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Última atualização: 28/07/2017

Prólogo


A chuva de capelos começou logo que o orador escolhido pela turma soltou um grito de comemoração por finalmente terem chegado àquele momento. Sob os inúmeros capelos pretos, uma garota olhava para o céu completamente azul apreciando o momento tão esperado, ignorando o fato de ter se tornado uma piscina de suor sob aquela beca preta desconfortável. Ela recebeu os abraços de alguns colegas próximos, recebendo e dando os parabéns pela tão merecida formatura e para os planos do futuro, independentemente de quais fossem eles. Ela nunca fizera grandes amizades na faculdade, até tentara, mas no final a vida se dividiu entre estudos e o trabalho para se sustentar na grande cidade, e as amizades ficaram para os raros momentos de trabalhos em grupo.
Após recolher um capelo que ela julgou ser o seu, fez o caminho pela fileira de cadeiras até chegar ao final, ainda sorrindo e trocando congratulações com quem passasse por ela. Seus olhos estavam mais ocupados em procurar as três pessoas que havia convidado e de quem com certeza os parabéns interessariam mais. Não demorou para encontra-los sob uma árvore, aproveitando a sombra fresca que os protegia do sol do meio de tarde. De quem fora a ideia de fazer a entrega do diploma tão perto do meio-dia?
- Ai está nossa formanda! – Comemorou o rapaz, poucos anos mais novo que ela, recebendo-a de braços abertos para um abraço apertado. – Parabéns, !
- Obrigada, Ted! – Respondeu a moça, sorrindo para o irmão enquanto recebia um beijo no rosto. Logo depois se dirigiu às outras duas pessoas, recebendo um abraço duplo.
- Parabéns, querida, estamos orgulhos de você. – O homem, bem mais velho, disse.
- Muito orgulhosos. – A mulher reforçou, fazendo a mais nova rir, tentando conter as lágrimas.
- Obrigada, pai, mãe. – Disse ela, puxando o irmão para um abraço entre a família.
O grupo ainda permaneceu ali mais um tempo, tendo que dar meia-volta quando ouviram a recém-formada ser chamada por um homem mais velho, a moça se desculpou, entregando a beca e o capelo para a mãe segurar e andou até onde o homem estava, mantendo o sorriso educado.
- Senhorita , parabéns pela formatura.
- Obrigada, senhor Donnelly. – Respondeu a mulher, retribuindo o aperto de mão do professor.
- Gostaria de saber se podemos conversar sobre seu futuro aqui na universidade.
- Agora? – Perguntou .
- Se não tiver outros planos. – Ele olhou a família da mulher um pouco afastada. – Sua família?
- Sim, mas eles não vão se importar em esperar, não depois que souberem sobre o que se trata. – sorriu, virou para a família e fez um sinal indicando que eles esperassem. Ela e o professor se afastaram um pouco, o homem colocou as mãos nos bolsos e olhou para a ex-aluna.
- Eu li o seu projeto de pesquisa para o mestrado. – Começou ele. o olhava com atenção, as mãos se remexiam devido ao nervoso. – Você tem uma ótima visão, e é muito ousada, se me permite dizer.
- Ouvi muito isso durante a reta final do curso. – Disse a mulher, sorrindo sem graça.
- Espero que não de forma negativa. – O professor disse. – Se alguém lhe disse isso de forma negativa, saiba que pode ignorá-lo. – A mulher acenou, lembrando-se de alguns professores que haviam tentando fazer com que ela desistisse da visão que tinha para seu projeto final de pesquisa da graduação, e reforçavam a recomendação assim que ouviam a mulher falando que planejava dar continuidade ao projeto. – Eu gostei muito do seu projeto, a respeito por pensar fora da caixinha, como dizem por ai.
- Obrigada, senhor. – Disse ela, sentindo o coração batendo acelerado. O professor era seu favorito desde que tivera uma aula com ele no primeiro semestre, nos semestres seguintes, toda vez que tinha oportunidade ela tentava pegar outras disciplinas lecionadas por ele. – Isso significa muito vindo do senhor, acredite.
- Estou lisonjeado, senhorita . – O professor disse, inclinando a cabeça levemente como forma de agradecimento. – Então, eu gostaria de saber se a senhorita já tem planos para dar continuidade aos estudos.
- Bem, como o senhor sabe, eu entreguei meu projeto de pesquisa para o mestrado assim que foi possível, e gostaria muito de dar continuidade se fosse possível. O senhor é o primeiro que vem conversar comigo a respeito.
- Ótimo. – Disse o professor. – Como a senhorita sabe, eu trabalho no Laboratório de Processamento de Linguagem aqui da universidade, e seu projeto se encaixa perfeitamente com minha linha de pesquisa. Gostaria de saber se a senhorita teria interesse em integrar meu grupo de pesquisa para dar continuidade aos seus estudos e nos auxiliar a melhorar nosso próprio projeto.
não conseguiu esconder a surpresa, sentindo as mãos suarem e tremerem, além do coração batendo acelerado. Era seu sonho, desde que entrara na universidade e conhecera o professor e sua linha de pesquisa, entrar no grupo que ele mantinha, e ali estava ela, recebendo um convite pessoal para poder realizar seu mestrado como integrante do grupo. Se não estivesse frente a frente ao homem, a mulher com certeza daria gritos, pulos e choraria de alegria. Mas naquela situação, ela se limitou a sorrir e agradecer imensamente ao professor pela grande oportunidade, aceitando-a de pronto, sem considerar que talvez pudesse receber outros convites. Ela sabia que nenhum outro seria melhor que esse. O professor lhe entregou o cartão que continha seu e-mail e anotou as informações que deveria enviar para ele para oficializar o processo do mestrado. Logo depois se despediram, com a mulher esperando o professor sumir na multidão para ir correndo até os pais e irmão e lhes contar a grande novidade.
- Você nunca vai parar de me deixar orgulhoso? – Perguntou Ted, abraçando a irmã que, apesar de mais velha, era mais baixa que ele.
- Tenho que ser um bom exemplo para você. – Disse a mulher, o sorriso mal cabendo em seu rosto.
Enquanto saiam da área onde a cerimônia havia ocorrido, parou e virou de costas para o grupo, contemplando o prédio imponente onde havia passado boa parte de seus dias nos últimos quatro anos, e onde passaria os próximos dois anos. A mulher sorriu e permitiu que algumas lágrimas de felicidade escorressem, estava tudo ocorrendo perfeitamente como ela havia planejado.

Capítulo 1


Fazia apenas três meses que ela havia deixado aquele prédio, e agora ela estava de volta, agora com novos propósitos. parou no mesmo local onde havia ficado no dia de sua formatura e encarou o prédio, que naquele dia parecia confronta-la e desafiá-la. Bem, desafio aceito! Ela sorriu feliz e voltou a andar, entrando no prédio e seguindo para sua primeira aula do dia. Havia passado a noite inteira acordada, ansiosa por esse novo início. Muitas pessoas considerariam pesado mal se graduar e já começar o mestrado logo em seguida, mas não queria perder tempo. Ela queria continuar enquanto tudo o que havia aprendido continuava fresco em sua mente, enquanto ela sabia que podia fazer a diferença.
O começo do semestre era igual em qualquer local, independente do curso e do seu nível de graduação. Diversas pessoas andando de um lado para o outro, tentando se achar e se perdendo logo em seguida. Ela parou um pouco em um canto, observando aquela movimentação toda, se divertindo enquanto se lembrava de como fora sua primeira vez ali, como por um mês ela chegou atrasada em todas as aulas porque sempre se perdia e entrava em algum corredor errado. Não se deu muito tempo para contemplar aquele cenário, olhando o relógio e notando que sua primeira aula estava para começar. procurou o papel que continha todas suas aulas e horários, assim como as informações das salas e conferiu para onde tinha que se dirigir, seguindo seu caminho em seguida.
A diferença entre a graduação e o mestrado começava ao entrar na sala e ver que a quantidade de alunos era bem menor. O grupo daquela sala não passava de quinze alunos, ela constou quando entrou na sala, logo tomando seu lugar, esperando ansiosa para a entrada do professor. Cumprimentou rapidamente alguns colegas próximos e depois teve sua atenção roubada pela chegada do professor, se perdendo no assunto assim que o mesmo começou a explanar.

~ * ~


Ainda era cedo quando parou em frente ao Tower’s Caffe para mais um dia de trabalho. O local não era uma torre, mas costumava ficar em uma antes de se mudar para a atualização atual. A mulher bocejou, encostada à parede, esperando Ed chegar para abrir o estabelecimento e começarem mais um dia de trabalho. Se fosse um pouco mais tarde, ou se ela não tivesse tido apenas duas horas e meia de sono antes de ir trabalhar, ela não estranharia o atraso do patrão, que na opinião dela morava no local, pois era a única explicação para sua pontualidade. Seus olhos estavam quase se fechando quando ela viu o homem corpulento virando a esquina, parecia correr e já começara a se desculpar quando ainda faltava uma longa distância até ela.
- Bom dia, Ed. – Cumprimentou ela.
- Desculpe o atraso, . – Disse o homem, confundindo-se com as chaves no desespero para abrir a porta. se aproximou e tocou as mãos do homem, chamando sua atenção.
- Deixe que eu te ajudo. – Pediu ela, tirando o molho de chaves da mão do chefe e esperando ele se afastar para que pudesse abrir a porta. – Você é o chefe, não deveria pedir desculpas por se atrasar. Nem eu peço.
- Você nunca se atrasa, . – Observou Ed. Ele estava estranho, e a mulher percebia, mas conhecia o chefe há muito tempo para saber que ele falaria quando sentisse a necessidade, quando fosse o momento certo.
abriu a porta e deu espaço para Ed passar, entrando atrás dele logo em seguida, fechando a porta e virando o trinco apenas para garantir que ninguém tentaria entrar apesar do sinal de “fechado” ainda permanecer para a rua. olhou o relógio em seu pulso e confirmou que estavam levemente atrasados, mas nada que os preocuparia. Em silêncio, cada um foi para um canto, começando a tarefa diária de deixar as bebidas mais pedidas quase prontas e limpando o salão onde as mesas e cadeiras estavam distribuídas. Já era uma rotina tão bem estabelecida, que eles sequer perdiam tempo perguntando ao outro o que deveriam fazer. Bem diferente dos primeiros meses de trabalhando no local.
Ela havia encontrado o Tower’s no seu segundo semestre da faculdade, após um longo primeiro semestre entre muitas dificuldades pelo orçamento apertado. Na época, Ed ainda não precisava de ajudante, pois tinha uma vasta equipe, mas insistiu e provou nas primeiras semanas que era tudo o que o homem não sabia que precisava no local. Ed era um senhor já, calculava que tinha uns sessenta anos para mais, de pele escura, um grosso bigode, a careca sempre escondida por um chapéu, e a barriga proeminente criada com anos de cerveja e doces – a primeira ele já havia parado, mas os doces seriam seu eterno vício, como ele próprio dizia. Os dedos gordos ainda carregavam a aliança do casamento de quase trinta anos, apesar de sua esposa já não estar mais viva, vítima do câncer descoberto tarde demais. Ele tinha dois filhos, cada um em um canto do mundo, que voltavam à cidade natal em comemorações especiais como o aniversário do pai, e Natal. Ed falava bem dos filhos, eram seus maiores orgulhos, e nunca se sentia ressentido por não os ver mais vezes. Entendia que nem todo mundo conseguia viver no mesmo lugar toda sua vida.
O Tower’s havia surgido quando sua esposa ainda estava viva, era o maior sonho dos dois: ela era garçonete quando se conheceram, e ele trabalhava em uma construção e sempre ia almoçar no restaurante onde ela trabalhava. Sua mulher sempre tivera o sonho do restaurante próprio, e o café foi a forma do marido de presenteá-la, mesmo que não pudesse tê-lo aproveitado por tanto tempo quanto gostaria. Quando foi construído, o café ficava em um prédio empresarial, uma alta torre e com uma clientela fixa, sempre movimentado. Mas com a elevação do custo para permanecer no local, Ed resolveu sair e encontrou o local perfeito para seu negócio: próximo a uma faculdade, onde café era o elemento mais vital na vida daqueles estudantes, às vezes até mesmo mais que oxigênio. Após alguns meses ali, Ed resolvera ceder e expandira o negócio, após o happy hour, de quinta a domingo, o local se transformava em um pub, onde os estudantes iam para comemorar o fim de mais uma semana corrida. geralmente pegava os horários da manhã, raramente trabalhando no horário mais badalado, primeiro por não gostar, segundo por preferir aproveitar a folga para adiantar trabalhos ou relaxar no conforto do próprio lar, com uma taça de vinho, seus pijamas mais confortáveis, um filme ou uma série e seu sofá. Porém, vez ou outra a necessidade de um dinheiro extra vinha e ela cobria o turno de alguém que não pudera ir.
O ambiente tinha um estilo simples, a decoração escolhida a dedo pela mulher de Ed, que não era fã de muitas informações em um único lugar. As paredes mantinham a estrutura do lugar, com os tijolinhos aparentes, alguns quadros pendurados, e as mesas espalhadas pelo salão, com exceção das que eram coladas nas paredes, eram pequenas, para duas ou três pessoas, redondas; as que ficavam nas paredes eram grandes, com espaço para até seis pessoas, oito se alguém colocasse algumas cadeiras que estivesses sobrando pelo salão.
- Pronta para mais um dia? – Perguntou Ed, aproximando-se da porta para destrancá-la e virar a placa.
- Vamos lá. – Disse .
A rotina era tranquila, as manhãs e fins de tarde eram mais movimentados, os almoços eram os clientes habituais, que não tinham muito tempo para uma refeição mais demorada e se contentavam com os lanches que eram servidos no estabelecimento. conversava com os clientes recorrentes, sempre perguntando sobre a vida deles e suas rotinas, já habituada com as respostas: sempre na correria. Tinham aqueles que sempre perguntava o que tinha no cardápio apesar de sempre pedirem a mesma coisa; e os outros que toda semana perguntavam se tinha alguma novidade e quando ouviam a negativa, sugeriam que eles começassem a variar o cardápio para atrair mais clientela. Muitos reclamariam, se divertia. No período da manhã, o local enchia de pessoas mais velhas, que sentavam nas mesinhas e tomavam seus cafés ou chás com os biscoitos que eram oferecidos, vez ou outra se demorava mais limpando alguma mesa para poder ouvir as conversas.
Era aquela rotina todos os dias que trabalhava ali – o que eram praticamente todos os dias, com exceção de terças e quintas, quando ela tinha aula na faculdade. Era cansativo muitas vezes, principalmente por começar cedo, mas pagava o suficiente para ela manter o apartamento onde morava e ainda conseguir sobreviver sem precisar pedir ajuda dos pais. E ela gostava da experiência, e de Ed, principalmente quando o movimento estava lento e eles se sentavam para que o homem contasse alguma história de sua juventude ou de seu casamento.
- Você trabalha muito, mocinha, precisa descansar. – Dizia um cliente para ela. – Ed! Dê férias à moça! – Ele gritou para o chefe, fazendo rir.
- E Ed vai se virar como sem mim, senhor O’Neil? – Brincou , sentindo o olhar enfezado do chefe em suas costas. – Já trago seu café.
Aquilo acontecia todas as manhãs, ela sabia que Ed nunca ficava realmente bravo com ela. Aliás, ela não se lembrava de alguma vez vê-lo irritado com algo. Ed era o poço de calma e tranquilidade, sempre a acalmava quando a mulher começava a entrar em pânico pela quantidade absurda de atividades que acumulava na faculdade. Por isso, naquele dia em especial, a mulher se sentia mais tensa ao vê-lo tão atordoado com algo, não era comum Ed deixar que seus problemas interferissem no trabalho, ou permitir que algo o abalasse a ponto de se tornar perceptível para aqueles ao seu redor.
Foi só quando o horário do almoço passou e o movimento diminuiu consideravelmente, que conseguiu se sentar em um dos bancos espalhados pelo balcão, de frente para o homem e ficou a encará-lo, esperando que ele lhe desse atenção. Ela apoiou o cotovelo na superfície, e a cabeça na mão, observando Ed andando de um lado para o outro, certificando-se de que tudo estava limpo e no lugar, e que havia café pronto e quente caso surgisse algum cliente precisando desesperadamente de um copo. sabia que ele sabia que ela o observava, e sabia também que ele a ignorava de propósito, o que só a preocupava ainda mais.
- Ed! – Gemeu ela, chamando a atenção do homem, que ainda se recusava a olhar para ela. – Vai demorar quantas horas mais para você me contar o que está acontecendo?
- Não tem nada acontecendo, criança. – Respondeu o homem, seu tom não conseguindo disfarçar que era bem o oposto.
- Vamos tentar de novo? – Sugeriu a mulher, usando a mesma frase que ele costumava usar quando ela estava tensa e queria fingir que estava tudo bem. – Vou precisar elencar todas as provas que mostram que tem algo acontecendo e você está me escondendo algo?
- ... – Suspirou o homem, parando o que fazia e apoiando as mãos na pia atrás do balcão.
- Primeiro, você chegou atrasado. Sabe quantas vezes isso já aconteceu desde que eu trabalho aqui? Acertou se pensou nenhuma. Você é um funcionário mais modelo do que eu. – Comentou , vendo que faltava pouco para o homem desistir. – Segundo, você ainda não perguntou uma vez sobre meu mestrado esse mês, e olha que eu finalmente estou começando a ter novidades, depois de dois meses, os resultados estão chegando. – Ela suspirou. – Terceiro...
- , chega. – Disse Ed, finalmente olhando para ela. Seu semblante fez com que ela mudasse sua postura completamente, sentando-se ereta no banco e olhando para o homem, preocupação parecia exalar de seu corpo tão grande era o que ela sentia por ele. Nunca havia visto Ed daquele jeito, nem mesmo quando as contas vinham mais altas do que o costume.
- Ed, o que houve? – Perguntou ela, segurando as mãos do chefe quando ele se aproximou dela e colocou as mãos espalmadas no balcão. – Nunca te vi assim.
- Eu estava tentando evitar, . – Começou ele, os olhos castanhos brilhando com as lágrimas que começavam a se acumular. – Mas ontem eu tive a resposta final e não vou conseguir.
- Evitar o que, Ed? – sentia vontade de chorar só por vê-lo daquele jeito, o que quer que fosse, havia sido forte o suficiente para abalar o homem. Nem mesmo quando ele falava da esposa, e quando lhe contara sobre a doença e a morte dela, Ed parecia tão abalado.
- O Tower’s, , vai fechar. – A boca de se abriu e sua mente ficou em branco, como se tivesse dado pane. O homem chorava a sua frente e parte dela reconhecia que ele não era o único. Suas mãos permaneciam unidas, e não sabia quem apertava a mão do outro com mais força. – Eu sinto muito.
- Ed, não... – Disse a mulher, negando seu perdão, não havia necessidade daquilo.
- Eu tentei muito, mas as dívidas, os preços começaram a subir e o retorno não estava grande o suficiente, eu...
- Ed, está tudo bem. – Ela apoiou-se no banco que ocupava e ficou parcialmente por cima do balão, abraçando o homem, sentindo as lágrimas dele caírem em seu ombro.
- De todos que eu vou ter que demitir, você é a que mais dói. – Confessou o homem quando se afastaram. – Eu vou pagar todos os seus direitos e até um pouco mais, não vou te deixar na mão.
- Não se preocupe com isso, Ed. – Tranquilizou-o , apesar de se sentir aliviada por ouvir aquilo. – Quanto tempo temos aqui ainda?
- Tenho até o fim da próxima semana. – Revelou o homem. – Amanhã já vou dispensar o pessoal da noite. E aos poucos o resto também vai.
- Vai me deixar por último? – Brincou .
- Não queria te deixar ir. – Confessou Ed. – Será a semana mais longa da minha vida.
A semana foi longa não só para Ed, mas para , que tremia só de pensar em ficar desempregada. Apesar da garantia dos benefícios e do extra que Ed havia prometido pagar, ela sabia que aquilo não duraria muito e ela logo ficaria sem nada. O problema é que era fim de ano, e as vagas de emprego eram praticamente nulas àquela altura, até mesmo os empregos temporários para o natal já haviam se esgotado, e a mulher aos poucos começava a se desesperar. Ela chegou até mesmo a ligar para seu irmão na madrugada de sábado para domingo, finalmente contando para alguém o que estava acontecendo. Ted fora brilhante em acalmá-la, e aproveitou a madrugada e o resto do domingo à procura de ofertas de emprego e enviando currículo quando achava uma que cabia no que ela podia fazer. Ligar para os pais pedindo ajuda não era uma opção, ainda.
E o que estava mal ficou ainda pior quando ela recebeu uma carta de notificação do dono do apartamento, informando-a do novo preço do aluguel. Valor esse que não tinha, e que nem mesmo se esperasse o dinheiro de Ed, lhe ajudaria, pois iria embora mais da metade para o aluguel e ela não teria como sobreviver. A sua última chance foi uma tentativa de conseguir um alojamento no campus da faculdade, mas a mulher, simpática demais para o ânimo em que se encontrava, lhe informara que o prazo já havia acabado e que não havia uma vaga sequer no mais remoto prédio da área dos alojamentos, aguentou todo o caminho da faculdade até em casa para se permitir chorar como vinha se controlando desde que as notícias ruins começaram a chegar. A avalanche parecia aumentar cada vez mais, e ela se perguntava no meio das noites mal dormidas o que havia feito para merecer aquele tipo de castigo.
No último dia no Tower’s, Ed não conseguia disfarçar a tristeza, muito menos os clientes que haviam reclamado ao verem o anúncio do fechamento do local, comentando que demorariam a encontrar outro local tão bom quanto aquele, que oferecia a eles tudo o que era essencial em um café: a bebida, os lanches de acompanhamento e o conforto.
- Aqui está tudo o que eu posso te pagar. – Ed lhe entregou um envelope com o cheque no valor que ela não esperava, havia feito as contas por cima de quanto o homem devia lhe pagar, mas não esperava que o bônus seria tão alto. Ela gostaria que fosse o suficiente para seu aluguel. Não havia contado a Ed, que interpretou seu humor na última semana como tensão por encarar o desemprego. – Você também vai receber o seguro, então pode ficar confortável por um tempo.
- Obrigada, Ed. – Disse ela, abraçando o homem, fechando os olhos ao senti-lo retribuir, lágrimas voltando a escorrer em ambos os rostos.
- Estude, mocinha. – Falou Ed quando se afastaram. – Quero ler seus nomes naqueles livros chiques de linguística das livrarias.
- Pode deixar. – Garantiu , sorrindo para o homem. – Te mandarei um cartão no seu aniversário. E todos os livros que eu escrever.
- Vou ficar esperando.
esperou enquanto o homem trancava a porta do estabelecimento pela última vez, no dia seguinte a empresa de mudança viria ali para recolher os móveis que Ed venderia. Ao dar a última volta na fechadura, os dois se olharam e se abraçaram pela última vez. sabia que ainda poderia manter contato com o homem, falar que mandaria os cartões de aniversário era uma forma de garantir esse contato, mas não conseguia evitar de se sentir devastada por aquele fim. Ao se separarem, cada um virou para um lado e seguiram seu caminho, Ed ainda parou para observar enquanto se afastava, o coração partido pelos últimos acontecimentos, sabendo que havia ali uma garota de ouro, que era a filha que ele e sua esposa sempre quiseram ter.
- Boa sorte, . – Disse o homem, antes de voltar a seguir seu caminho.

~ * ~


Já era tarde da noite e não parava de atualizar seu e-mail, esperando alguma resposta. Havia trabalhos para fazer, leituras para colocar em dia, mas seu cérebro não conseguia focar em nada por mais de três minutos. Ela estava frustrada pela demora em receber uma resposta. Sabia que era fim de ano e muitas empresas deixavam para divulgar vagas novas no começo do ano seguinte, mas algumas haviam anunciado antes, elas deveriam já ter respondido. Não era possível que seu currículo era tão ruim a ponto de eles nem se darem ao trabalho de mandar uma resposta negativa para ela. Frustrada, a mulher suspirou e pegou o celular, olhando o relógio e fazendo as contas para calcular o fuso horário. O dia começava a amanhecer em Berlim, ela sabia que seria xingada, mas não se importava, só havia uma única pessoa com quem ela poderia conversar naquele momento.
- Você tem alguma ideia de que horas são? – Ted a atendeu do outro lado.
- Aqui ainda não é nem meia-noite. – Respondeu ela.
- Você me acordou uma hora antes do meu despertador, , que tipo de pessoa faz isso? – O irmão reclamou.
- O tipo de pessoa que precisa de outra para acalmá-la. – Disse ela. – Você sabe que eu não ligaria se não fosse necessário.
- Sim, eu sei. – Ted concordou, suspirando. Nem ele vinha conseguindo dormir muito desde que a irmã lhe contara sobre as novidades nem tão boas. – O que está rolando?
- Esse é o problema, nada! – Ela reclamou, batendo na mesa. – Nada está rolando.
- Nenhuma resposta?
- Nenhuma. Nem um mísero “sinto muito, você não tem o suficiente para preencher nossa vaga” eu mereço, aparentemente. – Ela dramatizou, fazendo o irmão rir. Era típico da , sempre fazer um teatro extra para tentar mascarar o caos da situação. – Não ria.
- Desculpe. – Pediu Ted, respirando fundo e esperando o momento em que ela resolvesse soltar o que realmente estava em sua mente. se levantou, cansada de encarar o computador e não ver nada novo, a tela já até havia ficado preta por ela não ter mexido em mais nada nos últimos minutos.
- Eu não sei mais o que fazer, Ted! Meu prazo já está acabando e nada! – disse, afundando-se no sofá e olhando ao redor, o apartamento ainda intacto, nem parecia que teria que sair dali em uma semana caso não conseguisse alguma resposta.
- , você precisa se acalmar. – O irmão suspirou do outro lado do telefone. – Não vai adiantar nada se desesperar.
- Vai me dizer que não estaria desesperado se fosse o oposto? – Perguntou a mulher, encarando o teto e imaginando o rosto do irmão nele, conseguiu até mesmo vê-lo revirar os olhos.
- Pelo menos você está mais perto do pai e da mãe do que eu. – Respondeu ele, sabendo que não havia ajudado em nada. – Não vai mesmo ligar para eles?
- E dizer o que, Ted? – resmungou. – Passei tantos anos convencendo-os de que eu ficaria bem escolhendo esse curso e o que eu consegui até agora?
- Seu mestrado. Convite exclusivo.
- De que adianta um convite exclusivo se eu não vou poder aproveitá-lo?
- Não diga isso, . – O irmão a repreendeu. – Não é do seu feitio se desesperar assim.
- Eu acho que consegui me segurar bem até agora. – A mulher ponderou, considerando que a única noite completamente acordada que tivera desde que recebera o aviso do fechamento do Tower’s e a notificação de que ela tinha um mês para sair do apartamento caso não pagasse o aluguel novo chegara, foi na noite anterior, quando ela teve seu primeiro ataque de pânico em muito tempo. – Só comecei a me desesperar mesmo ontem.
- Ataque de pânico? – Pela primeira vez a voz de Ted mostrava preocupação.
- Sim. – Respondeu , logo tratando de tranquilizar o irmão. – Mas não precisa se preocupar, não foi nada como das outras vezes.
- , agora é tarde demais. – Disse ele, a mulher suspirou. – Você precisa deles.
- Ted, ainda não. – Disse , se levantando para ir até a cozinha pegar uma garrafa de água. – Não é o momento certo.
- Não há um momento certo, ! – O irmão disse, suspirando frustrado com a teimosia da mais velha. – Quando será? Quando você aparecer na porta deles com todas as suas malas, lágrimas e a notícia de que foi despedida, despejada e vai perder o mestrado?
- Uau, Ted! Não pegue leve mesmo. – Respondeu a mulher, sentindo os olhos lacrimejarem após a bomba de realidade jogada pelo irmão.
- Desculpe, , mas você sabe que eu estou certo. – Ted respondeu. – Papai não vai se importar de te ajudar por um tempo.
- Ted, eles já gastam tanto para te ajudar, não posso pedir isso a eles. – passou a mão no cabelo, encarando o calendário preso na parede da cozinha, o marcador vermelho circulando seu último dia antes da despedida de tudo o que havia conquistado nos últimos anos. – E nem venha me dizer que pode pausar os seus estudos por um tempo. Você não é como eu e escolheu algo cujo futuro é incerto, você tem algo concreto e que dará um bom retorno. – Adiantou ela, sabendo que o irmão usaria aquela jogada em algum momento.
- Você já me fez prometer isso em nossa última conversa, , e suas ameaças foram bem convincentes. – Observou o irmão, fazendo a mulher rir.
suspirou, olhando o calendário e perceber como aquele futuro estava cada vez mais próximo só fez aumentar o aperto que vinha sentindo em seu peito, mas que ela vinha ignorando. O irmão estava certo, ela precisava de ajuda, precisava deixar o orgulho de lado e recorrer aos pais, mas ela e Ted sabiam que ela não o faria, e ainda provavelmente apareceria na casa dos pais com todas as malas e alguma desculpa ridícula que não entregasse seu fracasso. Eles não se importariam por ouvir tudo o que a filha havia perdido, mas ela sabia que os decepcionaria, principalmente após ter lutado tanto para chegar até onde estava.
- ? – Ted quebrou o silêncio entre eles, chamando a atenção da irmã.
- Sim?
- Vai ficar tudo bem. – Disse ele, e sua voz conseguiu trazer toda a calma que precisava. Ela até mesmo começou a agradecer o irmão, mas sua atenção foi desviada pelo som de um novo e-mail chegando em sua caixa de entrada. Ela olhou para o computador, não poderia ser, podia?
- Eu sei que você já quer desligar – riu a mulher – mas chegou e-mail novo, pode esperar um pouco?
- Claro. Estou aqui pelo tempo que precisar. – Respondeu Ted, mesmo com a mulher sabendo que não era bem assim. Ela saiu do lugar onde estava quase criando raízes na cozinha e foi até a mesinha onde seu notebook estava, sentando-se e fazendo-o sair da tela de proteção. Sua respiração ficou suspensa quando ela viu que um de seus e-mails havia sido respondido.
- Ted, eu tenho uma resposta. – Disse ela, os dedos tremendo enquanto ela deslizava o cursor até a nova mensagem para ver o que havia esperando por ela.
- Lembre-se, vai ficar tudo bem. – Ted disse, sentindo-se tão tenso quanto a irmã, apesar de fazer muito esforço para não demonstrar.
- Abrindo... – Narrou , clicando na mensagem e esperando enquanto ela abria. – Prezada senhorita , informamos que recebemos sua mensagem e temos interesse em marcar uma entrevista... Ah meu deus, Ted! – A mulher soltou um grito, não conseguindo focar no resto da mensagem. – Ted, eu consegui! Meu deus! Eu não vou embora. – começou a rir enquanto algumas lágrimas escorriam, do outro lado da linha ela conseguia ouvir o irmão comemorando junto com ela.
- Eu disse que você ia conseguir! – O mais novo dizia, sua voz ficando rouca pelos gritos que ele deu. sentiu muito pelos vizinhos do irmão. – Eu disse que ia dar tudo certo, ! Não era possível que você tivesse feito algo tão ruim para o universo te recompensar com essa maré de azar toda. Então, qual vaga que é?
- Aquela de assistente pessoal. – Respondeu a mulher, se controlando e voltando a ler o resto do e-mail. – Procuram alguém com disponibilidade para início imediato e querem marcar uma entrevista amanhã.
- Responda logo! – Ted disse, não conseguindo parar de pular pelo seu próprio apartamento.
- Calma, eu preciso parar de chorar e tremer primeiro. – A mulher disse. encostou o cotovelo na mesa e apoiou o queixo na mão, encarando a mensagem e sentindo as lágrimas aumentarem de intensidade, seu soluço foi o suficiente para parar o irmão do outro lado, que esperou, sabendo que aquele era o momento em que as informações começavam a serem processadas na cabeça da irmã. – Eu não vou precisar ir embora, Ted. – Disse , entre lágrimas, soltando uma risada depois. – Vai dar tudo certo.
- Sim, vai. – Confirmou o irmão, não contendo suas próprias lágrimas. – Vai ficar tudo bem, , mas você precisa responder esse e-mail antes.
- Eu sei, eu vou. – Disse a mulher, passando a mão no rosto para enxugar as lágrimas. Talvez não conseguisse manter o apartamento, mas sabia que conseguiria algo assim que tivesse a confirmação da vaga de emprego. – Obrigada, Ted.
- Sempre que precisar, . – Disse Ted, os dois encerrando a ligação logo em seguida.
suspirou, passando novamente as mãos no rosto para enxugar as lágrimas que ainda insistiam em cair, respirou o fundo, sentindo o coração bater mais leve. Leu toda a mensagem novamente, percebendo que haviam mais informações agora do que no anúncio ao qual ela havia respondido na mensagem anterior. Eles prometiam um bom salário, além de auxílio residência – item que não conseguiu entender muito bem, mas sabia que eles explicariam durante a entrevista caso ela passasse – entre outros benefícios. Parecia bom demais para a vaga de assistente pessoal, mas ela não reclamaria. Havia pesquisado a agência que havia anunciado a vaga e eles pareciam legítimos, ela não entraria em nenhum esquema que colocaria sua vida em perigo. Respirou fundo mais uma vez, ajeitou-se na cadeira e começou a digitar a resposta, agradecendo a oportunidade e confirmando a entrevista no horário sugerido. Iria até mesmo às quatro da manhã se eles pedissem. Clicou no enviar e sorriu quando ouviu o barulho de mensagem enviada. Provavelmente passaria mais uma noite em claro, mas seria por um bom motivo dessa vez.
- Vai ficar tudo bem. – Murmurou ela, olhando a foto em seu fundo de tela do notebook, ela com os pais e o irmão no dia da formatura, tirada por um colega que passava por eles. – Vai dar tudo certo.

Capítulo 2


Faltava uma hora para sua entrevista, mas já estava entrando no lobby do prédio, identificando-se e logo depois entrando no elevador para subir até o sexto andar. Ela até conseguira dormir à noite, mas a ansiedade – ou algum castigo enviado por seu irmão – fez com que ela acordasse uma hora antes do despertador tocar e não conseguiu voltar a dormir. Resolveu aproveitar para se preparar para a entrevista, tinha que se sair bem, não poderia se dar ao luxo de perder a vaga. Com calma, ela tomou café da manhã enquanto lia um pouco sobre a agência que havia feito o contato, pesquisando também sobre as principais atividades que uma assistente pessoal fazia. Organizada, comunicativa, simpática... Eram algumas das características que ela julgava possuir, podia não ter uma longa lista de amigos, mas conseguia se virar se fosse necessário.
Após o café da manhã, ela tomou um longo banho para tentar relaxar, conseguindo algum efeito, aproveitou até mesmo para lavar o cabelo. Qualquer coisa que a ajudasse a conseguir passar uma boa impressão. Em frente ao espelho, ela ensaiou algumas possibilidades de caminho que a entrevista poderia seguir, respondendo perguntas hipotéticas e praticando um discurso que resumisse sua pessoa e sua experiência profissional. Ela não gostou de nada, tudo parecia falso, mas até que soou divertido. Se fosse recusada, pelo menos poderia ter certeza que seus empregadores ririam bastante. Quando terminou de se arrumar, ainda faltava uma hora e meia para a entrevista, e ela sabia que era um bom tempo, já que o local não ficava longe. Mas sua ansiedade não a deixaria ficar parada, preferiria aparecer uma hora antes a aparecer em cima da hora. As primeiras impressões começavam na chegada.
saiu do elevador e encarou o logo com o nome da agência, a moça na recepção desviando a atenção do computador para olhar para ela, o sorriso simpático padrão de toda recepcionista já colado nos lábios. falou sobre sua entrevista e logo depois a mulher indicava o caminho que deveria seguir até a sala de espera, que mais parecia a sala de espera de um consultório, de tão branca e limpa que era. Havia algumas poltronas espalhadas pelo local, e ocupou uma próxima a janela, se distraindo um pouco com a paisagem antes de pegar uma revista e começar a folhear. Ou aquela hora passou muito rápido, ou a entrevistadora também tinha pressa e queria acabar logo aquilo, porque não muito tempo depois de ter sentado, alguém veio chama-la.
- Senhorita ? – A moça sorriu para ela, vendo levantar e se aproximar, estendendo a mão para a outra. – Prazer em conhecê-la, por favor, me acompanhe.
Elas seguiram por um corredor que possuía algumas revistas emolduradas penduradas, estranhou um pouco, de repente não se lembrando de mais nada do que havia lido sobre a agência, parecia que seu cérebro havia ativado o modo “prova” e esquecido tudo. Suas mãos suando eram a confirmação do desespero que começava a surgir nela. respirou fundo algumas vezes enquanto seguia a mulher, agradecendo pelo silêncio entre elas. Finalmente chegaram ao escritório, e ocupou a poltrona em frente à mesa, vendo quando a moça ocupou a outra em frente a ela. Ao contrário da sala e dos corredores, aquela sala possuía mais cor, talvez fosse pelas estantes espalhadas pelo cômodo, e pelos quadros pendurados, aquilo ajudava a diminuir o impacto das paredes brancas. A moça puxou uma folha, que reconheceu como seu currículo, leu por um momento e depois olhou para a candidata.
- Senhorita , sou Amber, já disse e repito, é um prazer conhece-la. – Ela sorria e parecia simpático, ao contrário da moça da recepção.
- Pode me chamar de . – Respondeu a outra, engolindo em seco.
- Gostaria de um pouco de água? – Ofereceu Amber, apontando para a jarra que havia em um canto. – Não precisa ficar nervosa, apesar de eu dizer isso talvez possa piorar a situação um pouco.
- Um pouco. – Concordou , forçando um sorriso. – Acho que aceito a água.
- Muito bem. – Amber se levantou, ela não parecia ser mais velha que , e por um momento a moça a invejou, tão nova e já tão feliz com a própria vida. Se não estivesse, pelo menos fingia muito bem. – Aqui está.
- Obrigada. – Disse, pegando o copo e bebendo um gole da água, que foi muito bem recebida.
- Certo, ... – Começou Amber. – Vou ser sincera, essa entrevista na verdade é só uma formalidade, regras da empresa. Não podemos passar alguém adiante sem antes nos certificar de que ela se encaixa, mesmo que pelo currículo tenhamos certeza que sim.
- Passar alguém adiante? – Perguntou , ficando confusa.
- A assistente pessoal não é para nós... É para alguém que é nosso cliente. – Explicou Amber. – Prestamos assessoria para algumas empresas e pessoas públicas, e ficamos responsáveis às vezes por encontrar assistentes pessoais para essas pessoas.
- Ah, certo. – Concordou , lembrando-se vagamente de ter lido algo a respeito. – Peço desculpas, eu pesquisei a empresa, mas parece que estou diante uma prova da faculdade e esqueci tudo. – Amber riu.
- Acontece. – Amber a tranquilizou. – Já que falou em faculdade, aqui no seu currículo diz que você está fazendo mestrado, é isso mesmo? – Perguntou Amber, vendo concordar. – E como está sua disponibilidade de horários? Isso é o ponto mais crucial nessa conversa.
- Eu tenho aulas às terças e quintas, mas se for necessário, posso mudar. – Garantiu , sem nem ter ideia se poderia mudar isso mesmo.
- Acredito que não será um problema, achei que você estivesse com uma agenda mais cheia. – Esclareceu Amber, voltando a consultar o currículo. – Seu último emprego, o que aconteceu? Por que saiu de lá?
- Eu trabalhava em um café e infelizmente o dono teve que fechar. – Explicou . – Foi ele quem escreveu a carta de recomendação, aliás.
- Sim, suspeitei... Uma ótima carta, aliás, ele parecia gostar muito de você.
- Era mútuo. – sorriu ao se lembrar de Ed. – Acho que se a situação não estivesse tão complicada, ele não teria fechado o café só para não ter que me demitir.
- Eu sinto muito por ter acabado assim. – Amber parecia sincera, e agradeceu. – Você sabe dirigir?
- Sim.
- Como é sua relação com as pessoas em geral?
- Acredito que seja boa. Se for para saber como seria uma dinâmica em grupo, eu não vejo problemas em trabalho em equipe se for necessário. – Explicou .
- Esse trabalho exige discrição, acha que se encaixa?
- Não gosto de holofotes, se é isso que quer saber. – Respondeu. – Eu faço o que for necessário, com ou sem reconhecimento.
- Perfeito. – Amber moveu a cabeça, mordendo o lábio inferior por um tempo e depois analisando . – Como você age sob pressão?
- Considerando que eu acabei de perder meu emprego, estou a dias de ser despejada por não ter dinheiro para pagar o aluguel, e ainda não liguei para meus pais chorando e contando o desastre que minha vida está... E ainda estou indo para as aulas e consigo assimilar o que está acontecendo, eu acho que consigo lidar bem com pressão. Talvez uma noite mal dormida vez ou outra, mas não afeta meu trabalho.
- Você está sem lugar para morar? – Amber perguntou.
- Isso é um problema? – começou a entrar em pânico.
- Não, nenhum, na verdade é perfeito. – Amber sorriu, tentando tranquilizar a mulher. – A vaga inclui a moradia.
- Eu vi que vocês ofereciam auxílio residência, não consegui entender o que isso queria dizer. – Confessou , não sabendo como se sentir em relação ao sorriso de lado que Amber havia dado.
- Você irá trabalhar na casa do nosso cliente, há um quarto para você com toda a estrutura necessária. E você poderá se mudar para lá assim que conhecê-lo e ele te aprovar.
- Ok... – disse, voltando a ficar nervosa, teria que passar por aquilo novamente?
- Não precisa ficar assustada, o senhor Renner é uma pessoa tranquila, até hoje não vi ele recusando ninguém. – Amber disse, pegando um pedaço de papel e uma caneta. – Este é o endereço, hoje ele não está disponível, mas amanhã a agenda dele está livre até o almoço, então você pode ir até lá pela manhã?
- Eu... Claro, posso. – Disse , nem mesmo considerando que tinha aula no dia seguinte, uma falta não faria mal.
- Às dez? – Amber perguntou, sorrindo quando confirmou. – Muito bem, avisarei ao senhor Renner que você estará lá.
- Desculpe... Senhor Renner? – Perguntou , balançando a cabeça, tentando voltar a focar no que acontecia.
- Sim, Jeremy Renner. – Disse Amber, sorrindo enquanto estendia o papel com o endereço e o horário que ela deveria estar lá.
- Jeremy Renner... – Ela conhecia aquele nome, seus olhos se arregalaram quando ela se lembrou. – O ator?
- O próprio. – Amber confirmou, tinha começado a se levantar, mas logo depois voltou a se sentar. – Está tudo bem?
- Sim, eu só... Eu vou ser assistente pessoal de um ator? – perguntou, pela primeira vez começando a se questionar se aquela era uma boa ideia e se não seria melhor ela recorrer aos pais até achar algo.
- Não precisa ficar assustada. – Disse Amber, tentando tranquilizar . – Como eu disse, o senhor Renner é muito tranquilo e calmo, e nunca teve qualquer problema com as pessoas que trabalham com ele. E se você é metade do que eu acredito que seja, garanto que vocês se darão muito bem.
- Eu não sei...
- , eu sei que acabamos de nos conhecer, mas pode confiar em mim... Não te aprovaria para conhecê-lo se não acreditasse que você pode dar conta.
não estava convencida, muito menos mais calma, mas concordou e finalmente pegou o papel que Amber havia lhe estendido. Agradeceu a mulher pela entrevista e pela oportunidade, e saiu do escritório, suas mãos tremiam e ela sentia que seu joelho iria ceder a qualquer momento. Agradeceu pelo elevador chegar tão rápido e se escorou na parede do mesmo, agradecendo por ele não ter parado em nenhum outro andar. Ela fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes. Em sua cabeça só rodava o novo título que carregaria caso fosse aprovada na entrevista final: assistente pessoal de um ator que estava no auge pelos recentes personagens que havia interpretado. Ela daria risada se alguém próximo lhe dissesse isso, achando impossível aquilo acontecer. Mas era com ela, e ela riu mesmo assim, porque a alternativa seria chorar com o desespero. As perguntas feitas durante a entrevista com Amber fazendo mais sentido: ela gostava de holofotes? Ela era discreta? Organizada? Claro, porque aquele homem deveria ter mil compromissos. Como lidaria bem sob pressão? Ela engoliu em seco só de imaginar perder algum prazo que o ator tivesse para cumprir e algo acabar dando muito errado.
- Senhora? – Ela ouviu alguém perguntar, chamando sua atenção. viu um senhor simpático parado no elevador. – A senhora está bem?
- Sim, estou, obrigada. – Ela sorriu agradecida, conferindo que já estava no térreo e deveria sair do elevador. – Tenha um bom dia.
Ela precisava ligar para Ted, precisava do irmão a tranquilizando o suficiente para que ela pudesse pelo menos conseguir ficar bem para aguentar a segunda entrevista. Mas Ted não poderia saber, ele era louco pelos filmes que o ator havia feito, capaz de voar de Berlim até Los Angeles só para levar pessoalmente à entrevista. Ele era o motivo da mulher reconhecer aquele nome, Ted a fazia assistir todos os filmes quando vinha para casa passar um tempo, principalmente quando lançava um novo e ele dizia que deveriam assistir tudo para que não ficasse fazendo perguntas no meio do filme. Naquele momento ela se arrependeu pela primeira vez em muito tempo não ter mais amigos, por confiar que Ted bastaria para suprir aquele espaço. E ela não poderia recorrer a Ed, imaginando a quantidade de coisas que o homem tinha para resolver ainda. Só restava ela se autoconsolando aquela noite. Ela precisava de sorvete.

~ * ~


Eram quase dez horas quando se viu diante o portão de entrada da sua provável nova moradia. Suas mãos estavam tão molhadas que parecia que ela havia acabado de lavá-las, mas era puro suor, e sua respiração estava ofegante. Diferente do dia anterior, em que ela conseguira dormir tranquilamente antes da entrevista, desta vez ela tivera um sono perturbado, imaginando diversas possibilidades que aquele novo emprego poderia dar errado. Ela encostou-se no portão e respirou fundo, tinha que se acalmar, era só um emprego, ela conseguia. Também não sabia ser garçonete quando começou a trabalhar no Tower’s, mas conseguira, não foi? Então, dessa vez não seria diferente. Ela se endireitou, arrumou a roupa e passou a mão no cabelo preso em um rabo de cavalo, e então tocou a campainha, logo depois ouvindo o portão ser aberto automaticamente. o empurrou e entrou, deixando o portão se fechar atrás dela. A casa era cercada por um grande gramado, à frente haviam algumas flores e até uma árvore com um balanço que não parecia nada confiável; à direita havia a entrada de carros com dois carros estacionados na grama; à esquerda a árvore e um grande espaço livre.
Sua atenção foi roubada pela porta que se abrira, e de lá saia um homem alguns centímetros mais alto que ela, o cabelo curto levemente espetado, provavelmente sem ter conhecimento de um pente, um sorriso simpático e os olhos azuis que transmitiram calma para a mulher. Ele usava uma calça jeans de lavagem escura e uma camisa social, com as mangas dobradas até os cotovelos. Enquanto ele se aproximava, continuou repetindo os exercícios de respiração que vira em alguns vídeos de meditação, sentindo que as batidas de seu coração iam se normalizando, de forma que ela já estava praticamente normal quando ele se aproximou, estendendo a mão para cumprimenta-la, esfregou a mão na calça rapidamente e aceitou a mão estendida, sorrindo para o homem.
- Olá, prazer, sou o Jeremy. – Disse ele, sua voz rouca tendo efeito imediato para acalmá-la.
- Eu se... – Começou ela, mas logo parou, achando aquilo extremamente desnecessário. – .
- Ouvi falar muito bem de você. – Jeremy começou a dizer, indicando para que ela o seguisse para dentro de casa. – Por favor, ignore a bagunça, não é fácil ter uma casa arrumada quando se tem uma filha de três anos, você vai perceber isso logo. – Espera, ele tinha uma filha? franziu o cenho, voltando ao normal quando ele virou o rosto para ela. – E isso porque ela ainda nem está em casa, imagine quando chegar.
sorriu simpática, ainda assimilando as informações, ninguém falara nada de filha. O pensamento logo sumindo quando eles entraram e ela parou para apreciar o interior da casa. Se tinha uma coisa pela qual era apaixonada, era ver a casa das pessoas por dentro, algo que ela nunca compartilhava com as pessoas por achar que pareceria muito estranha. Logo de entrada havia um pequeno corredor, com um pequeno espaço onde os sapatos ficavam acomodados, e os casacos eram pendurados. Seguindo pelo corredor, eles paravam no ponto exato do meio do grande cômodo que ficava a sala de jantar e sala de estar. Esta era bem espaçosa, com um tapete que parecia muito confortável no chão, assim como o grande sofá que formava um “L”, próxima à janela que dava para o jardim, havia uma poltrona; do lado tinha um grande móvel com uma coleção considerável de DVDs e uma grande televisão de tela plana. gostou, já se imaginando assistindo diversos filmes nos seus dias de folga, sem nem mesmo saber se poderia fazer uso daquilo tudo. Do outro lado, a sala de jantar possuía uma grande mesa com oito cadeiras, num canto havia um móvel que funcionava como minibar, repleto das mais variadas garrafas e copos. Um balcão, com algumas banquetas espalhadas no lado da sala de jantar, servia como limite entre a sala de jantar e a cozinha, que parecia bem grande de onde estava, o que a alegrou também.
- Você está com uma cara engraçada. – Comentou Jeremy, chamando a atenção de , que olhava para a cozinha já imaginando as coisas que poderia fazer ali.
- Desculpe. – Disse ela, sorrindo envergonhada.
- Bem, como você pode ver, essa é a sala de estar e a de jantar... Não usamos muito a sala de jantar, só quando acontece alguma reunião familiar, e essas não são muito frequentes. – Explicou Jeremy. – E, sim, você terá total acesso a tudo, fique à vontade, será sua casa também.
- Você fala como se eu já estivesse contratada. – Comentou , enquanto o acompanhava até a cozinha.
- Como eu disse antes, ouvi falar muito bem de você. – O ator virou-se para ela e sorriu. se sentiu levemente desconcertada com aquele sorriso, mesmo sem saber o porquê. – E essa é a cozinha.
- Uau. – Disse ela, não conseguindo disfarçar a surpresa e agradecendo por ter algo para distraí-la do pensamento anterior. A cozinha possuía uma ilha no meio, em duas paredes havia um armário do chão ao teto, com a geladeira encaixada em um espaço bem planejado, e nas demais paredes havia um longo balcão, com a pia no centro, e o fogão em uma extremidade. não conseguiu disfarçar a felicidade.
- Você parece ter gostado.
- Eu gosto de cozinhar. – Disse ela, se sentindo levemente estúpida, mas se tranquilizando ao ver o ator rindo.
- Eu também. – Concordou ele, logo depois chamando-a para conhecer o resto da casa.
Saindo da cozinha, virando à esquerda, como se fosse para a sala de estar, havia um corredor que levava aos quartos, ao escritório, e à porta que levava à lavanderia e ao jardim que rodeava a casa. O primeiro quarto era o de Ava, que descobriu ser a filha do ator, e este era o sonho de toda criança apaixonada por princesas e bonecas. Ele era pintado de um cor-de-rosa bem suave, em uma parede ficava a cama e ao lado a grande casa de bonecas, na cama os mais diversos tipos de bichos de pelúcia, assim como nas prateleiras espalhadas pelas paredes. A maioria eram elefantes, e Jeremy logo confirmou que era o animal favorito da criança, além de fadas e unicórnios. também notou a prateleira cheia de figuras de ação dos Vingadores, e gostou de saber que Ava misturava os universos, Ted ficaria horrorizado.
Em frente ao quarto de Ava, ficava o de Jeremy, que não chegou a conhecer e achou justo, seguiram mais um pouco para o cômodo ao lado do quarto da criança, que era o escritório. Havia uma larga mesa de uma ponta a outra em frente à janela; em uma ponta já havia um computador, e a outra estava vazia, com Jeremy explicando que seria o espaço dela. Havia alguns nichos presos na parede, em alguns havia prêmios que ela não reconheceu, e em outros, pastas das mais diversas cores com coisas como roteiros que ele havia recebido e precisava ler, contratos que ele tinha com empresas, entre outras diversas coisas mais burocráticas, que julgou que ficaria por dentro com o tempo.
- E aqui é seu espaço. – Disse Jeremy quando chegaram à última porta do corredor, ela gostou do que viu, apesar de ainda sorrir pela confiança do ator de que ela realmente ficaria com aquela vaga. O quarto era grande, e ela gostou de saber que era uma suíte, havia visto um banheiro entre o quarto de Ava e o escritório e julgou que aquele era o que a menina usava, e ela o usaria também. Havia uma cama e um grande guarda-roupas, além de uma escrivaninha e algumas prateleiras. – Costumava ser o quarto de visitas, mas quando Ava nasceu tive que fazer algumas mudanças. – estranhou aquilo, mas antes que pudesse perguntar o motivo, o ator já a puxava para conhecer a área externa.
O jardim ali atrás era mais impressionante que o da frente, mais bem cuidado também. Havia um deque de madeira antes de chegarem à grama em si. Em um canto havia uma mesa daquelas que geralmente se vê em acampamentos, perto de uma churrasqueira; do outro havia um grande canteiro com várias flores ainda germinando, e outra árvore com outro balanço de madeira, esse mais novo que o da frente. Jeremy a convidou para ocuparem a mesinha no jardim para conversarem o que faltava ser discutido ainda. Jeremy fez diversas perguntas, algumas que Amber já havia feito no dia anterior, e outras que eram novas e completamente inusitadas: como o que ela achava de crianças e como ela se relacionava com elas. ficou confusa, mas respondeu, concluindo que a filha dele deveria viver com ele e Jeremy poderia achar que isso seria algum problema para a mulher. Depois o ator a questionou sobre horários e organização para mantê-los; questionou sobre sua faculdade e ficou surpreso ao ouvi-la dizer que estava no mestrado de Linguística.
- Fiz um filme uma vez que envolvia uma linguista. – Observou ele.
- Eu sei. – Soltou sem nem pensar. – Tive que assistir para uma aula. – Acrescentou logo em seguida, sentindo o rosto esquentando.
- Você gostou? – Perguntou Jeremy.
- Tenho a impressão que minha resposta pode influenciar algo. – Brincou ela, vendo o ator abaixar a cabeça enquanto ria.
- Prometo que isso não mudará nada, pode falar que odiou.
- Na verdade, eu gostei muito. É um dos meus filmes favoritos. – Confessou , sorrindo.
- Está falando isso para me agradar? – Perguntou Jeremy, parecendo que continha algum sorriso.
- Se eu quisesse te agradar, diria que seu personagem foi o meu favorito. – Observou .
- E não foi?
- Bem... – sentiu o rosto ficando ainda mais quente. – Ele é das exatas, não é uma área que me agrada muito, principalmente sendo de humanas. E no final o destaque fica mais para a linguista, não é como se você aparecesse tanto assim...
- Ok, agora estou ofendido. – Brincou Jeremy. – Mas, em relação a exatas e humanas, é a lei dos opostos se atraindo, não? Talvez você se surpreendesse.
não soube o que responder, resolvendo pelo silêncio, que não durou muito por Jeremy logo voltar a fazer perguntas sobre ela e sua vida. A cada pergunta e resposta, a mulher ficava mais confusa, começando a desconfiar sobre aquela vaga. Pelo que havia pesquisado, ela ainda não conseguia entender como sua relação com crianças poderia afetar seu trabalho como assistente pessoal. Mas, novamente, quando ia questionar o ator sobre isso, ele olhou o relógio em seu pulso e arregalou os olhos, notando como estava atrasado. No mesmo instante a campainha soou e ele pareceu esquecer o atraso por um momento.
- Perfeito! – Exclamou ele, levantando-se e pedindo para que o acompanhasse. – Vocês poderão se conhecer antes de eu sair.
- Conhecer quem? – Perguntou , mas Jeremy não a ouviu, andando apressado pela casa até chegar à porta de entrada.
Ele pressionou um botão em um interfone, que ela nem havia notado antes, que abriu o mesmo portão pelo qual ela havia entrado, pela câmera ela notou uma mulher entregando uma criança, que saiu correndo assim que Jeremy abriu a porta. engoliu em seco, apostando a vida que aquela era a filha do ator. A menina pulou nos braços do pai, apertando os braços ao redor do pescoço de Jeremy enquanto ele se levantava, distribuindo diversos beijos pelo rosto da menina, que ria divertida. sorriu com a cena, vendo pela câmera que a mulher havia fechado o portão e partira sem falar qualquer coisa para Jeremy, ficou confusa com aquilo.
- Tenho alguém para te apresentar. – Disse Jeremy, chamando a atenção da filha e de , que piscou e voltou a focar no que acontecia ao seu redor, só então notando como a menina parecia muito alta para sua idade, Jeremy não havia falado que ela tinha três anos? Ava também era incrivelmente loira, os cabelos lisos partidos ao meio e presos no alto da cabeça em duas maria-chiquinhas, os olhos claros logo fixando nela, olhando-a de cima abaixo com a usual curiosidade infantil.
- Quem é ela? – Perguntou Ava, ainda olhando para , que de repente se sentia muito exposta e incomodada com a atenção que a menina te dava.
- Essa é a , – disse Jeremy, chamando a atenção da filha – sua nova babá.
- O que? – O ator não soube para quem olhar, Ava ou , que havia arregalado os olhos e sua boca também não conseguia se fechar. O ator parecia confuso, ouvindo Ava começar a reclamar sobre não precisar de uma babá, mas focando em que era a própria definição de confusão.
- Você não sabia? – Perguntou Jeremy, pedindo para Ava parar de reclamar. – Para que achou que estava sendo entrevistada?
- Sua assistente pessoal. – Informou , aproximando-se do sofá para sentar no braço do mesmo, não confiando em suas pernas. – Desculpe, eu... Eu só preciso de um minuto. – Jeremy colocou Ava no chão e pediu que ela fosse para seu quarto, sendo prontamente atendido.
- Assistente pessoal? – Perguntou ele, franzindo o cenho e se aproximando da mulher. sentiu-se levemente mais calma ao perceber que até mesmo Jeremy estava confuso. – , eu sinto muito...
- Não, está tudo bem. – Disse a mulher, sentindo que era exatamente o contrário, mas não queria ver Jeremy se sentindo ainda mais culpado. – Talvez tenha sido só uma confusão, alguma informação foi perdida no processo... Foi um acidente, acontece.
- Acredito, então, que você não vai ficar? – Perguntou Jeremy, fazendo levantar a cabeça. Era algo que ela não havia considerado, se a vaga não era o que ela havia imaginado, então o certo seria ir embora, apesar de parte dela suspeitar que não fora um erro aquela divulgação. – Não quero te pressionar, mas é realmente importante eu encontrar uma babá para Ava. As anteriores não deram sorte, ela parece rejeitar todas e fazer a vida delas um inferno.
- E a mãe dela?
- Somos divorciados e dividimos a guarda, mas Ava fica a maior parte do tempo comigo e passa alguns fins de semana com a mãe. – Explicou Jeremy. respirou aliviada, havia imaginado que algo ruim tivesse acontecido com a mãe de Ava.
- Entendo. – Disse ela, apenas porque sentiu que precisava falar algo. Jeremy passou a mão no cabelo, bagunçando-os ainda mais.
- Eu sei que não é seu trabalho, mas eu estou atrasado demais para uma reunião, não deve demorar muito, será que pelo menos hoje você poderia ficar com Ava? Te pago a parte depois. – Acrescentou ele, achando que dinheiro seria um fator decisivo na decisão de .
- Claro, não é justo você ser afetado também. – Concordou . – Eu posso ficar, sem problemas.
- Muito obrigado. – Disse Jeremy, virando-se para chamar Ava a fim de se despedir dela. A menina apareceu correndo, o ator se abaixou para falar com a filha. – Querida, papai tem que sair, mas vai ficar com você, tudo bem? – Ava não parecia feliz, voltando a fixar seus olhos na mulher.
- Não posso ir com você? – Perguntou Ava, fazendo um biquinho e forçando uma careta, que não enganou Jeremy.
- Não, você vai ficar e vai se comportar. – Jeremy avisou. – Deixe uma pessoa sair dessa casa inteira, Ava, por favor. – Pediu o ator, forçando a segurar o riso. – Por mim.
- Tudo bem. – Se rendeu Ava, abraçando o pai, que a pegou no colo e foi até a porta, os seguiu.
- Se precisar de qualquer coisa, os telefones estão todos na primeira gaveta daquela mesa. – Ele apontou para um móvel ao lado do sofá, e assentiu. – Espero não demorar muito.
- Tudo bem. – Disse a mulher, já começando a entrar em pânico ao ver o ator abrindo a porta e se despedindo da filha.
- Se comporte e podemos comer pizza hoje. – Disse Jeremy, fazendo a menina revirar os olhos antes de concordar. – Você já comeu? – Perguntou Jeremy antes de soltar a filha, vendo a menina negar com um aceno da cabeça. – , pode...
- Eu cuido disso. – Adiantou-se , sorrindo na tentativa de tranquilizá-lo.
- Obrigado. – Disse o homem, dando um último beijo em Ava antes de finalmente sair de casa, indo até um dos carros e saindo logo. esperou até que o portão se fechasse para voltar para o interior da casa, levando Ava consigo.
- Muito bem, lá vamos nós. – Sussurrou para si mesma. Ela fechou a porta e se virou, encontrando Ava parada há poucos metros dela, a olhando com uma expressão de quem planejava dominar o mundo de uma forma não muito boa. respirou fundo, mentalizando coisas boas e repetindo em sua cabeça que tudo daria certo, ela precisava daquele dinheiro. – O que quer comer?
- Não sei. – Disse Ava, dando de ombros.
- Tudo bem, vamos ver quais são as opções. – Ela estendeu a mão para Ava, que apenas a olhou e depois virou as costas, seguindo para seu quarto. – Que p... Calma, . – A mulher repetiu, indo para a cozinha. Não se deixaria vencer por uma garota de três anos. Tinha que aguentar até Jeremy voltar e depois iria embora como se aquele tivesse sido só mais um dia como qualquer outro. Com sorte, chegaria em casa e teria uma nova resposta em seu e-mail.
Ava a testou até o último fio de cabelo. Após preparar o almoço para a menina, macarrão integral com molho branco, tentou fazê-la comer, mas Ava se recusava, comendo um pouco e depois largando o prato no meio do quarto para brincar com suas bonecas, mas não desistiu. Não sabia os motivos para a menina agir daquela forma, mas se tinha uma coisa que ela sabia sobre crianças era não deixar que elas achassem ter algum controle sobre os outros. E pareceu funcionar, pelo menos pelo almoço, com relutância, Ava comeu mais da metade da porção servida por , que achou aquilo uma vitória e resolveu guardar o resto para caso a menina resolvesse ceder e comer mais tarde. Cerca de uma hora depois, Ava começou a mostrar sinais de sono, mas se recusava a dormir sem o pai para coloca-la para dormir.
- Bem, eu sinto muito, mas seu pai não está aqui agora. – Disse , no tom de voz mais calmo que conseguia usar. – Mas prometo que se ele chegar e você ainda estiver dormindo, ele vem te dar um beijo.
- E como eu vou saber que ele me beijou? – Perguntou Ava, cruzando os braços. mordeu o lábio inferior, olhando ao redor e sorrindo aliviada quando viu uma caneta colorida por perto.
- Ele vai fazer um desenho na sua mão. – Disse a mulher.
- Você pode fazer o desenho. – Desafiou Ava.
- Será um desenho que só ele vai saber fazer. – Garantiu , vendo com certa satisfação enquanto Ava ponderava sobre aquela oferta, percebendo logo que a mulher havia conseguido dobrá-la.
- Tudo bem. – Cedeu Ava, deitando-se na cama e deixando que a cobrisse. começou a se levantar, mas foi parada pela menina. – Uma história. – Pediu Ava, acomodando-se na cama e esperando a mulher escolher um livro. Antes mesmo de ir para a terceira página, Ava já estava dormindo, mas preferiu continuar por mais um tempo, apenas para garantir, sua voz ficando mais baixa, com medo de acabar incomodando o sono da criança. Chegando à metade do livro, ela o fechou, pegou a caneta colorida e guardou no bolso da calça, pretendia não esquecer a promessa que havia feito à menina.
saiu do quarto e foi para a cozinha, começando a limpar a sujeira que havia feito enquanto preparava o almoço para Ava, seu próprio estômago dando sinais de fome enquanto ela guardava o que havia sobrado, parando para separar um pouco para ela antes de encaixar tudo na geladeira, talvez Jeremy quisesse comer algo quando chegasse. já se sentia exausta só pelas poucas horas que havia passado com Ava, após aquela breve experiência, ela não se surpreendia pelo que o ator havia falado antes sobre as babás não conseguirem aguentar por muito tempo. Ava podia ser pequena, mas sabia como fazer birra como uma criança bem mais velha, aquilo era um perigo nas mãos erradas. Enquanto lavava os pratos, se lembrou da aparência cansada de Jeremy após descobrir que não era a nova babá da filha, como aquilo parecia tê-lo envelhecido alguns anos. Não deveria ser fácil, pensou ela, ter um trabalho que exigia tanto e ainda conseguir tempo para acompanhar o crescimento da filha. fez uma nota mental para tentar ir atrás de informações sobre a mãe da menina e como o divórcio havia ocorrido, temendo que não encontraria coisa boa devido ao tom de voz de Jeremy quando falou sobre a separação.
Ela terminava de enxugar o último prato quando ele entrou em casa, estava tão distraída que sequer ouvira o carro se aproximando e estacionando. Ele retirou os sapatos e se aproximou da cozinha, parando na porta e olhando enquanto a mulher passava o pano no prato. o olhou, arqueando a sobrancelha para tentar questionar o que ele fazia parado ali.
- Sabe que tem uma máquina de lavar louças logo ali do lado, não é? – Perguntou Jeremy.
- Não era muita coisa, e eu queria me manter ocupada. – Ela deu de ombros.
- Cadê Ava? – Perguntou Jeremy, estranhando o silêncio e não haver nenhum grande caos na casa.
- Dormindo. – Disse , parando-o logo que ele fizera menção de ir até o quarto da filha. tirou a caneta colorida do bolso e a entregou a Jeremy. – Eu prometi que quando você chegasse e desse um beijo nela, você faria um desenho na mão dela. – Explicou, vendo o homem não conseguindo disfarçar a confusão. – Não pergunte... Apenas, tem que ser algo que só você saberia desenhar.
- Tudo bem, eu já volto. – Disse Jeremy, pegando a caneta e indo para o quarto da filha. esperou, aproveitando para guardar toda a louça do almoço, fechando o armário no momento em que o ator voltava à cozinha. – Quer me explicar por que eu tive que desenhar um peixe com uma estrela na mão da minha filha?
- Esse é o código de vocês?
- Ela gosta de Procurando Nemo e estrelas. – Jeremy deu de ombros, colocando a caneta no balcão e sentando-se em uma das banquetas depois.
- Ela não queria dormir enquanto você não chegasse, então para convencê-la, eu disse que você daria um beijo nela quando chegasse, não que ela tenha acreditado em mim. – Completou . – Sugeri que você fizesse um desenho na mão dela, e depois tive que dizer que seria algo que só vocês dois soubessem para que ela não desconfiasse que eu tinha feito.
- Ava não facilita mesmo. – Comentou Jeremy, não conseguindo conter a risada. – Sinto muito por isso.
- Está tudo bem. – Tranquilizou , apoiando-se na ilha da cozinha. – Foi assim com as outras babás?
- Pior, eu acho. – Disse Jeremy. – Ela ficou assim desde o divórcio. – Acrescentou ele. – Você seria a quinta babá só esse ano.
- Uau. – Comentou .
- Uma pena que não vai ficar, você conseguiu muito mais que as outras. – Disse Jeremy. – Sei dizer só pelo estado da casa.
- Não foi uma batalha fácil, ela mal comeu. – Falou , contando a experiência do almoço, surpreendendo-se ao ver que Jeremy ria.
- Eu disse, você foi além. – não sabia dizer se ficava feliz ou preocupada com aquela reação. – Espero que a próxima babá seja como você.
mordeu o lábio inferior, sabia que Jeremy não estava forçando a barra tentando fazê-la ficar, algo lhe dizia que ele nunca faria algo como aquilo, ele só realmente queria alguém que não desistisse tão fácil de Ava, como as outras pareciam ter feito. A mulher ponderou por um tempo, apesar de em poucas horas estar mais cansada que toda uma semana de trabalho na cafeteria, ela não havia odiado a experiência. Muito pelo contrário, achava Ava divertida em toda sua rebeldia, e parte dela entendia a teimosia da menina, a relutância dela em aceitar uma nova mulher em sua vida. E havia Jeremy que estava claramente desesperado, sem saber o que mais fazer para conseguir cuidar da sua filha e de seu trabalho, não é como se ele fosse largar o emprego para viver só para Ava, apesar de suspeitar que isso havia chegado perto de acontecer. E havia o fator principal: ela precisava de um emprego. E de um lugar para morar.
- Eu fico. – Jeremy não era o único desesperado. – Eu aceito ser a babá da Ava, se você quiser.
Ela também estava.

Capítulo 3


Voltar para casa para as festas de fim de ano havia lhe dado mais medo do que imaginara. Ela e Ted haviam entrado num acordo de manterem entre eles o novo emprego da mulher, deixando os pais acreditarem que ela ainda estava bem na cafeteria e não havia tido nenhum momento de pânico. ainda se lembrava de como havia notado a ponta de desapontamento quando contara aos pais que havia conseguido um emprego no Tower’s, apesar de eles tentarem disfarçar, e imaginava que se viesse a revelar que havia perdido o emprego antigo e agora era uma babá, seu pai interferiria dizendo que ela deveria escolher outra faculdade, algo que lhe desse um emprego condizente. Ou talvez eles não fizessem nada disso, só não queria arriscar.
Felizmente, faltando alguns dias para o Natal, Ted conseguira se juntar a eles e roubar para si toda a atenção que estava recebendo, sendo alvo de perguntas sobre a faculdade, o curso e as disciplinas e, claro, se já havia surgido alguma oportunidade de emprego melhor. fugira da última dizendo que agora começaria a trabalhar com crianças, acompanhando seu desenvolvimento e afins, ela colocara alguns termos difíceis referente a linguística no meio da conversa para soar mais convincente. Com a chegada de Ted, conseguiu respirar mais aliviada, além de sentir a tensão abandonando seu corpo. No meio da madrugada, ainda afetado pelo jet-lag, Ted invadira seu quarto para que pudessem conversar.
- Então? – Sussurrou o mais novo, deitando-se ao lado da irmã, encarando o teto assim como ela. – Como foi o primeiro dia?
- Ainda não tive um primeiro dia, Ted. – Disse .
- O dia da entrevista não contou?
- Mas sobre isso eu já te contei tudo. – entrelaçou seu braço ao do irmão, encostando a cabeça no ombro dele.
- , uma conversa de quinze minutos não conta como uma conversa completa sobre esse dia. – Explicou Ted. suspirou, fechando os olhos e lembrando-se daquele dia, da confusão por não saber o que fazia ali, e depois do choque ao entender todo o cenário.
- Essa menina vai me dar muito trabalho. – Resumiu , fazendo Ted rir. Depois a mulher começou a narrar todos os detalhes daquele dia, desde sua chegada, passando por suas impressões sobre Jeremy, dando tempo para Ted voltar a surtar pelo ator ser o novo patrão da irmã, e chegando ao momento em que percebera o que faria ali. – Eu não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei isso, Ted. – Concluiu , escondendo o rosto no ombro do irmão, sufocando as lágrimas que haviam surgido repentinamente.
- Bem, você estava no desespero de perder tudo, , acho que é compreensível. – Disse o irmão, acariciando o cabelo da mais velha. – E, se quer minha opinião, você vai ser incrível nesse trabalho. Você, a pessoa mais desastrada que eu conheço, conseguiu aprender a servir mesas e carregar bandejas cheias de coisas de um lado para o outro, acha mesmo que não vai conseguir cuidar de uma menininha mimada?
- Ela não é mimada, Ted. – Corrigiu . – Mas não sei definir qual é o problema dela.
- Mimada vai servir, então. – Disse o irmão, fazendo ela rir. – Você será a melhor babá que esse homem vai ter na vida. Ele não vai querer te demitir nem quando a filha já estiver pré-adolescente.
- Menos, Ted, bem menos. – Disse , mas não conteve a risada. – Já adianto que você receberá muitas ligações.
- Posso receber alguns convites para ir às premières dos filmes da Marvel na Europa? – Perguntou o homem, recebendo um soco da irmã como resposta. – Não, então?
Toda noite que passaram ali na casa dos pais, o mais novo ia ao quarto da mais velha e eles passavam a noite conversando. reclamava, mas por dentro agradecia a preocupação do irmão, cada dia que passava e o novo ano se aproximava, ela sentia-se mais nervosa porque teria que encarar o novo emprego logo. Ela fizera pesquisas na internet para tentar encontrar algo que pudesse lhe ajudar a lidar melhor com crianças, mas cada artigo que lia era ainda mais assustador que o anterior. Até que ela desistiu, sabendo que aquelas teorias não ajudariam em nada quando a realidade viesse. concluiu que agiria de acordo com a situação, improvisaria no último minuto e torceria para o melhor.
Em sua última noite na casa dos pais, uma semana após a virada do ano, Jeremy fez o primeiro contato, apenas para avisar que ela poderia ir para a casa quando sentisse vontade, mas que só começaria a trabalhar mesmo na segunda metade do mês, já que Ava o acompanharia em alguns eventos em Nova Iorque. O ator estava fazendo algumas aparições promovendo seu último filme, que havia se apaixonado completamente, e levaria a filha para alguns eventos. A mulher agradeceu a ligação e confirmou se realmente não haveria problemas ela ficar na casa durante aquele tempo, ao que Jeremy confirmou, tranquilizando-a e certificando-se de que ela se sentiria completamente à vontade. Havia comida o suficiente, as chaves já haviam sido entregues a ela antes da viagem para Norfolk, e o quarto que seria dela completamente pronto para uso. Já estava antes, mas Jeremy havia informado que queria fazer algumas mudanças.
Quando ela chegou na casa, sabia que não fazia muito tempo que seus residentes estavam ali, já que o ambiente não estava com o ar usual de algo que fica muito tempo inabitado. Ela levou suas malas para o quarto que seria dela, pensando consigo que o quarto parecia idêntico ao que ela havia visto meses atrás. Aproveitou o ânimo para já arrumar tudo e fazer daquele quarto seu, ocupando também a parte do escritório que Jeremy havia garantido ser para uso dela. O homem era bem organizado, característica difícil de ter quando tinha uma filha de três anos, mas ele conseguia de alguma forma. O escritório parecia ser o único ambiente que não possuía algum brinquedo, ela diria algo infantil, mas havia alguns desenhos colados na parede ao lado do computador que pertencia a Jeremy. aproveitou que estava sozinha para conhecer cada canto da casa, aventurando-se até mesmo pelo quarto do ator, mas ficando lá menos tempo do que em todo o resto.
aproveitou aqueles dias até a volta de Jeremy e Ava para se familiarizar com a casa, onde cada coisa ficava – achando curioso encontrar um armário com diversos remédios –, e com os arredores de onde a casa era localizada, já que ela não conhecia muito bem aquela região – que era uma das mais nobres de Los Angeles. Também aproveitou para colocar algumas leituras do curso em dia, já que havia deixado muita coisa de lado durante a crise do desemprego e depois com a chegada das férias de fim de ano. Também precisava finalizar uns trabalhos e adiantar outros, coisa que ela fez no decorrer da semana que passou.
Jeremy e Ava voltaram uma semana depois que chegara à casa, encontrando a mulher acomodada no sofá enquanto lia um dos diversos textos da faculdade, um caderno, um estojo e todo seu conteúdo estavam espalhados na mesinha de centro, uma música baixa tocava e Jeremy não conseguiu identificar a fonte. desviou o olhar do texto para ver pai e filha chegando, a mais nova parando assim que percebeu a presença da nova babá, fazendo uma careta enquanto olhava para o pai como quem perguntava por que a mulher já estava lá. Jeremy apenas lançou um olhar censurador para a filha antes de pedir que ela levasse suas coisas para o quarto, enquanto ele recebia a babá apropriadamente.
- , como foi de fim de ano? – Perguntou o ator, separando as malas que pertenciam a ele e Ava.
- Ah, nada de novo. – A mulher deu de ombros, pausando a música no celular. – Meus pais e meu irmão, só isso mesmo. E frio, como sempre. Tanto tempo em Los Angeles e a gente esquece como nos outros lugares faz mais frio que aqui.
- Sei muito bem como é. – Concordou Jeremy, conferindo o horário no relógio. – Você já almoçou?
- Na verdade eu acordei quase agora, então não tive tempo para pensar em almoço. – Assumiu , rindo do espanto do ator. – Em minha defesa, eu fui dormir no começo da manhã.
- Uma coisa que não sinto falta da faculdade. – Jeremy se limitou a comentar, fazendo a mulher rir mais um pouco.
- Não deve ser tão diferente de quando você tem um papel novo. – Comentou ela, vendo enquanto ele ponderava um pouco, para depois concordar.
- É melhor que ficar de dieta e malhando para os filmes da Marvel, isso eu admito. – Cedeu Jeremy, começando a se afastar para ir até a cozinha.
- Acho difícil de acreditar depois de ver o tanto de coisa saudável que você comprou. – Comentou , levantando-se do sofá e se aproximando da cozinha. – Acho que a vida saudável já está em você. E você quer fingir que é difícil só para eu não me sentir tão mal.
- Acabou de chegar e já está querendo me derrubar? – Jeremy brincou, fazendo a mulher corar levemente. – Eu estou brincando, pode ficar à vontade para falar e brincar o quanto quiser. – Ele se adiantou em dizer ao ver o desconforto de .
- Obrigada. – Disse ela, sorrindo de leve para o homem, ainda se sentindo envergonhada pela situação anterior. não era de se abrir com alguém tão facilmente, de partir para brincadeiras e piadas com tão pouca convivência, e talvez o período que havia passado na casa sozinha a fizera pensar que aquilo era normal, que eles já estavam morando sob o mesmo teto há mais tempo do que parecia.
- Então, almoço, vai querer alguma coisa? – Perguntou Jeremy, chamando a atenção da mulher.
- Tem algumas sobras de comidas que preparei durante a semana, não precisa se preocupar comigo. A melhor comida é aquela que é um misto de tudo. – Disse ela, fingindo uma pose de sabedoria, que só fez o ator rir. – Prepare algo para você e Ava, eu estou sem fome ainda.
- Mas terá eventualmente. – Apontou Jeremy.
- E, como eu disse antes, eu posso comer as sobras da comida da semana. – Respondeu , vendo que o ator não havia ficado feliz. – Não adianta discutir, você disse que posso ser honesta, estou sendo. Vou voltar aos meus estudos agora, com licença. – Ela ia se afastando, mas parou, voltando ao lugar de antes, vendo que o ator havia desviado a atenção do que fazia para olhá-la com uma sobrancelha arqueada. – Ou você precisa dos meus serviços imediatamente? – Perguntou ela, lembrando-se que havia um motivo para ela estar ali, e não era ficar largada no sofá estudando.
- Pode só conferir se Ava não está tentando destruir o quarto da forma mais silenciosa possível, por favor? – Pediu Jeremy, também se lembrando da função da mulher na casa.
assentiu e se retirou, pela primeira vez ficando nervosa para o seu trabalho. Até então ela aproveitou sua folga e agiu como se ela e Jeremy fossem apenas colegas de apartamento, perdendo o foco do real motivo de estar ali, mas agora a ficha havia caído e as coisas haviam se tornado reais. Ela tinha que começar a aprender a lidar com Ava e com a aparente recusa da criança em tê-la presente na sua vida. gostava de um desafio, isso ela não negaria, mas não sabia se esse gostar de ser desafiada se encaixava na batalha que provavelmente travaria com a garota. Felizmente parecia que não começaria naquela tarde, já que ao chegar ao quarto de Ava, a mulher parou e sorriu diante a cena que via: Ava deitada em sua cama, abraçada a um de seus bichos de pelúcia, profundamente adormecida. A mochila de elefante estava jogada no meio do quarto, e o casaco que ela entrara carregando em casa estava no chão ao lado. Ava não havia nem mesmo tentado se cobrir, provavelmente havia sentado na cama e aos poucos cedera ao sono que sentia, já que suas pernas ainda pendiam um pouco para fora do colchão. se aproximou, e arrumou a menina na cama, deixando-a mais confortável. Ava passou a mão no rosto, afastando alguns fios de cabelo e bocejou, mas continuou adormecida. sorriu, arrumando o cabelo da menina, logo depois saindo do quarto e encostando a porta.
Jeremy estava na cozinha, de frente ao fogão, preparando o que deveria ser o almoço dele e de Ava. ocupou um dos bancos que havia do outro lado e ficou olhando o ator indo de um lado para o outro, mesmo que ele já tivesse notado sua presença, surpresa pela facilidade que ele tinha em lidar com as diversas tarefas. O cheiro estava delicioso e sua boca havia se enchido de água, seu estômago havia até se retorcido um pouco, como se quisesse que ela repensasse aquela decisão anterior de comer as sobras da comida da semana.
- O quarto de Ava ainda está inteiro? – Perguntou Jeremy após tampar todas as panelas e se voltar para a mulher.
- Completamente. – Confirmou .
- O que ela está fazendo, então?
- Dormindo. – Disse , aceitando o pacote de bolacha que Jeremy lhe oferecia. – Acho que dormiu sentada na cama e depois caiu para o lado, porque as pernas estavam para fora.
- Ela faz muito isso. – Confirmou Jeremy. – Acho que almoçarei sozinho, então... Ou você vai mudar de ideia e se juntar a mim? – Perguntou o ator ao notar que a mulher olhava com atenção para o fogão. olhou para ele, revirando os olhos, mas não conseguindo segurar o riso.
- Talvez eu coma um pouco. – Cedeu ela. Rindo enquanto via o ator fazer uma comemoração exagerada. permaneceu em silêncio por um tempo, até que cansou de só observar e resolveu que deveriam começar a decidir como as coisas seriam dali para frente. – Então, como vai funcionar exatamente? Eu aqui, digo. Você não parece ser o tipo que frequenta essas baladas e festas que vão até tarde, e você não vai trabalhar em um escritório o dia inteiro... Então eu estou curiosa para saber como as coisas serão.
- Eu posso não sair de casa para ir trabalhar, mas eu tenho que trabalhar vez ou outra e Ava às vezes é um pouco rebelde em relação a isso. – Jeremy riu, apagando o fogo em uma das panelas. – Basicamente eu preciso que você fique com ela quando eu precisar trabalhar ou viajar e não tiver outra pessoa para ficar com ela. – ficou quieta por um momento, algo lhe incomodava um pouco, nada referente ao que Jeremy havia falado, mas algo que ela e Ted haviam conversado em uma das noites acordados.
- Espero que não me entenda errado – ela começou a falar, chamando a atenção dele, que deixou o que fazia para poder olhá-la – mas você não está querendo encontrar alguém para ocupar o papel de mãe dela, não é? Assim, eu sei que ela tem mãe, mas pelo visto elas não convivem muito, então eu só preciso saber o meu limite. – Explicou , garantindo que ele não a entendesse errado mesmo. – Eu não vou dar bronca, brigar ou castigar, não é meu papel ou minha função. Você quer que eu ajude a preparar comida, arrumar a bagunça, brincar, colocar para dormir, tudo bem, mas a parte de educar é por sua conta. – Jeremy a olhava tentando conter o sorriso, estava levemente surpreso pela honestidade da mulher, mas feliz por ela tê-lo feito, colocar todas as cartas na mesa e ver o que o ator faria com o que ela tinha a oferecer. Ali ele teve a certeza de que Ava não conseguiria vencer e que a mulher ficaria.
- Parece que não temos nada a discutir, então. – Disse ele por fim, convidando-a em seguida para o almoço.

~ * ~


não demorou a aprender que estava ali mesmo mais para as situações de emergências do que para o dia a dia, para evitar que o ator tivesse que correr desesperado atrás de alguém, já que o ator ficava em casa boa parte dos dias e só saia para reuniões e eventos caso realmente não tivesse outra escolha. Os dias seguintes ao da volta do ator e da filha, ela pode ver como era a dinâmica entre eles e aos poucos Jeremy foi encaixando a mulher, deixando para ela a função de entreter a filha e alimentá-la enquanto ele lidava com as negociações para futuras viagens e aparições públicas em evento. O humor de Ava mudava drasticamente durante o dia, no café da manhã, enquanto Jeremy ainda estava com elas, a menina ria e participava das brincadeiras que o pai fazia com ela, depois que o ator entrava no escritório e deixava a filha com , Ava se transformava. Na maior parte dos dias, apenas ficava olhando enquanto a menina brincava sozinha, se recusando a deixar a mulher a fazer parte. Depois, na hora do almoço, quando Jeremy dava a si mesmo uma pausa, Ava voltava a mudar, e ia nessa gangorra de emoções até o fim do dia, quando o ator finalmente saia de vez do escritório e ficava com a filha até a hora de dormir dela.
Às terças e quintas eram os únicos dias que não precisava se preocupar em agradar uma criança de três anos, já que ela e Jeremy haviam estipulado que seriam os dias de folga dela por conta da faculdade, mas caso o ator precisasse, havia explicado que conseguiria assistir as aulas em outros dias para ajudá-lo. Mais rápido do que eles haviam imaginado, a rotina entre os três se encaixou perfeitamente, com não demorando a pegar o ritmo do ator e de sua filha – logo descobrindo que os remédios que havia descoberto antes pertenciam à Ava, mas como ainda se considerava recém-chegada e não julgava que fosse algo que Jeremy gostaria de falar sobre, caso contrário já teria feito, preferiu não perguntar, apesar de em uma noite ter deixado a curiosidade vencer e pesquisado na internet para que serviam alguns remédios. O problema era que a maioria servia para diversos tipos de doenças, e a mulher só ficou ainda mais confusa, desistindo logo da ideia.
O primeiro grande teste, e breve momento de pânico para chegou quando Jeremy a chamou para conversar no escritório, aproveitando que Ava havia dormido enquanto assistia a um desenho, e mostrou à babá a sua agenda de compromissos. Ele estava com um filme novo, então precisava comparecer em alguns eventos. Além disso, em breve começariam as gravações do novo filme da Marvel, e esses eram os momentos mais delicados para Jeremy, já que Ava não podia acompanha-lo sempre. O primeiro evento do ano fora o Golden Globe, no qual a menina passou o fim de semana com a mãe. O próximo seria no fim de semana, quando Jeremy teria que se ausentar para comparecer ao Sundance Film Festival.
- Eu já conversei com a Sonni, ela vai ficar com a Ava por esses dias. – Explicou ele ao ver arregalando os olhos por notar quantos dias Jeremy ficaria ausente. – Pelo menos espero que fique.
- Ela não gosta muito de ficar com a Ava? – Perguntou , ocupando a cadeira vaga ao lado do ator, a que seria dela caso ela usasse o escritório.
- Digamos que ela não irá receber o prêmio de mãe do ano. – Foi o que Jeremy respondeu e não insistiu, já sabendo como o homem era reservado em relação à sua vida pessoal. – Mas ela se comportou bem durante o Golden Globe, acredito que não haverá problemas agora.
- Então estou de folga neste fim de semana? – Perguntou , puxando a agenda do ator para analisar as próximas datas.
- Sim, tem grandes planos?
- Se por grandes planos você quer dizer grandes textos e trabalhos, então sim. – Respondeu ela, suspirando cansada, já pensando na pilha de coisas que havia para finalizar. – Não sei onde estava com a cabeça quando decidi fazer um mestrado.
- Seu futuro profissional? – Sugeriu Jeremy, recostando-se na cadeira e olhando a mulher, que revirou os olhos.
- Nunca serei uma Louise. – Resmungou ela, fazendo o ator rir.
- Com esse pensamento, não mesmo. – Observou ele, cruzando os braços e analisando a expressão dela. Ele já havia notado como ela era dedicada e amava o que estudava, mas não conseguia entender como as vezes parecia que ela gostaria de estar fazendo qualquer outra coisa. – Você é estranha. – Jeremy soltou, chamando a atenção da mulher, que desviou a atenção da agenda para olhar para ele.
- Como é?
- Desculpe, não quis ofender. – Ele disse, percebendo que a mulher parecia mais confusa e intrigada do que ofendida. – Mas quando você fala do curso, ou quando passa horas compenetrada nesses textos e trabalhos todo, eu tenho a certeza que você ama o que faz. E então quando pensa num futuro, e nos sacrifícios que faz, você muda completamente. Como se transformasse em outra pessoa que não acredita que fazer cursos como Linguística façam alguma diferença.
- Quando você compara a um engenheiro, talvez não faça mesmo. – deu de ombros. Seus olhos encontraram os de Jeremy e ela viu que ele esperava por uma explicação melhor que aquela. – Meu irmão faz engenharia na Alemanha. – Explicou ela. – E meus pais não são os mais entusiasmados quando dizem que eu me formei em Linguística, apesar de eles gostarem de contar que recebi a proposta do mestrado pessoalmente de um dos melhores professores da área.
- Ah... Agora faz sentido. – Disse Jeremy. – Se quer saber a minha opinião, que é bem honesta, acho o seu curso tão importante quanto o do seu irmão. – Revelou ele, e não duvidou de sua honestidade. – Você disse que assistiu Arrival, então você sabe como pode ter um papel mais importante que qualquer outra pessoa em determinadas situações. Em muitas situações. E eu aposto que seu irmão não recebeu alguma proposta de alguém muito conhecido e renomado da área para trabalhar em algum projeto importante. – Completou Jeremy, fazendo arregalar levemente os olhos, surpresa com a determinação do ator em tentar defender o curso dela.
- Mas pelo menos ele está trabalhando na área dele. – Rebateu , sabendo que não precisaria se desculpar para que Jeremy entendesse o que ela queria dizer com aquilo.
- Você acha que Louise começou a trabalhar logo na carreira dela? – Perguntou Jeremy, sorrindo divertido, fazendo rir levemente. – Aposto que ela foi uma garçonete também por um longo tempo. – A mulher abriu a boca para tentar responder algo, mas foram interrompidos pelo choro infantil que veio do quarto ao lado, seguido de um chamado pelo ator. – Pesadelo. – Foi tudo o que Jeremy disse antes de pedir licença e se retirar do quarto. suspirou, agradecida por não precisarem continuar aquela conversa. Ela sabia onde Jeremy queria chegar, e o agradecia por isso, mas ela estava cansada, e o ano mal havia começado.

Na quinta-feira pela manhã, Jeremy levou Ava para a casa da mãe. Foi a primeira vez desde que haviam se conhecido que a menina perguntou ao pai se ela não podia ficar em casa com ou ir com ele, recebendo as duas negativas já que o ator e a mãe da criança já haviam combinado aquilo com dias de antecedência e ele não queria dar motivos para Sonni iniciar alguma briga. aproveitou a oportunidade para aceitar a carona que Jeremy havia lhe oferecido para deixa-la na faculdade. Observando pelo retrovisor uma Ava descontente sentada atrás dela, sem ânimo até mesmo para brincar com o bicho de pelúcia que havia escolhido para acompanha-la naqueles dias. Era um comportamento tão estranho da criança que ficou tentada a sugerir que elas pudessem ficar juntas, mesmo sabendo que Jeremy negaria.
À noite, quando ela chegou em casa, anormalmente silenciosa devido à ausência de Ava, Jeremy já se preparava para ir ao aeroporto. Sua presença estava confirmada só para o sábado, mas ele gostava de chegar mais cedo, apesar de perder um dia com a filha. se ofereceu para leva-lo ao aeroporto, mas ele viu quando ela tentou disfarçar o enorme bocejo enquanto esperava por uma resposta do ator, e resolveu negar. Ele sabia que a mulher havia passado boa parte da noite acordada para finalizar um trabalho que precisava entregar naquele dia, e que já havia aguentado muito tempo acordada, não exigiria mais dela. aguentou tempo suficiente até o carro de Jeremy chegar, então ela trancou toda a casa e se jogou na cama após o banho, sem nem se importar em secar o cabelo.
dormiu tão pesado que sequer acordou com a ligação de Ted, querendo saber sobre seus últimos dias. Ela só recobrou a consciência quando seu despertador tocou, já programado para aqueles dias. Como o usual de quem dorme por muito tempo, acordou perdida, sem ter noção de que horas eram e que dia da semana estava. Encarou o celular por um longo tempo até conseguir se concentrar, se assustando ao se lembrar de que horas eram quando se deitou para dormir. Haviam duas ligações perdidas do seu irmão, algumas mensagens não lidas e mais algumas ligações perdidas do Jeremy, o que deixou confusa. Mas antes que ela pudesse retornar a ligação do ator, a campainha alta da casa começou a tocar, fazendo-a se assustar. se desenrolou dos lençóis e se levantou, caminhando até a ponta do corredor onde ficava o interfone.
- Que diabos...? – Ela franziu o cenho ao olhar pela telinha e reconhecer Ava no colo de uma mulher que ela suspeitou ser Sonni. Havia visto somente algumas fotos da mulher quando pesquisara sobre a relação entre ela e Jeremy durante o período de férias, mas não havia prestado muita atenção em seu rosto.
A mulher pegou a chave pendurada no suporte, além de um casaco para jogar em cima do pijama, e saiu de casa, esquecendo-se dos sapatos, mas resolvendo não voltar atrás. Apertou o botão que abriria o portão e se aproximou do mesmo, conseguindo reconhecer Sonni com mais facilidade agora que estavam cara a cara. Ava tinha o rosto vermelho e úmido, os olhos brilhavam e algumas lágrimas ainda caiam. Ela estava mal agasalhada para o vento frio que soprava aquela manhã. retirou o casaco que usava e o colocou em volta da criança quando Sonni a passou para seu colo.
- Que bom que está em casa. – Disse a mulher, sem nem responder ao bom dia que lhe dera. Ava se enrolou no colo da babá, enterrando o rosto no pescoço da mais velha e fungando, sentiu as lágrimas da criança em sua pele. – Eu liguei para o Jeremy, ele disse que ia te ligar... Não posso ficar com ela, surgiu um imprevisto. – mal conseguia prestar atenção no que Sonni dizia, dividida entre encarar a mulher sem acreditar no que ouvia e prestar atenção em Ava que fungava e chorava baixinho em seu colo. – Aqui estão as coisas dela. Obrigada. Tchau. – Sonni ia se afastando, mas voltou e encostou a mão nas costas de Ava, que se contorceu no colo de para fugir do toque da mãe, que pareceu não notar a atitude da menor. – Tchau, querida, até a próxima.
estava consciente do frio que fazia e de como aquilo não era saudável para ela ou Ava, mas ela ainda demorou a recobrar os sentidos e deixar de acompanhar Sonni se afastando para entrar no carro que a esperava do outro lado da rua. riu quando o carro arrancou, uma risada sem humor, de quem não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Por fim, fechou o portão, arrumou Ava melhor em seu colo, sentindo a menina se encolher ainda mais em seus braços, e voltou para dentro de casa. Considerando dar um banho quente na menor, que ainda estava de pijama, e depois preparar um chocolate quente. No meio tempo, ligaria para Jeremy, que provavelmente estaria tão puto quanto imaginava que estaria. Ela própria não estava no melhor humor em relação a Sonni.
Ava não protestou em nenhum momento enquanto a ajudava a tirar o pijama e depois a colocava sob a água quentinha, suas mãos segurando um brinquedinho enquanto a babá lhe auxiliava no banho. Depois, enquanto preparava o chocolate quente, Ava se enrolou em um cobertor, agarrou-se ao elefante de pelúcia favorito e ficou deitava no sofá assistindo a um desenho que a babá havia colocado para ela – um de seus filmes favoritos. Na cozinha, enfim desbloqueou o celular e retornou a ligação de Jeremy, tendo que tentar umas três vezes até o ator finalmente a atender.
- , finalmente! – Disse Jeremy quando ela estava prestes a desistir. – Eu te acordei?
- Não... – Disse a babá. – Mas sei o que queria falar... Ava já está aqui.
- , eu sinto muito por isso. – Disse Jeremy, ela podia ouvir a raiva e frustração em sua voz.
- Não precisa se desculpar. – se apressou em dizer. – Mas, Jeremy, o que aconteceu? Achei que vocês tivessem um acordo.
- Eu também achei, mas hoje mais cedo ela me ligou e disse que não poderia ficar com a Ava porque havia surgido algo mais importante. O que há de mais importante do que sua filha é uma ótima pergunta, mas eu não posso discutir isso com ela por telefone. – ficou em silêncio, ouvindo a respiração acelerada do ator do outro lado da linha. – Eu sabia que não deveria ter viajado ontem para cá. Poderia ter esperado mais um pouco. – Ele suspirou, podia vê-lo andando de um lado para o outro. – Vou conversar com alguém aqui para ver se posso ir embora mais cedo e não aparecer amanhã.
- Jeremy, não! – se apressou em dizer, correndo para apagar o fogo ao ver o leite fervendo. – Não precisa disso. Ava e eu podemos sobreviver até o domingo.
- Não queria que ela ficasse sem os pais. – Disse Jeremy. – Como ela está, aliás?
- Pelo menos parou de chorar. – Foi a primeira coisa que pensou. – Dei um banho quente nela, porque nem isso Sonni se prestou a fazer. Esfriou bastante de ontem para hoje e ela usando só um pijama fino. – Explicou , sentindo raiva só de lembrar como Sonni havia deixado a menina. – Agora estou fazendo um chocolate quente. Ava se enrolou num cobertor e está deitada na sala assistindo um filme. Quer falar com ela?
- Por favor. – Pediu Jeremy. pediu para que ele esperasse e foi até onde a menina estava. Um dedo estava na boca e a outra mão livre abraçava com força o elefante de pelúcia, sua atenção voltou-se para quando esta passou em sua frente e lhe estendeu o celular, avisando que era seu pai. O rosto de Ava se iluminou e ela puxou o aparelho para si. – Está no viva-voz, pode falar.
- Oi, papai. – Disse a menina, a voz manhosa.
- Oi, princesa. – Respondeu Jeremy, percebia em sua voz como ele se sentia culpado por estar tão longe de sua filha quando ela mais precisava.
- Você vai voltar pra casa?
- Ainda não, querida. – Disse ele. – Tudo bem você ficar hoje e amanhã com a ? – A mulher olhou para Ava, que olhou para a babá também. Ava podia fazer birra e pedir a presença do pai, mas viu que ela ainda estava agradecida pelo que a babá havia feito mais cedo, e a pouparia de um show agora. – Vou tentar voltar amanhã à noite.
- Tudo bem, papai. – Disse Ava, suspirando e passando a mão no rosto, uma forma de fugir do pequeno carinho que havia tentado fazer, a mulher se limitou a rir, sabendo que aquele comportamento bonzinho não duraria muito. – Tô com saudades.
- Também estou, meu amor. – Respondeu Jeremy, e imaginava como deveria ser difícil para ele. – Amanhã eu volto, então se comporte. – Pediu o ator, logo depois se despedindo e voltando a falar com . – Por hoje e amanhã eu deixo você colocá-la de castigo se for necessário, mas acredito que ela vai se comportar.
- Espero que sim. – Respondeu , voltando à cozinha para servir o chocolate quente a Ava. – Pretende voltar amanhã?
- Vou conferir as passagens agora e ver se encontro algo. Saio do evento e vou para o aeroporto se for preciso. – Jeremy voltou a suspirar, já havia perdido as contas de quantos haviam sido. – Desculpe atrapalhar seus grandes planos. – Brincou o ator.
- Tudo bem. – Disse , rindo em seguida. – Acho que mereço essa pausa.
- Te dou uns dias de folga depois.
- Não precisa se preocupar. – Garantiu ela. – Me avise quando conseguir comprar a passagem – pediu , logo depois pensando como aquilo parecia errado – para eu poder avisar a Ava. – Emendou ela, sentindo que se fosse ela no lugar de Jeremy, sabia que não acreditaria muito naquela desculpa.
- Aviso, e qualquer coisa que precisar me liga e eu vou embora daqui o mais rápido possível. – Garantiu o ator, os dois se despedindo logo em seguida.
suspirou enquanto colocava o celular no balcão, não estava em seus planos ser babá naquele fim de semana, mas não iria deixar Ava e Jeremy na mão. Era a oportunidade perfeita para ela e a criança tentarem construir alguma ligação, ela não podia perder a oportunidade. Serviu um pouco do chocolate quente que havia preparado e o levou até Ava, que sorriu levemente como agradecimento enquanto pegava o copo que a babá estendia. Serviu uma xícara para si própria e depois ocupou o espaço no sofá ao lado de Ava, assistindo ao filme junto com ela. Pelo canto de olho, observava a criança e como ela estava tão fora de seu comportamento usual. Apesar de não estar feliz no dia anterior por ter que ir ficar com a mãe, Jeremy havia lhe explicado que ela costumava ficar bem animada quando chegava na outra casa. Além disso, a infelicidade do dia anterior não era nada comparada ao daquele momento, antes era a tristeza por estar longe do pai, agora era a mais pura decepção. sentiu o coração apertar ao perceber isso.
O dia passou sem muitos problemas, Ava voltava bem aos poucos ao seu humor padrão. Ela brincou um pouco e até mesmo desenhou com durante a tarde, após o almoço. Conversando sobre alguns filmes e desenhos que gostava de assistir enquanto tentavam decidir o que ver naquela noite antes da menor ter que ir dormir. Vez ou outra ela perguntava sobre o pai, e a tranquilizava dizendo que no dia seguinte ele estaria ali. Normalmente não incentivaria tal ilusão, mas ela sabia que Jeremy viria dirigindo a noite inteira se fosse necessário estar ali o mais rápido possível para sua filha. Ao fim do dia, concluiu que a menor havia voltado ao humor de sempre quando começaram a ter problemas para convencê-la a ir tomar banho para dormir. Com Ava se recusando a obedecer a babá, que resolveu não abusar da autoridade concedida por Jeremy. Ela sabia que aquela rebeldia não era totalmente por culpa dela, e sim por Sonni e pelo que a mulher havia feito. Isso ainda somado à saudade que Ava deveria sentir do pai. A solução encontrada foi simples, com ligando para Jeremy assim que Ava saiu do banheiro, e fazendo pai e filha conversarem até a menor cair no sono. Pouco antes de desligar, Jeremy a avisou que já havia comprado a passagem de volta e que chegaria em casa duas horas antes da meia-noite, permitindo que Ava ficasse acordada até ele chegar.
Por saber que Jeremy voltaria no fim do dia, imaginou que as horas passariam rapidamente, mas bastou Ava acordar e já dar sinais de ter voltado completamente ao normal, para a mulher concluir que aquele seria o dia mais longo de sua vida. havia planejado não contar que o pai da menina voltaria no fim do dia, para lhe fazer uma surpresa, mas resolveu acabar com essa ideia ao perceber que Ava já estava preparada para vestir a sua personalidade rebelde. Era uma tentativa desesperada de tentar controlar a menina, mas que falhou miseravelmente. Os problemas começaram no café da manhã, quando Ava se recusou a comer os cereais que comia todos os dias, dizendo que por ser sábado queria algo diferente, mas recusou todas as ideias oferecidas por .
- O que você quer, Ava? – Perguntou a mulher, ficando sem mais ideias.
- Se papai estivesse aqui, ele saberia. – A menina deu de ombros.
- Mas ele não está e eu não sei, então me ajude. – Pediu , revirando os olhos quando Ava voltou a dar de ombros. – Cereal será, então.
- Eu não quero cereal. – Disse a menina, batendo a mão na superfície da ilha da cozinha.
- Se não me disser o que quer, vai ser o que você vai comer. – Disse , já tirando a tigela do armário e pegando os demais itens. – Última chance. – Avisou a mulher, já abrindo a garrafa com leite e virando-a sobre a tigela para encher a mesma.
- Não! – Gritou Ava, estendendo a mão para tentar impedir a mulher. apoiou a garrafa na superfície e olhou para a menina. – Podemos fazer panquecas?
- Viu, não foi difícil. – Disse , guardando a tigela e o cereal e pegando os demais ingredientes.
Preparar as panquecas até foi divertido, com Ava pedindo para ajudar no preparo e vez ou outra ameaçando jogar farinha na babá, que sorriu ao ouvir a menina rindo quando passou um pouco da massa na ponta do nariz da menor. Enquanto ajudava Ava a mexer a massa na tigela, se perguntou por que não podia ser daquele jeito sempre, por que Ava tinha que ser tão relutante em aceita-la. Ela não admitiria em voz alta para a criança ou Jeremy, mas a rebeldia da menina com ela a machucava em determinados momentos, e talvez aquele comportamento fosse um dos motivos da constante exaustão de . Não era fácil se desdobrar tanto para cair nas graças de uma criança.
Enquanto fritava as panquecas, Ava ficou fazendo desenhos, vez ou outra pedindo a ajuda de . Elas comeram na sala, apesar de ser praticamente contra as regras da casa, mas Ava pediu e concluiu que não faria mal permitir aquilo um dia só. Depois se resolveria com Jeremy caso o homem reclamasse. Mas ele não o fez quando ligou no meio do café da manhã e a menor disse entre risadas o que elas faziam. concluiu que até ele concordava com ela que não fazia mal quebrar a regra naquele dia. Jeremy e Ava ainda conversavam quando recolheu os pratos para ir lavar a louça e limpar a bagunça na cozinha, não haviam sujado muita coisa, mas era impossível deixar a cozinha impecável enquanto se preparava alguma comida. Quando voltou à sala, Ava estava deitada de barriga para baixo no tapete da sala e brincava com algumas bonecas. aproveitou a deixa para pegar alguns textos da faculdade, aproveitando a demora de Ava para reclamar de estar com fome para o almoço.
Parecia um dia normal como qualquer outro, como se Jeremy estivesse no escritório e babá e criança conviviam na quase perfeita harmonia. largou os textos quando a menina reclamou de fome, e foi preparar algo rápido para ambas almoçarem. Com Ava logo em seguida pedindo para assistir a um filme, mas demorando para se decidir, tentando imitar o que havia acontecido no café da manhã, mas não insistindo ao ver que não lhe daria tanta liberdade para repetir o feito. A mulher achou que aquilo seria o final, principalmente por olhar no relógio e ver que estava cada vez mais próxima a volta de Jeremy à casa, mas Ava tinha outros planos. O filme estava na metade quando ela se aproximou de e ficou parada ao seu lado até a babá lhe dar atenção.
- O que foi, Ava? – Perguntou , abaixando o livro teórico que lia.
- Eu quero sorvete. – Pediu a menina.
- Não tem sorvete. – Respondeu , após tentar se lembrar se havia algum pote perdido na geladeira.
- Você está mentindo. – Acusou Ava, provavelmente desconfiando da demora da babá em lhe dar uma resposta.
- Não, não estou. – Disse , tentando conter o suspiro que ameaçou soltar.
- Eu quero sorvete. – Repetiu Ava, batendo o pé.
- Ava, não tem sorvete! – suspirou, largando o livro e dando total atenção para a menina.
- Não acredito em você. – Respondeu a menor, cruzando os braços e fazendo um bico.
- Vem aqui. – se levantou, e foi até a cozinha, abrindo a porta da geladeira. Ava a seguiu um pouco incerta – Vê? Sem sorvete.
- Eu não consigo ver tudo, pode estar lá no alto. – A menina apontou para as prateleiras mais altas. suspirou e a pegou no colo, fazendo ela ver toda a geladeira.
- Não tem sorvete. – Disse a babá, colocando Ava de volta no chão. A menina olhou a geladeira e então para .
- Então eu quero bolo. – Disse ela, como se fosse a troca mais óbvia.
- Ava, não tem bolo também. – passou a mão no cabelo. Estavam indo tão bem, por que ela havia resolvido acabar com a harmonia justo agora?
- Você pode fazer. – Disse a menina.
- Não, não posso. – Respondeu .
- Por que não?
- Regras do seu pai.
- Ele não precisa saber.
- Ele vai saber. – Garantiu , sabendo que não precisaria explicar à menor que elas não acabariam com o bolo até a volta do ator.
- Eu quero bolo. – A menina voltou a bater o pé, voltou a suspirar, olhando de relance para o relógio para tentar calcular quanto tempo faltava para Jeremy chegar em casa, imaginando que ele deveria estar saindo do evento naquele horário e indo direto para o aeroporto, como disse que faria. Diante da falta de resposta da babá, Ava bateu o pé novamente. – Eu vou gritar.
- Grite. – deu de ombros, fechando a porta da geladeira e voltando para a sala. Ava começou a gritar no exato momento em que ela se sentou no sofá, o som fino e agudo espalhando-se pela casa. olhou ao redor, procurando o fone de ouvido e o colocou, não tocava nenhuma música e não apagava completamente o grito da menina, mas abafava o suficiente para ela conseguir se concentrar no livro que lia antes.
Ava continuou a gritar por um longo tempo, até sentir que sua garganta doía e a boca estava seca, e percebendo que aquilo não adiantaria em nada. Ela cutucou quando parou, pedindo um pouco de água, sendo prontamente atendida. Tentou pedir por bolo novamente, mas a babá se recusou, resolvendo agora trazer à tona a autoridade que Jeremy havia lhe dado, e apontando que se não fosse a birra da menor, ela poderia até ter cedido e feito o bolo. Ava, em um último ato de rebeldia, ameaçou fazer greve de silêncio. Ficando ainda mais determinada quando cruzou os braços e arqueou uma das sobrancelhas.
- É mesmo? – Perguntou a babá, mordendo o interior da bochecha para segurar a risada. Era uma imagem engraçada aquele tamanho de gente querendo mandar tanto.
- É, não vou falar mais nada com ninguém, nem com o papai e a culpa é sua. – Disse a menina.
- Fique à vontade. – Disse , guardando o copo que ela havia lhe devolvido e voltando para a sala, ouvindo a menina a seguindo.
- Papai vai te mandar embora. – Ameaçou a menina. resolveu ignorar, logo em seguida vendo a menina passar o dedo na boca, como se fechasse um zíper invisível. olhou o relógio para marcar as horas e ver quanto tempo aquilo duraria.
Durou mais do que ela imaginava. Normalmente, Ava já não falava muito com ela, só o suficiente para pedir algo. Mas naquele dia, mesmo quando precisava de algo que a babá sabia que Ava queria, a menor se recusava e dava um jeito de conseguir por conta própria. Não fosse o som da televisão passando um desenho qualquer, o fim do dia teria sido todo no mais completo em silêncio. Em determinado momento, até mesmo interrompeu sua leitura para ficar observando Ava, que se revezava entre assistir ao desenho e olhar a babá, esperando que a mulher cedesse. Mas estava tão determinada quanto a criança para ver até onde aquilo iria. A mulher suspeitou que assim que ouvisse o pai chegar, Ava interromperia sua greve de silêncio. Mas agradeceu por não ter feito nenhuma aposta.
Ava já estava quase dormindo quando a porta da casa se abriu e Jeremy entrou. Ava ficou em pé no sofá, o sorriso rasgando o rosto de orelha a orelha, mas a menor não emitiu qualquer som. Nem mesmo quando Jeremy lhe fez uma pergunta direta. Ava se contentou em abraça-lo e lhe dar um beijo no rosto, permanecendo em seu colo enquanto o pai a acariciava e tentava extrair qualquer som da criança. Cansado, e percebendo que aquilo não lhe daria resultados, Jeremy recorreu à mulher sentada no sofá, que observava com atenção a cena e sorria divertida.
- O que aconteceu? – Perguntou Jeremy, apontando para Ava mesmo que já soubesse o que ele queria dizer.
- Ela está fazendo greve de silêncio. – Explicou .
- Essa é novidade. – Disse Jeremy, olhando a filha, que permaneceu com o rosto enterrado na curva do pescoço. – Qual é o motivo?
- Você quer contar, Ava? – Perguntou , vendo a menina negar com um aceno da cabeça. – Bem, ela queria sorvete, mas obviamente não temos sorvete. – Contou . – Então ela pediu bolo, mas não tinha bolo e eu não ia fazer porque você me disse que não era para fazer. – Continuou ela. – Então ela resolveu gritar.
- Gritar? Ava! – Ralhou Jeremy, vendo a menina se encolher em seu colo.
- Ela gritou até cansar. – continuou, vendo Jeremy arregalar os olhos surpresos por descobrir que a babá não tentara parar a filha. – Então ela tentou de novo conseguir o bolo, mas eu resolvi usar da autoridade que você me deu e não fiz por causa da sessão de gritos. E então ela disse que faria greve de silêncio. – Concluiu , suspirando. – Diz ela que por isso, pela greve, você vai me demitir.
- Não vou te demitir. – Tranquilizou-a Jeremy. Ele colocou a filha no sofá, apesar da menina ter agarrado com força o pescoço do pai. – E você, mocinha, vai ficar sem bolo por mais uma semana... Duas se não parar com essa greve de silêncio agora. – viu o queixo de Ava tremendo quando as lágrimas surgiram. – Eu falei que era para se comportar. Na próxima vez eu ia te levar comigo, mas agora não sei mais se você merece.
- Papai, não... – A menina começou a chorar, estendendo o braço para pedir colo ao ator. sentiu o coração apertar.
- Pede desculpas para a . – Pediu o ator, a mulher tentou protestar dizendo que não era necessário, mas sabia que não era certo contrariar sua ordem. Ava balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo pelo rosto. – Ava, pede desculpas.
- Desculpa. – Ela falou tão baixo, que e Jeremy mal ouviram, e o ator pediu que ela falasse mais alto. Ava olhou para o pai, os olhos brilhando com as lágrimas. – Desculpa.
- Não para mim, para a . – Ele apontou para a babá, que ainda estava sentada no sofá. Ava olhou para ela e repetiu o pedido, vendo a mulher assentir. – Agora vai dormir que já passou da sua hora.
- E a historinha?
- Sem história hoje. – Jeremy apontou para o corredor. Ava desceu do sofá e seguiu para o quarto. – Já volto. – Disse o ator, acompanhando a filha. respirou fundo e passou a mão no cabelo, não imaginava que veria tal reação do ator. Ela se levantou do sofá e juntou a bagunça de textos que havia feito, deixando-os em cima da mesinha de centro. Não demorou muito para Jeremy se juntar a ela. – Fiquei só até ela dormir.
- Não precisava ter sido tão severo. – Disse , enquanto o acompanhava até a cozinha, onde ele se serviu do que restava da janta que ela havia feito mais cedo.
- Precisava sim. – Disse Jeremy. – Era para você estar de folga e você cuidou dela. Não é certo ela reagir assim. Ava sabe que os atos dela têm consequências, sempre foi assim. Ela pediu desculpas de novo, queria muito que eu lesse algo para ela.
- Deveria ter lido. – Disse . – Ela se comportou bem ontem, e hoje não foi tão ruim assim.
- ... – Começou Jeremy, mas a mulher levantou as mãos para interrompê-lo.
- Eu sei, eu sei. Desculpe. – Pediu a moça, era a filha dele, ela não deveria dar palpites. Jeremy ficou em silêncio, ignorando o prato de comida que havia servido para ele próprio. Aproximou-se da mulher, que guardava os pratos que ela e Ava haviam usado mais cedo, e a parou. Os olhos de focaram nele, a dúvida quanto aos atos dele estampada em sua expressão.
- Obrigado. – Foi tudo o que Jeremy disse, e ela sabia o que aquilo significava. sorriu e assentiu, sorrindo um pouco mais quando o ator também sorriu, se afastando da mulher para poder comer.
Ela se afastou para guardar seu material e poder tomar um banho. Agradecendo a distância para que pudesse acalmar as batidas de seu coração, que havia acelerado com a repentina aproximação do ator. Ela sabia que era bobeira e que aquela fora uma reação causada devido ao susto tomado por ver o ator tão próximo, sem ela sequer ouvir sua aproximação. Não podia ser outra coisa. parou no meio do caminho para conferir Ava, sorrindo ao encontra-la adormecida abraçada ao elefante favorito.
- Você quer ler uma história para ela, não quer? – Ouviu a voz de Jeremy dizer, assustando-se por não ter escutado a aproximação do ator. desviou o olhar para focar nele.
- Tenho o coração mole. – deu de ombros.
- Amanhã eu leio. – Tranquilizou-a o ator, fazendo assentir.
- É contra as regras comer no quarto. – Ela apontou para o prato que ele carregava.
- Hoje é o dia das exceções. – Disse Jeremy, fazendo a mulher rir.
- Boa noite, Jeremy.
- Boa noite, .

Capítulo 4


não tinha esperanças de que as coisas melhorariam quando o primeiro mês do ano acabasse e o próximo começasse. Os professores na faculdade pareceram sair do modo festas e voltaram a ser os mesmos carrascos de sempre. O que a ajudou a ficar menos tensa nos primeiros dias foi a viagem que Jeremy fez para Atlanta para poder assistir à final do futebol americano. Ele não torcia para nenhum dos times, mas ia acompanhar Chris Evans e alguns outros amigos. E Ava iria ficar com a mãe, após uma longa discussão do ator com a própria filha e, posteriormente, com Sonni que parecia não entender o motivo da menina não poder acompanha-lo no jogo. até mesmo considerou sugerir ficar com a menina durante o fim de semana, mas três professores haviam marcado provas para a terça-feira e o orientador de seu projeto havia pedido um relatório parcial do projeto para ser entregue na segunda-feira seguinte ao jogo. Então ela agradeceu quando, na quarta-feira, Jeremy anunciou que ela ficaria sozinha no fim de semana.
- E dessa vez espero que ninguém interrompa sua folga. – Disse o ator, enquanto terminava de fazer uma anotação na lateral do texto. – Garanti a Sonni que não haveria ninguém em casa, então ela que sacrifique a vida dela um pouco para ficar com a filha.
- Você sabe que eu não me importaria. – Disse , largando a caneta para olhar o ator.
- Sua agenda diz o contrário. – Respondeu ele, apontando para o bloco de anotações no qual ela havia anotado seus compromissos para a semana seguinte. – E eu ainda preciso te recompensar pela folga anterior.
- Jeremy, você me deu folga por quase uma semana depois daquele dia. – Observou ela, se lembrando do trabalho que o ator tivera para limpar sua agenda a fim de recompensá-la pelo que Sonni havia aprontado. – Fui contratada para ser a babá de Ava, e é isso que eu tenho que fazer.
- Eu sei a dor de cabeça que ela dá para você, . – Comentou Jeremy, apoiando-se na cadeira a frente da babá. – Não acho justo te deixar só com duas folgas semanais, sendo que você só as tem porque tem que ir para a aula.
- Ninguém vai ganhar essa discussão, não é? – Perguntou a mulher após ponderar por um longo tempo, Jeremy riu.
- Não. Não iremos. – Respondeu ele. – Vou deixar você estudar e ver o que Ava está aprontando.
- Jeremy, ela está dormindo. – Lembrou a babá, olhando o relógio para confirmar que não fazia nem meia hora que a menina havia deitado para dar seu cochilo da tarde.
- Era minha desculpa para deixar de te atrapalhar.
- Você não atrapalha. – Disse ela antes que pudesse pensar apropriadamente em suas palavras. Jeremy abriu um sorriso de lado e arqueou a sobrancelha. revirou os olhos, dando de ombros logo em seguida. – É a verdade. Você é aquela distração que surge quando não sabemos que precisávamos de uma distração.
- Obrigado? Eu acho. – Disse ele. – Isso foi um elogio?
- Um agradecimento, talvez. – Respondeu .
- Não há nada para agradecer. – Garantiu Jeremy, piscando um olho para a babá antes de se retirar para fazer sabe-se lá o que. ficou um tempo ainda encarando o local que ele ocupava antes, sua mente correndo livremente pelos pensamentos mais indevidos que ela deveria ter, até que ela percebeu o caminho perigoso que percorria e balançou a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos e voltando a focar no texto a sua frente.
Outra que não havia ficado muito feliz com o acordo fora Ava, a lembrança do último fim de semana com a mãe ainda clara em sua mente. Quando Jeremy lhe informou que na sexta à noite ele a levaria para a casa de Sonni no caminho para o aeroporto, a menina olhou para à espera de que a babá viesse lhe salvar, mas estava tão concentrada em seu texto que sequer percebia a discussão que rolava entre pai e filha. Ava chorou e ficou um tempo emburrada num canto do sofá, uma pequena parte entendia que o próprio pai não estava feliz com o acordo, mas a maior parte, que era dominante, não conseguia deixa-la não fazer uma birra para tentar convencê-lo. Qualquer pessoa seria melhor para ela passar aqueles dias do que a mãe. Apesar de chateada, Ava conseguiu encontrar algo para animá-la durante o jantar – o único horário que Jeremy conseguiu arrancar dos livros para se juntar a eles.
- Papai? – Chamou a menina, chamando a atenção do pai. – Quando o Digby volta para casa?
- Quando eu voltar. – Disse o ator, logo desviando a atenção para , que ao mesmo tempo o questionava.
- Quem é Digby? – Perguntou .
- Nosso cachorro! – Foi Ava quem respondeu.
- Vocês têm um cachorro?
- Ele estava num hotel por conta dos diversos compromissos do começo do ano. – Explicou Jeremy. – Era para ele já ter voltado, mas surgiu o jogo e eu resolvi deixar por mais uns dias. Você mal se acostumou com a Ava e nossa rotina, não achei justo jogar um cachorro na equação.
- Obrigada pela consideração. – Disse a mulher, apesar de revirar os olhos levemente.
Mas no fundo agradeceu mais do que Jeremy poderia imaginar por ele ter deixado o cachorro afastado por mais um tempo. No final daquele mês completaria dois com a família Renner e ainda não havia conseguido se adaptar. Não ajudava nada o fato de Ava se mostrar cada vez mais rebelde e não se importar com os diversos textos que tinha para ler e outros diversos trabalhos para fazer. E a mulher se sentia desconfortável em pedir a ajuda de Jeremy, pois sabia que aquele começo de ano era o mais complicado já que ele próprio estava organizando sua agenda para os meses seguintes e começava a preparação para gravar o próximo filme dos Vingadores.
E agradeceu ainda mais quando o fim de semana chegou e ela se despediu de pai e filha e teve a casa só para si. mal sabia por onde começar a se organizar. Não sabia se deveria aproveitar enquanto podia e dormir tudo o que não vinha dormindo – já que Ava havia criado o hábito de acordá-la o mais cedo possível todos os dias sempre por algum motivo absurdo, sem considerar as noites já mal dormidas da babá – ou se já enfrentava os trabalhos e textos que havia acumulado especialmente para aquela folga.
Não era o fim de semana glamuroso que qualquer outra pessoa teria em sua posição, mas não se importava. Estava fazendo o que gostava, e no domingo de manhã já tinha tudo terminado – após duas longas noites com o total de quatro horas de sono. O que veio bem a calhar, já que ela estava louca para assistir ao jogo, apesar de também não torcer para nenhum dos dois times. Após finalizar o trabalho e imprimi-lo, ela comeu algo para fingir que era um café da manhã, se jogou em sua cama e dormiu até a hora do jogo. Acordando com o despertador e quase se arrependendo de gostar de futebol americano, caso contrário dormiria até o dia seguinte sem qualquer problema.
Porém, ao final do jogo, e após superar todas as inúmeras emoções que o mesmo lhe proporcionou, ela até agradeceu por ter acordado, ou não teria acreditado quando alguém lhe contasse o que havia acontecido e como os Patriots haviam conseguido virar o jogo de forma incrível e, ela acreditava, histórica. Durante os intervalos ela havia recebido algumas mensagens, principalmente de Ted e Jeremy – que queria saber se ainda estava tudo bem em casa e nada havia acontecido, como a Sonni largando a filha em casa de novo. O ator pareceu se animar ainda mais quando descobriu que a mulher estava assistindo ao jogo, chegando até mesmo a mandar alguns vídeos da partida ou dos momentos do intervalo, mesmo que não desse para ela ver muita coisa já que o local onde Jeremy estava era consideravelmente longe do campo para uma gravação decente feita pelo celular.
Domingo acabou e segunda chegou, com Ava junto. Sonni não quis esperar Jeremy voltar, já que o ator desembarcaria somente no final da tarde, e passou na casa logo após o almoço para entregar Ava, que parecia mais animada do que da outra vez que passara com a mãe. havia acabado de enviar o seu relatório para o professor quando ouviu a campainha e não teve problemas em reconhecer a mãe a filha, abrindo o portão e esperando na porta para Ava vir até ela, querendo evitar qualquer contato com a ex de Jeremy. A menina a cumprimentou, entregou sua mochila para a babá e entrou em casa. não sabia se devia temer ou não aquele comportamento tão... Comportado, mas o aceitou. Não durou muito, claro.
Quando desfez a mochila de Ava e guardou cada coisa em seu devido lugar, a menina esperou até que a babá saísse do quarto, para pegar um lanche para Ava, para poder bagunçar tudo de novo, jogando não só os itens da mochila, como outros no chão e os espalhando pelo quarto. quase derrubou o prato com o lanche no chão quando entrou no cômodo e viu a bagunça, tendo que respirar fundo e se lembrar que Jeremy já estava chegando. Porém, ela aproveitou que o ator havia permitido de novo que ela tivesse autoridade e pediu que Ava a ajudasse, não movendo um dedo até a menina começar a pegar as peças de roupa que havia jogado no chão e colocando-as no cesto de roupa suja. já havia percebido que Ava ficava menos propensa a desafiá-la quando mostrava sinais de que não iria se dobrar tão facilmente e não iria abusar da autoridade dada pelo pai da criança. Ava podia ter apenas três anos, mas sabia que ela entendia muito mais do que fazia parecer.
O voo de Jeremy acabou atrasando e teve que improvisar, já que Ava esperava ter o pai em casa àquela altura. Novamente, a menina se comportou bem, mas já esperava que não duraria. E não se surpreendeu quando o ato começou, horas depois. Enquanto esperavam o ator, Ava aceitou a sugestão de de assistirem a algum filme logo após o jantar – na verdade Ava assistiria enquanto estudava para as provas do dia seguinte. Jeremy chegou na metade do filme, fazendo se assustar com o grito que Ava deu ao ouvir o pai a chamando da porta de entrada.
- Incoming. – Disse Jeremy, quando viu Ava correndo em sua direção para pular em seu colo. A menina ria no colo do pai, sentindo-o distribuir diversos beijos por seu rosto e fazer cócegas em sua barriga. – Como você está, princesa?
- Bem. – Respondeu a menina entre risadas. apoiou o caderno em sua perna e ficou olhando a cena.
- Vai ajudar o papai? – Perguntou Jeremy.
- Sim! – Respondeu Ava, tirando o cachecol que o ator usava. Jeremy a colocou no chão e olhou para , sorrindo.
- Oi, .
- Olá. – Ela acenou, abrindo um sorriso também.
- Espero que ela não tenha dado muito trabalho. – Disse Jeremy, enquanto via a filha se enrolando para arrumar o cachecol dele.
- Nada que eu não pudesse lidar e resolver. – Respondeu , não conseguindo conter o suspiro. Ava olhava do pai para a babá, mordendo o lábio inferior, não se deixou enganar pela expressão inocente.
- Vou guardar as malas, já volto. Ava, continue assistindo seu filme. – Disse Jeremy, logo se afastando para seu quarto.
ficou observando cada movimento feito pela criança, que contornou o sofá e se sentou, olhando para a televisão, mas tinha a impressão que sua mente estava longe. Jeremy não demorou a se juntar a elas, porém percebeu que ele havia tomado um banho, já que usava outra roupa e tinha os cabelos molhados. Ritual de qualquer um que passa muito tempo em aeroportos, chegar em casa e se livrar da “aparência de aeroporto” o mais rápido possível.
- Estou morrendo de fome. – Comentou Jeremy, que tinha Ava sentada em seu colo. – Já jantaram?
- Sim. – Confirmou .
- E qual foi o cardápio da vez? – Perguntou o ator. começou a responder, mas Ava foi mais rápida.
- Sorvete. – Respondeu ela, chamando a atenção do pai e da babá.
- Como é? – Perguntou Jeremy, olhando para a filha e segurando a risada, já sabendo que era mais uma das peripécias dela.
- me deu sorvete de janta. – Disse Ava, completamente séria. passou a mão no rosto, coçando a testa enquanto ouvia Jeremy rir.
- E por que ela fez isso? – Perguntou o ator.
- Não sei, – Ava deu de ombros – acho que ela não queria fazer comida pra mim.
- É mesmo? – Jeremy olhou para , que apenas deu de ombros, já cansada demais para tentar dizer qualquer coisa. O ator ficou se sentiu mal pela babá e a forma que a filha agia. – Ava, querida, nem tem sorvete em casa.
- Ela foi comprar. – Disse a menina.
- É mesmo? – Jeremy repetiu, vendo a menina concordando com a cabeça. O ator suspirou, agora ele próprio cansado. – Cadê o pote, então?
- Ela jogou no lixo.
- Vocês duas comeram um pote inteiro de sorvete? – Jeremy perguntou. ponderou que aquilo não seria impossível, não para ela pelo menos, mas preferiu ficar em silêncio. Ava mordeu o lábio inferior, começando a perceber que o pai não estava caindo em sua nova mentira. – O que vou fazer com você, Ava? – O ator suspirou. – Mentindo agora? Não foi isso que eu te ensinei.
- Mas, papai, não é mentira... – A menina disse, fazendo sua melhor cara de inocente.
- Então vai pegar o pote para mim. – Disse Jeremy, apontando para a cozinha.
- Ela já jogou fora. – Ava protestou, revirou os olhos, a menina era mesmo determinada.
- Ava, chega. – Disse Jeremy, adotando uma expressão e postura mais severa. – Não aguento mais você inventando mentiras para fazer a ser demitida, ou fazendo greve de silêncio ou gritando pela casa. Ela não vai embora e é bom que você aceite isso logo. Ou viverá num castigo eterno.
- Mas eu...
- Chega. – Disse Jeremy, a menina fechou a boca, viu o queixo começando a tremer. – E nada de chorar. Você fez coisa errada e sabe.
Ava abaixou a cabeça e se encolheu contra o pai, que resistiu ao impulso de abraçar a filha, olhando para , que apenas deu de ombros e voltou sua atenção aos textos. Jeremy passou a mão no rosto, mais cansado do que estava há cinco minutos. Não sabia mais o que fazer com a filha e sua atitude com a babá. Achou que aquela rebeldia passaria logo e não duraria mais de um mês, mas parecia que a cada vitória da contra ela, Ava ficava mais determinada. Uma coisa era inventar uma greve de silêncio ou sair gritando pela casa, mas agora chegar ao ponto de contar mentiras... Ele não sabia onde havia errado para a filha chegar a esse ponto.
- Jeremy? – Ele ouviu chamando quando sentiu o toque dela em seu braço. Quando ele e a olhou, a mulher possuía um sorriso divertido no rosto. – Quer que eu faça algo para você comer?
- Não, não precisa. – Disse o ator, passando a mão no cabelo e olhando a filha ainda encolhida em seu colo, olhando a televisão. – Eu mesmo faço, pode continuar estudando.
- Já estou naquele ponto em que as letras não fazem mais sentido. – riu, fechando o caderno e se espreguiçando. Jeremy não conseguiu desviar a atenção da mulher e de seus movimentos. Agradecendo quando Ava se mexeu e o distraiu.
Sob os protestos da filha, Jeremy a tirou de seu colo e a colocou no sofá em seguida, se levantando e indo para a cozinha antes que se distraísse ainda mais. pareceu não notar a mudança brusca no comportamento do ator, olhando para Ava enquanto ela reclamava do afastamento do pai e depois voltando-se para a televisão e o filme que lá passava, permitindo-se desligar e relaxar para o dia seguinte.

~*~


Fazer três provas num mesmo dia e passar o fim de semana fazendo trabalhos era algo que preferia enfrentar todos os dias a lidar com a rebeldia de Ava. Apesar da menina ter melhorado significativamente depois da bronca que o pai lhe dera, ainda sofria com os momentos de irritabilidade da criança. Momentos que ela preferia deixar só entre as duas porque não queria deixar Jeremy mais desapontado com a filha. O humor de Ava, entretanto, pareceu melhorar exponencialmente quando um dia seu pai chegou avisando que ela iria com ele ao Oscar, no final do mês, sob a condição de que ela se comportasse e não aprontasse mais nenhuma com . Foram os dias mais pacíficos que teve na casa desde que Jeremy e Ava voltaram da viagem de fim de ano.
No dia anterior ao evento, uma caixa foi entregue com roupas para Jeremy e Ava. O ator parecia bem feliz com a escolha que havia feito para o vestido da filha, e concordava, das três opções enviadas a que ele havia escolhido era a melhor. Mas sugeriu que era melhor mostrarem outra opção para ela, pois a babá sabia que em algum momento aquele bom comportamento da Ava acabaria e arruinar um vestido maravilhoso era a desculpa perfeita para quebrar seu momento de paz. Jeremy disse que sua filha não seria tão má a ponto de estragar o vestido, mas acabou concordando com após ver a careta que ela fez. Ava não pareceu muito feliz com a escolha que e Jeremy lhe mostraram, mas não fez qualquer reclamação.
Na manhã de domingo, a menina acordou num ótimo humor, deixando até mesmo dormir até tarde, sem ir até seu quarto para acordar a babá com algum motivo absurdo. Jeremy parecia estar num clima completamente diferente, constantemente olhando o relógio para se certificarem que não se atrasariam. Facilitava o fato de Ava não precisar passar por todo o processo que mulheres geralmente passavam, mas era difícil controlar a filha hiperativa que não parava de correr de um lado para o outro, brincando com o cachorro, de tão animada que estava por poder acompanhar o pai.
- Você pode ficar com ela e ajudá-la a se arrumar? – Perguntou Jeremy, enquanto ele e se movimentavam pela cozinha. Ela lavando a louça do café da manhã e o ator guardando as coisas em seus devidos lugares.
- Claro. – Concordou . – Coloco o vestido que a gente mostrou e quando vocês estiverem quase saindo, mudo para o que nós escolhemos.
- Ainda acho exagero. – Comentou Jeremy, dando uma risada leve.
- Quando ela aprontar alguma coisa, você vai me agradecer. – Disse , sorrindo de lado para o autor enquanto o entregava um prato para ele guardar no armário.
- Espero que você esteja errada. – Disse Jeremy, apesar de começar a sentir o mesmo medo da babá.
Eles deixaram Ava brincando por mais um tempo, Jeremy se juntando a ela enquanto terminava mais um relatório que seu orientador havia pedido. O ator se surpreendia com a facilidade que a babá tinha em manter tudo em ordem e organizado, não sabia de um trabalho que ela havia passado do prazo de entrega. E ela ainda havia começado a ajudá-lo com algumas coisas do trabalho também, sem ele sequer considerar pedir por sua ajuda. Quando percebeu, ela já estava fazendo.
- Mais um dez? – Perguntou Jeremy quando ela fechou o notebook e escorregou no sofá para se deitar.
- Esse não vale nota. – Respondeu ela.
- Mas aposto que seria um dez se valesse. – Comentou Jeremy.
- Exagerado. – revirou os olhos, logo depois conferindo o relógio e suspirando. – Quinze minutos para começarmos, vou preparar as coisas da Ava.
Jeremy acompanhou Ava em sua brincadeira por um tempo, e logo depois a mandou para o quarto com , a menina tentou protestar um pouco, mas desistiu logo depois quando o pai a lembrou para o que ela tinha que se arrumar. quase riu da careta que Ava fez quando viu o vestido novamente, soltando um suspiro derrotada por ter que usar algo tão feio. Seu pai costumava sempre acertar em suas escolhas, não sabia o que havia errado dessa vez. Enquanto tomava banho, Ava ficou em completo silêncio, queria não ficar preocupada por achar que já estava exagerando demais, mas não conseguiu. Durante todo o processo de se vestir e arrumar o cabelo, a menina ficou em completo silêncio, apenas seguindo as ordens da babá no automático. Os lábios de já estavam vermelhos diante a preocupação total dela. Preocupação que se confirmou quando ela começou a arrumar o quarto de Ava e a menina ficou sozinha sem supervisão por alguns poucos minutos, o suficiente para ela causar estrago.
- Ah não. – Gemeu , ouvindo a risada da menina nos fundos da casa, acompanhada dos latidos de Digby.

Jeremy terminava de dar o nó na gravata, parado no meio da sala quando a porta que dava para o quintal atrás da casa se abriu e Ava e entraram, chamando a atenção do ator, que primeiramente olhou de relance e então voltou o olhar focando em sua filha que tinha não só as mãos, como as bochechas e todo o vestido salpicado com terra e lama, as marcas das patas do cachorro, que havia deixado do lado de fora, bem visíveis em alguns pontos do tecido. O ator suspirou, olhou rapidamente para , vendo que a mulher mordia o lábio inferior e remexia as mãos, claramente nervosa com toda a situação.
- Ava, por que você está toda suja? – Perguntou ele, vendo enquanto a filha e a babá se aproximavam. A menina mexeu na barra do vestido, levantando-o e fazendo Jeremy suprimir um gemido ao ver que até a meia-calça que ela usava e os sapatos estavam sujos.
- deixou eu brincar lá fora. – Respondeu ela, fazendo a mulher arregalar os olhos e Jeremy suspirar mais uma vez enquanto ele e a babá trocavam olhares significativos, mais tarde o ator teria que se lembrar de agradecer a mulher.
- , pode vir aqui? – Pediu ele, se afastando um pouco enquanto mexia no cabelo, ouvindo a mulher se aproximando de onde ele havia parado. – Você deixou que ela fizesse isso?
- Claro que não! – Disse , os dois mantendo a voz baixa.
- Então o que eu perdi? – Perguntou Jeremy e teve dó dele, obviamente o ator tinha muitas esperanças na filha justo naquele dia.
- Eu avisei que ela ia fazer algo com o vestido. – cruzou os braços. – E ela ainda está determinada em me fazer ser demitida, o bom comportamento das últimas semanas foi só por causa de hoje. – Jeremy olhou para a mulher como se quisesse entender como havia chegado àquela conclusão. – Jeremy, eu fiz questão de pedir para que ela se comportasse, você fez o mesmo. Tirei a atenção dela por dois segundos enquanto eu arrumava as roupas que ela usava antes, e quando vejo ela não está mais no quarto, cheguei no quintal e ela está daquele jeito, o cachorro pulando nela e ao redor dela.
Jeremy suspirou, notou como aquilo estava cansando o homem, ele olhou o relógio e revirou os olhos. Olhou para a babá e então para a filha, deixando a primeira para trás e se aproximando da menor, abaixando-se para ficar na mesma altura dela. A menina o olhava com atenção e uma expressão de inocente que quase acreditava se não soubesse o que ela havia aprontado.
- Ava, por que fez isso?
- deixou...
- Ava, o que falei sobre as mentiras? – O tom de voz do ator foi firme e a menina fez um bico. Ava olhou para , na esperança que a babá fosse vir para salvá-la, mas tudo o que a mulher fez foi cruzar os braços e olhar da menina para Jeremy, como se quisesse dizer que a situação era entre os dois e que ela estava fora daquilo. Os olhos claros da criança voltaram a focar no pai, um brilho diferente que não demorou a perceber que eram lágrimas. Jeremy revirou os olhos ao notar a tática da filha e respirou fundo. – , pode, por favor, dar um banho nela e arrumá-la de novo? – Ava suspirou, não ouvir uma bronca do pai era pior do que a bronca em si, ainda mais com o olhar severo que ele lhe lançou.
- Claro. – Respondeu , surpresa com a tática do ator.
- Sem mais gracinhas, Ava, já estamos atrasados. – A menina fez bico novamente, ainda assustada com a expressão severa e irritada do ator.
- Estou de castigo? – Perguntou ela enquanto Jeremy se levantava.
- Ainda não, vou decidir isso depois. – Ele começou a se afastar e parou no meio do caminho, que se aproximava de Ava também parou, principalmente por ele tê-la chamado. – Ah, , quando terminar com Ava, não esqueça de se arrumar também. Preciso que você vá comigo.
- O quê? – e Ava perguntaram juntas, e Jeremy quase abandonou a postura para rir das duas.
- Preciso que alguém fique com Ava no carro enquanto faço a parte da imprensa. – Explicou ele.
- Mas por que não posso ficar no carro com o tio Bob como das outras vezes? – Perguntou Ava, olhando para o pai, começando a entender o que ele pretendia.
- Porque a ficar com você faz parte do seu castigo. – Respondeu o ator, dando um sorriso de lado ao ver a filha arregalando os olhos. O sorriso logo sumindo ao perceber a mudança na postura de , que a princípio parecia confusa, mas logo ficou incrédula ao perceber o que o ator queria com aquilo.
- Não. – Disse de repente, chamando a atenção de Jeremy e Ava. – Eu não posso ir junto.
- , eu preciso que você vá.
- Jeremy, não. – Disse ela, firme. – Eu vou arrumar a Ava e depois nós vamos conversar.
Enquanto a babá e a criança se afastavam no corredor, Jeremy permaneceu onde estava, completamente estático, surpreso com a reação de . Ele não esperava que tão cedo ela tomaria as rédeas de alguma situação e o colocaria em seu devido lugar, mas parecia que estava errado. Não fora só o tom de voz da mulher, mas toda sua postura e até mesmo seu olhar. Se Jeremy pensasse mais sobre o assunto, perceberia que parecia até mesmo um pouco machucada com a alternativa que ele havia surgido para o castigo da filha.
acompanhou Ava até o quarto da menina e a ajudou a se limpar em completo silêncio. Percebeu que em alguns momentos a menor parecia querer falar ou comentar algo, mas se mantinha quieta também, provavelmente assustada com a postura séria da babá, algo que nunca havia visto antes. Nem mesmo em suas peripécias anteriores. Em sua cabeça, preparava todo o discurso que gostaria de falar a Jeremy, apesar de saber que não falaria metade do que estivesse pensando. Não se importaria desde que dissesse o essencial e que ele a entendesse bem. Ava seguiu para o banheiro e a seguiu, prestando atenção em cada movimento da menina, que parecia ter se arrependido de ter se sujado tanto devido à dificuldade que enfrentava agora para tirar a terra da mão.
- Você e o papai vão brigar e ele vai te mandar embora? – Perguntou Ava, tirando de sua bolha.
- Não vamos brigar – respondeu , ajudando a esfregar o braço da menina –, mas não sei se ele vai me mandar embora ou não. – Completou ela, levantando-se para desligar o chuveiro e pegar a toalha de Ava. – Vai se secando enquanto eu pego seu vestido, depois vá para o quarto.
Ava nem mesmo considerou não obedecer, pela primeira vez notando a irritação na babá. Nem mesmo nas suas artes anteriores se mostrou tão irritada, ao contrário, parecia se divertir com a situação. Porém, de alguma forma, a menina sabia que a irritação não era com ela, e sim com seu pai. Ela terminou de se secar e seguiu para o quarto, encontrando parada em frente à sua cama, analisando o novo conjunto de roupas que havia separado para a criança e segurando outro cabide com outro vestido em sua mão. A menina se aproximou, enrolada na toalha.
- Esse vestido é mais bonito que o outro. – Ela apontou para o que estava na cama, vendo concordar com sua afirmação e devolver o cabide que segurava para o guarda-roupa.
- Esse era o que você deveria ter colocado antes. – Disse , abaixando-se para conferir se a menina estava bem seca. – Mas suspeitei que você poderia aprontar algo. – Completou ela, fazendo Ava sorrir. A menina pareceu gostar daquela atitude da babá e se comportou durante todo o processo em que se vestia. Ao terminar, a levou até a pequena penteadeira que havia no quarto. – Vamos arrumar seu cabelo.

Jeremy já havia decorado todo o tamanho de sua sala de tanto que andava de um lado para o outro, comemorando baixinho quando enfim ouviu a porta do quarto de Ava se abrindo e passos se aproximando. Ele parou a caminhada e olhou a dupla que vinha pelo corredor. Sua filha parecia um anjo e ele reconheceu que o vestido que havia escolhido muito bem o vestido da filha. A menina possuía um sorriso no rosto quando entrou na sala, segurando a barra do vestido e o exibindo ao pai. Atrás dela, vinha , que também sorria, e segurava um casaco para a menor vestir quando saíssem de casa. Ao olhar para Jeremy, entretanto, o sorriso sumiu e ele percebeu que ela tentava disfarçar que ainda estava irritada com ele. Como havia dito antes, ela ainda usava as mesmas roupas, a confirmação que não tinha qualquer plano de sair de casa.
- Ava, espere sentada aqui enquanto eu e a conversamos, tudo bem? – Pediu ele, vendo a menina obedecê-lo prontamente, até mesmo sendo cuidadosa enquanto se sentava no sofá. – E nada de se sujar de novo. – Foi a vez dele de seguir a babá, que caminhou até a cozinha. – O que aconteceu? O que eu fiz de errado?
suspirou e passou a mão no cabelo. Havia pensado muito no que diria quando aquele momento chegasse, mas mais que isso havia trabalhado ainda mais para controlar sua raiva e frustração. Somente naquele momento ela realmente se sentiu esgotada, como se estivesse por um fio. Aquele mês era apenas o segundo e ela já estava no ápice de sua paciência e disposição para lidar com aquela família. Enquanto escolhia pegava o vestido para Ava, chegou a considerar se aquele estresse todo valia mesmo à pena só para que ela não tivesse que recorrer a seus pais. Quando concordou com aquilo, sabia que seria difícil, ela só não imaginava que Ava estaria tão determinada a ganhar aquela guerra.
- Você quer que eu me demita? – Perguntou ela, imediatamente vendo o pânico nos olhos de Jeremy. – Que eu desista como as outras fizeram?
- O quê? Claro que não! – Disse Jeremy, instintivamente se aproximando da mulher, como se quisesse segurá-la para que ela não se movesse. – Por quê?
- Me usar como forma de punição é uma ótima forma para sua filha continuar a me odiar e me rejeitar completamente. – cruzou os braços, apoiando-se na ilha da cozinha. Jeremy começando a adotar uma expressão mais compreensiva à medida que entendia onde ela queria chegar. – Ela não pode me ver como uma inimiga, Jeremy, e o que você pretendia hoje ia ajudá-la ainda mais a permanecer determinada em me fazer ir embora.
- , desculpe, eu não pensei nisso. – O ator parecia sincero, e ela sabia que o era mesmo. Se os dois estivessem diante um espelho, provavelmente veria que ele imitava seu aspecto cansado. Jeremy estava tão esgotado quanto ela com aquela rebeldia de Ava. – Não foi intencional, e você tem toda a razão. – Concordou ele, suas mãos se mexendo como se ele não soubesse o que fazer com elas. Ou talvez soubesse, só não poderia. – Acredite, eu fico tão perdido quanto você quando ela faz isso. Prometo que não irá acontecer novamente.
- Espero mesmo que não. – Disse , descruzando os braços e suspirando. – Não posso lutar sozinha essa batalha. Preciso da sua ajuda tanto quanto você precisa da minha.
- Eu sei. Desculpe. – Pediu Jeremy, e sorriu de leve, provocando o mesmo efeito nele. – Obrigado por hoje. – aquiesceu.
- Espero que se divirtam. – Disse ela, enquanto os dois saiam da cozinha para encontrar uma muito bem-comportada Ava.
esperou que Jeremy e Ava já tivessem saído com o carro para finalmente desabafar. Sua reação inicial era gritar, mas ela sabia que aquilo chamaria a atenção dos vizinhos, então ela só se jogou em sua cama e chorou. Não sabia que queria tanto aquilo até aquele momento. Abafou alguns gritos em seu travesseiro, e depois deixou que as lágrimas escorressem sem tentar impedi-las. Em perspectiva, ela sabia que havia aguentado muito, mas não imaginava que desabaria daquela forma tão cedo. Fora inocente em achar que Ava havia lhe dado uma trégua e que agora se comportaria. E o fato de Jeremy sequer parar para pensar que quase ajudou a filha a enxerga-la ainda mais como inimiga só piorava. Era para os dois serem aliados naquela situação, por mais difícil que fosse para o ator ficar em conflito com a filha, ele deveria ser um melhor mediador. Porém, ela também entendia que ele também não sabia como agir, o que fazer naquelas situações.
Foi só enquanto ela tirava a roupa que vestia que começou a perceber os sinais do ataque de pânico. A mulher se apoiou na pia do banheiro e respirou fundo, sentindo o ambiente ao seu redor rodar, consequência de sua própria cabeça. Ela fechou os olhos para afastar aquela sensação incômoda e começou a contagem regressiva do cem ao zero. Ted havia começado aquilo com ela, e sempre funcionara. Ted. Como queria o irmão ali agora. Não, depois pensaria naquilo. No momento precisava se controlar. Seu coração batendo acelerado foi a confirmação de que precisava focar nela e em mais ninguém. Demorou, estava chegando ao número vinte quando sentiu as batidas de seu coração se normalizando e sua respiração mais estável. Enquanto contava, sequer percebeu que lágrimas escorriam de seus olhos fortemente fechados. Só quando levantou a cabeça, não sentindo mais a tontura, foi que viu o rosto molhado e os olhos levemente inchados.
- Está tudo bem. Você está bem. – Disse ela para seu reflexo, não sentindo muita firmeza em sua imagem, mas conseguindo sentir nos sinais que seu corpo lhe mandava. Suspirou mais uma vez e manteve-se onde estava até sentir que a crise havia passado.
Quando isso aconteceu, terminou de se despir e entrou embaixo do chuveiro. Sentindo o corpo relaxar embaixo da água quente. Passou a mão no rosto, afastando qualquer resquício das lágrimas e permitiu-se ficar ali parada, apenas sentindo a água batendo em seu corpo e aquecê-la. Aproveitou para lavar seu cabelo, percebendo o cheiro dos produtos auxiliando em sua melhora. Era uma tática dela, aproveitar cada mínimo detalhe para ajudá-la a se recuperar da crise. Elas raramente aconteciam, mas quando vinham, fazia questão de fazê-la ir embora o mais rápido possível. Ao sair do banho, se enxugou com calma, enrolando o cabelo na toalha, a preguiça logo se instalando para secá-lo com o secador. Após vestir o pijama mais quentinho e pentear os cabelos, voltou para a proteção e o conforto de sua cama, buscando o celular na mesa de cabeceira e ligando para o contato que mais poderia ajudá-la naquele momento.
Não estava muito tarde na Alemanha ainda, ao que ela agradeceu, mas ainda assim Ted demorou um pouco para atender. Porém, quando o fez, sequer sentiu necessidade de reclamar pela demora, sentindo o alívio instantâneo só de ouvir a voz do irmão, assim como o retorno das lágrimas, que vieram sem piedade alguma.
- Ted. – Foi tudo o que conseguiu dizer antes de ser tomada pelos soluços. A resposta do irmão, o longo suspiro, foi o suficiente para que ela soubesse que ele ficaria ali mesmo se câimbras tomassem conta de seu braço. E chorou por um longo tempo até se sentir bem o suficiente para contar tudo o que havia acontecido desde a última vez que ela e o irmão haviam se falado. E só enquanto narrava tudo, foi que ela percebeu como fazia tempo.
- . – Disse Ted assim que a irmã terminou sua narrativa. Ele nunca imaginou que algum dia sentiria raiva de uma criança, mas havia conseguido sentir uma ponta do sentimento ao ouvir tudo o que Ava havia feito com , desde as menores coisas como as birras matinais, como as maiores, como aquela tarde antes de sair para o Oscar com o pai. Se pudesse, Ted daria o ultimato em e falaria para ela pedir demissão e a ajudaria a se sustentar até encontrar algo melhor. Mas não podia, e sabia que a irmã nunca permitiria. E contar aos pais estava completamente fora de questão. o mataria só por pensar em tal coisa. – Você com certeza não quer saber o que eu realmente pensei, então vou me contentar em dizer que gostaria muito de estar ai para poder te dar um abraço.
- Já seria uma grande ajuda. – Confessou ela, fungando no meio da fala. – Eu nunca imaginei que isso poderia ser tão difícil.
- Não é, , mas ela não colabora com você. – Observou Ted, não conseguindo nem dizer o nome da criança. – Você aguentou até que um bom tempo.
- Eu achei que foi tão pouco.
- Foi pouco porque você provavelmente não considerou o período mais tranquilo da faculdade. – Comentou Ted, fazendo a mulher concordar. – É muito cedo para você pedir férias? – Perguntou ele, provocando risadas em . – Eu falo sério.
- Eu sei que sim. – suspirou, deitou-se na cama e encolheu-se embaixo da coberta. – Eu não sei mais o que fazer, Ted. Não consigo mais encontrar lugares de onde tirar coragem para lutar contra essa menina.
- Talvez a solução não seja lutar contra ela, . – Disse ele, adotando um tom de voz sério, que sabia ser o mais concentrado dele, enquanto Ted tentava encontrar uma solução para resolver algum problema. – Mas junto com ela. Sei que não faz muito sentido, e eu não consigo pensar em nenhum exemplo, mas você é inteligente e eu sei que pode conseguir encontrar algo.
Ela ponderou sobre o que o irmão havia falado, mordiscando a unha do dedão enquanto encarava o teto acima de si. Percebia que havia muito sentido no que Ted falava e que a resposta parecia estar mais perto do que ela imaginava, mas não conseguia enxerga-la. Não agora. Não depois do dia e dos últimos meses que havia tido. estava esgotada, talvez não fosse má ideia aceitar aqueles dias de folga que Jeremy tanto insistia em lhe oferecer e ela em negar. Porém, por outro lado, ela sabia que o ator poderia interpretar errado o repentino pedido de folga dela, ele não era burro, sabia somar dois mais dois e chegar à conclusão correta. Ele saberia que sua filha havia atingido o limite da mulher e que ela estava a um passo de desistir e pedir demissão. Mesmo que ambos soubessem que não podia desistir, que ela dependia daquele emprego e de todos os benefícios para se manter na cidade, ambos também sabiam que não era justo ou certo mantê-la sob aquela pressão e quase tortura que Ava implicava. E Jeremy era bom demais para permitir que a moça permanecesse em algo que só a desgastava cada vez mais.
- Você não vai parar agora, não é? – Perguntou Ted, interpretando o silêncio da irmã e já sabendo a resposta, o que lhe poupou o suspiro frustrado que daria se não a conhecesse tão bem.
- Não posso. – Respondeu ela, apenas para a confirmação de que o irmão estava certo sobre ela. – Sei que deveria parar, mas não posso.
- Você é boa demais para essa menina. – Disse Ted, fazendo a mulher rir levemente.
- Obrigada, Ted. – Disse , após mais um tempo em silêncio. Ela sentia o sono a atingindo, e normalmente ela pediria ao irmão para ficar com ela até que dormisse, mas já havia alugado o mais novo por muito tempo. – Seu braço deve estar doendo.
- Não vou mentir, você está no viva-voz agora, de tanto que eu não aguentava mais. – Disse ele, rindo do outro lado. – Você precisa descansar, quer que eu fique com você até dormir?
- Não precisa, volte a fazer o que estava fazendo. – Disse ela. – Obrigada, como sempre.
- E, como sempre, não precisa agradecer. Estou aqui sempre que precisar, .
- Amo você.
- Também te amo. – Ted respondeu antes de encerrar a ligação.
suspirou, colocando o celular na mesa de cabeceira e se acomodando na cama. Fechou os olhos e reviveu por um tempo os acontecimentos daquele dia, que aos poucos iam sumindo e dando lugar ao escuro da inconsciência. Ao longe ela ouviu um choro infantil e portas se abrindo e fechando, pensou em abrir os olhos para descobrir o que acontecia, mas já estava muito adormecida para conseguir realizar o ato. Em instantes apagou totalmente.
Jeremy agradeceu por Ava não ter inventado de chorar por muito tempo, a menina parando assim que entraram no quarto dela, temendo que o pegasse ali na porta de seu quarto, ouvindo o fim de sua conversa com quem quer que fosse. O ator não havia escutado tudo, só o momento da despedida de uma conversa que parecia ter sido longa – chegou a essa conclusão pelo comentário que havia feito sobre braços doloridos. Enquanto colocava a filha para dormir, o ator tentou chegar à conclusão sobre quem poderia estar do outro lado da linha, não ficando muito satisfeito com a resposta que havia encontrado, apesar de não entender o porquê do descontentamento e da mulher nunca ter dado indícios de ter alguém em sua vida que não fosse alguns colegas da faculdade e a própria família.
O ator respirou fundo, afastando aqueles pensamentos, e se concentrou em trocar a roupa de sua filha completamente adormecida. Ela havia se comportado durante todo o evento, e eles haviam até mesmo posado para algumas fotos. Alguns colegas haviam se encantado ao ver a mais nova vestida tão elegante e com a educação e simpatia dela. Em alguns momentos, Jeremy não conseguiu evitar imaginar presenciando aquele comportamento tão educado de Ava, provavelmente a babá faria caretas e em alguns momentos soltaria algum comentário que implicasse a motivação da menor em não ser daquele jeito todos os dias.
Quando sua filha já estava de pijama e confortável em sua cama, Jeremy posicionou a babá eletrônica de forma a conseguir ter uma boa visão da filha e saiu do quarto. Parou um momento no quarto em frente, a porta não estava completamente fechada e ele podia enxergar completamente adormecida pela fresta. Lembrou-se do tom de voz da mulher enquanto se despedia ao telefone, de como ela parecia cansada e até um pouco chorosa, e se perguntou se estava tudo bem, mesmo sabendo que nunca conseguiria uma resposta completamente honesta dela. Jeremy considerou tudo o que havia acontecido e conseguiu ter sua resposta, precisava pensar em uma forma de ajudar a lidar com Ava, e de fazer sua filha parar de ser tão teimosa com a babá. Era como havia falado, ele não podia lutar aquela guerra contra ela, ou a perderia como perdera as babás anteriores.
E Jeremy não queria perder .

Capítulo 5


A chegada da primavera fez com que mudasse seu local de estudos para a mesa do jardim, querendo aproveitar ao máximo o clima ameno. Ajudava o fato de Ava gostar de brincar do lado de fora, então as duas juntavam o útil ao agradável. Para o alívio de , desde o episódio do Oscar, Ava não havia mais inventado nenhuma arte para aprontar. No início, a babá estranhara um pouco e ficara receosa de se sentir calma, mas aos poucos Jeremy foi convencendo-a de que a filha havia desistido de fazer sua vida um inferno. A mulher havia relutado ainda, mas depois se deu por vencida. Claro que Ava ainda a acordava super-cedo e sem nenhum motivo aparente, quando Jeremy já lhe garantiu que antes a menina acordava cedo e ficava sozinha brincando até o pai acordar.
- Acho que ela gosta da sua companhia. – Observou Jeremy certo dia, quando os dois dividiam o escritório enquanto Ava dormia, e aproveitava o cronograma tranquilo da faculdade para ajudar o ator com algumas coisas do trabalho.
Na época, havia dado risada de tal observação, mas quando ela finalmente começou a abaixar a guarda e dar um voto de confiança na menor, a babá começou a acreditar que realmente poderia ser o caso. Ava parecia mesmo gostar de sua companhia, notara certo dia, quando fora até a cozinha, que a criança ficou olhando constantemente para cima esperando a babá voltar para a sala. A mulher ainda não era incluída nas brincadeiras, mas Ava havia começado a inventar suas histórias em voz alta, ao contrário de antes em que ela só sussurrava. sentia-se melhor, desde o surto que tivera com Ted na noite do Oscar ela nunca mais havia se sentido daquela forma ou perto de sentir algo como aquilo novamente. E ela só torcia para que aquilo continuasse daquela forma.
Ava corria pelo jardim brincando com Digby enquanto estava concentrada em um texto que tinha que resumir e entregar ao professor na próxima segunda, havia uma semana para isso, mas ela sempre preferia adiantar seus trabalhos para caso surgisse algo de última hora. Estava virando uma folha quando Jeremy surgiu. Era a primeira vez que o via naquele dia e surpreendeu-se ao ver o ator usando uma bermuda jeans e uma camisa regata, deixando bem à mostra não só sua tatuagem, mas o braço musculoso onde ela estava marcada. A peça parecia alguns números menor que o tamanho usual do ator e ficava colada em seu corpo, dando à uma boa visão de seu peitoral definido. A mulher mordeu a ponta do lápis com tanta força que sentiu pequenos pedaços de madeira se soltando em sua boca, tendo que cuspi-los imediatamente e disfarçando o ato com uma tossida. Felizmente Jeremy não havia percebido sua gafe, distraído com Ava que chamava sua atenção querendo mostrar ao pai o novo truque que ela achava ter ensinado ao cachorro.
- Você viu, papai? – Gritou Ava, se aproximando do homem. O cabelo que antes estava preso em um rabo de cavalo, agora já estava completamente desmanchado. suspirou, pensando pela centésima vez só naquele dia em como era difícil manter qualquer penteado no cabelo fino e liso da criança. Ava tinha as bochechas vermelhas e suava, afastando do rosto os fios claros que haviam grudado. Jeremy se abaixou para receber o abraço da filha.
- Claro que vi, querida. – Disse Jeremy, acariciando o cachorro quando o mesmo se aproximou. – Bom garoto. – Completou o ator, dando dois tapinhas na cabeça do animal. – Continue praticando, tudo bem?
- Tá bom. – Disse Ava, chamando Digby e se afastando em seguida.
Jeremy se levantou, observando a filha por um tempo, e depois focou na mulher sentada à mesa. Ele havia acordado cedo naquele dia para uma corrida e havia enrolado um pouco para a volta. Quando chegou em casa, já conseguia escutar as risadas da filha enquanto brincava no jardim, suspeitando que a acompanhava de alguma forma. Ele preferiu ir direto para o quarto e tomar um banho, querendo se livrar do suor, antes de se juntar a elas. Enquanto se aproximava do jardim, ele havia parado um pouco, observando concentrada na tarefa que exercia. Jeremy não conseguia entender como a mulher tinha tanta facilidade em prestar atenção nos estudos e em Ava ao mesmo tempo, mas ela o fazia. Entre uma página e outra, a babá tirava a atenção do texto que lia e olhava para Ava, abrindo um sorriso discreto cada vez que via a menina brincar. O céu estava claro e o sol brilhava, e o brilho dele parecia criar uma aura em volta de . Foi só quando percebeu por onde sua mente passeava, que Jeremy resolveu voltar à realidade e afastar tais pensamentos. Enfim saindo do lugar onde havia estacado e saindo para o jardim, agradecendo pela risada animada da filha ter chamado sua atenção logo de cara.
- Bom dia. – Disse ele, se aproximando da mesa e chamando a atenção de , que havia retomado sua leitura. Ela o olhou de relance, abrindo um singelo sorriso.
- Bom dia. – Respondeu. – Acordou cedo hoje. – Observou, fazendo o ator sorrir enquanto se sentava em frente a ela.
- Tenho que começar a treinar, as gravações começam em breve. – Justificou ele. – Já estou atrasado no treino, inclusive.
- Percebe-se que você tem muito trabalho a fazer. – Comentou sarcasticamente, agradecendo por estar com a cabeça baixa para esconder o rubor em seu rosto. Foi só depois que falou que ela percebeu o que havia saído de sua boca. Ela percebeu no silêncio dele que Jeremy também parecia ter ficado desconcertado com o que ela havia falado, fechou os olhos e xingou-se mentalmente por um tempo, até finalmente se sentir confiante para levantar a cabeça e encarar o homem. Arrependendo-se logo em seguida por fazê-lo, ao perceber que ele sorria divertido olhando para ela. – Você poderia ao menos disfarçar que está rindo da minha cara.
- Se você conseguisse disfarçar também, eu faria um trabalho melhor.
- Você é ator. Não deveria depender de mim para fazer um bom trabalho. – Dessa vez ele nem tentou esconder a risada, contagiando que até mesmo deixou de lado a vergonha para acompanhar o ator. – Podemos apenas esquecer?
- Claro... que não. – Garantiu ele. – Mas prometo não ficar te lembrando disso a cada cinco minutos.
- Ah, muito obrigada. – Disse ela, não parecendo nada agradecida.
- Mas eu acho que você não vai ficar tão brava comigo depois de ouvir o que tenho a dizer. – Disse ele, mordendo o interior da bochecha para segurar a risada diante a irritação dela enquanto se sentava a sua frente.
- O que foi dessa vez? – Perguntou ela, colocando o lápis no meio do livro para marcar a página onde havia parado.
- Você terá uns dias de folga. – Jeremy preferiu adiantar o final apenas para ver a reação dela. – Sonni pediu para ficar uns dias com a Ava, e eu resolvi aceitar. E como eu sei que nós dois te damos muito trabalho, resolvi te dar uma folga de mim também.
- Não sei o que vai ser da minha vida com tanta liberdade e folga assim. – Ironizou , revirando os olhos antes de rir. – Vai viajar?
- Na verdade, não. Mas tenho umas reuniões importantes por alguns dias, e preferi ficar hospedado no hotel onde elas ocorrerão, apenas para poupar tempo.
- Sabia que você conseguiria encontrar uma brecha para me dar aquelas folgas desde o fim de semana que a Sonni a deixou aqui.
- O que eu prometo, eu cumpro. – Disse Jeremy.
- Quando vocês vão? – Perguntou .
- Sonni a quer na quinta-feira, e trazê-la de volta na segunda. Eu já aproveito que vou leva-la até lá e já vou para o hotel. – Explicou Jeremy e assentiu, seu olhar se desviando para a menina, que agora brincava com alguns brinquedos que ficavam no jardim.
- E ela já sabe disso? – Indicou Ava com a cabeça.
- Vou falar com ela hoje mais tarde. – Disse Jeremy. – Você está de acordo com esses dias?
- Sabe... – o olhou, colocando o cabelo atrás da orelha. – É sua casa, você não precisa sair dela para me dar folga. Aliás, deveria me expulsar daqui para você ter um pouco de folga também.
- Eu nunca te expulsaria daqui. – Disse Jeremy, levando muito literalmente o que a mulher havia falado, o que só fez com que risse. – Muito literal?
- Até demais. – Concordou a mulher, sentindo Digby cheirando sua perna e abaixando a mão para acariciar o cachorro que, diferente da dona mirim, havia gostado de desde o primeiro dia. – Mas, enfim, como eu ia dizendo... Não precisa sair, pode ficar.
- Obrigado. – Brincou ele, fazendo a mulher rir.
No final, Ava não havia se incomodado tanto assim de passar uns dias na casa da mãe. Jeremy lhe explicara que a mulher havia pedido isso porque não estaria na cidade no aniversário da menor, que ocorreria no fim do mês, e então pensara em passar uns dias com a filha para uma celebração antecipada. não sabia se aquilo era verdade ou não, mas ficara contente em ver a felicidade em Ava.
Como se todos os astros estivessem alinhados, não só ela teria a folga dos Renner, como nenhum professor havia decidido abusar dos alunos e jogar milhares de trabalhos em cima deles. O único que tinha era o resumo do texto que ela havia lido e adiantado – para o prazer de Jeremy que adorava comentar o quanto a mulher era nerd com os estudos. Assim, na quinta-feira, quando ela chegou em casa da faculdade e a encontrou vazia, com exceção de Digby, que veio correndo até ela para recebe-la, jogou os livros no banco que havia no corredor e se despediu deles, garantindo que só os encontraria novamente na terça-feira.
- Seremos só eu e você, amigo. – Disse ela para o cachorro, que latiu como se concordasse com ela.
aproveitou para tomar um longo banho, pedir uma pizza e explorar pela primeira vez a grande coleção de filmes que Jeremy tinha. Ela se surpreendeu ao ver um nicho em que estavam reunidos todos os filmes e as séries que o ator já havia participado. Sua atenção sendo atraída para um box em especial, uma série da qual nunca ouvira falar e da qual Jeremy fora um dos protagonistas. puxou a caixinha e leu o conteúdo da mesma, gostando da sinopse da série.
- The Unusuals... Parece que temos um vencedor. – Disse ela para si mesma, enquanto ouvia a campainha anunciando a chegada da pizza.
Seria a noite perfeita. A série possuía apenas dez episódios, o que garantia que ela poderia passar boa parte da noite inteira assistindo, de forma a não correr o risco de algum incidente como Sonni trazendo Ava ou Jeremy desistindo de passar os dias no hotel e resolvendo dar ouvidos ao que ela falara sobre ser a casa do ator e os direitos que ele tinha. Prendeu os cabelos molhados numa trança frouxa, trouxe a caixa de pizza junto com um copo de suco para a sala, colocando-os na mesa de centro; colocou o primeiro CD no aparelho e então deu play. Sequer vendo as horas passarem até que o último episódio acabou, para seu completo desespero, já que o final da série não lhe dera nenhuma sensação de conclusão.
- Eu não acredito! – Disse ela, pegando o celular imediatamente para conferir se a série havia acabado ali mesmo e o que havia acontecido. Para sua frustração, aquilo era tudo o que ela teria do seriado, já que o mesmo fora cancelado devido aos números insatisfatórios. – Eu não acredito! – Repetiu ela, chegando até mesmo a abrir sua lista de contatos e considerando ligar para Jeremy para gritar com ele. Desistindo no último segundo, quando seu dedo estava prestes a tocar o nome do ator, percebendo como aquilo parecia absurdo. – Mas é tão injusto. – Gemeu ela, encarando o menu principal do DVD e sentindo-se traída por ter investido tanto tempo em algo que acabara sem respostas para as diversas perguntas. Apesar de tudo isso, porém, não mentira que gostara mais do que devia da visão de Jeremy como policial. – Caminho perigoso, . – Sussurrou ela para si, finalmente se levantando do sofá para limpar a bagunça. A pizza havia acabado no começo do sexto episódio, e ela não havia se dado ao trabalho de sair do lugar em nenhum momento. Não eram nem três da manhã quando ela devolveu a caixinha ao seu devido lugar, se certificando de que não havia qualquer evidência de que ela havia assistido aquilo ali.
se espreguiçou, deixando a caixa de pizza na pia próxima à lata de lixo, prometendo a si mesma que daria um jeito naquilo no dia seguinte, se deu ao trabalho somente de lavar o copo e a faca que havia sujado. Logo depois apagando todas as luzes e se certificando de que tudo estava muito bem trancado, antes de ir para seu quarto, deitar e dormir.
Apesar de não ter Ava na casa, em todos os dias de sua folga acordou no horário que a menina costumava acordá-la, até mesmo no sábado, que era o dia em que Ava usualmente não a acordava já que Jeremy sempre estava com os fins de semana livres para ela. Odiando-se por conseguir se acostumar rápido a horários e rotinas e não depender mais de um despertador para acordar nos horários de sempre, ela bufou, rolando na cama e tentando voltar a dormir, mas falhando miseravelmente. olhou para o lado, vendo que a luz de notificação do seu celular piscava, mas resolveu ignorar, pensando que provavelmente era alguma mensagem de Ted, e ele poderia esperar mais um pouco para ser respondido. Levantou-se com um suspiro resignado e seguiu até a cozinha, não se importando em vestir algum roupão por cima do shorts curtíssimo e da blusinha de alcinha já bem desgastada do pijama que usava.
Na cozinha, começou a preparar seu café da manhã, colocando o pó de café na cafeteira, junto com a água. Separou o que comeria também e deixou a cafeteira e a torradeira trabalhando enquanto ia para o quarto, começando a se preparar para um longo e relaxante banho – talvez usasse pela primeira vez a banheira que havia em seu banheiro. Ela separou os sais de banho, assim como os demais produtos que usaria, despindo-se em seguida e prendendo o cabelo em um coque bem alto. Apesar de estar sozinha, enrolou uma toalha ao redor do corpo antes de sair do quarto para desligar a cafeteira que apitava anunciando que o café estava pronto.
Ela não esperava, entretanto, que outra pessoa poderia estar interessada no mesmo café que ela preparava para si. quase deixou a toalha cair quando atravessou a porta de acesso à cozinha e viu outra pessoa encostada na bancada, servindo-se de uma xícara do café recém-preparado. Ela não conseguiu ser tão silenciosa quanto gostaria, e chamou a atenção de Jeremy que se virou assustado para a mulher.
- Ah, oi! – Disse o ator, sorrindo divertido ao ver a expressão assustada da mulher, os olhos arregalados e a boca levemente aberta. A princípio ele não entendeu porque ela estava tão assustada, mas ao notar o que ela vestia, Jeremy compreendeu rapidamente. Não conseguindo disfarçar tão bem como gostaria a olhada que deu em todo o corpo da mulher. Os pés descalços roçando um no outro enquanto ela procurava algum buraco para se enterrar, evidenciando as pernas bem torneadas.
- Eu... Ahn... Eu não sabia que você... Hm... – começou a se afastar levemente, queria correr e se esconder. Talvez correr até a Alemanha para se esconder embaixo da cama de Ted. Ela engoliu em seco, dando as costas ao ator e correndo para seu quarto, ignorando o chamado de Jeremy pedindo para ela esperar.
- Meu deus! – Exclamou Jeremy, fechando os olhos para tentar afastar os pensamentos que começavam a tomar conta de sua mente. Mas cada vez que ele fechava os olhos, a imagem de parada na porta da cozinha, segurando com força a toalha para evitar que ela caísse, voltava à sua mente. Talvez ele fosse conseguir agora o que sua filha havia tentado com tanto empenho e falhado: o pedido de demissão da mulher.
fechou a porta atrás de si e se apoiou na mesma, seu peito subindo e descendo com rapidez enquanto ela ofegava. O que diabos fora aquilo? O que diabos ele fazia em casa? Não ia passar a droga do fim de semana inteiro enfurnado em um hotel? O que fazia ali?
- Você mandou ele ficar em casa, ! – Disse ela a si mesma, logo se odiando. – Apenas cale a boca. Vá tomar banho, esqueça isso. – Fechou os olhos e balançou a cabeça antes de rumar para seu banheiro, instantaneamente perdendo a fome e até mesmo o desejo de tomar o longo banho. Porém sabia que se tomasse um banho rápido, teria que encarar Jeremy mais cedo do que se sentia preparada.
Ao sair do banho, ela sentou-se na cama e pegou seu celular, finalmente desbloqueando-o para ver quais notificações estavam pendentes. Sua respiração ficou suspensa quando ela viu que uma das mensagens recebidas era de Jeremy, avisando que havia decidido voltar para casa mais cedo do que o previsto. A mulher abafou um grunhido, xingando-se mentalmente por não ter sido preguiçosa e não conferido as mensagens antes de levantar. Nunca achou que um dia desejaria tanto a presença de Ava lhe importunando e dando dor de cabeça o suficiente para parar de pensar no que havia acontecido.

Durante o resto do fim de semana, Jeremy e não trocaram mais que duas palavras, a maior conversa que tiveram foi quando o ator explicou que as reuniões haviam acabado mais cedo do que ele previra e ele resolveu aceitar a sugestão dela de ficar em casa – ele chegou até mesmo a perguntar se ela não havia recebido a mensagem que ele havia mandado, e Charlie preferiu fingir que não havia recebido nada. não contestou ou reclamou, apenas concordando e odiando seus professores por não terem lhe passado milhares de trabalhos para fazer para ocupar sua cabeça.
Segunda-feira nunca demorou tanto a chegar, e ela se viu agradecendo quando finalmente acordou no primeiro dia da semana e poucas horas depois a campainha tocou, anunciando a volta de Ava. A menina não demorou a ocupar , que a ajudou a desfazer a mochila que havia levado para a casa da mãe e depois lhe deu algo para comer antes do almoço ficar pronto. Não demorou muito para que o clima entre a babá e o ator melhorasse, já que a presença de Ava ajudava na comunicação entre eles. E apesar de não esquecer o que havia ocorrido, Jeremy se esforçava ao máximo para não esboçar alguma reação à lembrança do dia, apenas para não envergonhar . Agradecendo silenciosamente a mulher por não ter se demitido.
O ator havia tirado o dia de folga, para aproveitá-lo com Ava, mas na terça-feira voltara ao normal. que tirara a grande sorte ao receber um e-mail do professor cancelando a aula do dia por motivos pessoais. Ava parecia mais animada que o normal após o fim de semana com a mãe, e comemorou um pouco quando a babá anunciou que não iria para a faculdade naquele dia, espantando até mesmo Jeremy.
- Você não vai brincar comigo, papai. – Explicou ela quando Jeremy perguntou porque estava tão feliz. – Mas tudo bem, porque a vai, não é?
- Cl... Claro. – Concordou , que parecia tão confusa quanto Jeremy. Quem era aquela menina e o que havia feito com Ava?
Mas no final não foi como os dois adultos esperavam, Ava prosseguiu com seu dia normalmente, apenas pedindo para ficarem no jardim já que o dia estava bem quente e ensolarado. concordou, pegando um livro da faculdade para ler.
- Você não tem outra coisa para ler? – Perguntou Jeremy ao ver a mulher saindo de seu quarto com mais um livro teórico e o estojo com as canetas para fazer suas marcações.
- Tem alguns outros, mas quero terminar esse. – Disse ela, não entendendo.
- Quis dizer se você não lê outra coisa além de textos teóricos. – Explicou ele, vendo a mulher rir de si mesma.
- Tenho, mas gosto desses.
- Mentira.
- Eu tenho gostos peculiares, senhor Renner, você não entenderia. – Brincou ela, se divertindo ainda mais quando ele pareceu não entender a referência. – E quando eu quero te mostrar que leio outras coisas, você não me entende, assim complica.
- O que foi...?
- Cinquenta Tons de Cinza, Jeremy. – Disse ela, rindo divertida da expressão quase que horrorizada do ator. – Sim, eu li. – Confirmou ela. – Tinha uma época em que eu lia todos esses livros da modinha, até que a faculdade começou a dominar e eu não tive mais tempo.
- Terá agora, tenho um ótimo para você. – Disse Jeremy, logo depois pedindo para ela esperar por ele onde estava. Como se ela fosse para algum outro lugar. Não demorou para Jeremy voltar segurando um exemplar consideravelmente grandinho. – Você disse que gostou do filme...
- E eu achando que você iria me dar algo para eu não pensar na faculdade. – Comentou , pegando o livro e logo reconhecendo o título do mesmo, além da referência ao filme Arrival. – Sinto muito, mas você está atrasado, eu li o conto... E preciso confessar que o filme é muito melhor. Ou talvez eu ache isso por ter assistido primeiro.
- Talvez o ator tenha dado uma ajudada...
- Sim, a Amy foi incrível nesse filme. – Disse , mordendo a bochecha internamente para controlar a risada ao ver a cara de Jeremy. – Você provocou. – Ela deu de ombros quando percebeu que ele ainda demorava para encontrar uma resposta à altura. – Para não desperdiçar sua oferta, talvez eu leia os demais contos, então, se isso for te ajudar a criar uma imagem menos nerd de mim.
- Acho isso difícil a essa altura. – Comentou ele, sorrindo para a mulher antes de ir para seu escritório.
no final não leu nenhum dos dois livros, achando mais proveitoso ver Ava brincando de um lado para o outro com Digby, e vez ou outra sozinha. Ela havia tentado, mais cedo, convencer o pai a deixa-la convidar Jack, filho do Chris Pratt, que era vizinho deles, mas Jeremy argumentou que não poderia dar outra folga para tão cedo, e que Jack só poderia vir quando ele tivesse com o dia livre para poder ajudar a babá. quase riu do argumento fajuto de Jeremy, mas preferiu ficar pensando que tinha como vizinhos ninguém menos que Chris Pratt e Anna Farris e que eles e Jeremy eram bons amigos, assim como Ava e Jack. Ted enlouqueceria se soubesse daquilo.
- ? – Ela ouviu Ava chamando, olhando a menina que se aproximava dela.
- O que foi? – Perguntou, vendo a menina morder o lábio inferior enquanto pensava em como falar o que precisava para a babá.
- Eu quero brincar com uma coisa – começou ela –, mas tá no quarto do papai.
- E por que você não vai pegar? – Perguntou , não entendendo onde ela queria chegar.
- Tá no alto, e não quero pedir pra ele. – Explicou a menina, fazendo sua melhor cara de inocente, que não enganaria algumas semanas atrás, mas como agora ela estava com a guarda baixa, fez com que ela caísse direitinho no plano da menor.
- Me mostre onde está. – Disse , levantando-se do banco para acompanhar a menina até o quarto de Jeremy. Ela não gostava muito da ideia de entrar no cômodo, mas não iria tirar Jeremy do trabalho só para pedir algo tão trivial.
Ava a acompanhou até a porta do closet, dizendo que o objeto que queria estava em cima do armário acima da pia, concordou e entrou. Ela já havia “visitado” o quarto de Jeremy antes, incluindo o closet e o banheiro, então sabia de qual armário Ava falava, porém não encontrou o que a menina pedia, e quando voltou para perguntar a ela se tinha certeza, surpreendeu-se ao ver a porta do closet fechada, tentou abrir, mas nada. Ótimo, estava trancada.
- Não acredito nisso. – Gemeu , batendo na porta e chamando Ava, na esperança de que ela estivesse ali do outro lado, rindo da mulher. Mas nenhuma resposta veio, e ela não ouviu nenhuma risada infantil.
colocou as mãos nos bolsos da calça apenas para confirmar o que já sabia: estava sem o celular. E logo percebeu que teria que fazer o ridículo de gritar e bater na porta até chamar a atenção de Jeremy, ou a piedade de Ava para que ela a tirasse dali.
Jeremy estava concentrado organizando sua agenda para os próximos meses, as gravações para o terceiro filme dos Vingadores estava se aproximando e agora eles já exigiam uma resposta mais definitiva quando ao seu cronograma. Vez ou outra ele sorria ao ouvir o riso alegre de Ava, assim como os latidos animados de Digby. Porém, em determinado momento, Jeremy percebeu que há muito tempo estava tudo muito quieto, e aquilo sempre era preocupante. Mesmo que estivesse sendo observada por , Ava nunca ficava muito tempo quieta a menos que estivesse aprontando algo.
O ator levantou-se e saiu do escritório, indo até a porta que dava acesso ao jardim, franzindo o cenho ao vê-lo vazio. Então seguiu pelo corredor, o quarto de estava vazio, mas não o de Ava, que parecia se esconder embaixo da cama, porém falhava miseravelmente já que metade do corpo estava para fora. Ao se aproximar, ele percebeu que a menina ria e tentava disfarçar a risada. A menor se assustou ao sentir o pai a puxando delicadamente, dando um gritinho assustado.
- O que você está aprontando? – Perguntou Jeremy, vendo a menina sorrir sapeca. Não demorou para perceber o elemento faltante e ele logo se preocupou ainda mais. – Ava, cadê a ? – Ava riu, colocando as mãozinhas na boca. – O que você fez agora?
Ela ia responder, quando Jeremy ouviu uns tapas abafados, ele segurou Ava em seu colo e seguiu o barulho, se surpreendendo ao perceber que vinha de seu quarto. Mais especificamente de seu closet. Jeremy olhou feio para Ava ao ver que a porta do closet estava trancada, e suspirou enquanto informava a que já iria tirá-la de lá. Primeiro ele colocou a filha no chão e pediu para que ela fosse para seu quarto e não saísse de lá enquanto ele não fosse conversar com ela. O ator esperou até a filha estar fora do quarto para se recompor e abrir a porta do closet, a piada já brincando na ponta da língua. Encontrar encostada na parede de forma impaciente não ajudou em nada.
- Sabe, – começou ele, encostando-se no batente da porta – geralmente quem brinca de sete minutos no paraíso não está sozinho. – Brincou ele, vendo quando ela revirou os olhos, mas se controlou para segurar o riso. – E sem toalha? Estou desapontado.
- Muito engraçadinho você. – Disse ela, revirando novamente os olhos. – Estou aqui por sua culpa.
- O que eu fiz? – Perguntou ele.
- Fez eu acreditar que Ava gostava de mim e estava do meu lado. – Acusou ela, cruzando os braços. – Abaixei minha guarda e olha o que acontece.
- , – disse Jeremy, arrumando sua postura e encarando-a com seriedade – piadas à parte, eu realmente sinto muito por isso. – Ele indicou a saída do quarto com a cabeça. – Vou falar com ela, você vem?
pensou em não segui-lo, mas no final decidiu por ir, curiosa para saber o que o ator falaria. Ava estava sentada na cama, a cabeça baixa e o bico triste já se formando, sabendo a bronca que receberia. Na porta do quarto, tocada com a cena de Ava já aborrecida esperando a bronca do pai, segurou Jeremy pelo braço, suas mãos se entrelaçando por um momento tão breve que os dois decidiram interpretar a reação de seus corpos como um susto pelo ato inesperado. Jeremy olhou a babá, confuso.
- Não brigue com ela. – Pediu , falando baixo para que Ava não ouvisse. – Ou brigue, mas pegue leve. Não foi algo tão grave assim. Eu acharia engraçado se não fosse comigo. – Observou , fazendo o ator rir. Ele assentiu e então entrou no quarto, ficou parada na porta, ouvindo o que ele dizia para Ava.
- O que vou fazer com você? – Perguntou Jeremy, fazendo a menina lhe olhar com a expressão confusa. – Achei que tinha parado com isso. – Disse ele, Ava permanecia em silêncio. – Por que não pode gostar dela como gostava da Helô? – franziu o cenho, quem diabos era Helô? A confusão só piorou quando ela viu Ava abrir um sorriso mínimo, olhando logo depois para a babá. Ela pediu para o pai se aproximar e cochichou algo no ouvido dele, apenas para a frustração de que agora ficaria curiosa para saber o que a menina havia falado, principalmente quando Jeremy se afastou da menina, olhou para a babá, depois para a filha e sorriu.
- Boa garota. – Disse ele, acariciando o cabelo da filha. – Mas que tal começar a se comportar? – A menina mordeu o lábio inferior, como se pensasse muito no pedido do pai, então deu de ombros, fazendo Jeremy rir. – Não me faça cancelar sua festa de aniversário. – Brincou ele, fazendo a menina arregalar os olhos.
Jeremy se levantou da cama, depois de pedir para que Ava fosse ao jardim guardar os brinquedos, e saiu do quarto, sendo seguido por enquanto ele ia para o escritório. A mulher estava agitada, ele podia perceber, só não conseguia saber o motivo. Ao chegarem no escritório, Jeremy virou-se de frente para ela e se apoiou na mesa onde os notebooks ficavam. estava parada na porta, os braços cruzados.
- O que foi? – Perguntou Jeremy, se divertindo com a agitação da mulher.
- O que ela te disse? – Perguntou ela, não controlando a ansiedade.
- Isso, eu sinto muito, mas não posso te falar. – Disse Jeremy. – Prefiro que a Ava te conte quando estiver preparada. – Aquilo não pareceu tranquiliza-la, mas ele viu quando ela escolheu deixar aquilo para outro momento, porém outra coisa a atormentava. – O que mais?
- Talvez eu não tenha o direito de perguntar isso, mas quem é Helô? – Perguntou , vendo algo passar pelos olhos de Jeremy que ela não conseguiu interpretar.
- Uma namorada do Stan.
- Stan?
- Sebastian Stan. – Disse Jeremy, vendo enquanto a mulher parecia ligar os pontos, procurando uma resposta. – O Bucky de Capitão América?
- Ah, sim! – Disse ela, sorrindo agradecida para o ator. – Eu só assisto esses filmes por causa do meu irmão, não guardo nomes. – Explicou ela, vendo Jeremy sorrir divertido. – Quer dizer que ela não é tão geniosa assim com todo mundo? Ou esse mau-humor dela é só comigo?
- O mau-humor dela é com todas as babás. – Disse Jeremy, pensando um pouco no assunto.
- E eu vou conhecer essa Helô? Eles virão no aniversário dela? – Perguntou .
- Acho difícil eles aparecerem esse ano. – Respondeu ele, mudando sua postura. percebeu, mas preferiu esquecer, sua expressão anterior de curiosidade logo voltando e Jeremy não demorou muito a entender o que ela pretendia. – Não, não vou te contar o que ela me falou. Sigilo entre pai e filha.
- Isso não existe.
- Claro que existe. – Disse Jeremy. – É um daqueles acordos que ninguém discute ou escreve, mas todos sabem assim que se tornam pais.
pensou em argumentar, mas depois desistiu sabendo que aquilo não teria fim tão cedo. Ela agradeceu ao ator por tê-la livrado do closet e depois foi até o jardim para observar Ava.

