Última atualização: 15/03/2019
Contador:

Prólogo

Deixei que meus pensamentos vagassem enquanto o padre começava mais uma oração ao mesmo tempo em que o caixão descia e fazia sumir de vista para sempre um corpo que representava metade do meu coração. Eu sabia que meu pai não estava mais ali. Eu sabia que aquele era só seu corpo físico, inerte, pálido e sem vida. Eu sabia que meu pai amoroso, atencioso e sempre tão caloroso não estava mais ali dentro, não naquele corpo gélido que não podia mais emanar o calor do seu abraço tão reconfortante. Meu pai já tinha ido embora. No entanto, eu não podia deixar de sentir um desespero irracional ao observar o caixão descer e me tirar de vista a silhueta do único homem que amei na vida.
Eu nunca mais veria meu pai sorrir.
Independente de todos os meus esforços para evitar que esse momento chegasse, cá estava eu, enterrando meu pai. Nesse momento, uma frase irritante perambulava por minha mente “quando é para acontecer, acontece”, não sei quem foi o idiota que inventou, mas já o odeio. Em pé no gramado do cemitério eu me pergunto de que adiantou fazer todos os sacrifícios que fiz, se no fim das contas ele se foi do mesmo jeito. Não importou a bolada de dinheiro para financiar o tratamento do câncer, não importou os melhores hospitais e os melhores médicos, ele se foi do mesmo jeito. Não adiantou largar minha carreira para me casar - sob pressão - com um homem possessivo que me impedia de trabalhar, mas que me prometia todo o dinheiro do mundo para ajudar meu pai… Não adiantou nada…
A morte é a única certeza que temos na vida. E quando chega sua hora, não adianta barganhar: nem todo dinheiro do mundo pode pagar mais alguns minutos de vida na terra. Acho que esse foi o maior aprendizado que tive com todo o processo de luto pelo meu pai.
Desviei meu olhar quando o coveiro começou a colocar a terra por cima do caixão e percebi que estava chorando ao internalizar a grande verdade por trás de todo aquele acontecimento: Eu estava sozinha no mundo.
Minha mãe morreu no meu nascimento, não tive irmãos e nunca conheci nenhum parente distante. Éramos só meu pai e eu contra o mundo. Agora era apenas eu. E eu nunca me senti tão indefesa e sozinha em toda vida.
E não deveria me sentir assim. Não com a mão de Orson entrelaçada na minha. Não com tantos amigos que me apoiavam e me amavam tanto.
Respirei fundo tentando conter as lágrimas e repeti para mim mesma que precisava ser forte. Não bastava apenas lidar com a morte do meu pai, eu também estava precisando lidar com o fato de que estava deixando o Texas para morar em Porto Rico, longe de todos meus amigos e de tudo que eu conhecia e amava, unicamente porque meu marido rico recebeu uma proposta irrecusável de emprego e eu, como esposa devota, precisava estar ao lado dele.
Deixei que minhas lágrimas molhassem meu rosto com a esperança de que lavassem a tristeza que eu sentia por dentro, desejando que Deus me desse um novo sentido para viver.
Porque eu me sentia morta por dentro.


Uno

Bienvenidos a San Juan
Música del capítulo: La Bicicleta – Shakira


Observei a paisagem passar pela janela do carro admirada com a quantidade de cores vívidas que eram refletidas pelo sol nas ruas de San Juan. Como uma boa garota do Texas, eu estava acostumada com o sol e com o calor, mas todo aquele ar seco era completamente diferente do clima caribenho. Apesar de não estar nem um pouco animada com a perspectiva de ter deixado para trás toda minha vida, não pude conter o impulso de abaixar o vidro para dar uma boa tragada daquela brisa salgada e tão úmida.
Deixei o vento soprar contra meu rosto e passei a prestar mais atenção nas cenas que conseguia captar conforme o taxista acelerava pelos bairros da cidade que era agora minha casa. Consegui reconhecer a voz da Shakira na música que entoava na rádio e coloquei meus óculos escuros ao mesmo tempo que ouvia fragmentos da conversa entre Orson e o taxista.
Precisava praticar meu espanhol o quanto antes. Até tive alguns meses de curso intensivo, mas com todos aqueles acontecimentos com meu pai, minha concentração tinha ido por água abaixo. Consegui entender uma coisa e outra sobre os bairros que passávamos e um pouco do comércio local. Dei um risinho baixo me lembrando de Hilary tentando me confortar dizendo que Porto Rico era uma ilha caribenha ligada aos Estados Unidos e, portanto, se me reconfortasse poderia pensar nela como uma “extensão de casa”, quase não veria diferença…
Bastei inspirar o ar de San Juan pela primeiríssima vez para saber que eu estava muito longe de casa. E que era tudo absolutamente diferente do que eu estava acostumada. Minha melhor amiga estava enganada.
A cidade era bonita, tinha que confessar. Fiquei intrigada por alguns momentos vendo casinhas de azulejos e fachadas coloridas. Era tudo tão… alegre. Dei uma olhada para roupa que estava usando e percebi como contrastava com o sol local. De repente o preto não parecia cair tão bem.
- Bienvenidos a Condado! - O taxista anunciou e eu prestei um pouco mais de atenção na conversa - Um dos bairros mais nobres de San Juan.
Revirei os olhos tediosamente. Não esperava menos vindo de Orson. Ele era daquele tipo de homem podre de rico que não se importava em ostentar além da conta. Quando recebi a notícia da transferência para a indústria Baccardi em Porto Rico, meu marido me prometeu tudo do bom e do melhor para que eu não sentisse a menor saudade de casa. Não que isso fosse possível, eu me contentava com pouco, não precisava de metade das coisas que tinha, fui criada com o básico pelo meu pai, não tínhamos muito dinheiro, mas sobrava amor…
Refreei esse pensamento. Lembrar do meu pai doía e eu não estava segura dentro de casa para chorar. Talvez mais tarde.
- … As praias têm um tom de azul muito bonito! - O taxista ia dizendo orgulhoso e eu voltei minha atenção para a janela contemplando a paisagem luxuosa.
Passamos pela portaria do Condomínio Del Mar e eu entendi que havíamos chegado ao nosso destino. Contemplei a rua da minha nova moradia um tanto quanto embasbacada. Todas as casas tinham construção bem sofisticada e pareciam fazer parte daqueles catálogos que eu folheava quando era criança e imaginava uma vida que nunca teria. Engraçado como as coisas mudam.
- Baby, está pronta? - Ouvi Orson me chamar e voltei minha atenção para meu marido que me olhava de esguelha do banco dianteiro do táxi. Dei um sorriso mínimo em resposta.
Orson tinha me prometido surpresa total quanto a casa. Escolheu tudo sozinho dizendo que queria me surpreender e que compreendia o fato de que eu não tinha cabeça para decoração de nada com tudo que estava precisando lidar com a doença do meu pai. Por um lado, fiquei muito grata visto que nem me mudar eu queria, quem dirá decorar casa. Por outro, achei um tanto egoísta, visto que era do meu novo lar que estávamos falando. Por fim, decidi que não me importava tanto.
- Chegamos. - O taxista anunciou estacionando o carro e eu me preparei para descer.
Orson já estava do lado de fora apontando alegremente para a estrutura da mansão glamorosa na minha frente. Deixei meu queixo cair inevitavelmente e percebi um risinho nervoso sair da minha boca.
- Tudo isso para nós dois, é sério?! - Perguntei incrédula e Orson tomou meu completo choque por empolgação e arreganhou ainda mais o sorriso. Eu estava histérica.
- Isso porque você ainda não viu por dentro, baby! - Ele disse empolgado e eu senti minhas entranhas se revirando. Aquela casa era enorme, facilmente poderia me perder dentro dela. Daria um trabalho tão grande para limpar…
- Não se preocupe, nós já temos funcionários. - Orson verbalizou meus pensamentos e eu o encarei surpresa com sua eficácia em pensar em todos os detalhes. Às vezes, apesar de exagerado, Orson sabia ser bem planejado.
Acompanhei meu marido até a porta da mansão observando-o fazer as honrarias da casa e abrir a porta para mim. Sorri fraco para ele, ainda embasbacada com tamanho exagero tomando coragem para encarar o que me esperava por dentro sabendo que era duas vezes pior.
Suspirei fundo e abri os olhos.
Eu não tinha palavras.
Nosso apartamento no Texas era muito espaçoso, moderno e confortável. Eu lembro exatamente de como fiquei espantada quando entrei lá pela primeira vez. Eram três quartos, um home, uma cozinha com dependência, área de serviço, dispensa, duas varandas e uma linda área gourmet.
Eu não me surpreenderia se nosso apartamento inteiro coubesse na sala daquela casa.
A decoração mesclava entre moderna e tradicional. Os móveis de mogno contrastavam bem com o piso de porcelanato tão limpo que até brilhava. As paredes forradas por um papel de parede em tons de bege e dourado que contribuíam para ar sofisticado do imóvel. Deixei meus olhos passearem por todos os pequenos detalhes, sem palavras para descrever o exagero e glamour da minha nova casa. Era linda, isso eu tinha que confessar. Mas apesar de linda, estava longe de me dar a sensação de lar.
- E então, o que achou? – Ouvi Orson perguntar e concordei com um aceno de cabeça ainda pasma para verbalizar corretamente o que eu achava daquilo tudo.
- É linda. – Resumi.
Orson fez menção de falar mais alguma coisa quando a porta da sala abriu-se novamente e o taxista passou por ela com duas malas gigantescas na mão. Logo atrás dele uma mulher carregava outras duas malas parecendo fazer um esforço enorme com tal gesto. Me apressei em ajuda-la enquanto Orson pagava o taxista.
- Deixe-me cuidar disso! Me entreti tanto conhecendo a casa nova que esqueci das malas – Disse para a mulher, pegando uma das malas de suas mãos e colocando no chão. Ela sorriu meigamente para mim.
- Não precisa, senhora Carter. - Ela respondeu ofegante e eu franzi o cenho estranhando. Como ela sabia meu nome?
Estava prestes a verbalizar a pergunta quando Orson surgiu ao meu lado e apertou a mão da moça.
- Você é a Srtª , não é?
Ela assentiu com a cabeça e voltou-se para mim.
- Guadalupe , prazer – Ela estendeu a mão para mim e continuou sorrindo meigamente. Aceitei o aperto e sorri em resposta apreciando a beleza natural da menina. Ela tinha uma pele bronzeada e traços marcantes.
- Srtª é nossa nova empregada. – Orson me explicou e redirecionei meu olhar para ele.
- Como conseguiu funcionários tão rapidamente a distância? – Perguntei realmente curiosa sobre esse fato. Ele sorriu presunçoso e deu de ombros.
- Eu te disse que estaria tudo pronto para você, baby – Ele respondeu roubando-me um selinho – Além do mais, o Chad fez boa parte dessa ponte, indicou o para ser meu motorista e ele me sugeriu a sobrinha como empregada e o sobrinho como jardineiro...Basicamente viemos para Porto Rico para garantir emprego para uma família…
- Jardineiro? – Eu perguntei interrompendo embasbacada. Nunca pensei que me tornaria uma daquelas dondocas que tem diversos funcionários em casa sem a menor necessidade.
- Você pode chamar de serviços gerais também. Cuidar da piscina, do jardim, eventuais reparos... uma espécie de caseiro. – Orson respondeu suavemente e eu franzi o cenho desconfiada. Não gostava da ideia de ter tanta gente nos servindo, mas, para falar a verdade, tomar conta de uma casa daquele tamanho era impossível para uma pessoa só.
Olhei para o relógio de pulso e me dei conta de que fazia muitas horas desde que eu tinha feito a última refeição. Meu estômago embrulhou de fome e eu lancei um olhar para o meu marido que digitava freneticamente no celular. Guadalupe já estava fora de vista.
- Estou com fome, vamos pedir algo em casa e desarrumar as malas ou quer almoçar em algum restaurante pela cidade? – Perguntei esperando que fosse a segunda opção. Não estava no clima de desarrumar mala e chorar ainda.
- Hmm... Sabe o que é, baby – Ele começou ainda sem me olhar diretamente, digitando no celular – Tenho que resolver algumas coisas com o Chad, então marquei um almoço de negócios.
- Marcou um almoço de negócios para o seu primeiro dia aqui? Achei que fossemos ficar um pouco sozinhos... – Comecei um pouco desapontada e Orson bloqueou o celular e se aproximou para beijar minha testa.
- Vamos ficar sozinhos, a noite. Eu trago comida para você, ou você pode pedir algo para trazer em casa e ficar descansando. Vai ser um almoço chato e só vamos falar de negócios. Pensei em você ficar aqui e nos vermos mais tarde, o que acha?
Se fosse possível, meu queixo teria ido parar no chão.
Eu tinha me despencado da minha cidade natal para acompanhar meu marido em seu negócio milionário, deixando para trás meus amigos, minha profissão, minha casa, as memórias do meu pai... tudo, para que ele que marcasse um almoço estúpido de negócios no meu primeiro dia em uma cidade nova. Me deixando em casa sozinha na maior naturalidade do mundo. Por que Orson insistia em me desapontar?
- Orson... Não tem como você marcar isso para depois? Poxa, é meu primeiro dia aqui... – Comecei a dizer e ele logo me lançou uma cara feia.
- , não seja tão incompreensiva. Olha tudo o que eu fiz por você – Ele falou abrindo os braços mostrando a estrutura do casarão – Seja um pouco mais agradecida. Se eu estou indo, é porque preciso, é para te dar do bom e do melhor.
- Eu só queria um pouco de atenção, é pedir muito?! – Eu falei já sabendo que era uma batalha perdida, ele começaria com as manipulações emocionais e me faria sentir culpada por pedir o básico, alegando que eu era incompreensiva, mimada e carente.
- Não seja mimada, Viu só o que eu disse?! Eu o conhecia muito bem, infelizmente. Não sei porque ainda me surpreendia com suas atitudes mesquinhas. Apostava que quando ele voltasse desse almoço iria me trazer algum presente caro acreditando que logo tudo ficaria bem – Eu volto logo logo e vamos jantar juntos, ok?! Aproveite esse tempo para descansar e ficar linda para mais tarde.
Certo. Era só para isso que eu servia. Descansar, opinar pouco, falar o mínimo possível, me embelezar e servir para posar com ele quando era conveniente. Além, é claro, de bancar a esposa compreensiva que faz sexo sempre que o marido está a fim.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Orson saiu porta afora e eu me senti mais vazia do que nunca. De repente minha fome tinha passado quase que completamente. Lancei um olhar tristonho para minha casa sentindo-me num ambiente completamente desconhecido e infeliz. Como eu podia nutrir esperanças de que meu relacionamento fosse diferente só porque estávamos num lugar novo?
Eu estava iniciando a carreira de modelo quando Orson Carter e eu nos conhecemos, num dos eventos da agência que gerenciava meus trabalhos. Era meu primeiro grande desfile e eu estava empolgada com a perspectiva de ser notada por um dos olheiros de Nova Iorque que estaria presente. A empresa que Orson trabalhava estava financiando o evento e ele não conseguiu tirar os olhos de mim desde o primeiro momento que me viu. Lembro de ter ficado feliz e encantada quando recebi uma caixa com chocolates finos no camarim de um admirador secreto - não tão secreto assim. Começamos a sair e em duas semanas estávamos namorando.
Antes de conhecê-lo, eu era uma menina simples que tinha sido criada sem muitos luxos. Estava começando minha carreira de modelo e estava deslumbrada pela vida de glamour e holofotes - era natural, eu tinha apenas 19 anos e não entendia nada sobre a vida. Deixei-me encantar por ele porque Orson era a personificação de tudo que eu achava que queria em um homem: atencioso, carinhoso, protetor e disposto a me mimar o quanto eu quisesse.
Meu pai nunca gostou muito de Orson, lembro dele ralhar horas me dizendo que eu não deveria me envolver tão seriamente com um homem 15 anos mais velho do que eu, que estávamos em fases diferentes da vida e que pouco a pouco eu iria perder minha identidade. Assim como muitas meninas da minha idade, não dei ouvidos ao meu pai e me envolvi de cabeça no relacionamento com o homem que me tratava como uma princesa e me proporcionava situações que eu nunca pensei que viveria. Foram tantos jantares caros, tantos eventos de luxo, tantas viagens…
Eu estava apaixonada e pronta para entregar meu coração quando as coisas começaram a desandar.
Eu costumava associar os ciúmes de Orson como proteção e zelo além da conta. Não demorou muito para que ele tentasse sabotar alguns dos desfiles mais importantes para mim. Lembro com exatidão do dia que me impediu de viajar para Los Angeles porque não queria que eu desfilasse de lingerie, chegou ao absurdo de me oferecer o mesmo valor do cachê para que eu não saísse do Texas. Pouco a pouco as agências foram me deixando de lado e eu me via cada vez mais refém da possessividade exagerada dele.
Nossas brigas se tornaram constantes, comecei a me rebelar e ameacei terminar várias vezes. Numa dessas brigas calorosas ele levantou a mão para mim pela primeira vez. - Me encolhi no sofá com a lembrança deixando que as lágrimas rolassem livremente pelo meu rosto - Mas assim como toda tempestade, quando ela passava ele tornava a ser o homem amável e carinhoso que eu tinha conhecido. Não demorou muito para que ele começasse a me culpar pelas crises violentas… “Eu estava provocando o ciúmes dele”.
Eu fui me tornando cada vez mais infeliz dentro daquele relacionamento. Perdi as contas de quantas vezes pensei em terminar e logo depois mudava de ideia. Para além de ser o homem que me entupia de presentes e me levava para viajar o mundo, Orson era carinhoso e nos dias bons me tratava como uma rainha, eu achava que poderia muda-lo, que se talvez eu fosse menos incompreensiva conseguiria perceber como estava dando a sorte de estar com um homem como ele. Isso até ver uma camisa manchada de batom certa vez ao vê-lo chegar bêbado em casa.
Eu chorei do jeito mais humilhante que uma mulher pode chorar por um homem. Foi nossa pior briga em todos os tempos. Eu estava decidida a terminar, estava com a escolha feita e com todas as palavras ensaiadas na cabeça…. Quando recebi um telefonema do meu pai que tinha algo importante para me contar. O resultado dos exames tinha saído e o diagnóstico estava confirmado: era câncer.
Meu relacionamento ficou para segundo plano quando eu me vi tendo que cuidar do meu pai. As contas de hospitais não batiam e nem todo dinheiro que eu havia juntado na poupança era o suficiente. Orson se aproveitou desse momento de fraqueza para me fazer a proposta mais indecente de todas: casamento. Se eu me casasse com ele, meu pai teria direito a todo tratamento de ponta sem nenhum custo. Em troca disso, eu precisaria abrir mão da minha carreira de modelo para sempre.
O resto vocês já sabem.
Eu estava tão perdida com a morte do meu pai que nem me posicionei contra a mudança para San Juan. Naquele período eu acabei me tornando ainda mais dependente de Orson, que era quem me sustentava e não me deixava cair. Com o casamento ele me prometeu que as coisas mudariam, e até tinham mudado mesmo. Ele havia voltado a ser compreensivo, carinhoso e prometeu total devoção a mim. Eu já não tinha mais nada na vida e por isso continuei com ele, não sabia mais ser sozinha. Eu era muito nova para me sentir tão vazia assim.
Algumas pessoas poderiam até dizer que eu estava sendo ingrata. Apesar de estar orfã aos 21 anos de idade, eu estava casada com um homem rico e tinha mais coisas do que precisava. Eu deveria tentar olhar pelo lado positivo, mas...
De que adiantava me entupir de coisas caras, decorar uma casa inteira se nós nunca iríamos construir um lar? Eu já tivera um lar e sabia exatamente como era. Instantaneamente senti o cheirinho da minha casa no Texas e meu coração apertou de saudades do meu pai. Desanimada, me arrastei até o sofá e me aninhei em posição fetal, abraçando minhas pernas e apoiando meu queixo nos joelhos.
Eu tinha completa certeza de que nunca iria me recuperar 100% da dor de perder meu pai e meu melhor amigo. Ele era a pessoa mais parceira que eu já tinha conhecido na vida e era capaz de me entender como ninguém. Orson viva dizendo que me amava e que nenhum outro homem me amaria igual. Eu sabia que isso era mentira, ele jamais poderia me amar metade do que meu pai amou.
Antes que eu pudesse evitar, duas lágrimas grossas escaparam por meu rosto e embaçaram minha visão. Droga… Eu não queria estar chorando agora, não tão cedo. Precisava me guardar para a noite, que era sempre o pior momento quando eu me encontrava ao lado de um homem adormecido feito pedra incapaz de me abraçar para consolar meu luto.
Estava fungando e limpando meu rosto quando Guadalupe saiu de uma porta que eu imaginava que dava acesso a cozinha. Me assustei um pouco com sua presença silenciosa e me apressei a enxugar as lágrimas e passar a mão no nariz. Ela pareceu desconcertada por ter invadido meu momento particular porque me lançou um sorriso compreensivo.
- Deve ser difícil para a senhora deixar sua casa, imagino - Disse gentilmente e eu sorri em resposta.
- Antes fosse só isso… - Respondi baixinho.
- Ouvi a senhora dizer que estava com fome, posso preparar alguma antes de sair, se quiser. - Ela ofereceu.
- Pode me chamar de você ou de , senhora não… Por favor - Eu pedi e ela sorriu em concordância. Eu nem era tão mais velha do que ela assim, no máximo uns dois anos.
- Tudo bem, se a senho...se você quiser, posso cozinhar ou sinalizar uns bons restaurantes para pedir comida - Ela continuou.
- Onde você vai? - Perguntei só por perguntar.
- Fazer compras para vocês, ainda não tem comida em casa e Sr. Carter me deixou uma lista de coisas de mantimentos. Vou aproveitar uma feirinha que montam aqui por perto. - Guadalupe respondeu e eu ponderei por um momento.
- Posso ir com você? - Perguntei esperançosa e ela arregalou os olhos parecendo ter sido pega de surpresa.
- Gostaria de ir comigo numa feira? - Ela perguntou confusa e eu assenti com a cabeça. Não queria ficar naquela casa sozinha e sucumbir a tristeza e solidão. Se o inútil do meu marido podia sair, então eu também não tinha que ficar em casa sozinha.
- Sim, quero conhecer um pouco da cidade e não quero ficar sozinha por aqui…
- Bom, pode, eu acho… - Guadalupe começou meio incerta - Quer dizer, claro que pode, é que não consigo imaginar como isso poderia ser divertido para você…
- Eu não sou essa dondoca toda que você tá pensando, Guadalupe - Respondi já me levantando do sofá vendo a menina sorrir para mim - Além do mais, eu sempre gostei de feirinhas, ia muito com meu pai.
- Sendo assim, então vamos - Ela disse animadamente e eu já me sentia instantaneamente mais leve. Existia algo na áurea de Guadalupe que era incapaz de me deixar triste na presença dela. Talvez fosse seu sorriso meigo ou seu tom de voz animado, fosse o que fosse, eu já me sentia 100% segura da decisão de acompanha-la nas compras para minha própria casa.
Enquanto caminhávamos pelo bairro, Guadalupe - que agora eu já chamava de Lupita - ia me explicando calmamente sobre os lugares que passávamos. Ela tinha todo cuidado do mundo de falar devagar para que eu entendesse seu espanhol da melhor maneira possível. Fazia muito tempo que eu não tinha uma facilidade tão grande para conversar com alguém como tive com ela. Em poucos minutos tagarelávamos como se fôssemos grandes amigas e confidentes de anos.
Lupita me contou que assim como eu, também já tinha perdido um ente querido. Mas do contrário de mim, ela não era totalmente orfã, visto que sua mãe ainda estava viva e muito presente em sua vida. Era muito bonito ouvi-la falar da relação com a mãe e o irmão - que era meu jardineiro - e do quanto se uniram ainda mais depois da morte do pai quando ela tinha apenas 6 anos de idade.
- Queria ter conhecido minha mãe - Respondi depois de um tempo ouvindo sobre as receitas das alcapurrias* da mãe que ela havia me prometido fazer qualquer dia desses - Sempre foi meu pai e eu contra o mundo.
- Eu sei que nada do que eu diga vai reconfortar, mas o tempo ameniza essa saudade e a lembrança dele vai ser algo feliz em seu coração - Ela disse suavemente e eu concordei com a cabeça percebendo como não me sentia triste falando dele com ela. Precisava me lembrar de agradecer a Orson por ter contratado Lupita como funcionária, pelo menos eu teria alguém com quem conversar em casa e não me sentiria inteiramente sozinha.
Lupita nem precisava ter anunciado que já havíamos chegado para que eu soubesse que estávamos na tal da feirinha. A rua estava tomada por várias barraquinhas com tantas variedades que tive dificuldade em manter a concentração. Diversos comerciantes exibiam suas mercadorias que iam desde frutas, legumes, vegetais até peças de artesanato e outras coisas manufaturadas.
Ela me guiava pelas barracas parando ocasionalmente quando encontrava alguma coisa do seu interesse. Parecia ser bastante íntima dos comerciantes porque sempre cumprimentava alguém alegremente e logo me apresentava também. Aproveitei para provar algumas frutas pelo caminho e fotografar aquela variedade de cores e opções. Mandaria todas as fotos por whatsapp para meus amigos à noite.
Lupita movia-se assertivamente entre as barracas, sabendo exatamente o que e onde procurar. Eu estava tão deslumbrada analisando tudo a minha volta que vez ou outra ela precisava tocar meu braço para guiar por entre o mar de pessoas que estavam aglomeradas no meio da rua. Eu observava cada expressão no rosto de cada pessoa, extasiada em cada pequeno detalhe do que era desconhecido.
Enquanto Lupita escolhia algumas frutas, minha atenção foi desviada para uma barraca logo a frente em que, ao invés de alimentos, estavam sendo expostos diversos itens de decoração feitos a mão. Instintivamente me aproximei para observar melhor, ficando encantada com pinturas em aquarelas que estavam sobre a mesa. Eram tão bonitas! Estava tão absorta nos desenhos que demorei de perceber que estavam falando comigo.
- Sólo por esa sonrisa hermosa, puedo hacer un precio especial si quieres quedarte con alguna de las acuarelas - Fui surpreendida pela voz de um rapaz que me observava atentamente por trás da barraca. Desviei meu olhar das pinturas e encarei o rapaz que sorria para mim de um jeito tão bonito que me desconcentrou por alguns segundos.
Ele tinha um sorriso tão grande e tão bonito que os olhos castanhos ficavam quase fechados. Os dentes brancos e brilhantes exibiam um sorriso de covinhas tão encantador que eu me peguei controlando um suspiro surpreso. A pele bronzeada era tão lisinha que lembrava até a de um bebê. Ele não podia ser muito mais velho do que eu, a julgar pelos braços largos e pela altura, mas havia algo jovial na sua expressão despreocupada que me lembrava a leveza de uma criança.
- Que? Devagar, por favor - Eu disse acordando do meu transe e ele riu baixinho, me fazendo rir junto em consequência.
- Eu disse que só por conta desse lindo sorriso é que você pode ter um desconto especial, caso queira levar alguma das aquarelas - Ele disse pausadamente mantendo o sorriso no rosto e eu senti minhas bochechas corarem de leve. Eu fiquei tão absorta observando as aquarelas que não percebi que estava sorrindo involuntariamente.
- São realmente muito bonitas - Eu disse voltando meu olhar constrangido para as pinturas. Havia algo no olhar dele que me impedia de encarar, ele era tão bonito que me deixava desconcertada. - Você que fez?
- Sim! Tudo que está aqui, na verdade - Ele disse apontando para todos os outros itens na barraca e eu deixei meu olhar vagar pelos objetos, tão encantada quanto estava com as aquarelas. Examinei atentamente uma luminária feita de papel pensando em quanto talento precisava para conseguir confeccionar coisas tão bonitas.
- Parabéns, você tem mãos hábeis - Eu disse procurando em espanhol as palavras certas para pronunciar e notei ele rir baixinho. Ergui minha cabeça e me atrevi a olhar para o rosto dele novamente, só para vê-lo de cenho franzido me encarando com a cabeça pendando para um lado, como se me analisasse. - É uma pena que eu esqueci minha carteira em casa, estou sem dinheiro.

[N/a: Coloquem a música [https://www.youtube.com/watch?v=-UV0QGLmYys] para tocar!]


- Você não é daqui, não é? - Ele disse de um jeito engraçado e eu senti minhas bochechas formigarem.
- Hm… não, na verdade sou do Texas. - Confessei e ri baixinho ao vê-lo arregalar os olhos surpreso.
- E está aqui a passeio? - Ele perguntou tentando parecer desinteressado e eu sorri sentindo meu ego dar um saltinho e uma cambalhota.
- Na verdade, acabei de me mudar. - Respondi e percebi o sorriso dele se alargar tanto que conseguia enxergar quase todos os dentes e quase nada dos seus olhos.
Ele ia dizer mais alguma coisa quando os acordes iniciais de uma melodia tiraram minha atenção dos seus olhos castanhos. Virei de lado para observar uma pequena rodinha que se formava em volta de uma caixa de som e notei um menino começar a dançar no ritmo da música. Ele tinha no máximo 10 anos de idade e se movimentava com tanta desenvoltura que eu sentia inveja das suas articulações por permitirem tanta flexibilidade. Sem que eu pudesse perceber estava me aproximando da rodinha para enxergar melhor, hipnotizada com a sincronia dos passos.
Fiquei deslumbrada observando as pessoas aplaudindo e dançando no meio da rua e involuntariamente movimentei meus pés no mesmo lugar, encantada com a alegria que as pessoas emanavam num gesto tão simples.
- La muchacha hermosa gustaría concederme esa danza?* - Ouvi alguém dizer próximo ao meu ouvido e me virei assustada despertando do meu transe. Estava tão concentrada na música e tão envolvida com o momento que não percebi que estava me balançando. Ruborizei instantaneamente e observei o artista rir gostosamente ao meu lado.
Ele me olhava de um jeito tão animado que parecia portar o sol de San Juan dentro de si. Meu coração deu uma fisgada gostosa e eu sorri involuntariamente.
- O que disse? - Perguntei devagar acordando do meu transe e ele riu ainda mais parecendo achar graça do meu sotaque forçado.
- Te vi balançando sozinha e perguntei se gostaria de me conceder o prazer dessa dança - O rapaz repetiu devagar e eu sorri envergonhada.
- É tudo muito novo para mim, nunca vi algo assim - Confessei dando de ombros e ele sorriu ainda mais, se é que isso era possível. Será que todas as pessoas de San Juan eram tão animadas e calorosas assim?
- No Texas não chegou reggaeton ainda? - Ele zombou de um jeito engraçado e eu rolei os olhos achando graça da provocação. Era impressionante como eu estava conseguindo agir com leveza perto dele. Nem parecia que estava tão triste minutos atrás.
- Nunca vi pessoas dançando no meio da rua assim…
- Vejo que a cowgirl conheceu o poder do reggaeton - Ele disse acenando com a cabeça para a rodinha de dança que acontecia na nossa frente. Voltei a encarar as pessoas que dançavam animadamente na minha frente e percebi que dessa vez o menino não estava sozinho, era contagiante.
- É muito… envolvente - Eu disse por fim, hipnotizada demais para tirar os olhos das pessoas que dançavam na minha frente.
- Bom, se quiser ver mais disso é só aparecer no La Factoría, se quiser posso até te ensinar a dançar assim. Quem sabe você não me ensina alguns passos de country também - O rapaz falou despertando minha atenção novamente. Arqueei as sobrancelhas surpresa com aquela cantada tão explícita, incapaz de formular uma resposta decente. Eu me sentia lisonjeada com o flerte, era sempre interessante saber que ainda podia ser desejada por outros homens, além de que ele era lindo e tinha uma energia tão positiva que me passava uma segurança enorme mesmo sem nunca tê-lo visto na vida. Por outro lado…
- Hm, acho que meu marido não iria gostar muito dessa ideia - Eu respondi erguendo a mão esquerda para que minha aliança ficasse à vista. Para minha surpresa, o rapaz olhou da minha mão para o meu rosto e riu gostosamente fazendo meu estômago embrulhar mais uma vez. - Ahh, não acredito que mal te encontrei e já te perdi, Texa’s girl - O rapaz disse fingindo um tom de voz sofrido e eu tive que rir junto da encenação que ele fez ao tocar no coração como se tivesse sido apunhalado. Que rapaz divertido!
- Em outra vida, quem sabe - Brinquei e ele me deu uma piscadela, arrancando-me outro sorriso. Num gesto mudo ele ergueu a mão como se me pedisse para ficar parada, girou nos calcanhares, debruçou-se sobre a barraca armada e virou-se para mim trazendo consigo um origami em forma de uma rosa.
- Considere como um presente de boas-vindas a San Juan, forasteira - Ele estendeu para mim e eu aceitei com um sorriso imenso no rosto, sentindo-me quente por dentro - E caso queira dar um pé na bunda do seu marido, pode me procurar no La Factoria que eu te ensino a dançar reggaeton, mami - Ele completou com aquele sotaque maravilhoso e nós dois rimos juntos. - Obrigada - Agradeci estendendo o origami e ele fez um gesto com a mão como se dissesse que não foi nada demais.
- Agora preciso ir, é meu primeiro dia em um novo trabalho. Todos os sábados estarei aqui na feira exibindo minha arte… Caso queira trazer a carteira da próxima vez - Ele brincou me dando uma piscadela e eu ri em concordância.
Eu tinha certeza absoluta que apareceria novamente no próximo sábado.
Dei um sorriso tímido e acenei com a mão ao me afastar, sentindo minhas bochechas em brasas como uma adolescente de 15 anos quando vê o jogador bonitão do time de basquete. Me virei de costas para encontrar com Lupita quando me lembrei que nem se quer tinha perguntado o nome dele. Voltei para fazer isso quando percebi que o rapaz já tinha sumido de vista e não estava mais na própria barraquinha. Com uma leve sensação de desapontamento, continuei meu caminho segurando a minha rosa com um sorriso engraçado no rosto.
- Ei! Até que enfim te encontrei, achei que tinha te perdido - Lupita disse assim que me viu, o semblante parecendo totalmente aliviado - Achei que tinha me usado para fugir de casa. - Ela concluiu e eu a encarei de olhos arregalados.
- Por que eu faria isso?
- Não sei, você me parecia bem chateada hoje mais cedo - Ela respondeu simplesmente - Vamos? Vou fazer uma receita como boas-vindas para você, deve estar cansada e querendo repousar.
De repente me senti faminta e exausta, queria muito comer e descansar antes de ter que encarar aquele horror de mala que eu tinha para desfazer. Andamos por mais algumas barraquinhas e vez ou outra eu olhava por cima do ombro para ver se achava o rapaz novamente, mas nem sinal dele. Por fim, Lupita negociou com um transporte para levar todas as compras e logo estávamos a caminho de casa.
Conversamos todo o trajeto de volta e eu gostava mais de Lupita a cada segundo que se passava. Aproveitei para perguntar algumas coisas sobre a cidade para sanar minha curiosidade recém instalada.
- O que é La Factoría? - Perguntei me recordando do moreno de sorriso largo, sentindo minhas entranhas fervilharem.
- É uma danceteria em La Perla, as pessoas se reúnem para beber, namorar e dançar reggaeton - Lupita respondeu e franziu o cenho para mim - Não é muito lugar para senhor… para você. Arqueei as sobrancelhas surpresa com essa constatação. Embora eu já soubesse a resposta para a pergunta que fiz.
- Por que não seria lugar para mim?
- Bom… Primeiro porque La Perla é um bairro simples, muito diferente de Condado. As pessoas são mais humildes, não costumamos receber gente de tanto...porte - Ela foi me explicando calmamente, parecendo escolher bem as palavras que usava. Agora eu também sabia que era residente desse tal bairro. - E bom, o La Factoría não é muito um lugar para uma mulher casada....
Assenti um pouco desapontada, embora já soubesse que ela provavelmente tinha razão. Não precisava nem fantasiar com uma realidade em que Orson iria me acompanhar numa danceteria num bairro periférico para ouvir reggaeton, nem muito menos que me deixaria ir sozinha.
Quando chegamos em casa o carro de Orson já estava de volta na garagem. Me surpreendi ao vê-lo de volta, visto que os almoços de negócios costumavam demorar vidas. Assim que entrei pelo gramado da casa ele veio me receber aflito na porta.
- ! Onde você estava? Por que não me avisou que iria sair? Para que você tem celular se não atende? - Ele ralhou me puxando pelo braço com certa força fazendo com que Lupita se remexesse desconfortável do meu lado.
- Eu fui na feira com a Guadalupe, fomos comprar mantimentos para a casa. Não quis ficar sozinha e pedi para ela me levar junto - Respondi calmamente e olhei para o braço que ele ainda segurava com força que já começava a ficar vermelho - Será que você poderia me soltar? Está chamando atenção.
Orson pareceu desconfortável por um momento, cerrou os olhos para mim e logo voltou sua atenção para Guadalupe que engoliu em seco.
- Você não está sendo paga para levar minha esposa para fazer suas obrigações, ouviu bem? - Ele disparou desaforado, Guadalupe abriu a boca para gaguejar uma resposta quando eu intervi.
- Eu que pedi para ir, Orson, você foi almoçar e me deixou sozinha, eu quis conhecer um pouco da cidade e ser útil. Já estou de volta, não precisa falar assim com ela - Eu disse colocando a mão no ombro dele e ele virou para mim.
- Fiquei preocupado, só isso - Disse um pouco mais calmo, tentando ser afetuoso. Eu estava prestes a lhe responder quando uma voz ecoou por trás de Orson, chamando-lhe atenção.
- Sr. Carter, onde estão as chaves da casa da piscina?
Orson virou-se para trás e deu espaço para que eu visse o rapaz que encontrava-se atrás dele. No momento em que nossos olhares se cruzaram eu senti meu coração disparar e as pernas amolecerem.
A confusão no meu semblante estava refletida nos olhos dele que se arregalaram um pouco quando me notou logo atrás do meu marido. O sorriso largo que eu tinha visto no seu rosto há algumas horas atrás estava sendo substituído por uma expressão intrigada e muito surpresa.
Nos encaramos por alguns segundos que mais pareceram horas, tentando disfarçar a enorme coincidência diante de nós. Percebi a expressão surpresa dele ir se transformando num sorrisinho de canto e senti borboletas farfalharem as asas no meu estômago. Ele era tão bonito!
- Ah, aproveitando que está aqui… , este é o , nosso jardineiro. , esta é a , minha esposa - Orson nos apresentou não percebendo que nos encarávamos de maneira cúmplice.
pigarreou desconcertado e estendeu a mão para mim.
- Prazer, sra Carter.
Um pouco trêmula, estendi a mão e apertei a dele, percebendo meu corpo inteiro eletrizar quando nossas mãos se tocaram e eu senti o calor e a maciez da pele dele contra a minha. Com a outra mão, eu segurava o origami de rosa que ele tinha me dado algumas horas antes quando me convidou para dançar reggaeton no La Factoria.
Antes de saber que sua irmã era minha empregada e que seu patrão era meu marido.

