CAPÍTULOS: [PRÓLOGO] [01] [02] [03]




Última atualização: 13/04/2017

Prólogo


A chuva de capelos começou logo que o orador escolhido pela turma soltou um grito de comemoração por finalmente terem chegado àquele momento. Sob os inúmeros capelos pretos, uma garota olhava para o céu completamente azul apreciando o momento tão esperado, ignorando o fato de ter se tornado uma piscina de suor sob aquela beca preta desconfortável. Ela recebeu os abraços de alguns colegas próximos, recebendo e dando os parabéns pela tão merecida formatura e para os planos do futuro, independentemente de quais fossem eles. Ela nunca fizera grandes amizades na faculdade, até tentara, mas no final a vida se dividiu entre estudos e o trabalho para se sustentar na grande cidade, e as amizades ficaram para os raros momentos de trabalhos em grupo.
Após recolher um capelo que ela julgou ser o seu, fez o caminho pela fileira de cadeiras até chegar ao final, ainda sorrindo e trocando congratulações com quem passasse por ela. Seus olhos estavam mais ocupados em procurar as três pessoas que havia convidado e de quem com certeza os parabéns interessariam mais. Não demorou para encontra-los sob uma árvore, aproveitando a sombra fresca que os protegia do sol do meio de tarde. De quem fora a ideia de fazer a entrega do diploma tão perto do meio-dia?
- Ai está nossa formanda! – Comemorou o rapaz, poucos anos mais novo que ela, recebendo-a de braços abertos para um abraço apertado. – Parabéns, !
- Obrigada, Ted! – Respondeu a moça, sorrindo para o irmão enquanto recebia um beijo no rosto. Logo depois se dirigiu às outras duas pessoas, recebendo um abraço duplo.
- Parabéns, querida, estamos orgulhos de você. – O homem, bem mais velho, disse.
- Muito orgulhosos. – A mulher reforçou, fazendo a mais nova rir, tentando conter as lágrimas.
- Obrigada, pai, mãe. – Disse ela, puxando o irmão para um abraço entre a família.
O grupo ainda permaneceu ali mais um tempo, tendo que dar meia-volta quando ouviram a recém-formada ser chamada por um homem mais velho, a moça se desculpou, entregando a beca e o capelo para a mãe segurar e andou até onde o homem estava, mantendo o sorriso educado.
- Senhorita , parabéns pela formatura.
- Obrigada, senhor Donnelly. – Respondeu a mulher, retribuindo o aperto de mão do professor.
- Gostaria de saber se podemos conversar sobre seu futuro aqui na universidade.
- Agora? – Perguntou .
- Se não tiver outros planos. – Ele olhou a família da mulher um pouco afastada. – Sua família?
- Sim, mas eles não vão se importar em esperar, não depois que souberem sobre o que se trata. – sorriu, virou para a família e fez um sinal indicando que eles esperassem. Ela e o professor se afastaram um pouco, o homem colocou as mãos nos bolsos e olhou para a ex-aluna.
- Eu li o seu projeto de pesquisa para o mestrado. – Começou ele. o olhava com atenção, as mãos se remexiam devido ao nervoso. – Você tem uma ótima visão, e é muito ousada, se me permite dizer.
- Ouvi muito isso durante a reta final do curso. – Disse a mulher, sorrindo sem graça.
- Espero que não de forma negativa. – O professor disse. – Se alguém lhe disse isso de forma negativa, saiba que pode ignorá-lo. – A mulher acenou, lembrando-se de alguns professores que haviam tentando fazer com que ela desistisse da visão que tinha para seu projeto final de pesquisa da graduação, e reforçavam a recomendação assim que ouviam a mulher falando que planejava dar continuidade ao projeto. – Eu gostei muito do seu projeto, a respeito por pensar fora da caixinha, como dizem por ai.
- Obrigada, senhor. – Disse ela, sentindo o coração batendo acelerado. O professor era seu favorito desde que tivera uma aula com ele no primeiro semestre, nos semestres seguintes, toda vez que tinha oportunidade ela tentava pegar outras disciplinas lecionadas por ele. – Isso significa muito vindo do senhor, acredite.
- Estou lisonjeado, senhorita . – O professor disse, inclinando a cabeça levemente como forma de agradecimento. – Então, eu gostaria de saber se a senhorita já tem planos para dar continuidade aos estudos.
- Bem, como o senhor sabe, eu entreguei meu projeto de pesquisa para o mestrado assim que foi possível, e gostaria muito de dar continuidade se fosse possível. O senhor é o primeiro que vem conversar comigo a respeito.
- Ótimo. – Disse o professor. – Como a senhorita sabe, eu trabalho no Laboratório de Processamento de Linguagem aqui da universidade, e seu projeto se encaixa perfeitamente com minha linha de pesquisa. Gostaria de saber se a senhorita teria interesse em integrar meu grupo de pesquisa para dar continuidade aos seus estudos e nos auxiliar a melhorar nosso próprio projeto.
não conseguiu esconder a surpresa, sentindo as mãos suarem e tremerem, além do coração batendo acelerado. Era seu sonho, desde que entrara na universidade e conhecera o professor e sua linha de pesquisa, entrar no grupo que ele mantinha, e ali estava ela, recebendo um convite pessoal para poder realizar seu mestrado como integrante do grupo. Se não estivesse frente a frente ao homem, a mulher com certeza daria gritos, pulos e choraria de alegria. Mas naquela situação, ela se limitou a sorrir e agradecer imensamente ao professor pela grande oportunidade, aceitando-a de pronto, sem considerar que talvez pudesse receber outros convites. Ela sabia que nenhum outro seria melhor que esse. O professor lhe entregou o cartão que continha seu e-mail e anotou as informações que deveria enviar para ele para oficializar o processo do mestrado. Logo depois se despediram, com a mulher esperando o professor sumir na multidão para ir correndo até os pais e irmão e lhes contar a grande novidade.
- Você nunca vai parar de me deixar orgulhoso? – Perguntou Ted, abraçando a irmã que, apesar de mais velha, era mais baixa que ele.
- Tenho que ser um bom exemplo para você. – Disse a mulher, o sorriso mal cabendo em seu rosto.
Enquanto saiam da área onde a cerimônia havia ocorrido, parou e virou de costas para o grupo, contemplando o prédio imponente onde havia passado boa parte de seus dias nos últimos quatro anos, e onde passaria os próximos dois anos. A mulher sorriu e permitiu que algumas lágrimas de felicidade escorressem, estava tudo ocorrendo perfeitamente como ela havia planejado.

Capítulo 1


Fazia apenas três meses que ela havia deixado aquele prédio, e agora ela estava de volta, agora com novos propósitos. parou no mesmo local onde havia ficado no dia de sua formatura e encarou o prédio, que naquele dia parecia confronta-la e desafiá-la. Bem, desafio aceito! Ela sorriu feliz e voltou a andar, entrando no prédio e seguindo para sua primeira aula do dia. Havia passado a noite inteira acordada, ansiosa por esse novo início. Muitas pessoas considerariam pesado mal se graduar e já começar o mestrado logo em seguida, mas não queria perder tempo. Ela queria continuar enquanto tudo o que havia aprendido continuava fresco em sua mente, enquanto ela sabia que podia fazer a diferença.
O começo do semestre era igual em qualquer local, independente do curso e do seu nível de graduação. Diversas pessoas andando de um lado para o outro, tentando se achar e se perdendo logo em seguida. Ela parou um pouco em um canto, observando aquela movimentação toda, se divertindo enquanto se lembrava de como fora sua primeira vez ali, como por um mês ela chegou atrasada em todas as aulas porque sempre se perdia e entrava em algum corredor errado. Não se deu muito tempo para contemplar aquele cenário, olhando o relógio e notando que sua primeira aula estava para começar. procurou o papel que continha todas suas aulas e horários, assim como as informações das salas e conferiu para onde tinha que se dirigir, seguindo seu caminho em seguida.
A diferença entre a graduação e o mestrado começava ao entrar na sala e ver que a quantidade de alunos era bem menor. O grupo daquela sala não passava de quinze alunos, ela constou quando entrou na sala, logo tomando seu lugar, esperando ansiosa para a entrada do professor. Cumprimentou rapidamente alguns colegas próximos e depois teve sua atenção roubada pela chegada do professor, se perdendo no assunto assim que o mesmo começou a explanar.

