Última atualização: 25/01/2020

Prólogo


Sabe aquela cena de filme que um personagem de repente vê a sua vida passando pelos seus olhos quando está prestes a morrer? Você já deve ter visto.
Isso estava acontecendo comigo naquele exato momento.
Bom, a diferença é que eu não estava prestes a morrer, no entanto.
E não era exatamente a minha vida inteira passando pelos meus olhos, mas era, com certeza, uma parte bastante importante dela.
A verdade é que eu tive que esfregar meus olhos uma vez para ter certeza de que minhas lentes de contato não estavam embaçadas ou algo do tipo que acabasse me fazendo ver errado. Só que elas não estavam. E infelizmente eu estava vendo nitidamente, melhor que nunca. Até porque aquele era um novo par de lentes que eu tinha acabado de trocar.
Agora você deve estar se perguntando: de que, diabos, ela está falando?
Bom, eu estou falando do diabo que deu uma reviravolta na minha vida emocional, de modo bom e ruim, mais conhecido como meu ex-namorado, . O conheci na faculdade e ele era um dos muitos estudantes de intercâmbio e tinha vindo de Hong Kong. Imaginei que tivesse voltado para seu país, mas claramente não.
Fazia quase três anos que havíamos terminado nosso namoro — não em bons termos, devo acrescentar — e desde a minha formatura que eu não o via ou tinha qualquer notícia ou contato dele, pois havia decidido apagar tudo. Infelizmente, eu não podia apagar da minha vida e nem os momentos bons e ruins que tive com ele. E era justamente esses momentos que passaram na minha mente assim que o vi. Desde quando o vi pela primeira vez até a última, quando disse que nunca mais queria vê-lo na minha frente.
Eu não era boba de achar que talvez eu realmente nunca mais fosse vê-lo, no entanto. Londres é uma cidade grande, mas pessoas se esbarram nela vez ou outra. Pode acontecer. Mas eu não esperava esbarrar em logo aqui, no St. Lawrence, hospital no qual eu trabalho como enfermeira há um ano e meio.
E eu não esperava em hipótese alguma que fosse um dos novos profissionais que estavam indo trabalhar no hospital e muito menos ainda que ele fosse trabalhar no mesmo setor que eu.
Sabe a Lei de Murphy? Eu fui vítima dela várias vezes. Mas pelo visto, ainda sou. E muito.
foi apresentado pela enfermeira-chefe à todos os membros da equipe, desde o pessoal da faxina, os técnicos, residentes, estagiários e por fim… eu. A enfermeira plantonista do dia. Eu fiz questão de me manter meio escondida atrás da equipe, observando de longe o rapaz há alguns metros de distância e que se aproximava cada vez mais à medida que era apresentado aos membros da equipe.
estava mais bonito do que eu me lembrava. Alto, com uma pele bronzeada e um sorriso capaz de conquistar qualquer um. Eu não podia falar o mesmo de mim após 24 horas de trabalho e muito menos depois quando acabasse as outras 12 horas que faltavam para eu completar meu plantão. Eu tive que faltar um dia e isso acabou gerando uma bagunça na minha escala e cá estou eu, prestes e ficar 36 horas direto dentro do hospital.
Agradeci mentalmente por minha mania de estar sempre de touca e máscara, mesmo quando não era realmente necessário. Apenas uma mania que adquiri durante meus dias de estagiária, alguns anos atrás. Digamos que água, sabão e álcool em gel viraram alguns de meus melhores amigos. Os outros três são , que também é enfermeira e , uma arquiteta. E claro, havia , um advogado. Eu conhecia os três há anos, desde a faculdade e também os conhecia, embora não gostasse muito de um deles.
E adivinha quem. Começa e com S e termina com cott. Isso aí, morria de ciúmes do meu melhor amigo. Mas eu não ia me afastar dele só porque ele queria. Claro que, antes de tudo, também era um dos meus melhores amigos, depois do havia ele. A questão é que ele não entendia que eu não me sentia à vontade ou com vontade de falar certos assuntos com ele porque… bem, não éramos da mesma idade.
é três anos mais novo que eu. E pra falar a verdade, eu não gosto de garotos mais novos, não mesmo. E não faço a mínima ideia de como acabei namorando ele. Talvez o carisma fosse maior, não sei. Eu gosto de caras divertidos, protetores e responsáveis. E ele era tudo isso e mais um pouco. Mas às vezes, digamos que parecia ter os 19 anos que ele tinha quando o conheci, o que era completamente normal, mas o meu eu problemático via aquilo como um obstáculo, talvez. Não sei. Havia momentos apenas que eu achava que ele não era capaz de me entender por causa disso.
Tínhamos algumas visões diferentes e quando eu precisava falar com alguém, era sempre o , que era da minha idade, alguns meses mais velho e que me dava conselhos ótimos sempre que eu precisava. Isso gerou alguns problemas entre e eu.
E por falar novamente em , o momento que eu menos aguardei havia finalmente chegado quando ele ficou a minha frente e a enfermeira Lara nos apresentou.
— …E essa é a enfermeira que estará trabalhando com você, — ela disse. — O nome dela é -
— ele falou meu sobrenome, herdado do meu pai, naquele tom de voz rouco bastante conhecido por mim. Seu sorriso no entanto, havia desaparecido no momento que ele encontrou meus olhos.
Me perguntei como ele tinha me reconhecido, mas cheguei à conclusão de que… bom, talvez ele tivesse me conhecido demais a ponto de uma máscara e uma touca serem objetos inúteis. Ou, pelo menos, em parte. Talvez porque eu era a única descendente de asiáticos ali com o nome de e enfermeira, vai ver ele associou. Felizmente, ele só podia ver os olhos. Eu estava sem maquiagem e cansada, só esperando uma oportunidade para ir tomar um banho quente e renovar minhas energias com alguma comida após a enfermeira Lara chegar. Eu só não contava com essa apresentação hoje que, diga-se de passagem, revirou meu estômago um pouco mais.
A enfermeira Lara abriu um sorriso surpreso assim que ele falou meu nome.
— Oh, vocês se conhecem? — ela perguntou animada. Ela era assim, constantemente, uma doida.
Eu me manti calada, enquanto encarei , permitindo que ele fosse o responsável pela resposta.
Com um sorriso sem graça, ele encarou o chão com a pergunta, antes de voltar os olhos para mim, mais uma vez. Seu novo olhar não era mais surpreso, mas também não carregava raiva como o que eu havia visto pela última vez quando terminamos. Ele parecia neutro. Controlado. Como eu estava, ao menos por fora.
Meu coração acelerou quando ele falou novamente e senti um frio no estômago, mas não de uma maneira boa.
— Sim, foi minha monitora na faculdade — ele respondeu e aquilo por algum motivo me magoou e doeu em uma parte minúscula do meu coração. Mas eu não podia culpá-lo. O que eu esperava que ele respondesse? Quem sabe ele falasse: “Ela é minha ex-namorada, Lara. Longa história. Terminamos através de uma discussão regada a ódio.” era alguém bastante imprevisível, então eu não me surpreenderia se ele falasse algo do tipo. Então me forcei a ficar satisfeita com sua resposta, pois era a coisa mais sensata. Afinal, não precisávamos falar do nosso passado e muito menos do relacionamento fracassado que tivemos.
— Oh, ela era sua sênior? — Lara perguntou, rindo mais uma vez. Queria eu saber que feitiço ela fazia para estar sempre alegre. Eu era um poço de mau humor. — Que ótimo! Acho que vão se dar bem, então.
Você não poderia estar mais engda, Lara.
Mas felizmente, eu sou alguém que preza bastante por profissionalismo.


1. Cada Um Tem o Ex Que Merece


Depois da fatídica apresentação/reencontro com meu ex-namorado, Lara o levou para conhecer o setor, os pacientes e toda a bagagem de organização, explicando onde ficava materiais, documentos e o que fosse ser necessário que ele soubesse no momento.
Felizmente, ela também apresentou os pacientes para ele, coisa que agradeci mentalmente. Lara era enfermeira diarista, então ela também era a pessoa mais adequada para isso já que estava no hospital todos os dias pela manhã.
E enquanto isso, eu fui finalmente tomar meu banho.
Eu poderia ficar horas debaixo daquele chuveiro quente, mas eu tinha pouco tempo para ficar pronta e voltar ao trabalho. Felizmente, depois disso eu não estava mais com tanta cara de zumbi, pelo contrário, eu estava até apresentável. Era cerca de 08h30 da manhã quando eu fui até a copa em busca de comida e muito café. Após um lanche rápido, voltei ao trabalho e Lara já havia dividido os pacientes entre eu, e alguns estagiários.
Por algum milagre, a clínica não estava cheia naquele dia, o que era raro. Eu também não falei com por algum tempo. Tratei de ir visitar meus pacientes e fazer todos os exames físicos e orientações que eu tinha que fazer para depois ir para os papeis.
Não sei se vocês sabem, mas em um setor o enfermeiro é o profissional que não somente fica responsável pela assistência, mas também por toda a papelada que vem de bônus. Porém, Lara é quem costuma ficar com essa parte, sendo diarista e enfermeira-chefe. Somente depois que ela sai, algum outro enfermeiro fica responsável, eu me refiro aos turnos tarde e noite.
E adivinha quem seria a sorteada do dia. Isso mesmo.
era um novato em seu primeiro dia ali e não conhecia nada direito. Isso significava que eu não somente iria ter que cuidar disso, mas também cuidar dele, ensinar o que precisava e tirar dúvidas.
E pensar que vou ter que ficar 24 horas por semana trabalhando com esse cara.


A manhã se passou relativamente rápido. Eu terminei minha “parte” relativamente cedo, depois fiquei auxiliando Lara e os estagiários nos procedimentos que apareciam, mas como eu disse, não havia muitos pacientes como de costume, naquele dia.
Contudo, nada é perfeito. Principalmente os recursos humanos do hospital.
Quando eu estava prestes a ir almoçar, um paciente foi chamado para cirurgia. Mas adivinhem: não tinha maqueiro disponível na hora. É, esse é o tipo de coisa bastante comum em qualquer hospital, seja ele de grande porte ou não. Nunca vai haver maqueiros suficientes.
Lara estava de saída na hora e designou e eu para levar o paciente ao bloco cirúrgico do hospital. Olhei para os lados à procura de alguma técnica que pudesse fazer isso com ele, mas a maioria não estava ninguém disponível no posto de enfermagem. Quem não estava nas enfermarias, estava lá preparando medicações de rotina.
Lutei contra a vontade de revirar os olhos e peguei o prontuário, uma bata aberta, um lençol limpo para colocar na maca e os equipamentos de proteção do paciente. Fui andando na frente, enquanto me seguia com a maca até uma das enfermarias masculinas.
— Bom dia, Sr. Walter. O senhor acabou de ser chamado no bloco. Alguém já comunicou ao senhor? — perguntei, com toda a minha pose de enfermeira simpática. Profissionalismo, lembram?
— A estudante me disse — ele comentou. — Você veio me preparar?
— Exatamente. Vou prepará-lo e acompanhá-lo até o bloco junto de meu colega, o senhor já o conheceu? Ele também é enfermeiro, está começando hoje aqui.
— Ah, Lara nos apresentou. Rapaz simpático ele, né? — disse com um sorriso, apontando para .
— Ah, claro. Veja, eu trouxe um pijama novo para o senhor. Pode ir vestir no banheiro e colocar esses dois aqui nos pés e a touca na cabeça. Se o senhor tiver alguma corrente, aneis ou próteses também tem que tirar, tudo bem? Enquanto o senhor se troca, eu vou arrumar a maca.
Quando ele voltou, o colocamos na maca e seguimos para o bloco que, felizmente, não era muito longe.
— Sr. Walter? O senhor quer ir com emoção ou sem emoção? — eu perguntei, fazendo-o rir.
— Com emoção! — ele disse.
— Com emoção? Então, vamos lá! — eu lancei um olhar para e aceleramos a velocidade até chegar ao bloco (com cuidado para não esbarrar em ninguém pelo caminho, é claro). — Opa, chegamos! Deixa eu abrir essa porta…
Com cuidado, empurrei a porta e a segurei para que empurrasse a maca. Depois toquei a campainha do bloco e aguardei.
— ‘Tá nervoso, Sr. Walter? — perguntei, vendo-o assentir com a cabeça. — Mas não precisa, o senhor pode ficar calmo. Parece um bicho de sete cabeças, mas daqui a pouco acaba. Vai dar certo, ouviu? — ele deu um sorriso sem graça e assentiu novamente.
Quando voltamos para a clínica, encontrei com Lola, a enfermeira diarista da tarde. Apresentei a ela e passei rapidamente o plantão para que ela ficasse a par dos novos pacientes. Depois disso, fui almoçar.
Mas como eu disse, nada é perfeito porque foi comigo. Afinal, éramos os únicos que ainda não tinham almoçado. Mas não reclamei, pois se eu estava com fome, imagine ele que tem um estômago sem fundo. Caminhamos juntos e em silêncio até o refeitório e depois nos sentamos para comer em uma das mesas.
Porque nos sentamos juntos? Bom, eu também não sei. Mas eu havia sentado primeiro e não sairia dali por causa dele; então apenas resolvi ignorá-lo.
A comida parecia um zilhão de vezes mais interessante do que encarar e até mesmo manter uma conversa desnecessária com meu ex-namorado.
— Faz tempo que você trabalha aqui? — perguntou, de repente.
— Um ano e meio — respondi, apenas.
— Ah… — silêncio novamente. — Achei que não gostasse de clínicas.
— E eu não gosto. Mas não estou em posição de escolher.
— Entendo.
E voltou a comer. No entanto, era alguém que não conseguia ficar calado por muito tempo.
— Você cortou o cabelo. E pintou. Ficou legal essa cor — ele disse, tentando ser simpático. A última vez que ele me viu, meu cabelo era longo e repleto de luzes loiras. Devia ser estranho me ver com ele curto e ruivo, mas não comentei nada disso. Não olhei para ele, mas juntei todas as minhas forças para murmurar, sem emoção alguma:
— Sim, valeu.
Foi então que eu ouvi um suspiro. E quando ele finalmente desistiu de puxar papo comigo e terminou de comer em silêncio.
Voltamos para o setor minutos depois, e não tinha absolutamente nada a ser feito. Sim, às vezes era assim. Muita coisa para fazer um um turno e depois vários nadas no outro. Não havia pacientes para internar ou levar ao bloco, as técnicas cuidavam das medicações e até então nenhum procedimento novo havia aparecido. O que resultou em e eu novamente juntos naquela sala, enquanto Lola terminava suas visitas.
Peguei meu celular e abri o pdf de um livro novo que eu estava lendo. Era tudo o que eu podia fazer naquele momento. Ouvi um novo suspiro vindo de e o olhei de soslaio, vendo-o pegar o próprio celular e se entreter com o mesmo.
Lola adentrou no posto e sorriu para nós.
— Vocês estão de plantão até que horas hoje? — ela quis saber.
— Sete — respondemos ao mesmo tempo. Ela soltou um muxoxo.
— Ah, eu estou de 24 horas hoje.
— E eu completando as minhas 36 horas — levantei a mão, em uma tentativa falha de fazer piada.
— De novo? O que houve?
— Eu faltei um dia por conta da minha defesa — dei de ombros. — precisou viajar e eu fiquei ontem à noite no lugar dela.
? ? — foi a vez de perguntar. — Aquela sua amiga doida que- quer dizer…
— Você conhece e ? — Lola perguntou animada. Sabe a Lara? Lola é tipo uma versão mais nova dela.
— Ah, sim! Ela foi minha-
— Monitora na faculdade. Patologia. Ele no terceiro semestre, eu no sexto. Blá blá blá — eu o interrompi, sem tirar meus olhos do celular. — Longa história, Lola. Você não vai mesmo querer saber — e então encarei , que me olhou com sarcasmo.
— Verdade, Lola. Longa história. não curte muito falar sobre o primeiro namorado dela também — ele disse, me encarando em desafio.
— Isso porque não vale a pena, . Mas acho que você ainda não percebeu.
— Espera, do que vocês estão falando? — Lola quis saber. — Porque você de repente mencionou o primeiro namorado dela que… Ah, meu Deus! — e num piscar de olhos, Lola me encarou — Ele era o tal que você me falou?
Mas eu não respondi. Nem precisava. Em vez disso, me dirigi a .
— Qual o seu problema?
— Problema nenhum, . Só achei que o setor tava meio monótono. E eu sei que você odeia monotonia, querida — e sorriu.
Respirei fundo tentando controlar a raiva que crescia (ou acordava) dentro de mim outra vez.
— Tudo bem, . Acho que precisamos esclarecer algumas coisas aqui. Eu não quero sair divulgando para ninguém o nosso relacionamento fracassado. Então faça o favor de deixar as piadinhas e o deboche de lado. Lola iria descobrir de uma hora para outra porque, enfim, ela já sabia sobre você. Mas os outros não sabem. Então, continue fingindo que eu fui só a sua monitora na faculdade e não teremos problemas.
— Como quiser, princesa — ele disse, entredentes.

***


Eu havia combinado de jantar com assim que saísse do trabalho. Eu não tinha trabalho no dia seguinte e nem ele, então íamos juntar a magia do frango frito e da cerveja juntos naquela noite em um restaurante que ficava próximo ao escritório que trabalhava (mas que também não era muito longe do meu).
Estacionei meu carro em frente ao prédio e soltei o cabelo para melhorar um pouco a minha aparência; eu não precisava assustar as pessoas com minha cara de cansada, afinal.
Peguei minha bolsa e desci do carro, após enviar uma mensagem para , que me pediu para esperar um pouco, pois estava ajudando uma colega a terminar de guardar uns papeis. Distraída, comecei a digitar uma resposta quando esbarrei em alguém.
— Descu- O quê? — encarei à minha frente. — O que você ‘tá fazendo aqui? Você ‘tá me seguindo ou algo do tipo? — perguntei e ele rolou os olhos.
— Eu quem deveria fazer essa pergunta, sênior — disse, a última palavra cheia de sarcasmo.
— Não tenho o mínimo interesse em te seguir, . Pode crer.
— Já percebi isso há anos, princesa.
E lá vai ele de novo, me chamando de princesa. Antigamente, eu não me importava muito, mas agora ele visivelmente me chamava assim apenas para me irritar.
— ‘Tá, . Já deu; você pode parar agora de me chamar assim. Que saco.
— Fico feliz de ter te irritado, então. Ponto pra mim… princesa.
— Aí! — bati nele. — Eu falei para parar.
E então, o idiota teve a audácia de rir.
— Tava demorando para o seu verdadeiro eu aparecer, . Mas preciso dizer que seu falso bom humor hoje com os pacientes me impressionou. Que ótima profissional que você é e acredite, isso é um elogio.
— Bem, eu tento fazer as coisas direito, . Tento me esforçar para que elas deem certo — eu disse, sabendo que soaria como um duplo sentido para ele.
E deu certo. Porque ele percebeu.
— Eu também tentei fazer dar certo, — ele me encarou, sério.
— Tem certeza? — perguntei, sem acreditar. Mas ele não respondeu, pois alguém chamou seu nome. E o meu.
Era e uma outra garota asiática, que assim que viu se pendurou no braço dele, ficando na ponta dos pés para beijá-lo. Os saltos altos ajudaram, é claro.
Embora ela fosse alta, era um poste de 1,86m de altura.
veio para meu lado e me cumprimentou com um abraço.
, esse é meu noivo, . De quem te falei mais cedo — a garota disse.
Ei, espera. Noivo? Que bomba.
Foi então que olhei para a mão da garota e vi um pequeno diamante nela; , no entanto, não usava nenhum anel de compromisso. Mas de que importa? Não é como se ele fosse ficar solteiro por muito tempo. Felizmente, não era a biscate que encontrei na cama com ele, anos atrás.
sorriu amarelo e assentiu com a cabeça, cumprimentando que o encarava friamente.
— Parabéns pelo noivado, Charlotte.
— Essa é sua namorada? — a garota apontou para mim.
— Eu sou a melhor amiga dele.
— E minha sênior da faculdade — completou. — Trabalhamos juntos no hospital.
— Sou — me apresentei e pude perceber o sorriso da garota vacilar um pouco. Ela olhou de para mim, antes de colocar um outro sorriso no rosto, se recompondo. Foi quando percebi que ela sabia quem eu era. devia ter contado.
— Oh, prazer em conhecê-la. Sou Charlotte Yang, trabalho com — respondi o cumprimento e finalmente tomou a iniciativa de nos tirar de lá.
— Nos vemos depois, Charlotte. — ele cumprimentou educadamente e me guiou pela cintura.
Não posso dizer o mesmo de mim quando passei por .
— Até mais, otário — murmurei, apenas para que ele ouvisse. Infelizmente, toda a reação que pude ver antes de me arrastar de lá, foi ele estreitar os olhos, irritado.
De quem é o ponto agora, otário? Boa sorte para se explicar para a namoradinha, murmurei mentalmente com um risinho.
Talvez pudesse ser divertido, afinal.

2. Músicas, pizza e shade


— Caramba, . Como isso aconteceu? — perguntou.
— Me pergunto o mesmo. Eu estava lá depois de um plantão de 24 horas e de repente encontro meu ex-namorado da faculdade que eu não via há três anos. Caramba mesmo.
— Como foi lá? Vocês não brigaram, né?
— Eu ainda não tive vontade de voar no pescoço dele, então acho que estou indo bem. Mas eu não esqueci o que ele fez, . Não consigo simplesmente ser simpática e fingir que nada aconteceu quando ele vem querer puxar papo comigo. Tudo bem que somos colegas de trabalho, mas não passa mais disso — eu disse e tomei um gole de cerveja. — Não estou interessada em ser amiga dele, muito menos ser próxima novamente. E você acabou de ver, ele tem uma noiva que inclusive é sua colega. Além do mais, ela sabia exatamente quem eu era quando me apresentei.
— Eu percebi. Não parece que ela gostou muito de sabe que você trabalha com ele.
— Eu não a culpo. Eu também não iria gostar de ver o perto de nenhuma ex se eu fosse ela. Ele conquista as pessoas sem que elas ou ele percebam. Não vou me surpreender nenhum pouco se as técnicas e as pacientes caírem de amores por ele depois.
— E quanto a você? — ele perguntou. — Você não tem medo de cair no charme dele de novo?
— Porque isso aconteceria? — o encarei, enquanto mordia um pedaço de frango.
deu de ombros.
— Não sei… só um palpite. Vocês eram ótimos juntos. Eu torcia por vocês, por mais que ele achasse que não — ele riu. — Nunca entendi o ciúmes que tinha de você comigo.
Rolei os olhos, rindo também.
— Acho que talvez por você ser meu único amigo homem. Mas acho que tinha ciúmes de qualquer pessoa do sexo masculino que queria se aproximar de mim, principalmente se fosse você ou os amigos dele.
— Bom, você sempre deixou claro que não gostava de rapazes mais novos. Mas namorou ele, o que é estranho. Ele deve ter se sentido inseguro.
— O que é mais estranho ainda. Eu era a insegura da relação. Eu não tinha confiança para nada… que… era tão estranho, eu demorei a me acostumar com ele e nosso relacionamento. Mas eu conseguia ficar à vontade perto dele.
— Correção: só dele. Não é como se você tivesse tido outros relacionamentos desde então.
— Eu saí com o algumas vezes — me defendi, mencionando meu ex amigo colorido. — Foi legal.
— Mas não legal o suficiente para te fazer querer um relacionamento sério. Por falar nele, por onde ele anda?
— Da última vez que eu soube, ele ia voltar para a Tailândia para passar um tempo com a família. E mais, não é como se eu quisesse um relacionamento. Eu não tenho tempo para namorar, . Acabei de fazer um mestrado, quero tentar uma carreira acadêmica logo e quem sabe um doutorado, mas preciso juntar grana para isso — dei de ombros.
— Eu sei que sim, mas isso nunca impediu ninguém, nem você. Tanto você quanto eram bastante ocupados com a faculdade.
— Sim, éramos. E isso era um dos problemas. Enquanto eu tinha aulas ainda podíamos nos ver com mais frequência, mas durante o período de estágio as coisas começaram a piorar, caso você não se lembre. Acho que nosso relacionamento começou a desandar nessa época. De repente, acho que as outras garotas que não saíam do pé dele pareceram mais interessantes — murmurei, amassando a latinha de cerveja com a mão. — Eu odeio traições, . De qualquer tipo. Eu já tinha passado por uma com uma amiga, e só piorou tudo quando fez também. Doeu duas vezes mais — acrescentei, sentindo os olhos arderem com a lembrança.
Sim, eu ainda sofria com isso apesar de ter superado. Era uma lembrança ruim que eu não era capaz de esquecer e olhar para agora só me fazia lembrar nitidamente de tudo.
Obviamente, você já deve ter percebido. Eu guardo um pouquinho de (ou muito) rancor.
Não me culpe, culpe meu signo. E o dele, que é o mesmo.
Pelo menos eu não herdei o lado infiel que dizem que os aquarianos têm.
Infelizmente, éramos como fogo e gasolina, que se misturam mas não dão um bom resultado depois.

No dia seguinte, acordei depois de dormir o quanto pude. A magia dos plantões, depois que você os cumpre, fica com o resto da semana livre. Menos aqueles que possuíam mais de um vínculo, é claro. O que não era meu caso. O hospital pagava bem o suficiente para eu viver uma vida confortável. Eu morava sozinha em um apartamento pequeno, que era mais do que suficiente para mim. Se eu tivesse que ter um segundo vínculo, esperava que fosse com uma universidade.
Após tomar café da manhã, resolvi limpar e arrumar meu apartamento. Liguei o som e escolhi uma playlist no Spotify.
Mas claro que eu ia fazer meu próprio show em casa para mim mesma em meio ao processo de limpeza, principalmente depois de ter tido o trabalho de aprender a coreografia dos refrões da maioria das músicas de HyunA.
Óbvio.
Lip & Hip
que o diga. E eu nem vou comentar sobre Red.
Rindo comigo mesma após terminar de arrumar tudo, fui tomar um banho. Infelizmente, eu não tinha disposição para dançar por muito tempo.
Quando saí do banho, encontrei no meu sofá assistindo algum canal aleatório de TV.
— Por favor, diz que você tem algum coisa gostosa para comer. Eu esqueci de fazer compras e ‘tô morrendo de fome. Tudo o que eu tenho em casa é integral e tem gosto de raspas de lápis de cor.
Rindo, eu apontei para o balcão da cozinha.
— Fique à vontade para se servir.
— Eu já disse que te amo? Nem precisa falar duas vezes — e se levantou.
— Você não foi trabalhar hoje?
— Bom, na verdade eu passei a noite inteira trabalhando e cheguei em casa de madrugada. Eu não dormia há uns três dias e meu chefe resolveu fazer o favor de me dar uma folga após terminar o projeto. Estou com o resto da semana livre. E você?
— 36 horas seguidas. Mas já dormi o quanto pude. Se você tivesse vindo mais cedo, poderia me ajudar com a faxina.
— Tem certeza disso? Acho que eu que estou precisando de você e lá em casa. Sério, acho que deve ter teias de aranha por todo lugar. E eu nem sei de onde elas brotam. Devo comunicar ao nosso senhorio?
— Acho que é melhor deixar ele de fora — eu disse, enchendo um copo de água para beber. — Por falar em , acho que ela deve chegar hoje à noite.
— Espero que ela esteja trazendo presentinhos.
— Ah, claro. Espere sentada, aposto que ela nem lembrou disso — eu disse, rindo.
e eram minhas vizinhas.
Mas era quase como se morássemos juntas, o que só não acontecia porque os apartamentos eram pequenos demais para 3 pessoas nele e nós precisávamos do nosso próprio espaço. Principalmente , que vivia trazendo trabalho para casa.
Porém passávamos a maior parte do tempo juntas em algum dos 3 apartamentos, o que era ótimo. Era como se tivéssemos nosso pequeno mundinho.
E por falar em mundo pequeno, aproveitei para contar a novidade do ano para .
— Como assim ele está trabalhando com você? A já sabe disso? Ela vai querer voar no pescoço dele assim que o vir. Ela é pior que você.
— Ainda não. Não achei uma boa ideia contar por telefone. Espero que ela não pegue nenhum plantão noturno com ele. Quem sabe que tipo de acidente poderia acontecer, não é mesmo? — rimos.

chegou pouco depois das sete da noite naquele dia. Nós a ajudamos a desfazer as malas, enquanto ela tomava um banho e depois pedimos pizza no meu apartamento. Havia uma playlist que variava entre k-pop e músicas internacionais tocando. Eu havia planejado contar a novidade a depois do jantar, mas aproveitei o bom humor dela (mesmo morrendo de fome) e resolvi soltar tudo de uma vez só.
— É o quê?! — ela disse e começou a tossir, engasgada com o gole de água que havia tomado.
começou a dar tapinhas nas costas dela.
— Ainda bem que não foi com a pizza — brincou.
— Como assim ele ‘tá trabalhando no St. Lawrence, ? Que droga de pegadinha do destino é essa? — ela perguntou e eu dei de ombros. — Sério mesmo. O seu ex ‘tá trabalhando com você. E pior, comigo também. Eu vou encher a cara dele de porrada.
— Só tenta não fazer isso enquanto estiver no hospital, mana. Fora do hospital, eu posso até te ajudar. Eu arrumo o saco preto e a pá e você encontra um terreno baldio — brinquei.
— Tudo bem, vocês já tão começando a me assustar — comentou e nós rimos. — Vocês são oficialmente as rainhas do shade!
— Acho que você ainda não vai ver ele tão cedo, . Infelizmente eu vou, ao menos um dia da semana. Ah,eu não te contei a maior…
— Ele tá noivo.
— Ei, você também não me contou essa parte! — reclamou.
— Eu achei melhor contar pra vocês duas juntas — expliquei e falei sobre o encontro aleatório que tive com e sua noiva, quando fui ver .
— Caramba! — riu alto em deboche. — Isso vai ser divertido.
— Nossa, mas também o , hein? Ele também sempre tem que estar no meio da bagunça. Acho que o amor que o tem por ele vai só aumentar — ela ironizou. — Primeiro, você; e agora a noiva dele trabalhando com ele. O que o vai pensar disso? Parece um karma — acrescentou .
— Acho que só tem o azar de estar no lugar errado, na hora errada.
— Ah, e a melhor. acha que talvez possa acontecer algo… acho que ele ainda acha que amo o — rolei os olhos, mas elas ficaram caladas. — O quê?
— Vai dizer que você não ficou surpresa por saber que ele irá casar?
— Ah, … Não é como se fosse algo anormal, eu fiquei surpresa, claro. Mas porque a última vez que o vi foi no nosso término, na minha formatura.
— E foi só isso que você sentiu? Eu não quero insinuar nada, . Só ter certeza de que você ‘tá ok com isso.
— Bem, o que você quer que eu diga? Que doeu? — eu ri. — Quem sabe quantas outras namoradas não deve ter tido depois de mim? A diferença é que… ele escolheu aquela.
— É, . E três anos atrás, ele tinha escolhido você. Vocês dois até mesmo usavam aneis de compromisso. Você disse que ele não usa um agora.
— Acho que isso é irrelevante. Não como se eu tivesse o sonho de passar o resto da vida com ele três anos atrás, nós não tínhamos oficializado nada.
— Porque você não quis.
— Eu não ia noivar, muito menos casar estando na faculdade, . Você sabe que é loucura. O que e eu tivemos… foi mais como um o-que-será-será. E nós não fomos feitos para ficar juntos. Eu tive muitos momentos felizes com ele e parte do que sou hoje, minha confiança ou mesmo o meu jeito é por conta dele, por mais que eu odeie admitir depois do que ele fez. Como diz minha mãe, tudo na vida é aprendizado.
— Que seja! — exclamou, de repente. — Não sei porque vocês estão tão sérias quanto a isso. Não é como a fosse cair de amores por ele de novo, . E eu não estou dizendo nunca, porque né, a também dizia que nunca iria namorar garotos mais novos e passou quase dois anos com ele. Mas… eu só sei que eu, a partir de agora, vou só torcer para ter uma escala com , e eu de plantão. Porque eu vou soltar shaaaaade! gritou, fazendo-nos rir. — E por falar em shade… — ela pegou o celular e abriu no spotify colocando uma música.
A música “perfeita’’ para o momento, eu percebi assim que a voz de Perry Edwards começou a soar das caixas de som e nós cantamos juntos dela, enquanto ríamos.
— This is a shoutout to my ex..! Heard he in luh with some other chick!
— Yeah yeah that hurt me I'll admit
— continuei sozinha. — Forget that boy I'm over it!
Eu podia dizer que meu coração deu um pequeno tremelique depois de passar por pequenas emoções que me surpreenderam, mas eu respirei fundo e apenas ignorei aquela sensação de algo não estar no lugar certo que vez ou outra aparecia.
E de repente, estávamos cantando e dançando de pijamas, segurando escovas de cabelo como microfone; e em algum momento fez um vídeo e postou no instagram, enquanto nos divertíamos. Quem visse, provavelmente iria pensar que estávamos bêbadas, mas… era só shade mesmo.
E que aguentasse, pois (e eu) ia testar a paciência dele.
Coisinha básica.


3. Trégua?


Trabalhar doente é uma coisa horrível. Na verdade, até lavar uma louça estando doente é horrível, quando tudo o que você tem vontade de fazer é ficar deitada em uma cama, dormindo até um milagre acontecer e você acordar nova em folha.
Eu queria muito poder fazer isso.
Mas infelizmente eu tinha que trabalhar naquele dia e me obriguei a levantar da cama e fazer isso.
O banho ajudou um pouco, me deixou mais disposta. Tomei uma bebida quente também.
Cheguei ao trabalho um pouco atrasada e encontrei e Lara que já tinham dividido os pacientes e recebido o plantão de Lola, que tinha sido a responsável da noite anterior.
— Bom dia — eu disse, sem ânimo algum, enquanto pegava uma touca e uma máscara e colocava.
— Nossa, . Você está péssima — Lara comentou.
— Acho que é só um resfriado.
— Tem certeza que está bem? — assenti com a cabeça.
Ela me passou o plantão rapidamente e me mostrou os pacientes com os quais eu tinha ficado. A clínica estava mais cheia naquele dia e ela estava admitindo novos pacientes nela, enquanto uma das estagiárias ajudava.
O dia passou terrivelmente devagar. Eu tive uma dor de cabeça horrível, tomei um remédio que de nada serviu e quando estava perto das setes horas e eu achei que finalmente iria para casa, aconteceu algo pior.
Eu estava terminando de arrumar minhas coisas, quando entrou no quarto de repouso para pegar sua mochila. Depois disso, só lembro de sentir minha pressão cair e tudo se apagar depois.
— murmurei, escutando minha própria voz como se tivesse longe. — Minha pressão-
E foi aí que apagou. Devo ter retomado a consciência uns 5 segundos depois de desmaiar. Abri os olhos e encontrei os de me encarando preocupado, ele estava sentado na cama enquanto me segurava em seu colo, como se eu fosse um bebê.
Gemi e me obriguei a levantar. Eu estava com muito sono.
— Eu caí? — perguntei.
— Não, eu consegui te segurar antes disso. Você está se sentindo melhor agora?
— Eu tô com enxaqueca. Pode aplicar um remédio em mim? — perguntei.
Minutos depois, eu estava com um soro com medicação correndo em uma veia da mão direita. Felizmente, não demorou muito para que acabasse. ficou comigo durante todo o tempo, porém.
Naquele dia, estava com o plantão noturno e chegou pouco depois.
— O que aconteceu?! — ela quis saber, assim que viu me ajudando a retirar a agulha da minha mão.
Eu expliquei rapidamente a ela e me levantei. Ajudei a passar o plantão para e quando acabamos, eu falei que estava indo embora.
— Eu vou te levar em casa — anunciou.
— Não precisa, eu tô bem.
me chamou. — Por favor, não tem como você dirigir assim a menos que queira dormir no volante.
Suspirei, sem responder nada. Eu sabia que ela estava certa.
— Eu levo seu carro quando eu for. O meu tá na oficina mesmo — ela disse.
Entreguei as chaves a ela, que as colocou no bolso do jaleco e encarei .
Até chegarmos no estacionamento, o celular dele tocou umas três vezes e em uma dela pude ver que era sua noiva que ligava, mas ele não atendeu. Em vez disso, digitou uma mensagem.
Suspirei, cansada.
— Eu posso pegar um táxi. Não precisa me levar — tentei fazê-lo desistir. — Você deve estar ocupado.
— Eu vou te levar, . Não discuta comigo.
Ora, mas eu não tinha feito isso o dia todo. Na verdade, até tratei bem.
O que uma doença não faz com você, não é mesmo? Eu não tinha nem energias para retrucar direito as indiretas dele.
Claro, com exceção de uma.
— Você e as meninas devem ter se divertido bastante semana passada — ele comentou, depois que estávamos na estrada. — Pelo visto, você ainda curte Little Mix.
Olhei para ele sem entender e então lembrei do vídeo que havia postado no instagram.
Ri de leve. Pelo visto, ele ainda seguia ela. E ela provavelmente sabia disso e fez de propósito.
— This is a shoutout do my ex… — cantarolei, provocando e o vi revirar os olhos.
— Isso é bem infantil, você sabe. Você não faz o tipo de mandar indireta via rede social.
— Eu não mandei nenhuma. Foi só uma música, — e foi a minha vez de revirar os olhos. — Mas se a carapuça serviu... — deixei no ar e abri a garrafa de água que havia trazido comigo.
— Bem, de uma coisa eu tenho certeza... Você não fingia — ele disse, com um sorriso e eu engasguei com a água, tossindo logo depois.
Como eu disse antes, era imprevisível.
— Eu não vou nem responder, . Vou fingir que não ouvi.
— Claro que não vai. Você sabe que é verdade.
— Seu nível de arrogância ultrapassa os limites, sabia?
— Bem, deve ser porque ninguém nunca reclamou. Nem você.
— Ah, claro que não. A vadia que estava na sua cama não deve ter reclamado também — e dito isso, consegui tirar aquele sorrisinho idiota da cara dele.
— Você saberia que eu não transei com ela, nem ninguém além de você se tivesse me deixado explicar tudo, três anos atrás.
— Claro, . E você acha que eu não sabia que era exatamente isso o que você iria dizer? É o que todos dizem.
— Eu não traí você, . Nunca traí — ele disse, entredentes. — Mas você nunca confiou em mim.
Eu senti um frio na barriga outra vez.
— Eu confiei, . Mesmo com um monte de garotas em cima de você. Mesmo elas sabendo que você estava comigo. Mesmo inclusive quando você estava comigo. A diferença é que até então eu nunca tinha te pegado na cama com nenhuma delas até aquele dia.
— Você achava que por eu ser jovem, eu não conseguiria ficar apenas com você. Você até mesmo disse isso na minha cara. "Eu deveria saber que era burrada namorar um cara de 19 anos" — ele repetiu. — Você, no fundo, não confiava em mim, você nem ao menos tinha ciúmes.
— Nem você confiava em mim, . Ou você esqueceu do ?
— Vocês parecem se dar muito bem agora — ele disse, me fazendo rir.
— De verdade, , seria mais fácil eu te trair com do que com . E olha que nenhuma de nós é lésbica.
— Eu confiava em você, eu só não confiava nele — ele disse, após um suspiro.
tem um senso de justiça muito grande, embora você não ache isso. Ele nunca faria isso com você. E sabe porquê? Ele mesmo que me disse que torcia por nós. Que éramos bons juntos. Você acha que ele é o tipo de pessoa que diria isso da boca pra fora? Claro que... Claramente, não tivemos futuro. A propósito, parabéns pelo noivado — eu acrescentei, assim que ele estacionou, mas ele não respondeu nada ou sequer agradeceu.
Desci do carro e ele me acompanhou.
— Tem alguém para ficar com você? Alguma amiga?
e estão trabalhando, mas…
— Eu vou ficar com você, então.
— Não precisa. .
— Tem alguém que possa vir? E se você passar mal outra vez?
— Tem. Tem alguém. Que droga.
— Ótimo. Eu fico até ele chegar — insistiu.
Eu teria discutido, se não tivesse tão cansada.
Mas apenas deixei quieto.
Entramos no meu apartamento e ele olhou em volta, curioso.
O meu senso de educação me forçou a perguntar se ele queria comer ou beber algo.
Eu estava morrendo de fome.
Por fim, decidi pedir uma pizza.
Mandei mensagem para passar por lá, quando saísse do trabalho. E ele disse que chegaria assim que pudesse. O trânsito não estava muito bom também.
— Eu pedi pizza, deve chegar em alguns minutos. Eu vou tomar um banho. Deixei o dinheiro no balcão — anunciei.
— Não precisava ter pedido.
— Qual é, . Eu tô morrendo de fome e sei que você também está. Me deixe ao menos te pagar em pizza, eu pedi de pepperoni — eu disse e ele sorriu.
— Sendo assim, obrigado.
Pepperoni era a favorita dele. Antigamente, quando eu queria convencer a fazer algo, eu sempre usava pizza e hambúrguer a meu favor. Ele sempre caía.
Vesti um pijama confortável quando saí do banho e voltei para a sala.
estava recebendo as pizzas naquele exato momento. Quando ele se virou e me viu, percebi o seu olhar me escanear de cima a baixo, demorando um pouco nas minhas pernas descobertas por conta do short que eu usava.
Bem, não era novidade para ninguém. Mesmo jeans, eu gostava curto. Shorts de cintura alta, blusas regatas e ombro a ombro eram os meus favoritos. E claro, os pijamas. Não era novidade para ele também. E não era como se eu tivesse indecente, embora eu tenha me sentido um pouco assim por conta do olhar demorado dele.
— Ah, as pizzas... — ele sinalizou. — Você parece melhor.
— Depois de um banho? Estou cinquenta por cento renovada. Falta só comer para ficar novinha em folha. Acho que passei mal por conta da enxaqueca. Bem, pelo menos o remédio serviu — acrescentei, tocando a mão onde eu tinha recebido a medicação. — Eu tenho refrigerante, você quer? — ele assentiu e peguei duas cocas.
Comemos em silêncio por alguns minutos, apenas matando a fome e falando em como a pizza estava boa.
De repente, a discussão que tivemos no carro havia desaparecido, como se uma trégua tivesse sido estabelecida naquele meio tempo. Até começar a fazer perguntas, é claro.
— Você fez mestrado? — eu assenti. — Que bom. Eu estou fazendo um também, acabei de iniciar.
— Legal. Boa sorte.
— É... Obrigado. Você parece estar indo bem. Sua casa é legal.
— Sim, felizmente. Mas você também está, não é? Trabalhando, fazendo mestrado, prestes a se casar — ele revirou os olhos quando mencionei a última parte. — Achei que você fosse demorar mais um pouco, depois de tudo. Além do mais, você não usa nenhuma aliança — apontei para a mão dele.
— Hm, é recente. Não é como se eu fosse me casar tão cedo. Também não quero. Não mais.
— Por quê?
— Acho que tô tentando seguir seu conselho de estabilidade primeiro, construir família depois.
— Você esqueceu das viagens no meio disso aí.
— Verdade, ainda tem as viagens — ele riu.
— Sua noiva parece ser uma boa pessoa. Ela tem cara de ser bem delicada. Qual a idade dela?
— É um ano mais nova que eu.
— Uh, você é o mais velho — brinquei.
— Não que faça muita diferença — e não fazia mesmo. era de Hong Kong, na cultura dele isso não era algo extremamente rigoroso e nem aqui, embora eu soubesse que a idade indicava hierarquia em alguns países, como na Coreia do Sul. Porém, era muito mente aberta para se prender a esse tipo de regras, ainda mais com amigos ou namoradas.
Eu também não me importava e embora eu fosse mais velha que ele, ele me chamava pelo nome e falávamos informalmente um com o outro.
— Ela é... Tranquila. Ela ia pirar se eu dissesse que comi pizza. Ela odeia fast food.
— Que tipo de pessoa odeia fast food?
— O tipo fitness ao extremo.
— E eu achava que você que era fitness ao extremo.
— Pra você ver que tem gente pior que eu. Ela até pesa a comida — ele disse, com um sorriso sarcástico.
Eu não consegui controlar um riso.
— Caramba. Ela te obriga a fazer dieta também?
— Só tente imaginar. Mas de vez em quando, eu fujo sem ela saber. Tipo hoje — riu também.
Terminamos de comer e havia sobrado algumas fatias, quando a campainha tocou. Era .
Mas ele não pareceu surpreso de ver ali comigo, embora eu não tivesse dito pela mensagem.
De qualquer forma, eu já estava bem. Apenas tinha pedido para ele ir porque não ia sair enquanto não tivesse alguém comigo. Ele só não pareceu gostar muito de descobrir que esse alguém era o .
Mas enfim. Fazer o que, não é?
Cumprimentei com um abraço e logo escutei um pigarro atrás de mim.
— Eu já vou indo, agora que você tem companhia. Obrigado pela pizza — anunciou, antes de cumprimentar com um aceno de cabeça e ir embora.

— Ah, eu tô morto, sério — se jogou no sofá e pegou um dos pedaços de pizza, mordendo-o. — Hm, eu não sei como aguenta aquela noiva neurótica dele. Eu passei vinte minutos com ela e quase piro.
— O que houve? — perguntei, curiosa.
— Ela sabe que ele estava com você. Aparentemente, ele esqueceu de avisar antes que não ia poder ir buscá-la e ela começou a pirar. Eu ofereci uma carona a ela e quando estávamos no carro, ela recebeu uma mensagem dele dizendo que estava indo te deixar em casa porque você não estava em condições de dirigir.
Então, ela começou a reclamar sobre que tipo de obrigação ele tinha em ir deixar a ex-namorada em casa quando ela podia muito bem pegar um táxi e blá blá blá. Ah, sinceramente. Acho que ela esqueceu que sou seu melhor amigo. Foi por isso que demorei.
— Ou talvez, ela lembrasse muito bem disso e sabia que você provavelmente iria me contar.
— Tanto faz — ele deu de ombros. — Ela não parece o tipo de garota que eu achei que escolheria para passar o resto da vida. Tipo, ela é doida mesmo.
gosta das doidas. Eu também não era lá muito normal.
— Mas você é uma doida legal, ela é uma doida insuportável. E pensar que eu tô trabalhando com ela. Que droga — ele disse e eu ri.
— Vai se acostumando — dei um tapinha em suas costas. — Acho melhor você ir depois de comer, eu não preciso de companhia. E eu sei que você tá ocupado e tem trabalho amanhã. A menos que queira ficar, é claro. Meu sofá é bastante espaçoso — brinquei.
— Oferta tentadora, senhorita, mas prefiro a minha cama — ele disse e eu ri.
Minutos mais tarde, ele se foi. E eu fui dormir depois de arrumar a bagunça da pizza e me livrar de todo o lixo.
Felizmente, minha enxaqueca também havia ido embora. Só precisava dormir e eu estaria pronta para mais um dia de trabalho. E foi exatamente isso que fiz.


4. Se Me Atacar, Eu Vou Atacar


se encontrou com mais cedo do que eu esperava que ele fosse.
Ela não tinha nenhuma escala com ele nem tão cedo, mas Lola precisou de alguém para cobrir seu plantão naquele dia devido a uma emergência em casa.
E adivinhem para quem ela pediu? Isso mesmo.
, que já estava no plantão noturno, ficou o diurno do dia seguinte também junto comigo e . Poderia ser uma ironia do destino? Claro que sim.
Até porque eu bem que suspeitava que fosse isso mesmo.
Ela foi em casa para tomar banho, pegar uma nova roupa e também me buscar, já que meu carro havia ficado com ela.
Achei que ela fosse estar mais cansada, mas ela havia ficado bastante animada em cobrir Lola naquele dia. Era vantajoso para ela, pois iria cobrir uma falta. E porque ela estava planejando "pegar " naquele dia, palavras dela não minhas. Digamos que gosta de ensinar bastante aos mais novos que trabalham com a gente. Fui para o quarto de repouso para trocar de roupa e entrei de uma vez, imaginando que não tinha ninguém já que a porta estava aberta. Mas infelizmente tinha.
E era um só de cueca boxer.
— Aah! Porra, ! — não consegui conter o palavrão. — Não sabe fechar a droga dessa porta não? Ela tem tranca, sabia? Qual o problema do pessoal daqui? Parece que eu sou a única que uso a magia da fechadura.
Ele me olhou confuso por um segundo, mas depois o vi abrir um sorriso, antes de passar a chave na porta e me virar de costas para ele.
— Bom dia pra você também, Kim.
— Você já tá perto de acabar? Eu preciso me trocar também.
— Então se troque — ele deu de ombros. — Não vai ter nada aí que eu já não tenha visto.
— Como é que é? Que você pensa que — me virei, por impulso, mas logo me arrependi pois ele ainda não havia vestido a roupa. — Droga, , veste logo a roupa — resmunguei, dando as costas mais uma vez.
— Também não tem nada aqui que você já não tenha visto, princesa — ele riu.
— Eu já falei pra você parar de me chamar assim. Eu não gosto quando você me provoca.
— Eu sei que no fundo você gosta — provocou novamente.
Respirei fundo, pronta para encará-lo e xingá-lo por todos os palavrões que eu conhecia, mas quando o fiz dei de cara com ele a centímetros de distância de mim.
— O que você tá fazendo? — perguntei, nervosa com a proximidade.
Ele sorriu, inocente, mas eu sabia que de inocente ele não tinha nada.
Especialmente quando, segundos depois, meu corpo foi levantado e colado com o dele junto à parede. Coloquei as mãos em seus ombros por reflexo, para não cair, mas ele me segurava firme.
Senti o coração acelerar no mesmo instante e novamente aquele frio na barriga. aproximou o rosto do meu e senti sua respiração quente bater no meu pescoço.
, o que você tá fazendo? — repeti minha pergunta anterior.
Ouvi seu sorriso próximo ao meu ouvido e logo em seguida, ele responder:
Te provocando — respondeu, antes de morder o lóbulo da minha orelha, me pegando de surpresa mais uma vez. Tremi com o toque, mas logo me recompus.
Respirei fundo e o encarei.
Era isso que ele queria então? Pois então ele ia ter.
Entrelacei meus dedos entre os cabelos de sua nuca e puxei sua cabeça para o lado, com certa violência. Depositei um beijo em seu pescoço, logo depois, pegando-o de surpresa e aproveitei a deixa para me livrar de seus braços e voltar ao chão.
— É assim que você quer então, ? — perguntei e ele me encarou, confuso. — Muito bem. Dois podem jogar esse jogo, então.
E então eu comecei a tirar a roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã na frente dele. Em seguida, fiz o que tinha ido fazer. Vesti minha roupa de trabalho, enquanto ele me apenas me observava.
— Você tem razão — continuei. — Não tem do que você não tenha visto, não é? — então peguei sua própria roupa e joguei para ele. — Eu quero você no posto de enfermagem em dois minutos. Ah, e não pense que estamos bem só por causa do que aconteceu ontem.
E então eu saí de lá.

Lara e já haviam dividido os pacientes quando cheguei. A clínica estava cheia naquele dia, mas haviam muitos profissionais também.
— Por que você demorou? Tá sentindo algo?
— Raiva, talvez. Com um pouco de satisfação — comentei. — Depois te conto. O quarto tava ocupado.
chegou pouco depois.
Não falei com ele durante toda a manhã. A vantagem de ter muitos profissionais era essa. Às vezes, simplesmente não era necessário. De qualquer forma, Lara e estavam lá para tirar qualquer dúvida que ele tivesse.
Felizmente, ele também não me dirigiu mais a palavra.
Na hora do almoço, combinei com de irmos juntas e fui ao repouso para pegar meu celular, onde eu tinha esquecido mais cedo.
Abri a porta, mas antes de entrar, pude ouvir discutindo com alguém no telefone.
— Por que você tá ligando pra falar disso agora, Charlotte? — era a noiva. — Eu já te disse ontem, não tem porque você ficar batendo na mesma tecla toda hora. Que saco! — ele deu uma pausa, provavelmente para escutar o que ela estava dizendo. — Eu já disse que não. Olha, quer saber de uma coisa? Eu preciso trabalhar. Então, aproveita pra pegar um táxi pra ir pra casa hoje e vê se me esquece!
Caramba.
Ele estava com raivinha.
Tsc tsc.
Entrei finalmente no quarto, como se nada tivesse acontecido e ele me encarou assustado por um instante, parecendo surpreso em me ver ali.
— O que você...? — começou a perguntar. Balancei meu celular na frente dele e caminhei para a porta.
— me chamou.
— O quê? — me virei para encará-lo.
— Você ouviu?
— Ouvi o quê? Do que você 'tá falando?
— Ahn... Nada não. Desculpe.
Dei de ombros e saí de lá. ia adorar saber dessa.

E adorou.
Ah, meu Deus! Eu sei que é errado, mas eu não consigo parar de rir! — ela disse, assim que terminei. — Olha, será que ele gosta mesmo dela? Você disse que ontem ele falou que era recente. E o disse que ela é doida. Você acha mesmo que isso vai durar?
— Sei lá. Mas eu não vou mais aguentar provocações da parte dele. Se ele quer jogar, eu posso fazer o mesmo — comentei, e então me lembrei de algo. — Ah, adivinha. Recebi uma mensagem do hoje, faz uns dias que ele voltou para Londres. Ele veio a trabalho e vai passar uns dias antes de voltar para a Tailândia. E me chamou para sair... — cantarolei, balançando o celular, mostrando a mensagem para ela.
— Opa! O gatinho tá de volta — ela brincou e sim, aquele era o verdadeiro nome do , até hoje não aprendi direito como se pronuncia. — Não sei porque vocês não começam a namorar logo de uma vez.
— Eu não namoro à distância, . E eu não vejo a gente como um casal de verdade. Mas... Claro que podemos nos divertir juntos, vez ou outra.
— Quem vê jura que é a voz da experiência falando. Sendo que na verdade ele só é o segundo cara da sua vida — ela riu.
Rolei os olhos.
— Felizmente, ele é o segundo cara da minha vida. Você sabe como eu sou. Raramente eu me interesso por alguém. E nesses últimos três anos, ele foi o único que apareceu.
— Claro, você nunca sai para procurar... Mas sabe o que pensei agora? Não ia ser legal se visse você com o ? Porque o é o pacote completo também e ainda tem o bônus de que ele é da sua idade também. Eu queria ver a cara do quando ele percebesse que você também seguiu em frente. Até porque... Você não disse que não tinha namorado também.
— É como eu sempre digo, . Você é o diabinho e é o anjinho nos meus ombros — nós rimos. — Você deveria escrever roteiros de dramas, porque sua criatividade é enorme.

***


E por falar em diabinho, aproveitou para colocar um pouco da sua maldade para fora quando acompanhou em um procedimento de curativo.
E ela fez questão de ativar seus olhos de águia em cima de tudo o que ele fazia, prestando atenção a cada mínimo detalhe.
— Olhe para sua bandeja de materiais e observe, . Tem certeza que não está esquecendo de algo?
Ele suspirou.
— O saco de lixo e...
— As luvas de procedimento — ela completou, jogando alguns pares na bandeja. — Você não quer contaminar seus materiais, não é?
— Não, sunbae.
— Mais atenção da próxima vez. Você não vai querer dar várias viagens só para buscar material que esqueceu, não é?
— Sim, — rolou os olhos.
E eu contive um riso assim que vi.
— Você acabou de revirar os olhos pra mim, ? Você acha que eu tô falando besteira? Que eu tô pegando no seu pé?
— Ah, disso eu tenho certeza, .
— Olha, , você merecia coisa bem pior do que eu avaliando sua bandeja de curativos, se quer saber — ela deixou no ar. — Infelizmente, é mais tranquila. Porque se dependesse de mim, eu já teria dado um fim em você.
Ele então riu.
— Eu sei que você quer tentar parecer assustadora, , mas a sua falta de tamanho não ajuda. Me faz lembrar daquele meme do pintinho com uma faca.
— Não me subestime, Wong. Tenho certeza que dou de conta de você rapidinho. Cuidado com os bisturis por aí — e então ela sinalizou aquele estou-de-olho-em-você clássico e até eu ri nessa hora junto com .
— Desculpa, amiga. Mas foi realmente engraçado agora.
— Ei — ela me cutucou. — Eu tento fazer as coisas por você e você ri? De qualquer modo — ela se virou para , novamente séria —, acho bom você andar treinando mais sua atenção e memória, . Pelo visto, continuam tão ruins quanto há três anos atrás. Afinal, naquela época você esqueceu que tinha uma namorada, não foi? Espero que não cometa o mesmo erro outra vez.
E lá estava a rainha do shade outra vez. ia rir muito quando soubesse dessa.



Eu tinha que dizer que era quase a pessoa mais insuportável que eu já havia conhecido. Mas infelizmente, ela perdia para a minha noiva.
Charlotte sabia como realmente me infernizar quando bem queria. E eu não sabia se eu iria aguentar mais disso por muito tempo.
Ela estava me deixando completamente saturado aos poucos. Às vezes, eu me perguntava em como fui cair nesse tipo de relacionamento. Ela era uma pessoa ótima quando namorávamos, mas depois que fomos morar juntos, após o noivado…
Bem, as coisas começaram a despencar. Eu não podia sair com meus amigos à noite ou sequer ter amigas mulheres. Ela quase pira quando tive que trabalhar algumas vezes com uma colega de mestrado.
E agora tinha a , que trabalhava comigo.
Eu não vou mentir e dizer que não fiquei curioso em saber como ela estava durante esses anos. Claro que ela havia me bloqueado de toda e qualquer rede social que ela tinha depois que terminamos, mas eu ainda seguia e no instagram e vez ou outra ela aparecia ao lado das meninas.
Eu sabia que elas três estavam trabalhando, mas eu não sabia aonde. E muito menos esperava encontrar ela (e ) trabalhando no mesmo hospital que eu.
E claro, havia também a droga do acontecimento de hoje.
Eu não sei o que deu em mim para provocá-la daquela forma e sei que era errado, mas me surpreendi quando ela revidou. é do tipo que só ignora provocações. Do tipo que te trata com frieza quando está com raiva.
Mas pelo visto, algo tinha mudado um pouco e eu me perguntava como tinha ocorrido aquela mudança. Ela parecia mais confiante, mais independente, embora tenha sido algo que ela sempre foi.
No entanto, ela parecia "mais" várias coisas.
E quando eu achava que estava finalmente conseguindo seguir em frente, o destino veio e a colocou bem na minha frente.
E eu ainda não havia descoberto como lidar com isso direito. Vê-la me causava nostalgia. E embora eu lembrasse dos mais momentos que tivemos, assim como ela, os bons momentos prevaleciam na minha mente e de repente eu começava a imaginar vários "como's" e "se's" na minha cabeça.
Saí do trabalho e dirigi até a casa de um amigo; eu não estava com nem um pouco de vontade de ir para casa e encarar a loucura de Charlotte outra vez. Não tenho tempo, nem paciência para aguentar gente mimada por muito tempo, quando tudo o que eu quero é chegar em casa, tomar um banho, comer e relaxar.
Felizmente, eu não tinha que ir trabalhar no outro dia. Era sexta e eu tinha aula no mestrado, mas eu sempre andava preparado com computador e ao menos a muda de roupa no carro, algo que eu raramente usava, mas que havia caído como uma folha naquele dia.
Toquei o interfone do apartamento assim que cheguei à entrada do prédio e esperei. Quando tive o passe livre, segui para o elevador e logo eu estava batendo na porta pela qual eu não entrava já fazia alguns meses.
— Wong! — abriu a porta, com um sorriso no rosto, falando um dos meus nomes. — Eu sei que você estava com saudades, mas não imaginei que fosse tanto à ponto de querer dormir comigo — e me cumprimentou com um abraço.
— Eu tinha que aproveitar para escapar um pouco da Charlotte — eu disse, assim que nos soltamos.
— Eu sempre te disse que você pode usar o apartamento sempre que precisar quando eu não estiver. Daí você aproveita e faz uma faxina nele — piscou.
— Faz tempo que você chegou?
— Por quê? Você queria ajudar com a faxina? Fica para a próxima. Já foi tudo limpo dois dias atrás. Você sabe, não avisei antes porque eu preferi hibernar durante esse tempo. A última semana na empresa foi um saco, mas felizmente eu consegui uma folga depois de resolver alguns assuntos aqui em Londres.
— De qualquer forma, é bom ver você de novo. Se não se importa, vou me apossar do seu banheiro agora — comuniquei, largando a mochila no sofá e tirando o notebook de dentro, deixando-o lá.
Mi casa es su casa disse, rindo. — Vou pedir alguma comida para gente. Você tem alguma ideia?
— Não me importo com o que seja. Só escolhe a coisa mais gordurosa e calórica que você encontrar, cara — eu disse, antes de me trancar no banheiro e finalmente encontrar um pouco de paz.


5. You're So Good To Me, Baby


Passei a sexta-feira praticamente inteira sozinha. estava trabalhando e não tinha hora para chegar e para completar, resolveu hibernar depois do plantão dela. Sendo assim, passei o dia entre Netflix e comida.
Eu estava terminando o quarto episódio do dia de Altered Carbon quando recebi uma mensagem do no WhatsApp.
"Jantar e balada hoje, topa? ;)"
E como uma luz tivesse aparecido de repente, eu respondi que sim.
"Te pego às sete."
Bem, parecia que alguém tinha que ficar bem bonita agora. Felizmente eu havia dormido bem e minhas olheiras de sempre estavam até ok naquele dia.
Quando o episódio acabou, tratei de ir tomar banho e começar a me arrumar, eu tinha menos de três horas e era bastante pontual.
Aproveitei para dar um jeito no meu cabelo e o deixei ondulado já que cachos eram impossíveis com o tamanho dos fios.
Escolhi um vestido branco florido de alças para a ocasião já que iríamos jantar antes e um sapato preto não muito alto, já que iríamos dançar.
Fora que conhecendo como eu conhecia, ele não me levaria à um restaurante de frango ou algo do tipo, mas também não escolheria o mais caro e requintado deles, pois sabia que eu não me sentia confortável neles.
Então, ficávamos em um meio termo.
Eu estava terminando de calçar meu sapato quando ouvi a campainha tocar.
Um sorriso involuntário apareceu no meu rosto. Já tinha quase três meses que eu não o via. Desde que havia voltado a morar na Tailândia, nós nos encontrávamos apenas nas ocasiões que ele vinha para Londres a negócios, como agora.
Eu o conheci na faculdade onde fiz meu mestrado. Aparentemente, a empresa de sua família era uma das patrocinadoras de um evento organizado pela escola de ciências da saúde e ele participou da abertura no lugar do pai, já que na época trabalhava em uma filial de Londres.
Fomos apresentados pela minha orientadora, que o conhecia e também estava no meio da organização do evento, assim como eu. Na ocasião, ela me pediu para levá-lo ao auditório, até a poltrona que havia sido reservada para ele, assim como outros representantes. Diferente de alguns, estava sozinho, sem nenhum secretário à sua sombra.
Nos aproximamos durante o coffee break do evento. Havia muita gente, mas pareceu perdido em um momento e cheguei a pensar que fosse porque seu coreano não era muito bom, ou coisa do tipo.
Mas quando me aproximei, eu descobri que não, ele apenas estava desconfortável já que não conhecia ninguém. Então, ficamos conversando por alguns minutos, aproveitando o intervalo entre as palestras que felizmente concordamos que eram um saco de assistir.
— Se você, que está fazendo parte de tudo isso, admite que palestras são chatas, imagine eu que não entendo metade das coisas que estão falando — ele comentou, me fazendo rir.
— Eu não vou mentir, eu preferia fugir para o laboratório e ficar vendo Netflix lá. Acho que minha orientadora nem iria perceber que sumi no meio de tanta gente.
— Soa tentador. Porque não fazemos isso, então? À propósito, pode me chamar de . Nós temos a mesma idade, então acho que formalidades não são necessárias. Me sinto um velho, às vezes — ele sorriu. Senti meu rosto corar um pouco. Era óbvio que formalidades eram necessárias ao falar com alguém como ele, mas já que ele não queria que eu agisse assim, quem era eu para reclamar?
Sem problemas.
— Ah, como quiser, . Mas acho que dariam falta de você, com certeza — eu comentei, mas ele deu de ombros.
— Deixe que sintam, então. O que me diz? — e estendeu a mão para mim.
Eu sorri e revirei os olhos, antes de pegar na mão dele.
— Eu acho que você é bem convincente, Sr. . Mas devo ficar em alerta ao ficar sozinha com alguém como você, um homem de negócios com vários piercings nas orelhas? — brinquei.
— Bem, eu deveria dizer o mesmo de uma enfermeira com tantos furos nas orelhas também. Isso não é contra as regras?
— Desde que fiquem bem presos nas minhas orelhas, não — eu disse, fazendo-o rir.
E foi assim que passamos o resto da tarde assistindo Netflix escondidos até ele receber uma ligação e dizer que precisava ir.
— Foi ótimo te conhecer, . Espero que possamos nos ver mais vezes, quem sabe em breve, se você quiser.
— Podemos combinar — eu sorri.
— Sendo assim, eu te ligo depois — ele disse, sorrindo também.

E diga-se de passagem: que sorriso!
Eu poderia facilmente cair no charme de , se aquilo durasse mais um pouco. Mas eu não achava que ele iria ligar, ou sequer mandar mensagem. Ele parecia ser alguém ocupado demais para perder tempo com uma mera enfermeira como eu, que tinha acabado de arranjar o primeiro emprego.
Mas não foi isso que aconteceu.
Alguns dias depois, ele o fez e saímos juntos pela primeira vez.

(Coloque Hot da Avril Lavigne para tocar)

Corri até a porta, sem me importar com os barulhos de toc-toc que meus sapatos faziam. Abri a porta e dei de cara com um sorrindo, com um buquê de flores vermelhas, rosas e amarelas, usando um terno cinza sem gravata, com uma camisa branca por baixo e sapatos casuais.
— Oi — o abracei.
— Oi, querida — ele disse, enterrando o rosto no pescoço. Ele sempre me chamava assim. — Senti sua falta.
— Eu também — e me afastei, sorrindo.
— Eu sei que você não gosta muito de flores ou plantas no geral porque são inúteis, mas eu quis trazer mesmo assim.
— São lindas, . Mas você sabe, não precisava. De qualquer forma vou lembrar de guardar uma de cada como lembrança dentro de um de meus livros.
— Como quiser. Você está pronta?
— Vou só pegar minha bolsa e já volto — mas quando eu me virei para sair, ele me puxou.
Senti seus lábios nos meus em um selar rápido, mas ainda sim delicado.
— Agora você pode ir — ele disse, com um sorriso e eu o acompanhei.
Minutos mais tarde, estávamos no restaurante de comida italiana que ele havia escolhido.
— E como estão as coisas no hospital? — ele quis saber.
— Estão bem, na medida do possível. Meu ex-namorado está trabalhando lá, acredita?
— Ah, que péssimo. Eu com certeza não gostaria de ter a minha ex trabalhando comigo. Sinto muito, querida. Deve estar sendo difícil.
— Digamos que não tivemos um bom término. Mas já faz bastante tempo. Claro que eu ainda sinto vontade de socá-lo noventa por cento do tempo, mas até estou lidando bem com isso.
— Fico feliz, então. E as meninas, estão bem? — eu assenti.
está trabalhando e resolveu hibernar hoje. Mas ela provavelmente vai me dar uma bronca porque eu não avisei que você viria — eu disse e ele riu.
— Claro que vai, mas a gente deixa ela matar a saudade depois. Hoje eu sou só seu.
— Interessante. Eu adoro quando você fala isso — eu ri.
— A sua veia de dominante adora quando eu digo isso — ele corrigiu. — Mas tudo bem, você sabe que pode se divertir comigo sempre que quiser, querida.
— Do jeito que você fala, até parece que eu sou uma espécie de Grey na cama.
— Só às vezes — ele provocou.
— Ei! Pára com isso — eu ri, sentindo o rosto esquentar.
— Adoro quando você fica com vergonha. É muito fofo.
! — eu reclamei, fazendo-o rir.
— Tudo bem, parei.
A comida estava que escolhemos estava completamente deliciosa. Assim que acabamos, ainda era um pouco cedo e resolvemos dar uma caminhada por um parque que havia perto, antes de finalmente irmos para o clube.
— E como anda a sua vida, senhor homem-de-negócios? E as namoradinhas? — eu brinquei.
— Não sei. Acho que minha única namoradinha é você. Caramba, isso é uma descoberta — ele fingiu surpresa.
— Ei, estou falando sério agora.
— Bem, se eu tivesse alguém eu não estaria te beijando a cada 10 minutos, . E acho que posso dizer o mesmo de você.
— Você tem um ponto — admiti. — Infelizmente, eu não tenho muito tempo para isso.
— Nem eu — ele deu de ombros. — Meu pai quer que eu me case logo, mas isso não é algo que eu quero tão cedo. Eu gosto da minha vida de agora. Não acho que eu esteja pronto para ser um marido ou pai ainda.
Eu ri, parando de andar e fiquei em frente à ele, abraçando-o pela cintura.
— Eu acho que você seria um ótimo marido — eu disse, dando-o um selinho.
Puxei ele e continuamos caminhando mesmo naquela posição.
sorriu de lado, me abraçando pela cintura também.
— Bem, se você fosse a esposa talvez eu até concordasse com a ideia do meu pai — brincou e nós dois rimos.
— Ah, claro. Um empresário como você casado com uma enfermeira. Um belo casal — eu disse com ironia.
— Não vejo problema quanto a isso — ele retrucou. — Você sabe que eu não ligo para essas coisas, . Nem a minha família. Minha mãe também não era nenhuma filha de empresários ou algo do tipo quando meu pai se casou com ela. Ela era professora.
Eu sorri.
— Quem sabe quando eu me tornar uma também. Professora universitária, pesquisadora. Tirando a paciência dos meus alunos. Sim… soa interessante.
— Coitado de quem for seu aluno. Mas não se comprometa — ele piscou. — Eu posso cobrar depois...
Eu ri outra vez, revirando os olhos. Não era a primeira vez que tínhamos esse tipo de conversa. Sempre brincávamos a respeito. era aquele amigo com quem eu sentia que poderia falar sobre qualquer coisa. Algo que eu não sentia com , mesmo nós tendo a mesma idade e bem com , na época que namorávamos.
era o tipo de pessoa que era tranquilo com quase tudo, o tipo que não julga ou tem preconceitos idiotas. Além de, é claro, ser lindo e com um ótimo senso de humor.
Nós funcionávamos bem juntos. Nossa amizade funcionava.
Ficamos algum tempo no clube, dançando e bebendo durante algumas horas, antes de decidirmos ir a um café e pedir uma taça de sorvete que dividimos, enquanto voltávamos a ficar sóbrios. Ele não havia bebido tanto quanto eu, tomando apenas alguns drinks, pois estava dirigindo e se divertiu enquanto eu ficava alta.
Entretanto, ao final do sorvete, ele já estava completamente sóbrio, e eu estava quase.
Fomos para seu apartamento depois e se passava de uma da manhã quando chegamos. Ele havia comentado que um amigo estava dormindo naquela noite no quarto de hóspedes, então tentamos ser mais cuidadosos para não fazer nenhum barulho quando entramos.
Algo que foi bastante difícil quando chegamos em seu quarto. Eu já havia estado ali diversas vezes, desde que o havia conhecido, assim como ele no meu e, antes de todo esse rolo começar entre nós, a Netflix era nossa melhor amiga.
Mas como dizia , a Netflix era o nosso cupido particular.
Assim que trancou a porta, ele me empurrou contra ela, fazendo um pouco de barulho que me fez rir.
— Você disse para tomarmos cuidado com barulho.
— Que se dane o barulho — ele disse, antes de me beijar outra vez. Dei um impulso para ficar com as pernas presas em sua cintura, e ele apoiou as duas mãos no minha bunda, me segurando por baixo do vestido. Em seguida, nos levou até a cama, onde me colocou com cuidado, em meio a beijos, enquanto se livrava do blazer e da camisa que ele usava, antes de se aproximar novamente.
— Parece que alguém já está pronta — murmurou no meu ouvido, quando moveu sua mão, que estava na minha coxa para a minha calcinha.
Meu vestido àquela altura já estava uma bagunça, levantado até minha cintura, expondo a peça íntima branca que eu usava em conjunto com o sutiã.
Resolvemos nos livrar dele também.
E do resto das nossas roupas.
Afinal, não íamos precisar delas de qualquer forma.
E o que eu tinha a dizer sobre o ? Ele era maravilhoso.
Em todos os sentidos.

Eu acordei pouco depois das oito da manhã no dia seguinte. ainda dormia com uma mão possessiva que me segurava perto na região das costelas.
Me desvencilhei de seus braços e me levantei da cama.
Escutei uma movimentação na cama, enquanto eu procurava uma cueca e uma camiseta dele para vestir (e que eu provavelmente roubaria depois).
— Oh, que ótima forma de acordar. Uma bela visão, devo dizer — escutei sua voz atrás de mim, me fazendo rir. Apanhei um travesseiro que estava no chão depois de vestir sua camisa e joguei nele, que riu também.
— Sua safadeza é incurável, .
— Porque você levantou tão cedo, ?
— Eu estou com fome. Vou atacar a sua geladeira daqui a pouco.
— Ah, eu também estou com fome — ele disse, com a mão no estômago.
— Está, é? — perguntei, desconfiada. — Sua mão aponta pro seu estômago, mas seu olhar me diz que você tem fome de outra coisa — eu provoquei, me aproximando da cama e sentando com uma perna de cada lado de sua cintura.
— Bem, quanto a isso, não posso dizer que você está errada — ele murmurou, correndo as mãos em um toque brincalhão que logo se tornou um aperto forte nas minhas coxas. — O que devemos fazer quanto a isso, querida? Você está disposta a ajudar, querida?
— Hmm, acho que não preciso levantar tão cedo, afinal — eu respondi, antes de me abaixar para beijá-lo.
Me livrei do edredom que o cobria, mas não da camisa dele que eu agora vestia.
Quando acabamos de "saciar a fome", tomamos um banho juntos, dessa vez apenas com água, sabão e apenas alguns beijinhos envolvidos no meio.
Vesti a boxer de que eu havia escolhido mais cedo e novamente a camisa e saí em direção à cozinha. Estava silenciosa, então supus que seu amigo ainda estava dormindo ou que ele já havia ido embora. Felizmente, havia dito que ele tinha o sono pesado.
Eu estava terminando de preparar algumas torradas, quando tomei o segundo susto daquela semana.
— O que você tá fazendo aqui? — levantei a cabeça e dei de cara com me observando do outro lado do balcão, com uma mochila nas costas.
Mas antes que eu pudesse responder algo, apareceu, vestindo apenas uma calça de moletom cinza.
— Bom dia, pessoas. Ah, ! Você já está indo?
— Eu- sim — falou com certa dificuldade. Parecia tão chocado quanto eu estava em vê-lo ali.
— Por que não come algo antes de ir? — ofereceu, mas negou com a cabeça. — Ah, a propósito, , esse é . E , essa é .
Eu abri um sorriso e cumprimentei com a cabeça, e ele fez o mesmo, mas sem sorrir. Acho que não percebeu, mas estava claramente puto, não que isso fizesse diferença para mim. Eu estava apenas surpresa sobre ele ser o tal amigo de . E ele, bem, estava rígido feito uma pedra. E ouso dizer que ficou mais ainda, quando viu me abraçar por trás e depositar um beijo no meu pescoço.
— Agora eu tô com fome de verdade — ele murmurou no meu ouvido e não pude evitar rir.
— Morango ou uva? — perguntei, apontando para as geleias.
— Hm, morango — ele respondeu. — , tem certeza que não quer? Tem o suficiente para nós três. Acho que já fez pensando nisso, não foi, querida?
— Sim, na verdade imaginei que talvez ele estivesse dormindo ainda. Eu fiz café também, caso queiram.
— Eu estou sem fome — disse e olhou para . — Eu tenho mesmo que ir agora, depois nos falamos.
— Tudo bem, . Até depois.
acenou com a cabeça em um cumprimento breve para nós dois e saiu de lá, sem olhar para trás. E eu e comemos nossas torradas tranquilamente, sentados em cima do balcão com o prato e duas xícaras de café entre nós, apenas aproveitando a presença um do outro.


6. What The Hell


Era real.
Eu estava oficialmente puto.
Mas ao mesmo tempo eu fiquei tão chocado em ver ali, na cozinha de , que tudo o que eu pude fazer foi ficar parado observando enquanto o meu amigo abraçava e beijava minha ex bem na minha frente.
Eu não devia me importar com essas coisas, eu sei. Já faz quase três anos desde que terminamos e eu estou noivo, mas mesmo assim foi inevitável.
Eu tinha consciência de que não sabia sobre a gente, ou caso contrário, ele não teria ficado com ela (pelo menos era o que eu achava).
Não faço a mínima ideia de como ou quando eles se conheceram e foi algo que confesso que ficou pinicando na minha cabeça. havia comentado que iria sair com uma amiga e eu sabia que era a tal amiga de quem ele havia falado algumas vezes, mas ele era reservado demais à ponto de contar detalhes pessoais sobre eles dois.
Não pessoaaaaaais, mas algo como nome, profissão… coisas desses tipo. Ou talvez ele não tenha dito, simplesmente porque nunca tive interesse em perguntar.
Que seja. Mesmo que eu soubesse o nome dela, não ia adiantar de nada já que existe milhares de mulheres com esse nome.
De qualquer forma, acho que dá para imaginar o meu choque ao acordar e vê-la ali. Percebi que não era a primeira vez dela no apartamento, dava para perceber por sua atitude que ela havia estado ali outras vezes, o que fez com que eu me perguntasse quando aquilo havia começado. Será que eles estavam namorando? não havia falado nada sobre isso e ela... Bem, digamos apenas que não me passou pela cabeça que ela tivesse namorado ou simplesmente... alguém.
Eu havia acordado naquele dia completamente relaxado. Não senti nenhuma falta de Charlotte, o que me levou a cogitar seriamente a ideia de sumir algumas vezes já que nossa convivência estava indo de mal a pior desde que resolvemos morar juntos e, principalmente, quando comecei a trabalhar no mesmo local que minha ex-namorada.
Eu havia passado o dia fora tendo aulas de mestrado e quando cheguei, estava de saída. Me chamou para sair também, mas obviamente eu recusei. Primeiro, porque ele estava indo ver a tal amiga e segundo, porque eu não ia segurar vela nem a pau, sendo que eu sabia que tinha algo entre os dois.
Sendo assim, preferi ficar em casa estudando e fui dormir depois de algum tempo. Acordei no meio da noite com uma batida na porta, mas logo voltei a dormir quando percebi que a batida não era na minha porta, mas sim na de , que provavelmente tinha acabado de chegar e estava acompanhado.
Levantei perto das nove horas no sábado e arrumei minhas coisas, pronto para ir embora. Pensei em deixar algum bilhete para agradecendo, mas desisti quando ouvi uma movimentação na cozinha e imaginei que ele já estava de pé.
No entanto, dei de cara com uma mulher que, segundos depois, percebi ser . Ela usava apenas uma camisa que supus ser de e estava preparando torradas tranquilamente.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, antes mesmo de pensar. Ela levantou a cabeça assustada, mas não respondeu porque apareceu no instante seguinte. E então ficou claro o que ela estava fazendo ali.
Se eu dissesse que não senti nada ao ver meu amigo a abraçando, sendo carinhoso com ela e a tratando bem, eu estaria mentindo descaradamente.
Portanto, doeu sim um pouquinho. Ou talvez, mais que isso. Meu coração se apertou não somente por ver aquela cena, mas por lembrar de que um dia eu já havia estado no lugar dele.
Esses eram os meus dias favoritos até hoje. E confesso que eu sentia falta.
Eu não tinha isso com Charlotte.
Nós funcionávamos em uma rotina entediante.
Ela sempre acordava mais cedo que eu para ir se exercitar e não tínhamos oportunidade de comer juntos na maioria das vezes. Enquanto eu comia, ela já tinha se exercitado, comido e se arrumado para ir ao trabalho. Eu não levava muito tempo para me arrumar, é claro. E eu aproveitava para dormir mais um pouco porque acordar de madrugada como ela não era algo que me agradava nem um pouco.
Mas eu sentia falta de ter momentos assim, como e tinham.
Era divertido, espontâneo e algo que me deixava feliz.
Quando não estávamos ocupados com a faculdade, eu sempre a convencia a ficar no meu apartamento vendo filmes, ouvindo música, cozinhando receitas incomuns juntos...
A lembrança disso me fazia sorrir, involuntariamente. Mas eu tinha que me conformar com isso, com o que eu tinha agora. E principalmente com o que eu não tinha mais.
Cheguei no meu apartamento onde morava com Charlotte pouco depois das dez. Meu celular estava desligado e eu só o liguei quando estava subindo no elevador, me deparando com dezenas de ligações perdidas dela e mensagens não lidas. Suspirei, me preparando psicologicamente para o que iria encontrar.
Um furacão estava prestes a vir.
— Onde você estava? — ela quis saber, assim que eu entrei. Estava sentada numa poltrona na sala, usando uma camisola rosa com um robe aberto da mesma cor.
Fiquei calado por alguns instantes, enquanto tirava minha mochila das costas e a colocava no sofá.
— Na casa de um amigo — falei, simplesmente.
— Ah, na casa de um amigo? Quem, ? Ou esse seu amigo é uma mulher? Quem sabe aquela tal de — ela insinuou, irritada. — Você sumiu por dois dias! Sem atender minhas ligações nem responder nenhuma das minhas mensagens! E se tivesse acontecido algo com você?
— Se tivesse acontecido algo comigo, Charlotte, garanto que você não demoraria para ter notícias. Eu simplesmente não queria falar com você — admiti, de uma vez.
— Ah, é? Mas com seu amigo você queria, não é, ? Eu tenho certeza de que-
— Eu passei o dia fora tendo aulas no mestrado, se quer saber. E de noite, quando cheguei, meu amigo ia sair com uma amiga dele e me convidou também, mas eu não fui e fiquei estudando e depois fui dormir. Isso foi tudo o que aconteceu, Charlotte. Meu amigo não é uma mulher, é o . Eu já mencionei ele para você diversas vezes. Ele está passando uns dias aqui em Londres e por isso eu pude vê-lo. Não adianta você insinuar nada onde não tem.
— Como eu não vou insinuar, ? — ela se levantou, vindo até mim. — Como acha que estou me sentindo desde que você disse que estava trabalhando com sua ex-namorada e sabendo que você ainda gosta dela?!
Suspirei, outra vez.
— Eu não gosto dela, Charlotte. Na verdade, nesse exato momento eu não sinto nenhum sentimento bom em relação à ela, se você quer tanto saber. Então, por favor, podemos apenas encerrar essa discussão? — pedi, passando a mão no rosto.
Eu não estava com paciência para prolongar uma discussão sobre algo que ela pensava que eu estava fazendo. Eu não tinha nem disposição para pensar direito, queria apenas tomar um banho, comer algo e ficar quieto.
Felizmente, ela ficou calada. Eu a encarei por um instante antes de dar alguns passos à frente e abraçá-la.
— Desculpe ter sumido. Prometo que não vai acontecer de novo — murmurei. Ela me abraçou de volta, mas não disse nada.



Voltei para casa de manhã, depois de combinar com e as meninas de nos encontrarmos no meu apartamento durante à tarde.
Desde que eu havia saído de sua casa, eu me perguntava se deveria dizer ou não a ele que era o meu ex-namorado.
Acho que de um jeito ou de outro, em algum momento, ele iria descobrir.
Mas não naquele dia.
Eu queria aproveitar o tempo com ele, então decidi contar apenas quando fosse a hora certa. E bom, talvez as meninas pudessem me ajudar quanto a isso, quem sabe.
A única coisa que eu tinha certeza é que não queria parar o que temos só por que agora sabe de tudo. E daí que ele sabe e é amigo de ?
Eu só esperava que não se importasse com isso também, já que ele não sabia da minha relação com e nem eu sabia que eles eram amigos.
Confesso que me assustei ao encontrar ali, porque eu não esperava. Não esperava mesmo vê-lo ali. Como eu iria imaginar que eles sequer se conheciam? Era impossível. Felizmente, consegui disfarçar e correu tudo bem, na medida do possível. Depois de terminarmos de comer, eu fui trocar de roupa e me despedi de , após convidá-lo para minha casa.
Ele insistiu em vir me deixar, mas eu já tinha um táxi me esperando na porta do prédio.
Mandei mensagem para as meninas no nosso grupo assim que eu cheguei, perguntando se elas estavam em casa e contando por cima o que tinha acontecido; minutos depois elas apareceram.
estava um tanto confusa e até perplexa, devo dizer, quando eu contei pessoalmente tudo o que tinha acontecido.
, por outro lado, se expressou por elas duas juntas.
Meu Deus! Eu não tô acreditando ainda! — ela praticamente gritou. — , isso é quase uma vingança e nem foi intencional — e começou a rir, nos levando junto. — A vingança é plena, mata a alma e envenena COM MUITO SEXO NO QUARTO AO LADO! Por que eu me sinto tão feliz em saber que o deve estar se remoendo por dentro com isso tudo?!
Àquela altura, eu e já estávamos rindo tanto que nossas barrigas doíam.
— Eu fiquei tão surpresa quanto ele. Eu não imaginava que o conhecia.
Ha ha ha! — disse . — Eu não consigo parar de rir disso. Você tava transando com o amigo dele no quarto ao lado e pior, depois você fez isso de novo de manhã, quando talvez já tivesse acordado. Eu queria muito ter visto a cara do quando ele te viu lá. O gatinho iel) veio só para causar mais caos e nem sabe disso. Mas se eu fosse você, eu esfregava mesmo o na cara dele.
— Se ela fizesse tudo o que você diz pra ela fazer, , com certeza já tinha ido parar na cadeia.
— O quê? Claro que não! — rebateu, fingindo inocência.
é a mais sensata de nós duas, . Isso temos que concordar.
— Ah, claro. O anjinho no seu ombro — ela riu. — Mas você tem razão, . Sem você, até eu teria ido parar na cadeia. Mas e então... Que horas você disse que vai vir mesmo? Ele está tão bonito quanto da última vez?
— Ele está mais bonito do que eu me lembrava — comentei, com um sorriso.
— Ele é muito charmoso — disse. — Você deu sorte em encontrá-lo, .
— Deu tanta sorte que deveria agarrar logo de vez esse homem — complementou. — Ele é o pacote perfeito, ! Ou vai dizer que depois desse tempo inteiro, você nunca sentiu nadinha de diferente pelo ?
— Nós não nos vemos como casal, . E ele vem de uma família rica, eu não me sentiria à vontade com isso. Nós pertencemos a mundos diferentes.
— Mas ele não se importa com isso — ela retrucou. — De qualquer forma, continue se divertindo com ele, enquanto quiser.
— Sim — concordou. — Como você disse, não tem nada a ver com isso. Foi só uma coincidência... Inusitada.
— Bem, eu não pretendo acabar o que tenho com , ainda que o que temos seja só essa amizade. À menos que ele queira, é claro.
— Ele não vai querer — disse.
— Como você sabe disso? — eu quis saber.
— Não sei, apenas tenho certeza de que ele não vai se importar com isso — ela deu de ombros e deixamos pra lá.

Algumas horas depois, a campainha tocou. Estávamos fazendo alguns docinhos de chocolate e preparando snacks para comermos enquanto assistíamos O Rei do Show, o filme que havíamos escolhido.
Lavei e sequei minhas mãos rapidamente e fui abrir a porta.
— Oi, entra — eu disse, assim que abri.
— Oi, meninas — ele cumprimentou e .
, gatinho. Veio finalmente pedir a em casamento? — ela disse e eu provavelmente teria engasgado se tivesse chegado a colocar na boca o salgadinho que eu tinha pegado na tigela. Ao invés disso, eu o joguei nela.
! — reclamei.
— Então... eu até queria, mas ela não me dá brecha — ele respondeu, meio esnobe, mas com um sorriso no rosto.
Ei! — reclamei novamente, dessa vez pra ele.
— Viu só? Eu disse que é o seu cara perfeito — ela disse e riu. Eu fiquei envergonhada e não consegui dizer nada. E deve ter amado isso. Felizmente, acabou com o clima esquisito.
— Então, . Escolhemos O Rei do Show. E eu sei que você provavelmente já deve ter assistido, assim como , mas nós não. Então... Fique à vontade para não dar spoilers, porque já fez isso o suficiente por vocês dois — ela disse, nos fazendo rir.

A tarde que tivemos foi bastante divertida.
Descobri que adorava as músicas do filme, assim como eu, e nós dois até decidimos encenar uma delas no improviso, mais especificamente à que Hugh Jackman canta com Zac Efron. Obviamente, eu era o Zac.
Ele era o meu crush de infância até hoje.
E é claro, as meninas fizeram questão de filmar isso. Eu não vi o vídeo, mas a nossa paródia improvisada provavelmente tinha ficado horrível.
Mais tarde, elas foram embora e fiquei sozinha com ele vendo Netflix na minha cama, o que foi basicamente o que fizemos durante a noite inteira, como os dois amigos normais que éramos, às vezes.
Já eram mais de duas da manhã quando decidimos ir dormir e eu desliguei a TV. me abraçou do jeito que ele sempre fazia quando dormíamos juntos e ficamos quietos por algum tempo, até cair no sono.
Senti ele dar um beijinho entre meu pescoço e ombro, fazendo um pouco de cócegas que me fizeram rir baixinho.
— Eu amo seu cheiro. Mas você já sabe disso. Por isso, eu te abraço assim — e me apertou mais, me fazendo rir. — Arrrgh!
! — reclamei, rindo.
— Eu sei que você não se acha fofa e devo admitir que realmente não é. Mas isso não me impede de ter vontade de te abraçar e te apertar bem muito — ele riu.
— Você é quase uma Felícia. Deve ser por isso que você não tem bichos de estimação. Eles iam ter medo desses carinhos seus — brinquei.
— Para que abraçar um pet se eu posso abraçar você? Não, obrigado. Estou bem assim mesmo — ele retrucou e pouco tempo depois, nós caímos no sono.
tinha mais uns três dias em Londres, antes de voltar para a Tailândia. Ele teria que voltar na quarta à tarde e, infelizmente, eu teria que trabalhar o dia inteiro na segunda e na terça, mas combinamos de sair na terça à noite, junto com as meninas.

***


O meu plantão naquela semana foi tranquilo no primeiro e no segundo dia, felizmente. Não houve nenhuma intercorrência grave na clínica e magicamente resolveu me ignorar por completo. Não que eu achasse ruim, já que eu estava fazendo o mesmo. Mas no segundo dia, eu acho que ele meio que esqueceu dessa ideia quando resolveu me perguntar sobre , quando estávamos no quarto de repouso, prestes a irmos embora.
— Como você conheceu ele? — ele quis saber e eu respondi apenas porque eu estava curiosa também.
— Em um congresso. Ele era representante de um dos patrocinadores. E você?
— Minha família e a dele são amigas. Uma coisa levou a outra. Meu pai e o dele tem negócios juntos. O conheci uns seis meses depois que nós terminamos.
Ah, claro. Eu deveria imaginar. vinha de uma família rica, e o pai sempre quis que ele seguisse os negócios da família, mas ele preferiu seguir a profissão de sua mãe.
— Ah, entendi — foi o que respondi.
— Faz tempo que vocês se conhecem?
— Eu o conheci na época que eu fazia mestrado. Cerca de um ano depois que terminamos — eu disse, da mesma forma que ele. — Já são quase dois anos, desde então.
— E vocês estão namorando? — ele perguntou, tentando fingir desinteresse e eu quase ri.
— Por mais que todos digam que ficamos bem juntos, não que seja da sua conta, não. Não estamos.
— Vocês... Até que ficam — ele comentou e ele olhou para mim.
— Sério? — o encarei, cética. — Você não quer dizer isso, . Eu te conheço — provoquei.
— Eu... — ele tentou retrucar, mas desistiu. — Eu fiquei surpreso, só isso.
— Você estava puto — acusei. — Eu vi nos seus olhos. Talvez não tivesse imaginado que eu seria capaz de me envolver com outra pessoa. Mas felizmente, eu tenho que te agradecer por ter acabado com grande parte das minhas inseguranças. E ... Bem, ele é alguém bastante fácil de lidar e... as coisas acontecem facilmente entre nós. É divertido.
— É, percebi — ele resmungou. — Até semana que vem — e foi embora.
Fui para casa logo depois para me preparar para sair com e as meninas.
A noite ia ser uma criança.


7. Vexame


Cheguei em casa quase oito da noite e Charlotte já estava lá. Havia saído do trabalho mais cedo, naquele dia.
— Oi — a cumprimentei com um beijo na testa. — Como foi hoje?
— O mesmo de sempre. Um caso mais chato do que o outro, mas de alguma forma eu consigo achar diversão nisso. É sempre bom ganhar causas — ela disse. — A propósito, amanhã estou de folga também. O que acha de sairmos hoje? Podemos ir para aquele clube que você gosta — ela sugeriu.
Eu não estava muito a fim de sair, mas disse sim.
— É, vai ser legal. Que horas você quer ir?
— Acho que umas dez. Eu vou me arrumar enquanto você tomar um banho.
Quando ela saiu, me joguei por alguns minutos no sofá, tentando tirar um cochilo. Ainda faltavam quase duas horas, eu tinha tempo suficiente para tomar um banho e vestir uma roupa. Agarrei uma das almofadas cinza do sofá e fechei os olhos.
No entanto, não consegui pegar no sono.
Sempre que eu fechava os olhos, a conversa que tive com antes de sair do trabalho me vinha à mente.
E, consequentemente, a cena que presenciei no sábado de manhã também.
Ela tinha razão. Eu estava puto.
E eu não queria dizer, de verdade, que eles ficavam bem juntos, embora eu soubesse que era uma pessoa muito boa, que poderia facilmente conquistar qualquer mulher por aí.
Eu só não queria que fosse essa mulher. Ah, as ironias do destino.
Eu teria retrucado o que ela tinha dito mais cedo se não estivesse tão saturado disso ou de tudo o que estava acontecendo na minha vida.
Mas apenas saí de lá, para evitar mais discussões.
Depois de alguns minutos fatídicos tentando pegar no sono em vão, decidi me levantar e fazer um lanche rápido, antes de ir tomar banho e me arrumar.
Saímos de casa uma dez e vinte da noite. Charlotte sempre levava mais tempo do que dizia, mas eu já estava habituado a isso depois de um ano e meio de relacionamento.
O clube estava cheio como o habitual, havia muitos jovens da nossa idade ou mais novos e tocava músicas contagiantes. Infelizmente, eu não estava com muita vontade de dançar naquela noite.
Segui com Charlotte até o bar e pedi dois drinks. Ficamos ali por algum tempo, até ela desistir de tentar me convencer a dançar e ir sozinha para a pista de dança, enquanto eu a observava de longe.
Eu estava na minha terceira dose de vodca quando avistei e dançando juntos, do lado contrário ao que Charlotte estava na pista.
Achei que talvez estivesse vendo coisas, que minha mente estivesse pregando alguma peça, mas logo depois vi , e se juntarem a eles.
Fiquei os observando de longe.
Depois de algum tempo, uma música mais lenta começou a tocar e as pessoas começaram a se dispersar. Foi quando reconheci a música Talking Body da Tove Lo.
continuou dançando com , enquanto o restante do pessoal havia voltado para uma das mesas do lado da pista.
Charlotte voltou para meu lado e pediu outro drink ao barman, porém quase não percebi.
Meus olhos estavam focados no casal 10 dançando na pista de dança como se eles fossem as únicas pessoas presentes no local. Vi descer a mão pelo corpo de sugestivamente até o seu quadril e começar a beijá-la a partir de então.
Apertei o copo na minha mão e tomei a dose de uma vez só, tentando de alguma forma adormecer a raiva que insistia em crescer dentro de mim a medida que eu os observava.
— Amor, vamos dançar... — Charlotte tentou me convencer novamente. Percebi que ela já estava ficando bêbada depois de alguns drinks.
— Depois, Charlotte. Seu drink está bom? — apontei para a taça de martini que ela tinha mãos, tentando distraí-la.
Porém, quando eu olhei para ela, vi que seus olhos estavam em outro lugar. Mais especificamente na direção que eu estava olhando antes dela chegar.
— Aquele não é o seu amigo ? — ela apontou, curiosa. — Parece que ele arranjou uma namorada... Espera, aquela não é a sua ex? — ela disse, depois de reconhecer .
— Sim, é — respondi entredentes, tomando outro gole de vodca, enquanto eu vi seguindo na direção dos banheiros e se juntar aos outros na mesa.
— Você sabia disso, ? Que eles estavam namorando? — ela perguntou, curiosa, olhando para mim.
— É... Eu acho preciso ir no banheiro. Pode pedir outra dose para mim?
— Ahn, claro — respondeu e eu saí de lá.

Me levantei sentindo aquela velha sensação de que o chão estava ‘macio', típica depois de alguns drinks. Eu ainda não estava bêbado, mas também não estava sóbrio.
E sim, eu havia mentido quando eu disse que queria ir ao banheiro. Mas foda-se, eu não me importava.
Felizmente, as pessoas estavam ocupadas demais (ou bêbadas demais) cuidando de suas próprias vidas para notar qualquer coisa.
Segui para o corredor onde ficava os banheiros e esperei do lado de fora por um instante.
Quando apareceu, eu a puxei pelo antebraço para um local que estava mais escuro e reservado e a coloquei contra a parede.
— Que porra é essa, ? — ela perguntou, quando viu que era eu. — O que você tá fazendo aqui?
— Eu precisava falar com você — falei rápido.
— Comigo? Você me seguiu ou-
— Não, eu não segui. Eu já estava aqui quando você chegou e... Eu percebi que você estava certa.
— Sobre o quê? — ela perguntou e estreitou os olhos, agarrando meu queixo com uma das mãos, tentando enxergar algo. — Você tá bêbado?
— Não, eu não tô — tirei a mão dela do meu rosto. — Eu queria dizer que você tava certa. Sobre mais cedo. E sobre tudo.
— Como assim? Do que você—
— Eu não acho que você e ficam bem juntos. Ele é uma ótima pessoa, mas eu não gosto de te ver com ele — murmurei no ouvido dela e percebi ela se arrepiar. — Eu vi vocês dois dançando e eu estava quase ficando maluco com isso, . Ver ele te tocando, sabendo que eu não posso... Olha, já vinha acontecendo umas coisas na minha vida que estavam me deixando confuso, mas quando você apareceu de novo, tudo virou de cabeça para baixo. Eu senti vontade de tentar consertar as coisas novamente.
... Para, você 'tá bêbado — mas eu a ignorei.
— Senti vontade de largar tudo e começar do zero com você outra vez — sussurrei ofegante e olhando em seus olhos, nossos narizes quase se tocando.
Observei seu rosto com cuidado e aproximei o meu, pronto para beijá-la. E foi quando ela virou a rosto.
— Por favor, se afasta — ela pediu, com a voz trêmula. Atendi seu pedido e quando a encarei, percebi seus olhos marejados.

— Eu não vou ser a outra, — ela disse duramente. — Eu não quero fazer outra mulher sofrer o que eu sofri — ela disse, se recompondo aos poucos. Dei um passo para trás, subitamente sentindo meus olhos começarem a arder também.
— Por que as coisas tiveram que ser assim entre a gente, ? — eu perguntei baixo, mas ela apenas balançou a cabeça para os lados e saiu de lá, me deixando a sós.
Respirei fundo e voltei para o bar. Charlotte estava lá e parecia mais bêbada do que antes.
— Você demorou e eu tomei a sua dose de vodca. Acabei de pedir outra — ela disse e eu apenas assenti com a cabeça.
Dei um gole na bebida e voltei a encarar a pista de dança. não estava lá e nem .
... Tem certeza que não quer ir dançar? — Charlotte perguntou, beijando meu rosto. Senti minha boca amargar e não era por causa da bebida.
— Charlotte... Agora não.
— Por quê? — ela perguntou, mas antes que eu pudesse responder me distraí outra vez quando vi e se aproximarem do bar.
Os olhos de se encontraram com os meus, mas desviaram no mesmo instante quando ela viu Charlotte me abraçando.
— Porque…
— Ah, ... Você tá chato hoje... — ela disse e tentou me beijar, mas eu virei o rosto e ela beijou minha bochecha.
Foi tão involuntário que eu claramente não pensei que seria besteira fazer isso.
— Qual o seu problema? — ela perguntou alto, claramente irritada. — Você me rejeitou a noite inteira! Que droga!
— Charlotte, fala mais baixo. Você tá bêbada — eu falei suavemente, tentando acalmá-la.
— Não me manda calar a boca, ! — ela apontou o dedo pra mim e se afastou.
Infelizmente, foi quando ela percebeu a presença de e no bar, quase do nosso lado.
— Eu não mandei você calar a boca, eu só pedi para você falar mais baixo — retruquei, calmo.
— Foi por causa dela, não foi? — ela falou alto e apontou para , chamando atenção não só dela mas de de . — Aquela tal de !
— Charlotte, por favor — pedi, começando a ficar irritado também. — Você está fazendo um escândalo.
— Opa, o que é que tá acontecendo aqui? — perguntou, com um sorriso. Mas eu percebi que ele estava fingindo simpatia, apenas para descobrir porque minha noiva estava fazendo um escândalo.
Charlotte direcionou a atenção para ele, ainda irritada.
— O que está acontecendo? — ela riu, sem humor. — Acontece que ainda a ama! — apontou para . — Ele ainda ama essa vadia da ex-namorada dele! — ela gritou e eu congelei.
— Aí, quem você tá chamando de vadia, sua vaca?! — tomou a nossa frente, tirando satisfação. Só então percebi que ela também acompanhava e .
E claro, que ela também já não estava sóbria.
— Como é que é? — perguntou, claramente sem acreditar no que tinha ouvido.
— Charlotte! — a chamei, dessa vez irritado, tentando puxá-la pelo braço. — Para com isso.
— Não, . Me larga! — e se virou para . — Por que você tinha que aparecer agora, hein? Estava tudo perfeito até você aparecer!
— O que droga tá acontecendo aqui? — perguntou, irritado também — , que porra é essa?
Mas eu apenas balancei a cabeça, ignorando.
vamos embora — tentou tirá-lo de lá. — Eu te explico depois. Vamos — e saíram. olhou para nós de cima a baixo com desdém, antes de acompanhá-los também.
— Charlotte, vamos para casa. Por favor, isso não é bom para sua reputação — falei mais baixo, tentando fazer com que aquilo a fizesse se acalmar e felizmente funcionou.
E infelizmente (ou não), eu acho que eu finalmente havia tomado uma decisão que deveria ter tomado faz tempo.




, e eu voltamos para a mesa depois de pegar os drinks que havíamos pedido no bar.
Nos sentamos e ele me encarou, mortalmente sério.
— Tudo bem, eu ia te contar.
— Ia me contar quando, exatamente? — ele quis saber.
— Ei, o que houve? — e perguntaram ao mesmo tempo e falou rapidamente a eles.
— Eu ia falar logo, eu juro. Eu não sabia que você conhecia o , muito menos que vocês eram amigos — tentei explicar e o arrastei para um local mais distante da mesa, antes de continuar. — Eu fiquei em choque quando vi ele no seu apartamento... E aparentemente, ele também não falou de mim para você, não é?
— Vocês fingiram que não se conheciam. — Nós não estávamos em condições de soltar essa bomba em cima de você de repente, . Você não sabia que nós nos conhecíamos, também claramente não sabia da nossa relação. Escuta, . É verdade o que a noiva dele disse, eu sou a ex-namorada dele. Mas eu passei três anos sem vê-lo até ele ir trabalhar comigo. Quando eu te conheci já fazia um ano desde o nosso término.
... Eu não sei o que dizer. E pensar que nós estávamos... — eu sabia a que ele se referia. -no-quarto-ao-lado.
— Sim, eu sei. Mas não foi algo que você ou eu planejamos — eu disse, encarando-o nos olhos. — Eu não sei o que você quer fazer agora, . Eu vou entender se você quiser terminar o que temos e ser apenas meu amigo... Mas eu quero que você saiba que isso é passado. E que eu não quero que isso estrague a relação que tenho com você. E eu não me refiro somente a sexo.
— Eu... Você sabe como isso é complicado, não sabe? — ele perguntou.
— Nós não fizemos nada de errado, . Você não deve se sentir mal por isso — o abracei pela cintura.
— Eu sei, eu sei — ele me abraçou de volta. — Eu só fiquei confuso agora.
— Eu estava esperando o momento certo para te contar isso. Eu deveria ter falado antes, me desculpa.
— Tudo bem... Não se preocupa com isso, tá? — ele disse, segurando meu rosto e beijou minha testa.
— Quer ir embora? — eu perguntei e ele assentiu.
— Acho que é melhor.
Voltamos para a mesa e minutos depois chegamos em casa.
— Tem certeza que não quer ficar? — eu perguntei a .
— Acho que é melhor assim, pelo menos por hoje.
— Eu entendo — eu disse e me aproximei, segurando seu rosto e selando nossos lábios. me abraçou pela cintura, me aproximando mais de seu corpo e aprofundou o beijo. — Estamos bem? — eu perguntei, quando ele me soltou.
sorriu para mim.
— Sempre, querida — e respondeu e eu sorri também, mas sabia que ele ainda estava confuso.
— Boa viajem de volta à Tailândia. Espero que você venhas mais vezes. Eu vou sentir sua falta, — o abracei carinhosamente, sentindo meus olhos marejarem. Ele depositou um beijo no meu pescoço, enterrando o rosto ali, como sempre fazia.
— Eu também, . Eu também — e me abraçou forte, antes de selar nossos lábios mais uma vez.
E então, ele se foi.


8. Cartas na Mesa


Não sei se vocês já perceberam, mas pessoas costumam fazer e desfazer negócios em meio à uma refeição, como se a comida quase ajudasse as pessoas a entrarem em um acordo.
Ou como uma forma de desfazer esses acordos de um maneira mais formal e cordial, em busca de evitar atritos.
Esse era o meu caso hoje.
Talvez eu estivesse sendo um completo babaca impulsivo, mas eu simplesmente não aguentava mais. Eu tinha consciência de que eu precisava me libertar e desapegar de muitas coisas, se quisesse viver bem. E uma delas era minha noiva, Charlotte.
Ela ainda estava dormindo quando eu levantei, tomei banho e resolvi preparar um café da manhã fitness é reforçado para ela. Eu devo dizer que fiquei um pouco orgulhoso de mim mesmo, pois a mesa havia ficado linda.
Eu estava com uma caneca de café na mão, encostado ao balcão da cozinha, quando Charlotte apareceu.
— Bom dia — falei, levantando a caneca.
— Bom dia... O que é isso? — ela perguntou confusa, porém sorrindo de leve.
— Gostou? Eu fiz para você.
— Para mim? Por quê?
Eu dei de ombros, sinalizando para que ela se sentasse. Me juntei a ela, colocando a caneca na mesa.
Charlotte bebericou o suco de laranja que eu havia feito e sorriu.
— Eu preciso te falar uma coisa, Charlotte — eu disse, tentando manter um tom neutro.
— Falar o quê? — ela quis saber e esperei que ela terminasse de mastigar para dizer.
— Eu não posso me casar com você — falei diretamente. Seu sorriso desapareceu no mesmo segundo, como se ela tivesse acabado de tomar um banho frio.
E bem, talvez fosse.
— O-o quê? Como... Como assim, ? — ela riu, nervosa.
— Você estava certa ontem sobre a . Eu ainda a amo. E não acho justo para nenhum de nós dois nos casarmos em meio a esse tipo de situação. Você não merece casar com alguém que mesmo depois de três anos, ainda sente falta da ex-namorada. E além disso... Eu acho que você também sabe que isso provavelmente iria acontecer mais cedo ou mais tarde, independentemente da .
— Não, . Você... Você não pode! Isso foi por causa do que eu fiz ontem?
— Não, Charlotte. Você sabe que não damos certo juntos. Desde que resolvemos morar juntos, as coisas começaram a desandar. Nosso relacionamento mudou completamente e não foi para melhor. Eu não... Eu não consigo acompanhar a sua rotina complicada, fitness ao extremo... Nem estou preparado para me casar. Eu achava que sim, mas... Pelo visto, foi uma má ideia entrar em um relacionamento tão sério e tão rápido, como aconteceu entre a gente.
— Mas... Você disse que gostava de mim…
— Eu gostava... — respirei fundo. — Eu tenho um carinho enorme por você ainda, mas... Não é amor. E acho que nunca foi.
... — ela começou a chorar.
— Eu gostaria que você conhecesse outras pessoas, vivesse mais, antes de finalmente decidir se casar com alguém... Acho que isso seria bom para você, Charlotte.
— Eu não quero conhecer outras pessoas, quero ficar com você.
— Charlotte…
— A sua ex-namorada tem alguém também e ele é seu amigo.
Eu suspirei.
— Sim, eu sei. Não é como se eu fosse voltar com da noite para o dia, Charlotte. Mas a questão não é só ela. Eu já vinha pensando nisso há algum tempo... Eu tentei fazer dar certo com você, eu juro. Mas eu não sou feliz assim. Eu fiquei apenas empurrando, me forçando a estar em um relacionamento que eu não queria estar. Eu não quero que você sinta raiva, embora eu saiba que estou te magoando ao dizer isso. Mas eu resolvi ser sincero com você e acabar com isso, antes que seja tarde demais para nós dois — eu tentei explicar. — Você merece estar com alguém que te ame.
Ela ficou calada por um instante, deixando as lágrimas caírem em meio a seu choro silencioso, os olhos vidrados em seu anel de noivado.
— Eu tenho que ir embora, não é? — ela disse, depois de algum tempo. — O apartamento é seu.
— Eu vou ficar uns dias fora em um hotel para te dar mais tempo para se reorganizar. E... Você ainda tem o seu apartamento, de qualquer forma.
— Sim... Eu... — respirou fundo.
— Você levar o tempo que precisar, Charlotte. Eu sinto muito por tudo.
— Me dê uma semana — ela disse, por fim.
E foi assim que eu acabei o meu noivado.
Senti como se tivesse tirado um peso das costas, mas algo me dizia que aquilo tinha sido fácil demais. Mas eu não ia discutir.
Arrumei uma mala temporária, algum tempo depois e a deixei sozinha no apartamento.
Eu voltaria em uma semana, quando ela me avisasse que tinha ido embora e aproveitaria para a minha cabeça no lugar durante esse tempo sozinho, eu só esperava que Charlotte também fizesse o mesmo.
Eram cerca de dez e meia da manhã quando eu saí, pronto para ir para o hotel que eu tinha reservado, mas antes havia outra coisa importante a resolver.

Toquei a campainha da porta do apartamento de , quarenta minutos mais tarde. Ele abriu e me encarou sério, sem surpresa. Como se já esperasse que eu aparecesse a qualquer momento.
— Oi — cumprimentei.
. Suponho que você veio colocar o assunto em dia.
— Pode-se dizer que sim.
— Bem, já me contou tudo ontem, você chegou tarde.
— Contou? Contou o quê?
— O que eu precisava saber. Que vocês são ex-namorados, como sua noiva fez questão de explicitar ontem, mas que vocês não se viam há três anos, até você ir trabalhar no mesmo local que ela — ele disse e suspirou, sentando no sofá da sala. — Ela tinha mencionado que tinha um ex-namorado que estava trabalhando com ela, mas eu nunca iria imaginar que fosse você.
— Eu também não sabia que vocês se conheciam, nem que eram... amigos.
— Sim... é uma mulher incrível, como você já deve saber. Eu a conheço há dois anos, estivemos afastados nos últimos meses quando eu tive que voltar para a Tailândia, mas felizmente nós temos o tipo de amizade que supera essas coisas, mas eu vou cuidar disso em breve também.
— Entendo... Eu acho que não tenho o que dizer, então, já que você já sabe — eu falei e dei meia volta, pronto para ir embora.
... — me chamou. Olhei para ele — Espero que isso não estrague a amizade que temos.
— Por que estragaria? — perguntei, sem saber exatamente se eu queria ouvir a resposta.
— Porque eu não vou me afastar dela por causa disso — ele disse, olhando para mim. — Gostaria que soubesse.
Eu assenti com a cabeça e ri, sem humor, encarando o chão.
— Se eu fosse você, eu também não me afastaria. Boa viagem de volta, — falei, antes de ir embora.
Às vezes, quando você constrói uma amizade forte com alguém, seja homem ou mulher... Sua sinceridade fala alto, antes mesmo que você perceba. Isso nem sempre é uma situação feliz, principalmente quando você não quer que aconteça.
Mas foi o que aconteceu comigo.


Já fazia duas semanas que havia ido embora.
E também fazia duas semanas desde que eu havia trocado de plantão com e agora trabalhava à noite.
Eu não tinha certeza de até quando isso iria durar, mas eu não estava preparada para ver outra vez.
E felizmente, isso até então não tinha acontecido.
Eu estava uma bagunça desde aquela situação no clube e não sabia muito bem o que fazer. Eu vinha me comunicando com desde então, e ele parecia bem comigo. Eu sabia que ele havia saído do meu apartamento ainda confuso, mas aparentemente as coisas agora estavam normais entre nós, o que me deixou feliz, pois eu não queria que isso nos afetasse de alguma forma.
Ele não sabia ainda ao certo quando voltaria à Londres, mas prometeu avisar assim que descobrisse. Embora eu já estivesse sentindo falta dele aqui, eu tinha consciência que esse tempo longe dele e de serviria para me ajudar a pensar melhor sobre como as coisas estavam. E querendo eu ou não, o que havia dito naquela noite tinha me afetado. Mas não se uma maneira boa.
Ouvir aquilo dele a princípio me pegou de surpresa, mas então eu lembrei que ele tinha uma noiva. De repente, todas aquelas palavras quase fizeram meu estômago revirar. E quando ele tentou me beijar... Talvez não fosse sua intenção, afinal, ele estava bêbado... Mas aquilo me magoou.
Só eu não estava somente magoada, como também com raiva dele por ter feito aquilo. Por ter colocado eu, ele e sua noiva nesse tipo de situação horrível.
Eu não queria ser a outra. Nem dele ou de ninguém.
E eu não seria.
Talvez eu seja considerada fraca por ter dado um jeito de me afastar de , mas eu não me importava, pois eu precisava de um tempo longe de tudo isso.

Os plantões noturnos eram calmos e não tinha muita coisa a se fazer. Na verdade, quase nada. Passei inclusive metade da noite lendo ou assistindo dramas, para passar o tempo.
No dia seguinte, dormi quase o dia inteiro, acordando apenas para comer.
Recebi uma ligação de minha mãe, me chamando para sairmos juntas naquela noite. Tratei de me arrumar para ir encontrá-la e fomos juntas até um restaurante coreano. Ambas concordamos que aquela era uma ótima noite para comer carne de porco com soju.
E já que iríamos beber, eu resolvi não ir de carro.
— Então, você trocou de turno? — assenti. — Por quanto tempo?
— Acho que vou ficar mais uma semana e devolvo ele para .
— E porque quis fazer isso?
Balancei meu copo de soju, pensando em como responder aquilo.
— O ambiente diurno está um pouco tenso ultimamente para mim, estou tentando evitar atritos com um colega novo. Então, decidi que é melhor ajudar Lara a treiná-lo do que eu...
— Ah, entendi... E aquele seu amigo, ? Como ele está?
— Ah... Ele disse que sente muito não ter ido te ver quando estava aqui, mas prometeu que quando voltasse iria te visitar — eu disse, com um sorriso.
Minha mãe adorava o .
— Ah, ele é adorável. Você sabe... O que eu penso disso. Vocês combinam bastante — ela falou com um sorriso e eu revirei os olhos, bebendo um gole de soju, tentando não rir.
— Mãe... Eu já disse que somos só amigos.
— Hm... Sei bem como é essa amizade de vocês dois... — ela insinuou, mas eu não respondi. — Bem, ele foi o único rapaz que você apresentou à família depois de ...
— É, eu sei... Mas nós não temos nenhum compromisso e não é como se eu quisesse um agora também.
— Eu não sei o que houve realmente entre você e , ... — ela segurou minha mão. — Mas se acabou, foi porque não deu certo, como você mesma disse. Você sabe que eu gostava muito dele e o achava um garoto ótimo, mas você é a minha filha e eu apoio as suas decisões.
Apertei a mão dela com a minha.
— Obrigada — sorri.
Queria contar para ela sobre tudo, mas de algum modo eu não conseguia falar da minha vida amorosa com minha mãe, nunca havia conseguido, pois não me sentia confortável para falar de tal coisa.
Mas felizmente, eu tinha e para isso.
— Essa carne está ótima, não está? — ela comentou, mudando de assunto e eu agradeci mentalmente.

Quando acabamos de jantar, era quase onze horas da noite. Chamei um táxi para minha mãe e ela foi embora. Eu iria fazer o mesmo, mas resolvi dar uma caminhada antes.
Fazia um tempo que eu não saía sozinha e resolvi fazer isso naquele momento.
Respirei fundo e deixei o ar fresco invadir meus pulmões, enquanto eu recuperava minha sobriedade aos poucos. Entrei em um café e pedi um capuccino tamanho grande com bastante canela e chantilly por cima.
Fiquei aproveitando o tempo enquanto explorava o instagram, bebericando a bebida quente aos poucos.
De repente, ouvi um pigarro ao meu lado.
— Posso sentar aqui? — olhei para cima e vi parado com um café na mão. Nem me dei ao trabalho de perguntar o que ele estava fazendo ali, eu já estava cansada desses encontrinhos ao acaso que vínhamos tendo.
— Pode, eu já estava de saída — respondi me levantando, mas ele colocou uma mão no meu braço, me impedindo.
. Por favor — o encarei e bufei, sem paciência, mas voltei a sentar no lugar e voltei a fazer o que eu estava fazendo antes dele aparecer.
Em algumas situações, ignorar a existência de outra pessoa é a melhor alternativa. Mesmo que essa pessoa esteja sentada bem na sua frente e esteja encarando você.
Felizmente, faz anos que parei de me importar com esse tipo de coisa.
— Eu gostaria de me desculpar com você por aquela noite — ele disse, mas eu fingi não escutar. — Eu sei que fiz você se sentir mal, caso contrário, você não teria até mesmo mudado de turno no trabalho — ele continuou a falar. Sabia que eu estava escutando, embora fingisse que não. — E eu sei que foi errado o que fiz e graças a você eu não fui mais longe, mas... — ele suspirou. — Eu não estou mais noivo. Não que isso importe para você... Mas eu acabei tudo depois daquela noite, depois do que eu te disse. Pode ter sido errado, mas foi sincero.
— Ótimo, — falei sem olhar para ele. — Obrigada por me transformar em uma destruidora de lares. E parabéns pela sua solteirice recém adquirida — e então olhei para ele com o que eu julgava ser meu olhar mais frio. — Mas como você disse, isso não importa.
Voltei a bebericar meu café e continuei a mexer no celular, quando ouvi ele respirar fundo.
Ele não falou mais nada por alguns minutos, apenas ficou ali.
Eu não estava nem aí para o fim da droga de noivado dele com aquela vaca fitness. Ele errou com nós duas enquanto estava noivo e isso muda exatamente porcaria nenhuma. Pelo menos o babaca reconhece.
— Por que está aqui sozinha? — ele tentou puxar assunto. O encarei. — Quer dizer, não que seja da minha conta. Estou apenas curioso.
— Por que eu não viria sozinha? — rebati a pergunta. — Posso sair sozinha para onde e quando eu quiser.
— Bem, claro que pode. Mas esse horário é um pouco tarde para uma mulher andar sozinha por aí.
— Tanto faz — respondi e ele riu pelo nariz.
— Você é muito teimosa, .
— E você é intrometido — retruquei, bebendo o último gole do meu café. — Agora, se não se importa... Ou mesmo que se importe, estou indo embora. Passar bem, .


9. Vodca e Coca-cola


Depois de um mês trabalhando em plantões noturnos, eu voltei a trabalhar de dia. Felizmente, quando cheguei no hospital, não encontrei nenhum só de cueca no quarto de repouso, tampouco no posto de enfermagem.
Lara já estava lá recebendo o plantão de Vanessa, a enfermeira da noite, quando eu entrei na sala. As técnicas estavam acabando de dividir os pacientes entre si e preparando as medicações daquele horário.
Não havia sinal de , embora ele já devesse estar lá. Parece que alguém havia se atrasado.
Dei de ombros e fui falar com Lara.
— Bom dia, Lara. Como estamos hoje?
— Bom dia, . Infelizmente, temos muitas admissões a fazer, porém, alguns pacientes já estão de alta e irão sair a qualquer momento — ela explicou rapidamente. — Temos duas estagiárias, mas não vai vir hoje, então durante a tarde você e Lola ficarão sozinhas — comunicou.
— Tudo bem. Já ficamos sozinhas outras vezes — respondi.
Antes de , os meus plantões e os de Lola eram quase sempre nos mesmos dias e nem sempre havia outro profissional conosco.
— Claro, sei que não será um problema para vocês. Ele não veio porque está doente, mas talvez apareça amanhã — ela acrescentou. — Eu vou ficar com uma das estagiárias, admitindo os pacientes. Você pode evoluir os que ainda estão internados e fechar os prontuários dos que estão de alta?
Dei uma boa olhada no quadro que continha os nomes e as informações dos pacientes das enfermarias e decidi chamar a outra estagiária para ajudar.
— Anne!
— Sim, ?
— Pode me ajudar aqui? Eu vou dividir os pacientes para nós duas e tenho que fechar esses prontuários — falei apontando para as pastas empilhadas no balcão. — não veio hoje, portanto, teremos que dar cobrir a parte dele.
— Claro, . Mas... por que ele não veio hoje?
— Lara disse que ele está doente — respondi, enquanto dividia os leitos dos pacientes em um papel.
— Doente? — ela perguntou, preocupada. — Mas será que ele está bem? Ah, pobrezinho... ele nunca falta.
Revirei os olhos.
Claro que as estagiárias — e até mesmo algumas técnicas — tinham uma queda por . Eu não as culpava. Porém, eu conhecia a peça e isso não era algo que me impressionava mais.
— Não precisa se preocupar. tem uma saúde de ferro, deve ser só um resfriado — respondi.
E era verdade. era o tipo de pessoa que raramente adoecia e mesmo quando isso acontecia, ele se recuperava rápido.
— Sendo assim, espero que ele venha amanhã — Vanessa respondeu, em um tom apaixonado. Senti vontade de rir, mas me contive.
— Sim, claro. Você pode ir agora, Vanessa — falei, encerrando o assunto.

***


A manhã foi bastante corrida, mas felizmente pudemos ter um descanso durante a tarde, que estava mais tranquila. Tive que levar alguns pacientes ao bloco cirúrgico, como acontecia vez ou outra por conta da falta de maqueiros, mas tive ajuda das técnicas para isso.
Quando o plantão se encerrou, eu mandei mensagem para dizendo que já estava saindo.
Havíamos combinado de jantar juntos naquela noite e eu iria encontrá-lo no trabalho.
No bairro onde ele trabalhava, havia muitos restaurantes diferentes nas redondezas. E sempre costumávamos comer por lá, pois podíamos ir andando.
Cheguei em frente ao prédio da firma onde ele trabalhava e mandei mensagem como sempre fazia.
Sentei em um banco do lado de fora e aguardei, enquanto navegava olhando coisas aleatórias no instagram.
Escutei um barulho de saltos na calçada e levantei o olhar quando ele cessou, dois pés em um scarpin preto parados a minha frente.
Encarei a mulher e a reconheci como sendo a noiva — ou ex-noiva — de . No entanto, antes que eu pudesse falar, senti o peso da sua mão direita no meu rosto.
Foi tudo muito rápido. Não tive tempo nem de ter algum reflexo para evitar. E tão rápido quanto o tala que ela me deu, foi a onda de raiva que me atingiu.
— Que porra...? Você tá louca?! — eu gritei, me levantando e revidando o tapa.
— Ei! — ela gritou.
Ei?! O que foi? Você achou que podia vir até mim, me bater e eu não iria revidar?
— Sua puta! — ela tentou vir pra cima de mim, mas eu agarrei seu cabelo, puxando-o.
— Quem você pensa que é?! — perguntei e foi então que senti algo escorrendo no meu rosto. Coloquei minha mão livre no rosto e percebi que era sangue. Olhei para a mão dela e vi seu anel de noivado, agora tingido por uma ligeira mancha vermelha na pedra branca. — Você me fez sangrar, sua filha da puta!
— É tudo culpa sua! — ela gritou. Eu puxei o seu cabelo mais forte antes de empurrá-la. Por pouco, ela não caiu. — Ele acabou comigo por sua causa.
— Eu não tenho nada a ver com as decisões que toma ou deixa de tomar, sua vaca! — revidei, me controlando para não voar no pescoço dela. — Pelo menos, ele resolveu terminar com você, antes de te trair! Sorte sua! Porque ao contrário do que você pensa, eu não tenho nada com aquele idiota! Você deveria ter mais amor próprio e seguir em frente, ao invés de estar se rebaixando a esse ponto!
— Isso é ridículo! — ela gritou, as lágrimas caindo. — Eu fiz de tudo! Eu o conheci antes de você e gostei dele primeiro, mas então você apareceu e ele se apaixonou! Você não imagina o inferno que foi viver dois anos sabendo que ele estava comprometido com alguém que nem tinha tempo para ele! E ele sempre me rejeitava...
— É o quê? Do que porra você tá falando?
— Eu sabia que ele nunca iria terminar com você, mesmo você sendo uma vadia irritante que não o dava atenção! — ela falou, passando a mão no rosto para limpar as lágrimas. — Então eu resolvi fazer algo e contratei alguém para fingir ser amante dele — ela confessou, rindo sem humor. — Nem foi difícil entrar no apartamento, já que ele tinha a senha mais idiota do universo! Mas agora tudo foi por água abaixo outra vez, por sua culpa!
— O que você fez? — fui pra cima dela e a empurrei, dessa vez a fazendo cair no chão.
! — ouvi a voz de , segundos depois ele estava me segurando para eu não avançar em cima da vadia.
— Você tem ideia do quanto eu sofri por sua causa?! — eu gritei, sentindo os olhos arderem de raiva. — Me larga, ! Tentei me soltar, mas foi em vão. Ele me abraçou por trás, prendendo meus braços.
— Calma, . Calma — murmurou. — Vamos sair daqui, vem.
Senti algumas lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto, fazendo o local do corte arder. Deixei que me guiasse até ficamos distantes daquela vadia.
Quando ele viu que eu estava mais calma, me soltou e levantou meu rosto, fazendo com que eu o encarasse.
— Você ouviu? — ela assentiu. — Todos esses anos, ... Por culpa dela!
Shh! Calma, — ele me abraçou. — Não chora, ela não merece. Nenhum deles merece suas lágrimas.
me soltou um tempo depois e tirou um lenço do bolso, secando meu rosto.
— Você sabe o que dizem. Temos que tirar as coisas boas das ruins que acontecem na nossa vida — ele falou. — Você sofreu, mas superou. Além disso, talvez você não tivesse conhecido ... Ou talvez você tivesse seguido um caminho diferente, trabalhado em um local diferente, mas você já foi longe.
Respirei fundo, me recompondo aos poucos.
— Sendo planejado ou não, , aconteceu. De um jeito ou de outro, isso foi algo que ajudou você a se fortalecer.
— Tem razão, . Vai ver não era para ser, de qualquer forma. Mas é estranho ver você falar assim, quando há umas semanas atrás você dizia que eu e éramos ótimos juntos — falei, com ironia.
Ele riu baixinho.
— Talvez eu tenha virado um pássaro migrador e mudei de time. Especialmente depois daquela noite no clube.
— O que quer dizer com isso?
— Eu vi quando foi atrás de você, vi como você voltou perturbada depois e também vi como você ficou confortável com naquela noite e como ficou preocupada por ele se sentir traído, ou usado, quem sabe.
— Agora você vai dizer que eu e o também somos que nem fogo e gasolina? Porque esse discurso, sinceramente, ... Já encheu o saco.
Ele riu outra vez e eu o acompanhei, enquanto secava algumas outras lágrimas que insistiam em cair.
— Não. Você e o são como vodca e coca-cola.
Vodca e coca? — eu ri. — Você está me dizendo que somos uma mistura disso? É sério? — eu ri, incrédula.
— Tudo bem, talvez não seja bem vodca e coca. Mas o que eu quero dizer que vocês são bons individualmente, mas juntos são ainda melhores.
— Eu acho que seria algo mais sofisticado que vodca ou coca. Mas eu entendi seu ponto — ri novamente e ele me acompanhou.
— Onde quer ir comer hoje? — ele quis saber.
— Que tal espaguete?
— Fechado. Já faz tempo desde a última vez que comemos isso.
— Então, vamos. Aquela briga me deixou com mais fome ainda.

Infelizmente, quando cheguei em casa naquela noite, eu estava sozinha.
ainda estava trabalhando e também.
Mandei uma mensagem no nosso grupo no kakaotalk contando a novidade por ali mesmo. Em breve, eu falaria mais detalhes pessoalmente quando nos encontrássemos. Entretanto, nenhuma das duas estava online.
Eu não sabia bem o que pensar sobre aquele acontecimento. Eu não sentia mais vontade de chorar nem nada do tipo, como no momento da raiva, o que surpreendia a mim mesma. Além disso, mesmo que isso provasse agora que havia falado a verdade o tempo inteiro para mim, não é como se algo fosse mudar entre nós. Eu ainda estava com raiva pela impulsividade idiota que ele tinha e quanto ao passado… era passado. Talvez eu não estivesse mais com raiva pela agora falsa traição, mas ela não foi a única coisa que me magoou naquela época.
Às vezes, palavras doem mais do que qualquer coisa. E sabia exatamente como usá-las para me atingir e conseguiu bastante êxito nisso, na noite da minha formatura. Então, não é como se agora algo fosse mudar.
E eu não queria que mudasse.
Rolei as conversas do aplicativo e achei o contato de .
Abri seu perfil, pensando no que havia dito mais cedo e encarei a foto que eu havia tirado sem ele perceber da última vez que estivemos em um café. Lembrei de mandar a foto só depois que ele foi embora, mas ele imediatamente a colocou de perfil.
Ele estava com um café na mão, olhando pela janela de vidro, distraído. era uma dessas pessoas fotogênicas e que parecem bonitas em qualquer hora e ocasião.
Confesso que isso foi algo que me intimidou um pouco quando nos conhecemos, mas não durou muito, por conta sua personalidade fácil que logo me deixou confortável. Sorri, lembrando do dia em que o reencontrei, antes de sairmos para o nosso encontro.
Toquei na tela e mandei uma mensagem, sem ter certeza de que horas eram no fuso horário dele.
"Boa noite~"
"Oi, querida. Como você está?"
Ele respondeu quase na mesmo hora.
"Cansada, estressada e solitária. Ainda tenho que trabalhar amanhã, mas estou sem sono e as meninas também não estão em casa."
"Ah, que pena. Eu gostaria de estar aí com você e te ajudar a dormir... Quem sabe, liberar o estresse antes."
"Haha. Engraçadinho."
"Ah, admita. Seria uma ótima ideia. ;)"
"Claro que seria. Eu disse que não?"
"Ah, gosto assim ;) Aposto que sua cama parece grande demais sem mim."
"Você é o quê? Um leonino? Eu gosto da minha cama espaçosa, se quer saber."
Rebati.
"Assim também como gosta quando eu estou dela com você." Ele provocou. Fiz uma careta.
"Infelizmente, isso é não é algo que eu possa discutir." Enviei, rindo de mim mesma e do quanto aquela mensagem era sincera.
"Quando você tira férias?" Ele quis saber, de repente.
"Boa pergunta. Eu nem estava lembrando das minhas férias. Acho que daqui a umas duas semanas. Caramba, como eu esqueci disso?!"
"Hahaha. Ótimo, eu tenho uma proposta para você."
"Você não vai me pedir em casamento, vai?"
Brinquei.
"Sinto desapontá-la, mas não. O que acha de vir para Bangkok e passar alguns dias aqui?"
"Bangkok? Não sei..."
"Vamos lá, querida”
— ele tentou me convencer. — “Prometo ser seu guia turístico e um ótimo colega de quarto. ;)"
"Não sei, . Hahaha. Sério, soa tentador, mas eu preciso pensar um pouco."
"Você tem duas semanas para pensar nisso. Mas você sabe, irei aguardar ansioso para que a resposta seja sim."
Ele respondeu. Sorri como uma boba, imaginando mil coisas na minha cabeça.
"Só se você me levar para ver aqueles elefantes que pintam."
"Tudo o que você quiser."

Adormeci naquela noite enquanto pensava na possibilidade de viajar.
Fazia tempo desde a última vez que tinha viajado. O mestrado ocupava muito do meu tempo e ainda tinha o trabalho... Soava realmente tentador e emocionante ir para um país diferente.
E eu estava precisando de um tempo longe de tudo, afinal.
Especialmente agora.


10. Memórias


O ruim de trabalhar dois dias seguidos é que às vezes eu precisava conversar com minhas amigas e simplesmente não podia porque nossos horários não batiam.
Depois que mandei a mensagem no grupo contando do acontecido com a ex-noiva de , as meninas se revoltaram. até mesmo mandou um áudio (e ela nunca manda áudio), o que mostra que ela estava precisando mesmo falar algo.
Confesso que achei engraçado todas as ameaças que ouvi e não duvidaria que ela cumprisse cada uma delas. não foi diferente, mas ficou satisfeita por eu ter revidado o tapa que levei.
E voltando ao meu segundo dia de plantão daquela semana, eu só podia dizer que mal podia esperar para tirar férias, principalmente depois que eu havia lembrado delas, ou melhor, lembrou por mim.
A clínica estava cheia de pacientes, aqueles que haviam se internado no dia anterior. Alguns já tinham ido para o bloco cirúrgico, outros já haviam voltado e estavam se recuperando, até os médicos darem suas altas.
Eu não estava em um dia bom.
Meu humor estava uma droga, eu ainda estava com raiva e ver lá só complicou as coisas. Não que ele tivesse culpa do que havia acontecido, mas... Bem, indiretamente ele tinha sim. Mas eu resolvi deixar isso de lado e tentar tratá-lo da mesma forma que eu tratava todos os meus colegas de trabalho.
Eu havia chegado antes dele e adiantado as coisas com Lara, assim não tivemos muito contato durante a manhã agitada do setor. No período da tarde, porém, eu o percebi quieto enquanto duas das técnicas tentavam puxar assunto com ele.
Eu não podia ver sua expressão por trás da máscara que ele usava, mas seus olhos pareciam cansados e ele estava claramente desanimado. Talvez não fosse um dia bom para ele também. Ou talvez ele ainda estivesse doente.
No entanto, durante o almoço, eu descobri que ele estava com enxaqueca. Estávamos eu, ele e uma das técnicas almoçando juntos quando ela perguntou se ele estava bem, pois estava muito quieto, mal tocando na comida.
— É enxaqueca, estou meio enjoado — ele respondeu.
— Tomou alguma coisa? — eu perguntei, sem interesse.
— Tomei um analgésico, mas não serviu de nada — ele respondeu.
— Eu tenho um remédio bom na minha bolsa que eu tomo quando tenho crises, você quer?
olhou para mim, surpreso. Talvez por achar que eu não me importasse. E bom, eu não me importava realmente. Eu fazia isso com todos os meus colegas, sem contar que ninguém merece ter uma crise de enxaqueca em pleno plantão.
— Sim, por favor — ele respondeu.
Quando voltamos para a clínica, ele me acompanhou até o quarto de repouso e eu peguei um dos comprimidos para entregá-lo.
— Aqui está. Ele faz efeito rápido, logo você vai estar melhor — eu disse, enquanto fechava a bolsa.
— Obrigado.
— De nada — dei de ombros. — Eu vou voltar para o posto.
... O que foi isso no seu rosto? — ele perguntou, apontando para a marca.
Ah, claro. Eu estava sem máscara, ele provavelmente já tinha notado desde o almoço.
Toquei o pequeno corte no meu rosto, lembrando que não havia colocado nada em cima.
Acho que me distraí e acabei esquecendo disso. Quis dar um tapa na minha própria testa.
— Ah, isso. Eu esqueci de colocar uma bandagem... — comentei, olhando o corte pelo reflexo do meu celular. — Foi um presentinho da sua ex-noiva — eu disse e o encarei. — Parece que ela não ficou muito feliz com o término de vocês e resolveu descontar em mim.
— O quê? — ele me olhou, assustado. — Charlotte fez isso com você?!
— Sim, mas eu revidei. Não cheguei a tirar sangue dela também, mas revidei. E eu sinceramente acho que ela tem algum tipo de problema mental.
Eu já ia sair de lá, quando ele me impediu, entrando na minha frente.
— Me desculpe por isso. Não era minha intenção te envolver nisso... Se eu puder fazer algo…
— Tudo bem, . Não foi sua culpa — eu disse, lembrando de repente do que ela havia dito sobre três anos atrás. — Sorte sua que você se livrou, antes que fosse tarde demais.
— Ainda assim — ele se colocou na minha frente de novo. — , me deixe ao menos cuidar disso. Por favor. Eu vou ficar me sentindo mal se não fizer nada — ele pediu, apontando para o meu machucado.
Revirei os olhos.
— Tudo bem, . Faça o que quiser — falei por fim, me sentando em uma das camas.
— Eu não falaria isso para mim se fosse você — ele riu, mas o encarei séria. — Certo, eu volto já.
Alguns instantes depois, ele voltou com um antisséptico, cotonetes e um band-aid que ele cortou com uma tesoura para ficar do tamanho certo do meu corte.
Foi um processo rápido. O corte era minúsculo e eu duvidava que fosse ficar uma cicatriz já que era superficial. Deixei que limpasse a ferida e depois a cobrisse. Se eu tivesse em casa, eu provavelmente não faria um curativo, mas estando em um hospital não era bom manter feridas abertas, pois era como uma porta de entrada para bactérias, o que podia acabar acarretando em uma infeção no pior caso.
Olhei para um ponto qualquer do quarto enquanto cuidava do meu machucado, evitando olhar para ele.
Eu sabia que ele estava me encarando (e eu odiava pessoas me encarando), assim como eu também sabia que nunca fui capaz de ficar muito tempo olhando em seus olhos sem desviar primeiro. Ele sempre ganhava naquilo.
Então, nem tive o trabalho de tentar.
No entanto, assim que acabou, ele virou meu rosto delicadamente me forçando a encará-lo.
— Sinto muito por isso — ele disse. — Prometo que não vai acontecer de novo — acrescentou, tocando no curativo recém-feito.
Afastei sua mão de meu rosto.
— É bom mesmo que não aconteça. Ou da próxima vez, sua querida ex-noiva precisará de um novo mega hair depois que eu arrancar o que ela tem, ou quem sabe uma plástica nova.
— Eu estou falando sério, .
— Eu também, . Eu estava quieta esperando sair do trabalho quando a vi e nos mesmo instante ela me bateu tão rápido que nem pude reagir. Eu fiquei extremamente puta com isso, como você deve imaginar. Então, sim, eu estou falando mortalmente sério.
— Eu vou falar com ela sobre isso — ele disse.
— Faça o que quiser — rolei os olhos outra vez, mas antes de sair ele puxou meu braço.
De repente e tão rápido quando o tapa que eu havia levado, colocou seus lábios sobre os meus.
Fiquei em choque por um instante, mas o empurrei em seguida.
— O que pensa que está fazendo? — perguntei, com raiva.
— O que você disse: faça o que quiser. E era isso que eu queria agora.
— Seu idiota — tentei bater nele, mas ele segurou meus pulsos. E bem, eu não podia fazer muita coisa perto das mãos enormes de .
— Te peguei de surpresa, princesa? — ele perguntou, com um sorriso. Eu teria dado na cara dele se não tivesse com as mãos presas.
— Eu juro que vou dar um chute nessa sua bunda na primeira oportunidade que tiver, — falei, entredentes.
— Ah, que violenta. Confesso que senti saudades disso — ele provocou
Tentei me soltar outra vez, em vão.
— Me solta, .
Ele continuou sorrindo e aproximou o rosto do meu outra vez, enquanto eu recuava o meu próprio.
— Tudo bem — e soltou, mas foi tão de repente que eu não pude evitar cair, por meu corpo estar inclinado na hora. Ele percebeu e tentou ajudar, porém já era tarde demais.
— Aí! — reclamei, me levantando. Agarrei seu cabelo e o puxei para baixo.
— Ai! ! — ele deu tapinhas no meu braço para que eu soltasse.
— Da próxima vez, , eu-
Foi quando a porta se abriu e Lola apareceu. Ela nos olhou por um instante e fechou a porta novamente, saindo de lá.
Voltei meu olhar para .
— Seu idiota — dei um tapa na testa dele, o soltando.
me olhou incrédulo.
— Ei, você acabou de bater na minha testa? Sério?!
— Sorte sua que não bati mais embaixo. Da próxima vez, eu te deixo careca! — ameacei, sem me importar com o quanto aquela frase parecia infantil.
Depois disso, voltei ao posto. Felizmente, Lola não quis comentar a respeito.

Depois do trabalho, fui encontrar com novamente. Era tradição, sempre que eu estava de plantão, nós jantávamos juntos já que não tínhamos muito tempo para nos encontrarmos em outras ocasiões.
Quando cheguei lá, no entanto, eu acabei encontrando e Charlotte discutindo mais à frente. Não dava para ouvir o que eles conversavam, mas ela estava chorando, tentando tocá-lo, enquanto ele tentava se desvencilhar dela.
! — gritou da entrada e acabou chamando a atenção deles, que nos encararam.
Encontrei o olhar de ambos por um instante. Quando , chegou ao meu lado, eu o puxei pelo braço, rapidamente nos tirando de lá.
— Não olha para trás, mas está agora mesmo discutindo com sua colega sobre ontem — mas já tinha olhado para trás, antes mesmo de eu terminar de falar.
— Ow! Tudo bem, vamos sair logo antes que aquela doida venha atrás de você de novo — ele disse, me fazendo rir e segurou minha mão, me puxando para andarmos mais rápido ainda.
— Ideias para o cardápio de hoje? — perguntei, quando nos distanciamos.
— Hmm... Eu estou de folga amanhã, então... O que acha de pizza?
— E coca-cola? — sorri.
— Sempre.
— Acho a combinação perfeita. Mas vamos logo, porque eu estou morrendo de fome.

No dia seguinte, pude finalmente encontrar as meninas.
E devo dizer que o nível de raiva delas aumentou mais um pouco depois que eu contei da última travessura de no quarto de repouso.
— Que cara de pau! — exclamou. — se supera cada vez mais. Ainda bem que você empurrou ele.
— E bateu nele! — acrescentou. — Essa é minha garota! — ela disse, orgulhosa, me fazendo rir.
— Mas o que será que ele deve ter dito para vaca lá, hein? — perguntou, apoiando o rosto na mão, pensativa.
— Espero que ele tenha dito poucas e boas! — comentou. — Eu ainda não acredito que ela te fez chorar! Ela é mesmo uma puta, essa víbora! Ah, eu ainda quero esganar ela!
— Sorte dela que você não a encontrou ainda, então — comentei, rindo. — E eu chorei de raiva. No fim, tudo o que eu sofri naquela época foi por causa dela. Talvez se eu tivesse escutado fosse diferente... Mas acho que não era para ser.
Principalmente depois do que ele disse depois.
— Sim, principalmente! — concordou. — Ele pode até não ser o traidor que a gente pensava que ele era, mas ainda assim é um babaca por ter te magoado!
Suspirei, lembrando inevitavelmente daqueles últimos dias horríveis na universidade.

3 anos atrás…

Eu já havia ligado diversas vezes para , mas o celular só caía na caixa postal. Eu havia começado a ficar preocupada porque ele não estava atendendo.
Havíamos combinado de almoçar com minha família, antes da minha coleção de grau e ele estava atrasado e não havia mandado nenhuma mensagem avisando nada. Tentei ligar uma última vez, mas caiu outra vez na caixa postal.
, pode me emprestar seu carro? Eu vou tentar encontrar .
— Ele ainda não atendeu? — ela perguntou. — Será que aconteceu alguma coisa?
— Não sei, mas acho que sim — falei, sentindo um pressentimento ruim.
Só não imaginava que fosse pior do que eu pensava.
Quando cheguei no apartamento, toquei a campainha, mas ele não atendeu.
Decidi então colocar a senha — a data de nascimento dele — e entrar por conta própria. Chamei por ele, mas não obtive resposta. Vi a porta do quarto entreaberta e resolvi entrar.
E foi o momento em que o vi com uma garota que eu nunca nem havia visto. Ele usava apenas uma cueca boxer preta e ela também estava só de roupas íntimas, ambos dormindo.
Uma onda de raiva tomou conta de mim. Entrei no canto e fechei a porta para provocar uma batida, o que fez com que os dois acordassem. Sequer encarei a vadia ao lado dele. Olhei em volta, procurando por algo e a primeira coisa que vi foi o controle remoto da TV.
— Seu filho da puta! — atirei o controle nele, acertando-o no ombro.
! — ele exclamou e olhou para o lado, encontrando o motivo da minha raiva.
Sai do quarto, e ele veio atrás de mim e segurou meu braço, mas eu puxei no mesmo instante.
— Não toca em mim, ! — gritei.
! Amor, por favor-
— Fica longe de mim! — gritei novamente, dando um passo para trás quando ele tentou se aproximar. — Fica longe, , ou eu juro que te esgano!
— Amor, por favor...
— Não me chame assim! Não me chame assim nunca mais! Eu não acredito que você foi capaz de fazer isso! — falei, revoltada, sentindo meus olhos arderem. — Eu confiei em você! — bati nele, o empurrando para trás com toda a força que eu tinha naquele momento.
Claro que mal fez cócegas, comparando o meu tamanho com o dele.
! Por favor, me escuta! Não aconteceu nada! Eu nem conheço essa garota! — ele tentou explicar.
— O que só torna tudo pior! Eu vou embora, minha família está esperando.
... — ele tentou se aproximar novamente e outra vez eu me afastei.
— E não me siga! — avisei, antes de dar as costas.
Voltei para casa e me esperava junto com minha mãe.
— Encontrou ele? — quis saber.
Respirei fundo, tentando me controlar.
— Sim. Ele não vem. Está doente — respondi apenas.
— Ah, que pena! Bem, vamos comer então, só estávamos esperando vocês — minha mãe disse. Mas eu não sei se ela realmente havia comprado a desculpa.
— Eu vou no banheiro antes — avisei.
— Eu vou com você, esqueci uma coisa no seu quarto — disse, me acompanhando.
Quando chegamos no meu quarto, ela fechou a porta e me encarou.
— Certo, agora fala a verdade. Você voltou puta de lá. A sua mãe pode até não ter percebido, mas eu sim. O que aconteceu, ?
Coloquei as duas mãos no rosto, respirando fundo. Eu sentia meus olhos arderem, mas por algum motivo eu não conseguia chorar.
— Tinha uma garota dormindo ao lado dele — eu disse, baixo.
— Meu Deus, ... — ela colocou uma mão na boca, surpresa. — Ele viu você?
Dei uma risada irônica.
— Ah, eu fiz questão que ele visse! — eu disse e contei tudo o que tinha acontecido.
— Minha nossa... Eu não sei nem o que te dizer. Logo o ! Eu não pensava que ele seria capaz disso.
— Imagine eu! Eu tô com tanta raiva, . Tanta raiva que eu não consigo nem chorar!
— Sério, como ele pôde fazer isso com você? Eu dava o maior apoio a vocês... Eu tô decepcionada com ele.
— Eu me segurei para não voar no pescoço dele, ! Eu tô tão puta que se eu visse ele agora eu nem sei do que eu seria capaz de fazer! Sério! Eu espero que ele nem apareça na minha frente!
Mas infelizmente, ele apareceu.
Na noite da minha colação de grau. Eu tinha saído para ir ao banheiro em um momento e quando estava prestes a entrar no auditório outra vez, senti um puxão no braço.
Estávamos do lado de fora, e como a maioria das pessoas estavam assistindo a colação, não tinha quase ninguém do lado de fora. Apenas algumas poucas pessoas impacientes com a longa cerimônia, que resolviam lanchar no meio delas.
— O que você quer?! — perguntei, baixo, olhando para os lados, mas ninguém prestava atenção em nós.
— Eu preciso falar com você!
— E eu não quero falar com você, ! Me deixa em paz! — me virei para ir embora, mas ele segurou meu braço.
— Não era o que você está pensando, . Eu juro para você. Eu não toquei naquela garota! Eu nem sei como ela chegou no meu apartamento!
— E você não vê que isso só torna tudo pior, ? Supondo que você nem sabe o que aconteceu, você tem certeza de que não me traiu com ela? — o olhar dele vacilou naquele instante e ele não disse nada. — Foi o que pensei — acrescentei, tirando sua mão do meu braço.
, por favor! Eu juro que não te traí! Eu não sei o que aconteceu, mas eu sei que não te traí, eu nunca faria isso! — ele tentou explicar.
Comecei a rir em sarcasmo.
— Você é muito irresponsável mesmo, ! Eu devia saber quando inventei de namorar um garoto de 19 anos! Não sei mesmo onde eu estava com a cabeça quando permiti que você se aproximasse de mim!
Ele olhou para o lado, rindo sem humor.
— É isso não é? Essa é a sua desculpa. Mas me diz, , me diz uma vez que eu te fiz infeliz nos últimos dois anos — ele pediu. — Me diz só uma. Eu fiz de tudo para te manter ao meu lado, você acha mesmo que eu iria destruir nosso relacionamento dessa forma?
— Você fez isso hoje, .
— Como você tem certeza disso? — ele rebateu. — Você nunca confiou em mim! E você diz que permitiu que eu me aproximasse, mas isso nunca aconteceu de verdade , não é? Você sempre corria para aquele seu amiguinho advogado quando as coisas apertavam — ele disse, com raiva também. — Eu fui paciente com você, . Eu odiava ver você com ele, mas eu não podia impedir que vocês fossem amigos, se é que eram só isso. Você nunca levou isso realmente a sério, não é? Eu fui o idiota que persistiu sempre que você tinha seus ataques de estresse e queria terminar do nada. A verdade é que você sempre foi fria e só importava consigo mes-
Eu não deixei ele terminar.
Minha mão foi parar em seu rosto, antes mesmo que eu pudesse pensar duas vezes. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, enquanto eu tentava me segurar para não chorar agora que finalmente conseguia.
... — me encarou, parecendo arrependido. — Eu... Eu não quis dizer isso, por favor. Me desculpa, amor…
Dei um passo para trás, secando as lágrimas.
— Eu realmente não quero estragar minha maquiagem cara com você, . Você mais do que ninguém, depois de tudo o que eu te disse, que eram coisas que inclusive nem o sabia...! Já que você fala tanto dele... — eu ri, sem humor. — Isso só mostra que esse relacionamento realmente não tem futuro.
— Eu não quis dizer isso.
— Claro que quis, . Você disse exatamente o que você sentia, o que queria e você soube exatamente como fazer isso para me atingir.
... — ele tentou se aproximar, mas o empurrei.
— Eu falei para você não tocar em mim! Eu vou voltar para dentro, se não se importa, mas antes — eu disse, com raiva. Segurei minha mão e tirei a aliança que ambos usávamos. — Por que você não enfia essa merda no inferno?! — peguei sua mão e a coloquei nela, bruscamente. — Ela não servia de nada mesmo!
encarou a aliança em sua mão, antes de fechá-la e desviar o olhar para mim.
— Quer saber? Talvez você esteja certa — ele disse, no mesmo instante que uma lágrima escorreu do seu olho esquerdo. — Não tem como um relacionamento continuar assim nessas condições. Espero que você tenha uma boa vida, . Eu tenho certeza que você vai conseguir alcançar todos os seus objetivos. Eu só espero também que você seja feliz, depois que conseguir.
E saiu de lá, me deixando sozinha.
Outra lágrima caiu, mas eu rapidamente sequei. Eu me recusava a chorar em uma noite tão importante para mim. Mesmo que eu sentisse como se meu coração estivesse partido em um milhão de pedaços.

Atualmente…

Balancei a cabeça, tentando me lembrar daquela má lembrança que me perseguia eventualmente. As meninas estavam conversando sobre algo aleatório, mas eu não sabia o que era.
De repente, me lembrei de algo.
— Ei, vocês lembram que estou quase de férias, não é? Acabei de me lembrar que esqueci de dizer algo — sorri.
— Você entra de férias semana que vem, não? — assenti. — E daí?
— Eu estou pensando em viajar. Surgiu uma proposta... Agora que finalizei o mestrado e tenho mais tempo, quero aproveitar... Para conhecer novos ares... — sorri maliciosa.
— Opa, espera. Do que você tá falando? — estreitou os olhos, desconfiada.
— EU CONHEÇO ESSE SORRISO! — gritou, apontando pra mim e rindo em seguida.
Eu podia dizer que ela já desconfiava, mas ainda estava alheia.
me chamou para passar um tempo com ele em Bangkok — mordi o lábio inferior, tentando conter um sorriso.
— HAAAAAAAAAAAAAAA! EU SABIA! — gritou novamente. — Você tem que ir!
— Então, eu ia perguntar o que vocês achavam disso, mas... — eu ri. — Acho que já percebi.
— MEU DEUS! Claro que você tem que ir. Eu no seu lugar nem pensaria duas vezes em ir encontrar aquele homão da porra!
— Ei, mas como surgiu isso? — quis saber. — Ele perguntou isso do nada?
Eu assenti com a cabeça.
— Ele perguntou quando eu iria tirar férias... E bem, eu nem estava lembrando delas até então. Depois ele me propôs isso.
— Eu quero ver é quando ele te pedir em casamento! — disse, eufórica. — Eu ainda vou ver vocês dois entrando na igreja juntinhos! Escreve o que tô falando!
— Menos, . Eu não quero me casar tão cedo — eu disse rindo.
— Ah, mas ela não disse que seria agora — rebateu.
— Ei! — eu ri e joguei uma almofada nas duas, que riram também.
Eu definitivamente tinha amigas loucas.
E eu as amava demais.


11. Mudança de Perspectiva


Já fazia alguns dias desde que eu havia voltado para o meu apartamento.
Parecia estranhamente vazio agora que só tinha minhas coisas nele. No entanto, era até certo ponto um tanto nostálgico.
Me lembrava da época da faculdade, embora não fosse o mesmo imóvel. Já fazia quase um ano desde a minha formatura, mas parecia que tinha sido há mais tempo.
Depois que Charlotte foi embora, eu tive que refazer minha rotina, não que isso fosse algo ruim, pelo contrário, mas era estranho voltar a fazer o que eu quisesse, ir para onde eu quisesse sem ter que me preocupar com horários ou outra pessoa.
Mas o melhor de tudo era que agora eu podia comer o que me desse na telha sem ter alguém me regulando o tempo inteiro.
Viva a comida. Viva o frango frito, a cerveja, pizza e hambúrguer, que eram praticamente as coisas que eu vinha comendo nos últimos dias, o que provavelmente deve ter feito com que eu engordasse um pouco.
Mas isso era o de menos.
Afinal, eu ainda malhava quatro dias por semana.
Estava tudo bem até eu acordar com uma enxaqueca horrível que fez com que eu faltasse no trabalho. Fora isso, ainda vinha o mal-estar para completar tudo.
Me vi obrigado a ligar para Lara dando a má notícia e em seguida, passei o dia na cama, me levantando apenas para comer, tomar banho e remédios.
A enxaqueca parecia melhor no dia seguinte. Eu achava que estava livre dela até perto da hora do almoço, quando ela apareceu outra vez. Era irritante, me deixava enjoado e eu não conseguia comer direito por conta disso.
Felizmente, resolveu ser caridosa naquele dia e me ofereceu um remédio. Eu não esperava que ela me oferecesse ajuda, principalmente quando eu sabia que ela ainda estava com raiva de mim pelo o que havia acontecido no clube algumas semanas atrás.
Aproveitei a ocasião para perguntar sobre o corte que havia em seu rosto. Eu havia percebido durante o almoço, quando ela havia tirado sua máscara.
Mas eis que a marca havia sido uma lembrança da minha ex-noiva, como a própria falou. Eu não conseguia acreditar que Charlotte havia chegado àquele ponto ridículo de tentar brigar com a minha ex.
Foi então que me desculpei com ela por isso e pedi para fazer um curativo no corte. Ela negou no início, coisa que eu já esperava, mas não resistiu muito a minha insistência. Eu não havia mentido quando disse que ia me sentir mal, caso ela não me deixasse cuidar daquilo, no entanto, havia algo diferente.
estava me tratando com muita neutralidade. Permaneceu quieta, sem me encarar, enquanto eu limpava a ferida e a cobria. Estava indo tudo bem, na medida do possível. Isto é, até eu beijá-la de surpresa e fazer a fera retornar.
Eu disse para ela não me mandar "fazer o que eu quiser", infelizmente foi mais forte que eu e quando eu vi já tinha a beijado.
Eu sabia que era algo longe de cogitação, mas se eu pudesse, passaria um dia inteiro a abraçando, apenas para sentí-la outra vez em meus braços.
Eu não sei explicar direito o que senti quando a reencontrei, ou o que eu sentia a cada vez que eu a via no trabalho ou fora dele.
Era como se tudo o que eu sentisse antes estivesse adormecido e agora tinha acordado.
Eu sentia falta dela, não adianta nem tentar negar isso.
Eu apenas sentia sua falta.
Mesmo depois de tanto tempo longe, mesmo depois da nossa última discussão quando dissemos coisas horríveis um para o outro, principalmente eu.
Sim, eu admito isso. Eu fui um babaca e falei coisas que me incomodavam no pior momento de todos. Coisas que poderiam ser ditas em conversas, quando nos encontrávamos, mas que eu preferia deixar de lado para evitar possíveis discussões. Se fosse hoje, seria diferente, é claro. Eu aprendi que a comunicação em um relacionamento é essencial.
Infelizmente, aprendi isso só quando foi tarde demais.
Mas em minha defesa, eu apenas queria passar um bom tempo com a minha namorada, considerando que mal nos víamos.
Quando começou os estágios da faculdade, eu mal a via. Eu passava o dia inteiro tendo aulas, enquanto ela estava fora, em algum hospital. Ela só tinha tempo livre nos fins de semana e mesmo assim, permanecia ocupada na maioria das vezes, por estar escrevendo sua monografia.
Então vê-la nessa época era praticamente raro.
Nossos horários muitas vezes não batiam e aos poucos os encontros iam diminuindo.
Eu também estudava e era ocupado, então quando nós finalmente conseguíamos um tempo... Bem, tudo o que eu queria fazer era aproveitar isso e matar a saudade que eu sentia dela.
Nos falávamos com bastante frequência via internet, mas os assuntos eram mais sobre nosso dia a dia. Ela sempre costumava me contar sobre casos clínicos que apareciam no hospital, o que me fazia ter vontade de poder presenciá-los com ela, mesmo sendo impossível.
A verdade é que eu achava que iria ser uma profissional incrível. Seja qual fosse o caminho que ela resolvesse seguir, assistência ou docência — que ela sempre dizia que queria muito.
Eu a admirava pelo seu esforço.
Eu a respeitava bastante.
E eu tentava compreender sua falta de tempo. Mas mesmo tentando, eu não conseguia evitar ficar infeliz com a situação de mal poder vê-la. Eu não sabia como ela se sentia quanto a isso, mas talvez estivesse ocupada demais para sequer pensar.
Alguns colegas falavam que ela não tinha tempo para mim e eu sempre retrucava dizendo que ela não tinha tempo nem para si mesma, mas que isso iria melhorar após a formatura dela e eu realmente achava que talvez fosse. Alguns caras achavam isso uma baboseira e muito diziam que eu devia terminar com ela, que eu poderia ter a garota que eu quisesse, já que sempre haviam muitas dando em cima de mim, aonde quer que eu fosse.
Mas eu não queria, pois eu era estupidamente apaixonado por aquela garota. E eu queria tentar, queria permanecer, queria ser um companheiro para ela, mesmo sabendo que nossa idade era um certo empecilho para ela, que às vezes não conversava comigo.
E havia . Ah, ... O melhor amigo dela. Eu tinha ciúmes na época, ela sabia.
Mas nunca levou meu ciúmes a sério. Ela odiava isso e deixou claro da primeira vez que comentei sobre isso, dizendo que não era o tipo de garota que se afastaria de seus amigos, homens ou não, por conta de um namorado.
Eu sabia que ela estava certa e resolvi tentar deixar de lado. No entanto, tudo o que eu havia tentado deixar de lado, todas as palavras não ditas que eu havia guardado, tudo isso explodiu de uma vez só no dia de nosso término.
E eu me arrependi no mesmo instante que falei tudo aquilo. Eu teria voltado no tempo e me obrigado a ficar calado, se eu pudesse, apenas para não vê-la chorar. Mas eu estava com raiva, cansado de tudo, cansado de tentar explicar que eu não havia a traído.
Mesmo que no momento eu não tivesse certeza. Tudo o que eu me lembrava era de estar em um clube com meus amigos, tomando um último drink antes de ir para casa. Eu não fazia ideia de como aquela garota havia ido parar lá, eu não lembrava nem de como havia chegado em casa.
E tudo o que pude descobrir, dias depois foi que nada havia acontecido entre a gente, quando recebi uma mensagem de texto sobre isso.
O número era desconhecido, então eu nunca pude encontrá-la de novo e, para falar a verdade, eu não me lembrava mais do rosto dela depois de todo esse tempo.
Ela podia ter dito no dia em que tudo aconteceu? Poderia. Mas preferiu fugir de lá e ignorar todas as minhas perguntas.
No final, não serviu de nada.
Era tarde demais.

No final do meus segundo dia de plantão, horas depois de eu conversar com , eu me encontrei com Charlotte em frente à firma onde ela trabalhava.
Ela pareceu surpresa em me ver depois de tantos dias longe e ignorando suas mensagens e ligações. Vi ela sorrir e me cumprimentar, mas eu não retribuí. Foi quando a percebeu que algo estava errado.
... O que está fazendo aqui? — perguntou, com cuidado.
— Você sabe muito bem porque eu estou aqui, Charlotte — eu disse, secamente.
— O que houve...? Eu não estou entendendo...
. Você a machucou — falei, direto e a vi congelar no lugar
...
Olhei para o anel de noivado em seu dedo e estreitei os olhos.
— Eu sei que você adora esse anel, mas podia ao menos colocá-lo em outro dedo, já que insiste em usá-lo.
Ela desviou o olhar para sua mão e cobriu o anel com a outra, involuntariamente.
— Eu... Me desculpe — ela abaixou a cabeça, deixando as lágrimas caírem. — Eu estava zangada... Se não fosse por ela, nós…
— Nós teríamos terminado de um jeito ou de outro, Charlotte — eu a interrompi, sem paciência. — Eu tentei dizer isso a você de uma forma delicada, mas parece que você não entendeu.
— Mas ... Porquê?
— Bem, existem muitos porquês. Por que eu terminei com você? Por que agora e não antes? Por que eu resolvi adiar isso o quanto pude, quando eu sabia que no fundo isso não ia dar certo porque eu estava infeliz nesse relacionamento onde você fazia o que queria e tentava me controlar para fazer o mesmo? Qual desses porquês você quer que eu responda, Charlotte? Por que eu juro, que se for preciso eu explicar cada vírgula para colocarmos um ponto final nisso, eu explico.
— Por que você está fazendo isso comigo? — ela choramingou. Lutei para não revirar os olhos. Charlotte era uma daquelas meninas mimadas de família rica que sempre tinha tudo o que queria.
— Eu só quero deixar claro que você envolver a nisso só torna tudo pior. O que você pensava que iria acontecer? Que eu iria voltar para você ou algo do tipo? Acho que para uma advogada, Charlotte, você devia pensar com mais clareza.
— Ela foi correndo te contar, não foi?! Aquela garota sempre roubou você de mim! — ela gritou, chorando. — Eu gostei se você primeiro, eu te conheci primeiro, mas ela apareceu e você se apaixonou e mesmo depois de tudo o que aconteceu, ela rouba você outra vez! Eu fiz tudo por amor, ! Eu queria que você fosse meu e queria ser sua desde o dia que o vi pela primeira vez naquela festa da sua família... Você estava tão lindo e era tão gentil... — ela sorriu, triste. Eu revirei os olhos. — Eu me apaixonei à primeira vista... Mas mesmo depois de tudo, mesmo depois dela ter te pego com aquela garota, ela ainda—
— Ow, ow! — a interrompi. — Do que você tá falando? Como você sabe que ela me pegou com outra garota, Charlotte? Eu não te contei nada disso — a encarei, com desconfiança.
Charlotte me olhou assustada, sem saber o que dizer.
— Eu... eu...
— Como, diabos, você sabe disso, Charlotte? Hein? Me responda! — exigi, com raiva.
Ela soluçou alto, chorando mais e eu estava quase a sacudindo pelos ombros de tão impaciente por ouvi-la falar, quando ela finalmente o fez.
— Eu contratei ela para dormir com você. Alguns dias antes, nós estávamos conversando no kakaotalk e você me disse que teria um almoço com a família dela naquele dia. Eu estava tão irritada com aquele relacionamento, mas eu sabia que você nunca terminaria com ela, então eu provoquei o contrário.
— O-o quê? — falei, em um fio de voz. — O que porra é essa, Charlotte? Isso é algum tipo de drama em que você é a vilã riquinha e mimada? Porque eu juro que está parecendo um — eu ri, incrédulo. — Eu não acredito que você fez isso... Eu nunca esperei...
... Por favor, me perdoa... — ela tentou me abraçar, mas eu a afastei de mim.
Foi nesse instante que ouvi alguém gritar.
! — era a voz de , olhei para frente e o vi ao lado de . Os olhos dela encontraram os meus por um instante e eu sabia que Charlotte também estava olhando na mesma direção, mas logo ela se afastou com .
Assim que eles desapareceram de vista, Charlotte tentou se aproximar outra vez
, por favor. Me perd-
Me afastei dela, dando um passo para trás.
— Eu espero que você entenda dessa vez, que estou colocando um ponto final nisso, Charlotte — falei, friamente. — Eu não quero ver você outra vez. Eu quero que você deixe em paz a partir de agora e que também não me procure mais. Ou eu juro que conto para sua família, que tipo de pessoa a filhinha perfeita deles é. Você não vai querer decepcioná-los, vai? — é, talvez eu soubesse exatamente como usar as palavras para atingir uma pessoa.
Charlotte balançou a cabeça, negando.
— Eu juro para você, Charlotte. Não importa o quão difícil seja, mas eu vou fazer de tudo para reconquistar aquela mulher, mesmo que haja mil obstáculos — eu disse, olhando em seus olhos. — Porque ela sim vale a pena.
, não..! Por favor, me perdoa — ela choramingou outra vez, levantando o olhar para me encarar.
Dei um passo para a frente e me abaixei até ficar com a boca próxima ao seu ouvido.
— Se quer perdão, querida, procure um padre — murmurei, antes de me afastar dela.
Dessa vez, definitivamente.


12. Novos Ares


Eu não me lembrava da última vez que eu tinha viajado a lazer.
Acho que eu ainda fazia faculdade quando aconteceu. Geralmente, quando eu viajava era em virtude da academia, algum congresso ou coisa do tipo.
Era a primeira vez em muito tempo que eu poderia fazer isso, o que me deixava um pouco ansiosa, mas não de um jeito ruim.
Eu sempre quis conhecer novos países, desfrutar das comidas de rua, dos pontos turísticos e tudo o que eu tinha direito. A oportunidade havia aparecido no momento certo.
E além disso... Claro, havia .
Eu não sabia dizer porque eu ficava ansiosa e feliz por encontrá-lo, mas desde que eu havíamos nos conhecido que era assim. Ele era o tipo de pessoa que você dificilmente se cansa. Nós temos tanto em comum e pensamos de forma tão parecida que às vezes me surpreende.
Apesar de toda a sua riqueza, era uma cara muito simples. Do tipo que consegue se adaptar a qualquer coisa ou situação, embora tenha nascido em berço de ouro e crescido tendo tantos privilégios. Devo dizer que não admiro somente ele, mas também seus pais por terem-no criado dessa maneira. Outras pessoas se estivessem no lugar dele, provavelmente seriam arrogantes, metidas e mimadas demais.
Quando me chamava para sair, no entanto, ele queria me levar para bons lugares. A maioria das mulheres adoraria jantar em um restaurante caro, tomando do melhor vinho do cardápio, mas eu não era uma delas.
Claro que eu gostava de ir para restaurantes mais sofisticados também, só não aqueles caríssimos. No entanto, inúmeras vezes optamos por uma simples pizza ou comidas de rua.
Comer comida de rua com era sempre uma diversão, principalmente se era algo que ele não conhecia. Eu adorava ver a desconfiança no rosto dele e depois seu contentamento quando percebia que era algo gostoso.
Ele não parecia um CEO nessas horas, mas apenas um cara normal da minha idade. E como era a minha primeira vez na Tailândia, eu tinha certeza que ele iria "se vingar" por todas as vezes que eu o fiz experimentar algo duvidoso. Por sorte, eu sou uma pessoa bastante curiosa quanto a isso.
Peguei um vôo no período da tarde e depois de algumas horas, eu finalmente estava em solo tailandês. Metade do vôo fiquei assistindo filmes da Disney e a outra metade eu dormi, quando meu notebook começou a descarregar.
Eu havia mandado mensagem para Dan dizendo mais ou menos o horário de chegada, ele havia dito que iria me buscar no aeroporto. Depois de toda a burocracia com documentos e malas, eu resolvi mandar uma mensagem para ele.
Ele visualizou, porém não respondeu. Segundos depois meu celular começou a tocar.
— Oi, onde você está? Acabei de chegar no aeroporto — ele disse.
— Acabei de pegar minhas malas, eu estou em frente a uma livraria...
— Tudo bem, vire 90° a esquerda, não sei se você está usando suas lentes, mas caso não esteja, há um pontinho preto acenando para você — ele disse e eu me virei, sorrindo. Acenei de volta, assim que o vi, vestido de preto da cabeça aos pés. — Wow, está me vendo? Isso foi rápido, pelo visto alguém não está cega hoje...
— Como se você tivesse a melhor visão do mundo — rebati, revirando os olhos.
Ele estava caminhando até mim.
— Ainda é melhor que a sua — ele riu.
Encerramos a ligação. começou a correr quando ficou mais próximo e veio pra cima de mim, me abraçando e me girando no ar, me fazendo rir com a brincadeira.
— Que saudade! — ele disse, me apertando em seus braços e depois me soltando. — Como foi o vôo?
— Tranquilo. Não tinha ninguém do meu lado, então... — dei de ombros.
— Seu amor pelos seres humanos é comovente, querida.
— O que eu posso fazer se eu não gosto de gente? — perguntei, em um tom inocente. — E você nem pode falar.
— Pelo menos, eu sei disfarçar quando não gosto de uma pessoa.
— Depende do nível de ranço que você tem dela — retruquei e ele riu.
pegou minha mala maior e começou a arrastá-la enquanto eu fiquei com a menor.
— O que tem aqui dentro, pedras?
— Quase. Vamos dizer que eu apenas vim preparada. Mas essa outra mala — apontei com a cabeça. — está quase vazia. Preciso comprar presentes para as crianças.
— Sei de algo que as meninas vão adorar — ele comentou.

O apartamento de era praticamente uma casa, a diferença é que ficava em um edifício enorme e ocupava um andar inteiro. E se eu já achava o apartamento dele na Inglaterra bastante sofisticado, imagine esse.
A cozinha era enorme e tinha pelo menos uns três quartos. havia preparado um deles para mim, mas nós dois sabíamos que, no fim, íamos acabar usando sua suíte.
Mas não custa manter a cordialidade, não é mesmo? Resolvi usá-lo para guardar minhas malas, que por sinal eu não tinha nem previsão de quando iria desfazê-las. Quando se tratava de fazer ou desfazer malas, eu era a rainha da preguiça.
Felizmente, eu tinha duas virginis morando no mesmo prédio que eu e que me ajudaram bastante nisso.
Tomei um banho quente, relaxante e demorado enquanto esperava a comida chegar. Quando acabei, vesti um dos meus pijamas e fui encontrá-lo na cozinha.
— Agora sim, me sinto nova em folha — eu disse, com um sorriso satisfeito. Ele sorriu, enquanto terminava de preparar os pratos em cima do balcão da cozinha. — O que é isso? — perguntei, abraçando-o por trás e espiando do lado.
— Nada duvidoso, infelizmente — ele respondeu, colocando as embalagens do lado e se virando para mim, com um sorriso. — Com fome?
— A última coisa que comi foram duas barrinhas de cereais no meio da tarde, então você deve imaginar.
Ele riu.
— Caramba, melhor te alimentar logo então, antes que você desmaie ou algo do tipo.
— Concordo plenamente — eu disse e me sentei em um banquinho do outro lado, em frente a ele. — Como se chama essa comida?
— Se chama Pad Thai. É uma mistura de carne, macarrão, tofu e vegetais. Originalmente levaria camarão também, mas eu pedi sem já que você é alérgica. E aqui tenho uma salada típica tailandesa, se chama Som Tam. Basicamente, é uma sala temperada de mamão verde, verdura e legumes. E esse — ele apontou para o terceiro prato. — Se chama Peng Muú, é só carne com curry vermelho.
— Hmm, parece bom. Isso é suco de laranja? — apontei para a jarra que havia ao lado.
— Manga, mas tenho certeza que você vai gostar.
— Eu gosto de manga, então acho que tem uma grande possibilidade disso acontecer.

A comida tinha um sabor peculiar, no entanto era realmente saborosa. E o suco igualmente. Eu estava com muita fome, mas felizmente fui bem alimentada e me livrei dela. Quando acabamos — depois de muito papo colocado em dia -, eu ajudei com a louça, que ele insistiu que não era para lavar, mas consegui convencê-lo e no final ele acabou ajudando também, secando e guardando as peças.
Logo após, decidimos assistir um filme no seu quarto. Ele foi tomar banho enquanto eu fiquei navegando no catálogo infinito da Netflix, à procura de algo novo e interessante, mas no fim acabei escolhendo Mulan.
Nada como um clássico.
Sem contar que eu tinha um crush no Li Shang.
saiu do banheiro usando uma calça de moletom cinza (que por sinal, ele tinha várias iguais), sem camisa e se jogou do meu lado na cama.
— Mulan? — ele arqueou uma sobrancelha e eu dei de ombros.
— Deu vontade de ver o crush.
— Um da sua lista de mil? — ele brincou.
— Exatamente — sorri e pisquei os olhos de forma exagerada. Subitamente, lembrei de algo e peguei meu celular abrindo a câmera. — Relatório para as meninas, . Eu esqueci de dizer que cheguei viva aqui.
Ele riu e se sentou na cama, ficando ao meu lado enquanto eu batia algumas fotos. A primeira foi com o velho sinal de paz e amor, a segunda fazendo careta; a terceira foto já me abraçava enquanto sorríamos para a câmera, ele com o queixo descansando no meu ombro e a última, ele me dava um beijo na bochecha.
Mandei as quatro fotos nos grupo com as meninas.
"Cheguei viva porém morta", enviei.
Dei play no filme, e quando estava terminando de passar a introdução, meu celular começou a vibrar.
Havia pelo menos umas dez mensagens só de , tendo um ataque de fangirl.
"OLHA O MEU SHIPPPPP! OLHA OS NAMORADINHOS."
"VOCÊS PODIAM ASSUMIR LOGO DE UMA VEZ, TÁ?!"
"EU QUERO SER MADRINHA NO CASAMENTO DE VOCÊS, VIU?"
"NÃO ESQUECE DE TRAZER MEU PRESENTE, QUANDO VOCÊ VIER!"

Mostrei as mensagens a , que riu. Não era novidade essa história da ; desde sempre ela "shippava" nós dois como um casal. No entanto, nós claramente levávamos na brincadeira e inclusive participava às vezes. Ele gostava de colocar uma lenha na fogueira, fazer o quê.
Começamos a assistir Mulan, eu — como sempre — chorei quando ela cantou Reflection, enquanto riu, achando "fofo", mas eu não cheguei a terminar de ver o filme porque acabei caindo no sono.
No entanto, acordei durante um instante, quando desligou a TV.
— Eu dormi — falei sonolenta. — Desculpa.
— Você tá cansada, . Volte a dormir — ele disse suavemente, ajeitando o cobertor para mim. Estava escuro, mas eu ainda conseguia ver sua silhueta. Ele deitou-se novamente, se cobrindo também e me abraçou pela cintura, como sempre fazia.
— Boa noite, querida.
Eu me deixei cair no sono outra vez, feliz por estarmos juntos, por estarmos juntos depois de tanto dias, porém do mesmo jeito de sempre.
Feliz por nada ter mudado.


13. A Magia dos Musicais


Era cerca de dez da manhã quando e eu saímos para passear.
Nós passamos o dia andando pra cima e pra baixo. Estava um pouco quente, então eu vesti um short jeans, com uma camiseta e um par de tênis. também estava bem casual — para eu não dizer bem normal — vestindo um short, tênis e um camisa branca. Nem parecia um CEO vestido daquele jeito.
Fomos em alguns pontos turísticos, pelo menos uns três; tiramos bastante fotos, mas eventualmente estávamos ambos cansados. E com fome.
O que nos levou ao melhor do passeio: comida.
A Tailândia era cheia de gente receptiva, animada e que sorria bastante. Não é a toa que eles eram conhecidos por isso.
As ruas de onde estávamos eram cheias de barracas de comida por todos os lados e tudo era muito barato. Bom, quase tudo. Alguns restaurantes eram mais caros, mas ainda assim baratos.
Estávamos andando há algum tempo e eu estava observando em volta o que estava sendo vendido, disposta a decidir o que eu iria comer. tentou me convencer a ir em um restaurante, em busca de uma alimentação verdadeiramente saudável. Mas é óbvio que não deu certo. Ele revirou os olhos quando eu disse que ia me empanturrar de comida de rua, mas sorriu em seguida, dando-se por vencido.
Depois de algumas comidas salgadas (espetinhos, bolinhos e afins) e completamente deliciosas, era hora dos doces. E adivinha: havia uma barraca na rua vendendo daquele sorvete tailandês em rolinhos super famoso. Eu estava andando agarrada no braço de , quando o avistei e praticamente o arrastei até lá comigo.
— Eu preciso de um desse! — anunciei, animada.
— Eu estava me perguntando quantos segundos iria demorar até você perceber aquele carrinho, mas você viu antes mesmo que eu terminasse de pensar.
— Por um segundo eu quase esqueci dele. Eles fazem de todos os sabores aqui, não é? Eu já eles fazendo com Redbull.
— Querida, eu acho que se você quiser um de pimenta, eles fazem. Aqui é você que decide o sabor.
— Não me dê ideias, .
Mas eu não escolhi nenhum sabor estranho. Optei por um sorvete de manga e chocolate, enquanto escolheu morango e creme.
Decidimos voltar para seu apartamento no fim da tarde. No caminho, perguntou se eu queria jantar fora, mas eu preferi ficar em casa.
— Você pode pedir delivery de novo — sugeri. — Eu estava confortável ontem comendo só de pijamas. Você sabe que sou uma pessoa caseira.
— Claro que sei. E não estou reclamando. Eu gosto de ficar em casa com você, mas tem algo que nós não vamos poder fugir amanhã — ele olhou para mim de relance, voltando a prestar atenção na rua.
— O quê? — perguntei, curiosa.
— Não o quê, mas quem... A mamãe Lee quer te conhecer. E meu pai também. E minha irmã.
— Hã? — eu ri, nervosa.
— Eu disse que uma amiga minha viria me visitar e passar uns dias aqui... E eu me dei a liberdade de tirar uma folga durante esse tempo. Eis que minha família quer te conhecer.
— Porquê? Tipo, não é como se eu fosse sua única amiga.
— Claro que não. Mas eu não costumo hospedar meus outros amigos em casa, ou passar o dia turistando com eles — ele riu. — Acho que eles estão só curiosos. Minha mãe ficou bastante empolgada quando eu disse que você é uma enfermeira.
— Sua mãe parece ser muito legal.
— Ela é. Vocês vão se dar bem. Ela é tipo a sua mãe. Na verdade, acho que ela têm a mesma idade.
— Tudo bem. E quando iremos encontrá-los?
— Ela nos convidou para almoçar amanhã. O que acha?
— Por mim, tudo bem — dei de ombros.
— Ei, antes de mais nada. Minha irmã mais nova é meio doida, mas nada preocupante.
— Ah, agradeço pela informação, embora eu ache que você esteja exagerando…
riu e deu de ombros.
— Vou deixar você descobrir por conta própria, então.
***


— Ei, não vale! Você colocou no modo difícil e eu nunca joguei Just Dance! — eu reclamei com , assim que ele ganhou o jogo pela terceira vez. Maldito competitivo.
E o pior: eu nem era tão competitiva assim, mas ele despertava esse meu lado.
— Mas está no modo fácil, ! — ele rebateu. — Se eu fosse você, apenas admitiria a derrota e cumpriria logo a punição — acrescentou em um tom mais baixo, em uma pose esnobe.
— Eu não vou dançar Red pra você, ! — bati o pé. — Isso é humilhante.
— Seria humilhante se você não soubesse dançar... Mas eu sei que você pode — sorriu, me puxando para perto pela barra do short.
— Ei! — dei um tapa na mão dele.
“Ei!” — ele repetiu rindo e me puxou pela cintura, fazendo nossos corpos colarem. — Então, me dá um beijo — disse por fim, roçando o nariz no meu.
— Isso não é punição — murmurei, encarando-o. sorriu.
— Eu sei — eu sorri também, mas quando eu estava prestes a beijá-lo, ele me atirou no sofá. — Mas isso é! — e começou a fazer cócegas em mim.
Eu tenho um sério problema com cócegas. Me deixam com falta de ar e faz com que eu seja violenta se demorar muito. Se brincar, eu me contorço mais que a menina de O Exorcista.
! Aaaaahahaaa! Pára! Para, eu tô sem ar aaaaaah! — gritei, me contorcendo, tentando me livrar de suas mãos rápidas. — Sério, paraaaaaaa! Aaaaah!
Então, ele finalmente parou. Respirei ofegante e sequei as lágrimas que haviam caído devido ao riso. segurou minhas duas mãos e as afastou, colocando cada uma de um lado da minha cabeça.
O encarei e ele sorriu de lado.
Eu sabia o que viria a seguir. Nós dois sabíamos.
Seus lábios se juntaram aos meus em um toque suave, gentil. Ele se afastou um pouco e me encarou antes de voltar a me beijar. Tive uma intensa sensação de Déjà vu. Mas era uma sensação real, porque eu já havia passado por aquilo. Me lembrou a nossa primeira vez juntos.

1 ano e 9 meses atrás…

e eu estávamos na minha casa vendo Netflix e havia um pote de sorvete de bombom da Baskin Robbins entre nós, que estávamos dividindo.
Mamma Mia havia sido a escolha do dia. Um filme teoricamente antigo, que nós dois já havíamos assistido diversas vezes, é claro ( também adorava filmes e musicais).
Mas era a primeira vez que assistíamos juntos.
Fazia cerca três meses desde que havíamos nos conhecido naquele evento (no qual escapulimos para o laboratório) e desde então nos encontrávamos eventualmente para comer juntos, tomar um café ou algo do tipo. Ou ver filmes, como era o caso de hoje.
No entanto, não acontecia com tanta frequência, pois era um homem ocupado. Mas isso não me incomodava, pois eu também era. Eu trabalhava e estudava ao mesmo tempo.
Ele estava trabalhando há alguns meses em Londres, mas não sabia ainda se iria ficar ou não trabalhando na filial daqui. era vice-presidente da empresa de seu pai, que tinha vários ramos diferentes.
Um verdadeiro homem de negócios, quando você o via todo vestido para o trabalho, mas um verdadeiro bebê manhoso, quando estava só de pijamas na minha casa.
Nesse dia, nós havíamos passado o dia inteiro ocupados e todo o tempo que tínhamos era a noite. E estávamos decididos a fazer uma maratona de filmes.
Estávamos.
Tinha acabado de passar a cena em que a Meryl Streep e a Amanda Seyfried cantam "Slipping Through My Fingers" e eu estava me segurando para não chorar (mas ainda assim deixei uma lágrima cair). Felizmente, não percebeu. Ou fingiu não perceber.
O que agradeci mentalmente.
Até aí tudo bem. Quando o filme acabou, nós ficamos navegando no catálogo da Netflix em busca de outro filme, ou série, para ver. Era a vez de escolher um e eu esperei enquanto mexia no celular. Coloquei no YouTube e digitei "What I've looking for" para testá-lo. Não tínhamos mencionado High School Musical nenhuma vez, mas era bem provável que conhecesse. E se ele gostava, eu iria descobrir naquele momento.
Deixei a música rolar, o estalar de dedos contagiante preencheu o silêncio do meu quarto e eu ouvi a risada baixa de , enquanto assistia.
— It's hard to believe that I couldn't see... — ele cantarolou.
— Mentira que tu gosta desse filme! — falei eufórica.
— Claro que gosto — respondeu, clicando em um filme para ver a sinopse. — É um clássico.
— This feeling is like no other — comecei a cantar, imitando a Sharpay. — I want you to know.
riu, mas entrou na brincadeira.
— I've never met someone that's good for me as you... No one like yoooou — cantamos juntos.
Eu usei minha colher de microfone, ao mesmo tempo que comia o sorvete e eventualmente acabei me sujando, sem perceber. me observou em um meio sorriso, com a colher na boca. Depois colocou-a dentro do pote que estava quase vazio e fez o mesmo com a minha.
Colocou o pote na minha mesinha de cabeceira e me encarou, com uma expressão neutra.
Eu não entendi nada.
— O que foi?
— Sua boca tá suja de sorvete — ele disse.
— Tá? — passei a mão. — Limpou?
Ele negou com a cabeça. Eu ia passar a mão do outro lado, mas foi mais rápido que eu e cuidou daquilo.
Não com um lenço, é claro.
Mas com a boca.
Fui pega de surpresa quando de repente ele me beijou, os lábios úmidos, macios e ainda um pouco frios por causa do sorvete.
Foi algo muito rápido. Ele me beijou e se afastou.
— Pronto, agora limpou — ele disse em um tom brincalhão, mas me encarava sério.
Eu permaneci paralisada, sentindo meu coração bater forte e torcendo para que ele não pudesse ouvir. olhou dos meus olhos para minha boca e se aproximou devagar, testando. Ele estava me tanto tempo para me afastar, para fugir. Mas eu apenas deixei que ele me beijasse outra vez. Com outro toque suave de sua boca na minha. Ele então percebeu que eu não iria fugir.
Eu não queria.
Como um incentivo, ele me beijou outra vez, e outra... aprofundando o beijo. Coloquei minha mão em seu rosto e deixei acontecer. Ele foi me deitando na cama e ficou por cima de mim. Levou a boca até meu pescoço e beijou ali, me fazendo suspirar. Ficamos assim durante alguns minutos, até que eu senti sua mão dentro da minha blusa, acariciando minha cintura com o polegar. Involuntariamente, eu fiz o mesmo que ele, arranhando de leve sua pele com minhas unhas curtas, por baixo da sua camisa.
E aquela foi a primeira peça de roupa da qual nos livramos. Primeiro a dele, depois a minha.
beijou meu colo e desceu uma das alças do meu sutiã, deixando meu ombro livre, onde ele também beijou.
Ele não parecia ter nenhum pouco de pressa e me provocou o quanto pôde, antes de enfim tirar a minha primeira peça íntima. abocanhou um de meus seios e sugou, me fazendo gemer. Eu já estava ficando um pouco impaciente, mas felizmente ele não demorou muito. Talvez sua própria paciência estivesse acabando também.
percorreu sua mão direita pelo meu corpo, até chegar no meu short e a enfiar ali. Não antes de brincar com o elástico, é claro. Como eu disse, ele gostar de provocar. Gemi, mordendo os lábios quando senti sua mão lá, quando ele enfim me tocou. E continuou até eu implorar para ele parar.

— O que foi, ? — perguntou inocente, como se não estivesse ainda movimentando aqueles dedos em mim.
— Por favor... pára — pedi, mas meu tom de voz parecia mais uma súplica.
— Por que, querida? Tem certeza de que é o que você quer? — perguntou em um tom malicioso. — Diga-me o que quer, .
— Eu quero você — murmurei, de olhos fechados, movendo-me automaticamente contra sua mão.
— Uh, boa resposta — ele murmurou no meu ouvido. — Eu estava mesmo querendo ver até onde você ia — e deu um risinho, antes de tirar as mãos de mim.
Quando nos livramos do restante das peças que nos separavam e estávamos devidamente protegidos... Finalmente aconteceu.
Pensei em pedir para ele ir com calma, pois fazia algum tempo desde a última vez que eu havia feito aquilo, mas eu não precisei.
foi o mais gentil possível comigo e quando por fim me preencheu, deixou que eu me acostumasse um pouco a ele, antes de começar a se mover novamente, adquirindo um ritmo. De início, seus movimentos eram lentos, porém fortes. Em determinado momento, senti ele atingir um ponto dentro de mim, que me fez gemer alto, arranhar seu ombro com minhas unhas e apertar mais minhas pernas contra a sua cintura.
Mordi os lábios, tentando controlar os sons que eu fazia, escutando suspirar baixo, tentando fazer o mesmo. Eu abri os olhos e o encarei, vendo sua expressão de prazer enquanto ele entrava e saía de dentro de mim. franziu o cenho e cerrou os olhos, aumentando subitamente a velocidade de seus movimentos. Abri a boca em surpresa, mas tentei não emitir som algum por um instante. No entanto, não consegui me controlar quando estava finalmente chegando lá. Gritei alto por seu nome, sentindo meu corpo estremecer forte contra o dele, mas ainda não havia parado de se movimentar e continuou por mais um pouco, prolongando as sensações em mim até ele próprio começar a estremecer, chamando pelo meu nome.
Deixou seu corpo cair por cima do meu, respirando ofegante também, antes de rolar para o lado.
— Isso foi... — comecei a falar.
— Incrível — completamos juntos. riu baixo, mas eu não o acompanhei, ainda processando o que havia acontecido.
Ele era o primeiro cara que eu conseguia me envolver depois de um ano sem ninguém.
E sim, havia sido incrível.
se virou, me encarando e colocou uma das mãos no meu rosto, me fazendo encará-lo.
— Você é uma mulher maravilhosa, .

Atualmente…

— Você é uma mulher maravilhosa, — ele murmurou no meu ouvido, beijando meu pescoço e na parte atrás da minha orelha, me fazendo arrepiar. enfiou as duas mãos embaixo da minha blusa e tocou meus seios, por cima do sutiã. Ele levantou a barra da blusa e eu o ajudei a tirá-la e aproveitei para me livrar da dele.
Ele selou nossos lábios outra vez, enquanto levava uma mão até o botão do meu short e o desabotoava, tirando-o também. Sua boca então percorreu todo o meu tronco até a barra da minha calcinha, onde ele depositou um beijo, antes de puxá-la também. Gemi e levei as mãos ao seu cabelo, puxando-os de leve, quando senti ele me tocar. Se Lee era bom com as mãos, ele era melhor ainda com a boca.
E que boca.
Não demorou muito até que eu estremecer contra sua boca, depois de toda aquela provocação. se afastou, limpando o canto da boca com o polegar, enquanto me encarava com um sorriso safado.
— Você foi rápida dessa vez. Estava com saudades, querida? — ele brincou.
— Cala a boca, — revirei os olhos, me recusando a cair na sua brincadeirinha e me levantei, empurrando-o pelos ombros e sentando em seu colo com uma perna de cada lado.
— Opa, a gatinha quer brincar? — ele murmurou manhoso, dando um beijinho no meu pescoço. Eu ri, mas não respondi. Enfiei meus dois dedos indicadores na barra de seu short jeans e o encarei, séria.
— Eu quero isso fora. Agora — exigi.
deu um daqueles sorrisos maliciosos e fez o que eu mandei, ficando exatamente como eu estava.
Completamente nu.
— O que vai fazer agora, querida? — ele perguntou, inocente, como se não soubesse.
Percorri minha mão pelo seu peito e fui descendo até a sua ereção. Segurei seu membro com uma mão e passei o polegar por sua glande, fazendo suspirar.
— me chamou, em um tom de aviso.
— O que foi? Não era você que queria saber se eu queria brincar, ? — perguntei, inocente, enquanto começava a mover minha mão para cima e para baixo nele. — Pois bem, eu quero.
Eu saí de seu colo e coloquei um cabelo atrás da orelha, antes de me abaixar e colocá-lo na boca. levou suas mãos até o meu cabelo, mas não tentou me controlar e deixou que eu fizesse o que eu quisesse com ele.
Bom, isso até ele começar a perder a paciência.
, eu preciso de você agora, querida — ele pediu. Me afastei rapidamente e voltei ao seu colo, posicionando-o em mim. Mas ele me parou por um instante. — Espera, eu preciso pegar a...
— Tudo bem — sorri. — Estamos bem.
Foi quando ele entendeu o que eu queria dizer. Bem, ele não era o único cuidadoso, afinal. Viva as injeções anticoncepcionais que nos ajudam na hora H.
Obviamente, eu nunca fazia sexo só usando um método anticoncepcional, sempre havia camisinha. Mas abrir uma exceção uma vez não mata ninguém (e dificilmente gera alguém). Sentei sobre devagar, sentindo-o me preencher aos poucos e só então comecei a me movimentar sobre ele, enquanto nos beijávamos hora ou outra. me segurava firme pelo quadril me ajudando a conduzir os movimentos, enquanto nos encarávamos, observando o que estávamos causando um ao outro.
Mordi os lábios e afastei meu cabelo, que insistia em cair no meu rosto. Ficamos naquele movimento rítmico por algum tempo, até assumir o controle e acelerar os movimentos em um ritmo no qual eu não conseguia. Aos poucos, fomos nos aproximando da borda e foi diminuindo a velocidade para aumentar a força dos movimentos e a pressão entre nossos corpos. Eu o segurei forte pelos ombros, e senti ele apertar minha bunda com força no mesmo instante, até aquela onda de sensações cessar. segurou meu rosto e me beijou com vontade, como se quisesse transmitir naquele beijo todo o desejo que ainda sentia por mim.
— Você é um homem maravilhoso, — sorri, repetindo o que ele havia dito e ele me acompanhou.
Sim, definitivamente maravilhoso.


14. Caras Novas


— Eu já falei que não, Rebeca! — rebati, pelo telefone. — Eu deixei esse documentos assinados e... O quê? Reunião? Mas que diabos! Eu saio por um dia e vocês fazem uma bagunça na empresa?!
— Sinto muito, Sr. — ela se desculpou, do outro lado. — Os franceses querem uma nova reunião o mais rápido possível, eles querem rever o contrato e exigem a sua presença.
Respirei fundo, tentando me controlar, antes de respondê-la novamente.
— Está certo, Rebeca. Amanhã às dez da manhã estarei aí e faremos essa reunião. Depois disso, espero não ser mais incomodado com esse tipo de coisa, está me ouvindo?
— Sim, sr. . Novamente, me desculpe.
— Tudo bem, não foi sua culpa, afinal. Apenas deixe claro que estou indisponível por alguns dias.
— Sim, senhor — ela disse, prontamente.
— Vejo você amanhã — e desliguei.
Passei uma mão no rosto e soltei um suspiro, já pensando no que estava por vir quando senti um par de mãos nos meus ombros, massageando-os.
— Aconteceu algo? — perguntou, preocupada. Estiquei um braço e a trouxe para minha frente, colocando as mãos em sua cintura, antes enganchar os dedos nos passadores da calça que ela usava.
— Não foi nada demais. Apenas um imprevisto com uns clientes chatos. Tenho uma reunião amanhã. Desculpa — falei de forma fofa, fazendo um bico.
Ela sorriu e colocou uma das mãos no meu rosto, apertando até meus lábios formarem um bico de peixe.
— Hm, mas olha só isso. Tentando ser fofo.
— Eu sou fofo — retruquei, antes de empurrar a mão dela, a fazendo rir. — A ogra aqui é você.
— Não posso discutir quanto a isso.
— Claro que não pode, você sabe que é verdade.
— Mas você disse que me acha fofa — ela inclinou a cabeça de lado e eu sorri, apertando forte sua bochecha.
— Meu Deus, sim! Arrrgh! — e a agarrei, dando-lhe um abraço de urso.
, eu não consigo respirar — ela reclamou e então a soltei.
— Você parece um daqueles filhotes que só dá vontade de apertar até explodir.
— Acho que não ia demorar muito para isso acontecer se você me abraçasse um pouco mais forte — ela riu. — E então? O que achou dessa roupa? Será que está adequada?
Ela deu um passo para trás e abriu os braços.
Franzi o cenho.
— Por que não estaria? — perguntei e ela mordeu os lábios.
— Não sei... Quero passar uma boa impressão para sua família. Dizem que a primeira impressão é a que fica. Então... — deu de ombros.
— Você está linda como sempre. Não precisa ficar insegura. Minha família é meio maluca. Se você fosse pelada, ainda assim tenho certeza que conseguiria passar uma boa impressão.
— Ei! — ela me deu um tapa, no ombro, me fazendo rir. — Menos, . Bem menos — e riu, também.
— Você está pronta? — ela assentiu. — Então vamos.

Dito e feito.
Minha família a adorou, especialmente minha mãe.
Mas conhecendo a sra. como conheço, eu sabia muito bem que ela achava que era mais que uma amiga. Bem, não é como se eu pudesse admitir algo, pois oficialmente éramos apenas amigos.
— Então, . nos disse que você é enfermeira — minha mãe disse, sorrindo.
sorriu, olhando para baixo, tímida.
— Sim.
— Oh, eu acho um trabalho muito bonito — minha mãe continuou. — Eu tive a sorte de ter ótimas enfermeiras comigo quando eu tive meus meninos.
— Fico feliz por isso — ela respondeu educadamente.
finalizou um mestrado, mamãe — comentei. — Ela disse que quer ensinar em uma universidade.
— Oh, que maravilhoso. Eu fui professora por muito tempo, mas eu ensinava a crianças do fundamental. Foi uma boa época, trabalhosa, porém boa. Então eu conheci o meu marido — ela olhou para o esposo, com carinho e ele sorriu para ela. — Fui deixando aos poucos e quando nasceu, eu me dediquei a maternidade e minha família — ela finalizou.
— Entendo... — sorriu amarelo para ela e bebeu um gole de seu suco.
Eu sabia o que ela estava pensando. Eu tinha certeza. era alguém que prezava muito por sua vida profissional, por sua independência. E depender de alguém, largar o emprego como minha mãe fez, era algo inimaginável para ela. Algo que eu sabia que ela correria o quanto pudesse correr.
Coloquei uma das mãos em sua coxa e sorri para ela, tentando acalmar o seu nervosismo interior.
— Como decidiu que queria fazer enfermagem, ? — minha irmã, Layla, perguntou, enquanto a empregada tirava os pratos da mesa, para servir a sobremesa.
— Ah... Eu não escolhi, exatamente — ela respondeu.
Sorri. Eu conhecia aquela história.
— E como foi, então? Você caiu de paraquedas? — minha irmã brincou.
— É... Mais ou menos. Os primeiros semestres foram difíceis, mas eventualmente eu descobri que gostava da área — falou, com sinceridade. — Embora eu trabalhe como assistente, creio que sou melhor na parte de pesquisa. Por isso, meu objetivo é ensinar.
— Oh, entendo... Eu faço faculdade de moda, sabe? Mas e papai dizem que não é um curso muito certeiro. Que ser estilista não é bem uma profissão segura — Layla comentou e eu revirei os olhos.
— Porque não é. Você pode continuar, se quiser, Layla. Mas tem que saber que terá de trabalhar muito até alcançar o sucesso que deseja — eu disse, olhando para ela.
— Seu irmão está certo — meu pai disse. — Nenhum sucesso é alcançado sem que haja trabalho duro, querida.
— Sim, eu sei — ela revira os olhos, brincando com a sobremesa.
— Hm... Esta torta está deliciosa — diz .
disse que você adora torta de morango, fiz especialmente para você — minha mãe disse, orgulhosamente.
— A senhora mesma que fez? — perguntou, surpresa.
— Bem, eu não cozinho sempre, mas gosto de fazer isso quando a família está junta — e sorriu falsamente para mim.
— Mãe... — eu disse em tom de aviso e ela revirou os olhos.
— Esse menino vive trabalhando e não tem tempo para a mãe dele, acredita, ? Se eu quiser um tempo com meu filho, tenho que agendar com sua secretária.
— Deve ser difícil, mas é bastante ocupado... Eu também não vejo minha mãe com tanta frequência — disse. — Mas eventualmente eu saio com ela, ou ela me visita.
— Bem, eu faria isso também se ele parasse em casa...
— Mamãe, se conforme. Eu sempre tento encontrá-la quando posso, não seja tão dramática — eu disse, a fazendo revirar os olhos, uma mania de família.
— Tudo bem, você tem razão. Agora tenho que me conformar mesmo depois de saber que você quer morar em outro país — ela disse e imediatamente senti o olhar de em mim.
Eu sorri para ela, balançando a cabeça como se não fosse importante.

***


— Esse era o seu quarto, ? — pergunta, assim que entramos. Fecho a porta atrás de mim.
— O que acha? — perguntei, me sentando na cama. observou em volta, pôsteres de filmes, bandas... Eu era bem eclético.
— Não sabia que você dançava quando era adolescente. Por isso, você é tão bom no Just Dance! Seu malandro! — me acusou, mas eu apenas ri, levantando as mãos como alguém pego em flagrante.
se sentou ao meu lado na cama e ficou em silêncio por um instante.
— Do que a sua mãe estava falando? — perguntou e eu sabia exatamente a que ela se referia.
Dei um sorriso sem graça.
— Era para ser surpresa — respondi, brincando uma uma de sua mãos. — Eu vou trabalhar na filial de lá, e meu vice-presidente permanecerá aqui.
— Por quê?
— Eu gosto da Inglaterra. Gosto das pessoas e eu gostaria de ficar mais perto de você, dessa vez — admiti, a olhando nos olhos.
Ela me encarou com surpresa e eu me senti nervoso por um instante.
— Você não vai me pedir em casamento dessa vez, vai, ? — perguntou e eu ri.
— Não se preocupe com isso, . Como posso te pedir em casamento se nem sequer namoramos?
Ela sorriu e entrelaçou seus dedos aos meus, mas não disse nada.
— E então... Quando você vai dançar Red para mim mesmo? — brinquei.
— Que tal nunca?
— Qual é, ... Pelo menos, Lip & Hip, então — sugeri, lançando meu melhor olhar de persuasão. — Por favor, ... — dou um beijinho em seu pescoço.
— E porque eu faria isso? Ainda mais agora que eu descobri que você dançava. Não quero passar vergonha,
— Você não vai. Prometo não rir — e a beijo novamente, antes de encará-la. sorriu e se aproximou, selando os lábios aos meus.
— Você é impossível, .
— Ah, é? — Coloco uma mão em sua cintura e outra em sua coxa, a trazendo para meu colo. — Conte-me mais sobre isso.
Mas ela apenas voltou a me beijar. E eu não tive nenhum problema com isso. No entanto, quando as coisas começaram a esquentar, a porta abriu repentinamente e nós nos separamos, assustados como dois adolescentes pegos em um amasso.
Minha irmã ficou parada na porta, nos encarando com a boca aberta.
— A mamãe vai adorar saber disso, maninho — ela riu, maliciosa.
Eu estreitei meus olhos e apontei um dedo para ela.
— Você não vai contar, Kalisara — eu disse, a chamando pelo nome do meio, sabendo que ela odiava.
Layla revirou os olhos.
— Posso não contar, mas com uma condição... Preciso da sua namorada. Opa, desculpe... Amiga — corrigiu, com um sorrisinho.
— O que quer? — perguntei, mas ela apenas deu de ombros.
— Coisas de mulher. Pode vir comigo, ?
— Claro — respondeu, com um sorriso. — Te vejo depois, .



— Então... Você gosta do meu irmão, não é? — Layla perguntou, me encarando, assim que chegou a porta de seu quarto.
Pisquei.
— Eu…
— Tudo bem, eu sei que sim — ela disse e foi em direção ao closet. — Eu preciso de ajuda. Vai ter um jantar de gala importante na quarta à noite e preciso escolher um vestido. Gostaria que você me ajudasse a escolher.
— Ahn, claro — respondi, a vendo tirar quatro modelos longos do closet. Um azul, um preto, um branco e um vermelho.
— O que acha?
— São todos lindos — falei com sinceridade. — Aposto que ficarão ótimos em você. Mas acho que o azul combina muito com seu tom de pele.
— Hm, obrigada. Eu também acho. Você já escolheu o seu? Eu posso te emprestar um, se quiser…
— Ahn, porque eu escolheria?
— Porque o vai estar lá e você vai estar com ele? Dã!
— Bem, eu não estou sabendo de nada disso…
— Ah, ele não deve ter falado ainda, então. Ah, homens — ela suspirou, revirando os olhos. — Não sabem que uma mulher precisa de tempo para se preparar. Daniel! — ela gritou, por ele.
apareceu pouco depois.
— O que foi? dormiu com o seu discurso sobre moda?
— Ainda não contou a ela sobre o jantar?
— Ah, isso — ele disse e encolheu os ombros. — Eu ia fazer hoje à noite.
— Que jantar é esse?
— É um jantar beneficente para uma instituição de caridade que ocorre todo ano. Mas tudo bem, se não quiser ir... Eu vou entender.
Claro que iria. era a pessoa mais compreensível do universo.
— Claro que ela vai. Assim eu não vou ter que te ver com a sua secretária sem sal, chata pra cacete. Você vai, não vai, ? — ela perguntou, olhando para mim.
— Ahn, acho que tudo bem.
— Ótimo! Temos encontrar um vestido para você! , você pode se retirar agora — ela o enxotou com a mão.
— Como assim? Logo na melhor parte? Eu quero opinar também — ele piscou pra mim.
— Tchau, — acenei com um sorriso, enquanto Layla o expulsava do quarto e trancava a porta.

— Definitivamente, tem que ser o branco — Layla disse assim que provei o último vestido.
— Você acha? Não é muito extravagante?
— Se eu acho? Ele ficou ótimo! E todos eles são extravagantes, mas é disso que se precisa em uma festa de gala. Meu namorado, Mac, virá também. Eu tive que passar dias tentando convencê-lo e, claro, adorei quando soube que você viria. Quanto mais gente, melhor. Esses eventos são um tédio — ela disse, bocejando. — Por uma boa causa, mas ainda assim um tédio.
Pelo menos agora eu tenho você para conversar. E Mac, claro — acrescentou e colocou a mão no rosto, como se fosse contar um segredo. — Meu irmão é um porre. Ele fica o tempo inteiro conversando com aqueles velhotes magnatas.
Não pude conter uma gargalhada.
— Ah, não deve ser tão ruim assim — tentei amenizar, mesmo não fazendo ideia de como realmente eram esses eventos. — E esses homens são colegas de trabalho de , não é? Faz parte.
— Talvez... Mas e então, como foi que vocês dois se conheceram? Eu sei que foi na universidade e tal, mas você sabe, não é a pessoa mais aberta do mundo e detalhes é algo que ele odeia compartilhar.
Ela tinha razão.
Ele não era.
Talvez porque é o tipo de pessoa reservada, que não demonstra muitas emoções, sejam boas ou ruins. Eu ainda me surpreendo pelo fato de vê-lo à vontade comigo. Ele tem um senso de responsabilidade enorme e penso que seja isso que o molda assim. O CEO ocupa com certeza a maior parte do seu tempo, mas quando , o cara de 26 anos aparece... Ele é só um cara. Apenas outro alguém comum em meio a bilhões de outras pessoas comuns.
— Bem, nós fugimos do congresso nesse dia, na verdade — sorri para Layla, mordendo o lábio inferior. Ela rapidamente se acomodou ao meu lado, empolgada.
— Me conta tudo! — disse e minutos depois ela tinha os detalhes que tanto queria. — Eu não acredito que o meu irmão certinho fugiu de um compromisso. Quer dizer... Ele nunca foi um exemplo de obediência, mas desde que começou a trabalhar, ele ficou mais sério. Eu sei que ele gosta disso, mas é como se faltasse algo na vida dele... — ela deu de ombros.
Eu apenas sorri, não querendo prolongar a conversa. Troquei de roupa outra vez, vestindo a minha e fui para o quarto de , que se encontrava deitado na cama digitando algo no celular.
— É muito importante? — perguntei, indo até ele e me sentando na cama.
— Nem tanto. Apenas dando algumas dicas para Rebeca — respondeu, enquanto lia uma mensagem. — Ela parece ótima quando estou por perto, mas aí eu saio e acontece algo. Ela tem que aprender a se virar sozinha — ele resmungou, voltando a digitar.
Suspirei e peguei o celular de sua mão, o deixando de lado na cama.
me olhou confuso e eu sorri, me inclinando para dar-lhe um selinho.
— Você cuida disso depois. Como você disse, ela tem que se virar.
Ele sorriu também, em um pedido de desculpas.
— Você já quer ir embora?
— Nós temos que ir. Prometi cozinhar pra você hoje, não foi? — me levantei, estendendo um braço para ele.

***


— Tem certeza que não quer ajuda? — perguntou, pela terceira vez.
— Por que você não olha se o arroz já está bom? — sugeri.
Ele estava literalmente sem ter o que fazer e me ver ocupada o deixava inquieto. Eu conhecia aquele sentimento, de parecer inútil em um determinado local.
— Eu já olhei — ele revirou os olhos e eu ri.
— Tudo bem. Aqui, pegue outra faca e corte a abobrinha assim, em palitos finos — expliquei, cortando uma rodela e fatiando, para ele ver.
— Sim, senhora — e fez o que eu disse. — Amanhã, prometo que não vamos demorar, ok? — voltou a falar, assim que se sentou ao meu lado. — Teoricamente, você poderia ficar, mas já que tenho que ir... Você poderia conhecer a empresa também... A menos que não queira, é claro — ele disse, rapidamente.
— Quero sim. Quem sabe, eu não te apresento ao meu pequeno mundo hospitalar também... — comentei e o vi sorrir de lado. Mas ele não disse nada.
— O que está achando de Bangkok?
— Nesses últimos dois dias? Cansativo, porém gratificante. Eu gosto de conhecer novos lugares. E você é um ótimo guia, presidente — brinquei.
riu, sem graça.
— Não gosto quando você me chama assim.
— Por quê?
— É embaraçoso. Apenas meus clientes ou quem trabalha comigo me chama assim. E você é alguém próximo... Basicamente, eu fico sem jeito.
— Ah, que fofo — debochei, embora ele estivesse sendo genuinamente fofo. — É estranho ver você tímido. Nem parece o cara que me seduziu com o truque do sorvete.
riu.
— Mas estava sujo — ele retrucou. — Sério. É verdade. Mas eu não pude me controlar... Felizmente.
— Felizmente — repeti, sorrindo. — Com quantas garotas você fez isso, ? Esse truque do sorvete.
— Ei, como assim? Agora é um interrogatório? Eu não planejei seduzir você, . Só... Aconteceu — sorriu também.
.
— O quê?
— Acho que o jantar pode esperar um pouco — falei, lançando-lhe um olhar significativo. Me levantei da cadeira e passei uma perna ao redor dele, sentando em seu colo.
arqueou uma sobrancelha e me olhou com uma expressão que parecia um misto de malícia e deboche.
— Depois eu que não tenho jeito, não é? — perguntou, irônico.
— Você começou mais cedo, agora tem que terminar, querido.
— Se é assim... — ele desceu suas mãos da minha cintura até minha bunda, onde apertou uma vez. — Vamos terminar isso direito — sussurrou, beijando meu pescoço. — Quarto. Agora.


15. Máscaras Caindo


— Ficou muito bom! — elogiou o prato. — Parece o que a sua mãe faz.
— Eu encontrei ela há uns dias, ela mencionou você — comentei, enquanto pegava outra colherada da tigela. — Ela ficou empolgada pela minha viajem. E disse que sente sua falta também.
— Bem, da próxima vez você traz ela, então. Posso ser guia turístico de vocês duas — ele piscou. — Quando eu estiver na Inglaterra novamente, irei visitá-la.
— Só não bajule muito ela. Tudo o que ela sabe falar é sobre você, quando isso acontece.
— Mas sua mãe merece ser bajulada, .
— Por quê?
— Porque ela fez você. Isso pra mim é motivo suficiente — ele explicou, me fazendo rir.
— Você é um conquistador, .
— Faz parte do meu trabalho — ele piscou.
— Eu vou lavar a louça e você seca e guarda — disse e me levantei. Nem tinha tanta louça assim, pois nem precisei sujar muito.
e eu passamos o resto da noite deitados na cama, conversando e vendo coisas aleatórias na TV.
No dia seguinte, ele acordou antes de mim. Ouvi uma movimentação no quarto e quando vi, ele já estava colocando uma gravata. Me sentei na cama, esfregando os olhos e levantei para ir tomar um banho rápido.
Ele não ia me acordar. Eu tinha certeza. Se não fosse a movimentação, ele teria me deixado em casa dormindo.
Saí do banheiro com uma toalha enrolada no corpo e fui até o quarto de hóspedes para trocar de roupa. Olhei no relógio e eram oito e meia da manhã. tinha uma reunião às dez, então tínhamos tempo para comer.
Fui para a cozinha e fiz torradas para comermos com geleia e pouco depois ele apareceu e sentou ao meu lado.
Mordi uma torrada e o encarei com uma sobrancelha arqueada.
"Você não tem nada para dizer?", perguntei com o olhar.
— Bom dia — ele disse, ignorando minha mensagem telepática. E eu sabia que era de propósito.
— Bom dia, sr. Eu-resolvi-te-deixar-dormindo — respondo, irônica.
deu um risinho.
— Você parecia estar em um sono tão bom que eu não tive coragem de te acordar. Desculpe, querida — me beijou no rosto.
— Mas eu falei que queria ir. Seu idiota — respondi, enfiando uma torrada na boca dele. — Que horas saímos?
olhou para seu relógio.
— Em dez minutos. Tudo bem para você?
— Claro, eu já estou pronta.

O edifício sede da empresa era enorme e elegante. Me senti meio deslocada e pequena em meio a tudo aquilo por um instante. Todas as pessoas cumprimentavam e ele respondia cordialmente com palavras curtas ou acenos de cabeça. Ele andava rápido, digitando no celular. Fiquei um pouco atrás dele, segurando na alça da minha bolsa com as duas mãos, porque eu nunca sabia o que fazer com elas quando me sentia desconfortável. Os segundos pareciam minutos na entrada do prédio e o enorme salão parecia ter quilômetros.
As pessoas estavam sempre bem vestidas para o trabalho, andando para lá e para cá. Eu estava prestes e dizer para que seria melhor eu ter ficado dormindo, quando ele parou de andar e se virou.
.
— Oi.
— Aqui — ele estendeu a mão. — Por um momento, esqueci que iríamos fazer um tour. Desculpe, querida.
— Eu estou me sentindo um ratinho nesse lugar tão grande — falei, com sinceridade.
deu um sorriso de desculpas e segurou minha mão, entrelaçando seus dedos aos meus, me guiando desde então. Percebi o olhar de algumas — ou todas — as pessoas que passavam por nós indo diretamente para nossas mãos dadas.
Mas não parecia se importar.
Claro que não.
Como se aquela tivesse sido a primeira vez que ele levava uma mulher dessa forma para a empresa. Acho que ele já devia ser acostumado à rumores ou fofocas do tipo, embora fosse algo que eu sabia que ele não gostava muito de falar. "Qual o ponto de falar sobre as mulheres com quem já me relacionei com você?", ele dizia e mudava de assunto. Mas eu ainda iria arrancar uma resposta dele. Com certeza.
No elevador, havia alguns homens de terno que o cumprimentaram assim que ele entrou. respondeu com um aceno de cabeça e ficamos quietos por um instante, até alguém perguntar quem eu era. Eu não entendo Tailandês, mas me apresentou em inglês para ele.
— Esta é , uma amiga da Inglaterra — ele respondeu.
— Amiga? Ah, claro — sorriu o homem. Era meio óbvio que ele achava que éramos mais que amigos, assim como o resto do pessoal. — Prazer em conhecê-la, senhorita — ele me cumprimentou em inglês. Assim que o respondi, o elevador parou e eles saíram, restando apenas nós.
— Você é um daqueles caras que tem o escritório na cobertura? — perguntei.
— Basicamente.
— Que coisa. Depois eu que sou a dominadora... — brinquei, enquanto olhava para minhas unhas.
— O que você disse? — ele perguntou e eu olhei para ele.
— Quero dizer, só faltou a gravata cinza hoje, sr. Grey — expliquei e ele riu.
— Eu não sou um maníaco por controle. Nem um dominador, .
— Diga isso a você mesmo. E você pareceu um ontem. Dom, quero dizer.
— Você está me provocando agora porque sabe que não posso fazer nada, não é?
— Sim, sr. Grey — pisquei duas vezes, olhando-o com uma expressão inocente.
— Pelo menos, não sou eu que tem um fetiche por amarrar pessoas — ele retrucou.
— O que posso fazer se você ficar ótimo quando está a minha mercê? E eu não preciso te amarrar, você sabe — sorri e juntei nossos lábios, puxando o seu inferior com os dentes.
sorriu e fechou os olhos quando eu me afastei.
— O que eu vou fazer com você, ? — ele abriu os olhos e olhou para a telinha do elevador. — Ainda temos mais cinco andares, querida.
De repente, eu estava contra a parede do elevador, com minhas mãos sobre a cabeça e seu corpo colado ao meu. Foi tudo tão rápido que quando pensei em reagir, o elevador apitou e se afastou. Exalei ofegante e olhei para mim mesma no elevador, notando que meu batom vermelho havia borrado. Puxei um lenço de dentro da minha bolsa assim que saímos e o puxei pelo braço, o impedindo de andar.
— Você não vai querer aparecer na reunião parecendo uma pessoa que acabou de dar uns amassos, vai? — perguntei, enquanto livrava sua boca dos vestígios do meu batom. Quando acabei, pegou o lenço da minha mão.
— Tem razão. E acho que você também não ia querer isso — respondeu, limpando minha boca. Passei a mão no meu cabelo e depois no dele e endireitei sua gravata.
— Você está perfeito agora.
— Eu digo o mesmo de você. Vamos — me puxou pela mão. Havia uma mulher do lado de fora do escritório e supus que aquela era Rebeca, a secretária de . Ela era um pouco mais alta que eu e tinha o cabelo loiro descolorido em um perfeito rabo de cavalo. Usava uma maquiagem leve, com um batom rosa destacando sua boca. Ela era bonita.
Mas talvez não simpática. Rebeca não pareceu muito feliz quando viu chegar de mãos dadas comigo.
— Bom dia, Rebeca. Os franceses já chegaram? — ele perguntou.
— Bom dia, presidente . Não, eu recebi uma ligação e parece que eles terão de se atrasar um pouco devido ao trânsito — ela disse prontamente.
— Certo, então. Me chame quando eles chegarem. Ah, , está é Rebeca — ele a apresentou. — Rebeca, está é .
— Prazer em conhecê-la — respondi e ela disse o mesmo, porém sua expressão dizia outra coisa.
Acompanhei ao seu escritório e o vi pegar um controle remoto. Ele apertou um botão e todo os vidros da sala ficaram escuros, nos dando privacidade.
— E então, o que acha? — ele perguntou.
— Seu escritório é enorme, sr. Grey — brinquei outra vez. — Parece um de um drama que assisti no meu último ano de faculdade. Se chamava "O que aconteceu com a secretária ?" e havia um presidente também. Só que ele era mais alto — pisquei e me sentei no sofá.
e , não é? Soa bem — ele se sentou ao meu lado. — O que você quer fazer hoje?
Dei de ombros.
— Não sei. Que tal irmos ao cinema? Hoje é segunda-feira, provavelmente vai ter pouca gente. Ah! — coloquei uma mão em sua coxa, casualmente. — Acho que Sussurro está em cartaz.
Sussurro?
— Sim, de anjos e tal. Tem o Patch — arqueei uma sobrancelha.
— Não lembro bem da história. Faz tempo que assistimos.
— Patch e Nora. Anjo caído. Nefilins. Essas coisas. Marcie vadia.
— Aaah! Sim, lembrei. Seu crush literário. Claro — e colocou uma mão na minha coxa também, como eu fiz.
Era casual. Eu fazia isso com todo mundo que era próximo de mim. Quanto a , não sei como era com outras pessoas, mas comigo ele também fazia muito esse gesto.
— E então?
— Por mim, tudo bem. Você sabe que eu adoro cinema — ele deu de ombros e se encostou no sofá.
— O próximo filme que formos ver, você escolhe — falei, brincando com seu cabelo. sorriu e pegou minha mão que estava em sua coxa, entrelaçando nossos dedos.
— Justo — ele disse e eu sorri também.
Houve uma batidinha na porta e Rebeca colocou a cabeça para dentro.
— Com licença, sr. — ela disse, em tailandês.
— Pode entrar, Rebeca — respondeu, em inglês. Acho que era um sinal para ela falar na língua, para que eu pudesse entender também.
— Os franceses acabaram de chegar e o aguardam para a reunião — ela anunciou em um tom de voz neutro, mas não pude deixar de perceber quando o seu olhar desceu para nossas mãos.
Arqueei uma sobrancelha, desconfiada.
— Eu tenho que ir agora. Volto em alguns minutos, há uma pequena cozinha no andar, Rebeca pode mostrar a você, caso queira algo, ok? Fique à vontade. — assenti com a cabeça e ele se inclinou para me beijar no rosto. — Até logo.
Rebeca acompanhou e eu fiquei sozinha em seu escritório por algum tempo, até ela voltar.
— A cozinha fica a primeira porta à direita, seguindo pelo corredor — disse apenas. Em seguida, ela foi até a mesa de e começou a arrumar alguns papeis.
— Obrigada — agradeci, mas ela não respondeu. Tampouco, quando perguntei onde ficava o banheiro, mas felizmente descobri por mim mesma que era em uma portinha que havia no canto da sala.
Havia algumas prateleiras com livros, alguns de leitura, outros de trabalho e documentos.
Avistei um e o tirei de lá, quando ouvi um pigarro. Olhei para Rebeca.
— O presidente não gosta de ninguém mexendo nas coisas dele. Especialmente os livros — ela disse, com um sorriso falso.
Arqueei uma sobrancelha e passei o olhar pela estante até volta para o livro que eu segurava.
— A maioria dos livros que estão aqui foram presentes meus para ele — falei e minha voz soou mais fria do que eu esperava, mas eu não me importei. — Além disso, creio que disse que eu podia ficar à vontade, certo?
O sorriso de Rebeca vacilou um pouco depois disso e não pude evitar aquele velho sentimento de vitória. Sorri para ela também e eu planejei ignorá-la. Mas resolvi brincar um pouco mais. Virei o livro que eu segurava e apontei para a dedicatória em inglês que eu havia feito. Aquele foi um dos primeiros livros que eu havia dado a .
— li em voz alta e apontei no livro, mostrando a ela. — Como você pode ver na dedicatória. Eu sempre as faço. Mas acho que você não deve ter visto, certo? Afinal, o presidente disse que não gosta de ninguém mexendo nas coisas dele — repeti para ela.
Rebeca ficou calada, porém eu a vi fechar a mão em punho.
Yay, dois pontos para mim.
Por algum motivo eu me sentia dentro de um dorama e Rebeca parecia aquela personagem apaixonadinha pelo protagonista.
Depois de algum tempo, eu saí do escritório e fui até a cozinha. Já fazia cerca de quarenta minutos que estava em reunião e Rebeca tinha acabado de sair, após receber uma ligação dele. Imaginei que já estivessem acabando e preparei dois cappuccinos para nós, com bastante canela. Levei para o escritório e encontrei lá, assim que entrei.
— Ei. Eu já ia te procurar. A reunião terminou agora. Demorei muito?
Neguei com a cabeça.
— Achei que fosse demorar mais. Você ligou para Rebeca e imaginei que estivesse acabando, então resolvi preparar esses cappuccinos para nós.
— Com muita canela? — ele sorriu.
— Quase vermelho de tanta canela, sr. — respondi, sorrindo também.
Eu sorria bastante quando estava com . Isso era um fato. Mas ele tem um daqueles sorrisos que te faz querer sorrir também. Então eu acho que, em parte, era por causa disso.

À noite, quando estávamos voltando do cinema, comentei sobre Rebeca.
— Sua secretária parece ser bem... Voluntariosa, não é?
— Voluntariosa? — ele bufou. — O que te fez pensar isso?
— Eu peguei um livro seu, um dos que te dei, e achei que ela fosse pular no meu pescoço — falei e ele riu. — "O presidente não gosta que ninguém mexa nas coisas dele. Especialmente livros" — imitei.
— Não deixa de ser verdade, mas eu te dei carta branca.
— Exatamente.
— E o que você disse? — ele quis saber.
— Eu disse que maioria dos livros que você tinha ali foram presentes meus e até mostrei uma dedicatória com o meu nome nela. Depois disso, ela ficou quieta.
— Certo... E você só disse isso?
— Só — respondi e ele arqueeou uma sobrancelha, desconfiada. — Tá, talvez eu tenha destilado um pouco de veneno, mas isso não vem ao caso — revirei os olhos e ele riu.
— Ah, vem sim. O que você disse, ?
— Falei que talvez ela não tivesse visto nenhuma das dedicatórias já que você não gosta de ninguém mexendo nas suas coisas. Ah, e eu acho que ela gosta de você.
— O quê? — ele riu, incrédulo. — De onde você tirou isso?
O encarei, sem sorrir.
— Eu tenho certeza que sim, . Além do mais, o que me garante que vocês dois nunca tiveram nada? Ela parece aquela personagem de dorama apaixonada pelo protagonista, que odeia qualquer mulher que chegue perto dele.
— Ow, acho que você começou a levar sério esse negócio de dorama, querida. Mas aqui é a vida real.
— Eu não sou cega, — retruquei. — Eu vi como ela o olhar dela quando nós chegamos de mãos dadas e antes de você sair para a reunião, principalmente depois que você me beijou na frente dela.
Ele revirou os olhos.
— Desculpe, . Mas acho que você está errada. Rebeca sempre foi muito profissional.
— Eu não disse que ela não era. Mas eu vi!
— É impressão minha ou você está com ciúmes?
— Ciúmes? Sério, ? — ri, incrédula. — Ah, que seja! — desisti de falar. — Você é um homem, afinal. Todos vocês são lerdos.
— Eu não acho que ela esteja apaixonada por mim, como você diz — ele suspirou. — Eu não sei porque você insiste nisso, sinceramente.
— Porque é muito fácil se apaixonar por você, .
Silêncio. Eu quis bater em mim mesma, após falar isso. Vi apenas as mãos no volante, mas ele não disse nada.
— O que eu quero dizer é... — tentei consertar, mas ele me interrompeu.
— Você diz isso por você, ? — perguntou, calmamente e me olhou por um segundo, antes de voltar a prestar atenção no trânsito.
Fiquei calada.
Encarei ele por um instante, enquanto ele estava distraído com o trânsito.
A expressão séria em seu perfil perfeito.
Ele parecia tão bonito quanto no dia em que eu o conheci, com seu cabelo preto e macio caindo sobre os olhos, embora estivesse bem mais curto que antes.
Senti meu coração bater violentamente contra meu peito, em súbito nervosismo. Abri a boca para responder, mas nada saiu, porque eu não sabia o que dizer.
Eu não sabia a resposta ainda.


16. Confusão


parou em um sinal vermelho e olhou para mim outra vez.
, eu... — tentei falar, mas foi em vão. Eu simplesmente não sabia o que responder.
Quando viu que eu realmente não ia falar nada, ele riu sem humor e voltou a olhar para frente. O sinal ficou verde e o silêncio reinou outra vez dentro do carro e até chegarmos em casa.
— Eu vou tomar um banho — ele disse, assim que entramos.
Olhei para o meu celular e vi que já se passavam das onze da noite.
Abri o WhatsApp e respondi algumas mensagens no grupo das meninas. Eu queria contar a elas sobre o ocorrido, mas eu não sabia como pois nem eu havia entendido direito. Acho que, no fim, só falei sem pensar... Talvez porque era uma pessoa encantadora, do tipo que conquista as pessoas.
Sim, era isso.
Com certeza era.
Não é como se eu estivesse apaixonada pelo . Claro que não.
Eu provavelmente saberia se estivesse. Mas porque, então, eu havia ficado angustiada? E porque ele tinha que perguntar aquilo? Não é como se nós... Bem, nunca tínhamos falado disso, afinal. Falávamos de muita coisa, mas quanto a essa nossa amizade colorida... Nunca definimos regras. Só deixamos acontecer, porque era conveniente para nós dois.
De qualquer forma, eu não queria ficar nesse clima estranho com ele, então fui até o quarto de hóspedes e tirei um pijama da mala, antes de ir para o banheiro também. O chuveiro estava ligado e dava para ver o vapor da água quente embaçando o box de vidro. Tirei minhas roupas, ficando apenas de lingerie e fui me juntar a .
Ele passou uma mão pelo cabelo e ficou imóvel por um segundo, quando percebeu minha presença. não se virou ou reagiu de qualquer forma, apenas me ignorou e voltou a se concentrar no banho.
E o pior é que esse pequeno ato doeu. Ele tinha ficado chateado, era mais do que óbvio. E eu não sabia muito bem o que fazer nessas horas, especialmente quando a culpa era minha. Me senti insegura, começando a achar que aquilo havia sido uma má ideia, porém eu já estava ali, de qualquer forma.
Hesitante, juntei um pouco de coragem e dei um passo para frente, passando meus braços ao seu redor, o abraçando por trás. ficou rígido por um momento, mas depois relaxou.
— Desculpa — murmurei baixinho, encostando minha bochecha nas costas dele. levantou uma das mãos e desfez o abraço delicadamente, antes de se virar para mim. Ele me encarou sério e embora eu não visse nenhum resquício de raiva no seu olhar, subitamente eu senti os meus próprios olhos arderem e se encherem d'água em alguns segundos.
Abri a boca para falar, mas minha voz não saiu. Ao invés disso, veio um soluço.
franziu o cenho, surpreso. — Por que você está chorando?
Eu me agarrei a ele.
— Des-culpa — mas eu não sabia ao certo sobre o que eu estava me desculpando. Por não conseguir falar? Por tê-lo deixado chateado? Por que eu sabia que talvez, no fundo, ele estivesse se cansando de mim, quem sabe? Eu me sentia confusa.
Principalmente quando o vi me ignorar propositalmente, mesmo tendo sido por apenas alguns segundos. me abraçou de volta e eu solucei em seus braços por alguns minutos, até me acalmar.
— Ei... Por que você tá chorando? — perguntou novamente, com sua voz suave.
— Eu... Não sei — solucei, mais uma vez.
— O que você não sabe, ?
— Sua pergunta. Eu não sei. Não sei o que sinto — falei baixo, com a voz falha.
ficou em silêncio e aquilo só me deixou pior. Será que eu tinha feito algo errado? Será que eu estava sendo fria com ele ou sendo egoísta? Eu era assim, não é? Talvez eu nem percebesse nada disso.
Me afastei dele e abracei a mim mesma.
— Você está cansado de mim, não está? — perguntei, sem encará-lo. Acho que por medo estava da resposta. — Eu já esperava que isso acontecesse.
... Isso não é verdade. Claro que não — me abraçou, novamente. — De onde você tirou isso? Eu nunca vou me cansar de você, querida. Por que você está dizendo isso?
— Eu não sei... Estou confusa — admiti. — Me desculpe por ter te chateado.
— Está tudo bem — ele beijou o topo da minha cabeça. — Deve ser a sua TPM chegando — brincou, me fazendo rir.
— Deve ser — respondi. se afastou e encostou sua testa na minha.
— Estamos bem? — ele perguntou. Assenti com a cabeça, mesmo sabendo que eu era quem deveria estar perguntando aquilo.
selou seus lábios ao meus e me beijou carinhosamente.
— Você veio tomar banho ou só me abraçar? — ele quis saber, quando se afastou.
— Tomar banho. Também — sorri, sem graça.
— E sua mãe não te ensinou que precisa tirar toda a roupa para isso? — brincou e eu dei um tapinha em seu braço. riu e levou as mãos até o fecho do meu sutiã, o desabotoando. Me livrei da minha calcinha e ele deu um passo para trás, me levando junto com ele para debaixo do chuveiro.
Apenas tomamos banho um com o outro e só.
Depois que saímos, com nossas peles já enrugadas devido ao tempo em contato com a água, fomos para a cama e ficamos deitados, abraçados e em silêncio até eventualmente adormecermos.

***


Quando eu acordei, no dia seguinte, me mexi na cama e me virei para o outro lado. Esbarrei em e sorri, por ele ainda estar ali.
Na maioria das vezes, ele acordava mais cedo que eu, por puro hábito de acordar cedo. Exceto quando nós saíamos para beber na noite anterior, geralmente chegávamos tarde demais, cansados demais.
Portanto, fiquei feliz por encontrá-lo ali ainda e em um sono profundo.
Ele tinha um braço um pouco acima da cabeça e o outro relaxado, em cima do seu tórax. Seu rosto estava virado para o lado que eu estava, assim pude observá-lo bem. Ele estava com o cabelo bagunçado e sua franja caía sobre seus olhos, o que me fazia ter vontade de afastar os fios e descobrir mais o seu rosto.
Eu tinha medo de acordá-lo. Ele parecia bastante tranquilo e eu sabia que ele não tinha muito tempo para dormir, devido ao trabalho.
Então, por alguns minutos, eu apenas o observei.
Eventualmente, meus dedos pareceram criar vida própria e quando vi, eu já afastava sua franja do rosto. Felizmente, ele não acordou. Corri meu dedo indicador desde a sua testa até a ponta do seu nariz e vi um pequeno sorriso aparecer no canto de seus lábios. Espalmei uma mão em seu rosto e sorri também. se moveu contra minha mão e ainda de olhos fechados, ele a segurou e beijou a palma.
Morning, darling — disse e então me encarou com um sorriso, os olhos ainda um pouco inchados de sono.
— Oi — respondi, baixinho, ainda segurando a mão dele.
— O que você quer fazer hoje? — quis saber e eu apenas balancei a cabeça.
— Nada demais. Que tal ficarmos em casa hoje?
— Por mim, tudo bem — sorriu, de leve. Me aproximei e me aconcheguei a ele, o abraçando.
— Vou sentir falta disso quando eu for embora — murmurei.
— Você não devia ir tão cedo... Só temos mais três dias...
— É o maior tempo que já ficamos juntos. Uma semana. Só agora me dei conta disso. Você percebeu?
— E você poderia ficar mais para nós duplicarmos esse tempo — falou, acariciando meu braço.
— Uma semana te atrapalhando é tempo suficiente, . Eu sei que você precisa voltar a trabalhar. Aposto que nunca ficou tantos dias fora.
— Ei, claro que já...
Eu ri.
— Não ficou não. Eu te conheço, você é um workaholic — ele sorriu.
— Ainda assim — me abraçou também. — Você não me atrapalha, . Eu sempre quis te trazer aqui, mas nunca tive oportunidade. Quando você não estava ocupada, eu estava. Felizmente, deu certo dessa vez.
— Eu queria ficar aqui o resto da manhã com você — murmurei, deitando a cabeça em seu peito.
— E o que te impede? — perguntou, acariciando meus cabelos.
— A fome — fiz uma careta e ele riu.
— Bom ponto. Também estou com fome.
Passamos o resto do dia fazendo vários nadas. Vulgo jogando videogames — jogos antigos em um emulador de Nintendo para computador que tinha baixado — e fazendo uma maratona de filmes.
Eu cozinhei churrasco coreano para o almoço e comemos com arroz e kimchi — cortesia da minha mãe para , e eu havia tirado da mala no dia em que cheguei e colocado na geladeira, mas até então não tínhamos tocado nele ainda.
No dia anterior, alguém havia feito uma limpeza no apartamento quando saímos, então só tínhamos que cuidar da louça suja, antes de voltarmos para o quarto.
Era minha vez de escolher o filme e eu já estava querendo rever um há tempos.
Mamma Mia? arqueou uma sobrancelha, quando eu selecionei no Netflix.
— Eu espero mesmo que você lembre das letras das músicas, querido, porque nós vamos encenar juntos — balancei meu celular.
— Você quer filmar?!
— É só para as meninas. Talvez um no stories do Instagram... Mas só se ficar legal. O que me diz? — pisquei, inocente tentando convencê-lo.
— Contanto que isso não caia nas mãos da mídia...
— Ah, é... Sr. , sério e responsável com uma reputação a zelar — debochei e joguei um travesseiro nele, que riu. — Nem parece que é um adolescente ainda num corpo de um adulto.
— Ei, mas eu sou muito adulto — fez uma pose esnobe. — Só que você desperta esse lado em mim.
— Como assim?
— Sei lá, meu lado divertido.
— Não sou eu que desperto, , você já tem esse lado, mas não demonstra para qualquer um. Aposto que você se solta com meus amigos apenas porque você os conheceu e se sentiu confortável. Caso contrário, presidente estaria agindo todo formal e não como o cara jovem e simples de 26 anos que ele é. E eu confesso que gosto mais do cara simples, mas isso não deve ser novidade.
— Isso é uma declaração, ? — ele perguntou, com um sorriso e se aproximou de mim.
— Depende do ponto de vista — respondi. Ele roçou o nariz no meu e me beijou por um breve instante.
— Tudo bem, então. Eu deixo você filmar, mas não me marca — avisou.
— Sim, senhor — bati continência. — De qualquer forma, eu não tenho muitos seguidores e meu Instagram é privado, então... — dei play no filme.
— Que música você quer cantar? — ele perguntou, depois de um tempo.
— Que tal a que Sophie e Sky cantam? Acho que é Lay All Your Love On Me.
sorriu, malicioso.
— Eu concordo com essa música — e beijou meu pescoço, de repente, me causando cócegas. — E a outra?
— Não sei, mas não quero nenhuma triste. Acho que podemos deixar para encenar outra do segundo filme.
— Ah, você quer ver o segundo filme também? — perguntou, irônico. — Eu vou te obrigar a assistir O Senhor dos Anéis comigo.
Fiz uma careta.
— Isso é golpe baixo.
Eu simplesmente nunca havia conseguido ver esse filme. E olha que eu fiz várias tentativas, mas eu sempre dormia no meio.
— É por isso que vou ser bonzinho e te fazer ver só o primeiro e não a trilogia inteira.
, você ama Mamma Mia — revirei os olhos.
— Sim. Mas também amo te irritar — e bagunçou meu cabelo.
— Ei! Eu odeio quando você faz isso — eu disse, mas ri, sem querer.
— Ah, por quê, ? Hmm? — me apertou em seus braços, com força. — Você fica tão fofa irritada.
— Me solta! — o cutuquei na barriga e ele se afastou. Me sentei na cama — Você tem problemas, sabia? — bati nele com o travesseiro, enquanto nós dois ríamos.

No fim de tudo, acabamos encenando três músicas juntos do segundo filme e adivinhe qual.
Isso mesmo, as três ditas cujas com os três (possíveis) pais da Sophie. Claro que eu cantei outras, mas obviamente não deixei filmar. Se for para passar vergonha gratuita, que seja em conjunto. Sozinha não.
— Quer sair a noite? — perguntou, depois que o filme acabou. — Tem um lugar legal e popular que talvez você gostaria de ir. É quase como HongDae, na Coreia, só que na Tailândia. Podemos passear por um tempo e depois ir para algum clube.
— Hmm, soa interessante. Mas porque eu sinto uma sensação de Déjà vu? — coloquei o dedo no queixo, fazendo uma cara pensativa.
— Porque é nossa segunda típica programação de encontros, depois de ficar na cama o dia todo, é claro.
E eu sei que você adora.
— Ah, é até legal sair com você — esnobei um pouco.
— Aham, sei — e me deu um tapinha na bunda. — Vamos tomar banho, então? Já são quase sete horas e eu sei que você demora para se maquiar.
— Ei! Eu não demoro muito — retruquei.

Fomos para o banheiro e ligou a torneira da banheira, o que eu achei uma ótima ideia. Eu sempre quis ter uma dessa.
— Se eu adormecer nessa banheira, você me acorda? — brinquei.
riu em deboche.
— Ah, querida, eu não vou te deixar dormir nela, pode ter certeza disso.
— Isso é uma promessa? — perguntei, enquanto terminava de tirar o pijama, ficando só com as roupas íntimas.
— É o que você quiser que seja — e me beijou.
Não pude conter um sorriso entre beijo, antes de passar braços ao redor de seu pescoço. me ergueu, me pôs em cima da bancada do banheiro e se encaixou entre as minhas pernas. Sua boca desceu até o meu pescoço, enquanto suas mãos, ágeis, foram direto no fecho do meu sutiã.
— Você fica mais bonita sem isso — jogou a peça longe. — E isso — ele puxou os lados da minha calcinha e a rasgou como se fosse papel, transformando-a apenas em um retalho.
— Ei! — o cutuquei. — Ela fazia parte do conjunto — reclamei, ofegante, mas a verdade é que naquele momento eu nem estava pensando direito.
— Eu te compro quantos outros você quiser — rebateu, beijando-me na boca outra vez.
Corri minhas mãos por seu abdômen e brinquei com as suas entradinhas, colocando os indicadores no elástico de sua cueca boxer.
Clavin Klein mandou olá.
Enfiei minha mão e segurei firme em seu membro rígido, provocando-o por algum tempo, enquanto revezava beijos entre sua boca e pescoço.
Depois de um tempo, me colocou no chão e entramos dentro da banheira.
— Eu quero você aqui, querida — ele disse, assim que me ajustei em seu colo.
me beijou novamente, com uma urgência quase voraz, enquanto usava uma mão para massagear meus seios, enquanto a outra me apertava forte no quadril.
Com certeza, iria ficar uma marca depois, mas eu não me importava.
Seus lábios tomaram a direção dos meus seios e eu suspirei quando sua boca me tocou, beijando e chupando, enquanto eu segurava firme em seu cabelo com uma mão e arranhava o início de suas costas com a outra.
— suspirei, sentindo-me impaciente.
Ele levou uma das mãos até o meio das minhas pernas e massageou lá. Inseriu um, depois outro dedo dentro de mim e os movimentou, mas não era isso que eu queria.
E ele sabia, mas nunca perdia a chance de me fazer implorar por ele.
— choraminguei, já ofegante. — Por favor...
— Ah, . O que eu posso fazer além de ceder quando você nem ao menos dá trabalho a dizer as palavrinhas mágicas, querida? — comentou, afastando sua mão e se posicionando sob mim. — Não deveríamos tornar mais interessante? Diga: sim, senhor.
— Só me... Fode — falei entredentes.
— Diga — falou, firme.
sim, senhor-
E então, ele o fez.
Forte.
Antes mesmo que eu terminar de falar.
Perdi a voz quando me penetrou, sem aviso. Fiquei imóvel por um momento, ofegante enquanto ia me acostumando com ele até eu mesma começar a me movimentar junto dele.
Adquirimos um ritmo de movimentos lentos, porém firmes. Cada movimento que fazíamos me levava cada vez mais para a borda e eu mordia meus lábios, enquanto tentava conter gemidos que hora ou outra escapavam.
Senti a mão de em meu cabelo e ele o puxou de leve, inclinando a minha cabeça para o lado.
— Geme pra mim, querida — murmurou no meu ouvido. — Eu sei que você tá perto.
...
Mas ele não parou de falar.
Nem de se mover.
— Você tem ideia de como fica linda assim? Você é a mais linda de todas, ... Como eu amo te ter.
Foi o suficiente para dentro de alguns segundos eu gritar alto por seu nome, ao mesmo tempo que senti um orgasmo forte me atingir. Arranhei seu ombro com força, enquanto me segurava forte nele.
se movimentou com mais rapidez por mais algumas vezes, enquanto eu ainda estremecia em seus braços até que, por fim, me acompanhou.
— Definitivamente, . A mais linda e gostosa desse mundo — falou, me olhando nos olhos. Seu cabelo com alguns fios colados na testa, devido ao suor e os olhos, assim como os meus, ainda embaçados de desejo.
Me levantei um pouco na banheira, nos desconectando e tomei seus lábios em um beijo calmo.
— Acho que agora temos que tomar banho de verdade — murmurei. sorriu e o beijei novamente, antes de enfim deixarmos a banheira de lado e irmos para o chuveiro.

***


me levou até a rua Khao San, que era muito famosa por seus bares noturnos, principalmente.
Eu experimentei pelo menos uns três tipos diferentes de coquetéis, antes de irmos para um clube e torci para amanhecer viva no dia seguinte.
Felizmente, sobrevivi. Meu estômago estava até ok, considerando o tanto que eu bebi, mas eu não podia dizer o mesmo da minha cabeça. Devia ser culpa dos coquetéis.
Tomei dois comprimidos analgésicos e separei um par para também, para quando acordasse.
Tomei um banho quente e vesti outro pijama, antes de ir para a cozinha preparar algo para comer. Embora estivesse quase na hora do almoço, eu só tinha vontade de tomar café da manhã, então foi isso que eu fiz.
Minutos mais tarde, eu estava respondendo algumas mensagens de quando apareceu, recém tomado banho. O cheiro de seu sabonete se espalhando pelo local.
— Bom dia — se sentou ao meu lado no balcão. — E obrigado pelo remédio. Você fez waffles? — perguntou, quando viu a pequena pilha ali em cima.
— Sim, mas já comi. Esses são para você. Enchi de frutas, mel e chantilly. Espero que goste.
riu.
— Claro que vou, não tem como isso ser ruim.

Olhei para o vestido branco de Layla em cima da cama e respirei fundo, tentando imaginar que tipo de maquiagem eu deveria fazer para aquela ocasião. No fim, decidi optar por algo simples e suave, porém sofisticado. Eu havia trazido só o básico das minhas maquiagens, mas era suficiente.
Me arrumei no quarto de hóspedes e comecei algumas horas mais cedo, só para garantir. Prendi meu cabelo e fiz uma espécie de coque bagunçado que eu havia visto no instagram, mais cedo.
Pareceu bom, então mantive e apliquei bastante spray de cabelo para fixar.
O vestido de Layla era um tomara que caia com um fenda na perna esquerda e era feito de algum tipo de tecido brilhante que eu não tinha ideia de qual era, pois não entendia nada disso. Mas parecia como uma versão de cor diferente do clássico vestido vermelho de Jessica Rabbit.
Calcei um sapato alto nude que eu havia trazido na mala e fui para a sala.
assistia algum vídeo aleatório do YouTube, mas o esqueceu assim que me viu.
— Caramba. Ele vestido definitivamente fica melhor em você do que na minha irmã.
— Obrigada, mas não deixe ela descobrir que você disse isso. Você pode colocar meu celular no seu bolso? Eu não trouxe bolsa.
— Claro — se levantou e estendeu uma mão. — Vamos?
— Para o infinito e além! — brinquei, segurando sua mão.


17. Ameaça


Eu podia dizer que nunca vi tanta gente rica em um lugar só que não fosse em doramas.
Eu me assustei um pouco de início e com a quantidade de pessoas que cumprimentaram , antes mesmo de entrarmos. Rebeca foi a primeira pessoa conhecida a que encontramos. Ela estava bem bonita com um vestido longo de cor preta e pareceu surpresa por me ver ali também.
— Boa noite, presidente Lee. Senhorita — nos cumprimentou.
— Boa noite, Rebeca — respondeu, enquanto eu apenas acenei com a cabeça.
— Alguns senhores da Song Telemarketing gostariam de falar com o senhor. Se puder me acompanhar, levarei-o até eles.
— Claro — ele disse e me levou junto.
Haviam dois homens e uma mulher, — provavelmente esposa de algum deles — conversando em uma rodinha. Todos eram jovens, aparentando estarem na casa nos trinta. E aparentemente, eram coreanos, já que foi essa a língua que usou para cumprimentá-los.
— Olá, boa noite.
, como vai? Gostaria de falar sobre algo, apenas uma pergunta, na verdade, mas sua secretária fez a gentileza de nos fazer companhia até você chegar — disse um deles e Rebeca deu um sorrisinho cordial. — Eu gostaria de saber quando podemos falar sobre aquela parceria?
— Eu estou indo para a coreia em algumas semanas, creio que podemos marcar uma data para nos encontrarmos — ele respondeu, educadamente.
Não prestei atenção no resto da conversa. Comecei a olhar em volta, prestando atenção na decoração, nas mesas de comida e nas pessoas conversando e rindo. Avistei Layla em uma das mesas e ela acenou para mim. Estava do lado de um garoto, que supus ser Mac, seu namorado. Acenei de volta.
— Oh, esta é — ouvi dizer e voltei minha atenção aos senhores à nossa frente.
— Olá, prazer em conhecê-los — eu disse, automaticamente.
— É sua namorada, ? — perguntou a mulher. apenas sorriu, sem responder e abraçou minha cintura. As pessoas frequentemente perguntavam, então às vezes, nem fazíamos questão de responder. Os três se entreolharam com um sorriso e eu vi Rebeca revirar os olhos, discretamente, me fazendo ter vontade de rir.
— Então, você é coreana — constatou um deles.
— Metade coreana, na verdade — ela corrigiu.
— Está aqui a trabalho também?
— Oh, não — sorri. — Estou de férias e resolvi passar uns dias aqui.
— Eu convenci ela a vir, na verdade — corrigiu, com um sorriso e piscou para mim.
Sorri sem graça.
— Com o que trabalha, ? — o outro homem, o que estava com a esposa, perguntou.
— Eu sou enfermeira.
— Oh, deve ser difícil — a mulher comentou.
— Um pouco — concordei.
acabou de terminar o mestrado — comentou, orgulhoso.
— Oh, parabéns — eles disseram.
— Eu sou arquiteta e meu marido também — a mulher, que logo se apresentou como Kang Ye Jin, disse.
— Oh, eu tenho uma amiga que é arquiteta também, o nome dela é . Também deve ser difícil, vocês nunca param em casa, não é?
— Geralmente... — ele deu um risinho.
Conversamos por mais alguns minutos, até Layla aparecer e me arrastar para longe de até a mesa em estava com seu namorado. Ela nos apresentou e começou a falar empolgada comigo.
— Você ficou ótima! E eu adorei o seu cabelo e maquiagem. Foi você que fez? — assenti. — Oh, queria ter esse dom. Infelizmente, não sou tão boa com os pincéis ainda. O que está achando da festa?
— Parece legal. Diferente e estranho ao mesmo tempo. Não é algo que eu já tenha participado, se é que me entende.
— Claro, mas não se preocupa com isso. É o tipo de coisa que você só se acostuma com o tempo — deu de ombros. — Mas estou muito feliz por você ter vindo.
Fiquei um bom tempo conversando com ela e o namorado até que perdi de vista e resolvi ir procurá-lo. Avistei Rebeca e andei em direção a ela, acenei de longe e ela começou a caminhar até o meu encontro também. No entanto, quando estávamos próximas, ela acidentalmente tropeçou e acabou empurrando um dos garçons que levavam uma bandeja de taças de champanhe.
A bandeja voou e o líquido espirrou em cima de mim, em meu rosto e no vestido, pegando-me de surpresa. Houve um barulho enorme quando a bandeja caiu no chão e as taças se quebraram, o que acabou chamando atenção de várias pessoas.
— Oh, mil perdões, senhorita — o garçom começou a se desculpar repetidamente em um inglês cheio de sotaque.
Levantei uma mão para ele, sinalizando para que ele não se preocupasse e sorri, sem graça.
— Não foi sua culpa, não se preocupe.
— Você está bem? — Layla apareceu do meu lado.
— Sim — respondi, com vontade de chorar. — Mas pelo visto, o seu vestido não.
De fato, havia agora uma mancha meio amarelada no tecido.
— Senhorita, me desculpe — Rebeca começou a falar do modo mais educadamente falso possível. Eu podia ver a satisfação em seus olhos. Eu acabei tropeçando sem querer e-
— Ah, claro que foi sem querer, não é, Rebeca? — Layla a interrompeu, com raiva. — Sua sonsa! Eu não sei como meu irmão teve coragem de contratar alguém tão falso quanto você. Começando por esse seu cabelo descolorido com água oxigenada de farmácia!
— Layla, as pessoas estão olhando. Por favor, vamos sair daqui, sim? — pedi, tentando acalmá-la. — Pode me mostrar onde tem um banheiro?
Layla respirou fundo, contendo a raiva.
— Claro, vamos — olhei rapidamente em volta e as pessoas já começavam a tirar a atenção de nós.
Também não havia sinal de no salão.
— Aquela vaca! Quem ela pensa que é?! — Layla disse, zangada enquanto me ajudava a tentar limpar o vestido. — Você viu, não viu, ? Foi proposital! Ela queria que você passasse vergonha.
— E conseguiu — eu disse, baixo. — A parte boa é que ninguém aqui me conhece. A parte ruim é que todos conhecem o seu irmão.
— Ele não vai se importar com isso, acredite. Não pensei que ela fosse capaz de fazer isso, aquela víbora. Tenho certeza de que ela estava com ciúmes porque você está com o . Só o idiota do meu irmão que não enxerga isso!
— Fico feliz por não ter sido a única que percebeu que ela gosta dele — fiz uma careta. — Eu comentei e ele achou a ideia um absurdo. Disse que ela era muito profissional e não havia motivos para se apaixonar por ele.
— Sério? Que idiota! E o que você disse?
— Eu disse que... Que era muito fácil se apaixonar por ele — falei baixo, sem olhar para ela.
Houve um momento de silêncio.
Quando olhei para Layla, ela tinha um sorrisinho malicioso no rosto.
— Não é o que você tá pensando! — falei, rápido.
Ela sorriu mais.
— Sem comentários, então.
— Obrigada. E desculpe pelo vestido. Se eu puder fazer algo…
— Ah, , esse vestido já era seu no momento em que o provou. Além disso, ele fica melhor em você do que em mim! — ela riu.
— Obrigada, então.
Me virei para o espelho e suspirei, encarando meu reflexo bagunçado. Minha maquiagem havia borrado um pouco, mas não tinha como retocar. Então, apenas usei um lenço de papel umedecido para tentar diminuir o estrago, antes de resolver ir procurar por novamente. Não era muito tarde e eu iria pegar um táxi e sair antes, mas precisava pegar meu celular com ele.
Layla foi comigo e andamos juntas pelo salão. Embora tivéssemos aparentemente conseguido diminuir a mancha do vestido e eu tivesse ficado debaixo da secadora do banheiro por algum tempo, era visível que ele ainda estava úmido.
Fomos até a sacada e então encontramos , do lado de fora.
Mas ele não estava sozinho e sim muito bem acompanhado.
De fato, havia uma mulher linda, alta, de pele bronzeada ao lado dele em um vestido vermelho estonteante.
Senti um frio na barriga, à medida que nos aproximávamos deles.
— Argh, essa garota de novo — ouvi Layla resmungar baixo.
E bem, quando estávamos apenas a alguns metros de distância, a tal garota nos fez parar, quando deu um passo e beijou na boca. Ele a afastou e franziu o cenho.
! — Layla falou irritada, alto e entredentes.
Ele voltou a atenção para nós e quando me viu, me olhou assustado. Senti uma sensação esquisita tomar conta de todo o meu corpo naquele momento, como se pequenas ondas elétricas estivessem me atingindo.
Senti meus olhos ardendo e olhei para baixo, piscando rápido para afastar as lágrimas que insistiam em aparecer.
! — ele me chamou, mas eu apenas saí de lá, caminhando rápido para fora do salão em direção ao jardim. Infelizmente, os saltos altos não ajudavam muito e logo me alcançou e segurou em meu braço. Me desvencilhei dele, abruptamente e ele me encarou confuso. Uma súbita sensação de Déjà vu tomou conta de mim. E não era uma feliz.
— falou baixo.
— Foi uma péssima ideia eu ter vindo. Você pode me dar o meu celular, por favor? — perguntei, com a voz falha, sentindo uma lágrima cair. — Eu quero ir embora.
, por favor... Não é o que você está pensando.
— Eu odeio essa frase, sabia?
— Eu a afastei! Aquela garota é alguém irrelevante para mim. Você tem que entender isso. Ela só é uma menina rica, filha de um homem rico igual a dezenas de outras que estão aqui.
— Exatamente. E eu não pertenço a esse mundo cheio de pompa que você vive.
— Você sabe que não é assim — falou, calmo. — Eu me sinto mais confortável com você, no seu mundo, com os seus amigos do que com essas pessoas.
— Vocês pareceram bem juntos.
, por favor... Não faz isso com você mesma.
— Ela é muito bonita, . Mais do que eu, até — sorri, sem humor, sentindo outra lágrima cair.
se aproximou de mim, segurou meu rosto com as duas mãos e secou minhas lágrimas.
— Não, isso não é verdade. Não é ela que eu quero e você sabe — ele sussurrou, colando nossas testas.
— Você precisa de alguém como ela, que faça parte do mesmo mundo que o seu, — tentei me afastar, mas ele não deixou. — Você devia aproveitar e conhecer mais gente.
— Não, — falou, firme. — Eu não quero e eu não vou deixar você fazer isso com a gente. Eu não sou o — acrescentou, entredentes.
... — coloquei uma mão no rosto, tentando me acalmar.
— Não. Vamos embora, essa festa já deu por hoje — me puxou pela mão e fomos até a entrada, onde ele pegou seu carro de volta com o manobrista para irmos embora.
Fiquei em silêncio, olhando pela janela. Eu me sentia mais confusa do que nunca. Eu não costumo me importar com essas coisas, não é como se e eu namorássemos, então porque doeu ver ele com outra garota? Aquilo me deixou tão estupidamente insegura que tudo o que eu pude fazer foi sair de lá.
— O que houve com o seu vestido? — ele perguntou, em um tom de voz neutro, alguns minutos depois que saímos.
— Um... Acidente. Sua secretária tropeçou e empurrou um garçom que derrubou uma bandeja de champanhe em mim — falei, subitamente lembrando que tudo isso não teria acontecido se eu tivesse saído do lugar e ido até aquela mulher.
— Meu Deus, ! Você está bem? Se machucou em algum lugar?
— Não aconteceu nada e o rapaz não teve culpa. Eu só levei um banho, basicamente — comentei irônica. — E claro, passei vergonha.
— Por que você está irritada? — ele perguntou. — Foi um acidente, não foi, ? — ele quis saber.
— Pareceu um. E aconteceu justamente na hora em que eu estava indo falar com sua secretária. É muita coincidência, não?
engasgou.
— Você acha que ela fez de propósito?
— Eu não fui a única que vi, . Sua irmã também. Ela não ficou muito feliz com isso e tive que tirá-la de lá para que ela não acabasse com a sua doce Rebeca.
Ele respirou fundo.
. Eu trabalho com ela há três anos…
— E daí? Você mais do que ninguém deveria perceber o quão óbvia e falsa aquela mulher é. Mas você é o único que não percebe. Eu disse a você que ela não gostou de mim.
E não tem como você discutir contra isso, afinal, você não estava lá! Mas você decide se prefere acreditar em mim e na sua irmã ou na sua secretária sonsa!
— Não se trata disso, .
— Claro que se trata. Além do mais, eu deveria ter ficado na mesa com Layla e Mac, em vez de ter ido atrás de você. Se eu tivesse ficado, eu não estaria com um vestido arruinado e muito menos teria visto aquela garota pendurada em você!
ficou em silêncio por um momento.
— Eu sinto muito, — ele disse, por fim. O sinal do trânsito fechou e ele olhou para mim. — Mas... Eu posso fazer uma pergunta?
— O quê?
— Você não está com ciúmes, está? — tentou conter um sorriso.
— Eu o quê, ?! — praticamente gritei. — Desde quando eu tenho ciúmes de você ou de alguém, quem quer que seja? Ciúmes... Ha! Faça-me um favor.
— Tudo bem, então — o sinal abriu e ele voltou a dirigir. Mas ainda havia um sorrisinho em seu rosto e eu senti uma leve... ou muita vontade de desmanchá-lo com um tapa.
Chegamos em casa e eu fui para o quarto de hóspedes. Depois de um bom tempo removendo a maquiagem, eu tomei banho lá mesmo e me preparei para ir para a cama.
Entretanto, encontrei me esperando na cama, assim que saí. Ele usava só uma cueca boxer preta e tinhas alguns fios de cabelo molhado. Provavelmente, devia ter terminado o seu banho bem antes de mim.
Parei na porta do banheiro e cruzei os braços. levantou uma sobrancelha e sorriu, debochado.
Arqueei uma sobrancelha também e o olhei em desafio.
— Você já está pronta para ir para a cama?
— Eu não vou dormir com você hoje.
— Claro que vai. Por que não iria?
— Não vou não — retruquei, teimosa e me aproximei dele. — Não vou — repeti, com o máximo de firmeza que consegui.
Em um movimento rápido, me colocou em seu colo e uma das mãos em meu tronco, um pouco acima no meu seio esquerdo.
— Por que o seu coração bate tão rápido, ? Você está nervosa. Eu te deixo nervosa?
— Eu estou com raiva — corrigi, ignorando sua pergunta.
— Raiva de quê? De mim?
— De tudo. Ir para aquela festa foi a pior decisão que já tomei, sabia? Você não tem ideia de como foi estressante ver todas aquelas pessoas olhando para mim quando tomei um banho de champanhe. E você sumiu! Eu fiquei com Layla o tempo todo.
— Eu não sumi, ela que te arrastou para longe. Acredite, eu também não gosto de socializar nesses eventos, mas preciso. Infelizmente, não pudemos dançar juntos.
— Felizmente. Ia ficar feio para você se dançasse com a garota do vestido sujo.
Tentei me levantar do seu colo, mas ele não deixou.
— Então, vamos fazer assim... Que tal se você deixar eu me redimir e acabar com o seu estresse, querida? — ele deu um beijinho em meu pescoço.
— Não.
— Não? — ele me beijou novamente. — Tem certeza?
— T-tenho.
Ele continuou a me beijar, enquanto falava e arrancou um suspiro de mim.
— O que eu posso fazer para você mudar de ideia, querida? — e então se afastou.
Apertei meus lábios em uma linha e o encarei com raiva.
— Eu te odeio, Lee — disse e o beijei. Senti sorrir contra o beijo, antes de se jogar para trás, nos deitando na cama para então trocar as posições, ficando por cima.
— Você me ama — sorriu malicioso e eu o belisquei na barriga. — Ai!
— Idiota — voltei a beijá-lo.
E então, como num passe de mágica, eu não estava mais com raiva. Eu sabia que não tinha culpa por alguma mulher beijá-lo, quando provavelmente todos ali sabiam que ele estava acompanhado. E mesmo vendo ele afastá-la, não pude conter o que senti. No entanto, não havia como ficar com raiva dele. Eu simplesmente não conseguia e era sempre isso que acontecia quando nos desentendíamos alguma vez.
Acabávamos na cama.
Como agora.
Mas dessa vez não houve urgência. foi calmo, cuidadoso e carinhoso comigo como nunca. E eu sentia algo crescer cada vez mais dentro de mim a cada toque de sua pele contra a minha, a cada beijo trocado.
Eu o abracei o máximo que pude, minhas pernas ao redor de sua cintura, mantendo-o o mais perto possível enquanto nossos corpos se fundiam em um só.
— Você foi a melhor coisa que já me aconteceu, — ele disse, me olhando nos olhos. O cenho franzido e os olhos estreitados pelo prazer. — A melhor — ele me beijou e entrelaçou uma de nossas mãos.
Senti meus olhos lacrimejarem a medida que eu me aproximava do êxtase e deixei as lágrimas rolarem livres quando o atingimos, juntos. Abracei com força e ficamos assim até nossas respirações voltarem ao normal. Quando isso aconteceu, ele rolou para o lado e me puxou para que eu apoiasse minha cabeça em seu peito. acariciou minhas costas com os dedos, fazendo desenhos aleatórios.
Me senti exausta e sonolenta. Fechei os olhos e deixei que o sono me invadisse. Fui perdendo a consciência aos poucos e a última coisa que lembro de ter ouvido foi a voz doce e suave de sussurrar para mim, em um inglês perfeito.
I love you, my dear.
Mas no dia seguinte, quando eu acordei, eu não sabia se era real ou se eu havia sonhado com aquilo.

As horas pareceram voar desde então e quando me dei conta, já era hora de voltar para casa. estava comigo no aeroporto, tentando me fazer desistir de ir e cancelar a passagem, para ficar mais uns dias com ele.
— Você sabe que eu não posso. Prometi a que iríamos comemorar juntas seu aniversário em uma noite de meninas.
fez um biquinho triste, tal qual uma criança quando não consegue algo.
— Você sabe que nós não vamos nos ver por algum tempo, não é? — assenti com a cabeça e ele continuou. — Eu estou fazendo o possível para adiantar a minha ida, mas mesmo assim ainda vai levar algumas semanas. Mas quando nos encontrarmos de novo, , tem algo que eu quero te dizer.
— Tudo bem — respondi, me sentindo nervosa e curiosa ao mesmo tempo, mas eu sabia que não iria adiantar fazê-lo falar naquele momento.
— Última chamada para Londres, Inglaterra. Repito, última chamada... — a voz soou dos autofalantes, chamando nossa atenção.
Me virei para e o beijei.
— Até logo, .
— Até logo, .
E então eu parti.
Virei para trás e acenei antes de passar pelo portão de embarque.
Felizmente, estava longe demais para poder ver meus olhos lacrimejarem. E quando eu dei as costas, não me importei outra vez e apenas deixei que as lágrimas caíssem.
Hora de sair da bolha e voltar ao mundo real, pensei comigo mesma e segui até entrar no avião.


18. De Volta à Realidade


Eu mal podia esperar para que voltasse das férias (e olha que não tinha feito nem uma semana ainda).
E isso não tinha nada a ver com o fato de eu querer ela por perto. Bom isso também, mas o negócio é que depois que ela foi embora, e Mi Jin, outra enfermeira do turno noite, ficaram se revezando para cobrir suas férias. O problema é que estava na maioria das escalas e eu simplesmente não aguentava mais.
E eu só tinha passado dois dias com ela.
Eu sei que nunca foi com minha cara, mas nós nos respeitávamos na época que eu namorava a . Eu nunca tive nada contra ela, entretanto; eu não a odiava nem nada, mas também não caía de amores por ela porque convenhamos, ela consegue ser mais irritante que eu. Talvez mais do que dois de mim juntos.
Talvez seja um karma.
O pior de tudo era ela me provocar por indiretas.
Quando eu cheguei no hospital no primeiro dia, havia uma fofoca de que havia viajado, mas ninguém sabia para onde. Isso até chegar, é claro. Ela estava mais do que orgulhosa em falar que a melhor amiga dela resolveu ir passar uns dias na Tailândia.
E sorrir para mim, logo após falar isso para alguns membros da equipe.
Olhei incrédulo para ela, mas não falei nada.
Tentei ignorar ao máximo que pude o fato de saber agora onde exatamente estava e o pior, com quem ela estava. Eu sei que deixou claro que não iria desistir dela e eu não o culpo por isso. No entanto, eu também não podia evitar ficar irritado.
E com ciúmes. O que era a pior parte.
Sempre que eu pensava nos dois juntos, eu revia a cena deles no clube ou a que presenciei no apartamento dele.
Fiquei boa parte do dia apenas conversando com os pacientes, para evitar ouvir as fofocas dos membros da equipe no posto de enfermagem, mas eventualmente eu não tinha como não ouvir.
virou o assunto principal daqueles dois dias. E por quê? Bem, as equipes eram rotatórias, sempre havia pessoas diferentes por turno ou plantão, com exceção de nós, que estávamos escalados para o dia inteiro.
Eu tinha acabado de voltar do almoço e não havia muito movimento na clínica. A equipe tinha acabado de ser trocada e já estava passando o plantão para Lola. Sentei na cadeira de Lara e abri o WhatsApp para responder algumas mensagens, quando Lola perguntou sobre a tal viajem para a Tailândia.
— Você viu o que ela acabou de postar no Instagram? — ela perguntou a e mostrou o celular. — Quem é esse, hein?
Vi sorrir de canto, antes de dizer em alto e bom tom:
— Esse é o boy dela. Maravilhoso, né? — ela riu.
— Ele é tailandês? — Lola quis saber. — Por que eu não sei nada sobre ele?
— Você sabe como a é reservada, Lola. Acho que ela não queria espalhar nenhum rumor. Mas a verdade é que eles se conhecem há dois anos. O nome dele é , ele é o CEO de um conglomerado de empresas de vários ramos. Já ouviu falar da Sara Enterprises?
Lola abriu a boca, chocada.
"Claro que conhecia", pensei, revirando os olhos.
— Onde esse cara estava escondido? E como diabos ele é solteiro e tão jovem?!
— Faz apenas três anos desde que assumiu a presidência, na verdade ele era vice e depois subiu de cargo, algo assim. São negócios da família.
— E como o conheceu?!
— Ah, foi na universidade. Em um evento. A Sara era uma das empresas patrocinadoras e tinha ido como representante, já que estava em Londres. Como era um evento internacional, haviam várias pessoas como ele lá. estava na organização e foi apresentada a ele, assim como os outros. Eventualmente, eles acabaram conversando durante o intervalo entre as palestras e... Fugiram para o laboratório onde ela trabalhava.
— Eles o quê? Como assim ele fugiram?
— Bem, segundo eles, Netflix pareceu bem mais interessante que as palestras. Foi aí que eles se tornaram amigos.
— Só amigos é? — Lola perguntou, maliciosa.
— "Amigos" — disse, fazendo sinal de aspas e elas riram juntas.
— Então, quer dizer que eles estão sérios agora?
— Hmm... Isso acho que vamos descobrir só quando ela voltar. Mas a torcida é forte.
— Você conhece ele?
— Ah, sim. é um amigo, temos a mesma idade e acredite, ele é alguém mais simples e fácil de lidar do que aparenta. Se bem que nessas fotos que publicou, isso fica bastante claro.
Agradeci mentalmente quando aquele dia chegou ao fim e eu pude, finalmente, ir para casa. Os pensamentos irritantes me acompanharam, é claro e quando eu fui para a cama, em determinado momento e sem que eu percebesse, meu dedo foi automaticamente no ícone do Instagram e quando o abri, estava lá.
O primeiro post da minha timeline. Exatamente cinco fotos. A primeira ela estava sozinha em alguma espécie de templo budista. A segunda era segurando um sorvete de rolinhos, a terceira beijava seu rosto e as duas últimas eles estavam em algum clube.
Eu havia seguido há algumas semanas e ela havia aceitado minha solicitação, por incrível que pareça.
Mas comecei a me arrepender dessa decisão. Eu não sabia o que era pior, ver os dois agindo como um casal ao vivo, ou em fotografia. De alguma forma, as fotos tornavam tudo pior, simplesmente por ser como gravações de momentos vividos.
Me perguntei se teria publicado algo também e, curioso, acessei seu perfil.
Claro que não iria publicar momentos pessoais como tinha feito, afinal ele era uma pessoa pública. E como tal, havia uma imagem elegante dos dois no que parecia a entrada de algum evento.
Ele vestia um smoking e um vestido branco longo, sexy e sofisticado. Não dava para ver bem o rosto dela, pois eles estavam de frente um para o outro e o perfil de meio que a escondia. Os dois sorriam com cumplicidade, olhando um para o outro.
Pareciam um daqueles casais de filmes. Baixei minha visão para a legenda e só havia uma palavra: querida.
Revirei os olhos, com tédio. Eu podia ser péssimos com apelidos carinhosos, mas se superava.
Fiz uma careta e saí do instagram.
Involuntariamente, lembrei outra vez da época que era eu no lugar dele. Quando as publicações do instagram de eram comigo, na maioria das vezes. Claro que não havia mais nenhuma publicação do tipo, nem mesmo fotos em grupo. Ela provavelmente teria apagado todas as fotos que tinha de nós juntos.
Felizmente, ou infelizmente, eu as mantive enterradas em uma conta de email que eu costumava usar para salvar arquivos.
E como se não bastasse ver as fotos de com e sentir ciúmes disso, claro que eu acessei esse email e desenterrei todas as nossas fotos da época da faculdade.
Definitivamente, a pior decisão do dia, porque só me fazia relembrar tudo.

Conheci cinco anos atrás. Era uma aula de Patologia e dormir parecia mais interessante, considerando que o professor era um babaca que só fingia dar aula, ainda mais com uma disciplina que nem era dele.
Eu estava prestes a dormir quando alguém bateu na porta da sala de aula e o professor pediu para que entrasse. E lá estava ela. Em uma camisa super larga que mais parecia um vestido, short jeans e tênis. O cabelo era longo, diferente de agora, e estava preso em um rabo de cavalo alto. Nada incomum, mas de alguma forma ela me chamou atenção. Se apresentou e nos disse que seria nossa nova monitora.
Acho que todos ficaram de certa forma curiosos, considerando que aquela disciplina não era comum ter monitores e assim metade da turma compareceu na primeira monitoria que, diga-se de passagem, foi um fracasso.
Mas eu não a culpava. Na ocasião, havia preparado um material cheio de anotações para que nos ajudasse a estudar, mas nós ainda não tínhamos visto o assunto e o que já tínhamos era algo que ela não viu, já que na época em que cursou a disciplina, o professor titular ainda estava presente.
Ela ficou desconcertada quando alguém perguntou algo e ela não lembrava, mas prometeu pesquisar em casa para tirar a dúvida da pessoa em questão. Eu fiquei só observando, sentado no fundo.
A segunda monitoria já foi melhor. trouxe novamente seu material, assim como sanou a dúvida que prometeu e tirou outras mais. O material que o professor disponibilizou, no entanto, era um desastre que ninguém além dele entendia.
inclusive chegou a comentar que estávamos aprendendo coisas totalmente inúteis para nossa profissão e que o outro professor tinha uma didática melhor (de fato, todos nós já sabíamos que qualquer um teria uma didática melhor que o psycho que nos ensinava).
Haviam umas sete pessoas naquele dia e todos nós acabamos fazendo cópias das anotações dela, que por sinal haviam sido muito úteis. nos disponibilizou seus horários livres e concordamos em marcar monitoria com ela quando fosse preciso.
No entanto, ninguém fez isso. O pessoal costumava tirar dúvidas pelo WhatsApp com ela e só. E eu era um deles.
De repente, eu tinha um monte de dúvidas para tirar e devo dizer que tinha método didático bastante peculiar de explicar determinados processos patológicos. Chegava a ser cômico, mas o que valia é que no fim, nós conseguíamos entender o assunto.
Em uma dessas ocasiões, acabei aproveitando a oportunidade para conversar com ela e semanas depois, marquei uma monitoria para que ela pudesse me explicar algumas coisas referentes ao meu seminário. Foi nesse dia que a chamei para sair, pela primeira vez.

Cinco anos atrás…

— Você entendeu agora, ? É bem simples, não é? — fiz que sim com a cabeça.
... Posso te perguntar uma coisa? Dessa vez, não tem nada a ver com a disciplina.
— Tudo bem. Vá em frente.
— Será que você estaria livre nesse final de semana?
— Ahn... Por quê?
— Você está livre ou não? — ela riu. — , eu estou falando sério — eu disse, mas sorri.
— Sim, estou. Por quê?
— Você... Quer ir a algum lugar comigo?
— Ahn... Depende. Onde você quer ir?
— O que acha? Parquede diversões ou cinema...? Sei lá — esfreguei o pescoço, olhando para baixo.
— Parece bom para mim. Mas... Isso é um encontro? — ela quis saber. Levantei a cabeça rápido e a encarei, pensando no que responder. Eu deveria ser direto?
Acho que era bom deixar minhas intenções explícitas. Algo me dizia que não era o tipo que gosta de ser pega de surpresa. Mordi meu lábio inferior e assenti, enquanto tentava conter um sorriso.
Eu estava mais nervoso do que pensei que estaria. Mas felizmente, ela disse que sim.
— ela me chamou, quando eu estava saindo do laboratório. Virei para trás e a vi brincar nervosamente com os dedos.
— Sim?
— Achei que seria bom você saber que... Esse é meu primeiro encontro. Então... Não quero que crie expectativas, tudo bem? Eu só sei teoricamente como esses passeios funcionam.
Sem chance. Como isso era possível? Ela era mais velha que eu, veterana, bonita e inteligente. Como ninguém havia a chamado para sair? Foi a primeira coisa que pensei desde o primeiro momento que a vi!
Mantive uma expressão neutra.
— Tudo bem — sorri. — Acho que você vai gostar.
Ela sorriu sem jeito e assentiu com cabeça.
— Até amanhã, então, .

***


Eu quis deixar aquele encontro o mais legal possível para depois que soube que era o seu primeiro. No entanto, não havia muito o que fazer. Éramos duas pessoas se divertindo juntas em um parque de diversões, comendo, bebendo e conversando.
No início, foi estranho. Nós dois estávamos envergonhados e tímidos perto um do outro, mas eu usei toda a minha cara de pau para deixá-la confortável e fiquei fazendo piadinhas o tempo inteiro. Fomos a uma barraca de jogos de tiro e eu consegui ganhar uma pelúcia para ela, que escolheu um cachorrinho branco com uma mancha no olho.
Descobri que ela, assim como eu, gostava de brinquedos radicais, o que foi ótimo já que pudemos aproveitar vários brinquedos. Tínhamos acabado de tomar um sorvete de casquinha quando encontramos uma cabine de fotos.
— Vamos lá — apontei para a cabine e a puxei pela mão.
Selecionamos doze fotos e entramos. A cada três segundos, uma foto era batida. Fizemos várias caras e bocas em pelo menos a metade delas.
A outra metade foi quando tivemos o nosso primeiro beijo. colocou um dedo na minha bochecha e sorriu para a câmera. Eu toquei sua mão no meu rosto e a abaixei lentamente. Ela então me encarou e parou de sorrir.
— Eu quero muito te beijar agora... — murmurei.
— Três, dois... — a voz soou outra vez na máquina.
— Posso não ser boa nisso... — mordeu o lábio, nervosa.
— Três, dois...
— Eu duvido muito — e me inclinei para beijá-la. Ela ficou rígida por um instante, mas depois relaxou e pôs uma das mãos em meu rosto.
— Três, dois...
, você quer... — tentei perguntar, mas dessa vez foi ela que me beijou.
— Três, dois... — me afastei novamente.
— Você quer namorar comigo?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Três, dois, um...
— Acho que sim — respondeu e nós dois sorrimos.
— Três, dois... — a beijei novamente. — A suas fotos estão prontas. Sinta-se livre para pegar as canetas e enfeitá-las como quiser.
Me afastei dela e encostei nossas testas.
— Hora de enfeitar, namorada — eu disse e ela corou.
Pegamos uma canetinha e fomos enfeitando foto por foto. Quando chegou nas seis últimas, percebi que eram uma sequência de momentos. Quando eu disse que queria beijá-la, quando ela disse que podia não ser boa nisso, quando a beijei... Quando a pedi em namoro... E quando ela aceitou. Então tudo o que fiz foi encher as fotos com as frases que falamos.
apenas observou e eu imprimi duas cópias de cada foto, para que nós dois pudéssemos guardá-las.
No início do nosso relacionamento foi tudo simples. Passamos semanas nos conhecendo, nos aproximando e nos encontrando sempre que havia tempo livre. Aos poucos, fomos aprendendo que nem tudo eram flores e que embora discutíssemos algumas vezes, sabíamos que era algo necessário. Fomos nos fortalecendo aos poucos, construindo uma relação de confiança cada vez maior. era bastante insegura quanto a relacionamentos, mesmo eu fazendo de tudo para deixá-la confortável no nosso. Mas era algo mais complexo, talvez porque fosse o seu primeiro e ela tinha medo.
Nos primeiros seis meses, houve várias vezes em que ela quis terminar comigo, mas eu não deixei que acontecesse. Eu sabia que era insegurança, sabia também que era por causa da nossa diferença de idade, mas para mim isso era algo completamente irrelevante. Eu não iria deixá-la ir por algo tão simples.

Eu fui apresentado aos seus amigos duas semanas depois de começarmos a namorar. Claro que eu já conhecia do campus, ela e eram da mesma turma, mas nunca tínhamos sido oficialmente apresentados.
E quando fomos, é claro que ela não perdeu a oportunidade de me ameaçar um pouquinho.
— Se você fizer algo que magoe a minha amiga, eu quebro a sua cara — ela disse, só para eu ouvir, quando nos cumprimentamos com um abraço. sendo .
Mas da mesma forma que ela não foi muito com a minha cara, eu também não fui com a de . Tanto ele como eram de departamentos diferentes e a universidade era enorme. Inclusive havia dias em que não os víamos.
De qualquer modo, eu confesso que senti um pouco de ciúmes de . Achei que fosse algo passageiro, mas permaneceu por todo o tempo em que e eu namoramos. Em uma discussão, quando estávamos com pouco mais de dois meses de namoro, eu deixei escapar. Foi quando me disse que nunca iria se afastar dele, só porque eu não gostava do cara.
E o pior é que eu sabia que ela estava certa. Se fosse eu no lugar, eu também iria querer liberdade para ser amigo de quem eu quisesse. Então, tive de engolir o querendo ou não.
E aos poucos, mesmo com o ciúmes, eu fui me acostumando aos poucos.

***


A primeira vez que encontrei a sua família foi realmente desconfortável. Vamos dizer que não tinha um pai, mas a mãe dela tinha três irmãos mais novos que eram praticamente isso.
O humor deles variava. O mais velho era bem mais duro, o do meio ficava em uma linha intermediária e o mais novo, que era só onze anos mais velho que , era mais tranquilo e brincalhão.
Consegui conquistá-lo primeiro. E com o tempo, até tirávamos brincadeiras um com o outro. Já os outros dois, eles mantinham uma linha mais estrita, assim como o irmão mais novo de , que era só dois anos mais novo que eu. Ele não falava muito, mas era o jeito dele.
Já a mãe dela, pareceu muito feliz em me conhecer, o que me consolou um pouco.
Quando foi a vez de conhecer a minha família, não foi muito diferente. Minha mãe a adorou e meu irmão também. Meu pai, ocupado demais com o trabalho, não tinha muito tempo para conversa, mas foi bastante cordial com ela todas as vezes em que tiveram oportunidade de conversar.

Foram várias primeiras vezes não só dela, mas minhas também. Afinal, eu nunca tinha estado em nenhum relacionamento sério antes dela. Claro que algumas primeiras vezes, eu já tinha tido, se é que me entendem. Mas nunca encontrei ninguém que me fizesse querer ter algo mais.
Até conhecê-la.
O semestre estava na metade quando começamos a namorar. E desde a primeira vez que a vi, me senti atraído e curioso a seu respeito. Eu não sabia porque, mas era assim que era.
Confesso que o momento em que a pedi em namoro não foi planejado. Aconteceu por impulso, mas quando as palavras saíram da minha boca, eu não poderia ter mais certeza de que era aquilo que eu queria.
E quando ela disse sim, eu me senti o cara mais sortudo do mundo.
Embora, a princípio eu não tivesse me confessado propriamente, eu tentei deixar tudo claro posteriormente.
De fato, deixei saber que eu havia começado a gostar dela há algum tempo, mas eu não via muitas oportunidades para chamá-la para sair, até porque... Eu morria de medo de levar um fora. Ela era mais velha, mais experiente em diversos aspectos.
Que chances eu tinha?
Mas no dia que a chamei para sair... Não sei se onde veio a coragem, confesso. Mas talvez eu apenas tenha ficado confortável com ela, ainda mais quando estávamos sozinhos no laboratório.

Voltando às primeiras vezes...
Claro que eu não poderia de deixar de falar da primeira vez em que dormimos juntos e tivemos nossa "primeira vez".
Dessa vez, no sentido sexual da coisa.
dividia um dormitório com na universidade, enquanto que eu morava sozinho em um apartamento próximo do campus.
E foi lá que tudo aconteceu. Depois de quase quatro meses de namoro, foi quando disse que finalmente estava pronta.
Estávamos assistindo zootopia no meu quarto e eu não percebi que estava chorando até começar a rir da minha cara.
— Eu não acredito que você tá chorando por causa desse filme, !
— O quê? É triste quando o Nick e a Jude se separam.
— Você é um bebezão — jogou um travesseiro em mim.
— Ah, é? Quem é você pra me julgar? — rebati. — Eu sei que você chora assistindo Bambi! — joguei o travesseiro se volta. — O que é totalmente justificável, o contrário de Zootopia. Se você não fosse tão alto, , eu diria que você tinha treze anos de idade — ela riu e se deitou novamente.
— E você é uma nanica. Eu quase sempre tenho que me abaixar pra poder beijar você.
— Nem vem, eu tenho um tamanho mediano. Você que é grande demais.
— É, felizmente eu não preciso fazer isso agora já que você tá aqui deitadinha perto de mim — murmurei, me aproximando e a beijando no pescoço. se arrepiou e riu, pois ela tinha cócegas ali.
— Você é um idiota — sorriu e me beijou.
E bem, uma coisa levou a outra e aquela sessão de amassos na minha cama ficou mais séria do que planejávamos.
colocou as mãos por baixo da minha camisa e arranhou meu tronco de leve com as unhas.
Foi quando me afastei dela.
— Acho melhor a gente parar por aqui — falei. — Antes que seja tarde demais.
No entanto, em vez de concordar como das outras vezes, o que disse me surpreendeu.
— E se eu quiser dessa vez? Que se torne tarde demais... Como você sempre fala — murmurou baixo, tímida.
— O que quer dizer exatamente? — perguntei. Não porque eu não tinha entendido, mas porque eu queria que ela confirmasse.
— Acho que já estou pronta, . Eu quero fazer isso... Com você — mordeu o lábio.
— Tem certeza? — ela assentiu.
— Ok..! Tudo bem, então... Eu acho que devemos... — ela me puxou pela camisa e me beijou.
— Fazer mais e falar menos — ela deu um risinho.
— Prometo ser gentil — murmurei, antes de beijá-la novamente.
Aos poucos, as peças de roupas forma desaparecendo dos nossos corpos e e eu fizemos amor pela primeira vez.
Tentei ser o mais gentil e cuidadoso com ela, para que sentisse o mínimo de dor possível.
— Eu vou devagar, tudo bem? — ela assentiu. — Tente relaxar e se doer muito você me avisa que eu paro, tá?
.
— O que foi?
— Me beija. Isso me faz relaxar, então talvez... — ela não precisou nem terminar de falar. Tomei seus lábios outra vez, enquanto me posicionava sobre ela. Levantei uma de sua pernas para que houvesse mais mobilidade e aos poucos fui deslizando para seu interior.
— Droga, . Você está tão pronta.
gemeu de dor por um instante e apertou meus ombros. Parei imediatamente.
— Não... Tá tudo bem. Continua.
— Tem certeza?
— Tenho, . Acaba logo com isso de uma vez — pediu.
Quando eu terminei de adentrá-la, deixei que se acostumasse um pouco comigo antes de voltar a me mover.
Depois de um tempo, ela deu sinal verde e fui me movimentando devagarinho, enquanto tornei a beijá-la. foi relaxando aos poucos até finalmente a sua dor ser substituída pelo prazer daquele ato.
— Mais rápido, — ela pediu e eu quase ri, pois eu estava me controlando o tempo inteiro para fazer aquele ritmo lento.
abraçou minha cintura com suas pernas e pôs os braços ao redor do meu pescoço, nos mantendo bem próximos.
, eu... Ahn… — ela gemeu e mordeu os lábios.
— Eu sei, amor. Também estou perto — falei em seu ouvido e senti ela me apertar mais entre seus braços.
Acelerei os movimentos mais uma vez e permaneço naquele novo ritmo até atingirmos o ápice juntos.
Deixei meu corpo cair sobre o seu por alguns minutos, enquanto recuperávamos o fôlego.
— Você está bem? — perguntei, depois de voltar do banheiro e me livrar do preservativo.
— Sim... E antes que você pergunte, foi melhor do que eu achei que seria.
— Por quê? Você não esperava que fosse bom?
— Não na primeira vez — ela admitiu. — Mas você provou o contrário — ela disse e riu, puxando o lençol até esconder o sorriso. — Além do mais, você deve ter visto todas as minhas estrias, essa parte não é nada legal.
Foi minha vez de rir.
— Se serve de consolo, eu amo o seu corpo e acho ele perfeito mesmo com essas imperfeições que você odeia. É algo normal, não é? Você não deveria ficar chateada com isso, amor. E sinceramente, homens nem ligam para isso, se quer saber.
Ela revirou os olhos.
— Tudo bem, então. Eu acho. De qualquer forma, obrigada por hoje, por ser gentil — ela sorriu.
— De nada, amor.
Eu deveria estar sorrindo que nem bobo também. Provavelmente.
E isso acontecia bastante desde que havíamos começado a namorar, então eu não me importava.
Me deitei na cama ao seu lado e passei um braço ao seu redor, aproximando-a de mim. Selei nossos lábios por um instante e depois me afastei. Observei seu rosto por alguns segundos, seus olhos, nariz e boca; sua bochechas coradas. O cabelo longo estava uma bagunça, mas ainda assim ela permanecia linda.
E eu a tinha para mim. E eu não poderia me sentir mais grato.
— Eu amo você — eu disse, olhando em seus olhos.
— E eu amo você, — ela respondeu.
E foi assim que também pela primeira vez dissemos as famosas três palavrinhas um para o outro.


19. Morreu, Mas Passa Bem


— Oi, querida. A viajem parece que te fez bem, não é? O ar da Tailândia é bom pra pele? — brincou, assim que eu a encontrei no aeroporto.
— Talvez não o ar, mas as pessoas sim... — respondi, enquanto caminhamos até o estacionamento.
— Opa... Será que eu vou finalmente ter um cunhado oficial? Como está o ?
— Ele está bem. Você sabe, ele sempre está. Esses últimos dias passaram voando... — suspirei.
Chegamos ao carro e começou a dirigir até chegarmos em casa. Fomos conversando durante o caminho, enquanto ouvíamos músicas aleatórias.
Estava tudo bem até começar a tocar "Something Just Like This" de The Chainsmokers com Coldplay.
Simplesmente porque aquelas foi a última música que eu ouvi junto com no carro, quando ele estava indo me deixar no aeroporto.
...some fairytale bliss, just something I can turn to...Somebody I can kiss... — cantarolei baixinho. — I want something just like this…
Uma súbita nostalgia tomou conta de mim e senti vontade de chorar de novo. Felizmente, foi algo passageiro e tão logo a música acabou, o sentimento triste foi desaparecendo.
— Certo, o que você tem? — perguntou. — Aconteceu alguma coisa? Suspirei.
— Aconteceu. Eu acho que passei tempo demais com o .
Ela deu um risinho.
— Opa, você finalmente caiu nos encantos do gatinho ?
— É sério, — sorri, mas sem humor. — Eu acho que não está mais dando certo. Eu... Não sei mais de nada, sinceramente.
— Mas vocês estão bem, não é? Ou, por acaso, vocês brigaram?
Neguei com a cabeça.
— Estamos bem... Bem até demais.
— Oops... — ela disse baixinho. — Certo, você talvez esteja possivelmente...
— Apegada. Acontece às vezes. Como eu sou com você, , minha mãe e trecos antigos inúteis que nunca vou usar.
Ela revirou os olhos.
— Tudo bem... Devo dizer que alguém não pareceu muito feliz em saber dessa sua viajem? Principalmente porque eu cobri p seu plantão. Por favor, me deixa contar!
— O que houve?
— Bem, antes de mais nada, você postou fotos no Instagram e as meninas vieram me perguntar se eu sabia quem era aquele cara bonitão com você. Daí eu disse que era o seu boy. Mas talvez eu tenha dito um pouco alto demais para certa pessoa ouvir... — ela deixou no ar.
Não pude fazer nada a não ser rir.
— Você é horrível.
— Ah, por favor — ela fez um gesto com a mão. — precisa acordar para a vida. Ele não sabe nem disfarçar que você ainda afeta ele. Até a Lola já percebeu e olha que ela só sabe da história por cima.
— Eu esbarrei com ele em um café no dia que saí com minha mãe — comentei. — Digamos que ele queria uma trégua... Além de se desculpar. No dia daquela confusão... Ele foi atrás de mim quando eu saí para ir ao banheiro.
— É o quê?! O que aconteceu? E porque você tá contando isso só agora?
— Eu acho que eu fiquei com raiva demais para sequer pensar em mencionar para vocês. Ele tinha bebido e... Falou coisas. Ele me viu com na pista de dança e teve um pequeno ataque de ciúmes.
— O quê? — ela riu, incrédula. — Mana! Eu não tô acreditando! Mas que porra!
— Ele disse que queria voltar — continuei e acabei rindo pelo nariz. — Que queria começar do zero. E tentou me beijar, mas eu não deixei.
— O que você falou?
— Bem, eu disse que não queria ser a outra.
— Caralho, um coice teria doído menos — ela riu. — Eu já disse que amo você hoje? De qualquer forma, eu acho que ele deve tá sentindo muita falta de você trabalhando, porque né... Enquanto você ignora, eu adoro provocar.
— Você é uma bruxa — eu ri, outra vez.

Depois de mais alguns minutos, finalmente chegamos em casa.
Desfiz as malas e tomei um bom e demorado banho quente. estava de folga durante o final de semana inteiro e estávamos esperando chegar para comermos as três pizzas que ela vinha trazendo no caminho.
Eu me sentia cansada, mas não tanto pois, dessa vez, eu havia dormido durante o vôo.
Eu estava terminando de secar o cabelo, quando chegou.
tinha comprado algumas bebidas na loja de conveniência que tínhamos no prédio, então só faltava mesmo a comida.
— Certo, eu trouxe coca-cola, cerveja e soju. O que vocês querem?
— Coca — eu e dissemos juntas.
— Eu trouxe pizza de "tudo que há de bom", "pedaço de mau caminho" e "tudo o que amo, mas não deveria amar" como solicitado — disse.
Na verdade era pizza grega, com bastante calabresa e bacon, portuguesa e chocolate com morango, nessa ordem.
colocou os copos na minha mesinha de centro na sala junto com o refrigerante e nos sentamos em volta.
— Agora hora de ir atrás do meu amor proibido — disse e abriu uma das caixas.
— Como foi a sua viajem? — perguntou, depois de uma mordida.
— Ótimo. Até demais.
— Ela disse que praticamente implorou para que ela ficasse — comentou.
— Ei, eu não disse isso.
— Mas tem o mesmo sentido e é isso que importa — ela retrucou.
— Aconteceu uma coisa, no dia da festa beneficente. Eu acabei não contando a vocês...
— O que houve? — quis saber.
— Lembram que eu comentei no grupo sobre a tal da Rebeca? A secretária de ? Então... Eu estava conversando com Layla, a irmã dele e o sumiu, então fui procurá-lo. Avistei Rebeca em um local e acenei pra ela, estávamos indo uma em direção da outra, até que quando chegamos perto por um milagre do destino, por algo totalmente acidental, ela tropeçou e esbarrou em um garçom que acabou derramando uma bandeja de champanhe em cima de mim.
— É o quê? — praticamente gritou, indignada.
— E o que você fez? — perguntou.
Dei de ombros.
— Tinha muita gente em volta, foi humilhante, então eu só encarei como um acidente, mesmo sabendo que não foi um. Fiquei triste pelo garçom, pois ele não teve culpa de nada.
— MANA, COMO ASSIM? EU NÃO TÔ ACREDITO! Amiga, não estou te reconhecendo, era pra você no mínimo ter jogado uma garrafa de champanhe nela! Que vadia!
— Eu não, mas a Layla talvez tivesse feito isso. Ela percebeu tudo e devo dizer que ela não gosta muito da Rebeca, uma coisa levou a outra e ela acabou falando umas coisas para Rebeca. As pessoas estavam olhando... Então, tirei ela de lá. Não seria bom para o .
— Certo, mas e o ? — lembrou. — Ele não viu isso? Onde ele estava?
— Bom, Layla e eu fomos ao banheiro tentar dar um jeito no vestido, mas acabou ficando com uma mancha... Depois fomos juntas procurar por ele e... — fiz uma careta, antes de continuar. — Ele estava conversando com uma mulher e ela o beijou.
Senti todo o meu corpo arrepiar quando expus aquele acontecido às minhas amigas. Como no dia em que presenciei aquela cena.
— É O QUÊ? — foi a vez de gritar.
— Como assim ele beijou outra garota?! E na festa que você estava acompanhando ele! — disse, indignada. — Ele quer entrar para minha lista negra também?!
— Espera, eu não acabei. Ele afastou ela no mesmo instante, assim que ela o beijou. Layla acabou gritando seu nome e foi quando ele nos viu. Eu já estava me sentindo mal por causa do banho que havia tomado e ver aquilo só piorou... Ainda mais porque era uma mulher linda e rica, provavelmente o tipo ideal para ele.
— Como assim o tipo ideal? Se o gostasse dessa garotas, ele não estaria de rolo com você esse tempo inteiro! — rebateu.
— Eu concordo — acrescentou . — Vocês podem até não ter algo sério e serem livres para ficar com outras pessoas, mas acho que o nunca beijaria alguém assim de propósito sendo que ele levou você até lá. Seria muita canalhice.
— Pois é — continuou. — Ainda bem que você disse que ele se afastou da garota, porque seria uma decepção. Por mais que vocês não tenham nada além de amizade colorida, eu acho que seria dez vezes mais decepcionante do que foi com .
— Bem, talvez. Não sei. Não é como se eu estivesse apaixonada por ele, é só diversão...
— E que diversão! — riu e nós a acompanhamos.
— E então, o que aconteceu depois? O foi atrás de você — fiz que sim com a cabeça. — E o que ele disse?
— Ele disse... — ri pelo nariz. — Que não ia deixar aquilo estragar o que temos. Eu disse que ele ficava bem com ela e ele discutiu comigo, disse que não ia deixar que eu fizesse aquilo e que ele não era igual a .
— Porra! Se eu não tivesse com essa fatia de amo-mas-não-deveria, eu aplaudiria o com as mãos e os pés — disse. — Amiga, já era. Casa logo com ele e seja feliz.
— Você acha que isso é tudo fácil! — eu ri e joguei um caroço de azeitona nela. — Eu acho que esse lance com ele... Não sei se vai permanecer por muito tempo.
— Você disse a mesma coisa dois anos atrás — lembrou. — E mesmo assim, ainda continuam se pegando.
— Mas é diferente. Eu estava dizendo a ... Acho que passei tempo demais com ele. Na verdade, tenho certeza disso. Nunca passamos tantos dias juntos e eu acho que acabou sendo estranho e bom ao mesmo tempo.
— Então... Por que você não aproveita que vamos sair amanhã e fica com alguém? — sugeriu. — Ouvi dizer que esse bar que vamos amanhã é cheio de gente bonita.
— Eu não sei... Não consigo ficar com alguém assim, eu acho...
— Faz o teste, então — disse. — Então, você aproveita e tira suas conclusões sobre o . Talvez você tenha só se habituado a ele. E de qualquer forma, vocês não têm nenhum compromisso mesmo...
— Ah, precisa ser alguém muito bonito para isso — eu ri. — E muito bom de papo, já pensou se aparece um babaca lindo?
Elas riram também. No fim das contas, acabei sozinha em um bar, enquanto as duas estavam na pista de dança com dois caras.

Passamos o dia nos aprontando para sair de noite.
Fomos para um apartamento de e para que cada uma escolhesse a roupa e calçado que iria usar e depois voltamos para o meu e nos arrumamos lá. E os looks foram os seguintes:
optou por um visual inteiro preto, com direito a meia arrastão e tudo enquanto que escolheu uma saia preta de botões com um body e botas. Já eu pendi para o lado mais menininha e vesti uma saia branca de renda de cintura alta com um cropped rosa escuro, meias brancas até o joelho e um sapato nude. As meninas pediram para que eu fizesse suas maquiagens, porque segundo elas, eu era a "melhor" nisso e assim o fiz, enquanto elas escolhiam como queriam. Quanto ao cabelo, todas nós escolhemos ondulado, pois era mais rápido e prático de fazer.
Passamos o dia assim, fazendo coisas de meninas, comendo besteiras que nem três garotos na adolescência e dublando as músicas que ouvíamos.
Saímos de casa depois das dez da noite.
tinha ouvido falar de um clube noturno famoso que tinha aberto há alguns anos e que estava sendo muito bem falado. Então, ele foi o escolhido. O nome do clube era Ex'Act e ficava localizado no bairro Chelsea, que era um pouco distante, então pegamos um metrô. já tinha comentado que a entrada não era muito barata, mas era um dia especial e em dias assim, nós nos dávamos esse luxo.
Quando chegamos, percebi de cara de era um clube de elite. Não era qualquer um que entrava ali. Tinha uma equipe de segurança pesada e a fila estava enorme. Felizmente, o prédio era grande e espaçoso.
Havia um palco, com uma pista de dança na frente e mesas pequenas logo depois, onde garçonetes vestidas sensualmente iam e vinham, servindo bebidas. No primeiro andar, ficavam as salas VIP, onde os clientes tanto podiam observar o que acontecia em baixo, como também ter um pouco de privacidade. Havia também dois bares, em direções opostas, um para cervejas e outro para destilados.
E claro, eu não poderia esquecer dos dançarinos. Eles eram espetaculares, principalmente os homens.
Pedi a conta de quantas vezes gritou quando eles começavam a tirar a camisa, exibindo seus corpos definidos. Por algumas horas, nos divertimos bastante juntas entre a pista de dança e a nossa mesa. Houve um momento em que saí para ir ao banheiro e quando voltei, as meninas tinha sumido da mesa. Olhei em volta e então as encontrei, cada uma com um cara que deviam ter conhecido ali. conversava animadamente com um rapaz loiro, e bonito, que tinha o cabelo bagunçado e uma covinha que sempre aparecia quando ele sorria enquanto que estava na pista de dança aos beijos com um cara bem mais alto que ela, musculoso e de cabelo preto, não dava para ver muita coisa dele, se é que me entendem.
Ri sozinha e resolvi ir pegar uma bebida no bar de destilados. No entanto, quando eu estava próxima, uma garota acabou esbarrando em mim e eu virei o pé e tive que me apoiar na parede para não cair, o contrário dela.
— Me desculpe — ela pediu, se levantando rapidamente. — Você está bem? Eu estava distraída. Realmente sinto muito — acrescentou e ajudou a me apoiar, quando coloquei o pé no chão e gemi de dor.
— Tudo bem, acho que foi só uma torção — eu disse. Mexi o pé e parecia tudo ok, embora doesse um pouco. Mas nada grave.
— Mina! — alguém gritou e a garota olhou para a frente. Segundos depois, um rapaz estava ao nosso lado. Tinha o cabelo preto, olhos caídos e algumas pintinhas espalhadas pelo rosto. Também não era muito alto. — Você está bem?
— Sim, mas acho que ela machucou o pé — respondeu, apontando para meu pé. O rapaz se abaixou e tocou meu tornozelo, acabei gemendo de dor.
— Acho que isso vai ficar inchado? Por que você não tira esse sapato? — ele perguntou.
— Está tudo bem. Não dói tanto — respondi.
— Bem, acho que por hoje você não vai conseguir dançar mais. Quer que eu a leve para o hospital?
— Não precisa. Sério. Na verdade, eu sou enfermeira. Acho que dá pra resolver em casa mesmo, mas eu agradeço mesmo assim — sorri.
— Sendo assim, tudo bem — ele sorriu também. Um sorriso retangular e bonito.
— Que alívio — a garota disse também. — Me desculpe, mais uma vez. V— Não se preocupem — levantei a mão em um aceno e tentei ir para o bar, enquanto eles se afastaram. Mas depois de dois passos, desisti e acabei tirando um dos sapatos, que coloquei em cima da bancada do barman, assim que me sentei em um dos bancos.
— Ô moço, me vê um coquetel de limão com bastante vodca, por favor — pedi.
Ele se aproximou e olhou curioso para meu sapato.
— Dia difícil? — perguntou, desinteressado, enquanto pegava alguns ingredientes, não havia mais tanta gente naquele horário, quase duas da manhã.
— Acho que torci o pé. Alguém esbarrou em mim e agora não consigo andar direito — falei, com sinceridade e ele olhou para mim com seus olhos grandes e redondos, lembrava uma coruja.
— Caramba, tem certeza que está bem? — assenti, enquanto observava ele chacoalhar o coquetel dentro de seu copo de metal.
— Não é grave, já aconteceu outras vezes. Inclusive alguns dias antes da minha formatura do ensino médio, mas foi bem pior que isso. Então... — dei de ombros.
— Espero que melhore logo, então. Você veio sozinha? — perguntou, enquanto colocava a bebida em um copo e eu passei meu cartão de crédito para ele.
— Vim com duas amigas, mas elas estão ocupadas no momento — ri baixo, bebericando o coquetel. — É aniversário de uma delas e viemos comemorar.
— Certo, então agora você está sozinha. Mas elas ainda estão aqui?
— Ah, sim. Eu mandei mensagem para as duas e combinamos de sair daqui a pouco.
— Que bom, então.
— Você pode fazer outra dessa para mim? — apontei para a bebida.
— Você ainda nem acabou essa. Tem certeza disso? Vai acabar ficando bêbada.
— Bem, na verdade, eu acho que já estou bêbada. Mas sou forte — brinquei. — Faça outra. Dessa vez, de abacaxi.
— Tudo bem — ele sorriu e começou a trabalhar no meu próximo coquetel.
Fiquei conversando com o barman por um tempo enquanto eu bebia. Ele não falava muito, mas era um bom ouvinte para mim que costumo falar demais quando estou bêbada.
Meia hora mais tarde, as meninas e eu resolvemos ir embora.
Eu usei as duas como apoio por causa do meu pé e chamamos um táxi. As duas foram o caminho todo comentando sobre os rapazes que conheceram, enquanto riam animadamente. Foi uma boa noite, até para mim, mesmo tendo machucado o pé.
Chegamos no meu apartamento pouco depois das três da manhã e o único trabalho que nos demos a fazer foi tirar os sapatos na entrada. Depois disso, caímos as três na cama, completamente mortas e felizes.
Sabe a expressão "morreu, mas passa bem"?
Então.


20. Lembranças


A ressaca da noite do aniversário de foi curada no dia seguinte, apenas para que dez dias depois tivéssemos outra, dessa vez no aniversário de .
Eu estava sozinha em casa, morrendo de tédio e sem absolutamente nada para fazer.
Era uma quarta-feira e as meninas estava trabalhando, minha mãe estava ocupada também e estava enrolado em um caso importante por alguns dias. E claro, estava na Tailândia.
Já fazia alguns dias desde a última vez que nós tínhamos nos falado por telefone, embora sempre trocássemos mensagem, ainda que não fosse com tanta frequência. Mas nada que atrapalhasse a nossa amizade.
Há pessoas que sentem necessidade de se comunicarem continuamente, todos os dias, com seus amigos próximos. Felizmente, nós não éramos assim e isso não influenciava em nada.
Chegava a ser cômico como poderíamos passar dias sem nos falar 3 quando acontecesse, era como se tivéssemos feito isso todos os dias.
Eu estava pensando em sair para algum lugar e aproveitar o tempo ao invés de ficar em casa sem fazer nada, quando meu celular apitou com uma notificação de mensagem.
"Oi, podemos nos ver?" — repeti em voz alta. Eu não conhecia aquele usuário, mas quando abri, pude ver sua foto.
.
Franzi o cenho, estranhando aquela mensagem repentina. Nosso último encontro não havia terminado bem.
"Por que quer me ver?", mandei de volta.
"Tenho certeza que você não está ocupada. E nem eu. Vamos apenas nos ver, quero te mostrar uma coisa que achei."
"Como sabe se estou ou não ocupada?"
"Vamos lá, babe. Eu te conheço. Só um encontro de dois colegas em um café, o que acha?"

Ponderei um pouco, mas acabei cedendo. Afinal, o que podia acontecer? Nada.
"Tudo bem. Onde nos encontramos?"

enviou o endereço de um café que ficava apenas algumas quadras de onde eu morava. Já era noite, mas como não era longe, decidi ir a pé mesmo.
Afinal, a preguiça de tirar o carro da garagem do prédio era bem maior.
Tomei um banho e me arrumei com uma roupa mais quente. Já era outono e estava começando a esfriar mais a cada dia.
Quando cheguei no café, já esperava por mim em uma mesa.
— Oi — ele sorriu.
— Érr... Oi — respondi e me sentei, encarando-o desconfiada.
abaixou a cabeça e riu baixo.
— Certo, eu sei que você tá achando esquisito. Acho que não lembra também, mas... Podemos só nos tratar como amigos?
— Lembrar de quê?
— Hoje é dia 21 — ele respondeu, mas continuei confusa, o que o fez rir. — Hoje faz 5 anos desde o dia que eu te chamei pra sair pela primeira vez. Eu sei, é idiota... Mas eu só queria passar um tempo com você, sem farpas a serem trocadas.
— Você tá me propondo uma trégua?
— Basicamente — deu de ombros. — E como seu colega, devo dizer que sinto sua falta no trabalho. Digamos que não é nem um pouco harmoniosa, mas você já deve saber disso.
— Fico feliz por isso — eu ri — Se serve de consolo, quando começamos a trabalhar lá, Lara ainda não era coordenadora do setor. Havia outra enfermeira mais velha chamada Yang Mi e ela era muito rabugenta. Tipo umas mil vezes pior que . Então, você pode se considerar sortudo. De qualquer forma, embora a odiássemos, hoje somos gratas a ela por tudo o que conseguimos aprender.
— Caramba. Que bom, então. Vou lembrar disso da próxima vez que a for rabugenta.
O encontro com estava sendo estranhamente bom. Falamos de trabalho, faculdade, o mestrado... Coisas do tipo. Até que chegou em um ponto que me senti confortável.
— O senhor Hong ainda trabalha lá?! Ele não vai se aposentar nunca? — perguntei, pasma. Sr. Hong foi nosso professor de filosofia e antropologia, disciplinas praticamente inúteis que temos durante o curso, e ele era bem velho já em seus setenta e tantos, mas muito inteligente e lúcido.
E claro, muito exigente. Tive alguns problemas por causa de suas disciplinas que exigiam muito tempo com todos os rascunhos e textos para ler que ele nos pedia, o que acaba atrapalhando no tempo que eu tinha para estudar as disciplinas realmente importantes, como semiologia, por exemplo, que eu pensei que iria reprovar, mas felizmente consegui bem recuperar com boas notas e sequer fiz uma prova final.
Quando eu saí da faculdade, estava em seu quarto semestre, então ele ainda passou um bom tempo lá.
— Acho que ele prefere ter o que fazer. Afinal, é um filósofo com uma...
— Tese de 500 páginas — completamos juntos e rimos.
— Ah, aquele professor... O psicopata que você e noventa por cento dos alunos odiavam... Ele foi afastado depois de um processo de uma garota. Já faz um tempo, eu estava no quinto semestre quando aconteceu.
— Como assim?! Ele foi expulso do Campus? — ele assentiu.
— Bem, quando eu saí de lá ele ainda não tinha voltado, então... — deu de ombros. — Na época, o reitor liberou um documento que o impedia de ter qualquer acesso ao sistema dos professores, aos documentos... Ele foi proibido de entrar na universidade por sessenta dias para que não houvesse risco de manipular alunos e coisas do tipo que viessem a influenciar na decisão final do processo. Mas essa garota... Ela o processou na justiça também por assédio sexual. Então, a coisa ficou bem mais feia pro lado dele.
— Eu não acredito! Eu sabia que algum dia isso ia virar contra ele. Ele tinha uma coisa comigo, eu nunca dei brecha para que ele conversasse comigo e eu não falava nas suas aulas, só ouvia sem nem mesmo olhar pra ele.
— Ele chegou a falar com você sobre isso?
— Ah, você não lembra? Acho que já te falei daquela prova de farmacologia. Que na verdade era uma prova que valia por duas, ele nos convenceu a estudar a porrada de assuntos de uma vez só. Era uma chance 50/50, se você passasse teria duas notas boas, senão, eram duas ruins.
— Ah... Você fechou essa prova, não foi? Eu lembro agora. Ele comentou sobre você no dia que você foi se apresentar como monitora — ele riu. — Ele disse que nunca viu uma prova com respostas tão bonitas e bem justificadas.
— A última nota da disciplina era para ser um seminário, ele deixou apenas que o meu grupo e mais outro apresentasse e depois veio com um papo furado que nota não avaliava alunos e depois cancelou todos os outros e deu a nota que quis para cada um.
— Quanto ele te deu?
— Ele me deu dez. Mas eu sinceramente acho que a mereci. Eu me esforcei pela nota, tanto na prova quanto no seminário, então... — dei de ombros. Peguei e olhei as horas, já se passava das onze e estávamos ali desde às sete da noite.
— Nossa, acho que tenho que ir. Está tarde e eu não vim de carro — falei, me levantando e pegando minha bolsa.
— Eu te deixo em casa.
— Não precisa, é perto daqui. Dá pra ir andando tranquilamente. São só dez minutos de caminhada.
— Ainda assim, está tarde, como você disse. Eu não vou te deixar ir sozinha. Vamos — me puxou pela mão.
Começamos a andar em silêncio e ainda segurava minha mão, não me importei de todo, então apenas deixei.
— Então... — ele começou a falar. — Você gostou da Tailândia? Eu costumava viajar pra lá todo anos com minha mãe...
— É... Eu sei — sorri, lembrando de quando ele me contava esse tipo de coisa. tinha um grande amor por sua mãe e era bastante apegado a ela, mas seu senso de independência era maior. Ele sempre quis provar para seus pais que poderia ser bem sucedido por conta própria, fazendo o que gosta. — Eu achei a Tailândia muito legal e interessante. As pessoas também sorriem bastante, você deve ter herdado isso da sua mãe.
Ele riu baixo, tímido, de repente.
— E como você e estão..?
— Ahn, estamos bem... Como sempre.
— Hm, vocês estão namorando..? — ele perguntou, fingindo desinteresse.
— Não, não estamos — respondi, mesmo sabendo que não era da sua conta.
Ele não disse mais nada, depois disso e também não tive coragem de olhar para seu rosto para ver sua reação, então permanecemos em silêncio. Chegamos até onde seu carro estava e entramos. Minutos depois, quando parou em frente ao meu prédio, já era quase meia-noite.
Me virei para destravar o cinto mas ele ficou preso, então me ajudou.
Comecei a rir, enquanto ele tentava destravar o cinto e xingava baixo.
— Isso tá parecendo uma cena clássica de drama, mas na versão que deu errado — comentei, ainda rindo e ele me acompanhou.
— Daquelas que o cara tira e coloca o cinto para a garota e de repente eles se olham — ele levantou a cabeça e me encarou nos olhos, o que me fez parar de rir. — E então, ele se aproxima da garota — ele continuou e se aproximou com seus olhos brincalhões até roçar o nariz no meu. Prendi a respiração, sentindo meu coração acelerar.
Não era para eu estar nervosa, mas eu estava mesmo assim.
... — chamei, mas ele me ignorou.
— E então ele... — e então ele selou nossos lábios em um beijo.
Depois de três anos. Só um beijo, sem estarmos no meio de uma discussão ou qualquer atrito.
pressionou mais um pouco sua boca contra a minha e segurou meu rosto com uma das mãos. Abri a boca um pouco mais e deixei que ele aprofundasse o beijo. Abracei seu pescoço com os dois braços, quando senti ele me levantar pelo quadril. Quando percebi, eu já em seu colo, mas o beijo não parou.
enfiou as mãos embaixo da minha blusa e meio que me abraçou, sua mão espalhada no meu tronco entre as costas e um pouco na frente, na região das costelas.
Suas mãos eram enormes, gigantes e sou uma pessoa pequena, então não era de todo surpreendente. Eu parecia um gatinho perto de um Pastor Alemão.
— Seus lábios tem o mesmo sabor que eu me lembrava — ele disse, pegando meu lábio inferior entre os dentes e depois inclinando minha cabeça para beijar meu pescoço.
Bem como um cãozinho faminto.
Mas gatos tinham que tomar cuidado com cachorros.
Me afastei e o encarei ofegante, voltando à realidade.
...
— Eu tenho que ir — falei rápido, saindo do colo dele e voltando para o banco de carona, apanhando minha bolsa.
— Espera! Eu quero te dar algo — ele abriu o compartimento da frente e tirou um envelope branco de lá.
Encarei por um instante, antes de por fim, abrir.
Eram fotos.
Na verdade, eram as primeiras fotos que tiramos juntos em uma máquina de um parque de diversões, no nosso primeiro encontro.
E me pediu em namoro no meio delas. Sorri involuntariamente. Fazia tempo que eu tinha visto aquelas imagens. Eu tinha uma cópia também, mas acabei deixando na casa da minha mãe, em alguma caixa. Nunca tive coragem de jogá-las fora porque eu muito bonitas.
Independente da raiva que tive dele, então eu ficava satisfeita em apenas enterrá-las no fundo de um armário.
— Agora é dia 22... — ele disse. — Faz exatos 5 anos... Desde que eu te pedi em namoro enquanto tirávamos essas fotos... Idiota, eu sei. Mas... Eu espero que você tenha tido boas lembranças do nosso relacionamento também e não só as ruins. Eu não sei o que vai acontecer daqui para frente, mas... Não quero mais que guardemos rancor um do outro.
Respirei fundo e mordi meu lábio superior, assentindo, em seguida.
— Obrigada pelas fotos, eu sempre gostei delas. E sim, eu também tenho lembranças boas...
— Fico feliz... — respondeu. O encarei e enfim, resolvi partir.
— Boa noite, — dei um beijo em seu rosto e me afastei, abrindo a porta do carro.
Não esperei para ver ele ir embora, então apenas andei até entrar no prédio, sem olhar para trás.
Confusa como nunca.


21. Recaída


Fingir demência para mim mesma quanto ao que aconteceu no carro com pelos dias seguintes que se passaram. Não contei as meninas.
Pareceria mais real se elas soubessem e eu não queria isso.
Faltavam dois dias para eu voltar a trabalhar e tínhamos combinado de ir para um clube que costumávamos ir desde a época da faculdade, o mesmo que fomos com e algumas semanas atrás, na fatídica e estressante noite em que teve aquela confusão com a ex-noiva de .
Chegamos ao local depois de comermos algo antes na rua para que pudéssemos beber sem grandes problemas. Eram meus últimos dias de férias, afinal, e eu queria aproveitar.
Então resolvi optar pelos coquetéis de frutas e vodca. Alcoólicos, porém saborosos.
Do tipo que te deixa bêbada, sem que você perceba, tipo Smirnoff Ice.
Eu fiquei dançando na pista enquanto as meninas tinham ido ao banheiro e nesse meio tempo, alguém me puxou de encontro ao seu corpo, de repente. Eu estava pronta para empurrar o cara, quando ouvi sua voz.
— O que está fazendo sozinha aqui, babe? Onde estão suas amigas?
Revirei os olhos e me afastei dele.
— Elas foram ao banheiro. E eu não sou uma criança, .
— Claro que não, o que seria de mim se você fosse uma? — ele riu e percebi que também estava bêbado. — Mas já que está aqui... O que acha de nos divertirmos um pouco?
— Acho que aqui está muito cheio — respondi.
— Então, vamos para um lugar mais reservado — ele murmurou no meu ouvido, me fazendo arrepiar. Eu não sei se era o álcool em meu corpo ou seja lá o que fosse, mas eu apenas o deixei me guiar até um canto um pouco mais distante da pista, onde não tinha tanta gente. A falta de iluminação, no entanto, tornava as coisas um tanto interessantes.
— Eu senti sua falta, sabia? — ele me beijou no pescoço, me fazendo suspirar, antes de tomar meus lábios.
me beijou, mas parou por um instante para me erguer pelo quadril, me fazendo colocar as pernas ao redor de sua cintura.
Eu sabia porque ele tinha feito isso.
Primeiro, porque ele era muito alto, portanto me beijar era difícil. Segundo, porque aquela posição aumentava a fricção entre nossos corpos.
Felizmente, eu estava de calça jeans e sem nenhuma roupa reveladora. voltou a dar atenção ao meu pescoço e por um momento eu abri os olhos e encontrei as meninas nos encarando de longe, enquanto riam e batiam palminhas.
Sorri para elas e dei um leve aceno.
Alguma coisa no fundo da minha mente me dizia que algo estava errado, mas eu apenas ignorei e enfiei a informação dentro de uma gaveta imaginária, quando voltou a juntar nossos lábios.
— O que acha de sairmos daqui? — ele murmurou, entre o beijo.
— Vamos — eu disse, mas pareceu mais um suspiro.
Enviei uma mensagem para as meninas, dizendo que eu estava indo primeiro e elas sabiam que eu estava saindo com um cara.
Pegamos um táxi até a minha casa e não se desgrudou nenhum instante de mim, até chegarmos lá.
Coloquei a senha na porta e nós entramos em meio a beijos e tropeços, enquanto ríamos juntos.
O caminho até o meu quarto foi marcado por uma trilha de peças de roupa que fomos jogando a cada passo. Tivemos um pouco de dificuldade para nos livrar do meu jeans apertado, o que nos fez rir mais que o normal, mas quando chegamos no quarto não havia mais do que as peças íntimas em nossos corpos.
Empurrei para a cama e subi em cima dele, me inclinando para beijá-lo, enquanto arranhava e apertava seu abdômen. Sem delongas, ele levou suas mãos até o fecho do meu sutiã e o abriu. Passei meus braços pelas alças e ele o jogou no chão, antes de girar comigo na cama, invertendo nossas posições e levando sua boca outra vez para o meu pescoço, enquanto corria suas mãos por todo o meu corpo.
— Você é tão linda, ... — murmurou, enquanto beijava meu rosto.
...
Ele levou uma das mãos até a minha calcinha e me tocou lá, soltando um rosnado depois.
— Droga, amor, você está tão deliciosamente pronta. Eu queria muito me enterrar em você agora mesmo... Mas antes, eu quero te provar inteira — murmurou no meu ouvido, mordendo o lóbulo da minha orelha.
Em seguida, ele se afastou e colocou as duas mãos de cada lado da minha calcinha, se livrando da rapidamente.
— gemi, quando ele me tocou, inserindo dois dedos dentro de mim e massageando meu clitóris com o polegar. Eu estava tão sensível que tudo o que podia fazer era me contorcer contra a sua mão que me provocava mais e mais e depois contra sua boca, quando ele finalmente a colocou lá.
flexionou e afastou meus joelhos, me deixando completamente aberta a sua mercê. Levei minhas mãos até seu cabelo, enterrando meus dedos em suas mechas douradas, as puxando com força enquanto me desfazia em sua boca.
se aproximou outra vez e pressionou seu corpo contra o meu, bos separados apenas pela cueca boxer que ele usava, que eu fiz questão de vir livrar em poucos segundos.
Ele voltou a me beijar e eu levei uma das mãos até seu membro e comecei a massageá-lo em movimentos de vai e vem, mas me afastou pouco depois.
— Se você continuar, a nossa brincadeira vai acabar mais cedo, amor — ele murmurou. — Embora, eu ainda queira brincar um pouquinho — disse, roçando sua ereção em minha intimidade, só para provocar.
— Porra, vai logo-ah! — ele me penetrou de uma vez, sem aviso. Exalei de uma vez, surpresa.
— Droga, ... — suspirou. — Eu quase me esqueci do quanto era bom estar assim com você, amor — e saiu um pouco de mim, apenas para entrar outra vez, com força, me fazendo gritar. — Eu senti tanto sua falta... Ah, porra, babe... Por que você tem que ser tão deliciosa?
... Por favor... — pedi e ele entendeu, começando a acelerar cada vez mais seus movimentos. Coloquei minhas pernas ao redor de sua cintura e cravei minhas unhas em suas costas, arranhando sem dó.
— Você faz isso para me provocar, não é? — ele perguntou, assim que o arranhei. — Mas isso é bom pra caralho, amor — me beijou, antes de enterrar o rosto em meu pescoço.
No escuro do meu quarto, tudo o que podia ser ouvido eram nossos gemidos e sendo compartilhados um com o outro.
— Vamos lá, babe. Vamos chegar juntos — murmurou, mordendo o meu pescoço e eu arfei, me sentindo cada vez mais próxima do êxtase, que chegou segundos depois. me acompanhou, em seguida, desabando seu corpo em cima do meu, ainda dentro de mim.
Ficamos assim por algum tempo, até nossas respirações se normalizarem e então rolar para o meu lado, tão exausto quanto eu.
Não demorou muito para nós adormecermos, mas não passou de uma mera soneca que durou alguns minutos, até me acordar com beijos e nós repetirmos tudo de novo e de novo.
Não lembro ao certo quando adormecemos de verdade, mas ao que parecia, eu só tinha alguns flashes de memória assim que acordei e digamos que assim que o vi ali de manhã, ao meu lado, não tive outra reação a não ser um susto que me fez gritar e cair da cama, o que acabou acordando-o.
— O que... ? — ele me encarou tão confuso quanto eu estava e então olhou ao redor do meu quarto e depois para si mesmo, arregalando os olhos, se sentando rapidamente em alerta.
— Por favor, me diz que você lembra de alguma coisa — pedi. A última lembrança que eu tinha até então era de encontrá-lo no clube e depois pegarmos um táxi juntos.
— Na verdade... Não muito — ele respondeu e eu soltei um grunhido, enquanto bagunçava o meu próprio cabelo, em frustração. — Por favor, não pira! — ele disse rapidamente. — Acho que... Bem, está claro o que aconteceu aqui, mas...
Subitamente, me levantei enrolando um lençol no corpo e indo até o banheiro. Chequei o cesto de lixo, mas não havia nada. Voltei ao quarto e corri meus olhos rapidamente pelo chão.
— O que você...?
— Não tem nenhum preservativo aqui! — falei, antes dele terminar de perguntar. — Eu não acredito nisso!
— Ah, meu Deus! — ele arregalou os olhos de novo. — Me desculpa, ... Foi minha culpa, eu... Eu devo ter esquecido... Droga!
Suspirei e fui direto ao banheiro, tomar um banho. Eu precisava de um antes de lidar com toda essa situação. Vesti uma camisola e quando saí, estava terminando de vestir sua calça.
...
— Tá... Tudo bem, eu acho. Quanto ao preservativo, quero dizer. Eu ainda tomo injeções anticoncepcionais... — falei e suspirou aliviado.
— Claro, eu tinha me esquecido. Você sempre usou... sempre usamos dupla contracepção. Mas ainda assim, me desculpa.
— Certo, só... Não tem necessidade de ficar relembrando nós, . O que aconteceu essa noite foi um erro — murmurei e ele franziu o cenho.
— Um erro? Que eu saiba, da última vez que perguntei se você estava em um relacionamento, você disse que não.
— Ainda assim. Nós não devíamos... Não devíamos... Droga! Não era pra ter acontecido. Você é meu ex e já faz três anos desde que nós...
— Sim, faz três anos. E sim, nós terminamos — ele me interrompeu. — Mas você não devia dizer que foi um erro. Se aconteceu, foi porque nós dois queríamos!
— Claro, e o que é melhor do que encher a cara para ajudar a dar coragem para fazermos coisas que dificilmente faríamos sóbrios, não é? — retruquei, saindo do quarto e ele me acompanhou.
— Você deveria só admitir pela droga de uma vez, ! Já aconteceu, então não adianta eu ou você ficarmos arranjando desculpas para isso.
— Não são desculpas, são fatos, !
— Que seja! Isso mostra que você ainda sente algo, assim como eu.
— Ah, claro. Atração mútua, você quer dizer — falei, com ironia. — Bem, eu não posso negar isso. Mas quanto ao resto... Eu acho que você é quem está confuso aqui, !
— Tem certeza, ?! Que sou eu aquele que está confuso? Eu acho que você inverteu os papeis..!
— Eu não..! — de repente, a porta de abriu e eu paralisei, quando vi quem era a pessoa que nos encarava.
franziu o cenho e se virou para trás, se surpreendendo também.
! — falei, mas minha voz saiu tão baixa que pareceu um sussurro.
nos encarava sem expressão alguma no rosto, até que alguns segundos depois ele abaixou a cabeça, passando a língua no lábio inferior, rindo em descrença.
estava logo atrás dele, nos encarando surpresa também. E eu já podia ouvir ela gritando comigo em seus pensamentos.
, vamos sair daqui — a tentou tocá-lo, mas ele se afastou, levantando o braço.
Foi então que notei que ele segurava um buquê de flores.
Ele deu um passo para... E outro, até chegar até onde eu estava.
... Eu- — ele levantou sua mão livre, me impedindo de falar.
Ele deixou o buquê cair nos meus pés e voltou voltou a me encarar com seus olhos frios como gelo.
Ele se virou, pronto para sair, mas o puxou pelo braço, tentando falar com ele.
— Espera, cara. Nós temos que- Ah! — tentou, mas foi interrompido por um soco no estômago, que o fez se desequilibrar um pouco e se apoiar no sofá.
Foi tão rápido e inesperado que ninguém conseguiu dizer nada.
alternou seu olhar entre e eu, respirou fundo e pude notar seus olhos brilhando também, enquanto ele tentava conter a raiva.
— De todas as pessoas... — ele começou a dizer, mas parou um instante. — De todas as pessoas, ... você era a única que nunca imaginei que fosse capaz de algo do tipo. Mas tudo bem, não é?
Erro meu. Afinal, nós não temos qualquer tipo de relacionamento, certo? Você estava só exercendo o seu direito.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas no mesmo instante, algumas logo começando a cair.
, não faz isso...
— Não fazer o quê? — ele riu, sem humor e uma única lágrima escorreu pelo seu rosto. — Eu acho que nós não temos mesmo mais nada a fazer, — murmurou e enfiou a mão no bolso da calça, tirando de lá uma caixinha preta de veludo, que ele colocou em uma das minhas mãos, sem delicadeza alguma. — Não se preocupe, não era um pedido de casamento.
E então, ele foi embora.
E eu tinha quase certeza de que ele nunca mais voltaria.


22. Aceitação


Encarei o buquê de flores aos meus pés, enquanto sentia a caixinha em minhas mãos pesar uma tonelada. Havia um lindo par de anéis de casal dentro.
Ele ia me pedir em namoro. ia me pedir em namoro e eu estraguei tudo.
Eu provavelmente teria ficado parada ali por horas dentro da minha própria bolha de tristeza, se não tivesse pulado em cima de tão logo após sair.
Quando percebi, a tinha com as pernas enroladas em sua cintura, puxando seu cabelo e o xingando com todos os palavrões que ela conhecia.
Seria cômico, se não fosse trágico.
cambaleava ao redor, tentando se livrar dela, mas em vão.
— Sai de cima de mim! Mas que porra!
— Seu filho da puta! Porque você tinha que estragar tudo, hein?! Por que, de todos os homens do .mundo, tinha que ser logo você?
— Do que porra você tá falando? Ai, não puxa meu cabelo, caralho! — reclamou outra vez e cambaleou, dessa vez caindo com ela no chão.
Eu pensei em intervir, mas no segundo que eu ia falar, apareceu no meu apartamento, toda descabelada e confusa.
— O que é que tá acontecendo aqui? — foi quando ela viu em cima de e toda a bagunça restante, vulgo eu, de camisola, com um buquê de flores aos meus pés e chorando.
— Você sabe quanto tempo durou para a voltar a se erguer e ser feliz novamente? Não! Porque não foi você que ficou dias e noites com ela chorando e se lamentando por um filho da puta que nem você! E então, ela encontra o , que realmente ama ela e você vem e estraga tudo!
, para com isso! — praticamente gritou, a puxando de cima de .
— E você, ! Onde estava com a cabeça pra ficar com o seu ex?! Ou melhor, O QUE PORRA FOI QUE PASSOU NA SUA CABEÇA NESSA HORA?! Por que eu juro que não consigo entender. De todos os caras daquele bar, tinha que ser justo ele?!
...
porra nenhuma! — ela disse, com raiva, se soltando de . — Você tinha a chance de ser feliz de verdade e estragou tudo. Vocês dois estragaram tudo. E eu realmente sinto muito por não ter conseguido impedir de vir aqui, mas teria sido menos pior se você estivesse com um cara aleatório.
Fiquei calada.
Todos nós ficamos.
Ela estava certa e isso era um fato que não podia ser discutido.
, vamos sair daqui um instante, vem — disse, a tirando de lá e me deixando a sós com .
Ele pegou sua camisa que estava caída no meu sofá e a vestiu, antes de vir até mim.
... Eu...
— Você entende, não é? — falei, com a voz falha, as lágrimas escorrendo outra vez. — está certa. Eu estraguei tudo. E exatamente quando eu estava conseguindo ser feliz de verdade. Você entende, não é, ? — repeti, dessa vez olhando-o nos olhos. — Eu e você... Nós não temos mais um futuro, porque as coisas são diferentes agora. A noite passada foi um erro.
— Eu sinto muito, .
— Acho que de certa forma, isso aconteceu para que pudéssemos ser capazes de colocar um ponto final de vez nessa história — concluí e ele suspirou.
— Sim... Você tem razão. Foi um erro. Sinto muito. Eu... Vou te deixar sozinha agora, .
— Obrigada.
— Até amanhã — disse e saiu.

Me abaixei e peguei o buquê de flores, sentindo outra lágrima silenciosa escorrer e pingar em uma das dezenas de pétalas. Acabei encontrando um pequeno envelope escondido no meio das flores e nele havia um bilhete.

"Uma flor branca pela lealdade que temos um no outro e pelo perdão, para quando ele se fizer necessário.
Uma flor vermelha, pela paixão entre nós e pela fidelidade, para que ela se mantenha intacta mesmo quando estivermos longe.
Uma flor azul pela amizade, harmonia, confiança que construímos juntos nos últimos anos.
Uma flor amarela, para nos estimular a sempre recordar as boas memórias que fizemos e também por nosso sucesso pessoal e profissional.
Uma flor roxa, para manter os momentos de tensão ausentes e nossa dignidade sempre presente.
Uma flor laranja, para que a chama entre nós nunca se apague.
E por último: uma rosa, bonita e delicada. Para que mesmo que o tempo passe, sempre consigamos manter a nossa juventude dentro de nós.
, você aceita ser finalmente e oficialmente minha?"


Observei com cuidado cada uma das flores que ele havia escolhido, cada uma carregando seus grandes significados, aos quais eu lia com certa dificuldade por conta das lágrimas que insistiam em cair. Eram tão bonitas que eu não podia simplesmente jogá-las fora.
sabia que eu não gostava muito de flores e mesmo assim iria me dá-las em um gesto de carinho e da forma mais doce possível. E por mais que tivesse acontecido da maneira errada, ainda era motivo suficiente para eu colocá-las em um vaso com água. Dobrei com cuidado o bilhete e o recoloquei no envelope, deixando-o ao lado do vaso de flores que eu havia posto na sala.
Em seguida, fui até meu quarto e fechei as cortinas da janela, deixando o ambiente quase que completamente escuro para que assim eu pudesse me enfiar na cama e chorar o quanto eu quisesse e, quem sabe, tentar dormir novamente para esquecer um pouco o que havia acontecido. Soa meio covarde, eu sei. Mas era a única coisa que eu podia fazer naquele momento.
Depois de cerca de 40 minutos e já com a cara inchada de derramar lágrimas que hora ou outra reapareciam, vi uma figura entrar no meu quarto.
se sentou na minha cama e me encarou. Escondi meu rosto no edredom, envergonhada, mesmo sabendo que ele não podia me ver naquele escuro.
me contou o que aconteceu. Você está bem? — perguntou, acariciando meus cabelos.
— Não — falei, sincera. — Eu sou a pessoa mais estúpida do universo.
— Vai passar, ... Você sabe que vai. Talvez você e possam conversar outra hora e...
— Você acha mesmo que ele vai sequer querer me ver outra vez? — o interrompi, me sentando na cama. — , você e as meninas mais do que ninguém sabem que ele é praticamente minha cópia masculina. Foi como eu com o ... Tirando a parte de que , na verdade, nem me traiu.
— E você não traiu , — ele disse, calmamente. — Por mais que o vínculo de vocês fosse forte... Não era oficial. Ele sabe disso. E eu sei que se fosse o contrário, você também saberia que não tinha nenhum direito de tirar satisfação de alguém que nunca te pertenceu.
Imediatamente, a imagem de beijando outra garota apareceu na minha mente.
Sim, eu não tinha como cobrar nada e não o fiz. Pelo contrário, tentei empurrá-lo para longe. No entanto, eu não tinha mesmo certeza de que ele pudesse querer me ver outra vez. Não porque eu fiquei com outro cara, mas porque esse cara era .
Isso foi a gota d'água.
Então, o que eu tinha que fazer era me conformar.
Um novo soluço escapou de mim e foi quando se moveu e me puxou para um abraço. Alguns minutos depois, e apareceram também.
... — murmurou. — Sinto muito pelo o que aconteceu.
— Eu também — disse . — E embora eu ainda esteja com raiva pelo o que fez, você é minha melhor amiga e sei que deve estar confusa e péssima agora. ter descoberto isso foi possivelmente o pior castigo que você poderia receber.
— Obrigada. Por não me odiarem — murmurei baixo, embaraçada.
se sentou ao meu lado e me abraçou junto de . se abaixou na minha frente e segurou ambas as minhas mãos.
Ninguém falou mais nada.
Eu chorei mais um pouco, involuntariamente, mas dessa vez me senti um pouquinho mais segura envolta do conforto dos meus melhores amigos.



Era para ter sido perfeito.
Na minha cabeça seria, como das outras vezes. Mas eu quebrei a cara de um forma como nunca aconteceu antes.
Eu já tive algumas namoradas, mas nenhuma delas me traiu ou o contrário.
sequer era minha namorada, mas por dois anos... Por dois longos anos, nós mantivemos um relacionamento aberto, uma amizade colorida que durou mais do que eu pensei que duraria e tenho certeza de que ela também.
Por mais que fôssemos apenas amigos, nós sempre agimos como um casal. Eu a levava para encontros, jantares, assistíamos filmes juntos... E sempre que eu conseguia um tempo livre — algo que não acontecia muito — eu queria estar com ela.
E de uns tempos para cá, eu percebi que sempre quis estar com ela. Quando ela foi para a Tailândia, então, eu tive certeza disso.
Por mais que tivéssemos nos desentendido algumas vezes durante sua estadia lá, as memórias felizes que fizemos juntos superam tudo isso.
Eu não me lembro da última vez que estive tão feliz. Que me senti tão bem e confortável perto de outra pessoa. Eu sempre quis espaço nos meus relacionamentos, mas eu não me importava em dividir o meu com ela, porque nós dois éramos assim e mesmo juntos no mesmo ambiente, havia momentos em que nos recolhíamos em nossa própria bolha, em nosso próprio mundo sem interferir no do outro.
Eu decidi que iria pedi-la em namoro assim que retornasse para Seoul. Eu poderia tê-la pedido enquanto ela estava lá, mas eu queria fazer as coisas direito.
Eu não tinha certeza de que voltaria tão cedo e não queria manter um relacionamento a distância com ela, porque sei que assim como eu, ela não acreditava nisso.
Então, eu fiz o que pude fazer no trabalho, para adiantar minha transferência para a Coreia do Sul. De fato, a sede da empresa ficava em Bangkok, mas isso nunca me impediu de comandá-la da filial coreana. Temos um grande mercado no país e é, de certa forma, mais vantajoso ficar aqui. Meu pai sabia disso e minha mãe também, embora não concordasse com o fato de me ter morando em outro país. Mas não era como se ela não pudesse vir me ver ou eu estivesse impedido de viajar, por exemplo.
Por fim, depois de quase três semanas, eu consegui voltar. Eu já estava há dois dias na cidade, mas não avisei a ninguém, pois havia alguma coisas a serem feitas na filial coreana.
Minha família é dona de um conglomerado de empresas que atuam em diversos ramos, desde tecnologia até marketing. E embora eu esteja no comando, tenho vários outros funcionários que formam uma equipe e tanto que é, de fato, bastante responsável e boa no que faz. E há o meu pai, é claro, que mesmo aposentado, sempre anda de olho e fica por dentro de tudo o que acontece na Sara Enterprises.
Então, eu não muito com o que preocupar.
Há alguns dias eu mandei uma mensagem no kakaotalk para , contando que queria fazer uma surpresa para e ela inclusive me ajudou a bolar tudo.
No entanto, eu não avisei quando estaria na Coreia, nem quando viria visitar para a surpresa. No entanto, me perguntei porque ela estava tão surpresa em me ver ali e tentou avidamente me distrair assim que viu.
Conhecendo e vendo que ela tinha olheiras debaixo dos olhos, ela provavelmente tinha saído com as meninas na noite anterior ou ido trabalhar. Mas segundo , ela sempre hiberna depois de uma noite de trabalho, mesmo que já fosse quase meio-dia, então eu apostei na primeira opção.
? O que você tá fazendo aqui? — ela disse, assim que bati em sua porta.
— Eu consegui voltar mais cedo. Faz dois dias, na verdade. Mas havia algumas coisas a serem feitas na empresa, então... — levantei o buquê que estava em minhas mãos. — O que acha? Será que ela vai gostar? Eu pedi para que colocassem vários tipos de flores aqui e seguir o seu conselho de não apenas comprar as clichês rosas vermelhas.
— Ah, tá... Muito lindo. Por que você não entra? Aceita um café? Um suco? Eu vou mandar uma mensagem para e perguntar se ela já acordou... É que saímos ontem a noite e... Bem, pela minha aparência, você deve imaginar — deu de ombros. — Então, você escreveu um cartão também?
— Sim, mas ele você só vai poder ver depois dela — pisquei. — Mas posso te mostrar outra coisa.
Puxei a caixinha de veludo preto do meu bolso e a depositei em cima do balcão entre nós dois. abriu e sorriu, animada.
— Caramba, é lindo. Tenho certeza que ela vai gostar, — disse e fechou a caixinha para me devolver.
— Obrigado — sorri. Eu tinha quase certeza de que ela iria gostar, mas mesmo assim ainda me sentia um pouco nervoso.
— Você sabe que eu sou a pessoa que mais torce por vocês, não é?
— Você sempre deixou claro. Obrigado.
Mas antes que pudéssemos continuar a conversa, ouvimos uma discussão.
— Eu acho que você é quem está confuso aqui..! — era . Me levantei rápido e fui em direção ao seu apartamento. Tomei a liberdade de colocar a senha e entrei, mas me arrependi no mesmo instante.
— Tem certeza, ?! Que sou eu aquele que está confuso? Eu acho que você inverteu os papeis..!
— Eu não..! — foi quando ela me viu parado na porta. — !
, que estava de costas e sem camisa se virou imediatamente, mas não antes que eu percebesse os vergões vermelhos que cobriam suas costas.
, vamos sair daqui — tentou me puxar pelo braço, mas me afastei.
Meu coração acelerou e eu quase podia sentir o sangue quente correndo por minhas veias, enquanto eu olhava para o casalzinho que estava na minha frente.
Respirei fundo, tentando me acalmar e passei a língua pela bochecha, tentando conter minha incredulidade que, infelizmente, saiu em forma de um sorriso sem humor.
Olhei para o buquê na minha mão, me sentindo um completo idiota. Dei alguns passos a frente, até ficar cara a cara com ela.
, eu...! — ela tentou falar, mas levantei um braço em um pedido mudo para que não o fizesse.
E então, simplesmente o joguei aos seus pés de um jeito qualquer, depositando naquele ato todo o desprezo que sentia no momento e a encarei por alguns instantes.
Me virei, pronto para ir embora, quando tentou falar algo.
— Espera, cara. Nós temos que- Ah! — o interrompi com um soco no estômago, movido pela raiva. Sequer pensei duas vezes, mas se eu pudesse, faria pior.
exclamou em choque, fazendo com que eu voltasse minha atenção para ela. Alternei o olhar entre os dois, estava apoiado no sofá ainda tentando recuperar o fôlego perdido com o soco, enquanto que apenas me encarava, perplexa, como se fosse chorar a qualquer momento.
Senti meus próprios olhos arderem também e por fim, tomei a liberdade de falar o que estava engasgado na minha garganta desde o momento que abri a porta.
— De todas as pessoas... — ele comecei a falar, mas parei para respirar fundo quando senti meus olhos pinicarem outra vez. — De todas as pessoas, ... você era a única que nunca imaginei que fosse capaz de algo do tipo. Mas tudo bem, não é? Erro meu. Afinal, nós não temos qualquer tipo de relacionamento, certo? Você estava só exercendo o seu direito.
Foi quando suas primeiras lágrimas começaram a cair
, não faz isso...
— Não fazer o quê? — eu ri, sem humor e foi quando acidentalmente deixei escapar uma única lágrima que escorreu pelo meu rosto, mas que eu rapidamente limpei. — Eu acho que nós não temos mesmo mais nada a fazer, — murmurei e foi quando lembrei da caixinha que eu carregava no bolso.
Tirei-a e a depositei em uma de suas mãos, da mesma forma que fiz com o buquê que estava aos seus pés.
— Não se preocupe, não era um pedido de casamento — fiz questão de deixar claro, antes de me virar e dessa vez, ir embora.
Andei com passos determinados até o térreo do prédio e agradeci mentalmente por estar sozinho e não com o meu secretário que tinha me acompanhado nos últimos dias, eu não queria ter contato com ninguém naquele momento.
Destravei o Audi R7 que eu estava naquele dia e entrei, logo dando a partida e tentei acalmar o turbilhão de sentimentos ruins que me invadia, enquanto eu dirigia sem rumo.
Eu sabia que eu não podia cobrar nada dela e nem ela de mim, visto que não tínhamos um relacionamento sério, mas não pude evitar que a raiva, a mágoa e, de certa forma, um sentimento de inferioridade me invadisse.
Talvez porque o cara com quem ela tinha dormido não era qualquer um. Se fosse, eu também teria ficado zangado, mas talvez eu tivesse entendido... Depois de um tempo. Ou não.
Mas o fato dele ser ... Só tornou tudo pior. Porque eles têm uma história juntos. Porque eu sei que ele foi o seu primeiro namorado, o primeiro homem em sua vida.
E porque sei que só houve ele e eu.
Eu achava que estava tudo acabado e tentei enxergar isso de uma maneira branda. Não senti como se fosse algo que fosse me impedir de ficar com ela e deixei isso bem claro para .
Eu estava disposto a ter algo a mais com aquela mulher porque sei o quão maravilhosa e admirável ela é. E eu achei que talvez ela correspondesse meus sentimentos, principalmente depois dos dias que passamos juntos em Bangkok.
Mas aparentemente, eu não fui o suficiente.



Fazia cerca de uma semana desde a confusão no apartamento de e eu estava no meu segundo plantão no hospital com ela.
E também fazia uma semana que ela evitava falar comigo.
Eu estava tentando ser paciente e dar espaço para ela, mas eu já não estava mais aguentando aquele clima estranho.
Era bem melhor quando ela apenas me odiava, porque agora tudo parecia... Vazio.
Nosso plantão já estava no fim e eu sabia que tinha ido ao quarto de repouso trocar de roupa para ir embora e assim que ela entrou no banheiro, eu aproveitei a chance para trancar a porta do quarto e pegar a chave.
Como se era de se esperar, ela ficou bastante irritada quando me viu ali e percebeu a porta trancada.
Mas devo acrescentar que em toda essa semana que se passou, foi o momento em que a vi parecer mais viva, já que ela estava completamente apática desde que havia voltado a trabalhar. E eu suspeitava que ela havia perdido peso, já que não conseguia se alimentar bem nos últimos dias. Algo relacionado ao seu estômago, aparentemente.
Eu não pretendia trancá-la ali por muito tempo, no entanto. Apenas o fiz, porque todas as outras vezes em que tentei me comunicar com ela, havia uma desculpa e ela sempre fugia. E eu precisava realmente de um tempo curto.
, me dá essa chave agora — ela exigiu, estendendo a mão.
Suspirei.
— Não antes de você me ouvir.
— Eu não quero ouvir, você ainda não percebeu?
— Sim. Infelizmente, eu percebi. Por isso, te tranquei aqui. Eu prometo não demorar, .
— Certo. Fale logo de uma vez, então.
— Certo... Então, sinto muito pelo o que aconteceu. Você estava certa... Não era para ter acontecido. Mas de certa forma, eu acho que era o que precisávamos para colocar um ponto final em nossos mal-entendidos. E... droga, eu não sou bom com essas coisas — falei, um pouco nervoso. — O que quero dizer é que eu entendo que a atração que sentimos um pelo outro não é suficiente para nos manter juntos, especialmente agora que existe outra pessoa na sua vida e ele é um ótimo cara.
— Você quer dizer existiu, no verbo passado — ela corrigiu. — se foi.
— Ele vai voltar — falei com convicção. — Você vai ver, . Eu acho que, no fim, vocês dois estão destinados a ficar juntos. E... Bem, eu estaria mentindo se dissesse que estou bem com tudo isso, porque eu não estou. E acho que nenhum de nós, na verdade. Eu ainda gosto de você, como sabe. Você foi minha primeira pessoa em muitas coisas, também. E continua sendo alguém que considero bastante importante e especial para mim.
— Por que está dizendo tudo isso? — ela perguntou, com a voz falha. Normalmente, ela não choraria ouvindo isso, como eu b sabia, mas seu humor estava em frangalhos nos últimos dias.
Me aproximei dela e estendi uma mão. a tocou e deu um passo a frente, se aproximando também. Levei sua mão até meus lábios e a beijei carinhosamente, antes de apertá-la entre as minhas.
— Eu estou dizendo que, juntos, nós fizemos memórias incríveis que não podem ser apagadas. E que embora tenha chegado ao fim, saber que eu te amei e que fui amado já é bom o suficiente para mim.
... — murmurou, chorosa. — Isso é a letra de Love Scenario do iKON? — perguntou, de repente e nós dois rimos. Sequei uma lágrima que escorreu em seu rosto.
— Você percebeu, foi? Eu ouvi recentemente e achei que é exatamente o que eu estou sentindo agora — sorri, tocando seu rosto. — Espero que você ouça ela depois também e sinta o mesmo. Embora tenha sido aos trancos e barrancos... Eu acho que nós tivemos um belo e decente final, .
Ela sorriu também e assentiu, esticando a mão para acariciar meu cabelo.
— Obrigada — disse e me abraçou, encostando a cabeça em meu peito. — Eu acho que nós aprendemos muito um com o outro, embora eu nunca tenha te dito isso. Eu vou lembrar de nós como uma memória feliz.
Sorri, dessa vez sentindo uma pontinha de felicidade e alívio.
— Espero que você não me evite, de agora em diante — brinquei, fazendo-a rir.
— Desculpe.
— Você e vão se acertar, . Confie em mim. — Eu sei o que fazer, pensei comigo mesmo.
Mas apenas suspirou e permaneceu calada, por um tempo, antes de me soltar e nós dois irmos embora.


Toquei a campainha do apartamento de e esperei.
Eu não sabia se ele estava em casa, mas também não iria usar a senha que ele havia me dado há alguns meses atrás para descobrir.
Depois de um momento em silêncio, toquei-a novamente e foi quando ouvi o barulho de algo quebrando.
Um momento depois, a porta se abriu e apareceu, mas assim que viu que era eu, ele tentou fechar a porta na minha cara. Já imaginando algo do tipo, eu consegui impedir e o forcei a abrir, o que não foi muito difícil.
cambaleou um pouco e foi quando percebi que ele estava completamente bêbado.
— Se manda, — murmurou, indo em direção ao sofá e pegando de volta uma garrafa de whisky que estava em cima da mesinha de centro. Não havia um copo ali e eu deduzi que era o que tinha sido quebrado e agora não era nada mais que alguns cacos de vidro ao lado da mesinha.
bebeu direto no gargalo como se estivesse tomando um suco.
Olhei ao redor e deu apartamento estava bagunçado, com louça suja ao redor, roupas espalhadas aleatoriamente e todas as janelas estavam fechadas com cortinas escuras, de modo que toda a iluminação que havia ali provinha de alguns abajures acesos.
— Eu mandei você ir embora — ele disse, falando em inglês comigo. Provavelmente seu coreano estaria carregado de sotaque. Me movi até os cacos de vidro e me pus a recolhê-los com cuidado para evitar que ele pudesse se machucar.
Fui até a cozinha e os joguei no cesto de lixo, ignorando as reclamações de .
Quando voltei, percebi que a garrafa que estava na metade antes, agora possuía bem menos que isso. Mais um pouco e ele acabava com ela, assim como as outras garrafas de bebida que encontrei jogada em um canto da cozinha.
Ele estava tentando se matar, por acaso?
Respirei fundo, me preparando para colocar meu plano em ação.
Bêbado ou não, ia me ouvir.
— Bebendo de dia, ? Eu esperava mais de você. Que decepção.
— Ah, está de dia, é? — ele perguntou, irônico.
— Você não viu amanhecer? Há quanto tempo está aí agarrado com essa garrafa?
— Não sei, não lembro. Mas tanto faz — e bebeu outro gole.
— Você, por acaso, está tentando entrar em coma alcoólico? — perguntei, irritado.
— Por quê? Você vai chamar uma enfermeira para que ela aplique glicose em mim ou você mesmo vai fazer isso, já que também é um? — ele riu.
— Bem, parece que fez um estrago e tanto com você. Está tudo uma bagunça, inclusive você.
— Cale a boca, . Se veio para isso, vá embora. Eu não quero falar com você, se não percebeu.
— Vocês dois realmente foram feitos pro outro, até mesmo falam da mesma forma — eu ri, sem humor.
permaneceu sério e me encarou com seus olhos frios. Ele podia estar bêbado, mas como eu pensei, ainda conseguia compreender muito bem o que eu falava.
— Talvez fôssemos, se você não tivesse aparecido de novo — ele acusou.
Bem, talvez ele tivesse razão.
Se eu não tivesse reencontrado , ela provavelmente estaria com ele e eu estaria casado com uma vadia traidora.
Mas não podemos mudar o passado, infelizmente.
— Você pareceu bem frio naquele dia, não sabia que isso iria te afetar tanto.
— Vai se foder, .
— Hm, uma boa coisa a se fazer, pena que...ei! — desviei de uma garrafa de soju vazia que ele atirou em mim e se espatifou na parede. — Por que você não pára de encher a porra da cara e vai tomar um banho? Ou, por acaso, álcool é o seu mais novo perfume? Eu realmente estou decepcionado com você, . Não achei que fosse desistir tão fácil de .
— O que você sabe?! — ele gritou, irritado, se levantando. — De todos, , eu preferia que tivesse sido qualquer um menos você! — e me empurrou, me fazendo dar um passo para trás.
— Vai adiantar se eu disser que estávamos bêbados? Eu sei que não. Mas você é quem ela ama. Infelizmente, eu só pude ter certeza disso naquele dia, quando ela disse que foi um erro. Quando ela te viu lá e depois quando, assim como você, ficou uma pilha de nervos, com o humor em frangalhos, chorando a qualquer momento. A diferença é que ela não pode simplesmente ficar em casa e bebendo que nem você.
— Talvez seja sua consciência pesando, quem sabe — ele deu de ombros, fingindo não se importar, mas eu sabia que ele o fazia.
— Não seja idiota, . Vocês dois estão sofrendo em vão. Eu não estou dizendo que não amo , mas vou te dizer o que eu disse a ela. Embora eu sinta falta dela, tê-la amado e ter sido amado por ela no tempo em que namoramos foi o suficiente. Ela pertence a outra pessoa agora e não sou eu.
— Ela não pensou nisso, quando dormiu com você — ele riu, sem humor, voltando a pegar a garrafa de whisky para tomar o último gole.
— Mas você decide o que fazer, porque está em seu poder agora. Ela não vai te procurar porque acha que agora você a odeia. Mas tudo o que eu vejo são duas pessoas magoadas sofrendo juntas. Vá e aceite de volta sua garota, . Não desista como eu fiz. Não enquanto vocês ainda se amam.
ficou em silêncio, de costas para mim.
Não esperei por uma resposta, no entanto. Apenas me virei e fui embora silenciosamente, deixando-o a sós com suas garrafas e escuridão.


23. x


Assim que terminei de trocar de roupa, peguei minha bolsa e saí ao fim de mais um dia de trabalho.
Eu mal podia esperar para chegar em casa e tomar um banho quente e demorado.
Infelizmente, eu vinha me sentindo mais cansada que o normal nos últimos dias, mas talvez seja porque não estou tendo apetite para me alimentar direito.
Às vezes, acordo com fome, mas tudo o que coloco na boca parece enjoativo e acabo comendo menos que o normal.
Eu achei que tivesse me livrado disso no fim da faculdade, mas pelo visto não. Eu nunca conseguia comer cedo, logo após acordar e isso perdurou por vários anos, assim também como sumiu por alguns.
Talvez fosse o estresse.
Eu estava um porre ultimamente e preferia evitar ao máximo falar com as pessoas, o que é irônico sendo que tenho que lidar com pacientes. Com exceção disso. Qualquer oportunidade que eu tinha de evitar, eu evitava, simplesmente eu não tinha a mínima vontade de abrir a boca para falar ou jogar conversa fora seja com a equipe ou os pacientes.
E hoje, especialmente, eu estava pior. Hoje só estava Lola e no plantão diurno, mas felizmente ela entendia e não forçava a barra; talvez tivesse comentado algo a respeito.
Tirando essa falta de vontade enorme de me socializar, havia algo de bom acontecendo.
Como, por exemplo, e eu fazendo as pazes. Acho que por algum tempo, ainda haverá um clima estranho entre nós, mas nada que o tempo não resolva. Além disso, eu me sentia grata pela música.
Love Scenario realmente é uma coisa. E nos ajudou a colocar um fim no que tivemos algum dia.
Peguei um elevador e me dirigi para a entrada de emergência do hospital, já que a entrada pela qual os profissionais transitavam estava interditada para algum tipo de reforma na instalação elétrica desde o dia anterior.
Caminhei ao mesmo tempo que checava umas mensagens e ligações perdidas de , e minha mãe até que acidentalmente esbarrei em alguém.
— Me desculpe... — falei, mas imediatamente reconheci a pessoa. — Secretário Park? O que está fazendo aqui? Aconteceu algo?
Afinal, o que o secretário de fazia ali?
— Senhorita , olá — me cumprimentou rapidamente. — É o presidente ... Ele bebeu um pouco demais e... Eu o encontrei desacordado em casa e o trouxe para cá, acho que ele entrou em coma alcoólico...
— O quê? Onde ele está? — olhei em volta.
— Ele chegou há pouco tempo, no entanto, já descansa em um quarto. Eu estava indo agora na recepção para terminar o seu cadastro e...
— Certo. Vamos lá — o acompanhei até a recepcionista. — Em qual quarto ele está? — perguntei a ele.
— 2702 — disse e eu assenti.
— Boa noite, Eun Ji. Eu gostaria de saber sobre um paciente... , o sr. Park veio terminar de fazer a ficha dele... E eu vim avisar que irei acompanhá-lo, ele é um amigo próximo.
— É verdade — secretário Park disse, de prontidão.
— Só pode haver um acompanhante por vez... Será a enfermeira primeiro? — ela o indagou.
— Claro, não há problema. De qualquer forma, eu tenho umas coisas a resolver.
— Certo, só um momento, por favor.
— Tem certeza que quer ficar, senhorita? Parece cansada — o secretário Park murmurou.
— Um pouco, eu acabei de sair de um plantão... Mas posso passar a noite com ele, não se preocupe.
Sr. Park suspirou e abriu a boca para falar, mas nada saiu. Ele parecia incerto sobre o que dizer, mas no fim se decidiu.
— Senhorita ... Eu acho... O presidente anda estranho ultimamente desde que vocês... Ahn, se desentenderam. Ele anda isolado e acredito que se tivesse tanto tempo como teve hoje, estaria bebendo assim todos os dias. Eu não sei bem o que aconteceu entre vocês, pois ele não disse. No dia que foi visitá-la, ele saiu da empresa de bom humor, mas quando o encontrei algumas horas depois, ele parecia muito diferente. Perguntei sobre a senhorita e ele disse que não tinha nada a falar sobre você e me pediu para não mencioná-la. No entanto, agora que a vejo... Talvez isso esteja afetando vocês dois...?
— Sim, você está certo. Acho que está nos afetando. Eu... Errei com e entendo a raiva dele. Entendo que ele não queira mais me ver e sei que pedir desculpas não adianta, porque ele não vai ouvir. Mas eu irei passar a noite com ele, se não se importa.
— De forma alguma. Na verdade, acredito que vocês precisam conversar em algum momento.
— Talvez... Bem, de qualquer forma, não quero irritá-lo. Assim, tentarei sair cedo, antes que ele acorde, ok? — ele assentiu. — Obrigada, secretário Park.
— Digo o mesmo a você, senhorita. Agora que o presidente está aqui, preciso urgentemente desmarcar algumas reuniões da empresa, já que ele não poderá comparecer, então — ele se despediu com uma reverência -, boa noite.
— Boa noite — fiz o mesmo.
Abri a porta do quarto e encontrei ainda desacordado. Ele não ia despertar tão cedo depois de beber tanto e eu aposto que ia ter uma enxaqueca enorme no dia seguinte.
Me sentei na cadeira que estava ao lado da cama e coloquei minha bolsa no chão.
Peguei meu celular para ver as horas e estava perto das oito. Iria ser uma noite longa, mas não importava, afinal, eu estava de folga no dia seguinte de qualquer modo. Mas resolvi avisar as meninas.
"Não vou pra casa hoje. O bebeu demais e 'tá no hospital. Vou passar a noite com ele", digitei e enviei.
foi a primeira a responder.
"Ele entrou em coma? O que aconteceu? Por que ele fez isso?"
"O sr. Park me disse que ele está diferente... Desde aquele dia... Mas ele não sabe dizer qual o real motivo."
"Quer que eu vá ficar aí? Você acabou de sair de um plantão"
, ela ofereceu.
"Não precisa, eu tô bem. Já estive bem pior que isso, mas vou tentar dar um cochilo. Vou desligar o celular um pouco para poupar bateria, esqueci o carregador casa."
"Ok, tenta descansar um pouco."

Encarei outra vez e ele ainda dormia profundamente. A medicação estava quase no fim e esperei um pouco antes de trocar pelo soro reserva que estava lá.
Ele provavelmente estava bem desidratado a julgar pela quantidade de soro e também por seus lábios ressecados.
Peguei um pedaço de algodão dentro da bolsa e o umedeci com um pouco de água. Em seguida, passei suavemente sobre seus lábios, para hidratá-los um pouco.
Sorri por um breve momento quando ele se moveu involuntariamente com o toque e virou o corpo para o lado contrário.
Dei a volta na cama e voltei a me sentar na cadeira, de frente para ele. Apoiei a cabeça nos braços e continuei a observá-lo pensando nos momentos bons que passamos juntos.
Lembrar deles hoje doía. E me pergunto se continuará assim... se sentirei isso sempre que o vir em algum lugar.
Talvez a resposta seja sim. Afinal, como eu poderia esquecê-lo?
Respirei fundo, fechei meus olhos e resolvi deixar que o cansaço dos últimos dois dias tomasse conta de mim e me fizesse dormir um pouco.
Antes de amanhecer, eu partiria.


Me espreguicei um pouco, antes de abrir os olhos e perceber que eu estava em um hospital. Havia um acesso no meu braço direito que deveria ter sido fechado já que não havia nenhuma medicação correndo.
Olhei para o outro lado, sentindo minha cabeça pesar de dor e encontrei dormindo em cima dos próprios braços, apoiados em um pequeno espaço próximo da borda da cama.
Tinha o cenho franzido, formando uma linha quase invisível entre seus olhos e olheiras mais escuras que o normal. Parecia cansada e mais magra.
Afinal, porque ela estava ali? Eu sequer sabia como tinha ido parar no hospital. A única coisa que lembro é de atirar a garrafa de whisky na porta, logo depois que saiu e depois apagar de vez.
Talvez o secretário Park deva ter me encontrado, mas onde estava ele?
Olhei novamente para , que tinha o cabelo um pouco bagunçado pelo rabo de cavalo que se desfazia.
A julgar pelas roupas e a bolsa ao lado da cadeira, ela devia estar saindo do trabalho ontem. Mas porque resolveu passar a noite comigo?
Involuntariamente, movi minha mão até seu cabelo, mas a recolhi logo depois quando ela se mexeu e acordou.
? ! Você já acordou? Que horas são? — ela perguntou e olhou para a janela, que começava a mostrar os primeiros raios de sol. — Você está bem? Está sentindo alguma coisa? Alguma dor ou...? — ela esticou o braço para tocar minha mão, mas eu a afastei, me esquivando de seu toque.
parou de falar no mesmo instante e pareceu envergonhada.
— Você está bem?
— Por que está aqui? — eu quis saber.
— Eu encontrei o secretário Park quando estava saindo do trabalho ontem e ele me disse sobre você — respondeu, em um tom baixo. — Ele tinha algumas coisas para resolver na sua agenda e eu me ofereci para ficar.
— Droga, a reunião..! — coloquei uma mão na testa, me lembrando subitamente. Iria levar mais algumas semanas para conseguir remarcar uma nova.
— Era muito importante? — perguntou, com timidez.
, o que está fazendo aqui? Por que está aqui?!
— Eu... Queria me certificar de que você estava bem.
— Por que se importa? Não temos mais nada que justifique isso — a lembrei.
Ela respirou fundo, antes de responder.
— Mas tivemos. E é suficiente. Escuta, ... eu... Sei que você provavelmente me odeia agora, mas eu sinto muito. Por tudo.
— Que seja. Você pode ir embora agora.
— Eu vou, mas eu combinei com o secretário Park que iria assim que ele chegasse para não te deixar só e-
— Eu não me importo de ficar só. Só vá embora.
— Mas ...-
— Eu não te quero aqui. Será que você não entende? Eu não quero te ver — falei, firme, sentindo o coração acelerar. — Apenas vá, — completei, desviando o olhar.
Com a visão periférica vi ela se livrar de uma lágrima que havia caído e uma parte de mim me odiou por isso, mas a outra sabia que era necessário. Assim, não voltei a encará-la.
— Quer saber? Você tem razão, — ela disse, pegando a bolsa e o celular. — Eu não devia ter vindo. E quanto a nós... Conhecendo a mim e a você, sei que não há nada que possamos fazer. Sinto muito pelo aborrecimento — e então fez uma reverência e saiu.


Fazia três dias que eu vomitava. Não sei se por estresse ou intoxicação alimentar. Mas a minha menstruação desregulada me fez pensar em... outra coisa.
Normalmente, eu não ligaria para alguns dias de atraso, pois era bem comum nos meus ciclos, no entanto, eu havia tido relações sexuais sem camisinha por várias vezes. Eu estava protegida pelo meu anticoncepcional, é claro, mas eles nunca são cem por cento. Por isso, eu sempre havia preservativo também.
Fosse com , quando namorávamos ou com . Entretanto, durante os dias que passamos na Tailândia, sequer nos importamos com isso. Já ocorreu de algumas vezes esquecermos, mas como usávamos dupla proteção nunca se mostrou um problema. O meu ciclo sempre funcionou na normalidade. Mas eu nunca me sentia tão enjoada como agora.
Assim, com medo e o coração na mão, resolvi comprar um teste de farmácia.
Eu não achava que fosse uma gravidez, até porque poderia haver N fatores, mas era bom ter certeza. Eu me sentiria melhor assim ou, caso contrário, não conseguiria dormir com a dúvida. Então, era melhor descartar a ideia o quanto antes.
Respirei fundo, antes de abrir a caixa e o fiz.
Foram os três minutos mais demorados da minha vida. Enquanto olhava para o cronômetro no celular, eu tinha minhas mãos no meu ventre, parte de mim torcendo para que o teste desse negativo, enquanto a outra involuntariamente imaginava uma criança parecida com .
E se desse positivo? O que eu iria fazer? Será que ele iria querer a criança, mesmo me odiando? Droga, é óbvio que iria. Ela não teria culpa de nada, afinal. nunca abandonaria uma criança.
Ele seria um bom pai.
Acho que eu que não seria uma boa mãe. Eu não tinha lá muitos instintos maternais dentro de mim. Gostava da minha independência e de não ter ninguém dependendo de mim. E eu era assim até com bichos de estimação. Por isso, sempre tive gatos. O cronômetro apitou e eu respirei fundo outra vez, antes de pegar o teste. Exalei alívio quando vi que havia apenas uma linha nele.
Negativo.
Ótimo. Não era um bom momento, não mesmo.
? Onde você está? — ouvi a voz de chamar.
— No banheiro! — respondi, mas antes que eu pudesse jogar o teste fora, ela já estava lá. Assim, o coloquei dentro do bolso do meu short jeans. — Oi!
Eu sei, eu deveria ter fechado a porta. Mas agora era tarde.
segurava uma toalha e algumas roupas na mão.
— Meu chuveiro tá com problema e a água não tá esquentando. Posso usar o seu?
— Claro que sim, eu vou fazer algo para comer, você quer? — perguntei, com a mão no bolso de trás cobrindo a parte que faltava.
— Quero. já deve estar chegando — falou enquanto entrava no box. — Pede pra ela comprar um suco ou sei lá na lojinha de conveniência.
— Vou mandar uma mensagem pra ela — falei e saí do banheiro, fechando a porta.
Eu achava desnecessário falar sobre o teste com as garotas. Afinal, tinha dado negativo e agora eu apenas ia fingir que nada tinha acontecido. Sem contar que não era algo que eu me sentia a vontade para falar. Então, retirei o teste do bolso e o enrolei em um papel toalha, antes de jogá-lo no lixo da cozinha. De repente, lembrei da caixa que eu havia jogado no banheiro e torci para que não precisasse usar o lixo. Ela provavelmente iria pirar se descobrisse.
Mas como ela agiu naturalmente e não falou nada depois de sair do banho, eu supus que ela não viu a embalagem. Eu me livraria dela depois.
viu você no hospital? — perguntou e eu dei de ombros, fazendo uma careta.
— Viu e não foi muito agradável. Acho que... Já era.
— Como assim já era?
— Ele não ficou feliz em me ver. Eu já esperava isso, no entanto. Eu ia sair antes que ele acordasse, mas acabou não dando certo.
— Qual é, tá dizendo que o não gosta mais de você, ? — perguntou, descrente.
— Acho que não era pra ser.
— Como não era? Ele é a pessoa que mais é pra ser. Aquele cara ama você, . Eu tenho certeza disso, porque ele já provou constantemente pela ações dele e você sabe. E olha só pra ele, lindo, rico, leal e esteve com você durante dois anos. Se ele não te levasse a sério, o que vocês tinham já teria acabado há muito tempo.
...
, nada. Só falta você admitir que sente o mesmo. Você ficou com e foi tudo a merda, mas pelo menos eu sei que serviu pra você ver que você e ele não tem mais futuro. Ele não era pra ser. Ele é seu passado, mas é seu presente. Depois de tudo o que me contou daquela viajem na Tailândia... Você quer mesmo se enganar e dizer que não é apaixonada por aquele cara?
— Eu acho que... Você tem razão — admiti.
Eu provavelmente tinha me apaixonado por no dia em que o conheci, mas eu não sabia na época.
— Aleluia!
— ...mas é complicado.
— Claro que é. Mas eu tenho culpa nisso também. Fui eu que sugeri que você ficasse com outra pessoa. E me falou que viria para te fazer uma surpresa, mas não me disse quando...
— Foi um mal-entendido, disse. — Tudo isso. Mas eu acho que talvez vocês consigam se falar depois que a poeira abaixar. Eu concordo com , não teria enchido a cara a ponto de entrar em coma alcoólico se você não o afetasse. E mais, eu acho que no fundo, ele deve ter ficado surpreso e talvez até tocado depois de descobrir que você passou a noite cuidando dele mesmo depois de um cansativo dia de trabalho.
— Claro que ficou — acrescentou. — Ele é pisciano. Ele não tem muito controle sobre isso. Mas também é orgulhoso demais para admitir — ela riu.
Mas tudo o que rodeava minha mente naquele momento era incerteza. Eu não sei se teria coragem de falar com ele depois de nosso último encontro. Por mais que em parte ele estivesse no direito de sentir raiva de mim, a frieza com que me tratou só me magoou e talvez essa fosse a intenção.
Mas eu também tinha orgulho. E eu não baixaria a cabeça para homem nenhum, mesmo o amando.


O secretário Park entrou na sala e o encarei, esperando respostas.
— O senhor Song disse que pode remarcar o jantar para a semana que vem e o Senhor Kang disse que só irá ter tempo na agenda em duas semanas. Contei que ocorreu um imprevisto para justificar a sua ausência.
— Muito bem, Joseph. Obrigado.
— De nada. Ah, senhor...! Não, nada — percebi que ele ia falar algo e desistiu.
— O quê, Joseph? Vamos, fale.
— Bom... Eu sei que não é da minha conta, mas... Porque o senhor não liga ou manda uma mensagem para a senhorita ...? Talvez agradecendo por ter cuidado de você, eu não teria conseguido contatar os senhores a tempo se não fosse por ela.
— E por que eu faria isso? Ela te ajudou, não foi? E você já agradeceu.
— Presidente , por favor. Não seja orgulhoso. A senhorita estava saindo do trabalho e prestes a ir para casa quando descobriu sobre você e se prontificou para te cuidar. Tenho certeza que quando a viu lá, o senhor percebeu o quanto ela parecia cansada.
Desviei o olhar para a parede de vidro do meu escritório, sem falar nada. E Joseph entendeu o recado. Eu não queria falar daquilo.
— Eu vou me retirar agora. Mas antes... O senhor tem certeza que não a ama mais? Porque eu tenho uma leve impressão de que ainda sim.
Soltei uma risada, sem humor. Muito audacioso esse meu assistente.
— Você tem razão, Park. Infelizmente, você tem razão. Mas de que adianta essa pergunta agora? Eu não tenho mais nenhum tipo de relacionamento com . Então, por quê?
— Bem, senhor... Porque as ações da senhorita certamente mostram que ela sente o mesmo pelo senhor. Apenas pare um pouco e reflita, reflita como alguém que vê tudo isso de fora e irá perceber — ela falou, antes de fazer uma reverência e sair.
Eu não queria pensar. Não mais. Porque eu só queria tirar aquilo da minha cabeça. Eu sabia que tinha sentimentos por mim, mas o fato dela ter tido uma... Recaída ou seja o que for com apenas deixou tudo confuso novamente.
E tão logo eu lembrei, automaticamente também ouvi a voz de falando na minha cabeça.
"Vá e aceite de volta sua garota, . Não desista como eu fiz. Não enquanto vocês ainda se amam."
Mas eu ainda estava com raiva. Não queria vê-la e ponto.
Ao menos não agora. E muito menos quis que ela me visse naquela situação no hospital. sabia que eu bebi demais por causa dela. Vai ver ela se sentiu responsável e resolveu ficar lá. Infelizmente, eu tenho meu orgulho.
E todas as vezes que eu tive algum tipo de decepção com uma pessoa, eu nunca dei o braço a torcer e apenas segui em frente.
Era o que eu planejava fazer de agora em diante. No entanto, o universo parecia conspirar contra isso, pois meia hora depois que o secretário Park deixou minha sala, eu recebi uma mensagem de .
, gatinho. Como você está? Tô mandando essa mensagem porque preciso de falar uma coisa. Que por sinal é algo que, aparentemente, nem eu nem deveríamos saber, já que não falou nada... mas eu descobri por acidente. E como de certa forma, tem a ver com você... Acho que tudo bem.
Franzi o cenho, sentindo a curiosidade aparecer e respondi no mesmo instante.
— O que houve?
— Ah, você tá online. Que bom. Então, meu chuveiro deu um probleminha e eu pedi a para usar o dela. Ela tava bem esquisita quando a encontrei... Mas achei que não fosse nada. Eis que eu encontrei uma coisa bem interessante no cesto de lixo do banheiro dela. Era uma caixa vazia de um teste de gravidez.
— O quê?!
— Eu não falei nada e nem ela comentou sobre isso comigo e . Acho que ela tinha acabado de fazer o teste quando cheguei e deve tê-lo escondeu ou jogado fora em outro lugar. Mas enfim, não é...
— Quando foi isso, ?
— Ontem. De qualquer forma, eu não sei o resultado, nem sei porque ela não contou sobre isso, ou se pretende contar... Mas achei que você deveria saber. Porque se estiver grávida... Pelo tempo... Só pode ser seu.
— Sim. Obrigado por me contar, . Você sabe onde se encontra agora?
— Nós duas estamos de plantão hoje no hospital. Está tranquilo, então creio que consiga falar com ela. Estamos aqui até às seis da tarde. Talvez quando você chegar, ela já esteja livre.
— Obrigado. Daqui a pouco, eu apareço aí. E não diga a ela que irei.
Como eu disse, o universo estava conspirando contra mim. E ainda mais essa. Eu sei que fizemos sexo sem preservativo algumas vezes, mas sempre toma contracepção injetável. Mas se ela fez um teste de gravidez... É porque alguma dúvida surgiu. Talvez algum sintoma...
Mas ela sequer falou para as suas melhores amigas sobre isso.
E se ela estivesse realmente grávida? E se não tiver contado para as meninas porque está esperando o melhor momento? Bem, eu não iria esperar mais tempo para descobrir.
Afinal, se ela estiver, o filho também será meu.


— Ei, . O que tanto conversa nesse celular? — perguntei, impaciente. — Você ouviu o que eu disse? Você viu se Jamie aferiu novamente a PA do senhor John?
— Nada demais, apenas conversando com — ela sorriu. — E sim, ela aferiu.
— Certo. Temos que manter a atenção nele. E mantê-lo calmo para a cirurgia de amanhã, para não haver mais alterações. Se a pressão estiver alta amanhã também, irão adiar a cirurgia outra vez.
— Acho que pode cuidar disso. Ele parece ter se dado bem com o senhor Min — ela riu.
— É, parece que sim — comentei, distraída enquanto terminava de fazer as anotações para a passagem de plantão.
O turno da tarde hoje foi composto por mim, e como enfermeiros, no entanto, pedi para ficar cuidando da papelada hoje já que não havia muitos pacientes. Estava quase acabando, quando alguém bateu na porta do posto de enfermagem.
Franzi o cenho, já que ninguém nunca batia.
— Pode entrar — falei, enquanto escrevia.
— Muito ocupada? — a pessoa perguntou. Me virei no mesmo instante e dei de cara com .
— O que você... Está fazendo aqui? — perguntei, me levantando.
— Precisamos conversar sobre algo.
— Oi, o cumprimentou.
... Está tudo certo com o senhor John. Acho que amanhã a cirurgia sai e... Espera, o que você tá fazendo aqui? — disse, depois de entrar de uma vez e então ver ali.
se virou para mim, não se ocupando em responder a . — Podemos conversar?
Ele perguntou com aquele seu jeito cordial de falar. No entanto, os olhos mostravam o contrário. Continuavam tão frios como da última vez que os vi.
— Creio que não seja possível.
— Cinco minutos do seu tempo, — ele disse.
— Estou ocupada agora, .
Algumas técnicas começaram a circular indo e vindo com bandejas de medicamentos, mas sem realmente parar para prestar atenção em nós.
... se quiser eu termino isso pra você. Nosso plantão já está no fim, de qualquer jeito. Quando Lola chegar eu passo o plantão para ela.
— Bem, e eu não temos mais nada a falar, já que agora não temos mais qualquer tipo de relacionamento.
... — ele murmurou em tom de aviso, segurando meu punho. — Eu realmente preciso falar com você agora.
E lá estava o impaciente. Parece que a cordialidade tinha ido passear um pouco agora.
— Então, , seja lá o que você tem para falar, você pode fazer isso aqui mesmo.
— Ah, é? — ele estreitou os olhos e sorriu, irônico. — Pois bem... Eu vou direto ao ponto, então.
— Já deveria ter feito isso-
— Você está grávida? — perguntou de uma vez, em alto e bom tom.
O problema é que agora todos que estavam na sala nos encaravam surpresos, em completo silêncio. Até mesmo Lola, que tinha acabado de chegar.
Eu quase podia ouvir os grilos cantando.


24. Comeback


Quase engasguei com aquela pergunta inesperada.
— O quê?! — perguntei, incrédula. Olhei para os lados e dei um sorriso amarelo para as pessoas que ainda estavam olhando. Eram um bando de fofoqueiros, isso sim.
— Mas olha só, pessoal! O nosso turno ainda não acabou! Acho melhor a gente ir terminando aqui, não é, ? — comentou, com um sorriso nervoso. — Que tal a gente ir passando o plantão enquanto a vai indo na frente?
Mas estava tão surpreso quanto os outros com a pergunta de .
— Você tá grávida? — ele perguntou, também e o presenteou com um tapa da cabeça. — Ai!
— Cala a boca, seu paspalho! E me ajuda a dispersar essa gente fofoqueira.
Não fiquei para ver o resto. Puxei pelo braço e o levei para o quarto de repouso, que estava vazio e nos tranquei lá dentro.
— De onde você tirou isso? — eu quis saber, tentando esconder o nervosismo que havia me atingido.
, no entanto, ainda parecia inalterável, sem nenhuma expressão no rosto.
— Um passarinho me contou que viu uma caixa vazia de um teste de gravidez no cesto de lixo do seu banheiro — ele falou, calmamente.
— Droga, — murmurei baixo.
— Ela disse que decidiu esperar que você falasse algo a respeito, mas pelo visto isso não aconteceu. achou que eu tinha o direito de saber, dada as circunstâncias.
E por circunstâncias eu sabia exatamente o que ele queria dizer. sabia que eu estivesse grávida, o bebê só podia ser dele.
— Ela deveria ter falado comigo primeiro. Você tinha mesmo que perguntar isso em voz alta para todos os meus colegas escutarem?
— Você não me deu escolha — ele deu de ombros. — Mas e então, , você está grávida?
Suspirei, controlando minha vontade de revirar os olhos.
— Não se preocupe quanto a isso, . Eu não estou. O teste deu negativo.
— E onde ele está?
— Eu o joguei fora. Pra que eu iria guardar aquilo? — perguntei, como se fosse óbvio.
assentiu com a cabeça e se aproximou de mim, colocando uma mão na parede, bem ao lado do meu rosto.
Seus olhos percorreram minha face e eu suponho que fiz o mesmo com a dele, me concentrando especialmente em sua boca rosada, quando ele a umedeceu para fazer outra pergunta. Havia um sorriso querendo puxar o canto de seus lábios, mas ele o manteve contido.
Talvez eu tivesse encarado seus lábios um pouco demais.
— Então, me responde outra coisa, ... Dada as circunstâncias... Se você estivesse realmente grávida, você me contaria?
Respirei fundo, apertando os lábios, antes de responder.
— Possivelmente.
— Possivelmente? — riu, sarcástico. — Isso é um talvez? Quer dizer que talvez você me contasse ou talvez NÃO — ele enfatizou.
Suspirei.
— Por que você está fazendo uma tempestade em um copo d'água? Eu não estou grávida. Você já pode ficar tranquilo.
— Porque eu não acredito em você.
— O quê? — foi minha vez de rir.
— Eu quero que você faça um exame de sangue amanhã e então nós dois teremos certeza se você está ou não. Amanhã eu irei até seu apartamento e iremos juntos até uma clínica.
, não tem necessidade disso.
— Óbvio que tem. Esses testes nem são muitos seguros e se você estiver grávida, esse bebê também é meu.
— Você fala como se eu realmente estivesse.
— E se estiver? — ele rebateu.
— Eu não... Eu não estou.
— Você acabou de hesitar. O que significa que não tem certeza. Porque você sequer fez um teste de farmácia? Suspeitando de algo, querida? — ele perguntou, irônico. — Você não teria feito um se tivesse dúvidas. E ainda mais um teste de farmácia. Estava tão preocupada assim, querida?
— Pára... Por favor, — pedi baixo, colocando a mão em seu peito, em uma tentativa inútil de afastá-lo. — Não me chame assim... Não desse jeito — acrescentei, com a voz falha.
Respirei fundo e desviei o olhar do seu, tentando espantar as lágrimas que começavam a se formar em meus olhos. Aquela palavra nunca soou tão dolorosa, sendo falada com tamanha ironia. Qualquer uma seria melhor.
Mas não aquela, não daquela forma.
— ele chamou, mas apenas mantive a cabeça baixa e o ouvi suspirar, em seguida. — Como quiser. Te pego amanhã às sete. — disse e se afastou.
Apenas me mantive no lugar e esperei até ele sair para que eu pudesse respirar normalmente outra vez.
Mas não foi bem o que aconteceu.



Eu tive que me segurar para não jogar tudo para cima e abraçá-la ali mesmo. Principalmente quando percebi que havia a magoado.
A expressão que ela fez apenas por eu ter dito aquela palavra de uma forma totalmente contrária da que ela sempre ouvia fez aquilo parecer quase como um xingamento.
Infelizmente, eu não pensei antes de falar.
Eu... Nós não estávamos acostumados a brigar. e eu nunca tivemos nenhuma discussão séria nos últimos dois anos. Talvez por nunca ter havido espaço para isso, já que não nos víamos com tanta frequência, mas... Mesmo assim. Era algo que eu sempre procurava evitar e suponho que ela também.
Mas infelizmente, eu não consegui fazer isso dessa vez.

***


Abri os olhos e observei o parque ao meu redor com a grama verde e bem cortada. Estava encostado em uma árvore, aproveitando a vista e a calmaria que emanava dela quando senti dois pequenos braços em meu pescoço. Olhei para o lado e vi o corpo pequenino de uma garotinha que devia ter três ou quatro anos a julgar pelo seu tamanho. Ela riu animada e sem perceber, fiz o mesmo, embora não entendesse o porquê.
Vem bincar, papai. Pegá eu e mamãe — e então ela riu de novo e saiu correndo. Foi quando vi um pouco mais na frente, seu cabelo estava escuro, com o corte um pouco maior que o de costume. E também riu enquanto a menininha ia de encontro a ela com seus passinhos curtos e rápidos.
Foi quando e finalmente entendi.
Desviei o olhar para minha mão esquerda e nela havia uma aliança de casamento.
— Papai! Vem logo! — a menininha chamou outra vez, impaciente.
E então eu acordei.

Encarei o teto branco do meu quarto, ouvindo o despertador do celular tocar. Ainda com o sonho na cabeça, me levantei e fui me preparar para ir com no médico.
Ela já estava pronta quando abriu a porta do apartamento, de modo que nem precisei esperar. Vestia uma calça jeans preta de cintura alta e uma blusa branca.
Não falamos muito durante o percurso até a clínica. Na verdade, não falamos quase nada. Depois de um pequeno tempo de espera, o médico nos atendeu e pediu para que fizesse uma série de exames. Ele daria o diagnóstico assim que estivessem prontos, no fim da tarde e pediu para que voltássemos naquele horário.
Uma mulher nos levou até uma sala de espera vazia e nos sentamos lá por alguns minutos.
— Você não precisa ficar aqui, se não quiser. Eu sei que você tem trabalho — ela disse, enquanto encarava o celular.
— Mas eu vou ficar. Porque eu quero — esclareci. — E mais tarde, irei acompanhá-la outra vez.
ficou calada e com um suspiro, colocou o celular no colo e cruzou os braços, olhando para a frente.
Na mesma hora, um casal entrou na sala, a mulher estava com uma gestação avançada e tinha um pouco de dificuldade para andar, apoiando-se no marido.
— Bom dia — eles nos cumprimentaram.
— Bom dia — respondemos juntos.
— Ah, minhas costas estão me matando — ela comentou. — Vocês dois deixam a mamãe muito cansada, sabia? — acrescentou, encarando a própria barriga, tocando-a com carinho.
— É sua primeira gestação? — perguntou.
— É minha segunda, nós temos uma menina em casa se quatro anos. E vocês, estão 'grávidos' também? — ela sorriu.
— Viemos para descobrir isso — respondi, antes de . — Ela não estava se sentindo bem nos últimos dias e desconfiamos — acrescentei colocando a mão no ombro de .
— Ora, ora. Eu espero que você esteja grávida, então. Aposto que a criança será linda. Não concorda, querido? — ela olhou para o marido que sorriu.
— Vocês fazem um belo casal — ele acrescentou.
— Obrigado — próximo, pensei. Não era novidade que fazíamos um belo casal. As pessoas sempre nos olhavam com aquele ar bobo e apaixonado sempre quando estávamos juntos.
sorriu fraco em agradecimento, mas eu sabia que ela havia se sentido desconfortável com o comentário. Afinal, não éramos um casal.
No entanto, a conversa não durou muito tempo e logo fomos chamados. Ela tentou mais uma vez me dizer que não havia necessidade de acompanhá-la nos exames, mas insisti mesmo assim. E um deles era uma endoscopia e diga-se de passagem, eu sabia que não ia ter condições de sair de uma maca por algum tempo após o exame devido a anestesia.
Quando finalmente acabou, percebi que demorou bem menos do que eu havia imaginado. Aquele era o último exame e estava ainda bem sonolenta, então eu mal falei com ela. Apenas a levei de volta para casa e me certifiquei de que ela comesse algo no caminho, já que ainda estava de jejum e iríamos demorar um pouco a chegar em sua casa. Então, eu passei em um café e comprei o café da manhã dela.
— Mal posso esperar para encontrar minha cama — ela comentou, enquanto mordia uma rosquinha. Estava menos sonolenta depois de comer e tomar café, mas não parecia ainda totalmente alerta. Quando chegamos, eu a acompanhei até a porta de seu apartamento.
— As meninas estão em casa? — eu quis saber. balançou a cabeça.
está visitando a família e está de plantão por 24h. Minha escala mudou um pouco após as férias, então não é sempre que estamos juntas no hospital.
— Certo... Mais tarde, quando eu sair do trabalho, eu venho te buscar para irmos novamente para a clínica. Até lá, durma e descanse. E coma algo na hora do almoço — falei e a assentiu com a cabeça.
— Obrigada.
— Até mais tarde — e então eu saí.

***


Eu tinha acabado de voltar para a empresa após uma pausa para o almoço quando Park me comunicou que Hi Ro e Sandra Lee gostariam de me ver em meia hora.
Eu não sabia do que se tratava, embora os conhecesse. Um casal de médicos amigos dos meus pais. No entanto, não exerciam mais a profissão. Até onde eu sabia, eles exerciam filantropia e tinham uma instituição destinada a crianças e adolescentes órfãos. Hi Ro e Sandra não tiveram filhos biológicos, mas praticamente tinham um monte de crianças adotadas que embora não vivessem com eles, tinham bastante contato.
De qualquer modo, fiquei curioso pela visita. Afinal, era a primeira vez que isso acontecia. No entanto, quando descobri o motivo, não sei se eu achei bom ou ruim.
— Desculpem? Vocês podem repetir? — pedi, ainda sem acreditar no que eu tinha ouvido.
Sandra sorriu para o marido, antes de olhar novamente para mim.
— Isso mesmo que você ouviu, . Queremos fazer uma reforma em nossa instituição e queremos que você a projete.
Eu ri, nervoso.
— Sra. Lee, é uma honra vocês terem me escolhido, mas faz tempo que eu não projeto... Eu não tenho muito tempo para arquitetura hoje em dia... Não sei se eu seria capaz de fazer algo grande assim depois de tanto tempo.
— Bobagem, garoto — Hi Ro disse. — Você é filho do seu pai, não é? Eu conheço os projetos de vocês dois. Tenho certeza que irá conseguir.
— Exatamente, querido — Sandra reforçou. — Nosso plano é fazer a reforma entre dezembro e janeiro, considerando que é uma época de férias para as crianças. Planejamos levá-las para uma temporada em duas de nossas casas de campo enquanto a instituição não fica pronta.
— Você pode ir visitar a instituição, se quiser, e também trouxemos a planta para servir de auxílio. E estamos te dando carta branca para fazer o que quiser.
Eu tinha de admitir que era algo realmente tentador para um arquiteto como eu. Ter carta branca em um projeto? Essas coisas só aconteciam uma vez em nunca. E mesmo tentando pensar com mais racionalidade, eu acabei cedendo ao impulso e aceitei.
Seria um desafio.
Mas eu estava mesmo sentindo falta de um.

***


Mais tarde, me encontrei novamente com não na mesma sala de espera que estivemos durante a manhã, mas com certeza era uma igual.
No fim, quando entramos no consultório médico, esperamos enquanto o médico analisava os exames até dar o veredicto final.
— Srta. , os resultados dos seus exames indicam gastrite. Há uma bactéria, portanto, irei passar um antibiótico para você tomar durante um tempo e peço para que passe por uma nutricionista para que ela lhe passe uma dieta adequada. Peço apenas para que evite tomar café e outras bebidas como refrigerante ou álcool e também evite comidas muito apimentadas.
— Entendi — ela assentiu com a cabeça.
— Por acaso, você passou por alguma situação de estresse nas últimas semanas?
— Bem... — ela hesitou um pouco. — as últimas semanas não tem sido exatamente fáceis, e também sou enfermeira, então o trabalho às vezes também é estressante, mas nada que nunca tenha me causado algum problema...
— Entendo. Quero que siga o que recomendei, então e daqui a um ou dois meses, nós repetiremos os exames para ver se você melhorou.
— Doutor, mas e então... — perguntei, finalmente, já que ninguém tinha falado nada. — Ela está grávida?
— Grávida? — o médico riu. — Não, com certeza não. — acrescentou e soltou o ar, aliviada. — Creio que o atraso em seu ciclo tenha sido devido a essas semanas estressantes que teve, srta. . De qualquer maneira, você disse que faz uso de anticoncepcionais injetáveis, certo? Bem, devo ressaltar que a margem de erro é realmente quase inexistente. Algo como 0.05% de possibilidade de erro. Claro, desde que não seja usado concomitante a medicamentos que cortam ou diminuem o seu efeito.
— Certo. Muito obrigada.

Após a consulta, vi se dirigir até a recepção e a puxei pelo braço.
— Aonde vai?
— Pagar a consulta — disse, como se fosse óbvio.
— Não precisa — falei. — Já está paga.
— Então, eu pago a você — colocou a mão na carteira para abri-la, mas eu impedi.
, não tem necessidade. Não foi nada demais — insisti, mas consegui apenas irritá-la.
— Ah, é. Tem razão. Por um instante, quase esqueci que você é , afinal. Esses meros exames nem devem fazer cócegas no seu bolso, não é mesmo? Pois bem, obrigada pela sua desnecessária generosidade, presidente . Mas se me der licença, irei embora agora — e seguiu para a saída em passos rápidos.
, espera... — corri atrás dela. — Eu não quis te ofender — expliquei, assim que a alcancei.
— Não importa, . Você sabe que eu não gosto quando você faz isso. Não é porque você pode, que você tem que fazer isso.
— Pense nisso em nome da nossa amizade, então.
riu.
— Amizade? Você mesmo disse que não temos mais nada. O que você pensa que eu sou, uma prostituta?! — perguntou, zangada. — Se não se importa, irei voltar sozinha agora! Adeus, seu babaca! — e se virou para descer os degraus até o estacionamento. O único problema foi que, quando ela fez isso, acabou virando o pé e teria caído, se eu não tivesse a segurado a tempo.

Deve dar para imaginar como terminou isso: eu levando de volta para a clínica para que examinassem seu pé torcido, enquanto ela reclamava que aquilo também era desnecessário, e eu a trazendo para casa — a minha — porque eu sabia que suas amigas não estariam em casa para ajudar, caso ela precisasse de algo.
— Não é como se fosse a primeira vez que eu machuco o pé, . Eu sei me cuidar sozinha — ela insistiu outra vez, enquanto entramos no meu apartamento. Mas eu apenas ignorei.
Levei ela até o sofá e a ajudei a se sentar, enquanto pedia comida para o jantar.
— Isso não é justo. Você está me deixando falar sozinha! — resmungou.
— Eu estou apenas preferindo só ouvir o que você tem a dizer, querida — falei, sem pensar e me encarou surpresa. Sorri, sem jeito — Força do hábito. Além do mais, o médico disse que você não podia se estressar.
Mas ela não respondeu nada.
Quando a comida finalmente chegou, eu preparei dois copos de suco — lê-se apenas coloquei em 2 copos — para bebermos. Eu não tinha muita comida de verdade em casa, pois não cozinhava e como o trabalho me ocupava o dia inteiro, eu sempre comia fora.
Então, eu não cozinhava por dois motivos: um era o tempo, o outro era minha total falta de talento culinário.
Comemos em silêncio, o que eu achava que era a primeira vez que acontecia. Eu havia pedido alguns sanduíches naturais para mim e , já que nem ela e nem eu estávamos em condições de comer algo mais pesado.
Digamos que eu ainda estava me recuperando do porre de alguns dias atrás. Estávamos sentados no carpete da minha sala, encostados no sofá — pois, por algum motivo, achava melhor ficar ali — e entre nós estava um prato com os sanduíches e os dois copos de suco.
Incomodado com o silêncio tenso entre nós, eu resolvi puxar assunto e comentei sobre o meu novo projeto para ela.
— Eles pediram pessoalmente para você fazer? Que legal, ! — disse ela.
— Sim, mas acho que estão me superestimando demais. Faz muito tempo que eu não projeto nada grande, então estou um pouco nervoso quanto a isso.
— Você vai se sair bem. De qualquer forma, se você tiver dúvidas, pode mostrar o projeto ao seu pai e ele pode ajudar também.
— É, eu sei... Mas mesmo assim. Eu não quero correr pra ele pedindo ajuda. Prefiro me virar. Além disso, eu tenho que dar um bom exemplo aos meus funcionários, não é?
— Tem razão — ela concordou. — Mas vai dar tudo certo, você vai ver. Eu gostaria muito de ver o projeto, quando estiver pronto. Tenho certeza de que será incrível — acrescentou, com um sorriso. Involuntariamente, eu sorri também.
— Eu tenho cerca de um mês para fazer. Eles querem começar a reforma logo que as crianças entrarem de férias. Enfim, de qualquer forma... Obrigado, .
— Não precisa agradecer... Eu quem deveria estar fazendo isso. Bem, obrigada também por se preocupar com meu pé, ainda que eu poderia me cuidar sozinha...
— Ah, você não perde uma oportunidade, né? Por que você tem tanta aversão de ter alguém cuidando de você, ?
— Não é que seja aversão, é que eu sempre me cuidei sozinha. Sempre fui independente. Então, me sinto desconfortável com isso, às vezes.
— Mas quando é o contrário, você não pensa nisso.
— Eu sou enfermeira, certo? — ela rebateu, com um sorriso. — Meu trabalho é cuidar das pessoas.
Revirei os olhos.
— Depois de dois anos, ... Você ainda fica desconfortável com meu cavalheirismo?
— Não se ofenda, . Mas eu posso fazer as coisas sozinha, sem precisar de ninguém mimando. Talvez as outras mulheres com quem você se envolveu gostassem disso, mas... Você sabe que isso em mim é involuntário.
— Pelo menos, você chegou a aceitar meus presentes.
— Alguns deles — ela corrigiu.
— Só os mais simples e bobos — assinalei, revirando os olhos novamente. nunca aceitava presentes caros. Mas se fosse alguma bijuteria insignificante ou livro, ou mesmo um mero bilhete... Esses ela aceitava de bom grado.
— Apenas porque eu acho que os simples e bobos mais valiosos — explicou, enquanto brincava com as próprias mãos. — Eu sinto muito, — falou baixinho. — Por te magoar e fazer você me odiar... Não era a minha intenção. Mesmo que você não acredite em mim.
De repente, a tensão se fez presente outra vez e a melancolia veio a tona.
— Eu não odeio você, . Eu... — ri, sem graça. — Não consigo te odiar. Confesso que tentei, mas foi em vão — admiti.
levantou a cabeça e uma lágrima escorreu de seu olho esquerdo.
...
— Mas sim, você me magoou. Não era algo que eu esperava, então eu ainda estou tentando lidar com isso. Dessa vez... Não deu para permanecer neutro, se é que você me entende.
Ela balançou a cabeça afirmativamente, antes de voltar a encarar as próprias mãos, enquanto novas lágrimas escorriam silenciosamente.
Um pouco hesitante, removi o prato e os copos que estavam entre nós dois e os coloquei na mesinha de centro a nossa frente.
Me aproximei mais um pouco dela e com uma mão levantei sua cabeça para que olhasse para mim e a outra, utilizei para limpar seu rosto das lágrimas.
, eu... — mas ela pulou em meus braços, antes mesmo que eu pudesse concluir a frase. rodeou os braços ao meu redor, me abraçando forte, enquanto ainda chorava baixinho. Surpreso pela sua súbita ação, demorei alguns segundos antes de retribuir o abraço.
E por mais que eu amasse tê-la novamente em meu braços, não deixei que ele durasse muito.
me encarou confusa, quando a afastei bruscamente, no entanto, eu a beijei antes que pudesse perguntar o porquê.



Os lábios de atacaram minha boca e meu pescoço em um quase desespero e foi com igual sentimento que eu o correspondi.
Fazia apenas semanas desde que estivemos juntos em Bangkok, mas a sensação era de que tinha sido há anos.
Abracei seu pescoço com uma das mãos e apoiei a outra em seu peito e deixei que ele me deitasse no chão, pressionando o peso de seu corpo contra o meu, provocando pequenas correntes elétricas pelo meu corpo. Quebrei o contato de nossas bocas em busca de ar, no entanto, não parou de me beijar um só segundo.
Com cuidado para não machucar meu pé, ele afastou minhas pernas, erguendo uma delas pelo meu joelho para que tivesse espaço suficiente para se encaixar ali e pressionar seu quadril contra o meu. Ele havia erguido meu vestido, revelando minha calcinha de algodão preta nada sexy — não que ele se importasse — e uma parte da minha barriga e se concentrou em meu pescoço, enquanto eu desabotoei sua camisa o mais rápido que pude.
No entanto, quando o fiz, ele não deixou que eu o tocasse por muito tempo e ergueu minhas duas mãos juntas acima de minha cabeça, me deixando a sua quase completa mercê e sem delongas, ele puxou para baixo umas das alças do meu vestido e sutiã juntas, revelando um de meus seios, que se transformou em uma nova distração para seus deliciosos lábios.
Gemi em agonia, sentindo o ponto entre minhas pernas começar a latejar pedindo por alívio e automaticamente movi meu quadril contra o seu. desceu as outras duas alças, expondo meu outro seio e foi a vez desse ganhar um pouco de atenção. Mordi meus lábios, sentindo uma gota de suor escorrer, pela minha testa e me contorci contra o seu aperto em minhas mãos.
... Por favor — implorei, cansada daquela pequena agonia.
Shh — murmurou contra o meu ouvido, se afastando e mordiscando um de meus mamilos levemente, o que fez eu me contorcer mais até ele enfim liberar minhas mãos. Eu estava uma completa bagunça por sua causa e ele nem havia me tocado muito.
Segurei seu rosto com as duas mãos e o beijei outra vez, entrelaçando meus dedos em suas mechas negras.
então levou uma de suas mãos para dentro da minha calcinha, me fazendo gemer contra sua boca e pressionar meu quadril contra sua mão.
— Você está tão pronta para mim, — ele disse, após quebrar o beijo e inseriu dois dedos dentro de mim. — Tão deliciosamente pronta...
... — implorei outra vez, puxando seus cabelos e ele retirou seus dedos de mim, usando-os para massagear toda a extensão do meu sexo. Felizmente, não durou muito tempo, já que ele próprio estava impaciente e tão excitado quanto eu, o que o levou a se livrar rapidamente da minha calcinha e desabotoar sua calça.
Segundos depois, ele entrou dentro de mim.
De uma vez só, em um único movimento firme e forte que fez com que eu perdesse a voz por um instante. Em seguida, ele começou a se movimentar rapidamente e eu coloquei a minha perna boa em sua cintura para apertá-lo mais contra mim.
Nos beijamos desajeitadamente por alguns instantes, mas desistimos quando a tensão foi se fazendo maior em meio aos nossos gemidos agoniados. enterrou o rosto em meu pescoço e se moveu mais rápido ainda, nos levando ao êxtase apenas alguns segundos depois. Mordi seu ombro, enquanto ele me apertava contra ele em um abraço forte e ficamos assim até nossos corpos pararem de tremer e nossas respirações se regularem outra vez.
Minutos mais tarde, estávamos os dois em silêncio, deitados um ao lado do outro no carpete macio de sua sala. Nenhum de nós falou nada e eu suspeitava que assim como eu, ele não queria estragar o momento com palavras.
apenas me abraçou contra ele durante todo o tempo, até eu apagar completamente.

Acordei em sua cama no dia seguinte. Eu estava sozinha e vestida em uma de suas camisas, que por sinal não havia sido vestida pelas minhas próprias mãos.
Me sentei na cama e olhei ao redor, encontrando meu vestido dobrado cuidadosamente em cima da poltrona que ficava ao lado da cama e em cima havia um pequeno post-it colado nele.
Me levantei para pegá-lo.
"Secretário Park estará te esperando no estacionamento para te levar para casa, assim que estiver pronta."
E era só isso.
Ele sequer assinou o bilhete. Não que fizesse diferença, já que só havia nós dois ali.
Aproveitei para tomar um banho rápido e só então vestir meu vestido novamente e desci para encontrar o secretário Park.
E como se não tivesse dormido o suficiente, assim que cheguei em casa vesti um pijama e comi algo rápido, lembrando de tomar meu medicamento do estômago, antes de então voltar a dormir.
Eu estava de folga, de qualquer forma.
Nada mais justo.

***


Quando anoiteceu, me mandou uma mensagem perguntando como estava meu pé.
"Está bem."
"Certo. Que bom. Eu tenho que ir agora, tenho uma entrevista. Depois nos falamos."

Mas não nos falamos.
Não nos falamos por quase uma semana. não mandou mais nenhuma mensagem e nem eu. Eu ainda tinha meu orgulho, afinal.
No fim, aquela noite deveria ter sido apenas uma recaída estúpida. Não que eu tenha ficado surpresa por ter acontecido. Nós tínhamos... Essa coisa há 2 anos e mesmo não tendo acabado da melhor forma, creio que era mais que normal sentir falta um do outro. Fiquei assim por alguns meses após terminar com e agora estava tudo se repetindo.
A diferença era que agora eu era a culpada. E por mais que eu quisesse dar o braço a torcer... Eu não iria correr atrás de uma incerteza. O que fosse para ser, seria. Mas agora só dependia dele.
Infelizmente, eu demorei tempo demais negando algo que estava bem debaixo do meu nariz: me amava.
E eu o amava também.
No entanto, eu não tinha condições emocionais para insistir nisso sozinha.
Talvez ele não me contactasse mais. Talvez a semana que se passou virasse meses e depois anos. Ou talvez ele estivesse apenas ocupado demais ou cansado demais de tudo.
Eu estaria, se fosse ele.
Por isso, só me restava esperar por "um dia, talvez".

Eu tinha acabado de voltar para o meu setor após o almoço, quando encontrei algumas das técnicas entretidas com algo que passava na televisão do nosso quarto de descanso.
Avistei Lola em um canto e ela acenou, me chamando.
Foi quando vi que não era ninguém mais, ninguém menos que na TV.
Ele estava dando uma entrevista e a repórter lhe fazia perguntas sobre a filial de sua empresa em Seoul.
— Eu não faço ideia do que eles estão falando, apenas quero olhar pra ele — uma das meninas disse.
— Ele tem a aparência de um idol. E já é tão bem sucedido nessa idade! — outra comentou, ao seu lado.
unnie é tão sortuda — a última falou e as outras concordaram, provavelmente sem perceber que eu estava ali.
Foi então que a repórter fez uma pergunta inusitada a .
— Sr. , agora que falamos sobre os negócios, o que acha de descontrairmos um pouco? Tem algo que está há meses deixando as pessoas bastante curiosas... — e foi então que apareceu na tela uma foto nossa. — Quem é a misteriosa mulher de branco ao seu lado? Vocês parecem muito bem juntos, embora não conseguimos ver bem o rosto dela.
deu um risinho cortês e eu percebi que ele não esperava aquela pergunta. A entrevista era gravada e ele poderia simplesmente não ter respondido, mas pelo visto havia já que aquelas parte tinha ido ao ar.
— A mulher de branco... É uma amiga.
— Amiga, é? Só isso? E como é essa sua amiga?
— Alguém forte, inteligente e esforçada.
— Assim como o senhor? Seria ela a versão feminina de ? — ela brincou, com um sorriso no rosto.
— Pode-se dizer que sim. Talvez — ele respondeu, entrando na brincadeira.
— Deve ser alguém bastante especial, então — ela comentou, mas apenas lhe deu outro sorriso cortês ao invés de mais palavras.
Instantes depois, eles se despediram e a entrevista terminou.

Lola me seguiu até o posto de enfermagem e ficamos lá sozinhas por um tempo, até as meninas voltarem.
— E você acha mesmo que acabou? — ela me perguntou, depois que eu contei sobre toda a confusão.
— Não sei. Mas eu não quero ser quem irá correr para ele.
— E você acha que ele irá correr para você?
— Dificilmente. Mas eu não queria que terminasse assim, Lola. Nem que fosse para nos despedirmos antes, mas não assim sem conversar.
— Eu acho que ainda é muito cedo para tirar conclusões. Talvez ele esteja apenas ocupado. E ele até falou de você naquela entrevista. Ele poderia simplesmente não ter respondido, você sabe.
— É, acho que sim... Mas não irei criar expectativas.

***


Mais tarde, quando voltei para casa, me entreti assistindo filmes da Marvel, enquanto comia alguns salgadinhos. Eu estava cansada, porém sem sono.
E estava sozinha já que tinha viajado, estava de plantão e estava trabalhando até tarde em um caso complicado.
Por um momento, fiquei tão entediada que até cogitei adotar algum bichinho de estimação para me fazer companhia nessas horas.
Já era quase uma da manhã, quando minha campainha tocou. Peguei meu celular para ver se havia mensagem de alguém, mas não vi nenhuma. Fechei o notebook e o coloquei de lado na cama, antes de me levantar e ir até a porta.
Olhei no mágico e encontrei parado com as duas mãos no bolso.
Abri a porta. — ? — ele sorriu, assim que me viu. — O que você tá fazendo aqui? — eu quis saber e foi quando ele se jogou nos meus braços, me abraçando por um segundo, antes de se afastar e segurar meu rosto com as duas mãos e começar a me beijar.
— Senti sua falta — e riu, bobo.
— Você tá bêbado? — coloquei uma mão no rosto dele, um pouco rosado por conta do álcool.
— De amor por você, querida — e sorriu de novo, antes de voltar a me beijar.
Era só o que me faltava: um bêbado carente.


25. Bêbado Carente


Empurrei para que se afastasse e ele deu um risinho bobo.
— Que tanto você bebeu?
— Acho que uma garrafa de soju só e uma cerveja. Ou foram duas? — ele estreitou os olhos, pensativo. — Acho que fiquei um pouco fraco por causa do coma da última vez.
— Você nem devia estar bebendo, . Mal se recuperou. Eu vou fazer um café forte para você se livrar desse álcool — falei, um pouco irritada. — E enquanto isso, é melhor ir tomar um banho também para ver se você acorda mais — acrescentei, empurrando ele em direção ao banheiro do meu quarto. — E cuidado para não escorregar no banheiro e quebrar o pescoço!
parou de andar e se virou para mim com um sorriso esperto no rosto.
— Se está com medo que eu escorregue, porque não vem comigo, querida? — e inclinou o rosto para me beijar outra vez, mas desviei o rosto antes.
— Nem pensar. Vou fazer um café e algo para você comer e sorte sua que amanhã eu estou de folga!
— Que chata, você — ele murmurou, com uma voz tristonha, fazendo bico com uma criança emburrada.
— Sou mesmo. Você já está cansado de saber disso.
— Sim, no fim, eu acho que deve ser seu charme — sorriu.
— Vai logo, — o empurrei de novo, ignorando o comentário e dessa vez, ele foi sem protestar.

Depois de alguns minutos, quando o café já estava pronto, eu fui até o meu quarto e bati na porta do banheiro.
? Eu fiz seu café, tem algo que você queira comer agora?
— Eu comi muito enquanto bebi, não precisa fazer nada — ele respondeu, a voz abafada pela porta.
— Ok, tem roupas suas no guarda-roupa — falei, antes de voltar para a cozinha.
Olhei a hora no meu celular e já era quase uma e meia da manhã. Peguei duas canecas e me servi também de café com um pouco de leite. Chequei as mensagens e enviei uma para , que estava de plantão naquele dia.
"Adivinha quem apareceu aqui há uns 10 minutos."
Ela não demorou muito para responder, provavelmente porque de noite não era muito movimentado.
"Hmm... se não foi o papai Noel com uma garrafa de Jack Daniels, eu chuto no digníssimo ? ~risada irônica~"
"Yep. E bêbado. Mas pior que isso, bêbado carente."
"O cheiro de bebida foi sentido pela voz da experiência KKKKKKK"
"Ele foi tomar um banho. Fiz um café para ver se corta mais o efeito... Mas na real, não sei porque ele veio."
"Bêbado tá deixando de ser novidade, agora CARENTE? ! Vocêsssss ficaram? ME CONTA ESSE NEGÓCIO DIREITO!"
"A gente não ficou. Mas ele chegou aqui já me beijando logo quando abri a porta. Acho que ele não tá nem consciente do que tá fazendo. Enfim, empurrei ele pro banho."
"G.G"
"Por que essa cara? Kkk não é como se fosse acontecer algo, ainda mais com ele bêbado."
"Se bem q já aconteceu, né querida. Naquele dia que você machucou o pé rsrsrs"

Revirei os olhos, tentando conter o riso. Eu precisava contar isso para depois. E ela ia surtar quando soubesse.
Coloquei o celular na mesa, quando voltou vestido em um short jeans confortável e uma camiseta preta sem mangas, seu cabelo continuava seco, salvo algumas pontas úmidas do banho e ele parecia consideravelmente mais sóbrio do que antes, embora não completamente.
Servi ele com uma caneca de café e ele puxou uma cadeira para se sentar também.
Ele bebeu um pouco e suspirou.
— Melhor agora?
— Uh, sim. Obrigado.
Um momento de silêncio se instalou, tornando a atmosfera esquisita. Nós praticamente não havíamos nos falado desde a noite que dormimos juntos e ele de repente, ele havia aparecido na minha porta daquele jeito.
— Você sabe que não devia beber por um tempo — falei, tentando quebrar o clima estranho.
— Sim, eu sei. E... desculpe por vir aqui assim.
— Tudo bem. Só achei estranho, considerando o fato de que você não fala mais comigo há alguns dias — alfinetei e ele riu pelo nariz.
— E nem você comigo — ele rebateu.
— E sou eu que deveria? — levantei uma sobrancelha, começando a me irritar ao lembrar dos últimos dias que eu esperei que nem uma idiota que ele mandasse ao menos uma mensagem.
— Eu... Ia te ligar. Mas... — ele não terminou de falar.
— Mas o quê, ? Porque você apenas não admite que foi um erro termos dormido juntos outra vez? Afinal, você meio que deixou isso bem claro quando me deixou sozinha, apenas um bilhete idiota. Uma pena eu ter percebido isso só quando me dei conta de que você não ia realmente me ligar. Que burra eu sou, não? — me levantei para colocar a caneca na pia, já lavando-a. Eu queria ocupar minhas mãos porque eu não sabia o que fazer e não queria ter que olhar para ele naquela hora, ainda mais depois de admitir tudo isso.
— Eu não acho que foi um erro — disse após um momento. Porém, eu não respondi e apenas continuei de costas para ele.
Ouvi o arrastado da cadeira, quando ele se levantou, mas continuei prestando atenção na louça. Eu provavelmente já tinha ensaboado a mesma caneca umas três vezes.
Senti os braços de deslizarem pela minha cintura em um abraço por trás e ele apoiou o queixo no meu ombro.
— Não foi um erro, você sabe que não — murmurou, beijando meu ombro desnudo.
Terminei de enxaguar o que faltava e então virei para ele.
— Eu só quero saber o que você quer de ver-
— Eu quero você, — ele disse, olhando nos meus olhos. Ele ainda estava um pouco alto, no entanto, eu tinha certeza de que estava agora consciente de seus atos.
— Você me quer... Como?
— Por inteiro — ele respondeu, me roubando um beijo rápido. E depois outro.
Na terceira vez, no entanto, o beijo foi mais profundo. Foi lento e fez meu coração acelerar outra vez. Nos separamos por falta de ar e nos encaramos por alguns segundos, nossos narizes roçando um no outro, até que eu me afastei e tomei impulso para que ele me pegasse no colo. Enrosquei minhas pernas em sua cintura e nos levou até o quarto.
Dessa vez, não foi tão rápido quando da última em que parecíamos dois desesperados um pelo outro, pelo contrário. Foi muito parecido com a nossa primeira vez juntos, há dois anos atrás naquele mesmo quarto e naquela mesma cama.
E durante aquele momento, eu me senti feliz. Como se as coisas tivessem voltando ao lugar.

***


Acordei com o barulho da porta se fechando. Abri os olhos e a primeira coisa que vi foi o meu despertador marcando seis e meia da manhã. E a segunda foi um bilhete escrito em um post-it verde colado nele.
"Tive que sair antes para me preparar para ir para o trabalho, não quis te acordar."
Aquilo foi o suficiente para me fazer sentar na cama com raiva. Amassei o bilhete e o joguei violentamente no chão do quarto. Pena que era só um pedaço de papel.
Procurei meu celular e o encontrei debaixo do travesseiro. No mesmo instante, abri o kakaotalk e mandei a mensagem mais carinhosa que pude para naquele momento, expressando todos os meus bons sentimentos por ele.
Digitei rapidamente e enviei. Simples assim. Sem risada, sem emoji. Ele entenderia que eu não estava brincando.
Depois disso, voltei a dormir. Porque eu estava de folga e com sono e porque eu não era obrigada a nada.
Muito menos aguentar essa fase adolescente do .



Tomei um banho rápido e me aprontei para ir para a empresa. Eu deveria chegar lá cedo, pois haveria uma reunião e a última coisa que eu poderia fazer era ter ido dormir fora de casa.
E pior: beber e correr para a .
Eu havia saído ontem com alguns colegas e acabei ficando mais tempo do que eu deveria lá, mesmo após quase todos já terem ido embora. Não bebi muito, mas incrivelmente minha tolerância a álcool parecia ter caído em dois terços.
Entrei no carro e joguei o celular no banco de carona. Ouvi ele vibrar algumas vezes, mas eu não estava no humor de checar as mensagens. Provavelmente era meu secretário me avisando que eu estava atrasado.
E ainda havia o projeto do abrigo... Bem, pelo menos eu já tinha encaminhado algo. Depois de alguns dias, eu terminaria e iria acompanhar as reformas, obviamente.
Só quando a reunião estava perto de ser finalizada, foi quando finalmente lembrei de ler as mensagens recebidas. Como esperado, havia algumas de Park, outras da minha mãe e da minha irmã... E havia uma de .
"Da próxima vez que você..." — toquei na mensagem para terminar de lê-la e me encontrei em um misto de surpresa e choque, logo em seguida. Eu não sabia se ria ou se fica assustado.
"Da próxima vez que você deixar outro bilhete pra mim, eu faço você engolir ele."
É, ela claramente não havia ficado nem um pouco feliz.
Eu só não entendia porque o bilhete era um problema. Não era algo novo entre nós, eu sempre havia feito aquilo.
Subitamente, as memórias da noite anterior surgiram.
"Não foi um erro, você sabe que não."
"Eu só quero saber o que você quer de ver-"
"Eu quero você, ."
"Você me quer... Como?"
"Por inteiro."
É, nós definitivamente precisávamos conversar melhor. E de preferência que nós dois estivéssemos sóbrios. Eu, principalmente.
Digitei rapidamente uma resposta e enviei.
Eu tinha certeza que estava me achando um babaca. Mas eu realmente andava ocupado com a reforma do abrigo e outros assuntos da empresa e a única coisa que eu queria fazer quando chegava em casa era tomar banho e dormir (com exceção de ontem, aparentemente, já que eu resolvi aliviar o estresse bebendo e... É.).
Já era quase nove horas da noite quando eu saí da empresa. Park havia pedido comida, e jantamos no escritório mesmo, para poupar tempo. Eu já estava fazendo horário extra por conta do projeto do abrigo, mas hoje eu não queria sair onze da noite.
Felizmente, a parte teórica estava praticamente finalizada e eu estava feliz de terminar alguns dias antes do prazo de início da reforma. Começaria em janeiro e já era quase natal.
Literalmente, pois já era noite do dia 23.
Senti o ar frio bater novamente em meu rosto quando saí e entrei no prédio que morava.
Toquei a campainha, mas ninguém atendeu. Toquei a de , mas ela também não estava lá. No entanto, abriu a porta, carregando alguns sacos coloridos de lixo, assim que eu coloquei o dedo na campainha da porta dela.
! E aí? Há quanto tempo, eu te cumprimentaria melhor, mas tô meio ocupada — ela disse, sorrindo.
— Deixe eu te ajudar com isso — me ofereci e peguei algumas sacolas.
— Você veio ver ? — ela perguntou.
— Sim, mas acho que ela não está em casa.
— Ela e estão trabalhando hoje.
— Soube que você estava viajando por uns dias... — comentei, quando entramos no elevador.
— Ah, sim. Eu fui ver minha família. Cheguei hoje de manhã. Minha mãe queria que eu ficasse para o natal, mas eu já tinha planos com as meninas.
— Ah, vocês vão sair? — perguntei. Eu tinha pensado em chamar a para irmos em um encontro, mas aparentemente não ia rolar.
— Nós temos um encontro de garotas. Com exceção do , é claro. Mas ele é praticamente nosso mascote.
— Ah, entendo...
— Por quê? Você ia chamar a para sair? Você sabe que ela não está muito feliz com você no momento, né?
— Hm, é, eu sei. O que eu fiz foi péssimo e eu esperava poder conversar com ela hoje. Eu sei que pareço um babaca, mas eu realmente estava ocupado esses dias, — falei, enquanto jogamos os sacos na lata de lixo.
— Bem. Boa sorte. Nós iremos ao Ex'Act amanhã. Caso queira nos encontrar, estaremos lá.
— Obrigado. Eu irei. Eu vou indo agora. Boa noite — e a abracei, agora que nós dois estávamos com as mãos livres.
— Tchau, . Vou bom te ver.

Peguei meu celular, quando estava na cama e enviei uma mensagem para .
"Eu fui te visitar para conversarmos hoje, mas descobri que você estava de plantão."
Ela respondeu quase no mesmo instante.
"Eu teria dito se você tivesse avisado que ia."
"Eu ia te convidar para um encontro amanhã, mas esbarrei com e ela disse que vocês já tinham planos."
"Sim, noite da tropa. Deveria ser só das meninas, mas também está solteiro."

Fiz uma careta quando li. Mas ela estava certa. Ela estava solteira também. Ela nunca havia deixado de estar. E mesmo que tivéssemos teoricamente "voltado", nós estávamos pior que antes. Antes pelo menos éramos amigos.
Antes eu podia sair e deixar um bilhete e era normal entre nós. Mas agora ela estava zangada e eu acho que tinha certeza do porquê.
Eu tinha que tirar toda a insegurança da minha garota e garantir que eu estava a levando a sério, assim como antes da nossa briga.
"Tudo bem encontrar vocês lá?", perguntei.
"Sim...", ela respondeu depois de algum tempo.
"Ok, então. Bom plantão."
"Obrigada."




(Coloque Lip & Hip - Hyuna pra tocar)

— O que acham desse? — perguntei, mostrando o macaquinho preto que eu tinha vestido. As duas olharam e sorriram, fazendo sinal de ok.
— Você tem que ir com esse — disse. — Usa com aquele salto vermelho — sugeriu.
— Que horas nós vamos sair? — perguntei, olhando para o relógio.
— Depois das dez — respondeu. — Hoje vai ser muito bom! — acrescentou com um sorriso malicioso.
— Com certeza — concordou .

Ficamos prontas pouco antes das dez e estávamos apenas esperando chegar para irmos. Teoricamente, eu deveria dirigir já que não deveria beber, mas infelizmente eu não estava a fim de ficar sóbria naquela noite, nem que eu fosse atacada por uma dor de estômago enorme na manhã seguinte.
E já que ninguém iria dirigir, iríamos os quatro de táxi. Não que fizesse diferença que nós três fôssemos sozinhas e encontrássemos lá, mas ele tinha feito questão de nos acompanhar hoje, em vez de esperar pela gente lá.
Por mais que fizesse pouco mais de uma hora que o Ex'Act estava aberto, já havia muitas pessoas lá dentro e muitas outras esperando para entrar.
Felizmente, nossas entradas já haviam sido compradas, então demorou muito até que estivéssemos em uma mesa próxima ao palco, onde havia algumas garotas dançando.
e eu fomos pegar algumas bebidas no bar de destilados, enquanto e esperavam na mesa.
Decidida a ignorar completamente o meu tratamento por aquela noite, eu pedi um drink ao barman, que era o mesmo rapaz de olhos grandes e aparência fofa da outra vez.
— Olá, de novo.
— Oh, olá. Como vai o seu pé? — perguntou, aparentemente lembrando de mim.
— Bem melhor, embora eu o tenha machucado outra vez depois daquele dia — respondi.
— Bem, que bom que está melhor, então. O que vão querer hoje? — perguntou e nós dissemos.

(Coloque Bad Boy do Red Velvet para tocar)

Depois de alguns minutos, eu e voltamos com um drink em cada mão. Voltei ao bar para pegar uma água com gás para mim, quando um homem se aproximou de mim, enquanto eu esperava.
— Oi — ele disse. Olhei para o lado e o examinei rapidamente. Era alto e tinha a pele bronzeada e um sorriso perigoso apontando em seus lábios.
— Oi — respondi. Ele estava usando uma jaqueta de couro preta com uma regata branca por baixo e tinha uma tatuagem de uma rosa dos ventos em seu pescoço. Mas algo me dizia que não era a única.
— Você vem sempre aqui? — ele perguntou e senti vontade de rir.
— Não, e você?
— Pode-se dizer que sim... O que acha do lugar?
— Bem agradável. Eles tem ótimas apresentações aqui. Eu soube que o dono é coreano — comentei, apontando para as meninas que estavam no palco, fazendo um cover de Lip&Hip de Hyuna.
— Ah, sim. Elas são bem boas.
— E bem bonitas... — acrescentei, abrindo minha garrafa de água, que tinha acabado de me ser entregue.
— Assim como você... — ele sorriu, pendendo a cabeça para o lado e foi quando percebi que ele tinha um piercing no nariz, que se iluminou com o movimento.
Tentei esconder um sorriso, enquanto tomava um gole de água, antes de responder. A música mudou e próxima reconheci como Bad Boy do Red Velvet.
— As garotas com quem você fala sempre caem nessa?
— Na verdade, não — ele riu. — Mas que tal eu te pagar uma bebida, antes de você voltar para as suas amigas?
Ponderei por um instante, antes de assentir com a cabeça.
— Se você insiste — falei, me sentando em um dos bancos.
Ele sorriu e fez o mesmo.
— Então, qual o seu nome?
— estendi minha mão e ele a segurou. — E você é?
— Jay Park.
— Okay... Jay. Você é coreano?
— Americano, na verdade. Mas já faz alguns anos que vivo aqui.
— E o que você faz da vida?
— Eu... Danço.
— Dança? — ele assentiu.
— Existe alguns lugares que pagam muito bem — comentou, acenando para mim com seu drink, antes de tomar o último gole.
Fiz o mesmo com o meu, uma dose de vodka com muito gelo.
Senti o álcool se espalhar pelo meu corpo quase que instantaneamente, provavelmente porque já fazia semanas que eu não bebia.
— E você, o que faz?
— Eu sou enfermeira. É muito trabalho, mas... Eles também pagam bem — completei, com um sorriso.
— Hm, interessante. Então... Srta. Enfermeira, gostaria de dançar comigo?
— Fiquei curiosa para te ver dançando, então sim... — estendi minha mão para ele, que me levou até a pista de dança.
Jay colocou um braço ao meu redor, me aproximando dele e deixei que ele nos conduzisse. Nossos rostos estavam próximos, mas nenhum de nós avançava para acabar com aquele pequeno espaço. Até que quando eu menos esperava... A música acabou.
— Foi bom te conhecer, . Eu tenho que ir agora, mas logo nos encontraremos outra vez — e piscou, antes de sair e me deixar sozinha na pista.
Voltei para a mesa e havia mais uma pessoa lá, que por sinal estava com o copo vazio no meu primeiro drink na mão.
— Oi — me cumprimentou, assim que me aproximei. Nossa mesa era pequena e havia pequenos sofás ao redor tornando o espaço mais aconchegante.
— Oi — respondi e me sentei no sofá em frente ao que ele estava, ao lado de .
estava ao seu lado e havia um outro espaço vazio, mas eu preferi ignorar.
Alguns minutos depois, um cara muito alto apareceu e cumprimentou , que sorriu assim que o viu.
— Brett! Há quanto tempo! — ela disse, e eu sabia que era o tal cara que ela havia conhecido em seu aniversário, alguns meses antes.
tinha ficado com ele algumas vezes, mas já fazia um tempo desde então.
Ele a abraçou pela cintura, a tirando do chão por um instante, fazendo-a rir. Brett estava mais bonito do que eu me lembrava e aposto que percebeu o mesmo. Olhei para , que estava sentada numa poltrona ao meu lado e ela sorriu pra mim, compartilhando o mesmo sugestivo que eu.
Pouco depois, disse que ia pegar alguns drinks com Brett e eles saíram juntos.

(Coloque Way Back Home do Shaun ft.Conor Maynard para tocar)

Ficamos conversando por alguns minutos e me distraí cantarolando a música que tocava.
— E então, , como vai o projeto do abrigo? — quis saber.
— Ah, vai bem. Eu finalizei ontem, na verdade. As obras começarão na próxima semana.
— Deve ter sido uma correria para você.
— E foi. Realmente foi uma correria — ele respondeu, olhando para mim.
Revirei os olhos. Uma correria não era desculpa o suficiente para não mandar nem ao menos uma mensagem me avisando. Ele já havia estado bem mais ocupado que isso outras vezes e ainda tinha falado comigo, pensei comigo mesma.
Continuei cantarolando, enquanto eles conversavam, até que voltou com Brett e os dois se sentaram também juntaram-se a conversa.
Segurei um sorriso quando vi Brett casualmente entrelaçar sua mão na de , como se fosse algo comum entre os dois. Mas eu sabia que não era e sabia que também não gostava de muito grude, assim como e eu, porém eu também sabia que aquele cara era diferente.
Bebi um gole da minha bebida e desviei meu olhar do casal de pombinhos. Foi quando encontrei o de , seus olhos de gato fixos em mim. Ele me encarava sério, mas eu sabia que ele tinha algo a dizer.
— Podemos conversar? — ele perguntou, mas só eu percebi já que o restante do grupo estava entretido com a conversa.
Tomei um último gole da bebida e sinalizei com a cabeça para sairmos dali. Me levantei, indo novamente em direção ao bar e ele me acompanhou.
— Joseph — chamei pelo barman dos olhos grandes, agora que eu finalmente sabia seu nome, depois de Jay ter pedido aquela bebida para mim. — Outra long neck para mim.
— Você não deveria estar bebendo — murmurou, atrás de mim. O médico disse...
— Eu sei o que o médico disse, . Talvez eu fique mal amanhã, mas eu quero aproveitar enquanto isso não acontece, pelo menos por um dia. Então, não enche o saco.
Ele me encarou como se quisesse retrucar, mas não disse nada.
— Quem era aquele cara que estava com você?
— Alguém que conheci — respondi, com desinteresse. Ele sorriu cínico e colocou os braços ao meu redor, apoiando-os no balcão do bar.
— Eu vim para fazer as pazes com você, querida. Não para ver você dançando com o primeiro cara que aparece na sua frente — murmurou no meu ouvido.
— Se eu danço ou não com o primeiro cara que aparece, não é da sua conta, . Então abaixa a sua bola, porque você não tem nenhum direito sobre mim. Não pertencemos um ao outro. E você vem deixando isso bastante claro, nos últimos dias — respondi, seca.
Ele sorriu novamente e antes que eu percebesse, me roubou um beijo.
— Talvez eu acreditasse nisso, , se você mesma acreditasse no que está dizendo. Mas já passamos por muita coisa e estamos aqui, eu estou aqui por você — e se inclinou para falar no meu ouvido. — Então você acha que essa conversa vai funcionar comigo? Eu não me importo que você dance com quem quiser, porque no fim de tudo eu sei que eu sou a pessoa a quem você realmente pertence. Você é minha, . E eu sou seu. Lide com isso.
Ele se afastou para me encarar, mas manteve o rosto próximo, nossos narizes roçando um no outro. Eu achei que ele fosse me beijar outra vez, mas ele não fez isso e se afastou de vez.
— Terminaremos essa conversa quando você estiver sóbria.
— Você é tão irritantemente confiante, . Já que eu não estou sóbria o suficiente, porque você não resolve me esquecer por hoje? — peguei minha garrafa de Smirnoff e saí de lá, deixando-o para trás.
Quando cheguei na mesa, murmurou algo que eu não entendi por causa da música.
— O quê?
— Até que enfim você chegou — ela repetiu e eu entendi dessa vez. — Os caras vão começar a dançar, e a gente pediu uma música especial — sorriu, maliciosa.
Brett riu, ao seu lado e eu soube que ele sabia de algo. Olhei para e ela deu de ombros, fingindo inocência.
chegou com uma garrafa de cerveja na mão e sentou-se novamente.

(Coloque Sail do Awolnation para tocar)

Foi quando os dançarinos surgiram no palco. Nossa mesa não estava exatamente em frente ao palco, mas dava para ter uma boa visão deles.
E que visão.
Tinha pelo menos uns dez dançarinos no palco, usando uma regata branca e uma calça com estampa de exército. Usavam uma máscara branca que cobria todo o rosto, no entanto, um por um foi se livrando delas a medida que dançavam a coreografia bem ensaiada de Sail do Awolnation.
Eles se espalharam pelo palco e pelas mesas, enquanto faziam passos que eram uma mistura de hip hop e strip, os gritos das mulheres quase tão altos quanto a música, até que então voltaram para o palco e rasgaram suas camisas, com exceção de um dançarino que ficou de costas, ainda vestido. Ele ainda tinha sua máscara cobrindo o rosto e usava um boné vermelho de aba reta, então eu não sabia dizer se ele já estava ali antes ou se tinha acabado de entrar no palco.

(COLOCA PONY DO GINOWINE AGORAAAAAA)

Eu estava focada na sua nuca com o cabelo bem cortado atrás, quase num estilo militar e costas bonitas ainda cobertas pelo fino tecido branco de sua regata, quando “Pony” do Ginowine começou a tocar.
E foi quando a mágica começou.
E ele começou a dançar ao redor do palco, em meio aos gritos das mulheres, inclusive os meus, de e de .
Não era como se a gente fosse resistir àquilo.
O dançarino se livrou do boné, jogando-o em algum lugar qualquer da plateia, onde uma mulher pegou animada e em seguida, fez o mesmo com a camisa, após rasgá-la em poucos segundos. Foi quando ele pulou do palco com um mortal e dançou entre as mesas que haviam ali, mas sem realmente parar em nenhuma.
Até que ele veio em direção a nossa mesa, o andar confiante, a máscara branca brilhando nas luzes que o acompanhavam e foi então que percebi que ele não estava vindo apenas na direção da nossa mesa, mas sim em minha direção.
Assisti ele se aproximar quase hipnotizada, enquanto ouvia os gritos de e perto de mim.
Ele parou a dois passos de mim, antes de começar a dançar novamente, bem na minha frente. E foi nesse momento que avistei a tatuagem em seu pescoço: uma rosa dos ventos. Sorri e apontei para meu próprio pescoço, tentando sinalizar para ele que eu sabia que era ele.
Jay estendeu sua mão para mim para que eu a segurasse e foi isso que fiz, ficando em pé em frente a ele. Ele levou minha própria mão ao seu rosto, fazendo com que eu tirasse sua máscara, revelando seus olhos de lobo fixos em mim. Sorri e ele fez o mesmo, antes de se abaixar um pouco e me tomar em seus braços, fazendo com que eu enrolasse minhas pernas ao seu redor, enquanto ele simulava movimentos obcenos comigo. Me senti dentro de um show de Magic Mike e não posso mentir: eu estava adorando.
Jay me apoiou no sofá e continuou com seus movimentos, antes de se abaixar, fazendo com que seus rosto tocasse meu tronco durante o percurso até o meu ventre, onde ele simulou me beijar lá. Segurei em sua nuca, em meio a risos animados. Parece que afinal era verdade o que falavam sobre strippers serem capazes de colocar um sorriso no rosto de uma mulher.
Ele se levantou outra vez e levantou minhas duas mãos até seu tronco definido e cheio de tatuagens, para que eu pudesse tocá-lo ali e foi descendo minhas mãos por seu corpo até elas tocarem na sua bunda, onde tomei a liberdade (ou coragem, talvez) de apertar com vontade, o que o fez sorrir ainda mais, antes de me pegar no colo novamente, dessa vez mantendo meu corpo um pouco mais alto que antes, de forma que seu rosto ficasse na altura nos meus seios e beijou o espaço entre eles, por da minha roupa, enquanto ainda dançava comigo nos braços.
A música já dava sinais de que estava próxima de acabar quando ele fez com que meu corpo escorregasse lentamente por seu tronco, até nos rostos estarem na mesma altura. Jay me levou de volta ao sofá e me pôs sentada ali novamente, antes de esticar um dos meus braços e deixar pequenos beijos no meu antebraço, antes de depositar um em meu pescoço enquanto eu o abraçava e por fim, quando a música teve a sua última batida, um em minha boca.
Deixei que Jay me beijasse como se estivéssemos sozinhos e da maneira como ele quis. Eu não tinha como reclamar; nem quando ele se afastou por um instante mordendo meu lábio inferior, antes de me beijar outra vez. Era como se os gritos das minhas amigas e das outras mulheres enlouquecidas por ele tivessem sido abafados ou que simplesmente estávamos mesmo a sós ou sei lá. Àquela altura eu não sabia mais de nada.
A única coisa que eu tinha certeza era: se aquilo fosse um sonho, eu não queria acordar nunca.


26. Papeis Invertidos


Apertei a garrafa de cerveja na minha mãos até os nós dos meus dedos ficarem brancos.
Se fosse uma latinha, já estaria completamente amassada.
— Você contratou a porra de um stripper pra dançar pra ela? — perguntei a , que até então ria e gritava vendo a "performance". Assim como noventa por cento das mulheres daquele clube.
Os outros dez por cento provavelmente eram as garçonetes, ocupadas demais para se distrair com algo que viam todos os dias.
O cara tava praticamente... Aarrrgh!,/i>
virou para me encarar.
— É meu presente de natal. Eu sei que sempre quis uma dança assim só pra ela. E além do mais, , eu quis te ajudar mas você também NÃO COLABORA, NÉ?!
Eu não pude responder. Na verdade, mal escutei o que ela disse já que me distraí quando vi o dançarino beijar .
E pior, ela retribuir.
— Opa! — riu, chocada. — Eu não tenho nada a ver com isso. Eu paguei só a dança.
Eu estava muito, mas muito puto.
No entanto, quando tentei levantar, fui impedido por e Brett.
— Me soltem! — resmunguei para eles.
— Nem pensar, gatinho, você não vai fazer nada. E se não quiser assistir, é só fechar os olhos.
— Você é minha amiga ou inimiga? Achei que estivesse do meu lado — acusei, voltando (lê-se sendo forçado) a me sentar.
— E eu achei que você ia tomar vergonha na cara e parar de ser babaca para finalmente namorarem, casarem e terem um monte de gatos. Mas como eu disse, VOCÊ NÃO COLABORA, TEN.
— Colaboro sim! — retruquei. — Por que acha que eu vim aqui hoje? Eu ia convidar ela para um encontro e me desculpar, mas aí vocês já tinham planos e você principalmente.

— Qual é, , se você está assim agora que não tem nada com ela, imagine na despedida de solteira dela. HAHA! Você vai morrer do coração antes de casar — ela brincou.
— Como é que é, ?! Você nem invente! — respondi, entrando na brincadeira também, ainda que fosse irritante.
Eu não gostava nada da visão de caras dançando para .
E por falar nela... Acabei me distraindo e nem percebi quando o cara, o dançarino, sumiu. se jogou ao lado de Brett e encostou a cabeça no ombro dele.
Claramente bêbada.
Ela nem era amiga dele para fazer isso.
— Brett, diga ao Jay que mandei lembranças — comentou, com um sorriso bobo na cara.
— Pode deixar — ele respondeu.
Ouvi rir ao meu lado. Olhei ao redor e todos a encaravam na expectativa, prendendo o riso.
— Gostou do presente de natal, amiga? — Mi So quis saber.
— Vocês são as melhores amigas do mundo. Eu já falei que amo vocês? — riu, outra vez.
— Pois eu acho que está na hora de você ir pra casa — falei.
Ela sempre ficava sonolenta quando bebia e estava quase tirando uma soneca no ombro de Brett.
, porque você não deixa para dar uma de responsável daqui a meia hora? Juro que não vai doer — respondeu.
— É um acordo? — eu quis saber. Não ia discutir com ela bêbada, é óbvio. Mas eu queria levar ela para casa.
— Pode crer. Se passar um minuto a mais, eu acho que adormeço.
— Ela não dormiu direito depois do plantão noturno — explicou.
— Porque nós estávamos ocupadas tendo um dia de meninas — Mi So acrescentou. — Ainda bem que ela não bebeu o suficiente para enjoar.
No entanto, cinco minutos depois, ficou tão elétrica que nem parecia a garota sonolenta no ombro de Brett. Ela foi atrás de comprar mais petiscos e bebidas com , que também estava um pouco alto e depois foi para a pista de dança com as meninas.
Claro que não durou só meia hora.
Já se passava de uma e ela não parecia cansada a ponto de querer ir embora e eu queria muito saber de onde vinha aquela animação toda. Era quase duas da manhã, mas lá estava ela rindo e se divertindo como se tivesse acabado de chegar.
— Relaxa, cara — disse Brett para mim, dando uma batidinha no meu ombro. — O Jay não vai fazer um estrago no relacionamento de vocês. Foi só um beijo.
— Sim, eu sei — resmunguei, ainda irritado. — É só que... Era para ela estar comigo agora, se tudo tivesse saído como eu havia planejado... Eu quis consertar as coisas e elas acabaram piorando — desabafei. Afinal, só havia , ele e eu na mesa. E não era segredo para ninguém que eu era apaixonado por .
— Então porque você não vai lá agora dançar com ela? — sugeriu e eu ponderei por alguns segundos.
Até começar a tocar uma música. Sorri comigo mesmo.
— Tem razão, . Ela gosta de um dançarino, não é? Então eu vou mostrar a ela como se dança.
E então eu fui para a pista de dança; logo achei as meninas.
— Resolveu sair da toca, ? — Mi So perguntou alto, por conta da música.
— Ela acabou me lembrando de algo, se importam que eu pegue a amiga de vocês emprestada? — perguntei, mas não esperei resposta e apenas arrastei para o meio da pista.
— O que você tá fazendo?
— Eu vim dançar com você... Ou pra você, já que gosta tanto.
— O quê? — mas eu não respondi. Já estava na hora de dançar.
Quando chegou na metade de Taki Taki do DJ Snake, eu comecei a reproduzir uma coreografia antiga que eu tinha feito.
Se tivesse se dado o trabalho de ver todos os cômodos do meu apartamento na Tailândia, ela descobriria que lá eu tenho uma sala de dança só para mim. Não que eu fosse dizer, é claro. Ela sabia que eu dançava na escola, mas não sabia que eu ainda fazia isso em casa.
— O que você tá fazendo? — ela perguntou, mas continuei dançando.
Devia ser no mínimo interessante, considerando minhas roupas nada apropriadas para dançar.
Quando a música acabou, eu me aproximei de , colocando as mãos em sua cintura para trazê-la para mais perto e murmurei em seu ouvido:
— Eu estou te mostrando pela primeira vez que... — olhei para ela, tentando conter a vontade de rir. — Eu também sei me mover como esses caras daqui, . Como o cara que dançou para você, por exemplo — acrescentei, dando um beijo rápido em seu pescoço, atrás de sua orelha.
... Eu-
— Já falei que amo seu cabelo assim? Porque eu adoro quando seu pescoço fica à mostra — e dei outro beijo no mesmo local, me demorando um pouco mais, dessa vez.
suspirou e novamente eu contive um sorriso.
— Você já quer ir embora, querida? — perguntei, brincalhão e ela confirmou com a cabeça.

Nos despedimos do restante do pessoal e fomos embora em um táxi. cochilou durante o percurso inteiro em meu ombro, como se a bebida tivesse a relaxado de uma vez só e ela não parecia a fim de acordar, sendo que tive que chamar e balançar ela algumas vezes até que ela despertasse.
— O quê? — resmungou, irritada, após finalmente acordar.
Eu sabia que ela odiava que a acordassem, especialmente quando ela estava bêbada. Mas não é como se eu tivesse escolha.
— Nós chegamos, querida.
Ajudei ela para que se apoiasse em mim e entramos no prédio, em direção ao elevador. estava prestes a se jogar no sofá, quando entramos, mas consegui impedir antes.
Quem diria que era a mesma mulher de meia hora atrás, dançando animada na pista de dança.
— Ei, banho primeiro e depois cama.
Nããão, . Só me deixa aqui e pronto — pediu e eu ri.
— Nem pensar, você precisa de um banho quente para acordar e tirar essa maquiagem também, antes de dormir. Vamos.
— Tá... — concordou e se levantou, andando devagar.
— Consegue se virar sozinha ?
— Claro que sim, eu não bebi tanto assim, . Só estou cansada e com sono. Muito sono.
— A água vai te fazer acordar, então — concluí quando ela se trancou no banheiro, após pegar uma roupa.
Tirei o blazer que eu estava vestindo e desabotoei minha camisa, jogando-os em uma cadeira depois. Puxei o celular do bolso e chequei algumas mensagens.
Felizmente, o projeto de reforma havia sido aprovado com sucesso e, para a minha sorte, os donos adoraram o meu trabalho. Eu teria mais dois dias de folga, antes de voltar ao trabalho e planejava passá-los com .
Especialmente sabendo que ela também teria os dias livres, já que havia trabalhado no dia anterior.
Guardei o celular e fui até a cozinha e procurei pela caixa de remédios que tinha no armário para separar um analgésico para ela, caso tivesse enxaqueca no dia seguinte. Coloquei em cima do criado mudo junto com um copo de água e fui em direção ao guarda-roupa para procurar por alguma roupa minha ali.
Depois de um tempo me encontrando com , mesmo antes de me envolver com ela, eu comecei a trazer algumas coisas para cá e nunca levei de volta. Não era como se algumas peças básicas fossem me fazer falta, sem contar que minha irmã sendo um designer, a última coisa que me falta são roupas novas. Tern sempre me usava de modelo para criar ou testar algo novo e até hoje não era muito diferente. A diferença é que agora ela tem o Mark e eu moro fora.
Abri a gaveta de roupas íntimas de e encontrei algumas cuecas boxers minhas. Alguns homens talvez estranhassem isso — o fato delas estarem ao lado de um monte de calcinhas, considerando que mulheres não gostam muito de expor suas roupas íntimas assim -, mas nunca se importou e eu já havia me acostumado.
No entanto, uma coisa prendeu meu olhar quando eu estava prestes a fechar a gaveta: uma caixinha que estava escondida no fundo dela. E eu conhecia aquela caixinha.
Eu conhecia muito bem.
Peguei ela e abri, dando de cara com o anel que eu havia comprado para ela quando decidi pedi-la em namoro, algumas semanas atrás. Ouvi o barulho da porta e a coloquei de volta onde achei, fechando a gaveta, em seguida.
saiu vestindo uma camiseta e um short curto e se jogou na cama de uma vez.
— Você tá bem? — perguntei e ela murmurou um sim baixo. — Eu vou tomar um banho rápido e já volto.

Quando voltei, ela já estava dormindo, enrolada no edredom. Sorri com a visão que eu havia visto diversas vezes e queria continuar vendo.
De repente, eu não estava mais com raiva por ter que ver um stripper dançando para ela e a beijando, em seguida. Porque agora era eu que estava ali com ela, ainda que tivéssemos assuntos a serem resolvidos.
Era eu que agora estava me deitando e colocando os meus braços ao redor dela e seria eu quem acordaria do seu lado no dia seguinte.
E dessa vez, eu não iria apenas deixar um bilhete.



Acordei sentindo a cabeça pesar cem quilos e imediatamente me arrependi de ter bebido tanto. Olhei para o criado mudo procurando meu celular e vi que se passava das nove da manhã. Havia também um copo d'água com dois analgésicos do lado, que tomei sem pensar duas vezes. Era natal e provavelmente estava nevando lá fora considerando que era inverno e na noite anterior tivemos que usar casacos grossos para sair na rua.
Eu estava me sentindo péssima e queria dormir mais, no entanto, eu tinha marcado com minha mãe de nos encontrarmos em um restaurante para almoçarmos juntas.
Me sentei na cama devagar e olhei para o lado. dormia pacificamente com um braço atrás da cabeça; seu corpo parecia emanar um convite implícito para eu me aconchegar a ele.
Me levantei e fui tomar um banho quente para ver se melhorava mais da dor de cabeça. Quando terminei de me arrumar e voltei para o quarto, ainda dormia na mesma posição. Dessa vez, não resisti e me joguei na cama ao seu lado, o abraçando com a cabeça apoiada em seu peito. Ele tinha vestido apenas uma camiseta verde escura e uma cueca boxer para dormir, embora estivesse frio.
Felizmente, o aquecedor fazia um bom trabalho nesses tempos.
se moveu um pouco e me abraçou também, abrindo os olhos sonolentos por um instante.
— Ei, cara — o cutuquei na costela — Tá na hora de acordar. Eu tenho um compromisso pra ir. A menos que você queira ficar aqui dormindo.
— Hmm, onde? — perguntou, ainda de olhos fechados.
— Vou almoçar com minha mãe. Provavelmente vamos fazer compras depois.
— Sua mãe? Eu posso ir?
— Depende da sua disposição.
— Eu vou tomar banho, então.

Vinte minutos depois, eu estava respondendo algumas mensagens quando voltou ao quarto terminando de abotoar a camisa que tinha pego.
— Pronto?
— E com fome — ele respondeu.
— Ainda são 11 horas. Quer fazer um lanche antes de almoçarmos?
— Pode ser. Podemos comer algo pelo shopping. E... Eu queria saber uma coisa.
— O quê?
— Nós... Estamos bem? — ele hesitou um pouco.
Me aproximei dele e dei-lhe um selinho.
— Isso te responde?
Ele sorriu.
— Nesse caso... Acho que não tem problema em dizer que ontem eu achei as alianças que te dei guardadas na sua gaveta... E que eu queria que você, que nós usássemos.
— Está me pedindo em namoro, Presidente ? — sorri, colocando os braços ao redor de seu pescoço e fez uma careta com a pergunta.
— Você aceita, srta. ?
E em resposta, apenas o beijei outra vez.




Continua...



Nota da autora: 25.01.2020 — Em minha defesa, eu achei que tinha enviado a att quando nem tinha betado ela, como não enviei um cap semana passada, estou enviando o que eu esqueci e mais dois para compensar! Espero que gostem <3 Ps. Eu desconheço esse tal de Jay park aí, qualquer semelhança com o Jay Park cantor é mera coincidência, olha. (sqn) Obg a todas que estão acompanhando a fic e também pelos comentários ♥ Se gostarem, compartilhem com seus amigos também! ^^ Ajuda bastante na divulgação <3 Quem quiser ler a versão original da história, fale comigo nas redes sociais que eu disponibilizo o link xD Qualquer errinho, por favor, me avisem pelas redes sociais ^^ E antes que eu me esqueça, a playlist da fic no spotify foi atualizada, acessem pelo link no ícone abaixo ^^ Até a próxima att! xAlly





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