Alcapurrias* - É um bolinho feito de massa de yautía e plátano, recheado com carne e frito.
La muchacha hermosa gustaría concederme esa danza?* - A moça bonita gostaria de me conceder essa dança?


Dós

Música del capítulo: Échame La Culpa – Luis Fonsi feat Demi Lovato.

“Ok, você precisa parar com isso”

Foi o que disse para mim mesma quando me flagrei lançando olhares furtivos por entre as cortinas pela terceira vez naquela manhã. Eu deveria estar compenetrada na minha árdua – e aparentemente infinita – tarefa de arrumar meus pertences no closet daquele quarto imenso, mas vez ou outra me via distraída pelo barulho da máquina de cortar grama vindo do andar de baixo.
estava dando um trato nas plantas do jardim mal cuidado e provavelmente o lugar mais necessitado de atenção era justamente embaixo da minha janela, porque lá ele estava há mais de duas horas. Eu poderia ser uma patroa rigorosa e dar uma advertência a respeito da maneira vagarosa que ele estava levando o serviço, mas a verdade era que eu estava apreciando (com muito mais empolgação do que deveria) vê–lo trabalhar.
Ele estava com uma camisa de flanela dobrada nos ombros e com três botões abertos que davam uma prévia do seu peitoral desnudo, visto que a fina camiseta branca que vestia por baixo da camisa estava coberta de suor. Não que eu tivesse focado minha atenção nisso, mas tinha ombros largos e braços naturalmente musculosos, conseguia ver suas veias saltadas enquanto ele segurava a tesoura cortando as ervas daninhas do meu jardim.
“Só mais uma olhadinha”
Espiei por entre as cortinas sem saber exatamente o porquê de estar fazendo isso e muito menos o porquê de sentir meu estômago revirando de ansiedade ao fazê-lo. Mas lá estava eu, bisbilhotando meu jardineiro trabalhando mais uma vez. Não sei o que havia em torno de que me deixava tão curiosa a respeito. Não sei isso se dava a grande coincidência em torno do nosso encontro, mas olhar para ele me dava uma sensação estranhamente prazerosa. Não que eu quisesse me tornar uma daquelas mulheres casadas e sem vergonha que lançavam olhares furtivos e descarados para seus empregados, mas a verdade é que ele não era nem um pouco desagradável aos olhos.
Os ombros largos, os braços musculosos e as mãos calejadas de trabalho braçal eram um contraste másculo a pele lisa e bronzeada pertencente àquele rosto de feições gentis e serenas…
Com um suspiro assustado, notei erguer a cabeça e lançar um olhar diretamente para minha janela, me flagrando no ato. Constrangida, me virei de costas para a janela e mordi o lábio inferior sentindo meu coração bater descompassado por ter sido flagrada naquele momento de insensata indiscrição da minha parte. Eu nem tive tempo de checar se ele ainda estava olhando porque nesse momento meu marido adentrou o quarto apressado, me forçando a tentar disfarçar meu semblante assustado.
– Ainda arrumando essas coisas, ? – Orson me perguntou quando deparou-se com a bagunça quase intacta de duas horas atrás.
– São muitas coisas e o dobro de espaço para preencher… – Respondi vagamente saindo de perto da janela.
– Isso significa que você precisa de roupas novas para seu novo guarda roupa. Pode deixar, trarei para você de Miami esse final de semana. – Orson comentou casualmente enquanto procurava um relógio no seu armário. Eu ainda estava um pouco desconcertada por conta do ocorrido há segundos atrás, mas isso não foi o suficiente para não notar a informação dada por Orson.
– Você vai para Miami no final de semana? – Perguntei com minhas sobrancelhas arqueadas e minha voz levemente falhada. Menos de uma semana em Porto Rico e ele já tinha aparecido com outra viagem?
– Na verdade, vou amanhã. Desculpe, baby, coisa de última hora. Sabe como são essas viagens a negócios. – Ele respondeu de qualquer jeito, como se estivéssemos falando sobre qualquer coisa menos importante. Senti uma pontada de raiva crescendo no meu peito.
– Orson, eu vou ficar sozinha aqui nessa cidade que eu mal conheço? Nós não temos nem uma semana aqui e você mal para em casa e quando vem é para me dizer que vai viajar no seu primeiro final de semana aqui? – Falei magoada. Tinha planos de que fôssemos conhecer a cidade juntos, talvez visitar algumas das praias famosas ou reservar um tempo para ver se talvez aquilo salvava nosso casamento. Aparentemente eu estava enganada.
, é o meu trabalho! O que você quer que eu faça? – Orson se esquivou vestindo o blazer e eu tive vontade de enforca-lo com aquela gravata.
– Não sei, talvez me dar um pouco de atenção, visto que eu só me mudei pra essa porcaria de lugar por sua causa! – Alterei a voz mesmo sabendo que isso não adiantaria nada.
, você está falando grego. Canalize esse chilique para dar um jeito nas suas coisas e na casa. Quando eu voltar, trago um presente para você. – Orson disse como se não tivesse escutado minha interferência e eu quase urrei de tanta frustração. – Se arrume bem bonita, venho te buscar às 19h para um jantar. – E tendo dito isso, saiu do quarto sem maiores interferências da minha parte.
Me joguei na cama e bufei irritada com tamanha injustiça daquela situação. Não que eu morresse de amores por Orson e fizesse muita questão da presença dele, mas ele era meu marido e a única pessoa que eu conhecia naquele lugar. Pouco tempo antes de nos mudarmos, ele tinha prometido tanta coisa bonita que eu estava até considerando a possibilidade de encontrar felicidade em nosso casamento. Perceber que estava enganada até nisso me tirou o último fiapo de esperança que eu sentia na vida.
Eu não tinha mais nada nada.
Eu não tinha mãe, não tinha pai, não demoraria muito a deixar de ter amigos visto que estávamos separados permanentemente por uma distância considerável, não tinha emprego e, portanto, nada a fazer com tanto tempo livre. Dizem que cabeça vazia é oficina do diabo e honestamente é mesmo. Eu não conseguia me manter positiva diante de tanta frustração.
Não consegui sentir pena de mim mesma durante muito mais tempo porque logo Guadalupe entrou no meu quarto com mais uma pilha de roupas limpas, passadas e dobradas em mãos para guardar no meu closet.
– Com licença, Sra. Carter, já sabe onde vai guardar estas peças que acabaram de sair da lavanderia? – Me perguntou num tom simpático e eu coloquei uma almofada no rosto angustiada demais para lidar com arrumação de armário essa hora.
– Está tendo um dia difícil? – Continuou puxando papo e eu precisei lembrar a mim mesma que ela não tinha nada a ver com a minha chateação. Tirei a almofada do rosto e me apoiei nos cotovelos para encara-la.
– Já tive dias melhores – Respondi taxativamente e para minha surpresa ela sorriu.
– Terminei tudo o que precisava lá embaixo e estou com um tempinho de sobra, se quiser posso te ajudar com isso – Ela disse gesticulando para o monte de roupas no chão e nas malas abertas. Arrisquei um sorriso e acenei positivamente com a cabeça.
– Eu agradeceria bastante, se dependesse de mim eu tocaria fogo em tudo. – Respondi azeda e Lupita deu uma risadinha debochada sentando-se no chão enquanto eu me levantava.
– Tocar fogo não precisa, mas se quiser separar algumas das coisas que não usa mais, tenho certeza que iria alegrar muita gente que precisa – Ela me disse e eu senti uma pontadinha de remorsos.
– Tem alguém em mente? – Perguntei um pouco mais mansa.
– Sempre temos! A escola do meu primo aceita doações de todos os tipos, desde crianças, adultos, até brinquedos e comidas. Depois de um tempo fazem distribuição nos bairros mais carentes. – Lupita respondeu dando de ombros e eu sorri.
Separei duas malas de roupas e sapatos que não usava mais e prometi a Guadalupe que ela poderia levar para doar na escola do seu sobrinho. Enquanto terminávamos de enfim arrumar o caos daquele quarto, conversamos mais e nos conhecíamos melhor. Eu estava mexendo por entre minhas malas quando fui surpreendida por uma exclamação de Guadalupe.
– Que máscara linda! – Ela disse virando–se para mim segurando uma máscara sob o rosto. Eu sorri com a lembrança que aquele objeto me trazia. Um dos meus primeiros desfiles como modelo profissional, antes de conhecer Orson e de todo o caos que minha vida tinha se tornado. A máscara era preta e cobria metade do rosto, tinha detalhes em renda e alguns brilhinhos. Eu tinha guardado de recordação, mesmo sabendo que não teria ocasião para usa-la.
– Eu usei num dos meus primeiros desfiles – Respondi com um sorriso e ri um pouco da empolgação de Guadalupe.
– Deve ser o máximo ser modelo! – Ela disse deslumbrada e eu dei de ombros.
– Tinha seus momentos bons… Mas também os momentos difíceis. Nem tudo são flores.
Não era difícil engatar numa conversa com Guadalupe, ela sempre tinha assunto e conseguia prender minha atenção me deixando genuinamente interessada no que tinha a dizer, vez ou outra eu falava um pouco sobre minha vida, embora a dela fosse muito mais interessante para mim.
Lupita me contou que tinha um primo de cinco anos, filho do Sr. – tio dela e do – e que era a luz da sua vida. Achei tão bonita a forma como ela falou da família que por um momento me imaginei sentada à mesa dos num animado almoço de domingo. Nunca tive a experiência de uma família grande e vê-la falar com tanto carinho dos parentes me fez ter a gostosa sensação de união, algo que eu gostaria muito de ter experimentado.
Com a ajuda dela, estava conseguindo arrumar tudo em tempo recorde. Tagarelávamos tanto que eu nem via o tempo passar. Era muito útil ter o que fazer e com quem conversar, assim eu teria menos tempo ocioso para pensar no desastre que era minha vida. Me flagrei dando risadas sinceras das histórias da mãe de Lupita, que vivia tentando arranjar um casamento para a filha.
– É sério, mãe não pode me ver quieta que já começa com seus planos casamenteiros – Lupita revirou os olhos e eu sorri. – é mais velho do que eu e ela não faz tanto escândalo assim por ele… eu digo que ele é o filho favorito e ela fica bem chateada – completou dando risada e eu senti minhas entranhas revirarem com a menção do nome do irmão dela.
– E por que você acha que só é assim com você? – Perguntei fingindo desinteresse.
– Eu digo que é porque mamãe acha que o é bom demais para qualquer mulher, mas a verdade é que ela me acha difícil demais para me casar e por isso tem medo que eu passe a vida inteira sozinha.
– Por que te acha difícil demais para se casar?
– Porque eu não consigo me visualizar dependendo de um homem para viver. E os homens tem essa visão de que a mulher é uma propriedade e eu não sou de ninguém. Prefiro ficar sozinha do que ser subordinada e minha mãe acha que é por isso que vou ficar encalhada e com muitos gatos pela casa, porque me acha irredutível demais. Eu não acho, só me acho independente – Lupita falou dando de ombros e eu travei com uma blusa nas mãos a caminho do cabide. As palavras dela pareciam ter me atingido com a força de um murro na boca do estômago. Eu podia me visualizar em cada uma das suas palavras, justamente na posição contrária a que ela gostaria de estar. Eu havia me tornado exatamente isso e ter minha vida como exemplo daquilo que alguém jamais gostaria de ser me deixou desestabilizada por um momento.
– Mas eu sei que um dia vo… – Lupita começou a dizer direcionando o olhar para mim e ao perceber que eu tinha me encolhido, ela interrompeu sua fala. Me encarou por alguns segundos até se dar conta do que tinha dito e como eu havia interpretado e seu semblante iluminou compreensão e logo ela correu para o meu lado.
– Desculpe, Sra. Carter, eu não quis ofender de alguma forma... – Lupita foi dizendo e eu recobrei a consciência, terminando de guardar a blusa no cabide e espalmando com a mão para que ela não desse importância.
– Não ofendeu – Menti e forcei um sorriso, logo voltando para pilha de roupas que demandava atenção – Além do mais, você tem razão. Preze sempre por sua independência, principalmente financeira.
– Me desculpe de verdade, não quis te julgar. Eu estava falando sobre mim… – Lupita agora parecia um pouco desesperada demais para se explicar e eu sorri serena.
– Lupita, tá tudo bem, de verdade. Você não disse nenhuma mentira. E o fato de você achar que me ofendeu com isso só prova o quanto meu casamento é óbvio para todo mundo.
– Sei que provavelmente não deveria dizer isso, mas se te consola, acho que a senhora merece bem mais do que isso.
– Obrigada, mas não consola, só piora porque é isso o que eu tenho – Respondi e antes que ela fizesse menção de dizer mais alguma coisa que fosse invasiva demais, eu me apressei em concluir – Acho que agora já consigo dar conta sozinha. Obrigada pela ajuda, pode levar essas duas malas para doar.
Lupita me lançou um olhar arrependido e sem dizer mais nada saiu do quarto conforme eu pedi.
Ela não tinha culpa de nada, disso eu estava plenamente consciente. Mas eu não quis continuar naquele assunto porque aquilo daria brechas para que ela me fizesse a pergunta que seria óbvia para todos “por que você não larga dele então?”. As pessoas tinham uma visão muito preto no branco, A+B, 2+2, referente a tudo isso. Elas não estavam no meu lugar e certamente não iriam compreender. Sem Orson, eu não era nada.
Eu sabia que era nova demais para estar me sentindo tão vazia, mas a verdade é que eu já não tinha mais ambições na vida. Parece que toda minha energia vital tinha sido sugada no momento da morte do meu pai e eu honestamente só não me matei porque era covarde demais para isso. Mas não podia dizer que o pensamento nunca me ocorreu, porque aí sim estaria mentindo.
Nunca esteve nos meus planos depender financeira e emocionalmente de um homem. Nunca esteve nos meus planos largar meu trabalho, meu sustento e minha diversão para ser bancada por alguém, mas também nunca esteve nos meus planos precisar pagar um tratamento caríssimo de câncer para a pessoa mais importante da minha vida. As coisas simplesmente aconteceram e eu remei conforme a maré. Gostava de me confortar dizendo que fiz o que pude com o que eu tinha e tentava por tudo que era mais sagrado não me arrepender dessa escolha, mesmo sabendo que se eu fizesse diferente meu pai estaria morto do mesmo jeito e eu talvez pudesse ter uma segunda chance de ser feliz longe de Orson, perto dos meus amigos e da minha cidade natal.
A minha vida poderia ser traduzida em uma sucessão de acontecimentos não planejados que me levaram até onde eu estava e eu honestamente tinha desistido de fazer planos, não queria me frustrar com eles. Então sim, Lupita estava certa em não querer depender de homem algum, se as pessoas bem entendessem que relacionamentos são parcerias, as coisas não seriam do jeito que são. Se eu pudesse escolher, certamente teria escolhido um rapaz da minha idade que compreendesse os infortúnios e interesses da minha fase, certamente teria escolhido alguém que me respeita e me admira porque admiração, respeito e confiança são bases sólidas para todo e qualquer relacionamento bem sucedido.
Não me admirava que eu não tivesse nenhum dos três com Orson.
“Mamãe acha que o é bom demais para qualquer mulher”
Suspirei quando finalmente terminei de arrumar tudo e constatei com certo desespero que já eram 18h15 e, portanto, eu tinha apenas 45 minutos para ficar pronta para o jantar com Orson. Corri para o banho e escolhi um vestido preto qualquer para a ocasião, o preto básico nunca falha. Fiz uma maquiagem rápida composta por delineador, rímel, blush e batom vermelho e chequei no espelho que não podia fazer nada pelo meu sorriso, não teria maquiagem no mundo que resolvesse aquilo.
Eu já estava no último degrau da escada quando fui surpreendida pela presença de na minha sala. Ele estava recostado na parede que ligava a cozinha e ao perceber que eu estava no ambiente, empertigou–se ficando ereto. Não gostei muito daquele gesto, mas aquilo tinha se tornado corriqueiro desde que descobri que ele era meu jardineiro. Toda aquela casualidade do momento que nos conhecemos ficou para trás quando ele assumiu uma postura formal demais que não combinava com ele para se referir a mim. Eu deixei de ser a Texas’ girl para ser a Sra. Carter e isso não me agradou, embora eu soubesse que era o certo.
– Boa noite, Sra. Carter – Ele me saudou e eu percebi sua voz falhar um pouco. Ele me lançou um olhar rápido de cima a baixo e suas bochechas coraram furiosamente de um jeito que fez minhas entranhas fervilharem de uma forma que eu nunca senti antes. Pronto, agora estávamos empatados. Ele me flagrou bisbilhotando enquanto ele trabalhava suado no pé da minha janela e eu tinha percebido – com muito gosto – ele me lançar um olhar abobalhado estando vestida como eu estava. Logo ele apressou-se a falar – Eu estou aqui apenas esperando minha irmã, vim busca-la.
– Tudo bem, , não tem problema. Sabe dizer se o Orson já chegou? – Fiz questão de chama-lo pelo primeiro nome e percebi a linha de um sorriso ameaçar invadir seus lábios tão bonitos.
– Não, acredito que não tenha chegado ainda – Ele respondeu e eu acenei com a cabeça sem saber o que dizer para continuar a conversa. Um clima estranho e tenso se instalou sobre nós e a energia do ambiente era tão perceptível que eu quase fiquei sem ar, sufocada naquela áurea estranha. Tão diferente de quando nos conhecemos. Eu queria dizer alguma coisa, puxar algum assunto, mas não sabia o que dizer e nem se deveria. Não precisei elaborar muitas palavras, porque logo Lupita entrou na sala e eu me senti aliviada com sua presença.
– Vamos? – Ela disse para o irmão com um sorriso. não tirava os olhos de mim, o que forçou Lupita a procurar com o olhar o foco da atenção do irmão, logo me notando no ambiente.
– Ah, Sra. Carter, a senhora está linda – Ela disse animadamente e eu sorri sinceramente para ela, demonstrando que aquele pequeno impasse de mais cedo estava completamente esquecido e perdoado para mim.
– Obrigada, Lupita. Estou esperando Orson para irmos jantar, amanhã ele irá viajar cedo. – Respondi e percebi se mexer um pouco. Desviei minha atenção para Lupita e pude perceber que ela também estava arrumada. Vestia shorts jeans e um cropped colorido.
– Bom, você ouviu, Guadalupe. Nós já vamos indo, boa noite Sra. Carter e bom jantar – cumprimentou formal e educadamente e Lupita me lançou um sorriso antes de virar as costas para sair pela porta dos fundos.
– Onde vocês vão? – Perguntei sem conseguir conter minha curiosidade. Somente Lupita virou-se para me responder.
– Vamos ao La Factoria, teremos uma festa na sexta-feira, hoje teremos uma pequena competição de dança onde escolheremos o rei e a rainha – Lupita me respondeu animadamente e eu sorri com uma vontade incontrolável de estar lá. Lembro da minha reação ouvindo aquela batida pela primeira vez e tenho certeza que apreciaria muito uma competição de dança naquela casa tão famosa.
– Você dança? – Perguntei a Lupita e ela riu balançando a cabeça.
– Todos dançam, mas não estou competindo. Estrela mesmo é o meu irmão, aqui – Lupita disse abraçando as costas do irmão com ternura e eu sorri direcionando meu olhar para ele, que não retribuiu e nem virou-se novamente.
– Vamos Guadalupe, não atrase a Sra. Carter – Ele repreendeu e eu murchei meu sorriso. Lupita me lançou um olhar como se dissesse “não liga não”, acenou e acompanhou o irmão até a porta de saída.
Não sabia porque eu estava tão incomodada com a forma que estava me tratando. Não é como se me tratasse mal, porque ele sempre era impecavelmente educado, formal e mantinha uma distância segura patrão – empregado que deveria ser exemplar para todos, mas não para mim. Eu sabia que não deveria me importar com isso, mas lá estava eu, amuada, sentada no meu sofá esperando meu marido chegar chateada porque meu jardineiro não virou para falar comigo.

– Vejo que a cowgirl conheceu o poder do reggaeton.
– É muito… envolvente.
– Bom, se quiser ver mais disso é só aparecer no La Factoría, se quiser posso até te ensinar a dançar assim. Quem sabe você não me ensina alguns passos de country também?
– Hm, acho que meu marido não iria gostar muito dessa ideia…
– Ahh, não acredito que mal te encontrei e já te perdi, Texas’ girl!

Não tive tempo para me recriminar por estar saudosa com esses pensamentos pois logo ouvi o barulho irritante da buzina de Orson e me apressei para jantar com meu marido, embora do fundo do meu coração eu quisesse estar a caminho do La Factoria com meu jardineiro.

Orson me levou para um restaurante bacana com vista para o mar que além de servir comidas deliciosas, também tocava um som ambiente muito agradável. Do contrário do que eu imaginava, não era um daqueles jantares de negócios em que eu ficaria de fantoche enquanto os homens falavam sobre lucros. Era um jantar a dois, como tinha de ser desde o início. Tudo estava contribuindo para que fosse perfeito e eu nem podia culpar Orson pelo insucesso dessa vez, ele até tinha feito a parte dele.
Não mencionou a empresa em nenhum momento da noite e manteve um tom de voz agradável para falar de assuntos quaisquer comigo. Mas apesar da amabilidade do meu marido, eu estava dispersa essa noite. Fantasiava com uma realidade alternativa em que eu poderia conhecer a La Factoria e ver as pessoas dançarem.
Por pessoas, leia-se .
Eu sabia que não era saudável ter esses tipos de pensamentos, mas gostava de me reconfortar repetindo para mim mesma que era apenas uma fantasia, não fazia mal algum se aquilo continuasse no imaginário. era um rapaz bonito, qualquer mulher casada ou não perceberia isso e olhar não tira pedaço. Além do mais, ele não conseguia nem ficar no mesmo ambiente que eu sem querer desviar o olhar ou sair correndo, me tratava com tanta formalidade que mesmo que eu quisesse alguma coisa com ele (coisa que eu não queria), jamais teria.
No fim da noite, ao receber os beijos de Orson, eu decidi por bem tirar esses pensamentos da minha cabeça. Não adiantava nada ser despida na minha cama pelo meu marido se ao sentir as mãos dele no meu corpo eu imaginava, mesmo involuntariamente, como deveria ser tocada por mãos grossas e calejadas do trabalho braçal, mas delicadas pelo dom artístico.
Quando, naquela noite, tive um orgasmo transando com meu marido – coisa que dificilmente acontecia – instantaneamente fui invadida pelo mal estar proveniente da culpa por meus pensamentos desconexos e pecaminosos durante nosso ato. Nem me dei ao trabalho de abraçar Orson, apenas me virei de lado e trouxe a coberta a altura do meu rosto me sentindo estranha demais para se quer falar alguma coisa.

***

Quando Orson anunciou sua promoção e consequente transferência, precisei me preparar psicologicamente para tudo que envolveria o processo de mudança. Primeiro, comecei pela parte que para todos (inclusive para mim) era a mais óbvia: uma cultura diferente. O Google foi meu grande amigo durante as semanas que se seguiram, pesquisei tanta coisa sobre San Juan que depois de um tempo já conseguia identificar as ruas pelo Maps.
Pesquisei sobre a culinária, costumes e outras curiosidades apenas para manter minha mente ocupada com outra coisa que não fosse a morte do meu pai. Quanto mais eu lia sobre San Juan, mais saudade sentia de Dallas. Procurei pela culinária local, principais fontes de lazer e lojas mais visitadas. Quando nada disso me chamava mais atenção, passei a me preparar para ficar distante dos meus amigos e das coisas que fazíamos juntos. Não que eu tivesse tempo ou permissão para ver meus amigos, Orson regulava meus passos e fazia questão de estar sempre presente nas ocasiões.
De todas as coisas que eu me preocupei durante meu processo de mudança, a mais importante só me ocorreu na última semana.
Eu ficaria longe do túmulo do meu pai.
Eu sabia que meu pai estaria sempre em meu coração, onde quer que eu estivesse – conhecia todo o falatório de que aqueles que amamos estão sempre conosco. Mas eu não tinha me dado conta de que não teria o túmulo dele ou da mamãe para visitar vez ou outra quando sentisse tanta necessidade de conversar como estava sentindo agora. Me dar conta disso doeu quase tanto quanto doeu vê-lo partir.
– A senhora está bem?
Acordei do meu devaneio com a voz de ecoando próxima. Me assustei um pouco e acabei mexendo os pés com mais rapidez do que precisava, molhando um pouco do meu vestido. Estava sentada na beira da piscina, aproveitando um pouco da sombra para mexer meus pés na água.
Assim como combinado, Orson tinha viajado na quinta-feira pela manhã e eu passei o dia ocupada com o resto de mudança que ainda tinha pendente. Fui dormir tão tarde que nem tive tempo de pensar sobre meus infortúnios e acabei acordando com uma saudade sufocante do meu pai, não tinha espaço para nenhum outro pensamento na minha cabeça quando apareceu.
– Hm…? – Perguntei distraída desviando meu olhar para ele. Ele sorriu de um jeito tão fofo que meu coração até aqueceu um pouco, apontou para o meu rosto e só então percebi que estava chorando. Me apressei em enxugar as lágrimas. – Estou ótima.
me encarou por mais alguns segundos com aquela expressão que deixava seus traços meigos ainda mais suaves e alargou um pouco o sorriso fazendo com que meu coração desse um salto.
– Minha mãe sempre diz que se não pode melhorar com um banho de mar ou de rio, uma caneca de chocolate quente ou sorvete, uma noite de sono bem dormida ou um reggaeton… então não vale a pena chorar porque não tem jeito. – disse num tom de voz divertido e consolador e eu não pude evitar de exibir um sorrisinho lacrimoso.
– Infelizmente, nada disso pode resolver – Respondi penosa e ele deu de ombros com simplicidade.
– Ninguém falou sobre ser resolvido… mas que ajuda, ajuda – Ele disse com a voz suave e eu suspirei tristonha.
– Deus sabe o quanto eu queria que tivesse solução.
– Para tudo nessa vida tem solução, menos para a morte – Ele me respondeu e eu senti meu coração comprimir dolorosamente. Assenti com a cabeça impedindo que outras lágrimas se formassem em meus olhos.
– É exatamente esse o problema. – Confirmei e ele franziu o cenho de maneira confusa. Forcei um sorriso fechado e ele pareceu compreender do que se tratava.
Você ainda está viva, então ainda tem solução – Ele respondeu sabiamente e eu percebi que tinha entendido errado. Fiz uma careta incomodada.
– Falar é fácil, difícil é colocar em prática – Não queria ter soado tão azeda quanto possivelmente soei, mas manteve-se com o semblante tranquilo, aquele sorriso calmo e sereno de que compreendia bem demais a minha dor… o sorriso de quem já tinha passado por ela.
– Eu tenho colocado isso em prática há treze anos, Sra. Carter… Acho que estou me saindo bem até agora – Ele me respondeu calmamente e eu senti meu estômago revirar com a súbita lembrança do meu passeio até a feirinha com Guadalupe no meu primeiro dia em San Juan. O dia que ela me contara sobre a família e demonstrara tanta empatia por meu luto. Ela também tinha perdido um ente querido, como eu poderia me esquecer…
também tinha perdido o pai.
– Desculpe, não quis ser rude. Eu também perdi meu pai…. Recentemente. – Eu disse depois de um suspiro e ele continuou sorrindo daquele jeito tranquilo, me deixando automaticamente mais calma. Como era possível alguém com uma energia tão positiva assim? parecia portar o sol de San Juan todo naquele sorriso caloroso.
– Eu entendo, também já descontei minha frustração nas pessoas que me disseram que vai passar. Principalmente porque não vai, não vai passar nunca.
– E como a gente consegue sair dessa? – Perguntei infeliz, fungando contra minha vontade. me olhou de um jeito tão doce que me desarmou. Por um momento, quis ser abraçada por ele. E me pareceu que ele também quis me abraçar.
– Com foco nas memórias boas. E com a certeza de que fomos amados. Meu pai foi a pessoa mais incrível que já conheci. Me ensinou muito sobre a vida e me amou do jeito incondicional que só um pai ou uma mãe pode amar. Saber que fomos amados assim por alguém é um acalento para o coração nos dias tristes. Quando estiver sem saída, pense que seu pai te amou muito e que tudo o que ele quis é que você fosse feliz… Buscar a felicidade é quase como honrar a memória dele.
Enquanto falava, o rosto do meu pai passou por minha cabeça e eu quase pude sentir seu cheiro tão perto. Quase pude ouvir o tom grave da voz que eu tanto sentia falta e o acalento do abraço que eu jamais teria novamente. “O que o papai não faz para ver esse sorriso…” ele sempre me dizia. Passei a mão pelo rosto e enxuguei as lágrimas que ainda insistiam em marejar meus olhos. Ofereci um sorriso lacrimoso em gratidão para .
– Obrigada.
– Não há de quê, Sra. Carter. Nesses momentos, é importante ter o amparo de alguém… pelo menos a senhora ainda tem seu marido.
verbalizou aquela frase num tom que poderia ser considerado como reconfortante, sem saber que Orson e nada era a mesma coisa no que dizia respeito a consolar meu luto. Me abracei um pouco incomodada com suas palavras e pareceu se dar conta de algo porque pigarreou e me encarou um pouco mais sério, as sobrancelhas franzidas.
– Desculpe, senhora, não quis ser intrometido – Disse formalmente e eu tive vontade de rir, esquecendo quase que totalmente o porquê de estar triste.
– Por que você está falando desse jeito? – Perguntei e ele franziu ainda mais o cenho, provavelmente fazendo-se de desentendido.
– Que jeito?
– Assim… todo formal. – Respondi e ele pareceu pensar um pouco antes de responder. Parecia estar escolhendo as melhores palavras para isso. Senti uma fisgada estranha no estômago e não gostei, preferia mil vezes a espontaneidade do nosso primeiro encontro do que essa formalidade toda.
– Você é minha patroa, Sra. Carter – Ele anunciou calmamente e eu me senti desconfortável com aquele nome, não parecia certo na voz de
Ficamos em um silêncio desconfortável por um momento até que eu não aguentei mais e me levantei saindo da beirada da piscina.
– Não quero te atrapalhar, sei que deve ter muitas coisas para fazer… – Percebi que tinha sido a coisa errada a dizer antes mesmo de terminar minha frase. me deu um sorriso fechado e sem dizer nada, deu as costas indo em direção ao jardim. Suspirei fundo me sentindo idiota, critiquei o jeito formal demais que ele falou comigo e em seguida praticamente o ordenei a voltar ao trabalho.
É que eu odiava isso. A minha vida passou a ser dividida entre antes e depois de Orson e a forma como as pessoas me tratavam também dependia muito de saberem ou não do meu relacionamento com ele.
Talvez eu não consiga explicar de modo que faça sentido o quanto eu me senti tão leve apenas por conhecer uma pessoa que não me olhou como se eu fosse superior ou inatingível ou inalcançável. Orson tinha um jeito intimidador como se fizesse questão de provar que não existia nada que não pudesse comprar ou barganhar e perto dele eu era uma posse. Tinha significado tanto para mim ser olhada pela primeira vez em nem sei quanto tempo apenas como uma mulher normal…
Até descobrir que ele era meu jardineiro.
Não que eu pudesse me dar ao luxo de me sentir lisonjeada com o olhar de um homem, visto que eu era uma mulher casada.
Suspirei fundo resignada a ser sempre a senhora Carter e voltei para dentro de casa. Eu tinha apenas uma semana em San Juan e já me sentia entediada sozinha naquela mansão gigantesca. Orson passava a maior parte do dia trabalhando e eu não tinha absolutamente nada para fazer com aquele tanto de tempo ocioso. Sugeri trabalhar, mas ele recusou com veemência, disse que tudo que estava sacrificando era para que eu tivesse uma “vida de princesa” e que eu deveria me sentir grata, visto que aparentemente muitas mulheres dariam tudo para ter alguém bancando todas as despesas possíveis.
Eu tive tanto tempo livre que agora, no entanto, não me restara nada para fazer além de olhar o teto. Como as pessoas poderiam gostar de não fazer absolutamente nada o dia inteiro? Parecendo se compadecer do meu tédio profundo, Guadalupe me lançou um olhar misto de pena e graça quando cheguei na sala. Franzi o cenho tentando reconhecer a música que ecoava vindo da cozinha.

[Coloquem a música para tocar!]


– Você sabe cozinhar, Sra. Carter? – Me perguntou enquanto me seguia em direção a cozinha conectando o celular na caixa de som portátil e eu sorri acenando com a cabeça já me sentindo instantaneamente mais animada.
– Sei sim, modéstia à parte, mas sou uma boa cozinheira – Respondi com um meio sorriso e ela correspondeu. Eu tinha certeza que nunca tinha escutado aquela música antes, mas já podia dizer que iria gostar. Era impressionante como o ritmo me contagiava.
– Bom, a senhora poderia me passar algumas receitas e assim quem sabe eu não cozinho algumas comidas típicas do Texas? Deve estar com saudade de casa… – Lupita disse amável e eu senti vontade de abraça-la de repente.
– Eu tenho uma ideia melhor, que tal cozinharmos juntas? Não vejo necessidade de ser paparicada o tempo todo se posso muito bem fazer minha própria comida. Além do mais, posso te ensinar a fazer enquanto cozinha junto comigo, o que acha? – Sugeri e observei Lupita me lançar um sorriso animado.
– Vamos fazer uma mistura então, você me ensina uma comida texana e cozinhamos no ritmo porto-riquenho, o que acha? – Ela me sugeriu e eu sorri. Tinha total convicção que Lupita e eu nos tornaríamos amigas.
– E então, o que vamos cozinhar hoje? – Ela me perguntou já abrindo os armários.
– Chili com carne! – Respondi e ela franziu a sobrancelha para mim.
– Chili não é uma comida mexicana?
– A culinária mexicana e texana sofre influências diretas, em Dallas costumamos comer tacos no café da manhã, por exemplo. Mas hoje farei um Chili típico texano, você não deve encontrar muitos problemas, tem pimenta – Expliquei e ela sorriu voltando a abrir os armários.
Fui dando as coordenadas, indicando quais ingredientes precisávamos e conforme íamos separando as comidas, vez ou outra eu me surpreendia me movimentando no mesmo lugar ao som da música. O que não passou despercebido por Lupita.
– É contagiante, não é? – Ela disse dando um risinho e eu ergui a cabeça para saber do que ela estava falando e ela apontou com o queixo para a caixinha de som e eu dei um risinho tímido concordando com a cabeça.
– Você precisa soltar mais esses quadris, assim – Ela disse se aproximando de mim dançando e eu não pude conter a risada.
– Eu não acho que consigo – Respondi risonha quando ela se aproximou de mim segurando meus quadris balançando-os de um lado para outro. Logo engatamos numa dancinha desengonçada da minha parte e eu me surpreendi por perceber como conseguia ser eu mesma na presença de Lupita.
Ela tomou minha mão e me fez rodopiar pela cozinha, o que quase resultou numa queda tamanho meu desequilíbrio. Mas ao invés de me incomodar, tudo o que conseguiu foi me fazer gargalhar. Ela se moveu na minha frente mostrando como se dançava e eu aplaudi fingindo estar numa plateia apreciando a forma como ela conseguia sincronizar seus movimentos com a batida da música.
Me virei para tentar um movimento quando algo chamou minha atenção pela vidraça da cozinha. Lá fora, lançava um olhar curioso e intrigado para cozinha, provavelmente observando o momento de distração entre Lupita e eu. Instantaneamente senti minhas bochechas corarem porque ele tinha visto minha dança desastrada. pareceu ter ficado desconcertado também, porque logo virou-se de costas e saiu rumando em direção a piscina a passos largos. Com meu coração batendo freneticamente, voltei minha atenção para Lupita.
– Se você fosse no La Factoría veria que é impossível ficar parada – Lupita disse enquanto lavava os legumes e eu senti algo revirar dentro de mim. Isso me lembrava uma coisa que estava pensando ontem antes de dormir.
– É hoje a noite da tal festa? – Perguntei casualmente mesmo que já soubesse a resposta.
– É sim, estou muito empolgada! – Ela respondeu animada e eu senti meu coração bater descompassado contra o peito pela adrenalina do momento. Mordi o lábio inferior pensando em como dizer aquilo que queria e me senti ansiosa.
– O que foi? Parece meio triste de repente – Lupita perguntou referindo-se a minha súbita mudança de humor. Na verdade, eu não estava exatamente triste e sim apreensiva e em expectativa, mas resolvi me aproveitar disso.
– Hm, nada… É só que eu vou ficar aqui sozinha o final de semana inteiro – Comecei sentindo meu coração martelar tão forte que até doía.
– Existe algo que eu possa fazer por você? – Lupita me perguntou e uma fisgada de esperança surgiu dentro do meu peito. Hesitei propositalmente antes de continuar.
– Não sei…
– Diga, pede qualquer coisa e eu faço pra você ficar mais animada – Ela propôs prestativa e eu consegui sentir meu coração pulsar na garganta.
– Qualquer coisa? – Repeti em expectativa.
– Qualquer coisa.
– Me leva ao La Factoría hoje.


