Finalizada em: 06/02/2018

Capítulo Único

Aos vinte e cinco anos, podia dizer com certeza que estar no meio de um atentado terrorista não fazia parte de seus planos.
Olhou mais uma vez para os lados, provavelmente a milésima vez e segurou com mais força em seus braços a garotinha que encontrou perdida dos pais. Ela chorava sem dizer uma palavra, tremendo assustada com o rosto escondido em seu pescoço. Sentia as lágrimas dela em seu ombro, mas não podia culpá-la. Todos estavam apavorados, ele estava. Pessoas corriam perdidas de um lado para o outro, como se todos tivessem esquecido onde ficava a saída.
Gritos ecoavam pelo shopping naquela tarde de domingo, a confusão se instalara depois da primeira explosão. Era cada um por si, cada um pela própria vida e a garotinha em seus braços era a prova, deixada para trás no espaço recreativo quando os adultos, que deveriam ser os responsáveis por ela, preferiram se salvar, deixando as crianças a própria sorte. não sabia onde estavam as outras, ou se os pais da menina ainda estavam vivos por ela. Se a procuravam com o mesmo afinco que ele procurava a noiva, mas preferia não pensar nesse tipo de coisa. Era o pior momento para pensar, aliás.
respirou fundo, fechando os olhos por um instante. Escondeu o rosto nos cabelos da menina em seus braços e tentou, por um instante, pensar com clareza, isolando os gritos de dor e medo ao seu redor.
Havia deixado a noiva em uma loja de sapatos após uma discussão totalmente estúpida sobre um jantar com a mãe dela, mas agora não conseguia mais achar o local. Era a primeira vez que estavam ali, um prédio grande demais, com andares demais, e ele sequer lembrava em qual deles era a loja.
Céus, ele não tinha palavras para dizer o quanto se arrependia de ter saído de casa. O quanto se arrependia de tê-los levado até lá, de ter deixado que a conversa se transformasse em uma discussão e, pior, de tê-la deixado para trás. Que porra de noivo ele era por deixá-la para trás?
Um que não esperava fazer parte de um atentado terrorista, provavelmente.
Para qualquer um que passasse por ele e o visse daquela forma, de olhos fechados no meio da confusão, imaginaria que era a pessoa mais calma do planeta. Ele, provavelmente, pensaria o mesmo, mas isso até se dar conta de que a garotinha não era a única que tremia. Ele também o fazia embora seu maior medo não fosse, exatamente, pela própria vida.
Precisava encontrar . Precisava se acalmar o suficiente para ser capaz de encontrá-la. Jamais se perdoaria se algo acontecesse com ela, se não pudesse encontrá-la. Jamais se perdoaria por tê-la deixado sozinha. Jamais superaria.
Usando a garotinha como gancho, respirou fundo. Ela já estava assustada o suficiente e ele não estava ajudando com o seu próprio medo.
- Está tudo bem. – mentiu, mas não teve tempo de sentir culpa por isso e limitou-se em acariciar seus cabelos enquanto abria os olhos. – Está tudo bem. – repetiu, para ela e para si mesmo enquanto lutava ao máximo para ignorar o ambiente ao seu redor, todo o tumulto de pessoas correndo aos prantos, feridas. Outras sendo arrastadas e, principalmente, os corpos no chão.
Sentindo o coração vacilar novamente, segurou a cabeça da garota contra seu pescoço para o caso dela tentar levantar e olhar. Aquilo, a situação, já seria traumática o suficiente sem que ela visse o quadro completo, o terror.
Isso se saíssem vivos.
Condenando-se pelo pensamento, olhou para cima, tentando lembrar de algo que o colocasse, pelo menos, no mesmo andar que a noiva. A loja era perto de um dos elevadores, sabia disso, mas eles não eram mais seguros e as escadas ficavam do outro lado, totalmente opostos um do outro.
A esperança, já tão escassa, ficou ainda menor. Não era como se ele tivesse tempo para olhar andar por andar.
Outra explosão soou, muito mais perto do que ele poderia esperar. Provavelmente próxima a porta para onde as pessoas corriam para tentar se salvar. Mais gritos foram ouvidos, gritos de dor, pânico e desespero. A menininha em seus braços gemeu, um soluço escapou por sua garganta e as lágrimas ficaram mais intensas. , de início, pulou de susto com o som ensurdecedor, com o prédio estremecendo, mas aquilo de alguma forma o tirou da inércia como se, até então, ele estivesse parado ali porque o medo não o deixava se mover.
E ele nem duvidava que fosse isso de fato.
Apressado, correu com a garota até a escada mais próxima. Uma fumaça intensa se espalhava pelo ambiente, era a mistura do pó que os escombros haviam levantado e das chamas provocadas pelas explosões. Algumas pessoas, as que estiveram mais próximas do local incendiado, tossiam ao passar por eles, mas ignorou, seguindo o caminho contrário que todas as outras pessoas seguiam. Enquanto todas desciam para fugir, ele subia, correndo escadas acima com uma das mãos firmes no corrimão, ciente de que ninguém se importaria em derrubá-lo e pisoteá-lo em meio ao desespero que todos sentiam.
O medo transformava todos em animais e era isso que ele via quando olhava ao redor: Animais empurrando uns aos outros para se salvarem. Machucar alguém no caminho era irrelevante.
chegou ao final das escadas com dificuldade. Sua respiração já pesava apesar dele sempre ter tido um condicionamento físico impecável. Sabia que era o efeito das chamas ainda que não o sentisse completamente. Estava tão preocupado em encontrá-la que não era capaz de sentir o cansaço, a dor no peito, a falta de ar, mas isso não queria dizer que seu corpo não sentisse, mesmo que a adrenalina o ajudasse a continuar.
Não pararia enquanto não a encontrasse. Não sairia de lá se não fosse junto com ela e sabia que independente de qualquer coisa ou briga, também procuraria por ele. Havia feito o pedido de casamento porque se amavam e nenhuma briga estúpida poderia mudar isso. A que haviam tido foi apenas mais uma de outras muitas que teriam.
E eles teriam, quando saíssem ambos de lá com vida.
Outra explosão soou, mas dessa vez ele não parou nem mesmo por isso. A garota gemeu novamente, encolhendo-se, e ele apenas a segurou com mais força, ignorando a dor que já sentia em seus braços por carregá-la. Ele se recusava a soltá-la ou deixá-la para trás. Talvez não fosse justo está-la levando para mais dentro do prédio ao invés de tentar levá-la em segurança para fora de imediato, mas era o único ali por ela e sobreviver àquilo estava nos seus planos. Encontraria e sairia com ela dali direto para uma capela para se casarem. Não perderia nem mais um minuto com ela, jamais, e viveriam cada dia como se fosse o último porque aquilo tudo era a prova de que, de fato, poderia ser. Catástrofes como aquela podiam acontecer com qualquer um em qualquer lugar e entre se trancar em casa com medo e viver, preferia viver intensamente ao lado da mulher que mais havia amado e que mais amaria na vida, orgulhando-se de chamá-la de sua enquanto ela o chamava de meu. E ele era dela, sempre havia sido. Orgulharia-se disso pelo resto de suas longas vidas.
Só precisavam sair dali primeiro.
Olhando atentamente por todo o caminho, correu o mais rápido que pôde para seguir para o próximo andar, chamando pela noiva durante todo o percurso. Havia descido de elevador e, logo, não tinha muita noção da distância percorrida até o térreo, mas não se importava de subir andar por andar para procurá-la. O faria até que suas pernas reclamassem de exaustão, que seu pulmão não mais encontrasse oxigênio para respirar e, mesmo assim, não iria parar. Não até que, além da garotinha, também tivesse ela em seus braços.
Dois andares, três, e nada. Ouvia as sirenes de algum lugar muito ao longe, mas a confusão não diminuía. Era muita gente, afinal. Um shopping. Crianças choravam, adultos choravam. Pessoas assustadas sem saber para onde ir, confusas pela nuvem de fumaça, pelo barulho das explosões. mesmo, desconfiava estar meio surdo. Ouvia um zumbido em seu ouvido, mas não era como se ele tivesse tempo para refletir o assunto. Não parou de correr e gritar.
Mas foi então que ele viu. A loja onde a havia deixado estava completamente destruída. Muitas lojas estavam. Letreiros no chão, faíscas para todos os lados. Espelhos e vidros quebrados, as luzes piscavam sobre suas cabeças, mas ele se obrigou a manter a fé, pelo menos até ver a loja completamente destruída.
- Não. – ele sussurrou, recusando-se a acreditar naquilo, que a havia perdido. Ela podia ter saído antes, podia estar sem vontade de ver sapatos ou ter ficado irritada a ponto de não querer ver. Existiam milhões de possibilidades que a manteriam viva e ele tentou ao máximo se focar em uma delas, não obtendo qualquer sucesso.
Olhando para a loja, deu um passo para trás, com os lábios entreabertos e os olhos ardendo devido às lágrimas que brotaram ali, mas que ele tentou, ao máximo, conter. Não podiam terminar assim. Eram jovens, saudáveis e cheios de planos. Pretendiam se casar e ter filhos. Um casal deles. Haviam perdido horas e horas pensando sobre aquilo, imaginando a casa perfeita, o casamento perfeito e o futuro. se recusava a acreditar que ela havia sido tirada dele assim, repentinamente. Se recusava a acreditar que ela havia morrido sozinha, sem ele ao seu lado, após uma discussão tão irrelevante.
Novamente, seu peito doeu, mas o motivo não era mais o esforço ou a fumaça inalada. Era a dor da perca, a sensação de vazio. Todo o ambiente ao seu redor desapareceu. Não podia mais ouvir a menina chorando, as pessoas correndo ou mesmo sentir o próprio corpo. Toda a atenção que mantinha ao redor não existia mais, ele só conseguia enxergar a estrutura a sua frente, levando vários segundos para ouvir a voz dela gritando seu nome de algum lugar ao longe.
Uma lembrança, uma pegadinha de seu cérebro.
Ou pelo menos foi o que pensou antes de sentir o corpo dela se chocar com o seu, congelando onde estava perplexo demais para corresponder.
Sentiu seu cheiro primeiro, levemente adocicado e piscou duas vezes para se situar antes de se dar conta de que era mesmo ela ali. De assimilar seu corpo em contato com o dele, seus braços ao redor de seu pescoço e as lágrimas. Lágrimas de alívio por tê-lo encontrado.
- ... – ela suspirou e ele deixou que uma exclamação saísse de sua boca, finalmente a envolvendo com um de seus braços. a segurou com força, a mesma que ela colocava em seu abraço enquanto enterrava o rosto em seus cabelos, sentindo um peso enorme sair de seus ombros. A dor abrindo espaço para a esperança de saírem de lá com vida, de seguirem seus planos sem olhar para trás.
- Eu fiquei tão preocupado... – sussurrou para ela, e, mesmo em meio ao caos, foi capaz de rir quando sua voz soou embargada. Ela estava viva, estava bem, e soube que nunca, jamais, conseguiria sentir um alívio maior do que aquele. – Me desculpa. – pediu, ainda no mesmo tom, lembrando-se da discussão infantil que tiveram antes. – Vamos para a casa da sua mãe, até nos mudamos para lá se você quiser. Eu faço o que você quiser, pelo resto da vida.
riu contra o seu pescoço, uma risada fraca que denunciava seu choro, mas ele sorriu com a familiaridade de tê-la tão perto, seu coração batendo junto com o dele e, mais uma vez, teve vontade de chorar simplesmente pelo susto que havia tomado com a possibilidade de perdê-la. Não saberia viver sem aquela mulher. Sua vida não seria uma vida se a perdesse. Eram parte crucial um do outro, um a extensão do outro.
- Eu te amo tanto... – ela falou sem soltá-lo, sendo tomada por mais uma onda de choro, agora ainda mais forte do que a anterior. sentia o corpo dela tremer violentamente com as lágrimas e a segurou com mais força.
- , está tudo bem, vamos ficar bem. – garantiu e ela negou enquanto afundava os dedos em seus cabelos. – Você só está assustada. – ele disse de forma tranquilizadora. – Desculpe te deixar sozinha... – continuou, mas foi interrompido quando a garotinha em seus braços finalmente ergueu a cabeça.
passara o caminho todo tentando impedi-la de olhar, mas abraçado com a noiva, não pode impedi-la novamente. Abriu a boca para repreendê-la pela atitude, mas ao invés de olhar o ambiente ao redor, ou mesmo de chorar, ela envolveu com seus bracinhos e a mulher retribuiu o gesto carinhoso. Confuso com a reação da menina que até então apenas chorava, observou a cena, somente então notando algumas semelhanças entre as duas. A cor de cabelo, a covinha única em uma das bochechas e lembrava-se, vagamente, de terem a mesma cor de olhos.
- Eu sei... – sussurrou para a menina, mesmo que esta não tivesse dito nada e silenciosamente, viu o sorriso triste, porém cúmplice, que a noiva direcionou a garota. Como se ambas se conhecessem.
- ...? – começou, mas ela interrompeu a pergunta ao se afastar dele, segurando sua mão para puxá-lo consigo.
- Temos que ir. – disse apenas, engolindo o choro para sorrir para ele. O mesmo sorriso amoroso que direcionara a garota há pouco, como se tudo estivesse absolutamente bem.
Não estava, nenhum pouco. Era um atentado terrorista afinal e ainda teriam que sobreviver a ele, mas o simples fato de estarem juntos novamente já era um grande passo e , mesmo que minimamente, se permitiu retribuir o sorriso, independente da confusão que sentia.
Olhando mais uma vez para a garotinha que de repente, não mais chorava, deu as costas e com toda a tranquilidade do mundo, como se soubesse exatamente o caminho a seguir, foi adiante.
A fumaça ainda estava densa, talvez até mais agora, depois de tanto tempo. O fogo se alastrava, a gritaria de todos que ainda sobreviviam, mas que eram incapazes de sair ou encontrar a saída. Não dava para enxergar nada a frente, não dava para respirar e preocupado com a menina, fez com que voltasse a se esconder em seu pescoço.
- ... – começou, mas a mulher apenas segurou sua mão com mais firmeza, recebendo em retorno um olhar incerto do rapaz. Ela não tossia, ela não ofegava, enquanto ele mal podia manter os olhos abertos.
Ela os levou, sem qualquer dificuldade, até as escadas que não podia ver e ele só se deu conta de que já estavam no térreo novamente, quando chegaram. Ao notar que ela encontrara o caminho tão fácil, ele parou. As pessoas passavam por ela como se fossem incapazes de vê-la e o medo que cresceu em seu peito veio antes mesmo de que ele fosse capaz de entender o que acontecia.
Antes de ver o corpo dela pouco mais adiante, sentindo sua respiração falhar presa em sua garganta.
Não era ela, estava bem a sua frente.
Mas a mulher no chão tinha seus cabelos, seu rosto. Usava exatamente as mesmas roupas que ela e, principalmente, possuía a mesma aliança de noivado em uma das mãos, exatamente onde lembra-se claramente de ter colocado.
- Você precisa ir agora, . – a voz dela chamou sua atenção e assustado, se voltou para a mulher, para sua mulher, sua noiva. A mesma que também estava no chão pouco mais a frente.
- Não. – ele negou, dando passos para trás enquanto olhava mais uma vez para o corpo inerte no chão, tão perdido quanto poderia estar. Era o mesmo corpo da mulher de pé de frente para ele, mesmo que fosse humanamente impossível. – Não. – insistiu, olhando dela para o corpo enquanto sentia o pavor da realidade caindo com um baque avassalador sobre ele. De alguma forma ele sabia o que aquilo significava. Não fazia qualquer sentido, mas ele sabia apesar de não querer. – N... nós temos que ir. – gaguejou, recusando-se a acreditar no que via. - Nós. – repetiu.
- ... – falou seu nome de forma doce, como fazia sempre que tentava explicar algo a ele. E saber disso apenas fez com que fosse pior. Era quase uma confirmação do que ele acreditava estar vivendo. E ele não queria uma confirmação, ele queria uma negação. Preferia estar louco do que aceitar que havia lhe perdido. - Eu não. – continuou, sorrindo apesar das lágrimas que escorriam por seu rosto. – Você já entendeu, já sabe que não.
- Eu... – começou, mas acabou rindo da loucura que aquilo soava. O que diabos ele tinha entendido? O que ele deveria ter entendido? negou com a cabeça, mas levou uma das mãos até seus cabelos, puxando os fios enquanto as lágrimas passavam a escorrer por seu rosto. – Não. – repetiu. – Eu senti você, estamos... Estamos conversando.
- , eu morri. – falou de uma vez, da forma mais direta que poderia falar. Aquilo foi como um balde de água fria jogado sobre , que se agarrava a esperança até então.
- Não. – ele repetiu, mesmo que as lágrimas caíssem com mais intensidade agora. – Você não estaria falando comigo se tivesse morrido. Porra, isso é loucura.
- , olha para trás de mim. – ela pediu delicadamente, tentando fazê-lo entender. - Sou eu ali. Eu morri.
- Não, isso... Isso é um pesadelo. Não. – ele repetiu sem palavras, o medo maior do que tudo que ele já havia sentido antes. – Não.
- , você precisa ir. – ela insistiu. – O prédio... Não acabou, . Eles não terminaram. Você precisa ir, precisa ficar vivo, precisa viver.
- Sem você?! – desabafou, aumentando o tom de voz. - Te deixar aqui? Você acha... Acha que isso...? Ah, porra. – xingou novamente, rindo de nervoso mais uma vez. Era loucura. Aquela conversa era a maior loucura que já havia presenciado. Era isso, estava louco, completamente louco. – V... você... Não.
- . – ela se aproximou, segurado seu rosto entre as mãos. – É loucura, e eu não sei dizer o que está havendo, mas aquela ali, sou eu. É o meu corpo e não tem como eu estar viva se meu corpo está ali, certo? Sou eu, você sabe que sou eu. Você sente do fundo do seu coração, eu sei que sente e por isso está tão apavorado. – ela deu mais um passo em sua direção, aproximando-se mais dele enquanto as lágrimas caiam livremente pelo rosto de ambos. – Vai ser difícil, mas você vai ter que continuar, sozinho. Você vai se culpar, minha mãe vai te culpar, mas a culpa não foi sua e eu preciso que entenda isso para seguir, está bem? Não podíamos adivinhar o que aconteceria. Ninguém podia esperar, mas aconteceu e eu morri, mas você ainda tem uma chance e eu quero que viva essa chance, que agarre essa chance.
- , não... – ele sussurrou, tocando uma de suas mãos. – Eu posso te sentir, como eu posso te sentir?
- Eu não sei. – respondeu sincera, e sorriu melancolicamente. – , eu te amo, sempre te amei, e se tiver um lugar para ir depois disso, eu também vou te amar.
- Por favor, não diz isso. – sussurrou apavorado, soluçando com as lágrimas enquanto uma enorme ferida se abria em seu peito. – Eu não posso... Não consigo.
- Consegue, vai conseguir, por mim, mas para isso precisa ir, .
- Como... Como eu posso te ver? Ela também pode te ver. Você... Como você morreu se ela também pode te ver? – perguntou, direcionando um breve olhar para a menina em seu colo, a cabeça em seu ombro enquanto olhava atentamente de um para o outro como se prestasse atenção à conversa.
- ... – voltou a chorar, mais intensamente do que antes, quando confirmava sua morte. Ela soltou seu rosto e seus ombros estremeceram quando ela levou ambas as mãos até a barriga, fazendo os olhos dele se arregalarem enquanto seu coração vacilada e todo o calor sumia de seu corpo.
- Não. – ele negou com a cabeça, passando uma das mãos pelo rosto. – Não, isso é demais. Não. – falou, negando-se a acreditar no que ela sugeria. Deu as costas para a mulher, negando com a cabeça, mas parou quando a menina ergueu o rosto, sorrindo docilmente para ele como se confirmasse a versão que havia contado da história. – Por favor, não... – sussurrou, assustado e sem forças enquanto olhava para a menina, tão semelhante a noiva parada logo atrás dele. Ele fungou, soltando o ar pela boca em seguida, mas fechou os olhos quando sentiu os braços de ao redor de sua cintura, o abraçando por trás enquanto pausava o rosto em suas costas. – Isso tem que ser um pesadelo, por favor... – implorou aos prantos, porque sabia que era verdade, mesmo que não pudesse explicar, mesmo que fosse absurdo. A menininha em seus braços era a filha que jamais teriam e, como que para comprovar, a garotinha o abraçou pelo pescoço, beijando sua bochecha em seguida.
Ciente do que aconteceria então, o segurou com mais força, dando a ele o apoio que sabia, precisaria quando a garota sumisse de seus braços exatamente como aconteceu, em um passe de mágica. O peso da menina que estivera todo o tempo ali, simplesmente desapareceu e com um choque de realidade, deixou o braço cair ao lado de seu corpo, desabando em lágrimas.
- Não... Isso não pode... Por favor, não... – pediu desesperado a ninguém em especial, sufocado. Sentia-se sufocando com suas próprias lágrimas, com seu próprio desespero. Não podia ser verdade, não podia ter perdido as duas de uma vez, antes mesmo de saber que seria pai.
Ele seria pai.
sentiu os lábios da noiva em suas costas e levou uma das mãos para o rosto, tentando controlar os soluços. Não se lembrava da última vez que chorara, especialmente de forma tão intensa, mas a dor era maior do que ele poderia suportar um dia e desesperado, ele apenas chorou.
- Eu fiz de propósito, a discussão. – ela falou sem soltá-lo, a voz soando tão embargada quanto a dele provavelmente soaria. – Ia contar hoje, era uma surpresa... – sua voz falhou em uma risada triste e chorosa. – Está escondido na parte de cima do guarda-roupa. Comprei os primeiros sapatinhos dela, na cor rosa. De alguma forma sabia que era menina antes mesmo de... Me desculpa, , me desculpe por te deixar, me desculpe por ir tão cedo e por levá-la comigo, me desculpa. – ela pediu, cedendo as lágrimas também e, de alguma forma, a dor dele se intensificou ao ouvir a dela. estava tentando ser forte por ele, mas ela quem havia morrido.
- Ah, meu Deus, ... – ele se virou de frente para ela, a tomando em seus braços enquanto choravam, um sobre os ombros do outro. Era o último abraço, a última vez que a teria em seus braços. As últimas palavras trocadas e ele nem sabia por onde começar a dizer o quanto a amava. Nunca foi exatamente bom com palavras, fazia mais o tipo que trabalhava com gestos, atitudes, mas não podia deixar que partisse sem dizer o quanto a amava.
- Eu sei... – ela sussurrou, o segurando com firmeza. – Não precisa dizer.
- Preciso. – ele a interrompeu, buscando por ar em meio há tantas lágrimas. – Eu te amo, . Eu sempre vou te amar. Eu sempre... – novamente, foi tomado pelo choro que o impediu de continuar. escondeu o rosto em seus cabelos, tentando guardar em sua memória cada traço dela que pudesse ter em sua mente.
- Por favor, apenas viva. – ela disse em um sussurro, como se aquelas fossem suas últimas palavras e sentiu o desespero lhe tomar completamente, como se a realidade de nunca mais vê-la só então caísse sobre si.
- Não, não, . Não... – a segurou com mais força, mas já não podia mais senti-la da mesma forma que antes e arregalou os olhos em pânico. – Não, por favor...
- Viva, . – repetiu simplesmente e, no instante seguinte, já não estava mais lá.
As lágrimas ficaram presas em seus olhos, a vista embaçada com elas enquanto congelava no local, petrificado, incapaz de prosseguir. Em algum lugar distante de sua mente, pode ouvir quando o regate invadiu o local, pode sentir mãos ao seu redor e pessoas falando. Perguntavam se ele estava bem, se estava em choque, mas não foi capaz de responder.
Sim, ele estava em choque, mas não era pelo motivo que acreditavam. Não era pelo ataque, não era pelo terror vivido ou, pelo menos, não pelo terror que imaginavam.
Era pelo terror de ter acabado de se despedir da pessoa mais importante de sua vida porque, aos vinte e cinco anos, podia dizer com certeza que estar no meio de um atentado terrorista não fazia parte de seus planos. Perder sua noiva e a filha, que sequer sabia que ela esperava, tampouco.


Fim.



Nota da autora: Aaaaaaaaah, e esse seria meu livreto pro fóbis! Hahaha Em uma escala de zero à dez, o ódio de vocês por mim está em que fase? XD
Olha, em minha defesa, me pediram uma fic de dor e sofrimento na época. Aqui está ela! uahsuahsuahsuauhsuah Espero do fundo do meu coração negro e sem fundo que tenham gostado (de sofrer?). Ou me odiado também, se for pela fic, eu deixo! Hahaha
Xx
Mayh.



Outras Fanfics:
LONGFICS
» Lucky One [One Direction/Em Andamento]
» 1+1 = Love [Super Junior/Em Andamento]
» Cheap Thrills [Restritas (Outros)/Em Andamento]
» Fabulous [Restritas (One Direction)/Em Andamento]
» When Your Nighmares Come True [McFly/Sendo Reescrita]
» Flashbacks de Verão [Originais/Finalizada]
» Phoenix [Restritas (Outros)/Finalizada]

ESPECIAIS:

» 01. Black Magic [Little Mix - Ficstape/Finalizada]
» 02. DNA [BTS - Ficstape/Finalizada]
» 02. Complicated [Avril Lavigne - Ficstape/Finalizada]
» 03. It's You [Zayn - Ficstape/Finalizada]
» 03. My Hair [The Maine - Ficstape/Finalizada]
» 03. Somebody To You [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 04. Raining Spell For Love [Super Junior - Ficstape/Finalizada]
» 04. Two Ghosts [Harry Styles - Ficstape/Finalizada]
» 05. You Gotta Not [Little Mix - Ficstape/Finalizada
» 06. Heart Attack [One Direction - Ficstape/Finalizada]
» 06. Love Is Not Over [BTS - Ficstape/Finalizada]
» 06. Skit: Billboard Music Awards Speech [BTS - Ficstape/Finalizada
» 06. This Is Love [Super Junior - Ficstape/Finalizada]
» 06. Shades On [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 07. Reflection [BTS - Ficstape/Finalizada]
» 08. Yeah, I Said It [Rihanna - Ficstape/Finalizada]
» 08. OMG! [Little Mix - Ficstape/Finalizada]
» 09. Honest [Shawn Mendes - Ficstape/Finalizada]
» 09. Secret [Maroon 5 - Ficstape/Finalizada]
» 10. Crazy [Shawn Mendes - Ficstape/Finalizada]
» 12. They Don't Know About Us [One Direction - Ficstape/Finalizada]
» 12. Too Much to Ask [One Direction - Ficstape/Finalizada]
» 12. She Was The One [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 14. Lovestruck [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 15. Smile [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 17. Like I Would [One Direction - Ficstape/Finalizada]
» Mixtape: Don't Cry [Mixtape: Classic Rock/Finalizada]
» Mixtape: Na Sua Estante [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada]
» Mixtape: Cartas Pra Você [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada]
» MV: A Million Pieces [Music Video/Kpop - Kyuhyun]
» MV: I Need U [Music Video/Kpop - BTS]
» MV: Mansae [Music Video/Kpop - Seventeen]

SHORTFICS
» Survive The Halloween [Originais/Finalizada]
» Boy [One Direction/Finalizada]
» By Our Hearts [Super Junior/Finalizada]
» Shout About It [The Vamps/Finalizada
» My Dirty Secrets [Restritas (One Direction)/Finalizada
» Father's Little Girl... or not [Restritas (One Direction)/Finalizada


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus