Última atualização: 02/05/2019

Prólogo

James costumava ter o sono pesado. No início, quando chegou ali, fora difícil se adaptar aos barulhos incessantes da rua movimentada vinte e quatro horas por dia; ao sino da escola que tocava na quadra ao lado indicando entradas, saídas e intervalos; aos aviões que sobrevoavam o prédio deixando a impressão sonora de que estavam tão baixos; à obra do outro lado da rua que parecia não parar nem por um instante e que nunca parecia perto de estar pronta. Agora que se sentia em casa, tudo aquilo parecia familiar. Sua mente e seu corpo estavam em sintonia com o lugar que escolhera para chamar de casa, e dormir com aqueles sons passava uma sensação indescritível de segurança. Ele não se incomodava mais. Mas aquele som, o que se fez presente naquela madrugada especialmente silenciosa, fez com que ele acordasse antes mesmo da mulher ao seu lado, que demorou alguns instantes para perceber o que estava acontecendo.
– Você não me disse que tinha um telefone – foi o que ele murmurou ao se apoiar nos cotovelos e tentar identificar onde estava o aparelho que agora ecoava por todo o apartamento.
– Eu tenho – sussurrou preguiçosa, mas então se sentou com pressa ao se dar conta do que estava acontecendo – Eu tenho um telefone – repetiu.
Ele se jogou de volta no travesseiro enquanto a garota ia até a sala de estar atender quem quer que estivesse ligando aquela hora. Ficou apreensivo no início, mas a calmaria sempre presente na voz da namorada não se abalou uma vez sequer, fazendo com que sua preocupação se transformasse em genuína curiosidade. Àquele ponto, ele já frequentava mais aquele apartamento do que o seu próprio, do outro lado do corredor, e aquele telefone fixo não havia tocado nenhuma vez ou ele se lembraria da existência de um.
Não se deu conta de que a mulher estava de volta ao quarto até que ela o chamou, apoiada no batente da porta. – Buck? – sua expressão estava pensativa, mas àquela altura ele já sabia dizer quando ela já havia tomado uma decisão – É o meu irmão.
– Ele…? – começou a perguntar, embora nunca tenha encontrado coragem para completar a pergunta que se formou em sua cabeça no instante em que ela proferiu aquelas palavras.
– Piorou. Deram uma semana a ele – suspirou, coçando a cabeça de forma inquieta e ficando na ponta dos pés para alcançar algo em cima do guarda-roupa.
– Você está indo – não era uma pergunta. Ela não precisou responder quando conseguiu alcançar a mochila vazia e a colocou no chão – Ei – ele chamou –, vem cá.
Ela voltou para cama se aconchegando no abraço dele. Não disse nada, provavelmente nem conseguiria. O fato era que esteve se preparando para aquilo por muito tempo, mas estava tão feliz ultimamente que não esperava que o momento fosse chegar tão repentinamente.
– Você quer que eu vá com você? – Bucky perguntou enquanto acariciava a bochecha e a cintura dela, cada qual com uma mão.
– Só vai levar alguns dias – sentou-se de frente para ele, levando uma das mãos ao rosto do namorado que a encarava de forma preocupada – E não é como se você passasse num detector de metais tão fácil – deixou uma das mãos passear pelo braço metálico dele enquanto ele ria, se inclinando para deixar um beijo em seus lábios.
– Me diga o que posso fazer – ele pediu quando ela engatinhou novamente para fora da cama e começou a abrir as portas e gavetas do armário. Queria dizer o quão bem ela ficava usando as roupas dele, mas não achou apropriado. Tinha um péssimo timing, era verdade, e tomou notas mentais daquilo para dizer a ela mais tarde. Eles teriam todo tempo do mundo afinal. – , se você não falar comigo eu vou ficar preocupado.
Ela abotoou a calça jeans que vestia e olhou para ele com uma ruga entre as sobrancelhas e uma expressão divertida. Aquela fala era dela, ela diria em circunstâncias normais. Terminou de jogar de qualquer jeito as peças de roupa na mochila e a fechou, se aproximando mais uma vez da cama que dividia com o primeiro homem que conseguiu despertar nela a vontade de jogar as responsabilidades para o alto e voltar para a cama, para ele.
– Escuta, eu sabia que isso ia acontecer. Eu só estou imensamente grata por tê-lo encontrado antes de… Bem, eu tive algum tempo com ele, e sinto que tenho que estar lá agora. Eu estou bem. E não tem nada que você possa fazer agora além de estar exatamente assim quando eu voltar – apontou para ele enquanto um sorriso malicioso era inutilmente contido.
Ele sorriu em resposta, se esgueirando para o lado dela da cama e sentando na beirada enquanto a puxava para perto pela cintura. – Nada? Mesmo?
Se permitiu ser beijada e não protestou quando a boca dele começou a descer pelo seu pescoço, mas uniu toda a força de vontade que tinha dentro de si para parar a mão que entrava por baixo de sua blusa fazendo com que ela sentisse o controle escorrer por entre seus dedos como água. – Você pode limpar aquele seu muquifo, Barnes – provocou sabendo que aquilo o faria rir, e se arrepiando quando a respiração dele se chocou contra sua pele – E pode me prometer que não vai se alimentar de chocolates e salgadinhos. Faça umas sopas, compre umas frutas – instruiu – Você está ficando gordo.
– Que culpa eu tenho se tenho uma namorada que – traçou uma linha de beijos da clavícula até o pé do ouvido dela, vendo-a fechar os olhos e suspirar – cozinha pra mim e não me deixa sair da cama?
– Buck… – murmurou, afastando o rosto dele pela própria sanidade – Eu preciso ir.
Ele sorriu derrotado, assentindo em seguida. – Ok. Talvez eu coma algumas ameixas.
– Ameixas são ok – ela sorriu divertida pegando a mochila do chão e colocando nas costas – E o apartamento…
– Talvez eu limpe – deu de ombros fingindo indiferença, aceitando o beijo de despedida que ela lhe ofereceu.
– Eu amo você, Bucky Barnes. Se cuida – murmurou com o rosto ainda colado no dele. E como se tivesse medo da resposta, deu as costas e saiu mais rápido do que ele pôde se dar conta.
Ainda estava sem reação quando ouviu a porta da sala bater, indicando que tinha ido embora, e se pegou rindo sozinho enquanto voltava para a cama porque ela o amava. Fazia tempo desde que ele sentira qualquer coisa parecida com aquilo, e a agitação que aquelas três palavras causaram dentro dele o convenceram de que ele não pregaria mais os olhos aquela noite.
Ficou surpreso, então, ao acordar novamente com um feixe de luz em seu rosto e pássaros cantando do lado de fora, mas foi ao se lembrar das últimas palavras que sua garota tinha dito a ele na noite anterior que decidiu que aquele dia seria produtivo. Tentou — embora não com tanto sucesso quanto esperava — fazer panquecas para o café da manhã, tomou um banho, se vestiu e passou no próprio apartamento para buscar suas luvas e bonés para sair. O mundo lá fora parecia muito mais intimidador sem ao seu lado, mas ele fizera uma promessa a ela e estava otimista na missão de cumpri-la.
Deu bom dia aos transeuntes, afagou dois cachorros no caminho, passou numa floricultura tão colorida que quase cedeu ao impulso de comprar flores para a namorada, o que só não aconteceu porque ele tinha certeza que elas morreriam sob os cuidados dele até ela voltar. Conversou com um casal de idosos na barraca de queijos e os ouviu contarem orgulhosos sobre a fazenda deles no interior, o que o rendeu uma degustação dos melhores pedaços que tinham. Já estava começando a sentir fome de novo quando decidiu ir direto ao ponto e voltar para casa comer algo que não fosse salgadinhos e chocolate, e por mais que os damascos estivessem com uma aparência boa, achou que seria engraçado que ele levasse de fato ameixas para casa, e foi o que comprou.
Não soube dizer o que fez com que aquele arrepio percorresse sua espinha no momento em que ele pagou pelas frutas. De repente, a sensação de estar sendo observado se fez presente e, ao olhar em volta, ele soube que algo não estava certo. As coisas pareciam exatamente iguais a todas as outras vezes em que passou por ali, mas algo parecia anormal, ele sentia aquilo. Ainda não entendia perfeitamente como seu braço biônico funcionava, mas o fato dele ter sentido uma movimentação involuntária nas juntas de metal o convenceram de que ele não deveria estar ali. Ora, se seu braço metálico estava — e ele não encontraria melhor palavra para definir aquilo — arrepiado, ele definitivamente precisava entender o porquê.
Em contraste à sua ida, a volta para casa foi feita de forma rápida, objetiva e discreta. Sequer olhou para os lados, e muito mal para cima, conhecendo de cor o caminho que precisava fazer para o sétimo andar do prédio desgastado que chamava de casa.
Não sabia, também, explicar por que soube no momento em que alcançou o corredor do apartamento que ele não estava sozinho. Talvez fossem os instintos que ele honestamente nunca saberia explicar como funcionavam, talvez fosse uma paranoia e ele não se martirizaria se fosse, já que tinha todos os motivos do mundo para sentir tamanha insegurança.
De qualquer forma, sua entrada foi silenciosa, sua movimentação foi sutil e não precisou procurar muito para se dar conta de quem sua companhia era. Não o viu inicialmente, porém, e ele não teve coragem de se mover um milímetro sequer depois de ver a imagem daquele escudo em sua sala de estar.
Ouviu um pequeno chiado vindo do homem parado de costas para ele e sua resposta em seguida. – Entendido – foi o que ele disse enquanto folheava o diário que Bucky deixara longe dos outros. Ele não precisava que o Capitão América lesse seus pensamentos, mas não conseguiu falar, se mover ou fazer qualquer coisa. Não precisou. Assim que respondeu à sua escuta, Capitão pareceu perceber a presença dele ali.
Sua movimentação não deixava indícios de que estava na defensiva, muito menos que tinha a intenção de atacar. Os dois se encararam por um instante antes de qualquer manifestação verbal.
– Você me conhece? – Capitão perguntou. O escudo baixo, os ombros tensos; Bucky poderia descrever a expressão que as sobrancelhas dele ajudavam a formar mesmo que elas estivessem cobertas.
– Você é Steve – Bucky respondeu olhando nos olhos dele. Quando deu sequência, porém, desviou o olhar – Eu li sobre você no museu.
– Eu sei que você está nervoso, e você tem razão para estar. Mas você está mentindo – acusou, fazendo o outro engolir em seco.
– Eu não sei por que você está aqui. Eu não causo mais problemas – defendeu-se.
– E é por isso que eu preciso que confie em mim e saia daqui, porque têm pessoas vindo para cá agora bastante empenhadas em te colocar em um – Steve deu um passo na direção dele, que reagiu dando um para trás.
– Eu não vou a lugar algum, essa é a minha casa – olhou em volta procurando por algo que ele não sabia o que era. Uma rota de fuga? Algo que indicasse que aquilo era uma armadilha para levá-lo?
Cap pareceu ouvir mais alguma coisa e imediatamente seu escudo foi empunhado numa altura que não indicava mais a passividade de antes. – Eles estão aqui. O perímetro está fechado e perdemos o apoio do telhado. Bucky, você precisa vir.
– Você pode ir, Capitão. Essa briga não é sua – começou a tirar as luvas porque sabia que aquilo sempre acabava numa luta.
– Eu não vou deixar você de novo – negou com a cabeça.
Os vidros das janelas explodiram e as paredes foram perfuradas uma fração de segundo depois, fazendo com que instintivamente Capitão se jogasse contra Bucky para protegê-lo. No chão, Bucky rolou sobre o antigo melhor amigo, desferindo um golpe no chão que quebrou a madeira e arrancou sua mochila do alçapão onde ficava, garantindo que ele tivesse tudo que precisava para fugir.
– Eu não sei do que você está falando – mentiu. Se pôs de pé pronto para correr, mas Cap era mais rápido, e no momento seguinte estava de pé também o segurando pelo braço.
– Bucky – começou a dizer. O ponto em seu ouvido deixou de ser um chiado quando Bucky entendeu, em alto e bom som, o grito de quem quer que estivesse do outro lado.
"Capitão, pro chão!", foi o que ouviu.
Mas nenhum dos dois conseguiu reagir antes da explosão.

01. A Storm Is Going To Come

12 MESES ANTES
A Senhora Prewitt, do 706, gostava muito da vizinhança atual de seu prédio. Moradora há vinte e três anos do enorme complexo residencial em Bucareste, capital da Romênia, havia pouco que ela não tivesse visto por ali. Prostitutas, mafiosos, traficantes? Por algum motivo pareciam cair de paraquedas ali, sempre ali, perturbando as noites dos aposentados e famílias que residiam ali até que a polícia invadisse, o inquilino saísse às pressas sem pagar o aluguel ou o Senhor Moldavo, o general aposentado do 204, pegasse sua antiga espingarda que todo mundo sabia que jamais havia atirado um chumbinho sequer e colocasse a pessoa para fora por perturbação do sossego.
Já fazia algum tempo, talvez anos, que o último evento daqueles acontecera ali. Admitia, claro, que sentia falta de um pouco de adrenalina de vez em quando; ver os vizinhos saindo no meio da noite para os corredores, olhando para cima e para baixo no vão central da escada entre os andares, procurando o que estava acontecendo e com quem. Mas saber o nome de todos os vizinhos, poder cumprimentá-los quando os encontrasse pelas escadas e corredores, ter a possibilidade de dormir todas as noites sabendo que ninguém iria invadir o complexo e lhe tirar o sono? Não, isso era algo que ela não trocava por aventura nenhuma.
Gostava de observar os meninos Graciano crescerem felizes e serelepes ao longo dos anos, de emprestar a seção de esportes do jornal para os irmãos Mocanu e assistir os dois se afastando contentes enquanto faziam apostas para o próximo jogo, de saber que todos os domingos pela manhã encontraria e seria acompanhada pela Senhora Janner até a igreja. Senhora Prewitt gostava de sentir o cheiro de canela, açúcar mascavo e pão quentinho saindo do forno, porque aquilo indicava que pouco tempo depois ela veria o sorriso simpático da Senhorita Bogdanova batendo à sua porta e lhe oferecendo os melhores pães, bolos e doces que ela experimentara ao longo de suas muitas décadas de vida.
Não se surpreendeu ao ouvir as três batidas ritmadas na porta. Secou as mãos rapidamente em um pano de prato que levava por cima do ombro enquanto fazia o almoço e atendeu com um sorriso, vendo a mulher com o avental amarrado na cintura e a cesta de doces já pela metade. De baixo para cima, ela sempre dizia. Quando chegava ao sétimo andar, onde também morava, faltava pouco para esvaziar seu estoque de doces. Sempre guardava os melhores para a vizinha imediata de porta, também dizia.
– Guardou os melhores para mim? – Senhora Prewitt sorriu vendo a morena já levar as mãos ao fundo da cesta e pegar três embalagens bem rechonchudas.
– Oh, Constanta, você me ofende – levou a mão ao peito num gesto dramático – Alguma vez eu fiz diferente? – perguntou entregando os doces ainda mornos.
– É claro que não, menina , é claro que não – negou com a cabeça com uma pequena risada – O que temos hoje?
– Pão doce com maçã e canela, – apontou para o pacote gordinho envolvido em papel alumínio perfeitamente alinhado – cookies de banana e aveia e também de cacau com amendoim – finalizou indicando os plásticos transparentes lacrados, cada um com um par de cookies.
– Algum dia você vai me matar, menina, mas eu vou morrer muito feliz – sorriu em agradecimento.
– Não seja boba! – ralhou, embora sorrisse – Agora me diga, o que aconteceu por aqui enquanto eu viajava?
– Nada de novo sob o sol – arregalou os olhos e suspirou demonstrando tédio – Oh! Não, que cabeça a minha – riu – Ainda hoje pela manhã Senhor Strattman trouxe um novo inquilino para o 703. Parece ser sozinho, não trouxe muita coisa.
– Novo? Velho? Bonito? perguntou fazendo a senhora rir e corar.
– Querida, eu não tive muito tempo para tirar conclusões. Mas parece ser da sua idade. Quem sabe vocês não se dão bem e se juntam para poupar um aluguel, huh? – arqueou uma das sobrancelhas de forma sugestiva.
– Constanta! – repreendeu rindo e negando com a cabeça. – Pare de tentar me casar. Até parece que não conhece o histórico de inquilinos desse lugar.
– Bom, mas ele não parecia ser um traf… O que está fazendo? – a mais velha questionou ao ver a morena lhe dar as costas e seguir até o outro lado do corredor.
– Apenas checando – murmurou com um sorriso sapeca e ergueu a mão para bater à porta do novo vizinho, mas nunca chegou a tocar na madeira porque ele a abriu instantes antes. Não sabia se ele estava saindo, se havia ouvido a aproximação ou se havia sido uma mera coincidência, mas os dois ergueram a cabeça ao mesmo tempo e se encararam. Ela, com a mão erguida para bater, demorou mais do que seria considerado aceitável e a recolheu apenas depois de alguns instantes, sorrindo minimamente numa reação envergonhada. – Oi, vizinho. Eu sou do 705 – apontou por cima do ombro para a porta que ficava exatamente de frente para a dele – e uma vez por semana eu passo pelos setenta e dois apartamentos do prédio distribuindo algumas… coisas – disse enquanto mexia na cesta, usando desses poucos instantes para olhar para baixo.
– Parece exaustivo – foi o que o ouviu dizer antes de erguer a cabeça para ele de novo e encontrá-lo com um olhar levemente desconfiado. A expressão não tinha se alterado em nenhum milímetro, da mesma forma que sua postura.
– Bom, não é como se eu tivesse dinheiro para frequentar uma academia, então subir os nove andares de vez em quando vem bem a calhar – sorriu – Você se mudou hoje, não é? Já tem um fogão? Ora, se tem, provavelmente não teve tempo de instalar o gás. Pode ficar com o restante, cá entre nós eu não acho que o pessoal do oito e do nove gostem muito de mim – confidenciou enquanto empilhava as embalagens de pão e cookies nas mãos dele, cobertas por luvas de couro.
Ouviu uma pequena risada atrás de si e uma porta sendo batida indicando que Senhora Prewitt estava achando sua falta de jeito adorável e os deixaria sozinhos. Constatando isso, encarou novamente o homem esperando que algo na postura dele mudasse. Quando não encontrou nada, deu um passo atrás e fechou a cesta agora vazia.
– Bom, seja bem-vindo – bateu no avental da saia sem jeito, louca para sair dali o quanto antes – Se precisar de qualquer ajuda é só… – gesticulou na direção da própria porta – E qualquer informação, tenho certeza que a Senhora Prewitt pode ajudar. 706 – apontou. Estava pronta para dar as costas e contornar o corredor para entrar em casa, mas não pôde deixar de perguntar – Você come lasanha?
– Eu… – franziu a testa confuso.
– Tá tudo bem, eu trago mais tarde se você estiver em casa. Posso perguntar seu nome? – questionou com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
Ele olhou para a pilha de cookies e pão que tinha nos braços e de volta para a mulher, que parecia ter a melhor das intenções apesar de claramente não estar tão confortável na presença dele. Agradecer seria legal, pensou. Mas as palavras não chegaram a seus lábios e ele apenas engoliu em seco. Tanto tempo sem interações tão cotidianas…
– É James – respondeu finalmente – Meu nome é James – reafirmou.
– Bom, James, você parece bem assustado com minha invasão, mas eu juro que é sua melhor opção. Ninguém consegue ser invisível aqui e se não fosse eu fazendo isso seria a Senhora Prewitt. Acredite, ela gosta de fazer perguntas – quase sussurrou a última parte, vendo a sombra de um sorriso cruzar o rosto dele – Ela teria começado com de onde você é, o que faz da vida e o que está fazendo aqui. Eu sei. Nada agradável. Lasanha mais tarde, sim?
– E você não vai me perguntar nada disso? – ele quis saber.
– Não é da minha conta, na verdade – ela se afastou virando-se novamente para ele quando estava a dois passos da própria porta – Eu diria que você vem de Constança. Sabe, pelo sotaque. Constança é um lugar de pessoas legais.
Ele quis agradecer. Pelos doces, pela preocupação e principalmente por não fazer perguntas. A única coisa que conseguiu dizer, no entanto, foi – Lasanha mais tarde.
Ela sorriu, abrindo a porta destrancada e deslizando para dentro do próprio apartamento em instantes. James encarou a porta e de novo o que poderia ser dez embalagens de pão e quinze de cookies que estavam apoiadas em seu braço colado ao tórax. Estava morrendo de fome, era verdade, e por mais improvável que aquela cena no corredor tenha sido, ele não tinha muito do que reclamar.
, em seu apartamento, mal fechou a porta e escorregou no chão com as costas apoiadas na parede. Sentiu dificuldade para respirar e colocou a cabeça entre as pernas, sentindo todo o pânico contido invadir seu sistema.
– Tá tudo bem, – disse a si mesma enquanto sentia-se sufocar – Tá tudo bem. Ele não lembra.

1945
Costel estava de costas para as grades da cela quando a movimentação começou. Viu pela visão periférica a garota se pôr de pé e ir até lá, mas estava muito concentrado no que fazia para dar atenção ao que quer que acontecesse do lado de fora do cativeiro no qual mantinham ele e a filha desde o início da guerra.
– Ei – a ouviu chamando, mas sabia que não era com ele – EI! – tentou mais alto, fazendo com que ele olhasse por cima do ombro para ter certeza que estava tudo bem – O que aconteceu com aquele cara?
Ela não obteve resposta instantânea e por alguns instantes ele imaginou que ela tivesse voltado para a cama, mas ouviu uma risada masculina em seguida e se virou completamente apenas para encontrar a garota com o rosto entre as mãos de um dos guardas que, através da grade, forçava as bochechas dela a impedindo de falar.
EI – o mais velho gritou, erguendo a mão – Você quer que eu destrua tudo isso aqui? – perguntou.
O guarda olhou do pai para a filha, empurrando o rosto dela de volta para dentro da cela e grunhindo. – Você não tem poder nenhum aqui, Bogdanov – cuspiu as palavras, empurrando o rosto da garota para dentro da cela.
Costel quebrou um tubo de ensaio no qual trabalhava e foi até a grade com o vidro quebrado em punho de forma a intimidar o homem do lado de fora da cela.
– Toque minha filha de novo e vocês não sentirão o cheiro desse soro – ameaçou – A garota te fez uma pergunta.
O homem riu debochado, pousando a mão na cintura para exibir a arma carregada no coldre. – Aquele cara – repetiu com um tom carregado de ironia – é a putinha e Steve Rogers. Vocês dois estão aqui há bastante tempo, vocês ao menos sabem quem ele é?
O homem grunhiu em descontentamento, mas a filha franziu a testa. – Capitão América. Capturaram alguém da equipe do Capitão América?
– Capturaram? – riu de escárnio – O cara caiu de um trem em movimento. Mal está respirando. Se sobreviver, provavelmente vai ser ele o enviado pra matar o macaquinho de circo americano. Poético, vocês sabem.
– E o que faz vocês acreditarem que ele faria isso? – a garota perguntou sorrindo e partilhando da mesma ironia do homem do lado de fora.
Ele, por sua vez, não respondeu. Sorriu ainda mais abertamente e olhou para a mesa de trabalho de Costel. Sua resposta verbal veio apenas depois que os dois prisioneiros seguissem seu olhar e entendessem os planos deles. Um grito de agonia cortou o silêncio que se estabeleceu entre eles, fazendo a garota se encolher. – Hail Hidra – murmurou, se deliciando com a dor do soldado que estava sendo salvo na sala ao lado apenas para ser destruído depois.

2018
estava de pé, mas não saberia dizer como. Suas pernas perdiam a força toda vez que se lembrava de seu pai, da HIDRA ou da Alemanha. Elas mal conseguiam sustentá-la em pé todas as vezes que pensava no que fizeram com James Barnes ou no que ele fez com ela.
Tá tudo bem, repetiu mais uma vez internamente. Ele não lembra.
Pensou em pesquisar sobre o Soldado Invernal. Ver se alguma notícia recente indicava que ele estava ativo, mesmo que soubesse exatamente como ele era quando ativo e que aquilo que vira no corredor não tivesse nada a ver com a versão dele a qual deveria temer.
Mas também sabia que um ano depois da queda da SHIELD alguma coisa já estaria de pé novamente e que jogar aquelas palavras no google poderiam colocá-la no mapa para eles, coisa que ela estava sucedendo em evitar.
Como conseguiria dormir em paz, então, sabendo que ele estava do outro lado do corredor?
Tá tudo bem, repetiu de novo. Ele não vai machucar você.
Mas e se ele estivesse ali exatamente para aquilo?
Completamente paranoica e incapaz de controlar seus pensamentos alucinados, pegou o telefone e discou o número que não chamava há pelo menos um ano.
– Sim? – o homem atendeu do outro lado no segundo toque. Ela poderia imaginar a expressão tranquila dele ao atender o número desconhecido enquanto uma equipe rastreava a ligação para dizê-lo quem o estava ligando antes que ela mesma pudesse se identificar.
– Não rastreie essa ligação – pediu, então.
– Eu estava me perguntando quando você iria ligar – pôde detectar o sorriso em seu tom de voz e soube que ele de fato não a rastrearia. Não tinha interesse em saber onde ela estava desde que ela não estivesse em perigo.
– Apenas checando – ela também sorriu ao responder – Caso você tenha algo bom para mim – mordeu o lábio em ansiedade porque não sabia se estava soando convincente o suficiente.
– Ah, você sabe. Estamos indo aos poucos. Ontem nós salvamos a área dos três estados – contou.
– Eu não ouvi falar de nada na área dos três estados – duvidou.
– Isso é porque eu faço o meu trabalho – retrucou, fazendo-a rir – Como você está?
– Tendo pesadelos – mentiu – Que vocês vêm atrás de mim. E a HIDRA.
– Chá de camomila – aconselhou.
– Você tem certeza que eu não tenho que me preocupar? – insistiu.
– A SHIELD ainda não está sólida o suficiente, temos muita coisa para resolver. A HIDRA… Bem, seria estúpido admitir que eles afundaram, eles provavelmente estão por aí, mas com certeza não estão fortes o suficiente para você ter que se preocupar. Você sabe se defender, não é?
– Eu gosto de acreditar que sim. Posso te pedir uma coisa? – pediu, sentando-se no braço do sofá e mexendo as pernas de forma inquieta.
– Qualquer coisa, você sabe – incentivou.
– Eu preciso de algumas respostas, sabe, sobre meu pai e sobre a Alemanha. Se vocês encontrarem…
– Eu não posso discutir isso com você mais como superior – a cortou – Mas como amigo, pode ter certeza que quando encontrarem algum indício da pista gelada você vai receber um sinal. Mas não é fácil, sabe, antes de mais nada ele é um espião. Como você.
– Eu acho que ele era. Como eu fui – corrigiu – Obrigada, Coulson.
– Não há de quê, agente – respondeu antes de desligar.
levou o telefone à testa e abaixou a cabeça respirando fundo mais uma vez.
A SHIELD não sabia onde James Barnes estava. Será que a HIDRA sabia? Ele poderia estar ali enviado por eles. Ou ele poderia ser tão fugitivo quanto ela...
Está tudo bem, internalizou. É só uma coincidência. A pior de todas elas.
Recuperando-se, ficou de pé e olhou de volta, pensando no que faria em seguida.
Provavelmente não deveria fazer nada, com certeza não poderia.
Então decidiu fazer a única coisa que fazia sentido, mesmo tendo certeza que se arrependeria depois.
Uma lasanha.

02. Who Lives, Who Dies, Who Tells Your Story

Fazia duas noites que não dormia.
Não era como se estivesse se sentindo cansada, todavia. Reorganizou todos os móveis e rearranjou toda a decoração da casa na primeira noite, e repetiu incansáveis séries de exercícios físicos na segunda. Não parecia como alguém que não tinha pregado os olhos à noite quando chegava no trabalho no dia seguinte; não se sentia como alguém que tinha chegado perto de seu ponto máximo de exaustão sem sentir os olhos pesarem nem mesmo um pouquinho. Mas lá estava ela, indo para a terceira noite de insônia e sem ideias do que faria para ocupar seu tempo.
Já havia dançado às músicas mais animadas de sua playlist usando apenas moletom, calcinha e fones de ouvido; já havia ficado entediada de jogar dardos sozinha; já estava pensando em ficar apenas encarando o teto enquanto o dia não amanhecia e ela podia recomeçar sua rotina diária, mas pensou que bem, ela sabia muito bem se defender caso o pior acontecesse e dar uma volta pela rua parecia ser uma boa ideia.
Colocou uma calça de moletom, uma jaqueta por cima da blusa de mangas compridas e esperou que aquilo fosse suficiente para protegê-la do frio do começo de fevereiro. Pegou o maço de cigarros, o isqueiro, a chave e algum trocado por precaução. Na saída, ainda se esticou para pegar a touca que estava pendurada no cabide de casacos e abriu a porta equilibrando os objetos na mão que não estava ocupada pela maçaneta. Encarou o relógio da sala uma última vez antes de fechar a porta atrás de si. 4h33. Talvez algo nas ruas geladas de Bucareste fosse mais interessantes do que as quatro paredes de seu apartamento.
A expectativa fez com que ela tentasse fazer tudo de uma única vez — colocar a touca, equilibrar as coisas em uma única mão e tentar agarrar a chave com o mindinho para trancar a porta da frente. O resultado não poderia ser outro, e ela paralizou o corpo quando ouviu o barulho do isqueiro, das chaves e moedas caindo no chão ecoando pelo grande vão central do prédio pelos andares abaixo. Xingou baixinho e parou a última moeda giratória com a sola do tênis desamarrado. Com sorte, não teria acordado ninguém.
Abaixou-se para amarrar os tênis e recolher suas coisas, e ergueu a cabeça a ponto de ver a porta de entrada do 703 sendo aberta.
Antes da queda da SHIELD em DC, o Soldado Invernal era considerado um fantasma. E depois de tudo que tinha acontecido, ele havia voltado a ser um. As pessoas sequer tinham certeza de que ele existia de fato. E tinha muitos fantasmas em sua vida, seu passado; mas sabia que suas noites em claro tinham a ver com apenas um deles.
– Eu acordei você? – a garota praticamente sussurrou porque sabia que, com o silêncio da madrugada, qualquer coisa seria capaz de acordar o prédio inteiro por conta do eco. Sabia que seu pequeno ato de desastre provavelmente o tinha feito, mesmo que James fosse o único a ter aberto a porta para entender o que estava acontecendo.
Ele a encarou rapidamente antes de olhar em volta e responder – Não, eu… – gesticulou por cima do ombro indicando o próprio apartamento e dando de ombros.
– É, eu tenho insônia também. Às vezes – sorriu minimamente enfiando as moedas no bolso da jaqueta e girando a chave na fechadura – Eu estava descendo pra fumar um cigarro, não queria deixar cheiro nas cortinas. Desculpa a bagunça.
Ele arqueou uma das sobrancelhas – Tá fazendo três graus lá fora – comentou.
Em resposta, o sorriso dela se abriu um pouco mais revelando divertimento – Talvez um pouco menos por conta do vento. Quer me fazer companhia? – ele uniu as sobrancelhas em curiosidade e ela terminou de ajeitar a touca enquanto continuava – A menos que tenha algo super divertido pra fazer aí – deu de ombros.
Ele relaxou a expressão e ela jurava que tinha visto uma breve sombra de divertimento passar pelos olhos do homem – Eu vou precisar de alguns casacos.
– Certamente. James – chamou quando ele deu as costas para ela pronto para entrar em seu apartamento mais uma vez – você comeu alguma coisa?
– O Coelhinho da Páscoa não trouxe chocolates hoje – ele respondeu, mas já estava dentro de casa e ela riu sozinha encarando a porta entreaberta por quase um minuto inteiro. – É uma vez na semana! – retrucou para ninguém – Folgado – acrescentou. Dessa vez, ouviu o que poderia ter sido uma risada. Pequena, discreta, mas estava lá.
Se encontraram de volta no corredor pouco mais de quatro minutos depois, ele inteiramente agasalhado e ela abraçada no que parecia ser um pote. Ele indicou que ela fosse na frente e ela desceu na ponta do pé para não fazer muito barulho. Chegaram no térreo pouco depois e, assim que abriu a porta da frente do lobby rústico do prédio, a garota pensou se era mesmo uma boa ideia ficar do lado de fora congelando. Deu passos firmes para o lado de fora, porém, e umedeceu o indicador na boca antes de erguê-lo para descobrir em que direção o vento cortante da madrugada estava soprando.
A frente do prédio tinha uma pequena escada que descia até a rua e, coberta por uma marquise vermelha, formava dois pequenos muros ao lado dos degraus. Ela estendeu o pote na direção dele, que notou que além do conteúdo quente de dentro que ele não sabia o que era, havia uma caixinha de suco junto. O homem abriu a boca algumas vezes antes de conseguir responder àquilo, e quando finalmente falou, ela já estava acomodada do seu lado da mureta, com as pernas cruzadas para evitar a fina neve que caía logo à frente, na parte que a cobertura não alcançava.
– Eu estava brincando, . Eu… eu comi – ele parecia envergonhado.
Ela riu, posicionando um cigarro entre os lábios – O que é felicidade pra você, James? – perguntou e tentou algumas vezes antes de fazer o isqueiro manter a chama por tempo suficiente. Deu uma primeira tragada e, sem soltar a fumaça, gesticulou com a mão e continuou – Pra mim, felicidade é alimentar as pessoas. Torná-las gordas – soltou a fumaça sorrindo – Só me deixe saber depois como estava. E cuidado com esse lado, essa placa de mármore está solta, não apoie na beirada – apontou com o dedo quando ele fez menção de apoiar no seu lado do muro para se sentar.
Assentindo, James se sentou com cuidado, não se importando em deixar os pés para fora da cobertura. Abriu a tampa do pote que soltou uma fumaça densa e cheirosa que revelou algo salgado do lado de dentro. Ele estava pronto para perguntar o que estava prestes a comer, mas a garota tomou ar para falar mais uma vez.
– Você não precisa mentir pra mim, aliás – comentou sem encará-lo, e ele, por sua vez, manteve o olhar nela de forma estudiosa, esperando que ela continuasse – Você ao menos tem um fogão? Porque tudo indica que não e eu nem quero imaginar o que é que você come! – ela abriu um pequeno sorriso – Espero que goste de torta de cogumelos.
A resposta dele foi desembrulhar o garfo e se servir de um pedaço, sem se preocupar em dizer nada. Ela terminou o cigarro alguns minutos e garfadas depois, e depois de apagá-lo, tateou o muro abaixo de si até encontrar uma pequena abertura onde enfiou a guimba sem problemas sob os olhos estudiosos do rapaz, que a encarou em seguida.
– Você realmente conhece esse lugar – não era uma pergunta, mas em algum lugar daquela constatação havia uma entranhada. Ela realmente conhecia aquele lugar. Como tinha ido parar ali?
Ela assentiu brevemente, trazendo os joelhos para perto do peito e abraçando-os – Depois da guerra Russo-Turca, os russos que migraram pra cá se juntaram e criaram esse lugar. Isso tem… quase cento e quarenta anos – sorriu – O apartamento onde moro tem sido da família do meu pai desde essa época, passando de geração a geração. Eu costumava morar aqui com ele antes dele morrer – fungou brevemente, James não saberia dizer se por conta do frio ou por conta da menção ao falecimento do pai – Depois disso eu estive em todos os lugares, trabalhei com muita coisa, acabei voltando para cá há um ano? Mais ou menos, e não me surpreendi em encontrar tudo exatamente igual. Eles nem ao menos consertaram o elevador.
– Seria útil – ele comentou. Não sorria, mas seus olhos tinham um quê de diversão. Estava à vontade.
– Não pra mim! – ela riu baixo – Eu trabalho num restaurante durante o dia e cozinho todos os dias à noite, faço bolos e doces uma vez na semana no mínimo… – listou – Essa escada é a única atividade física que me impede de virar o Garfield.
– Não deixaria de ser uma escolha – ele retrucou. Ela arqueou uma única sobrancelha e assentiu brevemente dando a ele a razão. Chegou um pouco para trás, aproveitando que o muro tinha uma subida na diagonal perfeita para apoiar as costas e tateou os bolsos para pegar mais um cigarro.
Nunca tinha realmente parado para pensar no quão bem conhecia o lugar. Fazia tanto, tanto tempo desde que tinha morado ali com seu pai que na verdade era surpreendente que pouca coisa tivesse mudado. Ainda sabia em quais madeiras da tapeçaria não deveria pisar se quisesse evitar rangidos alarmantes; conseguia facilmente encontrar os pequenos buracos nos muros e paredes dos corredores onde costumava esconder as bolinhas de gude das outras crianças e que agora serviam como cinzeiro quando não tinha opção melhor; lembrava perfeitamente quais andares tinham problemas com a saída de lixo — incluindo o seu próprio, o que a fazia ter que descer até o sexto andar para garantir que as sacolas chegassem até lá embaixo e não simplesmente entupissem o caminho e apodrecessem ali. Deveria falar aquilo para James, pensou, mas antes que pudesse se dar conta ele estava falando com ela.
– Você sente falta? – perguntou olhando para a neve caindo em sua bota.
– Do quê? – ela quis saber.
– De estar em todos os lugares – olhou para ela parecendo genuinamente interessado, fazendo-a piscar algumas vezes para associar a pergunta que lhe tinha sido feita.
– Não – respondeu depois de alguns instantes – Agora não. É bom ter um lugar pra chamar de casa – concluiu. Pelo canto do olho, o viu assentir em silêncio. Ele tinha acabado de comer e espetava o canudo na caixinha de suco, o que a fez sorrir sem entender bem o porquê. Resolveu que não queria ficar em silêncio de novo e emendou – E você? Como veio parar aqui?
– Eu não sei. Realmente não sei – soou sincero – Às vezes você só passou por tanta coisa que precisa encontrar um lugar para esquecer um pouco. E lembrar mais um pouco. Isso faz sentido? Quer dizer, quando se é um… – interrompeu a frase na metade e ela não demorou para completar para ele.
– Veterano? – perguntou – Apenas um palpite.
– É tão óbvio? – ele questionou e ela apenas deu de ombros – É só que quando você já viu tanta coisa e já fez tanta coisa… Às vezes você precisa encontrar uma forma de começar de novo.
Ela encarou o vermelho da marquise acima de si por alguns instantes, absorvendo o que tinha ouvido. Ele estava sendo sincero com ela. Tão sincero quanto poderia ser. Imaginou quanto tempo fazia desde que ele tinha tido aquela conversa com alguém. Se algum dia ele tinha tido aquela conversa com alguém. E sentiu que não teria mais noites em claro depois de saber que ele confiava nela. Porque aquilo fazia com que ela confiasse nele também.
– Sabe – ela começou abrindo o maço de cigarro, mas o ouviu bufar interrompendo-a.
– Você não deveria fumar tantos desses – aconselhou, fazendo-a sorrir e guardar o maço de volta no bolso.
– Quando eu pensei em ter um lugar fixo de novo eu tentei primeiro a Polônia – ela se sentou novamente, encarando-o rapidamente antes de prosseguir – É onde eu nasci, de onde a minha família biológica é. Eles tiveram que me entregar para o meu pai quando eu era pequena por motivos políticos, eu não sei – suspirou – Eram as duas opções que eu tinha, aqui e lá. E eu achei que por nunca ter criado laços por lá seria mais fácil pra mim. Eu odiava esse lugar quando cheguei. Eu o amei antes de ir embora. E eu estava procurando por algo mais neutro, ou eu achava que estava. Quando eu não senti nada na Polônia eu sabia que estava faltando algo e aqui – indicou o prédio por cima do ombro – foi incrivelmente onde eu descobri que posso me encontrar de novo. Como você disse, esquecer algumas coisas. Lembrar outras – acrescentou num tom mais baixo.
– É diferente pra mim. Eu não consegui ficar em lugares que amei. Tampouco em lugares que odiei – sacudiu os ombros numa pequena risada triste que foi embora tão rápido quanto surgiu – Talvez esse seja meu lugar neutro. Talvez seja disso que eu precise.
– É uma boa escolha – a garota concordou assentindo sutilmente – As pessoas constroem vidas aqui. É o lar de tanta gente. Talvez possa ser o seu – sugeriu.
– Talvez… com o tempo – concordou. Seus lábios não sorriam, mas seus olhos tinham uma simpatia que fez com que sorrisse em resposta.
– Bom, se você está planejando ficar… – pulou do muro para o chão, ajeitando a jaqueta no corpo – é bom providenciar um fogão. Enquanto isso me diga o que você come, posso trazer algo do trabalho pra você amanhã – estendeu a mão para recolher o pote vazio e tampado que ele a entregou.
– Não precisa se preocupar. E a torta estava maravilhosa, , obrigado.
– Vou entender isso como uma carta branca para escolher o que eu achar melhor – ela retrucou – Vai subir?
– Não agora.
– Obrigada pela companhia, James, boa… bom dia pra você – riu baixo antes de se afastar.
– Bom dia, – ainda ouviu a resposta antes de entrar no lobby e encarar os sete lances de escada que a esperavam.
Sentiu-se leve. Leve por poder lembrar com tanto carinho de seus pais — biológicos e o homem que a havia criado. Leve por ter externado a forma que se sentia em relação a Bucareste e àquele lugar em particular. Leve porque agora tinha certeza que a presença de James Barnes em sua vizinhança queria dizer que o mundo era realmente, realmente pequeno; e não que ela era a missão dele.
O cara parecia estar, de fato, tentando começar de novo. Se livrar dos seus fantasmas, das pessoas que ele havia matado e das que haviam tirado sua vida.
Ela saberia se ele tivesse sido mandado como um espião da HIDRA — ora, no fim das contas havia sido ela a ensiná-lo como ser um.
Mas, acima de tudo, sentia-se leve porque ele não sabia — não lembrava —, mas eles eram mais parecidos do que tiveram a oportunidade de saber antes daquela conversa. Eles não tinham muitas oportunidades de conversar antes, e era bom saber que ele também carregava com ele o fardo de ser muitos dentro de um.
Não cabia a mais ninguém a decisão de quem eles seriam, de quais das versões deles seriam deixadas para trás e qual delas seguiria a partir dali.
Decidiu que ajudaria James, porque mesmo sem querer ele a estava ajudando. E se sentiu patética por aquilo.
Eu não me importo que você tenha tentado me matar – ela murmurou com uma voz irritante que, em sua cabeça, era a sua própria quando dizia e pensava coisas estúpidas – desde que não tente fazer de novo. Muito bom, . Muito bom – elogiou ao abrir a porta do próprio apartamento e se jogar dentro dele.
Tentou enfiar na própria cabeça que eles eram iguais agora. Fugitivos, os dois. Ambos com mais ou menos o mesmo objetivo, tentando esquecer mais ou menos as mesmas coisas sofridas por mais ou menos as mesmas pessoas.
Mas era esse o motivo dela manter um pé no chão enquanto a cabeça divagava pelas nuvens.
Era exatamente por serem tão iguais que ela sabia que não podia confiar totalmente nele.
Até hoje ela não havia conseguido confiar totalmente em si mesma.

03. You Should Know Where I'm Coming From

Apesar de ser uma cozinheira de mão cheia e de gostar de estar na cozinha sempre que possível, o emprego dos sonhos de não envolvia uma cozinha.
Infelizmente, era essa a realidade.
Bucareste era uma cidade grande, afinal, era a capital. E apesar de crises recentes, era um lugar estável para se viver. O problema da garota era que ela odiava se ver numa vida onde passava de oito a doze horas diárias fazendo algo por obrigação para chegar em casa cansada, dormir e repetir tudo no dia seguinte, e existia um número pequeno de empregos de meio-período que não fossem ocupados por jovens estudantes que tinham apenas aquela opção. Sua qualificação, então, a havia levado direto para aquele simpático restaurante executivo que funcionava apenas das 11h às 15h, o que fazia com que ela trabalhasse apenas das 9h às 16h. Não era ideal transformar seu único hobby em algo profissional, mas ela gostava de ter tempo para si, chegar em casa antes do pôr do sol e evitar todos os horários de pico.
Naquela sexta-feira, porém, não pôde evitar a movimentação na volta pra casa. Havia topado um happy hour com os colegas de trabalho depois do expediente e acabado do outro lado da cidade na melhor steak house local. Ela normalmente preferia o bonde ao metrô para fazer seu caminho diário — odiava se sentir sufocada no subterrâneo e não tinha boas memórias de lugares como aquele; além do mais, se sentia indefesa lá: vulnerável e suscetível a qualquer tipo de emboscada que pudesse ser pensada. Paranóica, era essa a definição que usariam caso ela dissesse aquilo em voz alta, mas ninguém havia vivido suas experiências além dela. Além dela e… bem.
Sentiu-se culpada por volta das 18h, quando se lembrou que tinha uma embalagem com comida na bolsa, já que tinha prometido levar um pouco da do restaurante para James, e depois de pagar sua parte da conta, não teve muita opção senão pegar o metrô para casa.
Fez o caminho para casa rezando para a única deusa que acreditava além de Thor, tendo flashes horríveis de momentos ruins vividos em espaços subterrâneos cada vez que as portas do trem se abriam em mais uma estação que não era a dela. Só queria chegar em casa logo e jurou nunca mais considerar o metrô uma opção viável, independente de quanto tempo ela demorasse no trânsito ou do quão cheio o bonde estaria. Respirou aliviada ao sair da estação que ficava na rua de baixo de casa, e murmurou um "obrigada" sutil, caso sua segurança algo tivesse a ver com suas preces.
Já podia ver o prédio antigo do ponto onde estava, e seu alívio muito tinha a ver com sua certeza absoluta de que estava em segurança agora e que nada de ruim poderia lhe acontecer. O pior já havia passado, pensou.
Não sabia se era o álcool no sistema ou se simplesmente estava com muita pressa para chegar em casa, mas assim que subiu o último lance de escadas e se deparou com o sétimo andar, se sentiu morta. Estava tonta, ofegante e muitíssimo necessitada de um copo de água, por isso deu uma breve olhada na direção do 703 se desculpando internamente por atrasar a comida um pouco mais; precisava passar em casa antes de qualquer tipo de interação humana. Franziu as sobrancelhas, porém, ao notar que a porta em questão estava entreaberta.
Na melhor das hipóteses, James havia saído e esquecido de trancar a porta, e o vento a havia empurrado. Na pior delas, ele havia sido levado e ela seria a próxima. Talvez estivessem esperando por ela em sua sala de estar agora mesmo.
Congelou no lugar. Muita informação passava em sua mente ao mesmo tempo e ela se obrigou a focar. Odiava estar tão paranóica desde a chegada de James, mas como não estaria? Então pensou em todas as possibilidades de ação a partir daquele momento. E se ela fosse para casa e eles estivessem lá? Mas, por outro lado, e se eles soubessem que ela iria pensar aquilo e recuar e já estivessem na entrada do prédio esperando-a sair? Olhou mais uma vez na direção do 703 e pensou em ir até lá só pra checar. Mas e se estivesse sendo previsível ao fazer aquilo e fosse exatamente o que eles esperavam que ela fizesse?
Ficou algum tempo ali, parada no topo da escada, sem saber o que faria. A situação só mudou quando ela ouviu o barulho de louça se quebrando no apartamento dele, o que fez com que ela instintivamente largasse a bolsa no chão e fosse devagar na direção oposta ao próprio apartamento. Respirou fundo ao se aproximar da porta entreaberta, pensando que seus instintos que por tanto tempo a mantiveram viva seriam também a causa de sua morte em algum momento.
– James? – perguntou. Não obtendo resposta, empurrou levemente a porta, abrindo-a um pouco mais. – James? É , tá tudo bem?
Dito isso, entrou. E se arrependeu no instante seguinte, quando viu a silhueta de James encarando a parede. O braço metálico estava descoberto pelas mangas curtas da camisa que ele usava, e assim que ela entrou, ele a encarou. Mas ela sabia que não era exatamente James quem estava ali porque ela conhecia aquele olhar vazio.
Tu das nicht, Soldat – tentou em vão. Não importava em quantas línguas ela dissesse para ele não fazer algo. Ela não era uma de suas programadoras e ele jamais a obedeceria. Sentiu o álcool deixar de ser algo relevante em seu sistema, mesmo que não tivesse qualquer justificativa para explicar por que ao invés de fugir, ela fechou a porta com os dois dentro do apartamento. Por um lado, sabia que suas chances de pará-lo eram pequenas; por outro, sabia que era a única pessoa ali capaz de ao menos tentar, e que se ele saísse dali como Soldado Invernal aquilo não acabaria bem para ele, para ela ou para ninguém que morava naquele prédio ou naquele bairro.
Quando ele flexionou a mão metálica e foi na direção dela, então, ela já estava preparada. Conseguiu desviar da primeira tentativa dele de imobilizá-la e segurou um soco desferido com a mão direita, encarando-o nos olhos e dizendo de forma convicta e em inglês – Você é James Buchanan Barnes e você não é um monstro.
Ele grunhiu, investindo com a outra mão e acertando-a na altura do estômago fazendo-a gritar. O chutou, afastando-o apenas o suficiente para erguer o corpo de novo e desviar de mais uma investida, usando uma das pernas para prendê-lo pelo pescoço e jogá-lo no chão, socando-o no rosto. – Por Deus, James, o que é que está acontecendo? Você não é mais o Soldado Invernal e eu preciso que você acredite nisso!
Quase acreditou ter conseguido pará-lo, mas foi jogada para o chão num movimento brusco dele e teve que rolar para o lado numa fração de segundo porque no instante seguinte o pulso fechado dele acertou o lugar onde a cabeça dela estava, quebrando as madeiras da tapeçaria. Ela fez impulso para se colocar de pé e viu a mão dele vir em direção a si, tendo que erguer o braço para evitar o impacto. Seguiram numa sequência de defesas e socos que a estavam cansando e ela olhou rapidamente em volta procurando algo que a pudesse ajudar. Chutou o torso dele afastando-o e pulou por cima da bancada para ter algo entre eles.
– Me escuta, Bucky, eu não sei o que aconteceu pra te fazer ficar assim, mas eu não planejei morrer hoje então desfaça isso!
Abaixou quando uma faca foi arremessada contra ela e arrancou o puxador da gaveta mais próxima para se defender. Assim que ele a alcançou, ela conseguiu derrubá-lo batendo com o ferro na parte de trás de seu joelho, mas ao cair, ele a agarrou, rolando para cima dela e a imobilizando com a mão biônica em volta de seu pescoço.
Era aquilo, pensou enquanto sentia a pressão em torno de seu pescoço. Era daquele jeito que ela morreria.
Usou toda sua força para empurrá-lo e chutá-lo, mas era impossível pará-lo e ela sabia daquilo há bastante tempo àquele ponto. Então, como pouco de ar que ainda tinha, conseguiu dizer – Isso não é você, Buck. Por favor… – sua cabeça parecia estar a ponto de explodir e ela sabia que não aguentaria muito mais. – Bucky! – pronunciou num fio de voz, sentindo sua temperatura corporal aumentar até se tornar quase insuportável. Fechou os olhos esperando pelo pior e sentiu, gradativamente, o aperto que a impedia de respirar sendo afrouxado pouco a pouco até o momento em que ela conseguiu puxar uma lufada de ar para os pulmões e sentiu todo o corpo pulsar em desespero.
Abriu os olhos e encarou os olhos azuis de James. Confusos, perdidos, assustados. Ele encarou a própria mão contornando o pescoço de e se afastou com pressa, atônito, derrubando tudo pelo caminho. Ela passou as mãos em volta do pescoço, sentindo uma ardência surreal que aumentaria logo mais quando os hematomas começassem a surgir. Respirou fundo algumas vezes antes de impulsionar o corpo para se colocar sentada, sentindo cada músculo de seu corpo se contrair em revolta pela ação. Encarou James que, já de pé, olhava em volta como se tentasse entender. Ela tomou ar para falar, mas viu o indicador esquerdo dele e esticar na direção dela e se encolheu ao ouvi-lo falar.
– Quem é você? Quem te enviou aqui? Você deveria estar morta – disse com a voz trêmula.
Ela suspirou, fechando os olhos por alguns instantes.
Como explicaria para ele quem ela era? Como o faria entender depois de tê-lo visto perder suas memórias de novo e de novo até se tornar uma rotina, ter o cérebro fritado a bel-prazer de nazistas nojentos e cientistas loucos, depois de tentar ajudá-lo de todas as formas até passar a sofrer o mesmo que ele?
– Como você sobreviveu? – ele insistiu.
Ela ainda não sabia o que responder. Por onde começar. As coisas eram tão confusas para ela, não imaginava como seriam para ele.
Se pôs de pé com dificuldade, abrindo a geladeira dele e depois o congelador, encontrando ervilhas congeladas que foram bem-vindas pelo seu pescoço dolorido. Então ficou ali, parada processando acontecimentos recentes e passados sem realmente dizer nada.
– Eu vou precisar de respostas! – James gritou, chamando a atenção dela.
– O meu pai – gritou de volta – te transformou no que você é hoje – continuou, dessa vez usando um tom mais baixo. – Merda, James. Você me pergunta quem eu sou e quem me enviou aqui e quer que eu acredite que é uma simples coincidência você ter aparecido aqui? Justo aqui? E agora o Soldado Invernal. Eu devia saber que você ainda tá com a HIDRA.
Atravessou a cozinha na intenção de ir para casa, mas sentiu a mão dele segurar firme seu braço, fazendo-a parar.
– Primeiramente – ele disse – eu nunca estive com a HIDRA. Em segundo lugar, porra, que história é essa do seu pai? Como você me conhece? E, de novo, quem te enviou aqui?
Ela o encarou impassível por breves instantes. Forçou o braço para longe do aperto dele e puxou uma cadeira para se sentar. Estava se sentindo tonta de novo. Já fazia algum tempo desde que ela não encarava a morte tão de perto.

1945
– Eu acho que terminei – Costel murmurou, encarando os dois frascos com o soro que passara meses desenvolvendo.
– E vai funcionar? – a mais nova se esgueirou até perto do pai, encarando os vidros como se eles contivessem a resposta para todas as perguntas da humanidade. Talvez, pensou, tivessem mesmo.
– Eu… eu não sei – ele admitiu. – Até onde eu sei poder matar a pessoa que usá-lo. Não tenho como testá-lo e isso é tudo que tenho.
– É a nossa única chance, papai – ela insistiu.
– Teremos que tentar a sorte – concordou com um aceno de cabeça. – Mas se não estiver perfeito e… e se não funcionar. Seremos mortos.
Ela encarou o pai e então os frascos. Numa atitude impulsiva, pegou um deles e bebeu todo o conteúdo de uma vez. O mais velho soltou uma exclamação surpresa e a empurrou para o canto da cela, sentando-a e passando a procurar por algo.
– Minha filha, por que você fez isso? – soou desesperado.
– Porque você é a única pessoa que sabe como fazer isso. Como incrementar ou mexer no que precisar. Se der certo comigo, vai dar certo com você. E se não der… continue tentando.

2018
– O que aconteceu então? – James perguntou ao fim da narrativa.
suspirou. – Deu certo. Eu disse a ele que podia ver e ouvir tudo. Que estava mais rápida, mais enérgica, mais poderosa. Mas eu não estava tão mais forte quanto deveria, então ele passou a trabalhar nisso. Mas descobriram, e tiraram o soro de nós no momento em que ele fez as alterações necessárias. Atiraram na cabeça dele bem na minha frente e levaram o soro até você – narrou, sentindo um arrepio correr por sua espinha. – Eles prometeram que deixariam meu pai e eu sairmos quando o soro estivesse pronto, mas por conta da traição o mataram e fizeram de mim prisioneira deles. Tanto quanto você.
Ele pareceu associar as informações. A expressão era de desconfiança, mas ao mesmo tempo de curiosidade. Ela sabia que ele tinha mil perguntas a fazer e ela também teria, mas não se sentia disposta a respondê-las naquele momento. Por mais que a história fosse muito mais extensa do que aquilo, ela não havia mentido em uma palavra sequer. Citar o nome do pai doía, e lembrar os momentos em que tinha passado naquele cativeiro também.

1945
Existiam alguns traumas que uma pessoa podia passar com a possibilidade de se recuperar depois. Um acidente de carro, por exemplo. A perda de um ente querido. O que ela havia passado, porém, jamais poderia ser esquecido. Ser sequestrada no meio de uma guerra era algo que deixava marcas. Ser agredida, violentada e deixada sem comida por dias, também. Ver o pai ser morto e ser deixada com o cadáver dele por dias vendo as moscas e os ratos tomarem conta do espaço cercado de grades sem ter para onde ir ou a quem recorrer era, para ela, o maior trauma que alguém poderia passar na vida. Era desumano, inimaginável, e ela só queria morrer também.
Mas a guerra acabou logo depois daquilo e, derrotados, os nazistas da HIDRA se recolheram para a Sibéria. Ser transportada numa jaula como um animal com frio e fome também entraria para a lista de traumas insuperáveis da lista dela.
Foi no caminhão que os transportava que ela viu James pela primeira vez. Pálido, magro, dentro de uma prisão de vidro muito melhor do que a dela, mas ainda assim uma prisão. O olhar dele era fixo e ele não mudou de posição em nenhum momento durante a viagem.
– Você pode falar? – ela perguntou a ele, vendo seu olhar vazio continuar encarando o nada à sua frente. Era um boneco. Uma marionete da HIDRA com um recém-implantado braço metálico que mais parecia uma arma e com o soro de seu pai circulando nas veias. Ela conseguia imaginar para que a HIDRA o usaria, mas preferiu não pensar no assunto. – Deus, o que fizeram com você – murmurou. E pela primeira vez sentiu medo de algo não físico. Sentiu medo de mexerem no cérebro dela como fizeram no dele, medo de não ser mais ela quando a HIDRA não quisesse mais que ela fosse.
Mas por que é que ela ainda era ela, afinal? Seu pai fora executado a sangue frio e nada havia sido feito com ela. Ela sabia que algo tinha a ver com o soro que corria em suas veias e agora fazia parte de quem ela era, mas se eles tinham a versão melhorada correndo nas veias do homem em sua frente, para que ela ainda seria útil?
Muita coisa passou pela cabeça dela, nenhuma das hipóteses era reconfortante. Mas se eles se deram o trabalho de levá-la com eles, era porque ainda viam alguma utilidade nela; do contrário a teriam deixado para morrer na Alemanha.
O caminhão parou e alguns instantes depois a parte de trás foi aberta, fazendo com que sua vista doesse pela claridade refletida em toda aquela neve. Dois caras armados a encararam, e depois a James, e o primeiro abriu a porta da jaula que prendia o homem ao dizer – Beginne zu laufen, Soldat.
Como se tivesse sido programado para aquilo, James se levantou e desceu sem ajuda do caminhão, passando a andar na direção da base à frente deles. Não precisou de escolta nem instruções, apenas andou na direção da base. Um arrepio subiu pela espinha da garota pensando em que tipo de lavagem cerebral se podia fazer para transformar alguém num robô.
– Se você prometer se comportar eu te deixo ir andando também – um dos caras armados disse a ela. – Você vai ver que não tem pra onde correr e se você andar vai nos poupar um trabalhão.
Ela assentiu sutilmente, vendo sua jaula ser aberta também. Desceu, sentindo os dedos do pé se cortarem ao terem contato com o gelo, e cruzou os braços para se proteger do frio antes de começar a andar. Mas quando tentou fazer com que suas pernas se movimentassem, travou. Ficou parada no mesmo lugar até ver uma arma ser apontada na sua direção fazendo com que ela se encolhesse.
– Qual o problema, garota? – o segundo soldado cuspiu.
– Eu tenho medo de virar as costas e você atirar em mim – confessou. – Posso andar de costas? Virada pra você?
– Não – disse, ríspido, mantendo a arma empunhada – Ande normal. Eu quero ver a sua bunda.
Os demais soldados próximos riram e ela estremeceu. A arma apontada em sua direção não a deixou fazer nada além do que lhe fora ordenado, e ela andou.
Não acreditava em Deus, não tinha qualquer fé que pudesse lhe amparar em um momento como aquele. Mas seus pais biológicos eram irlandeses, e mesmo ela tendo nascido da Polônia, tivera contato com o que os pais acreditavam. E eles acreditavam em mais de um deus, portanto ao menos um deles deveria estar ali para protegê-la.
Enquanto caminhava na direção do bunker, internamente rezava para a deusa protetora das mulheres. Não acreditava nela, mas naquele momento precisava da sua proteção. Mesmo de costas, sentia os olhares de fato em sua silhueta, em sua bunda. E sabia que ao menos duas armas estavam apontadas para ela caso tentasse fugir.
Não tinha para onde correr. E mesmo desejando todos os dias estar morta, não saiu da linha um momento sequer.
Era só correr e um tiro acabaria com todo o inferno que ela estava vivendo. Mas aquele maldito soro havia implantado nela uma necessidade intrínseca de sobreviver, de continuar viva por quanto tempo fosse possível.
E ela odiou seu pai por aquilo.

2018
– Eu não me lembro de nada disso – ele constatou.
– Sejamos sinceros, Barnes, você se lembra de alguma coisa? Qualquer uma.
Ele não respondeu. Ficaram em silêncio por um longo tempo. Ele contemplando as informações que eram todas novidade, ela sem saber o que pensar sobre a situação.
– Você quer que eu acredite que a sua chegada aqui foi coincidência – ela disse. Não era uma pergunta. – Que de todos os lugares do mundo você escolheu a Romênia, Bucareste, esse prédio, o sétimo andar pra vir se esconder.
– Eu não estou com a HIDRA – ele reforçou – Desde…
– Desde a queda da SHIELD, quando você desapareceu. É, eu também. Mas eu estou aqui desde então, James, e eu estava muito bem sem nenhum fantasma do meu passado vindo me assombrar – declarou.
– Eu posso sair daqui, se você quiser. Mas eu não vim atrás de você. Eu não sei quem você é – ele cuspiu as palavras.
– É, você pode não saber! Mas se você tá conseguindo se esconder do mundo há um ano você deveria agradecer a mim, porque fui eu, Barnes, que te ensinei a fazer isso. A ser um espião, a ser invisível, a ser um fantasma – se pôs de pé empurrando o dedo no peito dele. Não sabia de onde aquela raiva vinha, mas não pôde conter a necessidade de extravasá-la.
Ele a encarou imóvel. E gradativamente seu rosto assumiu uma expressão de puro entendimento, enquanto seus olhos se arregalavam e suas sobrancelhas arqueavam.
– Mihaela – pronunciou. – Você não é , você é Mihaela!
Here we go.

04. Death and All His Friends

1945
Aquele ano parecia nunca acabar, ao contrário de Mihaela que se sentia cada dia mais perto de um colapso. Ela estava acabada. Passava 100% do tempo dentro de um cômodo que, por cortesia, tinha um banheiro. Além disso, uma única cama de pedra com colchão puído e uma cadeira solitária. Era uma sobrevida que nunca, em toda sua vida, ela havia imaginado para si.
Não tinha contato com ninguém. Suas poucas refeições eram entregues por uma abertura na porta e eventualmente alguém colocava uma água sanitária e um escovão para que ela pudesse limpar o local. Fofos, pensava. Tão preocupados com o bem estar dela.
Um dia, no meio de um surto, ela bebeu um litro de água sanitária tentando acabar com aquilo. Vomitou tudo e não sofreu nenhum arranhão, tendo que esperar até a semana seguinte por mais produto para limpar a bagunça que fizera tentando dar um fim à própria vida.
Achava que seu castigo não seria a morte, mas a tortura; até que um dia sua porta se abriu, revelando dois soldados armados e um homem de terno e gravata. Ela se encolheu aos olhos dos homens, e o mais velho pigarreou para chamar a atenção.
– Podem trazê-la – decretou.
Não teve forças para se debater, tampouco queria. Foi levada por um corredor que parecia não ter mais fim e jogada de qualquer jeito dentro de uma cela como a que inicialmente viveu com seu pai. Não era uma sala, era uma cela dentro de uma sala. E havia pessoas em volta, observando-a como se fosse um animal selvagem, cientistas e soldados com expressões suaves de quem não sentia um pingo de peso na consciência por fazerem o que faziam.
Ela se encolheu no meio da cela, onde ninguém poderia tocá-la, e sentiu o estômago se revirar olhando fixamente para o engravatado que a havia buscado. Não sabia o que queriam com ela, mas não pareciam simpáticos. Por pior que fosse a situação, fazia três noites que ela sonhava com coisas banais como comprar um sorvete ou ler um livro num café. Ela sonhava com a liberdade. Mesmo que a expressão daqueles homens dissesse que ela jamais a teria de volta.
– Tragam ele – o homem decretou, fazendo-a olhar em volta de forma confusa. Até que seu corpo gelou ao ver James.
Não parecia mais um prisioneiro. Não se parecia nada com ela. Estava mais forte. Sua bochechas estavam rubras como apenas a de uma pessoa saudável poderia estar. Ele estava limpo e uniformizado com um traje que ela só conseguia descrever como um traje de guerra. O braço metálico estava propositalmente exposto e o rosto parcialmente coberto, ela só conseguia ver seus olhos. E eles estavam tão vazios quanto duas bolas de gude.
– Faça – ordenou, e James caminhou até a cela, trancando-a atrás de si.
Por um lado, queria suspirar aliviada. Sua mente estava em paz. Finalmente, pensou.
Por outro, aquele maldito soro entendeu que sua vida corria perigo e fez com que ela reagisse imediatamente. Não estava mais com fome. Sequer cansada. Suas dores corporais desapareceram, não eram importantes no momento. Sua visão se aguçou assim como seus reflexos, e ela segurou o pulso dele vindo em sua direção, impedindo que ele a socasse e reagiu com um soco no estômago e um no rosto do homem. Foi golpeada na cabeça e soltou uma exclamação ao ver as coisas perderem um pouco de foco, desviando no instante em que receberia o segundo golpe.
Ela queria morrer. Por que é que ela não conseguia simplesmente se render?
Conseguiu correr para o lado oposto da cela, chutando a mesa que estava ali e quebrando uma de suas pernas para usá-la como arma. James se aproximou desviando prontamente dos primeiros dois golpes desferidos pela garota, segurando o pedaço de madeira e alcançando o pescoço dela com a mão livre. Mas era a direita, e por isso ela conseguiu se livrar dele com alguns chutes. Sabia que ele não cometeria o mesmo deslize duas vezes e que a próxima vez que tivesse contato com a mão dele, não seria a mão de verdade e seria o fim para ela.
Agarrou as barras da cela com ambas as mãos tomando impulso para chutá-lo, mas ao invés disso, passou as duas pernas em volta do pescoço dele, golpeando-o na cabeça até que ele a agarrasse e a jogasse no chão. Recuou de costas, mãos e pés no chão, olhos fixos em seu agressor. Assim que as costas se chocaram com o outro lado da grade, a usou de apoio para se colocar de pé, mas não teve tempo de reagir antes de ver o braço metálico vindo na direção de seu rosto. Sentiu o nariz sangrar e chorou, mas não apagou. Tinha certeza que teria uma concussão graças ao choque de sua cabeça com o ferro pesado das barras, mas sabia também que o soro havia sido pensado para transformá-la numa guerreira e que ela não apagaria ali. Mas ele era mais forte que ela. E assim que sentiu o metal gélido envolver sua garganta, cedeu. Havia oferecido um show para os agentes da HIDRA, mas se ainda tinha alguma dignidade, queria morrer com ela.
Estava quase apagando quando ouviu alguém dizer algo e o aperto em seu pescoço se desfazer. Caiu no chão de quatro, uma dor horrível para respirar e recuperar o fôlego perdido há pouco. James estava parado na frente dela, mas não parecia ter a intenção de se mover. Ela ergueu o olhar e viu que o engravatado que a havia tirado do quarto estava particularmente interessado na cena em questão.
– Então – ele pronunciou olhando diretamente para ela – Você ia morrer agora, mas parece que você não é tão inútil no fim das contas.

2018
– No mesmo tom em que Willy Wonka disse "anime-se, Charlie, você ganhou a fábrica de chocolates" – acrescentou. – Mas você não faz ideia do que isso quer dizer, faz?
– Então essa não foi a primeira vez que eu tentei te matar – James concluiu, ignorando a referência da qual ele de fato não sabia de onde saíra.
– Tenho medo de não sobreviver a uma terceira tentativa – ela murmurou, encarando a molhadeira que as ervilhas já derretidas faziam em sua roupa e se pondo de pé pronta para atravessar o corredor e se abrigar na própria casa.
– Os vizinhos vão chamar a polícia – ele comentou enquanto a seguia corredor afora. – Por causa dos barulhos.
– Não, James. Eles vão me olhar torto amanhã achando que a gente fez um sexo muito selvagem – bateu com força a porta do congelador após pegar a bolsa de gelo que estava lá para quando suas dores musculares atacavam. – Obrigada, aliás, por me transformar numa vadia.
Ele a encarou sem dizer nada por alguns instantes. Olhou o apartamento onde estava, completamente diferente do seu, que parecia de fato uma casa com tudo que uma casa deveria ter. Não viu o que ela estava fazendo, andando de um lado para o outro, mas inconscientemente procurou com o olhar algo que pudesse fazê-lo se lembrar dela, se lembrar de algo que ela estava narrando.
Desde que havia se livrado da SHIELD, da HIDRA e de todo mundo que procurava por ele, por bem ou por mal, ele havia se deparado com a frustrante situação de sua ausência de memórias. Sabia que era Bucky. Graças ao museu do Capitão América em DC, sabia o que isso queria dizer. Mas quando fugiu, isso era tudo que tinha.
As piores imagens vinham primeiro. Ele conseguia se lembrar de cada assassinato que cometera e, vez ou outra, acabava sonhando com torturas que ele sabia, assim que acordava, que eram memórias fragmentadas e não apenas pesadelos aleatórios. Sempre acordava sem fôlego, encharcado em suor, o coração a mil. As lembranças que ele queria ter de volta, as de quem ele era antes de transformarem naquilo… aquelas eram as mais difíceis de ocorrerem. E quando ocorriam, eram registradas imediatamente num caderno porque ele poderia esquecê-las momentos depois.
Às vezes, ele tinha memórias completas. Um dia inteiro, um evento, um diálogo. Mas na maioria delas ele tinha flashes. Rostos. Lugares. Cheiros. Nomes.
Sabia que o nome Mihaela tinha algo para lhe dizer, e graças a essa lembrança ele teve certeza que sim, a mulher à sua frente estava dizendo a verdade.
Gostava de saber que não estava ficando louco como imaginara, ao confiar em uma pessoa estranha lhe oferecendo comida e lhe tratando bem sem conhecê-lo. Desde o início teve a impressão de que não deveria temer , que podia confiar nela. E passou ao menos duas noites em claro se perguntando por quê. Tudo que ela estava contando a ele somado ao fato dele ter associado alguma coisa a um nome, ao nome dela… Fazia sentido, mas ele ainda tinha muitas perguntas a fazer.
Andou até a sala de estar onde encontrou a vizinha jogada no sofá com uma bolsa de gelo encostada no pescoço e os olhos fechados. A encarou por um breve momento. Sabia ser silencioso, mas sabia que ela estava ciente da sua presença ali, então não fez cerimônia alguma antes de se pronunciar.
– Eu sei que você estava lá. Mas não me lembro de você – desabafou.
Ela abriu os olhos, mas encarou o teto ao invés de a ele. – Senta, Barnes.
Continuou parado por alguns instantes, andando na direção oposta à dela. Não precisou entrar no quarto, apenas tatear a parte de trás do guarda-roupas que ficava ao lado da porta. Assim que encontrou o que sabia estar ali, voltou até a sala.
Ela o observou se aproximar com a pistola em mãos e se sentar no sofá de frente para ela, colocando a arma na mesa de centro entre os dois, apontada para si mesmo. Os dois trocaram um breve olhar antes dele desviar o dele, inquieto.
Não sabia explicar por que aquelas coisas aconteciam com ele. Não saberia dizer o motivo de saber falar tantos idiomas, a razão pela qual ele tinha os sentidos tão apurados e por que, infernos, ele sempre sabia onde as armas estavam. Simplesmente sabia.
Talvez ela tivesse a resposta para aquilo. Talvez ela tivesse a resposta para tudo.
– Depois desse episódio da cela – ela limpou a garganta, fazendo uma careta com a ação e tomando um pequeno tempo antes de continuar. – A gente não se viu por uns vinte anos. Eles passaram a me alimentar melhor e algumas semanas depois me levaram para a mesma sala onde fritavam sua cabeça. Eu gritei, esperneei e disse que eles não precisavam fazer aquilo e que eu iria fazer o que eles quisessem. Eles queriam ter o que a KGB tinha na época, então por uns cinco anos eles me treinaram como se fosse uma das garotas de lá. Roubaram um soro da Sala Vermelha e me deram, o que quase me matou, mas eu acredito que seja isso que me manteve viva por tanto tempo com essa… bem, com essa aparência. Então, quando se deram por satisfeitos, colocaram um chip no meu braço e me mandaram na minha primeira missão como espiã. Eu mal podia acreditar que estava do lado de fora de novo, mas tinham snipers em todos os telhados de todos os lugares que eu precisaria passar enquanto me infiltrava para eles, para caso eu tentasse fugir. E se por um milagre eu conseguisse, o maldito chip diria a eles exatamente onde eu estava me escondendo. Não tinha saída, então no fim da noite eu tinha o segredo que eles queriam, e então... eles fritaram meu cérebro.
Ele pareceu surpreso pela reviravolta no final, mas ela pareceu não se importar, tateando o sofá pelo maço de cigarros que sabia que estava ali em algum lugar. Sua pressão já estava suficientemente baixa àquele ponto, mas sabia que era quase imune a desmaios e que ficaria tudo bem.
– Eles não queriam apagar nada, queriam colocar. Eu não sabia, na época, como eles faziam o que faziam, e hoje sei muito menos. Eu nunca vi ninguém colocar à força uma série de idiomas e informações no cérebro de alguém com tratamentos de choque. Mas depois de estar no mesmo ambiente de dois deuses nórdicos e uma criatura verde gigante, eu parei de questionar essas coisas – fez uma pausa para tragar o cigarro duas vezes. – Então estava feito. Me transformaram numa espiã nível KGB. Me enviavam em missões atrás de missões ao redor do mundo. A SHIELD foi criada pensando que a HIDRA tinha morrido com o Caveira Vermelha, mas a verdade é que eu a ajudei a se reerguer em troca da minha vida miserável – suspirou, massageando as têmporas. – Você acha que a HIDRA destruiu você, James? Você não é o único.
– Eu vejo como eles tiraram tudo de você também – ele começou, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e inclinando o corpo para a frente, mas sem realmente encará-la – Mas você ainda é você. Você sabe quem é você.
– Porque você não parava de resistir! – ela soltou um tom acima do que usara anteriormente – Você acha que eles não me torturaram como torturaram você? Que não apagavam a minha memória todas as vezes em que eu batia de frente com eles? Que não fritavam o meu cérebro de novo e de novo só porque era divertido me ver gritar? A diferença, James, é que você não parou de lutar nem por um segundo. Você não aceitou aquilo, e eu… – fez uma pausa, bufando impaciente. – A diferença entre nós não é o que a gente sofreu, porque a gente sofreu o mesmo. A diferença é que você foi forte o suficiente pra continuar lutando e eu me rendi. Se você quer mesmo saber, James, você sempre lutou contra eles e eu me juntei a eles. É essa a nossa diferença.
– Você me revela que é espiã da HIDRA e espera que eu confie em você – ele constatou.
– Você tem um super instinto, Soldado, o que é que ele tá te dizendo? – perguntou e, com isso, se pôs sentada terminando o cigarro e o apagando na mesa de centro de qualquer forma.
– Ele está me dizendo que eu não deveria me preocupar com você. E estou esperando sua narração chegar na parte que justifica isso.
Ela riu, assentindo. Esfregou os olhos com as mãos e encarou o teto mais uma vez antes de voltar a encará-lo. – Você foi capturado em 45 e a primeira aparição do Soldado Invernal data da década de 70. Enquanto eu estava nas ruas conseguindo tudo que a HIDRA queria, você estava sendo preparado, treinado e educado para ser a arma mais letal deles. Nesses vinte anos eu não sei o que eles aprontaram. É algo que você, com o tempo, vai se lembrar.
– Eu não contaria com isso.
– Escuta. Eu me lembrei. E tudo bem que eles pararam de apagar minha memória nos anos 90 e você estava sofrendo com isso há dois anos. Mas eu lembrei. E você vai lembrar também. Seja paciente. Nada do que eles fizeram com a gente é permanente, além do trauma – ela o tranquilizou.
– E disso – flexionou a mão esquerda chamando a atenção para seu braço metálico. Ela franziu o lábio. Nunca se imaginou reencontrando James, muito menos tendo aquela conversa. Nunca imaginou que os dois sobreviveriam àquilo. E agora que estavam ali, ela não sabia o que dizer. Narrar os fatos, sim, isso ela poderia fazer. Consolar alguém que passara por tudo que ele passou, não, ela não havia sido treinada para aquilo. Ao invés de tentar falar alguma coisa agradável, então, decidiu dar sequência à narração.
– Quando eu voltei pra Sibéria em 65 você era tudo que eles queriam que você fosse. Nós dois éramos as duas metades do que eles mais precisavam no momento, mas eles queriam ir além e fazer com que os dois fossem completos. Por anos, Barnes, eu te ensinei tudo que eu sabia sobre ser uma espiã. Sobre me infiltrar, passar despercebida, manipular as pessoas e as situações a bel-prazer e a ser um fantasma quando fosse preciso. E você me ensinou a ser um soldado. A lutar, a manusear armas, a matar. E nesse período eles só te torturaram uma vez.

1973
As rotinas eram exaustivas. Teoria pela manhã, prática pela tarde. Pela manhã Mihaela tinha que ser paciente ao ensinar as coisas a James, principalmente porque àquela altura ele já estava suficientemente maltratado para aprender qualquer coisa pelos métodos tradicionais. Mas à tarde, quando os papeis se invertiam e ele se tornava o professor, ele se mostrava a pessoa mais impaciente do mundo quando ela se mostrava incapaz de manusear uma arma maior do que a palma de sua mão, que por sinal era minúscula. No início eles haviam sugerido que fizessem o tal tratamento de choque no outro, sem a menor empatia. Ela defendia que ele nunca conseguiria entrar numa sala sem chamar toda a atenção para si. Ele defendia que ela nunca conseguiria imobilizar adversário nenhum. Mas pela primeira vez a HIDRA parecia não querer usar seus objetos de tortura e fazê-los interagir entre si. Talvez aquela fosse a tortura, afinal.
Mas depois de algum tempo naquela rotina, eles se acostumaram. James parou de ter suas memórias apagadas, uma vez que já não se lembrava de quem era antes de estar ali. Não tinha nome, respondia apenas por "Soldado". E Mihaela era ameaçada todos os dias, e diziam que se ela abrisse a boca para dizer qualquer coisa para ele, os dois teriam o pior tratamento de choque que eles conseguissem proporcionar. E lembravam também que graças às melhoras do soro, ele era mais forte do que ela e tinha mais chances de sair vivo.
Ela nunca disse. Sabia que ele estaria melhor sem saber de tudo que havia perdido. E no fundo ficava aliviada de vê-lo voltar a ser uma pessoa normal, ou tão normal quanto alguém nas condições deles poderia ser.
Mas ele ainda tinha que ser um soldado perfeito, e sua aparente humanidade estava fazendo com que os cientistas se perguntassem se não estava novamente na hora de colocá-lo nos eixos. Foi quando Mihaela se empenhou em fazê-lo colocar tudo que ela havia ensinado em prática, sendo o mais frio e vazio possível na presença dos agentes.
– Eu sei que você sabe o que está acontecendo aqui e não queria estar nessa situação – ela sussurrou para ele um dia enquanto treinavam. – Mas se quiser manter a sua consciência, é melhor que finja não ter uma.
Conseguiram driblar o inevitável por muito tempo, desenvolvendo certa empatia um pelo outro. Estavam na mesma situação, e sabiam que provavelmente não eram os únicos, mas ali eles eram, e se não se apoiassem, ninguém iria. Não conversavam, porque achavam perigoso, mas vez ou outra soltavam algum comentário sobre algum dos agentes que perambulavam por ali. Se avisavam quando algum deles estava mais agressivo do que o habitual. Perguntavam ocasionalmente se o outro tinha ouvido falar de alguma coisa diferente do normal.
Porém, um dia o homem que ela nunca soube o nome entrou em um de seus treinamentos com o Soldado para ver de perto o desempenho. – Mediano – declarou, ao ver Mihaela lutar. E pediu que seis agentes entrassem na sala com a intenção de machucar os dois prisioneiros. Eles acabaram ganhando a luta, mas o homem não parecia nada impressionado. – Se a atuação do Soldado como espião estiver tão ruim quanto a sua performance em combate, os dois vão para a cadeira – disse.
– O coloque comigo numa missão – Mihaela pediu, sem fôlego. – Ele está pronto.
E assim fizeram. A missão era simples: infiltrar um cassino, pegar três itens e voltar para a base. Mas, por uma complicação, eles voltaram com um dos objetos faltando.
– Foi isso que eu pedi pra vocês fazerem? – o homem perguntou.
– Não, senhor – ela respondeu.
– Você disse que ele estava pronto – confrontou.
– Sim, senhor.
– Você mentiu – ele concluiu, acertando-a com uma arma de choque que a fez cair com um grito se contorcendo.
– Mihaela, não! – Bucky reagiu dando um passo à frente e vendo seis soldados empunharem as armas na direção dele.
Ela ergueu a cabeça o encarando e depois ao homem que tinha as vidas deles sob o próprio controle.
– Merda, James – murmurou, fazendo-o franzir a testa na direção dela à menção do nome.
O homem riu escandalosamente batendo palmas animadas. – Vocês dois realmente me enganaram! É claro que ele está pronto! E me disseram que esse tempo todo ele estava obediente. Parabéns, Mihaela. Trabalho impecável. Vocês teriam saído dessa se não fosse essa demonstração ridícula de carinho.
Foi a última coisa que ela ouviu antes de desmaiar.

2018
– E a gente nunca mais se viu de novo?
– Eu ouvi eles apagando sua memória quando acordei no meu quarto. Me levaram de lá e nunca mais nos encontramos – ela confirmou.
James tinha certeza que sua maldição era lembrar de menos, mas depois de tudo aquilo, ele tinha certeza que a dela era se lembrar demais, e não havia como tentar comparar as coisas. Os dois viviam infernos particulares tão parecidos, e ainda assim tão diferentes.
– Por que ? – ele perguntou depois de um tempo em silêncio.
– Eu tive muitos nomes quando fui espiã – ela pronunciou com calma – Nenhum deles significou nada pra mim. Mihaela era o nome de batismo que meus pais biológicos tinham me dado, mas pouco antes de sermos sequestrados, meu pai adotivo e eu, ele tinha feito passaportes falsos para a gente. Se a gente tivesse tido um pouco mais de tempo eu teria sido . Me pareceu simbólico que eu passasse a ser quando consegui minha liberdade.
Ele assentiu. Fazia sentido. Mas qual era a liberdade da qual ela falava?
Se esconder em cidades pequenas de países esquecidos com medo de que o próprio vizinho tenha sido enviado para matá-la? Ou ele, peregrino desmemoriado que tinha como única certeza na vida a de que nunca poderia ser visto por ninguém? Aquilo não era liberdade, mas talvez ela tivesse experienciado alguma antes dele aparecer.
Estavam fugindo das mesmas pessoas, e ele não sabia se o fato de estarem tão perto era benéfico ou se seria o fim de ambos.
Ele se mexeu para se levantar e a mão dela foi até a arma na mesa de centro, embora só tivesse passado a repousar sobre ela, e não de fato tivesse a pegado. Ele parou seus movimentos, encarando-a. Sabia que ela tinha razão de reagir daquela forma, então ergueu as mãos enquanto se levantava com bastante calma.
– Tá tarde. Não quero causar mais problemas – disse.
– Eu não vou conseguir dormir com você do outro lado do corredor ou com você do outro lado da sala, então se quiser ficar, vou me sentir mais segura contigo no meu campo de visão – ela retrucou.
– Eu não conseguiria dormir nem se você estivesse do outro lado do país. Não importa o que meu instinto esteja me dizendo, eu não confio em você.
– Só mais uma das coisas que temos em comum – pegou a arma usando-a para gesticular que ele se sentasse de novo.
Ficaram em silêncio. Ele ainda tinha milhões de dúvidas e ela estava exausta de reviver tanta coisa num período tão curto de tempo. Passara anos tentando esquecer tudo aquilo e agora parecia que estava lá, revivendo tudo, cena por cena, tortura por tortura.
Merda, como é que aquilo estava acontecendo com ela? Depois de tanto tempo tendo certeza de que tinha se livrado de tudo que um dia lhe fez mal, estava na mesma sala com o homem que a havia tentado matar e depois transformando-a numa assassina.
Torceu para que aquilo fosse um pesadelo. Mas as coisas não haviam terminado bem da última vez que ela havia desejado aquilo.

05. Shape of my heart

Em algum lugar, em algum momento, alguém havia dito a que psicopatas não sonham. Não conseguia se lembrar quando, como ou por que aquela informação havia chegado até ela, mas se lembrava bem do sentimento de alívio ao ouvir aquelas palavras. sonhava sempre. Todas as noites em que conseguia dormir. E por incrível que pareça, nem sempre os sonhos eram ruins.
Ela nunca havia conseguido comprovar aquela informação, pouco se tinha registros sobre e provavelmente não passava de um achismo qualquer, mas ela gostava de se prender a ideia de que apesar de tudo que tiraram dela, ela ainda era uma pessoa capaz de sentir.
Naquela noite, ela sonhou com seu pai. Não com sua morte ou com o cárcere, mas com momentos felizes de sua infância na Romênia junto com o nascido russo que nunca havia tido tempo de amar ninguém até a pequena Mihaela ser entregue a ele por um casal desesperado por suas vidas. A pequena garota, na época com não mais do que quatro anos de idade, chorava muito no começo. Ele tentava acalmá-la com sorvete, bichos de pelúcia, idas ao circo. Mas ela só ficava tranquila de verdade quando ele a deixava entrar em seus laboratórios e misturava qualquer componente químico inofensivo para vê-la se encantar ao ver o conteúdo do frasco mudar de cor, quando se sentava ao lado dela para fazer seus relatórios e lhe dava um papel e caneta que ela usava para desenhar imagens desconexas e escrever palavras avulsas em polonês, russo e romeno, quando a levava para a sala de aula nos eventos em que tinha de lecionar alguma aula magna nas universidades do país. Ela sempre fora uma garota curiosa, esperta, e ele sempre soube que ela seria importante. E naquela noite, ela sonhou com uma das vezes em que esteve numa sala de aula com ele, só os dois, brincando de forca no quadro negro enquanto ela corria contra o tempo para decifrar a palavra que seu pai escolhera antes de matar o pobre bonequinho enforcado. A sala estava cheia de risadas e ela sentiu um conforto tão grande ao visualizar a imagem de Costel tão vívida e feliz.
O barulho de louça caindo no fundo da pia, no entanto, fez com que ela despertasse rápido. Abriu os olhos com pressa, sentindo-os lacrimejarem quando a claridade os invadiu. Sentiu o peso da pistola carregada repousando na altura de seu estômago e olhou para o sofá ao lado, não vendo James.
– Aparentemente você confia em mim o suficiente para dormir na minha presença – ouviu a voz dele vinda da cozinha. O deboche era nítido no tom que ele escolheu para pronunciar as palavras, e ela se pôs sentada para que ele entrasse em seu campo de visão.
– A menos que você esteja fervendo essa água pra jogar no meu ouvido no meu momento de vulnerabilidade, você de costas pra mim assim também indica que sou digna de alguma confiança – ela retrucou. Esfregou os olhos e encarou o relógio na parede. O dia mal havia amanhecido.
Começou a se alongar aos poucos, das pontas dos dedos ao topo da cabeça, avaliando os lugares onde a dor estava pior. Não se surpreendeu ao sentir que estava quase inteiramente bem de novo, o pescoço continuando a ser o maior dos problemas. Se espreguiçou, soltando um pequeno grunhido com o ato, e se levantou devagar sabendo que, do contrário, sua vista iria escurecer por alguns instantes. Tirando o fato de James Buchanan Barnes estar em sua cozinha e seu pescoço estar se recuperando de uma tentativa de estrangulamento, era mais uma manhã normal.
Se esgueirou até o banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes, e vendo o ninho de ratos que estava se cabelo, também o prendeu, observando melhor as marcas que teriam que ser cobertas com maquiagem mais tarde. Voltou para a sala e sentiu cheiro de café, sendo atraída até a cozinha. Ele estava com duas xícaras na mão e entregou uma para ela antes de puxar uma cadeira e se sentar à mesa que tinha uma cesta de frutas no centro. Ela se apoiou no armário, abrindo a janela e acendendo um cigarro antes de se pronunciar.
– Você tá se sentindo bastante à vontade, huh.
– Já que nos conhecemos há setenta anos assumi que poderia dispensar as formalidades – respondeu num murmúrio. Ela soltou uma risada baixa, mas além disso, não continuaram a conversa.
Observou o dia lá fora. O vento frio entrando pela janela arrepiando seus braços, a neve preguiçosa caindo devagar, os carros buzinando na rua. Gostava tanto, tanto dali. Desde o momento em que havia batido na porta do 703 e se deparado com Bucky ali, de todas as preocupações que lhe ocorreram, a maior havia sido uma possível fuga. Se precisasse fugir dele ou fugir com ele, merda, ela não hesitaria, mas sentiria muita falta de casa.
Apagou o cigarro na janela e abriu o armário pegando um pote no qual despejou habilidosamente farinha, leite, ovos, açúcar, manteiga e fermento e bateu por dois ou três minutos despejando na máquina de waffle. Pegou a geleia e o xarope, os morangos e os pêssegos, o chantilly e a calda de chocolate. Tirou a cesta de frutas da mesa e colocou as coisas que havia pegado, terminando de organizar tudo no instante em que a máquina informou que a massa estava pronta. Se sentou na frente de James e cortou a massa nas quatro divisões, colocando duas partes no prato dele e duas no seu, começando a decorar os seus sem realmente olhar para ele. No primeiro, cobriu a massa com geleia de amora e colocou morangos em cima, exagerando no chantilly que cobriu tudo. No segundo, colocou os pêssegos picados e os cobriu com xarope, desenhando linhas aleatórias com a calda de chocolate por cima. No momento em que terminou e fechou a tampa do xarope, James rapidamente trocou os pratos puxando o dela para ele. Ela chegou a abrir a boca para reclamar, mas notou que a postura dele indicava certa inquietude.
– Nos conhecemos há setenta anos, Barnes. Você pode falar – incentivou, repetindo o processo de cobrir os waffles que agora eram os seus.
Ele hesitou. Ganhou tempo se ocupando em comer, mas ela sabia que, pela postura dele, ele iria falar, só estava procurando a melhor forma de fazê-lo. Não pressionou porque sabia que, se a situação fosse inversa, ela iria precisar de bastante tempo para associar as coisas. A imagem que tinha da situação de Bucky, sozinho e desmemoriado após a queda da SHIELD e da HIDRA, era a de quem entraria em pânico a cada nova descoberta. E ali estava ele, tendo seu passado revelado da pior maneira possível, mais preocupado em comer seus waffles do que em esclarecer todo e qualquer ponto que pudesse aparecer em sua mente. Ela não teria a calmaria dele para lidar com tudo, e sabia daquilo porque recuperar suas próprias memórias não havia sido um processo doloroso.
– Eu sei que você já disse isso. Mas eu preciso entender. Como é que você se lembra de tudo depois do que eles fizeram? – ele questionou enfim. As memórias. Sempre seria sobre as memórias. Ela não imaginava o que seria não se lembrar, mas tinha certeza de que seria uma pessoa completamente diferente se fosse aquele o caso.
– Eles não podem tirar algo do nosso cérebro, Buck. Eles podem cobrir, esconder, é como… – fez uma pausa – É como se houvesse um muro aqui dentro – gesticulou para a própria cabeça –, e a gente não pudesse acessar o que tá atrás dele. E eles de alguma forma colocam tudo ali atrás. Eventualmente as coisas vão voltando. Não é definitivo. E por isso eles tinham que continuar submetendo a gente àquela tortura. Mas um dia eles pararam, simplesmente pararam. Em mim. E com o tempo eu me lembrei.
– Você disse que a diferença entre a gente é que você passou a aceitar aquilo. Que você se juntou a eles – ele fez uma pausa enquanto a observava com cuidado antes de pronunciar as palavras seguintes. – Mas você não me parece uma má pessoa. E você está se escondendo deles, então…
Ela respirou fundo e assentiu. Apoiou as costas contra a cadeira e deixou a visão se desfocar enquanto ela procurava as palavras para explicar aquilo. Era um discurso confuso, o que vinha a seguir. Ela já o havia feito antes e se arrependido de duas a cada três palavras que saíram da sua boca, por isso, escolheu com muita cautela as palavras que saíram de sua boca em seguida.
– Tem uma música que eu gosto. Ela diz "você não sabe como é estar vivo até que saiba como é estar morto". Eu passei mais de uma década presa em condições miseráveis sendo torturada, violentada, humilhada e privada da minha própria humanidade. Quando eles me transformaram numa espiã e eu saí do cativeiro pela primeira vez… Deus, eu achei que nunca sentiria o sol na minha pele de novo, que nunca mais veria pessoas nas ruas. E eu soube que eu faria qualquer coisa pra ter mais daquilo. Eles não precisaram mais apagar minhas memórias ou me colocar num cativeiro porque eu conseguiria tudo que eles queriam em metade do tempo que me dessem para conseguir. Eram informações, objetos. Eu nunca precisei matar alguém – o encarou nos olhos por um breve momento. – Mas isso não minimiza as coisas que eu fiz. E todas as vezes em que eu questionava ou discordava de algo, aí sim eu era machucada de novo. Então eu parei de discordar. Parei de bater de frente. Me tornei a espiã perfeita, fui pra mais de trinta países e cumpri mais de cinquenta missões sem deixar rastros.
"Eles me deixaram viver sozinha depois de um tempo. Eu sabia que tinha um chip no meu braço que poderia me rastrear ou me matar a qualquer minuto, não sairia da linha. Por alguns anos eu consegui ter uma vida normal entre as missões que me mandavam para fazer. E por causa disso, por causa da falsa liberdade que eles me deram, por um período eu parei de pensar nas atrocidades que eles estavam fazendo com as coisas que eu conseguia para eles. Quando eu voltei a mim, eu entrei em crise. Preferi voltar para uma das bases da HIDRA. Não confiava em mim mesma para ficar sozinha e temia pela minha vida caso ficasse. Cheguei a implorar para que apagassem minha memória para que eu conseguisse dormir sabendo das coisas que eu estava fazendo. Eu te invejava. Porque a cada missão que você cumpria, eles apagavam você, e por outro lado eu ia acumulando aquilo e morrendo por dentro cada dia um pouco mais. Eles não deixaram de apagar minha memória por benevolência, eles pararam porque era aquilo que eu queria. Minha tortura seria lembrar, seria daquela forma que eles me manteriam na linha, e funcionou. No dia em que a HIDRA caiu, no ano passado, eu aproveitei os eventos catastróficos pra arrancar aquela merda de chip do meu braço. Não foi bonito, não foi fáci, mas… – indicou o antebraço direito onde uma tatuagem disfarçava uma cicatriz tão desproporcional e torta que só poderia ser fruto de um acidente ou de uma atitude desesperada. – Talvez eles pensem que eu morri, muita gente morreu, mas tenho pra mim que eles sabem muito bem que estou viva e me escondendo deles, e se for o caso, eu não vou ser livre pra sempre.
– A HIDRA acabou, . A SHIELD também. Eu não me lembro de muita coisa, mas eu estava lá quando aconteceu – ele se manifestou.
– Assim como tinha acabado quando Steve Rogers derrotou o Caveira Vermelha? – ela questionou – É a HIDRA, Barnes, corte uma cabeça e outras duas nascerão no lugar. Eles podem não estar fortes o suficiente, e com certeza têm mais com o que se preocupar do que uma espiã fugitiva, afinal eles perderam tudo. Mas quando eles estiverem estruturados de novo eles virão atrás de mim. Virão atrás de nós.
– E aí nós lutamos.
– Tudo é tão fácil pra você! – acusou, mordendo o waffle com uma força desnecessária.
– Nada é fácil pra mim – ele retrucou. – E não sou eu que estou brincando de casinha e andando por aí sem a menor intenção de me esconder.
– Eu não vou deixar o meu passado me tirar mais do que ele já me tirou. Se alguma coisa for dar errado no futuro, que se dane, eu preciso viver o meu presente e desfrutar das coisas que me foram privadas. Você quer saber por que é que eu cozinho tanto? Porque por cinquenta anos eu comi restos. E você quer saber por que eu tenho um emprego e socializo com meus vizinhos e colegas de trabalho? Porque por trinta anos eu só tive contato com os meus torturadores, e por mais trinta eu só convivi com pessoas das quais eu estava destinada a arruinar a vida – respirou fundo, abaixando o volume e acalmando o tom de voz ao prosseguir. – Já faz um ano que estou vivendo assim, Barnes, e eu não poderia imaginar uma vida melhor pra mim. Depois de tudo que eu passei, eu sinto que eu mereço. Se você discorda, é um direito seu, mas eu não vou deixar o meu medo ou o medo de qualquer um me impedir de tentar ser um pouco normal.
Ele continuou tranquilo observando o discurso dela. Terminou seu waffle e não teve pressa de responder. Não se abalou em momento algum, nem mesmo quando pronunciou as palavras seguintes, que a iriam tirar do sério: – Você é muito passivo-agressiva.
Céus, você é muito mais irritante do que eu me lembrava! – retrucou arrastando a cadeira e deixando a mesa em direção ao quarto.
Quando começou a separar as roupas para trabalhar, mexia com raiva entre os cabides e gavetas, mas não demorou a se acalmar. Não fazia sentido sentir raiva de James. Não naquele contexto. Mexer com aquelas memórias há tanto adormecidas, porém, mexia também com ela. Em determinados momentos, quando se pegava pensando sozinha nas coisas que haviam acontecido com ela, se via chorando descompensadamente ou num surto de raiva que a fazia invadir prédios antigos e quebrar coisas para desestressar. Falar tudo aquilo em voz alta, ter que reviver não uma, mas todas aquelas lembranças horríveis, claro que ela perderia a linha em certos momentos. Mas no fundo estava feliz. Feliz por não se sentir sozinha, feliz por poder conversar com alguém sobre aquilo, e principalmente feliz porque aquele homem com quem ela estava convivendo era muito mais próximo de Bucky Barnes do que do Soldado da HIDRA. Ela poderia até se estressar com o tom de deboche que ele usava com ela, mas era mil vezes melhor do que o silêncio imposto a ele por tanto tempo. E ouvi-lo falar, perguntar, rebater o que ela dizia era um tranquilizante natural que dizia que ele estava se recuperando. Ele nunca havia deixado de lutar, afinal.
Decidiu que teria paciência, mesmo que às vezes sua única vontade fosse socá-lo na cara. Ela havia passado por tudo aquilo sozinha; ele não precisava que fosse assim.
Tentou pensar em outras coisas enquanto hidratava, lavava e secava o cabelo; enquanto tomava um banho quente demorado, enquanto aplicava a maquiagem em cima dos hematomas da noite anterior. Não conseguiu. Apesar do discurso que tinha feito para Bucky, sabia que nunca poderia se livrar completamente do que tinha lhe acontecido. E apesar de afirmar que estava tentando viver uma vida livre de seu passado, ele sempre estaria com ela. Na forma que ela pensava, agia, falava, tudo sempre seria sobre Mihaela, e ela nunca seria . Não em um mundo onde existisse a HIDRA.
Quando saiu, pronta para ir trabalhar, notou a louça lavada e a cesta de frutas de volta ao lugar onde pertencia. Imaginou que àquela altura James já tivesse ido para casa, mas ele estava sentado no sofá com um papel e uma caneta nas mãos, e mesmo que ela soubesse que ele podia sentir a presença dela, ele não se apressou em erguer a cabeça.
– Eu preciso que você me conte mais – ele declarou então.
– Não – pegou a bolsa em cima do sofá e conferiu se estava tudo lá dentro. Só então encarou o homem.
– Por que não? – ele quis saber.
– Primeiro porque eu preciso trabalhar. E segundo que as lembranças suas que eu tenho são as que você precisa esquecer, e não lembrar. Nada disso vai te fazer bem.
– É uma decisão minha.
– Assim como falar é uma decisão minha – rebateu. – O que você está fazendo? – indicou o papel.
– Eu acho que lembrei de algo. Eu não sei. Preferi anotar – dobrou o papel enfiando-o no bolso. – Você precisa me contar mais. Você não está me contando tudo.
Ela suspirou derrotada. – Claro que não estou. Nós estamos nisso há menos de 24 horas, eu não tenho como te contar tanto em tão pouco. Eu já disse que nós não convivemos tanto, James, nisso você pode acreditar. Se você quiser saber mais eu posso te contar mais, mas assuma seus riscos – ele pegou ar para responder, mas ela o interrompeu – Em outra hora. Me deixe respirar. – Tateou a parte de baixo da mesa de centro onde as revistas ficavam e encontrou o caderno preto de capa dura. Nunca havia utilizado. Ofereceu para ele, que hesitou antes de aceitar. – Você vai começar a se lembrar das coisas, principalmente com tudo que eu te disse. Mantenha suas memórias a salvo, anote-as.
– Ok – murmurou em resposta. Ela arqueou as sobrancelhas com a ausência de um deboche, uma insistência ou uma provocação, mas não iria reclamar.
– Eu preciso trabalhar agora – ela insistiu, gesticulando na direção da porta. Ele a encarou por um breve instante, então coçou o nariz e prosseguiu de uma forma mais acanhada do que o normal.
– Na verdade, eu ia perguntar se posso usar o seu computador.
Ela olhou dele para o computador de mesa no canto da sala, e esboçou um pequeno sorriso. – Você sabe como usá-lo?
– Eu sei que eu já usei algum em algum momento – ele retrucou, mais envergonhado do que na defensiva.
– Claro que sim – ela ligou o aparelho digitando a senha e abrindo o navegador de internet. Gesticulou para que ele fosse até lá e o indicou a cadeira giratória – Não pesquise por HIDRA, SHIELD e governos em geral – instruiu – Se algum site pedir a sua localização, bloqueie. E se for pesquisar pelo seu nome, use o google escolar. As pessoas vêm pesquisando sobre você há anos.
Ele pareceu surpreso. Digeriu a ideia por alguns instantes antes de murmurar – Eu não faço ideia do porquê.
Ela já estava na porta quando respondeu – Porque você é um herói, Bucky Barnes. E isso é um consenso.
A próxima coisa que ele ouviu foi a porta batendo. Sentiu um misto de angústia, medo e ansiedade enquanto olhava a página em branco e as palavras dela ecoavam em seus ouvidos. Então digitou devagar as três palavras que precisava para ver com os próprios olhos aquilo que só acreditava ser possível porque era te falando.
E a quantidade de resultados para James Buchanan Barnes fez com que ele se surpreendesse. Pela primeira vez em muito tempo, de uma forma positiva.

06. Where we gonna go from here

Bucky não sabia o que fazer com tanta informação. Havia encontrado no mínimo quinze trabalhos acadêmicos sobre si, sendo dez artigos e cinco trabalhos de conclusão de curso. Apesar de estarem escritos em línguas diversas, não teve problemas em ler cada palavra daqueles arquivos, do cabeçalho às notas de rodapé, tendo o cuidado de anotar cada um dos documentos citados nas bibliografias para que pudesse ler mais sobre aquilo depois. Sobre Steve Rogers. Sobre o Comando Selvagem. Sobre o Capitão América. Sobre a HIDRA. De alguma forma, tudo aquilo se relacionava e dizia respeito a quem ele era, a quem ele um dia deixou de ser. E as construções dos discursos sobre sua vida e sua breve trajetória tendo morrido como um herói de guerra o fizeram ver nele mesmo coisas que ele jamais teria visto sozinho.
Por Deus, as pessoas estavam analisando vinte e oito anos de uma vida simplória como se fossem repletos de feitos gloriosos e contribuições imensuráveis. Mas não precisou rolar muito a página para descobrir que era o simples que o tornava interessante, como no título de uma tese em história que foi batizada como "Do Brooklyn à Alemanha Nazista: A trajetória e o sacrifício de James Buchanan Barnes pela amizade e o patriotismo". Um artigo estampava um título ainda maior, dizendo em letras em negrito "A queda do Nazismo e a ascensão de uma nova História - Uma breve análise dos heróis condecorados que marcaram para sempre a História dos Estados Unidos". E, por fim, a associação que ele já esperava encontrar desde o momento em que mencionou o fato de existirem estudos sobre ele. "Capitão América: Como a figura de James Buchanan Barnes caminhou lado a lado com a construção de um herói nacional".
Era um contraste inegável com as informações que outrora havia recebido de . Para aqueles estudiosos, ele havia morrido em 1945, na queda de um trem. A única menção à HIDRA entre todos os textos acadêmicos ali era a que contava que ele havia sido prisioneiro da instituição nazista antes de ser resgatado pelo Capitão América e passado a integrar o Comando Selvagem junto a outros homens também resgatados. Nada se dizia sobre o Soldado Invernal. Sobre o queridinho do Capitão América ter sido enviado para matá-lo. E ao mesmo tempo em que se sentia aliviado, sentia que tudo que estava lendo não passava de mentiras. Que não seriam os artigos que lhe diriam quem ele era de verdade, mas sim sua segunda vida com a HIDRA.
Independente de seus dilemas internos, leu. Descartou aqueles que lhe exaltavam como um herói americano perfeito e salvou aqueles que não tentavam endeusá-lo, mas mostrar os impactos de sua vida após o seu suposto fim. Não viu nenhuma impressora por perto, então concluiu que não tinha uma. Rabiscou no papel os nomes dos trabalhos nos quais ele queria voltar para ler novamente e desligou o computador já tarde, provavelmente muito perto da hora em que a dona da casa retornaria.
Em seu próprio apartamento novamente, se pôs a pensar. Merda, ele tinha construído imagens muito vívidas em sua mente enquanto lia sobre sua própria vida descrita por historiadores e antropólogos, mas sabia que não eram memórias. Ele queria tanto se lembrar que estava construindo uma imagem que não era real para preencher as lacunas vazias que ainda se faziam presentes.
Evitando pensar naquilo e esperançoso de que o fato de saber aquelas informações fizesse com que ele se lembrasse delas pelo próprio ponto de vista, ocupou a cabeça com outras coisas. Tomou um banho, abriu as janelas de casa para deixar o ar fresco entrar e pegou a caixa de ferramentas que já estava no apartamento quando ele se mudou para consertar a tapeçaria danificada na noite anterior. Quando ele quase esmagou a cabeça de .
Enquanto trabalhava naquilo, pensou em como estaria naquele momento se tivesse sucedido em matá-la. Aquilo seria um gatilho irreparável para a sua recuperação, de fato, e ele jamais se perdoaria por ter cometido tamanha atrocidade. E também não teria evoluído nada em sua busca por si mesmo.
Pensou em quanta coisa tinha mudado em menos de 24 horas, no quanto ele sabia agora. E em como ele nunca antes havia imaginado que suas respostas estariam tão próximas de si, num lugar tão improvável quanto aquele. E foi pensando naquilo que ele sentiu um insight, tão forte e repentino que fez com que ele perdesse o equilíbrio por um instante. No momento em que ele soube que as imagens em sua cabeça eram lembranças reais, correu com pressa na direção do caderno que a vizinha lhe havia dado, começando a rabiscar freneticamente as palavras que conseguia organizar no meio do fluxo de pensamentos.
Suas lembranças sempre vinham como flashes rápidos e inesperados e se perdiam da mesma forma que se esquece um número de telefone instantes depois de ouvi-lo. Desde que havia entendido aquilo, ele tentava anotar no primeiro lugar que encontrasse. Perdeu as contas de quantos guardanapos e pedaços de papelão tinha na segunda gaveta da cozinha, com palavras confusas e códigos que ele tinha que se esforçar muito para conseguir decifrar depois, quando não se lembrava mais. Talvez, pensou, o caderno de fosse a solução. Ter tudo junto, se organizar conforme as lembranças lhe ocorriam… Ele se esforçaria para que desse certo. Até o momento, era sua melhor opção.
não se sentiu bem o dia inteiro. Era uma sensação controversa onde ao mesmo tempo em que sentia que um peso tivesse sido tirado de seus ombros, outro maior tivesse sido colocado em seguida. Era bom ter alguém que passou pelo mesmo que ela, poder conversar sobre aquilo, de certa forma saber que tudo foi real. Mas não conseguia se livrar do medo que lhe ocorrera no momento em que se convenceu de que Bucky estava fugindo da mesma forma que ela. Será que os dois ali, no mesmo andar do mesmo prédio estavam mais fortes para lutar caso fossem encontrados ou mais propensos a uma emboscada que fosse facilitar tudo? Um ano vivendo longe da HIDRA e ela não conseguia não se desesperar quando pensava na instituição.
Mas não queria o homem longe. Não naquela situação. Sabia que por mais que estivesse arriscando se expor, ele precisava dela. E mesmo que de maneiras menos óbvias, ela precisava dele também. Para lembrá-la de quem ela era, de onde ela veio e pra onde queria ir.
Tentou manter a mente longe daquilo enquanto trabalhava, mas sua mente travava um ciclo vicioso que consistia em lembrar de seu pai, de sua primeira quase morte, da liberdade que tivera durante um tempo e finalmente de quando beirou a insanidade após tantos anos como espiã. Imagens eventuais sobre esses tópicos vinham em flashes dificultando sua concentração e deixando-a mais lenta do que o habitual. O nó na boca do estômago era constante, acompanhado de uma sensação que ela não saberia dizer qual era, mas que a fazia sentir constantemente nervosa.
– O que está acontecendo com você? – ouviu uma voz feminina perguntar. Ergueu os olhos para encontrar Gavrila, a GardeManger da cozinha, que apoiava-se na bancada onde picava os legumes em silêncio.
– O quê? – se fez de desentendida, se esticando para checar o ponto da sopa que preparava.
– Você está quieta demais, séria demais e parece estar fazendo tudo no piloto automático – a garota listou erguendo dedos enquanto falava. – Ontem eu perdi as contas de quantas vezes você me fez chorar de rir no happy hour, e hoje parece que você tá morta por dentro.
riu. Não pelo tom insistente e infantil da colega de trabalho, mas por ter escolhido, dentre todas as metáforas que poderia para descrever a aparência dela, justamente "morta por dentro". Negou com a cabeça, voltando a focar em seu trabalho. Se demorasse muito mais com os legumes, o chef italiano logo estaria procurando por eles com aquele tom que sempre fazia parecer que ele estava prestes a demitir alguém.
– Eu estou bem – disse então. – Mas estou com um mal estar chato desde cedo.
– Em uma escala de um a dez…
– Zero. Eu nem lembro a última vez que transei, Gavri – revirou os olhos, fazendo a outra rir.
– Bem, você está se hidratando, então? Porque com esse frio a gente esquece de beber água. Tem certeza mesmo que é só isso? Porque você é o espírito desse lugar e hoje ele está cinza – tagarelou.
– Eu estou bem – respondeu com um sorriso refletido no tom de voz. – Prometo que amanhã vou estar melhor.
– Se precisar de qualquer coisa eu estou logo ali com as saladas – garantiu e, apertando as bochechas da outra, atravessou novamente a cozinha de volta para seu posto.
Se sentiu um pouco melhor depois da interação, porque de certa forma aquilo a lembrou de que ela ainda tinha uma vida normal no fim das contas. Tinha uma casa, um emprego e ótimos colegas de trabalho, além de vizinhos que a adoravam e comerciantes que já sabiam exatamente o que ela queria quando ela entrava no estabelecimento. Não precisava temer, ao menos não por hora.
O nó em seu estômago não se desfez, mas ela se sentiu melhor para terminar o expediente, separar a comida que levaria para casa e pegar o bonde que fazia o caminho mais longo, porém que passava por pontos que ela adorava na cidade. Colocou os fones de ouvido, se acomodou no assento da janela e foi por todo o caminho mexendo a cabeça sutilmente no ritmo das suas músicas favoritas dos dancing days.
Bucky não estava mais em sua casa quando ela chegou. Fechou a porta da frente, se livrou dos casacos pesados e colocou o café para passar na cafeteira. Se sentou na frente do computador e abriu a página de notícias — primeiro as da Romênia, depois as dos Estados Unidos, e por último as mais relevantes do mundo. Não usava celular, tablet e sequer notebook. Existiam certas coisas que você precisava abrir mão quando estava se escondendo, e ela achava que apesar de não ser 100% seguro, um computador de mesa era o máximo que ela poderia ter para não se isolar completamente do mundo e ainda assim manter a discrição. E, claro, uma pessoa como ela jamais viveria sem um iPod — que ela fez questão que não tivesse acesso à internet, também.
Tomou metade da sua xícara de café e se pôs a tirar dos armários tudo que precisava para fazer as guloseimas que distribuiria mais tarde no prédio. Fez macarons franceses de três cores e sabores diferentes, pastéis de Belém e alguns Apfelstrudels que dividiu em pedaços enrolando em papel alumínio. Quando acabou, organizou tudo na cesta que carregava e desceu os sete lances de escada para começar pelo zelador, Senhor Vasilescu.
– Eu senti o cheiro de longe – ele sorriu, parando de varrer a entrada e apoiando os braços na vassoura. Ela sorriu de volta, se aproximando dele.
– Boa tarde, Andrei – cumprimentou, separando um de cada entre os itens e entregando para ele. – Como estão as coisas?
– Tudo na mesma, querida. Obrigado pelos doces.
– Não tem de quê – garantiu. – O Senhor saberia me dizer se tem alguém viajando, pra me poupar o trabalho de passar em todos os apartamentos?
– 501 e 904 não estão na cidade – informou, coçando a testa por um breve instante. – Você já conheceu seu novo vizinho, ? Se me lembro bem, chama James Petran.
Ela fez uma breve pausa, colocando o cabelo atrás da orelha e olhando para a cesta para ganhar tempo antes de voltar a olhar para o zelador.
– Fomos apresentados – deu de ombros. – Não me parece uma má pessoa.
– Não, não parece. Mas ele não disse muito… Pagou seis meses de aluguel adiantado, não trouxe quase nada e eu raramente o vejo sair. Tenho minhas preocupações, visto o histórico que temos – deu uma breve risada e ela o acompanhou.
– Tenho certeza que ele não é mais um traficante, Andrei – garantiu. – Ele disse algo? De onde veio ou…? Talvez só esteja se adaptando.
– Não disse nada.
– Vamos dar tempo a ele – sugeriu. – Não é fácil chegar em Bucareste e vir direto pra cá – indicou o prédio onde estavam, vendo o mais velho assumir uma careta e rir em seguida.
– Nem me fale, minha filha, nem me fale. Mas a gente se acostuma.
– A gente se acostuma! Tchau, Andrei, até mais!
– Tchau, querida, nos vemos por aí.
Os seis andares seguintes foram tranquilos: ela foi recebida, como sempre, com muito carinho, e ganhou em troca pelos doces uma barra de chocolate suíço do casal de guias turísticos do 408 e um desenho muito querido que Mia, a garotinha de sete anos que sempre estava ou vestida de princesa ou de astronauta e morava no 601, havia feito. Nele, aparecia segurando um bolo com vários corações em volta. Ela sabia que no momento em que pisasse em casa, o colocaria na porta da geladeira.
Dois obstáculos lhe esperavam no sétimo andar, porém: a Senhora Prewitt e o morador do 705. Decidiu que deixaria James para o final, quando estivesse descendo novamente, e garantiu a Constanta que ela e novo vizinho não haviam transado, apesar dos comentários e risadinhas que a mulher direcionou a ela assim que abriu a porta para receber os doces. O oitavo e o nono andar foram rápidos, e antes de bater no 705, voltou em casa e pegou todas as outras coisas que esperavam por ela e bateu três vezes na porta em frente à sua.
James a atendeu imediatamente, dando espaço para que ela entrasse quando viu uma pilha de potes e embalagens empilhados na frente da mulher. Ela foi até a bancada dele, depositando tudo ali, e o encarou.
– Você consertou o chão – constatou.
– Sim.
– Você precisa parar de comer salgadinhos. Esse lugar cheira a salgadinhos de queijo. Agora que você está aposentado esse corpo não vai se manter sozinho – apontou para ele de cima abaixo.
– Eu tenho uma pergunta sobre o soro – ele disse, fazendo-a piscar algumas vezes com a declaração inesperada. – Eu posso ficar doente?
– Não? – ela respondeu prontamente, curiosa com onde ele queria chegar.
– Então não enche – retrucou, fazendo-a soltar uma expressão indignada e alcançar uma maçã para arremessar na direção dele, fazendo-o rir sutilmente e agarrá-la no ar.
– Você pode abrir a porta de novo? Eu vou levar tudo de volta – começou a reempilhar os potes e ele foi na direção dela com um meio sorriso divertido, interrompendo-a.
– Eu estou brincando. O que você trouxe?
Ela o encarou. Que inferno. Ela nunca conseguiria ficar brava com ele enquanto ele estivesse demonstrando estar bem.
– Sopa de legumes, sopa de abóbora com camarão, sopa de ervilha e sopa de alho-poró – listou. – Carnatzlach, sarmale, tochitură e ratatouille. Também trouxe macarons, pastel de Belém e Apfelstrudel. As sopas podem ser congeladas e duram uma semana. O restante, no máximo três dias na geladeira. Os doces podem ficar fora, mas cuidado com as formigas. Só, por favor, me promete que você não vai comer mais salgadinhos de queijo – ergueu o olhar vendo que ele a encarava. Então ele assentiu, mordendo a maçã que ela havia arremessado nele e indo na direção oposta a ela.
Ela revirou os olhos, abrindo a porta da pequena geladeira para organizar tudo lá dentro. Aproveitou para recuperar seus potes que estavam ali graças às outras vezes em que ela levou comida, virando-se na direção da porta para ir para casa e finalmente comer alguma coisa.
Bucky estava voltando para a cozinha com uma das mãos atrás do corpo, e quando chegou perto dela, revelou uma rosa amarela que prontamente ofereceu para a mulher.
– Desculpa eu ter tentado te matar – pronunciou.
Ela sorriu de lado. Aceitou a flor com cuidado para evitar os espinhos e a encarou antes de voltar seu olhar para ele. – Você arrancou da varanda da Senhora Prewitt?
– Sim.
– Obrigada.
– Obrigado pela comida. E por me deixar acessar a internet.
– Tá tudo bem. Eu vou deixar minha porta aberta quando sair pra trabalhar, e se você precisar de qualquer coisa, fique à vontade.
– Não tem necessidade, , você já faz mais do que deveria – coçou a nuca de forma inquieta.
Ela negou com a cabeça, pronta para continuar seu caminho, mas notou o caderno que ela o havia dado já bastante rabiscado. Aberto na metade, ele mostrava que os rabiscos estavam divididos entre canetas de diferentes cores, indicando que o que quer que estivesse escrito ali, havia sido escrito aos poucos, em vários momentos diferentes, e ela sentiu certa satisfação em saber que ele estava conseguindo organizar seus pensamentos.
Sem dizer nada, deixou o apartamento, indo direto para o seu. Esquentou a sopa de lentilha com espinafre, cortou algumas fatias de pão e se sentou para comer no sofá, ligando a TV que, graças a qualquer pessoa inteligente da periferia, pegava perfeitamente todos os canais americanos. Gostava de viver naquele prédio porque o bairro era simples, as pessoas eram simples e tudo costumava ser muito fácil. A internet que tinha em casa era um puxadinho do apartamento do lado, da família Dalca. A televisão funcionava graças a uma antena de TV que literalmente hackeava os sinais internacionais. E no alto inverno, por causa do uso dos aquecedores, o eletricista do 206 dava um jeito de diminuir o preço das contas de energia. Depois da crise no país, as pessoas tinham que se virar como podiam. Adormeceu assistindo à Oprah Winfrey Network e sentindo saudade da sua vida nos Estados Unidos.
Durante os dias seguintes, e James não tiveram mais contato para além das duas outras vezes em que ela bateu na porta dele para levar alguma comida de verdade onde ele aproveitava para devolver os potes limpos que já estavam vazios. não se sentiu mal no trabalho mais, e muito pouco pensava sobre o seu passado traumático. Na verdade, estava aprendendo a lidar com aquelas lembranças sem deixá-las afetarem tanto a sua rotina, e com o passar dos dias elas deixaram de ser tão frequentes. Mas no sábado de manhã, após a faxina da casa, que ela ouviu três batidas na porta que indicavam que talvez a chegada de novas perguntas fossem o gatilho que faltava para que ela se sentisse esquisita de novo. A pergunta que James fez quando ela abriu a porta, porém, foi algo que ela não estava realmente esperando.
– Você teria outro caderno daqueles? – ele perguntou, num tom tímido, olhando-a nos olhos apenas no fim da sentença.
Ela o encarou de volta, batucando com as pontas dos dedos na porta que segurava. – Quão frequentemente você sai na rua?
– Por que isso é importante? – ele rebateu.
– Porque nós vamos às compras hoje.
Ele nunca saberia dizer o que é que ela tinha no discurso que o fez aceitar a ideia, mas algo lhe dizia que tinha a ver com o fato de que convencer as pessoas a fazer o que ela queria havia sido o trabalho dela um dia. Mas confiou que aquilo daria certo, porque ela acreditava que sim. Portanto, depois de colocar as jaquetas, as luvas e o boné, estava pronto para acompanhá-la pelas ruas de Bucareste.
Pegaram uma das vans com cara de clandestina que ele jurou que nunca pegaria e, sentados no fundo, ela se ocupou em trançar o próprio cabelo enquanto observava o movimento lá fora. Ele, desconfortável com a exposição e o contato social, foi o percurso inteiro com uma postura rígida e os sentidos alertas. Até que chegaram em um grande centro comercial que o fez repensar a ideia no mesmo instante.
– Você acha mesmo que é seguro me colocar num lugar com tanta gente assim, ? – ele perguntou baixo a ela quando desceram da van.
– Você precisa parar de ter tanto medo de si mesmo. O que aconteceu foi um episódio, James, não vai acontecer de novo – ela disse.
– Em primeiro lugar, você não pode garantir isso. E em segundo, você pode, por favor, decidir como vai me chamar? Porque cada hora você usa uma forma.
Ela riu, porque ele falava sério. – É uma variável, Barnes, depende do contexto e do quão irritante você está – explicou e o arrastou para uma loja exageradamente iluminada e colorida que ele imediatamente identificou como uma papelaria.
Inicialmente ele apenas a seguia alguns passos atrás enquanto ela perambulava pelos corredores jogando itens aleatórios numa cestinha, mas no momento em que ele encontrou os cadernos de capa parecida com o que tinha em casa, parou para analisá-los e deixou com que a mulher se perdesse entre as canetas e marcadores mais para frente. Folheou alguns modelos, imaginando qual seria a melhor forma de organizar suas lembranças dali para frente, e não viu quando se aproximou novamente.
– E aí? – perguntou.
– Os sem pauta, eu acho, porque eu também posso desenhar – indicou para ela o que tinha em mãos. Assentindo, ela jogou ao menos dez deles na cesta e seguiu o caminho até o caixa.
Ele a seguiu, observando o conteúdo da cesta. Post-its coloridos de dois tipos, duas cores de marcador de texto, canetas pretas, azuis e vermelhas, clips de papel, lápis, borracha, corretivo e apontador. Além, claro, de dez caderninhos prontos para serem rabiscados com tudo aquilo. Soltou uma risada nasalada. – Eu gostava de uma menina na escola que tinha o caderno mais colorido de todos os tempos – contou.
Ela o encarou por um breve momento até que ele percebeu o que tinha dito.
– Você quer escrever isso agora? – ela questionou, empolgada com a lembrança repentina dele.
– Eu deveria? Isso é importante? – ele perguntou, demonstrando certo desespero que a fez rir.
– O fato talvez não seja, mas você se lembrou de algo. Numa fila de caixa. Porque viu produtos de papelaria. É um avanço! – comemorou. Ele sorriu timidamente e desviou o olhar, observando o ambiente. Então, depois de alguns minutos em silêncio, perguntou:
– Como nós vamos pagar por isso?
– Não se preocupe com isso – ela garantiu.
Ele se incomodou um pouco com o fato dela estar pagando por tudo, mas não disse nada. Carregou a sacola para fora da loja e viu quando correu, saltitando feito uma criança, na direção de um quiosque. Ele a alcançou a tempo de receber o seu covrigi e vê-la agradecendo ao vendedor antes de arrastá-lo pelo braço para um banquinho na rua.
– Eu estava pensando – ela disse, fazendo uma pausa para morder o pretzel romeno que era a comida de rua mais popular da cidade, quiçá do país. – Vamos comprar roupas pra você?
– Não – ele retrucou.
– Por que não? O zelador me disse que você não trouxe quase nada. Já estamos aqui – insistiu.
, eu realmente não me sinto confortável – bufou.
Ela ficou alguns instantes em silêncio, comendo. E então o encarou, receosa, mas pronunciou:
– Sabe, agora que eu sei que não vamos nos matar… – aquilo certamente chamou a atenção dele, que a encarou de volta. – Eu acho que me sinto segura o suficiente para te contar outra coisa.
– Certo… – ele pronunciou devagar, apreensivo com a informação que viria a seguir.
– Quando a SHIELD e a HIDRA caíram eu estava com a SHIELD.
– Isso não faz sentido.
– Eu ainda era prisioneira da HIDRA. Eles ainda tinham total controle sobre mim. Mas eles me enviaram para ser uma infiltrada na SHIELD e eu me tornei uma agente deles. Uma das boas. Eu trabalhei diretamente com Fury por três anos e depois com o Agente Coulson por mais sete. Foi com Coulson que eu me senti segura o suficiente para contar o que estava acontecendo. Eu poderia ser presa ao dizer que era da HIDRA, mas eu estava desesperada. Gostava demais da SHIELD e me sentia muito culpada por ter que chegar em casa todos os dias e reportar tudo que eu tinha vivido, todas as informações que sabia e todos os próximos passos da SHIELD. Claro, um pouco antes disso eu comecei a adulterar as informações que enviava para a HIDRA, dava informações pela metade, enfim… Eu falei para o Coulson. Disse "ei, eu não quero assustar ninguém aqui, mas eu estou sendo mantida prisioneira da HIDRA desde 1942 e eles me enviaram para espionar vocês, mas eu não quero mais fazer isso".
– Quando foi isso?
– Um ano depois que comecei a trabalhar com o Coulson, o que quer dizer que foi… seis anos atrás. E aí eles me prenderam, me interrogaram, fizeram todo tipo de teste em mim para saber se eu não estava mentindo, delirando ou se eu não era uma ameaça. Se eu era, de fato, da HIDRA, eles não acreditavam que eu contaria isso para eles. Me mantiveram presa por dias, até a HIDRA entrar em contato comigo e eu atender na frente deles, na frente do Coulson, dizendo que eu estava numa investigação e que traria informações em alguns dias. Eles concordaram, desligaram, e aí a SHIELD acreditou em mim. Mas ainda não acreditaram que eu estava tentando me redimir, então fizeram mais testes. Julgamentos oficiais com os responsáveis por mim, incluindo o próprio Fury. E então fizeram a proposta para mim: eu seria agente dupla. A HIDRA acharia que eu estava 100% com eles, mas eu estaria trazendo informações deles para a SHIELD também. E aí eu plantei certas informações na HIDRA, ajudei a SHIELD a mapeá-los e encontrá-los, isso tudo sem que a HIDRA desconfiasse que tinha algo errado comigo, porque eu era, de fato, a melhor espiã deles.
– É seguro falar sobre isso aqui? – ele questionou olhando em volta.
– Mais do que em casa – ela riu brevemente uma risada sem humor. – O que eu quero dizer é: eu passei quatro anos sendo uma agente infiltrada na SHIELD e levando para a HIDRA informações que poderiam destrui-la. Mas eles me acolheram mesmo assim e me transformaram numa agente da SHIELD de verdade, que conseguiu contribuir por outros seis anos fazendo pela primeira vez algo de bom para o mundo.
– Mas a SHIELD caiu mesmo assim.
– E de certa forma eles sabiam que aconteceria, porque eu disse. Você acha que a SHIELD caiu de verdade ou que é isso que eles querem que todo mundo pense? – perguntou vendo-o refletir por alguns instantes. – Eu posso não ter feito tanto… mas por causa das informações que eu trazia eles conseguiram salvar algumas coisas. Algumas pessoas. Salvar alguma base pra se reerguer depois.
– E por que você não está lá agora? Ajudando na reconstrução?
– Coulson foi como um pai pra mim, mesmo sabendo, e talvez principalmente depois de saber toda a minha história. E quando tudo estava desabando, literalmente, em DC, eu olhei para ele desesperada e ele soube que eu tinha que ir. Ele me ajudou a arrancar o chip da HIDRA do meu braço. Garantiu que me encobriria para a SHIELD e que eu tinha feito o que podia. Me disse para viver a minha vida e, bem, me garantiu certos confortos para que eu conseguisse fazer isso plenamente. Então quando eu disse pra irmos comprar roupas pra você, quem está pagando é a SHIELD, e eu acho muito mais do que justo já que você foi o primeiríssimo agente dela – se pôs de pé oferecendo uma das mãos para ele, que hesitou em aceitar.
– Eu tenho tantas perguntas – pronunciou, se levantando por fim.
– Sim. Mas podemos comprar roupas primeiro?
– Eu realmente… , eu não sei o que pensar. Tudo que eu sabia sobre você caiu por terra com essas informações novas. Eu… merda.
– Tá tudo bem – ela garantiu. – Eu te contei porque não acho que deva te esconder as coisas mais.
– Bom, obrigado! Mas você não pode me culpar por estar confuso.
– E não irei. Mas eu preciso saber que você acredita em mim.
Ele não respondeu de imediato. Merda, claro que acreditava, e acreditaria em tudo que ela lhe dissesse, porque tinha malditos instintos que sabiam exatamente quando uma pessoa estava mentindo e nunca, em nenhum momento, havia mentido para ele. Nem mesmo quando fingia não conhecê-lo, quando conversaram pela primeira vez… Claro, ela havia contornado uma verdade ou outra, mas não havia mentido. E àquele ponto ele acreditava que ela não tinha motivos para aquilo.
Tinha tanto que perguntar! Já tinha antes, mas agora existia um novo mundo aberto diante de si. Se ela tinha compartilhado informações com a SHIELD, teria ela dito que ele era o Soldado Invernal? Tinha contado sobre seus anos em cativeiro e sobre a convivência deles? Ele teria que perguntar tudo aquilo depois. Já havia percebido que falar muito tempo sobre aquelas coisas não fazia bem a e ele não queria colocá-la numa situação complicada. Se tinha seus fantasmas, sabia que ela tinha os dela, e que ela jamais se recusaria a ajudá-lo desde que ele respeitasse seu tempo.
Não conseguiu se conter, no entanto, de fazer duas perguntas. Simples, diretas, num tom muito mais inseguro do que ele havia planejado.
– Você acha que eu deveria cortar o cabelo? – questionou.
– Não, não acho. Está bom assim – ela garantiu.
Então, depois de alguns instantes em silêncio, decidindo se deveria ou não perguntar aquilo, disse finalmente:
– Você pode me falar algo sobre o Steve?
Ela sorriu. Olhou para baixo e de volta para ele, assentindo.
– Tudo que você quiser saber.


Continua...


Nota da autora: Oi, queridonas! Fico muito feliz por estar vendo os comentários e saber que vocês estão acompanhando a história. Por favor, não deixem de comentar o que mais gostaram e deixar sugestões sobre o que acham que pode melhorar, significa muito pra mim! Vocês podem me encontrar no grupo do facebook linkado ali no símbolo do site e eu vou AMAR conversar sobre a história em qualquer momento, então não hesitem em falar comigo <3
Quero deixar meu agradecimento oficial à Nicki que é a scripter mais ágil e prestativa do mundo e dizer que a próxima atualização vem em breve!
Um beijo e mais uma vez obrigada por darem uma chance a Wires! xo, Ava






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