Tres

Música del capítulo: Suena El Dembow – Joey Montana

Punto de vista –

Sempre fui um rapaz muito curioso, atento, com sede de saber e pronto para experimentar e vivenciar tudo que fosse possível. Apesar de não ser o famoso “do contra”, sempre rejeitei o time das certezas. Talvez tenha sido algo herdado do meu pai, que sempre me disse para duvidar de quem sabe demais. Sempre acreditei que a dúvida é um combustível poderoso. Ao mesmo tempo, nunca pude ser considerado um garoto indeciso. Apenas mente aberta e preparado para ter minhas ideias postas a prova a qualquer momento.
Pensando assim, acho que sei de que lado da família Hector puxou.
– Querido, por que você não quer mais usar a fantasia do Batman? – Tia Sônia perguntou tentando esconder o tom chocado enquanto tentava ajudar Hector a se vestir para escola. Ele agora estava naquela fase de querer fazer tudo sozinho, desde o banho, até vestir–se. E agora também parecia controlar até mesmo o que usar.
– O que aconteceu, neno, não gosta mais do Batman? – Perguntei me divertindo da situação. Meu primo de cinco anos deu de ombros como se a resposta fosse óbvia.
– Gosto, mas não existe só ele de herói no mundo, hoje eu quero ir de homem aranha! – Ele respondeu animado e Tia Sônia me lançou um olhar desesperado.
, me ajude, não tenho como financiar os gostos desse menino! Se ele me inventar de sair todo dia com a fantasia de um super-herói diferente eu vou a falência! Deus sabe o quanto tive que economizar para comprar essa fantasia do Batman que ele tanto queria e hoje já não quer mais!
– Calma, tia Sônia, calma! Acho que isso é próprio da idade, ele está descobrindo coisas novas…
– Contanto que eu não tenha que pagar por essas descobertas, para mim está ótimo!
Eu revirei os olhos e ri pelo desespero dela.
– Ei, venha cá – Chamei e o pequeno veio correndo em minha direção – Você sabe que todo super-herói tem um disfarce, não sabe? – Perguntei e observei ele balançar sua cabecinha em confirmação.
– Então, que tal valorizar o Peter Parker e ir disfarçado para escola hoje? – Eu sugeri e ele pareceu ponderar por alguns segundos antes de sorrir animado.
– Por que ele não pode simplesmente ir com o uniforme normal? – Tia Sônia ainda estava inconformada.
– Porque hoje é sexta, mamãe! – Hector respondeu animadamente e eu sorri bagunçando seus cabelos. Todas as sextas, era liberado trajes comuns ou fantasias entre as crianças como forma de recreação.
– Não se preocupe, tia. Qualquer camiseta, calça jeans e tênis vão servir. Ele tem aquele óculos sem lente e estará pronto – Assegurei e minha tia me lançou um olhar de gratidão.
– Obrigada, . Você é um anjo.
é você quem vai me levar para escola hoje? – O pequeno Peter Parker me perguntou quinze minutos depois, com a mochila nas costas e a lancheira na mão. Eu sorri em concordância.
– Sim, estamos atrasados inclusive, preciso ir para o trabalho.
– Falando nisso, como estão as coisas na casa dos Carter, ? Está gostando deles? São pessoas boas? Carlos disse que o homem é podre de rico, é verdade? – Tia Sônia me perguntou e eu senti meu estômago embrulhar ao ouvir sobre os Carter. Me sentia nervoso toda vez que ia trabalhar.
– Pela casa, parecem ser ricos mesmo – Respondi dando de ombros – O Sr. Carter quase nunca aparece em casa, está sempre trabalhando, quase não o vejo. Quando saio de lá ele ainda não chegou.
– E quanto a Sra. Carter? – Tia Sônia me perguntou e eu ergui o olhar rapidamente.
– O que tem ela? – Perguntei na defensiva e observei minha tia arquear as sobrancelhas desconfiada com minha atitude.
– Como ela é? É legal com você, te trata bem? Sabe como essa gente rica tende a ser bem rabugenta…
– Ah… – Fiz aliviado e tia Sônia estreitou os olhos – Bom, ela é bastante gentil. E é bem mais nova que o Sr. Carter. A Lupita tem mais convivência com ela do que eu. Parece que se deram bem – Respondi num tom de indiferença, embora meu coração tivesse dado um salto a menção daquela senhora.
– Mais nova? Mais nova quanto? – Tia Sônia perguntou e eu me senti desconfortável por um momento.
– Não sei, tia, ela parece ter uns vinte e pouquinho – Respondi coçando a nuca e ela fez uma careta em desaprovação.
– Ah, essas interesseiras! Sempre buscando homens mais velhos e ricos para viver as custas.
Não tenho palavras para explicar o quanto aquela frase me incomodou. Ver a minha tia falando daquele jeito da Sra. Carter me deixou profundamente irritado, talvez até mais irritado do que deveria. Franzi o cenho e respondi num tom áspero:
– Não fale assim dela, tia Sônia, a senhora nem a conhece!
Tia Sônia ergueu as sobrancelhas surpresa com minha defesa sem relutância. Normalmente eu não era grande fã dos ricaços e não perdia uma oportunidade de ficar contra eles, já tive patrões tão esnobes e nojentos que só mesmo a necessidade de manter minha família me fazia continuar. Mas não me pareceu justo deixar alguém falar assim da Sra. Carter.
– E você conhece, por acaso?
– Ela me parece uma mulher bem bacana – Defendi com lealdade e minha tia me analisou por um segundo e depois revirou os olhos espalmando o ar.
– Ok, ok, vá logo para seu trabalho antes que a Sra. Carter boazinha lhe dê motivos para odiá-la – Disse em tom de zombaria e foi minha vez de revirar os olhos.
– Tchau tia, até mais – Respondi um pouco azedo como não me era de costume, segurei a mão de Hector e sai de casa rumo a escola dele.
Nem bem se passaram quinze minutos para que eu começasse a me sentir arrependido por ter sido ríspido com tia Sônia. Ela tinha sido preconceituosa e venenosa ao julgar a realidade de uma pessoa sem conhece-la, mas quando se vive tanto tempo numa mesma condição é normal passar a ressentir pessoas da classe do Sr e Sra. Carter. Ela estava errada, mas eu não me afetaria tanto assim normalmente.
Morar em La Perla, um bairro periférico considerado como perigoso, ter pouquíssimos recursos financeiros e ser obrigado a trabalhar de caseiro nas casas dos ricaços de Condado faz você ver a vida com outros olhos. Se eu pudesse, viveria inteiramente das minhas aquarelas e dos meus manufaturados, mas viver de arte não garantiria nossas barrigas cheias a noite. Eu perdi a conta de quantas humilhações já sofri e de quantas coisas já tinha escutado da minha mãe, minha irmã e tia Sônia, que trabalhavam limpando a sujeira que esse povo fazia.
Eu entendia o julgamento precoce de tia Sônia, mas não gostei de ouvi-la falar daquela forma da Sra. Carter. Ela não era como os demais, eu sabia disso. De uma forma completamente irracional e sem precedentes, eu sabia. Soube no momento que a vi, deslumbrada mirando as ruas de San Juan, soube no momento que seus olhos brilharam vendo uma roda de reggaeton, soube quando me ofereceu o sorriso mais bonito do mundo ao receber meu origami e tive certeza quando a vi em defesa de Guadalupe quando Sr. Carter acusou minha irmã.
– Alô, terra chamando – Despertei da minha divagação pelos dedos de Hector me puxando para baixo e sorri para meu primo – No que você tá pensando? Tá com essa cara de tonto uuuhhh.
Dei um sorriso e mostrei-lhe a língua.
– Você ainda é muito novo para entender – Respondi e ele franziu as pequenas sobrancelhas numa careta confusa.
– Igual sou novo para entender por onde a professora Maribel vai colocar o bebê para fora? – Me perguntou e eu quase engasguei indeciso entre meu choque e a vontade de rir.
– O quê?
– É, a professora Maribel engoliu um bebê e agora vai precisar colocar pra fora. Perguntei para Lupita por onde ia sair e ela disse que sou muito novo para entender.
– Ã… – Comecei sem saber exatamente o que responder. Crianças são tão espertas! E nos colocam em cada situação complicada… – É… Então, o bebê vai…
Felizmente fui privado da resposta pela Maribel em carne e osso que apareceu no portão da escola para nos recepcionar. Salvo pelo gongo!
! Como está? – Ela me cumprimentou assim que cheguei e aceitei mais do que de bom grado passar a responsabilidade de Hector para ela.
– Estou ótimo e atrasado – Sorri a abraçando de lado devido ao tamanho da barriga – Hector vai te perguntar por onde o bebê vai sair. Boa sorte – Cochichei em seu ouvido e ela riu quando nos afastamos.
– Tchau, neno! – Disse para meu primo, me abaixando para abraça-lo. – Se comporte e boa aula.
– Ei, … – Girei nos calcanhares voltando para o portão ao chamado de Maribel. Ela era a professora de inglês do Hector e namorada de um dos meus melhores amigos. Nossa relação era muito próxima.
– Você não conhece ninguém que possa me substituir? Estamos procurando, mas até agora nenhum interessado. Daqui a pouco tiro minha licença, não podemos ficar sem professor de inglês para as crianças. São só dias de sexta-feira..
– Não conheço, mas vou ficar de olho por você. Qualquer coisa eu aviso – Respondi com um sorriso e ela retribuiu antes de acenar quando virei as costas para seguir meu caminho.
A caminho da casa dos Carter para mais um dia de trabalho naquele jardim mal cuidado, me flagrei sorrindo pensando em que saia justa o Hector deveria ter colocado Maribel com suas perguntas sobre bebês e por onde eles saem. A inocência das crianças é realmente uma benção.
Dizem que uma criança pequena faz, em média, mais de trezentas perguntas por dia.
Tenho certeza que Hector foge à regra, se fôssemos parar para contar quantos pequenos questionamentos faz em vinte e quatro horas, saberíamos que o uso do “por que” ultrapassa a faixa dos quinhentos facilmente. Nunca conheci uma criança tão curiosa quanto o meu primo de cinco anos.
Talvez, com exceção de mim mesmo.
Sempre fui muito curioso, questionador e nem um pouco dono da razão. Sempre sedento por aprender sobre coisas novas e diversificadas. Por incentivo do meu pai, desde cedo fui desbravador. Talvez por isso que eu tenha tendências a julgar menos e observar mais, nunca fui grande fã da palavra “nunca”. Tenho certeza de poucas coisas nessa vida. E mesmo das coisas que tenho mais convicção, ainda assim, estou sempre aberto a ter minhas verdades questionadas. Nada é concreto, tudo é mutável e acredito que essa é a graça das coisas. Perceber como nossas opiniões mudam conforme o tempo e as vivências.
Observando Hector questionar sobre cores, sabores, pessoas, regras, e o ciclo da vida eu vejo como hoje minha expressão não deve ser tão diferente da dele ao descobrir algo novo que nunca imaginou ser possível. Eu estava parecendo o pequeno Hector, inconformado por ter uma de suas teorias descartadas, principalmente porque eu, por exemplo, não achei mais que fosse possível, aos vinte e quatro anos, me sentir intimidado na frente de uma mulher.
E, no entanto, cá estou eu. Nervoso, ansioso e me sentindo um adolescente de quatorze anos fantasiando com a coleguinha de sala. Mas o fruto do meu súbito e repentino interesse não era uma coleguinha de sala qualquer. Era um fruto proibido e totalmente inalcançável.
Sra. Carter não era mulher para meu bico.
Eu soube disso no momento em que ela ergueu aquela mão para me mostrar uma aliança com um diamante gigantesco encrustado quando a convidei para o La Factoria. Tive ainda mais certeza quando soube que era esposa do meu patrão e precisei repetir isso para mim mesmo nos últimos dias ao perceber o jeito como ela me olhava.
Talvez seja fantasia da minha mente, mas existe algo no ar quando estamos juntos. E argh, eu sei que estou parecendo um sonhador apaixonado, mas existe uma tensão, chame de atração ou magnetismo se quiser, mas definitivamente existe algo. E é este algo que não posso alimentar. É errado, muito muito errado.
Se ela não fosse tão bonita… Se não tivesse uma voz tão agradável e olhos tão atenciosos e expressivos...Talvez eu conseguisse me manter distante. Mas, como se sua beleza não fosse o bastante para me despertar o interesse, ela também tinha aquele ar de mistério e profundidade, como se carregasse uma história importante mesmo com tão pouca idade. Ela aparentava conhecer tanto sobre a vida, tinha uma postura tão madura e ao mesmo tempo tão jovem… Eu não queria passar tanto tempo tentando decifra-la, mas era mais forte do que eu. Descobrir que, assim como eu, ela também conhecia a dor de perder um pai, só me fez ficar ainda mais fascinado por ela e por todo enigma que ela representava na minha vida naquele momento.
Eu precisava me manter distante, para o meu próprio bem.

***

Lancei um olhar para o meu relógio de pulso pela terceira vez na esperança de que tivesse passado mais tempo do que os míseros cinco minutos desde a última vez que chequei. Troquei o peso do corpo por meus pés e suspirei impaciente. Sabia que essa coisa de trabalhar na mesma casa que minha irmã não daria muito certo, eu sempre terminava meus afazeres primeiro e precisava ficar esperando para que ela tivesse companhia na hora de voltar para casa. Guadalupe nunca demorava tanto para sair, isso preciso admitir. Mas hoje ela parecia determinada em testar minha paciência.
Sentate a esperar! – Bufei ironicamente me recostando na porta dos fundos da casa dos Carter. Guadalupe sabia que teríamos uma festa para ir e eu precisava estar no La Factoria cedo, já que eu seria o rei nessa noite.
E ainda tinha mais essa!
Eu estava pronto para chamar minha irmã outra vez, quando a mesma surgiu esbaforida pela porta dos fundos, meio sem fôlego e pelo que notei ainda sem sua bolsa.
– Guadalupe, estamos atrasa… – Ela não me deixou falar.
, você vai precisar adiantar e ir sozinho – Lupita disse um pouco sem fôlego e eu deixei minha frase morrer. Franzi o cenho e arqueei as sobrancelhas desconfiado.
– Por que? Vai demorar tanto assim?
– Eu preciso fazer mais uma coisa aqui e acho que vou demorar um pouco mais do que o normal, algo que a me pediu – Minha irmã respondeu e eu percebi que ela estava muito mais agitada do que o normal.
– O que aconteceu? Sra. Carter está bem? – Perguntei de imediato, só depois me dando conta de mais uma coisa – E desde quando você a chama pelo primeiro nome?
– Que? Ah, , que importância isso tem? Ela me pediu e… olhe, adiante, adiante, eu ainda vou demorar um pouco – Lupita me respondeu puxando a porta atrás de si, como se não quisesse que eu entrasse. O que estava acontecendo?
– Lupita, tá tudo bem? O que tá acontecendo?
– Eu já disse que tá tudo bem, só preciso fazer mais algumas coisas. Não precisa me esperar. Te encontro direto no La Factoria hoje. Beijos e tchau – Lupita praticamente me enxotou e eu lancei um último olhar desconfiado para dentro da casa antes de me resignar e seguir - a contragosto - meu caminho.
Se eu teria que ir para casa sozinho, então por que não me avisou antes de me atrasar por, no mínimo, uma hora? Não sabia o que estava acontecendo dentro daquela casa, mas esperava sinceramente que a Sra. Carter estivesse bem. Provavelmente era algo de garotas, agora que ela e minha irmã estavam aparentemente íntimas demais.
Me esforcei para não pensar muito no que poderia estar acontecendo com Sra. Carter, mas só o esforço para não pensar já era um pensamento nela. Aquela fixação platônica precisava passar. O mais rápido possível. Esperava que ainda naquela noite, durante a festa. Os minutos seguintes foram preenchidos por um devaneio em que eu conhecia uma linda mulher misteriosa, dançaríamos a noite toda e no dia seguinte Carter já não significaria nada para mim.
, posso ir com você? – Hector me perguntou horas depois, quando estava prestes a sair de casa.
– Você sabe que ainda é pequeno demais para isso, neno! – Respondi ficando de joelhos para beijar as bochechas do meu primo emburrado.
– Quando eu não serei mais pequeno? Quero ser grande como você!
– Se você bem soubesse, não desejaria crescer logo, Hector. Ser criança é muito mais legal! – Respondi com sinceridade e ele cruzou os pequenos bracinhos em sinal de rebeldia. Tive que me esforçar para não rir.
– Não faça assim. Se você se comportar direitinho te levo para praia amanhã, ok? – Propus e pude perceber aos poucos sua expressão suavizando.
– Tá bom! – Ele aceitou e eu baguncei seus cabelos quando me levantei. Hector odiava quando eu fazia isso e eu adorava sua carinha de bravo, por isso continuaria fazendo.
– Nossa, que menino cheiroso – Minha mãe disse assim que entrou no quarto e eu me virei para lhe oferecer um sorriso. Me aproximei um pouco oferecendo meu pescoço para que ela cheirasse, como sabia que faria. Minha mãe riu antes de fungar no meu cangote, dando um beijo no local. – Amanhã terei uma fila de mulheres na minha porta…
Eu ri e revirei os olhos para aquele comentário.
– Para com isso, mãe, você sabe que ninguém me quer.
– Filho, você quer enganar logo a quem? Muitas mulheres te querem, mas você sempre tá com a cabeça no mundo da lua… parece que nenhuma é o suficiente para você. O que uma dessas moças precisa ter pra te agradar?
Meu silêncio suspeito me entregou. Minha mãe estreitou os olhos em fendas e me encarou desconfiada.
– O que foi? Já conheceu alguém?
– Hm? Não, mãe, não conheci – Menti sem me atrever a retribuir o olhar dela, empenhado demais em fechar os botões da minha camisa.
– Bom, qualquer pessoa que não a Melinda está ótimo para mim – Minha mãe disse e eu soltei uma risada nasalada. Ela nunca gostou muito da minha ex namorada e isso sempre seria um mistério para mim, visto que Melinda Cruz era uma menina educada e tratava minha família tão bem.
– Não se preocupe, mãe. Não tenho pretensão de voltar com ela, de qualquer forma – Respondi sincero e minha mãe não precisou estreitar os olhos porque sabia que era verdade. Aquela mulher me conhecia com a palma da mão.
– Sei que você não tem… mas quanto a ela, não tenho tanta certeza.
– Bom, isso já não é mais problema meu. Já deixei bem claro que não quero nada novo, não procuro, não alimento as esperanças e nem nada do tipo.
– Faz bem, ela não é mulher para você, mi niño – Minha mãe disse de forma afetuosa e eu sorri de lado.
– Você fala de mim, mas é a senhora que não acha ninguém o suficiente para mim, mãe. Sempre encontra algum defeito nas mulheres que me interesso – Respondi bagunçando meus cabelos em frente ao espelho, constatando que estava pronto para sair. Minha mãe riu brevemente, ignorando totalmente o que eu disse.
– O que eu posso fazer se você é bom demais, cariño? – Ela disse apertando minhas bochechas exatamente como eu fazia com Hector, e exatamente como ele, fiz também uma careta.
Terminei de abotoar minha camisa e me encarei no espelho com um sorriso em expectativa.
Aquela noite seria memorável.

Cheguei ao La Factoria às 21h, o bar estava parcialmente cheio, a maioria das pessoas ainda estava chegando. Cumprimentei os funcionários e alguns amigos e rolei meus olhos pelo local tentando encontrar algum sinal da minha irmã. Guadalupe não atendia o celular e não tinha chegado em casa até a hora que saí. Dificultava um pouco reconhecer alguém naquele mar de pessoas, mas eu reconheceria minha irmã em qualquer circunstância.
Estava esticando meu pescoço por entre as pessoas procurando por qualquer sinal de Guadalupe, quando senti alguém segurando meu cotovelo. Quando me virei, dei de cara com Melinda que sorria abertamente para mim.
– Oi, ! – Ela me cumprimentou animadamente e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, me abraçou, beijando minha bochecha. Melinda era assim, efusiva demais.
Comecei a namorar com Melinda quando completei quinze anos. Foi minha primeira namorada séria e para falar a verdade, também foi a única. Antes e depois dela, tive apenas breves casos que acabaram não durando mais do que semanas ou meses. Apesar de ser uma menina ótima, Melinda e eu não demos muito certo. Era muito bacana no começo, eu era um adolescente apaixonado. Entre idas e vindas, nosso namoro durou cinco anos. Depois disso, nosso relacionamento se resumia a amizade com ocasionais bebedeiras que terminavam em uma noite mal lembrada de sexo.
Tinha consciência que para mim, não passaria disso. Uma amizade colorida com alguns benefícios que só um ex amor podia proporcionar. Mas como sabia que Melinda ainda nutria sentimentos por mim, fiz questão de manter uma distância considerável, evitando qualquer tipo de remember entre nós. No início ela não aceitou muito bem, mas ultimamente tinha aprendido a usar o cinismo, porque fingia estar tudo bem até achar a primeira brecha para ficarmos.
– Oi, Mel!
– E então, ansioso para hoje? – Ela perguntou puxando papo.
– Por que eu estaria? – Perguntei levemente intrigado.
– Ué, você é o rei do baile hoje – Melinda respondeu com um risinho que na sua intenção foi parecer despojado, mas para o azar dela, eu a conhecia bem demais. Sabia que estava tentando, inutilmente, camuflar um quê de ciúmes e zombaria. Melinda nunca gostou muito da minha desenvoltura para rodas de dança, na opinião dela, chamava muita atenção de outras mulheres. Não posso dizer que ela não tinha razão, mas a insegurança era inútil quando estava comigo, visto que eu preferiria terminar do que trair. Traição não era comigo.
– Grandes coisas – Dei de ombros. – Ei, escuta, você viu minha irmã por aí?
– Na verdade vi sim, estava conversando com uma mulher mascarada no banheiro. – Melinda respondeu e eu fiquei um pouco mais relaxado por saber que estava tudo bem. Aquela tratante! Custava me avisar? Por outro lado, me dei conta da estranheza da sua fala.
– Uma mulher mascarada? – Perguntei confuso, tentando me certificar de que tinha escutado certo devido ao volume do som.
– Sim, uma mulher de vestido vermelho que está usando uma máscara que cobre metade do rosto. – Melinda respondeu prontamente – Está atraindo vários olhares, inclusive. – Ela concluiu sondando minha expressão e eu me cansei daquela conversa e do tom que ela usava para falar comigo, embora tivesse ficado curioso a respeito da tal mulher mascarada.
– Tá bom, cada louca com suas loucuras, vou procurar a Lupita, nos vemos depois – Eu me inclinei para beijar a testa dela e antes que pudesse responder, dei as costas para ir atrás da minha irmã.
Eu gostava muito de Melinda, era uma boa pessoa, uma menina educada, carinhosa e de bom coração. Mas eu não podia me obrigar a gostar dela do jeito que ela queria e também não podia alimentar suas expectativas se no dia seguinte acordaria arrependido e teria que lidar com um sentimento que despertei com um ato que para mim era casual. Parte da esperança que Melinda ainda sentia de reatarmos o relacionamento se dava pelo fato de nunca ter me visto com uma outra mulher. Eu sempre fiz questão de ser o mais reservado possível e respeitar seus sentimentos, mas já fazia muito tempo, ela precisava se acostumar.
Decidi que, só de pirraça, dançaria com a primeira mulher que aparecesse na minha frente.
Trombei de cara com Guadalupe.
! – Minha irmã me cumprimentou no momento que nossos corpos se chocaram na pista de dança. A casa já estava apinhada de gente, nem percebi encher tão rápido.
– Guadalupe, onde você se meteu? Eu achei que alguma coisa tivesse acontecido com você, por que não atendeu o telefone? – Perguntei um pouco autoritário, depois de abraçá-la. Estava aliviado por vê-la, mas não poderia dispensar o sermão de irmão mais velho. Lupita riu, mas diferente do normal, foi um riso nervoso. Eu conhecia minha irmã bem demais.
– O que foi? – Perguntei desconfiado.
– Hm? N-nada, vamos dançar? – Ela me puxou pelo braço olhando para alguma coisa atrás de mim e guiado pela atenção dela, olhei por cima dos meus ombros ao mesmo tempo que ela me puxava para pista de dança.
A mulher mascarada.
Há alguns metros de distância atrás de mim, uma mulher nos encarava por trás de uma máscara preta que lhe cobria metade do rosto. Apertei os olhos tentando enxergar melhor por entre as luzes fracas da pista de dança e a percebi baixar a cabeça. Usava um vestido vermelho que contrastava bem com a máscara preta, porém totalmente não apropriado para a ocasião. Reprimi uma risada nasalada me perguntando se ela tinha errado o caminho para uma festa a fantasia, mas tinha que admitir que tinha me chamado a atenção. Não só a minha, devo dizer, todas as pessoas pareciam estar encarando a mulher misteriosa com o rosto coberto.
– QUEM É ESSA? – Gritei no ouvido de Guadalupe devido o volume do som, me referindo a mulher que se encontrava atrás de mim antes de Lupita me puxar para uma dança.
– UMA AMIGA, VOCÊ NÃO CONHECE – Ela gritou igualmente e eu a puxei pelo braço para fazê-la rodopiar.
– QUAL É A DA MÁSCARA? – Perguntei o óbvio quando minha irmã se reaproximou e ela deu de ombros.
– ELA É TÍMIDA.
– Posso conhecer? – Perguntei em meio a nossa dança e Lupita negou com a cabeça.
– Ela não é pra você, , não se empolgue! – Minha irmã respondeu e eu soltei uma risada divertida. Sabia da implicância que Lupita tinha com relação as amigas e particularmente, eu evitava qualquer tipo de relacionamento com as amigas dela, mas todo o ar de mistério daquela mulher me chamou a atenção. Talvez fosse a deixa que eu estava precisando, um sinal divino que eu tanto pedi durante o dia.
Girei com Lupita em meus braços para conseguir ficar de frente para a amiga dela e lançar um olhar minucioso para a mulher que eu ainda não conhecia. Prometi que dançaria com a primeira mulher que visse. Minha irmã não contava, nós dançávamos afastados e sem toda a sensualidade que o ritmo pedia, então precisaria ser a amiga dela. Ela usava um vestido vermelho justo ao corpo até a altura do joelho. Eu não pude evitar um risinho com a escolha de roupa para um bar de reggaeton. Provavelmente ela não contava com a possibilidade de dançar, porque se contasse, saberia que aquela roupa não favoreceria seus movimentos.
Seus cabelos claros caiam em cascata pelos ombros e ela lançava olhares furtivos para Guadalupe vez ou outra. Percebi que estava um pouco desconfortável porque cruzava as mãos e mordia um pouco do lábio inferior. A máscara cobria até metade do rosto e as luzes fracas não me deixaram reconhecer de imediato. Demorei um pouco meu olhar sob seu corpo e senti um calor involuntário me invadir.
Eu a conhecia de algum lugar.
Eu normalmente não era metido a Don Juan e cortejei poucas mulheres à primeira vista, quando o fazia, estava sob efeito do álcool ou extasiado pelo clima de felicidade que só o reggaeton proporcionava. A última mulher que convidei para dançar sem conhecer foi a Sra. Carter, mas não queria pensar nela. Hoje estava empenhado a esquecer minha paixonite platônica e infantil.
Quando a música acabou, rodopiei Guadalupe e aproveitando seu afastamento, me direcionei até a amiga dela.
Assim que me aproximei, ela deu as costas, parecendo estar se escondendo de mim. Fiquei um pouco confuso e adiantei meus passos, ficando de frente para ela.
– Ei, você de máscara...Pode dançar comigo? – Perguntei segurando sua mão, erguendo-a para dar um beijo. Ela manteve-se de cabeça baixa e eu estava prestes a dizer outra coisa quando senti algo áspero tocar meus lábios quando beijei sua mão.
No dedo anelar da mão esquerda, um anel com um diamante muito brilhoso chamou minha atenção. Eu teria soltado imediatamente, pedido desculpas e me afastado sem demora se eu não tivesse a certeza de já ter visto esse mesmo anel antes.

– Bom, se quiser ver mais disso é só aparecer no La Factoría, se quiser posso até te ensinar a dançar assim. Quem sabe você não me ensina alguns passos de country também – Eu disse a fim de chamar sua atenção, apreciando o deslumbre dos seus olhos ao mirar os movimentos da dança. Ela arqueou as sobrancelhas, possivelmente surpresa com meu descaramento e eu pude perceber um rubor invadir suas bochechas. Adorável.
– Hm, acho que meu marido não iria gostar muito dessa ideia – Ela respondeu erguendo a mão esquerda para que eu pudesse ver um diamante encrustado na aliança que significava que ela era comprometida. Senti algo revirar de frustração dentro de mim, mas reprimi o sentimento com uma risada desapontada.
– Ahh, não acredito que mal te encontrei e já te perdi, Texas’ girl – Entoei em sofrimento, simulando um coração apunhalado. Ela deu uma risada tão gostosa que eu fui obrigado a rir junto. Ela era tão linda...

– Sra. Carter! – Eu gritei quando a compreensão ficou evidente diante dos meus olhos. Meu coração martelou furiosamente no meu peito e eu senti minha cabeça rodar. Não era possível!
– Shiu! Quieto, ! Fale baixo! – Ela reprimiu colocando as mãos na minha boca, pela primeira vez erguendo a cabeça de modo que seus olhos se encontrassem com os meus. Eu teria reconhecido aquele olhar de primeira. – Como você sabe que sou eu?
– O que a senhora está fazendo aqui? – Perguntei um pouco mais baixo, chocado demais para assimilar aquela situação. Eu sabia que o Sr. Carter estava viajando, ela teria vindo sozinha?
De repente, como se algo gelado estivesse descendo a força por minha garganta, a compreensão iluminou minha expressão ao ver que, por cima da cabeça da Sra. Carter, dançando há alguns metros de distância, Guadalupe nos lançava olhares furtivos e desesperados. Fuzilei minha irmã com o olhar e crispei meus lábios um pouco enraivado.
– Guadalupe te trouxe aqui? – Perguntei direcionando meu olhar para Sra. Carter e ela fez que sim com a cabeça – Minha irmã é maluca?
– Não culpe a Lupita, fui eu quem pedi para ela me trazer. Ou melhor, implorei – Sra. Carter me respondeu prontamente.
– Bom, com todo respeito, mas a senhora ficou maluca? Se o seu marido descobrir que está aqui ficará furioso.
Sra. Carter pareceu um pouco desconcertada e demorou alguns segundos até formular uma resposta para me dar.
– Bom, com todo respeito, mas isso não é bem da sua conta, não é? – Ela disse com azedume e eu franzi o cenho pela grosseria. Ok, provavelmente eu tinha merecido. Não era realmente da minha conta, mas, por outro lado, também não era da conta da minha irmã e eu não queria vê-la metida nos problemas conjugais dos Carter. Aquela amizade repentina com a Sra. Carter estava indo longe demais.
– Também não é da conta da minha irmã. – Respondi um pouco amuado e Sra. Carter suspirou fundo antes de me responder, a voz um pouco mais suave.
, não corte o meu barato, por favor. Meu marido está viajando, nós não conhecemos ninguém nessa cidade, além do mais, eu estou de máscara.
– E estar de máscara faz parte da sua diversão? Eu te reconheci com um olhar. Saiba que você está chamando mais atenção assim do que se viesse sem disfarce.
Pelo pouco tempo que tive ao lado do Sr. Carter sabia que ele era um homem ciumento e muito possessivo. Tinha certeza que a esposa estava lá contra sua vontade. Os acordos entre eles não me diziam respeito e eu não tinha intenção alguma de me meter nisso, mas ver Guadalupe no meio disso me irritava profundamente.
– Primeiro: eu não te devo satisfação sobre minha vida pessoal – Sra. Carter ergueu a mão e enumerou com os dedos conforme falava. – Segundo: Orson não é meu dono e eu não sou uma propriedade dele.
– Eu não disse que a senho… – Tentei dizer, mas ela me interrompeu.
– Terceiro: eu não estou fazendo nada de errado.
– Quarto: minha irmã não tem nada a ver com isso. Da última vez que a senhora quis dar um passeio na rua, seu marido culpou a Guadalupe. Não quero me meter no relacionamento de vocês, mas não coloque minha irmã no meio disso – Eu respondi imediatamente, meu coração martelando contra o peito. Não queria ser grosseiro com ela, não concordava com a forma que o Sr. Carter a tratava, mas não queria minha irmã envolvida nisso.
– Quinto: sua irmã é maior de idade e sabe se cuidar muito bem sozinha, mas obrigada pelo conselho. Se Orson se importasse comigo não teria ido viajar me deixando sozinha em casa. Eu quis conhecer o local, ninguém sabe quem eu sou, estou usando máscara e se você fizer o favor de não berrar meu sobrenome por aí, ninguém nunca saberá que estive aqui. – Sra. Carter me respondeu e eu me perdi por um momento no movimento que seus lábios pintados de vermelho faziam enquanto ela falava.
Eu estava extasiado por estar conversando com ela, estava inebriado por sua presença e embora chateado por ter minha irmã se metendo em assuntos que não eram da conta dela, eu não podia negar que sentia um pouco de ciúme da relação dela com a Sra. Carter. Queria ter a liberdade de chamá-la por também. Tomado por esse sentimento, não contive as baboseiras que saíram por minha boca em seguida.
– Sexto: já que está aqui, quer dançar comigo?
Sra. Carter pareceu ser pega de surpresa com minha audácia. Confesso que também me assustei. Mas não fui capaz de me conter, ela estava lá falando, a boca tão próxima da minha, tão convidativa, foi mais forte do que eu. Ela piscou os olhos algumas vezes por conta do choque e balbuciou algumas palavras desnorteada.
– E-eu, n-não sei dançar.
– Não tem problema, eu ensino. – E eu continuava me surpreendendo com minha ousadia.
, eu sou casada – Sra. Carter me lembrou o óbvio.
– Isso não te impediu de vir até aqui hoje. – Respondi prontamente. Não me admiraria se ela me desse um tapa na cara. Mas aqui eu não era seu jardineiro, então se ela queria tratar minha irmã como uma amiga e cúmplice e falar comigo de qualquer jeito, que também soubesse ouvir.
– Mas… Mas
– Sra. Carter, por que a senhora resolveu vir aqui hoje? – Perguntei sem rodeios. Ela franziu o cenho incomodada.
– Porque, pela primeira vez em muito tempo na minha vida, senti a necessidade de não ser apenas a Sra. Carter. Será que você pode parar de me chamar assim? Hoje eu sou apenas .
– Tudo bem, apenas . – Eu frisei um pouco azedo. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas naquele momento eu estava com raiva dela. Não queria acreditar que era só mais uma riquinha egoísta com problemas conjugais que usa os funcionários para acobertar suas façanhas, indo até um bairro pobre para não ser reconhecida. Ela estava lá pelos motivos errados, eu sabia que se recusaria a dançar comigo por isso.
– Você veio para um bar onde as pessoas bebem e dançam até o dia amanhecer. Se você acha que apenas colocar uma máscara te faz deixar de ser quem é, tudo bem, mas pelo menos tenha coragem de bancar o personagem. Já que é assim, vou repetir minha pergunta: quer dançar comigo? – Provoquei mesmo sabendo sua resposta.
– Quero – Ela respondeu prontamente e eu arregalei os olhos surpreso.
Por essa eu realmente não esperava.
– O que foi? Esperou que eu fosse negar? – Ela perguntou parecendo se divertir da minha confusão e eu não soube muito bem o que dizer.
– Eu só…
– O que? Achou que eu fosse me intimidar, pedir desculpas e voltar para casa? Se enganou. Eu vim aqui porque quis e do contrário do que você pensa, não usei sua irmã para me servir, apenas pedi por sua companhia – Ela respondeu cheia de atitude e eu senti meu peito arder em brasa. Eu realmente subestimei aquela mulher e suas razões.
Sem ouvir uma resposta minha, ela deu de ombros e se afastou um pouco.
– Será que você pode me dar licença então? Quero ver as pessoas dançarem e aproveitar minha noite como .
– Não, nós vamos dançar. – Eu disse tomando sua mão novamente, arrastando–a até a pista de dança. Não sabia exatamente o que pretendia com isso, mas fui tomado por uma coragem irracional que me permitia ser imprudente exatamente do jeito que eu sabia que não poderia ser. Guadalupe veio correndo em nossa direção dando-se conta do que estávamos prestes a fazer.
, você não pode essa é a…
– Tá tudo bem, Lupita, não estamos fazendo nada demais – assegurou e eu dei de ombros para minha irmã quando a música começou. Ela me censurou com o olhar e eu retribui.
Estávamos nos criticando pela aproximação indevida com Carter.

[N/a: Soltem a música!]

– Eu não sei dançar – avisou nervosamente assim que a puxei pela cintura. Naquele momento todo tom azedo tinha ido embora, sua voz suave estava de volta e a minha frente eu podia sentir uma mulher insegura por estar dançando comigo pela primeira vez um ritmo totalmente desconhecido.
– Para sua sorte, eu sei – Respondi divertidamente e ela riu um pouco segurando no meu ombro. – Você só precisa deixar seu corpo mole e seguir meus passos, ok?
– Ok

Como sucedió, no sé
(Como aconteceu, eu não sei)
Si en mis planes no tenía enamorarme
(Se em meus planos não tinha me apaixonar) Pero yo te vi tan sola
(Mas eu vi você tão sozinha)
Y como yo vine solo
(E como eu vim sozinho)
No lo pensé
(Eu não pensei)
Y decidí acercarme a ti
(E eu decidi me aproximar de você.)

