Última atualização: 04/05/2018

Capítulo 10

JEREMY RENNER E NOVA NAMORADA VISTOS EM PÚBLICO

JEREMY RENNER EM PASSEIO DIVERTIDO COM SUA FILHA E SUPOSTA NOVA NAMORADA

RUMOR! JEREMY RENNER NAMORANDO

QUEM É A NOVA E MISTERIOSA NAMORADA DE JEREMY RENNER?


Fotos, muitas fotos. Mais fotos do que ela se sentia confortável. Fotos dela brincando com Ava, conversando com Jeremy. Fotos em que parecia que eles estavam de mãos dadas quando, na verdade, ela estava apenas passando algo para prender o cabelo de Ava. Fotos em que pareciam que estavam bem próximos, mas era apenas o ângulo em que a foto fora tirada. Fotos dela. Fotos dele.
Fotos deles.
passava por todas aquelas matérias sem acreditar no que via. Era um número absurdo de matérias que chegaram até ela pelo Google alerts. Ela só abrira uma, e já foi o suficiente para ela saber o conteúdo das demais. Para saber que ela era a nova Cinderela de Hollywood. A babá que encantou o chefe, o famoso ator de uma das maiores franquias da atualidade. Não importava que o personagem de Jeremy nem fosse o mais famoso, ele estava ali. E ele chamava atenção.
O ator em questão estava sentado ao seu lado, sem fazer ou falar nada, apenas esperando a brecha que o permitisse falar qualquer coisa. Ele já havia tentado antes, mas parara ao perceber que nem o estava ouvindo. Ted já havia mandado mensagens para comentar algumas fotos. Felizmente seus pais não haviam se pronunciado, e com sorte não o fariam. mal havia conseguido começar a pensar no que dizer para eles.
- Eu não acredito nisso – ela suspirou, passando a mão pelos cabelos.
- , eu sinto muito
- Não é sua culpa.
Não era. Era dela. Por que ela foi inventar de se convidar a passar o dia com o ator e sua filha? Ela que sempre se mantivera distante e preferia ficar em casa quando eles queriam sair. Mas naquele dia Ava estava desanimada por conta de alguns exames, e achou que seria uma boa ideia acompanhar a garota e seu pai no passeio sugerido pelo ator. E ali estava o erro. Porque bastou Jeremy abraça-la de forma mais íntima em um momento em que os fotógrafos não estavam tão atentos que o caos se instalara e eles resolveram fotografar cada mínimo detalhe para compensar o momento que haviam perdido.
- Eu queria poder evitar isso e apagar todas essas fotos, mas...
- O que está na internet é para sempre – completou , largando o celular e deitando para o lado no sofá, sua cabeça apoiada no colo de Jeremy, que começou a acariciar seu cabelo. fechou os olhos, sua mão entrelaçando-se com a do ator que estava apoiada em sua barriga. Aquele toque simples e o carinho suave em seu cabelo servindo para acalmá-la ainda que minimamente. – Apenas... Diga que isso tudo vai sumir amanhã, que eles terão outro assunto para discutir. Mesmo que seja mentira, diga que é isso que irá acontecer.
- Amanhã eles nem lembrarão mais quem você é – disse Jeremy, e ambos sabiam que era mentira. Mas não importava naquele momento. Eles só queriam uma pequena bolha para que conseguissem respirar e pensar em como lidar com a situação que eles sabiam que surgiria, apenas não tão cedo.
Jeremy sabia qual era a solução mais prática, e também sabia que a mulher o mataria com o olhar se ele começasse a sugerir tal possibilidade. havia sido enfática quanto a manter o relacionamento deles em segredo, ela ainda nem conseguira explicar a situação para os pais! Ted concordava com o ator sobre a irmã estar exagerando no pânico, mas ele tinha a inteligência e a experiência de manter sua opinião entre ele e Jeremy, não querendo irritar ainda mais. Pelo menos Jeremy fora inteligente em manter para ele a informação que acabara salvando algumas das fotos que foram publicadas porque as achou bonitas.
Ele tinha que distraí-la, sabia disso, não achava que aquele assunto tinha que acabar ali, mas estava chateada e forçar uma conversa daquela não daria certo. Felizmente, havia um pequeno problema no futuro que ele já estava querendo discutir com a mulher e que, talvez, cumprisse a missão de tirar da cabeça dela aquelas fotos e inúmeras notícias.
- Como está sua agenda para esse mês? – perguntou o ator, mantendo o carinho nos cabelos dela e sorrindo ao perceber que ela estava quase adormecida.
- Por quê?
- Eu perguntei primeiro – brincou ele.
- Por que, Renner? – repetiu ela, o olhar firme em direção ao ator, que sorriu e suspirou.
- Vai ter um evento na cidade sobre os Vingadores e todos irão com suas famílias, incluindo as crianças, claro.
- Sim? – perguntou ela, querendo saber onde ele queria chegar com aquilo.
- E, bem, na época que começamos a combinar, nós ainda não estávamos juntos e eu disse que você iria sem problema algum como uma das babás... – começou ele, tirando a mão da barriga dela para passar nos próprios cabelos. – E, bem, agora está um pouco em cima da hora para conseguirmos alguém de confiança e...
- Você quer saber se eu aceito o trabalho. – completou , sorrindo para o ator.
- Só no primeiro dia, no segundo terão umas atividades para as crianças e gente o suficiente para ficar de olho nelas – garantiu Jeremy, os olhos deixando claro a preocupação dele diante a resposta da mulher.
- Hm...
- Eu prometo te recompensar depois – acrescentou ele, fazendo a mulher arregalar os olhos e tentar controlar um sorriso.
- Acha que pode me pagar com sexo, Renner? – perguntou ela, sorrindo ao nota-lo ficando levemente vermelho, pego de surpresa com a implicação dela.
- Eu não disse isso – disse Jeremy, se recuperando da surpresa inicial. – Mas se falou, é porque quer, então...
- Ia me recompensar como, então?
- Agora é tarde demais – disse Jeremy, sorrindo diante a expressão enfezada dela. – Sexo será.
Jeremy se inclinou para frente, selando os lábios nos dela e impedindo-a de dar a resposta que estava na ponta da língua. não reclamou, retribuindo ao beijo na mesma intensidade, ambos sorrindo diante a posição inusitada e levemente desconfortável em que se encontravam. O efeito na mulher foi instantâneo. Bastou sentir aquele toque, o entrelaçar da língua dele com a sua e toda a preocupação de momentos antes sumiu. Ali estava a bolha que eles tanto queriam. Principalmente levando em conta que estavam sozinhos, já que Ava fora passar o fim de semana na casa da mãe. Eram apenas os dois para reconstruírem aquela mesma bolha que criaram no início do relacionamento, e se dependesse deles, não estourariam tão cedo.
- Então, o que iremos assistir hoje? – perguntou Jeremy quando se afastaram. – Sei que os filmes você terminou.
- E tem mais o que? – perguntou , franzindo o cenho, tentando lembrar a lista que fizera com o que queria assistir dos trabalhos do ator.
- Eu fiz algumas séries também – disse ele. – Não tenho todas, claro, mas uma em que eu fui um dos protagonistas, eu tenho... É a...
- The Unusuals? – perguntou ela, olhando para o ator. – Eu sei, já assisti.
- Quando? – perguntou Jeremy, fazendo-a sorrir com a expressão confusa.
- Um fim de semana que você e a Ava foram viajar – deu de ombros. – Acho que foi ai que eu percebi que estava num caminho sem volta em relação a você. E não ajudou nada ter assistido isso logo depois do episódio da luta na sala. – Ambos sorriram ao se lembrar da manhã em que o flagrou sem camiseta no meio da sala. – E também acho que foi ai que eu finalmente consegui entender o fetiche que as mulheres têm com homens de uniforme, e olha que o máximo que você usou naquela série foi uma jaqueta.
- É mesmo? – Jeremy aproximou o rosto do dela, dando um selinho rápido antes de descer para o maxilar dela, sorrindo quando virou o rosto para o lado e lhe deu mais acesso ao pescoço dela. Sua mão, que voltara para a barriga dela, escorregou para debaixo da camiseta que ela usava, sentindo a pele dela se arrepiando com o toque dele. – Sabe – sussurrou ele no ouvido dela, mordendo o lóbulo de leve. tinha os olhos fechados, o lábio inferior entre os dentes – eu guardei o distintivo e as algemas.
soltou o ar que nem percebeu que havia prendido, deixando sua imaginação correr livre pelos inúmeros cenários envolvendo aquelas algemas e eles dois. A mulher virou o rosto para ele, capturando os lábios do ator e soltando um gemido abafado quando sentiu a mão dele em seu seio direito.
- Quando a Ava chega? – perguntou ela, o lábio percorrendo o maxilar dele, sentindo a barba por fazer de Jeremy arranhando sua pele, intensificando ainda mais o calor que se espalhava por seu corpo.
- Só na segunda – respondeu Jeremy, fechando os olhos ao sentir a língua dela percorrendo uma região de seu pescoço. E rindo quando ele se afastou e ela reclamou. – Fique aqui.
o viu se levantar e ficou assistindo enquanto ele se afastava, tentada a segui-lo, mas decidindo esperar. Felizmente, ele não demorou muito para voltar, em suas mãos um brilho prateado que chamou a atenção da mulher e fez com que ela pressionasse uma perna contra a outra ao imaginar o que Jeremy pretendia com aquilo. Jeremy sorriu de lado ao perceber o brilho nos olhos de , aproximando-se do sofá e puxando-a para ficar em pé, passando um braço por sua cintura e puxando-a para junto de seu corpo. colocou as duas mãos na cintura dele e voltou a selar seus lábios, os dedos aumentando a força na camiseta que o ator usava quando sentiu ele empurrando-a até a parede mais próxima.
- Eu deveria ter falado antes: encoste-se na parede – disse ele, quebrando o beijo e afastando o rosto. – Mãos para cima. – riu, erguendo os braços, sentindo as mãos de Jeremy subindo por seu abdômen e subindo a peça que cobria aquela região. Jeremy tirou a camiseta dela e depois passou a algema por seus pulsos. – Agora, eu diria que você tem o direito de permanecer em silêncio, mas eu sei que você não vai conseguir, então...

~ * ~


Afinal, a agenda de estava um pouco cheia para aquele mês, visto que suas férias estavam chegando ao fim e alguns professores já haviam se adiantado e mandando e-mails contendo a lista de leitura do semestre. Não bastasse isso, ela ainda recebera uma mensagem de seu orientador perguntando sobre o progresso da pesquisa dela durante aqueles meses. havia avançado um pouco, mas não tanto quanto ela tinha programado durante o fim do semestre anterior. Assim, após o evento em que tivera que trabalhar como babá, e onde tivera que aguentar as inúmera insinuações e perguntas sobre o suposto relacionamento dela com Jeremy, se jogou nos estudos, numa rotina semelhante à das semanas de provas.
Foram dias seguidos com noites mal dormidas, alimentação precária e a irritação cada vez que Jeremy tentava arrancá-la dos estudos. Apesar do ator entender que ela havia deixado muita coisa de lado para aproveitar as férias com ele e Ava. Após quase duas semanas, se rendeu ao cansaço excessivo de seu corpo e resolveu descansar. Considerando o roteiro que havia elaborado para as férias, ela já havia conseguido avançar bastante e considerou que era uma boa hora para tirar um tempo para si. Enquanto pai e filha acordavam para tomar o café da manhã, se fechou em seu quarto para tirar um breve cochilo antes de comer algo saudável e voltar aos estudos.
Horas depois, acordou de seu cochilo com o som das risadas altas de Ava. Ela se espreguiçou na cama e buscou o celular embaixo do travesseiro, levemente atordoada pelo despertar repentino e se surpreendendo ao ver que havia dormido mais que o previsto inicialmente. A mulher passou a mão no rosto e suspirou, ouvindo Ava gritar e as risadas da criança misturando-se as do pai logo em seguida, instintivamente ela sorriu, se sentando na cama logo em seguida. Sua boca estava seca e agradeceu por ter colocado uma garrafa de água na mesinha de cabeceira, ingerindo praticamente metade da mesma de uma vez só. Sua cabeça estava um pouco pesada, provavelmente consequência do cansaço excessivo das últimas semanas, que não seria curado por uma simples cochilada de quase três horas. Com um último suspiro, ela se levantou de vez e saiu do quarto.
Jeremy e Ava estavam no jardim atrás da casa, o que explicava os sons chegarem com tanta clareza ao quarto de . A mulher parou na soleira da porta e cruzou os braços, observando enquanto pai e filha brincavam de lutinha. Jeremy, ajoelhado na grama e com a camisa branca levemente suja de terra, tinha as mãos erguidas, enquanto Ava, parada em frente a ele e com folhas secas presas no cabelo, socava cada uma das palmas das mãos do pai alternadamente, a respiração já levemente ofegante, a língua um pouco para fora, presa entre os dentes, a testa franzida, formando uma pequena marquinha entre as sobrancelhas. Jeremy ficava falando palavras de incentivo para a filha, vez ou outra soltando alguma exclamação de dor, que não sabia se era verdade ou fingimento, por experiência própria ela sabia que Ava conseguia bater bem forte quando queria. No último soco, Ava se desequilibrou um pouco e acabou atingindo o queixo do pai, que se jogou para trás com uma mão no queixo e a outra segurando a filha para diminuir o impacto de quando ela se jogou em cima dele. Para a sorte do ator, a atenção de Ava foi desviada quando ela percebeu parada, admirando a cena.
- ! – Exclamou a menina, levantando-se desajeitada, pisando no pai em algumas vezes e sujando a camiseta mais ainda, e depois correndo em direção à babá, abraçando as pernas da mulher.
- Dando trabalho para o seu pai? – Perguntou , passando a mão no cabelo da criança, que apenas riu e concordou com um aceno de cabeça. Jeremy se levantou com calma, ainda massageando a região no queixo onde Ava o havia acertado. – Ela te pegou de jeito?
- O que você tem dado para ela comer? – Perguntou Jeremy, mostrando as palmas das mãos vermelhas. tirou uma mão do cabelo de Ava e passou no queixo dele, vendo Jeremy fazer uma careta.
- Deixe de drama – disse a mulher, sorrindo em seguida. – Ela pode bater forte, mas não o suficiente para você ficar assim.
- Quer dizer que você não vai dar um beijo para melhorar? – Perguntou Jeremy, abrindo um sorriso de lado, apenas revirou os olhos, dando atenção a Ava que começava a se sentir incomodada com as folhas secas no cabelo e pedia ajuda da babá.
- Mais tarde, quem sabe – disse ela depois, dando uma piscadela e depois se abaixando para conversar apropriadamente com Ava.
- Vou cobrar – disse Jeremy, deixando claro para a mulher que aproveitaria essa brecha dela para arrancá-la dos estudos, passando por elas para entrar na casa. se levantou, enquanto Ava corria para o quarto para pegar a escova de cabelo, e se aproximou do ator.
- Pelo que eu me lembre, foi você quem prometeu que essa semana eu receberia os cuidados e agrados. – Observou , enquanto Jeremy passava os braços por sua cintura, puxando-a para mais perto. – Ava pode nos ver. – Sussurrou ela quando Jeremy se aproximou para beijá-la.
- Ela já nos viu diversas vezes, – disse o homem, dando de ombros. – E eu não tive a oportunidade de te dar um beijo quando eu acordei.
- Sinto muito por isso – disse , dando um beijo rápido no ator, sabendo como ele ficava preocupado com aquele ritmo que ela adotava. – Para sua felicidade, eu finalmente cheguei ao meu limite hoje de manhã e só queria dormir.
- Eu entendo. – Tranquilizou-a Jeremy. – Aliás, Ava fez algo incrivelmente fofo enquanto você estava desmaiada... Quero dizer, dormindo. – Comentou ele. – Eu postei no instagram, espero que não se importe.
- Ela fez... Espera, você fez o que? – arregalou os olhos, sentindo o coração acelerar diante o que ele havia falado. – Jeremy, nós...
- Eu sei, posso deletar se quiser.
- Acho que agora é um pouco tarde demais, não? – perguntou , claramente chateada com o que o ator havia feito.
- Desculpe – disse ele, em sua defesa, parecendo sincero. – Ajuda se eu disser que nem dá para ver que é você?
- O que ela fez? – Perguntou , preferindo não discutir agora com ele, já que sua cabeça ainda estava pesada. Do próprio quarto, Ava gritou por ela e avisou que já estava indo.
- Ela acordou e perguntou de você, expliquei que estava dormindo, então ela foi até o seu quarto te ver. – Contou Jeremy, levando até seu próprio quarto enquanto o fazia. – Ai, ela veio até mim e perguntou se podia ficar com você, fazendo companhia.
- E você não deixou.
- Não, eu deixei, mas disse que ela tinha que ficar bem quietinha para não te atrapalhar. – Explicou o ator, soltando a mulher para ir até a própria mesa de cabeceira. – Ela pediu lápis e papel, deixei vocês duas sozinhas, quando voltei ela estava deitada do seu lado, desenhando isso. – Jeremy entregou a folha para , que a olhou com atenção, sentindo os olhos arderem com as lágrimas que surgiram. Era um desenho infantil, claro, mas ela já estava tão acostumada com os traços de Ava que já conseguia discerni-los facilmente. Haviam três pessoas no meio do que parecia ser um jardim, as duas primeiras reconheceu como Ava e Jeremy, a menor no meio segurando a mão das outras duas pessoas, a terceira pessoa, franziu o cenho e depois olhou para o ator a sua frente. – Essa é...
- Você. – Confirmou Jeremy, sorrindo quando viu uma lágrima escorrendo pelo rosto da mulher. voltou a olhar o desenho, só então notando que Ava havia desenhado corações envolvendo as mãos que seguravam as delas. – Acho que essa é a forma dela de dizer que você é oficialmente da família. E que talvez eu deva parar de me referir a você como somente a babá dela, e, consequentemente, a gente deve parar de fugir do inevitável e assumir tudo. – Comentou o ator, chamando a atenção de , que tinha uma clara expressão de dúvida no rosto. – Sabe, parar de despistar a imprensa, nos assumir de uma vez...
- O que você postou no instagram? – Perguntou , voltando a ficar preocupada.
- Só que Ava pediu para ficar desenhando do seu lado, basicamente o que eu te contei. – Explicou Jeremy, claramente com medo de como ela reagiria. Fora impulso, ele sabia, no momento que publicara a foto, ele se arrependera. – Está tudo bem se você não quiser assumir, não é exatamente ruim manter as escondidas. E, como eu disse, não dá para saber que é você.
- Não é isso. – passou a mão no cabelo, era uma péssima hora para ter aquela conversa, e correu para se explicar, temendo que sua reação de antes tivesse alarmado o ator de que talvez ela não quisesse aquela exposição toda. Se fosse ser bem honesta, não queria, mas sabia que havia feito uma escolha quando aceitara o pedido de Jeremy. – Eu não me importo, quero dizer... – Disse ela, fazendo uma careta e inclinando a cabeça, fazendo o ator rir. – Eu me importo e, óbvio, se pudesse e eles já não estivessem desconfiados, eu preferiria manter o segredo. Mas é sua vida e nós estamos indo melhor do que eu esperava, sem ofensas... Então, acho que é o certo a fazer. Não garanto que vou sair para todos os lados com você, ou que vou ficar sorrindo para as câmeras quando elas surgirem... Mas um passo de cada vez.
- Não posso te convidar para ir às premiações comigo, então? – Perguntou Jeremy, puxando-a de volta para seus braços.
- Ainda não. – Ela sorriu, deslizando sua mão pelo corpo do ator até chegar ao bolso da calça dele para buscar o celular, querendo ver a foto que ele havia tirado e o que havia postado.

Os dias se passaram e, para o alívio de , a postagem de Jeremy não havia repercutido tanto quanto a primeira aparição pública deles, semanas atrás. No fundo, ela sabia que tinha que aproveitar aquela calmaria, já que com certeza ela não duraria muito. Alguns dias após a publicação, ela chegou a um estágio satisfatório de sua pesquisa e entregou ao professor, lhe rendendo mais alguns dias de folga até o final efetivo de suas férias no final daquele mês.
Claro que, para Jeremy, as férias dele já haviam acabado bem antes com a divulgação do novo filme que ele estrelava com Elizabeth Olsen, e que estava mais que ansiosa para assistir, já que ouvira tantos comentários positivos sobre ele. Como havia muita coisa a ser resolvida, Jeremy pediu a ajuda de com sua própria agenda e compromissos, algo que a moça já estava habituada a fazer. E o que ela fazia naquele dia, enquanto filtrava a correspondência dele. A moça já estava habituada aos envelopes que chegavam com os ingressos e credenciais para algum evento, e por isso ela estranhou quando abriu um deles e viu não apenas um, mas dois ingressos para a première de Wind River, que estrearia na próxima semana nos Estados Unidos. Havia um pequeno bilhete na letra da agente de Jeremy, comunicando que aquele era o ingresso dele e da acompanhante dele, como pedido, aparentemente, pelo próprio ator. mordiscou o lábio assim que entendeu o que aquilo de fato era, suspirando logo em seguida. Ela olhou para o homem ao seu lado, entretido em suas redes sociais e sorriu de leve, quase se sentindo culpada por tirá-lo daquele momento.
- Jeremy, – chamou , elevando os convites assim que o ator a olhou – o que é isso?
Ela não queria soar chateada, mas só depois que as palavras saíram de sua boca foi que percebeu como ele poderia ter a impressão errada, e não se enganou. A princípio, Jeremy pareceu confuso, logo depois seus olhos se arregalaram e ele imediatamente começou a abrir a boca para pedir desculpas, parando quando a mulher levantou a mão, o indicando para pular as desculpas.
- Desculpe, não é isso que você está pensando... Quero dizer, meio que é, mas não é ao mesmo tempo – Jeremy sorriu, claramente perdido em sua própria resposta. – Eu sempre recebo convites a mais, caso eu queira levar mais alguém...
- Mas esse tem meu nome.
- Eu sei... Foi a Amber, acho que você lembra dela...
- Como esquecer? – sorriu, lembrando-se da pequena confusão que Amber causara ao anunciar uma vaga, quando era outra completamente diferente.
- Ela acha que é uma boa forma de nos assumirmos – explicou Jeremy, retirando os convites da mão dela e os encarando antes de voltar a olhar para a mulher. – Eu disse a ela que ainda estávamos indo devagar e que você não queria fazer assim, mas acho que ela já tinha enviado. Você não precisa ir, podemos assistir aqui em casa depois.
- Eles já estão comentando, Jeremy – disse , lembrando-se de quando tudo começara e dos eventuais comentários que eram feitos na foto que ele postara dela com Ava desenhando ao seu lado.
- Eu sei, e por causa do que nós conversamos e de como você pareceu ficar chateada pela foto que eu disse que não precisava enviar os convites, mas... Eu sinto muito.
- Não é sua culpa – sorriu. Ambos sabiam que era um pouco, mas era melhor não complicar ainda mais a situação delicada. encarou os convites nas mãos do ator e pegou um, fazendo Jeremy a olhar esperançoso. – Eu não estou dizendo que vou – explicou ela, abrindo um sorriso. – Só quero guardar de recordação. – O ator afirmou, não parecendo muito feliz com a resposta dela. – Não estou pronta ainda, Jer, desculpe... Quem sabe no último filme dos Vingadores?
- Último... Mas está tão longe! – Jeremy protestou entre risos, deu de ombros. – Eu gosto da ideia, pelo menos... Quer dizer que você pretende ficar comigo até lá.
- Você não pretendia ficar comigo tanto tempo? – perguntou , sorrindo divertida.
- Não foi isso o que eu disse. – Jeremy sorriu, largando o convite que restara em sua mão e se aproximando dela com a cadeira para lhe roubar um beijo.

Era um daqueles raros momentos em que ela estava sozinha em casa, e aproveitou para ligar para Ted. O convite em sua mesinha de cabeceira parecia brilhar em luz neon, não deixando que ela pensasse em qualquer outra coisa. Antes de realizar a ligação, a mulher havia tirado a foto do convite e enviado ao irmão, informando que ligaria em seguida para discutirem sobre o que ela deveria fazer.
- Ele te convidou? – Foi a primeira coisa que Ted perguntou assim que atendeu a ligação. deitou-se na cama e suspirou.
- Não diretamente – disse ela, logo depois explicando o que havia ocorrido, como ela havia encontrado os convites.
- , eu sei que você não vai gostar da minha resposta – disse Ted quando ela finalizou a narrativa – mas eu concordo com ele. Não tem mais para onde vocês fugirem e a melhor coisa é assumirem logo. Praticamente todo mundo já sabe, só você que quer agir como se não fosse verdade.
- Eu só queria um pouquinho de paz e tranquilidade.
- E você teve.
- Queria mais.
- Pensa assim, quanto mais cedo vocês assumirem, mais eles cansam de ficar caçando qualquer detalhe que confirme o que vocês querem negar, e ai logo vocês deixam de ser novidade.
- Que tipo de lógica é essa? – perguntou ela, franzindo o cenho.
- Você sabe que eu estou certo – disse ele. – Mas se quiser uma opinião mais especializada, você pode pedir ajuda da Anna.
- Anna?
- Sua vizinha.
- Ah... teoricamente ela é vizinha do Jeremy – brincou , logo depois embarcando em outros assuntos com o irmão, sentindo aos poucos o peso sair de seus ombros.
Conversar com Ted sempre a ajudava a pensar no que a perturbava. Enquanto o irmão lhe contava coisas da faculdade e do trabalho que havia conseguido, além de uma possível nova namorada, ela aproveitou para pensar no dilema que tinha a sua frente, pesando os prós e os contras da decisão que queria tomar. Para ela, era uma escolha fácil, ela sabia o que queria... Mas o medo e a insegurança a impediam de fazer aquilo. sabia que era bobeira continuar escondendo, era como Ted havia falado: todos já sabiam, iludidos eram eles, a mulher e Jeremy, achando que podiam segurar a confirmação por muito mais tempo.
Ela se lembrou do primeiro fim de semana dos dois, de como Jeremy narrara como seria o dia de uma première, de como ele se sentia ansioso por compartilhar aquela experiência com ela. Era um evento pequeno se comparado a um dos filmes da Marvel, podia agradecer por aquilo, definitivamente não estava pronta para encarar um filme dos Vingadores, seria necessária uma longa preparação para que ela começasse a aceitar aquela ideia. A mulher fechou os olhos, imaginando como Jeremy reagiria com ela aceitando o convite, e depois uma nova ideia surgindo: como ele reagiria se ela o surpreendesse.
O ator já havia feito tanto por ela naquelas últimas semanas, e ela sabia o quanto aquele filme era importante para ele, o quanto ele havia trabalhado para entregar um bom resultado. Era um dos filmes que mais orgulhava o ator, ela não queria perder a oportunidade de vê-lo e poder reagir instantaneamente, poder compartilhar com todos os demais os comentários positivos e as opiniões. Então, como se só estivesse esperando uma deixa dela, uma pequena luz se acendeu em sua mente e sorriu. Por que demorara tanto para chegar àquela conclusão?
- Ted? – chamou ela, interrompendo o irmão que narrava sobre um trabalho em grupo. – Eu preciso desligar.
- Achou sua resposta? – perguntou ele, sorrindo enquanto esperava a resposta da irmã, já mais do que acostumado ao jeito dela de ponderar suas decisões enquanto ele falava sem parar.
- Preciso fazer uma visita à vizinha – disse ela, depois olhando o relógio e fazendo uma careta, que se intensificou quando ela ouviu a porta da frente se abrindo e a risada animada de Ava. – Amanhã.
- Então posso continuar a contar a história que você estava ignorando? – brincou ele, fazendo a mulher rir enquanto saia do quarto para se juntar a pai e filha que chegavam carregando uma caixa de pizza.

No dia seguinte, a ansiedade de estava em seu ápice e ela bem que tentou diminui-la se ocupando com algumas atividades, mas nada parecia funcionar. Assim, ela resolveu finalmente colocar seu plano em ação.
- ? – Anna não escondeu a confusão ao abrir o portão e encontrar a babá. Ela havia aproveitado que Jeremy e Ava saíram juntos para um passeio, e usando uma desculpa de que estava cansada por uma noite mal dormida, a mulher ficara para trás. – Está tudo bem?
- Está... Quero dizer... Não, está sim, mas eu preciso da sua ajuda – ela daria risada da expressão confusa de Anna, não fosse seu desespero. Ela entregou o envelope que continha o convite para a première que ocorreria em menos de uma semana para a atriz e deixou que a loira interpretasse e entendesse a situação.
- Wind River... Esse não é o filme do Jeremy?
- Sim – confirmou .
- Ele te convidou para ir com ele? – Anna arregalou os olhos. – Achei que vocês estivessem indo devagar... Se bem que, depois daquela foto, bem...
- Então, teoricamente, ele não convidou, eu que achei os convites – explicou , lembrando-se da pequena conversa que tiveram alguns dias antes. – Mas ele disse que eu não precisava me preocupar, e não precisava ir.
- Isso significa que você quer ir?
- Eu passei muito tempo pensando nisso, – confessou – tenho até dó do meu irmão por ter me aguentado tanto. Sei que está em cima da hora, mas eu acho que seria uma boa ideia ir. E eu preciso de um vestido. Por isso estou aqui, você entende mais disso do que eu. Me ajuda? – Ela se atropelava nas próprias palavras tamanho era seu nervosismo, graças a deus Anna era conhecida por falar rápido e conseguia entender a mulher com facilidade.
- Com prazer, querida – disse Anna, finalmente abrindo todo o portão e dando passagem para a mulher. – Sei exatamente para quem ligar.
aceitou a oferta de uma xícara de chá enquanto Anna ligava para alguém que ela conhecia e que poderia ajuda-las em tão pouco tempo. Ela não quis prestar atenção na conversa da mulher, primeiro por achar feio, segundo por considerar que ficaria ainda mais ansiosa se ouvisse o que elas discutiam. Ocupou-se em ficar de olho no chá e conversar com Ted, tranquilizando-o e confirmando que havia tomado a atitude de ir pedir ajuda da Anna.
- Muito bem, espero que você esteja livre hoje – disse Anna, voltando à cozinha carregando uma bolsa e a chave do carro. – Ela disse que está livre para nós e que tem até algumas novidades. Iremos assim que estiver pronta.
- Vai ser maravilhoso explicar para o Jeremy que eu estava com dor de cabeça para sair com ele e com a Ava, mas estou ótima para sair com você – brincou , já pegando o celular para mandar uma mensagem para o ator.
- Querida, quando ele te ver, acredite, ele nem vai se importar.
Quando ele te ver, aquilo fez engolir em seco. Ela lembrou-se de uma conversa que tivera com o ator há pouco mais de um mês, na qual ele falara sobre como a noite de uma première era diferente de qualquer outra noite. Aquilo lhe causou um frio na barriga e um arrepio no corpo inteiro, de repente ela estava ansiosa novamente, mas era outro tipo de ansiedade, aquela que antecedia algum acontecimento muito esperado. Foi o que precisava para terminar de se convencer de que iria mesmo seguir adiante com aquilo, ainda que o nervosismo estivesse enterrado lá no fundo, ela enfrentaria.
Para seu alívio, Jeremy não pareceu muito chateado com a mensagem que ela enviou, avisando que Anna havia pedido por sua companhia para fazer algumas compras. Preocupado, claro, ele perguntou sobre sua dor de cabeça, a qual ela explicou que havia melhorado desde que ele e a filha haviam saído, tudo resultado do remédio e chá que havia tomado. Pareceu funcionar, o que ajudou a aliviar a leve culpa que ela sentia por estar mentindo para ele.
Anna parecia perceber o nervosismo da mulher, e foi conversando durante todo o caminho até o ateliê da amiga que a ajudaria. Ela evitou falar muito sobre a estilista, preferindo discutir amenidades como a agenda pesada de Chris, as gravações dos novos podcasts – lembrando-se de reforçar o convite para participar do programa – e outros assuntos mais banais. dava algum sinal de que estava ouvindo vez ou outra, agradecendo por Anna não ser o tipo de pessoa que precisava de muito incentivo para continuar falando, e por ser compreensiva além do normal.
O ateliê era um lugar simples, provavelmente já havia passado na frente do local diversas vezes e nunca prestado atenção. Uma porta com uma placa de identificação ao lado indicava a dona do local: Erin Costello. Anna apertou o botão da campainha, com a porta abrindo logo em seguida. O nervosismo havia voltado com força e mal conseguiu prestar atenção no local até perceber que estavam em uma sala ampla, com cerca de cinco mesas compridas e diversos manequins de modelagens espalhados pelo local. Alguns sustentavam uns vestidos, outros conjuntos mais variados, e outros estavam sem nada. A iluminação do local era clara e forte, incomodando os olhos de por um momento. Em um canto, havia um conjunto de espelhos posicionados de forma estratégica, com alguns focos de luzes em cima para darem uma visão perfeita da roupa que a pessoa estivesse usando. E, então, do fundo da sala, ela surgiu. Morena, simpática e esguia, o sorriso ia de orelha a orelha e a voz era rouca e suave. O cabelo curto estava preso pela metade, já que o corte não permitia que todos os fios ficassem juntos no coque no alto da cabeça. Ela usava um óculos de armação, possuía um lápis preso na orelha e no pulso uma daquelas almofadas com vários alfinetes.
- Anna! – exclamou, abrindo os braços para cumprimentar a loira. ficou um pouco de lado enquanto as duas se abraçavam calorosamente. – Meu deus, quanto tempo!
- Desculpe! – disse a loira, afastando-se da outra. – O último grande evento foi a calçada da fama, nada mais aconteceu depois.
- Vou fingir que você não acabou de confessar que só me procura quando tem eventos, para seu próprio bem – apontou a mulher, logo depois se voltando para . – E você deve ser a famosa .
- Famosa?
- Ah, querida, qualquer pessoa que tenha sobrevivido à Ava é famosa – observou a morena, sorrindo para a babá. – Sem contar que você também fisgou o Renner, é outra grande conquista.
- Não vamos esquecer da aposta com o Evans!
- Ah, claro! – O sorriso da morena pareceu aumentar ainda mais. – Nem acredito que vivi para ver o Evans perdendo uma aposta, fazia tanto tempo...
- Que bom que pude ajudar – brincou .
- Bem, estou sendo rude, porque claramente você não faz ideia de quem eu seja, e eu sei um pouco demais sobre você – brincou a estilista, estendendo a mão para fazer uma apresentação mais formal. – Erin Costello, estilista.
- Prazer, , babá da Ava.
- E namorada do Jeremy Renner, não esqueça – observou Anna.
- Ainda é muito recente, a ideia não fixou totalmente ainda – respondeu , apertando a mão de Erin, que riu da resposta dela.
- Então... Você vai à première de Wind River – disse Erin, adotando uma expressão mais séria e observando, sem se dar ao trabalho de disfarçar, dos pés à cabeça. – Não é um evento muito grande, mas é importante por ser a primeira aparição pública de vocês, então temos que arrasar, acho que vou chamar mais uma ajuda para isso, você não pode ir com qualquer maquiagem.
preferiu não argumentar contra a mulher ou perguntar para Anna o que diabos ela queria dizer com aquele papo de maquiagem e mais ajuda. Acompanhando-a até uma mesa, sentando-se no banco oferecido e respondendo às perguntas de Erin, que anotava algumas palavras-chave em um pedaço de papel e acenava positivamente quando uma resposta lhe agradava. A estilista fez umas perguntas que chegou a causar dúvida em se era para fins estilísticos ou só curiosidade, mas diante a expressão divertida de Anna, ela preferiu não perguntar, por algum motivo, gostando do estilo de Erin, quando normalmente não se sentiria confortável com alguém tão invasivo.
- Estou realmente triste porque não conseguirei fazer nada exclusivo para você – disse a mulher, batucando o lápis na mesa enquanto olhava . A princípio a babá achou que ela esperava algum comentário, mas Erin permaneceu encarando mesmo depois de dar uma resposta genérica. A boca da estilista mexia, como se ela estivesse mordiscando o interior da bochecha enquanto parecia pensar. – Odeio quando vocês fazem isso – acrescentou ela, olhando para Anna logo em seguida.
- Não me culpe, ela que só tomou a decisão hoje – disse a loira, apontando para . Erin bufou e olhou para um ponto na mesa, logo depois soltando uma exclamação e se levantando, assustando tanto Anna quanto .
- Já volto – disse a estilista, correndo pelo ateliê.
- Ela é sempre assim? – aproveitou para perguntar.
- Pior – confessou Anna. – Ela está se comportando porque acabou de te conhecer e não quer te assustar.
- Como ela conhece tanto todo mundo?
- Ela é estilista da Scarlett, e já trabalhou em quase todos os filmes da Marvel – explicou Anna, sua expressão deixando claro que havia mais, mas que ela não iria explorar. E preferiu não perguntar, até porque naquele exato momento Erin se fez presente, atravessando o local com algo em seus braços.
- Eu acho que você provavelmente não vai se sentir muito confiante, mas você veio até mim, então vai me ouvir e vai usar – disse Erin, enquanto se aproximava. Ela foi até onde o conjunto de espelhos estava e pendurou o cabide em um suporte, chamando e Anna para se aproximarem, abrindo a proteção da roupa enquanto as mulheres iam até ela. – Jeremy não vai nem saber o que o atingiu.
não conseguiu dar uma resposta àquele comentário, sua própria mente ficando em branco ao encarar a peça que lhe era exibida. O sorriso no rosto de Erin a impossibilitava de expressar qualquer negativa, e, no fundo, nem queria negar a oportunidade de usar algo tão lindo. Ela não se lembrava de algum dia ter visto algo tão maravilhoso em sua vida. A mulher engoliu em seco, aproximando-se para tocar o vestido e admirá-lo mais de perto. Ela não sabia até então, mas aquilo era exatamente o que ela queria usar no dia da première.
Por ser uma surpresa para Jeremy, as três mulheres tentaram arquitetar um plano para conseguir tirá-lo de casa a tempo de conseguir se arrumar. Nenhuma das sugestões eram boas o suficiente, então elas tiveram que recorrer à tal ajuda que Erin havia mencionado mais cedo e fizeram uma ligação para uma tal de Mavis, maquiadora pelo que Erin havia falado. E também muito conhecedora de todo o universo cinematográfico da Marvel. De acordo com informações passadas a por Anna, a maquiadora havia trabalhado com Sebastian Stan alguns anos antes dele entrar para o elenco de Capitão América.
- Muito bem, eu devo chegar ai na noite anterior ao evento – Mavis disse no telefone, após discutir algumas coisas em particular com Erin. – Como a Erin está responsável pela roupa do Jeremy, fica fácil tirá-lo de casa para eu entrar e cuidar da sua maquiagem e cabelo, .
- Meu deus – a mulher murmurou, apoiando a cabeça na mesa. – Estou me sentindo em um filme de espionagem ou algo parecido.
- Eu sei! É tão divertido! – exclamou Erin, que já havia puxando um bloco de desenho e começado a fazer uns rabiscos em uma página que continha o nome de no topo. – É tão difícil surpreender o Jeremy, você não tem noção.
- A gente sempre tenta e sempre falha – acrescentou Mavis, da chamada de vídeo. – Acho que isso só prova como você é a mulher certa para ele.
enrubesceu com aquilo. Durante todo o encontro as mulheres haviam reforçado como era bom que Jeremy finalmente havia encontrado alguém e que nunca tinham visto o ator tão feliz. Ela não respondia a nenhum dos comentários, ocupada demais em se sentir envergonhada por ser tão elogiada por um simples relacionamento. Talvez por ter pouco tempo de convívio com o ator, ela achava um exagero da parte das outras o tanto que elas comentavam sobre o “efeito ”, porém, por outro lado, concluiu que elas não insistiriam tanto no assunto se não fosse verdade.
Uma vez decidido o plano, Erin encerrou a ligação com Mavis e convidou Anna e para comerem algo e poderem se conhecer mais. A loira logo concordou e não viu outra saída a não ser aceitar também, não que ela quisesse ir embora, afinal havia se afeiçoado à estilista, porém ela ainda se sentia levemente culpada por mentir para o Jeremy.
A tarde delas passou rapidamente, com Erin contando resumidamente sua história e sua participação em um programa de moda que costumava amar.
- Não acredito que você recusou a vitória, por quê?
- É um mundo de cobras, muita falsidade – disse a mulher, dando uma mordida em um biscoito. – Você gosta de Harry Potter? – confirmou. – Então, muitos Rabichos. E, acredite, estou muito bem assim. – Erin suspirou e deu de ombros. – É clichê, mas é verdadeiro: há males que vêm para o bem. Poderia ter dado um tiro no meu próprio pé, mas deu certo e cá estou.
estava impressionada. Sabia que não havia escutado metade da história da mulher, mas se sentia inspirada. Infelizmente, o encontro chegou ao fim e elas se despediram, com Erin pedindo para voltar mais vezes e fazendo a mulher prometer que viria até a estilista quando resolvesse encarar a première de Vingadores. deu uma forma de escapar da segunda, mas aceitou o convite da primeira proposta. Quando saíram, afinal, a cabeça dela realmente doía, mas agora de excitação. Ela nunca desejou tanto por um fim de semana como agora.
E quando sexta chegou, ela mal conseguira dormir à noite, imaginando mil possibilidades para o plano tão bem elaborado dar errado. Mas, afinal, tudo parecia estar indo bem. Jeremy recebeu uma ligação logo de manhã de Erin dizendo que tivera um problema com seu terno e pedindo para ele ir ao ateliê após o almoço para os ajustes finais. Dez minutos após ele sair, Mavis chegou acompanhada de Anna, abraçando com força, ao contrário de Erin que se controlara mais.
- Você é mais linda pessoalmente – disse a maquiadora, analisando com atenção o rosto da mulher. – Terei pouquíssimo trabalho, o que é ótimo, já que temos pouco tempo.
Mavis era menos falante que Erin, mas tão eficiente quanto. A estilista mantinha as mulheres avisadas da situação, deixando-as tranquilas para fazerem um bom trabalho. Enquanto Mavis preparava a pele e fazia um penteado simples em , Anna ia passando algumas dicas de como enfrentar o evento. Facilitava que, na verdade, não era uma première exatamente, mas sim um evento para poucas pessoas, já que o filme já havia sido lançado nos festivais, então diminuía a expectativa, mas ainda mantinham algumas dicas, como formas de se comportar, o que falar ou não, e, principalmente, quando falar.
- Jeremy já é experiente no assunto, então você pode ficar tranquila – disse Anna enquanto Mavis terminava de ondular uma mecha do cabelo da mulher. – Ele vai te livrar de qualquer situação que te deixar desconfortável.
- Eu ainda acho que vocês nem vão sair de casa – comentou Mavis, olhando de relance o vestido que Erin havia dado a . – No segundo que ele te ver com esse vestido, ele vai esquecer o próprio nome.
- Vocês exageram – comentou , sentindo o rosto esquentar.
- Somos realistas – respondeu a maquiadora, finalizando o cabelo da mulher no exato momento em que Anna recebia uma mensagem de Erin comunicando que Jeremy havia saído do estúdio. – Bem na hora, ele ainda vai voltar para casa, não é?
- Sim, disse que queria se certificar de que eu estava bem – revirou os olhos. Havia usado como desculpa para declinar ao convite do evento a dor de cabeça, fora difícil mentir para o ator, mas valeria a pena.
- Muito bem – Mavis sorriu, analisando seu trabalho antes de balançar positivamente a cabeça. – Esperaremos os detalhes completos amanhã, não deixe nada de fora.
- Pode deixar - disse , olhando para o próprio celular que havia alertado da nova mensagem de Jeremy, comunicando que já estava chegando. – Seja o que Deus quiser.
- Boa sorte, querida – disse Anna, depositando um beijo no rosto da mulher antes de acompanhar Mavis para fora de casa. esperou até as duas saírem pelo portão para voltar a seu quarto e começar a fase final da preparação.

