Última atualização: 02/03/2017

Prólogo

Deixei que meus pensamentos vagassem enquanto o padre começava mais uma oração ao mesmo tempo em que o caixão descia e fazia sumir de vista para sempre um corpo que representava metade do meu coração. Eu sabia que meu pai não estava mais ali. Eu sabia que aquele era só seu corpo físico, inerte, pálido e sem vida. Eu sabia que meu pai amoroso, atencioso e sempre tão caloroso não estava mais ali dentro, não naquele corpo gélido que não podia mais emanar o calor do seu abraço tão reconfortante. Meu pai já tinha ido embora. No entanto, eu não podia deixar de sentir um desespero irracional ao observar o caixão descer e me tirar de vista a silhueta do único homem que amei na vida.
Eu nunca mais veria meu pai sorrir.
Independente de todos os meus esforços para evitar que esse momento chegasse, cá estava eu, enterrando meu pai. Nesse momento, uma frase irritante perambulava por minha mente “quando é para acontecer, acontece”, não sei quem foi o idiota que inventou, mas já o odeio. Em pé no gramado do cemitério eu me pergunto de que adiantou fazer todos os sacrifícios que fiz, se no fim das contas ele se foi do mesmo jeito. Não importou a bolada de dinheiro para financiar o tratamento do câncer, não importou os melhores hospitais e os melhores médicos, ele se foi do mesmo jeito. Não adiantou largar minha carreira para me casar - sob pressão - com um homem possessivo que me impedia de trabalhar, mas que me prometia todo o dinheiro do mundo para ajudar meu pai… Não adiantou nada…
A morte é a única certeza que temos na vida. E quando chega sua hora, não adianta barganhar: nem todo dinheiro do mundo pode pagar mais alguns minutos de vida na terra. Acho que esse foi o maior aprendizado que tive com todo o processo de luto pelo meu pai.
Desviei meu olhar quando o coveiro começou a colocar a terra por cima do caixão e percebi que estava chorando ao internalizar a grande verdade por trás de todo aquele acontecimento: Eu estava sozinha no mundo.
Minha mãe morreu no meu nascimento, não tive irmãos e nunca conheci nenhum parente distante. Éramos só meu pai e eu contra o mundo. Agora era apenas eu. E eu nunca me senti tão indefesa e sozinha em toda vida.
E não deveria me sentir assim. Não com a mão de Orson entrelaçada na minha. Não com tantos amigos que me apoiavam e me amavam tanto.
Respirei fundo tentando conter as lágrimas e repeti para mim mesma que precisava ser forte. Não bastava apenas lidar com a morte do meu pai, eu também estava precisando lidar com o fato de que estava deixando o Texas para morar em Porto Rico, longe de todos meus amigos e de tudo que eu conhecia e amava, unicamente porque meu marido rico recebeu uma proposta irrecusável de emprego e eu, como esposa devota, precisava estar ao lado dele.
Deixei que minhas lágrimas molhassem meu rosto com a esperança de que lavassem a tristeza que eu sentia por dentro, desejando que Deus me desse um novo sentido para viver.
Porque eu me sentia morta por dentro.


Uno

Bienvenidos a San Juan
Música del capítulo: La Bicicleta – Shakira


Observei a paisagem passar pela janela do carro admirada com a quantidade de cores vívidas que eram refletidas pelo sol nas ruas de San Juan. Como uma boa garota do Texas, eu estava acostumada com o sol e com o calor, mas todo aquele ar seco era completamente diferente do clima caribenho. Apesar de não estar nem um pouco animada com a perspectiva de ter deixado para trás toda minha vida, não pude conter o impulso de abaixar o vidro para dar uma boa tragada daquela brisa salgada e tão úmida.
Deixei o vento soprar contra meu rosto e passei a prestar mais atenção nas cenas que conseguia captar conforme o taxista acelerava pelos bairros da cidade que era agora minha casa. Consegui reconhecer a voz da Shakira na música que entoava na rádio e coloquei meus óculos escuros ao mesmo tempo que ouvia fragmentos da conversa entre Orson e o taxista.
Precisava praticar meu espanhol o quanto antes. Até tive alguns meses de curso intensivo, mas com todos aqueles acontecimentos com meu pai, minha concentração tinha ido por água abaixo. Consegui entender uma coisa e outra sobre os bairros que passávamos e um pouco do comércio local. Dei um risinho baixo me lembrando de Hilary tentando me confortar dizendo que Porto Rico era uma ilha caribenha ligada aos Estados Unidos e, portanto, se me reconfortasse poderia pensar nela como uma “extensão de casa”, quase não veria diferença…
Bastei inspirar o ar de San Juan pela primeiríssima vez para saber que eu estava muito longe de casa. E que era tudo absolutamente diferente do que eu estava acostumada. Minha melhor amiga estava enganada.
A cidade era bonita, tinha que confessar. Fiquei intrigada por alguns momentos vendo casinhas de azulejos e fachadas coloridas. Era tudo tão… alegre. Dei uma olhada para roupa que estava usando e percebi como contrastava com o sol local. De repente o preto não parecia cair tão bem.
- Bienvenidos a Condado! - O taxista anunciou e eu prestei um pouco mais de atenção na conversa - Um dos bairros mais nobres de San Juan.
Revirei os olhos tediosamente. Não esperava menos vindo de Orson. Ele era daquele tipo de homem podre de rico que não se importava em ostentar além da conta. Quando recebi a notícia da transferência para a indústria Baccardi em Porto Rico, meu marido me prometeu tudo do bom e do melhor para que eu não sentisse a menor saudade de casa. Não que isso fosse possível, eu me contentava com pouco, não precisava de metade das coisas que tinha, fui criada com o básico pelo meu pai, não tínhamos muito dinheiro, mas sobrava amor…
Refreei esse pensamento. Lembrar do meu pai doía e eu não estava segura dentro de casa para chorar. Talvez mais tarde.
- … As praias têm um tom de azul muito bonito! - O taxista ia dizendo orgulhoso e eu voltei minha atenção para a janela contemplando a paisagem luxuosa.
Passamos pela portaria do Condomínio Del Mar e eu entendi que havíamos chegado ao nosso destino. Contemplei a rua da minha nova moradia um tanto quanto embasbacada. Todas as casas tinham construção bem sofisticada e pareciam fazer parte daqueles catálogos que eu folheava quando era criança e imaginava uma vida que nunca teria. Engraçado como as coisas mudam.
- Baby, está pronta? - Ouvi Orson me chamar e voltei minha atenção para meu marido que me olhava de esguelha do banco dianteiro do táxi. Dei um sorriso mínimo em resposta.
Orson tinha me prometido surpresa total quanto a casa. Escolheu tudo sozinho dizendo que queria me surpreender e que compreendia o fato de que eu não tinha cabeça para decoração de nada com tudo que estava precisando lidar com a doença do meu pai. Por um lado, fiquei muito grata visto que nem me mudar eu queria, quem dirá decorar casa. Por outro, achei um tanto egoísta, visto que era do meu novo lar que estávamos falando. Por fim, decidi que não me importava tanto.
- Chegamos. - O taxista anunciou estacionando o carro e eu me preparei para descer.
Orson já estava do lado de fora apontando alegremente para a estrutura da mansão glamorosa na minha frente. Deixei meu queixo cair inevitavelmente e percebi um risinho nervoso sair da minha boca.
- Tudo isso para nós dois, é sério?! - Perguntei incrédula e Orson tomou meu completo choque por empolgação e arreganhou ainda mais o sorriso. Eu estava histérica.
- Isso porque você ainda não viu por dentro, baby! - Ele disse empolgado e eu senti minhas entranhas se revirando. Aquela casa era enorme, facilmente poderia me perder dentro dela. Daria um trabalho tão grande para limpar…
- Não se preocupe, nós já temos funcionários. - Orson verbalizou meus pensamentos e eu o encarei surpresa com sua eficácia em pensar em todos os detalhes. Às vezes, apesar de exagerado, Orson sabia ser bem planejado.
Acompanhei meu marido até a porta da mansão observando-o fazer as honrarias da casa e abrir a porta para mim. Sorri fraco para ele, ainda embasbacada com tamanho exagero tomando coragem para encarar o que me esperava por dentro sabendo que era duas vezes pior.
Suspirei fundo e abri os olhos.
Eu não tinha palavras.
Nosso apartamento no Texas era muito espaçoso, moderno e confortável. Eu lembro exatamente de como fiquei espantada quando entrei lá pela primeira vez. Eram três quartos, um home, uma cozinha com dependência, área de serviço, dispensa, duas varandas e uma linda área gourmet.
Eu não me surpreenderia se nosso apartamento inteiro coubesse na sala daquela casa.
A decoração mesclava entre moderna e tradicional. Os móveis de mogno contrastavam bem com o piso de porcelanato tão limpo que até brilhava. As paredes forradas por um papel de parede em tons de bege e dourado que contribuíam para ar sofisticado do imóvel. Deixei meus olhos passearem por todos os pequenos detalhes, sem palavras para descrever o exagero e glamour da minha nova casa. Era linda, isso eu tinha que confessar. Mas apesar de linda, estava longe de me dar a sensação de lar.
- E então, o que achou? – Ouvi Orson perguntar e concordei com um aceno de cabeça ainda pasma para verbalizar corretamente o que eu achava daquilo tudo.
- É linda. – Resumi.
Orson fez menção de falar mais alguma coisa quando a porta da sala abriu-se novamente e o taxista passou por ela com duas malas gigantescas na mão. Logo atrás dele uma mulher carregava outras duas malas parecendo fazer um esforço enorme com tal gesto. Me apressei em ajuda-la enquanto Orson pagava o taxista.
- Deixe-me cuidar disso! Me entreti tanto conhecendo a casa nova que esqueci das malas – Disse para a mulher, pegando uma das malas de suas mãos e colocando no chão. Ela sorriu meigamente para mim.
- Não precisa, senhora Carter. - Ela respondeu ofegante e eu franzi o cenho estranhando. Como ela sabia meu nome?
Estava prestes a verbalizar a pergunta quando Orson surgiu ao meu lado e apertou a mão da moça.
- Você é a Srtª , não é?
Ela assentiu com a cabeça e voltou-se para mim.
- Guadalupe , prazer – Ela estendeu a mão para mim e continuou sorrindo meigamente. Aceitei o aperto e sorri em resposta apreciando a beleza natural da menina. Ela tinha uma pele bronzeada e traços marcantes.
- Srtª é nossa nova empregada. – Orson me explicou e redirecionei meu olhar para ele.
- Como conseguiu funcionários tão rapidamente a distância? – Perguntei realmente curiosa sobre esse fato. Ele sorriu presunçoso e deu de ombros.
- Eu te disse que estaria tudo pronto para você, baby – Ele respondeu roubando-me um selinho – Além do mais, o Chad fez boa parte dessa ponte, indicou o para ser meu motorista e ele me sugeriu a sobrinha como empregada e o sobrinho como jardineiro...Basicamente viemos para Porto Rico para garantir emprego para uma família…
- Jardineiro? – Eu perguntei interrompendo embasbacada. Nunca pensei que me tornaria uma daquelas dondocas que tem diversos funcionários em casa sem a menor necessidade.
- Você pode chamar de serviços gerais também. Cuidar da piscina, do jardim, eventuais reparos... uma espécie de caseiro. – Orson respondeu suavemente e eu franzi o cenho desconfiada. Não gostava da ideia de ter tanta gente nos servindo, mas, para falar a verdade, tomar conta de uma casa daquele tamanho era impossível para uma pessoa só.
Olhei para o relógio de pulso e me dei conta de que fazia muitas horas desde que eu tinha feito a última refeição. Meu estômago embrulhou de fome e eu lancei um olhar para o meu marido que digitava freneticamente no celular. Guadalupe já estava fora de vista.
- Estou com fome, vamos pedir algo em casa e desarrumar as malas ou quer almoçar em algum restaurante pela cidade? – Perguntei esperando que fosse a segunda opção. Não estava no clima de desarrumar mala e chorar ainda.
- Hmm... Sabe o que é, baby – Ele começou ainda sem me olhar diretamente, digitando no celular – Tenho que resolver algumas coisas com o Chad, então marquei um almoço de negócios.
- Marcou um almoço de negócios para o seu primeiro dia aqui? Achei que fossemos ficar um pouco sozinhos... – Comecei um pouco desapontada e Orson bloqueou o celular e se aproximou para beijar minha testa.
- Vamos ficar sozinhos, a noite. Eu trago comida para você, ou você pode pedir algo para trazer em casa e ficar descansando. Vai ser um almoço chato e só vamos falar de negócios. Pensei em você ficar aqui e nos vermos mais tarde, o que acha?
Se fosse possível, meu queixo teria ido parar no chão.
Eu tinha me despencado da minha cidade natal para acompanhar meu marido em seu negócio milionário, deixando para trás meus amigos, minha profissão, minha casa, as memórias do meu pai... tudo, para que ele que marcasse um almoço estúpido de negócios no meu primeiro dia em uma cidade nova. Me deixando em casa sozinha na maior naturalidade do mundo. Por que Orson insistia em me desapontar?
- Orson... Não tem como você marcar isso para depois? Poxa, é meu primeiro dia aqui... – Comecei a dizer e ele logo me lançou uma cara feia.
- , não seja tão incompreensiva. Olha tudo o que eu fiz por você – Ele falou abrindo os braços mostrando a estrutura do casarão – Seja um pouco mais agradecida. Se eu estou indo, é porque preciso, é para te dar do bom e do melhor.
- Eu só queria um pouco de atenção, é pedir muito?! – Eu falei já sabendo que era uma batalha perdida, ele começaria com as manipulações emocionais e me faria sentir culpada por pedir o básico, alegando que eu era incompreensiva, mimada e carente.
- Não seja mimada, Viu só o que eu disse?! Eu o conhecia muito bem, infelizmente. Não sei porque ainda me surpreendia com suas atitudes mesquinhas. Apostava que quando ele voltasse desse almoço iria me trazer algum presente caro acreditando que logo tudo ficaria bem – Eu volto logo logo e vamos jantar juntos, ok?! Aproveite esse tempo para descansar e ficar linda para mais tarde.
Certo. Era só para isso que eu servia. Descansar, opinar pouco, falar o mínimo possível, me embelezar e servir para posar com ele quando era conveniente. Além, é claro, de bancar a esposa compreensiva que faz sexo sempre que o marido está a fim.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Orson saiu porta afora e eu me senti mais vazia do que nunca. De repente minha fome tinha passado quase que completamente. Lancei um olhar tristonho para minha casa sentindo-me num ambiente completamente desconhecido e infeliz. Como eu podia nutrir esperanças de que meu relacionamento fosse diferente só porque estávamos num lugar novo?
Eu estava iniciando a carreira de modelo quando Orson Carter e eu nos conhecemos, num dos eventos da agência que gerenciava meus trabalhos. Era meu primeiro grande desfile e eu estava empolgada com a perspectiva de ser notada por um dos olheiros de Nova Iorque que estaria presente. A empresa que Orson trabalhava estava financiando o evento e ele não conseguiu tirar os olhos de mim desde o primeiro momento que me viu. Lembro de ter ficado feliz e encantada quando recebi uma caixa com chocolates finos no camarim de um admirador secreto - não tão secreto assim. Começamos a sair e em duas semanas estávamos namorando.
Antes de conhecê-lo, eu era uma menina simples que tinha sido criada sem muitos luxos. Estava começando minha carreira de modelo e estava deslumbrada pela vida de glamour e holofotes - era natural, eu tinha apenas 19 anos e não entendia nada sobre a vida. Deixei-me encantar por ele porque Orson era a personificação de tudo que eu achava que queria em um homem: atencioso, carinhoso, protetor e disposto a me mimar o quanto eu quisesse.
Meu pai nunca gostou muito de Orson, lembro dele ralhar horas me dizendo que eu não deveria me envolver tão seriamente com um homem 15 anos mais velho do que eu, que estávamos em fases diferentes da vida e que pouco a pouco eu iria perder minha identidade. Assim como muitas meninas da minha idade, não dei ouvidos ao meu pai e me envolvi de cabeça no relacionamento com o homem que me tratava como uma princesa e me proporcionava situações que eu nunca pensei que viveria. Foram tantos jantares caros, tantos eventos de luxo, tantas viagens…
Eu estava apaixonada e pronta para entregar meu coração quando as coisas começaram a desandar.
Eu costumava associar os ciúmes de Orson como proteção e zelo além da conta. Não demorou muito para que ele tentasse sabotar alguns dos desfiles mais importantes para mim. Lembro com exatidão do dia que me impediu de viajar para Los Angeles porque não queria que eu desfilasse de lingerie, chegou ao absurdo de me oferecer o mesmo valor do cachê para que eu não saísse do Texas. Pouco a pouco as agências foram me deixando de lado e eu me via cada vez mais refém da possessividade exagerada dele.
Nossas brigas se tornaram constantes, comecei a me rebelar e ameacei terminar várias vezes. Numa dessas brigas calorosas ele levantou a mão para mim pela primeira vez. - Me encolhi no sofá com a lembrança deixando que as lágrimas rolassem livremente pelo meu rosto - Mas assim como toda tempestade, quando ela passava ele tornava a ser o homem amável e carinhoso que eu tinha conhecido. Não demorou muito para que ele começasse a me culpar pelas crises violentas… “Eu estava provocando o ciúmes dele”.
Eu fui me tornando cada vez mais infeliz dentro daquele relacionamento. Perdi as contas de quantas vezes pensei em terminar e logo depois mudava de ideia. Para além de ser o homem que me entupia de presentes e me levava para viajar o mundo, Orson era carinhoso e nos dias bons me tratava como uma rainha, eu achava que poderia muda-lo, que se talvez eu fosse menos incompreensiva conseguiria perceber como estava dando a sorte de estar com um homem como ele. Isso até ver uma camisa manchada de batom certa vez ao vê-lo chegar bêbado em casa.
Eu chorei do jeito mais humilhante que uma mulher pode chorar por um homem. Foi nossa pior briga em todos os tempos. Eu estava decidida a terminar, estava com a escolha feita e com todas as palavras ensaiadas na cabeça…. Quando recebi um telefonema do meu pai que tinha algo importante para me contar. O resultado dos exames tinha saído e o diagnóstico estava confirmado: era câncer.
Meu relacionamento ficou para segundo plano quando eu me vi tendo que cuidar do meu pai. As contas de hospitais não batiam e nem todo dinheiro que eu havia juntado na poupança era o suficiente. Orson se aproveitou desse momento de fraqueza para me fazer a proposta mais indecente de todas: casamento. Se eu me casasse com ele, meu pai teria direito a todo tratamento de ponta sem nenhum custo. Em troca disso, eu precisaria abrir mão da minha carreira de modelo para sempre.
O resto vocês já sabem.
Eu estava tão perdida com a morte do meu pai que nem me posicionei contra a mudança para San Juan. Naquele período eu acabei me tornando ainda mais dependente de Orson, que era quem me sustentava e não me deixava cair. Com o casamento ele me prometeu que as coisas mudariam, e até tinham mudado mesmo. Ele havia voltado a ser compreensivo, carinhoso e prometeu total devoção a mim. Eu já não tinha mais nada na vida e por isso continuei com ele, não sabia mais ser sozinha. Eu era muito nova para me sentir tão vazia assim.
Algumas pessoas poderiam até dizer que eu estava sendo ingrata. Apesar de estar orfã aos 21 anos de idade, eu estava casada com um homem rico e tinha mais coisas do que precisava. Eu deveria tentar olhar pelo lado positivo, mas...
De que adiantava me entupir de coisas caras, decorar uma casa inteira se nós nunca iríamos construir um lar? Eu já tivera um lar e sabia exatamente como era. Instantaneamente senti o cheirinho da minha casa no Texas e meu coração apertou de saudades do meu pai. Desanimada, me arrastei até o sofá e me aninhei em posição fetal, abraçando minhas pernas e apoiando meu queixo nos joelhos.
Eu tinha completa certeza de que nunca iria me recuperar 100% da dor de perder meu pai e meu melhor amigo. Ele era a pessoa mais parceira que eu já tinha conhecido na vida e era capaz de me entender como ninguém. Orson viva dizendo que me amava e que nenhum outro homem me amaria igual. Eu sabia que isso era mentira, ele jamais poderia me amar metade do que meu pai amou.
Antes que eu pudesse evitar, duas lágrimas grossas escaparam por meu rosto e embaçaram minha visão. Droga… Eu não queria estar chorando agora, não tão cedo. Precisava me guardar para a noite, que era sempre o pior momento quando eu me encontrava ao lado de um homem adormecido feito pedra incapaz de me abraçar para consolar meu luto.
Estava fungando e limpando meu rosto quando Guadalupe saiu de uma porta que eu imaginava que dava acesso a cozinha. Me assustei um pouco com sua presença silenciosa e me apressei a enxugar as lágrimas e passar a mão no nariz. Ela pareceu desconcertada por ter invadido meu momento particular porque me lançou um sorriso compreensivo.
- Deve ser difícil para a senhora deixar sua casa, imagino - Disse gentilmente e eu sorri em resposta.
- Antes fosse só isso… - Respondi baixinho.
- Ouvi a senhora dizer que estava com fome, posso preparar alguma antes de sair, se quiser. - Ela ofereceu.
- Pode me chamar de você ou de , senhora não… Por favor - Eu pedi e ela sorriu em concordância. Eu nem era tão mais velha do que ela assim, no máximo uns dois anos.
- Tudo bem, se a senho...se você quiser, posso cozinhar ou sinalizar uns bons restaurantes para pedir comida - Ela continuou.
- Onde você vai? - Perguntei só por perguntar.
- Fazer compras para vocês, ainda não tem comida em casa e Sr. Carter me deixou uma lista de coisas de mantimentos. Vou aproveitar uma feirinha que montam aqui por perto. - Guadalupe respondeu e eu ponderei por um momento.
- Posso ir com você? - Perguntei esperançosa e ela arregalou os olhos parecendo ter sido pega de surpresa.
- Gostaria de ir comigo numa feira? - Ela perguntou confusa e eu assenti com a cabeça. Não queria ficar naquela casa sozinha e sucumbir a tristeza e solidão. Se o inútil do meu marido podia sair, então eu também não tinha que ficar em casa sozinha.
- Sim, quero conhecer um pouco da cidade e não quero ficar sozinha por aqui…
- Bom, pode, eu acho… - Guadalupe começou meio incerta - Quer dizer, claro que pode, é que não consigo imaginar como isso poderia ser divertido para você…
- Eu não sou essa dondoca toda que você tá pensando, Guadalupe - Respondi já me levantando do sofá vendo a menina sorrir para mim - Além do mais, eu sempre gostei de feirinhas, ia muito com meu pai.
- Sendo assim, então vamos - Ela disse animadamente e eu já me sentia instantaneamente mais leve. Existia algo na áurea de Guadalupe que era incapaz de me deixar triste na presença dela. Talvez fosse seu sorriso meigo ou seu tom de voz animado, fosse o que fosse, eu já me sentia 100% segura da decisão de acompanha-la nas compras para minha própria casa.
Enquanto caminhávamos pelo bairro, Guadalupe - que agora eu já chamava de Lupita - ia me explicando calmamente sobre os lugares que passávamos. Ela tinha todo cuidado do mundo de falar devagar para que eu entendesse seu espanhol da melhor maneira possível. Fazia muito tempo que eu não tinha uma facilidade tão grande para conversar com alguém como tive com ela. Em poucos minutos tagarelávamos como se fôssemos grandes amigas e confidentes de anos.
Lupita me contou que assim como eu, também já tinha perdido um ente querido. Mas do contrário de mim, ela não era totalmente orfã, visto que sua mãe ainda estava viva e muito presente em sua vida. Era muito bonito ouvi-la falar da relação com a mãe e o irmão - que era meu jardineiro - e do quanto se uniram ainda mais depois da morte do pai quando ela tinha apenas 6 anos de idade.
- Queria ter conhecido minha mãe - Respondi depois de um tempo ouvindo sobre as receitas das alcapurrias* da mãe que ela havia me prometido fazer qualquer dia desses - Sempre foi meu pai e eu contra o mundo.
- Eu sei que nada do que eu diga vai reconfortar, mas o tempo ameniza essa saudade e a lembrança dele vai ser algo feliz em seu coração - Ela disse suavemente e eu concordei com a cabeça percebendo como não me sentia triste falando dele com ela. Precisava me lembrar de agradecer a Orson por ter contratado Lupita como funcionária, pelo menos eu teria alguém com quem conversar em casa e não me sentiria inteiramente sozinha.
Lupita nem precisava ter anunciado que já havíamos chegado para que eu soubesse que estávamos na tal da feirinha. A rua estava tomada por várias barraquinhas com tantas variedades que tive dificuldade em manter a concentração. Diversos comerciantes exibiam suas mercadorias que iam desde frutas, legumes, vegetais até peças de artesanato e outras coisas manufaturadas.
Ela me guiava pelas barracas parando ocasionalmente quando encontrava alguma coisa do seu interesse. Parecia ser bastante íntima dos comerciantes porque sempre cumprimentava alguém alegremente e logo me apresentava também. Aproveitei para provar algumas frutas pelo caminho e fotografar aquela variedade de cores e opções. Mandaria todas as fotos por whatsapp para meus amigos à noite.
Lupita movia-se assertivamente entre as barracas, sabendo exatamente o que e onde procurar. Eu estava tão deslumbrada analisando tudo a minha volta que vez ou outra ela precisava tocar meu braço para guiar por entre o mar de pessoas que estavam aglomeradas no meio da rua. Eu observava cada expressão no rosto de cada pessoa, extasiada em cada pequeno detalhe do que era desconhecido.
Enquanto Lupita escolhia algumas frutas, minha atenção foi desviada para uma barraca logo a frente em que, ao invés de alimentos, estavam sendo expostos diversos itens de decoração feitos a mão. Instintivamente me aproximei para observar melhor, ficando encantada com pinturas em aquarelas que estavam sobre a mesa. Eram tão bonitas! Estava tão absorta nos desenhos que demorei de perceber que estavam falando comigo.
- Sólo por esa sonrisa hermosa, puedo hacer un precio especial si quieres quedarte con alguna de las acuarelas - Fui surpreendida pela voz de um rapaz que me observava atentamente por trás da barraca. Desviei meu olhar das pinturas e encarei o rapaz que sorria para mim de um jeito tão bonito que me desconcentrou por alguns segundos.
Ele tinha um sorriso tão grande e tão bonito que os olhos castanhos ficavam quase fechados. Os dentes brancos e brilhantes exibiam um sorriso de covinhas tão encantador que eu me peguei controlando um suspiro surpreso. A pele bronzeada era tão lisinha que lembrava até a de um bebê. Ele não podia ser muito mais velho do que eu, a julgar pelos braços largos e pela altura, mas havia algo jovial na sua expressão despreocupada que me lembrava a leveza de uma criança.
- Que? Devagar, por favor - Eu disse acordando do meu transe e ele riu baixinho, me fazendo rir junto em consequência.
- Eu disse que só por conta desse lindo sorriso é que você pode ter um desconto especial, caso queira levar alguma das aquarelas - Ele disse pausadamente mantendo o sorriso no rosto e eu senti minhas bochechas corarem de leve. Eu fiquei tão absorta observando as aquarelas que não percebi que estava sorrindo involuntariamente.
- São realmente muito bonitas - Eu disse voltando meu olhar constrangido para as pinturas. Havia algo no olhar dele que me impedia de encarar, ele era tão bonito que me deixava desconcertada. - Você que fez?
- Sim! Tudo que está aqui, na verdade - Ele disse apontando para todos os outros itens na barraca e eu deixei meu olhar vagar pelos objetos, tão encantada quanto estava com as aquarelas. Examinei atentamente uma luminária feita de papel pensando em quanto talento precisava para conseguir confeccionar coisas tão bonitas.
- Parabéns, você tem mãos hábeis - Eu disse procurando em espanhol as palavras certas para pronunciar e notei ele rir baixinho. Ergui minha cabeça e me atrevi a olhar para o rosto dele novamente, só para vê-lo de cenho franzido me encarando com a cabeça pendando para um lado, como se me analisasse. - É uma pena que eu esqueci minha carteira em casa, estou sem dinheiro.

[N/a: Coloquem a música [https://www.youtube.com/watch?v=-UV0QGLmYys] para tocar!]


- Você não é daqui, não é? - Ele disse de um jeito engraçado e eu senti minhas bochechas formigarem.
- Hm… não, na verdade sou do Texas. - Confessei e ri baixinho ao vê-lo arregalar os olhos surpreso.
- E está aqui a passeio? - Ele perguntou tentando parecer desinteressado e eu sorri sentindo meu ego dar um saltinho e uma cambalhota.
- Na verdade, acabei de me mudar. - Respondi e percebi o sorriso dele se alargar tanto que conseguia enxergar quase todos os dentes e quase nada dos seus olhos.
Ele ia dizer mais alguma coisa quando os acordes iniciais de uma melodia tiraram minha atenção dos seus olhos castanhos. Virei de lado para observar uma pequena rodinha que se formava em volta de uma caixa de som e notei um menino começar a dançar no ritmo da música. Ele tinha no máximo 10 anos de idade e se movimentava com tanta desenvoltura que eu sentia inveja das suas articulações por permitirem tanta flexibilidade. Sem que eu pudesse perceber estava me aproximando da rodinha para enxergar melhor, hipnotizada com a sincronia dos passos.
Fiquei deslumbrada observando as pessoas aplaudindo e dançando no meio da rua e involuntariamente movimentei meus pés no mesmo lugar, encantada com a alegria que as pessoas emanavam num gesto tão simples.
- La muchacha hermosa gustaría concederme esa danza?* - Ouvi alguém dizer próximo ao meu ouvido e me virei assustada despertando do meu transe. Estava tão concentrada na música e tão envolvida com o momento que não percebi que estava me balançando. Ruborizei instantaneamente e observei o artista rir gostosamente ao meu lado.
Ele me olhava de um jeito tão animado que parecia portar o sol de San Juan dentro de si. Meu coração deu uma fisgada gostosa e eu sorri involuntariamente.
- O que disse? - Perguntei devagar acordando do meu transe e ele riu ainda mais parecendo achar graça do meu sotaque forçado.
- Te vi balançando sozinha e perguntei se gostaria de me conceder o prazer dessa dança - O rapaz repetiu devagar e eu sorri envergonhada.
- É tudo muito novo para mim, nunca vi algo assim - Confessei dando de ombros e ele sorriu ainda mais, se é que isso era possível. Será que todas as pessoas de San Juan eram tão animadas e calorosas assim?
- No Texas não chegou reggaeton ainda? - Ele zombou de um jeito engraçado e eu rolei os olhos achando graça da provocação. Era impressionante como eu estava conseguindo agir com leveza perto dele. Nem parecia que estava tão triste minutos atrás.
- Nunca vi pessoas dançando no meio da rua assim…
- Vejo que a cowgirl conheceu o poder do reggaeton - Ele disse acenando com a cabeça para a rodinha de dança que acontecia na nossa frente. Voltei a encarar as pessoas que dançavam animadamente na minha frente e percebi que dessa vez o menino não estava sozinho, era contagiante.
- É muito… envolvente - Eu disse por fim, hipnotizada demais para tirar os olhos das pessoas que dançavam na minha frente.
- Bom, se quiser ver mais disso é só aparecer no La Factoría, se quiser posso até te ensinar a dançar assim. Quem sabe você não me ensina alguns passos de country também - O rapaz falou despertando minha atenção novamente. Arqueei as sobrancelhas surpresa com aquela cantada tão explícita, incapaz de formular uma resposta decente. Eu me sentia lisonjeada com o flerte, era sempre interessante saber que ainda podia ser desejada por outros homens, além de que ele era lindo e tinha uma energia tão positiva que me passava uma segurança enorme mesmo sem nunca tê-lo visto na vida. Por outro lado…
- Hm, acho que meu marido não iria gostar muito dessa ideia - Eu respondi erguendo a mão esquerda para que minha aliança ficasse à vista. Para minha surpresa, o rapaz olhou da minha mão para o meu rosto e riu gostosamente fazendo meu estômago embrulhar mais uma vez. - Ahh, não acredito que mal te encontrei e já te perdi, Texa’s girl - O rapaz disse fingindo um tom de voz sofrido e eu tive que rir junto da encenação que ele fez ao tocar no coração como se tivesse sido apunhalado. Que rapaz divertido!
- Em outra vida, quem sabe - Brinquei e ele me deu uma piscadela, arrancando-me outro sorriso. Num gesto mudo ele ergueu a mão como se me pedisse para ficar parada, girou nos calcanhares, debruçou-se sobre a barraca armada e virou-se para mim trazendo consigo um origami em forma de uma rosa.
- Considere como um presente de boas-vindas a San Juan, forasteira - Ele estendeu para mim e eu aceitei com um sorriso imenso no rosto, sentindo-me quente por dentro - E caso queira dar um pé na bunda do seu marido, pode me procurar no La Factoria que eu te ensino a dançar reggaeton, mami - Ele completou com aquele sotaque maravilhoso e nós dois rimos juntos. - Obrigada - Agradeci estendendo o origami e ele fez um gesto com a mão como se dissesse que não foi nada demais.
- Agora preciso ir, é meu primeiro dia em um novo trabalho. Todos os sábados estarei aqui na feira exibindo minha arte… Caso queira trazer a carteira da próxima vez - Ele brincou me dando uma piscadela e eu ri em concordância.
Eu tinha certeza absoluta que apareceria novamente no próximo sábado.
Dei um sorriso tímido e acenei com a mão ao me afastar, sentindo minhas bochechas em brasas como uma adolescente de 15 anos quando vê o jogador bonitão do time de basquete. Me virei de costas para encontrar com Lupita quando me lembrei que nem se quer tinha perguntado o nome dele. Voltei para fazer isso quando percebi que o rapaz já tinha sumido de vista e não estava mais na própria barraquinha. Com uma leve sensação de desapontamento, continuei meu caminho segurando a minha rosa com um sorriso engraçado no rosto.
- Ei! Até que enfim te encontrei, achei que tinha te perdido - Lupita disse assim que me viu, o semblante parecendo totalmente aliviado - Achei que tinha me usado para fugir de casa. - Ela concluiu e eu a encarei de olhos arregalados.
- Por que eu faria isso?
- Não sei, você me parecia bem chateada hoje mais cedo - Ela respondeu simplesmente - Vamos? Vou fazer uma receita como boas-vindas para você, deve estar cansada e querendo repousar.
De repente me senti faminta e exausta, queria muito comer e descansar antes de ter que encarar aquele horror de mala que eu tinha para desfazer. Andamos por mais algumas barraquinhas e vez ou outra eu olhava por cima do ombro para ver se achava o rapaz novamente, mas nem sinal dele. Por fim, Lupita negociou com um transporte para levar todas as compras e logo estávamos a caminho de casa.
Conversamos todo o trajeto de volta e eu gostava mais de Lupita a cada segundo que se passava. Aproveitei para perguntar algumas coisas sobre a cidade para sanar minha curiosidade recém instalada.
- O que é La Factoría? - Perguntei me recordando do moreno de sorriso largo, sentindo minhas entranhas fervilharem.
- É uma danceteria em La Perla, as pessoas se reúnem para beber, namorar e dançar reggaeton - Lupita respondeu e franziu o cenho para mim - Não é muito lugar para senhor… para você. Arqueei as sobrancelhas surpresa com essa constatação. Embora eu já soubesse a resposta para a pergunta que fiz.
- Por que não seria lugar para mim?
- Bom… Primeiro porque La Perla é um bairro simples, muito diferente de Condado. As pessoas são mais humildes, não costumamos receber gente de tanto...porte - Ela foi me explicando calmamente, parecendo escolher bem as palavras que usava. Agora eu também sabia que era residente desse tal bairro. - E bom, o La Factoría não é muito um lugar para uma mulher casada....
Assenti um pouco desapontada, embora já soubesse que ela provavelmente tinha razão. Não precisava nem fantasiar com uma realidade em que Orson iria me acompanhar numa danceteria num bairro periférico para ouvir reggaeton, nem muito menos que me deixaria ir sozinha.
Quando chegamos em casa o carro de Orson já estava de volta na garagem. Me surpreendi ao vê-lo de volta, visto que os almoços de negócios costumavam demorar vidas. Assim que entrei pelo gramado da casa ele veio me receber aflito na porta.
- ! Onde você estava? Por que não me avisou que iria sair? Para que você tem celular se não atende? - Ele ralhou me puxando pelo braço com certa força fazendo com que Lupita se remexesse desconfortável do meu lado.
- Eu fui na feira com a Guadalupe, fomos comprar mantimentos para a casa. Não quis ficar sozinha e pedi para ela me levar junto - Respondi calmamente e olhei para o braço que ele ainda segurava com força que já começava a ficar vermelho - Será que você poderia me soltar? Está chamando atenção.
Orson pareceu desconfortável por um momento, cerrou os olhos para mim e logo voltou sua atenção para Guadalupe que engoliu em seco.
- Você não está sendo paga para levar minha esposa para fazer suas obrigações, ouviu bem? - Ele disparou desaforado, Guadalupe abriu a boca para gaguejar uma resposta quando eu intervi.
- Eu que pedi para ir, Orson, você foi almoçar e me deixou sozinha, eu quis conhecer um pouco da cidade e ser útil. Já estou de volta, não precisa falar assim com ela - Eu disse colocando a mão no ombro dele e ele virou para mim.
- Fiquei preocupado, só isso - Disse um pouco mais calmo, tentando ser afetuoso. Eu estava prestes a lhe responder quando uma voz ecoou por trás de Orson, chamando-lhe atenção.
- Sr. Carter, onde estão as chaves da casa da piscina?
Orson virou-se para trás e deu espaço para que eu visse o rapaz que encontrava-se atrás dele. No momento em que nossos olhares se cruzaram eu senti meu coração disparar e as pernas amolecerem.
A confusão no meu semblante estava refletida nos olhos dele que se arregalaram um pouco quando me notou logo atrás do meu marido. O sorriso largo que eu tinha visto no seu rosto há algumas horas atrás estava sendo substituído por uma expressão intrigada e muito surpresa.
Nos encaramos por alguns segundos que mais pareceram horas, tentando disfarçar a enorme coincidência diante de nós. Percebi a expressão surpresa dele ir se transformando num sorrisinho de canto e senti borboletas farfalharem as asas no meu estômago. Ele era tão bonito!
- Ah, aproveitando que está aqui… , este é o , nosso jardineiro. , esta é a , minha esposa - Orson nos apresentou não percebendo que nos encarávamos de maneira cúmplice.
pigarreou desconcertado e estendeu a mão para mim.
- Prazer, sra Carter.
Um pouco trêmula, estendi a mão e apertei a dele, percebendo meu corpo inteiro eletrizar quando nossas mãos se tocaram e eu senti o calor e a maciez da pele dele contra a minha. Com a outra mão, eu segurava o origami de rosa que ele tinha me dado algumas horas antes quando me convidou para dançar reggaeton no La Factoria.
Antes de saber que sua irmã era minha empregada e que seu patrão era meu marido.

Alcapurrias* - É um bolinho feito de massa de yautía e plátano, recheado com carne e frito.
La muchacha hermosa gustaría concederme esa danza?* - A moça bonita gostaria de me conceder essa dança?


Dós

Música del capítulo: Échame La Culpa – Luis Fonsi feat Demi Lovato.

“Ok, você precisa parar com isso”

Foi o que disse para mim mesma quando me flagrei lançando olhares furtivos por entre as cortinas pela terceira vez naquela manhã. Eu deveria estar compenetrada na minha árdua – e aparentemente infinita – tarefa de arrumar meus pertences no closet daquele quarto imenso, mas vez ou outra me via distraída pelo barulho da máquina de cortar grama vindo do andar de baixo.
estava dando um trato nas plantas do jardim mal cuidado e provavelmente o lugar mais necessitado de atenção era justamente embaixo da minha janela, porque lá ele estava há mais de duas horas. Eu poderia ser uma patroa rigorosa e dar uma advertência a respeito da maneira vagarosa que ele estava levando o serviço, mas a verdade era que eu estava apreciando (com muito mais empolgação do que deveria) vê–lo trabalhar.
Ele estava com uma camisa de flanela dobrada nos ombros e com três botões abertos que davam uma prévia do seu peitoral desnudo, visto que a fina camiseta branca que vestia por baixo da camisa estava coberta de suor. Não que eu tivesse focado minha atenção nisso, mas tinha ombros largos e braços naturalmente musculosos, conseguia ver suas veias saltadas enquanto ele segurava a tesoura cortando as ervas daninhas do meu jardim.
“Só mais uma olhadinha”
Espiei por entre as cortinas sem saber exatamente o porquê de estar fazendo isso e muito menos o porquê de sentir meu estômago revirando de ansiedade ao fazê-lo. Mas lá estava eu, bisbilhotando meu jardineiro trabalhando mais uma vez. Não sei o que havia em torno de que me deixava tão curiosa a respeito. Não sei isso se dava a grande coincidência em torno do nosso encontro, mas olhar para ele me dava uma sensação estranhamente prazerosa. Não que eu quisesse me tornar uma daquelas mulheres casadas e sem vergonha que lançavam olhares furtivos e descarados para seus empregados, mas a verdade é que ele não era nem um pouco desagradável aos olhos.
Os ombros largos, os braços musculosos e as mãos calejadas de trabalho braçal eram um contraste másculo a pele lisa e bronzeada pertencente àquele rosto de feições gentis e serenas…
Com um suspiro assustado, notei erguer a cabeça e lançar um olhar diretamente para minha janela, me flagrando no ato. Constrangida, me virei de costas para a janela e mordi o lábio inferior sentindo meu coração bater descompassado por ter sido flagrada naquele momento de insensata indiscrição da minha parte. Eu nem tive tempo de checar se ele ainda estava olhando porque nesse momento meu marido adentrou o quarto apressado, me forçando a tentar disfarçar meu semblante assustado.
– Ainda arrumando essas coisas, ? – Orson me perguntou quando deparou-se com a bagunça quase intacta de duas horas atrás.
– São muitas coisas e o dobro de espaço para preencher… – Respondi vagamente saindo de perto da janela.
– Isso significa que você precisa de roupas novas para seu novo guarda roupa. Pode deixar, trarei para você de Miami esse final de semana. – Orson comentou casualmente enquanto procurava um relógio no seu armário. Eu ainda estava um pouco desconcertada por conta do ocorrido há segundos atrás, mas isso não foi o suficiente para não notar a informação dada por Orson.
– Você vai para Miami no final de semana? – Perguntei com minhas sobrancelhas arqueadas e minha voz levemente falhada. Menos de uma semana em Porto Rico e ele já tinha aparecido com outra viagem?
– Na verdade, vou amanhã. Desculpe, baby, coisa de última hora. Sabe como são essas viagens a negócios. – Ele respondeu de qualquer jeito, como se estivéssemos falando sobre qualquer coisa menos importante. Senti uma pontada de raiva crescendo no meu peito.
– Orson, eu vou ficar sozinha aqui nessa cidade que eu mal conheço? Nós não temos nem uma semana aqui e você mal para em casa e quando vem é para me dizer que vai viajar no seu primeiro final de semana aqui? – Falei magoada. Tinha planos de que fôssemos conhecer a cidade juntos, talvez visitar algumas das praias famosas ou reservar um tempo para ver se talvez aquilo salvava nosso casamento. Aparentemente eu estava enganada.
, é o meu trabalho! O que você quer que eu faça? – Orson se esquivou vestindo o blazer e eu tive vontade de enforca-lo com aquela gravata.
– Não sei, talvez me dar um pouco de atenção, visto que eu só me mudei pra essa porcaria de lugar por sua causa! – Alterei a voz mesmo sabendo que isso não adiantaria nada.
, você está falando grego. Canalize esse chilique para dar um jeito nas suas coisas e na casa. Quando eu voltar, trago um presente para você. – Orson disse como se não tivesse escutado minha interferência e eu quase urrei de tanta frustração. – Se arrume bem bonita, venho te buscar às 19h para um jantar. – E tendo dito isso, saiu do quarto sem maiores interferências da minha parte.
Me joguei na cama e bufei irritada com tamanha injustiça daquela situação. Não que eu morresse de amores por Orson e fizesse muita questão da presença dele, mas ele era meu marido e a única pessoa que eu conhecia naquele lugar. Pouco tempo antes de nos mudarmos, ele tinha prometido tanta coisa bonita que eu estava até considerando a possibilidade de encontrar felicidade em nosso casamento. Perceber que estava enganada até nisso me tirou o último fiapo de esperança que eu sentia na vida.
Eu não tinha mais nada nada.
Eu não tinha mãe, não tinha pai, não demoraria muito a deixar de ter amigos visto que estávamos separados permanentemente por uma distância considerável, não tinha emprego e, portanto, nada a fazer com tanto tempo livre. Dizem que cabeça vazia é oficina do diabo e honestamente é mesmo. Eu não conseguia me manter positiva diante de tanta frustração.
Não consegui sentir pena de mim mesma durante muito mais tempo porque logo Guadalupe entrou no meu quarto com mais uma pilha de roupas limpas, passadas e dobradas em mãos para guardar no meu closet.
– Com licença, Sra. Carter, já sabe onde vai guardar estas peças que acabaram de sair da lavanderia? – Me perguntou num tom simpático e eu coloquei uma almofada no rosto angustiada demais para lidar com arrumação de armário essa hora.
– Está tendo um dia difícil? – Continuou puxando papo e eu precisei lembrar a mim mesma que ela não tinha nada a ver com a minha chateação. Tirei a almofada do rosto e me apoiei nos cotovelos para encara-la.
– Já tive dias melhores – Respondi taxativamente e para minha surpresa ela sorriu.
– Terminei tudo o que precisava lá embaixo e estou com um tempinho de sobra, se quiser posso te ajudar com isso – Ela disse gesticulando para o monte de roupas no chão e nas malas abertas. Arrisquei um sorriso e acenei positivamente com a cabeça.
– Eu agradeceria bastante, se dependesse de mim eu tocaria fogo em tudo. – Respondi azeda e Lupita deu uma risadinha debochada sentando-se no chão enquanto eu me levantava.
– Tocar fogo não precisa, mas se quiser separar algumas das coisas que não usa mais, tenho certeza que iria alegrar muita gente que precisa – Ela me disse e eu senti uma pontadinha de remorsos.
– Tem alguém em mente? – Perguntei um pouco mais mansa.
– Sempre temos! A escola do meu primo aceita doações de todos os tipos, desde crianças, adultos, até brinquedos e comidas. Depois de um tempo fazem distribuição nos bairros mais carentes. – Lupita respondeu dando de ombros e eu sorri.
Separei duas malas de roupas e sapatos que não usava mais e prometi a Guadalupe que ela poderia levar para doar na escola do seu sobrinho. Enquanto terminávamos de enfim arrumar o caos daquele quarto, conversamos mais e nos conhecíamos melhor. Eu estava mexendo por entre minhas malas quando fui surpreendida por uma exclamação de Guadalupe.
– Que máscara linda! – Ela disse virando–se para mim segurando uma máscara sob o rosto. Eu sorri com a lembrança que aquele objeto me trazia. Um dos meus primeiros desfiles como modelo profissional, antes de conhecer Orson e de todo o caos que minha vida tinha se tornado. A máscara era preta e cobria metade do rosto, tinha detalhes em renda e alguns brilhinhos. Eu tinha guardado de recordação, mesmo sabendo que não teria ocasião para usa-la.
– Eu usei num dos meus primeiros desfiles – Respondi com um sorriso e ri um pouco da empolgação de Guadalupe.
– Deve ser o máximo ser modelo! – Ela disse deslumbrada e eu dei de ombros.
– Tinha seus momentos bons… Mas também os momentos difíceis. Nem tudo são flores.
Não era difícil engatar numa conversa com Guadalupe, ela sempre tinha assunto e conseguia prender minha atenção me deixando genuinamente interessada no que tinha a dizer, vez ou outra eu falava um pouco sobre minha vida, embora a dela fosse muito mais interessante para mim.
Lupita me contou que tinha um primo de cinco anos, filho do Sr. – tio dela e do – e que era a luz da sua vida. Achei tão bonita a forma como ela falou da família que por um momento me imaginei sentada à mesa dos num animado almoço de domingo. Nunca tive a experiência de uma família grande e vê-la falar com tanto carinho dos parentes me fez ter a gostosa sensação de união, algo que eu gostaria muito de ter experimentado.
Com a ajuda dela, estava conseguindo arrumar tudo em tempo recorde. Tagarelávamos tanto que eu nem via o tempo passar. Era muito útil ter o que fazer e com quem conversar, assim eu teria menos tempo ocioso para pensar no desastre que era minha vida. Me flagrei dando risadas sinceras das histórias da mãe de Lupita, que vivia tentando arranjar um casamento para a filha.
– É sério, mãe não pode me ver quieta que já começa com seus planos casamenteiros – Lupita revirou os olhos e eu sorri. – é mais velho do que eu e ela não faz tanto escândalo assim por ele… eu digo que ele é o filho favorito e ela fica bem chateada – completou dando risada e eu senti minhas entranhas revirarem com a menção do nome do irmão dela.
– E por que você acha que só é assim com você? – Perguntei fingindo desinteresse.
– Eu digo que é porque mamãe acha que o é bom demais para qualquer mulher, mas a verdade é que ela me acha difícil demais para me casar e por isso tem medo que eu passe a vida inteira sozinha.
– Por que te acha difícil demais para se casar?
– Porque eu não consigo me visualizar dependendo de um homem para viver. E os homens tem essa visão de que a mulher é uma propriedade e eu não sou de ninguém. Prefiro ficar sozinha do que ser subordinada e minha mãe acha que é por isso que vou ficar encalhada e com muitos gatos pela casa, porque me acha irredutível demais. Eu não acho, só me acho independente – Lupita falou dando de ombros e eu travei com uma blusa nas mãos a caminho do cabide. As palavras dela pareciam ter me atingido com a força de um murro na boca do estômago. Eu podia me visualizar em cada uma das suas palavras, justamente na posição contrária a que ela gostaria de estar. Eu havia me tornado exatamente isso e ter minha vida como exemplo daquilo que alguém jamais gostaria de ser me deixou desestabilizada por um momento.
– Mas eu sei que um dia vo… – Lupita começou a dizer direcionando o olhar para mim e ao perceber que eu tinha me encolhido, ela interrompeu sua fala. Me encarou por alguns segundos até se dar conta do que tinha dito e como eu havia interpretado e seu semblante iluminou compreensão e logo ela correu para o meu lado.
– Desculpe, Sra. Carter, eu não quis ofender de alguma forma... – Lupita foi dizendo e eu recobrei a consciência, terminando de guardar a blusa no cabide e espalmando com a mão para que ela não desse importância.
– Não ofendeu – Menti e forcei um sorriso, logo voltando para pilha de roupas que demandava atenção – Além do mais, você tem razão. Preze sempre por sua independência, principalmente financeira.
– Me desculpe de verdade, não quis te julgar. Eu estava falando sobre mim… – Lupita agora parecia um pouco desesperada demais para se explicar e eu sorri serena.
– Lupita, tá tudo bem, de verdade. Você não disse nenhuma mentira. E o fato de você achar que me ofendeu com isso só prova o quanto meu casamento é óbvio para todo mundo.
– Sei que provavelmente não deveria dizer isso, mas se te consola, acho que a senhora merece bem mais do que isso.
– Obrigada, mas não consola, só piora porque é isso o que eu tenho – Respondi e antes que ela fizesse menção de dizer mais alguma coisa que fosse invasiva demais, eu me apressei em concluir – Acho que agora já consigo dar conta sozinha. Obrigada pela ajuda, pode levar essas duas malas para doar.
Lupita me lançou um olhar arrependido e sem dizer mais nada saiu do quarto conforme eu pedi.
Ela não tinha culpa de nada, disso eu estava plenamente consciente. Mas eu não quis continuar naquele assunto porque aquilo daria brechas para que ela me fizesse a pergunta que seria óbvia para todos “por que você não larga dele então?”. As pessoas tinham uma visão muito preto no branco, A+B, 2+2, referente a tudo isso. Elas não estavam no meu lugar e certamente não iriam compreender. Sem Orson, eu não era nada.
Eu sabia que era nova demais para estar me sentindo tão vazia, mas a verdade é que eu já não tinha mais ambições na vida. Parece que toda minha energia vital tinha sido sugada no momento da morte do meu pai e eu honestamente só não me matei porque era covarde demais para isso. Mas não podia dizer que o pensamento nunca me ocorreu, porque aí sim estaria mentindo.
Nunca esteve nos meus planos depender financeira e emocionalmente de um homem. Nunca esteve nos meus planos largar meu trabalho, meu sustento e minha diversão para ser bancada por alguém, mas também nunca esteve nos meus planos precisar pagar um tratamento caríssimo de câncer para a pessoa mais importante da minha vida. As coisas simplesmente aconteceram e eu remei conforme a maré. Gostava de me confortar dizendo que fiz o que pude com o que eu tinha e tentava por tudo que era mais sagrado não me arrepender dessa escolha, mesmo sabendo que se eu fizesse diferente meu pai estaria morto do mesmo jeito e eu talvez pudesse ter uma segunda chance de ser feliz longe de Orson, perto dos meus amigos e da minha cidade natal.
A minha vida poderia ser traduzida em uma sucessão de acontecimentos não planejados que me levaram até onde eu estava e eu honestamente tinha desistido de fazer planos, não queria me frustrar com eles. Então sim, Lupita estava certa em não querer depender de homem algum, se as pessoas bem entendessem que relacionamentos são parcerias, as coisas não seriam do jeito que são. Se eu pudesse escolher, certamente teria escolhido um rapaz da minha idade que compreendesse os infortúnios e interesses da minha fase, certamente teria escolhido alguém que me respeita e me admira porque admiração, respeito e confiança são bases sólidas para todo e qualquer relacionamento bem sucedido.
Não me admirava que eu não tivesse nenhum dos três com Orson.
“Mamãe acha que o é bom demais para qualquer mulher”
Suspirei quando finalmente terminei de arrumar tudo e constatei com certo desespero que já eram 18h15 e, portanto, eu tinha apenas 45 minutos para ficar pronta para o jantar com Orson. Corri para o banho e escolhi um vestido preto qualquer para a ocasião, o preto básico nunca falha. Fiz uma maquiagem rápida composta por delineador, rímel, blush e batom vermelho e chequei no espelho que não podia fazer nada pelo meu sorriso, não teria maquiagem no mundo que resolvesse aquilo.
Eu já estava no último degrau da escada quando fui surpreendida pela presença de na minha sala. Ele estava recostado na parede que ligava a cozinha e ao perceber que eu estava no ambiente, empertigou–se ficando ereto. Não gostei muito daquele gesto, mas aquilo tinha se tornado corriqueiro desde que descobri que ele era meu jardineiro. Toda aquela casualidade do momento que nos conhecemos ficou para trás quando ele assumiu uma postura formal demais que não combinava com ele para se referir a mim. Eu deixei de ser a Texas’ girl para ser a Sra. Carter e isso não me agradou, embora eu soubesse que era o certo.
– Boa noite, Sra. Carter – Ele me saudou e eu percebi sua voz falhar um pouco. Ele me lançou um olhar rápido de cima a baixo e suas bochechas coraram furiosamente de um jeito que fez minhas entranhas fervilharem de uma forma que eu nunca senti antes. Pronto, agora estávamos empatados. Ele me flagrou bisbilhotando enquanto ele trabalhava suado no pé da minha janela e eu tinha percebido – com muito gosto – ele me lançar um olhar abobalhado estando vestida como eu estava. Logo ele apressou-se a falar – Eu estou aqui apenas esperando minha irmã, vim busca-la.
– Tudo bem, , não tem problema. Sabe dizer se o Orson já chegou? – Fiz questão de chama-lo pelo primeiro nome e percebi a linha de um sorriso ameaçar invadir seus lábios tão bonitos.
– Não, acredito que não tenha chegado ainda – Ele respondeu e eu acenei com a cabeça sem saber o que dizer para continuar a conversa. Um clima estranho e tenso se instalou sobre nós e a energia do ambiente era tão perceptível que eu quase fiquei sem ar, sufocada naquela áurea estranha. Tão diferente de quando nos conhecemos. Eu queria dizer alguma coisa, puxar algum assunto, mas não sabia o que dizer e nem se deveria. Não precisei elaborar muitas palavras, porque logo Lupita entrou na sala e eu me senti aliviada com sua presença.
– Vamos? – Ela disse para o irmão com um sorriso. não tirava os olhos de mim, o que forçou Lupita a procurar com o olhar o foco da atenção do irmão, logo me notando no ambiente.
– Ah, Sra. Carter, a senhora está linda – Ela disse animadamente e eu sorri sinceramente para ela, demonstrando que aquele pequeno impasse de mais cedo estava completamente esquecido e perdoado para mim.
– Obrigada, Lupita. Estou esperando Orson para irmos jantar, amanhã ele irá viajar cedo. – Respondi e percebi se mexer um pouco. Desviei minha atenção para Lupita e pude perceber que ela também estava arrumada. Vestia shorts jeans e um cropped colorido.
– Bom, você ouviu, Guadalupe. Nós já vamos indo, boa noite Sra. Carter e bom jantar – cumprimentou formal e educadamente e Lupita me lançou um sorriso antes de virar as costas para sair pela porta dos fundos.
– Onde vocês vão? – Perguntei sem conseguir conter minha curiosidade. Somente Lupita virou-se para me responder.
– Vamos ao La Factoria, teremos uma festa na sexta-feira, hoje teremos uma pequena competição de dança onde escolheremos o rei e a rainha – Lupita me respondeu animadamente e eu sorri com uma vontade incontrolável de estar lá. Lembro da minha reação ouvindo aquela batida pela primeira vez e tenho certeza que apreciaria muito uma competição de dança naquela casa tão famosa.
– Você dança? – Perguntei a Lupita e ela riu balançando a cabeça.
– Todos dançam, mas não estou competindo. Estrela mesmo é o meu irmão, aqui – Lupita disse abraçando as costas do irmão com ternura e eu sorri direcionando meu olhar para ele, que não retribuiu e nem virou-se novamente.
– Vamos Guadalupe, não atrase a Sra. Carter – Ele repreendeu e eu murchei meu sorriso. Lupita me lançou um olhar como se dissesse “não liga não”, acenou e acompanhou o irmão até a porta de saída.
Não sabia porque eu estava tão incomodada com a forma que estava me tratando. Não é como se me tratasse mal, porque ele sempre era impecavelmente educado, formal e mantinha uma distância segura patrão – empregado que deveria ser exemplar para todos, mas não para mim. Eu sabia que não deveria me importar com isso, mas lá estava eu, amuada, sentada no meu sofá esperando meu marido chegar chateada porque meu jardineiro não virou para falar comigo.

– Vejo que a cowgirl conheceu o poder do reggaeton.
– É muito… envolvente.
– Bom, se quiser ver mais disso é só aparecer no La Factoría, se quiser posso até te ensinar a dançar assim. Quem sabe você não me ensina alguns passos de country também?
– Hm, acho que meu marido não iria gostar muito dessa ideia…
– Ahh, não acredito que mal te encontrei e já te perdi, Texas’ girl!

Não tive tempo para me recriminar por estar saudosa com esses pensamentos pois logo ouvi o barulho irritante da buzina de Orson e me apressei para jantar com meu marido, embora do fundo do meu coração eu quisesse estar a caminho do La Factoria com meu jardineiro.

Orson me levou para um restaurante bacana com vista para o mar que além de servir comidas deliciosas, também tocava um som ambiente muito agradável. Do contrário do que eu imaginava, não era um daqueles jantares de negócios em que eu ficaria de fantoche enquanto os homens falavam sobre lucros. Era um jantar a dois, como tinha de ser desde o início. Tudo estava contribuindo para que fosse perfeito e eu nem podia culpar Orson pelo insucesso dessa vez, ele até tinha feito a parte dele.
Não mencionou a empresa em nenhum momento da noite e manteve um tom de voz agradável para falar de assuntos quaisquer comigo. Mas apesar da amabilidade do meu marido, eu estava dispersa essa noite. Fantasiava com uma realidade alternativa em que eu poderia conhecer a La Factoria e ver as pessoas dançarem.
Por pessoas, leia-se .
Eu sabia que não era saudável ter esses tipos de pensamentos, mas gostava de me reconfortar repetindo para mim mesma que era apenas uma fantasia, não fazia mal algum se aquilo continuasse no imaginário. era um rapaz bonito, qualquer mulher casada ou não perceberia isso e olhar não tira pedaço. Além do mais, ele não conseguia nem ficar no mesmo ambiente que eu sem querer desviar o olhar ou sair correndo, me tratava com tanta formalidade que mesmo que eu quisesse alguma coisa com ele (coisa que eu não queria), jamais teria.
No fim da noite, ao receber os beijos de Orson, eu decidi por bem tirar esses pensamentos da minha cabeça. Não adiantava nada ser despida na minha cama pelo meu marido se ao sentir as mãos dele no meu corpo eu imaginava, mesmo involuntariamente, como deveria ser tocada por mãos grossas e calejadas do trabalho braçal, mas delicadas pelo dom artístico.
Quando, naquela noite, tive um orgasmo transando com meu marido – coisa que dificilmente acontecia – instantaneamente fui invadida pelo mal estar proveniente da culpa por meus pensamentos desconexos e pecaminosos durante nosso ato. Nem me dei ao trabalho de abraçar Orson, apenas me virei de lado e trouxe a coberta a altura do meu rosto me sentindo estranha demais para se quer falar alguma coisa.

***

Quando Orson anunciou sua promoção e consequente transferência, precisei me preparar psicologicamente para tudo que envolveria o processo de mudança. Primeiro, comecei pela parte que para todos (inclusive para mim) era a mais óbvia: uma cultura diferente. O Google foi meu grande amigo durante as semanas que se seguiram, pesquisei tanta coisa sobre San Juan que depois de um tempo já conseguia identificar as ruas pelo Maps.
Pesquisei sobre a culinária, costumes e outras curiosidades apenas para manter minha mente ocupada com outra coisa que não fosse a morte do meu pai. Quanto mais eu lia sobre San Juan, mais saudade sentia de Dallas. Procurei pela culinária local, principais fontes de lazer e lojas mais visitadas. Quando nada disso me chamava mais atenção, passei a me preparar para ficar distante dos meus amigos e das coisas que fazíamos juntos. Não que eu tivesse tempo ou permissão para ver meus amigos, Orson regulava meus passos e fazia questão de estar sempre presente nas ocasiões.
De todas as coisas que eu me preocupei durante meu processo de mudança, a mais importante só me ocorreu na última semana.
Eu ficaria longe do túmulo do meu pai.
Eu sabia que meu pai estaria sempre em meu coração, onde quer que eu estivesse – conhecia todo o falatório de que aqueles que amamos estão sempre conosco. Mas eu não tinha me dado conta de que não teria o túmulo dele ou da mamãe para visitar vez ou outra quando sentisse tanta necessidade de conversar como estava sentindo agora. Me dar conta disso doeu quase tanto quanto doeu vê-lo partir.
– A senhora está bem?
Acordei do meu devaneio com a voz de ecoando próxima. Me assustei um pouco e acabei mexendo os pés com mais rapidez do que precisava, molhando um pouco do meu vestido. Estava sentada na beira da piscina, aproveitando um pouco da sombra para mexer meus pés na água.
Assim como combinado, Orson tinha viajado na quinta-feira pela manhã e eu passei o dia ocupada com o resto de mudança que ainda tinha pendente. Fui dormir tão tarde que nem tive tempo de pensar sobre meus infortúnios e acabei acordando com uma saudade sufocante do meu pai, não tinha espaço para nenhum outro pensamento na minha cabeça quando apareceu.
– Hm…? – Perguntei distraída desviando meu olhar para ele. Ele sorriu de um jeito tão fofo que meu coração até aqueceu um pouco, apontou para o meu rosto e só então percebi que estava chorando. Me apressei em enxugar as lágrimas. – Estou ótima.
me encarou por mais alguns segundos com aquela expressão que deixava seus traços meigos ainda mais suaves e alargou um pouco o sorriso fazendo com que meu coração desse um salto.
– Minha mãe sempre diz que se não pode melhorar com um banho de mar ou de rio, uma caneca de chocolate quente ou sorvete, uma noite de sono bem dormida ou um reggaeton… então não vale a pena chorar porque não tem jeito. – disse num tom de voz divertido e consolador e eu não pude evitar de exibir um sorrisinho lacrimoso.
– Infelizmente, nada disso pode resolver – Respondi penosa e ele deu de ombros com simplicidade.
– Ninguém falou sobre ser resolvido… mas que ajuda, ajuda – Ele disse com a voz suave e eu suspirei tristonha.
– Deus sabe o quanto eu queria que tivesse solução.
– Para tudo nessa vida tem solução, menos para a morte – Ele me respondeu e eu senti meu coração comprimir dolorosamente. Assenti com a cabeça impedindo que outras lágrimas se formassem em meus olhos.
– É exatamente esse o problema. – Confirmei e ele franziu o cenho de maneira confusa. Forcei um sorriso fechado e ele pareceu compreender do que se tratava.
Você ainda está viva, então ainda tem solução – Ele respondeu sabiamente e eu percebi que tinha entendido errado. Fiz uma careta incomodada.
– Falar é fácil, difícil é colocar em prática – Não queria ter soado tão azeda quanto possivelmente soei, mas manteve-se com o semblante tranquilo, aquele sorriso calmo e sereno de que compreendia bem demais a minha dor… o sorriso de quem já tinha passado por ela.
– Eu tenho colocado isso em prática há treze anos, Sra. Carter… Acho que estou me saindo bem até agora – Ele me respondeu calmamente e eu senti meu estômago revirar com a súbita lembrança do meu passeio até a feirinha com Guadalupe no meu primeiro dia em San Juan. O dia que ela me contara sobre a família e demonstrara tanta empatia por meu luto. Ela também tinha perdido um ente querido, como eu poderia me esquecer…
também tinha perdido o pai.
– Desculpe, não quis ser rude. Eu também perdi meu pai…. Recentemente. – Eu disse depois de um suspiro e ele continuou sorrindo daquele jeito tranquilo, me deixando automaticamente mais calma. Como era possível alguém com uma energia tão positiva assim? parecia portar o sol de San Juan todo naquele sorriso caloroso.
– Eu entendo, também já descontei minha frustração nas pessoas que me disseram que vai passar. Principalmente porque não vai, não vai passar nunca.
– E como a gente consegue sair dessa? – Perguntei infeliz, fungando contra minha vontade. me olhou de um jeito tão doce que me desarmou. Por um momento, quis ser abraçada por ele. E me pareceu que ele também quis me abraçar.
– Com foco nas memórias boas. E com a certeza de que fomos amados. Meu pai foi a pessoa mais incrível que já conheci. Me ensinou muito sobre a vida e me amou do jeito incondicional que só um pai ou uma mãe pode amar. Saber que fomos amados assim por alguém é um acalento para o coração nos dias tristes. Quando estiver sem saída, pense que seu pai te amou muito e que tudo o que ele quis é que você fosse feliz… Buscar a felicidade é quase como honrar a memória dele.
Enquanto falava, o rosto do meu pai passou por minha cabeça e eu quase pude sentir seu cheiro tão perto. Quase pude ouvir o tom grave da voz que eu tanto sentia falta e o acalento do abraço que eu jamais teria novamente. “O que o papai não faz para ver esse sorriso…” ele sempre me dizia. Passei a mão pelo rosto e enxuguei as lágrimas que ainda insistiam em marejar meus olhos. Ofereci um sorriso lacrimoso em gratidão para .
– Obrigada.
– Não há de quê, Sra. Carter. Nesses momentos, é importante ter o amparo de alguém… pelo menos a senhora ainda tem seu marido.
verbalizou aquela frase num tom que poderia ser considerado como reconfortante, sem saber que Orson e nada era a mesma coisa no que dizia respeito a consolar meu luto. Me abracei um pouco incomodada com suas palavras e pareceu se dar conta de algo porque pigarreou e me encarou um pouco mais sério, as sobrancelhas franzidas.
– Desculpe, senhora, não quis ser intrometido – Disse formalmente e eu tive vontade de rir, esquecendo quase que totalmente o porquê de estar triste.
– Por que você está falando desse jeito? – Perguntei e ele franziu ainda mais o cenho, provavelmente fazendo-se de desentendido.
– Que jeito?
– Assim… todo formal. – Respondi e ele pareceu pensar um pouco antes de responder. Parecia estar escolhendo as melhores palavras para isso. Senti uma fisgada estranha no estômago e não gostei, preferia mil vezes a espontaneidade do nosso primeiro encontro do que essa formalidade toda.
– Você é minha patroa, Sra. Carter – Ele anunciou calmamente e eu me senti desconfortável com aquele nome, não parecia certo na voz de
Ficamos em um silêncio desconfortável por um momento até que eu não aguentei mais e me levantei saindo da beirada da piscina.
– Não quero te atrapalhar, sei que deve ter muitas coisas para fazer… – Percebi que tinha sido a coisa errada a dizer antes mesmo de terminar minha frase. me deu um sorriso fechado e sem dizer nada, deu as costas indo em direção ao jardim. Suspirei fundo me sentindo idiota, critiquei o jeito formal demais que ele falou comigo e em seguida praticamente o ordenei a voltar ao trabalho.
É que eu odiava isso. A minha vida passou a ser dividida entre antes e depois de Orson e a forma como as pessoas me tratavam também dependia muito de saberem ou não do meu relacionamento com ele.
Talvez eu não consiga explicar de modo que faça sentido o quanto eu me senti tão leve apenas por conhecer uma pessoa que não me olhou como se eu fosse superior ou inatingível ou inalcançável. Orson tinha um jeito intimidador como se fizesse questão de provar que não existia nada que não pudesse comprar ou barganhar e perto dele eu era uma posse. Tinha significado tanto para mim ser olhada pela primeira vez em nem sei quanto tempo apenas como uma mulher normal…
Até descobrir que ele era meu jardineiro.
Não que eu pudesse me dar ao luxo de me sentir lisonjeada com o olhar de um homem, visto que eu era uma mulher casada.
Suspirei fundo resignada a ser sempre a senhora Carter e voltei para dentro de casa. Eu tinha apenas uma semana em San Juan e já me sentia entediada sozinha naquela mansão gigantesca. Orson passava a maior parte do dia trabalhando e eu não tinha absolutamente nada para fazer com aquele tanto de tempo ocioso. Sugeri trabalhar, mas ele recusou com veemência, disse que tudo que estava sacrificando era para que eu tivesse uma “vida de princesa” e que eu deveria me sentir grata, visto que aparentemente muitas mulheres dariam tudo para ter alguém bancando todas as despesas possíveis.
Eu tive tanto tempo livre que agora, no entanto, não me restara nada para fazer além de olhar o teto. Como as pessoas poderiam gostar de não fazer absolutamente nada o dia inteiro? Parecendo se compadecer do meu tédio profundo, Guadalupe me lançou um olhar misto de pena e graça quando cheguei na sala. Franzi o cenho tentando reconhecer a música que ecoava vindo da cozinha.

[Coloquem a música para tocar!]


– Você sabe cozinhar, Sra. Carter? – Me perguntou enquanto me seguia em direção a cozinha conectando o celular na caixa de som portátil e eu sorri acenando com a cabeça já me sentindo instantaneamente mais animada.
– Sei sim, modéstia à parte, mas sou uma boa cozinheira – Respondi com um meio sorriso e ela correspondeu. Eu tinha certeza que nunca tinha escutado aquela música antes, mas já podia dizer que iria gostar. Era impressionante como o ritmo me contagiava.
– Bom, a senhora poderia me passar algumas receitas e assim quem sabe eu não cozinho algumas comidas típicas do Texas? Deve estar com saudade de casa… – Lupita disse amável e eu senti vontade de abraça-la de repente.
– Eu tenho uma ideia melhor, que tal cozinharmos juntas? Não vejo necessidade de ser paparicada o tempo todo se posso muito bem fazer minha própria comida. Além do mais, posso te ensinar a fazer enquanto cozinha junto comigo, o que acha? – Sugeri e observei Lupita me lançar um sorriso animado.
– Vamos fazer uma mistura então, você me ensina uma comida texana e cozinhamos no ritmo porto-riquenho, o que acha? – Ela me sugeriu e eu sorri. Tinha total convicção que Lupita e eu nos tornaríamos amigas.
– E então, o que vamos cozinhar hoje? – Ela me perguntou já abrindo os armários.
– Chili com carne! – Respondi e ela franziu a sobrancelha para mim.
– Chili não é uma comida mexicana?
– A culinária mexicana e texana sofre influências diretas, em Dallas costumamos comer tacos no café da manhã, por exemplo. Mas hoje farei um Chili típico texano, você não deve encontrar muitos problemas, tem pimenta – Expliquei e ela sorriu voltando a abrir os armários.
Fui dando as coordenadas, indicando quais ingredientes precisávamos e conforme íamos separando as comidas, vez ou outra eu me surpreendia me movimentando no mesmo lugar ao som da música. O que não passou despercebido por Lupita.
– É contagiante, não é? – Ela disse dando um risinho e eu ergui a cabeça para saber do que ela estava falando e ela apontou com o queixo para a caixinha de som e eu dei um risinho tímido concordando com a cabeça.
– Você precisa soltar mais esses quadris, assim – Ela disse se aproximando de mim dançando e eu não pude conter a risada.
– Eu não acho que consigo – Respondi risonha quando ela se aproximou de mim segurando meus quadris balançando-os de um lado para outro. Logo engatamos numa dancinha desengonçada da minha parte e eu me surpreendi por perceber como conseguia ser eu mesma na presença de Lupita.
Ela tomou minha mão e me fez rodopiar pela cozinha, o que quase resultou numa queda tamanho meu desequilíbrio. Mas ao invés de me incomodar, tudo o que conseguiu foi me fazer gargalhar. Ela se moveu na minha frente mostrando como se dançava e eu aplaudi fingindo estar numa plateia apreciando a forma como ela conseguia sincronizar seus movimentos com a batida da música.
Me virei para tentar um movimento quando algo chamou minha atenção pela vidraça da cozinha. Lá fora, lançava um olhar curioso e intrigado para cozinha, provavelmente observando o momento de distração entre Lupita e eu. Instantaneamente senti minhas bochechas corarem porque ele tinha visto minha dança desastrada. pareceu ter ficado desconcertado também, porque logo virou-se de costas e saiu rumando em direção a piscina a passos largos. Com meu coração batendo freneticamente, voltei minha atenção para Lupita.
– Se você fosse no La Factoría veria que é impossível ficar parada – Lupita disse enquanto lavava os legumes e eu senti algo revirar dentro de mim. Isso me lembrava uma coisa que estava pensando ontem antes de dormir.
– É hoje a noite da tal festa? – Perguntei casualmente mesmo que já soubesse a resposta.
– É sim, estou muito empolgada! – Ela respondeu animada e eu senti meu coração bater descompassado contra o peito pela adrenalina do momento. Mordi o lábio inferior pensando em como dizer aquilo que queria e me senti ansiosa.
– O que foi? Parece meio triste de repente – Lupita perguntou referindo-se a minha súbita mudança de humor. Na verdade, eu não estava exatamente triste e sim apreensiva e em expectativa, mas resolvi me aproveitar disso.
– Hm, nada… É só que eu vou ficar aqui sozinha o final de semana inteiro – Comecei sentindo meu coração martelar tão forte que até doía.
– Existe algo que eu possa fazer por você? – Lupita me perguntou e uma fisgada de esperança surgiu dentro do meu peito. Hesitei propositalmente antes de continuar.
– Não sei…
– Diga, pede qualquer coisa e eu faço pra você ficar mais animada – Ela propôs prestativa e eu consegui sentir meu coração pulsar na garganta.
– Qualquer coisa? – Repeti em expectativa.
– Qualquer coisa.
– Me leva ao La Factoría hoje.


Tres

Música del capítulo: Suena El Dembow – Joey Montana

Punto de vista –

Sempre fui um rapaz muito curioso, atento, com sede de saber e pronto para experimentar e vivenciar tudo que fosse possível. Apesar de não ser o famoso “do contra”, sempre rejeitei o time das certezas. Talvez tenha sido algo herdado do meu pai, que sempre me disse para duvidar de quem sabe demais. Sempre acreditei que a dúvida é um combustível poderoso. Ao mesmo tempo, nunca pude ser considerado um garoto indeciso. Apenas mente aberta e preparado para ter minhas ideias postas a prova a qualquer momento.
Pensando assim, acho que sei de que lado da família Hector puxou.
– Querido, por que você não quer mais usar a fantasia do Batman? – Tia Sônia perguntou tentando esconder o tom chocado enquanto tentava ajudar Hector a se vestir para escola. Ele agora estava naquela fase de querer fazer tudo sozinho, desde o banho, até vestir–se. E agora também parecia controlar até mesmo o que usar.
– O que aconteceu, neno, não gosta mais do Batman? – Perguntei me divertindo da situação. Meu primo de cinco anos deu de ombros como se a resposta fosse óbvia.
– Gosto, mas não existe só ele de herói no mundo, hoje eu quero ir de homem aranha! – Ele respondeu animado e Tia Sônia me lançou um olhar desesperado.
, me ajude, não tenho como financiar os gostos desse menino! Se ele me inventar de sair todo dia com a fantasia de um super-herói diferente eu vou a falência! Deus sabe o quanto tive que economizar para comprar essa fantasia do Batman que ele tanto queria e hoje já não quer mais!
– Calma, tia Sônia, calma! Acho que isso é próprio da idade, ele está descobrindo coisas novas…
– Contanto que eu não tenha que pagar por essas descobertas, para mim está ótimo!
Eu revirei os olhos e ri pelo desespero dela.
– Ei, venha cá – Chamei e o pequeno veio correndo em minha direção – Você sabe que todo super-herói tem um disfarce, não sabe? – Perguntei e observei ele balançar sua cabecinha em confirmação.
– Então, que tal valorizar o Peter Parker e ir disfarçado para escola hoje? – Eu sugeri e ele pareceu ponderar por alguns segundos antes de sorrir animado.
– Por que ele não pode simplesmente ir com o uniforme normal? – Tia Sônia ainda estava inconformada.
– Porque hoje é sexta, mamãe! – Hector respondeu animadamente e eu sorri bagunçando seus cabelos. Todas as sextas, era liberado trajes comuns ou fantasias entre as crianças como forma de recreação.
– Não se preocupe, tia. Qualquer camiseta, calça jeans e tênis vão servir. Ele tem aquele óculos sem lente e estará pronto – Assegurei e minha tia me lançou um olhar de gratidão.
– Obrigada, . Você é um anjo.
é você quem vai me levar para escola hoje? – O pequeno Peter Parker me perguntou quinze minutos depois, com a mochila nas costas e a lancheira na mão. Eu sorri em concordância.
– Sim, estamos atrasados inclusive, preciso ir para o trabalho.
– Falando nisso, como estão as coisas na casa dos Carter, ? Está gostando deles? São pessoas boas? Carlos disse que o homem é podre de rico, é verdade? – Tia Sônia me perguntou e eu senti meu estômago embrulhar ao ouvir sobre os Carter. Me sentia nervoso toda vez que ia trabalhar.
– Pela casa, parecem ser ricos mesmo – Respondi dando de ombros – O Sr. Carter quase nunca aparece em casa, está sempre trabalhando, quase não o vejo. Quando saio de lá ele ainda não chegou.
– E quanto a Sra. Carter? – Tia Sônia me perguntou e eu ergui o olhar rapidamente.
– O que tem ela? – Perguntei na defensiva e observei minha tia arquear as sobrancelhas desconfiada com minha atitude.
– Como ela é? É legal com você, te trata bem? Sabe como essa gente rica tende a ser bem rabugenta…
– Ah… – Fiz aliviado e tia Sônia estreitou os olhos – Bom, ela é bastante gentil. E é bem mais nova que o Sr. Carter. A Lupita tem mais convivência com ela do que eu. Parece que se deram bem – Respondi num tom de indiferença, embora meu coração tivesse dado um salto a menção daquela senhora.
– Mais nova? Mais nova quanto? – Tia Sônia perguntou e eu me senti desconfortável por um momento.
– Não sei, tia, ela parece ter uns vinte e pouquinho – Respondi coçando a nuca e ela fez uma careta em desaprovação.
– Ah, essas interesseiras! Sempre buscando homens mais velhos e ricos para viver as custas.
Não tenho palavras para explicar o quanto aquela frase me incomodou. Ver a minha tia falando daquele jeito da Sra. Carter me deixou profundamente irritado, talvez até mais irritado do que deveria. Franzi o cenho e respondi num tom áspero:
– Não fale assim dela, tia Sônia, a senhora nem a conhece!
Tia Sônia ergueu as sobrancelhas surpresa com minha defesa sem relutância. Normalmente eu não era grande fã dos ricaços e não perdia uma oportunidade de ficar contra eles, já tive patrões tão esnobes e nojentos que só mesmo a necessidade de manter minha família me fazia continuar. Mas não me pareceu justo deixar alguém falar assim da Sra. Carter.
– E você conhece, por acaso?
– Ela me parece uma mulher bem bacana – Defendi com lealdade e minha tia me analisou por um segundo e depois revirou os olhos espalmando o ar.
– Ok, ok, vá logo para seu trabalho antes que a Sra. Carter boazinha lhe dê motivos para odiá-la – Disse em tom de zombaria e foi minha vez de revirar os olhos.
– Tchau tia, até mais – Respondi um pouco azedo como não me era de costume, segurei a mão de Hector e sai de casa rumo a escola dele.
Nem bem se passaram quinze minutos para que eu começasse a me sentir arrependido por ter sido ríspido com tia Sônia. Ela tinha sido preconceituosa e venenosa ao julgar a realidade de uma pessoa sem conhece-la, mas quando se vive tanto tempo numa mesma condição é normal passar a ressentir pessoas da classe do Sr e Sra. Carter. Ela estava errada, mas eu não me afetaria tanto assim normalmente.
Morar em La Perla, um bairro periférico considerado como perigoso, ter pouquíssimos recursos financeiros e ser obrigado a trabalhar de caseiro nas casas dos ricaços de Condado faz você ver a vida com outros olhos. Se eu pudesse, viveria inteiramente das minhas aquarelas e dos meus manufaturados, mas viver de arte não garantiria nossas barrigas cheias a noite. Eu perdi a conta de quantas humilhações já sofri e de quantas coisas já tinha escutado da minha mãe, minha irmã e tia Sônia, que trabalhavam limpando a sujeira que esse povo fazia.
Eu entendia o julgamento precoce de tia Sônia, mas não gostei de ouvi-la falar daquela forma da Sra. Carter. Ela não era como os demais, eu sabia disso. De uma forma completamente irracional e sem precedentes, eu sabia. Soube no momento que a vi, deslumbrada mirando as ruas de San Juan, soube no momento que seus olhos brilharam vendo uma roda de reggaeton, soube quando me ofereceu o sorriso mais bonito do mundo ao receber meu origami e tive certeza quando a vi em defesa de Guadalupe quando Sr. Carter acusou minha irmã.
– Alô, terra chamando – Despertei da minha divagação pelos dedos de Hector me puxando para baixo e sorri para meu primo – No que você tá pensando? Tá com essa cara de tonto uuuhhh.
Dei um sorriso e mostrei-lhe a língua.
– Você ainda é muito novo para entender – Respondi e ele franziu as pequenas sobrancelhas numa careta confusa.
– Igual sou novo para entender por onde a professora Maribel vai colocar o bebê para fora? – Me perguntou e eu quase engasguei indeciso entre meu choque e a vontade de rir.
– O quê?
– É, a professora Maribel engoliu um bebê e agora vai precisar colocar pra fora. Perguntei para Lupita por onde ia sair e ela disse que sou muito novo para entender.
– Ã… – Comecei sem saber exatamente o que responder. Crianças são tão espertas! E nos colocam em cada situação complicada… – É… Então, o bebê vai…
Felizmente fui privado da resposta pela Maribel em carne e osso que apareceu no portão da escola para nos recepcionar. Salvo pelo gongo!
! Como está? – Ela me cumprimentou assim que cheguei e aceitei mais do que de bom grado passar a responsabilidade de Hector para ela.
– Estou ótimo e atrasado – Sorri a abraçando de lado devido ao tamanho da barriga – Hector vai te perguntar por onde o bebê vai sair. Boa sorte – Cochichei em seu ouvido e ela riu quando nos afastamos.
– Tchau, neno! – Disse para meu primo, me abaixando para abraça-lo. – Se comporte e boa aula.
– Ei, … – Girei nos calcanhares voltando para o portão ao chamado de Maribel. Ela era a professora de inglês do Hector e namorada de um dos meus melhores amigos. Nossa relação era muito próxima.
– Você não conhece ninguém que possa me substituir? Estamos procurando, mas até agora nenhum interessado. Daqui a pouco tiro minha licença, não podemos ficar sem professor de inglês para as crianças. São só dias de sexta-feira..
– Não conheço, mas vou ficar de olho por você. Qualquer coisa eu aviso – Respondi com um sorriso e ela retribuiu antes de acenar quando virei as costas para seguir meu caminho.
A caminho da casa dos Carter para mais um dia de trabalho naquele jardim mal cuidado, me flagrei sorrindo pensando em que saia justa o Hector deveria ter colocado Maribel com suas perguntas sobre bebês e por onde eles saem. A inocência das crianças é realmente uma benção.
Dizem que uma criança pequena faz, em média, mais de trezentas perguntas por dia.
Tenho certeza que Hector foge à regra, se fôssemos parar para contar quantos pequenos questionamentos faz em vinte e quatro horas, saberíamos que o uso do “por que” ultrapassa a faixa dos quinhentos facilmente. Nunca conheci uma criança tão curiosa quanto o meu primo de cinco anos.
Talvez, com exceção de mim mesmo.
Sempre fui muito curioso, questionador e nem um pouco dono da razão. Sempre sedento por aprender sobre coisas novas e diversificadas. Por incentivo do meu pai, desde cedo fui desbravador. Talvez por isso que eu tenha tendências a julgar menos e observar mais, nunca fui grande fã da palavra “nunca”. Tenho certeza de poucas coisas nessa vida. E mesmo das coisas que tenho mais convicção, ainda assim, estou sempre aberto a ter minhas verdades questionadas. Nada é concreto, tudo é mutável e acredito que essa é a graça das coisas. Perceber como nossas opiniões mudam conforme o tempo e as vivências.
Observando Hector questionar sobre cores, sabores, pessoas, regras, e o ciclo da vida eu vejo como hoje minha expressão não deve ser tão diferente da dele ao descobrir algo novo que nunca imaginou ser possível. Eu estava parecendo o pequeno Hector, inconformado por ter uma de suas teorias descartadas, principalmente porque eu, por exemplo, não achei mais que fosse possível, aos vinte e quatro anos, me sentir intimidado na frente de uma mulher.
E, no entanto, cá estou eu. Nervoso, ansioso e me sentindo um adolescente de quatorze anos fantasiando com a coleguinha de sala. Mas o fruto do meu súbito e repentino interesse não era uma coleguinha de sala qualquer. Era um fruto proibido e totalmente inalcançável.
Sra. Carter não era mulher para meu bico.
Eu soube disso no momento em que ela ergueu aquela mão para me mostrar uma aliança com um diamante gigantesco encrustado quando a convidei para o La Factoria. Tive ainda mais certeza quando soube que era esposa do meu patrão e precisei repetir isso para mim mesmo nos últimos dias ao perceber o jeito como ela me olhava.
Talvez seja fantasia da minha mente, mas existe algo no ar quando estamos juntos. E argh, eu sei que estou parecendo um sonhador apaixonado, mas existe uma tensão, chame de atração ou magnetismo se quiser, mas definitivamente existe algo. E é este algo que não posso alimentar. É errado, muito muito errado.
Se ela não fosse tão bonita… Se não tivesse uma voz tão agradável e olhos tão atenciosos e expressivos...Talvez eu conseguisse me manter distante. Mas, como se sua beleza não fosse o bastante para me despertar o interesse, ela também tinha aquele ar de mistério e profundidade, como se carregasse uma história importante mesmo com tão pouca idade. Ela aparentava conhecer tanto sobre a vida, tinha uma postura tão madura e ao mesmo tempo tão jovem… Eu não queria passar tanto tempo tentando decifra-la, mas era mais forte do que eu. Descobrir que, assim como eu, ela também conhecia a dor de perder um pai, só me fez ficar ainda mais fascinado por ela e por todo enigma que ela representava na minha vida naquele momento.
Eu precisava me manter distante, para o meu próprio bem.