Quando toquei na cintura de trazendo-a para perto de mim, nossos corpos se colaram de um jeito que normalmente não me despertaria nenhuma reação – eu estava acostumado a dançar assim. Mas naquela noite, senti todos os pelos do meu corpo se eriçarem. Abaixei um pouco minha cabeça e inspirei profundamente deixando o cheiro doce e floral dela inebriar todos os meus sentidos. Nos movimentamos primeiro de um lado para o outro, queria que ela se acostumasse com o ritmo. Dei um passo para frente, me posicionando entre as pernas dela e a senti enrijecer sob minha tentativa.
– Você precisa soltar o corpo, – Eu disse em seu ouvido e mesmo sob a luz fraca do local, pude ver a pele do seu pescoço se arrepiar. Meu estômago embrulhou de um jeito engraçado e eu torci para que o grave do som fosse alto o suficiente para que ela não sentisse o martelar forte do meu coração.

Cuando te vi, vi, vi
(Quanto te vi)
Supe que tú eras para mi, mi, mi
(Soube que você era para mim)
Y es que a mi me gustas solo tú, tú, tú
(E é que só me agrada você)
Tenemos cosas en común, baby
(Temos coisas em comum)

Deslizei minhas mãos lentamente por entre o corpo dela, da cintura até os quadris. Fiz questão de controlar cada um dos meus movimentos para não assustá-la e também para guia-la naquele ritmo que ela não tinha o menor domínio. Apertei os quadris dela com delicadeza e os forcei para cima e para baixo, alternando os movimentos de um lado a outro, simulando um rebolado. ainda estava um pouco insegura nos meus braços, senti ela apertar meu ombro e me afastei um pouco.
– Você precisa sentir a música. Sentir o movimento e deixar seu corpo livre para fazer o que quiser fazer. É instintivo, muito natural – Eu disse enquanto me movimentava exatamente do jeito que estava tentando fazer com ela. me observou atentamente e mordeu o lábio inferior. Eu me aproximei novamente, sorrindo tranquilamente.
– Feche os olhos – Pedi.
– O que? Mas assim eu não vou poder aprender – Ela respondeu um pouco desconcertada e eu continuei sorrindo encorajador. Não acreditava que aquilo realmente estava acontecendo.
– Confie em mim, feche os olhos – Pedi novamente e depois de lançar um olhar profundo de perfurar a alma, assim ela o fez.
– Agora sinta a música – Sussurrei em seu ouvido e apreciei maravilhado toda a pele exposta de se arrepiar. Toquei sua mão e a puxei para perto, posicionando-me entre suas pernas novamente. Aquele vestido não estava ajudando muito meus movimentos, mas eu era melhor do que isso. Segurei seus quadris com mais firmeza e direcionei nossos passos, guiando–a para baixo, descemos juntos e subimos novamente, balançando de um lado a outro, para frente e para trás e nesse momento senti enquanto ela se soltava nos meus braços.

Sali pa´la calle sin rumbo
(Saí para rua sem rumo)
No estaba en mis planes enamorarme de ti
(Não estava nos meus planos me apaixonar por você)
Pero no pasó ni un segundo
(Mas não passou de um segundo)
Entraste a mi mundo
(Entrou em meu mundo)
Y en tus ojos me perdí
(E em seus olhos me perdi)

Segurei sua mão com firmeza e girei seu corpo de modo que ela ficasse de costas para mim, com nossas mãos ainda entrelaçadas. Empurrei suas costas, ao mesmo tempo que girava a mão que ainda segurava a dela, fazendo com que ela rodopiasse para fora do meu abraço. Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, a trouxe de volta com a mão, colando nossos corpos novamente.
mantinha-se de olhos fechados, a boca estava entreaberta puxando o ar e seus lábios estavam tão convidativos que eu precisei me controlar para não encara-los demais. Mesmo que ela não pudesse ver, eu estava completamente absorto naquele momento. Nos movíamos conforme as batidas da música e apesar de leiga, não era tão dura nos seus passos, ela tinha desenvoltura e eu sabia que ainda estava se controlando pela timidez de estar fazendo aquilo pela primeira vez.
Esse era um dos motivos pelos quais eu amava dançar. Gostava de como meu corpo respondia ao som de uma música, gostava do que um ritmo era capaz de fazer, unindo pessoas e sentimentos, nos guiando por nossos instintos mais primitivos. Fiquei um pouco decepcionado quando a música acabou e precisei solta-la. Parecia estar acordando de um sonho bom demais para ser verdadeiro.
demorou a abrir os olhos e quando o fez, retirou parcialmente a máscara para limpar um pouco de suor do rosto. Ela me lançou um olhar tímido e mordeu o lábio inferior num risinho adorável. Eu sorri para ela em resposta e esperei até que dissesse algo.
– Foi… diferente – Ela disse.
– Parece que a Texas’ girl se rendeu ao poder do reggaeton – Eu usei a mesma frase que tinha dito no dia que nos conhecemos e o sorriso dela alargou de um jeito que fez minhas pernas tremerem.
– É muito… envolvente – Ela repetiu e nós rimos.
– Você dança muito bem, . – Ela elogiou e eu sorri de lado.
– Obrigado. Você também leva jeito para a coisa, só precisa de um pouco de prática.
sorriu daquele jeito adorável e eu soube que estava muito mais ferrado do que imaginava. Nos meus planos, aquela noite serviria não apenas para dançar até doer a sola dos pés, mas também para dar a sorte de encontrar alguma garota que me tiraria aquela jovem senhora dos pensamentos.
Sem sucesso.
Apesar de ser um pouco mais nova do que eu, já era uma mulher casada. Casada com um homem rico, poderoso e muito possessivo. Eu abominava traições e jamais poderia me engraçar para o lado dela. Fosse qual fosse a realidade do relacionamento que ela vivia, eu não podia me meter nisso. Não podia alimentar esperanças.
E, no entanto, contrariando minhas convicções, crenças e princípios, eu me encontrava aqui, totalmente encantado por uma mulher que eu não podia ter.
– Hoje eu sou apenas – Sra. Carter me disse como se fosse capaz de ler meus pensamentos. Eu precisei conter aquele embrulho no estômago ao lhe oferecer um sorriso de canto.
– Não, se é para entrar no personagem, que seja direito – Eu respondi e quase fechei os olhos extasiado quando ela riu. Todos os dentes a mostra, os lábios esticados… ay mi Dios!!! Por que tão linda?
– Ok, então que nome sugere?
– Madalena – Eu respondi de imediato e mesmo por trás da máscara, eu sabia que ela estava arqueando as sobrancelhas.
– Como Maria Madalena?
– Foi o primeiro nome que surgiu na minha cabeça – Falei sinceramente e ela ponderou por um momento antes de me responder com um sorriso que me arrepiou da cabeça aos pés.
– Gostei.
Nos encaramos por alguns segundos e por um momento eu esqueci que estava numa festa, esqueci que era o rei da noite, esqueci da minha ex namorada me encarando há alguns metros de distância, esqueci de Guadalupe me julgando com um olhar reprovador, esqueci que Carter era casada. Na verdade, esqueci que Carter existia. Tudo o que me importava naquele momento era Madalena, me olhando profundamente por trás daquela máscara. Tudo o que me importava era aproveitar aquele momento que seria totalmente estragado se eu pensasse com a razão e a coerência. Pela primeira vez, resolvi agir guiado por meus impulsos e desejos.
Naquele momento tudo o que me importava era dançar com Madalena mais uma vez.
– Entoces, la muchacha hermosa gustaría concederme esa danza?


Cuatro

Música del capítulo: Cuando Nadie Ve – Morat

Punto de vista:


Senti meus olhos arderem e pisquei com dificuldade ao ser invadida por um feixe de luz forte que iluminava o quarto por entre as frestas da cortina semiaberta. Um pouco zonza, me levantei para fechar a cortina e me arrastar de volta para a cama com a esperança de voltar para meu descanso. Estava tão exausta que sentia meus olhos pesados e minha cabeça dolorida, parecia ter sido privada de sono por tanto tempo que ser arrancada bruscamente da minha inconsciência me fez resmungar. Estava prestes a pegar no sono de novo quando, de relance, ao voltar para cama, vi a máscara em cima do criado mudo.
Meu coração deu uma fisgada e bateu descompassado.
A máscara que usei na noite anterior para ir ao La Factoria escondida.
A máscara que usei ao dançar com .
A máscara de Madalena.
Com a força de um trem desgovernado, minha mente foi bombardeada com as recordações da noite anterior e eu passei a mão pelo rosto tentando assimilar tudo de uma vez. Aquilo realmente tinha acontecido, eu realmente tinha ido ao famoso La Factoria, eu tinha dançado com . Me lembrei dos tons quentes da casa noturna, do calor que fazia por estar apinhado de gente, lembrei do suor que escorria por meu corpo enquanto eu aprendia alguns passos da dança que achava tão envolvente… lembrei do sorriso de e até mesmo dos murmúrios de Lupita que dizia que aquilo estava errado.
E pela primeira vez em muito tempo eu senti uma fisgada de excitação no meu coração. Há muito tempo eu não sentia essa pontada de animação por alguma coisa e eu queria me agarrar ao máximo possível aquela sensação.
Que eu fiquei encantada pelo reggaeton desde a primeira vez que vi aquela roda de dança, eu já sabia. Que eu fiquei instigada e surpresa com a circunstância do meu encontro com , eu também já sabia. Que eu iria gostar de desenvolver uma amizade com Guadalupe eu soube desde o primeiro momento que nos vimos. Mas o que eu realmente não sabia e não podia prever é que eu teria esse surto de coragem e atrevimento em ir escondida para o La Factoria usando uma máscara que nem lembrava mais que tinha.
A coisa toda foi surgindo na minha cabeça no momento que Guadalupe saiu do meu quarto na tarde que arrumamos as coisas no meu guarda roupa. Estávamos falando sobre relacionamentos quando ela me fez lembrar da pessoa que eu era… tão cheia de atitude e vontades. “Porque eu não consigo me visualizar dependendo de um homem para viver. E os homens tem essa visão de que a mulher é uma propriedade e eu não sou de ninguém. Prefiro ficar sozinha do que ser subordinada” e foi como se eu tivesse despertado. Vestir a carapuça dessa forma me fez pensar que talvez fosse uma boa ideia ser inconsequente uma vez na vida.
Não foi fácil convencer Guadalupe a ir comigo. Não foi fácil convencê-la de que era uma boa ideia… para todos os efeitos eu era a Sra. Orson Carter e deveria me portar como tal. Mas eu não precisei abrir tantos detalhes sórdidos da minha vida para que Lupita entendesse a minha necessidade de fazer algo por mim mesma. Para minha sorte, ela era uma pessoa que eu sabia que podia confiar. Além do mais, prometi que ninguém me reconheceria porque ninguém sabia quem eu era em San Juan, pelo menos.
Obviamente eu não contava com me chamando para dançar.
Eu sabia que chamaria atenção por conta da máscara e parte da graça estava em todo o mistério da situação… Isso despertou uma fisgada em mim. Mas não poderia imaginar que a primeira pessoa que iria dançar seria justamente ele. As malditas borboletas farfalharam as asas no meu estômago e meu coração palpitou quando me lembrei do corpo dele tão próximo do meu, do cheiro dele…
Me aninhei entre os lençóis abraçando o travesseiro ao meu lado. O travesseiro do meu marido. Orson estava viajando a negócios e só voltaria no dia seguinte pela noite e eu não poderia dizer que estava sentindo saudade. Pelo menos, não dele. De um jeito meio bobo, inclinei minha cabeça para baixo e inspirei a fim de encontrar possíveis vestígios do perfume de no meu corpo. E encontrei. Ele parecia impregnado em mim mesmo depois do banho.
Sorri bobamente e mordi meu lábio inferior mesmo sabendo que estava errada. Mesmo sabendo que não deveria me sentir assim e principalmente, mesmo sabendo que não deveria alimentar esse sentimento. Mas era involuntário.
- Meu Deus, … No que você está se metendo? - Suspirei alto falando comigo mesma, me virando de barriga para cima na cama.

- Sra. Carter… ! Madalena….ok, Madalena, que seja! é seu empregado, isso está errado! - Guadalupe me disse aos cochichos na fila do banheiro.
- Lupita, se for assim você também é minha empregada e isso não te impediu de vir comigo aqui - Respondi num sorriso escancarado. A tequila estava começando a fazer efeito.
- Você sabe que isso é diferente.
- Por que é diferente? - Perguntei interessada, sentindo meu corpo inteiro queimar por dentro.
- Porque é um homem. Porque o jeito como ele te olha… Eu não sei, isso não é certo! A senh…. Argh você é casada!
- Srta. Madalena não é casada! - Eu respondi levemente bêbada estendendo minha mão e tirando a aliança da mão esquerda, guardando-a na bolsa. Lupita revirou os olhos e eu ri.
- De onde você tirou esse apelido ridículo? - Ela perguntou impaciente.
- que me deu - Respondi fazendo um biquinho - Cadê ele? Eu quero dançar maisss!
- Sra. Carter… MADALENA! Se controle, por favor, eu vou ter que te levar embora!
- Não! Não! Eu não quero ir - Eu gritei e assim que entramos no banheiro tirei minha máscara e fiz uma cara de choro - Eu não quero voltar para aquela casa imensa e vazia. Não quero voltar a ser Sra. Carter, por favor, Lupita!
Lupita me olhou penalizada por um momento antes de suspirar e se aproximar para me envolver num abraço.
- Me d-desculpa. Eu não deveria te meter nisso, disse que você não deve se envolver e é verdade, mas é que eu...- E aí comecei a chorar pateticamente - Eu acho que confundi as coisas, vocês não querem amigos, querem patrões e não podem perder tempo com os dramas de uma mulher carente.
- Ei, ei, pode parar com isso - Lupita me interrompeu e eu funguei algumas vezes quando nos afastamos. Ela passou os dedos pelo meu rosto enxugando minhas lágrimas - Você é uma pessoa adorável, Sra. Carter… . Mas nós vivemos em mundos diferentes.
- Por que? - Chorei - Por que eu sou casada com um homem rico? Por que moro naquela casa imensa? Por que sou sua chefe?
- Bom… sim.
- Mas eu não quero isso! Isso é muito ruim! Eu só queria que me tratassem como uma pessoa normal! - Funguei cobrindo meu rosto com as mãos. As lágrimas simplesmente estavam fora do meu controle.
- Eu posso ser sua amiga, - Lupita disse baixinho alisando minhas costas.
- Poder você pode! Mas não quero que faça isso por pena de mim!
- Eu não… Não é pena! Mas amigos dizem a verdade uns para os outros, dão conselhos, dizem coisas duras as vezes… Como poderei ser sua amiga se trabalho para você?
- Eu já entendi seu ponto, Lupita. Pode deixar, você e deixaram bem claro que aqui não é o meu lugar e eu não posso ser insistente e chata forçando minha presença para quem não quer - Falei rapidamente me embolando entre fungadas e mais lágrimas. Tenho certeza que misturei o inglês com espanhol algumas vezes.
- Nada do que você tá falando faz sentido! Nós gostamos de você. Esse é o problema!
- Por que? Por que isso seria problema?
- Bom, já que você é minha amiga vou dizer com sinceridade, ok? - Lupita sondou e eu balancei a cabeça afirmativamente, enxugando o rosto.
- Porque eu sinto que é perigoso. Porque eu conheço meu irmão, eu vi a forma como ele te olha e… vi a forma como olha para ele também. - Lupita disse receosa e eu senti todos os meus ossos criarem a mesma consistência de gelatina. Meu coração palpitou e minhas pernas tremeram levemente.
- Lupita, eu sou casada. - Respondi imediatamente na defensiva. Lupita arqueou as sobrancelhas e levantou os braços.
- Viu? É exatamente isso que eu quero dizer!
- Eu já entendi seu ponto, ok? Mas eu jamais faria algo para prejudicar seu irmão. Independentemente do que eu sinto.
- Do que você sente? - Lupita perguntou com os olhos arregalados e eu mordi o lábio inferior. Maldita tequila!
- Eu acho que você tem razão, eu estou bêbada. Preciso ir para casa.
- Ei, ei, o que houve com a sinceridade entre amigas? - Lupita me perguntou antes que eu pudesse sair do banheiro.
Suspirei fundo e baixei o olhar para a máscara que segurava em minhas mãos frouxas.
- Sabe o dia que você me levou para a feirinha? Meu primeiro dia aqui em San Juan? - Comecei falando pausadamente, Lupita assentiu com a cabeça, me olhando com atenção - Então, eu conheci o ali.
- Que? - Ela arqueou as sobrancelhas confusa.
- Sim, eu parei para olhar alguma coisa, as… acuarellas e acabamos conversando. Coisa boba, mas aí quando cheguei em casa ele tava lá. - Expliquei por alto e Lupita continuou com cenho franzido.
- Não se preocupe, Lupita. Eu não quero causar briga entre vocês. Acho melhor eu ir embora, essa aproximação com a Sra. Carter visivelmente deixa vocês desconfortáveis.
- Não. - Lupita disse de repente, recuperando-se da expressão confusa.
- Que? - Dessa vez a confusa era eu.
- Você não tá causando nada. Eu só me preocupo… Só isso.
- Lupita… Eu sou uma mulher casada - Falei num tom de pesar que combinava perfeitamente com o meu sentimento em relação ao meu casamento - Mas existem milhares de coisas por trás do meu casamento que você não entende. Eu não quero que vocês pensem que eu sou uma infiel sem índole e… não sei o nome para isso em espanhol!
- Eu não acho! Você não precisa se explicar para mim.
- Não! Eu preciso, eu preciso! - Chorei mais um pouco. O soluço preso na garganta - Eu não quero que você pense que eu sou essa pessoa.
- Eu não penso nada! - Lupita se apressou a me explicar, mas eu não deixei que ela me interrompesse.
- Eu não sou feliz, não sou! E há muito tempo não sei o que é sentir felicidade. Sentir qualquer coisa. Parece que uma parte de mim morreu quando meu pai morreu junto. E eu não… Eu não… Eu pareço patética. Essa máscara, tudo isso… Me desculpe ter te feito me trazer até aqui, vou pedir desculpas ao também, vocês devem me achar uma patética.
- Posso te dizer o que eu realmente acho? E que eu não disse naquele dia na sua casa? - Lupita me perguntou e eu assenti positivamente com a cabeça. Bêbada demais para me importar com qualquer coisa.
- Acho que a senhora é uma mulher incrível casada com um homem que não te merece. E aproveitando que estamos sendo sinceras uma com a outra, saiba que eu só não pedi minha demissão no mesmo dia que ele me tratou tão mal por sua causa.
- Por minha causa? - Perguntei surpresa.
- Sim. Porque você me parecia uma mulher solitária que precisava de algum tipo de apoio naquela casa. - Ela confessou e eu emudeci, chocada demais para dizer qualquer coisa - E isso não é pena. É apenas empatia. E eu senti isso por você desde o começo. Não julgo seus motivos para se manter casada com ele e jamais julgaria uma atitude sua.
- Então por que….
- Porque eu acho que entre você e é algo maior do que isso. - Ela respondeu num suspiro e eu senti meu corpo todo estremecer como se minhas terminações nervosas fossem fios desencapados.
- Lupita, eu jamais faria algo para prejudicar seu irmão - Eu disse, desviando do assunto.
- Eu sei, eu acredito em você - Lupita disse e me deu um sorriso amigável quando funguei mais uma vez, mirando a máscara. - E não precisa se sentir patética, se usar essa máscara e dançar despretensiosamente é o que te faz feliz, então que bom. Eu não vou te julgar.
- Obrigada, Lupita.

Suspirei ruidosamente e rolei na cama lembrando da conversa com Guadalupe na noite anterior. Eu não sabia o que pensar e nem como supostamente deveria me sentir. Minha consciência dizia que eu não estava usando a abordagem correta, mas meu coração palpitante me dizia que eu não me sentia tão viva assim há tanto tempo que eu resolvi silenciar todos os alertas do bom senso e da moral.
Se eu fosse racional, para início de conversa, não teria dado tanta abertura para Guadalupe emitir opiniões concretas sobre minha vida. Teria separado totalmente a relação empregatícia de uma amizade com ela e essa foi a primeira coisa que eu descartei, não que eu pudesse evitar, algumas pessoas simplesmente aparecem em nossas vidas e despertam uma forte e inexplicável ligação. Gostava de pensar que era isso o que nossa improvável amizade representava. Era muito mais do que minha carência de uma jovem senhora casada e infeliz. Guadalupe era alguém com quem eu me sentia confortável em estar por perto. Foi uma ligação imediata.
E, assim como tinha sido com ela, tinha sido com também, embora quanto a ele eu não soubesse exatamente definir como me sentia. Se fosse racional, nunca teria colocado aquela máscara no rosto e nem teria ido ao La Factoría. Se fosse racional, teria evitado o contato com e não teria, em hipótese alguma, dançado com ele. Mas a ideia de me sentir viva novamente foi muito mais forte do que pensar no que era certo ou errado.
Inspirei profundamente mais uma vez, sentindo uma pontada incômoda pressionar minhas têmporas. Eu não sabia quanto tempo fazia que bebia tanto a ponto de sentir ressaca. Tentei encontrar resquícios de arrependimento dentro de mim, mas não consegui. Eu não conseguia me sentir culpada e isso talvez fosse um problema… Um problema que eu lidaria depois.
Agora, no entanto, eu tinha outras preocupações.
Primeiro um banho relaxante, depois um analgésico e em seguida um bom café da manhã.

Horas depois, enquanto lidava com o tédio profundo daquela casa gigantesca tão vazia e silenciosa, resolvi sair para fazer um passeio de reconhecimento das redondezas. Comecei despretensiosamente dentro do condomínio, observando as mansões majestosas e as crianças que brincavam no parquinho guiadas por suas babás enquanto algumas jovens senhoras observavam ao longe bebericando margueritas antes do meio dia.
Me perguntei se era essa a vida que Orson tinha planejado para mim. Uma casa imensa preenchida por filhos a serem cuidados por babás enquanto eu descontava meu tédio fofocando com as vizinhas dondocas sobre a vida alheia. Um desconforto percorreu minha espinha quando passei por elas e notei seus olhares julgadores me esquadrinharem da cabeça aos pés. Forcei um sorriso fechado e apressei o passo antes que pudessem me convidar a integrar aquele papo que eu certamente não aprovaria.
Caminhando pelo bairro, observei muitas pessoas andando apressadas e um zunido de conversas abafadas por um som alto que entoava a melodia de um reggaeton qualquer. Sem que pudesse notar, fui guiada em direção ao som que aumentava conforme eu me aproximava de uma rua apinhada de pessoas que se distribuíam em diversas barracas de toldo branco. Meu estômago deu uma cambalhota gostosa quando me recordei do primeiro passeio que fiz com Guadalupe pela feirinha.

- Agora preciso ir, é meu primeiro dia em um novo trabalho. Todos os sábados estarei aqui na feira exibindo minha arte… Caso queira trazer a carteira da próxima vez .

De repente, apesar do calor, senti que estava hiperventilando.
Tentando controlar as marteladas dolorosas do meu coração, andei por entre as barraquinhas procurando aquilo que queria, encontrando a alguns metros de distância, sorrindo para uma senhora de idade e repassando troco com um sorriso encantador que lhe cobria metade do rosto. Parecendo atraído por uma força magnética como se já sentisse meu olhar em sua direção, ergueu a cabeça e me encarou diretamente, seu sorriso vacilando de surpresa.
- Bom dia, - Eu cumprimentei quando me aproximei da barraca. Ele piscou algumas vezes, claramente desconcertado e antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, abriu um sorriso tão brilhoso que ofuscou todo o dia ensolarado de San Juan.
- Bom dia…- Ele tartamudeou buscando as palavras adequadas para referir-se a mim e nós dois rimos juntos. Um riso tenso, nervoso, mas ainda assim um riso.
- Sra. Carter, então - completou numa voz mansa e eu senti um arrepio percorrer minha espinha.
- Trouxe a carteira dessa vez - Eu disse, abrindo a bolsa e ele me olhou com cenho franzido de confusão. - Na semana passada fiquei devendo comprar suas artes, lembra? Prometi vir de novo esse sábado.
O rosto de iluminou compreensão e ele soltou um riso baixo.
- Não precisa…
- Que isso, eu faço questão. São coisas lindas, de qualquer modo. - Eu disse despreocupada olhando sem realmente prestar atenção nas aquarelas e nas esculturas. Eram todas lindas, mas ser observada tão intensamente pelo artista não contribuía com minha concentração.
Eu podia sentir o olhar de fulminando em minha direção e fingindo não perceber, me dispus a observar com maior afinco as pinturas a minha frente. E logo uma delas me chamou atenção, causando maiores arrepios do que o olhar atento de sob mim.
Em uma tela tinturada com o fundo vermelho, podia ver um desenho preto que, em seus traços suaves, completava a forma de uma máscara. Com o coração acelerado, ergui o olhar para encarar , que já me observava atentamente com uma expressão difícil de decifrar. Mordia os lábios e parecia em conflito entre sorrir e emitir pânico.
- Isso…?
- Uma inspiração não requisitada de última hora. - Ele respondeu imediatamente, como se pedisse desculpas.
- A tinta ainda está fresca… - Comentei baixinho, mais para mim do que para ele. acenou positivamente, não desviando seu olhar do meu um segundo sequer.
- Terminei agora há pouco - Ele explicou me mostrando resquícios de tinta em seus dedos.
- Eu quero - Respondi num suspiro. ergueu as sobrancelhas e me olhou curioso.
- Essa… Essa não está à venda.
Nós nos olhamos por alguns segundos antes de cedermos um sorriso cúmplice.
- Eu não quero saber, essa é minha.
- Tudo bem, que seja um presente então. - disse, por fim.
- Não, eu vou pagar. Faço questão. - Contrapus, já abrindo minha bolsa. Foi quando senti um toque quente e suave na minha mão que fez meu coração acelerar.
- É um presente, Sra. Carter - disse naquela voz melodiosa e por um momento esqueci de protestar. Só quando desviei meu olhar do dele (e sua mão rapidamente se afastou da minha) eu consegui formular meu pensamento de maneira adequada.
- Você já me deu presentes demais, .
- Eu só te dei um origami, isso não é um presente… - ergueu as sobrancelhas e protestou em ar de riso. Eu senti que estava ruborizando. Se ele ao menos soubesse ao que eu estava me referindo…
- Não foi só isso - Murmurei e foi a vez de enrubescer - Eu vou pagar, não adianta.
- Eu não quero seu dinheiro, Sra. Carter - disse e apesar de sua voz ser suave, eu sabia que era em tom decisivo. Suspirei e revirei os olhos.
- Tudo bem, não vou levar. - Cedi, por fim. riu da minha contrariedade e deu de ombros. Impressionante como nada no mundo parecia capaz de abalar o bom humor dele.
- Ótimo, eu não queria dar mesmo. É minha e só minha. É só o que eu posso ter. - respondeu e, por algum motivo, senti todos os pelos do meu corpo se eriçarem pela forma como frisava as palavras. Aquela frase tinha uma conotação mais profunda do que aparentava. Quando percebeu que eu tinha entendido corretamente o significado de sua sentença, finalmente desviou seu olhar do meu, parecendo levemente frustrado.
Eu não sabia o que dizer. Aquela tensão estava no ar novamente e, por dentro, meu coração se comportava tão mal que eu tinha medo que fosse possível ouvir suas batidas vertiginosas por toda a rua.
- … - Comecei sentindo a secura em minha garganta. Fui obrigada a pigarrear e, lentamente, observei o olhar dele voltar-se para mim novamente, completamente a contragosto - Sobre ontem à noite…
- Acho que não é prudente falar sobre isso - Ele me cortou gentilmente, mas a expressão séria ainda estava em suas feições. Suspirei.
- Me desculpe.
franziu o cenho parecendo verdadeiramente intrigado. Mordi o lábio inferior e me obriguei a continuar.
- Eu não queria colocar nem você nem Guadalupe numa posição desconfortável. Queria me divertir e, quanto a isso, não vou me justificar. Mas, acho que exagerei um pouco na bebida e nos coloquei em uma situação…
- Constrangedora - Ele completou e eu assenti, envergonhada. Aquilo estava sendo humilhante.
- Sim.
- Não precisa se desculpar por isso. E nem por nada, para ser sincero. Mas eu entendo que esteja constrangida por ter se aproximado tanto de seus empregados. - disse polido, mas novamente frisando as palavras de uma maneira que me incomodou. Foi minha vez de franzir o cenho.
- Não é por isso! E eu realmente detesto quando vocês colocam as coisas sob essa perspectiva.
- Mas é a verdade, não é? Eu e Guadalupe somos isso. Seus empregados. É estranho precisar aparecer na sua casa na segunda-feira para trabalhar e na sexta-feira estar com a senhora bebendo e dançando num bar. Principalmente quando conhecemos a pessoa que é seu marido.
Eu estava odiando cada fragmento daquela conversa. Tudo aquilo parecia tão errado. Tão errado quanto dançar com ele deveria ter sido, mas não foi. Eu senti como se tudo fosse tão certo que a culpa simplesmente não veio. E, no entanto, aquela conversa que pareceria para qualquer outra pessoa tão racional e plausível, para mim, parecia incômoda, errada e absurda. Mas ele tinha razão. Ele era mesmo meu empregado, era mesmo uma situação extremamente desconfortável e eu estava numa posição de poder, mesmo que não a quisesse.
- Me desculpe - Me resumi a dizer mais uma vez, sentindo toda a euforia e alegria da noite anterior se dissiparem dentro de mim quando finalmente internalizei aquilo que estava tentando inutilmente negar. e eu não podíamos ser próximos. Guadalupe e eu não podíamos ser amigas. Eles eram inatingíveis para mim e a proximidade deles comigo seria prejudicial para eles. De formas que eu talvez não fosse capaz de compreender. De repente, odiei todas as convenções sociais. Odiei tê-los conhecido para início de conversa, porque agora me sentia como se estivesse os perdendo… E eu nunca os tive.
- Escute… - Falei me inclinando sobre a bancada com o pretexto de analisar melhor as aquarelas expostas sobre a mesa, sem realmente olhar para elas, baixando o tom de voz de modo que apenas pudesse me ouvir - Sobre ontem, espero que não se torne uma situação constrangedora para nós.
piscou algumas vezes antes de desviar o olhar e engolir em seco. Arrisquei um olhar para baixo e percebi que meu decote havia ficado pouco mais a mostra quando me inclinei. Logo me endireitei e senti meu rosto ruborizando tanto quanto o dele.
- Não vai se tornar. Não da minha parte - Ele respondeu num murmúrio e eu arqueei as sobrancelhas desconfiadas. Ele me lançou um olhar furtivo ao perceber meu silêncio carregado de incredulidade. - É sério.
Suspirei fundo.
- , eu sei que você e Guadalupe trabalham para mim e eu não quero causar desconforto para vocês, mas também não quero ser julgada por fazer o que quiser.
- Nós não julgamos! - Ele se apressou a dizer. E quando percebeu que eu ainda permanecia com a expressão descrente, continuou num tom menos pressuroso - É sério, não julgamos. Não é esse o problema.
- Então existe um problema? Qual é?
pareceu desconfortável, mas algo em meu semblante deve ter denunciado que eu não sossegaria até ter uma resposta. Ele conteve um sorriso e suspirou.
- Não sei se o Sr. Carter iria aprovar uma aproximação nossa.
Senti meu sangue ferver e o calor subiu por meu pescoço atingindo meu rosto. falou antes que eu sequer pudesse abrir a boca.
- Nossa, me refiro a Guadalupe e eu. A senhora pode não se importar, mas nós nos importamos - explicou calmamente - Esse emprego significa muito para nós e para nossa família. Sr. Carter pode nos despedir se achar que estamos nos aproximando demais da senhora… E eu não estou dizendo que ele está certo! Só estou…
- Temendo pelo emprego de vocês, eu sei - Completei amargurada. me olhou com aqueles olhos desolados como quem pedia desculpas.
Continuei contemplando as aquarelas em silêncio, contrariada por dentro. Não era justo.
- Tudo bem - Disse, por fim, mordendo minha própria língua para evitar que eu dissesse tudo o que queria dizer. Duvidava que tivesse espanhol o suficiente para proferir o que eu estava com vontade e a contrariedade estava crescendo tão forte dentro de mim que eu preferi respirar fundo e engolir. Despejaria tudo no meu travesseiro antes de dormir, mas não ali, não na frente dele.
ainda me encarava com um olhar penoso, mas eu tratei de me recompor. Forcei um sorriso fechado e me empertiguei, erguendo a cabeça.
- É um lindo trabalho o seu, , deveria se sentir orgulhoso. Parabéns. - Abri minha carteira e antes que ele tivesse tempo para protestar, deixei uma nota de cinquenta dólares na bancada - Quanto a isso, não aceito não como resposta. Já aceitei “não” demais em minha vida.
Pude ver que ele abria e fechava a boca, mas não dei atenção. Virei as costas e em passos pressurosos me distanciei antes que ele pudesse ver as lágrimas que se formavam em meus olhos escorrerem.
Me afastei tão depressa que só depois de um tempo percebi que estava correndo. Me permiti recostar num poste para recobrar o fôlego e deixar o soluço que eu estava prendendo finalmente ecoar livremente junto com o choro que inundou meus olhos em questão de segundos. Por Deus, como eu estava sendo patética! Como eu fui capaz de me afeiçoar de forma tão deprimente por duas pessoas completamente desconhecidas?
Eu era mesmo a perfeita imagem de uma pessoa carente e solitária. Me metendo sem razão na vida de duas pessoas que claramente não precisavam de mim da forma como eu precisava delas. Eu não podia usar e Guadalupe para me sentir menos infeliz com minha vida. Eles eram meus empregados, eram pessoas que precisavam de mim por conta do emprego, do dinheiro que era destinado para sobrevivência deles e de toda a família. Eu não podia comprá-los, não podia agir dessa forma. Por que diabos eles iriam querer aproximação com uma mulher que julgavam como mimada, fútil e interesseira?
Porque eu posso ser tudo, menos ingênua. Sei que é exatamente isso o que acham de mim quando percebem que sou casada com Orson. O que uma mulher tão jovem quanto eu, estaria fazendo casada com um homem com quase o dobro da idade? Era difícil para mim assimilar que aquela era a minha realidade. Sim, eu havia casado com ele por dinheiro. E isso fazia de mim a pessoa mais suja, inescrupulosa e deplorável de toda a vida. Mas eu o fiz por desespero, por desespero para pagar o preço que fosse para curar meu pai do infortúnio que era o câncer. E quando, ainda assim, tudo deu errado… Eu não tinha forças para sair.
Porque quanto mais infeliz eu me sentia com a perda do meu pai, mais apegada eu me tornava a Orson e ao que ele representava para mim. Eu realmente cogitei uma esperança no nosso relacionamento, mas no momento em que pisei em San Juan e me esbarrei com , pareci ter esquecido de tudo isso. Que coisa mais irritante! Por que ele tinha que ser tão caloroso? Por que ele tinha que ser tão jovem, tão alegre, tão inocente, tão cheio de vida?
Era isso o que era. Cheio de vida. Cheio de energia. Energia que eu já não tinha e nem lembrava de algum dia na minha vida ter tido. Ele era tão alegre e ao mesmo tempo que parecia uma pessoa tão suave, também emanava aquela intensidade através da linguagem corporal. A forma como ele dançava era envolvente, sensual e hipnotizante. A forma como seu olhar percorria meu corpo era uma experiência mais excitante do que qualquer coisa que eu já tivesse vivenciado. Ele era intenso e proibido. Completamente proibido.
E Guadalupe era luz, alegria, empatia e compreensão. Ela havia me acolhido desde o primeiro olhar. Ela estava por perto para me ajudar sem nem me conhecer, havia estado por perto para me divertir quando me viu chorar e para me oferecer uma saída para meus infortúnios. Por que eles eram tão inatingíveis para mim? Eu era apenas uma garota de vinte e um anos querendo socializar com pessoas da minha idade. Queria apenas ser imprudente, irracional e jovem… Não uma vida de dona de casa alcóolatra que desconta os sumiços do marido em fofocas ocasionais com as vizinhas. Eu não queria aquilo para mim.
E eu não sabia como sair disso.
Enxuguei as lágrimas, limpei meu rosto e suspirei fundo tentando me sentir menos patética. Olhei de uma ponta a outra pensando no que poderia fazer a seguir, já que voltar para casa estava fora de cogitação. Não queria voltar para o tédio daquela casa gigantesca e solitária. Se eu ficaria sozinha, que pelo menos fosse ao ar livre. Logo a frente pude localizar uma placa que chamou minha atenção:

Condado Beach - 100 m


Eu sabia que morava num bairro nas redondezas de uma praia famosa de Porto Rico, mas não tivera a oportunidade de visitar antes, esperando a boa vontade de Orson me levar para fazer esse passeio. Mas agora me parecia uma programação interessante. Nascida e criada em Dallas, eu não tinha muita experiência com mar e areia de praia. Tinha ido poucas vezes em algumas viagens com Orson, podia contar nos dedos, mas sabia que a sensação de paz e calmaria de frente para o mar era indescritível.
Retirei a sandália assim que cheguei na praia e deixei que meus pés descalços entrassem em contato com a areia, me acalmando instantaneamente ao inspirar a brisa salgada. As águas caribenhas eram de uma entonação ainda mais bonita do que pelas fotos do Google. Me permiti esboçar um sorriso e comecei minha caminhada solitária pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Olhei as crianças brincando de construir castelinhos, os adolescentes brincarem de espichar água uns nos outros e os casais tirarem fotos e trocarem carícias. Senti uma pontada no coração e desejei aquela alegria por um momento.
Desejei não ser Carter.
Conforme andava, me distanciava do ponto movimentado da praia, passando a desbravar locais mais desertos e igualmente bonitos. Caminhei até uma pedra particularmente grande e me sentei nela com cuidado, observando as ondas se quebrarem suavemente. Fiquei assim por um tempo, em silêncio, apreciando minha solidão até que uma voz conhecida me chamou atenção e fez minha pele formigar.
- Sra. Carter… - Me virei de forma brusca para trás, sentindo a pedra me arranhar, observando a figura ofegante de entrar em meu campo de visão enquanto ele corria em minha direção.
- O qu… O que você tá fazendo aqui? - Perguntei surpresa.
- Eu costumo frequentar essa praia nos dias de feira - respondeu recobrando o fôlego quando se aproximou subindo na pedra - Posso me juntar a senhora?
- Será que pode me chamar de “você?” Eu aposto que sou mais nova do que você - Respondi um pouco rabugenta. Ele sorriu e assentiu, sentando-se do meu lado.
- Eu achei que não fôssemos ser amigos. E que a situação seria constrangedora para ambos - Eu disse depois de alguns segundos em silêncio, incapaz de me conter. pareceu indeciso entre rir e manter-se sério.
- Esse lado da praia é um pouco perigoso, então achei melhor te fazer companhia. - Ele respondeu simplesmente e eu franzi o cenho.
- Sei.
- Me desculpe, não quis ser indelicado com você - Ele disse depois de um tempo e eu amaldiçoei o meu coração por ter começado a se comportar daquele jeito frenético novamente. Eu só queria conseguir ficar impassível ao lado dele.
- Você não foi indelicado, só foi verdadeiro. - Respondi dando de ombros, tentando expressar uma indiferença que eu não sentia.
Ficamos em silêncio por uns minutos, ouvindo apenas o ruído de nossas respirações e das ondas quebrando na rocha. Por dentro, no entanto, minha cabeça fervilhava de pensamentos. Eu queria dizer tanta coisa, queria expressar todo o turbilhão de sentimentos que estava dentro de mim. Queria dizer que não era certo estar fazendo aquilo! Se era mesmo a coisa mais prudente, por que então parecia tão errada?
- Não é justo! - Verbalizei sem me conter e ergueu o olhar na minha direção, intrigado.
- O que não é justo?
- Vocês foram as primeiras pessoas que eu conheci nesse lugar. E as primeiras que eu quis ter por perto. Eu não gosto dos meus vizinhos, nem dos colegas de trabalho de Orson e nem da vida que ele leva. E eu sei que isso não é problema de vocês e que provavelmente eu devo parecer carente e insistente, mas…
- A senhora não parece isso. - Ele me interrompeu e por um breve momento que nossos olhares se cruzaram eu senti meu coração martelar. Desviei os olhos para encarar o mar novamente.
- … mas, não é justo… - Tartamudeei e me encarou de soslaio, apreensivo.
- Desculpe, eu não quis ser invasivo. - Ele disse e sua voz fervia arrependimento. Eu nem me atreveria a olhá-lo nos olhos - A senhora tem direito de fazer o que quiser, é só que…
- Eu comecei a trabalhar muito cedo. Pode não parecer, mas eu sei o que é depender do trabalho para garantir o sustento - Eu comecei a desabafar, sem realmente pensar no que estava fazendo. silenciou de imediato e me escutou com atenção. Suspirei fundo e continuei - Meu pai e eu nunca fomos ricos, sempre nos mantivemos com bastante trabalho. Ele era mecânico, entendia tudo de carros, sabe? Me ensinou tudo sobre Mustangues, Cadillacs e Fuscas.
Sorri com o pensamento e percebi exibir um sorriso mínimo também. Eu sentia tanta saudade do meu pai, tanta saudade de ouvi-lo falando sobre motores, cavalos e coisas que eu nunca entendia, mas adorava ver o brilho dos olhos dele porque sabia que era algo que ele amava. E acho que não existe nada nesse mundo mais bonito do que ver uma pessoa que você ama falar animadamente daquilo que ela ama.
- Como minha mãe morreu no meu parto e nós não tínhamos parentes próximos, fomos muito unidos. Cresci com o salário de um mecânico e tinha muito orgulho dele. Logo comecei a ajudar da maneira que podia… Vendia uns doces na escola. Sabia que sou muito boa fazendo doces? - Perguntei retoricamente e olhei de esguelha para que me encarava com olhos brilhantes. Ele continuava com aquele sorriso singelo e balançou a cabeça negativamente.
- Pois é, eu fazia doces. E logo fui ficando adolescente e as pessoas começaram a reparar na minha aparência…- Me permiti uma risada amarga de puro escárnio. - Me encantaram com a perspectiva de ser modelo e eu era tão nova… Tão deslumbrada com a vida, claro que aceitei. Sabia que com os cachês a situação em casa melhoraria muito. E logo comecei a fazer catálogo de roupas, joias, aparecer em revistas… E os desfiles vieram.
permanecia em silêncio absoluto, completamente absorto em minhas palavras. Eu definitivamente não sabia porque estava falando todas aquelas coisas para um completo desconhecido, mas uma vez que tinha começado, não iria mais parar. Estava me fazendo tão bem falar sobre aquilo… Falar sobre aquilo com ele.
- E então comecei a fazer viagens, a ganhar um dinheiro bom… De repente, já podia viajar com meu pai, já podia pagar as contas de casa e ver dinheiro sobrando para jantar fora ou para sair com meus amigos - Me permiti rir com a lembrança do meu primeiro salário - E então, eu conheci o Orson…
Minha garganta fechou e eu senti retesar os músculos ao meu lado. Suspirei fundo. Não conseguia falar sobre ele, não conseguia falar sobre os motivos pelos quais me casei, não conseguia falar sobre o sentimento por trás do meu casamento. Aquilo ainda era muito pessoal, muito meu, muito íntimo. E muito, muito vergonhoso.
- Ele parecia ser tudo que eu sempre quis numa pessoa. Me tratava como uma verdadeira princesa. Me prometeu o mundo… - Não pude conter o tom de voz amargo e acho que percebeu. Mesmo que ainda estivesse encarando o mar, podia ver sua testa franzida me encarando com atenção - Meu pai tinha um pouco de apreensão, mas nunca deixou de me apoiar…
- Seu pai parecia um cara legal - deixou escapar e eu sorri concordando. Meu peito ardeu em brasa e inevitavelmente senti algumas lágrimas se formarem em meus olhos.
- Ele era a pessoa mais incrível desse mundo. Sinto tanto a falta dele... - Respirei fundo e tentei limpar meu rosto antes que percebesse que eu estava chorando. Sem sucesso, a expressão dele era de quem estava sentindo uma agonia intensa - E quando ele adoeceu eu precisei me afastar do trabalho para cuidar dele. Então ele morreu, Orson foi transferido e cá estou.
Resumi a história, omitindo cerca de 50% dela. pareceu perceber que aquela não era a versão completa, mas não disse nada. Suspirei fundo pela enésima vez, preenchendo meu pulmão com aquele salitre, deixando aquele cheiro aliviar a angústia que eu estava sentindo. Só então, virei um pouco de lado podendo encarar nos olhos que brilhavam mais do que nunca.
- O que estou tentando te dizer é que eu sei como você e Guadalupe se sentem. Eu sei o que é depender de um trabalho para viver e mais do que isso, sei o que é depender de um trabalho que algumas pessoas podem considerar como inferior. Mas queria que você soubesse que não faço juízo de valor por isso. Sou filha de uma pessoa humilde, eu sou uma pessoa humilde. Queria que também pudessem me enxergar além do que conseguem ver. Eu tenho apenas vinte e um anos, é natural que tenha me aproximado mais de vocês por terem sido as primeiras pessoas que conheci e sejam da mesma faixa etária que eu… E levarem uma vida que honestamente… Me inveja.
Quando terminei de falar, continuou em silêncio por mais alguns minutos, provavelmente processando tudo o que eu tinha dito. Quando enfim falou, sua voz parecia um pouco rouca.
- Mas a senhora tem tudo.. Como pode invejar nossa vida?
- Vocês são livres - Dei de ombros voltando a encarar o mar - Eu não estou sendo uma ingênua que diz que trocaria tudo isso porque nunca passou uma necessidade na vida. Eu sei o quanto o dinheiro é bem-vindo e necessário nas nossas vidas. Mas sei também que a liberdade é algo que não se compra.
- Mas a senh… Mas você pode ser livre.
me olhou um pouco indignado e eu dei um sorriso triste para ele.
- Queria que fosse fácil assim. As vezes sinto falta de ser uma garota imprudente de vinte e um anos.

[N/a: Coloquem a música para tocar!]



Ficamos em silêncio por uns minutos, sem sentir necessidade de dizer qualquer coisa que fosse. Do contrário das outras vezes, esse silêncio foi um pouco mais agradável. Confortável e acolhedor. Eu me sentia bem ao lado de e embora não fosse admitir isso mais do que já tinha feito, não queria abrir mão desses segundos preciosos que certamente acabariam em pouco tempo.

Soñé un verano que se hiciera eterno
(Eu sonhei com um verão que se tornaria eterno)
Desde el momento en que vi tu mirada
(Desde o momento que vi seu olhar)
Me derretiste con esa mirada
(Me derreteu com esse olhar)


- Sabe, a água do mar é capaz de acalmar todas as coisas - disse do nada e eu olhei para ele um tanto quanto intrigada. Ele me encarou sorrindo, aquele mesmo sorriso que parecia portar todo o sol, as estrelas e o próprio mar de San Juan. - Sim, não tem nada tão ruim que um banho de mar não seja capaz de suavizar.

Pero el Verano se volvió un Invierno
(Mas o verão tornou-se um inverno)
Cuando vi que otra brazos te esperaban
(Quando vi que outros braços te esperavam)
Me congelé mientras yo te esperaba
(Eu congelei enquanto te esperava)


- Por que diz is… AAAAAAAAAA - Gritei no momento em que se inclinou para o mar, com o braço aberto e a mão fechada em concha, logo segurando um bocado de água e, antes que eu pudesse sequer terminar minha sentença, jogou toda a água no meu rosto. Pisquei desnorteada e gritei assustada, sentindo a água gelada escorrer por minha pele ao mesmo tempo que explodia numa calorosa gargalhada - EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FEZ ISSO!

Y ahora entiendo cual es mi papel

(E agora entendo qual é meu papel)
Nos queremos cuando nadie ve
(Nos queremos quando ninguém vê)
Las balas perdidas de este amor
(As balas perdidas desse amor)
Prefiero no verlas en mi piel
(Prefiro não ver em minha pele)


- Você não disse que queria ser uma garota imprudente de vinte e um anos? - continuava rindo tanto que já não era possível enxergar seus olhos, de tão fechados em fendas que estavam. Retirando o excesso de água dos meus olhos, permiti um risinho nervoso ecoar e, sem pensar, instintivamente me inclinei para água aproveitando do momento de distração de para colher uma porção duas vezes maior de água com minhas mãos, jogando diretamente no rosto dele.

Si me preguntan por ti

(Se me perguntam por você)
Diré que es mentira
(Direi que é mentira)
Que toda una vida he soñado contigo
(Que toda uma vida tenho sonhado com você)
Yo sueño contigo
(Que eu sonho com você)


engasgou um pouco com o bocado de água que joguei em seu rosto, pois ainda estava ocupado demais gargalhando de mim. Foi a minha vez de explodir em risadas. Foi um ato tão genuíno, tão honesto e espontâneo que por um momento me surpreendi ao ouvir aquele som. se recuperou e me lançou um olhar semicerrado e eu me apressei a levantar da pedra de qualquer jeito, já me protegendo com a bolsa das inúmeras rajadas de água que levantavam em minha direção. Em questão de segundos, ficou completamente inútil me proteger e, portanto, larguei a bolsa na areia e passei a correr pela praia com em meu encalço, disputando para ver quem molhava quem.

Si me preguntan por ti
(Se me perguntam por você)
Diré que no es certo
(Direi que não é certo)
Que duele por dentro que no estes conmigo
(Que dói por dentro que não esteja comigo)
Te quiero conmigo
(Te quero comigo)


Já estávamos completamente encharcados, eu sentia meu vestido totalmente grudado no meu corpo, bem como meu cabelo empapado no meu rosto, mas não me importei. Estava me divertindo mais do que me lembrava ter me divertido na vida, exatamente como os adolescentes que tinha encarado mais cedo, invejando aquela alegria que, por alguns momentos era minha.
- Eu me rendo, eu me rendo, eu me rendo - Engasguei entre risos enquanto estava agachado na beira do mar balançando as mãos freneticamente, espichando água por todos os lados.
- Non tan rápido, mami - disse antes de vir em minha direção e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a respeito, me ergueu pela cintura, me levando em direção ao mar. Ignorando completamente meus protestos, balançando inutilmente os pés entre risos e gritos.
Te miro, me miras
(Te olho, você me olha)
Y el mundo no gira
(E o mundo não gira)
Todo parece mentira
(Tudo parece mentira)
Tu sigues, yo sigo
(Você segue, eu sigo)
Es nuestro castigo
(É nosso castigo)
Fingir que somos amigos
(Fingir que somos amigos)


Quando submergi, encarei que sorria exultante parecendo orgulhoso de si mesmo e fui obrigada a rir junto. Não conseguia compreender como em instantes saímos de uma conversa profunda para um momento de total descontração como aquele. Estávamos agindo tão espontaneamente que meu coração nem lembrava mais de ter estado apertado horas mais cedo daquele mesmo dia.
- E se o Orson não soubesse? - Lancei a pergunta rapidamente, me arrependendo na mesma hora. arregalou os olhos.
- Quê?
E se ele não soubesse da nossa aproximação? - Repeti sentindo meu coração acelerar. me encarava como se estivesse sondando minha reação esperando que eu anunciasse que estava contando uma piada, mas permaneci em silêncio. Tínhamos parado de sorrir e também de nos mover. As ondas quebravam ao nosso redor, mas o mundo parecia ter sido silenciado.
- A senhora está falando sério? - Ele pareceu chocado.
- Não precisa me responder nada agora, tudo bem? Só pense nisso - Eu disse antes que ele pudesse falar qualquer outra coisa que me levasse as lágrimas novamente. Me arrependia de ter aberto a boca para propor aquilo, mas agora que já tinha dito não tinha mais como voltar atrás.
Evitando que visse minha expressão esmorecer, mergulhei nadando para longe dele, logo saindo do mar para recolher minha bolsa e minhas sandálias. Estava torcendo meu cabelo e meu vestido quando vi sair do mar e andar em minha direção com a expressão confusa.
- Bom, preciso ir - Falei depois de um pigarro, a garganta cheia de sal. me encarou.
- Eu vou acompanhar a senhora até sua casa.
- Não precisa, de verdade. É muito perto. - Tentei despistar, mas não me deu atenção, andando do meu lado de qualquer jeito.
Todo o trajeto até minha casa foi silencioso. Do contrário do que o que compartilhamos na praia, aquele silêncio não era confortável. Era constrangido, confuso e estranho. De repente, aquele momento de descontração não parecia mais tão bom assim. Não quando precisava andar com grãos de areia entre as pernas e o sol quente castigar minha pele cheia de sal, minha roupa chapinhando grudada em meu corpo. Algumas pessoas nos olhavam com expressões divertidas no rosto, zombando da maneira deplorável com que nos encontrávamos. A sorte era que meu condomínio era literalmente acima da praia e, portanto, não precisaria andar tanto.
Foi um alívio quando finalmente chegamos no gramado a frente da minha casa porque aquele silêncio já estava ficando ensurdecedor, se é que isso era possível. A ausência de palavras de era uma coisa com a qual eu não estava acostumada e eu sabia que tinha lhe dado muito o que pensar, mas não queria ouvir sua resposta agora. Não estava pronta para ser rejeitada, não ainda.
- Bom, obrigada… - Eu disse, virando-me nos calcanhares para encará-lo. Prendia minha bolsa entre os braços, cobrindo meu busto já que meu vestido florido e pouco transparente estava colado em meu corpo. Tinha certeza que deveria estar horrorosa naquele momento, os cabelos repletos de algas marinhas e sal.
Mas não estava olhando para mim. Seu rosto outrora sorridente, suave e despreocupado agora estava pálido, sem vida e aterrorizado. Seu lábio inferior tremia e ele encarava um ponto fixo as minhas costas.
- ? O que… f.. - Comecei, mas minha pergunta morreu no mesmo instante, visto que não havia mais necessidade de ser feita. A razão pela expressão horrorizada de se mostrou através de uma voz que ecoou nas minhas costas fazendo com que todo o sangue do meu corpo fosse congelado.
- ? O que está acontecendo aqui?
Lentamente, me virei para trás contemplando Orson parado na porta de casa, as duas mãos na cintura e uma expressão mortal em seu rosto.


Cinco

Música del capítulo: No Hay Nadie Mas - Sebastián Yatra

Punto de vista:

Respeite os mais velhos, coma seus legumes sem reclamar, estude e tire notas boas na escola, diga “bom dia, por favor, obrigado, com licença” e, acima de qualquer coisa, nunca esqueça suas raízes. Não esquecer suas raízes significaria dizer não se meter com os ricaços e saber me colocar no meu devido lugar, nunca tentando abocanhar mais do que eu podia comer. Ser criado por pessoas humildes, morar num bairro como La Perla e trabalhar para os ricos em Condado me fazia viver a realidade de tanta desigualdade social e entender exatamente quem eu era e quem eu nunca seria. Eu sempre tive isso muito claro em minha mente. Achei que nunca confundiria esses ensinamentos.
Até Carter aparecer em minha vida.
Perdi as contas de quantos jardins precisei cuidar em Condado, quantas vezes cuidei de begônias, azaleias, margaridas e rosas e, ainda assim, meu contato com as donas dessas flores se resumia aos comprimentos básicos “bom dia, por favor, obrigado, com licença”. Nunca entrei para “beber um copo de água”, nunca presenciei uma cena desagradável e nem me flagrei observando com maior atenção o corpo de nenhuma delas. Era como se nem existissem de tão distantes da minha realidade que eram. Sempre fui muito pé no chão quanto a isso.
E, no entanto, contrariando toda minha criação, minhas convicções e princípios, Sra. Carter Carter foi capaz de bagunçar minha cabeça. Durante todos os dias em que me martirizei com o pensamento perdido nela, tentei me defender justificando que havia a conhecido antes, na feira do seu bairro. E naquele momento eu não podia prever que ela era justamente a personificação de tudo que eu não podia ter: rica, casada, dona de uma casa em Condado e além de tudo isso, minha patroa. Ela supostamente deveria ser invisível para mim, mas não foi. E uma vez que você observe Sra. Carter, é impossível voltar atrás.
Sim, ela era linda. Mas a primeira coisa que me chamou a atenção não foi sua beleza. Não totalmente. Foi o seu sorriso. Ou talvez tenha sido seu olhar. Ou um misto dos dois. A expressão de fascínio que transmitia ao ouvir a batida envolvente de um reggaeton. Era para ser um flerte despretensioso, mas eu já tinha consciência da existência dela quando fui trabalhar em sua casa. Já tinha observado aqueles olhos e em instantes estava encantado por eles… Tão bonitos, que tinham tanta sede de viver e descobrir o mundo, mas que pareciam comportar uma angústia tão grande.
Eu já tinha observado seu sorriso, já tinha me perdido nos traços dos seus lábios e na maneira como eram perfeitamente rosados e carnudos. E como se nada disso bastasse, a nossa proximidade chegou num nível sufocante quando a vi no La Factoría. Dançar com ela… Quando, na minha breve vida, tinha pensado em dançar com uma mulher como ela? Nunca. E eu já tinha dançado com tantas, verdade. Com mulheres que sabiam tudo sobre reggaeton e mexiam o corpo de jeitos muito mais sensuais e eróticos do que ela, mas aquela experiência foi um pacote completo. Talvez por ser tão proibido… Ou pelo perfume dela ser tão irritantemente impregnável, tão gostoso, tão suave, tão instigante… O cheiro natural dela com o misto daqueles perfumes caros que pagariam meses de sustento da minha família.
Não, eu precisava ficar longe dela. Eu tinha decidido que nossa relação se restringiria, para nosso próprio bem, a empregatícia. Não me dirigia a ela com nada além de “bom dia, por favor, obrigado, com licença”, mas Sra. Carter apareceu mais uma vez bagunçando com meus pensamentos. Todo aquele nosso momento de descontração na praia e sua proposta completamente descabível, mas que me mostrava com convicção que ela apreciava minha presença tanto quanto eu apreciava a dela.

- E se o Orson não soubesse? E se ele não soubesse da nossa aproximação?

“Seja pé no chão, . Não se meta com esses ricaços de Condado, eles não são como nós e você precisa desse emprego”, eu achava que dominava essa teoria muito bem. Recriminava tanto Guadalupe por ser efusiva e por socializar mais do que o devido com pessoas daquela laia. Dizia que qualquer dia desses ela iria se meter em alguma confusão, mas que isso jamais aconteceria comigo.
Foram essas as palavras que bombardearam minha mente no mesmo instante em que vi Orson Carter parado na soleira da porta de casa, lançando olhares carregados de fúria e desconfiança em nossa direção.
- O-Orson! – Sra. Carter arfou ao meu lado, tão surpresa quanto eu. Naquele momento, eu não sentia meu coração, ele parecia ter ido para longe e levado consigo todo o sangue do meu sistema.
Eu estava fodido.
- Eu achei que você só fosse chegar amanhã a noi…
- O que porra está acontecendo aqui? - Orson perguntou, e se eu tivesse forças teria expressado um pouco de confusão para tentar entender a discussão em inglês que eles começavam a ter. Deveria ter me esforçado mais nas aulas. - O que você tá fazendo com esse moleque, toda molhada, , tem uma boa explicação para isso?
É verdade. Ela tinha boa explicação para isso? Porque eu definitivamente não tinha. Já podia esperar o caos. Na melhor das opções eu só seria demitido e levaria Guadalupe no bolo. Na pior, seria demitido, levaria Guadalupe no bolo e de quebra ainda adquiriria um olho roxo. Mas naquele momento eu não estava mesmo me preocupando comigo. Por alguma razão, eu estava em pânico por Sra. Carter. Conhecia pouco de Orson, mas tinha uma sensação terrível na presença dele e não sabia o que ele seria capaz de fazer com ela.
- Ah, isso! – Sra. Carter disse e deu um suspiro fundo. Eu nem respirava mais. - acabou de salvar a minha vida, você acredita?
Eu precisei me controlar para não esboçar o mesmo choque e a mesma surpresa que Orson expressou ao ouvir aquela sentença.
- O que? - Sr. Carter abandonou a expressão furiosa para uma intrigada. Sra. Carter, ao meu lado, falava calmamente, mas eu podia vê-la tremendo.
- É bem patético, na verdade. Eu estava entediada e resolvi dar uma volta na praia. Não sei por que me pareceu uma boa ideia dar um mergulho, mas aí comecei a me afogar e me salvou.
Ela soltou assim, de uma só vez. Nem piscou. Era uma mentira deslavada e completamente sem pé nem cabeça, mas ela entonou a voz com um sofrimento tão convincente que ao invés de começar a bradar, Orson apenas se resumiu a franzir o cenho. Eu continuava sem nem respirar.
- Você foi dar um mergulho de roupa? - Ele grunhiu.
- Na verdade, eu não pretendia dar um mergulho. Só estava dando uma volta, andando com os pés na areia e na água… Quando uma onda particularmente grande quebrou no raso e me molhou toda. E bom, você sabe como eu me sinto uma criança na praia - Ela explicou sem pestanejar e algo entre eles pareceu fazer sentido. - Estava deserto, então acabei dando um mergulho… E, a correnteza quase me levou.
Eu tinha que admitir, Sra. Carter era uma mentirosa e tanto. Provavelmente tenha frequentado aulas de atuação por consequência da modelagem, mas não pude culpar Orson por começar a suavizar a expressão, acreditando nela. Eu soltei o ar aos poucos.
- E apareceu do nada? - Ele agora falava em espanhol, direcionando seu olhar para mim. Limpei minha garganta e percebi Sra. Carter retesar os músculos ao meu lado.
- Sempre frequento essa praia aos sábados - Respondi rapidamente. Orson esquadrinhou-me da cabeça aos pés.
- Um pouco longe de pessoas do seu… meio, não é? - Orson perguntou desconfiado e eu senti algo áspero descer por minha garganta. Eu estava acostumado com a humilhação, mas aquilo acontecer na frente da Sra. Carter me incomodou profundamente.
- Eu participo da feira do bairro, tenho uma barraca onde vendo aquarelas e esculturas.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, o único som que escutávamos era das nossas roupas pingando.
- E por que você está aqui? - Orson indagou imperativo.
- Porque não queria que eu viesse sozinha e desprotegida para casa – Sra. Carter quem respondeu e pude perceber um leve tom de chateação em sua voz - Orson, o rapaz salvou minha vida. Eu provavelmente estaria morta uma hora dessas.
- Hm - Orson grunhiu, por fim. Parecendo não totalmente convencido daquela história maluca, mas também sem querer contrariar ainda mais. Sra. Carter parecia ter certo poder de influência sobre ele, apesar de tudo. - Certo, bom, então… hm, obrigado, rapaz.
- Não… não tem de que - Respondi infeliz, me sentindo mais inferior do que em toda minha vida. Sem dirigir o olhar para ela, disse, já me virando de costas - Fique bem, Sra. Carter.
Mas não me afastei o suficiente para deixar de ver Orson caminhar em direção a esposa, abraçando-lhe protetor.
- Você está bem? Vamos, vou te dar um banho e providenciar algo para comer. Ficaremos o resto do final de semana juntos. Não é ótimo? Voltei mais cedo para você, voltei para te ver.
-É… É otimo!
E naquele momento eu odiei ter entendido cada palavra daquele inglês.
Contrariado e com minha mente fervilhando de pensamentos desconexos, apressei meus passos a fim de deixar a presença do casal e o mais rápido possível me recolher a minha própria insignificância.
Molhado da cabeça aos pés e humilhado até o último fio de cabelo, fiz meu caminho de Condado até La Perla pelo transporte público, não me importando com os olhares reprovadores ou inquisitivos em minha direção. Meu pensamento estava distante demais para me importar com qualquer julgamento.
- Ei, negrito! - Notei uma voz conhecida ressoar e virei de costas para fitar Melinda que corria em minha direção. O vestido esvoaçante da minha ex namorada deixava suas curvas a mostra e isso pareceu atrair olhares de diversos homens que a acompanhavam com olhares cobiçosos. Melinda era uma mulher muito bonita, de curvas acentuadas e que chamava atenção de todos ao redor, mas que já não exercia nenhum efeito sobre mim.
- Oi, Mel - Cumprimentei sem sorrir no instante em que a mulher ofegante se postou ao meu lado, me encarando com um olhar que mesclava a diversão com confusão ao contemplar meu desmantelo.
- Tudo bem por aí? Andou surfando ou encontrou uma poça d’água pelo caminho? - Minha ex namorada zombou e eu exprimi um riso curto e sem humor ao voltar a andar com ela em meu encalço.
- Quase isso - Respondi dando de ombros e senti que ainda era observado por ela.
- E esse desânimo? Quer conversar sobre isso? - Melinda perguntou me causando uma pontada mínima de incômodo. Não gostava muito quando ela tentava forçar uma aproximação fazendo parecer que me conhecia com a palma da mão. Mesmo que tivesse sido minha namorada por quase cinco anos, nós nunca fomos do tipo que conversávamos sobre tudo da vida e as vezes me causava um inconveniente quando ela agia como se soubesse tudo sobre minhas expressões.
- Estou bem, só cansado. Foi um dia muito puxado na feira - Respondi evasivo.
- E como vai de vendas?
- Tudo bem… Tio Carlos está lá cuidando da barraca para mim - Eu disse já prevendo sua próxima pergunta. A verdade é que deixei a incumbência de fechar a barraca e guardar as coisas com Tio Carlos porque eu quis ir atrás da Sra. Carter movido por minha burrice e insensatez.
Caminhamos em silêncio por um tempo, cumprimentando com acenos de cabeça as pessoas conhecidas que passavam por nós conforme adentrávamos La Perla. Eu costumava ser bastante sociável até mesmo com Melinda, por quem nutria um carinho que independia do término do nosso namoro, mas naquele dia em particular não estava me sentindo inclinado a socializações, por isso, não fiz esforço para manter uma conversa.
- O Antônio vai fazer uma pequena social na casa dele antes da festa, está a fim de ir? - Melinda me perguntou depois de um tempo e não pude deixar de reparar um tom esperançoso em sua voz.
Suspirei fundo.
- Na verdade, não vou para a La Factoría hoje.
- Por que? - Melinda perguntou visivelmente surpresa e eu me contentei em dar de ombros.
- Não estou no clima.
- Uau! Não é o mesmo que me disse que não há nada que não melhore com uma noite de reggaeton?
Esbocei um sorriso mínimo ao respondê-la.
- Não hoje.
- Está tudo bem mesmo? - Melinda insistiu atenciosa e eu desacelerei o passo para poder encará-la de frente. Ela me observava com seu olhar minucioso e cheio de afeto, me fazendo reprimir mais um suspiro. Eu gostava muito de Melinda, era uma pessoa cheia de qualidades e uma aparência que muito me agradava, mas eu não podia me forçar a querê-la de uma forma que eu já não queria. Me incomodava vê-la não seguir em frente e apesar das minhas tentativas para refrear suas expectativas, ela sempre dava um jeito de tentar se manter presente em minha vida.
- Está sim, Mel. Eu só quero ficar em casa essa noite. Não estou muito no clima de social e muito menos de dançar. Divirta-se, aposto que será muito legal mesmo sem mim - Respondi educadamente e percebi o semblante da minha ex namorada esmorecer. Resignada, ela me lançou um sorriso fechado e pareceu finalmente dar-se conta da minha falta de vontade.
- Bom, tudo bem… Mas, quem sabe sua mascarada não aparece por lá? - Melinda alfinetou com uma súbita mudança na entonação. A simples menção de Madalena fez meu interior revirar e fui tomado pelas sensações da noite passada.
- Duvido muito que apareça… - Murmurei mais para mim mesmo do que para Melinda - Além do mais, se esse for o caso, existem outros por aí que podem fazer isso no meu lugar.
Eu não quis ter soado tão rancoroso, mas algo na minha voz fez com que Melinda adquirisse um vinco entre as sobrancelhas. Antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, eu me aproximei para beijar-lhe a testa para uma despedida. Estava louco para ir para casa tomar um banho decente e ficar sozinho.
- Até mais, Mel.
- Até… - Ouvi-la murmurar desconcertada, mas eu já tinha dado as costas andando a passos afoitos até o portão da minha casa. Eu não queria ser indelicado e muito menos mal-educado com Melinda, mas eu não estava mesmo no clima de conversar frivolidades. Estava rabugento e precisava de um banho relaxante para retirar uma certa jovem senhora dos meus pensamentos.
Entrei em casa em disparada, não dando tempo de conversar com mais ninguém. Tão logo notei o banheiro vazio, me coloquei debaixo do chuveiro gelado torcendo para que minha mente desanuviasse e parasse de bombardear recordações de momentos que eu daria tudo para esquecer.

[N/a: Sugiro colocarem a música para tocar]

Ao lado de fora do banheiro, podia ouvir o som abafado da melodia que vinha do quarto de Guadalupe.

– Primeiro: eu não te devo satisfação sobre minha vida pessoal – Sra. Carter ergueu a mão e enumerou com os dedos conforme falava. – Segundo: Orson não é meu dono e eu não sou uma propriedade dele.
– Eu não disse que a senho… – Tentei dizer, mas ela me interrompeu.
– Terceiro: eu não estou fazendo nada de errado.
– Quarto: minha irmã não tem nada a ver com isso. Da última vez que a senhora quis dar um passeio na rua, seu marido culpou a Guadalupe. Não quero me meter no relacionamento de vocês, mas não coloque minha irmã no meio disso.
– Quinto: sua irmã é maior de idade e sabe se cuidar muito bem sozinha, mas obrigada pelo conselho. Se Orson se importasse comigo não teria ido viajar me deixando sozinha em casa. Eu quis conhecer o local, ninguém sabe quem eu sou, estou usando máscara e se você fizer o favor de não berrar meu sobrenome por aí, ninguém nunca saberá que estive aqui. – Sra. Carter me respondeu e eu me perdi por um momento no movimento que seus lábios pintados de vermelho faziam enquanto ela falava.
Eu estava extasiado por estar conversando com ela, estava inebriado por sua presença e embora chateado por ter minha irmã se metendo em assuntos que não eram da conta dela, eu não podia negar que sentia um pouco de ciúme da relação dela com a Sra. Carter. Queria ter a liberdade de chamá-la por também. Tomado por esse sentimento, não contive as baboseiras que saíram por minha boca em seguida.
– Sexto: já que está aqui, quer dançar comigo?

Parei de respirar no momento em que ergui meu rosto embaixo do chuveiro, deixando com que o jato forte de água gelada pinicasse meu rosto, torcendo para conseguir relaxar minimamente.

– Feche os olhos – Pedi.
– O que? Mas assim eu não vou poder aprender – Ela respondeu um pouco desconcertada e eu continuei sorrindo encorajador. Não acreditava que aquilo realmente estava acontecendo.
– Confie em mim, feche os olhos – Pedi novamente e depois de lançar um olhar profundo de perfurar a alma, assim ela o fez.
– Agora sinta a música – Sussurrei em seu ouvido e apreciei maravilhado toda a pele exposta dela se arrepiar. Toquei sua mão e a puxei para perto, posicionando-me entre suas pernas novamente. Aquele vestido não estava ajudando muito meus movimentos, mas eu era melhor do que isso. Segurei seus quadris com mais firmeza e direcionei nossos passos, guiando-a para baixo, descemos juntos e subimos novamente, balançando de um lado a outro, para frente e para trás e nesse momento senti enquanto ela se soltava nos meus braços.

Sempre fui tão cético em relação a sentimentos repentinos e talvez por isso não conseguia compreender como Carter parecia incapaz de deixar meus pensamentos por um mísero segundo. Desde o primeiro momento que pus meus olhos sobre ela, isso era tudo o que eu conseguia pensar. Enquanto estivesse no âmbito platônico, eu estaria seguro. Mas ela mudou tudo quando apareceu mascarada na pista de dança da La Factoría com aquele anel que era um lembrete vívido do quão proibida ela era.

– Hoje eu sou apenas – Sra. Carter me disse como se fosse capaz de ler meus pensamentos. Eu precisei conter aquele embrulho no estômago ao lhe oferecer um sorriso de canto.
– Não, se é para entrar no personagem, que seja direito – Eu respondi e quase fechei os olhos extasiado quando ela riu. Todos os dentes a mostra, os lábios esticados… ay mi Dios!!! Por que tão linda?
– Ok, então que nome sugere?
– Madalena – Eu respondi de imediato e mesmo por trás da máscara, eu sabia que ela estava arqueando as sobrancelhas.
– Como Maria Madalena?

Por que ela tinha que ser esse clichê ambulante? Como se não bastasse a atração instantânea e fulminante à primeira vista, ela precisava também ser casada com meu patrão. Se estivéssemos em um filme de comédia romântica eu provavelmente não teria a reconhecido num ímpeto, dançaríamos juntos, eu provavelmente me apaixonaria por aquilo que teria inventado de Madalena, me afastaria da obsessão pela Sra. Carter só para depois descobrir que era a mesma pessoa que Madalena. Mas não estávamos em um filme de comédia romântica, aquilo era a vida real e eu precisava parar de mirabolar situações em que ela seria minimamente possível para a minha realidade. Nada, absolutamente nada de Carter estava ao meu alcance. Nossos mundos eram completamente opostos, independentemente de qualquer esforço dela para me provar o contrário.

- Não é justo! – Sra. Carter disse num rompante e eu ergui o olhar para seu rosto que beirava uma frustração quase palpável.
- O que não é justo? - Perguntei intrigado.
- Vocês foram as primeiras pessoas que eu conheci nesse lugar. E as primeiras que eu quis ter por perto. Eu não gosto dos meus vizinhos, nem dos colegas de trabalho de Orson e nem da vida que ele leva. E eu sei que isso não é problema de vocês e que provavelmente eu devo parecer carente e insistente, mas…
- A senhora não parece isso. - Eu senti a necessidade de interrompê-la e tão logo nossos olhares se cruzaram, minhas entranhas se remexeram desconfortavelmente. Durou apenas um segundo, logo ela desviou o olhar novamente.
- … mas, não é justo… - Ela tartamudeou e eu a encarei apreensivo.

Flashs do nosso momento de descontração na praia passaram por minha cabeça e eu fechei os olhos com força não me reconhecendo diante de tanta confusão. O que diabos estava acontecendo comigo? Atraído por uma riquinha de Condado, atraído por uma mulher casada com um homem capaz de me esmagar feito um inseto sem nenhum esforço.

E se o Orson não soubesse?

Ela queria uma amizade despretensiosa, queria sentir-se como uma jovem imprudente de vinte e um anos. Para Carter eu era apenas uma aventura. Ela se encantava com minha liberdade, minha independência era um fetiche, uma ação aos seus dias tediosos e enclausurados naquele casarão solitário sem um marido que não lhe dedicava a atenção devida. Ela só queria um pouco de adrenalina e estava nos usando para isso - era o que meu lado racional tentava me dizer. Mas, no fundo, eu sentia que não era apenas isso. Ela parecia tão sincera ao falar da própria vida, parecia tão vulnerável ao propor uma aproximação comigo e com Guadalupe mesmo se isso custasse submeter-se ao sigilo…

- E apareceu do nada? - Ele agora falava em espanhol, direcionando seu olhar para mim. Limpei minha garganta e percebi Sra Carter retesar os músculos ao meu lado.
- Sempre frequento essa praia aos sábados - Respondi rapidamente. Orson esquadrinhou-me da cabeça aos pés.
- Um pouco longe de pessoas do seu… meio, não é?

