Última atualização: 24/02/2019

Capítulo 1


"Because obviously, she's out of my league, but how can I win, she keeps dragging me in and I know I never will be good enough for her."

acordou com o maldito toque estridente de seu celular, que ecoava por todo o quarto, substituído o tão agradável silêncio. Retirou um de seus braços, meio relutante, do ninho de cobertores quentes e tateou sua escrivaninha a procura de seu celular, desejando matar a pessoa que perturbava seu sono.
"Tinha que ser!" Pensou quando viu o nome no visor.
- Até que enfim a Cinderela acordou! - disse sarcástico, como de costume.
- Bom dia pra você também! – murmurou ainda meio sonolento, enquanto livrava-se das cobertas e rolava para fora da cama. - E o nome da princesa dorminhoca é Bela Adormecida e não Cinderela.
- Eu sei, mas a Cinderela combina mais com você. Vocês parecem ter o cérebro do mesmo tamanho, ou seja, do tamanho de um grão de arroz.
- Vai pra merda, !
- Agora chega de enrolação e vê se arruma logo porque não quero me atrasar para o primeiro dia de aula. - disse, encerrando a ligação e impedindo que protestasse.
Quando ele direcionou o olhar para o relógio pendurado em cima da porta, e percebeu que faltavam apenas 15 minutos para o sinal tocar, correu até o banheiro, escovou os dentes e lavou o rosto, terminou de se arrumar rapidamente e desceu as escadas de dois em dois degraus.
- Tô indo, mãe! – ele gritou e sem esperar pela resposta, abriu a porta de sua casa, sentindo o ar mais frio que o normal e caminhou até seu amigo que esperava impacientemente encostado no carro enquanto batia os pés no chão ao ritmo da musica que escutava no celular.
- Novo recorde: 5 minutos. – brincou, contraindo os lábios como se quisesse rir.
- Eu sei que sou demais!
- Você não tá esquecendo nada, senhor convencido?
- Não que eu me lembre.
- Lógico idiota! Se você se lembrasse não teria se esquecido. – revirou os olhos, imaginado se haveria no universo alguém mais burro que depois de acordar. - Você vai com essas lindas pernocas a mostra?
direcionou seus olhos para suas pernas, arregalando-os ao perceber que se esquecera de vestir uma calça. Ele correu de volta para casa, deixando o amigo para trás, que gargalhava como se aquela fosse a cena mais engraçada que vira em toda sua vida. Resmungando, ele vestiu uma calça qualquer e voltou para o carro, onde , com a cabeça encostada no volante ainda gargalhava do ocorrido.
Era a primeira vez que se esquecia de vestir uma calça. Ele sempre se esquecia de algo, como o celular, a carteira ou até mesmo a mochila, mas nunca havia esquecido a calça. Teve aquela vez que ele se esqueceu de se trocar e acabou indo ao supermercado de pijama, mas isso não conta né?!
– Você só não esquece a cabeça por que ela é grudada no pescoço, mas daqui uns dias até isso você vai conseguir esquecer.
- Relaxa, se eu conseguir fazer essa proeza você também consegue se formar. – brincou, gargalhando ao ver a careta do amigo. - Então, quais são os seus planos para esse ano?
- Bem, além de conseguir dormir com várias gatinhas – ele encarou o amigo com um sorriso malicioso - e não ser reprovado, eu também pretendo continuar vivo.
- Você, provavelmente não vai conseguir continuar vivo se não olhar por onde dirige.
revirou os olhos e voltou a prestar atenção na estrada.
– E quais são os seus planos? – ele perguntou e, sem deixar que o amigo respondesse, continuou – Ah não, espera, é o mesmo de sempre: tentar conquistar o coração de . Sério, ? Você vai continuar com essa obsessão?
- Não é uma obsessão. – rebateu – Você sabe muito bem o que é.
- Não me venha dizer que é amor, você tinha oito anos, ! Oito anos ! Você não sabia o que é amar.
- O que você sabe sobre amor? Você sempre viveu se atracando com qualquer uma por ai e não tem direito algum de falar o que eu sinto ou o que eu deixo de sentir.
- Eu já amei e você sabe muito bem disso. – gritou, as mãos apertavam o volante com tal força que faziam com que os nós dos dedos ficassem brancos.
Claro que entendia , de todas as formas. Depois da morte da namorada, a única a quem ele realmente tinha amado, se viu vazio. Não sua cama. A cama do garoto sempre tinha uma ou outra líder de torcida diferente, porém, ele nunca mais conseguiu sentir. Estava entorpecido pela morte da única pessoa com quem ele prometera um dia se casar.
- Me desculpa. Eu só não gosto quando as pessoas acham que sabem o que eu sinto.
- Eu sei, cara, mas eu só estou tentando te ajudar, impedir que você sofra mais do que já sofreu todos esses anos. – murmurou enquanto colocava o carro no estacionamento lotado.
O conhecido prédio da Greenwich High School foi tomando forma enquanto ambos percorriam o espaço que separava o estacionamento da porta de entrada. O silêncio ainda preenchia o ar. Ambos se recompunham das lembranças que voltavam em suas mentes e soltou um sorriso para um grupo de garotas sentadas no gramado.
- Olá, Andie!- Ele piscou pra uma das garotas que teve o privilegio de conhecer sua cama.
Todos os que estavam do lado de fora cumprimentavam os garotos. Eles eram os populares, não podiam negar. , o capitão do time era o menino mais cotado pelas jovens do colégio. , apesar de ser tímido, não media esforços para ser o astro do time e, se quisesse, teria qualquer garota a seus pés, entretanto a única garota que realmente desejava, era aquela cuja atenção não tinha.
Ao chegarem em frente à escola, os amigos se olharam e, esquecendo do que acontecera, abriram o maior sorriso. Estavam prontos para o segundo ano da escola. Agradeciam por não serem mais os calouros que não sabiam nem onde ficava o banheiro. Naquele momento, conheciam a escola como as palmas de suas mãos e eram os mais populares de lá.
Os olhares rapidamente se viraram aos dois integrantes do time de futebol que entravam pela porta principal. Mesmo não estando em um dos seus melhores dias, recebia vários olhares de leoas atrás da caça, mas apenas um olhar se destacou dos outros, aquele inofensivo que apressadamente se desviou para onde sempre se dirigia, os cadernos.
Em questão de segundos, , se distanciou de seu armário a passos rápidos e adentrou o enorme corredor lotado, desaparecendo em meio à multidão.
Os olhos de vasculhavam o local a procura da dona de seu coração, a garota cujos olhos tinham o poder de lhe causar as mais estranhas sensações. Desde a primeira vez, aos oito anos, que aquele mesmo par de olhos inocentes fora visto por , ele soube que seu coração nunca mais seria o mesmo. Ele se apaixonou instantaneamente, tão vertiginosamente quanto um raio que ilumina o céu em um dia de tempestade. Seu corpo não seguia mais suas ordens: suas bochechas ruborizavam, seus estomago se contorcia, seu coração acelerava todas as vezes que a via.
- Você estava me procurando,chuchu?- apareceu na frente de , interrompendo sua procura. A voz afeminada feita pelo garoto deixava sérias dúvidas de sua masculinidade.
- Me ame menos, . - respondeu, revirando os olhos, não conseguindo se impedir de sorrir com a pergunta de seu amigo.
O sinal tocou, fazendo com que todos os jovens do local se direcionarem as salas de aula.
- Te vejo na aula de Química. – disse se dirigindo para sua primeira aula.
- É a sua vez de dessecar os sapos- fazia cara de nojo enquanto se afastava do amigo.
- Chuchu. - sorriu com o apelido utilizado. - Se você quer passar de ano, é bom saber que isso se faz na aula de biologia.
Aquela foi a vez de revirar os olhos.


Após se afastar de seu armário, caminhava pelos corredores cheios quando se sentiu interrompida por uma pessoa tampando seus olhos.
- Deixe-me adivinhar... – disse sorrindo – Acho que é aquela menina idiota que eu chamo de amiga.
- Bom dia, Raio de Sol – tirou as mão dos olhos de e sorriu – Obrigada pelo idiota.
As duas caminharam abraçadas em direção à aula de Geografia, uma das que teriam juntas naquele dia.
- O que minha nerd preferida tem programado pra hoje á noite? – perguntou, bagunçando o cabelo de .
- A sua querida nerd irá colocar em dia os episódios atrasados de The Vampire Diaries.
- Você realmente irá trocar minha linda companhia por uma série?! – exclamou fingindo indignação.
Ao adentrarem a sala vazia, as amigas sentaram nas carteiras de costume. O canto perto da porta era o lugar preferido das meninas, pois, ao contrário do que as pessoas pensavam, ali quase não era vigiado pelos professores, o que as permitiam ter uma conversa tranquila durante a aula.
- Você realmente acredita que eu trocaria Damon Salvatore pela mera companhia de ? – disse arqueando uma das sobrancelhas.
- Outch! – soltou uma pequena risada que foi acompanhada por .- Essa...
A garota foi interrompida pelo som alto do sinal que fez com que a sala fosse preenchida, aos poucos, pelos alunos que ainda conversavam animadamente sobre suas férias de verão.
Sra. Grey, entrou a passos largos, silenciando todos ali presentes, tornando assim, o som de seus passos, tão alto quanto o de um martelo a trabalhar. Apesar do sorriso que trazia no rosto, ela, assim como seu nome, parecia uma massa cinzenta ambulante, transmitindo melancolia por onde passava.
- Abram seus livros na página 25. – a professora ordenou aos alunos. – Temos bastante trabalho a fazer.
começou a organizar seus materiais rapidamente. Ela nunca gostou de Geografia, e começou a detestar a matéria quando a Sra. Grey passou a lecioná-la para sua turma no ano passado. A Sra. em questão sempre se utilizava de métodos cansativos e maçantes para explicar o conteúdo e isso a tornava uma das professoras mais odiada de toda a escola.
Após vários minutos intermináveis de aula, terminou o exercício indicado pela professora e sentiu uma pequena vibração na parte da frente de sua blusa de frio. Ao destravar o celular, disfarçadamente, uma mensagem de pode ser lida:
"As aulas mal começaram e acho que vou enlouquecer se ficar mais um segundo nessa sala! ¬¬"
sorriu e logo respondeu:
"Louca vc já é HAHAHA. Mas concordo com vc, essa aula está MUITOOO chata. Nem acredito que a Sra. Grey vai dar aula pra gente de novo. Arghh.."
não gastou mais de um minuto para lhe responder:
"Ela NECESSITA de uma noite de sexo."
Prendendo o riso, respondeu:
"Com toda essa amargura, acho que só uma noite de sexo não resolveria."
observou se curvar em sua carteira para prender a risada alta, que em outra situação, ela soltaria. A mensagem de resposta veio logo em seguida:
"Você tem razão, ela precisaria de um mês inteiro de sexo selvagem com africanos."
Não conseguindo mais segurar a risada que estava presa em sua garganta, gargalhou da forma mais alta possível. Seus olhos logo encheram de lágrimas e o ar quase chegava a faltar em seus pulmões.
Então, lembrando-se de onde estava, tentava se silenciar quando escutou o som de sapatos de salto alto batendo no chão polido. A expectativa dos alunos era sentida pelo silêncio em que a sala estava tomada. O som foi chegando mais e mais perto da mesa de , lembrando-a de um assassino que se aproxima da vítima em um típico filme de terror. Nesse caso, porém, o assassino usava uma longa saia.
A menina levantou o rosto lentamente e pode ver uma carranca se formar no rosto da Sra. Grey. tinha certeza que aquela imagem a assombraria em seus piores pesadelos pelo resto de sua vida.
- Por que a Srta, não nos dá o prazer de conhecer o motivo da interrupção da minha aula? Tenho certeza de que a turma está realmente curiosa para saber o que é tão engraçado. – A professora utilizou uma voz sarcasticamente meiga ao se dirigir a .
- Bem, professora...
Não sabendo o que responder, a garota começou a gaguejar e a gesticular, deixando, assim, o celular a vista da professora.
-Ora, ora, ora. Acredito que essa tecnologia barata tenha sido a razão para tanto transtorno. Entregue-me o celular, por favor.
Com os olhos suplicantes, acatou a ordem da professora e conseguiu ver o olhar triste de antes de abaixar a cabeça completamente.
- No fim do segundo horário quero ter uma conversinha com você antes de devolver-lhe o aparelho. – o olhar da professora parecia arder. - O show acabou. Espero receber essa atividade antes desse horário acabar. – disse Sra. Grey se dirigindo, agora, a turma e levando o aparelho confiscado para sua mesa.
Com o coração um pouco menos acelerado, agradeceu mentalmente por ter bloqueado o telefone. murmurou um pequeno pedido de desculpas antes de virar-se para seu livro.


"Graças ao bom Deus esse inferno acabou!" pensou enquanto recolhia seus materiais e saia apressadamente da sala de Literatura.
Depois de ficar enfurnado naquela sala durante dois horários ouvindo o Sr. Martin tagarelar sobre um novo projeto que envolvia livros e um cachorro, finalmente se viu livre e abriu um enorme sorriso ao lembrar que era o horário de Química.
Atravessou o espaço entre a sala que estava e o laboratório de destino em menos de 5 minutos e agradeceu por ter mais uma vez para compartilhar as descobertas de sua matéria preferida.
- Vamos dessecar alguns sapos, chuchu ? – se dirigiu a lhe lançando uma piscadela enquanto sentava-se ao lado do amigo no fundo da sala.
- Mas você não disse que isso era na aula de Biologia?
revirou os olhos soltando uma risadinha e começou a separar os materiais. Após alguns segundos o professor, o qual não tinha muito mais que 30 anos, entrou na sala e escreveu seu nome no quadro.
- Bom dia turma. – ele disse assim que o sinal tocou, fechando a porta da sala. – Meu nome é...
A turma não se calava. Talvez por aquele ser um professor de pouca idade e novo na escola, quase todos aproveitavam aquele horário para conversar audivelmente sobre as histórias das férias.
- Meu nome é...- Sr. Orwell, de acordo com o que estava no quadro, tentou mais uma vez.
observou-o tentar, de todas as formas, chamar a atenção de seus alunos, mas não obteve sucesso em nenhuma delas. Então, retirou um pequeno objeto prateado do seu impecável jaleco branco e o colocou na boca. O som incrivelmente alto do apito veio logo em seguida, despertando todos de suas conversas, fazendo-os finalmente prestarem atenção no professor parado perto do quadro.
- Eu realmente tentei deixá-los da forma que os convinha, porém, vocês não me deixam escolha. - o tom de voz usado pelo professor era mais alto que o necessário e percebendo isso, ele voltou a falar normalmente com uma centelha de irritação ainda presente na voz. – Pelo o que percebi, vocês se sentem muito confortáveis e acostumados com as suas duplas e isso os fazem conversarem mais do que o necessário em uma aula. Por esse motivo, hoje iremos remanejar as duplas de todos, sem exceção e eu não quero discussões quanto a isso.
Os alunos se entreolharam, tensos, compartilhando o desespero sentido por todos enquanto o professor continuava a declarar seu ultimato:
- Vocês irão seguir a seguinte ordem: um dos alunos da dupla irá para a carteira de trás sucessivamente até chegar a ultima carteira. - o professor dirigia um olhar incisivo pra cada individuo presente naquele local, como um cão raivoso que por qualquer motivo poderia atacar, mas que tentava a todo custo se controlar - O último da fileira virá para a primeira carteira. Para não termos chances de conversas, as duplas 1, 3 e 5 de cada fileira irão trocar de lugar com a outra fila. Eu sei que parece confuso, mas à medida que forem trocando vocês irão entender.
e engoliram em seco antes de soltarem a respiração audivelmente. Ambos esperavam o professor dizer que aquilo era apenas uma brincadeirinha. amava rir dos erros de no laboratório e não estava disposto a se separar do melhor amigo. Já sentia algo maior do que desespero. Ele não sabia NADA da matéria e era o único que conseguiria compreender sua lerdeza e o ajudaria a entender o porquê que um ácido reage com base formando sal e água.
O professor observava atentamente enquanto a turma obedecia a suas ordens. Nenhuma trapaça passou despercebida de seus olhos. No momento em que a troca chegou à última carteira, decidiu ir pra frente, pois, um dos inteligentes da sala iria para seu lugar, o que ajudaria .
Como aquela era sua matéria preferida, não se preocupava com quem seria sua dupla, apenas esperava que não fosse uma pessoa muito chata ou insociável. Porém, ao chegar ao local, a carteira onde deveria estar sua dupla estava vazia. Estudar com qualquer pessoa, tudo bem, mas sozinho era sacanagem.
- Professor, eu não vou ter uma dupla? – perguntou, deixando evidente a indignação em sua voz.
- Terá. A sua dupla será a pessoa que faltou hoje.
- Quem..?
A pergunta foi deixada no ar quando uma pessoa adentrou na sala com um sorriso tímido.
- Desculpe pelo atraso, professor. Houve um imprevisto e eu acabei me atrasando. – a garota disse com os olhos expressando vergonha.
se petrificou, não conseguindo expressar nenhum sentimento diante da surpresa que seria, sem sombra de dúvida, a melhor do ano.


Capítulo 2


"The chance you got comes never twice do your best, and do it right."

- Pode entrar, Srta…- O professor disse, esperando que a garota completasse sua frase.
- . - respondeu, procurando por , mas o garoto não estava onde os dois sempre se sentavam e a carteira ao seu lado estava ocupada por Jennifer Smith.
A mágoa lhe atingiu como uma faca, não era a melhor aluna de química, mas eles eram uma dupla desde o primeiro ano e isso os tornou grandes amigos. Era estranho que ele a tivesse largado por uma garota com quem mal conversava ,isso não era uma coisa que ele faria.
No momento em que voltava seu olhar para o professor, a garota percebeu que nenhum dos alunos estava com sua dupla de costume. O professor se apresentou e lhe indicou a carteira vazia do lado de e pediu ao mesmo que a explicasse sobre as mudanças ocorridas enquanto ela esteve fora.
- Olá! – disse antes de se sentar.
"Ai meu Deus!! O que falo?" Os pensamentos de viraram um verdadeiro alvoroço enquanto pensava no que dizer para não parecer um completo idiota. Porém, seu cérebro parecia não conseguir controlar nenhuma parte de seu corpo, inclusive sua enorme boca que lhe fez dizer a primeira coisa que lhe veio a mente:
- Oi....você quer.... chocolate?
- Bem... eu aceito.- respondeu com a voz dócil enquanto se sentava
"PUTA QUE PARIU! COMO SOU IDIOTA!!!" Ele pensou desesperado.
", seu retardado, como você oferece uma coisa que você não tem?!"
As mãos desajeitadas do garoto reviravam a mochila enquanto fingia procurar pelo bendito chocolate.
- Desculpa.. é que...
"Coloca a culpa no ! Coloca a culpa no !!!"
- ...o cachorro do deve ter comido.
- O tem cachorro?- ela disse com os olhos brilhando.
- Não!! é o cachorro, não que ele seja um animal...bem, quer dizer, ele se comporta como um, mas... não é.
A garota, um pouco confusa, levantou uma de suas sobrancelhas e sorriu com a fofura do garoto. com vergonha era algo memorável.
- E aí? O que perdi enquanto estava fora?
contou toda a história gaguejando todas as vezes que olhava para ela. Aparentemente, tinha perdido um ataque de fúria do Sr. Orwell enquanto recebia um grande e desnecessário sermão da Sra. Grey. Agora, o professor resolvera mudar, de uma forma bem estranha, as duplas da turma para que não fosse mais interrompido por conversas paralelas. E aquilo acarretara ao que estava acontecendo, ela era dupla de . É... aquilo era muita coisa de uma vez só.
Enquanto os olhos de vagavam pelo livro tentando encontrar a parte da matéria a qual o professor se referia, a observava pelo canto dos olhos que brilhavam desde o momento em que deu o primeiro passo para perto de sua carteira. Quando ela sentou-se a seu lado ele se beliscou, achando que ainda estava dormindo e que aquele era o sonho mais lindo que já tivera em toda sua vida. O local do beliscão ainda estava dolorido e ele se animava com a chance que o destino o tinha dado. Aquela realidade era mais do que ele podia pedir. Ser dupla de o daria a chance de pelo menos conversar com ela uma vez por semana. Não era como se ele nunca tivesse conversado com a garota, mas o fizera poucas vezes, sempre timidamente.
- Por hoje é só, pessoal.- O professor disse após algum tempo de aula. não prestara atenção em um único minuto de explicação da matéria. Sua visão periférica apenas observava cada movimento de : como ela mordia a caneta enquanto tentava decifrar alguma parte mais complexa da aula, como ela anotava observações em todos os canto de seu caderno e várias outras coisas que passaria despercebido para qualquer outra pessoa. – Antes de liberá-los, eu tenho um recado para dar a vocês nesses dez minutos restantes.
Esperando por mais uma bronca, toda turma parou de guardar os materiais e voltou a atenção ao professor.
- Como vocês já sabem, a escola sedia uma feira de ciências todos os anos e dessa vez, todos os estudantes serão obrigados a participar, uma vez que esse trabalho valerá metade da nota total do semestre.
O professor introduziu e logo foi interrompido pelo burburinho que se instalou rapidamente na sala. Podia-se notar a indignação em algumas vozes e incredulidade em outras. Dentre o tumulto de vozes a do professor se sobressaiu, continuando a explicação:
- Mas acredito que não saibam que desta vez o vencedor da escola, além de ganhar uma ótima nota, será encaminhado à competição estadual e quem sabe, pode chegar a competição nacional, a qual oferece um grande prémio. - o silêncio voltou a reinar na sala.
- Qual é o prêmio, professor? – um dos alunos fez a pergunta que estava na mente de quase todos presentes.
- O prêmio, minha cara criatura, será de US$ 50.000 dólares, e uma viagem para as cerimonias do Prêmio Nobel. – um sorriso se formava no rosto do professor - Porém, as regras da competição mudaram. Agora, o que poderia ser opcional, virou obrigação. A competição deve ser em duplas para que não exista injustiças quanto ao número de pessoas de cada equipe. Por isso, eu e os professores das outras matérias de ciências tivemos uma ideia que foi aprovada pela direção:- a expectativa da turma era evidente - a dupla de laboratório será a responsável pela criação desse trabalho.
"Nem se eu vendesse meu rim, eu conseguiria pagar o que eu te devo agora, Sr. Orwell." agradeceu mentalmente ao seu mais novo professor favorito por esta chance. Pois além de conseguir um tempo com na escola, com esse projeto, ele teria que vê-la várias vezes por semana. Aquilo para ele era como o sapatinho para Cinderela, uma oportunidade que mudaria sua vida.
- A gente tem que ganhar. – foram as últimas palavras que disse antes de sorrir e ir para fora da sala.


- Olá Srta. Gargalhada – disse no ouvido de , dando-lhe um pequeno susto.
- Olá pessoa que me fez levar a maior bronca. – disse fingindo sarcasmo enquanto rolava os olhos para a amiga.
- Desculpe honey, eu não imaginava que você daria a louca com uma frase tão inofensiva. - disse rindo - Já disse que sua risada é sinistra?
- Cala a boca. – disse sorrindo e mostrando a língua para a garota.
As duas faziam o caminho para a cantina. Finalmente era hora do intervalo, o que as deixou com um humor muito maior. Ao chegar ao local, pediu o lanche usual e retirou o sanduiche de sua bolsa. Sentaram-se afastadas da multidão e conversavam sobre as novidades escolares.
Depois de muita falação por parte de , principalmente sobre como alguns garotos tiveram uma melhorada perceptível, finalmente contou-lhe sobre sua aula de química e as novidades que essa matéria trouxe.
- COMO ASSIM VOCÊ É DUPLA DO MENINO MAIS GATO DA ESCOLA? – se exaltou olhando para a garota com os olhos arregalados.
- Shiiiu. – sibilou. – Ele nem é tão lindo assim...
- Ah cala a boca ! Você nem presta atenção nos meninos pra dizer quem é bonito ou não. Cara, você... você...- a garota suspirou tentando terminar a frase. – é a menina mais sortuda da fase da Terra.
nunca teve muito tempo para namoros... os problemas familiares, principalmente os do irmão mais novo, ocupavam quase toda sua agenda e isso não a permitia ser tão expert no quesito beleza masculina.
- Concordo, ele é ótimo em ciências e podemos ter alguma chance de vencer.- ainda sorria com a oportunidade de participar de algo tão grandioso.
- Sério que você só liga para isso? – a indignação na voz de era quase palpável – Isto com certeza é a prova da sua insanidade.
- Isto é a prova de há coisas mais importantes do que sair agarrando qualquer um.
- não é qualquer um. - Os olhos de rolavam enquanto Carter Collins passou ao seu lado e lhe lançou um sorriso. Rapidamente ela se recompôs e sorriu encantadoramente para o garoto.
- Se você vai me largar para planejar coisas com - ela fez uma pausa na frase evidenciando um sorriso malicioso - é melhor eu me ocupar com um "qualquer um".
- Mas eu... – não teve oportunidade de expressar sua indignação. saltou da cadeira em um pulo e lhe lançou uma piscadela antes de ir em direção ao garoto.


- Não dá pra acreditar,cara !- disse assim que encontrou fora da sala. Ele ria abertamente da cara do amigo. – Eu quase fui a sua mesa para pedir que você limpasse a baba que escorria da sua boca.
- Você é muito idiota, . – não gostava de saber que suas emoções estavam tão evidentes.
- Olha pra você, seus olhos nunca mais vão parar de brilhar! – A risada de ecoava pelo corredor vazio. Todos estavam no intervalo enquanto os meninos se encaminhavam para a quadra. Como aquele era o primeiro dia de aula, o treinador decidira fazer uma pequena reunião com os já pertencentes ao time.
- O mais hilário foi quando ela apareceu na porta, parecia que seu coração ia sair pela boca. – , o bobo alegre, ainda ria do ocorrido.
- Se você continuar com isso, você vai ver por onde o seu coração vai sair. - rebateu.
Ao chegarem ao local, os garotos correram para o círculo formado no centro da quadra. Claro que eles tinham se atrasado, era pior do que uma lesma para andar. Provavelmente, o cérebro dele não era desenvolvido o suficiente para falar e andar ao mesmo tempo.
- Finalmente as mocinhas chegaram! – o treinador disse com sarcasmo. – A palavra é sua, Sr..
O garoto, com um sorriso zombeteiro, olhou para todos os seus amigos de time e pronunciou seu costumeiro incentivo.


- Vamos embora, Bruaca? Esse primeiro dia foi lastimável! – disse quando apareceu em frente ao escaninho de .
- Onde você aprendeu essa palavra? – perguntou assustada olhando para a garota com os olhos arregalados.
- O professor de literatura nos mandou ler um texto com "lastimável". Eu tive que procurar o significado para ficar por dentro do assunto. – respondeu de forma orgulhosa, enquanto procurava por sua chave dentro da enorme bagunça que era sua mochila.
- Mas eu estava falando de bruaca. – disse rindo da cara da amiga.
-Ah! Isso...minha mãe me chama disso às vezes mas não me pergunte o que significa porque não faço a mínima ideia.
O estacionamento estava praticamente vazio, a maioria dos adolescentes já havia ido para casa, loucos para se livrarem da escola. As garotas procuravam dentre os poucos carros estacionados ali, o New Beetle vermelho de e ao encontra-lo se depararam com Carter escorado em sua lataria.
- Oi, meninas! – Ele cumprimentou as garotas com um sorriso galanteador, os longos fios loiros de seu cabelo caindo em seus olhos.
- Oi, Carter! – as duas disseram juntas.
- Eu vou guardar as minhas coisas lá atrás. – disse percebendo o olhar trocado pelos dois e logo se afastou.
- Ahn ... , eu estava pensando se você gostaria de tomar um sorvete mais tarde. – O garoto disse passando uma das mãos na nuca e olhando para o chão, as bochechas coradas e os pés inquietos evidenciavam sua timidez.
- Claro! – respondeu docemente e um pouco rápido demais.
- Eu passo na sua casa daqui duas horas. OK? – Ele perguntou mais sorridente, desta vez olhando em seus olhos.
- OK.
- Então, até daqui a pouco. – O garoto disse, lhe dando um beijo no canto da boca e se afastando rapidamente.
Poucos segundos bastaram para que aparecesse ao lado de , curiosa como sempre:
- E ai? O que ele disse?
- Oh... my ... God! - sussurrou com os olhos arregalados ainda não acreditando que Carter Collins havia lhe chamado para sair. – OH ... MY ... GOD!!
- Me conta, criatura!
- ELEMECHAMOUPRASAIR - disse gritando enquanto pulava e sacodia as mãos como uma típica adolescente.
- Fala a minha língua, por favor!
- Ele me chamou pra sair! – os olhos da garota brilhavam mais do que um carro novinho em folha.
- Carter Collins, o capitão do time de basquete, te chamou para sair? - arregalou os olhos e sorriu de orelha a orelha, não acreditando no que a amiga havia acabado de lhe contar.
apenas meneou afirmativamente a cabeça e sorriu. - Oh ... my ... God! – repetiu a frase da amiga, fazendo ambas rirem.
- Vamos logo que eu tenho que me arrumar. – disse se recompondo e arrastando brutamente a amiga até o carro.


- ...Cause I am a champion and you're gonna hear me roar oh oh oh oh oh oh cantarolava enquanto dirigia, tamborilando os dedos no volante no ritmo da música.
- Sério, , essa música de novo? – perguntou revirando os olhos. – Você já deve ter escutado umas 10 vezes.
- Ah, para . Foram só sete.
- Só sete? Você diz só sete?
- Katy Perry nunca é demais, querida. Você vê pelas roupas dela. - brincou e começou a cantar mais alto para irritar amiga.
- Você sabe que até o gato da Sra. Henks canta melhor que você, certo? – provocou.
- Pode até ser, mas ele não é tão charmoso como eu. – ela disse piscando enquanto estacionava em frente à casa de .
- Tem certeza que não quer entrar? O Will está com saudades...
- Oh Deus! Diga pra ele que venho assim que possível, mas hoje eu NE-CES-SI-TO ter um encontro com aquele gostoso.
ria, rolando os olhos para a euforia da amiga.
- Manda um beijo pro sapequinha e um oi pro . – disse - Mas um oi bem sexy.
- , ele é meu irmão. – disse prendendo o riso.
- Não deixa de ser gato.
- Tá bom eu entrego os seus recados, mas sem a parte sexy.
- Pode ser, né?! – revirou os olhos.
- Divirta-se com o Carter Gato Collins.
- Não precisa dizer duas vezes.
- Se comporte e vê se não pega sapinho, ein? – ela disse beijando o rosto da amiga, logo antes de sair do carro.
Enquanto ligava o New Beetle, alfinetou a amiga:
- Se eu pegar eu arrumo um jeito de passar pra você.
ainda sorrindo, caminhou até a porta de sua casa e antes mesmo de adentrá-la, pode perceber a completa solidão e frieza que emanava do local. Alguns minutos bastaram para que abrisse as cortinas e deixasse a mochila em seu quarto antes de buscar seu irmãozinho Will na casa da Sra. Henks.
A velha senhora é vizinha há anos da casa dos e sempre foi uma grande amiga de sua mãe. Após a época que chama de "a grande depressão", Sra. Henks, sempre ajudava como podia.
Todos os dias Joanna buscava Will na escolinha e cuidava dele enquanto não chegava. Seu irmão mais velho, , estava sempre trabalhando para sustentar a casa, uma vez que a ajuda que seu pai oferecia era mínima. Deste modo, a casa ficava vazia, e nunca permitiria que o irmãozinho ficasse sozinho.
estava prestes a tocar a campainha ao lado da porta vermelha da casa da Sra. Henks quando ouviu uma risada vir dos fundos da casa. Ela seguiu a conhecida gargalhada através do jardim florido, e a medida que se aproximava dos fundos da casa pode ouvir duas vozes cada vez mais audíveis.
Debaixo do grande Ipê amarelo encontrava-se uma criança sentada na grama, brincando com as flores caídas, enquanto uma sorridente senhora estava sentada em uma cadeira de balanço com um livro de contos infantis em seu colo.
- O patinho feio, muito tímido, abaixou a cabeça e viu a sua imagem espelhada na água. Reparou então que já não era feio e desajeitado, mas que se tinha tornado num esplêndido... – A voz doce da senhora foi interrompida pela da criança:
- Sra. Henks, por que o Marshmellow está na sua cabeça?
sorriu enquanto assistia a cena e esperava pela resposta da senhora.
- Bem, Will....isso não é o gato... é o meu cabelo.
- Mas...parece tanto com ele!- Will disse com a voz indignada enquanto jogava as flores que estavam em suas mãos para o alto.
Um trovão forte rugiu assustando repentinamente, porém, seu medo aumentou quando ouviu o grito de Will. Suas pernas, antes mesmo de algum comando, a levaram para perto da criança e suas mãos rapidamente procuraram proteger o garoto enquanto ela dizia que tudo estava bem e que ela sempre o protegeria.
O garoto, muito mais calmo, olhou para os olhos de e lançou um sorriso singelo pra irmã e isso quase a fez chorar.
- Olá, Joanna – disse quando o irmão se soltou de seus braços para seguir Marshemellow, o gato branco da senhora. – Ele deu muito trabalho hoje?
-Nada, querida. Você sabe como eu amo brincar com esse menino. Ele fica cada vez mais inteligente!
Um sorriso se formou nos lábios de . Ela adorava saber que seu irmão se aprimorava a cada dia.
- Will, meu amor, vamos embora? Você já deve ter deixado a Sra. Henks de cabelos em pé.
- O cabelo dela não está em pé...ele só parece com o Marshmellow. – Will disse como se fosse óbvio.
- Will! Não diga uma coisa dessas! – a garota repreendeu o menino. – Se desculpe com a Sra. Henks.
- Desculpa Sra. Henks, mas seu cabelo realmente parece com o Marshmellow. – ele disse tentando provar sua teoria, mostrando que não tinha culpa por aquele fato. Arrancando uma risada das duas ali presentes, Will completou:
- Eu quero assistir desenho, !!
- Ok, ok... Vamos pra casa.
- Eba! Bob Esponja!!! – os pulinhos do garoto evidenciavam sua animação.
- Até mais, Joanna. Muito obrigada mesmo, por toda sua ajuda. – disse dando um beijo no rosto da mulher.
- Imagina, querida. Me sinto muito feliz em estar ajudando em algo.
- Tchau, Sra. Henks – Will disse abraçando levemente a senhora e seguindo a irmã pelo jardim.


- Não!! – o grito de desespero ecoou por todo quarto enquanto tiros eram disparados por todos os lados. – Não valeu. Eu não estava concentrado.
- Claro que valeu, otário, você sempre perde para mim. Admite que é mais fácil. – ria da carranca que lançou a ele por perder mais uma vez no vídeo game.
O quarto repentinamente ficou silencioso assim que desligou os aparelhos. Os garotos se levantaram da grande cama de casal do quarto de e se dirigiram a cozinha. A geladeira cheia foi aberta por enquanto buscava os copos e pratos no armário. Tudo o que precisavam no momento era preencher o estômago vazio.
- Óbvio.... não sou tão viciado que nem você. O maluco que joga o dia inteiro sem parar, é você , não eu. – tentava se desculpar pela falta de habilidade, colocando todos ingredientes necessários para prepararem sanduiches.
- Lá vem as desculpas esfarrapadas. – revirou os olhos – Temos uma noção de tempo diferente, cara, eu só jogo depois que chego da escola até a hora de dormir.
- E isso é pouco? – a risada de era ao mesmo tempo irônica e divertida.
- É... – disse dando de ombros, dando a primeira mordida no sanduiche.
O toque estridente do celular de ressoou e o garoto não demorou para atendê-lo.
- Fala, pirralho – disse de boca cheia. A forma de tratamento evidenciou que se tratava de seu irmão mais novo, Josh. – Fazer o que, né? Daqui uns 20 minutos eu tô aí.
Ele desligou o celular e mordeu mais um pedaço do sanduiche antes de olhar para .
- Cara, faz muito tempo que não vejo o Josh. – disse, observando devorar o resto do sanduiche, como se fosse o fim do mundo - Ele já tá arrumando umas namoradinhas?
- Sei lá – disse pensativo – Só sei que ele tá vindo com umas perguntas muito suspeitas pro meu lado.
- Tipo o que?
- Semana passada ele me perguntou o que era perder o cabaço.
- O quê? – perguntou de olhos arregalados. – E o que você respondeu?
- Eu falei a verdade. – disse dando de ombros.
- Como assim a verdade?
- Ué, eu disse que é a primeira vez que um homem explora uma caverna.
cuspiu todo suco que estava bebendo e começou a rir copiosamente, clamando por ar.
- Como assim?
- Ué! – , desentendido, gargalhando – Eu só disse a verdade... Você queria que eu dissesse o que?
- Nada, , nada – respondeu sem perder o divertimento nos olhos.
- Tenho que buscar aquela praga – disse, pegando a chave do carro e bebendo o último gole de seu suco.
assentiu enquanto observava o amigo mais idiota do mundo bater a porta de sua casa.


A escuridão era amenizada pelo abajur em cima do criado-mudo no quarto de Will. , sentada ao lado da cama do irmão, lia pelo milésima vez o livro preferido do garoto. Desde muito pequeno, Will se divertia com o filme Como treinar seu dragão e, quando descobriu que existia um livro do filme, seu pedido insistente para tê-lo fez com que a irmã juntasse suas economias e comprasse a coleção inteira.
- "Soluço caiu na boca do dragão, e os dentes do bicho se fecharam como se fossem portas de prisão." – A voz de , carregada de emoção pela encenação, era o único som escutado dentro do quarto. Suas caras e bocas evidenciavam toda a cena, fazendo com que os olhinhos de Will brilhassem como se estivesse, realmente, vivenciando a história. – "Ele estava despencando na mais completa escuridão, cercado por um cheiro tão horrível que era sufocante."
- . – Will a interrompeu, com os olhos cheios de curiosidade. Como se algo estivesse em sua mente a muito tempo e, só agora, ele decidira perguntar. – Por que os pinguins têm asas e não voam?
- Como? – soltou uma risada com a pergunta repentina. Como o garoto tinha perguntas tão aleatórias?
- Por que os pinguins têm asas e não voam? – ele perguntou novamente, com mais curiosidade em seus olhos azuis.
- Bem, meu amor – ela começou meio incerta, ainda com um sorriso nos lábios – os pinguins comem peixes, certo? – ele acenou com a cabeça, confirmando. – Então, como os peixes vivem no mar, os pinguins usam as asas para chegar até eles. Por isso que ao invés de voar, eles nadam.
- Mas isso é tão injusto. – ele disse contrariado.
- Por que, meu doce de coco?
- Eles têm asas e não querem voar, enquanto eu queria tanto voar, mas não tenho asas. – ele disse quase chorando.
- A vida é assim Will... – explicava tristonha, enxugando a lágrima solitária que caia na bochecha do irmão – nem tudo o que queremos podemos ter.
- Igual você querer um namorado e não ter? – ele disse repentinamente com um ar divertido.
- Mas eu não quero um namorado. – ela falou com os olhos arregalados, tentando se defender.
- Mas, todo mundo tem um namorado! Até mesmo a Sra. Henks.
- De onde você tirou isso, criatura?
- Ué. Todos os dias o Sr. Adams leva uma cartinha de amor para ela e ela fica toda feliz quando vê ele.
- Will! Ele e o carteiro – respondeu risonha – ele entrega cartas para todo mundo.
- Ah não! – ele ruborizou, escondendo seu rosto com as pequenas mãos – Não podemos contar para a Sra. Henks. Ela vai ficar muito triste se souber que o namorado dela tem outras namoradas.
, rindo do comentário, fechou o livro e virou-se para o irmão decretando que era hora de dormir. Após receber o beijo de boa noite, Will se aconchegou em seu cobertor e abraçou Scott, seu pequeno urso de pelúcia. A garota sorrindo, apagou o abajur e fechou a porta do quarto.
Passando pelo corredor estreito, resolveu checar se já havia chegado e, abrindo lentamente a porta do quarto do imão mais velho, pode vê-lo esparramado na cama bagunçada.
Sentindo seus olhos pesados pelo sono, ela fechou a porta e se dirigiu para o próprio quarto. Antes mesmo que pudesse dar um passo, um baque surdo vindo do andar de baixo chamou sua atenção. não queria incomodar , que devia estar exausto depois de um dia longo de trabalho e resolveu seguir o barulho sozinha.
Tentado convencer-se de que era apenas uma janela aberta, a garota desceu a escada com passos lentos e silenciosos. O medo começou a crescer dentro dela quando adentrou à escuridão e seu coração batia cada vez mais acelerado à cada passo dado em direção ao som.
engoliu em seco quando dois olhos de um azul intenso se distinguiram da escuridão, olhando em sua direção.


Capítulo 3


"I'm looking at you from another point of view"

apenas percebeu que prendia a respiração quando a soltou aliviada assim que o rosto de seu pai foi iluminado pela luz fraca e trêmula da sala. Stephen logo levou uma de suas mãos calejadas até os olhos avermelhados, tentando protegê-los da súbita iluminação. sabia o motivo de os olhos do homem estarem daquela cor, ela sabia que ele passara a noite bebendo e chorando como havia feito inúmeras vezes antes. Ela queria acreditar que um dia ele iria parar e que chegaria em casa com o sorriso alegre que costumava ter nos lábios antes de sua amada esposa falecer. Agora os lábios que antes carregavam um sorriso tão sincero formavam uma carranca cínica, que faziam com que sentisse dor ao ver seu pai daquela forma.
- Posso saber o que a senhorita está fazendo acordada até agora? – Ele disse com uma voz rude, tropeçando em seus próprios pés enquanto tentava, de uma forma estranha, chegar até a escada.
A garota prontamente abraçou a cintura de seu pai antes que caísse ou se machucasse, e, delicadamente, o respondeu:
- Só me assustei com o barulho e vim checar se tinha deixado alguma janela aberta.
Não houve resposta alguma de seu pai, ele apenas meneou afirmativamente a cabeça como se não se importasse ou se não tivesse ouvido.
O caminho ao longo da escada foi lento, com vários tropeços de Stephen. O choro silencioso do homem não passava despercebido por , que se segurava ao máximo para não chorar pelo estado do pai.
O corpo de Stephen, sujo e mal cheiroso, caiu em cima da cama limpa. Não demorou muito para que ele mandasse a filha ir dormir. No momento em que apagava a luz e fechava a porta do quarto, finalmente soltou o choro preso em sua garganta. Ela queria seu pai de volta, queria aquele homem brincalhão e alegre que sempre a fazia rir e se sentir especial. sonhava com o som de sua risada contagiante e com os dias em que eles costumavam brincar na neve desejando, todos os dias, que ele voltasse. Mas isso nuca aconteceria.
Cada um tinha uma forma de afastar a tristeza. trabalhava o dia inteiro sem descanso algum, pois sabia que se parasse por um segundo seria dominado pela angústia. cuidava de Will, amando-o e protegendo-o como se fosse seu próprio filho. Seu pai possuía uma forma mais sombria e dolorosa, ele deixava que toda a dor e sofrimento o dominasse e se afogava em copos de bebidas e em suas próprias lágrimas.
Ela tentou de todas as formas fazer com que o pai acordasse daquele terrível pesadelo e voltasse a viver, e dia após dia ela fracassou, mas ela não iria desistir. Olhando mais uma vez para a porta do quarto de seu pai, a garota enxugou as lágrimas e foi dormir.


estava vendo as fotos do anuário online da escola. Mais precisamente a foto de , que tinha um sorriso lindo e espontâneo, o mesmo que enfeitava seus lábios todos os dias. Aquele singelo sorriso que tornava, para , o mundo mais bonito.
A primeira vez que o vira foi aos oito anos de idade, seu primeiro dia em uma escola estadunidense. Desde então, ele se esforçava ao máximo para vê-lo todos os dias e, com isso, se sentir mais feliz. Era um sentimento inexplicável que fazia seu coração disparar quando a via. E por que ele nunca a pedira para sair? Essa era fácil: ela era inacessível.
A garota não era a mais popular, muito menos a mais nerd. Ela era apenas uma menina linda, inteligente e delicada que mostrava um olhar esperançoso para qualquer desafio que tinha na vida. Mas o medo de era porque ele via, dia após dia, garotos tentarem chamá-la pra sair, e todas as vezes ele ouvia ela dar a mesma resposta. Era sempre a mesma desculpa, dizendo que não podia deixar o irmão sozinho, ou seja, uma mera maneira educada de dizer o não. Algo que ele não queria ouvir.
- Sua namolada é muito bonita. – disse uma voz fininha ao seu lado.
guardou o celular assustado e virou seu corpo na cama para olhar a irmãzinha parada, em pé, ao seu lado. Com o pijama de bolinhas vermelhos e maria-chiquinha tortas, Crystal, olhava com curiosidade estampada nos grandes olhos castanhos.
- Ela não é minha namorada. – ele disse divertido, apertando as grandes bochechas rosadas da criança.
- Então porque ela tá no seu telefone? – ela disse, diminuindo um pouco o sorriso em seus lábios vermelhos.
- O que você está fazendo acordada nessa hora? – ele perguntou, fazendo de tudo para mudar de assunto.
- Eu vi um filme muito assustador hoje. Eu tô com medo! – Crystal respondeu meio manhosa.
Era sempre assim. Quando Crystal tinha dificuldades para dormir ou até mesmo um pesadelo, ela sempre procurava seu irmão mais velho ao invés do pai ou a mãe. Sua explicação era que era seu cavalheiro, sempre a protegendo do mal.
- Que filme você viu? – ele perguntou, pegando-a no colo e colocando-a na cama ao seu lado.
- A casa monstro.
O riso saiu sem que o garoto pudesse impedir, fazendo com que um olhar reprovador fosse dado pela menina.
- Você tem razão. Esse filme é muito assustador! Você não pode assistir.
- Ah...- ela tentou formular uma resposta - É que eu achei que como eu sou quase mais glande que você que eu podia assistir.
- Não é mais grande, meu anjinho. É maior – ele a corrigiu.
Ela abriu a boca em um grande bocejo e passou os pequenos bracinhos ao redor do irmão.
- Sonhe com os anjos, princesa. – disse beijando a testa da irmã e apagando a luz, mergulhado o quarto em completa escuridão.


Pequenos raios solares adentravam o quarto de , a acordando preguiçosamente. A garota levantou-se e foi observar a janela de seu quarto, que dava vista a uma árvore que começava a soltar suas folhas. O outono já começava a fazer o seu trabalho, mesmo ainda sendo o fim do verão.
Para , aquela era uma estação muito gloriosa. As folhas das árvores caindo trazia certa tristeza, porém, a alegria que as flores, mesmo depois da queda, davam com suas cores era algo inspirador. Aquela ação que a natureza fazia ajudava a garota a perceber que nada era o fim do mundo e que era possível ser feliz mesmo após o tombo mais doloroso que já tivera.
Voltando a cama e olhando o relógio em seu criado-mudo, percebeu que era hora de começar a rotina de mais um dia. A primeira coisa que a garota fez foi, com carinho, acordar seu irmão mais novo.
- Hora de acordar, doce de coco. – ela disse mexendo nos cabelos bagunçados de Will.
Os olhinhos azuis se abriram em um pequeno ar de confusão e cansaço, fazendo com que os olhos de brilhassem.
- Bom dia dorminhoco! – ela disse esperando que ele levantasse da sua cama. – Hora da escola, vamos levantar?
- Ah nem , eu posso dormir mais um pouquinho? – ele perguntou sonolento, apertando mais o cobertor contra si.
ficou tentada a deixar o irmãozinho dormir mais um pouco, mas sabia que se o fizesse iriam atrasar e meio relutante o respondeu:
- Não, Will, nem mais um pouquinho se não iremos atrasar.
O garotinho manhoso levantou da sua cama lentamente e começou com seus preparos para a escola. , como todos os dias, foi até o quarto de para acordá-lo antes de preparar o café da manhã.
- ! Já são sete da manhã! – ela abriu a porta rindo do gemido de desaprovação que o irmão soltou no travesseiro ao receber tal notícia.
Após colocar Will na mesa para tomar seu desjejum – que se resumia a leite com achocolatado e torradas com manteiga – , subiu as escadas para se aprontar para mais um dia de aula. Seus pertences já se encontravam na mochila, agora em cima de sua cama junto com as roupa. Após um banho verdadeiramente rápido, a garota se arrumou e desceu as escadas pronta para mais um desafio.
- Você é a única garota que consegue se arrumar tão rápido! – disse rindo do rolar de olhos da irmã.
O garoto ao lado de Will tomava seu café, observando os passos da irmã e melhor amiga. A garota arrumava todos os materiais de Will espalhados pela sala e corria para colocar o lanche dele em sua lancheira.
- Nunca lhe disseram que eu sou um garoto? – ela disse sorrindo e sentando, finalmente, ao seu lado para passar manteiga em uma torrada.
A dedicação de era algo que realmente impressionava . Após a fatídica "época do terror" em sua família, virou uma pessoa adulta, não vivendo mais como uma adolescente. A maneira como a vida retirou precocemente a adolescência da pessoa que mais merecia vive-la, entristecia o mais velho.
Antes de conseguir colocar a torrada na boca, uma buzina soou nos ouvidos de a fazendo assustar.
- Acorda o papai para mim? Ontem ele teve um daqueles dias. – ela disse com os olhos suplicantes, dando um beijo em sua bochecha. – Will, respeite a Sra. Henks e tome seu café rápido para não atrasar o para o trabalho – ela disse beijando a bochecha do garotinho e colocando a torrada em sua boca, saindo apressada de casa.
- Eu amo você. – Ela gritou antes de bater à porta e se dirigir ao carro de .


O pátio, normalmente pouco ambientado da escola, estava excepcionalmente cheio naquela manhã. O intervalo era um dos momentos mais aguardado pelos garotos, pois eles podiam observar as várias garotas que aproveitavam o fim do verão para deixar suas pernas à mostra.
encontrava-se encostado em seu Honda, afastado da multidão, observando Penélope andar em sua direção com sua saia extremamente apertada e curta. A menina de cabelos extremamente negros poderia ser confundida com uma modelo. Apesar de ter um corpo magro, as curvas acentuadas da menina levariam qualquer garoto à loucura e não era uma exceção.
- Olá, delicia. – Penny disse com um sorriso malicioso nos lábios carnudos.
- Eaê, gata? – ele disse mostrando um sorriso tão felino quanto o da garota enquanto olhava suas curvas de cima a baixo.
Sem pedir permissão, Penélope se aproximou a passos furtivos de e enroscou seu braços no pescoço do menino encostando seu corpo no dele.
- Sabe aquela conversa que tivemos outro dia? – ela disse acariciando todo o tórax do garoto com suas unhas afiadas, sorrindo ainda mais ao senti-lo se arrepiar– O que você acha de terminarmos?
Os braços firmes de repentinamente agarraram a cintura da garota, aproximando-a ainda mais de seu corpo e com os lábios próximos ao ouvido dela, sussurrou roucamente:
- Que tal agora?
A menina arfou com o comentário e apertou os ombros do garoto ao sentir os seus lábios quentes e molhados em seu pescoço. Logo os dois iniciaram um beijo feroz, sem se preocuparem com os olhares lançados pelos poucos colegas.
sentia que a distância, mesmo que inexistente, entre seus corpos era frustrante. Rápido como o bote de uma cobra, o menino virou a garota, sentando-a no capô do seu carro sem interromper o beijo.
Era claro que preferia estar naquele momento com outra pessoa em seus braços, porém ele sabia que aquilo não era possível. Ele não era um santo, afinal, ele merecia aproveitar sua adolescência da maneira que qualquer garoto na sua idade aproveitaria. Não era justo que ele ficasse trancado em casa esperando por alguém que nem sabia dos sentimentos, já que ele nunca tivera a coragem de contá-los. Tudo seria diferente se ele tivesse uma chance com quem ele realmente desejava, no entanto, como isso não acontecia, ele aproveitaria ao máximo.
As mão furtivas de traçavam um caminho lento pelas coxas da garota até parar em suas nádegas, apertando-as com demasiada vontade. Penélope soltou um gemido que foi silenciado pelos lábios sedentos de .
O calor emanava pelos corpos de ambos e a calça de pareceu-lhe um pouco mais apertada do que o normal. Os beijos do garoto ficaram cada vez mais urgentes e Penny, aproveitando a situação, passou suas mão finas por debaixo da blusa do garoto, arranhando sua pele ainda mais.
Penny parou o beijo, mordendo o lábio inferior de e com um olhar cheio de desejo pediu para que os dois entrassem no carro. Extremamente de acordo com a proposta, o menino desvencilhou-se, relutantemente, da garota e estava abrindo a porta do carro quando seus olhos se depararam com , mexendo no celular, caminhando em sua direção.
olhava de Penny para com os olhos alarmados, sem a mínima ideia do que fazer. Com uma decisão repentina ele disse a Penélope:
- A gente podia terminar mais tarde? – a menina o olhava confusa.
- Claro... – ela respondeu tentando esconder a indignação contida em sua voz e, antes de sair, deu-lhe um selinho demorado.
A situação de estava um pouco critica. Ele via se aproximando e não sabia o que fazer com o bendito volume em suas calças. Sem outra solução, retirou sua camisa rapidamente e sentou-se no capô do carro, jogando-a em seu colo.
Quando desviou os olhos de seu celular e direcionou-os para , esqueceu-se repentinamente o que viera fazer. Ela ficou parada ali, por longos segundos, perdida na beleza do garoto e, obviamente em seu abdômen definido.
"Respira, , respira" A garota repetia para si mesma enquanto se aproximava. "Isso, agora tire os olhos dessa paisagem maravilhosa e olhe para o rosto dele". O mantra de nada adiantou, uma vez que o sorriso nos lábios vermelhos de tirou-lhe o fôlego novamente.
- Oi, ! – Ele disse ofegante.
- Ei, !
- Tá calor né?! – Ele disse tentando disfarçar o motivo de estar sem camisa.
- Um pouco – respondeu, esforçando-se para não olhar para seu abdômen. – Então, eu estava pensando se nós poderíamos nos encontrar para... decidirmos o assunto do projeto.
Ainda não totalmente recuperado de sua "situação", não prestava atenção no que a garota dizia, já que não conseguia desviar seus olhos do decote discreto da mesma. Normalmente ele não seria tão pouco sutil assim, mas ele não tinha controle sobre seu corpo.
Tentando de alguma forma amenizar o desconforto em sua calça, passou a imaginar sequências de cenas um tanto quanto nojentas: sua avó pelada, seus pais praticando o coito, os pelos do peito do seu avô e o de calcinha fio-dental. Aquela última imagem bastou para que as coisas voltassem ao normal, a não ser pelo vômito preso em sua garganta.
- Pode ser – ele finalmente respondeu se recuperando – Onde?
- Na biblioteca, depois da aula.
- Tudo bem. – sorriu - Te encontro lá então.
- Até mais tarde. – disse retirando-se, não deixando de olhar uma última vez para o corpo escultural de .


O som do último sinal do dia ecoava pelos corredores lotados da escola enquanto e se encaminhavam para o estacionamento. A animação de era evidente, uma vez que ela tagarelava por minutos a fio sobre seu perfeito encontro com Carter, fazendo com que risse a todo momento dos olhos brilhosos da amiga.
- Os lábios dele eram tão macios e ele parecia saber perfeitamente como me deixar arrepiada. – disse suspirando ao lembrar do beijo da noite passada.
- Você já falou isso umas três vezes. – disse rindo.
- Desculpa! Acho que o livro que estou lendo está me deixando um pouco mais romântica que o normal.
- Um pouco? – ironizou – Você não é nada romântica! Que livro é esse que tá conseguindo amolecer esse coração de pedra?
- Você é muito dura comigo ! – disse colocando a mão em seu peito, fingindo indignação. – Aliás, Orgulho e Preconceito é o melhor livro que eu já li, a Jane Austen consegue colocar o amor em um novo patamar. Se você ler terá mais um nome pra sua lista de paixões literárias... Sr. Darcy está em primeiro lugar na minha.
- Sr. Darcy? Ele é ainda melhor que o Peeta Melark?
- Uma disputa acirrada... não sei quem venceria. – disse pensativa enquanto abria a porta de seu carro. – Ah! Por falar nisso, me lembra de entregar o livro na biblioteca amanhã.
Ao ouvir a palavra biblioteca, cessou seus passos imediatamente, lembrando-se do seu compromisso naquela tarde.
- , não vou voltar com você hoje. Me esqueci que vou para casa mais tarde.
- Por que? – a garota perguntou em um misto de curiosidade e confusão.
- Bem, eu combinei de me encontrar com na biblioteca.
A confusão no rosto de deu lugar a um sorriso malicioso.
- E posso saber o que vocês irão fazer? Se for o que estou pensando, eu não aconselho a biblioteca como melhor lugar, a Sra. Stuart sabe como quebrar o clima.
- O que? Você tá maluca? A gente só vai decidir o tema do nosso trabalho.
- Claro...- disse sem acreditar na amiga – só pense em "estudar" atrás do ginásio, é muito mais divertido. – ela disse piscando e entrando em seu New Bleetle.
Assim que o carro deu partida, se dirigiu apressadamente ao ponto de encontro, onde ocupava uma das várias mesas. A garota se sentou na cadeira de madeira ao lado de envergonhada por ter se esquecido do combinado.
- Mil desculpas pelo atraso, .
- Não tem problema, eu também acabei de chegar. – ele mentiu.
tirou o notebook da mochila, colocando-o em cima da mesa. prestava atenção em cada movimento, lembrando-se da última vez em que o viu. Seus olhos nunca haviam ficados tão atraídos naquela parte do corpo de um garoto, mas o abdômen de era algo que não passava despercebido. Perdida em seus pensamentos, escutou seu nome ser chamado, lembrando-a de onde estava.
- Você estava nesse mundo? – riu perguntando à garota. O sorriso de canto do garoto era doce e gentil.
"Como eu nunca percebi que ele era tão bonito?" pensava desesperada por não conseguir formular um motivo pro seu devaneio."Vamos, , arranje uma desculpa e pare de prestar atenção em uma coisa dessas"
- Desculpa, eu estou mais lerda do que o normal hoje. – ela disse, mais uma vez, envergonhada.
- Eu só estava perguntando se você tem hora pra chegar hoje.
- Aah! Não precisa se preocupar, já liguei para a minha vizinha e ela vai ficar com meu irmãozinho.
- Você tem um irmão? – ele disse fingindo surpresa, uma vez que já sabia dessa informação. – Qual o nome dele?
- William. Ele fez 6 anos mês passado, mas pensa como um adulto! – ela disse com um sorriso orgulhoso.
- Eu sei bem como é isso. Minha irmãzinha, Crystal, tem 4 anos e é mais esperta que o . Se bem que quase todo mundo é mais esperto que ele. – disse pensativo.
Os dois riram com o comentário e receberam um olhar de desaprovação da bibliotecária.
- Semana passada, - disse após recuperar o fôlego – ela assistiu Frozen e agora está com aquela mania de fazer todo mundo ser um personagem do filme.
- Quem ela finge ser? – perguntou curiosa.
- É aquela menina que congela as coisas, acho que ela chama Elsa ou Ashley.
- É Elsa. – sorriu com a confusão do garoto. – E você? É qual personagem?
- Bem, isso é meio constrangedor, promete que não vai rir?
- Prometo. – ela disse meio receosa, imaginando que personagem ele deveria ser.
- Então, eu sou aquela ruivinha, irmã da rainha do gelo. – disse coçando a nunca, tentando esconder o sorriso que se formava em seus lábios.
tentou não rir com aquilo, mas simplesmente não conseguiu, quebrando a promessa.
- Ei, você prometeu que não iria rir. – fingia indignação, mas dessa vez sem segurar o sorriso.
- Desculpa! – disse se recompondo – Mas é meio difícil não rir ao imaginar você de vestido.
Aquela foi a vez de gargalhar, fazendo com que ela o acompanhasse. Mas logo os dois foram mais uma vez repreendidos pela Sra. Stuart.
- Sua irmã parece ser muito fofa!
- Você poderia ir lá em casa qualquer dia desses, para conhecê-la. – ele disse meio sem jeito.
- Eu adoraria – sorriu pelo convite e pela resposta. Ambos ficaram trocando sorrisos, olhando um nos olhos do outro por vários segundos, até que desviou os seus, corando.
- Bem – ele disse limpando a garganta ao perceber a rouquidão presente nela – Você...ahn... pensou em algum tema para o trabalho?
- Na verdade, eu tinha esperanças de que você tivesse pesado em alguma coisa. – Ela disse desconfortavelmente.
- Então somos dois. – ele sorriu mais uma vez, como todas as outras em que se pronunciou.
- Acho melhor vermos alguns artigos recentes ou algo do tipo.
- Concordo. – as mãos de estavam suadas como quando ele descobrira que seria sua nova dupla, mas isso não o impediu de digitar habilidosamente na procura pelos artigos.
- Eu acho que vou procurar alguns livros pra nos ajudar. – disse se levantando.

folheava o quinto livro sentada ao lado de um frustrado pela quantidade de artigos desnecessários lidos. A biblioteca estava praticamente vazia, com a exceção de um garoto que estava sentado em uma mesa próxima a deles. Com os olhos cansados, desviou-os do computador para o garoto que estava concentrado de mais em uma ação bastante nojenta.
tentou não rir, mas foi inevitável. Ao escutar a risada, levantou seus olhos do livro e os direcionou ao garoto, curiosa, para saber o que era tão engraçado.
- O que foi? – ela perguntou após alguns segundos olhando o garoto vermelho de tanto prender a risada.
apontou pra mesa da frente, o que fez olhá-la rapidamente. Não era algo que ela gostaria de ver, mas era engraçado. Um garoto, por volta de seus 17 anos, agia feito uma criança ao cutucar o próprio nariz e olhar fixamente para o dedo sujo. Como se não bastasse, segundos depois, o dedo foi levado a boca, fazendo com que e fizessem caretas idênticas de nojo e rissem audivelmente. Assustado com a risada, o garoto desconhecido levantou a cabeça e olhou desconfiado para eles, imaginando se o motivo da risada era ele, o que, com absoluta certeza, era.
Sra. Stuart retirou seus óculos e lançou um olhar severo para a dupla, fazendo sua voz audível pela primeira vez no dia.
- É a terceira vez que chamo a atenção de vocês. Na próxima vocês não estarão mais aqui.
A ameaça rapidamente surgiu efeito e com desculpas apressadas e pararam de rir.
Após mais alguns minutos de procura, olhou pra com um olhar desesperado.
- Eu desisto. A gente está aqui a quase...- ele olhou o relógio do notebook – quatro horas e não conseguimos achar nada bom o bastante para vencer uma feira de ciências. O Sr. Orwell deve ter grandes problemas mentais para nos mandar fazer algo assim. – ele disse frustrado e sussurrando.
- Quatro horas? – Ela disse alarmada. – Meu Deus! Acho melhor a gente parar um pouco então. – ela disse cansada.
A dupla levantou das cadeiras e organizou a bagunça feita na mesa antes de sair da biblioteca. O caminho até o estacionamento foi cheio de gargalhadas que surgiam toda vez que lembravam do menino da meleca ou da voz esganiçada da Sra. Stuart.
As folhas das arvores balançavam de acordo com intensidade do vento que as soprava naquela noite. O céu já estava escuro e as nuvens indicavam que uma provável chuva estava a caminho.
apertou o casaco contra si, ao sentir a brisa gélida tocar seu corpo. O garoto continuava em direção ao seu carro quando viu que ela havia parado em uma parte coberta na frente da escola.
- Você não vem? – ele perguntou suavemente, apertando seu casaco do mesmo modo que a menina - Eu vou te dar uma carona.
- Não precisa. – agradeceu com um sorriso tímido no rosto, enquanto retirava o celular do bolso – Eu irei ligar pro meu irmão vir me buscar.
- Tem certeza? Parece que vai chover bastante. Não custa nada te levar – disse educadamente esperando um sim como resposta.
- Muito obrigada, mas eu vou esperar pelo meu irmão.
- Então, até amanhã.
- Até amanhã – ela repetiu, acenando antes de seguir seu caminho.

Assim que saiu do estacionamento, guardou o telefone no bolso e seguir seu caminho. Ela não gostava de ter mentido para ele, mas se sentia mal em incomodá-lo por leva-la para sua casa. não era um opção, uma vez que seu irmão mais velho não tinha carro e ela não incomodaria com isso, pois sabia que a amiga a mataria ao descobrir sua recusa à carona de . Com passos apressados, seguiu o caminho longo até sua casa, mas antes mesmo de virar a primeira esquina sentiu os grossos pingos de chuva molhá-la.

já estava a dois quarteirões da escola quando a chuva começou e, um pouco incomodado por ter deixado sozinha, ele deu meia volta, determinado a fazê-la aceita sua carona.
A chuva, cada vez mais forte, embaçava o vidro de seu carro, o impedindo de diferenciar as figuras no caminho. Porém, ele pôde distinguir muito bem a silhueta de , que corria tentando se proteger da chuva com ajuda de seu casaco.
Chegando mais perto, o garoto abaixou o vidro e gritou para ser ouvido no meio do barulho:
- Tem certeza que não quer uma carona?
se assustou com a voz do garoto, parando de correr instantaneamente, olhando duvidosa do carro para a rua encharcada.
- Eu não mordo, nem nada do tipo. – ele insistiu sorrindo, o que a impediu de recusar.
- Promete? – ela ria enquanto entrava no carro.
- Prometo. Eu não sou que nem você, sempre cumpro minhas promessas. – disse brincalhão, ligando o ar condicionado e dando partida.
- Eu estou molhando seu carro todo. – disse após alguns segundos de silêncio, se desculpando.
- Meu carro não pega resfriado. Ele é uma máquina potente, diferente de você mera mortal. – a fez rir, mais uma vez.
Ele se sentia feliz por ter perdido um pouco de sua vergonha em relação à garota. Antes, mal conseguia dizer um oi sem gaguejar, agora, ele se sentia mais à vontade, sendo quem realmente era.
Quando passaram em frente a uma loja de doces, rapidamente se lembrou de algo.
- , você pode pegar minha mochila no banco de trás? – ele perguntou divertido.
, com certa dificuldade, pegou a mochila do garoto, esperando por mais uma instrução.
- No bolso da frente tem uma coisa pra você. Ela olhou para de forma indecisa antes de abrir o compartimento e não conseguiu deixar de sorrir ao encontrar uma barra de chocolate.
Pelo canto dos olhos ele pôde ver a surpresa da garota e tratou, logo, de se explicar.
- Na segunda-feira eu te ofereci chocolate e devido a alguns acontecimentos – ele lançou um olhar sugestivo para ela, fazendo-a gargalhar ao lembrar-se do "cachorro do " – eu não tinha no momento, então eu resolvi compensar, comprando uma barra para você.
- Não precisava, . – disse encantada com a atitude do garoto. – Mas muito obrigada, nada melhor que chocolate em um dia de chuva.
- Por nada – falou, dando um sorriso de lado que fez o coração de acelerar.
O carro foi estacionado em frente à casa da garota e, antes de pensar em sair, viu pegando em sua mochila um guarda-chuva que usou para ajudar a garota a se proteger da chuva até a porta de sua casa.
Os dois pararam na varanda rindo da correria que estavam para não se molharem tanto. Recuperando o fôlego, um olhou nos olhos do outro e levantou sua mão em direção a bochecha da garota.
- Tinha um cílios. – ele se explicou timidamente, sem retirar a mão do lugar de onde, na verdade, não havia cílios nenhum.
sorriu corando e continuaram se encarando por mais algum tempo até que a luz acesa da varanda começou a piscar.
- Desculpe. – ela disse pensando em como xingaria pela gracinha com as luzes. – Meu irmão está me chamando pra entrar.
Estranhando o modo de comunicação entre e o irmão, sorriu e estava prestes a se afastar quando , na ponta dos pés, deu-lhe um beijo no rosto.
- Boa noite, .
- Boa noite, . – ele disse embaraçado, observando-a entrar na casa antes de partir.


Capítulo 4


"Cause good girls are bad girls that haven't been caught"

Não se passara nem mesmo um segundo que entrara em casa quando se deparou com bisbilhotando a janela com cara de poucos amigos. O irmão mais velho cruzou os braços e virou-se para a garota, lançando um olhar intimidador em sua direção.
- Posso saber quem era aquele moleque? – perguntou, sem esperar que a garota ao menos fechasse a porta.
- Aquele é meu colega de turma. – ela disse, revirando os olhos. – E eu posso saber que gracinha foi aquela com as luzes?
- Ele ia te beijar! – o irmão disse indignado, como se aquilo fosse óbvio. O nervosismo de com toda aquela situação era evidente pela forma que ele se portava na frente da irmã. Nunca, em toda sua vida, ele tivera que se preocupar com a vida amorosa de , porém, ele percebia que o temido momento de começar a se preocupar com a língua de garotos na boca da irmã estava próximo.
- Ele não ia me beijar. – negou um pouco envergonhada.
- , eu sou um garoto, eu sei o que ele ia fazer. Por que você acha que ele fingiu tirar cílios de sua bochecha?
- Como você sabe disso? – A garota perguntou com os olhos arregalados, indagando-se se o que o irmão disse era realmente verdade. Será que queria lhe beijar?
- Esse é o truque mais usado de toda a história, ! Eu sempre fiz isso com as garotas na minha época do colégio.
- Bem, - ela começou, com as bochechas ruborizadas, tentando de toda forma esconder seu embaraço do irmão – não é porque você fazia isso que todos os garotos fazem também.
olhava nos olhos da irmã e via quão ingênua ela se demonstrava com toda a situação. O cenho do garoto se acentuava enquanto seu cérebro fervilhava na dúvida entre deixá-la com aquele ar inocente ou alertá-la quanto a natureza masculina. Com uma súbita decisão, ele deu de ombros, dizendo-lhe frustrado:
- Todos os garotos são iguais, . Ainda mais os adolescentes, cheios de hormônios, que só querem curtir e experimentar as coisas boas que a juventude lhes oferece.
- , eu realmente não quero discutir isso com você. – a garota disse, tentando acabar com a discussão. – é um amigo da escola que só me deu uma carona para que eu não viesse embora debaixo de chuva. Então, vou subir e trocar essa roupa molhada antes que eu pegue um resfriado.
seguiu em direção à escada e, antes mesmo de começar a subi-la, virou-se para o irmão.
- E, para sua informação, não sou uma garotinha de 10 anos de idade, que nem imagina o que é beijar. – ela disse, provocando-o com um sorriso atrevido no rosto. – Eu já aprendi muito bem o que os garotos querem.
subiu a escada correndo, de dois em dois degraus, gargalhando internamente da expressão de espanto de e se perguntando se foi uma boa ideia deixá-lo saber que ela não era tão inocente assim.

Depois de ter se livrado da roupa molhada que começava a grudar em seu corpo, encontrava-se na mesa com sua família, tentando engolir a comida o mais rápido que podia. Sua ansiedade em contar para os acontecimentos daquela tarde o deixava completamente afobado, assustando sua mãe com toda sua pressa.
- Por que você está com tanta presa em terminar seu jantar, ? – a curiosidade estava estampando nos olhos da mulher.
- Ainda não consegui terminar todos os deveres para amanhã. – o garoto disse, tentando desconversar.
- O que estava fazendo essa tarde? Pensei que você viria direto para casa.
- Estava fazendo um trabalho na escola. – ele respondeu rapidamente, enquanto pegava mais um pouco de batata frita da travessa e colocava em seu prato. Aquela era sua mãe, com várias perguntas na ponta da língua e com uma curiosidade insaciável, até mesmo em assuntos cotidianos. Bem, isso era de se esperar de uma jornalista, no entanto, a dificuldade de Jane de separar a profissão da vida pessoal conseguia irritar às vezes. O garoto se sentia em um interrogatório no qual uma resposta mal elaborada faria com que ele fosse bombardeado por mais e mais perguntas.
Ao contrário de sua esposa, Henry permanecia calado durante quase todo o jantar, pronunciando-se apenas para responder as constantes perguntas de Jane. O homem parecia compenetrado em sua comida, tendo ideias que lhe pareciam geniais a cada garfada. Enquanto mastigava de forma lenta, ele fazia várias caretas e sorrisos que significavam que estava julgando as ideias mirabolantes para o novo livro.
Pelo canto dos olhos, percebia a arte que a irmã fazia escondida de sua mãe, o que o fez esboçar um sorriso. Com extremo cuidado, a garotinha separava as verduras de seu prato e as escondia em suas mãos, levando-as para trás de sua cadeira, onde Luna, a pequena cadela, esperava atenta para mais um pouco do alimento que a garota lhe oferecia.
- estava estudando com você? – sua mãe continuou com o questionário incessante.
- Não. Eu estava com uma colega da turma de química. – ele respondeu com a boca cheia, fazendo com que Jane revirasse os olhos para a falta de boas maneiras de seu filho.
Os olhinhos brilhantes de Crystal desviaram-se do prato de comida e direcionaram-se ao irmão sentado ao seu lado.
- É aquela sua namorada? – ela perguntou com um sorriso sapeca no rosto, fazendo com que se engasgasse com o suco. Com os olhos arregalados, ele percebeu que todos na mesa o olhavam, até mesmo seu pai, que nunca parecia prestar atenção às conversas da hora do jantar.
- Você tem uma namorada? – a mãe perguntou, lançando-lhe um olhar questionador.
- O quê? – o garoto ruborizou, sem ideias do que responder. – Eu...eu não tenho namorada!
O sorriso de Crystal murchou com a resposta do irmão, mas a curiosidade ainda lhe fez perguntar:
- Então quem é a menina da foto?
- Menina? Que menina? – ele perguntou com semblante nervoso – Não tinha foto de menina nenhuma no meu celular.
- E quem disse que a foto estava no seu celular? – Jane perguntou, percebendo a inquietação do filho.
Engolindo em seco, ele desviou os olhos para o prato de comida à sua frente, tentando arranjar alguma desculpa para seu lapso. E, como em todas as vezes que se via sem uma resposta, ele resolveu colocar a culpa em .
- Ah! Você deve ter visto a foto do vestido de mulher, Crystal. É compreensível que você tenha se confundido, já que ele é bastante afeminado.
- Não, não foi...- Crystal discordava quando foi interrompida por .
- Por falar em ... – disse apressado, já se levantando da cadeira. – Acho que estou ouvindo meu celular tocar, ele deve estar me ligando para avisar que horas será o treino de amanhã.
saiu da sala de jantar, deixando sua família completamente confusa e correu até seu quarto, respirando aliviado quando fechou a porta atrás de si. O garoto queria contar logo para as novidades e, um pouco ofegante, sentou-se na cama, mandando-lhe uma mensagem:
"Ela me beijou."
Em menos de dois segundo, seu celular começou a vibrar em suas mãos e, ao ver a foto do amigo vestido de princesa no último Halloween, sorriu e atendeu a ligação.
- PUTA QUE PARIU! – gritava do outro lado da linha, completamente incrédulo. – Como assim, caralho? Você teve que drogar ela, não é?! Porque... Só assim pra alguém te beijar!
- Respira, cara! Ela não...
- Mas e aí? Foi um beijo romântico ou safado? – disse, interrompendo a explicação – Você tem certeza que era a ? Não é possível que você tenha conseguido em apenas um dia o que vem tentando em anos.
- Você vai me deixar falar ou tá difícil? – perguntou, tentando parar a crise de adolescente fofoqueira em que se encontrava no momento. E, como não houve resposta, ele continuou sua explicação – Não foi um beijo nem safado nem romântico. Ela me beijou no rosto.
Alguns instantes se passaram até que voltasse a gritar:
- O QUÊ? Eu tive que parar de paquerar a moça da padaria para te ligar e você me diz que foi a porra de um beijo no rosto?
- Calma! Eu disse que ela me beijou, não tinha dito onde. Você que tirou conclusões precipitadas. Eu pensei que você ia ficar feliz por mim!
- Cara, dessa vez você extrapolou o limite da boiolagem. – a revolta de estava presente em sua voz. - À partir de agora, mais do que nunca, eu vou te ajudar a ficar com essa menina. Amigo meu não fica feliz com apenas um beijinho no rosto.
- Ai, ! Assim você cansa minha beleza. – disse, imitando o cabelereiro de sua mãe, brincando com o comentário sobre sua sexualidade.
- Acho que eu estava errado. Agora sim você ultrapassou o limite da boiolagem. – o garoto gargalhava do amigo.
- Qual é o seu grande plano, sabichão?
- Uma vez que se entra na friendzone, não se sai mais. – explicou, com a voz extremamente calculada. – Então, para isso não acontecer, nós faremos o seguinte...

- Agora você não me escapa. – falou, sentando-se ao lado de no jardim gramado da escola, onde poucos estudantes se encontravam. – Eu quero saber de todos os detalhes da tarde de ontem!
revirou os olhos ao constatar que não adiantara fugir durante toda a manhã das perguntas de . O momento fatídico tinha chegado e não havia como continuar escapando da curiosidade da amiga.
- Não aconteceu nada de interessante. A gente só estudou. – Tentando mudar de assunto, inventou algo para distrair a atenção de . – Eu te contei que o tem uma nova namorada?
- O quê?! Ele não me tro... – a garota interrompeu sua fala, percebendo o que tentava fazer. – Você acha que sou tão boba assim? Essa é a mesma desculpa que você usou para tentar não me contar o que aconteceu entre você e Isaac no baile do ano passado. Fala logo, vai!
- Tá bem! – ela exclamou, levantando as mãos acima da cabeça, em um ato de rendição - Quando eu cheguei na biblioteca ele já estava me esperando e nós ficamos pesquisando algum assunto para o projeto. Eu comecei com um livro superinteressante de biologia sobre as plantas. Em um dos capítulos tinha uma matéria sobre como algumas plantas, extremamente raras, são capazes de curar doenças que, até então, o homem não conse...
Um suspiro alto fez com que parasse com seu monólogo e gargalhasse da cara de tédio de .
- Foi você quem pediu todos os detalhes. – se explicou, dando de ombros como se não tivesse culpa.
- Minha querida, quando eu disse todos os detalhes eu me referi ao que aconteceu entre você e o gato que estava sentado ao seu lado enquanto você lia sobre como fazer poções mágicas que curam doenças.
Dando-se por vencida, resumiu rapidamente o que aconteceu. ouvia atentamente cada palavra, fazendo cara de nojo na situação do garoto da meleca, sorrindo como uma garotinha apaixonada ao ouvir sobre o chocolate e, finalmente, chocando-se ao saber sobre os cílios.
- Ele ia te beijar! – disse animada.
- Por que todo mundo fica dizendo isso? – murmurou, indignada com a conclusão.
- Não acredito que ele...- olhou para um ponto fixo, cessando sua fala e abrindo um sorriso, extremamente empolgada com o que via.
e caminhavam juntos em direção às garotas para colocar em prática a primeira parte do plano, que obrigava o amigo a seguir. ainda não acreditava que havia concordado com aquilo, mas até que a ideia não era tão ruim assim.
As mãos dele suavam enquanto ensaiava pela milésima vez o que deveria dizer. Ele tinha medo da resposta que poderia receber, porém, agora que conversava com , as chances de conseguir algo positivo eram maiores. O convite para o jogo de sábado seria um pretexto para que e pudessem passar mais um tempo juntos e, assim, ele finalmente ganharia confiança o suficiente para chamá-la para sair.
se aproximava mais e mais de onde se encontrava conversando com . A amiga da garota possuía um sorriso enorme no rosto e sussurrava algo para , enquanto permanecia com os olhos grudados nos garotos.
- Você tá suando tanto que parece que acabou de correr uma maratona. – disse, rindo silenciosamente da situação de . – Acho melhor você se acalmar antes que encharque toda a escola.
estava nervoso demais para prestar atenção em mais um dos comentários idiotas de , então, respirando fundo, postou-se em frente à , fazendo com que a garota o olhasse surpresa. Vários segundos de silêncio se passaram até que, , percebendo que não falaria nada, revirou os olhos e manifestou-se:
- Ei, meninas! Será que podemos sentar aqui hoje?
- Claro! – disse, estranhando o pedido.
sentou-se ao lado de na grama fria, vendo-a se afastar minimamente, e olhou para , que continuava em pé, sem saber o que fazer. Com um movimento discreto, olhou para o lugar ao lado de , indicando para que o amigo se sentasse no local. , relutantemente, acatou a ordem e cumprimentou as duas.
- Então...- começou mais uma vez, quebrando o silêncio. – Vocês estão animadas para o jogo desse sábado?
- Não mesmo. – respondeu, visivelmente irritada, deixando as três pessoas completamente confusas.
Um pouco sem graça, abriu a boca várias vezes, mas nenhum som saiu dela.
- e eu estávamos pensado se vocês gostariam de ir. Seria...- finalmente começou a falar enquanto olhava para e, cessou sua fala, à procura de um adjetivo que não fosse muito eufórico – legal.
- Nós iremos! Com certeza. – respondeu pelas duas, subitamente animada, deixando em dúvida sobre a sanidade da garota.
- Sério? – perguntou, com um sorriso enorme nos lábios, ainda olhando para .
- Bem, talvez eu vá. – ela respondeu timidamente, vendo o sorriso do garoto diminuir.
- Nunca vi vocês em nenhum jogo do time, – comentou, olhando para o vasto jardim à sua frente, tentando evitar o contato visual com , que parecia lhe fazer suar ainda mais - eu ficaria muito feliz se fossem para torcer por nós.
- Nós não gostamos muito de futebol, mas como é você pedindo, , nós iremos – disse, enfatizando o nome do garoto, fazendo-o sorrir – Não é todo dia que somos convidadas para assistir um jogo pelo melhor jogador do time.
mordeu os lábios, tentando não rir, ela conhecia a amiga muito bem, sabia por que estava fazendo aquilo e seu plano parecia surtir o efeito esperado, já que olhava para com o cenho franzido, como se pensasse: "Essa menina é doida? Eu sou o melhor jogador do time.". O que, claro, era exatamente o que o garoto pensava.
, ao ver o ato de , também mordeu os próprios lábios, mas, ao contrário da menina, não fazia aquilo para prender o riso e sim para segurar a enorme vontade de tomá-la em seus braços, sentir a maciez de seus lábios e finalmente descobrir o gosto de sua boca.
Apoiando suas mãos no gramado, ele se aproximou de forma discreta, tocando a mão de "acidentalmente", fazendo com que uma onda de calor passasse por seu corpo. Ele temeu que ela se afastasse, retirasse sua mão da forma educada de sempre e que não voltasse a conversar com ele, mas ela, estranhamente, continuou ali, com um sorriso tímido no rosto. Aquilo fez com que uma sensação de alívio tomasse seu peito e o nervosismo diminuísse minimamente.
- Você vai pensar com carinho no meu pedido? – ele sussurrou enquanto e discutiam do outro lado.
- Bem, se você prometer me dar mais uma barra daquele chocolate maravilhoso, eu pensarei no seu caso. - respondeu, olhando-o de esguelha, fingindo ponderar sobre o assunto, mas o rubor em seu rosto deixava claro que ela estava envergonhada com a aproximação.
- Então quer dizer que a senhorita aceita subornos?
- Depende do porquê e por quem estou sendo subornada, mas o principal é o que receberei em troca.
- Que, nesse caso, seria uma simples barra de chocolate.
- Se você quiser fazer meu dever de geografia por um mês, eu agradeceria. – Ela deu de ombros, sorrindo para o garoto que lhe observava com atenção, como se quisesse guardar cada traço seu, desde o brilho de seus cabelos até suas menores pintas em seu rosto.
- Uma semana – propôs, fazendo olhá-lo surpresa, não acreditando que ele havia concordado. Ele devia mesmo querer que ela fosse. – e duas barras de chocolate.
- Fechado – ela respondeu, rindo. – Tomara que você seja tão bom em geografia quanto em química.
- Você é tão ingênua, . Ainda não percebeu que sou bom em tudo? – ele disse, arrancando uma gargalhada da garota.
- Você é louca garota? Por que você fez isso? – O grito de espanto de atraiu o olhar de quem estava ao redor, assustando e .
Quando os olhos de se direcionaram ao menino para descobrir o que havia acontecido, sua boca se escancarou ao constatar o motivo. estava em pé, ao lado de , com o copo de café vazio na mão e o menino completamente ensopado pelo liquido quente e escuro. Ele se levantou prontamente, ficando frente a frente com a garota, fazendo-a engolir em seco, mas, rapidamente, um sorriso de escárnio formou em seus lábios, escondendo o medo que ela realmente sentia.
- Louco é você, que acha que eu sou qualquer uma. – esbravejou, com uma das mãos na cintura, olhando para o garoto que lhe encarava com uma raiva quase palpável. – Pois eu não sou como essas meninas com quem você sai. Se quiser alguém assim, vai para a esquina que encontrará uma rapidinho.
e trocaram olhares apreensivos, temendo que, apesar de ser uma garota, socasse ali mesmo. E, para evitar que algo pior acontecesse, aproximou-se do amigo, segurando-o firmemente pelo braço, fazendo-o se afastar da menina, que ainda sorria maleficamente.
- Vamos embora , temos treino no próximo horário.
concordou um pouco hesitante, ainda pensando em jogar contra a roseira do jardim, mas se afastou lentamente, olhando-a com um ódio mortal.
- O jogo vai ser amanhã, 7:30 da noite. – disse ao passar por . – Espero por vocês.
Ela observou os dois se afastarem rapidamente e se aproximou de , que continuava no mesmo lugar, com o copo entre as mãos.
- O que você fez, ? – repreendeu.
- O que eu fiz? O palerma dá em cima de mim como seu eu fosse uma das putinhas de estimação dele e você me pergunta o que eu fiz? Ele sequer lembra quem eu sou e o que ele fez comigo – disse indignada. – Então, eu dei apenas uma amostra grátis do que aquele patifão merece!
- Pati o quê? – a outra perguntou, arqueando uma das sobrancelhas.
- Patifão. – sorriu, amenizando sua raiva. Passou um dos braços pela cintura de e puseram-se a caminhar pelo jardim em direção à porta da escola, por onde os alunos voltavam do almoço.
- Significa que ele é um grande patife? – questionou – Não sei se tem essa palavra no dicionário.
- Bem, no dicionário da minha mãe existe – as duas riram de mais uma das palavras estranhas do dicionário da Sra. e foram em direção à sala de aula. No entanto, no meio do caminho, as garotas foram interceptadas por , que possuía um enorme sorriso no rosto.
- Eai, gatinhas! – Ele disse, desfazendo o abraço das duas e se postando entre elas, rodeando as cinturas das garotas com suas mãos.
- Quem é vivo sempre aparece! – comentou sarcástica, mas adorando ser abraçada pelo amigo.
- Também senti sua falta, . – ele falou, dando um beijo no rosto da garota e, depois, fazendo o mesmo com .
- Como está a Cindy? Aposto que o bebê é lindo. – perguntou.
Depois do primeiro dia de aula, saiu em disparada para Nova Iork, onde a irmã morava. O bebê de Cindy tinha acabado de nascer e ele estava louco para conhecer seu sobrinho. As faltas nas aulas foram todas justificadas, mas nem todos sabiam o motivo de sua ausência.
- O bebê é tão lindo quanto eu, , o que faz com que ele seja quase um deus grego.
- Fala para Cindy me enviar fotos do bebê. – exigiu, cutucando o abdômen do menino, que por sinal estava bem definido. – De preferência que ele esteja peladinho. Acho tão fofinhos bebês pelados!
- ! – a repreendeu, gargalhando - Para de ser pedófila.
- Não é porque o garotão é lindo como eu que você pode começar a dar em cima dele. Agora, se você quiser uma minha, eu te envio. - disse, dando uma piscadela para , que lhe deu um tapa no braço.
- E eu vou querer uma foto sua? Só se for para espantar baratas. – ela resmungou, parando para analisá-lo de cima à baixo, apertando o bíceps de – Se bem que você está gostosinho. Andou malhando?
- Sério mesmo que vocês vão ficar flertando comigo aqui? – perguntou, incrédula. – Procurem um quarto. Eu não quero ficar de vela.
- Own! está com ciúmes. Não se preocupe, gatinha. Eu só tenho olhos para você – disse, apertando a bochecha da menina, fazendo-a revirar os olhos – Mas, respondendo sua pergunta, , eu andei treinando para entrar no time de futebol da escola e adivinhem ...
- Você não conseguiu – deduziu, rindo da careta de – como da penúltima vez e como da última também.
- Outch! Você é malvada, . Mas, para sua informação, você está olhando agora para o mais novo titular do time.
- Sério, ? – disse, dando-lhe um abraço apertado – Parabéns!
- Quem você teve que pagar? – perguntou, como se o menino conseguir passar por próprio mérito fosse impossível.
- Bem, parece que alguém fraturou a perna no último treino – confessou, envergonhado - e o treinador me tirou da reserva.
- Agora faz sentido – comentou, fazendo os dois rirem.
- Como esse pode ser meu único jogo da temporada, eu gostaria muito que vocês fossem torcer por mim. – ele implorou, com os olhos suplicantes – Por favor?
- Quem sabe... – soltou, parando em frente a porta da sala de aula
O olhar que lançou a ela mostrava um espanto total.
- Como assim você não negou de uma vez? Eu pensei que ia ter que te subornar. O que está acontecendo?
- . – disse, com um sorriso no rosto. – Você não é o primeiro a convidá-la para esse jogo. Acho que ela tem muitos motivos para ir, se é que você me entende.
Ele ainda olhava surpreso para as garotas, mas não teve a oportunidade de perguntar quem era o garoto que estava interessado na presença de na partida, pois a Sra. Gray aparecia no final do corredor, direcionando-se para sala. Os três suspiraram entediados, se preparando para mais algumas horas de tortura.

O fim de semana finalmente havia chegado e o aproveitava para colocar uma de suas séries em dia. Aquela última tarde de verão estava perfeita para ficar esparramada no sofá, com um grande pote de pipoca nas mãos, enquanto seus irmãos passeavam no parque.
A garota apreciava a beleza dos irmãos Winchester quando a campainha começou a tocar incessantemente. Com pouca vontade, ela se levantou de seu cantinho e andou a passos curtos até a porta e, quando a abriu, deu de cara com , com os braços cruzados e sobrancelhas arqueadas. O olhar irritado em seu rosto fez com que se sentisse como uma criança que acabara de fazer algo muito errado.
- Uau! Você está usando essa roupa para roubar o coração de quem hoje? – perguntou, brincando, como se não tivesse percebido a raiva da melhor amiga, enquanto se encostava no batente da porta.
- Você vai de pijamas mesmo? - bufou, entrando na casa e olhando indignada para a roupa que a amiga estava, ignorando a pergunta que ela lhe fizera. – Eu te liguei um zilhão de vezes hoje!
A cara de confusão de provava que ela não fazia a mínima ideia do que queria dizer. Ela tentava se lembrar se as duas tinham combinado algo para aquele dia, mas nada lhe vinha à mente, a não ser...o jogo! Era sobre isso que estava falando.
- Você não está esperando que eu vá ao jogo, não é mesmo?
- E por que eu não estaria? – disse, colocando as mãos na cintura - Eu falei para o e para o que iriamos!
- , eu nem avisei ao que ia sair hoje.
- , você tem que ir comigo! – a amiga pediu, desfazendo a pose de durona e olhando-a suplicantemente - Você não entende? Se o te chamou é porque ele quer que você vá.
- Mas ele não me chamou. – Ela negou, como se aquilo fosse improvável, mas rapidamente se lembrou do trato que fizera com , resolvendo ocultá-lo, pois sabia que surtaria se soubesse - Ele chamou a gente!
- Nem vem. Ele estava olhando nos seus olhos quando nos chamou. Está na cara que ele tá afim de você e, , eu não vou deixar que você perca essa chance.
- Eu...eu... – ela gaguejou, tentando arrumar alguma desculpa, porém, ela sabia que seria impossível se livrar da insistência de – Já está quase na hora e eu nem me arrumei ainda.
- Meu amor, isso não é problema para . Sua amiga aqui consegue transformar uma moradora de rua – ela apontou para sugestivamente - em uma princesa com poucos minutos.
- Se eu disser que não vou, você me arrastará até lá de qualquer jeito. – admitiu, dando de ombros como se não tivesse escolha, fazendo com que esboçasse um sorriso vitorioso.
puxou a amiga escada acima até o quarto, abrindo o guarda-roupa de como se estivesse em sua própria casa. Ela pegava diversas peças de roupa, olhando-as com desaprovação e jogando-as em cima da cama. observava indignada enquanto sua blusa preferida era descartada na enorme pilha de roupas, imaginando o trabalho que teria para colocar tudo no lugar.
Quando pensou que seu guarda-roupa já estava vazio, viu pegar uma última peça, com um sorriso admirado nos lábios.
- Esse é per-fei-to!
- Não, não mesmo! – negou veemente, com os olhos arregalados. A única roupa que ela não usaria estava nas mãos da amiga.
Aquele vestido de estampa floral foi um presente de aniversário que sua madrinha lhe enviara de Amsterdã. Era um vestido lindo, não tinha como negar, mas era muito mais ousado do que os que ela costumava usar.
- Não adianta discutir comigo porque você vai com ele. – ameaçou, retirando o vestido do cabide e o atirando nos braços da amiga.
- Mas eu vou sentir frio!
- O te esquenta. – a olhou maliciosamente.
- Para, ! – disse, ruborizando e, jogando o vestido na cara da amiga, tentou mudar a direção que o assunto estava tomando – Prefiro ir de calça jeans e uma camiseta qualquer.
- Você se veste assim todos os dias! – retrucou, entregando o vestido nas mãos de enquanto se direcionava à porta do quarto – Coloca logo e não reclama.
revirou os olhos assim que ela saiu e, como não tinha escolha, colocou a roupa rapidamente, postando-se em frente ao longo espelho para checar o resultado. O vestido parecia perfeito em seu corpo, como se tivesse sido feito sob medida. Era justo até pouco abaixo dos seios - dando um destaque maior para aquela parte – e mais solta a partir da cintura, terminando alguns centímetros acima dos joelhos.
A garota ficou admirando o reflexo e não percebeu que tinha companhia no quarto. O semblante de mostrava o quão maravilhada ela estava com a amiga.
- Eu sabia que ficaria perfeito – ela comentou, com os olhos brilhando. – Agora é a hora da maquiagem!
- Nem vem! – quase gritou. – Você já me obrigou a vestir isso, eu não vou usar maquiagem também!
- Mas essa é minha parte preferida – ela choramingou, com uma voz infantil – Me deixa te maquiar, por favorzinho!
- Não adianta. – respondeu decidida enquanto calçava as sapatilhas, mas foi interrompida pela voz de seu irmãozinho, que entrava no quarto com um olhar encantado.
- , você está linda! Parece uma princesa! – ele confessou, abraçando a irmã - Vai encontrar um namorado?
- Namorado? - apareceu na porta do quarto, espantado com a menção do termo e, quando seus olhos avistaram , sua postura ficou tensa. William estava certo, ela estava mesmo linda! - Onde você vai assim?
- Não esquenta não, bonitão. – disse, caminhando até a porta, e escorou no batente, ficando em frente a . Ela o olhou de cima a baixo e lançou-lhe um sorriso malicioso que fez com que ele desviasse o olhar - só vai ao jogo da escola comigo.
- Oi, . Eu não tinha te visto aí. – admitiu, sorrindo timidamente, e voltou o olhar para a irmã - Você não me avisou que ia sair.
- Eu decidi agora, mas eu juro que não vou demorar.
- E o tal de vai estar lá? – Ele perguntou, com um semblante sério, cruzando os braços contra o peito.
- Ele que chamou a gente – disse, atrevidamente.
A postura de voltou a ficar rígida repentinamente.
- Eu sinto muito, , mas hoje não vai dar. A tem que...- ele parou, pensando em alguma desculpa - ler para o Will antes de dormir.
- Não precisa. – o garotinho se pronunciou, tentando ajudar a irmã. - Você pode ler pra mim, .
- Não, Will. Eu não sou tão bom quanto ela.
- Eu posso ler pra ele antes de ir. - sugeriu, suplicante.
- Não, . Eu também preciso da sua ajuda com o jantar – explicou ele nervoso, pegando a mão de Will e saindo do quarto, deixando as duas novamente sozinhas.
- Ele fica ainda mais lindo quando está nervoso. – suspirou apaixonadamente, mas, percebendo o olhar estreito que lhe lançava, se corrigiu – Quer dizer, não acredito que ele fez isso!
estava revoltada com a atitude do irmão. Ele nunca fora tão autoritário. Sempre a incentivava a não ficar presa em casa e viver sua adolescência. Pelo jeito, não quando o assunto era garotos. Aquela situação era tão frustrante! Essa proibição a fazia querer ainda mais ir ao jogo e se divertir como nunca, então, com um plano repentino, ela disse à :
- Me espera no carro que em menos de meia hora eu desço.
- Mas... – ela começou, completamente confusa.
- Só me espera. Eu sei como resolver isso.
Após a saída da amiga, foi à cozinha para ajudar o irmão com o jantar. Tudo bem que ela sabia que ele estava mentindo sobre as desculpas para ela não ir ao jogo, mas, ao ver os irmãos na mesa comendo pizza, a raiva que estava sentindo aumentou cem vezes mais. Como se nada tivesse acontecido, ela sentou-se ao lado de Will, servindo-se de uma fatia e comendo-a apressadamente.
Alguns poucos minutos depois, Will terminou seu pedaço e o acompanhou até quarto para lhe contar alguma história. Ele havia brincado durante todo o dia e o cansaço o consumia, o que fez com que poucas páginas bastassem para que o garotinho pegasse no sono.
Depois de apagar as luzes, se direcionou ao quarto do irmão mais velho, dizendo-lhe que estava indo se deitar. Com o olhar desconfiado, ele concordou.
Ela nunca havia feito isso antes, desobedecer ao irmão era algo completamente novo. O medo de ser pega começava a crescer em seu peito, mas a adrenalina que pulsava em suas veias lhe dominava. Todos aqueles sentimentos pareciam muito com o que diziam ser a liberdade e ela se perguntava por que não havia tentado aquilo antes.
estava prestes a pular pela janela quando percebeu algo: não acreditara nela. Ela sabia que ele iria até o quarto para ver se realmente dormira, então ela jogou todas as roupas em cima da cama no chão e se deitou sobre as cobertas, esperando que ele viesse.
não precisou esperar muito, já que em menos de cinco minutos, entreabriu a porta, espiando pela fresta a garota deitada na cama, iluminada pela luz fraca do abajur. Ele se aproximou silenciosamente e lhe deu um delicado beijo na testa, como fazia quando ela era mais nova.
- Eu só não quero que você se machuque, – ele sussurrou de maneira doce, ajoelhado ao lado da cama da irmã, que fingia dormir. – Você ainda é minha irmãzinha e não vou deixar que nenhum marmanjo lhe magoe.
Ela quase sorriu com o carinho do irmão, mas lembrou-se que ainda estava brava com ele. Como ele ousava não confiar nela?
O rapaz se distanciou com o mesmo silêncio com que entrou e, assim que saiu, ela se levantou, colocando travesseiros embaixo dos cobertores e pulando a janela logo depois. se sentia como uma das garotas dos filmes, que mentiam para os pais e fugiam para fazer algo errado. Mas ela não se sentiu culpada como pensara que se sentiria, ela se sentiu livre, como nunca antes.
correu até o New Beetle vermelho, onde sua melhor amiga lhe esperava, cantando desafinadamente uma música qualquer.
- Como você saiu? – ela perguntou assim que entrou apressadamente no carro.
- Pulei a janela. – respondeu, ainda com a respiração ofegante.
- É como dizem – começou com uma risadinha, dando partida no carro - garotas boas são garotas más que não foram descobertas.
sorriu com o comentário, ela não era uma garota má, mas era ótimo se sentir como uma naquela noite.
- Como o conhecia o e por que ele ficou tão nervoso quando eu disse que ele iria?
- Acho que ele ficou com ciúmes do . – ela deu de ombros.
- Por que...?
- Lembra o dia em que ele me deixou em casa? – perguntou, observando a paisagem através da janela do carro – Ele viu o que fez e cismou que ele queria me beijar. A gente teve uma discussão sobre garotos e eu meio que dei a entender que não sou tão ingênua quanto ele pensava.
- Ai, meu Deus! – exclamou com os olhos arregalados, desviando a atenção da estrada para a menina - Você não disse que foi eu que te desvirtuei, não é?
lembrou-se da festa de aniversário de quatorze anos de , e de como ela lhe prendera no closet com Barry, ameaçando deixá-los trancados para sempre se não se beijassem. E, como ainda era muito nova e temia que a amiga realmente fizesse aquilo, – o que seria provável, já que ela sempre fora louca – o beijou. Ela achou tão nojento e estranho, que ficou dois anos sem beijar ninguém, temendo que fosse tão ruim quanto à primeira vez. Mas, no baile de inverno do fim do ano passado, armou novamente para que ela ficasse com Isaac, um garoto da aula de Espanhol. Daquela última vez ela não achou nojento, mas ainda era estranho, como se não fosse o garoto certo, como se algo estivesse errado.
- Como vai se casar comigo sabendo que eu trouxe a irmã dele para o lado negro da força? - indagou, tirando-a de seus devaneios.
- Agora você quer se casar com ele? E o Carter? Já foi pra escanteio?
- Eu adoro o Carter, mas o é o amor da minha vida. Ele vai me esperar até que eu termine o ensino médio e vamos nos casar enquanto eu estiver na faculdade. Eu te disse que já decidi quais vão ser os nomes dos nossos filhos? – ela perguntou, animada. - Eu não quero saber o nome dos seus filhos com o meu irmão.
- Eu não ia te contar mesmo. Estava pensando em te chamar para ser madrinha da Hanna, mas depois desse seu descontentamento com o meu casamento, nem para o batizado você vai mais.
- Para de drama, . Acho que você vai se casar com o . Aquelas faíscas que soltam de vocês dois não é ódio, é amor.
- O que? – a outra perguntou, incrédula. - Prefiro virar lésbica!
- Tá vendo? Você ama ele! – ela sorriu, provocando a melhor amiga. - Não entendo por que você diz ter esse "ódio" mortal só por causa de um apelido.
- por causa de um apelido? Aquele imbecil jogou água em mim e disse pra todo mundo que eu fiz xixi na roupa e, desde então, todos me conhecem por mijona. Acredita que até hoje eu sou chamada disso nos corredores?
- Para, ! Ele era uma criancinha! Nem devia saber o que estava fazendo.
- Ele podia ter pedido desculpas, pelo menos. – bufou enquanto colocava o carro no estacionamento extremamente lotado. – Por que você está o defendendo? Ele é o inimigo.
- nunca fez nada de ruim contra mim, ele é seu inimigo. – disse ao sair do carro. – Ou deveria dizer: seu amor?
- Idiota – a garota deu um tapa no braço da amiga, que deu um grito de surpresa. – Se continuar assim você será a próxima a levar um banho de café.
- Eu não. – ela disse prontamente, esfregando o local do tapa com uma das mãos – Se bem que ouvi dizer que café faz bem para a pele, Senhora .
levou outro tapa da amiga, dessa vez ainda mais forte, mas não tirou o sorriso brincalhão do rosto.
Elas caminharam pelo gramado da escola até o campo de futebol, de onde vinha um barulho quase ensurdecedor de gritos da torcida. Sentaram-se na arquibancada abarrotada em meio à multidão que comemorava por mais um gol. Estavam atrasadas, faltavam apenas dois minutos para o fim do jogo. Os Tigers – time da casa – estavam empatados com os Eagles, e os torcedores de ambos os times pareciam ansiosos pelo desempate.
As garotas se acomodaram, observando o desenrolar do jogo, procurando por . tinha que admitir que era engraçado vê-lo jogando de verdade, sem cones ou bambolês no meio do campo. Os olhos de , sem sua permissão, vasculharam o campo por e, quando o encontrou, como que por atração, ele prendeu seu olhar.
Com uma determinação repentina, o garoto voltou a atenção para o jogo. Ele sentia-se tão mais feliz com a presença da garota ali! sentia que não podia fazer nada além do que dar o seu melhor para ganhar aquela partida. Ele tinha que fazer um gol para sua amada, mesmo que ela não soubesse disso.
Como que por uma força sobrenatural, os pés de receberam a bola e ele, com a energia renovada, começou a driblar todos os jogadores oponentes que queriam lhe tirar o objeto. Ele corria, mais do que já tinha corrido durante todo o jogo. E, em menos de segundos, se viu em frente ao gol, com o goleiro em sua frente. Com apenas uma mudança de posição, chutou, forte e precisamente. A bola passou pelo goleiro e adentrou o gol, fazendo a rede tremer. E, assim, o gol da vitória fez com que a arquibancada gritasse, animadamente, o nome do jogador de ouro.
Até gritou, se levantando e aplaudindo a vitória do time. lhe avistou, sorrindo para ela como se não houvesse ninguém entre eles, como se o tempo desacelerasse e todos parassem, deixando apenas os dois em movimento. Aquele sorriso fez com que todos os pelos do corpo dela se arrepiassem e com que seu coração batesse mais rápido em seu peito de uma maneira estranhamente boa. Os companheiros de time de se juntaram, erguendo-o acima de suas cabeças, fazendo com que o mundo voltasse ao normal.
- Vamos perguntar ao se ele conseguiu fazer algum gol. – disse à , fazendo-a desviar os olhos de . – Se ele não tiver feito, eu vou ganhar dez dólares.
- Outra aposta? – questionou, fazendo a amiga mostrar a língua e, depois, ambas caminharam juntas para o campo cheio.
parecia um tomate ambulante de tão vermelho. Os cabelos estavam grudados na testa pelo suor e seu peito se movimentava rapidamente, tentado recuperar o fôlego.
- Quantos gols você fez pra mim, ? – alfinetou. Ela sabia muito bem que a carranca em sua cara mostrava que, com certeza, ganhara a aposta.
- Cadê meu dinheiro, bebê? – perguntou, estendendo sua mão em direção a ele, esperando sua recompensa.
- Quem disse que eu perdi a aposta? – ele indagou, fazendo a garota levantar a sobrancelha, incrédula. Então, dando-se por vencido, ele logo enfiou a mão no bolso da mochila aos seus pés, entregando o que a garota exigia, com uma raiva excessiva, típica de quando perdia algo. - Eu estou cansado de perder meu dinheiro para você, . Você vai acabar me falindo.
- A culpa não é minha se você não joga bem. – confessou, dando de ombros enquanto contava as notas que havia recebido.
- Por que você continua apostando coisas que sabe que vai perder, maluco? – se pronunciou.
- Era para eu ter ganhado essa, ... Se não fosse aquele goleiro filho da mãe! – ele lançou um olhar raivoso ao adversário, fazendo com que as garotas o olhassem também.
- Ele é um gatinho! – comentou, sorrindo maliciosamente, fazendo os amigos revirarem os olhos.
- Todo garoto para você é um gatinho. – disse.
- Todos não. , por exemplo, é um pedaço de bosta. Não sei como alguém consegue beijá-lo. – ela admitiu, fazendo cara de nojo. – Ele deve pagar as garotas para isso.
- Ele é um pedaço de mal caminho, isso sim. – falou, sorrindo ao perceber a cara horrorizada da amiga. – Tenho certeza que você concorda, só não quer admitir que ele é lindo.
fez uma careta em resposta, como se aquilo fosse algo impossível, mas rapidamente se recompôs ao avistar Carter entre a multidão. Ela o gritou, porém o garoto pareceu não lhe ouvir.
- Eu vou cumprimentar meu boy magia, depois a gente se encontra – disse e correu em direção ao garoto.
- E eu vou me trocar – comentou, levantando um dos braços para cheirar a axila e arregalando os olhos ao sentir o mau odor – Acho que vou precisar de três banhos.
- Cinco, no mínimo – disse, tampando o nariz.
O garoto pegou a mochila prontamente e saiu a passos largos até o vestiário, com os braços grudados ao corpo, temendo que alguém pudesse sentir seu cheiro.
riu do amigo e, percebendo que estava sozinha, virou-se para procurar uma saída. No entanto, seus olhos avistaram . Mas ele não continuava comemorando com seus colegas de time. Ao invés disso, uma garota estava pendurada no pescoço dele, quase lhe beijando. Era estranho, muito estranho, mas sentiu algo ruim perpassar por seu corpo. Uma sensação de desapontamento extrema.
Sentindo-se pequena em meio ao mar de pessoas, ela decidiu seguir em direção ao carro de , para esperá-la por lá. Quase todos os alunos se encontravam no campo, comemorando com os jogadores, o que dificultou a saída de do local. Um vento gélido arrepiou seus pelos quando, enfim, ela saiu do meio da multidão, porém, quando estava quase no meio do caminho, uma voz familiar lhe chamou:
- . – gritou ao longe, correndo atrás da garota. – Que bom que você veio!
- Oi, . – ela disse, parando para esperar pelo menino que se aproximava. – Parabéns pela vitória!
- Obrigado. – ele agradeceu sorridente, analisando-a de forma discreta. Ela estava mais linda do que o normal naquele vestido. – Você já está indo embora?
- Estou esperando pela , ela vai me dar uma carona.
- Posso lhe fazer companhia? – perguntou, ofegante, olhando para o jardim vazio ao redor.
- Claro! – ela respondeu timidamente.
apontou para o banco em frente à uma árvore próxima. Os dois caminharam lentamente até ele, sentando-se na pedra gelada. Vendo se encolher ao sentir a brisa fria tocar suas pernas e braços descobertos, retirou seu casaco quente do time, oferecendo-lhe, mas a garota o rejeitou.
- Não precisa se preocupar, . – ela disse, impedindo-se de aceitar o casaco e deixar o menino com frio.
- Aceite, . Por favor. Eu não estou com frio, na verdade, eu estou morto de calor por causa da partida.
Ainda em dúvida, resolveu aceitar a oferta, afinal, ela estava quase congelando com aquele vento.
- Obrigada. – ela disse, se aconchegando com o algodão macio. – Eu odeio a por me fazer usar esse vestido.
- Por que? Você ficou ainda mais linda com ele. – disse, fazendo com que um rubor surgisse nas bochechas de ambos. Ela sorriu envergonhada, agradecendo pelo elogio, sem conseguir se expressar verbalmente.
- Sua namorada não vai se importar de você ficar aqui comigo? – questionou, mudando de assunto.
- Namorada? – ele perguntou, confuso.
- Aquela que te abraçou no fim do jogo.
- Ah! – disse, lembrando-se do momento em que Penélope se atirou em seus braços, tentando beijá-lo, mas ele se esquivou e correu até assim que a viu saindo do campo. – Ela não é minha namorada. Ela é apenas uma... amiga.
balançou a cabeça em concordância e passou a ponta dos sapatos pelo gramado, tentando esconder o sorriso. batucava os dedos nos joelhos em sinal de nervosismo. Estava na hora de colocar a segunda parte do plano em prática.
- , eu gostaria de saber se você ... se você gostaria de ir lá em casa no próximo sábado. – ele parou, engolindo em seco, temendo que ela o rejeitasse. – Quer dizer, a Crystal está maluca para te conhecer.
- Você falou de mim para ela? – perguntou, encantada. Queria muito conhecer a irmãzinha de . Entretanto, ela sentiu uma pequena decepção, já que esperava que ele lhe convidasse por querer passar mais um tempo com ela e não apenas para conhecer sua irmã. não tinha a mínima ideia de que Crystal era apenas uma desculpa para convencê-la a aceitar o convite.
- Claro! Eu disse que tinha uma pessoa muito especial que queria vê-la. Ela não vê a hora de te conhecer. – sem ser por fotos do meu celular, ele pensou.
O coração de bateu um pouco mais rápido com a expressão "uma pessoa muito especial". Era óbvio que seria muito difícil deixá-la ir, mas ela estava decidida a aceitar o pedido.
- É claro que eu vou. Será um prazer conhecer a rainha Elsa. – ela disse, sorrindo, o que fez com que ele sorrisse mais do que seus lábios pudessem suportar.
Um barulho de passos desviou a atenção de ambos, que avistaram um garoto afobado correndo em direção a eles. pulou do banco ao reconhecer e, instantaneamente, se preocupou. Alguma coisa havia acontecido, ela podia perceber isso pela expressão desesperada dele.
- Finalmente te encontrei! – ele disse, tentando respirar normalmente. – A ... ela está... Precisando muito de você.
- O que houve?
- Eu te explico no caminho. – disse, pegando pela mão, que correu ao seu lado, virando-se apenas para lançar um olhar de desculpas para .
O garoto ficou preocupado com o que poderia estar acontecendo, mas seria errôneo se intrometer em assuntos particulares. Ele sabia que era errado, porém, não conseguiu deixar de sentir uma pontada de ciúmes ao ver a garota de seus sonhos de mãos dadas com outro.

Sentada no chão sujo do banheiro feminino, , com os olhos vermelhos, balançava seus ombros, tremendo compulsivamente. sentiu o coração se apertar ao ver a amiga daquele jeito. O que poderia ter acontecido com ela?
era uma pessoa magnifica, que possuía um muro ao redor de si, para impedir-se de mostrar seus sentimentos, porém, naquele momento, todas as paredes haviam caído e tudo o que podia fazer era consolá-la, até que ela conseguisse dizer quem fora o filho da mãe que a machucara daquele jeito.
se encostava na pia, sem ação. Ele não soubera explicar nada durante o caminho, só sabia que estava chorando tanto que ele tinha medo que ela pudesse inundar o banheiro.
- Calma, . – a afagava e tentava fazer com que a respiração da melhor amiga voltasse ao normal - Conte-me o que houve.
- O filho da puta me traiu, ! Na frente de todo mundo! – ela disse, com as palavras entrecortadas, totalmente sem ar.
- O Carter? – perguntou, surpresa. – Como aconteceu?
- Sabe aquela hora que eu deixei você e o no campo para ir atrás daquele idiota? – ela continuou após ver a amiga concordar - Eu o perdi de vista e custei a encontrá-lo novamente. Depois de uns cinco minutos procurando pela multidão, eu o vi abraçado com uma ruiva peituda. É claro que eu ia pegá-la pelo cabelo e armar um barraco por estar se esfregando tanto nele, só que aquele...aquele canalha começou a beijá-la! Você não sabe como eu me senti, ! Meu mundo inteiro ruiu. – fungou, tentando se acalmar naquele mar de ódio. Ela não queria chorar, só queria quebrar algo na cabeça de Carter.
- Eu imagino, disse, vendo a amiga soluçar.
- Ele me traiu com todo mundo olhando! Eu quero matá-lo. Quero esfolar a cara dele no asfalto e arrancar a pele com ácido. – ela confessou, transtornada - Eu estava começando a pensar que poderíamos ter um relacionamento sério, mas ele podia ter dito que não era exclusivo. Eu sei que sou um pouco brincalhona com isso de ter vários flertes, mas eu nunca trairia ninguém!
- Eu só não dou um murro na cara dele agora, porque não vou te deixar aqui assim. – disse, subitamente nervosa com o garoto. Como ele podia ser idiota aquele ponto? Como ele poderia ter coragem de machucar uma pessoa tão doce como a ?
- Eu... o odeio tanto!
- Eu sei, . Ele está na nossa lista negra. – falou enquanto acariciava os cabelos da amiga, confortando-a. Isso sempre funcionava e, naquele momento, não foi diferente.
- O que eu tenho de errado? – indagou, cessando o choro. – Quero dizer... Será que eu tenho algo que afasta os caras legais e que atrai os traidores?
- Você não tem absolutamente nada de errado e sabe disso. Você é uma das pessoas mais especiais do mundo. Isso tudo é porque ele não era o cara certo. - abraçou a amiga apertadamente. – Esqueceu que o homem da sua vida é o ?
- Só assim para você aceitar essa realidade, não é mesmo? – ironizou, extremamente mais calma e com o coração cheio do amor que lhe transmitia com suas palavras doces.
- Eu nunca te disse, mas adoraria te ter como cunhada. – admitiu, ajudando-a a se levantar. Aquilo não era apenas para consolar a amiga, ter como cunhada seria realmente maravilhoso. – Agora, vamos embora antes que seu futuro marido me mate ao descobrir o que fiz.
- Ei, achei que eu seria seu marido. – se manifestou, afastando-se da pia para ajudar as garotas.
- Desculpe-me se lhe dei a esperança de que algum dia você se casaria comigo. – disse, recuperando seu costumeiro humor. – Mas, como sou uma boa garota, você pode ser meu amante.
- Não acredito que você tem um plano para trair meu irmão! – comentou, fingindo indignação, enquanto andavam em direção ao carro. – Retiro o que disse. Você, com certeza, seria uma péssima cunhada.
- ! Não acredito que você me fez contar nosso plano secreto pra ! – exclamou, dando um tapinha brincalhão no amigo. – Agora tudo foi por água abaixo.
Os três riram e entraram no carro. dirigia o New Beetle enquanto as garotas iam abraçadas nos bancos traseiros. O vento quente do ar condicionado era algo reconfortante no momento.
- Eu posso saber que casaco é esse? – questionou quando percebeu a peça que a amiga vestia.
suspirou pesadamente, percebendo que se esquecera de devolvê-lo para .
- É uma longa história. – a olhou com a sobrancelha arqueada. – Eu te conto amanhã.
- É bom mesmo. – ela resmungou, irritada por não saber da história.
- Eu queria poder dormir na sua casa hoje para nos empanturrarmos de sorvete enquanto assistíamos todos os filmes do Chris Evans. – comentou, mudando de assunto e fazendo com que a amiga gargalhasse. Aquele era exatamente o tipo de programa que ela estava precisando.
- Não entendo o porquê do Chris Evans. Vocês têm uma perfeição aqui! Ao vivo e a cores. – disse, apontando para si mesmo, sem desviar os olhos da direção.
- Abaixa a bolinha, . – retrucou e se voltou para . – Você sabe que se eu não dormir em casa o vai desconfiar de algo e aí ... Era uma vez .
- Eu sei. – disse, sorrindo singelamente. É claro que ela queria a companhia da melhor amiga, mas era impossível naquelas circunstâncias. – Amanhã você vai lá em casa e a gente faz tudo isso. Essa noite o é quem vai me consolar, não é gatinho?
- Claro, gatona. Estou aqui pra isso. – Ele piscou por meio do retrovisor, estacionando o carro em frente à casa de .
Olhando para uma última vez, lhe deu um beijo no rosto e saiu do carro.
- Cuida bem dela. – alertou, antes de beijar a bochecha do amigo e correr em direção à árvore ao lado da janela do seu quarto, escalando-a.
Ao adentrar o cômodo, a garota se jogou em cima das cobertas e, rendendo-se ao cansaço, fechou suas pálpebras. Porém, os acontecimentos turbulentos da noite não lhe permitiram dormir rapidamente como seu corpo desejava. Seu cérebro criava tantas expectativas com o próximo final de semana e trabalhava em busca de uma maneira para ajudar a amiga em sua mais nova desilusão amorosa. Tanto no que pensar, tanto para se saber... Sem perceber o desligamento progressivo de sua mente, dormiu, sentindo o doce perfume que exalava do casaco de .


Capítulo 5


"Only my shadow knows what I feel about you, only my shadow goes where I dream of you and me"

[N/A: Coloquem para carregar essa música.]
O caminho da casa de até a de não era muito longo, mas os vários minutos em que a garota passou carregando o pote de sorvete gelado entre as mãos fez com que uma leve sensação de formigamento surgisse em sua pele. Apesar do clima não ser um dos melhores para se tomar algo tão gelado, sabia que o sorvete de flocos seria uma das únicas maneiras de reanimar a melhor amiga.
A brisa fria de outono agitava seus cabelos enquanto caminhava pela rua de , que estava estranhamente movimentada naquela manhã: dois caminhões estavam estacionados perto da casa mal assombrada – que era em frente à casa de sua amiga - de onde saiam poucas pessoas carregando diversas caixas. Aquele lugar estava desocupado há tanto tempo, que chegou a pensar que ninguém voltaria a habitá-lo. As garotas colocaram aquele apelido na casa três anos atrás, quando a última inquilina morrera em um dos cômodos e fora encontrada apenas duas semanas mais tarde. Desde então, ninguém havia morado ali por mais de um mês, sempre alegando ouvir ruídos espantosos e o desaparecimentos inexplicáveis de objetos.
Da calçada, avistou - que lhe esperava sentada em um dos degraus da varanda, batendo os pés incessantemente na grama do jardim. – e sorriu com sua falta de paciência.
- Até que enfim! – suspirou teatralmente, levantando-se em um pulo e correndo de braços abertos até - Estava começando a achar que você tinha morrido no meio do caminho e que eu ficaria sem meu sorvete.
abrira os braços, pensando que receberia um abraço da amiga, mas a garota apenas tomou o pote de suas mãos e o apertou contra seu peito, como se fosse a coisa mais valiosa do mundo. , percebendo os olhos surpresos de , gargalhou, continuando com sua pequena brincadeira:
- Quero dizer, você morrer tudo bem, mas eu ficar sem essa maravilha dos deuses não é nada justo.
- Então um pote de sorvete vale mais do que eu? - cruzou os braços, fingindo indignação. – Acho melhor eu ir embora já que eu não tenho nenhuma importância para você. Boa sorte tentando conversar com seu sorvete. Tenho certeza que ele vai te ajudar tanto quanto eu.
. - Nem mesmo um milhão de sorvetes conseguiria te substituir. – confessou, finalmente abraçando a amiga. – Agora entre porque temos muito o que fazer.
As duas entraram na casa gargalhando do tombo que levou ao subir as escadas da varanda. É claro que a garota tentara ficar séria, mas era extremamente difícil não acompanhar a risadas de quando sabia que a cena havia sido hilária. Não demorou muito para que as amigas estivessem esparramadas no chão do quarto de , com várias guloseimas espalhadas pelo tapete felpudo enquanto assistiam um dos vários filmes de comédia romântica que ambas amavam.
O dia passava voando e, em nenhum instante, o nome de Carter apareceu nos assuntos abordados. sabia que a amiga não estava pronta para conversar sobre o ocorrido sem se sentir humilhada ao extremo e, por isso, não tentou fazer com que desabafasse. Carter, naquele momento, era a pessoa no topo da lista negra das garotas e, pelo jeito, ficaria ali por muito tempo.
, após o fim do terceiro filme, levantou-se e desceu as escadas para preparar mais um balde de pipoca. O sol de fim de tarde começava a refletir na televisão, o que incomodaria quando fossem assistir ao próximo filme e, por isso, resolveu fechar a cortina. No entanto, sua ação foi interrompida pela metade quando seus olhos avistaram a mudança que ainda acontecia na casa em frente. O que chamava a atenção da garota não era o enorme sofá que estava sendo carregado por dois homens, mas, sim, a visão de uma pessoa muito conhecida, tanto por quanto por . Será que sabia que seu novo vizinho seria ?
A segunda pessoa mais odiada por iria morar em frente à sua casa e ela ainda não tivera nenhum surto ou falara todos os palavrões que existiam na face da Terra, então, com toda certeza, a garota não sabia de nada.
- Você acha melhor a gente assistir outra comédia romântica ou uma animação? – perguntou ao voltar com o balde transbordando pipoca.
- Acho que pode ser uma animação.
- O que você acha de Operação Big Hero? – perguntou já pesquisando o nome do filme na sua tv.
- Pode ser. - fechou a cortina, tentando transparecer indiferença. - Ahn, , você sabe quem está se mudando para a casa mal assombrada?
- Não faço a mínima ideia – ela disse, dando de ombros. – Minha mãe só disse que é um casal com dois filhos adolescentes.
estranhou o fato de não ter feito algum comentário sobre a aparência dos garotos - coisa que, tipicamente, sairia de sua boca assim que descobrisse que seus novos vizinhos seriam adolescentes –, mas decidiu não questionar por pensar que era devido aos últimos acontecimentos envolvendo Carter.
- Caramba! – bateu em sua testa, arregalando os olhos – Eu me esqueci completamente que minha mãe pediu para levar a torta de boas-vindas para eles. Ela vai me matar!
trocou o pijama pela primeira roupa encontrada no armário e logo puxou para lhe acompanhar até a casa da frente. Com um sorriso interno, decidiu não contar que sabia muito bem quem a amiga estava prestes a encontrar. Iria ser hilário ver a cara de surpresa e indignação de quando descobrisse que seus dias de paz estavam chegando ao fim.

A mudança já havia terminado quando as garotas chegaram na casa mal assombrada. Ajeitando o cabelo uma última vez, tocou a campainha e, em pouco menos de um minuto, a porta foi aberta por um garoto que não passava dos 14 anos de idade.
- Pois não? – percebendo as duas garotas, ele se encostou no batente, tentando, de seu jeito desengonçado, seduzi-las. – O que posso fazer por vocês, gatinhas?
- Nós viemos dar boas-vindas a vocês. – anunciou, tentando conter o sorriso. – Sua mãe está?
- Vou chamá-la – ele disse, piscado um dos olhos enquanto pegava a torta que a menina lhe oferecia. – Se eu soubesse que teria vizinhas tão lindas, teria convencido minha família a mudar para cá há mais tempo.
olhou para enquanto o menino dava as costas e percebeu que a amiga tentava segurar a risada.
- Ele até que é fofinho – observou, olhando para a careta engraçada de .
- Eu não sei porque, mas ele me lembra alguém que não gosto. Assim que a garota terminara a frase, algo escorregadio acertou sua cabeça, deslizando por seu corpo.
- E aê, ? – gritou de uma das janelas do segundo andar, com um sorriso travesso enfeitando seu rosto.
- Oi, . – respondeu, gargalhando do macarrão que caia pela camisa branca de .
- Seu idiota, babaca, estúpido filho de uma... – berrava, com o rosto completamente vermelho de raiva, prestes a subir e bater a cabeça do garoto contra a parede, quando uma senhora apareceu, interrompendo seu acesso de raiva.
- Mas o que, diabos, está acontecendo aqui? – a mulher questionou, preocupada com a gritaria que, provavelmente, podia ser ouvida no outro quarteirão, mas, ao ver a menina irritada completamente suja, seus olhos arregalaram de confusão.
- Aquele tapado jogou isso em mim! – exclamou, apontando de , que ria descontroladamente, para a comida que se esparramava por seu cabelo e manchava suas roupas.
- , desça aqui agora para pedir desculpas para a garota – a senhora esbravejou.
- Eu não vou pedir desculpa nenhuma para essa mimada – ele negou veementemente. – Ela mereceu.
- Eu não perguntei se ela mereceu ou não. Mandei você descer aqui e espero não precisar mandar de novo, senão eu te trarei pela orelha.
- Até parece que você faria isso. – disse, escorando na janela com um sorriso cético, duvidando que sua mãe o faria passar aquela vergonha na frente de .
A mulher não esperou nem mesmo que ele terminasse a frase para subir as escadas atrás do filho. As garotas ouviram alguns barulhos no andar de cima antes de ver a mãe de segurando-o pela orelha, enquanto o garoto descia os degraus da escada em tropeços.
- Para, mãe! – ele suplicou antes de chegarem à porta, onde as garotas, principalmente , tentavam não rir. – Isso dói!
- Peça desculpas – a senhora exigiu, soltando o filho e cruzando os braços sobre os peitos, em uma posição rigorosa.
suspirou, olhando para a expressão severa da mãe antes de virar-se para .
- Eusintomuito. – disse, entre dentes, o mais baixo e rápido possível, tentando encurtar um dos momentos mais desagradáveis de sua vida.
- O quê? – , fingindo inocência, questionou.
O garoto arfou com o atrevimento da garota, encarando a mãe para lhe pedir com os olhos uma saída para aquela situação. Entretanto, a mulher apenas o fitou de volta, apontado com a cabeça para .
- Eu sinto muito, – ele resmungou, travando o maxilar.
- Você terá que falar mais alto para que eu possa escutar, . – alfinetou mais um pouco. A única coisa que faria com que aquele momento ficasse mais glorioso era se um balde de pipoca estivesse em suas mãos enquanto ela assistia se desculpar.
- Acho que já deu, . – alertou quando percebeu que quase podia-se ver a fumaça saindo das orelhas do garoto irritado.
- Eu te desculpo, Tom – ela informou, rindo por dentro ao vê-lo revirar os olhos em resposta.
O garoto nem ao menos se despediu, apenas subiu as escadas em passos largos e fortes, deixando as três no batente da porta.
- Eu sinto muito pelo comportamento do meu filho, – a mulher disse, envergonhada. – Você foi muito gentil em trazer a torta.
- Não foi nada.
- Essa é a sua irmã? – a senhora questionou, apontando para .
- Não, não. Ela é a , minha melhor amiga.
- É um prazer, – a mulher disse agradavelmente.
- O prazer é meu, senhora .
- Vocês não gostariam de entrar? Não tem muita coisa no lugar, mas eu posso oferecer um suco.
- Fica para a próxima. e eu temos que terminar alguns trabalhos de escola. – ela mentiu, esquivando-se do convite, tentando não incomodá-la no dia de mudança.
- Espero vocês duas para a próxima, então – senhora sorriu antes de fechar a porta enquanto as garotas iam embora.
- Como você se sente depois de conhecer sua sogra? – brincou ao entrarem na casa de . – Ela parece ser uma ótima cozinheira, considerando o cheiro desse macarrão.
- Ela não é minha sogra, mas eu a adorei! – disse, enfatizando o "não" da frase, enquanto pegava um pouco da massa de seu cabelo e a levava à boca. – O tempero da senhora é mil vezes melhor que o da minha mãe. Não conta para ela!
- Prometo que não vou contar para sua mãe que você já é fã número um da sua sogra atiçou, rindo da careta da amiga.
Ela se jogou na cama enquanto começava a pegar a toalha e a roupa para o banho.
- Eu terei que tomar umas três chuveiradas para conseguir tirar o cheiro de alho do meu cabelo.
- Talvez umas quatro.
já entrara no banheiro e estava com a porta entreaberta quando se lembrou de algo:
- Ei, você não me contou a história daquele casaco que você estava vestindo ontem.
- Que casaco? – perguntou, xingando mentalmente. Ela realmente achava que a amiga tinha esquecido da história.
- O do time de futebol que você estava vestindo ontem? – ironizou, saindo do banheiro enrolada na toalha. Ela havia desistindo de tomar banho, por enquanto, para poder encarar enquanto ela contava o que aconteceu.
- me emprestou. – suspirou, sabendo que, com esse simples acontecimento, a amiga iria ver coisas onde não havia.
- Você viu o ontem? – perguntou, completamente surpresa. - Quando, como, onde? E por que você não pensou em me contar uma coisa dessas?
- Não tem nada de mais para contar. – não aceitaria que ela parasse por ali, por isso, mordeu os lábios antes de continuar: - Depois do jogo, quando você saiu correndo pelo campo e o para o vestiário, eu tinha resolvido te esperar no carro e o me encontrou por lá. A gente conversou um pouco e depois que ele percebeu que eu estava com frio, emprestou o casaco dele.
- Eu te disse que ele te esquentaria! – sorriu com o olhar que lançou-lhe. – Mas sobre o que vocês conversaram? Quero dizer, vocês conversaram?
– É claro que só conversamos! – ela exclamou, exaltada, e deu de ombros, relembrando que não tiveram muito tempo antes de chegar desesperado, pedindo sua ajuda. - Não falamos muita coisa... ele só me convidou para conhecer a irmãzinha dele no próximo sábado.
Os olhos de arregalaram e sua boca escancarou enquanto ela observava a naturalidade com que tratava o assunto.
- Como assim ele está te convidando para conhecer a família dele? – ela disse, completamente estupefata. – Ai, meu Deus, ! Ai, meu Deus!
- Ele não me convidou para conhecer a família dele, sua lerda – a garota revirou os olhos para o espanto de . – Ele me convidou para conhecer a Crystal, a irmã dele.
ficou observando por alguns segundos, com um dedo do queixo, pensando.
- Quantos anos a irmã dele tem?
- Acho que 4, por quê?
- Ai, , sua idiota! É óbvio que ele está usando ela como desculpa para ter um encontro com você! – ela suspirou, colocando a mão no peito, com o olhar extremamente apaixonado. – Ele estava com vergonha de te pedir para ir a um encontro com ele!
- O quê? – olhou incrédula para a amiga. Qual era o problema dela? De onde ela tirava aquelas ideias mirabolantes? – Claro que não é um encontro! Ele tinha falado da irmã antes e eu disse que queria conhecê-la, por isso que ele me convidou.
- Ai, . Você me cansa – ela suspirou profundamente. – Será que você não entende que eu nunca estou errada?
- Aham, como naquela vez que você disse que nosso novo professor de geografia seria um gato que nem aqueles dos filmes, né? Eu não acho a senhora Grey tão gata assim.
- Essa foi a única exceção - ela deu de ombros e quando estava prestes a citar outros de seus erros, ela a cortou: - Tá, tudo bem. Eu nem sempre estou certa, mas dessa vez eu estou!
- É, , você está certa. – fingiu se render, pois, se continuasse contestando o que a amiga falava, ficariam discutindo a noite inteira.
- Eu sei que você não concorda. Isso é só pra eu calar a boca.
Ainda sorrindo com a cara zangada de , olhou para a janela, percebendo que já começara a escurecer.
- Acho que eu vou indo – a garota disse, levantando-se da cama.
- Não! – quase gritou, ficando na frente da amiga, tentando impedir sua passagem. – Fica só até eu terminar o banho, por favor? Não tem ninguém em casa e eu morro de medo de um assassino entrar e me matar enquanto eu estou pelada. Eu não quero que os policiais me vejam do jeito que vim ao mundo quando forem analisar a cena do crime.
- Tudo bem, medrosa. Eu fico. - gargalhou com o drama da melhor amiga.
deu um beijo na bochecha de , entrando no banheiro, saltitante, e, antes da porta se fechar totalmente, a garota disse:
- Você sabe que eu te amo, né?
- Por mais incrível que pareça, eu te amo também, sua baranga.

Aquela semana passara rapidamente, sem acontecimentos extraordinários ou até mesmo interessantes. não conseguia esconder a ansiedade que tomava seu peito. Todas as vezes que via nos corredores da escola ou até mesmo na sala de aula, um medo crescia dentro de si de que pudesse fazer algo errado e, assim, acabar com sua única chance de conquistá-la. Foi com esse pensamento em sua mente que o garoto havia planejado tudo o que aconteceria no encontro, desde os filmes que assistiriam até os prováveis cômodos que ele iria apresentar.
Naquele sábado, ele preparava a pipoca e Muriel, a doce senhora que trabalhava ali, organizava a sala, quando a campainha tocou um pouco mais cedo do que esperava. Correndo até a porta, colocou sua mão em frente a boca para conferir seu hálito e deu uma rápida espiada no espelho, para verificar se estava apresentável.
- Boa tarde, chuchu. – disse, entrando na casa, rindo da cara surpresa do amigo.
- Cara, o que você está fazendo aqui? - ele disse, nervoso. – Você sabe que hoje é o meu encontro com a .
A indignação estava tão presente na voz de que a única coisa que podia fazer era gargalhar.
- Por isso que eu vim mais cedo, seu babaca. – disse, sarcasticamente, enquanto beijava o rosto enrugado de Muriel. - Eu vou me esconder e assistir.
- Tá maluco, é?! – soltou com uma voz estridente.
- Claro que não. Quero te ver dar uns amassos na sua futura mulher – ele cutucou a senhora ao seu lado, que riu discretamente.
- Saí daqui, agora!
- Ok, cão raivoso. É claro que eu não quero ver você e a se pegando no sofá. – falou, levantando as mãos como se estivesse rendendo-se - Eu vim pegar sua jaqueta emprestada, porque, como todo adolescente gostoso, eu tenho um encontro mais tarde.
O alívio de foi visível e ele rapidamente entregou a tal jaqueta ao seu amigo, despachando-o logo em seguida.
- Não esquece do filme de terror.
- Filme de terror? – perguntou, confuso, escorando-se no batente da porta.
- Claro! É um dos melhores jeitos de fazer uma garota te agarrar. A maioria delas sente medo com esse tipo de filme – explicou , dando uma piscadela. – Não deixe de me ligar, princesa. Quero saber como foi finalmente dar o beijo que você sempre sonhou.
- Cala a boca, disse antes de bater a porta na cara do amigo.
- Use camisinha!!!- gritou do lado de fora, indo em direção ao seu carro.
riu do comentário do amigo e subiu as escadas até o seu quarto para procurar por um filme assustador. Pegou o primeiro que encontrou, torcendo para que o que disse acontecesse, e voltou para sala, sentando-se no sofá para esperar por .
Quase meia hora havia se passado desde o horário que combinaram. começava a ficar preocupado, pensando se ela esquecera ou até mesmo desistira. Sua mente se enchia de várias perguntas e possibilidades, deixando-o inquieto e, por isso, ele resolveu fazer a única coisa que sempre lhe acalmava: tocar violão, o instrumento que ele mais gostava.
A sensação das cordas em seus dedos, que transformavam simples toques em melodias suaves, era tão indescritível que fazia com que todos os pelos de seu corpo se eriçassem. Ele definitivamente amava aquele sentimento, era como se pudesse fugir para um lugar onde tudo era possível e magnifico, onde ele podia ser o que realmente era, como se os acordes pudessem libertá-lo das amarras que lhe impediam de fazer o que desejava.
não precisava utilizar partituras, pois, muitas vezes, ele gostava de combinar palavras com harmonias, criando, assim, suas próprias canções. No momento, ele usava uma melodia qualquer para se aquecer, enquanto decidia qual música iria realmente tocar.

andava à passos largos pelas ruas molhadas, tentando encontrar o endereço que lhe dera. Era difícil não ficar admirada com as casas da vizinhança, eram tão imponentes e belas quanto aquelas que via em filmes hollywoodianos. Demorou um pouco para que percebesse que passava por aquela rua todas as manhãs quando ia para escola, mas, da janela do carro de , ela não podia observar todos os detalhes que via naquele momento.
não imaginava que seria tão difícil despistar . Ela levara quase 20 minutos para tentar convencê-lo a deixá-la ir até a casa de "". sentia-se desconfortável por estar mentindo para seu irmão novamente, mas se dissesse que visitaria , era provável que tivesse um ataque cardíaco e acabasse prendendo-a em uma torre como a própria Rapunzel. Ok, , ela pensou, não seja tão dramática.
Quando finalmente encontrou a casa citada no endereço, ela arfou, de olhos arregalados. Era uma das casas mais lindas que já havia visto pessoalmente. As casas ao redor eram excessivamente modernas, com suas arquiteturas contemporâneas e vidros enormes que mostravam seus interiores elegantes com pisos de madeira e móveis bem polidos. Mas aquela em sua frente era, sem dúvida, a que mais lhe agradara: com suas paredes pintadas de um amarelo claro quase beije, enfeitadas com ornamentos antigos, cheia de janelas, sacadas e uma porta principal que formava um arco perfeito envolto por mármore preto. Era uma típica casa vitoriana e, aconchegante seria a palavra perfeita para descrevê-la. Seu interior parecia quente e convidativo, ao contrário das demais que emanavam uma frieza quase sólida.
passou pelo jardim que envolvia a casa e postou-se em frente a enorme porta. Apesar de não demonstrar, estava agitada com a dúvida que plantou em sua cabeça. Será que realmente estava usando sua irmãzinha como desculpa para ter um encontro com ela? Será que era errado querer que isso fosse verdade?
Ela tocou a delicada campainha, respirando fundo e esperando ser atendida. Uma senhora, por volta dos 50 anos, recebeu-a com um sorriso muitíssimo gentil e caloroso.
- Boa tarde, querida – ela disse, abrindo espaço para que a garota entrasse. – Você deve ser a , certo?
- Certíssima – respondeu com um sorriso, tentando não parecer surpresa com o fato dela saber seu nome. – O está em casa?
Assim que adentrou, um som que antes imaginava estar de sua mente, tornou-se mais audível. Parecia-se com o som saído de um violão, suave e extremamente doce. não precisou escutar uma resposta, uma vez que a melodia foi banhada pela voz surpreendentemente formidável de . Ela não imaginava que ele tocava, muito menos que cantava.
- Ele está te esperando no quarto dele – a senhora apontou para a escada. – Vamos, eu te levarei até lá.
A mulher ao seu lado, percebendo a admiração nos olhos da garota, sorriu.
- costuma passar horas e horas com aquele violão – ela comentou. – Desde que aprendeu a tocar, isso se tornou uma de suas atividades favoritas.
Logo que melodia foi finalizada, outra tomou o seu lugar. Desta vez, assim que chegara em frente à porta do cômodo, pôde ouvir com mais clareza o som da voz do garoto e sorriu, completamente maravilhada.

[N/A: Deem play no video]
Durante aquela semana, tudo que ele conseguia pensar era em e em como ele se apaixonava cada vez mais por seu sorriso deslumbrante. Era um sentimento tão forte que, para tentar extravasá-lo, compôs aquela música.

Oh, there she goes again
Aí vai ela de novo
Every morning is the same
Todas as manhãs é a mesma coisa
You walk on by my house
Você passa na frente da minha casa
I wanna call out your name
Eu quero chamar seu nome
I wanna tell you how beautiful you are
Eu quero te dizer o quão linda você é
From where I'm standing
De onde estou observando
You got me thinking
Você me faz pensar
What we could be
No que podíamos ser


Cantarolando de acordo com o ritmo que suas mãos tocavam as cordas, lembrava dos momentos que o inspirara a escrever. Quase todas as manhãs, ele via passar pela rua de sua casa, sempre conversando animadamente ao lado de sua amiga no New Beetle que usavam para ir à escola. Uma vontade excessiva de ir ao seu encontro, dizer seu nome e revelar o quão linda ela era tomava seu peito, mas tudo o que conseguia fazer era ficar parado, observando-a e pensando como seria se ele tivesse bravura o suficiente para fazer o que tanto desejava.

'Cause I keep craving, craving
Pois eu fico na vontade, na vontade
You don't know it but it's true
Você não sabe, mas é verdade
Can't get my mouth to say the words
Não consigo fazer minha boca dizer as palavras
They wanna say to you
Que quero dizer a você
This is typical of love
Isso é típico do amor
Can't wait anymore
Não posso mais esperar
Oh wait I need to tell you
Oh espere, eu preciso te dizer
What I feel
O que sinto


, escorada no batente da porta entreaberta, observava tocar o violão de olhos fechados e sentiu o sorriso estampado no rosto do garoto se espelhar em seus lábios. Ela percebia que, por seus gestos emotivos, aquela música – que ela tinha certeza de nunca ter escutado – significava muito para ele.

I wanna see us together
Quero nos ver juntos
Forever in my dreams
Para sempre, em meus sonhos
You with me
Você está comigo
We'll be everything I want us to be
E somos tudo o que queria que fôssemos
And for that, who knows?
E assim, quem sabe?
Maybe this will be the night
Talvez esta seja a noite
That we kiss
Que nós nos beijamos
For the first time
Pela primeira vez


perdera as contas de quanta vezes já havia sonhado com . Em seus sonhos, eles eram tudo o que ele queria que fossem: um casal apaixonado que vivia uma grande história de amor.

Or is that just me
Ou será que sou só eu
And my imagination?
E minha imaginação?
We walk
Nós caminhamos
We laugh and spend our time
Rimos, e passamos o tempo
Walking by the ocean side
Caminhando na beira do mar
Our hands are gently intertwined
Nossas mãos se entrelaçaram docemente
A feeling I just can't describe
Um sentimento que não consigo descrever
All this time it's been too long
Todo esse tempo, demorou tanto
Thinking we cannot belong
Pensando que não poderíamos pertencer
To something so damn beautiful
A algo tão lindo
So damn beautiful
Tão lindo

Em muitos de seus sonhos, os dois caminhavam juntos pela beira do mar, gargalhando e se beijando, as mãos entrelaçadas como um verdadeiro casal. Os olhos de , banhados pela luz das estrelas, eram ainda mais magníficos e ele não conseguia descrever o sentimento que tinha por pertencer a algo tão bonito.

'Cause I keep craving, craving
Pois eu fico na vontade, na vontade
You don't know it but it's true
Você não sabe, mas é verdade
Can't get my mouth to say the words
Não consigo fazer minha boca dizer as palavras
They wanna say to you
Que quero dizer a você
This is typical of love
Isso é típico do amor
Can't wait anymore
Não posso mais esperar
Oh wait I need to tell you
Oh espere, eu preciso te dizer
What I feel
O que sinto


O porquê dele não conseguir fazer com que sua boca dissesse o que queria? Simples, o medo de que ela não sentisse o mesmo fazia com que um bolo surgisse em sua garganta, impedindo-o de proferir qualquer palavra. Ah! Mas, agora que ele finalmente conversava com ela, uma coragem desconhecida começava a crescer dentro de si, revelando a necessidade que ele tinha de dizer para o que realmente sentia.

I wanna see us together
Quero nos ver juntos
Forever in my dreams
Para sempre, em meus sonhos
You with me
Você está comigo
We'll be everything I want us to be
E somos tudo o que queria que fôssemos
And for that, who knows?
E assim, quem sabe?
Maybe this will be the night
Talvez esta seja a noite
That we kiss
Que nós nos beijamos
For the first time
Pela primeira vez


Muriel, ao lado de , observava, rindo silenciosamente, o sorriso admirado da garota, que fitava com os olhos transbordando ternura. A senhora trabalhava para aquela família muito antes de seu menino nascer. Ela o criara como se fosse seu próprio filho e o viu crescer, transformando-se naquele garoto atencioso, gentil e carinhoso que ela tanto amava. Muriel sabia que, sem sombra de dúvidas, ele merecia ser feliz ao lado que alguém que o olhasse como aquela garota fazia.

Or is that just me
Ou será que sou só eu
And my imagination?
E minha imaginação?
In my dreams
(Em meus sonhos)
You with me
(Você está comigo)
We'll be everything I want us to be
(E somos tudo o que queria que fôssemos)
And for that, who knows?
(E assim, quem sabe?)
Maybe this will be the night
(Talvez esta seja a noite)
That we kiss
(Que nós nos beijamos)
For the first time
(Pela primeira vez)
Or is that just me
Ou será que sou só eu
And my imagination?
E minha imaginação?
'Cause I keep craving, craving
Pois eu fico na vontade, na vontade
You don't know it but it's true
Você não sabe, mas é verdade
Can't get my mouth to say the words
(Não consigo fazer minha boca dizer as palavras)
They wanna say to you
Que quero dizer a você


Infelizmente, aquela, como todas as outras canções, ficaria guardada no fundo de sua mente, sem que alguém pudesse ouvi-la. Era o que pensava ao tocar o último acorde, mas o som característico de aplausos irrompeu o silêncio que tomara o quarto, assustando-o.
Ali, parada em sua porta, estava , com suas madeixas sobre o ombro e os olhos brilhantes enquanto batia palmas freneticamente. Muriel, ao seu lado, sorriu com orgulho e, meneando a cabeça, afastou-se silenciosamente, deixando os dois sozinhos no quarto verde.
- Eu não sabia que você tocava. – confessou com um sorriso, apontando para o violão no colo do garoto. – Ou cantava.
- Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim. – ele brincou, estreitando os olhos misteriosamente, e indicou o lugar ao seu lado no colchão macio para que sentasse.
- Ai, meu Deus! Você não é um agente secreto, é? – a garota perguntou, fingindo surpresa, e sentou-se no lugar indicado.
- Essa informação é estritamente confidencial. – comentou, arrancando uma gargalhada de .
- Bobo! – ela disse, dando-lhe um leve empurrão com uma das mãos, fazendo-o rir. – Aliás, você toca super bem. Há quanto tempo você pratica?
- Nossa, faz tanto tempo que eu nem consigo me lembrar quando comecei.
- Mas o que te fez começar? – ela perguntou, curiosa, passando os olhos pelas paredes claras do quarto, decoradas com diversas fotografias.
- Meus pais – ele deu de ombros. – Eles se conhecerem na banda da escola e por meio da música se apaixonaram. Então, quando eu tinha idade o suficiente para segurar um violão e alcançar as teclas de um piano, eles me ensinaram o que sabiam. E eu passei a amar a música também.
- Isso foi... profundo – comentou, gargalhando da careta que o garoto fizera.
- Quando seu pai é um escritor de romance, você se torna um pouco dramático.
- Seu pai é um escritor? – ela perguntou, arqueando uma das sobrancelhas.
- Henry . – observou a menina ao seu lado arregalar os olhos, completamente surpresa. - Conhece?
- Henry ? Henry é o seu pai? O mesmo que escreveu Janeiro Sombrio e Almas Estilhaçadas?
- O próprio.
- Você tá brincando com a minha cara, né? Seu pai é um dos meus autores favoritos de todos os tempos!
- Não é porque ele é meu pai, mas o cara escreve bem. Não sei como ele consegue escrever algo tão complexo como um livro – ele disse, sorrindo. – Eu não herdei o talento dele, a única coisa que consigo escrever são letras de músicas horríveis.
mordeu os lábios, percebendo, tarde demais, o que havia escapado de sua boca. Porém, quando sorriu para ele de uma maneira genuína, sentiu-se calmo e não se arrependeu de contar a ela um de seus segredos.
- Além de cantar e tocar você ainda compõe? Só falta me falar que você pratica malabarismo enquanto faz tudo isso – os dois gargalharam do comentário.
- Isso eu realmente não faço, – ele sorriu, travesso – por enquanto.
- Então... – ela disse após recuperar o fôlego. – Por que você não faz parte de alguma banda como seus pais?
- Eu não teria coragem de cantar na frente de dezenas de pessoas. – respondeu, dando de ombros – Pode não parecer, mas sou tímido.
- Não acredito que você esconde seu talento do mundo! – ela exclamou, indignada. – Enquanto isso, eu finjo fazer turnês durante o banho com essa minha voz desafinada.
tentou conter o sorriso malicioso que teimava em surgir em seu rosto. Ele queria fazer parte da plateia dos shows de . Por mais que a voz dela fosse tão ruim quanto dizia, a visão, definitivamente, compensaria.
- Duvido que sua voz seja mais desafinada que a do . – ele disse, buscando afastar a imagem de sua mente, mesmo não sendo o que ele queria.
- Isso porque você não me ouviu cantando.
- Não seja por isso – ele disse, pegando o violão do suporte onde havia colocado. – Eu toco e você canta.
ruborizou, pigarreando. Ela nunca cantaria na frente de depois de ouvir quão maravilhosa era a voz dele.
Vasculhando o quarto com os olhos a procura de um modo de escapar da situação, ela avistou um pequeno caderno fechado, em cima da escrivaninha em sua frente, repleto de folhas de partitura em seu interior.
- Aquele é seu caderno de composições? – a garota perguntou, apontando para o objeto e pegando-o ao ver assentir.
O caderno parecia desgastado e cheio em suas mãos, como se fosse usado com muita frequência. Grande parte de suas folhas amareladas encontrava-se rabiscada por uma caligrafia descuidada, aparentando ter sido escrita de maneira apressada. Enquanto folheava as páginas finas, percebia que várias delas haviam sido arrancadas e, parando em uma composição aleatória, começou a lê-la.
nunca mostrava suas composições para ninguém e nunca ficava a vontade com alguém, além de e Crystal, em seu quarto. Aquele lugar era seu abrigo, onde podia se trancar e esquecer do que acontecia fora daquelas quatro paredes esverdeadas. Mas, por mais estranho que pudesse parecer, a presença de ali não o incomodava. Ele não se preocupava que ela visse suas fotos – tiradas de pessoas e lugares aleatórios, mas que tinham um significado – ou sua bagunça interior que se espelhava nas roupas sujas jogadas pelo cômodo. Era como se nada ao redor interessasse. Ele não percebia a cama macia abaixo de si e nem apreciava o sol de início de tarde tocar sua pele. Tudo o que importava era que ela estava ali e era tudo o que ele conseguia ver e sentir.
Ele percebia, com os olhos atentos, todos os sorrisos maravilhados que soltava enquanto lia uma de suas composições favoritas. perguntava-se se, em algum momento, ela se reconheceria em alguns dos versos rimados da canção. Seria impossível não reconhecer. Todos eles a descreviam com extrema exatidão, desde a cor de sua íris até o modo como ela prendia seus cabelos atrás da orelha.
O garoto aproximou-se para acompanhar a leitura, quase encostando seu ombro no de , estremecendo-se com o calor que ela emanava.
- Você deve amar muito a pessoa pra quem escreveu essa música. – ela comentou, virando-se em sua direção e deparando-se com uma proximidade inesperada. Menos de dez centímetros separavam seus lábios do dele, fazendo seu coração dar uma cambalhota, vacilante.
- Você nem imagina o quanto. – respondeu, examinando seus olhos sorridentes. Seu hálito doce roçando na pele macia de causava arrepios por todo o corpo da garota.
Ele queria tanto beijá-la e aquele era o momento certo. O momento em que, enfim, realizaria aquilo que tanto almejava. Seus dedos, ávidos por tocar sua pele, aproximaram-se do rosto de , no entanto, foram interrompidos pela voz doce de sua irmãzinha, fazendo-os se afastar:
- , adivinha o que eu consegui fazer no ballet hoje... – a garotinha parou sua fala quando percebeu que o irmão tinha companhia. Ela olhou de um para o outro, não notando o quão envergonhados estavam.
percebeu o momento exato em que Crystal reconheceu o rosto de e temeu que a irmã dissesse algo sobre as fotos que vira em seu celular. Mas, para sua surpresa, ela correu até , abraçando-a como se matasse a saudade que sentia de alguém que não via há muito tempo.
sorriu com a ação inesperada e abraçou a menina que tinha cheiro de chocolate.
- Que abraço mais gostoso o dessa princesinha – ela comentou, cutucando-a, fazendo com que gargalhasse.
- Eu não sou princesa, sou uma rainha – Crystal corrigiu, limpando o local onde seu irmão havia lhe dado um beijo molhado. – Rainha Elsa.
- Perdão, majestade. – implorou, brincando, com a garota ainda em seu colo.
- Não tem problema – ela deu de ombros, como se o erro não fosse tão grave.
- Muito obrigada por me desculpar, Vossa Alteza. A propósito, sou e estou a seu dispor. – disse, fazendo uma pequena reverencia.
- Pode me chamar de Rainha Elsa ou de Crystal. Sou as duas. - ela deu um risinho fofo e, ao olhar mais atentamente para , arregalou os olhinhos, sorrindo e batendo palmas contentes. – Você pode ser a Anna. Você com certeza fica mais bonita em um vestido do que o .
- Quer dizer que você vai me trocar por alguém que acaba de conhecer, Crys?
- Não! – a menina negou veementemente, pulando do colo de para o de , enroscando seus bracinhos no pescoço dele em um abraço apertado. – Você pode ser o Kristoff! Ele é lindo igual você.
- Quem é esse? – ele perguntou com um olhar curioso perpassando de a Crystal.
- Você não sabe quem é ele? – mordeu os lábios, olhando para com um sorriso tímido no rosto. – Por acaso você já assistiu ao filme?
- Não. Nem uma vezinha. – Crystal respondeu pelo irmão com um olhar exalando mágoa.
- Eu não acredito nisso. – encarou , figindo indignação. – O que você acha de fazermos ele assistir, Crystal?
- Por favorzinho! – a menina de bochechas rosadas pediu, segurando o rosto do irmão entre as duas pequeninas mãos, impedindo-o, assim, de desviar a atenção de seus grandes olhos pidões.
suspirou em derrota. Não era isso que ele havia planejado para aquela tarde – nem de perto -, mas era um pouco impossível dizer não à irmã e à ao mesmo tempo. Quando percebeu que o irmão estava cedendo ao pedido, Crystal deu um beijo molhado em seu rosto, do mesmo jeito que ele sempre lhe dava.
- Com um beijo desses é meio impossível negar.
- Eba! – a garotinha gritou de animação, pulando do colo de e puxando os dois adolescentes quarto afora.
- Vamos ver se esse tal de Kristoff é tão lindo quanto eu, porque, se não for, você, garotinha, vai se ver comigo – alertou, brincando com a irmã ao colocar o dvd.
- Ele é lindão, prometo!
- Acho bom mesmo – ele disse, juntando-se as duas que estavam esparramadas no largo sofá.
- Uau! Parece que tem um monstrão grandão dentro da minha barriga. – Crystal disse de repente, com os olhos assustados com o som do ronco que seu estômago fazia. – Escuta! Escuta! – ela exclamou, aproximando sua barriguinha dos ouvidos do outros dois, fazendo-os gargalhar.
- Meu Deus! Temos que destruir esse monstro. - murmurou ao apoiar seu ouvido no local indicado, estreitando os olhos. – Você sabe qual a melhor maneira de fazer isso?
- Conta! – Crystal disse, sem conseguir conter a curiosidade.
- Comendo muita pipoca! – a garota contou, desfazendo o mistério de sua voz e movendo suas mãos pela barriga da menininha numa tentativa bem sucedida de lhe fazer cócegas.
- Para, ! – Crystal ria, contorcendo-se sob os dedos ágeis de .
- Só se você falar a palavra secreta.
- Por favor!
- Não. Não é essa. É uma coisa muito, muito gostosa.
- Sorvete. Chocolate. – as bochechas da menina começavam a ganhar uma tonalidade mais vermelha do que o normal, mas ela se divertia, sem conseguir parar de rir. - Bolo. Milkshake.
- Tá chegando perto, Crys.
olhava, divertindo-se com a cena. Nunca imaginara que as duas se dariam tão bem em tão pouco tempo. Seus lábios se aproximaram da orelha de sua irmã e sussurram:
- Batata frita.
- Batata frita! – a caçula gritou, sorrindo alegremente quando as mãos de a soltaram.
- Isso não é justo – ela olhou de para Crystal com cara de brava. – Vocês trapacearam.
Os irmãos encararam com um olhar inocente, meneando as cabeças em sinal de negação, como se a ideia de terem trapaceado fosse algo absurdo. fitou-os abismada com a semelhança que possuíam. Era impressionante como eram parecidos, desde de a cor e a expressividade dos olhos até o modo como inclinavam a cabeça minimamente ao sorrir.
- Tudo bem! – a garota respirou fundo, cedendo sua pose de falsa irritação. – Vou fingir que não percebi o que fizeram, mas só dessa vez.
Crystal ficou de pé no sofá para cochichar algo para o irmão. Os dois se viraram para com um sorriso travesso.
- Chuva de beijos! – gritaram antes de se jogarem em cima da garota, enchendo suas bochechas de beijos, fazendo-a rir ruidosamente.
Lógico que não perderia a oportunidade de sentir a maciez da pele de e aproveitava o momento para memorizar em seus lábios aquela textura suave. Ele tinha que admitir que era muito melhor do que sempre imaginara. A sensação do calor e o gosto doce na sua boca eram tão indescritíveis que fez com que ele se sentisse vazio ao distanciar.

- Até que gostei do Kristoff – confessou quando os créditos começaram, indicando o fim do filme. Ele não dissera, é claro, que parte do motivo para ter gostado do personagem era que ele tinha seu "felizes para sempre" ao lado da personagem de . – Se bem que, o nariz dele é bem grande. Parece uma batata.
- Ah - sorriu para o garoto. – Eu acho ele super fofo. A amizade entre ele e o Sven é muito verdadeira.
- Sabe quem o Sven me lembra? – perguntou após alguns segundos.
- Quem? – ela questionou, realmente curiosa.
- O . Não sei muito bem se é porque ele é tão companheiro quanto ele ou pelo fato de os dois serem animais – eles gargalharam da comparação. – Tenho quase certeza que é a segunda opção.
Após recuperarem o fôlego, percebeu que a sala estava muito silenciosa para que Crystal estivesse em seu habitual animo e, quando virou para checar qual arte ela estaria fazendo, deparou-se com sua irmãzinha encolhida em um canto do sofá, em um sono profundo.
- Até que ela demorou para se render ao cansaço do ballet. – disse, apontando para a menininha. – Normalmente ela chega e capota na cama.
- Ela parece estar muito desconfortável no sofá, coitadinha. – comentou ao observá-la com o pescoço retorcido pela posição em que dormira.
- Eu vou levá-la para a cama. – ele disse, já tirando Crystal de cima do sofá.
A garota observava o modo cuidadoso com que segurava a irmã entre os braços enquanto subia os degraus da longa escada, como se ela fosse tão frágil que qualquer movimento brusco pudesse fazê-la se estilhaçar. não imaginara que fosse tão carinhoso e atencioso com Crystal. A cada momento que passava naquela casa, ela descobria uma nova característica sobre o garoto em sua frente e, para falar a verdade, gostava cada vez mais de suas descobertas.
- Que tal outro filme? – perguntou, tirando de seus devaneios.
- Claro – a garota sorriu enquanto colocava outro dvd no aparelho. – Qual o nome desse?
- Ahn... – ele disse, pegando a capa para ler. – Annabelle. Já viu?
, no mesmo instante, engoliu em seco. lhe dissera que, de tão aterrorizante, o filme fizera com que ela dormisse com a mãe e quase mijasse na cama por medo de sair sozinha à procura do banheiro. É claro que gargalhara do exagero da amiga, mas, agora que estava prestes a passar pela mesma situação, ela pensava que, na verdade, podia não ter exagerado tanto assim.
- É aquele filme de terror lançado há pouco tempo? – ela perguntou, tentando transparecer calma, o que era quase impossível, considerando quão seca sua garganta estava.
- Isso – sorriu internamente, percebendo o desconforto da garota. Parece que, pelo menos uma vez, estava certo. – Por quê? Você tem medo?
- Não exatamente.
- Acho que não entendi. Como alguém pode não exatamente ter medo? – ele perguntou, sorrindo, sentando-se ao lado dela no sofá.
- É meio que um trauma que eu tenho desde criança. – deu de ombros.
permaneceu em silêncio, esperando que ela contasse o tal trauma, mas a garota parecia não perceber a deixa.
- Você não vai contar? – ele questionou, curioso.
- Promete que não vai rir? – a garota exigiu e, após vê-lo concordar, suspirou, contando a história: - Acho que eu tinha oito anos quando viajei para a casa da minha madrinha nas férias de verão. Ela não tinha crianças, então eu estava me sentindo muito solitária e acho que foi por isso que ela me deixou ir brincar com a filha da vizinha dela. Aquela menina era terrível! – exclamou ao lembrar da garotinha de cabelos cacheados que não tirava o sorriso malicioso dos lábios. – Ela me fez assistir a um filme de terror e eu não estava querendo terminar, uma vez que eu estava aterrorizada, mas a criatura abençoada falou que, se eu não assistisse a um filme de terror até o final, tudo o que ocorresse no filme ia acontecer comigo na vida real.
- E você acreditou? – ele perguntou, tentando segurar a gargalhada.
- Bem, eu era uma criança ingênua e acabei acreditando. A verdade é que eu não sinto medo enquanto assisto, mas quando vou dormir fico lembrando das coisas que aconteceram e acabo passando a noite acordada.
- Mas você fica com medo por estar sozinha quando começa a lembrar?
- Precisamente. – disse, mordendo o lábio inferior.
- Não precisa se preocupar então – ele disse com um meio sorriso. – Se você ficar com medo essa noite pode ligar para mim que eu converso com você até que esqueça, pode ser?
suspirou, pensando se era melhor não concordar. O problema era que ela não gostava de demonstrar covardia e, por esse motivo, ela acabou aceitando a proposta.
- Pode ser – ela sussurrou, observando dar play no dvd.
Apesar de o filme proporcionar vários sustos, nenhum foi o bastante para fazer com que se agarrasse a , contrariando o que dissera. O garoto estava muito perto de e, por isso, conseguia sentir seu perfume inebriante. O suave aroma de baunilha que exalava da pele dela fazia com que um sentimento de embriaguez tomasse o corpo de . Ele não conseguia prestar atenção em nenhum minuto sequer nas cenas que passavam na televisão.
Faltava menos de meia hora para o filme acabar, de acordo com o aparelho, e rezava para que aqueles últimos minutos não fossem tão assustadores quanto os que já haviam passado. A garota tinha certeza que não conseguiria olhar para uma boneca da mesma maneira que olhava antigamente.
Uma cena horripilante estava acontecendo na tela. O suspense no ar fazia com que se preparasse para mais um susto que – mesmo sabendo que aconteceria – iria sobressaltá-la e fazê-la querer gritar para extravasar a adrenalina que estaria em sua corrente sanguínea.
- Boa noite, crianças. – uma voz similar à que jamais esqueceria soou pelo cômodo no momento exato que o clímax do suspense chegara a seu fim. A garota apertou fortemente a mão de ao seu lado e esforçou-se para segurar o grito que se formara em sua garganta.
Aos poucos, começou a virar sua cabeça na direção da voz e quando, finalmente, conseguiu enxergar a pessoa que havia se pronunciado, um arrepio estranho subiu por todo seu corpo. Ali, parada em sua frente, estava o que parecia ser o fantasma de sua falecida mãe.


Capítulo 6


"And in her smile I see something more beautiful than stars"

Quando as luzes, enfim, foram acesas, sentiu ondas de alívio e decepção perpassarem por seu corpo simultaneamente. O fato de ter se esquecido de alguns detalhes do rosto de sua mãe sempre lhe aterrorizara, mas sabia que poderia reconhecê-la em meio a uma multidão e aquela mulher, definitivamente, não era Lilian.
A semelhança entre as duas era realmente assustadora: o mesmo formato do rosto, os lábios grossos, o nariz delicadamente fino e até mesmo a tonalidade dos cabelos ondulados - apesar de que a mulher, parada em sua frente, apresentava alguns fios brancos quase imperceptíveis entre suas madeixas.
No entanto, com o fim da escuridão no cômodo, pôde perceber que existiam pequenos detalhes que entregavam a diferença entre as mulheres. A garota não conseguira encontrar as discretas ruguinhas no canto dos olhos da estranha, algo que era tão expressivo no rosto de sua mãe sempre que a mesma sorria; ao invés das rugas, a mulher apresentava covinhas em suas bochechas, uma característica inexistente em Lily. Outra disparidade entre elas era a ausência da cicatriz significante que sua mãe possuía no queixo devido a um tombo de bicicleta ocorrido em sua infância, cuja história, contada de modo cômico por Lilian, jamais esqueceria.
Por esses e vários outros mínimos detalhes, a garota se deu conta de que elas não eram a mesma pessoa. Sua mãe estava morta, não havia nenhuma maneira racional que pudesse trazê-la de volta. nunca tornaria a sentir aquele abraço caloroso e apertado de que sentia tanta falta, nem cairia no sono sentido seus cabelos serem afagados pelas mãos carinhosas de Lily ou inalaria o suave perfume de lírios que ela sempre exalava. sabia que deveria ter aceitado aquela realidade, mas ela ainda não conseguira - e duvida de que algum dia poderia - se conformar.
- Você está bem? - Jane perguntou, notando a palidez no rosto da bela garota ao lado de seu filho. - Parece que viu um fantasma.
Ao escutar novamente a voz da desconhecida, notou o forte sotaque britânico e a leve rouquidão que não havia constatado da primeira vez que a ouviu. Despertada de seus devaneios, a garota percebeu que encarava a mulher há vários segundos e que ainda segurava fortemente a mão de . Envergonhada, rapidamente desviou o olhar do rosto da estranha e soltou a mão do garoto, já com as bochechas completamente rosadas.
- Eu... - ela pigarreou enquanto tentava encontrar uma desculpa plausível para o seu lapso. - Eu fiquei um pouco assustada com o filme. Eu me assusto muito fácil. - disse com um sorriso amarelo nos lábios.
- É por isso que eu não assisto filmes de terror. - Jane sorriu condescendentemente. - Também me assusto com muita facilidade.
- Pensei que você chegaria mais tarde hoje, mãe. - disse após desligar a televisão, levantando-se e contornando o sofá para dar um beijo na bochecha da mulher. - Essa é , minha amiga. , essa é minha mãe, Jane.
A garota repetiu os passos de , estendendo a mão em cumprimento a mãe dele.
- Muito prazer, senhora .
- O prazer é todo meu, . - ela disse, apertando levemente a mão estendida. - Mas, por favor, me chame de Jane. Ainda estou muito nova para ser chamada de senhora. Tenho pouco mais de vinte anos! - a mulher brincou, um sorriso divertido enfeitando seu rosto.
- Só se for em cada perna, não é, mãe? - corrigiu, gargalhando enquanto Jane rolava os olhos para o filho. - Mas eu confesso: até que você não está muito acabada para alguém de cinquenta anos.
- ! - a mulher repreendeu o filho, fazendo , ainda um pouco perplexa, rir com a situação. - Quarenta e dois não é nem um pouco próximo de cinquenta!
- Se você está dizendo ... - comentou, dando um abraço apertado em sua mãe que, por sua vez, apoiou a cabeça do peito de seu menino. - Quem seria eu para descordar?
- Um filho que sabe que se me chamar de velha outra vez, vai passar o resto da vida de castigo. - Jane afirmou, cutucando as costelas de com o dedo fino, fazendo-o se desvencilhar do abraço.
O garoto estava prestes a contestar a mãe, como se o que ela disse fosse algo absurdo, porém, uma figura pequena e delicada passou correndo por eles, tão rápida quanto um carro de fórmula 1, e envolveu a perna esquerda de Jane com seus bracinhos finos.
- Mamãe! - Crystal gritou, como se não a visse há anos. - Estava com tanta saudade!
- Também estava com muita, muita, muita saudade, meu anjinho - a mulher confessou, colocando a filha em seus braços e enchendo o rostinho rosado de beijos. - Como foi o seu dia?
- Eu fiz abertura no ballet hoje! A Tia disse que eu vou ser a próxima Barbie Bailarina! E o finalmente assistiu Frozen! - a menininha contou animada, do jeito entusiasmado de sempre.
- É mesmo? - Jane perguntou, imitando a animação de Crystal e apertando suas bochechas ao vê-la assentir com um sorriso enorme.
Crys, por fim, desviou os olhos da mãe e percebeu as outras duas pessoas no cômodo. Ao avistar , soltou-se dos braços de Jane e correu em direção a garota, levantando os bracinhos como se pedisse colo. , diante daquele ato de fofura, segurou a menininha, sentindo seu cheiro de chocolate.
- Ah! Você já conheceu minha nova melhor amiga? - Crystal indagou, passando as pequenas mãos pelo rosto da garota que lhe segurava. - Ela é tão linda, mamãe! Parece aquelas moças das suas revistas. Eu queria tanto que ela fosse a namorada do ! Iria ser tão fantástico. Ah! Eu aprendi essa palavra na aula de ballet hoje, a Tia disse que ... - a menininha continuou a tagarelar, sem perceber o clima estranho que se instalara no ambiente.
prestava atenção ao que Crys falava até o momento em que a palavra namorada fora dita. Após esse instante, tudo o que conseguia pensar era em como disfarçar a vergonha que, sem sombra de dúvidas, estava evidente em seu rosto e o único modo que lhe parecera aceitável era continuar fingindo que estava atenta ao que Crystal contava com empolgação. Já , instantaneamente teve suas bochechas invadidas por um vermelho característico e um nó se formou em sua garganta, fazendo-o engolir em seco várias vezes. Era óbvio que, mais cedo ou mais tarde, sua irmã acabaria falando algo do tipo na presença de , o que ele não esperava era que sentiria tanta vergonha a ponto de que todo o sangue de seu corpo se direcionasse ao seu rosto.
Nenhuma das reações dos garotos passaram despercebidas pelos olhos atentos e curiosos de Jane. era sempre tão confiante e determinado com as garotas, mas a mulher observava, pela primeira vez, o filho envergonhado em frente de uma. Com um sorriso discreto, Jane analisou a situação e decidiu intervir na história da filha:
- Acho que está na hora de tomar banho, porquinha.
Rapidamente, Crys parou seu monólogo e trocou sua feição de animação por uma de desapontamento.
- Ah, não, mamãe! Eu estou morrendo de fome! - ela disse, colocando a mão em sua barriguinha.
- Fome? Você acabou de comer uma tonelada de pipoca! Como pode estar com fome? - intrometeu-se, rindo da cara indignada que a irmã lhe lançou.
- Eu não comi muito, seu chato. Foi só um pouquinho, não foi, ? - ela olhou para a garota, a procura de alguém para lhe apoiar.
- Claro. - respondeu. - Seu irmão que é um chato mesmo e fica implicando à toa com você. - a garota olhou para , que estava com a boca exageradamente escancarada, fingindo indignação.
- Você vai deixar as duas me chamarem de chato, mãe? - ele entrou na brincadeira das garotas, como se tivesse dez anos novamente e Jane fosse a única que poderia defendê-lo.
- Meu filho, eu não posso te defender. Elas falaram apenas a verdade - a mulher deu de ombros, sorrindo com a reação revoltada de . - Agora vamos tomar banho, Crys. Daqui a pouquinho o jantar está pronto.
Crystal gritou um forte "eba" e correu para os braços da mãe.
- Você irá jantar com a gente, ? - Jane perguntou.
imediatamente olhou para , não sabendo que resposta dar à mulher. Com os olhos arregalados e perpassando-os de Jane a em uma velocidade incrível, ela começou a gaguejar uma resposta até que o garoto ao seu lado interrompeu:
- Ela vai. - ele disse e olhou para , sussurrando posteriormente: - Eu te levo em casa depois.
Com um sorriso de agradecimento, olhou para Crys, que batia as mãos felizmente, vibrante pela notícia.
- Então, se me derem licença, eu darei um banho nessa sapequinha. - Jane disse, beijando a bochecha da menina. - Daqui a pouco a gente volta.
Os adolescentes observavam enquanto as duas subiam as escadas, ouvindo Crystal tagarelar sobre a bicicleta que ela vira em um propaganda de tv. Era incrível a maneira como a menininha estava sempre empolgada, como se tudo o que ela visse ou ouvisse fosse extremamente mágico. Toda aquela animação conseguia contagiar tanto quanto que sorriam ao ouvirem a descrição exagerada da tal bicicleta.
, aproveitando o momento de distração de , reparava o enorme sorriso que tomava os lábios da garota e sentiu-se satisfeito por ela estar se divertindo naquele "encontro".
- A pilha dela não acaba? - brincou, virando-se para , que desviou o olhar imediatamente ao ser pego analisando-a.
- Infelizmente não. Já faz um tempo que descobri que a carga é infinita.
- Sei como é. Tenho um desses em casa. Só que o meu não é tão ... - ela parou, pensando em uma palavra para descrever a diferença.
- Insuportável? Irritante? Um pé no saco? - sugeriu, arqueando uma das sobrancelhas.
- O quê? Não! Eu ia dizer empolgado. - replicou, dando um leve empurrão no ombro do garoto. - Não acredito que você disse que sua irmãzinha é um pé no saco.
- Ué, mas ela é mesmo! - ele argumentou, contente ao perceber a intimidade que os dois estavam desenvolvendo. - Se você tivesse que aturar isso todos os dias, entenderia.
- Tenho certeza de que não é algo ruim - a garota deu de ombros. - Quando você se sentir meio pra baixo, é só fazer uma pergunta aleatória para sua irmã. Ela vai começar a falar e falar e, quando você perceber, já vai ter se contagiado pela animação e esquecido o porquê de estar mal.
- Se bem que, olhando por esse lado, a chatice dela parece não ser tão inútil. - admitiu, dando alguns passos para trás, na intenção de se apoiar nas costas do sofá. No entanto, seu cotovelo acabou esbarrando ligeiramente em algo em cima da pequena mesa ao lado. O estrondo que veio logo em seguida tomou conta de toda a sala, assustando os dois. Os olhos do garoto se arregalaram e, antes de voltá-los para o objeto que jazia no chão, os fechou com força, rezando silenciosamente à toda divindade que pudesse ajudá-lo para que não tivesse quebrado o que estava pensando.
Porém, ao avistar os estilhaços negros espelhados pelo carpete, o nó na garganta do garoto duplicou de tamanho, percebendo que suas preces não haviam sido atendidas. No fim, a única ação que ele conseguiu realizar foi sussurrar lentamente e de maneira dramática:
- Puta. Que. Pariu.
- . Que barulho foi esse? - Jane gritou de forma acusadora do andar de cima.
- Nada, mãe. - ele gritou em resposta, suspirando profundamente. - Já posso ligar pro senhor Arnaldo, porque é hoje que eu viro presunto.
- Senhor Arnaldo? - questionou, segurando o riso que estava louco para sair de sua garganta. A cara de desespero de era impagável.
- O cara da funerária. - ele disse, dando de ombros, sem animação. - Ele é gente boa, só não esperava ter um encontro desses com ele tão cedo. Quero dizer, eu ainda nem corri uma maratona nu, estava pensando em me inscrever na do mês que vem, mas parece que não vou estar vivo até lá...
finalmente soltou uma gargalhada, rolando os olhos para a reação exagerada do garoto.
- Você não acha que está sendo um pouquinho muito dramático, ? - perguntou, tentando respirar entre as risadas que eclodiam de seu peito. - Não é como se fosse um vaso do Michael Jackson que sua mãe leiloou por uma fortuna ... - ela zombou e, ao perceber que a feição dele continuava seriamente mórbida, perguntou em dúvida: - Ou é?
- É bem pior. - ele sussurrou friamente, mas logo começou a rir da cara de preocupação que fez, agachando-se para começar a recolher os cacos. - É brincadeira. Não tem um valor financeiro muito alto, nem nada. É só uma réplica de um artefato arqueológico egípcio. Mas tem um valor sentimental enorme pra minha mãe. Foi o presente que ela ganhou do meu avô quando teve sua primeira matéria publicada. Ela ama mais esse treco velho do que eu.
- Por um momento pensei que realmente teria que ir ao seu funeral. - ela segurou o riso, abaixando-se para auxiliá-lo a recolher pedaços do que, uma vez, havia sido um lindo vaso. - Eu não estava muito a fim, sabe? Não gosto de chorar na frente das pessoas. O mundo seria tão triste, vazio e sem cor sem você. Acho que ficaria um ano de luto.
- Vou desconsiderar seu sarcasmo e tomar isso como uma declaração de amor.
- Só nos seus sonhos, meu anjo. - ironizou, dando um tapa leve na cabeça de , olhando-o com a sobrancelha arqueada.
- Ai! Você é mais agressiva do que eu pensava. Nos meus sonhos, você me dá um beijo depois de se declarar, não um tapa. - O garoto brincou, imaginando como ela não sabia a verdade que estava em suas palavras. voltou a estapeá-lo, desta vez, na mão direita, fazendo com que os cacos que já havia juntando voltassem a cair. - Tá vendo? Você é violenta. Tem que aprender a controlar essa agressividade. É perigoso para as pessoas ao seu redor. Deve existir profissionais capacitados a te ajudar com isso, você não acha? Ou algum tipo de reunião para Agressores Anônimos que ajude a controlar o risco que você traz pra sociedade.
- Eu seria um risco pra sociedade se matasse alguém. - ela fez uma pausa ameaçadora. - Você quer ser o primeiro?
- Você vai ter que entrar na fila, afinal, eu dei um fim ao precioso da minha mãe hoje. É bem provável que estarei morto antes de você planejar meu assassinato.
- Você acha que eu já não tenho tudo arquitetado? , eu já sei até onde esconderei o seu corpo.
- E onde seria isso, senhorita? - ele perguntou, desafiando-a.
- Uma boa assassina nunca revela seus planos. - os dois se entreolharam e puseram-se a gargalhar, imaginando um mundo em que era uma assassina a sangue frio, exatamente o oposto do que realmente era. Aquele era o mesmo mundo em que o Papai Noel existia e que não era um galinha.
O silêncio se instalou entre os dois após a crise de risos e, então, finalmente se pronunciou, mudando completamente de assunto:
- Desculpe-me por antes - ele disse, observando o chão enquanto a face de expressava sua confusão.
- Por...?
- Por ter falado por você quando minha mãe perguntou sobre o jantar, sem saber se você poderia ou gostaria de ficar - ele esclareceu, ainda juntando os cacos, sem coragem de olhar para a garota. - Eu tentei ajudar quando percebi que você ficou em dúvida, mas acabei sendo rude. Se você não quiser ficar, não tem problema. Eu arrumo uma desculpa pra minha mãe e te levo pra casa.
vacilou, olhando para o garoto e pensando em como responder a um pedido de desculpas tão sincero.
- Não precisa se desculpar por isso, . Eu hesitei porque não sabia se você gostaria que eu ficasse. Posso ir embora se você preferir.
- O quê? Não! – falou, um pouco mais rápido do que pretendia, parando o que estava fazendo e arregalando os olhos. Ele limpou a garganta e fitou a garota à sua frente, cuja face, coberta por finas mechas de seu longo cabelo, voltava-se para o chão, de onde suas mãos ágeis recolhiam os últimos cacos que restavam. – Quer dizer, quero que você fique.
sorriu, colocando as madeixas atrás de uma das orelhas após deixar os restos do vaso no montinho em cima da mesa de onde o mesmo caiu, junto dos outros fragmentos. Enfim, olhou para , que lhe encarava ansiosamente esperando uma resposta.
- Então vou ficar. – Ela afirmou, fazendo com que o garoto formasse um sorriso de orelha à orelha.
- Fico feliz com sua decisão, Estripadora. – brincou, recebendo mais um tapa da garota que revirava os olhos enquanto tentava não rir.
- Se continuar com esses apelidos vou embora agora mesmo. – advertiu, fingindo irritação.
- Desculpa, prometo que não te chamo mais assim...Nervosinha. – Ele provocou, e, quando estava prestes a lhe acertar novamente, levantou os braços em sinal de rendição. – Tá bom, Tá bom! Eu vou parar, é sério. Não precisa me espancar. Já apanhei demais por hoje.
- Ah! Coitado do bebezinho! Tá com medo de ficar todo dolorido? - ela brincou, sabendo que aquilo era manha do garoto.
- Não tenho medo. Só não gosto de apanhar sem motivo, como qualquer pessoa normal.
- Own! Que fofo! Ficou irritadinho. – disse, apertando a bochecha de como se ele fosse uma criancinha, fazendo-os gargalhar.
Um barulho na porta principal os sobressaltou e, então, o pai de adentrou a casa com um suspiro, uma das mão segurava a coleira de Luna e na outra encontrava-se o caderninho que leva para todos os lugares caso tivesse uma onda de inspiração repentina.
A grande cadela avançou para os adolescentes no segundo em que Henry a soltou da guia. não tivera a chance nem mesmo de sentir medo de ser atacada, pois a cachorra pulou, com extremo carinho, em e lambeu sua cara antes que ele pudesse se defender.
- Luna! - o garoto reclamou, limpando a baba da cachorra com a manga de sua blusa.
- Luna? - perguntou, passando a mão no pelo macio da golden retriever que lhe cheirava. - Não é um nome muito comum.
- Quando ela era filhote, a cor dela era um pouco mais clara. Lembrava a lua. - ele deu de ombros. - Claro que foi a Crystal que escolheu o nome, mas fazia sentido na época.
Ela riu enquanto os dois se levantavam do chão. O pai de ainda estava na porta, anotando algo em seu pequeno caderno com uma feição orgulhosa no rosto quando Luna soltou um latido, trazendo-o de volta para aquela realidade.
- Ah, perdoem-me pela falta de educação. Eu tenho uma memória um pouco fraca, então, sempre que tenho uma ideia preciso anotá-la antes que fuja da minha mente. - O homem explicou, aproximando-se dos garotos e estendendo a mão para em um comprimento. Os olhos castanho-esverdeado dele pareciam sorrir enquanto ele falava e nem mesmo um fio de seu cabelo castanho-escuro parecia ter saído do lugar devido ao vento fraco que estava do lado de fora.
- Não tem problema, Sr. . - A garota apertou a mão estendida, com um sorriso amigável. - É um prazer te conhecer, sou .
- Pode me chamar de Henry, querida. E o prazer é todo meu. - Ele respondeu simpaticamente, acariciando o pelo da cadela que abanava o rabo à procura de carinho e voltou-se para : - Oi, filho.
- Ei, pai. - o garoto coçou a nuca, percebendo que o pai fitava os cacos pretos na mesinha ao lado do sofá.
- Parece que você entrou em uma encrenca, não é mesmo?
- Prefiro acreditar que talvez eu esteja encrencado e que talvez meu pai possa me ajudar a sair dessa encrenca. - ele comentou sugestivamente.
- Digamos que seu pai irá pensar no caso. - ele sorriu, fingindo ponderar sobre o assunto. - Querida, cheguei! - o homem gritou subitamente, assustando qualquer pessoa que não estivesse prestando atenção em suas ações. Não era o caso de , é claro. A garota observava curiosamente pai e filho, tentando se acostumar com a ideia de que estava tão próxima de um dos seus autores favoritos e que ele tinha uma vida normal, como a dela. Era surreal e ela não conseguia tirar o brilho dos olhos.
- Percebi. - Jane gritou do alto da escada, lançando um beijo para o marido.
- Mamãe. - a voz fininha chamou de algum lugar no andar superior.
Luna, assim que ouviu a voz de Crystal chamando pela mãe, saiu feito um furacão em direção ao som, latindo animadamente ao perceber que a criança estava por perto.
- Tenho que terminar de arrumar a Crys. Ela está falando sem parar sobre um desenho que fez de você. Venha ver, querido. - a mulher sorriu, chamando-o e voltando para o cômodo de onde havia saído.
- Com licença. - Herny já começara a subir as escadas quando lembrou-se de algo: - Se eu fosse você, arranjaria um lugar para esconder o falecido vaso, meu filho. - ele deu de ombros e tentou esconder o sorriso. - Antes que você se junte a ele.
- Pode deixar, pai. Meu dia ainda não chegou. - respondeu, fazendo com que seu pai risse enquanto subia os degraus.
- Parece que você não estava brincando quando disse que sua mão amava aquele vaso. - comentou assim que Henry saiu.
- Você vai perceber que, aqui em casa, temos um lado bem dramático. - sorriu, virando-se para a garota - Na maior parte é exagero, mas tem um fundo de verdade. Por um exemplo, ela pode não arrancar meu coração, mas não sairei dessa com os dois rins intactos.
- Acho que entendi a parte do exagero. - levantou as sobrancelhas, divertida. - Acredito que você pertença à área artística mesmo, . Ator, cantor, compositor. Estou esquecendo alguma coisa...
- Futuro malabarista? - ele perguntou, com um sorriso malandro no rosto, lembrando-se da conversa que tiveram mais cedo.
- Não, mas esse também trabalha no circo. - ela disse, fingindo tentar se lembrar.
- O homem corajoso que engole fogo? - perguntou, em dúvida.
- Não. Um palhaço! - respondeu, mordendo os lábios para não rir. - Você realmente deveria seguir uma dessas profissões.
- Aham. - ele disse, com os olhos semicerrados, recusando-se a deixá-la vencer aquela amistosa discussão. - Você será uma lutadora de boxe então, não é? Ou MMA é sua vocação?
- Digamos que eu daria certo em qualquer um. - ela sorriu, presunçosa. - Quer fazer um teste? - fechou uma das mãos e, com a outra, chamou-o para a luta, como se estivesse em um verdadeiro ringue.
Uma gargalhada ruidosa irrompeu do fundo da garganta de .
- Primeiramente...- ele parou a fala, tentando parar de rir da expressão de poucos amigos da garota. - Esse soco vai machucar só uma pessoa: você mesma.
Ela desarmou a postura de luta, tentando ver onde estava errada, irritando-se ao não perceber.
- Você sabe que eu nunca lutei, não é? - perguntou, orgulhosa. Ela não gostava de errar e muito menos ser motivo de gargalhada quando o fazia. - Sempre que vi nos filmes eles faziam assim.
- Eu sei. O engraçado não é você não saber, mas sim sua cara de brava enquanto está se preparando para uma luta. - ele viu o orgulho se esvair da expressão dela e se aproximou, tomando o punho dela em sua mão. - Está vendo como você está colocando o seu dedão na parte de dentro da mão?
Ela balançou a cabeça, olhando o modo como ele fingia que sua mão estava atacando a palma da mão dele.
- Se você fizer assim, o dedão será a parte que mais receberá o impacto do contato. Como se, ao serem pressionados, os seus quatro dedos também esmagassem seu dedão. Seu dedo pode até quebrar dependendo da força que você colocar no soco. O certo é colocar o polegar ao lado do indicador, assegurando-se de manter a mão bem fechada. Assim. - explicou, segurando a mão da garota ao mostrar o jeito correto.
- Acho que entendi. - meneou a cabeça afirmativamente. - Desse jeito?
- Isso mesmo.
- Qual a próxima lição? - ela perguntou, animada. - "Bota casaco, tira casaco e apanha casaco"?
- Acredito que ainda não estou no nível do Jackie Chan. - riu, soltando, relutantemente, a mão da menina. - Mas tem outras coisas que aprendi quando fiz Karatê. Se você quiser aprender...
- É óbvio que quero! - ela fez um aquecimento rápido, sacudindo os braços e rodando o pescoço, ao mesmo tempo que dava pulinhos. - Eu não imaginava que você fazia karatê. Mais uma coisa para adicionar na lista de mil e uma habilidades de .
- Tenho muito mais do que mil e uma habilidades, Esquentadinha. - o garoto disse, cogitando qual das lições seria interessante para ensinar e, sem muita demora, escolheu uma. - Está preparada? - perguntou, vendo-a afirmar. - Presta bastante atenção nos meus braços, vou fazer só uma vez.
observava atentamente os punhos de , ansiando o momento em que ele lhe mostraria como fazer o novo golpe. Porém, como sua concentração estava voltada totalmente para aquela parte do corpo do garoto, acabou sendo pega de surpresa quando um dos pés dele passou pelos seus, fazendo com que se desequilibrasse. Pouco antes que fosse com tudo de encontro ao chão, segurou os braços da menina, abaixando-a com gentileza, até que estivesse deitada no carpete macio.
- Qual é o seu problema? - arquejou, ainda pasma com o acontecimento. - Esqueceu de tomar o seu remedinho hoje, foi? Quase me matou de susto!
- Essa foi a primeira lição que aprendi: nunca confie no seu oponente. - ele sorriu, estendendo a mão para a garota. ainda se lembrava da época em que caiu na mesma brincadeira. Ela ficara tão irritado com o professor quanto estava com ele. - Sempre prestar atenção em todos os movimentos do rival foi a lição número dois.
- Engraçadinho você, hein? - ela disse, segurando a mão ele.
Enquanto o garoto estava concentrado em ajudá-la a se reerguer, os pés dela imitaram o movimento que ele havia executado momentos antes, fazendo com que se desequilibrasse e caísse, nada graciosamente, ao lado de .
Os dois, deitados lado a lado, tão próximos que podiam sentir o calor um do outro tocar suas peles, entreolharam-se e puseram-se a gargalhar pelo milionésima vez naquele dia, sem nem mesmo compreender o motivo.
- Você aprende rápido! - admitiu, tentando recompor-se do tombo e da gargalhada.
- Sou uma ótima aluna. - deu de ombros, um sorriso vitorioso enfeitava seu rosto.
- Bem...- ele suspirou, engolindo qualquer vestígio do riso, e se levantou em poucos segundos. - Espero que, dessa vez, eu não seja derrubado no chão como um agradecimento por tentar lhe ajudar. - disse, estendendo a mão, atento a todos os movimentos da garota.
não podia negar o estranhamento que sentia com aquela situação, afinal, ela não se lembrava de ninguém com quem tivesse se divertido tanto em tão poucas horas – com exceção de , Will e , obviamente. A pequena intimidade que estava vivenciando trazia uma excêntrica agitação em seu corpo e a garota se assustou com a intensidade de tudo aquilo.
- O jantar já está pronto, crianças. - Muriel apareceu no cômodo no momento em que os adolescentes ficaram de pé.
- Valeu, Muriel. - disse, recebendo o costumeiro sorriso simpático da velha senhora antes que a mesma saísse em direção ao andar superior para chamar o resto da família. Então o garoto voltou-se para , que parecia não perceber sua mão ainda entrelaçada a dele. - Vamos?
- Bem, será que, antes, você poderia me mostrar onde é o banheiro, por favor? - ela perguntou, soltando a mão do garoto e colocando o cabelo, bagunçado pela queda, atrás da orelha.
- Claro. É virando aquele corredor - ele apontou na direção mencionada. - Segunda porta à direita.
- Obrigada. - disse, seguindo o caminho indicado, parando para admirar as pinturas e retratos que enfeitavam o longo corredor.
aproveitou-se do momento para guardar os cacos do vaso na estante e, ao finalizar a tarefa, escorou-se na parede da sala, as mãos nos bolsos e os olhos fixos nos tênis brancos ligeiramente gastos. Enquanto esperava por , deixou que o sorriso triunfante, que conteve desde que a garota entrara em seu quarto, finalmente tomasse conta de seus lábios. Ele estava tendo um encontro com ! Bem, não que aquilo fosse realmente um encontro, mas, para , já era um grande passo. Pois, como dizia , se o Sr. Orwell não fosse uma fada madrinha tão foda, ainda seria o tapado que apenas babava pela garota. Lembrar-se do amigo e de suas "frases fisolóficas", como o próprio havia intitulado, fez com que o garoto risse. Nunca, em um milhão de anos, ele encontraria alguém como aquele palerma que chamava de amigo. Afinal, quem fala "fisolófica"?
- O que é tão engraçado? - a voz de despertou de seus devaneios, fazendo com que o garoto mordesse o lábio inferior, tentando não rir do dia em que grudara a mão no próprio tênis com cola super bonder enquanto tentava, de forma não muito inteligente, arrumar a sola que se desprendia de seu sapato favorito.
- Nada - ele respondeu, observando a garota limpar os resquícios de água na própria calça enquanto o encarava de olhos semicerrados, apesar do pequeno sorriso, desconfiando se ela era o motivo da risada. - Pronta para experimentar a melhor comida do mundo, madame? - perguntou com a voz mais formal, arqueando uma sobrancelha e estendendo-lhe o braço, em uma verdadeira imitação de um cavalheiro do século XIX.
- Absolutamente, senhor. - entrou na brincadeira, aceitando o braço do garoto ao sentir o cheiro maravilhoso que vinha de um cômodo não muito distante.
Ambos saíram juntos em direção à sala de jantar e, ao entrarem, puderam observar a mesa preparada com esmero. foi arrebatada por um aroma ainda mais forte, sentindo seu estomago se remexer em seu corpo. As travessas traziam vários pratos saborosos, desde batatas assadas até o que a garota achava ser costela de porco cozida. Ela duvidava que pudesse, alguma vez na vida, preparar refeições tão bonitas e, provavelmente, tão saborosas quanto a que estava em sua frente.
puxou uma das cadeiras para e contornou a mesa, sentando-se de frente para a garota. Nesse mesmo instante, uma saltitante Crystal entrou no cômodo e sentou-se ao lado de com um sorriso que chegava até os olhos.
- Você gostou da minha roupa? - a pequena menina perguntou para sua mais nova amiga, apontando para o vestido azul com uma fita na cintura. - Eu que escolhi.
- Uau! Ele é lindo! - exclamou, tocando o pano do vestido e sentindo a maciez do tecido. - Eu adoro azul, é minha favorita.
- Minha também! - Crys disse, com os olhos brilhando de satisfação. - Tem tanta coisa bonita que é azul.
- Concordo totalmente com você - afirmou. Sem dúvidas, a cor a lembrava de coisas extremamente agradáveis. - Eu gosto tanto dessa cor que até meu quarto é azul. Minha mãe o pintou assim pra que eu não tivesse medo de fechar as cortinas quando criança. - Ela disse, saudosa de sua infância e do momento em que se sujou toda de tinta para auxiliar a mãe com a pintura.
- Você tinha medo de fechar as cortinas? Por quê? Você achava que os monstros podiam se esconder atrás delas? - a testa de Crys se vincou de curiosidade e percebeu quão parecida com a garotinha ficava quando fazia aquela expressão.
- Não era por causa de monstros. Na verdade, eu não sei bem o porquê. Acho que o céu me fazia sentir livre. - ela retirou os olhos dos de Crys e olhou para baixo, pensativa. - Quando fico muito tempo sem ver a imensidão azul parece que estou perdida ou, até mesmo, presa. - A cabeça de se levantou e nesse instante seus olhos se encontraram com os de . O garoto trazia milhões de perguntas naquele olhar e, sentindo-se estranha com aquela conexão repentina, engoliu em seco. - Eu sei que é algo irracional e que eu pareço até meio covarde...
- Não mesmo. - tentou dizer a ela, com outras palavras, que não deveria ter vergonha de seus medos. Naquele momento, ele compreendia de uma forma genuína. Era como se ele conseguisse perceber que a garota que ele pensava ser demais para ser real era tão humana quanto ele. - "Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo."
- Não sabia que você curtia filosofia. - ela ironizou, levantando uma sobrancelha, tentando se esquivar do tom sério que a conversa estava levando.
- Eu não curto. - ele disse, dando de ombros, bebendo um pouco da água que estava em seu copo. Crystal não prestava mais atenção à conversa dos dois, pois já estava entretida com a brincadeira que fazia com Luna. - Essa frase é daquele trabalho de literatura que tivemos que fazer na oitava série, lembra?
- Ah, o dos autores americanos do século XIX e XX? - ela riu, lembrando-se de chorando de raiva por ter que ir para a biblioteca procurar sobre um autor que tinha morrido há décadas. Claro que aquilo tinha acontecido muito antes da amiga começar a se interessar por livros clássicos. - Eu tive que pesquisar sobre o Fitzgerald. Foi com esse trabalho que comecei a gostar de ler.
O garoto não teve como responder, pois naquele momento as vozes dos pais foram ouvidas do corredor.
- Não acredito que finalmente vou ter uma refeição sem precisar me preocupar com a revista. - Jane disse ao aparecer no cômodo, sendo seguida pelo marido. - Dia de fechar a edição é o pior da semana.
- Pense pelo lado bom, querida. - Henry falou, sorrindo para a esposa. - O próximo dia ruim é só semana que vem.
A mulher sentou em uma das cadeiras na ponta da mesa, sorridente com a fala do homem, enquanto este se acomodou na outra.
- Talvez... - Jane suspirou e, mudando completamente de assunto, sorriu para os que estavam na mesa. - Bem, vamos nos servir.
No segundo em que as palavras saíram da boca da mulher, quase todos puseram-se a preencher os pratos, como se tivessem recebido um comando. , um pouco envergonhada, começou a servir uma porção de arroz e continuou adicionando ao prato tudo aquilo que lhe parecia apetitoso.
- E o espinafre, Crystal? - a mãe da garotinha perguntou, quase como uma advertência.
- Foi a primeira coisa que coloquei, mamãe.
- Então coloque mais um pouco, porque não estou vendo nada verde no seu prato.
Crys suspirou, triste por não ter escapado de comer verduras naquele dia, e colocou três folhas de espinafre no canto do prato, já imaginando se conseguiria passá-las para Luna sem que ninguém percebesse. Enquanto a garotinha planejava como escapar das ordens da mãe, colocou a primeira garfada na boca. No momento em que o tempero tocou sua língua, soube que, muito provavelmente, nunca tinha experimentado algo tão saboroso em toda sua vida. Parecia que, a cada mastigada, mais e mais deliciosa a comida ficava. Era a comida dos deuses.
- Eu disse que era a melhor do mundo. - falou ao escutar o baixo som de satisfação que a garota não tinha sido capaz de conter.
- Eu não imaginava que era tão boa. - aprovou, voltando a atenção para a comida mais uma vez.
- Então, , você conheceu na escola? - Jane perguntou e prendeu a respiração. Ele estava confiante de que, naquela noite, a mãe não bancaria a detetive, porém, ela já tinha começado com sua curiosidade insaciável da hora do jantar.
- Sim. - a garota respondeu após bebericar um pouco do suco de uva. - A gente estuda na mesma escola desde pequeno.
- Entendo. E vocês têm muitas aulas juntos?
- Acho que só temos química e matemática, não é? - voltou-se para o garoto, tentando confirmar a veracidade no que dissera.
- Exatamente. - ele sorriu para ela. Pelo jeito, ele não era invisível aos olhos dela como pensara.
A mesa ficou em silêncio por 30 segundos – tempo de comer mais duas garfadas – quando Jane voltou com suas perguntas inofensivas.
- O seu nome é ..?
- . - ela completou, partindo mais um pedaço da costela de porco e olhando para a mulher com um sorriso singelo.
- ? Eu acho que conheço esse nome de algum lugar. - Jane bebeu um pouco do suco, imaginando qual lembrança o sobrenome traria a sua mente. - Qual a profissão de seu pai?
- Ele era policial, mas se aposentou há alguns anos.
- E sua mãe? O que ela faz?
- Ela era enfermeira. - engoliu em seco, sentindo-se um pouco desconfortável.
- Se aposentou também? - A mulher questionou, colocando um pedaço de batata cozida na boca.
- Não. - engoliu em seco novamente. Ela não gostava de falar da morte da mãe, principalmente para pessoas que mal conhecia, e ela sabia que aquela conversa estava levando a isso.
- O que houve, então?
- Uau, mãe. A deve estar se sentindo em um interrogatório. - interveio, pensando em algum assunto que pudesse tirar a atenção que sua mãe dava à , mas não conseguia pensar nada. Era claro que o menino soubera da tragédia envolvendo a mãe da garota, afinal, toda escola, ou melhor, toda a cidade, ficara sabendo da morte da mulher. Estava claro como água que estava se sentindo desconfortável com o assunto e não sabia como ajudá-la no momento.
- Se ela não quiser responder, não precisa. - Jane disse, olhando para a garota. No entanto, seus olhos ainda brilhavam de curiosidade. Era impossível controlar o sentimento.
- Ela morreu quando eu era bem mais nova. - respondeu quando percebeu que a mulher não desistiria de saber sobre toda a história. A garota soltou os talheres, colocou o cabelo atrás da orelha e, novamente, engoliu em seco (era incrível como sua boca recusava-se a produzir saliva suficiente quando a garota sentia-se nervosa). - Quando eu tinha 10 anos, para ser mais exata.
- Eu sinto muito. - Jane se expressou. Era evidente que ela ansiava por mais detalhes, mas até mesmo ela tinha um senso de quando deveria parar com suas perguntas intermináveis e aquele, com certeza, era o momento. - Eu sinto muito mesmo.
- Já faz muito tempo. - tentou dar um sorriso, mas não teve muito sucesso. Com os anos, ela aprendera que aquela era a resposta mais simples para se dar quando as pessoas se manifestavam sobre o assunto. No entanto, em seu âmago, ela sabia que nunca faria tempo o suficiente para que ela parasse de sentir aquela dor excruciante que tomava seu peito em algumas das vezes que lembrava da mãe. É claro que, com o tempo, aquela dor que sentia era menos frequente, mas ela não acreditava que algum dia seria capaz de parar totalmente de vivenciá-la.
sentia-se perdido com toda a situação. Era inacreditável o fato de que, quando mais precisava mudar de assunto, sua habilidade de inventar desculpas para se desvencilhar de circunstâncias complicadas parecia ter desparecido. As únicas coisas que ele pensava em dizer eram relacionadas à temperatura, à comida e ao papel de parede que enfeitava a sala de jantar. Porém, quando avistou Henry – completamente alheio ao que ocorria ao seu redor, viajando no mundo de suas histórias - algo, por fim, veio à sua mente.
- Pai. - pronunciou-se ansiosamente, os dedos da mão direita tamborilando na mesa de forma impaciente, despertando o homem de seus profundos devaneios. – Quase esqueci de contar que é sua fã. Ela já leu até seu lançamento do mês passado, acredita?
A garota olhou para , completamente aliviada. Ela tentava nunca deixar que seu nervosismo ou desconforto transparecessem ao falar sobre sua mãe, porém, era extremamente difícil evitar que aquilo acontecesse quando olhava para alguém que se assemelhava assustadoramente à Lilian. sabia que seu incômodo devia estar estampado em sua cara para que intervisse e ela não fazia ideia de como agradecê-lo por ter tirado aquele peso gigantesco de suas costas.
- É mesmo? - Henry perguntou, curioso. - Fico muito feliz em saber que você aprecia meu trabalho, . Qual foi o primeiro livro meu que você leu?
No segundo em que o homem se dirigiu à , todo o alívio que sentira se esvaiu de seu corpo. Era óbvio que, com aqueles poucos minutos que os dois passaram juntos no mesmo cômodo, a garota já estava ciente de que Henry era tão humanamente normal quanto ela. No entanto, mesmo com aquela percepção, era impossível que ela controlasse a sensação de que estava em um sonho. Afinal, não era todo dia que tinha a chance de conhecer um de seus ídolos. Como ela poderia ter uma conversa natural com o autor de seu livro favorito? Como conseguiria falar sem gaguejar com a pessoa responsável por escrever falas que sempre mexiam com seu coração? Era possível ter assunto com alguém que conseguia desenvolver histórias surpreendentes em centenas de páginas? Até aquele momento ela conseguira se controlar, mas manter um diálogo com Henry era completamente assustador - uma vez que estar no mesmo local que alguém era bem diferente de conversar com este certo alguém.
- Eu... - pigarreou, tentando dar ao seu cérebro alguns segundos para se recompor de toda a paranoia que estava criando. - Eu conheci seus outros livros depois que li o Silêncio das Flores. Foi amor à primeira leitura. - ela tentou adicionar uma pequena piada, arrependendo-se assim que as palavras deixaram seus lábios.
A garota tentava se convencer de que não tinha sido tão ruim quanto imaginava, quando Henry, com sua curiosidade florescendo, sorriu e lhe perguntou:
- E o que você achou do último livro lançado? Inverno Estilhaçado foi uma boa continuação para Almas Estilhaçadas ou não superou as expectativas?
- Bem, Almas Estilhaçadas é meu livro preferido de todos os tempos. A forma como a personagem principal cresceu ao longo de toda a história foi incrível. Eu realmente chorei com o final e não conseguia esperar pela continuação. - por incrível que pudesse parecer, falar do seu livro favorito para Henry não estava sendo tão vergonhoso. Na realidade, aquela conversa parecia com sua tentativa de convencer a ler o livro no verão passado. apenas se esqueceu que estava lidando com o autor do dito livro e começou a tagarelar, como sempre fazia, tentando mostrar como todo o mundo devia conhecer aquela obra dos deuses. - Quando Inverno Estilhaçado finalmente saiu, eu já comecei a lê-lo em prantos. Não tinha a menor ideia do que podia acontecer com a vida dos personagens depois de tanto sofrimento, mas me surpreendi bastante. Foi tão importante e maravilhoso quanto o primeiro. Superou todas as minhas expectativas, com absoluta certeza.
Os olhos de todos da mesa estavam em – com exceção dos de Crystal, que estava aproveitando o momento que sua mãe não a observava para oferecer os vegetais de seu prato para Luna - - enquanto a garota continuava a falar sobre as emoções que aqueles livros trouxeram a ela. estava completamente surpreso. Ela falava sobre o livro com tanta admiração, com tanto carinho, que fazia com que ele tivesse uma vontade imensa de lê-lo novamente, apenas para tentar experimentar as sensações que a descrevia com tanto afinco.
- Eu fico extremamente contente com seu relato, . - Henry disse, com um imenso sorriso no rosto, quando a garota percebeu que tagarelava há algum tempo e cessou sua fala. - É muito gratificante conhecer alguém tão jovem que goste e entenda tão bem as minhas histórias.
- É bastante difícil não se apaixonar por seus livros. - comentou, fazendo com que o homem sorrisse ainda mais. - Já estou ansiosa para seu próximo lançamento. Sei que vou adorar tanto quanto os outros.
- Eu estou no meio de um projeto e, quando terminá-lo, gostaria da sua opinião. Vou pedir para lhe entregar um cópia do resultado. O que acha?
Se não tivesse engolido o suco alguns segundos antes, tinha certeza de que teria cuspido o líquido arroxeado por toda a mesa. Como ela poderia não ter ficado surpresa quando seu autor favorito fez uma proposta daquelas? A verdade é que ela ficaria feliz lendo até mesmo a lista de compras de Henry , então, podia-se imaginar o quão maravilhada ela estava ao ter a esperança de ler o manuscrito do próximo livro antes mesmo do lançamento.
Os olhos brilhantes dela foram de encontro aos de , que sorriu ao ver a felicidade estampada no rosto de . Era contagiante a animação que emanava da garota e, logo, ele se viu tão ansioso com a perspectiva dada pelo pai quanto - que balançava a cabeça forma afirmativa, já olhando para Henry novamente.
- Isso seria mais do que incrível. - ela respondeu, tentando soar menos agitada do que estava internamente. - Eu não tenho nem palavras para agradecer.
- Muito generoso de sua parte, querido. - Jane disse, com um sorriso animado que chegava até seus olhos. Ela adorava ver o trabalhado do marido ser admirado e, enquanto falava sobre os livros que a própria Jane amava, o orgulho que ela sentia por Henry crescia mais e mais em seu peito.
O casal de adultos trocaram um olhar terno e sorriram singelamente.
- Não pense que não estou vendo que você está dando todo o espinafre pra Luna, Crystal! - de repente, a mulher chamou atenção da filha, que se assustou e resmungou ao perceber que havia sido descoberta. A pobre menina suspirou e colocou uma das poucas folhas verdes que restavam no prato, na boca, fazendo pequenas caretas ao sentir o gosto do vegetal.
O restante do jantar foi preenchido com conversas animadas a respeito de livros, histórias sobre como Jane e Henry se conheceram e acontecimentos constrangedores da infância de . pegou-se gargalhando inúmeras vezes, perguntando-se como deveria ser ter um jantar daqueles todos os dias: a família toda reunida, contando acontecimentos diários, relembrando memórias do passado e rindo de piadas sem nenhuma graça. Naquele momento, ela sentiu uma pontada de inveja de , pois, apesar de tudo que e sua família passaram, ela desejava que pudessem ter continuado tão unidos e felizes como eram aquelas pessoas ao seu redor. Apesar da união dos três irmãos s, a morte da mãe e a ausência do pai pareciam impedir que a pequena família fosse completamente feliz.
sentiu seu celular vibrar em seu bolso traseiro enquanto terminava a sobremesa e, discretamente, desbloqueou-o, deparando-se com uma mensagem de .
"Como foi o encontro? Aposto que sua boca deve estar até dolorida de tantos beijos que o te deu. Me liga. Quero T-O-D-O-S os detalhes."
A garota estava prestes a responder a amiga, protestando contra suas conclusões totalmente precipitadas, quando seus olhos depararam-se com as horas no canto direito do visor. Já se passava das nove! provavelmente estava tendo um ataque e não demoraria a ligar, pedindo notícias e implorando que voltasse para casa de imediato.
- Muito obrigada pelo jantar, Senhor e Senhora . - pronunciou-se, aproveitando que o jantar já havia chegado ao fim e que todos estavam se levantando da mesa. - Eu adoraria ficar para ouvir mais histórias, mas já está ficando tarde e eu realmente tenho que ir.
- Oh, querida! - Jane exclamou, realmente surpresa por quão rápido o tempo passou. - Espero que você venha nos visitar outra hora, então.
- Ela vai voltar, mamãe! - Crystal disse, animada. - Nós duas vamos assistir o filme dos brinquedos que falam!
- Vou mesmo. - disse, apertando a pequena bochecha de Crys e sorrindo para Jane.
- Enviarei o manuscrito assim que possível, . - Henry disse, apertando a mão da garota. - Foi um prazer conhecê-la.
- Igualmente, sr. . - ela aceitou a mão estendida e virou-se para o restante da família. - Foi um prazer conhecer todos vocês.
- O prazer foi todo nosso. - Jane afirmou, surpreendendo com um abraço. - Volte sempre.
A garota concordou, formando um sorriso de agradecimento ao separar-se da mulher. Jane despediu-se mais uma vez e direcionou-se para a sala de estar, acompanhada pelo marido, deixando os filhos e para trás.
- Só um minuto, . Vou pegar um casaco. - avisou depois que os pais se distanciaram.
- O quê? Pra quê? Não precisa me acompanhar, minha casa é perto e ...
- Sem essa, nervosinha. Eu disse que te levaria, não foi?
- Tá bem! - sorriu, levando as mãos até a cintura. - Mas nós precisamos ter uma conversa muito séria sobre esses apelidos.
- Desde que eu não apanhe no processo ... - deu de ombros, rindo da cara de indignação da garota e, antes que ela acertasse um tapa no seu braço esquerdo, desviou-se e estreitou os olhos para encará-la com um sorriso torto nos lábios - Agressiva.
- Idiota. - ela murmurou, fazendo-o gargalhar antes que saísse correndo em direção às escadas.
- Você promete que vai voltar, ? - a voz infantil de Crystal chamou a atenção de que, ao voltar os olhos para a criança parada a sua frente, não conseguiu deixar de sorrir.
- É claro que sim, Rainha. - ela disse, pegando a garotinha cujos bracinhos finos envolveram os ombros da mais velha, apertando-os o mais forte que conseguia. - Da próxima vez, vou trazer meu irmãozinho, você vai adorá-lo.
- Ele pode ser o Olaf! - Crystal sugeriu, os olhos arregalados de ansiedade fizeram com que gargalhasse.
- Claro, meu anjo. - ela beijou as bochechas macias na menina, pegando o próprio casaco que se encontrava próximo à porta de entrada.
- Vamos? - perguntou ao reaparecer, já com seu casaco à mãos, o que fez com que o sorriso de sua irmã desaparecesse.
- Até logo, melhor amiga. - Crys sussurrou tristemente, segurando o rosto de entre sua mãozinhas.
- Até logo, melhor amiga. - repetiu, com um enorme sorriso, colocando a menina no chão.
- Henry, cadê o vaso que meu pai me deu? - e ouviram o questionamento de Jane enquanto observavam Crystal correr atrás de Luna até a sala. Os dois se entreolharam e puseram-se a caminhar lenta e silenciosamente até a porta, prevendo o que viria a seguir.
- Não sei, amor. A Muriel deve ter trocado de lugar. - O marido respondeu, acobertando o filho.
- Eu tenho certeza que ele estava aqui quando cheguei até que .... - a mulher interrompeu sua fala, lembrando-se do barulho estranho que escutara mais cedo.
Assim que haviam fechado a porta, os adolescentes ouviram Jane gritar o nome do filho de modo nada contente. O som de seus saltos altos tocando o chão ecoavam a medida que se aproximava dos garotos, então segurou pela mão e, com um sorriso divertido nos lábios, sussurrou:
- Corre como nunca correu antes. Minha vida depende disso.
Os jovens gargalharam e, ainda de mãos dadas, correram pela rua iluminada artificialmente pelos postes, deixando Jane, ainda aos berros, para trás.
Depois de alguns bons minutos de corrida, diminuiu a velocidade, parando para colocar as mãos nos joelhos na tentativa de controlar a respiração ofegante. também se interrompeu, esperando que as batidas desesperadas de seu coração suavizassem dentro de seu peito.
- Acho que a despistamos. - murmurou, ainda arfante.
- Espero que sim, porque tenho certeza que se tivesse que correr por mais um misero metro, cairia dura no chão. - disse, arrancando uma risada do rapaz. - Não estou acostumada com isso. Sou uma garota sedentária. O único exercício que pratico é perseguir meu irmãozinho, tentando fazer com que ele vista uma cueca.
- Está na hora de começar a praticar alguma atividade, . Senão, aos 35 anos, vai acabar com a bunda do tamanho de Júpiter, não conseguindo dar um passo sequer. - implicou, recebendo o tapa que já sabia que viria e passou uma das mãos no local, como se sentisse dor. - Acho que isso quer dizer que estou oficialmente no Clube dos Sacos de Pancadas da . A vai se sentir aliviada por ter mais alguém para você descontar sua ira. A coitada deve viver cheia de hematomas.
- Há-há-há. - A menina revirou os olhos teatralmente, rindo de modo irônico enquanto voltavam a caminhar. - Já pensou em fazer shows de stand up? Você ganhariam rios de dinheiro fazendo as pessoas morrem de rir com esses seus comentários hilários.
- Meu Deus, ! Você é sempre tão meiga assim?
- Só com pessoas muito especiais. - ela deu de ombros, mordendo os lábios para não rir.
- Tenho que dizer que me sinto bastante lisonjeado por ser uma dessas pessoas. Adoro ser tratado com tanto carinho.
- Estou aqui para isso, meu anjo. - informou, observando de soslaio um sorriso se formar no rosto de .
- Ele está lindo hoje, não? - o garoto disse após alguns segundos, ao analisar a vastidão estrelada acima deles.
concordou, erguendo sua cabeça para poder observar a beleza do céu e, ao voltar seu olhar para o garoto ao seu lado, uma onda de confiança invadiu seu corpo. Era estranho para a garota sentir algo tão repentino e real como aquilo, mas, sob a luz tênue da lua, nunca pareceu tão jovem, tão... frágil e ela soube, de alguma forma, que podia confiar nele. nunca duvidara de seu sexto sentido, então, ela nem mesmo pensou antes de começar a agir.
- Vem. - A garota disse, puxando-o pelo braço enquanto virava a rua à esquerda, mudando completamente a rota. - Quero te mostrar um lugar.
- Tomara que seja uma sorveteria. Estou louco por um milk-shake de chocolate de um litro! - ele brincou, seguindo a garota pela estrada vazia e mal iluminada.
- Além de estar frio pra caramba, você acabou de jantar.
- Sou um poço sem fundos. Pelo menos é o que minha mãe diz.
- Tenho pena dos seus pais. Eles devem trabalhar só para te alimentar.
- Basicamente. - deu de ombros, fazendo-a observá-lo com um falso olhar de decepção. - Então você está me levando para onde alguém vai abusar sexualmente do meu corpinho antes de você me esquartejar e dar meus restos mortais para os peixes?
- Credo, ! Eu não faria algo assim com os pobrezinhos, eles não merecem isso!
- Isso quer dizer que o resto é verdade? - questionou, fingindo estar horrorizado.
- Você terá que confiar em mim se quiser descobrir. - ela sugeriu, virando-se para trás com uma das sobrancelhas arqueadas e um sorriso ingênuo nos lábios.
- Só espero que eu não tenha fugido da morte para acabar indo ao encontro dela.
- Senhor Jesus! Como você é dramático! - caçoou, colocando uma das mãos no rosto enquanto balançava a cabeça negativamente.
- Como você é a pessoa mais chata do mundo! - O garoto rebateu.
- E a mais linda também.
- Com certeza a mais humilde. - ele disse, arrancando-lhe uma gargalhada, apesar de que o que ele realmente queria dizer era: "Não apenas do mundo, mas de todo o universo". - Falta muito? Meus pés já estão doendo.
- Não se preocupe, bebê. Nós já chegamos. - informou, parando em uma rua sem saída cercada por árvores.
- É! Acho que eu não deveria mesmo ter confiado em você. - suspirou, colocando as mãos na cintura.
- Eu não te obriguei a nada. Foi você quem não conseguiu resistir aos meus encantos. - a menina deu de ombros, lançando lhe um sorriso que parecia ter o poder de acabar com guerras e fazer a Terra girar ao contrário.
- Você tem razão. É humanamente impossível conseguir resistir a um sorriso desses. - ele confessou, percebendo o rosto de se avermelhar, mesmo com a pouca intensidade da luz.
- Seus elogios não vão fazer com que eu mude meus planos, espertinho. - avisou, ainda desconcertada. - Agora venha. Não temos a noite toda. - ela disse antes de voltar a puxá-lo, adentrando a pequena floresta que conhecia como a palma de suas mãos.
não conseguiu conter o som de encanto que escapou de seus lábios ao deparar-se com o local. Ainda que a grama estivesse coberta de lixo em alguns cantos e algumas árvores estivessem pinchadas e com diversos galhos quebrados, ele não podia negar que aquele lugar era incrível. A lagoa, a poucos metros, refletia o brilho da lua esplendorosa e o vento frio da noite de outono arrancava as folhas alaranjadas e avermelhadas dos carvalhos ao redor, espalhando-as pelo chão. Porém, o que mais lhe chamava a atenção era a imensidão sobre si, mais bela e reluzente que nunca.
- Eu sei. É maravilhoso. - afirmou, varrendo o local com os olhos. Não importava quantas vezes ela voltasse ali, ela nunca deixaria de ficar impressionada. - As luzes da cidade impedem que a gente consiga ver o céu com clareza e acabam ofuscando o verdadeiro brilho das estrelas.
- Como você encontrou esse lugar? - ele questionou, analisando o céu enquanto deitava-se na grama, colocando um dos braços sob a cabeça.
- Ah, você sabe. Sou uma pessoa aventureira, explorar matas e locais abandonados é meu passatempo favorito. - brincou, vendo repetir suas ações ao deitar-se ao seu lado, sendo atingida pelo cheiro suave de menta e lavanda que exalava do garoto.
- , sempre tão valente. - ele disse, levando uma cotovelada nas costelas. - O quê? É verdade. Eu não teria coragem de vir a um lugar assim sozinho à essa hora. É perigoso, . Você não tem medo?
Ela apenas meneou a cabeça negativamente, voltando seus olhos para o manto negro salpicado de pontos luminosos que exibia, orgulhoso, sua lua encantadoramente brilhante. Um suspiro de admiração saiu pelos lábios da garota. Ah, como ela amava contemplar o céu! Para , aquela era a visão mais extraordinária de todas e, se pudesse, passaria o resto de sua vida analisando-a.
- Minha mãe me trazia aqui quando eu era criança. Era nosso lugar secreto, onde passávamos nossas noites de sábado, dando nomes estranhos para as constelações. - confessou, percebendo o rapaz lhe observar atentamente. - Eu continuou vindo mesmo depois que ela se foi. Claro que não é a mesma coisa de antes, mas eu sinto como se aqui eu pudesse voltar no tempo. Voltar a ser aquela garotinha alegre que se divertia como nunca ao tentar contar as infinitas estrelas do céu.
não conseguiu dizer nada. Afinal, como conseguiria depois de sentir como se estivesse se apaixonando por novamente? Naquele momento, ele era o garoto de 8 anos atrás, observando pela primeira vez os olhos sonhadores de , porém, o sentimento que tomava seu peito agora era mais intenso, inexplicável e completamente assustador.
- Ela costumava contar histórias, dizendo que as pessoas viravam estrelas depois que morriam, iluminando a vida de todos que amavam para mostrar que estavam felizes. - continuou, a mão esquerda passeando pela grama mal cuidada. - Foi por causa dela que me apaixonei por toda essa imensidão.
O rapaz ao seu lado percebia o modo maravilhado com que ela fitava o céu, como se as estrelas fossem travesseiros onde, em sua luz fascinante, descansava sua mente conturbada. as olhava como se elas soubessem todos os seus segredos e medos mais profundos. E a única coisa de que tinha certeza no mundo era que, se havia algo mais belo que as estrelas, era o sorriso da garota que amava.
- Então não, . Eu não sinto medo por vir aqui sozinha, pois sei que, onde quer que minha mãe esteja, ela sempre irá cuidar de mim. - confessou, seus olhos ardendo enquanto abria seu coração. - Aqui é o nosso cantinho, é onde eu consigo sentir a presença dela e ouvir o eco da sua voz. Eu me lembro de como os olhos dela brilhavam ao olhar para o céu e de como gargalhava ao ouvir os nomes que eu dava para nossas estrelas. É como se aqui ela permanecesse viva, como se o tempo tivesse parado numa daquelas noites em que sonhávamos juntas.
A garota cessou sua fala, sentindo o choro preso em sua garganta. A sensação de revelar tudo o que estava guardado em seu peito era tão boa que lhe apavorava. Era estranho que tivesse confessado algo com tamanha magnitude a alguém que mal conhecia, mas sentia que podia revelar um de seus segredos àquele rapaz. Ela confiava nele. Não tinha a mínima Idea do porquê, mas confiava.
- Eu sinto tanta saudade dela, . Tanta saudade... - a menina sussurrou, virando-se para encará-lo e deixando, finalmente, que as lágrimas tomassem sua face.
, meio relutante, levou uma de suas mãos até o rosto de , limpando os rastros molhados das gotas que teimavam em sair dos olhos da garota. Ele não sabia o que fazer, vê-la chorar era tão desesperador que ele desejava, avidamente, encontrar uma maneira de fazê-la voltar a sorrir. Porém, como havia ocorrido durante o jantar, ele parecia ter perdido a capacidade de pensar em algo que pudesse realmente ajudar. Então, resolvendo fazer a única coisa que veio em sua mente, puxou para perto de si, envolvendo-a com seus braços de forma protetora. A menina, surpresa, acabou aceitando aquele gesto de carinho e deitou sua cabeça sobre o peito de , sentindo seus cabelos serem afagados.
O silêncio que se instalou entre os dois era, de algum modo, reconfortante, permitindo que apreciassem a calmaria da noite e o vento fresco que tocava seus corpos. sentiu-se agradecida por não ter dito uma daquelas frases que ela se cansara de ouvir. Ele apenas permitiu que ela esvaziasse a tristeza de seu coração, sem questioná-la ou julgá-la, abraçando-a como se fosse a pessoa mais preciosa do mundo, com medo de que pudesse se desfazer em meio as lágrimas.
O céu era como uma obra de arte acima deles, que observavam-no como se nele houvesse todas as respostados do universo. Ele era a única testemunha daquele amor que crescia entre os adolescentes – mesmo que eles não percebessem ou soubessem o nome daquilo que estavam começando a sentir.
- Acho que, como você me contou um segredo seu, tenho que lhe contar um meu. - O garoto murmurou, deixando com que seus dedos brincassem entre os fios macios do cabelo de .
- Nada mais justo. - concordou, olhando nos olhos de , sem se desvencilhar do abraço.
- Você promete que não vai rir? - o garoto perguntou, vendo-a menear afirmativamente, dominada pela curiosidade. - Promete mesmo? Porque, da última vez que disse isso, quase morreu sem ar de tanto gargalhar da minha cara.
- Dessa vez é sério. Prometo. - Ela sorriu, ansiando a revelação.
- Eu quase fui preso no verão passado.
- O quê? - questionou, completamente surpresa. - Por quê? Como? Onde? - ela continuou com as perguntas, sem conseguir se refrear.
- Por causa de uma aposta idiota que fiz com o . - ele deu de ombros, como se tivesse respondido todas as perguntas da garota com aquela frase, porém, ela continuou encarando-o, esperando por mais detalhes daquele acontecimento. - Nós torcemos para times diferentes e, naquela tarde, eles se enfrentariam. disse que o dele venceria, mas eu tinha certeza de que seria o meu. Então, acabamos apostando que o torcedor do time que perdesse teria que dar a volta no quarteirão, completamente pelado, sem correr e sem se esconder caso alguém aparecesse. Como meu time sempre vencia quando jogava contra o do , aceitei, imaginando que ver meu amigo pagar aquele mico seria a cena mais engraçada que veria na vida.
- Mas você perdeu, não foi? - a garota comentou, vendo concordar.
- Meu time nunca jogou tão mal. Perdeu de 5 à zero. Então eu tive que aceitar aquela vergonha e andar pela minha rua como vim ao mundo. Claro que só aceitei pagar a aposta depois de ver que o lugar estava deserto. Consegui caminhar durante um bom tempo sem que encontrasse alguém, poém, minha felicidade acabou completamente quando uma senhora saiu de casa. Ela quase teve um ataque cardíaco quando me viu, pensei que ela cairia dura no chão e que eu passaria o resto da vida me culpando por ter matado alguém. Mas ela começou a gritar comigo de repente, dizendo que chamaria a polícia caso eu não tomasse vergonha na cara e escondesse minha mangueira . Palavras dela, não minhas. - contou, relembrando-se daquele momento terrível, do qual ainda gargalhava. - Nós acabamos chegando a um acordo. Tive que limpar o quintal dela durante três meses para que ela não contasse pros meus pais. No fim, eu acabei foi tendo sorte, se tivesse continuado por mais alguns metros, teria me deparado com uma festa infantil que tinha acabado de começar e, com toda certeza, seria preso por mostrar minhas partes íntimas para crianças.
Naquele momento, era quase impossível que conseguisse segurar a gargalhada. Ela mordia o lábio, segurava a respiração, apertava as unhas na palma da mão, mas estava quase impossível. Ao perceber a cara de riso de , se sentiu bem por finalmente conseguir fazer com que os olhos da garota abandonassem um pouco da tristeza que continha há alguns minutos, afinal, aquele era o objetivo que ele tinha ao contar aquela história vergonhosa a ela.
- Okay. - ele suspirou, como se estivesse se rendendo. - Pode rir da minha cara. Te libero da promessa.
Ele não precisou nem mesmo terminar a frase para que começasse a gargalhar. A garota ria tanto que sua barriga doía e o ar parecia faltar em seus pulmões. não conseguiu deixar de se contagiar com o som maravilhoso que saia da garganta de e acabou acompanhando-a, rindo ruidosamente daquele episódio.
- Não consigo parar de imaginar a cara da mulher. - ela comentou ofegante, tentando parar sua crise. - Deve ter sido hilária.
- Foi impagável. - concordou. - E sabe qual é a pior parte?
- Ela tentou te contratar? - brincou, gargalhando novamente ao receber um olhar ameaçador do garoto.
- Não! Graças aos céus! Ela tem idade para ser minha bisavó. - negou veementemente, fazendo caretas. - O pior foi que o gravou tudo e sempre ameaça colocar no youtube caso eu me recuse a fazer algumas coisas que ele queira.
- Na próxima aula tentarei coagi-lo a me mostrar o vídeo, então. Estou louca para rir um pouco mais da sua cara.
- Uau. Você quer tanto assim me ver nu? - perguntou com a sobrancelha arqueada, segurando o riso.
- O quê? - os olhos de se arregalaram ao mesmo tempo que ela começou a sentir uma queimação nas bochechas. - Não... eu, - ela pigarreou, tentando clarear a voz. - Eu só queria...só queria ver a cara da senhora!
- Eu sei disso. - ele disse, rindo da vergonha da menina. - Agora quem está rindo da cara de quem?
A garota deu um tapa no braço dele, desvencilhando-se do abraço para poder pegar o celular que começara a tocar.
- Você é um idiota. - ela murmurou antes de atender a ligação, sem ver quem era. - Alô? Ah, oi, disse após escutar a voz do outro lado. - Não precisa. Já estou quase chegando em casa. É sério, não precisa se preocupar. - Ela ouviu o irmão por mais alguns segundos. - Okay. Te vejo daqui a pouco.
- Hora de ir? - perguntou, observando a expressão da garota.
- Hora de ir. - disse, suspirando. Ela realmente não queria que a noite acabasse.
- Você sabe que não vai poder demorar pra voltar lá em casa, não é? - comentou depois de um tempo, enquanto eles voltavam para o caminho que deixaria em casa. - Tenho certeza que assim que chegar em casa, Crys vai perguntar quando vai poder ver a nova melhor amiga dela.
- Ai, aquela menina é tão fofa! - disse, já saudosa da falação da criança. Conhecer Crystal tinha sido realmente maravilhoso. - E eu vou arrumar um jeito de voltar sim. Depois você tem que levá-la para conhecer o Will. Tenho certeza que eles vão se dar muito bem.
sorriu, sentindo o ar frio do outono. Os dois caminharam por mais alguns minutos em silêncio. Por mais estranho que pudesse parecer, aquele silêncio não era incômodo e os dois não procuravam, ansiosos, por assuntos que pudessem preencher aquela lacuna que ele deixava. Apenas a presença um do outro, sem necessidade de palavras, era o bastante para que eles se sentissem confortáveis.
- Bem, é aqui. - disse quando chegaram na rua de sua casa, próximo à casa da Sra. Henks.
- Não vai querer que eu te deixe na porta de casa? - ele perguntou, surpreso.
- Acho melhor não. - ela disse, mordendo o lábio inferior. - Tenho certeza que meu irmão faria alguma gracinha, como da última vez.
- Tudo bem. - concordou, lembrando-se do episódio das luzes. - Então, boa noite, Estressadinha. - ele disse com um sorriso torto.
- Boa noite, Palhaço. - retrucou, espelhando o sorriso do garoto, dando-lhe um rápido beijo no rosto e correndo em direção à sua casa.
esperou até que ela fechasse as portas para poder seguir seu caminho de volta. Já , ficou observando pela fresta da janela, até que a silhueta do garoto se distanciasse tanto que fosse impossível distingui-la.
Com um suspiro, a garota seguiu para o andar de cima, passando pelo quarto do irmão mais novo antes de ir avisar de sua chegada. Ela sorriu ao perceber que Will dormia como um pequeno anjo, abraçando o dinossauro que ganhara no natal passado. Dando-lhe um beijo singelo, seguiu para o quarto de , assustando-se ao não encontrá-lo por lá.
- ? - chamou no corredor, esperando ouvir a resposta do irmão para saber onde ele estava.
- No escritório do papai. - ele avisou e a garota seguiu a voz, entrando no cômodo que não visitava há meses. - Eu não ouvi barulho do carro, senão teria ido agradecer a por ter te trazido. Como foi na casa dela?
A garota odiava mentir. Ainda mais para o irmão. Desde que aceitara ir à casa de , ela tentara ao máximo arranjar alguma maneira que faria com que a deixasse ir, sem precisar mentir durante o processo. Mas era impossível! O irmão mais velho não gostava nada de perceber que os irmãos estavam crescendo. O pobre rapaz quase tivera um infarto quando soube que Will estava gostando de uma amiguinha na escola, imagina quando escutasse pedindo para ir à casa de um garoto!
? Super protetor? Nem um pouco.
- Foi ótimo. - disse, sem entrar em detalhes, para não acabar entregando a mentira. - Que papelada é essa? - ela perguntou quando percebeu que o irmão lidava com dezenas de folhas em cima da mesa do escritório.
- Umas coisas do trabalho que eu tenho que organizar. - ele respondeu sem olhá-la nos olhos. - Daqui a pouco eu termino.
- Eu posso ajudar. - ela sugeriu, largando sua bolsa na poltrona que ficava próxima a porta e aproximando-se da mesa.
- Não precisa, . - ele disse sorrindo. - Sério. Pode ir descansar porque amanhã o dia vai ser cheio.
- Tudo bem. - a garota concordou, depois de ponderar por alguns segundos, percebendo que o cansaço já a dominava. - Mas não demore muito para ir também.
- Pode deixar. - ele fingiu pegar o beijo que a irmã fingiu jogar no ar, uma brincadeira que os dois faziam desde pequeninos. - Boa noite, .
- Boa noite, . - ela respondeu, pegando a bolsa que tinha colocado na poltrona e se dirigindo para seu quarto.
Não foi necessário nem mesmo dois minutos para que a garota trocasse a roupa por um pijama velho. Com o celular na mão, mandou uma rápida mensagem para - dizendo que contaria os detalhes no outro dia e que sua boca só estava dolorida porque se empantufara da comida mais deliciosa do mundo - e se deitou na sua amada cama, imaginado que dormiria antes mesmo que sua melhor amiga respondesse a mensagem, irritada por estar deixando-a curiosa.
No entanto, assim que colocou a cabeça no travesseiro, sentiu como se estivesse sendo observada e logo percebeu que a sensação era por causa das bonecas de porcelana que ela tinha em uma prateleira no seu quarto. Elas eram medonhamente parecidas com a Anabelle.
- Eu não preciso ter medo. - disse para si mesma. - Aquilo não vai acontecer comigo. Minhas bonecas não mexem sozinhas.
A garota respirou fundo, tentando afastar o medo e falhando miseravelmente. Ela fechava os olhos e, em questão de segundos, os abriam novamente para ver se as bonecas mexiam, nem que fossem pequenos centímetros.
- . Você não precisa ter medo! Você já está velha pra isso. - ela continuou sussurrando, engolindo em seco. Como ela odiava ficar com medo... - E, aliás, o que acontece em filmes de terror só acontece na vida real se você não termina de assistir ao filme. Lembra? E você assistiu ao filme... todo. - a última palavra saiu dolorosamente lenta e assustada da boca de .
Oh, meu Deus, ela não tinha acabado de assistir ao filme!

Depois de levar uma bronca da mãe - com direito a puxão de orelha e tudo - subiu as escadas até o seu quarto, jogando-se em sua cama macia. O celular, esquecido sobre a escrivaninha, vibrava continuamente. Pegando o aparelho, cuja tela estampava a foto de , atendeu-o sem pressa:
- Fala, Chuchu. O que você quer? - perguntou, encarando as fotos espalhadas por suas paredes - Está com saudades?
- Como assim o que eu quero? - retrucou, fingindo impaciência. - Desembucha logo, antes que eu vá até aí e arranque suas bolas com um alicate.
- Nossa! Como as pessoas andam agressivas ultimamente. - O garoto comentou, ouvindo o amigo bufar do outro lado. - Nada saiu como planejei: não assistimos aos filmes que eu havia separado, ela não me abraçou durante o filme de terror, a Crystal demorou para dormir e minha mãe fez o interrogatório da hora do jantar.
- Não sei como você pôde pensar que a tia Jane deixaria de dar uma de detetive. - suspirou com a ingenuidade de - Mas isso quer dizer que foi um fiasco?
- Não. - negou, sentindo um sorriso tomar conta de seus lábios. - Quer dizer que foi melhor que eu imaginei.
- Então rolou beijo e tudo mais?
- Não, . - O rapaz respondeu, os dedos passeando pelo cobertor felpudo abaixo de si. - Eu não quero apenas ficar com a . Quero que ela me conheça e que sinta o mesmo que sinto por ela.
- Meu Deus, quando você vai parar de ser tão piegas? - o outro questionou, a incredulidade presente na voz.
- Quando você parar de levar garotas pra sua cama.
- Ou seja: nunca.
- Exatamente. - concordou. - Até que você não é tão lerdo assim, Chuchu.
- Cala a boca, otário. Vai ver se eu tô na esquina.
- Não, obrigado. Prefiro continuar enchendo seu saco pelo celular mesmo, estou cansado de ver essa sua cara horrorosa.
- Se fosse tão feia como diz, eu não arranjaria nenhuma garota. - indicou e, mesmo não podendo vê-lo, sabia que estava sorrindo. - E nós dois sabemos que é completamente ao contrário.
- O dinheiro pode fazer muitas coisas, . - alfinetou, gargalhando logo em seguida. Porém, antes que pudesse ofender ainda mais o amigo, percebeu que havia outra pessoa lhe ligando. - Tenho que ir, Panaca. Depois a gente conversa.
- Fugindo da briga mais uma vez? A Crystal é mais valente que você.
- Tchau, . - o garoto suspirou com a revolta do outro.
- Isso ainda não acabou, Senhor Eu-sou-um-príncipe-encantado-maricas...
Sem deixar que terminasse sua crise de indignação, desligou, atendendo a chamada em espera:
- Alô?
- Filho da Mãe! Por sua culpa, eu não consigo dormir. Não com essas bonecas me encarando. - sussurrou do outro lado, fazendo com que gargalhasse. - Não ri, idiota! A gente não terminou de assistir a merda do filme! Agora você vai ter que me distrair até eu esquecer daquela boneca demoníaca.
- Sobre o que você quer que eu fale? - o garoto questionou, sorrindo enquanto olhava para o teto, imaginando o rosto de .
- Qualquer coisa.
- Tudo bem ... - ele sussurrou, comentando sobre assuntos aleatórios que fizeram-na rir.
E, no fim, nada – nada mesmo – havia sido como planejou.


Capítulo 7


"We didn't realize we were making memories, we just knew we were having fun"

adentrou o laboratório e sorriu ao avistar , sentado na cadeira de costume, com o cenho franzido enquanto tentava resolver uma atividade. Ela se aproximou lentamente, aproveitando o barulho das conversas ao redor para encobrir o som de seus passos e, assim que chegou até a mesa, soltou os livros e cadernos que carregava, fazendo com que o garoto ao lado se sobressaltasse.
- Puta merda! - sussurrou, com a mão direita sobre coração. - Você tá querendo me matar?
- Pelo visto, não foi dessa vez que eu consegui - ela brincou, dando de ombros e sentando-se na cadeira desconfortável.
- Alguém já te disse que você tem um ótimo senso de humor? Porque, eu tenho que te avisar, essa pessoa estava mentindo.
- Como se você estivesse muito a minha frente nesse quesito. - retrucou, mostrando a língua do mesmo modo que uma criança teimosa faria. - É assim que você trata alguém que trousse um presente?
- Presente? - questionou, confuso. - Meu aniversário já passou.
Sem responder, retirou o primeiro caderno da pilha em cima da mesa e entregou-o para , que encarou-a sem entender o motivo de receber aquilo.
- Por que você está me dando seu caderno de geografia?
- Não vai me dizer que se esqueceu do nosso acordo! - A garota exclamou com um falso ar de descrença. - Eu passei minha noite de sábado vendo vários garotos suados correndo atrás de uma bola exatamente por causa desse nosso trato, !
- Meu Deus! - Ele disse, tentando não rir, quando finalmente percebeu sobre o que aquilo se tratava. - Que presente de grego este seu, hein? Não era para você ter se lembrado disso.
- Quando é algo do meu interesse, eu não me esqueço. E pode se preparar porque a Sra. Gray se superou nesse dever aí...
- Você é uma pessoa horrível! Aquilo era uma brincadeira, !
- Eu iria ao jogo de qualquer jeito, foi você quem inventou de fazer uma promessa. - Ela gargalhou da expressão na face do garoto. - , você montou o cavalo de Tróia por mim, agora eu só estou lhe presenteando com ele.
- Você não tem coração... - sussurrou, guardando o caderno em sua mochila. - Só pra avisar: eu sou péssimo em geografia. Se você tirar zero, não venha colocar a culpa em mim.
- Eu sabia que ninguém podia ser bom em tantas coisas. - Ela disse, implicando com , sem perceber como aquele elogio fizera o garoto ficar sem graça. - Mas dessa vez não tem problema. O exercício não vale ponto. Eu só espero que você estude bastante para quando fizermos mais algum trato.
- Odeio ser repetitivo, mas você, realmente, é uma pessoa horrível! - O garoto tentou ficar sério, mas o sorriso em seu rosto provava o quanto ele estava se divertindo com toda aquela situação.
- Bom dia, turma. - A voz do professor soou na frente da sala. De onde os adolescentes estavam, era possível perceber que a testa do Sr. Orwell possuía várias gotículas de suor. Esse fato, aliado a falta de fôlego do professor, denunciava que ele tinha corrido muito para chegar até ali. - Peço mil desculpas pelo meu pequeno atraso. Estava resolvendo os últimos detalhes para poder contar uma novidade para vocês, mas, antes, vamos continuar a compreender o uso dos hidrocarbonetos.
Os dois se entreolharam conspirativamente e abriu seu caderno, sorrindo para a garota antes de começar a desenhar as estruturas que o professor colocava no quadro.
Depois de revisarem toda a matéria teórica, eles colocaram em prática o que Sr. Orwell havia ensinado, orgulhosos ao finalizarem o trabalho. Graças às habilidades de e ao esforço de , os dois conseguiram realizar o experimento perfeitamente, o que fez com que ambos recebessem um olhar de aprovação do professor quando ele conferiu o resultado da dupla.
- Bem, pessoal, faltam pouco menos de dez minutos para a aula acabar, então, vamos às notícias! – Sr. Orwell disse, de volta à frente da classe, assim que terminara de avaliar os resultados dos experimentos. O homem pegou alguns papeis em sua pasta e começou a distribuir aos alunos enquanto sua voz ecoava pelo ambiente. - Alguns de vocês devem ter ouvido falar que, na próxima semana, haverá uma "chuva de estrelas cadentes". Na verdade, são restos do cometa Halley, mas isso não vem ao caso. O que estou propondo, é que possamos assistir a esse espetáculo juntos e, para isso, vamos acampar!
Um amontoado de gritos tomou conta da sala. A maior parte deles de alegria.
- Eu sei que é um pouco difícil para algumas pessoas. Principalmente para as que não gostam de se aventurar pela natureza... – O professor continuou, fazendo uma expressão de descrença, pois achava que seria impossível alguém não gostar de uma boa floresta em uma noite estrelada. - Mas como bônus para quem for, eu estou disposto a fornecer 50% dos pontos que distribuiria em trabalhos. É claro que quem for escreverá um relatório, mas ainda assim é um bom negócio, não é mesmo?
A turma escutava atentamente cada palavra dele. Receber metade dos pontos de trabalhos do semestre era uma oferta mais do que generosa.
- Bem, quem quiser ir, deve trazer essa autorização que acabei de entregá-los esta semana. Vocês também devem levar a identidade e uma mochila com barraca, lanches e todos os equipamentos que estão descritos nesta folha no próximo sábado. Sairemos daqui às uma da tarde e voltaremos no domingo de manhã.
Assim que o professor acabou de falar, o sinal bateu, como se tudo tivesse sido premeditado, e começou a juntar seus documentos à medida que os alunos se organizavam para sair da sala.
- O Sr. Orwell devia virar repórter ou algo assim. Cada dia ele aparece com uma notícia. - disse, ajeitando os vários livros em um dos braços.
- Não me assustaria se um dia ligasse a TV e o visse apresentando o jornal das nove. Só espero que pelo menos pra isso ele penteie os cabelos. Hoje ele estava parecendo um daqueles cientistas malucos.
- Ele não se parece com um, . Ele é um. - corrigiu enquanto os dois observavam o professor se sacolejar todo depois de tomar um gole de café. Eles tiveram que se segurar para não gargalhar quando o homem repetiu os movimentos estranhos, quase derrubando a pilha de deveres que carregava desajeitadamente daquela vez.
- Então, você dormiu bem ontem? - perguntou depois que perderam Sr. Orwell de vista. Os corredores estavam cheios, tornando a curta caminhada até o refeitório mais lenta do que o usual, o que deu aos adolescentes mais tempo para conversar. - Fiquei um pouco preocupado com sua segurança, afinal, você tem dezenas de bonecas que podem te assassinar a qualquer momento. Ficou com muito medo?
- Você é um idiota, sabia? - , pontuou. - Para sua informação, eu não tenho medo de bonecas. Mesmo depois do filme.
- Quer dizer que você conseguiu dormir normalmente com elas te encarando?
mordeu o lábio inferior vergonhosamente antes de responder o garoto.
- Eu as guardei no porão, tá bom? - Ela disse, hesitante. - Mas isso não quer dizer que eu tenho medo delas. É só que...que elas estavam...ahn... ficando muito empoeiradas no meu quarto. Simples assim.
- Vou fingir que acredito em você, senhorita .
- Ótimo! - A garota falou, sentindo-se um pouco aliviada. Ela não gostava de deixar seus medos à mostra, então, não compreendia porque tinha revelado alguns deles a . Sua noite de sábado não tinha sido nada usual.
- Bem, já que você não tem medo, o que você acha de brincar de boneca algum dia desses com a Crys? Ela tem uma coleção enorme. Você ia adorar a preferida dela. Ela é uma médica renomada, com carro caro e tudo mais. Crystal diz que vai ser como ela quando crescer.
- Claro, qualquer dia desses a gente marca. - não conseguiu disfarçar seu desespero.
- Vamos depois da escola hoje? - O garoto ofereceu, segurando-se para não rir.
- Não posso.
- Amanhã? - Ele insistiu, percebendo a crescente angústia da garota.
- Tenho médico.
- Que tal no domingo?
- Prometi ao Will que vou levá-lo ao parque.
- Eu estou achando que você não gostou tanto da Crys como disse.
- Eu tenho medo, ok? - disse de repente, com desalento. - Eu tô morrendo de medo de entrar no porão quando preciso de alguma coisa porque sempre me lembro que tem vários olhos me observando. Eu coloquei dois cadeados na porta daquele cômodo, mas ainda tenho medo! E não é engraçado, ! - Ela finalizou, lançando-lhe um olhar bravo por ele estar gargalhando.
- Você tem que concordar que é engraçado sim!
- Não é não! Quando eu descobrir do que você tem medo, eu vou acabar com você. Tenha certeza disso.
- Se você tem tanto medo, por que não se desfaz delas? Tem algum valor sentimental? - Ele perguntou, ignorando a promessa que ela fizera.
- Ah, eu não sei para onde poderia doar. Eu não jogaria fora porque elas estão muito bem conservadas. Sinto uma dorzinha no coração.
- Minha tia trabalha em um orfanato na cidade vizinha, eu posso levá-las pra lá hoje se você quiser. - sugeriu, dando de ombros.
- Sério? Não seria incomodo? - Ela perguntou, tentando não demonstrar o quanto aquilo a deixava mais leve.
- Claro que não. Tenho certeza de que a garotada vai adorar brincar com mini assassinas. Além do mais, tenho que passar lá mesmo. Vou levar alguns brinquedos que a Crys não usa. O pessoal tá tentando juntar o máximo possível para a semana das crianças.
- Bem, se é assim, vou aproveitar pra separar alguns do Will também. Que horas você prefere que eu passe na sua casa pra gente ir?
- Você vai? - perguntou, um pouco surpreso pelo auto convite da garota e muito animado pela perspectiva de passar algumas horas a mais daquele dia com .
- Eu nunca fui a um orfanato. Acho que seria legal dedicar um pouco do meu tempo para tentar mostrar para as crianças que elas não estão sozinhas. - A garota confessou, com aquele tom de voz que sempre usava quando sentia que podia fazer alguma pequena diferença no mundo de alguém. - Se você não se importar, é claro. - Ela acrescentou rapidamente, percebendo que estava impondo sua companhia. Ela adorava a companhia do garoto, mas isso não queria dizer que ele sentia o mesmo que ela, ora!
- Aonde você estava, ? - A voz falsamente desesperada de trouxe um fim repentino àquela conversa. - Pensei que tinha morrido no meio do caminho. Já tem quase uma hora que estou esperando, deu até pra tirar um cochilo. Ah! Oi, . - continuou, fingindo só ter percebido a garota ali naquele instante. - Agora eu entendo a demora, aposto que vocês estavam se pegando no armário do zelador.
- O quê? – arregalou os olhos, engolindo em seco. - A gente não ... Eu não... Ele...
- Calma, ! Eu tô brincando. Sei que você não faria uma coisa dessas. Ainda mais com o . Só se você fosse cega, surda e muda. Pensando bem, acho que nem mesmo assim. - O garoto sussurrou a última frase, fazendo com que o melhor amigo revirasse os olhos.
- Ei! Não sei se você percebeu, mas eu estou aqui!
- Você sabe que é verdade. Agora chega de falar sobre o relacionamento amoroso inexistente de vocês. Temos coisas mais importantes para discutir: estou correndo risco de vida.
Como se fosse destino, nesse mesmo instante, apareceu ao lado de na porta do refeitório, dando-lhe um susto. Ele esquecera que também corria risco de vida quando estava perto daquela garota irritante e muito, muito malvada.
- O que aconteceu na sua casa ontem, ? Dava para ouvir seus gritos de garotinha do outro lado da rua. - questionou, a sobrancelha arqueada, tentando não rir dos olhos arregalados do arqui-inimigo.
- Meu irmão descobriu que eu pego dinheiro do cofrinho dele. - disse com um suspirou resignado.
- Você rouba seu irmão caçula? - não conseguiu deixar de rir com aquela nova descoberta. Ela conhecera o menino parecido com há alguns dias e podia ter certeza que não tinha exagerado quanto aos gritos. Era certo de que os dois tiveram uma discussão bem intensa.
- Não é roubo. É meu pagamento por tudo que faço por ele. - argumentou. - Mas ele não concorda e está ameaçando contar pros meus pais que não costumo dormir em casa nas sextas-feiras e que levo garotas pra lá quando eles estão passando o fim de semana com meus avós.
- Se eu fosse ele, teria contado há mais tempo. - deu de ombros. Ela entedia a situação do garoto, afinal, se ela tivesse um irmão e ele ameaçasse contar aos seus pais sobre suas saídas no meio da noite ou sobre a identidade falsa que guardava embaixo de suas meias, em sua gaveta secreta, ela se sentiria traída e completamente sem saída. No entanto, se condescender por não significava que ela demonstraria isso.
- Não tem nada que você possa fazer pra calar a boca dele? Tipo, sei lá, devolver o dinheiro? - sugeriu, estralando os dedos finos ao mesmo tempo em que tentava pensar em uma solução.
- Josh disse que tem um jeito, mas me recuso a aceitar. Eu estaria perdendo coisas muito preciosas.
- Mais preciosas que sua liberdade? - questionou, levantando uma das sobrancelhas. - Porque, do jeito que sua mãe é, tenho certeza de que ela vai te deixar de castigo até que esteja velho demais para sair por aí se divertindo com garotas.
- Ou te mandaria para um colégio interno na Noruega para rapazes que não conseguem controlar o "periquito".
- ! - tentou repreender a amiga, falhando miseravelmente ao não conter a gargalhada. Logo, todos os três a seguiram em sua crise de riso.
- Então, o que o Josh tá pedindo que é tão ruim assim? - questionou enquanto o grupo entrava no refeitório e se direcionava para uma mesa perto do jardim.
- Ele fez uma lista com mais de dez condições. - bufou, sentando-se no banco de madeira. - Tenho que dar carona para onde e quando ele quiser; arrumar o quarto dele durante dois meses e dar um jeito de a aceitar sair com ele.
- Não vou negar, seu irmão tem um ótimo gosto. - comentou, fazendo com que revirasse os olhos. Algo que ele sempre fazia quando a garota abria a boca.
- Mas o pior de tudo é que ele quer meu xbox! Levei quase um ano para conseguir comprar um! - exclamou, indignado. - Tô pensando seriamente em roubar o segundo cofrinho dele, mudar meu nome para Ácido Acético Etílico da Silva e comprar uma passagem só de ida para o Uruguai.
Os outros três se encararam, completamente vermelhos de se esforçarem para segurar as gargalhadas presas em suas gargantas, mas não conseguiram se conter por muito tempo, atraindo a atenção de algumas pessoas ao redor. acabou se rendendo e juntou-se aos colegas, rindo histericamente de seu plano de fuga tosco.
- Meu Deus! Essa é sua risada? - perguntou , depois de recuperar um pouco de fôlego. - Parece mais uma orgia de hienas!
- Você não pode falar nada. - O garoto retrucou, olhando-a com um sorriso maligno. - A sua parece um golfinho tentando cantar uma música da Taylor Swift.
- Tava demorando – sussurrou para enquanto os amigos discutiam sobre quem possuía a risada mais irritante.
- Acho que eles bateram um recorde. Nunca tinham ficado em um mesmo lugar por tanto tempo sem brigar ou atirar alguma coisa no outro. - Ele concordou, sorrindo ao perceber o olhar de desdém que lançava a . Os dois pareciam um casal de velhinhos que implicavam até com o som que faziam ao respirar.
observou com o canto dos olhos. Ela também parecia se divertir com conflito entre os amigos e o sorriso que tomou conta de seus lábios rosados fez com que o rapaz se esquecesse do mundo por um segundo. Porém, assim que seu cérebro se recuperou do pequeno transe, ele se lembrou da conversa que tivera com anteriormente e inclinou-se de forma discreta até a garota.
- Espero que você conseguia pegar suas bonecas no porão, porque passo na sua casa às duas. - murmurou próximo ao ouvido de , assustando-a minimamente.
- Pode deixar, eu consigo. - Ela afirmou e, então, formou uma careta engraçada quando notou que os outros dois ainda discutiam. - É melhor a gente fazer alguma coisa antes que o tome outro banho de café.
- Tá legal, galera. - disse, interrompendo os amigos que o encararam com desinteresse, como se ele fosse a pessoa mais entediante do universo. - Vocês têm que concordar que as duas risadas são horríveis.
- Quem você pensa que é para falar algo assim, ? - questionou, claramente indignada. - A sua consegue ser pior que a desse idiota. Se eu fechar bem os olhos, tenho certeza de que tem uma foca no cio sentada do meu lado.
Todos gargalharam novamente, tentando imaginar de onde tirava aquelas comparações estranhas e continuaram debatendo sobre quem era o mais insuportável, engasgando de tanto rir até que o sinal batesse, trazendo-os de volta ao mundo real.


- Você conseguiu! - comentou assim que parou o carro em frente à casa de às 14 horas em ponto. A garota estava sentada em um dos degraus da varanda, com quatro caixas cheias de brinquedos aos seus pés. Ela sorriu ao distinguir o tom brincalhão na voz do rapaz e deu de ombros, levantando-se.
- Eu falei que daria um jeito.
- Com jeito você quer dizer: pagar seu irmãozinho para fazer por você? - questionou ao fechar a porta atrás de si e caminhar até a varanda.
- É lógico que eu não faria algo assim! Will se voluntariou. - defendeu-se prontamente, contudo, ao receber um olhar incrédulo de , completou: - Desde que eu o levasse para tomar chocolate quente.
- Ah, ! Eu não acredito! Você comprou seu irmão? - O rapaz disse, fingindo indignação, mas não conseguiu disfarçar o enorme sorriso em seus lábios enquanto levava uma das caixas para o carro. - Daqui uns dias você vai começar a roubar o cofrinho do menino.
- Não exagera, . Não vou me tornar uma versão feminina do . Mas se isso acontecer, por favor, encontre uma forma de me trazer de volta ao normal.
- Claro que eu encontraria. Um já é demais na minha vida, com dois eu acabaria no hospício. Se bem que tenho a impressão de que a já é um segundo .
- Eles são praticamente a mesma pessoa. Nós vamos direto para o céu por aguentar aqueles dois.
- Seria uma sacanagem das grandes se isso não acontecesse. Ele é meu bilhete premiado. Suportar o todos os dias vale mais que tirar 10 gatos do topo de uma árvore.
- sempre diz que é preciso ter ao menos um ato de bondade por dia. Não temos que nos preocupar com isso, então. - sorriu, colocando a última caixa no porta-malas. – É melhor a gente ir logo porque não estou curtindo muito ficar tanto tempo perto destas bonecas assassinas.
- Depois eu que sou dramático. - pontuou, rolando os olhos teatralmente. - Entre no carro, milady. Te deixarei longe de suas antigas amigas o mais rápido possível.
- Eu seria grata pelo resto de minha vida, milorde. - entrou na brincadeira, sentando-se no banco do automóvel assim que o garoto abriu a porta e lhe ofereceu a mão para ajudá-la a entrar.
Quando deu partida no carro, o rádio foi ligado automaticamente. Uma canção conhecida por ambos os adolescentes ecoava baixinho pelos autofalantes e, antes mesmo de lembrar do nome da música ou do cantor, já arregalara os olhos de entusiasmo. Ela sempre tinha a mania de cantar no carro – mesmo isso só acontecendo quando era a motorista em questão – e estava falhando miseravelmente em sua tentativa de se controlar para não cantarolar a letra que sabia de cor.
- Isso é medo das bonecas ou você só está ansiosa para alguma coisa? - perguntou, percebendo a agitação anormal de .
- Por que você acha que eu estou ansiosa?
- Bem, porque você está praticamente fazendo um furo no carpete do meu carro por causa dessa incessante batida de pé. - Ele concluiu, apontando para a perna da garota.
respirou fundo, mas o refrão - em sua opinião, a melhor parte que uma música pode ter - começou a tocar e ela não aguentava mais.
A menina tentou se acalmar novamente. Droga, era só uma música. Uma musiquinha de nada. Por que ela não conseguia se controlar?
- Você realmente não vai me falar qual o motivo, ?
- Você tem alguma mania?
- Sei lá. Acho que sim. - Ele respondeu, tentando se lembrar de algo específico. - Por quê?
- Porque, se você tiver, não pode me julgar por não conseguir conter a minha.
- Qual sua mania, ? E o que isso tem a ver com você estar toda inquieta desde que liguei esse carro?
- Eu canto. Com minha voz bem desafinada e fora de tom. Toda vez que entro no carro e está tocando alguma música no rádio, eu costumo cantar a plenos pulmões. Aprendi isso com a , não tenho culpa se a loucura dela me contagiou.
O garoto começou a gargalhar da confissão desajeitada e maluca de . Ela era uma peça maravilhosa de se assistir.
- E por que você não está cantando, então?
- Porque, se eu cantar, você vai me ouvir e vai sair correndo com medo de mim! - Ela meio gritou, meio sussurrou. - E porque você tem uma voz maravilhosa. Vou passar mais vergonha ainda.
- Deixa de ser boba, ! - disse, aumentando o volume, e começou cantarolar de uma forma falsamente desafinada, arrancando uma gargalhada de .
olhava para a garota com uma das sobrancelhas arqueadas, como se perguntasse se aceitaria o desafio. E, por ser impossível dizer que recusava um, ela aceitou, lançando um olhar divertido em direção ao garoto.
não mentiu quando disse que não cantava bem, percebeu. Mas, ainda assim, ele achou extremamente fascinante o modo como ela se conectava com a canção enquanto cantarolava a letra com precisão, sem ligar para o ritmo ou para as notas. Não importava se era bastante desafinada ou a melhor cantora do mundo, para ele, aquela era a voz que mais queria ouvir até que adormecesse, a mesma que tornava seus sonhos melhores, a única que desejava escutar até o fim de sua vida.
A garota, absorta em seus próprios pensamentos, não percebia o modo como a observava com carinho ou como o peito do rapaz se mexia de forma acelerada enquanto era envolvido por seu perfume inebriante. Ela estava ocupada demais proferindo as palavras que seus lábios tanto ansiavam e sentindo a brisa gélida de início de outono levar seus cabelos ondulados para trás, os fios ricocheteando em seus ombros nus. Para , cantar era seu pequeno refúgio, era quando podia transformar uma simples música em uma segunda casa, algo que lhe ajudava a esquecer de tudo e de qualquer dor.
Os dois se encontravam imersos naquele mundo em que apenas eles existiam, onde podiam extravasar seus sentimentos enquanto gritavam as letras das várias canções, onde eram o que realmente queriam ser. Ambos podiam experimentar o mesmo entusiasmo borbulhar em seus peitos e viver a sensação de estarem livres, inundados por uma estranha felicidade que os fazia querer gargalhar. Então, quando as grades altas do Orfanato Saint Claire surgiram à frente, não puderam deixar de sentir uma pequena pontada de decepção ao acordar daquele sonho tão prazeroso que desejavam poder durar para sempre.
- Uau! – exclamou assim que seus olhos se depararam com a enorme casa avermelhada situada no centro da propriedade. Uma construção humana impressionante em meio a natureza outonal. – Pensei que aqui seria mais sombrio, como o castelo do Drácula ou algo assim. Nunca imaginei que seria tão lindo.
- Acho que aquele filme de terror na sua infância realmente te traumatizou. – Ele brincou, fazendo com que revirasse os olhos e, não conseguindo segurar-se, ela sorriu abertamente para o comentário do garoto. – Mas eu concordo com você. Venho aqui desde criança e ainda me surpreendo com a beleza desse lugar.
adentrou o pátio assim que um dos funcionários abriu o grande portão de grades pretas. Os adolescentes saíram do carro, os braços envolvendo os próprios corpos na tentativa de se protegerem do vento. Eles continuaram na mesma posição por vários segundos, admirando as flores mortas no chão do pátio, o vermelho vivo e majestoso da casa e o céu que parecia ainda mais bonito ali.
Durante o tempo em que observava tudo com seu olhar minucioso, lembrou-se que bem pertinho dali estava um de seus lugares favoritos do mundo e, com uma nova ideia, oferecendo sua mão a ela, disse:
- Vem comigo. Tenho que te mostrar uma coisa.
Aceitando a mão do garoto, o seguiu na direção contrária a da casa, atravessando o enorme estacionamento e indo para um local mais aberto. Os dois pareciam reviver a noite de sábado enquanto andavam de mãos dadas com destino a um lugar que apenas um deles conhecia. Contudo, daquela vez, quem guiava o caminho era e era quem não conseguia conter a ansiedade para conhecer tal lugar.
A reação da garota foi a mesma de há algumas noites ao se deparar com seu "canto secreto": um suspiro de surpresa e olhos arregalados olhando para todos lados. O jardim era rodeado por diversas árvores, de portes variados, muitas já completamente nuas, outras ainda exibiam as cores quentes de suas folhas que contrastavam com o ar quase gélido de outono. A grama bem cuidada, com pequenos círculos e trapézios repletos de diferentes tipos de flores, cercava o caminho pavimentado que formava uma espécie de cruz, onde, no ponto central, encontrava-se um chafariz de mármore branco.
- Eu sei, parece com os jardins que têm nos castelos. Tia Abby cuida dessas flores como se fossem suas filhas, até conversa com elas. - contou, sorrindo ao lembra-se do dia em que ouvira Abigail contando histórias para as plantas. A mulher informou ao sobrinho que aquilo fazia bem a elas, pois, ao receberem carinho e atenção, cresciam mais fortes e vibrantes. Ele não ousou discordar, uma vez que sabia que sua opinião não mudaria a dela, apenas acrescentou aquele fato à lista dos motivos que tornavam sua tia uma das pessoas mais excêntricas que já conhecera.
- Ela parece ser legal. - disse, desviando seu olhar do gramado colorido para o rapaz ao seu lado. E, assim que o fez, precisou se segurar para não rir. Ele tinha uma espécie de coroa de flores em meio aos cabelos bagunçados pelo vento, como se houvesse permitido que sua irmãzinha fizesse um penteado e acabou se esquecendo de checar o resultado em um espelho antes de sair.
olhou para os lados, procurando um motivo para o comportamento da garota, sem que nenhuma flor saísse do lugar. Aquilo fez com que finalmente deixasse a risada escapar e, pegando o celular em um dos bolsos, tirou uma foto do rapaz. Ao depara-se com a expressão de confusão de na tela do aparelho, riu tanto que seu abdômen chegou a doer.
- Será que você pode me dizer o que está acontecendo? Tô começando a achar que você foi possuída pelo espirito maligno de uma daquelas bonecas. - Ele disse sem conseguir conter um sorriso. A risada dela era simplesmente contagiante.
respirou fundo, tentando se recompor, e mostrou para o rapaz a imagem em seu celular, o lábio inferior entre os dentes, esforçando-se para não ter um novo ataque de risos. A primeira ação de ao se deparar com o seu rosto na tela foi passar as mãos pelos cabelos numa tentativa de se livrar das benditas flores, mas logo que seus olhos se encontraram com os da garota, soltou uma gargalhada genuína, digna de lágrimas nos olhos e falta de ar nos pulmões.
- A Crys e a vão adorar essa foto. - falou depois de se recuperar, olhando novamente para a tela do celular. - Acho que o deve até fazer um outdoor...
- Você não pode enviar pro ! - arregalou os olhos, parando de rir subitamente. - Por favor, , seja boazinha e apaga essa foto.
- Não mesmo! Assim que chegar em casa vou passá-la para o computador, só pra garantir que não vou perdê-la.
- Você vai dar a ele mais uma coisa para usar quando quiser me chantagear. Eu vou virar praticamente um escravo daquele garoto, você não sabe como ele é completamente diabólico às vezes.
- Você esqueceu que eu tenho um alter ego dele do meu lado todos os dias? Eu sei bem como ele é malvado. Por isso mesmo ele será a primeira pessoa a receber essa relíquia. - disse, apontando para a foto que ainda brilhava na tela do celular.
É claro que a adolescente nunca teria coragem de fazer algo do tipo, mas ela não conseguia parar de brincar de chantageá-lo agora que via a cara de desespero de . Era adorável! Parecia um garotinho que fez algo muito errado e tinha medo que os pais descobrissem, como no dia em que quebrou o vaso favorito de sua mãe.
Ultimamente, via aquela vontade de implicar com o garoto aumentar constantemente. Parecia que a menina tinha uma pontinha de maldade em seu ser, afinal de contas. Ou será que aquilo não tinha nada a ver com perversidade, mas sim com uma maneira diferente de se gostar? Será que aquele desejo insaciável de vê-lo rir era o que aumentara seu sarcasmo? Será que eram aquelas brincadeiras que a estavam a ajudando a sorrir mais, principalmente quando estava sozinha, olhando para o nada?
- , eu lhe imploro! - Ele disse, falhando miseravelmente na tentativa de imitar a cara de pena do Gato de Botas.
- Coitadinho do menininho, gente!
- Eu vou realmente ter que tomar esse celular de você?
- Eu duvido que você consiga fazer isso. - Ela o desafiou, gargalhando da expressão desacreditada do garoto.
- Quando eu pegar, você estará frita! - avisou antes de fazer a primeira tentativa de tomar-lhe o celular.
deu alguns passos para trás, escondendo o aparelho atrás de si e, rapidamente se viu sem saída. estava logo a sua frente e, às suas costas, estava o chafariz, respingando algumas gostas de água em sua perna. Sua única alternativa era correr por um dos lados. Infelizmente, percebeu isso no mesmo momento que ela, conseguindo intercepta-la pouquíssimo tempo antes que pudesse escapar totalmente.
- Desista, . - pediu, segurando sua cintura por trás. O aparelho móvel estava protegido pelas mãos da garota na frente ao corpo dela.
- Nunca. - Ela murmurou dramaticamente, determinada a continuar com a brincadeira.
tentava pensar em uma forma de se livrar dos braços de , quando notou uma mulher parada a alguns metros. Ela os observava de forma carinhosa, com um grande sorriso nos lábios, os cabelos grisalhos com mechas cor-de-rosa emoldurando seu rosto marcado por linhas do tempo.
- Eu estava certa ao pensar que te encontraria aqui. - A senhora disse assim que percebera que havia sido pega. - Afinal, esse é seu lugar favorito, não é mesmo, ? Desconfio até que você goste mais dele do que da sua velha tia.
, ao escutar a voz tão conhecida, soltou de seu abraço e estendeu sua mão à garota, que a aceitou sem pestanejar. Os adolescentes caminharam juntos para a parte inicial do jardim, onde a senhora de meia idade estava parada com um sorriso genuíno nos lábios.
- Você sabe muito bem que é minha tia favorita, senhorita Abigail! - disse, abraçando-a.
- Eu ficaria lisonjeada... - Ela comentou, olhando nos olhos da garota à sua frente e lançando lhe uma leve piscadela. - mas esse elogio não vale de nada quando se é a única tia de alguém.
- Você seria minha preferida mesmo se eu tivesse um milhão de tias. – Ele respondeu prontamente, fazendo com que Abby soltasse uma gargalhada prazerosa que ecoou pelas árvores ao redor.
- Vou fingir que acredito. – Abigail informou depois de se recuperar e, olhando para a garota ao lado de seu sobrinho, disse: - Não vai apresentar sua amiga, querido?
- Ah, sim. Tia Abby, essa é a . , essa é a Tia Abby, a melhor tia do mundo.
Um brilho de reconhecimento apareceu nos olhos da senhora, enquanto, pulando as formalidades, abraçou a menina. não se sentiu desconfortável, como normalmente se sentiria se abraçasse um desconhecido. Estranhamente, aquela senhora, com o jeito caloroso e jovial fazia com que lembrasse da própria madrinha, que não via há anos. Um gosto doce-amargo de saudade chegou a sua boca, fazendo com que ela apreciasse aquele abraço com mais afinco.
- É um prazer conhecê-la, Tia Abby.
- Gostei dela, . Ganhou vários pontos por não me chamar de senhora. Ou de Abigail. - Ela disse, ainda com a garota entre seus braços acolhedores, fazendo uma careta ao pronunciar seu próprio nome. – E o prazer é todo meu, .
Ela se afastou minimamente, passando a mão enrugada pelos cabelos de e, ainda com um sorriso, virou-se em direção ao orfanato.
– Agora, vamos porque as crianças estão nos esperando. É provável que atêm fogo na casa se não voltarmos logo. – Abigail constatou, caminhando com certa dificuldade até o casarão. – Você sabe como eles ficam animados quando você vem, . Tavvy mal conseguiu dormir depois que você ligou ontem avisando que viria. Parece que aquele menino acha que você é uma espécie de Bruce Wane que trocou o batmovel por um violão.
Os adolescentes riram, seguindo a senhora que tagarelava alegremente. Assim que ela abriu as portas da entrada principal, uma onda de seres pequeninos os atingiu. Havia gritos e perguntas entusiasmadas enquanto as crianças os cercavam tentando ansiosamente chamar a atenção do garoto que tanto adoravam.
- Tá bom, gente! Vai ter autógrafo pra todo mundo. – brincou, arrancando risos das crianças. – E, o mais importante, cupcake de chocolate com chantilly colorido!
Os pequenos gritaram com animação, pulando por todos os lados. Abigail, , e alguns funcionários tentaram colocar alguma ordem na festa da meninada, organizando filas indianas para distribuírem os bolinhos que trouxera. Até provara um ou dois e, pelo gosto divino, tinha certeza de que era obra de Muriel.
As crianças logo se empanturraram, os rostos coloridos com o verde, o azul e o rosa do chantilly encontravam-se concentrados, prontos para devorarem o máximo de cupcakes que pudessem. E essa cena tão simples e ao mesmo tempo tão encantadora, despertou um sentimento genuíno que se alastrou pelo coração de , fazendo com que seus olhos se inundassem de lágrimas. Ela se sentiu completamente maravilhada ao reconhecer a felicidade estampada nos olhos inocentes daquelas pessoinhas que deviam ter passado por momentos terríveis em suas curtas vidas. queria poder abraça-las e acalentá-las, dizer que podiam ser incondicionalmente felizes, como se sentiam naquele exato momento. Pois ela sabia que, apesar de toda a escuridão aterrorizante que parecia estar prestes a consumi-la, sempre haveria as estrelas para guia-la.
- Eu sei. Sinto a mesma coisa. – sussurrou, assustando minimamente a garota. – É por isso que amo vir aqui. É estranha essa sensação, não é? De ver a alegria nos rostinhos deles ao mostrarmos que ainda há esperança, que tudo vai ficar bem.
voltou o olhar para o rapaz que, assim como ela fazia antes, fitava a cena ao redor com um semblante sereno e repleto de carinho. Ele se encontrava tão perto que podia sentir aquele cheiro agradável que percebera ser característico dele: menta e lavanda. Ela inspirou profundamente, permitindo que seu organismo fosse preenchido pelo perfume reconfortante. desviou os olhos para ela e seus lábios formaram um sorriso que parou o coração da garota por um milésimo de segundo para, em seguida, bater rápida e descompassadamente, como se ela tivesse corrido uma maratona ou estivesse prestes a pular de um precipício.
E, então, soltou uma gargalhada, despertando do pequeno transe, tirou seu celular do bolso e a fotografou. Assim que ele virou a tela para a menina, ela riu ruidosamente. Seu nariz e sua testa estavam sujos de chantili azul.
- Como você conseguiu fazer essa proeza? – brincou, limpando cuidadosamente a testa da garota com um guardanapo.
- É o que o me pergunta todos os dias e, como sempre digo pra ele, não faço a menor ideia. – deu de ombros enquanto analisava em sua tarefa. – O chantilly deve ter se jogado em mim. É a única explicação.
- Eu tenho outra: você come igual criança.
- Ei! Eu sou criança e nem por isso me sujo quando como. – A garotinha ao lado deles se defendeu, encarando-os com seriedade, partes do cabelo e quase todo o rosto coberto pelo creme verde e azul.
Os adolescentes gargalharam, fazendo com que a menina lançasse um olhar desconfiado.
- Você deveria ensinar para a como se faz, Hope. Ela tá precisando de umas aulinhas. – sugeriu, recebendo um cutucão de .
- Se você me carregar de cavalinho eu posso pensar. – Hope deu de ombros, tombando a cabeça para um dos lados, como se pensasse no assunto.
- Vocês têm outra coisa em comum: aceitam subornos. – sussurrou para e, depois, voltou-se para a criança, abaixando-se até que ficassem quase da mesma altura. – Tá bem. Sobe aí.
Os dois saíram em direção ao pátio, galopando pela grama e Hope em suas costas, rindo e pulando como se o mundo fosse um parque de diversões e ela estivesse dando uma volta no melhor e mais divertido brinquedo.
Não se passara muito tempo até que retornassem para perto de , suados e ofegantes. Hope abraçou , ainda nas costas do rapaz. Ele sorriu com o agradecimento silencioso da menina, que encostou o rostinho corado e completamente sujo no dele, colorindo de verde sua bochecha esquerda. também se pegou com um sorriso nos lábios ao presenciar aquela cena. Era incrível como se dava bem com as crianças e como elas o adoravam. Ele parecia tratá-las como seus irmãos e irmãs caçulas e, como um bom irmão mais velho, tentava proporcionar a eles o máximo de alegria e amor possível para que suas infâncias fossem preenchidas por aqueles pequenos momentos mágicos e memoráveis.
se abaixou e a garotinha desceu relutantemente de suas costas largas. Ela passou as mãos delicadas pelos cabelos cor de mel para retirá-los da face e sentou-se no chão, aos pés dos mais velhos, para acalmar as batidas serelepes de seu coração.
- Agora é a sua vez de cumprir o trato. – O rapaz disse, ainda ofegante, passando um dos braços ao redor dos ombros de para se equilibrar enquanto tentava fazer com que o ar chegasse mais rápido aos pulmões. - Mostre pra minha amiga como uma dama de verdade deve comer.
Hope assentiu seriamente, como se recebesse uma ordem ultrassecreta e daria seu melhor para cumpri-la.
Não demorou para que corresse para o outro lado do cômodo para ajudar um garoto de cabelos cacheados com o violão, deixando sozinha com sua nova professora.
Os adolescentes voltaram a ser crianças durante aquela tarde repleta de risos e brincadeiras. O sol já estava se pondo quando resolveu que já era hora de irem. Ele se despediu dos pequeninos que se encontravam ao seu redor que, apesar das expressões de decepção, abraçaram-no e demandaram que voltasse logo. O rapaz prometeu voltar com cookies com gotas de chocolate da próxima vez e saiu à procura de .
Ele a encontrara sentada no tapete felpudo em um dos cantos do amplo salão, acompanhada de diversas crianças que se espalhavam ao seu redor com o semblante concentrado enquanto prestavam atenção à história que a garota contava com entusiasmo. fazia caretas e alterava o tom de sua voz à medida que interpretava os personagens, arrancando gargalhadas e exclamações de surpresa da garotada.
encostou-se em uma das largas pilastras, os braços cruzados e olhos repletos de encanto. Antes, ele tinha esperanças de que, ao conviver com , acabaria por perceber que ela não era a garota que ele idealizava e que acabaria de uma vez por todas com aquela droga de paixão platônica. E, realmente, ela não era a mesma pessoa que sua mente moldara, era melhor. Porque a de sua mente era perfeita e aquela, à sua frente, era repleta de defeitos. Contundo, era o fato de ela cantar de forma desafinada e fora de ritmo, de morder as pontas dos dedos e balançar a perna direita incessantemente sempre que estava nervosa, de ter medo de bonecas e socá-lo levemente quando a desconcertava ou irritava... eram essas pequenas imperfeições e manias que faziam com que ele a amasse ainda mais.
- Ela deve ser muito especial para você. – A voz suave de Tia Abby soou ao seu lado. A senhora também observava a cena com uma expressão serena no rosto simpático. – Você nunca trouxe ninguém, nunca quis compartilhar esse seu momento com outra pessoa.
sempre se impressionara com o poder que Abigail parecia ter de ler sua mente e suas expressões. Quando era criança, achava aquilo fascinante e contava para os colegas que sua tia era como o Professor Xavier ou Sherlock Holmes. Porém, naquele instante, ele se sentiu desconfortável, com medo de que qualquer outra pessoa pudesse descobrir seus sentimentos por simplesmente ao perceber o modo que ele a observava.
- É pra ela que escreve suas músicas? – Perguntou a senhora e, dessa vez, desviou os olhos para encará-la, completamente surpreso. Interpretando a ausência de resposta do sobrinho como uma confirmação, continuou: - Suas letras são sempre tão sinceras e apaixonadas que desconfiei de que você tivesse uma musa inspiradora. Sempre quis conhecer a garota que roubou o coração do meu menininho.
O rapaz permaneceu em silêncio. Não sabia o que dizer. Era estranho ter ciência de que outra pessoa, além dele, sabia o significado por trás de suas letras, que prestava atenção na forma com a qual expressava suas emoções através delas. Aquelas músicas eram cartas de amor que nunca foram entregues, guardadas em uma caixa velha e empoeirada debaixo de sua cama, esperando, ansiosas, pela ocasião em que eventualmente revelariam suas palavras secretas para sua amada. Não deveriam ser compartilhadas, compreendidas ou sentidas por alguém que não fosse ela.
- é adorável, . Você deveria dizer a ela o que sente. Não deixe que o medo de um não te impeça de tentar conseguir um sim. Você pode se arrepender amargamente. – Tia Abby murmurou, sua voz marcada por uma tristeza tão pura que era quase palpável. Era o desalento de alguém que experimentou o gosto suave do amor para, em seguida, vê-lo escapar por entre seus dedos.
Antes que pudesse se pronunciar, a senhora se distanciou e postou-se perto das crianças, deixando o sobrinho atônito para trás.
- É hora de dar tchau, meninada. A já deve estar cansada. Amanhã ela tem aula, assim como vocês. – Abigail informou, recebendo uma onda de comentários de desapontamento em resposta. – Sem reclamar. Todos para o andar de cima. Tomem um banho bem caprichado antes de jantarem.
Um por um, os pequeninos se retiraram, dando um último abraço em e antes de subirem às escadas, cabisbaixos.
- Muito obrigada pelos brinquedos, , e por ter nos visitado. Foi um enorme prazer te receber. – Disse a senhora, envolvendo com seus braços rechonchudos. – Você tem que voltar mais vezes.
- Eu não usava esses brinquedos há um bom tempo. Fico feliz por ter encontrado um novo lar para eles. – Ela confessou e deixou-se mergulhar naquele abraço aconchegante. Se sentimentos tivessem cheiro, aquela pequena senhora exalaria o doce e suave perfume do carinho. – E eu adoraria voltar. Amei passar a tarde com vocês.
- Fique à vontade para vir quando quiser, minha linda. Estaremos esperando por você. – Abby falou e foi até o sobrinho, abraçando-o. – Não se esqueça do que eu te disse,
- Não vou esquecer. – Ele disse, relutantemente, e voltou seu olhar para a garota a sua frente. – Vamos, ? Quero te mostrar onde é feita a melhor torta de maçã de todo o universo.
- A Muriel sabe disso? – questionou, lançando um último sorriso de despedida para Abigal e apressou o passo para alcançar o garoto que já caminhava em direção ao estacionamento.
- Eu não estaria vivo se ela soubesse. Vai ser nosso pequeno segredo, okay?
- Tá bem, mas quem chegar por último paga. – Ela gritou e, antes que pudesse entender o que ela havia proposto, já estava a vários metros dele.


Os dois entraram pela porta estreita da lanchonete e caminharam até uma das poucas mesas desocupadas. sorriu ao sentir o cheiro de canela que preenchia o ar e sentou-se no banco estofado vermelho, de frente para . O garoto também carregava um sorriso nos lábios, como se tivesse sentido falta do lugar e finalmente matasse a saudade de sentar-se em meio ao som das conversas descontraídas, o calor do aquecedor tocando sua pele, as longas vidraças tornando o mundo lá fora em uma linda pintura de outono.
- Eu adorei esse lugar. – disse, os olhos passeando pelo cômodo. – É tão simples e confortável.
- Espere até provar a comida. Vai te fazer querer se mudar para cá só para poder comer aqui todos os dias.
- !– Exclamou uma garota com um avental preto amarrado na cintura fina e um caderninho em uma das mãos, parada diante da mesa. Ela abraçou o rapaz calorosamente, com um enorme sorriso. – Pensei que tivesse encontrado um lugar com uma torta de maçã melhor. Já tem semanas que você não passa aqui.
- Se eu pudesse, teria vindo antes, Hazel. Estou meio sem tempo esses dias, com a escola e os treinos de futebol. Já estamos começando a nos preparar para o campeonato.
- Quando tiver algum jogo, me avisa. A Maggie não curte muito, mas dou um jeito de arrastá-la pra irmos torcer por você. – Hazel disse e, só então, percebeu a garota que acompanhava . – Você finalmente arrumou uma namorada, ? Estava passando da hora, né? Gato desse jeito e solteiro, ia acabar igual o babaca do . Aquele é um caso perdido. – Ela comentou, guardando o caderninho no bolso do avental e estendendo a mão para . – Eu sou a Hazel e você, flor? Como se chama?
- . – A menina respondeu, apertando a mão delicada da outra. Ela estava tão encantada pela beleza de Hazel que acabou se esquecendo de dizer que não era, de fato, a namorada de .
A garçonete, com toda aquela altura e o corpo esguio, parecia uma modelo de uma marca famosa. Apesar dos cachos dourados fugindo do coque e os olhos verdes cansados, era uma das garotas mais bonitas que já vira.
- . – Hazel repetiu, com um sorriso nos lábios. – É um nome lindo, combina com você. Aposto que o deve querer te manter longe dos garotos.
- E de algumas garotas também. - brincou, fazendo com que arregalasse os olhos. Ele não soube se era por ele ter insinuado que eles eram mesmo namorados ou se por ter percebido o que Hazel era. Talvez fosse pelos dois.
- Você sabe que eu não roubaria sua namorada, . – Hazel gargalhou.
- Ela não é minha namorada. Infelizmente. – Ele confessou, sorrindo como se ainda estivesse brincando.
- Aí a situação é diferente. Posso deixar meu número na conta. – Hazel piscou para , que engoliu em seco, sem saber o que falar e certa de que estava mais vermelha que os batons que costumava usar.
- E a Maggie? – questionou, segurando para não rir da cara de espanto de .
- É um relacionamento aberto. Ela não se importaria, na verdade, acho que tentaria roubar a para ela. – Hazel riu, já com o caderninho nas mãos outra vez. – Agora eu tenho que ir, minha chefe deve estar me matando na mente dela. Vocês já sabem o que querem?
- Um pedaço de torta de maçã e um chocolate quente. – respondeu, sem nem mesmo olhar o cardápio, pois já o sabia de cor.
Hazel escreveu rapidamente em uma das folhas amareladas e virou-se para , esperando para anotar seu pedido.
- O mesmo, por favor. – Ela disse timidamente.
- É pra já, gata. – Avisou a garçonete, antes de sair rebolando para o outro lado do cômodo.
- Uau! Ela é linda! – admitiu.
- O ficou decepcionado por uns quatro dias depois que descobriu que ele não fazia o tipo dela. Mas depois ele passou a gostar da ideia. Os dois apostavam quem beijava mais garotas. Ela sempre ganhava.
- Parece ser algo típico do . – Ela comentou, fazendo com que sorrisse em concordância. - De onde vocês se conhecem?
- Ela era minha vizinha. Veio pra cá há um ano, mais ou menos. Ela sabia que torta de maçã é minha sobremesa favorita e me contou que aqui servia a melhor. Desde então, a gente se vê quase todo mês.
- Ela faz isso com todas as garotas?
- Só com as que ela acha muito bonitas.
- Ninguém nunca tinha flertado comigo assim. – Ela confessou, os olhos fixos nas próprias mãos.
- Uma garota? - questionou, observando-a brincar com os potes de molhos em cima da mesa.
- Ninguém.
- , os garotos flertam com você o tempo todo. Até o te paquera. – Afirmou ele, soltando um riso nervoso antes de confessar: - Até eu.
- Até você? – repetiu, levantando os olhos para encarar o rapaz. Ela deixou que um sorriso tímido tomasse conta de seus lábios quando percebeu um certo rubor nas bochechas de .
- É que eu sou muito mais sutil que a Hazel. – O garoto deu de ombros enquanto passava uma das mãos pela nuca, deixando os cabelos ainda mais bagunçados.
- Acho que qualquer um é mais sutil que ela. – Ela riu e estendeu o braço para arrumar algumas mechas do cabelo dele, como fazia quando seus irmãos pareciam acordar com jubas de leão.
prendeu a respiração, surpreso com a ação da garota e com medo de que qualquer movimento brusco pudesse afastá-la. Os olhos dos dois se encontraram por um instante que pareceu durar minutos, suas írises dançando em sincronia uma música lenta a medida que examinavam os mínimos detalhes daqueles que eram as janelas para suas almas.
- Vocês formariam um casal tão fofo. Quase me faz querer deixar o caminho livre pra você, . – Hazel comentou, assustando-os. Ela retirou os pedidos da bandeja e sorriu maliciosamente ao se deparar com as expressões constrangidas dos dois. – Mas só quase mesmo.
- Quem sou eu para competir com você, Hazel? Se nem o consegue te superar. – O rapaz brincou, tomando um gole do seu chocolate quente.
- Pode parar de cu doce, . Tenho certeza que muitas garotas devem abaixar as calcinhas se você pedir. – A afirmação da garçonete fez com que se engasgasse momentaneamente e arregalasse os olhos de novo. Hazel apenas gargalhou e deu um tapa leve na cabeça do amigo. – Mas fica longe da , porque eu vi primeiro.
- Na verdade, eu que ....
- Shiu! – Ela o interrompeu e deu meia volta, virando-se apenas para mandar um beijo para por cima dos ombros.
- Ela tem razão. – disse, chamando a atenção do rapaz. – Você ganharia dos dois de olhos fechados se fizesse a coisa do malabarismo.
gargalhou, meneando negativamente a cabeça.
- Não funcionou com você.
- Você não fez para mim. Só disse que sabia fazer e que seu sonho é trabalhar em um circo. – Ela brincou, rindo antes de provar da torta que a fez suspirar ao sentir o sabor maravilhoso. – Como ninguém conhece esse lugar?
- Não faço ideia. - disse e se aproximou, diminuindo o tom de voz. – Mas qualquer dia desses, vou dar um jeito de roubar a receita, para garantir que vou poder comer isso pro resto da vida.
- Vai dar uma de Plancton? Não sei se você sabe, mas ele nunca conseguiu a receita do hambúrguer de siri.
- Ele não tinha seu charme. – O rapaz deu de ombros, um sorriso torto nos lábios.
- Meu charme? – questionou, as sobrancelhas arqueadas e a colher a meio caminho da boca. - Achei que você que roubaria.
- Você distrai a garçonete irritante com a sua beleza enquanto eu uso meus poderes de ninja para conseguir o papel que contém a informação mais importante da Terra. – Ele respondeu prontamente. – Seriamos uma ótima dupla.
- E o que te faz pensar que eu te ajudaria?
- Eu posso compartilhar o prêmio com você. Aposto que seus irmãos fariam qualquer coisa que pedisse se você prometesse um pedaço dessa coisa divina. - disse, apontando para o prato à sua frente. – Além de conseguir manter a boca da fechada por alguns minutos.
- É. Tenho que admitir que é uma ideia tentadora. Acho que a gente deveria discutir sobre o plano mais tarde. Em um lugar que não seja aquele em que queremos praticar um crime, sabe?
- Você tem razão. - sorriu antes de tomar mais um gole da bebida. – Enquanto isso, me conte algo sobre você. Só sei que tem dois irmãos, uma melhor amiga que é a versão feminina do e que azul é sua cor favorita.
- Você estuda comigo há 10 anos, , e é tudo que sabe? – Ela questionou, fingindo desapontamento e recebendo um sorriso inocente de . – E se a gente fizesse uma espécie de jogo? Não quero falar só sobre mim.
- Verdade ou consequência?
- O quê? Não! Da última vez que joguei isso, perdi dois palmos do meu cabelo, quebrei um braço e tive que ficar com o primo da . Não necessariamente nessa ordem.
- Mais uma experiência para você adicionar à sua lista de traumas.
- Nem me fala. Me arrepio só de lembrar. – disse, passando a mão pelos braços. - Então, qual jogo você sugere? – Ele perguntou, com um sorriso divertido.
- Que tal verdade sem consequência? Se a pessoa não quiser responder, a única coisa que acontece é que a outra vai continuar sem saber a resposta.
- Perfeito. - afirmou e logo perguntou a primeira coisa que veio em sua mente. - Qual é sua sobremesa favorita?
- Bolo de chocolate. – Ela disse rapidamente, como se estivesse na ponta de sua língua, mas, então, inclinou a cabeça minimamente, as sobrancelhas franzidas enquanto pensava se era mesmo a resposta correta. – Não. Sorvete de baunilha... Não. Bolo de chocolate com sorvete de baunilha.
- Sabe, eles têm um nome para isso: Petit Gâteau. E o bolo tem um recheio cremoso que é uma maravilha.
- Parece ser delicioso. – confessou, a boca já enchendo d’água só de imaginar o recheio se misturando com o sorvete.
- A gente pode sair pra comer um dia desses. - sugeriu com um dar de ombros, na tentativa de não parecer ansioso demais.
- Eu adoraria. Só dizer quando e onde. – Ela disse, fazendo-o sorrir em concordância, e, então fez a próxima pergunta. - Filme preferido?
- Nossa, essa é difícil. Posso roubar um pouco e falar dois? – Ele perguntou e, ao receber um aceno afirmativo de cabeça por parte da garota, respondeu: - Bem, De Volta Para o Futuro é um filme que me diverte, não importa quantas vezes assisto. E já assisti muitas e muitas vezes. O e eu costumamos tirar um dia do ano para assistir a trilogia. Sabemos praticamente todas as falas. - contou, rindo ao lembrar da última maratona. - Meu outro filme favorito é o Rei Leão, mas nem preciso dizer o motivo, né?
- Não precisa, não. É meu favorito também.
- Ora, parece que temos algo em comum, senhorita. – Ele brincou, arrancando um sorriso largo da garota. - Próxima: qual a maior loucura que você já fez?
- Nunca fiz nenhuma loucura. Acho que a que chega mais perto foi ter saído escondida de casa, quando meu irmão havia proibido, para assistir ao jogo de um certo garoto. – contou, brincando com os potes em cima da mesa novamente. - Mas eu quero fazer algo inusitado um dia. Algo que não poderia contar para meus filhos porque não seria apropriado.
- Não sei se fico lisonjeado ou preocupado. Seu irmão parece não gostar muito de mim e gostaria ainda menos se descobrisse isso. Quer dizer, quem mais te levaria para a Cidade do Pecado, pra ganhar 2 mil nos caça-níqueis, ficar tão bêbada que iria querer casar com o recepcionista do hotel e ter que gastar o dinheiro que ganharia para concertar o tapete que você estragaria com seu vômito?
- Não. Você não ... – Ela exclamou, os olhos arregalados e um sorriso divertido nos lábios. - Meu Deus! Isso é realmente uma loucura! Como você foi parar lá?
- Resumindo, conhece um cara, que conhece um cara que faz identidades falsas. Nós juntamos dinheiro durante um ano, dissemos pros nossos pais que passaríamos as férias na casa de um amigo na Califórnia e o resto você já sabe. Foi o jeito perfeito de comemorar meus dezoito anos e quero deixar bem claro que salvei o dia, porque é por causa do meu estômago que o continua solteiro.
- Ninguém nunca soube de nada?
- Se sabem, ainda estão pensando numa ótima maneira de nos punir.
- Vocês sempre se safam de tudo, não é? – Ela questionou, fazendo com que ele desse de ombros e formasse um sorriso triunfante. - E o não tem nada contra você, ele só é super protetor. Daqui a pouco ele se acostuma com a ideia de você ser meu amigo, só vai levar um tempinho.
- Espero que não demore muito. Não quero ser o cara que te faz ter que mentir para ele. A não ser, é claro, que seja por motivos nível Las Vegas.
- Concordo totalmente. Não é todo dia que você pode dizer: o que acontece em Vegas, fica em Vegas, baby! - disse em um ar conspiratório, idêntico ao que os personagens de filmes dizem antes de fazer a viagem mais maluca de suas vidas. A cara séria da garota fez com que gargalhasse por uns bons segundos. - Okay, minha vez! Se sua vida fosse um livro, qual seria o título?
- As 1002 utilidades de – Ele respondeu rapidamente e aquele foi a vez de gargalhar. - Em que época do passado gostaria de ter vivido?
- No século 19, mas um em que as mulheres tivessem mais direitos e existisse o banheiro do jeito que conhecemos. – A garota falou, ajeitando-se no banco. - O que faria com que você se apaixonasse por alguém? Quer dizer, você já se apaixonou? Tipo, já gostou tanto de alguém como na música que te ouvi tocar semana passada?
- Meu deus, mulher! É só uma pergunta por vez! - disse e soltou uma risada nervosa, a perna direita balançando de forma incessante em baixo da mesa enquanto sua mente mergulhava num mar de incertezas. Ele deveria dizer a verdade? Não responder? Mentir?
Aquela era sua chance de seguir o conselho de sua tia e finalmente contar tudo que guardava em seu peito. Porém, ao lançar um olhar para a garota sentada à sua frente, que o encarava com seus lindos olhos curiosos, ele decidiu contar a verdade, mas não toda ela.
respirou fundo, fechou os olhos por três segundos e deixou que sua boca dissesse parte das palavras que lutavam para sair de sua garganta:
- Sim. Já me apaixonei. Na verdade, sou apaixonado por essa pessoa há algum tempo e, por incrível que pareça, acho que passo a gostar mais dela a cada dia. E isso me aterroriza porque não sei se ela corresponderia e não sei o que eu faria com todo esse sentimento ou o que todo esse sentimento faria comigo se ela não correspondesse. – Ele pausou a fala e passou seu olhar do canudo do chocolate quente em suas mãos para a vista que as grandes janelas proporcionavam. – E não precisou que ela fizesse nada para se tornar minha "musa inspiradora", como diria tia Abby. Ela só foi ela mesma. Com todo aquele ar sonhador e decidido e toda aquela bondade... Eu me apaixonaria por ela de olhos fechados.
- , isso é tão... bonito e, ao mesmo tempo, tão triste. – admitiu em um suspiro. Ela não esperava ouvir algo assim. Não mesmo. Porém, aquele era e, mais uma vez, havia lhe surpreendido. Agora, seu coração batia de uma forma estranha, quase que desapontada ou, até mesmo, com um ciúme daquela garota, e ela teve que pigarrear antes que sua voz saísse novamente. – Queria poder te ajudar, mas não sei muito bem como, porque nunca me senti assim. Entre estudar, cuidar de Will, ajudar e me preocupar com meu pai, não sobrou muito tempo para que eu pudesse me apaixonar. Se não fosse pela , até hoje não saberia o que é ser beijada por um garoto. E em nenhuma das minhas poucas experiências senti todos aqueles sentimentos tão característicos da paixão. Não senti minhas mãos suarem ou meu coração disparar, não fiquei pensando em seus sorrisos antes de dormir, nem tive vontade de escrever um poema ou uma música sobre eles. Eu só... achei legal, apesar de faltar tudo isso.
- Espero que a gente consiga achar nossas almas gêmeas, a outra metade da nossa laranja, a Maryl Streep para o nosso Óscar e que elas nos correspondam. – Ele brincou, tentando avidamente deixar o clima menos tenso e mudar de assunto, para que suas mãos parassem de temer e seu coração parasse de tentar sair pela boca. – Eu só... não gostaria de falar mais sobre isso, tudo bem?
- Desculpa. Eu não queria...
- Não precisa se desculpar. Você não podia imaginar que eu sou uma das provas vivas de que realmente existe amor platônico. Agora, próxima pergunta: o que você faria em um apocalipse zumbi?
- Essa é fácil. Eu iria pra uma fazenda, em um lugar bem deserto, e construiria um muro de uns 5 metros de altura ao redor. Assim, eu estaria protegida e poderia plantar minha própria comida. Mas eu teria umas armas, só pra prevenir.
- Você já pensou em tudo, né? – Ele perguntou, recebendo um aceno orgulhoso em resposta. - Posso ir com você se isso acontecesse?
- Se você fizesse sua parte ... – deu de ombros, mas os cantos da boca se esticavam em um sorriso. - Você diria pra um estranho que ele tem papel higiênico grudado no sapato, algo nos dentes ou qualquer outra coisa embaraçosa?
- Acho que sim. – Ele admitiu antes de sua boca ser tomada por um sorriso travesso. - Aproveitando que você tocou no assunto, sua testa ainda tem um pouco de chantili.
levou uma das mãos imediatamente ao local, encontrando algo com o tom azulado nos dedos. A garota arregalou os olhos e pegou um guardanapo na mesa para se limpar rapidamente. Aquilo fez com que soltasse uma gargalhada ruidosa, atraindo alguns olhares. E ele continuou a gargalhar mesmo quando passou a lhe dar tapas contínuos e leves nos ombros dele, murmurando xingamentos baixinho para que apenas ele ouvisse; mesmo quando ela desistiu de agredi-lo e fechou a cara, os braços cruzados sobre a mesa, a boca tremendo levemente por tentar impedir que o riso escapasse de seus lábios; mesmo quando se juntou a ele, rindo tanto que suas bochechas doíam e o ar faltava em seus pulmões. Até que um casal de velhinhos parou em frente à mesa dos dois, as mãos enrugadas entrelaçadas.
- Você está fazendo isso errado, garoto. – O senhor disse, desapontado, enquanto a senhora confirmava o fato com a cabeça como se fosse algo óbvio.
E, então, eles deram meia volta e saíram pelas portas duplas de vidro, deixando os adolescentes confusos para trás.
- O quê ...? – começou a perguntar, ainda com um sorriso nos lábios.
- Não faço a menor ideia. – Ele disse, rindo, antes de avistar o relógio pendurado na parede a sua frente e, deixando transparecer sua decepção anunciou: - Acho que a gente devia ir.
se assustou ao também vislumbrar o relógio e soltou um suspiro. Era estranho como eles perdiam a noção do tempo quando estavam juntos.
levantou o braço, chamando a atenção de Hazel, que em pouco tempo estava parada perto deles, a conta já em uma das mãos. deu uma olhada no valor e estava prestes a tirar sua carteira da bolsa quando foi interrompida pela garçonete.
- Não precisa, . Foi por conta da casa. – Ela avisou com um sorriso sincero e, quando percebeu que guardava o dinheiro no bolso, disse: - Você paga sua parte, . Tá achando que é o quê?
- Um amigo que sempre te dá boas gorjetas? – Ele perguntou, sorrindo ingenuamente, mas já sabia que sua tentativa não seria bem sucedida.
- Um amigo que vai pagar a conta e me dar uma gorjeta maior porque não tinha comentado que conhecia essa gata. – Hazel apontou para .
- Muito obrigada. Por tudo. – disse, com um sorriso agradecido no rosto, depois de ter passado o dinheiro para Hazel, resmungando divertidamente.
- Não há de que, linda. Me liga se precisar de alguma coisa. – A garçonete falou, entregando-a um guardanapo com uma piscadela e logo se distanciou, caminhando até outra mesa.
Assim que ela se distanciou, observou os números cor de rosa no papel e a marca de batom abaixo deles. Ela sentiu seu rosto corar, arrancando uma gargalhada de antes que os dois entrassem no carro.
A viagem de volta foi repleta de risadas e performances de músicas com vozes desafinadas e piadas internas. Eles queriam que o caminho fosse mais longo, que suas casas fossem em um estado distante para que pudessem continuar a apreciar a companhia um do outro e fazer perguntas sobre o que prefeririam fazer diante de opções horríveis. Contudo, logo estava parando o carro na esquina da casa de , ambos desejando que ela pudesse ficar. E, quando deitaram em suas camas, no conforto de seus quartos, eles ainda tinham sorrisos nos lábios, os acontecimentos do dia passando em suas memórias como as imagens de um filme ao qual nunca cansariam de assistir. Então, em meio aquele mar de boas lembranças, eles adormeceram, os corações leves, preenchidos por um sentimento inexplicavelmente bom.


- , vou dar uma volta! - gritou do andar de baixo, já com uma das mãos na maçaneta.
- Não demora muito. – Ele disse, usando o tom de irmão mais velho responsável, do alto da escada, uma toalha repleta de desenhos de pequenos dinossauros no ombro direito. – Volte antes do jantar.
- Sim, senhor. – A garota falou, batendo continência antes de fechar a porta e ouvindo, do lado de fora, a risada do irmão ecoar pela casa.
Ela caminhou pela rua quase deserta, os braços ao redor do corpo para se proteger do frio.
queria visitar seu cantinho uma última vez antes da excursão do dia seguinte. É claro que ela teve que convencer a deixá-la ir e, depois de muitos pedidos e promessas, acabou conseguindo a assinatura do irmão, o papel com a autorização já entregue para o professor de química.
A menina estava tão ansiosa, que a viajem era praticamente o único assunto sobre o qual conversava com , e . Os quatro passavam o horário do almoço juntos com mais frequência, atraindo olhares com suas gargalhadas ruidosas. Eles já haviam dividido os lanches que levariam para a excursão, decidido os lugares que ocupariam no ônibus e a hora que chegariam no lugar marcado.
Enquanto adentrava a pequena floresta que levava para o lago, sorria largamente ao lembrar de uma das histórias sem pé nem cabeça que contara mais cedo. Era difícil não gargalhar quando ele estava por perto, principalmente quando narrava as aventuras que ele e viveram, uma mais engraçada que a outra e, em todas elas, saia ileso, diferentemente de , que parecia sofrer todas as consequências dos planos idiotas dos dois.
não havia percebido que não estava sozinha até que ouviu o som das vozes que vinham mais adiante. Ela parou seus passos imediatamente, pensando que poderiam ser um dos grupos que apareciam ali às vezes, os mesmos que sujavam o local, com seus pacotes de comida e restos de cigarros e pichavam as árvores com seus sprays de tinta coloridos.
Ela tentou escutar atentamente, mas as vozes pareciam ruídos distantes. sabia que deveria ir embora, evitar quem quer que estivesse ali e voltar depois da viagem. Contudo, sua curiosidade acabou vencendo e a garota caminhou o mais silenciosamente possível em direção ao som, como sempre fazia quando seu pai chegava bêbado no meio da noite. Assim que alcançou a clareira, pôde distinguir duas silhuetas. Um rapaz caminhava ao lado de uma garota de vestido lilás e uma jaqueta fina, fazendo com que se questionasse como ela não estava tremendo de frio da cabeça aos pés.
Para evitar de ser pega bisbilhotando, se escondeu atrás de uma das árvores, observando-os dar voltas pela grama mal cuidada. Até aquele momento, a garota era a única que falava, o rapaz apenas prestava atenção, meneando a cabeça ou sorrindo em resposta. Mas, então, quando ele finalmente se pronunciou, os olhos de se arregalaram ao reconhecer sua voz. Ela apertou os olhos, tentando ver as figuras com mais clareza, torcendo para que estivesse errada, para que estivesse louca por ouvir a voz dele.
Entretanto, logo que avistou o rosto de , uma onda de decepção invadiu seu peito. Não porque ele estava com outra garota, rindo de suas histórias e deixando que ela tocasse seu braço delicadamente, mas porque ele estava ali com alguém, porque estava no lugar que o mostrara naquela noite em que tanto se divertiram, naquela noite em que ela abrira seu coração em meio às lágrimas. Ela se decepcionou, pois havia confiado nele, pois havia pensando que ele entenderia o significado que aquele pequeno espaço tinha para ela.
Tudo que ela conseguia pensar agora, enquanto fitava os dois, com olhos cheios de lágrimas, era que havia sido idiota demais por contar um segredo a alguém que mal conhecia, por acreditar em seu sexto sentido, pensar que ele nunca falharia. teve raiva do garoto naquele momento. Raiva por ele compartilhar aquele lugar com outra pessoa, como se fosse dele, como se fosse ele que passara noites e mais noites naquele mesmo local pensando no rosto de sua falecida mãe, chorando enquanto pedia ao universo que a trouxesse de volta; como se tivesse se sentado ali, com inúmeros livros, tentando decorar os nomes de todas as constelações e das estrelas que as compunham; como se ele tivesse se deitado sobre a grama incontáveis vezes, procurando dentre a imensidão acima de si o ponto de luz que representava sua mãe.
respirou fundo, engolindo as palavras que escalavam sua garganta, tentando se libertar. Ela limpou os rastros que molhavam suas bochechas com a manga de seu velho suéter e se afastou tão silenciosa quanto a lua que iluminava o céu. A garota voltou para casa sem uma pequena parte de seu coração e prometeu a si mesma que escolheria melhor as pessoas a quem confiaria seus segredos, afinal, ela havia acabado de ser lembrada que a decepção tinha um gosto muito amargo.


Capítulo 8


- Okay. Parece que estão todos aqui, pessoal. – Sr. Orwell anunciou, depois de ler pela terceira vez os nomes na lista em suas mãos constantemente trêmulas, fazendo com que algumas pessoas impacientes, como , revirassem os olhos. - Depois de guardarem suas bagagens, podem entrar no ônibus, em fila, por favor. Não demorem muito porque parece que estamos um pouco atrasados em relação ao outro grupo.
- Parece? – sussurrou para que apenas as três pessoas ao seu redor pudessem ouvir. – Eles já saíram há 10 minutos.
- Se você não tivesse dito, eu não teria percebido. – retrucou, o costumeiro tom de implicância presente na voz.
- Não comecem, por favor. – Temendo que os amigos começassem uma briga a qualquer momento, e reprenderam em uníssono. Ela o fitou de soslaio e suspirou de forma exasperada quase inaudível, algo que ela vinha fazendo praticamente toda vez que o rapaz se pronunciava.
- Vamos guardar nossas coisas logo, antes que ele resolva fazer outra chamada. – sugeriu, já pegando a própria mala do chão e se direcionando para o bagageiro, onde os outros alunos se reuniam, colocando suas coisas apressadamente no local, parecendo ter a mesma ideia que a garota.
- Você está se sentindo bem, ? – perguntou enquanto esperavam a fila andar para que entrassem no ônibus.
- Estou. – Ela disse, sem se virar para trás.
- Você está um pouco calada hoje.
- Sono.
- São uma da tarde.
- Não dormi bem. – deu de ombros, ainda sem encará-lo. Ela sabia que o que estava fazendo não era certo, que deveria dar a oportunidade para que se defendesse. agia, naquele momento, como uma das garotas dos livros de romance: fazendo a cena em que a mocinha não se expressa e que, assim, não dá a oportunidade do casal ter um diálogo adulto. Ela odiava eternamente aquilo nos livros e odiava, mais ainda, estar fazendo exatamente isso. Porém, ela não conseguia pensar em nenhuma possibilidade para que estivesse naquele lugar na noite anterior. Ele não merecia um diálogo adulto naquele momento.
- Você tá bem mal mesmo, . – concordou, observando atentamente os olhos cansados da garota. – Parece que está acordada há cinquenta anos. Devia dar uma olhada nisso. Pode ser um sintoma de vampirismo ou do vírus zumbi.
- Se for a segunda opção, não precisa se preocupar. Você não tem o que os zumbis usam pra se alimentar. – disse, na frente do rapaz, fazendo com que o mesmo estreitasse os olhos em desconfiança e os amigos rissem.
- Tá querendo dizer que não tenho cérebro, ?
- Eu? Falando uma coisa dessas sobre você? Imagina! – Ela ironizou, subindo os poucos degraus do veículo.
- Você é tão doce quanto ácido.
- Você sabe o que é ácido? Isso é novidade. – brincou, arrancando um sorriso de que imediatamente se desfez quando ela voltou a carregar o semblante sério, sem que ele percebesse a súbita mudança.
- Eu não sou um acéfalo como essa garota supõe. Me deem um pouco de crédito, por favor. – Ele disse, sentando-se ao lado de , deixando-a surpresa, assim como . Eles haviam combinado os lugares em que sentariam e aquele, definitivamente, não era o lugar de .
- Algo de errado não está certo. sabendo química e falando palavras difíceis? Tem certeza de que não foi abduzido? – comentou, sentando-se no banco da frente, como se o fato do amigo não se sentar com ele não o surpreendesse.
- Engraçadinho você, hein?
- É o que minha mãe sempre diz.
Enquanto os garotos discutiam divertidamente, continuou de pé, olhando para a melhor amiga e implorando-a com os olhos para que empurrasse do banco ou qualquer outra coisa que impedisse que tivesse que passar as próximas três horas sentada ao lado de . Contudo, , ciente do ocorrido, apenas deu de ombros e lançou um sorriso ingênuo, como se nada pudesse fazer para mudar a situação. Ela, diferentemente de , acreditava que podia ter uma boa justificativa e aquela era uma ótima oportunidade para que resolvessem aquele assunto de uma vez, mesmo que aquilo significasse que teria que suportar a companhia de por algum tempo.
Então, relutantemente, sentou-se ao lado de , o mais longe possível, quase na beirada do banco, mas não sem antes lançar um olhar fulminante na direção de . Ela com certeza pagaria pela traição.
Depois de Sr. Orwell ter confiscado as malas à procura de bebidas alcóolicas ou substâncias ilegais e fazer uma última chamada, o motorista finalmente pôde dar partida no ônibus, 22 minutos depois do horário programado, arrancando uma onda de palmas e vivas por parte dos alunos. Logo, o veículo foi preenchido pelo som das conversas animadas, músicas e brincadeiras, como uma típica excursão.
, entretanto, continuou em silêncio, os olhos fixos na estrada à sua frente, as mãos brincando ansiosamente com a barra áspera de sua jaqueta jeans. Ela podia perceber que a observava, o lábio inferior entre os dentes, como se segurasse para não dizer algo. A garota agarrou a bolsa em seu colo, sentindo o peso reconfortante do livro ali dentro e estava prestes a pegá-lo, numa tentativa de distrair-se e evitar o rapaz ao seu lado, quando a interrompeu.
- , você ... – Ele começou, as palavras carregadas de incerteza, mas pareceu mudar de ideia, engolindo em seco antes de colocar um sorriso divertido no rosto. – Você também está achando esses dois estranhamente quietos?
recostou o braço direito no encosto do banco, ao redor dos ombros de , sua perna tocando a dela, e virou-se minimamente para observar os amigos sentados no banco de trás. já dormia como uma pedra, a boca entreaberta e a cabeça a centímetros do ombro de , que ignorava sua presença completamente enquanto lia uma revista de moda, o headphone amarelo impedindo que ouvisse os ruídos que o garoto fazia durante o sono.
- É só manter um deles inconsciente e temos paz? Como nunca pensamos nisso? – brincou, fazendo com que um sorriso teimoso se formasse nos lábios da garota, que também observava os amigos.
- Por que os dois pantasmas estão encarando? – perguntou, assustando-os, os olhos ainda fixos na revista em suas mãos.
- Pantasmas? – repetiu, confuso, fitando em busca de explicação, que deu de ombros, também sem entender o significado da palavra. cada dia aparecia com uma ofensa diferente.
- Idiotas, bobos, tolos. – disse de forma exasperada. – Agora, vão cuidar das suas vidas. Eu sei que sou linda e é difícil não ficar me admirando, mas suas caras de otários me incomodam.
Os dois se viraram, antes que a menina resolvesse arrancar seus olhos com suas longas unhas pintadas de preto.
- Vocês estão todos muito estranhos hoje. Estou começando a achar que eu que fui abduzido e vocês sempre foram assim, mas não lembro porque minha memória foi alterada. – sussurrou de forma conspiratória.
- Talvez. – disse, dando de ombros mais uma vez enquanto tirava seu livro da bolsa e tentava suprimir um sorriso. Ela tinha que admitir que ignorá-lo era uma tarefa complicada, principalmente quando ele tentava fazê-la rir. só esperava não ter que chegar ao nível , implicando com tudo que ele falava e jogando coisas quando ela não sabia o que dizer.
iria fazer um novo comentário, mas acabou desistindo quando percebeu que passeava os olhos pelas palavras impressas do livro em suas mãos. Ele soltou um suspiro decepcionado e pegou o celular e os fones de ouvido em um dos bolsos, colocando uma música qualquer.
Enquanto a voz de Gallagher – vocalista da banda Oasis – atravessava o alto falante dos fones, se pôs a pensar no que estava acontecendo naquele dia. Uma noite mal dormida, fome ou vontade de ir no banheiro era o que normalmente o deixava tão estressado quanto estava naquele instante. Porém, seu subconsciente não acreditava que qualquer um daqueles motivos banais seria a razão para ela estar tão monossilábica e tão impaciente a cada palavra que ele dizia. A culpa era de , estava claro, no entanto, ele não tinha nem ideia do que poderia ter feito para causar tamanha irritação.
A garota lia com interesse crescente o livro e, a cada página, podia perceber que ela adentrava cada vez mais na história. Ele queria confrontá-la, descobrir de uma vez por todas o que acontecera durante aquele pequeno intervalo em que os quatro não se viram. Mas, mesmo estando irritado por não saber o motivo de estar irritada com ele, não tinha coragem de tirar a atenção da garota do livro que parecia estar tão interessante.
Assim que descermos do ônibus. Ele pensou. Vou confrontá-la assim que descermos do ônibus. E, com esse novo objetivo em mente, ele continuou matutando ideias de razões possíveis para a ira da adolescente, tentando se preparar para o que estava por vir. Não demorou muito para que seus olhos começassem a pesar e para que a música não passasse de um plano de fundo, os sons completamente distantes, quase indecifráveis.
Dois minutos após perceber que estava realmente dormindo, guardou o livro novamente. Ela teria que voltar todas as páginas que tentara ler, pois não conseguira prestar atenção em nenhuma palavra sequer. Era como se tudo estivesse nublado em seus pensamentos. Aquilo era tão estranho e tão frustrante! Ela nunca tivera dificuldades de se concentrar em um livro antes em toda sua vida! Como ela podia estar tão brava? Como poderia ter lhe deixado tão decepcionada? Era horrível se sentir assim.
Aquele era o lugar da mãe dela, era o cantinho dela! E ele teve a audácia de ir até lá acompanhado. Acompanhado de uma garota para fazer sabe-se lá o que naquele lugar mágico. Acompanhado com o que mais parecia uma modelo, toda arrumada para o que parecia um encontro! Ele estava mostrando para aquela menina o mesmo lugar que ela mostrara para ele. Será que ele dissera a ela as mesmas palavras que usara para falar do jardim do orfanato? Será que ele fizera as mesmas piadas e brincadeiras que fizeram gargalhar sem parar? Ah! Ela sentia tanta desolação pelo o que fizera com os sentimentos dela!
Não, não com os sentimentos que ela tinha por ele nem nada! Aquilo não tinha nada a ver com o tal ciúmes que insistira em culpar no dia anterior, quando ficou horas e horas no telefone com a amiga, contando o que acontecera. não pôde colocar em tantos detalhes a importância do lugar para ela. A amiga teria um ataque caso descobrisse que mostrara um dos espaços mais importantes de sua vida para e nunca para ela. Portanto, não havia como entender que não era ciúmes. Não tinha nem como ser um pinguinho de ciúme dele. Era só desapontamento pelo o que ele fizera com o lugar mesmo sabendo o quanto ela o amava. Simples assim.
Entretanto, enquanto observava dormir, a cabeça encostada no vidro da janela, um dos fones escapando do ouvido e os olhos levemente entreabertos, se perguntou se podia haver uma pequena parte dentro de si, uma parte pequenininha, que estava realmente enciumada. Ela não queria admitir para si mesma, mas, antes, estava começando a acreditar que havia uma possibilidade de que o que dissera naquela tarde em que se mudara era verdade: de que gostava de . Ele era sempre tão gentil com ela, sempre tentando fazê-la sorrir com comentários bobos e se solicitando para levá-la em casa quando tinha que ficar na escola até tarde para o clube de design.
Mas essa ideia simplesmente desaparecera da mente de quando dissera a ela que estava apaixonado por alguém.
E, agora, ela se questionava se aquela garota com quem ele estava era a mesma que roubara o coração de . Talvez, ele tivesse finalmente tomado coragem para confessar seus sentimentos para ela à medida que caminhavam juntos sob a luz das estrelas. pensava se poderia culpá-lo se aquilo fosse ou não verdade.
E de qualquer forma, independente do que a garota significa para , não podia continuar culpando-o daquele jeito, não é mesmo? Ela nunca havia dito que ele não deveria voltar ali sem ela. Afinal, aquele lugar não pertencia à de fato. Qualquer um poderia entrar se quisesse, já que estava abandonado há tanto tempo. Será que ela deveria agir assim? Sem deixar que ele se explicasse?
Não. Ela não deveria, pois todos são inocentes até que se prove o contrário e decidira que daria uma chance para que pudesse se defender. Ela seria sensata. Ela tinha que ser. Foi assim que sua mãe a criara e ela não iria decepcioná-la.
Então, depois de tomar tal decisão, ela pegou os próprios fones e o celular, uma vez que não estava no clima para leitura, e acabou se deparando com uma foto que havia enviado. Ele e Will estavam sentados no chão da sala de estar, sob o tapete felpudo, escorados no sofá e com um balde enorme de pipoca entre eles; o pequeno sorria, os dentes sujos de chocolate e os olhos alegres; o mais velho segurava uma garrafa de coca em uma das mãos como um troféu. tinha certeza que os dois estavam assistindo a Como Treinar Seu Dragão pela milésima vez e sorriu com aquele pensamento, mandando uma mensagem dizendo que sentia falta dos seus garotinhos antes de fechar os olhos e dormir.

Os quatro, assim como alguns outros alunos que haviam resolvido tirar um cochilo, acordaram com o som agudo do apito do Sr. Orwell. O porquê de o professor de química carregar um apito para todos os lados ainda era um mistério que ninguém estava disposto a tentar resolver.
- Acorda, galera! – A voz animada do Sr. Orwell ecoou pelo ônibus e, apesar de ser vaiado por algumas pessoas, continuou com o mesmo sorriso entusiasmado. – Vocês já podem descer e pegar suas bagagens. Mas sem bagunça, por favor.
- Só porque eu tinha acabado de pegar no sono. – sussurrou, esfregando os olhos com as costas das mãos à medida que se levantava, ainda meio grogue, para seguir as ordens do professor.
- Só se for no décimo quinto sono, né? Por que você já estava roncando dois minutos depois de entrar no ônibus. – guardou suas coisas na pequena bolsa e seguiu o menino pelo corredor estreito, e logo atrás.
- O que quer que você tenha deve estar se espalhando. Parece que a última vez que dormi foi na semana passada. – brincou, fazendo uma careta ao levar as mãos para a frente do rosto, na tentativa de bloquear os raios do sol que o atingiram quando desceu do veículo – Ai, meu Deus! O sol! Me diga que eu estou brilhando, por favor! A outra opção seria queimar e eu não tô afim de virar churrasco hoje!
Alguns dos colegas que estavam por perto riram de mais uma das gracinhas típicas de . , por sua vez, gargalhou e empurrou levemente o ombro do rapaz, que a encarou com olhos arregalados de falso terror.
- Tire suas garras nojentas da minha pele brilhante, Criatura! – Ele falou, afastando-se alguns passos da garota. – Por enquanto, tenho só alguns sintomas, mas não quero arriscar ficar com olheiras tão horrendas quanto as suas.
Os cantos dos lábios de formaram um sorriso malicioso antes que ela abraçasse , seus braços ao redor dos dele para impedir que ele pudesse movimentá-los, como fazia com Will quando ele fingia ficar emburrado.
- ! ! Por favor, deem um jeito de controlar essa garota. – suplicou entre risadas.
- Quem sou eu para controlar uma mulher, cara? – disse com um sorriso divertido.
- Nós não podemos ser controladas. – argumentou, sendo apoiada por e que menearam a cabeça em concordância.
- Tá bem! Não precisam controlar ninguém, só tirem ela daqui.
- Pode ficar tranquilo, . – disse, beijando a bochecha do menino antes de soltá-lo. – Já garanti que "o que quer que eu tenha" passe pra você.
limpou o rosto com a manga da blusa, fingindo nojo. O sorriso que brincava em seus lábios, no entanto, se desfez quando lhe deu um tapa em sua cabeça.
- Tira os olhos. – sussurrou e, depois de gargalhar da cara do amigo, seguiu as garotas que já se aproximavam do grupo de alunos que se amontoava para pegar seus pertences.
Logo, todos estavam com as malas nas mãos, esperando as instruções do Sr. Orwell. O professor inspirou o ar fresco da natureza que os rodeava e, com os mesmos cabelos bagunçados de sempre e um sorriso ansioso, ele os guiou pela floresta, como se soubesse o caminho de cor.
- E aí? Vocês conversaram? – murmurou para à medida que Sr. Orwell tagarelava sobre as plantas que encontravam pela trilha que percorriam.
- Não. – Ela respondeu, evitando encarar a melhor amiga.
As duas estavam no fim da fila, seguindo a turma a passos lentos, cuidando para que não tropeçassem nos galhos espalhados pelo chão enquanto e iam mais à frente, gargalhando de algo que um dos colegas do time de futebol dissera.
- Como assim não? – questionou, sua voz saindo mais alta do que pretendia, atraindo a atenção de algumas pessoas. Depois de bufar quando não respondera, tentou expressar sua raiva o mais baixo possível, para que apenas a amiga pudesse ouvir dessa vez. – Eu não acredito que passei 3 horas e 13 minutos ao lado daquele babaca para você não ter conversado com o .
- Eu não pedi para você fazer isso.
- , você está agindo com uma ...
- Idiota. Eu sei.
- Eu ia dizer criancinha birrenta, mas idiota também serve. – brincou, observando com o canto dos olhos a amiga sorrir.
- Eu vou conversar com ele, tá bem? Agora, segura isso direito, por favor. – Ela apontou com a cabeça para a mala que continha os equipamentos da barraca que as duas dividiriam.
suspirou e firmou a mão esquerda sob a bagagem, aliviando o peso que carregava, até então, praticamente sozinha.
- Desculpa. Eu estava pensando qual seria a probabilidade de o Carter montar a barraca dele em cima de um formigueiro e acabei me distraindo ao imaginar o som dos gritos que ele daria quando acordasse com o corpo coberto por formigas vermelhas.
- Você me dá medo às vezes, sabia? – falou, recebendo um dar de ombros e um sorriso inocente de em resposta.
- Isso tudo faz parte das regras que devemos seguir. O artigo terceiro diz para sempre deixar claro à sua amiga que você é assustadora para que, assim, ela nunca te largue por outra pessoa qualquer. Só estou seguindo o que mandaram, bebê.
- Vou fingir que não foi você que acabou de criar isso, porque não sei se é fofo ou ainda mais assustador do que as coisas que você diz normalmente.
- Você deveria estar acostumada com a reação que causo. Ainda não percebeu que sou uma bela bagunça de contradições? Praticamente um paradoxo.
- Sei disso desde o dia em que nos conhecemos. Você quase arrancou meu cabelo e depois me abraçou, perguntando se eu queria ser sua melhor amiga. Confesso que só aceitei porque fiquei com medo do que você faria se eu dissesse não.
- Uma prova de que as regras funcionam.
riu e puxou o celular para ver se tinha área no local, porém, infelizmente, tudo o que o celular indicava era que estava sem serviço. Suspirando resignadamente, ela o guardou de volta no bolso e voltou a observar o cenário ao redor, as enormes árvores se estendendo quase que infinitamente em direção ao céu ainda azulado.
- Tá esperando uma mensagem do meu mozão? – perguntou, fazendo com que formasse uma careta engraçada por ter sido mencionado daquela forma.
- Eu que tinha que mandar uma para ele, avisando que já cheguei. Ele vai ficar louco se não tiver notícias.
- A gente dá um jeito. Não quero que meu gatinho tenha um piripaque antes de termos nos beijado pela primeira vez.
- Não sei como isso ainda não aconteceu. Outro dia, o comentou que você está cada vez mais bonita e o Will não parou de zoar desde então.
- Ah! É por isso que quando ele abriu a porta pra mim hoje, chamou o ao invés de você? – perguntou e, depois de ver a amiga confirmar com a cabeça, sorriu abertamente. – Para de me fazer criar falsas esperanças, .
- Só estou fazendo um comentário inocente. Não estou dizendo que ele vai te pedir em casamento. – Ela disse, levando a mão livre até o queixo. - Se bem que acho que semana passada vi uma caixinha vermelha em cima da escrivaninha dele.
Aquela foi a vez de gargalhar. Ela amava como nada era estranho com elas. era a pessoa para quem contou todos seus segredos, a pessoa que sabia quando havia algo de errado sem precisar fazer nenhuma pergunta, a pessoa para quem ela ligaria, no meio da noite, se precisasse de ajuda para esconder um corpo. E sabia que também era a pessoa de . Aquelas duas haviam deixado de ser melhores amigas há muito tempo. Elas eram irmãs não biológicas, irmãs de alma e coração. Eram as duas contra o mundo, parceiras de crime, juntas até o fim.
- O que eu seria sem você? – disse e um sorriso divertido se espalhou pelo rosto de .
- Normal, provavelmente.
- Normal é chato. Ser esquisita é muito mais divertido. – confessou, arrancando uma risada da menina ao seu lado.
Elas continuaram a caminhada, implicando uma com a outra como sempre faziam, como sempre fariam, e em pouco tempo chegaram no local destinado para o acampamento: uma enorme clareira, quase que um círculo perfeito cercado por muros de árvores, a grama verde-amarela iluminada pelos resquícios da luz solar.
Os alunos logo se dispersaram, concentrados em preparar suas barracas enquanto a noite não chegava. Os dedos ágeis seguiam as instruções que os colegas liam atentamente, forrando os lugares escolhidos com lonas, conectando as hastes umas nas outras, encaixando-as no nylon leve e prendendo as barracas no chão com as estacas de metal, prevenindo que algum vento forte as deslocasse.
Em menos de uma hora, eles terminaram o trabalho, as várias barracas dispostas de acordo com o formato circular da clareira, o centro do local ainda com espaço suficiente para que todos pudessem colocar seus sacos de dormir mais tarde para observar as estrelas cadentes cortarem o céu.
saiu da barraca recém montada, depois de deixar sua bolsa em um dos cantos, e foi recebia pelo toque frio do vento que penetrava suas roupas, fazendo com que seus pelos se arrepiassem momentaneamente. Ela cruzou os braços sobre o peito, as mãos subindo e descendo sobre a blusa grossa na tentativa de se aquecer.
A garota correu os olhos pela clareira à procura da melhor amiga enquanto sentia o perfume da natureza abraçá-la. tinha dito que pegaria uma corda emprestada para que pudessem amarrar a última estaca, mas já estava desaparecida há mais tempo que o necessário.
se perguntava se estava dando um jeito de colocar algo nojento ou letal na barraca de Carter, como havia sugerido antes, quando percebeu que estava parado ao seu lado, os olhos fixos em um ponto à cima do topo das árvores.
- Sentindo frio? O vento começou a ficar um pouco forte. – A voz do rapaz do rapaz soou, quase se misturando com o som do rufar das folhas ao redor.
- É verdade. Mas eu gosto desse tempo fresco. É mais aconchegante. - confessou, tentando ao máximo não ser passivo-agressiva, da forma como estava mais cedo. Era difícil refrear sua raiva, mas a garota sabia que devia fazê-lo.
- , - começou, ainda receoso. - Eu queria saber se fiz alguma...
- Muito bem, meus queridos adolescentes! – Sr. Orwell chamou a atenção da turma, interrompendo a fala de . - Vocês foram extremamente rápidos! Vejo que estão todos animados para as próximas horas.
Toda a turma escutava o que o professor dizia e, percebendo isso, ele continuou:
- No entanto, ainda precisamos montar a fogueira, então, precisarei de alguns voluntários para buscar a lenha a ser queimada. Quem está disposto? Precisaremos de, no mínimo, seis.
Algumas poucas pessoas levantaram as mãos se voluntariando, enquanto outras já retornavam para a barraca ou andavam em círculos com o celular no alto, procurando sinal para poderem utilizar a internet.
ainda não estava pronta para conversar com . Ela sentia, bem no fundo do coração, um incomodo: o medo de perder a amizade que eles podiam construir juntos. Ela estava com raiva dele, mas não estava pronta para brigar com o rapaz. Porém, sabia que, dependendo da conversa de hoje, havia a possibilidade de ela não conseguir mais confiar nele, o que destruiria qualquer chance de ter uma amizade verdadeira e forte com aquele menino tão divertido, o qual ela estava adorando conhecer mais profundamente. Portanto, sem pensar muito sobre os medos prováveis que sentiria naquela floresta desconhecida, se voluntariou, como a covarde que era, para fugir da conversa que não queria ter.
Contudo, na sua pressa para se ver livre do rapaz, não previu que ele levantaria o braço, chamando a atenção do professor para indicar que também se voluntariaria. Ela teve que se segurar para não dar um tapa na própria testa por não ter pensando naquela possibilidade.
Suspirando profundamente, a garota voltou a sua barraca para pegar um suéter extra antes de se juntar aos voluntários, que escutavam os novos comandos do professor.
- Muito bem. Vou acompanhar metade do grupo e a Sra. Blossom a outra, para ter certeza de que ninguém vai se perder. – Sr. Orwell avisou, apontado para a professora de astrologia, que se encontrava ao seu lado. – Fiquem próximos uns dos outros e não tentem escapar para se aventurar sozinhos por aí.
O professor separou os alunos em duas filas. E, como já esperava, era do seu grupo, uma vez que o universo parecia ter tirado o dia para brincar com a cara da garota.
Ela seguiu a Sra. Blossom para dentro da floresta, com em seu encalço, enquanto Sr. Orwell liderava os demais para o lado oposto e os outros dois professores permaneciam na clareira para vigiar os alunos restantes.
No seu grupo, havia por volta de 7 alunos e todos, exceto ela, encontravam-se animados para aquela aventura na floresta. A professora seguia em frente, com passadas largas, sem se preocupar em conferir se os alunos a acompanhavam, e acabou ficando mais para trás, esquecendo-se um pouco das companhias ao seu redor e prestando atenção na floresta e em todos os pequenos detalhes que ela escondia em seu interior.
, no fim da fila, caminhava vagarosamente, a poucos metros da garota. Ele notara que não tinha a intenção de conversar naquele momento. Ele queria muito dar espaço, permitir que ela começasse a explicar o que estava acontecendo quando bem entendesse, porém, ele não aguentava – seu coração não aguentava – a ideia de que ela estivesse brava com ele por algo que ele nem mesmo sabia que tinha feito.
Os pés do rapaz esmagavam as frágeis folhas alaranjadas que cobriam a trilha enquanto ele vasculhava mais uma vez a tempestade de pensamentos em sua mente à procura de um provável motivo para que se distanciasse tão de repente. Será que uma ação involuntária, um comentário idiota ou qualquer coisa do tipo iria destruir a amizade que estava sendo construída? O destino seria tão sacana assim de deixá-lo chegar tão próximo dela para logo depois tirá-la de sua vida sem nem mesmo explicar o porquê?
O adolescente respirava fundo, resignado, observando a garota à sua frente, como se, ao observar os fios de cabelo de se movendo de acordo com a brisa suave de outono, seu cérebro fosse começar a funcionar e ele se lembraria do motivo para tudo aquilo. No entanto, o efeito foi o contrário do planejado, pois vê-la caminhar, a alguns passos de distância, apenas ajudou a deixar bem claro que ele nunca a alcançaria. A menina dos seus sonhos estaria com ele apenas naquele lugar: nos seus sonhos.
Foi exatamente naquele momento que um barulho o despertou de seus devaneios. Ele cessou seus passos e olhou ao redor, buscando a fonte do som. Daquela vez, junto ao estalar de gravetos, também pôde perceber o choro de agonia, tão baixo que era quase inaudível, e, por um instante, o rapaz pensou que fosse apenas o assobio do vento. Contudo, o ruído se repetiu, um pouco mais alto que antes e ele teve certeza de que sua cabeça não estava inventando coisas.
O barulho parecia ter chamado apenas a sua atenção. Sua curiosidade, grande como era, o instigava a descobrir a origem daquele choramingo.
- . – sussurrou, chamando a atenção da menina, que se virou relutantemente para ele. – Você está ouvindo isso?
Ela tombou a cabeça para o lado, em dúvida, procurando por algum som diferente das conversas indecifráveis dos adolescentes mais adiante. A garota não ouvia nada diferente e já estava prestes a perguntar se estava ficando louco quando um pio de agonia preencheu seus ouvidos. Seus olhos se arregalaram instantaneamente e ela se virou para , que, entendendo que não era o único a escutar, começou a fazer o caminho da origem do som - que era muito similar ao de um pássaro.
- Espera! – disse, impedindo que o rapaz continuasse. Apesar de quer correr para ajudar o que quer que estivesse sofrendo daquela forma, ela lançou um olhar para as pessoas que, agora, encontravam-se abaixadas à procura de algo que pudessem usar para montar uma fogueira mais tarde, completamente alheias ao fato de que e não estavam entre elas. - Você não acha melhor avisarmos a professora antes?
olhou para a adolescente e virou-se para a professora que já estava há vários de metros de distância deles. Todas as pessoas estavam procurando lenha naquele local, por isso, era muito improvável que eles fossem mais rápidos encontrando vários pedaços de madeira do que seria ao ir ver o que poderia fazer para ajudar o animal em sofrimento. Ir falar com a professora iria apenas atrasá-lo. Não tinha perigo. Ele seria rápido e, apenas caso precisasse de ajuda, ele falaria com a responsável. Ele estava decidido.
- Não vou demorar, . - pontuou. - Se quiser ficar aqui, pode ficar. Não vou gastar mais do que dois minutos para ajudá-lo. - Ele piscou para ela, que suspirou profundamente.
Por mais que seu cérebro gritasse para que ela continuasse ali, perto da única pessoa que sabia o caminho de volta, meneou a cabeça afirmativamente antes de seguir o garoto que a fitava com olhos ansiosos.

tinha razão. Os dois não precisaram caminhar muito para chegar ao local e também não demoraram para encontrar o pássaro azul em meio às folhas mortas, uma das asas presa sob uma pedra. A pequena ave parecia estar em seus primeiros meses de vida e o choro de dor era uma tortura para os ouvidos dos adolescentes, que estudavam como agir diante da situação.
olhou por sobre seus ombros estreitos para conferir se ainda conseguia enxergar ao menos um dos integrantes da turma, no intuito de não se perder dos colegas. Eles estavam ao longe, mas seria fácil acompanhá-los se fossem rápidos o bastante e, além disso, a voz alta dos garotos seria suficiente para que os dois os encontrassem com facilidade caso se atrasassem um pouco mais do que imaginavam.
A pequena divagação de durou menos de 10 segundos e, quando ela finalmente retornou o olhar ao pássaro para tentar soltá-lo e avaliar seus machucados, levou um leve susto. já estava com o pequenino nas mãos, avaliando a asinha do pobre pássaro com cuidado, apreensão e, acima de tudo, com um carinho enorme.
A garota observava, admirada, a atenção que o rapaz dedicava ao animal. O rosto dele parecia ter se transformado e, ali, parado diante dela, havia um novo . Ela pensara que já tinha o visto com aquele olhar antes, mas não conseguia se lembrar da ocasião. Era muito parecido com a ternura que ela percebera nos olhos dele enquanto ele tocava no violão as melodias que havia composto em seu caderno secreto. Contudo, tinha certeza de que não era exatamente o mesmo sentimento. Era algo bem mais intenso. Algo que fazia com que o estômago da garota se revirasse dentro de seu corpo de uma forma nada familiar.
murmurava palavras de encorajamento para o pássaro, acariciando suas penas azuladas cuidadosamente com um dos dedos e foi assistindo àquela cena que se lembrou de quando ela tinha visto aquele olhar doce. Havia sido em exatamente duas situações: enquanto brincava com Crystal na sala de estar de sua casa e, também, quando ele a viu sentada na arquibancada, assistindo ao jogo ao qual ele havia a convidado a ir.
Outra vez, o seu estômago fez aquele movimento estranho. Era bem parecido com o que sentia quando estava na montanha russa, na descida mais íngreme. Era uma junção de pavor e êxtase. Algo que ela não tinha ideia de como explicar.
estava acabando de avaliar o pequeno animal quando saiu do seu torpor e se agachou ao seu lado para ajudá-lo. Apesar de choramingar com tanto afinco, a ave não parecia estar machucada. Toda aquela agonia devia ter sido pelo desespero de ser privado de sua liberdade.
Os dois analisaram o membro, anteriormente preso sob a pedra, que, agora, se mexia com naturalidade. Eles sorriam com a inquietação do pássaro e suspiraram, aliviados, quando soltou o pequeno amontoado de penas e ele começou a voar rumo ao céu azul infinito.
- Que sorte que ele não se feriu. - O garoto disse, coçando a nuca, um ato involuntário que sempre praticava quando se sentia desconfortável.
- Muita sorte. - Ela concordou, ainda tentando entender o que estava acontecendo com seu corpo.
Os lábios do rapaz se curvaram em um sorriso enquanto ele ainda tentava seguir o ponto minúsculo que flutuava para longe. A alegria que pulsava no peito de era genuína. Ele não conseguia acreditar que tinha acabado de salvar uma pequenina – e tão importante quanto qualquer outra – vida.
Ele suspirou novamente e colocou as mãos nos bolsos aconchegantes da blusa de frio, voltando os olhos para a garota ao seu lado.
- Vamos voltar?
- Claro. - piscou rapidamente, livrando-se dos pensamentos que lhe atormentavam.
Ambos voltaram, sem dizerem mais nenhuma palavra, para a trilha que os colegas de turma estavam seguindo. No entanto, ao chegarem lá, não havia ninguém além deles. Nem mesmo o burburinho de vozes adolescente podia ser ouvido.
- Cadê todo mundo? - questionou, como se pudesse responder àquilo. Eles não tinham demorado nem 5 minutos. Não era possível que a turma tivesse desaparecido de vista tão rápido.
- Meu Deus! - Foi a única coisa que conseguiu dizer antes de começar a suar frio e perder um pouco o fôlego. - Se acalma. - Ela disse baixinho enquanto respirava fundo para não tontear. - Se acalma!
- Eu estou calmo, . – O garoto afirmou. Ele não estava nem um pouco preocupado, pois sabia que eles conseguiriam encontrar o caminho de volta sem problemas. Ele sempre tivera um sentido de direção muito bom. ficava nervoso frequentemente por saber que caminho era o melhor a seguir nos jogos de vídeo game e não contar para ele, sempre deixando o amigo para trás para morrer nas armadilhas.
- Eu não estou falando com você, caramba! - Ela engoliu em seco. - Eu tenho um pequeno problema chamado fobia-de-me-perder.
Desde pequena, ela tinha aquele medo petrificante. Aquele era o principal motivo para ela ter sido tão relutante em seguir o rapaz floresta a dentro antes. O medo de se perder fazia coisas com seu corpo que a deixava sem ação: seu coração começava a disparar de uma maneira ruim, sua mão suava, sua boca secava e sua respiração passava a ser extremamente curta. Era terrível. Parecia que ela ia desmaiar, ou ter um ataque, ou morrer.
Não era nada parecido com a sensação que ela tivera há poucos minutos. A sensação anterior dava um pouco de medo sim, mas era um medo gostoso, uma ansiedade fraca. O que ela sentia agora era puro pavor. Um pânico que a fazia encher os olhos de lágrima e a impulsionava a falar sem parar e sem raciocinar antes que as palavras deixassem sua boca.
arqueou a sobrancelha, sem saber como proceder em uma situação daquelas. Claro que era normal sentir medo de se perder, mas estava quase tendo um ataque epilético em sua frente naquele momento. O pavor dela o encheu de medo. Não de estar perdido – como ela sentia -, mas pavor de ser incapaz de ajudá-la a não sentir aquilo.
- . - Ele disse com o olhar preocupado. - Respira fundo. Eu sei como voltar pro acampamento.
Assim que ele disse aquelas palavras, o alívio se tornou evidente no olhar da garota, porém, ela ainda tinha um pouco de preocupação no fundo dos olhos. E se eles tentassem voltar e se perdessem mais ainda? Ao menos ali eles tinham a oportunidade de serem encontrados por alguém.
- É melhor a gente esperar a professora voltar. - Ela sugeriu, mais confiante. Era a melhor alternativa. - Eles não passaram pela gente ainda e essa é a única trilha por onde eles devem retornar. É mais seguro.
- Você não confia em mim? - Era a pergunta errada. Se ele tivesse questionado aquilo 24 horas atrás, ela diria que sim. Sem pestanejar. No entanto, desde que o vira com aquela menina no seu lugar especial, ela não sabia se conseguia nutrir esse sentimento por ele novamente. - Eu sei como chegar lá e, além do mais, quem nos garante que eles não irão pegar um outro caminho? É melhor voltarmos do que ficarmos esperando ou do que tentar segui-los e nos perder. Pode confiar, . Só temos que seguir a trilha de novo. Eu prometo. Não precisa ficar com medo.
respirou fundo, os olhos correndo pela vegetação à sua volta enquanto sua mente se tornava um campo de batalha, as opções se digladiando para descobrir qual seria a vencedora. Eles deveriam ficar e esperar ou se arriscar e tentar voltar sozinhos?
Seu coração dizia para ficarem ali. Era menos perigoso para seus medos se eles não adentrassem aquele mar de árvores. Entretanto, seu cérebro tentava racionalizar tudo com calma. Estava prestes a anoitecer e o ar se tornava cada vez mais frio, condensando suas respirações. Se continuassem onde estavam, iriam tremer dentro de suas roupas o resto da noite, sem terem o que comer ou uma melhor forma de se aquecerem.
Mesmo querendo muito, ainda não conseguira tirar o sentimento gostoso de amizade que sentia por de dentro de si. Ela queria ter perdido totalmente a confiança nele, porém, não achava possível que seu sexto sentido em relação às pessoas seria tão idiota a ponto de escolher logo alguém tão pouco digno de seus sentimentos. Ela, infelizmente, ainda acreditava que ele não prometeria algo que não cumpriria e os argumentos do garoto, naquele momento, realmente eram muito racionais.
estava sendo obrigada, por seu próprio cérebro, a confiar no garoto mais uma vez. Ela não tinha escolha. Teriam que voltar. Então, enfrentando todos seus medos, ela endireitou a coluna – numa tentativa de ajudar um pouco na coragem que tentava nutrir dentro de si – e, olhado pra , acenou afirmativamente a cabeça, seguindo-o pelo caminho que antes era tão maravilhoso e que, agora, se tornara completamente horripilante.

O relógio interno de dizia que eles já estavam tentando voltar à clareira há horas a fio, mas o céu e a velocidade com que caminhavam indicavam a ela que havia passado muito menos de meia hora. Isso, aliado ao fato de que parecia fazer com que andassem em círculos, estava deixando a garota cada vez mais irritada.
- Eu não acredito que eu concordei em vir com você. – disse com um suspiro. - Eu sabia que ficaríamos perdidos.
- Nós não estamos perdidos, ok? – Ele respondeu prontamente, virando-se para encarar a menina atrás de si. - Eu só estou observando a paisagem.
- Se você observar a paisagem por mais um segundo, eu juro que vou te matar.
- Eu já posso ver as manchetes: garota mata amigo após ficarem perdidos na floresta.
- Então... você está admitindo que nós estamos perdidos? – Ela questionou, uma das sobrancelhas levantas e os braços cruzados na frente do corpo.
O rapaz revirou os olhos e jogou as mãos para o alto, em sinal de rendição.
- Tá bem! Eu confesso! Estamos perdidos. – Ele admitiu aquilo que já sabia há algum tempo, recebendo um olhar raivoso de e, se a garota tivesse visão a laser, com toda certeza já teria virado pó.
- Você disse que era só seguir a trilha!
- Eu não sabia que ela não continuava até a clareira!
- Devia ter pensando nisso antes de sugerir que aventurássemos por uma floresta desconhecida ao anoitecer! – murmurou, o tom de sua voz mais alto que o normal.
notou as mãos trêmulas da garota e se aproximou, entrelaçando os dedos finos e frios dela nos seus. Ele sabia que estava ansiosa, porque ela já havia roído praticamente todas as unhas e um corte havia surgido no seu lábio inferior por mordê-lo diversas vezes. Ele sabia disso, pois havia decorado as pequenas ações que ela praticava de acordo com o que sentia. Mas nunca havia visto daquela forma: os olhos arregalados vagando por todos os lados, as mãos tremendo constantemente e os pés inquietos.
- . – sussurrou, observando-a com carinho. – Nós vamos conseguir. Só precisamos seguir essa direção. – Ele apontou para frente com a mão livre. – Eu coloquei a gente nessa e prometo que vou nos tirar daqui.
A garota fechou os olhos e respirou fundo, tentando controlar toda aquela bagunça que só parecia crescer dentro de si. odiava se sentir assim, tão impotente e aterrorizada. Ela queria poder fazer com que todo aquele medo fosse embora e simplesmente pudesse seguir por qualquer que fosse o caminho que ele pensava que os levaria de volta para o acampamento em segurança. Contudo, algo impedia que seus pés se movessem, que sua boca abrisse para pronunciar alguma palavra.
E, então, ela não estava mais ali, não sentia os dedos de envolvendo os seus ou o vento frio tocando sua pele. Ela apenas ouvia a própria voz, gritando por socorro, gritando por sua mãe, enquanto seus olhos procuravam por uma saída daquele labirinto infinito de árvores. De repente, era uma garotinha mais uma vez, perdida, aflita, sem saber como fazer para se sentir segura novamente.
sabia que não era real. Sabia que não estava sozinha como daquela vez que se perdera, pouco menos de 12 anos atrás. Ela tinha alguém consigo. Alguém que poderia ajudá-la. No entanto, mesmo que seu subconsciente insistisse em mostrá-la a verdade, tudo que conseguia pensar era no medo. Na vontade de encontrar sua mãe para que, assim, ela pudesse voltar para o conforto e segurança de sua casa.
A garota não conseguia mais separar o medo da realidade e o pânico tomou conta de todo seu ser, inclusive de sua voz e, sem mesmo sem se dar conta, ela começou a berrar a plenos pulmões. A respiração não era algo que ela era capaz de controlar. A tremura de suas pernas fazia com que ela quase caísse no chão, porém, algo a impedia de atingir a terra dura abaixo de si. Ela sabia o que a ajudava a permanecer de pé. Eram mãos fortes. Mãos que ela conhecia. Mas seu cérebro não conseguia se lembrar a quem pertenciam.
Seu grito estava se esgotando, perdendo-se na vastidão ao seu redor, e, no fundo de sua mente, ela escutava uma voz. Uma voz pedindo-a para se acalmar. Dizendo que eles iriam ficar bem. Mas era a voz errada. Era uma masculina e não a feminina que, há muito ela ansiava escutar. A mesma voz suave que dizia que a amava todas as manhãs e todas as noites até que, um dia, se calou para sempre.
Seus olhos arregalados não viam nada. Não viam os olhos espantados do rapaz à sua frente. Não viam o desespero expressado na testa enrugada do adolescente. Não enxergava como procurava até na mais profunda parte do seu cérebro por algo que pudesse fazer par ajudar a menina naquele momento.
O garoto tremia, apressando-se ao máximo para lembrar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, mas nada vinha a sua mente. Ele sabia que tinha que continuar a falar calmamente com ela, porém, aquilo não estava adianto em nada. Era como se ela nem mesmo o percebesse.
se estressava com a lerdeza de sua mente e se perguntava: o que seria bom que alguém fizesse se ele estivesse naquela situação? Qual era a única coisa que podia o tirar daquele torpor? Ele precisava tirar o foco do problema. Como ele faria aquilo quando estavam perdidos, no meio do nada e não havia absolutamente nenhuma coisa ali que tiraria a atenção da garota daquele fato?
A não ser...
Ele não pensou muito.
Num piscar de olhos, seus planos deram lugar a uma ação.
E, então, ele encostou, levemente, seus lábios nos dela.


Capítulo 9


Era estranho o fato de finalmente fazer aquilo que tanto desejou de uma forma tão inusitada. Ele nunca pensou que seu primeiro beijo com a menina dos seus sonhos fosse acontecer enquanto ela tinha um ataque de pânico e eles estivessem perdidos em uma floresta de dar arrepios. Porém, quando se trava de , nada saia como o esperado e tinha que agir por impulso, como se tivesse criado uma peça de teatro, decorado todas as falas de todos os personagens, mas, na hora, simplesmente se esquecesse de tudo e tivesse que improvisar.
Ao mesmo tempo em que era desesperador quando isso acontecia, eram nesses momentos em que ele podia expressar um pouquinho do que sentia por ela sem ser impedido pelo medo. E, naquele instante, ele aproveitava o resultado de seu ato espontâneo, o labirinto de árvores que rodeava os dois adolescentes parecendo prender a respiração enquanto guardava em sua memória a textura dos lábios de e a sensação de completude ao tê-la em seus braços.
Apesar de querer que aquilo se perdurasse por toda a eternidade, afastou, relutantemente, seus lábios dos de . O rapaz encostou sua testa na dela, ainda de olhos fechados, uma de suas mãos acariciando a pele macia da bochecha da garota à medida que ele tentava controlar sua respiração desregulada. O coração de batia tão rápido e alto em seu peito que ele temia que, se houvesse vida em Júpiter, até eles seriam capazes de escutar.
- Por quê? - sussurrou simplesmente, por mais que aquele fosse apenas o início de inúmeras outras perguntas que turbilhavam sua mente: "por que meu estômago parece ter sido jogado nas profundezas geladas de um oceano? Por que eu estou decepcionada por ter parado?"
Ao ouvir a voz de , o rapaz se afastou alguns passos, ainda que todos os átomos de seu corpo gritassem em protesto. tentava se lembrar de que aquilo não era um sonho, mas, como em todos eles, o momento que tanto ansiava havia chegado ao fim. Ele passou a mão direita pela nuca, a mesma que, há alguns segundos, segurava o rosto da garota que amava, e esforçou-se para que a verdade não fugisse de sua boca: "porque eu fiquei desesperado ao te ver tão angustiada; porque é a primeira coisa que quero fazer sempre que te vejo; porque eu te amo".
Mas ele não estava pronto para confessar tudo aquilo. Ainda não era a hora certa.
- Eu ouvi em algum lugar que, quando alguém tem um ataque de pânico, é importante tentar reduzir a ansiedade da pessoa. - Ele respondeu prontamente, surpreendendo a si mesmo. - Como você não ouvia o que eu dizia e eu não sabia como te tirar daqui, pensei que, se fizesse algo que te distraísse, você voltaria ao normal. Aquilo foi a primeira coisa que veio na minha mente.
meneou a cabeça, abraçando-se para se proteger do vento frio, os olhos grudados nos próprios pés. Era claro que teria uma explicação lógica para ter lhe beijado. Ele amava outra pessoa.
- Me desculpa. Eu não deveria ter feito isso sem a sua permissão. - Ele admitiu, percebendo o desconforto da garota. - Eu não queria me aproveitar de você ou qualquer coisa do tipo. É que você estava desesperada, o que me deixou desesperado. Eu só queria encontrar um jeito de fazer com que tudo aquilo parasse. Por favor, me desculpa.
- Tá tudo bem, . - garantiu, aproximando-se do garoto que se mantinha distante, com medo de ter ultrapassado todos os limites. Então, ela tocou o braço dele, observando os olhos preocupados de , e sorriu aquele sorriso que sempre fazia com que o coração do rapaz errasse uma batida. - Aposto que deve estar achando que é uma espécie de príncipe encantado que salvou uma donzela indefesa de uma maldição com um beijo. - Ela brincou, arrancando uma gargalhada de . - Obrigada por ter me ajudado, mas vamos deixar algo bem claro: não sou uma princesa que precisa ser salva. Eu consigo me virar sozinha 99% das vezes. Meu amigo até me ensinou como socar alguém.
- Não duvido disso por um minuto sequer. - Ele falou, sorrindo de lado. - Você é uma princesa durona, que espanca as pessoas ao ser contrariada, se aventura em terrenos abandonados durante a noite e não tem medo de nada, nem mesmo de bonecas.
- Você me conhece tão bem, . Estou até pensando em te arrumar um trabalho no meu palácio. O que você acha de bobo da corte?
gargalhou, tanto que ficou sem ar por um momento e, quando recuperou o fôlego, olhou para a menina parada à sua frente, que o encarava com um sorriso divertido nos lábios, esperando a resposta.
- Eu faria qualquer coisa por você, princesa. - Ele confessou.
- Qualquer coisa? - disse, vendo-o concordar com a cabeça. - Então me carrega, por favor? Meu pés estão me matando e eu não quero sujar de sangue meus sapatos de cristal.
- Acho que você tá levando essa brincadeira muito a sério, . - implicou, sem conseguir impedir que um sorriso tomasse seu rosto e recebendo um dar de ombros por parte da garota. Ele se virou de costas pra ela e, por cima dos ombros, disse: - Sobe aí. Mas se insinuar que sou um cavalo, te deixo aqui para descobrir o caminho sozinha.
- Eu nunca faria uma coisa dessas. - afirmou, antes de subir nas costas do garoto e colocar os braços ao redor do pescoço dele. - Mas eu posso te dar um apelido? Tipo, Maximus ou Spirit? Só pra entrar no clima.
- Não. Nada de cavalos, nem apelidos. Agora, se você quiser fazer uma massagem, tudo bem.
Aquela foi a vez da garota gargalhar. Ela já não sentia mais o pânico fincando suas garras dentro dela, agora, só havia um eco do medo que, há alguns instantes, havia tomado conta de seu corpo e que ela tentava, de todas as formas, ignorar. Naquele momento, enquanto os dois adolescentes voltavam a procurar pelo caminho que levaria ao acampamento, ela havia se esquecido de que estava perdida em uma floresta desconhecida mais uma vez e do porquê estava com raiva de . Era como se tivessem voltado aos velhos tempos - bem, não tão velhos assim -, rindo incontrolavelmente de algo que o outro disse ou fez e desejando que nada no mundo pudesse mudar aquilo.
O rapaz caminhou por pouco tempo e começava a temer que não encontrariam o acampamento sozinhos, até que ouviu um som. Daquela vez, não era o de um animal ferido, mas algo que ele reconheceria mesmo se ficasse velhinho gagá e perdesse parte da audição: a gargalhada escandalosa de .
Ele sorriu e, naquele momento, soube que ficariam bem.

- Gente, eu sei que sou maravilhoso, um deus grego, praticamente, mas vocês podem me explicar o porquê de tudo isso? - questionou em meio aos abraços apertados de e , que sorriam para ele como se fosse a oitava maravilha do universo.
- Você acabou de nos salvar com essa sua risada horrorosa. - A garota disse antes de dar um beijo na bochecha dele.
- , você é tão fofa. Muito obrigado pelo horrorosa. É bem melhor que "orgia de hienas", pelo menos. - falou, empurrando para longe e envolvendo em seus braços, o que fez com que o amigo lhe direcionasse um olhar mortal. - Aliás, do que foi que eu salvei vocês mesmo?
- Nós nos perdemos do nosso grupo e não lembrávamos o caminho de volta. Andamos por horas até te ouvirmos. - explicou.
- Já posso até imaginar o que vocês estavam fazendo antes de se perderem. - brincou com um sorriso malicioso, apertando a cintura de e recebendo um tapa no ombro em resposta. - Ai! Isso doeu!
- Essa era a intenção.
- Agressiva. - Ele disse, afastando-se da garota como se estivesse ofendido. - Enfim, tem pouco mais de uma hora que vocês saíram. Os grupos ainda nem chegaram com a lenha.
- Você tá brincando! Parece que andamos a tarde inteira! - exclamou, completamente surpresa.
- Deve ser porque você estava com o . A chatice dele faz parecer que o tempo passa mais devagar.
- Pelo menos quando fico perto dele não tenho vontade de vomitar. - disse, surpreendendo os três. Ela se desencostou da árvore na qual estava apoiada e caminhou os poucos passos de distância que separavam-na dos amigos.
- Todos já sabem que você me ama, . Pode parar de fingir.
- O que a te passou deve ter chegado ao seu cérebro, porque você já começou a delirar. Daqui a pouco vai estar conversando com duendes e cavalgando unicórnios. - afirmou. - Se eu fosse você, daria uma olhada nisso, logo. Pode ser irreversível.
, como o rapaz maduro que era, imitou a garota com uma voz anasalada, uma das mãos na cintura e a outra fingindo enrolar uma mecha de cabelo. , no entanto, simplesmente ignorou aquela cena e voltou-se para , que se segurava para não rir.
- Por onde você andou, criatura? Eu revirei esse lugar inteiro atrás de você!
- Falou a menina que saiu pra pegar uma estaca e nunca mais voltou. Até achei que você tinha resolvido fazer uma.
- Eu estava procurando sinal pra ligar pro seu irmão e avisar que você chegou. E, pra sua informação, ele disse que sente mais falta de mim do que de você.
arqueou uma das sobrancelhas.
- Tá bem! Ele não disse isso, mas estava implícito no tom de voz dele. - confessou e sorriu, balançando a cabeça afirmativamente como se concordasse.
- , meu amor. Você está criando fantasias sobre outros homens? - disse, passando um de seus braços ao redor dos ombros da menina. - Eu ficaria preocupado se não soubesse que já sou o dono desse buraco negro que você chama de coração.
- Encoste em mim mais uma vez e eu vou fazer você engolir suas mãos enquanto uso uma pedra para acariciar esse seu cabeção.
- Você diz isso agora, mas quando eu estiver usando essas belezuras pra … - se interrompeu ao perceber que lhe encarava como se desejasse poder parar seu coração apenas com a força do pensamento. O garoto podia jurar que ela parecia até possuída por um espírito maligno vingador. - É … acho melhor eu parar de falar antes que vire um cadáver.
O rapaz se afastou imediatamente da garota ao mesmo tempo em que fazia o sinal da cruz, o que arrancou algumas risadas dos dois amigos e um revirar de olhos de , como de costume.
- Você tem sorte que na cadeia não tem Netflix, senão você já teria virado presunto há muito tempo. - afirmou, fazendo com que gargalhasse como se aquilo fosse uma piada, mas, quando o garoto percebeu que ela continuava com o olhar assassino, engoliu em seco e se escondeu atrás de seu amigo.
Após alguns segundos de silêncio, , olhando para o chão, começou a traçar algumas rotas de fuga para sair daquela situação. Existiam muitos pensamentos rondando seu cérebro naquele momento e, enquanto não tivesse um tempo para sentar e pensar, ela não seria capaz de entender tudo o que se passava dentro dela.
Percebendo a inquietude da garota, se despediu rapidamente dela e da amiga, tentando dar à a privacidade que seus olhos diziam que precisava. Pouco após se afastar, já estava ao seu lado e logo começaram a falar de várias bobagens para passar o tempo.
- Mas, cara, você tinha que ter visto como foi estranho todo aquele alvoroço, sabe? Eu não esperava que todo mundo estivesse tão animado. - continuava falando, enquanto se sentava em um tronco de árvore, ouvindo-o, mas não realmente escutando o que o amigo tinha a dizer. - … e, então foi assim que eu planejei como vou te assassinar essa noite, roubar seu rim e fígado e vender no mercado negro.
Aquela última parte fez com que saísse de seus devaneios e olhasse pro amigo, que estava com os olhos estreitos de raiva.
- Você está curioso em mais algum detalhe pra tentar fugir do seu assassinato, ?
Algo que tinha aprendido há mais de 3 anos era que, se seu amigo usasse seu nome inteiro em uma frase, ele podia se preparar…
- Do que você está falando, ?
- Você escutou ao menos uma palavra do que eu falei nos últimos 15 minutos?
- Não vou mentir, você estava tagarelando demais. Não escutei nada.
O olhar arregalado de surpresa e raiva lançado pelo amigo fez com que gargalhasse por uns 2 minutos ininterruptos. Depois de recuperar o fôlego, deixou que um suspiro de preocupação escapasse de seus lábios.
- Desculpa por não estar prestando atenção. É que eu acho que cometi um erro e não sei se consigo consertá-lo.
- Ah, ! Eu não acredito que você colocou um piercing no saco! Eu falei que não era uma boa ideia!
- O quê? Por que eu colocaria um piercing… no saco? - franziu as sobrancelhas, confuso.
- Não sei. Foi a primeira coisa que consegui pensar. - deu de ombros, um sorriso brincalhão nos lábios. - Se você não colocou um piercing, o que você fez?
- Bem… - começou, coçando a nuca e tentando não manter contato visual com o amigo. - Primeiramente, eu preciso que você entenda que eu tive a melhor das intenções e que eu, realmente, não pensei nas consequências que isso poderia trazer.
- Desembucha logo, garoto. Você tá me deixando preocupado.
E, então, , com o coração acelerado de curiosidade, esperou que o amigo lhe contasse toda a história. Desde o pássaro, até o ataque de pânico de - o qual acarretará no selinho que tanto se arrependera de dar.
- Eu tinha nenhuma intenção romântica naquele beijo, . - dizia, andando de um lado pro outro. - Quer dizer, eu sonhei com isso por vários anos, mas essa não era minha intenção mesmo. Eu só queria que ela se acalmasse. Eu já assisti vários documentários sobre ansiedade e ataques de pânico, você sabe que eu gosto dessas coisas. Eu só pensei que a melhor forma de fazer com que ela se acalmasse seria fazendo algo inusitado. - Ele contou, as mãos tapando o rosto, em puro desalento. - Não era pra eu "roubar" um beijo dela.
- Você tá com medo de que ela tenha ficado com raiva? - questionou, recebendo um menear de cabeça afirmativo. - Olha, pelo o que você me contou, foi uma espécie de boca-a-boca. Você fez isso pra ajudá-la e, apesar de que Deus e eu sabemos o quanto você é doido por essa garota, também sei que você não se aproveitaria dela e que o "beijo" não tinha segundas intenções.
suspirou aliviado. o entendia tão bem que, às vezes, aquilo o assustava.
- Sei que ela não te conhece como eu, mas conhece o suficiente pra saber que você não é o tipo de cara que se aproveita de garotas indefesas. Também seria bom se você conversasse com ela depois e pedisse mais um milhão de desculpas, só pra ter certeza.
- Por incrível que pareça, acho que você tem razão. - confessou com um sorriso.
- Você sabe que eu sempre tenho razão.
- Em um universo paralelo? Talvez. - Ele gargalhou.
- Você se acha muito engraçadinho, né? Mas, como seu melhor amigo, acho que é meu dever te dizer que você não tem nenhum um pingo de graça.
- Nós dois sabemos que não é verdade. Uma vez até me disseram que eu deveria fazer shows de stand up. - comentou, fazendo com com que o amigo risse. soltou um suspiro profundo. Ele ainda não sabia o porquê estava com raiva dele naqueles dias… aquele beijo podia ter sido a salvação ou a condenação da amizade deles. E o garoto não imaginava, mas logo mais saberia a resposta para aquela dúvida. - Agora, vamos, Freud. Parece que as estrelas estão prestes a cair.

Logo, todos estavam enrolados em seus cobertores, sentados ao redor da enorme fogueira à medida que preenchiam a clareira com o som de suas risadas, histórias de terror e com o cheiro delicioso de marshmallows assados. Mas, então, quando as estrelas começaram a cair, tudo era silêncio. Era como se as elas tivessem cansado de serem apenas os diamantes que enfeitavam o céu de veludo negro infinito e resolvessem pular rumo ao desconhecido, sem medo do que lhes esperava do outro lado, sem arrependimento por deixar tudo para trás.
sabia que aqueles rastros de luz que cortavam o céu eram detritos deixados pelo cometa Halley durante sua última aparição, quase um século atrás. Sabia que as "chuvas de meteoros" ocorriam duas vezes ao ano, em abril e outubro, e que recebiam, respectivamente, os nomes de Eta Aquáridas e Oriônidas. Ela tinha conhecimento de tais fatos porque se deitava sobre a grama de seu lugar secreto desde os 8 anos para observar aquele fenômeno e, mesmo aquela sendo a décima nona vez que o admirava, ficou sem ar por um segundo ao se deparar com tamanha beleza.
A garota podia passar o resto da vida fitando as estrelas cadentes e nunca deixaria de ficar surpresa ou encantada, como se cada vez fosse a primeira e ela se apaixonasse de novo pelo universo, como se as estrelas lhe dessem uma coroa e dissessem: você pertence a esse lugar.
Ela sorriu da forma que sempre fazia ao contemplar a imensidão negra e, sentindo seu coração bater animado em seu peito, soube que sua alma estava no céu, em meio às nebulosas, às galáxias e às constelações.
Enquanto para a beleza estava acima de si, para , o verdadeiro espetáculo estava à sua frente. Ele não conseguiu, por um minuto sequer, despregar os olhos daquele rosto tomado pelo deslumbramento e pela admiração; daqueles olhos lindos e brilhantes; daqueles lábios que formavam o sorriso mais lindo do universo. Não importava que todos ao seu redor emitissem suspiros e sons de surpresa e encantamento; nem que o rapaz ao seu lado confessasse em um sussurro que aquela era coisa mais linda que já vira. Tudo que queria era poder congelar aquele momento e ficar preso ali pela eternidade.
Contudo, como ele não tinha esse poder, passou cada segundo admirando a garota que amava e, quando deitou sua cabeça no travesseiro mais tarde e fechou seus olhos, ela estava ali novamente, em seus sonhos, correndo pela floresta, o som de sua gargalhada ecoando pelo labirinto de árvores. Um pequeno sorriso surgiu no rosto do garoto adormecido enquanto, em seus sonhos, abraçava e a rodopiava, sussurrando que lhe amava uma, duas, três, infinitas vezes.

checou as horas no relógio que envolvia seu pulso esquerdo. estava atrasada outra vez. Ela costumava chegar no estacionamento dez ou quinze minutos depois da aula de Educação Física, mas o sinal já havia batido há meia hora. começava a se perguntar se amiga havia se afogado durante o banho quando a dita cuja desceu os degraus da entrada principal correndo, os cabelos encharcados sobre os ombros e um sorriso de desculpas nos lábios.
- Me perdoa, miga! Um dos chuveiros estragou e a fila estava enorme. Juro que fiz o melhor que pude. Eu levei, tipo, uns dois minutos pra tomar banho e eu até deixei de passar condicionador com medo de você me abandonar. - confessou, colocando uma das mãos no peito enquanto tentava recuperar o fôlego.
- Tá tudo bem, . Mas nós só vamos à uma sorveteria, você poderia ter deixado pra tomar banho depois.
- Eu, , andando por aí completamente suada e fedendo? Nem em um milhão de anos. Tenho uma reputação a manter. - disse enquanto procurava as chaves do carro em sua enorme bolsa. - Além do mais, tem sempre a possibilidade de toparmos com o Ryan Reynolds e ele se apaixonar por mim.
- Assim como é possível que um dia chova gatinhos fantasiados de Dumbledore.
- Eu estou falando sério aqui!
- Eu também! - exclamou e, apesar de revirar os olhos diante do comentário, não conseguiu deixar de sorrir também.
- Idiota.
- Ei! Você está esquecendo que dia é hoje? - questionou, cruzando os braços contra o peito. - Nada de xingar a aniversariante.
bateu na própria testa, lembrando do combinado.
- Posso te chamar de bobona, então, pelo menos? É meio que uma forma carinhosa de insulto.
- Não. Sinto muito. São as regras.
A outra garota fez uma careta. Ela sabia que não tinha como escapar das regras, já que ela mesma dera a ideia dez anos atrás. Assim, desde o aniversário de 7 anos de , o primeiro que as duas comemoraram juntas, elas decidiram que, na semana do aniversário de uma delas, a outra deveria seguir dez regras: cinco permanentes, que criaram naquele dia e que valeriam para ambas; e outras cinco que seriam determinadas pela aniversariante a cada ano. A brincadeira acabou se tornando um tipo de ritual, como várias outras que seguiam religiosamente nos dias 03 de abril e 22 de outubro.
- Tudo bem, nada de insultos. Regra fixa número dois dos "mandamentos da aniversariante". - concordou, resignada, mostrando a língua para a melhor amiga. Afinal, mostra a língua não estava nas regras, não é mesmo?
deixou que um sorriso divertido tomasse seus lábios ao observar entrar no carro, acomodando-se no banco do motorista. Contudo, continuou do lado de fora, os braços cruzados na frente do corpo, esperando que a amiga se lembrasse de uma das regras que enviara por mensagem na semana anterior.
- O que você tá esperando? A gente tem que ir antes de escurecer! Temos muitos filmes pra assistir ainda hoje, não lembra? E se você não chegar antes das 18h, o vai ficar bravo comigo e, pra ele me beijar, preciso que ele fique feliz ou, no mínimo, alegre, não carrancudo! - A menina começou a tagarelar.
- Regra número 01 desse ano. - disse simplesmente, com um sorrisinho no canto da boca, implicando com . Como ela amava aquelas brincadeiras entre as duas! Era uma volta à infância há tantos anos vivida, mas, também, um vislumbre do futuro que as melhores amigas ainda iriam vir a viver. Era claro que se tratava de coisas bobas, rituais brincalhões e sem muita importância para quem estava de fora, no entanto, para as duas garotas, aquilo era um reforço para a amizade tão antiga e tão forte que nutriam.
tombou a cabeça para um lado, o cenho franzido enquanto procurava em sua mente a lista de regras perdidas e, assim que a encontrou, soltou um suspiro longo, saltando para fora do carro.
- Entre, vossa Majestade. - ironizou, abrindo a porta do veículo para entrar.
A menina não podia reclamar. Ela merecia algo bem pior do que isso, pelo o que fizera passar em abril daquele ano. A pobre garota teve que chamá-la de rainha e deixar que escolhesse suas roupas durante toda a semana. Tinha sido muito engraçado, mas podia jurar que a adolescente ao seu lado tivera vontade de arrancar seus olhos diversas vezes. Era de se esperar que ela fosse se vingar de alguma forma e, para falar a verdade, abrir algumas portinhas para não seria o fim do mundo.
- Obrigada, minha querida. - A adolescente brincou e subiu no carro, já colocando o cinto antes mesmo de dar partida.
- Podemos começar nosso ritual? - A menina dirigindo pelas ruas pouco movimentadas perguntou, com os olhos brilhando, quase dando pulinhos no banco de tanta animação. Aquela era uma de suas partes preferidas, sem sombra de dúvidas.
ligou o Bluetooth do celular, conectando-o com o rádio e, em poucos segundos, chegou à faixa que queria. Enquanto isso, sua amiga se aprumou no banco e pigarreou, pronta para começar a qualquer momento.
- "Sabe garoto, em horas como essas, o meu amigo Timão aqui diz, você deve pôr o seu traseiro no passado" - começou, falando juntamente com as vozes provenientes do rádio.
- "Não, não, não, trapalhão. Não pense para não lhe doer a cabeça. É, você tem que deixar seu passado para trás. Olha aqui, coisas ruins acontecem e ninguém pode fazer nada para evitar, certo?" - disse, com convicção.
- "Certo."
- "Errado! Quando o mundo vira as costas pra você, você vira as costas para o mundo."
- "Mas não foi isso que me ensinaram."
- "Então talvez precise de uma nova lição. Repita comigo: Hakuna Matata" - entoou, os olhos brilhando de diversão.
E, assim, as duas continuaram durante o percurso, de exatos cinco minutos: recitando as falas - de três personagens diferentes - que já estavam gravadas em suas memórias e cantando juntas, a plenos pulmões e com pouquíssima afinação, a música que tanto amavam. É claro que, quando paravam diante de um sinal vermelho, as pessoas nos outros carros as encaravam como se tivessem acabado de sair de um hospício, mas aquilo só fazia com que as garotas cantassem ainda mais alto.
Depois de gargalharem até que suas barrigas doessem, estacionou o New Beetle em frente ao pequeno prédio cor-de-rosa e virou-se minimamente para pegar algo do banco traseiro. Ela sorriu para a amiga, os cones azulados enfeitados com estrelas prateadas em suas mãos.
- Nós realmente temos que usar isso? - questionou, analisando o chapéu de festa de aniversário.
- Lógico! Faz parte do ritual! E rituais se seguem a risca, senhorita! Você mesma disse.
- Pelo menos tem estrelas, né? - disse, tentando se animar com aquele fato, o que realmente melhorou um pouquinho sua situação.
- Esse é o espírito, garota! - A outra menina gritou, saindo do carro e quase se esquecendo, novamente, de abrir a porta para a amiga.
Ambas se dirigiram para o estabelecimento tão conhecido e entraram, dando de cara com a senhora que era dona do local.
- Vocês atrasaram um pouco dessa vez, minhas queridas. Fiquei com medo de que não viessem! - A mulher disse, com um sorriso que lhe chegava aos olhos, já apertando as duas com seus braços rechonchudos em um abraço que lembrava abraço de vó. - Feliz aniversário, minha doce ! Que sua vida seja tão doce quanto você, menina! Você merece o mundo e as estrelas. Na verdade, até mais que isso.
As adolescentes conheciam a senhora Stewart há quase uma década e o laço de amizade que acabaram criando naqueles anos era algo pelo qual ambas eram extremamente gratas. A delicada senhora era sempre muito amigável e sempre muito atenciosa, trazendo um carinho tão grande a elas, que era impossível descrever em palavras.
- A senhora não imagina quão agradecida estou, senhora Stewart! Muito obrigada mesmo! - disse, com lágrimas nos olhos. Ela não tinha tido uma avó e, infelizmente, não tinha sua mãe consigo, mas ela não podia negar que existiam figuras maternas que a ajudava a preencher um pedaço bem pequeno daquele vazio.
- Oh, minha querida, é mais do que um prazer. Você merece muito! - A mulher apertou a bochecha da garota. - Agora vão! Sentem-se! Já trarei a próxima parte do ritual para vocês!
, até salivando de expectativa, sentou-se, junto a à mesa de sempre, a qual fora decorada pela senhora Stewart com duas s maravilhosas.
Não demorou para que a senhora voltasse com duas taças azuis entre as mãos. Um enorme sorriso tomou conta do rosto de assim que a mulher colocou um delas em sua frente. A cada ano, Sra. Stewart fazia algo para deixar o sorvete de flocos especial para , às vezes tingindo-o de azul, outras decorando-o com cauda azulada e, dessa vez, espalhara diversos granulados em forma de estrelas coloridas.
- Como sempre, no dia da aniversariante o pedido é por conta da casa! - Sra. Stewart disse sorridente, antes de voltar para o trás do enorme balcão. - Nada como o melhor sorvete do mundo para comemorar a nascimento da estrela mais brilhante do universo. - afirmou, a boca cheia da mistura cremosa, abraçando de lado a amiga.
- Só sendo meu aniversário pra você admitir que brilho mais que você.
- , você pode ser a estrela mais brilhante, mas eu sou o sol, então, brilho mais que você!
- . - falou, mordendo o lábio inferior para segurar a risada. - O sol é uma estrela.
- O quê? - A garota praticamente gritou, os olhos levemente arregalados de surpresa. - Eu sempre achei que o sol era … bem, o sol.
- Você nunca presta atenção no que eu digo, não é?
- Lógico que não! Você fica falando sobre buracos negros, satélites naturais e um tanto de coisas com nomes estranhos… às vezes, eu acabo me perdendo com tanta informação. - confessou. - Se o que você falou é verdade, então retiro o que eu disse. Você é a segunda estrela mais brilhante do universo.
finalmente deixou que a gargalhada escapasse de seus lábios.
- Eu estava começando a pensar que você tinha sido substituída por um clone ou por uma irmã gêmea misteriosa e maligna.
- Ninguém seria capaz de me substituir! - disse, fingindo se sentir ofendida. - A pessoa poderia até ter minha aparência maravilhosa, mas não teriam minha mente brilhante.
- A mesma mente brilhante que não sabia que o sol é uma estrela?
- Ah, cala a… - começou, mas, ao notar a sobrancelha arqueada de , percebeu que quase infringiu a mesma regra novamente. - Cala a sua boquinha fofa, por favor.
- Só porque você pediu com carinho. - disse, fazendo com que a outra soltasse uma risada.
As duas passaram quase uma hora no estabelecimento, falando sobre coisas sem nexo e, às vezes, sobre coisas importantes. Os olhos das duas brilhavam de felicidade enquanto devoravam o sorvete e curtiam a companhia uma da outra. Elas sabiam que aquele tipo de amizade era especial e que não encontrariam algo similar com muita facilidade. Sabiam, também, que aqueles minutos raros em que podiam deixar a vida de lado um pouquinho e só se concentrarem naquele momento, era algo para se aproveitar com todo fervor.
E foi o que fizeram. Aproveitaram tudo até que um telefonema as chamou de volta à realidade.
- Alô? - disse, um enorme sorriso nos lábios. - Já? Pode deixar, gatinho, estamos chegando.
- O que o queria? - perguntou assim que a amiga encerrou a ligação.
- Como você sabe que era ele?
- Porque você se derreteu toda e ficou com esse sorriso bobo.
- Não derreti nada! - contestou, cruzando os braços contra o peito. - E ele disse que ele e Will já estão começando a preparar o jantar e pediu que a gente fosse logo para ajudar com o bolo.
- E por que ele não me ligou?
- Porque ele prefere escutar minha voz, ué. - Ela deu de ombros, comendo o restinho do sorvete que estava derretido na taça. - E também porque você não atende o telefone…
procurou o celular nos bolsos do casaco e da calça jeans, mas acabou percebendo que o esquecera na mochila dentro do carro.
- Então vamos logo, porque se o for tentar fazer um bolo de chocolate sozinho, é bem provável que ele vá deixar o Will lamber toda a vasilha. E não quero ver meu irmãozinho com dor de barriga a noite inteira. - informou, mas, dessa vez, foi o alvo de um olhar incrédulo de . - Tudo bem! Eu também quero lamber a vasilha! Agora, vamos! Antes que não sobre nada pra mim.
As garotas, então, despediram-se da dona da sorveteria, agradecendo imensamente pelo carinho e pelos sorvetes - os quais elas insistiram incansávelmente em pagar, mas que a senhora não permitira de maneira alguma - e, juntas, voltaram ao carro, agora em direção à casa de .
Ainda faltavam muitas coisas para completarem o ritual. Fazer o bolo mais delicioso de todos os tempos era a regra fixa número três e, agora, estavam a caminho de finalizá-la. Aquela era a parte preferida de Will, que sempre se juntava às garotas e quebrava todos os ovos para fazer o bolo de chocolate que as duas sabiam que não era o mais gostoso do mundo, mas era o mais divertido de se fazer e comer.
- Você acha que conseguimos maratonar a série hoje? Não aceito menos de 5 episódios, senhorita ! - pontuou, enquanto descia do carro, sorrindo animada pela quinta regra feita pela aniversariante naquele ano. Finalmente ela faria a melhor amiga assistir uma das suas séries favoritas!
- Eu não prometo nada, . Mas se This is us não for tão boa quanto você diz, quebrarei a quarta regra feita pela aniversariante e te darei uns bons tapas.
- Ué, mas a regra é que você não pode reclamar dos tapas que eu te der, não que você não possa me bater.
- Melhor ainda, querida. Melhor ainda.
- Eu sei que você não vai precisar me bater, porque é uma das melhores séries da vida! - afirmou, entusiasmada. - E até já comprei uma caixa de lencinhos pra gente.
- Eu não sabia que iria borrar minha maquiagem. Se soubesse não teria aceitado assistir.
- Você não tem que aceitar nada, são as minhas regras e você tem que cumprir.
- Você está começando a soar um pouco como e eu não sei se gosto disso. - A melhor amiga disse, enquanto destrancava a porta da casa.
Estavam tão entretidas na conversa, que não percebera que não ouvia as gargalhadas gostosas de Will ou a voz grossa de ecoando pelas paredes acinzentadas. Era tudo silêncio.
Até que a porta abriu-se por completo e os ouvidos da garota foram preenchidos por um coro de vozes gritando:
- Surpresa!!!
Quase uma dúzia de pessoas ocupava a sala da casa de , dentre elas seus irmãos, senhora Hanks, e todos seus amigos da turma de astronomia e da turma de ciências avançada. A garota, sem fala, observava aqueles rostos cheios de carinho e expectativa e foi quase impossível engolir o choro naquela situação.
- Não acredito que vocês fizeram isso! - Ela conseguiu dizer após quase meio minuto completamente sem fala. - Eu não tenho palavras pra agradecer. Eu realmente não sei o que dizer. - Ela sorriu, sem jeito, sua timidez dando as caras naquele momento. - Muito obrigada mesmo, de coração!
percebeu que conversava baixinho com , nervosamente, enquanto era ovacionada pelos colegas e amigos. Todas as pessoas que mais faziam parte da sua vida naquele ano estavam ali. Com exceção de três pessoas.
A primeira, seu pai, já era de se esperar. Ele não a parabenizava por seu aniversário há mais de 4 anos. Não seria daquela vez que ele lembraria. Aquilo doía muito, no entanto, assim que seus pensamentos foram para aquele lugarzinho escuro, Will deu um pulo nela, pedindo colo e a abraçando com todo o amor que possuía. Não havia porque ficar triste. Ela tinha tudo que precisava ali. Não precisava da presença do pai, quando na verdade, ele não esteve presente em nenhum dos outros momentos em que ela necessitara.
Enquanto recebia abraços de todos os amigos, com Will ainda agarrado à sua cintura, não conseguia deixar de pensar nas outras duas pessoas que pareciam faltar. Ela se lembrava deles sempre juntos porque eram quase um combo. Um não ficava sem o outro. Bem parecido com ela e .
Será que a amiga não os tinha convidado? Será que e não estariam ali no dia do seu aniversário?
estava muito magoada com desde aquele dia que o vira em seu lugar especial, há duas semanas, e ela desejava imensamente retirar aquele sentimento do seu coração. Não era possível que tivesse feito aquilo se tivesse entendido a importância daquele local para a garota. Com certeza não tinha sido por querer. E, afinal, ele não tinha culpa se começara a sentir coisas que ela nem mesmo sabia nomear. Sentimentos que fizeram com que a raiva em seu coração tivesse tomado tais proporções - logo ela, que sempre tentava ser empática, sem julgamentos precipitados. Sentimentos que ela ainda negava a existência, mas que, no fundo, ela sabia que estavam ali.
- Amiga do meu coração, sinto muito, mas terei que quebrar a segunda regra feita pela a aniversariante. - anunciou ao se aproximar da outra garota, que mexia nos cabelos de Will enquanto este bebia um copo de refrigerante, observando todas aquelas pessoas.
- Regra número dois? - começou a tentar lembrar qual fora a regra que inventara naquele ano, sem nenhum sucesso.
- Não acredito que você não lembra! Foi a pior de todas!
- Ah! - sorriu internamente. Ela sabia que aquela regra tinha feito com que quase chorasse de ódio. Ela não tinha culpa. Tinha que tentar fazer a amiga ser um pouco menos severa com o coitado. - E porque você terá que ser malvada com o ?
E, naquele segundo, dois garotos suados irromperam pela porta, com um bolo enorme nas mãos e seguidos por uma garotinha super animada.
- Surpresa! - Os três gritaram e , incapaz de se conter, sorriu de orelha a orelha, ao observar a cena.
Teria como aquele dia ficar melhor?




Continua...



Nota das autoras:
Hello, little stars! Como estão?
Como sempre, depois de muito, muito, muito tempo, voltamos com um capítulo cheio de amor e carinho pra vocês. Sabemos que às vezes demoramos bastante para atualizar a história e pedimos um milhão de desculpas por isso, estamos realmente tentando melhorar nesse quesito. Vai dar certo, meninas! Torçam com a gente! Hahahaha
Já deixamos avisado que o próximo capítulo vai ser MARAVILHOSO! Estamos escrevendo e estamos muito ansiosas pra saber o que vão achar! Agora a guinada que a história precisava já foi dada e, daqui a pouco, vocês terão a continuação da história desses personagens que já viraram da família!
Vocês são maravilhosas. Obrigada por nos aguentarem. Contamos muito, sempre, com vocês, estrelinhas!
Um grande abraço, e um céu cheio de estrela cadentes pra cada uma de vocês!
Grasi e Madu



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