~ * ~


Ainda era cedo quando parou em frente ao Tower’s Caffe para mais um dia de trabalho. O local não era uma torre, mas costumava ficar em uma antes de se mudar para a atualização atual. A mulher bocejou, encostada à parede, esperando Ed chegar para abrir o estabelecimento e começarem mais um dia de trabalho. Se fosse um pouco mais tarde, ou se ela não tivesse tido apenas duas horas e meia de sono antes de ir trabalhar, ela não estranharia o atraso do patrão, que na opinião dela morava no local, pois era a única explicação para sua pontualidade. Seus olhos estavam quase se fechando quando ela viu o homem corpulento virando a esquina, parecia correr e já começara a se desculpar quando ainda faltava uma longa distância até ela.
- Bom dia, Ed. – Cumprimentou ela.
- Desculpe o atraso, . – Disse o homem, confundindo-se com as chaves no desespero para abrir a porta. se aproximou e tocou as mãos do homem, chamando sua atenção.
- Deixe que eu te ajudo. – Pediu ela, tirando o molho de chaves da mão do chefe e esperando ele se afastar para que pudesse abrir a porta. – Você é o chefe, não deveria pedir desculpas por se atrasar. Nem eu peço.
- Você nunca se atrasa, . – Observou Ed. Ele estava estranho, e a mulher percebia, mas conhecia o chefe há muito tempo para saber que ele falaria quando sentisse a necessidade, quando fosse o momento certo.
abriu a porta e deu espaço para Ed passar, entrando atrás dele logo em seguida, fechando a porta e virando o trinco apenas para garantir que ninguém tentaria entrar apesar do sinal de “fechado” ainda permanecer para a rua. olhou o relógio em seu pulso e confirmou que estavam levemente atrasados, mas nada que os preocuparia. Em silêncio, cada um foi para um canto, começando a tarefa diária de deixar as bebidas mais pedidas quase prontas e limpando o salão onde as mesas e cadeiras estavam distribuídas. Já era uma rotina tão bem estabelecida, que eles sequer perdiam tempo perguntando ao outro o que deveriam fazer. Bem diferente dos primeiros meses de trabalhando no local.
Ela havia encontrado o Tower’s no seu segundo semestre da faculdade, após um longo primeiro semestre entre muitas dificuldades pelo orçamento apertado. Na época, Ed ainda não precisava de ajudante, pois tinha uma vasta equipe, mas insistiu e provou nas primeiras semanas que era tudo o que o homem não sabia que precisava no local. Ed era um senhor já, calculava que tinha uns sessenta anos para mais, de pele escura, um grosso bigode, a careca sempre escondida por um chapéu, e a barriga proeminente criada com anos de cerveja e doces – a primeira ele já havia parado, mas os doces seriam seu eterno vício, como ele próprio dizia. Os dedos gordos ainda carregavam a aliança do casamento de quase trinta anos, apesar de sua esposa já não estar mais viva, vítima do câncer descoberto tarde demais. Ele tinha dois filhos, cada um em um canto do mundo, que voltavam à cidade natal em comemorações especiais como o aniversário do pai, e Natal. Ed falava bem dos filhos, eram seus maiores orgulhos, e nunca se sentia ressentido por não os ver mais vezes. Entendia que nem todo mundo conseguia viver no mesmo lugar toda sua vida.
O Tower’s havia surgido quando sua esposa ainda estava viva, era o maior sonho dos dois: ela era garçonete quando se conheceram, e ele trabalhava em uma construção e sempre ia almoçar no restaurante onde ela trabalhava. Sua mulher sempre tivera o sonho do restaurante próprio, e o café foi a forma do marido de presenteá-la, mesmo que não pudesse tê-lo aproveitado por tanto tempo quanto gostaria. Quando foi construído, o café ficava em um prédio empresarial, uma alta torre e com uma clientela fixa, sempre movimentado. Mas com a elevação do custo para permanecer no local, Ed resolveu sair e encontrou o local perfeito para seu negócio: próximo a uma faculdade, onde café era o elemento mais vital na vida daqueles estudantes, às vezes até mesmo mais que oxigênio. Após alguns meses ali, Ed resolvera ceder e expandira o negócio, após o happy hour, de quinta a domingo, o local se transformava em um pub, onde os estudantes iam para comemorar o fim de mais uma semana corrida. geralmente pegava os horários da manhã, raramente trabalhando no horário mais badalado, primeiro por não gostar, segundo por preferir aproveitar a folga para adiantar trabalhos ou relaxar no conforto do próprio lar, com uma taça de vinho, seus pijamas mais confortáveis, um filme ou uma série e seu sofá. Porém, vez ou outra a necessidade de um dinheiro extra vinha e ela cobria o turno de alguém que não pudera ir.
O ambiente tinha um estilo simples, a decoração escolhida a dedo pela mulher de Ed, que não era fã de muitas informações em um único lugar. As paredes mantinham a estrutura do lugar, com os tijolinhos aparentes, alguns quadros pendurados, e as mesas espalhadas pelo salão, com exceção das que eram coladas nas paredes, eram pequenas, para duas ou três pessoas, redondas; as que ficavam nas paredes eram grandes, com espaço para até seis pessoas, oito se alguém colocasse algumas cadeiras que estivesses sobrando pelo salão.
- Pronta para mais um dia? – Perguntou Ed, aproximando-se da porta para destrancá-la e virar a placa.
- Vamos lá. – Disse .
A rotina era tranquila, as manhãs e fins de tarde eram mais movimentados, os almoços eram os clientes habituais, que não tinham muito tempo para uma refeição mais demorada e se contentavam com os lanches que eram servidos no estabelecimento. conversava com os clientes recorrentes, sempre perguntando sobre a vida deles e suas rotinas, já habituada com as respostas: sempre na correria. Tinham aqueles que sempre perguntava o que tinha no cardápio apesar de sempre pedirem a mesma coisa; e os outros que toda semana perguntavam se tinha alguma novidade e quando ouviam a negativa, sugeriam que eles começassem a variar o cardápio para atrair mais clientela. Muitos reclamariam, se divertia. No período da manhã, o local enchia de pessoas mais velhas, que sentavam nas mesinhas e tomavam seus cafés ou chás com os biscoitos que eram oferecidos, vez ou outra se demorava mais limpando alguma mesa para poder ouvir as conversas.
Era aquela rotina todos os dias que trabalhava ali – o que eram praticamente todos os dias, com exceção de terças e quintas, quando ela tinha aula na faculdade. Era cansativo muitas vezes, principalmente por começar cedo, mas pagava o suficiente para ela manter o apartamento onde morava e ainda conseguir sobreviver sem precisar pedir ajuda dos pais. E ela gostava da experiência, e de Ed, principalmente quando o movimento estava lento e eles se sentavam para que o homem contasse alguma história de sua juventude ou de seu casamento.
- Você trabalha muito, mocinha, precisa descansar. – Dizia um cliente para ela. – Ed! Dê férias à moça! – Ele gritou para o chefe, fazendo rir.
- E Ed vai se virar como sem mim, senhor O’Neil? – Brincou , sentindo o olhar enfezado do chefe em suas costas. – Já trago seu café.
Aquilo acontecia todas as manhãs, ela sabia que Ed nunca ficava realmente bravo com ela. Aliás, ela não se lembrava de alguma vez vê-lo irritado com algo. Ed era o poço de calma e tranquilidade, sempre a acalmava quando a mulher começava a entrar em pânico pela quantidade absurda de atividades que acumulava na faculdade. Por isso, naquele dia em especial, a mulher se sentia mais tensa ao vê-lo tão atordoado com algo, não era comum Ed deixar que seus problemas interferissem no trabalho, ou permitir que algo o abalasse a ponto de se tornar perceptível para aqueles ao seu redor.
Foi só quando o horário do almoço passou e o movimento diminuiu consideravelmente, que conseguiu se sentar em um dos bancos espalhados pelo balcão, de frente para o homem e ficou a encará-lo, esperando que ele lhe desse atenção. Ela apoiou o cotovelo na superfície, e a cabeça na mão, observando Ed andando de um lado para o outro, certificando-se de que tudo estava limpo e no lugar, e que havia café pronto e quente caso surgisse algum cliente precisando desesperadamente de um copo. sabia que ele sabia que ela o observava, e sabia também que ele a ignorava de propósito, o que só a preocupava ainda mais.
- Ed! – Gemeu ela, chamando a atenção do homem, que ainda se recusava a olhar para ela. – Vai demorar quantas horas mais para você me contar o que está acontecendo?
- Não tem nada acontecendo, criança. – Respondeu o homem, seu tom não conseguindo disfarçar que era bem o oposto.
- Vamos tentar de novo? – Sugeriu a mulher, usando a mesma frase que ele costumava usar quando ela estava tensa e queria fingir que estava tudo bem. – Vou precisar elencar todas as provas que mostram que tem algo acontecendo e você está me escondendo algo?
- ... – Suspirou o homem, parando o que fazia e apoiando as mãos na pia atrás do balcão.
- Primeiro, você chegou atrasado. Sabe quantas vezes isso já aconteceu desde que eu trabalho aqui? Acertou se pensou nenhuma. Você é um funcionário mais modelo do que eu. – Comentou , vendo que faltava pouco para o homem desistir. – Segundo, você ainda não perguntou uma vez sobre meu mestrado esse mês, e olha que eu finalmente estou começando a ter novidades, depois de dois meses, os resultados estão chegando. – Ela suspirou. – Terceiro...
- , chega. – Disse Ed, finalmente olhando para ela. Seu semblante fez com que ela mudasse sua postura completamente, sentando-se ereta no banco e olhando para o homem, preocupação parecia exalar de seu corpo tão grande era o que ela sentia por ele. Nunca havia visto Ed daquele jeito, nem mesmo quando as contas vinham mais altas do que o costume.
- Ed, o que houve? – Perguntou ela, segurando as mãos do chefe quando ele se aproximou dela e colocou as mãos espalmadas no balcão. – Nunca te vi assim.
- Eu estava tentando evitar, . – Começou ele, os olhos castanhos brilhando com as lágrimas que começavam a se acumular. – Mas ontem eu tive a resposta final e não vou conseguir.
- Evitar o que, Ed? – sentia vontade de chorar só por vê-lo daquele jeito, o que quer que fosse, havia sido forte o suficiente para abalar o homem. Nem mesmo quando ele falava da esposa, e quando lhe contara sobre a doença e a morte dela, Ed parecia tão abalado.
- O Tower’s, , vai fechar. – A boca de se abriu e sua mente ficou em branco, como se tivesse dado pane. O homem chorava a sua frente e parte dela reconhecia que ele não era o único. Suas mãos permaneciam unidas, e não sabia quem apertava a mão do outro com mais força. – Eu sinto muito.
- Ed, não... – Disse a mulher, negando seu perdão, não havia necessidade daquilo.
- Eu tentei muito, mas as dívidas, os preços começaram a subir e o retorno não estava grande o suficiente, eu...
- Ed, está tudo bem. – Ela apoiou-se no banco que ocupava e ficou parcialmente por cima do balão, abraçando o homem, sentindo as lágrimas dele caírem em seu ombro.
- De todos que eu vou ter que demitir, você é a que mais dói. – Confessou o homem quando se afastaram. – Eu vou pagar todos os seus direitos e até um pouco mais, não vou te deixar na mão.
- Não se preocupe com isso, Ed. – Tranquilizou-o , apesar de se sentir aliviada por ouvir aquilo. – Quanto tempo temos aqui ainda?
- Tenho até o fim da próxima semana. – Revelou o homem. – Amanhã já vou dispensar o pessoal da noite. E aos poucos o resto também vai.
- Vai me deixar por último? – Brincou .
- Não queria te deixar ir. – Confessou Ed. – Será a semana mais longa da minha vida.
A semana foi longa não só para Ed, mas para , que tremia só de pensar em ficar desempregada. Apesar da garantia dos benefícios e do extra que Ed havia prometido pagar, ela sabia que aquilo não duraria muito e ela logo ficaria sem nada. O problema é que era fim de ano, e as vagas de emprego eram praticamente nulas àquela altura, até mesmo os empregos temporários para o natal já haviam se esgotado, e a mulher aos poucos começava a se desesperar. Ela chegou até mesmo a ligar para seu irmão na madrugada de sábado para domingo, finalmente contando para alguém o que estava acontecendo. Ted fora brilhante em acalmá-la, e aproveitou a madrugada e o resto do domingo à procura de ofertas de emprego e enviando currículo quando achava uma que cabia no que ela podia fazer. Ligar para os pais pedindo ajuda não era uma opção, ainda.
E o que estava mal ficou ainda pior quando ela recebeu uma carta de notificação do dono do apartamento, informando-a do novo preço do aluguel. Valor esse que não tinha, e que nem mesmo se esperasse o dinheiro de Ed, lhe ajudaria, pois iria embora mais da metade para o aluguel e ela não teria como sobreviver. A sua última chance foi uma tentativa de conseguir um alojamento no campus da faculdade, mas a mulher, simpática demais para o ânimo em que se encontrava, lhe informara que o prazo já havia acabado e que não havia uma vaga sequer no mais remoto prédio da área dos alojamentos, aguentou todo o caminho da faculdade até em casa para se permitir chorar como vinha se controlando desde que as notícias ruins começaram a chegar. A avalanche parecia aumentar cada vez mais, e ela se perguntava no meio das noites mal dormidas o que havia feito para merecer aquele tipo de castigo.
No último dia no Tower’s, Ed não conseguia disfarçar a tristeza, muito menos os clientes que haviam reclamado ao verem o anúncio do fechamento do local, comentando que demorariam a encontrar outro local tão bom quanto aquele, que oferecia a eles tudo o que era essencial em um café: a bebida, os lanches de acompanhamento e o conforto.
- Aqui está tudo o que eu posso te pagar. – Ed lhe entregou um envelope com o cheque no valor que ela não esperava, havia feito as contas por cima de quanto o homem devia lhe pagar, mas não esperava que o bônus seria tão alto. Ela gostaria que fosse o suficiente para seu aluguel. Não havia contado a Ed, que interpretou seu humor na última semana como tensão por encarar o desemprego. – Você também vai receber o seguro, então pode ficar confortável por um tempo.
- Obrigada, Ed. – Disse ela, abraçando o homem, fechando os olhos ao senti-lo retribuir, lágrimas voltando a escorrer em ambos os rostos.
- Estude, mocinha. – Falou Ed quando se afastaram. – Quero ler seus nomes naqueles livros chiques de linguística das livrarias.
- Pode deixar. – Garantiu , sorrindo para o homem. – Te mandarei um cartão no seu aniversário. E todos os livros que eu escrever.
- Vou ficar esperando.
esperou enquanto o homem trancava a porta do estabelecimento pela última vez, no dia seguinte a empresa de mudança viria ali para recolher os móveis que Ed venderia. Ao dar a última volta na fechadura, os dois se olharam e se abraçaram pela última vez. sabia que ainda poderia manter contato com o homem, falar que mandaria os cartões de aniversário era uma forma de garantir esse contato, mas não conseguia evitar de se sentir devastada por aquele fim. Ao se separarem, cada um virou para um lado e seguiram seu caminho, Ed ainda parou para observar enquanto se afastava, o coração partido pelos últimos acontecimentos, sabendo que havia ali uma garota de ouro, que era a filha que ele e sua esposa sempre quiseram ter.
- Boa sorte, . – Disse o homem, antes de voltar a seguir seu caminho.

~ * ~


Já era tarde da noite e não parava de atualizar seu e-mail, esperando alguma resposta. Havia trabalhos para fazer, leituras para colocar em dia, mas seu cérebro não conseguia focar em nada por mais de três minutos. Ela estava frustrada pela demora em receber uma resposta. Sabia que era fim de ano e muitas empresas deixavam para divulgar vagas novas no começo do ano seguinte, mas algumas haviam anunciado antes, elas deveriam já ter respondido. Não era possível que seu currículo era tão ruim a ponto de eles nem se darem ao trabalho de mandar uma resposta negativa para ela. Frustrada, a mulher suspirou e pegou o celular, olhando o relógio e fazendo as contas para calcular o fuso horário. O dia começava a amanhecer em Berlim, ela sabia que seria xingada, mas não se importava, só havia uma única pessoa com quem ela poderia conversar naquele momento.
- Você tem alguma ideia de que horas são? – Ted a atendeu do outro lado.
- Aqui ainda não é nem meia-noite. – Respondeu ela.
- Você me acordou uma hora antes do meu despertador, , que tipo de pessoa faz isso? – O irmão reclamou.
- O tipo de pessoa que precisa de outra para acalmá-la. – Disse ela. – Você sabe que eu não ligaria se não fosse necessário.
- Sim, eu sei. – Ted concordou, suspirando. Nem ele vinha conseguindo dormir muito desde que a irmã lhe contara sobre as novidades nem tão boas. – O que está rolando?
- Esse é o problema, nada! – Ela reclamou, batendo na mesa. – Nada está rolando.
- Nenhuma resposta?
- Nenhuma. Nem um mísero “sinto muito, você não tem o suficiente para preencher nossa vaga” eu mereço, aparentemente. – Ela dramatizou, fazendo o irmão rir. Era típico da , sempre fazer um teatro extra para tentar mascarar o caos da situação. – Não ria.
- Desculpe. – Pediu Ted, respirando fundo e esperando o momento em que ela resolvesse soltar o que realmente estava em sua mente. se levantou, cansada de encarar o computador e não ver nada novo, a tela já até havia ficado preta por ela não ter mexido em mais nada nos últimos minutos.
- Eu não sei mais o que fazer, Ted! Meu prazo já está acabando e nada! – disse, afundando-se no sofá e olhando ao redor, o apartamento ainda intacto, nem parecia que teria que sair dali em uma semana caso não conseguisse alguma resposta.
- , você precisa se acalmar. – O irmão suspirou do outro lado do telefone. – Não vai adiantar nada se desesperar.
- Vai me dizer que não estaria desesperado se fosse o oposto? – Perguntou a mulher, encarando o teto e imaginando o rosto do irmão nele, conseguiu até mesmo vê-lo revirar os olhos.
- Pelo menos você está mais perto do pai e da mãe do que eu. – Respondeu ele, sabendo que não havia ajudado em nada. – Não vai mesmo ligar para eles?
- E dizer o que, Ted? – resmungou. – Passei tantos anos convencendo-os de que eu ficaria bem escolhendo esse curso e o que eu consegui até agora?
- Seu mestrado. Convite exclusivo.
- De que adianta um convite exclusivo se eu não vou poder aproveitá-lo?
- Não diga isso, . – O irmão a repreendeu. – Não é do seu feitio se desesperar assim.
- Eu acho que consegui me segurar bem até agora. – A mulher ponderou, considerando que a única noite completamente acordada que tivera desde que recebera o aviso do fechamento do Tower’s e a notificação de que ela tinha um mês para sair do apartamento caso não pagasse o aluguel novo chegara, foi na noite anterior, quando ela teve seu primeiro ataque de pânico em muito tempo. – Só comecei a me desesperar mesmo ontem.
- Ataque de pânico? – Pela primeira vez a voz de Ted mostrava preocupação.
- Sim. – Respondeu , logo tratando de tranquilizar o irmão. – Mas não precisa se preocupar, não foi nada como das outras vezes.
- , agora é tarde demais. – Disse ele, a mulher suspirou. – Você precisa deles.
- Ted, ainda não. – Disse , se levantando para ir até a cozinha pegar uma garrafa de água. – Não é o momento certo.
- Não há um momento certo, ! – O irmão disse, suspirando frustrado com a teimosia da mais velha. – Quando será? Quando você aparecer na porta deles com todas as suas malas, lágrimas e a notícia de que foi despedida, despejada e vai perder o mestrado?
- Uau, Ted! Não pegue leve mesmo. – Respondeu a mulher, sentindo os olhos lacrimejarem após a bomba de realidade jogada pelo irmão.
- Desculpe, , mas você sabe que eu estou certo. – Ted respondeu. – Papai não vai se importar de te ajudar por um tempo.
- Ted, eles já gastam tanto para te ajudar, não posso pedir isso a eles. – passou a mão no cabelo, encarando o calendário preso na parede da cozinha, o marcador vermelho circulando seu último dia antes da despedida de tudo o que havia conquistado nos últimos anos. – E nem venha me dizer que pode pausar os seus estudos por um tempo. Você não é como eu e escolheu algo cujo futuro é incerto, você tem algo concreto e que dará um bom retorno. – Adiantou ela, sabendo que o irmão usaria aquela jogada em algum momento.
- Você já me fez prometer isso em nossa última conversa, , e suas ameaças foram bem convincentes. – Observou o irmão, fazendo a mulher rir.
suspirou, olhando o calendário e perceber como aquele futuro estava cada vez mais próximo só fez aumentar o aperto que vinha sentindo em seu peito, mas que ela vinha ignorando. O irmão estava certo, ela precisava de ajuda, precisava deixar o orgulho de lado e recorrer aos pais, mas ela e Ted sabiam que ela não o faria, e ainda provavelmente apareceria na casa dos pais com todas as malas e alguma desculpa ridícula que não entregasse seu fracasso. Eles não se importariam por ouvir tudo o que a filha havia perdido, mas ela sabia que os decepcionaria, principalmente após ter lutado tanto para chegar até onde estava.
- ? – Ted quebrou o silêncio entre eles, chamando a atenção da irmã.
- Sim?
- Vai ficar tudo bem. – Disse ele, e sua voz conseguiu trazer toda a calma que precisava. Ela até mesmo começou a agradecer o irmão, mas sua atenção foi desviada pelo som de um novo e-mail chegando em sua caixa de entrada. Ela olhou para o computador, não poderia ser, podia?
- Eu sei que você já quer desligar – riu a mulher – mas chegou e-mail novo, pode esperar um pouco?
- Claro. Estou aqui pelo tempo que precisar. – Respondeu Ted, mesmo com a mulher sabendo que não era bem assim. Ela saiu do lugar onde estava quase criando raízes na cozinha e foi até a mesinha onde seu notebook estava, sentando-se e fazendo-o sair da tela de proteção. Sua respiração ficou suspensa quando ela viu que um de seus e-mails havia sido respondido.
- Ted, eu tenho uma resposta. – Disse ela, os dedos tremendo enquanto ela deslizava o cursor até a nova mensagem para ver o que havia esperando por ela.
- Lembre-se, vai ficar tudo bem. – Ted disse, sentindo-se tão tenso quanto a irmã, apesar de fazer muito esforço para não demonstrar.
- Abrindo... – Narrou , clicando na mensagem e esperando enquanto ela abria. – Prezada senhorita , informamos que recebemos sua mensagem e temos interesse em marcar uma entrevista... Ah meu deus, Ted! – A mulher soltou um grito, não conseguindo focar no resto da mensagem. – Ted, eu consegui! Meu deus! Eu não vou embora. – começou a rir enquanto algumas lágrimas escorriam, do outro lado da linha ela conseguia ouvir o irmão comemorando junto com ela.
- Eu disse que você ia conseguir! – O mais novo dizia, sua voz ficando rouca pelos gritos que ele deu. sentiu muito pelos vizinhos do irmão. – Eu disse que ia dar tudo certo, ! Não era possível que você tivesse feito algo tão ruim para o universo te recompensar com essa maré de azar toda. Então, qual vaga que é?
- Aquela de assistente pessoal. – Respondeu a mulher, se controlando e voltando a ler o resto do e-mail. – Procuram alguém com disponibilidade para início imediato e querem marcar uma entrevista amanhã.
- Responda logo! – Ted disse, não conseguindo parar de pular pelo seu próprio apartamento.
- Calma, eu preciso parar de chorar e tremer primeiro. – A mulher disse. encostou o cotovelo na mesa e apoiou o queixo na mão, encarando a mensagem e sentindo as lágrimas aumentarem de intensidade, seu soluço foi o suficiente para parar o irmão do outro lado, que esperou, sabendo que aquele era o momento em que as informações começavam a serem processadas na cabeça da irmã. – Eu não vou precisar ir embora, Ted. – Disse , entre lágrimas, soltando uma risada depois. – Vai dar tudo certo.
- Sim, vai. – Confirmou o irmão, não contendo suas próprias lágrimas. – Vai ficar tudo bem, , mas você precisa responder esse e-mail antes.
- Eu sei, eu vou. – Disse a mulher, passando a mão no rosto para enxugar as lágrimas. Talvez não conseguisse manter o apartamento, mas sabia que conseguiria algo assim que tivesse a confirmação da vaga de emprego. – Obrigada, Ted.
- Sempre que precisar, . – Disse Ted, os dois encerrando a ligação logo em seguida.
suspirou, passando novamente as mãos no rosto para enxugar as lágrimas que ainda insistiam em cair, respirou o fundo, sentindo o coração bater mais leve. Leu toda a mensagem novamente, percebendo que haviam mais informações agora do que no anúncio ao qual ela havia respondido na mensagem anterior. Eles prometiam um bom salário, além de auxílio residência – item que não conseguiu entender muito bem, mas sabia que eles explicariam durante a entrevista caso ela passasse – entre outros benefícios. Parecia bom demais para a vaga de assistente pessoal, mas ela não reclamaria. Havia pesquisado a agência que havia anunciado a vaga e eles pareciam legítimos, ela não entraria em nenhum esquema que colocaria sua vida em perigo. Respirou fundo mais uma vez, ajeitou-se na cadeira e começou a digitar a resposta, agradecendo a oportunidade e confirmando a entrevista no horário sugerido. Iria até mesmo às quatro da manhã se eles pedissem. Clicou no enviar e sorriu quando ouviu o barulho de mensagem enviada. Provavelmente passaria mais uma noite em claro, mas seria por um bom motivo dessa vez.
- Vai ficar tudo bem. – Murmurou ela, olhando a foto em seu fundo de tela do notebook, ela com os pais e o irmão no dia da formatura, tirada por um colega que passava por eles. – Vai dar tudo certo.

Capítulo 2


Faltava uma hora para sua entrevista, mas já estava entrando no lobby do prédio, identificando-se e logo depois entrando no elevador para subir até o sexto andar. Ela até conseguira dormir à noite, mas a ansiedade – ou algum castigo enviado por seu irmão – fez com que ela acordasse uma hora antes do despertador tocar e não conseguiu voltar a dormir. Resolveu aproveitar para se preparar para a entrevista, tinha que se sair bem, não poderia se dar ao luxo de perder a vaga. Com calma, ela tomou café da manhã enquanto lia um pouco sobre a agência que havia feito o contato, pesquisando também sobre as principais atividades que uma assistente pessoal fazia. Organizada, comunicativa, simpática... Eram algumas das características que ela julgava possuir, podia não ter uma longa lista de amigos, mas conseguia se virar se fosse necessário.
Após o café da manhã, ela tomou um longo banho para tentar relaxar, conseguindo algum efeito, aproveitou até mesmo para lavar o cabelo. Qualquer coisa que a ajudasse a conseguir passar uma boa impressão. Em frente ao espelho, ela ensaiou algumas possibilidades de caminho que a entrevista poderia seguir, respondendo perguntas hipotéticas e praticando um discurso que resumisse sua pessoa e sua experiência profissional. Ela não gostou de nada, tudo parecia falso, mas até que soou divertido. Se fosse recusada, pelo menos poderia ter certeza que seus empregadores ririam bastante. Quando terminou de se arrumar, ainda faltava uma hora e meia para a entrevista, e ela sabia que era um bom tempo, já que o local não ficava longe. Mas sua ansiedade não a deixaria ficar parada, preferiria aparecer uma hora antes a aparecer em cima da hora. As primeiras impressões começavam na chegada.
saiu do elevador e encarou o logo com o nome da agência, a moça na recepção desviando a atenção do computador para olhar para ela, o sorriso simpático padrão de toda recepcionista já colado nos lábios. falou sobre sua entrevista e logo depois a mulher indicava o caminho que deveria seguir até a sala de espera, que mais parecia a sala de espera de um consultório, de tão branca e limpa que era. Havia algumas poltronas espalhadas pelo local, e ocupou uma próxima a janela, se distraindo um pouco com a paisagem antes de pegar uma revista e começar a folhear. Ou aquela hora passou muito rápido, ou a entrevistadora também tinha pressa e queria acabar logo aquilo, porque não muito tempo depois de ter sentado, alguém veio chama-la.
- Senhorita ? – A moça sorriu para ela, vendo levantar e se aproximar, estendendo a mão para a outra. – Prazer em conhecê-la, por favor, me acompanhe.
Elas seguiram por um corredor que possuía algumas revistas emolduradas penduradas, estranhou um pouco, de repente não se lembrando de mais nada do que havia lido sobre a agência, parecia que seu cérebro havia ativado o modo “prova” e esquecido tudo. Suas mãos suando eram a confirmação do desespero que começava a surgir nela. respirou fundo algumas vezes enquanto seguia a mulher, agradecendo pelo silêncio entre elas. Finalmente chegaram ao escritório, e ocupou a poltrona em frente à mesa, vendo quando a moça ocupou a outra em frente a ela. Ao contrário da sala e dos corredores, aquela sala possuía mais cor, talvez fosse pelas estantes espalhadas pelo cômodo, e pelos quadros pendurados, aquilo ajudava a diminuir o impacto das paredes brancas. A moça puxou uma folha, que reconheceu como seu currículo, leu por um momento e depois olhou para a candidata.
- Senhorita , sou Amber, já disse e repito, é um prazer conhece-la. – Ela sorria e parecia simpático, ao contrário da moça da recepção.
- Pode me chamar de . – Respondeu a outra, engolindo em seco.
- Gostaria de um pouco de água? – Ofereceu Amber, apontando para a jarra que havia em um canto. – Não precisa ficar nervosa, apesar de eu dizer isso talvez possa piorar a situação um pouco.
- Um pouco. – Concordou , forçando um sorriso. – Acho que aceito a água.
- Muito bem. – Amber se levantou, ela não parecia ser mais velha que , e por um momento a moça a invejou, tão nova e já tão feliz com a própria vida. Se não estivesse, pelo menos fingia muito bem. – Aqui está.
- Obrigada. – Disse, pegando o copo e bebendo um gole da água, que foi muito bem recebida.
- Certo, ... – Começou Amber. – Vou ser sincera, essa entrevista na verdade é só uma formalidade, regras da empresa. Não podemos passar alguém adiante sem antes nos certificar de que ela se encaixa, mesmo que pelo currículo tenhamos certeza que sim.
- Passar alguém adiante? – Perguntou , ficando confusa.
- A assistente pessoal não é para nós... É para alguém que é nosso cliente. – Explicou Amber. – Prestamos assessoria para algumas empresas e pessoas públicas, e ficamos responsáveis às vezes por encontrar assistentes pessoais para essas pessoas.
- Ah, certo. – Concordou , lembrando-se vagamente de ter lido algo a respeito. – Peço desculpas, eu pesquisei a empresa, mas parece que estou diante uma prova da faculdade e esqueci tudo. – Amber riu.
- Acontece. – Amber a tranquilizou. – Já que falou em faculdade, aqui no seu currículo diz que você está fazendo mestrado, é isso mesmo? – Perguntou Amber, vendo concordar. – E como está sua disponibilidade de horários? Isso é o ponto mais crucial nessa conversa.
- Eu tenho aulas às terças e quintas, mas se for necessário, posso mudar. – Garantiu , sem nem ter ideia se poderia mudar isso mesmo.
- Acredito que não será um problema, achei que você estivesse com uma agenda mais cheia. – Esclareceu Amber, voltando a consultar o currículo. – Seu último emprego, o que aconteceu? Por que saiu de lá?
- Eu trabalhava em um café e infelizmente o dono teve que fechar. – Explicou . – Foi ele quem escreveu a carta de recomendação, aliás.
- Sim, suspeitei... Uma ótima carta, aliás, ele parecia gostar muito de você.
- Era mútuo. – sorriu ao se lembrar de Ed. – Acho que se a situação não estivesse tão complicada, ele não teria fechado o café só para não ter que me demitir.
- Eu sinto muito por ter acabado assim. – Amber parecia sincera, e agradeceu. – Você sabe dirigir?
- Sim.
- Como é sua relação com as pessoas em geral?
- Acredito que seja boa. Se for para saber como seria uma dinâmica em grupo, eu não vejo problemas em trabalho em equipe se for necessário. – Explicou .
- Esse trabalho exige discrição, acha que se encaixa?
- Não gosto de holofotes, se é isso que quer saber. – Respondeu. – Eu faço o que for necessário, com ou sem reconhecimento.
- Perfeito. – Amber moveu a cabeça, mordendo o lábio inferior por um tempo e depois analisando . – Como você age sob pressão?
- Considerando que eu acabei de perder meu emprego, estou a dias de ser despejada por não ter dinheiro para pagar o aluguel, e ainda não liguei para meus pais chorando e contando o desastre que minha vida está... E ainda estou indo para as aulas e consigo assimilar o que está acontecendo, eu acho que consigo lidar bem com pressão. Talvez uma noite mal dormida vez ou outra, mas não afeta meu trabalho.
- Você está sem lugar para morar? – Amber perguntou.
- Isso é um problema? – começou a entrar em pânico.
- Não, nenhum, na verdade é perfeito. – Amber sorriu, tentando tranquilizar a mulher. – A vaga inclui a moradia.
- Eu vi que vocês ofereciam auxílio residência, não consegui entender o que isso queria dizer. – Confessou , não sabendo como se sentir em relação ao sorriso de lado que Amber havia dado.
- Você irá trabalhar na casa do nosso cliente, há um quarto para você com toda a estrutura necessária. E você poderá se mudar para lá assim que conhecê-lo e ele te aprovar.
- Ok... – disse, voltando a ficar nervosa, teria que passar por aquilo novamente?
- Não precisa ficar assustada, o senhor Renner é uma pessoa tranquila, até hoje não vi ele recusando ninguém. – Amber disse, pegando um pedaço de papel e uma caneta. – Este é o endereço, hoje ele não está disponível, mas amanhã a agenda dele está livre até o almoço, então você pode ir até lá pela manhã?
- Eu... Claro, posso. – Disse , nem mesmo considerando que tinha aula no dia seguinte, uma falta não faria mal.
- Às dez? – Amber perguntou, sorrindo quando confirmou. – Muito bem, avisarei ao senhor Renner que você estará lá.
- Desculpe... Senhor Renner? – Perguntou , balançando a cabeça, tentando voltar a focar no que acontecia.
- Sim, Jeremy Renner. – Disse Amber, sorrindo enquanto estendia o papel com o endereço e o horário que ela deveria estar lá.
- Jeremy Renner... – Ela conhecia aquele nome, seus olhos se arregalaram quando ela se lembrou. – O ator?
- O próprio. – Amber confirmou, tinha começado a se levantar, mas logo depois voltou a se sentar. – Está tudo bem?
- Sim, eu só... Eu vou ser assistente pessoal de um ator? – perguntou, pela primeira vez começando a se questionar se aquela era uma boa ideia e se não seria melhor ela recorrer aos pais até achar algo.
- Não precisa ficar assustada. – Disse Amber, tentando tranquilizar . – Como eu disse, o senhor Renner é muito tranquilo e calmo, e nunca teve qualquer problema com as pessoas que trabalham com ele. E se você é metade do que eu acredito que seja, garanto que vocês se darão muito bem.
- Eu não sei...
- , eu sei que acabamos de nos conhecer, mas pode confiar em mim... Não te aprovaria para conhecê-lo se não acreditasse que você pode dar conta.
não estava convencida, muito menos mais calma, mas concordou e finalmente pegou o papel que Amber havia lhe estendido. Agradeceu a mulher pela entrevista e pela oportunidade, e saiu do escritório, suas mãos tremiam e ela sentia que seu joelho iria ceder a qualquer momento. Agradeceu pelo elevador chegar tão rápido e se escorou na parede do mesmo, agradecendo por ele não ter parado em nenhum outro andar. Ela fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes. Em sua cabeça só rodava o novo título que carregaria caso fosse aprovada na entrevista final: assistente pessoal de um ator que estava no auge pelos recentes personagens que havia interpretado. Ela daria risada se alguém próximo lhe dissesse isso, achando impossível aquilo acontecer. Mas era com ela, e ela riu mesmo assim, porque a alternativa seria chorar com o desespero. As perguntas feitas durante a entrevista com Amber fazendo mais sentido: ela gostava de holofotes? Ela era discreta? Organizada? Claro, porque aquele homem deveria ter mil compromissos. Como lidaria bem sob pressão? Ela engoliu em seco só de imaginar perder algum prazo que o ator tivesse para cumprir e algo acabar dando muito errado.
- Senhora? – Ela ouviu alguém perguntar, chamando sua atenção. viu um senhor simpático parado no elevador. – A senhora está bem?
- Sim, estou, obrigada. – Ela sorriu agradecida, conferindo que já estava no térreo e deveria sair do elevador. – Tenha um bom dia.
Ela precisava ligar para Ted, precisava do irmão a tranquilizando o suficiente para que ela pudesse pelo menos conseguir ficar bem para aguentar a segunda entrevista. Mas Ted não poderia saber, ele era louco pelos filmes que o ator havia feito, capaz de voar de Berlim até Los Angeles só para levar pessoalmente à entrevista. Ele era o motivo da mulher reconhecer aquele nome, Ted a fazia assistir todos os filmes quando vinha para casa passar um tempo, principalmente quando lançava um novo e ele dizia que deveriam assistir tudo para que não ficasse fazendo perguntas no meio do filme. Naquele momento ela se arrependeu pela primeira vez em muito tempo não ter mais amigos, por confiar que Ted bastaria para suprir aquele espaço. E ela não poderia recorrer a Ed, imaginando a quantidade de coisas que o homem tinha para resolver ainda. Só restava ela se autoconsolando aquela noite. Ela precisava de sorvete.

~ * ~


Eram quase dez horas quando se viu diante o portão de entrada da sua provável nova moradia. Suas mãos estavam tão molhadas que parecia que ela havia acabado de lavá-las, mas era puro suor, e sua respiração estava ofegante. Diferente do dia anterior, em que ela conseguira dormir tranquilamente antes da entrevista, desta vez ela tivera um sono perturbado, imaginando diversas possibilidades que aquele novo emprego poderia dar errado. Ela encostou-se no portão e respirou fundo, tinha que se acalmar, era só um emprego, ela conseguia. Também não sabia ser garçonete quando começou a trabalhar no Tower’s, mas conseguira, não foi? Então, dessa vez não seria diferente. Ela se endireitou, arrumou a roupa e passou a mão no cabelo preso em um rabo de cavalo, e então tocou a campainha, logo depois ouvindo o portão ser aberto automaticamente. o empurrou e entrou, deixando o portão se fechar atrás dela. A casa era cercada por um grande gramado, à frente haviam algumas flores e até uma árvore com um balanço que não parecia nada confiável; à direita havia a entrada de carros com dois carros estacionados na grama; à esquerda a árvore e um grande espaço livre.
Sua atenção foi roubada pela porta que se abrira, e de lá saia um homem alguns centímetros mais alto que ela, o cabelo curto levemente espetado, provavelmente sem ter conhecimento de um pente, um sorriso simpático e os olhos azuis que transmitiram calma para a mulher. Ele usava uma calça jeans de lavagem escura e uma camisa social, com as mangas dobradas até os cotovelos. Enquanto ele se aproximava, continuou repetindo os exercícios de respiração que vira em alguns vídeos de meditação, sentindo que as batidas de seu coração iam se normalizando, de forma que ela já estava praticamente normal quando ele se aproximou, estendendo a mão para cumprimenta-la, esfregou a mão na calça rapidamente e aceitou a mão estendida, sorrindo para o homem.
- Olá, prazer, sou o Jeremy. – Disse ele, sua voz rouca tendo efeito imediato para acalmá-la.
- Eu se... – Começou ela, mas logo parou, achando aquilo extremamente desnecessário. – .
- Ouvi falar muito bem de você. – Jeremy começou a dizer, indicando para que ela o seguisse para dentro de casa. – Por favor, ignore a bagunça, não é fácil ter uma casa arrumada quando se tem uma filha de três anos, você vai perceber isso logo. – Espera, ele tinha uma filha? franziu o cenho, voltando ao normal quando ele virou o rosto para ela. – E isso porque ela ainda nem está em casa, imagine quando chegar.
sorriu simpática, ainda assimilando as informações, ninguém falara nada de filha. O pensamento logo sumindo quando eles entraram e ela parou para apreciar o interior da casa. Se tinha uma coisa pela qual era apaixonada, era ver a casa das pessoas por dentro, algo que ela nunca compartilhava com as pessoas por achar que pareceria muito estranha. Logo de entrada havia um pequeno corredor, com um pequeno espaço onde os sapatos ficavam acomodados, e os casacos eram pendurados. Seguindo pelo corredor, eles paravam no ponto exato do meio do grande cômodo que ficava a sala de jantar e sala de estar. Esta era bem espaçosa, com um tapete que parecia muito confortável no chão, assim como o grande sofá que formava um “L”, próxima à janela que dava para o jardim, havia uma poltrona; do lado tinha um grande móvel com uma coleção considerável de DVDs e uma grande televisão de tela plana. gostou, já se imaginando assistindo diversos filmes nos seus dias de folga, sem nem mesmo saber se poderia fazer uso daquilo tudo. Do outro lado, a sala de jantar possuía uma grande mesa com oito cadeiras, num canto havia um móvel que funcionava como minibar, repleto das mais variadas garrafas e copos. Um balcão, com algumas banquetas espalhadas no lado da sala de jantar, servia como limite entre a sala de jantar e a cozinha, que parecia bem grande de onde estava, o que a alegrou também.
- Você está com uma cara engraçada. – Comentou Jeremy, chamando a atenção de , que olhava para a cozinha já imaginando as coisas que poderia fazer ali.
- Desculpe. – Disse ela, sorrindo envergonhada.
- Bem, como você pode ver, essa é a sala de estar e a de jantar... Não usamos muito a sala de jantar, só quando acontece alguma reunião familiar, e essas não são muito frequentes. – Explicou Jeremy. – E, sim, você terá total acesso a tudo, fique à vontade, será sua casa também.
- Você fala como se eu já estivesse contratada. – Comentou , enquanto o acompanhava até a cozinha.
- Como eu disse antes, ouvi falar muito bem de você. – O ator virou-se para ela e sorriu. se sentiu levemente desconcertada com aquele sorriso, mesmo sem saber o porquê. – E essa é a cozinha.
- Uau. – Disse ela, não conseguindo disfarçar a surpresa e agradecendo por ter algo para distraí-la do pensamento anterior. A cozinha possuía uma ilha no meio, em duas paredes havia um armário do chão ao teto, com a geladeira encaixada em um espaço bem planejado, e nas demais paredes havia um longo balcão, com a pia no centro, e o fogão em uma extremidade. não conseguiu disfarçar a felicidade.
- Você parece ter gostado.
- Eu gosto de cozinhar. – Disse ela, se sentindo levemente estúpida, mas se tranquilizando ao ver o ator rindo.
- Eu também. – Concordou ele, logo depois chamando-a para conhecer o resto da casa.
Saindo da cozinha, virando à esquerda, como se fosse para a sala de estar, havia um corredor que levava aos quartos, ao escritório, e à porta que levava à lavanderia e ao jardim que rodeava a casa. O primeiro quarto era o de Ava, que descobriu ser a filha do ator, e este era o sonho de toda criança apaixonada por princesas e bonecas. Ele era pintado de um cor-de-rosa bem suave, em uma parede ficava a cama e ao lado a grande casa de bonecas, na cama os mais diversos tipos de bichos de pelúcia, assim como nas prateleiras espalhadas pelas paredes. A maioria eram elefantes, e Jeremy logo confirmou que era o animal favorito da criança, além de fadas e unicórnios. também notou a prateleira cheia de figuras de ação dos Vingadores, e gostou de saber que Ava misturava os universos, Ted ficaria horrorizado.
Em frente ao quarto de Ava, ficava o de Jeremy, que não chegou a conhecer e achou justo, seguiram mais um pouco para o cômodo ao lado do quarto da criança, que era o escritório. Havia uma larga mesa de uma ponta a outra em frente à janela; em uma ponta já havia um computador, e a outra estava vazia, com Jeremy explicando que seria o espaço dela. Havia alguns nichos presos na parede, em alguns havia prêmios que ela não reconheceu, e em outros, pastas das mais diversas cores com coisas como roteiros que ele havia recebido e precisava ler, contratos que ele tinha com empresas, entre outras diversas coisas mais burocráticas, que julgou que ficaria por dentro com o tempo.
- E aqui é seu espaço. – Disse Jeremy quando chegaram à última porta do corredor, ela gostou do que viu, apesar de ainda sorrir pela confiança do ator de que ela realmente ficaria com aquela vaga. O quarto era grande, e ela gostou de saber que era uma suíte, havia visto um banheiro entre o quarto de Ava e o escritório e julgou que aquele era o que a menina usava, e ela o usaria também. Havia uma cama e um grande guarda-roupas, além de uma escrivaninha e algumas prateleiras. – Costumava ser o quarto de visitas, mas quando Ava nasceu tive que fazer algumas mudanças. – estranhou aquilo, mas antes que pudesse perguntar o motivo, o ator já a puxava para conhecer a área externa.
O jardim ali atrás era mais impressionante que o da frente, mais bem cuidado também. Havia um deque de madeira antes de chegarem à grama em si. Em um canto havia uma mesa daquelas que geralmente se vê em acampamentos, perto de uma churrasqueira; do outro havia um grande canteiro com várias flores ainda germinando, e outra árvore com outro balanço de madeira, esse mais novo que o da frente. Jeremy a convidou para ocuparem a mesinha no jardim para conversarem o que faltava ser discutido ainda. Jeremy fez diversas perguntas, algumas que Amber já havia feito no dia anterior, e outras que eram novas e completamente inusitadas: como o que ela achava de crianças e como ela se relacionava com elas. ficou confusa, mas respondeu, concluindo que a filha dele deveria viver com ele e Jeremy poderia achar que isso seria algum problema para a mulher. Depois o ator a questionou sobre horários e organização para mantê-los; questionou sobre sua faculdade e ficou surpreso ao ouvi-la dizer que estava no mestrado de Linguística.
- Fiz um filme uma vez que envolvia uma linguista. – Observou ele.
- Eu sei. – Soltou sem nem pensar. – Tive que assistir para uma aula. – Acrescentou logo em seguida, sentindo o rosto esquentando.
- Você gostou? – Perguntou Jeremy.
- Tenho a impressão que minha resposta pode influenciar algo. – Brincou ela, vendo o ator abaixar a cabeça enquanto ria.
- Prometo que isso não mudará nada, pode falar que odiou.
- Na verdade, eu gostei muito. É um dos meus filmes favoritos. – Confessou , sorrindo.
- Está falando isso para me agradar? – Perguntou Jeremy, parecendo que continha algum sorriso.
- Se eu quisesse te agradar, diria que seu personagem foi o meu favorito. – Observou .
- E não foi?
- Bem... – sentiu o rosto ficando ainda mais quente. – Ele é das exatas, não é uma área que me agrada muito, principalmente sendo de humanas. E no final o destaque fica mais para a linguista, não é como se você aparecesse tanto assim...
- Ok, agora estou ofendido. – Brincou Jeremy. – Mas, em relação a exatas e humanas, é a lei dos opostos se atraindo, não? Talvez você se surpreendesse.
não soube o que responder, resolvendo pelo silêncio, que não durou muito por Jeremy logo voltar a fazer perguntas sobre ela e sua vida. A cada pergunta e resposta, a mulher ficava mais confusa, começando a desconfiar sobre aquela vaga. Pelo que havia pesquisado, ela ainda não conseguia entender como sua relação com crianças poderia afetar seu trabalho como assistente pessoal. Mas, novamente, quando ia questionar o ator sobre isso, ele olhou o relógio em seu pulso e arregalou os olhos, notando como estava atrasado. No mesmo instante a campainha soou e ele pareceu esquecer o atraso por um momento.
- Perfeito! – Exclamou ele, levantando-se e pedindo para que o acompanhasse. – Vocês poderão se conhecer antes de eu sair.
- Conhecer quem? – Perguntou , mas Jeremy não a ouviu, andando apressado pela casa até chegar à porta de entrada.
Ele pressionou um botão em um interfone, que ela nem havia notado antes, que abriu o mesmo portão pelo qual ela havia entrado, pela câmera ela notou uma mulher entregando uma criança, que saiu correndo assim que Jeremy abriu a porta. engoliu em seco, apostando a vida que aquela era a filha do ator. A menina pulou nos braços do pai, apertando os braços ao redor do pescoço de Jeremy enquanto ele se levantava, distribuindo diversos beijos pelo rosto da menina, que ria divertida. sorriu com a cena, vendo pela câmera que a mulher havia fechado o portão e partira sem falar qualquer coisa para Jeremy, ficou confusa com aquilo.
- Tenho alguém para te apresentar. – Disse Jeremy, chamando a atenção da filha e de , que piscou e voltou a focar no que acontecia ao seu redor, só então notando como a menina parecia muito alta para sua idade, Jeremy não havia falado que ela tinha três anos? Ava também era incrivelmente loira, os cabelos lisos partidos ao meio e presos no alto da cabeça em duas maria-chiquinhas, os olhos claros logo fixando nela, olhando-a de cima abaixo com a usual curiosidade infantil.
- Quem é ela? – Perguntou Ava, ainda olhando para , que de repente se sentia muito exposta e incomodada com a atenção que a menina te dava.
- Essa é a , – disse Jeremy, chamando a atenção da filha – sua nova babá.
- O que? – O ator não soube para quem olhar, Ava ou , que havia arregalado os olhos e sua boca também não conseguia se fechar. O ator parecia confuso, ouvindo Ava começar a reclamar sobre não precisar de uma babá, mas focando em que era a própria definição de confusão.
- Você não sabia? – Perguntou Jeremy, pedindo para Ava parar de reclamar. – Para que achou que estava sendo entrevistada?
- Sua assistente pessoal. – Informou , aproximando-se do sofá para sentar no braço do mesmo, não confiando em suas pernas. – Desculpe, eu... Eu só preciso de um minuto. – Jeremy colocou Ava no chão e pediu que ela fosse para seu quarto, sendo prontamente atendido.
- Assistente pessoal? – Perguntou ele, franzindo o cenho e se aproximando da mulher. sentiu-se levemente mais calma ao perceber que até mesmo Jeremy estava confuso. – , eu sinto muito...
- Não, está tudo bem. – Disse a mulher, sentindo que era exatamente o contrário, mas não queria ver Jeremy se sentindo ainda mais culpado. – Talvez tenha sido só uma confusão, alguma informação foi perdida no processo... Foi um acidente, acontece.
- Acredito, então, que você não vai ficar? – Perguntou Jeremy, fazendo levantar a cabeça. Era algo que ela não havia considerado, se a vaga não era o que ela havia imaginado, então o certo seria ir embora, apesar de parte dela suspeitar que não fora um erro aquela divulgação. – Não quero te pressionar, mas é realmente importante eu encontrar uma babá para Ava. As anteriores não deram sorte, ela parece rejeitar todas e fazer a vida delas um inferno.
- E a mãe dela?
- Somos divorciados e dividimos a guarda, mas Ava fica a maior parte do tempo comigo e passa alguns fins de semana com a mãe. – Explicou Jeremy. respirou aliviada, havia imaginado que algo ruim tivesse acontecido com a mãe de Ava.
- Entendo. – Disse ela, apenas porque sentiu que precisava falar algo. Jeremy passou a mão no cabelo, bagunçando-os ainda mais.
- Eu sei que não é seu trabalho, mas eu estou atrasado demais para uma reunião, não deve demorar muito, será que pelo menos hoje você poderia ficar com Ava? Te pago a parte depois. – Acrescentou ele, achando que dinheiro seria um fator decisivo na decisão de .
- Claro, não é justo você ser afetado também. – Concordou . – Eu posso ficar, sem problemas.
- Muito obrigado. – Disse Jeremy, virando-se para chamar Ava a fim de se despedir dela. A menina apareceu correndo, o ator se abaixou para falar com a filha. – Querida, papai tem que sair, mas vai ficar com você, tudo bem? – Ava não parecia feliz, voltando a fixar seus olhos na mulher.
- Não posso ir com você? – Perguntou Ava, fazendo um biquinho e forçando uma careta, que não enganou Jeremy.
- Não, você vai ficar e vai se comportar. – Jeremy avisou. – Deixe uma pessoa sair dessa casa inteira, Ava, por favor. – Pediu o ator, forçando a segurar o riso. – Por mim.
- Tudo bem. – Se rendeu Ava, abraçando o pai, que a pegou no colo e foi até a porta, os seguiu.
- Se precisar de qualquer coisa, os telefones estão todos na primeira gaveta daquela mesa. – Ele apontou para um móvel ao lado do sofá, e assentiu. – Espero não demorar muito.
- Tudo bem. – Disse a mulher, já começando a entrar em pânico ao ver o ator abrindo a porta e se despedindo da filha.
- Se comporte e podemos comer pizza hoje. – Disse Jeremy, fazendo a menina revirar os olhos antes de concordar. – Você já comeu? – Perguntou Jeremy antes de soltar a filha, vendo a menina negar com um aceno da cabeça. – , pode...
- Eu cuido disso. – Adiantou-se , sorrindo na tentativa de tranquilizá-lo.
- Obrigado. – Disse o homem, dando um último beijo em Ava antes de finalmente sair de casa, indo até um dos carros e saindo logo. esperou até que o portão se fechasse para voltar para o interior da casa, levando Ava consigo.
- Muito bem, lá vamos nós. – Sussurrou para si mesma. Ela fechou a porta e se virou, encontrando Ava parada há poucos metros dela, a olhando com uma expressão de quem planejava dominar o mundo de uma forma não muito boa. respirou fundo, mentalizando coisas boas e repetindo em sua cabeça que tudo daria certo, ela precisava daquele dinheiro. – O que quer comer?
- Não sei. – Disse Ava, dando de ombros.
- Tudo bem, vamos ver quais são as opções. – Ela estendeu a mão para Ava, que apenas a olhou e depois virou as costas, seguindo para seu quarto. – Que p... Calma, . – A mulher repetiu, indo para a cozinha. Não se deixaria vencer por uma garota de três anos. Tinha que aguentar até Jeremy voltar e depois iria embora como se aquele tivesse sido só mais um dia como qualquer outro. Com sorte, chegaria em casa e teria uma nova resposta em seu e-mail.
Ava a testou até o último fio de cabelo. Após preparar o almoço para a menina, macarrão integral com molho branco, tentou fazê-la comer, mas Ava se recusava, comendo um pouco e depois largando o prato no meio do quarto para brincar com suas bonecas, mas não desistiu. Não sabia os motivos para a menina agir daquela forma, mas se tinha uma coisa que ela sabia sobre crianças era não deixar que elas achassem ter algum controle sobre os outros. E pareceu funcionar, pelo menos pelo almoço, com relutância, Ava comeu mais da metade da porção servida por , que achou aquilo uma vitória e resolveu guardar o resto para caso a menina resolvesse ceder e comer mais tarde. Cerca de uma hora depois, Ava começou a mostrar sinais de sono, mas se recusava a dormir sem o pai para coloca-la para dormir.
- Bem, eu sinto muito, mas seu pai não está aqui agora. – Disse , no tom de voz mais calmo que conseguia usar. – Mas prometo que se ele chegar e você ainda estiver dormindo, ele vem te dar um beijo.
- E como eu vou saber que ele me beijou? – Perguntou Ava, cruzando os braços. mordeu o lábio inferior, olhando ao redor e sorrindo aliviada quando viu uma caneta colorida por perto.
- Ele vai fazer um desenho na sua mão. – Disse a mulher.
- Você pode fazer o desenho. – Desafiou Ava.
- Será um desenho que só ele vai saber fazer. – Garantiu , vendo com certa satisfação enquanto Ava ponderava sobre aquela oferta, percebendo logo que a mulher havia conseguido dobrá-la.
- Tudo bem. – Cedeu Ava, deitando-se na cama e deixando que a cobrisse. começou a se levantar, mas foi parada pela menina. – Uma história. – Pediu Ava, acomodando-se na cama e esperando a mulher escolher um livro. Antes mesmo de ir para a terceira página, Ava já estava dormindo, mas preferiu continuar por mais um tempo, apenas para garantir, sua voz ficando mais baixa, com medo de acabar incomodando o sono da criança. Chegando à metade do livro, ela o fechou, pegou a caneta colorida e guardou no bolso da calça, pretendia não esquecer a promessa que havia feito à menina.
saiu do quarto e foi para a cozinha, começando a limpar a sujeira que havia feito enquanto preparava o almoço para Ava, seu próprio estômago dando sinais de fome enquanto ela guardava o que havia sobrado, parando para separar um pouco para ela antes de encaixar tudo na geladeira, talvez Jeremy quisesse comer algo quando chegasse. já se sentia exausta só pelas poucas horas que havia passado com Ava, após aquela breve experiência, ela não se surpreendia pelo que o ator havia falado antes sobre as babás não conseguirem aguentar por muito tempo. Ava podia ser pequena, mas sabia como fazer birra como uma criança bem mais velha, aquilo era um perigo nas mãos erradas. Enquanto lavava os pratos, se lembrou da aparência cansada de Jeremy após descobrir que não era a nova babá da filha, como aquilo parecia tê-lo envelhecido alguns anos. Não deveria ser fácil, pensou ela, ter um trabalho que exigia tanto e ainda conseguir tempo para acompanhar o crescimento da filha. fez uma nota mental para tentar ir atrás de informações sobre a mãe da menina e como o divórcio havia ocorrido, temendo que não encontraria coisa boa devido ao tom de voz de Jeremy quando falou sobre a separação.
Ela terminava de enxugar o último prato quando ele entrou em casa, estava tão distraída que sequer ouvira o carro se aproximando e estacionando. Ele retirou os sapatos e se aproximou da cozinha, parando na porta e olhando enquanto a mulher passava o pano no prato. o olhou, arqueando a sobrancelha para tentar questionar o que ele fazia parado ali.
- Sabe que tem uma máquina de lavar louças logo ali do lado, não é? – Perguntou Jeremy.
- Não era muita coisa, e eu queria me manter ocupada. – Ela deu de ombros.
- Cadê Ava? – Perguntou Jeremy, estranhando o silêncio e não haver nenhum grande caos na casa.
- Dormindo. – Disse , parando-o logo que ele fizera menção de ir até o quarto da filha. tirou a caneta colorida do bolso e a entregou a Jeremy. – Eu prometi que quando você chegasse e desse um beijo nela, você faria um desenho na mão dela. – Explicou, vendo o homem não conseguindo disfarçar a confusão. – Não pergunte... Apenas, tem que ser algo que só você saberia desenhar.
- Tudo bem, eu já volto. – Disse Jeremy, pegando a caneta e indo para o quarto da filha. esperou, aproveitando para guardar toda a louça do almoço, fechando o armário no momento em que o ator voltava à cozinha. – Quer me explicar por que eu tive que desenhar um peixe com uma estrela na mão da minha filha?
- Esse é o código de vocês?
- Ela gosta de Procurando Nemo e estrelas. – Jeremy deu de ombros, colocando a caneta no balcão e sentando-se em uma das banquetas depois.
- Ela não queria dormir enquanto você não chegasse, então para convencê-la, eu disse que você daria um beijo nela quando chegasse, não que ela tenha acreditado em mim. – Completou . – Sugeri que você fizesse um desenho na mão dela, e depois tive que dizer que seria algo que só vocês dois soubessem para que ela não desconfiasse que eu tinha feito.
- Ava não facilita mesmo. – Comentou Jeremy, não conseguindo conter a risada. – Sinto muito por isso.
- Está tudo bem. – Tranquilizou , apoiando-se na ilha da cozinha. – Foi assim com as outras babás?
- Pior, eu acho. – Disse Jeremy. – Ela ficou assim desde o divórcio. – Acrescentou ele. – Você seria a quinta babá só esse ano.
- Uau. – Comentou .
- Uma pena que não vai ficar, você conseguiu muito mais que as outras. – Disse Jeremy. – Sei dizer só pelo estado da casa.
- Não foi uma batalha fácil, ela mal comeu. – Falou , contando a experiência do almoço, surpreendendo-se ao ver que Jeremy ria.
- Eu disse, você foi além. – não sabia dizer se ficava feliz ou preocupada com aquela reação. – Espero que a próxima babá seja como você.
mordeu o lábio inferior, sabia que Jeremy não estava forçando a barra tentando fazê-la ficar, algo lhe dizia que ele nunca faria algo como aquilo, ele só realmente queria alguém que não desistisse tão fácil de Ava, como as outras pareciam ter feito. A mulher ponderou por um tempo, apesar de em poucas horas estar mais cansada que toda uma semana de trabalho na cafeteria, ela não havia odiado a experiência. Muito pelo contrário, achava Ava divertida em toda sua rebeldia, e parte dela entendia a teimosia da menina, a relutância dela em aceitar uma nova mulher em sua vida. E havia Jeremy que estava claramente desesperado, sem saber o que mais fazer para conseguir cuidar da sua filha e de seu trabalho, não é como se ele fosse largar o emprego para viver só para Ava, apesar de suspeitar que isso havia chegado perto de acontecer. E havia o fator principal: ela precisava de um emprego. E de um lugar para morar.
- Eu fico. – Jeremy não era o único desesperado. – Eu aceito ser a babá da Ava, se você quiser.
Ela também estava.

Capítulo 3


Voltar para casa para as festas de fim de ano havia lhe dado mais medo do que imaginara. Ela e Ted haviam entrado num acordo de manterem entre eles o novo emprego da mulher, deixando os pais acreditarem que ela ainda estava bem na cafeteria e não havia tido nenhum momento de pânico. ainda se lembrava de como havia notado a ponta de desapontamento quando contara aos pais que havia conseguido um emprego no Tower’s, apesar de eles tentarem disfarçar, e imaginava que se viesse a revelar que havia perdido o emprego antigo e agora era uma babá, seu pai interferiria dizendo que ela deveria escolher outra faculdade, algo que lhe desse um emprego condizente. Ou talvez eles não fizessem nada disso, só não queria arriscar.
Felizmente, faltando alguns dias para o Natal, Ted conseguira se juntar a eles e roubar para si toda a atenção que estava recebendo, sendo alvo de perguntas sobre a faculdade, o curso e as disciplinas e, claro, se já havia surgido alguma oportunidade de emprego melhor. fugira da última dizendo que agora começaria a trabalhar com crianças, acompanhando seu desenvolvimento e afins, ela colocara alguns termos difíceis referente a linguística no meio da conversa para soar mais convincente. Com a chegada de Ted, conseguiu respirar mais aliviada, além de sentir a tensão abandonando seu corpo. No meio da madrugada, ainda afetado pelo jet-lag, Ted invadira seu quarto para que pudessem conversar.
- Então? – Sussurrou o mais novo, deitando-se ao lado da irmã, encarando o teto assim como ela. – Como foi o primeiro dia?
- Ainda não tive um primeiro dia, Ted. – Disse .
- O dia da entrevista não contou?
- Mas sobre isso eu já te contei tudo. – entrelaçou seu braço ao do irmão, encostando a cabeça no ombro dele.
- , uma conversa de quinze minutos não conta como uma conversa completa sobre esse dia. – Explicou Ted. suspirou, fechando os olhos e lembrando-se daquele dia, da confusão por não saber o que fazia ali, e depois do choque ao entender todo o cenário.
- Essa menina vai me dar muito trabalho. – Resumiu , fazendo Ted rir. Depois a mulher começou a narrar todos os detalhes daquele dia, desde sua chegada, passando por suas impressões sobre Jeremy, dando tempo para Ted voltar a surtar pelo ator ser o novo patrão da irmã, e chegando ao momento em que percebera o que faria ali. – Eu não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei isso, Ted. – Concluiu , escondendo o rosto no ombro do irmão, sufocando as lágrimas que haviam surgido repentinamente.
- Bem, você estava no desespero de perder tudo, , acho que é compreensível. – Disse o irmão, acariciando o cabelo da mais velha. – E, se quer minha opinião, você vai ser incrível nesse trabalho. Você, a pessoa mais desastrada que eu conheço, conseguiu aprender a servir mesas e carregar bandejas cheias de coisas de um lado para o outro, acha mesmo que não vai conseguir cuidar de uma menininha mimada?
- Ela não é mimada, Ted. – Corrigiu . – Mas não sei definir qual é o problema dela.
- Mimada vai servir, então. – Disse o irmão, fazendo ela rir. – Você será a melhor babá que esse homem vai ter na vida. Ele não vai querer te demitir nem quando a filha já estiver pré-adolescente.
- Menos, Ted, bem menos. – Disse , mas não conteve a risada. – Já adianto que você receberá muitas ligações.
- Posso receber alguns convites para ir às premières dos filmes da Marvel na Europa? – Perguntou o homem, recebendo um soco da irmã como resposta. – Não, então?
Toda noite que passaram ali na casa dos pais, o mais novo ia ao quarto da mais velha e eles passavam a noite conversando. reclamava, mas por dentro agradecia a preocupação do irmão, cada dia que passava e o novo ano se aproximava, ela sentia-se mais nervosa porque teria que encarar o novo emprego logo. Ela fizera pesquisas na internet para tentar encontrar algo que pudesse lhe ajudar a lidar melhor com crianças, mas cada artigo que lia era ainda mais assustador que o anterior. Até que ela desistiu, sabendo que aquelas teorias não ajudariam em nada quando a realidade viesse. concluiu que agiria de acordo com a situação, improvisaria no último minuto e torceria para o melhor.
Em sua última noite na casa dos pais, uma semana após a virada do ano, Jeremy fez o primeiro contato, apenas para avisar que ela poderia ir para a casa quando sentisse vontade, mas que só começaria a trabalhar mesmo na segunda metade do mês, já que Ava o acompanharia em alguns eventos em Nova Iorque. O ator estava fazendo algumas aparições promovendo seu último filme, que havia se apaixonado completamente, e levaria a filha para alguns eventos. A mulher agradeceu a ligação e confirmou se realmente não haveria problemas ela ficar na casa durante aquele tempo, ao que Jeremy confirmou, tranquilizando-a e certificando-se de que ela se sentiria completamente à vontade. Havia comida o suficiente, as chaves já haviam sido entregues a ela antes da viagem para Norfolk, e o quarto que seria dela completamente pronto para uso. Já estava antes, mas Jeremy havia informado que queria fazer algumas mudanças.
Quando ela chegou na casa, sabia que não fazia muito tempo que seus residentes estavam ali, já que o ambiente não estava com o ar usual de algo que fica muito tempo inabitado. Ela levou suas malas para o quarto que seria dela, pensando consigo que o quarto parecia idêntico ao que ela havia visto meses atrás. Aproveitou o ânimo para já arrumar tudo e fazer daquele quarto seu, ocupando também a parte do escritório que Jeremy havia garantido ser para uso dela. O homem era bem organizado, característica difícil de ter quando tinha uma filha de três anos, mas ele conseguia de alguma forma. O escritório parecia ser o único ambiente que não possuía algum brinquedo, ela diria algo infantil, mas havia alguns desenhos colados na parede ao lado do computador que pertencia a Jeremy. aproveitou que estava sozinha para conhecer cada canto da casa, aventurando-se até mesmo pelo quarto do ator, mas ficando lá menos tempo do que em todo o resto.
aproveitou aqueles dias até a volta de Jeremy e Ava para se familiarizar com a casa, onde cada coisa ficava – achando curioso encontrar um armário com diversos remédios –, e com os arredores de onde a casa era localizada, já que ela não conhecia muito bem aquela região – que era uma das mais nobres de Los Angeles. Também aproveitou para colocar algumas leituras do curso em dia, já que havia deixado muita coisa de lado durante a crise do desemprego e depois com a chegada das férias de fim de ano. Também precisava finalizar uns trabalhos e adiantar outros, coisa que ela fez no decorrer da semana que passou.
Jeremy e Ava voltaram uma semana depois que chegara à casa, encontrando a mulher acomodada no sofá enquanto lia um dos diversos textos da faculdade, um caderno, um estojo e todo seu conteúdo estavam espalhados na mesinha de centro, uma música baixa tocava e Jeremy não conseguiu identificar a fonte. desviou o olhar do texto para ver pai e filha chegando, a mais nova parando assim que percebeu a presença da nova babá, fazendo uma careta enquanto olhava para o pai como quem perguntava por que a mulher já estava lá. Jeremy apenas lançou um olhar censurador para a filha antes de pedir que ela levasse suas coisas para o quarto, enquanto ele recebia a babá apropriadamente.
- , como foi de fim de ano? – Perguntou o ator, separando as malas que pertenciam a ele e Ava.
- Ah, nada de novo. – A mulher deu de ombros, pausando a música no celular. – Meus pais e meu irmão, só isso mesmo. E frio, como sempre. Tanto tempo em Los Angeles e a gente esquece como nos outros lugares faz mais frio que aqui.
- Sei muito bem como é. – Concordou Jeremy, conferindo o horário no relógio. – Você já almoçou?
- Na verdade eu acordei quase agora, então não tive tempo para pensar em almoço. – Assumiu , rindo do espanto do ator. – Em minha defesa, eu fui dormir no começo da manhã.
- Uma coisa que não sinto falta da faculdade. – Jeremy se limitou a comentar, fazendo a mulher rir mais um pouco.
- Não deve ser tão diferente de quando você tem um papel novo. – Comentou ela, vendo enquanto ele ponderava um pouco, para depois concordar.
- É melhor que ficar de dieta e malhando para os filmes da Marvel, isso eu admito. – Cedeu Jeremy, começando a se afastar para ir até a cozinha.
- Acho difícil de acreditar depois de ver o tanto de coisa saudável que você comprou. – Comentou , levantando-se do sofá e se aproximando da cozinha. – Acho que a vida saudável já está em você. E você quer fingir que é difícil só para eu não me sentir tão mal.
- Acabou de chegar e já está querendo me derrubar? – Jeremy brincou, fazendo a mulher corar levemente. – Eu estou brincando, pode ficar à vontade para falar e brincar o quanto quiser. – Ele se adiantou em dizer ao ver o desconforto de .
- Obrigada. – Disse ela, sorrindo de leve para o homem, ainda se sentindo envergonhada pela situação anterior. não era de se abrir com alguém tão facilmente, de partir para brincadeiras e piadas com tão pouca convivência, e talvez o período que havia passado na casa sozinha a fizera pensar que aquilo era normal, que eles já estavam morando sob o mesmo teto há mais tempo do que parecia.
- Então, almoço, vai querer alguma coisa? – Perguntou Jeremy, chamando a atenção da mulher.
- Tem algumas sobras de comidas que preparei durante a semana, não precisa se preocupar comigo. A melhor comida é aquela que é um misto de tudo. – Disse ela, fingindo uma pose de sabedoria, que só fez o ator rir. – Prepare algo para você e Ava, eu estou sem fome ainda.
- Mas terá eventualmente. – Apontou Jeremy.
- E, como eu disse antes, eu posso comer as sobras da comida da semana. – Respondeu , vendo que o ator não havia ficado feliz. – Não adianta discutir, você disse que posso ser honesta, estou sendo. Vou voltar aos meus estudos agora, com licença. – Ela ia se afastando, mas parou, voltando ao lugar de antes, vendo que o ator havia desviado a atenção do que fazia para olhá-la com uma sobrancelha arqueada. – Ou você precisa dos meus serviços imediatamente? – Perguntou ela, lembrando-se que havia um motivo para ela estar ali, e não era ficar largada no sofá estudando.
- Pode só conferir se Ava não está tentando destruir o quarto da forma mais silenciosa possível, por favor? – Pediu Jeremy, também se lembrando da função da mulher na casa.
assentiu e se retirou, pela primeira vez ficando nervosa para o seu trabalho. Até então ela aproveitou sua folga e agiu como se ela e Jeremy fossem apenas colegas de apartamento, perdendo o foco do real motivo de estar ali, mas agora a ficha havia caído e as coisas haviam se tornado reais. Ela tinha que começar a aprender a lidar com Ava e com a aparente recusa da criança em tê-la presente na sua vida. gostava de um desafio, isso ela não negaria, mas não sabia se esse gostar de ser desafiada se encaixava na batalha que provavelmente travaria com a garota. Felizmente parecia que não começaria naquela tarde, já que ao chegar ao quarto de Ava, a mulher parou e sorriu diante a cena que via: Ava deitada em sua cama, abraçada a um de seus bichos de pelúcia, profundamente adormecida. A mochila de elefante estava jogada no meio do quarto, e o casaco que ela entrara carregando em casa estava no chão ao lado. Ava não havia nem mesmo tentado se cobrir, provavelmente havia sentado na cama e aos poucos cedera ao sono que sentia, já que suas pernas ainda pendiam um pouco para fora do colchão. se aproximou, e arrumou a menina na cama, deixando-a mais confortável. Ava passou a mão no rosto, afastando alguns fios de cabelo e bocejou, mas continuou adormecida. sorriu, arrumando o cabelo da menina, logo depois saindo do quarto e encostando a porta.
Jeremy estava na cozinha, de frente ao fogão, preparando o que deveria ser o almoço dele e de Ava. ocupou um dos bancos que havia do outro lado e ficou olhando o ator indo de um lado para o outro, mesmo que ele já tivesse notado sua presença, surpresa pela facilidade que ele tinha em lidar com as diversas tarefas. O cheiro estava delicioso e sua boca havia se enchido de água, seu estômago havia até se retorcido um pouco, como se quisesse que ela repensasse aquela decisão anterior de comer as sobras da comida da semana.
- O quarto de Ava ainda está inteiro? – Perguntou Jeremy após tampar todas as panelas e se voltar para a mulher.
- Completamente. – Confirmou .
- O que ela está fazendo, então?
- Dormindo. – Disse , aceitando o pacote de bolacha que Jeremy lhe oferecia. – Acho que dormiu sentada na cama e depois caiu para o lado, porque as pernas estavam para fora.
- Ela faz muito isso. – Confirmou Jeremy. – Acho que almoçarei sozinho, então... Ou você vai mudar de ideia e se juntar a mim? – Perguntou o ator ao notar que a mulher olhava com atenção para o fogão. olhou para ele, revirando os olhos, mas não conseguindo segurar o riso.
- Talvez eu coma um pouco. – Cedeu ela. Rindo enquanto via o ator fazer uma comemoração exagerada. permaneceu em silêncio por um tempo, até que cansou de só observar e resolveu que deveriam começar a decidir como as coisas seriam dali para frente. – Então, como vai funcionar exatamente? Eu aqui, digo. Você não parece ser o tipo que frequenta essas baladas e festas que vão até tarde, e você não vai trabalhar em um escritório o dia inteiro... Então eu estou curiosa para saber como as coisas serão.
- Eu posso não sair de casa para ir trabalhar, mas eu tenho que trabalhar vez ou outra e Ava às vezes é um pouco rebelde em relação a isso. – Jeremy riu, apagando o fogo em uma das panelas. – Basicamente eu preciso que você fique com ela quando eu precisar trabalhar ou viajar e não tiver outra pessoa para ficar com ela. – ficou quieta por um momento, algo lhe incomodava um pouco, nada referente ao que Jeremy havia falado, mas algo que ela e Ted haviam conversado em uma das noites acordados.
- Espero que não me entenda errado – ela começou a falar, chamando a atenção dele, que deixou o que fazia para poder olhá-la – mas você não está querendo encontrar alguém para ocupar o papel de mãe dela, não é? Assim, eu sei que ela tem mãe, mas pelo visto elas não convivem muito, então eu só preciso saber o meu limite. – Explicou , garantindo que ele não a entendesse errado mesmo. – Eu não vou dar bronca, brigar ou castigar, não é meu papel ou minha função. Você quer que eu ajude a preparar comida, arrumar a bagunça, brincar, colocar para dormir, tudo bem, mas a parte de educar é por sua conta. – Jeremy a olhava tentando conter o sorriso, estava levemente surpreso pela honestidade da mulher, mas feliz por ela tê-lo feito, colocar todas as cartas na mesa e ver o que o ator faria com o que ela tinha a oferecer. Ali ele teve a certeza de que Ava não conseguiria vencer e que a mulher ficaria.
- Parece que não temos nada a discutir, então. – Disse ele por fim, convidando-a em seguida para o almoço.

~ * ~


não demorou a aprender que estava ali mesmo mais para as situações de emergências do que para o dia a dia, para evitar que o ator tivesse que correr desesperado atrás de alguém, já que o ator ficava em casa boa parte dos dias e só saia para reuniões e eventos caso realmente não tivesse outra escolha. Os dias seguintes ao da volta do ator e da filha, ela pode ver como era a dinâmica entre eles e aos poucos Jeremy foi encaixando a mulher, deixando para ela a função de entreter a filha e alimentá-la enquanto ele lidava com as negociações para futuras viagens e aparições públicas em evento. O humor de Ava mudava drasticamente durante o dia, no café da manhã, enquanto Jeremy ainda estava com elas, a menina ria e participava das brincadeiras que o pai fazia com ela, depois que o ator entrava no escritório e deixava a filha com , Ava se transformava. Na maior parte dos dias, apenas ficava olhando enquanto a menina brincava sozinha, se recusando a deixar a mulher a fazer parte. Depois, na hora do almoço, quando Jeremy dava a si mesmo uma pausa, Ava voltava a mudar, e ia nessa gangorra de emoções até o fim do dia, quando o ator finalmente saia de vez do escritório e ficava com a filha até a hora de dormir dela.
Às terças e quintas eram os únicos dias que não precisava se preocupar em agradar uma criança de três anos, já que ela e Jeremy haviam estipulado que seriam os dias de folga dela por conta da faculdade, mas caso o ator precisasse, havia explicado que conseguiria assistir as aulas em outros dias para ajudá-lo. Mais rápido do que eles haviam imaginado, a rotina entre os três se encaixou perfeitamente, com não demorando a pegar o ritmo do ator e de sua filha – logo descobrindo que os remédios que havia descoberto antes pertenciam à Ava, mas como ainda se considerava recém-chegada e não julgava que fosse algo que Jeremy gostaria de falar sobre, caso contrário já teria feito, preferiu não perguntar, apesar de em uma noite ter deixado a curiosidade vencer e pesquisado na internet para que serviam alguns remédios. O problema era que a maioria servia para diversos tipos de doenças, e a mulher só ficou ainda mais confusa, desistindo logo da ideia.
O primeiro grande teste, e breve momento de pânico para chegou quando Jeremy a chamou para conversar no escritório, aproveitando que Ava havia dormido enquanto assistia a um desenho, e mostrou à babá a sua agenda de compromissos. Ele estava com um filme novo, então precisava comparecer em alguns eventos. Além disso, em breve começariam as gravações do novo filme da Marvel, e esses eram os momentos mais delicados para Jeremy, já que Ava não podia acompanha-lo sempre. O primeiro evento do ano fora o Golden Globe, no qual a menina passou o fim de semana com a mãe. O próximo seria no fim de semana, quando Jeremy teria que se ausentar para comparecer ao Sundance Film Festival.
- Eu já conversei com a Sonni, ela vai ficar com a Ava por esses dias. – Explicou ele ao ver arregalando os olhos por notar quantos dias Jeremy ficaria ausente. – Pelo menos espero que fique.
- Ela não gosta muito de ficar com a Ava? – Perguntou , ocupando a cadeira vaga ao lado do ator, a que seria dela caso ela usasse o escritório.
- Digamos que ela não irá receber o prêmio de mãe do ano. – Foi o que Jeremy respondeu e não insistiu, já sabendo como o homem era reservado em relação à sua vida pessoal. – Mas ela se comportou bem durante o Golden Globe, acredito que não haverá problemas agora.
- Então estou de folga neste fim de semana? – Perguntou , puxando a agenda do ator para analisar as próximas datas.
- Sim, tem grandes planos?
- Se por grandes planos você quer dizer grandes textos e trabalhos, então sim. – Respondeu ela, suspirando cansada, já pensando na pilha de coisas que havia para finalizar. – Não sei onde estava com a cabeça quando decidi fazer um mestrado.
- Seu futuro profissional? – Sugeriu Jeremy, recostando-se na cadeira e olhando a mulher, que revirou os olhos.
- Nunca serei uma Louise. – Resmungou ela, fazendo o ator rir.
- Com esse pensamento, não mesmo. – Observou ele, cruzando os braços e analisando a expressão dela. Ele já havia notado como ela era dedicada e amava o que estudava, mas não conseguia entender como as vezes parecia que ela gostaria de estar fazendo qualquer outra coisa. – Você é estranha. – Jeremy soltou, chamando a atenção da mulher, que desviou a atenção da agenda para olhar para ele.
- Como é?
- Desculpe, não quis ofender. – Ele disse, percebendo que a mulher parecia mais confusa e intrigada do que ofendida. – Mas quando você fala do curso, ou quando passa horas compenetrada nesses textos e trabalhos todo, eu tenho a certeza que você ama o que faz. E então quando pensa num futuro, e nos sacrifícios que faz, você muda completamente. Como se transformasse em outra pessoa que não acredita que fazer cursos como Linguística façam alguma diferença.
- Quando você compara a um engenheiro, talvez não faça mesmo. – deu de ombros. Seus olhos encontraram os de Jeremy e ela viu que ele esperava por uma explicação melhor que aquela. – Meu irmão faz engenharia na Alemanha. – Explicou ela. – E meus pais não são os mais entusiasmados quando dizem que eu me formei em Linguística, apesar de eles gostarem de contar que recebi a proposta do mestrado pessoalmente de um dos melhores professores da área.
- Ah... Agora faz sentido. – Disse Jeremy. – Se quer saber a minha opinião, que é bem honesta, acho o seu curso tão importante quanto o do seu irmão. – Revelou ele, e não duvidou de sua honestidade. – Você disse que assistiu Arrival, então você sabe como pode ter um papel mais importante que qualquer outra pessoa em determinadas situações. Em muitas situações. E eu aposto que seu irmão não recebeu alguma proposta de alguém muito conhecido e renomado da área para trabalhar em algum projeto importante. – Completou Jeremy, fazendo arregalar levemente os olhos, surpresa com a determinação do ator em tentar defender o curso dela.
- Mas pelo menos ele está trabalhando na área dele. – Rebateu , sabendo que não precisaria se desculpar para que Jeremy entendesse o que ela queria dizer com aquilo.
- Você acha que Louise começou a trabalhar logo na carreira dela? – Perguntou Jeremy, sorrindo divertido, fazendo rir levemente. – Aposto que ela foi uma garçonete também por um longo tempo. – A mulher abriu a boca para tentar responder algo, mas foram interrompidos pelo choro infantil que veio do quarto ao lado, seguido de um chamado pelo ator. – Pesadelo. – Foi tudo o que Jeremy disse antes de pedir licença e se retirar do quarto. suspirou, agradecida por não precisarem continuar aquela conversa. Ela sabia onde Jeremy queria chegar, e o agradecia por isso, mas ela estava cansada, e o ano mal havia começado.

Na quinta-feira pela manhã, Jeremy levou Ava para a casa da mãe. Foi a primeira vez desde que haviam se conhecido que a menina perguntou ao pai se ela não podia ficar em casa com ou ir com ele, recebendo as duas negativas já que o ator e a mãe da criança já haviam combinado aquilo com dias de antecedência e ele não queria dar motivos para Sonni iniciar alguma briga. aproveitou a oportunidade para aceitar a carona que Jeremy havia lhe oferecido para deixa-la na faculdade. Observando pelo retrovisor uma Ava descontente sentada atrás dela, sem ânimo até mesmo para brincar com o bicho de pelúcia que havia escolhido para acompanha-la naqueles dias. Era um comportamento tão estranho da criança que ficou tentada a sugerir que elas pudessem ficar juntas, mesmo sabendo que Jeremy negaria.
À noite, quando ela chegou em casa, anormalmente silenciosa devido à ausência de Ava, Jeremy já se preparava para ir ao aeroporto. Sua presença estava confirmada só para o sábado, mas ele gostava de chegar mais cedo, apesar de perder um dia com a filha. se ofereceu para leva-lo ao aeroporto, mas ele viu quando ela tentou disfarçar o enorme bocejo enquanto esperava por uma resposta do ator, e resolveu negar. Ele sabia que a mulher havia passado boa parte da noite acordada para finalizar um trabalho que precisava entregar naquele dia, e que já havia aguentado muito tempo acordada, não exigiria mais dela. aguentou tempo suficiente até o carro de Jeremy chegar, então ela trancou toda a casa e se jogou na cama após o banho, sem nem se importar em secar o cabelo.
dormiu tão pesado que sequer acordou com a ligação de Ted, querendo saber sobre seus últimos dias. Ela só recobrou a consciência quando seu despertador tocou, já programado para aqueles dias. Como o usual de quem dorme por muito tempo, acordou perdida, sem ter noção de que horas eram e que dia da semana estava. Encarou o celular por um longo tempo até conseguir se concentrar, se assustando ao se lembrar de que horas eram quando se deitou para dormir. Haviam duas ligações perdidas do seu irmão, algumas mensagens não lidas e mais algumas ligações perdidas do Jeremy, o que deixou confusa. Mas antes que ela pudesse retornar a ligação do ator, a campainha alta da casa começou a tocar, fazendo-a se assustar. se desenrolou dos lençóis e se levantou, caminhando até a ponta do corredor onde ficava o interfone.
- Que diabos...? – Ela franziu o cenho ao olhar pela telinha e reconhecer Ava no colo de uma mulher que ela suspeitou ser Sonni. Havia visto somente algumas fotos da mulher quando pesquisara sobre a relação entre ela e Jeremy durante o período de férias, mas não havia prestado muita atenção em seu rosto.
A mulher pegou a chave pendurada no suporte, além de um casaco para jogar em cima do pijama, e saiu de casa, esquecendo-se dos sapatos, mas resolvendo não voltar atrás. Apertou o botão que abriria o portão e se aproximou do mesmo, conseguindo reconhecer Sonni com mais facilidade agora que estavam cara a cara. Ava tinha o rosto vermelho e úmido, os olhos brilhavam e algumas lágrimas ainda caiam. Ela estava mal agasalhada para o vento frio que soprava aquela manhã. retirou o casaco que usava e o colocou em volta da criança quando Sonni a passou para seu colo.
- Que bom que está em casa. – Disse a mulher, sem nem responder ao bom dia que lhe dera. Ava se enrolou no colo da babá, enterrando o rosto no pescoço da mais velha e fungando, sentiu as lágrimas da criança em sua pele. – Eu liguei para o Jeremy, ele disse que ia te ligar... Não posso ficar com ela, surgiu um imprevisto. – mal conseguia prestar atenção no que Sonni dizia, dividida entre encarar a mulher sem acreditar no que ouvia e prestar atenção em Ava que fungava e chorava baixinho em seu colo. – Aqui estão as coisas dela. Obrigada. Tchau. – Sonni ia se afastando, mas voltou e encostou a mão nas costas de Ava, que se contorceu no colo de para fugir do toque da mãe, que pareceu não notar a atitude da menor. – Tchau, querida, até a próxima.
estava consciente do frio que fazia e de como aquilo não era saudável para ela ou Ava, mas ela ainda demorou a recobrar os sentidos e deixar de acompanhar Sonni se afastando para entrar no carro que a esperava do outro lado da rua. riu quando o carro arrancou, uma risada sem humor, de quem não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Por fim, fechou o portão, arrumou Ava melhor em seu colo, sentindo a menina se encolher ainda mais em seus braços, e voltou para dentro de casa. Considerando dar um banho quente na menor, que ainda estava de pijama, e depois preparar um chocolate quente. No meio tempo, ligaria para Jeremy, que provavelmente estaria tão puto quanto imaginava que estaria. Ela própria não estava no melhor humor em relação a Sonni.
Ava não protestou em nenhum momento enquanto a ajudava a tirar o pijama e depois a colocava sob a água quentinha, suas mãos segurando um brinquedinho enquanto a babá lhe auxiliava no banho. Depois, enquanto preparava o chocolate quente, Ava se enrolou em um cobertor, agarrou-se ao elefante de pelúcia favorito e ficou deitava no sofá assistindo a um desenho que a babá havia colocado para ela – um de seus filmes favoritos. Na cozinha, enfim desbloqueou o celular e retornou a ligação de Jeremy, tendo que tentar umas três vezes até o ator finalmente a atender.
- , finalmente! – Disse Jeremy quando ela estava prestes a desistir. – Eu te acordei?
- Não... – Disse a babá. – Mas sei o que queria falar... Ava já está aqui.
- , eu sinto muito por isso. – Disse Jeremy, ela podia ouvir a raiva e frustração em sua voz.
- Não precisa se desculpar. – se apressou em dizer. – Mas, Jeremy, o que aconteceu? Achei que vocês tivessem um acordo.
- Eu também achei, mas hoje mais cedo ela me ligou e disse que não poderia ficar com a Ava porque havia surgido algo mais importante. O que há de mais importante do que sua filha é uma ótima pergunta, mas eu não posso discutir isso com ela por telefone. – ficou em silêncio, ouvindo a respiração acelerada do ator do outro lado da linha. – Eu sabia que não deveria ter viajado ontem para cá. Poderia ter esperado mais um pouco. – Ele suspirou, podia vê-lo andando de um lado para o outro. – Vou conversar com alguém aqui para ver se posso ir embora mais cedo e não aparecer amanhã.
- Jeremy, não! – se apressou em dizer, correndo para apagar o fogo ao ver o leite fervendo. – Não precisa disso. Ava e eu podemos sobreviver até o domingo.
- Não queria que ela ficasse sem os pais. – Disse Jeremy. – Como ela está, aliás?
- Pelo menos parou de chorar. – Foi a primeira coisa que pensou. – Dei um banho quente nela, porque nem isso Sonni se prestou a fazer. Esfriou bastante de ontem para hoje e ela usando só um pijama fino. – Explicou , sentindo raiva só de lembrar como Sonni havia deixado a menina. – Agora estou fazendo um chocolate quente. Ava se enrolou num cobertor e está deitada na sala assistindo um filme. Quer falar com ela?
- Por favor. – Pediu Jeremy. pediu para que ele esperasse e foi até onde a menina estava. Um dedo estava na boca e a outra mão livre abraçava com força o elefante de pelúcia, sua atenção voltou-se para quando esta passou em sua frente e lhe estendeu o celular, avisando que era seu pai. O rosto de Ava se iluminou e ela puxou o aparelho para si. – Está no viva-voz, pode falar.
- Oi, papai. – Disse a menina, a voz manhosa.
- Oi, princesa. – Respondeu Jeremy, percebia em sua voz como ele se sentia culpado por estar tão longe de sua filha quando ela mais precisava.
- Você vai voltar pra casa?
- Ainda não, querida. – Disse ele. – Tudo bem você ficar hoje e amanhã com a ? – A mulher olhou para Ava, que olhou para a babá também. Ava podia fazer birra e pedir a presença do pai, mas viu que ela ainda estava agradecida pelo que a babá havia feito mais cedo, e a pouparia de um show agora. – Vou tentar voltar amanhã à noite.
- Tudo bem, papai. – Disse Ava, suspirando e passando a mão no rosto, uma forma de fugir do pequeno carinho que havia tentado fazer, a mulher se limitou a rir, sabendo que aquele comportamento bonzinho não duraria muito. – Tô com saudades.
- Também estou, meu amor. – Respondeu Jeremy, e imaginava como deveria ser difícil para ele. – Amanhã eu volto, então se comporte. – Pediu o ator, logo depois se despedindo e voltando a falar com . – Por hoje e amanhã eu deixo você colocá-la de castigo se for necessário, mas acredito que ela vai se comportar.
- Espero que sim. – Respondeu , voltando à cozinha para servir o chocolate quente a Ava. – Pretende voltar amanhã?
- Vou conferir as passagens agora e ver se encontro algo. Saio do evento e vou para o aeroporto se for preciso. – Jeremy voltou a suspirar, já havia perdido as contas de quantos haviam sido. – Desculpe atrapalhar seus grandes planos. – Brincou o ator.
- Tudo bem. – Disse , rindo em seguida. – Acho que mereço essa pausa.
- Te dou uns dias de folga depois.
- Não precisa se preocupar. – Garantiu ela. – Me avise quando conseguir comprar a passagem – pediu , logo depois pensando como aquilo parecia errado – para eu poder avisar a Ava. – Emendou ela, sentindo que se fosse ela no lugar de Jeremy, sabia que não acreditaria muito naquela desculpa.
- Aviso, e qualquer coisa que precisar me liga e eu vou embora daqui o mais rápido possível. – Garantiu o ator, os dois se despedindo logo em seguida.
suspirou enquanto colocava o celular no balcão, não estava em seus planos ser babá naquele fim de semana, mas não iria deixar Ava e Jeremy na mão. Era a oportunidade perfeita para ela e a criança tentarem construir alguma ligação, ela não podia perder a oportunidade. Serviu um pouco do chocolate quente que havia preparado e o levou até Ava, que sorriu levemente como agradecimento enquanto pegava o copo que a babá estendia. Serviu uma xícara para si própria e depois ocupou o espaço no sofá ao lado de Ava, assistindo ao filme junto com ela. Pelo canto de olho, observava a criança e como ela estava tão fora de seu comportamento usual. Apesar de não estar feliz no dia anterior por ter que ir ficar com a mãe, Jeremy havia lhe explicado que ela costumava ficar bem animada quando chegava na outra casa. Além disso, a infelicidade do dia anterior não era nada comparada ao daquele momento, antes era a tristeza por estar longe do pai, agora era a mais pura decepção. sentiu o coração apertar ao perceber isso.
O dia passou sem muitos problemas, Ava voltava bem aos poucos ao seu humor padrão. Ela brincou um pouco e até mesmo desenhou com durante a tarde, após o almoço. Conversando sobre alguns filmes e desenhos que gostava de assistir enquanto tentavam decidir o que ver naquela noite antes da menor ter que ir dormir. Vez ou outra ela perguntava sobre o pai, e a tranquilizava dizendo que no dia seguinte ele estaria ali. Normalmente não incentivaria tal ilusão, mas ela sabia que Jeremy viria dirigindo a noite inteira se fosse necessário estar ali o mais rápido possível para sua filha. Ao fim do dia, concluiu que a menor havia voltado ao humor de sempre quando começaram a ter problemas para convencê-la a ir tomar banho para dormir. Com Ava se recusando a obedecer a babá, que resolveu não abusar da autoridade concedida por Jeremy. Ela sabia que aquela rebeldia não era totalmente por culpa dela, e sim por Sonni e pelo que a mulher havia feito. Isso ainda somado à saudade que Ava deveria sentir do pai. A solução encontrada foi simples, com ligando para Jeremy assim que Ava saiu do banheiro, e fazendo pai e filha conversarem até a menor cair no sono. Pouco antes de desligar, Jeremy a avisou que já havia comprado a passagem de volta e que chegaria em casa duas horas antes da meia-noite, permitindo que Ava ficasse acordada até ele chegar.
Por saber que Jeremy voltaria no fim do dia, imaginou que as horas passariam rapidamente, mas bastou Ava acordar e já dar sinais de ter voltado completamente ao normal, para a mulher concluir que aquele seria o dia mais longo de sua vida. havia planejado não contar que o pai da menina voltaria no fim do dia, para lhe fazer uma surpresa, mas resolveu acabar com essa ideia ao perceber que Ava já estava preparada para vestir a sua personalidade rebelde. Era uma tentativa desesperada de tentar controlar a menina, mas que falhou miseravelmente. Os problemas começaram no café da manhã, quando Ava se recusou a comer os cereais que comia todos os dias, dizendo que por ser sábado queria algo diferente, mas recusou todas as ideias oferecidas por .
- O que você quer, Ava? – Perguntou a mulher, ficando sem mais ideias.
- Se papai estivesse aqui, ele saberia. – A menina deu de ombros.
- Mas ele não está e eu não sei, então me ajude. – Pediu , revirando os olhos quando Ava voltou a dar de ombros. – Cereal será, então.
- Eu não quero cereal. – Disse a menina, batendo a mão na superfície da ilha da cozinha.
- Se não me disser o que quer, vai ser o que você vai comer. – Disse , já tirando a tigela do armário e pegando os demais itens. – Última chance. – Avisou a mulher, já abrindo a garrafa com leite e virando-a sobre a tigela para encher a mesma.
- Não! – Gritou Ava, estendendo a mão para tentar impedir a mulher. apoiou a garrafa na superfície e olhou para a menina. – Podemos fazer panquecas?
- Viu, não foi difícil. – Disse , guardando a tigela e o cereal e pegando os demais ingredientes.
Preparar as panquecas até foi divertido, com Ava pedindo para ajudar no preparo e vez ou outra ameaçando jogar farinha na babá, que sorriu ao ouvir a menina rindo quando passou um pouco da massa na ponta do nariz da menor. Enquanto ajudava Ava a mexer a massa na tigela, se perguntou por que não podia ser daquele jeito sempre, por que Ava tinha que ser tão relutante em aceita-la. Ela não admitiria em voz alta para a criança ou Jeremy, mas a rebeldia da menina com ela a machucava em determinados momentos, e talvez aquele comportamento fosse um dos motivos da constante exaustão de . Não era fácil se desdobrar tanto para cair nas graças de uma criança.
Enquanto fritava as panquecas, Ava ficou fazendo desenhos, vez ou outra pedindo a ajuda de . Elas comeram na sala, apesar de ser praticamente contra as regras da casa, mas Ava pediu e concluiu que não faria mal permitir aquilo um dia só. Depois se resolveria com Jeremy caso o homem reclamasse. Mas ele não o fez quando ligou no meio do café da manhã e a menor disse entre risadas o que elas faziam. concluiu que até ele concordava com ela que não fazia mal quebrar a regra naquele dia. Jeremy e Ava ainda conversavam quando recolheu os pratos para ir lavar a louça e limpar a bagunça na cozinha, não haviam sujado muita coisa, mas era impossível deixar a cozinha impecável enquanto se preparava alguma comida. Quando voltou à sala, Ava estava deitada de barriga para baixo no tapete da sala e brincava com algumas bonecas. aproveitou a deixa para pegar alguns textos da faculdade, aproveitando a demora de Ava para reclamar de estar com fome para o almoço.
Parecia um dia normal como qualquer outro, como se Jeremy estivesse no escritório e babá e criança conviviam na quase perfeita harmonia. largou os textos quando a menina reclamou de fome, e foi preparar algo rápido para ambas almoçarem. Com Ava logo em seguida pedindo para assistir a um filme, mas demorando para se decidir, tentando imitar o que havia acontecido no café da manhã, mas não insistindo ao ver que não lhe daria tanta liberdade para repetir o feito. A mulher achou que aquilo seria o final, principalmente por olhar no relógio e ver que estava cada vez mais próxima a volta de Jeremy à casa, mas Ava tinha outros planos. O filme estava na metade quando ela se aproximou de e ficou parada ao seu lado até a babá lhe dar atenção.
- O que foi, Ava? – Perguntou , abaixando o livro teórico que lia.
- Eu quero sorvete. – Pediu a menina.
- Não tem sorvete. – Respondeu , após tentar se lembrar se havia algum pote perdido na geladeira.
- Você está mentindo. – Acusou Ava, provavelmente desconfiando da demora da babá em lhe dar uma resposta.
- Não, não estou. – Disse , tentando conter o suspiro que ameaçou soltar.
- Eu quero sorvete. – Repetiu Ava, batendo o pé.
- Ava, não tem sorvete! – suspirou, largando o livro e dando total atenção para a menina.
- Não acredito em você. – Respondeu a menor, cruzando os braços e fazendo um bico.
- Vem aqui. – se levantou, e foi até a cozinha, abrindo a porta da geladeira. Ava a seguiu um pouco incerta – Vê? Sem sorvete.
- Eu não consigo ver tudo, pode estar lá no alto. – A menina apontou para as prateleiras mais altas. suspirou e a pegou no colo, fazendo ela ver toda a geladeira.
- Não tem sorvete. – Disse a babá, colocando Ava de volta no chão. A menina olhou a geladeira e então para .
- Então eu quero bolo. – Disse ela, como se fosse a troca mais óbvia.
- Ava, não tem bolo também. – passou a mão no cabelo. Estavam indo tão bem, por que ela havia resolvido acabar com a harmonia justo agora?
- Você pode fazer. – Disse a menina.
- Não, não posso. – Respondeu .
- Por que não?
- Regras do seu pai.
- Ele não precisa saber.
- Ele vai saber. – Garantiu , sabendo que não precisaria explicar à menor que elas não acabariam com o bolo até a volta do ator.
- Eu quero bolo. – A menina voltou a bater o pé, voltou a suspirar, olhando de relance para o relógio para tentar calcular quanto tempo faltava para Jeremy chegar em casa, imaginando que ele deveria estar saindo do evento naquele horário e indo direto para o aeroporto, como disse que faria. Diante da falta de resposta da babá, Ava bateu o pé novamente. – Eu vou gritar.
- Grite. – deu de ombros, fechando a porta da geladeira e voltando para a sala. Ava começou a gritar no exato momento em que ela se sentou no sofá, o som fino e agudo espalhando-se pela casa. olhou ao redor, procurando o fone de ouvido e o colocou, não tocava nenhuma música e não apagava completamente o grito da menina, mas abafava o suficiente para ela conseguir se concentrar no livro que lia antes.
Ava continuou a gritar por um longo tempo, até sentir que sua garganta doía e a boca estava seca, e percebendo que aquilo não adiantaria em nada. Ela cutucou quando parou, pedindo um pouco de água, sendo prontamente atendida. Tentou pedir por bolo novamente, mas a babá se recusou, resolvendo agora trazer à tona a autoridade que Jeremy havia lhe dado, e apontando que se não fosse a birra da menor, ela poderia até ter cedido e feito o bolo. Ava, em um último ato de rebeldia, ameaçou fazer greve de silêncio. Ficando ainda mais determinada quando cruzou os braços e arqueou uma das sobrancelhas.
- É mesmo? – Perguntou a babá, mordendo o interior da bochecha para segurar a risada. Era uma imagem engraçada aquele tamanho de gente querendo mandar tanto.
- É, não vou falar mais nada com ninguém, nem com o papai e a culpa é sua. – Disse a menina.
- Fique à vontade. – Disse , guardando o copo que ela havia lhe devolvido e voltando para a sala, ouvindo a menina a seguindo.
- Papai vai te mandar embora. – Ameaçou a menina. resolveu ignorar, logo em seguida vendo a menina passar o dedo na boca, como se fechasse um zíper invisível. olhou o relógio para marcar as horas e ver quanto tempo aquilo duraria.
Durou mais do que ela imaginava. Normalmente, Ava já não falava muito com ela, só o suficiente para pedir algo. Mas naquele dia, mesmo quando precisava de algo que a babá sabia que Ava queria, a menor se recusava e dava um jeito de conseguir por conta própria. Não fosse o som da televisão passando um desenho qualquer, o fim do dia teria sido todo no mais completo em silêncio. Em determinado momento, até mesmo interrompeu sua leitura para ficar observando Ava, que se revezava entre assistir ao desenho e olhar a babá, esperando que a mulher cedesse. Mas estava tão determinada quanto a criança para ver até onde aquilo iria. A mulher suspeitou que assim que ouvisse o pai chegar, Ava interromperia sua greve de silêncio. Mas agradeceu por não ter feito nenhuma aposta.
Ava já estava quase dormindo quando a porta da casa se abriu e Jeremy entrou. Ava ficou em pé no sofá, o sorriso rasgando o rosto de orelha a orelha, mas a menor não emitiu qualquer som. Nem mesmo quando Jeremy lhe fez uma pergunta direta. Ava se contentou em abraça-lo e lhe dar um beijo no rosto, permanecendo em seu colo enquanto o pai a acariciava e tentava extrair qualquer som da criança. Cansado, e percebendo que aquilo não lhe daria resultados, Jeremy recorreu à mulher sentada no sofá, que observava com atenção a cena e sorria divertida.
- O que aconteceu? – Perguntou Jeremy, apontando para Ava mesmo que já soubesse o que ele queria dizer.
- Ela está fazendo greve de silêncio. – Explicou .
- Essa é novidade. – Disse Jeremy, olhando a filha, que permaneceu com o rosto enterrado na curva do pescoço. – Qual é o motivo?
- Você quer contar, Ava? – Perguntou , vendo a menina negar com um aceno da cabeça. – Bem, ela queria sorvete, mas obviamente não temos sorvete. – Contou . – Então ela pediu bolo, mas não tinha bolo e eu não ia fazer porque você me disse que não era para fazer. – Continuou ela. – Então ela resolveu gritar.
- Gritar? Ava! – Ralhou Jeremy, vendo a menina se encolher em seu colo.
- Ela gritou até cansar. – continuou, vendo Jeremy arregalar os olhos surpresos por descobrir que a babá não tentara parar a filha. – Então ela tentou de novo conseguir o bolo, mas eu resolvi usar da autoridade que você me deu e não fiz por causa da sessão de gritos. E então ela disse que faria greve de silêncio. – Concluiu , suspirando. – Diz ela que por isso, pela greve, você vai me demitir.
- Não vou te demitir. – Tranquilizou-a Jeremy. Ele colocou a filha no sofá, apesar da menina ter agarrado com força o pescoço do pai. – E você, mocinha, vai ficar sem bolo por mais uma semana... Duas se não parar com essa greve de silêncio agora. – viu o queixo de Ava tremendo quando as lágrimas surgiram. – Eu falei que era para se comportar. Na próxima vez eu ia te levar comigo, mas agora não sei mais se você merece.
- Papai, não... – A menina começou a chorar, estendendo o braço para pedir colo ao ator. sentiu o coração apertar.
- Pede desculpas para a . – Pediu o ator, a mulher tentou protestar dizendo que não era necessário, mas sabia que não era certo contrariar sua ordem. Ava balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo pelo rosto. – Ava, pede desculpas.
- Desculpa. – Ela falou tão baixo, que e Jeremy mal ouviram, e o ator pediu que ela falasse mais alto. Ava olhou para o pai, os olhos brilhando com as lágrimas. – Desculpa.
- Não para mim, para a . – Ele apontou para a babá, que ainda estava sentada no sofá. Ava olhou para ela e repetiu o pedido, vendo a mulher assentir. – Agora vai dormir que já passou da sua hora.
- E a historinha?
- Sem história hoje. – Jeremy apontou para o corredor. Ava desceu do sofá e seguiu para o quarto. – Já volto. – Disse o ator, acompanhando a filha. respirou fundo e passou a mão no cabelo, não imaginava que veria tal reação do ator. Ela se levantou do sofá e juntou a bagunça de textos que havia feito, deixando-os em cima da mesinha de centro. Não demorou muito para Jeremy se juntar a ela. – Fiquei só até ela dormir.
- Não precisava ter sido tão severo. – Disse , enquanto o acompanhava até a cozinha, onde ele se serviu do que restava da janta que ela havia feito mais cedo.
- Precisava sim. – Disse Jeremy. – Era para você estar de folga e você cuidou dela. Não é certo ela reagir assim. Ava sabe que os atos dela têm consequências, sempre foi assim. Ela pediu desculpas de novo, queria muito que eu lesse algo para ela.
- Deveria ter lido. – Disse . – Ela se comportou bem ontem, e hoje não foi tão ruim assim.
- ... – Começou Jeremy, mas a mulher levantou as mãos para interrompê-lo.
- Eu sei, eu sei. Desculpe. – Pediu a moça, era a filha dele, ela não deveria dar palpites. Jeremy ficou em silêncio, ignorando o prato de comida que havia servido para ele próprio. Aproximou-se da mulher, que guardava os pratos que ela e Ava haviam usado mais cedo, e a parou. Os olhos de focaram nele, a dúvida quanto aos atos dele estampada em sua expressão.
- Obrigado. – Foi tudo o que Jeremy disse, e ela sabia o que aquilo significava. sorriu e assentiu, sorrindo um pouco mais quando o ator também sorriu, se afastando da mulher para poder comer.
Ela se afastou para guardar seu material e poder tomar um banho. Agradecendo a distância para que pudesse acalmar as batidas de seu coração, que havia acelerado com a repentina aproximação do ator. Ela sabia que era bobeira e que aquela fora uma reação causada devido ao susto tomado por ver o ator tão próximo, sem ela sequer ouvir sua aproximação. Não podia ser outra coisa. parou no meio do caminho para conferir Ava, sorrindo ao encontra-la adormecida abraçada ao elefante favorito.
- Você quer ler uma história para ela, não quer? – Ouviu a voz de Jeremy dizer, assustando-se por não ter escutado a aproximação do ator. desviou o olhar para focar nele.
- Tenho o coração mole. – deu de ombros.
- Amanhã eu leio. – Tranquilizou-a o ator, fazendo assentir.
- É contra as regras comer no quarto. – Ela apontou para o prato que ele carregava.
- Hoje é o dia das exceções. – Disse Jeremy, fazendo a mulher rir.
- Boa noite, Jeremy.
- Boa noite, .

Continua...



Nota da autora: É muito errado da minha parte chorar de rir com Ava aprendiz de Lúcifer? Tô me divertindo tanto imaginando as coisas que essa menina vai aprontar, quase aumentando ainda mais o prazo para a PP finalmente cair nas graças da menina! HAHAHAHHA... Espero que vocês também tenham se divertido tanto quanto eu - ou mais - só para eu não me sentir tão mal assim!

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Beijos e até a próxima :)

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Outras fanfics
- 13. Take it Back [Ficstape Ed Sheeran]
- Bullying [McFly/Finalizadas]
- Cap's Psychologist [Capitão América/Em Andamento]
- Hello, Brooklyn [All Time Low/Em Andamento]
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