Desliguei o registro de água e me sequei lentamente com a toalha, frustrado por não ter conseguido obter o relaxamento que pretendia desde o início. Livre da pele grudenta de água salgada e areia, me vesti com uma muda limpa de roupa, sequei meu cabelo e saí com a toalha presa entre os ombros a caminho do meu quarto, já encontrando Guadalupe sentada na minha cama com Hector entre suas pernas.
- Você me prometeu praia! - Hector disse no instante em que seus olhos me focalizaram. Eu bati com a palma na minha própria testa e fechei os olhos com força e Guadalupe soltou um risinho.
- Neno, eu me esqueci completamente disso… - Falei com sinceridade e contemplei o bico formar-se nos lábios de Hector.
- Praia! - Ele exclamou tristonho e eu larguei a toalha sob a cadeira, me aproximando para sentar na cama de frente para meu primo.
- Podemos ir amanhã?
- Hoje!
- Neno, hoje não posso. Mas posso amanhã…
- Então me leva com você de noite! - Hector propôs imediatamente e Guadalupe arregalou os olhos ao entoar uma gostosa gargalhada que desanuviou um pouco do meu humor sombrio.
- Olha como esse menino está ficando bom de barganha! - Lupita comentou e eu direcionei lhe um olhar zombeteiro.
- Está andando demais sob sua influência, isso está errado - Respondi a minha irmã e Hector exclamou novamente, requisitando que a atenção voltasse para si.
- Hoje!
Eu me aproximei de Hector para bagunçar seus cabelos e ri fraco quando ele se encolheu.
- Hoje não vou para a La Factoría. - Sentenciei e percebi o olhar franzido de Guadalupe sob mim. - Vou ficar em casa com você. O que acha de assistirmos algum filme de super-herói? Você escolhe.
O semblante de Hector pareceu se iluminar e eu automaticamente sorri ao ver o meu pequeno feliz. Fazia um tempo que eu não dedicava atenção o suficiente para ele e passar um tempo de qualidade na presença inocente de Hector faria bem para recarregar as minhas energias tão baixas.
- Por que você não vai hoje? - Lupita perguntou com seus olhos que me sondavam assertivamente. Dei de ombros.
- Não estou com vontade… - Respondi sinceramente e minha irmã não insistiu. Ela me conhecia o suficiente para saber a hora exata de tirar informações de mim e aquela não era uma boa hora, portanto, contentou-se em assentir com a cabeça.
- Então vocês aceitam mais uma companhia nessa maratona de filmes? - Lupita propôs e eu sorri agradecido em sua direção. Nossa cumplicidade as vezes me assustava, mas sempre era bem-vinda. Ter minha irmã como minha melhor amiga, cúmplice e fiel escudeira era algo muito especial. Ela não precisava das minhas palavras porque conseguia compreender muito bem meu silêncio. - Eu posso fazer pipoca…
- Obaaaa!!! - Hector bateu palmas e logo saiu do quarto em direção a cozinha, satisfeito o suficiente para não mais resmungar a respeito da minha promessa de levá-lo à praia.
- O que você tem? - Guadalupe perguntou no instante que Hector sumiu de vista.
Balancei a cabeça minimamente em negação e passei a encarar um ponto fixo na parede a minha frente, ignorando minha irmã que me esquadrinhava com seus olhos observadores que me conheciam bem. Bem demais.
Fechei os olhos e massageei minhas têmporas, soltando um bufo cansado.
- O que você quer, Guadalupe? - Perguntei ao notar que ela ainda me encarava.
- Eu queria que você trocasse a lâmpada do meu quarto que queimou, mas agora eu quero saber o que você tem - Minha irmã respondeu num tom divertido.
- Você sabe trocar a própria lâmpada - Resmunguei mal humorado e ela bateu as pestanas com uma carinha sapeca que fazia desde criança.
- Eu sei, mas prefiro que você faça por mim. Ainda tenho um medo bobo de me queimar.
- É só desligar o registro de energia da casa… - Eu ia dizendo até sentir minha irmã passar a mão pelo meu rosto com zelo. Parecia ignorar qualquer protesto meu.
- Você vai trocar minha lâmpada - Ela disse numa voz suave e eu revirei os olhos a empurrando pelo ombro.
- Você é irritante - Eu respondi revirando os olhos, mas na verdade reprimia um sorriso. Guadalupe nada respondeu, apenas deitou a cabeça no meu ombro e ficou em silêncio do meu lado por alguns bons minutos. Aquela tática sempre funcionava, logo minha quietude se tornava angustiante demais para que eu pudesse evitar de tagarelar sobre qualquer coisa que estivesse me incomodando.
- Eu não gosto do Sr. Carter - Eu finalmente disse depois de um tempo. Guadalupe nada respondeu, nem ao menos deu indícios de ter escutado. Permaneceu com a cabeça encostada no meu ombro, esperando que eu terminasse meu desabafo - O jeito que ele olha para nós...
- O jeito que pessoas como ele olham para pessoas como nós não deveria ser surpresa para você, . Não é você mesmo quem vive me dizendo que eu não deveria me envolver nem me atingir com pessoas assim? - Guadalupe disse paliativa e eu fiquei em silêncio por alguns segundos pensando na forma como Orson Carter tratava a própria esposa. Lembrei do relato de na praia e do seu semblante pesaroso ao referir-se ao marido. Inspirei profundamente e soltei o ar com força, emocionalmente esgotado.
- O jeito como ele olha para a … - Externalizei meus pensamentos e, em resposta, recebi um olhar de soslaio de Guadalupe com sua habitual sobrancelha arqueada. Me apressei em corrigir, mesmo sabendo que minha irmã me conhecia bem demais – Sra. Carter. Como ele olha para a Sra. Carter.
- , eu também não gosto do Sr. Carter e me incomodo pelo jeito que ele olha para Sra. Carter, mas, no momento, me preocupo mais com a maneira que você olha para ela. - Guadalupe disse e eu me afastei um pouco para olhá-la ressabiado. Minha irmã se afastou do meu peitoral, suspirou fundo e sentou-se na minha frente, me encarando com seus olhos avaliativos e protetores, naquele momento parecendo mais com meu pai do que em qualquer outro na vida. Só aquela associação foi o suficiente para sentir um bolo na minha garganta.
“Você dançou com ela no La Factoría, você encontrou com ela hoje e eu não preciso que você me confirme para saber que é verdade. Meu irmão, por muito menos do que isso pessoas como nós entram em desgraça… Você me julgou tanto pela amizade com ela, mas agora, eu é quem preciso te alertar.”
- Mas eu não fiz nada, Guadalupe!
- Ainda, . Ainda. A forma como vocês dois se comportam quando estão no mesmo ambiente. Você está atraído por ela - E quando fiz menção de interromper para negar, Lupita ergueu a mão - Não ofenda minha inteligência tentando negar. E ela também se sente assim em relação a você, é visível.
- Como você espera me desencorajar se me diz que isso é recíproco? - Exclamei e Lupita deu um sorriso triste.
- Porque eu não estou te contando nenhuma novidade. Você sabe, você também percebe.
- Eu não sei de nada, eu não percebo nada - Suspirei já sentindo meu coração acelerar - A única coisa que eu sei é que ela é uma mulher rica, casada com um homem poderoso e que pode me meter em uma baita confusão.
- Deve ser horrível isso que está acontecendo com você, . A pessoa mais racional que eu conheço agora está pagando a própria língua… - Guadalupe disse num tom melodioso e eu a fuzilei com o olhar. Ela deu de ombros e sorriu com a língua presa entredentes, totalmente imune ao meu mau humor.
- O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer exatamente o que eu disse. Você sempre foi o racional da história, sempre me deu broncas e sermões sobre ser tagarela e aceitar para minha vida uma aproximação com pessoas de realidades diferentes da minha… E agora, no entanto, você está aí se recriminando por querer ser amigo de Carter.
- Você está feliz por isso? Espero que esteja se divertindo…
- Não seja bobo, , não me causa prazer nenhum contemplar sua angústia - Minha irmã disse pacientemente - Eu não estou aqui para te julgar, embora você saiba o que eu penso de tudo isso…
- Na verdade, não sei. Me ajude a clarear os pensamentos, por favor. Em um momento você compactua com a presença da Sra. Carter na La Factoría, no outro momento você me recrimina por dançar com ela… Qual é a sua, Lupita?
- Eu gosto dela. Sinto que preciso ajudá-la, quero ser suportiva por outras mulheres em necessidade. Não estou me aproximando dela por pena, mas porque realmente sinto que ela é uma boa pessoa precisando de uma amiga… Mas você não quer ser amigo dela, , você sabe disso.
- Eu não quero nada dela. - Menti sem a menor necessidade. Eu não conseguiria enganar a Guadalupe e nem muito menos a mim mesmo.
- Seja como for, você é maior de idade, vacinado, dono da própria vida e crescido o suficiente para saber onde está se metendo. Só não quero te ver sofrer depois…
- Você fala como se eu estivesse apaixonado por ela, vai com calma Guadalupe… - Eu disse num tom zombeteiro e minha irmã me encarou com uma sobrancelha arqueada. - Nada vai acontecer, tudo bem?
- Pelo seu próprio bem, espero que esteja certo disso.
- Eu estou. Sra. Carter não passa de uma idealização. - Afirmei com veeminencia e Lupita deu de ombros.
- Sra. Carter talvez, mas e quanto a Madalena? Ela vai querer voltar a La Factoría outras vezes, você sabe disso.
- Lupita, eu vou me colocar no meu lugar, tudo bem? Eu realmente não quero mais falar sobre isso… - Eu disse sentindo a exaustão do dia que não tinha nem chegado a metade tomar conta de mim. Sem muitas insistências, Lupita assentiu e levantou-se da cama.
- Vamos almoçar, Tia Sônia fez um guiso delicioso para o almoço…
E sem dizer mais nada, minha irmã saiu do quarto me deixando sozinho confabulando com meus pensamentos qual a melhor solução para a saia justa em que eu havia me colocado.

***

A situação financeira em casa não estava das melhores, para variar. Nunca tivemos muitos luxos, para ser sincero, vivíamos com pouco e economizando nas coisas certas conseguíamos manter as contas pagas e a comida na mesa por pelo menos três refeições ao dia. Nossa casa foi construída por meu pai e tio Carlos, e considerando que as reformas foram feitas de bocado em bocado ao longo dos anos, sempre havia um tijolo exposto ou uma coisa pela metade. A última obra feita foi para ampliar a cozinha para que Tia Sônia tivesse mais espaço para produzir e armazenar as comidas que eram servidas em marmitas para a vizinhança. Nos sustentávamos com nossos pagamentos irrisórios pelos trabalhos esporádicos nas casas dos ricos, para sobreviver fazíamos qualquer coisa, como já diria o meu pai: a necessidade faz o homem.
Por conta disso, já trabalhei de garçom, jardineiro, zelador e até mesmo carpinteiro. Guadalupe conseguiu a ‘sorte’ de um emprego fixo na casa dos Carter e não precisava ir de casa em casa oferecendo seus serviços como eu. Pela escassez do dinheiro, me propus a trabalhar mais do que o normal durante a semana. Três jardins por dia e sol no meu juízo sem ter direito a reclamar - e eu não reclamaria: mente vazia era oficina do diabo e quanto mais serviço eu tivesse, menos tempo para pensar em Sra. Carter sobraria.
Não que eu não tivesse tanto sossego quanto a isso. Na quarta-feira precisei ir para Condado e um dos três jardins que precisaria cuidar era justamente o dela. Meu estômago se desarranjou naquela manhã. Entrei pelo portão dos fundos, fiz o que precisava ser feito e tentei me controlar o máximo possível para não direcionar nenhum olhar para alguma janela por muito tempo. Estava dando uma atenção extra as roseiras quando um perfume floral não característico invadiu minhas narinas e fez toda minha circulação sanguínea acelerar.
Inspirei profundamente antes de desviar meu olhar pelo par de pernas que se encontrava atrás de mim. Elas estavam visíveis graças ao cumprimento de um vestido azul que possuía babados pouco acima dos joelhos.
Ay, carajo…
- Aqui, . - A voz da Sra. Carter ecoou suave, mas eu podia sentir sua entonação mesclar entre comicidade e reprovação. Minhas bochechas esquentaram quando mirei seu rosto e eu soube que o calor que eu sentia nada tinha a ver com o sol escaldante sob minha pele.
- Precisa de alguma coisa, Sra. Carter? - Perguntei polido e ela negou com um aceno de cabeça.
- Não… - Ela trocou o peso das pernas e cruzou os braços me avaliando com um traço mínimo de sorriso nos lábios.
- Qual a piada? - Arqueei a sobrancelha e ela deixou um risinho adorável escapar. Quase ri junto. Quase.
- Nada… Escuta, eu só queria te agradecer por ter topado na história doida que contei para o Orson.
- Na verdade, eu é quem deveria te agradecer. Se não fosse pela senhora, provavelmente eu teria sido despedido e minha irmã também. Na melhor das hipóteses. Na pior… Bom, seu marido tem cara de que me daria uns bons socos.
Sra. Carter franziu o cenho e crispou os lábios indecisa entre me repreender ou rir do que eu havia dito, o que só tornou sua expressão ainda mais engraçada.
- Orson não faz o tipo lutador.
- Pior para mim, eu acho. Um tiro, então. - Dei de ombros e ela arregalou os olhos em represália e dessa vez eu tive que rir. - Estou brincando, Sra. Carter… Ou não.
- Bom, não há de quê. Mas parece que mais uma vez te coloquei em uma situação desconfortável… - Ela resmungou entre um suspiro e eu tive muita vontade de poder dizer algo reconfortante, mas não podia. Limpei um rastro de suor da testa com o dorso da mão e sentei-me na grama apoiando meus braços sob os joelhos, encarando-a com os olhos semicerrados pelo sol.
- Sra. Carter… Isso não está certo. - Sentenciei mesmo contra minha vontade. Ela empalideceu instantaneamente, mas não respondeu de imediato. Apenas mordeu o próprio lábio inferior, obrigando-me a continuar. - A senhora é uma pessoa bastante legal, e nós poderíamos ser amigos se as circunstâncias fossem outras, mas…
- Mas não vale a pena o risco. - Ela recobrou a voz e eu senti meu coração apertar com a entonação utilizada para proferir aquelas palavras.
- Não vale a pena correr o risco. - Concordei com um aceno de cabeça, fazendo aquilo que me parecia racional diante da situação. - A senhora tem tudo. Tem acesso a tudo, não vejo por que ser amiga de pessoas como nós. Para a senhora, frequentar o La Factoría mascarada pode ser uma diversão e um pouco de adrenalina para os seus dias. Mas para nós… A senhora não tem nada a perder, nós temos tudo a perder.
- Uau, quando você coloca as coisas sob essa perspectiva eu fico mesmo parecendo uma pessoa bastante egoísta. Eu realmente não me importo com essa baboseira de classes sociais, , achei que tivesse deixado bem claro isso.
- Deixou. Mas seu marido deixou bem claro que pessoas da minha laia não são bem vindas na sua vida.
Carter me encarou e mesmo com a temperatura elevada do sol a pino, eu senti a frieza do seu olhar me congelar.
- Tudo bem. Acho que isso responde tudo. – Sra. Carter disse por fim.
- Sinto muito, Sra Carter. - Respondi mesmo sem entender por que eu realmente sentia tanto por aquilo. Eu só estava recusando uma aproximação com uma riquinha de Condado, não era isso o que eu costumava fazer? Por que me parecia tão difícil encarar aqueles olhos desapontados?
- Certo. Tudo bem - Ela deu de ombros tentando soar indiferente e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, virou de costas rumando rapidamente até a entrada da casa.
Respirei fundo e sacodi a cabeça antes de voltar minha atenção a roseira, amaldiçoando-me por sentir falta do aroma floral que havia saído sem deixar rastros com sua dona um tanto quanto desconcertada por coisas que eu havia dito.

***

Dois dias haviam se passado desde o último diálogo com a Sra. Carter que acabou comigo negando uma aproximação e ela saindo com um olhar gélido e desapontado. Não tive a oportunidade de falar sobre isso com Guadalupe porque estávamos trabalhando tanto durante a semana que quase não nos encontrávamos em casa e a mansão dos Carter não era bem um local apropriado para expor meus infortúnios a respeito da jovem senhora.
Eu estava visivelmente desanimado, embora não conseguisse explicar exatamente o porquê quando me questionavam a respeito. Apesar do desânimo, estava decidido. Não podia me dar ao luxo de pedir demissão - os Carter pagavam muito acima do padrão e eu não podia ser orgulhoso o suficiente de rejeitar o dinheiro. O que podia fazer era entrar e sair da mansão resumindo-me a cumprimentos formais e distantes. Não que eu tivesse tombado alguma outra vez com a Sra. Carter… Ela não deu o mínimo sinal de vida nas vezes que fui até sua casa.
Melhor assim.
A sexta-feira finalmente havia chegado e eu estava decidido a sair para me divertir com os amigos, isso me faria bem. Iríamos beber cervejas na venda do Fernando e jogaríamos conversa fora como de costume. Tudo ficaria bem. Era nisso que eu estava pensando logo no início da tarde, recostado na mureta da escola enquanto esperava Hector ser liberado.
- ! - O grito de Hector ecoou minutos depois ao mesmo tempo que o pequeno corria em minha direção, os braços abertos.
- Oi, neno. Que animação é essa? - Cumprimentei ficando de joelhos para retribuir o abraço. Hector já estava crescendo tão rápido que já não era mais necessário ficar de joelhos para abraçá-lo. Às vezes eu tinha vontade de desacelerar o tempo.
- A professora nova! Ela é muito legal! - Hector disse empolgado e eu arregalei os olhos fingindo estar tão animado quanto.
- Sério? Que bacana! - Por cima da cabeça de Hector, a barriga de Maribel fez-se presente e eu direcionei meu olhar para ela que já sorria em minha direção - E então, encontraram uma substituta?
- Encontramos, . Que coisa maravilhosa, veio na melhor hora. O médico disse que preciso de repouso total nessa reta final, minhas pernas agradecem. Estou muito inchada e cansando bastante… Acho que agora já não deve demorar muito. - Maribel explicou alisando a barriga com zelo.
- Fernando deve estar querendo enrolar você num plástico bolha - Comentei referindo-me ao meu amigo, namorado de Maribel e pai da criança. Maribel soltou uma gargalhada gostosa e eu ri junto.
- Está quase chegando nesse nível. Mas agora felizmente não precisará… Encontramos uma substituta a tempo e foi uma sorte mesmo, você sabe que não podemos pagar muito bem… É um trabalho voluntário - Maribel comentou e eu concordei com um aceno de cabeça. Hector estudava em uma instituição pública da escola comunitária beneficente que tinha como proposta incentivar o estudo para crianças de baixa renda do bairro. Por isso nem sempre os professores eram qualificados para tal, era mais uma ação de boa vontade aliada a conhecimentos de estudantes de faculdades em busca de estágios não remunerados. - E ela foi uma fofa, nunca trabalhou como professora, mas pareceu tirar de letra… Vou acompanhar por uma semana, mas os meninos se afeiçoaram a ela…
- Ela é muito legal! - Hector, o papagaio, proferiu novamente. Abaixando um pouco o tom de voz sussurrando no meu ouvido com a mão a boca, continuou em segredo a Maribel - E ela é muito bonita!
Eu estava no meio de uma sonora gargalhada quando alguém se aproximou pelas costas de Maribel.
- Ah, por falar nela… Olha ela aqui! - Maribel disse e, ainda rindo, levantei-me para ficar a altura das mulheres e cumprimentar a nova professora.
Quando nossos olhares se encontraram, meu corpo inteiro correspondeu ao ato exatamente como da primeira vez. Por um segundo, o mundo pareceu parar diante da enorme coincidência do destino que insistia em nos pregar peças ininterruptamente. Ali, parada atrás de Maribel, a nova professora de inglês de Hector, meu primo, me encarava com uma expressão mortificada que devia se assemelhar a minha, visto que meu sangue parecia não mais circular pelo sistema devido ao arrepio que me acometeu gelando a espinha.
Eu fui o primeiro a quebrar o silêncio de milésimos de segundos enquanto buscava palavras para expressar o choque de tê-la reconhecido no último lugar que esperava vê-la.
- Sra. Carter?



Seis

Música del capítulo: Bailando - Enrique Iglesias

Punto de vista –


- Olá, - Cumprimentei calma e educadamente, embora por dentro minhas entranhas estivessem se revirando em um ritmo vertiginoso.
- Vocês se conhecem? - Maribel perguntou e, visto que parecia embasbacado demais para proferir qualquer coisa, resolvi me pronunciar.
- Sim... - Respondi brevemente, não aprofundando em mais nada. Maribel intercalou o olhar de mim para , mas não insistiu.
- Bom, preciso ir. - Maribel disse e logo Hector aproximou-se dela para um abraço desajeitado, encostando a cabeça na barriga já enorme da professora.
- Tchau pró Mabel, o disse que vai me levar na sua casa para te visitar quando o bebê nascer.
Meu coração aqueceu com a cena e eu contemplei em silêncio aquele clima de descontração e união entre eles, não deixando de notar uns olhares de relance de em minha direção.
- Vou ficar te esperando! - Maribel comentou afetuosa, acariciando os cabelos do pequeno Hector que sorriu satisfeito ao se afastar. Virando-se para mim, Maribel continuou - , um prazer conhecê-la. Qualquer dúvida, não hesite em me procurar. Boa sorte!
- Obrigada, Maribel, mas acredito que dará tudo certo. Concentre-se em esperar seu bebê… E, que mal lhe pergunte, é menino ou menina? - Fiz a pergunta que já estava me corroendo por dentro e Maribel riu de um jeito tão descontraído que foi impossível não rir junto.
- Não sabemos ainda. Queremos a emoção da surpresa.
- Que coragem. Eu provavelmente não aguentaria de ansiedade - Comentei verdadeiramente surpresa e Maribel sorriu.
- Já já chega a sua vez - Ela disse inocentemente, alisando a própria barriga e eu senti meu estômago embrulhar por ter percebido abaixar a cabeça desconfortavelmente com o rumo da conversa - Pelo menos você não interrompeu a ordem natural das coisas, casou antes de ter filhos. Pretendem ter filhos em breve?
Antes que eu pudesse sequer ter a chance de falar alguma coisa, se pronunciou.
- Precisamos ir. Tchau, Maribel. Mais tarde passarei na venda de Fernando… - E direcionando um olhar para mim que durou milésimos de segundos, assentiu com a cabeça - Até mais, Sra. Carter. Boa sorte no trabalho.
Desconcertada, sustentei a conversa com Maribel por poucas sentenças, meu olhar sempre distraído ao caminho que percorria com Hector em sua cola.
- Maribel, com licença, mas acho que Hector esqueceu uma coisa na aula. Vou lá entregar, obrigada pela atenção e boa sorte… Até mais! - Ela tartamudeou alguma coisa e deu de ombros quando, correndo, me virei para alcançar os passos de .
- .. … Espere!
Ele desacelerou os passos, mas não parou de andar e muito menos virou-se ao meu encontro.
- Espere!
- Hector, entre em casa, por favor. Eu já estou indo - Ouvi dizer tocando no ombro de Hector que olhava de mim para com uma enorme interrogação na face. Ao perceber a seriedade na expressão do primo mais velho, Hector acenou para mim e andou a passos pressurosos até uma casa vermelha no fim da rua - Sem correr! - acrescentou e imediatamente Hector desacelerou os passos. Ainda sem tirar os olhos do mais novo, dirigiu-se a mim. - O que foi?
Suspirei fundo.
- , gostaria de me explicar, por favor.
No segundo em que o portão da casa foi aberto, uma senhora acolheu Hector pelos ombros e lançou olhares furtivos de um lado a outro da rua até identificar a figura de , que acenou com a cabeça indicando que estava presente e responsável. Ao notar minha presença junto de , a mulher me esquadrinhou dos pés à cabeça com o cenho levemente franzido antes de voltar para dentro de casa. Assim que a porta foi fechada, voltou seus olhos castanhos para mim.
Meu interior revirou com aquele olhar.
- Me explicar sobre o quê?
- Sobre eu estar aqui, em La Perla, dando aula na escola do seu primo…
- E por que a senhora deveria se explicar para mim? - me perguntou com a sobrancelha arqueada.
- Não estou te seguindo - Sentenciei imediatamente e ele continuou me encarando com uma expressão confusa.
- E quem disse que a senhora estava…?
- , a Lupita me disse a respeito da necessidade das aulas de inglês na escola do Hector. E eu achei a oportunidade perfeita para, além de ajudar outras pessoas, me dedicar a algum trabalho que fosse proveitoso. Não tem nada a ver com querer qualquer tipo de aproximação com vocês…
- Sra. Carter, eu não sei qual a relação que a Lupita tem com a senhora e nem sei também o que ela te disse, mas as pessoas de Condado Beach não são muito bem vistas aqui em La Perla. Não sei se é uma boa ideia vir trabalhar aqui.
- Eu não sei muito bem como funcionam as convenções sociais entre vocês, mas eu não dou a mínima para elas.
me encarou por alguns segundos antes de passar a mão pela nuca e pelo cabelo, coçando-o desconfortavelmente.
- A senhora pode não se importar, mas seu marido com toda certeza se importa. O que ele achou disso? - Ele perguntou e eu senti algo espinhoso descer por minha garganta.
- Isso não é da sua conta. - Proferi com rispidez e adquiriu um vinco entre as sobrancelhas me analisando com surpresa nas íris.
- Certo. Mas aposto que ele não vai gostar de te ver misturada com pessoas da minha laia.
Ao ouvir pronunciar as mesmas palavras utilizadas por Orson num tom pejorativo, perdi a paciência.
- Será que você pode parar com isso? Eu não aguento mais! Vocês não olham para mim como uma pessoa, olham para mim como uma posse, uma propriedade, como se eu deixasse de ter vida e vontade própria só porque sou casada. Você me rotula como a Sra. Carter, condiciona todas as minhas atitudes ao meu marido e qualquer passo que eu dou, me pergunta se ele aprova. Não pense que eu não percebo como você me julga, porque eu percebo! - Desabafei inconformada.
- Eu não te julgo! - tentou falar, mas não deixei.
- Ah, conte outra, ! No fim das contas, vocês homens são todos iguais. Agem como se mulheres fossem suas propriedades e só respeitam as vontades uns dos outros. E daí se eu quis trabalhar? E daí se eu quero ser amiga dos meus empregados? Você não se importa com o que eu quero, você só respeita o meu marido!
pareceu ter sido atingido por um raio, mas não me importei. Estava furiosa! Cansada dos olhares penalizados tanto dele quanto de Guadalupe, cansada dos julgamentos acerca de como eu vivia meu próprio relacionamento e a forma conivente como eles agiam a respeito da possessividade de Orson para comigo.
- Homens, como sempre respeitando apenas outros homens. Eu não sei mesmo porque vim explicar qualquer coisa para você, o erro foi meu. Eu não tenho que justificar minhas atitudes para você. Só queria deixar bem claro que fiz isso por mim, não por você ou qualquer outra pessoa. Passar bem.
E sem dizer mais nada, virei-me de costas para a figura emudecida de um embasbacado e caminhei a passos largos e furiosos até a entrada da escola. Mas eu não consegui concluir meu trajeto, porque um rapaz ofegante se colocou a minha frente com um olhar desolado.
- Sra. Carter, espere - correu se adiantando para ficar de frente para mim. O encarei com frieza.
- O que é? Acho que meu marido não iria gostar de ver você falando comigo - Zombei perversamente e suspirou, passando as mãos pelo rosto em sinal de frustração.
- Me desculpe, Sra. Carter… Eu não quis ser intrometido, não quis te ofender de forma alguma, é só que…
- É só que eu pertenço a uma pessoa, na sua visão.
- Não! Eu não penso que pertence a alguém, é só que a dinâmica do relacionamento de vocês, a forma como ele… - E pareceu se perder nas palavras tornando cada segundo ainda pior e mais desconfortável tanto para mim quanto para ele. Talvez pensando nisso, ele parou, respirou fundo e voltou a me encarar com aqueles olhos castanhos calorosos que me derreteram por dentro - Eu não sei como agir com a senhora…
- Por que diz isso?
- Porque a senhora está acabando comigo! - exclamou em agonia e eu senti meu corpo inteiro tremer com seu desabafo visceral.
“Porque por um momento estou flertando com uma linda mulher que encontrei na feira, oferecendo origamis e convidando para dançar… No outro, descubro que ela é casada e mais do que isso, é esposa do meu patrão que é tão rígido e conservador. Em um momento eu penso em esquecer desse infortúnio dançando e então… Então me surge uma mulher mascarada e misteriosa que rouba atenção de todos no La Factoria… No outro segundo descubro que ela é justamente a personificação dos meus maiores devaneios. Em um segundo estamos dançando juntos e no outro eu estou cortando sua grama. Em um segundo estamos descontraídos na praia e no outro… No outro sou humilhado pelo seu marido e arrastado de volta para minha realidade. Eu não consigo…”
Eu não ousei a abrir minha boca. Na verdade, duvido muito que eu sequer soubesse como pronunciar meu próprio nome. Durante todo o desabafo de permaneci pregada na mesma posição como se meus pés tivessem fincado raízes sob aquele asfalto esburacado, ouvindo tudo com tanta atenção que provavelmente seria incapaz de distinguir qualquer outro som que não fosse daquela voz suave que ecoava proferindo coisas tão angustiantes que pareciam perfurar meu coração como se fossem espinhos.
- Eu não consigo, Sra. Carter… Eu preciso ficar distante.
Meu coração murchou e, de repente, me senti a pessoa mais indesejada do mundo.
- Desculpe, não quis te deixar em agonia… Eu só queria ser sociável… - E eu parecia ainda mais boba a cada segundo que se passava. Patética!
- Eu quem peço desculpas por ter sido impertinente, o seu relacionamento não me diz respeito…
- Tudo bem, . A culpa disso é minha, eu não soube separar muito bem a natureza do meu relacionamento com vocês. Essa é a sua decisão e eu a respeito, mas não vou mudar com Guadalupe por tabela. E esse emprego, essa atividade como professora não teve nada a ver com vocês… Não teve a ver com ninguém além de mim mesma.
- E a senhora tem todo o direito disso… Eu só não…
- Não quer fazer parte disso, entendi perfeitamente. - Assenti com frieza, embora por dentro estivesse em chamas. Não via a hora de finalmente chegar em casa para conseguir colocar aquela frustração para fora em forma de lágrimas. O que diabos estava acontecendo comigo?!
recompôs a postura e passou a mão pela nuca um tanto quanto desconcertado.
- É isso, me desculpe.
- Sem problemas.
Ele assentiu com um maneio de cabeça e por um segundo pensei que ele fosse dizer alguma outra coisa, mas não passou de uma impressão infundada e esperançosa, porque calado estava, calado permaneceu. me olhou de uma forma indecifrável com um lampejo de tristeza e resignação em suas feições, mas antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, ele suspirou fundo e andou de cabeça baixa pelo caminho inverso ao meu. Embora eu não tivesse me virado para checar, algo me dizia que ele também não daria o braço a torcer para me olhar.
Com o coração acelerado em um sentimento completamente novo revirando dentro de mim, apanhei o celular de dentro da bolsa e pedi um Uber para casa, perdida em meus próprios pensamentos.

- Srtª. Evans? - Doutor McKinney chamou, fazendo-me levantar o rosto que estivera há horas afundado nas minhas próprias mãos. Ele me encarava com aquela expressão consternada que escondia um meio sorriso de piedade.
- É Sra. Carter agora - Orson respondeu antes que eu tivesse oportunidade. Uma de suas mãos fazia um carinho gostoso na base das minhas costas enquanto eu me debruçava sob meus joelhos, sentada no banco de espera no corredor do centro de oncologia.
- Certo… - Doutor McKinney me chamou e, a julgar pelo tom zeloso de seu timbre, eu tive certeza do que viria a seguir. Meu coração murchou e meu estômago revirou em desconforto.
- É agora, não é? Ele está indo… - Eu disse num fiapo de voz e o médico assentiu, dificultando minha visão graças a umidade das minhas lágrimas recém formadas.
Com dificuldade, me levantei do assento duro e frio e precisei forçar minhas pernas a se locomoverem em direção ao quarto. Quando Orson fez menção de entrar comigo, eu o restringi com um toque em seu braço.
- Eu gostaria de fazer isso sozinha, por favor…
Ele não insistiu. Apenas aproximou-se o suficiente para beijar minha testa e sussurrar uma frase de apoio dizendo que me amava e que estaria ali caso eu precisasse.
Entrei no quarto e prendi a respiração.
Frank Evans era um homem alegre.
De todas as características marcantes a respeito dele, qualquer um que tivesse o conhecido por mais do que cinco minutos e até mesmo aqueles que o conheciam há uma vida, diriam que ele era uma pessoa alegre. Ele era engraçado, prestativo, solidário, um tanto quanto desastrado, mas, de todas as coisas que se destacavam a respeito dele, a que mais próximo chegaria a defini-lo era sua alegria.
Por ser alegre, era costumeiro ser flagrado rindo aos cantos ou fazendo alguém sorrir. Mesmo quando estava triste, fazia de tudo para melhorar o dia de outra pessoa. Por ser alegre, era cheio de disposição e energia. Fosse para trabalhar na oficina cuidando de carros ou para dedicar um tempo para jogar dama com os amigos.
Todos que sabiam quem era Frank Evans diriam que a alegria dele era notória e assim ele era lembrado.
Por isso, para quem quer que não soubesse da situação que meu pai estava passando, não saberia reconhecê-lo naquelas condições. Careca, quinze quilos mais magro, expressões cadavéricas e uma pele macilenta preenchida por hematomas; o câncer parecia ter sugado não apenas as energias vitais de Frank Evans, mas parecia também ter sugado aquilo que fazia dele tão único e especial: sua alegria.
- Oi, papai - Disse tomando suas mãos entre as minhas no instante em que sentei na cadeira ao lado da cama. O bip bip do monitor cardíaco era tão costumeiro que não ouvi-lo fez com que meu coração afundasse em desespero. Com as máquinas desligadas e deixando-o respirar por conta própria, eu sabia que era só uma questão de tempo.
Ele me encarou os olhos semicerrados e lacrimosos, parecendo querer falar alguma coisa…. Mas não conseguiu.
Encontrando forças que eu nem sabia que tinha para não chorar, pressionei a mão quente dele com delicadeza, sabendo que seria a última vez que a sentiria daquela forma.
- Você foi muito bravo e corajoso… Estou tão orgulhosa de você. Ela também estaria orgulhosa de você, sabe disso, não sabe? - Eu disse com um sorriso embora por dentro estivesse morrendo aos poucos ao notar as lágrimas se acumularem nos olhos dele.
- … Cuidar… de você… - Papai murmurou numa voz rouca e as lágrimas invadiram meus olhos instantaneamente. Precisei controlar minha careta de choro porque meu coração já batia num ritmo quente e desenfreado. Eu achei que estivesse pronta… Mas, naquele momento, vendo meu pai lutar para falar, soube que não estava… Que nunca estaria.
- Eu vou me cuidar sozinha agora, papai. Além disso, eu não estou sozinha, Orson está comigo - Eu respondi tentando encorajá-lo, mas isso só fez com que as lágrimas rolassem pelo rosto pálido dele.
Me apressei em continuar.
- Não precisa se preocupar comigo, eu prometo que vou me cuidar direito. Prometo! Não precisa lutar mais, você já fez isso bravamente… Agora pode descansar, papai, pode encontrar com ela.. - Eu disse com uma voz embargada e meu pai murmurou algo sobre abraçar e eu me inclinei sob o peito dele sem conseguir conter minhas lágrimas.
Desajeitado, meu pai colocou uma das mãos sob o meu cabelo e eu me concentrei em ouvir as batidas do coração que era meu abrigo, minha casa, minha fortaleza.
- Amo… você.. - Meu pai sussurrou e eu controlei um soluço, sendo acometida por um desespero irracional que se alastrava por cada parte do meu corpo. Ele estava indo embora…
- Eu também te amo, pai. Vou te amar para semp… Pai? Pai? Papai, você ouviu o que eu disse? - Quando o coração dele se tornou uma batida tão suave que eu nem pude mais escutar, saí do seu peito e o encarei em agonia. Quieto. Os olhos fechados tinham lágrimas frescas acumuladas em sua volta.
- DOUTOR MCKINNEY!!! - Eu gritei de maneira irracional e tão logo me fiz audível, Orson e o doutor entraram no quarto. - Ele, ele… Ele estava aqui, e agora não está, vocês precisam acordá-lo…. Ele precisa falar comigo.
- , eu sinto muito, eu chamei você aqui justamente para se despedir, seu pai…
- NÃO!
- Baby, fique calma, por favor - Orson rodeou meus ombros e eu me afastei, lívida de lágrimas.
- Você não entende, precisa trazer ele de volta…
-
- Dr. McKinney ele precisa ouvir, ele precisa ouvir…
- Ouvir o que? - O médico perguntou sem entender.
- Eu disse que o amava, ele não ouviu, ele foi antes… Antes que eu pudesse… - E, somente quando me virei para encarar Orson com os olhos arregalados foi que me dei conta de que todos os meses de preparação não adiantaram de absolutamente nada. Eu não estava pronta.
- Ele não ouviu, Orson, ele não ouviu…. - E então, ao ser amparada por seus braços protetores, me debulhei em lágrimas chorando copiosamente em seu peito. Senti meus cabelos serem afagados e ouvi o murmúrio do Dr. McKinney nos dando privacidade depois de anotar o horário do óbito.
- Baby, seu pai não precisava ter escutado, ele sabe… Ele soube, sempre soube. Ele continua sabendo, onde quer que esteja - Orson disse carinhoso.
- Eu estou sozinha… Sozinha no mundo - Murmurei entre o choro porque a vida inteira estive acostumada a tê-lo ao meu lado. Sem mãe, sem avós, sem irmãos, sem tios, sem ninguém. Apenas Frank e eu.
- Você não está sozinha, baby. Eu estou com você, sempre estarei com você. Nunca vou deixar você ficar sozinha… Eu te amo… Vai passar, essa tristeza vai passar.
E enquanto eu chorava pela morte do meu pai, agradecia a Deus que pelo menos tivesse Orson ao meu lado para amparar meu pranto…. Porque eu não sei o que seria de mim se não o tivesse comigo naquele momento tão conturbado da vida.
Ele havia financiado o melhor tratamento, tinha segurado a minha mão em todo aquele processo doloroso… E por isso, eu seria eternamente grata a ele.

