Última atualização: 23/08/2019

Prólogo


Sabe aquela cena de filme que um personagem de repente vê a sua vida passando pelos seus olhos quando está prestes a morrer? Você já deve ter visto.
Isso estava acontecendo comigo naquele exato momento.
Bom, a diferença é que eu não estava prestes a morrer, no entanto.
E não era exatamente a minha vida inteira passando pelos meus olhos, mas era, com certeza, uma parte bastante importante dela.
A verdade é que eu tive que esfregar meus olhos uma vez para ter certeza de que minhas lentes de contato não estavam embaçadas ou algo do tipo que acabasse me fazendo ver errado. Só que elas não estavam. E infelizmente eu estava vendo nitidamente, melhor que nunca. Até porque aquele era um novo par de lentes que eu tinha acabado de trocar.
Agora você deve estar se perguntando: de que, diabos, ela está falando?
Bom, eu estou falando do diabo que deu uma reviravolta na minha vida emocional, de modo bom e ruim, mais conhecido como meu ex-namorado, . O conheci na faculdade e ele era um dos muitos estudantes de intercâmbio e tinha vindo de Hong Kong. Imaginei que tivesse voltado para seu país, mas claramente não.
Fazia quase três anos que havíamos terminado nosso namoro — não em bons termos, devo acrescentar — e desde a minha formatura que eu não o via ou tinha qualquer notícia ou contato dele, pois havia decidido apagar tudo. Infelizmente, eu não podia apagar da minha vida e nem os momentos bons e ruins que tive com ele. E era justamente esses momentos que passaram na minha mente assim que o vi. Desde quando o vi pela primeira vez até a última, quando disse que nunca mais queria vê-lo na minha frente.
Eu não era boba de achar que talvez eu realmente nunca mais fosse vê-lo, no entanto. Londres é uma cidade grande, mas pessoas se esbarram nela vez ou outra. Pode acontecer. Mas eu não esperava esbarrar em logo aqui, no St. Lawrence, hospital no qual eu trabalho como enfermeira há um ano e meio.
E eu não esperava em hipótese alguma que fosse um dos novos profissionais que estavam indo trabalhar no hospital e muito menos ainda que ele fosse trabalhar no mesmo setor que eu.
Sabe a Lei de Murphy? Eu fui vítima dela várias vezes. Mas pelo visto, ainda sou. E muito.
foi apresentado pela enfermeira-chefe à todos os membros da equipe, desde o pessoal da faxina, os técnicos, residentes, estagiários e por fim… eu. A enfermeira plantonista do dia. Eu fiz questão de me manter meio escondida atrás da equipe, observando de longe o rapaz há alguns metros de distância e que se aproximava cada vez mais à medida que era apresentado aos membros da equipe.
estava mais bonito do que eu me lembrava. Alto, com uma pele bronzeada e um sorriso capaz de conquistar qualquer um. Eu não podia falar o mesmo de mim após 24 horas de trabalho e muito menos depois quando acabasse as outras 12 horas que faltavam para eu completar meu plantão. Eu tive que faltar um dia e isso acabou gerando uma bagunça na minha escala e cá estou eu, prestes e ficar 36 horas direto dentro do hospital.
Agradeci mentalmente por minha mania de estar sempre de touca e máscara, mesmo quando não era realmente necessário. Apenas uma mania que adquiri durante meus dias de estagiária, alguns anos atrás. Digamos que água, sabão e álcool em gel viraram alguns de meus melhores amigos. Os outros três são , que também é enfermeira e , uma arquiteta. E claro, havia , um advogado. Eu conhecia os três há anos, desde a faculdade e também os conhecia, embora não gostasse muito de um deles.
E adivinha quem. Começa e com S e termina com cott. Isso aí, morria de ciúmes do meu melhor amigo. Mas eu não ia me afastar dele só porque ele queria. Claro que, antes de tudo, também era um dos meus melhores amigos, depois do havia ele. A questão é que ele não entendia que eu não me sentia à vontade ou com vontade de falar certos assuntos com ele porque… bem, não éramos da mesma idade.
é três anos mais novo que eu. E pra falar a verdade, eu não gosto de garotos mais novos, não mesmo. E não faço a mínima ideia de como acabei namorando ele. Talvez o carisma fosse maior, não sei. Eu gosto de caras divertidos, protetores e responsáveis. E ele era tudo isso e mais um pouco. Mas às vezes, digamos que parecia ter os 19 anos que ele tinha quando o conheci, o que era completamente normal, mas o meu eu problemático via aquilo como um obstáculo, talvez. Não sei. Havia momentos apenas que eu achava que ele não era capaz de me entender por causa disso.
Tínhamos algumas visões diferentes e quando eu precisava falar com alguém, era sempre o , que era da minha idade, alguns meses mais velho e que me dava conselhos ótimos sempre que eu precisava. Isso gerou alguns problemas entre e eu.
E por falar novamente em , o momento que eu menos aguardei havia finalmente chegado quando ele ficou a minha frente e a enfermeira Lara nos apresentou.
— …E essa é a enfermeira que estará trabalhando com você, — ela disse. — O nome dela é -
— ele falou meu sobrenome, herdado do meu pai, naquele tom de voz rouco bastante conhecido por mim. Seu sorriso no entanto, havia desaparecido no momento que ele encontrou meus olhos.
Me perguntei como ele tinha me reconhecido, mas cheguei à conclusão de que… bom, talvez ele tivesse me conhecido demais a ponto de uma máscara e uma touca serem objetos inúteis. Ou, pelo menos, em parte. Talvez porque eu era a única descendente de asiáticos ali com o nome de e enfermeira, vai ver ele associou. Felizmente, ele só podia ver os olhos. Eu estava sem maquiagem e cansada, só esperando uma oportunidade para ir tomar um banho quente e renovar minhas energias com alguma comida após a enfermeira Lara chegar. Eu só não contava com essa apresentação hoje que, diga-se de passagem, revirou meu estômago um pouco mais.
A enfermeira Lara abriu um sorriso surpreso assim que ele falou meu nome.
— Oh, vocês se conhecem? — ela perguntou animada. Ela era assim, constantemente, uma doida.
Eu me manti calada, enquanto encarei , permitindo que ele fosse o responsável pela resposta.
Com um sorriso sem graça, ele encarou o chão com a pergunta, antes de voltar os olhos para mim, mais uma vez. Seu novo olhar não era mais surpreso, mas também não carregava raiva como o que eu havia visto pela última vez quando terminamos. Ele parecia neutro. Controlado. Como eu estava, ao menos por fora.
Meu coração acelerou quando ele falou novamente e senti um frio no estômago, mas não de uma maneira boa.
— Sim, foi minha monitora na faculdade — ele respondeu e aquilo por algum motivo me magoou e doeu em uma parte minúscula do meu coração. Mas eu não podia culpá-lo. O que eu esperava que ele respondesse? Quem sabe ele falasse: “Ela é minha ex-namorada, Lara. Longa história. Terminamos através de uma discussão regada a ódio.” era alguém bastante imprevisível, então eu não me surpreenderia se ele falasse algo do tipo. Então me forcei a ficar satisfeita com sua resposta, pois era a coisa mais sensata. Afinal, não precisávamos falar do nosso passado e muito menos do relacionamento fracassado que tivemos.
— Oh, ela era sua sênior? — Lara perguntou, rindo mais uma vez. Queria eu saber que feitiço ela fazia para estar sempre alegre. Eu era um poço de mau humor. — Que ótimo! Acho que vão se dar bem, então.
Você não poderia estar mais engda, Lara.
Mas felizmente, eu sou alguém que preza bastante por profissionalismo.


1. Cada Um Tem o Ex Que Merece


Depois da fatídica apresentação/reencontro com meu ex-namorado, Lara o levou para conhecer o setor, os pacientes e toda a bagagem de organização, explicando onde ficava materiais, documentos e o que fosse ser necessário que ele soubesse no momento.
Felizmente, ela também apresentou os pacientes para ele, coisa que agradeci mentalmente. Lara era enfermeira diarista, então ela também era a pessoa mais adequada para isso já que estava no hospital todos os dias pela manhã.
E enquanto isso, eu fui finalmente tomar meu banho.
Eu poderia ficar horas debaixo daquele chuveiro quente, mas eu tinha pouco tempo para ficar pronta e voltar ao trabalho. Felizmente, depois disso eu não estava mais com tanta cara de zumbi, pelo contrário, eu estava até apresentável. Era cerca de 08h30 da manhã quando eu fui até a copa em busca de comida e muito café. Após um lanche rápido, voltei ao trabalho e Lara já havia dividido os pacientes entre eu, e alguns estagiários.
Por algum milagre, a clínica não estava cheia naquele dia, o que era raro. Eu também não falei com por algum tempo. Tratei de ir visitar meus pacientes e fazer todos os exames físicos e orientações que eu tinha que fazer para depois ir para os papeis.
Não sei se vocês sabem, mas em um setor o enfermeiro é o profissional que não somente fica responsável pela assistência, mas também por toda a papelada que vem de bônus. Porém, Lara é quem costuma ficar com essa parte, sendo diarista e enfermeira-chefe. Somente depois que ela sai, algum outro enfermeiro fica responsável, eu me refiro aos turnos tarde e noite.
E adivinha quem seria a sorteada do dia. Isso mesmo.
era um novato em seu primeiro dia ali e não conhecia nada direito. Isso significava que eu não somente iria ter que cuidar disso, mas também cuidar dele, ensinar o que precisava e tirar dúvidas.
E pensar que vou ter que ficar 24 horas por semana trabalhando com esse cara.


A manhã se passou relativamente rápido. Eu terminei minha “parte” relativamente cedo, depois fiquei auxiliando Lara e os estagiários nos procedimentos que apareciam, mas como eu disse, não havia muitos pacientes como de costume, naquele dia.
Contudo, nada é perfeito. Principalmente os recursos humanos do hospital.
Quando eu estava prestes a ir almoçar, um paciente foi chamado para cirurgia. Mas adivinhem: não tinha maqueiro disponível na hora. É, esse é o tipo de coisa bastante comum em qualquer hospital, seja ele de grande porte ou não. Nunca vai haver maqueiros suficientes.
Lara estava de saída na hora e designou e eu para levar o paciente ao bloco cirúrgico do hospital. Olhei para os lados à procura de alguma técnica que pudesse fazer isso com ele, mas a maioria não estava ninguém disponível no posto de enfermagem. Quem não estava nas enfermarias, estava lá preparando medicações de rotina.
Lutei contra a vontade de revirar os olhos e peguei o prontuário, uma bata aberta, um lençol limpo para colocar na maca e os equipamentos de proteção do paciente. Fui andando na frente, enquanto me seguia com a maca até uma das enfermarias masculinas.
— Bom dia, Sr. Walter. O senhor acabou de ser chamado no bloco. Alguém já comunicou ao senhor? — perguntei, com toda a minha pose de enfermeira simpática. Profissionalismo, lembram?
— A estudante me disse — ele comentou. — Você veio me preparar?
— Exatamente. Vou prepará-lo e acompanhá-lo até o bloco junto de meu colega, o senhor já o conheceu? Ele também é enfermeiro, está começando hoje aqui.
— Ah, Lara nos apresentou. Rapaz simpático ele, né? — disse com um sorriso, apontando para .
— Ah, claro. Veja, eu trouxe um pijama novo para o senhor. Pode ir vestir no banheiro e colocar esses dois aqui nos pés e a touca na cabeça. Se o senhor tiver alguma corrente, aneis ou próteses também tem que tirar, tudo bem? Enquanto o senhor se troca, eu vou arrumar a maca.
Quando ele voltou, o colocamos na maca e seguimos para o bloco que, felizmente, não era muito longe.
— Sr. Walter? O senhor quer ir com emoção ou sem emoção? — eu perguntei, fazendo-o rir.
— Com emoção! — ele disse.
— Com emoção? Então, vamos lá! — eu lancei um olhar para e aceleramos a velocidade até chegar ao bloco (com cuidado para não esbarrar em ninguém pelo caminho, é claro). — Opa, chegamos! Deixa eu abrir essa porta…
Com cuidado, empurrei a porta e a segurei para que empurrasse a maca. Depois toquei a campainha do bloco e aguardei.
— ‘Tá nervoso, Sr. Walter? — perguntei, vendo-o assentir com a cabeça. — Mas não precisa, o senhor pode ficar calmo. Parece um bicho de sete cabeças, mas daqui a pouco acaba. Vai dar certo, ouviu? — ele deu um sorriso sem graça e assentiu novamente.
Quando voltamos para a clínica, encontrei com Lola, a enfermeira diarista da tarde. Apresentei a ela e passei rapidamente o plantão para que ela ficasse a par dos novos pacientes. Depois disso, fui almoçar.
Mas como eu disse, nada é perfeito porque foi comigo. Afinal, éramos os únicos que ainda não tinham almoçado. Mas não reclamei, pois se eu estava com fome, imagine ele que tem um estômago sem fundo. Caminhamos juntos e em silêncio até o refeitório e depois nos sentamos para comer em uma das mesas.
Porque nos sentamos juntos? Bom, eu também não sei. Mas eu havia sentado primeiro e não sairia dali por causa dele; então apenas resolvi ignorá-lo.
A comida parecia um zilhão de vezes mais interessante do que encarar e até mesmo manter uma conversa desnecessária com meu ex-namorado.
— Faz tempo que você trabalha aqui? — perguntou, de repente.
— Um ano e meio — respondi, apenas.
— Ah… — silêncio novamente. — Achei que não gostasse de clínicas.
— E eu não gosto. Mas não estou em posição de escolher.
— Entendo.
E voltou a comer. No entanto, era alguém que não conseguia ficar calado por muito tempo.
— Você cortou o cabelo. E pintou. Ficou legal essa cor — ele disse, tentando ser simpático. A última vez que ele me viu, meu cabelo era longo e repleto de luzes loiras. Devia ser estranho me ver com ele curto e ruivo, mas não comentei nada disso. Não olhei para ele, mas juntei todas as minhas forças para murmurar, sem emoção alguma:
— Sim, valeu.
Foi então que eu ouvi um suspiro. E quando ele finalmente desistiu de puxar papo comigo e terminou de comer em silêncio.
Voltamos para o setor minutos depois, e não tinha absolutamente nada a ser feito. Sim, às vezes era assim. Muita coisa para fazer um um turno e depois vários nadas no outro. Não havia pacientes para internar ou levar ao bloco, as técnicas cuidavam das medicações e até então nenhum procedimento novo havia aparecido. O que resultou em e eu novamente juntos naquela sala, enquanto Lola terminava suas visitas.
Peguei meu celular e abri o pdf de um livro novo que eu estava lendo. Era tudo o que eu podia fazer naquele momento. Ouvi um novo suspiro vindo de e o olhei de soslaio, vendo-o pegar o próprio celular e se entreter com o mesmo.
Lola adentrou no posto e sorriu para nós.
— Vocês estão de plantão até que horas hoje? — ela quis saber.
— Sete — respondemos ao mesmo tempo. Ela soltou um muxoxo.
— Ah, eu estou de 24 horas hoje.
— E eu completando as minhas 36 horas — levantei a mão, em uma tentativa falha de fazer piada.
— De novo? O que houve?
— Eu faltei um dia por conta da minha defesa — dei de ombros. — precisou viajar e eu fiquei ontem à noite no lugar dela.
? ? — foi a vez de perguntar. — Aquela sua amiga doida que- quer dizer…
— Você conhece e ? — Lola perguntou animada. Sabe a Lara? Lola é tipo uma versão mais nova dela.
— Ah, sim! Ela foi minha-
— Monitora na faculdade. Patologia. Ele no terceiro semestre, eu no sexto. Blá blá blá — eu o interrompi, sem tirar meus olhos do celular. — Longa história, Lola. Você não vai mesmo querer saber — e então encarei , que me olhou com sarcasmo.
— Verdade, Lola. Longa história. não curte muito falar sobre o primeiro namorado dela também — ele disse, me encarando em desafio.
— Isso porque não vale a pena, . Mas acho que você ainda não percebeu.
— Espera, do que vocês estão falando? — Lola quis saber. — Porque você de repente mencionou o primeiro namorado dela que… Ah, meu Deus! — e num piscar de olhos, Lola me encarou — Ele era o tal que você me falou?
Mas eu não respondi. Nem precisava. Em vez disso, me dirigi a .
— Qual o seu problema?
— Problema nenhum, . Só achei que o setor tava meio monótono. E eu sei que você odeia monotonia, querida — e sorriu.
Respirei fundo tentando controlar a raiva que crescia (ou acordava) dentro de mim outra vez.
— Tudo bem, . Acho que precisamos esclarecer algumas coisas aqui. Eu não quero sair divulgando para ninguém o nosso relacionamento fracassado. Então faça o favor de deixar as piadinhas e o deboche de lado. Lola iria descobrir de uma hora para outra porque, enfim, ela já sabia sobre você. Mas os outros não sabem. Então, continue fingindo que eu fui só a sua monitora na faculdade e não teremos problemas.
— Como quiser, princesa — ele disse, entredentes.

***


Eu havia combinado de jantar com assim que saísse do trabalho. Eu não tinha trabalho no dia seguinte e nem ele, então íamos juntar a magia do frango frito e da cerveja juntos naquela noite em um restaurante que ficava próximo ao escritório que trabalhava (mas que também não era muito longe do meu).
Estacionei meu carro em frente ao prédio e soltei o cabelo para melhorar um pouco a minha aparência; eu não precisava assustar as pessoas com minha cara de cansada, afinal.
Peguei minha bolsa e desci do carro, após enviar uma mensagem para , que me pediu para esperar um pouco, pois estava ajudando uma colega a terminar de guardar uns papeis. Distraída, comecei a digitar uma resposta quando esbarrei em alguém.
— Descu- O quê? — encarei à minha frente. — O que você ‘tá fazendo aqui? Você ‘tá me seguindo ou algo do tipo? — perguntei e ele rolou os olhos.
— Eu quem deveria fazer essa pergunta, sênior — disse, a última palavra cheia de sarcasmo.
— Não tenho o mínimo interesse em te seguir, . Pode crer.
— Já percebi isso há anos, princesa.
E lá vai ele de novo, me chamando de princesa. Antigamente, eu não me importava muito, mas agora ele visivelmente me chamava assim apenas para me irritar.
— ‘Tá, . Já deu; você pode parar agora de me chamar assim. Que saco.
— Fico feliz de ter te irritado, então. Ponto pra mim… princesa.
— Aí! — bati nele. — Eu falei para parar.
E então, o idiota teve a audácia de rir.
— Tava demorando para o seu verdadeiro eu aparecer, . Mas preciso dizer que seu falso bom humor hoje com os pacientes me impressionou. Que ótima profissional que você é e acredite, isso é um elogio.
— Bem, eu tento fazer as coisas direito, . Tento me esforçar para que elas deem certo — eu disse, sabendo que soaria como um duplo sentido para ele.
E deu certo. Porque ele percebeu.
— Eu também tentei fazer dar certo, — ele me encarou, sério.
— Tem certeza? — perguntei, sem acreditar. Mas ele não respondeu, pois alguém chamou seu nome. E o meu.
Era e uma outra garota asiática, que assim que viu se pendurou no braço dele, ficando na ponta dos pés para beijá-lo. Os saltos altos ajudaram, é claro.
Embora ela fosse alta, era um poste de 1,86m de altura.
veio para meu lado e me cumprimentou com um abraço.
, esse é meu noivo, . De quem te falei mais cedo — a garota disse.
Ei, espera. Noivo? Que bomba.
Foi então que olhei para a mão da garota e vi um pequeno diamante nela; , no entanto, não usava nenhum anel de compromisso. Mas de que importa? Não é como se ele fosse ficar solteiro por muito tempo. Felizmente, não era a biscate que encontrei na cama com ele, anos atrás.
sorriu amarelo e assentiu com a cabeça, cumprimentando que o encarava friamente.
— Parabéns pelo noivado, Charlotte.
— Essa é sua namorada? — a garota apontou para mim.
— Eu sou a melhor amiga dele.
— E minha sênior da faculdade — completou. — Trabalhamos juntos no hospital.
— Sou — me apresentei e pude perceber o sorriso da garota vacilar um pouco. Ela olhou de para mim, antes de colocar um outro sorriso no rosto, se recompondo. Foi quando percebi que ela sabia quem eu era. devia ter contado.
— Oh, prazer em conhecê-la. Sou Charlotte Yang, trabalho com — respondi o cumprimento e finalmente tomou a iniciativa de nos tirar de lá.
— Nos vemos depois, Charlotte. — ele cumprimentou educadamente e me guiou pela cintura.
Não posso dizer o mesmo de mim quando passei por .
— Até mais, otário — murmurei, apenas para que ele ouvisse. Infelizmente, toda a reação que pude ver antes de me arrastar de lá, foi ele estreitar os olhos, irritado.
De quem é o ponto agora, otário? Boa sorte para se explicar para a namoradinha, murmurei mentalmente com um risinho.
Talvez pudesse ser divertido, afinal.

2. Músicas, pizza e shade


— Caramba, . Como isso aconteceu? — perguntou.
— Me pergunto o mesmo. Eu estava lá depois de um plantão de 24 horas e de repente encontro meu ex-namorado da faculdade que eu não via há três anos. Caramba mesmo.
— Como foi lá? Vocês não brigaram, né?
— Eu ainda não tive vontade de voar no pescoço dele, então acho que estou indo bem. Mas eu não esqueci o que ele fez, . Não consigo simplesmente ser simpática e fingir que nada aconteceu quando ele vem querer puxar papo comigo. Tudo bem que somos colegas de trabalho, mas não passa mais disso — eu disse e tomei um gole de cerveja. — Não estou interessada em ser amiga dele, muito menos ser próxima novamente. E você acabou de ver, ele tem uma noiva que inclusive é sua colega. Além do mais, ela sabia exatamente quem eu era quando me apresentei.
— Eu percebi. Não parece que ela gostou muito de sabe que você trabalha com ele.
— Eu não a culpo. Eu também não iria gostar de ver o perto de nenhuma ex se eu fosse ela. Ele conquista as pessoas sem que elas ou ele percebam. Não vou me surpreender nenhum pouco se as técnicas e as pacientes caírem de amores por ele depois.
— E quanto a você? — ele perguntou. — Você não tem medo de cair no charme dele de novo?
— Porque isso aconteceria? — o encarei, enquanto mordia um pedaço de frango.
deu de ombros.
— Não sei… só um palpite. Vocês eram ótimos juntos. Eu torcia por vocês, por mais que ele achasse que não — ele riu. — Nunca entendi o ciúmes que tinha de você comigo.
Rolei os olhos, rindo também.
— Acho que talvez por você ser meu único amigo homem. Mas acho que tinha ciúmes de qualquer pessoa do sexo masculino que queria se aproximar de mim, principalmente se fosse você ou os amigos dele.
— Bom, você sempre deixou claro que não gostava de rapazes mais novos. Mas namorou ele, o que é estranho. Ele deve ter se sentido inseguro.
— O que é mais estranho ainda. Eu era a insegura da relação. Eu não tinha confiança para nada… que… era tão estranho, eu demorei a me acostumar com ele e nosso relacionamento. Mas eu conseguia ficar à vontade perto dele.
— Correção: só dele. Não é como se você tivesse tido outros relacionamentos desde então.
— Eu saí com o algumas vezes — me defendi, mencionando meu ex amigo colorido. — Foi legal.
— Mas não legal o suficiente para te fazer querer um relacionamento sério. Por falar nele, por onde ele anda?
— Da última vez que eu soube, ele ia voltar para a Tailândia para passar um tempo com a família. E mais, não é como se eu quisesse um relacionamento. Eu não tenho tempo para namorar, . Acabei de fazer um mestrado, quero tentar uma carreira acadêmica logo e quem sabe um doutorado, mas preciso juntar grana para isso — dei de ombros.
— Eu sei que sim, mas isso nunca impediu ninguém, nem você. Tanto você quanto eram bastante ocupados com a faculdade.
— Sim, éramos. E isso era um dos problemas. Enquanto eu tinha aulas ainda podíamos nos ver com mais frequência, mas durante o período de estágio as coisas começaram a piorar, caso você não se lembre. Acho que nosso relacionamento começou a desandar nessa época. De repente, acho que as outras garotas que não saíam do pé dele pareceram mais interessantes — murmurei, amassando a latinha de cerveja com a mão. — Eu odeio traições, . De qualquer tipo. Eu já tinha passado por uma com uma amiga, e só piorou tudo quando fez também. Doeu duas vezes mais — acrescentei, sentindo os olhos arderem com a lembrança.
Sim, eu ainda sofria com isso apesar de ter superado. Era uma lembrança ruim que eu não era capaz de esquecer e olhar para agora só me fazia lembrar nitidamente de tudo.
Obviamente, você já deve ter percebido. Eu guardo um pouquinho de (ou muito) rancor.
Não me culpe, culpe meu signo. E o dele, que é o mesmo.
Pelo menos eu não herdei o lado infiel que dizem que os aquarianos têm.
Infelizmente, éramos como fogo e gasolina, que se misturam mas não dão um bom resultado depois.

No dia seguinte, acordei depois de dormir o quanto pude. A magia dos plantões, depois que você os cumpre, fica com o resto da semana livre. Menos aqueles que possuíam mais de um vínculo, é claro. O que não era meu caso. O hospital pagava bem o suficiente para eu viver uma vida confortável. Eu morava sozinha em um apartamento pequeno, que era mais do que suficiente para mim. Se eu tivesse que ter um segundo vínculo, esperava que fosse com uma universidade.
Após tomar café da manhã, resolvi limpar e arrumar meu apartamento. Liguei o som e escolhi uma playlist no Spotify.
Mas claro que eu ia fazer meu próprio show em casa para mim mesma em meio ao processo de limpeza, principalmente depois de ter tido o trabalho de aprender a coreografia dos refrões da maioria das músicas de HyunA.
Óbvio.
Lip & Hip
que o diga. E eu nem vou comentar sobre Red.
Rindo comigo mesma após terminar de arrumar tudo, fui tomar um banho. Infelizmente, eu não tinha disposição para dançar por muito tempo.
Quando saí do banho, encontrei no meu sofá assistindo algum canal aleatório de TV.
— Por favor, diz que você tem algum coisa gostosa para comer. Eu esqueci de fazer compras e ‘tô morrendo de fome. Tudo o que eu tenho em casa é integral e tem gosto de raspas de lápis de cor.
Rindo, eu apontei para o balcão da cozinha.
— Fique à vontade para se servir.
— Eu já disse que te amo? Nem precisa falar duas vezes — e se levantou.
— Você não foi trabalhar hoje?
— Bom, na verdade eu passei a noite inteira trabalhando e cheguei em casa de madrugada. Eu não dormia há uns três dias e meu chefe resolveu fazer o favor de me dar uma folga após terminar o projeto. Estou com o resto da semana livre. E você?
— 36 horas seguidas. Mas já dormi o quanto pude. Se você tivesse vindo mais cedo, poderia me ajudar com a faxina.
— Tem certeza disso? Acho que eu que estou precisando de você e lá em casa. Sério, acho que deve ter teias de aranha por todo lugar. E eu nem sei de onde elas brotam. Devo comunicar ao nosso senhorio?
— Acho que é melhor deixar ele de fora — eu disse, enchendo um copo de água para beber. — Por falar em , acho que ela deve chegar hoje à noite.
— Espero que ela esteja trazendo presentinhos.
— Ah, claro. Espere sentada, aposto que ela nem lembrou disso — eu disse, rindo.
e eram minhas vizinhas.
Mas era quase como se morássemos juntas, o que só não acontecia porque os apartamentos eram pequenos demais para 3 pessoas nele e nós precisávamos do nosso próprio espaço. Principalmente , que vivia trazendo trabalho para casa.
Porém passávamos a maior parte do tempo juntas em algum dos 3 apartamentos, o que era ótimo. Era como se tivéssemos nosso pequeno mundinho.
E por falar em mundo pequeno, aproveitei para contar a novidade do ano para .
— Como assim ele está trabalhando com você? A já sabe disso? Ela vai querer voar no pescoço dele assim que o vir. Ela é pior que você.
— Ainda não. Não achei uma boa ideia contar por telefone. Espero que ela não pegue nenhum plantão noturno com ele. Quem sabe que tipo de acidente poderia acontecer, não é mesmo? — rimos.

chegou pouco depois das sete da noite naquele dia. Nós a ajudamos a desfazer as malas, enquanto ela tomava um banho e depois pedimos pizza no meu apartamento. Havia uma playlist que variava entre k-pop e músicas internacionais tocando. Eu havia planejado contar a novidade a depois do jantar, mas aproveitei o bom humor dela (mesmo morrendo de fome) e resolvi soltar tudo de uma vez só.
— É o quê?! — ela disse e começou a tossir, engasgada com o gole de água que havia tomado.
começou a dar tapinhas nas costas dela.
— Ainda bem que não foi com a pizza — brincou.
— Como assim ele ‘tá trabalhando no St. Lawrence, ? Que droga de pegadinha do destino é essa? — ela perguntou e eu dei de ombros. — Sério mesmo. O seu ex ‘tá trabalhando com você. E pior, comigo também. Eu vou encher a cara dele de porrada.
— Só tenta não fazer isso enquanto estiver no hospital, mana. Fora do hospital, eu posso até te ajudar. Eu arrumo o saco preto e a pá e você encontra um terreno baldio — brinquei.
— Tudo bem, vocês já tão começando a me assustar — comentou e nós rimos. — Vocês são oficialmente as rainhas do shade!
— Acho que você ainda não vai ver ele tão cedo, . Infelizmente eu vou, ao menos um dia da semana. Ah,eu não te contei a maior…
— Ele tá noivo.
— Ei, você também não me contou essa parte! — reclamou.
— Eu achei melhor contar pra vocês duas juntas — expliquei e falei sobre o encontro aleatório que tive com e sua noiva, quando fui ver .
— Caramba! — riu alto em deboche. — Isso vai ser divertido.
— Nossa, mas também o , hein? Ele também sempre tem que estar no meio da bagunça. Acho que o amor que o tem por ele vai só aumentar — ela ironizou. — Primeiro, você; e agora a noiva dele trabalhando com ele. O que o vai pensar disso? Parece um karma — acrescentou .
— Acho que só tem o azar de estar no lugar errado, na hora errada.
— Ah, e a melhor. acha que talvez possa acontecer algo… acho que ele ainda acha que amo o — rolei os olhos, mas elas ficaram caladas. — O quê?
— Vai dizer que você não ficou surpresa por saber que ele irá casar?
— Ah, … Não é como se fosse algo anormal, eu fiquei surpresa, claro. Mas porque a última vez que o vi foi no nosso término, na minha formatura.
— E foi só isso que você sentiu? Eu não quero insinuar nada, . Só ter certeza de que você ‘tá ok com isso.
— Bem, o que você quer que eu diga? Que doeu? — eu ri. — Quem sabe quantas outras namoradas não deve ter tido depois de mim? A diferença é que… ele escolheu aquela.
— É, . E três anos atrás, ele tinha escolhido você. Vocês dois até mesmo usavam aneis de compromisso. Você disse que ele não usa um agora.
— Acho que isso é irrelevante. Não como se eu tivesse o sonho de passar o resto da vida com ele três anos atrás, nós não tínhamos oficializado nada.
— Porque você não quis.
— Eu não ia noivar, muito menos casar estando na faculdade, . Você sabe que é loucura. O que e eu tivemos… foi mais como um o-que-será-será. E nós não fomos feitos para ficar juntos. Eu tive muitos momentos felizes com ele e parte do que sou hoje, minha confiança ou mesmo o meu jeito é por conta dele, por mais que eu odeie admitir depois do que ele fez. Como diz minha mãe, tudo na vida é aprendizado.
— Que seja! — exclamou, de repente. — Não sei porque vocês estão tão sérias quanto a isso. Não é como a fosse cair de amores por ele de novo, . E eu não estou dizendo nunca, porque né, a também dizia que nunca iria namorar garotos mais novos e passou quase dois anos com ele. Mas… eu só sei que eu, a partir de agora, vou só torcer para ter uma escala com , e eu de plantão. Porque eu vou soltar shaaaaade! gritou, fazendo-nos rir. — E por falar em shade… — ela pegou o celular e abriu no spotify colocando uma música.
A música “perfeita’’ para o momento, eu percebi assim que a voz de Perry Edwards começou a soar das caixas de som e nós cantamos juntos dela, enquanto ríamos.
— This is a shoutout to my ex..! Heard he in luh with some other chick!
— Yeah yeah that hurt me I'll admit
— continuei sozinha. — Forget that boy I'm over it!
Eu podia dizer que meu coração deu um pequeno tremelique depois de passar por pequenas emoções que me surpreenderam, mas eu respirei fundo e apenas ignorei aquela sensação de algo não estar no lugar certo que vez ou outra aparecia.
E de repente, estávamos cantando e dançando de pijamas, segurando escovas de cabelo como microfone; e em algum momento fez um vídeo e postou no instagram, enquanto nos divertíamos. Quem visse, provavelmente iria pensar que estávamos bêbadas, mas… era só shade mesmo.
E que aguentasse, pois (e eu) ia testar a paciência dele.
Coisinha básica.


3. Trégua?


Trabalhar doente é uma coisa horrível. Na verdade, até lavar uma louça estando doente é horrível, quando tudo o que você tem vontade de fazer é ficar deitada em uma cama, dormindo até um milagre acontecer e você acordar nova em folha.
Eu queria muito poder fazer isso.
Mas infelizmente eu tinha que trabalhar naquele dia e me obriguei a levantar da cama e fazer isso.
O banho ajudou um pouco, me deixou mais disposta. Tomei uma bebida quente também.
Cheguei ao trabalho um pouco atrasada e encontrei e Lara que já tinham dividido os pacientes e recebido o plantão de Lola, que tinha sido a responsável da noite anterior.
— Bom dia — eu disse, sem ânimo algum, enquanto pegava uma touca e uma máscara e colocava.
— Nossa, . Você está péssima — Lara comentou.
— Acho que é só um resfriado.
— Tem certeza que está bem? — assenti com a cabeça.
Ela me passou o plantão rapidamente e me mostrou os pacientes com os quais eu tinha ficado. A clínica estava mais cheia naquele dia e ela estava admitindo novos pacientes nela, enquanto uma das estagiárias ajudava.
O dia passou terrivelmente devagar. Eu tive uma dor de cabeça horrível, tomei um remédio que de nada serviu e quando estava perto das setes horas e eu achei que finalmente iria para casa, aconteceu algo pior.
Eu estava terminando de arrumar minhas coisas, quando entrou no quarto de repouso para pegar sua mochila. Depois disso, só lembro de sentir minha pressão cair e tudo se apagar depois.
— murmurei, escutando minha própria voz como se tivesse longe. — Minha pressão-
E foi aí que apagou. Devo ter retomado a consciência uns 5 segundos depois de desmaiar. Abri os olhos e encontrei os de me encarando preocupado, ele estava sentado na cama enquanto me segurava em seu colo, como se eu fosse um bebê.
Gemi e me obriguei a levantar. Eu estava com muito sono.
— Eu caí? — perguntei.
— Não, eu consegui te segurar antes disso. Você está se sentindo melhor agora?
— Eu tô com enxaqueca. Pode aplicar um remédio em mim? — perguntei.
Minutos depois, eu estava com um soro com medicação correndo em uma veia da mão direita. Felizmente, não demorou muito para que acabasse. ficou comigo durante todo o tempo, porém.
Naquele dia, estava com o plantão noturno e chegou pouco depois.
— O que aconteceu?! — ela quis saber, assim que viu me ajudando a retirar a agulha da minha mão.
Eu expliquei rapidamente a ela e me levantei. Ajudei a passar o plantão para e quando acabamos, eu falei que estava indo embora.
— Eu vou te levar em casa — anunciou.
— Não precisa, eu tô bem.
me chamou. — Por favor, não tem como você dirigir assim a menos que queira dormir no volante.
Suspirei, sem responder nada. Eu sabia que ela estava certa.
— Eu levo seu carro quando eu for. O meu tá na oficina mesmo — ela disse.
Entreguei as chaves a ela, que as colocou no bolso do jaleco e encarei .
Até chegarmos no estacionamento, o celular dele tocou umas três vezes e em uma dela pude ver que era sua noiva que ligava, mas ele não atendeu. Em vez disso, digitou uma mensagem.
Suspirei, cansada.
— Eu posso pegar um táxi. Não precisa me levar — tentei fazê-lo desistir. — Você deve estar ocupado.
— Eu vou te levar, . Não discuta comigo.
Ora, mas eu não tinha feito isso o dia todo. Na verdade, até tratei bem.
O que uma doença não faz com você, não é mesmo? Eu não tinha nem energias para retrucar direito as indiretas dele.
Claro, com exceção de uma.
— Você e as meninas devem ter se divertido bastante semana passada — ele comentou, depois que estávamos na estrada. — Pelo visto, você ainda curte Little Mix.
Olhei para ele sem entender e então lembrei do vídeo que havia postado no instagram.
Ri de leve. Pelo visto, ele ainda seguia ela. E ela provavelmente sabia disso e fez de propósito.
— This is a shoutout do my ex… — cantarolei, provocando e o vi revirar os olhos.
— Isso é bem infantil, você sabe. Você não faz o tipo de mandar indireta via rede social.
— Eu não mandei nenhuma. Foi só uma música, — e foi a minha vez de revirar os olhos. — Mas se a carapuça serviu... — deixei no ar e abri a garrafa de água que havia trazido comigo.
— Bem, de uma coisa eu tenho certeza... Você não fingia — ele disse, com um sorriso e eu engasguei com a água, tossindo logo depois.
Como eu disse antes, era imprevisível.
— Eu não vou nem responder, . Vou fingir que não ouvi.
— Claro que não vai. Você sabe que é verdade.
— Seu nível de arrogância ultrapassa os limites, sabia?
— Bem, deve ser porque ninguém nunca reclamou. Nem você.
— Ah, claro que não. A vadia que estava na sua cama não deve ter reclamado também — e dito isso, consegui tirar aquele sorrisinho idiota da cara dele.
— Você saberia que eu não transei com ela, nem ninguém além de você se tivesse me deixado explicar tudo, três anos atrás.
— Claro, . E você acha que eu não sabia que era exatamente isso o que você iria dizer? É o que todos dizem.
— Eu não traí você, . Nunca traí — ele disse, entredentes. — Mas você nunca confiou em mim.
Eu senti um frio na barriga outra vez.
— Eu confiei, . Mesmo com um monte de garotas em cima de você. Mesmo elas sabendo que você estava comigo. Mesmo inclusive quando você estava comigo. A diferença é que até então eu nunca tinha te pegado na cama com nenhuma delas até aquele dia.
— Você achava que por eu ser jovem, eu não conseguiria ficar apenas com você. Você até mesmo disse isso na minha cara. "Eu deveria saber que era burrada namorar um cara de 19 anos" — ele repetiu. — Você, no fundo, não confiava em mim, você nem ao menos tinha ciúmes.
— Nem você confiava em mim, . Ou você esqueceu do ?
— Vocês parecem se dar muito bem agora — ele disse, me fazendo rir.
— De verdade, , seria mais fácil eu te trair com do que com . E olha que nenhuma de nós é lésbica.
— Eu confiava em você, eu só não confiava nele — ele disse, após um suspiro.
tem um senso de justiça muito grande, embora você não ache isso. Ele nunca faria isso com você. E sabe porquê? Ele mesmo que me disse que torcia por nós. Que éramos bons juntos. Você acha que ele é o tipo de pessoa que diria isso da boca pra fora? Claro que... Claramente, não tivemos futuro. A propósito, parabéns pelo noivado — eu acrescentei, assim que ele estacionou, mas ele não respondeu nada ou sequer agradeceu.
Desci do carro e ele me acompanhou.
— Tem alguém para ficar com você? Alguma amiga?
e estão trabalhando, mas…
— Eu vou ficar com você, então.
— Não precisa. .
— Tem alguém que possa vir? E se você passar mal outra vez?
— Tem. Tem alguém. Que droga.
— Ótimo. Eu fico até ele chegar — insistiu.
Eu teria discutido, se não tivesse tão cansada.
Mas apenas deixei quieto.
Entramos no meu apartamento e ele olhou em volta, curioso.
O meu senso de educação me forçou a perguntar se ele queria comer ou beber algo.
Eu estava morrendo de fome.
Por fim, decidi pedir uma pizza.
Mandei mensagem para passar por lá, quando saísse do trabalho. E ele disse que chegaria assim que pudesse. O trânsito não estava muito bom também.
— Eu pedi pizza, deve chegar em alguns minutos. Eu vou tomar um banho. Deixei o dinheiro no balcão — anunciei.
— Não precisava ter pedido.
— Qual é, . Eu tô morrendo de fome e sei que você também está. Me deixe ao menos te pagar em pizza, eu pedi de pepperoni — eu disse e ele sorriu.
— Sendo assim, obrigado.
Pepperoni era a favorita dele. Antigamente, quando eu queria convencer a fazer algo, eu sempre usava pizza e hambúrguer a meu favor. Ele sempre caía.
Vesti um pijama confortável quando saí do banho e voltei para a sala.
estava recebendo as pizzas naquele exato momento. Quando ele se virou e me viu, percebi o seu olhar me escanear de cima a baixo, demorando um pouco nas minhas pernas descobertas por conta do short que eu usava.
Bem, não era novidade para ninguém. Mesmo jeans, eu gostava curto. Shorts de cintura alta, blusas regatas e ombro a ombro eram os meus favoritos. E claro, os pijamas. Não era novidade para ele também. E não era como se eu tivesse indecente, embora eu tenha me sentido um pouco assim por conta do olhar demorado dele.
— Ah, as pizzas... — ele sinalizou. — Você parece melhor.
— Depois de um banho? Estou cinquenta por cento renovada. Falta só comer para ficar novinha em folha. Acho que passei mal por conta da enxaqueca. Bem, pelo menos o remédio serviu — acrescentei, tocando a mão onde eu tinha recebido a medicação. — Eu tenho refrigerante, você quer? — ele assentiu e peguei duas cocas.
Comemos em silêncio por alguns minutos, apenas matando a fome e falando em como a pizza estava boa.
De repente, a discussão que tivemos no carro havia desaparecido, como se uma trégua tivesse sido estabelecida naquele meio tempo. Até começar a fazer perguntas, é claro.
— Você fez mestrado? — eu assenti. — Que bom. Eu estou fazendo um também, acabei de iniciar.
— Legal. Boa sorte.
— É... Obrigado. Você parece estar indo bem. Sua casa é legal.
— Sim, felizmente. Mas você também está, não é? Trabalhando, fazendo mestrado, prestes a se casar — ele revirou os olhos quando mencionei a última parte. — Achei que você fosse demorar mais um pouco, depois de tudo. Além do mais, você não usa nenhuma aliança — apontei para a mão dele.
— Hm, é recente. Não é como se eu fosse me casar tão cedo. Também não quero. Não mais.
— Por quê?
— Acho que tô tentando seguir seu conselho de estabilidade primeiro, construir família depois.
— Você esqueceu das viagens no meio disso aí.
— Verdade, ainda tem as viagens — ele riu.
— Sua noiva parece ser uma boa pessoa. Ela tem cara de ser bem delicada. Qual a idade dela?
— É um ano mais nova que eu.
— Uh, você é o mais velho — brinquei.
— Não que faça muita diferença — e não fazia mesmo. era de Hong Kong, na cultura dele isso não era algo extremamente rigoroso e nem aqui, embora eu soubesse que a idade indicava hierarquia em alguns países, como na Coreia do Sul. Porém, era muito mente aberta para se prender a esse tipo de regras, ainda mais com amigos ou namoradas.
Eu também não me importava e embora eu fosse mais velha que ele, ele me chamava pelo nome e falávamos informalmente um com o outro.
— Ela é... Tranquila. Ela ia pirar se eu dissesse que comi pizza. Ela odeia fast food.
— Que tipo de pessoa odeia fast food?
— O tipo fitness ao extremo.
— E eu achava que você que era fitness ao extremo.
— Pra você ver que tem gente pior que eu. Ela até pesa a comida — ele disse, com um sorriso sarcástico.
Eu não consegui controlar um riso.
— Caramba. Ela te obriga a fazer dieta também?
— Só tente imaginar. Mas de vez em quando, eu fujo sem ela saber. Tipo hoje — riu também.
Terminamos de comer e havia sobrado algumas fatias, quando a campainha tocou. Era .
Mas ele não pareceu surpreso de ver ali comigo, embora eu não tivesse dito pela mensagem.
De qualquer forma, eu já estava bem. Apenas tinha pedido para ele ir porque não ia sair enquanto não tivesse alguém comigo. Ele só não pareceu gostar muito de descobrir que esse alguém era o .
Mas enfim. Fazer o que, não é?
Cumprimentei com um abraço e logo escutei um pigarro atrás de mim.
— Eu já vou indo, agora que você tem companhia. Obrigado pela pizza — anunciou, antes de cumprimentar com um aceno de cabeça e ir embora.

— Ah, eu tô morto, sério — se jogou no sofá e pegou um dos pedaços de pizza, mordendo-o. — Hm, eu não sei como aguenta aquela noiva neurótica dele. Eu passei vinte minutos com ela e quase piro.
— O que houve? — perguntei, curiosa.
— Ela sabe que ele estava com você. Aparentemente, ele esqueceu de avisar antes que não ia poder ir buscá-la e ela começou a pirar. Eu ofereci uma carona a ela e quando estávamos no carro, ela recebeu uma mensagem dele dizendo que estava indo te deixar em casa porque você não estava em condições de dirigir.
Então, ela começou a reclamar sobre que tipo de obrigação ele tinha em ir deixar a ex-namorada em casa quando ela podia muito bem pegar um táxi e blá blá blá. Ah, sinceramente. Acho que ela esqueceu que sou seu melhor amigo. Foi por isso que demorei.
— Ou talvez, ela lembrasse muito bem disso e sabia que você provavelmente iria me contar.
— Tanto faz — ele deu de ombros. — Ela não parece o tipo de garota que eu achei que escolheria para passar o resto da vida. Tipo, ela é doida mesmo.
gosta das doidas. Eu também não era lá muito normal.
— Mas você é uma doida legal, ela é uma doida insuportável. E pensar que eu tô trabalhando com ela. Que droga — ele disse e eu ri.
— Vai se acostumando — dei um tapinha em suas costas. — Acho melhor você ir depois de comer, eu não preciso de companhia. E eu sei que você tá ocupado e tem trabalho amanhã. A menos que queira ficar, é claro. Meu sofá é bastante espaçoso — brinquei.
— Oferta tentadora, senhorita, mas prefiro a minha cama — ele disse e eu ri.
Minutos mais tarde, ele se foi. E eu fui dormir depois de arrumar a bagunça da pizza e me livrar de todo o lixo.
Felizmente, minha enxaqueca também havia ido embora. Só precisava dormir e eu estaria pronta para mais um dia de trabalho. E foi exatamente isso que fiz.


4. Se Me Atacar, Eu Vou Atacar


se encontrou com mais cedo do que eu esperava que ele fosse.
Ela não tinha nenhuma escala com ele nem tão cedo, mas Lola precisou de alguém para cobrir seu plantão naquele dia devido a uma emergência em casa.
E adivinhem para quem ela pediu? Isso mesmo.
, que já estava no plantão noturno, ficou o diurno do dia seguinte também junto comigo e . Poderia ser uma ironia do destino? Claro que sim.
Até porque eu bem que suspeitava que fosse isso mesmo.
Ela foi em casa para tomar banho, pegar uma nova roupa e também me buscar, já que meu carro havia ficado com ela.
Achei que ela fosse estar mais cansada, mas ela havia ficado bastante animada em cobrir Lola naquele dia. Era vantajoso para ela, pois iria cobrir uma falta. E porque ela estava planejando "pegar " naquele dia, palavras dela não minhas. Digamos que gosta de ensinar bastante aos mais novos que trabalham com a gente. Fui para o quarto de repouso para trocar de roupa e entrei de uma vez, imaginando que não tinha ninguém já que a porta estava aberta. Mas infelizmente tinha.
E era um só de cueca boxer.
— Aah! Porra, ! — não consegui conter o palavrão. — Não sabe fechar a droga dessa porta não? Ela tem tranca, sabia? Qual o problema do pessoal daqui? Parece que eu sou a única que uso a magia da fechadura.
Ele me olhou confuso por um segundo, mas depois o vi abrir um sorriso, antes de passar a chave na porta e me virar de costas para ele.
— Bom dia pra você também, Kim.
— Você já tá perto de acabar? Eu preciso me trocar também.
— Então se troque — ele deu de ombros. — Não vai ter nada aí que eu já não tenha visto.
— Como é que é? Que você pensa que — me virei, por impulso, mas logo me arrependi pois ele ainda não havia vestido a roupa. — Droga, , veste logo a roupa — resmunguei, dando as costas mais uma vez.
— Também não tem nada aqui que você já não tenha visto, princesa — ele riu.
— Eu já falei pra você parar de me chamar assim. Eu não gosto quando você me provoca.
— Eu sei que no fundo você gosta — provocou novamente.
Respirei fundo, pronta para encará-lo e xingá-lo por todos os palavrões que eu conhecia, mas quando o fiz dei de cara com ele a centímetros de distância de mim.
— O que você tá fazendo? — perguntei, nervosa com a proximidade.
Ele sorriu, inocente, mas eu sabia que de inocente ele não tinha nada.
Especialmente quando, segundos depois, meu corpo foi levantado e colado com o dele junto à parede. Coloquei as mãos em seus ombros por reflexo, para não cair, mas ele me segurava firme.
Senti o coração acelerar no mesmo instante e novamente aquele frio na barriga. aproximou o rosto do meu e senti sua respiração quente bater no meu pescoço.
, o que você tá fazendo? — repeti minha pergunta anterior.
Ouvi seu sorriso próximo ao meu ouvido e logo em seguida, ele responder:
Te provocando — respondeu, antes de morder o lóbulo da minha orelha, me pegando de surpresa mais uma vez. Tremi com o toque, mas logo me recompus.
Respirei fundo e o encarei.
Era isso que ele queria então? Pois então ele ia ter.
Entrelacei meus dedos entre os cabelos de sua nuca e puxei sua cabeça para o lado, com certa violência. Depositei um beijo em seu pescoço, logo depois, pegando-o de surpresa e aproveitei a deixa para me livrar de seus braços e voltar ao chão.
— É assim que você quer então, ? — perguntei e ele me encarou, confuso. — Muito bem. Dois podem jogar esse jogo, então.
E então eu comecei a tirar a roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã na frente dele. Em seguida, fiz o que tinha ido fazer. Vesti minha roupa de trabalho, enquanto ele me apenas me observava.
— Você tem razão — continuei. — Não tem do que você não tenha visto, não é? — então peguei sua própria roupa e joguei para ele. — Eu quero você no posto de enfermagem em dois minutos. Ah, e não pense que estamos bem só por causa do que aconteceu ontem.
E então eu saí de lá.

Lara e já haviam dividido os pacientes quando cheguei. A clínica estava cheia naquele dia, mas haviam muitos profissionais também.
— Por que você demorou? Tá sentindo algo?
— Raiva, talvez. Com um pouco de satisfação — comentei. — Depois te conto. O quarto tava ocupado.
chegou pouco depois.
Não falei com ele durante toda a manhã. A vantagem de ter muitos profissionais era essa. Às vezes, simplesmente não era necessário. De qualquer forma, Lara e estavam lá para tirar qualquer dúvida que ele tivesse.
Felizmente, ele também não me dirigiu mais a palavra.
Na hora do almoço, combinei com de irmos juntas e fui ao repouso para pegar meu celular, onde eu tinha esquecido mais cedo.
Abri a porta, mas antes de entrar, pude ouvir discutindo com alguém no telefone.
— Por que você tá ligando pra falar disso agora, Charlotte? — era a noiva. — Eu já te disse ontem, não tem porque você ficar batendo na mesma tecla toda hora. Que saco! — ele deu uma pausa, provavelmente para escutar o que ela estava dizendo. — Eu já disse que não. Olha, quer saber de uma coisa? Eu preciso trabalhar. Então, aproveita pra pegar um táxi pra ir pra casa hoje e vê se me esquece!
Caramba.
Ele estava com raivinha.
Tsc tsc.
Entrei finalmente no quarto, como se nada tivesse acontecido e ele me encarou assustado por um instante, parecendo surpreso em me ver ali.
— O que você...? — começou a perguntar. Balancei meu celular na frente dele e caminhei para a porta.
— me chamou.
— O quê? — me virei para encará-lo.
— Você ouviu?
— Ouvi o quê? Do que você 'tá falando?
— Ahn... Nada não. Desculpe.
Dei de ombros e saí de lá. ia adorar saber dessa.

E adorou.
Ah, meu Deus! Eu sei que é errado, mas eu não consigo parar de rir! — ela disse, assim que terminei. — Olha, será que ele gosta mesmo dela? Você disse que ontem ele falou que era recente. E o disse que ela é doida. Você acha mesmo que isso vai durar?
— Sei lá. Mas eu não vou mais aguentar provocações da parte dele. Se ele quer jogar, eu posso fazer o mesmo — comentei, e então me lembrei de algo. — Ah, adivinha. Recebi uma mensagem do hoje, faz uns dias que ele voltou para Londres. Ele veio a trabalho e vai passar uns dias antes de voltar para a Tailândia. E me chamou para sair... — cantarolei, balançando o celular, mostrando a mensagem para ela.
— Opa! O gatinho tá de volta — ela brincou e sim, aquele era o verdadeiro nome do , até hoje não aprendi direito como se pronuncia. — Não sei porque vocês não começam a namorar logo de uma vez.
— Eu não namoro à distância, . E eu não vejo a gente como um casal de verdade. Mas... Claro que podemos nos divertir juntos, vez ou outra.
— Quem vê jura que é a voz da experiência falando. Sendo que na verdade ele só é o segundo cara da sua vida — ela riu.
Rolei os olhos.
— Felizmente, ele é o segundo cara da minha vida. Você sabe como eu sou. Raramente eu me interesso por alguém. E nesses últimos três anos, ele foi o único que apareceu.
— Claro, você nunca sai para procurar... Mas sabe o que pensei agora? Não ia ser legal se visse você com o ? Porque o é o pacote completo também e ainda tem o bônus de que ele é da sua idade também. Eu queria ver a cara do quando ele percebesse que você também seguiu em frente. Até porque... Você não disse que não tinha namorado também.
— É como eu sempre digo, . Você é o diabinho e é o anjinho nos meus ombros — nós rimos. — Você deveria escrever roteiros de dramas, porque sua criatividade é enorme.

***


E por falar em diabinho, aproveitou para colocar um pouco da sua maldade para fora quando acompanhou em um procedimento de curativo.
E ela fez questão de ativar seus olhos de águia em cima de tudo o que ele fazia, prestando atenção a cada mínimo detalhe.
— Olhe para sua bandeja de materiais e observe, . Tem certeza que não está esquecendo de algo?
Ele suspirou.
— O saco de lixo e...
— As luvas de procedimento — ela completou, jogando alguns pares na bandeja. — Você não quer contaminar seus materiais, não é?
— Não, sunbae.
— Mais atenção da próxima vez. Você não vai querer dar várias viagens só para buscar material que esqueceu, não é?
— Sim, — rolou os olhos.
E eu contive um riso assim que vi.
— Você acabou de revirar os olhos pra mim, ? Você acha que eu tô falando besteira? Que eu tô pegando no seu pé?
— Ah, disso eu tenho certeza, .
— Olha, , você merecia coisa bem pior do que eu avaliando sua bandeja de curativos, se quer saber — ela deixou no ar. — Infelizmente, é mais tranquila. Porque se dependesse de mim, eu já teria dado um fim em você.
Ele então riu.
— Eu sei que você quer tentar parecer assustadora, , mas a sua falta de tamanho não ajuda. Me faz lembrar daquele meme do pintinho com uma faca.
— Não me subestime, Wong. Tenho certeza que dou de conta de você rapidinho. Cuidado com os bisturis por aí — e então ela sinalizou aquele estou-de-olho-em-você clássico e até eu ri nessa hora junto com .
— Desculpa, amiga. Mas foi realmente engraçado agora.
— Ei — ela me cutucou. — Eu tento fazer as coisas por você e você ri? De qualquer modo — ela se virou para , novamente séria —, acho bom você andar treinando mais sua atenção e memória, . Pelo visto, continuam tão ruins quanto há três anos atrás. Afinal, naquela época você esqueceu que tinha uma namorada, não foi? Espero que não cometa o mesmo erro outra vez.
E lá estava a rainha do shade outra vez. ia rir muito quando soubesse dessa.



Eu tinha que dizer que era quase a pessoa mais insuportável que eu já havia conhecido. Mas infelizmente, ela perdia para a minha noiva.
Charlotte sabia como realmente me infernizar quando bem queria. E eu não sabia se eu iria aguentar mais disso por muito tempo.
Ela estava me deixando completamente saturado aos poucos. Às vezes, eu me perguntava em como fui cair nesse tipo de relacionamento. Ela era uma pessoa ótima quando namorávamos, mas depois que fomos morar juntos, após o noivado…
Bem, as coisas começaram a despencar. Eu não podia sair com meus amigos à noite ou sequer ter amigas mulheres. Ela quase pira quando tive que trabalhar algumas vezes com uma colega de mestrado.
E agora tinha a , que trabalhava comigo.
Eu não vou mentir e dizer que não fiquei curioso em saber como ela estava durante esses anos. Claro que ela havia me bloqueado de toda e qualquer rede social que ela tinha depois que terminamos, mas eu ainda seguia e no instagram e vez ou outra ela aparecia ao lado das meninas.
Eu sabia que elas três estavam trabalhando, mas eu não sabia aonde. E muito menos esperava encontrar ela (e ) trabalhando no mesmo hospital que eu.
E claro, havia também a droga do acontecimento de hoje.
Eu não sei o que deu em mim para provocá-la daquela forma e sei que era errado, mas me surpreendi quando ela revidou. é do tipo que só ignora provocações. Do tipo que te trata com frieza quando está com raiva.
Mas pelo visto, algo tinha mudado um pouco e eu me perguntava como tinha ocorrido aquela mudança. Ela parecia mais confiante, mais independente, embora tenha sido algo que ela sempre foi.
No entanto, ela parecia "mais" várias coisas.
E quando eu achava que estava finalmente conseguindo seguir em frente, o destino veio e a colocou bem na minha frente.
E eu ainda não havia descoberto como lidar com isso direito. Vê-la me causava nostalgia. E embora eu lembrasse dos mais momentos que tivemos, assim como ela, os bons momentos prevaleciam na minha mente e de repente eu começava a imaginar vários "como's" e "se's" na minha cabeça.
Saí do trabalho e dirigi até a casa de um amigo; eu não estava com nem um pouco de vontade de ir para casa e encarar a loucura de Charlotte outra vez. Não tenho tempo, nem paciência para aguentar gente mimada por muito tempo, quando tudo o que eu quero é chegar em casa, tomar um banho, comer e relaxar.
Felizmente, eu não tinha que ir trabalhar no outro dia. Era sexta e eu tinha aula no mestrado, mas eu sempre andava preparado com computador e ao menos a muda de roupa no carro, algo que eu raramente usava, mas que havia caído como uma folha naquele dia.
Toquei o interfone do apartamento assim que cheguei à entrada do prédio e esperei. Quando tive o passe livre, segui para o elevador e logo eu estava batendo na porta pela qual eu não entrava já fazia alguns meses.
— Wong! — abriu a porta, com um sorriso no rosto, falando um dos meus nomes. — Eu sei que você estava com saudades, mas não imaginei que fosse tanto à ponto de querer dormir comigo — e me cumprimentou com um abraço.
— Eu tinha que aproveitar para escapar um pouco da Charlotte — eu disse, assim que nos soltamos.
— Eu sempre te disse que você pode usar o apartamento sempre que precisar quando eu não estiver. Daí você aproveita e faz uma faxina nele — piscou.
— Faz tempo que você chegou?
— Por quê? Você queria ajudar com a faxina? Fica para a próxima. Já foi tudo limpo dois dias atrás. Você sabe, não avisei antes porque eu preferi hibernar durante esse tempo. A última semana na empresa foi um saco, mas felizmente eu consegui uma folga depois de resolver alguns assuntos aqui em Londres.
— De qualquer forma, é bom ver você de novo. Se não se importa, vou me apossar do seu banheiro agora — comuniquei, largando a mochila no sofá e tirando o notebook de dentro, deixando-o lá.
Mi casa es su casa disse, rindo. — Vou pedir alguma comida para gente. Você tem alguma ideia?
— Não me importo com o que seja. Só escolhe a coisa mais gordurosa e calórica que você encontrar, cara — eu disse, antes de me trancar no banheiro e finalmente encontrar um pouco de paz.


5. You're So Good To Me, Baby


Passei a sexta-feira praticamente inteira sozinha. estava trabalhando e não tinha hora para chegar e para completar, resolveu hibernar depois do plantão dela. Sendo assim, passei o dia entre Netflix e comida.
Eu estava terminando o quarto episódio do dia de Altered Carbon quando recebi uma mensagem do no WhatsApp.
"Jantar e balada hoje, topa? ;)"
E como uma luz tivesse aparecido de repente, eu respondi que sim.
"Te pego às sete."
Bem, parecia que alguém tinha que ficar bem bonita agora. Felizmente eu havia dormido bem e minhas olheiras de sempre estavam até ok naquele dia.
Quando o episódio acabou, tratei de ir tomar banho e começar a me arrumar, eu tinha menos de três horas e era bastante pontual.
Aproveitei para dar um jeito no meu cabelo e o deixei ondulado já que cachos eram impossíveis com o tamanho dos fios.
Escolhi um vestido branco florido de alças para a ocasião já que iríamos jantar antes e um sapato preto não muito alto, já que iríamos dançar.
Fora que conhecendo como eu conhecia, ele não me levaria à um restaurante de frango ou algo do tipo, mas também não escolheria o mais caro e requintado deles, pois sabia que eu não me sentia confortável neles.
Então, ficávamos em um meio termo.
Eu estava terminando de calçar meu sapato quando ouvi a campainha tocar.
Um sorriso involuntário apareceu no meu rosto. Já tinha quase três meses que eu não o via. Desde que havia voltado a morar na Tailândia, nós nos encontrávamos apenas nas ocasiões que ele vinha para Londres a negócios, como agora.
Eu o conheci na faculdade onde fiz meu mestrado. Aparentemente, a empresa de sua família era uma das patrocinadoras de um evento organizado pela escola de ciências da saúde e ele participou da abertura no lugar do pai, já que na época trabalhava em uma filial de Londres.
Fomos apresentados pela minha orientadora, que o conhecia e também estava no meio da organização do evento, assim como eu. Na ocasião, ela me pediu para levá-lo ao auditório, até a poltrona que havia sido reservada para ele, assim como outros representantes. Diferente de alguns, estava sozinho, sem nenhum secretário à sua sombra.
Nos aproximamos durante o coffee break do evento. Havia muita gente, mas pareceu perdido em um momento e cheguei a pensar que fosse porque seu coreano não era muito bom, ou coisa do tipo.
Mas quando me aproximei, eu descobri que não, ele apenas estava desconfortável já que não conhecia ninguém. Então, ficamos conversando por alguns minutos, aproveitando o intervalo entre as palestras que felizmente concordamos que eram um saco de assistir.
— Se você, que está fazendo parte de tudo isso, admite que palestras são chatas, imagine eu que não entendo metade das coisas que estão falando — ele comentou, me fazendo rir.
— Eu não vou mentir, eu preferia fugir para o laboratório e ficar vendo Netflix lá. Acho que minha orientadora nem iria perceber que sumi no meio de tanta gente.
— Soa tentador. Porque não fazemos isso, então? À propósito, pode me chamar de . Nós temos a mesma idade, então acho que formalidades não são necessárias. Me sinto um velho, às vezes — ele sorriu. Senti meu rosto corar um pouco. Era óbvio que formalidades eram necessárias ao falar com alguém como ele, mas já que ele não queria que eu agisse assim, quem era eu para reclamar?
Sem problemas.
— Ah, como quiser, . Mas acho que dariam falta de você, com certeza — eu comentei, mas ele deu de ombros.
— Deixe que sintam, então. O que me diz? — e estendeu a mão para mim.
Eu sorri e revirei os olhos, antes de pegar na mão dele.
— Eu acho que você é bem convincente, Sr. . Mas devo ficar em alerta ao ficar sozinha com alguém como você, um homem de negócios com vários piercings nas orelhas? — brinquei.
— Bem, eu deveria dizer o mesmo de uma enfermeira com tantos furos nas orelhas também. Isso não é contra as regras?
— Desde que fiquem bem presos nas minhas orelhas, não — eu disse, fazendo-o rir.
E foi assim que passamos o resto da tarde assistindo Netflix escondidos até ele receber uma ligação e dizer que precisava ir.
— Foi ótimo te conhecer, . Espero que possamos nos ver mais vezes, quem sabe em breve, se você quiser.
— Podemos combinar — eu sorri.
— Sendo assim, eu te ligo depois — ele disse, sorrindo também.

E diga-se de passagem: que sorriso!
Eu poderia facilmente cair no charme de , se aquilo durasse mais um pouco. Mas eu não achava que ele iria ligar, ou sequer mandar mensagem. Ele parecia ser alguém ocupado demais para perder tempo com uma mera enfermeira como eu, que tinha acabado de arranjar o primeiro emprego.
Mas não foi isso que aconteceu.
Alguns dias depois, ele o fez e saímos juntos pela primeira vez.

(Coloque Hot da Avril Lavigne para tocar)

Corri até a porta, sem me importar com os barulhos de toc-toc que meus sapatos faziam. Abri a porta e dei de cara com um sorrindo, com um buquê de flores vermelhas, rosas e amarelas, usando um terno cinza sem gravata, com uma camisa branca por baixo e sapatos casuais.
— Oi — o abracei.
— Oi, querida — ele disse, enterrando o rosto no pescoço. Ele sempre me chamava assim. — Senti sua falta.
— Eu também — e me afastei, sorrindo.
— Eu sei que você não gosta muito de flores ou plantas no geral porque são inúteis, mas eu quis trazer mesmo assim.
— São lindas, . Mas você sabe, não precisava. De qualquer forma vou lembrar de guardar uma de cada como lembrança dentro de um de meus livros.
— Como quiser. Você está pronta?
— Vou só pegar minha bolsa e já volto — mas quando eu me virei para sair, ele me puxou.
Senti seus lábios nos meus em um selar rápido, mas ainda sim delicado.
— Agora você pode ir — ele disse, com um sorriso e eu o acompanhei.
Minutos mais tarde, estávamos no restaurante de comida italiana que ele havia escolhido.
— E como estão as coisas no hospital? — ele quis saber.
— Estão bem, na medida do possível. Meu ex-namorado está trabalhando lá, acredita?
— Ah, que péssimo. Eu com certeza não gostaria de ter a minha ex trabalhando comigo. Sinto muito, querida. Deve estar sendo difícil.
— Digamos que não tivemos um bom término. Mas já faz bastante tempo. Claro que eu ainda sinto vontade de socá-lo noventa por cento do tempo, mas até estou lidando bem com isso.
— Fico feliz, então. E as meninas, estão bem? — eu assenti.
está trabalhando e resolveu hibernar hoje. Mas ela provavelmente vai me dar uma bronca porque eu não avisei que você viria — eu disse e ele riu.
— Claro que vai, mas a gente deixa ela matar a saudade depois. Hoje eu sou só seu.
— Interessante. Eu adoro quando você fala isso — eu ri.
— A sua veia de dominante adora quando eu digo isso — ele corrigiu. — Mas tudo bem, você sabe que pode se divertir comigo sempre que quiser, querida.
— Do jeito que você fala, até parece que eu sou uma espécie de Grey na cama.
— Só às vezes — ele provocou.
— Ei! Pára com isso — eu ri, sentindo o rosto esquentar.
— Adoro quando você fica com vergonha. É muito fofo.
! — eu reclamei, fazendo-o rir.
— Tudo bem, parei.
A comida estava que escolhemos estava completamente deliciosa. Assim que acabamos, ainda era um pouco cedo e resolvemos dar uma caminhada por um parque que havia perto, antes de finalmente irmos para o clube.
— E como anda a sua vida, senhor homem-de-negócios? E as namoradinhas? — eu brinquei.
— Não sei. Acho que minha única namoradinha é você. Caramba, isso é uma descoberta — ele fingiu surpresa.
— Ei, estou falando sério agora.
— Bem, se eu tivesse alguém eu não estaria te beijando a cada 10 minutos, . E acho que posso dizer o mesmo de você.
— Você tem um ponto — admiti. — Infelizmente, eu não tenho muito tempo para isso.
— Nem eu — ele deu de ombros. — Meu pai quer que eu me case logo, mas isso não é algo que eu quero tão cedo. Eu gosto da minha vida de agora. Não acho que eu esteja pronto para ser um marido ou pai ainda.
Eu ri, parando de andar e fiquei em frente à ele, abraçando-o pela cintura.
— Eu acho que você seria um ótimo marido — eu disse, dando-o um selinho.
Puxei ele e continuamos caminhando mesmo naquela posição.
sorriu de lado, me abraçando pela cintura também.
— Bem, se você fosse a esposa talvez eu até concordasse com a ideia do meu pai — brincou e nós dois rimos.
— Ah, claro. Um empresário como você casado com uma enfermeira. Um belo casal — eu disse com ironia.
— Não vejo problema quanto a isso — ele retrucou. — Você sabe que eu não ligo para essas coisas, . Nem a minha família. Minha mãe também não era nenhuma filha de empresários ou algo do tipo quando meu pai se casou com ela. Ela era professora.
Eu sorri.
— Quem sabe quando eu me tornar uma também. Professora universitária, pesquisadora. Tirando a paciência dos meus alunos. Sim… soa interessante.
— Coitado de quem for seu aluno. Mas não se comprometa — ele piscou. — Eu posso cobrar depois...
Eu ri outra vez, revirando os olhos. Não era a primeira vez que tínhamos esse tipo de conversa. Sempre brincávamos a respeito. era aquele amigo com quem eu sentia que poderia falar sobre qualquer coisa. Algo que eu não sentia com , mesmo nós tendo a mesma idade e bem com , na época que namorávamos.
era o tipo de pessoa que era tranquilo com quase tudo, o tipo que não julga ou tem preconceitos idiotas. Além de, é claro, ser lindo e com um ótimo senso de humor.
Nós funcionávamos bem juntos. Nossa amizade funcionava.
Ficamos algum tempo no clube, dançando e bebendo durante algumas horas, antes de decidirmos ir a um café e pedir uma taça de sorvete que dividimos, enquanto voltávamos a ficar sóbrios. Ele não havia bebido tanto quanto eu, tomando apenas alguns drinks, pois estava dirigindo e se divertiu enquanto eu ficava alta.
Entretanto, ao final do sorvete, ele já estava completamente sóbrio, e eu estava quase.
Fomos para seu apartamento depois e se passava de uma da manhã quando chegamos. Ele havia comentado que um amigo estava dormindo naquela noite no quarto de hóspedes, então tentamos ser mais cuidadosos para não fazer nenhum barulho quando entramos.
Algo que foi bastante difícil quando chegamos em seu quarto. Eu já havia estado ali diversas vezes, desde que o havia conhecido, assim como ele no meu e, antes de todo esse rolo começar entre nós, a Netflix era nossa melhor amiga.
Mas como dizia , a Netflix era o nosso cupido particular.
Assim que trancou a porta, ele me empurrou contra ela, fazendo um pouco de barulho que me fez rir.
— Você disse para tomarmos cuidado com barulho.
— Que se dane o barulho — ele disse, antes de me beijar outra vez. Dei um impulso para ficar com as pernas presas em sua cintura, e ele apoiou as duas mãos no minha bunda, me segurando por baixo do vestido. Em seguida, nos levou até a cama, onde me colocou com cuidado, em meio a beijos, enquanto se livrava do blazer e da camisa que ele usava, antes de se aproximar novamente.
— Parece que alguém já está pronta — murmurou no meu ouvido, quando moveu sua mão, que estava na minha coxa para a minha calcinha.
Meu vestido àquela altura já estava uma bagunça, levantado até minha cintura, expondo a peça íntima branca que eu usava em conjunto com o sutiã.
Resolvemos nos livrar dele também.
E do resto das nossas roupas.
Afinal, não íamos precisar delas de qualquer forma.
E o que eu tinha a dizer sobre o ? Ele era maravilhoso.
Em todos os sentidos.

Eu acordei pouco depois das oito da manhã no dia seguinte. ainda dormia com uma mão possessiva que me segurava perto na região das costelas.
Me desvencilhei de seus braços e me levantei da cama.
Escutei uma movimentação na cama, enquanto eu procurava uma cueca e uma camiseta dele para vestir (e que eu provavelmente roubaria depois).
— Oh, que ótima forma de acordar. Uma bela visão, devo dizer — escutei sua voz atrás de mim, me fazendo rir. Apanhei um travesseiro que estava no chão depois de vestir sua camisa e joguei nele, que riu também.
— Sua safadeza é incurável, .
— Porque você levantou tão cedo, ?
— Eu estou com fome. Vou atacar a sua geladeira daqui a pouco.
— Ah, eu também estou com fome — ele disse, com a mão no estômago.
— Está, é? — perguntei, desconfiada. — Sua mão aponta pro seu estômago, mas seu olhar me diz que você tem fome de outra coisa — eu provoquei, me aproximando da cama e sentando com uma perna de cada lado de sua cintura.
— Bem, quanto a isso, não posso dizer que você está errada — ele murmurou, correndo as mãos em um toque brincalhão que logo se tornou um aperto forte nas minhas coxas. — O que devemos fazer quanto a isso, querida? Você está disposta a ajudar, querida?
— Hmm, acho que não preciso levantar tão cedo, afinal — eu respondi, antes de me abaixar para beijá-lo.
Me livrei do edredom que o cobria, mas não da camisa dele que eu agora vestia.
Quando acabamos de "saciar a fome", tomamos um banho juntos, dessa vez apenas com água, sabão e apenas alguns beijinhos envolvidos no meio.
Vesti a boxer de que eu havia escolhido mais cedo e novamente a camisa e saí em direção à cozinha. Estava silenciosa, então supus que seu amigo ainda estava dormindo ou que ele já havia ido embora. Felizmente, havia dito que ele tinha o sono pesado.
Eu estava terminando de preparar algumas torradas, quando tomei o segundo susto daquela semana.
— O que você tá fazendo aqui? — levantei a cabeça e dei de cara com me observando do outro lado do balcão, com uma mochila nas costas.
Mas antes que eu pudesse responder algo, apareceu, vestindo apenas uma calça de moletom cinza.
— Bom dia, pessoas. Ah, ! Você já está indo?
— Eu- sim — falou com certa dificuldade. Parecia tão chocado quanto eu estava em vê-lo ali.
— Por que não come algo antes de ir? — ofereceu, mas negou com a cabeça. — Ah, a propósito, , esse é . E , essa é .
Eu abri um sorriso e cumprimentei com a cabeça, e ele fez o mesmo, mas sem sorrir. Acho que não percebeu, mas estava claramente puto, não que isso fizesse diferença para mim. Eu estava apenas surpresa sobre ele ser o tal amigo de . E ele, bem, estava rígido feito uma pedra. E ouso dizer que ficou mais ainda, quando viu me abraçar por trás e depositar um beijo no meu pescoço.
— Agora eu tô com fome de verdade — ele murmurou no meu ouvido e não pude evitar rir.
— Morango ou uva? — perguntei, apontando para as geleias.
— Hm, morango — ele respondeu. — , tem certeza que não quer? Tem o suficiente para nós três. Acho que já fez pensando nisso, não foi, querida?
— Sim, na verdade imaginei que talvez ele estivesse dormindo ainda. Eu fiz café também, caso queiram.
— Eu estou sem fome — disse e olhou para . — Eu tenho mesmo que ir agora, depois nos falamos.
— Tudo bem, . Até depois.
acenou com a cabeça em um cumprimento breve para nós dois e saiu de lá, sem olhar para trás. E eu e comemos nossas torradas tranquilamente, sentados em cima do balcão com o prato e duas xícaras de café entre nós, apenas aproveitando a presença um do outro.


6. What The Hell


Era real.
Eu estava oficialmente puto.
Mas eu mesmo tempo eu fiquei tão chocado em ver ali, na cozinha de , que tudo o que eu pude fazer foi ficar parado observando enquanto o meu amigo abraçava e beijava minha ex bem na minha frente.
Eu não devia me importar com essas coisas, eu sei. Já faz quase três anos desde que terminamos e eu estou noivo, mas mesmo assim foi inevitável.
Eu tinha consciência de que não sabia sobre a gente, ou caso contrário, ele não teria ficado com ela (pelo menos era o que eu achava).
Não faço a mínima ideia de como ou quando eles se conheceram e foi algo que confesso que ficou pinicando na minha cabeça. havia comentado que iria sair com uma amiga e eu sabia que era a tal amiga de quem ele havia falado algumas vezes, mas ele era reservado demais à ponto de contar detalhes pessoais sobre eles dois.
Não pessoaaaaaais, mas algo como nome, profissão… coisas desses tipo. Ou talvez ele não tenha dito, simplesmente porque nunca tive interesse em perguntar.
Que seja. Mesmo que eu soubesse o nome dela, não ia adiantar de nada já que existe milhares de mulheres com esse nome.
De qualquer forma, acho que dá para imaginar o meu choque ao acordar e vê-la ali. Percebi que não era a primeira vez dela no apartamento, dava para perceber por sua atitude que ela havia estado ali outras vezes, o que fez com que eu me perguntasse quando aquilo havia começado. Será que eles estavam namorando? não havia falado nada sobre isso e ela... Bem, digamos apenas que não me passou pela cabeça que ela tivesse namorado ou simplesmente... alguém.
Eu havia acordado naquele dia completamente relaxado. Não senti nenhuma falta de Charlotte, o que me levou a cogitar seriamente a ideia de sumir algumas vezes já que nossa convivência estava indo de mal a pior desde que resolvemos morar juntos e, principalmente, quando comecei a trabalhar no mesmo local que minha ex-namorada.
Eu havia passado o dia fora tendo aulas de mestrado e quando cheguei, estava de saída. Me chamou para sair também, mas obviamente eu recusei. Primeiro, porque ele estava indo ver a tal amiga e segundo, porque eu não ia segurar vela nem a pau porque eu sabia que tinha algo entre os dois.
Sendo assim, preferi ficar em casa estudando e fui dormir depois de algum tempo. Acordei no meio da noite com uma batida na porta, mas logo voltei a dormir quando percebi que a batida não era na minha porta, mas sim na de , que provavelmente tinha acabado de chegar e estava acompanhado.
Levantei perto das nove horas no sábado e arrumei minhas coisas, pronto para ir embora. Pensei em deixar algum bilhete para agradecendo, mas desisti quando ouvi uma movimentação na cozinha e imaginei que ele já estava de pé.
No entanto, dei de cara com uma mulher que, segundos depois, percebi ser . Ela usava apenas uma camisa que supus ser de e estava preparando torradas tranquilamente.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, antes mesmo de pensar. Ela levantou a cabeça assustada, mas não respondeu porque apareceu no instante seguinte. E então ficou claro o que ela estava fazendo ali.
Se eu dissesse que não senti nada ao ver meu amigo a abraçando, sendo carinhoso com ela e a tratando bem, eu estaria mentindo descaradamente.
Portanto, doeu sim um pouquinho. Ou talvez, mais que isso. Meu coração se apertou não somente por ver aquela cena, mas por lembrar de que um dia eu já havia estado no lugar dele.
Esses eram os meus dias favoritos até hoje. E confesso que eu sentia falta.
Eu não tinha isso com Charlotte.
Nós funcionávamos em uma rotina entediante.
Ela sempre acordava mais cedo que eu para ir se exercitar e não tínhamos oportunidade de comer juntos na maioria das vezes. Enquanto eu comia, ela já tinha se exercitado, comido e se arrumado para ir ao trabalho. Eu não levava muito tempo para me arrumar, é claro. E eu aproveitava para dormir mais um pouco porque acordar de madrugada como ela não era algo que me agradava nem um pouco.
Mas eu sentia falta de ter momentos assim, como e tinham.
Era divertido, espontâneo e algo que me deixava feliz.
Quando não estávamos ocupados com a faculdade, eu sempre a convencia a ficar no meu apartamento vendo filmes, ouvindo música, cozinhando receitas incomuns juntos...
A lembrança disso me fazia sorrir, involuntariamente. Mas eu tinha que me conformar com isso, com o que eu tinha agora. E principalmente com o que eu não tinha mais.
Cheguei no meu apartamento onde morava com Charlotte pouco depois das dez. Meu celular estava desligado e eu só o liguei quando estava subindo no elevador, me deparando com dezenas de ligações perdidas dela e mensagens não lidas. Suspirei, me preparando psicologicamente para o que iria encontrar.
Um furacão estava prestes a vir.
— Onde você estava? — ela quis saber, assim que eu entrei. Estava sentada numa poltrona na sala, usando uma camisola rosa com um robe aberto da mesma cor.
Fiquei calado por alguns instantes, enquanto tirava minha mochila das costas e a colocava no sofá.
— Na casa de um amigo — falei, simplesmente.
— Ah, na casa de um amigo? Quem, Lucas? Ou esse seu amigo é uma mulher? Quem sabe aquela tal de — ela insinuou, irritada. — Você sumiu por dois dias! Sem atender minhas ligações nem responder nenhuma das minhas mensagens! E se tivesse acontecido algo com você?
— Se tivesse acontecido algo comigo, Charlotte, garanto que você não demoraria para ter notícias. Eu simplesmente não queria falar com você — admiti, de uma vez.
— Ah, é? Mas com seu amigo você queria, não é, Lucas? Eu tenho certeza de que-
— Eu passei o dia fora tendo aulas no mestrado, se quer saber. E de noite, quando cheguei, meu amigo ia sair com uma amiga dele e me convidou também, mas eu não fui e fiquei estudando e depois fui dormir. Isso foi tudo o que aconteceu, Charlotte. Meu amigo não é uma mulher, é o . Eu já mencionei ele para você diversas vezes. Ele está passando uns dias aqui em Londres e por isso eu pude vê-lo. Não adianta você insinuar nada onde não tem.
— Como eu não vou insinuar, Lucas? — ela se levantou, vindo até mim. — Como acha que estou me sentindo desde que você disse que estava trabalhando com sua ex-namorada e sabendo que você ainda gosta dela?!
Suspirei, outra vez.
— Eu não gosto dela, Charlotte. Na verdade, nesse exato momento eu não sinto nenhum sentimento bom em relação à ela, se você quer tanto saber. Então, por favor, podemos apenas encerrar essa discussão? — pedi, passando a mão no rosto.
Eu não estava com paciência para prolongar uma discussão sobre algo que ela pensava que eu estava fazendo. Eu não tinha nem disposição para pensar direito, queria apenas tomar um banho, comer algo e ficar quieto.
Felizmente, ela ficou calada. Eu a encarei por um instante antes de dar alguns passos à frente e abraçá-la.
— Desculpe ter sumido. Prometo que não vai acontecer de novo — murmurei. Ela me abraçou de volta, mas não disse nada.



Voltei para casa de manhã, depois de combinar com e as meninas de nos encontrarmos no meu apartamento durante à tarde.
Desde que eu havia saído de sua casa, eu me perguntava se deveria dizer ou não a ele que Lucas era o meu ex-namorado.
Acho que de um jeito ou de outro, em algum momento, ele iria descobrir.
Mas não naquele dia.
Eu queria aproveitar o tempo com ele, então decidi contar apenas quando fosse a hora certa. E bom, talvez as meninas pudessem me ajudar quanto a isso, quem sabe.
A única coisa que eu tinha certeza é que não queria parar o que temos só por que Lucas agora sabe de tudo. E daí que ele sabe e é amigo de ?
Eu só esperava que não se importasse com isso também, já que ele não sabia da minha relação com Lucas e nem eu sabia que eles eram amigos.
Confesso que me assustei ao encontrar Lucas ali, porque eu não esperava. Não esperava mesmo vê-lo ali. Como eu iria imaginar que eles sequer se conheciam? Era impossível. Felizmente, consegui disfarçar e correu tudo bem, na medida do possível. Depois de terminarmos de comer, eu fui trocar de roupa e me despedi de , após convidá-lo para minha casa.
Ele insistiu em vir me deixar, mas eu já tinha um táxi me esperando na porta do prédio.
Mandei mensagem para as meninas no nosso grupo assim que eu cheguei, perguntando se elas estavam em casa e contando por cima o que tinha acontecido; minutos depois elas apareceram.
estava um tanto confusa e até perplexa, devo dizer, quando eu contei pessoalmente tudo o que tinha acontecido.
, por outro lado, se expressou por elas duas juntas.
Meu Deus! Eu não tô acreditando ainda! — ela praticamente gritou. — , isso é quase uma vingança e nem foi intencional — e começou a rir, nos levando junto. — A vingança é plena, mata a alma e envenena COM MUITO SEXO NO QUARTO AO LADO! Por que eu me sinto tão feliz em saber que o Lucas deve estar se remoendo por dentro com isso tudo?!
Àquela altura, eu e já estávamos rindo tanto que nossas barrigas doíam.
— Eu fiquei tão surpresa quanto ele. Eu não imaginava que o conhecia.
Ha ha ha! — disse . — Eu não consigo parar de rir disso. Você tava transando com o amigo dele no quarto ao lado e pior, depois você fez isso de novo de manhã, quando talvez Lucas já tivesse acordado. Eu queria muito ter visto a cara do Lucas quando ele te viu lá. O gatinho iel) veio só para causar mais caos e nem sabe disso. Mas se eu fosse você, eu esfregava mesmo o na cara dele.
— Se ela fizesse tudo o que você diz pra ela fazer, , com certeza já tinha ido parar na cadeia.
— O quê? Claro que não! — rebateu, fingindo inocência.
é a mais sensata de nós duas, . Isso temos que concordar.
— Ah, claro. O anjinho no seu ombro — ela riu. — Mas você tem razão, . Sem você, até eu teria ido parar na cadeia. Mas e então... Que horas você disse que vai vir mesmo? Ele está tão bonito quanto da última vez?
— Ele está mais bonito do que eu me lembrava — comentei, com um sorriso.
— Ele é muito charmoso — disse. — Você deu sorte em encontrá-lo, .
— Deu tanta sorte que deveria agarrar logo de vez esse homem — complementou. — Ele é o pacote perfeito, ! Ou vai dizer que depois desse tempo inteiro, você nunca sentiu nadinha de diferente pelo ?
— Nós não nos vemos como casal, . E ele vem de uma família rica, eu não me sentiria à vontade com isso. Nós pertencemos a mundos diferentes.
— Mas ele não se importa com isso — ela retrucou. — De qualquer forma, continue se divertindo com ele, enquanto quiser.
— Sim — concordou. — Como você disse, Lucas não tem nada a ver com isso. Foi só uma coincidência... Inusitada.
— Bem, eu não pretendo acabar o que tenho com , ainda que o que temos seja só essa amizade. À menos que ele queira, é claro.
— Eu não vai querer — disse.
— Como você sabe disso? — eu quis saber.
— Não sei, apenas tenho certeza de que ele não vai se importar com isso — ela deu de ombros e deixamos pra lá.

Algumas horas depois, a campainha tocou. Estávamos fazendo alguns docinhos de chocolate e preparando snacks para comermos enquanto assistíamos O Rei do Show, o filme que havíamos escolhido.
Lavei e sequei minhas mãos rapidamente e fui abrir a porta.
— Oi, entra — eu disse, assim que abri.
— Oi, meninas — ele cumprimentou e .
, gatinho. Veio finalmente pedir a em casamento? — ela disse e eu provavelmente teria engasgado se tivesse chegado a colocar na boca o salgadinho que eu tinha pegado na tigela. Ao invés disso, eu o joguei nela.
! — reclamei.
— Então... eu até queria, mas ela não me dá brecha — ele respondeu, meio esnobe, mas com um sorriso no rosto.
Ei! — reclamei novamente, dessa vez pra ele.
— Viu só? Eu disse que é o seu cara perfeito — ela disse e riu. Eu fiquei envergonhada e não consegui dizer nada. E deve ter amado isso. Felizmente, acabou com o clima esquisito.
— Então, . Escolhemos O Rei do Show. E eu sei que você provavelmente já deve ter assistido, assim como , mas nós não. Então... Fique à vontade para não dar spoilers, porque já fez isso o suficiente por vocês dois — ela disse, nos fazendo rir.

A tarde que tivemos foi bastante divertida.
Descobri que adorava as músicas do filme, assim como eu, e nós dois até decidimos encenar uma delas no improviso, mais especificamente à que Hugh Jackman canta com Zac Efron. Obviamente, eu era o Zac.
Ele era o meu crush de infância até hoje.
E é claro, as meninas fizeram questão de filmar isso. Eu não vi o vídeo, mas a nossa paródia improvisada provavelmente tinha ficado horrível.
Mais tarde, elas foram embora e fiquei sozinha com ele vendo Netflix na minha cama, o que foi basicamente o que fizemos durante a noite inteira, como os dois amigos normais que éramos, às vezes.
Já eram mais de duas da manhã quando decidimos ir dormir e eu desliguei a TV. me abraçou do jeito que ele sempre fazia quando dormíamos juntos e ficamos quietos por algum tempo, até cair no sono.
Senti ele dar um beijinho entre meu pescoço e ombro, fazendo um pouco de cócegas que me fizeram rir baixinho.
— Eu amo seu cheiro. Mas você já sabe disso. Por isso, eu te abraço assim — e me apertou mais, me fazendo rir. — Arrrgh!
! — reclamei, rindo.
— Eu sei que você não se acha fofa e devo admitir que realmente não é. Mas isso não me impede de ter vontade de te abraçar e te apertar bem muito — ele riu.
— Você é quase uma Felícia. Deve ser por isso que você não tem bichos de estimação. Eles iam ter medo desses carinhos seus — brinquei.
— Para que abraçar um pet se eu posso abraçar você? Não, obrigado. Estou bem assim mesmo — ele retrucou e pouco tempo depois, nós caímos no sono.
tinha mais uns três dias em Londres, antes de voltar para a Tailândia. Ele teria que voltar na quarta à tarde e, infelizmente, eu teria que trabalhar o dia inteiro na segunda e na terça, mas combinamos de sair na terça à noite, junto com as meninas.

***


O meu plantão naquela semana foi tranquilo no primeiro e no segundo dia, felizmente. Não houve nenhuma intercorrência grave na clínica e Lucas magicamente resolveu me ignorar por completo. Não que eu achasse ruim, já que eu estava fazendo o mesmo. Mas no segundo dia, eu acho que ele meio que esqueceu dessa ideia quando resolveu me perguntar sobre , quando estávamos no quarto de repouso, prestes a irmos embora.
— Como você conheceu ele? — ele quis saber e eu respondi apenas porque eu estava curiosa também.
— Em um congresso. Ele era representante de um dos patrocinadores. E você?
— Minha família e a dele são amigas. Uma coisa levou a outra. Meu pai e o dele tem negócios juntos. O conheci uns seis meses depois que nós terminamos.
Ah, claro. Eu deveria imaginar. Lucas vinha de uma família rica, e o pai sempre quis que ele seguisse os negócios da família, mas ele preferiu seguir a profissão de sua mãe.
— Ah, entendi — foi o que respondi.
— Faz tempo que vocês se conhecem?
— Eu o conheci na época que eu fazia mestrado. Cerca de um ano depois que terminamos — eu disse, da mesma forma que ele. — Já são quase dois anos, desde então.
— E vocês estão namorando? — ele perguntou, tentando fingir desinteresse e eu quase ri.
— Por mais que todos digam que ficamos bem juntos, não que seja da sua conta, não. Não estamos.
— Vocês... Até que ficam — ele comentou e ele olhou para mim.
— Sério? — o encarei, cética. — Você não quer dizer isso, Lucas. Eu te conheço — provoquei.
— Eu... — ele tentou retrucar, mas desistiu. — Eu fiquei surpreso, só isso.
— Você estava puto — acusei. — Eu vi nos seus olhos. Talvez não tivesse imaginado que eu seria capaz de me envolver com outra pessoa. Mas felizmente, eu tenho que te agradecer por ter acabado com grande parte das minhas inseguranças. E ... Bem, ele é alguém bastante fácil de lidar e... as coisas acontecem facilmente entre nós. É divertido.
— É, percebi — ele resmungou. — Até semana que vem — e foi embora.
Fui para casa logo depois para me preparar para sair com e as meninas.
A noite ia ser uma criança.




Continua...



Nota da autora: 06.09.2019 — Helloooou! Parece que as tretas estão começando, não é? O que estão achando desses pps? Quem quiser ler a versão original da história, fale comigo nas redes sociais que eu disponibilizo o link xD Comentem aqui ♥ Qualquer errinho, por favor, me avisem pelas redes sociais ^^ E antes que eu me esqueça, a playlist do spotify foi atualizada, acessem pelo link no ícone abaixo ^^ Até semana que vem! xAlly





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