***

Lancei um olhar para o meu relógio de pulso pela terceira vez na esperança de que tivesse passado mais tempo do que os míseros cinco minutos desde a última vez que chequei. Troquei o peso do corpo por meus pés e suspirei impaciente. Sabia que essa coisa de trabalhar na mesma casa que minha irmã não daria muito certo, eu sempre terminava meus afazeres primeiro e precisava ficar esperando para que ela tivesse companhia na hora de voltar para casa. Guadalupe nunca demorava tanto para sair, isso preciso admitir. Mas hoje ela parecia determinada em testar minha paciência.
Sentate a esperar! – Bufei ironicamente me recostando na porta dos fundos da casa dos Carter. Guadalupe sabia que teríamos uma festa para ir e eu precisava estar no La Factoria cedo, já que eu seria o rei nessa noite.
E ainda tinha mais essa!
Eu estava pronto para chamar minha irmã outra vez, quando a mesma surgiu esbaforida pela porta dos fundos, meio sem fôlego e pelo que notei ainda sem sua bolsa.
– Guadalupe, estamos atrasa… – Ela não me deixou falar.
, você vai precisar adiantar e ir sozinho – Lupita disse um pouco sem fôlego e eu deixei minha frase morrer. Franzi o cenho e arqueei as sobrancelhas desconfiado.
– Por que? Vai demorar tanto assim?
– Eu preciso fazer mais uma coisa aqui e acho que vou demorar um pouco mais do que o normal, algo que a me pediu – Minha irmã respondeu e eu percebi que ela estava muito mais agitada do que o normal.
– O que aconteceu? Sra. Carter está bem? – Perguntei de imediato, só depois me dando conta de mais uma coisa – E desde quando você a chama pelo primeiro nome?
– Que? Ah, , que importância isso tem? Ela me pediu e… olhe, adiante, adiante, eu ainda vou demorar um pouco – Lupita me respondeu puxando a porta atrás de si, como se não quisesse que eu entrasse. O que estava acontecendo?
– Lupita, tá tudo bem? O que tá acontecendo?
– Eu já disse que tá tudo bem, só preciso fazer mais algumas coisas. Não precisa me esperar. Te encontro direto no La Factoria hoje. Beijos e tchau – Lupita praticamente me enxotou e eu lancei um último olhar desconfiado para dentro da casa antes de me resignar e seguir - a contragosto - meu caminho.
Se eu teria que ir para casa sozinho, então por que não me avisou antes de me atrasar por, no mínimo, uma hora? Não sabia o que estava acontecendo dentro daquela casa, mas esperava sinceramente que a Sra. Carter estivesse bem. Provavelmente era algo de garotas, agora que ela e minha irmã estavam aparentemente íntimas demais.
Me esforcei para não pensar muito no que poderia estar acontecendo com Sra. Carter, mas só o esforço para não pensar já era um pensamento nela. Aquela fixação platônica precisava passar. O mais rápido possível. Esperava que ainda naquela noite, durante a festa. Os minutos seguintes foram preenchidos por um devaneio em que eu conhecia uma linda mulher misteriosa, dançaríamos a noite toda e no dia seguinte Carter já não significaria nada para mim.
, posso ir com você? – Hector me perguntou horas depois, quando estava prestes a sair de casa.
– Você sabe que ainda é pequeno demais para isso, neno! – Respondi ficando de joelhos para beijar as bochechas do meu primo emburrado.
– Quando eu não serei mais pequeno? Quero ser grande como você!
– Se você bem soubesse, não desejaria crescer logo, Hector. Ser criança é muito mais legal! – Respondi com sinceridade e ele cruzou os pequenos bracinhos em sinal de rebeldia. Tive que me esforçar para não rir.
– Não faça assim. Se você se comportar direitinho te levo para praia amanhã, ok? – Propus e pude perceber aos poucos sua expressão suavizando.
– Tá bom! – Ele aceitou e eu baguncei seus cabelos quando me levantei. Hector odiava quando eu fazia isso e eu adorava sua carinha de bravo, por isso continuaria fazendo.
– Nossa, que menino cheiroso – Minha mãe disse assim que entrou no quarto e eu me virei para lhe oferecer um sorriso. Me aproximei um pouco oferecendo meu pescoço para que ela cheirasse, como sabia que faria. Minha mãe riu antes de fungar no meu cangote, dando um beijo no local. – Amanhã terei uma fila de mulheres na minha porta…
Eu ri e revirei os olhos para aquele comentário.
– Para com isso, mãe, você sabe que ninguém me quer.
– Filho, você quer enganar logo a quem? Muitas mulheres te querem, mas você sempre tá com a cabeça no mundo da lua… parece que nenhuma é o suficiente para você. O que uma dessas moças precisa ter pra te agradar?
Meu silêncio suspeito me entregou. Minha mãe estreitou os olhos em fendas e me encarou desconfiada.
– O que foi? Já conheceu alguém?
– Hm? Não, mãe, não conheci – Menti sem me atrever a retribuir o olhar dela, empenhado demais em fechar os botões da minha camisa.
– Bom, qualquer pessoa que não a Melinda está ótimo para mim – Minha mãe disse e eu soltei uma risada nasalada. Ela nunca gostou muito da minha ex namorada e isso sempre seria um mistério para mim, visto que Melinda Cruz era uma menina educada e tratava minha família tão bem.
– Não se preocupe, mãe. Não tenho pretensão de voltar com ela, de qualquer forma – Respondi sincero e minha mãe não precisou estreitar os olhos porque sabia que era verdade. Aquela mulher me conhecia com a palma da mão.
– Sei que você não tem… mas quanto a ela, não tenho tanta certeza.
– Bom, isso já não é mais problema meu. Já deixei bem claro que não quero nada novo, não procuro, não alimento as esperanças e nem nada do tipo.
– Faz bem, ela não é mulher para você, mi niño – Minha mãe disse de forma afetuosa e eu sorri de lado.
– Você fala de mim, mas é a senhora que não acha ninguém o suficiente para mim, mãe. Sempre encontra algum defeito nas mulheres que me interesso – Respondi bagunçando meus cabelos em frente ao espelho, constatando que estava pronto para sair. Minha mãe riu brevemente, ignorando totalmente o que eu disse.
– O que eu posso fazer se você é bom demais, cariño? – Ela disse apertando minhas bochechas exatamente como eu fazia com Hector, e exatamente como ele, fiz também uma careta.
Terminei de abotoar minha camisa e me encarei no espelho com um sorriso em expectativa.
Aquela noite seria memorável.

Cheguei ao La Factoria às 21h, o bar estava parcialmente cheio, a maioria das pessoas ainda estava chegando. Cumprimentei os funcionários e alguns amigos e rolei meus olhos pelo local tentando encontrar algum sinal da minha irmã. Guadalupe não atendia o celular e não tinha chegado em casa até a hora que saí. Dificultava um pouco reconhecer alguém naquele mar de pessoas, mas eu reconheceria minha irmã em qualquer circunstância.
Estava esticando meu pescoço por entre as pessoas procurando por qualquer sinal de Guadalupe, quando senti alguém segurando meu cotovelo. Quando me virei, dei de cara com Melinda que sorria abertamente para mim.
– Oi, ! – Ela me cumprimentou animadamente e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, me abraçou, beijando minha bochecha. Melinda era assim, efusiva demais.
Comecei a namorar com Melinda quando completei quinze anos. Foi minha primeira namorada séria e para falar a verdade, também foi a única. Antes e depois dela, tive apenas breves casos que acabaram não durando mais do que semanas ou meses. Apesar de ser uma menina ótima, Melinda e eu não demos muito certo. Era muito bacana no começo, eu era um adolescente apaixonado. Entre idas e vindas, nosso namoro durou cinco anos. Depois disso, nosso relacionamento se resumia a amizade com ocasionais bebedeiras que terminavam em uma noite mal lembrada de sexo.
Tinha consciência que para mim, não passaria disso. Uma amizade colorida com alguns benefícios que só um ex amor podia proporcionar. Mas como sabia que Melinda ainda nutria sentimentos por mim, fiz questão de manter uma distância considerável, evitando qualquer tipo de remember entre nós. No início ela não aceitou muito bem, mas ultimamente tinha aprendido a usar o cinismo, porque fingia estar tudo bem até achar a primeira brecha para ficarmos.
– Oi, Mel!
– E então, ansioso para hoje? – Ela perguntou puxando papo.
– Por que eu estaria? – Perguntei levemente intrigado.
– Ué, você é o rei do baile hoje – Melinda respondeu com um risinho que na sua intenção foi parecer despojado, mas para o azar dela, eu a conhecia bem demais. Sabia que estava tentando, inutilmente, camuflar um quê de ciúmes e zombaria. Melinda nunca gostou muito da minha desenvoltura para rodas de dança, na opinião dela, chamava muita atenção de outras mulheres. Não posso dizer que ela não tinha razão, mas a insegurança era inútil quando estava comigo, visto que eu preferiria terminar do que trair. Traição não era comigo.
– Grandes coisas – Dei de ombros. – Ei, escuta, você viu minha irmã por aí?
– Na verdade vi sim, estava conversando com uma mulher mascarada no banheiro. – Melinda respondeu e eu fiquei um pouco mais relaxado por saber que estava tudo bem. Aquela tratante! Custava me avisar? Por outro lado, me dei conta da estranheza da sua fala.
– Uma mulher mascarada? – Perguntei confuso, tentando me certificar de que tinha escutado certo devido ao volume do som.
– Sim, uma mulher de vestido vermelho que está usando uma máscara que cobre metade do rosto. – Melinda respondeu prontamente – Está atraindo vários olhares, inclusive. – Ela concluiu sondando minha expressão e eu me cansei daquela conversa e do tom que ela usava para falar comigo, embora tivesse ficado curioso a respeito da tal mulher mascarada.
– Tá bom, cada louca com suas loucuras, vou procurar a Lupita, nos vemos depois – Eu me inclinei para beijar a testa dela e antes que pudesse responder, dei as costas para ir atrás da minha irmã.
Eu gostava muito de Melinda, era uma boa pessoa, uma menina educada, carinhosa e de bom coração. Mas eu não podia me obrigar a gostar dela do jeito que ela queria e também não podia alimentar suas expectativas se no dia seguinte acordaria arrependido e teria que lidar com um sentimento que despertei com um ato que para mim era casual. Parte da esperança que Melinda ainda sentia de reatarmos o relacionamento se dava pelo fato de nunca ter me visto com uma outra mulher. Eu sempre fiz questão de ser o mais reservado possível e respeitar seus sentimentos, mas já fazia muito tempo, ela precisava se acostumar.
Decidi que, só de pirraça, dançaria com a primeira mulher que aparecesse na minha frente.
Trombei de cara com Guadalupe.
! – Minha irmã me cumprimentou no momento que nossos corpos se chocaram na pista de dança. A casa já estava apinhada de gente, nem percebi encher tão rápido.
– Guadalupe, onde você se meteu? Eu achei que alguma coisa tivesse acontecido com você, por que não atendeu o telefone? – Perguntei um pouco autoritário, depois de abraçá-la. Estava aliviado por vê-la, mas não poderia dispensar o sermão de irmão mais velho. Lupita riu, mas diferente do normal, foi um riso nervoso. Eu conhecia minha irmã bem demais.
– O que foi? – Perguntei desconfiado.
– Hm? N-nada, vamos dançar? – Ela me puxou pelo braço olhando para alguma coisa atrás de mim e guiado pela atenção dela, olhei por cima dos meus ombros ao mesmo tempo que ela me puxava para pista de dança.
A mulher mascarada.
Há alguns metros de distância atrás de mim, uma mulher nos encarava por trás de uma máscara preta que lhe cobria metade do rosto. Apertei os olhos tentando enxergar melhor por entre as luzes fracas da pista de dança e a percebi baixar a cabeça. Usava um vestido vermelho que contrastava bem com a máscara preta, porém totalmente não apropriado para a ocasião. Reprimi uma risada nasalada me perguntando se ela tinha errado o caminho para uma festa a fantasia, mas tinha que admitir que tinha me chamado a atenção. Não só a minha, devo dizer, todas as pessoas pareciam estar encarando a mulher misteriosa com o rosto coberto.
– QUEM É ESSA? – Gritei no ouvido de Guadalupe devido o volume do som, me referindo a mulher que se encontrava atrás de mim antes de Lupita me puxar para uma dança.
– UMA AMIGA, VOCÊ NÃO CONHECE – Ela gritou igualmente e eu a puxei pelo braço para fazê-la rodopiar.
– QUAL É A DA MÁSCARA? – Perguntei o óbvio quando minha irmã se reaproximou e ela deu de ombros.
– ELA É TÍMIDA.
– Posso conhecer? – Perguntei em meio a nossa dança e Lupita negou com a cabeça.
– Ela não é pra você, , não se empolgue! – Minha irmã respondeu e eu soltei uma risada divertida. Sabia da implicância que Lupita tinha com relação as amigas e particularmente, eu evitava qualquer tipo de relacionamento com as amigas dela, mas todo o ar de mistério daquela mulher me chamou a atenção. Talvez fosse a deixa que eu estava precisando, um sinal divino que eu tanto pedi durante o dia.
Girei com Lupita em meus braços para conseguir ficar de frente para a amiga dela e lançar um olhar minucioso para a mulher que eu ainda não conhecia. Prometi que dançaria com a primeira mulher que visse. Minha irmã não contava, nós dançávamos afastados e sem toda a sensualidade que o ritmo pedia, então precisaria ser a amiga dela. Ela usava um vestido vermelho justo ao corpo até a altura do joelho. Eu não pude evitar um risinho com a escolha de roupa para um bar de reggaeton. Provavelmente ela não contava com a possibilidade de dançar, porque se contasse, saberia que aquela roupa não favoreceria seus movimentos.
Seus cabelos claros caiam em cascata pelos ombros e ela lançava olhares furtivos para Guadalupe vez ou outra. Percebi que estava um pouco desconfortável porque cruzava as mãos e mordia um pouco do lábio inferior. A máscara cobria até metade do rosto e as luzes fracas não me deixaram reconhecer de imediato. Demorei um pouco meu olhar sob seu corpo e senti um calor involuntário me invadir.
Eu a conhecia de algum lugar.
Eu normalmente não era metido a Don Juan e cortejei poucas mulheres à primeira vista, quando o fazia, estava sob efeito do álcool ou extasiado pelo clima de felicidade que só o reggaeton proporcionava. A última mulher que convidei para dançar sem conhecer foi a Sra. Carter, mas não queria pensar nela. Hoje estava empenhado a esquecer minha paixonite platônica e infantil.
Quando a música acabou, rodopiei Guadalupe e aproveitando seu afastamento, me direcionei até a amiga dela.
Assim que me aproximei, ela deu as costas, parecendo estar se escondendo de mim. Fiquei um pouco confuso e adiantei meus passos, ficando de frente para ela.
– Ei, você de máscara...Pode dançar comigo? – Perguntei segurando sua mão, erguendo-a para dar um beijo. Ela manteve-se de cabeça baixa e eu estava prestes a dizer outra coisa quando senti algo áspero tocar meus lábios quando beijei sua mão.
No dedo anelar da mão esquerda, um anel com um diamante muito brilhoso chamou minha atenção. Eu teria soltado imediatamente, pedido desculpas e me afastado sem demora se eu não tivesse a certeza de já ter visto esse mesmo anel antes.

– Bom, se quiser ver mais disso é só aparecer no La Factoría, se quiser posso até te ensinar a dançar assim. Quem sabe você não me ensina alguns passos de country também – Eu disse a fim de chamar sua atenção, apreciando o deslumbre dos seus olhos ao mirar os movimentos da dança. Ela arqueou as sobrancelhas, possivelmente surpresa com meu descaramento e eu pude perceber um rubor invadir suas bochechas. Adorável.
– Hm, acho que meu marido não iria gostar muito dessa ideia – Ela respondeu erguendo a mão esquerda para que eu pudesse ver um diamante encrustado na aliança que significava que ela era comprometida. Senti algo revirar de frustração dentro de mim, mas reprimi o sentimento com uma risada desapontada.
– Ahh, não acredito que mal te encontrei e já te perdi, Texas’ girl – Entoei em sofrimento, simulando um coração apunhalado. Ela deu uma risada tão gostosa que eu fui obrigado a rir junto. Ela era tão linda...

– Sra. Carter! – Eu gritei quando a compreensão ficou evidente diante dos meus olhos. Meu coração martelou furiosamente no meu peito e eu senti minha cabeça rodar. Não era possível!
– Shiu! Quieto, ! Fale baixo! – Ela reprimiu colocando as mãos na minha boca, pela primeira vez erguendo a cabeça de modo que seus olhos se encontrassem com os meus. Eu teria reconhecido aquele olhar de primeira. – Como você sabe que sou eu?
– O que a senhora está fazendo aqui? – Perguntei um pouco mais baixo, chocado demais para assimilar aquela situação. Eu sabia que o Sr. Carter estava viajando, ela teria vindo sozinha?
De repente, como se algo gelado estivesse descendo a força por minha garganta, a compreensão iluminou minha expressão ao ver que, por cima da cabeça da Sra. Carter, dançando há alguns metros de distância, Guadalupe nos lançava olhares furtivos e desesperados. Fuzilei minha irmã com o olhar e crispei meus lábios um pouco enraivado.
– Guadalupe te trouxe aqui? – Perguntei direcionando meu olhar para Sra. Carter e ela fez que sim com a cabeça – Minha irmã é maluca?
– Não culpe a Lupita, fui eu quem pedi para ela me trazer. Ou melhor, implorei – Sra. Carter me respondeu prontamente.
– Bom, com todo respeito, mas a senhora ficou maluca? Se o seu marido descobrir que está aqui ficará furioso.
Sra. Carter pareceu um pouco desconcertada e demorou alguns segundos até formular uma resposta para me dar.
– Bom, com todo respeito, mas isso não é bem da sua conta, não é? – Ela disse com azedume e eu franzi o cenho pela grosseria. Ok, provavelmente eu tinha merecido. Não era realmente da minha conta, mas, por outro lado, também não era da conta da minha irmã e eu não queria vê-la metida nos problemas conjugais dos Carter. Aquela amizade repentina com a Sra. Carter estava indo longe demais.
– Também não é da conta da minha irmã. – Respondi um pouco amuado e Sra. Carter suspirou fundo antes de me responder, a voz um pouco mais suave.
, não corte o meu barato, por favor. Meu marido está viajando, nós não conhecemos ninguém nessa cidade, além do mais, eu estou de máscara.
– E estar de máscara faz parte da sua diversão? Eu te reconheci com um olhar. Saiba que você está chamando mais atenção assim do que se viesse sem disfarce.
Pelo pouco tempo que tive ao lado do Sr. Carter sabia que ele era um homem ciumento e muito possessivo. Tinha certeza que a esposa estava lá contra sua vontade. Os acordos entre eles não me diziam respeito e eu não tinha intenção alguma de me meter nisso, mas ver Guadalupe no meio disso me irritava profundamente.
– Primeiro: eu não te devo satisfação sobre minha vida pessoal – Sra. Carter ergueu a mão e enumerou com os dedos conforme falava. – Segundo: Orson não é meu dono e eu não sou uma propriedade dele.
– Eu não disse que a senho… – Tentei dizer, mas ela me interrompeu.
– Terceiro: eu não estou fazendo nada de errado.
– Quarto: minha irmã não tem nada a ver com isso. Da última vez que a senhora quis dar um passeio na rua, seu marido culpou a Guadalupe. Não quero me meter no relacionamento de vocês, mas não coloque minha irmã no meio disso – Eu respondi imediatamente, meu coração martelando contra o peito. Não queria ser grosseiro com ela, não concordava com a forma que o Sr. Carter a tratava, mas não queria minha irmã envolvida nisso.
– Quinto: sua irmã é maior de idade e sabe se cuidar muito bem sozinha, mas obrigada pelo conselho. Se Orson se importasse comigo não teria ido viajar me deixando sozinha em casa. Eu quis conhecer o local, ninguém sabe quem eu sou, estou usando máscara e se você fizer o favor de não berrar meu sobrenome por aí, ninguém nunca saberá que estive aqui. – Sra. Carter me respondeu e eu me perdi por um momento no movimento que seus lábios pintados de vermelho faziam enquanto ela falava.
Eu estava extasiado por estar conversando com ela, estava inebriado por sua presença e embora chateado por ter minha irmã se metendo em assuntos que não eram da conta dela, eu não podia negar que sentia um pouco de ciúme da relação dela com a Sra. Carter. Queria ter a liberdade de chamá-la por também. Tomado por esse sentimento, não contive as baboseiras que saíram por minha boca em seguida.
– Sexto: já que está aqui, quer dançar comigo?
Sra. Carter pareceu ser pega de surpresa com minha audácia. Confesso que também me assustei. Mas não fui capaz de me conter, ela estava lá falando, a boca tão próxima da minha, tão convidativa, foi mais forte do que eu. Ela piscou os olhos algumas vezes por conta do choque e balbuciou algumas palavras desnorteada.
– E-eu, n-não sei dançar.
– Não tem problema, eu ensino. – E eu continuava me surpreendendo com minha ousadia.
, eu sou casada – Sra. Carter me lembrou o óbvio.
– Isso não te impediu de vir até aqui hoje. – Respondi prontamente. Não me admiraria se ela me desse um tapa na cara. Mas aqui eu não era seu jardineiro, então se ela queria tratar minha irmã como uma amiga e cúmplice e falar comigo de qualquer jeito, que também soubesse ouvir.
– Mas… Mas
– Sra. Carter, por que a senhora resolveu vir aqui hoje? – Perguntei sem rodeios. Ela franziu o cenho incomodada.
– Porque, pela primeira vez em muito tempo na minha vida, senti a necessidade de não ser apenas a Sra. Carter. Será que você pode parar de me chamar assim? Hoje eu sou apenas .
– Tudo bem, apenas . – Eu frisei um pouco azedo. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas naquele momento eu estava com raiva dela. Não queria acreditar que era só mais uma riquinha egoísta com problemas conjugais que usa os funcionários para acobertar suas façanhas, indo até um bairro pobre para não ser reconhecida. Ela estava lá pelos motivos errados, eu sabia que se recusaria a dançar comigo por isso.
– Você veio para um bar onde as pessoas bebem e dançam até o dia amanhecer. Se você acha que apenas colocar uma máscara te faz deixar de ser quem é, tudo bem, mas pelo menos tenha coragem de bancar o personagem. Já que é assim, vou repetir minha pergunta: quer dançar comigo? – Provoquei mesmo sabendo sua resposta.
– Quero – Ela respondeu prontamente e eu arregalei os olhos surpreso.
Por essa eu realmente não esperava.
– O que foi? Esperou que eu fosse negar? – Ela perguntou parecendo se divertir da minha confusão e eu não soube muito bem o que dizer.
– Eu só…
– O que? Achou que eu fosse me intimidar, pedir desculpas e voltar para casa? Se enganou. Eu vim aqui porque quis e do contrário do que você pensa, não usei sua irmã para me servir, apenas pedi por sua companhia – Ela respondeu cheia de atitude e eu senti meu peito arder em brasa. Eu realmente subestimei aquela mulher e suas razões.
Sem ouvir uma resposta minha, ela deu de ombros e se afastou um pouco.
– Será que você pode me dar licença então? Quero ver as pessoas dançarem e aproveitar minha noite como .
– Não, nós vamos dançar. – Eu disse tomando sua mão novamente, arrastando–a até a pista de dança. Não sabia exatamente o que pretendia com isso, mas fui tomado por uma coragem irracional que me permitia ser imprudente exatamente do jeito que eu sabia que não poderia ser. Guadalupe veio correndo em nossa direção dando-se conta do que estávamos prestes a fazer.
, você não pode essa é a…
– Tá tudo bem, Lupita, não estamos fazendo nada demais – assegurou e eu dei de ombros para minha irmã quando a música começou. Ela me censurou com o olhar e eu retribui.
Estávamos nos criticando pela aproximação indevida com Carter.

[N/a: Soltem a música!]

– Eu não sei dançar – avisou nervosamente assim que a puxei pela cintura. Naquele momento todo tom azedo tinha ido embora, sua voz suave estava de volta e a minha frente eu podia sentir uma mulher insegura por estar dançando comigo pela primeira vez um ritmo totalmente desconhecido.
– Para sua sorte, eu sei – Respondi divertidamente e ela riu um pouco segurando no meu ombro. – Você só precisa deixar seu corpo mole e seguir meus passos, ok?
– Ok

Como sucedió, no sé
(Como aconteceu, eu não sei)
Si en mis planes no tenía enamorarme
(Se em meus planos não tinha me apaixonar) Pero yo te vi tan sola
(Mas eu vi você tão sozinha)
Y como yo vine solo
(E como eu vim sozinho)
No lo pensé
(Eu não pensei)
Y decidí acercarme a ti
(E eu decidi me aproximar de você.)

Quando toquei na cintura de trazendo-a para perto de mim, nossos corpos se colaram de um jeito que normalmente não me despertaria nenhuma reação – eu estava acostumado a dançar assim. Mas naquela noite, senti todos os pelos do meu corpo se eriçarem. Abaixei um pouco minha cabeça e inspirei profundamente deixando o cheiro doce e floral dela inebriar todos os meus sentidos. Nos movimentamos primeiro de um lado para o outro, queria que ela se acostumasse com o ritmo. Dei um passo para frente, me posicionando entre as pernas dela e a senti enrijecer sob minha tentativa.
– Você precisa soltar o corpo, – Eu disse em seu ouvido e mesmo sob a luz fraca do local, pude ver a pele do seu pescoço se arrepiar. Meu estômago embrulhou de um jeito engraçado e eu torci para que o grave do som fosse alto o suficiente para que ela não sentisse o martelar forte do meu coração.

Cuando te vi, vi, vi
(Quanto te vi)
Supe que tú eras para mi, mi, mi
(Soube que você era para mim)
Y es que a mi me gustas solo tú, tú, tú
(E é que só me agrada você)
Tenemos cosas en común, baby
(Temos coisas em comum)

Deslizei minhas mãos lentamente por entre o corpo dela, da cintura até os quadris. Fiz questão de controlar cada um dos meus movimentos para não assustá-la e também para guia-la naquele ritmo que ela não tinha o menor domínio. Apertei os quadris dela com delicadeza e os forcei para cima e para baixo, alternando os movimentos de um lado a outro, simulando um rebolado. ainda estava um pouco insegura nos meus braços, senti ela apertar meu ombro e me afastei um pouco.
– Você precisa sentir a música. Sentir o movimento e deixar seu corpo livre para fazer o que quiser fazer. É instintivo, muito natural – Eu disse enquanto me movimentava exatamente do jeito que estava tentando fazer com ela. me observou atentamente e mordeu o lábio inferior. Eu me aproximei novamente, sorrindo tranquilamente.
– Feche os olhos – Pedi.
– O que? Mas assim eu não vou poder aprender – Ela respondeu um pouco desconcertada e eu continuei sorrindo encorajador. Não acreditava que aquilo realmente estava acontecendo.
– Confie em mim, feche os olhos – Pedi novamente e depois de lançar um olhar profundo de perfurar a alma, assim ela o fez.
– Agora sinta a música – Sussurrei em seu ouvido e apreciei maravilhado toda a pele exposta de se arrepiar. Toquei sua mão e a puxei para perto, posicionando-me entre suas pernas novamente. Aquele vestido não estava ajudando muito meus movimentos, mas eu era melhor do que isso. Segurei seus quadris com mais firmeza e direcionei nossos passos, guiando–a para baixo, descemos juntos e subimos novamente, balançando de um lado a outro, para frente e para trás e nesse momento senti enquanto ela se soltava nos meus braços.

Sali pa´la calle sin rumbo
(Saí para rua sem rumo)
No estaba en mis planes enamorarme de ti
(Não estava nos meus planos me apaixonar por você)
Pero no pasó ni un segundo
(Mas não passou de um segundo)
Entraste a mi mundo
(Entrou em meu mundo)
Y en tus ojos me perdí
(E em seus olhos me perdi)

Segurei sua mão com firmeza e girei seu corpo de modo que ela ficasse de costas para mim, com nossas mãos ainda entrelaçadas. Empurrei suas costas, ao mesmo tempo que girava a mão que ainda segurava a dela, fazendo com que ela rodopiasse para fora do meu abraço. Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, a trouxe de volta com a mão, colando nossos corpos novamente.
mantinha-se de olhos fechados, a boca estava entreaberta puxando o ar e seus lábios estavam tão convidativos que eu precisei me controlar para não encara-los demais. Mesmo que ela não pudesse ver, eu estava completamente absorto naquele momento. Nos movíamos conforme as batidas da música e apesar de leiga, não era tão dura nos seus passos, ela tinha desenvoltura e eu sabia que ainda estava se controlando pela timidez de estar fazendo aquilo pela primeira vez.
Esse era um dos motivos pelos quais eu amava dançar. Gostava de como meu corpo respondia ao som de uma música, gostava do que um ritmo era capaz de fazer, unindo pessoas e sentimentos, nos guiando por nossos instintos mais primitivos. Fiquei um pouco decepcionado quando a música acabou e precisei solta-la. Parecia estar acordando de um sonho bom demais para ser verdadeiro.
demorou a abrir os olhos e quando o fez, retirou parcialmente a máscara para limpar um pouco de suor do rosto. Ela me lançou um olhar tímido e mordeu o lábio inferior num risinho adorável. Eu sorri para ela em resposta e esperei até que dissesse algo.
– Foi… diferente – Ela disse.
– Parece que a Texas’ girl se rendeu ao poder do reggaeton – Eu usei a mesma frase que tinha dito no dia que nos conhecemos e o sorriso dela alargou de um jeito que fez minhas pernas tremerem.
– É muito… envolvente – Ela repetiu e nós rimos.
– Você dança muito bem, . – Ela elogiou e eu sorri de lado.
– Obrigado. Você também leva jeito para a coisa, só precisa de um pouco de prática.
sorriu daquele jeito adorável e eu soube que estava muito mais ferrado do que imaginava. Nos meus planos, aquela noite serviria não apenas para dançar até doer a sola dos pés, mas também para dar a sorte de encontrar alguma garota que me tiraria aquela jovem senhora dos pensamentos.
Sem sucesso.
Apesar de ser um pouco mais nova do que eu, já era uma mulher casada. Casada com um homem rico, poderoso e muito possessivo. Eu abominava traições e jamais poderia me engraçar para o lado dela. Fosse qual fosse a realidade do relacionamento que ela vivia, eu não podia me meter nisso. Não podia alimentar esperanças.
E, no entanto, contrariando minhas convicções, crenças e princípios, eu me encontrava aqui, totalmente encantado por uma mulher que eu não podia ter.
– Hoje eu sou apenas – Sra. Carter me disse como se fosse capaz de ler meus pensamentos. Eu precisei conter aquele embrulho no estômago ao lhe oferecer um sorriso de canto.
– Não, se é para entrar no personagem, que seja direito – Eu respondi e quase fechei os olhos extasiado quando ela riu. Todos os dentes a mostra, os lábios esticados… ay mi Dios!!! Por que tão linda?
– Ok, então que nome sugere?
– Madalena – Eu respondi de imediato e mesmo por trás da máscara, eu sabia que ela estava arqueando as sobrancelhas.
– Como Maria Madalena?
– Foi o primeiro nome que surgiu na minha cabeça – Falei sinceramente e ela ponderou por um momento antes de me responder com um sorriso que me arrepiou da cabeça aos pés.
– Gostei.
Nos encaramos por alguns segundos e por um momento eu esqueci que estava numa festa, esqueci que era o rei da noite, esqueci da minha ex namorada me encarando há alguns metros de distância, esqueci de Guadalupe me julgando com um olhar reprovador, esqueci que Carter era casada. Na verdade, esqueci que Carter existia. Tudo o que me importava naquele momento era Madalena, me olhando profundamente por trás daquela máscara. Tudo o que me importava era aproveitar aquele momento que seria totalmente estragado se eu pensasse com a razão e a coerência. Pela primeira vez, resolvi agir guiado por meus impulsos e desejos.
Naquele momento tudo o que me importava era dançar com Madalena mais uma vez.
– Entoces, la muchacha hermosa gustaría concederme esa danza?




Continua...



Nota da autora: Hola, chicas!
Demorei, mas cheguei com 35 páginas de atualização dupla para vocês que começaram a acompanhar ZDP. Primeiramente, gostaria de dizer que esses capítulos foram extremamente difíceis de serem escritos. Por serem introdutórios, tem muita responsabilidade e acabaram não me agradando tanto, mas vida que segue.
Não fiz um hot da cena com o Orson porque ele é um bosta e não merece. E sobre a dança com o pp, as próximas vão ser mais elaboradas!
E então, o que acharam desses capítulos? Será que Madalena vai voltar para a La Factoría mais vezes?
E por fim, gostaram do POV do pp? Não vou ficar trocando muito, mas me rendi a colocar a história também pela perspectiva dele.
Eh isto!

Besitos molhadinhos e até a próxima






Outras Fanfics:
A Beautiful Nightmare
Mysterious and Addictive
01.Revival
Mixtape: Shout Out to My Ex


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus