Última atualização: 26/07/2018

Capítulo 1

’s P.O.V.

Naquele dia, o despertador tocou em vão. Não me permiti fechar os olhos em nenhum minuto durante a noite. Olhei ao redor e vi as malas prontas para a minha mudança. Eu realmente queria que aquilo fosse um pesadelo.
Me levantei para escovar os dentes e pentear o cabelo, como de costume, mas voltei a me deitar em seguida, decidida a ignorar o fato de que o dia já havia nascido e eu teria que ir embora em poucas horas. Fingir que não aconteceria foi o que me fez sentir mais firme naquele mês, e, com a proximidade do acontecimento, estava cada vez mais difícil ignorar. Mas eu continuei ignorando firmemente.
Não demorou muito para que minha mãe fosse até o quarto me chamar cautelosamente para a realidade. Ela sabia o quão sensível aquilo era para mim, e eu sabia que também era muito sensível para ela. Lidamos com aquilo de uma maneira extremamente sintonizada: fingindo que o tempo pararia e que nenhuma de nós teria que enfrentar nada.
? — minha mãe chamou — Querida, vamos, você tem que se levantar. Seu pai estará aqui em menos de uma hora.
— É, eu sei. — resmunguei, ainda de olhos fechados — Queria tanto que ele simplesmente mudasse de ideia e nos deixasse em paz.
— Eu sei que queria. Ele sabe também. — ela resmungou. Abri os olhos e a encarei, sentindo um pouco mais de firmeza — Ele sabe que você quer ficar comigo, mas o egoísmo dele é maior do que qualquer coisa, meu amor. Ele não vai mudar de ideia.
— Por que será que ele faz tanta questão de se meter na nossa vida depois de todos esses anos? — falei, expressando minha indignação pela primeira vez em semanas. Não dava mais pra ignorar: eu estava com raiva. Muita raiva. — Não quero ir morar com ele. Não quero ter que fingir que ele é meu pai. Ele não é meu pai.
, isso não é mais fácil para mim do que é para você, acredite. Venho tentando me convencer de que ficará tudo bem, e meu único alívio é saber que posso confiar em você e na sua força. Isso me faz forte também. Pode parecer egoísta da minha parte sair e te deixar aqui com ele, mas egoísmo mesmo seria se eu ficasse e te privasse de ter o que você está acostumada a ter. O que você merece ter.
— Eu entendo todas as suas razões, mãe, não precisa se desculpar. — suspirei — Está bem, eu tenho que me arrumar para ir.
— Eu te amo, filha.
— Também te amo, mãe.

Assim que ela saiu eu me levantei, tomei um banho e terminei de arrumar minhas coisas para ir, pensando na confusão que aquela mudança causaria. Na verdade, que já estava causando. Há pouco mais de dois meses antes de eu ter que ir embora, minha mãe, Janett , que era formada em Jornalismo pela Newcastle University, recebeu uma proposta irrecusável para ir trabalhar em Paris. Ela esteve desempregada por meses, fazendo alguns trabalhos soltos para sites e revistas. A nova oportunidade simplesmente caiu como uma luva. A ideia me deixou animada e eu não podia estar mais feliz! Seria maravilhoso poder viver algo diferente da monotonia de Newcastle. Além disso, seria libertador poder deixar para trás antigas pessoas, antigas dores e antigos pesos mortos… Como meu 'pai' e suas tentativas vazias de reaproximação. Mas é claro que Brian jamais deixaria isso acontecer.
Quando minha mãe decidiu aceitar oficialmente a proposta de emprego, tivemos que avisar Brian que deixaríamos o país. Ele, então, fez o que eu sinceramente não esperava: me proibiu de ir embora. Eu ainda não entendo direito o porquê de a minha mãe ter concordado com ele. Mas acredito que, por eu ser menor de idade, seria necessária a autorização dele para que eu saísse do país. Porque ele era meu pai. Somente no papel, mas ainda assim tinha direitos sobre mim.
O fato é que mamãe ia embora dentro de dois dias para Paris, então Brian viria me buscar para ir morar com ele e sua família feliz — família essa que eu nunca cheguei a conhecer. Eu sei que ele tinha dois filhos, uma garotinha de uns cinco anos e um garoto cerca de um ano mais velho que eu. Ah, e é claro, ele era casado com a mãe dos dois. Mas, fora isso, eu não sabia de mais nada.
Me apressei para descer, embora quisesse adiar aquele momento, tentando poupar minha mãe da companhia sempre indesejável de Brian. Se existia alguém que gostava menos de Brian do que eu, esse alguém era minha mãe. Brian nos abandonou quando eu tinha seis anos de idade, quando decidiu contar para minha mãe que tinha um filho fora do casamento. Ele, então, decidiu que amava muito sua segunda família, e resolveu fazer dela a sua única família. Nos abandonou. Ele não só optou por abandonar minha mãe, mas também por me substituir definitivamente pelo filho da mulher que ele amava. A amante. É claro que na infância eu sofri muito a ausência dele, mas depois de crescer um pouco e entender o que aconteceu de fato, meu ódio por ele ocupou todo e qualquer espaço que ele tinha em minha vida. Ele era tão desprezível quanto se podia ser e eu não precisava de alguém como ele em minha vida.
Quando terminei de me arrumar, desci lentamente as escadas observando os detalhes da minha casa, o único lugar onde vivi na vida. A casa seria vendida, portanto jamais voltaríamos a morar ali e eu ainda não sabia se seria bom ou não para mim deixar aquelas lembranças para trás. Brian já estava me esperando no sofá quando cheguei na sala e levantou-se sorrindo abertamente para mim. Minha cara de ódio deve ter sido o suficiente para fazê-lo perceber que eu não estava no clima de alegria, pois seu sorriso sumiu.
— Oi, , querida. — ele disse, parecendo nervoso. Eu quis socá-lo — Suas malas já estão no carro. Nós... hmm... podemos ir.
Me despedi de minha mãe tão rápido quanto pude. Mais um pouquinho e eu começaria a chorar feito uma criancinha, assim como ela mesma já estava fazendo. Entrei no carro de Brian em silêncio, encostei a cabeça na janela e permaneci assim. Deixando Newcastle para trás, eu não conseguia pensar em muitas coisas que realmente me fariam falta. Acho que só sentiria saudades da minha mãe e de , minha melhor amiga. era a única pessoa no mundo, além da minha mãe, em quem eu realmente confiava. O tipo de pessoa a quem eu confiaria minha vida sem medo. Muitas coisas ruins aconteceram comigo em Newcastle no último ano, muitas pessoas me decepcionaram, e tudo o que me restou de concreto foi minha mãe e . E até mesmo isso Brian estava tirando de mim. Tudo bem, se eu fosse para Paris, eu estaria ainda mais distante de , mas ainda assim eu teria minha mãe. E estaria deixando definitivamente todas as minhas decepções na Inglaterra.
Pouco tempo depois, Brian resolveu quebrar o silêncio, fazendo meu sangue borbulhar de raiva.
, eu sei exatamente como se sente a meu respeito, você nunca fez questão de esconder e, no último mês, pareceu particularmente feliz em tentar me ferir de todas as formas. — ele pareceu amargurado enquanto dizia isso, e eu rolei os olhos, sem dizer nada, decidida a ver até onde o cinismo dele se estendia — Você passou toda a sua vida ouvindo a versão da sua mãe sobre a nossa história, e, depois de tantos anos, é a primeira vez que eu vejo uma oportunidade realmente significativa de me aproximar de você. De ser seu pai. Independente do que esteja se passando no seu coração nesse momento, eu gostaria de te pedir pra abrir um espacinho, por menor que seja, aí dentro. Pra mim e para minha família. Para nossa família.
Eu tive que rir.
Sinceramente, ele só podia estar debochando da minha cara, não era possível!
— Olha, Brian, - comecei - eu não sei o que você sabe sobre mim, mas vamos deixar claro uma coisa: eu não sou idiota. E também não sou sua filha. Você não é ninguém além do homem que me abandonou quando eu ainda era uma criança. Você não significa nada pra mim, e eu estaria mais feliz sendo mandada para o inferno do que sendo obrigada a ir morar com você e a sua família. Independente da versão que me foi contada durante toda minha vida, eu sei a história porque eu a vivi. Eu vivi sua traição, vivi o abandono, vivi todos os aniversários que você passou sem me ligar, vivi todas as festas da escola em que você não esteve presente. Eu vivi a dor de ver todos os meus amigos tendo pai e mãe por perto, mesmo que separados, enquanto meu pai aparecia uma vez a cada três meses para dizer “olá”. Eu vivi o dia em que nós nos encontramos em um shopping em Londres, e você fingiu que não me conhecia porque estava com sua família. Minha mãe me disse meia dúzia de palavras sobre você, o resto eu aprendi sozinha. Então não me venha com esse seu discurso ridículo de pai incompreendido, porque eu sei o quão desprezível você é. E isso ninguém precisou me contar. Eu aprendi sozinha a desprezar sua existência. Eu odeio você. — pausa pra respirar — E, por favor, evite dirigir a palavra a mim. Obrigada.
O olhar de dor que ele me lançou teria me enganado, se eu já não estivesse preparada para todo aquele teatrinho. Voltei a encostar a cabeça na janela e devo ter dormido durante o restante da viagem, porque, quando abri os olhos, já estávamos parados em frente à casinha das pessoas felizes. Brian pegou minhas malas e as levou até a casa enquanto eu o seguia. Assim que entramos, uma garotinha tão ruiva quanto eu pulou no colo de Brian. Dois segundos depois uma mulher ruiva também apareceu, sorrindo para mim.
— Oi, — a garotinha disse — Eu sou Hannah, sua irmãzinha. Papai disse que você se parece comigo. Você também é ruiva. Sua mamãe é ruiva também?
— Hannah, deixe-a respirar. — a mulher disse, logo atrás dela — Olá, querida. Eu sou Angelina, mas você pode, por favor, me chamar de Angel.
Eu estava completamente perdida no meio de toda aquela animação. A menininha não parava de falar e eu continuava com cara de paisagem quando ela, de repente, resolveu grudar em uma de minhas pernas em uma tentativa de me abraçar. Eu teria caído, sem nenhuma dúvida, se alguém não tivesse me segurado no momento em que tombei. Me desvencilhei dos braços da pessoa que me impediu de cair, pensando que Brian era esta pessoa. Quando olhei para trás, no entanto, um garoto se encontrava parado me encarando com um sorriso de orelha a orelha. Ele era alto, forte, tinha os cabelos pretos e olhos intensamente azuis. Olhos muito parecidos com os meus. Olhos muito parecidos com os de...
— Ei, pai, não vai nos apresentar? — o garoto disse.
— Ah, claro. , esse é . Seu irmão.


Capítulo 2

’s P.O.V.

Ela não retribuiu meu sorriso, nem o abraço de Hannah, nem o olhar gentil da minha mãe. Só ficou ali olhando para todo mundo, como se fosse superior. Como se nós fossemos transmitir alguma doença. Senti meu sorriso murchar. Meu pai já havia dito que não seria fácil lidar com ela, já que durante toda a vida ela havia ouvido falar sobre nós como as pessoas que roubaram o pai dela. A amante, o filho da amante, o marido infiel. E as vítimas, que obviamente eram ela e a mãe dela. Mas sempre me pareceu mesquinho demais. Sempre me pareceu ridículo ouvir apenas uma parte da história e sair por aí odiando as pessoas. Meu pai passou todos esses dez anos tentando se aproximar, e ela sempre o recusou. Como ela pode se sentir abandonada se passou a vida renegando-o?
O clima estava pesado na sala. Meus pais encaravam um ao outro, apreensivos. Hannah parecia chateada por ter sido completamente ignorada, eu estava me controlando para não xingar a causadora de toda a tensão e a nos encarava com nojo. Sim, nojo. Aquele olhar típico de pessoas insuportavelmente mesquinhas. Ficamos alguns segundos assim até meu pai se manifestar.
— Hm, , você pode mostrar para a onde fica o quarto dela? — perguntou cautelosamente — Aproveita e fala sobre a escola, que já começa na segunda-feira. Tenho que conversar com a sua mãe.
— Tudo bem, pai. — respondi. se mexeu, desconfortável. — Vou levar algumas malas, depois você sobe o resto, ok?
— Está certo. Obrigado, filho.
Peguei algumas malas e olhei na direção da garota. Arrisquei mais um sorriso simpático e fui arduamente ignorado, mais uma vez. Bufei e fui em direção às escadas. me seguiu imediatamente.
— Aqui é o seu quarto, madame. — brinquei, enquanto entrava no cômodo. Ela continuou em silêncio e impassível. — Sobre as aulas, começam na segunda-feira, como nosso pai falou. Eu não sei se você vai resolver socializar conosco, meros mortais, mas caso decida se isolar até a segunda... Bom, eu vou sair de casa às 07h15. Esteja pronta.
— Você pode me passar o endereço da escola, por favor? — ela disse, quando eu já estava preparado para sair do quarto. Olhei para trás e ela não estava me encarando. — Eu prefiro ir sozinha.
— Você realmente vai ficar com essa palhaçada de fingir que a gente não existe? — perguntei, indignado. Ela finalmente me encarou. — Se a sua mãe continuar mesmo nesse emprego, você vai ter que viver aqui pelos próximos dois anos.
— Isso só vai acontecer se o seu pai não resolver me deixar ir embora antes.
Nosso pai não vai te deixar ir embora. É perda de tempo esse seu teatrinho de garota revoltada com a vida.
— Não é teatrinho, e eu não estou revoltada com a vida. Estou revoltada com a falta de senso do seu pai de me obrigar a vir morar com ele e com a família pela qual ele resolveu me substituir. — respondeu, como se estivesse discutindo o tempo — A família da amante dele.
— Eu acho que você já é grande o suficiente pra parar de fazer drama com uma coisa que aconteceu dez anos atrás, garota. Pelo amor de Deus.
— Eu não te devo nenhuma satisfação sobre o que aconteceu ou não na minha vida. Mas eu vou esclarecer apenas uma coisa: todos os motivos que me fizeram odiar seu pai não aconteceram dez anos atrás. Aconteceram durante todos esses dez anos. Agora, já que você não parece disposto a me dizer onde fica a tal escola, você pode sair daqui.
Nesse momento, meu pai entrou no quarto. Deus realmente existe, porque mais dois minutos sozinho com aquela garota e eu teria cometido um assassinato.
— O que está acontecendo aqui? — ele perguntou, provavelmente sentindo o clima tenso.
— Eu estava tentando explicar para a sua filha que não adianta fugir da gente, já que ela vai ficar aqui por pelo menos dois anos. Mas, pelo jeito, ela deve ter puxado todo esse egoísmo e essa teimosia da mãe dela. Porque eu nunca conheci ninguém assim.
— É, minha mãe às vezes é um pouco egoísta e teimosa. — ela disse, sua voz pingando veneno — Mas se tem uma coisa que eu posso garantir que ela nunca fez, foi se envolver com um homem casado. Já a sua...
— Olha aqui, garota, você lava a boca para falar da minha mãe! — reagi, alterando meu tom de voz.
— Eu estou mentindo? Até onde eu sei, você é fruto de uma pulada de cerca do nosso querido pai.
, já chega! — meu pai finalmente interveio — Você não pode chegar aqui e falar o que vier na sua cabeça. Respeite a Angel.
— E quem você respeitou quando traiu a minha mãe? Quem a Angel respeitou quando se envolveu com você sabendo que você era casado? — ela praticamente berrou. A essa altura, minha mãe já estava no quarto também, e o único motivo para eu não ter avançado nela naquele instante foi a mão de minha mãe, que segurava firmemente meu braço. — Eu não devo nada a ninguém aqui. Eu nem queria estar aqui. Você já destruiu minha vida uma vez e decidiu voltar a fazer isso!
— Eu nunca quis ferir você, ! Sua mãe te envenenou contra mim. Se você soubesse o quanto eu amo você, o quanto eu sofri por não ter estado ao seu lado durante esses anos...
— Pois eu te odeio com todas as minhas forças. Não tem ninguém que eu odeie mais do que você. Tudo que eu queria era ir pra Paris e nunca mais voltar a olhar pra essa sua cara cínica.
— Já chega, os dois! — minha mãe se meteu entre meu pai e — Chega, Brian, ela precisa de um tempo pra se acostumar com essa situação. E você, , pare de forçar a barra. O que foi que eu conversei com vocês? Vocês não ouvem nada do que eu digo? Saiam daqui agora.
E, dizendo isso, ela empurrou todo mundo para fora do quarto, com aquela cara de brava tão característica. A filhinha do meu pai a ofendeu e ela fica brava com a gente, que tentou defender?
Seguimos todos em silêncio até a sala. Mamãe parou em frente ao sofá, indicando para que eu e meu pai sentássemos. Lá vinha sermão.
— Onde está a Hannah? — perguntei.
— No quarto. — mamãe respondeu rapidamente, logo iniciando monólogo — O que foi que eu disse para vocês durante essa semana inteira? Ela precisa de um tempo. Vocês não percebem que ela passou a vida inteira remoendo o possível abandono do próprio pai? Ela se sente trocada. Ela acha que nós, eu e você, , somos os culpados.
— Ela te deve respeito, mãe! — eu voltei a falar, indignado — Ela estava te ofendendo, você queria que eu ficasse quieto?
— Eu queria! Ela não estava tentando me ofender, , ela estava verbalizando tudo o que foi enfiado na cabeça dela desde que ela ainda era uma criança. Você não tem noção de como a mãe dessa garota é inconsequente. Ela simplesmente se vingou do seu pai fazendo a menina odiá-lo. Uma criança! Isso pode ser um trauma que uma pessoa carrega durante a vida toda.
Ok, agora eu estava me sentindo culpado. Ter uma mãe psicóloga, ironicamente, não fazia bem para meu psicológico às vezes.
— Entendem o que eu quero dizer? — ela continuou a falar — Independente do que realmente aconteceu, na cabeça dela, nós somos a família que destruiu a família dela. Não achem que meia dúzia de palavras vão fazer com que ela mude de ideia.
— Ok — meu pai disse, soando derrotado — E o que a gente faz?
— A gente a faz se sentir em casa. Agimos naturalmente, sem forçar a barra. Estamos entendidos?
— Sim. — falamos juntos.
— Ótimo.
Subi o mais rápido que pude para o meu quarto, antes que minha mãe mudasse de ideia e voltasse a falar. O sermão tinha sido mais curto do que eu imaginei, demorar para subir poderia incentivá-la a continuar.
Deitei na cama, observando o teto e com um pensamento fixo na cabeça: seria insuportável ter que dividir o mesmo teto com aquela criaturinha. Eu não tinha paciência para isso, e meu pai me mataria se eu ousasse falar um pouquinho mais alto com a sua filhinha.
A chegada dela já tinha sido um desastre; ainda dava para sentir o ar de toda a casa pesado, carregado pelo desafeto e desprezo que ela sentia por todos nós. Em pensar que eu tive de desistir de todos os programas para o meu fim de semana para recebê-la... Não, pensar nisso não ajudava. Passei algumas horas no meu quarto assistindo The Walking Dead. Eu, , assistindo série em plena sexta-feira à noite. Ok, eu precisava colocar TWD em dia, mas o fato de eu estar sendo obrigado a fazer isso quando meus amigos estavam muito provavelmente enchendo a cara fazia eu ter vontade de poder dar uma marretada em cada um daqueles zumbis malditos. Eu, sinceramente, não merecia.
Minha mãe tinha preparado um jantar de boas-vindas para , mas, com toda aquele clima, ela acabou por desistir da ideia. Achei ótimo. Não estava no clima para fazer nada em família naquele momento. Esperei que todos estivessem dormindo para sair do quarto e ir comer. Em uma sexta-feira normal, a casa ainda estaria movimentada naquele horário — por volta da meia-noite —, mas estavam todos muito cansados.
Fui até a cozinha e esquentei o jantar no microondas. Aproveitei para pegar algumas coisas e levar para o quarto, para o caso de eu sentir fome mais tarde. Coloquei tudo em uma sacola plástica e subi em direção ao quarto. Eu estava prestes a entrar no meu quarto quando uma música estranha vinda do quarto da frente chamou minha atenção. estava cantando. Sendo vencido pela curiosidade, me aproximei da porta da porta para ouvir melhor. Qual não foi minha surpresa ao perceber que, por trás de toda aquela raiva, sua voz poderia transmitir tanta paz.

I can see you there with the city lights
Fourteenth floor, pale blue eyes
I can breathe you in
Two shadows standing by the bedroom door
No, I could not want you more than I did right then
As our heads leaned in

Well, I'm not sure what this is gonna be
But with my eyes closed all I see
Is the skyline, through the window
The moon above you and the streets below
Hold my breath as you're moving in
Taste your lips and feel your skin
When the time comes, baby, don't run
Just kiss me slowly


Eu estava completamente envolvido pela música, pela voz dela, de forma que me distraí de todo resto ao meu redor. Sem perceber, fui deixando a sacola com as comidas escorregar da minha mão. Quando eu menos esperava, tudo caiu no chão, fazendo um barulho estrondoso. automaticamente parou de tocar e cantar. Me ajeitei rapidamente, peguei a comida tão rápido quanto pude e voei para o meu quarto. Deus me livre ser pego ouvindo atrás da porta. Deitei na cama, ainda impressionado. Fechei os olhos e pude ouvir claramente sua voz, e tudo o que eu pude pensar foi no quanto tudo mudaria dali pra frente. Eu literalmente podia sentir.

**Link e tradução da música.


Capítulo 3

's P.O.V.

O final de semana se arrastou de forma lenta e insuportável. O domingo parecia deliberadamente tentar me enlouquecer. Os minutos simplesmente estacionaram. A cada dez minutos, um minuto se passava — pelo menos, era assim que me parecia.
Passei sábado inteiro trancada, ignorando completamente as tentativas de Brian e Angel de me tirarem do quarto. Passei o dia todo sem comer, de forma que, ao final do dia, estava mole, sem forças. Não comia desde quinta-feira à noite, e isso era demais para qualquer um aguentar. Deitei-me, decidida a dormir e esquecer aquele buraco no meu estômago, e foi aí que Angel entrou no quarto trazendo um prato com pelo menos uns cinco lanches e uma garrafinha de suco. Fechei os olhos e os mantive assim até que ela saísse do quarto. Orgulho nenhum no mundo me faria negar aquela comida; eu estava literalmente morrendo de fome.
Embora eu estivesse com fome novamente, era mais suportável. Já passava das três da tarde no domingo e eu não sabia mais o que fazer para não morrer de tédio. Conversei com minha mãe, que já havia chegado em Paris, e, embora tenha tentado não parecer tão animada, estava completamente apaixonada pela cidade. também me fez companhia durante algumas horas, mas, diferente de mim, ela tinha coisas para fazer. Eu estava usando a internet do celular para me comunicar com elas, mas não sabia a senha do wi-fi, portanto não podia nem ao menos assistir algum filme. Então, eu me encontrava completamente sozinha, entediada, planejando formas de torturar Brian até a morte, quando alguém bateu na porta. Não respondi, porém a pessoa resolveu entrar mesmo assim. Continuei imóvel enquanto via com o canto do olho Angel se aproximar com uma bandeja e uma sacola em um dos braços. Ela deixou a bandeja ao meu lado, na mesinha ao lado da cama, e se sentou na ponta, colocando a sacola em seu colo. Eu não entendi por que raios ela ainda estava ali, dado o fato de que eu já tinha dado todos os sinais possíveis de que iria manter o silêncio. Mas ela permaneceu ali, sem falar nada, até que eu desisti de ignorar sua existência e a encarei. Ela sorriu, como se estivesse esperando por isso. Ela era assustadoramente parecida com a minha mãe, ainda mais quando sorria. Tentei conter a onda de afeição que seu sorriso me causou, sabendo que tudo que eu não podia fazer era associar a imagem da minha mãe com a primeira ruiva que aparecesse — ainda mais com aquela ruiva, em particular.
— Não sei como você consegue ficar tanto tempo sem comer e beber nada. — ela disse após alguns segundos sustentando meu olhar — Bom, eu trouxe bastante coisa pra você comer, presumindo que você deve estar morrendo de fome. E isso aqui — ela colocou a sacola perto de mim — É o seu material da escola. Comprei uma bolsa, canetas, cadernos e tudo mais. Eu pretendia ir comprar com você, se as coisas tivessem sido um pouco melhores. Mas está tudo aí.
Continuei em silêncio, embora minha boa educação tenha me alertado que o certo seria agradecer. Ela suspirou e voltou a falar pouco tempo depois.
— Você sabe que não vai conseguir manter esse silêncio para sempre, não é? Não se torture tanto, querida. Você é quem mais está sofrendo nessa sua busca por ferir seu pai.
Mais silêncio.
me disse que você não quer ir com ele pra escola amanhã. Aqui está o endereço e o que você deve fazer para chegar lá. — ela estendeu o papel. Eu o peguei — Não deixe de comer por orgulho bobo. Aliás, não deixe de fazer nada por orgulho. O orgulho fere, destrói. Se sinta a vontade para se juntar a nós quando quiser.
E então ela se levantou e saiu, me deixando sozinha com meus pensamentos. Ela não estava completamente errada sobre meu orgulho, que às vezes toma proporções inimagináveis. Mas tudo o que importava naquele momento era minha vontade de ir embora daquela casa. Brian teria de tomar consciência do mal que estava me fazendo, por mais egoísta que ele fosse.
Meu estômago roncou, ciente da proximidade da comida, e eu não hesitei em atender sua vontade.
Morrer não era o meu plano.

A segunda-feira chegou, trazendo consigo um clima frio e um céu cinza, tipicamente londrinos. Me espreguicei vagarosamente enquanto tentava me lembrar o porquê daquela voz na minha cabeça insistir em me apressar para levantar. Olhei no relógio, que marcava 7h00, e finalmente me toquei. Eu estava muito atrasada, tinha meia hora para me arrumar e sair de casa. E eu nem ao menos sabia onde ficava a escola.
Tomei banho em tempo recorde, me vesti em menos de dois minutos, penteei meu cabelo de qualquer jeito e passei rímel. Já tinha organizado as coisas que Angel me dera no dia anterior, então, quando terminei de me arrumar, por volta das 7h25, saí do quarto pronta para enfrentar o dia que viria pela frente.
Desci as escadas com passos rápidos, enquanto selecionava uma música no celular. Não é uma coisa muito inteligente para se fazer, convenhamos. Porém, só percebi isso quando trombei em alguém que estava parado na ponta da escada. Levantei a cabeça, me deparando com os grandes olhos azuis de , que me encarava com os lábios entreabertos, enquanto segurava meus braços. Me afastei rapidamente, como alguém que toma um choque, murmurando um 'desculpa' e me direcionando para a porta no segundo seguinte, com o coração estranhamente acelerado. Quando eu estava a dois passos da porta, ouvi alguém me chamar. Virei-me instintivamente, vendo Hannah se aproximar quase correndo com uma sacola de papel na mão.
, toma aqui seu café da manhã. — a pequena disse, com a respiração entrecortada pela velocidade com a qual correu até mim — Eu mesma fiz. Espero que você goste.
De repente, eu me senti meio imbecil pela forma como a ignorei na sexta-feira em que cheguei na casa. De todos ali, ela era a única que não fazia ideia do que estava acontecendo. Abaixei-me para ficar na altura dela.
— Muito obrigada, Hannah — eu disse, sorrindo — Me desculpe por não ter falado com você quando cheguei, eu estava cansada.
— Tudo bem, . Mamãe me disse que você precisava de um tempo para se acostumar. — ela disse enquanto balançava os bracinhos de um lado para o outro de um jeito adorável — Eu posso ir ao seu quarto quando você chegar da escola?
— Claro, pode ir quando quiser. — falei, olhando a hora no celular no momento seguinte. 7h30 — Eu tenho que ir agora. Estou muito, muito atrasada. Depois a gente conversa mais, ok?
— Tá bom, , tchau. Quando você chegar, eu vou ao seu quarto.
A abracei rapidamente e saí apressada, olhando o papel com as instruções que Angel havia me dado. Eu não estava entendendo absolutamente nada. Comecei a me desesperar. Eu estava em uma cidade estranha, indo para uma escola estranha, em um caminho estranho... Estava prestes a ter uma síncope.
Continuei tentando decifrar as letras no papel enquanto andava para uma direção completamente aleatória. Foi quando ouvi alguém me chamar. Olhei para o lado e vi andando com o carro vagarosamente ao meu lado. Voltei a olhar para frente.
— Larga de ser cabeça dura, garota. Entra logo no carro, você nunca vai conseguir chegar à escola nesse passo.
— Claro que eu vou. — respondi — Sua mãe me explicou como chegar.
— Ah, então ela explicou muito mal — disse ele, rindo levemente — Você está indo para o lado errado.
Parei subitamente, me sentindo derrotada. O que eu poderia fazer, afinal? Eu não fazia ideia de onde estava, não fazia ideia de como chegar à escola. E, pior, eu não fazia ideia de como voltar para casa se por acaso me perdesse. Não sabia o endereço e nem ao menos uma referência do local. Se eu me perdesse, teria de ligar para Brian e... Espera aí. Eu não sabia o número do Brian.
— Vamos, , temos vinte minutos. Vamos levar só uns dez pra chegar à escola, mas, se você continuar aí parada, só chegamos para a última aula do próximo semestre.
Lancei um olhar irritado para enquanto caminhava — me arrastava — até o carro. Eu sabia que o dia ia ser ruim, mas ele estava superando minhas expectativas. Entrei no carro em silêncio, observando fazer o retorno.
Graças ao bom Deus ele não abriu a boca durante todo o caminho até a escola. Aproveitei os poucos minutos que me restavam para comer o lanche que Hannah tinha preparado para mim — um sanduíche e um suco de caixinha. Mesmo estando muito concentrada em comer e ignorar o outro ser dentro do carro, eu conseguia sentir a tensão no ar; era como entrar em um carro com um desconhecido e não saber para onde ele pretende te levar. Não que eu estivesse com medo, mas eu me sentia desconfortável. Ele era, afinal de contas, um desconhecido. Chegamos à escola em até menos de dez minutos, porém os minutos pareceram se arrastar lentamente.
Suspirei aliviada assim que vi uma placa com os grandes dizeres “St. Bees High School”. O nome da escola era a única coisa que eu tinha entendido no maldito papel que Angel me dera. continuou respeitando meu silêncio e não me seguiu ou fez qualquer menção de ir atrás de mim quando saí apressadamente do carro. Isso fez com que ele se tornasse menos insuportável no meu conceito.
Entrei, procurando não olhar para os lados. Eu tinha plena consciência de que ser nova em uma escola era equivalente a ser a nova atração de um circo. Eu podia sentir os olhares de todas as pessoas ao meu redor em mim, mas ignorei, seguindo desajeitada para dentro da escola. Eu precisaria passar na secretaria antes de ir para as aulas, para pegar meu horário de aulas, a chave do meu armário e os livros. Perguntei para uma ou duas pessoas que passavam por ali como eu fazia para chegar até lá, mas, fora isso, continuei evitando socializar. Cheguei à secretaria quando faltavam apenas cinco minutos para o sinal bater. Eu teria que correr se não quisesse chegar atrasada, e, acredite, eu não queria. Passei apressadamente por alguns professores, que provavelmente estavam indo para suas salas, e me dirigi para uma bancada, onde havia uma senhora de meia idade sentada.
— Oi — eu disse enquanto me aproximava — Eu sou , aluna nova.
A mulher apenas olhou por cima dos óculos para mim, numa lentidão agonizante, como se eu estivesse interrompendo alguma coisa muito mais interessante.
— Eu preciso do meu horário, das chaves do armário, dos livros... Sabe, essas coisas que os alunos novos precisam. — expliquei, com a impaciência expressa na voz — Será que poderia fazer o favor de me ajudar? Se estiver ao seu alcance, claro.
É, também sinto pena de quem precisa lidar comigo logo cedo.
A mulher se moveu de forma vagarosa e irritante até uma sala que ficava logo atrás da bancada. Quando voltou, o sinal da primeira aula já havia batido, e eu já estava com o corpo todo da cor do meu cabelo. Sim, eu estava irritada.
— Aqui estão seu horário, as chaves do seu armário e um bilhete do diretor. — ela disse, estendendo um envelope branco com o nome da escola escrito em dourado para mim — Seus livros já estão no seu armário. São tolerados até dez minutos de atraso em uma aula, mas como hoje é seu primeiro dia, apenas entregue o bilhete que está dentro do envelope para o professor e seu atraso será tolerado.
Dito isso, a mulher voltou a se sentar com todo aquele ar de tédio. Bufei, ainda irritada com o atraso. Qual é, o dia já não estava ruim o suficiente? Agora eu teria de entrar atrasada em uma sala cheia de desconhecidos, que, com toda certeza, iriam rir da minha cara.
Andei apressadamente até meu armário. Peguei meu livro de inglês, o de biologia e o de história — que seriam as três primeiras aulas antes do intervalo — e continuei na corrida para não chegar tão atrasada à aula.
Demorei mais alguns poucos minutos para encontrar a sala de Inglês. Quando finalmente a encontrei, já estava, pelo menos, vinte minutos atrasada para a aula. Meu professor de inglês era um homem na casa dos cinquenta anos, negro, baixo, magro e com a cabeça coberta de cabelos brancos. Estava passando algo no quadro quando cheguei, e todos na sala estavam em um silêncio perpétuo. Bati na porta timidamente, atraindo imediatamente a atenção geral para mim. Merda. Olhem para o caderno de vocês.
— Hm, professor, eu sou , aluna nova. — eu disse, ainda na porta. O homem me encarava minuciosamente, arqueando levemente as sobrancelhas e parecendo odiar o fato de ter sua aula interrompida. Ele acenou levemente com a cabeça e fez sinal para que eu entrasse na sala. Caminhei lentamente até ele e lhe estendi o bilhete dado pelo diretor. — O diretor pediu para que eu entregasse esse bilhete para o senhor, justificando meu atraso.
— Tudo bem — ele sorriu levemente, diminuindo a carranca diante o meu olhar tímido. — Você pode se sentar em algum lugar vago. Não perdeu nada importante.
— Obrigada, professor. — acenei levemente, confusa por sua súbita mudança de atitude. Ele voltou a olhar para o quadro enquanto eu me dirigia para uma carteira que ficava bem no centro da sala. Todos ao meu redor ainda me olhavam descaradamente, e, durante todos os trinta minutos restantes da aula, permaneceram me encarando.
As outras duas aulas seguiram da mesma forma. Eu copiando metodicamente todo e qualquer conteúdo que fosse passado na lousa, enquanto sentia o olhar de todas as outras pessoas perfurando minhas costas. Para minha sorte — ou não —, ninguém veio falar comigo. Ninguém tentou puxar assunto ou fazer amizade. Todos pareciam felizes em apenas encarar e me fazer sentir horrivelmente deslocada. Mas eu não estava exatamente reclamando, eu não era nenhuma antissocial, mas dizer que queria fazer novas amizades seria hipocrisia. Eu não pretendia me prender àquele lugar, não pretendia me afeiçoar por ninguém ali. Aquilo tudo era passageiro, eu estava fazendo muito esforço para acreditar que não teria de lidar com aquilo por mais tempo do que estritamente necessário. Eu não sabia se conseguiria lidar. Muito provavelmente não.
O sinal para o intervalo me trouxe um alívio instantâneo, seguido daquele balde de água fria. Eu tinha esquecido que estava sozinha, que não conhecia ninguém e que muito provavelmente haveria, pelo menos, dez vezes mais pessoas olhando pra mim. Por que, Deus, as coisas têm que ser assim?
Saí da sala acompanhando o mar de pessoas até meu armário e, em seguida, até o refeitório. Só depois de comprar meu lanche eu percebi o quanto aquele lugar estava lotado. Havia dezenas de mesas e nenhuma delas estava com poucas pessoas. Continuei parada feito uma estátua enquanto estudava o lugar, na esperança de encontrar milagrosamente um lugar para sentar. Dei alguns passos, ainda olhando ao redor, quando apareceu na minha frente, sorrindo de um jeito sacana. Franzi a testa, sem entender o motivo daquele sorriso em particular.
— Oi, — ele disse, sua voz compatível com seu sorriso. Eu ainda não estava entendendo, mas o meu nível de desespero para me sentar e evitar o olhar de todos ao meu redor era tanto, que eu não conseguiria dizer não caso ele me convidasse para sentar com ele. — Você pode se sentar comigo.
Eu juro que cheguei a sorrir aliviada, pronta para agradecer, antes de ouvir as palavras seguintes.
— Se você pedir, é claro. — disse , se inclinando para frente, seu sorriso se alargando.
— Como é?! — eu perguntei, esperando sinceramente ter ouvido errado.
— É isso aí. Você pode se sentar comigo, desde que me peça.
Não, eu não ouvi errado. O meu sangue ferveu.
— A única coisa que eu vou pedir, , é para você morrer. Some da minha frente, imbecil. — falei, me esforçando para não falar mais alto e atrair ainda mais atenção. pareceu confuso, sua expressão caindo para algo que beirava a descrença. Saí dali a passos firmes, tentando ignorar o súbito e completamente insano arrepio que percorreu minha espinha ao encará-lo daquela maneira confusa tão de perto. Arrepio de raiva, claro.
Não é?
Balancei a cabeça, seguindo cegamente para o fundo do refeitório, onde havia uma mesa com apenas um garoto. Apesar de sua cara de poucos amigos, ele parecia muito bonito com seu cabelo loiro cortado bem rente à cabeça, seus olhos verdes e a covinha proveniente em seu queixo. Me aproximei hesitante, sentindo o garoto me olhar como se estivesse prestes a me matar. Bom, ou eu sentava ali, ou comia no chão — possibilidade que eu sinceramente já estava cogitando.
— Hum, oi, tudo bem se eu me sentar aqui? — perguntei, hesitante.
— Está fazendo isso para provocar o otário ali? — ele perguntou de forma ríspida. Encarei-o, confusa, antes que ele voltasse a falar — Porque, se for isso, a resposta decididamente é um não. Garotas assim me causam nojo.
Ok, o quê?
— Ok, o quê? — ecoei meus pensamentos, sem conseguir formular mais nada. As pessoas criaram um tipo de aversão natural por mim ultimamente? Eu estava até fazendo um esforço para não parecer tão rude.
— Você acaba de ter uma briguinha com o babaca ali e resolve fazer amizade justamente comigo, assim, subitamente. — o garoto debochou, sua voz era pura ironia — Claro que você não está usando a situação para fazer ciúmes nele. Imagina, essa possibilidade nem existe. Faça-me o favor, garota.
— Em primeiro lugar, eu não tenho a mínima intenção de fazer amizade com você. Eu só queria sentar, por Deus! — eu disse, soando exasperada. O garoto continuava me olhando como se desprezasse cada palavra que saía da minha boca. Oh, como eu queria socar a cara dele na mesa. — E, segundo, por que raios eu ia querer fazer ciúmes no ?!
Eu não sabia por que ainda estava ali, parada, esperando a resposta. Por Deus, aquilo era ridículo! Eu estava em pé, esperando um desconhecido me dizer o porquê de sua súbita antipatia por mim. Mas algo me impediu de simplesmente finalizar a discussão e ir sentar em qualquer outro lugar — isso é, se houvesse outro lugar. O garoto ainda me encarava com desprezo quando voltou a falar.
— Talvez, só talvez, porque vocês acabaram de ter uma típica briguinha pública a dois metros daqui. — ele disse — Você é nova aqui. Foi o casinho das férias, e agora ele te chutou? Não estava ciente de como funciona com ele?
Meu sangue ferveu em minhas veias, enquanto o garoto à minha frente muito provavelmente encarava meu silêncio e minha cara de ódio como uma confirmação para todas aquelas suposições ridículas. Um sorriso medíocre se abriu em seus lábios, e meu ódio pareceu triplicar. Eu nunca pensei que diria as palavras seguintes com tanto prazer, e, muito provavelmente, nunca mais voltaria a fazê-lo.
e eu somos irmãos. — eu disse, sorrindo de um jeito certamente doentio. — E eu concordo com você, ele é um babaca. Mas não acho que uma pessoa como você tenha moral pra falar alguma coisa.
Os olhos do garoto se arregalaram enquanto seu queixo caía, em uma expressão chocada. Me virei e saí dali a passos largos. Eu ia comer em pé em frente ao meu armário, mesmo. Melhor do que ficar em pé na frente de um imbecil que te acusa de coisas sem nenhum fundamento. Não passaram dois minutos para que o dito cujo aparecesse em frente ao meu armário, me permitindo ver, pela primeira vez, seu corpo alto e esguio vestido em uma camiseta preta, jeans surrados e uma bota e me encarando com um misto de constrangimento e contemplação. Era como se, agora, ele já me conhecesse há muito tempo. Franzi a testa para ele, mantendo um olhar de raiva e impaciência.
— Me desculpe, por favor. — ele começou — Eu não fazia a mínima ideia. e eu temos uma rixa de conhecimento público, é comum as pessoas quererem me usar contra ele.
Continuei calada, consideravelmente menos irritada. Porém aquilo ainda não havia sido o suficiente.
— Mas eu deveria ter sabido — ele voltou a falar — Você é igualzinha a Hannah, uma versão mais velha, claro, mas ainda assim igual.
Agora ele tinha minha total atenção. Como ele conhecia Hannah? Ele não havia dito que e eles tinham uma rixa de conhecimento público?
— Eu sou , mas me chame de . — ele sorriu, encarando meu silêncio e minha visível curiosidade como algo divertido — É um imenso prazer conhecer , ainda mais sabendo o ódio que você sente pelo . Já temos algo em comum.
Eu o olhei, perplexa. Por Deus, quem era aquele garoto? Como ele sabia tudo aquilo? Encarei-o por alguns segundos, sem saber o que dizer. Várias perguntas deveriam ser feitas, é claro, mas algo me incomodava mais do que a curiosidade. Eu não era . Essa pessoa não era eu, de jeito algum. não me conhecia. Eu não deveria perguntar como ele sabia quem eu era, até ele saber exatamente quem eu era. Confuso? Talvez. Mas era tudo o que se passava na minha cabeça naquele momento.
— eu o corrigi. Um sorriso cresceu em seu rosto. — Ou . Nunca .
— Eu imaginei que não. — ele disse, se aproximando ligeiramente — Tenho a impressão de que seremos grandes amigos, .
E, por incrível que pareça, era exatamente essa a sensação que eu tinha, também. O mundo estava girando um pouco mais rápido do que cogitei.


Capítulo 4

’s P.O.V.

Existem milhares de pessoas pacientes e muito boazinhas por aí, que poderiam receber em suas vidas uma garota revoltada e odiosa e, ainda assim, dar a ela todo o espaço e calma necessários para o tal do período de adaptação.
Eu não sou essa pessoa.
Ver e conversando muito amigavelmente era demais pra minha sanidade.
Passei a manhã toda rodeado de pessoas que comentavam a nova fofoca da escola: a irmã de e o pior inimigo dele estavam juntos. E não importa o que "juntos" significava, eu não dava a mínima.
só podia estar fazendo de propósito. De todos os seres humanos naquela escola, ela resolveu se aproximar do único ser a quem eu dedico todo o meu desprezo? Não podia ser coincidência. Ela não podia "inocentemente" ter ido conversar com o sem a intenção de me atingir. Sinceramente, qual era a chance disso? O pior de tudo é que eu teria que lidar com ela. Eu teria que fazer o máximo para me aproximar, pro bem do meu pai e pro bem da minha família. Lidar com a garota rebelde que ela era naquele momento por longos dois anos não era uma opção, eu tinha que encontrar alguma maneira de virar o jogo, mas ela não parecia nem um pouco disposta a me ajudar nesta missão.
Observei se afastar de com um aceno e uma risadinha irritante e ir em direção à saída do colégio. Respirei fundo e comecei a segui-la, já que eu seria obrigado a dar uma carona para ela, visto que a garota não fazia ideia de onde estava e o garrancho da minha mãe não ajudaria em nada.
Encontrei na frente do portão do colégio, com os olhos fixos no papel que minha mãe havia dado a ela no dia anterior, claramente tentando decifrar o que estava escrito ali sem sucesso nenhum. Tive que conter o riso ao lembrar do quão ilegível era a letra da minha mãe. nunca entenderia nada. Me aproximei da garota e parei em sua frente, com as mãos no bolso e o olhar fixo em seu rosto. Ela levantou os olhos por um segundo mas logo voltou a atenção para o papel. Dei um risinho debochado, impressionado com a teimosia da garota. Ela não sabia voltar pra casa, custava tanto assim admitir?
Continuei encarando-a sem dizer uma só palavra, enquanto observava seu rosto ficar cada vez mais vermelho e seus lábios se comprimirem a cada dois segundos. Eu conhecia aquela expressão. Hannah ficava do mesmo jeito quando estava sem jeito, nervosa ou sob pressão. Mas parecia particularmente adorável naquela situação, e eu me sentia muito incomodado por ter chegado a essa conclusão.
Quando alguns minutos se passaram, cansou de me ignorar e me encarou nervosa, apertando os olhos para mim. Continuei encarando-a com a expressão impassível.
- O que você quer? - ela disse entredentes - Vai ficar aí me encarando feito um doido?
- Só estou te esperando para irmos buscar a Hannah na escola e depois voltarmos para a casa. Acredite, você não vai conseguir decifrar a letra da minha mãe. É quase um novo idioma, é bem provável que nem ela mesma entenda.
A sombra de um sorriso passou pelo rosto avermelhado de , mas se foi tão rápido quanto veio. Ela logo voltou sua atenção para o papel, parecendo meio incerta. - Olha, , eu odeio ter que atrapalhar sua leitura, de verdade. - eu disse rolando os olhos - Mas nós precisamos ir. Hannah já saiu da escola há uns dez minutos e deve estar me esperando com um humor nada bom. Ela pode ser bem temperamental, às vezes. Tenho certeza de que você sabe como é.
voltou a me encarar e bufou em seguida, amassando o papel e ajeitando a mochila nas costas. Tirei as chaves do carro do meu bolso e andei em direção a ele, com a garota em meu encalço. Logo nós estávamos na escola de Hannah, que, como o previsto, não estava nem um pouco contente com meu atraso. O único motivo para ela não ter feito nenhuma birra no caminho até o carro, foi a surpresa que eu prometi que a aguardava - ou seja, .
Quando minha irmãzinha viu qual era a surpresa, apertou os olhinhos verdes em contentamento e mal conseguia segurar o sorriso que atravessava seu rosto. Olhei para , esperando encontrar o mesmo olhar de indiferença e desprezo que ela dedicava a mim, mas me surpreendi. Ela olhava para Hannah com carinho e retribuía o sorriso caloroso, ainda que de uma forma tímida.
Aquela reação me pegou de surpresa. Encarando e Hannah pelo retrovisor, conversando como se conhecessem há muito tempo e rindo juntas, eu só conseguia pensar que aquela garota não era a mesma com quem eu tive que lidar na sexta-feira, quando ela chegou em casa. Conversando com Hannah, não se parecia em nada com a garota arrogante e egoísta com quem eu tive o desprazer de conversar, se é que posso chamar aquilo de conversa.
Aquela nova percepção gerou uma confusão enorme dentro de mim. Com quem eu estava lidando, afinal? Quem era a garota com quem eu dividiria minha casa, minha família e minha vida? A única conclusão a qual eu cheguei, foi a de que eu estava muito longe de conhecer a verdadeira .
Poucos minutos depois, ao chegarmos em casa, decidi que seria bom deixar Hannah interagir com durante a tarde. Elas pareciam estar se dando bem e eu acredito que minha presença somente atrapalharia, considerando o fato de que não parecia nem um pouco interessada em interagir amigavelmente comigo. Pra ser sincero, não acredito que tinha a intenção de interagir comigo de qualquer maneira.
Decidi subir para o meu quarto, enquanto as duas conversavam animadamente sobre o dia de Hannah na escola. Eu não poderia sair de casa, já que Hannah ainda estava sob minha responsabilidade, mas podia descansar um pouco nesse meio tempo. Dormir um pouquinho, só um pouquinho, não faria mal a ninguém...

Acordei algumas horas depois com Hannah pulando em cima de mim com sua habitual animação exagerada. Olhei para o relógio, que marcava 19PM. Só um pouquinho, né ?
- Hey, pequena. - falei para Hannah - Qual o problema?
- Problema nenhum . A mamãe pediu pra eu te chamar pra jantar.
- Hum, entendi - me sentei na cama e cocei os olhos. Hannah se sentou no meu colo, balançando as pernas - Gostou de passar o dia com sua nova irmã?
- Gostei muito! - ela disse - Nós brincamos no quintal e tomamos sorvete. Ela não me deixou assistir Os Simpsons, igual você deixa, mas nós assistimos Bob Esponja e Peppa Pig!
- Por que ela não deixou você assistir Os Simpsons?
- Ela disse que você era muito irresponsável por me deixar assistir porque Simpsons não é desenho para criança.
- Oh, ela disse isso? - Hannah balançou a cabeça e eu tive que rir. era mais chata do que eu pensei que seria humanamente possível - Não ligo para o que ela disse. Nós assistiremos hoje, depois do jantar ok?
- ! Hannah! - minha mãe gritou do andar de baixo - Venham jantar!
- Melhor irmos logo, pequena. - falei para Hannah, que concordou com a cabeça e se pendurou no meu pescoço. Levantei segurando-a no colo e me dirigi para a porta, descendo as escadas em seguida.
Para a minha surpresa, não estava no andar de baixo. Inocentemente, eu acreditei que passar um tempo com Hannah a faria derreter um pouco. Mas ela ainda não parecia disposta a socializar com ninguém que não fosse Hannah. Bom, de qualquer maneira, eu acredito que só o fato de e Hannah se aproximarem já era um avanço imenso. Tão grande, que eu nunca imaginei que aconteceria.
O clima no jantar seguiu leve e agradável, como se tudo não tivesse mudado com a mais nova moradora da nossa casa. No final do jantar, minha mãe pediu que Hannah levasse um prato de seu melhor macarrão ao molho branco para . Hannah voltou minutos depois para assistirmos Os Simpsons e acabou dormindo na metade do episódio em que o Homer briga com a Marge e envia fotos para ela por baixo da porta pedindo desculpas.
Levei Hannah para cama e fui para o meu quarto, não sem antes verificar se estava cantando novamente em seu quarto. Estava tudo silencioso daquela vez. Entrei no meu quarto pensativo, imaginando mil formas de inteirar na nossa família. Era incrível o tamanho da minha preocupação com toda a situação, desde que ela se mudou. Eu não tinha muito o que fazer para aproximar ninguém, se formos parar pra ver. Não tinha culpa de nada, e nem sabia o que exatamente foi colocado na cabeça da garota. Era meio óbvio que aquilo tudo era completamente independente de mim e de toda a minha força de vontade, não importa o quão grande ela pudesse vir a ser.
Deitado na minha cama comecei a refletir sobre o porquê de tudo aquilo, da minha dedicação, da minha vontade verdadeira de que se aproximasse de nós...

E foi aí que eu percebi.

Obviamente eu queria que tudo se acertasse entre meu pai e , mas, observando mais a fundo, este não era um sentimento tão altruísta quanto parecia inicialmente. Grande parte daquele sentimento crescia dentro de mim como um desejo quase insano de me aproximar. De que forma eu faria aquilo? não pararia de me afastar enquanto não aceitasse e considerasse minha família como nossa família. A aproximação dela com os outros na casa era crucial para que houvesse qualquer aproximação entre nós.
O único ponto que eu realmente não conseguia entender era o porquê daquela necessidade de conhecê-la. O sentimento se assemelhava a quando alguém novo chega em um lugar que você sempre frequentou. Se a pessoa for interessante ou, de alguma forma, te chamar atenção, você vai querer conquistar qualquer coisa dela. Seja uma conversa descontraída de vez em quando, a amizade, o carinho... Enfim, você quer algo. E eu queria mesmo, concluí. Não só para que nós pudéssemos construir qualquer uma dessas coisas como irmãos, mas para que eu entendesse a origem daquele interesse. O que é que ela tem, afinal? Eu queria a resposta e, ao mesmo tempo, a temia. Nada soava com clareza dentro da minha cabeça.
Eu sempre gostei de desvendar as pessoas, mas ela era minha irmã. Isso era, no mínimo, estranho. Mas não era como se eu tivesse controle sobre isso. Só estava tomando consciência daquela vontade súbita de me aproximar, mas ela começou a existir sem meu consentimento. Não era culpa minha, afinal.
Minha linha de raciocínio foi interrompida pelo barulho estridente do meu celular. Peguei o aparelho, que estava na mesa do meu computador e olhei para o visor, revirando os olhos ao ver o nome de Brooke ali. Ignorei a chamada.
Brooke era um caso antigo que se recusava firmemente a sair do meu pé. Ela foi importante no passado, quando causou uma briga entre eu e meu até então melhor amigo, . Depois da briga eu passei a usá-la para provocá-lo, e não nego que até hoje eu me aproveito dessa vantagem para atingi-lo. Mas, embora meu rancor por ele não tenha diminuído, muito menos o dele por mim, o motivo da briga não é realmente algo importante. O que pesava mesmo era o ódio que se ocasionou da briga. Um ódio quase palpável.
Brooke passou a ser uma distração depois de algum tempo. Perdeu a importância, para ser sincero. Agora era como uma segunda, terceira ou, até mesmo, última opção. A garota não parecia perceber a mudança na situação, e, se percebeu, se negou fortemente a entender e aceitar. Continuou me seguindo arduamente. Durante as férias que se passaram eu a ignorei totalmente, e durante aquela manhã na escola eu não a vi.
O telefone tocou mais algumas vezes antes de desligar. Eu poderia atender e aceitar me divertir um pouquinho com a Brooke, mas resolvi descansar. Aquela semana não tinha nem começado e minhas forças já quase não existiam. Imagina o que dois anos perto da minha irmã não seriam capazes de fazer comigo?

As semanas seguiram com muitos momentos tensos e momentos em que a minha família conseguia colocar a tensão de lado para se ajudar mutuamente.
Na última sexta-feira do mês, ou seja, um mês após a grandiosa chegada da em minha casa, aconteceria uma festa de comemoração da volta às aulas na casa de Brooke, na qual toda a escola estaria. Eu, Liam, Brad e Coby - meus melhores amigos - decidimos que essa seria uma ótima hora para conhecermos as garotas do terceiro ano. Saí de casa às 10pm e fui para a casa de Liam. Coby e Brad nos encontrariam mais tarde na casa de Brooke. Liam estava terminando de se arrumar quando cheguei. Subi para o quarto dele e bati na porta com força, ouvindo Liam quase infartar do lado de dentro do quarto.
- Seu filho da puta! - ele disse quando eu entrei. Eu estava quase sem ar de tanto rir.
- Cala a boca e se arruma, Liam. - falei, me recuperando da minha crise de riso. Ele bufou - Você não gosta quando a gente fala, mas às vezes você parece mesmo uma garota.
- Vai se foder.
Liam voltou a se arrumar enquanto eu mexia no meu celular. Brooke já tinha me mandado pelo menos quinze mensagens desde o início da tarde. Respondi apenas a última.

Brooke (AT 22:15pm)
Hey, ! Você vem hoje né? Vamos ter um tempinho para brincar? Saudade de você (:
(AT 22:49pm)
Hey Broo! Vou tentar arranjar um tempinho, mas você sabe que vai ser difícil né? A festa é pra comemorar com as meninas do terceiro ano (: Qualquer coisa te aviso.

Bom, ninguém pode dizer que eu minto para a Brooke. Ela se ilude sozinha.

Chegamos à festa por volta de 23:30pm, e ela já estava lotada o suficiente para eu entender que a noite seria longa!
Encontrei Brad na cozinha pegando algumas cervejas enquanto Liam dava em cima de uma loira gostosa de corpo, mas que deixava a desejar em outros quesitos, se é que me entendem. Eu estava decidido a só pegar a garota mais gostosa daquela festa, então resolvi esperar antes de pegar qualquer uma.
- Hey Brad! - falei, batendo de leve na cabeça dele - Cadê o Coby?
- Hey, dude! Deve estar pegando alguém por aí… Ou chorando as traças porque levou um pé na bunda da Miranda.
- Ele ainda não superou? - perguntei, rindo um pouco. Miranda era a ex namorada de Coby, com quem ele passou quase 2 anos e tinha terminado com ele nas férias. Ela era bonita e tal, mas, na minha opinião, não valia o esforço.
- Pois é. - Brad respondeu, jogando uma cerveja para mim em seguida - Mas e o Liam?
- Pegando uma loira por aí. - respondi, abrindo a cerveja e indo em direção à enorme sala da casa de Brooke.
- , ta vendo aquelas duas morenas ali? Do lado da caixa de som? - Brad perguntou, apontando discretamente para duas garotas no canto da sala. - Elas são gêmeas e, com certeza, as garotas mais bonitas desse lugar!
Sorri para Brad, entendendo exatamente o que ele queria dizer com aquela informação. Ambos saímos em direção às garotas, que já nos olhavam e sorriam antes de chegarmos até elas. Quando finalmente chegamos, a gêmea que estava a direita, mais próxima de Brad, se pronunciou em um tom malicioso.
- Brad Carter e , quem diria. - ela riu levemente antes de continuar - A que devemos a honra?
Não era surpresa para mim o fato de sermos conhecidos, mas reforçar aquilo era sempre um prazer. Brad se aproximou da garota, respondendo em seu ouvido a pergunta e eu me dirigi a sua irmã, que já me olhava com as sobrancelhas arqueadas em expectativa.
- Posso saber seu nome? - perguntei, oferecendo minha cerveja para ela e aproximando nossos rostos. Ela sorriu.
- Megan - respondeu, colocando as mãos em meu pescoço e arranhando levemente. - Mas você pode me chamar de Meg.
Dude, aquela seria uma longa noite…

Uma hora depois de conhecer Megan e Amber, as gêmeas, eu e Brad estávamos largados no sofá com elas. Megan estava sentada no meu colo e beijava meu pescoço, enquanto Amber estava sentada ao meu lado, beijando o pescoço de Brad. Já havíamos bebido o suficiente para estarmos mais animados que o normal e a festa estava bombando cada vez mais - tinha muita gente ali. Megan começou a se mexer levemente em meu colo e eu já estava decidido a levá-la para o quarto mais próximo quando duas pessoas me chamaram a atenção. Meu corpo inteiro congelou enquanto eu via aquela cena. As pessoas ao redor pareciam estar tendo a mesma reação que eu: surpresa total.
entrava pela porta principal da casa de Brooke com um sorriso de orelha a orelha e obviamente caindo de bêbada. estava logo a frente, segurando-a pela mão e parecendo guiá-la para o andar de cima para fazer sabe Deus o que.

Bom, eu já sabia que seria uma longa noite. Só não sabia que teria que matar alguém.


Capítulo 5

’s P.O.V.

O primeiro mês foi quase insuportável. Eu teria me matado se não fosse pela Hannah, de verdade.
Minha rotina seguiu sendo quase a mesma do primeiro final de semana, mas agora eu tinha a escola, e a Hannah para me distraírem. Além disso, Hannah havia conseguido a senha do wi-fi pra mim, o que tornou minha vida menos pior.
Conversei com praticamente todos os dias por skype, e, apesar de ela estar muito estranha e escondendo algo de mim - que eu iria descobrir - ela parecia bem. O que eu mais amava em conversar com a era que ela me fazia sentir em casa, mesmo estando longe. Newcastle, apesar de guardar consigo muitas memórias ruins, foi o meu lar durante toda a minha vida. fez parte de toda a minha vida também, desde que eu era um bebêzinho. Apesar de Londres ficar há pouco menos de 5 horas de viagem de Newcastle, era estranho estar distante. Era estranho não ter mais as lembranças por perto, mesmo que elas fossem ruins. me entendia nesse ponto, e disse que não achava que voltar para Newcastle era a melhor solução pra mim. Na quinta-feira a noite, enquanto conversávamos, ela deixou bem claro que achava que eu deveria ficar em Londres para me adaptar.
- , pelo amor de Deus - comecei a argumentar, pela milésima vez - Eu não quero me adaptar a Londres, eu quero ir embora desse lugar, dessa casa! Eu não vou criar vínculos. - Ah, não vai? - perguntou - E Hannah, é o que? Sem contar o tal do ! , querida, acorda. Você já criou vínculos.
- , você sabe o que são dois vínculos de um mês em comparação com vínculos de toda uma vida? Você, minha mãe… Eu não estou em casa! Não estou com a minha família.
- , sua família estará com você em todos os momentos, não importa a distância. Poxa, estamos aqui por você.
- Não tenho tanta certeza. - falei sem olhar para a tela, quase podendo sentir a cara de indignação da .
- Como assim, ? É claro que estamos, sua ingrata.
- Hey, , não surta! - falei, interrompendo minha melhor amiga neurótica - Você está aqui, mas minha mãe se distanciou totalmente.
- Como assim, ?
- Ela anda extremamente ocupada. Falei com ela umas três vezes na semana e ela demonstrou estar se sentindo culpada, mas ainda assim muito feliz. Fiquei chateada por ela não demonstrar sentir minha falta, de verdade. Eu estou sofrendo com a situação e ela não parece estar se importando tanto assim. Tentei não pensar nisso e procurei entender o lado dela, afinal eu realmente quero que ela seja feliz. Só… Bom, acho que estou sendo egoísta. Mas queria que ela entendesse, sabe?
- Você não está sendo egoísta, você está sofrendo. E sua mãe é a pessoa que mais deveria entender, afinal vocês duas estão no mesmo barco nessa. - disse calmamente. Adorava ter uma futura psicóloga como melhor amiga - Eu tenho certeza que dói tanto nela quanto em você, . Ela obviamente não quer demonstrar, não quer te ver ainda pior. Pensa: você demonstra se sentir tão mal para ela? Ou tenta não deixá-la preocupada?
- Bom, eu detesto preocupa-la…
- Viu?! Ela deve pensar da mesma forma. Ela não quer te preocupar ou piorar a situação.
- Bom, tudo certo… Talvez seja isso.
ia começar a falar alguma coisa quando meu telefone tocou. O nome do piscava na tela. Mostrei o visor para a que bateu palminhas. Revirei os olhos e ri levemente antes de atender, colocando a ligação no viva voz.
- Hey , pode falar!
- Hey , tudo bem?
- Tudo sim, e você?
- Tudo certo! Eu queria te fazer um convite, mas sinta-se à vontade para recusá-lo… - começou, incerto. gesticulava loucamente do outro lado da tela, e eu me segurava para não rir. - Bom, vai rolar amanhã uma festa na casa da… Hm, uma garota da escola. É pra comemorar o primeiro mês de aula. Eu sei que nem tem tanto o que comemorar, mas queria saber se você não está afim de ir… Comigo.
Nesse momento já acenava freneticamente com a cabeça para mim, com toda certeza querendo que eu aceitasse a proposta de imediatamente. Não tinha muita certeza de que queria sair, mas também sabia que ficar em casa não adiantaria em nada. Além do mais, essa seria uma ótima oportunidade de mostrar a todos que eu fazia o que bem entendia e, bom, irritar uma pessoa em particular. Acenei positivamente com a cabeça para , respondendo em seguida.
- Claro , vamos sim. Só não sei se vou ser a melhor companhia.
- Tenho certeza de que vai ser! Amanhã eu busco você na sua casa no horário da festa, pode ser?
- Claro, pode ser! Nos vemos na escola de qualquer maneira, né?
- Sim, Ruivinha. Até amanhã, beijo.
Quando desligou me olhava com uma cara nada inocente. Com toda certeza ela estava achando que aquilo era mais do que parecia, quando na verdade não tinha nada para se imaginar. Olhei pra ela rindo um pouco e balançando a cabeça em negação.
- Não quer criar vínculos não é ? Parece que alguém não pensa como você.
- é um amor, , mas não tenho a mínima intenção de passar do limite da amizade com ele. Não me sinto pronta. - falei, encarando com seriedade. Ela sabia do que eu estava falando, então me encarava com a mesma seriedade.
- , por favor, você tem que superar isso! Já se passaram seis meses desde que tudo aconteceu. Eu sei que não é fácil, mas está te atrapalhando.
- , por favor, vamos mudar de assunto…
- Tudo bem, não está aqui quem falou. - disse, levantando as mãos em sinal de rendimento. Depois de alguns segundos em silêncio, ela voltou a falar, me encarando curiosa - , deixa eu te perguntar uma coisa…
- Ih, la vem. Fala, .
- Qual o verdadeiro motivo para você ter aceitado com tanta facilidade o convite de seu amigo ? - começou, me fazendo sorrir. Ela me conhecia tão bem que me assustava!
- Bom, essa é uma oportunidade legal para me divertir, certo? - respondi, enquanto me encarava com a mesma cara de curiosidade e as sobrancelhas arqueadas - Ok, ok! Talvez, e só talvez, eu use essa oportunidade para mostrar quem está no controle. E, é claro, tirar do sério uma pessoa que vem me deixando bem irritada…
- Seu irmão. - afirmou. E, bom, eu não tinha como negar.

Passei a manhã de sexta-feira praticamente sozinha em todas as aulas, exceto a de educação física, na qual o estava comigo. Combinamos que ele me buscaria em casa às 10PM para comermos algo e depois irmos para a tal festa.
Durante a tarde, assisti alguns filmes com Hannah e a ajudei com o dever de casa. Expliquei que não poderíamos fazer a tão almejada noite do pijama naquele dia e que poderíamos fazer no sábado. Má ideia, . Má ideia.
- Tive uma ideia, ! - Hannah falou, e eu já podia sentir que não viria coisa boa por ali. - Amanhã, eu, mamãe, papai e o vamos no aniversário da minha vovó e vamos dormir la depois. Ela mora em uma casa linda! Você vai com a gente.
Não, eu não ia.
Mas como explicar isso para a criança mais adorável do mundo? Como dizer que eu odeio a família dela e jamais dormiria na casa da mãe da mulher que acabou com a minha família?
Calma, .
- Hm, eu não posso ir amanhã, Hannah. - eu disse, sem saber exatamente como lidar com aquela situação.
- Por que não? - disse Hannah, parecendo desapontada - Você não quer passar mais tempo com a gente?
- Eu adoraria passar o final de semana com você, mas…
- Você não quer passar o tempo em outra cidade? - ela me interrompeu, parecendo muito abalada. Eu não sabia lidar com aquela situação, já estava ficando agoniada.
- Hannah, não é isso, me deixa… - interrompida novamente. E muito, muito agoniada.
- Você não quer conhecer minha vovó?
- Eu não suporto sua família, Hannah! - falei um pouco mais alto, assustando-a e fazendo-a se afastar imediatamente de mim, com lágrimas brotando rapidamente em seus olhinhos. Meu Deus, eu sou uma anta! - Hannah, me desculpa…
Ela saiu do quarto sem que eu pudesse me explicar devidamente. E eu fiquei ali, sem a mínima coragem de andar por aquela casa e me sentindo um lixo.
Parabéns, . O prêmio de ogra do ano vai pra você.

Fiquei o resto da tarde me sentindo um lixo. Hannah não voltou ao meu quarto.
Às 09PM comecei a me arrumar para ir à festa com , mesmo que toda a minha vontade de sair - e de viver - estivesse enterrada a sete palmos do chão. Coloquei uma roupa simples, para uma maquiagem mais simples ainda: uma blusa lisa, um short de cintura alta, botas de cano médio e um salto pequeno, rímel e gloss. chegou pontualmente às 10pm, quando eu estava terminando de arrumar minha bolsa. Pensei que ele fosse esperar no carro, mas, quando cheguei na sala, ele estava cumprimentando Brian e Angel com um abraço acalorado. Hannah não estava na sala.
- Hey, , quanto tempo amigão! - disse Brian, sorrindo para - Não é porque brigou com o que tem que sumir, nós te vimos crescer!
- Eu sei, Brian, mas sabe como é, né? - respondeu, parecendo confortável. Eles se gostavam. - E você, Angel, como está?
- Estou bem, garoto! - ela respondeu, abraçando-o como Brian fez pouco antes - Como você mudou, está ainda mais bonito. Mande lembrança aos seus pais.
- Claro, pode deixar!
Eu continuava na ponta da escada, tentando entender a cena que se desenrolava na minha frente.
- Mas, então, a que devemos a honra?
- A quem, na verdade. - disse, olhando para mim. Angel e Brian olharam para mim, e Angel não parecia nada feliz em me ver na frente dela, com certeza por causa de Hannah. Eu quis morrer, mas ela tinha toda a razão daquela vez. - Vim buscar a para irmos à festa de comemoração de volta às aulas.
- Divirtam-se! - Angel disse para , sem voltar a dirigir seu olhar para mim e o abraçou, saindo da sala em seguida. Brian não parecia bravo, apenas surpreso. Por mais estranho que pareça, me senti aliviada por ele não me reprovar.
- Wow, isso é… Legal! Que bom que conseguiu fazê-la sair daquele quarto. - Brian parecia um pouco incomodado, mas suas palavras eram sinceras. - Bom, vão lá. , por favor, fique com meu número de telefone. Se acontecer qualquer coisa, é só me ligar!
- Tudo certo, Brian! - disse, sorrindo e pegando o cartão com o número de telefone de Brian. Passei pelos dois, me dirigindo à porta.
- Tchau, . - Brian disse. Não respondi.

Eu e conversamos brevemente no carro, decidindo que iríamos comer no Nando's. Chegamos ao restaurante e pedimos rapidamente o full platter, que seria perfeito para os dois comermos.
Estava um silêncio absoluto e desconfortável. Passamos, além do trajeto até o restaurante, mais uns 15 minutos sem falar nada até quebrar o silêncio.
- Hey, ruivinha, o que tem de errado? - ele perguntou, parecendo preocupado - Fiz alguma coisa que você não gostou?
- Não, eu só… Não sei. Foi estranho te ver conversando com o Brian, achei que você não gostasse deles também, mas parece adorá-los. E eu esse tempo todo falando tão mal deles pra você, fiquei sem graça.
- Eu realmente gosto muito deles, só odeio o . - respondeu - Mas eu entendo completamente seu sentimento, . Entendo tudo o que sente e não vou tentar mudar isso. Só você sabe o quão difícil é tudo isso para você e ninguém, nem mesmo eu, tem direito de questionar isso.
- Obrigada por entender. - falei, sorrindo em seguida
- Disponha! Estou aqui para isso. - redpondeu
Passamos mais alguns segundos nos encarando quando, subitamente, percebi que até aquele momento não sabia o motivo da briga de e . Franzi a testa, sem pensar por muito mais tempo, e joguei a pergunta sem rodeios.
- Qual foi o seu problema com o , afinal?
quase morreu engasgado com pedaço de frango que havia acabado de colocar na boca. Após alguns goles da água que havia ao seu lado e uns pigarros, ele voltou a falar, sem me encarar e com a voz exitante.
- Hm… Nós tivemos uma briga bem feia, por causa de uma...
- Garota? - completei, sorrindo
- É. - falou, baixinho, encarando a mesa envergonhado
- Tão clichê. - falei rindo um pouco. parecia muito sem graça. - Hey, , tudo bem. Se não se sentir à vontade para conversar sobre esse assunto, sem problemas!
- Não, imagina. Eu consigo falar disso numa boa. Só acho o motivo muito ridículo, mas não me afeta mais. - ele começou - Bom, eu conheço o e a família desde a infância. Meus pais são muito amigos da família, meu pai é muito próximo do Brian. Isso significa que foi meu amigo desde que eu era um bebê, praticamente. Mas isso nunca o impediu de ser um filho da puta, claro.
- O que ele fez?
- Bom, tinha uma garota, Brooke, por quem eu era apaixonado desde a pré escola. Quando entramos no ensino fundamental, eu comecei a namorá-la. Nós tínhamos uns 12 anos e claro que não era nada sério a princípio, mas foi se intensificando. Ficamos juntos até o início do oitavo ano, quando tínhamos entre 14 e 15 anos. Ela terminou comigo dizendo que me amava mas que queria outras coisas e essas baboseiras de sempre. Duas semanas depois, encontrei , meu melhor amigo, transando com ela no meu quarto.
- Wow.... - eu disse, sem saber como reagir àquilo. parecia realmente não se importar mais com a história e me encarava impassível.
- Aquele não era um dia qualquer. Eu tinha planejado tudo para que eu e Brooke voltássemos naquele dia e, bom, tinha planejado que a nossa primeira vez acontecesse. Fiz tudo para dar certo, coloquei flores, velas, tinha até feito uma música para ela. - fez uma pausa, parecendo um pouco indignado - O pior de tudo era que , meu melhor amigo, sabia de tudo isso. Ele me ajudou em cada detalhe e no final me apunhalou sem nenhum motivo.
- O que aconteceu depois? Por que ele também te odeia?
- Bom, eu não podia deixar barato. Era a minha honra ali, minha namorada, meu quarto e minha primeira vez! - agora ele parecia na defensiva. Arqueei as sobrancelhas e ele riu fraco, continuando - Eu armei para que fosse acusado de roubo e obriguei Brooke a me ajudar nessa.
- Meu Deus, ! - falei, tampando a boca em seguida. Que loucura!
- Ah, nem foi tão sério. Brooke não me ajudou tão bem assim. Eu disse que se ela não me ajudasse eu contaria tudo sobre ela e para os pais dela. Ela, então, me ajudou contrariada. Fez uma acusação anônima da cidade natal da família dela, o que impedia que me descobrissem - ria um pouco - Claro, envolveu a polícia, o ficou pelo menos uns seis meses sem poder fazer nada. É, valeu a pena!
- Os pais dele não te odeiam por isso? - perguntei
- Eles não acreditaram quando disse que eu armei. Ninguém acreditou. Depois o assunto morreu.
- É, esse foi um bom motivo para brigar, confesso. - falei - Mais um item para a lista "Motivo para odiar os ".
- Fico feliz que não me ache patético.
- Patético é ele, . Eu teria feito o mesmo se fosse você.

Terminamos de comer e o clima estava muito melhor. Saímos do Nando's por volta de 11:30PM e chegamos em frente a casa onde estava acontecendo a festa por volta de 00:00PM.
A festa estava lotada quando chegamos. Eu não conhecia uma alma viva ali, mas me senti bem. Eu amava ir à festas em Newcastle, embora nos meus últimos meses lá eu mal tenha saído de casa. Era bom me sentir livre de todo o meu passado, embora não estivesse exatamente no lugar onde eu queria e muito menos com as pessoas que eu queria. com toda certeza estava conseguindo compensar isso, também.
foi buscar algumas bebidas para a gente enquanto eu esperava por ele perto de uma árvore e voltou pouco tempo depois com alguns garotos que deveriam ser seus amigos.
- Hey, - disse - Esses são Liam e Coby.
- Oi, . - um dos garotos, Liam, disse - Finalmente te conhecendo! Se fosse depender do seu irmão jamais chegaríamos perto de você.
Espera aí, o que ele disse? Se fosse depender do ?
- Wow, espera aí. - falou, aparentemente entendendo minha cara de confusão - , Coby e Liam são melhores amigos do seu… Hm, do . E meus também.
Ok. O que?
- Ah, ela sabe da briguinha dos dois - foi Coby quem falou dessa vez - Oi, . Posso te chamar de ?
- Sem problemas. - respondi, encarando os três como se fossem alienígenas - Podem me explicar como é que isso é possível? odeia o , mas os melhores amigos do são os melhores amigos do . Isso não faz sentido.
- Ah, qual é, não temos nada a ver com essa briga e muito menos a obrigação de tomar parte de alguém. - Liam falou, parecendo meio bêbado. Ri do jeito que ele embolava as palavras - Quando eles brigaram nós éramos inseparáveis, andávamos sempre nós cinco: eu, Coby, Brad, e .
- Aí eles decidiram brigar por causa da Brooke. - Coby completou - Nós não temos nada a ver com isso, !
- Claro, tudo certo. Concordo com vocês. - respondi achando aquela situação muito cômica
- Mas chega de conversa! Vamos mostrar pra o que é uma festa da cidade grande! - disse, levantando sua cerveja para o alto em seguida
- Estou totalmente a favor da ideia!- respondi, me sentindo viva pela primeira vez em meses.

Foi extremamente divertido!
Liam, Coby e não paravam um segundo de contar histórias de anos de amizade. Eu ria tanto que já estava começando a sentir dor de barriga.
Liam decidiu em algum momento que era hora de interagir com mais pessoas, se levantou e começou a simplesmente berrar para os quatro cantos:
- Verdade ou desafio do álcool! Vem todo mundo!
E, impressionantemente, muita gente veio mesmo. Começamos a jogar o tal "verdade e desafio do álcool", cujo único objetivo era deixar todo mundo absolutamente bêbado. Cada vez que a garrafa de cerveja no meio do círculo que formamos rodava, a pessoa para quem o bico da garrafa apontava escolhia uma bebida para a pessoa para qual a base da garrafa estava apontada virasse uma bebida - vodka, whisky ou tequila. Após beber, a pessoa devia escolher entre verdade ou desafio. Todas as vezes que me perguntavam, eu escolhia desafio, visto que ninguém me conhecia e com certeza não queriam saber verdades sobre mim. Tive que dançar até o chão, dar um selinho em uma garota e jogar cerveja em uma pessoa completamente desconhecida que, de tão bêbada, comemorou quando sentiu a cerveja cair nela.
Quando eu estava completamente sem condições de continuar a brincadeira, praticamente me carregou para dentro da casa, para eu lavar o rosto e irmos embora. Ele havia bebido, mas muito pouco, já que teria que dirigir depois.
Andei meio cambaleante e com a ajuda de pela varanda da casa e entrei pela grande porta que dava acesso à sala. A casa estava ainda mais lotada que o quintal, tinha gente em todos os cantos.
Parei em frente a escada que dava acesso ao segundo andar enquanto abria caminho para passarmos. Quando virei a cabeça um pouco para o lado, eu o vi.
estava com uma garota semi-nua em seu colo, e me encarava profundamente. Eu podia jurar que naquele momento ele queria mais do que nunca me matar. Sorri para ele irônica e mandei um beijo no ar, enquanto voltava a andar, me arrastando com ele.
E então, tudo aconteceu muito rápido.
Em um momento eu estava andando lentamente com a mão quentinha do na minha. No segundo seguinte eu estava jogada no chão, com uma doida em cima de mim segurando com muita força no meu cabelo.
Eu não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo e muito menos de como reagir. Segurei com força os braços da doida, cravando minhas unhas neles e fazendo força para me levantar. Inutilmente, é claro.
As pessoas ao meu redor faziam cada vez mais barulho. Muitos gritavam "briga". Minha cabeça começou a girar e, por um momento, eu pensei que fosse desmaiar. Quando meus olhos estavam quase fechando e eu já não ouvia quase nenhum barulho, senti dois braços fortes me levantarem do chão e me pegarem no colo. Não resisti, apenas me encolhi, deduzindo que aqueles eram os braços de . Aninhei a cabeça em seu peito enquanto ele andava e se afastava cada vez mais do barulho, me colocando em uma superfície macia depois de um tempo.
Alguns minutos depois, eu estava um pouco mais consciente. Quer dizer, eu estava muito bêbada, mas não sentia mais tontura ou aquela sensação de desmaio. Abri os olhos e olhei para o lado, pronta para agradecer por ter me salvado daquela doida desconhecida. Porém, para minha surpresa, os olhos que me encaravam em uma expressão preocupada eram azuis e extremamente parecidos com os meus.
.
Ele estava perto demais quando eu abri meus olhos, tanto que eu podia ver até as mínimas sardas em seu rosto. Sua respiração batia em meu rosto enquanto a boca dele se movia . Ele estava falando comigo, mas eu não conseguia realmente entender. Apenas sorri para ele e encostei minha testa na sua, sentindo meus olhos pesarem.
- , não dorme, por favor! - a voz de soou longe, porém eu já podia entender - A maldita da Brooke bateu a sua cabeça no chão, preciso que fique acordada! Olha pra mim.
Fiz o que ele pediu, lutando para me manter acordada. Ele começou a se afastar lentamente e, por algum motivo, a minha eu bêbada queria muito pedir que ele continuasse perto. A sóbria, porém, só queria sair dali o quanto antes. No meio desse dilema, resolvi quebrar o silêncio. Mais uma má ideia, !
- Seus olhos - eu disse, minha voz soou baixa e enrolada, mas ouviu, já que passou a me encarar curiosamente - São exatamente iguais aos meus.
me encarou espantado, antes de rir levemente e se ajeitar no banco do motorista.
- Somos irmãos, baby. - ele disse, sorrindo para mim e ainda um pouco tombado para frente. Sorri de volta, sentindo meus olhos se fechando de novo.
- Você sabe que não somos irmãos, apesar de sermos, não é? - perguntei
- Sim, eu sei.
Foi a última coisa que eu ouvi antes de apagar.


Capítulo 6

’s P.O.V.

dormia profundamente no banco de carona do meu carro, com a cabeça apoiada no vidro. Eu tentei mantê-la acordada, mas foi completamente em vão. Após a estranha e inédita interação amigável que tivemos, ela simplesmente apagou.
Eu não sabia exatamente como estava me sentindo naquele momento e tentava a todo custo não pensar nisso, uma vez que precisava me concentrar em não bater o carro e terminar a noite com chave de ouro. É, eu não estava tão sóbrio assim.
De qualquer forma, apesar de estar irritado, eu estava feliz. Pouco antes de sair carregando da festa, fiz questão de dar um soco com toda a vontade reprimida há anos na cara de . Ele não chegou a revidar porque segundos depois eu já estava com ela em meu colo, saindo dali às pressas.
resmungou alguma coisa indecifrável durante todo o caminho até o carro, mas não imaginei que ela fosse acordar, me reconhecer e agir quase carinhosamente comigo. Aquilo ainda era novidade e eu estava abismado. E um tanto quanto encantado também, embora eu odeie admitir.
Chegamos em casa e ainda não havia dado sinal de vida, de forma que eu tive que voltar a carregá-la para dentro. Como eu já disse, eu não estava tão sóbrio assim, então subir as escadas para levá-la até o quarto foi um desafio até maior do que eu planejei.
Quando chegamos ao quarto dela, eu sabia que não poderia deixá-la simplesmente lá, desacordada e sem saber se ela de fato estava bem. precisava de um banho gelado e alguns remédios que fariam com que ela não tivesse uma dor de cabeça tão forte no dia seguinte. Ela não acordaria tão cedo sem antes tomar um banho gelado, eu sabia disso. Mas não é como se eu simplesmente pudesse tirar a roupa dela pra dar um banho. Ela era a minha irmã. O quão estranho isso seria, pelo amor de Deus? Desci para a cozinha para tomar um copo d'água e pegar alguns remédios que precisaria - se, e somente se, eu conseguisse acordá-la. Quase morri de susto ao encontrar minha mãe na cozinha.
- ! Você quase me matou do coração, garoto. - minha mãe falou, com a mão no peito. Seria engraçado se eu não tivesse me assustado tanto quanto ela.
- O que você está fazendo aqui? - perguntei
- Vim tomar um copo d'água, não sabia que você estava em casa. Você e foram na mesma festa, certo?
E foi aí que eu tive minha ideia genial! Eu pediria para minha mãe dar o banho em e me ajudar a esconder do meu pai o que havia acontecido na festa. Ela com certeza entenderia!
- Então, mãe, sobre
- Nem me fale nada sobre a , . - minha mãe falou, parecendo irritada - Hannah está arrasada por causa dela, você acredita? Eu pensei que ela não chatearia pelo menos a Hannah, mas me enganei.
- O que ela fez? - falei, surpreso. Hannah e vinham se dando muito bem.
- Ela foi rude, eu acho. - minha mãe disse - Eu entendo o que ela está passando, sei que muito provavelmente ela não fez por mal. Mas você deveria ver como a Hannah ficou, não posso ignorar isso, sou mãe acima de psicóloga. Prefiro evitar ter algum contato com ela agora, não quero estragar ainda mais as coisas.
Bom, sem chance de pedir ajuda para a minha mãe. Até eu tinha perdido grande parte da vontade de ajudar depois de saber que ela havia magoado Hannah.
Minha mãe saiu da cozinha, murmurando um "boa noite" e subindo para o quarto. Peguei uma garrafa de água gelada e alguns remédios para dor de cabeça que ficavam em cima da geladeira, subindo para o quarto de em seguida.
ainda não havia dado um único sinal de vida quando cheguei até o quarto dela, e eu decidi que ela teria que esperar até de manhã para tomar um banho e se virar com a ressaca. Os remédios e a água já estavam la e ela estava segura. Minha parte eu fiz.
Fui para o meu quarto esperando ter uma longa e silenciosa noite de sono, fechei as cortinas para impedir que a luz do dia que já estava por chegar me cegasse e, finalmente, deitei.

Acordei com a minha mãe me chacoalhando insistentemente e sem nenhuma delicadeza.
- ! Pelo amor de Deus, você está dormindo, hibernando ou morrendo? - ela falou, em um volume alto demais para o bem da minha dor de cabeça - Vamos, temos que ir até a casa de sua avó, hoje é aniversário dela. A festa começa às 2PM, temos que sair daqui no máximo 11PM.
- Mãe, que horas são? - falei, sem ter a mínima coragem de abrir os olhos.
- São 10 da manhã. Já passou da hora de acordar. - ela falou, se dirigindo para a porta em seguida - Se eu voltar aqui e você não estiver acordado, vou colocar os seus pedacinhos no porta malas.
Delicada como uma flor.

Levantei uns dez minutos depois da minha mãe sair do quarto e fui tomar um banho gelado para despertar e tentar levar aquela dor de cabeça para longe. Eu tinha bebido pouco na noite passada, então a dor de cabeça tinha muito mais a ver com a falta de sono do que com o álcool.
Apesar de querer dormir por pelo menos mais 6 horas, estava feliz por estar indo visitar minha avó. Minha avó era a melhor pessoa do mundo, em seus 70 anos continuava a mesma pessoa que conheci desde que eu nasci. Na minha infância, antes do meu pai casar-se com a minha mãe e se mudar para Londres, eu morei na casa dela junto com a minha mãe. Morávamos em Painswick, uma cidadezinha no interior da Inglaterra que fica cerca de 3 horas de distância de Londres. Quando fomos embora, dez anos antes, vovó continuou na casa em que morou com vovô e criou minha mãe e suas duas irmãs. Uma das irmãs de minha mãe se afastou completamente da família por algum motivo desconhecido, a outra, porém, era extremamente próxima e presente em nossas vidas e na vida de minha avó. Minha mãe insistiu para que a vovó fosse embora conosco para Londres, assim como minha tia quis levá-la para morar com ela, mas ela se negou a deixar a tão adorada casinha em Painswick. Meu avô morreu quando eu tinha apenas 3 anos, portanto ela ficou absolutamente sozinha. Vamos visitá-la com certa frequência, mas ainda me sinto culpado por não poder estar presente.
Quando eu saí do quarto, já estavam todos na sala. Hannah parecia especialmente animada para quem tinha tido uma briga com a irmã favorita. Minha mãe parecia bem, não estava irritada como na noite anterior. Meu pai parecia estar mais feliz do que nunca, com um sorriso de orelha a orelha. Aquilo só podia ter a ver com…
- ! - Hannah disse, olhando para trás de mim. Imaginei que estaria destruída pela noite anterior, mas nem me dei o trabalho de olhar para trás. Não sei o quão constrangedor aquilo acabaria sendo. - Você vai mesmo! Vai ser tão, tão, tão legal! A vovó vai te adorar.
- Com certeza! - minha mãe falou, parecendo genuinamente feliz. Hannah parecia ter herdado dela a incapacidade de guardar rancor. - Hannah, porque não vai com seu pai até o carro para organizar os últimos detalhes?
- Claro, mamãe! Encontro vocês la.
Assim que Hannah saiu, minha mãe foi ao encontro de , e só então eu me virei para olhar para ela. E, não, ela não estava nem perto de estar destruída. estava vestindo uma camiseta que parecia um vestido de tão longa, meias pretas que cobriam toda a perna, uma bota preta e óculos presos no alto de sua cabeça. O cabelo estava molhado, completamente simples e sem maquiagem. E ela, ainda assim, era uma das pessoas mais bonitas que eu já tinha visto na vida.
- - mamãe começou a falar, assim que meu pai e Hannah saíram da sala - Muito obrigada por rever a situação toda. É muito importante para Hannah.
- Eu sei. - falou, seca - Em nenhum momento tive a intenção de machucá-la, ela é a única aqui que não merece. Estou indo porque sei que cometi um erro com ela, mas é bem importante vocês saberem que isso não é uma viagem em família pra mim. Vocês não são minha família.
E depois de soltar isso, ela simplesmente colocou o óculos no rosto e saiu da sala, deixando minha mãe sem reação.
Que garota insuportável, meu Deus!
- Fico muito, muito feliz por seu pai não estar aqui para ouvir isso. - mamãe disse, parecendo cansada - Ele está muito feliz por ela ter decidido ir. Ela é extremamente sincera, por mais rude que esteja sendo.
- Como assim? - perguntei
- Ela não nos vê como família, ela detesta cada um de nós, isso não é birra. É real. O que torna tudo muito mais complicado.
- Você acha que ela fala essas coisas para machucar?
- Sim, mas não por prazer em machucar. - mamãe disse, e eu fiquei confuso. Ao perceber minha cara, minha mãe completou - Ela quer nos machucar, não porque gosta disso, mas porque quer ir embora. É inconsciente, mas ela quer nos machucar para percebermos que ela está machucada e deixarmos que ela vá.
- Mãe, se sabemos que ela está machucada de verdade, por que não deixamos que ela vá?
- É… Complicado, . Temos que ir agora, outra hora eu explico.
Saímos da sala juntos, encontrando todos já dentro do carro. Minha mãe entrou no banco do passageiro na frente, estava sentada no banco de trás, na janela e Hannah estava no meio, o que me fez ficar do outro lado da janela na parte de trás no carro.
Menos de meia hora depois que entramos no carro, Hannah já estava dormindo. permaneceu impassível, de óculos escuros e com o rosto virado para a janela. Quando estávamos chegando na cidade, meu pai resolveu abastecer o carro e minha mãe aproveitou para ir ao banheiro, deixando eu, Hannah e no carro. Estava um silêncio insuportável no carro, até que, por uma intervenção divina, resolveu quebrá-lo.
- Não me lembro da noite de ontem com tanta clareza - ela começou incerta, falando baixo - Mas sei que você me ajudou. Então obrigada.
- Hm… - comecei, sem saber exatamente como reagir. Eu não estava preparado para falar com ela, e muito menos esperava que ela fosse falar comigo. Me esforcei para parecer normal ao responder - Não fiz nada demais. Tudo certo.
- De qualquer maneira, você não tinha a obrigação de me ajudar.
- Bom, além de eu ter sim a obrigação de ajudar, você é minha irmã - falei, fazendo revirar os olhos - A briga foi um pouco minha culpa.
- Como assim?
- Hm, digamos que a pessoa que te atacou tem uma certa… Quedinha por mim.
- Deixe-me adivinhar, Booke? - perguntou, rindo fraco. Apenas balancei a cabeça, ela já deveria saber um pouco da história. não perderia essa oportunidade por nada. - Não acredito que perdi a oportunidade de guardar o rosto dela, deve ter sido hilário.
- Ela deve estar planejando maneiras de fazer da sua vida inferno, se eu fosse você me prepararia. Brooke pode ser uma vadia quando ela quer. E, acredite, ela sempre quer.
- Aquela cena toda foi porque eu estava olhando para você ou porque eu estava com ?
- Não sei, talvez um pouco dos dois. Brooke ainda acha que tem algum controle nessa situação insana. Ela vê como ameaça qualquer pessoa que se aproxima de um de nós dois, por mais ridículo que isso seja. Chega ser engraçado, eu confesso.
- Você não tem nenhuma ideia do porquê?
- É, eu acho que toda a polêmica da nossa briga acabou dando para ela algum tipo de popularidade doentia. Brooke não se importa se isso é positivo ou não.
- Bom, as pessoas te conhecem como um galinha que traiu o próprio melhor amigo e isso não te afeta. Você deveria entender um pouco melhor a Brooke. Vocês têm bastante em comum, na verdade.
Ah, não. Ela ia voltar a ser a mesma nojenta de antes.
- Você sofre de algum problema mental, garota? - perguntei - Até dois segundos atrás você estava conversando como uma pessoa normal e agora resolve voltar a me atacar. Do nada.
- Eu não estou te atacando, . - falou - Não tenho culpa se a verdade dói.
- Que verdade? A sua? - falei, sentindo meu corpo ferver de raiva - Você só se preocupa em saber um lado da história: o que te interessa. Aquele que te dá um motivo para alimentar sua raivinha de adolescente mimada. Faça-me o favor, garota. Quem você pensa que é pra chegar na minha vida, na minha família, e achar que todas as suas verdades são absolutas? Eu não to nem aí pro que você acha. Cresce!
chegou a abrir a boca para responder, mas Hannah se mexeu em seu colo, fazendo com que ela se calasse. Minha respiração acelerada pela raiva foi o único som no carro durante os próximos minutos, o que acabou não sendo tão ruim.
Eu e nunca seríamos próximos, aquilo era impossível. Me senti um pouco mais aliviado por chegar a essa conclusão, afinal ela tirava um peso das minhas costas. Aquele que eu mesmo coloquei la, confesso, mas que vinha me tirando do trilho. Eu não tinha porque tentar aproximar de mim e nem de ninguém. Ela não queria se aproximar, estava claro. E, apesar de eu saber que era melhor nem tentar mais, isso me desapontou bastante. Apesar de todo aquele drama, eu queria me aproximar. Mesmo sem entender o porquê.
Quando meu pai e minha mãe voltaram para o carro, o clima já estava mais ameno. tinha voltado a olhar para o nada pela janela e eu estava ouvindo uma música qualquer no celular. Permanecemos assim até chegarmos na casa de minha avó.
Quando chegamos, a casa ainda estava vazia. Eu adorava a casa de minha avó, toda iluminada e branca, com aquele toque de infância. Ouvi algumas vozes ao entrar na sala de estar, encontrando minha avó e minha tia conversando animadamente.
- , querido! - minha avó disse ao me ver. Sorri para ela e segui até o sofá, sentando ao seu lado e a abraçando - Que saudade. Como você está grande, meu filho.
- Saudade também, vó! Teremos tempo para matar toda a saudade neste final de semana. - falei - A propósito, feliz aniversário! A senhora está cada dia mais linda.
- Oh, meu querido, são seus olhos! - ela disse, me abraçando forte de lado.
- Oi tia Lizzie - falei, olhando para minha tia pela primeira vez. Ela era muito parecida com minha mãe. Ambas puxaram minha avó, que foi extremamente ruiva antes de ter seus cabelos esbranquiçados pela idade - Como você está? Que saudade.
- Estou bem, . Você está cada vez mais bonito! Onde estão seus pais? E suas irmãs?
- Meu pai e minha mãe levaram Hannah para o andar de cima. Ela está dormindo, mas deve acordar logo - respondi
- Hm, e… , onde está?
Ah, sim. Entendi a pergunta.
- Não sei. Talvez esteja cortando os pulsos por aí… - falei brincando. Minha tia e minha avó me olharam assustadas - Hey, calma gente, é só brincadeira. Ela ficou la fora.
- Está muito difícil lidar com ela? - minha tia perguntou, parecendo preocupada.
- É, ela não está nem um pouco a fim de fazer parte da família. A única pessoa com quem ela tem um contato dentro de casa é a Hannah.
- Ela aparenta ser muito parecida com a mãe. - minha avó disse.
- Como assim? - perguntei, me assustando com o comentário - Você conhece a mãe da ?
- Não. - vovó respondeu rapidamente - Sua mãe já nos falou muito sobre o relacionamento conturbado entre a mãe de e seu pai, . Pelo que entendemos, a mãe de não é nada fácil.
- E ela muito menos, vó. Acredite. - falei, respirando fundo e me afundando no sofá
- Como ela aceitou vir com vocês? - tia Lizzie perguntou
- Hannah a convenceu. Elas tiveram algum desentendimento e, para se desculpar com Hannah, aceitou vir conosco.
- Fico feliz que ao menos Hannah faça com que ela fique ligada a nós de alguma forma.
- Não se anime tanto. Ela nos odeia. Deixou bem claro isso aos quatro cantos! Estar aqui nem é uma coisa boa de verdade, acho que isso só faz ela se sentir ainda mais irritada.
- Oh, coitadinha, ! Ela deve estar se sentindo tão deslocada… - minha tia disse, enquanto minha vó acenava e olhava de um jeito triste para nós.
Preferi não responder. Todas as mulheres daquela família eram exatamente iguais a minha mãe. Ninguém entenderia que na verdade a era uma garotinha mimada que se negava a crescer. Para todas elas, ela sempre seria uma vítima. Para mim, as vítimas éramos nós, por termos que aguentar uma pessoa tão insuportável.
Algumas horas se passaram desde que chegamos na casa de minha avó. Logo toda a minha família materna chegou ao local e alguns familiares de meu pai também chegaram. Meus avós paternos iriam nos visitar em Londres no final de semana seguinte, portanto eles não foram à festa.
se manteve afastada durante todo o tempo. Nem mesmo Hannah esteve com ela durante a tarde, já que esteve ocupada brincando com as inúmeras crianças da família. Meu pai parecia extremamente magoado com toda a situação e minha mãe mais ainda. A resistência de era tão forte que nem mesmo minha avó teve coragem de se aproximar dela. Procurei não pensar na situação e muito menos interferir, mas confesso que minha vontade era de chacoalhar a garota para ver se aquela birra infantil passava.
Meu pensamento só se viu livre do problema quando eu ouvi uma voz que sempre me tirava do trilho: Jane. Minha prima, filha da minha tia Lizzie. Minha melhor amiga e amor de infância.
Esperei que ela viesse até mim, com seu costumeiro sorriso malicioso e olhar brincalhão. A criança que eu conhecia desde que nasci, e a adulta que eu adorava visitar desde que comecei a crescer. Jane era um ano mais velha que eu. Seu cabelo preto e curto batia no começo do pescoço, seus olhos eram verdes e seus dois dentes da frente eram levemente tortos, o que dava a ela um eterno tom infantil. Ela era muito mais baixa que eu e tinha o corpo magro… O corpo que eu conhecia melhor que o meu. Conhecia sua tatuagem de cruz no pescoço, que estava a vista, e também aquela no interior da coxa. Dois pássaros que voavam perigosamente perto de sua virilha.
Jane.
Sorri para ela e a abracei assim que ela chegou até mim, mordendo de leve seu pescoço. Ela riu um pouco por conta das cócegas que eu sabia que ela sentia ali e me olhou enfezada, me fazendo sorrir.
- Hey pirralho, que saudade de você! Achei que tinha esquecido da família - ela disse sorrindo sacana.
- Falou a idosa, né? - falei, abraçando-a novamente em seguida - Como esquecer dessa família maravilhosa, Jane? Em especial, como esquecer de você?
- Soube que tem uma garota nova na área, achei que ela tivesse tirado meu lugar.
- Ela é minha irmã, Jane, pelo amor de Deus! - forcei uma cara de nojo e me senti estranho por precisar fingir. Aquilo era nojento, não era?
- Ah, não sei, você tem uma certa queda por familiares. - Jane respondeu parecendo não perceber minha breve confusão. Forcei uma risada novamente, me sentindo extremamente desconfortável - Qual foi, ? É só brincadeira, eu sei que você não quer pegar sua irmã.
Alguém cala a boca da Jane, por favor!
-Tem outra pessoa que eu quero pegar… - falei, tentando fugir do assunto - E, bom, ela é meio que da família.
- É mesmo? - disse Jane, sorrindo e se aproximando perigosamente - Vamos ver se você merece, priminho.
Ela me deu um beijo na bochecha e se afastou em seguida, sorrindo para mim. Balancei a cabeça em negação, rindo de leve. Eu adorava aquela garota.

O resto do sábado foi ótimo. Eu amava estar com a minha família, e todos que eram importantes pra mim estavam ali. Durante toda a tarde nós relembramos as histórias de minha infância, ouvimos histórias de minha avó e falamos sobre meu avô. Com todos os altos e baixos, sempre tínhamos uns aos outros, sempre tínhamos aquele lar. Aquilo me fazia sentir a pessoa mais sortuda do mundo.
Jane e eu combinamos de “assistir filmes” de noite no quarto que ainda era meu. dormiria no quarto que antes era de Jane, então todos concordaram que ela deveria dormir comigo. Era tudo tão normal e inocente para eles que às vezes eu me sentia mal pelo que fazíamos quando estávamos sozinhos… Só às vezes mesmo. Quando todos já tinham ido dormir, eu e Jane fomos até a cozinha pegar algo para comer enquanto assistimos alguma coisa. Já havíamos conversado sobre todas as novidades, falado sobre o passado e, em resumo, matado a saudade. Eu gostava demais de Jane e da sua companhia sempre leve, mas havia algo estranho no nosso encontro, que em todas as vezes anteriores foi tão fantástico. Eu sabia que parte daquela mudança veio de mim, mesmo sem saber explicar o porquê, mas ainda assim Jane também estava diferente. Parecendo ler minha mente, Jane tocou no assunto, soando desconfortável.
- , - ela começou - tem alguma coisa errada? Você está… Diferente.
- Só estou um pouco cansado. Os últimos dias têm sido difíceis.
- está te deixando louco? - perguntou Jane, em um tom sugestivo. Apenas a encarei com um olhar de confusão, embora soubesse que ela com toda certeza já havia percebido a situação conflituosa que eu e minha irmã estávamos passando. Sempre tivemos essa ligação meio maluca. - Não quer me dizer o que há de errado? Percebi a forma como você a olhou o dia todo e também a forma como ela te evitou o dia todo.
- Ela é muito difícil, Jane. Já chegou arrumando confusão, brigando com meus pais e fazendo uma pirraça digna de uma criança de três anos. Ela se nega a entender que o mundo não gira ao redor dela. - falei, bufando em seguida e me sentindo aliviado por finalmente poder falar o que eu pensei desde que minha irmã chegou em minha casa. - Além de tudo que ela vem fazendo em casa pra infernizar minha família, você acredita que ela resolveu virar amiguinha do ? Logo ele, Jane, me diz se não é pra irritar.
- Não acredito. O mesmo com quem você brigou anos atrás? - perguntou Jane, rindo levemente. Acenei com a cabeça.
Ontem ela se superou com essa palhaçada - continuei - Foi a uma festa com o , encheu a cara com ele e com uma galera que ela mal conhecia e ainda se meteu numa briga. Eu, imbecil, ajudei ela e a levei pra casa. E sabe como ela me agradeceu hoje? Me ofendendo, é claro.
- Calma , fica tranquilo. - Jane disse, se aproximando de mim - Logo ela vai superar esse ódio.
- Eu espero que ela não supere e que consiga o que quer: ir embora. Ela está convicta de que não precisa da minha família, mas, com toda a certeza, minha família não precisa dela.
Jane sorriu e já estava pronta para falar algo quando ouvimos um barulho vindo da sala.
- É melhor subirmos. Estou com saudade de você. - disse ela, por fim, antes de subir rapidamente para o quarto, sorrindo e me instigando a segui-la. Apenas balancei a cabeça e subi atrás dela, tendo a maravilhosa sensação de que eu realmente estava em casa.


Capítulo 7

's P.O.V.

Aquilo só podia ser algum tipo de castigo.
Não importava o quanto eu me concentrasse em ignorar toda a situação, estar no meio de todas aquelas pessoas era algo que, de longe, superava todas as situações ruins pelas quais eu passei até aquele momento na casa de Brian.
Acordei na manhã de sábado tendo certeza de que minha dignidade tinha ficado na festa da noite anterior. Em meu celular havia pelo menos 30 chamadas perdidas de , que me ligou durante toda a madrugada. É claro que não consegui atendê-lo, já que estava muito longe da sobriedade, mas eu não o atenderia nem se pudesse. Não estava brava com ele, longe disso, mas simplesmente não conseguia acreditar no meu vexame.
Meu problema sempre foi ser uma bêbada com uma memória intacta. Eu sempre me lembrava de absolutamente todas as merdas que eu fazia enquanto estava bêbada, mesmo quando o melhor seria esquecer. E, acreditem, eu queria muito esquecer meu momento amigável no carro com o , apenas para calar aquela pergunta: o que diabos foi aquilo? A bêbada, já completamente adormecida novamente, também sabia que era errado, apesar de não ligar. A sóbria, por sua vez, repudiava com todas as forças aqueles minutos de trégua. Eu tinha que sair dali, daquela casa, não criar histórias dentro dela. Interagir com estava longe de ser a coisa ideal a ser feita.
Para minha tristeza, além de ser uma bêbada comicamente consciente, eu era uma sóbria com um alto nível de insônia - ou retardo, chamem como preferirem. O fato é que, mesmo com uma dor de cabeça insuportável, eu já estava de pé às 8AM no sábado. Eu não me lembrava de ter chegado até o quarto, mas deduzi que me carregou até lá. Felizmente, pro bem da minha sanidade mental, eu ainda estava com as minhas roupas da festa - apenas o sapato foi retirado do meu pé e se encontrava no chão, ao lado da cama.
Só sentar na cama já foi um desafio, mas lidar com o gosto da minha boca foi a pior parte, sinceramente. Me levantei meio cambaleante e fui até o banheiro, sentindo a necessidade de escovar os dentes. Assim que voltei, percebi que havia ao lado da minha cama uma cartela com comprimidos para dor de cabeça e um copo d'água. "" deduzi novamente. Tomei dois comprimidos de uma vez e senti que aquela água não foi suficiente. Minha boca parecia um deserto de tão seca.
Desci as escadas, indo em direção à cozinha para tomar um - ou cinco - copo d'água. Para minha surpresa, eu não era a única acordada àquela hora na casa: Angelina e Hannah também estavam lá. Assim que entrei, quis dar meia volta e fingir que não tinha estado lá. Minha situação estava deplorável e eu havia brigado com Hannah, havia momento pior para encontrá-la? No entanto, assim que olhei para ela, desisti daquela ideia estúpida. Ela me encarava com uma cara de mágoa tão genuína e inocente, que eu me senti a pior pessoa do mundo por descontar nela o que outras pessoas haviam feito. Pensando nisso, sorri para ela e fui em sua direção, chegando bem perto.
- Oi, ruivinha, bom dia. - comecei. Hannah não respondeu - Sei que deve estar muito chateada comigo, por isso queria te pedir desculpa. Eu não quis gritar com você, estava apenas um pouco irritada, mas não falei sério sobre nada.
Hannah continuou sem falar nada, embora seu rosto demonstrasse que ela estava entendendo.
- Tenho uma ideia! - falei, respirando fundo em seguida - Que tal se eu for com você para a festa da sua avó hoje?
- Sério? - ela respondeu, sorrindo abertamente para mim - Achei que você não gostasse da minha vovó.
- Eu não conheço sua vovó Hannah, mas se ela for tão legal quanto você eu quero muito conhecê-la. Durante toda a conversa, Angel esteve no canto da cozinha, nos olhando sem interromper. Eu sentia seus olhos em mim, mas escolhi focar apenas em Hannah.
- Tenho certeza de que você vai amá-la! - Hannah disse, batendo palminhas animadas. Eu apenas sorri, torcendo para que aquela não fosse uma má ideia.

Péssima. Péssima ideia, .
Eu não acreditava naquilo. Sério, a bebida deve ter afetado muito minha consciência para que eu fizesse uma proposta daquela à Hannah.
Após nossa conversa na cozinha, eu tomei uma garrafa inteira de água, comi duas torradas e subi para o quarto para tomar banho e me arrumar. Saímos de casa por volta de 11AM, e chegamos na casa da mãe de Angelina 14PM. Nesse meio tempo, me limitei a ouvir as histórias da família feliz, enquanto Hannah dormia no meu colo. Quando Brian e Angelina resolveram parar em um posto de gasolina, deixando a mim, e Hannah sozinhos, algo começou a me incomodar. Apesar de eu odiar , ele havia me ajudado na noite anterior, cuidando de mim com muito respeito e, inclusive, mantendo tudo fora dos ouvidos hipócritas do Brian. Pensando nisso, iniciei uma conversa, o agradecendo pelo favor que me fez na noite anterior. Minha intenção, inicialmente, era apenas agradecer e depois voltar a ficar em um silêncio eterno, mas nossa conversa evoluiu. Logo estávamos falando do motivo pelo qual aquela cena havia acontecido. Perguntei a ele porque Brooke simplesmente continuava com aquele jogo ridículo, recebendo uma resposta em um tom divertido.
- Eu acho que toda a polêmica da nossa briga acabou dando para ela algum tipo de popularidade doentia. Brooke não se importa se isso é positivo ou não.
Eu estava prestes a respondê-lo de maneira bem humorada, dando continuidade àquele assunto, quando, de uma forma estranha, comecei a perceber que estávamos muito à vontade juntos. e eu não conversávamos. Aquilo que aconteceu na noite anterior jamais mudaria isso. Não poderia mudar. Em vez do tom bem humorado com o qual eu responderia inicialmente, a raiva originada do pavor que aquela aproximação me causava foi a responsável pelas palavras que dirigi a ele a seguir.
- Bom - comecei - as pessoas te conhecem como um galinha que traiu o próprio melhor amigo e isso não te afeta. Você deveria entender um pouco melhor a Brooke. Vocês têm bastante em comum, na verdade.
parecia ter levado um soco no estômago e, por um segundo, me senti mal pela forma como o respondi. Sua resposta, porém, foi raivosa o suficiente para que eu sentisse que estávamos quites.
- Você sofre de algum problema mental, garota? - ele disse - Até dois segundos atrás você estava conversando como uma pessoa normal e agora resolve voltar a me atacar. Do nada.
- Eu não estou te atacando, . - respondi, engolindo em seco e tentando passar uma segurança que na verdade eu não sentia - Não tenho culpa se a verdade dói.
- Que verdade? A sua? - falou, me encarando como se eu fosse a pior pessoa do mundo - Você só se preocupa em saber um lado da história: o que te interessa. Aquele que te dá um motivo para alimentar sua raivinha de adolescente mimada. Faça-me o favor, garota. Quem você pensa que é pra chegar na minha vida, na minha família, e achar que todas as suas verdades são absolutas? Eu não tô nem aí pro que você acha. Cresce!
Hannah se mexeu em meu colo quando eu estava prestes a respondê-lo e eu agradeci aos céus por isso. Eu não sabia o que responder.
Durante todo o restante do caminho, pensei no que disse e, no final, me odiei por isso. Eu estava tentando me distanciar de qualquer membro daquela família, qualquer sentimento próximo a ela. No entanto, me vi entendendo o ponto do : aquela era a família dele, nada do que eu fizesse, falasse, sentisse, mudaria o fato de que ele os amava. Eu, afinal, era a intrusa por ali. Brian não era mais minha família, não havia mais a minha família. Me manter distante de seria importante, sim, porque me fazia mal saber que foi por ele que fui trocada; foi por ele que Brian aceitou destruir nossa família.
Por outro lado, era uma pessoa egoísta. Qualquer um na situação privilegiada dele se demonstraria mais empático àquilo que eu estava passando. Ele, porém, apenas olhava para mim como uma pessoa sem nenhum motivo para reclamar. O que é ser abandonada por dez anos? O que é ter sua família destruída? O que é crescer sem pai?
No final, minha verdade não era a única que eu conhecia, mas sim a única que eu poderia entender. A única que vivi.

não me faria questionar isso.

Chegar na casa da mãe de Angelina, não melhorou a situação deplorável na qual se encontrava meu humor. Se antes eu estava aguentando a família feliz versão reduzida, aquele era o ambiente onde todos eles se encontravam para atuar a família feliz versão completa. Eu tinha esperança de que fosse ser uma festa pequena, com 10 pessoas no máximo, mas ao longo do dia pelo menos umas 70 pessoas passaram por lá.
Hannah chegou dormindo na casa, mas mesmo após acordar ela não passou mais do que cinco minutos comigo. Logo encontrou outras crianças e ficou o dia todo correndo de um lado para o outro - o que me fez ter ainda mais certeza de que aquela ideia foi idiota. Eu poderia ter me reconciliado com ela em qualquer outro momento, mas tive que fazer aquela proposta sem nenhum cabimento. Fiquei durante todo o dia escondida em um canto atrás do jardim da casa, onde havia apenas uma poltrona desconfortável. Algumas pessoas vieram falar comigo durante o dia mas, após algum tempo agindo como uma estátua, todas desistiram e me deixaram em paz. O pior de toda aquela situação era o fato de eu estar com muita fome, mas não poder ir até nenhum lugar pegar comida, já que esbarraria em um número gigantesco de pessoas.
Quando a festa já estava acabando, lá pelas 7PM, Brian me encontrou sentada na poltrona e ficou me encarando por uns 3 minutos antes de começar a falar.
- Não acredito que você passou o dia todo aqui. - ele falou, em um tom cansado. Apenas arqueei as sobrancelhas, esperando que ele terminasse de falar rápido. - Você sabe que não precisa ser assim . Não estou pedindo para que ame mais a nós do que sua mãe. Isso não faz bem para você.
- Então me deixe ir embora. - falei, simplesmente.
- Não posso. - Brian respondeu
Ficamos em silêncio mais algum tempo, apenas nos encarando, até Brian voltar a quebrar o silêncio.
- Só queria te avisar que o quarto no qual você vai dormir é o primeiro a esquerda, subindo a escada que fica na sala. Ah, e na hora que quiser comer, pode ir na cozinha. Guardamos algumas coisas pra você.
Assim que Brian saiu eu me levantei para ir para o quarto. Eu estava realmente com muita fome, mas quando passei pela cozinha vi que haviam algumas pessoas por lá, por isso decidi subir e voltar mais tarde. Entrei no quarto indicado por Brian e fiquei extremamente feliz quando percebi que não havia senha no wi fi naquela parte da casa. Enviei uma mensagem para e, em seguida, ela me ligou por Skype.
- Oi amiga!
- Oi ! - respondi - Como você está? Tentei te ligar o dia todo.
- Estou cansada. - disse, se espreguiçando em seguida - Hoje eu tive que cuidar de algumas… Coisas com meus pais.
- Que coisas? - perguntei, arqueando as sobrancelhas. estava muito, muito, misteriosa para o meu gosto.
- Nada demais, apenas coisas - ela disse, rindo em seguida - Agora me diz, que quarto é esse aí? Não é o seu. Vai me dizer que dormiu na casa do e está aí até agora após a festa? Aliás, eu quero saber tudo sobre a festa.
- Nossa, nem me fale sobre essa festa. Muito menos sobre . Ou . Ou sobre mim.
- O que aconteceu, ?
- Não me chama de - respondi, recebendo uma risada irônica de - De maneira geral, eu dei um vexame na festa, fui atacada por uma louca e saí carregada por da festa. Agora estou na casa da mãe da mulher do Brian, trancada em um quarto e sem comer desde 8AM.
- Meu Deus, ! - falou, frisando meu apelido. Revirei o olho enquanto ela continuava - O que aconteceu na festa?
- Eu bebi muito em uma brincadeira estúpida e fiz várias coisas imbecis, como, por exemplo, beijar uma menina. Ok, foi um selinho, mas eu beijei uma menina desconhecida. - fiz uma pausa, encarando uma que claramente segurava uma risada. Ignorei-a, continuando a falar - Quando eu já estava muito bêbada e sem nenhuma condição de continuar, me levou para lavar o rosto e depois irmos embora. Só que, enquanto andávamos até o banheiro, uma menina simplesmente me atacou e eu tive que ser carregada para fora da festa.
- Mas por que ela te atacou? Você a conhecia? - perguntou
- Essa é uma história a parte. - respondi - O nome da menina é Brooke, e ela é obcecada pelo e pelo . Aparentemente, ela viu comigo enquanto olhava na minha direção e surtou. Ela se jogou em cima de mim e agarrou meu cabelo, do nada, no meio da festa.
- Meu Deus! E você não fez nada? - disse, em meio à risadas. Que bela amiga eu tinha.
- Como eu poderia? Eu estava muito bêbada, muito mesmo. - falei - E a pior parte foi que me carregou para o carro e para casa, e não o . Ele não teve muito tempo, pelo que entendi. interveio mais rápido.
estava rindo muito da minha cara para responder qualquer coisa sobre a minha trágica história. Apenas esperei que ela terminasse, começando a ficar nervosa com a sua reação. Qual é? Eu estava falando sério. O assunto era sério, de verdade.
Depois de algum tempo e muitas lágrimas de , ela percebeu que eu não estava achando nenhuma graça no assunto. Somente após isso ela me respondeu, agora mais contida.
- O que mais aconteceu para você estar tão temperamental? - ela perguntou, me encarando com um meio sorriso no rosto.
- O fato de eu ter saído carregada de uma festa pela pessoa que mais vem me infernizando nos últimos tempos não é suficiente? - perguntei, encarando a parede à minha frente.
- Claro que não - respondeu - , você está completamente afetada, eu te conheço. Sei que não levaria um “vexame” tão a sério. Além disso, não vem te infernizando, você que se sente incrivelmente incomodada com ele. Não estou tomando nenhum partido, , mas até mesmo você pode ver que existem dois lados nessa história e nenhum dos dois está completamente certo ou errado. Agora, vai, me diz, o que mais aconteceu?
Ok. Agora ela estava me insultando.
- Você está do lado de quem ? - perguntei indignada.
- , apenas fale. - disse incisiva, cruzando os braços em seguida.
Encarei por um longo tempo, refletindo sobre o que eu teria para contar pra ela. Duas coisas me incomodavam: o fato de, subitamente, eu ter percebido que realmente não vinha me 'infernizando' e o fato de, mesmo assim, ele ser a pessoa que mais me tirava dos eixos nas últimas semanas. E, particularmente, nas últimas 24 horas.
Respirei fundo e contei para o que tinha acontecido no carro depois que saímos da festa e o que aconteceu mais cedo, quando estávamos indo pra casa da avó dele. Ela apenas me encarou, séria, enquanto eu percebia que a intensidade daquela situação não fazia nenhum sentido. Depois de alguns segundos apenas me encarando, recomeçou a falar.
- , pelo jeito, tem aquele jeito que você mais odeia na vida: o herói de tudo e todos, que se mete onde não deve e tenta salvar quem não quer ser salvo. Pessoas como você. - sorriu e eu me senti mais leve. Ela não estava me julgando. - Acho que é isso que vem te incomodando tanto. Acho que ele quer te aproximar da família dele e acha que ser bonzinho ou amigável com você vai ajudar. Tenta não levar tão a mal ou, pelo menos, ignora .
- Se ele quer tanto me aproximar, por que disse todas aquelas coisas para mim hoje? Não está me aproximando de nada e nem ninguém. Muito pelo contrário.
- , você é difícil de lidar. O que aconteceu no carro hoje é reflexo de sua aversão à família dele, nada de anormal nisso.
- E quanto ao que aconteceu ontem no carro ontem? - franzi a testa, preocupada, chegando finalmente ao ponto que mais me afligia. - Por que eu estou tão afetada?
- Me diz você, por que está tão afetada?
Pensei por alguns segundos. Quis mentir, dizer que era apenas pelo fato de eu não querer declarar nenhuma 'trégua'. Que me aproximar de qualquer um deles seria ceder. Mas eu sabia que não era isso. Tentando ser o mais sincera possível comigo e com , então, respondi:
- Porque ele é meu irmão.
sorriu, compassiva, e respirou fundo antes de continuar a falar.
- , sei que é complicado, mas isso nem chega a me surpreender. Você está passando por um dilema moral, sabe? Você não quer considerar como irmão, mas você sabe que ele é. Você estava bêbada ontem e provavelmente seu corpo e sua mente interpretaram de maneira errada a aproximação de vocês dois. Como se fossem... Algo próximo de um casal. - fez uma pausa, como se para verificar que eu estava bem. Após alguns segundos, continuou. - Isso deve estar te fazendo sentir culpada. Mas nem sempre temos culpa do que nosso corpo sente. Você não gosta do desse jeito.
- E nem de nenhum outro. - falei, me sentindo aliviada em perceber que aquilo era a mais pura verdade. apenas riu de leve, balançando a cabeça. - O que eu faria sem você, ?
- A consulta está £100,00. - ela respondeu, rindo em seguida - Você complica muito as coisas . Isso não te faz bem.
- Vai me dizer que minha vida não tem estado complicada? Não tá fácil, . - respondi, fazendo cara de sofrimento. Ambas rimos, enquanto eu sentia minha barriga protestar de fome. Olhei no relógio: já eram 8:30PM. - , vou comer alguma coisa senão vou cair dura de fome. Te mando mensagem depois, ok?
- Ok, vai lá. Beijo.
- Beijo.
Desliguei o computador e fui em direção à cozinha, o mais silenciosamente possível. Quando estava chegando na cozinha, percebi que a luz estava acesa e aparentemente duas pessoas conversavam por lá. Já estava quase dando meia volta quando identifiquei, em meio à uma frase, a voz de . Mesmo que eu soubesse que o melhor a se fazer seria voltar para o quarto, meu corpo se guiou instintivamente para a cozinha, parando poucos passos antes da entrada. Quando parei, estava concluindo uma frase:
- Você acredita que ela resolveu virar amiguinha do ? - dizia, em um tom indignado. Logo presumi que ele deveria estar falando de mim - Logo ele, Jane, me diz se não é pra irritar.
- Não acredito. - a segunda voz, vinda de uma garota, respondeu. Devia ser a garota com quem vi algumas vezes durante a festa. - O mesmo com quem você brigou anos atrás?
- Ontem ela se superou com essa palhaçada - continuou - Foi a uma festa com o , encheu a cara com ele e com uma galera que ela mal conhecia e ainda se meteu numa briga. Eu, imbecil, ajudei ela e a levei pra casa. E sabe como ela me agradeceu hoje? Me ofendendo, é claro.
- Calma , fica tranquilo. - a garota disse, baixando o tom de voz estranhamente - Logo ela vai superar esse ódio.
- Eu espero que ela não supere e que consiga o que quer: ir embora. Ela está convicta de que não precisa da minha família, mas, com toda a certeza, minha família não precisa dela.
Assim que completou sua frase, eu dei instintivamente um passo para trás, batendo em um vaso de planta que ficava entre a sala e a entrada da cozinha. O vaso fez um barulho baixo, mas que ecoou pela sala devido ao silêncio. Ouvi passos vindos da cozinha na minha direção e me abaixei no escuro, ao lado da escada, para que ninguém me visse por ali. Logo e a garota que estava conversando com ele na cozinha saíram de lá e subiram a escada em direção aos quartos. Esperei ouvir o barulho da porta se fechando para sair dali e ir até a cozinha.
Enquanto preparava qualquer coisa para comer, eu não conseguia deixar de pensar que a fala de não deveria me incomodar - não era nada que eu já não tivesse suposto. E de certa maneira, não incomodou. Eu sabia que vinha sendo um estorvo na família deles, e essa era minha intenção. Esse era o plano para que eu finalmente fosse embora dali. Ainda assim, uma partezinha minúscula de mim se contraía tentando ganhar voz e demonstrar alguma insatisfação. Eu, porém, não daria voz nenhuma a ela e continuaria ignorando aquele sentimento.
Quando terminei de preparar um lanche para mim e me sentei, meu celular começou a vibrar no meu bolso. No visor a palavra "mãe" piscava e eu não conseguia pensar em melhor hora para falar com ela. Era por ela que eu queria ir embora. Era por ela que eu me sentia tão mal por estar ali.
- Oi mãe! - falei assim que atendi o telefone, sentindo meu coração apertar de saudade.
- Oi ! - ela disse - Como você está?
- Poderia estar melhor, eu admito - falei - E você?
- Estou bem, mas com muita saudade, querida! Desculpe não conseguir ligar sempre, está muito corrido aqui. Mas penso em você o dia todo, sempre.
- Tudo certo mãe, eu sei que as coisas não estão fáceis por aí também. - falei
- Como estão as coisas na casa de seu… Brian? - mamãe perguntou - Tudo certo no lar, doce lar, de pessoas felizes?
- Eles estão respeitando meu espaço - respondi, rindo levemente pela ironia - e isso vem sendo o suficiente. Mas ainda estou fazendo de tudo para que Brian me deixe ir embora.
- Já conversou com algum deles? Ouvi dizer que a amante de seu pai é psicóloga, e aposto que ela vem tentando te manipular.
- Ela tentou uma vez… Mas, como eu disse, vem respeitando meu espaço nos últimos dias. - respondi - A única pessoa com quem mantenho contato na casa é Hannah, a filha mais nova de Brian. Ela é um amor de criança, acho uma pena que ela pertença a esta família. Meu contato com ela me faz bem, mas me meteu em uma furada neste final de semana, admito.
- O que houve?
- Eu fiquei um pouco irritada com ela e, bom, acabei gritando. Ela é um amor de criança e é bem sensível, então acabou ficando bem chateada. - falei - Para me redimir, aceitei vir para o aniversário da avó dela, mãe da Angelina. Só iremos embora amanhã de tarde.
- O que? - mamãe perguntou, em um tom surpreso que foi, aos poucos, sendo substituído por pura raiva. De repente, ela estava furiosa - , esse é o último lugar no mundo onde você deveria estar. Eu não acredito que você caiu nessa, pelo amor de Deus.
Eu fiquei tão surpresa com sua repentina mudança de humor que não consegui respondê-la de imediato. Ficamos ambas mudas no telefone. Eu não estava esperando por um julgamento vindo dela, aquilo era muito difícil para mim. Toda aquela situação vinha consumindo todas as minhas energias desde que pisei na casa de Brian e, sinceramente, minha mãe era a única pessoa no mundo que tinha a obrigação de entender.
Quando percebeu que eu não conseguiria formular uma frase para responder sua reação exageradamente agressiva, minha mãe voltou a falar, mantendo o tom raivoso.
- , você não deveria sequer cogitar pisar nesta casa. - ela disse - Tudo o que passamos de ruim desde a sua infância mora, ou já morou, aí. Era pra aí que seu pai ia nos finais de semana que fingia estar trabalhando. Mesmo antes de se mudar para Londres, foi aí que ele se escondeu de suas responsabilidades, foi aí que ele se omitiu do papel dele como seu pai! Em um de nossos últimos conflitos, eu o segui por horas até aí, apenas para vê-lo ser recebido com todo o amor por essa…
- O que você quer que eu faça? - interrompi - Eu não estou aqui porque quero, nada disso é culpa minha. Eu nunca estive no controle desta situação e agora tenho que carregar nas minhas costas o seu ódio e a sua amargura, como se já não tivesse cultivado o suficiente disso dentro de mim. Você está longe, vivendo sua vida, e eu estou morando com as pessoas que mais odeio em toda a minha vida. Você está mesmo querendo me fazer sentir culpada?
Novamente o silêncio reinou por algum tempo. Apenas minha respiração pesada era ouvida e eu sentia que aquela conversa já havia terminado. Quando mamãe voltou a falar, em um tom ameno, eu soube que nada verdadeiro saíria dali.
- … Eu… Me desculpe, eu...
- Mamãe, podemos nos falar depois? Estou fora de casa há mais de um mês, não me sinto bem em lugar nenhum, e sei que será assim por meses. Talvez anos. - falei, sentindo que as lágrimas já escorriam livremente por meu rosto - Não preciso do seu julgamento agora ou de qualquer desculpa forçada. Boa noite.
Não dei a ela o tempo de responder. Apenas desliguei o telefone, encostei minha cabeça na mesa e esperei que o soluços que escapavam da minha garganta sumissem, refletindo sobre o quão injusto aquilo era. Sobre o quão deplorável era toda aquela situação.
Quando finalmente me vi em condições de cessar o choro, senti que a fome que antes era enorme, foi substituída por uma sensação ruim que não me permitiria ingerir nada naquele momento. Me levantei para jogar o sanduíche recém feito no lixo e, para a minha surpresa, encontrei Brian me encarando intensamente, apoiado no batente da cozinha.
Calmamente me virei para ele, cruzando os braços em seguida. Ele não se moveu.
- Há quanto tempo está aí? - perguntei, em um tom baixo.
- Eu ouvi tudo. - ele respondeu
Dei uma risada sarcástica, me aproximando ligeiramente dele e olhando fixamente em seu rosto levemente contorcido em uma falsa comoção.
- Isso tudo é culpa sua. - falei, antes de dar as costas e sair rapidamente daquele lugar.
Não voltei para o quarto imediatamente. Antes disso andei por alguns minutos pelo grande jardim da casa, pensando no que minha vida tinha se tornado e tentando entender como eu poderia agir racionalmente naquela situação.
O pior de tudo é que agir racionalmente não parecia ser a melhor opção, mesmo que aquilo fosse extremamente errado. Refletir, pensar, tentar ignorar os meus sentimentos, só fazia com que um ódio crescesse dentro de mim, quase esmagando meu coração contra o peito. Eu tinha que decidir para onde aquele ódio seria destinando e, mais uma vez na minha vida, a única pessoa que parecia ser digna dele era Brian. Eu nunca odiaria alguém como o odiava; eu nunca teria tantos motivos para odiar alguém. O problema é que, independente de eu o amar ou o odiar, não existia entre nós nenhum contato para que eu pudesse jogar em cima dele meus sentimentos. E, por esse motivo, aquilo apenas me corroía por dentro.
Quando decidi voltar para o quarto no qual eu teria que dormir já passava de meia-noite. E, bom, talvez essa não tenha sido uma ideia tão inteligente. Em um dia como aquele, onde tudo estava dando errado, qualquer ação poderia provocar uma tragédia. Eu tive ainda mais certeza disso após ver o que vi ao entrar no quarto onde, em teoria, eu iria dormir.

e a garota com quem estava na cozinha minutos antes. Ambos nus, enroscados na cama e fazendo muito, muito barulho.

Por Deus, o que mais poderia dar errado?


Capítulo 8

's P.O.V.

Estar com Jane sempre foi incrível. Nós nos conhecíamos, nos entendíamos e, quando não estávamos fazendo outras coisas, éramos realmente uma família. Mas, naquele momento, aquela não parecia ser a coisa certa a se fazer. Não quando ela parecia esconder algo de mim. Não quando minha cabeça rodava e viajava para assuntos que não podiam ter a ver com o que estávamos prestes a fazer.
Depois de subirmos para o quarto, não demorou muito para que estivéssemos sem nenhuma peça de roupa. Demorou muito, porém, para que entrássemos no clima. Os beijos pareciam gelados, o abraço parecia desajustado, o coração não acelerou e eu só queria que aquilo acabasse. Quando finalmente encontrei um fio de excitação que seria suficiente para iniciarmos aquilo, os barulhos extravagantes e claramente falsos que começaram a escapar pelos lábios de Jane só serviram para acabar com o que restava da minha vontade de fazer aquilo funcionar. Menos de dois minutos depois que começamos de verdade, eu estava prestes a terminar. Prestes a empurrá-la e pedir, por favor, para que ela me contasse o que havia de errado - embora eu soubesse que havia algo de errado comigo também. Estava prestes, quase lá, mas um terceiro barulho nos interrompeu antes que eu o fizesse.
Com a porta do quarto semi aberta, uma congelada nos encarava. Seus olhos azuis oscilando entre o restante do quarto e nossos corpos embaraçados na cama. Demorei alguns segundos para entender o que diabos ela estava fazendo ali e Jane parecia estar vivendo o mesmo momento de pane. Em um certo momento, finalmente identifiquei que aquele quarto não era o meu, e sim o de Jane, no qual dormiria naquela noite. Voltei a olhar para a porta, mas ela não estava mais lá.
Puta que pariu! O que foi que eu fiz?
Empurrei Jane de cima de mim e me levantei, acendendo a luz para procurar minhas roupas e ir atrás de , antes que ela fizesse alguma besteira. Jane se enrolou no lençol e me encarava com os olhos arregalados enquanto eu procurava - sem sucesso - por meus sapatos. Quando estava próximo a porta, decidido a ir atrás de mesmo estando descalço, Jane jogou meu tênis em minha direção. Quando olhei para ela, um sorriso assustado estampava seus lábios.
- , qual é o problema? - ela perguntou, levantando da cama e se aproximando de mim - Pensei que esta fosse a intenção. Tirar sua irmã dos eixos.
- O que? - respondi - Como assim? Por que eu faria isso?
- Nós entramos no quarto onde ela dormiria, mesmo sabendo que logo ela voltaria. - Jane respondeu dando de ombros em seguida - Ela nos veria, óbvio, pensei que você quisesse fazer isso. Quisesse obrigá-la a ir embora.
- Você percebeu? - perguntei indignado, sentindo meu corpo enrijecer de raiva - Você sabia que entramos no quarto onde ela dormiria?
- Você… Você não? - ela perguntou, confusa, se aproximando de mim em seguida e tocando em meu braço - Eu pensei…
- Só… Me deixa. - falei, afastando meu braço de seu toque. - Por favor, fique aqui, vou atrás da para pedir que ela durma em meu quarto. Eu fico na sala por hoje.
Jane não voltou a protestar quando saí do quarto. Desci as escadas, procurando por na sala, na cozinha, e no terraço. Nada. Saí para o quintal, procurando-a na área social na qual havíamos feito a festa. Depois, fui até a frente da casa, ainda sem encontrar nenhum sinal dela. Já estava cogitando a ideia de procurá-la na rua quando me lembrei: a poltrona na qual ela esteve sentada durante todo o dia. Dei a volta na casa e, bingo, lá estava ela, encolhida como uma criança, com a cabeça apoiada nas mãos e o rosto virado para o céu. Eu estava andando de frente para ela, de forma que ela imediatamente notou minha presença, mas continuou imóvel. Sentei-me ao seu lado, no chão, e passei a olhar para o céu também, sem ter certeza do que fazer. O que eu poderia fazer, afinal? Eu não havia feito nada para ela, não diretamente, mas me parecia extremamente errado o fato de ela ter presenciado aquela cena. Admito, eu não gostaria de entrar num quarto e ver minha irmã nua com outro cara. Ainda mais com todos aqueles barulhos horríveis e falsos que Jane estava fazendo. Por Deus, que situação difícil!
Quando quebrou aquele silêncio absoluto entre nós, senti meu coração, finalmente e estranhamente, acelerar. Algo em sua voz, inéditamente calma e doce, me fez paralisar.
- Você deveria voltar para o quarto. - ela disse, ainda encarando fixamente o céu - Não tem problema, não vou contar para ninguém.
- Eu não sabia que… Me desculpe, por favor. Eu não fazia ideia de que você chegaria.
- Aquele era o quarto no qual eu, supostamente, dormiria. - ela respondeu, voltando seu olhar para mim e me encarando fixamente nos olhos. Abriu um sorriso fraco, opaco, e eu tive a impressão de que não era ela falando comigo. Ela parecia fora de si. Suas palavras não transmitiam nenhum sentimento. - Está tudo certo. Não é como se eu te culpasse por querer que eu vá embora. Eu quero ir, também.
- Eu nunca disse isso. - falei, sentindo meu coração pesar com suas palavras. Ela não estava me atacando, não estava brigando, apenas falava as coisas que, para ela, eram pura verdade. não respondeu. Apenas desviou novamente o rosto para o céu e riu nasalado, como se soubesse com toda certeza que eu havia dito aquilo. E eu disse. Mais cedo, para Jane, eu disse com todas as palavras que seria melhor se ela fosse embora. De repente minha mente começou a somar as coisas: eu e Jane subimos para o quarto após escutarmos um barulho vindo da sala e, ao chegarmos no quarto, não estava lá. Ela me ouviu. Ela sabia, de fato, que eu havia dito aquilo.
Eu quis verbalizar alguma coisa, mas simplesmente não consegui. Continuei ali, sentado, olhando para a lateral de seu rosto parcialmente iluminado pela luz da lua. fechou os olhos e, de repente, percebi algumas brilhantes e tímidas gotas rolarem por seu rosto. Ela estava chorando e eu estava paralisado. Era por minha causa? Pelo que ela ouviu? Pelo que ela viu? Eu estava prestes a perguntar, quando ela quebrou o silêncio. Sua voz soou calma, apesar das lágrimas.
- Sabe - ela começou - é muito difícil estar aqui. É difícil porque eu não queria estar e se tornou ainda mais difícil porque eu notei que eu não deveria estar. - ela fez uma pausa, respirando fundo e voltando a falar em seguida - Vocês têm uma linda família. E, eu nem espero que você concorde, mas parte dessa família era para ser minha. É por causa da sua família que a minha deixou de existir há 10 anos. - outra pausa, sua voz se tornando levemente trêmula - Não é fácil estar aqui, porque eu não faço parte disso. Nunca farei.
voltou a ficar silêncio, as grossas lágrimas escorrendo pelo seu rosto contorcido em uma careta contida. Ela tinha mais coisas para dizer, portanto eu apenas a assisti em silêncio, esperando que ela se sentisse pronta.
- Quando eu era criança, Brian costumava sentar comigo no jardim de casa e formar desenhos a partir das estrelas. - ela continuou, ainda olhando para o céu - Minha última lembrança feliz com ele é da noite anterior à sua partida. Nós sentamos e formamos desenhos engraçados durante horas. O último desenho foi de um coração. Ele disse que me amava e que jamais me abandonaria, independente de qualquer coisa. No dia seguinte, ele foi embora sem se despedir. Eu só falei com ele três meses depois, alguns dias após meu aniversário. Ele me ligou e pediu desculpas por não ter ligado a tempo, disse que esteve ocupado. Desde então, nenhum aniversário tem graça. E nem as estrelas. Não sem meu pai. - ela fez uma nova pausa, olhando para mim em seguida - Ele morreu para mim naquele dia, . Em minhas memórias, eu o matei naquele dia.
Eu não fazia a mínima ideia do que falar. Me limitei a olhar para ela por longos minutos, até que ela se virou novamente. Saber que estar ali, vendo-a olhar as estrelas, era tão significativo não me ajudava a formular nada. Mas eu sabia que não poderia simplesmente ignorar.
- Eu sinto muito. - eu disse, por fim - Eu realmente sinto muito.
- Não sinta. - ela respondeu - Eu não sinto mais.
- Tem certeza? - perguntei
Novamente, demorou para voltar a falar, como se aquela fosse uma pergunta realmente complexa demais. E, provavelmente, era mesmo. Alguns segundos, que pareceram horas, depois, ela respondeu.
- Não. Não tenho mais certeza de nada.

Por volta das 3AM, pegou no sono na poltrona. Não falamos nada neste meio tempo e o clima não esteve pesado, mas um milhão de pensamentos passavam pela minha cabeça. Eu sempre ouvi falar naquela história. Meus pais sempre disseram que a mãe de manipulava a situação, que meu pai tentou estar presente. Mas aquela história, os sentimentos expressos no rosto de , aquilo era real, quase palpável. Por outro lado, eu conhecia meu pai. Ele a amava. Ele falava dela para todo mundo. Antes de ela chegar ele esteve tão animado… Por que faria isso se a tivesse abandonado? Por culpa? Por medo? Eu não sabia, mas queria muito saber.
Chamei quando percebi que ela estava dormindo em uma posição nada confortável, mas não obtive resposta - ela dormia feito pedra. Tentei arrumá-la na cadeira, mas sua cabeça sempre voltava para aquela posição estranha. Derrotado, decidi levá-la até o quarto, rezando para que ela não acordasse e tornasse aquela situação ainda mais constrangedora. Funcionou, realmente dormia como uma pedra e não se moveu no caminho até a cama.
Após deixá-la no quarto, desci as escadas e me deitei no sofá, sem conseguir dormir. Pelo resto da madrugada continuei pensando naquela conversa, naqueles sentimentos e naquela pessoa que me deixou ver pela primeira vez. Um alguém muito diferente da pessoa com quem eu lidei antes. Um alguém tão machucado que preferiu criar uma máscara, uma bolha que impedisse que as pessoas capazes de machucá-la penetrassem. Eu não sei o que houve para que ficasse fraca naquele dia, para que ela não conseguisse sustentar sua máscara, mas com certeza algo a afetou muito. Me doía saber que esse algo poderia ter a ver comigo. E, com certeza, tinha. Afinal, como ela disse, a minha família foi resultado da destruição da família dela. Só naquele momento eu finalmente entendi aquilo. Só a partir da nossa conversa eu consegui me colocar no lugar dela. O que ela não sofreu, crescendo sem pai, sabendo que ele estava morando com outro filho? O que ela não sentiu ao ser subitamente separada de seu pai, sem aviso prévio, daquele jeito tão trágico? O que eu sentiria?
Quando o dia clareou eu me levantei, entrei cautelosamente no meu quarto - onde estava dormindo - peguei minhas coisas e fui tomar banho no quarto de Jane. Quando saí do banheiro, ela estava sentada na cama, com um copo de chá na mão. Outro copo, provavelmente de café, repousava na mesinha ao lado de sua cama. Sentei-me de frente para ela, pegando o copo e voltando a encará-la.
- Me desculpe por ontem. - ela começou - Não foi minha intenção. Eu pensei que você tivesse pensado em provocá-la.
- Por que eu pensaria em algo tão estúpido? - perguntei, ainda chateado com o ocorrido.
- Você estava com raiva - ela deu de ombros - Eu teria pensado. Desculpa, de verdade.
- Tudo bem. - respondi enquanto levava o copo de café aos lábios.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, buscando as palavras para definir aquela coisa estranha que estava rolando por ali. De repente, de uma hora para outra, nossa química simplesmente morreu, aquilo não era normal. Quando percebi que Jane não tomaria iniciativa para conversarmos sobre aquilo, voltei a falar.
- Jane, o que está rolando? - perguntei - Mesmo antes de a entrar no quarto ontem, as coisas estavam muito estranhas. Não tinha… Clima.
- Eu sei - ela respondeu, encarando fixamente sua caneca de chá - Tem uma coisa que eu não te contei. Segredos sempre fizeram isso com a gente, né? Sempre nos separaram.
- Sim. - respondi, encarando-a sério - O que você não me contou?
- Eu estou namorando. - ela falou, prendendo a respiração em seguida. Quando não reagi, ela continuou. - Eu estou ficando com um cara desde o meio do ano passado e, logo depois do ano novo, ele me pediu em namoro. E eu aceitei. Acho que gosto dele, mas… Não quero abrir mão do que temos. Eu e você. De toda forma, sinto que o certo é abrir mão. Isso significa que…
- Teremos que ser aquilo que deveríamos ser. - completei - Primos.
- É. - Jane suspirou
Eu esperei. Pelos minutos que seguiram, eu esperei que algum ciúme, alguma tristeza, alguma coisa, qualquer uma, me invadisse. Mas continuei sentindo um imenso nada. Pela primeira vez, estaríamos impedidos de estar juntos. Eu sempre pensei que quando isso acontecesse eu ficaria muito chateado, mas não foi o que aconteceu.
Forçando um sorriso triste, abracei Jane, acariciando de leve suas costas.
- Ei, vai ficar tudo bem. - eu falei - Sempre soubemos que isso aconteceria. Não dá para levar uma vida dupla assim, e nós jamais poderíamos assumir qualquer coisa para nossa família. A não ser que quiséssemos ser deserdados, claro.
Jane riu levemente e apertou ainda mais nosso abraço.
- Eu te amo tanto, pirralho. - ela falou
- Eu com certeza amo mais, idosa. - respondi, sentindo que finalmente algo não estava sendo forçado. Eu realmente a amava.

Quando Jane e eu descemos para a sala, minha tia e minha avó já estavam tomando café. Meus pais e Hannah, porém, ainda não estavam por lá. Olhei ao redor, mas não vi nenhum sinal deles. O clima parecia meio tenso, e eu, subitamente, me lembrei de . Teria acontecido alguma coisa com ela?
- Bom dia vó, bom dia tia! - falei - Onde estão meus pais e minhas irmãs?
- Eles tiveram que sair às pressas, . Hannah insistiu para ir junto.
- Ir junto para onde? - falei
- passou mal. - minha avó disse, em um mistura de tristeza e preocupação genuínas - Sua mãe a encontrou uma meia hora atrás desmaiada perto da poltrona onde ela passou o dia ontem. Acreditamos que ela ficou tempo demais sem comer. Sua mãe disse que ela já costuma fazer isso com frequência.
- Por que eles não me chamaram? - perguntei, me levantando da mesa. - Eles saíram às pressas - minha tia respondeu - Você pode usar meu carro para encontrá-los. Eles foram para o Gloucestershire Royal Hospital.
- Quer que eu vá com você, ? - Jane perguntou, se levantando da mesa e me acompanhando enquanto eu pegava as chaves das mãos de minha tia e me levantava da mesa. Saí rapidamente da cozinha, seguindo até a garagem.
- Não precisa, Jane. Fica aqui com a vovó e a tia Lizz. - eu disse - Dou notícias depois, ok?
- Claro. - ela respondeu, cruzando os braços do lado do carro enquanto eu procurava as chaves que eu mesmo acabara de pôr no bolso. Jane voltou a falar assim que eu achei as chaves - , eu não sou a única estranha por aqui. O que aconteceu para que você mudasse? Já te contei meus motivos.
Eu paralisei por alguns segundos, pensando que aquela era, provavelmente, a pergunta que mais temi desde que encontrei Jane. Não fui capaz de olhar em seus olhos quando respondi sua pergunta.
- Só tem estado muito corrido. - respondi - Nada demais.
- Não tem nada a ver com ? - Jane insistiu, em um tom que misturava curiosidade e insinuação. Era como se ela simplesmente soubesse que tinha, sim, a ver com . - Por que ela te afeta tanto? Por que você se importa tanto com ela?
- Por que ela é minha irmã. - respondi, querendo que o assunto acabasse. Em seguida, entrei no carro, mas não sem antes ouvir a última frase de Jane:
- Eu não tenho tanta certeza de que este é o motivo.

O hospital ficava há pouco mais de 30 minutos da casa de minha avó e o trânsito estava calmo o suficiente para que eu chegasse até mais rápido do que isso. Eu tinha pressa, não apenas por preocupação, mas também porque ficar sozinho naquele momento me faria pensar. Eu não queria pensar.
Quando cheguei ao hospital, minha mãe e Hannah estavam sentadas na poltrona da sala de recepção, ambas com uma feição muito cansada. Andei até elas com pressa, chegando ofegante e me sentando na poltrona ao lado. Mamãe me encarou e sorriu, Hannah nem se moveu.
- Ei! - eu disse - Como ela está?
- Ainda não sei, querido. - mamãe respondeu em um tom baixo - Seu pai está lá dentro com ela há mais de uma hora. Mas tenho certeza de que ela não come direito há dias e por isso está assim.
- Por que ela tem que ser tão teimosa? - perguntei, mais pra mim do que para minha mãe. De todo jeito, ela riu levemente e me respondeu.
- Nossa família não é exatamente fácil de lidar, não é? Veja Hannah. Insistiu tanto para vir para o hospital que nós tivemos que ceder, ou seria ela quem ficaria doente.
- Mas a … - comecei, sem saber exatamente como me expressar e estranhamente ciente de que aquela era a minha mãe, e eu não podia dizer a ela exatamente o que sentia com relação à , mesmo sem entender o porquê. Depois de alguns segundos, continuei - Ela está sofrendo, mãe. E não faz nada para parar de sofrer.
- Sofrer agora, filho, a mantém firme na pessoa que ela é. Nos ideais dela, na lealdade à família dela, que se resume apenas à sua mãe. - mamãe suspirou - Ela está causando sofrimento para si própria, e sabe disso.
- Mas por que? - eu perguntei, novamente - Pra que se machucar mais se ela vai ter que continuar aqui? Conosco?
- Porque ela não quer continuar aqui, conosco.
Ficamos algum tempo em silêncio, ambos parecendo refletir no problema gigante que representava naquele momento. Ambos parecendo procurar soluções para algo que, percebi, apenas ela poderia resolver. Enquanto nos odiasse, enquanto ela procurasse maneiras de fugir, ela sofreria. E embora ninguém ali a quisesse sofrendo, ela nos queria sofrendo. E, mesmo que eu a odiasse às vezes, percebi que vê-la sofrer me fazia sofrer. Mas, meu Deus, por quê?
- Como chegou até aqui? - mamãe voltou a falar
- Eu vim com o carro da tia Lizz - respondi, franzindo o cenho em seguida - Por que vocês não me chamaram?
- Você estava no quarto com a Jane - minha mãe respondeu - Seu pai ia chamá-lo, mas, sinceramente, eu não queria entrar no quarto.
- O que? - perguntei, sentindo meu sangue gelar. Ela não estava insinuando o que eu pensei que estava, não é? - Como assim, mãe?
- - minha mãe começou, cautelosamente - O que acontece de verdade entre você e a Jane?
Eu travei. Simplesmente não havia nada que eu pudesse responder que não entregaria o quão desnorteado aquela pergunta me deixou. Minha mãe continuava me encarando ao mesmo tempo que eu abria e fechava a boca, sem saber o que responder.
Eu estava prestes a gaguejar um “não acontece nada, mãe”, quando, graças a Deus, meu pai nos interrompeu. Olhei para cima, vendo-o chegando até o local onde estávamos sentados com a mesma feição cansada de minha mãe, mas, no lugar da curiosidade que ela expressou segundos antes, seu rosto carregava uma verdadeira preocupação. Aquilo só podia ter a ver com .
.
Será que…? Não. Ela prometeu não contar nada. Mas como minha mãe chegaria, depois de tantos anos, naquela conclusão sozinha? odiava minha família, não odiava? Por que não aproveitaria aquela oportunidade de plantar a discórdia?
Foi só quando meu pai tocou meu ombro que eu saí daquele dilema e voltei para a realidade. Olhei para seu rosto franzido em preocupação e passei a prestar atenção no que ele estava dizendo.
- Que bom que conseguiu vir - ele começou, sentando-se ao meu lado em seguida - passou muito tempo sem comer, como suspeitamos, e acabou passando mal. Além disso, o médico disse que ela pode estar desenvolvendo gastrite nervosa. Eles irão fazer mais exames para confirmar esta hipótese e identificar outros possíveis problemas, como a anemia.
- Ela está melhor? - minha mãe perguntou
- Acredito que sim. Ela já está acordada, mas não falou nada para mim, mesmo depois de eu ter insistido.
- Ela não falou com vocês antes de chegar até aqui? - perguntei, tentando soar casual - Esteve desacordada o tempo todo?
- Sim - meu pai respondeu, parecendo alheio às minhas reais intenções com aquela pergunta - A encontramos desmaiada, ela acordou algumas vezes no caminho, mas logo voltou a ficar desacordada.
Então ela não podia ter dito nada. Mas como? Como minha mãe suspeitou daquilo?
Meu pai voltou a se levantar para ir até o quarto. Ao contrário do que pensei, minha mãe não voltou a falar sobre Jane. Hannah estava resmungando em seu colo e aquela não era a cadeira mais confortável do mundo, diga-se de passagem. Logo eu voltei a falar.
- Mãe, por que você não vai pra casa? - perguntei - Pode até ser para a casa da vovó. Não acho que esse seja o melhor lugar para a Hannah.
- É, acho que tem razão. - ela respondeu - Você vai ficar?
- Sim. Acho que meu pai precisa de alguém aqui com ele. - falei, estendendo a chave do carro de minha tia Lizz para ela em seguida - Toma, vai com o carro da tia Lizz.
- Certo. - ela disse, se levantando em seguida - , eu ainda quero a resposta para a pergunta que te fiz, ok?
Não respondi, apenas acenei com a cabeça, observando-a sair da sala de espera em seguida. Meu pai demorou a voltar na sala de espera. Fiquei durante grande parte da tarde sentado sozinho ouvindo música. Quando ele veio, porém, sua feição parecia confusa. Tirei meus fones de ouvido e o encarei, esperando que ele começasse a falar.
- - ele disse hesitante - pediu para conversar com você.
Embora aquela não fosse a primeira vez que me surpreendia nas últimas 24h, me vi pregado na cadeira, sem saber exatamente o que fazer. Olhei para meu pai, que me estendeu seu crachá de visitante e me levantei, caminhando para o quarto 35 na ala de observação. Bati na porta levemente antes de entrar e ouvi proferir um “entra” em um tom baixo, porém firme. Fiquei algum tempo parado perto da porta, sem saber exatamente o que fazer, até que ela apontou para a cadeira ao seu lado e arrumou sua postura na cama antes de começar a falar.
- Obrigada por vir. - falou - Acho que, nesse momento, é mais fácil falar com você do que com o Brian. Mas também preciso garantir que algumas coisas fiquem somente entre nós.
- Imaginei que faria isso. - eu disse, simplesmente. Ainda estava em um estado de alerta e um nervosismo surpreendente percorria meu corpo, juntamente com um estranho frio na barriga. parecia completamente em paz com a situação.
- Eu passei mal devido ao fato de não ter comido direito desde que cheguei na sua casa - ela continuou - mas houve um agravante: meu porre de sexta-feira. Os médicos entrarão por aquela porta daqui alguns minutos para informar este fato e você estará aqui como meu acompanhante, não Brian. Preciso que isso fique entre nós.
- Pensei que não se importasse com o que meu pai pensa. - falei
- Não me importo, apenas preciso que isso fique entre nós. - ela disse, olhando fixamente em meu rosto. Não esbocei nenhuma reação. - Além disso, sei que é muito importante para você que os acontecimentos de ontem fiquem entre nós. E ficarão. Mas tudo que eu te falei também precisa ficar. Sei que você provavelmente está pensando em confirmar meu melodrama com seu pai, mas você não pode fazer isso, não pode reviver essa história. Entendeu? Pode me prometer que tudo isso ficará apenas entre nós?
- Tudo bem. - eu disse - Mas preciso entender o porquê.
- Não há um porquê, . - ela respondeu - São coisas minhas que compartilhei com você sem nenhuma intenção de fazer isso. Não é para ninguém em quem não confio saber disso, mas, infelizmente, você já sabe. Só preciso garantir que ninguém mais saberá, especialmente o Brian. Sei que você já entendeu que é ele a pessoa em quem menos confio na vida.
Não respondi. Ficamos os dois em silêncio pela próxima meia hora. Quando os médicos entraram para informar o resultado dos exames, fiz minha maior cara de surpresa e repreendi uma impassível com o olhar. Recebi a alta dela e agradeci. Quando eles saíram do quarto, me levantei para levar a alta para meu pai. Antes de sair, porém, senti a necessidade de esclarecer uma última coisa.
- - chamei, recebendo seu olhar confuso em seguida - O que isso tudo muda entre nós?
Ela sorriu levemente antes de responder, o que fez meu estômago, sem nenhum motivo aparente, revirar em expectativa. Expectativa esta que foi destruída em seguida.
- Não existe nós, . - ela respondeu, assumindo uma feição séria - Eu não te conheço, e isso nunca vai mudar.

Em seguida, eu saí.


Capítulo 9

’s P.O.V

Depois que saiu do quarto com a minha dispensa do hospital, eu me levantei e arrumei as coisas para ir embora. Brian chegou menos de cinco minutos depois e me guiou até a saída do hospital, com meus exames nas mãos. Quando chegamos ao estacionamento percebi que ainda não estava por ali. Brian me encarava com um misto de preocupação, curiosidade e repreensão e eu estava fazendo um esforço real para ignorar seu olhar quando ele voltou a tentar algum contato.
- , - ele começou, hesitante - nós temos que conversar sobre isso, você sabe, certo?
- Você já falou com a minha mãe? - perguntei
- Eu tentei, mas ela está incomunicável desde cedo. - ele disse - Por favor, me prometa que você não deixará de comer, independente de nossas diferenças. Você não pode colocar sua saúde em jogo para me desafiar, isso é completamente irresponsável.
- Imagino que sua decisão de me obrigar a vir morar com você tenha sido uma exemplar atitude responsável. - respondi
- Essa não foi uma decisão minha, . - Brian disse em um tom de voz mais alto do que o usual. Franzi o cenho o encarando. Sua feição afetada, naquele momento, não me pareceu forçada. Ele repetiu: - Não foi eu quem decidi.
- Foi decisão de quem, então? - perguntei, procurando seu olhar que passou a fugir do meu. Irônico.
Nesse momento, apareceu ao lado de Brian, olhando confuso para nós. Brian não olhou para ele e nem para mim. Fechou os olhos por breves segundos e quando os abriu, eu soube que ele não responderia nenhuma pergunta. Mais uma vez.
- Independente de nossas desavenças - Brian recomeçou a falar em um tom baixo - sua saúde é importante para mim. Por favor, não deixe de comer.
Dito isso, ele deu a volta no carro e entrou no banco do motorista, enquanto sentava ao seu lado. Entrei no banco traseiro, e deitei a cabeça na janela do carro, ainda me sentindo muito fraca, apesar de todos os litros de soro que tomei durante o dia. Adormeci durante os poucos minutos que levamos para chegar até a casa da mãe de Angelina e acordei com me balançando levemente. Saí rapidamente do carro e quase não consegui parar em pé, tendo que me segurar para não cair.
Durante todo o meu trajeto da garagem até o quarto, foi quem me acompanhou, em silêncio, mas perto o suficiente para me segurar caso eu caísse.
Por algum motivo, a preocupação dele apenas me irritava ainda mais. Eu não queria que ele se aproximasse, ou se preocupasse. Não queria que ele me desse motivos para não odiá-lo, ou para querer que ele estivesse por perto.
A noite anterior foi incrivelmente traumática, desgastante e dolorida, em muitos sentidos. A ligação de minha mãe, o breve conflito com Brian, a frase involuntariamente dolorida que o próprio proferiu sem saber que eu estava ouvindo. Tudo isso me levou ao ápice de uma crise existencial, de uma percepção profundamente dolorosa da situação em que eu me encontrava estando naquela casa. Era quase como se eu fosse obrigada a assistir de fora o amor entre todas aquelas pessoas, apenas para evidenciar o quão vazio de amor meu mundo se encontrava naquele momento. E, quem sabe, sempre se encontrou.
não deveria ter participado de algo tão significativo. Ele não deveria estar ali para ouvir histórias que ninguém, nem mesmo , sabia, assim como não deveria ter me colocado na cama cautelosamente quando eu adormeci ao relento. Assim como não deveria ter me salvado na noite anterior na festa de Brooke. Assim como não deveria estar seguindo de perto meus passos vagarosos até o quarto que pertencia a ele, com tanta preocupação. Sempre tão sincero. Sempre tão… Próximo.
Não consegui encará-lo ao entrar no quarto e me deitar na cama. Apenas fechei os olhos e esperei que alguém, provavelmente Angelina, trouxesse a tão sonhada comida pela qual meu estômago praticamente suplicava naquele momento.
Nem cinco minutos se passaram depois que cheguei ao quarto e alguém bateu na porta, entrando em seguida e sentando ao meu lado. Ao contrário do que pensei, não era Angelina a pessoa que estava à minha frente, era Jane. Sim, Jane, a mesma garota que eu vi nua com meu irmão no dia anterior.
Em suas mãos havia uma bandeja com uma tigela de sopa e alguns pãezinhos ao lado dela. Ela me estendeu a bandeja e eu logo a segurei, esperando que em seguida ela se levantasse e saísse. Coisa que ela - adivinhem - não fez. A encarei durante alguns segundos e resolvi me pronunciar.
- Já falei com sobre isso, você não precisa se preocupar, eu… - tentei explicar, sendo interrompida em seguida
- Eu sei. - ela disse, encarando a porta semi aberta do quarto - Não estou preocupada com isso.
- Então… - falei, erguendo as sobrancelhas sugestivamente - Pode deixar, eu consigo comer sozinha.
- Depois de ter ido parar no hospital por não comer, eu duvido um pouco disso. - ela retribuiu a ironia, rindo em seguida e me encarando. Bufei, esperando que ela finalizasse o que quer que estivesse fazendo ali - Mas não é por isso que estou aqui. Queria te dizer que a culpa do que aconteceu ontem foi toda minha, não queria que você visse o que você viu, acredite. Eu achei que ele quisesse te provocar por você estar fazendo da vida dele um inferno, sabe, te fazer ir embora. - ela fez uma breve pausa, desviando novamente o olhar - Mas ele não quer que você vá embora de verdade. Agora eu entendo isso.
- Não foi o que ele te disse na cozinha alguns minutos antes de eu ver vocês. - respondi, me arrependendo em seguida. Ninguém deveria saber que eu ouvi aquilo e muito menos pensar que eu me importava.
- Não, não foi o que ele disse. - ela respondeu, simplesmente - Mas o que ele disse na cozinha não reflete o que ele sente por você. Essa preocupação que chega a ser doentia. Ele passou o dia todo preocupado com você ontem na festa, onde você estaria, se alguém estava te incomodando. Pediu para que os convidados te deixassem sozinha, mentiu que você estava se sentindo mal. Ele não quer te ferir, . Ele te quer bem.
- Você não precisa fazer nenhuma propaganda do para mim. - falei ríspida, tentando acabar com o assunto.
- Não é isso que estou fazendo. - ela disse - Olha, eu nem sei o que eu estou fazendo, mas estou aqui pelo . Eu sei que você tem muitos motivos para odiar o Brian, a Angel, esse lugar, a casa de vocês em Londres. Deus sabe que eu odiaria se fosse você. Mas se você olhar para o por um segundo, você vai ver que não tem motivos para odiá-lo.
- Ele quer me manter aqui, como todos os outros. - respondi, sentindo minha confiança murchar por algum motivo. Eu não deveria fazer aquilo, mas estava ouvindo de verdade o que ela estava falando. Mas prossegui, tentando passar segurança. - Ele não é diferente de ninguém.
- Ele é diferente de tudo, , de todas as pessoas que você conheceu na sua vida. Toda essa aura de menino-popular-bonito-galinha que o ronda parece combinar com a atenção que ele te dá, com a preocupação que ele tem por você? Mesmo depois de você atacá-lo, atacar a família dele, ele te negou ajuda alguma vez? Ele demonstrou ter raiva de você?
Não. Ele não demonstrou, mas eu não responderia aquilo. Me limitei a ouví-la, enquanto meu corpo inteiro parecia se retesar em negação. não podia ser uma boa pessoa, porque isso extinguiria os motivos pelos quais eu o odiava. Eu não podia lidar com isso naquele momento.
- Não tenho ideia do quão difícil tem sido essa situação para você. - Jane continuou, segurando uma de minhas mãos e me olhando com sinceridade - Me desculpe pela atitude estúpida de ontem. Sei que nem estou em uma posição de fazer qualquer pedido, mas, por favor, não machuque o . Ele gosta muito de você, você não sabe o quanto. Talvez nem ele saiba. Mas, quando vocês descobrirem, não faça disso algo ruim. Não use isso para ferí-lo. Ele não merece, e você vai perceber isso em breve, tenho certeza disso.
Passamos alguns segundos em silêncio. Eu não tinha nenhuma ideia do que falar, sentir ou fazer. Jane logo se levantou e foi até a porta, se virando para mim uma última vez antes de sair.
- Sua sopa está esfriando, é melhor você comer logo.

E foi isso que eu fiz.
Morrer não era o meu plano.

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Depois de tudo o que houve no fatídico final de semana que passei na casa da mãe de Angelina, meus problemas pareceram duplicar. Os exames que fiz no hospital de Painswick trouxeram à tona alguns problemas de saúde advindos de todo o estresse que passei desde que fui morar com Brian e também dos meus péssimos hábitos alimentares. Além disso, minha insônia e a falta de exercícios físicos também pareciam estar contribuindo para que minha saúde decaísse rapidamente.
Os médicos descobriram que eu havia desenvolvido anemia e gastrite nervosa, além de estar abaixo do peso. Por conta disso, Brian me avisou que marcaria diversas consultas médicas e também psicológicas para que eu tratasse com seriedade minha saúde. Não houve conversa quanto a isso, foi apenas um aviso simples e direto.
Além do meu novo quadro de saúde debilitado, houve uma grande mudança com relação às únicas duas pessoas que costumavam ser minha base até aquele momento: minha mãe e . Mamãe simplesmente desapareceu, não me ligou e, mesmo depois de Brian ter avisado sobre todos esses problemas de saúde, ela não tentou fazer contato comigo. esteve ausente, sempre ocupada demais, respondendo as mensagens em intervalos gigantes de tempo. Era como se eu simplesmente não existisse mais.
Aquela era uma sensação que eu experimentei durante toda a minha vida em todas as vezes que Brian, de uma forma ou de outra, reapareceu e voltou a sumir. De vez em quando, na minha inocência infantil, eu me olhava no espelho para garantir que ainda estava ali, que ainda era a mesma, pois nada podia explicar para mim o porquê de ele ter me esquecido. “Eu não fiz nada para ele” eu dizia para minha mãe, entre soluços “Por que ele não nos ama mais?”.
A resposta veio tarde, quando eu já havia sofrido o suficiente para deixar de acreditar que eu era a mesma. Depois de crescida eu percebi que, na verdade, Brian nunca nos amou. Quem ama não trai, não deixa de amar. Quem ama não abandona.
Eu ainda acredito nisso, e é por isso que jamais voltarei a acreditar no sentimento de Brian por mim. Mas essa mesma crença me faz questionar outra coisa: seriam e minha mãe capazes de fazer o mesmo? De simplesmente me abandonarem no momento mais difícil de toda a minha vida? Eu não queria acreditar nisso e lutava com todas as forças contra esse pensamento, mas aquela parte de mim que deixou de acreditar que eu era alguém possível de se amar me alertava a todo momento: por que agora seria diferente?
No meio de toda aquela onda de confusão que me seguiu do final de semana para a vida, estava . Depois de três dias sem respondê-lo após a festa da qual saí carregada por , eu cheguei a escola e o encontrei parado no portão, esperando por mim. Para ser sincera, eu não tinha pensado nele até aquele momento, mas vê-lo ali, com aquele sorriso triste e envergonhado, me fez sentir uma pontada de culpa por não ter me preocupado em conversar com ele ou respondê-lo ao longo de todo o final de semana e da segunda-feira na qual faltei à escola. Sorri para ele, tentando soar tranquilizadora, sabendo que ele provavelmente acreditava que eu estava muito brava com ele. Quando cheguei perto o suficiente, ele já iniciou seu pedido de desculpas, mesmo sem antes ter dito oi.
- ! - ele exclamou - Mil desculpas! Eu vou entender perfeitamente se nunca mais quiser falar comigo, o que eu espero que não aconteça, mas quero que saiba que eu tentei te ajudar, tentei te levar dali antes do arrastá-la dali, mas não tive tempo.
- , ei, calma. Está tudo bem, eu sei que não ia deixar você me levar de lá. - respondi, segurando em um de seus braços para acalmá-lo. Ele pareceu surpreso por eu não estar irada com ele, e logo recomeçou a falar, com mais calma dessa vez.
- Todos pensam que eu estava tentando te arrastar pro andar de cima pra… Fazer algo a mais com você. - ele sussurrou, se aproximando - Eu nunca, jamais, em hipótese alguma, faria isso. Seria estupro! Você é minha amiga, eu gosto muito de você, e mesmo se fosse uma completa desconhecida bêbada, eu jamais faria isso.
- - sorri para ele, o encarando de perto e profundamente - Eu acredito em você. No fundo, acho que até acredita que você jamais faria isso. Está tudo bem, eu vou te contar a loucura que foi meu final de semana e você vai entender minha falta de contato. Prometo!
sorriu para mim, aliviado, e me abraçou de lado, dando um beijo em minha testa antes de começar a entrar comigo para a escola. Minha primeira aula seria, como em todas as terças-feiras, de biologia. Essa não era só a aula na qual eu me saía pior, mas também a aula em que a professora pareceu me detestar desde o primeiro segundo e, pra piorar, eu dividia a sala com , que era a última pessoa no mundo com quem eu queria dividir qualquer espaço naquele momento.
De toda forma, embora eu sentisse que em alguns momentos ele me encarava durante as aulas que tínhamos juntos, nenhum outro contato foi estabelecido entre nós ao longo de todas as aulas e intervalos daquela manhã. Quando vi, já estava na hora de voltar para casa.
Os dias seguiram dessa forma. se tornou a pessoa mais próxima a mim, não só em Londres, mas na vida. Nos dias que sucederam todos os acontecimentos na casa dos avós de , ele foi a única pessoa que esteve presente o suficiente para me fazer sentir menos sozinha, menos deprimida. Eu sei exatamente o que todos pensavam a nosso respeito: que éramos um casal, que estávamos transando, que tinha algo mais. Mas e eu éramos puramente amigos, e não há nenhum “porém” nisso. Não havia aquela sensação ridícula de “alguém está na friendzone”. e eu éramos uma ótima dupla, funcionávamos muito bem juntos, e eu já sentia que deixá-lo para trás jamais seria fácil. E isso tudo, todos esses sentimentos, foram criados a base de uma amizade forte e certeira, nada a mais, nada a menos.
Algumas semanas após nos aproximarmos ainda mais, me chamou para conhecer um local especial em Londres. Eu conhecia pouquíssimos locais na linda cidade, devido a todo meu preconceito com Londres e tudo que ela me causou - ou tudo que Brian me causou. Mas fiquei curiosa para saber o que tinha para me mostrar.
Depois da escola, entrei no carro de e segui às cegas para meu destino misterioso. não me deu nenhuma dica, apenas sorriu misteriosamente ao longo de todo o caminho, sem nem mesmo dirigir a palavra a mim.
Cruzei os braços e esperei que chegássemos ao tão esperado destino. Levou cerca de meia hora, mas valeu cada segundo de espera e ansiedade. Era um lugar lindo, que disse se chamar Richmond Park, um dos maiores parques da cidade. O parque parecia ter saído direto de um filme e em nada se parecia com o sempre agitado centro de Londres. Longe dos pontos turísticos e em um horário como aquele, o local estava calmo e sem muitas pessoas. Olhei ao redor, e me senti um pouco idiota por morar na Inglaterra há tanto tempo e ainda assim não saber nada sobre sua capital.
Encarei maravilhada as dezenas de veados que corriam soltos ao longo do parque, deixando todo o ambiente com um ar ainda mais cinematográfico. Olhei para e sorri, encarando novamente seu sorriso misterioso, que me fez indagar:
- É lindo, ! Realmente maravilhoso. - Eu disse - Mas… por que me trouxe aqui? Tem que ter algum motivo.
- Olha bem ao redor - ele disse, fazendo um sinal com a cabeça - Além dos veados, nada mais te chama a atenção? Ou melhor, ninguém mais?
O encarei confusa, atendendo ao seu pedido em seguida. Olhei ao meu redor procurando por qualquer coisa que me chamasse a atenção, além de toda a beleza do parque. Foi quando a vi.
Do outro lado do parque, em pé perto de um dos arbustos que o rodeavam, estava parada com um sorriso que iluminava todo o seu rosto. Olhei para , como se para me certificar de que estava enxergando corretamente, e voltei a encará-la, sentindo meus pés se moverem instintivamente até ela.
me recebeu de braços abertos, em um abraço apertado e caloroso. Não pude conter as lágrimas que rolaram em meu rosto por finalmente vê-la novamente e demorei alguns minutos para encará-la ou dizer qualquer coisa. A olhei por algum tempo antes de começar a falar, como se para me certificar de que era ela ali. tinha os cabelos castanhos-claro presos em um rabo de cavalo alto. Seus olhos, também castanhos, contrastavam com as leves sardas que pintavam sua pele pálida. Ela era alta, com cerca de um metro e setenta e com um corpo proporcional para sua altura. Sorri para ela, feliz por finalmente sentir a velha de sensação de familiaridade com cada detalhe de alguém.
- ! - eu finalmente disse - O que faz aqui?
- Bom - ela respondeu sorrindo e secando as lágrimas que corriam livremente por meu rosto àquela altura - Aqui, neste parque, eu vim apenas para te encontrar. Em Londres eu vim para ficar. Estou me mudando, . Cheguei ontem e não vou mais embora, ao menos não por um bom tempo.
Fiquei atônita e sem palavras, sem realmente acreditar que aquilo estava acontecendo.
- Você está brincando? - eu disse - Não brinca comigo.
- Não estou brincando, . - respondeu - Eu queria ter vindo antes, mas tive vários contratempos em Newcastle e minha transferência de colégio foi um inferno. Minha sorte foi que Brian me ajudou e…
- Hey, espera aí. - interrompi - Brian?
- É uma longa história, você não vai gostar de todos os detalhes. - respondeu, sorrindo para mim - Mas todos eles foram necessários para que eu conseguisse vir para Londres.
- Então todos valeram a pena. - respondi, voltando a abraçá-la.

e eu buscamos um banco para nos sentarmos e conversarmos. veio até nós e anunciou que voltaria para nos buscar por volta das 5PM para que pudéssemos colocar o assunto em dia.
Conversamos durante horas, sem pausar um só segundo. Finalmente entendi porque esteve tão distante nos últimos tempos, ela esteve organizando sua mudança para Londres, o que deve ter demandado muito mais do que arrumar a mala (como no meu caso), já que ela teve que organizar tudo sozinha. Ela moraria na casa de sua tia-avó Nancy, que ficava bem próxima a casa de Brian.
- Mas por que você precisou da ajuda de Brian? - perguntei, quando já havia me explicado toda a situação e alguns detalhes de sua mudança.
- Minha tia estava procurando por uma casa para alugar para que nos mudássemos, e eu tinha que saber detalhes sobre a sua escola e onde você morava para que minha mudança não fosse em vão. - ela respondeu - Eu não podia perguntar a você porque isso estragaria tudo, então consegui o contato de através do Facebook. Ele me ajudou passando todos os endereços e alguns contatos da escola e depois pediu para Brian me ajudar com a indicação da transferência de colégio, porque só assim eu conseguiria uma vaga antes do final do ano letivo. E, bom, funcionou.
- Brian e , huh? - falei, tentando não ficar brava. Decidi desviar o foco da conversa - E onde entrou nisso?
Bom, somente poderia trazê-la até mim. Foi o próprio quem reconheceu isso e me passou o número de , já que ele não está em nenhuma rede social. Eu falei com ele e combinamos tudo, com grandes e maravilhosas ideias por parte dele, como a escolha do parque.
- é mesmo incrível - falei, ignorando novamente a menção de - Então, seremos colegas de escola novamente! Quando você começa?
- Começo na próxima segunda-feira. - sorriu - Passei por lá enquanto você estava na aula hoje mais cedo e já acertei todos os detalhes.
- Finalmente as coisas vão melhorar. - falei, voltando a me emocionar - Com você aqui, não tem como não melhorar!
- Esse é meu objetivo. - respondeu, sorrindo e me abraçando de lado.

me buscou nos parque pontualmente às 17h. Deixou em sua casa, pois ela ainda estava ajeitando algumas coisas da mudança, e me levou para a casa de Brian. O agradeci mil vezes por ter ajudado com a surpresa. Aquele foi o melhor dia de todo o meu ano, e eu devia muito disso a ele, embora devesse também a e Brian, o que fazia meu sangue gelar nas veias.
Cheguei em casa mais feliz do que nunca, estranhando o silêncio e a escuridão da casa. Era uma quinta-feira sem chuva, mas fria. Em Londres, naquela época do ano, o dia escurecia por volta de 5PM, portanto àquela hora - por volta de 6PM - não era comum que toda a família feliz estivesse fora, principalmente no meio da semana.
Quando estava na ponta da escada ouvi alguns barulhos vindos do quintal da casa. De início não consegui identificar o que estava acontecendo, mas logo pude distinguir a voz de Hannah gritando desesperadamente alguma coisa. Entrei em desespero e em dois segundos eu já estava correndo e gritando pela casa.
- Hannah! Hannah, estou indo. Onde você está?
Os barulhos foram ficando mais fortes a medida que eu me aproximava do quintal, assim como meu desespero parecia aumentar a cada batida do meu coração. Cheguei ofegante ao quintal, procurando por Hannah.
A primeira coisa que avistei foi a piscina. Logo depois, os olhos azuis de me encarando como se eu fosse louca. Minha visão pareceu se ampliar e logo eu enxerguei todos: Brian, Angelina, e Hannah, todos dentro da piscina, me olhando paralisados. Eu nunca nem tinha visto aquela piscina. Ela ficava no quintal de trás, fora da vista da janela do meu quarto. Para falar a verdade, eu nunca tinha sequer olhado para aquele quintal em mais de dois meses naquela casa.
Meu primeiro instinto foi me virar para ir embora, mas logo ouvi os passinhos de Hannah correndo até mim, juntamente com sua voz me chamando.
- ! Que bom que você chegou. - ela disse, abraçando minhas pernas e molhando minha calça jeans - Vem pra piscina com a gente!
- Está muito frio para piscina, não é ruivinha? - respondi, rindo levemente e evitando olhar para os demais - Por que não deixamos para aproveitar em um dia de sol?
- A piscina é aquecida. - ouvi Brian dizer - Você deveria aproveitar com a gente, .
Não respondi, sabendo que apenas conseguiria ser grossa com ele, coisa que eu evitava fazer perto de Hannah. Logo a pequena segurou em minha mão e me puxou para dentro da casa. A segui, sem entender.
- Vem, vamos pegar seu biquíni. - Hannah disse, ignorando minha resposta negativa ao seu pedido. Apenas segui seus passinhos, entrando na casa e indo em direção ao meu quarto, sem querer contrariá-la e acabar destruindo meu dia que estava tão bom até aquele momento.
Vesti meu único biquíni, que era um pouco infantil e apertado demais, mas haveria de servir. Ao colocá-lo me surpreendi ao perceber que, na verdade, ele estava até um pouco folgado devido à minha perda de peso. Me encarei no espelho, ignorando o fato de meu corpo ter mudado tanto em pouco tempo, e me vesti com um roupão, colocando meu celular em seu bolso. Descendo as escadas com Hannah em seguida.
Tirei o roupão e mergulhei na piscina assim que chegamos no quintal, tentando não me expor mais do que o necessário. Hannah colocou suas boias nos bracinhos e entrou na piscina em seguida, nadando atrás de mim durante todo o tempo.
De início apenas interagi com ela. Mas Hannah não era do tipo que ignorava os outros apenas porque estava comigo, pelo contrário, ela sempre tentava interagir com todos ao mesmo tempo. Por isso, logo estávamos todos interagindo, mesmo que indiretamente.
Evitei deixar minha mente questionar aquela aproximação e apenas curti o momento. Em diferentes momentos Brian me levantou na piscina, brincamos de tentar derrubar um ao outro com Angel no ombro de e eu no ombro de Brian, enquanto Hannah torcia para sua mãe descaradamente - foi ela quem ganhou, mesmo.
Depois de algumas horas, decidimos sair da piscina. Fui a primeira a sair, indo para o meu quarto rapidamente.
Não sei dizer quanto tempo ficamos na piscina, mas foi o primeiro dia agradável que passei naquela casa, sem me sentir uma intrusa ou qualquer tipo de sentimento negativo por eles. Me perguntei como seria me sentir daquela forma durante todo o tempo, mesmo sabendo que isso jamais seria possível. Eu não poderia deixar ser, mesmo que meus motivos estivessem sendo enfraquecidos pouco a pouco com a distância de minha mãe.
Tomei um banho quente e me vesti para dormir. Assim que deitei, percebi que meu celular não estava na cama ou ao lado da mesma. Procurei no banheiro, no chão. Não estava por lá. Desci as escadas, indo em direção a piscina, e logo o vi jogado próximo a piscina, em cima de uma toalha.
O peguei e já estava me virando para subir quando vi no canto do quintal, sentado de olhos fechados. Olhei para o celular, vendo que já passava da meia-noite. Com aquele frio ele com certeza amanheceria doente caso dormisse ali. Ponderei durante alguns segundos, mas decidi retribuir um de seus favores. Fui até ele e o balancei levemente, chamando seu nome em seguida.
- - falei, baixinho - ! Acorda, está muito frio aqui.
Ele abriu os olhos aos poucos e me encarou com os olhos ainda sonolentos. Por algum motivo não consegui me afastar imediatamente. Em vez disso, continuei falando.
- Está frio, você vai congelar aqui.
- Obrigado por me acordar. - ele disse, se ajeitando na cadeira e aproximando involuntariamente seu rosto ainda mais do meu. - O que estava fazendo aqui?
- Vim buscar meu celular. - respondi, finalmente me afastando e erguendo meu corpo. Tentei soar indiferente ao me levantar e dizer: - Boa noite.
- Hey, - ele me chamou, antes que eu pudesse sair dali. Me virei para ele e o vi andando lentamente em minha direção - Foi muito bom te ter com a gente hoje. Foi a primeira vez desde que você chegou que essa casa esteve em harmonia.
Não o respondi, encarando seus movimentos lentos que o traziam até mim. Engoli em seco, observando seu rosto confuso e estranhamente aéreo. parou a poucos centímetros de meu rosto, permitindo que eu visse todos os detalhes de seu rosto. Meus olhos logo tinham vida própria, e alternavam entre seus olhos azuis e seus lábios rosados.
- Obrigada por ajudar com a mudança. - falei, em um sussurro.
- Fiquei feliz em poder te ajudar. Não faz bem ficar tão sozinha.
Voltamos a ficar em silêncio, apenas nos encarando. Novamente, eu parecia ver meu reflexo à minha frente. Mas isso não me impediu de sentir um desejo imenso de tê-lo mais perto, de ter seus lábios mais perto. De ter seus lábios em mim.
parecia viver o mesmo momento de transe que eu, e, enquanto aproximava seu rosto do meu de forma lenta e torturante, fechou seus olhos. Eu sabia, em algum canto de minha consciência, que deveria correr. Mas todo meu corpo e aquela parte que se sentiu atraída por ele como um imã desde o meu primeiro minuto naquela casa pareciam me arrastar para ele.
Portanto, quando segurou em minha nuca, fazendo carinho levemente com a ponta dos dedos, eu não hesitei em fechar os olhos e deixar meus lábios entreabertos, certa de que se ele não me beijasse ali, eu morreria.
E foi exatamente o que ele fez. Com um movimento leve e torturante, ele colou seus lábios nos meus, iniciando um beijo lento e envolvente. Soltei o ar com força quando senti sua língua pedir espaço para iniciar o beijo, e não hesitei em permitir. apertou minha cintura, aproximando nossos corpos, enquanto eu arranhava levemente sua nuca e agarrava as pontas de seus cabelos negros entre as minhas mãos. Aprofundamos o beijo gradativamente, e logo senti dar alguns passos para trás, sem quebrar o beijo, me encostando em uma das paredes do quintal. Não resisti por nem um segundo, e apertei ainda mais nossos corpos, intensificando aquele beijo insano.
Depois de muitos minutos, afastou seu rosto do meu, encostando sua testa na minha, como se estivesse muito próximo de perder o controle. Eu, com certeza, estava.
Quando ele abriu os olhos, uma onda de sentimentos confusos me invadiram. Eu conseguia ver cada nuance azul em suas íris, sua pupila dilatada na escuridão daquela noite sem estrelas e, quase subitamente, conseguia ver a mim. Meu coração gelou, minhas pernas bambearam e, de repente, eu senti repulsa de mim mesma.
Ele era meu irmão.
Me afastei de como quem afasta a mão de um objeto em chamas. Seu olhar confuso e assustado fez meu coração se apertar, e logo eu não podia mais estar ali. Me movi rápido para longe dele, sentindo lágrimas começarem a brotar em meus olhos.
- ! - ele chamou - , espera!
Olhei para trás, por instinto. Seus olhos brilhavam na escuridão, como dois faróis.

Com um último olhar, o deixei para trás na escuridão da noite.


Capítulo 10

’s P.O.V.

Certos momentos marcam de maneira definitiva o início ou o fim de uma história. O momento em que e eu nos beijamos marcou a mudança de todos os acontecimentos futuros, de toda a minha vida.
Naquele dia na piscina eu não pude tirar meus olhos dela. Não apenas pelo fato de ela estar de biquíni, o que, é claro, influenciou, mas também por ser a primeira vez que a vi tão espontânea e aberta. Tão ela mesma, não apenas sem sua máscara, mas com suas feridas guardadas no bolso. Suas mágoas não eram sua parte principal naquele momento, ela estava totalmente desligada daquilo tudo. E eu estava encantado.
não me olhou diferente durante o tempo em que estivemos na piscina. Na verdade, ela mal me olhou, mas isso só facilitou os meus olhares para ela.
Quando saímos da piscina, eu fui para o meu quarto e tomei um banho rápido. Fiquei inquieto e por isso desci para a piscina, para reconstruir as últimas horas que vivemos, aquelas que pela primeira vez foram tão leves. ter ido até lá foi obra do destino, ou talvez de alguma força superior que ouviu as minhas preces. Mas quem atenderia um pedido tão pecaminoso? Eu não sei.
Beijá-la foi indescritível, inacreditável. Só naquele momento eu entendi completamente todos os meus sentimentos com relação a ela, todas as vezes que desejei estar perto, que quis sua amizade e seu carinho. O que eu queria, afinal, era ela. Puramente ela, embora eu soubesse que jamais poderia ter.
Sua partida repentina da piscina apenas confirmou esse fato - eu jamais poderia tê-la. Não sem culpa, não sem fugas, não sem remorso. Querer era utopia, mas isso não me impedia de querê-la. Depois de finalmente experimentar um pouco do que seria seu gosto, do que seria tê-la para mim, eu sabia que jamais poderia simplesmente esquecer. Apesar da voz que gritava em minha cabeça a cada segundo, que me esmagava, que me destruía.

Ela é sua irmã.

Querer era trair meu pai, minha família, meu sangue. Mesmo se um dia ela retribuísse o sentimento, jamais poderíamos ficar juntos de verdade. E tudo parecia tão precipitado, eu a conhecia há tão pouco tempo. Em toda a minha vida eu nunca nem sequer gostei de alguém, nunca quis alguém por perto; não daquele jeito. Por que justamente ela? Estaria eu ficando louco?
Não consegui dormir durante dias pensando nisso, no beijo, em como minha vida virou de ponta cabeça em questão de segundos. Na primeira fase, eu simplesmente vegetei. Fui para escola como um vegetal, nem sequer conversei com a minha família, evitei as refeições que fazíamos juntos. Eu não podia encará-los, eu não podia fingir que nada havia acontecido. Eu tinha certeza de que se afastaria de vez agora, e seria tudo culpa da minha inconsequência. Por isso me afastei também - eu não podia carregar esse fardo com todos os olhares voltados para mim.
Ninguém imagina o quão surpreso eu fiquei quando soube que, na verdade, apenas se aproximou mais da família depois do dia na piscina. Eu estava tão focado em ignorar a todos, que não soube disso até que minha mãe veio conversar comigo em uma belíssima manhã de uma sexta-feira chuvosa e fria, que anunciava a chegada do inverno.
Eu estava preparando meu café da manhã para comer no carro, como vinha fazendo há algumas semanas, quando fui surpreendido por minha mãe.
- Eu sabia que você estaria aqui, saindo às escondidas pela manhã. - ela disse. Desviei o olhar, me sentindo culpado demais para encará-la. - Achou que não notaríamos?
- Só tem estado corrido, mãe. - respondi
- Hm, interessante. Desde o exato dia em que se aproximou minimamente de nós, você simplesmente sumiu. - ela disse, cruzando os braços. A encarei surpreso. - Você está fugindo dela, . Sei que não deve ser fácil tê-la aqui, mas você é parte fundamental dessa família. Precisamos da sua presença, precisa te conhecer assim como precisa conhecer cada um de nós.
- … Está mais próxima? - perguntei, confuso.
- É claro que está, e você sabe. - minha mãe respondeu - Ela tem feito as refeições com a gente, conversa civilizadamente com todos. Embora ainda seja fria com seu pai, ela parece estar se habituando a esta casa. A esta família.
Eu simplesmente não sabia o que responder. Eu não fazia ideia de que havia decidido socializar com o resto da casa, não tinha como eu saber. Passei um tempo apenas encarando minha mãe, sem saber o que fazer.
- Pode largar esse lanche meia-boca que você fez aí e vem me ajudar com o café. - ela disse, tirando o sanduíche que eu havia feito de minhas mãos.
- Mas mãe - tentei argumentar - E se se aproximou porque eu me afastei? Isso poderia fazer ela se afastar de novo.
- Não acho que seja o caso - minha mãe respondeu simplesmente.
Não tentei argumentar mais, estava confuso demais para isso. Apenas segui minha mãe, ajudando a colocar o café na mesa e me sentando em seguida. Meu pai pareceu surpreso ao me ver na mesa quando desceu com Hannah nos braços, mas apenas sorriu e acenou para minha mãe, sabendo que aquilo era obra dela. Hannah me abraçou brevemente, ainda sonolenta, e se sentou ao lado de meu pai, de frente para mim. Minha mãe também se sentou ao lado do meu pai. Quando desceu, eu achei que ela daria meia-volta ao me ver, mas ela apenas deu bom dia a todos e se sentou ao meu lado, comendo seu café calmamente.
Eu estava paralisado, com o coração na boca. Era a primeira vez que eu a via em semanas, desde nosso primeiro e único beijo. Engoli uma torrada e um pouco de suco de laranja e me levantei, me despedindo rapidamente de todos, sem aguentar nem mais um segundo daquela pressão insuportável. Meu pai me chamou quando eu já deixava a cozinha.
- , porque não dá uma carona para a ? - ele disse - vem te buscar hoje, filha?
o encarou longamente com uma feição de desagrado que o deixou desconcertado. Sua relação com meu pai continuava sendo tão tensa quanto antes.
- Não, Brian. - ela enfatizou - Mas está cedo, não me importo de ir andando.
- De jeito nenhum. - minha mãe insistiu - Vocês vão para o mesmo lugar. te leva com certeza.
não demonstrou nada, apenas concordou com a cabeça e terminou de tomar seu suco calmamente. Após isso, se levantou da mesa e abraçou Hannah, acenando para meus pais e vindo até mim enquanto digitava algo no celular, sem olhar em minha direção.
Eu segui para o carro e me sentei, respirando fundo e tentando controlar meu corpo que tremia em expectativa só de pensar em ficar tão perto dela. se sentou ao meu lado, no banco do carona, segundos depois de eu entrar. Colocou os fones de ouvido e deitou a cabeça no vidro do carro, ignorando totalmente minha existência.
O caminho até a escola foi assim, sem nenhum contato ou movimento. Sem nenhuma palavra. Ela apenas levantou a cabeça e abriu seus olhos quando parei o carro, saindo dele em seguida, sem olhar para trás. No portão, a esperava. Ele a abraçou carinhosamente e deu um beijo em sua testa, levando-a para dentro da escola abraçada pelos ombros.
Me envergonho de dizer, mas eu quis ser ele. Não só naquele momento, mas em todos os outros em que os vi juntos. o adorava, era possível ver em sua feição relaxada quando ela estava com ele. Ele também gostava de verdade dela, e ambos nem se importavam com a minha existência.
Durante aquela sexta-feira na qual eu havia finalmente voltado a encará-la, eu não pude parar de olhá-la quando a tinha ao alcance dos olhos. E não pude tirar minha mente dela em momento nenhum. Apenas pensei em como queria que aquilo fosse diferente, aquele sentimento insano, que era incontrolável, que ia além da razão.
No final da aula eu não esperei por nenhum de meus amigos, apenas saí da escola e fui em direção ao meu carro querendo mais do que nunca sumir dali. Passei a tarde trancado no quarto e, de noite, fui obrigado a jantar com a minha família, sendo arduamente ignorado por novamente. Até mesmo meu pai tinha suas respostas, meio azedas, mas ainda assim tinha. Ela nem sequer olhou em minha direção. Depois disso, só saí do meu quarto de madrugada, depois de tentar sem nenhum sucesso dormir, para me meter em qualquer balada no centro de Londres e tirar aquela maldita garota da minha cabeça.
Entrei em uma balada chamada “The Armin”. Era um local relativamente pequeno, mas eles não estavam pedindo a identidade para deixar as pessoas entrarem, então eu simplesmente entrei na fila e, depois de vinte minutos, no bar. Era um ambiente abafado e quente, pintado em tons que variavam entre o vermelho e o preto. Uma música eletrônica qualquer explodia em meus ouvidos e eu sabia que precisaria de muita bebida para suportar aquele ambiente, ainda mais sozinho. Fui para o bar e pedi uma dose de vodka pura.
Segui desse jeito, me contentando com vodka e alguns poucos drinks sobre os quais eu nunca tinha ouvido falar. Não estava exatamente acostumado com aquilo, mesmo que frequentasse festas da escola, estar em uma balada, sozinho, não era comum na minha idade. De toda forma, para tudo há um começo, e tenho certeza de que muitos desses começos acontecem quando as pessoas se ferram no amor - ou algo próximo a isso. Logo eu já estava bêbado o suficiente para me esquecer de tudo, inclusive da minha dignidade. Mas não de , não daquela maldita garota.
Me levantei do bar e segui para a pista de dança, consciente o suficiente para não trocar meus passos no caminho. Olhei ao meu redor e vi uma garota negra, com um cabelo cacheado que caía até o final da cintura e um corpo definido, mas não magro. Ela era linda e, o mais importante, era absolutamente diferente dela. Me aproximei sorrateiramente e sussurrei qualquer coisa em seu ouvido. Assim que ela olhou para o meu rosto, sorriu para mim e se aproximou.
- Qual o seu nome? - ela disse, sorrindo com malícia
- Sou o - respondi, sorrindo no mesmo tom.
- Sou a Ashley - ela disse, mesmo que eu não tenha perguntado - Mas me chame de Ash.
- Oi, Ash - falei - Acho que já sabemos o suficiente um do outro.
Sorri uma última vez e me aproximei de seu rosto, beijando-a com força em seguida. Já estávamos no fim da noite, logo todos iriam embora, portanto não nos demoramos por ali. Logo eu e Ash encontramos o rumo da saída e do motel barato mais próximo.
Acordei algumas horas depois, me deparando com a mulher quase desconhecida ao meu lado ainda dormindo. Me levantei e saí sorrateiramente do quarto, sabendo que, embora aquela não fosse a melhor atitude a ser tomada, nenhum de nós dois pretendia estender aquele contato.

Fui para casa com uma ressaca pesada e um sentimento horrível no peito: aquilo nunca seria o suficiente.



Os dias seguiram assim. se tornou cada vez mais parte da casa, da família, e eu me senti cada vez mais distante de tudo aquilo. A mistura de sentimentos que me causava era enlouquecedora. Eu me sentia muito feliz por ela estar dando uma chance aos meus pais e, principalmente, ao meu pai. Ou Brian, como ela ainda o chamava. Ao mesmo tempo, eu não conseguia suportar ficar perto e senti-la tão distante, tão indiferente. Não quando minha mente girava em torno dela durante dias a fio. Não quando ela estava gradualmente me enlouquecendo. Além disso, e acredito que principalmente, estava a culpa. Eu me culpava pelo beijo, me culpava pelo que sentia, me culpava por não ser correspondido. Não conseguia encarar meus pais ou Hannah, minha irmãzinha. Me sentia sujo, impotente e sozinho.
Os momentos em que conseguia me sentir melhor eram quando eu estava com meus amigos ou quando estava bêbado, o que acontecia com muita frequência. Passei a sair com diversas garotas por uma noite só, tentando encontrar qualquer sensação que tirasse da minha cabeça.
O autumn term, primeira parte do ano letivo, acabou no final de dezembro, dando início ao spring term no começo de janeiro. As festas de final de ano foram, de diversas maneiras, insuportáveis. nem ao menos me desejou feliz Natal ou Ano Novo, e toda a minha família (com exceção de Hannah) passou cada segundo das duas datas medindo cada minuto para agradá-la, o que tornou tudo ainda mais insuportável. Passamos ambas as datas em Painswick, o que geralmente não acontecia, já que meu pai costumava passar pelo menos um dos dois momentos com a família dele no interior de Londres. Jane não estava por lá, aparentemente viajou com o namorado.
Depois disso, com a volta das aulas, a rotina voltou ao normal. Tentei ao máximo voltar a me aproximar da minha família e ignorar , como ela mesma fazia comigo, e, embora não tenha conseguido com tanto sucesso quanto ela, estava mais suportável para mim. Mesmo que eu me sentisse desconfortável perto dela, fiquei muito feliz em ver que meu pai e a própria melhoraram muito desde que ela se aproximou. ganhou peso e frequentava a terapia, o que vinha ajudando bastante, pelo que percebi.
Meu pai conseguia driblar cada vez melhor o humor azedo da filha, enquanto minha mãe parecia estar ganhando cada vez mais espaço em sua vida, mesmo que eu tivesse certeza de que ainda tentava resistir. De todo jeito, nosso beijo ainda me atormentava e eu não havia conseguido me convencer de que ele não significou nada, ao menos para mim.
Uma semana após o início das aulas, eu e metade da escola decidimos ir em uma balada em que um dj famoso tocaria. Eu não estava nem aí para o dj, sendo bem sincero. Só queria beber e sair dali acompanhado, como fiz nas dezenas de festas nas quais marquei presença nos meses anteriores.
Fugi de Brooke a festa inteira, me arrependendo amargamente de ter escolhido ir em uma festa na qual encontraria pessoas conhecidas, além dos meus amigos. Estava preparado para ir embora ainda no início da festa, quando, em um canto iluminado da festa, próximo ao bar, vi .
De início, ela foi a única que eu vi. Com os cabelos ruivos presos no alto da cabeça em um rabo de cavalo, um batom vermelho e um vestido preto grudado ao corpo. Essa imagem em si já teria me feito perder a cabeça, ou ao menos cogitar perdê-la, mas quando notei que seu sorriso iluminado era dirigido para um cara a sua frente, que estava cada vez mais próximo, e que logo reconheci como um dos integrantes do time de futebol da escola, perder a cabeça não foi exatamente uma opção.
Fiquei paralisado no meio da festa, olhando fixamente para a cena que se desenrolava poucos passos dali. Subitamente, como se notasse meu olhar, me encarou de longe. Ela sorriu para mim e, no segundo seguinte, grudou os lábios nos do garoto a sua frente, sendo correspondida imediatamente.
Eu não posso dizer que sei exatamente como todos os acontecimentos seguintes desenrolaram, mas, como se por vontade própria, meus pés se moveram até os dois. No segundo seguinte, eu havia separado os dois, dado um soco no rosto do o indivíduo e arrastado para longe dali, sem a chance de ser parado.
não resistiu ao me seguir, para ser sincero. Mas me arrependi no segundo seguinte de ter feito o que fiz, por muitas razões, mas principalmente porque eu não tinha aquele direito. Não podia controlar sua vida, não podia controlar quem ela beijava. Entramos no banheiro masculino, que estava praticamente sempre vazio - ao menos no início da festa - e eu fechei a porta, deixando livre para fazer o que quisesse e indo até a pia lavar meu rosto. Ao contrário do esperado, ela não saiu do banheiro. Depois de alguns segundos me encarando, ela forçou uma voz indignada:
- Você está ficando louco? - falou - Acha que pode socar qualquer pessoa que se aproximar de mim?
- Você está me deixando louco. - respondi - E, pra ser bem sincero, acho que adora essa ideia.
- , eu estava tentando esquecer da sua existência nos últimos meses. - ela disse, cruzando os braços - Não sei se percebeu. Não quero te deixar louco, quero esquecer que você existe.
- Então por que continua tentando me provocar? - perguntei - Ou aquele olhar e sorriso debochado antes de beijar o imbecil lá fora foi um sinal de desimportância?
- Isso te dá o direito de agir feito um animal? - ela questionou, ignorando minha pergunta
- Não, não dá. - respondi - Já me arrependi disso.
Ficamos em silêncio durante alguns segundos, que pareceram anos. Eu apenas encarando meu reflexo, um pouco mais calmo, no espelho. encarando a mim, como se esperasse alguma reação. Surpreendentemente, foi ela quem voltou a falar:
- Se você acha que aquele beijo forçado mudou alguma coisa…
- Forçado? - interrompi - Não me lembro de te ouvir pedir pra parar.
- Você não me deu tempo. - ela respondeu
- , você pode fingir que eu não existo. Já me acostumei com essa ideia. Só não finge que não sente a mesma atração e essa… Coisa que puxa a gente.
- Eu não sinto nada, . - ela disse - É melhor se acostumar com a ideia.
- E por que você está aqui, trancada comigo sem tentar sair, me provocando para me ver perder o controle? - respondi, vendo sua feição indecisa entre o deboche e a surpresa - Você tem feito um bom trabalho em me ignorar, mas sei que pensa em mim, naquele beijo, tanto quanto eu penso.
- Você está ficando louco. - ela respondeu, simplesmente.
- Ah é? - falei, me virando para ela e dando passos largos em sua direção - Então por que você não me deixa falando sozinho e volta para a festa? Se afasta de mim agora. Não depois.
não respondeu, não se afastou, não se moveu. Me aproximei de seu rosto suavemente, sentindo meu estômago se revirar em expectativa, enquanto a observava fechar os olhos, totalmente entregue ao momento.
Mas eu não podia beijá-la. Isso só faria todo aquele ciclo insuportável se iniciar de novo: negação, culpa, fuga. Naquele momento eu nem me importava mais com o tabu que o nosso beijo representava, eu só queria que admitisse que me queria tanto quanto eu a queria. Estando ou não errado, ela não tinha o direito de me provocar para ceder e matar a vontade por nós dois, para que no final a culpa fosse apenas minha. Ou, ao menos, parecesse minha.
Juntando todas as minhas forças para resistir; sussurrei perto de sua boca, o suficiente para que nossos lábios roçassem:

- Eu não vou beijá-la. - falei, observando-a abrir seus grandes olhos azuis - Não até você me pedir.

Em seguida, eu deixei o banheiro, seguindo apressado para fora da festa. Passei por , que provavelmente procurava por , ignorando seu olhar suspeito e deixei aquele lugar abafado. Sentir o frio de janeiro em Londres nunca foi tão reconfortante. Eu precisava daquilo, já que todo meu corpo parecia pegar fogo. Precisava esfriar minha cabeça e acalmar meu fôlego após encarar uma com tanto desejo nos olhos e deixá-la sem finalizar o que nós dois queríamos.
Decidi ir para casa, já que nem mesmo beber ou ficar com qualquer garota me faria esquecer aquela proximidade com . Peguei meu carro que estava estacionado na esquina da rua e segui para casa, sem pressa. Cheguei por volta de 1AM, o que era bem cedo para os meus padrões.
As luzes estavam apagadas e não havia nenhum ruído na parte de baixo da casa, então supus que todos já estavam dormindo. Quando subi as escadas, no caminho para o meu quarto, porém, me surpreendi ao ouvir vozes vindo do cômodo onde minha mãe e meu pai costumavam trabalhar. Me aproximei da porta, no intuito de bater, mas, ao ouvir o tom urgente de suas vozes através da porta, desisti da ideia me limitando a apenas ouvir o que eles estavam dizendo.
- Ela precisa saber, Brian. - minha mãe disse - tem o direito de saber a verdade, não é justo que ela se aproxime de nós sem saber o real motivo para estar aqui.
- Angel - meu pai disse em um tom calmo - Você precisa entender que a mãe de é tudo para ela. Contar isso agora faria com que ela nos culpasse, nos odiasse ainda mais.
- Não é justo tentar uma aproximação com base em mentiras, Brian! - minha mãe exclamou.
- Ela precisa confiar na gente. Antes de dizermos a verdade, ela precisa acreditar que nós não tivemos nada a ver com a internação da mãe dela. - meu pai voltou a falar, agora parecendo ansioso.

Espera, internação? Do que eles estavam falando?

- Mas nós tivemos, você sabe disso. - minha mãe respondeu, em um tom resignado.
- Não foi nossa culpa! - meu pai exclamou, aumentando o tom de voz.
- Mas foi nossa decisão. - ela disse - Temos responsabilidade sobre isso, mesmo que a Janett precisasse de tratamento, ela está em uma clínica psiquiátrica neste momento por escolha nossa, não dela própria. - mamãe fez uma pausa, antes de exclamar sua frase final - não vai entender isso, nem agora e nem depois. Não sem antes saber toda a verdade sobre vocês, sobre nós, sobre Janett.
- Ela nunca vai nos perdoar. - meu pai disse, soando derrotado.

Eu concordava plenamente.


Capítulo 11

's P.O.V

Acordei levemente tonta, com uma sensação estranha no estômago e algo que ia para além da dor de cabeça que eu sabia que iria acabar comigo. Mais do que qualquer outra sensação, um sentimento estranho me abraçava lentamente, era quase ruim, mas… Familiar.
Eu estava irritada.
Mais do que sonolenta, frustrada, desnorteada e com uma ressaca daquelas, eu estava irritada. Como ele pôde? Como eu pude? Como é que o universo conseguiu girar até aquele ponto do tempo, até o momento em que eu desejei que me beijasse e ele disse com todas as palavras que não iria me beijar. Bem na minha cara.
Enquanto eu enfrentava meu dilema interno, senti a cama se mexer levemente perto de meus pés. Levantei a cabeça e vi sentada, me encarando com uma feição que dizia claramente o quão ferrada eu estaria pelas próximas cinco horas nas quais ela me torturaria com uma infinidade de perguntas. Deitei a cabeça no travesseiro novamente, pensando no quão azarada eu era. começou a falar, apenas fortalecendo meu ponto
- Não adianta fingir que está dormindo - disse - Mais cedo ou mais tarde nós vamos conversar.
- Prefiro mais tarde, se não se importa. - resmunguei, porém me sentei na cama, sabendo que em nada adiantaria debater com .
- , você tem noção do estado em que chegou aqui? - falou em tom de reprovação. Revirei os olhos, encarando-a com indiferença. - Se o imbecil do não estivesse por lá, Deus sabe o que poderia ter acontecido!
Ok, primeiro deixe eu explicar: e se odeiam. Apesar de terem inicialmente se dado quase bem, poucas semanas depois eles mal se olhavam. Segundo , é um cara metido e que se acha superior a todos. Ela tem certeza que ele mente sobre toda a situação com Brooke e e que na verdade ele é o culpado de toda a história. Algumas de suas teorias até fazem sentido, mas qual é a chance de eu acreditar que é o cara bonzinho e o o culpado? Isso mesmo, nenhuma.
, por sua vez, odeia todo mundo. é só mais um nome na lista dele, apesar de eu achar de verdade que tem algo a mais, alguma coisa que ele não quer que eu perceba. Sempre que eu pergunto ele diz que ela é “insuportável” e que ele não vai perder nem um segundo falando sobre ela. Estranho? Bom, não mais que minha relação quase incestuosa com meu meio-irmão.

E eu não acabei de pensar isso. Não mesmo.

- , você vai ficar aí olhando para o nada e fingindo que eu não estou falando com você? - voltou a falar, me tirando de meus devaneios.
- , eu só bebi tanto porque eu sabia que estava lá e nada aconteceria. Você sabe que eu jamais faria isso estando sozinha. Então desembucha: o que é que você realmente quer me perguntar? - falei, cruzando os braços e a olhando em tom de desafio.
- Ok, já que você insiste, vou direto ao ponto. - ela disse, me olhando com um olhar que anunciava que eu iria me arrepender de ter me colocado naquela situação. - Por que você não me contou que você e se beijaram?
- O quê? - falei, em um quase sussurro. Pigarreei, tentando recuperar a voz, enquanto meu coração quase explodia no peito. - De onde você tirou isso, ?
- Você me disse ontem, enquanto vomitava meu banheiro todo e me explicava detalhadamente o quão imbecil o é por ter ‘te deixado no banheiro’, seja lá o que isso signifique. - ela respondeu, em um tom confuso - O ponto aqui é: você só me contou porque estava bêbada. Eu não quero te cobrar nada, você não é obrigada a me dizer tudo, só quero te dizer que eu estou aqui e jamais te julgaria. Você sabe disso, certo?
Eu não me lembrava de ter dito aquilo. Eu com certeza falei muito na noite anterior, estava brava e sabia que provavelmente eu tinha falado sobre , uma vez que ele era a grande razão para eu estar irritada. Mas falar sobre o beijo? Eu não fazia ideia de que tinha ido tão fundo.
não voltou a falar, continuou apenas me encarando enquanto eu olhava para seu rosto com os olhos arregalados sem saber como sair daquela situação. Não haveria nada que eu pudesse falar para convencer de que aquilo não tinha acontecido, e muito menos para evitar a tonelada de perguntas que viriam em seguida. Eu realmente não tinha nada de inteligente para dizer, de forma que apenas dei de ombros e soltei:
- Não é como se fosse grande coisa.
- O que você quer dizer com isso, ? - falou, em um tom consternado - Você realmente vai tentar me convencer de que não se importa com isso?
- , tudo bem, é óbvio que me importo com isso. - respondi deitando novamente na cama e encarando o teto. - Apenas não faço ideia do que é que você quer que eu diga.
- Comece do começo, que tal? - ela disse, em um tom sugestivo - Quando isso aconteceu?

Melhores amigas podem ser um saco quando querem.

- Foi no dia em que você chegou em Londres. - respondi - Eu estava buscando meu celular que ficou no quintal após a interação na piscina, sobre a qual eu já te contei, e estava lá, dormindo. Eu o acordei, porque estava frio, ele se levantou e estava rolando todo um clima estranho. Enfim, ele me beijou, eu não me afastei. Depois saí correndo e, desde então, não nos falamos mais. Isso é, até ontem. - engoli em seco. Ainda era muito estranho pensar naquilo, ainda mais quando aqueles arrepios estranhos subiam por minha espinha evidenciando o quanto aquilo que me afetava, e não só de um jeito ruim.
- Então isso aconteceu há meses? - perguntou, parecendo afetada, e eu apenas fiz que sim com a cabeça. prosseguiu, com um ar ainda mais curioso e acusador. - E o que foi que aconteceu ontem?
- Ah, , nada demais. - falei, cobrindo meu rosto com uma almofada em seguida. Porque eu não posso ser uma pessoa normal, meu Deus? - foi um babaca, nada de novo.
- O que ele fez exatamente, ? - falou enquanto arrancava a almofada do meu rosto. Bufei, mas continuei a falar.
- Ele bateu em um garoto porque eu estava o beijando. Depois me arrastou para um banheiro e teve a audácia de insinuar que eu queria beija-lo, mas que ele só me beijaria quando eu pedisse. - falei, sentindo meu rosto queimar de raiva.
Me sentei novamente na cama me sentindo extremamente frustrada. Alisei meu rosto e me levantei, andando de um lado para o outro enquanto despejava aquele rio de sentimentos confusos que vinham tomando conta do meu corpo nos últimos meses.
- Como ele ousa, como ele… Ousa!? - continuei, sem me dar conta do quão maníaca eu parecia - Eu passei todos esses meses me esforçando para ficar longe, eu até me aproximei da família para tentar ver aquele desgraçado como irmão, para tentar parar de pensar naquele maldito beijo. E aí ele simplesmente parou de olhar para mim, de estar nos mesmos lugares que eu e, de repente, eu percebi que estava sentindo falta disso. Como eu poderia sentir falta, ? Nós nem nos conhecemos e ele me atrai como um ímã, mas ele é a droga do meu irmão. Eu nem queria que ele fosse meu irmão! Eu o odeio. Eu realmente o odeio, e agora eu odeio ainda mais porque ele tem esse efeito maldito sob meu corpo.
- - tentou intervir - , calma, vamos…
- Eu realmente queria que ele fizesse qualquer coisa ontem, sabe? - continuei, ignorando - Que ele se aproximasse, que perdesse o controle, que… Não sei. Eu só queria alguma coisa e eu jamais daria o primeiro passo. Então ele dá a porcaria do passo e depois esfrega na minha cara que eu quero beijá-lo e que não vai me beijar por que eu devo pedir? Em que merda de mundo esse garoto vive? - parei de andar, voltando a encarar , e quase gritei a frase final do meu monólogo alucinado - Eu não quero beijá-lo. E eu não vou pedir nada!
Quando terminei, eu estava ofegante. Me sentei na cama e voltei a esconder o rosto, sentindo pela primeira vez por completo o quão desesperadora e incontrolável era aquela situação. Minha agonia era quase palpável. se manteve em silêncio, provavelmente por perceber que aquele desabafo havia sido muito intenso para mim e eu mesma precisava de tempo para digerir as coisas que eu disse. Quando me senti melhor, virei para ela e perguntei:
-Você acha que eu sou louca, não acha?
- Eu tenho certeza de que você é louca, mas por outros motivos. - falou rindo e se aproximou de mim, me abraçando de lado - Fico feliz que tenha posto tudo isso para fora, não sei como conseguiu manter isso com você durante tantos meses. Deve ter sido muito doloroso. De tudo que eu posso te dizer, a coisa mais importante é que você não tem culpa de como se sente, até porque você obviamente não queria se sentir assim. E eu jamais julgaria você por estar sofrendo por algo tão complexo e que foge tanto do seu controle.
- , eu sei que você não me julgaria. Eu nunca tive medo do que você acharia mas, agora que falei sobre isso, tudo se tornou dez vezes mais real, e esse era meu medo. Como eu vou ignorar isso agora? - falei em um tom frustrado.
- Por que raios você acha que deve ignorar o que você sente? - perguntou franzindo a testa.
- Porque é errado. Porque ele é meu irmão e era para eu odiá-la, afinal foi por ele que meu pai me abandonou quando eu tinha cinco anos! Além do mais ele é um babaca que só vem sendo babaca comigo desde o início.
- Ok, , vamos lá. A parte do irmão eu já saquei, mas que culpa tem o se o Brian escolheu fazer burrada? Ele era tão criança quanto você, porque você deveria odiá-lo? - perguntou. Antes que eu pudesse responder, porém, ela continuou - Além do mais, vem sendo um amor com você desde que chegaram. Você praticamente chuta o coitado a cada ‘oi’ que ele te dá e nem por isso ele inventou motivos para te odiar. Se você quer saber, eu te odiaria se fosse ele.
- ! Você está do lado de quem? - perguntei, me desvencilhando do abraço e olhando séria para ela.
- Do seu lado, completamente, e por isso mesmo estou tentando abrir seus olhos. - falou com a calma de um monge - Você quer ter motivos para odiar , mas não tem. Eu estou aqui há meses e nunca vi ele fazer mal a uma mosca.
- Ok, mesmo que fosse esse santo que você está pintando, coisa que ele não é, você está ignorando um fato importantíssimo: ele é meu irmão. - falei - Essa, na verdade, é a parte principal.
- O que é que você pode fazer com esse fato, ? O que eu posso dizer? Ele é seu irmão, mesmo. Isso não te impediu de se apaixonar por ele.
- Eu não estou apaixonada por ele! - praticamente gritei com , observando-a rolar os olhos. Ela apenas me ignorou e continuou.
- Você e se conhecem há poucos meses, nunca tinham nem se visto, nunca tiveram uma relação de irmãos… Seria demais pedir para seu cérebro processar esse parentesco tão rápido, ainda mais quando você se sentiu tão atraída por ele desde o primeiro segundo.
- , pare de falar como se eu fosse louca por ele! Não aconteceu nada desde o primeiro segundo.
- , querida, você pode até alegar que isso aí não é paixão e só atração, mas que aconteceu desde o primeiro segundo, ah, aconteceu sim. - ela disse - te tirou do sério no minuto em que você olhou para ele. Você misturou raiva, rancor, mágoa e tesão. O resultado é esse aí!
- Sabe, , você deveria estar com nojo. Você está usando a palavra tesão na mesma frase em que fala sobre meu irmão. - falei - Você está se esquecendo que também tem um irmão? Como se sentiria se falássemos assim sobre ele?
- Querida, jamais falaríamos assim sobre ele porque ele é, de fato, meu irmão. Nós nos conhecemos desde o segundo em que eu nasci, até antes se você considerar que ele já fazia carinho na barriga da minha mãe. Crescemos juntos, tomamos banho juntos quando crianças, dividimos um quarto a vida toda juntos, dormimos e acordamos juntos. Tudo isso como irmãos. - disse em um tom que já estava começando a me irritar. Como ela podia estar tão na boa com isso? - O fato é: você não vê como irmão. Se você parar pra pensar sobre todas essas coisas normais que irmãos fazem juntos, para além do laço sanguíneo, talvez vocês não tenham nada de irmãos. Portanto, se você quer odiá-lo e esquecer esse sentimento, ou você passa a vê-lo como irmão ou passa a vê-lo como um ninguém. Ambas as opções, na minha opinião, são quase impossíveis.
- Não me importo. - falei - Daqui para frente eu vou vê-lo como um ninguém. Com certeza. Ele vai ver quem vai pedir por alguma coisa!



Voltei para casa no meio da tarde, torcendo para que ninguém estivesse por lá. Assim que pisei na sala, porém, percebi que Deus jamais seria tão bom comigo.
estava deitado no sofá, com as duas mãos atrás da cabeça, uma calça jeans aberta e sem camisa. Assim que entrei pela sala, ele passou a me encarar, e mesmo que eu quisesse desviar o olhar, eu só conseguia admirar aquele ser humano perfeito. Meus olhos foram de seu rosto para seu peito e fixaram na barriga. Ele não tinha uma barriga tanquinho, era muito melhor, daquelas barrigas bem definidas e com as maravilhosas entradinhas.
Meus olhos continuavam me traindo e já estavam quase descendo pelo caminho sugestivo que as entradinhas indicavam quando eu percebi que aquilo ia contra minha promessa para : eu ia esquecer a existência dele. Com isso, eu desviei o olhar e continuei andando - vulgo, quase correndo - a caminho da escada, decidida a chegar o quanto antes ao meu quarto. Acontece que eu estava de salto alto e calculei um pouco mal a velocidade com a qual eu de fato consigo correr estando de salto. Por isso, há alguns passos de alcançar a escada, eu torci meu pé e caí feito uma fruta podre no chão. Para completar o show, dei um gritinho agudo com a queda e, assim que que atingi o chão, senti meus olhos encherem d’água. Meu pé estava doendo muito.
No segundo seguinte, estava agachado ao meu lado, com aquela porcaria de olhar preocupado me analisando enquanto ele segurava gentilmente meu queixo e secava a única lágrima que eu deixei escapar. Estava realmente doendo muito, mas, apesar disso, meu corpo se arrepiou ao sentir seu toque. Eu não podia deixar ele continuar, ainda não tinha controle para aquilo, portanto afastei sua mão de mim e falei:
- Eu estou bem, não preciso de ajuda.
- , você provavelmente machucou de verdade seu pé. Olha como ele tá inchando. - ele disse, ignorando a minha cara feia, e segurando delicadamente meu pé enquanto tirava meu sapato com cautela. Ele realmente não podia ser menos insuportavelmente adorável a merda do tempo inteiro? - Você vai ter que ir ao médico.
- , primeiro, tira a mão de mim. - eu falei. Em vez de bufar e soltar meu pé com tudo, coisa que eu com certeza faria se fosse ele, ele apenas me encarou preocupado e colocou cuidadosamente meu pé no chão enquanto olhava para mim para se certificar de que eu estava bem. Em vez de isso me acalmar e me fazer sentir mal por ser estúpida, eu apenas fiquei com mais raiva. Por que ele não podia me xingar de volta? Sinceramente. - Em segundo lugar, eu estou bem. Vou me levantar sozinha e subir as escadas sozinha e vou ficar bem, muito obrigada, não preciso da sua ajuda.
Quando eu terminei de falar, ele finalmente pareceu ficar irritado comigo. Bufou e se levantou, andando com pressa até o sofá. Por estar sentada, eu tive uma boa visualização da sua bunda. E que bunda, meu Deus! Chacoalhei a cabeça e voltei a olhar para o meu pé. Tirei o outro sapato e tentei ficar de pé. Primeira tentativa: sem sucesso. Décima tentativa: sem sucesso. Enquanto eu me matava tentando levantar sozinha, estava deitado no sofá que ficava de costas para a escada, o que era reconfortante uma vez que assim ele não veria meu sofrimento.
Me sentindo muito imbecil, eu comecei a literalmente me arrastar para perto da escada, onde, com algum esforço, segurei o corrimão e consegui suporte para me pôr de pé. Continuar subindo, porém, era quase impossível. Eu tinha que me escorar no corrimão ao mesmo tempo que pulava em um pé só para alcançar o degrau seguinte. Quando eu conseguia alcançar o degrau seguinte, o problema era me equilibrar sem ter o outro pé para me apoiar. Consegui fazer isso duas vezes, na terceira, porém, me desequilibrei e acabei me apoiando no pé machucado que, com certeza, ficou ainda mais machucado. Dessa vez eu gritei de verdade.
Como eu havia dispensado da primeira vez, eu realmente não esperava que ele me ajudasse agora. Me sentei na escada, chorando de verdade de dor e apoiei a cabeça no joelho. Não teria jeito, eu teria mesmo que subir a escada de joelhos. Eu já estava até me preparando para isso quando senti dois braços me envolverem e me levantarem do chão. Eu nem tive tempo de protestar, apenas desceu comigo nos braços os poucos degraus que eu consegui subir e me colocou delicadamente no sofá. Depois disso, ele saiu do cômodo.
Eu estava começando a achar que ele não ia voltar quando o vi saindo da cozinha com uma bolsa com gelo nas mãos. Sem dizer nada, e nem mesmo olhar no meu rosto, ele segurou minha perna delicadamente, colocou em seu colo e pôs o gelo sobre o inchaço crescente e as marcas roxas que começavam a surgir no meu pé e tornozelo. Eu nem tive forças para brigar com ele. Apenas fiquei ali, olhando para seu rosto enquanto ele apertava delicadamente a compressa de gelo no meu pé sem me encarar por nem um segundo.
-Vamos precisar ir ao médico. - ele disse, depois de um tempo - Você deve ter tido uma luxação no tornozelo a julgar pelo inchaço e pelos hematomas. Eu já tive isso algumas vezes, você vai precisar imobilizar um pouco.
- Quando seus pais chegarem eu peço para me levarem, agora eu só quero ir para o quarto.
- Eles só chegam amanhã de noite, lembra? - ele disse, em um tom de quem estava se divertindo com a situação - Estão em Painswick com a Hannah. Somos só eu e você até amanhã, maninha.
- Eu posso chamar o para ficar comigo, maninho. - respondi, sabendo que aquilo com certeza o tiraria do sério - Tenho certeza de que nos divertiríamos muito mais.
O sorriso de murchou em seu rosto e a mão que segurava minha perna a apertou de um jeito que, mesmo sendo muito errado, fez meu corpo inteiro arrepiar. Eu sorri para ele de um jeito malicioso, e ele logo se recompôs. Se jogando no sofá enquanto mantinha o gelo no meu pé, sorriu para mim e disse:
-Todo mundo sabe que você e o não tem nada, . Ele parece mais o seu bichinho de estimação.
- E você não adoraria ser meu bichinho de estimação? - falei, em um tom de brincadeira. Aquilo que ele disse nem era verdade, era meu amigo, eu jamais o faria de bobo. E ele não gostava de mim daquele jeito. As pessoas tinham que superar!
- Você realmente se acha muito, não é garota? - ele disse, sorrindo em um tom de descrença - Se você não percebeu, eu venho sendo muito bem sucedido em me manter longe de você. Eu te ajudo porque sou seu irmão, nunca me humilhei por você e nem nunca vou fazer isso. Já você… Bom, não fui eu quem fez a maior ceninha ontem só porque estava com saudade de me beijar.
Ele terminou de falar me encarando com aquele maldito sorriso e eu tive mais vontade de matá-lo do que achei que seria humanamente possível.
-Você está completamente fora de si se acha que eu estava realmente querendo te beijar! - falei, mesmo sabendo que não adiantaria nada. O sorriso dele apenas se alargou e ele se aproximou ligeiramente de mim.
Mesmo que eu estivesse lutando muito contra isso, meus olhos se dirigiram imediatamente para a boca dele. Umedeci meus próprios lábios em resposta e me ajeitei no sofá, sentindo uma expectativa inexplicável subir pelo meu corpo. Quando eu achei que ele finalmente faria alguma coisa, soltou uma risada alta, me fazendo acordar daquele transe.

-Eu já te disse, , não vou te beijar até você pedir.

O sorriso que ele me lançou me deixou quase tonta e naquele momento eu entendi o que ele quis dizer na noite passada, porque eu quis muito pedir para que ele se aproximasse e acabasse com aquilo de uma vez. Apesar disso, tudo que ele fez foi se levantar do sofá, me entregar a bolsa de gelo e sair da sala. Ele sabia que eu não conseguiria sair dali sem ajuda, mas ainda assim simplesmente me deixou ali, provavelmente querendo que eu pedisse ajuda, o que eu não faria de jeito nenhum.
O controle da TV estava longe do sofá, de forma que eu tive que me contentar em assistir o canal de esportes que estava vendo antes de mim. Aquilo era tão entediante que não demorou muito para que eu pegasse em um sono pesado. Eu ainda estava muito cansada e devo ter dormido feito uma pedra, porque quando acordei eu não estava mais na sala. Em vez disso, eu estava sendo colocada no banco do passageiro do carro de . Antes que eu pudesse protestar, ele já havia batido a porta e entrado do outro lado. Apenas o encarei um pouco assustada, enquanto ele dava partida sem nem mesmo olhar na minha direção.
- O que é que você pensa que está fazendo? - eu praticamente gritei.
- Não grita, , estou bem do seu lado. - ele disse, sem responder minha pergunta.
- , para onde estamos indo? - perguntei, em um tom mais baixo, mas ainda irritada.
Ele simplesmente não respondeu. Eu já tinha até esquecido do meu pé e perguntei para ele umas duzentas vezes durante uns vinte minutos para onde ele estava me levando. Eu estava considerando sequestro, quando vi o carro se aproximando de um hospital. estacionou e saiu do carro, voltando em seguida com uma cadeira de rodas e, sem nem me dizer nada, me tirou do carro e me colocou nela. Eu revirei os olhos.
- Mas que exagero! Parece que eu quebrei a perna. - falei
- Você prefere ir engatinhando? - ele disse, em um tom surpreendentemente áspero. Eu não respondi. - Para se recuperar logo, você vai precisar repousar e não forçar seu pé para nada.
Seguimos para dentro do hospital e pouco tempo depois fui atendida. estava certo, eu havia luxado meu tornozelo e precisaria ficar de repouso durante cinco dias, com o pé parcialmente mobilizado para me recuperar. Saímos rapidamente do hospital e voltamos para casa em um silêncio absoluto. Quando chegamos, me levou no colo até o meu quarto e, ainda sem dizer nada, saiu do quarto me deixando sozinha.
Eu estava extremamente desconfortável. Desde que eu e nos beijamos, eu estive completamente no controle da situação. Eu me aproximei do Brian e da Angelina justamente porque queria manter o controle. Tentei começar a enxergar como irmão para que eu pudesse simplesmente acabar com aquela atração. Bom, nem preciso dizer que não funcionou, certo? No final, eu realmente me aproximei de todo mundo. Mesmo a contragosto, eu me apeguei em Angel e passei a vê-la com um carinho intenso - ela era, apesar de tudo, uma pessoa muito boa e de coração sincero. Com Brian, as coisas não foram tão bem assim. Eu passei a tolerar sua presença, mas não posso dizer que deixei de estar magoada com tudo que ele me fez. Nossa relação era educada, polida, mas extremamente impessoal e ainda desconfortável.
Sobre minha mãe, eu nem sei o que pensar, muito menos dizer. Nossa relação praticamente se desintegrou. Ela sumiu, me ligava uma vez a cada duas semanas e nossa conversa não passava de cinco minutos. Essa situação não era mais nova para mim, uma vez que passei por isso a vida inteira com Brian, mas eu não queria ter de comparar minha mãe com ele. Não queria imaginar que aquela situação estava acontecendo de novo, então eu apenas guardei tudo em um canto no meu cérebro e imaginei que estava sendo tão dolorido para ela quanto para mim, mesmo que isso provavelmente não fosse verdade.
De toda forma, na casa de Brian as coisas haviam melhorado infinitamente. Eu não precisava mais ficar trancada no meu quarto e nem me esforçar para ser desagradável o tempo inteiro. No início, eu realmente achei que aquela tinha sido a ideia perfeita para lidar com tudo. se manteve longe por semanas e eu quase cheguei a acreditar que estava conseguindo superá-lo. No momento em que ele sentou na mesa do café da manhã comigo, porém, eu soube que estava ferrada. Nada mudou, meus nervos continuavam a flor da pele. E foi assim durante meses. Mas eu estava no controle da situação! Ele ficava tentando interagir comigo e lançando aqueles olhares doloridos, como se estivesse realmente sofrendo, e eu apenas o ignorava. Mas enquanto ele estava ali, olhando daquele jeito para mim, eu sabia que eu estava no controle, mesmo me sentindo da mesma forma em relação a ele.
Há algumas semanas, porém, as coisas mudaram. Ele não olhava mais na minha direção, não falava comigo e parecia finalmente ter entendido que eu não ia ceder. Surpreendentemente isso acabou comigo. Eu queria ele por perto, só não queria que ele soubesse disso. E foi por estar nessa situação que eu agi feito uma idiota na noite anterior, e estando ali naquela casa sozinha com ele, tudo apenas piorou. Eu não conseguia entender a atitude dele e, para o meu desespero, ele parecia estar tirando vantagem disso.

Mas se ele estava pensando que eu iria deixar assim, ele estava muito enganado.

Aquela situação estava insustentável e já tinha passado da hora de eu mostrar para ele quem realmente mandava ali. E essa pessoa, claro, era eu.
Já passava da meia-noite quando tomei coragem para colocar meu plano em ação. Me levantei da cama e, com muita dificuldade, me arrastei até o corredor. Me apoiei na parede e encostei na porta do quarto de , que ficava em frente ao meu. Respirei fundo e contei até dez, então eu bati na porta dele e tentei colocar em meu rosto uma feição de segurança que eu não sentia naquele momento. não demorou muito a abrir a porta, e eu quase caí para trás ao vê-lo. Ele estava vestindo apenas uma samba canção preta, com os cabelos escuros desarrumados e uma genuína cara de sono. Eu engoli em seco, mas não deixei minha feição transparecer meu nervosismo. O empurrei levemente para dentro do quarto e também entrei, fechando a porta atrás de nós.
estava confuso, mas sua feição já começava a denunciar também um certo nervosismo e uma ansiedade crescente. Eu sorri para ele e me apoiei na porta, sentindo minha segurança crescer perante o olhar de pura luxúria que ele lançou para minhas pernas descobertas pelo shorts do pijama. pigarreou e começou a falar, em uma voz grave:
-O que você está fazendo aqui, ? - ele disse. Eu me aproximei ligeiramente e fingi me desequilibrar, o que fez com que ele imediatamente segurasse em minha cintura para me dar apoio.
- Sabe - eu comecei - essa situação toda está muito errada, você não acha? Estamos aqui, sozinhos, e você realmente acha que tem todo controle sobre o que acontece entre nós. Eu só queria te mostrar... - fiz uma pausa, enquanto colocava uma mão ao redor de seu pescoço e descia a outra por suas costas - que quem está no controle, sou eu.
Eu apertei ainda mais meu corpo ao dele, que permanecia imóvel, e comecei a beijar seu pescoço subindo pelo rosto até chegar muito perto da boca. fechou os olhos e soltou o ar com força, apertando minha cintura.
-… - ele disse, parecendo enfrentar uma luta interna - Para com isso.
- Você não quer que eu pare, baby. - eu respondi, soprando seu pescoço e sentindo seus pelos se arrepiarem. Puxei levemente o seu cabelo, forçando-o a me encarar. Eu mesma quase perdi o controle ao encarar sua feição, mas me contentei em sorrir maliciosamente e beijar novamente o canto de seus lábios - Você quer que eu continue, não é? Então por que não acaba com essa tortura e faz aquilo que você tanto deseja?
No segundo seguinte, ele me beijou. Sem nenhuma calma, sem nenhum receio, como se já tivéssemos feito aquilo um milhão de vezes. me empurrou contra a porta e grudou em mim, sem partir o beijo, enquanto descia suas mãos pela minha cintura até alcançar a coxa.
Meu pé machucado estava começando a doer, mesmo que eu estivesse colocando apenas um pouco de força nele para me sustentar, então enrolei minha perna ao redor da cintura de , que prontamente segurou logo abaixo da minha bunda e me levantou do chão. Quando o ar começou a ficar escasso, partiu o beijo, focando seus lábios em meu pescoço agora. Ele abaixou a alça de minha blusa e passou a beijar desde os meu ombros até chegar na minha orelha, onde deu uma leve mordida.
Já estávamos passando um pouco do limite daquilo que eu tinha planejado inicialmente, mas eu simplesmente não conseguia parar. Quanto mais perto ele ficava, mais perto eu queria que ele estivesse. parecia sentir o mesmo, pois depois de algum tempo, ele caminhou até a cama, me deitou nela e se deitou sobre mim. Nosso beijo foi ficando cada vez mais intenso, de uma forma que parecia que queríamos nos fundir um ao outro.
O incômodo no meio das minhas pernas já estava quase insuportável, e eu passei a me mexer embaixo dele procurando por qualquer alívio. Depois de movimentar o quadril algumas vezes, eu acabei por encaixar seu pênis exatamente no meio das minhas pernas. gemeu alto, fazendo com que eu revirasse os olhos de prazer em resposta. Passamos a nos esfregar um no outro cada vez com mais urgência, e eu sentia que poderia gozar a qualquer momento apenas com aquele movimento. subiu sua mão por dentro da minha blusa e segurou em meu seio, brincando com meu mamilo já super sensível. Era oficial. Eu queria ele. Mais do que eu já quis qualquer coisa na vida, eu queria ele. Apenas aquele contato por cima das roupas nunca iria me satisfazer.
Eu estava quase, quase, quase pedindo para ele tirar nossas roupas e acabar com aquilo, quando me lembrei do que eu realmente tinha ido fazer ali. E não, não era transar com ele, embora naquele momento eu quisesse muito. Eu fui ali mostrar quem estava no controle.
Com isso em mente, eu inverti a posição de nossos corpos, parando exatamente em cima de seu pênis, que pulsava embaixo de mim. Olhei para ele com malícia e friccionei nossos corpos, tendo certeza de que sua feição de prazer era um espelho da minha. Quando fez menção de subir suas mãos para tirar minha blusa, eu as segurei acima de sua cabeça e aproximei nossos rostos, tendo vontade de rir de sua feição confusa.
-Eu não vou pedir para você fazer nada, baby. - eu falei, roçando meus lábios nos dele - Se eu quiser, você vai fazer. Espero que tenha ficado claro agora.
Eu dei um último selinho em sua boca e, com alguma dificuldade, saí de cima dele e me aproximei da porta, indo o mais rápido que pude para o meu quarto.

As coisas estavam saindo de controle e, para minha surpresa, eu estava aproveitando cada segundo.

Continua...



Nota da autora: 26/07/2018:

Olha quem VOLTEIIII!!! Gente, nem tem como me defender, né? Tudo que posso dizer é que TA DIFÍCIL, ou a inspiração não vem ou ela vem toda de uma vez (pra vocês terem uma noção, 70% desse capítulo eu escrevi em UM DIA, porque meu cérebro resolveu trabalhar). Eu já comecei o capítulo 12 e espero de verdade que ele saia mais rápido. Não posso prometer nada quanto a quando enviarei a próxima att, mas saibam que nunca JAMAIS eu vou abandonar Além da Razão. Nem se preocupem com isso! Muito obrigada a todas que comentaram, estou respondendo todas agora. POR FAVOR deixem seu recadinho aí embaixo para eu saber o que estão achando, até a próxima att eu respondo todas! É isso, obrigada por lerem e por não desistirem da gente (de mim, e desses pps retardados <3).

AH, UM PS GIGANTESCO: O QUE ACHARAM DESSA CENA HOT? PRECISO DE FEEDBACKS!!! EU NUNCA ESCREVI NADA ASSIM ANTES E TO ANSIOSA PARA SABER O QUE VOCÊS ACHARAMMMM.

ENTREM NO GRUPO DO FACE E INTERAJAM COMIGO: O grupo é esse aqui.





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