Última atualização: 12/10/2017

Capítulo 1

’s P.O.V.

Naquele dia, o despertador tocou em vão. Não me permiti fechar os olhos em nenhum minuto durante a noite. Olhei ao redor e vi as malas prontas para a minha mudança. Eu realmente queria que aquilo fosse um pesadelo.
Me levantei para escovar os dentes e pentear o cabelo, como de costume, mas voltei a me deitar em seguida, decidida a ignorar o fato de que o dia já havia nascido e eu teria que ir embora em poucas horas. Fingir que não aconteceria foi o que me fez sentir mais firme naquele mês, e, com a proximidade do acontecimento, estava cada vez mais difícil ignorar. Mas eu continuei ignorando firmemente.
Não demorou muito para que minha mãe fosse até o quarto me chamar cautelosamente para a realidade. Ela sabia o quão sensível aquilo era para mim, e eu sabia que também era muito sensível para ela. Lidamos com aquilo de uma maneira extremamente sintonizada: fingindo que o tempo pararia e que nenhuma de nós teria que enfrentar nada.
? — minha mãe chamou — Querida, vamos, você tem que se levantar. Seu pai estará aqui em menos de uma hora.
— É, eu sei. — resmunguei, ainda de olhos fechados — Queria tanto que ele simplesmente mudasse de ideia e nos deixasse em paz.
— Eu sei que queria. Ele sabe também. — ela resmungou. Abri os olhos e a encarei, sentindo um pouco mais de firmeza — Ele sabe que você quer ficar comigo, mas o egoísmo dele é maior do que qualquer coisa, meu amor. Ele não vai mudar de ideia.
— Por que será que ele faz tanta questão de se meter na nossa vida depois de todos esses anos? — falei, expressando minha indignação pela primeira vez em semanas. Não dava mais pra ignorar: eu estava com raiva. Muita raiva. — Não quero ir morar com ele. Não quero ter que fingir que ele é meu pai. Ele não é meu pai.
, isso não é mais fácil para mim do que é para você, acredite. Venho tentando me convencer de que ficará tudo bem, e meu único alívio é saber que posso confiar em você e na sua força. Isso me faz forte também. Pode parecer egoísta da minha parte sair e te deixar aqui com ele, mas egoísmo mesmo seria se eu ficasse e te privasse de ter o que você está acostumada a ter. O que você merece ter.
— Eu entendo todas as suas razões, mãe, não precisa se desculpar. — suspirei — Está bem, eu tenho que me arrumar para ir.
— Eu te amo, filha.
— Também te amo, mãe.

Assim que ela saiu eu me levantei, tomei um banho e terminei de arrumar minhas coisas para ir, pensando na confusão que aquela mudança causaria. Na verdade, que já estava causando. Há pouco mais de dois meses antes de eu ter que ir embora, minha mãe, Janett , que era formada em Jornalismo pela Newcastle University, recebeu uma proposta irrecusável para ir trabalhar em Paris. Ela esteve desempregada por meses, fazendo alguns trabalhos soltos para sites e revistas. A nova oportunidade simplesmente caiu como uma luva. A ideia me deixou animada e eu não podia estar mais feliz! Seria maravilhoso poder viver algo diferente da monotonia de Newcastle. Além disso, seria libertador poder deixar para trás antigas pessoas, antigas dores e antigos pesos mortos… Como meu 'pai' e suas tentativas vazias de reaproximação. Mas é claro que Brian jamais deixaria isso acontecer.
Quando minha mãe decidiu aceitar oficialmente a proposta de emprego, tivemos que avisar Brian que deixaríamos o país. Ele, então, fez o que eu sinceramente não esperava: me proibiu de ir embora. Eu ainda não entendo direito o porquê de a minha mãe ter concordado com ele. Mas acredito que, por eu ser menor de idade, seria necessária a autorização dele para que eu saísse do país. Porque ele era meu pai. Somente no papel, mas ainda assim tinha direitos sobre mim.
O fato é que mamãe ia embora dentro de dois dias para Paris, então Brian viria me buscar para ir morar com ele e sua família feliz — família essa que eu nunca cheguei a conhecer. Eu sei que ele tinha dois filhos, uma garotinha de uns cinco anos e um garoto cerca de um ano mais velho que eu. Ah, e é claro, ele era casado com a mãe dos dois. Mas, fora isso, eu não sabia de mais nada.
Me apressei para descer, embora quisesse adiar aquele momento, tentando poupar minha mãe da companhia sempre indesejável de Brian. Se existia alguém que gostava menos de Brian do que eu, esse alguém era minha mãe. Brian nos abandonou quando eu tinha seis anos de idade, quando decidiu contar para minha mãe que tinha um filho fora do casamento. Ele, então, decidiu que amava muito sua segunda família, e resolveu fazer dela a sua única família. Nos abandonou. Ele não só optou por abandonar minha mãe, mas também por me substituir definitivamente pelo filho da mulher que ele amava. A amante. É claro que na infância eu sofri muito a ausência dele, mas depois de crescer um pouco e entender o que aconteceu de fato, meu ódio por ele ocupou todo e qualquer espaço que ele tinha em minha vida. Ele era tão desprezível quanto se podia ser e eu não precisava de alguém como ele em minha vida.
Quando terminei de me arrumar, desci lentamente as escadas observando os detalhes da minha casa, o único lugar onde vivi na vida. A casa seria vendida, portanto jamais voltaríamos a voltar ali e eu ainda não sabia se seria bom ou não para mim deixar aquelas lembranças para trás. Brian já estava me esperando no sofá quando cheguei na sala e levantou-se sorrindo abertamente para mim. Minha cara de ódio deve ter sido o suficiente para fazê-lo perceber que eu não estava no clima de alegria, pois seu sorriso sumiu.
— Oi, , querida. — ele disse, parecendo nervoso. Eu quis socá-lo — Suas malas já estão no carro. Nós... hmm... podemos ir.
Me despedi de minha mãe tão rápido quanto pude. Mais um pouquinho e eu começaria a chorar feito uma criancinha, assim como ela mesma já estava fazendo. Entrei no carro de Brian em silêncio, encostei a cabeça na janela e permaneci assim. Deixando Newcastle para trás, eu não conseguia pensar em muitas coisas que realmente me fariam falta. Acho que só sentiria saudades da minha mãe e de , minha melhor amiga. era a única pessoa no mundo, além da minha mãe, em quem eu realmente confiava. O tipo de pessoa a quem eu confiaria minha vida sem medo. Muitas coisas ruins aconteceram comigo em Newcastle no último ano, muitas pessoas me decepcionaram, e tudo o que me restou de concreto foi minha mãe e . E até mesmo isso Brian estava tirando de mim. Tudo bem, se eu fosse para Paris, eu estaria ainda mais distante de , mas ainda assim eu teria minha mãe. E estaria deixando definitivamente todas as minhas decepções na Inglaterra.
Pouco tempo depois, Brian resolveu quebrar o silêncio, fazendo meu sangue borbulhar de raiva.
, eu sei exatamente como se sente a meu respeito, você nunca fez questão de esconder e, no último mês, pareceu particularmente feliz em tentar me ferir de todas as formas. — ele pareceu amargurado enquanto dizia isso, e eu rolei os olhos, sem dizer nada, decidida a ver até onde o cinismo dele se estendia — Você passou toda a sua vida ouvindo a versão da sua mãe sobre a nossa história, e, depois de tantos anos, é a primeira vez que eu vejo uma oportunidade realmente significativa de me aproximar de você. De ser seu pai. Independente do que esteja se passando no seu coração nesse momento, eu gostaria de te pedir pra abrir um espacinho, por menor que seja, aí dentro. Pra mim e para minha família. Para nossa família.
Eu tive que rir.
Sinceramente, ele só podia estar debochando da minha cara, não era possível!
— Olha, Brian, - comecei - eu não sei o que você sabe sobre mim, mas vamos deixar claro uma coisa: eu não sou idiota. E também não sou sua filha. Você não é ninguém além do homem que me abandonou quando eu ainda era uma criança. Você não significa nada pra mim, e eu estaria mais feliz sendo mandada para o inferno do que sendo obrigada a ir morar com você e a sua família. Independente da versão que me foi contada durante toda minha vida, eu sei a história porque eu a vivi. Eu vivi sua traição, vivi o abandono, vivi todos os aniversários que você passou sem me ligar, vivi todas as festas da escola em que você não esteve presente. Eu vivi a dor de ver todos os meus amigos tendo pai e mãe por perto, mesmo que separados, enquanto meu pai aparecia uma vez a cada três meses para dizer “olá”. Eu vivi o dia em que nós nos encontramos em um shopping em Londres, e você fingiu que não me conhecia porque estava com sua família. Minha mãe me disse meia dúzia de palavras sobre você, o resto eu aprendi sozinha. Então não me venha com esse seu discurso ridículo de pai incompreendido, porque eu sei o quão desprezível você é. E isso ninguém precisou me contar. Eu aprendi sozinha a desprezar sua existência. Eu odeio você. — pausa pra respirar — E, por favor, evite dirigir a palavra a mim. Obrigada.
O olhar de dor que ele me lançou teria me enganado, se eu já não estivesse preparada para todo aquele teatrinho. Voltei a encostar a cabeça na janela e devia ter dormido durante o restante da viagem, porque, quando abri os olhos, já estávamos parados em frente à casinha das pessoas felizes. Brian pegou minhas malas e as levou até a casa enquanto eu o seguia. Assim que entramos, uma garotinha tão ruiva quanto eu pulou no colo de Brian. Dois segundos depois uma mulher ruiva também apareceu, sorrindo para mim.
— Oi, — a garotinha disse — Eu sou Hannah, sua irmãzinha. Papai disse que você se parece comigo. Você também é ruiva. Sua mamãe é ruiva também?
— Hannah, deixe-a respirar. — a mulher disse, logo atrás dela — Olá, querida. Eu sou Angelina, mas você pode, por favor, me chamar de Angel.
Eu estava completamente perdida no meio de toda aquela animação. A menininha não parava de falar e eu continuava com cara de paisagem quando ela, de repente, resolveu grudar em uma de minhas pernas em uma tentativa de me abraçar. Eu teria caído, sem nenhuma dúvida, se alguém não tivesse me segurado no momento em que tombei. Me desvencilhei dos braços da pessoa que me impediu de cair, pensando que Brian era esta pessoa. Quando olhei para trás, no entanto, um garoto se encontrava parado me encarando com um sorriso de orelha a orelha. Ele era alto, forte, tinha os cabelos pretos e olhos intensamente azuis. Olhos muito parecidos com os meus. Olhos muito parecidos com os de...
— Ei, pai, não vai nos apresentar? — o garoto disse.
— Ah, claro. , esse é . Seu irmão.


Capítulo 2

’s P.O.V.

Ela não retribuiu meu sorriso, nem o abraço de Hannah, nem o olhar gentil da minha mãe. Só ficou ali olhando para todo mundo, como se fosse superior. Como se nós fossemos transmitir alguma doença. Senti meu sorriso murchar. Meu pai já havia dito que não seria fácil lidar com ela, já que durante toda a vida ela havia ouvido falar sobre nós como as pessoas que roubaram o pai dela. A amante, o filho da amante, o marido infiel. E as vítimas, que obviamente eram ela e a mãe dela. Mas sempre me pareceu mesquinho demais. Sempre me pareceu ridículo ouvir apenas uma parte da história e sair por aí odiando as pessoas. Meu pai passou todos esses dez anos tentando se aproximar, e ela sempre o recusou. Como ela pode se sentir abandonada se passou a vida renegando-o?
O clima estava pesado na sala. Meus pais encaravam um ao outro, apreensivos. Hannah parecia chateada por ter sido completamente ignorada, eu estava me controlando para não xingar a causadora de toda a tensão e a nos encarava com nojo. Sim, nojo. Aquele olhar típico de pessoas insuportavelmente mesquinhas. Ficamos alguns segundos assim até meu pai se manifestar.
— Hm, , você pode mostrar para a onde fica o quarto dela? — perguntou cautelosamente — Aproveita e fala sobre a escola, que já começa na segunda-feira. Tenho que conversar com a sua mãe.
— Tudo bem, pai. — respondi. se mexeu, desconfortável. — Vou levar algumas malas, depois você sobe o resto, ok?
— Está certo. Obrigado, filho.
Peguei algumas malas e olhei na direção da garota. Arrisquei mais um sorriso simpático e fui arduamente ignorado, mais uma vez. Bufei e fui em direção às escadas. me seguiu imediatamente.
— Aqui é o seu quarto, madame. — brinquei, enquanto entrava no cômodo. Ela continuou em silêncio e impassível. — Sobre as aulas, começam na segunda-feira, como nosso pai falou. Eu não sei se você vai resolver socializar com a gente, meros mortais, mas caso decida se isolar até a segunda... Bom, eu vou sair de casa às 07h15. Esteja pronta.
— Você pode me passar o endereço da escola, por favor? — ela disse, quando eu já estava preparado para sair do quarto. Olhei para trás e ela não estava me encarando. — Eu prefiro ir sozinha.
— Você realmente vai ficar com essa palhaçada de fingir que a gente não existe? — perguntei, indignado. Ela finalmente me encarou. — Se a sua mãe continuar mesmo nesse emprego, você vai ter que viver aqui pelos próximos dois anos.
— Isso só vai acontecer se o seu pai não resolver me deixar ir embora antes.
Nosso pai não vai te deixar ir embora. É perda de tempo esse seu teatrinho de garota revoltada com a vida.
— Não é teatrinho, e eu não estou revoltada com a vida. Estou revoltada com a falta de senso do seu pai de me obrigar a vir morar com ele e com a família pela qual ele resolveu me substituir. — respondeu, como se estivesse discutindo o tempo — A família da amante dele.
— Eu acho que você já é grande o suficiente pra parar de fazer drama com uma coisa que aconteceu dez anos atrás, garota. Pelo amor de Deus.
— Eu não te devo nenhuma satisfação sobre o que aconteceu ou não na minha vida. Mas eu vou esclarecer apenas uma coisa: todos os motivos que me fizeram odiar seu pai não aconteceram dez anos atrás. Aconteceram durante todos esses dez anos. Agora, já que você não parece disposto a me dizer onde fica a tal escola, você pode sair daqui.
Nesse momento, meu pai entrou no quarto. Deus realmente existe, porque mais dois minutos sozinho com aquela garota e eu teria cometido um assassinato.
— O que está acontecendo aqui? — ele perguntou, provavelmente sentindo o clima tenso.
— Eu estava tentando explicar para a sua filha que não adianta fugir da gente, já que ela vai ficar aqui por pelo menos dois anos. Mas, pelo jeito, ela deve ter puxado todo esse egoísmo e essa teimosia da mãe dela. Porque eu nunca conheci ninguém assim.
— É, minha mãe às vezes é um pouco egoísta e teimosa. — ela disse, sua voz pingando veneno — Mas se tem uma coisa que eu posso garantir que ela nunca fez, foi se envolver com um homem casado. Já a sua...
— Olha aqui, garota, você lava a boca para falar da minha mãe! — reagi, alterando meu tom de voz.
— Eu estou mentindo? Até onde eu sei, você é fruto de uma pulada de cerca do nosso querido pai.
, já chega! — meu pai finalmente interveio — Você não pode chegar aqui e falar o que vier na sua cabeça. Respeite a Angel.
— E quem você respeitou quando traiu a minha mãe? Quem a Angel respeitou quando se envolveu com você sabendo que você era casado? — ela praticamente berrou. A essa altura, minha mãe já estava no quarto também, e o único motivo para eu não ter avançado nela naquele instante foi a mão de minha mãe, que segurava firmemente meu braço. — Eu não devo nada a ninguém aqui. Eu nem queria estar aqui. Você já destruiu minha vida uma vez e decidiu voltar a fazer isso!
— Eu nunca quis ferir você, ! Sua mãe te envenenou contra mim. Se você soubesse o quanto eu amo você, o quanto eu sofri por não ter estado ao seu lado durante esses anos...
— Pois eu te odeio com todas as minhas forças. Não tem ninguém que eu odeie mais do que você. Tudo que eu queria era ir pra Paris e nunca mais voltar a olhar pra essa sua cara cínica.
— Já chega, os dois! — minha mãe se meteu entre meu pai e — Chega, Brian, ela precisa de um tempo pra se acostumar com essa situação. E você, , pare de forçar a barra. O que foi que eu conversei com vocês? Vocês não ouvem nada do que eu digo? Saiam daqui agora.
E, dizendo isso, ela empurrou todo mundo para fora do quarto, com aquela cara de brava tão característica. A filhinha do meu pai a ofendeu e ela fica brava com a gente, que tentou defender?
Seguimos todos em silêncio até a sala. Mamãe parou em frente ao sofá, indicando para que eu e meu pai sentássemos. Lá vinha sermão.
— Onde está a Hannah? — perguntei.
— No quarto. — mamãe respondeu rapidamente, logo iniciando monólogo — O que foi que eu disse para vocês durante essa semana inteira? Ela precisa de um tempo. Vocês não percebem que ela passou a vida inteira remoendo o possível abandono do próprio pai? Ela se sente trocada. Ela acha que nós, eu e você, , somos os culpados.
— Ela te deve respeito, mãe! — eu voltei a falar, indignado — Ela estava te ofendendo, você queria que eu ficasse quieto?
— Eu queria! Ela não estava tentando me ofender, , ela estava verbalizando tudo o que foi enfiado na cabeça dela desde que ela ainda era uma criança. Você não tem noção de como a mãe dessa garota é inconsequente. Ela simplesmente se vingou do seu pai fazendo a menina odiá-lo. Uma criança! Isso pode ser um trauma que uma pessoa carrega durante a vida toda.

— Entendem o que eu quero dizer? — ela continuou a falar — Independente do que realmente aconteceu, na cabeça dela, nós somos a família que destruiu a família dela. Não achem que meia dúzia de palavras vão fazer com que ela mude de ideia.
— Ok — meu pai disse, soando derrotado — E o que a gente faz?
— A gente a faz se sentir em casa. Agimos naturalmente, sem forçar a barra. Estamos entendidos?
— Sim. — falamos juntos.
— Ótimo.
Subi o mais rápido que pude para o meu quarto, antes que minha mãe mudasse de ideia e voltasse a falar. O sermão tinha sido mais curto do que eu imaginei, demorar para subir poderia incentivá-la a continuar.
Deitei na cama, observando o teto e com um pensamento fixo na cabeça: seria insuportável ter que dividir o mesmo teto com aquela criaturinha. Eu não tinha paciência para isso, e meu pai me mataria se eu ousasse falar um pouquinho mais alto com a sua filhinha.
A chegada dela já tinha sido um desastre; ainda dava para sentir o ar de toda a casa pesado, carregado pelo desafeto e desprezo que ela sentia por todos nós. Em pensar que eu tive de desistir de todos os programas para o meu fim de semana para recebê-la... Não, pensar nisso não ajudava. Passei algumas horas no meu quarto assistindo The Walking Dead. Eu, , assistindo série em plena sexta-feira à noite. Ok, eu precisava colocar TWD em dia, mas o fato de eu estar sendo obrigado a fazer isso quando meus amigos estavam muito provavelmente enchendo a cara fazia eu ter vontade de poder dar uma marretada em cada um daqueles zumbis malditos. Eu, sinceramente, não merecia.
Minha mãe tinha preparado um jantar de boas-vindas para , mas, com toda aquele clima, ela acabou por desistir da ideia. Achei ótimo. Não estava no clima para fazer nada em família naquele momento. Esperei que todos estivessem dormindo para sair do quarto e ir comer. Em uma sexta-feira normal, a casa ainda estaria movimentada naquele horário — por volta da meia-noite —, mas estavam todos muito cansados.
Fui até a cozinha e esquentei o jantar no microondas. Aproveitei para pegar algumas coisas e levar para o quarto, para o caso de eu sentir fome mais tarde. Coloquei tudo em uma sacola plástica e subi em direção ao quarto. Eu estava prestes a entrar no meu quarto quando uma música estranha vinda do quarto da frente chamou minha atenção. estava cantando. Sendo vencido pela curiosidade, me aproximei da porta da porta para ouvir melhor. Qual não foi minha surpresa ao perceber que, por trás de toda aquela raiva, sua voz poderia transmitir tanta paz.

I can see you there with the city lights
Fourteenth floor, pale blue eyes
I can breathe you in
Two shadows standing by the bedroom door
No, I could not want you more than I did right then
As our heads leaned in

Well, I'm not sure what this is gonna be
But with my eyes closed all I see
Is the skyline, through the window
The moon above you and the streets below
Hold my breath as you're moving in
Taste your lips and feel your skin
When the time comes, baby, don't run
Just kiss me slowly


Eu estava completamente envolvido pela música, pela voz dela, de forma que me distraí de todo resto ao meu redor. Sem perceber, fui deixando a sacola com as comidas escorregar da minha mão. Quando eu menos esperava, tudo caiu no chão, fazendo um barulho estrondoso. automaticamente parou de tocar e cantar. Me ajeitei rapidamente, peguei a comida tão rápido quanto pude e voei para o meu quarto. Deus me livre ser pego ouvindo atrás da porta. Deitei na cama, ainda impressionado. Fechei os olhos e pude ouvir claramente sua voz, e tudo o que eu pude pensar foi no quanto tudo mudaria dali pra frente. Eu literalmente podia sentir.

**Link e tradução da música.


Capítulo 3

's P.O.V.

O final de semana se arrastou de forma lenta e insuportável. O domingo parecia deliberadamente tentar me enlouquecer. Os minutos simplesmente estacionaram. A cada dez minutos, um minuto se passava — pelo menos, era assim que me parecia.
Passei sábado inteiro trancada, ignorando completamente as tentativas de Brian e Angel de me tirarem do quarto. Passei o dia todo sem comer, de forma que, ao final do dia, estava mole, sem forças. Não comia desde quinta-feira à noite, e isso era demais para qualquer um aguentar. Deitei-me, decidida a dormir e esquecer aquele buraco no meu estômago, e foi aí que Angel entrou no quarto trazendo um prato com pelo menos uns cinco lanches e uma garrafinha de suco. Fechei os olhos e os mantive assim até que ela saísse do quarto. Orgulho nenhum no mundo me faria negar aquela comida; eu estava literalmente morrendo de fome.
Embora eu estivesse com fome novamente, era mais suportável. Já passava das três da tarde no domingo e eu não sabia mais o que fazer para não morrer de tédio. Conversei com minha mãe, que já havia chegado em Paris, e, embora tenha tentado não parecer tão animada, estava completamente apaixonada pela cidade. também me fez companhia durante algumas horas, mas, diferente de mim, ela tinha coisas para fazer. Eu estava usando a internet do celular para me comunicar com elas, mas não sabia a senha do wi-fi, portanto não podia nem ao menos assistir algum filme. Então, eu me encontrava completamente sozinha, entediada, planejando formas de torturar Brian até a morte, quando alguém bateu na porta. Não respondi, porém a pessoa resolveu entrar mesmo assim. Continuei imóvel enquanto via com o canto do olho Angel se aproximar com uma bandeja e uma sacola em um dos braços. Ela deixou a bandeja ao meu lado, na mesinha ao lado da cama, e se sentou na ponta, colocando a sacola em seu colo. Eu não entendi por que raios ela ainda estava ali, dado o fato de que eu já tinha dado todos os sinais possíveis de que iria manter o silêncio. Mas ela permaneceu ali, sem falar nada, até que eu desisti de ignorar sua existência e a encarei. Ela sorriu, como se estivesse esperando por isso. Ela era assustadoramente parecida com a minha mãe, ainda mais quando sorria. Tentei conter a onda de afeição que seu sorriso me causou, sabendo que tudo que eu não podia fazer era associar a imagem da minha mãe com a primeira ruiva que aparecesse — ainda mais com aquela ruiva, em particular.
— Não sei como você consegue ficar tanto tempo sem comer e beber nada. — ela disse após alguns segundos sustentando meu olhar — Bom, eu trouxe bastante coisa pra você comer, presumindo que você deve estar morrendo de fome. E isso aqui — ela colocou a sacola perto de mim — É o seu material da escola. Comprei uma bolsa, canetas, cadernos e tudo mais. Eu pretendia ir comprar com você, se as coisas tivessem sido um pouco melhores. Mas está tudo aí.
Continuei em silêncio, embora minha boa educação tenha me alertado que o certo seria agradecer. Ela suspirou e voltou a falar pouco tempo depois.
— Você sabe que não vai conseguir manter esse silêncio para sempre, não é? Não se torture tanto, querida. Você é quem mais está sofrendo nessa sua busca por ferir seu pai.
Mais silêncio.
me disse que você não quer ir com ele pra escola amanhã. Aqui está o endereço e o que você deve fazer para chegar lá. — ela estendeu o papel. Eu o peguei — Não deixe de comer por orgulho bobo. Aliás, não deixe de fazer nada por orgulho. O orgulho fere, destrói. Se sinta a vontade para se juntar a nós quando quiser.
E então ela se levantou e saiu, me deixando sozinha com meus pensamentos. Ela não estava completamente errada sobre meu orgulho, que às vezes toma proporções inimagináveis. Mas tudo o que importava naquele momento era minha vontade de ir embora daquela casa. Brian teria de tomar consciência do mal que estava me fazendo, por mais egoísta que ele fosse.
Meu estômago roncou, ciente da proximidade da comida, e eu não hesitei em atender sua vontade.
Morrer não era o meu plano.

A segunda-feira chegou, trazendo consigo um clima frio e um céu cinza, tipicamente londrinos. Me espreguicei vagarosamente enquanto tentava me lembrar o porquê daquela voz na minha cabeça insistir em me apressar para levantar. Olhei no relógio, que marcava 7h00, e finalmente me toquei. Eu estava muito atrasada, tinha meia hora para me arrumar e sair de casa. E eu nem ao menos sabia onde ficava a escola.
Tomei banho em tempo recorde, me vesti em menos de dois minutos, penteei meu cabelo de qualquer jeito e passei rímel. Já tinha organizado as coisas que Angel me dera no dia anterior, então, quando terminei de me arrumar, por volta das 7h25, saí do quarto pronta para enfrentar o dia que viria pela frente.
Desci as escadas com passos rápidos, enquanto selecionava uma música no celular. Não é uma coisa muito inteligente para se fazer, convenhamos. Porém, só percebi isso quando trombei em alguém que estava parado na ponta da escada. Levantei a cabeça, me deparando com os grandes olhos azuis de , que me encarava com os lábios entreabertos, enquanto segurava meus braços. Me afastei rapidamente, como alguém que toma um choque, murmurando um 'desculpa' e me direcionando para a porta no segundo seguinte, com o coração estranhamente acelerado. Quando eu estava a dois passos da porta, ouvi alguém me chamar. Virei-me instintivamente, vendo Hannah se aproximar quase correndo com uma sacola de papel na mão.
, toma aqui seu café da manhã. — a pequena disse, com a respiração entrecortada pela velocidade com a qual correu até mim — Eu mesma fiz. Espero que você goste. De repente, eu me senti meio imbecil pela forma como a ignorei na sexta-feira em que cheguei na casa. De todos ali, ela era a única que não fazia ideia do que estava acontecendo. Abaixei-me para ficar na altura dela.
— Muito obrigada, pequena — eu disse, sorrindo — Me desculpe por não ter falado com você quando cheguei, eu estava cansada.
— Tudo bem, . Mamãe me disse que você precisava de um tempo para se acostumar. — ela disse enquanto balançava os bracinhos de um lado para o outro de um jeito adorável — Eu posso ir ao seu quarto quando você chegar da escola?
— Claro, pode ir quando quiser. — falei, olhando a hora no celular no momento seguinte. 7h30 — Eu tenho que ir agora. Estou muito, muito atrasada. Depois a gente conversa mais, ok?
— Tá bom, , tchau. Quando você chegar, eu vou ao seu quarto.
A abracei rapidamente e saí apressada, olhando o papel com as instruções que Angel havia me dado. Eu não estava entendendo absolutamente nada. Comecei a me desesperar. Eu estava em uma cidade estranha, indo para uma escola estranha, em um caminho estranho... Estava prestes a ter uma síncope.
Continuei tentando decifrar as letras no papel enquanto andava para uma direção completamente aleatória. Foi quando ouvi alguém me chamar. Olhei para o lado e vi andando com o carro vagarosamente ao meu lado. Voltei a olhar para frente.
— Larga de ser cabeça dura, garota. Entra logo no carro, você nunca vai conseguir chegar à escola nesse passo.
— Claro que eu vou. — respondi — Sua mãe me explicou como chegar.
— Ah, então ela explicou muito mal — disse ele, rindo levemente — Você está indo para o lado errado.
Parei subitamente, me sentindo derrotada. O que eu poderia fazer, afinal? Eu não fazia ideia de onde estava, não fazia ideia de como chegar à escola. E, pior, eu não fazia ideia de como voltar para casa se por acaso me perdesse. Não sabia o endereço e nem ao menos uma referência do local. Se eu me perdesse, teria de ligar para Brian e... Espera aí. Eu não sabia o número do Brian.
— Vamos, , temos vinte minutos. Vamos levar só uns dez pra chegar à escola, mas, se você continuar aí parada, só chegamos para a última aula do próximo semestre.
Lancei um olhar irritado para enquanto caminhava — me arrastava — até o carro. Eu sabia que o dia ia ser ruim, mas ele estava superando minhas expectativas. Entrei no carro em silêncio, observando fazer o retorno.
Graças ao bom Deus ele não abriu a boca durante todo o caminho até a escola. Aproveitei os poucos minutos que me restavam para comer o lanche que Hannah tinha preparado para mim — um sanduíche e um suco de caixinha. Mesmo estando muito concentrada em comer e ignorar o outro ser dentro do carro, eu conseguia sentir a tensão no ar; era como quando você entra em um carro com um desconhecido e não sabe para onde ele pretende te levar. Não que eu estivesse com medo, mas eu me sentia desconfortável. Ele era, afinal de contas, um desconhecido. Chegamos à escola em até menos de dez minutos, porém os minutos pareceram se arrastar lentamente.
Suspirei aliviada assim que vi uma placa com os grandes dizeres “St. Bees High School”. O nome da escola era a única coisa que eu tinha entendido no maldito papel que Angel me dera. continuou respeitando meu silêncio e não me seguiu ou fez qualquer menção de ir atrás de mim quando saí apressadamente do carro. Isso fez com que ele se tornasse menos insuportável no meu conceito.
Entrei, procurando não olhar para os lados. Eu tinha plena consciência de que ser nova em uma escola era equivalente a ser a nova atração de um circo. Eu podia sentir os olhares de todas as pessoas ao meu redor em mim, mas ignorei, seguindo desajeitada para dentro da escola. Eu precisaria passar na secretaria antes de ir para as aulas, para pegar meu horário de aulas, a chave do meu armário e os livros. Perguntei para uma ou duas pessoas que passavam por ali como eu fazia para chegar até lá, mas, fora isso, continuei evitando socializar. Cheguei à secretaria quando faltavam apenas cinco minutos para o sinal bater. Eu teria que correr se não quisesse chegar atrasada, e, acredite, eu não queria. Passei apressadamente por alguns professores, que provavelmente estavam indo para suas salas, e me dirigi para uma bancada, onde havia uma senhora de meia idade sentada.
— Oi — eu disse enquanto me aproximava — Eu sou , aluna nova.
A mulher apenas olhou por cima dos óculos para mim, numa lentidão agonizante, como se eu estivesse interrompendo alguma coisa muito mais interessante.
— Eu preciso do meu horário, das chaves do armário, dos livros... Sabe, essas coisas que os alunos novos precisam. — expliquei, com a impaciência expressa na voz — Será que poderia fazer o favor de me ajudar? Se estiver ao seu alcance, claro.
É, também sinto pena de quem precisa lidar comigo logo cedo.
A mulher se moveu de forma vagarosa e irritante até uma sala que ficava logo atrás da bancada. Quando voltou, o sinal da primeira aula já havia batido, e eu já estava com o corpo todo da cor do meu cabelo. Sim, eu estava irritada.
— Aqui estão seu horário, as chaves do seu armário e um bilhete do diretor. — ela disse, estendendo um envelope branco com o nome da escola escrito em dourado para mim — Seus livros já estão no seu armário. São tolerados até dez minutos de atraso em uma aula, mas como hoje é seu primeiro dia, apenas entregue o bilhete que está dentro do envelope para o professor e seu atraso será tolerado.
Dito isso, a mulher voltou a se sentar com todo aquele ar de tédio. Bufei, ainda irritada com o atraso. Qual é, o dia já não estava ruim o suficiente? Agora eu teria de entrar atrasada em uma sala cheia de desconhecidos, que, com toda certeza, iriam rir da minha cara.
Andei apressadamente até meu armário. Peguei meu livro de inglês, o de biologia e o de história — que seriam as três primeiras aulas antes do intervalo — e continuei na corrida para não chegar tão atrasada à aula.
Demorei mais alguns poucos minutos para encontrar a sala de Inglês. Quando finalmente a encontrei, já estava, pelo menos, vinte minutos atrasada para a aula. Meu professor de inglês era um homem na casa dos cinquenta anos, negro, baixo, magro e com a cabeça coberta de cabelos brancos. Estava passando algo no quadro quando cheguei, e todos na sala estavam em um silêncio perpétuo. Bati na porta timidamente, atraindo imediatamente a atenção geral para mim. Merda. Olhem para o caderno de vocês.
— Hm, professor, eu sou , aluna nova. — eu disse, ainda na porta. O homem me encarava minuciosamente, arqueando levemente as sobrancelhas e parecendo odiar o fato de ter sua aula interrompida. Ele acenou levemente com a cabeça e fez sinal para que eu entrasse na sala. Caminhei lentamente até ele e lhe estendi o bilhete dado pelo diretor. — O diretor pediu para que eu entregasse esse bilhete para o senhor, justificando meu atraso.
— Tudo bem — ele sorriu levemente, diminuindo a carranca diante o meu olhar tímido. — Você pode se sentar em algum lugar vago. Não perdeu nada importante.
— Obrigada, professor. — acenei levemente, confusa por sua súbita mudança de atitude. Ele voltou a olhar para o quadro enquanto eu me dirigia para uma carteira que ficava bem no centro da sala. Todos ao meu redor ainda me olhavam descaradamente, e, durante todos os trinta minutos restantes da aula, permaneceram me encarando.
As outras duas aulas seguiram da mesma forma. Eu copiando metodicamente todo e qualquer conteúdo que fosse passado na lousa, enquanto sentia o olhar de todas as outras pessoas perfurando minhas costas. Para minha sorte — ou não —, ninguém veio falar comigo. Ninguém tentou puxar assunto ou fazer amizade. Todos pareciam felizes em apenas encarar e me fazer sentir horrivelmente deslocada. Mas eu não estava exatamente reclamando, eu não era nenhuma antissocial, mas dizer que queria fazer novas amizades seria hipocrisia. Eu não pretendia me prender àquele lugar, não pretendia me afeiçoar por ninguém ali. Aquilo tudo era passageiro, eu estava fazendo muito esforço para acreditar que não teria de lidar com aquilo por mais tempo do que estritamente necessário. Eu não sabia se conseguiria lidar. Muito provavelmente não.
O sinal para o intervalo me trouxe um alívio instantâneo, seguido daquele balde de água fria. Eu tinha esquecido que estava sozinha, que não conhecia ninguém e que muito provavelmente haveria, pelo menos, dez vezes mais pessoas olhando pra mim. Por que, Deus, as coisas têm que ser assim?
Saí da sala acompanhando o mar de pessoas até meu armário e, em seguida, até o refeitório. Só depois de comprar meu lanche eu percebi o quanto aquele lugar estava lotado. Havia dezenas de mesas e nenhuma delas estava com poucas pessoas. Continuei parada feito uma estátua enquanto estudava o lugar, na esperança de encontrar milagrosamente um lugar para sentar. Dei alguns passos, ainda olhando ao redor, quando apareceu na minha frente, sorrindo de um jeito sacana. Franzi a testa, sem entender o motivo daquele sorriso em particular.
— Oi, — ele disse, sua voz compatível com seu sorriso. Eu ainda não estava entendendo, mas o meu nível de desespero para me sentar e evitar o olhar de todos ao meu redor era tanto, que eu não conseguiria dizer não caso ele me convidasse para sentar com ele. — Você pode se sentar comigo.
Eu juro que cheguei a sorrir aliviada, pronta para agradecer, antes de ouvir as palavras seguintes.
— Se você pedir, é claro. — disse , se inclinando para frente, seu sorriso se alargando.
— Como é?! — eu perguntei, esperando sinceramente ter ouvido errado.
— É isso aí. Você pode se sentar comigo, desde que me peça.
Não, eu não ouvi errado. O meu sangue ferveu.
— A única coisa que eu vou pedir, , é para você morrer. Some da minha frente, imbecil. — falei, me esforçando para não falar mais alto e atrair ainda mais atenção. pareceu confuso, sua expressão caindo para algo que beirava a descrença. Saí dali a passos firmes, tentando ignorar o súbito e completamente insano arrepio que percorreu minha espinha ao encará-lo daquela maneira confusa tão de perto. Arrepio de raiva, claro.
Não é?
Balancei a cabeça, seguindo cegamente para o fundo do refeitório, onde havia uma mesa com apenas um garoto. Apesar de sua cara de poucos amigos, ele parecia muito bonito com seu cabelo loiro cortado bem rente à cabeça, seus olhos verdes e a covinha proveniente em seu queixo. Me aproximei hesitante, sentindo o garoto me olhar como se estivesse prestes a me matar. Bom, ou eu sentava ali, ou comia no chão — possibilidade que eu sinceramente já estava cogitando.
— Hum, oi, tudo bem se eu me sentar aqui? — perguntei, hesitante.
— Está fazendo isso para provocar o otário ali? — ele perguntou de forma ríspida. Encarei-o, confusa, antes que ele voltasse a falar — Porque, se for isso, a resposta decididamente é um não. Garotas assim me causam nojo.
Ok, o quê?
— Ok, o quê? — ecoei meus pensamentos, sem conseguir formular mais nada. As pessoas criaram um tipo de aversão natural por mim ultimamente? Eu estava até fazendo um esforço para não parecer tão rude.
— Você acaba de ter uma briguinha com o babaca ali e resolve fazer amizade justamente comigo, assim, subitamente. — o garoto debochou, sua voz era pura ironia — Claro que você não está usando a situação para fazer ciúmes nele. Imagina, essa possibilidade nem existe. Faça-me o favor, garota.
— Em primeiro lugar, eu não tenho a mínima intenção de fazer amizade com você. Eu só queria sentar, por Deus! — eu disse, soando exasperada. O garoto continuava me olhando como se desprezasse cada palavra que saía da minha boca. Oh, como eu queria socar a cara dele na mesa. — E, segundo, por que raios eu ia querer fazer ciúmes no ?!
Eu não sabia por que ainda estava ali, parada, esperando a resposta. Por Deus, aquilo era ridículo! Eu estava em pé, esperando um desconhecido me dizer o porquê de sua súbita antipatia por mim. Mas algo me impediu de simplesmente finalizar a discussão e ir sentar em qualquer outro lugar — isso é, se houvesse outro lugar. O garoto ainda me encarava com desprezo quando voltou a falar.
— Talvez, só talvez, porque vocês acabaram de ter uma típica briguinha pública a dois metros daqui. — ele disse — Você é nova aqui. Foi o casinho das férias, e agora ele te chutou? Não estava ciente de como funciona com ele?
Meu sangue ferveu em minhas veias, enquanto o garoto à minha frente muito provavelmente encarava meu silêncio e minha cara de ódio como uma confirmação para todas aquelas suposições ridículas. Um sorriso medíocre se abriu em seus lábios, e meu ódio pareceu triplicar. Eu nunca pensei que diria as palavras seguintes com tanto prazer, e, muito provavelmente, nunca mais voltaria a fazê-lo.
e eu somos irmãos. — eu disse, sorrindo de um jeito certamente doentio. — E eu concordo com você, ele é um babaca. Mas não acho que uma pessoa como você tenha moral pra falar alguma coisa.
Os olhos do garoto se arregalaram enquanto seu queixo caía, em uma expressão chocada. Me virei e saí dali a passos largos. Eu ia comer em pé em frente ao meu armário, mesmo. Melhor do que ficar em pé na frente de um imbecil que te acusa de coisas sem nenhum fundamento. Não passaram dois minutos para que o dito cujo aparecesse em frente ao meu armário, me permitindo ver, pela primeira vez, seu corpo alto e esguio vestido em uma camiseta preta, jeans surrados e uma bota e me encarando com um misto de constrangimento e contemplação. Era como se, agora, ele já me conhecesse há muito tempo. Franzi a testa para ele, mantendo um olhar de raiva e impaciência.
— Me desculpe, por favor. — ele começou — Eu não fazia a mínima ideia. e eu temos uma rixa de conhecimento público, é comum as pessoas quererem me usar contra ele.
Continuei calada, consideravelmente menos irritada. Porém aquilo ainda não havia sido o suficiente.
— Mas eu deveria ter sabido — ele voltou a falar — Você é igualzinha a Hannah, uma versão mais velha, claro, mas ainda assim igual.
Agora ele tinha minha total atenção. Como ele conhecia Hannah? Ele não havia dito que e eles tinham uma rixa de conhecimento público?
— Eu sou , mas me chame de . — ele sorriu, encarando meu silêncio e minha visível curiosidade como algo divertido — É um imenso prazer conhecer , ainda mais sabendo o ódio que você sente pelo . Já temos algo em comum.
Eu o olhei, perplexa. Por Deus, quem era aquele garoto? Como ele sabia tudo aquilo? Encarei-o por alguns segundos, sem saber o que dizer. Várias perguntas deveriam ser feitas, é claro, mas algo me incomodava mais do que a curiosidade. Eu não era . Essa pessoa não era eu, de jeito algum. Joshua) não me conhecia. Eu não deveria perguntar como ele sabia quem eu era, até ele saber exatamente quem eu era. Confuso? Talvez. Mas era tudo o que se passava na minha cabeça naquele momento.
— eu o corrigi. Um sorriso cresceu em seu rosto. — Ou . Nunca .
— Eu imaginei que não. — ele disse, se aproximando ligeiramente — Tenho a impressão de que seremos grandes amigos, .
E, por incrível que pareça, era exatamente essa a sensação que eu tinha, também. O mundo estava girando um pouco mais rápido do que cogitei.


Capítulo 4

’s P.O.V.

Existem milhares de pessoas pacientes e muito boazinhas por aí, que poderiam receber em suas vidas uma garota revoltada e odiosa e, ainda assim, dar a ela todo o espaço e calma necessários para o tal do período de adaptação.
Eu não sou essa pessoa.
Ver e conversando muito amigavelmente era demais pra minha sanidade.
Passei a manhã toda rodeado de pessoas que comentavam a nova fofoca da escola: a irmã de e o pior inimigo dele estavam juntos. E não importa o que "juntos" significava, eu não dava a mínima.
só podia estar fazendo de propósito. De todos os seres humanos naquela escola, ela resolveu se aproximar do único ser a quem eu dedico todo o meu desprezo? Não podia ser coincidência. Ela não podia "inocentemente" ter ido conversar com o sem a intenção de me atingir. Sinceramente, qual era a chance disso? O pior de tudo é que eu teria que lidar com ela. Eu teria que fazer o máximo para me aproximar, pro bem do meu pai e pro bem da minha família. Lidar com a garota rebelde que ela era naquele momento por longos dois anos não era uma opção, eu tinha que encontrar alguma maneira de virar o jogo, mas ela não parecia nem um pouco disposta a me ajudar nesta missão.
Observei se afastar de com um aceno e uma risadinha irritante e ir em direção à saída do colégio. Respirei fundo e comecei a segui-la, já que eu seria obrigado a dar uma carona para ela, visto que a garota não fazia ideia de onde estava e o garrancho da minha mãe não ajudaria em nada.
Encontrei na frente do portão do colégio, com os olhos fixos no papel que minha mãe havia dado a ela no dia anterior, claramente tentando decifrar o que estava escrito ali sem sucesso nenhum. Tive que conter o riso ao lembrar do quão ilegível era a letra da minha mãe. nunca entenderia nada. Me aproximei da garota e parei em sua frente, com as mãos no bolso e o olhar fixo em seu rosto. Ela levantou os olhos por um segundo mas logo voltou a atenção para o papel. Dei um risinho debochado, impressionado com a teimosia da garota. Ela não sabia voltar pra casa, custava tanto assim admitir?
Continuei encarando-a sem dizer uma só palavra, enquanto observava seu rosto ficar cada vez mais vermelho e seus lábios se comprimirem a cada dois segundos. Eu conhecia aquela expressão. Hannah ficava do mesmo jeito quando estava sem jeito, nervosa ou sob pressão. Mas parecia particularmente adorável naquela situação, e eu me sentia muito incomodado por ter chegado a essa conclusão.
Quando alguns minutos se passaram, cansou de me ignorar e me encarou nervosa, apertando os olhos para mim. Continuei encarando-a com a expressão impassível.
- O que você quer? - ela disse entredentes - Vai ficar aí me encarando feito um doido?
- Só estou te esperando para irmos buscar a Hannah na escola e depois voltarmos para a casa. Acredite, você não vai conseguir decifrar a letra da minha mãe. É quase um novo idioma, é bem provável que nem ela mesma entenda.
A sombra de um sorriso passou pelo rosto avermelhado de , mas se foi tão rápido quanto veio. Ela logo voltou sua atenção para o papel, parecendo meio incerta. - Olha, , eu odeio ter que atrapalhar sua leitura, de verdade. - eu disse rolando os olhos - Mas nós precisamos ir. Hannah já saiu da escola há uns dez minutos e deve estar me esperando com um humor nada bom. Ela pode ser bem temperamental, às vezes. Tenho certeza de que você sabe como é.
voltou a me encarar e bufou em seguida, amassando o papel e ajeitando a mochila nas costas. Tirei as chaves do carro do meu bolso e andei em direção a ele, com a garota em meu encalço. Logo nós estávamos na escola de Hannah, que, como o previsto, não estava nem um pouco contente com meu atraso. O único motivo para ela não ter feito nenhuma birra no caminho até o carro, foi a surpresa que eu prometi que a aguardava - ou seja, .
Quando minha irmãzinha viu qual era a surpresa, apertou os olhinhos verdes em contentamento e mal conseguia segurar o sorriso que atravessava seu rosto. Olhei para , esperando encontrar o mesmo olhar de indiferença e desprezo que ela dedicava a mim, mas me surpreendi. Ela olhava para Hannah com carinho e retribuía o sorriso caloroso, ainda que de uma forma tímida.
Aquela reação me pegou de surpresa. Encarando e Hannah pelo retrovisor, conversando como se conhecessem há muito tempo e rindo juntas, eu só conseguia pensar que aquela garota não era a mesma com quem eu tive que lidar na sexta-feira, quando ela chegou em casa. Conversando com Hannah, não se parecia em nada com a garota arrogante e egoísta com quem eu tive o desprazer de conversar, se é que posso chamar aquilo de conversa.
Aquela nova percepção gerou uma confusão enorme dentro de mim. Com quem eu estava lidando, afinal? Quem era a garota com quem eu dividiria minha casa, minha família e minha vida? A única conclusão a qual eu cheguei, foi a de que eu estava muito longe de conhecer a verdadeira .
Poucos minutos depois, ao chegarmos em casa, decidi que seria bom deixar Hannah interagir com durante a tarde. Elas pareciam estar se dando bem e eu acredito que minha presença somente atrapalharia, considerando o fato de que não parecia nem um pouco interessada em interagir amigavelmente comigo. Pra ser sincero, não acredito que tinha a intenção de interagir comigo de qualquer maneira.
Decidi subir para o meu quarto, enquanto as duas conversavam animadamente sobre o dia de Hannah na escola. Eu não poderia sair de casa, já que Hannah ainda estava sob minha responsabilidade, mas podia descansar um pouco nesse meio tempo. Dormir um pouquinho, só um pouquinho, não faria mal a ninguém...

Acordei algumas horas depois com Hannah pulando em cima de mim com sua habitual animação exagerada. Olhei para o relógio, que marcava 19PM. Só um pouquinho, né ?
- Hey, pequena. - falei para Hannah - Qual o problema?
- Problema nenhum . A mamãe pediu pra eu te chamar pra jantar.
- Hum, entendi - me sentei na cama e cocei os olhos. Hannah se sentou no meu colo, balançando as pernas - Gostou de passar o dia com sua nova irmã?
- Gostei muito! - ela disse - Nós brincamos no quintal e tomamos sorvete. Ela não me deixou assistir Os Simpsons, igual você deixa, mas nós assistimos Bob Esponja e Peppa Pig!
- Por que ela não deixou você assistir Os Simpsons?
- Ela disse que você era muito irresponsável por me deixar assistir porque Simpsons não é desenho para criança.
- Oh, ela disse isso? - Hannah balançou a cabeça e eu tive que rir. era mais chata do que eu pensei que seria humanamente possível - Não ligo para o que ela disse. Nós assistiremos hoje, depois do jantar ok?
- ! Hannah! - minha mãe gritou do andar de baixo - Venham jantar!
- Melhor irmos logo, pequena. - falei para Hannah, que concordou com a cabeça e se pendurou no meu pescoço. Levantei segurando-a no colo e me dirigi para a porta, descendo as escadas em seguida.
Para a minha surpresa, não estava no andar de baixo. Inocentemente, eu acreditei que passar um tempo com Hannah a faria derreter um pouco. Mas ela ainda não parecia disposta a socializar com ninguém que não fosse Hannah. Bom, de qualquer maneira, eu acredito que só o fato de e Hannah se aproximarem já era um avanço imenso. Tão grande, que eu nunca imaginei que aconteceria.
O clima no jantar seguiu leve e agradável, como se tudo não tivesse mudado com a mais nova moradora da nossa casa. No final do jantar, minha mãe pediu que Hannah levasse um prato de seu melhor macarrão ao molho branco para . Hannah voltou minutos depois para assistirmos Os Simpsons e acabou dormindo na metade do episódio em que o Homer briga com a Marge e envia fotos para ela por baixo da porta pedindo desculpas.
Levei Hannah para cama e fui para o meu quarto, não sem antes verificar se estava cantando novamente em seu quarto. Estava tudo silencioso daquela vez. Entrei no meu quarto pensativo, imaginando mil formas de inteirar na nossa família. Era incrível o tamanho da minha preocupação com toda a situação, desde que ela se mudou. Eu não tinha muito o que fazer para aproximar ninguém, se formos parar pra ver. Não tinha culpa de nada, e nem sabia o que exatamente foi colocado na cabeça da garota. Era meio óbvio que aquilo tudo era completamente independente de mim e de toda a minha força de vontade, não importa o quão grande ela pudesse vir a ser.
Deitado na minha cama comecei a refletir sobre o porquê de tudo aquilo, da minha dedicação, da minha vontade verdadeira de que se aproximasse de nós...

E foi aí que eu percebi.

Obviamente eu queria que tudo se acertasse entre meu pai e , mas, observando mais a fundo, este não era um sentimento tão altruísta quanto parecia inicialmente. Grande parte daquele sentimento crescia dentro de mim como um desejo quase insano de me aproximar. De que forma eu faria aquilo? não pararia de me afastar enquanto não aceitasse e considerasse minha família como nossa família. A aproximação dela com os outros na casa era crucial para que houvesse qualquer aproximação entre nós.
O único ponto que eu realmente não conseguia entender era o porquê daquela necessidade de conhecê-la. O sentimento se assemelhava a quando alguém novo chega em um lugar que você sempre frequentou. Se a pessoa for interessante ou, de alguma forma, te chamar atenção, você vai querer conquistar qualquer coisa dela. Seja uma conversa descontraída de vez em quando, a amizade, o carinho... Enfim, você quer algo. E eu queria mesmo, concluí. Não só para que nós pudéssemos construir qualquer uma dessas coisas como irmãos, mas para que eu entendesse a origem daquele interesse. O que é que ela tem, afinal? Eu queria a resposta e, ao mesmo tempo, a temia. Nada soava com clareza dentro da minha cabeça.
Eu sempre gostei de desvendar as pessoas, mas ela era minha irmã. Isso era, no mínimo, estranho. Mas não era como se eu tivesse controle sobre isso. Só estava tomando consciência daquela vontade súbita de me aproximar, mas ela começou a existir sem meu consentimento. Não era culpa minha, afinal.
Minha linha de raciocínio foi interrompida pelo barulho estridente do meu celular. Peguei o aparelho, que estava na mesa do meu computador e olhei para o visor, revirando os olhos ao ver o nome de Brooke ali. Ignorei a chamada.
Brooke era um caso antigo que se recusava firmemente a sair do meu pé. Ela foi importante no passado, quando causou uma briga entre mim e meu até então melhor amigo, . Depois da briga eu passei a usá-la para provocá-lo, e não nego que até hoje eu me aproveito dessa vantagem para atingi-lo. Mas, embora meu rancor por ele não tenha diminuído, muito menos o dele por mim, o motivo da briga não é realmente algo importante. O que pesava mesmo era o ódio que se ocasionou da briga. Um ódio quase palpável.
Brooke passou a ser uma distração depois de algum tempo. Perdeu a importância, para ser sincero. Agora era como uma segunda, terceira ou, até mesmo, última opção. A garota não parecia perceber a mudança na situação, e, se percebeu, se negou fortemente a entender e aceitar. Continuou me seguindo arduamente. Durante as férias que se passaram eu a ignorei totalmente, e durante aquela manhã na escola eu não a vi.
O telefone tocou mais algumas vezes antes de desligar. Eu poderia atender e aceitar me divertir um pouquinho com a Brooke, mas resolvi descansar. Aquela semana não tinha nem começado e minhas forças já quase não existiam. Imagina o que dois anos perto da minha irmã não seria capaz de fazer comigo?

As semanas seguiram com muitos momentos tensos e momentos em que a minha família conseguia colocar a tensão de lado para se ajudar mutuamente.
Na última sexta-feira do mês, ou seja, um mês após a grandiosa chegada da Samantha em minha casa, aconteceria uma festa de comemoração da volta às aulas na casa de Brooke, na qual toda a escola estaria. Eu, Liam, Brad e Coby - meus melhores amigos - decidimos que essa seria uma ótima hora para conhecermos as garotas do terceiro ano. Saí de casa às 10pm e fui para a casa de Liam. Coby e Brad nos encontrariam mais tarde na casa de Brooke. Liam estava terminando de se arrumar quando cheguei. Subi para o quarto dele e bati na porta com força, ouvindo Liam quase infartar do lado de dentro do quarto.
- Seu filho da puta! - ele disse quando eu entrei. Eu estava quase sem ar de tanto rir.
- Cala a boca e se arruma, Liam. - falei, me recuperando da minha crise de riso. Ele bufou - Você não gosta quando a gente fala, mas às vezes você parece mesmo uma garota.
- Vai se foder.
Liam voltou a se arrumar enquanto eu mexia no meu celular. Brooke já tinha me mandado pelo menos quinze mensagens desde o início da tarde. Respondi apenas a última.

Brooke (AT 22:15pm)
Hey, ! Você vem hoje né? Vamos ter um tempinho para brincar? Saudade de você (:
(AT 22:49pm)
Hey Broo! Vou tentar arranjar um tempinho, mas você sabe que vai ser difícil né? A festa é pra comemorar com as meninas do terceiro ano (: Qualquer coisa te aviso.

Bom, ninguém pode dizer que eu minto para a Brooke. Ela se ilude sozinha.

Chegamos à festa por volta de 23:30pm, e ela já estava lotada o suficiente para eu entender que a noite seria longa!
Encontrei Brad na cozinha pegando algumas cervejas enquanto Liam dava em cima de uma loira gostosa de corpo, mas que deixava a desejar em outros quesitos, se é que me entendem. Eu estava decidido a só pegar a garota mais gostosa daquela festa, então resolvi esperar antes de pegar qualquer uma.
- Hey Brad! - falei, batendo de leve na cabeça dele - Cadê o Coby?
- Hey, dude! Deve estar pegando alguém por aí… Ou chorando as traças porque levou um pé na bunda da Miranda.
- Ele ainda não superou? - perguntei, rindo um pouco. Miranda era a ex namorada de Coby, com quem ele passou quase 2 anos e tinha terminado com ele nas férias. Ela era bonita e tal, mas, na minha opinião, não valia o esforço.
- Pois é. - Brad respondeu, jogando uma cerveja para mim em seguida - Mas e o Liam?
- Pegando uma loira por aí. - respondi, abrindo a cerveja e indo em direção à enorme sala da casa de Brooke.
- , ta vendo aquelas duas morenas ali? Do lado da caixa de som? - Brad perguntou, apontando discretamente para duas garotas no canto da sala. - Elas são gêmeas e, com certeza, as garotas mais bonitas desse lugar!
Sorri para Liam, entendendo exatamente o que ele queria dizer com aquela informação. Ambos saímos em direção às garotas, que já nos olhavam e sorriam antes de chegarmos até elas. Quando finalmente chegamos, a gêmea que estava a direita, mais próxima de Liam, se pronunciou em um tom malicioso.
- Liam Carter e , quem diria. - ela riu levemente antes de continuar - A que devemos a honra?
Não era surpresa para mim o fato de sermos conhecidos, mas reforçar aquilo era sempre um prazer. Liam se aproximou da garota, respondendo em seu ouvido a pergunta e eu me dirigi a sua irmã, que já me olhava com as sobrancelhas arqueadas em expectativa.
- Posso saber seu nome? - perguntei, oferecendo minha cerveja para ela e aproximando nossos rostos. Ela sorriu.
- Megan - respondeu, colocando as mãos em meu pescoço e arranhando levemente. - Mas você pode me chamar de Meg.
Dude, aquela seria uma longa noite…

Uma hora depois de conhecer Megan e Amber, as gêmeas, eu e Brad estávamos largados no sofá com elas. Megan estava sentada no meu colo e beijava meu pescoço, enquanto Amber estava sentado ao meu lado, beijando o pescoço de Brad. Já havíamos bebido o suficiente para estarmos mais animados que o normal e a festa estava bombando cada vez mais - tinha muita gente ali. Megan começou a se mexer levemente em meu colo e eu já estava decidido a levá-la para o quarto mais próximo quando duas pessoas me chamaram a atenção. Meu corpo inteiro congelou enquanto eu via aquela cena. As pessoas ao redor pareciam estar tendo a mesma reação que eu: surpresa total.
entrava pela porta principal da casa de Brooke com um sorriso de orelha a orelha e obviamente caindo de bêbada. estava logo a frente, segurando-a pela mão e parecendo guiá-la para o andar de cima para fazer sabe Deus o que.

Bom, eu já sabia que seria uma longa noite. Só não sabia que teria que matar alguém.


Capítulo 5

’s P.O.V.

A primeira semana foi quase insuportável. Eu teria me matado se não fosse pela Hannah, de verdade.
Minha rotina seguiu sendo quase a mesma do final de semana, mas agora eu tinha a escola, e a Hannah para me distraírem. Além disso, Hannah havia conseguido a senha do wi-fi pra mim, o que tornou minha vida menos pior.
Conversei com durante toda a semana por skype, e, apesar de ela estar muito estranha e escondendo algo de mim - que eu iria descobrir - ela parecia bem. O que eu mais amava em conversar com a era que ela me fazia sentir em casa, mesmo estando longe. Newcastle, apesar de guardar consigo muitas memórias ruins, foi o meu lar durante toda a minha vida. fez parte de toda a minha vida também, desde que eu era um bebêzinho. Apesar de Londres ficar há pouco menos de 5 horas de viagem de Newcastle, era estranho estar distante. Era estranho não ter mais as lembranças por perto, mesmo que elas fossem ruins. me entendia nesse ponto, e disse que não achava que voltar para Newcastle era a melhor solução pra mim. Na quinta-feira a noite, enquanto conversávamos, ela deixou bem claro que achava que eu deveria ficar em Londres para me adaptar.
- , pelo amor de Deus - comecei a argumentar, pela milésima vez - Eu não quero me adaptar a Londres, eu quero ir embora desse lugar, dessa casa! Eu não vou criar vínculos. - Ah, não vai? - perguntou - E Hannah, é o que? Sem contar o tal do ! , querida, acorda. Você já criou vínculos.
- , você sabe o que são dois vínculos de um mês em comparação com vínculos de toda uma vida? Você, minha mãe… Eu não estou em casa! Não estou com a minha família.
- , sua família estará com você em todos os momentos, não importa a distância. Poxa, estamos aqui por você.
- Não tenho tanta certeza. - falei sem olhar para a tela, quase podendo sentir a cara de indignação da .
- Como assim, ? É claro que estamos, sua ingrata.
- Hey, , não surta! - falei, interrompendo minha melhor amiga neurótica - Você está aqui, mas minha mãe se distanciou totalmente.
- Como assim, ?
- Ela anda extremamente ocupada. Falei com ela umas três vezes na semana e ela demonstrou estar se sentindo culpada, mas ainda assim muito feliz. Fiquei chateada por ela não demonstrar sentir minha falta, de verdade. Eu estou sofrendo com a situação e ela não parece estar se importando tanto assim. Tentei não pensar nisso e procurei entender o lado dela, afinal eu realmente quero que ela seja feliz. Só… Bom, acho que estou sendo egoísta. Mas queria que ela entendesse, sabe?
- Você não está sendo egoísta, você está sofrendo. E sua mãe é a pessoa que mais deveria entender, afinal vocês duas estão no mesmo barco nessa. - disse calmamente. Adorava ter uma futura psicóloga como melhor amiga - Eu tenho certeza que dói tanto nela quanto em você, . Ela obviamente não quer demonstrar, não quer te ver ainda pior. Pensa: você demonstra se sentir tão mal para ela? Ou tenta não deixá-la preocupada?
- Bom, eu detesto preocupa-la…
- Viu! Ela deve pensar da mesma forma. Ela não quer te preocupar ou piorar a situação.
- Bom, tudo certo… Talvez seja isso.
ia começar a falar alguma coisa quando meu telefone tocou. O nome do piscava na tela. Mostrei o visor para a que bateu palminhas. Revirei os olhos e ri levemente antes de atender, colocando a ligação no viva voz.
- Hey , pode falar!
- Hey , tudo bem?
- Tudo sim, e você?
- Tudo certo! Eu queria te fazer um convite, mas sinta-se à vontade para recusá-lo… - começou, incerto. gesticulava loucamente do outro lado da tela, e eu me segurava para não rir. - Bom, vai rolar amanhã uma festa na casa da… Hm, uma garota da escola. É pra comemorar o primeiro mês de aula. Eu sei que nem tem tanto o que comemorar, mas queria saber se você não está afim de ir… Comigo.
Nesse momento já acenava freneticamente com a cabeça para mim, com toda certeza querendo que eu aceitasse a proposta de imediatamente. Não tinha muita certeza de que queria sair, mas também sabia que ficar em casa não adiantaria em nada. Além do mais, essa seria uma ótima oportunidade de mostrar a todos que eu fazia o que bem entendia e, bom, irritar uma pessoa em particular. Acenei positivamente com a cabeça para , respondendo em seguida.
- Claro , vamos sim. Só não sei se vou ser a melhor companhia.
- Tenho certeza de que vai ser! Amanhã eu busco você na sua casa no horário da festa, pode ser?
- Claro, pode ser! Nos vemos na escola de qualquer maneira, né?
- Sim, Ruivinha. Até amanhã, beijo.
Quando desligou me olhava com uma cara nada inocente. Com toda certeza ela estava achando que aquilo era mais do que parecia, quando na verdade não tinha nada para se imaginar. Olhei pra ela rindo um pouco e balançando a cabeça em negação.
- Não quer criar vínculos não é ? Parece que alguém não pensa como você.
- é um amor, , mas não tenho a mínima intenção de passar do limite da amizade com ele. Não me sinto pronta. - falei, encarando Holl com seriedade. Ela sabia do que eu estava falando, então me encarava com a mesma seriedade.
- , por favor, você tem que superar isso! Já se passaram seis meses desde que tudo aconteceu. Eu sei que não é fácil, mas está te atrapalhando.
- , por favor, vamos mudar de assunto…
- Tudo bem, não está aqui quem falou. - disse, levantando as mãos em sinal de rendimento. Depois de alguns segundos em silêncio, ela voltou a falar, me encarando curiosa - , deixa eu te perguntar uma coisa…
- Ih, la vem. Fala, .
- Qual o verdadeiro motivo para você ter aceitado com tanta facilidade o convite de seu amigo ? - começou, me fazendo sorrir. Ela me conhecia tão bem que me assustava!
- Bom, essa é uma oportunidade legal para me divertir, certo? - respondi, enquanto me encarava com a mesma cara de curiosidade e as sobrancelhas arqueadas - Ok, ok! Talvez, e só talvez, eu use essa oportunidade para mostrar quem está no controle. E, é claro, tirar do sério uma pessoa que vem me deixando bem irritada…
- Seu irmão. - afirmou. E, bom, eu não tinha como negar.

Passei a manhã de sexta-feira praticamente sozinha em todas as aulas, exceto a de educação física, na qual o estava comigo. Combinamos que ele me buscaria em casa às 10PM para comermos algo e depois irmos para a tal festa.
Durante a tarde, assisti alguns filmes com Hannah e a ajudei com o dever de casa. Expliquei que não poderíamos fazer a tão almejada noite do pijama naquele dia e que poderíamos fazer no sábado. Má ideia, . Má ideia.
- Tive uma ideia, ! - Hannah falou, e eu já podia sentir que não viria coisa boa por ali. - Amanhã, eu, mamãe, papai e o vamos no aniversário da minha vovó e vamos dormir la depois. Ela mora em uma casa linda! Você vai com a gente.
Não, eu não ia.
Mas como explicar isso para a criança mais adorável do mundo? Como dizer que eu odeio a família dela e jamais dormiria na casa da mãe da mulher que acabou com a minha família?
Calma, .
- Hm, eu não posso ir amanhã, pequena. - eu disse, sem saber exatamente como lidar com aquela situação.
- Por que não? - disse Hannah, parecendo desapontada - Você não quer passar mais tempo com a gente?
- Eu adoraria passar o final de semana com você, pequena, mas…
- Você não quer passar o tempo em outra cidade? - ela me interrompeu, parecendo muito abalada. Eu não sabia lidar com aquela situação, já estava ficando agoniada.
- Hannah, não é isso, me deixa… - interrompida novamente. E muito, muito agoniada.
- Você não quer conhecer minha vovó?
- Eu não suporto sua família, Hannah! - falei um pouco mais alto, assustando a pequena que se afastou imediatamente de mim, com lágrimas brotando rapidamente em seus olhinhos. Meu Deus, eu sou uma anta! - Hannah, me desculpa…
Ela saiu do quarto sem que eu pudesse me explicar devidamente. E eu fiquei ali, sem a mínima coragem de andar por aquela casa e me sentindo um lixo.
Parabéns, . O prêmio de ogra do ano vai pra você.

Fiquei o resto da tarde me sentindo um lixo. Hannah não voltou ao meu quarto.
Às 09PM comecei a me arrumar para ir à festa com , mesmo que toda a minha vontade de sair - e de viver - estivesse enterrada a sete palmos do chão. Coloquei uma roupa simples, para uma maquiagem mais simples ainda: uma blusa lisa, um short de cintura alta, botas de cano médio e um salto pequeno, rímel e gloss. chegou pontualmente às 10pm, quando eu estava terminando de arrumar minha bolsa. Pensei que ele fosse esperar no carro, mas, quando cheguei na sala, ele estava cumprimentando Brian e Angel com um abraço acalorado. Hannah não estava na sala.
- Hey, , quanto tempo amigão! - disse Brian, sorrindo para - Não é porque brigou com o que tem que sumir, nós te vimos crescer!
- Eu sei, Brian, mas sabe como é, né? - respondeu, parecendo confortável. Eles se gostavam. - E você, Angel, como está?
- Estou bem, garoto! - ela respondeu, abraçando-o como Brian fez pouco antes - Como você mudou, está ainda mais bonito. Mande lembrança aos seus pais.
- Claro, pode deixar!
Eu continuava na ponta da escada, tentando entender a cena que se desenrolava na minha frente.
- Mas, então, a que devemos a honra? - A quem, na verdade. - disse, olhando para mim. Angel e Brian olharam para mim, e Angel não parecia nada feliz em me ver na frente dela, com certeza por causa de Hannah. Eu quis morrer, mas ela tinha toda a razão daquela vez. - Vim buscar a para irmos à festa de comemoração de volta às aulas.
- Divirtam-se! - Angel disse para , sem voltar a dirigir seu olhar para mim e o abraçou, saindo da sala em seguida. Brian não parecia bravo, apenas surpreso. Por mais estranho que pareça, me senti aliviada por ele não me reprovar.
- Wow, isso é… Legal! Que bom que conseguiu fazê-la sair daquele quarto. - Brian parecia um pouco incomodado, mas suas palavras eram sinceras. - Bom, vão lá. , por favor, fique com meu número de telefone. Se acontecer qualquer coisa, é só me ligar!
- Tudo certo, Brian! - disse, sorrindo e pegando o cartão com o número de telefone de Brian. Passei pelos dois, me dirigindo à porta.
- Tchau, . - Brian disse. Não respondi.

Eu e conversamos brevemente no carro, decidindo que iríamos comer no Nando's. Chegamos ao restaurante e pedimos rapidamente o full platter, que seria perfeito para os dois comermos.
Estava um silêncio absoluto e desconfortável. Passamos, além do trajeto até o restaurante, mais uns 15 minutos sem falar nada até quebrar o silêncio.
- Hey, ruivinha, o que tem de errado? - ele perguntou, parecendo preocupado - Fiz alguma coisa que você não gostou?
- Não, eu só… Não sei. Foi estranho te ver conversando com o Brian, achei que você não gostasse deles também, mas parece adorá-los. E eu esse tempo todo falando tão mal deles pra você, fiquei sem graça.
- Eu realmente gosto muito deles, só odeio o . - respondeu - Mas eu entendo completamente seu sentimento, . Entendo tudo o que sente e não vou tentar mudar isso. Só você sabe o quão difícil é tudo isso para você e ninguém, nem mesmo eu, tem direito de questionar isso.
- Obrigada por entender. - falei, sorrindo em seguida
- Disponha! Estou aqui para isso. - redpondeu
Passamos mais alguns segundos nos encarando quando, subitamente, percebi que até aquele momento não sabia o motivo da briga de e . Franzi a testa, sem pensar por muito mais tempo, e joguei a pergunta sem rodeios.
- Qual foi o seu problema com o , afinal?
quase morreu engasgado com pedaço de frango que havia acabado de colocar na boca. Após alguns goles da água que havia ao seu lado e uns pigarros, ele voltou a falar, sem me encarar e com a voz exitante.
- Hm… Nós tivemos uma briga bem feia, por causa de uma...
- Garota? - completei, sorrindo
- É. - falou, baixinho, encarando a mesa envergonhado
- Tão clichê. - falei rindo um pouco. parecia muito sem graça. - Hey, , tudo bem. Se não se sentir à vontade para conversar sobre esse assunto, sem problemas!
- Não, imagina. Eu consigo falar disso numa boa. Só acho o motivo muito ridículo, mas não me afeta mais. - ele começou - Bom, eu conheço o e a família )))) desde a infância. Meus pais são muito amigos da família, meu pai é muito próximo do Brian. Isso significa que foi meu amigo desde que eu era um bebê, praticamente. Mas isso nunca o impediu de ser um filho da puta, claro.
- O que ele fez?
- Bom, tinha uma garota, Brooke, por quem eu era apaixonado desde a pré escola. Quando entramos no ensino fundamental, eu comecei a namorá-la. Nós tínhamos uns 12 anos e claro que não era nada sério a princípio, mas foi se intensificando. Ficamos juntos até o início do oitavo ano, quando tínhamos entre 14 e 15 anos. Ela terminou comigo dizendo que me amava mas que queria outras coisas e essas baboseiras de sempre. Duas semanas depois, encontrei , meu melhor amigo, transando com ela no meu quarto.
- Wow.... - eu disse, sem saber como reagir àquilo. parecia realmente não se importar mais com a história e me encarava impassível.
- Aquele não era um dia qualquer. Eu tinha planejado tudo para que eu e Brooke voltássemos naquele dia e, bom, tinha planejado que a nossa primeira vez acontecesse. Fiz tudo para dar certo, coloquei flores, velas, tinha até feito uma música para ela. - fez uma pausa, parecendo um pouco indignado - O pior de tudo era que , meu melhor amigo, sabia de tudo isso. Ele me ajudou em cada detalhe e no final me apunhalou sem nenhum motivo.
- O que aconteceu depois? Por que ele também te odeia?
- Bom, eu não podia deixar barato. Era a minha honra ali, minha namorada, meu quarto e minha primeira vez! - agora ele parecia na defensiva. Arqueei as sobrancelhas e ele riu fraco, continuando - Eu armei para que fosse acusado de roubo e obriguei Brooke a me ajudar nessa.
- Meu Deus, ! - falei, tampando a boca em seguida. Que loucura!
- Ah, nem foi tão sério. Brooke não me ajudou tão bem assim. Eu disse que se ela não me ajudasse eu contaria tudo sobre ela e para os pais dela. Ela, então, me ajudou contrariada. Fez uma acusação anônima da cidade natal da família dela, o que impedia que me descobrissem - ria um pouco - Claro, envolveu a polícia, o ficou pelo menos uns seis meses sem poder fazer nada. É, valeu a pena!
- Os pais dele não te odeiam por isso? - perguntei
- Eles não acreditaram quando disse que eu armei. Ninguém acreditou. Depois o assunto morreu.
- É, esse foi um bom motivo para brigar, confesso. - falei - Mais um item para a lista "Motivo para odiar os ))))s".
- Fico feliz que não me ache patético.
- Patético é ele, . Eu teria feito o mesmo se fosse você.

Terminamos de comer e o clima estava muito melhor. Saímos do Nando's por volta de 11:30PM e chegamos em frente a casa onde estava acontecendo a festa por volta de 00:00PM.
A festa estava lotada quando chegamos. Eu não conhecia uma alma viva ali, mas me senti bem. Eu amava ir à festas em Newcastle, embora nos meus últimos meses lá eu mal tenha saído de casa. Era bom me sentir livre de todo o meu passado, embora não estivesse exatamente no lugar onde eu queria e muito menos com as pessoas que eu queria. com toda certeza estava conseguindo compensar isso, também.
foi buscar algumas bebidas para a gente enquanto eu esperava por ele perto de uma árvore e voltou pouco tempo depois com alguns garotos que deveriam ser seus amigos.
- Hey, - disse - Esses são Liam e Coby.
- Oi, . - um dos garotos, Liam, disse - Finalmente te conhecendo! Se fosse depender do seu irmão jamais chegaríamos perto de você.
Espera aí, o que ele disse? Se fosse depender do ?
- Wow, espera aí. - falou, aparentemente entendendo minha cara de confusão - , Coby e Liam são melhores amigos do seu… Hm, do . E meus também.
Ok. O que?
- Ah, ela sabe da briguinha dos dois - foi Coby quem falou dessa vez - Oi, . Posso te chamar de ?
- Sem problemas. - respondi, encarando os três como se fossem alienígenas - Podem me explicar como é que isso é possível? odeia o , mas os melhores amigos do são os melhores amigos do . Isso não faz sentido.
- Ah, qual é, não temos nada a ver com essa briga e muito menos a obrigação de tomar parte de alguém. - Liam falou, parecendo meio bêbado. Ri do jeito que ele embolava as palavras - Quando eles brigaram nós éramos inseparáveis, andávamos sempre nós cinco: eu, Liam, Brad, e .
- Aí eles decidiram brigar por causa da Brooke. - Coby completou - Nós não temos nada a ver com isso, !
- Claro, tudo certo. Concordo com vocês. - respondi achando aquela situação muito cômica
- Mas chega de conversa! Vamos mostrar pra o que é uma festa da cidade grande! - disse, levantando sua cerveja para o alto em seguida
- Estou totalmente a favor da ideia!- respondi, me sentindo viva pela primeira vez em meses.

Foi extremamente divertido!
Liam, Coby e não paravam um segundo de contar histórias de anos de amizade. Eu ria tanto que já estava começando a sentir dor de barriga.
Liam decidiu em algum momento que era hora de interagir com mais pessoas, se levantou e começou a simplesmente berrar para os quatro cantos:
- Verdade ou desafio do álcool! Vem todo mundo!
E, impressionantemente, muita gente veio mesmo. Começamos a jogar o tal "verdade e desafio do álcool", cujo único objetivo era deixar todo mundo absolutamente bêbado. Cada vez que a garrafa de cerveja no meio do círculo que formamos rodava, a pessoa para quem o bico da garrafa apontava escolhia uma bebida para a pessoa para qual a base da garrafa estava apontada virasse uma bebida - vodka, whisky ou tequila. Após beber, a pessoa devia escolher entre verdade ou desafio. Todas as vezes que me perguntavam, eu escolhia desafio, visto que ninguém me conhecia e com certeza não queriam saber verdades sobre mim. Tive que dançar até o chão, dar um selinho em uma garota e jogar cerveja em uma pessoa completamente desconhecida que, de tão bêbada, comemorou quando sentiu a cerveja cair nela.
Quando eu estava completamente sem condições de continuar a brincadeira, praticamente me carregou para dentro da casa, para eu lavar o rosto e irmos embora. Ele havia bebido, mas muito pouco, já que teria que dirigir depois.
Andei meio cambaleante e com a ajuda de pela varanda da casa e entrei pela grande porta que dava acesso à sala. A casa estava ainda mais lotada que o quintal, tinha gente em todos os cantos.
Parei em frente a escada que dava acesso ao segundo andar enquanto abria caminho para passarmos. Quando virei a cabeça um pouco para o lado, eu o vi.
estava com uma garota semi-nua em seu colo, e me encarava profundamente. Eu podia jurar que naquele momento ele queria mais do que nunca me matar. Sorri para ele irônica e mandei um beijo no ar, enquanto voltava a andar, me arrastando com ele.
E então, tudo aconteceu muito rápido.
Em um momento eu estava andando lentamente com a mão quentinha do na minha. No segundo seguinte eu estava jogada no chão, com uma doida em cima de mim segurando com muita força no meu cabelo.
Eu não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo e muito menos de como reagir. Segurei com força os braços da doida, cravando minhas unhas neles e fazendo força para me levantar. Inutilmente, é claro.
As pessoas ao meu redor faziam cada vez mais barulho. Muitos gritavam "briga". Minha cabeça começou a girar e, por um momento, eu pensei que fosse desmaiar. Quando meus olhos estavam quase fechando e eu já não ouvia quase nenhum barulho, senti dois braços fortes me levantarem do chão e me pegarem no colo. Não resisti, apenas me encolhi, deduzindo que aqueles eram os braços de . Aninhei a cabeça em seu peito enquanto ele andava e se afastava cada vez mais do barulho, me colocando em uma superfície macia depois de um tempo.
Alguns minutos depois, eu estava um pouco mais consciente. Quer dizer, eu estava muito bêbada, mas não sentia mais tontura ou aquela sensação de desmaio. Abri os olhos e olhei para o lado, pronta para agradecer por ter me salvado daquela doida desconhecida. Porém, para minha surpresa, os olhos que me encaravam em uma expressão preocupada eram azuis e extremamente parecidos com os meus.
.
Ele estava perto demais quando eu abri meus olhos, tanto que eu podia ver até as mínimas sardas em seu rosto. Sua respiração batia em meu rosto enquanto a boca dele se movia . Ele estava falando comigo, mas eu não conseguia realmente entender. Apenas sorri para ele e encostei minha testa na sua, sentindo meus olhos pesarem.
- , não dorme, por favor! - a voz de soou longe, porém eu já podia entender - A maldita da Brooke bateu a sua cabeça no chão, preciso que fique acordada! Olha pra mim.
Fiz o que ele pediu, lutando para me manter acordada. Ele começou a se afastar lentamente e, por algum motivo, a minha eu bêbada queria muito pedir que ele continuasse perto. A sóbria, porém, só queria sair dali o quanto antes. No meio desse dilema, resolvi quebrar o silêncio. Mais uma má ideia, !
- Seus olhos - eu disse, minha voz soou baixa e enrolada, mas ouviu, já que passou a me encarar curiosamente - São exatamente iguais aos meus.
me encarou espantado, antes de rir levemente e se ajeitar no banco do motorista.
- Somos irmãos, baby. - ele disse, sorrindo para mim e ainda um pouco tombado para frente. Sorri de volta, sentindo meus olhos se fechando de novo.
- Você sabe que não somos irmãos, apesar de sermos, não é? - perguntei
- Sim, eu sei.
Foi a última coisa que eu ouvi antes de apagar.


Capítulo 6

’s P.O.V.

dormia profundamente no banco de carona do meu carro, com a cabeça apoiada no vidro. Eu tentei mantê-la acordada, mas foi completamente em vão. Após a estranha e inédita interação amigável que tivemos, ela simplesmente apagou.
Eu não sabia exatamente como estava me sentindo naquele momento e tentava a todo custo não pensar nisso, uma vez que precisava me concentrar em não bater o carro e terminar a noite com chave de ouro. É, eu não estava tão sóbrio assim.
De qualquer forma, apesar de estar irritado, eu estava feliz. Pouco antes de sair carregando da festa, fiz questão de dar um soco com toda a vontade reprimida há anos na cara de . Ele não chegou a revidar porque segundos depois eu já estava com ela em meu colo, saindo dali às pressas.
resmungou alguma coisa indecifrável durante todo o caminho até o carro, mas não imaginei que ela fosse acordar, me reconhecer e agir quase carinhosamente comigo. Aquilo ainda era novidade e eu estava abismado. E um tanto quanto encantado também, embora eu odeie admitir.
Chegamos em casa e ainda não havia dado sinal de vida, de forma que eu tive que voltar a carregá-la para dentro. Como eu já disse, eu não estava tão sóbrio assim, então subir as escadas para levá-la até o quarto foi um desafio até maior do que eu planejei.
Quando chegamos ao quarto dela, eu sabia que não poderia deixá-la simplesmente lá, desacordada e sem saber se ela de fato estava bem. precisava de um banho gelado e alguns remédios que fariam com que ela não tivesse uma dor de cabeça tão forte no dia seguinte. Ela não acordaria tão cedo sem antes tomar um banho gelado, eu sabia disso. Mas não é como se eu simplesmente pudesse tirar a roupa dela pra dar um banho. Ela era a minha irmã. O quão estranho isso seria, pelo amor de Deus? Desci para a cozinha para tomar um copo d'água e pegar alguns remédios que precisaria - se, e somente se, eu conseguisse acordá-la. Quase morri de susto ao encontrar minha mãe na cozinha.
- ! Você quase me matou do coração, garoto. - minha mãe falou, com a mão no peito. Seria engraçado se eu não tivesse me assustado tanto quanto ela.
- O que você está fazendo aqui? - perguntei
- Vim tomar um copo d'água, não sabia que você estava em casa. Você e foram na mesma festa, certo?
E foi aí que eu tive minha ideia genial! Eu pediria para minha mãe dar o banho em e me ajudar a esconder do meu pai o que havia acontecido na festa. Ela com certeza entenderia!
- Então, mãe, sobre
- Nem me fale nada sobre a , . - minha mãe falou, parecendo irritada - Hannah está arrasada por causa dela, você acredita? Eu pensei que ela não chatearia pelo menos a Hannah, mas me enganei.
- O que ela fez? - falei, surpreso. Hannah e vinham se dando muito bem.
- Ela foi rude, eu acho. - minha mãe disse - Eu entendo o que ela está passando, sei que muito provavelmente ela não fez por mal. Mas você deveria ver como a Hannah ficou, não posso ignorar isso, sou mãe acima de psicóloga. Prefiro evitar ter algum contato com ela agora, não quero estragar ainda mais as coisas.
Bom, sem chance de pedir ajuda para a minha mãe. Até eu tinha perdido grande parte da vontade de ajudar depois de saber que ela havia magoado Hannah.
Minha mãe saiu da cozinha, murmurando um "boa noite" e subindo para o quarto. Peguei uma garrafa de água gelada e alguns remédios para dor de cabeça que ficavam em cima da geladeira, subindo para o quarto de em seguida.
ainda não havia dado um único sinal de vida quando cheguei até o quarto dela, e eu decidi que ela teria que esperar até de manhã para tomar um banho e se virar com a ressaca. Os remédios e a água já estavam la e ela estava segura. Minha parte eu fiz.
Fui para o meu quarto esperando ter uma longa e silenciosa noite de sono, fechei as cortinas para impedir que a luz do dia que já estava por chegar me cegasse e, finalmente, deitei.

Acordei com a minha mãe me chacoalhando insistentemente e sem nenhuma delicadeza.
- ! Pelo amor de Deus, você está dormindo, hibernando ou morrendo? - ela falou, em um volume alto demais para o bem da minha dor de cabeça - Vamos, temos que ir até a casa de sua avó, hoje é aniversário dela. A festa começa às 2PM, temos que sair daqui no máximo 11PM.
- Mãe, que horas são? - falei, sem ter a mínima coragem de abrir os olhos.
- São 10 da manhã. Já passou da hora de acordar. - ela falou, se dirigindo para a porta em seguida - Se eu voltar aqui e você não estiver acordado, vou colocar os seus pedacinhos no porta malas.
Delicada como uma flor.

Levantei uns dez minutos depois da minha mãe sair do quarto e fui tomar um banho gelado para despertar e tentar levar aquela dor de cabeça para longe. Eu tinha bebido pouco na noite passada, então a dor de cabeça tinha muito mais a ver com a falta de sono do que com o álcool.
Apesar de querer dormir por pelo menos mais 6 horas, estava feliz por estar indo visitar minha avó. Minha avó era a melhor pessoa do mundo, em seus 70 anos continuava a mesma pessoa que conheci desde que eu nasci. Na minha infância, antes do meu pai casar-se com a minha mãe e se mudar para Londres, eu morei na casa dela junto com a minha mãe. Morávamos em Painswick, uma cidadezinha no interior da Inglaterra que fica cerca de 3 horas de distância de Londres. Quando fomos embora, dez anos antes, vovó continuou na casa em que morou com vovô e criou minha mãe e suas duas irmãs. Uma das irmãs de minha mãe se afastou completamente da família por algum motivo desconhecido, a outra, porém, era extremamente próxima e presente em nossas vidas e na vida de minha avó. Minha mãe insistiu para que a vovó fosse embora conosco para Londres, assim como minha tia quis levá-la para morar com ela, mas ela se negou a deixar a tão adorada casinha em Painswick. Meu avô morreu quando eu tinha apenas 3 anos, portanto ela ficou absolutamente sozinha. Vamos visitá-la com certa frequência, mas ainda me sinto culpado por não poder estar presente.
Quando eu saí do quarto, já estavam todos na sala. Hannah parecia especialmente animada para quem tinha tido uma briga com a irmã favorita. Minha mãe parecia bem, não estava irritada como na noite anterior. Meu pai parecia estar mais feliz do que nunca, com um sorriso de orelha a orelha. Aquilo só podia ter a ver com…
- ! - Hannah disse, olhando para trás de mim. Imaginei que estaria destruída pela noite anterior, mas nem me dei o trabalho de olhar para trás. Não sei o quão constrangedor aquilo acabaria sendo. - Você vai mesmo! Vai ser tão, tão, tão legal! A vovó vai te adorar.
- Com certeza! - minha mãe falou, parecendo genuinamente feliz. Hannah parecia ter herdado dela a incapacidade de guardar rancor. - Hannah, porque não vai com seu pai até o carro para organizar os últimos detalhes?
- Claro, mamãe! Encontro vocês la.
Assim que Hannah saiu, minha mãe foi ao encontro de , e só então eu me virei para olhar para ela. E, não, ela não estava nem perto de estar destruída. estava vestindo uma camiseta que parecia um vestido de tão longa, meias pretas que cobriam toda a perna, uma bota preta e óculos presos no alto de sua cabeça. O cabelo estava molhado, completamente simples e sem maquiagem. E ela, ainda assim, era uma das pessoas mais bonitas que eu já tinha visto na vida.
- - mamãe começou a falar, assim que meu pai e Hannah saíram da sala - Muito obrigada por rever a situação toda. É muito importante para Hannah.
- Eu sei. - falou, seca - Em nenhum momento tive a intenção de machucá-la, ela é a única aqui que não merece. Estou indo porque sei que cometi um erro com ela, mas é bem importante vocês saberem que isso não é uma viagem em família pra mim. Vocês não são minha família.
E depois de soltar isso, ela simplesmente colocou o óculos no rosto e saiu da sala, deixando minha mãe sem reação.
Que garota insuportável, meu Deus!
- Fico muito, muito feliz por seu pai não estar aqui para ouvir isso. - mamãe disse, parecendo cansada - Ele está muito feliz por ela ter decidido ir. Ela é extremamente sincera, por mais rude que esteja sendo.
- Como assim? - perguntei
- Ela não nos vê como família, ela detesta cada um de nós, isso não é birra. É real. O que torna tudo muito mais complicado.
- Você acha que ela fala essas coisas para machucar?
- Sim, mas não por prazer em machucar. - mamãe disse, e eu fiquei confuso. Ao perceber minha cara, minha mãe completou - Ela quer nos machucar, não porque gosta disso, mas porque quer ir embora. É inconsciente, mas ela quer nos machucar para percebermos que ela está machucada e deixarmos que ela vá.
- Mãe, se sabemos que ela está machucada de verdade, por que não deixamos que ela vá?
- É… Complicado, . Temos que ir agora, outra hora eu explico.
Saímos da sala juntos, encontrando todos já dentro do carro. Minha mãe entrou no banco do passageiro na frente, estava sentada no banco de trás, na janela e Hannah estava no meio, o que me fez ficar do outro lado da janela na parte de trás no carro.
Menos de meia hora depois que entramos no carro, Hannah já estava dormindo. permaneceu impassível, de óculos escuros e com o rosto virado para a janela. Quando estávamos chegando na cidade, meu pai resolveu abastecer o carro e minha mãe aproveitou para ir ao banheiro, deixando eu, Hannah e no carro. Estava um silêncio insuportável no carro, até que, por uma intervenção divina, resolveu quebrá-lo.
- Não me lembro da noite de ontem com tanta clareza - ela começou incerta, falando baixo - Mas sei que você me ajudou. Então obrigada.
- Hm… - comecei, sem saber exatamente como reagir. Eu não estava preparado para falar com ela, e muito menos esperava que ela fosse falar comigo. Me esforcei para parecer normal ao responder - Não fiz nada demais. Tudo certo.
- De qualquer maneira, você não tinha a obrigação de me ajudar.
-Bom, além de eu ter sim a obrigação de ajudar, você é minha irmã - falei, fazendo revirar os olhos - A briga foi um pouco minha culpa.
- Como assim?
- Hm, digamos que a pessoa que te atacou tem uma certa… Quedinha por mim.
- Deixe-me adivinhar, Booke? - perguntou, rindo fraco. Apenas balancei a cabeça, ela já deveria saber um pouco da história. não perderia essa oportunidade por nada. - Não acredito que perdi a oportunidade de guardar o rosto dela, deve ter sido hilário.
- Ela deve estar planejando maneiras de fazer da sua vida inferno, se eu fosse você me prepararia. Brooke pode ser uma vadia quando ela quer. E, acredite, ela sempre quer.
- Aquela cena toda foi porque eu estava olhando para você ou porque eu estava com ?
- Não sei, talvez um pouco dos dois. Brooke ainda acha que tem algum controle nessa situação insana. Ela vê como ameaça qualquer pessoa que se aproxima de um de nós dois, por mais ridículo que isso seja. Chega ser engraçado, eu confesso.
- Você não tem nenhuma ideia do porquê?
- É, eu acho que toda a polêmica da nossa briga acabou dando para ela algum tipo de popularidade doentia. Brooke não se importa se isso é positivo ou não.
- Bom, as pessoas te conhecem como um galinha que traiu o próprio melhor amigo e isso não te afeta. Você deveria entender um pouco melhor a Brooke. Vocês têm bastante em comum, na verdade.
Ah, não. Ela ia voltar a ser a mesma nojenta de antes.
- Você sofre de algum problema mental, garota? - perguntei - Até dois segundos atrás você estava conversando como uma pessoa normal e agora resolve voltar a me atacar. Do nada.
- Eu não estou te atacando, . - falou - Não tenho culpa se a verdade dói.
- Que verdade? A sua? - falei, sentindo meu corpo ferver de raiva - Você só se preocupa em saber um lado da história: o que te interessa. Aquele que te dá um motivo para alimentar sua raivinha de adolescente mimada. Faça-me o favor, garota. Quem você pensa que é pra chegar na minha vida, na minha família, e achar que todas as suas verdades são absolutas? Eu não to nem aí pro que você acha. Cresce!
chegou a abrir a boca para responder, mas Hannah se mexeu em seu colo, fazendo com que ela se calasse. Minha respiração acelerada pela raiva foi o único som no carro durante os próximos minutos, o que acabou não sendo tão ruim.
Eu e nunca seríamos próximos, aquilo era impossível. Me senti um pouco mais aliviado por chegar a essa conclusão, afinal ela tirava um peso das minhas costas. Aquele que eu mesmo coloquei la, confesso, mas que vinha me tirando do trilho. Eu não tinha porque tentar aproximar de mim e nem de ninguém. Ela não queria se aproximar, estava claro. E, apesar de eu saber que era melhor nem tentar mais, isso me desapontou bastante. Apesar de todo aquele drama, eu queria me aproximar. Mesmo sem entender o porquê.
Quando meu pai e minha mãe voltaram para o carro, o clima já estava mais ameno. tinha voltado a olhar para o nada pela janela e eu estava ouvindo uma música qualquer no celular. Permanecemos assim até chegarmos na casa de minha avó.
Quando chegamos, a casa ainda estava vazia. Eu adorava a casa de minha avó, toda iluminada e branca, com aquele toque de infância. Ouvi algumas vozes ao entrar na sala de estar, encontrando minha avó e minha tia conversando animadamente.
- , querido! - minha avó disse ao me ver. Sorri para ela e segui até o sofá, sentando ao seu lado e a abraçando - Que saudade. Como você está grande, meu filho.
- Saudade também, vó! Teremos tempo para matar toda a saudade neste final de semana. - falei - A propósito, feliz aniversário! A senhora está cada dia mais linda.
- Oh, meu querido, são seus olhos! - ela disse, me abraçando forte de lado.
- Oi tia Lizzie - falei, olhando para minha tia pela primeira vez. Ela era muito parecida com minha mãe. Ambas puxaram minha avó, que foi extremamente ruiva antes de ter seus cabelos esbranquiçados pela idade - Como você está? Que saudade.
- Estou bem, . Você está cada vez mais bonito! Onde estão seus pais? E suas irmãs?
- Meu pai e minha mãe levaram Hannah para o andar de cima. Ela está dormindo, mas deve acordar logo - respondi
- Hm, e… , onde está?
Ah, sim. Entendi a pergunta.
- Não sei. Talvez esteja cortando os pulsos por aí… - falei brincando. Minha tia e minha avó me olharam assustadas - Hey, calma gente, é só brincadeira. Ela ficou la fora.
- Está muito difícil lidar com ela? - minha tia perguntou, parecendo preocupada.
- É, ela não está nem um pouco a fim de fazer parte da família. A única pessoa com quem ela tem um contato dentro de casa é a Hannah.
- Ela aparenta ser muito parecida com a mãe. - minha avó disse.
- Como assim? - perguntei, me assustando com o comentário - Você conhece a mãe da ?
- Não. - vovó respondeum rapidamente - Sua mãe já nos falou muito sobre o relacionamento conturbado entre a mãe de e seu pai, . Pelo que entendemos, a mãe de não é nada fácil.
- E ela muito menos, tia. Acredite. - falei, respirando fundo e me afundando no sofá
- Como ela aceitou vir com vocês? - tia Lizzie perguntou
- Hannah a convenceu. Elas tiveram algum desentendimento e, para se desculpar com Hannah, aceitou vir conosco.
- Fico feliz que ao menos Hannah faça com que ela fique ligada a nós de alguma forma.
- Não se anime tanto. Ela nos odeia. Deixou bem claro isso aos quatro cantos! Estar aqui nem é uma coisa boa de verdade, acho que isso só faz ela se sentir ainda mais irritada.
- Oh, coitadinha, ! Ela deve estar se sentindo tão deslocada… - minha tia disse, enquanto minha vó acenava e olhava de um jeito triste para nós.
Preferi não responder. Todas as mulheres daquela família eram exatamente iguais a minha mãe. Ninguém entenderia que na verdade a era uma garotinha mimada que se negava a crescer. Para todas elas, ela sempre seria uma vítima. Para mim, as vítimas éramos nós, por termos que aguentar uma pessoa tão insuportável.
Algumas horas se passaram desde que chegamos na casa de minha avó. Logo toda a minha família materna chegou ao local e alguns familiares de meu pai também chegaram. Meus avós paternos iriam nos visitar em Londres no final de semana seguinte, portanto eles não foram à festa.
se manteve afastada durante todo o tempo. Nem mesmo Hannah esteve com ela durante a tarde, já que esteve ocupada brincando com as inúmeras crianças da família. Meu pai parecia extremamente magoado com toda a situação e minha mãe mais ainda. A resistência de era tão forte que nem mesmo minha avó teve coragem de se aproximar dela. Procurei não pensar na situação e muito menos interferir, mas confesso que minha vontade era de chacoalhar a garota para ver se aquela birra infantil passava.
Meu pensamento só se viu livre do problema quando eu ouvi uma voz que sempre me tirava do trilho: Jane. Minha prima, filha da minha tia Lizzie. Minha melhor amiga e amor de infância.
Esperei que ela viesse até mim, com seu costumeiro sorriso malicioso e olhar brincalhão. A criança que eu conhecia desde que nasci, e a adulta que eu adorava visitar desde que comecei a crescer. Jane era um ano mais velha que eu. Seu cabelo preto e curto batia no começo do pescoço, seus olhos eram verdes e seus dois dentes da frente eram levemente tortos, o que dava a ela um eterno tom infantil. Ela era muito mais baixa que eu e tinha o corpo magro… O corpo que eu conhecia melhor que o meu. Conhecia sua tatuagem de cruz no pescoço, que estava a vista, e também aquela no interior da coxa. Dois pássaros que voavam perigosamente perto de sua virilha.
Jane.
Sorri para ela e a abracei assim que ela chegou até mim, mordendo de leve seu pescoço. Ela riu um pouco por conta das cócegas que eu sabia que ela sentia ali e me olhou enfezada, me fazendo sorrir.
- Hey pirralho, que saudade de você! Achei que tinha esquecido da família - ela disse sorrindo sacana.
- Falou a idosa, né? - falei, abraçando-a novamente em seguida - Como esquecer dessa família maravilhosa, Jane? Em especial, como esquecer de você?
- Soube que tem uma garota nova na área, achei que ela tivesse tirado meu lugar.
- Ela é minha irmã, Jane, pelo amor de Deus! - forcei uma cara de nojo e me senti estranho por precisar fingir. Aquilo era nojento, não era?
- Ah, não sei, você tem uma certa queda por familiares. - Jane respondeu parecendo não perceber minha breve confusão. Forcei uma risada novamente, me sentindo extremamente desconfortável - Qual foi, ? É só brincadeira, eu sei que você não quer pegar sua irmã.
Alguém cala a boca da Jane, por favor!
-Tem outra pessoa que eu quero pegar… - falei, tentando fugir do assunto - E, bom, ela é meio que da família.
- É mesmo? - disse Jane, sorrindo e se aproximando perigosamente - Vamos ver se você merece, priminho.
Ela me deu um beijo na bochecha e se afastou em seguida, sorrindo para mim. Balancei a cabeça em negação, rindo de leve. Eu adorava aquela garota.

O resto do sábado foi ótimo. Eu amava estar com a minha família, e todos que eram importantes pra mim estavam ali. Durante toda a tarde nós relembramos as histórias de minha infância, ouvimos histórias de minha avó e falamos sobre meu avô. Com todos os altos e baixos, sempre tínhamos uns aos outros, sempre tínhamos aquele lar. Aquilo me fazia sentir a pessoa mais sortuda do mundo.
Jane e eu combinamos de “assistir filmes” de noite no quarto que ainda era meu. dormiria no quarto que antes era de Jane, então todos concordaram que ela deveria dormir comigo. Era tudo tão normal e inocente para eles que às vezes eu me sentia mal pelo que fazíamos quando estávamos sozinhos… Só às vezes mesmo. Quando todos já tinham ido dormir, eu e Jane fomos até a cozinha pegar algo para comer enquanto assistimos alguma coisa. Já havíamos conversado sobre todas as novidades, falado sobre o passado e, em resumo, matado a saudade. Eu gostava demais de Jane e da sua companhia sempre leve, mas havia algo estranho no nosso encontro, que em todas as vezes anteriores foi tão fantástico. Eu sabia que parte daquela mudança veio de mim, mesmo sem saber explicar o porquê, mas ainda assim Jane também estava diferente. Parecendo ler minha mente, Jane tocou no assunto, soando desconfortável.
- , - ela começou - tem alguma coisa errada? Você está… Diferente.
- Só estou um pouco cansado. Os últimos dias têm sido difíceis.
- está te deixando louco? - perguntou Jane, em um tom sugestivo. Apenas a encarei com um olhar de confusão, embora soubesse que ela com toda certeza já havia percebido a situação conflituosa que eu e minha irmã estávamos passando. Sempre tivemos essa ligação meio maluca. - Não quer me dizer o que há de errado? Percebi a forma como você a olhou o dia todo e também a forma como ela te evitou o dia todo.
- Ela é muito difícil, Jane. Já chegou arrumando confusão, brigando com meus pais e fazendo uma pirraça digna de uma criança de três anos. Ela se nega a entender que o mundo não gira ao redor dela. - falei, bufando em seguida e me sentindo aliviado por finalmente poder falar o que eu pensei durante toda aquela semana. - Além de tudo que ela vem fazendo em casa pra infernizar minha família, você acredita que ela resolveu virar amiguinha do ? Logo ele, Jane, me diz se não é pra irritar.
- Não acredito. O mesmo com quem você brigou anos atrás? - perguntou Jane, rindo levemente. Acenei com a cabeça.
Ontem ela se superou com essa palhaçada - continuei - Foi a uma festa com o , encheu a cara com ele e com uma galera que ela mal conhecia e ainda se meteu numa briga. Eu, imbecil, ajudei ela e a levei pra casa. E sabe como ela me agradeceu hoje? Me ofendendo, é claro.
- Calma , fica tranquilo. - Jane disse, se aproximando de mim - Logo ela vai superar esse ódio.
- Eu espero que ela não supere e que consiga o que quer: ir embora. Ela está convicta de que não precisa da minha família, mas, com toda a certeza, minha família não precisa dela.
Jane sorriu e já estava pronta para falar algo quando ouvimos um barulho vindo da sala.
- É melhor subirmos. Estou com saudade de você. - disse ela, por fim, antes de subir rapidamente para o quarto, sorrindo e me instigando a segui-la. Apenas balancei a cabeça e subi atrás dela, tendo a maravilhosa sensação de que eu realmente estava em casa.


Continua...



Nota da autora: (12/10/2017) Finalmenteee consegui editar esses capítulos para enviar! Ufa! E aí, o que estão achando? Tô ansiosa pra contar pra vocês o que vem em seguida hehehe mil bombassss, prometo!
Por favor gentem, não deixem de comentar o que estão achando. Às meninas que comentaram até agora, meu super obrigada! Sério, é muito bom e motiva demais. Esse aqui é um pedacinho de mim exposto em palavras e eu amo compartilhar com vocês.
Participem do meu grupo no facebook. Ta muito parado por la, mas logo logo eu volto a animar. Vocês também tem 100% de liberdade para conversarem comigo la <3 O grupo é esse aqui.
Um beijão e até a próxima!








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