Última atualização: 00/01/2019

Prólogo

James costumava ter o sono pesado. No início, quando chegou ali, fora difícil se adaptar aos barulhos incessantes da rua movimentada vinte e quatro horas por dia; ao sino da escola que tocava na quadra ao lado indicando entradas, saídas e intervalos; aos aviões que sobrevoavam o prédio deixando a impressão sonora de que estavam tão baixos; à obra do outro lado da rua que parecia não parar nem por um instante e que nunca parecia perto de estar pronta. Agora que se sentia em casa, tudo aquilo parecia familiar. Sua mente e seu corpo estavam em sintonia com o lugar que escolhera para chamar de casa, e dormir com aqueles sons passava uma sensação indescritível de segurança. Ele não se incomodava mais. Mas aquele som, o que se fez presente naquela madrugada especialmente silenciosa, fez com que ele acordasse antes mesmo da mulher ao seu lado, que demorou alguns instantes para perceber o que estava acontecendo.
– Você não me disse que tinha um telefone – foi o que ele murmurou ao se apoiar nos cotovelos e tentar identificar onde estava o aparelho que agora ecoava por todo o apartamento.
– Eu tenho – sussurrou preguiçosa, mas então se sentou com pressa ao se dar conta do que estava acontecendo – Eu tenho um telefone – repetiu.
Ele se jogou de volta no travesseiro enquanto a garota ia até a sala de estar atender quem quer que estivesse ligando aquela hora. Ficou apreensivo no início, mas a calmaria sempre presente na voz da namorada não se abalou uma vez sequer, fazendo com que sua preocupação se transformasse em genuína curiosidade. Àquele ponto, ele já frequentava mais aquele apartamento do que o seu próprio, do outro lado do corredor, e aquele telefone fixo não havia tocado nenhuma vez ou ele se lembraria da existência de um.
Não se deu conta de que a mulher estava de volta ao quarto até que ela o chamou, apoiada no batente da porta. – Buck? – sua expressão estava pensativa, mas àquela altura ele já sabia dizer quando ela já havia tomado uma decisão – É o meu irmão.
– Ele…? – começou a perguntar, embora nunca tenha encontrado coragem para completar a pergunta que se formou em sua cabeça no instante em que ela proferiu aquelas palavras.
– Piorou. Deram uma semana a ele – suspirou, coçando a cabeça de forma inquieta e ficando na ponta dos pés para alcançar algo em cima do guarda-roupa.
– Você está indo – não era uma pergunta. Ela não precisou responder quando conseguiu alcançar a mochila vazia e a colocou no chão – Ei – ele chamou –, vem cá.
Ela voltou para cama se aconchegando no abraço dele. Não disse nada, provavelmente nem conseguiria. O fato era que esteve se preparando para aquilo por muito tempo, mas estava tão feliz ultimamente que não esperava que o momento fosse chegar tão repentinamente.
– Você quer que eu vá com você? – Bucky perguntou enquanto acariciava a bochecha e a cintura dela, cada qual com uma mão.
– Só vai levar alguns dias – sentou-se de frente para ele, levando uma das mãos ao rosto do namorado que a encarava de forma preocupada – E não é como se você passasse num detector de metais tão fácil – deixou uma das mãos passear pelo braço metálico dele enquanto ele ria, se inclinando para deixar um beijo em seus lábios.
– Me diga o que posso fazer – ele pediu quando ela engatinhou novamente para fora da cama e começou a abrir as portas e gavetas do armário. Queria dizer o quão bem ela ficava usando as roupas dele, mas não achou apropriado. Tinha um péssimo timing, era verdade, e tomou notas mentais daquilo para dizer a ela mais tarde. Eles teriam todo tempo do mundo afinal. – , se você não falar comigo eu vou ficar preocupado.
Ela abotoou a calça jeans que vestia e olhou para ele com uma ruga entre as sobrancelhas e uma expressão divertida. Aquela fala era dela, ela diria em circunstâncias normais. Terminou de jogar de qualquer jeito as peças de roupa na mochila e a fechou, se aproximando mais uma vez da cama que dividia com o primeiro homem que conseguiu despertar nela a vontade de jogar as responsabilidades para o alto e voltar para a cama, para ele.
– Escuta, eu sabia que isso ia acontecer. Eu só estou imensamente grata por tê-lo encontrado antes de… Bem, eu tive algum tempo com ele, e sinto que tenho que estar lá agora. Eu estou bem. E não tem nada que você possa fazer agora além de estar exatamente assim quando eu voltar – apontou para ele enquanto um sorriso malicioso era inutilmente contido.
Ele sorriu em resposta, se esgueirando para o lado dela da cama e sentando na beirada enquanto a puxava para perto pela cintura. – Nada? Mesmo?
Se permitiu ser beijada e não protestou quando a boca dele começou a descer pelo seu pescoço, mas uniu toda a força de vontade que tinha dentro de si para parar a mão que entrava por baixo de sua blusa fazendo com que ela sentisse o controle escorrer por entre seus dedos como água. – Você pode limpar aquele seu muquifo, Barnes – provocou sabendo que aquilo o faria rir, e se arrepiando quando a respiração dele se chocou contra sua pele – E pode me prometer que não vai se alimentar de chocolates e salgadinhos. Faça umas sopas, compre umas frutas – instruiu – Você está ficando gordo.
– Que culpa eu tenho se tenho uma namorada que – traçou uma linha de beijos da clavícula até o pé do ouvido dela, vendo-a fechar os olhos e suspirar – cozinha pra mim e não me deixa sair da cama?
– Buck… – murmurou, afastando o rosto dele pela própria sanidade – Eu preciso ir.
Ele sorriu derrotado, assentindo em seguida. – Ok. Talvez eu coma algumas ameixas.
– Ameixas são ok – ela sorriu divertida pegando a mochila do chão e colocando nas costas – E o apartamento…
– Talvez eu limpe – deu de ombros fingindo indiferença, aceitando o beijo de despedida que ela lhe ofereceu.
– Eu amo você, Bucky Barnes. Se cuida – murmurou com o rosto ainda colado no dele. E como se tivesse medo da resposta, deu as costas e saiu mais rápido do que ele pôde se dar conta.
Ainda estava sem reação quando ouviu a porta da sala bater, indicando que tinha ido embora, e se pegou rindo sozinho enquanto voltava para a cama porque ela o amava. Fazia tempo desde que ele sentira qualquer coisa parecida com aquilo, e a agitação que aquelas três palavras causaram dentro dele o convenceram de que ele não pregaria mais os olhos aquela noite.
Ficou surpreso, então, ao acordar novamente com um feixe de luz em seu rosto e pássaros cantando do lado de fora, mas foi ao se lembrar das últimas palavras que sua garota tinha dito a ele na noite anterior que decidiu que aquele dia seria produtivo. Tentou — embora não com tanto sucesso quanto esperava — fazer panquecas para o café da manhã, tomou um banho, se vestiu e passou no próprio apartamento para buscar suas luvas e bonés para sair. O mundo lá fora parecia muito mais intimidador sem ao seu lado, mas ele fizera uma promessa a ela e estava otimista na missão de cumpri-la.
Deu bom dia aos transeuntes, afagou dois cachorros no caminho, passou numa floricultura tão colorida que quase cedeu ao impulso de comprar flores para a namorada, o que só não aconteceu porque ele tinha certeza que elas morreriam sob os cuidados dele até ela voltar. Conversou com um casal de idosos na barraca de queijos e os ouviu contarem orgulhosos sobre a fazenda deles no interior, o que o rendeu uma degustação dos melhores pedaços que tinham. Já estava começando a sentir fome de novo quando decidiu ir direto ao ponto e voltar para casa comer algo que não fosse salgadinhos e chocolate, e por mais que os damascos estivessem com uma aparência boa, achou que seria engraçado que ele levasse de fato ameixas para casa, e foi o que comprou.
Não soube dizer o que fez com que aquele arrepio percorresse sua espinha no momento em que ele pagou pelas frutas. De repente, a sensação de estar sendo observado se fez presente e, ao olhar em volta, ele soube que algo não estava certo. As coisas pareciam exatamente iguais a todas as outras vezes em que passou por ali, mas algo parecia anormal, ele sentia aquilo. Ainda não entendia perfeitamente como seu braço biônico funcionava, mas o fato dele ter sentido uma movimentação involuntária nas juntas de metal o convenceram de que ele não deveria estar ali. Ora, se seu braço metálico estava — e ele não encontraria melhor palavra para definir aquilo — arrepiado, ele definitivamente precisava entender o porquê.
Em contraste à sua ida, a volta para casa foi feita de forma rápida, objetiva e discreta. Sequer olhou para os lados, e muito mal para cima, conhecendo de cor o caminho que precisava fazer para o sétimo andar do prédio desgastado que chamava de casa.
Não sabia, também, explicar por que soube no momento em que alcançou o corredor do apartamento que ele não estava sozinho. Talvez fossem os instintos que ele honestamente nunca saberia explicar como funcionavam, talvez fosse uma paranoia e ele não se martirizaria se fosse, já que tinha todos os motivos do mundo para sentir tamanha insegurança.
De qualquer forma, sua entrada foi silenciosa, sua movimentação foi sutil e não precisou procurar muito para se dar conta de quem sua companhia era. Não o viu inicialmente, porém, e ele não teve coragem de se mover um milímetro sequer depois de ver a imagem daquele escudo em sua sala de estar.
Ouviu um pequeno chiado vindo do homem parado de costas para ele e sua resposta em seguida. – Entendido – foi o que ele disse enquanto folheava o diário que Bucky deixara longe dos outros. Ele não precisava que o Capitão América lesse seus pensamentos, mas não conseguiu falar, se mover ou fazer qualquer coisa. Não precisou. Assim que respondeu à sua escuta, Capitão pareceu perceber a presença dele ali.
Sua movimentação não deixava indícios de que estava na defensiva, muito menos que tinha a intenção de atacar. Os dois se encararam por um instante antes de qualquer manifestação verbal.
– Você me conhece? – Capitão perguntou. O escudo baixo, os ombros tensos; Bucky poderia descrever a expressão que as sobrancelhas dele ajudavam a formar mesmo que elas estivessem cobertas.
– Você é Steve – Bucky respondeu olhando nos olhos dele. Quando deu sequência, porém, desviou o olhar – Eu li sobre você no museu.
– Eu sei que você está nervoso, e você tem razão para estar. Mas você está mentindo – acusou, fazendo o outro engolir em seco.
– Eu não sei por que você está aqui. Eu não causo mais problemas – defendeu-se.
– E é por isso que eu preciso que confie em mim e saia daqui, porque têm pessoas vindo para cá agora bastante empenhadas em te colocar em um – Steve deu um passo na direção dele, que reagiu dando um para trás.
– Eu não vou a lugar algum, essa é a minha casa – olhou em volta procurando por algo que ele não sabia o que era. Uma rota de fuga? Algo que indicasse que aquilo era uma armadilha para levá-lo?
Cap pareceu ouvir mais alguma coisa e imediatamente seu escudo foi empunhado numa altura que não indicava mais a passividade de antes. – Eles estão aqui. O perímetro está fechado e perdemos o apoio do telhado. Bucky, você precisa vir.
– Você pode ir, Capitão. Essa briga não é sua – começou a tirar as luvas porque sabia que aquilo sempre acabava numa luta.
– Eu não vou deixar você de novo – negou com a cabeça.
Os vidros das janelas explodiram e as paredes foram perfuradas uma fração de segundo depois, fazendo com que instintivamente Capitão se jogasse contra Bucky para protegê-lo. No chão, Bucky rolou sobre o antigo melhor amigo, desferindo um golpe no chão que quebrou a madeira e arrancou sua mochila do alçapão onde ficava, garantindo que ele tivesse tudo que precisava para fugir.
– Eu não sei do que você está falando – mentiu. Se pôs de pé pronto para correr, mas Cap era mais rápido, e no momento seguinte estava de pé também o segurando pelo braço.
– Bucky – começou a dizer. O ponto em seu ouvido deixou de ser um chiado quando Bucky entendeu, em alto e bom som, o grito de quem quer que estivesse do outro lado.
"Capitão, pro chão!", foi o que ouviu.
Mas nenhum dos dois conseguiu reagir antes da explosão.

01. A Storm Is Going To Come

12 MESES ANTES
A Senhora Prewitt, do 706, gostava muito da vizinhança atual de seu prédio. Moradora há vinte e três anos do enorme complexo residencial em Bucareste, capital da Romênia, havia pouco que ela não tivesse visto por ali. Prostitutas, mafiosos, traficantes? Por algum motivo pareciam cair de paraquedas ali, sempre ali, perturbando as noites dos aposentados e famílias que residiam ali até que a polícia invadisse, o inquilino saísse às pressas sem pagar o aluguel ou o Senhor Moldavo, o general aposentado do 204, pegasse sua antiga espingarda que todo mundo sabia que jamais havia atirado um chumbinho sequer e colocasse a pessoa para fora por perturbação do sossego.
Já fazia algum tempo, talvez anos, que o último evento daqueles acontecera ali. Admitia, claro, que sentia falta de um pouco de adrenalina de vez em quando; ver os vizinhos saindo no meio da noite para os corredores, olhando para cima e para baixo no vão central da escada entre os andares, procurando o que estava acontecendo e com quem. Mas saber o nome de todos os vizinhos, poder cumprimentá-los quando os encontrasse pelas escadas e corredores, ter a possibilidade de dormir todas as noites sabendo que ninguém iria invadir o complexo e lhe tirar o sono? Não, isso era algo que ela não trocava por aventura nenhuma.
Gostava de observar os meninos Graciano crescerem felizes e serelepes ao longo dos anos, de emprestar a seção de esportes do jornal para os irmãos Mocanu e assistir os dois se afastando contentes enquanto faziam apostas para o próximo jogo, de saber que todos os domingos pela manhã encontraria e seria acompanhada pela Senhora Janner até a igreja. Senhora Prewitt gostava de sentir o cheiro de canela, açúcar mascavo e pão quentinho saindo do forno, porque aquilo indicava que pouco tempo depois ela veria o sorriso simpático da Senhorita Bogdanova batendo à sua porta e lhe oferecendo os melhores pães, bolos e doces que ela experimentara ao longo de suas muitas décadas de vida.
Não se surpreendeu ao ouvir as três batidas ritmadas na porta. Secou as mãos rapidamente em um pano de prato que levava por cima do ombro enquanto fazia o almoço e atendeu com um sorriso, vendo a mulher com o avental amarrado na cintura e a cesta de doces já pela metade. De baixo para cima, ela sempre dizia. Quando chegava ao sétimo andar, onde também morava, faltava pouco para esvaziar seu estoque de doces. Sempre guardava os melhores para a vizinha imediata de porta, também dizia.
– Guardou os melhores para mim? – Senhora Prewitt sorriu vendo a morena já levar as mãos ao fundo da cesta e pegar três embalagens bem rechonchudas.
– Oh, Constanta, você me ofende – levou a mão ao peito num gesto dramático – Alguma vez eu fiz diferente? – perguntou entregando os doces ainda mornos.
– É claro que não, menina , é claro que não – negou com a cabeça com uma pequena risada – O que temos hoje?
– Pão doce com maçã e canela, – apontou para o pacote gordinho envolvido em papel alumínio perfeitamente alinhado – cookies de banana e aveia e também de cacau com amendoim – finalizou indicando os plásticos transparentes lacrados, cada um com um par de cookies.
– Algum dia você vai me matar, menina, mas eu vou morrer muito feliz – sorriu em agradecimento.
– Não seja boba! – ralhou, embora sorrisse – Agora me diga, o que aconteceu por aqui enquanto eu viajava?
– Nada de novo sob o sol – arregalou os olhos e suspirou demonstrando tédio – Oh! Não, que cabeça a minha – riu – Ainda hoje pela manhã Senhor Strattman trouxe um novo inquilino para o 703. Parece ser sozinho, não trouxe muita coisa.
– Novo? Velho? Bonito? perguntou fazendo a senhora rir e corar.
– Querida, eu não tive muito tempo para tirar conclusões. Mas parece ser da sua idade. Quem sabe vocês não se dão bem e se juntam para poupar um aluguel, huh? – arqueou uma das sobrancelhas de forma sugestiva.
– Constanta! – repreendeu rindo e negando com a cabeça. – Pare de tentar me casar. Até parece que não conhece o histórico de inquilinos desse lugar.
– Bom, mas ele não parecia ser um traf… O que está fazendo? – a mais velha questionou ao ver a morena lhe dar as costas e seguir até o outro lado do corredor.
– Apenas checando – murmurou com um sorriso sapeca e ergueu a mão para bater à porta do novo vizinho, mas nunca chegou a tocar na madeira porque ele a abriu instantes antes. Não sabia se ele estava saindo, se havia ouvido a aproximação ou se havia sido uma mera coincidência, mas os dois ergueram a cabeça ao mesmo tempo e se encararam. Ela, com a mão erguida para bater, demorou mais do que seria considerado aceitável e a recolheu apenas depois de alguns instantes, sorrindo minimamente numa reação envergonhada. – Oi, vizinho. Eu sou do 705 – apontou por cima do ombro para a porta que ficava exatamente de frente para a dele – e uma vez por semana eu passo pelos setenta e dois apartamentos do prédio distribuindo algumas… coisas – disse enquanto mexia na cesta, usando desses poucos instantes para olhar para baixo.
– Parece exaustivo – foi o que o ouviu dizer antes de erguer a cabeça para ele de novo e encontrá-lo com um olhar levemente desconfiado. A expressão não tinha se alterado em nenhum milímetro, da mesma forma que sua postura.
– Bom, não é como se eu tivesse dinheiro para frequentar uma academia, então subir os nove andares de vez em quando vem bem a calhar – sorriu – Você se mudou hoje, não é? Já tem um fogão? Ora, se tem, provavelmente não teve tempo de instalar o gás. Pode ficar com o restante, cá entre nós eu não acho que o pessoal do oito e do nove gostem muito de mim – confidenciou enquanto empilhava as embalagens de pão e cookies nas mãos dele, cobertas por luvas de couro.
Ouviu uma pequena risada atrás de si e uma porta sendo batida indicando que Senhora Prewitt estava achando sua falta de jeito adorável e os deixaria sozinhos. Constatando isso, encarou novamente o homem esperando que algo na postura dele mudasse. Quando não encontrou nada, deu um passo atrás e fechou a cesta agora vazia.
– Bom, seja bem-vindo – bateu no avental da saia sem jeito, louca para sair dali o quanto antes – Se precisar de qualquer ajuda é só… – gesticulou na direção da própria porta – E qualquer informação, tenho certeza que a Senhora Prewitt pode ajudar. 706 – apontou. Estava pronta para dar as costas e contornar o corredor para entrar em casa, mas não pôde deixar de perguntar – Você come lasanha?
– Eu… – franziu a testa confuso.
– Tá tudo bem, eu trago mais tarde se você estiver em casa. Posso perguntar seu nome? – questionou com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
Ele olhou para a pilha de cookies e pão que tinha nos braços e de volta para a mulher, que parecia ter a melhor das intenções apesar de claramente não estar tão confortável na presença dele. Agradecer seria legal, pensou. Mas as palavras não chegaram a seus lábios e ele apenas engoliu em seco. Tanto tempo sem interações tão cotidianas…
– É James – respondeu finalmente – Meu nome é James – reafirmou.
– Bom, James, você parece bem assustado com minha invasão, mas eu juro que é sua melhor opção. Ninguém consegue ser invisível aqui e se não fosse eu fazendo isso seria a Senhora Prewitt. Acredite, ela gosta de fazer perguntas – quase sussurrou a última parte, vendo a sombra de um sorriso cruzar o rosto dele – Ela teria começado com de onde você é, o que faz da vida e o que está fazendo aqui. Eu sei. Nada agradável. Lasanha mais tarde, sim?
– E você não vai me perguntar nada disso? – ele quis saber.
– Não é da minha conta, na verdade – ela se afastou virando-se novamente para ele quando estava a dois passos da própria porta – Eu diria que você vem de Constança. Sabe, pelo sotaque. Constança é um lugar de pessoas legais.
Ele quis agradecer. Pelos doces, pela preocupação e principalmente por não fazer perguntas. A única coisa que conseguiu dizer, no entanto, foi – Lasanha mais tarde.
Ela sorriu, abrindo a porta destrancada e deslizando para dentro do próprio apartamento em instantes. James encarou a porta e de novo o que poderia ser dez embalagens de pão e quinze de cookies que estavam apoiadas em seu braço colado ao tórax. Estava morrendo de fome, era verdade, e por mais improvável que aquela cena no corredor tenha sido, ele não tinha muito do que reclamar.
, em seu apartamento, mal fechou a porta e escorregou no chão com as costas apoiadas na parede. Sentiu dificuldade para respirar e colocou a cabeça entre as pernas, sentindo todo o pânico contido invadir seu sistema.
– Tá tudo bem, – disse a si mesma enquanto sentia-se sufocar – Tá tudo bem. Ele não lembra.

1945
Costel estava de costas para as grades da cela quando a movimentação começou. Viu pela visão periférica a garota se pôr de pé e ir até lá, mas estava muito concentrado no que fazia para dar atenção ao que quer que acontecesse do lado de fora do cativeiro no qual mantinham ele e a filha desde o início da guerra.
– Ei – a ouviu chamando, mas sabia que não era com ele – EI! – tentou mais alto, fazendo com que ele olhasse por cima do ombro para ter certeza que estava tudo bem – O que aconteceu com aquele cara?
Ela não obteve resposta instantânea e por alguns instantes ele imaginou que ela tivesse voltado para a cama, mas ouviu uma risada masculina em seguida e se virou completamente apenas para encontrar a garota com o rosto entre as mãos de um dos guardas que, através da grade, forçava as bochechas dela a impedindo de falar.
EI – o mais velho gritou, erguendo a mão – Você quer que eu destrua tudo isso aqui? – perguntou.
O guarda olhou do pai para a filha, empurrando o rosto dela de volta para dentro da cela e grunhindo. – Você não tem poder nenhum aqui, Bogdanov – cuspiu as palavras, empurrando o rosto da garota para dentro da cela.
Costel quebrou um tubo de ensaio no qual trabalhava e foi até a grade com o vidro quebrado em punho de forma a intimidar o homem do lado de fora da cela.
– Toque minha filha de novo e vocês não sentirão o cheiro desse soro – ameaçou – A garota te fez uma pergunta.
O homem riu debochado, pousando a mão na cintura para exibir a arma carregada no coldre. – Aquele cara – repetiu com um tom carregado de ironia – é a putinha e Steve Rogers. Vocês dois estão aqui há bastante tempo, vocês ao menos sabem quem ele é?
O homem grunhiu em descontentamento, mas a filha franziu a testa. – Capitão América. Capturaram alguém da equipe do Capitão América?
– Capturaram? – riu de escárnio – O cara caiu de um trem em movimento. Mal está respirando. Se sobreviver, provavelmente vai ser ele o enviado pra matar o macaquinho de circo americano. Poético, vocês sabem.
– E o que faz vocês acreditarem que ele faria isso? – a garota perguntou sorrindo e partilhando da mesma ironia do homem do lado de fora.
Ele, por sua vez, não respondeu. Sorriu ainda mais abertamente e olhou para a mesa de trabalho de Costel. Sua resposta verbal veio apenas depois que os dois prisioneiros seguissem seu olhar e entendessem os planos deles. Um grito de agonia cortou o silêncio que se estabeleceu entre eles, fazendo a garota se encolher. – Hail Hidra – murmurou, se deliciando com a dor do soldado que estava sendo salvo na sala ao lado apenas para ser destruído depois.

2018
estava de pé, mas não saberia dizer como. Suas pernas perdiam a força toda vez que se lembrava de seu pai, da HIDRA ou da Alemanha. Elas mal conseguiam sustentá-la em pé todas as vezes que pensava no que fizeram com James Barnes ou no que ele fez com ela.
Tá tudo bem, repetiu mais uma vez internamente. Ele não lembra.
Pensou em pesquisar sobre o Soldado Invernal. Ver se alguma notícia recente indicava que ele estava ativo, mesmo que soubesse exatamente como ele era quando ativo e que aquilo que vira no corredor não tivesse nada a ver com a versão dele a qual deveria temer.
Mas também sabia que um ano depois da queda da SHIELD alguma coisa já estaria de pé novamente e que jogar aquelas palavras no google poderiam colocá-la no mapa para eles, coisa que ela estava sucedendo em evitar.
Como conseguiria dormir em paz, então, sabendo que ele estava do outro lado do corredor?
Tá tudo bem, repetiu de novo. Ele não vai machucar você.
Mas e se ele estivesse ali exatamente para aquilo?
Completamente paranoica e incapaz de controlar seus pensamentos alucinados, pegou o telefone e discou o número que não chamava há pelo menos um ano.
– Sim? – o homem atendeu do outro lado no segundo toque. Ela poderia imaginar a expressão tranquila dele ao atender o número desconhecido enquanto uma equipe rastreava a ligação para dizê-lo quem o estava ligando antes que ela mesma pudesse se identificar.
– Não rastreie essa ligação – pediu, então.
– Eu estava me perguntando quando você iria ligar – pôde detectar o sorriso em seu tom de voz e soube que ele de fato não a rastrearia. Não tinha interesse em saber onde ela estava desde que ela não estivesse em perigo.
– Apenas checando – ela também sorriu ao responder – Caso você tenha algo bom para mim – mordeu o lábio em ansiedade porque não sabia se estava soando convincente o suficiente.
– Ah, você sabe. Estamos indo aos poucos. Ontem nós salvamos a área dos três estados – contou.
– Eu não ouvi falar de nada na área dos três estados – duvidou.
– Isso é porque eu faço o meu trabalho – retrucou, fazendo-a rir – Como você está?
– Tendo pesadelos – mentiu – Que vocês vêm atrás de mim. E a HIDRA.
– Chá de camomila – aconselhou.
– Você tem certeza que eu não tenho que me preocupar? – insistiu.
– A SHIELD ainda não está sólida o suficiente, temos muita coisa para resolver. A HIDRA… Bem, seria estúpido admitir que eles afundaram, eles provavelmente estão por aí, mas com certeza não estão fortes o suficiente para você ter que se preocupar. Você sabe se defender, não é?
– Eu gosto de acreditar que sim. Posso te pedir uma coisa? – pediu, sentando-se no braço do sofá e mexendo as pernas de forma inquieta.
– Qualquer coisa, você sabe – incentivou.
– Eu preciso de algumas respostas, sabe, sobre meu pai e sobre a Alemanha. Se vocês encontrarem…
– Eu não posso discutir isso com você mais como superior – a cortou – Mas como amigo, pode ter certeza que quando encontrarem algum indício da pista gelada você vai receber um sinal. Mas não é fácil, sabe, antes de mais nada ele é um espião. Como você.
– Eu acho que ele era. Como eu fui – corrigiu – Obrigada, Coulson.
– Não há de quê, agente – respondeu antes de desligar.
levou o telefone à testa e abaixou a cabeça respirando fundo mais uma vez.
A SHIELD não sabia onde James Barnes estava. Será que a HIDRA sabia? Ele poderia estar ali enviado por eles. Ou ele poderia ser tão fugitivo quanto ela...
Está tudo bem, internalizou. É só uma coincidência. A pior de todas elas.
Recuperando-se, ficou de pé e olhou de volta, pensando no que faria em seguida.
Provavelmente não deveria fazer nada, com certeza não poderia.
Então decidiu fazer a única coisa que fazia sentido, mesmo tendo certeza que se arrependeria depois.
Uma lasanha.

02. Who Lives, Who Dies, Who Tells Your Story

Fazia duas noites que não dormia.
Não era como se estivesse se sentindo cansada, todavia. Reorganizou todos os móveis e rearranjou toda a decoração da casa na primeira noite, e repetiu incansáveis séries de exercícios físicos na segunda. Não parecia como alguém que não tinha pregado os olhos à noite quando chegava no trabalho no dia seguinte; não se sentia como alguém que tinha chegado perto de seu ponto máximo de exaustão sem sentir os olhos pesarem nem mesmo um pouquinho. Mas lá estava ela, indo para a terceira noite de insônia e sem ideias do que faria para ocupar seu tempo.
Já havia dançado às músicas mais animadas de sua playlist usando apenas moletom, calcinha e fones de ouvido; já havia ficado entediada de jogar dardos sozinha; já estava pensando em ficar apenas encarando o teto enquanto o dia não amanhecia e ela podia recomeçar sua rotina diária, mas pensou que bem, ela sabia muito bem se defender caso o pior acontecesse e dar uma volta pela rua parecia ser uma boa ideia.
Colocou uma calça de moletom, uma jaqueta por cima da blusa de mangas compridas e esperou que aquilo fosse suficiente para protegê-la do frio do começo de fevereiro. Pegou o maço de cigarros, o isqueiro, a chave e algum trocado por precaução. Na saída, ainda se esticou para pegar a touca que estava pendurada no cabide de casacos e abriu a porta equilibrando os objetos na mão que não estava ocupada pela maçaneta. Encarou o relógio da sala uma última vez antes de fechar a porta atrás de si. 4h33. Talvez algo nas ruas geladas de Bucareste fosse mais interessantes do que as quatro paredes de seu apartamento.
A expectativa fez com que ela tentasse fazer tudo de uma única vez — colocar a touca, equilibrar as coisas em uma única mão e tentar agarrar a chave com o mindinho para trancar a porta da frente. O resultado não poderia ser outro, e ela paralizou o corpo quando ouviu o barulho do isqueiro, das chaves e moedas caindo no chão ecoando pelo grande vão central do prédio pelos andares abaixo. Xingou baixinho e parou a última moeda giratória com a sola do tênis desamarrado. Com sorte, não teria acordado ninguém.
Abaixou-se para amarrar os tênis e recolher suas coisas, e ergueu a cabeça a ponto de ver a porta de entrada do 703 sendo aberta.
Antes da queda da SHIELD em DC, o Soldado Invernal era considerado um fantasma. E depois de tudo que tinha acontecido, ele havia voltado a ser um. As pessoas sequer tinham certeza de que ele existia de fato. E tinha muitos fantasmas em sua vida, seu passado; mas sabia que suas noites em claro tinham a ver com apenas um deles.
– Eu acordei você? – a garota praticamente sussurrou porque sabia que, com o silêncio da madrugada, qualquer coisa seria capaz de acordar o prédio inteiro por conta do eco. Sabia que seu pequeno ato de desastre provavelmente o tinha feito, mesmo que James fosse o único a ter aberto a porta para entender o que estava acontecendo.
Ele a encarou rapidamente antes de olhar em volta e responder – Não, eu… – gesticulou por cima do ombro indicando o próprio apartamento e dando de ombros.
– É, eu tenho insônia também. Às vezes – sorriu minimamente enfiando as moedas no bolso da jaqueta e girando a chave na fechadura – Eu estava descendo pra fumar um cigarro, não queria deixar cheiro nas cortinas. Desculpa a bagunça.
Ele arqueou uma das sobrancelhas – Tá fazendo três graus lá fora – comentou.
Em resposta, o sorriso dela se abriu um pouco mais revelando divertimento – Talvez um pouco menos por conta do vento. Quer me fazer companhia? – ele uniu as sobrancelhas em curiosidade e ela terminou de ajeitar a touca enquanto continuava – A menos que tenha algo super divertido pra fazer aí – deu de ombros.
Ele relaxou a expressão e ela jurava que tinha visto uma breve sombra de divertimento passar pelos olhos do homem – Eu vou precisar de alguns casacos.
– Certamente. James – chamou quando ele deu as costas para ela pronto para entrar em seu apartamento mais uma vez – você comeu alguma coisa?
– O Coelhinho da Páscoa não trouxe chocolates hoje – ele respondeu, mas já estava dentro de casa e ela riu sozinha encarando a porta entreaberta por quase um minuto inteiro. – É uma vez na semana! – retrucou para ninguém – Folgado – acrescentou. Dessa vez, ouviu o que poderia ter sido uma risada. Pequena, discreta, mas estava lá.
Se encontraram de volta no corredor pouco mais de quatro minutos depois, ele inteiramente agasalhado e ela abraçada no que parecia ser um pote. Ele indicou que ela fosse na frente e ela desceu na ponta do pé para não fazer muito barulho. Chegaram no térreo pouco depois e, assim que abriu a porta da frente do lobby rústico do prédio, a garota pensou se era mesmo uma boa ideia ficar do lado de fora congelando. Deu passos firmes para o lado de fora, porém, e umedeceu o indicador na boca antes de erguê-lo para descobrir em que direção o vento cortante da madrugada estava soprando.
A frente do prédio tinha uma pequena escada que descia até a rua e, coberta por uma marquise vermelha, formava dois pequenos muros ao lado dos degraus. Ela estendeu o pote na direção dele, que notou que além do conteúdo quente de dentro que ele não sabia o que era, havia uma caixinha de suco junto. O homem abriu a boca algumas vezes antes de conseguir responder àquilo, e quando finalmente falou, ela já estava acomodada do seu lado da mureta, com as pernas cruzadas para evitar a fina neve que caía logo à frente, na parte que a cobertura não alcançava.
– Eu estava brincando, . Eu… eu comi – ele parecia envergonhado.
Ela riu, posicionando um cigarro entre os lábios – O que é felicidade pra você, James? – perguntou e tentou algumas vezes antes de fazer o isqueiro manter a chama por tempo suficiente. Deu uma primeira tragada e, sem soltar a fumaça, gesticulou com a mão e continuou – Pra mim, felicidade é alimentar as pessoas. Torná-las gordas – soltou a fumaça sorrindo – Só me deixe saber depois como estava. E cuidado com esse lado, essa placa de mármore está solta, não apoie na beirada – apontou com o dedo quando ele fez menção de apoiar no seu lado do muro para se sentar.
Assentindo, James se sentou com cuidado, não se importando em deixar os pés para fora da cobertura. Abriu a tampa do pote que soltou uma fumaça densa e cheirosa que revelou algo salgado do lado de dentro. Ele estava pronto para perguntar o que estava prestes a comer, mas a garota tomou ar para falar mais uma vez.
– Você não precisa mentir pra mim, aliás – comentou sem encará-lo, e ele, por sua vez, manteve o olhar nela de forma estudiosa, esperando que ela continuasse – Você ao menos tem um fogão? Porque tudo indica que não e eu nem quero imaginar o que é que você come! – ela abriu um pequeno sorriso – Espero que goste de torta de cogumelos.
A resposta dele foi desembrulhar o garfo e se servir de um pedaço, sem se preocupar em dizer nada. Ela terminou o cigarro alguns minutos e garfadas depois, e depois de apagá-lo, tateou o muro abaixo de si até encontrar uma pequena abertura onde enfiou a guimba sem problemas sob os olhos estudiosos do rapaz, que a encarou em seguida.
– Você realmente conhece esse lugar – não era uma pergunta, mas em algum lugar daquela constatação havia uma entranhada. Ela realmente conhecia aquele lugar. Como tinha ido parar ali?
Ela assentiu brevemente, trazendo os joelhos para perto do peito e abraçando-os – Depois da guerra Russo-Turca, os russos que migraram pra cá se juntaram e criaram esse lugar. Isso tem… quase cento e quarenta anos – sorriu – O apartamento onde moro tem sido da família do meu pai desde essa época, passando de geração a geração. Eu costumava morar aqui com ele antes dele morrer – fungou brevemente, James não saberia dizer se por conta do frio ou por conta da menção ao falecimento do pai – Depois disso eu estive em todos os lugares, trabalhei com muita coisa, acabei voltando para cá há um ano? Mais ou menos, e não me surpreendi em encontrar tudo exatamente igual. Eles nem ao menos consertaram o elevador.
– Seria útil – ele comentou. Não sorria, mas seus olhos tinham um quê de diversão. Estava à vontade.
– Não pra mim! – ela riu baixo – Eu trabalho num restaurante durante o dia e cozinho todos os dias à noite, faço bolos e doces uma vez na semana no mínimo… – listou – Essa escada é a única atividade física que me impede de virar o Garfield.
– Não deixaria de ser uma escolha – ele retrucou. Ela arqueou uma única sobrancelha e assentiu brevemente dando a ele a razão. Chegou um pouco para trás, aproveitando que o muro tinha uma subida na diagonal perfeita para apoiar as costas e tateou os bolsos para pegar mais um cigarro.
Nunca tinha realmente parado para pensar no quão bem conhecia o lugar. Fazia tanto, tanto tempo desde que tinha morado ali com seu pai que na verdade era surpreendente que pouca coisa tivesse mudado. Ainda sabia em quais madeiras da tapeçaria não deveria pisar se quisesse evitar rangidos alarmantes; conseguia facilmente encontrar os pequenos buracos nos muros e paredes dos corredores onde costumava esconder as bolinhas de gude das outras crianças e que agora serviam como cinzeiro quando não tinha opção melhor; lembrava perfeitamente quais andares tinham problemas com a saída de lixo — incluindo o seu próprio, o que a fazia ter que descer até o sexto andar para garantir que as sacolas chegassem até lá embaixo e não simplesmente entupissem o caminho e apodrecessem ali. Deveria falar aquilo para James, pensou, mas antes que pudesse se dar conta ele estava falando com ela.
– Você sente falta? – perguntou olhando para a neve caindo em sua bota.
– Do quê? – ela quis saber.
– De estar em todos os lugares – olhou para ela parecendo genuinamente interessado, fazendo-a piscar algumas vezes para associar a pergunta que lhe tinha sido feita.
– Não – respondeu depois de alguns instantes – Agora não. É bom ter um lugar pra chamar de casa – concluiu. Pelo canto do olho, o viu assentir em silêncio. Ele tinha acabado de comer e espetava o canudo na caixinha de suco, o que a fez sorrir sem entender bem o porquê. Resolveu que não queria ficar em silêncio de novo e emendou – E você? Como veio parar aqui?
– Eu não sei. Realmente não sei – soou sincero – Às vezes você só passou por tanta coisa que precisa encontrar um lugar para esquecer um pouco. E lembrar mais um pouco. Isso faz sentido? Quer dizer, quando se é um… – interrompeu a frase na metade e ela não demorou para completar para ele.
– Veterano? – perguntou – Apenas um palpite.
– É tão óbvio? – ele questionou e ela apenas deu de ombros – É só que quando você já viu tanta coisa e já fez tanta coisa… Às vezes você precisa encontrar uma forma de começar de novo.
Ela encarou o vermelho da marquise acima de si por alguns instantes, absorvendo o que tinha ouvido. Ele estava sendo sincero com ela. Tão sincero quanto poderia ser. Imaginou quanto tempo fazia desde que ele tinha tido aquela conversa com alguém. Se algum dia ele tinha tido aquela conversa com alguém. E sentiu que não teria mais noites em claro depois de saber que ele confiava nela. Porque aquilo fazia com que ela confiasse nele também.
– Sabe – ela começou abrindo o maço de cigarro, mas o ouviu bufar interrompendo-a.
– Você não deveria fumar tantos desses – aconselhou, fazendo-a sorrir e guardar o maço de volta no bolso.
– Quando eu pensei em ter um lugar fixo de novo eu tentei primeiro a Polônia – ela se sentou novamente, encarando-o rapidamente antes de prosseguir – É onde eu nasci, de onde a minha família biológica é. Eles tiveram que me entregar para o meu pai quando eu era pequena por motivos políticos, eu não sei – suspirou – Eram as duas opções que eu tinha, aqui e lá. E eu achei que por nunca ter criado laços por lá seria mais fácil pra mim. Eu odiava esse lugar quando cheguei. Eu o amei antes de ir embora. E eu estava procurando por algo mais neutro, ou eu achava que estava. Quando eu não senti nada na Polônia eu sabia que estava faltando algo e aqui – indicou o prédio por cima do ombro – foi incrivelmente onde eu descobri que posso me encontrar de novo. Como você disse, esquecer algumas coisas. Lembrar outras – acrescentou num tom mais baixo.
– É diferente pra mim. Eu não consegui ficar em lugares que amei. Tampouco em lugares que odiei – sacudiu os ombros numa pequena risada triste que foi embora tão rápido quanto surgiu – Talvez esse seja meu lugar neutro. Talvez seja disso que eu precise.
– É uma boa escolha – a garota concordou assentindo sutilmente – As pessoas constroem vidas aqui. É o lar de tanta gente. Talvez possa ser o seu – sugeriu.
– Talvez… com o tempo – concordou. Seus lábios não sorriam, mas seus olhos tinham uma simpatia que fez com que sorrisse em resposta.
– Bom, se você está planejando ficar… – pulou do muro para o chão, ajeitando a jaqueta no corpo – é bom providenciar um fogão. Enquanto isso me diga o que você come, posso trazer algo do trabalho pra você amanhã – estendeu a mão para recolher o pote vazio e tampado que ele a entregou.
– Não precisa se preocupar. E a torta estava maravilhosa, , obrigado.
– Vou entender isso como uma carta branca para escolher o que eu achar melhor – ela retrucou – Vai subir?
– Não agora.
– Obrigada pela companhia, James, boa… bom dia pra você – riu baixo antes de se afastar.
– Bom dia, – ainda ouviu a resposta antes de entrar no lobby e encarar os sete lances de escada que a esperavam.
Sentiu-se leve. Leve por poder lembrar com tanto carinho de seus pais — biológicos e o homem que a havia criado. Leve por ter externado a forma que se sentia em relação a Bucareste e àquele lugar em particular. Leve porque agora tinha certeza que a presença de James Barnes em sua vizinhança queria dizer que o mundo era realmente, realmente pequeno; e não que ela era a missão dele.
O cara parecia estar, de fato, tentando começar de novo. Se livrar dos seus fantasmas, das pessoas que ele havia matado e das que haviam tirado sua vida.
Ela saberia se ele tivesse sido mandado como um espião da HIDRA — ora, no fim das contas havia sido ela a ensiná-lo como ser um.
Mas, acima de tudo, sentia-se leve porque ele não sabia — não lembrava —, mas eles eram mais parecidos do que tiveram a oportunidade de saber antes daquela conversa. Eles não tinham muitas oportunidades de conversar antes, e era bom saber que ele também carregava com ele o fardo de ser muitos dentro de um.
Não cabia a mais ninguém a decisão de quem eles seriam, de quais das versões deles seriam deixadas para trás e qual delas seguiria a partir dali.
Decidiu que ajudaria James, porque mesmo sem querer ele a estava ajudando. E se sentiu patética por aquilo.
Eu não me importo que você tenha tentado me matar – ela murmurou com uma voz irritante que, em sua cabeça, era a sua própria quando dizia e pensava coisas estúpidas – desde que não tente fazer de novo. Muito bom, . Muito bom – elogiou ao abrir a porta do próprio apartamento e se jogar dentro dele.
Tentou enfiar na própria cabeça que eles eram iguais agora. Fugitivos, os dois. Ambos com mais ou menos o mesmo objetivo, tentando esquecer mais ou menos as mesmas coisas sofridas por mais ou menos as mesmas pessoas.
Mas era esse o motivo dela manter um pé no chão enquanto a cabeça divagava pelas nuvens.
Era exatamente por serem tão iguais que ela sabia que não podia confiar totalmente nele.
Até hoje ela não havia conseguido confiar totalmente em si mesma.

03. You Should Know Where I'm Coming From

Apesar de ser uma cozinheira de mão cheia e de gostar de estar na cozinha sempre que possível, o emprego dos sonhos de não envolvia uma cozinha.
Infelizmente, era essa a realidade.
Bucareste era uma cidade grande, afinal, era a capital. E apesar de crises recentes, era um lugar estável para se viver. O problema da garota era que ela odiava se ver numa vida onde passava de oito a doze horas diárias fazendo algo por obrigação para chegar em casa cansada, dormir e repetir tudo no dia seguinte, e existia um número pequeno de empregos de meio-período que não fossem ocupados por jovens estudantes que tinham apenas aquela opção. Sua qualificação, então, a havia levado direto para aquele simpático restaurante executivo que funcionava apenas das 11h às 15h, o que fazia com que ela trabalhasse apenas das 9h às 16h. Não era ideal transformar seu único hobby em algo profissional, mas ela gostava de ter tempo para si, chegar em casa antes do pôr do sol e evitar todos os horários de pico.
Naquela sexta-feira, porém, não pôde evitar a movimentação na volta pra casa. Havia topado um happy hour com os colegas de trabalho depois do expediente e acabado do outro lado da cidade na melhor steak house local. Ela normalmente preferia o bonde ao metrô para fazer seu caminho diário — odiava se sentir sufocada no subterrâneo e não tinha boas memórias de lugares como aquele; além do mais, se sentia indefesa lá: vulnerável e suscetível a qualquer tipo de emboscada que pudesse ser pensada. Paranóica, era essa a definição que usariam caso ela dissesse aquilo em voz alta, mas ninguém havia vivido suas experiências além dela. Além dela e… bem.
Sentiu-se culpada por volta das 18h, quando se lembrou que tinha uma embalagem com comida na bolsa, já que tinha prometido levar um pouco da do restaurante para James, e depois de pagar sua parte da conta, não teve muita opção senão pegar o metrô para casa.
Fez o caminho para casa rezando para a única deusa que acreditava além de Thor, tendo flashes horríveis de momentos ruins vividos em espaços subterrâneos cada vez que as portas do trem se abriam em mais uma estação que não era a dela. Só queria chegar em casa logo e jurou nunca mais considerar o metrô uma opção viável, independente de quanto tempo ela demorasse no trânsito ou do quão cheio o bonde estaria. Respirou aliviada ao sair da estação que ficava na rua de baixo de casa, e murmurou um "obrigada" sutil, caso sua segurança algo tivesse a ver com suas preces.
Já podia ver o prédio antigo do ponto onde estava, e seu alívio muito tinha a ver com sua certeza absoluta de que estava em segurança agora e que nada de ruim poderia lhe acontecer. O pior já havia passado, pensou.
Não sabia se era o álcool no sistema ou se simplesmente estava com muita pressa para chegar em casa, mas assim que subiu o último lance de escadas e se deparou com o sétimo andar, se sentiu morta. Estava tonta, ofegante e muitíssimo necessitada de um copo de água, por isso deu uma breve olhada na direção do 703 se desculpando internamente por atrasar a comida um pouco mais; precisava passar em casa antes de qualquer tipo de interação humana. Franziu as sobrancelhas, porém, ao notar que a porta em questão estava entreaberta.
Na melhor das hipóteses, James havia saído e esquecido de trancar a porta, e o vento a havia empurrado. Na pior delas, ele havia sido levado e ela seria a próxima. Talvez estivessem esperando por ela em sua sala de estar agora mesmo.
Congelou no lugar. Muita informação passava em sua mente ao mesmo tempo e ela se obrigou a focar. Odiava estar tão paranóica desde a chegada de James, mas como não estaria? Então pensou em todas as possibilidades de ação a partir daquele momento. E se ela fosse para casa e eles estivessem lá? Mas, por outro lado, e se eles soubessem que ela iria pensar aquilo e recuar e já estivessem na entrada do prédio esperando-a sair? Olhou mais uma vez na direção do 703 e pensou em ir até lá só pra checar. Mas e se estivesse sendo previsível ao fazer aquilo e fosse exatamente o que eles esperavam que ela fizesse?
Ficou algum tempo ali, parada no topo da escada, sem saber o que faria. A situação só mudou quando ela ouviu o barulho de louça se quebrando no apartamento dele, o que fez com que ela instintivamente largasse a bolsa no chão e fosse devagar na direção oposta ao próprio apartamento. Respirou fundo ao se aproximar da porta entreaberta, pensando que seus instintos que por tanto tempo a mantiveram viva seriam também a causa de sua morte em algum momento.
– James? – perguntou. Não obtendo resposta, empurrou levemente a porta, abrindo-a um pouco mais. – James? É , tá tudo bem?
Dito isso, entrou. E se arrependeu no instante seguinte, quando viu a silhueta de James encarando a parede. O braço metálico estava descoberto pelas mangas curtas da camisa que ele usava, e assim que ela entrou, ele a encarou. Mas ela sabia que não era exatamente James quem estava ali porque ela conhecia aquele olhar vazio.
Tu das nicht, Soldat – tentou em vão. Não importava em quantas línguas ela dissesse para ele não fazer algo. Ela não era uma de suas programadoras e ele jamais a obedeceria. Sentiu o álcool deixar de ser algo relevante em seu sistema, mesmo que não tivesse qualquer justificativa para explicar por que ao invés de fugir, ela fechou a porta com os dois dentro do apartamento. Por um lado, sabia que suas chances de pará-lo eram pequenas; por outro, sabia que era a única pessoa ali capaz de ao menos tentar, e que se ele saísse dali como Soldado Invernal aquilo não acabaria bem para ele, para ela ou para ninguém que morava naquele prédio ou naquele bairro.
Quando ele flexionou a mão metálica e foi na direção dela, então, ela já estava preparada. Conseguiu desviar da primeira tentativa dele de imobilizá-la e segurou um soco desferido com a mão direita, encarando-o nos olhos e dizendo de forma convicta e em inglês – Você é James Buchanan Barnes e você não é um monstro.
Ele grunhiu, investindo com a outra mão e acertando-a na altura do estômago fazendo-a gritar. O chutou, afastando-o apenas o suficiente para erguer o corpo de novo e desviar de mais uma investida, usando uma das pernas para prendê-lo pelo pescoço e jogá-lo no chão, socando-o no rosto. – Por Deus, James, o que é que está acontecendo? Você não é mais o Soldado Invernal e eu preciso que você acredite nisso!
Quase acreditou ter conseguido pará-lo, mas foi jogada para o chão num movimento brusco dele e teve que rolar para o lado numa fração de segundo porque no instante seguinte o pulso fechado dele acertou o lugar onde a cabeça dela estava, quebrando as madeiras da tapeçaria. Ela fez impulso para se colocar de pé e viu a mão dele vir em direção a si, tendo que erguer o braço para evitar o impacto. Seguiram numa sequência de defesas e socos que a estavam cansando e ela olhou rapidamente em volta procurando algo que a pudesse ajudar. Chutou o torso dele afastando-o e pulou por cima da bancada para ter algo entre eles.
– Me escuta, Bucky, eu não sei o que aconteceu pra te fazer ficar assim, mas eu não planejei morrer hoje então desfaça isso!
Abaixou quando uma faca foi arremessada contra ela e arrancou o puxador da gaveta mais próxima para se defender. Assim que ele a alcançou, ela conseguiu derrubá-lo batendo com o ferro na parte de trás de seu joelho, mas ao cair, ele a agarrou, rolando para cima dela e a imobilizando com a mão biônica em volta de seu pescoço.
Era aquilo, pensou enquanto sentia a pressão em torno de seu pescoço. Era daquele jeito que ela morreria.
Usou toda sua força para empurrá-lo e chutá-lo, mas era impossível pará-lo e ela sabia daquilo há bastante tempo àquele ponto. Então, como pouco de ar que ainda tinha, conseguiu dizer – Isso não é você, Buck. Por favor… – sua cabeça parecia estar a ponto de explodir e ela sabia que não aguentaria muito mais. – Bucky! – pronunciou num fio de voz, sentindo sua temperatura corporal aumentar até se tornar quase insuportável. Fechou os olhos esperando pelo pior e sentiu, gradativamente, o aperto que a impedia de respirar sendo afrouxado pouco a pouco até o momento em que ela conseguiu puxar uma lufada de ar para os pulmões e sentiu todo o corpo pulsar em desespero.
Abriu os olhos e encarou os olhos azuis de James. Confusos, perdidos, assustados. Ele encarou a própria mão contornando o pescoço de e se afastou com pressa, atônito, derrubando tudo pelo caminho. Ela passou as mãos em volta do pescoço, sentindo uma ardência surreal que aumentaria logo mais quando os hematomas começassem a surgir. Respirou fundo algumas vezes antes de impulsionar o corpo para se colocar sentada, sentindo cada músculo de seu corpo se contrair em revolta pela ação. Encarou James que, já de pé, olhava em volta como se tentasse entender. Ela tomou ar para falar, mas viu o indicador esquerdo dele e esticar na direção dela e se encolheu ao ouvi-lo falar.
– Quem é você? Quem te enviou aqui? Você deveria estar morta – disse com a voz trêmula.
Ela suspirou, fechando os olhos por alguns instantes.
Como explicaria para ele quem ela era? Como o faria entender depois de tê-lo visto perder suas memórias de novo e de novo até se tornar uma rotina, ter o cérebro fritado a bel-prazer de nazistas nojentos e cientistas loucos, depois de tentar ajudá-lo de todas as formas até passar a sofrer o mesmo que ele?
– Como você sobreviveu? – ele insistiu.
Ela ainda não sabia o que responder. Por onde começar. As coisas eram tão confusas para ela, não imaginava como seriam para ele.
Se pôs de pé com dificuldade, abrindo a geladeira dele e depois o congelador, encontrando ervilhas congeladas que foram bem-vindas pelo seu pescoço dolorido. Então ficou ali, parada processando acontecimentos recentes e passados sem realmente dizer nada.
– Eu vou precisar de respostas! – James gritou, chamando a atenção dela.
– O meu pai – gritou de volta – te transformou no que você é hoje – continuou, dessa vez usando um tom mais baixo. – Merda, James. Você me pergunta quem eu sou e quem me enviou aqui e quer que eu acredite que é uma simples coincidência você ter aparecido aqui? Justo aqui? E agora o Soldado Invernal. Eu devia saber que você ainda tá com a HIDRA.
Atravessou a cozinha na intenção de ir para casa, mas sentiu a mão dele segurar firme seu braço, fazendo-a parar.
– Primeiramente – ele disse – eu nunca estive com a HIDRA. Em segundo lugar, porra, que história é essa do seu pai? Como você me conhece? E, de novo, quem te enviou aqui?
Ela o encarou impassível por breves instantes. Forçou o braço para longe do aperto dele e puxou uma cadeira para se sentar. Estava se sentindo tonta de novo. Já fazia algum tempo desde que ela não encarava a morte tão de perto.

1945
– Eu acho que terminei – Costel murmurou, encarando os dois frascos com o soro que passara meses desenvolvendo.
– E vai funcionar? – a mais nova se esgueirou até perto do pai, encarando os vidros como se eles contivessem a resposta para todas as perguntas da humanidade. Talvez, pensou, tivessem mesmo.
– Eu… eu não sei – ele admitiu. – Até onde eu sei poder matar a pessoa que usá-lo. Não tenho como testá-lo e isso é tudo que tenho.
– É a nossa única chance, papai – ela insistiu.
– Teremos que tentar a sorte – concordou com um aceno de cabeça. – Mas se não estiver perfeito e… e se não funcionar. Seremos mortos.
Ela encarou o pai e então os frascos. Numa atitude impulsiva, pegou um deles e bebeu todo o conteúdo de uma vez. O mais velho soltou uma exclamação surpresa e a empurrou para o canto da cela, sentando-a e passando a procurar por algo.
– Minha filha, por que você fez isso? – soou desesperado.
– Porque você é a única pessoa que sabe como fazer isso. Como incrementar ou mexer no que precisar. Se der certo comigo, vai dar certo com você. E se não der… continue tentando.

2018
– O que aconteceu então? – James perguntou ao fim da narrativa.
suspirou. – Deu certo. Eu disse a ele que podia ver e ouvir tudo. Que estava mais rápida, mais enérgica, mais poderosa. Mas eu não estava tão mais forte quanto deveria, então ele passou a trabalhar nisso. Mas descobriram, e tiraram o soro de nós no momento em que ele fez as alterações necessárias. Atiraram na cabeça dele bem na minha frente e levaram o soro até você – narrou, sentindo um arrepio correr por sua espinha. – Eles prometeram que deixariam meu pai e eu sairmos quando o soro estivesse pronto, mas por conta da traição o mataram e fizeram de mim prisioneira deles. Tanto quanto você.
Ele pareceu associar as informações. A expressão era de desconfiança, mas ao mesmo tempo de curiosidade. Ela sabia que ele tinha mil perguntas a fazer e ela também teria, mas não se sentia disposta a respondê-las naquele momento. Por mais que a história fosse muito mais extensa do que aquilo, ela não havia mentido em uma palavra sequer. Citar o nome do pai doía, e lembrar os momentos em que tinha passado naquele cativeiro também.

1945
Existiam alguns traumas que uma pessoa podia passar com a possibilidade de se recuperar depois. Um acidente de carro, por exemplo. A perda de um ente querido. O que ela havia passado, porém, jamais poderia ser esquecido. Ser sequestrada no meio de uma guerra era algo que deixava marcas. Ser agredida, violentada e deixada sem comida por dias, também. Ver o pai ser morto e ser deixada com o cadáver dele por dias vendo as moscas e os ratos tomarem conta do espaço cercado de grades sem ter para onde ir ou a quem recorrer era, para ela, o maior trauma que alguém poderia passar na vida. Era desumano, inimaginável, e ela só queria morrer também.
Mas a guerra acabou logo depois daquilo e, derrotados, os nazistas da HIDRA se recolheram para a Sibéria. Ser transportada numa jaula como um animal com frio e fome também entraria para a lista de traumas insuperáveis da lista dela.
Foi no caminhão que os transportava que ela viu James pela primeira vez. Pálido, magro, dentro de uma prisão de vidro muito melhor do que a dela, mas ainda assim uma prisão. O olhar dele era fixo e ele não mudou de posição em nenhum momento durante a viagem.
– Você pode falar? – ela perguntou a ele, vendo seu olhar vazio continuar encarando o nada à sua frente. Era um boneco. Uma marionete da HIDRA com um recém-implantado braço metálico que mais parecia uma arma e com o soro de seu pai circulando nas veias. Ela conseguia imaginar para que a HIDRA o usaria, mas preferiu não pensar no assunto. – Deus, o que fizeram com você – murmurou. E pela primeira vez sentiu medo de algo não físico. Sentiu medo de mexerem no cérebro dela como fizeram no dele, medo de não ser mais ela quando a HIDRA não quisesse mais que ela fosse.
Mas por que é que ela ainda era ela, afinal? Seu pai fora executado a sangue frio e nada havia sido feito com ela. Ela sabia que algo tinha a ver com o soro que corria em suas veias e agora fazia parte de quem ela era, mas se eles tinham a versão melhorada correndo nas veias do homem em sua frente, para que ela ainda seria útil?
Muita coisa passou pela cabeça dela, nenhuma das hipóteses era reconfortante. Mas se eles se deram o trabalho de levá-la com eles, era porque ainda viam alguma utilidade nela; do contrário a teriam deixado para morrer na Alemanha.
O caminhão parou e alguns instantes depois a parte de trás foi aberta, fazendo com que sua vista doesse pela claridade refletida em toda aquela neve. Dois caras armados a encararam, e depois a James, e o primeiro abriu a porta da jaula que prendia o homem ao dizer – Beginne zu laufen, Soldat.
Como se tivesse sido programado para aquilo, James se levantou e desceu sem ajuda do caminhão, passando a andar na direção da base à frente deles. Não precisou de escolta nem instruções, apenas andou na direção da base. Um arrepio subiu pela espinha da garota pensando em que tipo de lavagem cerebral se podia fazer para transformar alguém num robô.
– Se você prometer se comportar eu te deixo ir andando também – um dos caras armados disse a ela. – Você vai ver que não tem pra onde correr e se você andar vai nos poupar um trabalhão.
Ela assentiu sutilmente, vendo sua jaula ser aberta também. Desceu, sentindo os dedos do pé se cortarem ao terem contato com o gelo, e cruzou os braços para se proteger do frio antes de começar a andar. Mas quando tentou fazer com que suas pernas se movimentassem, travou. Ficou parada no mesmo lugar até ver uma arma ser apontada na sua direção fazendo com que ela se encolhesse.
– Qual o problema, garota? – o segundo soldado cuspiu.
– Eu tenho medo de virar as costas e você atirar em mim – confessou. – Posso andar de costas? Virada pra você?
– Não – disse, ríspido, mantendo a arma empunhada – Ande normal. Eu quero ver a sua bunda.
Os demais soldados próximos riram e ela estremeceu. A arma apontada em sua direção não a deixou fazer nada além do que lhe fora ordenado, e ela andou.
Não acreditava em Deus, não tinha qualquer fé que pudesse lhe amparar em um momento como aquele. Mas seus pais biológicos eram irlandeses, e mesmo ela tendo nascido da Polônia, tivera contato com o que os pais acreditavam. E eles acreditavam em mais de um deus, portanto ao menos um deles deveria estar ali para protegê-la.
Enquanto caminhava na direção do bunker, internamente rezava para a deusa protetora das mulheres. Não acreditava nela, mas naquele momento precisava da sua proteção. Mesmo de costas, sentia os olhares de fato em sua silhueta, em sua bunda. E sabia que ao menos duas armas estavam apontadas para ela caso tentasse fugir.
Não tinha para onde correr. E mesmo desejando todos os dias estar morta, não saiu da linha um momento sequer.
Era só correr e um tiro acabaria com todo o inferno que ela estava vivendo. Mas aquele maldito soro havia implantado nela uma necessidade intrínseca de sobreviver, de continuar viva por quanto tempo fosse possível.
E ela odiou seu pai por aquilo.

2018
– Eu não me lembro de nada disso – ele constatou.
– Sejamos sinceros, Barnes, você se lembra de alguma coisa? Qualquer uma.
Ele não respondeu. Ficaram em silêncio por um longo tempo. Ele contemplando as informações que eram todas novidade, ela sem saber o que pensar sobre a situação.
– Você quer que eu acredite que a sua chegada aqui foi coincidência – ela disse. Não era uma pergunta. – Que de todos os lugares do mundo você escolheu a Romênia, Bucareste, esse prédio, o sétimo andar pra vir se esconder.
– Eu não estou com a HIDRA – ele reforçou – Desde…
– Desde a queda da SHIELD, quando você desapareceu. É, eu também. Mas eu estou aqui desde então, James, e eu estava muito bem sem nenhum fantasma do meu passado vindo me assombrar – declarou.
– Eu posso sair daqui, se você quiser. Mas eu não vim atrás de você. Eu não sei quem você é – ele cuspiu as palavras.
– É, você pode não saber! Mas se você tá conseguindo se esconder do mundo há um ano você deveria agradecer a mim, porque fui eu, Barnes, que te ensinei a fazer isso. A ser um espião, a ser invisível, a ser um fantasma – se pôs de pé empurrando o dedo no peito dele. Não sabia de onde aquela raiva vinha, mas não pôde conter a necessidade de extravasá-la.
Ele a encarou imóvel. E gradativamente seu rosto assumiu uma expressão de puro entendimento, enquanto seus olhos se arregalavam e suas sobrancelhas arqueavam.
– Mihaela – pronunciou. – Você não é , você é Mihaela!
Here we go.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.






Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Quer saber quando esta fic irá atualizar? Acompanhe aqui.


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