Quando Lupita falou a respeito da escola de Hector, me interessei de imediato.
Sei o que você poderia pensar a meu respeito, na verdade, o que qualquer pessoa poderia pensar a meu respeito: o que uma jovem modelo quer se interessando por ações filantrópicas?
Mas eu não fazia jus ao estereótipo forçado de modelo fútil e arrogante. Sim, é verdade, muitas pessoas do meio realmente são tóxicas, mas, outras tantas são exemplos de solidariedade, humildade e humanidade. Não que eu fosse exemplo de alguma coisa, mas gostava de fazer o possível para ajudar os outros com o que estivesse ao meu alcance. Algo que herdei do meu pai, que mesmo que estivéssemos juntando dinheiro para manter as contas pagas, ainda conseguia reservar uma parcela para proporcionar algo para outras pessoas.
Além de usar meus conhecimentos em algo benéfico para outrem, a perspectiva de trabalhar - com qualquer coisa que fosse - foi como uma chama de esperança para meus dias tediosos naquele grande casarão solitário.
É claro que não foi fácil com Orson.
De início, ele quis me impedir com a justificativa de que eu não precisava trabalhar porque garantia nosso sustento, e que faria com prazer horas extras na indústria para que eu tivesse “conforto”, mas fui firme. Por fim, ele pareceu aceitar que seria bom para mim passar um tempo com crianças, claro que com suas próprias ressalvas.
- Só espero que isso não te anime tanto
- Eu tenho ficado todos esses dias em casa! Será bom para mim, me testar em algo novo, ser professora de crianças! Ajudar o próximo, sabe?! Nossa, eu só queria que você entendesse isso, Orson…
- Sim, entendo que você tem necessidade de ajudar pessoas pobres, afinal de contas você já foi uma. Eu só espero que isso não te dê ideias mirabolantes de engravidar… Não quero te dividir com uma criança remelenta sedenta por leite.
Lupita estava limpando a cozinha quando eu cheguei, só percebendo o quão faminta me encontrava quando senti o cheiro de rosbife vindo do forno. Coloquei minha bolsa sobre a bancada e me sentei num dos bancos altos, afundando o rosto nas mãos com os cotovelos apoiados no mármore gelado. Minha expressão frustrada chamou a atenção de Lupita, que me lançou um olhar enviesado e sorriu, limpando um dos armários.
- Essa não era bem a cara que eu te imaginava quando voltasse do primeiro dia de aula…
- Foi tudo ótimo, na verdade - Respondi, mentindo em partes.
- Algum bicho te mordeu? Alguma criança foi malcriada com você?
- Não, foram todos educados de início. Vai ser um pouco difícil a adaptação porque Maribel é uma professora bastante querida, pelo que notei… Mas não acho que vá encontrar muitos problemas maiores… E seu primo é um amor.
- Ele é uma criança fantástica, não é?
- Sim, um doce. Acho que ele gostou de mim…
- Claro que gostou. Como não gostar da senhora? - Lupita comentou com um risinho e eu senti meu estômago afundar. - O que foi?
- Nada…
Lupita desceu da escada portátil, parando de limpar os armários se dirigindo a mim com a testa pregueada e um olhar desconfiado.
- Tem certeza?
Sem que eu pudesse sequer perceber, eu já estava desembuchando.
- Encontrei hoje no final da aula - Respondi ressabiada, ainda sem querer corresponder o contato visual com Lupita.
- E…?
- Ele não parece muito feliz que eu esteja dando aula para Hector.
- E você se importa com o que ele pensa?
Bom, não…
Era o que eu deveria ter dito, mas…
- Eu não quero ficar com um clima tenso, eu não sei porque as coisas estão tão estranhas entre a gente, sabe? - Comentei finalmente erguendo a cabeça para encará-la e Lupita me fitava com uma sobrancelha erguida e um sorriso sarcástico que me deixava parecendo uma boba. - O quê?
- Tem certeza que não sabe por que as coisas estão estranhas entre vocês?
- Tenho…
- Vocês dançaram juntos, . Ultrapassaram alguns limites.. Nós ultrapassamos alguns limites no La Factoría, está lembrada… Madalena?
Meu estômago revirou e um calor subiu por meu rosto. Mordi um sorriso.
- Mas eu…
- é um homem certinho, . Nós fomos criados para não socializarmos com pessoas como a senhora.
- Casadas - Revirei os olhos porque já conhecia aquela baboseira.
- Ricas - Lupita me corrigiu.
- Mas ele fica colocando o Orson no meio da história o tempo inteiro! Dizendo que não quer se aproximar de mim porque eu sou casada e aquele blá blá blá infundado.
- Tem certeza que é infundado?
- Onde você quer chegar com isso? - E ao ver que Lupita estava abrindo a boca para responder, a impedi - Aliás, não termine. Não quero saber o que você vai dizer.
Lupita revirou os olhos e soltou uma risada nasalada que eu deliberadamente ignorei. O que foi proposital, porque nesse mesmo segundo meu celular vibrou com uma chamada de vídeo de Hilary.
- HILARY!
- SUA INGRATA!
Gritamos ao mesmo tempo e rimos disso. Minha melhor amiga sorriu e me mostrou o dedo indicador e eu mostrei-lhe a língua. Lupita sorriu com a cena e remexeu algo em uma panela, desligando o fogão.
- Saudades! - Proferi me ajeitando sob o banco, observando minha amiga deitada na cama do outro lado da linha.
- Você me esqueceu, que desnaturada, nem parece que tem amigos! Ainda não me colocou a par sobre as últimas novidades. E ai, o que tem feito, quais lugares conheceu, fez amigos? Fez, não é? É por isso que me trocou…
- Hilary, respira! Uma coisa de cada vez!

Sentada no chão do meu quarto, eu ligava e desligava a lanterna me distraindo do breu do quarto enquanto ouvia o breve fungar de Hilary e os ocasionais suspiros profundos de Peter.
- Eu não acredito que você vai embora… - Peter disse numa voz rouca e eu senti minha garganta arder. Por falta do que responder e temendo não ter potência vocal o suficiente para verbalizar qualquer coisa, assenti no escuro.
Liguei a lanterna mais uma vez e no segundo seguinte apaguei. Melancólica e apática, aquela tinha se tornado minha única distração nos minutos que se seguiam já que a casa estava desprovida de energia elétrica.
- Você quer parar com essa coisa chata de ligar e desligar essa porcaria?
A voz de Hilary saiu esganiçada e denunciava o choro copioso que ela tentava conter, sem sucesso.
Foi a minha vez de suspirar.
- Eu não tenho escolha, Hilary. Ele é meu marido…
- Porto Rico, ? E sua carreira? E… nós?
- Porto Rico, são negócios, ele foi transferido e eu preciso acompanhá-lo. Além do mais, eu já não estou trabalhando há um tempo. Você sabe, eu te disse que nesse ramo nós ficamos esquecidas rapidamente, é algo extremamente mutável, aos poucos as agências foram parando de me contatar e eu já não tenho mais agente, então é como se eu realmente não existisse mais…
- Eu ainda não entendo, . Você parou a sua carreira… Era algo que estava começando a ficar promissor, patrocínios… - Peter balbuciou e eu suspirei outra vez tendo um dejavú. Estava exausta de falar as mesmas coisas todos os dias.
- Nós já tivemos essa conversa. Eu estou casada.
- E por que você tem que agir como se esse casamento fosse sua sentença de morte? - Hilary disse e eu arfei. Imediatamente ela percebeu o erro. - Desculpe, não foi isso o que eu quis di…
- Ele é meu marido, Hilary. Eu não espero que você entenda como casamentos funcionam, mas eu fiz um voto. Jurei perante Deus, justiça e testemunhas que seria fiel na saúde e na doença, na alegria e na tristeza… Casamento é suporte e eu preciso apoiá-lo nesse momento, ele me apoiou quando eu mais precisava…
- Apoiou? , ele se aproveit…
- Não fale assim do Orson, Peter! Se ele não tivesse pago as despesas médicas do meu pai você acha que seria meu cachê de modelo que iria pagar? Eu não era uma angel da vida ou sequer tinha os melhores patrocínios. Querendo ou não, Orson proporcionou para meu pai um tratamento de ponta e todo o conforto que ele precisava ter nos últimos dias e eu serei eternamente grata a isso.
- Mas você não acha que essa sua gratidão está indo longe demais…? É um casamento! Você vai mudar de país.
- Eu não entendo por que você ainda está com ele,
- Porque ele é meu marido… Ele é… Ele esteve do meu lado quando mais precisei! Quando ninguém aguentava mais me ver sofrendo pelos cantos foi ele quem enxugou minhas lágrimas! Quando meu dinheiro acabou foi ele quem me sustentou e proveu para que nada nunca faltasse a mim ou ao meu pai! Porque ele é com quem eu converso sobre minha vida e que me ama incondicionalmente.
- Amor…? , a visão que você tem de amor é diferente. Você é grata, mas ele não te faz feliz!
- Felicidade é um luxo que eu já não tenho mais esperança de ter, Hilary. Além do mais, eu amo Orson.
- Ama? Ou só se acostumou com isso? Vocês vivem brigando,
- Vocês dois não entendem! Sim, nós brigamos muito, mas ao mesmo tempo ele é a pessoa que faz carinho para que eu possa dormir, é quem me abraça no meio de um pesadelo, é quem me leva café da manhã na cama quando acordo indisposta ou que sempre traz um presente quando volta de viagem. Essa mesma pessoa que vocês vivem apontando o dedo para dizer que é ciumenta e possessiva, é a pessoa que não largou a minha mão um minuto sequer. Nós temos nossos problemas, como todo casal tem, mas um casamento é isso.
Terminei meu desabafo e não me dei ao trabalho de ligar a lanterna novamente porque sabia que veria as mesmíssimas expressões nos rostos dos meus amigos que desaprovavam cada palavra que eu tinha acabado de proferir.
Eles não insistiram, mas eu sabia que ainda tinham muito a dizer.
- Pelo menos… Pelo menos prometa que nós não vamos nos afastar… - Hilary rompeu o silêncio depois de uns minutos, a voz suplicante.
- Não iremos… - Respondi vagamente.
- Prometa que iremos nos falar pelo menos toda semana…
- Eu… eu prometo...

- Você prometeu, vaca! - Despertei do meu momentâneo transe com a reclamação de Hilary.
- Estou aqui agora, vamos conversar. Onde está? Isso são horas de estar deitada na cama?
- Estou descansando, o Fred acabou de sair daqui.
- SAFADA! Não preciso ouvir isso, poupe-me dos detalhes! - Eu fiz uma careta de nojo e Hilary gargalhou. Limpando a bancada, Guadalupe deixou escapar uma risada nasalada. Sorrindo na direção dela, virei o foco da câmera para ela.
- Hilary, essa é a Guadalupe. Minha nova amiga - Apresentei. Em espanhol, informei a Guadalupe - Lupita, essa é a minha amiga lá do Texas, o nome dela é Hilary.
Um tanto quanto envergonhada, mas ainda sorridente, Lupita deu um aceno com a mão e eu me inclinei para olhar o celular, vendo minha amiga fazer o mesmo. Retornei o foco para mim.
- Ela não fala muito bem em inglês, mas estamos trabalhando nisso.
- Ela é a irmã do tal do jardineiro gato que tá trabalhando aí? - Hilary perguntou e eu arregalei os olhos, Lupita mordeu um sorriso.
- Hilary, depois conversamos, foi ótimo colocar o papo em dia com você.
- O que foi, eu disse algo errado, ela entendeu o que eu diss…?
Agoniada, apertei o botão vermelho finalizando a ligação, mortificada demais para dizer qualquer coisa. Tinha esquecido das mensagens que havia mandado sobre para Hilary, e tinha esquecido da incrível habilidade da minha melhor amiga ser uma linguaruda nos momentos mais indiscretos possíveis.
Sem coragem de direcionar meu olhar para Lupita, tirei meu cabelo do rosto e me levantei murmurando um “vou tomar um banho”.
- Terminei de fazer o que precisava, deixa para tomar banho depois, vamos começar agora.
De repente, me esqueci de todo e qualquer motivo para ficar envergonhada e fui tomada pela repentina euforia, virei de costas e a encarei sorrindo para mim.
- Sério, tipo agora?
- Sim, estou com tempo. Só precisa trocar de roupa… Melhora os movimentos.
- Me dê um segundo!
E em disparada, subi as escadas do quarto para trocar de roupa, o coração já acelerado de euforia.

- Eu estava pensando… Mas, quer saber, deixa pra lá. - Lupita fez um muxoxo e espalmou a mão no ar, balançando a cabeça em negativa.
- Fala...
- Não, não tem cabimento, você não iria querer…
- É algo que eu possa ajudar, é isso?
- Não, é só que… Ai, ok. É só que eu pensei, você obviamente é fluente em inglês… E é só para ensinar crianças, de forma voluntária, nada muito profissional, é uma escola muito humilde, mais uma iniciativa do qu…
- Você quer que eu dê aulas, é isso?
- Desculpa, eu não deveria nem ter verbalizado. Você é uma modelo, não quis ser ofensiva.
- E desde quando ser professora é demérito, Lupita? Eu só fico assustada porque nunca dei aula antes, não tenho experiência com crianças a esse ponto.
- Bom, quanto a isso não tem o que se preocupar, lá você vai aprendendo…
- Eu não sei…
- Não é uma boa ideia, eu sei, deixe pra lá.
- Por que, você acha que eu não seria uma boa professora? - Perguntei em tom de desafio e Lupita revirou os olhos, rindo.
- Não foi isso o que eu disse…
- Eu aceito.
Lupita arregalou os olhos e me encarou incrédula.
- Sério?
- Estou com medo, mas sim, sério. Acho que será uma boa oportunidade para ocupar meu tempo com alguma coisa útil. Mais um dia encarando as paredes dessa casa e eu sinceramente vou enlouquecer.
- Deus te abençoe, Sra. Carter, eu nem sei como te agradecer!
- O que aconteceu com “”? Bom, em todo o caso eu sei muito bem o que você pode fazer para me agradecer…
- O que? Eu faço, qualquer coisa.
Dei um sorrisinho ardiloso e ela ergueu uma sobrancelha desconfiada.
- Você vai me ensinar a dançar reggaeton.

Quando cheguei na sala, minutos depois, Lupita também já tinha tirado o uniforme de trabalho e me esperava com malhas confortáveis e um sorriso enorme no rosto. Emparelhava a caixa de som ao celular e parecia distraída escolhendo as músicas que iríamos dançar. Eu vibrava de tanta expectativa… E vergonha.
- Não precisa sentir vergonha de mim.
- Não estou - Menti. Ela soltou mais uma de suas risadas nasaladas.
- Sei. De qualquer forma, no começo, vamos fazer apenas alguns movimentos leves, então não se empolgue muito. Você vai precisar de um pouco de condicionamento físico e mais fôlego se quiser ser uma boa dançarina.
- Mas eu só estava querendo algo recreativo…
- Tem certeza? Madalena não retornará ao La Factoría?
Meu estômago embrulhou de uma forma engraçada.
- As pessoas estão curiosas, sabe disso, não sabe? E se não sabe dançar, tudo bem. Mas Madalena precisa ser uma verdadeira dançarina se quiser performar bem o seu papel.
- Eu não sei se deveria voltar ao La Factoría, já me deu tanta reclamação sobre isso…
Lupita deixou o celular sobre a bancada, estralou o pescoço de um lado a outro, suspirou fundo e me encarou com seriedade.
- Eu vou esquecer que trabalho para você e agir como a amiga que sou nesse momento, já que meu expediente acabou e estou aqui como sua professora.
- Certo, faça isso.. - Eu disse já me alongando. Ela continuou me encarando com a mesma expressão.
- Vou fazer isso… Te dando um conselho não requisitado - Parei de me alongar e a olhei em expectativa.
- Não deixe de fazer coisas que quer fazer só porque homens desaprovam ou te dizem o contrário. Esse homem pode ser seu marido ou até mesmo seu jardineiro. Mas, ainda assim, você faz o que quer, não o que eles esperam que você faça. não tem que achar nada sobre o que você faz ou deixa de fazer, então… Com o perdão da palavra… Foda-se se ele desaprova sua aparição no La Factoria.
- Uau…
- Eu te disse que iria esquecer que trabalhava para você.
- Não, não é isso. É só que… é seu irmão, nunca achei que falaria algo assim sobre ele.
- Ele é meu irmão, eu o amo, mas ele é um homem afinal de contas. Incapaz de entender as nossas necessidades e motivações. E eu entendo, entendo sua necessidade e vontade de ir ao La Factoría e eu jamais poderia te julgar por isso.
Eu me flagrei sorrindo feito uma boba ao encarar Lupita com meu coração preenchido de uma quentura confortável.
- Obrigada.
- Certo, dito isto, vamos começar!
Me alonguei novamente.
- A primeira coisa que você precisa saber é que o reggaeton é muito intuitivo. Você vai acabar percebendo como é fácil se mover no ritmo da música, é um ritmo envolvente, sensual… Todo o ritmo foi feito para que surtisse exatamente esse efeito nas pessoas. É uma mistura de reggae com salsa, hip hop e até mesmo música eletrônica.
- Eu acho fascinante desde a primeira vez que ouvi.
- O que verdadeiramente muito me admira. O reggaeton não tem uma fama muito boa ao redor do mundo. Na verdade, agora as coisas estão começando a melhorar com artistas mais famosos fazendo colaborações e parcerias com coisa pop...
- Por que? Eu acho incrível.
- Porque é um ritmo marginalizado. E desde quando as músicas do povo são bem vistas?
Fiquei em silêncio unicamente porque não sabia o que de útil dizer. Ao invés de interromper, prestei atenção em suas palavras.
- São músicas altamente sexualizadas, isso é verdade… Há muito sobre drogas, criminalidade e a realidade do que La Perla costumava ser… É por isso que o reggaeton já foi proibido diversas vezes.
- Proibido?
- Sim, uma forma de repressão, por considerar que era um ritmo sujo. Mas eu não vejo assim…
- Algumas… - Ruborizei antes mesmo de conseguir proferir minha frase. Lupita esperou - Algumas danças de vocês são bem…
Ela entoou uma gostosa gargalhada.
- Sim, você deve ter visto um pouco disso no La Factoria. Imagino que deve ter te assustado…
- É um pouco diferente do que estou acostumada.
- É chocante para quem não está acostumado. Mas é o que eu te falei a respeito de um ritmo marginalizado. Nos taxam como putas e a dança como promíscua, mas a verdade é que tudo que vem dos guetos e dos pobres incomoda. E é por isso que resistimos.
Mais uma vez, fiquei em silêncio.
- Vamos começar?
[N/a: Pode dar play na música!]


Lupita começou comigo aos poucos. Ao longo das duas horas que se passaram, me fez seguir meus instintos e não me olhou com reprovação ou julgamento enquanto eu me soltava aos poucos para conseguir me mover sem sentir vergonha. Ela era tão boa quanto , sua cintura era solta e seus quadris se movimentavam de um jeito que me dava inveja, mas me garantiu que tudo isso poderia ser conquistado com o tempo.
Conforme o tempo passava, já conseguia me soltar um pouco mais e a cada rodopio falho, o tombo no chão nos fazia rir de maneira copiosa. E era por isso que eu tinha tanta certeza que seria incrível aprender reggaeton com Lupita: ela conseguia me fazer sentir confortável de qualquer maneira.
- Você precisa soltar sua cintura! Assim… - Lupita movimentou os quadris de maneira invejável e eu fiquei estática. - Não precisa mexer a parte de cima do seu corpo, foque seus movimentos nas partes de baixo.
- Eu não sei como fazer isso…
- É fácil, não mexa os braços e nem os ombros agora. Se concentra em deixar as pernas afastadas, os joelhos levemente flexionados e a cintura solta… Fecha os olhos!

– Você precisa soltar o corpo, – disse e eu torci para que ele não fosse capaz de perceber quão arrepiada minha pele havia ficado.
– Você precisa sentir a música. Sentir o movimento e deixar seu corpo livre para fazer o que quiser fazer. É instintivo, muito natural… Feche os olhos.
– O que? Mas assim eu não vou poder aprender.
– Confie em mim, feche os olhos… Agora sinta a música.
Com meu coração levemente acelerado pela lembrança, fechei os olhos e movi os quadris da maneira que sabia, sem me importar se estava fazendo certo ou errado, se meu corpo se mexia de uma maneira sensual ou patética, apenas me entreguei aos estímulos da música que era animada e divertida.
- Isso, você está quase pegando o dembow! - Lupita disse animada e eu abri os olhos, sorrindo em sua direção.
- O que é isso?
- Nosso ritmo, tudo no reggaeton é sobre como você move os quadris. Sincronizando seus movimentos com a batida da música, você poderá fazer qualquer coisa… Agora, vamos mexer essas pernas.
Lupita moveu o pé direito para a frente, inclinando-se com os ombros para sincronizar os passos, ficando de lado. Repetiu o mesmo gesto com o pé esquerdo e estabeleceu um padrão que consistia em basicamente ir para frente e para trás sem sair do mesmo lugar.
Tentei fazer o mesmo e no começo me senti patética por mexer os braços como um gorila, mas Lupita não me repreendeu, apenas me mostrou como fazia e aos poucos fui pegando o jeito da coisa, sempre regada a risadas e alguns gritinhos quando era bem-sucedida em algum movimento novo.
Um filete de suor escorria por entre minha testa, empapando meus cabelos na pele, mas eu não me importava. Estava me sentindo tão viva quanto me senti naquela roda de dança na feira da cidade, tão viva quanto me senti na primeira vez que fui ao La Factoría, tão viva quanto me senti quando os braços de se colocaram ao meu redor, tão viva quanto me senti naquela praia de Condado…
Lupita deu duas palminhas e rodopiou no mesmo lugar fazendo com que seus cabelos richicoteassem de um jeito muito bonito. Tentei imitar, mas desequilibrei caindo de joelhos no chão. O tombo foi tão forte que deixou meus joelhos ardidos, mas não nos impossibilitou de cair na gargalhada.
- Cayo levanta! - Lupita me estendeu a mão e no momento que me puxou para cima, colocou os braços ao redor da minha cintura, já se posicionando entre minhas pernas. Ela fez uma pressão contra o meu tronco e com a mão baseada na minha lombar, me forçou para baixo, me fazendo inclinar para trás. - Suelta tu cuerpo, chica!
Assim que voltei ao normal e ela me soltou, coloquei os cabelos para trás, dando uma risadinha já sentindo meu rosto quente e suado. Lupita riu, movendo-se no mesmo lugar.
- Deixe seu corpo mole, você ainda está muito dura… Seu corpo parece feito apenas de ossos! Você precisa parar de se reprimir.
- Eu estou tentando…
- Vou trocar de música, quem sabe isso te incentiva…
Eu suspirei e dei de ombros, meu estômago revirando de um jeito que eu já aprendia a reconhecer. Sem dizer nada, fui até o quarto e num rompante voltei trazendo a máscara de Madalena em mãos. Tirei o suor do rosto, amarrei a máscara e me olhei no espelho, as mãos trêmulas e o coração acelerado.
- Esse é o incentivo que eu ando precisando… - Falei baixinho.
- O que quer dizer? - Lupita perguntou desconfiada.
- Eu preciso voltar, eu quero ir novamente ao La Factoria…. - E virando de frente para Lupita, dando as costas para o espelho, esbocei um sorriso - Estou com saudade de ser Madalena.
- Teremos uma grande festa lá no próximo sábado. Temos uma semana para praticar bastante, topa? - Lupita propôs e eu retirei a máscara, alargando o sorriso.
- Topo.
E, de repente, a decisão estava tomada.
Dali a cinco dias, Orson faria outra viagem. Essa, em específico, seria para um congresso onde os cadastrados tinham direito a levar um acompanhante, geralmente maridos ou esposas dos executivos em questão. Nessas viagens normalmente os acompanhantes tinham atividades aleatórias no período em que os congressistas assistiam palestras e ele me deixou com inscrição de sobreaviso.
Eu só precisaria de uma boa desculpa para não acompanhá-lo e, então, estaria finalmente livre.
Maria Madalena retornaria ao La Factoría.
E como lidaria ou não com isso não seria minha preocupação.


Siete

Música del capítulo - Mi Gente (Acoustic version) Aberola


Punto de vista -


Quando decidi me afastar da Sra. Carter, decidi também que faria meu trabalho na casa dela da maneira mais profissional e distante o possível. Me resumiria a cortar a grama, limpar a piscina, limpar o quintal, os equipamentos e regar as flores. Faria isso da maneira mais silenciosa o possível, não me atreveria a direcionar palavra alguma a ela que não fosse um cumprimento educado ou, em casos extremos, para solicitar alguma coisa que facilitasse meu trabalho. Estava indo de maneira bem-sucedida, sem contratempos.
Isso tudo porque eu simplesmente não poderia prever que ela iria se tornar a professora de Hector.
- No que você estava pensando? Que péssima ideia foi essa? Eu sei que isso veio da sua cabeça!
- , o mundo não gira a seu redor, tá bem? - Guadalupe abanou a mão em minha direção e revirou os olhos de maneira tediosa que só potencializou minha irritação.
- Professora? Sra. Carter como professora? Ela é uma modelo, o que ela sabe sobre ensinar crianças, Guadalupe?
- Novamente, estou tentando entender o que isso poderia ser da sua conta e não consigo compreender…
Semicerrei os olhos e fuzilei minha impassível e cínica irmã.
- Me fale a verdade, o que está acontecendo entre vocês?
Lupita arregalou os olhos e depois soltou uma gargalhada que perfurou meus tímpanos.
- Eu não estou achando graça…
- Eu… hahaha… Não hahaha acredito hahah que você acha HAHAHA - E ela continuou rindo. Cruzei os braços e a encarei sério, esperando seu acesso de loucura passar. Meu humor estava negativo. - Eu não acredito que você está achando que eu estou tendo um caso com a Sra. Carter.
- Você a chama de , levou ela para o La Factoria, indicou um trabalho na escola de Hector… Quanto tempo faz desde seu último relacionamento? Eu realmente não entendo essa repentina aproximação.
- O que foi, ? Está com ciúmes porque eu estou tendo a aproximação que você gostaria de ter?
- Do que você está falando?
- Não é porque você está caidinho por ela que eu tenho que estar também, . Não projete suas fantasias em mim! - Lupita disse com a língua afiada e foi a minha vez de arregalar os olhos.
- O qu…
- Olha, vamos parar de enrolação de uma vez por todas aqui, tá certo? Estou cansada dessas palavras não ditas. Vamos colocar as cartas na mesa aqui. - Lupita cruzou os braços e minha postura irredutível amoleceu.
- Não quero f…
- Ah, não quer? Mas você vai. Na hora de vir me cobrando coisa você sabe, agora vai ouvir!
Suspirei fundo e me amaldiçoei por ter começado aquele assunto para início de conversa.
- Você está incomodado com o que? Ainda não consigo entender como uma coisa tão inocente feito ser professora do Hector pode ter te abalado tanto. Maribel precisava de uma substituta, Sra. Carter procurava uma ocupação. Uma coisa atrelou a outra e pronto, tudo resolvido. Por que você está tão incomodado com isso?
Não respondi. Mordi minhas bochechas e esperei. Racionalmente, não existia um bom motivo para justificar meu descontentamento.
- Pois é. O que me leva ao ponto dois. queria conhecer o La Factoría e queria fazer isso em sigilo porque sabia que isso causaria problemas no casamento dela. Onde você entra nessa história?
- Você não tinha que ter se metido nas questões matrimoniais dela. Os acordos dela e do Sr Carter não te dizem respeito!
- Tem razão, mas isso é problema meu. Novamente, o que você tem a ver com isso?
- Você é minha irmã…
- E não tenho mais doze anos de idade e nem preciso da sua proteção, . Se foi um erro, foi um erro meu. Onde você entra nisso?
Tartamudeei, mas não respondi nada. Aos poucos, o desconforto se alastrava por meu corpo.
- Vejamos. Você chamou a Madalena para dançar depois de saber que ela era a Sra. Carter. Por que fez isso?
Não respondi.
- Você seguiu a Sra. Carter até a praia e passou um tempo com ela, a acompanhou até em casa e vocês dois juntos mentiram para Orson Carter. Por quê?
Silêncio.
- Então não venha me recriminar por me aproximar da Carter e nem faça suas insinuações infundadas sobre minha relação com ela. Deus me livre me atrair pela mesma mulher que meu irmão está obcecado.
- Eu não estou obc…
- Me poupe, ! Toda vez que o nome Carter é mencionado nessa casa você parece que vai ter um treco! Não consegue disfarçar e quando ela está presente chega a ser patética a forma como você se torna expressivo.
- Lupita, me explique de uma vez, qual é a sua? Vive jogando isso tudo na minha cara, mas ao mesmo tempo diz que eu estou me metendo em confusão… Mas também não se afasta dela!
- Porque eu só quero a amizade dela, você não! Porque minha aproximação não poderia me render uma mágoa nem iria me machucar tanto quanto machucaria você! Ela é professora do Hector e sua patroa, lide com isso.
Lupita me deu as costas e eu suspirei resignado. Antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, ela virou-se de frente para mim novamente e pareceu ter se recordado de algo importante.
- Ah, Maria Madalena estará no La Factoria este sábado.
E sem dizer mais nada, deu as costas novamente já rumando para fora do meu campo de visão.
Suspirei fundo, eu estava perdido.
Desde que pisara os pés em San Juan, Carter parecia ter sido designada pelo universo para atormentar meu juízo. Aparecendo na feira, na casa em que fui trabalhar, no La Factoria, e agora até mesmo no centro estudantil. Não sei o que fiz para merecer essa grandiosa obra do karma. Como se não bastasse a amizade com Lupita, agora eu também tinha que aturar Hector falando sobre ela…
- A professora Carter é muuuito bonita, parece um anjo! - Escutei a voz deslumbrada de Hector ecoar no momento em que entrei na cozinha. Revirei os olhos e bufei audivelmente, meu humor decaindo consideravelmente a cada segundo.
- Bom dia, , Fernando veio procurando por você. - Minha mãe me cumprimentou, já colocando uma xícara de café a minha frente.
- Ele disse o que queria?
- Disse que era um favor. Queria saber se você poderia cobrir o turno dele no bar amanhã à noite.
- Aconteceu alguma coisa com ele?
- Não que eu saiba, mas provavelmente deve ser por conta da Maribel, não vai querer deixá-la sozinha a noite agora na reta final…
- Que bom, sendo assim eu aceito. Uma graninha extra seria bem-vinda, as vendas na feira não estão indo tão bem…
- E as coisas na casa da Sra. Carter? - Minha mãe perguntou e eu senti meu estômago embrulhar. Antes que eu fosse capaz de responder, Hector já estava falando de boca cheia.
- A fexora Cater é muio legal.
Dei um tapa fraco na testa dele.
- É falta de educação falar de boca cheia. - Respondi mal-humorado.
- , vou precisar sair agora, você leva Hector na escola? - Minha mãe falou e eu suspirei resignado. Belisquei algumas migalhas do pão seco, mas não fiz força para colocar nenhum alimento para dentro. Me sentia enjoado. - Aproveite e leve essa cartinha com as recomendações. A Maribel disse que a escola perdeu os registros dos alunos com a última inundação, então estão pedindo todos os documentos de novo.
- Vamos pestinha, eu tenho muita coisa para fazer hoje - Me levantei da mesa e recolhi o material de Hector que deu um salto com uma animação que não era costumeira quando se tratava da escola. Aquele tratante, se a Maribel sonhasse que ele a estava trocando por outra professora…
Mas, enquanto andava a caminho do centro estudantil, eu não pude deixar de entender o encantamento de Hector por . Era mesmo impossível não se atrair por ela. Era como se tivesse um magnetismo, uma energia, algo inexplicável que fazia com que todos ao redor estivessem absortos em sua presença. E o mais interessante? Ela não parecia se dar conta disso.
Como o grande retardado que sou, no momento em que entrei na escola de Hector, senti meu estômago embrulhar. Estava arquitetando uma forma de deixá-lo sem encontros indesejados, mas foi só pisar na sala dele que meu coração deu um solavanco ao contemplar a figura do meu maior pesadelo.
- ‘Fessora Carteer! - O pequeno traidor soltou minha mão e correu para as pernas da Sra. Carter que abaixou-se de joelhos para abraçá-lo. Fiquei um tempo contemplando a cena e devo ter parecido muito idiota porque tão logo me dei conta, consertei a postura ao perceber que Sra. Carter me encarava com feições inexpressivas.
- A m… mochila, a mochila dele - Gaguejei e a coloquei em qualquer cadeira.
- Dê tchau ao seu primo, Hector, depois ele virá buscá-lo.
- Tchau, . - Hector acenou, mas não veio em minha direção. Baguncei os cabelos dele e, então, dediquei alguns segundos para contemplar a figura da jovem senhora a minha frente.
Havia alguma coisa diferente nos traços da Sra. Carter. Ela parecia deslumbrante de tão bonita, como sempre. Mas seu rosto estava um tanto quanto cansado e as bolsas ao redor dos olhos denunciava que ela talvez tivesse chorado. Pensar naquilo fez com que meu coração murchasse um pouco.
- Está tudo bem com a senhora? - Perguntei, sem me conter. Sra. Carter demorou alguns segundos para direcionar o olhar para mim e, quando o fez, me senti instantaneamente gelado com sua indiferença mordaz. Ela apenas assentiu. - A senhora não parece muito bem…
Carter suspirou.
- Existe mais alguma coisa que você queira falar sobre o Hector, Sr. ?
- Desde quando a senhora me chama de Sr. ? - Estranhei.
- E como eu deveria te chamar? Você é parente do meu aluno.
- Não sou só isso..
- Tem razão. É meu empregado também. - Sra. Carter respondeu e eu senti como se estivessem me golpeando o estômago. Assenti, com um amargor na minha boca.
- Tudo bem.
- Alguma coisa pra dizer? - Ela perguntou e eu balancei a cabeça em negação. No segundo seguinte, ela já estava me dando as costas, imponente.
Suspirei resignado e saí da escola um tanto quanto ressabiado. Como eu era idiota. Eu tinha dito que queria me afastar, que queria ter uma relação estritamente profissional e, no entanto, não conseguia conter minha língua nos dentes e estava preocupado com o que possivelmente poderia ter causado aquela reação tão desanimada nela.
Não é da sua conta, . Cuide da sua vida.
E eu precisava repetir para mim mesmo incansavelmente que nada do que aflingia Sra. Carter era da minha conta. Mas não consegui me livrar desse pensamento de querer saber o porquê de vê-la tão abatida.
Eu tinha uma péssima sensação e ela me dizia que o causador daquela expressão triste era Orson Carter. E aquilo me esquentava o sangue de uma maneira que me assustava.

***


Punto de vista –


Parecia inacreditável pensar que minha mudança para Porto Rico havia sido feita na base de muitas lágrimas e tanta relutância, mas que, naquele momento, quase um mês depois de ter me estabelecido nas terras caribenhas, eu já não sentisse raiva ou ressentimento pela perspectiva de estar vivendo em San Juan. Já havia me acostumado com o sol, o ar úmido e a brisa do salitre de Condado adentrando minhas janelas todo dia de manhã.
Estando no Texas, costumava pensar que minha vida na ilha seria infeliz, mas, verdade fosse dita, o universo parecia disposto a me proporcionar situações providenciais para me impedir de ficar reclusa em meu próprio sofrimento. Não bastasse a perda recente do meu pai, tanta coisa havia acontecido nesse curto período de tempo que eu não tinha tanta disponibilidade para chorar, se tinha tanto a pensar.
Tudo parecia acontecer de maneira providencial, e assim fora com as aulas no centro educacional infantil de La Perla. Ter algo para fazer e para ocupar meu tempo demonstrou ser uma bela de uma compensação, principalmente nos dias em que Orson parecia destinado a tirar a minha paciência.
As coisas estavam indo bem entre nós, Orson parecia dedicado ao casamento e nas vezes que estava em casa, me levava para passeios noturnos pela cidade, conhecendo os lugares mais chiques e os restaurantes mais refinados de San Juan. Me trazia flores, perguntava como meu dia havia sido e até fingia certo interesse pelos assuntos maçantes que envolvia as crianças. Mas eu, por algum motivo, estava distante.
E aquela minha distância havia sido pauta para mais uma das nossas brigas.

- Você está indisposta? Mais uma vez? O que aconteceu com você? - Orson disse saindo de cima de mim na cama. Ele estivera há minutos tentando me deixar no clima, compenetrado em beijar cada extensão exposta do meu corpo. Como eu não havia demonstrado nenhuma animação, ele acabou se cansando.
- Estou cansada, Orson… Hoje não estou no clima.
- Cansada? Cansada de que, ? De dar aula para pirralhos? Como isso poderia ser cansativo? - Orson resmungou mal-humorado sentando-se na cama com raiva.
- Você ficaria surpreso em quão cansativo pode ser correr atrás de crianças de cinco anos durante toda a manhã - Suspirei. Para além disso, tinha ensaiado tanto com Lupita pela tarde que meus músculos estavam duros e meus ossos moídos.
- Então é isso? Eu fiz questão de contratar empregados para que você não se cansasse e agora você não está no clima porque ficou brincando de pega-pega com crianças catarrentas?
Lancei um olhar ressabiado na direção de Orson.
- Orson!
- O que é? Eles parecem uma máquina ambulante de sujeira.
- Se você diz isso dos meus alunos, o que diria se eu tivesse filhos?
Orson retesou os músculos ao meu lado e me lançou um olhar fulminante.
- Nem se atreva! Você está tomando seus comprimidos no prazo correto! Deus me livre te dividir com uma máquina de fazer cocô, vômito e sugar leite.
- Orson.. Desse jeito você realmente não vai me deixar no clima - Revirei os olhos e dei as costas a ele, deitando do lado contrário na cama. Senti um puxão forte no ombro e virei de frente para ele com mágoa nos olhos. - Você está me machucando.
- Você era uma modelo, . Seu corpo é lindo, jovem e duro. Quer mesmo ficar gorda, flácida e com os peitos pingando? Descabelada, sem se depilar e fedendo a vômito?
- Quem foi que disse que eu quero ter filhos com você? Que saco essa conversa! - Soltei sem pensar e me levantei da cama com raiva. Senti o puxão de Orson no meu braço e me virei de frente já sentindo lágrimas nos meus olhos.
- Que história é essa de “ter filhos comigo”? Se não fosse comigo, com quem mais seria?
- Meu Deus, Orson, com ninguém, claro que com ninguém…
- Fala para mim, , deixa de gracinha, essa sua indisposição tem a ver com outro homem, é isso? O que você anda fazendo com essas suas aulas?
- Estou dando aula para crianças, Orson, é óbvio!
- E te dar aulas te deixa indisponível para dar atenção ao seu marido, é isso? Sabe quantas mulheres dariam o mundo para estarem no seu lugar? E você não consegue me dar atenção?
- Por que você não vai atrás delas então, Orson? Não seria a primeira vez, não é mesmo? - Berrei, já sentindo as lágrimas invadirem meus olhos.
- É, é, talvez eu vá mesmo!

E ali, vendo todas aquelas crianças reunidas, eu agradecia por ter uma distração que não me permitisse repassar os últimos acontecimentos na minha cabeça de forma incessante. Meus dias haviam se tornado uma montanha russa de sentimentos: ou estava muito empolgada com as aulas de reggaeton, com os novos locais que descobria em Condado, com as crianças de La Perla… Ou estava desanimada com minha casa grande e sem vida, meu casamento desmoronando e a indiferença mordaz de .
- ‘Fessora Carter, ‘tô com fome! - A pequena chamada Valentina correu em minha direção, massageando a barriga.
- Está com fome? Está quase na hora do recreio…
- Mas eu estou com fome agora - Valentina insistiu e eu respirei fundo contendo uma risada. Precisava ser firme e estava aprendendo aos poucos como lidar com as birras características daquela fase que era conhecida como a “adolescência da infância”.
- Já já vamos comer, Val..
- Mas eu quero comer agora!
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, uma vozinha ecoou do outro lado da sala, aproximando-se de onde estávamos.
- Cala boca, Valentina, a fessora já falou que só no recreio!
Hector corria em nossa direção e assim que chegou próximo onde estávamos, recebeu uma careta em resposta da coleguinha. Eu quis rir, mas novamente precisei me controlar. A briga com Orson pareceu ter sido varrida dos meus pensamentos.
- Não fale assim com ela, Hector. - Repreendi, mas amenizei a bronca tocando-lhe os cabelos. Ele sorriu culposo em minha direção e eu senti meu interior derreter. Era uma criança adoravelmente parecida com . Tão doce, educado e leal aos seus. - Val, que tal me ajudar a preparar a mesa para o lanche? O que acham de fazermos algo diferente hoje?
- Diferente como?
- Um lanche coletivo, o que acham?
- Fessora, o que é coletivo?
- Hm… todos juntos, um piquenique, dividir a comida, o que acham?
Os dois se entreolharam animados e bateram palminhas.
- Uau, que legal!!!
E assim, dentro dos quinze minutos que faltavam para o recreio, propus que todas as crianças juntassem as mesas e abrissem as lancheiras, assim, todas poderiam dividir as respectivas merendas. A algazarra que tomou conta da sala durante o recreio preencheu meu coração com um calor muito gostoso. Eu estava me divertindo em ver as crianças se divertirem.
E tudo estava indo bem.
Até que…
- ‘Fessora Carter! Hector está estranho! - Uma das crianças que eu ainda não havia decorado o nome me chamou com um tom que me deixou em estado de alerta.
- O que houve?
- Ele tá… estranho, vermelho.
Me aproximei de Hector e me abaixei o suficiente para poder encará-lo com precisão e notei seu rosto avermelhado e suas bochechas adquirirem pequenas brotoejas rosadas. Ele levou as mãozinhas até o pescoço e coçou sem parar.
- Hector, o que você tá sentindo? - Perguntei preocupada, tocando na testa dele.
Hector respirou fundo e eu pude ouvir o quão ruidosa estava sua respiração, parecia fazê-lo com dificuldade. Tal reação me preocupou e só fez agravar minha situação quando, no meio do ato, ele fechou os olhos e caiu mole em cima da mesa.
Os segundos seguintes foram de um completo pandemônio. Quinze crianças berrando sem parar e eu não tive forças para pará-las. Continuei estática, encarando Hector boquiaberta e completamente chocada.
- Hector? Hector, você está me ouvindo?
Tomei seu corpo entre meus braços e foi o tempo de me levantar para notar outras duas professoras adentrarem a sala procurando saber o que havia acontecido para justificar a gritaria da sala.
- O que houve, professora Carter?
- Hector… Ele estava bem e de repente… Ele, ele…
- O que aconteceu?
- Ele estava lanchando e de repent…
- O que ele comeu?
Virei de costas à procura da lancheira dele e não soube responder. Com um bolo engolfando minha garganta, a ficha aos poucos foi caindo.
- Eu não sei… Lanche compartilhado… - Balbuciei bobamente.
- ‘Bacaxi - Foi Valentina quem respondeu, aproximando-se das minhas pernas com seus olhos amendoados curiosos analisando Hector com atenção. A professora a minha frente arregalou os olhos e retirou Hector dos meus braços, correndo porta afora.
- O que houve? - Ofeguei correndo atrás dela.
- Hector é alérgico a abacaxi! Por favor, ligue para o responsável dele!
Parei de correr e senti minhas pernas estremecerem. Por minha culpa, Hector estava indo parar na ala hospitalar e eu não sabia como encarar os pais dele para dizer que havia acontecido por uma iniciativa minha.
Liguei para o número de emergência indicado pelos e esperei na porta da enfermaria com as mãos e pernas trêmulas e bambeantes. A mãe dele, uma mulher que se apresentou como Sônia, apareceu na minha frente cerca de quinze minutos depois. Os cabelos presos por grampos e os chinelos arrastando no chão.
- O que houve com meu filho?
- Olá, Sra. … E-eu s-sou a p-p-profes-sora do Hector… - Gaguejei ao me apresentar e ela me encarou da cabeça aos pés com desprezo.
- O que houve?
- E-ele teve uma r-r-reação alérgica… Abacaxi.
- QUEM DEU ABACAXI PARA O MEU FILHO?
- Lanche coletivo, eu não sabia… - Ofeguei angustiada.
- E quem é você? Por que eu não te conheço?
- Sou a professora nova…
Sônia me lançou um olhar da cabeça aos pés e parecia ter me dado uma chicotada mental ao fazê-lo.
- Então você é a riquinha de Condado que contrataram para ensinar na escola? O que uma patricinha como você sabe sobre ensinar? Você estava fazendo o que que não viu meu filho comendo uma fruta que era alérgico? E que ideia ridícula foi essa de fazer um lanche coletivo? Sem ter lido a ficha das crianças? Você por acaso sabe quem é alérgico ao que?
Ouvi toda a reclamação em silêncio, me segurando para não ter uma reação infantil e debulhar em lágrimas. Sra. estava certíssima e eu só conseguia me sentir uma burra incompetente na única coisa que me propus a fazer.
- Isso aqui é coisa séria! Não é um hobby para pessoas como você acharem que estão ajudando os pobres só para se aparecerem!
- E-Eu não p-penso assim!
- Você não leu a ficha dele? Eu mandei para a escola hoje!
- Não, senhora. Não recebi nada… - Respondi numa vozinha mínima e ela me deu um empurrão para o lado, entrando na enfermaria atrás do seu filho.
Me recolhi a insignificância e retornei à sala para tentar amenizar a situação entre as crianças, mas meu poder de autoridade havia sido comprometido. Eu não conseguia me concentrar. Só conseguia pensar em Hector e se ele ficaria bem.
Felizmente, Hector melhorou depois de uma injeção e antialérgicos, o efeito da medicação o deixou sonolento e dengoso e, por isso, ele foi para casa acompanhado da mãe que não me deu nem tempo de me aproximar para falar com ele. Não insisti, deixei que ela fosse embora e passei o resto da manhã desejando que meu expediente acabasse, pensando como iria encarar Lupita ou depois disso.
.
Ele já tinha motivo o suficiente para ressentir minha presença… Não queria nem imaginar em como ele iria me olhar depois de saber que eu quase fui responsável pela morte do seu primo de cinco anos.
Eu era mesmo uma incompetente!

***
Punto de vista -

- Espera, tia, espera! O que está dizendo…? Hector na enfermaria? …. O que aconteceu com ele? Reação alérgica? Abacaxi…? Tia, estou indo para casa, por favor se acalme e fale devagar… O que? O que disse? Sra. Carter? - Meu coração congelou - O que a Sra. Carter tem a ver com isso? A senhora disse para ela…? A SENHORA DISSE O QUÊ?
Eu estava terminando de podar uma árvore quando tia Sônia me ligou falando rápido e alto demais. Das coisas que disse, só consegui entender que Hector teve uma reação alérgica por conta de abacaxi e que a responsável por isso havia sido a Sra. Carter, cuja qual havia escutado uma boa dose de verdades da minha desaforada tia.
Já podia imaginar o nível de atrocidades que dona Sônia havia dito, visto que ela não era um exemplo de paciência e não negava o quanto desagradava de pessoas ricas… Se essas pessoas fossem de Condado, pior ainda.
Precisei dizer para os Dourado que estava me sentindo mal e, pedindo mil desculpas, corri para La Perla até minha casa. Chegando lá, Hector estava deitado no sofá com um balde de pipoca entre as pernas assistindo televisão na sala, o rosto um pouco inchado, mas aparentemente sem sequelas.
- Ei, neno - Cumprimentei assim que cheguei, passando as mãos por entre os cabelos dele. Assim que me encarou, Hector deu um sorriso preguiçoso e eu suspirei aliviado - Tudo bem?
- Tudo.
- E então, o que houve? - Perguntei e ele deu de ombros. Ele estava abrindo a boca para responder outra coisa quando Tia Sônia entrou na sala, um turbilhão.
- Onde já se viu! Respeito! Eles não têm o mínimo de respeito e consideração por nós! Onde já se viu!
- Tia, o que houve?
- Aquela branquela de Condado, a burguesinha! Deu abacaxi para o Hector!
- Mas, mas ela não fez de propósito, tia… Ela não sabia - Argumentei em defesa da Sra. Carter e isso fez com que as têmporas de tia Sônia ficassem a ponto de explodir.
- Como não sabe? Eu mandei os documentos dele por você hoje!
Eu senti algo áspero percorrer por minha garganta e engoli em seco com o pressentimento ruim tomando conta do meu corpo a medida que eu repassava os acontecimentos da manhã na minha cabeça. Tentava me lembrar de ter entregue os documentos, mas isso não aconteceu. Estava tão desnorteado com a presença da Sra. Carter que acabei não concluindo minha tarefa da maneira que deveria.
Com o desânimo tomando conta de mim, bufei audivelmente e passei as mãos pelo cabelo.
- Eu… eu esqueci, tia… Esqueci de entregar a ficha do Hector.
Tia Sônia me encarou com as sobrancelhas franzidas e uma expressão severa.
- Você esqueceu?
- Esqueci, tia, me desculpe, eu estava tão distraído…
- Distraído, distraído com o quê?
Eu não tinha pretensão de responder, mas Hector escolheu o pior momento possível para tirar a atenção da televisão e direcionar a palavra para nossa conversa.
- gosta da professora Carter.
Todo meu sangue foi drenado do meu sistema e eu nem me atrevi a olhar para trás, pois tinha certeza que teria vontade de esganar meu primo com as próprias mãos.
- Não se meta em conversas de adulto, Hector. E não fale besteiras! - Reprimi, mas pude sentir meu coração palpitar pela forma como tia Sônia me encarava.
- O quê?
- Ele fica ga-ga-ga-go na frente da professora - Hector zombou e eu me virei para colocar uma almofada sob a cabeça grande e gorda daquela criança maldita.
- , cuidado com ele! - Tia Sônia me repreendeu e eu o soltei, suspirando fundo. - O que isso quer dizer?
- Tia Sônia, Hector é uma criança, você vai dar credibilidade para as coisas fantasiosas que ele anda inventando? Mas, a senhora não deveria ter falado com a Sra. Carter dessa forma, ela é uma das nossas maiores fontes de renda, Guadalupe e eu trabalhamos na casa dela.
Troquei o foco do assunto e Tia Sônia pareceu desconcertada, embora ainda estivesse me lançando olhares ressabiados e desconfiados. Eu nem piscava.
- Ela deveria saber no que está se metendo!
- Ela está aprendendo, tia. Tenho certeza que deve estar muito arrependida.
- E como você pode ter tanta certeza? A conhece tão bem assim? - Tia Sônia me encarou de modo penetrante e eu amaldiçoei Hector e sua grande língua afiada e seu potencial observador. Por que crianças tinham que ser tão curiosas?
- Porque ela é uma boa pessoa.
E eu continuava me complicando…
- E como você sabe disso?
- Porque ela é justa e honesta com a gente, tia Sônia, que raios de interrogatório chato é esse?
Não fui eu quem respondi. Guadalupe adentrou a sala passando pela cortina de contas e tinha uma cara fechada direcionada a tia Sônia. Quase suspirei de alívio.
- Ela estava se acabando de chorar quando chegou em casa. Me pediu mil desculpas, me obrigou a trazer uma carta com pedido de desculpas escrito a mão e mandou essa cesta com as coisas que o Hector mais gosta de comer. - Lupita disse estendendo a cesta. Entregou a carta nas mãos da tia e direcionou-se a Hector - Pestinha, olha o que a professora Carter mandou para você.
- ‘Fessora! - Hector levantou-se rapidamente indo em direção a cesta que, pelo que pude ver, continha chocolates, balas e demais guloseimas que o pequeno adorava. Sabia que aquilo tinha sido uma dica dada por Guadalupe, mas a intenção foi muito boa.
- Ela estava até pensando em pedir demissão… A senhora não sabe o quanto esse emprego é importante para a Sra. Carter, tia. Ela estava com os olhos vermelhos de tanto chorar - Lupita falou e eu instantaneamente me senti péssimo.
- Mas ela não precisa desse dinheiro! - Tia Sônia insistiu.
- Nem todo emprego significa pela quantidade de dinheiro que paga, tia. Para nós, pode até ser… E não taxe a Sra. Carter como as outras pessoas de Condado, ela não é assim.
- O que houve com todos vocês dessa casa? Foram infectados pelo vírus Carter, é isso? Estão todos se debulhando de amores por uma burguesinha? - Tia Sônia reprimiu e eu e Lupita nos entreolhamos e fizemos mesmíssimas expressões de tédio.
Despistando tia Sônia que ficou na sala contendo um Hector de comer todos os doces possíveis, fui sorrateiramente com minha irmã até a cozinha.
- O que aconteceu? - Perguntei assim que entramos no cômodo.
- achou que seria uma boa ideia fazer um lanche coletivo com as crianças para que elas interagissem mais… Mas, Hector acabou comendo abacaxi de outra criança e o resto você já sabe.
- Que infelicidade, logo na primeira semana…
- Sim, ela está arrasada. Só chorava, era de fazer pena. Tia Sônia foi bem cruel com ela. - Lupita comentou e eu senti meu sangue ferver de leve.
- Você conversou com ela…?
- Conversei… Ela está muito triste.
Como num flash, me lembrei de uma outra coisa que estava me causando uma pulga atrás da orelha.
- Mas ela já estava abatida antes… Eu, eu… eu reparei. Quando fui deixar o Hector, digo.
Lupita não pareceu me dar atenção ou talvez estivesse apenas me ignorando. Deu as costas e foi até a geladeira buscar um copo d’água.
- É, ela e o Orson para variar brigaram.
Bingo.
- O que houve? - Perguntei tentando não parecer tão interessado. A julgar pelo olhar frio que Lupita me lançou de soslaio, foi absolutamente sem sucesso.
- Não é da sua conta, . Você não tinha dito que queria se manter afastado? Então, faça isso.
E sem dizer mais nada, me deixou sozinho na cozinha com meus próprios pensamentos.

***


Quando eu disse que a situação financeira não ia muito bem em casa, acho que não fui específico o suficiente. Não ir muito bem significava dizer que minha mãe só conseguia dormir tranquila a noite por saber que Guadalupe não havia se rendido a prostituição e eu não estava envolvido com tráfico de drogas como a maioria dos rapazes da minha idade.
Não que essa realidade fosse muito distante de nós. Para algumas pessoas pode parecer chocante, mas nós não enxergávamos o mundo dessa maneira… E também pudera. Nascer e crescer na favela te faz ver o mundo sem essa cortina fantasiosa de moral e bons costumes, as pessoas faziam o que podiam para sobreviver em um mundo feito para ricos em que as vozes menos favorecidas eram ignoradas ou só ouvidas para serem julgadas.
Para as autoridades, La Perla era um bairro perigoso cheio de pessoas de caráter duvidoso e péssima índole. Nos jornais, noticiavam que os turistas deviam manter distância do local que era conhecido pela criminalidade e festas libidinosas. Mas o que eles não conseguiam enxergar era que, apesar de toda essa fama, La Perla era uma comunidade unida em que todos se ajudavam e, mais do que isso, se protegiam. Para nós, o perigo estava lá fora e não dentro. Apesar de toda fama negativa, era em La Perla que eu me sentia mais seguro… Pelo menos lá eu não corria o risco de ser linchado, taxado como marginal ou preso injustamente… Coisas que facilmente aconteciam quando nos colocávamos nos bairros dos ricaços.
Como o combinado, aceitei o turno de Fernando em um evento que, pelo que entendi, seria realizado dentro da Casa Bacardi, uma grande indústria de bebida que faria uma festa por algum motivo que não me interessava. A única coisa que eu tinha interesse em saber era a quantia que iria receber para servir de garçom a noite inteira para velhos pomposos e metidos a besta. Odiava servir aquele povo, odiava passar horas ouvindo as conversas fúteis e sem conteúdo daquelas pessoas… Coisas que eu me obrigava a fazer por dinheiro.
- Onde você arrumou esse terno? - Minha mãe perguntou enquanto eu terminava de abotoar a ridícula gravata borboleta.
- Uniforme obrigatório. O tamanho era para o Fernando então ficou um pouco largo em mim, espero que não tenha problemas. - Respondi vagamente e então me inclinei para beijar a testa da minha mãe - Por favor não me espere acordada, provavelmente demorarei por lá. Vê se não fica costurando até muito tarde e nem fique contando lorota com tia Sônia. Vá dormir cedo e não esqueça seu remédio.
Minha mãe balançou a cabeça com uma expressão risonha e alisou meu rosto sem dizer nada. Me despedi da família e fui até o porto para a minha viagem de quase duas horas para chegar na tal da Casa Bacardi que ficava do outro lado da ilha. Se eu tivesse um carro, o trajeto seria muito mais fácil, mas a pé precisaria pegar uma balsa, um ônibus e andar um caminho considerável… E faria tudo isso sem reclamar, mesmo com a comissão de Fernando minha parte naquele cachê seria uma gorjeta que daria para respirar aliviado por pelo menos um mês.
Assim que cheguei, dediquei um tempo para alinhar meu uniforme e participar do cadastramento de funcionários. A Casa Bacardi ficava numa estrutura quilométrica dentro de Cataño e eu senti meu estômago borbulhar no segundo em que pisei no terreno luxuoso da grande companhia de bebidas. O gramado possuía o brasão da empresa e ao lado do prédio, três bandeiras estavam hasteadas e dentre elas, a de Porto Rico e dos Estados Unidos. Foi impossível não ficar deslumbrado com o glamour do local e, por isso, já comecei o expediente recebendo uma advertência.
Devidamente cadastrado, entrei para servir de garçom. Ainda não podia fazer drinks por falta de treinamento, mas serviria as mesas que estavam repletas de homens de terno, charutos e mulheres com vestidos longos e diversas joias de brilhantes. Suspirei fundo e já pensando na cerveja que tomaria no final daquela madrugada, dei meu melhor sorriso e comecei a servir as mesas.
- Ei, moleque, você aí - Uma voz rouca me chamou e virei de costas solícito para servir a mesa atrás de mim. E foi Deus quem intercedeu por mim para me impedir de derrubar a bandeja com todos os drinks diretamente no chão.
É que na mesa em que eu fui solicitado estava sentado ninguém mais e ninguém menos do que Orson Carter.
- S-sim? - Respondi com a cabeça baixa e Orson parecia entretido demais conversando com um dos homens a mesa para prestar atenção em mim. Agradeci mentalmente e fiz os pedidos em silêncio, inevitavelmente ouvindo um fragmento da conversa entre eles.
- As mulheres de Porto Rico são realmente encantadoras, não são, Orson? - Um dos homens disse e Sr. Carter riu de um jeito sujo olhando para um local vago na cadeira ao seu lado. Um arrepio percorreu minha espinha por pensar que aquele lugar era da sua acompanhante e isso fez com que eu me apressasse a atender os pedidos porque não iria aguentar dar de cara com Carter novamente.
- São, são sim… E são mais… abertas, se é que você me entende… - Sr. Carter respondeu e eu me flagrei franzindo o cenho ao prestar atenção nos pedidos o mais rápido que podia. Mas aparentemente eles ainda estavam se decidindo sobre o que beber e cada segundo parecia uma tortura a mais.
- Entendo… Entendo muito bem. Estão dispostas a tudo… - O outro homem respondeu e eu senti meu sangue ferver quente nas veias. Acalme-se, , repeti para mim mesmo.
- Elas fazem o que a minha esposa não quer fazer comigo… - Sr. Carter respondeu e nesse mesmo segundo, para meu completo choque, a mulher que retornou do banheiro e sentou-se ao lado dele não era sua esposa, Carter.
- … Então vão ser três coquetéis e dois uísques, rapaz - O homem que me chamou ordenou e, ainda desnorteado, servi os drinks sem levantar o olhar.
Rapidamente dei as costas e saí do campo de visão com minhas mãos trêmulas e minhas pernas vacilantes. Assim que cheguei no bar, dei mais uma olhada para trás a tempo de ver Orson beijando a mulher sem pudor ou restrição… A aliança de casamento presente e cintilando na sua mão esquerda.
De repente, um gosto amargo subiu por minha boca e eu não pude controlar a vontade súbita que me deu de vomitar, o que fiz logo que virei para uma lixeira próxima. O suor frio escorria por minha testa.
- O que é isso? Passando mal no expediente? Não, não quero pessoas doentes por aqui. Chispa, chispa, chispa! - O superior deu um tapa na minha nuca e eu não tive nem disposição para protestar. Num ímpeto de força, retirei meu avental com raiva e saí pela porta dos fundos buscando o ar puro e salgado que vinha do mar próximo.
E eu achando que desgostava de Orson, havia acabado de descobrir outro motivo para elevar meu desafeto por um ódio que crescia em meu coração envenenado. Como ele podia?
Como ele podia… Ter uma mulher como aquela ao lado dele, dormindo e acordando na mesma cama… E ainda assim, trocá-la por qualquer outra pessoa? Não havia justificativa! Ele tinha tudo! Tinha dinheiro, um emprego fixo, uma mansão luxuosa, carros da última geração, uma mulher linda e encantadora e, ainda assim, estava jogando tudo no lixo por ser um completo babaca. Ele era tão burro!
A vontade que eu sentia era de voltar até aquele salão e encher aquele babaca de porrada para que ele aprendesse a ser homem. Como ele se atrevia a fazer isso com ? Eu nem conseguia chamá-la de Carter naquele momento, ele não merecia que ela levasse o seu sobrenome sujo e sem caráter. Ele não merecia a mulher que tinha e se eu já desconfiava disso, agora tinha certeza.
Não podia julgar por querer se aproximar de mim e de Guadalupe. Naquele momento, pensando sobre os comportamentos de Orson, eu conseguia entender o quão solitária se sentia para querer fazer amizade com seus empregados. Porque ela não era como ele… Ela não se deslumbrava com aquela vida luxuosa, ela era a mulher que se encantava por um ritmo sujo como reggaeton e se divertia num bar como La Factoría. E em pensar que em consideração aquele homem eu resolvi me afastar dela…
Burro, , você é burro!
Suspirando fundo, um outro questionamento invadiu minha cabeça. O que diabos eu diria para ? Como eu conseguiria encará-la uma outra vez sabendo algo daquela seriedade sem dizer nada? Eu deveria dizer alguma coisa? Ela acreditaria em mim? E se acreditasse, o que viria a seguir? O que Orson poderia fazer comigo… O que ele poderia fazer com ela?
Eu estava fodido, disso tinha certeza. Mas também tinha certeza de outra coisa: eu não iria mais ter consideração por um homem sem escrúpulos e mal caráter como aquele. Se queria se aproximar de mim e Lupita em sigilo, ela deveria ter seus motivos para isso… Afinal, conhecia o próprio marido mais do que nós conhecíamos. E algo que me dizia que aquela não era a primeira vez que aquilo acontecia… E minha intuição dizia que não era completamente alheia aquela situação.
O que eu não conseguia entender era o porquê dela permanecer naquela situação e, mais do que isso, naquela relação tão infeliz. O que Orson Carter poderia ter para prendê-la daquela forma?
A ausência daquelas respostas me tirou o sono durante toda a noite.

***

Punto de vista –


Não sei como encontrei forças para sair da cama na manhã daquele dia.
Eram tantos motivos para ficar infeliz que a perspectiva de encarar outra vez a minha rotina me dava vontade de continuar entrelaçada nos lençóis e não sair deles durante o dia. Mas meu desprezo em dividir o mesmo espaço que Orson foi maior e foi essa a única razão que me fez largar o conforto do edredom e sair do quarto inebriado pelo odor de álcool que se alastrava de cada poro do meu marido.
Outra noite de bebedeira. “É apenas uma reunião de negócios na empresa, não se preocupe…” “Não há necessidade de me acompanhar, será enfadonho e tedioso para você”. E eu, obviamente não poderia ser um fardo para ele. Não que eu fizesse questão de ir: odiava aqueles compromissos de negócios e os assuntos chatos que eles se colocavam durante horas. Mas meu sono infelizmente não foi tão pesado que não me permitisse notar Orson chegar embriagado em casa, cheirando a álcool e um forte perfume feminino. Não tive forças para chorar.
Outra vez… E então as traições haviam chegado a San Juan também.
Mais do que uma vez pensei em arrumar as minhas coisas e ir embora, mas fui impedida pela razão ao me questionar impiedosamente: ir embora para onde? Com qual dinheiro?
A remuneração no centro educacional era irrisória, mas eu guardaria cada centavo daquele dinheiro, visto que uma das cláusulas do nosso casamento era separação total de bens, o que significava dizer que eu não tinha direito a nada da fortuna de Orson… Mais uma tática que ele tinha de impedir nosso eventual divórcio: eu não podia trabalhar e também não teria como me manter sem ele… Assim, ele garantiu que permaneceríamos juntos por muito tempo. E também se aproveitou do fato de que eu infelizmente ainda o amava.
Embora eu já não conseguisse mais distinguir se a natureza daquele amor era advinda do sentimento de proteção e segurança ou se do desejo de estar junto…
A parte positiva é que naquele final de semana ele faria outra viagem e, portanto, eu estaria livre para retornar ao La Factoría e era apenas aquela perspectiva que me mantinha de pé para encarar outro dia. Havia decidido inventar uma doença de última hora. Forte o suficiente para me impossibilitar de viajar, não tão grave o suficiente para fazê-lo desistir de ir sozinho. A perspectiva de ter um tempo só para mim era o que me mantinha sã em meio a tantas coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo.
Eu me sentia culpada pelo ocorrido com Hector, ressentida pelas verdades ditas pela mãe dele, humilhada pelas atitudes de Orson… E, contra minha vontade, saudosa de um certo sorriso calmo, caloroso e que parecia portar todo o sol de San Juan.
Me mantive fora das vistas de Orson durante toda a manhã e apareci apenas para acenar uma despedida fria e quando o táxi saiu de vista o alívio que senti foi tão imediato que até minha respiração saiu mais confortável. Parecia que todo o peso do mundo tinha saído de dentro de mim.
Uma conferida pela fresta da cortina e eu pude perceber limpando a piscina. Os ombros largos se moviam fazendo com que os músculos se tornassem mais evidentes e eu fechei a cortina quando me dei conta de que estava mordendo o lábio inferior com força demais.
Com a casa inteiramente livre para mim e no dia de folga de Lupita, as múltiplas possibilidades se abriram a minha frente. O que eu faria? Um novo plano de aulas para as crianças? Não… Não conseguia pensar no centro estudantil sem que um peso se apossasse do meu coração com o rosto empolado de Hector despertando na minha mente. O que eu faria? Sem ânimo para me concentrar em algum filme ou série e triste demais para ficar ociosa.
Uma olhada para a caixa de som na sala e minhas entranhas reviraram com a súbita ideia que me veio à mente.

[N/a: Coloquem a música para tocar e podem colocar para repetir se acabar]

Conectando meu celular a caixa de som da sala, coloquei uma das músicas da playlist que Lupita havia feito para mim. Diferente das que tínhamos dançado durante meus ensaios, essa era mais suave, lenta e também mais sensual.
Os primeiros segundos foram de completa inércia da minha parte. Eu não sabia o que estava fazendo e se parecia patética demais dançando sozinha. No grande espelho da sala, na parede a minha frente, meu reflexo me encarava de um jeito tão deplorável que quase não pude me reconhecer. Olheiras fundas, olhos vermelhos, cabelos bagunçados e coberta apenas por um camisão velho e desgastado, eu era a própria cara da derrota.
Contemplar aquela imagem me deu vontade de chorar. Chorar porque meu pai tinha morrido, chorar porque eu tinha abandonado minha carreira, chorar porque tinha me casado, chorar porque estava longe dos meus amigos e da minha casa, chorar porque havia falhado na única coisa que me propus a fazer e chorar porque estava chorando. As lágrimas invadiram meus olhos e na intenção de impedi-las de cair, fechei os olhos e movi as pernas lentamente, de um lado para o outro.
De olhos fechados, passei minhas mãos pelo corpo num movimento que Lupita havia me ensinado. Das ancas pela cintura, barriga, seios, pescoço, nuca, e por debaixo dos meus cabelos, deixando meu tronco leve e flexível. Me balancei de um lado a outro no ritmo da música e suspirei fundo quando meu nariz começou a arder pelo choro que eu segurava com força dentro de mim.
Movi os quadris e rebolei sem sair do lugar, oscilando minha cintura em 180º e 360º graus, e aquilo me deixou com mais vontade ainda de continuar e, portanto, continuei. As lágrimas desciam quentes por meu rosto e eu fiz passos para frente e para trás, deixando meus braços soltos… Soltos demais. Quando desequilibrei de um rodopio e quase caí, uma mão grossa me amparou num toque tão preciso que eu arregalei os olhos e berrei assustada.
- Me desculpe, Sra. Carter! - disse desconcertado e eu me afastei alguns passos assustada, passando as mãos pelo rosto para limpar o traço de lágrimas e colocar os cabelos para trás.
- O q… O q… O que você está fazendo aqui? - Arfei.
- Eu… Eu bati na porta, a senhora não ouviu… Eu queria… é… - E ele pareceu não conseguir completar o raciocínio.
- O quê?
- Água, eu queria água.
Franzi as sobrancelhas e me segurei no aparador para não cair.
- Tem água lá fora. - Respondi num murmúrio que ele fingiu não ouvir. Me olhava tão atentamente que por um momento senti como se estivesse sem roupas. Eu estava a própria imagem do desmantelo, mas ele me encarava com tanta atenção e tanta ternura naquelas íris brilhosas que eu me senti desconcertada por tamanha intensidade.
- A senhora está bem? - Ele perguntou com uma voz que transbordava angústia.
Sim, eu quis dizer. Sim, estou bem. Quis tranquilizá-lo, dizer para me deixar em paz e que não era da conta dele qualquer coisa sobre a minha vida. Queria lembrá-lo da sua decisão de me afastar e queria dizer que ele era meu empregado e, portanto, não tinha o direito de perambular por minha casa.
Mas não o fiz.
- Não… Eu… Não estou bem.
Ficamos em silêncio alguns segundos, a música rolando no fundo nos envolvia numa atmosfera tão sufocante que nem se eu quisesse seria capaz de quebrar aquele contato visual tão intenso. Silencioso, mas que dizia tantas coisas. parecia cauteloso, parecia analisar milimetricamente quais seriam seus próximos passos e próximas atitudes. Sem dizer nada, ele deu um passo em minha direção e estendeu a mão. Meu coração martelou e minha boca instantaneamente secou.
- V...Você está falando sério? - Perguntei mesmo que ele não tivesse dito nada.
- Não há nada que não melhore com um reggaeton, eu já te disse isso - Ele respondeu quando, trêmula, aceitei sua mão.
Parecendo tão nervoso quanto eu, ele me puxou para perto de si e eu afundei meu rosto na curva quente do seu pescoço e suspirei fundo quando ouvi sua respiração ruidosa e vi sua pele inteira arrepiar. De repente, o ar pareceu rarefeito.
Quando colocou uma de suas pernas entre as minhas, um calor incontrolável subiu pelo meu corpo, principalmente por sentir o tecido da calça jeans dele entre minhas pernas desnudas. O camisão subiu de um jeito inapropriado quando as mãos dele tomaram meus quadris de um jeito tão preciso que me arrancou um suspiro. Nos guiando lenta e precisamente de um lado a outro, eu me soltei nos braços dele exatamente como da primeira vez que fui ao La Factoria.
E ali, naquele abraço apertado, recebendo aquele calor tão intenso do corpo dele colado ao meu, eu me senti protegida. Senti como se aquele fosse meu lugar no mundo.
O cheiro de adentrou minhas narinas de um jeito quase sufocante e eu me descobri inebriada por aquela fragrância que misturava o cheiro másculo do seu suor com o perfume cítrico e almiscarado que emanava da sua pele macia e bronzeada. abaixou a cabeça de modo que a ponta do seu nariz encostou perigosamente no meu pescoço e eu me encolhi completamente arrepiada. Meu coração palpitava tanto quanto o dele, eu podia sentir através do nosso aperto.
Tomei coragem e dei um destino as minhas mãos, que se anteriormente estavam soltas, agora se colocavam ao redor do corpo dele, o abraçando pelo pescoço. Mordi um sorriso ao ouvi-lo suspirar quando minhas mãos fizeram um rastro por sua pele e se pousaram confortáveis em sua nuca. Estávamos ultrapassando alguns limites, mas eu não conseguia me importar. Na verdade, não conseguia lembrar nem mesmo qual o meu nome.
Eu já podia sentir minhas energias se revigorando progressivamente dentro de mim e foi com muita infelicidade que percebi ele freando os movimentos quando a música acabou. Outra já estava dando o lugar a anterior, mas ele não voltou a mover-se, mas também não me afastou completamente dos seus braços.
retirou a cabeça da curva do meu pescoço e eu fiz o mesmo com o dele, nossos rostos tão próximos que tornava até difícil manter o contato visual. Nossas respirações estavam pesadas e o suor dele já se encontrava por meu corpo.
- Sra. Carter, eu… - Ele começou e a voz rouca dele emanou vibrações para o meu baixo ventre. Foi inevitável não desviar o olhar para a boca avermelhada e carnuda dele que se movia de um jeito tão bonito a minha frente. Ele percebeu o foco da minha atenção e prendeu o lábio inferior entre os dentes, umedecendo-o instintivamente.
Aquilo foi o suficiente para que eu mandasse todo o meu juízo para o inferno quando uma sede insaciável se apossou de mim. Algo queimava, explodia e se alastrava por meu interior e eu não conseguia mais me conter.
Antes que pudesse proferir qualquer outra coisa que me faria afastar dele, tomei um impulso ficando na ponta dos pés para, sedenta, colar meus lábios aos dele.




Continua...



Nota da autora: Obrigada por estar acompanhando essa história!
Finalmente Zonas de Peligro está conquistando mais pessoas e foi com uma grata surpresa que recebi a notícia do topo do topfictions. Obrigada por todos os comentários, indicações e recomendações… É isso o que me motiva a continuar escrevendo e agiliza o processo de escrita e atualização.
Esse capítulo sete resolvi modificar um pouco e troquei bastante os POVS no meio, vocês gostaram? Eu normalmente não curto muitas trocas, mas nesse caso senti a necessidade… O que vocês acharam?
E esse beijo? Finalmente!
Como será a reação do pp? Palpites?
Muitas surpresas para esse retorno ao La Factoría, quem está ansiosa?

Besitos molhadinhos e até a próxima!

Priusk.






Outras Fanfics:
A Beautiful Nightmare
Mysterious and Addictive
01.Revival
Mixtape: Shout Out to My Ex


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus