CAPÍTULOS: [PRÓLOGO] [01] [02] [03] [04] [05]




Última atualização: 10/05/2017

Prólogo


A chuva de capelos começou logo que o orador escolhido pela turma soltou um grito de comemoração por finalmente terem chegado àquele momento. Sob os inúmeros capelos pretos, uma garota olhava para o céu completamente azul apreciando o momento tão esperado, ignorando o fato de ter se tornado uma piscina de suor sob aquela beca preta desconfortável. Ela recebeu os abraços de alguns colegas próximos, recebendo e dando os parabéns pela tão merecida formatura e para os planos do futuro, independentemente de quais fossem eles. Ela nunca fizera grandes amizades na faculdade, até tentara, mas no final a vida se dividiu entre estudos e o trabalho para se sustentar na grande cidade, e as amizades ficaram para os raros momentos de trabalhos em grupo.
Após recolher um capelo que ela julgou ser o seu, fez o caminho pela fileira de cadeiras até chegar ao final, ainda sorrindo e trocando congratulações com quem passasse por ela. Seus olhos estavam mais ocupados em procurar as três pessoas que havia convidado e de quem com certeza os parabéns interessariam mais. Não demorou para encontra-los sob uma árvore, aproveitando a sombra fresca que os protegia do sol do meio de tarde. De quem fora a ideia de fazer a entrega do diploma tão perto do meio-dia?
- Ai está nossa formanda! – Comemorou o rapaz, poucos anos mais novo que ela, recebendo-a de braços abertos para um abraço apertado. – Parabéns, !
- Obrigada, Ted! – Respondeu a moça, sorrindo para o irmão enquanto recebia um beijo no rosto. Logo depois se dirigiu às outras duas pessoas, recebendo um abraço duplo.
- Parabéns, querida, estamos orgulhos de você. – O homem, bem mais velho, disse.
- Muito orgulhosos. – A mulher reforçou, fazendo a mais nova rir, tentando conter as lágrimas.
- Obrigada, pai, mãe. – Disse ela, puxando o irmão para um abraço entre a família.
O grupo ainda permaneceu ali mais um tempo, tendo que dar meia-volta quando ouviram a recém-formada ser chamada por um homem mais velho, a moça se desculpou, entregando a beca e o capelo para a mãe segurar e andou até onde o homem estava, mantendo o sorriso educado.
- Senhorita , parabéns pela formatura.
- Obrigada, senhor Donnelly. – Respondeu a mulher, retribuindo o aperto de mão do professor.
- Gostaria de saber se podemos conversar sobre seu futuro aqui na universidade.
- Agora? – Perguntou .
- Se não tiver outros planos. – Ele olhou a família da mulher um pouco afastada. – Sua família?
- Sim, mas eles não vão se importar em esperar, não depois que souberem sobre o que se trata. – sorriu, virou para a família e fez um sinal indicando que eles esperassem. Ela e o professor se afastaram um pouco, o homem colocou as mãos nos bolsos e olhou para a ex-aluna.
- Eu li o seu projeto de pesquisa para o mestrado. – Começou ele. o olhava com atenção, as mãos se remexiam devido ao nervoso. – Você tem uma ótima visão, e é muito ousada, se me permite dizer.
- Ouvi muito isso durante a reta final do curso. – Disse a mulher, sorrindo sem graça.
- Espero que não de forma negativa. – O professor disse. – Se alguém lhe disse isso de forma negativa, saiba que pode ignorá-lo. – A mulher acenou, lembrando-se de alguns professores que haviam tentando fazer com que ela desistisse da visão que tinha para seu projeto final de pesquisa da graduação, e reforçavam a recomendação assim que ouviam a mulher falando que planejava dar continuidade ao projeto. – Eu gostei muito do seu projeto, a respeito por pensar fora da caixinha, como dizem por ai.
- Obrigada, senhor. – Disse ela, sentindo o coração batendo acelerado. O professor era seu favorito desde que tivera uma aula com ele no primeiro semestre, nos semestres seguintes, toda vez que tinha oportunidade ela tentava pegar outras disciplinas lecionadas por ele. – Isso significa muito vindo do senhor, acredite.
- Estou lisonjeado, senhorita . – O professor disse, inclinando a cabeça levemente como forma de agradecimento. – Então, eu gostaria de saber se a senhorita já tem planos para dar continuidade aos estudos.
- Bem, como o senhor sabe, eu entreguei meu projeto de pesquisa para o mestrado assim que foi possível, e gostaria muito de dar continuidade se fosse possível. O senhor é o primeiro que vem conversar comigo a respeito.
- Ótimo. – Disse o professor. – Como a senhorita sabe, eu trabalho no Laboratório de Processamento de Linguagem aqui da universidade, e seu projeto se encaixa perfeitamente com minha linha de pesquisa. Gostaria de saber se a senhorita teria interesse em integrar meu grupo de pesquisa para dar continuidade aos seus estudos e nos auxiliar a melhorar nosso próprio projeto.
não conseguiu esconder a surpresa, sentindo as mãos suarem e tremerem, além do coração batendo acelerado. Era seu sonho, desde que entrara na universidade e conhecera o professor e sua linha de pesquisa, entrar no grupo que ele mantinha, e ali estava ela, recebendo um convite pessoal para poder realizar seu mestrado como integrante do grupo. Se não estivesse frente a frente ao homem, a mulher com certeza daria gritos, pulos e choraria de alegria. Mas naquela situação, ela se limitou a sorrir e agradecer imensamente ao professor pela grande oportunidade, aceitando-a de pronto, sem considerar que talvez pudesse receber outros convites. Ela sabia que nenhum outro seria melhor que esse. O professor lhe entregou o cartão que continha seu e-mail e anotou as informações que deveria enviar para ele para oficializar o processo do mestrado. Logo depois se despediram, com a mulher esperando o professor sumir na multidão para ir correndo até os pais e irmão e lhes contar a grande novidade.
- Você nunca vai parar de me deixar orgulhoso? – Perguntou Ted, abraçando a irmã que, apesar de mais velha, era mais baixa que ele.
- Tenho que ser um bom exemplo para você. – Disse a mulher, o sorriso mal cabendo em seu rosto.
Enquanto saiam da área onde a cerimônia havia ocorrido, parou e virou de costas para o grupo, contemplando o prédio imponente onde havia passado boa parte de seus dias nos últimos quatro anos, e onde passaria os próximos dois anos. A mulher sorriu e permitiu que algumas lágrimas de felicidade escorressem, estava tudo ocorrendo perfeitamente como ela havia planejado.

Capítulo 1


Fazia apenas três meses que ela havia deixado aquele prédio, e agora ela estava de volta, agora com novos propósitos. parou no mesmo local onde havia ficado no dia de sua formatura e encarou o prédio, que naquele dia parecia confronta-la e desafiá-la. Bem, desafio aceito! Ela sorriu feliz e voltou a andar, entrando no prédio e seguindo para sua primeira aula do dia. Havia passado a noite inteira acordada, ansiosa por esse novo início. Muitas pessoas considerariam pesado mal se graduar e já começar o mestrado logo em seguida, mas não queria perder tempo. Ela queria continuar enquanto tudo o que havia aprendido continuava fresco em sua mente, enquanto ela sabia que podia fazer a diferença.
O começo do semestre era igual em qualquer local, independente do curso e do seu nível de graduação. Diversas pessoas andando de um lado para o outro, tentando se achar e se perdendo logo em seguida. Ela parou um pouco em um canto, observando aquela movimentação toda, se divertindo enquanto se lembrava de como fora sua primeira vez ali, como por um mês ela chegou atrasada em todas as aulas porque sempre se perdia e entrava em algum corredor errado. Não se deu muito tempo para contemplar aquele cenário, olhando o relógio e notando que sua primeira aula estava para começar. procurou o papel que continha todas suas aulas e horários, assim como as informações das salas e conferiu para onde tinha que se dirigir, seguindo seu caminho em seguida.
A diferença entre a graduação e o mestrado começava ao entrar na sala e ver que a quantidade de alunos era bem menor. O grupo daquela sala não passava de quinze alunos, ela constou quando entrou na sala, logo tomando seu lugar, esperando ansiosa para a entrada do professor. Cumprimentou rapidamente alguns colegas próximos e depois teve sua atenção roubada pela chegada do professor, se perdendo no assunto assim que o mesmo começou a explanar.

~ * ~


Ainda era cedo quando parou em frente ao Tower’s Caffe para mais um dia de trabalho. O local não era uma torre, mas costumava ficar em uma antes de se mudar para a atualização atual. A mulher bocejou, encostada à parede, esperando Ed chegar para abrir o estabelecimento e começarem mais um dia de trabalho. Se fosse um pouco mais tarde, ou se ela não tivesse tido apenas duas horas e meia de sono antes de ir trabalhar, ela não estranharia o atraso do patrão, que na opinião dela morava no local, pois era a única explicação para sua pontualidade. Seus olhos estavam quase se fechando quando ela viu o homem corpulento virando a esquina, parecia correr e já começara a se desculpar quando ainda faltava uma longa distância até ela.
- Bom dia, Ed. – Cumprimentou ela.
- Desculpe o atraso, . – Disse o homem, confundindo-se com as chaves no desespero para abrir a porta. se aproximou e tocou as mãos do homem, chamando sua atenção.
- Deixe que eu te ajudo. – Pediu ela, tirando o molho de chaves da mão do chefe e esperando ele se afastar para que pudesse abrir a porta. – Você é o chefe, não deveria pedir desculpas por se atrasar. Nem eu peço.
- Você nunca se atrasa, . – Observou Ed. Ele estava estranho, e a mulher percebia, mas conhecia o chefe há muito tempo para saber que ele falaria quando sentisse a necessidade, quando fosse o momento certo.
abriu a porta e deu espaço para Ed passar, entrando atrás dele logo em seguida, fechando a porta e virando o trinco apenas para garantir que ninguém tentaria entrar apesar do sinal de “fechado” ainda permanecer para a rua. olhou o relógio em seu pulso e confirmou que estavam levemente atrasados, mas nada que os preocuparia. Em silêncio, cada um foi para um canto, começando a tarefa diária de deixar as bebidas mais pedidas quase prontas e limpando o salão onde as mesas e cadeiras estavam distribuídas. Já era uma rotina tão bem estabelecida, que eles sequer perdiam tempo perguntando ao outro o que deveriam fazer. Bem diferente dos primeiros meses de trabalhando no local.
Ela havia encontrado o Tower’s no seu segundo semestre da faculdade, após um longo primeiro semestre entre muitas dificuldades pelo orçamento apertado. Na época, Ed ainda não precisava de ajudante, pois tinha uma vasta equipe, mas insistiu e provou nas primeiras semanas que era tudo o que o homem não sabia que precisava no local. Ed era um senhor já, calculava que tinha uns sessenta anos para mais, de pele escura, um grosso bigode, a careca sempre escondida por um chapéu, e a barriga proeminente criada com anos de cerveja e doces – a primeira ele já havia parado, mas os doces seriam seu eterno vício, como ele próprio dizia. Os dedos gordos ainda carregavam a aliança do casamento de quase trinta anos, apesar de sua esposa já não estar mais viva, vítima do câncer descoberto tarde demais. Ele tinha dois filhos, cada um em um canto do mundo, que voltavam à cidade natal em comemorações especiais como o aniversário do pai, e Natal. Ed falava bem dos filhos, eram seus maiores orgulhos, e nunca se sentia ressentido por não os ver mais vezes. Entendia que nem todo mundo conseguia viver no mesmo lugar toda sua vida.
O Tower’s havia surgido quando sua esposa ainda estava viva, era o maior sonho dos dois: ela era garçonete quando se conheceram, e ele trabalhava em uma construção e sempre ia almoçar no restaurante onde ela trabalhava. Sua mulher sempre tivera o sonho do restaurante próprio, e o café foi a forma do marido de presenteá-la, mesmo que não pudesse tê-lo aproveitado por tanto tempo quanto gostaria. Quando foi construído, o café ficava em um prédio empresarial, uma alta torre e com uma clientela fixa, sempre movimentado. Mas com a elevação do custo para permanecer no local, Ed resolveu sair e encontrou o local perfeito para seu negócio: próximo a uma faculdade, onde café era o elemento mais vital na vida daqueles estudantes, às vezes até mesmo mais que oxigênio. Após alguns meses ali, Ed resolvera ceder e expandira o negócio, após o happy hour, de quinta a domingo, o local se transformava em um pub, onde os estudantes iam para comemorar o fim de mais uma semana corrida. geralmente pegava os horários da manhã, raramente trabalhando no horário mais badalado, primeiro por não gostar, segundo por preferir aproveitar a folga para adiantar trabalhos ou relaxar no conforto do próprio lar, com uma taça de vinho, seus pijamas mais confortáveis, um filme ou uma série e seu sofá. Porém, vez ou outra a necessidade de um dinheiro extra vinha e ela cobria o turno de alguém que não pudera ir.
O ambiente tinha um estilo simples, a decoração escolhida a dedo pela mulher de Ed, que não era fã de muitas informações em um único lugar. As paredes mantinham a estrutura do lugar, com os tijolinhos aparentes, alguns quadros pendurados, e as mesas espalhadas pelo salão, com exceção das que eram coladas nas paredes, eram pequenas, para duas ou três pessoas, redondas; as que ficavam nas paredes eram grandes, com espaço para até seis pessoas, oito se alguém colocasse algumas cadeiras que estivesses sobrando pelo salão.
- Pronta para mais um dia? – Perguntou Ed, aproximando-se da porta para destrancá-la e virar a placa.
- Vamos lá. – Disse .
A rotina era tranquila, as manhãs e fins de tarde eram mais movimentados, os almoços eram os clientes habituais, que não tinham muito tempo para uma refeição mais demorada e se contentavam com os lanches que eram servidos no estabelecimento. conversava com os clientes recorrentes, sempre perguntando sobre a vida deles e suas rotinas, já habituada com as respostas: sempre na correria. Tinham aqueles que sempre perguntava o que tinha no cardápio apesar de sempre pedirem a mesma coisa; e os outros que toda semana perguntavam se tinha alguma novidade e quando ouviam a negativa, sugeriam que eles começassem a variar o cardápio para atrair mais clientela. Muitos reclamariam, se divertia. No período da manhã, o local enchia de pessoas mais velhas, que sentavam nas mesinhas e tomavam seus cafés ou chás com os biscoitos que eram oferecidos, vez ou outra se demorava mais limpando alguma mesa para poder ouvir as conversas.
Era aquela rotina todos os dias que trabalhava ali – o que eram praticamente todos os dias, com exceção de terças e quintas, quando ela tinha aula na faculdade. Era cansativo muitas vezes, principalmente por começar cedo, mas pagava o suficiente para ela manter o apartamento onde morava e ainda conseguir sobreviver sem precisar pedir ajuda dos pais. E ela gostava da experiência, e de Ed, principalmente quando o movimento estava lento e eles se sentavam para que o homem contasse alguma história de sua juventude ou de seu casamento.
- Você trabalha muito, mocinha, precisa descansar. – Dizia um cliente para ela. – Ed! Dê férias à moça! – Ele gritou para o chefe, fazendo rir.
- E Ed vai se virar como sem mim, senhor O’Neil? – Brincou , sentindo o olhar enfezado do chefe em suas costas. – Já trago seu café.
Aquilo acontecia todas as manhãs, ela sabia que Ed nunca ficava realmente bravo com ela. Aliás, ela não se lembrava de alguma vez vê-lo irritado com algo. Ed era o poço de calma e tranquilidade, sempre a acalmava quando a mulher começava a entrar em pânico pela quantidade absurda de atividades que acumulava na faculdade. Por isso, naquele dia em especial, a mulher se sentia mais tensa ao vê-lo tão atordoado com algo, não era comum Ed deixar que seus problemas interferissem no trabalho, ou permitir que algo o abalasse a ponto de se tornar perceptível para aqueles ao seu redor.
Foi só quando o horário do almoço passou e o movimento diminuiu consideravelmente, que conseguiu se sentar em um dos bancos espalhados pelo balcão, de frente para o homem e ficou a encará-lo, esperando que ele lhe desse atenção. Ela apoiou o cotovelo na superfície, e a cabeça na mão, observando Ed andando de um lado para o outro, certificando-se de que tudo estava limpo e no lugar, e que havia café pronto e quente caso surgisse algum cliente precisando desesperadamente de um copo. sabia que ele sabia que ela o observava, e sabia também que ele a ignorava de propósito, o que só a preocupava ainda mais.
- Ed! – Gemeu ela, chamando a atenção do homem, que ainda se recusava a olhar para ela. – Vai demorar quantas horas mais para você me contar o que está acontecendo?
- Não tem nada acontecendo, criança. – Respondeu o homem, seu tom não conseguindo disfarçar que era bem o oposto.
- Vamos tentar de novo? – Sugeriu a mulher, usando a mesma frase que ele costumava usar quando ela estava tensa e queria fingir que estava tudo bem. – Vou precisar elencar todas as provas que mostram que tem algo acontecendo e você está me escondendo algo?
- ... – Suspirou o homem, parando o que fazia e apoiando as mãos na pia atrás do balcão.
- Primeiro, você chegou atrasado. Sabe quantas vezes isso já aconteceu desde que eu trabalho aqui? Acertou se pensou nenhuma. Você é um funcionário mais modelo do que eu. – Comentou , vendo que faltava pouco para o homem desistir. – Segundo, você ainda não perguntou uma vez sobre meu mestrado esse mês, e olha que eu finalmente estou começando a ter novidades, depois de dois meses, os resultados estão chegando. – Ela suspirou. – Terceiro...
- , chega. – Disse Ed, finalmente olhando para ela. Seu semblante fez com que ela mudasse sua postura completamente, sentando-se ereta no banco e olhando para o homem, preocupação parecia exalar de seu corpo tão grande era o que ela sentia por ele. Nunca havia visto Ed daquele jeito, nem mesmo quando as contas vinham mais altas do que o costume.
- Ed, o que houve? – Perguntou ela, segurando as mãos do chefe quando ele se aproximou dela e colocou as mãos espalmadas no balcão. – Nunca te vi assim.
- Eu estava tentando evitar, . – Começou ele, os olhos castanhos brilhando com as lágrimas que começavam a se acumular. – Mas ontem eu tive a resposta final e não vou conseguir.
- Evitar o que, Ed? – sentia vontade de chorar só por vê-lo daquele jeito, o que quer que fosse, havia sido forte o suficiente para abalar o homem. Nem mesmo quando ele falava da esposa, e quando lhe contara sobre a doença e a morte dela, Ed parecia tão abalado.
- O Tower’s, , vai fechar. – A boca de se abriu e sua mente ficou em branco, como se tivesse dado pane. O homem chorava a sua frente e parte dela reconhecia que ele não era o único. Suas mãos permaneciam unidas, e não sabia quem apertava a mão do outro com mais força. – Eu sinto muito.
- Ed, não... – Disse a mulher, negando seu perdão, não havia necessidade daquilo.
- Eu tentei muito, mas as dívidas, os preços começaram a subir e o retorno não estava grande o suficiente, eu...
- Ed, está tudo bem. – Ela apoiou-se no banco que ocupava e ficou parcialmente por cima do balão, abraçando o homem, sentindo as lágrimas dele caírem em seu ombro.
- De todos que eu vou ter que demitir, você é a que mais dói. – Confessou o homem quando se afastaram. – Eu vou pagar todos os seus direitos e até um pouco mais, não vou te deixar na mão.
- Não se preocupe com isso, Ed. – Tranquilizou-o , apesar de se sentir aliviada por ouvir aquilo. – Quanto tempo temos aqui ainda?
- Tenho até o fim da próxima semana. – Revelou o homem. – Amanhã já vou dispensar o pessoal da noite. E aos poucos o resto também vai.
- Vai me deixar por último? – Brincou .
- Não queria te deixar ir. – Confessou Ed. – Será a semana mais longa da minha vida.
A semana foi longa não só para Ed, mas para , que tremia só de pensar em ficar desempregada. Apesar da garantia dos benefícios e do extra que Ed havia prometido pagar, ela sabia que aquilo não duraria muito e ela logo ficaria sem nada. O problema é que era fim de ano, e as vagas de emprego eram praticamente nulas àquela altura, até mesmo os empregos temporários para o natal já haviam se esgotado, e a mulher aos poucos começava a se desesperar. Ela chegou até mesmo a ligar para seu irmão na madrugada de sábado para domingo, finalmente contando para alguém o que estava acontecendo. Ted fora brilhante em acalmá-la, e aproveitou a madrugada e o resto do domingo à procura de ofertas de emprego e enviando currículo quando achava uma que cabia no que ela podia fazer. Ligar para os pais pedindo ajuda não era uma opção, ainda.
E o que estava mal ficou ainda pior quando ela recebeu uma carta de notificação do dono do apartamento, informando-a do novo preço do aluguel. Valor esse que não tinha, e que nem mesmo se esperasse o dinheiro de Ed, lhe ajudaria, pois iria embora mais da metade para o aluguel e ela não teria como sobreviver. A sua última chance foi uma tentativa de conseguir um alojamento no campus da faculdade, mas a mulher, simpática demais para o ânimo em que se encontrava, lhe informara que o prazo já havia acabado e que não havia uma vaga sequer no mais remoto prédio da área dos alojamentos, aguentou todo o caminho da faculdade até em casa para se permitir chorar como vinha se controlando desde que as notícias ruins começaram a chegar. A avalanche parecia aumentar cada vez mais, e ela se perguntava no meio das noites mal dormidas o que havia feito para merecer aquele tipo de castigo.
No último dia no Tower’s, Ed não conseguia disfarçar a tristeza, muito menos os clientes que haviam reclamado ao verem o anúncio do fechamento do local, comentando que demorariam a encontrar outro local tão bom quanto aquele, que oferecia a eles tudo o que era essencial em um café: a bebida, os lanches de acompanhamento e o conforto.
- Aqui está tudo o que eu posso te pagar. – Ed lhe entregou um envelope com o cheque no valor que ela não esperava, havia feito as contas por cima de quanto o homem devia lhe pagar, mas não esperava que o bônus seria tão alto. Ela gostaria que fosse o suficiente para seu aluguel. Não havia contado a Ed, que interpretou seu humor na última semana como tensão por encarar o desemprego. – Você também vai receber o seguro, então pode ficar confortável por um tempo.
- Obrigada, Ed. – Disse ela, abraçando o homem, fechando os olhos ao senti-lo retribuir, lágrimas voltando a escorrer em ambos os rostos.
- Estude, mocinha. – Falou Ed quando se afastaram. – Quero ler seus nomes naqueles livros chiques de linguística das livrarias.
- Pode deixar. – Garantiu , sorrindo para o homem. – Te mandarei um cartão no seu aniversário. E todos os livros que eu escrever.
- Vou ficar esperando.
esperou enquanto o homem trancava a porta do estabelecimento pela última vez, no dia seguinte a empresa de mudança viria ali para recolher os móveis que Ed venderia. Ao dar a última volta na fechadura, os dois se olharam e se abraçaram pela última vez. sabia que ainda poderia manter contato com o homem, falar que mandaria os cartões de aniversário era uma forma de garantir esse contato, mas não conseguia evitar de se sentir devastada por aquele fim. Ao se separarem, cada um virou para um lado e seguiram seu caminho, Ed ainda parou para observar enquanto se afastava, o coração partido pelos últimos acontecimentos, sabendo que havia ali uma garota de ouro, que era a filha que ele e sua esposa sempre quiseram ter.
- Boa sorte, . – Disse o homem, antes de voltar a seguir seu caminho.

~ * ~


Já era tarde da noite e não parava de atualizar seu e-mail, esperando alguma resposta. Havia trabalhos para fazer, leituras para colocar em dia, mas seu cérebro não conseguia focar em nada por mais de três minutos. Ela estava frustrada pela demora em receber uma resposta. Sabia que era fim de ano e muitas empresas deixavam para divulgar vagas novas no começo do ano seguinte, mas algumas haviam anunciado antes, elas deveriam já ter respondido. Não era possível que seu currículo era tão ruim a ponto de eles nem se darem ao trabalho de mandar uma resposta negativa para ela. Frustrada, a mulher suspirou e pegou o celular, olhando o relógio e fazendo as contas para calcular o fuso horário. O dia começava a amanhecer em Berlim, ela sabia que seria xingada, mas não se importava, só havia uma única pessoa com quem ela poderia conversar naquele momento.
- Você tem alguma ideia de que horas são? – Ted a atendeu do outro lado.
- Aqui ainda não é nem meia-noite. – Respondeu ela.
- Você me acordou uma hora antes do meu despertador, , que tipo de pessoa faz isso? – O irmão reclamou.
- O tipo de pessoa que precisa de outra para acalmá-la. – Disse ela. – Você sabe que eu não ligaria se não fosse necessário.
- Sim, eu sei. – Ted concordou, suspirando. Nem ele vinha conseguindo dormir muito desde que a irmã lhe contara sobre as novidades nem tão boas. – O que está rolando?
- Esse é o problema, nada! – Ela reclamou, batendo na mesa. – Nada está rolando.
- Nenhuma resposta?
- Nenhuma. Nem um mísero “sinto muito, você não tem o suficiente para preencher nossa vaga” eu mereço, aparentemente. – Ela dramatizou, fazendo o irmão rir. Era típico da , sempre fazer um teatro extra para tentar mascarar o caos da situação. – Não ria.
- Desculpe. – Pediu Ted, respirando fundo e esperando o momento em que ela resolvesse soltar o que realmente estava em sua mente. se levantou, cansada de encarar o computador e não ver nada novo, a tela já até havia ficado preta por ela não ter mexido em mais nada nos últimos minutos.
- Eu não sei mais o que fazer, Ted! Meu prazo já está acabando e nada! – disse, afundando-se no sofá e olhando ao redor, o apartamento ainda intacto, nem parecia que teria que sair dali em uma semana caso não conseguisse alguma resposta.
- , você precisa se acalmar. – O irmão suspirou do outro lado do telefone. – Não vai adiantar nada se desesperar.
- Vai me dizer que não estaria desesperado se fosse o oposto? – Perguntou a mulher, encarando o teto e imaginando o rosto do irmão nele, conseguiu até mesmo vê-lo revirar os olhos.
- Pelo menos você está mais perto do pai e da mãe do que eu. – Respondeu ele, sabendo que não havia ajudado em nada. – Não vai mesmo ligar para eles?
- E dizer o que, Ted? – resmungou. – Passei tantos anos convencendo-os de que eu ficaria bem escolhendo esse curso e o que eu consegui até agora?
- Seu mestrado. Convite exclusivo.
- De que adianta um convite exclusivo se eu não vou poder aproveitá-lo?
- Não diga isso, . – O irmão a repreendeu. – Não é do seu feitio se desesperar assim.
- Eu acho que consegui me segurar bem até agora. – A mulher ponderou, considerando que a única noite completamente acordada que tivera desde que recebera o aviso do fechamento do Tower’s e a notificação de que ela tinha um mês para sair do apartamento caso não pagasse o aluguel novo chegara, foi na noite anterior, quando ela teve seu primeiro ataque de pânico em muito tempo. – Só comecei a me desesperar mesmo ontem.
- Ataque de pânico? – Pela primeira vez a voz de Ted mostrava preocupação.
- Sim. – Respondeu , logo tratando de tranquilizar o irmão. – Mas não precisa se preocupar, não foi nada como das outras vezes.
- , agora é tarde demais. – Disse ele, a mulher suspirou. – Você precisa deles.
- Ted, ainda não. – Disse , se levantando para ir até a cozinha pegar uma garrafa de água. – Não é o momento certo.
- Não há um momento certo, ! – O irmão disse, suspirando frustrado com a teimosia da mais velha. – Quando será? Quando você aparecer na porta deles com todas as suas malas, lágrimas e a notícia de que foi despedida, despejada e vai perder o mestrado?
- Uau, Ted! Não pegue leve mesmo. – Respondeu a mulher, sentindo os olhos lacrimejarem após a bomba de realidade jogada pelo irmão.
- Desculpe, , mas você sabe que eu estou certo. – Ted respondeu. – Papai não vai se importar de te ajudar por um tempo.
- Ted, eles já gastam tanto para te ajudar, não posso pedir isso a eles. – passou a mão no cabelo, encarando o calendário preso na parede da cozinha, o marcador vermelho circulando seu último dia antes da despedida de tudo o que havia conquistado nos últimos anos. – E nem venha me dizer que pode pausar os seus estudos por um tempo. Você não é como eu e escolheu algo cujo futuro é incerto, você tem algo concreto e que dará um bom retorno. – Adiantou ela, sabendo que o irmão usaria aquela jogada em algum momento.
- Você já me fez prometer isso em nossa última conversa, , e suas ameaças foram bem convincentes. – Observou o irmão, fazendo a mulher rir.
suspirou, olhando o calendário e perceber como aquele futuro estava cada vez mais próximo só fez aumentar o aperto que vinha sentindo em seu peito, mas que ela vinha ignorando. O irmão estava certo, ela precisava de ajuda, precisava deixar o orgulho de lado e recorrer aos pais, mas ela e Ted sabiam que ela não o faria, e ainda provavelmente apareceria na casa dos pais com todas as malas e alguma desculpa ridícula que não entregasse seu fracasso. Eles não se importariam por ouvir tudo o que a filha havia perdido, mas ela sabia que os decepcionaria, principalmente após ter lutado tanto para chegar até onde estava.
- ? – Ted quebrou o silêncio entre eles, chamando a atenção da irmã.
- Sim?
- Vai ficar tudo bem. – Disse ele, e sua voz conseguiu trazer toda a calma que precisava. Ela até mesmo começou a agradecer o irmão, mas sua atenção foi desviada pelo som de um novo e-mail chegando em sua caixa de entrada. Ela olhou para o computador, não poderia ser, podia?
- Eu sei que você já quer desligar – riu a mulher – mas chegou e-mail novo, pode esperar um pouco?
- Claro. Estou aqui pelo tempo que precisar. – Respondeu Ted, mesmo com a mulher sabendo que não era bem assim. Ela saiu do lugar onde estava quase criando raízes na cozinha e foi até a mesinha onde seu notebook estava, sentando-se e fazendo-o sair da tela de proteção. Sua respiração ficou suspensa quando ela viu que um de seus e-mails havia sido respondido.
- Ted, eu tenho uma resposta. – Disse ela, os dedos tremendo enquanto ela deslizava o cursor até a nova mensagem para ver o que havia esperando por ela.
- Lembre-se, vai ficar tudo bem. – Ted disse, sentindo-se tão tenso quanto a irmã, apesar de fazer muito esforço para não demonstrar.
- Abrindo... – Narrou , clicando na mensagem e esperando enquanto ela abria. – Prezada senhorita , informamos que recebemos sua mensagem e temos interesse em marcar uma entrevista... Ah meu deus, Ted! – A mulher soltou um grito, não conseguindo focar no resto da mensagem. – Ted, eu consegui! Meu deus! Eu não vou embora. – começou a rir enquanto algumas lágrimas escorriam, do outro lado da linha ela conseguia ouvir o irmão comemorando junto com ela.
- Eu disse que você ia conseguir! – O mais novo dizia, sua voz ficando rouca pelos gritos que ele deu. sentiu muito pelos vizinhos do irmão. – Eu disse que ia dar tudo certo, ! Não era possível que você tivesse feito algo tão ruim para o universo te recompensar com essa maré de azar toda. Então, qual vaga que é?
- Aquela de assistente pessoal. – Respondeu a mulher, se controlando e voltando a ler o resto do e-mail. – Procuram alguém com disponibilidade para início imediato e querem marcar uma entrevista amanhã.
- Responda logo! – Ted disse, não conseguindo parar de pular pelo seu próprio apartamento.
- Calma, eu preciso parar de chorar e tremer primeiro. – A mulher disse. encostou o cotovelo na mesa e apoiou o queixo na mão, encarando a mensagem e sentindo as lágrimas aumentarem de intensidade, seu soluço foi o suficiente para parar o irmão do outro lado, que esperou, sabendo que aquele era o momento em que as informações começavam a serem processadas na cabeça da irmã. – Eu não vou precisar ir embora, Ted. – Disse , entre lágrimas, soltando uma risada depois. – Vai dar tudo certo.
- Sim, vai. – Confirmou o irmão, não contendo suas próprias lágrimas. – Vai ficar tudo bem, , mas você precisa responder esse e-mail antes.
- Eu sei, eu vou. – Disse a mulher, passando a mão no rosto para enxugar as lágrimas. Talvez não conseguisse manter o apartamento, mas sabia que conseguiria algo assim que tivesse a confirmação da vaga de emprego. – Obrigada, Ted.
- Sempre que precisar, . – Disse Ted, os dois encerrando a ligação logo em seguida.
suspirou, passando novamente as mãos no rosto para enxugar as lágrimas que ainda insistiam em cair, respirou o fundo, sentindo o coração bater mais leve. Leu toda a mensagem novamente, percebendo que haviam mais informações agora do que no anúncio ao qual ela havia respondido na mensagem anterior. Eles prometiam um bom salário, além de auxílio residência – item que não conseguiu entender muito bem, mas sabia que eles explicariam durante a entrevista caso ela passasse – entre outros benefícios. Parecia bom demais para a vaga de assistente pessoal, mas ela não reclamaria. Havia pesquisado a agência que havia anunciado a vaga e eles pareciam legítimos, ela não entraria em nenhum esquema que colocaria sua vida em perigo. Respirou fundo mais uma vez, ajeitou-se na cadeira e começou a digitar a resposta, agradecendo a oportunidade e confirmando a entrevista no horário sugerido. Iria até mesmo às quatro da manhã se eles pedissem. Clicou no enviar e sorriu quando ouviu o barulho de mensagem enviada. Provavelmente passaria mais uma noite em claro, mas seria por um bom motivo dessa vez.
- Vai ficar tudo bem. – Murmurou ela, olhando a foto em seu fundo de tela do notebook, ela com os pais e o irmão no dia da formatura, tirada por um colega que passava por eles. – Vai dar tudo certo.

Capítulo 2


Faltava uma hora para sua entrevista, mas já estava entrando no lobby do prédio, identificando-se e logo depois entrando no elevador para subir até o sexto andar. Ela até conseguira dormir à noite, mas a ansiedade – ou algum castigo enviado por seu irmão – fez com que ela acordasse uma hora antes do despertador tocar e não conseguiu voltar a dormir. Resolveu aproveitar para se preparar para a entrevista, tinha que se sair bem, não poderia se dar ao luxo de perder a vaga. Com calma, ela tomou café da manhã enquanto lia um pouco sobre a agência que havia feito o contato, pesquisando também sobre as principais atividades que uma assistente pessoal fazia. Organizada, comunicativa, simpática... Eram algumas das características que ela julgava possuir, podia não ter uma longa lista de amigos, mas conseguia se virar se fosse necessário.
Após o café da manhã, ela tomou um longo banho para tentar relaxar, conseguindo algum efeito, aproveitou até mesmo para lavar o cabelo. Qualquer coisa que a ajudasse a conseguir passar uma boa impressão. Em frente ao espelho, ela ensaiou algumas possibilidades de caminho que a entrevista poderia seguir, respondendo perguntas hipotéticas e praticando um discurso que resumisse sua pessoa e sua experiência profissional. Ela não gostou de nada, tudo parecia falso, mas até que soou divertido. Se fosse recusada, pelo menos poderia ter certeza que seus empregadores ririam bastante. Quando terminou de se arrumar, ainda faltava uma hora e meia para a entrevista, e ela sabia que era um bom tempo, já que o local não ficava longe. Mas sua ansiedade não a deixaria ficar parada, preferiria aparecer uma hora antes a aparecer em cima da hora. As primeiras impressões começavam na chegada.
saiu do elevador e encarou o logo com o nome da agência, a moça na recepção desviando a atenção do computador para olhar para ela, o sorriso simpático padrão de toda recepcionista já colado nos lábios. falou sobre sua entrevista e logo depois a mulher indicava o caminho que deveria seguir até a sala de espera, que mais parecia a sala de espera de um consultório, de tão branca e limpa que era. Havia algumas poltronas espalhadas pelo local, e ocupou uma próxima a janela, se distraindo um pouco com a paisagem antes de pegar uma revista e começar a folhear. Ou aquela hora passou muito rápido, ou a entrevistadora também tinha pressa e queria acabar logo aquilo, porque não muito tempo depois de ter sentado, alguém veio chama-la.
- Senhorita ? – A moça sorriu para ela, vendo levantar e se aproximar, estendendo a mão para a outra. – Prazer em conhecê-la, por favor, me acompanhe.
Elas seguiram por um corredor que possuía algumas revistas emolduradas penduradas, estranhou um pouco, de repente não se lembrando de mais nada do que havia lido sobre a agência, parecia que seu cérebro havia ativado o modo “prova” e esquecido tudo. Suas mãos suando eram a confirmação do desespero que começava a surgir nela. respirou fundo algumas vezes enquanto seguia a mulher, agradecendo pelo silêncio entre elas. Finalmente chegaram ao escritório, e ocupou a poltrona em frente à mesa, vendo quando a moça ocupou a outra em frente a ela. Ao contrário da sala e dos corredores, aquela sala possuía mais cor, talvez fosse pelas estantes espalhadas pelo cômodo, e pelos quadros pendurados, aquilo ajudava a diminuir o impacto das paredes brancas. A moça puxou uma folha, que reconheceu como seu currículo, leu por um momento e depois olhou para a candidata.
- Senhorita , sou Amber, já disse e repito, é um prazer conhece-la. – Ela sorria e parecia simpático, ao contrário da moça da recepção.
- Pode me chamar de . – Respondeu a outra, engolindo em seco.
- Gostaria de um pouco de água? – Ofereceu Amber, apontando para a jarra que havia em um canto. – Não precisa ficar nervosa, apesar de eu dizer isso talvez possa piorar a situação um pouco.
- Um pouco. – Concordou , forçando um sorriso. – Acho que aceito a água.
- Muito bem. – Amber se levantou, ela não parecia ser mais velha que , e por um momento a moça a invejou, tão nova e já tão feliz com a própria vida. Se não estivesse, pelo menos fingia muito bem. – Aqui está.
- Obrigada. – Disse, pegando o copo e bebendo um gole da água, que foi muito bem recebida.
- Certo, ... – Começou Amber. – Vou ser sincera, essa entrevista na verdade é só uma formalidade, regras da empresa. Não podemos passar alguém adiante sem antes nos certificar de que ela se encaixa, mesmo que pelo currículo tenhamos certeza que sim.
- Passar alguém adiante? – Perguntou , ficando confusa.
- A assistente pessoal não é para nós... É para alguém que é nosso cliente. – Explicou Amber. – Prestamos assessoria para algumas empresas e pessoas públicas, e ficamos responsáveis às vezes por encontrar assistentes pessoais para essas pessoas.
- Ah, certo. – Concordou , lembrando-se vagamente de ter lido algo a respeito. – Peço desculpas, eu pesquisei a empresa, mas parece que estou diante uma prova da faculdade e esqueci tudo. – Amber riu.
- Acontece. – Amber a tranquilizou. – Já que falou em faculdade, aqui no seu currículo diz que você está fazendo mestrado, é isso mesmo? – Perguntou Amber, vendo concordar. – E como está sua disponibilidade de horários? Isso é o ponto mais crucial nessa conversa.
- Eu tenho aulas às terças e quintas, mas se for necessário, posso mudar. – Garantiu , sem nem ter ideia se poderia mudar isso mesmo.
- Acredito que não será um problema, achei que você estivesse com uma agenda mais cheia. – Esclareceu Amber, voltando a consultar o currículo. – Seu último emprego, o que aconteceu? Por que saiu de lá?
- Eu trabalhava em um café e infelizmente o dono teve que fechar. – Explicou . – Foi ele quem escreveu a carta de recomendação, aliás.
- Sim, suspeitei... Uma ótima carta, aliás, ele parecia gostar muito de você.
- Era mútuo. – sorriu ao se lembrar de Ed. – Acho que se a situação não estivesse tão complicada, ele não teria fechado o café só para não ter que me demitir.
- Eu sinto muito por ter acabado assim. – Amber parecia sincera, e agradeceu. – Você sabe dirigir?
- Sim.
- Como é sua relação com as pessoas em geral?
- Acredito que seja boa. Se for para saber como seria uma dinâmica em grupo, eu não vejo problemas em trabalho em equipe se for necessário. – Explicou .
- Esse trabalho exige discrição, acha que se encaixa?
- Não gosto de holofotes, se é isso que quer saber. – Respondeu. – Eu faço o que for necessário, com ou sem reconhecimento.
- Perfeito. – Amber moveu a cabeça, mordendo o lábio inferior por um tempo e depois analisando . – Como você age sob pressão?
- Considerando que eu acabei de perder meu emprego, estou a dias de ser despejada por não ter dinheiro para pagar o aluguel, e ainda não liguei para meus pais chorando e contando o desastre que minha vida está... E ainda estou indo para as aulas e consigo assimilar o que está acontecendo, eu acho que consigo lidar bem com pressão. Talvez uma noite mal dormida vez ou outra, mas não afeta meu trabalho.
- Você está sem lugar para morar? – Amber perguntou.
- Isso é um problema? – começou a entrar em pânico.
- Não, nenhum, na verdade é perfeito. – Amber sorriu, tentando tranquilizar a mulher. – A vaga inclui a moradia.
- Eu vi que vocês ofereciam auxílio residência, não consegui entender o que isso queria dizer. – Confessou , não sabendo como se sentir em relação ao sorriso de lado que Amber havia dado.
- Você irá trabalhar na casa do nosso cliente, há um quarto para você com toda a estrutura necessária. E você poderá se mudar para lá assim que conhecê-lo e ele te aprovar.
- Ok... – disse, voltando a ficar nervosa, teria que passar por aquilo novamente?
- Não precisa ficar assustada, o senhor Renner é uma pessoa tranquila, até hoje não vi ele recusando ninguém. – Amber disse, pegando um pedaço de papel e uma caneta. – Este é o endereço, hoje ele não está disponível, mas amanhã a agenda dele está livre até o almoço, então você pode ir até lá pela manhã?
- Eu... Claro, posso. – Disse , nem mesmo considerando que tinha aula no dia seguinte, uma falta não faria mal.
- Às dez? – Amber perguntou, sorrindo quando confirmou. – Muito bem, avisarei ao senhor Renner que você estará lá.
- Desculpe... Senhor Renner? – Perguntou , balançando a cabeça, tentando voltar a focar no que acontecia.
- Sim, Jeremy Renner. – Disse Amber, sorrindo enquanto estendia o papel com o endereço e o horário que ela deveria estar lá.
- Jeremy Renner... – Ela conhecia aquele nome, seus olhos se arregalaram quando ela se lembrou. – O ator?
- O próprio. – Amber confirmou, tinha começado a se levantar, mas logo depois voltou a se sentar. – Está tudo bem?
- Sim, eu só... Eu vou ser assistente pessoal de um ator? – perguntou, pela primeira vez começando a se questionar se aquela era uma boa ideia e se não seria melhor ela recorrer aos pais até achar algo.
- Não precisa ficar assustada. – Disse Amber, tentando tranquilizar . – Como eu disse, o senhor Renner é muito tranquilo e calmo, e nunca teve qualquer problema com as pessoas que trabalham com ele. E se você é metade do que eu acredito que seja, garanto que vocês se darão muito bem.
- Eu não sei...
- , eu sei que acabamos de nos conhecer, mas pode confiar em mim... Não te aprovaria para conhecê-lo se não acreditasse que você pode dar conta.
não estava convencida, muito menos mais calma, mas concordou e finalmente pegou o papel que Amber havia lhe estendido. Agradeceu a mulher pela entrevista e pela oportunidade, e saiu do escritório, suas mãos tremiam e ela sentia que seu joelho iria ceder a qualquer momento. Agradeceu pelo elevador chegar tão rápido e se escorou na parede do mesmo, agradecendo por ele não ter parado em nenhum outro andar. Ela fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes. Em sua cabeça só rodava o novo título que carregaria caso fosse aprovada na entrevista final: assistente pessoal de um ator que estava no auge pelos recentes personagens que havia interpretado. Ela daria risada se alguém próximo lhe dissesse isso, achando impossível aquilo acontecer. Mas era com ela, e ela riu mesmo assim, porque a alternativa seria chorar com o desespero. As perguntas feitas durante a entrevista com Amber fazendo mais sentido: ela gostava de holofotes? Ela era discreta? Organizada? Claro, porque aquele homem deveria ter mil compromissos. Como lidaria bem sob pressão? Ela engoliu em seco só de imaginar perder algum prazo que o ator tivesse para cumprir e algo acabar dando muito errado.
- Senhora? – Ela ouviu alguém perguntar, chamando sua atenção. viu um senhor simpático parado no elevador. – A senhora está bem?
- Sim, estou, obrigada. – Ela sorriu agradecida, conferindo que já estava no térreo e deveria sair do elevador. – Tenha um bom dia.
Ela precisava ligar para Ted, precisava do irmão a tranquilizando o suficiente para que ela pudesse pelo menos conseguir ficar bem para aguentar a segunda entrevista. Mas Ted não poderia saber, ele era louco pelos filmes que o ator havia feito, capaz de voar de Berlim até Los Angeles só para levar pessoalmente à entrevista. Ele era o motivo da mulher reconhecer aquele nome, Ted a fazia assistir todos os filmes quando vinha para casa passar um tempo, principalmente quando lançava um novo e ele dizia que deveriam assistir tudo para que não ficasse fazendo perguntas no meio do filme. Naquele momento ela se arrependeu pela primeira vez em muito tempo não ter mais amigos, por confiar que Ted bastaria para suprir aquele espaço. E ela não poderia recorrer a Ed, imaginando a quantidade de coisas que o homem tinha para resolver ainda. Só restava ela se autoconsolando aquela noite. Ela precisava de sorvete.

~ * ~


Eram quase dez horas quando se viu diante o portão de entrada da sua provável nova moradia. Suas mãos estavam tão molhadas que parecia que ela havia acabado de lavá-las, mas era puro suor, e sua respiração estava ofegante. Diferente do dia anterior, em que ela conseguira dormir tranquilamente antes da entrevista, desta vez ela tivera um sono perturbado, imaginando diversas possibilidades que aquele novo emprego poderia dar errado. Ela encostou-se no portão e respirou fundo, tinha que se acalmar, era só um emprego, ela conseguia. Também não sabia ser garçonete quando começou a trabalhar no Tower’s, mas conseguira, não foi? Então, dessa vez não seria diferente. Ela se endireitou, arrumou a roupa e passou a mão no cabelo preso em um rabo de cavalo, e então tocou a campainha, logo depois ouvindo o portão ser aberto automaticamente. o empurrou e entrou, deixando o portão se fechar atrás dela. A casa era cercada por um grande gramado, à frente haviam algumas flores e até uma árvore com um balanço que não parecia nada confiável; à direita havia a entrada de carros com dois carros estacionados na grama; à esquerda a árvore e um grande espaço livre.
Sua atenção foi roubada pela porta que se abrira, e de lá saia um homem alguns centímetros mais alto que ela, o cabelo curto levemente espetado, provavelmente sem ter conhecimento de um pente, um sorriso simpático e os olhos azuis que transmitiram calma para a mulher. Ele usava uma calça jeans de lavagem escura e uma camisa social, com as mangas dobradas até os cotovelos. Enquanto ele se aproximava, continuou repetindo os exercícios de respiração que vira em alguns vídeos de meditação, sentindo que as batidas de seu coração iam se normalizando, de forma que ela já estava praticamente normal quando ele se aproximou, estendendo a mão para cumprimenta-la, esfregou a mão na calça rapidamente e aceitou a mão estendida, sorrindo para o homem.
- Olá, prazer, sou o Jeremy. – Disse ele, sua voz rouca tendo efeito imediato para acalmá-la.
- Eu se... – Começou ela, mas logo parou, achando aquilo extremamente desnecessário. – .
- Ouvi falar muito bem de você. – Jeremy começou a dizer, indicando para que ela o seguisse para dentro de casa. – Por favor, ignore a bagunça, não é fácil ter uma casa arrumada quando se tem uma filha de três anos, você vai perceber isso logo. – Espera, ele tinha uma filha? franziu o cenho, voltando ao normal quando ele virou o rosto para ela. – E isso porque ela ainda nem está em casa, imagine quando chegar.
sorriu simpática, ainda assimilando as informações, ninguém falara nada de filha. O pensamento logo sumindo quando eles entraram e ela parou para apreciar o interior da casa. Se tinha uma coisa pela qual era apaixonada, era ver a casa das pessoas por dentro, algo que ela nunca compartilhava com as pessoas por achar que pareceria muito estranha. Logo de entrada havia um pequeno corredor, com um pequeno espaço onde os sapatos ficavam acomodados, e os casacos eram pendurados. Seguindo pelo corredor, eles paravam no ponto exato do meio do grande cômodo que ficava a sala de jantar e sala de estar. Esta era bem espaçosa, com um tapete que parecia muito confortável no chão, assim como o grande sofá que formava um “L”, próxima à janela que dava para o jardim, havia uma poltrona; do lado tinha um grande móvel com uma coleção considerável de DVDs e uma grande televisão de tela plana. gostou, já se imaginando assistindo diversos filmes nos seus dias de folga, sem nem mesmo saber se poderia fazer uso daquilo tudo. Do outro lado, a sala de jantar possuía uma grande mesa com oito cadeiras, num canto havia um móvel que funcionava como minibar, repleto das mais variadas garrafas e copos. Um balcão, com algumas banquetas espalhadas no lado da sala de jantar, servia como limite entre a sala de jantar e a cozinha, que parecia bem grande de onde estava, o que a alegrou também.
- Você está com uma cara engraçada. – Comentou Jeremy, chamando a atenção de , que olhava para a cozinha já imaginando as coisas que poderia fazer ali.
- Desculpe. – Disse ela, sorrindo envergonhada.
- Bem, como você pode ver, essa é a sala de estar e a de jantar... Não usamos muito a sala de jantar, só quando acontece alguma reunião familiar, e essas não são muito frequentes. – Explicou Jeremy. – E, sim, você terá total acesso a tudo, fique à vontade, será sua casa também.
- Você fala como se eu já estivesse contratada. – Comentou , enquanto o acompanhava até a cozinha.
- Como eu disse antes, ouvi falar muito bem de você. – O ator virou-se para ela e sorriu. se sentiu levemente desconcertada com aquele sorriso, mesmo sem saber o porquê. – E essa é a cozinha.
- Uau. – Disse ela, não conseguindo disfarçar a surpresa e agradecendo por ter algo para distraí-la do pensamento anterior. A cozinha possuía uma ilha no meio, em duas paredes havia um armário do chão ao teto, com a geladeira encaixada em um espaço bem planejado, e nas demais paredes havia um longo balcão, com a pia no centro, e o fogão em uma extremidade. não conseguiu disfarçar a felicidade.
- Você parece ter gostado.
- Eu gosto de cozinhar. – Disse ela, se sentindo levemente estúpida, mas se tranquilizando ao ver o ator rindo.
- Eu também. – Concordou ele, logo depois chamando-a para conhecer o resto da casa.
Saindo da cozinha, virando à esquerda, como se fosse para a sala de estar, havia um corredor que levava aos quartos, ao escritório, e à porta que levava à lavanderia e ao jardim que rodeava a casa. O primeiro quarto era o de Ava, que descobriu ser a filha do ator, e este era o sonho de toda criança apaixonada por princesas e bonecas. Ele era pintado de um cor-de-rosa bem suave, em uma parede ficava a cama e ao lado a grande casa de bonecas, na cama os mais diversos tipos de bichos de pelúcia, assim como nas prateleiras espalhadas pelas paredes. A maioria eram elefantes, e Jeremy logo confirmou que era o animal favorito da criança, além de fadas e unicórnios. também notou a prateleira cheia de figuras de ação dos Vingadores, e gostou de saber que Ava misturava os universos, Ted ficaria horrorizado.
Em frente ao quarto de Ava, ficava o de Jeremy, que não chegou a conhecer e achou justo, seguiram mais um pouco para o cômodo ao lado do quarto da criança, que era o escritório. Havia uma larga mesa de uma ponta a outra em frente à janela; em uma ponta já havia um computador, e a outra estava vazia, com Jeremy explicando que seria o espaço dela. Havia alguns nichos presos na parede, em alguns havia prêmios que ela não reconheceu, e em outros, pastas das mais diversas cores com coisas como roteiros que ele havia recebido e precisava ler, contratos que ele tinha com empresas, entre outras diversas coisas mais burocráticas, que julgou que ficaria por dentro com o tempo.
- E aqui é seu espaço. – Disse Jeremy quando chegaram à última porta do corredor, ela gostou do que viu, apesar de ainda sorrir pela confiança do ator de que ela realmente ficaria com aquela vaga. O quarto era grande, e ela gostou de saber que era uma suíte, havia visto um banheiro entre o quarto de Ava e o escritório e julgou que aquele era o que a menina usava, e ela o usaria também. Havia uma cama e um grande guarda-roupas, além de uma escrivaninha e algumas prateleiras. – Costumava ser o quarto de visitas, mas quando Ava nasceu tive que fazer algumas mudanças. – estranhou aquilo, mas antes que pudesse perguntar o motivo, o ator já a puxava para conhecer a área externa.
O jardim ali atrás era mais impressionante que o da frente, mais bem cuidado também. Havia um deque de madeira antes de chegarem à grama em si. Em um canto havia uma mesa daquelas que geralmente se vê em acampamentos, perto de uma churrasqueira; do outro havia um grande canteiro com várias flores ainda germinando, e outra árvore com outro balanço de madeira, esse mais novo que o da frente. Jeremy a convidou para ocuparem a mesinha no jardim para conversarem o que faltava ser discutido ainda. Jeremy fez diversas perguntas, algumas que Amber já havia feito no dia anterior, e outras que eram novas e completamente inusitadas: como o que ela achava de crianças e como ela se relacionava com elas. ficou confusa, mas respondeu, concluindo que a filha dele deveria viver com ele e Jeremy poderia achar que isso seria algum problema para a mulher. Depois o ator a questionou sobre horários e organização para mantê-los; questionou sobre sua faculdade e ficou surpreso ao ouvi-la dizer que estava no mestrado de Linguística.
- Fiz um filme uma vez que envolvia uma linguista. – Observou ele.
- Eu sei. – Soltou sem nem pensar. – Tive que assistir para uma aula. – Acrescentou logo em seguida, sentindo o rosto esquentando.
- Você gostou? – Perguntou Jeremy.
- Tenho a impressão que minha resposta pode influenciar algo. – Brincou ela, vendo o ator abaixar a cabeça enquanto ria.
- Prometo que isso não mudará nada, pode falar que odiou.
- Na verdade, eu gostei muito. É um dos meus filmes favoritos. – Confessou , sorrindo.
- Está falando isso para me agradar? – Perguntou Jeremy, parecendo que continha algum sorriso.
- Se eu quisesse te agradar, diria que seu personagem foi o meu favorito. – Observou .
- E não foi?
- Bem... – sentiu o rosto ficando ainda mais quente. – Ele é das exatas, não é uma área que me agrada muito, principalmente sendo de humanas. E no final o destaque fica mais para a linguista, não é como se você aparecesse tanto assim...
- Ok, agora estou ofendido. – Brincou Jeremy. – Mas, em relação a exatas e humanas, é a lei dos opostos se atraindo, não? Talvez você se surpreendesse.
não soube o que responder, resolvendo pelo silêncio, que não durou muito por Jeremy logo voltar a fazer perguntas sobre ela e sua vida. A cada pergunta e resposta, a mulher ficava mais confusa, começando a desconfiar sobre aquela vaga. Pelo que havia pesquisado, ela ainda não conseguia entender como sua relação com crianças poderia afetar seu trabalho como assistente pessoal. Mas, novamente, quando ia questionar o ator sobre isso, ele olhou o relógio em seu pulso e arregalou os olhos, notando como estava atrasado. No mesmo instante a campainha soou e ele pareceu esquecer o atraso por um momento.
- Perfeito! – Exclamou ele, levantando-se e pedindo para que o acompanhasse. – Vocês poderão se conhecer antes de eu sair.
- Conhecer quem? – Perguntou , mas Jeremy não a ouviu, andando apressado pela casa até chegar à porta de entrada.
Ele pressionou um botão em um interfone, que ela nem havia notado antes, que abriu o mesmo portão pelo qual ela havia entrado, pela câmera ela notou uma mulher entregando uma criança, que saiu correndo assim que Jeremy abriu a porta. engoliu em seco, apostando a vida que aquela era a filha do ator. A menina pulou nos braços do pai, apertando os braços ao redor do pescoço de Jeremy enquanto ele se levantava, distribuindo diversos beijos pelo rosto da menina, que ria divertida. sorriu com a cena, vendo pela câmera que a mulher havia fechado o portão e partira sem falar qualquer coisa para Jeremy, ficou confusa com aquilo.
- Tenho alguém para te apresentar. – Disse Jeremy, chamando a atenção da filha e de , que piscou e voltou a focar no que acontecia ao seu redor, só então notando como a menina parecia muito alta para sua idade, Jeremy não havia falado que ela tinha três anos? Ava também era incrivelmente loira, os cabelos lisos partidos ao meio e presos no alto da cabeça em duas maria-chiquinhas, os olhos claros logo fixando nela, olhando-a de cima abaixo com a usual curiosidade infantil.
- Quem é ela? – Perguntou Ava, ainda olhando para , que de repente se sentia muito exposta e incomodada com a atenção que a menina te dava.
- Essa é a , – disse Jeremy, chamando a atenção da filha – sua nova babá.
- O que? – O ator não soube para quem olhar, Ava ou , que havia arregalado os olhos e sua boca também não conseguia se fechar. O ator parecia confuso, ouvindo Ava começar a reclamar sobre não precisar de uma babá, mas focando em que era a própria definição de confusão.
- Você não sabia? – Perguntou Jeremy, pedindo para Ava parar de reclamar. – Para que achou que estava sendo entrevistada?
- Sua assistente pessoal. – Informou , aproximando-se do sofá para sentar no braço do mesmo, não confiando em suas pernas. – Desculpe, eu... Eu só preciso de um minuto. – Jeremy colocou Ava no chão e pediu que ela fosse para seu quarto, sendo prontamente atendido.
- Assistente pessoal? – Perguntou ele, franzindo o cenho e se aproximando da mulher. sentiu-se levemente mais calma ao perceber que até mesmo Jeremy estava confuso. – , eu sinto muito...
- Não, está tudo bem. – Disse a mulher, sentindo que era exatamente o contrário, mas não queria ver Jeremy se sentindo ainda mais culpado. – Talvez tenha sido só uma confusão, alguma informação foi perdida no processo... Foi um acidente, acontece.
- Acredito, então, que você não vai ficar? – Perguntou Jeremy, fazendo levantar a cabeça. Era algo que ela não havia considerado, se a vaga não era o que ela havia imaginado, então o certo seria ir embora, apesar de parte dela suspeitar que não fora um erro aquela divulgação. – Não quero te pressionar, mas é realmente importante eu encontrar uma babá para Ava. As anteriores não deram sorte, ela parece rejeitar todas e fazer a vida delas um inferno.
- E a mãe dela?
- Somos divorciados e dividimos a guarda, mas Ava fica a maior parte do tempo comigo e passa alguns fins de semana com a mãe. – Explicou Jeremy. respirou aliviada, havia imaginado que algo ruim tivesse acontecido com a mãe de Ava.
- Entendo. – Disse ela, apenas porque sentiu que precisava falar algo. Jeremy passou a mão no cabelo, bagunçando-os ainda mais.
- Eu sei que não é seu trabalho, mas eu estou atrasado demais para uma reunião, não deve demorar muito, será que pelo menos hoje você poderia ficar com Ava? Te pago a parte depois. – Acrescentou ele, achando que dinheiro seria um fator decisivo na decisão de .
- Claro, não é justo você ser afetado também. – Concordou . – Eu posso ficar, sem problemas.
- Muito obrigado. – Disse Jeremy, virando-se para chamar Ava a fim de se despedir dela. A menina apareceu correndo, o ator se abaixou para falar com a filha. – Querida, papai tem que sair, mas vai ficar com você, tudo bem? – Ava não parecia feliz, voltando a fixar seus olhos na mulher.
- Não posso ir com você? – Perguntou Ava, fazendo um biquinho e forçando uma careta, que não enganou Jeremy.
- Não, você vai ficar e vai se comportar. – Jeremy avisou. – Deixe uma pessoa sair dessa casa inteira, Ava, por favor. – Pediu o ator, forçando a segurar o riso. – Por mim.
- Tudo bem. – Se rendeu Ava, abraçando o pai, que a pegou no colo e foi até a porta, os seguiu.
- Se precisar de qualquer coisa, os telefones estão todos na primeira gaveta daquela mesa. – Ele apontou para um móvel ao lado do sofá, e assentiu. – Espero não demorar muito.
- Tudo bem. – Disse a mulher, já começando a entrar em pânico ao ver o ator abrindo a porta e se despedindo da filha.
- Se comporte e podemos comer pizza hoje. – Disse Jeremy, fazendo a menina revirar os olhos antes de concordar. – Você já comeu? – Perguntou Jeremy antes de soltar a filha, vendo a menina negar com um aceno da cabeça. – , pode...
- Eu cuido disso. – Adiantou-se , sorrindo na tentativa de tranquilizá-lo.
- Obrigado. – Disse o homem, dando um último beijo em Ava antes de finalmente sair de casa, indo até um dos carros e saindo logo. esperou até que o portão se fechasse para voltar para o interior da casa, levando Ava consigo.
- Muito bem, lá vamos nós. – Sussurrou para si mesma. Ela fechou a porta e se virou, encontrando Ava parada há poucos metros dela, a olhando com uma expressão de quem planejava dominar o mundo de uma forma não muito boa. respirou fundo, mentalizando coisas boas e repetindo em sua cabeça que tudo daria certo, ela precisava daquele dinheiro. – O que quer comer?
- Não sei. – Disse Ava, dando de ombros.
- Tudo bem, vamos ver quais são as opções. – Ela estendeu a mão para Ava, que apenas a olhou e depois virou as costas, seguindo para seu quarto. – Que p... Calma, . – A mulher repetiu, indo para a cozinha. Não se deixaria vencer por uma garota de três anos. Tinha que aguentar até Jeremy voltar e depois iria embora como se aquele tivesse sido só mais um dia como qualquer outro. Com sorte, chegaria em casa e teria uma nova resposta em seu e-mail.
Ava a testou até o último fio de cabelo. Após preparar o almoço para a menina, macarrão integral com molho branco, tentou fazê-la comer, mas Ava se recusava, comendo um pouco e depois largando o prato no meio do quarto para brincar com suas bonecas, mas não desistiu. Não sabia os motivos para a menina agir daquela forma, mas se tinha uma coisa que ela sabia sobre crianças era não deixar que elas achassem ter algum controle sobre os outros. E pareceu funcionar, pelo menos pelo almoço, com relutância, Ava comeu mais da metade da porção servida por , que achou aquilo uma vitória e resolveu guardar o resto para caso a menina resolvesse ceder e comer mais tarde. Cerca de uma hora depois, Ava começou a mostrar sinais de sono, mas se recusava a dormir sem o pai para coloca-la para dormir.
- Bem, eu sinto muito, mas seu pai não está aqui agora. – Disse , no tom de voz mais calmo que conseguia usar. – Mas prometo que se ele chegar e você ainda estiver dormindo, ele vem te dar um beijo.
- E como eu vou saber que ele me beijou? – Perguntou Ava, cruzando os braços. mordeu o lábio inferior, olhando ao redor e sorrindo aliviada quando viu uma caneta colorida por perto.
- Ele vai fazer um desenho na sua mão. – Disse a mulher.
- Você pode fazer o desenho. – Desafiou Ava.
- Será um desenho que só ele vai saber fazer. – Garantiu , vendo com certa satisfação enquanto Ava ponderava sobre aquela oferta, percebendo logo que a mulher havia conseguido dobrá-la.
- Tudo bem. – Cedeu Ava, deitando-se na cama e deixando que a cobrisse. começou a se levantar, mas foi parada pela menina. – Uma história. – Pediu Ava, acomodando-se na cama e esperando a mulher escolher um livro. Antes mesmo de ir para a terceira página, Ava já estava dormindo, mas preferiu continuar por mais um tempo, apenas para garantir, sua voz ficando mais baixa, com medo de acabar incomodando o sono da criança. Chegando à metade do livro, ela o fechou, pegou a caneta colorida e guardou no bolso da calça, pretendia não esquecer a promessa que havia feito à menina.
saiu do quarto e foi para a cozinha, começando a limpar a sujeira que havia feito enquanto preparava o almoço para Ava, seu próprio estômago dando sinais de fome enquanto ela guardava o que havia sobrado, parando para separar um pouco para ela antes de encaixar tudo na geladeira, talvez Jeremy quisesse comer algo quando chegasse. já se sentia exausta só pelas poucas horas que havia passado com Ava, após aquela breve experiência, ela não se surpreendia pelo que o ator havia falado antes sobre as babás não conseguirem aguentar por muito tempo. Ava podia ser pequena, mas sabia como fazer birra como uma criança bem mais velha, aquilo era um perigo nas mãos erradas. Enquanto lavava os pratos, se lembrou da aparência cansada de Jeremy após descobrir que não era a nova babá da filha, como aquilo parecia tê-lo envelhecido alguns anos. Não deveria ser fácil, pensou ela, ter um trabalho que exigia tanto e ainda conseguir tempo para acompanhar o crescimento da filha. fez uma nota mental para tentar ir atrás de informações sobre a mãe da menina e como o divórcio havia ocorrido, temendo que não encontraria coisa boa devido ao tom de voz de Jeremy quando falou sobre a separação.
Ela terminava de enxugar o último prato quando ele entrou em casa, estava tão distraída que sequer ouvira o carro se aproximando e estacionando. Ele retirou os sapatos e se aproximou da cozinha, parando na porta e olhando enquanto a mulher passava o pano no prato. o olhou, arqueando a sobrancelha para tentar questionar o que ele fazia parado ali.
- Sabe que tem uma máquina de lavar louças logo ali do lado, não é? – Perguntou Jeremy.
- Não era muita coisa, e eu queria me manter ocupada. – Ela deu de ombros.
- Cadê Ava? – Perguntou Jeremy, estranhando o silêncio e não haver nenhum grande caos na casa.
- Dormindo. – Disse , parando-o logo que ele fizera menção de ir até o quarto da filha. tirou a caneta colorida do bolso e a entregou a Jeremy. – Eu prometi que quando você chegasse e desse um beijo nela, você faria um desenho na mão dela. – Explicou, vendo o homem não conseguindo disfarçar a confusão. – Não pergunte... Apenas, tem que ser algo que só você saberia desenhar.
- Tudo bem, eu já volto. – Disse Jeremy, pegando a caneta e indo para o quarto da filha. esperou, aproveitando para guardar toda a louça do almoço, fechando o armário no momento em que o ator voltava à cozinha. – Quer me explicar por que eu tive que desenhar um peixe com uma estrela na mão da minha filha?
- Esse é o código de vocês?
- Ela gosta de Procurando Nemo e estrelas. – Jeremy deu de ombros, colocando a caneta no balcão e sentando-se em uma das banquetas depois.
- Ela não queria dormir enquanto você não chegasse, então para convencê-la, eu disse que você daria um beijo nela quando chegasse, não que ela tenha acreditado em mim. – Completou . – Sugeri que você fizesse um desenho na mão dela, e depois tive que dizer que seria algo que só vocês dois soubessem para que ela não desconfiasse que eu tinha feito.
- Ava não facilita mesmo. – Comentou Jeremy, não conseguindo conter a risada. – Sinto muito por isso.
- Está tudo bem. – Tranquilizou , apoiando-se na ilha da cozinha. – Foi assim com as outras babás?
- Pior, eu acho. – Disse Jeremy. – Ela ficou assim desde o divórcio. – Acrescentou ele. – Você seria a quinta babá só esse ano.
- Uau. – Comentou .
- Uma pena que não vai ficar, você conseguiu muito mais que as outras. – Disse Jeremy. – Sei dizer só pelo estado da casa.
- Não foi uma batalha fácil, ela mal comeu. – Falou , contando a experiência do almoço, surpreendendo-se ao ver que Jeremy ria.
- Eu disse, você foi além. – não sabia dizer se ficava feliz ou preocupada com aquela reação. – Espero que a próxima babá seja como você.
mordeu o lábio inferior, sabia que Jeremy não estava forçando a barra tentando fazê-la ficar, algo lhe dizia que ele nunca faria algo como aquilo, ele só realmente queria alguém que não desistisse tão fácil de Ava, como as outras pareciam ter feito. A mulher ponderou por um tempo, apesar de em poucas horas estar mais cansada que toda uma semana de trabalho na cafeteria, ela não havia odiado a experiência. Muito pelo contrário, achava Ava divertida em toda sua rebeldia, e parte dela entendia a teimosia da menina, a relutância dela em aceitar uma nova mulher em sua vida. E havia Jeremy que estava claramente desesperado, sem saber o que mais fazer para conseguir cuidar da sua filha e de seu trabalho, não é como se ele fosse largar o emprego para viver só para Ava, apesar de suspeitar que isso havia chegado perto de acontecer. E havia o fator principal: ela precisava de um emprego. E de um lugar para morar.
- Eu fico. – Jeremy não era o único desesperado. – Eu aceito ser a babá da Ava, se você quiser.
Ela também estava.

Capítulo 3


Voltar para casa para as festas de fim de ano havia lhe dado mais medo do que imaginara. Ela e Ted haviam entrado num acordo de manterem entre eles o novo emprego da mulher, deixando os pais acreditarem que ela ainda estava bem na cafeteria e não havia tido nenhum momento de pânico. ainda se lembrava de como havia notado a ponta de desapontamento quando contara aos pais que havia conseguido um emprego no Tower’s, apesar de eles tentarem disfarçar, e imaginava que se viesse a revelar que havia perdido o emprego antigo e agora era uma babá, seu pai interferiria dizendo que ela deveria escolher outra faculdade, algo que lhe desse um emprego condizente. Ou talvez eles não fizessem nada disso, só não queria arriscar.
Felizmente, faltando alguns dias para o Natal, Ted conseguira se juntar a eles e roubar para si toda a atenção que estava recebendo, sendo alvo de perguntas sobre a faculdade, o curso e as disciplinas e, claro, se já havia surgido alguma oportunidade de emprego melhor. fugira da última dizendo que agora começaria a trabalhar com crianças, acompanhando seu desenvolvimento e afins, ela colocara alguns termos difíceis referente a linguística no meio da conversa para soar mais convincente. Com a chegada de Ted, conseguiu respirar mais aliviada, além de sentir a tensão abandonando seu corpo. No meio da madrugada, ainda afetado pelo jet-lag, Ted invadira seu quarto para que pudessem conversar.
- Então? – Sussurrou o mais novo, deitando-se ao lado da irmã, encarando o teto assim como ela. – Como foi o primeiro dia?
- Ainda não tive um primeiro dia, Ted. – Disse .
- O dia da entrevista não contou?
- Mas sobre isso eu já te contei tudo. – entrelaçou seu braço ao do irmão, encostando a cabeça no ombro dele.
- , uma conversa de quinze minutos não conta como uma conversa completa sobre esse dia. – Explicou Ted. suspirou, fechando os olhos e lembrando-se daquele dia, da confusão por não saber o que fazia ali, e depois do choque ao entender todo o cenário.
- Essa menina vai me dar muito trabalho. – Resumiu , fazendo Ted rir. Depois a mulher começou a narrar todos os detalhes daquele dia, desde sua chegada, passando por suas impressões sobre Jeremy, dando tempo para Ted voltar a surtar pelo ator ser o novo patrão da irmã, e chegando ao momento em que percebera o que faria ali. – Eu não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei isso, Ted. – Concluiu , escondendo o rosto no ombro do irmão, sufocando as lágrimas que haviam surgido repentinamente.
- Bem, você estava no desespero de perder tudo, , acho que é compreensível. – Disse o irmão, acariciando o cabelo da mais velha. – E, se quer minha opinião, você vai ser incrível nesse trabalho. Você, a pessoa mais desastrada que eu conheço, conseguiu aprender a servir mesas e carregar bandejas cheias de coisas de um lado para o outro, acha mesmo que não vai conseguir cuidar de uma menininha mimada?
- Ela não é mimada, Ted. – Corrigiu . – Mas não sei definir qual é o problema dela.
- Mimada vai servir, então. – Disse o irmão, fazendo ela rir. – Você será a melhor babá que esse homem vai ter na vida. Ele não vai querer te demitir nem quando a filha já estiver pré-adolescente.
- Menos, Ted, bem menos. – Disse , mas não conteve a risada. – Já adianto que você receberá muitas ligações.
- Posso receber alguns convites para ir às premières dos filmes da Marvel na Europa? – Perguntou o homem, recebendo um soco da irmã como resposta. – Não, então?
Toda noite que passaram ali na casa dos pais, o mais novo ia ao quarto da mais velha e eles passavam a noite conversando. reclamava, mas por dentro agradecia a preocupação do irmão, cada dia que passava e o novo ano se aproximava, ela sentia-se mais nervosa porque teria que encarar o novo emprego logo. Ela fizera pesquisas na internet para tentar encontrar algo que pudesse lhe ajudar a lidar melhor com crianças, mas cada artigo que lia era ainda mais assustador que o anterior. Até que ela desistiu, sabendo que aquelas teorias não ajudariam em nada quando a realidade viesse. concluiu que agiria de acordo com a situação, improvisaria no último minuto e torceria para o melhor.
Em sua última noite na casa dos pais, uma semana após a virada do ano, Jeremy fez o primeiro contato, apenas para avisar que ela poderia ir para a casa quando sentisse vontade, mas que só começaria a trabalhar mesmo na segunda metade do mês, já que Ava o acompanharia em alguns eventos em Nova Iorque. O ator estava fazendo algumas aparições promovendo seu último filme, que havia se apaixonado completamente, e levaria a filha para alguns eventos. A mulher agradeceu a ligação e confirmou se realmente não haveria problemas ela ficar na casa durante aquele tempo, ao que Jeremy confirmou, tranquilizando-a e certificando-se de que ela se sentiria completamente à vontade. Havia comida o suficiente, as chaves já haviam sido entregues a ela antes da viagem para Norfolk, e o quarto que seria dela completamente pronto para uso. Já estava antes, mas Jeremy havia informado que queria fazer algumas mudanças.
Quando ela chegou na casa, sabia que não fazia muito tempo que seus residentes estavam ali, já que o ambiente não estava com o ar usual de algo que fica muito tempo inabitado. Ela levou suas malas para o quarto que seria dela, pensando consigo que o quarto parecia idêntico ao que ela havia visto meses atrás. Aproveitou o ânimo para já arrumar tudo e fazer daquele quarto seu, ocupando também a parte do escritório que Jeremy havia garantido ser para uso dela. O homem era bem organizado, característica difícil de ter quando tinha uma filha de três anos, mas ele conseguia de alguma forma. O escritório parecia ser o único ambiente que não possuía algum brinquedo, ela diria algo infantil, mas havia alguns desenhos colados na parede ao lado do computador que pertencia a Jeremy. aproveitou que estava sozinha para conhecer cada canto da casa, aventurando-se até mesmo pelo quarto do ator, mas ficando lá menos tempo do que em todo o resto.
aproveitou aqueles dias até a volta de Jeremy e Ava para se familiarizar com a casa, onde cada coisa ficava – achando curioso encontrar um armário com diversos remédios –, e com os arredores de onde a casa era localizada, já que ela não conhecia muito bem aquela região – que era uma das mais nobres de Los Angeles. Também aproveitou para colocar algumas leituras do curso em dia, já que havia deixado muita coisa de lado durante a crise do desemprego e depois com a chegada das férias de fim de ano. Também precisava finalizar uns trabalhos e adiantar outros, coisa que ela fez no decorrer da semana que passou.
Jeremy e Ava voltaram uma semana depois que chegara à casa, encontrando a mulher acomodada no sofá enquanto lia um dos diversos textos da faculdade, um caderno, um estojo e todo seu conteúdo estavam espalhados na mesinha de centro, uma música baixa tocava e Jeremy não conseguiu identificar a fonte. desviou o olhar do texto para ver pai e filha chegando, a mais nova parando assim que percebeu a presença da nova babá, fazendo uma careta enquanto olhava para o pai como quem perguntava por que a mulher já estava lá. Jeremy apenas lançou um olhar censurador para a filha antes de pedir que ela levasse suas coisas para o quarto, enquanto ele recebia a babá apropriadamente.
- , como foi de fim de ano? – Perguntou o ator, separando as malas que pertenciam a ele e Ava.
- Ah, nada de novo. – A mulher deu de ombros, pausando a música no celular. – Meus pais e meu irmão, só isso mesmo. E frio, como sempre. Tanto tempo em Los Angeles e a gente esquece como nos outros lugares faz mais frio que aqui.
- Sei muito bem como é. – Concordou Jeremy, conferindo o horário no relógio. – Você já almoçou?
- Na verdade eu acordei quase agora, então não tive tempo para pensar em almoço. – Assumiu , rindo do espanto do ator. – Em minha defesa, eu fui dormir no começo da manhã.
- Uma coisa que não sinto falta da faculdade. – Jeremy se limitou a comentar, fazendo a mulher rir mais um pouco.
- Não deve ser tão diferente de quando você tem um papel novo. – Comentou ela, vendo enquanto ele ponderava um pouco, para depois concordar.
- É melhor que ficar de dieta e malhando para os filmes da Marvel, isso eu admito. – Cedeu Jeremy, começando a se afastar para ir até a cozinha.
- Acho difícil de acreditar depois de ver o tanto de coisa saudável que você comprou. – Comentou , levantando-se do sofá e se aproximando da cozinha. – Acho que a vida saudável já está em você. E você quer fingir que é difícil só para eu não me sentir tão mal.
- Acabou de chegar e já está querendo me derrubar? – Jeremy brincou, fazendo a mulher corar levemente. – Eu estou brincando, pode ficar à vontade para falar e brincar o quanto quiser. – Ele se adiantou em dizer ao ver o desconforto de .
- Obrigada. – Disse ela, sorrindo de leve para o homem, ainda se sentindo envergonhada pela situação anterior. não era de se abrir com alguém tão facilmente, de partir para brincadeiras e piadas com tão pouca convivência, e talvez o período que havia passado na casa sozinha a fizera pensar que aquilo era normal, que eles já estavam morando sob o mesmo teto há mais tempo do que parecia.
- Então, almoço, vai querer alguma coisa? – Perguntou Jeremy, chamando a atenção da mulher.
- Tem algumas sobras de comidas que preparei durante a semana, não precisa se preocupar comigo. A melhor comida é aquela que é um misto de tudo. – Disse ela, fingindo uma pose de sabedoria, que só fez o ator rir. – Prepare algo para você e Ava, eu estou sem fome ainda.
- Mas terá eventualmente. – Apontou Jeremy.
- E, como eu disse antes, eu posso comer as sobras da comida da semana. – Respondeu , vendo que o ator não havia ficado feliz. – Não adianta discutir, você disse que posso ser honesta, estou sendo. Vou voltar aos meus estudos agora, com licença. – Ela ia se afastando, mas parou, voltando ao lugar de antes, vendo que o ator havia desviado a atenção do que fazia para olhá-la com uma sobrancelha arqueada. – Ou você precisa dos meus serviços imediatamente? – Perguntou ela, lembrando-se que havia um motivo para ela estar ali, e não era ficar largada no sofá estudando.
- Pode só conferir se Ava não está tentando destruir o quarto da forma mais silenciosa possível, por favor? – Pediu Jeremy, também se lembrando da função da mulher na casa.
assentiu e se retirou, pela primeira vez ficando nervosa para o seu trabalho. Até então ela aproveitou sua folga e agiu como se ela e Jeremy fossem apenas colegas de apartamento, perdendo o foco do real motivo de estar ali, mas agora a ficha havia caído e as coisas haviam se tornado reais. Ela tinha que começar a aprender a lidar com Ava e com a aparente recusa da criança em tê-la presente na sua vida. gostava de um desafio, isso ela não negaria, mas não sabia se esse gostar de ser desafiada se encaixava na batalha que provavelmente travaria com a garota. Felizmente parecia que não começaria naquela tarde, já que ao chegar ao quarto de Ava, a mulher parou e sorriu diante a cena que via: Ava deitada em sua cama, abraçada a um de seus bichos de pelúcia, profundamente adormecida. A mochila de elefante estava jogada no meio do quarto, e o casaco que ela entrara carregando em casa estava no chão ao lado. Ava não havia nem mesmo tentado se cobrir, provavelmente havia sentado na cama e aos poucos cedera ao sono que sentia, já que suas pernas ainda pendiam um pouco para fora do colchão. se aproximou, e arrumou a menina na cama, deixando-a mais confortável. Ava passou a mão no rosto, afastando alguns fios de cabelo e bocejou, mas continuou adormecida. sorriu, arrumando o cabelo da menina, logo depois saindo do quarto e encostando a porta.
Jeremy estava na cozinha, de frente ao fogão, preparando o que deveria ser o almoço dele e de Ava. ocupou um dos bancos que havia do outro lado e ficou olhando o ator indo de um lado para o outro, mesmo que ele já tivesse notado sua presença, surpresa pela facilidade que ele tinha em lidar com as diversas tarefas. O cheiro estava delicioso e sua boca havia se enchido de água, seu estômago havia até se retorcido um pouco, como se quisesse que ela repensasse aquela decisão anterior de comer as sobras da comida da semana.
- O quarto de Ava ainda está inteiro? – Perguntou Jeremy após tampar todas as panelas e se voltar para a mulher.
- Completamente. – Confirmou .
- O que ela está fazendo, então?
- Dormindo. – Disse , aceitando o pacote de bolacha que Jeremy lhe oferecia. – Acho que dormiu sentada na cama e depois caiu para o lado, porque as pernas estavam para fora.
- Ela faz muito isso. – Confirmou Jeremy. – Acho que almoçarei sozinho, então... Ou você vai mudar de ideia e se juntar a mim? – Perguntou o ator ao notar que a mulher olhava com atenção para o fogão. olhou para ele, revirando os olhos, mas não conseguindo segurar o riso.
- Talvez eu coma um pouco. – Cedeu ela. Rindo enquanto via o ator fazer uma comemoração exagerada. permaneceu em silêncio por um tempo, até que cansou de só observar e resolveu que deveriam começar a decidir como as coisas seriam dali para frente. – Então, como vai funcionar exatamente? Eu aqui, digo. Você não parece ser o tipo que frequenta essas baladas e festas que vão até tarde, e você não vai trabalhar em um escritório o dia inteiro... Então eu estou curiosa para saber como as coisas serão.
- Eu posso não sair de casa para ir trabalhar, mas eu tenho que trabalhar vez ou outra e Ava às vezes é um pouco rebelde em relação a isso. – Jeremy riu, apagando o fogo em uma das panelas. – Basicamente eu preciso que você fique com ela quando eu precisar trabalhar ou viajar e não tiver outra pessoa para ficar com ela. – ficou quieta por um momento, algo lhe incomodava um pouco, nada referente ao que Jeremy havia falado, mas algo que ela e Ted haviam conversado em uma das noites acordados.
- Espero que não me entenda errado – ela começou a falar, chamando a atenção dele, que deixou o que fazia para poder olhá-la – mas você não está querendo encontrar alguém para ocupar o papel de mãe dela, não é? Assim, eu sei que ela tem mãe, mas pelo visto elas não convivem muito, então eu só preciso saber o meu limite. – Explicou , garantindo que ele não a entendesse errado mesmo. – Eu não vou dar bronca, brigar ou castigar, não é meu papel ou minha função. Você quer que eu ajude a preparar comida, arrumar a bagunça, brincar, colocar para dormir, tudo bem, mas a parte de educar é por sua conta. – Jeremy a olhava tentando conter o sorriso, estava levemente surpreso pela honestidade da mulher, mas feliz por ela tê-lo feito, colocar todas as cartas na mesa e ver o que o ator faria com o que ela tinha a oferecer. Ali ele teve a certeza de que Ava não conseguiria vencer e que a mulher ficaria.
- Parece que não temos nada a discutir, então. – Disse ele por fim, convidando-a em seguida para o almoço.

~ * ~


não demorou a aprender que estava ali mesmo mais para as situações de emergências do que para o dia a dia, para evitar que o ator tivesse que correr desesperado atrás de alguém, já que o ator ficava em casa boa parte dos dias e só saia para reuniões e eventos caso realmente não tivesse outra escolha. Os dias seguintes ao da volta do ator e da filha, ela pode ver como era a dinâmica entre eles e aos poucos Jeremy foi encaixando a mulher, deixando para ela a função de entreter a filha e alimentá-la enquanto ele lidava com as negociações para futuras viagens e aparições públicas em evento. O humor de Ava mudava drasticamente durante o dia, no café da manhã, enquanto Jeremy ainda estava com elas, a menina ria e participava das brincadeiras que o pai fazia com ela, depois que o ator entrava no escritório e deixava a filha com , Ava se transformava. Na maior parte dos dias, apenas ficava olhando enquanto a menina brincava sozinha, se recusando a deixar a mulher a fazer parte. Depois, na hora do almoço, quando Jeremy dava a si mesmo uma pausa, Ava voltava a mudar, e ia nessa gangorra de emoções até o fim do dia, quando o ator finalmente saia de vez do escritório e ficava com a filha até a hora de dormir dela.
Às terças e quintas eram os únicos dias que não precisava se preocupar em agradar uma criança de três anos, já que ela e Jeremy haviam estipulado que seriam os dias de folga dela por conta da faculdade, mas caso o ator precisasse, havia explicado que conseguiria assistir as aulas em outros dias para ajudá-lo. Mais rápido do que eles haviam imaginado, a rotina entre os três se encaixou perfeitamente, com não demorando a pegar o ritmo do ator e de sua filha – logo descobrindo que os remédios que havia descoberto antes pertenciam à Ava, mas como ainda se considerava recém-chegada e não julgava que fosse algo que Jeremy gostaria de falar sobre, caso contrário já teria feito, preferiu não perguntar, apesar de em uma noite ter deixado a curiosidade vencer e pesquisado na internet para que serviam alguns remédios. O problema era que a maioria servia para diversos tipos de doenças, e a mulher só ficou ainda mais confusa, desistindo logo da ideia.
O primeiro grande teste, e breve momento de pânico para chegou quando Jeremy a chamou para conversar no escritório, aproveitando que Ava havia dormido enquanto assistia a um desenho, e mostrou à babá a sua agenda de compromissos. Ele estava com um filme novo, então precisava comparecer em alguns eventos. Além disso, em breve começariam as gravações do novo filme da Marvel, e esses eram os momentos mais delicados para Jeremy, já que Ava não podia acompanha-lo sempre. O primeiro evento do ano fora o Golden Globe, no qual a menina passou o fim de semana com a mãe. O próximo seria no fim de semana, quando Jeremy teria que se ausentar para comparecer ao Sundance Film Festival.
- Eu já conversei com a Sonni, ela vai ficar com a Ava por esses dias. – Explicou ele ao ver arregalando os olhos por notar quantos dias Jeremy ficaria ausente. – Pelo menos espero que fique.
- Ela não gosta muito de ficar com a Ava? – Perguntou , ocupando a cadeira vaga ao lado do ator, a que seria dela caso ela usasse o escritório.
- Digamos que ela não irá receber o prêmio de mãe do ano. – Foi o que Jeremy respondeu e não insistiu, já sabendo como o homem era reservado em relação à sua vida pessoal. – Mas ela se comportou bem durante o Golden Globe, acredito que não haverá problemas agora.
- Então estou de folga neste fim de semana? – Perguntou , puxando a agenda do ator para analisar as próximas datas.
- Sim, tem grandes planos?
- Se por grandes planos você quer dizer grandes textos e trabalhos, então sim. – Respondeu ela, suspirando cansada, já pensando na pilha de coisas que havia para finalizar. – Não sei onde estava com a cabeça quando decidi fazer um mestrado.
- Seu futuro profissional? – Sugeriu Jeremy, recostando-se na cadeira e olhando a mulher, que revirou os olhos.
- Nunca serei uma Louise. – Resmungou ela, fazendo o ator rir.
- Com esse pensamento, não mesmo. – Observou ele, cruzando os braços e analisando a expressão dela. Ele já havia notado como ela era dedicada e amava o que estudava, mas não conseguia entender como as vezes parecia que ela gostaria de estar fazendo qualquer outra coisa. – Você é estranha. – Jeremy soltou, chamando a atenção da mulher, que desviou a atenção da agenda para olhar para ele.
- Como é?
- Desculpe, não quis ofender. – Ele disse, percebendo que a mulher parecia mais confusa e intrigada do que ofendida. – Mas quando você fala do curso, ou quando passa horas compenetrada nesses textos e trabalhos todo, eu tenho a certeza que você ama o que faz. E então quando pensa num futuro, e nos sacrifícios que faz, você muda completamente. Como se transformasse em outra pessoa que não acredita que fazer cursos como Linguística façam alguma diferença.
- Quando você compara a um engenheiro, talvez não faça mesmo. – deu de ombros. Seus olhos encontraram os de Jeremy e ela viu que ele esperava por uma explicação melhor que aquela. – Meu irmão faz engenharia na Alemanha. – Explicou ela. – E meus pais não são os mais entusiasmados quando dizem que eu me formei em Linguística, apesar de eles gostarem de contar que recebi a proposta do mestrado pessoalmente de um dos melhores professores da área.
- Ah... Agora faz sentido. – Disse Jeremy. – Se quer saber a minha opinião, que é bem honesta, acho o seu curso tão importante quanto o do seu irmão. – Revelou ele, e não duvidou de sua honestidade. – Você disse que assistiu Arrival, então você sabe como pode ter um papel mais importante que qualquer outra pessoa em determinadas situações. Em muitas situações. E eu aposto que seu irmão não recebeu alguma proposta de alguém muito conhecido e renomado da área para trabalhar em algum projeto importante. – Completou Jeremy, fazendo arregalar levemente os olhos, surpresa com a determinação do ator em tentar defender o curso dela.
- Mas pelo menos ele está trabalhando na área dele. – Rebateu , sabendo que não precisaria se desculpar para que Jeremy entendesse o que ela queria dizer com aquilo.
- Você acha que Louise começou a trabalhar logo na carreira dela? – Perguntou Jeremy, sorrindo divertido, fazendo rir levemente. – Aposto que ela foi uma garçonete também por um longo tempo. – A mulher abriu a boca para tentar responder algo, mas foram interrompidos pelo choro infantil que veio do quarto ao lado, seguido de um chamado pelo ator. – Pesadelo. – Foi tudo o que Jeremy disse antes de pedir licença e se retirar do quarto. suspirou, agradecida por não precisarem continuar aquela conversa. Ela sabia onde Jeremy queria chegar, e o agradecia por isso, mas ela estava cansada, e o ano mal havia começado.

Na quinta-feira pela manhã, Jeremy levou Ava para a casa da mãe. Foi a primeira vez desde que haviam se conhecido que a menina perguntou ao pai se ela não podia ficar em casa com ou ir com ele, recebendo as duas negativas já que o ator e a mãe da criança já haviam combinado aquilo com dias de antecedência e ele não queria dar motivos para Sonni iniciar alguma briga. aproveitou a oportunidade para aceitar a carona que Jeremy havia lhe oferecido para deixa-la na faculdade. Observando pelo retrovisor uma Ava descontente sentada atrás dela, sem ânimo até mesmo para brincar com o bicho de pelúcia que havia escolhido para acompanha-la naqueles dias. Era um comportamento tão estranho da criança que ficou tentada a sugerir que elas pudessem ficar juntas, mesmo sabendo que Jeremy negaria.
À noite, quando ela chegou em casa, anormalmente silenciosa devido à ausência de Ava, Jeremy já se preparava para ir ao aeroporto. Sua presença estava confirmada só para o sábado, mas ele gostava de chegar mais cedo, apesar de perder um dia com a filha. se ofereceu para leva-lo ao aeroporto, mas ele viu quando ela tentou disfarçar o enorme bocejo enquanto esperava por uma resposta do ator, e resolveu negar. Ele sabia que a mulher havia passado boa parte da noite acordada para finalizar um trabalho que precisava entregar naquele dia, e que já havia aguentado muito tempo acordada, não exigiria mais dela. aguentou tempo suficiente até o carro de Jeremy chegar, então ela trancou toda a casa e se jogou na cama após o banho, sem nem se importar em secar o cabelo.
dormiu tão pesado que sequer acordou com a ligação de Ted, querendo saber sobre seus últimos dias. Ela só recobrou a consciência quando seu despertador tocou, já programado para aqueles dias. Como o usual de quem dorme por muito tempo, acordou perdida, sem ter noção de que horas eram e que dia da semana estava. Encarou o celular por um longo tempo até conseguir se concentrar, se assustando ao se lembrar de que horas eram quando se deitou para dormir. Haviam duas ligações perdidas do seu irmão, algumas mensagens não lidas e mais algumas ligações perdidas do Jeremy, o que deixou confusa. Mas antes que ela pudesse retornar a ligação do ator, a campainha alta da casa começou a tocar, fazendo-a se assustar. se desenrolou dos lençóis e se levantou, caminhando até a ponta do corredor onde ficava o interfone.
- Que diabos...? – Ela franziu o cenho ao olhar pela telinha e reconhecer Ava no colo de uma mulher que ela suspeitou ser Sonni. Havia visto somente algumas fotos da mulher quando pesquisara sobre a relação entre ela e Jeremy durante o período de férias, mas não havia prestado muita atenção em seu rosto.
A mulher pegou a chave pendurada no suporte, além de um casaco para jogar em cima do pijama, e saiu de casa, esquecendo-se dos sapatos, mas resolvendo não voltar atrás. Apertou o botão que abriria o portão e se aproximou do mesmo, conseguindo reconhecer Sonni com mais facilidade agora que estavam cara a cara. Ava tinha o rosto vermelho e úmido, os olhos brilhavam e algumas lágrimas ainda caiam. Ela estava mal agasalhada para o vento frio que soprava aquela manhã. retirou o casaco que usava e o colocou em volta da criança quando Sonni a passou para seu colo.
- Que bom que está em casa. – Disse a mulher, sem nem responder ao bom dia que lhe dera. Ava se enrolou no colo da babá, enterrando o rosto no pescoço da mais velha e fungando, sentiu as lágrimas da criança em sua pele. – Eu liguei para o Jeremy, ele disse que ia te ligar... Não posso ficar com ela, surgiu um imprevisto. – mal conseguia prestar atenção no que Sonni dizia, dividida entre encarar a mulher sem acreditar no que ouvia e prestar atenção em Ava que fungava e chorava baixinho em seu colo. – Aqui estão as coisas dela. Obrigada. Tchau. – Sonni ia se afastando, mas voltou e encostou a mão nas costas de Ava, que se contorceu no colo de para fugir do toque da mãe, que pareceu não notar a atitude da menor. – Tchau, querida, até a próxima.
estava consciente do frio que fazia e de como aquilo não era saudável para ela ou Ava, mas ela ainda demorou a recobrar os sentidos e deixar de acompanhar Sonni se afastando para entrar no carro que a esperava do outro lado da rua. riu quando o carro arrancou, uma risada sem humor, de quem não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Por fim, fechou o portão, arrumou Ava melhor em seu colo, sentindo a menina se encolher ainda mais em seus braços, e voltou para dentro de casa. Considerando dar um banho quente na menor, que ainda estava de pijama, e depois preparar um chocolate quente. No meio tempo, ligaria para Jeremy, que provavelmente estaria tão puto quanto imaginava que estaria. Ela própria não estava no melhor humor em relação a Sonni.
Ava não protestou em nenhum momento enquanto a ajudava a tirar o pijama e depois a colocava sob a água quentinha, suas mãos segurando um brinquedinho enquanto a babá lhe auxiliava no banho. Depois, enquanto preparava o chocolate quente, Ava se enrolou em um cobertor, agarrou-se ao elefante de pelúcia favorito e ficou deitava no sofá assistindo a um desenho que a babá havia colocado para ela – um de seus filmes favoritos. Na cozinha, enfim desbloqueou o celular e retornou a ligação de Jeremy, tendo que tentar umas três vezes até o ator finalmente a atender.
- , finalmente! – Disse Jeremy quando ela estava prestes a desistir. – Eu te acordei?
- Não... – Disse a babá. – Mas sei o que queria falar... Ava já está aqui.
- , eu sinto muito por isso. – Disse Jeremy, ela podia ouvir a raiva e frustração em sua voz.
- Não precisa se desculpar. – se apressou em dizer. – Mas, Jeremy, o que aconteceu? Achei que vocês tivessem um acordo.
- Eu também achei, mas hoje mais cedo ela me ligou e disse que não poderia ficar com a Ava porque havia surgido algo mais importante. O que há de mais importante do que sua filha é uma ótima pergunta, mas eu não posso discutir isso com ela por telefone. – ficou em silêncio, ouvindo a respiração acelerada do ator do outro lado da linha. – Eu sabia que não deveria ter viajado ontem para cá. Poderia ter esperado mais um pouco. – Ele suspirou, podia vê-lo andando de um lado para o outro. – Vou conversar com alguém aqui para ver se posso ir embora mais cedo e não aparecer amanhã.
- Jeremy, não! – se apressou em dizer, correndo para apagar o fogo ao ver o leite fervendo. – Não precisa disso. Ava e eu podemos sobreviver até o domingo.
- Não queria que ela ficasse sem os pais. – Disse Jeremy. – Como ela está, aliás?
- Pelo menos parou de chorar. – Foi a primeira coisa que pensou. – Dei um banho quente nela, porque nem isso Sonni se prestou a fazer. Esfriou bastante de ontem para hoje e ela usando só um pijama fino. – Explicou , sentindo raiva só de lembrar como Sonni havia deixado a menina. – Agora estou fazendo um chocolate quente. Ava se enrolou num cobertor e está deitada na sala assistindo um filme. Quer falar com ela?
- Por favor. – Pediu Jeremy. pediu para que ele esperasse e foi até onde a menina estava. Um dedo estava na boca e a outra mão livre abraçava com força o elefante de pelúcia, sua atenção voltou-se para quando esta passou em sua frente e lhe estendeu o celular, avisando que era seu pai. O rosto de Ava se iluminou e ela puxou o aparelho para si. – Está no viva-voz, pode falar.
- Oi, papai. – Disse a menina, a voz manhosa.
- Oi, princesa. – Respondeu Jeremy, percebia em sua voz como ele se sentia culpado por estar tão longe de sua filha quando ela mais precisava.
- Você vai voltar pra casa?
- Ainda não, querida. – Disse ele. – Tudo bem você ficar hoje e amanhã com a ? – A mulher olhou para Ava, que olhou para a babá também. Ava podia fazer birra e pedir a presença do pai, mas viu que ela ainda estava agradecida pelo que a babá havia feito mais cedo, e a pouparia de um show agora. – Vou tentar voltar amanhã à noite.
- Tudo bem, papai. – Disse Ava, suspirando e passando a mão no rosto, uma forma de fugir do pequeno carinho que havia tentado fazer, a mulher se limitou a rir, sabendo que aquele comportamento bonzinho não duraria muito. – Tô com saudades.
- Também estou, meu amor. – Respondeu Jeremy, e imaginava como deveria ser difícil para ele. – Amanhã eu volto, então se comporte. – Pediu o ator, logo depois se despedindo e voltando a falar com . – Por hoje e amanhã eu deixo você colocá-la de castigo se for necessário, mas acredito que ela vai se comportar.
- Espero que sim. – Respondeu , voltando à cozinha para servir o chocolate quente a Ava. – Pretende voltar amanhã?
- Vou conferir as passagens agora e ver se encontro algo. Saio do evento e vou para o aeroporto se for preciso. – Jeremy voltou a suspirar, já havia perdido as contas de quantos haviam sido. – Desculpe atrapalhar seus grandes planos. – Brincou o ator.
- Tudo bem. – Disse , rindo em seguida. – Acho que mereço essa pausa.
- Te dou uns dias de folga depois.
- Não precisa se preocupar. – Garantiu ela. – Me avise quando conseguir comprar a passagem – pediu , logo depois pensando como aquilo parecia errado – para eu poder avisar a Ava. – Emendou ela, sentindo que se fosse ela no lugar de Jeremy, sabia que não acreditaria muito naquela desculpa.
- Aviso, e qualquer coisa que precisar me liga e eu vou embora daqui o mais rápido possível. – Garantiu o ator, os dois se despedindo logo em seguida.
suspirou enquanto colocava o celular no balcão, não estava em seus planos ser babá naquele fim de semana, mas não iria deixar Ava e Jeremy na mão. Era a oportunidade perfeita para ela e a criança tentarem construir alguma ligação, ela não podia perder a oportunidade. Serviu um pouco do chocolate quente que havia preparado e o levou até Ava, que sorriu levemente como agradecimento enquanto pegava o copo que a babá estendia. Serviu uma xícara para si própria e depois ocupou o espaço no sofá ao lado de Ava, assistindo ao filme junto com ela. Pelo canto de olho, observava a criança e como ela estava tão fora de seu comportamento usual. Apesar de não estar feliz no dia anterior por ter que ir ficar com a mãe, Jeremy havia lhe explicado que ela costumava ficar bem animada quando chegava na outra casa. Além disso, a infelicidade do dia anterior não era nada comparada ao daquele momento, antes era a tristeza por estar longe do pai, agora era a mais pura decepção. sentiu o coração apertar ao perceber isso.
O dia passou sem muitos problemas, Ava voltava bem aos poucos ao seu humor padrão. Ela brincou um pouco e até mesmo desenhou com durante a tarde, após o almoço. Conversando sobre alguns filmes e desenhos que gostava de assistir enquanto tentavam decidir o que ver naquela noite antes da menor ter que ir dormir. Vez ou outra ela perguntava sobre o pai, e a tranquilizava dizendo que no dia seguinte ele estaria ali. Normalmente não incentivaria tal ilusão, mas ela sabia que Jeremy viria dirigindo a noite inteira se fosse necessário estar ali o mais rápido possível para sua filha. Ao fim do dia, concluiu que a menor havia voltado ao humor de sempre quando começaram a ter problemas para convencê-la a ir tomar banho para dormir. Com Ava se recusando a obedecer a babá, que resolveu não abusar da autoridade concedida por Jeremy. Ela sabia que aquela rebeldia não era totalmente por culpa dela, e sim por Sonni e pelo que a mulher havia feito. Isso ainda somado à saudade que Ava deveria sentir do pai. A solução encontrada foi simples, com ligando para Jeremy assim que Ava saiu do banheiro, e fazendo pai e filha conversarem até a menor cair no sono. Pouco antes de desligar, Jeremy a avisou que já havia comprado a passagem de volta e que chegaria em casa duas horas antes da meia-noite, permitindo que Ava ficasse acordada até ele chegar.
Por saber que Jeremy voltaria no fim do dia, imaginou que as horas passariam rapidamente, mas bastou Ava acordar e já dar sinais de ter voltado completamente ao normal, para a mulher concluir que aquele seria o dia mais longo de sua vida. havia planejado não contar que o pai da menina voltaria no fim do dia, para lhe fazer uma surpresa, mas resolveu acabar com essa ideia ao perceber que Ava já estava preparada para vestir a sua personalidade rebelde. Era uma tentativa desesperada de tentar controlar a menina, mas que falhou miseravelmente. Os problemas começaram no café da manhã, quando Ava se recusou a comer os cereais que comia todos os dias, dizendo que por ser sábado queria algo diferente, mas recusou todas as ideias oferecidas por .
- O que você quer, Ava? – Perguntou a mulher, ficando sem mais ideias.
- Se papai estivesse aqui, ele saberia. – A menina deu de ombros.
- Mas ele não está e eu não sei, então me ajude. – Pediu , revirando os olhos quando Ava voltou a dar de ombros. – Cereal será, então.
- Eu não quero cereal. – Disse a menina, batendo a mão na superfície da ilha da cozinha.
- Se não me disser o que quer, vai ser o que você vai comer. – Disse , já tirando a tigela do armário e pegando os demais itens. – Última chance. – Avisou a mulher, já abrindo a garrafa com leite e virando-a sobre a tigela para encher a mesma.
- Não! – Gritou Ava, estendendo a mão para tentar impedir a mulher. apoiou a garrafa na superfície e olhou para a menina. – Podemos fazer panquecas?
- Viu, não foi difícil. – Disse , guardando a tigela e o cereal e pegando os demais ingredientes.
Preparar as panquecas até foi divertido, com Ava pedindo para ajudar no preparo e vez ou outra ameaçando jogar farinha na babá, que sorriu ao ouvir a menina rindo quando passou um pouco da massa na ponta do nariz da menor. Enquanto ajudava Ava a mexer a massa na tigela, se perguntou por que não podia ser daquele jeito sempre, por que Ava tinha que ser tão relutante em aceita-la. Ela não admitiria em voz alta para a criança ou Jeremy, mas a rebeldia da menina com ela a machucava em determinados momentos, e talvez aquele comportamento fosse um dos motivos da constante exaustão de . Não era fácil se desdobrar tanto para cair nas graças de uma criança.
Enquanto fritava as panquecas, Ava ficou fazendo desenhos, vez ou outra pedindo a ajuda de . Elas comeram na sala, apesar de ser praticamente contra as regras da casa, mas Ava pediu e concluiu que não faria mal permitir aquilo um dia só. Depois se resolveria com Jeremy caso o homem reclamasse. Mas ele não o fez quando ligou no meio do café da manhã e a menor disse entre risadas o que elas faziam. concluiu que até ele concordava com ela que não fazia mal quebrar a regra naquele dia. Jeremy e Ava ainda conversavam quando recolheu os pratos para ir lavar a louça e limpar a bagunça na cozinha, não haviam sujado muita coisa, mas era impossível deixar a cozinha impecável enquanto se preparava alguma comida. Quando voltou à sala, Ava estava deitada de barriga para baixo no tapete da sala e brincava com algumas bonecas. aproveitou a deixa para pegar alguns textos da faculdade, aproveitando a demora de Ava para reclamar de estar com fome para o almoço.
Parecia um dia normal como qualquer outro, como se Jeremy estivesse no escritório e babá e criança conviviam na quase perfeita harmonia. largou os textos quando a menina reclamou de fome, e foi preparar algo rápido para ambas almoçarem. Com Ava logo em seguida pedindo para assistir a um filme, mas demorando para se decidir, tentando imitar o que havia acontecido no café da manhã, mas não insistindo ao ver que não lhe daria tanta liberdade para repetir o feito. A mulher achou que aquilo seria o final, principalmente por olhar no relógio e ver que estava cada vez mais próxima a volta de Jeremy à casa, mas Ava tinha outros planos. O filme estava na metade quando ela se aproximou de e ficou parada ao seu lado até a babá lhe dar atenção.
- O que foi, Ava? – Perguntou , abaixando o livro teórico que lia.
- Eu quero sorvete. – Pediu a menina.
- Não tem sorvete. – Respondeu , após tentar se lembrar se havia algum pote perdido na geladeira.
- Você está mentindo. – Acusou Ava, provavelmente desconfiando da demora da babá em lhe dar uma resposta.
- Não, não estou. – Disse , tentando conter o suspiro que ameaçou soltar.
- Eu quero sorvete. – Repetiu Ava, batendo o pé.
- Ava, não tem sorvete! – suspirou, largando o livro e dando total atenção para a menina.
- Não acredito em você. – Respondeu a menor, cruzando os braços e fazendo um bico.
- Vem aqui. – se levantou, e foi até a cozinha, abrindo a porta da geladeira. Ava a seguiu um pouco incerta – Vê? Sem sorvete.
- Eu não consigo ver tudo, pode estar lá no alto. – A menina apontou para as prateleiras mais altas. suspirou e a pegou no colo, fazendo ela ver toda a geladeira.
- Não tem sorvete. – Disse a babá, colocando Ava de volta no chão. A menina olhou a geladeira e então para .
- Então eu quero bolo. – Disse ela, como se fosse a troca mais óbvia.
- Ava, não tem bolo também. – passou a mão no cabelo. Estavam indo tão bem, por que ela havia resolvido acabar com a harmonia justo agora?
- Você pode fazer. – Disse a menina.
- Não, não posso. – Respondeu .
- Por que não?
- Regras do seu pai.
- Ele não precisa saber.
- Ele vai saber. – Garantiu , sabendo que não precisaria explicar à menor que elas não acabariam com o bolo até a volta do ator.
- Eu quero bolo. – A menina voltou a bater o pé, voltou a suspirar, olhando de relance para o relógio para tentar calcular quanto tempo faltava para Jeremy chegar em casa, imaginando que ele deveria estar saindo do evento naquele horário e indo direto para o aeroporto, como disse que faria. Diante da falta de resposta da babá, Ava bateu o pé novamente. – Eu vou gritar.
- Grite. – deu de ombros, fechando a porta da geladeira e voltando para a sala. Ava começou a gritar no exato momento em que ela se sentou no sofá, o som fino e agudo espalhando-se pela casa. olhou ao redor, procurando o fone de ouvido e o colocou, não tocava nenhuma música e não apagava completamente o grito da menina, mas abafava o suficiente para ela conseguir se concentrar no livro que lia antes.
Ava continuou a gritar por um longo tempo, até sentir que sua garganta doía e a boca estava seca, e percebendo que aquilo não adiantaria em nada. Ela cutucou quando parou, pedindo um pouco de água, sendo prontamente atendida. Tentou pedir por bolo novamente, mas a babá se recusou, resolvendo agora trazer à tona a autoridade que Jeremy havia lhe dado, e apontando que se não fosse a birra da menor, ela poderia até ter cedido e feito o bolo. Ava, em um último ato de rebeldia, ameaçou fazer greve de silêncio. Ficando ainda mais determinada quando cruzou os braços e arqueou uma das sobrancelhas.
- É mesmo? – Perguntou a babá, mordendo o interior da bochecha para segurar a risada. Era uma imagem engraçada aquele tamanho de gente querendo mandar tanto.
- É, não vou falar mais nada com ninguém, nem com o papai e a culpa é sua. – Disse a menina.
- Fique à vontade. – Disse , guardando o copo que ela havia lhe devolvido e voltando para a sala, ouvindo a menina a seguindo.
- Papai vai te mandar embora. – Ameaçou a menina. resolveu ignorar, logo em seguida vendo a menina passar o dedo na boca, como se fechasse um zíper invisível. olhou o relógio para marcar as horas e ver quanto tempo aquilo duraria.
Durou mais do que ela imaginava. Normalmente, Ava já não falava muito com ela, só o suficiente para pedir algo. Mas naquele dia, mesmo quando precisava de algo que a babá sabia que Ava queria, a menor se recusava e dava um jeito de conseguir por conta própria. Não fosse o som da televisão passando um desenho qualquer, o fim do dia teria sido todo no mais completo em silêncio. Em determinado momento, até mesmo interrompeu sua leitura para ficar observando Ava, que se revezava entre assistir ao desenho e olhar a babá, esperando que a mulher cedesse. Mas estava tão determinada quanto a criança para ver até onde aquilo iria. A mulher suspeitou que assim que ouvisse o pai chegar, Ava interromperia sua greve de silêncio. Mas agradeceu por não ter feito nenhuma aposta.
Ava já estava quase dormindo quando a porta da casa se abriu e Jeremy entrou. Ava ficou em pé no sofá, o sorriso rasgando o rosto de orelha a orelha, mas a menor não emitiu qualquer som. Nem mesmo quando Jeremy lhe fez uma pergunta direta. Ava se contentou em abraça-lo e lhe dar um beijo no rosto, permanecendo em seu colo enquanto o pai a acariciava e tentava extrair qualquer som da criança. Cansado, e percebendo que aquilo não lhe daria resultados, Jeremy recorreu à mulher sentada no sofá, que observava com atenção a cena e sorria divertida.
- O que aconteceu? – Perguntou Jeremy, apontando para Ava mesmo que já soubesse o que ele queria dizer.
- Ela está fazendo greve de silêncio. – Explicou .
- Essa é novidade. – Disse Jeremy, olhando a filha, que permaneceu com o rosto enterrado na curva do pescoço. – Qual é o motivo?
- Você quer contar, Ava? – Perguntou , vendo a menina negar com um aceno da cabeça. – Bem, ela queria sorvete, mas obviamente não temos sorvete. – Contou . – Então ela pediu bolo, mas não tinha bolo e eu não ia fazer porque você me disse que não era para fazer. – Continuou ela. – Então ela resolveu gritar.
- Gritar? Ava! – Ralhou Jeremy, vendo a menina se encolher em seu colo.
- Ela gritou até cansar. – continuou, vendo Jeremy arregalar os olhos surpresos por descobrir que a babá não tentara parar a filha. – Então ela tentou de novo conseguir o bolo, mas eu resolvi usar da autoridade que você me deu e não fiz por causa da sessão de gritos. E então ela disse que faria greve de silêncio. – Concluiu , suspirando. – Diz ela que por isso, pela greve, você vai me demitir.
- Não vou te demitir. – Tranquilizou-a Jeremy. Ele colocou a filha no sofá, apesar da menina ter agarrado com força o pescoço do pai. – E você, mocinha, vai ficar sem bolo por mais uma semana... Duas se não parar com essa greve de silêncio agora. – viu o queixo de Ava tremendo quando as lágrimas surgiram. – Eu falei que era para se comportar. Na próxima vez eu ia te levar comigo, mas agora não sei mais se você merece.
- Papai, não... – A menina começou a chorar, estendendo o braço para pedir colo ao ator. sentiu o coração apertar.
- Pede desculpas para a . – Pediu o ator, a mulher tentou protestar dizendo que não era necessário, mas sabia que não era certo contrariar sua ordem. Ava balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo pelo rosto. – Ava, pede desculpas.
- Desculpa. – Ela falou tão baixo, que e Jeremy mal ouviram, e o ator pediu que ela falasse mais alto. Ava olhou para o pai, os olhos brilhando com as lágrimas. – Desculpa.
- Não para mim, para a . – Ele apontou para a babá, que ainda estava sentada no sofá. Ava olhou para ela e repetiu o pedido, vendo a mulher assentir. – Agora vai dormir que já passou da sua hora.
- E a historinha?
- Sem história hoje. – Jeremy apontou para o corredor. Ava desceu do sofá e seguiu para o quarto. – Já volto. – Disse o ator, acompanhando a filha. respirou fundo e passou a mão no cabelo, não imaginava que veria tal reação do ator. Ela se levantou do sofá e juntou a bagunça de textos que havia feito, deixando-os em cima da mesinha de centro. Não demorou muito para Jeremy se juntar a ela. – Fiquei só até ela dormir.
- Não precisava ter sido tão severo. – Disse , enquanto o acompanhava até a cozinha, onde ele se serviu do que restava da janta que ela havia feito mais cedo.
- Precisava sim. – Disse Jeremy. – Era para você estar de folga e você cuidou dela. Não é certo ela reagir assim. Ava sabe que os atos dela têm consequências, sempre foi assim. Ela pediu desculpas de novo, queria muito que eu lesse algo para ela.
- Deveria ter lido. – Disse . – Ela se comportou bem ontem, e hoje não foi tão ruim assim.
- ... – Começou Jeremy, mas a mulher levantou as mãos para interrompê-lo.
- Eu sei, eu sei. Desculpe. – Pediu a moça, era a filha dele, ela não deveria dar palpites. Jeremy ficou em silêncio, ignorando o prato de comida que havia servido para ele próprio. Aproximou-se da mulher, que guardava os pratos que ela e Ava haviam usado mais cedo, e a parou. Os olhos de focaram nele, a dúvida quanto aos atos dele estampada em sua expressão.
- Obrigado. – Foi tudo o que Jeremy disse, e ela sabia o que aquilo significava. sorriu e assentiu, sorrindo um pouco mais quando o ator também sorriu, se afastando da mulher para poder comer.
Ela se afastou para guardar seu material e poder tomar um banho. Agradecendo a distância para que pudesse acalmar as batidas de seu coração, que havia acelerado com a repentina aproximação do ator. Ela sabia que era bobeira e que aquela fora uma reação causada devido ao susto tomado por ver o ator tão próximo, sem ela sequer ouvir sua aproximação. Não podia ser outra coisa. parou no meio do caminho para conferir Ava, sorrindo ao encontra-la adormecida abraçada ao elefante favorito.
- Você quer ler uma história para ela, não quer? – Ouviu a voz de Jeremy dizer, assustando-se por não ter escutado a aproximação do ator. desviou o olhar para focar nele.
- Tenho o coração mole. – deu de ombros.
- Amanhã eu leio. – Tranquilizou-a o ator, fazendo assentir.
- É contra as regras comer no quarto. – Ela apontou para o prato que ele carregava.
- Hoje é o dia das exceções. – Disse Jeremy, fazendo a mulher rir.
- Boa noite, Jeremy.
- Boa noite, .

Capítulo 4


não tinha esperanças de que as coisas melhorariam quando o primeiro mês do ano acabasse e o próximo começasse. Os professores na faculdade pareceram sair do modo festas e voltaram a ser os mesmos carrascos de sempre. O que a ajudou a ficar menos tensa nos primeiros dias foi a viagem que Jeremy fez para Atlanta para poder assistir à final do futebol americano. Ele não torcia para nenhum dos times, mas ia acompanhar Chris Evans e alguns outros amigos. E Ava iria ficar com a mãe, após uma longa discussão do ator com a própria filha e, posteriormente, com Sonni que parecia não entender o motivo da menina não poder acompanha-lo no jogo. até mesmo considerou sugerir ficar com a menina durante o fim de semana, mas três professores haviam marcado provas para a terça-feira e o orientador de seu projeto havia pedido um relatório parcial do projeto para ser entregue na segunda-feira seguinte ao jogo. Então ela agradeceu quando, na quarta-feira, Jeremy anunciou que ela ficaria sozinha no fim de semana.
- E dessa vez espero que ninguém interrompa sua folga. – Disse o ator, enquanto terminava de fazer uma anotação na lateral do texto. – Garanti a Sonni que não haveria ninguém em casa, então ela que sacrifique a vida dela um pouco para ficar com a filha.
- Você sabe que eu não me importaria. – Disse , largando a caneta para olhar o ator.
- Sua agenda diz o contrário. – Respondeu ele, apontando para o bloco de anotações no qual ela havia anotado seus compromissos para a semana seguinte. – E eu ainda preciso te recompensar pela folga anterior.
- Jeremy, você me deu folga por quase uma semana depois daquele dia. – Observou ela, se lembrando do trabalho que o ator tivera para limpar sua agenda a fim de recompensá-la pelo que Sonni havia aprontado. – Fui contratada para ser a babá de Ava, e é isso que eu tenho que fazer.
- Eu sei a dor de cabeça que ela dá para você, . – Comentou Jeremy, apoiando-se na cadeira a frente da babá. – Não acho justo te deixar só com duas folgas semanais, sendo que você só as tem porque tem que ir para a aula.
- Ninguém vai ganhar essa discussão, não é? – Perguntou a mulher após ponderar por um longo tempo, Jeremy riu.
- Não. Não iremos. – Respondeu ele. – Vou deixar você estudar e ver o que Ava está aprontando.
- Jeremy, ela está dormindo. – Lembrou a babá, olhando o relógio para confirmar que não fazia nem meia hora que a menina havia deitado para dar seu cochilo da tarde.
- Era minha desculpa para deixar de te atrapalhar.
- Você não atrapalha. – Disse ela antes que pudesse pensar apropriadamente em suas palavras. Jeremy abriu um sorriso de lado e arqueou a sobrancelha. revirou os olhos, dando de ombros logo em seguida. – É a verdade. Você é aquela distração que surge quando não sabemos que precisávamos de uma distração.
- Obrigado? Eu acho. – Disse ele. – Isso foi um elogio?
- Um agradecimento, talvez. – Respondeu .
- Não há nada para agradecer. – Garantiu Jeremy, piscando um olho para a babá antes de se retirar para fazer sabe-se lá o que. ficou um tempo ainda encarando o local que ele ocupava antes, sua mente correndo livremente pelos pensamentos mais indevidos que ela deveria ter, até que ela percebeu o caminho perigoso que percorria e balançou a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos e voltando a focar no texto a sua frente.
Outra que não havia ficado muito feliz com o acordo fora Ava, a lembrança do último fim de semana com a mãe ainda clara em sua mente. Quando Jeremy lhe informou que na sexta à noite ele a levaria para a casa de Sonni no caminho para o aeroporto, a menina olhou para à espera de que a babá viesse lhe salvar, mas estava tão concentrada em seu texto que sequer percebia a discussão que rolava entre pai e filha. Ava chorou e ficou um tempo emburrada num canto do sofá, uma pequena parte entendia que o próprio pai não estava feliz com o acordo, mas a maior parte, que era dominante, não conseguia deixa-la não fazer uma birra para tentar convencê-lo. Qualquer pessoa seria melhor para ela passar aqueles dias do que a mãe. Apesar de chateada, Ava conseguiu encontrar algo para animá-la durante o jantar – o único horário que Jeremy conseguiu arrancar dos livros para se juntar a eles.
- Papai? – Chamou a menina, chamando a atenção do pai. – Quando o Digby volta para casa?
- Quando eu voltar. – Disse o ator, logo desviando a atenção para , que ao mesmo tempo o questionava.
- Quem é Digby? – Perguntou .
- Nosso cachorro! – Foi Ava quem respondeu.
- Vocês têm um cachorro?
- Ele estava num hotel por conta dos diversos compromissos do começo do ano. – Explicou Jeremy. – Era para ele já ter voltado, mas surgiu o jogo e eu resolvi deixar por mais uns dias. Você mal se acostumou com a Ava e nossa rotina, não achei justo jogar um cachorro na equação.
- Obrigada pela consideração. – Disse a mulher, apesar de revirar os olhos levemente.
Mas no fundo agradeceu mais do que Jeremy poderia imaginar por ele ter deixado o cachorro afastado por mais um tempo. No final daquele mês completaria dois com a família Renner e ainda não havia conseguido se adaptar. Não ajudava nada o fato de Ava se mostrar cada vez mais rebelde e não se importar com os diversos textos que tinha para ler e outros diversos trabalhos para fazer. E a mulher se sentia desconfortável em pedir a ajuda de Jeremy, pois sabia que aquele começo de ano era o mais complicado já que ele próprio estava organizando sua agenda para os meses seguintes e começava a preparação para gravar o próximo filme dos Vingadores.
E agradeceu ainda mais quando o fim de semana chegou e ela se despediu de pai e filha e teve a casa só para si. mal sabia por onde começar a se organizar. Não sabia se deveria aproveitar enquanto podia e dormir tudo o que não vinha dormindo – já que Ava havia criado o hábito de acordá-la o mais cedo possível todos os dias sempre por algum motivo absurdo, sem considerar as noites já mal dormidas da babá – ou se já enfrentava os trabalhos e textos que havia acumulado especialmente para aquela folga.
Não era o fim de semana glamuroso que qualquer outra pessoa teria em sua posição, mas não se importava. Estava fazendo o que gostava, e no domingo de manhã já tinha tudo terminado – após duas longas noites com o total de quatro horas de sono. O que veio bem a calhar, já que ela estava louca para assistir ao jogo, apesar de também não torcer para nenhum dos dois times. Após finalizar o trabalho e imprimi-lo, ela comeu algo para fingir que era um café da manhã, se jogou em sua cama e dormiu até a hora do jogo. Acordando com o despertador e quase se arrependendo de gostar de futebol americano, caso contrário dormiria até o dia seguinte sem qualquer problema.
Porém, ao final do jogo, e após superar todas as inúmeras emoções que o mesmo lhe proporcionou, ela até agradeceu por ter acordado, ou não teria acreditado quando alguém lhe contasse o que havia acontecido e como os Patriots haviam conseguido virar o jogo de forma incrível e, ela acreditava, histórica. Durante os intervalos ela havia recebido algumas mensagens, principalmente de Ted e Jeremy – que queria saber se ainda estava tudo bem em casa e nada havia acontecido, como a Sonni largando a filha em casa de novo. O ator pareceu se animar ainda mais quando descobriu que a mulher estava assistindo ao jogo, chegando até mesmo a mandar alguns vídeos da partida ou dos momentos do intervalo, mesmo que não desse para ela ver muita coisa já que o local onde Jeremy estava era consideravelmente longe do campo para uma gravação decente feita pelo celular.
Domingo acabou e segunda chegou, com Ava junto. Sonni não quis esperar Jeremy voltar, já que o ator desembarcaria somente no final da tarde, e passou na casa logo após o almoço para entregar Ava, que parecia mais animada do que da outra vez que passara com a mãe. havia acabado de enviar o seu relatório para o professor quando ouviu a campainha e não teve problemas em reconhecer a mãe a filha, abrindo o portão e esperando na porta para Ava vir até ela, querendo evitar qualquer contato com a ex de Jeremy. A menina a cumprimentou, entregou sua mochila para a babá e entrou em casa. não sabia se devia temer ou não aquele comportamento tão... Comportado, mas o aceitou. Não durou muito, claro.
Quando desfez a mochila de Ava e guardou cada coisa em seu devido lugar, a menina esperou até que a babá saísse do quarto, para pegar um lanche para Ava, para poder bagunçar tudo de novo, jogando não só os itens da mochila, como outros no chão e os espalhando pelo quarto. quase derrubou o prato com o lanche no chão quando entrou no cômodo e viu a bagunça, tendo que respirar fundo e se lembrar que Jeremy já estava chegando. Porém, ela aproveitou que o ator havia permitido de novo que ela tivesse autoridade e pediu que Ava a ajudasse, não movendo um dedo até a menina começar a pegar as peças de roupa que havia jogado no chão e colocando-as no cesto de roupa suja. já havia percebido que Ava ficava menos propensa a desafiá-la quando mostrava sinais de que não iria se dobrar tão facilmente e não iria abusar da autoridade dada pelo pai da criança. Ava podia ter apenas três anos, mas sabia que ela entendia muito mais do que fazia parecer.
O voo de Jeremy acabou atrasando e teve que improvisar, já que Ava esperava ter o pai em casa àquela altura. Novamente, a menina se comportou bem, mas já esperava que não duraria. E não se surpreendeu quando o ato começou, horas depois. Enquanto esperavam o ator, Ava aceitou a sugestão de de assistirem a algum filme logo após o jantar – na verdade Ava assistiria enquanto estudava para as provas do dia seguinte. Jeremy chegou na metade do filme, fazendo se assustar com o grito que Ava deu ao ouvir o pai a chamando da porta de entrada.
- Incoming. – Disse Jeremy, quando viu Ava correndo em sua direção para pular em seu colo. A menina ria no colo do pai, sentindo-o distribuir diversos beijos por seu rosto e fazer cócegas em sua barriga. – Como você está, princesa?
- Bem. – Respondeu a menina entre risadas. apoiou o caderno em sua perna e ficou olhando a cena.
- Vai ajudar o papai? – Perguntou Jeremy.
- Sim! – Respondeu Ava, tirando o cachecol que o ator usava. Jeremy a colocou no chão e olhou para , sorrindo.
- Oi, .
- Olá. – Ela acenou, abrindo um sorriso também.
- Espero que ela não tenha dado muito trabalho. – Disse Jeremy, enquanto via a filha se enrolando para arrumar o cachecol dele.
- Nada que eu não pudesse lidar e resolver. – Respondeu , não conseguindo conter o suspiro. Ava olhava do pai para a babá, mordendo o lábio inferior, não se deixou enganar pela expressão inocente.
- Vou guardar as malas, já volto. Ava, continue assistindo seu filme. – Disse Jeremy, logo se afastando para seu quarto.
ficou observando cada movimento feito pela criança, que contornou o sofá e se sentou, olhando para a televisão, mas tinha a impressão que sua mente estava longe. Jeremy não demorou a se juntar a elas, porém percebeu que ele havia tomado um banho, já que usava outra roupa e tinha os cabelos molhados. Ritual de qualquer um que passa muito tempo em aeroportos, chegar em casa e se livrar da “aparência de aeroporto” o mais rápido possível.
- Estou morrendo de fome. – Comentou Jeremy, que tinha Ava sentada em seu colo. – Já jantaram?
- Sim. – Confirmou .
- E qual foi o cardápio da vez? – Perguntou o ator. começou a responder, mas Ava foi mais rápida.
- Sorvete. – Respondeu ela, chamando a atenção do pai e da babá.
- Como é? – Perguntou Jeremy, olhando para a filha e segurando a risada, já sabendo que era mais uma das peripécias dela.
- me deu sorvete de janta. – Disse Ava, completamente séria. passou a mão no rosto, coçando a testa enquanto ouvia Jeremy rir.
- E por que ela fez isso? – Perguntou o ator.
- Não sei, – Ava deu de ombros – acho que ela não queria fazer comida pra mim.
- É mesmo? – Jeremy olhou para , que apenas deu de ombros, já cansada demais para tentar dizer qualquer coisa. O ator ficou se sentiu mal pela babá e a forma que a filha agia. – Ava, querida, nem tem sorvete em casa.
- Ela foi comprar. – Disse a menina.
- É mesmo? – Jeremy repetiu, vendo a menina concordando com a cabeça. O ator suspirou, agora ele próprio cansado. – Cadê o pote, então?
- Ela jogou no lixo.
- Vocês duas comeram um pote inteiro de sorvete? – Jeremy perguntou. ponderou que aquilo não seria impossível, não para ela pelo menos, mas preferiu ficar em silêncio. Ava mordeu o lábio inferior, começando a perceber que o pai não estava caindo em sua nova mentira. – O que vou fazer com você, Ava? – O ator suspirou. – Mentindo agora? Não foi isso que eu te ensinei.
- Mas, papai, não é mentira... – A menina disse, fazendo sua melhor cara de inocente.
- Então vai pegar o pote para mim. – Disse Jeremy, apontando para a cozinha.
- Ela já jogou fora. – Ava protestou, revirou os olhos, a menina era mesmo determinada.
- Ava, chega. – Disse Jeremy, adotando uma expressão e postura mais severa. – Não aguento mais você inventando mentiras para fazer a ser demitida, ou fazendo greve de silêncio ou gritando pela casa. Ela não vai embora e é bom que você aceite isso logo. Ou viverá num castigo eterno.
- Mas eu...
- Chega. – Disse Jeremy, a menina fechou a boca, viu o queixo começando a tremer. – E nada de chorar. Você fez coisa errada e sabe.
Ava abaixou a cabeça e se encolheu contra o pai, que resistiu ao impulso de abraçar a filha, olhando para , que apenas deu de ombros e voltou sua atenção aos textos. Jeremy passou a mão no rosto, mais cansado do que estava há cinco minutos. Não sabia mais o que fazer com a filha e sua atitude com a babá. Achou que aquela rebeldia passaria logo e não duraria mais de um mês, mas parecia que a cada vitória da contra ela, Ava ficava mais determinada. Uma coisa era inventar uma greve de silêncio ou sair gritando pela casa, mas agora chegar ao ponto de contar mentiras... Ele não sabia onde havia errado para a filha chegar a esse ponto.
- Jeremy? – Ele ouviu chamando quando sentiu o toque dela em seu braço. Quando ele e a olhou, a mulher possuía um sorriso divertido no rosto. – Quer que eu faça algo para você comer?
- Não, não precisa. – Disse o ator, passando a mão no cabelo e olhando a filha ainda encolhida em seu colo, olhando a televisão. – Eu mesmo faço, pode continuar estudando.
- Já estou naquele ponto em que as letras não fazem mais sentido. – riu, fechando o caderno e se espreguiçando. Jeremy não conseguiu desviar a atenção da mulher e de seus movimentos. Agradecendo quando Ava se mexeu e o distraiu.
Sob os protestos da filha, Jeremy a tirou de seu colo e a colocou no sofá em seguida, se levantando e indo para a cozinha antes que se distraísse ainda mais. pareceu não notar a mudança brusca no comportamento do ator, olhando para Ava enquanto ela reclamava do afastamento do pai e depois voltando-se para a televisão e o filme que lá passava, permitindo-se desligar e relaxar para o dia seguinte.

~*~


Fazer três provas num mesmo dia e passar o fim de semana fazendo trabalhos era algo que preferia enfrentar todos os dias a lidar com a rebeldia de Ava. Apesar da menina ter melhorado significativamente depois da bronca que o pai lhe dera, ainda sofria com os momentos de irritabilidade da criança. Momentos que ela preferia deixar só entre as duas porque não queria deixar Jeremy mais desapontado com a filha. O humor de Ava, entretanto, pareceu melhorar exponencialmente quando um dia seu pai chegou avisando que ela iria com ele ao Oscar, no final do mês, sob a condição de que ela se comportasse e não aprontasse mais nenhuma com . Foram os dias mais pacíficos que teve na casa desde que Jeremy e Ava voltaram da viagem de fim de ano.
No dia anterior ao evento, uma caixa foi entregue com roupas para Jeremy e Ava. O ator parecia bem feliz com a escolha que havia feito para o vestido da filha, e concordava, das três opções enviadas a que ele havia escolhido era a melhor. Mas sugeriu que era melhor mostrarem outra opção para ela, pois a babá sabia que em algum momento aquele bom comportamento da Ava acabaria e arruinar um vestido maravilhoso era a desculpa perfeita para quebrar seu momento de paz. Jeremy disse que sua filha não seria tão má a ponto de estragar o vestido, mas acabou concordando com após ver a careta que ela fez. Ava não pareceu muito feliz com a escolha que e Jeremy lhe mostraram, mas não fez qualquer reclamação.
Na manhã de domingo, a menina acordou num ótimo humor, deixando até mesmo dormir até tarde, sem ir até seu quarto para acordar a babá com algum motivo absurdo. Jeremy parecia estar num clima completamente diferente, constantemente olhando o relógio para se certificarem que não se atrasariam. Facilitava o fato de Ava não precisar passar por todo o processo que mulheres geralmente passavam, mas era difícil controlar a filha hiperativa que não parava de correr de um lado para o outro, brincando com o cachorro, de tão animada que estava por poder acompanhar o pai.
- Você pode ficar com ela e ajudá-la a se arrumar? – Perguntou Jeremy, enquanto ele e se movimentavam pela cozinha. Ela lavando a louça do café da manhã e o ator guardando as coisas em seus devidos lugares.
- Claro. – Concordou . – Coloco o vestido que a gente mostrou e quando vocês estiverem quase saindo, mudo para o que nós escolhemos.
- Ainda acho exagero. – Comentou Jeremy, dando uma risada leve.
- Quando ela aprontar alguma coisa, você vai me agradecer. – Disse , sorrindo de lado para o autor enquanto o entregava um prato para ele guardar no armário.
- Espero que você esteja errada. – Disse Jeremy, apesar de começar a sentir o mesmo medo da babá.
Eles deixaram Ava brincando por mais um tempo, Jeremy se juntando a ela enquanto terminava mais um relatório que seu orientador havia pedido. O ator se surpreendia com a facilidade que a babá tinha em manter tudo em ordem e organizado, não sabia de um trabalho que ela havia passado do prazo de entrega. E ela ainda havia começado a ajudá-lo com algumas coisas do trabalho também, sem ele sequer considerar pedir por sua ajuda. Quando percebeu, ela já estava fazendo.
- Mais um dez? – Perguntou Jeremy quando ela fechou o notebook e escorregou no sofá para se deitar.
- Esse não vale nota. – Respondeu ela.
- Mas aposto que seria um dez se valesse. – Comentou Jeremy.
- Exagerado. – revirou os olhos, logo depois conferindo o relógio e suspirando. – Quinze minutos para começarmos, vou preparar as coisas da Ava.
Jeremy acompanhou Ava em sua brincadeira por um tempo, e logo depois a mandou para o quarto com , a menina tentou protestar um pouco, mas desistiu logo depois quando o pai a lembrou para o que ela tinha que se arrumar. quase riu da careta que Ava fez quando viu o vestido novamente, soltando um suspiro derrotada por ter que usar algo tão feio. Seu pai costumava sempre acertar em suas escolhas, não sabia o que havia errado dessa vez. Enquanto tomava banho, Ava ficou em completo silêncio, queria não ficar preocupada por achar que já estava exagerando demais, mas não conseguiu. Durante todo o processo de se vestir e arrumar o cabelo, a menina ficou em completo silêncio, apenas seguindo as ordens da babá no automático. Os lábios de já estavam vermelhos diante a preocupação total dela. Preocupação que se confirmou quando ela começou a arrumar o quarto de Ava e a menina ficou sozinha sem supervisão por alguns poucos minutos, o suficiente para ela causar estrago.
- Ah não. – Gemeu , ouvindo a risada da menina nos fundos da casa, acompanhada dos latidos de Digby.

Jeremy terminava de dar o nó na gravata, parado no meio da sala quando a porta que dava para o quintal atrás da casa se abriu e Ava e entraram, chamando a atenção do ator, que primeiramente olhou de relance e então voltou o olhar focando em sua filha que tinha não só as mãos, como as bochechas e todo o vestido salpicado com terra e lama, as marcas das patas do cachorro, que havia deixado do lado de fora, bem visíveis em alguns pontos do tecido. O ator suspirou, olhou rapidamente para , vendo que a mulher mordia o lábio inferior e remexia as mãos, claramente nervosa com toda a situação.
- Ava, por que você está toda suja? – Perguntou ele, vendo enquanto a filha e a babá se aproximavam. A menina mexeu na barra do vestido, levantando-o e fazendo Jeremy suprimir um gemido ao ver que até a meia-calça que ela usava e os sapatos estavam sujos.
- deixou eu brincar lá fora. – Respondeu ela, fazendo a mulher arregalar os olhos e Jeremy suspirar mais uma vez enquanto ele e a babá trocavam olhares significativos, mais tarde o ator teria que se lembrar de agradecer a mulher.
- , pode vir aqui? – Pediu ele, se afastando um pouco enquanto mexia no cabelo, ouvindo a mulher se aproximando de onde ele havia parado. – Você deixou que ela fizesse isso?
- Claro que não! – Disse , os dois mantendo a voz baixa.
- Então o que eu perdi? – Perguntou Jeremy e teve dó dele, obviamente o ator tinha muitas esperanças na filha justo naquele dia.
- Eu avisei que ela ia fazer algo com o vestido. – cruzou os braços. – E ela ainda está determinada em me fazer ser demitida, o bom comportamento das últimas semanas foi só por causa de hoje. – Jeremy olhou para a mulher como se quisesse entender como havia chegado àquela conclusão. – Jeremy, eu fiz questão de pedir para que ela se comportasse, você fez o mesmo. Tirei a atenção dela por dois segundos enquanto eu arrumava as roupas que ela usava antes, e quando vejo ela não está mais no quarto, cheguei no quintal e ela está daquele jeito, o cachorro pulando nela e ao redor dela.
Jeremy suspirou, notou como aquilo estava cansando o homem, ele olhou o relógio e revirou os olhos. Olhou para a babá e então para a filha, deixando a primeira para trás e se aproximando da menor, abaixando-se para ficar na mesma altura dela. A menina o olhava com atenção e uma expressão de inocente que quase acreditava se não soubesse o que ela havia aprontado.
- Ava, por que fez isso?
- deixou...
- Ava, o que falei sobre as mentiras? – O tom de voz do ator foi firme e a menina fez um bico. Ava olhou para , na esperança que a babá fosse vir para salvá-la, mas tudo o que a mulher fez foi cruzar os braços e olhar da menina para Jeremy, como se quisesse dizer que a situação era entre os dois e que ela estava fora daquilo. Os olhos claros da criança voltaram a focar no pai, um brilho diferente que não demorou a perceber que eram lágrimas. Jeremy revirou os olhos ao notar a tática da filha e respirou fundo. – , pode, por favor, dar um banho nela e arrumá-la de novo? – Ava suspirou, não ouvir uma bronca do pai era pior do que a bronca em si, ainda mais com o olhar severo que ele lhe lançou.
- Claro. – Respondeu , surpresa com a tática do ator.
- Sem mais gracinhas, Ava, já estamos atrasados. – A menina fez bico novamente, ainda assustada com a expressão severa e irritada do ator.
- Estou de castigo? – Perguntou ela enquanto Jeremy se levantava.
- Ainda não, vou decidir isso depois. – Ele começou a se afastar e parou no meio do caminho, que se aproximava de Ava também parou, principalmente por ele tê-la chamado. – Ah, , quando terminar com Ava, não esqueça de se arrumar também. Preciso que você vá comigo.
- O quê? – e Ava perguntaram juntas, e Jeremy quase abandonou a postura para rir das duas.
- Preciso que alguém fique com Ava no carro enquanto faço a parte da imprensa. – Explicou ele.
- Mas por que não posso ficar no carro com o tio Bob como das outras vezes? – Perguntou Ava, olhando para o pai, começando a entender o que ele pretendia.
- Porque a ficar com você faz parte do seu castigo. – Respondeu o ator, dando um sorriso de lado ao ver a filha arregalando os olhos. O sorriso logo sumindo ao perceber a mudança na postura de , que a princípio parecia confusa, mas logo ficou incrédula ao perceber o que o ator queria com aquilo.
- Não. – Disse de repente, chamando a atenção de Jeremy e Ava. – Eu não posso ir junto.
- , eu preciso que você vá.
- Jeremy, não. – Disse ela, firme. – Eu vou arrumar a Ava e depois nós vamos conversar.
Enquanto a babá e a criança se afastavam no corredor, Jeremy permaneceu onde estava, completamente estático, surpreso com a reação de . Ele não esperava que tão cedo ela tomaria as rédeas de alguma situação e o colocaria em seu devido lugar, mas parecia que estava errado. Não fora só o tom de voz da mulher, mas toda sua postura e até mesmo seu olhar. Se Jeremy pensasse mais sobre o assunto, perceberia que parecia até mesmo um pouco machucada com a alternativa que ele havia surgido para o castigo da filha.
acompanhou Ava até o quarto da menina e a ajudou a se limpar em completo silêncio. Percebeu que em alguns momentos a menor parecia querer falar ou comentar algo, mas se mantinha quieta também, provavelmente assustada com a postura séria da babá, algo que nunca havia visto antes. Nem mesmo em suas peripécias anteriores. Em sua cabeça, preparava todo o discurso que gostaria de falar a Jeremy, apesar de saber que não falaria metade do que estivesse pensando. Não se importaria desde que dissesse o essencial e que ele a entendesse bem. Ava seguiu para o banheiro e a seguiu, prestando atenção em cada movimento da menina, que parecia ter se arrependido de ter se sujado tanto devido à dificuldade que enfrentava agora para tirar a terra da mão.
- Você e o papai vão brigar e ele vai te mandar embora? – Perguntou Ava, tirando de sua bolha.
- Não vamos brigar – respondeu , ajudando a esfregar o braço da menina –, mas não sei se ele vai me mandar embora ou não. – Completou ela, levantando-se para desligar o chuveiro e pegar a toalha de Ava. – Vai se secando enquanto eu pego seu vestido, depois vá para o quarto.
Ava nem mesmo considerou não obedecer, pela primeira vez notando a irritação na babá. Nem mesmo nas suas artes anteriores se mostrou tão irritada, ao contrário, parecia se divertir com a situação. Porém, de alguma forma, a menina sabia que a irritação não era com ela, e sim com seu pai. Ela terminou de se secar e seguiu para o quarto, encontrando parada em frente à sua cama, analisando o novo conjunto de roupas que havia separado para a criança e segurando outro cabide com outro vestido em sua mão. A menina se aproximou, enrolada na toalha.
- Esse vestido é mais bonito que o outro. – Ela apontou para o que estava na cama, vendo concordar com sua afirmação e devolver o cabide que segurava para o guarda-roupa.
- Esse era o que você deveria ter colocado antes. – Disse , abaixando-se para conferir se a menina estava bem seca. – Mas suspeitei que você poderia aprontar algo. – Completou ela, fazendo Ava sorrir. A menina pareceu gostar daquela atitude da babá e se comportou durante todo o processo em que se vestia. Ao terminar, a levou até a pequena penteadeira que havia no quarto. – Vamos arrumar seu cabelo.

Jeremy já havia decorado todo o tamanho de sua sala de tanto que andava de um lado para o outro, comemorando baixinho quando enfim ouviu a porta do quarto de Ava se abrindo e passos se aproximando. Ele parou a caminhada e olhou a dupla que vinha pelo corredor. Sua filha parecia um anjo e ele reconheceu que o vestido que havia escolhido muito bem o vestido da filha. A menina possuía um sorriso no rosto quando entrou na sala, segurando a barra do vestido e o exibindo ao pai. Atrás dela, vinha , que também sorria, e segurava um casaco para a menor vestir quando saíssem de casa. Ao olhar para Jeremy, entretanto, o sorriso sumiu e ele percebeu que ela tentava disfarçar que ainda estava irritada com ele. Como havia dito antes, ela ainda usava as mesmas roupas, a confirmação que não tinha qualquer plano de sair de casa.
- Ava, espere sentada aqui enquanto eu e a conversamos, tudo bem? – Pediu ele, vendo a menina obedecê-lo prontamente, até mesmo sendo cuidadosa enquanto se sentava no sofá. – E nada de se sujar de novo. – Foi a vez dele de seguir a babá, que caminhou até a cozinha. – O que aconteceu? O que eu fiz de errado?
suspirou e passou a mão no cabelo. Havia pensado muito no que diria quando aquele momento chegasse, mas mais que isso havia trabalhado ainda mais para controlar sua raiva e frustração. Somente naquele momento ela realmente se sentiu esgotada, como se estivesse por um fio. Aquele mês era apenas o segundo e ela já estava no ápice de sua paciência e disposição para lidar com aquela família. Enquanto escolhia pegava o vestido para Ava, chegou a considerar se aquele estresse todo valia mesmo à pena só para que ela não tivesse que recorrer a seus pais. Quando concordou com aquilo, sabia que seria difícil, ela só não imaginava que Ava estaria tão determinada a ganhar aquela guerra.
- Você quer que eu me demita? – Perguntou ela, imediatamente vendo o pânico nos olhos de Jeremy. – Que eu desista como as outras fizeram?
- O quê? Claro que não! – Disse Jeremy, instintivamente se aproximando da mulher, como se quisesse segurá-la para que ela não se movesse. – Por quê?
- Me usar como forma de punição é uma ótima forma para sua filha continuar a me odiar e me rejeitar completamente. – cruzou os braços, apoiando-se na ilha da cozinha. Jeremy começando a adotar uma expressão mais compreensiva à medida que entendia onde ela queria chegar. – Ela não pode me ver como uma inimiga, Jeremy, e o que você pretendia hoje ia ajudá-la ainda mais a permanecer determinada em me fazer ir embora.
- , desculpe, eu não pensei nisso. – O ator parecia sincero, e ela sabia que o era mesmo. Se os dois estivessem diante um espelho, provavelmente veria que ele imitava seu aspecto cansado. Jeremy estava tão esgotado quanto ela com aquela rebeldia de Ava. – Não foi intencional, e você tem toda a razão. – Concordou ele, suas mãos se mexendo como se ele não soubesse o que fazer com elas. Ou talvez soubesse, só não poderia. – Acredite, eu fico tão perdido quanto você quando ela faz isso. Prometo que não irá acontecer novamente.
- Espero mesmo que não. – Disse , descruzando os braços e suspirando. – Não posso lutar sozinha essa batalha. Preciso da sua ajuda tanto quanto você precisa da minha.
- Eu sei. Desculpe. – Pediu Jeremy, e sorriu de leve, provocando o mesmo efeito nele. – Obrigado por hoje. – aquiesceu.
- Espero que se divirtam. – Disse ela, enquanto os dois saiam da cozinha para encontrar uma muito bem-comportada Ava.
esperou que Jeremy e Ava já tivessem saído com o carro para finalmente desabafar. Sua reação inicial era gritar, mas ela sabia que aquilo chamaria a atenção dos vizinhos, então ela só se jogou em sua cama e chorou. Não sabia que queria tanto aquilo até aquele momento. Abafou alguns gritos em seu travesseiro, e depois deixou que as lágrimas escorressem sem tentar impedi-las. Em perspectiva, ela sabia que havia aguentado muito, mas não imaginava que desabaria daquela forma tão cedo. Fora inocente em achar que Ava havia lhe dado uma trégua e que agora se comportaria. E o fato de Jeremy sequer parar para pensar que quase ajudou a filha a enxerga-la ainda mais como inimiga só piorava. Era para os dois serem aliados naquela situação, por mais difícil que fosse para o ator ficar em conflito com a filha, ele deveria ser um melhor mediador. Porém, ela também entendia que ele também não sabia como agir, o que fazer naquelas situações.
Foi só enquanto ela tirava a roupa que vestia que começou a perceber os sinais do ataque de pânico. A mulher se apoiou na pia do banheiro e respirou fundo, sentindo o ambiente ao seu redor rodar, consequência de sua própria cabeça. Ela fechou os olhos para afastar aquela sensação incômoda e começou a contagem regressiva do cem ao zero. Ted havia começado aquilo com ela, e sempre funcionara. Ted. Como queria o irmão ali agora. Não, depois pensaria naquilo. No momento precisava se controlar. Seu coração batendo acelerado foi a confirmação de que precisava focar nela e em mais ninguém. Demorou, estava chegando ao número vinte quando sentiu as batidas de seu coração se normalizando e sua respiração mais estável. Enquanto contava, sequer percebeu que lágrimas escorriam de seus olhos fortemente fechados. Só quando levantou a cabeça, não sentindo mais a tontura, foi que viu o rosto molhado e os olhos levemente inchados.
- Está tudo bem. Você está bem. – Disse ela para seu reflexo, não sentindo muita firmeza em sua imagem, mas conseguindo sentir nos sinais que seu corpo lhe mandava. Suspirou mais uma vez e manteve-se onde estava até sentir que a crise havia passado.
Quando isso aconteceu, terminou de se despir e entrou embaixo do chuveiro. Sentindo o corpo relaxar embaixo da água quente. Passou a mão no rosto, afastando qualquer resquício das lágrimas e permitiu-se ficar ali parada, apenas sentindo a água batendo em seu corpo e aquecê-la. Aproveitou para lavar seu cabelo, percebendo o cheiro dos produtos auxiliando em sua melhora. Era uma tática dela, aproveitar cada mínimo detalhe para ajudá-la a se recuperar da crise. Elas raramente aconteciam, mas quando vinham, fazia questão de fazê-la ir embora o mais rápido possível. Ao sair do banho, se enxugou com calma, enrolando o cabelo na toalha, a preguiça logo se instalando para secá-lo com o secador. Após vestir o pijama mais quentinho e pentear os cabelos, voltou para a proteção e o conforto de sua cama, buscando o celular na mesa de cabeceira e ligando para o contato que mais poderia ajudá-la naquele momento.
Não estava muito tarde na Alemanha ainda, ao que ela agradeceu, mas ainda assim Ted demorou um pouco para atender. Porém, quando o fez, sequer sentiu necessidade de reclamar pela demora, sentindo o alívio instantâneo só de ouvir a voz do irmão, assim como o retorno das lágrimas, que vieram sem piedade alguma.
- Ted. – Foi tudo o que conseguiu dizer antes de ser tomada pelos soluços. A resposta do irmão, o longo suspiro, foi o suficiente para que ela soubesse que ele ficaria ali mesmo se câimbras tomassem conta de seu braço. E chorou por um longo tempo até se sentir bem o suficiente para contar tudo o que havia acontecido desde a última vez que ela e o irmão haviam se falado. E só enquanto narrava tudo, foi que ela percebeu como fazia tempo.
- . – Disse Ted assim que a irmã terminou sua narrativa. Ele nunca imaginou que algum dia sentiria raiva de uma criança, mas havia conseguido sentir uma ponta do sentimento ao ouvir tudo o que Ava havia feito com , desde as menores coisas como as birras matinais, como as maiores, como aquela tarde antes de sair para o Oscar com o pai. Se pudesse, Ted daria o ultimato em e falaria para ela pedir demissão e a ajudaria a se sustentar até encontrar algo melhor. Mas não podia, e sabia que a irmã nunca permitiria. E contar aos pais estava completamente fora de questão. o mataria só por pensar em tal coisa. – Você com certeza não quer saber o que eu realmente pensei, então vou me contentar em dizer que gostaria muito de estar ai para poder te dar um abraço.
- Já seria uma grande ajuda. – Confessou ela, fungando no meio da fala. – Eu nunca imaginei que isso poderia ser tão difícil.
- Não é, , mas ela não colabora com você. – Observou Ted, não conseguindo nem dizer o nome da criança. – Você aguentou até que um bom tempo.
- Eu achei que foi tão pouco.
- Foi pouco porque você provavelmente não considerou o período mais tranquilo da faculdade. – Comentou Ted, fazendo a mulher concordar. – É muito cedo para você pedir férias? – Perguntou ele, provocando risadas em . – Eu falo sério.
- Eu sei que sim. – suspirou, deitou-se na cama e encolheu-se embaixo da coberta. – Eu não sei mais o que fazer, Ted. Não consigo mais encontrar lugares de onde tirar coragem para lutar contra essa menina.
- Talvez a solução não seja lutar contra ela, . – Disse ele, adotando um tom de voz sério, que sabia ser o mais concentrado dele, enquanto Ted tentava encontrar uma solução para resolver algum problema. – Mas junto com ela. Sei que não faz muito sentido, e eu não consigo pensar em nenhum exemplo, mas você é inteligente e eu sei que pode conseguir encontrar algo.
Ela ponderou sobre o que o irmão havia falado, mordiscando a unha do dedão enquanto encarava o teto acima de si. Percebia que havia muito sentido no que Ted falava e que a resposta parecia estar mais perto do que ela imaginava, mas não conseguia enxerga-la. Não agora. Não depois do dia e dos últimos meses que havia tido. estava esgotada, talvez não fosse má ideia aceitar aqueles dias de folga que Jeremy tanto insistia em lhe oferecer e ela em negar. Porém, por outro lado, ela sabia que o ator poderia interpretar errado o repentino pedido de folga dela, ele não era burro, sabia somar dois mais dois e chegar à conclusão correta. Ele saberia que sua filha havia atingido o limite da mulher e que ela estava a um passo de desistir e pedir demissão. Mesmo que ambos soubessem que não podia desistir, que ela dependia daquele emprego e de todos os benefícios para se manter na cidade, ambos também sabiam que não era justo ou certo mantê-la sob aquela pressão e quase tortura que Ava implicava. E Jeremy era bom demais para permitir que a moça permanecesse em algo que só a desgastava cada vez mais.
- Você não vai parar agora, não é? – Perguntou Ted, interpretando o silêncio da irmã e já sabendo a resposta, o que lhe poupou o suspiro frustrado que daria se não a conhecesse tão bem.
- Não posso. – Respondeu ela, apenas para a confirmação de que o irmão estava certo sobre ela. – Sei que deveria parar, mas não posso.
- Você é boa demais para essa menina. – Disse Ted, fazendo a mulher rir levemente.
- Obrigada, Ted. – Disse , após mais um tempo em silêncio. Ela sentia o sono a atingindo, e normalmente ela pediria ao irmão para ficar com ela até que dormisse, mas já havia alugado o mais novo por muito tempo. – Seu braço deve estar doendo.
- Não vou mentir, você está no viva-voz agora, de tanto que eu não aguentava mais. – Disse ele, rindo do outro lado. – Você precisa descansar, quer que eu fique com você até dormir?
- Não precisa, volte a fazer o que estava fazendo. – Disse ela. – Obrigada, como sempre.
- E, como sempre, não precisa agradecer. Estou aqui sempre que precisar, .
- Amo você.
- Também te amo. – Ted respondeu antes de encerrar a ligação.
suspirou, colocando o celular na mesa de cabeceira e se acomodando na cama. Fechou os olhos e reviveu por um tempo os acontecimentos daquele dia, que aos poucos iam sumindo e dando lugar ao escuro da inconsciência. Ao longe ela ouviu um choro infantil e portas se abrindo e fechando, pensou em abrir os olhos para descobrir o que acontecia, mas já estava muito adormecida para conseguir realizar o ato. Em instantes apagou totalmente.
Jeremy agradeceu por Ava não ter inventado de chorar por muito tempo, a menina parando assim que entraram no quarto dela, temendo que o pegasse ali na porta de seu quarto, ouvindo o fim de sua conversa com quem quer que fosse. O ator não havia escutado tudo, só o momento da despedida de uma conversa que parecia ter sido longa – chegou a essa conclusão pelo comentário que havia feito sobre braços doloridos. Enquanto colocava a filha para dormir, o ator tentou chegar à conclusão sobre quem poderia estar do outro lado da linha, não ficando muito satisfeito com a resposta que havia encontrado, apesar de não entender o porquê do descontentamento e da mulher nunca ter dado indícios de ter alguém em sua vida que não fosse alguns colegas da faculdade e a própria família.
O ator respirou fundo, afastando aqueles pensamentos, e se concentrou em trocar a roupa de sua filha completamente adormecida. Ela havia se comportado durante todo o evento, e eles haviam até mesmo posado para algumas fotos. Alguns colegas haviam se encantado ao ver a mais nova vestida tão elegante e com a educação e simpatia dela. Em alguns momentos, Jeremy não conseguiu evitar imaginar presenciando aquele comportamento tão educado de Ava, provavelmente a babá faria caretas e em alguns momentos soltaria algum comentário que implicasse a motivação da menor em não ser daquele jeito todos os dias.
Quando sua filha já estava de pijama e confortável em sua cama, Jeremy posicionou a babá eletrônica de forma a conseguir ter uma boa visão da filha e saiu do quarto. Parou um momento no quarto em frente, a porta não estava completamente fechada e ele podia enxergar completamente adormecida pela fresta. Lembrou-se do tom de voz da mulher enquanto se despedia ao telefone, de como ela parecia cansada e até um pouco chorosa, e se perguntou se estava tudo bem, mesmo sabendo que nunca conseguiria uma resposta completamente honesta dela. Jeremy considerou tudo o que havia acontecido e conseguiu ter sua resposta, precisava pensar em uma forma de ajudar a lidar com Ava, e de fazer sua filha parar de ser tão teimosa com a babá. Era como havia falado, ele não podia lutar aquela guerra contra ela, ou a perderia como perdera as babás anteriores.
E Jeremy não queria perder .

Capítulo 5


A chegada da primavera fez com que mudasse seu local de estudos para a mesa do jardim, querendo aproveitar ao máximo o clima ameno. Ajudava o fato de Ava gostar de brincar do lado de fora, então as duas juntavam o útil ao agradável. Para o alívio de , desde o episódio do Oscar, Ava não havia mais inventado nenhuma arte para aprontar. No início, a babá estranhara um pouco e ficara receosa de se sentir calma, mas aos poucos Jeremy foi convencendo-a de que a filha havia desistido de fazer sua vida um inferno. A mulher havia relutado ainda, mas depois se deu por vencida. Claro que Ava ainda a acordava super-cedo e sem nenhum motivo aparente, quando Jeremy já lhe garantiu que antes a menina acordava cedo e ficava sozinha brincando até o pai acordar.
- Acho que ela gosta da sua companhia. – Observou Jeremy certo dia, quando os dois dividiam o escritório enquanto Ava dormia, e aproveitava o cronograma tranquilo da faculdade para ajudar o ator com algumas coisas do trabalho.
Na época, havia dado risada de tal observação, mas quando ela finalmente começou a abaixar a guarda e dar um voto de confiança na menor, a babá começou a acreditar que realmente poderia ser o caso. Ava parecia mesmo gostar de sua companhia, notara certo dia, quando fora até a cozinha, que a criança ficou olhando constantemente para cima esperando a babá voltar para a sala. A mulher ainda não era incluída nas brincadeiras, mas Ava havia começado a inventar suas histórias em voz alta, ao contrário de antes em que ela só sussurrava. sentia-se melhor, desde o surto que tivera com Ted na noite do Oscar ela nunca mais havia se sentido daquela forma ou perto de sentir algo como aquilo novamente. E ela só torcia para que aquilo continuasse daquela forma.
Ava corria pelo jardim brincando com Digby enquanto estava concentrada em um texto que tinha que resumir e entregar ao professor na próxima segunda, havia uma semana para isso, mas ela sempre preferia adiantar seus trabalhos para caso surgisse algo de última hora. Estava virando uma folha quando Jeremy surgiu. Era a primeira vez que o via naquele dia e surpreendeu-se ao ver o ator usando uma bermuda jeans e uma camisa regata, deixando bem à mostra não só sua tatuagem, mas o braço musculoso onde ela estava marcada. A peça parecia alguns números menor que o tamanho usual do ator e ficava colada em seu corpo, dando à uma boa visão de seu peitoral definido. A mulher mordeu a ponta do lápis com tanta força que sentiu pequenos pedaços de madeira se soltando em sua boca, tendo que cuspi-los imediatamente e disfarçando o ato com uma tossida. Felizmente Jeremy não havia percebido sua gafe, distraído com Ava que chamava sua atenção querendo mostrar ao pai o novo truque que ela achava ter ensinado ao cachorro.
- Você viu, papai? – Gritou Ava, se aproximando do homem. O cabelo que antes estava preso em um rabo de cavalo, agora já estava completamente desmanchado. suspirou, pensando pela centésima vez só naquele dia em como era difícil manter qualquer penteado no cabelo fino e liso da criança. Ava tinha as bochechas vermelhas e suava, afastando do rosto os fios claros que haviam grudado. Jeremy se abaixou para receber o abraço da filha.
- Claro que vi, querida. – Disse Jeremy, acariciando o cachorro quando o mesmo se aproximou. – Bom garoto. – Completou o ator, dando dois tapinhas na cabeça do animal. – Continue praticando, tudo bem?
- Tá bom. – Disse Ava, chamando Digby e se afastando em seguida.
Jeremy se levantou, observando a filha por um tempo, e depois focou na mulher sentada à mesa. Ele havia acordado cedo naquele dia para uma corrida e havia enrolado um pouco para a volta. Quando chegou em casa, já conseguia escutar as risadas da filha enquanto brincava no jardim, suspeitando que a acompanhava de alguma forma. Ele preferiu ir direto para o quarto e tomar um banho, querendo se livrar do suor, antes de se juntar a elas. Enquanto se aproximava do jardim, ele havia parado um pouco, observando concentrada na tarefa que exercia. Jeremy não conseguia entender como a mulher tinha tanta facilidade em prestar atenção nos estudos e em Ava ao mesmo tempo, mas ela o fazia. Entre uma página e outra, a babá tirava a atenção do texto que lia e olhava para Ava, abrindo um sorriso discreto cada vez que via a menina brincar. O céu estava claro e o sol brilhava, e o brilho dele parecia criar uma aura em volta de . Foi só quando percebeu por onde sua mente passeava, que Jeremy resolveu voltar à realidade e afastar tais pensamentos. Enfim saindo do lugar onde havia estacado e saindo para o jardim, agradecendo pela risada animada da filha ter chamado sua atenção logo de cara.
- Bom dia. – Disse ele, se aproximando da mesa e chamando a atenção de , que havia retomado sua leitura. Ela o olhou de relance, abrindo um singelo sorriso.
- Bom dia. – Respondeu. – Acordou cedo hoje. – Observou, fazendo o ator sorrir enquanto se sentava em frente a ela.
- Tenho que começar a treinar, as gravações começam em breve. – Justificou ele. – Já estou atrasado no treino, inclusive.
- Percebe-se que você tem muito trabalho a fazer. – Comentou sarcasticamente, agradecendo por estar com a cabeça baixa para esconder o rubor em seu rosto. Foi só depois que falou que ela percebeu o que havia saído de sua boca. Ela percebeu no silêncio dele que Jeremy também parecia ter ficado desconcertado com o que ela havia falado, fechou os olhos e xingou-se mentalmente por um tempo, até finalmente se sentir confiante para levantar a cabeça e encarar o homem. Arrependendo-se logo em seguida por fazê-lo, ao perceber que ele sorria divertido olhando para ela. – Você poderia ao menos disfarçar que está rindo da minha cara.
- Se você conseguisse disfarçar também, eu faria um trabalho melhor.
- Você é ator. Não deveria depender de mim para fazer um bom trabalho. – Dessa vez ele nem tentou esconder a risada, contagiando que até mesmo deixou de lado a vergonha para acompanhar o ator. – Podemos apenas esquecer?
- Claro... que não. – Garantiu ele. – Mas prometo não ficar te lembrando disso a cada cinco minutos.
- Ah, muito obrigada. – Disse ela, não parecendo nada agradecida.
- Mas eu acho que você não vai ficar tão brava comigo depois de ouvir o que tenho a dizer. – Disse ele, mordendo o interior da bochecha para segurar a risada diante a irritação dela enquanto se sentava a sua frente.
- O que foi dessa vez? – Perguntou ela, colocando o lápis no meio do livro para marcar a página onde havia parado.
- Você terá uns dias de folga. – Jeremy preferiu adiantar o final apenas para ver a reação dela. – Sonni pediu para ficar uns dias com a Ava, e eu resolvi aceitar. E como eu sei que nós dois te damos muito trabalho, resolvi te dar uma folga de mim também.
- Não sei o que vai ser da minha vida com tanta liberdade e folga assim. – Ironizou , revirando os olhos antes de rir. – Vai viajar?
- Na verdade, não. Mas tenho umas reuniões importantes por alguns dias, e preferi ficar hospedado no hotel onde elas ocorrerão, apenas para poupar tempo.
- Sabia que você conseguiria encontrar uma brecha para me dar aquelas folgas desde o fim de semana que a Sonni a deixou aqui.
- O que eu prometo, eu cumpro. – Disse Jeremy.
- Quando vocês vão? – Perguntou .
- Sonni a quer na quinta-feira, e trazê-la de volta na segunda. Eu já aproveito que vou leva-la até lá e já vou para o hotel. – Explicou Jeremy e assentiu, seu olhar se desviando para a menina, que agora brincava com alguns brinquedos que ficavam no jardim.
- E ela já sabe disso? – Indicou Ava com a cabeça.
- Vou falar com ela hoje mais tarde. – Disse Jeremy. – Você está de acordo com esses dias?
- Sabe... – o olhou, colocando o cabelo atrás da orelha. – É sua casa, você não precisa sair dela para me dar folga. Aliás, deveria me expulsar daqui para você ter um pouco de folga também.
- Eu nunca te expulsaria daqui. – Disse Jeremy, levando muito literalmente o que a mulher havia falado, o que só fez com que risse. – Muito literal?
- Até demais. – Concordou a mulher, sentindo Digby cheirando sua perna e abaixando a mão para acariciar o cachorro que, diferente da dona mirim, havia gostado de desde o primeiro dia. – Mas, enfim, como eu ia dizendo... Não precisa sair, pode ficar.
- Obrigado. – Brincou ele, fazendo a mulher rir.
No final, Ava não havia se incomodado tanto assim de passar uns dias na casa da mãe. Jeremy lhe explicara que a mulher havia pedido isso porque não estaria na cidade no aniversário da menor, que ocorreria no fim do mês, e então pensara em passar uns dias com a filha para uma celebração antecipada. não sabia se aquilo era verdade ou não, mas ficara contente em ver a felicidade em Ava.
Como se todos os astros estivessem alinhados, não só ela teria a folga dos Renner, como nenhum professor havia decidido abusar dos alunos e jogar milhares de trabalhos em cima deles. O único que tinha era o resumo do texto que ela havia lido e adiantado – para o prazer de Jeremy que adorava comentar o quanto a mulher era nerd com os estudos. Assim, na quinta-feira, quando ela chegou em casa da faculdade e a encontrou vazia, com exceção de Digby, que veio correndo até ela para recebe-la, jogou os livros no banco que havia no corredor e se despediu deles, garantindo que só os encontraria novamente na terça-feira.
- Seremos só eu e você, amigo. – Disse ela para o cachorro, que latiu como se concordasse com ela.
aproveitou para tomar um longo banho, pedir uma pizza e explorar pela primeira vez a grande coleção de filmes que Jeremy tinha. Ela se surpreendeu ao ver um nicho em que estavam reunidos todos os filmes e as séries que o ator já havia participado. Sua atenção sendo atraída para um box em especial, uma série da qual nunca ouvira falar e da qual Jeremy fora um dos protagonistas. puxou a caixinha e leu o conteúdo da mesma, gostando da sinopse da série.
- The Unusuals... Parece que temos um vencedor. – Disse ela para si mesma, enquanto ouvia a campainha anunciando a chegada da pizza.
Seria a noite perfeita. A série possuía apenas dez episódios, o que garantia que ela poderia passar boa parte da noite inteira assistindo, de forma a não correr o risco de algum incidente como Sonni trazendo Ava ou Jeremy desistindo de passar os dias no hotel e resolvendo dar ouvidos ao que ela falara sobre ser a casa do ator e os direitos que ele tinha. Prendeu os cabelos molhados numa trança frouxa, trouxe a caixa de pizza junto com um copo de suco para a sala, colocando-os na mesa de centro; colocou o primeiro CD no aparelho e então deu play. Sequer vendo as horas passarem até que o último episódio acabou, para seu completo desespero, já que o final da série não lhe dera nenhuma sensação de conclusão.
- Eu não acredito! – Disse ela, pegando o celular imediatamente para conferir se a série havia acabado ali mesmo e o que havia acontecido. Para sua frustração, aquilo era tudo o que ela teria do seriado, já que o mesmo fora cancelado devido aos números insatisfatórios. – Eu não acredito! – Repetiu ela, chegando até mesmo a abrir sua lista de contatos e considerando ligar para Jeremy para gritar com ele. Desistindo no último segundo, quando seu dedo estava prestes a tocar o nome do ator, percebendo como aquilo parecia absurdo. – Mas é tão injusto. – Gemeu ela, encarando o menu principal do DVD e sentindo-se traída por ter investido tanto tempo em algo que acabara sem respostas para as diversas perguntas. Apesar de tudo isso, porém, não mentira que gostara mais do que devia da visão de Jeremy como policial. – Caminho perigoso, . – Sussurrou ela para si, finalmente se levantando do sofá para limpar a bagunça. A pizza havia acabado no começo do sexto episódio, e ela não havia se dado ao trabalho de sair do lugar em nenhum momento. Não eram nem três da manhã quando ela devolveu a caixinha ao seu devido lugar, se certificando de que não havia qualquer evidência de que ela havia assistido aquilo ali.
se espreguiçou, deixando a caixa de pizza na pia próxima à lata de lixo, prometendo a si mesma que daria um jeito naquilo no dia seguinte, se deu ao trabalho somente de lavar o copo e a faca que havia sujado. Logo depois apagando todas as luzes e se certificando de que tudo estava muito bem trancado, antes de ir para seu quarto, deitar e dormir.
Apesar de não ter Ava na casa, em todos os dias de sua folga acordou no horário que a menina costumava acordá-la, até mesmo no sábado, que era o dia em que Ava usualmente não a acordava já que Jeremy sempre estava com os fins de semana livres para ela. Odiando-se por conseguir se acostumar rápido a horários e rotinas e não depender mais de um despertador para acordar nos horários de sempre, ela bufou, rolando na cama e tentando voltar a dormir, mas falhando miseravelmente. olhou para o lado, vendo que a luz de notificação do seu celular piscava, mas resolveu ignorar, pensando que provavelmente era alguma mensagem de Ted, e ele poderia esperar mais um pouco para ser respondido. Levantou-se com um suspiro resignado e seguiu até a cozinha, não se importando em vestir algum roupão por cima do shorts curtíssimo e da blusinha de alcinha já bem desgastada do pijama que usava.
Na cozinha, começou a preparar seu café da manhã, colocando o pó de café na cafeteira, junto com a água. Separou o que comeria também e deixou a cafeteira e a torradeira trabalhando enquanto ia para o quarto, começando a se preparar para um longo e relaxante banho – talvez usasse pela primeira vez a banheira que havia em seu banheiro. Ela separou os sais de banho, assim como os demais produtos que usaria, despindo-se em seguida e prendendo o cabelo em um coque bem alto. Apesar de estar sozinha, enrolou uma toalha ao redor do corpo antes de sair do quarto para desligar a cafeteira que apitava anunciando que o café estava pronto.
Ela não esperava, entretanto, que outra pessoa poderia estar interessada no mesmo café que ela preparava para si. quase deixou a toalha cair quando atravessou a porta de acesso à cozinha e viu outra pessoa encostada na bancada, servindo-se de uma xícara do café recém-preparado. Ela não conseguiu ser tão silenciosa quanto gostaria, e chamou a atenção de Jeremy que se virou assustado para a mulher.
- Ah, oi! – Disse o ator, sorrindo divertido ao ver a expressão assustada da mulher, os olhos arregalados e a boca levemente aberta. A princípio ele não entendeu porque ela estava tão assustada, mas ao notar o que ela vestia, Jeremy compreendeu rapidamente. Não conseguindo disfarçar tão bem como gostaria a olhada que deu em todo o corpo da mulher. Os pés descalços roçando um no outro enquanto ela procurava algum buraco para se enterrar, evidenciando as pernas bem torneadas.
- Eu... Ahn... Eu não sabia que você... Hm... – começou a se afastar levemente, queria correr e se esconder. Talvez correr até a Alemanha para se esconder embaixo da cama de Ted. Ela engoliu em seco, dando as costas ao ator e correndo para seu quarto, ignorando o chamado de Jeremy pedindo para ela esperar.
- Meu deus! – Exclamou Jeremy, fechando os olhos para tentar afastar os pensamentos que começavam a tomar conta de sua mente. Mas cada vez que ele fechava os olhos, a imagem de parada na porta da cozinha, segurando com força a toalha para evitar que ela caísse, voltava à sua mente. Talvez ele fosse conseguir agora o que sua filha havia tentado com tanto empenho e falhado: o pedido de demissão da mulher.
fechou a porta atrás de si e se apoiou na mesma, seu peito subindo e descendo com rapidez enquanto ela ofegava. O que diabos fora aquilo? O que diabos ele fazia em casa? Não ia passar a droga do fim de semana inteiro enfurnado em um hotel? O que fazia ali?
- Você mandou ele ficar em casa, ! – Disse ela a si mesma, logo se odiando. – Apenas cale a boca. Vá tomar banho, esqueça isso. – Fechou os olhos e balançou a cabeça antes de rumar para seu banheiro, instantaneamente perdendo a fome e até mesmo o desejo de tomar o longo banho. Porém sabia que se tomasse um banho rápido, teria que encarar Jeremy mais cedo do que se sentia preparada.
Ao sair do banho, ela sentou-se na cama e pegou seu celular, finalmente desbloqueando-o para ver quais notificações estavam pendentes. Sua respiração ficou suspensa quando ela viu que uma das mensagens recebidas era de Jeremy, avisando que havia decidido voltar para casa mais cedo do que o previsto. A mulher abafou um grunhido, xingando-se mentalmente por não ter sido preguiçosa e não conferido as mensagens antes de levantar. Nunca achou que um dia desejaria tanto a presença de Ava lhe importunando e dando dor de cabeça o suficiente para parar de pensar no que havia acontecido.

Durante o resto do fim de semana, Jeremy e não trocaram mais que duas palavras, a maior conversa que tiveram foi quando o ator explicou que as reuniões haviam acabado mais cedo do que ele previra e ele resolveu aceitar a sugestão dela de ficar em casa – ele chegou até mesmo a perguntar se ela não havia recebido a mensagem que ele havia mandado, e Charlie preferiu fingir que não havia recebido nada. não contestou ou reclamou, apenas concordando e odiando seus professores por não terem lhe passado milhares de trabalhos para fazer para ocupar sua cabeça.
Segunda-feira nunca demorou tanto a chegar, e ela se viu agradecendo quando finalmente acordou no primeiro dia da semana e poucas horas depois a campainha tocou, anunciando a volta de Ava. A menina não demorou a ocupar , que a ajudou a desfazer a mochila que havia levado para a casa da mãe e depois lhe deu algo para comer antes do almoço ficar pronto. Não demorou muito para que o clima entre a babá e o ator melhorasse, já que a presença de Ava ajudava na comunicação entre eles. E apesar de não esquecer o que havia ocorrido, Jeremy se esforçava ao máximo para não esboçar alguma reação à lembrança do dia, apenas para não envergonhar . Agradecendo silenciosamente a mulher por não ter se demitido.
O ator havia tirado o dia de folga, para aproveitá-lo com Ava, mas na terça-feira voltara ao normal. que tirara a grande sorte ao receber um e-mail do professor cancelando a aula do dia por motivos pessoais. Ava parecia mais animada que o normal após o fim de semana com a mãe, e comemorou um pouco quando a babá anunciou que não iria para a faculdade naquele dia, espantando até mesmo Jeremy.
- Você não vai brincar comigo, papai. – Explicou ela quando Jeremy perguntou porque estava tão feliz. – Mas tudo bem, porque a vai, não é?
- Cl... Claro. – Concordou , que parecia tão confusa quanto Jeremy. Quem era aquela menina e o que havia feito com Ava?
Mas no final não foi como os dois adultos esperavam, Ava prosseguiu com seu dia normalmente, apenas pedindo para ficarem no jardim já que o dia estava bem quente e ensolarado. concordou, pegando um livro da faculdade para ler.
- Você não tem outra coisa para ler? – Perguntou Jeremy ao ver a mulher saindo de seu quarto com mais um livro teórico e o estojo com as canetas para fazer suas marcações.
- Tem alguns outros, mas quero terminar esse. – Disse ela, não entendendo.
- Quis dizer se você não lê outra coisa além de textos teóricos. – Explicou ele, vendo a mulher rir de si mesma.
- Tenho, mas gosto desses.
- Mentira.
- Eu tenho gostos peculiares, senhor Renner, você não entenderia. – Brincou ela, se divertindo ainda mais quando ele pareceu não entender a referência. – E quando eu quero te mostrar que leio outras coisas, você não me entende, assim complica.
- O que foi...?
- Cinquenta Tons de Cinza, Jeremy. – Disse ela, rindo divertida da expressão quase que horrorizada do ator. – Sim, eu li. – Confirmou ela. – Tinha uma época em que eu lia todos esses livros da modinha, até que a faculdade começou a dominar e eu não tive mais tempo.
- Terá agora, tenho um ótimo para você. – Disse Jeremy, logo depois pedindo para ela esperar por ele onde estava. Como se ela fosse para algum outro lugar. Não demorou para Jeremy voltar segurando um exemplar consideravelmente grandinho. – Você disse que gostou do filme...
- E eu achando que você iria me dar algo para eu não pensar na faculdade. – Comentou , pegando o livro e logo reconhecendo o título do mesmo, além da referência ao filme Arrival. – Sinto muito, mas você está atrasado, eu li o conto... E preciso confessar que o filme é muito melhor. Ou talvez eu ache isso por ter assistido primeiro.
- Talvez o ator tenha dado uma ajudada...
- Sim, a Amy foi incrível nesse filme. – Disse , mordendo a bochecha internamente para controlar a risada ao ver a cara de Jeremy. – Você provocou. – Ela deu de ombros quando percebeu que ele ainda demorava para encontrar uma resposta à altura. – Para não desperdiçar sua oferta, talvez eu leia os demais contos, então, se isso for te ajudar a criar uma imagem menos nerd de mim.
- Acho isso difícil a essa altura. – Comentou ele, sorrindo para a mulher antes de ir para seu escritório.
no final não leu nenhum dos dois livros, achando mais proveitoso ver Ava brincando de um lado para o outro com Digby, e vez ou outra sozinha. Ela havia tentado, mais cedo, convencer o pai a deixa-la convidar Jack, filho do Chris Pratt, que era vizinho deles, mas Jeremy argumentou que não poderia dar outra folga para tão cedo, e que Jack só poderia vir quando ele tivesse com o dia livre para poder ajudar a babá. quase riu do argumento fajuto de Jeremy, mas preferiu ficar pensando que tinha como vizinhos ninguém menos que Chris Pratt e Anna Farris e que eles e Jeremy eram bons amigos, assim como Ava e Jack. Ted enlouqueceria se soubesse daquilo.
- ? – Ela ouviu Ava chamando, olhando a menina que se aproximava dela.
- O que foi? – Perguntou, vendo a menina morder o lábio inferior enquanto pensava em como falar o que precisava para a babá.
- Eu quero brincar com uma coisa – começou ela –, mas tá no quarto do papai.
- E por que você não vai pegar? – Perguntou , não entendendo onde ela queria chegar.
- Tá no alto, e não quero pedir pra ele. – Explicou a menina, fazendo sua melhor cara de inocente, que não enganaria algumas semanas atrás, mas como agora ela estava com a guarda baixa, fez com que ela caísse direitinho no plano da menor.
- Me mostre onde está. – Disse , levantando-se do banco para acompanhar a menina até o quarto de Jeremy. Ela não gostava muito da ideia de entrar no cômodo, mas não iria tirar Jeremy do trabalho só para pedir algo tão trivial.
Ava a acompanhou até a porta do closet, dizendo que o objeto que queria estava em cima do armário acima da pia, concordou e entrou. Ela já havia “visitado” o quarto de Jeremy antes, incluindo o closet e o banheiro, então sabia de qual armário Ava falava, porém não encontrou o que a menina pedia, e quando voltou para perguntar a ela se tinha certeza, surpreendeu-se ao ver a porta do closet fechada, tentou abrir, mas nada. Ótimo, estava trancada.
- Não acredito nisso. – Gemeu , batendo na porta e chamando Ava, na esperança de que ela estivesse ali do outro lado, rindo da mulher. Mas nenhuma resposta veio, e ela não ouviu nenhuma risada infantil.
colocou as mãos nos bolsos da calça apenas para confirmar o que já sabia: estava sem o celular. E logo percebeu que teria que fazer o ridículo de gritar e bater na porta até chamar a atenção de Jeremy, ou a piedade de Ava para que ela a tirasse dali.
Jeremy estava concentrado organizando sua agenda para os próximos meses, as gravações para o terceiro filme dos Vingadores estava se aproximando e agora eles já exigiam uma resposta mais definitiva quando ao seu cronograma. Vez ou outra ele sorria ao ouvir o riso alegre de Ava, assim como os latidos animados de Digby. Porém, em determinado momento, Jeremy percebeu que há muito tempo estava tudo muito quieto, e aquilo sempre era preocupante. Mesmo que estivesse sendo observada por , Ava nunca ficava muito tempo quieta a menos que estivesse aprontando algo.
O ator levantou-se e saiu do escritório, indo até a porta que dava acesso ao jardim, franzindo o cenho ao vê-lo vazio. Então seguiu pelo corredor, o quarto de estava vazio, mas não o de Ava, que parecia se esconder embaixo da cama, porém falhava miseravelmente já que metade do corpo estava para fora. Ao se aproximar, ele percebeu que a menina ria e tentava disfarçar a risada. A menor se assustou ao sentir o pai a puxando delicadamente, dando um gritinho assustado.
- O que você está aprontando? – Perguntou Jeremy, vendo a menina sorrir sapeca. Não demorou para perceber o elemento faltante e ele logo se preocupou ainda mais. – Ava, cadê a ? – Ava riu, colocando as mãozinhas na boca. – O que você fez agora?
Ela ia responder, quando Jeremy ouviu uns tapas abafados, ele segurou Ava em seu colo e seguiu o barulho, se surpreendendo ao perceber que vinha de seu quarto. Mais especificamente de seu closet. Jeremy olhou feio para Ava ao ver que a porta do closet estava trancada, e suspirou enquanto informava a que já iria tirá-la de lá. Primeiro ele colocou a filha no chão e pediu para que ela fosse para seu quarto e não saísse de lá enquanto ele não fosse conversar com ela. O ator esperou até a filha estar fora do quarto para se recompor e abrir a porta do closet, a piada já brincando na ponta da língua. Encontrar encostada na parede de forma impaciente não ajudou em nada.
- Sabe, – começou ele, encostando-se no batente da porta – geralmente quem brinca de sete minutos no paraíso não está sozinho. – Brincou ele, vendo quando ela revirou os olhos, mas se controlou para segurar o riso. – E sem toalha? Estou desapontado.
- Muito engraçadinho você. – Disse ela, revirando novamente os olhos. – Estou aqui por sua culpa.
- O que eu fiz? – Perguntou ele.
- Fez eu acreditar que Ava gostava de mim e estava do meu lado. – Acusou ela, cruzando os braços. – Abaixei minha guarda e olha o que acontece.
- , – disse Jeremy, arrumando sua postura e encarando-a com seriedade – piadas à parte, eu realmente sinto muito por isso. – Ele indicou a saída do quarto com a cabeça. – Vou falar com ela, você vem?
pensou em não segui-lo, mas no final decidiu por ir, curiosa para saber o que o ator falaria. Ava estava sentada na cama, a cabeça baixa e o bico triste já se formando, sabendo a bronca que receberia. Na porta do quarto, tocada com a cena de Ava já aborrecida esperando a bronca do pai, segurou Jeremy pelo braço, suas mãos se entrelaçando por um momento tão breve que os dois decidiram interpretar a reação de seus corpos como um susto pelo ato inesperado. Jeremy olhou a babá, confuso.
- Não brigue com ela. – Pediu , falando baixo para que Ava não ouvisse. – Ou brigue, mas pegue leve. Não foi algo tão grave assim. Eu acharia engraçado se não fosse comigo. – Observou , fazendo o ator rir. Ele assentiu e então entrou no quarto, ficou parada na porta, ouvindo o que ele dizia para Ava.
- O que vou fazer com você? – Perguntou Jeremy, fazendo a menina lhe olhar com a expressão confusa. – Achei que tinha parado com isso. – Disse ele, Ava permanecia em silêncio. – Por que não pode gostar dela como gostava da Helô? – franziu o cenho, quem diabos era Helô? A confusão só piorou quando ela viu Ava abrir um sorriso mínimo, olhando logo depois para a babá. Ela pediu para o pai se aproximar e cochichou algo no ouvido dele, apenas para a frustração de que agora ficaria curiosa para saber o que a menina havia falado, principalmente quando Jeremy se afastou da menina, olhou para a babá, depois para a filha e sorriu.
- Boa garota. – Disse ele, acariciando o cabelo da filha. – Mas que tal começar a se comportar? – A menina mordeu o lábio inferior, como se pensasse muito no pedido do pai, então deu de ombros, fazendo Jeremy rir. – Não me faça cancelar sua festa de aniversário. – Brincou ele, fazendo a menina arregalar os olhos.
Jeremy se levantou da cama, depois de pedir para que Ava fosse ao jardim guardar os brinquedos, e saiu do quarto, sendo seguido por enquanto ele ia para o escritório. A mulher estava agitada, ele podia perceber, só não conseguia saber o motivo. Ao chegarem no escritório, Jeremy virou-se de frente para ela e se apoiou na mesa onde os notebooks ficavam. estava parada na porta, os braços cruzados.
- O que foi? – Perguntou Jeremy, se divertindo com a agitação da mulher.
- O que ela te disse? – Perguntou ela, não controlando a ansiedade.
- Isso, eu sinto muito, mas não posso te falar. – Disse Jeremy. – Prefiro que a Ava te conte quando estiver preparada. – Aquilo não pareceu tranquiliza-la, mas ele viu quando ela escolheu deixar aquilo para outro momento, porém outra coisa a atormentava. – O que mais?
- Talvez eu não tenha o direito de perguntar isso, mas quem é Helô? – Perguntou , vendo algo passar pelos olhos de Jeremy que ela não conseguiu interpretar.
- Uma namorada do Stan.
- Stan?
- Sebastian Stan. – Disse Jeremy, vendo enquanto a mulher parecia ligar os pontos, procurando uma resposta. – O Bucky de Capitão América?
- Ah, sim! – Disse ela, sorrindo agradecida para o ator. – Eu só assisto esses filmes por causa do meu irmão, não guardo nomes. – Explicou ela, vendo Jeremy sorrir divertido. – Quer dizer que ela não é tão geniosa assim com todo mundo? Ou esse mau-humor dela é só comigo?
- O mau-humor dela é com todas as babás. – Disse Jeremy, pensando um pouco no assunto.
- E eu vou conhecer essa Helô? Eles virão no aniversário dela? – Perguntou .
- Acho difícil eles aparecerem esse ano. – Respondeu ele, mudando sua postura. percebeu, mas preferiu esquecer, sua expressão anterior de curiosidade logo voltando e Jeremy não demorou muito a entender o que ela pretendia. – Não, não vou te contar o que ela me falou. Sigilo entre pai e filha.
- Isso não existe.
- Claro que existe. – Disse Jeremy. – É um daqueles acordos que ninguém discute ou escreve, mas todos sabem assim que se tornam pais.
pensou em argumentar, mas depois desistiu sabendo que aquilo não teria fim tão cedo. Ela agradeceu ao ator por tê-la livrado do closet e depois foi até o jardim para observar Ava.

~ * ~


Certa manhã, a casa amanheceu no caos. acordou atrasada, estranhando Ava não ter vindo acordá-la como já havia se tornado hábito. Ou talvez a menina tenha tentado e estava tão cansada por ter ficado até tarde lendo umas novas pesquisas para acrescentar ao seu projeto que sequer ouviu a menina chamando-a. Concluiu isso ao ver um pequeno giz de cera na mesinha de cabeceira ao lado de sua cama. Olhou seu relógio e se espantou ao ver que já eram quase dez da manhã. Se levantou e foi até o banheiro, normalmente correria para ficar pronta, mas havia certa vantagem em morar onde trabalhava, e ela podia ouvir a voz de Jeremy com a filha, apesar de ser um tom mais exaltado que o normal.
franziu o cenho ao perceber que o ator parecia discutir com a filha, ou pelo menos tentava convencê-la a fazer algo que Ava não parecia disposta a fazer. Tomada pela curiosidade, saiu do quarto e seguiu em silêncio pelo corredor até conseguir chegar no final do mesmo, parando na curva que ele fazia para a cozinha, onde ela já conseguia ouvir pai e filha atentamente, e tinha certeza que Ava estava prestes a chorar, ou já tinha algumas lágrimas correndo livremente por seu rosto.
- Você tem que tomar, Ava. – Disse Jeremy, e ouviu algo batendo no tampo da ilha da cozinha.
- Mas eu não quero, papai. – Respondeu Ava, a voz chorosa. – Não quero mais.
- Você sabe que não pode parar, querida. – O tom de voz de Jeremy amansou, e sabia que era por causa da expressão que Ava deveria estar fazendo. – Lembra do que aconteceu na última vez que parou de tomar os remédios?
A mulher voltou alguns passos, encostando-se na parede. Os remédios. Lembrou-se de quando pesquisou um pouco sobre eles, logo após descobrir que eram todos para Ava, e não conseguiu chegar a nenhuma conclusão sobre a finalidade deles, sabia apenas que todas as manhãs a menina tomava alguns e, ao final do dia, tomava os demais. Ela nunca tivera coragem de perguntar a Jeremy o que Ava tinha, sempre esperou que um dia o ator fosse contar por livre e espontânea vontade. Com o tempo ela acabou esquecendo a curiosidade, e o ato de servir os remédios para Ava se tornou tão natural que ela já sequer se questionava sobre.
- Por favor, querida. – ouviu Jeremy pedindo, seguido de um soluço de Ava. – Em breve vamos ao médico e podemos perguntar se pode diminuir, tudo bem?
- Promete? – Perguntou Ava.
- Prometo. – Garantiu Jeremy, e logo depois conseguiu ouvir o beijo estalado que o ator deu na filha.
Em silêncio, ela voltou ao quarto, não querendo chamar atenção. Foi até o banheiro para fazer sua higiene matinal, trocou de roupa e saiu do quarto. Ao chegar na cozinha, a única coisa que entregava que algo estava fora do usual era o rosto vermelho e úmido de Ava, fora isso, tanto pai e filha agiam como se fosse outra manhã qualquer, e escolheu agir da mesma forma que eles.
- Acordou a bela adormecida. – Brincou Jeremy, pegando uma xícara no armário e colocando café, logo depois entregando para a babá.
- Obrigada. – Agradeceu ela, pegando a xícara e dando um gole na bebida. – Sinto muito por isso, fiquei até tarde lendo uns textos e...
- , a essa altura eu acho que você não precisa mais ficar se explicando. – Disse Jeremy, fazendo a mulher rir. – Mas que bom que você já levantou, porque está quase na hora de eu ir.
- Ir? Para onde? – franziu o cenho, não se lembrando de nenhum compromisso para aquele dia na agenda do ator, e ela a sabia de cor. – Você não...
- Surgiu algo de última hora e eu preciso ir. – Explicou Jeremy. – Não sei que horas volto, então pode cuidar do jantar?
- Claro. – Disse ela, como se já não o fizesse quase todas as noites. – Está tudo bem, Jeremy? – Perguntou ela, percebendo como o homem parecia ansioso.
- Reunião da Marvel, vim enrolando eles por um tempo, mas agora não posso mais. – Explicou o ator. não precisou que ele se explicasse, lembrando-se de quando o ator lhe explicou como ele montava sua agenda durante as gravações e como o estúdio sempre tinha os cronogramas mais loucos, o que levava eles a terem longas discussões até que todos os lados estivessem satisfeitos.
- Ah, agora eu entendo. – sorriu. – Relaxe, vai dar tudo certo. Sempre dá, não é mesmo? – Perguntou ela, tocando de leve no braço do ator, sentindo-o tenso a princípio, mas logo relaxando. Ela sabia que a tensão não era por seu toque, e sim pela reunião, e se sentiu feliz por saber que conseguia acalmá-lo. – Talvez a gente faça um bolo para você comer quando chegar, o que acha, Ava? – Perguntou a mulher, chamando a atenção da menina, que abriu um sorriso imediatamente.
- Nada muito grande, tem o aniversário dela na próxima semana. – Avisou Jeremy, vendo a moça concordar com um aceno de cabeça. – E só faça se ela se comportar.
sabia que Ava se comportaria, não por querer bolo, mas pela pequena discussão com o pai naquela manhã. Tanto filha quanto pai estavam fora do eixo após aquele ocorrido, apesar de ter quase certeza que não era a primeira vez que algo como aquilo ocorria. Ela não conseguia deixar de pensar que o problema de Ava fosse mais sério que ela imaginava, e de repente engoliu em seco inundada com os diversos pensamentos que começou a ter. Piscou e balançou a cabeça com força para afastar os diversos cenários que tomou conta, terminando de tomar seu café e então chamando Ava para brincarem no jardim um pouco antes de saírem para irem ao mercado comprar os ingredientes para o bolo.
O dia foi agradável, como todos vinham sendo – com exceção do episódio do closet, que havia se esforçado para deixar de lado – em determinado ponto, Anna Farris viera ao seu portão para perguntar se ela podia deixar Jack com e Ava um pouco já que ela tinha um compromisso urgente e não tinha tempo para chamar uma babá.
- Eu liguei para o Jeremy, e ele disse que eu podia vir aqui. – A mulher explicou, mas mal conseguia se concentrar, sua mente trabalhando para assimilar o que estava acontecendo. – Então, tem algum problema?
- Claro que não. – Disse , se esforçando para focar no que acontecia. – Logo vamos fazer um bolo, tem algum problema ele comer?
- Nenhum. – Garantiu Anna, agradecendo antes de se despedir do filho e garantir que não demoraria muito.
Ava ficou animadíssima quando voltou para casa acompanhada do pequeno Jack, que logo correu para dar um abraço na menina. A mulher deixou os dois brincando um pouco enquanto terminava de arrumar as compras que ela e Ava haviam feito – aproveitou que estavam no mercado para já comprar algumas coisas que faltavam na casa. A risada das crianças se espalhava pela casa, enquanto ia de um lado para o outro na cozinha, já separando os ingredientes do bolo. Digby estava na porta, de olho na sala e no que fazia, como se ela precisasse ser vigiada. Ao terminar de organizar tudo, ela foi até a cozinha, admirando a cena de Ava e Jack brincando com os bonecos de ação dos Vingadores.
- Crianças, quem quer me ajudar a fazer bolo? – Perguntou ela, chamando a atenção deles.
- Eu! – Gritaram os dois juntos, já se levantando e correndo para a cozinha.
achou que a bagunça seria monumental, mas no final ela não gastara mais de cinco minutos limpando a cozinha, só a louça que havia sido maior que a necessária, mas isso já era de se esperar. Jack gostava de ajudar a misturar os ingredientes, enquanto Ava preferia coloca-los, não possuindo muita paciência para ver tudo se incorporando até ficar homogêneo. O bolo foi pequeno, com se lembrando do pedido de Jeremy, e de chocolate, bem simples só para ocupar o dia. Ou seria simples, não fosse a insistência de Ava de fazerem uma cobertura e jogarem uns confeitos por cima.
- Para o papai ficar feliz! – Disse ela como argumento para convencer . A mulher não conseguiu dizer não, pegando os ingredientes para preparar a cobertura de chocolate, enquanto Ava e Jack se divertiam escolhendo quais confeitos jogariam por cima.
No final da tarde, após comerem, cada um, dois pedaços de bolo, Ava e Jack se despediram quando Anna passou para buscar o filho, agradecendo por ter cuidado do menino para ela. ficou sem graça, mas apenas disse que não fora problema algum e elogiou o loiro, pedindo que ele voltasse mais vezes para brincar com a Ava. Quando voltou para casa, Ava começava a recolher os brinquedos, pedindo para colocar um filme para ela antes do filme. A mulher concordou, estranhando aquele comportamento tão educado da criança, e o fez, perguntando o que a menina gostaria de comer no jantar, estranhando ainda mais quando Ava deu de ombros e disse que a babá podia escolher.
- Mais tarde preparo algo, então. – Disse , indo para a cozinha enquanto Ava se arrumava no sofá para assistir ao filme.
Na hora de dormir, Ava tentou lutar um pouco contra o sono, pedindo para ficar acordada até o pai chegar em casa, mas nem mesmo precisou lhe negar o pedido, o enorme bocejo e os olhos coçando já eram os indicadores necessários para a menina desistir de lutar muito. Lembrando-se do primeiro dia que cuidara de Ava, prometeu que quando o ator chegasse, ele faria um desenho na mão da menor, além de dar um beijo nela. Ava concordou com o acordo, pedindo em seguida para ler uma história para ela.
Ao sair do quarto da criança, após certificar-se de que ela estava completamente adormecida, seguiu para cozinha para comer algo, mas se descobriu sem fome. Então apenas guardou a comida na geladeira, e seguiu para a sala, pegando o último texto que havia começado a ler para continuar o estudo. Já era quase meia-noite quando ela ouviu o portão se abrindo e Jeremy entrando com o carro. A mulher se espreguiçou no sofá enquanto esperava o homem entrar em casa, se divertindo quando ele pareceu assustado por vê-la acordada. Ele parecia esgotado, não deveria ter sido uma reunião muito agradável, principalmente levando em conta o horário que ele voltava.
- Ainda acordada? – Perguntou Jeremy, retirando a jaqueta enquanto se aproximava do sofá, provavelmente querendo conferir se Ava estava ali.
- Ela está dormindo. – Explicou , já sabendo as intenções do ator. Ela se esticou e pegou uma caneta, entregando-a ao homem. – E você tem um desenho para fazer.
- Faz tempo que ela dormiu? – Perguntou Jeremy, pegando a caneta.
- Algumas horas, sim. – Disse . – Ela tentou ficar acordada para esperar você, mas o sono venceu. – A mulher deixou o texto na mesinha de centro e se levantou. – Está com fome? Posso ir esquentando a comida enquanto você vai vê-la.
- Não vou recusar. – Disse Jeremy. – Vocês comeram o que?
- Preparei um strogonoff, mas só ela comeu.
- Você não? Por quê?
- Não estava com fome. – deu de ombros.
- Mas vai comer agora, não é? – Jeremy perguntou, e quis apertá-lo até ele explodir em purpurina por parecer tão fofo quando preocupado com ela.
- Mesmo se eu estivesse sem fome, eu tenho a leve impressão que você não me deixaria ir dormir sem comer. – Disse , rindo da expressão do ator. – Vai dar um beijo na Ava enquanto eu preparo tudo.
esperou até Jeremy sumir no corredor para ir até a cozinha, esfregando levemente a testa enquanto o fazia, já controlando os pensamentos conturbados que ousavam invadir sua mente sem permissão. Ela tinha que parar de se sentir como uma adolescente que se apaixonava pelo professor da escola, não era certo agir daquela forma com a idade que tinha e ainda mais com alguém que era seu chefe. Onde estava sua ética? Se nem com clientes do café ela saia quando eles a cantavam, por que agora ficava fantasiando com o próprio chefe?
Perdida em pensamentos, ela se assustou quando Jeremy chegou à cozinha, fazendo o ator rir do pulo que ela deu enquanto colocava a comida para esquentar no micro-ondas.
- Desculpe, não sabia que estava tão distraída. – Pediu Jeremy, comprimindo um lábio no outro para controlar a risada.
- Já se tornou tradição, acho. – Comentou , ocupando-se em pegar os pratos e talheres apenas para adiar o momento que tivesse que encará-lo, dando tempo para Jeremy tirar do rosto aquele riso debochado. – Como foi a reunião?
- Longa.
- Percebi. – Disse ela, finalmente encarando o ator. – Chegaram a um acordo?
- Sim, sempre chegamos. – Ele suspirou, abrindo alguns botões da camisa social que usava. – Não sei por que ainda insistem nessas reuniões se todos já sabem como vai acabar. Seria mais fácil já criarem desde o início o cronograma ideal. – Ele ia dizendo, esfregando as mãos no rosto enquanto se distraía imaginando o que aquela camisa revelaria se fosse aberta até o fim. A mulher agradecendo quando o micro-ondas apitou, tirando-a de seu devaneio. – E você? Como foi a tarde? – Perguntou Jeremy. – O Jack veio aqui?
- Sim, veio, ele é um amor. – Disse , sorrindo enquanto se lembrava do menino e dele brincando com Ava. – Foi uma tarde tranquila, tem bolo, aliás.
- Prometo te pagar a mais pelo Jack.
- Não precisa. – olhou o ator, querendo se certificar de que ele não insistiria. – Aconteceria em qualquer momento, e eu me diverti. Não precisa pagar por nada.
Jeremy preferiu não discutir, levantando-se do banco para se servir da comida preparada pela mulher. Os dois preferiram comer ali mesmo, sentados à ilha da cozinha. Inicialmente em silêncio, depois começou a perguntar sobre suas datas para as gravações do filme, e Jeremy foi deixando-a por dentro de tudo. Ele também lhe perguntou um pouco sobre seus estudos. Em determinado momento, o silêncio voltou a reinar, e se viu encarando o armário onde ficavam os remédios da Ava, a discussão dos dois naquela manhã voltando à sua mente. Ela olhou o ator, que parecia concentrado no conteúdo do seu prato, mordeu o lábio inferior e respirou fundo.
- Jeremy, posso fazer uma pergunta? – Pediu ela, largando o garfo e apoiando os braços na superfície, chamando a atenção do ator.
- Desde quando precisa pedir? – O ator riu, fazendo um gesto indicando que ela podia continuar.
- Para que servem os remédios da Ava? – Ela perguntou sem rodeios, sabendo que se enrolasse demais acabaria desistindo. Imediatamente se arrependeu, vendo a mudança imediata na postura do ator. Jeremy largou o garfo, pegou o guardanapo e passou-o ao redor de seus lábios, apesar de não ter nenhuma sujeira. percebeu na hora que não deveria ter feito aquilo, principalmente quando Jeremy se levantou e retirou o próprio prato, metade da comida ainda no mesmo.
- Não é um assunto sobre o qual eu gostaria de discutir agora. – Disse ele, indo até a pia para começar a limpar seu prato. engoliu em seco, empurrando seu prato para trás e levantando-se.
- Claro. – Disse ela, começando a caminhar em direção à porta da cozinha. – Eu vou dormir, então...
- , não... Eu sinto muito. – Jeremy começou, virando-se para a mulher e fazendo-a se virar para ele também. – Não precisa ir.
- Eu não deveria ter me intrometido. – Disse ela, dispensando as desculpas dele. – Eu estou cansada, foi um... Um longo dia.
- ...
- Boa noite, Jeremy. – Disse ela, virando-se e saindo da cozinha. O ator acompanhou enquanto ela saia, dando um soco na pia logo em seguida, irritado consigo mesmo.
- Seu idiota. – Sussurrou para si mesmo.

~ * ~


No dia seguinte ao incidente na cozinha, e Jeremy entraram num acordo mútuo e silencioso de agirem como se nada tivesse acontecido, e assim passou-se a semana. Quando eles viram, já estavam quase na última semana do mês, às vésperas do aniversário de quatro anos de Ava. Jeremy não havia planejado nada grande, apenas alguns primos de Ava viriam, além de outras crianças que ela conhecia. O ator cuidara de cada detalhe, atendendo ao máximo de pedidos possíveis da longa lista que Ava havia feito. Como o ator viajaria no dia seguinte ao aniversário da filha, e ela iria junto, Jeremy decidiu fazer a festa no fim de semana anterior ao dia do nascimento da criança. até mesmo chegou a fazer uma brincadeira com a superstição de comemorar antes, fazendo Jeremy rir e realmente acreditar que ela tinha algum problema com a comemoração antecipada, para a diversão da mulher.
Eram muitos detalhes, e Ava estava animada e ansiosa para tudo. Parecia que estava tudo perfeito, até que não estava mais. e Ava haviam ficado juntas a tarde toda na véspera da festa, com Jeremy saindo de casa cedo para resolver alguns problemas de última hora em relação à comida que seria servida. A menina estava mais hiperativa que o normal e exigira até o último fio de cabelo de disposição de . Quando Jeremy chegou em casa, muito mais tarde que o pretendido, a mesma estava silenciosa, com Ava já adormecida e sem sinal de . Não que ele tivera muito tempo de procurar, já que na hora que saíra do quarto da filha, seu celular começou a tocar e ele suspirou ao reconhecer o número do local onde havia encomendado o bolo.
Ele aceitou a ligação, se arrependendo logo em seguida, e ficando preso ao aparelho por quase duas horas. Quando enfim encerrou a ligação, Jeremy bloqueou o celular e o colocou com mais força que o necessário no bar que havia no canto da sala, soltando um alto e sonoro palavrão logo em seguida. Ele se sentou em uma das banquetas, passou a mão no rosto e ao abrir os olhos tomou um susto ao ver parada a sua frente, um sorriso mínimo no rosto.
- O que posso lhe servir nessa noite, senhor Renner? – Perguntou ela, que havia escutado algumas partes da discussão do ator com quem quer que estivesse do outro lado da linha, apoiando as mãos na superfície do balcãozinho.
- O que está fazendo aí? – Perguntou ele, franzindo o cenho.
- Ava quis brincar com uns copos de shot, então eu estava guardando os que foram usados. – Explicou ela, suspirando cansada ao se lembrar do dia cansativo que tivera com a menina. – Então? Dia difícil?
- Pode-se dizer que sim.
- Antes de ser a incrível babá que sua filha tanto odeia, eu trabalhava em um café que à noite funcionava como um barzinho e, vez ou outra, eu trabalhava no turno da noite para conseguir um extra, então sou ótima ouvinte. – Ela o olhou, inclinando a cabeça de lado.
- Falou sério quanto a bebida? – Perguntou o ator.
- Sim. – Ela respondeu, já pegando um descanso para copos e colocando na frente dele. – O que vai querer?
- Aquela garrafa de whisky ali. – Ele apontou para uma garrafa no canto, já pela metade. a pegou e o copo logo em seguida, servindo a bebida e entregando ao homem. Jeremy tomou um gole, sentindo o líquido queimar sua garganta enquanto descia. – Perfeito.
- Agora, qual é o problema?
- A festa de Ava amanhã? – Perguntou ele, como se quisesse confirmar que ela estava inteiramente dentro do assunto e de tudo o que ia acontecer.
- Sim, sei. Aliás, o pessoal da decoração ligou. – Ela se lembrou, coçando a testa para lembrar todos os detalhes. – Parece que eles não conseguiram falar com você, enfim, disseram que está tudo confirmado e chegam amanhã por volta das nove.
- Ótimo, temos comida e decoração, mas não temos um bolo. – Reclamou o homem, tomando mais um gole da bebida.
- Como assim não temos bolo?
- Eles me ligaram. Disseram que houve uma confusão com os pedidos e as datas e não conseguiriam finalizar o bolo a tempo para a festa amanhã.
- Mas é a parte favorita da Ava! Ela não para de falar sobre esse bolo. – comentou, as partes da conversa que havia escutado do ator no telefone agora fazendo mais sentido.
- Eu sei! Já tentei ligar para todos os lugares que conheço, mas eles disseram que não conseguem fazer o bolo a tempo. – Jeremy suspirou. – Amanhã cedo vou ter que ir até uma padaria e comprar um bolo qualquer.
- Mas Ava não ficaria feliz. – Observou , colocando mais um pouco da bebida para o ator.
- Não, ela não ficará, mas não tem outra solução.
- Talvez tenha. – disse, chamando a atenção do homem.
- Como?
- Digamos que eu conheço alguém. – A mulher deu de ombros. – Alguém que adora um bom desafio, e tem um ótimo talento com bolos, modéstia à parte.
- Você faz bolos? – Jeremy perguntou, sua expressão um pouco cética.
- Não mais. Mas eu costumava fazer, precisava pagar as contas. Parei de fazer quando consegui o trabalho no café. – Explicou ela. – Mas eu sempre consegui me virar bem.
- E acha que conseguiria fazer o bolo que Ava quer?
- Você me ofende assim, Renner. – A mulher disse, jogando um guardanapo no rosto do homem. – Faça a lista do que ela quer no bolo, e eu vou comprar. Não está muito tarde, então o mercado ainda está aberto.
- Tem certeza? Eu posso conversar com ela e...
- A lista, Renner. – Disse , entregando o papel e a caneta ao homem. Ele escreveu todos os detalhes que a filha queria no bolo, e não eram poucos, depois pegou sua carteira e colocou o cartão de crédito junto com a lista.
- Compre tudo e mais um pouco se quiser, tudo da melhor qualidade, passe no meu cartão independentemente do valor. – Disse ele, enquanto a moça passava os olhos pela lista, sua cabeça já trabalhando em todos os detalhes. – Quer ajuda? – Perguntou ele, vendo que a mulher não parava de olhar para a lista, ignorando-o completamente. – ?
- Sim? – Ela piscou, olhando para ele.
- Perguntei se você quer ajuda.
- Não, está tudo certo. – Disse ela, sorrindo para o ator. Ela contornou o balcão, foi até onde as chaves dos carros ficavam e pegou a do carro que ela costumava usar, depois pegou sua bolsa e abriu a porta. – Até daqui a pouco.
Jeremy viu a mulher saindo e sorriu, se surpreendendo com a caixinha de surpresas que ela era. Cada vez que o ator imaginava que havia descoberto tudo sobre ela, vinha e mostrava que havia mais. Já estava surpreso por ela ter aguentado tanto tempo com Ava, que parecia irredutível quanto a aceitar a mulher em sua vida. Jeremy achou que a situação criada no Oscar teria sido o ápice para , mas ela permaneceu, fazendo seu trabalho da melhor forma que a menor permitia, e se saindo cada vez melhor nele. No dia do Oscar, a mulher conseguira salvar o dia, apesar de sua filha rebelde; e agora lá estava ela novamente, pronta para salvar a festa da menina que sequer a queria por perto.
O ator levantou da banqueta, terminando de beber o resto do whisky que havia colocado para ele, levou o copo até a cozinha e lá deixou, indo até o quarto de Ava para conferir como a filha estava. A menina estava adormecida, mas seu quarto ainda estava bagunçado, mostrando os indícios da brincadeira da menor naquela tarde, havia bonecos dos mais variados tipos espalhados pelo chão: haviam barbies e haviam todos os bonecos dos Vingadores, duas bonecas haviam sido largadas próximas ao Capitão América enquanto os demais Vingadores estavam num canto mais afastados, juntos ao urso de pelúcia gigante. Jeremy sorriu diante a cena, aproximando-se da cama da filha e se sentando com cuidado, acariciando o cabelo dela e depositando um beijo em sua testa.

rodava pelo mercado guiando um carrinho de compras que já estava pela metade. O bolo que Ava havia pedido era ousado e ela estava adorando o desafio. A menina queria um bolo com três camadas, cada uma com uma decoração diferente. Uma de unicórnios, outra de sereias e a terceira era o céu: três entre as diversas coisas favoritas da garota. Em sua cabeça, já havia construído o bolo com perfeição, até havia ficado dez minutos dentro do carro no estacionamento do mercado fazendo o desenho do bolo para não correr o risco de esquecer mais tarde. Ela já havia passado por todos os corredores do mercado, faltava voltar em uma para comprar as formas para assar os bolos, já que se lembrava que não haviam muitas na casa de Jeremy – não da forma que ela queria, pelo menos.
A mulher no caixa não conseguiu esconder a surpresa quando começou a descarregar o carrinho na esteira, o rapaz que ajudava a embalar as coisas compradas também não. A mulher se explicou, alegando que precisava fazer um bolo para o dia seguinte, o que pareceu acalmar os dois. Temendo cometer algum erro, ela havia comprado mais ingredientes que o necessário, para caso surgisse alguma emergência. Pelo menos, se acertasse de primeira, já teria ingredientes para uma próxima oportunidade. Quando tudo já havia passado, abriu a carteira, olhou o cartão que Jeremy havia lhe entregado, mas o ignorou, pegando o próprio e entregando à mulher. Não fora barato, mas ela não se importava, aquele seria seu presente de aniversário para Ava, ainda que a menina não fosse descobrir muito provavelmente.
Quando ela chegou em casa, o relógio acabava de bater onze horas e ela se surpreendeu pelo tempo que levou no mercado. Jeremy provavelmente no quarto com Ava ou no próprio quarto enquanto a mulher ia e voltava com as compras do mercado – o ator provavelmente nem havia ouvido ela chegar, ou não imaginava a quantidade de coisas que ela havia comprado além da lista. organizou todos os ingredientes pela ordem que os usaria, separando tudo por sessões: massa, cobertura e decoração. Antes de começar, ela foi até seu quarto para se trocar e colocar uma roupa mais confortável, ouvindo Jeremy cantando uma música qualquer para uma já adormecida Ava. Ela voltou à cozinha e olhou o relógio, calculando quanto tempo tinha até o horário da festa, que começaria na tarde do dia seguinte.
- Dá tempo. – Disse ela para si mesma.
- Meu deus, você assaltou o mercado? – se assustou ao ouvir a voz de Jeremy atrás dela, virando para o homem logo em seguida, quando ele havia chegado ali que ela não escutara?
- Fui um pouco mais além do necessário, só para caso surja alguma emergência. – Ela explicou, mas o ator não prestava mais atenção, concentrado no papel onde ela havia desenhado o bolo.
- Você quem fez? – Perguntou ele à moça, vendo quando confirmou com um aceno. – Se ficar assim mesmo, e eu tenho quase certeza que ficará, você fará todos os bolos dessa casa.
- Só quero que Ava tenha o aniversário perfeito. – Disse a mulher, não conseguindo esconder o leve rubor em seu rosto.
- No que posso ajudar? – Perguntou Jeremy, fingindo arregaçar as mangas, fazendo a mulher rir.
- Você deveria ir dormir. – Disse , imaginando o dia cheio que o homem teria.
- Parece que você tem muito trabalho e eu nunca durmo cedo, então aproveite e me diga o que fazer. Hoje você é a chefe. – Brincou ele.
- Já que faz questão... Pode começar lavando as mãos e pegando a batedeira, enquanto eu separo os ingredientes para o bolo da base. – Enquanto separava os ingredientes, uma dúvida surgiu. – Ava não vai acordar com todo o barulho?
- Aquela só acorda com uma bomba do lado dela ou se tiver algum pesadelo. – Respondeu Jeremy, secando as mãos e começando a procurar pela caixa onde a batedeira ficava guardada.
- No armário ao lado da geladeira. – Apontou , vendo que o homem estava perdido.
- Ah, claro... – Ele foi até o local indicado, pegando a caixa. – Estou ficando pouco tempo em casa, já estou esquecendo as coisas.
- Outras pessoas diriam que é a idade chegando. – Jeremy olhou para a mulher, fingindo-se chocado com a piada dela, ele aproveitou que havia chegado ao lado de , pegou um pouco da farinha que ela havia acabado de mexer e jogou nela.
- Eu ainda sou seu chefe. – Brincou ele, segurando a risada quando viu a expressão surpresa que a mulher fez ao ter a farinha jogada em seu cabelo.
- Não essa noite, você mesmo disse. – Respondeu ela, pegando um punhado e jogando no ator, que ficou com todo o rosto e parte do cabelo brancos cobertos de farinha. riu, vendo a demora do ator em abrir os olhos.
- Isso terá volta, . – Apontou Jeremy, passando a mão no rosto para tirar a farinha e conseguir abrir os olhos. – Não hoje, porque temos muita coisa para fazer, mas um dia.
- Mal posso esperar. – Provocou , rindo da expressão surpresa do homem. Ele definitivamente não esperava aquela ousadia toda dela.
Até então, o relacionamento deles havia sido normal, apesar das ocasionais brincadeiras, como se fossem colegas de trabalho e apartamento, claro. O mais perto de uma conversa séria que haviam chegado fora quando o abordou sobre os remédios de Ava, com o ator fugindo do assunto por não se sentir muito confortável em falar sobre aquilo. Antes disso, o ápice do momento de intimidade que tiveram fora no evento da toalha, que ambos faziam o favor de fingir que nunca havia acontecido. Eles já haviam brincando um com o outro vez ou outra, entretanto, de forma que a brincadeira da farinha pareceu comum, como se fosse algo constante entre eles. Jeremy gostou daquilo, assim como . E durante toda a noite, vez ou outra eles ainda voltavam a jogar farinha ou achocolatado um no outro.
Jeremy se surpreendeu com a facilidade com que realizava suas tarefas, pedindo que ele a ajudasse ou liberasse algum recipiente que ela fosse precisar em seguida. Parecia que os dois trabalhavam juntos há anos, de tão coordenados que estavam. Em determinado ponto, os dois pararam o que faziam para discutir como encaixariam um bolo de três andares na geladeira, com Jeremy dando a solução mais óbvia: esvaziar a geladeira. Ele ficou com essa função enquanto voltava a trabalhar, mexendo as massas dos bolos e colocando-os para assar. Jeremy organizou a geladeira da melhor forma possível para que o bolo coubesse sem precisar desperdiçar comida.
Enquanto os bolos assavam, preparou os recheios de cada camada, enquanto Jeremy parecia brincar de massinha, fazendo os enfeites – comestíveis – que a mulher espalharia pelo bolo para finalizar a decoração. De acordo com o desenho de , a camada base seria o mar com as sereias, o mar começando de um lado e aos poucos subindo para a terra por toda sua extensão, para que conseguisse fazer a conexão com os unicórnios. O lado bom era que tanto as sereias quanto os unicórnios eram criaturas míticas, o que facilitava a criação do cenário. Pior seria se Ava quisesse colocar o espaço sideral no meio, a babá teria muito mais trabalho. Da segunda camada para a terceira, havia mais facilidade, já que começaria na segunda com o dia e finalizariam com um céu estrelado, havia escolhido acrescentar algumas fadinhas no céu, apenas para acrescentar outra coisa que Ava gostava muito, a criança até mesmo havia feito o pai comprar uma asinha de fada um dia quando saíram para passear. Em teoria, desenhado no papel estava lindo, Jeremy esperava que ficasse maravilhoso na realidade. E pelo empenho de , ele sabia que ficaria. Como se o tema do bolo não estivesse complicado o suficiente, Ava ainda havia pedido que cada camada tivesse um recheio diferente. A primeira seria de chocolate, a segunda de morango e a última de mousse de limão.
- Tá pra nascer alguém mais indeciso. – Comentou em determinado momento, enquanto separava os morangos para o segundo recheio. – Acho que o lugar não confundiu datas, não. Eles não aguentaram o desafio mesmo.
- Você acha? – Perguntou Jeremy, dando uma risada em seguida, concordando com a mulher que Ava não havia facilitado o trabalho de ninguém.
Eles permaneceram em silêncio, Jeremy vez ou outra encontrando dificuldade em fazer algum dos moldes que havia passado para ele, com a mulher interrompendo o que fazia para ajuda-lo, mas tudo em silêncio. Enquanto brincava de massinha, Jeremy alternava seus olhares entre o que fazia para , intrigado com a história dela.
- Eu tenho uma pergunta. – Disse ele, quebrando o silêncio.
- Qual você não está conseguindo fazer? – passou a mão na testa, afastando uma gota de suor. A cozinha estava extremamente abafada pelo forno ligado e porque eles haviam decidido fechar a porta para não correr o risco de acordar Ava.
- Não, não é sobre isso, acho que já peguei o jeito aqui. – O ator mostrou o unicórnio que terminara de fazer. – É sobre você.
- Ah... Até que demorou. – Ela brincou. Pegou a tigela onde mexia o recheio de morango e levou até a ilha da cozinha, onde o homem trabalhava. – Pergunte.
- Por quê?
- Você vai ter que ser mais específico.
- Claro. – Ele riu. – Por que ser babá? Você obviamente tem talento para muito mais. Quero dizer, só pelo desenho que você fez e todo o trabalho que você está tendo com o recheio e eu com essa decoração, você com certeza poderia trabalhar em uma dessas confeitarias. Mas por que ser babá?
- Primeiro, eu fui enganada, não vamos esquecer. Sua empresária me chamou para uma entrevista para ser assistente. – Ela lembrou, fazendo o homem sorrir ao se lembrar da confusão de quando ela chegara em seu primeiro dia. – Mas, não vou negar, pensei em voltar a fazer isso quando a cafeteria fechou e eu fiquei sem dinheiro. Só não fiz porque precisava de algo mais imediato, não tinha lugar para morar e o dinheiro estava acabando. Era a vaga de assistente ou voltar a morar com meus pais. Mas para isso eu teria que abandonar o mestrado. – suspirou, pausando o que fazia para prender melhor o cabelo, lavando a mão em seguida. – De qualquer jeito, acho que eu não daria certo em uma confeitaria, eu gosto de fazer bolos, mas não quero que seja um trabalho, sabe? Quero que seja algo como agora, algo que seja o desejo específico de alguém, era assim antes.
- Você fazia bolos com três temas diferentes?
- Bem, não... Mas tinham uns temas bem loucos e interessantes. – Ela sorriu, lembrando de alguns. – Uma vez tive que fazer um bolo para uma despedida de solteira, as meninas queriam algo estilo Magic Mike, sabe? O filme?
- Sei. – Jeremy concordou, rindo só de imaginar como o bolo saíra.
- Eu deveria ter guardado a foto daquele bolo, ficou maravilhoso. – Ela riu, depois olhou para o ator. – Você já assistiu Magic Mike? Para saber do que estou falando...
- Eu vi o trailer, não assisti ao filme. – O ator confessou.
- Um dia eu faço você assistir. – Disse a mulher, sorrindo com a ideia antes de voltar ao balcão atrás de si para começar a trabalhar no recheio de mousse de limão.
- Só sob tortura. – Jeremy respondeu.
- Não me desafie, Renner. – Ela disse, trazendo os ingredientes para a ilha e puxando um banco para ela sentar.
- Posso fazer outra pergunta? – Perguntou ele.
- Virou o jogo de vinte perguntas agora? – Brincou ela. – Diga.
- Por que ainda não desistiu? De nós dois, eu e Ava. – Ele preferiu especificar para facilitar a comunicação. – Você mesma confessou que não tinha jeito com crianças, e não estava mentindo, pelo menos nas primeiras semanas e com Ava dificultando tanto sua vida...
- Honestamente? Eu gosto dela. – deu de ombros, achando que aquela resposta seria o suficiente. – Acho que entendendo a relutância dela em aceitar uma babá. E você precisa da ajuda, e eu preciso do quarto e do dinheiro. Não é fácil, mas as coisas se encaixam.
- Então é só pelo quarto e pelo dinheiro? – Ele perguntou, tentando soar brincalhão, mas percebeu que no fundo havia seriedade. Ela largou o limão que começara a raspar as cascas e olhou o ator, vendo que ele fez praticamente a mesma coisa, porém largando o outro unicórnio.
- No começo, sim. Como eu disse antes, eu estava desesperada, então mesmo que não fosse um cargo de verdade para ser assistente, ainda era um trabalho que me oferecia o que eu precisava. – Ela deu de ombros. – Mas hoje não é mais. Eu gosto da Ava, gosto até de você. – Brincou , fazendo o homem revirar os olhos. – E no fundo eu sinto, como você já quis implicar algumas vezes, que ela também gosta de mim, ela só não está preparada para assumir ainda.
- Eu queria entender porque ela é tão difícil com as babás. – Jeremy suspirou, retomando o trabalho que fazia antes.
- É meio óbvio, na verdade. – disse, voltando a raspar a casca do limão. – Ela acha que nós estamos aqui para substituir a mãe dela. Ela pode ser pequena, Jeremy, mas ela consegue entender algumas coisas.
Depois disso eles voltaram a ficar em silêncio, Jeremy pensando no que a mulher havia falado, relembrando as babás anteriores e a forma de agir de cada uma, comparando-as com e percebendo que a última era a que mais havia sucedido não por estar ainda no cargo, mas por não agir como se quisesse ser a mãe de Ava, mas como uma amiga, alguém que cuida da menina quando é necessário. Jeremy lembrava-se de muitas vezes se afastando quando ele chegava em casa, deixando pai e filha juntos, sem interferir. Lembrava-se das vezes em que Ava havia respondido a babá e a forma de agir de não fora como uma mãe ou madrasta, não mandara Ava para o castigo ou ameaçara punir a menina de alguma forma. Não, sentava e conversava ou apenas deixava Ava ser, deixando a menina agir do jeito que quisesse e fingindo não ver nada. Jeremy sorriu ao se lembrar das inúmeras vezes em que Ava lhe contara o que havia feito durante o dia, inclusive os momentos rebeldes e simplesmente dava de ombros e dizia que a função de educar e punir a menina era dele, não dela. E ela o fazia na frente de Ava, para que a menor soubesse que ao final do dia sempre seria seu pai a lhe dar as broncas e os castigos necessários. Todas as anteriores puniam Ava, algumas haviam até tentado instalar o famoso “cantinho do silêncio”, como se fizesse algum efeito. Ava conseguia manipular cada babá que passara por ela, menos . Talvez por isso que a menina havia começado a diminuir seus atos rebeldes com a babá, deixando-a fazer seu trabalho com mais facilidade.
Ele observou enquanto a mulher fazia seu trabalho, extremamente concentrada, parecendo as vezes em que ambos estavam no escritório e ela fazia algo referente à faculdade. não demonstrava qualquer sinal de cansaço, enquanto ele já sentia suas costas protestarem por tanto tempo na mesma posição. Levantou-se do banco e deu uma volta pela cozinha, chamando a atenção da mulher, que desviou sua atenção do que fazia minimamente para observar o homem, que fingia procurar algo para comer.
- Jeremy, você pode ir dormir se quiser. – Disse ela. – Como eu disse antes, você terá um dia cheio.
- Mas ainda falta muita coisa. – Observou o homem, olhando a lista que havia feito do que precisavam fazer.
- Pelo menos você já adiantou os unicórnios, o resto é mais fácil. – Disse ela, finalmente largando o pote com o mousse de limão e indo até o ator. – Vamos, eu sou a chefe e digo que está na hora de você ir dormir. – Ela contornou o ator, colocou as mãos em suas costas e começou a empurrá-lo para fora da cozinha. – Vá ter pelo menos quatro horas de sono, não esqueça que às nove o pessoal da decoração chega. E você terá que acompanha-los enquanto eu levo a Ava no salão para ela pintar as unhas dela.
- Não! – Jeremy parou e virou de frente para a mulher, fazendo-a se assustar, ambos percebendo como estavam próximos, mas sem se afastarem. – Eu não marquei o salão dela.
- Meu deus, Renner! – suspirou. – Como ela vai pintar as unhas e arrumar o cabelo?
- Alguma chance de você ter sido cabeleireira ou manicure no passado?
- Não, mas eu sou mulher e já li muitos tutoriais, e eu faço minhas próprias unhas. E eu consegui me virar bem com o cabelo dela no dia do Oscar. – Ela observou. Jeremy inclinou a cabeça e fez cara de pidão, fazendo a mulher revirar os olhos. – Eu faço, mas você vai dormir agora, sem discussão.
- Eu vou te dar um aumento na segunda. – Jeremy disse, num impulso puxando a mulher para um abraço.
- Dormir, Renner! – Disse ela, dando alguns tapinhas nas costas do homem só para não parecer tão indiferente, quando sentia exatamente o contrário. O impulso do ator lhe pegara tão desprevenida que ela sequer conseguira se preparar e quando viu já inspirava o perfume dele, sentindo-se levemente embriagada pelo aroma. Os músculos do homem também não passaram despercebidos pela babá.
- Certo, até daqui a pouco então. – Jeremy disse, soltando a mulher, após perceber que já a abraçava por mais tempo do que o considerado aceitável para a situação. – Tente descansar um pouco também.
- Pode deixar.
Claro que ela não obedeceu. viu o dia amanhecer naquela cozinha, recheando os bolos e colocando-os para gelar; seguiu fazendo as sereias, as rochas do fundo do mar e a lua. Quando viu, os pássaros já cantavam e o dia já estava claro. Ela olhou o relógio e suspirou, vendo os dois ponteiros chegando ao número seis. Suas costas e seu pescoço doíam, mas ela não podia parar naquele momento. Ainda tinha que pintar os enfeites e fazer os detalhes de cada um, como olhos e as escamas das sereias; as caudas dos unicórnios, seus olhos e seus chifres; os detalhes das pedras... Ela não sairia daquela cozinha tão cedo, sabia disso. O bolo ficaria pronto em cima da hora para os parabéns, e ela não dormiria enquanto aquele momento não chegasse.
Eram sete horas quando Jeremy voltou a se juntar a ela, se espantando ao ver a primeira sereia pronta com uma riqueza de detalhes de dar inveja em qualquer desenhista que trabalhava na Disney. Ele aproveitou enquanto a mulher trabalhava, e que deixaria Ava dormir até mais tarde, para ajudar limpando o que estava sujo na cozinha e preparando o café da manhã para todos. O ator aproveitou os ingredientes que a mulher havia comprado em excesso e resolveu fazer panquecas, um dos pratos favoritos da filha em relação a café da manhã, e a ideia se reforçou ainda mais quando disse que havia sobrado recheio dos bolos e eles poderiam usar para as panquecas.
- Se quiser eu posso pegar o secador de cabelos. – Comentou Jeremy em determinado momento, apontando para os enfeites.
- Não, eles devem secar naturalmente, fica melhor. – Disse a mulher, mas gostou da sugestão do homem e se levantou para abrir uma das janelas da cozinha, colocando a bandeja onde os enfeites estavam próxima a ela, certificando-se de que ela estava bem segura.
- Vou manter Ava longe da cozinha, tudo bem? Para que ela tenha uma surpresa.
- É o melhor mesmo. E eu sei que você não terá trabalho algum em mantê-la longe daqui, só dar um de seus presentes a ela, aquela mini casinha, e ela ficará entretida até a hora da festa.
- Como você sabe o que eu comprei para ela?
- Eu que recebi, Jeremy, esqueceu? Não foi fácil esconder aquela caixa, aliás. – Acrescentou a mulher.
- Ah, verdade... Preciso dela, falando nisso, ainda preciso embrulhar.
- Já está embrulhada. – Disse a mulher, dando de ombros devido ao olhar surpreso dele. – Eu achei papel de presente e precisava fazer alguma coisa.
- Bem, muito obrigado. – Jeremy disse, virando a última panqueca, colocando-a sobre a pilha logo que ela ficou pronta. – Espero que pelo menos agora eu posso te dar uma ordem e falar para você parar um pouco para vir comer com a gente.
- Eu ainda preciso terminar aqui. – Ela apontou para o unicórnio que decorava e os outros três que faltavam.
- Não está aberto a discussão, vou arrumar a mesa e quando eu terminar, você irá para a mesa enquanto eu vou acordar a Ava.
- Não posso nem tentar discutir um pouco? – Perguntou .
- Não.
- Posso pelo menos terminar esse? Se eu parar no meio e voltar depois, não vai ficar bom. – Ela explicou.
- Só esse. – Disse Jeremy, mantendo o olhar travado na mulher para deixar bem claro que falava sério.
- Tudo bem. – se deu por vencida, focando em seu trabalho enquanto Jeremy ia e vinha levando as coisas para o café da manhã. Quando terminou, ele voltou para a cozinha e ficou esperando ela terminar o unicórnio, o que felizmente não demorou muito. – Vá acordar Ava enquanto arrumo aqui, vai que ela entra por acidente, pelo menos cobrir esses enfeites todos.
- Quando eu voltar...
- Estarei na mesa, sim. – Disse ela, fazendo um sinal para que ele fosse logo, enquanto ela pegava diversos panos de prato e começava a esconder os enfeites e outras coisas que poderiam entregar o que eles estavam fazendo na cozinha.
Quando Ava e Jeremy chegaram na sala de jantar, terminava de espetar quatro velinhas no topo da pilha de panquecas. A menor abriu um largo sorriso ao ver qual seria o cardápio, batendo palmas de felicidade enquanto o pai a pegava no colo e acendia as velas para que eles pudessem cantar um breve “Parabéns para você” e ela assoprasse. Jeremy olhou para a e fez um movimento com a cabeça, agradecendo-a pela ideia de última hora.
- E quantos anos você está fazendo, Ava? – Jeremy perguntou após a menina assoprar as velinhas.
- Quatro! – Disse ela, levantando os quatro dedos da mão.
- Isso mesmo. – Jeremy deu um beijo na testa da filha.
- Quando é minha festa? – A menina perguntou, ficando em pé em cima de uma das cadeiras.
- Mais tarde, querida. – Jeremy respondeu, espetando uma panqueca e colocando no prato da filha, cortando alguns pedaços para ela conseguir comer com facilidade. – Quer qual cobertura?
- Esse é morango? – Perguntou ela, apontando para um dos potinhos do recheio de bolo.
- Sim, você quer esse? – Perguntou Jeremy, vendo a filha assentir. passou o pote a ele.
- Eu vou pintar minhas unhas?
- Vai, a vai pintar suas unhas.
- Por quê? – Perguntou a menina, não soando mal-educada, como era o costume logo que a mulher havia começado a ser sua babá.
- Porque o papai não vai poder te levar, então pedi para fazer isso, tudo bem?
- Você tem esmalte com brilho? – Perguntou Ava para a mulher.
- Tenho. – Disse , servindo-se de panqueca também.
- Então tá bom. – Disse Ava, começando a comer os pedaços que seu pai havia cortado.
Após o café da manhã, dera a deixa para Jeremy entregar o presente da filha, dando a entender que o mesmo se encontrava no escritório. O ator foi pegar enquanto a babá atendia a um dos pedidos de Ava de comer um pouco do mousse de limão, recebendo um comentário positivo pelo mesmo – a babá suspirou aliviada por, até o momento, ter acertado pelo menos nos recheios do bolo. A atenção da criança mudou logo que o pai surgiu na sala, carregando a caixa com a casinha de bonecas que havia comprado, algo que a filha já falava há muito tempo que queria. E não deu outra, assim que rasgou o embrulho e viu do que se tratava, Ava deu um grito e vários pulos de felicidade, abraçando as pernas do pai e depois lhe dando vários beijos no rosto quando ele se agachou para ficar na altura dela. observava tudo com um largo sorriso no rosto. Adorava aniversários.
Com Ava distraída com a nova casinha, que agora estava bem instalada em seu quarto, e Jeremy voltaram para a cozinha, a mulher para terminar os enfeites e o ator para limpar a sujeira do café da manhã, logo depois saindo para ver se Ava estava bem e depois receber o pessoal da decoração. terminou todos os enfeites quase na hora do almoço, deixando-os para secar próximos à janela. Por muita insistência de Jeremy, ela se juntou ao ator e à filha para almoçar, e logo depois começou os preparativos para a festa, dando banho na criança, fazendo sua unha e o cabelo logo depois. Esperando até a hora da festa começar para vesti-la com o vestido azul com várias estrelinhas brancas – dado pela mãe de Ava.
Eram três horas da tarde quando Ava ficou pronta e os pessoal do buffet de comidas chegou, com tendo que mostrar a eles onde ficariam, já que Jeremy terminava de se arrumar. Enquanto ela voltava do jardim para a cozinha, os dois se encontraram no corredor, com não conseguindo esconder a admiração ao ver o homem bem vestido para a ocasião. Não era nada muito diferente do que ela já havia visto. Jeremy havia vestido uma calça jeans de lavagem escura, acompanhando uma camisa polo azul marinho, que só parecia realçar ainda mais os olhos azuis, as mangas ficando um pouco apertadas nos braços fortes do homem. balançou a cabeça, percebendo que já estava encarando-o há mais tempo que o saudável.
- O pessoal do buffet chegou. – Disse a mulher, apontando para a porta do jardim atrás da casa. – E Ava está no quarto dela, já pronta.
- Obrigado. – Jeremy disse, sorrindo para a mulher. – Você vai se arrumar que horas?
- Está brincando, não é? – Ela riu, passando a mão no cabelo que com certeza estava um desastre, provavelmente ainda sujo da farinha que o homem havia jogado nela no começo da noite. – Acho que hoje eu só fico nos bastidores.
- Ainda dá tempo de você se juntar a nós, por favor. – Pediu Jeremy.
- Eu vou ver. Ainda preciso decorar o bolo, e tomar um banho, alguém jogou farinha em mim e não foi pouca. – Ela lembrou, ia acrescentar algo mais, mas a campainha tocou bem na hora. – E você tem convidados. Se quiser fugir da bagunça em algum momento, sabe onde me encontrar. – sorriu e foi para a cozinha, sentindo o homem acompanha-la, mas indo para a porta de entrada para receber os convidados, gritando por Ava no meio do caminho.
fechou a porta da cozinha atrás de si e respirou fundo, o que diabos tinha sido aquilo no corredor? Admirando Jeremy dos pés à cabeça, percebendo como os olhos dele estavam destacados, assim como seus braços. E o pedido dele para que ela se juntasse a eles, como se ela fosse uma parte essencial naquela festa. A mulher respirou fundo, notando que suas mãos tremiam levemente. Ela balançou a cabeça, tinha um bolo para terminar. Aquilo tudo deveria ser efeito da falta de sono. Ela precisava dormir, descansar. Sim, aquele era seu problema. Respirou fundo mais uma vez e então se desencostou da porta, ouvindo ao longe os gritos animados de Ava. Foi até a geladeira e tirou a primeira camada do bolo, começando os trabalhos finais.

Jeremy se sentia cansado, os gritos infantis vinham de todos os lados, não tinha como fugir, e o som dos adultos conversando parecia estar cravado em sua mente já. Ele olhou ao redor, sorrindo ao ver sua filha se divertindo, o vestido já com pedaços de grama grudados, o cabelo levemente descabelado. Mas o que importava era o sorriso em seu rosto, e as vezes em que ela vinha lhe dar um abraço apertado. Aquilo era recompensa o suficiente, pena que não agia como remédio para afastar a dor de cabeça. Já estava ali há quase três horas, considerou que merecia um descanso. Então pediu licença ao grupo de pais com quem conversava e entrou em casa, indo até a cozinha. Abriu a porta com cuidado e parou onde estava, observando concentrada, pintando os detalhes na camada final do bolo, o ator ficou de boca aberta. Sendo bem honesto, ele havia desconfiado do sucesso de quando vira o desenho que ela fizera no papel, mas a realidade estava ali para puxar seu tapete e derrubá-lo com estrondo no chão. O bolo estava melhor que o imaginado, nem mesmo Ava conseguiria encontrar algum defeito naquela obra de arte.
O ator prestou atenção na mulher, se divertindo por vê-la com a língua entre os dentes, a pontinha um pouco para fora dos lábios, a testa franzida e os olhos completamente focados no bolo a sua frente, que deveria ser uma tela de pintura em sua mente. A mão com os movimentos precisos do pequeno pincel que ela usava para fazer os efeitos da noite. Ela havia feito todas as transições do dia para a noite, começando no fundo do mar até a noite estrelada. Os unicórnios espalhados ao redor do bolo, assim como as quatro sereias – uma para cada ano de vida de Ava. A mulher até mesmo havia feito algumas árvores, além das fadas que ela já havia comentado que faria antes, como se saíssem do lago onde as sereias viviam e entrassem em um bosque, o lar dos unicórnios.
- Se você vai entrar, entre logo e feche a porta. – Disse ela, assustando o homem, que achava que ela sequer havia percebido sua presença.
- Não queria te assustar. – Disse Jeremy, entrando na cozinha e fechando a porta atrás de si. – , isso está maravilhoso.
- Eu sei. – Disse ela, sorrindo orgulhosa. – Vou até mesmo ignorar o tom de surpresa em sua voz. – A mulher sorriu, girando o bolo com cuidado no apoio, admirando cada detalhe, e deixando que o ator fizesse o mesmo. Então olhou para Jeremy, mordendo o lábio inferior; ele franziu o cenho, estranhando o receio no rosto da mulher. – Acha que Ava vai gostar?
- Está brincando? – O ator riu. – Se ela não gostar, eu a levo no médico amanhã e peço para examinarem a cabeça dela. – A mulher sorriu, parecendo mais aliviada, mas não completamente. – Acho que nunca fiquei tão feliz por um pedido ter dado errado. Você definitivamente elevou as expectativas. Estou com dó até de imaginar a hora dos parabéns, quando tiver que cortar.
- Sem frescura, é para comer! – Disse a mulher, voltando a olhar para o bolo para ver se faltava mais algum detalhe.
- Como conseguiu fazer isso tudo tão rápido? – Perguntou Jeremy, já havia assistido programas de culinária o suficiente para saber que aquilo não costumava ser rápido.
- Prática. – A mulher deu de ombros, retocando uns pequenos detalhes do céu estrelado. – É só saber a técnica certa e confiança.
- Você não pareceu confiantes instantes atrás.
- É diferente. – Ela riu. Se levantou e abriu a geladeira, pegando o bolo e levando-o com cuidado para deixa-lo gelando até a hora de cantar os parabéns. – O que faz aqui?
- Estava muito barulho lá fora, precisava de um lugar calmo. – Jeremy deu de ombros. – Agora é a hora que você vai tomar banho e se juntar a nós?
- Você não vai desistir, não é mesmo? – Ela sorriu.
- Não, você tem tanto direito quanto qualquer outro de aproveitar essa festa, principalmente depois desse bolo. – Ele apontou para a geladeira.
- Jeremy, obrigada pelo convite e pela insistência, de verdade, mas o máximo que eu vou fazer agora é arrumar isso aqui, tomar um banho e esperar até a hora de levar esse bolo para cantarem parabéns. – Disse ela, apoiando-se no balcão e olhando o ator na frente dela. – Se sua cabeça está doendo pelo barulho, imagine como a minha vai ficar. Ela já não está muito boa pela falta de sono, com barulho, ela vai explodir.
- Bem, pelo menos você se juntará a nós para os parabéns, é o que importa. – Disse Jeremy, sorrindo para a mulher, que agradeceu por estar apoiada no balcão. – Não deve demorar. Quando você terminar de se arrumar, nós levamos o bolo.
- Tudo bem. – Ela sorriu, concordando. – Acho que você deveria voltar para seus convidados.
- Bem lembrado. – esperou o homem sair da cozinha para suspirar e se virar para a pia, começando a juntar as coisas para lavar, o sorriso final que ele dera para ela voltando à sua mente.
- Por que tinha que ser tão lindo e gostoso? – Perguntou-se, logo depois balançando a cabeça. – Ele é seu chefe, , pode parando. – Ela ouviu uma tosse forçada atrás de si, levantando a cabeça e fechando os olhos com força, implorando em sua mente a qualquer divindade para que não fosse Jeremy. Ela se virou e abriu os olhos, obviamente encontrando o homem parado na porta com as mãos nos bolsos da calça e um sorriso divertido no rosto, falhando completamente na tentativa de fingir que não havia escutado o que a mulher havia acabado de falar.
- Eu só queria saber se você está com fome e se quer que eu traga algo. – Ele disse, após os dois ficarem um tempo se encarando, a mulher implorando para que pelo menos um buraco se abrisse abaixo dela.
- Não, eu comi um pouco das panquecas que sobraram. – Disse ela, encontrando muita dificuldade para manter o olhar fixo no homem. – Mas obrigada.
- Claro. – Ele respondeu, pigarreando e passando a mão no cabelo antes de, finalmente, dar as costas e sair definitivamente da cozinha. buscou apoio no banco que ocupava antes, sentando-se nele e enterrando a cabeça nas mãos, rindo de nervoso pela situação.
- Idiota. – Sussurrou para si mesma, ficando mais um tempo se xingando antes de levantar e começar a arrumar a cozinha. Quanto mais cedo aquilo terminasse, mais cedo ela iria dormir e aquele dia ficaria no passado.
Jeremy saiu da cozinha e encostou-se na porta fechada atrás de si, uma parte de si sorria pela cena que havia testemunhado, a ação da mulher, a outra pelo embaraço dela, apesar de saber que não era muito correto se divertir com uma situação como aquela, se fosse o oposto, ele estaria se odiando. Inicialmente ele considerou que ela falava de algo que havia feito em relação ao bolo, mas quando ela acrescentou a parte do chefe, ele logo compreendeu. Seu lado mais sensato o aconselhou a fechar a porta e retornar fingindo que nada havia acontecido, mas o lado mais insensato falara mais alto e ele queria ver como a mulher reagia ao saber que ele havia escutado o que havia falado. Encostado ali, ele ainda conseguiu ouvir ela se xingando, sorrindo divertido, antes de sair dali e voltar para a festa.
A escapada da festa havia funcionado mais do que ele esperava, já que ele voltara mais disposto, acompanhando as conversas e opinando vez ou outra. Pouco mais de uma hora depois, surgiu na porta que dava para o jardim, indo até onde as bebidas eram servidas e pedindo algo para ela, Jeremy a acompanhou com o olhar, vendo que ela não havia se esforçado muito, preferindo o confortável e prático ao colocar um vestido e uma sandália rasteira, o cabelo molhado solto secando com o vento que soprava. Ele viu ela se apoiando no barzinho e ficando lá, um pouco distante da festa, afinal não conhecia ninguém além dele e Ava.
- Resolveu socializar? – Perguntou o ator, se juntando a ela um tempo depois.
- Socializar envolve eu conversar com as pessoas, nem com o carinha das bebidas eu fiz amizade já que ele teve que sair para servir os refrigerantes.
- Papai! Papai! – Ava veio correndo até eles, interrompendo o comentário que Jeremy iria fazer.
- O que foi, princesa? – Perguntou Jeremy, abaixando-se para ficar na mesma altura da criança.
- Quero bolo. – Disse Ava, sorrindo para o pai.
- Bem, que tal a te arrumar primeiro? Já que seu penteado desfez todo e seu vestido está cheio de grama. Aí ela te arruma para você sair bem bonita nas fotos junto com seu bolo.
- Tudo bem. – Disse Ava, não parecendo muito feliz, mas segurando a mão da babá quando a mulher a estendeu.
- Arruma o cabelo dela, enquanto eu trago o bolo, depois eu arrumo o vestido, para entrar com ela. – Disse o ator a , que assentiu.
Os dois entraram juntos na casa, cada um seguindo para um lado. Ava sentou-se na cadeira e deixou mexer em seu cabelo, conversando vez ou outra com a babá, contando sobre os amiguinhos que vieram. Jeremy entrou na cozinha, surpreendendo-se por vê-la completamente impecável, como se nada tivesse acontecido. Ele abriu a porta da geladeira e coçou a cabeça, imaginando como tiraria aquele bolo de lá e o levaria até o jardim sem derruba-lo – arrancaria sua cabeça se algo acontecesse com aquela obra de arte, e ele nem tentaria se defender. As pessoas soltaram exclamações surpresas quando viram o bolo, pais e mães segurando seus filhos para que eles não saíssem correndo e causassem algum acidente. Jeremy agradeceu alguns elogios enquanto voltava para dentro de casa para ver se Ava estava pronta, encontrou-a conversando com sobre como imaginava que seu bolo seria, já estava completamente arrumada e limpa.
- Pronta? – Perguntou Jeremy, vendo a menina pular e correr em sua direção, pulando em seu colo. – Então vamos lá.
Os três saíram da casa, saindo na frente e se colocando em um canto que conseguisse ver a reação de Ava quando visse o bolo. As demais luzes do jardim haviam sido acesas e o bolo parecia ainda mais magnífico, de onde estava a mulher conseguia ouvir as pessoas comentando sobre o trabalho que ela havia feito, apesar de não saberem que ela era a dona da “obra”. Jeremy saiu da casa cobrindo os olhos de Ava, para não estragar a surpresa do bolo, as pessoas aguardaram o ator se posicionar, os fotógrafos contratados prontos para tirarem uma foto do momento da revelação. tirou seu celular do bolso e colocou na câmera, aproximando com o zoom para tirar foto do momento.
- Um... Dois... Três... – Contou Jeremy, tirando a mão dos olhos de Ava quando chegou o três, a menina olhou ao redor e então para baixo, sua boca se abrindo e os olhos se arregalando quando viu o bolo. O ator se abaixou um pouco para que a filha visse todos os detalhes, ele mesmo se surpreendendo por ver a arte de mais perto, enquanto Ava ia apontando cada parte do bolo, ele buscou com o olhar, sorrindo para a mulher, que parecia enxugar uma lágrima que havia escapado de seus olhos. – Gostou?
- Sim! É lindo! – Ava disse, rindo de alegria. As velinhas já estavam posicionadas, alguém do buffet se aproximou e acendeu as mesmas, com todos começando a cantar juntos os parabéns.
Na hora de cortar o bolo, Ava começou a chorar, não querendo “machucar” o bolo e os bichinhos, fazendo todos rirem. Jeremy colocou a filha no chão e conversou com ela, dizendo que estava tudo bem, que ninguém ia se machucar. De onde estava, percebeu o desespero dos dois, principalmente de Jeremy que não sabia o que fazer com o desespero da filha, então resolveu se aproximar.
- Mas tá bonito, vai estragar. – A menina chorou, passando a mão no olho.
- Mas você não quer comer? Tem tudo o que você escolheu. – Jeremy tentava não rir da situação da filha. Para seu alívio, chegou para ajudá-lo.
- O que aconteceu? – Perguntou a mulher, ajoelhando-se na grama perto deles.
- Ela não quer cortar o bolo porque não quer estragar. – Explicou Jeremy, mordendo o lábio inferior para não rir. sorriu, passando a mão no rosto de Ava, que se aproximou da mulher.
- Tá bonito, vai machucar os bichinhos. – Explicou a menina, sequer considerando ser mal-educada naquele momento.
- E se eu prometer que os bichinhos não vão se machucar? – Perguntou a mulher. – Dá para tirar eles do bolo, e aí a gente guarda, o que acha?
- Você promete? – Perguntou Ava, parecendo muito séria.
- Sim, prometo. – garantiu. – Eu te mostro, vem. – A mulher chamou a menina para seu colo, erguendo-a quando Ava se aproximou. Ela caminhou até o bolo e tirou com cuidado um unicórnio que havia atrás, na parte que elas viam. – Viu? Ele está bem.
- Todos também? – Ava perguntou.
- Todos eles, a gente tira depois, pode ser? – Perguntou . – Agora a gente tira alguns, mas deixa os outros vivendo no bolo um pouco mais, tá bom?
- Mas o resto do bolo vai estragar também. – Reclamou a menina, lágrimas voltando a brotar em seus olhos. Jeremy puxou a filha para o próprio colo, tentando acalmá-la.
- A gente faz assim – começou a dizer , passando a mão no cabelo da menina – depois eu faço um bolo igual a esse, tudo bem?
- Igual?
- Igualzinho. – Garantiu .
- Mas você sabe? – Ava perguntou, inclinando a cabeça.
- Foi a que fez esse, amor. – Disse Jeremy, fazendo a menina olhar para o pai e depois para a babá, que sorria envergonhada, principalmente pelo ator ter falado um pouco alto e algumas pessoas terem ouvido.
- Você fez o bolo pra mim? – Perguntou a menina, olhando para a babá com os olhos arregalados.
- Claro que sim, é seu aniversário. – Disse , surpreendendo-se quando a menina se jogou dos braços do pai para os seus, desequilibrando-se um pouco.
- Obrigada! – Disse Ava, surpreendendo o pai e a babá quando estalou um beijo no rosto da mulher.
- De nada, querida. – Respondeu , sorrindo. – Agora podemos cortar o bolo?
- Pode. – Disse ela, recusando quando o pai tentou trazê-la de volta para seu colo, prendendo-se com força nos braços da babá.
- Acho que você finalmente foi aceita. – Sussurrou Jeremy quando passou ao lado da mulher para pegar o cortador do bolo para ajudar a filha.
- Não esquece de fazer um pedido. – Disse , após sorrir para o homem, voltando a prestar atenção em Ava.

Quando os últimos convidados foram embora, Jeremy suspirou aliviado fechando e trancando a porta atrás de si. Ava estava deitada no sofá, adormecida no colo de , que tinha os pés apoiados na mesinha de centro e acariciava o cabelo da criança. Passava A Pequena Sereia na televisão, filme que Ava havia pedido para colocar, mesmo com o pai insistindo que ela não passaria nem da primeira música – dito e feito. O pessoal do buffet havia partido meia hora antes, e Jeremy já havia decidido que só lidaria com a bagunça feita no jardim no dia seguinte. Ele entrou na sala e contornou o sofá, sentando-se aos pés da filha, observando com o braço apoiado no encosto e a cabeça nas mãos, os olhos quase se fechando.
- Você deveria ir dormir. – Disse o homem.
- Uhum. – Resmungou a mulher, os olhos presos na televisão, sem ver ou ouvir nada do que passava, sua mão no modo automático fazendo carinho na cabeça de Ava.
- ? – Chamou Jeremy, percebendo que a mulher não havia entendido, ela piscou e olhou para ele.
- O que foi? – Perguntou.
- Vai dormir. – Disse novamente, sorrindo com a cara de confusa da mulher.
- Tenho que levar a Ava para a cama. – Falou a mulher, olhando para a menina.
- Eu levo. – Jeremy a tranquilizou.
- Não, ela já está...
- , não me faça ter que te levar também, por favor. – O homem brincou, sorrindo ainda mais quando viu a mulher corando. – Eu voltei a ser o chefe, vá dormir e eu levo a Ava.
- Já que insiste. – A mulher disse. Com cuidado ela tirou a cabeça de Ava de sua perna e a deitou em uma almofada que havia ao seu lado, a menina nem se mexeu. levantou e se espreguiçou, sentindo seus ossos estalarem, Jeremy também se levantou, aproximando-se da mulher, chamando sua atenção.
- Obrigado por hoje. – Disse ele, a mão no ombro de . Ela sorriu, vendo a gratidão e algo mais que o sono não lhe deixou reconhecer nos olhos do homem. – Foi além do esperado, parabéns.
- Não foi nada, de verdade. – A mulher o tranquilizou. – Foi um prazer fazê-la tão feliz.
- Eu também sei que você não pagou com o meu cartão. – O homem observou, vendo a mulher morder o lábio inferior, provavelmente tinha esperanças de não ser descoberta. – Eu te pago depois. – Disse ele, soltando o ombro dela para pegar Ava.
- Não. – Protestou ela, segurando o braço do ator. – Por favor, não. Foi meu presente de aniversário para ela. – completou, sabendo que assim teria mais sucesso em convencê-lo. Jeremy a olhou, suspirando ao perceber que não adiantaria discutir. – Como eu disse, foi um prazer vê-la feliz, é toda a recompensa que eu preciso.
O ator aquiesceu, sorrindo para a mulher quando ela lhe deu boa noite e saiu da sala. Jeremy voltou a se sentar no sofá e olhou a filha profundamente adormecida, sorrindo ao se lembrar do momento em que ela viu o bolo, o brilho que surgiu em seus olhos, mas, mais que isso, a forma como ela havia reagido quando descobriu que fora a dona daquela obra toda. Ao dizer para a babá que parecia que ela finalmente havia sido aceita, ele não percebeu na hora, mas sentia agora, que até ele estava aliviado por aquela aprovação da filha.
- Boa garota. – Sussurrou ele, depositando um beijo na testa da filha antes de ergue-la e leva-la para seu quarto.

Continua...



Nota da autora: Nem to acreditando que finalmente chegamos nesse capítulo que é simplesmente o meu FAVORITO! E, vamos combinar, tem que ser o de vocês também! Olha a quantidade de coisa maravilhosa: episódio da toalha, presa no closet,E ESSE ANIVERSÁRIO! MEU DEUS O QUE É ESSE ANIVERSÁRIO? E, claro, o misteriozinho maroto e bacana sobre a Ava e os tais remédio, que será que vai rolar ai? Hein? Hein?
Se você ficou um pouco perdida/o com a parte da Helô-namorada-do-Stan, eu recomendo que vocês leiam a fanfic Six Years [Sebastian Stan/Em Andamento] que é maravilhosinha e dá pra entender de onde a Helô surgiu - pequeno crossover com a fic da Nanda <3

ATENÇÃO, POR FAVOR, LER TUDO ATÉ O FINAL!


Então, bonitas, quem está acompanhando minhas duas fanfics (BPA e Cap's Psychologist) já deve ter percebido que eu intercalo as atualizações dela, uma semana de cada. Poréééém, contudo, todavia, entretanto... Eu tive que dar uma adiantada nas atts essa semana porque eu tenho um aviso para dar, e o aviso é que: estou dando um tempo.
CALMA! Não estou abandonando a fanfic e nem pretendo retirá-la do site. Porém, algumas coisas aconteceram nesse último mês e meio que me tiraram do eixo e estou reorganizando toda minha vida novamente - literalmente. Não está sendo tão fácil como eu imaginei enxergar essa realidade, principalmente depois de começar a contar para as pessoas mais próximas o que está rolando. E eu peço, por favor, a compreensão de vocês nesse período, que eu não pretendo que seja longo. Só preciso de uns dias, umas semanas para me reorganizar na vida, aproveitar e adiantar mais alguns capítulos de CP e BPA, e então voltar 100% para vocês.
Como eu disse, não pretendo que seja um longo período, e acredito que até julho (ou em julho, não pretendo passar de julho) eu esteja de volta, assim como nosso querido Cap, a psicóloga, o Jeremy, a Ava e nossa querida babá.
Por favor, não me abandonem e não desistam de mim! Juro que volto! ;)

Não esqueçam de deixar aquele comentário maroto ai embaixo ;)

Beijos e até a próxima :)

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Outras fanfics
- 13. Take it Back [Ficstape Ed Sheeran]
- Bullying [McFly/Finalizadas]
- Cap's Psychologist [Capitão América/Em Andamento]
- Hello, Brooklyn [All Time Low/Em Andamento]
- I'll Never Say Goodbye [McFly/Shortfic]
- Norfolk [Especial All Around the World]




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