que nós podemos superar isso e sermos felizes juntos. Eu posso ser mais cuidadoso, nós dois podemos ser mais cuidadosos. Eu prometo a você que...
, eu sinto que você vai arruinar a minha carreira. A cada avanço que eu dou, é como se você me puxasse mais para trás, e eu não quero mais que isso interfira no meu desempenho aqui dentro. — eu disse, sentindo que não suportaria mais tanta dor.
A expressão de ficou ainda mais triste e confusa do que já estava. Ele parecia tentar entender tudo o que estava acontecendo, mas eu não podia dizer a ele que a Deborah tinha me ameaçado. Eu não podia fazer com que ele se sentisse culpado por isso e nem encoraja-lo a fuçar mais o passado dela.
Independente dos problemas mentais de Deborah, eu sabia que ela era perigosa.
— É isso o que você pensa? Você parecia muito certa sobre nós há algumas semanas atrás. O que te fez mudar de ideia? — ele perguntou, tocando meu braço com delicadeza. Eu pensei que fosse derreter somente com o seu toque, mas me mantive firme. Eu precisava ser firme.
— Eu não quero ser só talentosa, . Eu quero ser a melhor, quero ganhar esse concurso. — eu disse, me lembrando das palavras que Deborah despejou em cima de mim essa tarde — Acha mesmo que namorando com você eu vou ter a chance de conseguir isso?
— Eu sei que você ficou um pouco receosa por conta da Deborah, mas eu não sabia que era isso o que você pensava de mim. De nós. — respondeu, parecendo ressentido. Seus olhos estavam tão marejados como os meus, mas igual a mim, ele não ousou soltar uma lágrima sequer.
— Eu te amo, . — eu disse com tristeza — Mas nós não podemos ficar juntos.
— Tudo bem, . Eu te entendo. Não vou mais te atrapalhar. A partir de agora, nossa relação será somente de aluna e professor.
Nós dois ficamos nos olhando por alguns segundos. Eu não queria dizer adeus, mas precisava. Ele tinha entendido o meu lado, mas não fazia ideia de que esses meus motivos não tinham nada a ver com o nosso término.
— Adeus.
Foi a última coisa que eu disse antes de deixar o estúdio 3 em frangalhos. As lágrimas desciam do meu rosto com uma veracidade fenomenal, e meu peito parecia que iria explodir de tanta raiva e tristeza.
Por que as coisas tinham que ser tão difíceis? Se duas pessoas se amam de verdade e querem ficar juntas, porque tudo se torna tão complicado?
Se não estamos destinados a ficar juntos, porque nos apaixonamos? Por que?
Acho que eu nunca saberei a resposta dessas perguntas.
Mas, talvez eu saiba o motivo de ter acabado de ver a Deborah apertando o braço de e a minha melhor amiga de New Haven logo atrás das duas, como se estivesse totalmente perdida e desolada.
O que será que está acontecendo com essa escola?


Capítulo 30 - O Diário

, o que está fazendo aqui? — pergunto sem demonstrar o quanto estou confusa com a situação. Seus olhos estão marejados e meu coração se contorce dentro do peito ao sentir que algo ruim está acontecendo.
— É o seu pai, . Ele mentiu para você. Ele está muito doente no hospital.
Uma nova onda de desespero domina todos os membros do meu corpo e a falta de ar que me atinge é abrasadora. Minhas mãos começam a tremer e eu preciso me apoiar na parede para obter algum equilíbrio.
— Mas... O que ele tem? — perguntei com dificuldade, enquanto me amparava.
— Ele precisa de um transplante de coração urgente. Descobriram que as quedas e desmaios foram causadas por um problema de coração difícil de detectar. Como é um problema que quase não aparece nos exames, quando é descoberto, já é quase muito tarde para tratar. A única opção dele é o transplante. Porém, a cirurgia é muito cara e nem ele e nem seus tios conseguem pagar. Ele está entre um dos primeiros na lista de transplantes, mas sem o dinheiro, os médicos não poderão operar. — disse ela, segurando em meu braço. — A sua recuperação também vai ser um pouco cara, pois ele terá que fazer um acompanhamento, sem contar os medicamentos que seu pai terá que tomar.
— Quanto é a cirurgia?
Eu tinha umas economias guardadas em New Haven para o caso da minha carreira não dar certo e emergências. Não era muito, mas meus pais sempre me ajudaram depositando uma quantia para mim.
— Digamos que é muito mais do que as suas economias possam pagar.
— Eu preciso vê-lo, mas eu não sei se o diretor vai me deixar ir dessa vez. — eu disse, dando meia volta para bater na porta de seu escritório. Já era um pouco tarde, mas eu esperava encontra-lo por lá — Eu tenho que pensar em uma forma de conseguir esse dinheiro.
O concurso ainda estava um pouco longe de acabar, então eu não tinha como contar com o dinheiro do prêmio e nem tinham garantias de que eu conseguiria mesmo ganhar.
Bati na porta de e esperei que ele me atendesse.
O diretor abriu a porta com uma cara de poucos amigos, mas permitiu que eu entrasse em seu escritório. Respirei fundo e contei o que estava acontecendo, esperando que ele entendesse a gravidade da situação.

[...]

tinha conseguido um voo de última hora para mim, e . Eu me senti mal quando o diretor disse que o não poderia me acompanhar dessa vez, mas eu entendi. Nós tínhamos terminado, e eu não posso mais me dar ao luxo de querer a sua companhia, apesar do meu coração teimoso ainda insistir em estar ao lado dele.
O acordo que eu fiz com o era o mesmo da outra vez: passar a noite e ir embora no dia seguinte.
Quando embarcamos, já era quase 3 horas da manhã. cochilava em sua poltrona, ouvia música e eu não conseguia nem colocar meus fones em meu ouvido. A única coisa que habitava o meu pensamento era a visão de meu pai debilitado numa cama de hospital.
— Eu sei que essa é uma pergunta meio idiota, mas você está bem? — perguntou, retirando os fones do ouvido e sorrindo para mim de forma amistosa. Fiz que não com a cabeça — Vai dar tudo certo, . Tenho certeza disso.
— O Sr. te contou o que aconteceu com o meu pai?
— Sim, ele contou. Eu sei que é difícil se manter otimista numa situação dessas, mas às vezes as coisas se resolvem de um jeito que nós não entendemos. — disse ele, de um jeito bem enigmático.
— Você acha que existe um jeito de conseguir o dinheiro para o meu pai? — perguntei, me sentindo um pouco mais esperançosa, mesmo sem saber direito o porquê.
— Claro que sim! Só o fato de ele estar entre os primeiros na lista de transplantes só melhora as suas chances. — sorriu, transbordando otimismo.
— Eu li um pouco sobre o procedimento antes de embarcar e descobri que existe uma possibilidade de que o corpo dele rejeite o coração. Eu não quero estar com medo, mas estou. Eu não posso perdê-lo. Eu já perdi a minha mãe, não quero outro funeral na minha vida. — suspirei, me sentindo nervosa e triste quando a imagem de minha mãe inconsciente numa cama de hospital apareceu em minhas lembranças.
— Seja otimista, . Sabe, foi o que me pediu para tomar seu lugar nesse voo. Eu soube que vocês terminaram e acho que vocês dois ainda tem muita história pela frente. Tudo pode se resolver depois que esse concurso acabar.
— Você acha que nós ainda temos uma chance?
Meus olhos se encheram de lágrimas quando me lembrei da última vez que estive em New Haven. estava comigo, e eu me senti bem mais segura ao seu lado.
— Sim, eu acho. Eu nunca vi o apaixonado desse jeito desde Madison Laine, uma caloura do ensino médio que ele era meio obcecado. Ele vivia compondo músicas para ela, mas a garota vivia dando mole para o e pro . — nós dois demos uma risada baixa enquanto uma imagem de um franzino e apaixonado surgia em minha mente.
— Então esse deve ter sido o seu primeiro coração partido.
— Sim, você tinha que ter visto como ele ficava nos ensaios da banda. — disse, o rosto banhado por lembranças boas.
— O me contou sobre a banda. Ele estava compondo uma música nova, acho que vocês deviam voltar a tocar. O McFly sempre fez muito bem a ele.
pareceu pensar um pouco no que eu disse antes de responder:
— Vou falar com os caras para ver o que eles acham, mas eu gostei da ideia.
Nós dois sorrimos um para o outro e eu me virei para a janela. Eu ainda sentia medo, tristeza e nervosismo, mas não me sentia mais sozinha e desamparada.
Eu sabia que estava comigo. Afinal, se ele enviou para representa-lo, é um sinal de que ainda não há nada a temer.

[...]

Quando cheguei ao hospital, já eram 8 horas da manhã. Eu não tinha comido nada e só cochilei um pouco no avião depois que eu comecei a ouvir música. Meu calcanhar não estava doendo e eu agradeci pela trégua que ele estava me dando.
me abraçou alegando que voltaria mais tarde para me ver, restando apenas eu e .
O hospital estava um pouco mais agitado naquele dia: ambulâncias paravam de tempos em tempos na frente do hospital e pessoas com diversos tipos de ferimentos entravam deitadas em macas. Os médicos que as acompanhavam corriam para salvar suas vidas enquanto faziam alguns procedimentos.
Conversei com a minha tia quando a avistei e ela me disse que estava tentando arrecadar o dinheiro com o restante dos familiares e amigos e eu me prontifiquei em ajudar. Os médicos vieram me explicar a situação de meu pai, o que me deixou um pouco mais nervosa de início. Eles foram bem calmos e honestos, mas me passaram tanta segurança que eu consegui me sentir um pouco mais tranquila.
Encontrei meu pai deitado na cama cochilando. Ele estava tão pálido que até a sua boca tinha perdido um pouco a cor. Subitamente, senti raiva dele por ter escondido de mim a sua real situação.
Ele abriu os olhos, e me fitou de um jeito meio surpreso. Com certeza meu pai não estava esperando uma visita minha. O olhei em desaprovação, mas quando ele começou a chorar, eu corri até a sua cama e o abracei fortemente.
— Nunca mais minta para mim, ouviu bem? Nunca mais! — exclamei, já sentindo as lágrimas molhando meu rosto.
— Me desculpe, minha filha. — ele disse, com a voz embargada enquanto tentava manter o bom humor — Eu não queria te incomodar com os meus problemas de velho.
— Eu sou sua filha, pai... eu tenho o direito de saber de tudo o que acontece com você. Sejam coisas boas ou ruins. — ele assentiu com a cabeça e eu me sentei na ponta de sua cama e segurei a sua mão.
— O meu plano de saúde esgotou com as internações.
— Não se preocupe com isso, nós vamos dar um jeito. — afirmei, determinada — Eu não vou perder você.
— Não, não vai.
Papai sorriu para mim enquanto apertava a minha mão. Ele estava fraco e debilitado, mas ainda assim conseguia manter um pouco o seu bom humor. Eu sabia que a sua situação não era muito favorável, mas eu precisava manter o otimismo.
Meu pai é a única família que eu tenho agora. Apesar de ter meus tios e avós, eles moram distantes de mim. A minha tia está aqui ajudando a cuidar dele, mas não é a mesma coisa. Eu sinto tanta falta da minha mãe que às vezes sinto como se fosse ontem que ela tivesse me deixado. Eu não quero ter que sentir o mesmo com o meu pai, não quando eu ainda posso lutar para que ele tenha uma chance, não enquanto ele ainda estiver disposto a lutar pela sua vida.
Um dos médicos entrou no quarto de papai pedindo licença. Os poucos segundos que a porta permaneceu aberta eu pude observar falando ao telefone de forma animada. Ele sorria, e parecia bastante feliz.
A minha tia, que estava do lado dele, também parecia bem animada.
— Senhorita , eu tenho novidades para vocês. — disse o doutor Hendrick, sorrindo enquanto fechava a porta do quarto.
— Novidades? Que novidades? — perguntei com aflição.
— A primeira é que recebemos uma ligação anônima de um homem que vai doar toda a quantia para a cirurgia, medicamentos e tratamentos do seu pai. — arregalei os olhos, sem saber se o médico estava mesmo falando a verdade ou se era tudo uma brincadeira.
— Meu Deus! Quem faria algo assim por nós?! — exclamou papai, me olhando de modo abismado.
— Um homem muito bondoso. — disse o doutor, sorrindo — A outra novidade é que ele quer que o senhor seja transferido para o melhor hospital de Londres, o Hospital de St. Mary, Londres. O doador quer que você fique perto de sua filha e quer que ela possa se concentrar no senhor sem se distanciar do concurso.
Meu coração deu um solavanco no peito enquanto lágrimas de emoção se acumularam em meus olhos. Eu tinha certeza de que o doador anônimo era o .
— Que notícia maravilhosa! — papai disse, o rosto iluminado e mais feliz do que nunca.
— Mas uma viagem de avião não é arriscada para ele? — indaguei, o coração ainda acelerado dentro do peito.
— Tem alguns riscos, mas haverá uma equipe excelente de profissionais que cuidará disso.
— A transferência dele será quando? Já tem alguma previsão?
— Vai ser ainda essa semana. Já estamos em contato com o St. Mary e assim que tivermos a data passaremos para vocês.
— Muito obrigada, doutor. — eu disse, ainda sentindo-me surpresa com a avalanche de notícias boas que surgiram.
A minha tia abriu a porta do quarto com um sorrisão. Ela já sabia das boas novas, e iria viajar com meu pai para cuidar dele em Londres.
Eu sabia que fora que havia feito a doação. O jeito como ele se preocupou em me manter perto do meu pai só me mostrou o quanto ele me ama. Eu me sentia culpada pelo jeito como tinha terminado as coisas com ele, pois eu realmente fui muito dura e exagerei nas palavras. Ele não merecia ser tratado da forma como eu o tratei.
, você já comeu? — minha tia perguntou, já tirando algo de dentro do bolso de sua calça — Tome esse dinheiro e vá comer algo na lanchonete.
A minha barriga roncou quando pensei em comida, então tratei de dar um beijo em meu pai e ir para a lanchonete que tinha do lado de fora do hospital.
Encontrei comendo um sanduíche com guaraná natural e me sentei ao seu lado assim que comprei o meu lanche.
— Foi o , não foi? — perguntei assim que me sentei ao seu lado. me encarou de modo surpreso.
— Como você sabe?
— Não tem como não saber. — dei uma risadinha antes de morder meu sanduíche com vontade.
— Ele já estava pensando em fazer isso quando me pediu que viesse com você. Ele só queria que eu conversasse com um dos médicos primeiro sobre toda a parte financeira antes de tomar uma decisão.
Eu abri um sorriso enorme enquanto pensava nele, planejando as coisas em seu quarto. Meu coração doeu quando me lembrei da forma como o tratei, mas tentei me convencer de que por ora, o melhor era ficarmos afastados um do outro.
— Ele é inacreditável.
— Sim, ele é. Por baixo de toda aquela pose de ogro existe um cara doce e gentil que se importa com as pessoas que ele gosta. — disse ele, bebendo o que restava do seu guaraná.
— Eu queria tanto poder retribuir toda a ajuda... — apoiei o queixo em minha mão enquanto olhava para um ponto fixo, tentando pensar em algo.
— Você já retribuiu. Contei pra ele e para o e o que vamos voltar com o McFly. O ficou bem empolgado. — eu me senti mais aliviada quando disse que a banda voltaria, pois sempre se sentiu incompleto sem essa parte de sua vida, que lhe foi tirada contra a sua própria vontade.
A música era como se fosse um pedaço muito grande de , assim como o ballet era a minha, portanto, eu o entendi quando ele disse que sempre sentiu falta de tocar com os seus amigos. Espero que dessa vez ele não deixe com que tirem sua parte favorita de seu coração.
e eu terminamos nossos respectivos lanches em silêncio, e eu senti que o som que nossos pensamentos produziam poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância.

[...]

Quando voltei à Londres meu coração estava um pouco mais calmo. Em poucos dias meu pai estaria perto de mim esperando que algum doador compatível apareça para que ele possa fazer seu transplante de coração.
Eu me despedi dele, da minha tia e de com a promessa de que as coisas iriam melhorar. Agradeci a minha melhor amiga por ter cruzado outro país somente para me contar o que estava acontecendo, já que se não fosse por ela eu estaria achando que o meu pai estava bem.
A primeira coisa que eu fiz ao chegar foi me dirigir até a sala de . Eu sabia que tinha uma grande chance da Deborah estar a minha espreita, mas essa era a minha menor preocupação no momento.
Encontrei sentado à frente de sua mesa lendo alguns relatórios. Bati timidamente na porta e entrei, temendo que o professor frio que conheci tivesse voltado de vez.
— Posso falar com você por um instante?
— Claro.
parecia um pouco surpreso ao me ver, mas não me olhou com frieza. Eu sabia que toda a frieza e mau humor eram apenas mecanismos de defesa, mas confesso que me surpreendi ao ver que não tinha mudado comigo como eu achei que mudaria.
Decidi revelar logo o motivo de estar ali.
— Muito obrigada pelo que fez por mim e pelo meu pai. — eu disse, fazendo com que ficasse claramente surpreso.
— Eu não sei do que você está falando... — ele franziu o cenho e fingiu-se de desentendido enquanto mexia de forma desenfreada nos papéis de sua mesa.
— Por favor, não finja que não sabe. Eu sei que foi você que doou a quantia necessária para o meu pai poder fazer o transplante.
suspirou de modo frustrado enquanto largava os papéis de qualquer jeito na mesa.
— Como você soube?
— Ninguém no mundo se preocuparia comigo e com meu pai do jeito que você se preocupou. O fato de você querer me manter perto dele aqui em Londres para poder conciliar tudo foi o que me fez perceber que você era o doador. Muito obrigada, eu nem sei como retribuir tudo o que tem feito por mim. — falei, me sentindo inteiramente emocionada pelo seu gesto. Ninguém nunca tinha feito algo assim por mim, e acho que nada que eu faça poderá ser capaz de compensar isso.
Aparentemente, também estava emocionado, pois se levantou e deu alguns passos para frente, mas se deteve há poucos metros de mim. Percebi que ele levantou o braço para segurar a minha mão, mas desistiu. Por um momento eu quis que ele avançasse em minha direção, mesmo sabendo tudo o que estava em jogo.
...
— Eu quero me desculpar por ter dito todas aquelas coisas horríveis para você quando terminamos. Eu não sinto que você me atrapalha, nunca senti. O problema é que a Deborah tem me ameaçado com uma foto nossa e eu não queria te colocar no meio disso tudo. Ela me mandou uma mensagem de texto por um número descartável pedindo para que eu terminasse com você, do contrário, essa foto iria parar na mesa do diretor. — eu senti um enorme alívio no peito ao dizer tudo aquilo.
Quando eu estava no avião, eu tive muito tempo para refletir sobre tudo, e percebi que eu não tinha o direito de machuca-lo do jeito que eu machuquei. Haviam muitas maneiras de se conversar, e a abordagem que eu tinha usado foi muito cruel.
— Por que você não me disse nada? — indagou, com um brilho diferente no olhar. Ele parecia aliviado de certa forma, e aquilo me deixou um pouco mais tranquila.
— Porque você não poderia fazer nada. Eu não fui sincera em minhas palavras quando disse tantas coisas horríveis, mas eu senti que precisava ser dura e essa foi a única forma que eu encontrei.
— Então vamos combinar uma coisa? — fiz que sim com a cabeça quando um de olhar determinado me fitou — Por favor, nunca mais me esconda nada. Vamos continuar nos mantendo afastados, mas eu te prometo que vou fazer o possível para excluir qualquer prova que a Deborah tiver contra nós. Nós voltaremos a ficar juntos, . Eu não vou mais deixar ninguém nos separar.
— Eu confio em você.
Nós nos olhamos intensamente. Meu coração acelerou, e mesmo não estando colada nele, eu sabia que seus batimentos cardíacos também estavam acelerados. Eu só queria abraça-lo, mesmo sendo errado, mesmo não sendo permitido. Eu só queria esquecer todas as consequências e me jogar de cabeça nisso mais uma vez.
— Eu sei. Vou tentar manter contato pelo Whatsapp sempre que der. — ele disse, confiante.
— Tudo bem.
— Isso não é um adeus. É um até logo.
roçou sua mão na minha de forma leve e eu vi estrelinhas. Seu rosto estava corado e lindo, e eu me lembrei de quando eu o assistia dançando e cantando suas brilhantes peças de teatro na tela da TV com a minha mãe. O brilho no olhar era o mesmo, só que mais intenso, e fazia o meu coração querer se desmanchar.
Eu sabia que esse não era o fim da nossa história.
Saí da sala de com o coração um pouco mais tranquilo. Eu ainda tinha uma penca de problemas, mas pelo menos uma parte dele estava se encaminhando para uma solução.
Entrei no meu alojamento me sentindo exausta. , que fazia algumas abdominais no chão do nosso quarto, se levantou num rompante quando me viu.
— Eu soube do seu pai. — ela disse, me abraçando — Como você está?
— Melhor. — dei um meio sorriso e comecei a contar a minha amiga tudo o que tinha acontecido: desde o término com até a parte em que fui agradecer a meu nem-tão-ex-namorado tudo o que tem feito por mim.
Quando terminei o meu relato, a minha amiga estava pensativa demais, e não era por causa da nossa próxima avaliação.
— Você disse que viu a Deborah e a numa espécie de discussão, não é? Eu ando desconfiada da e não é de hoje, porque eu sempre a vejo perto do alojamento dos professores. Sério, . Enquanto você não estava, eu a vi rondando a porta do quarto da Deborah umas três vezes. Não tenho dúvidas de que as duas estão aprontando alguma. — disse , séria. Seus olhos verdes quase não piscavam, e ela parecia preocupada.
— Qual ideia você teve?
— Entre cinco e seis da noite a Deborah sempre sai pra dar uma caminhada ou rodar bolsinha, vai saber o que aquela louca faz com o tempo livre dela. — disse, mexendo as mãos de um lado para o outro, dando-me um vislumbre de suas unhas vermelhas.
— Foco, Chels.
— Eu pensei em invadirmos o quarto dela, eu já sei onde a bruxa guarda a chave reserva do seu alojamento.
— E o que faremos quando entrarmos lá? — perguntei, me sentindo aflita só de pensar — E se formos pegas?
— Vamos procurar alguma coisa que a incrimine. Ou podemos tentar achar a tal foto sua que ela tirou com o . Talvez a Deborah tenha um diário onde ela conte todos os detalhes obsessivos da sua vida, vai saber... O que não podemos é ficar de braços cruzados. Nós temos que fazer alguma coisa, . Você precisa fazer alguma coisa.
As palavras de ficaram martelando na minha cabeça pelo pouco tempo em que fiquei olhando para ela. Eu sabia que era um plano arriscado, pois poderíamos ser pegas por muitas pessoas, como alunos baderneiros, espiões da Deborah (acho que ela não tem só Camerom e como seus aliados), funcionários da Wings e os outros professores. Eu sei que as chances do e do me dedurarem são mínimas, mas eu não posso abusar da sorte.
Além do mais, eu já estava atolada de problemas e não queria adicionar mais um a lista. Se a Deborah nos flagrar, pode ser a sua chance de acabar com a minha carreira aqui dentro e de quebra ainda vou levar a junto comigo.
Por outro lado, se eu não tentar fazer nada, vou ficar a mercê das chantagens de Deborah por tempo indefinido, pois não tem como eu saber por quanto tempo ainda ficarei no concurso. O plano de era bem arriscado, mas pelo menos eu estaria tentando tomar as rédeas da situação em que me meti. E, se a Deborah se sentia completamente capaz de tirar a minha paz, então eu poderia me sentir capaz de tentar pegar a minha paz de volta.
— E aí, o que você me diz? — passou a mão na frente do meu rosto para me acordar do pequeno transe em que eu me instalara.
Olhei para o relógio na mesinha de cabeceira. Os ponteiros marcavam 16:30.
— Temos que nos preparar. A bruxa logo vai sair.

[...]

A cada passo que nós dávamos eu sentia mais vontade de desistir. Nós não tínhamos pensado em um plano B, e nem no que falaríamos caso nós fôssemos pegas, e isso me deixava cada vez mais aflita.
Enquanto eu e caminhávamos fingindo que nada estava fora do normal, eu ouvi uma das melodias que mais me encantou no começo da minha trajetória da Wings.
‘Cause the heart never lies...
Em uma das salas, , , e tocavam e cantavam a música que havia criado. Meu coração se encheu de alegria quando eu vi que eles realmente estavam empenhados em voltar com a banda.
— Eles são tão lindos! — deu um gritinho.
— Sim, eles são, mas nós não podemos perder o foco agora. — eu disse, enquanto andava com a minha tranquilidade fingida.
A ruiva e eu pegamos um elevador e descemos no andar do alojamento dos professores. Não vimos , e o corredor estava vazio. Eu e ficamos atrás da porta das escadas de emergência esperando, mas a Deborah só resolveu sair de sua toca às 17:15.
Ela usava uma calça de ginástica, blusa de malha e tênis nos pés. Em seu ombro esquerdo, a loira carregava uma bolsa de porte médio que parecia estar abarrotada de coisas e Deborah falava ao telefone. Infelizmente eu não consegui ouvir direito o que ela dizia, porque o elevador que ela esperava não demorou a aparecer.
Assim que a bruxa desapareceu, eu e andamos até a porta do quarto de Deborah, e levamos um susto ao ver que estava ali.
— Eu sabia! — exclamou, apontando para a loira — Eu sabia que você estava trabalhando para a Deborah!
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou, assustada. Percebi que ela segurava um tipo de agenda velha na mão.
— Eu não acredito nisso! — esbravejei, me sentindo traída. Eu já desconfiava dela, mas ver com os meus próprios olhos o que meu coração ainda tinha esperanças de não ser verdade foi demais para mim — Nós confiamos em você, ! Como pôde?
— É, eu trabalho para a Deborah sim, mas me arrependo disso. Ela não quer me deixar em paz, eu já tentei sair, mas essa mulher é completamente louca. Eu entrei no quarto dela escondido para tentar ajudar a . Faz tempo que não estou mais do lado da Deborah. Vocês são minhas amigas, e eu quero ajudar vocês. — ela disse, e parecia sincera, mas eu não podia me dar ao luxo de acreditar assim tão facilmente.
— Me desculpe, mas não sei se consigo acreditar em você. — disse, se sentindo tão magoada quanto eu. abaixou a cabeça e passou a encarar a agenda em sua mão.
— Eu entendo se vocês não quiserem mais a minha amizade. — murmurou ela, olhando para nós de forma envergonhada — Olha, eu achei algo aqui que esclarece um pouco as suas dúvidas, .
— O que é isso?
— O diário da Deborah.
Eu e nos entreolhamos. A aflição e o nervosismo já circundavam todo o meu ser. Eu queria muito saber o porquê da Deborah ser assim, mas confesso que tenho um pouco de medo. A verdade é muito mais assustadora que a mentira, porque geralmente mentimos por aquilo que queremos ouvir, e não por aquilo que devemos escutar.
estendeu o diário aberto numa página específica em minha direção, e eu o peguei, temerosa. Me sentei no chão com ao meu lado e juntas, começamos a ler.

“Seja perfeita. Seja a melhor. É tudo o que eu sempre ouço dos meus pais. Será que eles não entendem que eu não aguento mais? Eu tento agradá-los o tempo todo, mas parece que nada do que eu faço é suficiente.
Hoje, no corpo de baile, eu tentei finalmente fazer a pirueta que a minha mãe disse que a deixaria orgulhosa. Ela chegou bem na hora em que eu girava, mas meu pé enroscou na minha sapatilha que tinha desamarrado e o desastre foi certo: eu caí, todo o mundo riu, e a minha mãe me olhou de um jeito tão raivoso que eu só senti vontade de desaparecer.
No carro, mamãe só sabia reclamar de mim. Disse que eu nunca vou ser a bailarina principal da companhia, e que eu nunca vou ser como ela, que nunca irei supera-la.
Ela está com uma fixação louca por uma aluna nova da companhia só porque ela tem tornozelos fortes e dança com leveza.
Grande coisa. Eu posso fazer melhor do que isso, só não sei por quanto tempo vou aguentar a voz irritante da minha mãe apontando todos os meus erros.”


Eu passei para a próxima página. Essa anotação era do dia seguinte:

“Juro que eu tento entender a minha professora de ballet, mas não consigo! Eu fiz um arabesque lindo, mas a professora só tinha olhos para os tornozelos de Rose, para a abertura de Rose, para os braços de Rose!
O pior de tudo é que essa ridícula estuda no mesmo colégio que eu e TODO o mundo gosta dela. Sério, as meninas no ballet não param de falar no quanto ela é linda, simpática e talentosa. Será que eu sou a única que vejo que ela é uma falsa?
Até a minha mãe se encantou pelo “talento natural” dela. Sério, ela me perturbou o caminho todo para fazer amizade com a garota, porque ela é muito boa e bla, bla, bla.
— Você viu a abertura de perna da Rose? Ela tem um futuro promissor no ballet, ao contrário de você que só vive comendo. Vai virar uma baleia! Eu vi como a sua abertura de perna está e te digo duas palavras: UM HORROR! Você é um desgosto, Deborah. UM DESGOSTO!
Foi tudo o que a minha mãe disse hoje para mim.
Hoje eu vou chegar em casa e nem vou comer nada, vou ficar só treinando para ver se melhoro um pouco. Eu não posso deixar aquela idiota ser melhor do que eu.
Não posso!”


Avancei mais alguns dias, nervosa. Eu tinha medo, mas acho que sabia quem era aquela Rose de quem a Deborah tanto falava.

“Porque você não é como a Rose ? Rose, fique na frente.
Parabéns, Rose. Você é a bailarina principal da companhia.
Rose, Rose, Rose.
EU A ODEIO!!
Ela conseguiu arruinar a minha vida. A minha mãe me odeia porque a Rose conseguiu tudo o que queria: agora ela é a bailarina principal da companhia e eu sou a substituta.
SUBSTITUTA!
Eu quero matar aquela garota, ela arruinou tudo! A minha mãe disse que eu sou uma inútil, e que eu não presto para nada, disse que queria ter gerido a Rose e que não quer nem olhar para mim.
Estou me sentindo um lixo.
Ah, Simon Dorley, o amor da minha vida, não me convidou para o baile de inverno do meu colégio.
Sabe quem ele chamou?
A ESTUPIDA DA ROSE !
COMO EU A ODEIO!”


Levantei a cabeça e olhei de para com os olhos marejados, porque se eu li mesmo direito e se isso não for uma tremenda coincidência, a pessoa que a Deborah odeia tanto e que é mencionada muitas e muitas vezes nas páginas desse diário, não é ninguém mais ninguém menos do que alguém que eu conheço.
É a minha mãe.


Capítulo 31 - Segredos Revelados?

, você está bem? ? — A voz de chegava aos meus ouvidos como um zumbido leve e distante.
Enquanto eu encarava as páginas cheias de ódio do diário de Deborah, eu tentava entender como eu tinha me metido naquela confusão. Quer dizer, as páginas daquele diário me diziam que a minha mãe e Deborah tinham sido colegas na escola e no ballet. Colegas não, rivais. Era muita coisa para assimilar de uma só vez.
— A Deborah e a minha mãe se conheceram. — eu disse, ainda me sentindo estranha por pronunciar isso em voz alta. — Ela tinha raiva e inveja da minha mãe.
— Avance para o dia 15 de outubro. — sugeriu , cuidadosa.
— Você sabia disso tudo o tempo todo? — perguntou, estarrecida.
Mas ao invés de respondê-la, ela se virou para mim e disse:
, nessas páginas você vai ver que o problema da Deborah é muito mais sério do que parece. Essa vontade dela de te destruir é muito maior do que uma simples vontade. É uma obsessão.
Olhei para o diário repousado nas minhas pernas com um medo absurdo de mergulhar ainda mais nos segredos de Deborah. Por um lado, eu gostaria muito de descobrir toda a verdade para entender porque a Deborah me odeia tanto. Porém, eu ainda tenho medo de enfrentar tantas revelações de uma só vez, e o olhar de me dizia que as coisas eram mais sérias do que eu pensava.
Senti um toque gelado em minha mão e percebi que era . Ela me dava um sorriso de encorajamento que me garantia que eu não estava sozinha. Eu quase podia ouvir a sua voz em meus pensamentos “Eu sou uma tigresa, eu vou te proteger” daquele jeito animado e determinado dela.
Folheei as páginas até chegar à data que a me falara.

Minha mãe está me levando para uma clínica psiquiátrica e garantiu que vai me visitar todos os dias. Eu estou me sentindo mal por largar o ballet e toda a minha vida, mas eu não tenho como fugir. Ela me trancou no quartou e fez questão de se certificar que eu não pularia a janela então eu não posso fazer nada. br> Estou no carro agora enquanto escrevo, odiando todos os dias os meus pais e a Rose. Eu só queria que ela morresse. Se a Rose não tivesse aparecido na minha vida, nada disso teria acontecido. Eu a odeio!
Empurrar a professora de dança e fazê-la cair da escada não era o que eu pretendia, só que ela me irritou. Aquela professorazinha de quinta não quis me deixar à frente do corpo de baile, e deu o papel principal de O Lago dos Cisnes para Rose. Eu tentei convencê-la de que eu era a sua melhor escolha, mas ela não quis me ouvir. Disse que eu era muito boa, mas não o suficiente. Disse que se eu quisesse, ela faria treinos extras comigo. Eu só sei que quanto mais ela tagarelava, mais eu tinha vontade de mata-la. A voz dela foi se tornando distante de mim, suas palavras foram se perdendo dentro da minha cabeça e um ódio tão grande me consumiu que eu senti que era sugada por uma escuridão muito maior do que eu. A única coisa de que eu me lembro, é de ouvi-la gritar.
Depois disso eu apaguei.


— Minha nossa! — exclamou , terminando a leitura tão rápido quanto eu.

Algumas alunas calouras viram quando eu a empurrei e começaram a gritar, desesperadas. Eu só lembro de ver o sangue escorrendo da cabeça da professora. Ela não morreu, mas está em estado crítico no hospital.
Meus pais dizem que vai ser bom ir para a clínica, todavia, eu sei da verdade. Eles não tiveram escolha. Eu só sei que ainda sinto raiva dentro de mim, e não sei lidar com ela. Eu precisei me controlar muito para não berrar com a minha mãe, mas a verdade é que eu só tenho vontade de socar tudo e todos.
Eu não sei por quanto tempo vou aguentar sem explodir.
A única coisa que eu sei é que a Rose ainda vai me pagar um dia.
Nem que essa seja a última coisa que eu faça.


Fechei o diário com brutalidade e saí do quarto de Deborah como um foguete. Ignorei os chamados de e corri, sentindo o peso de todas aquelas palavras dentro da minha cabeça. Parecia que meus ombros pesavam uma tonelada, e o meu crânio latejava.
Se a Deborah tinha empurrado alguém da escada, isso prova que ela pode ser capaz de muitas outras coisas. Ela é perigosa, como puderam liberá-la da clínica? Como?
Meus pés pararam abruptamente e eu me escorei na pilastra do primeiro andar para recuperar o fôlego. Meu estômago ficou embrulhado, e a minha cabeça girava. Eu só conseguia pensar na Deborah empurrando aquela professora da escada.
Uma outra questão começou a rondar a minha cabeça, e só o medo de pensar nisso fez a minha cabeça doer ainda mais.
Será que é possível que a Deborah tenha provocado o acidente que matou a minha mãe?
Eu sei que motoristas embriagados e imprudentes andam livremente por aí o tempo todo, e que infelizmente acidentes de trânsito são muito comuns de ocorrerem, principalmente na rodovia em que a minha mãe dirigia quando faleceu. Porém, alguma coisa dentro de mim me alertava que era coincidência demais para ser só uma coincidência.
, você está bem? — se aproximou de mim com um olhar preocupado.
— Tem uma página rasgada no diário. — disse, mantendo um pouco de distância de nós. Ela estava pisando em ovos conosco. — Eu acho que pode ser da noite em que a sua mãe morreu.
— Será que ela ainda tem a página do diário guardada em algum lugar? — perguntou olhando diretamente para mim e ignorando .
— Só se ela fosse muito burra em guardar algo assim. — respondeu , revirando os olhos e recebendo um olhar atravessado da ruiva.
Lágrimas vieram aos meus olhos quando a possibilidade de Deborah ter matado a minha mãe finalmente foi verbalizada em voz alta. Se ela realmente tiver feito isso, eu vou fazer questão de fazê-la pagar pelo crime que cometeu. Inveja e egoísmo podem destruir uma pessoa por dentro, mas ela destruiu mais do que a si mesma.
A Deborah tinha destruído a minha família.
— Então temos que fazê-la confessar. — eu disse, com uma determinação de aço que fez as outras duas estremecerem.

[...]

Semanas se passaram desde que eu descobri sobre a Deborah. Toda a vez que eu a via no corredor, com seu sorriso presunçoso e sua pose de narcisista, eu tinha vontade de gritar aos quatro ventos que ela era uma assassina. Eu sei que isso seria uma estupidez sem tamanho, mas o incômodo que aparece na boca do meu estômago toda a vez que eu a vejo é surreal, e é exatamente assim que eu me sinto agora.
Eu e a minha equipe estamos nos alongando para o nosso teste. Todas as equipes já estão se preparando no backstage, e os jurados estão conversando entre si.
, obviamente estava entre eles, mais lindo do que nunca. Meu coração doeu de saudade, especialmente porque não temos nos falado muito bem. Ele está ocupado com a banda, e eu estou ocupada com os meus próprios problemas. Só nos cumprimentamos de longe durante as aulas e trocamos alguns olhares discretos, e isso me deixava ainda mais triste.
— Prontos para brilhar? — Miles indagou, visivelmente mais animado do que eu e , que ainda estava meio excluída do nosso meio depois de confirmarmos que ela ajudava a Deborah.
Era difícil confiar em alguém que trabalhava junto com o inimigo, então eu pedi um tempo a ela para absorver todas as descobertas e planejar como eu faria para a Deborah confessar o que fez com a minha mãe. Eu precisava de provas ou de mais alguma pista antes de agir, só que eu não sabia como fazer isso.
— Eu estou nervosa, mas pronta. — disse a crush do Miles, dando-lhe um sorriso que fora retribuído com muito gosto.
Quando as apresentações começaram, todos nós ficamos em silêncio. Essa, de fato, seria a apresentação mais difícil que faríamos desde que entramos na Wings. Algumas equipes foram melhores do que outras, e alguns times tiveram um desempenho péssimo. era rígido ao olhar para as apresentações, e nos números de dança e encenação, eu pude vê-lo retorcer o rosto em uma careta de desagrado quando algum bailarino tropeçava nas próprias pernas ou usava uma entonação esquisita na hora de dizer alguma coisa.
Eu tinha medo de que ele também torcesse o rosto para mim.
— Boa sorte para nós. — Camerom disse assim que a nossa equipe foi anunciada.
— Boa sorte pessoal! — eu disse, abraçando e Miles.
A minha equipe se posicionou de forma confiante no palco. Era nítido que todos nós estávamos muito nervosos, mas se tem uma coisa que sabemos bem é como esconder o nosso nervosismo.
O meu olhar cruzou com o de e a saudade invadiu mais uma vez o meu coração. No entanto, meu olhar foi atraído para o rosto de Deborah, e todos os sentimentos bons que estavam dentro de mim foram drenados. Ela me deu um sorriso cínico e pela primeira vez na vida eu tive vontade de fazer um gesto obsceno para ela.
Os primeiros acordes da música que escolhemos para a nossa apresentação começaram a tocar e eu fechei os olhos por meio segundo para poder me concentrar. Tudo fluiu naturalmente entre nós, e nossa equipe logo entrou em sintonia.
Quando a apresentação acabou, eu tive a certeza de que tínhamos ido bem.
— Nós arrasamos! — disse Miles, abraçando sua crush. Eu e nos entreolhamos e demos uma risada.
— Agora temos que esperar o resultado sair. — eu disse, já me sentindo muito apreensiva.
— Da última vez demorou um dia só. — respondeu Camerom, tentando me tranquilizar.
, você pode vir comigo? — disse , com um olhar nervoso no rosto. Ela literalmente parecia que tinha visto um fantasma. Fiquei sem entender, mas assenti com a cabeça e me despedi do pessoal antes de segui-la para fora da sala de avaliações.
— O que aconteceu?
Ela abriu um dos seus melhores sorrisos animados.
— Eu vou me encontrar com o .
— Chels, você precisa parar de ficar atrás dele! Ele já deixou bem claro que não se envolve com alu...
— Ele me convidou! — ela disse, interrompendo-me — O me chamou pra sair com ele. Nós vamos sair escondidos, obviamente, mas vamos sair.
— Eu nem sei o que dizer! Estou muito feliz por você. — eu disse, me sentindo animada pelo finalmente ter cedido.
— O problema, é que a vai perceber que eu não estou no quarto. E se ela me dedurar?
— Eu acho que ela não faria isso. A parece realmente arrependida do que fez.
— Se você confiasse tanto assim nela, não estaria evitando-a.
— Eu não confio nela, mas também não acho que ela seria capaz de te ferrar, pelo menos não agora... Eu vou te acobertar, não se preocupe.
abriu um grande sorriso e me abraçou.
— Você é a melhor, !
A ruiva desfez o nosso abraço e saiu correndo pelo corredor, provavelmente essa pressa toda era para se arrumar.
— Tome cuidado! — gritei, ao que recebi da loira apenas uma risada muito da maliciosa.
No dia seguinte, eu me levantei cedo. já havia voltado e dormia feito uma pedra em sua cama. Ouvi uma gritaria do lado de fora e abri a porta, temendo que alguém tivesse invadido a Wings.
— Já saíram os resultados do teste, Little Rebel! — gritou Rebeca, enquanto empurrava algumas pessoas para poder passar.
Troquei de roupa feito um foguete, escovei os dentes e prendi meus cabelos de qualquer jeito antes de deixar o quarto. O nervosismo imperava em todas as minhas ações.
Cheguei ao quadro de avisos e tive que me espremer entre os demais para poder encontrar o meu nome e o dos meus amigos nos papéis pregados ali. Soltei um suspiro aliviado ao ver que a nossa equipe tinha recebido uma boa pontuação, e que eu tinha subido de colocação no ranking de desempenho.
Alguns alunos choravam próximo a mim, e se despediam uns dos outros. Os professores tinham reprovado muito mais alunos do que da última vez, e eu me senti mal pelos que não tinham conseguido.
— É assim que se faz, baby. — Miles disse, se materializando do meu lado de repente. Todos da nossa equipe tinham se salvado essa semana.
Logo em seguida vieram Camerom, e . Eles também ficaram felizes com os resultados, mas ao contrário de Camerom e , saiu da frente do quadro de avisos e se dirigiu para o refeitório cabisbaixa e sozinha.
Eu e os meus amigos seguimos para o refeitório logo em seguida. Miles ainda não entendia porque a estava tão afastada de nós, e Camerom já imaginava o porquê, mesmo que não verbalizasse isso.
Comemos em silêncio, e eu levei um susto ao ver que o meu celular tinha vibrado. Meu coração acelerou quando eu vi que tinha me mandado uma mensagem no whatsapp.
:
Me encontre na minha sala daqui a 5 minutos se puder.
:
Já estou a caminho.
— Onde você vai? — perguntou assim que viu que eu me levantava — Preciso falar com você!
Não precisava ser um gênio para adivinhar que ela queria falar comigo sobre o encontro que ela teve com o .
— Me encontre depois da aula no campus da Wings. — Lhe lancei um olhar cheio de significados. entendeu que eu iria me encontrar com o e assentiu com a cabeça.
— Vocês duas estão cheias de segredo ultimamente. — disse Miles, percebendo a nossa troca significativa de olhares. — Estou me sentindo excluído!
— Não se sinta, chuchu. Você sabe que nós te amamos. — o puxou para um abraço, mas Miles continuou carrancudo.
— Sei, sei...
Me afastei dos meus amigos e fui tomada por uma ansiedade quando me dei conta de que iria conversar com o . Eu sentia uma falta tão profunda de sua companhia que às vezes eu tinha vontade de aparecer na sua porta e pular em seus braços.
Encontrei a porta de sua sala aberta quando cheguei. estava apoiado na mesa de madeira de sua sala. Ele pediu para que eu fechasse a porta e abriu um lindo sorriso para mim.
— O seu pai chega em Londres amanhã. — disse ele, animado. Meu peito se encheu de alegria.
— Isso é sério?
— Sim! Ele já deve ter embarcado no avião.
Abri um sorriso enorme e sem pensar, o abracei. Ele retribuiu o abraço imediatamente, e eu me afastei um pouco para poder olha-lo nos olhos.
— Muito obrigada. — eu disse, fitando-o de perto. Seus olhos estavam tão claros quanto eu me lembrava e eu sentia o cheiro do seu perfume me envolver em uma nuvem de êxtase — Por tudo.
Nós estávamos tão perto que eu poderia beija-lo. notou a mesma coisa, pois não parou de fitar a minha boca. Eu senti meu corpo pegar fogo quando ele me apertou mais contra seu corpo. Nossos olhares se cruzaram e foi como se eu me esquecesse de tudo.
— Você não precisa me agradecer.
Tão perto. Nossos rostos se aproximaram, e eu senti seu hálito no meu rosto. Meus olhos se fecharam.
E alguém bateu na porta.
, você está aí? — A voz do diretor fez com que nos afastássemos rapidamente um do outro. — Quero falar com você.
— Estou sim. — ele respondeu meio aturdido.
Entrei embaixo da mesa e abriu a porta.
Os pés de e de estavam no meu campo de visão agora.
— Eu fui verificar a sua conta no banco e soube que uma quantia grande de dinheiro foi removida há alguns dias. Confesso que fiquei bastante surpreso ao ver onde a maior parte do dinheiro foi parar. — disse, e pelo seu tom de voz ele parecia ter tirado algumas conclusões precipitadas.
Paralisei em meu lugar, o medo e tudo o mais corroendo meu peito.
— O que o senhor está querendo dizer? — perguntou, tentando se fazer de desentendido.
— Você se importa muito com essa garota, não é? Quero dizer, ela deve ter alguma coisa especial para você ter pago o tratamento e tudo o mais para o pai dela. Eu fiquei me perguntando porque você a ajudou naquela avaliação quando ela não tinha um par, mas eu achei que não fosse nada demais. Não antes de descobrir que você a ajudou tanto. O que mudou, ? O que você tem com essa garota?
O silêncio reinou na sala enquanto esperava por uma resposta, mesmo que ele não precisasse fazer aquela pergunta.


Capítulo 32 - Hospital Natalino

Anteriormente em Wings...

* e invadem o quarto de Deborah e encontram , que confessa que tem ajudado a Deborah.
* e leem o diário da Deborah e descobrem que a professora tem sérios problemas psicológicos. Ela tem muita raiva dentro de si, e empurrou sua professora de ballet da escada por ter escolhido a mãe da como a bailarina principal ao invés dela.
* começa a fazer especulações sobre o acidente que matou sua mãe, onde acredita que Deborah possa ter matado sua mãe.
* chama para sair.
*O grupo de se apresenta e passam para a próxima fase do concurso.
* chama para avisar que seu pai chega em Londres no dia seguinte.
*O pai de aparece e se esconde. Ele confessa que descobriu que doou uma quantia grande em dinheiro para ajudar o pai de . Desconfiado, ele pergunta o que o e a tem.

— E então, ? — perguntou mais uma vez ao ver que não tinha uma resposta na ponta da língua — O que essa garota tem de tão especial?
Eu não conseguia visualizar o rosto de de onde eu estava, mas conseguia sentir um pouco de seu medo. estava claramente desconfiado, e eu temi que a minha carreira terminasse.
Por um momento, eu pensei que perder a minha carreira não iria ser tão ruim. Afinal, eu já tinha tantas preocupações na cabeça que ser desclassificada da Wings seria um dos meus menores problemas. Porém, a parte artística e sonhadora que existia dentro de mim tinha tanto pavor dessa possibilidade, que me tomou por completo. Eu não queria que descobrisse sobre nós, mas também não via jeito de continuar namorando escondido para sempre.
Eu estava presa em uma encruzilhada de escolhas e preocupações, e não sabia que caminho tomar para resolver tudo.
— Eu tenho um carinho grande por ela, e acho que seu futuro vai ser muito promissor. Só quis ajuda-la a se concentrar melhor nas aulas trazendo seu pai para perto. — disse , sem titubear uma só vez. Meu coração acelerou sem que eu percebesse, e eu tive medo de que me visse ali embaixo da mesa.
— Nós já conversamos sobre a questão do apadrinhamento de bailarinos. Isso só vai ocorrer na última etapa do concurso. Você deve avaliar bastante os seus alunos antes de decidir quais serão os apadrinhados. — disse, daquele jeito seco e rígido característico dele. A questão do apadrinhamento de alunos era nova para mim, e isso só me fez ficar mais aflita.
— E eu estou cansado de saber disso, .
Eu não podia ver o seu rosto, mas podia apostar que revirava os olhos naquele momento.
— Eu vou ficar de olho em vocês dois porque eu não admito, de forma alguma, relacionamentos entre alunos e professores dentro deste estabelecimento. — respondeu, sua voz ricocheteando como um trovão e me fazendo estremecer.
Apesar de saber que era expressamente proibido o envolvimento entre alunos e professores, algo dentro de mim meio que amortecia a culpa que me preenchia toda a vez que eu pensava no . No entanto, agora que eu ouvi em voz alta, do dono e diretor do colégio que tudo estaria perdido caso ele descobrisse sobre nós, a ficha caiu.
O nosso relacionamento, já quase extinto, estava mesmo fadado ao fracasso.
Depois disso, os dois ainda conversaram sobre assuntos administrativos da Wings por um tempo, mas eu não prestei mais atenção. O meu cérebro se desligou totalmente de tudo o que acontecia ao meu redor. A única coisa em que eu pensava era em como a minha vida estava afundando.
— Vai ficar aí embaixo até quando? — indagou , abaixando-se próximo a mim. Pisquei os olhos, voltando a mim e saindo de debaixo da mesa. Fiquei tão distraída com meus próprios devaneios que eu nem percebi que o já tinha deixado a sala.
—Bom... eu já vou indo. — eu disse, sem jeito — Me desculpe por fazê-lo se meter em problemas com seu pai.
— Meu pai gosta de criar seus próprios problemas. Não tem nada a ver com você.
me encarou de um jeito tão profundo que o meu coração deu um solavanco. Respirei fundo para clarear as ideias e decidi que precisava sair dali antes que o me entorpecesse de vez.
— Nos vemos depois. — eu disse, dando um sorriso sem jeito e acanhado para ele antes de sair da sala.

[...]

— Aí está você! — gritou , me puxando pelo braço até o campus da Wings. Nós só teríamos aula na parte da tarde naquele dia. — O que houve?
— Está tão óbvio assim? — perguntei, sentindo uma louca vontade de me olhar no espelho.
— Miga, você está parecendo uma leoa triste e sem pelo.
— O que isso quer dizer? — franzi o cenho, já esperando o que sairia da boca da minha amiga fanática por felinos.
— Que você está com uma cara péssima! — exclamou, apontando para o meu rosto. Soltei um suspiro de tristeza e olhei para o chão enquanto procurava um lugar na grama para sentar.
— O diretor está desconfiado sobre mim e .
e eu nos sentamos perto de uma árvore. O tempo, sempre chuvoso em Londres, estava mais ameno hoje.
— Não brinca! — disse, com uma expressão de choque no rosto.
— Só mais um problema adicionado a lista, não é nada demais. — dei de ombros, tentando fazer com que a frase soasse como uma brincadeira, mas a minha voz embargada denunciava o quanto eu me sentia triste.
— Sei que você está se sentindo mal, mas você não precisa suportar nada disso sozinha. — colocou uma das mãos em meu ombro, tentando me passar um pouco de força.
— Todos os meus problemas começaram quando eu cheguei na Wings. Não consigo deixar de pensar em como teria sido a minha vida se eu não tivesse vindo para cá.
— Seria um tédio passar a vida toda em New Haven sem conhecer uma garota espetacular como eu.
jogou os cabelos ruivos para o lado, me fazendo dar uma gargalhada.
— Só você mesmo para me fazer rir.
— Agora falando sério. Você só está olhando para o lado ruim das coisas. Eu sei que essas coisas todas que estão acontecendo são uma droga, mas você tem muitas pessoas aqui dentro que te querem bem. — disse ela, com um sorriso caloroso e seguro — Você tem o Miles, tem a mim, e até mesmo o estranho do Camerom gosta de você. O também te ama muito. Bastou você pisar na Wings para conhecer o amor de verdade! E você tem crescido profissionalmente aqui dentro também, aperfeiçoando as suas habilidades com grandes professores de Londres e conseguindo fãs em várias partes do mundo. Não foque só nas coisas ruins que esse lugar te proporcionou, concentre-se no que tem sido bom para você no momento. Existem muito mais cores por aí do que só o preto e o branco.
Parei por um momento para refletir nas palavras de minha amiga e abri um grande sorriso ao perceber que ela estava certa. Wings não tinha me proporcionado só momentos difíceis, mas também vivi momentos de muita alegria ali dentro, e eu percebi, com um orgulho enorme, que este momento também era um dos tantos que eu guardaria com carinho dentro do peito.
— Você é a melhor, Chels! — me curvei para abraça-la, o que a fez dar uma risada convencida.
— Só divido esse lugar no podium com a e mais ninguém! — disse ela, assim que nos soltamos.
— Agora chega de falar de mim, sei que você quer me contar como foi seu encontro com o .
Os olhos de brilharam de empolgação.
— O é maravilhoso! Nós fomos para uma pista de patinação no gelo e o humilhei com as minhas habilidades. Ele quase caiu de cara umas cinco vezes. Depois nós fomos comer hambúrguer numa lanchonete com decoração dos anos oitenta que eu simplesmente adorei. — Enquanto narrava os momentos favoritos de seu encontro, seus olhos brilhavam — Você, o Miles e o Camerom precisam conhecer! E depois nós nos beijamos. Foi... o momento mais lindo do mundo. — a ruiva ficou cabisbaixa de repente. Seu rosto se abaixou e ela começou a fitar suas mãos.
— Então porque você parece tão triste?
— Por que agora eu sei como você se sente em relação ao concurso e ao .
Suspiramos em sincronia naquele momento. As duas partilhando do mesmo sentimento, querendo algo proibido que não podíamos ter.

[...]

O Natal tinha chegado, e com ele, o meu pai. Estive tão absorta em meus próprios problemas que nem tinha me lembrado que o Natal estava chegando. Preparei seu quarto no hospital com uma decoração natalina charmosa que as enfermeiras elogiaram com muito afinco, o que me deixou bem orgulhosa e me distanciou bastante das minhas preocupações.
Camerom, e Miles também me ajudaram com a decoração. Miles providenciou uma árvore de Natal branca muito bonita, e comprou enfeites tão bonitos para a árvore que eu quase fiquei emocionada. Camerom trouxe o pisca-pisca, e eu montei quase tudo sozinha. Eu estava ansiosa para a chegada do meu pai, e torcia para que tudo desse certo na hora da ceia. Ia ser só eu e meu pai, comendo e desfrutando da presença um do outro.
Com o feriado, a Wings ficou vazia. A maioria dos alunos foi passar o Natal com os seus familiares, mas ficou. Eu tinha voltado para o alojamento para me arrumar, e estava quase terminando de passar uma maquiagem leve quando ela apareceu.
— Você está bem? — perguntei a . Ela fez que não com a cabeça e começou a chorar. Andei em sua direção até abraça-la, onde ela soluçou por um tempo.
— A minha mãe não sente a minha falta. Ela não me quer lá.
— Quer passar o Natal comigo e com o meu pai?
Antes que pudesse responder, , Camerom e Miles apareceram.
— Meu pai cancelou o jantar em família — disse Miles, nem um pouco chateado. Ele não gostava muito de ir para sua casa.
— Meus pais não comemoram o Natal, então... — Camerom deu de ombros.
— O meu voo foi cancelado por causa da tempestade que começou a cair. — disse , jogando sua mala na cama.
— Então vamos todos passar o Natal comigo no hospital! — exclamei, empolgada. Camerom sorriu e Miles e comemoraram.
— Yeyh! Só preciso telefonar para o meu pai. — disse , percebendo que não estava bem. Ela pegou o celular no bolso e começou a discar alguns números.
— Eu não sei se é uma boa ideia passar o Natal com vocês. — respondeu, incerta.
— Esquece o que aconteceu entre a gente. Hoje é Natal, é dia de confraternizar e deixar de lado as preocupações. Sei que não era o que você queria, mas garanto que tem comida para todo o mundo.
abriu um sorriso para mim. Seu rosto estava vermelho por causa do choro.
Fiz os meus amigos me ajudarem a levar toda a comida que eu tinha encomendado para o hospital. Pegamos um Uber para o hospital, o que protegeu a nós e a comida da chuva torrencial que caía.
Quando chegamos, meu pai já estava lá, mas não era só ele que se encontrava no quarto de hospital. Lucy, , , , e também estavam ali. Eles interagiam como se conhecessem há muito tempo, e o meu pai dava tantas risadas que meu coração se aqueceu.
Corri até o meu pai e o abracei com toda a força que eu tinha. Algumas lágrimas caíram pelo meu rosto enquanto meu pai me afagava.
— Senti tanto a sua falta, querida...
— Eu estou feliz que você esteja aqui. — Nós dois sorrimos um para o outro, e eu logo me curvei para abraçar Lucy, minha professora de ballet e .
— Não acredito que vocês vieram! — eu disse, animada.
— Foi tudo ideia do seu pai. — disse Lucy, ao qual meu pai ficou todo pomposo em sua cama.
— Eu sabia que você iria gostar de tê-las aqui. — meu pai respondeu, me olhando com ternura. Olhei para os meus professores, sem saber o que eles faziam ali.
e trocavam olhares, e sorria disfarçadamente para mim.
— E vocês? Vieram passar o Natal conosco também?
— Não, só quis passar aqui rapidinho para ver como seu pai estava. — disse , olhando para , que estava vermelha como um pimentão.
— Por que vocês não ficam logo? Garanto que a minha filha providenciou comida o suficiente para todos. — papai disse, olhando para o montante de comida nos braços dos meus amigos.
— É, tem espaço para todo o mundo. — eu disse, olhando diretamente para .
— Então vamos ficar. — disse, sentando-se perto de meu pai, em uma cadeira. Arrumamos as comidas todas numa mesa que eu tinha providenciado especialmente para a data, agradecendo a Deus pelo quarto do meu pai ser grande e por eu ter providenciado bastante comida.
Não esperamos dar meia noite para comer porque o Miles ficou reclamando que a sua barriga já estava roncando tão alto que ia começar a acordar os outros pacientes. Então, enquanto todos aprontavam seus pratos e meu pai comia, eu fiquei observando todos os meus amigos e família reunidos. Eu tinha muitas coisas para agradecer.
estava absolutamente certa. Eu precisava focar nas outras cores do arco íris. Enquanto eu via se reaproximando dos meus amigos e conhecendo a minha família, eu percebi o quanto eu tinha coisas valiosas ao meu redor.
A Wings também me proporcionou coisas boas. A maioria delas estava ali, naquele quarto de hospital, celebrando o nascimento de Jesus. As coisas fluíam de forma natural, e meu pai parecia bem saudável, o que acalmava ainda mais o meu coração.
Do outro lado do quarto, estava . Ele conversava alegremente com o meu pai e seus amigos, e eu fiquei feliz ao vê-los se dando tão bem. Acho que percebeu que eu o observava, porque ele me deu um sorriso muito caloroso. Eu não consegui não retribuir aquele sorriso.
— Vamos tirar uma foto em grupo! — gritou assim que tirou uma selfie de si própria com seu Iphone 5. Ela reuniu todo o mundo em volta da cama do meu pai, as decorações natalinas ao nosso redor.
E, quando ela posicionou a câmera em nossa direção, com seu rosto na frente da selfie e todos disseram “x”, eu soube que a minha família estava completa, e que onde quer que a minha mãe estivesse, ela nos observava agora com um grande sorriso no rosto.


Capítulo 33 - Página Rasgada

Quando eu era pequena, eu gostava muito de escrever. Se eu não tivesse me apaixonado instantaneamente pelo ballet e pelo teatro, provavelmente teria me tornado uma escritora.
Os pesadelos horripilantes que eu tinha a noite sempre me inspiravam de alguma forma, e tudo o que eu temia enquanto sonhava era descartado quando eu começava a escrever. Aquela costumava ser a minha maneira de encarar o meu medo de frente, mas como eu encararia os meus medos mais reais?
As coisas eram mais fáceis quando eu era criança. Um machucado parava de doer com um beijo carinhoso da mamãe, o trauma de um pesadelo sumia com as palavras, mas tentar fazer alguém que te odeia parar de te atormentar é mais difícil do que parece.
Crescer é uma droga.
Encarei a barra enquanto me aquecia no estúdio de dança, me sentindo nervosa. Desde que eu soube que a Deborah tem motivos — insanos e descabidos — para ter raiva de mim, que eu não consigo me concentrar direito em nada além da caligrafia de uma Deborah mais jovem escrevendo tantas coisas insanas.
Observei os outros alunos se aquecerem tranquilos e os invejei por um tempo. Os seus problemas se limitavam a feridas nos pés e pliés mal feitos. Eles não sabem a sorte que tem.
— Bom dia, alunos. — disse , entrando na sala. O som de sua voz fez meu coração dançar, e eu apertei a barra com força por conta do nervosismo. — Trago notícias que não irão agradar muito vocês — completou, andando pelo estúdio de dança enquanto encarava cada rosto tenso dentro daquela sala. Todos esperavam pelo pior, inclusive eu. — Amanhã todos vocês farão uma avaliação surpresa arquitetada por mim e pelos outros professores, onde metade dos alunos de todas as turmas serão eliminadas.
— O QUE?! — exclamou Beth, ao que todos os outros começaram a reclamar e a choramingar ao mesmo tempo. Quando os olhos de pousaram em mim, eu me senti aquecida. O contato visual demorou menos do que eu gostaria, e ele logo retomou a postura rígida de sempre.
— Desculpem, mas eu não faço as regras. — deu de ombros, tranquilo.
— A avaliação será de canto, dança ou teatro? — perguntou Camerom, atrás de mim.
— Pode ser de qualquer um dos três. Só na hora vocês saberão. A única coisa que precisam saber por ora é que a avaliação acontecerá amanhã no salão de teatro principal as dez horas da manhã e será individual. — Um falatório começou a tomar conta de toda a sala. O ânimo de todas as pessoas estava tenso, inclusive o meu. Se antes eu tinha muitas coisas para me preocupar, agora eu ainda tinha que me preocupar em me manter dentro do concurso sem perder a própria sanidade.
— Agora, vamos começar a aula. — aumentou o tom de voz para que o falatório cessasse — Formem grupos de cinco e comecem a treinar os fouettés.
Contrariados e resmungando, os alunos fizeram o que pedira.
Eu, Cameron, Beth, Simon e Anne nos juntamos para o fouettés. Enquanto o próximo grupo ia para a frente do estúdio e fazia a sua performance até o outro lado da sala, eu senti meu tornozelo latejar.
, você está bem? — Camerom perguntou. Respondi de forma afirmativa com um aceno rápido de cabeça — Parece que você viu um fantasma e que vai vomitar a qualquer momento.
— Só estou nervosa. — eu disse, olhando de forma concentrada para os grupos que saíam e realizavam as suas performances. Meu tornozelo deu mais uma fisgada, e eu tive que me manter bem concentrada para que não saísse nenhuma careta que denunciasse o quanto eu estava sofrendo.
Quando chegou a vez do nosso grupo, eu e Anne fomos na frente e os outros seguiram mais atrás. Tentei me concentrar em tudo, menos na dor que eu sentia, mas era uma tarefa praticamente impossível. Coloquei um pé no chão e o outro um pouco atrás, lembrando-me da técnica que aprendi com a professora Lucy quando fiz o fouetté pela primeira vez. Fiquei sobre os dedos de um dos pés, mantive o meu corpo ereto e me preparei para girar, vendo que os outros faziam o mesmo que eu.
Senti os olhos de em cima de mim, e fiquei com medo de que ele percebesse que eu não estava bem. Começamos a fazer a nossa sequência de fouettés, e quando fiz o último, me desequilibrei por conta da dor.
, você está bem? — perguntou, visivelmente preocupado. Percebi que as pessoas estranharam por ele não ter feito nenhuma piada sarcástica por eu ter quase caído, ou por não ter se dirigido a mim pelo maldito apelido irônico do início do ano. Se isso fosse um motivo para levantar suspeitas sobre nós, eu estava ainda mais encrencada do que eu pensava.
Mas eu simplesmente não conseguia lidar com esse tipo de pensamento agora.
— Estou, eu só perdi o equilíbrio. — eu disse, ofegante pelo esforço e pela fisgada. A música clássica continuava tocando ao fundo, e todos pararam de se preparar para prestar atenção em mim.
— Seu fouetté não está sólido. — respondeu, voltando a postura de professor frio que eu tanto odiei, mas que agora aprendi a admirar — Precisa treinar a perna de apoio.
Fiz que sim com a cabeça.
— Tudo bem.
Assim que a aula acabou e eu tinha reunido as minhas coisas para sair da sala, me chamou.
, tem certeza de que você está bem? Você tem ido ao médico cuidar do seu tornozelo? — colocou os papéis que carregava dentro de uma pasta e me olhou com cuidado. Desde o Natal que não nos falamos direito, e eu sinto que ele tem evitado até mesmo me olhar. Claro que eu ignorava isso sempre que podia para não me sentir mais magoada do que o normal, porém, sempre que eu lembrava, eu me sentia em frangalhos.
— Sim, ele me liberou. — menti, mesmo achando estranho que o médico do colégio não tenha mais me procurado para continuar o tratamento. Uma instituição rígida como a da Wings oferecia médicos ao nosso dispor e acompanhamento psicológico 24 horas por dia, e quando tínhamos qualquer tipo de problema, os médicos eram orientados a perguntar o porquê de não termos ido naquele dia ao consultório.
— Eu não acredito que você tenha simplesmente se desequilibrado. Parecia que seu pé não estava firme, como se você não estivesse conseguindo se apoiar direito. Sabe que se deixar isso piorar, corre o risco de acontecer algo mais grave? — ele indagou calmamente e aquilo foi a gota d’agua para mim.
— Tipo o que? Eu perder o concurso? Acredite, eu já estou fadada ao fracasso aqui dentro. Cedo ou tarde isso vai acontecer.
— Ei, o que aconteceu? — Surpreso pelo meu tom de voz, tentou chegar perto de mim e tocar meu braço, mas eu me desvencilhei.
— Tudo aconteceu! Depois do Natal, as coisas mudaram. Você mudou. Eu sei que terminamos, mas você não precisa se afastar de mim. — esbravejei, cansada dos olhares de preocupação que me lançava. Se estivesse mesmo preocupado, não teria me evitado tantas vezes.
Ele me olhou de um jeito que fez meu coração se arrepender e a fúria diminuir, mas as suas próximas palavras detonaram qualquer resquício de ternura que tinha aparecido.
, é melhor para nós dois ficarmos dessa forma.
Respirei fundo para conter as lágrimas que brotavam nos meus olhos.
— Então não fique se preocupando comigo. Eu estou bem.
Caminhei até a porta do estúdio com o tornozelo latejando, e deixei um chateado para trás.
O clima tenso do lado de fora da sala era palpável, já que os outros professores provavelmente já tinham dado as boas novas sobre a avaliação surpresa e o grande número de eliminatórias.
Por incrível que pareça, aquele era o menor dos meus problemas.
Procurei uma sala vazia e me sentei no chão, suando frio. Meu tornozelo latejava demais, mas por um motivo estranho, eu não queria retornar no médico que eu tinha ido da outra vez.
, você está bem? — colocou a cabeça para dentro da sala, me assustando.
— Acho que essa é a terceira vez em menos de 24 horas que me fazem essa pergunta. — respondi, sem humor. Eu realmente estou um trapo. entrou na sala e se sentou de pernas cruzadas na minha frente.
— Eu soube que você se desequilibrou na aula do . — ela comentou, ao que eu a encarei de forma perplexa. — O que? — a loira se defendeu — Todos só sabem falar do quanto ele pareceu preocupado quando você quase caiu.
— As pessoas adoram inventar uma fofoca. — revirei os olhos, irritada.
— O que houve com o seu tornozelo? — ela perguntou, demonstrando estar tão preocupada quanto Camerom e .
— Eu tive uma torção em uma das aulas, fui no médico da escola fazer o tratamento e não voltei mais. — dei de ombros, desfazendo o coque que eu tinha feito para a aula de ballet. Eu só queria me trancar no quarto e me desligar do mundo.
— E não te chamaram na enfermaria para perguntar porque você não tem ido fazer o tratamento?
— Por incrível que pareça, não.
ponderou por alguns instantes, estranhando tanto quanto eu que ninguém tivesse ido me procurar.
— Sabe, eu nunca gostei desse médico da Wings, mas nós duas sabemos que não dá mais para ficar desse jeito. Por que você não vai em algum médico fora daqui?
— Por que eu não tenho dinheiro. — confessei, sem medo nenhum de admitir que eu não nadava no dinheiro. A de outra época teria zombado de mim por sermos de classes sociais diferentes, mas a de agora deu um sorriso e estendeu a mão para mim.
— Vem comigo.
Sair da Wings tem se tornado uma tarefa cada vez mais fácil, já que a vigilância do colégio tem andado meio desleixada, o que foi um fator ao nosso favor, mas que poderia ser bem prejudicial para a nossa segurança.
O consultório em que me levou ficava bem no centro de Londres. Eu até tentei protestar que estava bem e que não precisava de nada disso, mas a loira insistiu.
— O meu tio trabalha aqui e é um ótimo médico. Ele vai te ajudar no momento em que me vir com você. — ela sorriu, passando a minha frente para poder entrar no consultório.
Nos dirigimos até o balcão da recepção, onde falou com uma das recepcionistas carrancudas do local. Enquanto a loira perguntava pelo seu tio, olhei ao redor e percebi o quanto aquele consultório era luxuoso. Poltronas refinadas onde os pacientes aguardavam estavam devidamente espalhadas pelo grande salão de espera. As vidraças que estavam estrategicamente posicionadas pelo local iluminavam de uma maneira impressionante todo o primeiro andar.
— Ele vai nos atender agora! — virou-se para mim, visivelmente empolgada.
Nós duas fomos até o segundo andar, que era onde o tio de trabalhava. O suor começou a tomar conta das minhas mãos, e eu fiquei com medo do que o médico veria quando visse o estado do meu tornozelo, que ainda não tinha parado de latejar.
Ao entrarmos no consultório, o tio de , que atendia por doutor , pediu que eu fizesse alguns exames antes de poder me dar um parecer mais preciso. Eu fiz os exames e esperei que todos ficassem prontos, com medo de que a Wings percebesse que eu e tínhamos saído sem permissão.
Quando os exames finalmente ficaram prontos, o médico os analisou com um olhar de extrema seriedade. Meu coração quase parou em expectativa, e colocou uma das mãos sobre a minha para me amparar.
, seu tendão está muito inflamado, por isso você sente tantas dores. O fato de você não ter continuado o tratamento, e ainda forçar constantemente seu tornozelo na dança, agravou a situação. Vou te receitar um remédio para que a inflamação diminua, outro para dor e vou pedir para que você coloque compressas de gelo no local afetado de quatro em quatro horas. Você precisará retornar ao consultório pelo menos uma vez em cada semana.
— Eu vou poder dançar? — perguntei, me sentindo nervosa e culpada. Se eu não tivesse negligenciado tanto a minha situação, provavelmente eu não estaria aqui agora.
— Você não pode forçar o tornozelo de jeito nenhum. Recomendo que diminua o horário dos treinos. Sei que vocês não tem aula de dança todos os dias, então use esses dias como um descanso da dança, e quando estiver dançando, não extrapole de jeito nenhum. Se sentir que o tornozelo está doendo, pare imediatamente e coloque a compressa de gelo no local. — ele disse, me entregando a receita com os remédios. Abri um sorriso aliviado para ele.
— Tudo bem, doutor. Muito obrigada.
e o tio se abraçaram, e eu saí do consultório me sentindo um pouco melhor.
— Eu nem sei como te agradecer. — eu disse, abraçando . Era como se um peso enorme tivesse sido tirado de dentro do meu peito. Eu tinha plena consciência de que a minha situação ainda não era muito boa, mas eu conseguia enxergar uma luz no fim do túnel.
— É o mínimo que eu posso fazer. Você desde o começo foi legal comigo, e eu sempre te tratei muito mal. Minhas amigas me abandonaram e mesmo eu te tratando mal, você me chamou para almoçar com seus amigos. Eu nunca me vou esquecer disso. — confessou, com sinceridade. Eu abri um sorriso enorme para ela.
— Acha que é muito tarde para te chamar de amiga?
sorriu com a minha pergunta e me abraçou.
— Acho que nunca é muito tarde.
e eu conseguimos retornar à Wings sem maiores complicações. Primeiro passamos na farmácia, onde comprei os remédios que o médico tinha me receitado, e tomei o remédio para a dor, percebendo que meu tornozelo tinha parado bastante de latejar.
A loira e eu nos separamos no campus da Wings, pois ela disse que tinha reservado o estúdio para treinar para a avaliação surpresa. Quanto a mim, decidi seguir a recomendação do doutor e fui direto para o alojamento, onde encontrei e Camerom a ponto de terem uma síncope.
— E aí, gente. ¬— os saudei, achando graça do modo como eles pareciam inquietos.
— Onde você se meteu? — indagou , com os olhos arregalados — Estamos te procurando a eras!
— Eu fui a um médico escondido com a fora da Wings. — dei de ombros, sem me importar com o que acharia de mim andando com a loira.
— Eu nem vou comentar o quanto isso é imprudente. — comentou Cameron, tão nervoso quanto . O resquício de bom humor que eu adquiri já começava a me deixar.
— O que aconteceu? — indaguei, temendo o que viria a seguir.
— Nós achamos a página rasgada do diário da Deborah. — disse Camerom, empolgado.
Franzi as sobrancelhas, sem acreditar no que eu tinha acabado de ouvir.
— Como?
— Nós invadimos o quarto dela de novo. — respondeu , sorrindo tranquilamente.
— E vocês ainda me chamam de imprudente? — ironizei, porque estava nervosa demais com o papel que segurava.
— Esse papel pode conter o fim de todas as suas dúvidas. — disse a ruiva, estendendo o papel na minha direção e ignorando completamente o meu sarcasmo.
Peguei o papel da mão de me sentindo nervosa, curiosa e preocupada. E, quando o abri, percebi que talvez mais uma peça do quebra-cabeça esteja finalmente se encaixando.


Capítulo 34 - Mundo Estrelado

O papel que me estendeu realmente era uma das folhas do diário pardo de Deborah. A única coisa que o diferenciava, era que ele estava meio amassado e um pouco amarelado também. Qualquer que fosse o motivo para Deborah ainda guarda-lo, significava que aquela pista era importante.
A página rasgada continha um nome, uma anotação estranha e um número de telefone.

Phill
555737283
Encontrei a vadia.

— Quem vocês acham que pode ser esse Phill? — perguntei, encarando o papel como se mais pistas escondidas fossem pipocar no meu rosto a qualquer instante.
— Nós ainda não tentamos ligar, estivemos te esperando esse tempo todo para que você decida o que vai fazer. — disse Camerom, me encarando firmemente nos olhos.
Eu olhei para ele ali parado na minha frente e me lembrei das vezes em que ele foi arrogante e frio por causa da Deborah. Eu queria muito confiar nele, mas ainda não sabia se podia.
— Você está do meu lado, Camerom?
Cam piscou os olhos e abriu um sorriso triste.
— Eu sempre estive. Ajudei a Deborah no intuito de descobrir coisas que pudessem te ajudar. Eu me importo de verdade com você, . E por mais que eu odeie admitir isso, a também se importa.
— Eu sei.
Eu abri um sorriso nervoso para meu amigo e o abracei, sentindo-me mais segura com o apoio dos meus amigos.
— E aí, o que você vai fazer? Não querendo me meter, mas já me metendo, acho que você deveria ligar para esse número. — disse, encarando o papel em minha mão.
Estrilei com as possibilidades que começaram a rondar a minha cabeça.
— E o que eu vou dizer? Eu não faço a mínima ideia de quem é esse cara. E se ele for perigoso?
— Esse é um risco que precisamos correr. — respirei fundo, tentando controlar toda a tensão que se apossou do meu corpo. O meu coração parecia uma batedeira elétrica de tão acelerado — Se você quiser, eu posso ligar dizendo que sou uma secretaria da Deborah que esqueceu com ele alguma coisa, sei lá. — disse , dando de ombros de forma despreocupada.
— Tomara que isso dê certo. — desejei, colocando na mão de a página rasgada do diário de Deborah.
retirou do bolso seu telefone e discou os números que constavam no papel.
— Coloca no viva-voz! — eu disse, ao que a loira abanou o ar com a mão.
— Shii!! — pediu, colocando a ligação no viva-voz para que pudéssemos escutar também.
Eu e Cam nos aproximamos ainda mais de , que estava tão aflita quanto eu. Meu coração acelerou quando uma voz masculina atendeu o telefone.
Phill falando.
— Que jeito mais cafona de atender o telefone. — sussurrou Cam, recebendo de um tapa no ombro.
— Boa tarde, eu sou a Sra. , a nova secretária da Deborah. Ela me pediu para te contatar porque acha que esqueceu um documento importante com você.
? Ficou maluca? — sussurrei também, nervosa pela ruiva ter dado o meu sobrenome para o cara.
colocou o dedo sobre a boca, pedindo para que eu me calasse. A linha ficou muda por uns instantes, e eu temi que o homem tivesse desligado na nossa cara.
Eu não trabalho mais para a Deborah. — disse ele, aparentando estar tão nervoso quanto nós, algo que causou certa estranheza em mim e nos meus amigos.
— A questão não é essa. A Deborah tem certeza de que deixou um documento com você e quer que eu vá pegar. — respondeu, usando uma voz tão áspera que eu mal a reconheci.
E que documento seria esse?
A ruiva nos encarou com os olhos arregalados. Seríamos pegos na mentira nesse instante e tudo iria por água abaixo se não pensasse rápido. Camerom e eu começamos a andar de um lado para o outro, nervosos por não conseguirmos ajuda-la de nenhuma forma.
— Cópias de alguns documentos antigos e dos trabalhos que você fez para ela. A minha chefe quer que você devolva tudo.
Sempre temperamental! — disse ele, debochado — Tudo bem, me encontre no Café Dorset, na rua Dorset Street as oito da noite em ponto de amanhã.
— Tudo bem. Eu vou estar com um casaco vermelho.
desligou a ligação com um sorriso ferino no rosto.
— Eu não tenho casaco vermelho! — exclamei, sabendo que seria eu a ir nesse tal encontro com o homem misterioso.
— Não se preocupe, você vai usar o meu casaco.
— Esse bairro que ele quer encontrar a é perigoso. Não podemos deixa-la ir sozinha até lá. — Camerom se pronunciou, escorado na parede do nosso quarto.
Minha amiga se virou para ele.
— E quem disse que ela vai sozinha? — indagou, arqueando uma sobrancelha e dando um sorriso esperto.

[...]

O toque de recolher da Wings estava prestes a tocar, mas eu não conseguia dormir. Amanhã seria um dia de extremo estresse, com a avaliação surpresa e o encontro com um homem misterioso que talvez saiba sobre o que realmente aconteceu com a minha mãe no dia em que ela morreu.
Eu andava pelos corredores de forma aflita, quando ouvi o som da voz de e a de em um dos estúdios de canto. Me escorei na janela onde eles estavam tocando e fiquei ouvindo suas vozes melódicas enquanto ensaiavam uma música que eu não conhecia.
Me senti feliz por finalmente fazer o que gosta, mesmo que seja escondido.
Eu entendia o lado dele em relação a nós. No começo, eu fiquei com raiva quando ele disse que era melhor para nós dois ficarmos separados porque em parte eu sabia o quanto isso era injusto, e também porque a penca de problemas que rondam a minha mente me deixa com um pouco mais de raiva do que o habitual. Além do mais, fui eu que terminei com ele. só aceitou mais rápido do que eu. Eu sabia que o nosso relacionamento estava fadado ao fracasso desde o começo, eu só não queria enxergar.
Mas agora eu sabia que o nosso destino não era ficar junto.
Foi por isso que eu me afastei da janela cuidadosamente e deixei com que a banda ensaiasse. Se eu tenho mesmo que esquecer o , tenho que começar a partir de agora.
— Eu não sei o que vestir! — estrilou Miles, deitado na minha cama e espalhando todas as suas roupas nela. — Se nós pelo menos fôssemos avisados da modalidade de cada teste surpresa, eu não estaria preso nesse dilema!
— Se eles nos avisassem, não seria um teste surpresa. — constatei o óbvio, recebendo em resposta um olhar enviesado do meu amigo.
— Como escolher um figurino se nós nem sabemos o que vamos apresentar? — Miles continuou preso em seu dilema, olhando para o teto com um olhar perdido.
— Pelo sim ou pelo não, eu vou usar esse vestido que usei em um recital de dança no ano passado. Ele é leve, e se eu tiver que dançar, cantar ou encenar, ele não vai atrapalhar o meu número. — eu disse, olhando com admiração para aquele vestido. Mamãe havia comprado para mim há muito tempo, mas eu só tive coragem de usá-lo em um recital no ano passado.
Era um vestido bem claro e brilhoso. Não chegava a ser chamativo, mas era singelo e bonito.
— Que lindo, ! — disse , olhando admirada para o vestido.
, que fazia cachos no cabelo loiro de , virou a cabeça da loira para a frente para que continuasse o que estava fazendo sem correr o risco de queimar o couro cabeludo de .
— E você e a Emily? Como estão? — perguntou, abrindo um sorriso malicioso.
— Eu estou pensando em beija-la hoje, depois que essa tortura de teste surpresa terminar.
— Que ousado! — exclamei, prendendo parte do meu cabelo com grampos.
¬— Eu acho que ela quer que eu a beije. Sempre rola um clima entre a gente, e se um de nós sair hoje, quero sair daqui com a consciência tranquila.
Todos nós suspiramos ao mesmo tempo. A verdade é que o nosso tempo na Wings começava a entrar praticamente na reta final, e o medo de sermos desclassificados conseguiu envolver todos nós ao mesmo tempo.

[...]

Quando deu três horas em ponto, o auditório de teatro já estava lotado. Deborah e os outros professores já estavam ali, conversando entre si e anotando algumas coisas em papéis espalhados pela mesa.
O clima de tensão dentro do auditório era palpável, e nem as conversas paralelas que aconteciam ali dentro conseguiam esconder isso.
mexia constantemente a perna esquerda, roía as unhas, minhas mãos estavam suando e Miles disse que estava com dor de barriga. O único que sempre parecia tranquilo antes, durante e depois das avaliações era o Camerom.
O diretor apareceu no centro do palco, e as câmeras começaram a filma-lo.
— Sejam bem-vindos a mais uma avaliação! Só quero desejar uma boa sorte a todos os meus alunos, e dizer que espero que todos vocês deem o seu melhor aqui em cima. — Apesar de estar sorrindo, os olhos do diretor eram duros e sérios. Ele saiu do palco sob a salva de palmas de todos os alunos, e o primeiro concorrente foi chamado até o palco.
Pediram para que ele escolhesse alguém para dançar Foxtrote com ele. O menino, nervoso e acuado, escolheu uma amiga, que se encolheu na cadeira. Provavelmente porque não queria ser uma das primeiras. Ela se levantou e foi até o centro do palco, e eu descobri que ela não queria ter sido escolhida porque não sabia dançar Foxtrote direito.
— Se eu tiver que dançar Foxtrote juro que me mato. — disse Camerom, me fazendo rir.
Depois que a apresentação dos dois acabou, o rosto sério dos jurados mostrava que eles não tinham gostado nem um pouco do teste deles. Fiquei com medo do que me mandariam fazer, e quando percebi, meu dedo estava sangrando. O nervosismo que se apossou de mim foi tanto, que eu nem notei quando afundei a unha em minha carne.
Os próximos alunos foram chamados. Uns cantaram músicas escolhidas pelos próprios jurados, — músicas difíceis, mas que também podiam ser cantadas por quem estava no palco, afinal, eles precisavam ser justos — outros tiveram que improvisar cenas com palavras que os próprios professores davam — o que foi bem engraçado — e outros tiveram que dançar espontaneamente algum ritmo, sozinhos ou acompanhados.
Como sempre, meus amigos foram chamados primeiro do que eu.
Miles teve uma apresentação impecável. Pediram para que ele fizesse um monólogo, e ele o fez muito bem. Cam teve que montar uma banda, e escolheu alguns amigos que dividiam o quarto com ele para se apresentarem juntos, e seu timbre fez muitas garotas suspirarem. cantou e dançou, o que fez muitos caras assoviarem para ela, deixando meio desconfortável em sua cadeira.
foi a próxima, e sua avaliação foi um pouco mais complicada. Ela teve que cantar, dançar e atuar. Felizmente, a loira se saiu muito bem.
Quando foi a minha vez, meu coração acelerou. Tentei encarar a todos como se estivesse bem tranquila, mas as minhas mãos tremiam.
Quem falou o que eu teria que fazer foi a Deborah.
— Escolha um grupo que ainda não tenha se apresentado e improvise uma dança sensual e divertida ao som de Hurricane, do Panic! At The Disco.
Por incrível que pareça, o dragão se dirigiu a mim com um tom de voz que quase poderia ser considerado agradável. Eu poderia ter captado algo mais em seu olhar ou em mim mesma, mas escolhi projetar a minha raiva e desconfiança para o fundo da minha mente para poder me concentrar em um dos testes mais difíceis da minha vida.
Escolhi algumas pessoas que me pediram para serem escolhidas. Como alguns outros testes feitos hoje, nesse, nós tivemos 15 minutos para ouvir a música e elaborar o que tínhamos que fazer. Por sorte, eu amava aquela música e a letra, então não foi tão difícil arquitetar uma apresentação de última hora.
Jasper seria o meu par. Um negro de black power e sorriso bonito. Emily, a crush de Miles, também estava no meu grupo. Providenciamos uns figurinos de última hora e nos preparamos para nos apresentar.

Você vale seu peso em ouro?
Porque você está atrás de minhas pálpebras quando fico sozinho
Ei, estranho, eu quero que você me pegue como um resfriado
Você e Deus possuem as armas
E quando disparar acho que eu deveria me esquivar

Quando a música começou a tocar, me posicionei como se procurasse um celular, pois a música começava como se um celular estivesse tocando. Pego um aparelho improvisado no chão e o jogo para o lado quando as batidas da música ficam mais fortes, e quando Brendon canta a primeira estrofe da música, ando pelo palco com sensualidade, flertando com Jasper, que me encara de cima a baixo e grita “Hey stranger” como Brendon faz na música.
Nos dois nos viramos e ao mesmo tempo e começamos a dançar juntos. Ele joga minha coluna para baixo e eu me ergo rapidamente, passando as mãos pelo seu corpo ao mesmo tempo em que jogamos nosso tronco de um lado para o outro de forma lenta e sensual.

Eu liderei a revolução em meu quarto
E abri todos os zíperes
Nós dissemos:
"Sem mais guerras, sem mais roupas, me dê paz"
Oh, me beije!


Nos dois nos abraçamos, eu joguei meu corpo contra o dele enquanto ele simulava como se tirasse minhas roupas. Levantei uma perna e dei um salto. Jasper me segurou pela cintura, me jogou para baixo e fez como que ia me beijar.

Hey, hey, somos um furacão
Jogue nossas âncoras em uma tempestade
Hey, eles nunca serão os mesmos
Uma chama em um frasco para nos manter excitados
Porque eles sabem, eu sei
Que eles não se parecem comigo
Oh, eles sabem, e eu sei
Que eles não soam como eu

Você dançará qualquer coisa
Você dançará qualquer coisa


No refrão, o grupo todo entrou dançando junto conosco. Eu e Jasper, no centro, dançávamos de forma sincronizada com os outros os passos que tínhamos inventado de última hora. Demos pulos para trás, esticando uma perna de cada vez e fazendo a ponta com nossas sapatilhas. Eu e Jasper dançamos juntos mais uma vez, enquanto o grupo todo dançava ao nosso redor.

Oh, confesso, eu confesso
Em uma sala onde sou abençoado
Ele não veio e falou comigo
Ou confortou meu coração
Acredito que na metade do tempo
Eu seja um lobo entre as ovelhas
Roendo a lã diante de meus olhos


Lembrei-me das aulas de sensualidade que o me proporcionou me levando aquela danceteria. Se não fosse por ele, provavelmente não conseguiria dançar daquele jeito.
Continuamos dançando a música, improvisando passos, fazendo solos e nos divertindo muito. Quando a música finalmente acabou, estávamos esgotados. A galera toda aplaudiu, e eu me senti eletrizada por toda a apresentação que fizemos.
Nós nos abraçamos e agradecemos antes de nos retirarmos do palco.
Quando as avaliações acabaram, os professores anunciaram que os resultados sairiam no dia seguinte, o que deixou todo o mundo ainda mais ansioso.
Eu e meus amigos nos parabenizamos por nossas apresentações, pois nós realmente tínhamos nos superado. Eu me sentia orgulhosa de mim e do meu tornozelo, que se recuperava bem.
Porém, a animação não durou muito, pois logo me lembrei que daqui há algumas horas eu estaria a caminho de um encontro que poderia fazer a verdade aparecer e se libertar, ou me deixar com ainda mais dúvidas.

[...]

O casaco que me emprestou era muito parecido com o que a Alison usava em Pretty Little Liars, e em minha cabeça eu tentava a todo o custo não pensar no que eu estava prestes a fazer. Meu pai estava no hospital, e eu tinha ido visita-lo um pouco antes de vir. Ele percebeu que havia algo errado comigo, e eu tentei a todo o custo despistar o fato de que eu realmente estava prestes a fazer uma merda colossal.
e Camerom, de cada lado do meu dentro do metrô, também se encontravam absortos em seus próprios pensamentos. Olhei pela janela a mudança de clima quando começamos a nos aproximar de nosso destino, o que deixou a minha ansiedade em estado de alerta.
Meus amigos se levantaram e eu os segui até a porta quando o metrô parou. Nós andamos pela plataforma e eu senti o ar frio londrino atingir o meu rosto. O fluxo de pessoas naquela hora não era tão intenso, e quando nos deparamos com o bairro que iríamos nos encontrar com o tal do Phill, eu senti vontade de desistir.
— Ali está! — disse , apontando com o dedo para o Café Dorset, do outro lado da rua.
A placa da cafeteria me dava a impressão de que ninguém fazia uma manutenção há muito tempo, pois havia uma letra faltando em Dorset. As janelas também eram um pouco empoeiradas, e eu prometi a mim mesma que não tomaria nada daquele lugar.
— Você entra sozinha e se algo der errado, nós vamos intervir. — disse Camerom, apertando os meus ombros com carinho — Vai dar tudo certo, . Estamos com você.
— Obrigada!
me abraçou antes que eu atravessasse a rua e entrasse na cafeteria. Meu coração já estava disparado dentro do peito aquela altura do campeonato, e eu me peguei pensando em que perguntas eu faria quando encontrasse aquele homem.
Me sentei em uma mesa perto da janela, no canto, pois mesmo com a visão um pouco turva por conta da poeira, meus amigos poderiam me ver ali. Por um momento, tive medo, principalmente porque não os enxerguei através do vidro.
— Procurando alguém? — Dei um pulo assustado quando uma voz masculina e familiar surgiu e um homem desengonçado e com um pouco de calvície apareceu. Ele trajava um terno cafona, e seu óculos de grau não lhe fazia parecer uma pessoa perigosa.
— Você é o Phill? — perguntei, ainda estranhando o sujeito em minha frente.
— Eu devia ter ligado os pontos! — Ele arregalou os olhos e começou a andar para a saída do Café. — Você é muito jovem para ser secretaria da Deborah. Foi um erro eu ter vindo aqui.
— Espera aí, o que quer dizer com isso? — Segurei em seu ombro, tentando a todo o custo fazê-lo ficar.
Ele apontou para o meu rosto com um olhar lunático.
— Eu te conheço, você é filha da Sra. . — Conhece a minha mãe? — perguntei, tentando entender como um cara como ele poderia conhecer a minha mãe. Ele ficou parado em minha frente, me encarando assustado.
— Eu vou indo. — O homem se virou novamente para a saída, mas meus amigos apareceram.
— Não, você não vai não. — Camerom apareceu ao lado de , bloqueando a saída — Pode sentando aí.
Phil, ficou encolhido no canto, sem saber o que fazer. Ele parecia que iria chorar a qualquer momento, e alguns poucos frequentadores do estabelecimento começavam a nos encarar de maneira estranha.
— Por favor, eu preciso saber o que aconteceu com a minha mãe. Se você tiver qualquer tipo de pista, contato, ou qualquer outra coisa, me conte agora. — pedi, segurando em seu braço com um olhar de súplica.
Acho que o meu olhar de desespero foi o incentivo que ele precisava, pois Phill se sentou sob os olhares atentos dos meus amigos antes de ajustar o óculos no rosto e me encarar.
— Tudo bem. O que você quer saber?
— Qual a sua relação com a Deborah e com a minha mãe? Sabe o que aconteceu no dia em que a minha mãe morreu?
Ele respirou fundo, se sentindo pouco a vontade para continuar.
— Há um tempo atrás, a Deborah me contratou para seguir a sua mãe. Ela estava procurando por Rose por muito tempo porque queria se vingar. Para isso, Deborah precisava saber todos os passos de sua mãe, para que ela contratasse alguém para matá-la. — ele disse, olhando para e Camerom atrás de si, meio atrapalhado — Não eu, é claro, sou só um detetive.
— Dá para notar. — debochou , dando um risinho.
— Um dia, Deborah pediu para vir junto comigo seguir a sua mãe. Ela tinha acabado de sair do trabalho, e chovia muito. Sua mãe notou que era seguida e acelerou o carro. Deborah surtou e começou a me mandar acelerar também, só que eu disse que não faria isso, porque comprometia o meu trabalho. Até que a Deborah começou a surtar e simplesmente perdeu o controle de si mesma. Ela pisou com tudo no meu pé no acelerador e eu perdi por um momento o controle do carro. Nós ultrapassamos a sua mãe e fechamos seu carro. No desespero, ela tentou ultrapassar e um caminhão que vinha do lado contrário colidiu com o carro dela.
Fiquei por um bom tempo tentando imaginar toda a cena na minha cabeça.
Que a Deborah era uma pessoa completamente descontrolada, isso nós já sabíamos. Entretanto, agora eu sabia que ela havia mesmo tentado matar a minha mãe, e por mais que não tenha feito isso com as próprias mãos, ela atingiu o seu objetivo. Meus olhos se encheram de lágrimas ao imaginar a minha mãe, desesperada dentro do carro enquanto tentava fugir.
— Então ela realmente teve a vingança que queria...
— Depois disso, a Deborah ainda me obrigou a trabalhar para ela por um tempo. Se sentia bem por ter conseguido acabar com a vida da sua mãe, mas queria que eu te seguisse também, porque não estava satisfeita somente em ter tirado a vida de Rose, ela também queria acabar com a sua. Então eu simplesmente surtei e pedi que ela não me procurasse mais. Deborah acabou com a minha carreira como detetive, como vocês podem ver. Ela é uma psicopata, narcisista e louca, capaz de tudo para ver as outras pessoas infelizes. Tome cuidado, . Ela não vai descansar enquanto não acabar com você também. — ele disse, nervoso e inquieto. Eu quase podia sentir o seu desespero.
— Meu Deus... Meu pai... Você acha que ela pode querer matar meu pai? Ele está aqui e... — eu disse, incapaz de conseguir terminar a frase.
— A Deborah é capaz de tudo, senhorita.
— Como podemos saber que você não está mentindo? — Camerom indagou, olhando para o ex detetive de forma dura.
— Eu não teria motivos para mentir sobre nada disso. — Phill respondeu, dirigindo-se a mim logo em seguida — Até hoje me culpo pela morte da sua mãe, e em ter aceitado trabalhar para a Deborah. Quando te vi, fiquei assustado.
— Obrigada por ter me contado tudo isso. Fique com o meu cartão, se souber de mais alguma coisa, por favor, me avise. — eu disse, estendendo meu número de telefone a ele. Phill hesitou por uns instantes, mas guardou o cartão no seu bolso.
— Tome cuidado, senhorita . — disse ele antes de deixar um envelope com documentos de investigação de Deborah em cima da mesa, se levantar e sair do café.
Agarrei o envelope e fiquei encarando o nada por um tempo até sentir os dedos de em minha bochecha.
— Não chore, por favor. — pediu , me abraçando. Eu não percebi que as lágrimas já desciam pelo meu rosto. Só de imaginar a minha mãe encurralada na rodovia por um carro desgovernado que a seguia, eu já sentia o desespero dominar o meu peito.
— Vamos sair daqui. — disse Camerom, me ajudando a levantar.
— Esse Phill é um sujeito estranho. — constatou , enquanto caminhávamos de volta para o metrô. Algumas pessoas esquisitas passaram por nós, e nós apertamos o passo.
A estação de metrô não ficava tão longe do café, mas nós não queríamos mais ficar ali. Eu, porque queria chegar no alojamento da Wings sem maiores problemas por estar na rua sem autorização, e também porque eu queria pensar em tudo o que o Phill me disse hoje.
Porém, eu não consegui fazer nada disso.
Uma mulher de cabeça baixa se aproximou de nós. Como eu estava no meio e tão distraída e nervosa quanto os meus amigos, eu não vi quando ela encostou na minha barriga. Eu só tive noção da gravidade do que estava acontecendo quando eu vi o sangue escorrer.
— Junte-se a sua mãe no inferno, sua vadia! — disse Deborah, antes de correr com a faca que tinha usado para me esfaquear na mão.
Camerom correu atrás dela e eu ouvi um barulho de pneu se arrastando no asfalto, mas perdi o equilíbrio e caí no chão, com me amparando.
, fique comigo, por favor, fique comigo. — ela pediu, chorando, enquanto com uma das mãos digitava um número no celular.
Com a pouca força que eu tinha, coloquei a mão em minha barriga e senti o sangue jorrar. Olhei para o céu e vi o rosto de Camerom e o de me chamarem, mas suas vozes ficavam cada vez mais distantes.
Um terceiro rosto se juntou ao deles. Tão lindo que parecia um anjo. Era . Como ele poderia estar aqui, se ele nem sabia o que estávamos tramando? Ele tocou meu rosto, beijou a minha testa, e continuou gritando por mim, mas como as outras vozes, a sua também começou a se distanciar.
Logo, todos os rostos sumiram, e o de minha mãe tomou forma em minha frente. Fechei os olhos e dei as mãos para a minha mãe, voando para um mundo desconhecido e cheio de estrelas.
Depois, tudo desapareceu.


Capítulo 35 - A Despedida

No ballet, existe aquela típica pressão de que temos que nos superar a cada dia, mesmo que a maioria das pessoas, inclusive seus colegas, esperem que você leve um tombo.
Nos bastidores, as sabotagens são inevitáveis, e se não tomarmos cuidado, alguém pode puxar o nosso tapete.
O mundo do ballet não é tão diferente da vida real.
Constantemente nos deparamos com pessoas que querem apenas o nosso mal, e apesar de ser algo totalmente normal errar um passo de dança ou levar um tombo, nós precisamos ser perfeitos, e um erro como esse pode arruinar toda a nossa carreira.
Quando estou dançando, uma parte de mim flutua pelo palco. A outra parte, se preocupa em não errar os passos e em não cair.
Eu já levei muitos tombos, e confesso que lutei muito para manter o controle do meu corpo, mas existem coisas que estão fora do nosso alcance. Um giro mal executado, um pé de apoio que não está firme ou até mesmo a falta de treino podem te prejudicar. Na vida real manter o controle pode ser ainda mais difícil, principalmente se você está rodeada de pessoas que querem te ver cair.
E eu caí.
Caí no momento em que a escuridão preencheu meus olhos e sucumbi. Eu senti o sangue escorrer e me afoguei nele. Eu conseguia sentir um toque quente em mim, só que era tão distante que eu não conseguia senti-lo com firmeza para poder ter forças.
O toque se tornou mais forte e urgente, e meu coração acelerou. Abri os olhos de uma vez só e os cerrei por conta da claridade. Um corpo se debruçou sobre mim e eu senti que era .
, eu sinto tanto... A polícia já está atrás da Deborah. Não vou deixar mais que ninguém te machuque.
segurava forte uma de minhas mãos. Franzi o cenho, me sentindo bastante desorientada. Um medo horrível começou a me dominar quando disse que estavam a procura da Deborah, porque isso quer dizer que ela está foragida.
— Onde estou?
Tentei me levantar, mas me impediu segurando meu corpo com cuidado. Ele tinha a testa enrugada e me olhava com muita preocupação.
— Você está no hospital. — disse ele, ainda me segurando — Não se mexa, fizeram um curativo na sua barriga.
— Onde está meu pai? E meus amigos?
e Cameron estão esperando lá fora e seu pai está bem. , e estão lá com ele. Não contamos nada para ele sobre o que aconteceu para não preocupa-lo.
— Obrigada. Ele não pode ter emoções fortes agora. — assentiu em concordância. Nós nos olhamos profundamente e eu engoli em seco, sentindo-me nervosa. Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas fomos brutalmente interrompidos por uma desesperada e um Cameron afobado.
— Graças a Deus você acordou! — exclamou , me abraçando com cuidado enquanto algumas lágrimas dela caíam em meu ombro — A polícia vai pegar essa vadia, amiga, tenha certeza disso! E o diretor já aumentou a segurança da escola. Você estará protegida na Wings e seu pai também.
— Que bom que você está bem. — disse Cameron, segurando a minha outra mão.
Meus olhos se encheram de lágrimas quando fui me situando: A Deborah, não satisfeita em ter contribuído indiretamente no acidente que matou a minha mãe, tentou me matar. Ela estava tão (ou mais) desequilibrada do que na época de sua adolescência, onde dedicava os seus dias a odiar a minha mãe. Ela tinha empurrado uma professora da escada! Ela nutriu anos e anos de ódio pela minha mãe e por mim também.
Aquela mulher é louca!
— Eu estou com medo. — confessei, porque era isso o que eu sentia no momento. Eu temia que aquela mulher tentasse me ferir de novo, ou que chegasse até o meu pai ou ao resto da minha família. e os meus amigos se aproximaram mais de mim. Eles também pareciam preocupados com a situação.
Apesar de ela não ser dotada de super poderes, a sua motivação e ódio eram o suficientes para levarem-na a cometer coisas ainda piores do que as que ela já tinha feito, e era por isso que eu tinha medo.
— A Deborah não pode ir muito longe. Já estão mostrando a foto dela no noticiário e oferecendo uma recompensa para que a peguem. A sua identidade não foi revelada, mas todo o mundo quer saber qual aluna da Wings a Deborah feriu. A mídia está marcando em cima, então quando você voltar para a escola, precisaremos ser cuidadosos. A polícia vai conseguir encontra-la, . Fique tranquila. — disse, enxugando as lágrimas do meu rosto e me tranquilizando.
Um tempo depois, os médicos me explicaram que por sorte, a faca que a Deborah usou não tinha perfurado nenhum órgão vital. O único problema que encontraram quando eu cheguei foi a hemorragia, que eles conseguiram conter com muito custo, o que acabou explicando porque eu me sentia meio desorientada e fraca.
— Nós temos uma notícia muito boa para te dar. — disse , sorrindo para mim, como se estivesse desesperado para que me visse pelo menos um pouco mais feliz — Encontraram um doador compatível para o seu pai e amanhã mesmo vão prepara-lo para o transplante.
— Isso é sério? — indaguei, me sentindo aliviada e feliz por meu pai. — Eu quero estar com ele quando a cirurgia acabar. Quando vou poder sair daqui?
— Os médicos disseram que você não pode se esforçar muito, mas que se tudo estiver bem, amanhã mesmo você terá alta. Só terá que parar de dançar por alguns dias.
— Eu só quero estar com o meu pai. Não me importo em tirar folga das aulas. — eu respondi, me sentindo um pouco menos tensa com tudo o que estava acontecendo.

[...]

Voltar a Wings depois do que tinha acontecido foi mais fácil do que eu pensava. Os alunos sabiam que eu tinha sido a aluna atacada, já que eu era uma das únicas que não estava no colégio quando aconteceu o ataque. Foi até fácil demais para eles adivinharem que tinha sido eu, visto que nem e nem Cameron tinham curativo em suas barrigas.
O que foi difícil mesmo foi encarar quase uma hora de sermão do diretor , que descobriu que eu, e Cameron tínhamos fugido da Wings sem permissão. Ele fez questão de frisar que tinha reforçado a vigilância não só para manter os alunos seguros, mas também para conter os arruaceiros como nós.
Só não levamos uma advertência porque ele disse que se sentiu culpado quando soube que a Deborah, uma funcionária do colégio, tinha me atacado, já que ela aparentemente tinha burlado todas as regras para trabalhar na escola e parecia ser uma pessoa equilibrada. Quero dizer, equilibrada na medida do possível. Ninguém nunca desconfiou que ela seria uma pessoa perigosa, só a achavam meio histérica e narcisista de um jeito que quase parecia inofensivo.
Quase.
Virei uma das notícias mais comentadas do corredor. Eu podia ver os alunos me observando e cochichando a todo o momento. Os boatos que circulavam pelos corredores eram uns mais absurdos do que os outros.
Os dias foram passando e o resultado da última avaliação não tinha sido revelado. Os burburinhos sobre mim diminuíram, e as pessoas começaram a questionar seus respectivos destinos dentro do colégio, afinal, já estávamos chegando na metade do concurso, e as coisas começavam a ficar ainda mais difíceis.
O meu pai tinha feito o transplante, e seu corpo estava reagindo bem. Ele não tinha recusado o coração, e já até fazia piadas. Se tudo continuasse caminhando bem, logo, logo poderia voltar para casa. Minha tia ficou cuidando dele no hospital e eu ia visita-lo todos os dias.
ameaçara todos os alunos, pedindo para que não comentassem nada na mídia sobre o ataque da Deborah por conta do meu pai. Ele estava em fase de recuperação, e apesar de ele ter me visto várias vezes, isso poderia prejudicar a sua saúde. Eu já tinha avisado meus tios e a minha família sobre o que ocorreu, e claro que todos ficaram bastante horrorizados. Passei mais de uma hora tentando tranquiliza-los, e quase pegou outro avião para Londres de tão nervosa que ficou com a notícia.
Miles ficou chateado por ter ficado de fora da maior parte dos últimos acontecimentos, e a única maneira de fazê-lo ficar bem conosco novamente foi contando tudo desde o começo do meu envolvimento com até a confusão que virou a minha vida. Claro que Miles ficou triste, mas acabou entendendo que eu mesma me sentia insegura em dizer aquelas coisas em voz alta e tinha um medo absurdo de como as coisas acabariam mal para mim se alguém descobrisse. No fim, acabou que tudo ficou bem para o nosso grupo.
— VÃO COLOCAR O RESULTADO DA ÚLTIMA AVALIAÇÃO NO MURAL AGORA! — gritou Lia, uma das alunas mais fofoqueiras do concurso. Ela sabia tanta coisa que todo o mundo se questionava como ela conseguia descobrir tantas informações antes de todo o mundo.
Miles, e Cameron praticamente correram em direção ao mural junto com os outros alunos. O alvoroço era tão grande que eu tive vontade de rir. Parecia até que iam tirar o pai da forca de tanta afobação.
e eu nos entreolhamos e sorrimos. Nós nos sentíamos superiores por não estarmos afobadas com aquilo. Talvez fosse um alarme falso e Lia estivesse mentindo. De qualquer forma, nós nos levantamos calmamente, prontas para zoar o trio que saiu correndo de forma desesperada. No entanto, quando nos aproximamos do mural, percebi que meus amigos choravam.
— O que aconteceu? — indaguei, sentindo o nervosismo me atacar mais uma vez.
me encarou com os olhos vermelhos enquanto Cam e Miles se abraçavam.
Ai não.
— O Cameron foi eliminado do concurso. — disse ela, chorando. Eu ouvi o choro de outros alunos que encaravam seus resultados, mas eu só conseguia focar na eliminação de uma das primeiras pessoas que falou comigo ali dentro sem rir de mim ou me julgar. Meu coração se apertou e eu me joguei nos braços do meu amigo, sentindo que tinha perdido mais uma parte importante de mim.
— Não chore, . — Cam passou o polegar pela minha bochecha para retirar a lágrima que escorria — Nós não vamos deixar de ser amigos por causa disso. Eu devo ficar em Londres até o fim do concurso, podemos nos ver quando eles liberarem vocês novamente. — Cameron abriu um sorriso, mas meus lábios tremiam de tristeza.
— Mas não vai ser mais a mesma coisa.
— Claro que vai. Eu amo você, acha mesmo que vou me esquecer disso só porque perdi esse concurso? — indagou, com os olhos marejados e um sorriso nos lábios — Eu não estou triste por ter sido eliminado, só estou triste por ter que deixar vocês.
Nós todos nos abraçamos outra vez. Cameron estendeu a mão para e ela também se juntou a nós. A loira finalmente era parte de nós e do nosso grupo.

[…]

O clima instalado entre nós era o de tristeza. Cameron iria embora da Wings amanhã junto com os outros alunos eliminados. Estávamos aproveitando a companhia um do outro, já que as aulas daquele dia já tinham acabado. Eu, Miles, , e Cam permanecíamos deitados no campus da Wings. Ambos agasalhados, por conta do frio londrino.
Ninguém dizia nada, nossos pensamentos estavam distantes demais para podermos nos concentrar em qualquer outra coisa.
— Que dia mais bosta. — Miles foi o primeiro a reclamar. Ele estava triste por Cam, e também porque Emily tinha dito a Miles que só gostava dele como amigo. Aparentemente, ele tinha se declarado para ela há alguns dias, e não foi correspondido, o que só aumentava o mau humor do meu amigo.
— Nem me fale. — concordou, suspirando.
, posso falar com você um instante? — Camerom virou-se para mim com o cotovelo dobrado no gramado e a cabeça apoiada na mão.
Abri um sorriso.
— Claro.
Nós nos levantamos e deixamos nossos amigos para trás. Eles estavam tão carrancudos que nem esboçaram nenhum tipo de reação quando nos levantamos.
Eu e Cam caminhamos até uma parte afastada do campus da Wings.
— Eu quero que você entregue isto para eles quando eu for. — Cameron retirou de trás de uma pedra uma sacola. Eu franzi o cenho quando ele se voltou para mim com um sorriso maroto nos lábios.
— O que é isso? — apontei para a sacola sentindo a curiosidade aguçar.
— São lembrancinhas que eu comprei em nossa última saída. Fiquei de entregar tudo no Natal, mas achei melhor guardar para quando o concurso acabasse ou eu fosse eliminado. — disse ele, dando de ombros, entregando para mim a sacola com os presentes.
— Tudo bem, eu entrego.
— E esse é seu. — Cam estendeu para mim uma caixinha que encarei com curiosidade — Nada de abrir antes da hora, hein...
Dei uma risada, porque era exatamente isso que eu estava pensando em fazer.
— Vou tentar controlar a minha voraz curiosidade até lá.
Cameron e eu rimos por alguns instantes, e quando a nossa risada cessou, meu amigo me olhou com pesar.
— Vou sentir a sua falta, .
Meus olhos se encheram de água.
— Eu também sentirei a sua.
Nós dois nos abraçamos fortemente, e eu inspirei seu perfume. Fechei os olhos para aproveitar aquele momento, já que meu amigo iria embora amanhã. Ficamos por um tempo sem nos falar por causa da Deborah, e aquilo quase fez a nossa amizade acabar. Incrível como até isso ela conseguiu atrapalhar.
Nós nos afastamos o suficiente para nos olharmos nos olhos, e a minha barriga se revirou de nervoso. Cameron mordeu o lábio inferior e me encarou de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
— Posso te pedir um beijo de despedida? — ele perguntou, em expectativa. Abri um sorriso tímido e fiz que sim a com a cabeça.
Cameron e eu nos aproximamos lentamente, e a expectativa do que viria a seguir me deixou ainda mais nervosa. Nossos lábios encostaram um no outro, nossos corpos se aproximaram mais e eu senti calor. A sua língua encostou na minha e nós engatamos em um beijo profundo. Meu coração não acelerou como quando eu beijava , mas beijar Cameron não deixava de ser uma experiência maravilhosa por causa disso. Sua mão direita foi parar na minha nuca, e a outra segurava a minha cintura com firmeza. Nos beijamos por mais algum tempo, até sentir que já era hora de nos afastarmos.
Cam me olhou de um jeito triste.
— Eu sou apaixonado por você. Sempre fui. Mas eu sei que é dele que você gosta.
— Eu sinto muito, Cam.
Balancei a cabeça, sentindo-me triste por Cam, por mim e pela minha situação amorosa com o . Seria muito mais simples se eu tivesse me apaixonado por Cam, um aluno como eu, e não pelo meu professor, filho do diretor mais rígido de Londres.
Porém, quando eu olhei para os alunos que passavam um pouco atrás de Cameron, eu notei que nos observava.
Seu olhar era frio, e ele parecia bastante decepcionado.
Naquele instante eu percebi que viu que eu beijara o meu melhor amigo.




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