~ * ~


Certa manhã, a casa amanheceu no caos. acordou atrasada, estranhando Ava não ter vindo acordá-la como já havia se tornado hábito. Ou talvez a menina tenha tentado e estava tão cansada por ter ficado até tarde lendo umas novas pesquisas para acrescentar ao seu projeto que sequer ouviu a menina chamando-a. Concluiu isso ao ver um pequeno giz de cera na mesinha de cabeceira ao lado de sua cama. Olhou seu relógio e se espantou ao ver que já eram quase dez da manhã. Se levantou e foi até o banheiro, normalmente correria para ficar pronta, mas havia certa vantagem em morar onde trabalhava, e ela podia ouvir a voz de Jeremy com a filha, apesar de ser um tom mais exaltado que o normal.
franziu o cenho ao perceber que o ator parecia discutir com a filha, ou pelo menos tentava convencê-la a fazer algo que Ava não parecia disposta a fazer. Tomada pela curiosidade, saiu do quarto e seguiu em silêncio pelo corredor até conseguir chegar no final do mesmo, parando na curva que ele fazia para a cozinha, onde ela já conseguia ouvir pai e filha atentamente, e tinha certeza que Ava estava prestes a chorar, ou já tinha algumas lágrimas correndo livremente por seu rosto.
- Você tem que tomar, Ava. – Disse Jeremy, e ouviu algo batendo no tampo da ilha da cozinha.
- Mas eu não quero, papai. – Respondeu Ava, a voz chorosa. – Não quero mais.
- Você sabe que não pode parar, querida. – O tom de voz de Jeremy amansou, e sabia que era por causa da expressão que Ava deveria estar fazendo. – Lembra do que aconteceu na última vez que parou de tomar os remédios?
A mulher voltou alguns passos, encostando-se na parede. Os remédios. Lembrou-se de quando pesquisou um pouco sobre eles, logo após descobrir que eram todos para Ava, e não conseguiu chegar a nenhuma conclusão sobre a finalidade deles, sabia apenas que todas as manhãs a menina tomava alguns e, ao final do dia, tomava os demais. Ela nunca tivera coragem de perguntar a Jeremy o que Ava tinha, sempre esperou que um dia o ator fosse contar por livre e espontânea vontade. Com o tempo ela acabou esquecendo a curiosidade, e o ato de servir os remédios para Ava se tornou tão natural que ela já sequer se questionava sobre.
- Por favor, querida. – ouviu Jeremy pedindo, seguido de um soluço de Ava. – Em breve vamos ao médico e podemos perguntar se pode diminuir, tudo bem?
- Promete? – Perguntou Ava.
- Prometo. – Garantiu Jeremy, e logo depois conseguiu ouvir o beijo estalado que o ator deu na filha.
Em silêncio, ela voltou ao quarto, não querendo chamar atenção. Foi até o banheiro para fazer sua higiene matinal, trocou de roupa e saiu do quarto. Ao chegar na cozinha, a única coisa que entregava que algo estava fora do usual era o rosto vermelho e úmido de Ava, fora isso, tanto pai e filha agiam como se fosse outra manhã qualquer, e escolheu agir da mesma forma que eles.
- Acordou a bela adormecida. – Brincou Jeremy, pegando uma xícara no armário e colocando café, logo depois entregando para a babá.
- Obrigada. – Agradeceu ela, pegando a xícara e dando um gole na bebida. – Sinto muito por isso, fiquei até tarde lendo uns textos e...
- , a essa altura eu acho que você não precisa mais ficar se explicando. – Disse Jeremy, fazendo a mulher rir. – Mas que bom que você já levantou, porque está quase na hora de eu ir.
- Ir? Para onde? – franziu o cenho, não se lembrando de nenhum compromisso para aquele dia na agenda do ator, e ela a sabia de cor. – Você não...
- Surgiu algo de última hora e eu preciso ir. – Explicou Jeremy. – Não sei que horas volto, então pode cuidar do jantar?
- Claro. – Disse ela, como se já não o fizesse quase todas as noites. – Está tudo bem, Jeremy? – Perguntou ela, percebendo como o homem parecia ansioso.
- Reunião da Marvel, vim enrolando eles por um tempo, mas agora não posso mais. – Explicou o ator. não precisou que ele se explicasse, lembrando-se de quando o ator lhe explicou como ele montava sua agenda durante as gravações e como o estúdio sempre tinha os cronogramas mais loucos, o que levava eles a terem longas discussões até que todos os lados estivessem satisfeitos.
- Ah, agora eu entendo. – sorriu. – Relaxe, vai dar tudo certo. Sempre dá, não é mesmo? – Perguntou ela, tocando de leve no braço do ator, sentindo-o tenso a princípio, mas logo relaxando. Ela sabia que a tensão não era por seu toque, e sim pela reunião, e se sentiu feliz por saber que conseguia acalmá-lo. – Talvez a gente faça um bolo para você comer quando chegar, o que acha, Ava? – Perguntou a mulher, chamando a atenção da menina, que abriu um sorriso imediatamente.
- Nada muito grande, tem o aniversário dela na próxima semana. – Avisou Jeremy, vendo a moça concordar com um aceno de cabeça. – E só faça se ela se comportar.
sabia que Ava se comportaria, não por querer bolo, mas pela pequena discussão com o pai naquela manhã. Tanto filha quanto pai estavam fora do eixo após aquele ocorrido, apesar de ter quase certeza que não era a primeira vez que algo como aquilo ocorria. Ela não conseguia deixar de pensar que o problema de Ava fosse mais sério que ela imaginava, e de repente engoliu em seco inundada com os diversos pensamentos que começou a ter. Piscou e balançou a cabeça com força para afastar os diversos cenários que tomou conta, terminando de tomar seu café e então chamando Ava para brincarem no jardim um pouco antes de saírem para irem ao mercado comprar os ingredientes para o bolo.
O dia foi agradável, como todos vinham sendo – com exceção do episódio do closet, que havia se esforçado para deixar de lado – em determinado ponto, Anna Farris viera ao seu portão para perguntar se ela podia deixar Jack com e Ava um pouco já que ela tinha um compromisso urgente e não tinha tempo para chamar uma babá.
- Eu liguei para o Jeremy, e ele disse que eu podia vir aqui. – A mulher explicou, mas mal conseguia se concentrar, sua mente trabalhando para assimilar o que estava acontecendo. – Então, tem algum problema?
- Claro que não. – Disse , se esforçando para focar no que acontecia. – Logo vamos fazer um bolo, tem algum problema ele comer?
- Nenhum. – Garantiu Anna, agradecendo antes de se despedir do filho e garantir que não demoraria muito.
Ava ficou animadíssima quando voltou para casa acompanhada do pequeno Jack, que logo correu para dar um abraço na menina. A mulher deixou os dois brincando um pouco enquanto terminava de arrumar as compras que ela e Ava haviam feito – aproveitou que estavam no mercado para já comprar algumas coisas que faltavam na casa. A risada das crianças se espalhava pela casa, enquanto ia de um lado para o outro na cozinha, já separando os ingredientes do bolo. Digby estava na porta, de olho na sala e no que fazia, como se ela precisasse ser vigiada. Ao terminar de organizar tudo, ela foi até a cozinha, admirando a cena de Ava e Jack brincando com os bonecos de ação dos Vingadores.
- Crianças, quem quer me ajudar a fazer bolo? – Perguntou ela, chamando a atenção deles.
- Eu! – Gritaram os dois juntos, já se levantando e correndo para a cozinha.
achou que a bagunça seria monumental, mas no final ela não gastara mais de cinco minutos limpando a cozinha, só a louça que havia sido maior que a necessária, mas isso já era de se esperar. Jack gostava de ajudar a misturar os ingredientes, enquanto Ava preferia coloca-los, não possuindo muita paciência para ver tudo se incorporando até ficar homogêneo. O bolo foi pequeno, com se lembrando do pedido de Jeremy, e de chocolate, bem simples só para ocupar o dia. Ou seria simples, não fosse a insistência de Ava de fazerem uma cobertura e jogarem uns confeitos por cima.
- Para o papai ficar feliz! – Disse ela como argumento para convencer . A mulher não conseguiu dizer não, pegando os ingredientes para preparar a cobertura de chocolate, enquanto Ava e Jack se divertiam escolhendo quais confeitos jogariam por cima.
No final da tarde, após comerem, cada um, dois pedaços de bolo, Ava e Jack se despediram quando Anna passou para buscar o filho, agradecendo por ter cuidado do menino para ela. ficou sem graça, mas apenas disse que não fora problema algum e elogiou o loiro, pedindo que ele voltasse mais vezes para brincar com a Ava. Quando voltou para casa, Ava começava a recolher os brinquedos, pedindo para colocar um filme para ela antes do filme. A mulher concordou, estranhando aquele comportamento tão educado da criança, e o fez, perguntando o que a menina gostaria de comer no jantar, estranhando ainda mais quando Ava deu de ombros e disse que a babá podia escolher.
- Mais tarde preparo algo, então. – Disse , indo para a cozinha enquanto Ava se arrumava no sofá para assistir ao filme.
Na hora de dormir, Ava tentou lutar um pouco contra o sono, pedindo para ficar acordada até o pai chegar em casa, mas nem mesmo precisou lhe negar o pedido, o enorme bocejo e os olhos coçando já eram os indicadores necessários para a menina desistir de lutar muito. Lembrando-se do primeiro dia que cuidara de Ava, prometeu que quando o ator chegasse, ele faria um desenho na mão da menor, além de dar um beijo nela. Ava concordou com o acordo, pedindo em seguida para ler uma história para ela.
Ao sair do quarto da criança, após certificar-se de que ela estava completamente adormecida, seguiu para cozinha para comer algo, mas se descobriu sem fome. Então apenas guardou a comida na geladeira, e seguiu para a sala, pegando o último texto que havia começado a ler para continuar o estudo. Já era quase meia-noite quando ela ouviu o portão se abrindo e Jeremy entrando com o carro. A mulher se espreguiçou no sofá enquanto esperava o homem entrar em casa, se divertindo quando ele pareceu assustado por vê-la acordada. Ele parecia esgotado, não deveria ter sido uma reunião muito agradável, principalmente levando em conta o horário que ele voltava.
- Ainda acordada? – Perguntou Jeremy, retirando a jaqueta enquanto se aproximava do sofá, provavelmente querendo conferir se Ava estava ali.
- Ela está dormindo. – Explicou , já sabendo as intenções do ator. Ela se esticou e pegou uma caneta, entregando-a ao homem. – E você tem um desenho para fazer.
- Faz tempo que ela dormiu? – Perguntou Jeremy, pegando a caneta.
- Algumas horas, sim. – Disse . – Ela tentou ficar acordada para esperar você, mas o sono venceu. – A mulher deixou o texto na mesinha de centro e se levantou. – Está com fome? Posso ir esquentando a comida enquanto você vai vê-la.
- Não vou recusar. – Disse Jeremy. – Vocês comeram o que?
- Preparei um strogonoff, mas só ela comeu.
- Você não? Por quê?
- Não estava com fome. – deu de ombros.
- Mas vai comer agora, não é? – Jeremy perguntou, e quis apertá-lo até ele explodir em purpurina por parecer tão fofo quando preocupado com ela.
- Mesmo se eu estivesse sem fome, eu tenho a leve impressão que você não me deixaria ir dormir sem comer. – Disse , rindo da expressão do ator. – Vai dar um beijo na Ava enquanto eu preparo tudo.
esperou até Jeremy sumir no corredor para ir até a cozinha, esfregando levemente a testa enquanto o fazia, já controlando os pensamentos conturbados que ousavam invadir sua mente sem permissão. Ela tinha que parar de se sentir como uma adolescente que se apaixonava pelo professor da escola, não era certo agir daquela forma com a idade que tinha e ainda mais com alguém que era seu chefe. Onde estava sua ética? Se nem com clientes do café ela saia quando eles a cantavam, por que agora ficava fantasiando com o próprio chefe?
Perdida em pensamentos, ela se assustou quando Jeremy chegou à cozinha, fazendo o ator rir do pulo que ela deu enquanto colocava a comida para esquentar no micro-ondas.
- Desculpe, não sabia que estava tão distraída. – Pediu Jeremy, comprimindo um lábio no outro para controlar a risada.
- Já se tornou tradição, acho. – Comentou , ocupando-se em pegar os pratos e talheres apenas para adiar o momento que tivesse que encará-lo, dando tempo para Jeremy tirar do rosto aquele riso debochado. – Como foi a reunião?
- Longa.
- Percebi. – Disse ela, finalmente encarando o ator. – Chegaram a um acordo?
- Sim, sempre chegamos. – Ele suspirou, abrindo alguns botões da camisa social que usava. – Não sei por que ainda insistem nessas reuniões se todos já sabem como vai acabar. Seria mais fácil já criarem desde o início o cronograma ideal. – Ele ia dizendo, esfregando as mãos no rosto enquanto se distraía imaginando o que aquela camisa revelaria se fosse aberta até o fim. A mulher agradecendo quando o micro-ondas apitou, tirando-a de seu devaneio. – E você? Como foi a tarde? – Perguntou Jeremy. – O Jack veio aqui?
- Sim, veio, ele é um amor. – Disse , sorrindo enquanto se lembrava do menino e dele brincando com Ava. – Foi uma tarde tranquila, tem bolo, aliás.
- Prometo te pagar a mais pelo Jack.
- Não precisa. – olhou o ator, querendo se certificar de que ele não insistiria. – Aconteceria em qualquer momento, e eu me diverti. Não precisa pagar por nada.
Jeremy preferiu não discutir, levantando-se do banco para se servir da comida preparada pela mulher. Os dois preferiram comer ali mesmo, sentados à ilha da cozinha. Inicialmente em silêncio, depois começou a perguntar sobre suas datas para as gravações do filme, e Jeremy foi deixando-a por dentro de tudo. Ele também lhe perguntou um pouco sobre seus estudos. Em determinado momento, o silêncio voltou a reinar, e se viu encarando o armário onde ficavam os remédios da Ava, a discussão dos dois naquela manhã voltando à sua mente. Ela olhou o ator, que parecia concentrado no conteúdo do seu prato, mordeu o lábio inferior e respirou fundo.
- Jeremy, posso fazer uma pergunta? – Pediu ela, largando o garfo e apoiando os braços na superfície, chamando a atenção do ator.
- Desde quando precisa pedir? – O ator riu, fazendo um gesto indicando que ela podia continuar.
- Para que servem os remédios da Ava? – Ela perguntou sem rodeios, sabendo que se enrolasse demais acabaria desistindo. Imediatamente se arrependeu, vendo a mudança imediata na postura do ator. Jeremy largou o garfo, pegou o guardanapo e passou-o ao redor de seus lábios, apesar de não ter nenhuma sujeira. percebeu na hora que não deveria ter feito aquilo, principalmente quando Jeremy se levantou e retirou o próprio prato, metade da comida ainda no mesmo.
- Não é um assunto sobre o qual eu gostaria de discutir agora. – Disse ele, indo até a pia para começar a limpar seu prato. engoliu em seco, empurrando seu prato para trás e levantando-se.
- Claro. – Disse ela, começando a caminhar em direção à porta da cozinha. – Eu vou dormir, então...
- , não... Eu sinto muito. – Jeremy começou, virando-se para a mulher e fazendo-a se virar para ele também. – Não precisa ir.
- Eu não deveria ter me intrometido. – Disse ela, dispensando as desculpas dele. – Eu estou cansada, foi um... Um longo dia.
- ...
- Boa noite, Jeremy. – Disse ela, virando-se e saindo da cozinha. O ator acompanhou enquanto ela saia, dando um soco na pia logo em seguida, irritado consigo mesmo.
- Seu idiota. – Sussurrou para si mesmo.

~ * ~


No dia seguinte ao incidente na cozinha, e Jeremy entraram num acordo mútuo e silencioso de agirem como se nada tivesse acontecido, e assim passou-se a semana. Quando eles viram, já estavam quase na última semana do mês, às vésperas do aniversário de quatro anos de Ava. Jeremy não havia planejado nada grande, apenas alguns primos de Ava viriam, além de outras crianças que ela conhecia. O ator cuidara de cada detalhe, atendendo ao máximo de pedidos possíveis da longa lista que Ava havia feito. Como o ator viajaria no dia seguinte ao aniversário da filha, e ela iria junto, Jeremy decidiu fazer a festa no fim de semana anterior ao dia do nascimento da criança. até mesmo chegou a fazer uma brincadeira com a superstição de comemorar antes, fazendo Jeremy rir e realmente acreditar que ela tinha algum problema com a comemoração antecipada, para a diversão da mulher.
Eram muitos detalhes, e Ava estava animada e ansiosa para tudo. Parecia que estava tudo perfeito, até que não estava mais. e Ava haviam ficado juntas a tarde toda na véspera da festa, com Jeremy saindo de casa cedo para resolver alguns problemas de última hora em relação à comida que seria servida. A menina estava mais hiperativa que o normal e exigira até o último fio de cabelo de disposição de . Quando Jeremy chegou em casa, muito mais tarde que o pretendido, a mesma estava silenciosa, com Ava já adormecida e sem sinal de . Não que ele tivera muito tempo de procurar, já que na hora que saíra do quarto da filha, seu celular começou a tocar e ele suspirou ao reconhecer o número do local onde havia encomendado o bolo.
Ele aceitou a ligação, se arrependendo logo em seguida, e ficando preso ao aparelho por quase duas horas. Quando enfim encerrou a ligação, Jeremy bloqueou o celular e o colocou com mais força que o necessário no bar que havia no canto da sala, soltando um alto e sonoro palavrão logo em seguida. Ele se sentou em uma das banquetas, passou a mão no rosto e ao abrir os olhos tomou um susto ao ver parada a sua frente, um sorriso mínimo no rosto.
- O que posso lhe servir nessa noite, senhor Renner? – Perguntou ela, que havia escutado algumas partes da discussão do ator com quem quer que estivesse do outro lado da linha, apoiando as mãos na superfície do balcãozinho.
- O que está fazendo aí? – Perguntou ele, franzindo o cenho.
- Ava quis brincar com uns copos de shot, então eu estava guardando os que foram usados. – Explicou ela, suspirando cansada ao se lembrar do dia cansativo que tivera com a menina. – Então? Dia difícil?
- Pode-se dizer que sim.
- Antes de ser a incrível babá que sua filha tanto odeia, eu trabalhava em um café que à noite funcionava como um barzinho e, vez ou outra, eu trabalhava no turno da noite para conseguir um extra, então sou ótima ouvinte. – Ela o olhou, inclinando a cabeça de lado.
- Falou sério quanto a bebida? – Perguntou o ator.
- Sim. – Ela respondeu, já pegando um descanso para copos e colocando na frente dele. – O que vai querer?
- Aquela garrafa de whisky ali. – Ele apontou para uma garrafa no canto, já pela metade. a pegou e o copo logo em seguida, servindo a bebida e entregando ao homem. Jeremy tomou um gole, sentindo o líquido queimar sua garganta enquanto descia. – Perfeito.
- Agora, qual é o problema?
- A festa de Ava amanhã? – Perguntou ele, como se quisesse confirmar que ela estava inteiramente dentro do assunto e de tudo o que ia acontecer.
- Sim, sei. Aliás, o pessoal da decoração ligou. – Ela se lembrou, coçando a testa para lembrar todos os detalhes. – Parece que eles não conseguiram falar com você, enfim, disseram que está tudo confirmado e chegam amanhã por volta das nove.
- Ótimo, temos comida e decoração, mas não temos um bolo. – Reclamou o homem, tomando mais um gole da bebida.
- Como assim não temos bolo?
- Eles me ligaram. Disseram que houve uma confusão com os pedidos e as datas e não conseguiriam finalizar o bolo a tempo para a festa amanhã.
- Mas é a parte favorita da Ava! Ela não para de falar sobre esse bolo. – comentou, as partes da conversa que havia escutado do ator no telefone agora fazendo mais sentido.
- Eu sei! Já tentei ligar para todos os lugares que conheço, mas eles disseram que não conseguem fazer o bolo a tempo. – Jeremy suspirou. – Amanhã cedo vou ter que ir até uma padaria e comprar um bolo qualquer.
- Mas Ava não ficaria feliz. – Observou , colocando mais um pouco da bebida para o ator.
- Não, ela não ficará, mas não tem outra solução.
- Talvez tenha. – disse, chamando a atenção do homem.
- Como?
- Digamos que eu conheço alguém. – A mulher deu de ombros. – Alguém que adora um bom desafio, e tem um ótimo talento com bolos, modéstia à parte.
- Você faz bolos? – Jeremy perguntou, sua expressão um pouco cética.
- Não mais. Mas eu costumava fazer, precisava pagar as contas. Parei de fazer quando consegui o trabalho no café. – Explicou ela. – Mas eu sempre consegui me virar bem.
- E acha que conseguiria fazer o bolo que Ava quer?
- Você me ofende assim, Renner. – A mulher disse, jogando um guardanapo no rosto do homem. – Faça a lista do que ela quer no bolo, e eu vou comprar. Não está muito tarde, então o mercado ainda está aberto.
- Tem certeza? Eu posso conversar com ela e...
- A lista, Renner. – Disse , entregando o papel e a caneta ao homem. Ele escreveu todos os detalhes que a filha queria no bolo, e não eram poucos, depois pegou sua carteira e colocou o cartão de crédito junto com a lista.
- Compre tudo e mais um pouco se quiser, tudo da melhor qualidade, passe no meu cartão independentemente do valor. – Disse ele, enquanto a moça passava os olhos pela lista, sua cabeça já trabalhando em todos os detalhes. – Quer ajuda? – Perguntou ele, vendo que a mulher não parava de olhar para a lista, ignorando-o completamente. – ?
- Sim? – Ela piscou, olhando para ele.
- Perguntei se você quer ajuda.
- Não, está tudo certo. – Disse ela, sorrindo para o ator. Ela contornou o balcão, foi até onde as chaves dos carros ficavam e pegou a do carro que ela costumava usar, depois pegou sua bolsa e abriu a porta. – Até daqui a pouco.
Jeremy viu a mulher saindo e sorriu, se surpreendendo com a caixinha de surpresas que ela era. Cada vez que o ator imaginava que havia descoberto tudo sobre ela, vinha e mostrava que havia mais. Já estava surpreso por ela ter aguentado tanto tempo com Ava, que parecia irredutível quanto a aceitar a mulher em sua vida. Jeremy achou que a situação criada no Oscar teria sido o ápice para , mas ela permaneceu, fazendo seu trabalho da melhor forma que a menor permitia, e se saindo cada vez melhor nele. No dia do Oscar, a mulher conseguira salvar o dia, apesar de sua filha rebelde; e agora lá estava ela novamente, pronta para salvar a festa da menina que sequer a queria por perto.
O ator levantou da banqueta, terminando de beber o resto do whisky que havia colocado para ele, levou o copo até a cozinha e lá deixou, indo até o quarto de Ava para conferir como a filha estava. A menina estava adormecida, mas seu quarto ainda estava bagunçado, mostrando os indícios da brincadeira da menor naquela tarde, havia bonecos dos mais variados tipos espalhados pelo chão: haviam barbies e haviam todos os bonecos dos Vingadores, duas bonecas haviam sido largadas próximas ao Capitão América enquanto os demais Vingadores estavam num canto mais afastados, juntos ao urso de pelúcia gigante. Jeremy sorriu diante a cena, aproximando-se da cama da filha e se sentando com cuidado, acariciando o cabelo dela e depositando um beijo em sua testa.

rodava pelo mercado guiando um carrinho de compras que já estava pela metade. O bolo que Ava havia pedido era ousado e ela estava adorando o desafio. A menina queria um bolo com três camadas, cada uma com uma decoração diferente. Uma de unicórnios, outra de sereias e a terceira era o céu: três entre as diversas coisas favoritas da garota. Em sua cabeça, já havia construído o bolo com perfeição, até havia ficado dez minutos dentro do carro no estacionamento do mercado fazendo o desenho do bolo para não correr o risco de esquecer mais tarde. Ela já havia passado por todos os corredores do mercado, faltava voltar em uma para comprar as formas para assar os bolos, já que se lembrava que não haviam muitas na casa de Jeremy – não da forma que ela queria, pelo menos.
A mulher no caixa não conseguiu esconder a surpresa quando começou a descarregar o carrinho na esteira, o rapaz que ajudava a embalar as coisas compradas também não. A mulher se explicou, alegando que precisava fazer um bolo para o dia seguinte, o que pareceu acalmar os dois. Temendo cometer algum erro, ela havia comprado mais ingredientes que o necessário, para caso surgisse alguma emergência. Pelo menos, se acertasse de primeira, já teria ingredientes para uma próxima oportunidade. Quando tudo já havia passado, abriu a carteira, olhou o cartão que Jeremy havia lhe entregado, mas o ignorou, pegando o próprio e entregando à mulher. Não fora barato, mas ela não se importava, aquele seria seu presente de aniversário para Ava, ainda que a menina não fosse descobrir muito provavelmente.
Quando ela chegou em casa, o relógio acabava de bater onze horas e ela se surpreendeu pelo tempo que levou no mercado. Jeremy provavelmente no quarto com Ava ou no próprio quarto enquanto a mulher ia e voltava com as compras do mercado – o ator provavelmente nem havia ouvido ela chegar, ou não imaginava a quantidade de coisas que ela havia comprado além da lista. organizou todos os ingredientes pela ordem que os usaria, separando tudo por sessões: massa, cobertura e decoração. Antes de começar, ela foi até seu quarto para se trocar e colocar uma roupa mais confortável, ouvindo Jeremy cantando uma música qualquer para uma já adormecida Ava. Ela voltou à cozinha e olhou o relógio, calculando quanto tempo tinha até o horário da festa, que começaria na tarde do dia seguinte.
- Dá tempo. – Disse ela para si mesma.
- Meu deus, você assaltou o mercado? – se assustou ao ouvir a voz de Jeremy atrás dela, virando para o homem logo em seguida, quando ele havia chegado ali que ela não escutara?
- Fui um pouco mais além do necessário, só para caso surja alguma emergência. – Ela explicou, mas o ator não prestava mais atenção, concentrado no papel onde ela havia desenhado o bolo.
- Você quem fez? – Perguntou ele à moça, vendo quando confirmou com um aceno. – Se ficar assim mesmo, e eu tenho quase certeza que ficará, você fará todos os bolos dessa casa.
- Só quero que Ava tenha o aniversário perfeito. – Disse a mulher, não conseguindo esconder o leve rubor em seu rosto.
- No que posso ajudar? – Perguntou Jeremy, fingindo arregaçar as mangas, fazendo a mulher rir.
- Você deveria ir dormir. – Disse , imaginando o dia cheio que o homem teria.
- Parece que você tem muito trabalho e eu nunca durmo cedo, então aproveite e me diga o que fazer. Hoje você é a chefe. – Brincou ele.
- Já que faz questão... Pode começar lavando as mãos e pegando a batedeira, enquanto eu separo os ingredientes para o bolo da base. – Enquanto separava os ingredientes, uma dúvida surgiu. – Ava não vai acordar com todo o barulho?
- Aquela só acorda com uma bomba do lado dela ou se tiver algum pesadelo. – Respondeu Jeremy, secando as mãos e começando a procurar pela caixa onde a batedeira ficava guardada.
- No armário ao lado da geladeira. – Apontou , vendo que o homem estava perdido.
- Ah, claro... – Ele foi até o local indicado, pegando a caixa. – Estou ficando pouco tempo em casa, já estou esquecendo as coisas.
- Outras pessoas diriam que é a idade chegando. – Jeremy olhou para a mulher, fingindo-se chocado com a piada dela, ele aproveitou que havia chegado ao lado de , pegou um pouco da farinha que ela havia acabado de mexer e jogou nela.
- Eu ainda sou seu chefe. – Brincou ele, segurando a risada quando viu a expressão surpresa que a mulher fez ao ter a farinha jogada em seu cabelo.
- Não essa noite, você mesmo disse. – Respondeu ela, pegando um punhado e jogando no ator, que ficou com todo o rosto e parte do cabelo brancos cobertos de farinha. riu, vendo a demora do ator em abrir os olhos.
- Isso terá volta, . – Apontou Jeremy, passando a mão no rosto para tirar a farinha e conseguir abrir os olhos. – Não hoje, porque temos muita coisa para fazer, mas um dia.
- Mal posso esperar. – Provocou , rindo da expressão surpresa do homem. Ele definitivamente não esperava aquela ousadia toda dela.
Até então, o relacionamento deles havia sido normal, apesar das ocasionais brincadeiras, como se fossem colegas de trabalho e apartamento, claro. O mais perto de uma conversa séria que haviam chegado fora quando o abordou sobre os remédios de Ava, com o ator fugindo do assunto por não se sentir muito confortável em falar sobre aquilo. Antes disso, o ápice do momento de intimidade que tiveram fora no evento da toalha, que ambos faziam o favor de fingir que nunca havia acontecido. Eles já haviam brincando um com o outro vez ou outra, entretanto, de forma que a brincadeira da farinha pareceu comum, como se fosse algo constante entre eles. Jeremy gostou daquilo, assim como . E durante toda a noite, vez ou outra eles ainda voltavam a jogar farinha ou achocolatado um no outro.
Jeremy se surpreendeu com a facilidade com que realizava suas tarefas, pedindo que ele a ajudasse ou liberasse algum recipiente que ela fosse precisar em seguida. Parecia que os dois trabalhavam juntos há anos, de tão coordenados que estavam. Em determinado ponto, os dois pararam o que faziam para discutir como encaixariam um bolo de três andares na geladeira, com Jeremy dando a solução mais óbvia: esvaziar a geladeira. Ele ficou com essa função enquanto voltava a trabalhar, mexendo as massas dos bolos e colocando-os para assar. Jeremy organizou a geladeira da melhor forma possível para que o bolo coubesse sem precisar desperdiçar comida.
Enquanto os bolos assavam, preparou os recheios de cada camada, enquanto Jeremy parecia brincar de massinha, fazendo os enfeites – comestíveis – que a mulher espalharia pelo bolo para finalizar a decoração. De acordo com o desenho de , a camada base seria o mar com as sereias, o mar começando de um lado e aos poucos subindo para a terra por toda sua extensão, para que conseguisse fazer a conexão com os unicórnios. O lado bom era que tanto as sereias quanto os unicórnios eram criaturas míticas, o que facilitava a criação do cenário. Pior seria se Ava quisesse colocar o espaço sideral no meio, a babá teria muito mais trabalho. Da segunda camada para a terceira, havia mais facilidade, já que começaria na segunda com o dia e finalizariam com um céu estrelado, havia escolhido acrescentar algumas fadinhas no céu, apenas para acrescentar outra coisa que Ava gostava muito, a criança até mesmo havia feito o pai comprar uma asinha de fada um dia quando saíram para passear. Em teoria, desenhado no papel estava lindo, Jeremy esperava que ficasse maravilhoso na realidade. E pelo empenho de , ele sabia que ficaria. Como se o tema do bolo não estivesse complicado o suficiente, Ava ainda havia pedido que cada camada tivesse um recheio diferente. A primeira seria de chocolate, a segunda de morango e a última de mousse de limão.
- Tá pra nascer alguém mais indeciso. – Comentou em determinado momento, enquanto separava os morangos para o segundo recheio. – Acho que o lugar não confundiu datas, não. Eles não aguentaram o desafio mesmo.
- Você acha? – Perguntou Jeremy, dando uma risada em seguida, concordando com a mulher que Ava não havia facilitado o trabalho de ninguém.
Eles permaneceram em silêncio, Jeremy vez ou outra encontrando dificuldade em fazer algum dos moldes que havia passado para ele, com a mulher interrompendo o que fazia para ajuda-lo, mas tudo em silêncio. Enquanto brincava de massinha, Jeremy alternava seus olhares entre o que fazia para , intrigado com a história dela.
- Eu tenho uma pergunta. – Disse ele, quebrando o silêncio.
- Qual você não está conseguindo fazer? – passou a mão na testa, afastando uma gota de suor. A cozinha estava extremamente abafada pelo forno ligado e porque eles haviam decidido fechar a porta para não correr o risco de acordar Ava.
- Não, não é sobre isso, acho que já peguei o jeito aqui. – O ator mostrou o unicórnio que terminara de fazer. – É sobre você.
- Ah... Até que demorou. – Ela brincou. Pegou a tigela onde mexia o recheio de morango e levou até a ilha da cozinha, onde o homem trabalhava. – Pergunte.
- Por quê?
- Você vai ter que ser mais específico.
- Claro. – Ele riu. – Por que ser babá? Você obviamente tem talento para muito mais. Quero dizer, só pelo desenho que você fez e todo o trabalho que você está tendo com o recheio e eu com essa decoração, você com certeza poderia trabalhar em uma dessas confeitarias. Mas por que ser babá?
- Primeiro, eu fui enganada, não vamos esquecer. Sua empresária me chamou para uma entrevista para ser assistente. – Ela lembrou, fazendo o homem sorrir ao se lembrar da confusão de quando ela chegara em seu primeiro dia. – Mas, não vou negar, pensei em voltar a fazer isso quando a cafeteria fechou e eu fiquei sem dinheiro. Só não fiz porque precisava de algo mais imediato, não tinha lugar para morar e o dinheiro estava acabando. Era a vaga de assistente ou voltar a morar com meus pais. Mas para isso eu teria que abandonar o mestrado. – suspirou, pausando o que fazia para prender melhor o cabelo, lavando a mão em seguida. – De qualquer jeito, acho que eu não daria certo em uma confeitaria, eu gosto de fazer bolos, mas não quero que seja um trabalho, sabe? Quero que seja algo como agora, algo que seja o desejo específico de alguém, era assim antes.
- Você fazia bolos com três temas diferentes?
- Bem, não... Mas tinham uns temas bem loucos e interessantes. – Ela sorriu, lembrando de alguns. – Uma vez tive que fazer um bolo para uma despedida de solteira, as meninas queriam algo estilo Magic Mike, sabe? O filme?
- Sei. – Jeremy concordou, rindo só de imaginar como o bolo saíra.
- Eu deveria ter guardado a foto daquele bolo, ficou maravilhoso. – Ela riu, depois olhou para o ator. – Você já assistiu Magic Mike? Para saber do que estou falando...
- Eu vi o trailer, não assisti ao filme. – O ator confessou.
- Um dia eu faço você assistir. – Disse a mulher, sorrindo com a ideia antes de voltar ao balcão atrás de si para começar a trabalhar no recheio de mousse de limão.
- Só sob tortura. – Jeremy respondeu.
- Não me desafie, Renner. – Ela disse, trazendo os ingredientes para a ilha e puxando um banco para ela sentar.
- Posso fazer outra pergunta? – Perguntou ele.
- Virou o jogo de vinte perguntas agora? – Brincou ela. – Diga.
- Por que ainda não desistiu? De nós dois, eu e Ava. – Ele preferiu especificar para facilitar a comunicação. – Você mesma confessou que não tinha jeito com crianças, e não estava mentindo, pelo menos nas primeiras semanas e com Ava dificultando tanto sua vida...
- Honestamente? Eu gosto dela. – deu de ombros, achando que aquela resposta seria o suficiente. – Acho que entendendo a relutância dela em aceitar uma babá. E você precisa da ajuda, e eu preciso do quarto e do dinheiro. Não é fácil, mas as coisas se encaixam.
- Então é só pelo quarto e pelo dinheiro? – Ele perguntou, tentando soar brincalhão, mas percebeu que no fundo havia seriedade. Ela largou o limão que começara a raspar as cascas e olhou o ator, vendo que ele fez praticamente a mesma coisa, porém largando o outro unicórnio.
- No começo, sim. Como eu disse antes, eu estava desesperada, então mesmo que não fosse um cargo de verdade para ser assistente, ainda era um trabalho que me oferecia o que eu precisava. – Ela deu de ombros. – Mas hoje não é mais. Eu gosto da Ava, gosto até de você. – Brincou , fazendo o homem revirar os olhos. – E no fundo eu sinto, como você já quis implicar algumas vezes, que ela também gosta de mim, ela só não está preparada para assumir ainda.
- Eu queria entender porque ela é tão difícil com as babás. – Jeremy suspirou, retomando o trabalho que fazia antes.
- É meio óbvio, na verdade. – disse, voltando a raspar a casca do limão. – Ela acha que nós estamos aqui para substituir a mãe dela. Ela pode ser pequena, Jeremy, mas ela consegue entender algumas coisas.
Depois disso eles voltaram a ficar em silêncio, Jeremy pensando no que a mulher havia falado, relembrando as babás anteriores e a forma de agir de cada uma, comparando-as com e percebendo que a última era a que mais havia sucedido não por estar ainda no cargo, mas por não agir como se quisesse ser a mãe de Ava, mas como uma amiga, alguém que cuida da menina quando é necessário. Jeremy lembrava-se de muitas vezes se afastando quando ele chegava em casa, deixando pai e filha juntos, sem interferir. Lembrava-se das vezes em que Ava havia respondido a babá e a forma de agir de não fora como uma mãe ou madrasta, não mandara Ava para o castigo ou ameaçara punir a menina de alguma forma. Não, sentava e conversava ou apenas deixava Ava ser, deixando a menina agir do jeito que quisesse e fingindo não ver nada. Jeremy sorriu ao se lembrar das inúmeras vezes em que Ava lhe contara o que havia feito durante o dia, inclusive os momentos rebeldes e simplesmente dava de ombros e dizia que a função de educar e punir a menina era dele, não dela. E ela o fazia na frente de Ava, para que a menor soubesse que ao final do dia sempre seria seu pai a lhe dar as broncas e os castigos necessários. Todas as anteriores puniam Ava, algumas haviam até tentado instalar o famoso “cantinho do silêncio”, como se fizesse algum efeito. Ava conseguia manipular cada babá que passara por ela, menos . Talvez por isso que a menina havia começado a diminuir seus atos rebeldes com a babá, deixando-a fazer seu trabalho com mais facilidade.
Ele observou enquanto a mulher fazia seu trabalho, extremamente concentrada, parecendo as vezes em que ambos estavam no escritório e ela fazia algo referente à faculdade. não demonstrava qualquer sinal de cansaço, enquanto ele já sentia suas costas protestarem por tanto tempo na mesma posição. Levantou-se do banco e deu uma volta pela cozinha, chamando a atenção da mulher, que desviou sua atenção do que fazia minimamente para observar o homem, que fingia procurar algo para comer.
- Jeremy, você pode ir dormir se quiser. – Disse ela. – Como eu disse antes, você terá um dia cheio.
- Mas ainda falta muita coisa. – Observou o homem, olhando a lista que havia feito do que precisavam fazer.
- Pelo menos você já adiantou os unicórnios, o resto é mais fácil. – Disse ela, finalmente largando o pote com o mousse de limão e indo até o ator. – Vamos, eu sou a chefe e digo que está na hora de você ir dormir. – Ela contornou o ator, colocou as mãos em suas costas e começou a empurrá-lo para fora da cozinha. – Vá ter pelo menos quatro horas de sono, não esqueça que às nove o pessoal da decoração chega. E você terá que acompanha-los enquanto eu levo a Ava no salão para ela pintar as unhas dela.
- Não! – Jeremy parou e virou de frente para a mulher, fazendo-a se assustar, ambos percebendo como estavam próximos, mas sem se afastarem. – Eu não marquei o salão dela.
- Meu deus, Renner! – suspirou. – Como ela vai pintar as unhas e arrumar o cabelo?
- Alguma chance de você ter sido cabeleireira ou manicure no passado?
- Não, mas eu sou mulher e já li muitos tutoriais, e eu faço minhas próprias unhas. E eu consegui me virar bem com o cabelo dela no dia do Oscar. – Ela observou. Jeremy inclinou a cabeça e fez cara de pidão, fazendo a mulher revirar os olhos. – Eu faço, mas você vai dormir agora, sem discussão.
- Eu vou te dar um aumento na segunda. – Jeremy disse, num impulso puxando a mulher para um abraço.
- Dormir, Renner! – Disse ela, dando alguns tapinhas nas costas do homem só para não parecer tão indiferente, quando sentia exatamente o contrário. O impulso do ator lhe pegara tão desprevenida que ela sequer conseguira se preparar e quando viu já inspirava o perfume dele, sentindo-se levemente embriagada pelo aroma. Os músculos do homem também não passaram despercebidos pela babá.
- Certo, até daqui a pouco então. – Jeremy disse, soltando a mulher, após perceber que já a abraçava por mais tempo do que o considerado aceitável para a situação. – Tente descansar um pouco também.
- Pode deixar.
Claro que ela não obedeceu. viu o dia amanhecer naquela cozinha, recheando os bolos e colocando-os para gelar; seguiu fazendo as sereias, as rochas do fundo do mar e a lua. Quando viu, os pássaros já cantavam e o dia já estava claro. Ela olhou o relógio e suspirou, vendo os dois ponteiros chegando ao número seis. Suas costas e seu pescoço doíam, mas ela não podia parar naquele momento. Ainda tinha que pintar os enfeites e fazer os detalhes de cada um, como olhos e as escamas das sereias; as caudas dos unicórnios, seus olhos e seus chifres; os detalhes das pedras... Ela não sairia daquela cozinha tão cedo, sabia disso. O bolo ficaria pronto em cima da hora para os parabéns, e ela não dormiria enquanto aquele momento não chegasse.
Eram sete horas quando Jeremy voltou a se juntar a ela, se espantando ao ver a primeira sereia pronta com uma riqueza de detalhes de dar inveja em qualquer desenhista que trabalhava na Disney. Ele aproveitou enquanto a mulher trabalhava, e que deixaria Ava dormir até mais tarde, para ajudar limpando o que estava sujo na cozinha e preparando o café da manhã para todos. O ator aproveitou os ingredientes que a mulher havia comprado em excesso e resolveu fazer panquecas, um dos pratos favoritos da filha em relação a café da manhã, e a ideia se reforçou ainda mais quando disse que havia sobrado recheio dos bolos e eles poderiam usar para as panquecas.
- Se quiser eu posso pegar o secador de cabelos. – Comentou Jeremy em determinado momento, apontando para os enfeites.
- Não, eles devem secar naturalmente, fica melhor. – Disse a mulher, mas gostou da sugestão do homem e se levantou para abrir uma das janelas da cozinha, colocando a bandeja onde os enfeites estavam próxima a ela, certificando-se de que ela estava bem segura.
- Vou manter Ava longe da cozinha, tudo bem? Para que ela tenha uma surpresa.
- É o melhor mesmo. E eu sei que você não terá trabalho algum em mantê-la longe daqui, só dar um de seus presentes a ela, aquela mini casinha, e ela ficará entretida até a hora da festa.
- Como você sabe o que eu comprei para ela?
- Eu que recebi, Jeremy, esqueceu? Não foi fácil esconder aquela caixa, aliás. – Acrescentou a mulher.
- Ah, verdade... Preciso dela, falando nisso, ainda preciso embrulhar.
- Já está embrulhada. – Disse a mulher, dando de ombros devido ao olhar surpreso dele. – Eu achei papel de presente e precisava fazer alguma coisa.
- Bem, muito obrigado. – Jeremy disse, virando a última panqueca, colocando-a sobre a pilha logo que ela ficou pronta. – Espero que pelo menos agora eu posso te dar uma ordem e falar para você parar um pouco para vir comer com a gente.
- Eu ainda preciso terminar aqui. – Ela apontou para o unicórnio que decorava e os outros três que faltavam.
- Não está aberto a discussão, vou arrumar a mesa e quando eu terminar, você irá para a mesa enquanto eu vou acordar a Ava.
- Não posso nem tentar discutir um pouco? – Perguntou .
- Não.
- Posso pelo menos terminar esse? Se eu parar no meio e voltar depois, não vai ficar bom. – Ela explicou.
- Só esse. – Disse Jeremy, mantendo o olhar travado na mulher para deixar bem claro que falava sério.
- Tudo bem. – se deu por vencida, focando em seu trabalho enquanto Jeremy ia e vinha levando as coisas para o café da manhã. Quando terminou, ele voltou para a cozinha e ficou esperando ela terminar o unicórnio, o que felizmente não demorou muito. – Vá acordar Ava enquanto arrumo aqui, vai que ela entra por acidente, pelo menos cobrir esses enfeites todos.
- Quando eu voltar...
- Estarei na mesa, sim. – Disse ela, fazendo um sinal para que ele fosse logo, enquanto ela pegava diversos panos de prato e começava a esconder os enfeites e outras coisas que poderiam entregar o que eles estavam fazendo na cozinha.
Quando Ava e Jeremy chegaram na sala de jantar, terminava de espetar quatro velinhas no topo da pilha de panquecas. A menor abriu um largo sorriso ao ver qual seria o cardápio, batendo palmas de felicidade enquanto o pai a pegava no colo e acendia as velas para que eles pudessem cantar um breve “Parabéns para você” e ela assoprasse. Jeremy olhou para a e fez um movimento com a cabeça, agradecendo-a pela ideia de última hora.
- E quantos anos você está fazendo, Ava? – Jeremy perguntou após a menina assoprar as velinhas.
- Quatro! – Disse ela, levantando os quatro dedos da mão.
- Isso mesmo. – Jeremy deu um beijo na testa da filha.
- Quando é minha festa? – A menina perguntou, ficando em pé em cima de uma das cadeiras.
- Mais tarde, querida. – Jeremy respondeu, espetando uma panqueca e colocando no prato da filha, cortando alguns pedaços para ela conseguir comer com facilidade. – Quer qual cobertura?
- Esse é morango? – Perguntou ela, apontando para um dos potinhos do recheio de bolo.
- Sim, você quer esse? – Perguntou Jeremy, vendo a filha assentir. passou o pote a ele.
- Eu vou pintar minhas unhas?
- Vai, a vai pintar suas unhas.
- Por quê? – Perguntou a menina, não soando mal-educada, como era o costume logo que a mulher havia começado a ser sua babá.
- Porque o papai não vai poder te levar, então pedi para fazer isso, tudo bem?
- Você tem esmalte com brilho? – Perguntou Ava para a mulher.
- Tenho. – Disse , servindo-se de panqueca também.
- Então tá bom. – Disse Ava, começando a comer os pedaços que seu pai havia cortado.
Após o café da manhã, dera a deixa para Jeremy entregar o presente da filha, dando a entender que o mesmo se encontrava no escritório. O ator foi pegar enquanto a babá atendia a um dos pedidos de Ava de comer um pouco do mousse de limão, recebendo um comentário positivo pelo mesmo – a babá suspirou aliviada por, até o momento, ter acertado pelo menos nos recheios do bolo. A atenção da criança mudou logo que o pai surgiu na sala, carregando a caixa com a casinha de bonecas que havia comprado, algo que a filha já falava há muito tempo que queria. E não deu outra, assim que rasgou o embrulho e viu do que se tratava, Ava deu um grito e vários pulos de felicidade, abraçando as pernas do pai e depois lhe dando vários beijos no rosto quando ele se agachou para ficar na altura dela. observava tudo com um largo sorriso no rosto. Adorava aniversários.
Com Ava distraída com a nova casinha, que agora estava bem instalada em seu quarto, e Jeremy voltaram para a cozinha, a mulher para terminar os enfeites e o ator para limpar a sujeira do café da manhã, logo depois saindo para ver se Ava estava bem e depois receber o pessoal da decoração. terminou todos os enfeites quase na hora do almoço, deixando-os para secar próximos à janela. Por muita insistência de Jeremy, ela se juntou ao ator e à filha para almoçar, e logo depois começou os preparativos para a festa, dando banho na criança, fazendo sua unha e o cabelo logo depois. Esperando até a hora da festa começar para vesti-la com o vestido azul com várias estrelinhas brancas – dado pela mãe de Ava.
Eram três horas da tarde quando Ava ficou pronta e os pessoal do buffet de comidas chegou, com tendo que mostrar a eles onde ficariam, já que Jeremy terminava de se arrumar. Enquanto ela voltava do jardim para a cozinha, os dois se encontraram no corredor, com não conseguindo esconder a admiração ao ver o homem bem vestido para a ocasião. Não era nada muito diferente do que ela já havia visto. Jeremy havia vestido uma calça jeans de lavagem escura, acompanhando uma camisa polo azul marinho, que só parecia realçar ainda mais os olhos azuis, as mangas ficando um pouco apertadas nos braços fortes do homem. balançou a cabeça, percebendo que já estava encarando-o há mais tempo que o saudável.
- O pessoal do buffet chegou. – Disse a mulher, apontando para a porta do jardim atrás da casa. – E Ava está no quarto dela, já pronta.
- Obrigado. – Jeremy disse, sorrindo para a mulher. – Você vai se arrumar que horas?
- Está brincando, não é? – Ela riu, passando a mão no cabelo que com certeza estava um desastre, provavelmente ainda sujo da farinha que o homem havia jogado nela no começo da noite. – Acho que hoje eu só fico nos bastidores.
- Ainda dá tempo de você se juntar a nós, por favor. – Pediu Jeremy.
- Eu vou ver. Ainda preciso decorar o bolo, e tomar um banho, alguém jogou farinha em mim e não foi pouca. – Ela lembrou, ia acrescentar algo mais, mas a campainha tocou bem na hora. – E você tem convidados. Se quiser fugir da bagunça em algum momento, sabe onde me encontrar. – sorriu e foi para a cozinha, sentindo o homem acompanha-la, mas indo para a porta de entrada para receber os convidados, gritando por Ava no meio do caminho.
fechou a porta da cozinha atrás de si e respirou fundo, o que diabos tinha sido aquilo no corredor? Admirando Jeremy dos pés à cabeça, percebendo como os olhos dele estavam destacados, assim como seus braços. E o pedido dele para que ela se juntasse a eles, como se ela fosse uma parte essencial naquela festa. A mulher respirou fundo, notando que suas mãos tremiam levemente. Ela balançou a cabeça, tinha um bolo para terminar. Aquilo tudo deveria ser efeito da falta de sono. Ela precisava dormir, descansar. Sim, aquele era seu problema. Respirou fundo mais uma vez e então se desencostou da porta, ouvindo ao longe os gritos animados de Ava. Foi até a geladeira e tirou a primeira camada do bolo, começando os trabalhos finais.

Jeremy se sentia cansado, os gritos infantis vinham de todos os lados, não tinha como fugir, e o som dos adultos conversando parecia estar cravado em sua mente já. Ele olhou ao redor, sorrindo ao ver sua filha se divertindo, o vestido já com pedaços de grama grudados, o cabelo levemente descabelado. Mas o que importava era o sorriso em seu rosto, e as vezes em que ela vinha lhe dar um abraço apertado. Aquilo era recompensa o suficiente, pena que não agia como remédio para afastar a dor de cabeça. Já estava ali há quase três horas, considerou que merecia um descanso. Então pediu licença ao grupo de pais com quem conversava e entrou em casa, indo até a cozinha. Abriu a porta com cuidado e parou onde estava, observando concentrada, pintando os detalhes na camada final do bolo, o ator ficou de boca aberta. Sendo bem honesto, ele havia desconfiado do sucesso de quando vira o desenho que ela fizera no papel, mas a realidade estava ali para puxar seu tapete e derrubá-lo com estrondo no chão. O bolo estava melhor que o imaginado, nem mesmo Ava conseguiria encontrar algum defeito naquela obra de arte.
O ator prestou atenção na mulher, se divertindo por vê-la com a língua entre os dentes, a pontinha um pouco para fora dos lábios, a testa franzida e os olhos completamente focados no bolo a sua frente, que deveria ser uma tela de pintura em sua mente. A mão com os movimentos precisos do pequeno pincel que ela usava para fazer os efeitos da noite. Ela havia feito todas as transições do dia para a noite, começando no fundo do mar até a noite estrelada. Os unicórnios espalhados ao redor do bolo, assim como as quatro sereias – uma para cada ano de vida de Ava. A mulher até mesmo havia feito algumas árvores, além das fadas que ela já havia comentado que faria antes, como se saíssem do lago onde as sereias viviam e entrassem em um bosque, o lar dos unicórnios.
- Se você vai entrar, entre logo e feche a porta. – Disse ela, assustando o homem, que achava que ela sequer havia percebido sua presença.
- Não queria te assustar. – Disse Jeremy, entrando na cozinha e fechando a porta atrás de si. – , isso está maravilhoso.
- Eu sei. – Disse ela, sorrindo orgulhosa. – Vou até mesmo ignorar o tom de surpresa em sua voz. – A mulher sorriu, girando o bolo com cuidado no apoio, admirando cada detalhe, e deixando que o ator fizesse o mesmo. Então olhou para Jeremy, mordendo o lábio inferior; ele franziu o cenho, estranhando o receio no rosto da mulher. – Acha que Ava vai gostar?
- Está brincando? – O ator riu. – Se ela não gostar, eu a levo no médico amanhã e peço para examinarem a cabeça dela. – A mulher sorriu, parecendo mais aliviada, mas não completamente. – Acho que nunca fiquei tão feliz por um pedido ter dado errado. Você definitivamente elevou as expectativas. Estou com dó até de imaginar a hora dos parabéns, quando tiver que cortar.
- Sem frescura, é para comer! – Disse a mulher, voltando a olhar para o bolo para ver se faltava mais algum detalhe.
- Como conseguiu fazer isso tudo tão rápido? – Perguntou Jeremy, já havia assistido programas de culinária o suficiente para saber que aquilo não costumava ser rápido.
- Prática. – A mulher deu de ombros, retocando uns pequenos detalhes do céu estrelado. – É só saber a técnica certa e confiança.
- Você não pareceu confiantes instantes atrás.
- É diferente. – Ela riu. Se levantou e abriu a geladeira, pegando o bolo e levando-o com cuidado para deixa-lo gelando até a hora de cantar os parabéns. – O que faz aqui?
- Estava muito barulho lá fora, precisava de um lugar calmo. – Jeremy deu de ombros. – Agora é a hora que você vai tomar banho e se juntar a nós?
- Você não vai desistir, não é mesmo? – Ela sorriu.
- Não, você tem tanto direito quanto qualquer outro de aproveitar essa festa, principalmente depois desse bolo. – Ele apontou para a geladeira.
- Jeremy, obrigada pelo convite e pela insistência, de verdade, mas o máximo que eu vou fazer agora é arrumar isso aqui, tomar um banho e esperar até a hora de levar esse bolo para cantarem parabéns. – Disse ela, apoiando-se no balcão e olhando o ator na frente dela. – Se sua cabeça está doendo pelo barulho, imagine como a minha vai ficar. Ela já não está muito boa pela falta de sono, com barulho, ela vai explodir.
- Bem, pelo menos você se juntará a nós para os parabéns, é o que importa. – Disse Jeremy, sorrindo para a mulher, que agradeceu por estar apoiada no balcão. – Não deve demorar. Quando você terminar de se arrumar, nós levamos o bolo.
- Tudo bem. – Ela sorriu, concordando. – Acho que você deveria voltar para seus convidados.
- Bem lembrado. – esperou o homem sair da cozinha para suspirar e se virar para a pia, começando a juntar as coisas para lavar, o sorriso final que ele dera para ela voltando à sua mente.
- Por que tinha que ser tão lindo e gostoso? – Perguntou-se, logo depois balançando a cabeça. – Ele é seu chefe, , pode parando. – Ela ouviu uma tosse forçada atrás de si, levantando a cabeça e fechando os olhos com força, implorando em sua mente a qualquer divindade para que não fosse Jeremy. Ela se virou e abriu os olhos, obviamente encontrando o homem parado na porta com as mãos nos bolsos da calça e um sorriso divertido no rosto, falhando completamente na tentativa de fingir que não havia escutado o que a mulher havia acabado de falar.
- Eu só queria saber se você está com fome e se quer que eu traga algo. – Ele disse, após os dois ficarem um tempo se encarando, a mulher implorando para que pelo menos um buraco se abrisse abaixo dela.
- Não, eu comi um pouco das panquecas que sobraram. – Disse ela, encontrando muita dificuldade para manter o olhar fixo no homem. – Mas obrigada.
- Claro. – Ele respondeu, pigarreando e passando a mão no cabelo antes de, finalmente, dar as costas e sair definitivamente da cozinha. buscou apoio no banco que ocupava antes, sentando-se nele e enterrando a cabeça nas mãos, rindo de nervoso pela situação.
- Idiota. – Sussurrou para si mesma, ficando mais um tempo se xingando antes de levantar e começar a arrumar a cozinha. Quanto mais cedo aquilo terminasse, mais cedo ela iria dormir e aquele dia ficaria no passado.
Jeremy saiu da cozinha e encostou-se na porta fechada atrás de si, uma parte de si sorria pela cena que havia testemunhado, a ação da mulher, a outra pelo embaraço dela, apesar de saber que não era muito correto se divertir com uma situação como aquela, se fosse o oposto, ele estaria se odiando. Inicialmente ele considerou que ela falava de algo que havia feito em relação ao bolo, mas quando ela acrescentou a parte do chefe, ele logo compreendeu. Seu lado mais sensato o aconselhou a fechar a porta e retornar fingindo que nada havia acontecido, mas o lado mais insensato falara mais alto e ele queria ver como a mulher reagia ao saber que ele havia escutado o que havia falado. Encostado ali, ele ainda conseguiu ouvir ela se xingando, sorrindo divertido, antes de sair dali e voltar para a festa.
A escapada da festa havia funcionado mais do que ele esperava, já que ele voltara mais disposto, acompanhando as conversas e opinando vez ou outra. Pouco mais de uma hora depois, surgiu na porta que dava para o jardim, indo até onde as bebidas eram servidas e pedindo algo para ela, Jeremy a acompanhou com o olhar, vendo que ela não havia se esforçado muito, preferindo o confortável e prático ao colocar um vestido e uma sandália rasteira, o cabelo molhado solto secando com o vento que soprava. Ele viu ela se apoiando no barzinho e ficando lá, um pouco distante da festa, afinal não conhecia ninguém além dele e Ava.
- Resolveu socializar? – Perguntou o ator, se juntando a ela um tempo depois.
- Socializar envolve eu conversar com as pessoas, nem com o carinha das bebidas eu fiz amizade já que ele teve que sair para servir os refrigerantes.
- Papai! Papai! – Ava veio correndo até eles, interrompendo o comentário que Jeremy iria fazer.
- O que foi, princesa? – Perguntou Jeremy, abaixando-se para ficar na mesma altura da criança.
- Quero bolo. – Disse Ava, sorrindo para o pai.
- Bem, que tal a te arrumar primeiro? Já que seu penteado desfez todo e seu vestido está cheio de grama. Aí ela te arruma para você sair bem bonita nas fotos junto com seu bolo.
- Tudo bem. – Disse Ava, não parecendo muito feliz, mas segurando a mão da babá quando a mulher a estendeu.
- Arruma o cabelo dela, enquanto eu trago o bolo, depois eu arrumo o vestido, para entrar com ela. – Disse o ator a , que assentiu.
Os dois entraram juntos na casa, cada um seguindo para um lado. Ava sentou-se na cadeira e deixou mexer em seu cabelo, conversando vez ou outra com a babá, contando sobre os amiguinhos que vieram. Jeremy entrou na cozinha, surpreendendo-se por vê-la completamente impecável, como se nada tivesse acontecido. Ele abriu a porta da geladeira e coçou a cabeça, imaginando como tiraria aquele bolo de lá e o levaria até o jardim sem derruba-lo – arrancaria sua cabeça se algo acontecesse com aquela obra de arte, e ele nem tentaria se defender. As pessoas soltaram exclamações surpresas quando viram o bolo, pais e mães segurando seus filhos para que eles não saíssem correndo e causassem algum acidente. Jeremy agradeceu alguns elogios enquanto voltava para dentro de casa para ver se Ava estava pronta, encontrou-a conversando com sobre como imaginava que seu bolo seria, já estava completamente arrumada e limpa.
- Pronta? – Perguntou Jeremy, vendo a menina pular e correr em sua direção, pulando em seu colo. – Então vamos lá.
Os três saíram da casa, saindo na frente e se colocando em um canto que conseguisse ver a reação de Ava quando visse o bolo. As demais luzes do jardim haviam sido acesas e o bolo parecia ainda mais magnífico, de onde estava a mulher conseguia ouvir as pessoas comentando sobre o trabalho que ela havia feito, apesar de não saberem que ela era a dona da “obra”. Jeremy saiu da casa cobrindo os olhos de Ava, para não estragar a surpresa do bolo, as pessoas aguardaram o ator se posicionar, os fotógrafos contratados prontos para tirarem uma foto do momento da revelação. tirou seu celular do bolso e colocou na câmera, aproximando com o zoom para tirar foto do momento.
- Um... Dois... Três... – Contou Jeremy, tirando a mão dos olhos de Ava quando chegou o três, a menina olhou ao redor e então para baixo, sua boca se abrindo e os olhos se arregalando quando viu o bolo. O ator se abaixou um pouco para que a filha visse todos os detalhes, ele mesmo se surpreendendo por ver a arte de mais perto, enquanto Ava ia apontando cada parte do bolo, ele buscou com o olhar, sorrindo para a mulher, que parecia enxugar uma lágrima que havia escapado de seus olhos. – Gostou?
- Sim! É lindo! – Ava disse, rindo de alegria. As velinhas já estavam posicionadas, alguém do buffet se aproximou e acendeu as mesmas, com todos começando a cantar juntos os parabéns.
Na hora de cortar o bolo, Ava começou a chorar, não querendo “machucar” o bolo e os bichinhos, fazendo todos rirem. Jeremy colocou a filha no chão e conversou com ela, dizendo que estava tudo bem, que ninguém ia se machucar. De onde estava, percebeu o desespero dos dois, principalmente de Jeremy que não sabia o que fazer com o desespero da filha, então resolveu se aproximar.
- Mas tá bonito, vai estragar. – A menina chorou, passando a mão no olho.
- Mas você não quer comer? Tem tudo o que você escolheu. – Jeremy tentava não rir da situação da filha. Para seu alívio, chegou para ajudá-lo.
- O que aconteceu? – Perguntou a mulher, ajoelhando-se na grama perto deles.
- Ela não quer cortar o bolo porque não quer estragar. – Explicou Jeremy, mordendo o lábio inferior para não rir. sorriu, passando a mão no rosto de Ava, que se aproximou da mulher.
- Tá bonito, vai machucar os bichinhos. – Explicou a menina, sequer considerando ser mal-educada naquele momento.
- E se eu prometer que os bichinhos não vão se machucar? – Perguntou a mulher. – Dá para tirar eles do bolo, e aí a gente guarda, o que acha?
- Você promete? – Perguntou Ava, parecendo muito séria.
- Sim, prometo. – garantiu. – Eu te mostro, vem. – A mulher chamou a menina para seu colo, erguendo-a quando Ava se aproximou. Ela caminhou até o bolo e tirou com cuidado um unicórnio que havia atrás, na parte que elas viam. – Viu? Ele está bem.
- Todos também? – Ava perguntou.
- Todos eles, a gente tira depois, pode ser? – Perguntou . – Agora a gente tira alguns, mas deixa os outros vivendo no bolo um pouco mais, tá bom?
- Mas o resto do bolo vai estragar também. – Reclamou a menina, lágrimas voltando a brotar em seus olhos. Jeremy puxou a filha para o próprio colo, tentando acalmá-la.
- A gente faz assim – começou a dizer , passando a mão no cabelo da menina – depois eu faço um bolo igual a esse, tudo bem?
- Igual?
- Igualzinho. – Garantiu .
- Mas você sabe? – Ava perguntou, inclinando a cabeça.
- Foi a que fez esse, amor. – Disse Jeremy, fazendo a menina olhar para o pai e depois para a babá, que sorria envergonhada, principalmente pelo ator ter falado um pouco alto e algumas pessoas terem ouvido.
- Você fez o bolo pra mim? – Perguntou a menina, olhando para a babá com os olhos arregalados.
- Claro que sim, é seu aniversário. – Disse , surpreendendo-se quando a menina se jogou dos braços do pai para os seus, desequilibrando-se um pouco.
- Obrigada! – Disse Ava, surpreendendo o pai e a babá quando estalou um beijo no rosto da mulher.
- De nada, querida. – Respondeu , sorrindo. – Agora podemos cortar o bolo?
- Pode. – Disse ela, recusando quando o pai tentou trazê-la de volta para seu colo, prendendo-se com força nos braços da babá.
- Acho que você finalmente foi aceita. – Sussurrou Jeremy quando passou ao lado da mulher para pegar o cortador do bolo para ajudar a filha.
- Não esquece de fazer um pedido. – Disse , após sorrir para o homem, voltando a prestar atenção em Ava.

Quando os últimos convidados foram embora, Jeremy suspirou aliviado fechando e trancando a porta atrás de si. Ava estava deitada no sofá, adormecida no colo de , que tinha os pés apoiados na mesinha de centro e acariciava o cabelo da criança. Passava A Pequena Sereia na televisão, filme que Ava havia pedido para colocar, mesmo com o pai insistindo que ela não passaria nem da primeira música – dito e feito. O pessoal do buffet havia partido meia hora antes, e Jeremy já havia decidido que só lidaria com a bagunça feita no jardim no dia seguinte. Ele entrou na sala e contornou o sofá, sentando-se aos pés da filha, observando com o braço apoiado no encosto e a cabeça nas mãos, os olhos quase se fechando.
- Você deveria ir dormir. – Disse o homem.
- Uhum. – Resmungou a mulher, os olhos presos na televisão, sem ver ou ouvir nada do que passava, sua mão no modo automático fazendo carinho na cabeça de Ava.
- ? – Chamou Jeremy, percebendo que a mulher não havia entendido, ela piscou e olhou para ele.
- O que foi? – Perguntou.
- Vai dormir. – Disse novamente, sorrindo com a cara de confusa da mulher.
- Tenho que levar a Ava para a cama. – Falou a mulher, olhando para a menina.
- Eu levo. – Jeremy a tranquilizou.
- Não, ela já está...
- , não me faça ter que te levar também, por favor. – O homem brincou, sorrindo ainda mais quando viu a mulher corando. – Eu voltei a ser o chefe, vá dormir e eu levo a Ava.
- Já que insiste. – A mulher disse. Com cuidado ela tirou a cabeça de Ava de sua perna e a deitou em uma almofada que havia ao seu lado, a menina nem se mexeu. levantou e se espreguiçou, sentindo seus ossos estalarem, Jeremy também se levantou, aproximando-se da mulher, chamando sua atenção.
- Obrigado por hoje. – Disse ele, a mão no ombro de . Ela sorriu, vendo a gratidão e algo mais que o sono não lhe deixou reconhecer nos olhos do homem. – Foi além do esperado, parabéns.
- Não foi nada, de verdade. – A mulher o tranquilizou. – Foi um prazer fazê-la tão feliz.
- Eu também sei que você não pagou com o meu cartão. – O homem observou, vendo a mulher morder o lábio inferior, provavelmente tinha esperanças de não ser descoberta. – Eu te pago depois. – Disse ele, soltando o ombro dela para pegar Ava.
- Não. – Protestou ela, segurando o braço do ator. – Por favor, não. Foi meu presente de aniversário para ela. – completou, sabendo que assim teria mais sucesso em convencê-lo. Jeremy a olhou, suspirando ao perceber que não adiantaria discutir. – Como eu disse, foi um prazer vê-la feliz, é toda a recompensa que eu preciso.
O ator aquiesceu, sorrindo para a mulher quando ela lhe deu boa noite e saiu da sala. Jeremy voltou a se sentar no sofá e olhou a filha profundamente adormecida, sorrindo ao se lembrar do momento em que ela viu o bolo, o brilho que surgiu em seus olhos, mas, mais que isso, a forma como ela havia reagido quando descobriu que fora a dona daquela obra toda. Ao dizer para a babá que parecia que ela finalmente havia sido aceita, ele não percebeu na hora, mas sentia agora, que até ele estava aliviado por aquela aprovação da filha.
- Boa garota. – Sussurrou ele, depositando um beijo na testa da filha antes de ergue-la e leva-la para seu quarto.

Capítulo 6


O aniversário de Ava pareceu ter sido um divisor de águas. Após a festa, a menina havia mudado completamente da água para o vinho em seu comportamento com , que se sentia mais leve, como se tivesse finalmente conseguido passar uma fase muito difícil no videogame. O bom humor de Ava resultava no bom humor pela casa inteira, só de não ouvir mais diariamente o choro forçado da menina cada vez que ela aprontava algo tentando incriminar , Jeremy agradecia ainda mais por aquela empresa ter cancelado o bolo e o mesmo ter caído nas mãos da babá. Após o aniversário da filha, ela e o ator viajaram para que ele pudesse começar sua participação no quarto filme dos Vingadores, e depois ele ainda iria para Cannes para promover uma nova série que ele estava produzindo, dando a alguns dias de folga, que ela fez questão de agradecer após a maratona da festa de aniversário e com os professores a enchendo de trabalhos para serem entregues antes da páscoa. Assim, ela não conseguiu aproveitar totalmente a ausência dos Renner na casa, mas só de não ter que se dividir entre cuidar da Ava, estudar e ainda vez ou outra ajudar Jeremy com seu trabalho, ela agradeceu.
Pai e filha voltaram para casa na semana da páscoa, pegando desprevenida por ter se esquecido da data de volta dos dois, e encontrando-a sentada no chão da sala, encostada no sofá, com Digby de um lado, um pote de pipoca do outro, e o final de O Legado Bourne, que Jeremy havia protagonizado.
- Certo, isso foi jogo baixo. – Comentou durante a cena final, em que Jeremy aparece num barco, sem camisa, sorrindo para a mulher que fez par com ele. A risadinha de Ava foi o que a fez perceber que não estava mais sozinha.
A mulher respirou fundo e jogou a cabeça para trás, de olhos fechados, tirando um momento para se odiar novamente. Tinham sido semanas tão ótimas, ela fizera uma longa e despretensiosa maratona com todos os filmes e demais trabalhos que Jeremy havia feito, justificando, claro, que era apenas porque ela achava que era certo saber os trabalhos que seu chefe já havia feito, mas sabendo que aquilo era pura desculpa esfarrapada e seus interesses eram outros. Ela abriu os olhos só quando sentiu Ava andando pelo sofá, se aproximando dela e se sentando ao seu lado, Jeremy lhe dava as costas para provavelmente pegar as outras malas, mas conseguiu ver o sorrisinho que ele dava. Era claro que ele estava sorrindo.
- Então, como foi a viagem? – Perguntou ela para Ava, se sentando direito para poder olhar a menina, que sorriu, mas bufou logo em seguida.
- Você tem que falar com o papai. – Disse a menina, adotando uma expressão muito séria, preocupando , que desviou a atenção brevemente para Jeremy.
- O que aconteceu? – Perguntou, revezando o olhar entre o ator e a menina.
- Mostra pra ela. – Pediu Ava, voltando-se para o pai. Ela aproveitou que ele estava perto do sofá, para ficar em pé no mesmo e tirar o boné que o pai usava. – Olha o que ele fez.
De onde estava, teve dificuldades para entender sobre o que a menina falava, então se levantou para poder olhar melhor, não conseguindo conter a surpresa quando viu. Jeremy havia decidido aproveitar a viagem para cortar o cabelo em um look completamente... Diferente. não conseguia achar nenhuma palavra boa o suficiente para definir o que era aquele corte. Talvez erro fosse uma boa palavra. Como se estivesse envergonhado, Jeremy passou a mão no cabelo – ou no que havia sobrado dele – e sorriu sem graça. Ava havia jogado o boné longe para que o pai não conseguisse esconder o que havia feito. Quando ele se virou brevemente para fazer algo que não soube o que era, ela viu que ainda ficava pior e ofegou, levando as mãos à boca para abafar o gritinho, chamando a atenção de Jeremy.
- Ah, qual é, não está tão ruim assim. – Disse o ator, novamente passando a mão no cabelo.
- Sem ofensas, mas você parece uma calopsita. – Disse , fazendo Ava rir, para logo depois perguntar o que era calopsita. – Um pássaro com o cabelo igual ao do seu pai.
- Acho que você está exagerando. – Disse Jeremy, seu rosto esquentando um pouco.
- Não, você quem exagerou, ou seu cabeleireiro. – Retrucou , prensando um lábio no outro para conter o sorriso. – Espero que tenha feito isso depois de filmar sua parte. Não acho que Calopsita Arqueira seja um bom nome para um herói. – Jeremy até mesmo desistiu de se fingir ofendido com o ataque ao seu cabelo, algumas lágrimas escorrendo por seu rosto de tanto que ele riu. – Continue com o boné por mais uns dias, por favor.
- Depois dessa, eu vou até dormir de boné. – Pontuou o ator, pegando o objeto no chão onde sua filha havia jogado e o colocando na cabeça.
- Muito melhor. – Disse , subindo rapidamente no sofá para conseguir alcançar o ator e ajustar melhor o boné, logo depois se afastando ao perceber o que fazia. – Então, Ava, vamos desfazer sua mala? – Disse ela, passando a mão no cabelo e procurando a pequena mala da menina, que havia perdido o interesse na conversa entre a babá e o pai e brincava com Digby. – Mais tarde, talvez, podemos sair para dar uma volta, tomar um sorvete, o que acha?
- Sim! – Disse a menina, depois olhando para o pai. – Podemos, papai?
- Você e a vão, eu vou aproveitar e dormir um pouco.
E assim foi. e Ava desfizeram a mala da menor, enquanto ela contava sobre a visita que fizera ao set e como se divertira, e depois acompanhando o pai em Cannes. ouvia tudo, sua mente ainda um pouco dispersa depois da conversa que tivera com o ator. Algo não parecia se encaixar naquilo, talvez fosse apenas uma peça da sua mente que fazia com que ela visse aquela conversa como se eles fossem algo mais que simples chefe e empregada. Talvez não tivesse sido uma boa ideia passar aqueles dias todos assistindo aos filmes que tinham o ator. Ela deveria ter aproveitado para deixar no passado tudo o que havia acontecido antes do aniversário da Ava e seguir em frente, mantendo sua ética e, mais importante, sua mente tranquila e leve.
Quando elas saíram, Jeremy saia da cozinha e seguia para o escritório, dizendo que havia surgido algo de última hora em relação às suas músicas. Ava não pareceu muito feliz por não ter o pai as acompanhando, mas logo mudou quando sugeriu que elas fossem ao mercado perto de casa para comprar uns ingredientes para fazerem um bolo. As duas saíram e aproveitaram o clima ameno e o céu claro, apesar de possuir algumas nuvens. Ava corria na frente de , que vez ou outra apressava o passo para acompanhar a menina. No mercado, fizeram a festa e compraram mais do que deveriam, mas sabia que não usariam tudo de uma vez. Saíram do local com duas sacolas grandes e cheias, e uma pequena que Ava carregava.
Na volta a menina pareceu se comportar mais, talvez pela dificuldade em carregar a sacola, apesar de saber que não estava pesada. Talvez fosse apenas o cansaço, constatou a mulher ao checar rapidamente o relógio e confirmar que Ava deveria estar cansada da longa viagem, e já passava da hora dela tirar o cochilo da tarde dela. Felizmente, o caminho de volta para casa foi mais rápido, já que Ava não quis parar em cada canteiro de flores para ver se havia alguma para colher, ou uma borboleta – ou fada, ela chegara a dizer para uma vez. Ao chegarem no portão de casa, apoiou uma das sacolas no chão e procurou a chave com a outra, foi só quando conseguiu abrir o portão que ela percebeu que Ava tinha outros planos. Com agilidade, a menina puxou a aba da sacola que ainda carregava e riu quando boa parte do conteúdo foi para o chão. A mulher suspirou, tendo acabado de colocar a outra sacola para dentro, e olhou para Ava, que sorria como se pedisse desculpas.
- Ava... – Disse , se abaixando para pegar os itens que haviam caído, tarde demais, novamente, percebendo que não havia acabado ali. A menina correu para dentro de casa, fechando o portão atrás de si, tendo se certificado antes de que havia retirado a chave para que não conseguisse entrar. – Não, Ava! – A mulher gritou, frustrada consigo mesma por não ter previsto aquilo. Era o episódio do closet todo de novo, a diferença era que dessa vez ela estava com o celular dela, porém não queria ligar para Jeremy e atrapalhá-lo, lembrando-se de como ele parecia preocupado antes de saírem.
olhou ao redor, notando qualquer característica que fosse ajudá-la a entrar em casa. Havia tentado chamar Ava e pedir para que ela abrisse, mas a menina só conseguia rir, o que não era muita surpresa para . Com certo alívio, ela percebeu que conseguiria, talvez, escalar o muro da casa e pular para o outro lado, esperando que a grama ajudasse a amortecer sua queda. Havia chovido alguns dias, o que poderia ter deixado a terra mais fofa. Convencida de que aquele seria um bom plano, terminou de juntar as coisas na sacola, deixando-a próxima ao portão para pegá-la assim que conseguisse pular o muro. Antes de começar, ela olhou ao redor para se certificar de que não havia ninguém para estranhar seu comportamento e chamar a polícia.
Demorou, mas ela conseguiu chegar ao topo do muro, agradecendo por ele não ser muito alto, mas xingando por não ser tão prático quanto ela achou que fosse. Havia escorregado umas três vezes durante a escalada. Ao sentar-se no alto, ela olhou para baixo e suspirou, não era uma queda muito alta, mas também não era muito encorajadora. Viu Ava tentando espiar pela fresta do portão e a chamou, fazendo a menina virar a cabeça e abrir a boca em surpresa pelo plano que a babá havia bolado. Ava se afastou do portão e andou para trás para que conseguisse ver o pulo da babá. Mas foi como havia se lembrado: havia chovido alguns dias, e a grama ainda estava molhada, e ela escorregou fazendo um movimento que não era nada confortável ou saudável para seu pé. Antes mesmo de chegar ao chão com o resto do corpo, já havia soltado o gemido de dor, alarmando Ava, que saiu correndo para chamar o pai.
- Ava, não precisa... – Disse , mas já era tarde, a menina já havia entrado na casa. E mais tarde, talvez, ela agradeceria a menor por ter feito aquilo, porque quando tentou se levantar, sentiu a pontada de dor em seu tornozelo e respirou fundo para segurar mais um gemido, não querendo alarmar Jeremy que chegava correndo, com Ava no colo. A menina chorava encolhida no colo do pai, o que fez o coração de apertar.
- O que aconteceu? – Perguntou Jeremy, colocando Ava no chão e se aproximando de .
- Eu escorreguei e caí, nada demais. – Disse a mulher, não querendo assustar Ava, ou entregar ao ator o que a filha havia feito. – Ava, querida, não aconteceu nada, eu estou bem. – Disse ela para a menor, que escondeu o rosto nas mãos. suspirou e olhou para o Jeremy. – Só me ajude a levantar, acho que torci o meu pé. Depois eu conto o que aconteceu.
- Foi ela? – Perguntou ao ator, pegando a mão da mulher e a ajudando a se levantar. tentou apoiar o pé no chão, tentando dar um passo para frente, e ofegou com a outra pontada. Jeremy passou o braço por sua cintura, fazendo-a passar o dela por seu ombro.
- Não foi nada demais. – Repetiu , pulando em um pé só e tendo Jeremy como muleta. Quando saíram do gramado, a mulher parou, lembrando-se da sacola de compras do lado de fora do portão.
- O que... – Começou a perguntar Jeremy, mas foi impedido pela mulher que pediu para que ele só pegasse a sacola e colocasse para dentro.
Jeremy ajudou a entrar em casa, pelo ator, ele teria carregado a mulher até o sofá, mas ela se recusou. Já era tentação o suficiente sentir o aperto firme dele em sua cintura, aperto que se intensificava cada vez que ela parecia vacilar num passo. Ele queria leva-la ao médico, mas ela se recusou, alegando que gelo, enrolar uma faixa ao redor e manter o pé para cima por uns dias daria conta. Jeremy quis discutir, mas estava determinada e ele não quis prolongar, principalmente porque Ava ainda chorava assustada com o que tinha acontecido. Enquanto o ator voltava ao jardim para pegar as sacolas de compra, pediu para a menina se aproximar do sofá, passando a mão em seu rosto e enxugando algumas lágrimas.
- Desculpa. – Pediu a menina, novas lágrimas molhando o rosto recém-secado.
- Ei, não precisa pedir desculpa. – Disse , o tom calmo e suave, tentando tranquilizar a menina. – Foi um acidente, e eles acontecem.
- Mas eu não queria machucar você. – Disse Ava, fazendo um bico. – Não fiz por mal.
- Eu sei que não, querida. – Garantiu , acariciando o cabelo dela.
- Papai vai brigar comigo.
- Não vai, eu prometo. – Disse .
- Eu queria que ele te ajudasse. – Confessou Ava, abaixando o rosto como se estivesse envergonhada.
- E ele veio, não foi? – Apontou , levantando o rosto da menina e dando uma piscadinha para ela. – Deu certo. – Elas ouviram alguém tossir e ambas pularam de susto, só então notando a presença de Jeremy na sala, se perguntou quanto daquilo ele havia escutado. O ator se aproximou do sofá onde a babá estava instalada e se abaixou para ficar na altura da filha.
- Por que você não vai dormir, querida? Deve estar cansada. – Disse o ator, passando a mão no cabelo dela.
- Mas e a ? – Perguntou Ava, olhando do pai para a babá.
- Eu cuido dela enquanto você dorme. – Disse Jeremy, sorrindo para a filha. – Vamos, eu te levo. – Ele a estendeu os braços para pegá-la no colo, mas Ava surpreendeu ao pai e a quando se afastou e abraçou a mulher, novamente sussurrando um pedido de desculpas, depois ela ignorou o colo do pai e foi para o quarto. deu de ombros quando Jeremy a olhou incerto sobre o comportamento da filha. – Eu já volto.
O ator tentou, mas Ava não queria falar sobre o ocorrido, a promessa de ainda viva em sua mente fazendo a menina concluir que a babá gostaria de contar sua versão do ocorrido e poupar a menor do castigo do pai. Não era o certo a fazer, Ava deveria assumir seus erros, mas a menina já se sentia mal o suficiente, não precisava piorar. Rapidamente ela dormiu, recusando até mesmo que o pai lhe contasse uma história, mas não negou que ele cantasse para ela. Após ter certeza que ela adormecia profundamente e conferir que estava bem coberta, Jeremy saiu do quarto e foi até o escritório para pegar o kit de primeiros-socorros. Não gostava nada de não levar ao médico, mas não queria discutir com a mulher ainda. Quando voltou para a sala, ela já havia ligado a televisão e acomodado seu pé em uma pilha de almofadas, suspirando quando o ator o tirou do conforto para colocá-lo em seu próprio colo.
- Dói? – Perguntou Jeremy, percebendo o suspiro dela.
- Mais incomoda do que dói. – Observou ela. – Acho que só quando eu ando.
- Ainda acho que deveria ir ao médico. – Comentou Jeremy, abrindo a bolsa dos primeiros-socorros e tirando uma faixa e uma pomada.
- Se não melhorar com seus incríveis cuidados, eu vou. – Brincou , fazendo o homem sorrir. Ele colocou um pouco da pomada no pé dela e então começou a espalhar com movimentos delicados, se surpreendeu com a leveza do toque do ator.
- Vai me contar de verdade o que aconteceu?
- Preciso mesmo?
- Foi a Ava, não foi? – Perguntou ele.
- Em parte, sim. – Confessou , sabendo que não adiantaria mentir. – Mas eu que tive a brilhante ideia de pular o muro ao invés de te ligar e pedir para abrir o portão. Eu não pensei que a grama ainda poderia estar escorregadia. Fora isso, teria sido um belo pulo.
- Não acredito que está fazendo piada. – Disse Jeremy, rindo. Ele parou de espalhar a pomada, percebendo que havia se demorado demais no ato, e então começou a preparar a faixa para enrolar no tornozelo dela.
- Chorar que não vou, não aconteceu nada grave. – Observou ela, observando o homem começar enfaixar a região machucada. – Está feio, não está?
- Está ficando, mas não acho que ficará tão ruim assim. – Disse ele, apertando a faixa ao redor do tornozelo, fazendo-a puxar o pé levemente.
- Ei! É para melhorar, não deixar pior. – fez uma careta. Ele se limitou a olhar para ela antes de voltar ao que fazia antes.
- Não estaria doendo se você não estivesse pulando muros alheios para sair com o namorado. – Brincou ele, sorrindo de lado sem que ela visse. Sua atenção redobrando, esperando a resposta da mulher, que suspirou. Ele sabia que ela havia revirado os olhos, mas parecia sorrir quando o respondeu.
- Só se o namorado for você, porque eu estava entrando na sua casa quando escorreguei e cai. – Retrucou ela, soltando um palavrão quando ele apertou a faixa ainda mais. – E não tem nenhum outro cara na minha vida além de você, considerando que meu pai, meu irmão e meu professor orientador de quase oitenta anos não contam.
- E eu conto? – Jeremy levantou o olhar para ela, um sorriso de lado brincando em seus lábios. abriu a boca e a fechou, o rosto ficando levemente corado. Será que a dor podia afetar seu cérebro causando algum tipo de dano como a inabilidade de pensar antes de falar? Como se ela já não tivesse aquilo antes.
- Apenas termine de enrolar essa faixa idiota. – Disse ela por fim, abaixando o rosto, sentindo-o esquentar ainda mais. Jeremy abafou a risada, mas sentiu a mão do ator tremendo enquanto ele tentava controlar o riso. Ela revirou os olhos diante sua incapacidade de agir como um ser humano normal e adulto. Não demorou muito para que ele terminasse de enrolar, apertando bem, mas garantindo que não ficasse desconfortável.
- Quer alguma coisa? – Perguntou Jeremy enquanto colocava um pedaço de esparadrapo para prender a ponta da faixa.
- Tem remédio para dor? – Perguntou , escorregando no sofá para se deitar quando Jeremy colocou seu pé de volta na pilha de almofadas.
- Verei o que posso fazer por você. – Disse ele, saindo da sala e indo até o armário onde havia remédios, sabendo que havia um para dor ali. Pegou a caixinha e um copo de água e levou para a mulher, que olhava muito atentamente para um filme que passava na televisão.
- Parece que inverteremos os papéis por um tempo e você que terá que cuidar de mim. – Comentou ela, enquanto tomava o remédio.
- Pelo menos eu já sei que você gosta de mim e não vai fazer da minha vida um inferno como a Ava fez com você. – Respondeu Jeremy, colocando o copo que ela havia usado na mesinha de centro.
- Quem disse que eu gosto de você? – Perguntou ela, sorrindo debochada.
- Você mesma no dia da festa da Ava, naquela cozinha, enquanto fazíamos o bolo dela. – Lembrou Jeremy, se divertindo enquanto via a mulher tentando se lembrar da cena.
- Ah... – Lembrou ela, logo depois fazendo um bico. – Droga.
O ator sentou-se melhor no sofá, tomando a liberdade de tirar o pé de das almofadas e colocar em seu colo, apesar de manter uma almofada embaixo do tornozelo dela para manter o apoio mais confortável. A mulher não reclamou, se arrumando melhor no sofá para poder assistir à televisão mais confortavelmente. Jeremy sorriu.
- Então, em qual filme da maratona você parou?
- Que maratona? – Perguntou ela, virando a cabeça para olhá-lo.
- Você realmente achou que eu não ia notar a prateleira fora de ordem?
- Droga. – Reclamou a mulher, virando o rosto para tentar esconder o rubor que surgiu. – Legado foi o último, não lembro qual viria depois.
- João e Maria. – Disse Jeremy, fazendo ela voltar a olhar para ele.
- Você fez um filme sobre João e Maria? – Perguntou ela, franzindo o cenho.
- Sim, mas nessa versão eles são caçadores de bruxa. – Explicou Jeremy, fazendo-a arregalar os olhos e abrir um sorriso.
- Não acredito que vocês chegaram antes de eu ver esse! – Exclamou ela.
- E por que não assiste agora? – Perguntou Jeremy.
- Porque é estranho, ué! Não vou assistir um filme com você e com você do meu lado. – Disse ela, achando um pouco de dificuldade para explicar o que queria dizer. – Sinto que você vai julgar cada reação minha, cada comentário.
- Serão iguais ao que você fez no final de Legado? – Ele sorriu de lado, fazendo ela suspirar.
- De novo, você poderia ao menos fingir! O que custa? – Ela suspirou frustrada. Ficou um tempo em silêncio, encarando a televisão, depois voltou-se para ele. – Eu adoraria assistir ao filme, mas meu pé está confortável e eu acho que aquele remédio está me dando sono, eu não aguentaria meia hora do filme. Vamos deixar para outro dia.
- Seu está confortável? – Perguntou ele, se divertindo com a reação dela.
- Você não facilita mesmo. – Resmungou ela, virando o rosto de volta para a televisão e tentando ignorar a risadinha que ele dava. Ela também não ajudava muito ele.

O episódio do pé de ficou no passado rapidamente, a única lembrança era a faixa que ela ainda usava e as vezes que ela ficava no sofá da sala com ele para cima, vez ou outra recorrendo a algum remédio. Quando o último acontecia, ela e Jeremy entravam numa longa discussão sobre a necessidade da mulher ir ao médico conferir se não havia nada muito sério. Ava se divertia acompanhando as discussões dos dois, principalmente sabendo que sempre acabava vencendo e o pai ficava de cara fechada por um tempo.
Determinada manhã, entretanto, enquanto se mexia na cama para mudar de posição, acabou se empolgando um pouco demais e não percebeu como o pé estava próximo da parede, chutando-a com força. Ela, que estava semi-acordada, naquela preguiça usual de toda manhã, acordou imediatamente, vendo estrelas quando fechou os olhos. A mulher respirou fundo, abafando alguns xingamentos no travesseiro enquanto segurava a perna, esperando a dor aliviar para que pudesse se levantar e tomar remédio.
Não eram nem sete da manhã no sábado, por isso estranhou quando ouviu um som estranho vindo da sala, aproximando-se com mais lentidão ainda para descobrir o que era. Se fizesse uma aposta com alguém sobre o que poderia ser, ela teria perdido feio, porque nunca que imaginaria que seria aquela cena que presenciaria: Jeremy havia afastado a mesinha de centro, estava só com uma calça de moletom e descalço, e praticava alguns movimentos de luta. Ele deveria estar ali há um bom tempo, porque conseguiu ver o brilho do suor em sua pele, sua mente imediatamente a traindo e fazendo-a se perder imaginando mil cenários que envolviam o ator sem camisa, suado e flexionando os braços e demais músculos do peitoral. Quando percebeu o caminho que seguia, piscou e tentou se afastar rapidamente, a imaginação fértil apagando de sua mente o pé machucado e dolorido, e fazendo-a pisar normalmente, apenas para sentir uma nova pontada, o gemido de dor não conseguiu ser abafado como antes, chamando a atenção de Jeremy, que parou imediatamente o que fazia e olhou na direção da mulher, encontrando-a levemente inclinada segurando o pé.
- Merda. – Sussurrou quando percebeu que ele havia parado.
- , está tudo bem? – Será que ele estranharia muito se ela pedisse para cavar um buraco no chão?
- Eu só chutei a parede sem querer e vim pegar um remédio.
- Você chutou a parede? – Perguntou Jeremy, o riso claro em sua voz. – Com o que estava sonhando? – Ela resmungou algo, ainda apoiada na parede. – E o que estava fazendo ai?
- Eu... hm... Me distraí. – Murmurou ela, sabendo que ele ainda conseguiria ouvir. – Pode parar de rir de mim e me ajudar?
- Para onde você quer ir? – Perguntou Jeremy, começando a se aproximar dela. levantou a cabeça para observá-lo, notando que ele ainda estava sem camisa, ele realmente estava determinado a tortura-la.
- Depende, se você pegar o remédio para mim na cozinha, eu aceito ir só até o sofá. – Disse ela, voltando a abaixar a cabeça para conseguir se concentrar no que era importante. – Mas eu também estou com fome, – Percebeu ela – então acho que você terá que me acompanhar até a cozinha de qualquer jeito.
- Eu deveria descontar isso do seu salário. – Brincou Jeremy, se colocando ao lado da mulher e estendendo a mão para ela segurá-la. O ator sabia que aquela situação não era muito correta, mas percebeu que era muito divertido vê-la envergonhada em situações como aquelas.
- Não esqueça que foi sua filha que me colocou nessa situação. – Disse ela, sem ter certeza de qual seria a situação exatamente, mas de todo modo ainda parecia certo colocar parte da culpa em Ava. Não fosse a menor, ela de fato não estaria ali naquela casa. respirou fundo, segurando a mão de Jeremy e prendendo a respiração quando o sentiu abraça-la pela cintura, apoiando-a até a cozinha.
- Tenho que me lembrar de agradecê-la. – Comentou Jeremy, fazendo a mulher parar e encará-lo. O sorriso divertido que ele carregava no rosto a impediu de pelo menos fingir que estava incrédula com a ousadia dele, então ela se limitou a revirar os olhos.
- Limites, Renner. – Disse ela, retomando a caminhada até a cozinha.
Jeremy a ajudou chegar até a cozinha, com o dispensando quando chegou ao banco ao redor da ilha, sentando-se e o observando enquanto ele pegava o remédio para ela. sabia que ele queria retomar a discussão do médico, e talvez ela devesse deixar de ser tão teimosa e aceitar, mas já sentia que estava abusando demais do ator, não queria acrescentar mais coisas a sua lista.
- Então, vai me contar o sonho que te levou a chutar a parede?
- Eu estava matando o Gavião. – Retrucou ela, pegando o copo de água para tomar o remédio que ele havia entregado. Jeremy riu com a resposta dela. – Acho que eu consegui, mas acordei antes.
- Não é tão fácil assim se livrar do Gavião, . – Comentou Jeremy, debruçando-se na ilha e sorrindo para ela.
- Ele nunca lutou comigo. – Respondeu ela, fazendo uma careta quando mexeu o pé para tentar ficar mais confortável e ele doeu. Jeremy suspirou, abandonando a brincadeira.
- Nós vamos ao médico hoje. – Disse ele, determinado. abriu a boca para tentar retrucar, mas ele fez a cara que geralmente usava quando estava dando bronca em Ava, e fez com que a mulher desistisse. – Já tem quase duas semanas, , você nem conseguiu ir para a faculdade.
- Uma semana, Jeremy, não exagera. – Disse ela, revirando os olhos com o drama dele. – Mas não vou discutir. – Cedeu ela, principalmente porque na posição que ele estava, os músculos pareciam mais ressaltados e ela não conseguia pensar em argumentos novos para ir contra, não quando sua mente voltava a brincar com sua sanidade.
Um pouco depois do almoço, Jeremy anunciou que iria se arrumar para que eles fossem ao médico. suspirou derrotada, acompanhando Ava até o quarto da menor para tirar o pijama e colocar uma roupa mais apropriada para sair. Ava ficou em silêncio, preferindo acompanhar os resmungos da babá enquanto ela a ajudava a se vestir.
- Absurdo. – Dizia , enquanto escolhia entre duas camisetas que Ava havia tirado da gaveta. – Que chances tinha eu contra aquilo? Deveria ser considerado crime. – A menor mordia o interior da bochecha, controlando risada para não chamar a atenção da babá. – Não é possível alguém ser tão gostoso daquele jeito, e mais impossível ainda encontrar argumentos quando está cara a cara com... Seu chefe, , se controla.
- Estão prontas? – Jeremy apareceu segundos depois dela ter parado de falar. Ava terminava de vestir o casaco que havia entregado a ela.
- Sim. – Disse a menor, saindo do caminho para que pudesse passar por eles.
- Quer ajuda? – Perguntou Jeremy, quando a babá se apoiou na parede.
- Não, está tudo bem. – Respondeu .
Felizmente o hospital onde eles foram não estava muito cheio e não demorou a ser atendida, com Jeremy fazendo questão de entrar no consultório com a mulher para receber o diagnóstico completo direto do médico, e não editado por ela. Mas, no final, nem precisou, tudo o que vinha dizendo na última semana foi o que o médico disse, a única diferença foi a prescrição para outro remédio, que parecia ser mais efetivo para as dores. O ator tentou ser indiferente a expressão de vitória da babá, e fez um bom trabalho, até entrarem no carro e ela soltar o típico “eu avisei”.
- Você estava esperando desde do consultório para dizer isso, não estava? – Perguntou Jeremy.
- Você acha que é o único que pode se divertir às minhas custas? – Brincou a mulher. – Acho que mereço um sorvete, ou um bolo...
- Sim! – Comemorou Ava no banco de trás. - Podemos comprar bolo, papai? – Jeremy olhou para e depois para a filha pelo retrovisor.
- Ou podemos fazer um. – Sugeriu Jeremy, lembrando-se dos inúmeros ingredientes que havia comprado no dia que machucara o pé e como acabaram não fazendo nada devido ao acidente.
- Você sabe fazer bolo? – Perguntou a mulher, olhando para ele sem conseguir acreditar.
- Não parece ser muito difícil, não é? Você estará me supervisionando.
- Eu vou ser a chefe de novo? – Perguntou ela, abrindo um sorriso de lado e arqueando a sobrancelha.
- Pesando bem...
- Não, nada disso! Quero você fazendo bolo. – Disse .
- Eu faço, mas outro dia. – Respondeu Jeremy.
- Você está com medo de estragar tudo e eu não poder me mexer para ajudar, não está?
- Talvez... – Considerou ele, evitando olhá-la, concentrando-se nas ruas.
- Como você conseguiu não matar a Ava nesses quatro anos? – Perguntou retoricamente, encostando a cabeça no apoio do assento e sorrindo imaginando os diversos cenários do ator tentando cozinhar.

Como se os últimos dias não tivessem sido muito agitados, na segunda de manhã Jeremy anunciou que no dia seguinte teriam um jantar na casa com alguns amigos do elenco de Vingadores, além dos Pratt. respirara aliviada por ser dia de ter aula na faculdade, mas logo se viu entrando em pânico quando se lembrou que o médico havia pedido para ela não forçar o pé por mais alguns dias e havia lhe dado um atestado. Seus professores inclusive haviam respondido aos seus e-mails dizendo que ela deveria voltar quando estivesse completamente curada, e que ela teria um tempo extra para entregar qualquer trabalho que fosse pedido. Jeremy não escondeu a alegria quando a mulher se lembrou daquele fato.
Na terça à noite, estava nervosa, para dizer o mínimo. Apesar de Jeremy tê-la tranquilizado dizendo que era um jantar casual e que ninguém viria super produzido, ela não conseguia achar uma peça de roupa decente para vestir, e já havia revirado seu guarda-roupa inteiro. Ela parou em frente ao móvel, usando apenas as roupas íntimas, o cabelo preso em um coque, a única parte de seu visual com o qual ela havia ficado satisfeita, e suspirou. Ao longe, ela ouviu a campainha tocando e Ava chamando por ela, lembrando-se naquele momento que havia ficado de fazer algo no cabelo da menina. Com rapidez, ela puxou um vestido que havia comprado recentemente e ainda não havia usado e o vestiu, combinando-o com uma sandália rasteirinha antes, apesar de nada realmente combinar com a faixa que ela ainda usava ao redor do tornozelo. Ela foi até o quarto de Ava, encontrando-a em frente ao espelho, arrumando o lacinho da blusinha que usava.
- Desculpe ter demorado. – Disse , chamando a atenção de Ava, que arregalou os olhos, admirada.
- Você tá muito bonita. – Disse a menina, sorrindo para a babá, que sorriu envergonhada.
- Obrigada. – se aproximou, abaixando-se e colocando as mãos no ombro da menor. – Agora vamos cuidar de você. O que quer fazer?
- Posso usar aquela tiara nova que o papai comprou pra mim? – Perguntou Ava.
- Claro. – Disse , indo até a caixinha onde ficavam guardadas as tiaras e tirando a desejada, logo depois colocando na cabeça da menina. – Gostou?
- Sim! – Exclamou Ava, olhando-se no espelho.
- Então vamos, acho que o Jack já chegou.
abriu a porta e esperou até Ava passar para fechá-la, as duas chegando juntas à sala para ver que, na verdade, eram apenas Chris Evans e Elizabeth Olsen. Ava soltou a mão de e correu para Elizabeth, pulando no colo da atriz. Jeremy fez as apresentações, apesar de desconfiar que nenhum dos dois recém-chegados pareciam convencidos de que ela era “só” a babá da Ava. Talvez a Marvel precisasse reavaliar aquele elenco, porque todos eram péssimos na atuação em situações rotineiras.
- Ava, olha o que a tia Lizzie deu para você. – Disse Jeremy, parecendo ter percebido a mesma coisa que e resolvendo mudar de assunto, revelando o que havia em suas mãos.
- Sou eu? – Perguntou Ava, olhando com atenção o lindo desenho emoldurado que Elizabeth havia dado para ela.
- Seu presente de aniversário. – Confirmou Lizzie. – Gostou?
- Sim!
- Como é que fala? – Perguntou Jeremy.
- Obrigada! – Disse a menina, dando um beijo no rosto da atriz. se aproximou de Jeremy para retirar o quadro de sua mão e leva-lo ao escritório.
- Depois você decide onde pendurar. – Disse a mulher, pedindo licença antes de sair.
Jeremy aproveitou a deixa para convidar Evans para a cozinha, a fim de pegar uma bebida para todos, enquanto Ava ocupava Elizabeth contando sobre a viagem que havia feito com o pai. Chris esperou até que os dois estivessem bem instalados na cozinha para, enfim, encarar o colega de elenco com um sorriso que diz esperar mais informações do que as que havia recebido.
- O que foi? – Perguntou Jeremy, percebendo o olhar de Chris.
- Você e a babá, desde quando estão juntos?
- Não começa, Evans. – Apontou Jeremy, oferecendo uma garrafa de cerveja ao ator, que logo a pegou. – Você adora me juntar com toda mulher que cruza meu caminho.
- Ah, meu amigo, nesse caso eu não estou juntando ninguém, só estou apontando os fatos. – Observou Chris. – Vocês não convencem ninguém com esse papo de que ela é a babá da Ava. Aliás, não foi ela que começou a trabalhar aqui no começo do ano? E como ela ainda está aqui? As babás da Ava não duram mais de dois meses.
- Ela durou. – Foi só o que Jeremy disse, sabendo que já estava com a pá na mão para cavar sua própria cova.
- E será que ela está aqui só pela Ava mesmo?
- Evans, por qual outro motivo ela estaria? – Debochou Jeremy, pegando mais umas garrafas de cerveja e saindo da cozinha antes que o buraco em que se enterrava começasse a ficar mais fundo.
Quando voltaram, parecia ter se enturmado com Elizabeth e as duas pareciam se divertir, Jeremy tremeu ao imaginar o que a babá poderia estar achando tão engraçado, principalmente após ouvir o próprio nome na história. Felizmente, novamente a campainha soou e ele teve como se ocupar, deixando Evans se aproximar das duas mulheres enquanto recebia os últimos convidados da noite: Chris Pratt, Anna Faris e o pequeno Jack, que aguentou os cinco segundos obrigatórios cumprimentando o anfitrião antes de correr para se juntar a Ava.
- Anna, você já conhece a . – Disse Jeremy, trazendo o casal para dentro de casa, sorrindo enquanto via a atriz cumprimentando como se fossem amigas de longa data. – E Chris, essa é a , babá da Ava.
- Ah, você é a famosa ? – Perguntou o ator, estendendo a mão para cumprimenta-la.
- Eu sou famosa? – sorriu envergonhada, olhando rapidamente para Jeremy tentando pensar nos motivos pelo qual seria famosa.
- Jack falou muito de você. – Explicou Pratt, fazendo a mulher suspirar aliviada. – Sem contar que você já ficaria famosa só por ter aguentado mais de dois meses com essa família. Não sei como você aguenta esse cara. – Ele apontou para Jeremy, que riu antes de dar um tapa na mão do colega.
- Eu tenho dó de deixar a Ava sozinha com ele, na verdade. – Brincou , fazendo todos rirem, menos Jeremy que fechou a cara.
Rapidamente conversava com todos como se fossem amigos há anos, se divertindo ao ouvir as histórias do set de Avengers, em certo momento comentando como era triste não terem conseguido reunir todos, ouvindo as explicações que já sabia por Jeremy ter falado mais cedo. Ela se ofereceu para ajudar o ator a arrumar a sala de jantar, mas ele recusou dizendo que deveria descansar o pé, o que rendeu diversas perguntas sobre o que havia acontecido, e ela inventando algo menos embaraçoso do que “estava pulando o muro porque a Ava me trancou para fora”.
Estavam todos sentados à mesa, após Jeremy terminar de arrumar tudo e chamar todos. Ava, sentada entre o pai e , era auxiliada pela babá, que cortava os pedaços do frango no prato da menina. Ao redor deles, todos conversavam, preferiu ficar silenciosa dessa vez, só observando, sentindo aquele clima. Sua atenção, entretanto, logo foi desviada após ouvir um suspiro resignado de Anna, sentada a sua frente, que encarava o marido e Jeremy.
- Então, você estava no Oscar esse ano, não foi? – Pratt perguntou a Jeremy em determinado momento, passando uma travessa de purê de batatas para Lizzie.
- Fui, você não?
- Não pude, cara. – Disse o ator. – Então, o que achou desse ano?
- Já foi melhor, não é? – Perguntou Jeremy, fazendo uma careta. – Quero dizer, nada muito surpreendente. O que você achou?
- Como você disse, nada surpreendente. – O ator deu de ombros. – Parece que hoje em dia elas só se importam com o vestido e o resto tanto faz.
- Não é? Não tem mais aquele cuidado. Essa moda do nude também não ajuda em nada. – Observou Jeremy. – E nem a moda que a Alicia começou em parar de usar maquiagem.
- Eu pensei a mesma coisa. Notei muitas ondas e muito batom escuro.
- Acho que não tinha nada mais além disso. – Comentou Jeremy.
- Espera, – interrompeu , chamando a atenção dos dois atores – vocês estão falando de cabelo e maquiagem?
- , não tente entender. – Disse Anna, pegando um guardanapo e dando a Jack. – Os dois se acham experts no assunto só porque um foi maquiador e o Chris sabe fazer tranças no cabelo.
- Você já foi maquiador? – olhou para Jeremy, sorrindo divertida.
- Alguém precisa fazer melhor a lição de casa, não? – Brincou o ator.
- O importante é que ela acabou com a discussão de vocês. – Apontou Elizabeth, sorrindo divertida da expressão ofendida dos dois atores. – Obrigada, . – Reforçou a brincadeira, piscando para a babá.
O jantar seguiu por mais um tempo, com os quatro integrantes da Marvel discutindo a agenda e os filmes que estavam por vir, enquanto Anna e discutiam amenidades. Quando haviam finalizado e estavam prestes a partir para a sobremesa, os convidados resolveram seguir a etiqueta e agradecer pelo encontro proporcionado.
- Maravilhoso como sempre, Jeremy. – Disse Anna, sorrindo após receber o agradecimento do ator.
- E essa comida? – Disse Evans, que havia comido mais que todos na mesa. – Uma delícia.
- Muito gostosa. – Concordou Elizabeth, o comentário chamando a atenção de Ava, que olhou ao redor.
- A acha o papai gostoso. – Soltou a menina, fazendo todos, com exceção de Jeremy que ia pegar o copo ainda, se engasgarem. até mesmo cuspiu um pouco da água em sua boca na mesa, desculpando-se com Anna. A menina não pareceu notar as reações, muito menos ficando mais vermelha que o molho em seu macarrão. A menina olhou para o pai e mudou de assunto abruptamente. – Posso mostrar para o Jack meu elefante novo? Queria brincar um pouco com ele.
- Ava, querida... – Jeremy começou, sem conseguir reagir com a mudança brusca da filha, ele ainda desviava o olhar da menina para ver como estava, no momento escondendo o rosto com o auxílio do guardanapo que ela usara para fingir que limpava os lábios. – Acho que o Jack ia adorar.
- Posso ir brincar, então?
- Se você já terminou de comer, sim. – Concordou o ator. – pode te levar, não é, ? – A babá levantou o rosto, evitando manter contato com as demais pessoas, incluindo Jeremy.
- Claro, vamos, Ava. Jack vem também, não? – Disse , levantando-se imediatamente e ajudando a menina a sair de sua cadeirinha. As duas se afastaram, com Ava segurando a mão da babá e olhando para ela finalmente notando o rosto avermelhado da mulher. Jack as seguia normalmente.
- Você está bem, ? – Perguntou a menina, passando a mão no cabelo, afastando alguns fios do rosto.
- Claro, querida. – Assegurou a babá, sabendo que não adiantaria tentar explicar à menor qual era o problema, ela ainda era muito pequena para entender.
O silêncio que ficou na mesa enquanto os três saiam da sala de jantar se estendeu ainda por um longo tempo, todos os convidados se olhando enquanto Jeremy mantinha a cabeça baixa, já imaginando o que rolava entre os demais. Foi só quando Evans começou a rir, tentando abafar a risada com o guardanapo, que o ator levantou a cabeça e viu que todos estavam tentando segurar o riso, contagiados pelo colega.
- Eu disse que tinha coisa ai. – Comentou o ator, enxugando as lágrimas que haviam escorrido. – Mas, Jeremy, um pequeno conselho, ela é legal, tente não estragar tudo com ela.
- Evans! – Ralhou Anna, apesar de sorrir. Aquele comentário foi o suficiente para todos começarem a comentar suas opiniões sobre a babá, mesmo que Jeremy não tivesse pedido, ou já soubesse de tudo o que eles diziam. Ele desejou que os convidados não estivessem falando alto demais a ponto de conseguir ouvi-los.
Já era tarde quando ouviu uma batida discreta na porta de seu quarto. A mulher suspirou, já imaginando quem poderia ser, e não se decepcionou. Ao abrir a porta, lá estava Jeremy ainda com a mesma roupa que usava durante o jantar, mas alguns botões da camisa social agora já estavam desabotoados, encostado na parede, os braços cruzados e os olhos fixos nela, preocupação dominava seu rosto.
- Oi. – Disse ele, quando ela o olhou e desviou o olhar logo em seguida.
- Olá. – Respondeu , abrindo espaço para o ator passar, mas ele negou.
- Só queria saber como você estava. – Perguntou o ator. – Depois do jantar você mal falou duas palavras.
- Está tudo bem. Eu só sinto muito pelo que Ava disse. – Comentou , notando que ao cruzar os braços, Jeremy havia feito com que a camisa abrisse mais um pouco, revelando mais pele do que ela gostaria de ver naquele momento, a mulher engoliu em seco.
- Era mentira? – Ele perguntou, sorrindo divertido, este aumentando quando notou o rosto da babá ruborizando e ela mexendo no cabelo, claramente envergonhada.
- É de família, não é? – Perguntou a babá, revirando os olhos quando viu o sorriso do ator aumentar ainda mais, com ele já entendendo o que ela queria dizer sem que ela precisasse explicar. – Quero ver como vocês ficarão quando eu me demitir.
- Você não... – A mulher riu ao ver a expressão assustada do ator, logo depois ele relaxando ao perceber que era brincadeira. – Você me assustou.
- Não consegue mais viver sem mim, Renner? – Insinuou a mulher, mordendo o lábio inferior, se divertindo ao ver o homem engolir em seco. – Dois podem jogar esse jogo. – Declarou ela, logo depois voltando ao normal. – Boa noite, Jeremy.
- Boa noite, . – Respondeu ele, sorrindo de lado para a mulher, esperando ela fechar a porta antes e soltar o ar. Considerando se precisaria de um banho frio após essa simples troca de palavras, que de simples, ele sabia, não tinha nada.

~*~


As semanas seguiram, com o pé de melhorando, e os momentos vergonhosos ficando no passado, apesar de vez ou outra ela e Jeremy ainda fazerem piadas que faria qualquer um duvidar que realmente não havia nada entre eles. O relacionamento da babá com Ava só parecia aumentar e ficar mais forte, com algumas vezes Ava tendo pesadelos e indo acordar a babá ao invés do pai. Certa manhã, entretanto, pai e filha acabaram descobrindo que não sabiam tanto assim de como achavam saber.
- O que é isso? – Ava perguntou segurando um cartão, chamando a atenção do pai e de , que desviou o olhar dos ovos mexidos que fazia para a menina. engoliu em seco, voltando a olhar para os ovos para fingir que estava ocupada.
- Isso é um cartão de aniversário. – Respondeu Jeremy, tirando o cartão das mãos da filha para ver melhor o cartão.
- É para mim? – A menor perguntou, ainda pensando na sua festa de aniversário algumas semanas atrás. Jeremy abriu, também curioso, lendo a mensagem que havia dentro do cartão.
- Não. – Respondeu o homem após terminar de ler o que havia dentro, seu olhar indo para a mulher no fogão.
- Então para quem é?
- ? – Jeremy chamou, fazendo a mulher soltar um palavrão bem baixinho que nem o homem, nem a filha ouviram.
- Sim? – Perguntou ela, virando a cabeça levemente para o lado.
- Tem algo que você queira nos contar? – O ator perguntou, mostrando o cartão para ela.
- O que é, papai? – Ava perguntou, puxando o braço do homem. Jeremy desviou a atenção de e olhou para a filha, provavelmente percebendo que a babá não falaria nada.
- É um cartão de aniversário para a , querida. – Explicou o homem.
- Você fez aniversário também? – Perguntou Ava, ficando em pé em seu banco, Jeremy se adiantando para segurá-la e impedir que ela caísse. apagou o fogo e colocou os ovos mexidos no prato, só então se virando para encarar pai e filha. O contraste entre o sorriso animado de Ava e a expressão de dúvida no rosto de Jeremy quase fez com que ela risse.
- É hoje. – Confessou , sabendo que não faria sentido mentir para os dois. Os Renner sabiam ser bem insistentes quando queriam.
- Por que não nos contou? – Perguntou Jeremy, enquanto Ava soltava um grito de alegria. – Ava, cuidado. – Alertou ele, quando a menina tentou começar a pular no banco. se limitou a dar de ombros, pegando o prato e o levando até a mesa para completar o cardápio do café da manhã. – . – Chamou o ator, virando-se para olhar a mulher. – Achei que você gostasse de aniversários. – Observou ele, lembrando-se de uma das conversas que eles tiveram durante a preparação do bolo de Ava.
- Eu gosto. – Respondeu a mulher, olhando o cartão que o ator ainda segurava. Havia chegado no dia anterior, enviado pelos pais. O de Ted provavelmente chegaria mais tarde naquele dia, ou na segunda. – Mas...
- Mas não queria comemorar o seu com a gente? – Cortou Jeremy, soando muito ofendido, sentiu o nó se formar em sua garganta, até mesmo Ava sentiu a mudança no clima, com cuidado se sentando no banco.
- Eu não disse isso. – disse, percebendo que Ava olhava da babá para o pai alternadamente, sem entender o que havia acontecido.
- Não, você não disse nada. – Jeremy respondeu, colocando o cartão no balcão atrás dele, não conseguia explicar para si mesmo o motivo de estar tão magoado pela omissão da babá.
- Jeremy – a babá começou, engolindo em seco – não é fácil para mim. É meu primeiro aniversário longe da minha família. Nos anos anteriores, enquanto eu ainda estava na graduação, eles conseguiram vir até mim ou eu ir até eles. Aniversários sempre foram datas que comemoramos juntos, o meu, do meu irmão, dos meus pais... Esse ano é a primeira vez que não vai acontecer. – Ela sentiu as lágrimas chegarem aos seus olhos, mas respirou fundo, não choraria por aquilo novamente. – Não contei porque não me sentia no espírito da comemoração. Não por não querer comemorar com vocês. – Jeremy se sentiu mal após ouvir a explicação da babá, havia esquecido completamente que ela não estaria com a família aquele mês devido aos inúmeros compromissos que havia, tanto por cuidar de Ava quanto pela faculdade. O ator olhou para a filha, que ainda olhava para a babá e para o pai esperando alguma explicação, e depois voltou a olhar para , que mordia o lábio inferior. – Eu estou sem fome, e tenho que sair, então tenham um bom café da manhã.
- , não... – O ator levantou-se e foi atrás da mulher, pedindo para Ava ficar onde estava até que ele voltasse. só parou quando já estava na porta do próprio quarto, por Jeremy ter segurado seu braço. – Desculpe, eu esqueci, quero dizer, não considerei esse fato de você estar longe da sua família.
- Está tudo bem. – A mulher disse, mesmo que fosse completa mentira e o ator soubesse disso.
- Não, não está. – Jeremy disse. – Fique com a gente hoje, me dá uma chance de me redimir, por favor. – Ele inclinou a cabeça e abriu um sorriso de lado. – Não somos sua família, mas sabemos comemorar um aniversário.
- Você vai fazer um bolo de três andares com sereias e unicórnios? – perguntou, não conseguindo resistir ao pedido do ator. De fato até facilitaria, já que ela não havia lugar algum para ir, só queria uma desculpa para ficar sozinha e conseguir deixar de lado a tristeza por não estar com sua família.
- Se você me der uns dias, eu posso tentar. – Ele brincou, feliz por vê-la voltando ao humor usual. – Vamos, é seu dia, nos diga o que quer fazer e nós fazemos.
- Eu realmente não quero fazer nada, Jeremy. – disse, sentindo o homem descer sua mão do braço dela para as mãos, segurando-a e começando a leva-la para a sala de jantar, onde o café da manhã os esperava.
- Você deve estar com fome, por isso não está conseguindo pensar em nada. – Disse o homem, sorrindo quando viu que Ava havia obedecido sua ordem e permanecia no banco, agora de costas para ele, olhando o cartão de aniversário de . – Vamos comer, Ava. – Disse o homem, soltando a mão de para pegar a filha. – E depois vamos comemorar o aniversário da .
- Eba! – Comemorou Ava, pulando no colo do pai, enquanto ele a levava até cadeira. permaneceu onde Jeremy havia soltado sua mão, as lágrimas voltando a seus olhos e ela não conseguiu controlar e duas escorreram, um sorriso surgindo em seus lábios enquanto Ava ia sugerindo coisas que eles podiam fazer e Jeremy concordando e ainda ajudando.
- , você não vem? – O homem perguntou, olhando a babá, notando as lágrimas em seu rosto. – Está tudo bem?
- Sim, está tudo ótimo. – Disse ela, sorrindo para o ator, aproximando-se da mesa e ocupando seu lugar habitual, percebendo que ele ainda a olhava.
ouviu as inúmeras sugestões de Ava sobre o que podiam fazer naquele dia, porém decepcionou a garota e seu pai quando, ao fim do café da manhã, revelou que gostaria de ficar em casa assistindo algum filme, brincando com a criança e talvez comprando algum bolo na padaria que havia perto da casa. Ava não pareceu de todo decepcionada, afinal uma de suas sugestões fora um piquenique no jardim da casa, o qual pareceu ter aceitado. Já Jeremy se sentiu incomodado quando ela sugeriu o bolo da padaria, sabendo que a mulher merecia mais que um bolo genérico.
Jeremy dispensou da tarefa de limpar a bagunça do café da manhã, dizendo que era seu aniversário e sua função naquele dia era somente se divertir. Assim, a babá e Ava seguiram para a sala de estar, começando a seleção de filmes que assistiriam naquele dia até a hora do piquenique, que ocorreria no final da tarde. No final, a seleção havia sido dos filmes favoritos de Ava, mas que secretamente gostava. Elas começaram com o primeiro, as duas se deitando no sofá da sala, cobrindo-se com uma manta, Ava abraçada a seu elefante de pelúcia. Quando questionado se iria assistir ao filme, Jeremy deu uma resposta vaga, garantindo que se juntaria a elas mais tarde. não teve tempo de questionar, com Ava chamando sua atenção para o filme que começava.

O primeiro filme já havia acabado e o segundo estava na metade, Ava já estava quase dormindo no sofá ao lado de , quando a mulher ouviu o barulho de algo caindo com estrondo na cozinha e um palavrão sendo soltado logo em seguida. Com cuidado, saiu do sofá e seguiu até o cômodo, parando na porta sem saber como reagir com a cena que presenciava. Jeremy estava parado na frente da ilha da cozinha, a superfície toda suja de farinha, açúcar, cascas de ovo, achocolatado e inúmeros confeitos, no chão duas formas de assar bolo estavam viradas para baixo, e Jeremy tinha massa de bolo por praticamente todo seu corpo. comprimiu os lábios, tentando controlar a risada.
- Sabe, quando eu sugeri um bolo de três camadas, eu não imaginei que você iria levar a sério e se transformar na base do bolo. – Comentou ela, aproximando-se com cautela, com medo de pisar em algo e escorregar. Ela ficou perto do ator, que era a pura encarnação do desalento, com as bochechas cheias de farinha e massa até mesmo no cabelo. passou o dedo para tirar um pouco do líquido do rosto dele e sorriu. – Isso com toda a certeza não deveria estar ai.
- , me ajuda. – O ator pediu, fazendo um bico. A babá mordeu o lábio inferior, a vontade de rir aumentando ainda mais.
- O que houve, Renner? – Perguntou ela, olhando ao redor.
- Eu queria fazer um bolo para você. – Disse ele.
- Você sabe que colocamos os ingredientes em uma tigela, depois na forma de assar e depois levamos elas para o forno, não é? Não para o chão. – Brincou a mulher, não conseguindo ficar séria com aquele cenário todo. Era isso ou abraçar um Jeremy todo melado de bolo e fazer coisas que não seriam condizentes com o status da relação empregada-chefe deles. A mulher reprimiu tais pensamentos, lembrando-se que tinha que se manter profissional na medida do possível.
- Eu não preciso que você faça com que eu me sinta pior. – Respondeu ele, suspirando derrotado.
- Eu sei, desculpe. – Disse ela, sorrindo de lado. – Mas eu disse que podia ser um bolo da padaria.
- Você não merece um bolo da padaria. – Respondeu Jeremy, só depois percebendo que havia falado rápido demais. arregalou os olhos, surpresa, abrindo um sorriso ainda maior depois. – Quero dizer, eu não...
- Eu entendi, Jeremy. – Tranquilizou a mulher, vendo o ator ficando levemente ruborizado. – Obrigada. – O ator a olhou, abrindo um sorriso.
- Você vai me ajudar, então? – Perguntou ele, apesar de não gostar da ideia de pedir ajuda da mulher para fazer o bolo que era para ela, ele não via outra opção.
- Eu te ajudo a limpar a cozinha, depois eu faço o bolo e você sai com Ava para comprar as coisas do piquenique, pode ser? – Perguntou a mulher.
- Não! Não é esse o certo. Você não deveria fazer nada no seu aniversário. – Jeremy protestou. – É o acordo dos aniversários dos Renner, no seu dia você não faz nada.
- O que você fez no seu aniversário? – Perguntou a mulher, fazendo o homem abrir a boca diversas vezes sem conseguir encontrar uma resposta.
- No seu próximo aniversário, eu farei um bolo incrível para você. – Garantiu o ator, suspirando resignado por ter que aceitar que a mulher teria que ajudá-lo. A mulher sorriu, gostando mais do que era aceitável com a sugestão de que ele gostaria de tê-la por perto por mais um ano. – Você vai com Ava comprar as coisas, eu já liguei para eles e fiz um pedido, então é só pagar e pegar as coisas, na verdade. Quando vocês voltarem, nós fazemos seu bolo.
- Tudo bem. – disse, sorrindo agradecida para o ator. – E a cozinha, fica como?
- Eu limpo, vai terminar de assistir ao filme com Ava, depois vocês vão buscar as coisas.
Jeremy esperou até que o portão da entrada de carros de fechasse para voltar para a casa. A cozinha estava completamente limpa, o que não havia sido tarefa fácil de fazer, já que ele havia exagerado mais do que o necessário enquanto tentava fazer o bolo de . Inicialmente, a ideia era enganar a mulher, fingindo que não conseguiria fazer o bolo, mas no final ele não precisou fingir já que fora um completo desastre. Como ele havia conseguido manter Ava viva durante todos seus dias era uma dúvida que havia levantado algumas semanas antes e que agora surgia em sua mente deixando de soar como brincadeira. Ele já havia feito bolos para a filha antes, não conseguia entender o que havia mudado agora.
Afinal, eles haviam invertido a ordem das coisas. Após terminar de limpar a cozinha, Jeremy chamou e Ava, e os três se divertiram fazendo o bolo da babá, fazendo mais sujeira, mas dessa vez de forma controlada. Fora um bolo simples, não exigira muito – por ela sequer haveria um bolo – e eles deixaram o mesmo na geladeira com o recheio firmando enquanto as duas iam até a padaria para pegar a encomenda do piquenique. Jeremy havia conseguido pelo menos acertar na cobertura do bolo, algo que havia mantido escondido de . Então ele resolveu aproveitar aquele momento em que estava sozinho para surpreendê-la de alguma forma. Retirou o bolo da geladeira e logo depois a cobertura que havia feito, recorreu à vídeos no youtube para conseguir fazer a decoração por cima da cobertura, conseguindo escrever um singelo “Feliz Aniversário, ” no topo, e pequenos desenhos que inicialmente eram para ser estrelas, mas no final ficaram apenas formas desformes, apesar de algumas parecerem pequenos corações e alguns pareciam estrelas mesmo. Ele recuperou alguns dos enfeites do bolo de Ava que eles haviam guardado a pedidos da criança e os espetou no bolo, dois unicórnios e uma sereia. A mulher havia sugerido um bolo de três andares com as duas criaturas, era o mínimo que ele podia fazer.
Ele ouviu quando elas chegaram no exato momento em que espetava a última vela no bolo, acendendo-as rapidamente enquanto a mulher entrava com o carro e desligava o mesmo. Quando abriu a porta da frente, Jeremy já havia terminado de acender todas as velas e segurava o bolo a sua frente, começando a cantar parabéns assim que a filha se aproximou dele, sorrindo animada com o bolo, Ava se juntando a ele na música, pulando em volta da babá e do pai. colocou as sacolas na mesa e sorria enquanto olhava o ator e a criança cantando parabéns para ela.
- Faça um pedido. – Disse Jeremy quando terminaram de cantar a música e a mulher se aproximou para assoprar as velas. olhou do ator para a Ava, que havia subido em uma das cadeiras para olhar melhor o bolo, sua mente tentando pensar em algum pedido para fazer, mas tudo o que ela via eram Jeremy, Ava e ela juntos, brincando com a menor e se divertindo. Ela fechou os olhos e assoprou as velas, não conseguindo conter o riso quando algumas voltaram a acender, Ava então se juntando a ela, Jeremy também quando a mulher pediu ajuda. – Pedido difícil, hein? – Brincou o ator, vendo a mulher dar de ombros, abrindo um pequeno sorriso.
- Obrigada. – Disse ela, após pegar Ava no colo para receber o abraço da menor, olhando o ator, que sorria pela cena presenciada.
- Piquenique! – Gritou Ava, animada no colo da babá, fazendo Jeremy e desviarem o olhar.
- Vamos, você me ajuda a levar tudo isso lá para fora. – Disse , colocando a menina no chão e entregando uma sacola a ela, vendo Ava sair correndo em direção ao jardim. Jeremy havia colocado o bolo na mesa e ia para a cozinha a fim de pegar a toalha que eles estenderiam na grama, mas foi parado pela mulher que o segurou pelo braço. – Jeremy, eu... Obrigada, de verdade. – Disse , sorrindo para o ator e se aproximando para depositar um beijo em seu rosto. No último instante, entretanto, surpreso pelo movimento repentino da babá, Jeremy virou o rosto, fazendo seus lábios se tocarem por breves instantes antes dos dois se afastarem, completamente vermelhos e sem conseguirem sustentar o olhar por muito tempo. – Eu, ahn, vou levar o resto das coisas.
- Vou pegar a toalha. – Disse Jeremy, pigarreando para clarear sua voz que havia sumido de repente. Ele voltou a cozinha e ficou alguns instantes parado no meio do cômodo, sentindo o coração batendo acelerado e a respiração levemente ofegante. O que havia acabado de acontecer? E por que ele estava daquela forma?
observou Jeremy se afastar e apoiou-se no encosto de uma das cadeiras, os joelhos fraquejando enquanto ela revivia o breve tocar dos lábios. Uma das mãos subindo até seus lábios para tentar reviver o momento. Ela fechou os olhos e respirou fundo, não podendo se permitir tais pensamentos, ele era seu chefe, afinal! Não era certo, não podia ser. Não se daria a permissão de se iludir com algo que provavelmente só ela parecia desejar. Já havia sofrido muitas desilusões amorosas, não se jogaria em mais uma.
Quando o ator se juntou a ela e a filha no jardim, parecia que ambos haviam feito um acordo não-verbal para agir como se nada tivesse acontecido. Eles estenderam a toalha na grama e organizaram tudo o que Jeremy havia encomendado na padaria, o bolo ficando no centro, só então percebendo a decoração que o ator havia feito, sorrindo diante o desastre que as estrelas se tornaram. Ficaram sozinhos em um único momento, quando Ava correu para o quarto para pegar seu elefante de pelúcia, para que ele se juntasse a eles na festa. Nesse breve momento, eles se olharam rapidamente, logo desviando a atenção para o que tinham que fazer. Eles comeram de tudo e cortaram o bolo, saboreando o mesmo e a cobertura, elogiando Jeremy por pelo menos ter acertado em uma coisa, fazendo o ator corar ao se lembrar do desastre de mais cedo. Quando começou a escurecer, eles levaram a comida que havia sobrado para dentro de casa e, a pedidos de Ava, depois voltaram para o jardim para se deitarem na grama e ficarem observando as estrelas. Jeremy apagou todas as luzes para que a iluminação não atrapalhasse a vista do céu. Ava deitou-se entre eles, apontando para algumas estrelas e tentando brincar de ligar os pontos, criando formas confusas que só ela conseguia discernir, fazendo e Jeremy rirem com a frustração da menina.
Eles ficaram ali por um longo tempo, sem perceber a hora passando. Foi só quando Ava começou a dar sinais de sono, que Jeremy e perceberam como era tarde. Porém nenhum dos dois deu sinais de que gostariam de sair dali. Havia muito tempo que não parava para se deitar e observar as estrelas, e ela não queria sair dali enquanto não visse uma estrela cadente cruzando o céu, seria a cereja no topo do bolo. E foi essa explicação que ela deu quando Jeremy perguntou se ela entraria, ele próprio se levantando para levar Ava para seu quarto. se assustou quando o homem voltou e se deitou ao seu lado, explicando que ninguém deveria ficar sozinho no aniversário, ainda mais nos momentos finais.
- Eu costumava deitar sob as estrelas com meu pai e meu irmão. – Começou a contar . – Ele e minha mãe nos deixavam ficar acordados até mais tarde nos fins de semana, e nós gostávamos de aproveitar a hora extra olhando o céu, apostando quem seria o primeiro a ver uma estrela cadente. Quando nosso tempo esgotava, nós pedíamos para eles deixarem a gente ficar até vermos uma estrela cadente, então nosso pai se juntava a nós para confirmar que não iríamos tentar trapacear, mas ele sempre acabava trapaceando por nós.
- Você não fala muito deles. – Observou Jeremy, virando a cabeça para o lado para ver melhor a mulher, que mantinha os olhos fixos no céu acima deles. Ele viu o exato momento em que uma lágrima escorreu.
- Tento não falar para não sentir a tristeza por causa da distância. – Confessou ela. – Sempre fomos muito unidos, não é fácil ficarmos assim.
- Como você aguentou durante a faculdade? – Perguntou Jeremy.
- Eu viajava mais, era mais fácil. – Ela explicou. – E meu irmão não estava em outro continente. Hoje em dia nossas rotinas são mais pesadas.
- Você sabe que pode me pedir folga quando quiser. Não é como se Ava não tivesse com quem ficar. – Jeremy disse, fazendo a mulher olhar para ele. – Pode ser um presente de aniversário.
- Não precisa. – garantiu, sorrindo agradecida para ele, sua mente voando até o momento do beijo e pensando que uma continuação para aquele momento seria um presente bem melhor, logo depois ela fechou os olhos e afastou os pensamentos, as palavras “seu chefe” piscando em rosa neon. – E não é como se a faculdade fosse mais fácil hoje, também. – Acrescentou ela, voltando a abrir os olhos e voltando a encarar o céu. – Não é sempre que eu fico assim, só em momentos específicos.
- Como seu aniversário. – Comentou Jeremy.
- Vocês fizeram um ótimo trabalho hoje. – Garantiu a mulher. – Sei que já disse antes, mas muito obrigada por hoje.
- Gostaria que tivesse saído como o planejado. – Confessou Jeremy, rindo em seguida. – Mas teremos mais chances no próximo ano.
- Vou te cobrar, Renner. – Ela disse, em um tom que era para soar ameaçador, mas que só fez os dois rirem.
- Faça um pedido. – Disseram os dois ao mesmo tempo, interrompendo a risada e levantando o dedo para a estrela cadente que havia acabado de cortar o céu. Os dois se olharam, assustados com a sincronia, e sorriram.
- Acho que isso significa que está na hora do nosso toque de recolher, não é? – Brincou Jeremy.
- Bem, sempre podemos trapacear um pouco, não é como se Ava fosse aparecer e mandar a gente dormir. – deu de ombros, fazendo o ator rir.
- Tremo só de pensar que um dia isso pode acontecer. – Comentou o ator.
- Ela vai te dar muito trabalho. – Observou , também imaginando o cenário. – Já estou sentindo muito por você quando ela chegar à adolescência.
- Achei que fosse uma noite para ficarmos felizes e sem nos preocuparmos com o amanhã. – Soltou Jeremy, fazendo a mulher rir.
- Desculpe, acho que perdi esse memorando. – Respondeu . – Vou ficar quieta agora.
- Não completamente, espero, você pode falar sobre outras coisas... – Comentou Jeremy.
- Meu deus, Jeremy! Você parece um adolescente no primeiro encontro da vida toda. – Brincou a mulher, rindo da forma como o ator agia. Em sua mente, Jeremy pensou em como aquilo parecia muito parecido com a forma como ele se sentia.
- Quer dizer que isso é um encontro? – Perguntou o ator, fazendo a mulher interromper a risada, sentindo o rosto esquentar e agradecendo por estar escuro. virou o rosto para ele, tentando encontrar alguma forma de responde-lo, mas felizmente nunca precisou.
- Pai? – Ava gritou de dentro da casa, fazendo soltar o ar que nem havia percebido ter prendido.
- E você disse que ela não ia aparecer. – Brincou Jeremy, levantando-se para descobrir o que a filha queria, deixando no jardim, encarando as estrelas e pensando no que havia acabado de acontecer e o que tudo aquilo implicava.
- Não começa. – Murmurou a mulher para si mesma, vendo quando mais uma estrela cadente cortava o céu, o rosto de Jeremy deitado ao seu lado aparecendo assim que ela fechou os olhos para pensar em algo que pudesse pedir.

Capítulo 7


Com o fim do semestre se aproximando, os professores ficaram ainda mais motivados com as provas e trabalhos finais, e mesmo , que possuía poucas matérias, se viu atolada de trabalho para fazer, agradecendo o mês livre que Jeremy teve para ficar com Ava quando a babá estava ocupada demais com os trabalhos e estudos para provas.
O tempo durante aquelas semanas estava sempre ensolarado, típico de Los Angeles, o que motivou Ava e Jeremy a planejarem um dia em um parque próximo que havia ali perto, e provavelmente estendendo até a praia. O ator consultou com , para saber qual era o dia que ela mais precisava de paz e silêncio na casa, se assustando quando ela entregou a agenda e pediu que ele escolhesse o dia que melhor se encaixasse na própria agenda dele.
- , cadê um mínimo espaço para você dormir? Ou ao menos respirar?
- Ou para ter essa conversa desnecessária... – retrucou a mulher, amassando mais uma folha que usava como rascunho antes de elaborar um dos trabalhos, sem se dar ao trabalho de levantar o olhar para o ator.
Jeremy arqueou a sobrancelha e sorriu de lado, ainda que a mulher não visse, parte dele gostando de ver aquele lado dela, que era algo que com certeza deveria controlar no dia a dia por achar que não poderia se portar daquele jeito com o ator. Jeremy se afastou lentamente, quase rindo ao ouvir a mulher bufar e amassar mais uma folha. Ele queria saber como agir naquela situação, provavelmente havia algum limite que ele deveria impor a , não só como chefe, mas como amigo, para que ela conseguisse respirar e descansar. O homem considerou perguntar à mulher se havia algo que ele poderia fazer, mas só de ouvi-la soltar um palavrão antes de riscar algo na página, ele mudou de ideia, porém logo tendo outra ao encontrar o celular dela, desbloqueado, um pouco afastado dela. Talvez fosse uma boa ideia ele finalmente descobrir o número do irmão de e ter uma conversa com ele.
Ele e Ava ficaram no jardim, a garota brincando na fonte enquanto o ator mandava uma mensagem inicial para Ted, perguntando se eles podiam conversar. Era melhor do que ligar para alguém com quem nunca havia conversado. Não demorou muito para o rapaz responder, os dois logo entrando em uma longa conversa sobre e seus hábitos quase camicases quando se referia aos estudos. No fim, Jeremy concluiu que, sim, em algum momento ele teria que interferir, e Ted agradeceria muito se ele o fizesse, já que o próprio não tinha como saber como estava a situação com a irmã mais velha. Jeremy concluiu que ele precisaria de ajuda, a risada alta de sua filha chamou sua atenção e ele sorriu.
Quem melhor que Ava para infernizar a vida de até ela desistir dos estudos e dar atenção à garota?
Após concluir isso, Jeremy preferiu manter o “plano” só para ele, comunicando a Ava somente que no dia seguinte eles iriam ao parque e, talvez, à praia. Deixaria o pedido de contribuição da filha para o momento certo.
Os planos de Jeremy, entretanto, foram por água abaixo quando ele acordou e ouviu o som da chuva forte caindo. O ator andou até a janela do quarto e suspirou, desapontado pelo tempo fechado que fazia lá fora e que não dava qualquer esperança de uma brecha para o sol. Parecia ventar muito também, concluiu ele após observar as árvores ao redor.
Ava parecia estar no mesmo ânimo que ele quando Jeremy se juntou a ela e no café da manhã, a mulher dando mínima atenção para as torradas que havia preparado sabe-se lá como, e total atenção a um livro mais riscado que os desenhos da filha. Jeremy suspirou após dar um beijo de bom dia na filha, nem se importando em ser ignorado por .
- Ava, eu preciso da sua ajuda. – disse o ator, quando se retirou para o escritório, chamando a atenção da filha que pintava um livro que havia ganhado recentemente.
- O que foi, papai? – perguntou ela, largando o lápis de cor.
- A gente precisa brincar com a . – disse Jeremy, vendo os olhos da filha brilharem imediatamente.
- Ela tá estranha né? – perguntou Ava, olhando rapidamente de relance para o corredor, como se quisesse ver a babá.
- Está, e precisa de você. – concordou Jeremy, sorrindo quando a filha abriu um sorriso.
- O que eu tenho que fazer?
- O que você faz de melhor... bagunça. – A menina sorriu abertamente, e Jeremy ficou levemente assustado. – Mas sem irritar a .
Ava levou sua função a fundo. Imediatamente abandonando o desenho, agarrando seu elefante de pelúcia e correndo até o escritório, abrindo a porta e entrando, assustando quando sentou no colo da mulher. Ava arrancou a caneta da mão da babá e colou na mesa, olhando para ela a espera de uma reação.
- Ava, eu não posso brincar agora. – disse , lembrando-se que era a criança e não o pai dela, então não podia ser mais nervosa do que já estava.
- Mas eu quero brincar com você – respondeu Ava, mantendo os olhos baixos e fazendo um pequeno bico. – Papai não brinca como você.
- Mas é com ele que você vai ter que ficar, querida. – suspirou, passando a mão no cabelo da criança. Como fazê-la entender?
- Mas eu quero você... – Ava olhou para , os olhos brilhando com as lágrimas que não demoraram a cair. – Você nem me dá atenção mais. – choramingou a garota, afundando o rosto no pescoço de , as lágrimas lavando seu rosto. Jeremy, encostado na parede, escondido da babá, sorriu e quase deu um prêmio à filha pela atuação. – Por favor, brinca comigo hoje.
- Está chovendo, Ava. – observou , que acariciava o cabelo da menina, levemente desesperada por não imaginar que ela faria algo daquele tipo. – Não tem muito que eu possa fazer hoje.
- Claro que tem... tem muita coisa. – disse Ava, afastando-se para olhar a babá, fazendo sua melhor expressão de gatinho do Shrek. Por que havia assistido aquele filme com ela? suspirou, sabendo que não adiantaria muito discutir com a menina, ela não a deixaria em paz até que a babá cedesse.
- Tudo bem, mas só hoje. – cedeu , abrindo a boca quando a menina pulou de seu colo, gritando de alegria. A mulher se levantou para sair do escritório, se surpreendendo ao ver Jeremy encostado na parede do corredor, de braços cruzados.
- Conseguimos, papai! – gritou Ava, correndo para a sala, provavelmente para voltar ao seu desenho.
- Conseguimos, papai? – repetiu , fechando a porta do escritório atrás de si e cruzando os braços, olhando para Jeremy a espera de uma explicação.
- Você precisava de uma pausa, ela foi a melhor solução que encontrei. – o ator deu de ombros, não se desculpando. – Seu irmão concordou.
- Meu irm... Como você falou com o Ted?
- Você estava distraída e seu celular desbloqueado – Jeremy sorriu – e eu precisava de ajuda de algum expert.
- E você resolveu conversar com o Ted?
- Tem alguma fonte melhor? – O ator perguntou, parecendo interessado.
- Não sei se gosto da ideia de você e o Ted se falando. – suspirou, passando a mão no cabelo. – Preciso me lembrar de mata-lo na próxima vez que o ver.
- Ele só quer seu melhor – disse Jeremy, desencostando-se da parede. – Assim como eu. Vamos.
- E o que o gênio pensou em fazer nesse dia chuvoso? – perguntou, abusando do tom irônico.
- Temos uma grande quantidade de filmes e desenhos para assistir e pintar. – disse Jeremy, seguindo para a sala. – O foco era tirar você da frente dos livros, o resto a gente improvisa.
esperou o ator sumir no corredor para finalmente ceder e sorrir, não conseguindo resistir à preocupação dele, que havia recorrido até a seu irmão para pedir ajuda. Até mesmo Ava e sua atuação mereciam o reconhecimento da mulher. Ela tinha que concordar que se não fosse de outra forma, Jeremy nunca teria sido bem-sucedido em sua tentativa de afastá-la dos estudos.
Quando se juntou a pai e filha na sala, Ava perguntava sobre o paradeiro da babá, temendo que talvez ela os tivesse enganado e voltado aos estudos, sorrindo assim que a viu se aproximando. ocupou o lugar no chão ao lado da menina e suspirou, aceitando o desenho e a caixinha de lápis de cor que Ava lhe passou, começando a desenhar enquanto Jeremy separava um filme para deixar rolando na televisão.
Eles pintaram, assistiram filme e até tentaram brincar de esconde-esconde, mas Ava era ruim demais nesse último e não gostou de sempre perder. Por fim, os três se juntaram para preparar o almoço, que já era quase janta de tão tarde que estava. E por três juntos fazendo almoço, era mais indo de um lado para o outro tentando não colocar fogo na cozinha enquanto pai e filha se divertiam fazendo uma bagunça com o macarrão e o molho que não seria usado.
E, ao fim do dia, ao invés de colocar Ava para dormir, a menina fez questão de inverter os papeis, ficando ao lado da babá até que a mesma adormecesse, a própria criança dormindo ao lado da mulher poucos instantes depois, para a surpresa de Jeremy que foi conferir o que a filha aprontava e teve que parar na porta do quarto da babá para apreciar a cena por um momento antes de decidir fechar a porta e deixa-las dormindo, sem querer correr o risco de acordar a filha e acabar acordando – que merecia longas horas de descanso.

Com o passar dos dias, não teve menos trabalho, como era o esperado por Jeremy, mas pelo menos ele esperava que as coisas aliviassem um pouco quando ele anunciou que para o fim de semana, Ava iria para a casa da mãe. fez uma careta, não parecendo muito feliz com a solução que o ator encontrou para “aliviar as coisas”. Talvez fosse para ele, gostava da presença da menina na casa, apesar de não aparentar para os demais. Com Ava, tinha um incentivo a mais para fazer mais pausas e poder se distrair com a menina, sem ela, não haveria muito que ela pudesse fazer, mesmo que Jeremy explodisse metade da casa, já que ele era grandinho o suficiente para tomar conta dele mesmo.
Na segunda noite do fim de semana sem Ava, estava determinada a finalizar o último trabalho, dessa forma ficando livre para focar nas provas. Ela sabia que aquilo demandaria muito tempo e já estava armada de uma garrafa térmica cheia de café e a cadeira mais confortável possível para ficar acordada o máximo que fosse necessário, desde que o trabalho fosse finalizado. Vez ou outra, quando sentia as vistas embaçarem, ela se levantava e ia dar uma volta pela casa. Em uma dessas vezes, encontrou Jeremy sentado no sofá da sala, zapeando pela televisão, o áudio tão baixo que ela suspeitou que ele não queria atrapalhá-la. Jeremy desviou a atenção do aparelho assim que a viu se aproximando.
- Não consegue dormir? – perguntou o ator, notando a mulher de pijama e o cabelo despenteado, sem se lembrar que aquele foi o figurino dela durante os últimos dias.
- Pra isso eu teria que tentar dormir... – disse ela, sentando ao lado dele e esticando as pernas, apoiando os pés na mesinha de centro, sua cabeça apoiada no encosto do sofá. – E eu não estava tentando.
- Algum problema?
- Não, só finalizando um trabalho. – disse ela, sorrindo quando ele bufou.
- Alguém já disse que você estuda demais? – perguntou Jeremy, largando o controle da televisão e olhando a mulher, que fechou os olhos e franziu o cenho.
- Meus pais, meu irmão... Todos meus professores da faculdade com quem tive algum contato além da sala de aula – respondeu , abrindo os olhos e sorrindo de lado – Ava, e agora você.
- Até minha filha? – Jeremy riu após a mulher concordar. – Acho que isso é sinal suficiente para você se dar umas... eu diria pausa, mas férias é o melhor termo.
- Queria conseguir, mas já me acostumei a ser assim. – suspirou. – Não é fácil ser alguém na área que escolhi, então tenho que estudar bastante.
- Deve ser difícil.
- É sim, mas a gente se acostuma.
Jeremy riu sem acreditar no que ela dizia, enquanto apenas suspirou, sabendo que não eram todos que entendiam. Ela sabia que já havia tido uma conversa parecida com o ator sobre aquele assunto... Céus, já tivera aquela conversa com diversas pessoas e nunca uma pareceu entender o seu lado. Até Ted, que cursava uma das faculdades mais difíceis que ela conhecia, não parecia passar por metade do que ela havia passado só naquela semana.
- O que seus pais acham disso? – perguntou Jeremy, chamando a atenção dela.
- Eu acho que eles não têm muita noção... Não hoje em dia pelo menos. – passou a mão no cabelo, tentando se lembrar da última vez que os pais demonstraram interesse ou preocupação pela rotina de estudos dela. Eles geralmente se interessavam, mas a mulher maquiava bastante as noites em claro. – Eles se preocupam mais com meu irmão, o que é o certo.
- Eles deveriam se preocupar com vocês igualmente.
- Quando Ted nasceu, eu virei a típica irmã mais velha super-protetora, e não abandonei o cargo até hoje. Sempre fiz de tudo para que ele tivesse tudo.
- E se deixando de lado no processo? Como isso é certo?
- Acredite ou não, mas sempre deu tudo certo. Os dois sempre saiam ganhando. – sorriu divertida com as lembranças.
- Como você trabalhando como babá é um cenário vencedor para você?
abriu a boca, mas não conseguiu responder. A pergunta do ator pareceu atingir um ponto sensível que ela não sabia que tinha. Era como se ele tivesse aberto alguma ferida. Ela nunca havia parado para pensar naquilo desde que a rotina começou a funcionar, equilibrando o trabalho e a faculdade e deixando para trás qualquer preocupação sobre aquilo ser certo ou não. Mas naquele momento, era como se aquelas primeiras semanas voltassem e ela revivesse toda aquela frustração por ter um trabalho como aquele – apesar de nunca tê-lo achado ruim, principalmente depois de se afeiçoar à família.
Jeremy pareceu perceber que o silêncio da mulher continha mais coisas que ela fazia parecer e se desculpou, sendo dispensado por um movimento da mão dela. Como se ainda quisesse ter certeza que ele não continuaria se sentindo mal por aquilo, a mulher lhe sorriu de leve.
- Sabe, minha família, e com isso eu digo meus pais, eu e meu irmão, sempre vivemos bem. Não éramos, meu deus, podre de ricos, mas tínhamos uma boa vida – ela começou a contar. – Um ano depois de sair do ensino médio, eu entrei na faculdade de enfermagem...
- Você ia ser enfermeira? – Jeremy riu diante aquele cenário, não conseguindo imaginar a mulher naquela profissão.
- Pode acreditar. – riu junto, se lembrando do pesadelo que aquele primeiro ano foi. – No meu segundo ano, Ted veio até mim e me mostrou essa faculdade incrível de engenharia na Alemanha. Ele não precisava dizer nada para eu saber que era aquilo que ele queria, ele nunca teria coragem de pedir a mim ou aos meus pais, então eu fiz por ele. – Jeremy a olhava sem acreditar no que ouvia, havia algum pingo mínimo de maldade no corpo daquela mulher? – Àquela altura eu já queria sair da faculdade porque percebi que não era para mim, então sentei e conversei com meus pais. Nós vivíamos, e ainda vivemos, bem, mas não o suficiente para dois filhos longe de casa. Então todo o dinheiro que eles iam gastar comigo em uma faculdade que eu nem queria mais, eles investiram no Ted para que ele pudesse realizar o sonho dele. – Talvez ela tivesse feito aquela pausa para Jeremy fazer algum comentário, mas o ator se sentia incapaz. Já havia conhecido muitas pessoas boas em sua vida, mas nada chegava aos pés de . Como ele não fez comentário algum, continuou. – Na mesma época eu já tinha começado a me interessar e pesquisar sobre linguística, encontrei a UCLA e gostei do que vi. Trabalhei e juntei dinheiro o suficiente para me mudar para cá, e todo o dinheiro que eu tinha antes, dei para o Ted. – Concluiu ela, sorrindo satisfeita por ter conseguido organizar os pensamentos em sua mente. – As coisas sempre se alinham em algum momento.
- Desculpe, ainda não vejo seu cenário como um vencedor – disse Jeremy após ponderar por um tempo.
- Você é irmão mais velho, achei que entenderia – disse , virando a cabeça para olhá-lo. – Talvez como pai saia melhor. Você sacrificaria tudo pela Ava e a felicidade dela não? Quer dizer, sua agenda de trabalho já é bem menos movimentada – observou . – Se ela acordar amanhã e dizer que quer entrar para o balé russo, você vai trabalhar mais para pagar a melhor escola ou professora de balé para ela, não vai? – perguntou ela, não esperando muito uma resposta do ator. – Mesmo que você não goste dela vivendo lá e você aqui, você ainda vai permitir porque sabe que é o certo... E é o sonho dela. – Jeremy estava intrigado, tinha que confessar, apesar de ainda considerar que eram cenários diferentes, ele sabia que não adiantaria discutir. parecia saber aquilo, por isso ela riu e se sentou melhor no sofá, olhando para o ator. – Se faz com que você se sinta melhor, eu nunca deixei de fazer nada por causa do Ted e dos desejos dele. Como eu disse, as coisas sempre se encaixaram, e nós nunca reclamamos. Bem, no começo ele reclamou porque achou que eu estava desistindo por causa dele, mas eu mostrei que não era isso e ele entendeu.
Jeremy sabia que ela tinha a mesma esperança que ele entendesse, mas ele ainda não conseguia, apesar de já ter percebido que aquela era a natureza pura e simples da mulher, algo que ele próprio já havia presenciado diversas vezes. Sua vontade era discutir e fazê-la entender que aquilo não era certo por mais que ela tentasse defender, mas não havia como fazê-la mudar de ideia. Então ele voltou a conversa, tentando imaginar um cenário em que era enfermeira, rindo com a ideia.
- Ainda não acredito que você queria ser enfermeira. – Riu ele, contagiando a mulher. – Com todo esse seu jeito para lidar com as pessoas? Principalmente crianças?
- Foi por isso mesmo que eu saí – disse , sorrindo. – Sabe aquele seriado House? Ele fala que todos mentem, especialmente os pacientes, e eu vi que era verdade. As pessoas querem ajuda, mas não conseguem dizer meia-verdade para serem ajudadas, para salvar a própria vida. Eu não ia conseguir.
- Não parece a mesma pessoa que aguentou a batalha contra a Ava – observou Jeremy, não acostumado a ver mulher com uma postura tão derrotada.
- Situações diferentes – comentou . – Eu sempre soube que o problema não era eu, era algo além. Ava sempre foi muito transparente quanto a isso.
- Mas vai me dizer que nunca pensou em desistir?
- Não sou de ferro, Jeremy. – A mulher riu, espreguiçando-se. – Ava me levou à limites que eu nem sabia existir. Não sei como não enlouqueci. Você tem muita sorte de eu ser curiosa e não gostar de desistir das coisas, ou eu já teria ido embora há muito tempo.
- É a primeira vez que fico feliz por alguém ser curioso – comentou Jeremy, fazendo os dois rirem. – Mudando de assunto... Devo perder meu tempo perguntando se você quer dar continuidade àquela maratona de filmes meus que você estava fazendo outro dia?
- Você realmente quer me ver passando vergonha, não é? – riu, já se levantando. – Talvez quando eu estiver de férias.
- Mas ai eu não estarei de férias. – Observou o ator, vendo a mulher dando de ombros.
- Eu assisto sem você, não tem problemas.
- Não foi esse o combinado.
- Nós nunca combinamos nada, Renner. – A mulher apontou, começando a se afastar. – Talvez quando eu terminar esse trabalho e dormir umas quatro horas, ai eu abra uma exceção e a gente pode assistir João e Maria.
- Eu vou cobrar.
- Eu disse talvez.
- Como se fizesse diferença.
riu, seguindo pelo corredor e entrando no escritório, suspirando antes de voltar a ocupar seu lugar na mesa e recomeçar o que fazia antes.

A volta de Ava coincidiu com a última semana de para entrega dos trabalhos – que ela havia finalizado durante a ausência da criança – e as provas finais, que eram as que mais estavam deixando a babá ansiosa e preocupada. Ava estava animada após o fim de semana com a mãe, e contou tudo a Jeremy e durante o almoço na segunda – os dois adultos notando como a menina mais falou do que comeu, apesar de ser seu prato favorito.
havia tirado a segunda apenas para revisar todo o assunto que ela vira durante a elaboração do último trabalho, que condizia com o tema das provas que faria no dia seguinte, de forma que o seu dia estava mais tranquilo e ela conseguiu dar mais atenção a Ava, deixando Jeremy livre para resolver alguns assuntos que haviam surgido e ele adiara para ficar com a filha. Não passou despercebido por como ela parecia mais sonolenta que o normal, além de não estar muito animada para brincar como sempre ficava quando voltava. Antes do horário usual, Ava perguntou se poderia tirar seu cochilo da tarde, dispensando até mesmo a historinha que ou Jeremy sempre contavam. A mulher aproveitou que a criança tinha ido dormir para compartilhar suas preocupações com Jeremy, aproveitando que ele havia acabado de finalizar uma ligação quando ela entrou no escritório.
- Deve ser cansaço, – o ator dispensou as preocupações dela. – Não acontece sempre, mas vez ou outra Sonni consegue dar uns dez minutos de atenção para Ava e elas têm bons momentos.
- Isso não me convence, Jeremy, desculpa. – A mulher suspirou, cruzando os braços. O ator havia se recostado na cadeira e olhava para ela, um sorriso ameaçando surgir em seus lábios diante a preocupação dela. – Nós brincamos bastante com ela e Ava não fica assim.
- Espere ela acordar e perguntamos o que está acontecendo, pode ser? – sugeriu Jeremy, suspirando quando percebeu que ainda não estava feliz. – , eu prometo que eu mesmo conversarei com a Ava assim que ela acordar, agora volte a estudar, por favor.
suspirou, sabendo que não conseguiria mais do que aquilo do ator, e resolveu ceder. Ela mais fingiu estudar do que estudou realmente, seus olhos se desviando toda hora para o relógio para conferir se já estava próximo do horário que Ava costumava acordar. Ela sabia que aquilo não era o certo, ela devia estar focando nos estudos, mas também sabia que passaria a noite acordada sem problema algum, desde que tivesse a certeza de que Ava estava bem.
Quando, enfim, o horário de acordar a criança chegou, largou os cadernos e textos que ela tinha no colo, apenas para o caso de Jeremy aparecer e ela podia fingir que estava seguindo o que ele havia sugerido, no sofá e foi até o quarto de Ava, abrindo a porta e confirmando que ela ainda estava adormecida. se aproximou, sentando-se na beira da cama e passou a mão na testa da menina, afastando alguns fios de cabelo e logo depois franzindo o cenho ao notar como a região estava mais quente que o usual. A mulher afastou a coberta e pegou a mão de Ava, logo depois chegando o pescoço da criança e o notando úmido de suor. mordeu o lábio inferior enquanto ia até o banheiro para pegar o termômetro, sem sequer perceber que lentamente Ava acordava.
- ? – disse Ava baixinho, chamando a atenção da babá que posicionava o termômetro sob a axila da criança.
- Oi, meu amor – respondeu , olhando para a menina, notando os lábios levemente pálidos.
- Minha barriga tá estranha – reclamou Ava, levando as mãos até a região.
- O que você tá sentindo, Ava? – perguntou , passando novamente a mão na testa da menina, confirmando que ainda estava quente.
- Não sei, tá estranho – choramingou Ava. – Cadê meu pai?
- Ele está aqui do lado, já vou chamar – garantiu , naquele momento ouvindo o apito do termômetro, indicando que já havia a temperatura final, o ar saiu com força de quando ela conferiu a temperatura, engolindo em seco. se levantou, pegando o cesto de lixo que havia no quarto de Ava e colocando do lado da cama, caso a menina sentisse vontade de vomitar, gritando por Jeremy logo em seguida, fazendo Ava gemer e levar as mãos à cabeça. No exato momento que o ator chegou ao quarto, Ava sentou-se na cama e colocou a mão na boca, rapidamente pegando o cesto de lixo e colocando na frente da menina, que soltou tudo o que havia almoçado mais cedo.
- O que foi?
- Ela tá com febre, acho que cólica, e agora isso. – apontou para o lixo e entregou o termômetro para Jeremy, que se ajoelhou ao lado da cama da filha, passando a mão no cabelo dela.
- Ava, o que aconteceu?
- Não sei – a menina choramingou, fazendo um bico – mas tá doendo, papai.
- Onde dói? – perguntou Jeremy, vendo quando Ava apontou para a barriga, antes de voltar a agarrar o cesto de lixo e vomitar mais uma vez. – Cinco minutos e nós vamos para o hospital. – Avisou o ator para .
- Deve ser só algo que ela comeu, Jeremy, vai passar logo. – a mulher tentou tranquiliza-lo, apesar de estar tão alarmada quanto o ator.
- Eu prefiro ter certeza – disse Jeremy, sem dar mais brechas para discussão. voltou a engoliu em seco, suspeitando que havia mais naquela história do que o ator havia lhe contado.
- – chamou Ava. – Tá frio. – Só então notou os braços da menina arrepiados.
- Eu vou pegar algo quentinho para você – disse , se levantando e abrindo o guarda-roupa de Ava, pegando um conjunto de moletom para a menina vestir. Seus olhos se fecharam rapidamente quando ela ouviu Ava vomitando novamente. esperou ela terminar para fazê-la se levantar e ajudar Ava a se vestir.
- Tô tonta, – disse a menina, se apoiando com força nos ombros da babá.
- Tá acabando já, querida – garantiu , ajudando-a a se sentar após terminar de vestir a calça, colocando o casaco em seguida. – Tá mais quentinha?
- Um pouco. – Ava tinha cara de choro, como se estivesse segurando as lágrimas para não preocupar o pai e a babá ainda mais, e quase sentiu vontade de chorar por notar isso.
- Vai passar, você vai ficar boa logo. – garantiu , vendo a menina assentir e se encolher contra ela.
Jeremy não demorou a voltar, com uma pequena bolsa nas mãos. pegou Ava no colo, optando por pegar o cobertor da criança caso ela voltasse a sentir frio no caminho para o hospital. conseguia notar a tensão no ator, quase se oferecendo para dirigir até o hospital, não fosse seu próprio nervosismo. Ava pareceu ficar ainda mais pálida durante a viagem no carro, a febre também parecendo aumentar. mordiscava seu lábio inferior inteiro, passando a mão pelo cabelo da criança tentando acalmá-la e a si própria. Ao chegarem no hospital, Jeremy a ajudou a sair do carro, pegando Ava no colo e cobrindo-a caso tivessem o azar de encontrar algum paparazzi no caminho, ficou responsável pela bolsa que ele havia preparado, fechando o carro quando saiu e seguindo o ator.
Felizmente o movimento no hospital estava calmo, e não demorou muito para um pediatra aparecer para cuidar de Ava, que não havia conseguido nem tomar um pouco de água que havia oferecido. A mulher ficou na sala de espera enquanto Jeremy acompanhava a filha, prometendo não demorar muito para voltar e dar informações a ela. estava tensa, as pernas inquietas enquanto ela tentava focar sua atenção na televisão e no programa que passava, falhando miseravelmente.
Já era tarde da noite quando Jeremy se juntou a ela, dizendo que Ava havia passado por uma bateria de exames, vomitara mais um pouco, dessa vez só líquido, e eles a haviam instalado em um quarto para tomar soro na veia além de algumas outras medicações. Ela estava adormecida, a febre ainda alta, e o ator aproveitou para ir se encontrar com e leva-la ao quarto.
- Ela perguntou por você várias vezes – informou o ator, sorrindo levemente. – Queria que você estivesse lá. – não conseguiu decifrar se ele falava da filha ou dele próprio, de qualquer forma, ela sorriu com a informação. – Por isso eu vim aqui, para falar com você e saber se você quer vê-la.
- Com certeza. – disse , quase revirando os olhos diante o absurdo daquela pergunta. – Tenho até um presente para ela.
- Você foi até a loja de presentes? – Jeremy riu quando viu a sacola na cadeira ao lado da babá.
- Eu não aguentava mais ficar parada. – deu de ombros, se levantando quando o ator fez o mesmo. – Eles até que tinham uns bichos legais.
- Ela vai amar – garantiu Jeremy, ao olhar o conteúdo da sacola e reconhecendo uma corujinha.
não conseguiria nunca descrever o que sentiu quando entrou no quarto e viu a figura minúscula de Ava naquela cama gigante, ela estava coberta com uma manta que parecia bem quentinha, havia uma agulha saindo de seu bracinho esquerdo que levava ao soro que pingava lentamente. A menina profundamente adormecida quando a babá se aproximou da cama e se sentou na beirada, acariciando o rosto da menor, sentindo a garganta se fechar ao notar como ela ainda parecia pálida.
- E qual foi o diagnóstico? – perguntou para Jeremy, parado na porta do quarto, só observando a babá.
- Até o momento, eles suspeitam de intoxicação alimentar, estão esperando os resultados dos exames. – Jeremy suspirou. – Geralmente não é tão grave, mas pelo histórico dela e por ela ser criança, o quadro complica.
A mulher ficou em silêncio, não passando despercebido por ela o que Jeremy havia falado, mas aquele não era o momento para ela cobrar explicações, apesar de ser sua maior vontade perguntar o que ele queria dizer com “pelo histórico dela”. respirou fundo, pegando a corujinha na sacola e colocando ao lado de Ava para quando ela acordasse, e se levantou, indo até Jeremy.
- Não estou dizendo que precisa ser agora – disse ela, seu tom baixo para não correr o risco de perturbar Ava – mas eu acho que tem algumas coisas que você precisa me contar.
O ator engoliu em seco e assentiu, sabendo muito bem o que a babá queria dizer. Ele se afastou quando ela passou por ele e foi se sentar em uma das diversas cadeiras que havia no corredor, provavelmente precisando de um momento para respirar, ele sabia que a imagem de Ava naquela cama não era a das mais felizes. Ele olhou para , tentado a se juntar a ela, mas ao ouvir a filha se remexendo na cama, rapidamente sua ideia mudou e ele entrou no quarto, mantendo a porta aberta como forma de convite para se juntar a ele quando quisesse.
Foi só na tarde do dia seguinte que Ava acordou, ainda se sentindo tonta e com dor na barriga, mal conseguindo comer o que fora servido pelo hospital. havia se juntado a ela e Jeremy no quarto no meio da madrugada, ocupando o sofá próximo a janela enquanto o ator permanecia na poltrona ao lado da cama. Quando acordou, Ava sorriu ao ver sentada ao seu lado, e sorriu ainda mais ao ver a coruja que havia ganhado da babá. Ela não ficou mais de uma hora acordada, e nesse ponto não sabia mais se era por fraqueza ou pelos remédios que eles haviam dado a ela.
À noite, Jeremy saiu por alguns minutos para ligar para Sonni e avisá-la sobre a condição de Ava, não se surpreendendo quando ela informou que não poderia se juntar a ele no hospital porque tinha algumas coisas de trabalho para fazer. Quando voltou ao quarto, sorriu ao ver na poltrona que ele havia ocupado a noite inteira, a mulher encolhida no assento, olhando Ava.
- Você deveria ir para casa dormir um pouco – disse o ator, aproximando-se dela.
- Você me ofende pensando que eu vou conseguir dormir em casa – observou , sorrindo ao ouvir o ator rindo.
- Bem, eu preciso ir – Jeremy suspirou, não parecendo muito feliz com aquilo, e chamando a atenção de . – Acho que não fechamos nada direito na pressa de vir para cá, e eu preciso de pelo menos um banho, além de dar comida para o Digby.
- Vai lá, eu fico aqui – garantiu , fazendo o ator ter certeza de que ela não sairia dali nem se o presidente dos Estados Unidos mandasse.
- Quer que eu traga algo?
- Um lanche, talvez, e café – pediu , vendo o ator assentir. Ele depositou um beijo na testa de Ava e saiu, garantindo que não pretendia demorar muito.
Após a saída do ator, quase uma hora depois, Ava voltou a acordar, dessa vez conseguindo ficar mais um tempo acordada e conseguindo comer um pouco mais, apesar de reclamar de sua barriga ainda doer um pouco. A febre parecia se manter, o que era levemente tranquilizador, já que pelo menos não estava subindo. Ela perguntou sobre o pai, não parecendo tão chateada quando achou que ficaria quando a babá informou que ele havia ido para casa cuidar do Digby. Ela brincou um pouco com a corujinha, tentando pensar em um nome para ela, mas não conseguindo. Ava havia voltado a se deitar quando o médico surgiu para conferir sua pequena paciente, informando que aplicaria novamente o remédio para tentar cuidar da febre. O remédio deixou a criança ainda mais sonolenta, e não deu dez minutos para ela voltar a dormir.
O silêncio no corredor do quarto, assim como a respiração suave e ritmada de Ava serviu de incentivo para deixar o sono ganhar. Ela sabia que o sofá seria mais confortável, mas ela não queria sair do lado de Ava, caso a menina acordasse, por isso ficou ali mesmo, tentando ficar o mais confortável que a poltrona permitia, encostando a cabeça no encosto da mesma e não demorando muito para sentir os olhos pesando e se fechando. Não era seu sono mais profundo, mas seria o suficiente para lhe dar um mínimo descanso para aguentar mais algumas horas.

se remexeu ao sentir algo tocando seu ombro e despertando-a, seu primeiro instinto sendo olhar para Ava e conferir se ela estava bem. A garota estava profundamente adormecida, ainda sob efeito dos remédios que haviam administrado nela. Após confirmar o estado da criança, se remexeu na poltrona desconfortável e olhou para a real fonte do seu despertar, encontrando Jeremy parado ao seu lado, uma mão em seu ombro e o rosto abatido e cansado, apesar de ele obviamente ter tomado um banho enquanto estava em casa. O ator fez um gesto indicando a saída do quarto e logo depois se afastou, deixando para segui-lo após se espreguiçar e depositar um beijo na testa de Ava.
A luz forte do corredor a incomodou e ela precisou piscar diversas vezes até seus olhos se adaptarem, após isso, ocupou a cadeira ao lado de Jeremy, observando enquanto o ator remexia os dedos e parecia muito concentrado no ato. Ela tinha uma leve suspeita de qual seria o assunto, e sentia-se ansiosa para trata-lo, mas não apressaria Jeremy, principalmente quando ele parecia que finalmente estava conseguindo voltar ao seu normal após o diagnóstico de Ava. virou-se de lado na cadeira, elevando os pés de forma a deixar uma perna dobrada para baixo, e a outra flexionada para cima, seu joelho servindo de apoio para seu queixo enquanto ela esperava o ator começar a falar. O que, ainda bem, não demorou muito a ocorrer.
- Você provavelmente já sabe do que eu vou falar, então não vou ficar dando voltas. – disse Jeremy, olhando rapidamente para a mulher antes de voltar a focar em seus dedos. – Ainda bebê, bem mais do que é hoje, – sorriu, sabendo que o ator nunca deixaria de ver Ava como um bebê – Ava foi diagnosticada com lúpus. – levantou a cabeça, sabia pouco sobre a doença, e o que havia escutado não lhe dava conhecimento suficiente para saber se deveria se preocupar ou não. – É uma doença autoimune que não tem cura, mas é possível de se controlar através de medicação. Se ela tomar tudo certo, não precisamos nos preocupar, e não nos preocupamos na maioria das vezes. Ela faz exames de rotina e tem uma vida saudável, você sabe. – assentiu, mesmo que ele não visse. – Quando recebemos o diagnóstico, Sonni e eu conversamos e entramos em acordo para deixar esse fato em segredo, não tinha porquê expor a Ava dessa maneira.
- Principalmente com o cuidado que você tem para cuidar da imagem e privacidade dela – comentou , sorrindo quando o ator concordou. Ela tinha outra pergunta para fazer, mas concluiu que não era tão importante naquele momento, felizmente Jeremy parecia ter a mesma linha de pensamento que ela.
- Eu queria ter contado para você desde o começo – retomou ele, olhando para a mulher como se pedisse desculpas – mas eu não sabia se você ia durar mais do que as outras ou se iria embora ainda mais cedo por causa da Ava, então eu fui adiando... E depois do aniversário dela, acho que faltou oportunidade.
- Ou coragem – disse ela, sorrindo de lado para o ator. – Eu entendo, Jeremy, provavelmente no seu lugar eu faria o mesmo. Pelo menos agora algumas coisas fazem mais sentido.
- Sabe, eu ainda não tinha certeza se você ia ficar ou não, mesmo apesar de tudo – contou o ator, chamando a atenção de , que achou que o assunto havia acabado – Ava te levou tanto ao limite que eu só ficava esperando o momento que você viria até meu escritório e diria adeus.
- Eu quase fiz isso. – confessou , se lembrando das primeiras semanas, quase gargalhando quando percebeu a movimentação repentina e rápida do ator. – Logo no começo, Ted teve que me ouvir chorar por horas e horas no meu primeiro fim de semana sozinha.
- Eu sinto muito por isso.
- Eu sei. – riu. – O que fez você mudar de ideia e me contar hoje?
- A forma muito desconfortável que você estava dormindo – disse o ator, rindo da expressão confusa da babá. – Eu não tinha acabado de chegar quando te acordei, na verdade, faz quase uma hora que eu voltei para cá.
- Ficou me olhando dormir por uma hora? – perguntou , notando o tom rosado surgindo no rosto do ator.
- Você provavelmente ficou mais acordada que eu, não queria te acordar. – confessou Jeremy, abaixando a cabeça para tentar esconder o rubor em seu rosto. – Mas não fiquei uma hora te olhando, no máximo meia hora.
- Mesmo assim, é muito tempo, Jeremy. – observou . – Ou deveria te chamar de Edward?
- Quem?
- Crepúsculo? Os vampiros que brilham no sol? – diante a negação do ator, bufou. – Depois eu que não leio nada além do material da faculdade. – Sua fala pareceu despertar algo no ator, que a olhou com os olhos arregalados.
- , e sua faculdade? Suas provas e trabalhos? – perguntou ele, concluindo que parecia mais preocupado com ela quando a mulher deu de ombros.
- Eu mando um e-mail para meus professores e explico a situação – disse ela. – Em momentos assim é que vale à pena ser a ótima aluna que eu sou. – A mulher riu, sendo acompanhada pelo ator.
Os dois permaneceram em silêncio então, ambos encarando a janela de vidro que dava para o corredor, como se fosse uma tela de televisão. ainda se sentia sonolenta, e tudo o que queria fazer era voltar a dormir, mas talvez estivesse na hora de deixar de ficar ao lado de Ava, e apoiar Jeremy. Ela não tinha ideia de como era a vida de pai solteiro, apesar de ter um gosto do que era sentir a preocupação absurda que toda mãe deve sentir ao ver o filho doente. Aquele pensamento, por algum motivo, a despertou, a ideia de ver Ava como sua filha. A mulher endireitou a postura e passou a mão no cabelo. Sabia que aquele pensamento estava errado, aquele era um emprego temporário, não deveria se apegar tanto à garota a ponto de pensar nela como uma filha. E não era como se Ava não tivesse mãe, apesar de Sonni não ter gastado cinco minutos para ligar para Jeremy após ser informada do que havia acontecido e perguntar sobre a filha.
Aquilo estava errado, e sabia. Ela não tinha direito de ter aqueles pensamentos, de condenar Sonni por não ser presente. Aquilo tudo era demais para a babá, que decidiu se levantar e ir pelo menos ao banheiro para jogar uma água na cara e afastar aqueles pensamentos, dando uma desculpa vaga a Jeremy para justificar sua movimentação. Uma coisa era ela ter pensamentos nada éticos com o ator, que era seu chefe, e com quem ela formaria o ápice do clichê, outra bem diferente era condenar Sonni e considerar Ava sua filha. Ela não tinha aquele direito.
- Foco, . – disse ela a seu reflexo no espelho após jogar água em seu rosto. – Limites para esses pensamentos. Se coloque no seu lugar.
Ela repetiu aquilo por mais umas trinta vezes até sentir que havia voltado ao normal, só então saindo do banheiro e retornando ao local onde havia deixado Jeremy, sorrindo ao constatar que ele permanecia sentado no mesmo local. Antes de ocupar o lugar ao lado dele, olhou pela janela apenas para confirmar que Ava ainda dormia.
- Você está bem? – perguntou Jeremy quando ela voltou a se sentar.
- Acho que ainda estava um pouco sonolenta – disse ela – fui jogar um pouco de água no rosto.
- Pode dormir se quiser, você merece. – o ator sussurrou a última parte, como se fosse um segredo só entre eles.
- Essas cadeiras não são tão confortáveis como aquela poltrona. – justificou , sorrindo de lado.
- Pode usar meu colo de travesseiro se quiser, pelo menos um pouco de conforto você terá. – ofereceu o ator.
- E quem disse que seu colo é confortável?
- Ava nunca reclamou. – observou Jeremy, se divertindo com a forma dela de fugir da oferta dele. – E seu pé também não.
- Não acredito que se lembra disso. – o olhou chocada. Ela própria mal se lembrava do que o ator havia feito quando ela machucara o pé.
- Eu tenho boa memória. – Jeremy deu de ombros. – E um colo confortável.
- Obrigada pela proposta tentadora, – desdenhou – mas agora eu acordei.
Jeremy teria acreditado na palavra dela não fosse o enorme bocejo que ela soltara logo após falar, revirando os olhos quando notou o olhar questionador do ator. estava tentada a aceitar, mas não conseguia discernir se aquilo era certo ou não. Havia um limite que eles deveriam obedecer, não havia? Ela sabia que havia. E ela precisava respeitá-lo, não queria correr o risco de perder o emprego por um descuido tão banal como aquele, apesar de se arrepender horas depois quando acordasse com o pior torcicolo de sua vida e tivesse que ouvir os suspiros de “eu avisei” de Jeremy.
Dois dias depois, Ava finalmente mostrou melhoras, o médico pedindo para que repetissem os exames e se mostrando satisfeito o suficiente para dar alta à menina, porém pedindo para que Jeremy voltasse ao hospital no menor sinal de que ela estivesse se sentindo mal. Também foi recomendada uma alimentação leve por alguns dias, o que não deixou a menina muito feliz – ânimo logo mudado quando garantiu que assim que ela estivesse completamente boa, fariam um bolo para comemorar a melhora, animando a menina.
Mais cedo no dia da alta, enquanto esperavam o resultado dos exames, Jeremy havia conseguido conversar com a filha, concluindo que o que havia provocado a intoxicação alimentar, viera da casa de Sonni, devido ao que Ava havia comido na casa da mãe, o que fez o ator concluiu que ele e a ex teriam uma longa conversa sobre aquilo, já que Sonni não parecia se importar muito com a alimentação balanceada da criança, como ele era.
A diferença de humor da Ava de segunda-feira e a Ava de agora já era diferente, apesar de ainda um pouco mole pelos dias que tivera, a menina estava mais falante e agitada, com Jeremy e frequentemente tendo que pedir para ela diminuir o ritmo um pouco. Provavelmente se lembrando da rotina da babá, Ava perguntara se o pai iria leva-la para a faculdade, sorrindo abertamente quando lhe disse que não iria a lugar algum além de casa, para passar o resto do dia brincando com a menina.

Os dias de observação e cuidado excessivo com Ava passaram rápido. havia conseguido conversar com seus professores, que deram duas opções a ela: fazer a segunda chamada das provas ou um trabalho final, além daqueles que ela já havia entregado. A mulher optou pela última opção, principalmente por serem trabalhos menores e que não levou mais de dois dias para ela finalizar e entregar, conseguindo fazê-lo bem antes da data final oferecida pelos professores, para o divertimento de Jeremy.
Com os últimos trabalhos entregue, e Ava já completamente curada, os três concordaram que um bolo e a tão prometida ida no parque deveria acontecer. O passeio acabou virando um piquenique, com Jeremy e Ava fazendo os lanches e demais preparativos, enquanto preparava o bolo pedido pela menina. Enquanto esperavam o bolo ficar pronto, Ava pediu para o pai ir até a casa vizinha e perguntar se Jack podia ir junto com eles, já que ela havia ficado longe a semana toda e não conseguira brincar com o amigo.
Anna, que sabia o que havia acontecido com Ava, ficara mais do que feliz em deixar Jack se juntar à menina, Jeremy e para a ida no parque, para a alegria das duas crianças. Jeremy chegou a perguntar se Anna queria acompanha-los, mas a mulher recusou, dizendo que havia algumas coisas que tinha que colocar em ordem ainda naquele dia.
- Você vai amar o bolo da , Jack. – dizia Ava enquanto eles seguiam para o parquinho, as duas crianças andando à frente de Jeremy e . O dia ensolarado e quente, para o alívio de todos, que odiariam se voltasse a chover como fizera na semana anterior.
- Então, férias total? – perguntou Jeremy, olhando rapidamente para antes de voltar a prestar atenção nas crianças.
- Felizmente, sim... Só esperando as notas agora.
- Sua tensão nunca acaba?
- Acaba quando eu tiver minhas notas – disse ela, sorrindo.
- E você tem alguma dúvida de que serão boas?
- Acidentes acontecem, não? – perguntou ela.
- Sim... – pensou Jeremy, felizmente conseguindo controlar o pensamento que veio a seguir.
O feliz acidente, o erro de comunicação, que a levara até ali.

Continua...



Nota da autora: Capítulo mais pesadinho, mas ainda cheio de amor e de momentos AH MEU DEUS SE PEGUEM LOGO entre esses dois. btw, tô bem feliz com a resposta de vocês com a fic e a relação dos dois, que bom que tô conseguindo fazer algo direito, hahahaha.
Agoooooora, vamos todas concordar que só a Charlie mesmo pra negar o colo desse ser que é Jeremy Renner, como assim, guria? Agarra logo essa criatura, pelo amor de Odin!

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Beijos e até a próxima :)

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Outras fanfics
- 13. Take it Back [Ficstape Ed Sheeran]
- Babá por Acidente [Jeremy Renner/Em Andamento]
- Bullying [McFly/Finalizadas]
- Hello, Brooklyn [All Time Low/Em Andamento]
- I'll Never Say Goodbye [McFly/Shortfic]
- Norfolk [Especial All Around the World]
- Save the Fairies [Supernatural/Em Andamento]




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