Jeremy terminava de abotoar o terno que usaria naquela noite, olhando seu reflexo no espelho e estranhando o silêncio na casa. Na verdade, estranhando a falta de uma companhia. Ava estava com a mãe naquele fim de semana, mesmo sob os protestos de , o ator insistira em lhe dar um dia de folga já que ela estava se sentindo mal por algumas noites mal dormidas e que resultaram em uma dor de cabeça incômoda. Ela havia garantido que iria acordar a tempo de se despedir dele e desejar uma boa estreia. O ator terminou de conferir se tudo estava em ordem, e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Ele olhou para a porta no fim do corredor e considerou por um momento se deveria ou não ir até lá. Decidindo tentar a sorte.
- ? – chamou ele, batendo de leve na porta, ouvindo uma resposta do outro lado. – Estou indo.
- Já vou – gritou , Jeremy assentiu, mesmo que ela não fosse ver, e seguiu para a sala. Ele olhou de relance o relógio, confirmando que ainda estava no horário e colocava o próprio convite no bolso interno quando ouviu uma movimentação. Sua boca se abriu no mesmo instante em que a viu, e ele nem mesmo tentou disfarçar, ele não sabia o que esperava, mas com certeza não era aquilo.
caminhava até ele, mas não foi aquilo que o surpreendeu. Não, foi o vestido longo e azul marinho que envolvia o corpo dela com a perfeição de algo que havia sido desenhado especialmente para ela. A transparência na região do colo era delicada, e não havia nada vulgar no corte que deixava à mostra a lateral de seu corpo na cintura, e os cristais que adornavam a área do busto pareciam iluminá-la ainda mais, principalmente quando ela se movia e a luz refletia neles. O cabelo dela estava solto, com algumas ondas, e a maquiagem estava leve e discreta, deixando o destaque para todo o vestido. Em sua mão, ela carregava uma bolsa de mão prateada, que combinava com o brinco que ela usava. Enquanto andava, Jeremy percebeu o sapato que parecia ser veludo azul marinho, para combinar com o vestido. O ator engoliu em seco, apenas absorvendo aquela imagem e se perguntando se era realmente importante a presença dele naquele evento.
- Então...? – perguntou , notando a forma que o ator a olhava e se sentindo nervosa diante o silêncio dele. Jeremy pigarreou e piscou algumas vezes, parecendo entrar em foco.
- Você está... meu deus... Eu não... – O ator sorriu, percebendo o nervosismo da mulher, e se aproximou dela. Sua mão tocando as costas dela, notando que não havia nada cobrindo a área. Delicadamente, Jeremy pegou a mão de e fez com que ela virasse para que ele pudesse ver a parte de trás do vestido, engolindo em seco ao ver as costas dela praticamente nuas, não fosse algumas tiras que possuíam os mesmos cristais da parte da frente. Ela estava deslumbrante e ele não conseguia encontrar as palavras para expressar aquilo. Quando ela voltou a ficar de frente para ele, Jeremy se inclinou o suficiente para depositar um beijo nos lábios dela. Sentindo-a relaxar em seus braços com o ato. O ator aproximou seus lábios do ouvido dela, sentindo as mãos dela em seus ombros e sorriu. – Você está perfeita.
sorriu sem graça, sentindo o rosto esquentar e uma onda de calor se espalhar por seu corpo. Ela tremia como se estivesse nua no meio de uma nevasca, tamanho era seu nervosismo. Se perguntassem, ela negaria que ficara encarando aquele vestido por quase uma hora se perguntando se realmente iria usá-lo ou não. A forma que Jeremy a olhara dos pés à cabeça deveriam ter feito o trabalho de acalmá-la, mas não conseguiu afastar a tensão até sentir o beijo calmo e delicado dele em seus lábios, sentindo que aquilo era o suficiente para tranquiliza-la.
- Não está exagerado? – perguntou ela, lembrando-se do comentário de Erin sobre não ser um evento muito grande.
- Está perfeita – repetiu Jeremy, afastando-se para olhá-la. Havia certa dúvida em seu olhar ainda, e ele não a guardou para si. – Tem certeza?
- Não – confessou ela, rindo em seguida, segurando a mão do ator quando a sentiu longe de suas costas. – Mas eu sei como esse filme é importante para você, eu quero estar lá. Eu quero ver hoje, não quero esperar mais.
Jeremy sorriu, sua mão livre se posicionando na cintura dela, a pele dela exposta macia e quente contra seu toque, e a puxou para mais perto dele, seus lábios logo capturando os dela em mais um beijo. Aquela mulher estava matando-o e não tinha ideia. Estava exigindo muito dele não ligar para sua agente e inventar uma desculpa para justificar sua ausência naquele evento.

Capítulo 11

suspirou, ficando de barriga para cima e se espreguiçando na cama extremamente vazia e fria. Ainda de olhos fechados, ela esticou o braço para o lado a fim de confirmar que sua única companhia eram os travesseiros fora de ordem. Suspirando novamente, ela virou o rosto para o lado e esticou o outro braço para tentar alcançar seu celular, só depois de tatear toda a superfície do criado-mudo se lembrou que o aparelho estava dentro de sua bolsa, perdida em algum canto do quarto junto com seu vestido da noite anterior. Finalmente, cedeu e abriu os olhos, sentando na cama para conseguir enxergar o relógio no criado-mudo do lado desocupado. Os números fizeram com que ela franzisse o cenho, não eram nem nove da manhã, e era sábado. Ela geralmente acordava naquele horário, mas os demais moradores da casa só acordavam meia ou uma hora depois. E, a julgar pela frieza nos lençóis do espaço vago ao seu lado, estava deitada ali sem companhia por muito tempo.
Ela espreguiçou-se rapidamente e afastou as cobertas, enfim se levantando e indo direto para o banheiro. Em frente ao espelho, ela analisou o que restou da noite anterior. Seu cabelo não estava tão desgrenhado quanto o esperado, mas ela ainda sentiu alguns nós quando tentou pentear com os dedos, desistindo logo para prender os fios em um rabo de cavalo com um elástico rosa que achou por ali, provavelmente de Ava. Em seguida, ela retirou, com água e sabonete mesmo, os resquícios da pouca maquiagem que usara; mais tarde se preocuparia em fazer uma limpeza mais adequada. E como não havia uma roupa dela por ali além de se vestido, e ela ainda não pretendia ir para seu quarto, pegou a camisa jogada em um canto do quarto e a vestiu, saindo do quarto logo depois.
Àquela hora, só havia um possível lugar para ela ir: o escritório. A porta do cômodo estava aberta, mas a pessoa que o ocupava não a viu chegar e se apoiar no batente da mesma, cruzando os braços e admirando as costas nuas do homem, levemente marcadas pelas unhas dela. sorriu, sentindo uma onda de calor se espalhando por seu corpo ao se lembrar da noite passada.
- Você acordou cedo – disse ela, sorrindo ao vê-lo se assustar levemente com o som inesperado. Ele lia algo no computador, um contrato, suspeitava, e se virou para olhá-la.
A onda de calor pareceu se intensificar pela forma como o olhar de Jeremy se intensificou mais após ele ver o que ela usava. Os clichês nunca pareciam acabar quando envolvia os dois. A mulher mordeu o lábio inferior, corando com a intensidade daquele olhar. Jeremy se recostou na cadeira, dando a uma visão mais ampla do peitoral nu e definido, o cabelo ainda levemente bagunçado.
- Agora estou me arrependendo – disse ele, fazendo-a voltar a focar em seu rosto. Suas bochechas ficaram ainda mais quentes e seu coração pareceu perder uma batida. se perguntou se algum dia aquilo pararia de acontecer, e se era saudável já se sentir daquela forma em tão pouco tempo de relacionamento, e se ele também se sentia daquela mesma forma. – Está tudo bem?
- Sim, claro. – sorriu, desencostando-se do batente e se aproximando do homem, que a puxou para sentar em seu colo, o sorrido dela pareceu ficar mais tímido e ele sorriu também. não podia dizer a ele o que realmente estava pensando, primeiro por não ter certeza do que aquilo tudo significava, segundo porque se fosse mesmo, ainda era cedo demais, e ela não queria correr o risco de assustá-lo. – Só me lembrando da noite passada.
- Algum arrependimento? – perguntou Jeremy, a preocupação explícita em seu rosto.
Ele já havia visto algumas matérias e fotos da noite passada, admirando a beleza ainda mais evidente de sob os holofotes. Ela havia ficado nervosa, mas em nenhum momento havia deixado transparecer, sorrindo para as câmeras com uma naturalidade que ele nunca imaginara ver em alguém principiante como ela. Mas, apesar de bela e confiante, Jeremy sabia o quanto aquela noite poderia pesar no futuro do relacionamento deles.
- Nenhum – garantiu ela, depositando um beijo delicado no pequeno vinco de preocupação que se formara entre as sobrancelhas do ator. – Relaxa – sussurrou, notando como ele ainda estava tenso, como se não acreditasse no que ela dizia. - Eu me diverti. Talvez ainda não esteja pronta para um filme da Marvel, mas algo menor, podemos tentar... E o filme é maravilhoso.
- Você já disse isso ontem... Inúmeras vezes – comentou ele, se lembrando de vê-la chorando ao final do filme, junto com a personagem de Lizzie, e depois ela o abraçara com força e por um longo tempo, elogiando-o inúmeras vezes não só pela atuação, mas pelo filme e o que ele significava.
- Nunca será o suficiente – comentou , seu olhar se desviando do rosto dele para o computador na mesa. – Algo importante?
- Hm? – perguntou Jeremy, que havia começado a espalhar beijos pelo pescoço dela, sorrindo ao ver a pele dela se arrepiando mesmo ela estando concentrada em algo completamente diferente.
- A razão para você me deixar sozinha na cama hoje.
- Foi uma decisão bem difícil de ser tomada, acredite – disse ele, acariciando despreocupadamente a coxa dela. – Mas o meu celular não parava de tocar e eu não queria te acordar.
- Obrigada pela consideração. – sorriu para o ator, estranhando quando ele não sorriu de volta. – O que foi?
- Nada.
- Jeremy... – começou ela, deixando o resto subentendido e arqueando uma sobrancelha. – Quem te ligou tão cedo?
- Meu advogado – Jeremy suspirou, esfregando a testa com a mão que antes acariciava a coxa dela. esperou paciente, sequer sabendo o que supor a partir daquela informação. – Nada demais, só a Sonni querendo dar um pouco de dor de cabeça. Nenhuma novidade.
engoliu em seco, fazia um bom tempo que ela não pensava ou tinha algum contato com a mão de Ava. E podia ser uma paranoia da cabeça dela, mas não podia ser coincidência a mulher aparecer no dia seguinte à première – que também podia ser considerado como o dia da oficialização do relacionamento deles. Apesar de não se sentir bem com aquela informação, preferiu confiar na calma de Jeremy e guardou para si suas desconfianças – uma voz bem baixa dizendo lá no fundo que aquela mulher ainda lhe daria muitas dores de cabeça. Sabendo que Jeremy esperava uma reação dela, forçou um sorriso fraco, suspirando e começando a se levantar do colo do ator.
- Vou deixar você voltar a sua...
- Não – disse Jeremy, impedindo-a de continuar a se levantar, se arrependendo levemente de ter sido tão honesto, e com medo de estragar o clima entre os dois. – Isso não é importante. – Afirmou ele, sorrindo para , que o olhou desconfiada. – Juro que não... Além disso, preciso compensar por ter te deixado sozinha hoje, isso é importante.
O ator não deu tempo para ela apresentar qualquer argumento contra, finalmente unindo seus lábios ao dela para o beijo de bom dia e muitos outros significados, apagando qualquer dúvida e desconfiança que ela poderia ter, trazendo de volta o clima que surgira quando ele a viu parada na porta do escritório.

O mês passou rapidamente e, quando viram, estavam aproveitando o último fim de semana das férias de e Ava – que voltaria a frequentar a escolinha após um ano longe, devido às leves complicações que tivera com a doença. As duas garotas estavam bem infelizes com o fim daquelas férias, principalmente , já que o ritmo dos estudos prometia aumentar devido à maior complexidade das disciplinas que pegaria. Ajudava o fato de Ava voltar à escolinha, pois haveria uma preocupação a menos em uma parte do dia.
Sábado e domingo haviam passado num piscar de olhos, e os três aproveitavam a última noite das férias espalhados pela sala. Ava brincando com algumas bonecas no chão, e e Jeremy dividiam o sofá, com os pés da mulher apoiados no colo do ator, enquanto ela usava o celular do mesmo para conferir algumas coisas, preguiçosa demais para procurar o próprio aparelho. Enquanto tentava conectar em seu próprio e-mail, ela percebeu um detalhe curioso na caixa de entrada do ator, algo que já havia notado antes quando o ajudara em alguns dias, mas naquela época não eram tão próximos a ponto dela se sentir com liberdade o suficiente para finalmente conferir o que era aquilo. E rolar pela caixa de entrada de Jeremy, conferindo o elemento em comum naqueles e-mails todos, só a deixou mais confusa e curiosa.
- Jeremy? – Chamou , fazendo o homem tirar a atenção de Ava brincando no chão para olhar para a mulher. Ela mostrou seu celular, a tela aberta na caixa de entrada de seu e-mail e Jeremy franziu o cenho. – Por que tem um monte de e-mail não lido do Sebastian na sua caixa de entrada?
- Sebastian? – Perguntou Jeremy, por um momento não reconhecendo o nome, então um clique se fez ouvir em sua mente. – Sebastian Stan?
- Sim.
- Já acumulou, foi? Tenho que passar para a pasta certa – disse o ator, olhando a tela do celular e conferindo as mensagens enviadas pelo colega de elenco.
- Como assim? Você não lê os e-mails que ele manda? – parecia incrédula.
- Ninguém lê, , é um pacto que fizemos. – O ator deu de ombros, voltando a olhar para a televisão, procurando o controle remoto para mudar de canal.
- Que tipo de amigos são vocês? – Perguntou ela.
- , são várias correntes! – O ator soltou um gemido ao se lembrar dos primeiros e-mails. – Stan acredita em tudo o que lê, e nós somos as vítimas.
- Quer dizer que ninguém abre? – o olhava sem acreditar no que ouvia. – E se alguma dessas mensagens ele estiver desabafando com você? Contando algum problema?
- O Mackie abre, eu acho. – Jeremy passou a mão no queixo, sentindo alguns pelos da barba começando a despontar.
- Quer dizer que se eu começar a te encher de e-mail você não abrirá nenhum? Se eu te mandar um pedido de socorro por e-mail, vou morrer porque você não vai abrir? – perguntou, o ator olhou para ela e mordeu o interior da bochecha para não rir. Até ela sabia que estava exagerando, mas lhe parecia um grande absurdo ignorar o amigo dessa forma, ainda mais de forma conjunta.
- Claro que não, . Você pode mandar até mensagem em código Morse que eu aprendo e vou te socorrer – disse o ator, estendendo a mão para tocar o joelho da mulher, que era a parte do corpo dela mais próxima. revirou os olhos e voltou a prestar atenção no celular, abrindo algumas das mensagens.
- Golpe aqui, vírus ali... Sorteio de celular, uau, essa é antiga – comentou ela, ignorando os comentários que Jeremy fazia, versões variadas de “eu te avisei”. – Certo, agora eu entendo porque vocês não abrem. – Disse ela, após ter aberto umas dez mensagens no mesmo estilo. Então algo chamou sua atenção. – Essa é diferente... Oi meu nome é Samara, tenho 14 anos (teria se estivesse viva)... – Jeremy olhou para a mulher ao ouvi-la soltar um gemido, arqueando uma das sobrancelhas. Surpreendendo o ator e Ava, que estava concentrada em sua brincadeira, soltou um grito e jogou o celular longe, atingindo a perna de Jeremy. – Ah, não... Devolve, espera, eu tenho que fazer uma coisa.
- , o que aconteceu? – Perguntou Jeremy, preocupado ao notar que as mãos da mulher tremiam enquanto ela pegava o celular de volta e começava a digitar loucamente.
- Papai? Está tudo bem? – Perguntou Ava, deixando as bonecas de lado por um momento.
- Sim, querida, está – tranquilizou-a o ator. – Está, não é, ? – Perguntou ele, mas a mulher o ignorou concentrada no que fazia. – ? – Ele se aproximou, tocando sua perna e fazendo pular de susto. – Calma, sou eu. Está tudo bem?
- Eu não sei – disse ela, suas mãos ainda tremendo. Jeremy retirou o celular da posse dela e viu a mensagem aberta, recém-encaminhada para uma quantidade considerável de pessoas da sua lista. – Agora eu entendi por que você nunca abria.
- Você repassou para isso tudo? – Perguntou ele, olhando a mulher e se segurando para não rir por perceber como a situação era séria.
- Você acha que eu quero sentir a presença dessa menina? – perguntou, arregalando os olhos.
- Isso é só uma brincadeira, – o ator disse, aproximando-se ainda mais para segurar as mãos dela, surpreendendo-se por senti-las tão geladas.
- Jeremy, há um bom motivo para eu nunca assistir filmes de terror – disse a moça, sentindo-se melhor com o carinho que o ator começou a fazer em suas mãos.
Ele agora entendia o que algumas fãs queriam dizer quando comentavam em fotos que ele postava que gostariam de colocar Ava, e ele às vezes, em um potinho para proteger de todo o mundo. Sentia a mesma coisa agora por . Jeremy queria rir, mas percebia como era sério, então apenas abraçou a mulher com força, fazendo-a se recostar nele e mudou o canal da televisão, colocando em uma comédia romântica na esperança de desviar a atenção dela daquele assunto. Enquanto subia e descia a mão pelo braço dela, fazendo movimentos aleatórios na tentativa de acalmá-la, Jeremy não deixou de perceber como a pele da mulher estava gelada. Eles já haviam conversado sobre gêneros de filmes que gostavam e odiavam, e ele se lembrava de falando que odiava o gênero terror, só não imaginava que era tão profundo esse medo.
Sua tática pareceu funcionar, e pela metade do filme ela já estava mais tranquila, sua pele mais aquecida, e seu corpo tremendo contra o dele quando ela soltava alguma risada. Ao final da comédia, ela se levantou para ajudar a preparar Ava para ir dormir, enquanto Jeremy arrumava a pequena bagunça que a filha havia feito. Geralmente, era a menor que organizava tudo, mas ela já estava demonstrando os sinais de cansaço pesado, e como no dia seguinte ela voltaria a escola, Jeremy abriu uma exceção e fez o trabalho da filha por ela. colocou Ava na cama, mas foi Jeremy quem leu a história para a menina dormir, como sempre fazia quando estava em casa. Ao finalizar o livrinho, que Ava sequer ouviu metade, Jeremy encontrou na cozinha, preparando um chá enquanto conferia seu próprio e-mail para confirmar os horários das aulas no dia seguinte.
- Ansiosa?
- Está óbvio assim? – perguntou ela, sorrindo amarelo para o ator. Ele se aproximou, a abraçando por trás e depositando um beijo em seu maxilar.
- Vai ficar tudo bem – sussurrou ele. – O nível de enlouquecimento será igual ao semestre passado. E você irá passar com as melhores notas igual antes.
- Você tem muita fé em mim – brincou ela.
- Você que tem pouca fé em você mesma – retrucou Jeremy, sorrindo enquanto ela negava com a cabeça. – Eu tenho uma proposta.
- Não, Jeremy, já conversamos, eu não vou dormir no seu quarto hoje – disse ela.
- Eu quis dizer sobre amanhã – disse ele, fazendo-a virar para ele. – Mas minha porta estará aberta caso queira se juntar a mim. – tentou ficar séria, mas acabou cedendo e sorrindo para o ator, que depositou um beijo rápido em seus lábios. – Você e a Ava vão sair no mesmo horário, pensei que, ao invés de você leva-la antes de ir para a faculdade, eu posso levar as duas.
- Achei que tivesse a agenda cheia amanhã – ela apoiou os braços nos ombros do ator, sentindo as mãos dele em sua cintura.
- Estou livre no horário que vocês vão sair, ninguém vai me demitir por me atrasar uns dez minutos para uma reunião.
- Tem certeza? – perguntou , sabendo exatamente qual reunião ele tinha no dia seguinte e não gostando da ideia dele se atrasar.
- Absoluta.
- Você ainda vai fazer nosso café da manhã? – perguntou ela, se lembrando do acordo que haviam feito no dia anterior. Jeremy riu, beijando a mulher novamente.
- Vou, com cobertura de chocolate para você – acrescentou, sorrindo quando a mulher arregalou os olhos e abriu um largo sorriso depois.
- Eu preciso aprender a dizer não para você, mas você deixa tão difícil – disse ela, colocando as mãos na nuca do ator quando ele se inclinou para beijá-la novamente, dessa vez aprofundando o beijo e abraçando-a com mais força.
- Boa noite, – sussurrou ele contra os lábios dela, ambos levemente ofegantes, os olhos ainda fechados.
- Hm... Posso faltar no meu primeiro dia? – brincou ela, arrancando risos do ator, que lhe roubou mais um selinho antes de se afastar, recolhendo a xícara dela e colocando na máquina de lavar louça.
- Guarde suas faltas para os momentos de desespero – aconselhou Jeremy, mesmo sabendo que a mulher não faltaria mesmo se fosse dormir faltando meia hora para o início das aulas.

encarava o teto de seu quarto há um bom tempo. Desde que havia se separado de Jeremy, ela já havia começado a sentir um frio estranho, e após ter saído do banho a sensação parecia ter aumentado ainda mais. Não havia ajudado em nada ela ter se lembrado do maldito e-mail enquanto a água escorria por seu corpo. O medo era tanto que ela recorrera ao abajur ao lado de sua cama para tentar espantar aquela sensação, mas a medida havia sido passageira, pois ali estava ela novamente, com a certeza de que havia algo em algum canto escuro de seu quarto só a esperando. Suspirou frustrada e se virou para o lado, arrepiando-se quando o cobertor se moveu e descobriu um pouco de seu pé, ela logo se apressando para voltar a se cobrir. Fechou os olhos, mas aquilo só pareceu piorar e ela quase chorou. Não conseguindo acreditar que com quase trinta anos ela não conseguia dormir por conta de uma corrente estúpida. Tinha que se lembrar de dar um soco na cara de Sebastian quando o encontrasse. Ser ignorado pelos colegas de elenco era pouco depois daquilo. se virou novamente, estendendo a mão para pegar o celular e soltando um gemido de frustração ao ver que ainda não eram nem três da manhã. Parecia que ela estava ali há tanto tempo, já estava na esperança de ver o sol dando os primeiros sinais da manhã.
- Sebastian estúpido – murmurou ela, sentando na cama e mexendo no cabelo, encarando a porta semiaberta e agradecendo pela luz do corredor estar acesa.
No auge de seu medo, ela ligaria para Jeremy se estivesse tudo escuro e pediria que ele fosse até ela. Mas como não era o caso, se levantou e saiu do quarto. Ela atravessou o corredor às pressas, parando apenas para conferir se Ava estava dormindo, e logo chegando à porta do quarto de Jeremy, que estava apenas encostada. Ele raramente a fechava desde que haviam se assumido para a filha, por causa de Ava e seus ocasionais pesadelos, com exceção apenas nas vezes em que dormia com ele. Para sua grata surpresa, Jeremy estava acordado e levantou os olhos do tablet para olhar a mulher parada a sua porta.
- ? O que foi? – perguntou ele. A mulher mexeu os pés e entrou no quarto, atravessando-o e subindo na cama ao lado do ator. – Está tudo bem? – perguntou Jeremy, enquanto se ajeitava bem colada a ele.
- Vou dormir aqui – disse ela, pegando o braço dele e colocando ao redor de seu corpo para se sentir mais segura.
- Não que eu esteja reclamando, mas posso saber o porquê? – perguntou Jeremy, apesar de já desconfiar.
- Estou com medo. – disse, tão baixinho que se não estivessem em completo silêncio, Jeremy não conseguiria ouvir. O ator riu, colocando o aparelho eletrônico na mesinha de cabeceira e escorregando no colchão para ficar no mesmo nível da mulher, depositando um beijo em seu cabelo.
- Está tudo bem, eu te protejo – sussurrou ele, abraçando-a com força, como se quisesse reforçar a promessa.
- Me lembre de matar o Stan quando eu o encontrar – pediu , sorrindo ao sentir o carinho que Jeremy fazia em seu cabelo.
- Se você me lembrar de agradecê-lo depois – comentou Jeremy, rindo ao sentir o empurrão que lhe deu. – Estou brincando, vou segurá-lo para você poder bater nele.
- Obrigada – murmurou , sentindo o sono atingi-la aos poucos enquanto o cafuné de Jeremy se intensificava. Antes de finalmente adormecer, a última coisa que pensou foi em como as mãos do ator eram mágicas.

~ * ~


O mês foi como eles haviam imaginado que seria, a correria de início de semestre misturado ao pequeno estresse na adaptação de uma nova rotina. Ava estava além da excitação por ter voltado à escolinha e se reunido com seus amigos, ela amava Jack, mas precisava ver novas pessoas. E a garota não foi a única a se enturmar com mais pessoas, com Jeremy viajando para algumas gravações para o novo filme do Vingadores e fazendo as entrevistas e demais eventos para promover Wind River, se viu cada vez mais na companhia de Anna, que vez ou outra a arrastava para o ateliê de Erin, que já entrara na vida de antes mesmo da mulher pensar sobre o assunto. Havia aprendido desde o primeiro encontro que a estilista não se importava muito com as etiquetas da amizade, ou sociedade em geral, era do tipo que ia atrás do que queria, dizia o que tinha vontade e, de alguma forma, conseguia ser extremamente direta e permanecer extremamente adorável. A única com quem ela tinha menos contado era Mavis, já que a maquiadora morava em Nova Iorque e raramente viajava para Los Angeles.
Era uma rotina pesada, mas era algo que estava fazendo bem à mulher, e qualquer um poderia perceber isso, principalmente Jeremy, que agradecia por não vê-la mais tão presa em casa. Apesar de, por outro lado, a quantidade de vezes em que eles realmente se viam havia diminuído drasticamente. Mas essas ausências não haviam sido o suficiente para abalar o casal, eles ainda estavam na fase da lua de mel e não tinha qualquer prazo para saírem daquele estágio. A distância realmente fazia o sentimento aumentar, e o dois usavam e abusavam dela e da saudade.
A situação só chegava próxima de se complicar em dias como aqueles, em que aproveitava que o ator estava em casa para ficar na faculdade estudando alguns textos para as próximas aulas e para seu próprio projeto. Eram dias que ambos sabiam que mal teriam tempo para trocar duas palavras, já que a mulher se esgotaria e ficaria acordada só para comer algo e depois se jogaria na cama, dormindo até o próximo dia.
Naquela vez, entretanto, resolveu ceder antes de chegar ao seu limite, não que isso lhe fosse uma diferença tão grande dos demais dias. Ela já estava bem exausta. Sua cabeça parecia que ia explodir de tanta informação que ela havia lido durante aquele dia. Pela primeira vez em meses ela tirou os óculos de descanso de sua caixinha de proteção e os colocou enquanto entrava no carro, ficando um pouco dentro do veículo sem fazer nada, só com a cabeça apoiada no encosto do banco e o silêncio, os olhos fechados para evitar o incômodo da luz da garagem do prédio. Tudo o que ela queria era um banho quente, um remédio para dor de cabeça, talvez uma massagem feita pelo Jeremy, deitar em sua cama e ficar no escuro, sem televisão ligada, sem qualquer grande barulho.
Ela criou coragem, ligou o carro e saiu do estacionamento, franzindo o cenho quando a claridade do fim de tarde atingiu seus olhos, sua cabeça latejando um pouco mais, mas ela respirou fundo e ignorou, não era uma grande distância da faculdade até a casa, conseguia aguentar sem qualquer problema. Principalmente com o trânsito tranquilo como estava, em cerca de vinte minutos ela já abria o portão de entrada e entrava com o carro, parando-o no local de sempre. pegou a pasta, que já estava quase estourando com a quantidade de textos que havia dentro dela, e sua bolsa, saiu do carro e fez o caminho até a porta de entrada.
Ao entrar, estranhou a casa silenciosa, ela foi avançando aos poucos, deixando suas coisas no banco próximo a entrada, assim como seus sapatos, ficando só de meias. Quando chegou no ponto entre a sala e a sala de jantar ela parou, sorrindo com a cena que presenciava. Jeremy estava sentado na poltrona próxima à janela que dava para o jardim da frente e deitada no peito dele, de barriga para baixo, estava Ava, também adormecida, os bracinhos servindo de travesseiro. Era uma cena tão maravilhosa que a mulher só parou e ficou observando, o rosto sereno de Jeremy, que possuía um sorriso nos lábios. Uma perna dele estava um pouco mais elevada, para sustentar o corpo da criança. voltou o mais silenciosa que conseguiu até onde havia deixado sua bolsa, pegando o celular dentro da mesma e abrindo a câmera, certificando-se de que estava sem som e sem flash, ela se aproximou dos dois e tirou a foto. Ela sorriu, depositando com cuidado um beijo em cada um, e depois se afastou, indo até seu quarto para tomar seu tão esperado banho.
Quando saiu do banho, ela já ouvia as risadas características de Ava, provavelmente Jeremy fazia cócegas na criança, pelos gritinhos histéricos que ela dava vez ou outra. sorriu enquanto ouvia o homem brincando com a menina, vestindo uma calça de moletom e uma blusinha qualquer, prendendo os cabelos molhados em uma trança e, enfim, saindo do quarto para se juntar à dupla. Ao vê-la surgindo do corredor, Ava gritou e afastou as mãos do pai, correndo até a mulher que se abaixou para pegá-la.
- ! – gritou Ava enquanto corria até a mulher.
- Eu falei que ela tinha voltado – comentou Jeremy, fazendo a filha lhe dar a língua, logo depois se encolhendo em quando o pai veio correndo até ela, ameaçando lhe fazer mais cócegas pela língua. A mulher riu, segurando a menina com firmeza para impedir que ela caísse. – Oi – disse o ator, dando um beijo no rosto da mulher.
- Olá, dorminhoco – brincou a mulher, dando um beijo em Ava em seguida. – Quer dizer que você cansou seu pai hoje? – Perguntou ela, fazendo a menina rir, antes de escorregar para o chão.
- Ava, vá arrumar seu quarto antes do jantar – pediu Jeremy, vendo a menina obedecer. Ele abraçou e ela retribuiu, suspirando enquanto sentia o homem acariciar suas costas. – Como foi seu dia?
- Cansativo, cheio de coisa para ler – reclamou ela, escorregando suas mãos para debaixo da camiseta do homem, hábito que havia adquirido. – Quando cheguei minha cabeça estava explodindo.
- Não está mais? – Perguntou Jeremy, afastando o rosto para poder olhar o rosto da mulher.
- Ainda dói, mas não vai mais explodir. – Ela sorriu. – A cena que eu vi quando cheguei funcionou como remédio.
- Você me beijou, não foi? – Perguntou o homem, começando a ir para a cozinha, levando ela junto.
- Sim, tirei uma foto e dei um beijo em vocês dois antes de ir tomar banho.
- Foi isso que me acordou, então – concluiu ele, sorrindo quando a moça lhe pediu desculpas. – Estávamos ali há muito tempo já. Achei que você estivesse chegando e sentei ali, Ava veio logo depois pedindo para eu contar alguma história, quando percebi eu estava acordando sem nem saber meu nome.
- Exagerado – riu , afastando do homem para poder ver o que teriam para jantar.
- O que você vai fazer? – Perguntou Jeremy enquanto via a mulher abrindo a geladeira.
- Preparar o jantar.
- Nada disso. – Ele foi até ela, colocando as mãos em sua cintura e a puxando para trás até ela estar sentada em um dos bancos que havia próximo ao balcão. – Hoje você só observa.
- Jeremy...
- Sem discussão – disse ele, selando seus lábios nos dela quando ameaçou protestar novamente. Ela sorriu e suspirou, se dando por vencida.
- Posso pelo menos ir ajudar a Ava?
- Qual parte do você só observar você não entendeu? – Perguntou o ator. – Vou ter que te amarrar nesse banco?
- Você pode me amarrar em outro lugar – sussurrou ela próxima ao ouvido dele, passando os braços pelo pescoço do homem e prendendo as pernas dele com as próprias. Jeremy riu, abraçando a mulher pela cintura, beijando seus lábios em seguida.
- Mais tarde, que tal? – Perguntou ele, quando partiram o beijo, dando vários selinhos nos lábios dela.
- Eu vou te cobrar, Renner – brincou ela, dando um último selinho no homem antes de soltar suas pernas. – Já que não posso fazer nada, você pode, por favor, pegar algum remédio para minha dor de cabeça?
- Sim, senhora – disse ele, indo até o armário de remédios e pegando um para , entregando logo em seguida para ela, junto com um copo de água.
- Obrigada – disse ela, tomando o remédio. – Então, qual será o cardápio?
- Boa pergunta – riu o ator, abrindo a geladeira e observando as opções. – Temos o resto do almoço de hoje, com o que sobrou da janta de ontem. – Ele levantou a cabeça e olhou a mulher, que se segurava para não rir.
- Essa é sua forma de dizer que não vai ceder, não vai me deixar trabalhar mesmo e vai pedir alguma coisa? – Perguntou ela, pressionando os lábios um no outro para segurar a risada.
- Pizza de que você quer? – Perguntou o ator, fechando a porta da geladeira.
- Ah, Renner, como você é adorável. – A mulher riu, abraçando o ator e dando um beijo no rosto dele. – Posso abusar?
- Pode fazer o que quiser – disse ele, já havia aprendido desde o princípio que estava na lista de pessoas para quem ele não conseguia dizer não. – Deixa eu adivinhar, muito queijo, catupiry e tomate? – Ele perguntou, fingindo fazer uma careta. – A gente tenta ser saudável, mas você só finge, não é?
- Eu me esforço para acompanhar vocês, não tire todo meu crédito. – fez um bico. – Acho que faço um bom trabalho.
- Você faz um ótimo trabalho. – Garantiu ele. – Vou buscar Ava e ver o que ela quer.
- Você só quer ver por que ela está tão quieta. – Acusou a mulher, fazendo o ator rir.
Enquanto ele se afastava, ela levantou e foi até a gaveta onde eles guardavam os cardápios, separando o da pizzaria favorita deles. Logo Jeremy e Ava voltaram, com o ator jogando a menina para o alto vez ou outra. sorriu enquanto ouvia as risadas da menina. Eles fizeram o pedido, com Jeremy deixando Ava sair um pouco da linha também, já que a menina vira fazendo o mesmo, e foram para a sala, assistindo um dos filmes favoritos da garota enquanto esperavam a comida chegar. Ava já havia visto tantas vezes aquele filme que já repetia as falas junto, divertindo o pai e a babá. Quando a comida chegou, eles comeram na sala mesmo, cobrindo a mesinha de centro com uma toalha, todos sentando no chão, encostados no sofá, e assistindo ao filme. Vez ou outra Ava interrompia a concentração no filme para contar para algo que ela e o pai haviam feito durante a tarde.
Ava não durou muito mais depois que terminou de comer, pelo que a menor havia relatado e pelo que conhecia da criança e do pai dela, não ficou surpresa quando viu a menina deitada na perna de Jeremy com os olhos fechados e dormindo profundamente. Ao perceber a filha adormecida, o ator suspirou e logo depois entrou em uma pequena discussão com quando viu que a mulher pretendia arrumar toda a bagunça que haviam feito.
- ...
- Ei, não. – A mulher apontou o dedo, tentando parecer brava, mas falhando miseravelmente. – Você vai leva-la para a cama, e eu vou arrumar isso aqui. Não vou lavar louça nem nada, só organizar aqui. Eu estou cansada, Renner, não doente ou aleijada – disse ela, recolhendo o dedo quando o ator fingiu que iria morder, como ele sempre fazia com Ava. – Vamos, antes que ela volte a acordar.
O ator sabia que não fazia sentido tentar discutir, ele levantou e levou sua filha junto com cuidado, levando-a para o quarto. Ainda tinha que colocar o pijama na garota, e era o mais trabalhoso de fazer, Ava sempre acabava acordando em algum momento e pedindo para o pai contar alguma história, o que ele fazia apesar de saber que a filha não passaria da primeira página. Foi lendo uma história para uma Ava completamente adormecida que encontrou o homem, após ter juntado os pratos e copos e deixando-os na pia, e guardado o resto da pizza. Ela se apoiou no batente da porta e cruzou os braços, ouvindo a voz rouca do ator narrando a história escolhida.
- Não conseguiu fugir? – Perguntou a mulher, quando ele se juntou a ela, fechando a porta do quarto atrás deles.
- A parte mais difícil, que são os braços e a cabeça ela nem resmungou, na calça ela acordou – disse o ator, passando a mão no rosto.
- Você está com uma cara péssima – observou , quando ele retirou a mão do rosto.
- Porque você está ótima – respondeu ele, irônico, rindo da cara enfezada que a mulher fez em seguida. – Estou brincando.
- E eu estou indo dormir – disse ela, ficando na ponta dos pés para dar um beijo no rosto dele antes de ir para seu quarto, mas ele segurou sua mão e a puxou de volta.
- Onde pensa que vai? – Perguntou ele, a expressão de cansaço dando lugar a uma risonha e carregada de segundas intenções.
- Eu vou para meu quarto, minha cama e dormir. – Disse .
- Achei que tivesse prometido te amarrar em outro lugar que não fosse o banco da cozinha. – Lembrou Jeremy, puxando a mulher para perto dele.
- Ah é? – Ela sorriu contra os lábios dele. – Não sabia que você gostava dessas coisas, senhor Renner.
- Qualquer coisa para acordar com você do meu lado. – Ele respondeu, finalmente tomando os lábios da mulher em um beijo intenso. travou suas mãos no ombro do homem quando ele a impulsionou para cima, fazendo-a prender suas pernas ao redor da cintura dele. Às cegas, ele caminhou até o próprio quarto, fechando e trancando a porta atrás dele. Jeremy a deitou na cama e ficou por cima dela logo em seguida, vendo a mulher sorrir enquanto retirava a própria camiseta.
- Sabe, quando eu pensei em como minha noite seria, eu não imaginei que terminaria assim. – Observou ela, sentindo-o subir as mãos por seu corpo, levando junto a blusa que ela usava.
- E o que você imaginou? Basta dizer que eu atendo – disse Jeremy, distribuindo beijos por toda a barriga da mulher, fazendo-a rir pelas cócegas.
- Quem liga para a imaginação quando a realidade está mil vezes melhor? – perguntou ela quando ele voltou para beijar seus lábios.
- Isso não acontece tanto quanto deveria, , então abuse sem medo. – O homem disse, fazendo a mulher rir. – Eu me visto de princesa se foi assim que você imaginou. E se você confessar que essa é uma fantasia sexual sua, claro, e explicar o motivo. – A mulher mordeu o lábio inferior para segurar a risada e não correr o risco de acordar Ava.
- Você de princesa não estava nos planos, mas talvez eu guarde isso para uma próxima oportunidade, apesar de eu não entender que tipo de fantasia sexual é essa que você imagina que eu tenha. – Observou a mulher. Jeremy apoiou o antebraço no colchão e olhou a mulher, esperando que ela dissesse como havia imaginado aquela noite. passou uma mão no rosto dele, não admitiria naquele momento, mas estava tocada pelo gesto do homem. Após o dia que ele deveria ter tido, atendendo todas as vontades de Ava, agora lá estava ele disposto a atender as dela, deixando as próprias de lado. – Você é incrível, sabia? – disse ela, fazendo o homem sorrir e lhe dar um beijo.
- Sua noite, pare de me enrolar. – Ele disse, fazendo a mulher rir.
- Eu imaginei nós dois assim, deitados, juntos, sem nenhum barulho, talvez você me fazendo uma massagem. – Ela fez uma cara de pidona na última parte, provocando risos no homem. – A luz bem fraca, porque antes eu estava morrendo de dor de cabeça, não vamos esquecer. Acho que combina com o dia que você deve ter tido também.
- Não vou mentir, é uma ótima ideia. – Ele confessou. – Mas, se me permite, eu tenho uma pequena alteração.
- E o que é? – Perguntou , sorrindo divertida com a seriedade do homem.
- Vem comigo. – Ele se levantou da cama, e ela ia fazer o mesmo, mas ele se adiantou e a pegou no colo, fazendo-a soltar um grito surpreso. – É a sua noite, lembra? – riu, vendo o homem atravessar o closet e entrar no banheiro, logo entendendo a intenção dele. – A cama pode ser mais confortável, mas nada mais relaxante que a banheira, não é?
- O que eu fiz para merecer você? – Ela perguntou, beijando o homem.
Enquanto esperavam a banheira encher, com jogando alguns sais de banho e acendendo algumas velas aromáticas, eles conversaram sobre o dia de cada um, apesar da mulher já ter uma noção de como fora a manhã e a tarde dele, quem acabou falando mais foi , contando um pouco sobre os avanços no projeto dela, e as respostas que tivera das pesquisas e do professor que a orientava. Quando a banheira estava cheia, Jeremy ainda fez questão de despir a mulher – deixando-a pensando se ele fazia aquilo ainda por querer poupá-la de qualquer esforço ou se para ter para si um pouco da noite que ele havia pensado que teria – depois terminou de tirar as próprias roupas, entrando na banheira primeiro e depois acomodando entre suas pernas, fazendo-a se recostar em seu peito.
- Diga que isso não é bem melhor?
- Eu já disse antes. – Respondeu a mulher, fechando os olhos e sentindo o ator subindo e descendo com a mão por sua barriga.
O casal perdeu a noção do tempo que ficaram ali, quase dormindo nos braços do homem, que ainda começou a cantar bem baixinho no ouvido dela. Só saíram da banheira porque a água começou a ficar mais fria, mas não fosse por isso, eles não teriam qualquer objeção em permanecer ali. Voltaram para o quarto cada um vestindo um roupão quente e confortável, Jeremy ajustou as luzes do quarto para ficarem bem fracas, depois arrumou a cama, enquanto esperava encostada no batente da porta que dava para o closet, ainda tocada por todo o cuidado do homem. Quando ele terminou, ela se aproximou dele e o abraçou, beijando-o e deixando ele a levar até a cama calmamente, deitando-a com cuidado, sem quebrar o beijo em nenhum momento. Sabendo que ele não faria nada caso ela não falasse nada, desfez o nó que prendia o roupão dele e afastou a peça, logo depois fazendo o mesmo com o que ela usava. Jeremy chegou a questioná-la, mas tudo o que ela fez foi empurrá-lo para a cama e ficar em cima dele, calando-o com um beijo. Talvez aquilo não tivesse nos planos iniciais, mas ela não negaria que desde a hora da pizza já se sentia melhor e só mantivera o teatro inicial porque o ator fizera questão.
Ela fechou os olhos enquanto sentia-o tocá-la com uma delicadeza que vez ou outra a fazia questionar se ele realmente a tocava. Jeremy não apressou nada, levando seu tempo apreciando o corpo da mulher, acompanhando cada reação dela a cada beijo, cada toque que ele fazia. E tampouco reclamou, aproveitando a atenção e o cuidado que recebia. Embarcando em uma das melhores noites que tivera em sua vida, sorrindo deliciada enquanto sentia o homem dentro de si, reagindo às unhas dela que se cravaram em suas costas, e sussurrando o nome dela em seu ouvido quando chegara ao ápice. suspirou satisfeita quando ele depositou um beijo em seus lábios antes de se deitar ao lado dela, puxando-a para seus braços logo em seguida.
Foi diferente daquela vez para eles, mas não tão surpreendente para quanto foi para Jeremy. Ele não havia sentido algo como aquilo em muito tempo. E não era como se ele nunca tivesse considerado que sentia algo por , não, ele sabia desde o começo que era algo mais, não apenas uma simples atração. Mas a forma como ela o fez sentir por toda a noite, a soma de todas as emoções e sensações... Era algo diferente que ele não havia sentido em um longo tempo por uma mulher, nem mesmo por Sonni. E isso, por alguma razão, o assustava. Muito.
Ele encarou o teto acima dele, sentindo os dedos dela traçando padrões em sua pele, a respiração normalizando contra o peito dele, e Jeremy não conseguia não se perguntar se ela sentia o mesmo, ou algo parecido. Era novo para ele, então a possibilidade, ainda que mínima, de não se sentir da mesma forma, o fez se sentir estranho, incomodado. O que ele faria se, de repente, eles não estivessem mais na mesma página? Ela era jovem, estava construindo sua carreira, com a vida inteira pela frente... Jeremy tinha que considerar a possibilidade de ser um obstáculo no caminho dela. Ou talvez apenas uma distração momentânea.
O casal não dormiu imediatamente, na verdade ficaram acordados até ser quase manhã conversando ocasionalmente. fechou os olhos, ouvindo o coração de Jeremy ir desacelerando aos poucos, sentindo ele fazendo um carinho suave em suas costas, suas respirações pareciam ritmadas. O ator focou em um ponto aleatório do quarto, sentindo quando a respiração da mulher atingia sua pele, causando cócegas levemente. Não mentiria, ele estava surpreso pela forma como a noite se desenrolara, não conseguindo entender exatamente como haviam chegado àquela situação, mas sabendo que nem nem ele estavam insatisfeitos. Se fosse analisar, talvez os dois precisassem fazer aquilo mais vezes. E se fosse ser mais honesto ainda, confessaria que gostaria de ficar ali por um longo tempo, até mesmo deixando de lado Ava por um brevíssimo tempo, apenas tirando férias do mundo e das responsabilidades.
O céu começava a clarear levemente quando, enfim, os dois dormiram, ela primeiro, ele ainda permanecendo mais um pouco, apenas apreciando a serenidade do momento, a forma relaxada como havia repousado sua mão sobre seu peito, os dedos, que antes faziam desenhos aleatórios, agora parados. Sua respiração mais lenta e ritmada. Foi acompanhando o ritmo da respiração da mulher que ele acabou sucumbindo ao sono, tendo uma noite, já praticamente manhã, de sono calma e tranquila que há muito não tinha.

Capítulo 12

As últimas semanas haviam sido caóticas. Os trabalhos e provas na faculdade começaram a ficar mais complexos e em maior quantidade com as chegadas de alguns feriados; o trabalho de Jeremy ficou mais intenso com a continuação da divulgação de Wind River e as gravações do último filme dos Vingadores, que o faziam viajar para Atlanta constantemente. Além disso, havia a rotina de Ava, que tivera que ser encaixada na vida de para que a mulher conseguisse dar conta. Aliviava o fato da menina ter voltado para a escolinha e Jeremy ter alterado para que ela ficasse em período integral. Tal medida não agradava nenhum dos dois, mas era a melhor alternativa que eles tinham para o momento. Em breve as férias de inverno viriam, e Jeremy finalizaria o filme, e as rotinas voltariam a ficar mais tranquilas.
Naquela quarta, já tivera o suficiente para uma semana. Os últimos dias haviam sido intensos, com Ava ficando gripada e seus professores marcando entrega de três trabalhos para segunda e duas provas para a terça, e uma professora de última hora havia agendado uma apresentação para aquele dia que valeria metade da nota final deles. Foi uma ótima oportunidade para conhecer oficialmente Valerie, a mãe do ator, que viera até a casa do filho ajudar a cuidar da criança adoentada. As duas mulheres se deram extremamente bem, para o alívio de Jeremy, e desespero também ao descobrir os podres que a mais velha havia contado para a babá. Quando ligara na noite de domingo para perguntar sobre a condição da filha, o ator tivera que aguentar uma hora de conversa na qual quase metade não conseguia encará-lo sem ter crises de risos. Ela se acostumara a ver um ator mais sério e responsável, que brincava em várias ocasiões, mas sempre tentava manter a pose disciplinada. Vê-lo por aquele outro ângulo havia arruinado tudo para a babá.
Valerie havia partido na terça-feira de manhã, quando Ava finalmente voltara para a escolinha e já parecia muito melhor. Por certo momento, entrou em pânico acreditando que podia ser algo causado pela lúpus, mas uma visita rápida à emergência pediátrica confirmou que era apenas uma forte gripe. Ela se sentia estúpida no fim do dia, mas Jeremy fez com que ela se sentisse melhor ao afirmar que ela havia feito o certo. Qualquer precaução era pouca com a condição clínica de sua filha.
Com o pânico e desespero ficando no passado, estava mais do que aliviada por finalmente chegar em casa e poder relaxar até a hora em que precisasse buscar Ava na escolinha. Ela ainda tinha aula na quinta e na sexta, mas se daria um dia de folga na manhã seguinte para se recuperar da maratona. E talvez o universo estivesse conspirando a seu favor.
Ao chegar em casa, ela fechou a porta atrás dela e parou. Um sorriso imediatamente surgiu em seus lábios quando o som da melodia suave e tranquila sendo tocada no piano chegou a seus ouvidos. Aquilo só podia significar uma coisa: Jeremy havia voltado. Um frio em seu estômago se fez presente e o coração perdeu uma batida quando aquela conclusão chegou a seu cérebro. Ela colocou suas coisas no lugar de sempre, tirou os sapatos e permaneceu parada no lugar mais um tempo, apenas apreciando a melodia que se espalhava pela casa, tocada sem pressa alguma. Com calma, saiu de onde estava, seguindo pelo corredor até chegar à sala, encontrando Jeremy sentado ao piano, de costas para ela, completamente concentrado em sua tarefa. Ela mordeu o lábio inferior e cruzou os braços, observando a cena como quem observa um quadro. Se alguém lhe perguntasse qual foi seu momento favorito dos últimos dias, ela diria sem pensar duas vezes que era aquele, não por ele marcar o retorno de Jeremy, mas apenas por aquela visão que lhe transmitia toda a calma após os dias turbulentos que ela tivera.
Em silêncio, foi se aproximando dele, se deliciando quando tocou seus ombros e o viu reagir com o susto, mas sem interromper a melodia até chegar ao seu fim. Quando isso ocorreu, Jeremy jogou a cabeça para trás, encostando-a na barriga de , os olhos fechados enquanto sentia a mulher massageando seus ombros. Ela se abaixou um pouco para selar seus lábios nos dele por um breve momento, apesar de Jeremy dar indícios de que não queria parar ali. Quando se afastou, encontrou seus olhos azuis focados nela, um brilho neles mostrava a ela tudo o que precisava saber sobre o que se passava na cabeça dele naquele momento.
- Oi – disse Jeremy, quebrando o silêncio, sorrindo para ela.
- Olá – respondeu , retribuindo ao seu sorriso. – Como foi de viagem?
- Nunca estive tão feliz por ter chegado em casa – resumiu ele. Jeremy virou um pouco de lado, passando um braço pela cintura da mulher e puxando-a para que sentasse em seu colo. A mulher soltou um grito de surpresa quando ele a puxou, mas logo sorria, apoiando um braço no ombro do ator. Eles se olharam por um breve momento, sorrisos cúmplices em seus lábios, antes de Jeremy se aproximar para lhe dar outro selinho. – Estava com saudades – murmurou ele contra os lábios dela.
- Eu também – ela sorriu, afastando-se dele após um tempo. – Já está de férias?
- Bem que eu queria – Jeremy suspirou, apoiando a cabeça no ombro dela para fazer um pouco de drama, subiu a mão para mexer no cabelo do ator, que ela percebeu ter sido cortado recentemente, voltando com o penteado novo para o personagem dele nos Vingadores. Seus dedos, apoiados na cintura da mulher, traçavam padrões aleatórios em sua pele. – Tenho algumas reuniões pelo resto da semana, e mês que vem preciso voltar para Atlanta.
- Alguém já disse que você trabalha demais? – brincou ela, fazendo Jeremy erguer a cabeça e encará-la, fingindo estar ofendido.
- Falar isso para mim é igual falar que você estuda demais – retrucou ele, fazendo a mulher rir. – Ou você vai me dizer que fez algo além disso durante esses dias que estive longe?
- Bem... – ela tentou encontrar algo, mas a única coisa que vinha era ter cuidado de Ava, mas até nisso Valerie a havia ajudado, deixando a mulher concentrada em seus trabalhos e provas.
- Viu – disse Jeremy, apertando de leve a cintura dela, fazendo-a se contorcer ao sentir as cócegas.
Ela planejava responder algo, mas foi impedida pelo ator a puxando para mais perto para um abraço. sorriu, sabendo que ele não precisava dizer nada para entender o que aquele gesto significava, ela também se sentia da mesma forma. Os braços dele a apertaram contra si, fazendo a mulher fechar os olhos e suspirar, sentindo finalmente a tensão a abandonando e dando lugar ao descanso que ela procurava. Tendo a certeza que o mesmo ocorria com ele. Até que algo ocorreu a ela, e a mulher teria pulado de excitação se não estivesse bem acomodada nos braços do ator.
- Sabe o que eu acho? – perguntou ela, quando se afastou para encará-lo. Ela parecia confiante, mas em sua mente ainda se perguntava se aquilo era uma boa ideia.
- O que? – Jeremy estava curioso, observando-a com a sombra de um sorriso nos lábios.
- Precisamos de uma folga – sugeriu , observando com atenção a reação do ator.
Jeremy pareceu pensativo por um momento, deixando apreensiva e sua mente concluindo que havia sido uma péssima ideia, como ela poderia sugerir tal coisa? Sabia o que aquela ideia implicava, era cedo demais para uma viagem a dois. Era tudo muito recente. Quatro meses ainda, aquilo era pouco tempo, não era? não conseguia raciocinar, a ideia da rejeição já a tomando e a preparando para a resposta do ator. Quando ela começava a se convencer de que teria sua ideia rejeitada, Jeremy começou a sorrir, agora deixando a mulher curiosa – e ainda apreensiva.
- O que foi? – perguntou ela.
- Já foi para Lake Tahoe? – Jeremy sentiu o suspiro aliviado que a mulher havia soltado, sorrindo por aquilo, sabendo que ela estava se preparando para o pior cenário possível ali. O carinho em sua cintura intensificou, ele querendo lhe acalmar e fazê-la perceber que estava tudo bem.
- Mas é outono, lá é frio.
- Melhor ainda. Eu, você, frio, chocolate quente... Um bom vinho no ôfuro... O que acha?
Parecia o paraíso, concluiu , sorrindo diante aquela visão. Ela já havia visto diversas fotos de Lake Tahoe no outono e era uma de suas paisagens favoritas, já havia até mesmo usado uma imagem como fundo de tela de seu desktop, sonhando com um dia poder presenciar aquele cenário. E ali estava Jeremy lhe oferecendo, lhe dando a visão perfeita, a ideia mais incrível de todas para uns dias de folga, longe de toda e qualquer preocupação. E havia sido ideia dela, sabia, mas logo um ponto importante a atingiu quando ela tentou se lembrar de seus próximos compromissos.
- Estamos esquecendo um pequeno detalhe – observou a mulher, se sentindo culpada por arrancar o sorriso do rosto dele. – E a Ava?
- Podemos deixa-la com a minha mãe quando estivermos indo para lá – disse o ator, como se não fosse algo tão sério e problemático quanto ela estava imaginando.
- Jeremy, você passou esse tempo todo viajando, mal teve tempo para ela. E agora mal volta e já vai de novo? – perguntou , uma parte dela se sentindo mal por saber que estava acabando com o clima.
- , não é como se fôssemos viajar amanhã – explicou o ator. Roubando um beijo dela quando viu que ela iria dar alguma resposta. – Estava pensando em algo para o final do mês.
- No Halloween? – perguntou a mulher. – Tem noção do quanto ela está ansiosa para a data?
- Meu deus – Jeremy apoiou a testa no ombro da mulher de novo, soltando uma risada baixa. – A ideia foi sua, , e você já a está destruindo.
- Estou sendo responsável – retrucou ela.
- É só um fim de semana, , vai ficar tudo bem – garantiu ele, escorregando sua mão para debaixo da blusa que ela usava. – Iremos no fim do mês e voltaremos antes do Halloween. Não precisa se preocupar. E nessas próximas semanas, serei todo da Ava para compensar minha ausência no nosso fim de semana e no próximo mês.
- Promete? – perguntou , que começava a compreender melhor os planos do ator e se sentia mais aliviada. Ela não queria causar nenhum afastamento entre pai e filha, sabia que eles já lidavam com isso o suficiente, e por um breve momento, a ideia de separá-los por um motivo que ela julgou egoísta a aterrorizou.
- Prometo – disse Jeremy, sorrindo quando ela, enfim, sorriu em concordância. – Agora, uma sugestão mais urgente...
- Lá vem.
- Eu, você, aquele vinho que o Evans trouxe para mim naquele jantar, e a banheira? – perguntou ele.
mordeu o lábio inferior, não encontrando nenhuma razão para negar aquela ideia, afinal, ainda tinham umas três horas até o horário de saída de Ava da escolinha. Ela resolveu parar de pensar tanto e simplesmente respondeu com um beijo, que logo foi correspondido e aprofundado. Jeremy passeando com as mãos por suas costas por baixo da blusa, enquanto ela embrenhava seus dedos entre os fios de cabelo do ator.
- Talvez mais tarde – disse ele, enquanto ela passava uma perna para o lado, ficando totalmente de frente para ele, ainda sentada em seu colo. Mas o clima logo foi quebrado quando Jeremy a empurrou um pouco para trás, apoiando-a no piano, e bateu o cotovelo em algumas teclas, fazendo os dois rirem pelo susto com o som produzido.
- Talvez não seja tão sexy fazer isso no piano como eles fazem parecer nos filmes – comentou ela, enquanto o ator a abraçava, ainda rindo do pulo assustado que ela deu. – Continue rindo e você vai tomar aquele banho de banheira sozinho – ameaçou , apesar de não conseguir controlar o próprio riso.

O perfume floral saia de seu quarto e se espalhava pela casa, alcançando Jeremy que esperava sentado pacientemente na sala. Eles haviam tomado o banho de banheira, relaxando com uma música ambiente de fundo, algumas velas, e o tal vinho que Jeremy havia ganhado – um dos melhores que ambos já haviam provado. Quando o horário de ir buscar Ava na escolinha se aproximou, o ator sugeriu que os três saíssem para jantar, aproveitar para saírem de casa e curtirem a noite na cidade. pareceu incerta por um momento, o medo de encarar os paparazzi era grande, mas Jeremy a tranquilizou, dizendo que eles não fariam qualquer mal a eles.
Ela sabia que Jeremy não gostava de paparazzi, já tendo várias vezes feito apelos para que os fotógrafos respeitassem a privacidade dele e, principalmente, de Ava, mas cada um tinha seu ganha pão, eles gostando ou não. Até aquele momento, não tivera nenhum grande problema com os rapazes e suas câmeras, mas isso não queria dizer que ela se sentia confortável por vez ou outra perceber algum clique quando saia com Ava e o ator estava por perto. Porém o ator queria passar um tempo com as duas, principalmente com a filha, e queria tirar de casa após aqueles últimos dias cansativos, ela não tinha como dizer não àquilo. Se eles continuassem a seguir o caminho que estavam percorrendo, o relacionamento ficaria cada vez mais sério e os paparazzi fariam ainda mais parte da vida da mulher. Melhor que começasse a se acostumar logo. Além disso, já havia encarado um tapete vermelho, o que eram alguns homens com suas câmeras inconvenientes tentando arrancar qualquer informação que fosse sobre ela, Jeremy e o trabalho do ator?
Obviamente que tudo era uma surpresa para Ava, com o ator indo busca-la na escolinha e tudo. Ela acreditava que o pai voltaria apenas no fim de semana, já sorria enquanto imaginava a reação da menina ao ver o ator a esperando. Ela se olhou no espelho, conferindo o que havia escolhido para aquela noite. Jeremy lhe havia garantido que não iriam a nenhum lugar extremamente chique, mas ela também não podia se vestir como se fosse ao mercado na esquina. Ela havia optado por uma calça jeans skinny de lavagem escura, uma blusinha branca de alcinhas, com detalhes brilhantes no busto, uma jaqueta de couro para ir por cima porque ela sabia como a brisa poderia ser fria aquele horário, uma maquiagem leve, o cabelo solto escorrendo em ondas por suas costas, e sapatilhas pretas com alguns detalhes que combinavam com a blusinha que usava. Ela pegou uma bolsa para colocar celular e demais pertences, além de ir até o quarto de Ava para pegar um casaco para a menina, não querendo correr o risco de fazê-la adoecer novamente.
Jeremy havia se levantando ao ouvi-la abrindo a porta, e aguardou enquanto a moça saia do quarto de Ava e andava até ele, não conseguindo conter o sorriso por vê-la tão bela. Ele a achara estonteante no dia do tapete vermelho, afinal aquele vestido fizera maravilhas a seu corpo – ele ainda precisava pagar uma visita a Erin para agradecê-la – mas aquele era o visual preferido de Jeremy: casual. O impressionava a facilidade que tinha em parecer a mulher mais bela de todas sendo tão simples. Ele vivia um mundo em que tudo era e tinha que ser glamuroso, cheio de brilhos e das marcas mais caras. Mas ali estava aquela mulher lhe provando que era possível brilhar sem os mil diamantes que forçavam neles todos os dias. Era de lhe arrancar o fôlego, principalmente quando ela abria aquele sorriso de orelha a orelha ao vê-lo, e Jeremy sentia-se cada vez mais seguindo um caminho que não havia mais volta – e ele também não fazia questão de voltar, não se continuasse ao lado dele.
- O que foi? – perguntou a mulher, sentindo o rosto esquentar diante a forma que Jeremy a olhava.
- Você está linda – disse ele, segurando a mão dela e a abraçando pela cintura, depositando um beijo em seu rosto para não borrar o batom que ela havia passado. – E eu tenho um presente para você.
- Você... O que? Jeremy! – A mulher arregalou os olhos. Jeremy pretendia presenteá-la mais tarde, quando voltassem para casa, ou talvez até mesmo esperar pelo feriado deles em Tahoe, mas diante aquela visão, ele não havia conseguido se controlar, agradecendo por ter esquecido a caixinha no bolso interno da jaqueta que usava.
- Prometo que não é nada muito caro ou exagerado – garantiu ele. – Mas eu vi e pensei em você.
- Estou nervosa agora – confessou ela, sorrindo enquanto o ator retirava um objeto de seu bolso interno.
Era uma caixinha de veludo preto de tamanho modesto. Ela já havia visto alguma daquelas em algumas séries e filmes, além de muitos anos atrás ter ganhado um presente de seus pais que viera em uma caixinha semelhante, sabia o que poderia haver lá dentro. Ela engoliu em seco, esperando Jeremy abrir e revelar seu conteúdo. Ele havia dito que não era algo exagerado, mas sabia só de olhar que não havia sido barato. O conjunto de brinco, colar e pulseira reluziu sob a luz da sala e fez com que ela soltasse uma exclamação de pura admiração. Um dos brincos era um pequeno pássaro, enquanto o outro era apenas uma pedra, não sendo algo exagerado. O colar possuía uma corrente prateada e um pingente que formava um pássaro igual ao do brinco. A pulseira era mais simples, se é que podia dizer simples diante tantos cristais brilhantes que arriscava dizer que eram diamantes, mas não sabia se poderia ir tão longe, talvez fossem apenas cristais Swarovski, mas formava o conjunto com os outros dois itens, todos em tons prateados, com as pedras brilhantes e reluzentes. sentiu um sorriso brincar em seus lábios e lágrimas em seus olhos.
- Jeremy, eu não... – disse ela, levantando o olhar para o ator. – Eu não posso aceitar, é demais.
- Não foi você mesma quem disse que não se recusava presentes? – perguntou ele, sorrindo para a mulher e enxugando uma das lágrimas que havia escorrido. – É um presente, , não um pedido de casamento, e eu juro que não foi tão caro quanto você provavelmente está imaginando.
- Mesmo assim, eu...
- Quer usar essa noite? – cortou ele, sabendo que se não a interrompesse, ela conseguiria encontrar uma forma de recusar o presente. – Também acho uma boa ideia.
Jeremy retirou o colar do apoio e contornou a mulher, prendendo a corrente ao redor do pescoço dela e logo voltando a encará-la para ver o caimento perfeito. abaixara o olhar para encarar a joia, um sorriso brincando em seus lábios. Jeremy voltou a pegar a caixinha e pegou a pulseira, encarando a mulher em uma pergunta silenciosa, apenas para ela revirar os olhos e assentir, estendendo o pulso, logo depois pegando os brincos e substituindo os que havia escolhido para usar aquela noite. encarou a pulseira em seu pulso, consciente do olhar de Jeremy sobre si e suspirou, voltando a encará-lo com um sorriso no rosto.
- Obrigada – disse ela, aproximando-se. – São lindos.
- Ava significa como um pássaro – disse ele, voltando a passar um braço ao redor da cintura dela, sorrindo quando ela o olhou surpresa. – Eu queria algo que te fizesse lembrar de nós, mas que não tivesse tão piegas e até possessivo. Eu sei o quanto ela é importante para você.
Os olhos de voltaram a brilhar com as lágrimas e seu sorriso se alargou ainda mais. Ela sentiu o coração se acelerando e seu estômago parecia cair em queda livre. Aquela sensação que ela vinha sentindo há semanas voltava a preenche-la, algo único e especial que ela nunca chegara nem perto de sentir com os outros dois namorados que tivera antes de sair de sua terra natal. E ela conseguia sentir, por onde sua mão estava apoiada sobre o peito do ator, que o coração dele batia tão acelerado quanto o dela. Talvez, pensou ela, fosse mais recíproco do que ela vinha considerando, e aquilo a fez sentir como se o mundo ao seu redor virasse de ponta cabeça, porque, afinal, quais eram as chances de algum dia aquilo acontecer?
se colocou nas pontas dos pés para selar seus lábios ao dele rapidamente, sentindo o suspiro satisfeito e aliviado que ele soltou. O sorriso não abandonando nenhum dos dois, muito menos o brilho nos olhos.
- Eu am... – começou ela, parando logo depois, incerta. Qual era a regra afinal? Seria a mesma que se aplicava à viagem a dois deles? não sabia, e o medo, infelizmente, falava mais alto. – Eu amei, obrigada.
Ela percebeu certa mudança no olhar de Jeremy, não conseguindo interpretar que era devido à leve decepção dele pela interrupção no que diria antes, mas Jeremy entendia. Talvez fosse ele pulando para conclusões precipitadas, a famosa vontade de que fosse verdade, de que fosse recíproco. Talvez fosse, ele não eliminava aquela possibilidade, todos os sinais o levavam a crer que era. Mas talvez ambos ainda não estivessem prontos para aquele passo a mais.
- Vamos nos atrasar – disse a mulher, se afastando. Jeremy sorriu, segurando a mão dela e os levando para fora de casa, parando apenas para pegar a chave do carro no caminho, todo o resto já nos bolsos de sua calça e jaqueta.
A escolinha não ficava muito longe, e eles percorreram aquele caminho conversando sobre as filmagens dos filmes. Jeremy não podia dizer muita coisa sobre o que iria rolar, mas algumas histórias e piadas ele estava liberado, desde que não deixasse escapar nenhum spoiler – ele não queria a fama de Sebastian, Mark e Holland. Dessa forma, a viagem passou rapidamente e, quando perceberam, estacionavam em frente ao local no exato momento em que os portões se abriam.
As crianças corriam desesperadas em busca de seus pais, ansiosas para contarem sobre o incrível dia que tiveram, o quanto brincaram com os amiguinhos e o que haviam aprendido. , com seus olhos já acostumados àquela movimentação, não se surpreendeu ao ver Ava se aproximando mais devagar, conversando com uma amiguinha enquanto andavam em direção à saída. Os olhos da menina já haviam encontrado o carro no qual a babá ia busca-la, mas não havia visto seu pai ainda. Jeremy soltou o cinto de segurança e abriu a porta, se arrumou em seu lugar e abaixou o vidro, querendo ver com todos os detalhes a reação de Ava ao perceber a presença de seu pai. Demorou, dando tempo do ator contornar o carro e parar de frente à porta, próximo a , mas quando o viu, a babá teve dó da amiguinha que foi rapidamente esquecida – e provavelmente teve um tímpano lesionado devido ao grito da menina.
Ava correu em direção ao pai, os cabelos presos em duas maria-chiquinhas ficando ainda mais bagunçado e o sorriso iluminando seu rosto. Jeremy se abaixou e abriu os braços, esperando o impacto do abraço que a menina iria lhe dar, e não se decepcionou. Ela envolveu o pescoço do ator com os bracinhos e enterrou o rosto no ombro do pai, o sorriso nunca abandonando seu rosto. sentiu os olhos lacrimejarem com a cena, mesmo que já estivesse acostumada a vê-la, ela sempre se emocionava com aquele carinho e amor todo entre os dois.
- Você voltou! – disse Ava quando se afastaram. – !
- Oi, pequena – disse a mulher, sorrindo para a menor, que agora estava no colo do pai. Ava se jogou para a janela, querendo abraçar a babá e dar um beijo no rosto da mesma, os dois adultos agradeceram os reflexos rápidos de Jeremy, ou não teria sido uma cena bonita.
- Você tá bonita – observou Ava, olhando a produção da mais velha. – Não tá, papai?
- Linda – concordou Jeremy, e pai e filha sorriram diante as bochechas avermelhadas de .
- Seu pai vai nos levar para passear – informou a babá, sorrindo quando a menina arregalou os olhos e encarou o homem.
- Eba! – exclamou Ava, pulando da forma que podia nos braços do pai.
Jeremy ajudou Ava a se ajeitar na cadeirinha, se certificando de que a menina estava bem presa e protegida caso cruzassem com algum paparazzi no meio do caminho. O trajeto até o restaurante – italiano, escolhido por Jeremy e a aprovado pelas duas – foi preenchido pela voz de Ava, que contava todas as novidades para o pai. Mesmo que o ator já soubesse de tudo, a menina sentia que podia ter deixado algo escapar durante as vezes em que se falaram durante a ausência dele.
Uma fina garoa começava a cair quando chegaram ao restaurante. Era um local discreto, que não chamava muita atenção, e agradeceu por isso (apesar de saber que alguns famosos passavam por ali vez ou outra, já tendo lido o nome do local em diversos sites) enquanto ajudava Ava a vestir o casaco que a mulher havia trazido. A pedidos da menina, ela também ajeitou os cabelos loiros para que ficasse em um penteado mais organizado, optando por um rabo de cavalo alto. Foi quando começava a soltar um dos cintos que ela ouviu o primeiro clique, e o xingamento baixo que Jeremy soltou quando se juntou a ela apenas confirmou suas suspeitas.
- Você a leva? – perguntou a mulher, já enxergando ao longe três rapazes. Eles estavam distantes pelo menos, pensou ela, mas ainda estavam lá.
- Desculpe – pediu o ator, segurando a mão de para que ela o olhasse.
- Está tudo bem. – O sorriso dela servia como um tranquilizante para ele. Se ela estava bem, ele não precisava se preocupar, certo?
Jeremy suspirou e pegou Ava no colo, a menina cobrindo sua cabeça com o capuz da jaqueta e afundando o rosto na curva do pescoço do pai. Ela não gostava daquelas situações, o pai já tendo lhe explicado quem eles eram e o que faziam diversas vezes. Mas a tensão que ela percebia no pai, sempre passava para ela e a deixava sensível. Pelo menos o ator lidava melhor com a situação do que sua mãe, a menina sempre conseguia comparar e pensar.
se juntou a eles assim que fechou a porta traseira e ativou o alarme, Jeremy passando um braço livre pelos ombros da mulher, permitindo que ela também conseguisse proteger o rosto. Todos já sabiam quem ela era, mas agia por instinto, já tendo visto diversos programas de fofoca para saber que eles podiam mudar a intensidade da aproximação a qualquer momento. Felizmente, durante o trajeto até o restaurante, nenhum deles se aproximou, se contentando em tirar as fotos de onde estavam, sem sentirem a necessidade de se aproximar do trio e tentar arrancar alguma informação. Quando entraram no restaurante, suspirava aliviada pela tranquilidade com que tudo havia ocorrido.
- Eu disse que melhorava – comentou Jeremy, colocando Ava no chão enquanto eles seguiam até a mesa deles.
- Você nunca disse isso – observou a mulher, que sorria apesar da resposta um tanto seca.
Eles foram atendidos com toda atenção e bom humor, algo que eles consideraram positivo. Os garçons não fizeram diferença com quem estava falando – algo que acontecia, Jeremy sabia – e ofereceram as melhores opções que possuíam nos mais variados preços. e Jeremy aceitaram a sugestão de vinho, enquanto Ava se resignou a seu copo de suco de uva. Logo depois, cada um escolheu a massa que mais lhe apetecia, esperando pela chegada dos pedidos entre conversas sobre os últimos dias.
Ava era uma criança curiosa e queria saber cada passo que o pai havia dado, como estavam os tios Chris e Sebastian, e as tias Lizzie e Scarlett, além do resto do elenco. Jeremy respondia a cada pergunta da menina com toda a atenção e carinho, sob os olhos atentos de que nunca deixaria de se encantar pela forma como ele lidava com a filha. Em determinado momento, enquanto um garçom entregava a Ava algumas folhas de papel e lápis de cor, Jeremy a pegou olhando os dois, recostando-se na cadeira e apoiando uma mão sobre a coxa dela, chamando a atenção da mulher.
- O que foi? – perguntou o ator, e sentiu o rosto esquentar por ter sido pega.
- Nada – disse ela, sorrindo para ele. – Eu só gosto de ver vocês dois juntos. Gosto da forma que age com ela.
- E como é?
- Como um pai que ama sua filha acima de tudo – respondeu ela, colocando sua mão sobre a dele em sua coxa e sorrindo ainda mais quando ele entrelaçou os dedos deles. – Acho bonito.
- Seu pai não era assim?
- É até hoje – riu. – Mas eu era criança, não tenho como lembrar. Tenho um pouco das lembranças de como ele era com meu irmão, mas, também, crianças... Nossa memória é frágil nessa época.
Jeremy riu concordando e se inclinou para dar um beijo na bochecha da mulher. Ele já havia notado diversas vezes, em outras ocasiões, como ela frequentemente parava o que estivesse fazendo para observar ele e Ava juntos, sempre se sentira curioso sobre aquilo, mas nunca tivera a coragem ou oportunidade de perguntar. Uma parte de si sempre interpretou aquilo como um pouco de inveja, principalmente quando era no começo da relação entre ela e a menina, mas agora ele percebia como sua outra parte estava mais certa. Ele gostaria de poder olhar ele e a filha pelos olhos dela, com certeza deveria ser uma boa visão. Talvez, pensou ele, o que sentia, ou a forma como ela ficava ao olhar os dois, espelhava como Jeremy ficava quando via a babá e sua filha interagindo juntas. Talvez aquilo chegasse perto dele entender – e visualizar – o que via naqueles momentos.
Os pedidos chegaram, e o assunto não morreu entre uma garfada e outra. Com Ava voltando a sua narrativa para deixar o pai por dentro de tudo o que ele havia perdido. A menina economizava alguns assuntos quando Jeremy estava longe para poder contar tudo a ele depois. gostava de ouvir, se divertindo novamente pela forma de narrar da menina. Se não seguisse os passos do pai, Ava teria um bom futuro como escritora, pensava .
E foi enquanto a moça tinha um de seus momentos de distração que Ava soltou algo que a fez se engasgar com o gole de vinho que havia tomado.
- Papai – chamou a menina, atraindo a atenção de Jeremy – você e a vão me dar um irmãozinho?
Jeremy agradeceu a tosse engasgada de , que causou um atraso na resposta dele. Teria ocorrido a mesma coisa se ele não tivesse ficado tão preocupado com o som que viera da mulher ao seu lado. Ele deus alguns tapinhas nas costas dela enquanto ela tentava recuperar o ar, infelizmente chamando a atenção de alguns dos clientes do restaurante. Quando voltou a si, tinha o rosto vermelho e o ator não sabia dizer se pelo engasgo ou por estar envergonhada pela pergunta da menina.
- De onde você tirou essa ideia, Ava? – perguntou o ator, ainda passando a mão pelas costas de e encarando a filha.
- Os papais do Tony vão dar um irmãozinho pra ele. – disse a menina, não dando muita bola ao ocorrido com . – E você me disse que os irmãozinhos vinham quando duas pessoas se gostavam e se abraçavam muito. Você e a se abraçam bastante.
- Meu deus – sussurrou a mulher, apoiando o cotovelo na mesa e escondendo o rosto na mão.
- Desculpa – sussurrou Jeremy de volta. Logo depois o ator encarou a filha, tentando conter o riso diante a expressão serena da filha contrastando com o estado que ele e se encontravam. – Não, querida, não vamos te dar um irmãozinho.
Ava ficou em silêncio por um momento, observando os dois adultos a sua frente como se quisesse confirmar que não estavam mentindo para ela. Por fim, ela sorriu.
- Ufa – soltou, fazendo até mesmo encará-la assustada. – Não queria um irmãozinho agora.
e Jeremy se olharam, o sorriso já evidente nos lábios do ator e a expressão surpresa de preenchendo o rosto dela. De onde havia vindo aquilo? Os dois se perguntavam. E que diabos era aquela história que Jeremy havia inventado que os bebês vinham de abraços? Perguntou-se , tentando se lembrar que teria uma longa conversa com o ator sobre aquilo.
- Mas vão me dar um dia, não é? – perguntou a menina de repente, interrompendo a troca de olhares divertidos entre o casal.
- Talvez, querida. – respondeu Jeremy, sua mão ainda nas costas de .
ficou dividida entre um olhar de espanto e um sorriso de alegria. Porque aquilo definitivamente significava o que ela estava pensando, não era? Jeremy não havia dito não, ele dissera talvez, havia uma grande diferença. Mais que isso, havia uma possibilidade de um futuro com ela. E, tudo bem, talvez ele pudesse ter escolhido a rota mais fácil para se livrar dos questionamentos de Ava, mas o sorriso que ele lançou a logo em seguida lhe dizia que não era aquela situação. Definitivamente significava o que ela estava pensando.

~ * ~


Como havia prometido, Jeremy dividiu os dias seguintes entre passar um tempo com Ava e dando conta de suas reuniões. Ajudava a menina agora estar na escola por meio período, já que Jeremy ou iam busca-la um pouco após o almoço para que ela ficasse em casa com o pai. Além disso, aproveitou a ajuda extra com a menina para se dedicar aos trabalhos e adiantar o máximo que conseguisse para que pudesse viajar sem peso na consciência.
Os dias passaram mais rápido do que eles percebiam e, quando deram por si, já havia chegado o fim de semana em que Ava deveria ficar com sua mãe. Jeremy e Sonni haviam discutido aquilo por alguns dias e, por fim, concordaram que a menina iria para lá naquela sexta, já que ficara três semanas seguidas na casa do pai – não era culpa de Jeremy se no primeiro sinal da gripe, a modelo havia pedido para que a filha ficasse com a babá. não havia economizado na lista de xingamentos quando Jeremy lhe pediu – quase implorando, já que sabia da agenda conturbada da mulher – que ela ficasse com Ava, fora por isso também que Valerie fizera a viagem até a casa do filho. descobriu que ela não era o único membro do grupo de ódio a Sonni Pacheco.
A babá agradeceu por Jeremy ter sido o encarregado naquele dia de buscar Ava e levar até a casa da mãe, tivera que lidar com a mulher no dia em que ela fora até a casa do ator para buscar a filha e foi extremamente difícil para conter a expressão de desgosto quando Sonni percebeu a filha apática e mais quieta que o normal.
julgava não ter o direito de expressar suas preocupações, mas por dentro ela odiava cada vez que dias como aquele chegavam. Preferia mil vezes mais a dor de cabeça e o cansaço por ter que equilibrar os estudos com suas funções de babá a deixar que Ava fosse ficar com a mãe. Porém, longe dela dizer aquilo a Jeremy. Havia se convencido desde cedo de que aquele era um problema entre o ator e a ex-mulher, e a situação já era complicada e delicada por si só sem que acrescentasse mais a sua implicância à lista.

Aquele sábado tinha tudo para ser um lindo dia. Apesar de ser outono, o sol subiu quente e brilhante no céu azul, sem qualquer nuvem. Era um ótimo dia para ir até o parque e passar a tarde, até fazer um piquenique. E isso estaria nos planos dos residentes da casa Renner – com certeza acordou com um sorriso no rosto ao ver os raios solares invadindo seu quarto apesar das persianas – não fosse o fato de Ava estar longe deles. Jeremy e , então, resolveram que aproveitariam uma parte do dia para ficar em casa, de preferência na parte externa, aproveitando o sol quente, com a mulher adiantando mais alguns textos para ficar ainda mais livre antes da sua viagem com Jeremy.
O dia prometia ser lindo e claro, e eles combinaram que sairiam para dar uma volta mais tarde – não havia uma nuvem no céu que indicasse que aqueles planos seriam arruinados. Porém, logo após o almoço, os primeiros sinais de que aquilo mudaria começaram a aparecer. Aos poucos, as nuvens foram se acumulando e as brisas ficando mais fortes e frias. Quando o relógio deu três horas da tarde, o primeiro trovão ressoou, fazendo dar um pulo em seu lugar no sofá, completamente distraída pelas anotações que fazia. Jeremy percebeu, abrindo um sorriso de lado e acariciando a perna da mulher, tentando acalmá-la. Ele sabia que ela tinha certo medo de tempestades, porém nunca tivera a oportunidade de ver pessoalmente o quão aquele medo era grande e muito real.
Assim que as primeiras gostas começaram a cair, eles não tentaram se manter otimistas e abandonaram os planos, optando por uma tarde preguiçosa assistindo filmes e comendo pipoca, curtindo a presença um do outro e, secretamente, torcendo para que a chuva não durasse muito e eles conseguissem dar aquele passeio. Aqueles planos tinham tudo para dar certo, até o celular de Jeremy começar a tocar. O ator suspirou após ver quem era e não conseguiu impedir a careta que surgiu em seu rosto ao ver a tela do aparelho. Definitivamente não era mais um bom dia. Enquanto um novo raio cortava o céu e se encolhia um pouco, esperando o estrondo do trovão que não demorou a vir, Jeremy atendeu a chamada.
- Alô – disse o ator, logo depois afastando-se de e se aprumando no sofá. – Sonni... Você só precisa acalmá-la... Não, ela tem medo de chuva... Sonni, eu não... Mas eu... – o ator deu um suspiro resignando, uma das mãos passando pelo cabelo e o bagunçando, o olhava com um lábio preso entre os dentes. – Tudo bem. – O ator disse por fim e desligou o celular.
- O que foi? – perguntou , claramente preocupada ao perceber que Ava era o assunto e já imaginando sobre o que se tratava.
- Ava está em pânico – disse Jeremy, passando a mão no rosto – e Sonni não consegue lidar com ela.
- Não consegue ou não quer? – perguntou , não disfarçando o desprezo que sentia pela forma que a mulher lidava com a filha.
- Eu vou lá busca-la – disse Jeremy, lançando um olhar que dizia o quanto sentia muito pelos planos cancelados.
Um relâmpago cortou o céu e um trovão estourou logo em seguida, a chuva ainda estava fraca, mas ambos sabiam que não ficaria daquele jeito por muito tempo.
- Eu vou junto – disse , se levantando.
- , não precisa – disse o homem, apoiando as mãos nos ombros da mulher. – Não quero que você entre em pânico também.
- Jeremy, eu vou junto – disse ela, decidida, apesar do leve tremor ao ver uma explosão de luz. – Ava está assustada, você não vai ter como acalmá-la e voltar para casa ao mesmo tempo.
Jeremy sabia que não tinha como impedir a mulher, ela já estava de decisão tomada, e o ator sabia que ela tinha razão e precisaria mesmo de ajuda. Ele já havia visto lidando com Ava e suas crises anteriormente, sabia que ela conseguiria dar conta apesar de seu próprio medo. Os dois se arrumaram rapidamente e, em questão de minutos, estavam no carro a caminho da casa da mulher, que já começava a ligar novamente para o ator, querendo saber se ele estava a caminho ou não. fazia seu melhor para esconder o descontentamento com a situação. Não achava ruim ter Ava de volta com eles – longe disso, estava até mesmo aliviada – mas achava extremamente irresponsável, para não dizer frio e cruel, a forma como Sonni se portava em relação a filha. Nem parecia que era mãe e que cuidara dela por dois anos.
preferiu não prestar atenção no caminho, se concentrando em não entrar no seu próprio pânico com a chuva que ficava mais espessa a medida em que se aproximavam do destino final.
Quando pararam em frente à casa de Sonni, Jeremy desceu do carro, pedindo para que esperasse, e ela não cogitou contrariá-lo, ficando ali com prazer. Apenas descendo um pouco o vidro do carro para ver se o vento frio conseguia acalmá-la um pouco mais. Sonni não demorou para abrir o portão e rapidamente ela e Jeremy iniciaram uma discussão. Aparentemente, o ator não conseguia entender por que a mulher já não havia trazido Ava para o portão, e Sonni argumentava que não tinha como trazê-la para fora da casa. E Jeremy se recusava a entrar no local. A discussão pareceu mudar de tom um pouco quando a modelo percebeu quem acompanhara Jeremy até ali.
suspirou, observando a casa de dois andares e tentando imaginar em qual quarto Ava estaria. Ela acompanhava a discussão e não conseguia parar de pensar na menina, sabendo como aquela situação era desesperadora. Por isso ela não se sentiria muito culpada pelo que viria a seguir. Em um ato impulsivo, como ela reconheceria mais tarde, soltou o cinto de segurança e desceu do carro, andando até o ex-casal que ainda discutia – com Sonni voltando a questionar Jeremy o motivo da mulher estar ali. A chuva estava mais forte, e sentiu a roupa pesando enquanto andava até o dois. Um relâmpago cortou o céu e ela respirou fundo, se aproximando do ator que começava a perguntar o que ela estava fazendo, mas rapidamente sendo interrompido pela mulher.
- Quando você nos ver chegando, abra a porta traseira – pediu ela, passando reto por ele e contornando Sonni, parando apenas para encarar a mulher. – Vê se aprende uma coisa ou duas sobre cuidar da sua própria filha.
Jeremy apenas arregalou os olhos, levantando as mãos em rendição quando Sonni o olhou como se perguntasse se ele não iria impedir a babá de invadir sua casa. Secretamente, ele estava extremamente admirado pela ação de .
Talvez ela não tivesse aquele direito, sabia daquilo, mas naquele momento ela não se importava. Entrou na casa de Sonni sob os protestos da modelo, mas a ignorou. Rapidamente adentrando o local e se vendo em um hall branco e muito elegante, certamente decorado com a ajuda da pensão que Jeremy pagava. Havia uma escada acarpetada que levava ao andar superior, onde suspeitou que os quartos estariam, incluindo o de Ava. Ela começou a subir os degraus quando Sonni entrou na casa, gritando que ela não tinha o direito de invadir o local daquela forma. ignorou, subindo os degraus com mais rapidez ao ouvir o choro característico de Ava.
No andar superior haviam três portas, duas estavam fechadas, a outra entreaberta e era de lá que o som vinha. Ela se adiantou para o quarto, não se surpreendendo ao ver como era sem vida, sem qualquer brinquedo ou indício que pertencia a uma criança, não era à toa que Ava voltava sempre tão infeliz. Para o crédito de Sonni, pelo menos havia uma pequena casa de bonecas em cima de uma escrivaninha no canto do quarto. vasculhou o cômodo, identificando a origem do som no canto onde havia um sofá próximo a um grande guarda-roupa. Ava estava encolhida ali, o rosto molhado pelas lágrimas que caiam incessantemente, o corpo tremendo de medo. Aquilo apertou o coração de . Ela se aproximou e puxou a menina para um abraço apertado, começando a consolá-la assim que ela murmurou seu nome, parecendo relaxar por ver que a mulher estava ali.
Os gritos de Sonni diminuíram ao ver a forma como babá e criança se comportavam. Ela não parecia muito feliz com aquela situação, estava possessa e era claro em sua expressão, mas não conseguia dar a mínima importância para aquilo. Um relâmpago cortou o céu e um trovão estourou logo depois, Ava tremeu em seus braços e a apertou, deixando-a saber que ela não estava sozinha, que a mulher estava ali. Quando percebeu que Ava estava um pouco mais calma, começou a se levantar com ela em seu colo, sentindo certa tensão se instalar no corpo da criança.
- Está tudo bem, querida – disse a mulher, escondendo o rosto da menina na curva de seu pescoço, de forma a não deixa-la ver os relâmpagos. – Está tudo bem, estou aqui.
Enquanto saia do quarto, e Sonni se encararam, o desafio claro nos olhos das duas mulheres. Mesmo que a babá talvez não tivesse o direito de exigir qualquer coisa, sua raiva em relação à modelo era maior que qualquer senso de razão que ela poderia sentir naquele momento. Sem dizer qualquer coisa para Sonni, saiu do quarto, descendo as escadas e saindo da casa, agradecendo quando Jeremy as viu e abriu a porta traseira do carro, como ela havia pedido. Os dois trocaram alguns olhares, o ator curioso para saber por que ela havia demorado tanto para sair, mas apenas acenou com a cabeça, dizendo que não precisavam falar daquilo naquele momento. A chuva começava a apertar, Jeremy já estava ensopado e apressou o passo para que Ava não ficasse muito molhada e corresse o risco de voltar a ficar doente.
- Pegue as coisas dela e vamos embora – pediu , sabendo que Sonni estava logo atrás dela. A babá entrou no carro, mantendo Ava próxima a ela. – Está tudo bem, querida, estamos indo para casa.
Elas não viram ou ouviram a pequena discussão entre Jeremy e Sonni, mas agradeceu por ele não ter demorado muito para entrar no carro com as coisas de Ava, arrancando rapidamente, os levando de volta para casa. A viagem foi silenciosa, com exceção dos soluços de Ava, que agora estava mais calma, mas ainda não havia tirado seu rosto de onde o havia encaixado, não querendo ver os relâmpagos. Os trovões já eram o suficiente.

A chuva caiu com força no momento em que eles pisaram dento de casa. Ava agora no colo de Jeremy, tendo voltado a chorar após um alto trovão que assustara até mesmo – que achava estar um pouco anestesiada ainda. A menina já estava mostrando sinais de que dormiria em breve, só precisava de mais um pouco de tempo para cair no sono pesado. Havia certa tensão entre e Jeremy, mas os dois deixaram para lidar com aquilo quando Ava já estivesse mais calma e, com sorte, dormindo.
Os três foram até o quarto da menor, Jeremy carregando a filha e com as mochilas que haviam sido levadas para a casa de Sonni. Ela depositou a bagagem em um canto, enquanto Jeremy se deitava com a filha na cama, deixando a menina saber que o pai não sairia dali tão cedo. se retirou para dar a privacidade aos dois, aproveitando para arrumar a bagunça que havia feito com seus inúmeros textos na sala, e a que ela e Jeremy haviam feito enquanto escolhiam um filme. Levou os potes de pipoca até a cozinha, junto com os copos onde haviam bebido um suco de caixinha que estava para acabar. Ela lavou a louça, ignorando a existência da máquina, querendo ocupar a mente com algo que não fosse o estado que havia encontrado Ava mais cedo.
Quase duas horas depois, ela estava sentada no sofá com um texto em suas pernas, e Jeremy apareceu.
- Dormiu? – perguntou ela, vendo o ator se aproximando, e jogando na mesinha de centro o texto que vinha tentando ler há um bom tempo, mas não tendo passado do primeiro parágrafo.
- Sim – disse ele, suspirando pesadamente e sentando no espaço ao lado da mulher.
Os dois ficaram em silêncio. mordia o lábio inferior, incerta sore o que falar para quebrar aquela tensão que vinha sentindo desde que trouxera Ava para o carro. Ela sabia que tinha que vir dela, sabia que tinha cruzado uma linha que não tinha o direito de cruzar.
- Jeremy, olha, sobre mais cedo – começou ela, mas parou ao ver o homem olhando para ela com um sorriso. Porém logo continuou, tinha que tirar aquilo do peito. – Desculpe, eu não tinha o direito de me intrometer daquela forma.
- Está tudo bem, – disse o ator, colocando a mão na perna da mulher, tentando acalmá-la.
- Não, não está – a babá suspirou. – Eu não tinha o direito de fazer o que eu fiz.
- Alguém precisava ter feito – disse Jeremy, tentando fazer qualquer coisa que acalmasse a mulher.
- Não eu – disse , a definição total de culpa. – Vocês dois já têm problemas o suficiente, eu não precisava aumentar.
- Como você...
- Jeremy, eu te ajudo vez ou outra – explicou a mulher, sorrindo levemente para o ator. – E eu sou curiosa, eu sei o que aquele e-mail dizia.
- Eu ia te contar, só estava querendo saber como.
Jeremy e se olharam. Os dois sabiam o que estava acontecendo, mas ninguém parecia ter coragem de dizer qualquer coisa para acabar com aquela tensão. Desde aquela ligação do advogado de Jeremy que algo havia mudado, porém não o suficiente para atrapalhar a relação dos dois, tanto profissional quanto romântica. Eles até mesmo vinham combinando de passar um fim de semana juntos, com o ator prometendo surpreendê-la. Mas havia aquele grande elefante na sala e os dois não podiam mais ignorá-lo depois do que havia acontecido mais cedo.
- Ela quer mais dinheiro – deu de ombros. – Qual é o problema em me contar? Além de, claro, eu não ter exatamente o direito de exigir qualquer coisa...
- Pare de dizer que não tem direitos – pediu Jeremy, parecendo muito incomodado com a insistência da mulher em dizer que não havia direito de se intrometer nos assuntos dele com a ex. – Nós estamos juntos, . Eu sei que não colocamos um nome no que está acontecendo, mas nós estamos juntos. Você foi a uma première comigo, isso já é oficial o suficiente. Você conheceu, e encantou, minha mãe, algo que não é fácil de fazer. E o que você conquistou com Ava... Isso te dá todo o direito de agir como agiu hoje, e de saber o que está rolando.
Ela não conseguiu disfarçar o quanto aquilo lhe deu certa alegria, um sorriso brincando em seus lábios. Mas sabia que Jeremy estava apenas contornando o assunto, e ele não contaria a menos que ela pressionasse.
- Não é só o dinheiro, é? – perguntou . Conhecia pouco de Sonni, mas sabia que ela não gostava de facilitar a vida do ator. Havia lido as notícias sobre o divórcio turbulento dos dois, e de como a relação dos dois era ainda mais frágil, principalmente quando envolvia Ava.
- Só o dinheiro que importa – disse Jeremy.
- Não mente pra mim – pediu , o tom de voz delicado e suave. – O que mais ela quer?
Jeremy suspirou, afundando a cabeça em suas mãos e encarando os pés. Por dias sua cabeça vinha girando em torno daquele assunto, sem saber como lidar e como resolver os problemas que pareciam acumular. Ele costumava ter orgulho de dizer que sempre havia o controle de tudo, mas de repente aquele controle começou a se perder. O trabalho vinha acumulando, suas funções como pai, e agora namorado, começavam a ficar confusas e ele sentia que não estava fazendo um bom trabalho em nenhum setor de sua vida. E, para aumentar ainda mais a dor de cabeça, vinha Sonni com suas birras e exigências. O ator estava cansado daquilo, de lidar com a mulher e seus caprichos. Tudo o que ele queria era ter de volta a paz do começo do ano. Talvez por isso estivesse tão entusiasmado com o fim de semana com em Tahoe. Seria uma ótima bolha.
- Jeremy – chamou , alcançando a mão dele e entrelaçando seus dedos. O ator suspirou e voltou a encará-la. – O que mais ela quer?
- Ela quer você fora – disse ele, não se surpreendendo pela falta de reação da mulher. Era óbvio que ela já esperava por aquilo. – Ela quer você longe da Ava, disse que não é saudável.
- E eu aposto que o que eu fiz hoje não ajudou em nada. – passou a mão livre no rosto, a calmaria começando a sumir e dando lugar ao desespero.
- Ei, ei, ei. – Jeremy sabia o que vinha a seguir. A conhecia há pouco tempo, mas não precisava de muito para saber o quanto ela começaria a se culpar por tudo. – Você não fez nada errado. Eu não vou deixar ela ganhar.
- Eu não acho que seja sua escolha.
- Mas é. – O ator disse com tanta certeza que não ousou duvidar daquilo. – Eu sinto muito por não ter contado antes, mas eu não queria que você se preocupasse.
- Tarde demais para isso. – A mulher sorriu sem humor algum. Logo depois suspirando e encarando os olhos azuis que tentavam lhe passar toda a calmaria do mundo. – Ela não vai deixar de criar problemas enquanto eu estiver aqui, não é?
- ... – Jeremy suspirou, se arrumando no sofá para ficar de frente para a mulher. – Sonni e eu sempre tivemos e sempre teremos problemas. Ela gostando ou não, eu quero que você fique. Você faz as coisas se tornarem mais fáceis de encarar. Não posso fazer isso de novo sem você do meu lado.
Havia tanta verdade ali que até mesmo Jeremy se surpreendeu. Ele nunca havia parado para pensar naquilo até aquele momento, e sentia que aquela era a melhor forma de descrever. Desde que havia chegado ali, havia simplificado tudo, transformado tudo na mais simples equação da vida. Ele não queria perder aquilo. E não permitiria que tirassem dele. Nem mesmo Sonni. Principalmente Sonni.
o encarava, os olhos marejados diante aquela declaração, um leve sorriso no rosto. Jeremy se endireitou e passou a mão no rosto dela, sorrindo de forma a tranquiliza-la e garantir que aquilo tudo era real e ele não havia inventado apenas para fazê-la se sentir melhor. Com calma, Jeremy aproximou seus lábios aos dela, selando-os com delicadeza e iniciando um beijo sem pressa, com calma e todos os sentimentos que vinham borbulhando neles. Quando se afastaram, a calmaria no lago azul que eram os olhos dele fez com que sentisse que estava flutuando. Até Jeremy quebrar o silêncio.
- , eu... – A mulher o olhou curiosa, esperando o resto da frase, sentindo algo engraçado em seu estômago, a expectativa crescendo. Jeremy hesitou, encarando a mulher a sua frente e sentindo o resto da sentença na ponta da língua, mas sentindo algo prendê-lo. Ele suspirou, voltando a beijá-la, dessa vez algo mais rápido. – Não se preocupe, vai ficar tudo bem.
Se ela ficou desapontada com a mudança de assunto, não demonstrou e Jeremy não tentou encontrar qualquer sinal que mostrasse aquilo. Talvez não fosse a ocasião certa para entrarem naquele assunto ainda. Era tudo muito recente, como poderia saber se era real ou não? E como poderia dizê-lo sem correr o risco de arruinar o que tinham? Ele ainda não sabia se era sério ou apenas um caso do momento, e não queria arriscar terminar aquilo por uma frase dita no momento errado. Era como havia dito, Jeremy não queria perde-la. Ele a queria ali. Não apenas naquele momento, mas pelo máximo de tempo que conseguisse.

~ * ~


- Mas por que eu não posso ir junto? – Ava choramingou, olhando o pai e a babá no portão da casa, prontos para partirem para a tão merecida folga deles. A mãe do ator estava atrás da menina e sorria para o trio.
- Porque não terão crianças lá para você brincar, querida – explicou Jeremy pelo que parecia ser a vigésima vez. – E você pediu para ficar com a vovó uns dias, lembra?
- Mas eu queria ir com vocês – choramingou ela, fazendo um biquinho e dificultando ainda mais a determinação do casal em mantê-la longe.
- Na próxima você vai, que tal? – sugeriu Jeremy. – Quando estiver nevando, faremos uma fogueira, boneco de neve...
- A gente vai fazer anjos? – perguntou a menina, a expressão mudando drasticamente.
- Vários – disse Jeremy, sorrindo para a filha e a puxando para um abraço. – Te amo, meu anjo.
- Te amo, papai – disse ela, fechando os olhos e sentindo o homem a abraçando com força.
- Se comporte – pediu Jeremy, se levantando e sorrindo quando a menina acenou e correu para dentro da casa, se juntando às primas.
- Ela vai ficar bem – tranquilizou-o Valerie. – Daqui a pouco esquece que vocês não estão aqui.
- Mãe, a senhora podia ao menos fingir que ela vai sentir saudades.
- Não é nossa primeira vez nisso, querido – a mulher sorriu. – Façam uma boa viagem, avisem quando chegar.
- Pode deixar – disse Jeremy.
Mãe e filho se abraçaram, e depois Valerie surpreendeu o casal ao abraçar com força, desejando boa viagem e bom descanso. A babá sorriu, agradecendo e logo depois o casal se afastou, entrando no carro e logo caindo na estrada para a longa viagem até Tahoe.
Era bem cedo, haviam madrugado para deixar Ava na casa da mãe do ator, em Modesto. Longas quatro horas de viagem na madrugada, felizmente a menina havia dormido por todo o caminho. Agora encarariam mais três horas de viagem até a casa de Jeremy em Lake Tahoe. Eles estavam cansados, haviam dormido pouco na noite anterior devido à longa viagem a frente deles, mas a animação pelo fim de semana a dois longe de qualquer compromisso e problema os deixava em alerta. Eles haviam conversado sobre os mais diversos assuntos durante o caminho, voltando a trilhar o caminho que seguiam quando começaram o relacionamento: se conhecendo mais. Compartilhando histórias do passado e demais curiosidades. Havia ajudado a fazer passar o tempo mais rápido, e agora eles seguiam os mesmos planos.
A manhã despontava clara no horizonte, prometia ser um dia típico de outono, com sol, mas com brisas frias, impedindo que as pessoas andassem por aí com roupas leves. Sempre haveria um casaco. Durante o caminho até a casa de Valerie, eles viajaram com o ar condicionado funcionando por causa do vento frio, e eles não queriam que Ava pegasse uma friagem. Mas agora que o dia começava a clarear e eram só eles, os dois abaixaram os vidros do carro e inspiraram o vento frio que adentou o veículo, sorriu, apaixonada pelo outono como era, aquilo era o paraíso para ela.
Jeremy dirigia com uma mão no volante, e a outra segurando a mão de , usava uma calça jeans de lavagem clara, camiseta branca e uma jaqueta de couro por cima, óculos escuros para proteger os olhos da claridade do dia. havia preferido manter parte de seu pijama, trocando o shorts curto por uma calça de moletom, mas mantendo a camiseta larga de alguma banda e jogando um casaco de tricô por cima. Nada glamuroso, mas Jeremy sorriu ao vê-la daquele jeito, os cabelos presos em uma trança frouxa e o óculos de sol que antes pendia na bolsa, agora cobrindo parte de seu rosto. Ela estava relaxada, com os pés protegidos do frio por meias quentinhas para cima do painel e rindo enquanto Jeremy contava algumas histórias de quando era criança.
Foi só quando a paisagem começou a mudar, enchendo-se de árvores no dégradé perfeito do laranja ao marrom e, ao longe, ainda tímido, o grande lago, a mulher se sentou mais apropriadamente e se calou. Jeremy olhou rapidamente para ela, sorrindo ao ver o sorriso de orelha a orelha que ela tinha nos lábios. levantou os óculos, colocando-o na cabeça como uma tiara e o brilho em seus olhos não era apenas pelos raios de sol, mas pela alegria pela paisagem que via a sua frente. Parecia uma criança diante um parque de diversões de tão animada e excitada que estava. Ela respirou fundo, fechando os olhos e absorvendo aquele aroma que ela adorava. Sentindo os raios do sol tocando seu rosto e aquecendo timidamente.
Mais uns vinte minutos e eles pararam em frente a uma grande casa, cercada por árvores em tons alaranjados, com várias folhas caídas pelo caminho até a porta de entrada. Ela desceu do carro, encontrando Jeremy que contornara o veículo para se juntar a ela. Os dois entrelaçaram os dedos e se encararam por um tempo, sorrisos em seus lábios, os olhos brilhando pela expectativa do fim de semana que tinham a frente. Uma brisa fria soprou e se encolheu. Jeremy a puxou para um abraço, tocando o rosto da mulher com a mão livre antes de beijá-la delicada e demoradamente. A babá suspirou nos braços do ator, apoiando a mão no pescoço dele, sentindo a pele arrepiada pela temperatura baixa do local.
- Pronta? – perguntou Jeremy e ela sorriu ainda mais, acenando com a cabeça. – Vamos, depois eu pego as malas.
Jeremy lhe deu o tour completo da casa, que era extremamente aconchegante. O quarto onde eles dormiriam era gigante, com portas francesas que levavam a um deque que tinha vista para o lago e várias árvores. A visão era de tirar o fôlego, assim como a banheira que havia no banheiro da suíte. Se ela já achava a que havia em Los Angeles grande, não era nada comparada àquela, que possuía até mesmo hidromassagem. moraria naquela banheira, sem qualquer problema, não fosse o ôfuro que havia do lado no jardim ao fundo da casa, com um grande bosque que se perdia de vista. O sofá na sala era grande e parecia muito fofo, o tipo de móvel no qual você dormiria como se estivesse na cama mais confortável do mundo, e a gigante televisão que havia em frente só complementava o convite para se jogarem ali com um filme qualquer e se enrolassem juntos sob as cobertas. A cozinha possuía os mais diversos tipos de comida, e uma mini adega com os vinhos mais finos e caros que existiam. entendia pouco do assunto, mas sabia que poderia escolher qualquer um de olhos fechados e não se decepcionaria.
Ao final do tour, que durou muito mais do que a casa exigia já que os dois se distraiam demais, suspirou animada, encostada no batente das portas francesas do quarto, observando a paisagem enquanto Jeremy se encarregava de trazer as malas – ela havia se oferecido, mas o ator havia se recusado a aceitar a ajuda dela. A mulher chegou a considerar que poderia morar ali para sempre. Ela gostava de locais calmos e silenciosos, e era tudo o que a casa oferecia. E quem não gostaria de acordar com aquela vista todos os dias?
Seus pensamentos foram interrompidos por braços ao redor de sua cintura e o corpo quente de Jeremy em suas costas, os lábios do ator depositando um beijo em seu pescoço exposto devido à trança lateral. A mulher sorriu, apoiando os braços sobre os dele e se recostando em seu corpo, os olhos fechados apreciando aquela sensação. Jeremy apoiou o queixo no ombro dela e começou a cantar bem baixinho uma música, fazendo suspirar feliz ao reconhecer. A mesma do encontro desastrado deles no jardim, em que tudo dera errado e eles terminaram comendo pizza e depois dançando, entre outras coisas.
Com calma, a mulher se virou, passando os braços ao redor do pescoço do ator e ele a abraçou pela cintura, ainda cantando a música, eles começaram a se mexer, sorrisos bobos no rosto. Ambos no fundo sabendo o quanto aquela cena era boba, mas não se importando. Eles estavam juntos, isolados de tudo e todos. Não havia qualquer receio ou medo de que algo fosse dar errado. Havia somente eles e seus corações batendo de forma sincronizada, os pés se mexendo sem qualquer pressa, os perfumes característicos lhe provendo aquela dose diária daquela droga que ambos haviam experimentado e se viciado. Vinham lutando há muito tempo, debatendo os prós e contras, considerando os inúmeros cenários que poderia acontecer e atrapalhar aquela relação. Mas não mais, não naquele momento pelo menos.
Porque ali, enquanto dançavam juntos a música que Jeremy cantava fora de ordem por se confundir com os versos, enquanto estavam nos braços um do outro de frente àquele cenário que só havia visto em fotos. Ali, com só eles dois e ninguém ousando estourar aquela bolha, eles aceitaram o inevitável: estavam apaixonados. Pura e simples assim. E não havia qualquer dúvida quanto ao tempo que estavam juntos, se era muito ou pouco. Só havia o que era certo. E aquilo era o certo: os dois juntos, dançando a música que se encaixava como uma luva a situação deles. Os lábios que aos poucos se aproximavam para se unir em um beijo apaixonado, como eles estavam. E as mãos já muito familiares com o corpo do outro, se tocavam timidamente, como se estivessem trilhando um caminho que era novo, mas que levaria ao mesmo destino. Os olhos se encontravam e haviam tantos sentimentos reunidos ali que confundia ambos, mas nada importava, porque o resultado era o mesmo. Os corpos no encaixe perfeito, os dedos entrelaçados, o nome do outro saindo em um sussurro pelos lábios entreabertos, o resumo simples da pessoa que os deixava naquele torpor do qual nenhum dos dois queria sair.

Ela sentiu algo em seu ombro e se remexeu, passando a mão para afastar o que quer que fosse e virando o rosto para o outro lado. Não demorou muito e voltou a sentir, agora com mais precisão, seu cérebro acordando e começando a entender certos sinais, mas ainda soltou um gemido e passou a mão na região. O ar quente bateu em seu ombro nu e logo depois ela sentiu uma respiração em seu ouvido.
- Bom dia. – A voz rouca sussurrou, fazendo todos seus poros se arrepiarem. Ela se contentou em soltar um gemido, protestar por estar sendo acordada, apesar de saber, lá no fundo já quase desperto de seu consciente, que aquela era uma ótima forma de acordar. – Está nevando – complementou ele, sabendo que aquilo chamaria sua atenção. E não deu outra. virou o rosto para Jeremy, o cenho franzido e os olhos ainda fechados.
- O que? – perguntou ela com a voz ainda embolada. Jeremy sorriu, aproveitando a oportunidade para selar seus lábios ao dela. – Hmm, isso não é justo.
- Você precisa acordar – disse Jeremy, distribuindo beijos por todo seu rosto, lentamente descendo sua mão para afastar o edredom que cobria seu corpo.
- Renner, se você me descobrir... – Ameaçou ela, num tom nada feliz, sentindo enquanto o homem afastava a coberta, sua pele se arrepiando ao entrar em contato com o ar frio. – Renner, eu não estou brincando – insistiu ela, mesmo sabendo que não daria resultado, ele sabia que a ameaça dela não era real. Resolveu mudar de tática. – Jer, por favor – choramingou – não faz isso, tá frio.
- Eu te esquento, não tem problema – tranquilizou ele, ainda a beijando, mas agora descendo pelo pescoço, sua mão continuando a descobri-la, sentindo a pele da mulher se arrepiando. – Você vai perder a neve.
- Jeremy, eu não me importo com neve no momento – respondeu ela, tentando sem sucesso afastar as mãos do ator. – Eu só quero continuar aqui.
- Que pena. – Foi só o que ele respondeu antes de finalmente arrancar de uma vez o cobertor de cima da mulher, vendo-a se encolher imediatamente, soltando um palavrão alto.
- Eu te odeio – disse ela, abraçando o corpo e afundando o rosto no travesseiro enquanto Jeremy se ajoelhava no colchão, rindo.
- Você que escolheu dormir de shorts e regata, não me culpe – apontou ele, puxando as mãos dela para que se levantasse.
- Eu não vou sair daqui – protestou dela, tentando soar irritada, mas não conseguindo conter o riso. – E seu eu sair, vou esperar você ficar nu e vou te empurrar lá para fora e te trancar lá. Vai dormir na casinha do cachorro.
- E você vai dormir sozinha aqui nesse quarto frio? Sem eu para te esquentar?
- Eu me viro – respondeu ela, suspirando derrotada com a insistência dele.
- Eu prometo que te recompenso por isso mais tarde, mas, por favor, abre os olhos e vê como está lá fora. – Ele aproximou o rosto dela, afastando um pouco as mãos que cobriam suas faces para lhe dar mais um beijo. – Juro que você vai até esquecer a raiva que diz estar sentindo por mim.
- Você é pior que a Ava quando quer – resmungou , se dando por vencida e abrindo os olhos.
A primeira coisa que viu foram os olhos azuis do ator tão próximos, com um brilho que ela vira quando ele observava Ava fazendo alguma coisa, ou quando olhava para ela própria; o sorriso em seu rosto parecia o de uma criança encontrando a árvore de natal cheia de presentes na manhã do dia vinte e cinco.
- Não vale me olhar assim para conseguir perdão mais rápido.
- Só virar o rosto para o lado – disse ele, seguindo sua própria instrução depois. seguiu o olhar do ator, arfando ao admirar a vista que havia das portas francesas. As folhas alaranjadas e amarronzadas do outono cobertas pelo branco da neve fofa que ainda caia suavemente.
- Está nevando – disse ela, sentando na cama e continuando a olhar a paisagem.
- Eu disse – brincou Jeremy, recebendo um olhar enfezado da mulher.
se levantou da cama, arrependendo-se ao sentir o chão gelado, e se aproximou da porta. Não demorou para que sentisse Jeremy a abraçando por trás, apoiando o queixo em seu ombro. Era o terceiro e último dia deles ali em Tahoe, iriam embora na manhã seguinte, e eles haviam visto alguns relatórios meteorológicos que indicava que poderia haver a possibilidade de neve, mas não viram nenhum sinal daquilo. A noite anterior havia sido extremamente fria, e eles se viram obrigados a acender a lareira que havia no carto do casal. E agora ali estava o que havia ansiado por aqueles dias. A neve branca e fofa que caia sem demora, tingindo a paisagem laranja. A neve não estava grudando completamente, então alguns pontos ainda estavam extremamente laranjas, e aquilo tornava tudo ainda mais incrível. sorriu, não conseguindo desviar o olhar daquela cena.
- É lindo – disse ela, encostando o corpo no do ator, apoiando as mãos sobre as dele.
- Igual a você – emendou ele, fazendo a mulher revirar os olhos e rir logo em seguida.
- Só porque nós somos o casal clichê, você não precisa ficar abusando de todos os clichês em todas as oportunidades, você sabe, não é? – perguntou ela, ficando de frente para ele e passando os braços pelos ombros do ator, enquanto ele a abraçava pela cintura.
- Às vezes não dá para controlar. – Jeremy deu de ombros, sorrindo em seguida. notou que seu rosto estava levemente corado, como sempre ficava quando ele soltava alguma frase como aquela.
- Você é tão adorável que dá vontade de morder – brincou ela, mordendo a bochecha dele logo em seguida. Jeremy soltou uma risada alta.
- Você é incrível – comentou ele, ainda rindo, enterrando o rosto no pescoço dela.
Os dois vestiram roupas mais quentes e saíram de casa, sentando no sofá que havia no deque com xícaras de chocolate quente com marshmellow e chantilly para observar a neve caindo. se encolheu contra o corpo de Jeremy, sentindo o ator a abraçando e a trazendo para mais perto. Os dois em silêncio observando a paisagem alterando lentamente com a neve.
Aquilo havia sido basicamente o resumo do fim de semana deles, os dois juntos, curtindo a presença um do outro, sem se preocupar com trabalhos de faculdade ou contratos de filmes. Eles haviam aproveitado a banheira de hidromassagem, o ôfuro, e os bons vinhos. Fizeram e comeram fondue, assistiram filmes e se conheceram ainda mais – se é que aquilo era possível. Havia sido o fim de semana perfeito, e eles não queriam que acabasse.
Naquele dia, eles aproveitaram cada oportunidade para ficar olhando a neve cair, mas algumas horas após o almoço, o sol começou a ficar mais forte e derreter os flocos brancos que haviam tingido a paisagem. Jeremy riu quando fez um bico ao perceber que aquele cenário não permaneceria até eles irem embora, achando-a adorável. Ela havia crescido em Norfolk, deveria estar acostumada ao frio, mas quando observou isso, tudo o que a mulher disse foi que era completamente diferente.
À noite, a neve não caia mais, mas não significava que o tempo havia ficado mais quente, ao contrário, parecia que estava ainda mais frio. estava bem agasalhada, enrolada em uma das mantas que havia na sala, e ainda sentia frio. Talvez fosse o psicológico por ver Jeremy completamente nu dentro do ôfuro na parte externa da casa.
- Você vai ficar tão doente – disse ela, parada na porta entre a área externa e a sala.
- Por que você ainda está vestida? – perguntou Jeremy, ignorando o aviso dela.
- Porque eu não quero ficar doente – respondeu , como se fosse óbvio, porém extremamente tentada a se juntar ao ator. O vapor saia do ôfuro mostrando o quanto a água estava quente, e Jeremy parecia bem relaxado ali dentro, uma taça de vinho na lateral e alguns petiscos.
- , você disse que em algum momento de hoje entraríamos aqui para relaxar uma última vez. O momento é agora.
- Eu nunca especifiquei quando seria esse momento. – Observou ela, odiando ele ter usado sua própria fala contra ela. – Jeremy, eu estou ficando com mais frio só de ter ver ai, por favor, entra aqui.
- Não, você entra aqui – disse ele, apontando para o ôfuro. Ele estava irresistível, tinha que confessar, metade de seu corpo estava para fora, as gotículas de água escorrendo de seu cabelo pelos ombros e o peitoral definido e malhado. O sorriso divertido nos lábios, os olhos azuis que a encaravam com um brilho animado.
- Você sabe que não vou – disse ela, sabendo tão bem quanto ele que mentia.
- Não me faça sair daqui e ir até ai para te jogar aqui, . – Ameaçou o ator, já começando a se erguer ainda mais, se arrependendo levemente por sentir o frio se intensificando, mas não deixando a mulher perceber.
- Não seria uma visão tão ruim – observou a mulher, mordendo o lábio inferior de forma sugestiva. Jeremy abriu a boca, mas logo depois fechou, sorrindo de lado.
- É ainda melhor daqui de dentro – devolveu, por fim. – Vamos, nós dois sabemos que você quer vir aqui. Só está fazendo charme. – O ator a entregou, ele a conhecia tão bem. Ela estava extremamente tentada a se juntar a ele, mas quando viu o ator se preparando para entrar, ela estava muito confortável em seu canto no sofá, sob as pilhas de cobertores e não conseguia acreditar que ele estava falando sério, mas ali estava ele. – Eu te esquento, você sabe disso.
- Você tem dito muito isso hoje – comentou ela, revirando os olhos. – E vai me pagar caro por isso.
- Pode mandar a conta que pago até com juros. – O ator riu, sorrindo ainda mais quando viu a mulher retirar a coberta de seus ombros.
Lentamente, porque realmente estava frio, foi tirando cada peça que vestia sob o olhar atento de Jeremy, que a certo ponto chegou a morder de leve o lábio inferior, apenas contemplando a mulher. Quando enfim ficou só de calcinha e sutiã, seu corpo já não parecia sentir o frio, assim como ela tinha dificuldades em sentir as pontas dos dedos. Notando o olhar de Jeremy fixo em seu corpo, se aproximou lentamente do ôfuro, tentando fazer certo charme enquanto retirava as últimas peças. Após jogá-las para o interior da casa, ela entrou com cuidado na água, vendo Jeremy se aproximar, passando a mão em suas pernas para esquentá-las com a água quente. Ela sentiu seu corpo se arrepiar e fechou os olhos, aproveitando a sensação da água aquecida contra sua pele gelada, e dos lábios do Jeremy distribuindo beijos por sua cintura e baixo ventre, ela sorriu.
O ator segurou suas mãos, entrelaçando os dedos, levantando-se também e a puxou para o centro da enorme banheira. Seu corpo quente e úmido colando-se ao corpo gelado da mulher, sentindo-a suspirar ao sentir o choque de temperaturas. Ele aproximou o rosto dela, soltando suas mãos para apoiar na cintura da mulher, seus lábios se tocando delicadamente, como se fossem completos desconhecidos. Ele sentia a respiração gelada e acelerada dela, o corpo da mulher tremendo contra o seu, mas ela não se afastou, não tentou voltar correndo para casa. Ao contrário, passou os braços pelos ombros dele, ficando na ponta dos pés e selando de vez seus lábios. Ele a abraçou com força, colando seus corpos ainda mais, querendo passar o calor do seu corpo para o dela.
- Arrependida? – sussurrou ele contra os lábios dela, sentindo-a rir.
- Está passando – respondeu , enquanto o homem ia se abaixando e a levando junto para imergi-la na água quente e afastar o frio. sentou-se em seu colo, de frente para o ator, os braços ainda firmes ao redor de seu pescoço. – Muito melhor.
- Eu disse – brincou ele, sentindo a mulher morder seu lábio inferior com um pouco de força, sinal claro que não era hora para aquilo naquele momento. – Desculpe – murmurou, subindo as mãos pelas costas dela, molhando-a nos locais onde a pele ainda estava exposta ao vento frio.
- Eu tenho que parar de ceder tão fácil a seus pedidos. – observou, se ajeitando melhor nos braços do ator. Ele riu.
- Sendo bem honesto, você não facilita muito a minha vida também – brincou ele. tinha o queixo apoiado em seu ombro, relaxando à medida em que seu corpo ia esquentando cada vez mais.
- É mesmo? – perguntou ela, afastando o rosto para olhá-lo melhor. – E quando eu não facilitei para você?
- A primeira vez? Episódio da toalha – lembrou o ator, fazendo a mulher rir e esconder o rosto no pescoço dele. – Eu sei que você diz que não teve a intenção, mas eu sei que teve. Não adianta mentir.
- Eu juro que não sabia que você estava em casa. – Ela tentou se defender.
- Finge que me engana e eu finjo que acredito.
- E quando você ficou fazendo exercícios seminu no meio da sala foi algo do acaso? – perguntou , interrompendo o que ele tinha começado a dizer. – Vai dizer que não foi de propósito também.
- Você deveria estar dormindo naquele horário.
- E você não deveria estar em casa no dia da toalha. – Retrucou ela. Os dois se olharam, ambos controlando a risada que queriam dar, não conseguindo conter por muito tempo. Jeremy beijou a mulher e voltou a falar.
- Vamos considerar isso como eventos extraordinários.
- Foi mesmo – disse , sorrindo de lado ao se lembrar da cena do ator treinando no meio da sala, só com uma bermuda.
- Foca, – brincou Jeremy, chamando a atenção da mulher. – Recomeçando, então, primeiro ato: você fez a Ava te aceitar – começou Jeremy, voltando ao assunto do qual eles haviam se desviado. – E, eu nunca te contei isso, mas quando ela te aceitou foi como se ela me desse permissão para eu finalmente me.. Aproximar de você, de dar um passo na direção certa. – Ela sorriu, sentindo o coração dar uma falhada com a declaração dele, notando a leve hesitação, mas não deixando aquilo atrapalhar. Ela sabia o que ele queria dizer, e não tinha problema ele não conseguir dizer. Haveria o momento certo. – E tudo o que aconteceu depois disso foi só uma avalanche, cada vez que eu tentava levantar, você surgia e fazia algo que me derrubava mais uma vez.
- Não era como se você não me derrubasse também – disse ela.
Jeremy sorriu e a beijou pela enésima vez naqueles dias. Eles nunca se cansavam do outro, dos beijos, dos toques, dos sorrisos, dos olhares que diziam tudo aquilo que eles ainda não sentiam coragem de dizer. Ao se afastarem, o abraçou e suspirou com a respiração dele atingindo seu ponto sensível no pescoço, os lábios dele roçando aquela região até chegar a seu ouvido.
- Darling, just hold my hand. Be my girl, I’ll be your man. I see my future in your eyes – sussurrou ele, sentindo a pele da mulher se arrepiar, lembrando da primeira noite deles e a música tocando de fundo.
- Isso é jogo baixo, Renner.
- E só vai ficar pior – devolveu ele, beijando o ombro dela enquanto suas mãos desciam de suas cinturar para suas coxas.
A mulher arfou ao sentir o toque dele entre suas pernas, cravando as unhas nos ombros do ator. Com urgência, Jeremy buscou os lábios dela, selando-os com um beijo ávido, as unhas da mulher descontando o que ele a fazia sentir a cada investida. No ápice, quebrou o beijo, jogando a cabeça para trás, levemente consciente da atenção que Jeremy dava ao seu colo, o frio agora uma vaga lembrança, seu corpo inteiro quente de dentro para fora.
Jeremy se deliciou acompanhando as reações da mulher, sequer pensando que ela poderia querer retribuir. E ela não deixou barato. Ambos se amando, se beijando, se apaixonando ainda mais sob as estrelas e pequeninos flocos de neve que voltavam a cair timidamente, mas desfazendo antes que atingisse o chão. Era o fim perfeito do fim de semana mais perfeito de todos. Os dois ali, juntos, unidos em todos os sentidos que poderia existir, sem qualquer preocupação no mundo, no lugar dos sonhos de ambos: os braços um do outro.
- You look perfect tonight.

Capítulo 13

Como prometido, eles chegaram na casa de Valerie a tempo de comemorar o Halloween, com Ava usando sua fantasia dos Trolls – o novo vício da garota, e que era o guilty pleasure atual de , apesar da mulher tentar negar – e fazendo o pai e a babá usarem pelo menos uma tiara de unicórnio e gatinho respectivamente. foi além e fez desenhos no rosto para imitar o nariz e o bigode do animal, enquanto Jeremy achou que já era o suficiente a tiara com o chifre do animal. Claro que ele estava extremamente satisfeito com o que havia improvisado, ainda mais quando ela apareceu vestida toda de preto para combinar, a imaginação do ator viajando para diversos possíveis cenários – os quais ele fez questão de expressar para a mulher. Que apenas sorriu e lhe piscou um olho antes de ir até Ava para ajudá-la com a própria tiara, que tinha orelhas e o cabelo imitando os trolls do filme. Ela estava a definição de fofo e adorável, e não resistiu em tirar algumas fotos e selfies dela com a menina e com pai e filha depois.
Eles passearam pela vizinhança com Ava segurando seu baldinho para trick or treat, sempre sendo muito adorável e educada quando os vizinhos lhe davam algumas balas e chocolates. Ela corria com as priminhas e dividiam os doces, depois ela vinha até o pai para mostrar o que havia ganhado. e Jeremy andavam um pouco atrás, mãos dadas, os olhos atentos nas crianças, não querendo correr o risco de perder qualquer uma de vista. Estava uma tarde agradável, mas que prometia uma noite fria. Jeremy usava um caso, e se encolhia dentro da blusa extremamente fria que havia escolhido para aquele passeio. Ela mal podia esperar para voltarem para casa, onde um jantar preparado por Valerie os esperava.
Era claro que, enquanto via as meninas correndo a sua frente, um pensamento não deixava de cruzar a mente do casal: em algum momento poderia ter uma nova criança ali naquele meio. E tal pensamento assustava um pouco os dois: ainda era cedo para aquilo, certo? Ainda era cedo para muitas coisas, os dois pensavam quando sentiam as borboletas e as três palavras que pendiam na ponta da língua cada vez que se viam, se abraçavam ou se beijavam. Era tentador demais, e extremamente assustador. Era algo muito novo para ambos, eles não tinham como comparar com nada que já haviam vivenciado antes. Não havia um padrão a ser seguido. A única certeza que tinham era que a qualquer momento aquilo tudo podia vir abaixo e eles perderiam algo, e era assustador demais pensar que poderiam perder tudo em um piscar de olhos.
Quando já haviam terminado o passeio, Ava correu para os braços do pai, entregando seu baldinho de doces para e afundando o rosto no ombro do ator, o cansaço começando a surgir, mas a menina querendo lutar contra para aproveitar todo o tempo que tivesse com Jeremy. Era uma cena tão adorável, Jeremy agora já havia se livrado da tiara de unicórnio e cobria o corte de cabelo com um boné, carregando a filha nos braços. não resistiu, precisava de mais uma foto para a coleção que crescia a cada dia em seu celular. Jeremy possuía uma regra na casa em uma tentativa de controlar mais a privacidade da filha, mas até ele assumia que muitas vezes aquilo era impossível. Ele até tentava ficar chateado com por ela não conseguir mais se controlar como antes, mas bastava ver como as fotos haviam ficado e ele esquecia de tudo, ficando horas vendo as imagens e mandando para alguns colegas que adoravam Ava.

Eles passaram o resto da semana na casa de Valerie, mas sexta de manhã fizeram a viagem de volta para casa, afinal Ava precisava passar o fim de semana com a mãe, e pretendia usar o fim de semana para ficar em dia com os textos que não havia conseguido discutir durante as aulas que perdera naquela semana. Jeremy normalmente reclamaria, mas até ele havia dado uma pausa na vida profissional para aproveitar aqueles dias com a filha e a babá, agora a quantidade de e-mails e assuntos para resolver se empilhavam e ele pretendia adiantar o máximo que conseguisse.
Logo a correria normal voltava à vida deles, com passando noites em claro para estudar e finalizar trabalhos e, com muito esforço, ainda cedendo aos convites constantes de Anna e Erin para saírem juntas. No início, ela achava que as mulheres insistiam tanto a pedidos de Jeremy, mas após uma conversa com o ator, ele confessou que fazia semanas que não conversava com qualquer uma das mulheres – e lembrou que estava devendo uma visita apropriada ao ateliê de Erin, algo que aproveitou para tirar da lista quando comentou que a estilista estava implorando pela companhia da babá naquela semana. Eles aproveitaram para buscar Ava na escolinha e depois irem até o local, assim Ava poderia matar as saudades da estilista também.
- Tia Erin! – gritou a menina, correndo entre as mesas até alcançar a mulher, que se livrou da almofada de alfinetes antes de receber o abraço apertado da criança.
- Meu Deus! Você está tão grande! – Erin a afastou um pouco, encarando a menina que estava ainda mais adorável. – Jeremy, se você demorar esse tempo todo de novo para vir me visitar, na próxima premiação eu faço você pagar mico.
- Desculpe, mas você sabe tanto quanto eu como está uma loucura o ritmo de gravações – comentou o ator, abraçando a mulher e lhe dando um beijo no rosto. – E você sabe muito bem que pode aparecer lá em casa quando quiser, não precisa de convites.
- Sei? – perguntou Erin, fazendo uma careta. se lembrava da mulher comentando vagamente sobre um pequeno desentendimento entre a estilista e o ator alguns meses atrás, mas nunca entrou em detalhes.
- Você sempre será bem-vinda, Erin – disse Jeremy, sorrindo para a mulher.
- Acho bom – a estilista sorriu de volta. – Já estou começando a preparar suas roupas para as premiações. E acho maravilhoso que você esteja aqui, , posso finalmente pegar suas medidas.
- Minhas medidas? – perguntou a mulher, que de repente sentiu saudades do breve momento em que ficou invisível ali.
- Claro! – Erin procurava por algo em uma das mesas, o cabelo preso em um penteado que mais parecia um ninho de passarinho de tão bagunçado que estava. Por fim, ela soltou uma exclamação e sorriu vitoriosa, segurando uma fita métrica. – Você não achou que eu iria deixar você sem uma roupa decente para as premiações, achou?
- Erin, nós não... – Jeremy começou, sendo interrompido pelo olhar da mulher.
- Não vão me dizer que terminaram, eu vi as fotos essa semana de vocês dois passeando na praia. – engoliu em seco, a estilista estava assustadora diante a ideia dos dois não serem mais um casal.
- Não, mas não se sente bem ainda para participar desses eventos.
- Mas ela foi...
- Mas ela não quer mais passar por isso tão cedo.
- Mas o mais difícil...
- Vocês dois podem parar de falar como se eu não estivesse aqui? – A mulher interrompeu a discussão, tentando parecer séria, mas falhando ao ouvir o riso divertido de Ava, que acompanhava tudo sentada em um banco alto, desenhando em uma das folhas que havia roubado da estilista. – Erin, é adorável que você queira fazer algo para mim, mas Jeremy está certo... Não acho que ainda esteja preparada para algo assim.
- Mas você foi para Wind River!
- Mas aquilo é uma reunião do clube do livro comparado a um Globo de Ouro, sem ofensas – acrescentou a mulher para Jeremy, que apenas sorriu.
- Você tem ideia do quanto isso é cruel? – choramingou Erin, e Jeremy riu, já conhecendo a mulher há anos.
- E essa é a minha deixa – comentou o ator, pegando Ava no colo, apesar dos protestos dela.
- Mas eu quero ficar com a tia Erin, papai – pediu a menina, fazendo um biquinho que sabia ser irresistível.
- ? – perguntou o ator, já que a mulher ficaria por ali.
- Elas ficam, depois vamos embora juntas – disse Erin, diante da incerteza da babá. Afinal, provavelmente tinham ido até ali apenas com um carro, e não teria como voltar. – E já aviso que ficarei para o jantar.
- Quando você não fica? – brincou Jeremy, dando um beijo no rosto da estilista e depois um selinho em . – Até mais tarde.
- Até – sorriu, pegando Ava no colo quando Jeremy a entregou.
- Tchau, papai – disse a menina, sorrindo para o ator.
As três esperaram o ator se retirar do local para voltarem a agir. colocou Ava de volta em seu banquinho, a menina voltou a desenhar, e Erin apenas olhava com um sorriso de lado nos lábios. Algo que assustou quando enfim se voltou para a estilista. Erin não disse nada, apenas pediu para que a babá a acompanhasse enquanto elas iam para um espaço mais aberto e com vários pedaços de papel presos à parede, a uma distância segura para que pudessem conversar sem que Ava escutasse e que pudessem continuar a observar a menina.
- Então... – comentou Erin, fazendo abrir os braços e começando a tirar as medidas dela. – Você e o Jeremy.
- O que tem? – perguntou a mulher, desistindo de lutar contra e deixando a estilista se divertir.
- Quanto tempo já estão juntos?
- Uns cinco meses, acho – respondeu, fazendo as contas na cabeça.
- Tudo isso? – Erin arregalou os olhos, até mesmo perdendo a medida que havia acabado de medir.
- Nós mantivemos escondido por uns dois meses, acho – disse , quase rindo diante a confusão da mulher. – A mídia especulou, mas nós conseguimos fingir que era só ilusão deles.
- Então... Quem disse as três palavrinhas mágicas primeiro? – perguntou Erin.
- Que palavras?
- Isso é piada, certo?
- Erin, o que...
- Vocês ainda não disseram eu te amo um pro outro? – A estilista arregalou os olhos, sua voz saindo um pouco mais alta que o normal, chamando a atenção de Ava. – Não é nada, querida. – disse a estilista, suspirando aliviada quando a menina voltou a desenhar. – !
- O que? – Exclamou a mulher. – Cinco meses, Erin, cedo demais!
- De acordo com quem?
- Com todos os filmes e livros de romance?
- Ah, pelo amor de Deus! – Erin bufou. – Não acredito que você pegou a lerdeza do Renner. E claramente estão os dois cegos.
- Erin, você não...
- Eu sei muito bem do que estou falando – cortou a estilista, tirando a última medida e bufando novamente enquanto anotava os números no papel. – Você vai me dizer que acha que o Jeremy não sente o mesmo por você e por isso ainda não disse nada.
- Como voc...
- Eu tenho um doutorado nesse assunto, querida – disse a estilista, andando pelo ateliê para pegar um manequim de modelagem, onde prendeu com um alfinete o papel com as medidas de . – Sei que isso soa bem prepotente, mas conheço o Jeremy há sete anos, e podemos ter nos conhecido há poucos meses, mas eu sinto que já sei o suficiente sobre você para afirmar que vocês dois estão na mesma sintonia.
- Talvez seja apenas sua visão.
- Quem vê de fora tem uma visão muito privilegiada, – comentou Erin, puxando um banquinho para as duas poderem sentar. – E eu nunca erro nesse assunto. Vocês dois estão perdendo tempo. – não parecia convencida, e Erin não se surpreendeu. – Você já enfrentou a Sonni, tem o amor da Ava, algo que é extremamente difícil de conseguir, e em cinco meses já conseguiu uma viagem a dois para Tahoe. E se não acha isso o suficiente, basta notar a forma como ele te olha ou sorri toda vez que você fala um “a” que seja. Claro que você não vai conseguir ver isso, já que fica toda boba com a presença dele também, então pegue qualquer foto recente de vocês dois que saiu na mídia e lá estará sua prova. Ou, melhor ainda, já que não quer acreditar em mim, pare de evitar e leia as matérias que saem sobre vocês. Não há um site de fofoca que ouse falar que vocês dois não estão apaixonados.
- Erin...
- Qual é o problema, ? É tão ruim assim estar apaixonada por ele? – perguntou a estilista, olhando preocupada para a mulher a sua frente.
- Não, claro que não... – engoliu em seco diante aquele pensamento, era a melhor coisa estar apaixonada. – Mas é assustador.
- Por quê?
- Nossos mundos são tão diferentes, Erin. – A mulher parecia prestes a chorar, mas Erin sabia que era apenas por ter que admitir tudo aquilo. Quanto tempo vinha guardando todas aquelas incertezas? – E se fosse apenas eu e o Jeremy, talvez fosse mais fácil, mas tem a Sonni. Por mais que eu tente mantê-la fora da equação, eu não posso deixar de lado que os dois sempre terão algo em comum. De alguma forma, ela sempre será parte da vida dele.
- Muito bem, eu vou te parar bem ai – disse Erin, segurando as mãos de . – Quem faz parte da vida do Jeremy e sempre fará parte da vida dele é a Ava. Sonni é uma mosca chata que sempre aparece no churrasco. Ela não faz parte de nada, e eu tenho certeza que Jeremy já deixou isso claro para você inúmeras vezes. – fez uma careta ao controlar a risada diante a comparação que estilista havia feito. – E, sim, os mundos de vocês podem ser diferentes, mas isso não significa que eles não possam se unificar em alguns pontos. Basta os dois estarem dispostos a fazer algumas mudanças, e eu sei que vocês estão.
- É mais fácil falar que fazer.
- Sim, é – concordou Erin – mas qual seria a graça se a vida não tivesse algumas dificuldades? , vocês dois se amam! O que pode dar de errado quando vocês já conseguiram o mais complicado?
Erin abriu a boca, mas a fechou logo em seguida. Ela sabia que podia falar algo que faria a babá mudar de ideia rapidamente, mas ao mesmo tempo, uma dúvida surgia e ela não se via no direito de revelar algo como aquilo. Não era sua vida para ela se intrometer – apesar de ter um longo histórico ignorando essa pequena condição. Ela amava Jeremy e começava a sentir um carinho muito grande por . Era encantador ver os dois juntos, a forma como se olhavam e se admiravam. A estilista sabia o quanto o ator era importante para a babá, e o contrário também. Doía ver que os dois estavam tão hesitantes. E ela nunca conseguia ficar quieta diante uma situação como aquela.
- Olha, não cabe a mim te falar isso, mas claramente os dois estão cegos demais para perceberem, então... – Erin respirou fundo, torcendo que Jeremy não a matasse caso descobrisse o que diria a seguir. – A Sonni estragou demais o Jeremy, fez com que ele sentisse como se aquilo fosse o fim não apenas do casamento, mas de sua vida amorosa como um todo. Ele estava pronto para focar a vida dele no trabalho e em Ava, apenas isso seria o suficiente – disse Erin, chamando a atenção de , que aproveitara o silêncio para observar a menina. – Então você apareceu. Quer saber o motivo que nos fez discutir? Foi ele ser tão teimoso e querer tanto manter a distância de você no primeiro sinal de que poderia sentir algo por você. Eu nunca o vi tão apavorado quanto naquele dia, . E você mudou isso. Nós conversamos depois daquela première, ele me ligou para agradecer pelo vestido e perguntar quanto foi, como se eu fosse deixar ele pagar por aquele presente maravilhoso. Enfim, o ponto é... Já ali eu sabia que tudo havia mudado, que você havia causado algo dentro dele e aberto não só os olhos dele, mas o coração. É piegas, eu sei, mas é verdade. Outras tentaram oferecer isso a ele, mas nenhuma delas era você. – tinha os olhos marejados, algumas lágrimas já haviam conseguido escorrer por seu rosto. – Ele te ama, , e não só por amar. Mas por você ter mostrado a ele que ainda dava para acreditar no amor. Por ter dado a ele um lugar seguro para se jogar, para que ele pudesse cair.
não sabia como responder após aquilo. Ela e Jeremy já haviam conversado diversas vezes, mas nunca sobre algo tão íntimo e profundo como aquilo. Eles ainda mal haviam conversado sobre os namoros anteriores àquele, que diria algo tão sério quanto aquele medo de se apaixonar novamente. Erin percebeu que havia falado demais e que a babá precisava de um tempo, ela se levantou e se afastou, se juntando a Ava para ver o que a menina havia feito. Ela sentia falta da criança, que sempre pedia para a estilista ajudá-la a desenhar algum vestido. Erin já havia até mesmo costurado alguns vestidos para as bonecas de Ava, um presente que fez a menina abraça-la a cada cinco minutos durante aquele dia. Erin via na garota um caminho promissor, ela tinha os traços infantis ainda, mas uma imaginação muito fora da caixinha, algo que ajudava numa carreira como aquela. As duas podiam passar uma tarde juntas apenas desenhando e seria o suficiente.
mantinha os olhos fixos na estilista e na criança, mas sua mente estava nas palavras ditas por Erin. Cada ponto e vírgula pesando em seu discurso, fazendo sua cabeça rodar em busca de uma explicação para ela ainda se manter hesitante, para ela ainda sentir aquele medo em se declarar de coração tão aberto para Jeremy. Era como ela havia dito: era mais fácil falar que fazer. A teoria sempre era linda e simples, mas colocá-la em prática era o grande monstro do final da fase. Já havia assumido para si mesma que estava apaixonada, não havia como fugir daquilo quando todo seu corpo implorava para aquela aceitação. Mas confessar para Jeremy era completamente diferente, exigia uma coragem e uma certeza que ela ainda não sentia que possuía. A coragem talvez, mas a certeza nem tanto. Não era certeza de seus sentimentos, mas do que eles teriam após aquela revelação.
Sua cabeça continuava girando em mil pensamentos mesmo após elas saírem do ateliê e Erin as levar para a casa do ator, parando o carro e saindo do mesmo, mantendo sua promessa de que ficaria para o jantar, afinal fazia tempo que não fazia aquilo. A estilista não interrompeu o fluxo de pensamentos da babá, mantendo uma conversa ativa com Ava durante todo o caminho para casa. Parando apenas quando estavam no portão da mesma e a menina já havia entrado correndo para casa. Erin se voltou e apoiou as mãos nos ombros de , fazendo a mulher encará-la.
- Olha, eu sei que eu falei demais hoje – disse Erin, vendo focar os olhos em seu rosto, ela parecia menos dispersa agora. – E eu sei que você está processando mil cenários ai dentro, mas agora pelo menos disfarce, ou Jeremy me mata por ter falado mais do que deveria. Você está entrando em pânico, eu sei, e peço desculpas por causar isso. Mas, se você ainda não se sente pronta para esse passo, deixe que tudo vai se desenrolando no ritmo que estiver confortável para vocês dois. Tem funcionado bem para vocês, não precisa mexer em time que tá ganhando.
- Eu sei, eu sei – disse , ainda sentindo sua mente dando voltas e mais voltas. – É só... Eu preciso de um minuto, vai entrando e eu já me junto a vocês.
- Tudo bem – disse Erin, num último minuto puxando a mulher para um abraço. – Respire fundo, está tudo bem.
sorriu enquanto via a mulher se afastando, fechando os olhos e apoiando as mãos na cabeça quando estava sozinha. A noite estava fria, com o inverno se aproximando, e o vento frio ajudava a clarear sua mente, a fazê-la ficar mais atenta e desperta. Estava quase pronta para entrar quando Jeremy apareceu no portão, olhando-a com preocupação.
- Está tudo bem? – perguntou o ator, observando o rosto levemente corado da mulher e a expressão que fazia parecer que ela passou os últimos minutos chorando.
- Sim, está – disse , sorrindo verdadeiramente para ele. – Erin e Ava falam demais quando estão juntas – brincou, respirando aliviada quando Jeremy riu e pareceu concordar com ela. – Fiquei para trás para respirar um pouco e me preparar para o jantar.
- Ainda dá tempo de fugirmos – brincou Jeremy, aproximando-se da mulher para abraça-la. riu, apoiando os braços nos ombros do ator. – Certeza que é só isso?
- Sim – disse ela, ficando nas pontas dos pés para unir seus lábios ao dele. Jeremy sorriu contra os lábios dela, as mãos na cintura da mulher trazendo-a mais para perto.
- É muito desesperado se eu disser que estava com saudades? – perguntou ele, e riu.
- Um pouco, mas te dou um desconto por causa da correria dos últimos dias.
- Isso é sua forma de dizer que também estava com saudades? – O ator arqueou uma sobrancelha, revirou os olhos.
- Agora você nunca saberá – respondeu ela, tentando fugir dele, mas Jeremy foi mais rápido e ela se viu presa entre o corpo dele e o muro que cercava a casa, os lábios dele em seu pescoço. – Os vizinhos podem ver.
- Eu não ligo – respondeu ele, sussurrando no pé do ouvido dela fazendo a pele da mulher se arrepiar. – Só sai daqui quando admitir que estava com saudades.
- Hm... Cuidado, eu posso ter alguma fantasia escandalosa que envolva atos explícitos em público.
- Talvez eu também possa ter – provocou Jeremy de volta, sua barba por fazer roçando a pele do pescoço da mulher, fazendo-a suspirar e soltar todo o ar que vinha prendendo. – Vai admitir que estava com saudades?
- Não é como se você estivesse me estimulando o suficiente para ceder, na verdade está estimulando outra coisa – ponderou ela, sentindo o pescoço esquentar quando ele sugou a pele sensível. Ela sorriu vitoriosa quando Jeremy se afastou, rindo diante a afirmação dela. – Acho que seus personagens estariam desapontados diante esse fracasso de tortura.
- Talvez seja uma estratégia e eu posso terminar mais tarde – disse ele, puxando a mulher pela mão e levando-os para dentro de casa antes que algum vizinho realmente os pegasse em alguma posição comprometedora.
- Mal posso esperar – sussurrou no pé do ouvido dele antes de mordiscar o lóbulo da orelha do ator.
Quando os dois entraram em casa, Ava e Erin estavam no chão da sala, fazendo um desfile de moda com as bonecas e os diversos vestuários que elas possuíam.
- Vocês duas vão arrumar isso tudo antes da Erin ir embora – disse Jeremy, fazendo uma careta diante a bagunça que eles haviam feito em apenas cinco minutos sem supervisão.
- Sim, pai! – gritaram as duas. riu enquanto Jeremy revirava os olhos.
- Por que eu convidei a Erin mesmo?
- Quem disse que você convidou? – perguntou ela, se aproximando do casal. – Então, qual é o cardápio?
Erin ficou na casa do ator até tarde, os três adultos conversando sobre os mais variados assuntos; a estilista e o ator colocando o assunto em dia já que ficaram longas semanas sem se falar apropriadamente; se divertindo ao ouvir novas histórias contadas por Erin. Quando deram por si, o relógio já apontava duas da madrugada e o sono já começava a dar os primeiros sinais. Ava já estava dormindo há um bom tempo, e os três pretendiam fazer o mesmo. Erin se despediu do casal e logo foi embora, e Jeremy organizaram a bagunça, agradecendo pelo próximo dia ser sábado e lhes dando a chance de dormir até um pouco mais tarde, sem se preocupar com qualquer compromisso muito urgente. Eles podiam estar com sono, mas não foram dormir imediatamente, , afinal, estava com saudades.

~ * ~

Os últimos trabalhos e provas de já haviam sido entregues e feitos respectivamente. O mês passava e os professores e alunos começavam a se preparar para as férias de inverno. Muitos professores já começavam a dispensar os alunos por saberem que muitos moravam longe e passavam longos períodos sem ver a família. Outros ainda se mantinham ao programa, mas a pressão estava bem menor já que as aulas eram mais para discussão de textos e assuntos discutidos nos últimos meses.
Enquanto estava livre, Jeremy, entretanto, não estava tanto. As viagens para Atlanta retornaram e ele possuía alguns outros assuntos para discutir, de forma que mesmo quando estava em casa – como naquele momento – ele passava mais tempo no escritório e no telefone conversando com alguém, do que com Ava e .
Naquele dia não havia sido diferente. O ator havia acordado cedo para levar a filha até a escolinha e depois fizera uma pausa para busca-la na hora do almoço. Agora, enquanto terminava de guardar a louça suja e Ava estava sentada à bancada da cozinha, o ator iniciava uma discussão com alguém devido à confusão de agendas – alguém por acidente havia marcado uma reunião extremamente importante para aquela tarde, porém Ava teria uma de suas consultas de rotina, e Jeremy nunca faltava. pendurou o pano de pratos no apoio e se aproximou de Ava, que brincava com um livrinho que Erin havia dado a ela na semana anterior, e esperava o sorvete descongelar para ela e atacarem o pote. A babá se colocou ao lado da criança, cutucando com a colher o sorvete e sorrindo ao ver que já havia amolecido o suficiente, cutucando Ava de leve com o cotovelo. Os lábios da criança se partiram em um sorriso quando viu estendendo a colher para ela.
- Não, eu não posso hoje à tarde! – Jeremy passou a mão na testa, Ava e dividiam as colheradas de sorvete e haviam começado a prestar atenção no ator, que agora andava de um lado para o outro. – Não, você sabe que eu não posso! Eu te avisei, eu tenho a consulta da Ava. – Jeremy suspirou pesadamente, reprimindo um palavrão que viera com tudo. – Claro que não posso cancelar. Entre a saúde da minha filha e uma reunião que com certeza pode ser adiada? Você realmente vai me fazer escolher? – As garotas se olharam, não precisavam de uma confirmação para saber que a conversa era séria, mas só quando o tom de voz de Jeremy mudou para algo seco foi que elas se preocuparam mesmo. tinha uma leve ideia sobre o que se tratava aquela reunião, e sabia que ela era importante, então resolveu levantar a mão e começou a balança-la para que Jeremy a notasse, o que não demorou muito a acontecer. – Só um minuto – ele disse no celular, depois afastando o aparelho e olhando a mulher. – Sim?
- Eu posso levar a Ava no médico – sugeriu , tendo aprovação imediata da menina ao seu lado.
- Não, isso não é sua função, – Jeremy disse, tentando a todo custo usar seu tom mais calmo, elas não tinham culpa por nada daquilo. revirou os olhos, pediu para Ava ir para o quarto, sendo prontamente atendida. A mulher deu a volta no balcão, ficando frente a frente com o homem.
- Eu sei como essa reunião é importante para você. E sei também como é importante que a Ava vá ao médico. – Ela apoiou os braços nos ombros do homem, fazendo um carinho na nuca de Jeremy, vendo-o se acalmar aos poucos. – Deixe eu ajudar. Você vai para a reunião, eu a levo ao médico.
- Tem certeza? – perguntou Jeremy, apenas para fingir que não estava se dando por vencido tão rápido. O carinho em sua nuca tinha poderes mágicos, só podia, ou a simples presença da mulher tão perto já era poderosa o suficiente para acalmá-lo e fazê-lo ceder tão facilmente.
- Absoluta – ficou nas pontas dos pés e deu um selinho no homem. – Basta anotar as perguntas que eu tiver que fazer e está tudo certo.
- Não sei o que faria sem você – o ator cedeu, dando outro selinho nela. Ele voltou com o celular à orelha e parecia mais calmo enquanto falava. – Voltei. Sim, podemos manter a reunião no mesmo horário. Sim, nos vemos mais tarde, então. – Jeremy desligou o celular e o jogou no sofá atrás de si, segurando os pulsos da mulher atrás de seu pescoço e os acariciando. – Você precisa parar de fazer isso. – Ele riu, acompanhado dela. – Sabe quanto tempo faz que eu não brigo com alguém?
- Estou ajudando a preservar esse rostinho bonito – brincou ela. – Estresse dá rugas, você não é mais tão jovem, querido.
- Engraçadinha – o ator acabou rindo com ela antes de se inclinar para lhe dar um beijo rápido. – Vou pegar as coisas da Ava para você dar uma olhada. – Ele fez menção de se afastar, mas a mulher o segurou.
- Pra que pressa? – perguntou , voltando a ficar nas pontas dos pés e aproximando seu rosto do dele, sentiu a respiração do ator mais forte quando ele riu, passando os braços por sua cintura e a puxando para mais perto enquanto ele se encostava nas costas do sofá para deixá-los em uma altura mais próxima e deixá-la mais confortável.
- Você sabe que a Ava pode surgir a qualquer momento, não é? – perguntou Jeremy, sorrindo enquanto sentia distribuindo vários beijos pela região próxima a seus lábios.
- Se você parar de falar e me beijar logo, ela não verá nada que não deve ser visto – a mulher respondeu, sendo atendida prontamente.
Jeremy a abraçou com mais intensidade, colando seus corpos ao mesmo tempo que seus lábios, que se encaixaram perfeitamente. subiu uma mão pelo cabelo do homem, entrelaçando seus dedos entre os fios, enquanto a outra permaneceu em seu pescoço, se certificando de que ele não sairia dali tão cedo. Ela sorriu entre o beijo, sentindo o coração batendo acelerado e as borboletas no estômago, aquela mesma sensação cada vez que o via chegando em casa após um longo período afastado, ou quando ele a beijava daquela forma, com aquela mesma intensidade, de forma a parecer que era o último beijo. E cedo demais acabou. Os dois se afastaram um pouco, ambos ofegantes, os olhos fechados, recuperando o ritmo normal de ambos os corações.
- Acho que vou precisar de um banho frio – comentou Jeremy, fazendo a mulher rir, se afastando dele e lhe dando um tapa leve no ombro.
- Idiota – disse ela, ainda rindo. – Vou ver o que a Ava está aprontando.
- Provavelmente algum desenho novo na parede dela. Já disse que aquele conjunto de lápis que saem com pano úmido foi o pior presente que você já deu para ela?
- Preferia um que não saísse com pano? – a mulher perguntou, já afastada, quase chegando no corredor.
- Preferia que ela voltasse a desenhar em folhas de papel – respondeu o ator, um sorriso brincalhão no rosto, seguindo até a cozinha para pegar um copo de água.
ainda ria quando chegou ao quarto de Ava, encontrando a menina brincando na casa de bonecas. A mulher sorriu, entrando no quarto e se aproximando da garota, que permaneceu brincando com suas bonecas. se sentou na cama da menor, próxima a casa de bonecas, Ava olhou rapidamente para a mulher e sorriu, voltando sua concentração e agora falando mais alto para incluir na brincadeira. A babá estava nervosa e isso era perceptível para qualquer um. Ela conhecia a doença de Ava, já havia visto a criança internada por complicações em relação à condição, e sabia o quanto Jeremy se preocupava com a saúde da filha. Durante todo aquele ano, ele sempre fizera um esforço monumental para acompanhar a menina nas consultas para garantir completamente que não havia qualquer problema. E agora ele confiava em para cumprir aquele papel. Jeremy sabia que a lista de pessoas que amava sua filha tanto quanto ele era extremamente curta. Ele não confiaria em qualquer pessoa. Aquilo dizia muito a , ao mesmo tempo em que a deixava mais nervosa. Porém, por outro lado, era algo inevitável. À medida em que o relacionamento deles ficasse ainda mais sério, ela aos poucos perderia aquela função de babá e passaria a ser, talvez, a futura madrasta de Ava, namorada do ator Jeremy Renner.
Era muita pressão, considerou , que nunca havia imaginado que algum dia poderia ter aquele tipo de vida. Para alguém que estava acostumada a uma vida em cidade pequena, vivendo naquele quadrado que era sua família e seu mundinho que havia idealizado tanto. Ela havia imaginado apenas sua faculdade, o mestrado, um emprego na própria universidade quem sabe, e talvez um doutorado depois. Mas seu mundo havia virado de cabeça para baixo e agora ela se via seguindo um caminho que era parecido, mas ao mesmo tempo diferente do que havia planejado. Os planos de antes continuavam, mas agora havia Ava, havia Jeremy... Havia um relacionamento que ficava cada vez mais sólido. Era sério. Era real. Não era um capricho do momento de Jeremy, não era uma conquista qualquer. Era uma relação madura e adulta. Algo que ela nunca havia parado para encaixar em seus planos, mas que, de alguma forma, pai e filha haviam conseguido achar um espaço para completar um espaço que ela nem sabia que existia ou que precisava ser preenchido.
fechou os olhos, suspirando profundamente enquanto pesava aquele balde de informações que seu cérebro começava a processar. Como se aquela última conversa com Erin não tivesse sido o suficiente.
Um movimento na porta chamou sua atenção e ela olhou rapidamente para o portal, encontrando Jeremy apoiado no batente com os braços cruzados e observando tudo. Os dois sorriram um para o outro e logo o homem seguiu até o escritório, deixando responsável por continuar a fazer companhia a Ava enquanto ele começava a procurar e separar as informações médicas da filha para que ficasse por dentro até a consulta, duas horas mais tarde.

já estava mais atrasada e nervosa do que imaginava que estaria, apesar de ainda estar no horário para a consulta, e ter sido tranquilizada por Jeremy diversas vezes sobre saber tudo o que precisava. Ela pretendia sair mais cedo para ter tempo de se acalmar antes de entrar no consultório médico, mas Jeremy não pareceu acompanha-la naquele pensamento. Ele também estava nervoso, tenso e preocupado, era a primeira vez que Ava ia ao médico sem ele. E não era por não confiar em – isso ele faria de olhos fechados, mas era a falta de costume e uma sensação de que algo ruim poderia acontecer caso ele não estivesse junto. Ele sabia ser bobeira, mas não conseguia evitar. Sua filha era o ser mais precioso em sua vida, sempre garantira que ela fosse prioridade em tudo, tanto sua segurança e privacidade, quanto sua saúde. Mas ali estava ele, falhando com a mais nova pela primeira vez.
Ava sabia que o pai estava preocupado – e sabia do nervosismo da babá também – por isso que passara a última hora fazendo um desenho para ele, e entregara ao ator alguns instantes antes dela e começarem a se arrumar para saírem. Era um desenho deles dois de mãos dadas, como ela sempre costumava fazer, mas dessa vez havia um terceiro elemento no desenho, e ele não teve dificuldades em reconhecer que a filha havia desenhado do outro lado, também segurando a mão da criança.
- Está tudo bem, papai – disse a menina quando o homem a pegou no colo para lhe dar um beijo. – A vai cuidar de mim.
- Eu sei que sim, querida – disse o ator, sorrindo para a mais nova e logo depois a colocando no chão para ela ir até o carro. – Se tiver qualquer dúvida...
- Eu te ligo, eu sei, Jeremy – suspirou. Apesar de cansativo, ela não estava brava com o ator, entendendo bem sua preocupação. – Vai ficar tudo bem, é só uma consulta de rotina. E nada irá mudar. – disse aquilo tanto para Jeremy quanto para si própria. Ela segurou a mão do ator, apertando de leve.
- Sim, eu sei – Jeremy disse, apesar de não parecer convencido. – Mas, de qualquer forma, estarei com o celular ligado o tempo todo, qualquer problema...
- Jeremy! – A mulher chamou sua atenção, não contendo um sorriso. Se aproximou e lhe deu um beijo rápido. – Relaxe e vá para sua reunião. Eu mando mensagem quando estivermos saindo de lá.
- Até mais tarde, então – o ator cedeu, dando um selinho na mulher logo em seguida.
- Até mais.
seguiu até o carro, onde Ava já estava sentada em sua cadeirinha. A mulher parou apenas para conferir se ela havia prendido tudo certinho, depois fechou a porta e seguiu para o lado do motorista, saindo logo de casa e fazendo o caminho até o médico. Ela estava nervosa, mas tanto Ava quanto Jeremy haviam garantido que a menina já sabia muito bem o que ia acontecer, já estando acostumada com a rotina. A tranquilidade de Ava, enquanto ela cantava no banco de trás, vez ou outra fazendo algumas perguntas para , ajudou a babá a se acalmar durante o trajeto. Mas assim que ela estacionou na vaga e encarou o logotipo da clínica pediátrica, suas mãos voltaram a suar.
- Vamos? – perguntou Ava do banco de trás, um sorrisinho alegre nos lábios. respirou fundo e se virou para a menina, procurando nela toda aquela segurança. Um movimento rápido chamou sua atenção, mas ela preferiu focar em Ava e se preocupar com aquilo depois.
- Vai dar tudo certo, não é? – Perguntou ela, sabendo que a situação estava extremamente crítica se ela estava precisando procurar tranquilidade em uma criança de quatro anos. Ava sorriu ainda mais e assentiu. forçou um sorriso e respirou fundo mais uma vez, deixando a confiança da menina a atingir e complementar a sua. – Então vamos.
Antes de se virar para frente, ela notou o movimento de novo e franziu o cenho ao reconhecer uma câmera do outro lado da rua. Não, não naquele dia, pensou ela. Não querendo alarmar Ava, se virou e saiu do carro, ajudando a menina a sair da cadeirinha enquanto mantinha os olhos atentos nos arredores. Parecia haver apenas um e ele estava longe, ela podia lidar com aquilo. Com Ava fora do carro, elas se deram as mãos enquanto trancava o veículo e logo depois seguiam para dentro da clínica. A mulher estava incomodada e olhou ao redor, certificando-se de que estava tudo bem e ninguém mais as incomodaria. Não era comum algum paparazzo segui-la quando estava acompanhada de Ava, só quando Jeremy estava junto. Mas já havia acontecido algumas vezes, e ela não gostava de passar por aquela experiência. Eles sabiam muito bem incomodar alguém quando queriam.
Elas entraram no consultório e Ava logo foi reconhecida pela recepcionista, que sorriu para a menina quando se aproximaram do balcão. agradeceu o ar condicionado, que ela esperava que ajudaria a conter o suor que havia brotado em sua nuca. A babá pegou a mais nova no colo e a sentou no balcão para que ela pudesse conversar com a moça enquanto pegava os documentos da criança.
- Boa tarde – disse para a recepcionista depois, se desculpando por não ter falado antes.
- O senhor Renner não virá hoje? – perguntou a mulher, Kristen, estranhando a ausência do homem.
- Infelizmente, não – disse , puxando Ava e colocando-a no chão para que ela pudesse ir para a mesinha de recreação. – Ele tinha uma reunião importante e não conseguiu adiar. Não que ele tenha ficado muito feliz com a situação – completou a mulher, fazendo a recepcionista rir.
- Pelo menos veio você e não a mãe – comentou a recepcionista, logo depois arregalando os olhos como se tivesse falado alto demais. – Desculpe.
- Está tudo bem, eu entendo – sorriu cúmplice para a mulher.
- Ela será atendida em breve – Kristen disse, ao que agradeceu, afastando-se para ocupar uma das cadeiras, observando Ava mexendo com umas massinhas de modelar, e considerando se mandava uma mensagem ou não para o Jeremy para avisá-lo do fotógrafo do lado de fora da clínica.
suspirou, considerando que não faria mal avisá-lo. Ele recebia um alerta cada vez que algo relacionado a ele ou à filha saísse na mídia, não custava nada adiantar o que poderia aparecer. Se é que o cara iria fazer algo com aquelas fotos. Não havia algo muito escandaloso naquilo, não é? Era normal crianças irem a clínicas para consultas de rotina com um pediatra. sabia que havia sentido e se encaixaria em seu contexto atual, não fosse aquela uma clínica especializada. A resposta de Jeremy veio rápida, um emoji revirando os olhos e logo depois perguntando se elas estavam bem. tentou tranquiliza-lo, achando muito mais fácil fazer aquilo por mensagem de texto.
Felizmente, a espera não demorou muito e logo elas estavam com a médica que acompanhava Ava desse o começo, doutora Angelina. As duas já eram amigas e a mulher foi muito simpática com , que apenas ficou sentada observando enquanto a moça fazia os exames primários na mais nova, brincando e interagindo com ela com tanta naturalidade que só fazia sorrir. Com os exames primários feitos, a mulher encaminhou Ava para os de sangue, que ficavam no fim do corredor, como havia explicado para quando a babá se levantou para acompanhar a mais nova. De todas as partes daqueles dias, era o que Ava menos gostava. Ela sempre se sentia mal quando ia tirar sangue. E teve que ficar conversando com a menina e segurar sua mão o tempo todo, e depois a deixou em seu colo enquanto esperavam o resultado.
Jeremy havia mandado uma mensagem com uma foto da babá e da criança chegando à clínica, mas logo depois perguntando como estavam. fez um bem a si mesma ignorando a foto, e se limitou a mandar sua própria foto com Ava em seu colo, folheando uma revistinha infantil. Derrubava vê-la naquele humor que era tão atípico, mas a mulher entendia. Ninguém gostava de exames de rotina, muito menos exames de sangue.
- Bem, Ava, como está se sentindo? – Angelina perguntou quando elas voltaram ao consultório, quase uma hora depois. A menina deu de ombros, fazendo a médica sorrir, já acostumada com a resposta da menor. – De acordo com os exames, está tudo bem, não há qualquer alteração. Pelo jeito, o senhor Renner voltou a manter a rotina de Ava muito bem controlada.
- Sim, ele não quis mais nenhum susto como o anterior – disse , passando a mão pelo braço de Ava, que ainda estava em seu colo.
- Muito bem – Angelina disse, olhando para Ava agora. – Continue a tomar seus remédios, Ava, e se alimentando bem. – Ava apenas assentiu. Angelina sorriu e voltou a olhar para . – Acho que podemos voltar a nos encontrar a cada seis meses. Tínhamos diminuído esse prazo por conta de um surto que Ava teve, mas ultimamente não houve mais nenhuma alteração, tudo está controlado, podemos voltar ao esquema de antes, tudo bem, Ava? – A menina assentiu, duvidava que ela estivesse prestando atenção em algo. – Já quer agendar a próxima consulta? Ou prefere deixar o senhor Renner resolver isso?
- Acho que ele não verá problema se eu marcar, seis meses, certo? – perguntou , vendo a mulher abrir uma agenda eletrônica e já pulando para a data que seria a próxima consulta.
- Isso, mesmo horário? – Angelina perguntou, vendo a babá assentir. – Marcado, então. – Ela pegou uma pasta, onde colocou o papel com a data da próxima consulta e os exames de Ava. – Aqui está o papel com todas as informações, uma nova receita para os remédios, e os exames que ela fez hoje. Qualquer dúvida que tiverem, o senhor Renner tem meu número e pode me ligar a qualquer momento.
- Muito obrigada – sorriu, pegando a pasta após se levantar e colocar Ava no seu colo. Ela havia colocado a menina de volta no chão já que seu braço começara a doer pouco antes delas voltarem ao consultório. – Boa tarde.
- Tchau, Ava – Angelina contornou a mesa, se agachou e abriu os braços para receber o abraço da menor. – Se comporte bem. Boa tarde para vocês.
e Ava saíram da clínica lado a lado, com a mulher organizando a pasta que a médica havia lhe entregado e tentando coloca-la na bolsa junto com a que havia trazido com os exames anteriores de Ava. Já era tarde demais quando ela percebeu que o motivo pelo qual Ava estava tão próxima dela era pelo número maior de paparazzi que estavam próximos ao local onde o carro estava estacionado. Foi só quando ela os ouviu se questionando se ela era a namorada do Jeremy Renner e a filha do ator que ela ficou consciente da situação. Quando o primeiro flash disparou, ela ainda estava tentando colocar a pasta com os exames na bolsa, desistindo logo em seguida.
- Droga – xingou a mulher, ouvindo a movimentação e olhando ao redor para ter uma leve noção da situação. Não eram muitos, havia o mesmo de quando elas haviam chegado ali e mais uns três. Mesmo assim, era o suficiente para deixa-la alerta e assustar Ava, que já não estava no seu melhor humor após aqueles exames todos. – Vem, querida – disse , parando e pegando a menina no colo, que logo escondeu o rosto na curva do pescoço de , apertando com força o ombro da mulher. – Seu pai vai ficar tão bravo – comentou a mulher baixinho, ouvindo o seu celular começando a tocar em sua bolsa, mas ignorando para apressar o passo para chegarem logo ao carro.
- ! ! – Um começou a gritar quando ela ficou mais próxima. – É verdade que você e o Jeremy estão planejando se casar em breve? – A mulher apenas ignorou, permanecendo concentrada no caminho até o carro.
- , você está grávida? – Outro perguntou. – Ou a Ava que veio para uma consulta na pediatra?
A situação ainda estava consideravelmente bem, considerou , quase tentada a dar um sorriso simpático aos rapazes, não fosse um comentário feito por outro.
- Ei, essa não é aquela clínica para casos especiais? – perguntou para ninguém em particular, provavelmente só para atiçar os outros mais. Se havia aprendido algo naqueles meses era que eles sempre sabiam muito bem onde estavam e do que cada local se tratava.
- , há algo errado com Ava? – Mais um perguntou, e ela voltou a xingar bem baixinho.
No colo da babá, Ava escondia o rosto a qualquer custo, assustada com a forma brusca que os rapazes abordavam a babá. Os fotógrafos costumavam ser mais educados quando ela estava na companhia de Jeremy, tanto a criança quanto a mulher haviam notado. Com grande alívio, finalmente abriu a porta traseira, colocando Ava sentada em sua cadeirinha, apressando-se em prendê-la com segurança ao assento, e tentando tranquiliza-la, já que havia percebido os olhos marejados da criança. Seu celular voltava a tocar quando ela fechou a porta traseira e começava a contornar o veículo. resolveu atender, sabendo que só haveria uma pessoa que poderia liga-la naquele momento. E não deu outra, ela quase sorriu aliviada quando leu o nome de Jeremy no visor, enquanto abria a própria porta e ocupava o espaço atrás do volante.
- Oi – disse ela, passando o cinto e ligando o carro logo em seguida.
- Está tudo bem? – Jeremy sabia que havia algo errado só ao ouvir certo vacilo no tom de voz da mulher. Algumas fotos haviam saído dela chegando à clínica com Ava, e vários rumores já haviam começado.
- Temos companhia – suspirou , passando a mão no cabelo e olhando para Ava pelo retrovisor. – Estou saindo daqui, depois a gente conversa.
- Te vejo em casa. – Aquela frase trouxe um efeito calmante na mulher, que se sentiu mais segura para arrancar logo com o carro dali, já que os paparazzi ainda tentavam conseguir qualquer clique dela e de Ava. Não havia dúvidas para ela ou para a criança que Jeremy ficaria extremamente irritado com aquela situação.
O caminho de volta nunca pareceu tão longo, as duas permanecendo em silêncio, apesar de ouvir Ava respirando com mais força – talvez as lágrimas finalmente haviam vencido a luta e ela decidira por um choro baixo para não alarmar a babá. Ela se sentia mal por não poder confortá-la, mas sabia que não havia muito que pudesse ter feito além de parecer calma e não se mostrar abalada pela presença dos rapazes. não tinha certeza se tinha sido bem-sucedida naquele quesito, mas gostava de pensar que havia conseguido passar um mínimo de confiança para a menina.
Quando chegaram em casa, Jeremy já estava lá. não duvidava que ele pudesse ter cancelado a reunião e voltado assim que a primeira foto chegou até ele. O ator esperou enquanto a babá entrava com o carro e depois se aproximou, abrindo a porta dela e a ajudando a descer. Ele tentava esconder, mas sabia que por trás de toda aquela preocupação, estava a fúria pelo avanço dos fotógrafos. Ela fez um sinal e indicou para que ele abrisse a porta e tirasse a filha do carro. Com certeza o pai seria um consolo mais bem-vindo do que . E não deu outra, Ava pulou no colo do pai assim que se viu livre dos cintos de segurança da cadeirinha.
- Está tudo bem, querida – disse Jeremy para a filha, entrando em casa enquanto pegava a bolsa e a pasta dos exames, fechando o carro logo depois.
Quando entrou em casa, Jeremy e Ava estavam no sofá, com ela encolhida no colo do pai, pelo menos não chorava mais. colocou as coisas no lugar de sempre e se aproximou dos dois, a mão de Jeremy indo para a que ela havia apoiado no ombro do ator. Eles trocaram olhares e sorrisos fracos, a mulher conseguindo abraçar Ava apesar da presença do ator – que acabou sendo abraçado indiretamente.
- É muito ruim? – perguntou , sentando ao lado de Jeremy no sofá.
- Até onde eu vi, ainda não – disse o ator, que havia entregado o celular para que Ava pudesse jogar em um joguinho que ele tinha instalado para ela. – Só fotos de vocês saindo da clínica.
- Não vai durar muito – disse . – Eles sabiam que aquela não era uma clínica comum.
Jeremy olhou a mulher, finalmente notando algo que ele não havia reparado ainda por estar tão ocupado em tranquilizar a filha: estava aterrorizada. Não pela abordagem, mas por eles terem ido até ela em um momento tão delicado. Jeremy de repente se sentiu culpado por não ter se preocupado tanto com a mulher. Ela não estava preparada para aquilo, ela já nem queria ter ido com medo de algo dar errado, mas eles estavam mais preocupados com Ava e os exames do que outros fatores. Ela tentava esconder, mas ali nos olhos dela estava claro que se sentia culpada e assustada pelo que havia ocorrido. Seus olhos estavam levemente apagados e a expressão fechada, preocupada, com medo do que aconteceria depois. Jeremy estendeu o braço e a puxou para perto de si, sorrindo quando a mulher cedeu e o queixo dela tremeu de leve, quase que imperceptivelmente. Quanto ela deveria estar se segurando para não desabar ali na frente de Ava? Se perguntou Jeremy enquanto a acomodava sob seu braço, deixando-a descansar a cabeça em seu ombro, enquanto sua mão subia e descia por seu braço para tentar acalmá-la.
Mas a pouca calma que conseguiram reunir não durou muito tempo. Eles haviam terminado de jantar quando Jeremy recebeu a primeira ligação de sua empresária, pedindo para que ele conferisse seu e-mail, o que o ator fez prontamente. E lá estavam só os primeiros links com as notícias, no alerta que Jeremy possuía, haviam muitos mais. De repente, todos sabiam sobre Ava e sua condição. Haviam inúmeros detalhes sobre a saúde da criança e como os pais dela haviam decidido manter escondido. Jeremy teve que se controlar para não jogar o notebook longe. Tanto tempo mantendo a vida da sua filha na privacidade, e bastou um dia para tudo ir por água abaixo.
As fotos de com a pequena no colo estampavam todas as notícias, informando que elas foram vistas mais cedo saindo de uma clínica pediátrica especializada. A princípio, ninguém esclareceu qual seria a especialização, mas não demorou muito para trazerem à tona as informações que alguém havia divulgado que a menor dos Renner tinha lúpus e fora diagnosticada dias após seu nascimento. Haviam todos os detalhes, as vezes em que Ava fora internada por causa da doença e até mesmo algumas informações sobre a rotina que Jeremy adotava com ela.
- Isso não pode estar acontecendo – disse Jeremy, lendo somente as primeiras linhas das notícias seguintes, após ter lido a primeira por cima.
passou a mão no cabelo, olhando Ava no chão, antes entretida com algumas bonecas, agora olhando assustada para o pai.
- Jeremy – disse baixinho, apontando discretamente para a menina. – Você está a assustando. – O homem olhou para a filha e ia dizer algo, mas seu celular voltou a tocar.
- Pode leva-la para dormir? Já passou do horário dela – pediu Jeremy, conferindo que já eram mais de dez horas da noite. o atendeu prontamente, indo até Ava e a chamando para irem deitar. Antes de ir, a menina correu até o pai e abraçou suas pernas. – Está tudo bem, princesa. Vai ficar tudo bem. – O ator disse, abaixando-se para ficar da mesma altura da filha, dando um beijo na testa da criança. – Vai dormir, quando você acordar tudo já estará bem de novo.
- Posso dormir com o Charlemy? – pediu a menina, referindo-se ao panda de pelúcia que havia ganhado “para” o ator meses atrás.
- Claro que sim, vai pegar para você. – Jeremy olhou para a mulher, que assentiu e estendeu a mão para Ava. O celular do ator voltava a tocar quando as duas sumiram no corredor, ele suspirou ao ver que era sua empresária novamente. – Sim?
acompanhou Ava até o quarto da menor, pedindo para ela ir colocando o pijama enquanto a mulher ia pegar o bicho de pelúcia que ficava no escritório. Quando voltou ao quarto, Ava já estava com a camisola do Trolls e se deitando no colchão, com um livro em suas mãos para que a mulher pudesse ler para ela. se aproximou, sentando-se na beirada da cama, entregando o panda enquanto a menina lhe dava o livro. Ava deitou-se, abraçando o panda com força e olhou para , interrompendo-a quando a mulher começou a abrir a boca para lera a história.
- Fala pro papai que eu sinto muito?
- Sente muito pelo que, querida? – franziu o cenho, afastando alguns fios de cabelo da testa da criança.
- É minha culpa – a menina choramingou. A babá suspirou, apoiando o livro na mesinha de cabeceira e encarando Ava.
- Claro que não – garantiu , vendo o queixo da menina começando a tremer e as lágrimas fazendo os olhos brilharem. – Você não tem culpa de nada, meu amor. Essas coisas acontecem às vezes, não podemos impedir.
- Mas eles estavam atrás da gente por minha causa.
- Eles estavam atrás de nós por causa do seu pai, querida – disse , não era bem verdade, mas era mais fácil de explicar. – E por causa do trabalho dele. Não tem nada a ver com você. E seu pai te ama, nunca te culparia por algo assim. Não pense nisso, ok?
- Ele não tá bravo comigo?
- Não, amor – sorriu para a menina, seu dedo enxugando uma lágrima que havia escapado. – Seu pai nunca ficaria bravo com você.
Ava sentou-se na cama e abraçou a babá, que a abraçou com força, sentindo o coraçãozinho da menina batendo acelerado. Por fim, Ava soltou a mulher e sorriu fracamente, voltando a deitar e pegando o livro para começar a ler. Mas, assim como antes, Ava voltou a interrompê-la.
- ?
- Sim, querida?
- Eu amo você – disse a menina, sorrindo e logo se aninhando sob as cobertas como se tivesse acabado de disser que o céu era azul. encarou a menina, olhando-a embasbacada por um tempo. Era a primeira vez que a menina dizia isso para ela, e achou que não reagiria tanto como estava reagindo. Antes, Ava havia confessado que só gostava dela desde o começo. Mas um eu te amo era novidade. Os olhos de encheram-se de lágrimas, mas a mulher respirou fundo e apenas sorriu para a menina.
- Eu também te amo, anjo – disse ela, afastando o cabelo da menina a tempo de pegar o sorriso que ela lhe dirigira.
Aquelas três palavras foram o suficiente para tirar um peso das costas de , que sem demora começou a ler a história que a menina havia escolhido. E mesmo notando que Ava havia dormindo rapidamente, continuou lendo o livro, aproveitando aquele momento para se acalmar de todo o resto que aquela declaração da menina não havia sido o suficiente para afastar, antes de voltar para a sala para descobrir o que estava acontecendo.
Era o pior pesadelo de todos, pensava a mulher. No único dia em que Jeremy resolvia sair do seu padrão, as coisas desmoronavam. A mulher se lembrava de quando havia chegado ali, de como ele demorara a confidenciar para ela sobre o problema de saúde da filha, mas como desde o princípio ele enfatizou o quanto era importante a rotina dos remédios da menor. já sabia da doença muito antes de ter a confirmação por ter procurado na internet a recomendação para os remédios que Ava tomava.
A mulher observou a menina dormindo pacificamente, abraçada ao bicho de pelúcia e sentiu saudades da época em que aquele panda havia surgido. Naquele tempo, que não era tão distante assim, não havia qualquer perigo de tudo desmoronar. percebia agora que, até então, eles estavam imersos em uma bolha. E alguém finalmente havia conseguido um alfinete bom o bastante para estourá-la. Porque, sim, sabia que aquilo, independente do que fosse, era apenas o começo. Ela já havia tido muitas experiências ruins para saber que os problemas nunca vinham um a um, ao contrário, eles vinham como uma avalanche, levando tudo o que encontrasse pelo caminho que não estivesse firme o suficiente. Aquele pensamento fez engolir em seco.
Terminando de ler o livro, a babá depositou um beijo na testa da Ava, guardou o livro na estante e saiu do quarto, apagando a luz e encostando a porta em seguida. Seguiu lentamente pelo corredor, temendo o que poderia encontrar quando chegasse na dala. Mas ela ouviu antes de ver. Pelo visto, Jeremy havia se cansado de ficar segurando o celular na orelha e ativara o viva-voz do aparelho, pois havia mais uma voz na sala além da dele. E ela sabia que ninguém havia chegado, ou teria escutado a movimentação.
- Eu nunca gostei dela. Desde o começo eu te disse isso. – ouviu, parando um pouco antes da curva do corredor para conseguir ouvir, desconfiando que ela era o assunto. A mulher não aprovava aquela atitude, mas confessava que muitas vezes não tinha como evitar.
- Sonni...
- Não, Jeremy! Eu estou falando sério, eu nunca gostei e você sabia disso... E ai o que você faz? Você a começa a namorar a garota! O que é? Alguma crise de meia idade?
- Você é mais nova que ela, Sonni, e não dizia que eu tinha uma crise quando estávamos juntos – comentou o ator, fazendo sorrir levemente. – Escute, ela não tem culpa alguma, nunca faria isso.
- Você colocaria a mão no fogo por ela, Jeremy? – perguntou Sonni. ouvia tudo em silêncio, percebendo inclusive a hesitação do ator em responder à pergunta da ex-mulher. Não o culpava, entretanto, ela não colocaria a mão no fogo nem por seu irmão. – Eu quero ela longe da minha filha.
- Você não tem direito algum para determinar isso, Sonni – observou o ator. – Eu já estou cuidando do caso, ninguém mais precisa ser prejudicado. – Complementou Jeremy, suspirando logo em seguida. – Foi um longo dia, estou exausto. A última coisa que eu preciso é você gritando no meu ouvido e querendo interferir nas pessoas com quem eu convivo.
- Eu não interferiria se essas pessoas não convivessem com a minha filha – enfatizou a mulher.
- Se você passasse mais de cinco minutos que ela, então talvez eu perderia alguns para dar atenção aos seus caprichos. – Jeremy retrucou, fazendo até mesmo arregalar os olhos. Aquilo era um sinal bem claro de quanto o ator estava de saco cheio não apenas daquele dia, mas das birras da mulher. – Tchau, Sonni. – Disse ele antes que mais alguma coisa escapasse, e encerrou a ligação logo em seguida.
O homem passou a mão no cabelo e logo em seguida levantou-se do banco próximo ao balcão, querendo conferir se a filha estava bem, mas parou no meio do caminho ao encontrar encostada na parede do corredor, sequer disfarçando que havia escutado tudo, sabendo que não havia motivos para tal. Eles trocaram olhares rapidamente, logo depois a mulher se afastou da parede e seguiu para a cozinha, ouvindo os passos de Jeremy atrás dela. Ele temia apenas o quanto ela havia escutado.
- ... – começou o ator, logo parando com um movimento da mão dela.
A mulher esperou até estarem na cozinha para ficar frente a frente com Jeremy. Ela tinha os braços cruzados e eles ficaram em silêncio por um longo tempo. se concentrava para não chorar, não enquanto ainda não tivesse um bom motivo. Jeremy parecia a definição de culpa e arrependimento.
- Você acha que fui eu – disse ela, por fim. – Você acha que ela está certa. Só não sabe como dizer isso, não é?
Era um absurdo tão grande, que Jeremy não aguentou e começou a rir. Ele não mentiria, por breves segundos havia considerado aquela possibilidade, mas bastou lembrar a voz falha de no telefone, e a expressão assustada dela enquanto estavam no sofá que toda e qualquer desconfiança foram embora. Ele eliminou a distância entre eles e a abraçou, ignorando os protestos da mulher – dizendo que era errado ele rir quando ela estava tentando brigar com ele. Aos poucos, a mulher desistiu de lutar contra, retribuindo ao abraço dela. Jeremy não sabia o que dizer para ela além daquilo, talvez palavras não fossem necessárias. Ele só queria uma certeza de que eles ficariam juntos diante aquilo, que ela estaria ao lado dele para ajudá-lo a lidar com calma. Quando se afastaram, brevemente apenas para poderem se olhar, os olhos da mulher estavam marejados e ela tinha uma expressão que se assimilava a dor ou culpa.
- Eu nunca te culparia por isso – disse Jeremy, seu tom baixo e calmo, fazendo-a se sentir calma e leve. – Não me importa o que ela diga. Eu te conheço, eu sei que você nunca faria isso. – Jeremy passou a mão no rosto dela, aquele gesto fazendo-a perder a batalha contra as lágrimas e deixando-as cair livremente.
- Não me afaste, por favor – pediu em um sussurro. Jeremy roçou seus lábios nos dela, vendo quando ela fechou os olhos diante o toque.
- Nunca – prometeu ele, antes de beijá-la para selar aquela promessa.
Talvez fosse o começo de uma devastadora avalanche, ou talvez fosse apenas uma pequena bola de neve querendo causar algum desvio no relacionamento deles, não tinha como dizer. Mas naquele momento nada importou. Bastava que Jeremy acreditasse que ela não tinha culpa. Bastava Jeremy garantir que não a afastaria. Bastava Jeremy garantir que a opinião de Sonni não importava, ele estava ali ao lado dela. Talvez ele a amasse também, não como Ava, mas do jeito dele. Do jeito deles. E talvez, pensou , não importasse o tamanho da avalanche ou da bola de neve, eles fossem ficar bem.
Pelo menos ela esperava que sim.

Capítulo 14

Ao contrário do que Jeremy havia prometido, no dia seguinte, quando Ava acordou, as coisas não estavam melhores. O clima ainda estava tenso na casa, com o ator estressado tentando encontrar quem havia informado o paradeiro das duas no dia anterior. Apesar dele tranquiliza-la, ainda esperava que a qualquer momento ele fosse se convencer de que ela era culpada. Mas Jeremy ia mais em direção ao prometido em não a manter afastada do que acusá-la de algo.
Aos poucos, as notícias foram morrendo e o interesse da mídia na saúde da criança e os motivos de Jeremy ter escolhido esconder aquilo foi diminuindo até que eles finalmente conseguiram respirar mais aliviados e começar a pensar no grande feriado de Ação de Graças que estava chegando. havia considerado passar em Norfolk, já que fazia tempo que ela não via os pais, mas na véspera de anunciar a viagem para os mais velhos, eles a ligaram perguntando se ela se importaria se eles viajassem para a Alemanha visitar Ted. Os pais nunca haviam viajado para conhecer o local onde o caçula morava, claro que ela não se importou. Jeremy até se ofereceu para pagar a passagem e hospedagem dela para acompanhar os pais, mas a mulher garantiu que não tinha problema. O Natal estava chegando e ali ela tinha certeza que não passaria a data longe da família.
Tudo estava combinado para eles viajarem para Modesto, já que a mãe de Jeremy queria ter uma última grande reunião na casa antes de se mudar para Los Angeles, onde conseguiria ficar mais perto dos netos. Ava havia passado o fim de semana anterior na casa da mãe, para que pudesse ficar livre no feriado com o pai e o resto da família. Sonni parecia cada vez mais irritadiça com a insistência de Jeremy em continuar com , mas o ator só a ignorava a cada comentário feito pela modelo. Ele havia falado sério, estava cansado dela querendo se intrometer em tudo. Principalmente em seu relacionamento.
E Jeremy morreria antes de permitir que a mulher atrapalhasse o primeiro feriado de com sua família.
Ava falou durante metade do trajeto da viagem, e dormiu a outra metade. e Jeremy conversavam vez ou outra, mas o ator sabia que a mulher estava tensa. Só não conseguia entender o porquê. Como sua filha ficou falante durante boa parte do caminho, ele preferiu esperar quando ela apagasse de vez para abordar o assunto. Não deixando de perceber que a cada quilômetro que se aproximavam da casa de sua mãe, ia ficando mais monossilábica e aérea em suas conversas.
- E ai eu disse para ela que tudo bem, porque o que tínhamos não era muito sério – Jeremy deu de ombros, olhando rapidamente para a mulher, que murmurou algo sem parecer absorver o que o ator falava. – !
- Oi? – disse a mulher, alarmada pelo tom mais alto do ator. Ela olhou para trás, confirmando que Ava ainda dormia e depois olhou para Jeremy. – O que foi?
- Eu acabei de confessar um assassinato e você nem reagiu.
- Ah... Quem você matou?
- Pelo jeito você e substitui por outra – disse ele. – O que está acontecendo?
- Nada.
- Nada? Quer tentar de novo? – Jeremy perguntou, encarando a estrada e encontrando um local para encostar e conseguir conversar apropriadamente com a mulher. Não estavam tão longe do destino final, podiam gastar algum tempo.
- Por que estamos parando? – perguntou .
- Porque nós precisamos conversar.
Nunca era algo bom quando aquela frase era dita. Normalmente, sempre indicava que uma das partes envolvidas na conversa havia feito alguma merda muito grande e a outra iria se sentir extremamente irritada ou magoada. Naquela situação específica, sabia que não havia feito nada de errado, e esperava que Jeremy também não houvesse feito. Na verdade, ela sabia que aquele não era o caso. Ela sabia que não havia conseguido disfarçar tão bem quanto o imaginado a sua tensão. Sabia que o ator havia notado sua distância à medida em que se aproximavam da casa de Valerie. E sabia que em algum momento ele iria querer respostas. Jeremy não costumava ser uma pessoa curiosa, ele era mais para o tipo intrigado silencioso, mas ele não gostava de não ter respostas. Ela já havia aprendido aquilo sobre ele.
- Então? – perguntou ele. Seu tom de voz era gentil e seu olhar atencioso e preocupado. Talvez ele tivesse uma ideia do que a incomodava, mas não iria fazer afirmações enquanto a mulher não se manifestasse.
- Você vai me achar idiota – disse , enrolando descaradamente. Ela se sentia idiota por estar daquele jeito. Jeremy riria da cara dela e a faria se sentir ainda mais estúpida. O ator riu levemente, segurando a mão da mulher e levando até seus lábios, depositando um beijo leve e delicado ali.
- Nunca – garantiu ele, olhando-a nos olhos e lhe sorrindo logo em seguida. Aquilo fez mais efeito do que ele provavelmente pretendia, pois sentiu uma calma e tranquilidade que nem saberia descrever se alguém perguntasse.
Ela encarou a estrada a frente deles, sentindo o polegar dele se movendo por sua pele, traçando padrões aleatórios. Era confortável aquilo. Só eles três em uma viagem. Era algo que ela estava começando a se acostumar mesmo que aquela fosse apenas a segunda vez que faziam aquilo. Na verdade, ela se acostumava àquela vida. E sabia que o que estavam prestes a fazer mudariam tudo. A partir daquele feriado, eles estavam mais do que livres para se chamarem de namorado e namorada. Faltaria apenas um passo, que talvez poderia acontecer no fim do ano. E dali não teria mais limites para o relacionamento deles. Era como se fases de um videogame estivessem sendo destravadas.
Falar era mais difícil do que travar suas batalhas internas. percebeu após abrir a boca para responder e fechá-la em seguida diversas vezes. Em todas as versões que chegou a pensar, nenhuma parecia boa o suficiente para que não a fizesse soar tão estúpida e infantil. Jeremy parecia se divertir a cada tentativa dela, mas a preocupação crescia cada vez mais.
- , por favor – pediu ele, ao perceber que a luta que ela travava era mais séria do que havia imaginado. – Está tudo bem, só fale.
- Eu... – começou ela, passando a mão livre pelo cabelo. Que diabos, já estava na chuva mesmo, o que seria mais um pingo? Ou um balde de cinco litros sobre sua cabeça? – Eu nunca fiz isso... Conhecer a família de um, hm, namorado.
Inicialmente, Jeremy ficou confuso, mas com o complemento da frase ele chegou a se xingar por não ter percebido algo tão óbvio. Para ele aquela viagem era tão natural, a presença de em sua vida era tão constante que sequer lhe passou pela cabeça que seria a primeira vez que ela conheceria sua família oficialmente. Ela já conhecia alguns, mas fora apresentada rapidamente e como babá de Ava. Mas agora era diferente. Porque quando perguntassem, ele não poderia dizer “essa é a , nós, hm, estamos juntos”, não. Apresentações exigiam um título, um rótulo. E não que ele achasse ruim chama-la de namorada e ouvi-la apresentando-o como namorado quando a hora chegassem, ele estava mais do que feliz em fazer aquilo. Agora, ele estava preocupado. Porque ela estava nervosa, e ele também começara a ficar.
Jeremy chegou a considerar que uma vez que estivessem na porta da casa, a realidade iria atingi-lo e ele perceberia o nervosismo dela e adotaria um para si. Mas havia se precipitado e agora lhe cabia apenas acalmá-la e fazê-la ter certeza de que nada mudaria. De que ninguém a receberia da mesma forma que Sonni havia recebido. Porque, ao contrário da ex-mulher, era um presente, era alguém que Jeremy não achava merecer. era inteligente, simpática, bem-humorada e adorável. Cinco minutos de conversa bastavam para ser conquistado por ela. Ele não via como ela podia ficar tão nervosa, não havia um ser em todo o planeta que a odiaria. Que a olharia dos pés à cabeça e diria que já havia conhecido alguém melhor.
Por isso, ao processar o que a mulher lhe havia dito, Jeremy deu o seu melhor sorriso e se inclinou no banco para se aproximar dela, lhe dando um beijo que faria com que caísse no chão caso estivesse em pé. Um beijo apaixonado e delicado. Um beijo que, ela sabia, pretendia afugentar todo aquele medo que ela estava sentindo. Um beijo que prometia que não tinha com o que se preocupar. Um beijo que lhe garantia que ele estaria ao seu lado.
- Quando eu acho que não há nada que você pode fazer ou falar que vai me surpreender, você vem e prova como estou errado – comentou Jeremy quando se afastaram. Ele acariciou o rosto dela, seu polegar fazendo um carinho agradável em sua bochecha. – Eles vão te amar – afirmou ele, encarando-a nos olhos, lhe passando toda a certeza e confiança que poderia. Jeremy desviou o olhar rapidamente e suspirou, aguardou. Por fim, ele sorriu e voltou a encará-la. – É impossível não sentir qualquer outra coisa por você.
Ela poderia responder àquilo se soubesse o que dizer e se ele não a tivesse tomado para outro beijo. Seu estômago parecia em queda livre e seu coração colocaria qualquer bateria de escola de samba no chinelo de tão acelerado que batia. Mesmo se não estivesse cursando um mestrado em Linguística, mesmo se já não tivesse uma graduação, ela conseguia interpretar perfeitamente aquele discurso. Aquela simples frase que, ambos sabiam, de simples não tinha nada. Ali estava tudo o que Erin havia lhe dito e havia duvidado. Talvez eles não precisassem das três palavras explícitas, claras, com todas as letras, sílabas e entonações. Pequenos atos contavam, pequenos discursos como aquele contavam também, não contavam?
não se importava com a etiqueta para aquela situação. Era o suficiente para ela. Era o que ela precisava para encarar aquela viagem e aqueles dias. Era o que ela precisava para respirar fundo e aceitar que estava prestes a conhecer a família do seu namorado. Deus, ela se sentia uma adolescente de quinze anos com o primeiro namoradinho de novo. E ela não se importava.
Após aquela pausa, o caminho seguiu sem qualquer outro problema, a tensão no carro se dissipando e eles conseguindo voltar a assuntos normais, com resolvendo se inteirar um pouco sobre a família do ator só para não ficar completamente no escuro. Alguns fatos ela já sabia, como ele ser o mais velho de sete filhos, tendo duas irmãs e quatro irmãos. Somente um irmão e uma irmã estariam ali, Kym e Clayton, junto com seus filhos que tinham mais ou menos a mesma idade de Ava. Valerie já estava preparando o almoço para eles, que seria quase um chá da tarde devido ao horário em que chegariam – que havia atrasado mais por causa daquela pausa que haviam feito – e garantia que ninguém chegaria perto do fogão. Era seu último Dia de Ação de Graças ali, então ela cozinharia tudo o que tivesse vontade e mais um pouco.
- Ela diz isso todos os anos – disse Jeremy, agora já dirigindo pela cidade. – Menos a parte de ser o último ano ali. Mas ela gosta de mimar os netos e os filhos, e noras e genros.
- Todo mundo, basicamente.
- Você a conheceu, ela é daquele jeito só que um pouco mais intensa com tanta gente em volta.
- E todos vão dormir ai? – perguntou . Ela havia visto a casa de fora somente, e não parecia tão grande.
- Não – disse Jeremy. – Alguns vão embora hoje mesmo, gostam de fazer uma visita ao meu pai.
- Você não vai? – perguntou , não conseguindo conter a curiosidade.
- Normalmente eu passo lá no sábado ou domingo – respondeu, virando em uma rua que a moça já conhecia. – Depende de quando voltaremos.
Ela não havia conhecido o pai de Jeremy ainda, algumas vezes o ator ia visita-lo, mas nunca passava muito tempo. Eles não tinham uma relação ruim, mas não era exatamente próxima como Valerie. preferiu não esticar mais o assunto, voltando a sentir o corpo suando frio com a expectativa do encontro. Ajudou um pouco Jeremy ter notado que ninguém havia chegado ainda, e provavelmente viriam mais para o fim da tarde. Mas foi bem pouco. Talvez ela só fosse parar de se sentir nervosa quando tivesse conhecido todos e percebesse que havia sido aprovada.

As risadas na casa eram audíveis da rua por qualquer pessoa que passasse ali. Os ponteiros do relógio já haviam se distanciado da meia-noite, mas ninguém se levantara das cadeiras até então, só alguns para colocar suas crianças para dormir, mas fora isso, estavam todos ali compartilhando histórias e risadas. já se sentia em casa, o nervosismo tendo se dissipado logo após todos dizerem suas graças, com Jeremy fazendo questão de agradecer a presença da mulher em sua vida, e todos concordando com o mais velho. Seu rosto ficara mais quente que o forno após assar o peru, mas ela conseguiu disfarçar abaixando a cabeça e dando um gole em seu vinho. Sob a toalha da mesa, Jeremy segurou sua mão e apertou de leve, lhe dirigindo um sorriso cúmplice quando ela o encarou. Agora, todos já haviam enturmado a mulher e se esforçavam para envergonhar o irmão mais velho. Uma tarefa que estavam executando com total sucesso, se as lágrimas que escorriam pelo rosto de eram algum indicativo. Ela nunca vira o ator tão vermelho de vergonha em sua vida, e aquilo era ouro para ela.
Todos resmungaram quando alguém tomou a iniciativa de se levantar e iniciar as despedidas. Valerie insistiu que ficassem, devido ao horário e para não perturbar as crianças que já estavam profundamente adormecidas. Foi naquele momento que percebeu como era impossível dizer não a mulher. Kym e Clayton tentaram encontrar motivos para irem embora, não querendo dar mais trabalho para a mãe, mas Valerie estava determinada, já espalhando os casais pela casa – que, afinal, era grande o suficiente para abriga-los. Haviam quatro quartos – um para Valerie, o outro tomado pelas crianças, um para Jeremy e , que ficariam ali mais tempo, e o outro seria dividido pelos outros dois casais.
Estavam todos cansados, principalmente Valerie, apesar de tentar disfarçar. Só Jeremy conseguiu convencer a mãe a subir para descansar, deixando ele e responsáveis por colocar uma ordem na bagunça que havia ficado a cozinha. Valerie não ficou muito feliz, mas sorriu satisfeita quando garantiu que não explodiriam nada e só deixariam a bagunça mais organizada. Claro que ela havia mentido, planejava deixar a mulher sem qualquer trabalho no dia seguinte, e Jeremy acompanhou seu raciocínio.
Já era quase quatro da manhã quando Jeremy guardou o último prato. enxugou a mão no pano e se virou para o ator, se surpreendendo ao vê-lo tão próximo, já a encurralando entre o corpo dele e a pia atrás dela. A mulher sorriu ao sentir os lábios dele contra os dela, um beijo calmo e delicado. Uma troca que não faziam desde quando haviam parado na estrada para ela revelar seus medos e inseguranças. passou as mãos pelos ombros de Jeremy, sentindo-os tensos pelo cansaço, e descansou os dedos entre os fios de cabelo.
- Eu odeio esse seu penteado – murmurou ela contra os lábios dele. Jeremy riu, se afastando um pouco após dar outro beijo nela.
- É mesmo? – perguntou ele, sorrindo de lado. – Você sempre parece gostar tanto do meu cabelo. – O rosto dela esquentou e se tornou vermelho, não precisando de muito para entender a implicação.
- Eu te odeio – disse ela, quando ele voltou a rir e a abraçou.
- Nem você acredita nisso – disse Jeremy.
Eles se encararam por um momento. Os olhos azuis dele parecendo mais claros com a luz da cozinha, ou talvez fosse apenas o fato de ter se acostumado a vê-lo mais escuro e tenso durante as últimas semanas, ela não saberia dizer. Só agradecia por agora parecerem dois lagos calmos e tranquilos, que lhe passavam paz e serenidade. E que estavam transbordando todo aquele sentimento de mais cedo.
- Obrigada por hoje – disse ela, fazendo-o franzir o cenho em confusão. – Por me acalmar mais cedo, e depois, com todo o discurso.
- Eu fui sincero.
- Eu sei – disse ela, mordendo o lábio inferior logo em seguida. – Eu também fui, apesar de meu discurso não ter sido metade do que o seu foi.
- Ninguém estava comparando – garantiu Jeremy.
As mãos dele agora estavam na cintura dela, e os corpos deles estavam colados, nenhum dos dois sabendo dizer quando aquilo havia ocorrido. Com calma, Jeremy eliminou a distância, voltando a beijá-la, dessa vez com mais intensidade e volúpia. As mãos criando mais liberdade para explorar aqueles corpos que já conheciam com total domínio. Cada linha de músculo, cada curva natural, cada marca discreta ou mais evidente... Cada mínimo aspecto já conheciam e exploravam sem pudor algum. Mas cedo demais, se afastou. A respiração ofegante e o corpo inteiro arrepiado, um sorriso tímido no rosto.
- Está tudo bem? – perguntou Jeremy, confuso.
- Tudo ótimo – disse ela, revirando os olhos diante o sorriso lascivo dele. – E não que não seja mil vezes mais excitante continuar e tal, mas é minha primeira vez aqui, eu...
- Está tudo bem, – disse Jeremy, entendendo o dilema da mulher e adorando a forma como seu rosto havia corado diante suas desculpas.
- Mesmo? – perguntou ela, se sentindo infantil logo depois.
- Faço até promessa de dedinho – garantiu Jeremy, passando um braço pelos ombros da mulher e começando a sair da cozinha, apagando as luzes no meio do caminho. – Sou um cara crescidinho, não preciso de sexo a cada cinco segundos.
- Mas não reclamaria se tivesse também – brincou ela, rindo divertida da expressão surpresa dele. Ela poderia estar tensa, mas certamente a cada minuto ficava cada vez mais confortável e voltando a ser a que ele conhecia.

Os demais dias foram tranquilos, Clayton foi embora na sexta logo após o café da manhã, mas Kym aceitou ficar mais um pouco, não querendo interromper a brincadeira das crianças. Ela e tiveram mais tempo e oportunidades para se conhecerem, principalmente quando Valerie pediu para que elas fossem ao mercado. Jeremy e o cunhado estando ocupados demais cuidando das crianças. O ator ficou um pouco preocupado, sabendo que ainda estava um pouco tímida, mas bastou ouvir a risada sonora das duas mulheres enquanto elas vinham da cozinha para qualquer receio sumir.
Ele sabia que estava se preocupando demais e que já era adulta o suficiente para se enturmar por conta própria. Ela se saía muito bem naquilo, conseguindo se misturar com facilidade e maestria. Mas ele estaria mentindo se não estivesse tenso diante a possibilidade dos dois irmãos estarem mentindo sobre terem aprovado a mulher. Ele não tivera tempo de conversar com Clayton antes do rapaz ir embora, mas daria um jeito de conversar com Kym e garantir que ela afastaria qualquer preocupação que poderia ter.
E não deu outra, pouco antes da mulher ir embora, Jeremy conseguiu alguns minutos sozinho com ela e assim que viu o olhar no rosto do irmão, Kym já sorria e o puxava para um abraço. Não foi uma conversa tão duradoura quanto ele esperava, mas foi o suficiente para tranquiliza-lo.
- Não deixe ela escapar – sussurrou a mulher contra seu ouvido. – É uma ordem minha e do Clay – complementou quando se afastaram.
No sábado, foi a vez de e Valerie ficarem sozinhas enquanto passeavam com o cachorro da mais velha. Era uma manhã agradável, levemente fria, mas que permitiu que elas aproveitassem o passeio, conversando sobre amenidades. Elas já haviam passado alguns dias sozinhas, quando Ava ficara doente, mas a tensão da doença e dos estudos de não permitiram que elas tentassem criar algum laço de amizade. Algo que agora pretendiam fazer.
Quando voltaram para casa, encontraram o melhor cenário possível. Jeremy estava sentado em uma das cadeiras da cozinha, enquanto Ava estava em pé em outra ao lado do pai. Havia uma maleta de pintura aberta sobre a mesa, o rosto de Ava estava todo pintado, e agora ela pintava o de Jeremy. A pintura no rosto da criança estava bem mais feita, claramente feita pelo ator. Enquanto que o rosto dele era uma bagunça de roxo e laranja, ele não parecia se importar, se divertindo enquanto Ava narrava o que estava fazendo – em momentos como aquele se perguntava se havia algo que Ava pedisse e Jeremy fosse dizer não ou fazer com má vontade.
- Que trabalho adorável, querida! – exclamou Valerie, abraçando a neta por trás sem impedir que ela continuasse a pintar o pai. Jeremy ainda tinha os cabelos úmidos e usava uma blusa de moletom, a calça combinando possuía alguns pontos da tinta que havia caído, mas alguém, provavelmente ele próprio, havia tentado limpar e acabara borrando ainda mais.
- Uma obra de arte – concordou , sorrindo para os dois e pegando o celular para tirar uma foto, não tinha como não tirar uma.
- Você é a próxima – disse Jeremy, após a mulher lhe mostrar a foto tirada.
- Boa tentativa, Renner – brincou a babá.
ainda tentou fugir, mas Jeremy fora mais rápido e segurara seu braço, com a outra mão mergulhando os dedos na tinta e logo espalhando pelo braço da mulher, que exclamou surpresa. Mas não mais surpresa do que quando sentiu o pincel úmido de Ava passando por seu rosto. A menina ria divertida por ter surpreendido a babá, que nem havia percebido a movimentação da menor. Ava e Jeremy se aproveitaram do momento de paralisia de para incrementar a pintura, com Ava até mesmo conseguindo mudar de cor. Àquela altura, sabia que não tinha mais como fugir, então simplesmente se deixou ser puxada para sentar no colo de Jeremy e deixar que Ava a pintasse como quisesse.
- Você ainda vai me pagar por isso – murmurou ela para Jeremy, quando ele esfregou o rosto dele no pescoço dela, manchando a pele com a tinta laranja. – Espero que isso saia fácil.
- Não se preocupe – sussurrou ele para que apenas escutasse. – Eu te ajudo a limpar depois.
Atenta com as risadas altas, Valerie voltou para a sala e sorriu divertida ao ver entregue às vontades de Ava. A babá lhe estendeu o celular e pediu para que a mais velha tirasse uma foto. Já havia uma de Jeremy, mas gostaria de ter a lembrança que ela também havia sido atacada. A foto saíra ainda mais divertida por ela não ter percebido que Jeremy voltava a molhar um dos dedos e passou pelo pescoço da mulher no exato momento em que Valerie tirava as várias fotos – porque era óbvio que ela não deixaria um segundo daquele momento passar em branco.
Com muita tristeza, o fim de semana chegou ao fim e, na tarde de domingo, eles já tinham feito as malas e se preparavam para partir. Ava estava triste, ela nunca gostava de se despedir da avó, mesmo que em algumas semanas fossem voltar a se ver por conta do natal. entendia a menina, tendo se despedido da matriarca com um aperto no coração, já acostumada com a presença da mulher. Mal podia esperar pelo dia em que ela se mudasse definitivamente para Los Angeles.
O fim de semana inteiro havia sido mágico, uma bolha perfeita. A viagem de volta fora calma e relaxada, com se oferecendo para dirigir e poupar Jeremy um pouco, já que o ator havia sido extremamente abusado pela filha naqueles dias. Não pegaram muito trânsito e, pouco depois de quatro horas de viagem, estavam em casa. O dia havia sido ensolarado e quente, mas já começava a esfriar quando terminaram de retirar as bagagens do carro.
No dia seguinte, não teria aula e Jeremy ainda teria mais um dia de folga. O casal resolveu aproveitar aquela noite, deixando para descansar completamente na segunda. Eles comeram a marmita generosa que Valerie havia preparado para eles e Ava não demorou muito para cair no sono quando deu seu horário – ela ainda tinha que ir para a escolinha no dia seguinte. Quando voltou do quarto da criança, foi recepcionada com uma taça de vinho e um abraço.
Era o fim perfeito para o feriado perfeito.

~ * ~
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Desde que havia se apegado àquela família, tinha um pesadelo recorrente. Ele não vinha quando ela dormia nos braços de Jeremy – e ela agradecia muito pelo relacionamento deles, pois significava que sonhava cada vez menos com aquilo. No sonho, ela sempre estava em um local escuro, às vezes uma rua no meio do nada, às vezes uma floresta, e sempre correndo atrás de Ava ou Jeremy ou os dois. Não importasse o quanto ela corria, ela nunca os alcançava. E ela sempre acordava da mesma forma: suada, ofegante e extremamente assustada. Havia um tempo em sua adolescência que ela fora obcecada por interpretar sonhos, e ainda se lembrava dos significados de alguns. Pelo seu conhecimento, aquele sonho significava algo bom. Mas ela nunca se sentia assim. Ao contrário, sentia que aquilo era um indício de que ela nunca teria aquilo que desejava.
Quando descobriu que Ava gostava dela e que não era a única, imaginou que aquele sonho fosse sumir. Mas algumas semanas depois dela e Jeremy confirmarem que se sentiam atraídos um pelo outro, ele voltou. Dessa vez era diferente, era mais desesperador e, de repente, Ava e Jeremy sumiam. Ela revivia bons momentos com eles e se via perdida em tantas lembranças, desesperada para encontra-los novamente. Mas eles nunca apareciam e ela ficava com aquele sentimento de perda.
Esse último sonho costumava aparecer quando algo ruim acontecia. Ocorreu quando Jeremy machucou os braços, quando Ava ficara doente, e quando eles tiveram que ir até a casa de Sonni para buscar a criança. A última vez que havia ocorrido, fora no dia em que os paparazzi tiraram fotos de e Ava saindo da clínica pediátrica. Ela ainda se lembrava de acordar suada e ofegante, com lágrimas nos olhos. Agradecendo por Jeremy ter sono pesado e não ter acordado. Fora ali o primeiro indício de que algo não estava certo, porque ela nunca tinha aqueles sonhos quando estava com o ator. A verdade era que por muitos anos ignorara os significados dos sonhos, deixando para trás aquela adolescente obcecada em interpretar cada mínimo detalhe. Mas desde que aquele sonho havia voltado e ocorrido quando ela estava na presença de Jeremy que ela sentia que não tinha como ignorar aquilo. Porém, apesar do mau pressentimento, a vida corrida fez com que ela voltasse a esquecer o sonho e focasse nas últimas provas e trabalhos que tinha antes do Natal.
Era a quarta-feira logo após o Dia de Ação de Graças, havia acabado de fazer a última prova e saia da sala em direção ao estacionamento quando a primeira notificação no celular chegou. Ela ignorou, pensando que poderia ser Jeremy lhe desejando boa sorte ou perguntando como ela fora durante a avaliação. Mas logo depois outra notificação veio, e outra, e mais outra... E diversas outras. pegou o celular e o desbloqueou. Desde que ela e Jeremy começaram a ficar juntos, ela havia ativado os alertas para receber uma mensagem caso alguém publicasse algo sobre eles dois, ou só ela... não achava que era tão importante assim, mas vez ou outra os paparazzi os pegavam em momentos fofos e ela gostava de guardar as fotos. Por isso ela não se surpreendeu ao ver que todas as mensagens eram de alertas de matérias que citavam seu nome e o do Jeremy. Mas o que ela viu ao abrir uma das notícias fez com que ela parasse onde estava. A boca se abriu e o coração acelerou imediatamente, seus dedos vacilaram e quase derrubaram o celular no chão ao ler a primeira linha do título.

VAZAM FOTOS DE JEREMY RENNER E FAMÍLIA APROVEITANDO O DIA DE GRAÇAS
As fotos liberadas contêm a família aproveitando o feriado, e o ator com sua filha, Ava, e a babá, , em momentos caseiros
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Aquilo não podia estar acontecendo, pensou ao rolar a página e ver as fotos exclusivas. Seus olhos se embaçaram com as lágrimas imediatamente e ela sentiu os joelhos fraquejarem levemente ao ver que novos alertas começavam a chegar. Seu corpo inteiro tremia e suava, ela não fazia ideia de como havia conseguido chegar até o carro e entrar nele – lembrava-se vagamente de deixar as chaves caírem diversas vezes. Seu coração deu um salto quando o celular começou a tocar, um certo alívio lhe invadindo ao ver a foto de Jeremy.
- Onde você está? – perguntou ele quando ela atendeu, o tom de voz urgente e preocupado. Ela não sabia como, mas tinha certeza que ele sabia que ela já tinha visto as notícias.
- No carro – disse ela, passando a mão no cabelo. – Jeremy, eu... Meu deus!
- , calma, respira – disse ele, seu tom mudando drasticamente ao perceber o desespero na voz da mulher. – Pegue um táxi se não se sentir bem para dirigir.
- Não, eu... Eu só preciso de um tempo.
apoiou os cotovelos no volante e afundou a cabeça nas mãos, respirando fundo, sentindo algumas lágrimas escorrendo. Era tudo o que Jeremy havia batalhado tanto para preservar escapando pelos dedos. A privacidade de sua filha, de sua família completamente exposta. Fotos recentes e mais antigas, de quando ainda mantinham uma relação chefe-funcionária. Era um pesadelo, pensou , de repente se lembrando daquele recorrente. A culpa a assolando ainda mais por ter ignorado o presságio.
Demorou, mas ela conseguiu se acalmar o suficiente para fazer o trajeto da faculdade até a casa de Jeremy, agradecendo pelo caminho ser tranquilo e não ter muito trânsito. Ela teria uma crise se ficasse parada em algum engarrafamento.
Quando entrou na casa, Jeremy a recebeu com um abraço apertado, dizendo que já tinha pessoas cuidando do caso e tudo ficaria bem. Eles só precisavam respirar e não deixar Ava desconfiada de alguma coisa. Mas não conseguia relaxar, ela se sentia culpada, ela se sentia desesperada, ela estava aterrorizada, e verbalizou tudo aquilo para Jeremy.
- , não é sua culpa – disse ele, afastando uma mecha de cabelo da mulher e colocando atrás da orelha. – Já tenho alguém investigando isso e vamos descobrir o verdadeiro culpado.
- Mesmo assim – disse ela, inconsolável. – Eu não consigo...
- Eu sei. – Jeremy suspirou. Ele entendia exatamente o que a mulher sentia e não iria fingir o contrário. Ele também se sentia culpado e desesperado por saber que aquilo havia fugido de seu controle. Novamente falhando por não ter conseguido proteger sua filha.
Por mais que eles tivessem tentado com muito empenho fingir que nada havia acontecido, não foram bem-sucedidos. Assim que Ava voltou da escolinha, com Anna tendo trazido ela por ter ido buscar Jack, a criança logo percebeu que algo estava errado. Fosse na forma apertada como o pai a havia abraçado ou na falta de ânimo de em acompanhar a alegria da garota por ter os dois em casa. Fazia semanas que ela sentia que as coisas estavam erradas. Aquele dia só havia piorado tudo.
brincou com ela, mas mais de uma vez a criança precisou chamar sua atenção. E quando assistiram a um filme, enquanto Ava cantava as músicas, encarava um ponto qualquer na televisão, sem dar atenção às incríveis performances da criança. Ao longe, elas ouviam Jeremy andando de um lado para o outro, conversando no telefone com diversas pessoas, elevando a voz para algumas, suspirando frustrado para outras. Em algum momento, Sonni havia ligado, e foi quando decidiu que era uma ótima hora para levar Ava para seu cochilo da tarde. Elas seguiram até o quarto da criança, acomodando-a entre as cobertas e deixando tudo do jeito que Ava gostava. Porém, quando começou a se levantar para ir embora, a mãozinha da menina a segurou.
- Deita comigo – pediu Ava.
O tom de voz choroso, de quem sabia que nada estava tão bem quanto tentavam parecer, e o desespero por não haver nada que ela pudesse fazer. quase chorou diante a expressão desolada da criança, já sentindo que estava segurando há muito tempo. Não tinha como dizer não, então se juntou a Ava, deitando ao lado da menina na cama pequena e estreita e a abraçando com força. A criança virou-se de costas para e rapidamente adormeceu. Lágrimas silenciosas escorriam dos olhos de , que se via impotente diante aquela situação. Muitas das fotos que foram vazadas haviam sido tiradas por ela. Fotos que ela tirava para manter a recordação, com a intenção de algum dia imprimir e montar um belo mural. E agora tudo manchava diante o desastre a frente deles.
Uma parte de sabia que aquilo tudo era estranho demais. Ava tinha quatro anos, Jeremy havia registrado cada possível momento em seu celular e nada nunca havia acontecido. Como é que poderia acontecer algo como aquilo naquele momento? Poucas semanas após a doença da menina vir à tona. Eram muitas coincidências, mas não conseguia processar tudo. Era uma bola de neve atrás da outra, provocando uma avalanche que estava levando tudo o que encontrasse pela frente. Sua maior dor, seu maior desespero, era não ter nada que pudesse fazer que tiraria Ava da frente. Porque sabia que, mais cedo ou mais tarde, a menina seria atingida.
Ela não achou que fosse possível, mas quando percebeu, o sono começava a abatê-la e logo ela acompanhava Ava.

A cabeça de Jeremy doía, ele não aguentava mais ficar no telefone conversando com pessoas que não lhe dariam as respostas que ele precisava. Ele queria um culpado, queria um rosto para todos aqueles problemas. Não conseguia acreditar que aquilo havia sido uma simples obra do destino. Que de uma hora para a outra, tudo o que ele havia se esforçado tanto para construir iria desmoronar. Ele queria um responsável por vazar a condição de sua filha, ele queria um nome por trás daquelas malditas fotos que haviam vazado. Muitos não considerariam aquilo como algo tão grave, mas desde o princípio Jeremy havia deixado claro que a privacidade de Ava era sua prioridade, que fotos que expusessem o rosto dela estavam fora do limite. De que havia adiantado?
Ele tinha investigadores no caso, pagaria o montante de dinheiro que fosse necessário para descobrir os culpados por tudo aquilo. E mesmo que demorasse, eles iriam descobrir quem havia causado tudo aquilo.
Com um suspiro, ele largou o celular em cima da mesa da sala de jantar. O celular de , ao lado do seu, havia parado de vibrar quando ela desativou as notificações dos alertas, não aguentando mais ver as inúmeras notícias que saíam sobre as fotos. Eram apenas fotos, meu deus, por que tanto auê em cima delas? Por que não poderiam respeitar as vontades do ator e fingir que nunca haviam recebido aquilo na vida? A mulher estava um caco, ainda pior que Jeremy se sentia. Ele a entendia, sabendo o quanto aquilo era novo e difícil para ela. Jeremy queria poder fazer algo, mas se via impotente.
Cansado, ele se levantou da cadeira e sentiu todo o seu corpo protestar. Ele estava tenso pelo estresse e pelas horas que passara sentado conversando com sua empresária para que ela encontrasse as melhores pessoas para investigar aquele caso. Era inadmissível. O ator mal havia conseguido dar atenção a Ava, o abraço apertado que havia lhe dado quando ela chegou da escolinha sendo o último contato deles. Jeremy se lembrava de ver a menina e saindo da sala e indo para o quarto quando ele estava no telefone com uma Sonni histérica e revoltada – como se Jeremy precisasse de mais isso.
Calmamente, o ator seguiu pelo corredor da casa, parando na porta entreaberta do quarto de Ava e a abrindo com cuidado. A cena lhe surpreendeu. Não era a primeira vez que via aquilo, mas era tão raro que ele sempre parava para observar. e Ava dormiam lado a lado, os braços da mulher em volta do corpo pequeno da criança, que abraçava um dos braços da babá. As expressões serenas, como se nada daquele pesadelo estivesse acontecendo. Jeremy entrou no quarto, notando que elas estavam levemente descobertas e subiu a manta, cobrindo até os ombros de Ava. As duas se remexeram, ficando mais confortáveis, mas não acordaram. O ator sorriu, depositando um beijo na têmpora de cada uma antes de se retirar do quarto.
Momentos como aquele ele gostaria que as pessoas presenciassem e percebessem o quanto estragavam ao invadir a privacidade dos outros por alguns milhares de dólares. O revoltava que toda aquela serenidade fosse atrapalhada por pessoas gananciosas e mesquinhas que não sabiam ouvir um não como resposta.
Ele voltava para a sala de jantar, pretendo ir até a cozinha tomar um remédio para dor de cabeça quando ouviu um celular vibrando sobre a mesa. Curioso e esperando que fosse uma boa notícia, ele mudou o trajeto para conferir, ficando levemente decepcionando quando descobriu que não fora o seu. Enquanto se afastava, a tela do celular de se acendeu e ele viu a notificação de nova mensagem. Jeremy não era uma pessoa curiosa e não gostava de invadir a privacidade de ninguém, mas seus olhos foram mais rápidos que ele e sua decisão de afastar. E o que ele leu fez com que seu mundo terminasse de desabar.
A mensagem que a mulher havia recebido vinha de um número desconhecido e era composta de apenas uma pergunta:

Quanto você quer pelas fotos?
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acordou levemente desorientada, como se tivesse dormido mais do que havia pretendido. O que não era mentira, já que ela nem mesmo havia planejado dormir. Com cuidado, ela se desvencilhou de Ava, após conferir que ainda dava para a menina dormir mais um pouco, e saiu do quarto. Ela estranhou o silêncio que reinava no local, tendo ido dormir com o som de Jeremy no telefone com Sonni. Ela checou cada quarto, mas o ator não estava em nenhum deles. Seguiu então para o cômodo principal, surpreendendo-se ao encontra-lo sentado à mesa da sala de jantar, os celulares a sua frente, os cotovelos apoiados na superfície da mesa, a cabeça apoiada nas mãos. engoliu em seco, imaginando que algo ainda pior havia acontecido.
A mulher se surpreendeu quando Jeremy deu um pulo na cadeira ao sentir a mão dela em seu ombro. O olhar que ele dirigiu a ela era confuso e possuía algo mais que ela não conseguiu discernir. Parecia machucado, pensou ela. Imediatamente, seu coração perdeu uma batida e ela se preparou para o pior. Rapidamente ela olhou para a mesa, franzindo o cenho ao notar seu celular em destaque. A tela desbloqueada aberta em uma mensagem que, àquela distância, ela não conseguiu ler.
- O que aconteceu? – perguntou ela, não se sentindo ofendida por ele estar usando seu celular. Talvez ele estivesse usando como uma forma de identificar os culpados.
- Acho que eu poderia perguntar isso a você – disse ele, virando o celular para que ela conseguisse ler a mensagem. O pouco de ar que ainda preservava saiu em uma lufada e ela sentiu as pernas fraquejarem. Seus olhos buscaram Jeremy imediatamente e ela finalmente conseguiu interpretar o que estavam nos azuis que até poucos dias eram como dois lagos. mal precisou perguntar para confirmar que ele acreditava naquilo.
- Jeremy, você não... – disse ela, dando um passo para trás quando ele se virou para ela. – Você não está realmente achando que fui eu, está?
- Eu não sei o que achar, – disse ele, mas a mulher não conseguiu acreditar. Porque se ele não a achasse culpada, ele não estaria olhando para ela daquela forma, ele não teria lhe perguntado o que ela tinha para contar. Ele não estaria usando aquele falso tom de calma para fazê-la cair em sua armadilha e, talvez, confessar o que ele já havia se convencido de que havia acontecido.
- Mentira – disse ela. Seus olhos se encheram de lágrimas. Ela voltava a sentir tudo o que sentira quando ouviu ele e Sonni conversando semanas atrás. – Há semanas você já vem considerando isso.
O tom de voz dela causava dor nele. Jeremy nunca havia visto a mulher tão machucada e ofendida na vida. Doía vê-la daquela forma. Doía ainda mais ele ser o culpado por aquilo. Mas Jeremy não conseguia encontrar qualquer outra resposta para as inúmeras perguntas em sua cabeça. Ele não conseguia encontrar outras saídas, outras possibilidades.
- Você acha que eu não percebi que vez ou outra você me olhava com desconfiança? Que a forma como você me toca mudou? Que mesmo prometendo não fazê-lo, você me afastou? – Era como se alguém esfaqueasse o coração de ambos diversas vezes. Diante o silêncio dele, soltou uma risada seca e incrédula. – Você realmente acha que fui eu, não é?
- ...
- Não é, Renner? – ela forçou, seu tom agora passando de machucado para raivoso. Como se ela não estivesse com paciência para as desculpas dele, ou tentativas de amenizar algo. Se ele estava a ameaçando, era bom que fosse homem o suficiente e colocasse todas as cartas na mesa. Jeremy suspirou, passando a mão na testa antes de voltar a encará-la.
- Eu não queria, mas as evidências... – Ele pode sentir, e quase ouviu, o exato momento em que o coração dela se partiu. A dor passou rapidamente pelos olhos de , mas ele conseguiu notar. A primeira lágrima da mulher escorrendo logo em seguida. – , por favor...
- Por favor? Por favor o que, Jeremy? Por favor, te perdoar por desconfiar de mim? Por não acreditar na minha palavra? – atacou, seu tom de voz ainda baixo para que não corresse o risco de acordar Ava.
- Não tem outra alternativa – respondeu Jeremy, sentindo o nó em sua garganta o sufocando aos poucos. – Olhe nos meus olhos e diga que não fez isso por dinheiro.
- Como é? Agora eu sou oportunista? – Ela fechou as mãos em punho, controlando o impulso de socar o homem a sua frente. Por um breve momento, ela achou que ainda estivesse dormindo e aquela fosse uma nova versão do seu pesadelo. – Isso é coisa da Sonni também, não é? Você é inacreditável.
- ...
- Não! Para! – pediu ela, as lágrimas lavando suas bochechas. levou as mãos ao rosto e fechou os olhos por um momento, tentando recobrar algum controle emocional, mas falhando. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo. Não dava para acreditar. Tinha que ser um sonho. Quando ela voltou a encará-lo, Jeremy ficou sem ar por ver tanta tristeza e dor em seus olhos. – Não adianta vir com pedidos de desculpas. Com “eu sinto muito”, com qualquer desculpa esfarrapada. Não quando eu posso ver no seu rosto, nos seus olhos que você não está arrependido por me acusar dessa forma.
- Olhe nos meus olhos – Jeremy se levantou de repente e se aproximou dela, a segurando pelos braços. – Olhe nos meus olhos e diga que não foi você.
O tom de Jeremy era de súplica, ele implorava para que ela desmentisse tudo aquilo. Ele chorava tanto quanto ela. olhou em seus olhos, por um momento perdendo-se naquela imensidão azul. Em tantos momentos ela havia se perdido ali e se sentira tão bem, tão feliz, completa. Agora ela sentia toda aquela alegria se perdendo, sendo substituída pelo vazio. Ela se afogava naquele azul e não havia ninguém para puxá-la de volta. As lágrimas dele eram como facadas que iam rasgando cada pedaço de seu coração, porque ela sabia que ali não eram lágrimas de arrependimento. Não em sua totalidade pelo menos. Ele apenas sentia muito por não ter se protegido do aparente perigo antes. sabia, ele já estava convencido.
- Não há nada que eu possa dizer que vá te fazer acreditar no contrário – disse ela por fim. – Eu não sei o que ela disse, o que te falaram sobre mim nessas últimas semanas ou horas, mas parece ter sido o suficiente para você simplesmente jogar no lixo os últimos cinco meses, até mesmo o último ano.
Jeremy soltou os braços dela, mas não se afastou, e também não se moveu. Seu peito subia e descia, e as lágrimas haviam diminuído um pouco, mas ainda escorriam vez ou outra. Ela respirou fundo, tentando adquirir um pouco mais de controle.
- Eu vou te falar algo, mesmo sabendo que não irá mudar o que você está pensando – disse ela. Com calma, ela colocou suas mãos ao redor do rosto do ator, vendo-o fechar os olhos por um momento. esperou até que ele voltasse a abri-los. – Eu amo a Ava como se ela fosse parte da minha família, e eu faria tudo para mantê-la segura e protegida, da mesma forma que você tem feito desde que ela nasceu. E eu amo você de uma forma que nunca amei ninguém antes. Eu tenho sentido isso por meses, eu tenho ensaiado para te dizer isso há muito tempo, mas algo sempre me prendia, e talvez aqui seja a resposta que eu estava querendo. Mas eu amo você, Jeremy, e o que eu faria pela Ava, eu faria por você. E nunca, nunca mesmo, eu os trairia dessa forma. Nunca eu faria qualquer mal a vocês. Mesmo que me oferecessem um milhão de dólares, mesmo que me oferecessem todo o dinheiro do mundo, eu negaria. Porque eu nunca correria o risco de perder vocês por algo tão fútil quanto dinheiro. Eu não preciso disso quando eu tenho, ou tinha, vocês na minha vida.
Eles permaneceram naquela posição pelo que pareceu uma eternidade, e conseguiu ver que nada parecia ter mudado. Assentindo, a mulher se afastou dele e lhe virou as costas, dando tempo aos dois para se recuperarem. Mas ela achou ainda mais difícil parar as lágrimas quando se afastou. O silêncio de Jeremy conseguindo ser ainda mais doloroso que suas palavras acusatórias. Jeremy só conseguia olhar para a mulher de costas para ele, a cada momento se arrependendo cada vez mais por ter se deixado convencer pelas fofocas. Mas não havia qualquer evidência que a inocentasse. Ela era a única que poderia ter conversado com os paparazzi e revelado o segredo de sua filha. Ela era a única que poderia ter enviado as fotos para eles. Ela que as havia tirado, ela que havia recebido a mensagem. Jeremy não sabia o que pensar.
- Papai? – Os dois se sobressaltaram ao ouvir a voz de Ava próxima a eles. O ator se recuperou rapidamente, passando a mão no rosto para enxugar as lágrimas, e se virou para a filha.
- Oi princesa! Achei que ainda estivesse dormindo – disse ele, aproximando-se da filha e se abaixando.
- Eu tive um sonho ruim – disse a menina, coçando o olho. – Acordei e a não estava mais lá.
- Ah, querida, sinto muito – disse Jeremy, puxando-a para um abraço apertado. – Papai vai colocar um filme para você, tudo bem? e eu estamos terminando de conversar, já vou ficar com você.
- Tudo bem – disse a menina, o tom de voz baixo, ainda com um pouco de sono. Jeremy a levou até a sala, colocando um filme para a filha assistir e depois voltou para onde ainda estava, sequer parecia ter se mexido.
- ... – começou ele, mas logo foi arrependido.
- Não se preocupe, Renner – disse , se virando de frente para ele. O rosto estava úmido, os olhos vermelhos e inchados, mas as lágrimas haviam parado por aquele momento. – Amanhã de manhã eu já vou embora.
Ela não deu chances para que ele tentasse dizer uma palavra sequer, contornou o ator e seguiu andando até chegar ao seu quarto. Não havia falado porque sabia que ele não permitiria, mas ela pretendia ir embora no exato momento em que ele e Ava dormissem. Não aguentaria ficar ali um minuto a mais, já se sentia sufocada o suficiente.
Com as lágrimas voltando a escorrer pelo rosto, arrumou sua mala em tempo recorde, guardando somente suas roupas e o material da faculdade, deixando para trás qualquer coisa que havia adquirido após sua chegada. Seu corpo inteiro tremia e muitas vezes ela derrubou algumas coisas por perder o controle ou seus olhos estarem embaçados demais para que ela enxergasse. Em determinado, ela desistiu, se jogando no chão e apoiando as costas na cama, o travesseiro puxado serviu para abafar o grito que ela deu e os soluços que faziam seu corpo inteiro pular quando ela se rendeu e deixou toda a dor escorrer.
Doía demais, ela se sentia sufocar, como se nem mesmo um balão de oxigênio fosse aliviá-la daquela sensação. Quando seus olhos se fechavam, ela revivia aquela discussão e os bons momentos que eles tiveram. Em sua mente, ela criava e pensava em inúmeras hipóteses, a maior e mais importante de todas: como ele poderia acreditar que ela o trairia daquela forma? Achar que ela havia vazado as fotos, que ela havia conversado com os paparazzi, quando tudo o que ela mais queria era fugir deles. Achar que ela abriria mão de tudo por dinheiro. Como ela poderia querer dinheiro quando já tinha tudo o que precisava? Como ele não percebia aquilo? Como que ele conseguia acreditar em tudo aquilo mesmo depois dela ter se declarado para ele? Tanto tempo segurando aquela revelação, e ela saia no pior momento de sua vida. Ela havia entregado seu coração para ele apenas para que Jeremy pudesse terminar de aniquilá-lo.
não sabia quando havia feito aquilo, mas de repente estava sob a água quente do chuveiro, sentindo a água extremamente quente bater em sua pele e causar uma dor que, naquele momento, era levemente prazerosa, como se queimasse todo o mal que havia se instalado ali. A água lavava as lágrimas também, lavava seu rosto. Mas não era o suficiente para lavar o estrago dentro dela. Lavar os restos de seu coração que havia sobrado. Lavar a dor, a sensação de perda. Ela perdeu a noção do tempo, encarando o nada no banheiro e, depois, no seu quarto por inúmeros minutos. As lágrimas indo e vindo por conta própria, ela não havia mais energia para controla-las. Sua cabeça doía, seu corpo inteiro doía. O local onde seu coração estaria, doía mais que tudo.
O único momento em que ela voltou a reagir, foi para pegar seu celular, que ela havia conseguido pegar antes de sair da sala, e entrou no site de pesquisas para comprar a passagem de avião para Norfolk. Compraria a primeira passagem que encontrasse, independentemente do valor. Só queria ir embora dali. Queria deixar aquela decepção para trás. Queria esquecer a dor. Queria não ter mais que encarar aquele que a havia conquistado apenas para decepcioná-la na primeira oportunidade.
Sentada em seu quarto, a confirmação de compra no e-mail e as malas prontas, esperou. Viu as horas passando e só esperou. Ela não sentia fome, sede ou nada daquilo. Apenas dor. A dor prevalecia sobre tudo. Ela conseguiu ouvir a voz de Ava quando a menina perguntou onde a babá estava, mas não ouviu a desculpa esfarrapada de Jeremy. Ouviu quando a criança pediu para dormir com o pai, e o ator aceitou. Ela ouviu o exato momento em que Jeremy fechou a porta do quarto e esperou mais um pouco. O relógio indicava que eram quase onze horas da noite, seu voo sairia em quatro horas, mas ela já queria ir embora. A viagem até o aeroporto duraria quase uma hora, mesmo que fosse madrugada.
Quando o relógio indicou que faltavam quinze minutos para a meia-noite, chamou um táxi pelo aplicativo. Aproveitando enquanto o motorista chegava para se mover pela casa no maior silêncio que conseguisse, levando suas malas para a porta e se despedindo da casa. Quando terminou de reunir suas coisas – duas malas, mais a bolsa de mão – seguiu para o portão de entrada, agradecendo pelo táxi já a estar esperando. Ela ajudou o motorista a guardar as malas e entrou no veículo, algumas lágrimas voltaram a escorrer quando ela deu o destino final e o motorista partiu, e mesmo que cada célula de seu corpo implorasse, não olhou para trás.
Ela sabia que teria muitas perguntas para responder quando chegasse em Norfolk, tanto para seus pais, quanto para Ted, mas naquele momento ela não queria – e nem conseguia – pensar naquilo. Pensaria em tudo aquilo no avião, nas quase sete horas de viagem.

Jeremy não conseguiu dormir aquela noite, havia deitado em sua cama apenas para fazer companhia a sua filha, porque se tivesse realmente uma escolha, ele passaria em qualquer outro canto que não lhe trouxesse tantas lembranças de .
Ele viu as horas passando no relógio da mesa de cabeceira. Cada vez que piscava uma nova lembrança dos dois surgia, desde quando ela havia chegado, até aquela manhã. Ele se lembrou de quando ela foi com Ava ao médico, de como estava nervosa. Ele se lembrou das fotos que haviam saído das duas e como havia achado encantadora a forma como parecia proteger a mais nova dos paparazzi, pegando-a em seu colo e mantendo seu rosto escondido na curva do pescoço. Ele se lembrou de como naquele momento em que viu as fotos, tivera certeza de que havia feito uma escolha certa em muito tempo.
Até que tudo desmoronou e nada mais parecia se encaixar. Por muito tempo, desde que os problemas haviam começado, ele acompanhou tudo o que acontecia como se estivesse acontecendo com outra pessoa, então veio aquele alfinete que estourou sua bolha e o trouxe para a realidade. Após a mensagem, ele havia ligado para sua empresária e pedido para a mulher investigar. Ele esperava que a resposta que recebesse negasse todas as suas suposições, mas todos os caminhos levavam o vazamento até . Ele tentou rejeitar a ideia, óbvio, mas não havia como ir contra tantos fatos, tantas provas. Como ela havia se oferecido para levar a filha ao médico, como todas as fotos vazadas naquela manhã haviam sido tiradas por ela. Como ela nunca havia desistido mesmo que Ava lhe desse todos os motivos. Aos poucos, cada sinal de cuidado e preocupação da mulher para com ele e sua filha foi se tornando um sinal inimigo. O que antes ele admirava e o fizera se apaixonar por ela, agora eram evidências que faziam com que ele a considerasse culpada.
Cansado de encarar o relógio, o homem sentou-se na cama, com cuidado para não acordar a filha, e enterrou o rosto nas mãos, sentindo uma vontade anormal de gritar. E não o fazendo apenas para não assustar Ava, que dormia tranquilamente agarrada ao estúpido bicho de pelúcia que havia dado a ele meses antes. Não havia mais escapatória, ele sabia, cada canto daquela casa, cada objeto lhe traria uma lembrança dela e do discurso que ela fizera antes de se retirar. Jeremy fez muito esforço para acreditar em cada palavra, mas nem mesmo o primeiro eu te amo fora o suficiente para convencê-lo a deixar aquelas provas de lado para absolve-la de sua sentença.
Um toque em seu celular chamou sua atenção, ele o pegou e abriu o link que havia acabado de receber pelo alerta. Sem perceber, ele prendeu a respiração ao ver três fotos de no aeroporto. Ela não costumava ser perseguida, mas se era vista em algum lugar público onde os paparazzi já estavam, eles aproveitavam, afinal ela era a nova namorada de Jeremy Renner, e agora envolvida em um escândalo. O texto que seguia as fotos era o mais idiota que Jeremy já havia lido, comentando sobre os escândalos recentes com a família Renner e indicando que era suspeita a partida repentina da mulher.

Se ela não é culpada, como Renner fez questão de afirmar em sua declaração à imprensa hoje mais cedo, por que a partida repentina e furtiva no meio da noite?

O ator bufou, lendo a notícia e ainda não conseguindo acreditar que aquilo era real. Em nenhuma das fotos era possível ver o rosto da mulher com clareza para confirmar se era ou não. Mas Jeremy não precisou, afinal, porque em uma última análise em uma das fotos, ele notou o brilho característico no pulso dela e deu um zoom na foto. Ficara embaçada, mas ele conseguia reconhecer a pulseira que dera a ela algumas semanas atrás. Jeremy arfou, não podia ser.
Tomando cuidado para não acordar Ava, o ator se levantou da cama e saiu do quarto, seguindo pelo corredor até chegar ao último cômodo. Chegando lá, encontrou a porta aberta e o local vazio. Jeremy entrou no quarto e abriu todas as portas do armário, assim como todas as gavetas. Entrou no pequeno banheiro e constou que não havia restado uma escova de dentes sequer.
Encostado na porta do banheiro, Jeremy escorregou lentamente até o chão. As lágrimas que ele havia conseguido controlar desde que a mulher sumira no quarto, finalmente vencendo a batalha e voltando a rolar livremente por seu rosto à medida em que a verdade lhe atingia com força: ela havia partido.
Ele a havia perdido.

Capítulo 15

O tempo no aeroporto era algo curioso. Parecia que os segundos se arrastavam e algo que normalmente passava muito rápido, ali se prolongava até a pessoa atingir seu pico máximo de estresse. A cabeça de doía e seu corpo parecia finalmente estar saindo daquele estado de torpor, com seu estômago dando sinais de fome. Quando chegou, viu os paparazzi no aeroporto, e felizmente conseguiu se proteger antes que eles tirassem mais fotos ou viessem abordá-la. Claro que eles não estavam ali por ela, sequer podiam imaginar que o inferno estava instalado na vida da mulher, mesmo assim, preferia não chamar muita atenção para si. Enquanto esperava seu voo, comendo um lanche que comprou após passar pela segurança, ela recebeu a mensagem com o alerta de notícia sobre ela, revirando os olhos enquanto os sentia ardendo ao ler a matéria. Aproveitou para desativar todo e qualquer alerta que havia criado. Não queria receber mais nada referente a qualquer parte da família Renner. Ela também desativou todas as suas redes sociais, não querendo ceder à sua curiosidade e acabar stalkeando Jeremy em algum momento de fraqueza.
Enquanto estava na fila de embarque, um clique se fez em sua cabeça e ela percebeu que havia alguém que precisava saber de tudo aquilo antes de ler as notícias. Rapidamente, esperando sua vez para entregar passagem e documento, ela mandou duas mensagens: uma para Ted e outra para sua mãe. Uma mensagem simples, apenas uma linha: estou voltando para casa. Ela sabia que já era mais de meio-dia em Berlim, e quase sete horas da manhã em Norfolk, então desligou seu celular logo depois para evitar que os dois a respondessem imediatamente. Com certeza Ted e sua mãe gostariam de mais explicações. Não havia informado o horário de chegada, poderia muito bem pegar um táxi assim que chegasse. Quanto mais tempo demorasse para ter qualquer contato com os pais, melhor ela conseguiria mentir sobre aquela viagem repentina.
Durante o voo, ela tomou um remédio para dor de cabeça e apagou pelas sete horas que toda a viagem levou. Seus sonhos foram perturbados, alternando entre bons momentos e maus momentos. Porém, na atual situação, cada bom momento se tornava algo ruim. Afinal, todas as suas alegrias ultimamente se referiam a família Renner, e era óbvio que eles invadiriam seus sonhos.

Enquanto voava de volta para casa, Jeremy sofria na sua ao ser bombardeado por mensagens de uma insone Erin Costello. A estilista exigia explicações, sabendo que não era um bom sinal sair de Los Angeles no meio da noite, e muito menos sem avisar a nova amiga. Elas haviam feito planos para a próxima semana. Na terceira vez que a mulher ligava, Jeremy desistiu de ignorar e atendeu.
- Eu estraguei tudo – disse ele assim que atendeu. Ele ainda estava no quarto de , observando o tempo passar e os primeiros sinais da manhã pela janela da mulher. O travesseiro dela ainda tinha seu perfume e ele estava intoxicado. Criando sua própria ferramenta de tortura.
- Esse é o meu trabalho, Renner! – exclamou a estilista, claramente desapontada com ele. – Eu já estou no carro, mas pode ir falando.
- Carro? Onde você está indo?
- Onde mais? – perguntou ela, como se fosse óbvio. – Estou levando o café da manhã.
Jeremy bufou, por que não estava surpreso? Sabendo que não tinha alternativa, ele deu uma versão resumida dos acontecimentos para Erin, agradecendo por ela ser uma ótima ouvinte, que respeitava seu interlocutor. Ele sabia que em diversos momentos ela quis xingá-lo, mas respeitou a narrativa dele. Erin já estava parada em frente à casa do ator há um bom tempo, mas esperou ele terminar de falar para poder anunciar a sua chegada. Jeremy temeu sair de onde estava para ir receber a estilista, sabendo que se ela estivesse puta o suficiente, lhe daria um soco na cara.
A expressão dela não era feliz, mas pelo menos as mãos dela não estavam livres e seu soco foi adiado. Erin se recusou a falar qualquer coisa até que eles estivessem no jardim dos fundos, onde ela poderia falar mais alto sem correr o risco de acordar Ava. O relógio já apontava seis da manhã, os dois estavam cansados, mas não conseguiam dormir – Jeremy por conta de sua situação, Erin por ter problemas de insônia há anos.
- Cara, eu sabia que deveria ter tido a conversa com você e não com ela! – Erin disse, enquanto arrancava um pedaço do seu muffin. – Como você conseguiu ser tão burro, Jeremy?
- Você não está ajudando, Erin.
- Você quer ajuda, coração, você está procurando na pessoa errada – disse a mulher. – Sem contar que você fez essa cama, você que vai deitar nela. Só você pode arrumar isso.
- Eu não sei como – confessou Jeremy.
- Você realmente acha que ela fez isso, não acha?
- Eu não sei o que mais achar além disso, Erin. – Jeremy suspirou, passando as mãos no rosto. – Eu queria tanto não pensar nisso! Toda vez que eu fecho os olhos eu vejo a dor nos olhos dela, eu consigo ouvir o coração dela se partindo... Dói demais, Erin, mas eu não sei o que pensar! Tudo aponta para ela.
Erin não achava que tudo apontava para . Ela conhecia a mulher há pouco tempo, mas tinha certeza que ela nunca faria aquilo. As desconfianças de Erin iam para outra pessoa, mas ela morreria antes de ajudar Jeremy a consertar sua cagada. Ela já havia ajudado o ator muitas vezes, mas daquela vez ela não podia. Jeremy havia vacilado e era função dele enxergar o erro. Se algum dia ele decidisse tentar reatar com , precisava ser porque ele havia descoberto o erro, e não porque alguém havia ajudado. Era claro que doía nela ver o amigo tão machucado, e ela só conseguia imaginar como deveria estar – já havia até marcado em sua agenda uma viagem para Norfolk após conseguir descobrir o endereço da mulher.
- Kym deve estar muito desapontada – comentou Erin em determinado momento, após ela e Jeremy ficarem em silêncio por um tempo, apenas comendo o que ela havia trazido. Jeremy a olhou confuso. – Ela não te pediu para você não perde-la?
- Todo mundo pediu para que eu não a perdesse. – Jeremy bufou. As palavras de todos tecendo mil elogios para não paravam de soar em sua cabeça, cada vez mais acusatórias, como se ele houvesse cometido o pior erro da vida dele. E ele havia.
- Por isso eu desisti de te dar conselhos – brincou a mulher. – Você nunca ouve.
- Falando em conselhos... Que conversa você teve com ela?
- Eu só disse o óbvio. Que vocês dois se amavam e estavam perdendo tempo não falando eu te amo logo. – Erin deu de ombros, não fazia sentido algum reproduzir aquela conversa naquele momento.
- Ela falou que me amava – confessou Jeremy. Havia deixado aquele detalhe de fora da narrativa porque era o que mais doía quando se lembrava dos últimos momentos que tivera com ela. Por muito tempo ele havia imaginado que um dia o que eles dois tinham poderia acabar, mas nunca imaginara que seria daquela forma dolorosa. Sempre pensou que seria algo amigável. – Enquanto me dizia que não tinha feito nada disso.
- E mesmo assim você não acreditou? – Erin o encarava incrédula. Talvez ela tivesse tomado a decisão errada. Talvez ela tenha escolhido a pessoa errada para consolar. A estilista deveria estar num avião a caminho de Norfolk, e não na casa do cara mais burro que já havia conhecido na vida. – Cadê o Oscar de pessoa mais burra?
- Erin, por favor...
- Por favor, você, Renner! – disse a mulher, visivelmente irritada com o ator. – Se vocês tivessem se conhecido há cinco meses, quando começaram a ficar juntos, tudo bem sua relutância. Mas ela esteve do seu lado por um ano! Ela aguentou a Ava e as peripécias dela por um ano!
- Você acha que já não pensei nisso? – Agora Jeremy que estava irritado. Ele não precisava de Erin agindo como sua consciência. Não queria alguém verbalizando tudo o que ele já vinha pensando desde que se trancou na droga daquele quarto e passou as horas seguintes fazendo as malas. – Cacete, Erin, eu já sei de tudo isso! Acredite, ninguém está mais frustrado comigo do que eu mesmo. Eu já pensei no tempo que nos conhecemos, já pensei no quanto eu achava que a conhecia. Porque, e se coloque no meu lugar por um minuto que seja, e se ela fingiu tudo? E se todo esse tempo ela aguentou tudo o que a Ava fez com ela só para conseguir tirar um dinheiro a mais? Entrar na família de um dos atores mais reservados de Hollywood, do ator em ascensão... Quantos milhões não pagariam alguém por isso? Quantos milhões ela não aceitaria para poder conseguir ter a vida que ela imaginava? Esse mestrado dela não é barato, Erin, eu sei, eu pesquisei. E é muito conveniente que caia nas minhas mãos o currículo de alguém que acabou de perder a casa, não acha?
- Meu deus! Você está se ouvindo? – Erin teve que se controlar para não dar um tapa na cara do ator. – Ela não é a Sonni, Renner. Quanto tempo vai demorar para você perceber isso? Vale tanto a pena ser esse babaca que você está sendo? Um babaca cego, para ser ainda pior. Ela não é uma sanguessuga nojenta que corre atrás de qualquer escândalo. – Erin se levantou. Antes, estava determinada a passar a manhã com o ator e sua filha, sabendo que não seria fácil explicar a ausência da babá, mas agora ela mal conseguia encarar Jeremy. – E me desculpe, mas esse seu raciocínio é ainda mais idiota. Porque se ela realmente aceitou a droga desse trabalho só para ganhar dinheiro vendendo informações sobre você e sua família, ela é a espiã mais lerda e burra que já existiu na face da terra. Porque um ano com vocês e só agora ela libera duas informações? Em um mês que eu te conhecia eu já sabia várias coisas, imagino com ela morando aqui o quanto já sabia. Vê se sai desse buraco que você se enfiou e enxergue o que está a sua volta, e torça para que você deixe de ser esse idiota babaca em tempo de recuperar a melhor coisa que já aconteceu na sua vida.
- Ava é a melhor coisa que aconteceu na minha vida – retrucou Jeremy, não querendo demonstrar o quanto as palavras da mulher haviam o atingido.
- Você pode amá-la mais do que a qualquer outra pessoa, mas sabe que isso não é verdade. Não depois que a apareceu.
A estilista viu quando o ator abriu a boca para responder, mas ela não deu tempo para que ele se pronunciasse. Pegando sua bolsa e saindo do local, pegando seu celular enquanto cruzava a casa do ator até a porta que lhe tiraria daquele lugar. Ela não conseguia acreditar na burrice de Jeremy, em sua cegueira. Talvez ela tivesse sido inocente demais em pensar que havia conseguido curar as feridas deixadas por Sonni. Ela não sabia dizer, só conseguia pensar que aquele definitivamente não era o local que ela precisava estar. Agora ela só precisava conseguir um certo endereço para conseguir pagar a visita certa.

~ * ~

Por uma semana, não falou com ninguém. Ela pegou o táxi no aeroporto quando chegou e deu o endereço da casa dos pais. Jeff e Cora a esperavam com olhares e expressões preocupadas, mas a mulher se recusou a dar qualquer explicação, comendo o lanche que a mãe lhe havia feito, e depois subindo para seu antigo quarto, dizendo que precisava de um tempo sozinha.
Ela usou aquele tempo para chorar tudo o que ainda restava e se afundar numa pequena depressão. nunca fora do tipo de se deixar abater por alguém, principalmente um homem. Mas não era apenas o fim de seu relacionamento com Jeremy. Não, ela estava razoavelmente bem com aquilo, era tudo o que havia levado até aquele acontecimento. Ela ainda sentia tudo doendo. Cada batida de seu coração era uma dor que ela sentia. À noite ela não conseguia dormir, cada vez que o sono vencia, ela revivia o olhar do ator, a forma como suas palavras a acusavam de uma das piores traições que poderia existir. voltara a ver a rua ou floresta abandonada, voltara a ver Ava e Jeremy fugindo dela, longe de seu alcance, sumindo e deixando-a sozinha. As olheiras haviam se tornado suas melhores amigas, e ela só abria a porta do quarto para pegar o prato de comida que sua mãe deixava do lado de fora. Estava em um estado deplorável, sabia disso, mas não se importava.
No avião, havia decidido que se daria uma semana para chorar e sofrer pelo que havia acontecido, depois levantaria a cabeça e seguiria em frente. Contaria tudo aos pais, comemoraria as festas de fim de ano com eles e, quando o ano novo viesse, ela decidiria o que iria fazer. Havia uma quantidade considerável de dinheiro em sua poupança, já que gastava pouquíssimo de seu salário, extremamente generoso, como babá. Com certeza havia rendido o suficiente para que ela conseguisse encontrar um apartamento e se sustentasse até encontrar um novo emprego. Se ela fosse voltar, porque se fosse bem honesta, não achava que conseguiria voltar a Los Angeles tão cedo, não quando tudo ainda era tão recente.
Na sexta noite de seu estado de depressão, ela ouviu batidas na porta e franziu o cenho. Sua mãe geralmente não batia na porta, ela só via a sombra da mulher e sabia que a comida estava ali. tentou ignorar, mas as batidas voltaram e ela ouviu o bufar impaciente de seu pai do outro lado.
Jeff geralmente era calado e deixava as pessoas sozinhas, só intervindo quando fosse requisitado ou quando percebia que a situação estava extremamente séria. Por isso engoliu em seco quando a porta se abriu e ela viu a sombra de seu pai. Já era noite, o quarto estava com as luzes apagadas e era parcialmente iluminado pela lua cheia que invadia as janelas. A luz do corredor formou uma sombra dentro do quarto e aquela visão seria assustadora se ainda fosse uma criança. Ela não disse nada enquanto o homem entrava no quarto após pedir licença e acendia um abajur para não incomodar a visão da filha. Seu pai se sentou ao seu lado na cama e ficou quieto por um tempo, logo depois passando o braço pelos ombros da mulher e a puxando para que ela apoiasse o rosto no ombro do homem.
achou que as lágrimas já haviam acabado, mas se provou errada assim que sentiu o cheiro familiar do perfume que o pai usava há uns quinze anos misturado ao cheiro do consultório odontológico onde o homem trabalhava. Era reconfortante aquele cheiro, o abraço dele e a forma como seu ombro se encaixava tão perfeitamente sob a cabeça dela. Era para aquele abraço que ela sempre corria quando se machucava ou algo ruim acontecia. Ela achou que havia crescido e aquilo não ocorreria mais, mas ali estava ela, seu corpo tremendo com os soluços e as lágrimas manchando sua camisa impecavelmente branca e bem passada. Sua mãe se juntou a eles alguns minutos depois, e envolvida pelos braços dos dois pais, chorou o que restava ainda para ser colocado para fora.
Uma hora depois, uma de banho tomado e cabelos lavados presos em um coque, estava sentada na mesa da cozinha. Uma xícara de chá aquecia suas mãos, e a luz não mais incomodava seus olhos. Seus pais estavam sentados à sua frente, esperando a explicação que ela havia prometido dar. Eles haviam ligado para Ted, esperando conseguir qualquer explicação do mais novo, mas o máximo que conseguiram foi uma confirmação de que estava na hora de intervir. Ele ainda não conseguiria voltar para casa, mas prometera sua presença para o Natal.
- Eu sei que vocês estão confusos. – A garganta de arranhou quando ela falou. Aquela rouquidão tinha vários fatores, um deles era a falta de uso das cordas vocais por quase uma semana. – Então já vou começar pedindo desculpas por ter escondido tudo o que aconteceu durante esse ano. Eu não queria preocupa-los e, mais importante, não queria decepcioná-los.
- Querida – sua mãe disse, estendendo a mão para tocar a da filha. A matriarca já estava com lágrimas nos olhos, sabia o quanto aquilo seria difícil. – Você nunca nos decepcionaria.
- No fim do ano passado, Ed teve que fechar o Tower’s e eu fui demitida – começou ela.
Por quase duas horas, a voz de foi a única a ser ouvida na casa toda. Naquele tempo, ela falou tudo o que não falara durante aqueles últimos dias. Contando tudo, nos mínimos detalhes, aos pais. Contou sobre o quase despejo por não ter dinheiro para pagar o aluguel; sobre a confusão da entrevista e sobre seu primeiro dia sendo babá de Ava. Ela chorou ao contar sobre a menina para os pais, narrando cada dificuldade, mas cada traço que ela conseguia descobrir sobre a criança. Ela confessou que Ted era o único a saber e que ela havia pedido para que o irmão não contasse nada aos pais. se desculpou novamente por não ter contado nada, não querendo preocupa-los ainda mais. E ela continuou falando sobre a faculdade, os trabalhos e provas, sobre as artes que Ava aprontava, a forma como Jeremy agia em relação a ela e à filha – ela contou mais sobre o ator também, narrando cada defeito e qualidade que havia descoberto sobre ele. Contou sobre o aniversário da criança, o bolo que fizera, teria mostrado uma foto se aquilo não significasse ligar seu celular e ser bombardeada pelas mensagens que com certeza havia recebido durante aqueles dias. Falou sobre seu aniversário, como os dois a fizeram se sentir bem e em família, como ela se sentia em casa quando estava com eles. Disse a verdade sobre a doença de Ava, afinal, para quem seus pais contariam? E como havia se sentido inútil diante a incapacidade de tirar aquele sofrimento da menina e transferir para ela própria. Falou até mesmo de Sonni, sorrindo ao ver como seus pais ficaram horrorizados com a forma como a mulher tratava a própria filha.
Quando começou a falar sobre seus sentimentos por Jeremy, a mulher voltou a chorar, narrando a forma como ele havia se declarado para ela e os meses que tiveram juntos. Narrou os momentos especiais que tiveram – não entrando em muitos detalhes, óbvio – e falou de Lake Tahoe. Descreveu como ele a fazia se sentir única e especial, como ele a olhava e a surpreendia. Contou sobre a première de Wind River, e revelou quanto orgulho sentia do ator e dos trabalhos que ele fazia, de como ele trabalhava e conseguia equilibrar tudo. Nunca abraçando mais do que seus braços permitiam. Falou de Valerie e toda a família Renner, do dia de Ação de Graças e como eles a fizeram se sentir incluída na família.
Mas nem tudo eram rosas, e sabia que o que viria a seguir era inevitável. Ela tinha, afinal, que contar o motivo de estar ali em casa naquela situação. E contou tudo, sem deixar nada de lado, desde o primeiro acontecimento, com ela e Ava saindo da clínica, até o vazamento das fotos. E foi a quarta vez que ela chorou naquela noite, ao narrar a discussão entre ela e Jeremy, a forma como havia se declarado para ele e havia soltado seu primeiro eu te amo não só do relacionamento deles, mas de toda sua vida.
Seus pais ficaram em silêncio por um longo tempo após ela terminar toda a narrativa. O chá já estava frio e esquecido na mesa, e as lágrimas molhavam a superfície. estava cansada de chorar, mas não conseguia controlar. Havia perdido todo o controle, mas sentia que ali era o final delas. Talvez chorasse mais um pouco quando visse Ted, ou talvez não fosse preciso, já que com certeza seu irmão já deveria estar por dentro de tudo.
- , meu amor, não acredito que passou por tudo isso sozinha – Cora disse, por fim. – Querida, eu e seu pai sentimos muito por você ter sentido que não poderia nos contar o que estava acontecendo por não querer nos decepcionar.
- Nós nunca nos decepcionaríamos, querida – garantiu seu pai.
- Eu sei – disse . – Hoje eu vejo como fui burra por não ter contado para vocês. Queria tanto que vocês tivessem conhecido a Ava.
- Eu acho que ainda teremos essa oportunidade – Cora sorriu para a filha. – Não acho que esse tenha sido o fim de vocês.
- Não, mãe, você não entende – disse . – Você não viu a forma como ele me olhava. Ele não acreditou em mim. Mesmo depois que disse que am... Mesmo depois de tudo, ele ainda não acreditava.
- Então ele é um idiota – disse Jeff, arrancando olhares incrédulos das duas mulheres. – Ué, é verdade. Se ele não acreditou em você, então ele não te merece.
- Seu pai está certo – concordou Cora, após considerar. – Ele pode te amar, mas se ele não acreditou em você, ele não te merece. E você também não deve querer alguém que te trata dessa forma.
- Eu nunca disse que ele me amava.
- Bem, é meio óbvio, não? – perguntou Jeff, sorrindo para a filha.
- E talvez a gente já soubesse de algumas coisas – complementou Cora. – Você confia demais no seu irmão, querida. Ele deixou escapar algumas coisas quando viajamos para Ação de Graças.
- Eu vou matar ele – disse , afundando o rosto em uma das mãos. – Por que me fizeram contar tudo, então?
- Primeiro, porque você precisava, e segundo, porque Ted não contou todos os detalhes. Ele só nos garantiu que você não estaria sozinha para o feriado. E quando apertamos um pouco mais, ele mostrou algumas fotos.
- Vocês já nos viram juntos?
- Você estava linda na première – disse Cora, sorrindo para a filha.
- Vocês devem achar que sou uma péssima filha.
- Até parece que não nos conhece – brincou Jeff. – Sabemos que você é uma ótima filha.
- E antes que você pergunte, não estamos chateados por não ter nos contado – garantiu Cora. – Nós te conhecemos muito bem, , te demos uma educação que beira o irritante de tão certinha e preocupada com os outros que você é.
queria se levantar e abraçar os dois, mas sentia que o momento não havia acabado ainda. Agora que eles sabiam de tudo, ela sentia que precisava do mais importante: um conselho. Não tinha ninguém melhor para se aconselhar do que seus pais.
- O que eu faço agora? – perguntou ela.
- Primeiro, você vai se permitir uma boa noite de sono. Chega de se martirizar pelo que aconteceu, deixa isso para ele – disse Cora. – Você mesma disse que se daria uma semana, então agora é hora de agir.
- Dê tempo ao tempo. É clichê, eu sei, mas é a melhor coisa – complementou Jeff. – Distraia a sua cabeça, ligue seu celular e responda seu irmão e mais quem possa ter entrado em contato, com certeza essas Anna e Erin estão preocupadas. Dê uma explicação a elas, dê sua versão dos fatos.
- E se precisar de uma distração – disse Cora – eu e seu pai sempre podemos precisar de uma ajuda, seja na loja ou no consultório.
- Também estaremos aqui se precisar desabafar mais um pouco.
- E, por favor, querida, não se culpe mais. Nada disso é sua culpa, você não fez nada de errado. Mas isso não significa que não pode mais chorar, faça-o quantas vezes achar necessário. Chorar significa que seu corpo está se curando, então ajude-o a fazer isso. Ele partiu seu coração, sabemos, e agora é a hora de juntar os pedaços.
- Aproveite suas férias, peça mais tempo à faculdade se isso for necessário... Não importa, mas lembre-se que desistir não é uma opção, por mais tentador que seja – disse Jeff, e sorriu, se lembrando da primeira vez que seu pai havia dito aquilo para ela.
Aquele era o momento, sorriu, não tendo mais nada para dizer após tudo aquilo. Ela se levantou e contornou a mesa, abraçando os pais quando eles a imitaram, sendo envolvida novamente pelos braços dele e se sentindo em casa mais uma vez. Havia sido uma terapia se abrir daquela forma para os pais. Como se um peso tivesse sido tirado de suas costas e agora ela pudesse respirar aliviada. Agora ela sentia que podia finalmente deixar aquilo tudo para trás, e começar a se reerguer e seguir em frente. Ela ajudaria os pais, ela cuidaria dela e se distrairia o máximo que fosse possível.

~ * ~

As semanas se passaram na cidade, a neve começara a cair com força e forçara a visita de Erin durar mais do que a estilista havia planejado. Ela aparecera na porta da casa dos dois dias após a longa conversa que tivera com os pais. A mulher se preparava para tomar uma ducha após sair para uma corrida pelo bairro quando ouviu a campainha tocando. Franzindo o cenho, afinal seus pais já estavam em seus respectivos trabalhos e todos que eles conheciam sabiam que eles não estavam em casa, foi até a porta, não escondendo a surpresa ao reconhecer a figura sorridente de Erin com uma mala muito maior do que o necessário para uma viagem de três dias no máximo.
A estilista não precisou de muito incentivo para se sentir em casa enquanto ligava para a mãe e pedia desculpas por não poder cumprir com o trato e ajuda-la na loja. Cora não se importou, sorrindo satisfeita ao ouvir a filha narrando a visita inesperada. Havia custado muito para a mais velha sair de casa e deixar sozinha, mas ela sabia que a filha precisava de uns momentos sozinhas para voltar a criar alguma rotina. Não seria um processo fácil, tanto Cora quanto Jeff já haviam aceitado aquilo.
- Então, antes que você comece a se questionar – disse Erin, enquanto ela e andavam pela rua onde a mulher morava – eu não quero que você me fale sobre qualquer coisa que te deixe desconfortável. Eu não estou aqui para te levar à estaca zero.
- Não é como se eu estivesse muito longe dela – deu de ombros, forçando um sorriso para a estilista. – E, de qualquer forma, você com certeza já sabe de tudo.
- Toda história tem várias versões, – a estilista disse. Elas haviam parado em uma pracinha, sentando em um banco extremamente gelado, mas que as inúmeras camadas de roupas que elas usavam ajudaram a amenizar a situação. – Mas, sim, eu já sei o que aconteceu, e eu também sei que a sua versão não vai diferir muito do que eu li e ouvi. A diferença é que eu provavelmente te pinto de uma forma mil vezes melhor do que você está se pintando.
sentia o olhar de Erin sobre si, mas tudo o que conseguia fazer era encarar a fonte congelada a frente delas. Desde a conversa com os pais ela vinha pensando os diversos ângulos de tudo aquilo, e ela estaria mentindo se dissesse que não se culpava parcialmente por tudo aquilo. Talvez ela não devesse ter tirado tantas fotos, talvez ela tivesse que ter protegido melhor suas informações, talvez... talvez... talvez. Aquelas incertezas só faziam ainda mais difícil a saída daquele ponto em que ela havia chegado. Ela sabia que era tóxico, mas não conseguia evitar. Talvez fizesse parte de algum processo de cura? Ela não tinha como saber.
- Eu só queria que tivesse acabado de um jeito diferente – confessou ela, após perceber que ficara um longo tempo em silêncio.
- Ou talvez que não tivesse acabado? – sugeriu Erin, romântica incurável. Podia tudo dar errado na vida dela, mas a estilista nunca permitiria que tudo desmoronasse na vida dos amigos.
- Ia acabar em algum momento, Erin. – finalmente olhou para a mulher ao seu lado. – Se falhasse agora, então depois ela encontraria uma forma de destruir tudo.
- Ela? – Erin parecia confusa, mas sabia que era um ato.
- Eu não fico só remoendo esse fim, sabe? – brincou a mulher. – Não foi só pensando em formas de evitar tudo isso se eu pudesse voltar ao passado que eu passei noites em claro.
- Mas se você sabe que ela...
- Eu não sei de nada, Erin. – suspirou. – Mas não seria bem uma surpresa.
- ...
- Erin, era para acontecer. – O tom da mulher era firme, sua voz levemente embargada. – Talvez ainda não estivéssemos prontos para um relacionamento assim.
- Com certeza o Jeremy não estava.
Doía ouvir o nome dele, mas fez seu melhor para permanecer indiferente. Ela e a estilista ficaram mais um tempo em silêncio, então voltaram a falar sobre outras coisas. A maioria dos assuntos sempre voltando para o quanto Erin odiava o frio, enquanto apenas ria e chutava um montinho de neve para cima da estilista.
Quando voltaram para casa, Cora havia acabado de retornar e já pensava no que fazer para ser uma boa anfitriã. Os pais agiram como se Erin fosse uma colega da faculdade da filha, sequer citando a forma como haviam se conhecido e a pessoa que as havia conectado – teoricamente, havia sido Anna, mas todos sabiam que havia muito mais. Erin se divertiu na casa da família, secretamente celebrando quando, três dias depois, quase véspera de Natal, uma tempestade de neve a impediu de pegar o voo que a levaria para Baltimore, sua cidade natal, onde sua família ainda morava. Ted que dera sorte, tendo chegado naquela manhã, duas horas antes da neve cair.
- Você está mais que convidada a passar conosco, querida – disse Cora, enquanto Erin acompanhava o aplicativo meteorológico.
- Não é como se fossemos ter uma grande festa mesmo – complementou Ted, notando a ausência de enfeites natalinos na casa.
- Comemoraremos o essencial – retrucou Cora, que trabalhava na lista de compras para preparar o jantar.
Erin não apresentou muita resistência, aceitando o convite e rapidamente ligando para sua mãe para informar do imprevisto. Apesar da convidada e do jantar preparado por Cora. O Natal foi apenas mais um dia como qualquer outro – tanto em Norfolk, quanto em Los Angeles. Na cidade dos anjos ainda tivera alguma animação, já que a família Renner inteira se reuniu, mas ninguém conseguia ignorar o clima estranho que estava no ar. Todos sabiam que as coisas estavam erradas, e que havia alguém faltando em ambas as reuniões.
Na manhã do dia vinte e cinco, Ted finalmente conseguira um momento a sós com para conversar com a irmã. Não permitindo que ela entrasse em muitos detalhes após ver que ainda doía falar sobre o ocorrido. Ele agradecia, entretanto, a visita de Erin já que ajudava a irmã a se distrair, apesar de inicialmente ter achado aquilo um pouco perigoso. A estilista era uma lembrança, afinal, e talvez não pudesse fazer tanto bem quanto todos esperavam. Mas Ted acabara mordendo a própria língua ao ver a irmã rindo genuinamente e parecendo mil vezes melhor do que quando conversara com ela pelo facetime dias antes. Ela ainda estava frágil, todos sabiam disso, mas era mais visível o seu esforço para melhorar do que a vontade de permanecer em um buraco de autopiedade.
Infelizmente, no dia seguinte ao natal, Erin tivera que encarar a fazer sua viagem para Baltimore, porém a estilista não conseguia esconder o quanto estava feliz por ser uma visita bem menor do que antes. Ela não tinha um relacionamento bom com a família, e fazia aquelas visitas uma vez ao ano apenas por uma questão de protocolo quase. Ela foi embora de Norfolk com convites para voltar quantas vezes quisesse.
- Eu sei que você está melhorando e quer deixar isso tudo para trás – disse Erin para quando a mulher a levou para o aeroporto. – Mas eu espero que você não deixe exatamente tudo para trás. Los Angeles ainda é a sua casa, , e você não vai ficar desabrigada.
- Erin, eu não...
- Eu sei que ainda é cedo, mas eu estou falando sério. Faz anos que tive uma roommate e gostei bastante da experiência, já está mais do que na hora de eu voltar a ter uma. – A estilista sorriu, puxando a amiga para um abraço apertado. – Você é família, , mais do que os que estou indo visitar. Meu apartamento estará pronto para ser seu quando você estiver pronta.
- Obrigada – disse , sentindo os olhos lacrimejando com a declaração da mulher. – Avise quando desembarcar.
- Até logo.
- Até logo.
Ela não sabia se seria logo mesmo, mas queria acreditar que sim. Claro que sua vida seria difícil ainda por um tempo, mesmo que demorasse um ano para voltar para Los Angeles, aquela dor ainda estaria presente. Mas ela não queria desistir, como seu pai havia dito: não era uma opção. Ela gostava da perspectiva de conseguir melhorar o suficiente para voltar e terminar algo com o qual havia sonhado por tanto tempo.

~ * ~

Enquanto começava seu processo de cicatrização de tudo o que havia acontecido. Jeremy se via impedido de seguir em frente. A discussão com Erin ainda martelava em sua cabeça, e muitas outras que tivera com os parentes durante as festas de fim de ano. Ele vira as fotos da estilista embarcando para uma viagem rápida a Norfolk, tendo passado o Natal com a família da ex-babá e ainda postado em suas redes sociais. Ao retornar para Los Angeles, a mulher lhe fizera uma visita com a intenção de entregar a Ava o presente de Natal que havia comprado para a menina enquanto estivera em Norfolk. Inevitavelmente, Jeremy a questionou sobre a viagem, e Erin não tentara poupar seus sentimentos, como o ator já esperava. Ele havia perguntado porque fora mais forte que ele, mas se pudesse voltar no passado, Jeremy teria escolhido não sentir a dor que sentira por ouvir que ela estava bem, começando a seguir em frente. Ele não sabia se Erin havia sido completamente honesta, se ela havia maquiado a verdade apesar de não achar que ele merecesse uma verdade maquiada, mas o ator não duvidava que fosse possível já estar se recuperando. Seria o mais óbvio a fazer. Ela era uma mulher forte, não esperava que ela fosse ficar sofrendo pelo que havia acontecido.
Jeremy queria ter aquela opção também, mas toda vez que sentia que estava conseguindo, Ava surgia para lhe questionar sobre a babá. Ele estava bem próximo de criar um cartaz para contar quantos dias conseguia ficar sem ter que voltar a pensar na mulher. Seria inútil, óbvio, porque todos os dias ele pensava nela. O cheiro dela ainda estava em seus lençóis, por mais que ele já os tivesse lavado inúmeras vezes. Ava ainda pedia para dormir com o estúpido panda. Ele havia contado para a filha que tivera que fazer uma viagem de emergência, mas a menina era inteligente, sabia que tinha algo errado.
Naquela noite, a segunda do novo ano, ela apareceu na porta do quarto do pai. Os cabelos loiros caiam pelos ombros e seu rosto estava fechado. Fazia semanas que Ava não sorria mais como antes. Fazia semanas que ninguém mais naquela casa sorria como antes. Tudo era cinza. Todos os dias pareciam estar nublados. Ninguém ali agia mais como antes. Sozinha, Ava subiu na cama do pai e se colocou de frente para ele, sentada no colo do homem. Jeremy abaixou o livro que lia e retirou os óculos, encarando a filha que tinha os olhos brilhantes por causa de lágrimas que ela tentava controlar.
- Ela não vai mais voltar, não é? – perguntou a menina, seu tom de voz tão baixo que era quase inaudível. Jeremy suspirou, não tinha como enganar a criança.
- Não, querida – confessou.
- Eu fiz alguma coisa? – perguntou ela. Claro que Ava se culparia. A menina não tinha qualquer consciência das coisas que aprontava, mas ela achava que vinha se comportando muito bem ultimamente.
- Não, meu amor, você não fez nada – Jeremy se apressou em dizer. – Foi o papai que fez coisa errada. Eu que estraguei tudo.
- Então pede desculpas – disse Ava.
- Não é tão fácil assim, Ava. – O ator suspirou, puxando a filha para um abraço quando ela começou a chorar. A menina se acomodou nos braços do pai, o rosto afundado no peito dele. Ele não teria escutado se a casa não tivesse em completo silêncio, e ele nunca desejou tanto na vida voltar no tempo apenas para não escutar o que Ava disse.
- Ela nem me disse tchau.
Era óbvio que não havia se despedido da menina. E era óbvio que até aquilo era culpa dele. A mulher estava tão machucada, tão decidida a sair logo de perto dele que nem conseguira parar para se despedir de Ava. Talvez soubesse que não conseguiria ir embora se parasse para falar com a criança. Em todo caso, sua filha não havia ganhado uma despedida e a culpa era dele.
Quantas vezes mais alguém teria que apontar, direta ou indiretamente, que tudo aquilo era culpa dele? Talvez ele precisasse fazer uma declaração pública assumindo que já sabia que era o culpado de tudo. Ninguém mais precisava ficar jogando na cara dele toda hora.

Capítulo 16

O mês de janeiro se estendeu de forma lenta e torturante, parecia um daqueles meses infinitos. Não importasse o quanto a pessoa se ocupasse durante os dias, o quanto corresse... O mês não passava. Os dias pareciam durar mais do que vinte e quatro horas e o tempo só castigava ainda mais. Era a temporada mais fria que haviam presenciado em Norfolk, e Los Angeles finalmente tivera uma chuva que castigara a cidade impiedosamente. Apesar disso, o que viera rápido demais foi o primeiro fim de semana do mês, no qual caíra o aniversário de Jeremy. acordou na manhã do domingo com lágrimas nos olhos ao se lembrar de uma manhã em que haviam planejado como iriam comemorar aquela data. Jeremy prometera um dia leva-la para a Noruega, onde eles dormiriam naqueles iglus com tetos de vidro para admirarem a aurora boreal. Naquele ano, entretanto, ele havia sugerido de irem a um local mais próximo e mais reservado, onde pudessem aproveitar mais tranquilamente. A desatenção da mulher naquele dia fora tão grande, que Ted quase cancelara seu voo de volta para Berlim, mas sua irmã se recusou a permitir. garantiu que estava bem e que estava na hora de seguir em frente total. Novo ano, nova . Não era aquilo que costumavam dizer? Ela não era muito de decidir metas de ano novo, mas considerou que não faria mal adotar pelo menos uma.
Aos poucos, adotou uma boa rotina, saindo para uma corrida pela manhã, voltava para tomar um banho e o café da manhã, e então saia para ajudar seu pai no consultório ou sua mãe na pequena boutique que a mulher possuía. Por ser janeiro, o movimento em ambos os locais era bem lento, então tinha mais liberdade para sair pela cidade e ver o que havia mudado durante o tempo que ficara ausente.
Durante as corridas, percebeu que se sentia muito mais relaxada e no controle de suas emoções. As caminhadas pela cidade também causavam o mesmo efeito. Era como se ela estivesse na reabilitação, vivendo um dia de cada vez e se livrando de algum vício. Porém, por mais que corresse, não conseguia ficar longe de seus problemas por muito tempo.
Em determinado dia, quase duas semanas após o aniversário de Jeremy, recebeu um e-mail que ameaçava estourar sua bolha. Era seu orientador do mestrado, finalmente respondendo a mensagem que ela havia enviado ainda em dezembro, informando que precisava de umas férias estendidas devido problemas pessoais. Agora, o professor entrava em contato perguntando sobre os planos da mulher para o restante do semestre. sentiu o coração apertar ao ler aquela mensagem. Lembrava-se do que havia prometido não só a si mesma, mas a seus pais, Ted e até mesmo Erin. Não desistiria de seu sonho. Mas será que era forte o suficiente? Ela podia estar bem, mas uma coisa era estar bem ali, em Norfolk, há mais de quatro mil quilômetros de distância de Los Angeles e a fonte de seu problema. Ela era forte, não duvidava disso, mas ainda era tudo tão recente. Ela não estava pronta para lidar com aquilo. Mas também não conseguia colocar em palavras para explicar a seu professor, então simplesmente fechou o e-mail e entrou no youtube para ver alguns vídeos e distrair sua mente.
Mas naquele dia parecia que o universo estava contra ela. Na página inicial do site que há muito tempo ela não visitava, estavam as recomendações baseadas nos vídeos que ela já havia assistido ali. E talvez tenha sido algo mais forte que ela, muito mais forte, ou apenas a sua mente masoquista que fez com que ela clicasse em uma entrevista que Jeremy dera a Ellen DeGeneres alguns anos atrás falando sobre Ava. amava aquela entrevista, se fosse conferir, talvez a tivesse colocado entre seus favoritos. Ela gostava da forma como Jeremy falava da filha, do carinho que transbordava em suas palavras. Da forma como ele afirmava que Ava havia mudado sua vida, e que agora ser pai era seu principal trabalho. sequer viu algo do vídeo, seus olhos embaçados com as lágrimas que surgiram antes mesmo que a entrevista começasse. Deus, como ela sentia falta daquela família. Daquela menina. Daquele homem que, por mais que ela tivesse tentado, ainda não conseguia abandonar seus sonhos à noite.
E ela ainda pensava em Ava, óbvio, não tirava a criança da cabeça. No começo havia sido dolorido, mas aos poucos ela começava a se lembrar da menina com alegria, imaginando como ela deveria estar, provavelmente a mesma menina arteira e serelepe de sempre. E era óbvio que Erin sequer ousava manchar essa imagem que havia construído. Afinal, enquanto em Norfolk as coisas começavam a avançar, em Los Angeles tudo parecia ruir cada vez mais.

Erin não sabia mais o que fazer para ajudar aquela família. Ela havia conversado com os irmãos do ator, com Valerie, com os colegas da Marvel, mas nada e ninguém conseguiam afastar a nuvem negra que havia se instalado na casa dos Renner. Jeremy parecia definhar, tentando focar em reuniões para definir sua agenda do ano, mas não conseguindo se concentrar em nada por mais de cinco segundos. Enquanto Ava... Partia o coração de Erin ver o quanto a menina estava abatida, apática. Quanto tempo fazia que vira um sorriso no rosto da criança? Toda vez que os visitava, era recebida com um abraço seco e silêncio. A casa uma bagunça, caixas de pizza e demais comidas espalhadas por todo o canto.
Com muito esforço, em determinado dia em que o sol resolvera dar o ar de sua graça, Erin conseguiu tirar pai e filha de casa. Ava alegava estar cansada, mas Erin se recusou a aceitar não como resposta. Eles iriam sair daquela casa nem que fosse para dar uma volta pela rua onde moravam. Jeremy sequer se mexeu para trocar de roupas, apenas seguindo Erin e Ava para fora de casa e seguindo a mulher uma vez que chegaram à calçada.
Era um belo dia, não havia como negar, mas também não tinha como ignorar que eram dias como aqueles em que ele, e Ava saíam para passeios como o que faziam agora. Era em dias como aqueles, que a ex-babá e sua filha o enganavam para burlar a dieta da menina e o faziam topar sair para tomar um sorvete. Era em dias como aqueles que, mesmo dentro de casa, as risadas das duas ecoavam por todos os cômodos, chegando até ele no escritório e o fazendo largar todos os seus afazeres para contemplar uma das melhores cenas que era e Ava brincando juntas. Era em dias como aqueles, que ele via com mais intensidade o brilho que possuía e que havia iluminado a vida dele.
No meio do passeio, o celular de Jeremy tocou e ele pediu licença para atender, mostrando o identificador para Erin que logo reconheceu o nome da empresária do ator. Ela se ocupou em prestar atenção em Ava, que passava pelas flores e borboletas sem mostrar qualquer interesse nelas. Dos dois, a menina era a que mais lhe preocupava. Jeremy era grandinho, eventualmente iria conseguir deixar aquilo no passado, mas talvez Ava acabasse se perdendo no processo. A menina já tinha que lidar com a mãe ausente e irresponsável, agora tinha que superar um coração partido por alguém que lhe mostrara como uma mãe realmente deveria e poderia ser.
- Você tem certeza? – Erin ouviu Jeremy perguntar no telefone, a voz mais alterada que o normal. – Não, eu sei...
Erin queria prestar atenção no ator, sempre a definição de curiosidade, mas um barulho de algo caindo chamou sua atenção e ela se alarmou ao ver Ava desmaiada, um filete de sangue escorrendo de sua testa pela batida no concreto quando a mulher a virou para ver como a menina estava. A pele já branca estava ainda mais pálida, os lábios pareciam se misturar com a pele do rosto, e Erin se arrepiou ao sentir o corpo gelado da menina.
- Jeremy! – gritou ela, olhando para o ator, que a olhou e rapidamente arregalou os olhos, ficando tão pálido quando a própria filha.
- Eu te ligo depois.
Erin pegou o celular do ator rapidamente enquanto ele tentava reanimar a filha, ligando para a ambulância e pedindo urgência. Suas mãos tremiam e lágrimas escorriam de seus olhos sem que ela percebesse. Já havia visto Ava passando mal, mas nunca daquela forma. A respiração estava fraca e as veias eram visíveis pela pele pálida da menina. Quando a ambulância chegou, ela ainda não havia acordado.

As horas se arrastaram enquanto Jeremy e Erin esperavam no hospital. A sala de espera estava movimentada, mas ninguém ficara ali mais tempo que os dois. Erin estava sentada, os braços cruzados e os lábios e dentes entretidos mordiscando a unha de um dos dedos, enquanto Jeremy andava de um lado para o outro, vez ou outra parando quando via a porta de acesso dos médicos se abrindo. Mas nunca chegavam. Ele já não sabia mais o que fazer. A última vez que vira sua filha parecia dias atrás e não apenas algumas horas, e não era a melhor memória que o ator tinha. E, como já estava acostumado a fazer aquilo nas últimas semanas, Jeremy começou a se culpar. Ele sabia qual era o problema, estava visível há muito tempo, mas ele ignorara por focar em sua própria dor. Ele não precisava de um médico para informar o que estava errado, ele já tinha aquela resposta.
Como num filme, as últimas semanas passaram em sua mente. A forma como Ava ficara após a partida de – ele deveria ter ido atrás da mulher para que ela se despedisse da menina. Os hábitos alimentares deles, Jeremy simplesmente não conseguia mais se organizar para preparar as comidas como antes. O descuido com Ava e a rotina dela, a falta de atenção dele com ela. Jeremy fora egoísta, pura e simplesmente. Estava tão focado em sua própria dor, tão imerso naquela piscina de culpa, que não percebera o que acontecia ao seu redor. Em como sua própria filha se culpava pela partida repentina da babá. Em como Ava havia parado de se importar em manter sua saúde em dia. Se nem seu pai estava ligando, por que ela o faria? Ele era tão burro. Erin já havia falado, sua mãe, seus irmãos, seu pai... Todos haviam deixado bem claro como ele era burro, mas Jeremy preferiu ignorar, mesmo com a resposta tão óbvia, ele preferiu ignorar e se afundar cada vez mais. Nem percebendo que não estava sozinho.
- Senhor Renner? – Uma voz o tirou de seus devaneios e ele focou no médico que vinha em seu encontro. As mãos nos bolsos do jaleco e a expressão séria. Erin se levantou e se aproximou deles, querendo ouvir o diagnóstico.
- Como está minha filha?
- Ela ainda está inconsciente, e não demonstrou ainda nenhuma reação aos remédios – disse o médico. Erin segurou o braço de Jeremy, sabendo que aquilo não era bom. – Começamos a administrar soro também, para hidrata-la, e algumas vitaminas para repor algumas deficiências. A condição da sua filha é delicada, senhor Renner, e com a falta de medicamentos, a lúpus voltou a atacar, os rins de Ava estavam prestes a entrar em falência.
- Falta de remédios? – perguntou Jeremy, claramente confuso. – Ela tem tomado todos os remédios.
- Perdão, senhor, mas nós realizamos os exames necessários e o quadro de Ava indica que ela não vinha tomando a medicação. Em fato, mais alguns dias e a situação dela seria ainda mais grave, e teríamos que considerar coloca-la na fila de transplantes.
- Mas não precisaremos, certo? – perguntou Erin, já que Jeremy parecia ocupado demais ainda digerindo a notícia que Ava não vinha tomando os remédios.
- É muito cedo ainda para dizer – disse o médico. – Ela precisa reagir ao tratamento, e então poderemos eliminar todas as medidas extremas.
A mente de Jeremy parecia um furacão. Só agora ele sentia o quanto havia negligenciado Ava, nem mesmo os remédios ele vinha conseguindo controlar. Eles o dava a ela, claro, mas havia perdido o costume de garantir que ela havia engolido tudo. O que ele havia feito? Se tornara um inútil no único trabalho que prometera nunca falhar: proteger sua filha.
Perdido em pensamentos, nem viu quando o médico se afastou após garantir que os dois poderiam ir visitar a criança em breve. Erin o levou para sentar em uma cadeira, temendo que ele desmaiasse ali e causasse outra comoção.
- Jeremy – chamou ela, dando um tapa leve no rosto do ator. Ele piscou e a encarou.
- A culpa é minha – disse ele. – Eu... eu falhei, Erin.
A estilista se viu perdida diante aquilo, pois mal tivera tempo de reagir às palavras do ator, vieram as lágrimas e Jeremy caiu em seu colo, as lágrimas molhando suas pernas e os soluços fazendo tremer até mesmo seu corpo. Ela sentiu que chorava também, mas tentou se manter silenciosa, abraçando o ator como podia e deixando que ele colocasse para fora tudo o que, com certeza, vinha segurando por muito tempo. Aquela cena era de partir o coração, ela nunca vira Jeremy chorando daquela forma, e ainda tendo que se preocupar com Ava. Com certa dificuldade, ela conseguiu pegar o celular e mandar uma mensagem para o Evans, informando do que havia ocorrido com a garota e pedindo para ele espalhar a notícia. Ela preferiu não avisar , sabendo que aquilo deveria ser uma decisão de Jeremy.
Eles ficaram ali por um longo tempo, e Erin agradeceu por naquele momento aquela sala de espera ter ficado vazia. Em determinado momento, Jeremy nem chorava mais, apenas permanecia ali nos braços da estilista, torcendo para que alguém surgisse para dizer que era tudo mentira, apenas uma pegadinha de muito mal gosto e que aqueles últimos meses não haviam ocorrido. Que ele estava vivendo numa realidade alternativa... Qualquer coisa, menos que tudo ao seu redor estava ruindo e ele não tinha como consertar.
- Jeremy, você precisa ir vê-la. – Erin não queria tira-lo dali, fazê-lo encarar a realidade que o esperava, mas Ava precisava do pai dela.
- Eu não posso – sussurrou o ator. – É minha culpa. Ela não vai querer me ver. Eu não a mereço. – Erin ficou em dúvida sobre quem ele estava falando, mas preferiu guardar para si. De qualquer forma, não era aquela postura que Ava precisava naquele momento e Erin sabia que, mais uma vez, teria que ser a vilã da história.
- Ok, chega – disse ela, forçando o ator a se levantar e encará-la. – Chega de auto piedade, de se martirizar. Sua filha está internada, em estado grave, e talvez seja sua culpa, talvez não, ninguém sabe e ninguém se importa. O que importa é que a Ava precisa de você. Então você vai engolir toda essa culpa que tá sentindo, e vai ficar do lado dela até que ela diga: pode ir, papai, eu estou bem. Você mesmo disse que falhou, então você mesmo vai consertar seu erro. – O tom de voz ela sério e Jeremy sabia que não podia questionar ou tentar discutir, a estilista era boa demais na maioria do tempo, mas quando assumia seu papel de carrasca, não havia como lutar contra. – Agora, eu já avisei o Evans e pedi para ele passar o recado para frente, mas você precisa avisar sua mãe e a Sonni. Por mais que eu ache que ela vai fazer mais mal do que bem, ela ainda é mãe da Ava e precisa saber. – Erin estava destruída por dentro, claro, mas teria tempo para sentir sua própria dor pela situação depois. – Então se recomponha, ligue para elas e depois entre naquele quarto e fique ao lado da sua filha.
Jeremy nem mesmo tentou discutir, seguindo à risca todas as ordens da estilista, pedindo para que sua mãe passasse adiante o que havia ocorrido, e garantindo a Sonni que ligaria caso alguma coisa mudasse já que, surpreendentemente, a mulher estava ocupada e não tinha como viajar para ver a filha. Depois, ele fez uma viagem ao banheiro para lavar o rosto, e então seguiu para o quarto de Ava, sorrindo agradecido para o médico que havia lhe dado todas as notícias e saía do local.
- Ela acordou agora pouco, mas ainda está um pouco confusa – informou ele, Erin vinha um pouco atrás do ator. – Desculpe, mas no momento só família.
- Ah, ok, eu...
- Ela é família – disse Jeremy, olhando a mulher. Se fosse bem honesto, não era exatamente aquela companhia que ele queria, mas sabia que não estava em posição de exigir nada, então aceitaria o que tinha a sua disposição. Erin era uma companhia tão boa quanto qualquer outra. Ele havia dito aquilo no impulso, mas não deixava de ser verdade: Erin era família.
- Muito bem – o médico disse, não disposto a discutir com um pai em dor.
Não importasse quantos anos Ava tinha, Jeremy nunca estaria preparado para ver sua filha em uma maca, com tubos se ligando a agulhas espetadas em seus braços finos e pequenos. Os cabelos loiros e sem brilho espalhados pelo travesseiro que parecia tão branco quanto sua pele. Seus olhos estavam fechados, as pálpebras arroxeadas, um tubo passava por suas bochechas, enviando oxigênio a seus pulmões para melhorar a respiração da garota. Havia uma espécie de pregador em seu dedo indicador, controlando os batimentos cardíacos da menina. A cama era grande demais para seu corpo que parecia ainda menor do que Jeremy estava acostumado. Seus olhos arderam e a respiração faltou, ele agradeceu o toque firme de Erin em seu braço, o empurrando para se aproximar da filha.
Havia uma poltrona ao lado da maca, e Jeremy logo a ocupou. Os dedos trêmulos tocaram a pele de Ava, e ele afastou ao senti-la tão fria. Não fosse o monitor que indicava os batimentos cardíacos, e o peito da menina que subia e descia fracamente, Jeremy podia jurar que sua filha estava morta. Mas, para seu alívio, as pálpebras tremeram quando ela tentou abri-las após sentir o toque quente do pai. Jeremy reuniu coragem e fechou sua mão ao redor da pequena da filha, sorrindo com os olhos lacrimejados quando levantou o olhar e viu que ela o encarava. Os olhos claros da menina estavam opacos, um pouco sem foco, mas Jeremy sabia que era para ele que ela olhava. Ele deu um sorriso trêmulo, e prendeu a respiração sem perceber ao ver que ela começava a falar.
- Papai – a voz saiu baixa e rouca, quase sem força. Um mero suspiro. Jeremy se viu chorando, encostando a testa no braço da filha e chorando copiosamente, como havia feito no colo de Erin.
A estilista, por sua vez, se retirou do quarto ao ver o ator ocupando a poltrona. A cena que vira era forte demais para ela. Lhe causava dor física ver Ava naquele estado, ela não conseguia. Tinha que ser forte por Jeremy, mas não o conseguiria dentro daquele quarto. Queria poder trocar de lugar com a menina, para que ela não tivesse que sofrer qualquer dor que fosse, nem mesmo de uma unha encravada. A estilista respirou fundo, fechando os olhos e tentando apagar o que havia visto, mas sabia que era inútil. Ela agradeceu ao sentir seu celular vibrando em sua mão.
Valerie, acompanhada dos filhos, logo chegaram ao hospital, agradecendo Erin pelo resumo que ela lhes passara antes da matriarca da família se adiantar para entrar no quarto de Ava. A menina havia voltado a dormir, agora por efeito dos remédios, e Jeremy não conseguia tirar os olhos da filha, sempre checando se ela ainda estava respirando e se os batimentos ainda estavam sendo controlados. Ele só desviou quando sentiu uma mão familiar em seu ombro, virando a cabeça para encarar sua mãe. As lágrimas voltaram com força, e o ator não sabia explicar com que força ele conseguira se levantar para se jogar nos braços da mulher e deixar que ela lhe consolasse como só uma mãe conseguiria fazer.
Não havia o que dizer, não havia qualquer outra coisa para sentir. Pelos próximos dias, a tensão ao redor daquele quarto era palpável e muitos queriam poder pegar uma faca para poder cortá-la. E todos, sem exceção, queriam poder tomar o lugar de Ava, que passava mais tempo dormindo do que acordada. Os médicos diziam que estavam notando melhoras, mas ninguém acreditava. Se ela estivesse apresentando melhoras, não teria que receber uma medicação tão pesada, certo? Ela não se sentiria nauseada durante o tempo que ficava acordada. Ela não estaria com uma aparência cada vez mais pálida.
Sonni finalmente se juntara ao receber uma ligação nada feliz de Jeremy, explicando a gravidade da situação e a necessidade que a presença da mulher tinha ali. Apesar do tratamento sempre distante, nem mesmo ela conseguiu fugir da dor ao ver sua filha naquela maca. Os olhos claros sempre brilhantes e alegres, não importasse a situação, agora opacos e desfocados. Não conseguindo manter sua atenção em algo por muito tempo. Ela tinha uma coleção de bichos de pelúcia ao seu redor, mas o único na cama era um panda que Sonni nunca havia visto. Ela e Jeremy começaram a revezar o tempo que passavam naquela poltrona, mas nem mesmo a presença da mãe mostrou qualquer melhora no quadro da menina.
O ator estava no corredor pegando um pouco de água quando sua irmã, Nicky, se aproximou. A expressão dela espelhava a dos demais: abatida. A preocupação sempre presente, tanto pela criança internada quanto pelo irmão, que parecia prestes a sucumbir a qualquer segundo e exigir uma maca próxima a filha. Os dois irmãos se abraçaram com força – como todos os abraços que Jeremy recebia ultimamente – e então Nicky encarou o irmão. Todos os que passaram por ali vinham pensando e conversando sobre uma única coisa, era um acordo mútuo que aquilo precisava ser discutido com Jeremy, mas ninguém tinha a coragem de abordar o assunto. Mas alguém precisava.
- Jer, – Nicky suspirou, olhando o irmão com atenção – todos nós sabemos quem realmente deveria estar aqui.
- Nicky, eu não estou no humor para isso.
- Você não está no humor para nada, nós sabemos e entendemos – a mulher disse. – Mas ignorar isso não vai fazer com que a Ava melhore. Você quis acreditar que a Sonni poderia ajudar, e agora viu que não é disso que ela precisa.
- Sonni acabou de chegar.
- Faz uma semana, Jeremy – corrigiu Nicky. Ela mordeu o lábio inferior por um tempo, ponderando sobre o que teria que dizer a seguir, mas não havia uma forma de dizer. Era necessário, por mais que doesse. – Não me odeie por isso... Mas engula sua própria dor e considere a da Ava.
- Você acha que não estou considerando? Minha filha está sofrendo, Nicky, eu daria tudo para estar no lugar dela.
- Não essa dor, Jer – esclareceu Nicky, não demorando a perceber quando Jeremy finalmente entendeu.
- Ligue para ela, querido. – A voz veio de trás de Jeremy, e ele não se surpreendeu ao encontrar Valerie ali, tendo reconhecido seu timbre tão único. – Pela Ava.
- Vocês não entendem – Jeremy suspirou, passando a mão pelo cabelo. – Eu já tentei, inúmeras vezes... Ela não me atende.
- Ela vai atender alguém – disse Valerie, com Nicky a apoiando.
As duas mulheres não esperaram Jeremy responder, saindo para deixa-lo pensando. Mas o que havia para pensar? Desde o segundo dia que Ava estava naquele hospital que Jeremy vinha tentando ligar para , mas ela deveria ter bloqueado seu número, pois sempre caía direto na caixa postal. Ele não sabia mais o que fazer. Tinha consciência desde o começo que a mulher era sua maior aposta para a melhora da filha, mas diante a resistência dela, ele resolvera apostar um pouco em Sonni. Não diziam que a mãe era muitas vezes o melhor remédio? Que a simples presença da mãe ao lado da filha já melhorava muitos sintomas? Estava tão errado que até chegava a ser cômico.
Jeremy se apoiou na parede e escorregou até o chão, seu celular desbloqueado na mão e os dedos já deslizando a tela até chegar ao nome de . Mesmo sabendo que o resultado seria igual, ele selecionou o nome e logo depois confirmou a chamada. Nem mesmo chamou, em segundos ele ouviu a voz da secretária eletrônica. Jeremy sentiu como se o buraco em seu peito aumentasse. O que ele iria fazer? O ator encarava o celular, esperando que a resposta aparecesse como um passe de mágica... E foi quase como isso.
- Claro! – exclamou ele, ao reconhecer o nome abaixo de . Como poderia ter demorado tanto para pensar naquilo? Sem parar para considerar se seria atendido ou não, o ator confirmou a ligação e prendeu a respiração enquanto os toques da chamada soavam. Ele nem mesmo parou para considerar a hora, desistiria se pensasse demais. Felizmente, cinco toques depois, ele foi atendido. – Eu preciso da sua ajuda... É a Ava.

~ * ~

- Nós temos esse horário disponível na próxima semana, serve? – sorriu ao ouvir a pessoa conversando do outro lado, o lápis tamborilando na mesa. – Sim, na primeira semana de fevereiro. Pode ser? Ótimo, está marcado, sra. Gomez. Eu que agradeço.
O telefone foi colocado na base e se apressou em escrever o nome da paciente no local indicado. Já havia se habituado àquela rotina, substituindo uma funcionária da clínica que engravidara e entrara em trabalho de parto bem antes do previsto. Felizmente, era o começo do ano e o movimento não era tanto. Ela começava a conferir os pacientes do dia seguinte para ligar e confirmar as consultas quando seu celular começou a tocar. A mulher revirou os olhos ao ler o nome do irmão, haviam acabado de trocar mensagens.
- Ted, acabamos de conversar – disse ela, tentando controlar a risada, mas falhando.
- – o tom de voz do irmão a alarmou e ela sentiu o coração perder uma batida.
- Ted, aconteceu alguma coisa? Você está bem?
- Eu? Não, não é comigo – disse o rapaz, como poderia dizer aquilo? – Mas aconteceu algo.
- Você está me assuntando, diga que não é uma pegadinha.
- Não é, ... É sério, é sobre a Ava.
Tudo ao seu redor sumiu e ela ouviu ao longe seu irmão explicando o que havia acontecido e por que havia tanta urgência. Sua respiração estava suspensa e parecia que o sangue havia parado de correr por seu corpo, porque ela estava pálida e extremamente gelada. Mal tendo percebido quando disse qualquer coisa a Ted e encerrou a ligação. Era sobre Ava e ela sabia que não era uma brincadeira, Ted não brincaria com aquilo. De repente, agora ela entendia a quantidade de notificações de ligações desviadas do Jeremy. Ela havia bloqueado seu número, mas ainda era notificada caso ele tentasse lhe ligar. E já faziam umas duas semanas que o ator tentava se comunicar com ela. havia até mesmo considerado retornar alguma ligação, mas se fosse algo muito urgente, Erin poderia ter lhe ligado, não é? Aliás, agora que pensava naquilo, por que Erin não havia ligado para lhe informar?
Parecia uma resposta óbvia, mas não conseguiu encontra-la e não era aquilo que precisava de urgência no momento. Rapidamente, ela abriu o navegador do computador e pesquisou por passagens para Los Angeles, iria no primeiro encontro que tivesse disponível, daria um jeito de explicar rapidamente o que havia acontecido aos pais e faria qualquer promessa que eles pedissem.
- , querida, poderia... Los Angeles? – Seu pai surgindo do nada fez com que ela pulasse. O homem encarou a filha e percebeu que havia algo errado, a palidez dela era preocupante e a forma como seus dedos tremiam enquanto tentavam digitar seus dados para a compra da passagem era bem evidente. – , o que aconteceu?
- Eu pre.... Eu tenho que... Eu... Meu deus – ela parou e fechou os olhos, respirando fundo, se afastando do computador. Jeff se apoiou na mesa, olhando a filha com preocupação. Por fim, ela conseguiu se concentrar o suficiente para passar a informação básica e necessária. – Ava está no hospital e é grave.
- Meu deus – Jeff exclamou. Ele olhou a tela do computador e depois para a filha. – Vá para casa, arrume suas malas, eu finalizo a compra e depois te levo ao aeroporto.
- Pai, seus pacientes...
- Vai, .
Foi a primeira vez que agradeceu por seu pai trabalhar tão perto de casa desde que havia voltado. Ela correu para casa, surpreendendo sua mãe, que naquele dia não havia ido trabalhar e já havia recebido o telefonema de Jeff. Cora acompanhou a filha até o quarto da mulher, ajudando-a a arrumar a mala e lhe dando um forte abraço quando não conseguiu soltar uma blusa do cabide. Ela nem sabia o que devia colocar na mala, mal sabia por que tinha que levar uma mala, mas parecia a coisa certa a fazer. Ligaria para Erin no caminho até o aeroporto e a informaria de sua viagem e o horário que chegaria. A estilista havia oferecido sua casa, certo? E sabia que a mulher não sairia de Los Angeles tão cedo. Não enquanto Ava estivesse internada.
Seu voo sairia apenas no final da tarde, e ela nunca odiou tanto o tempo por passar tão devagar. Já havia até mesmo adiantado sua conversa com Erin – que havia se desculpado por não ter informado a ex-babá do estado da criança, dizendo que era algo que sentia que Jeremy deveria ter feito desde o começo – e combinado que a estilista a buscaria no aeroporto e a levaria direto para o hospital.
Seria o dia mais longo de sua vida, não tinha dúvidas daquilo.

~ * ~

As horas se arrastavam, o tempo parecia estagnado, Jeremy não aguentava mais encarar aquelas paredes. Ele queria estar no quarto, ao lado de Ava, não preso naquele refeitório bebendo um café horrível e fingindo comer um lance ainda pior. Já era quase meia-noite, ele já estava ali há um bom tempo, mas sua mãe se recusava a deixa-lo sair dali para voltar a se confinar no quarto da menina. Ele olhou para a matriarca sentada a sua frente, suspirou e disse que sairia para tomar um ar. Valerie não discutiu, secretamente aliviada por ver o filho finalmente ceder e sair daquele ambiente, ainda que somente por cinco minutos.
O ar frio o recebeu e Jeremy suspirou, sentindo seu corpo se arrepiar, mas não voltaria para pegar um casaco. Sabia que se o fizesse, não sairia mais. Ele colocou as mãos nos bolsos da calça e se afastou um pouco da entrada do hospital, caminhando em direção à escadinha que havia em frente. Quanto estava quase chegando, entretanto, ele parou sua caminhada, reconhecendo sem dificuldades a figura prestes a subir os degraus. Mas ela também o havia reconhecido, e por um breve momento também prendeu sua respiração. Ela se recuperou mais rápido que ele e finalmente subiu os degraus, parando em frente ao ator.
não sorriu para Jeremy ou correu para seus braços. Ainda que o ator quisesse fazer aquilo com ela. Os dois se olharam por um breve momento, percebendo as pesadas olheiras sob os olhos dele, que parecia ter envelhecido décadas desde a última vez que se viram. Ela engoliu em seco, sentindo uma vontade quase incontrolável de abraça-lo e consolá-lo, mas ela não conseguia. Só ali, parada em frente a ele, percebeu como ainda doía e como parecia recente a separação deles e suas circunstâncias.
- Ted ligou – disse ela, quebrando o silêncio entre eles, e percebendo quando Jeremy soltou o ar. – Vim o mais rápido que pude.
- Obrigado – disse o ator, não sentindo a necessidade de se desculpar por incomodar o irmão da mulher, já havia feito aquilo com o próprio.
- Como ela está? – perguntou , sentindo o coração acelerar só de pensar na situação da menina.
- Dormindo – respondeu ele. – Vai e volta por causa dos remédios.
ficou em silêncio, assim como Jeremy. Os dois notando como os recentes acontecimentos não haviam feito bem a ninguém. Uma pequena parte dela acreditava que parte do cansaço dele se devia ao que havia acontecido entre eles, mas se recusava a alimentar essa parte. As palavras acusatórias dele ainda bem claras em sua mente. Jeremy via a dor nos olhos dela, como parecia ser extremamente doloroso para ela estar ali, enquanto ele se sentia aliviado pela sua presença. Se o ator não tivesse conseguido falar com Ted, Jeremy abriria mão de algumas horas ao lado da filha para ir busca-la em Norfolk e imploraria de joelhos se fosse necessário para que ela o acompanhasse. Ele sabia que aquele desespero não era somente devido ao estado de Ava, e vez ou outra aos pedidos fracos que a menina fazia, era algo mais egoísta que o deixava envergonhado quando ele parava para pensar sobre.
- O que aconteceu? – voltou a quebrar o silêncio, querendo a única informação que Ted não havia conseguido lhe dar, e Erin havia se recusado, alegando que era algo que o Jeremy deveria passar.
- Você foi embora – respondeu o ator, imediatamente se arrependendo. Seu tom de voz havia saído errado e ele rapidamente viu o relampejo de mágoa nos olhos da mulher a sua frente.
- Até nisso você vai colocar a culpa em mim? Foi para isso que você se deu ao trabalho de ligar para meu irmão? Para eu vir aqui e você me culpar de novo?
Toda a indiferença que ela havia mostrado até então havia sumido, Jeremy se sentiu pior do que já estava. Se não tomasse cuidado, iria embora a última esperança de melhoras de Ava, e dele próprio.
- Não, não foi isso que eu... Desculpa, tem sido difícil e eu ainda não consegui entender quando tudo começou a desandar. – suspeitou que ele não se referia somente a Ava, mas que voltava um pouco mais no tempo. Ela mordeu a língua, segurando a resposta que surgiu imediatamente. Não era aquele seu objetivo ali. Resolveu esperar pacientemente até o ator voltar a falar. – Ava parou de tomar os remédios como deveria, e eu me descuidei com a rotina dela, a lúpus se agravou. Ela desmaiou no meio da rua durante um passeio... Mais um pouco e seria tarde demais para reverter.
teve que abaixar a cabeça para disfarçar as lágrimas. Talvez fosse um pouco de culpa dela, afinal. Mas, naquele momento, ela não sabia se sentia mal por Ava ou pela dor que transbordava por Jeremy. Ele estava destruído por dentro e por fora. Parecia que os danos eram irreparáveis.
- Sinto muito.
- Ela sente sua falta – disse ele, seu tom indicando que Ava não era a única. – Chama por você quando está acordada, às vezes durante o sono.
- Por isso você me ligou – concluiu a mulher.
- Sim.
- Se ela não chamasse, você me falaria? – perguntou ela, apesar de temer a resposta. Jeremy suspirou, assentiu. – Você ainda acha que eu sou a culpada por antes.
- ... – Jeremy passou a mão no rosto, o desespero visível. Ele queria sentar e conversar com ela, falar tudo, mas sentia que não era o momento apropriado. Ainda que perdesse a oportunidade de tentar reconquistar a mulher, não era aquele o objetivo no momento.
- Posso vê-la? – dispensou qualquer coisa que ele fosse dizer com um gesto da mão, decidida a não seguir por aquele momento. Sabia que não faria bem a ninguém, principalmente Ava.
- Claro, eu te levo – disse Jeremy, indicando a entrada do hospital.
Todo o caminho eles fizeram em silêncio, o único momento em que falara algo foi na recepção, para fazer um rápido cadastro. Dali, seguiram para o elevador e foi a viagem mais longa de todas, mesmo sendo apenas dois andares. Quando chegaram ao corredor do quarto de Ava, parou, chamando a atenção de Jeremy, que logo entendeu ao seguir seu olhar e ver para quem olhava.
- O que ela está fazendo aqui? – Sonni perguntou, esquecendo por um momento que estava em um hospital. – Veio procurar sua próxima história? Quanto te ofereceram para juntar informações e passar para eles?
- Sonni! – Exclamou Jeremy, surpreendendo todos que estavam no corredor, principalmente . – Eu a chamei. E se tem alguém, além da Ava, com quem eu devo me preocupar é você, não a .
Aquilo deixou a ex-babá curiosa, ainda mais após a reação que Sonni tivera, simplesmente fechando a boca e voltando a se recostar na cadeira que ocupava. decidiu que guardaria sua curiosidade para mais tarde, pois sua mente resolveu traí-la quando sentiu Jeremy tocando seu braço para que ela o acompanhasse até o quarto. Foi como se algo tivesse lhe dado um choque, sentiu toda a região formigar e, pelo olhar que Jeremy lhe direcionou, ele também havia sentido.
A mãe do ator estava no quarto e levantou a cabeça ao ouvir a entrada dos dois. sentiu-se envergonhada, sem saber qual opinião Valerie tinha dela após tudo o que havia acontecido. A mais velha sorriu para o casal, dizendo que era muito bom ver , e confirmou que nada havia mudando, saindo do quarto logo em seguida. ficou parada em seu lugar enquanto Jeremy se aproximava da maca grande demais para o tamanho da pessoa que a ocupava. engoliu em seco, notando o bolo que havia formado em sua garganta, e antes que pudesse perceber, as lágrimas já escorriam livremente por seu rosto. Jeremy a olhou quando ouviu o primeiro soluço e estendeu a mão, convidando a mulher a se juntar a ele. Relutante, ela o fez, conseguindo controlar as lágrimas enquanto se aproximava.
Ava estava mais magra e pálida do que ela se lembrava. Havia uma cânula em seu nariz e uma agulha conectada a um tubo em sua mão, lhe fornecendo soro e a medicação. Seus cabelos estavam espalhados pelo travesseiro e o rosto transmitia uma paz ilusória, que logo acabaria quando ela acordasse, suspeitou . O braço com agulha agarrava firmemente um bicho de pelúcia extremamente familiar para a mulher, que sentiu o coração se apertando ainda mais. Jeremy segurou a mão da mulher quando ela chegou perto o suficiente, entrelaçando seus dedos. Ela não recusou o gesto, sua atenção focada em Ava, que parecia ter sentido que tinha companhia e se remexia na cama. Com cuidado, se sentou na beirada da maca e, com a mão livre, acariciou o rosto da menor, notando a temperatura levemente elevada, lembrando-se vagamente de Erin descrevendo como a menina estava muito fria quando desmaiara na calçada. O curativo do corte que Erin havia descrito ainda estava na testa de Ava, o machucado ainda cicatrizando.
Ava se remexeu e abriu os olhos, a testa franzindo enquanto tentava reconhecer a nova visita, os olhos claros desviando rapidamente para confirmar a presença do pai e depois voltando para . Seus lábios ressecados se partiram em um sorriso quando sua visão melhorou e ela confirmou quem era.
- . – Sua voz saiu baixa, seu sorriso se alargou. – Você veio.
- Oi, meu amor – disse , respirando fundo para não voltar a chorar, apertando a mão de Jeremy. – Claro que vim. Você achou que eu iria te deixar?
- Você foi embora – respondeu a menina, o sorriso diminuindo e os olhos brilharam com as lágrimas.
- E por isso você parou de se cuidar? – perguntou , tentando soar brava, mas falhando.
- Eu queria te ver – defendeu-se Ava. – Desculpa.
- Poderia ter ligado, meu anjo – disse , o dedo indicador enxugando uma lágrima que havia escorrido pelo rosto da menina. – Promete nunca mais fazer isso? – perguntou ela, vendo a menina sentir, o queixo tremendo enquanto Ava tentava conter o resto das lágrimas. – Promessa de dedinho? – entendeu o dedinho, vendo Ava fazer o mesmo, as duas entrelaçaram os dedos por um tempo antes de soltar. aproximou-se e depositou um beijo em sua testa, logo sentindo os braços finos da menina abraçarem seu pescoço, mantendo-a ali. fechou os olhos, perdendo a batalha contra as lágrimas.
- Te amo, – disse a menina, sua voz um pouco sonolenta, dando um beijo no rosto da mulher antes de soltá-la. se afastou um pouco e sorriu para Ava.
- Eu também te amo, princesa. – Outra lágrima escorreu pelo rosto de Ava enquanto ela sorria. Não demorou muito e seus olhos fecharam, a menina voltando a dormir.
se levantou e se afastou, Jeremy a acompanhou, puxando-a para seus braços quando chegaram ao canto do quarto. Ela não lutou contra, mas não retribuiu, mantendo as mãos apoiadas no peitoral do ator enquanto suas lágrimas encharcavam a camiseta dele. sentiu que Jeremy também chorava. O ator a abraçava com força, como se esperasse conseguir algo mais daquele abraço além do apoio emocional. Na verdade, Jeremy só queria, e esperava, que não fosse mais embora.
Eles foram recebidos com silêncio no corredor quando, enfim, saíram. Sonni não estava à vista, e ninguém pareceu se importar em dar uma explicação quanto ao sumiço da mulher. Valerie se aproximou para cumprimentar apropriadamente, agradecendo novamente a presença da mulher ali. Alguém, que não foi Jeremy ou a matriarca da família, lhe passou um breve relatório sobre a situação de Ava desde que ela havia dado entrada no hospital e agradeceu, apesar de se sentir ainda pior ao ouvir o quanto o estado da menina era pior que o que havia pensado. O médico apareceu logo depois para fazer a checagem de rotina e conferir o estado da paciente, mas ainda era cedo demais para dizer se a presença de ali causaria alguma diferença.
Tudo o que restava a eles era esperar.

espreguiçou-se e passou a mão no rosto, tentando afastar o cansaço. Parecia que estava ali há dias, quando na verdade eram somente horas. Mas essas somada à tensão do dia anterior, desde a ligação de Ted, seguido do voo de sete horas até Los Angeles, o voo mais longo de sua vida, e a viagem do aeroporto até a porta do hospital, mesmo com Erin dirigindo como uma maníaca... estava esgotada. Suas costas protestavam e ela engoliu um comprimido para dor com a ajuda do pior café que havia tomado na vida.
A movimentação pelo refeitório não era muito grande, as pessoas que estavam ali geralmente só ficavam sentadas encarando o que haviam comprado, sem sequer tocar em nada. Exemplo disso era Jeremy, que ocupava uma mesa no canto mais afastado. A mulher não conseguia controlar o aperto em seu coração toda vez que olhava seu rosto e seu semblante. Mesmo se o quadro de Ava tivesse uma melhora milagrosa e muito rápida, sabia que ele só voltaria a si quando ela recebesse alta e ainda passasse uns meses sem nenhum outro incidente.
O ator já havia cancelado todos os seus compromissos, ela havia descoberto por Valerie, e recusava qualquer ligação feita pela sua empresária, que havia sido proibida de aparecer no hospital a menos que fosse para realmente saber como Ava estava. lembrou-se da entrevista que vira do ator no programa da Ellen, como ele falava com tanta certeza e sem deixar espaço para que alguém duvidasse que seu emprego real era ser pai, e fazer filmes era algo a parte. Só naquele momento ela realmente conseguiu entender o quanto aquilo significava.
pegou o prato que a mulher na cantina a oferecia e suspirou, havia pedido a comida com a cara mais convidativa, um último apelo para convencer Jeremy a comer algo.
- Você precisa comer – disse ela quando o ator fez uma careta e afastou o prato, ocupando a cadeira a sua frente. – Pelo menos algumas mordidas para eu conseguir ser mais convincente quando sua mãe perguntar algo.
- Ela te contratou para ser minha babá? – Jeremy tentou fazer piada, mas percebeu tarde demais que o tiro saíra pela culatra.
- Não preciso ser paga para me preocupar – respondeu , cruzando os braços, recostando-se na cadeira e virando o rosto.
Jeremy se xingou mentalmente ao ver o quanto a mulher havia ficado machucada. Quando ele achava que havia avançado um passo, voltava três. Sua culpa só piorou quando ele olhou o rosto de e viu as lágrimas escorrendo, ela nem mesmo tentou esconder. Talvez estivesse cansada demais para se importar com o que ele sentiria se a visse naquele estado. Jeremy apoiou os cotovelos na mesa e passou as mãos no cabelo, suspirando frustrado com a própria burrice. Não acreditando que após meses finalmente tinha a chance de tentar melhorar suas chances com e falhava a cada oportunidade. Sua vida estava uma bagunça e cada vez que ele tentava consertar algo, só parecia piorar cada vez mais.
- Eu te perdi, não é? – perguntou ele, desviando o olhar do prato a sua frente para a mulher, que abaixou a cabeça. – Se eu tentasse... Se eu...
- Se tivesse me perdido, eu não estaria aqui – disse , olhando para ele. Jeremy se perguntou se ela o havia feito apenas para tortura-lo ainda mais.
- Você está aqui pela Ava – observou o ator.
- Estou? – perguntou , se odiando por se render tão facilmente.
- Não consigo pensar em outro motivo, não depois do que eu fiz – disse Jeremy. – Se for por mim... Eu não mereço isso.
- Não mesmo – concordou , passando a mão no rosto para enxugar as lágrimas. – E mesmo assim, aqui estou eu.
Jeremy deveria se sentir aliviado, ela acabara de assumir que estava ali mais por ele do que por Ava. Era um bom sinal, não? Mas por ele sentia que apesar de estar ali, estava inalcançável para ele? Se ela estava ali por ele, o certo seria que ele pudesse estender a mão e conseguir segurá-la, senti-la consigo, seus corações batendo no mesmo ritmo. Mas não era aquilo que ele sentia. Concluiu que ele poderia não a ter perdido, mas estava perdendo aos poucos. Ele sabia que a havia machucado da forma mais cruel de todas. Ela havia confessado amá-lo e ele jogou fora aquele amor. Duvidou dela quando lhe dera zero motivos para fazê-lo. E mesmo quando a verdade começou a se fazer clara para ele, ainda que não tivesse conseguido confirmar, ao invés de correr até ela e pedir desculpas, ele resolvera permanecer em seu mundo, prolongando a dor de todos. Ava era a paciente, mas ele sentia que tanto quando ele próprio eram os que estavam em piores condições.
- Se eu quisesse, eu teria alguma chance se tentasse te reconquistar? – perguntou ele num impulso. o olhou, não acreditando no que havia acabado de acontecer.
- Sua filha está internada e é nisso que você está pensando? – perguntou ela, incrédula.
- Eu preciso saber, ! Preciso de alguma coisa que me ajude a enfrentar isso. – Tentou explicar, só depois que havia falado aquilo percebeu como soava insensível. – Eu estou uma bagunça e não conseguiria me redimir agora mesmo se eu quisesse. Então eu preciso saber o quanto eu te perdi para saber se devo insistir ou se simplesmente devo te deixar em paz.
o entendia, talvez se a situação fosse inversa, ela teria agido da mesma forma. Ela ponderou a situação por um momento, mas não conseguia encontrar uma resposta que fosse satisfazê-lo.
- Não posso te responder isso, Jeremy. – Ela foi honesta. – Eu não... Eu não posso pensar nisso, não agora. Você deveria fazer o mesmo.
- , por favor – pediu ele, num ator desesperado agarrando a mão da mulher. – Eu só preciso saber, ainda tenho alguma chance? Ou quando a Ava melhorar e você for embora, será o adeus definitivo?
- Eu não sei, Jeremy – disse ela, após refletir um pouco. Cortando o ator assim que viu que ele abriria a boca para insistir. – Eu não sei, por favor, não insista. Eu disse antes, é verdade, eu não posso pensar nisso, não se você precisar que eu esteja aqui pela Ava. – Explicou ela, parecendo tão machucada quanto ele. – Nós descobriremos o que acontecerá quando chegar a hora.
- ... – Ele a ignorou completamente. Era como se o que ela dissesse entrasse por um ouvido e saísse pelo outro.
- Eu vou voltar para o quarto – soltou sua mão da dele. – Por favor, coma.
se afastou, mas não seguiu para o quarto de Ava. Até Jeremy sabia que ela não o faria, a mulher se recusava a ficar sozinha no mesmo ambiente que Sonni. Ao contrário, resolveu seguir as placas que denunciavam a existência de um terraço e foi para lá que ela subiu, agradecendo o vento frio que secou as lágrimas que insistiam em escorrer.
Quem Jeremy achava que era para trazer à tona a história deles e tentar descobrir se a havia perdido ou não? Ele era tão cego a ponto de não conseguir enxergar que a conseguiria de volta se apenas dissesse as palavras mágicas? Aquelas que ele deveria ter falado quando toda a bomba explodiu? O que ele precisava fazer agora era tão simples quanto no passado, mas Jeremy preferia complicar, criar uma situação ainda maior que a atual. não podia lidar com aquilo. Havia passado sete horas no avião construindo o muro ao redor de todas aquelas lembranças, consciente de que ele não duraria muito, mas seria o suficiente para o período que ela parasse ali.
Com os dedos trêmulos, ela pegou seu celular e procurou pelo número de Erin. Sentia que sufocaria se ficasse ali mais tempo, precisava de um tempo, um banho, umas três horas de sono e algo que tivesse gosto de comida decente. Então poderia voltar a ficar ao lado de Ava por ela e para o que ela precisasse.
- Vem me buscar, por favor – disse ela assim que Erin atendeu do outro lado.

~ * ~

Os dias passavam sem ninguém se dar ao trabalho de saber se era segunda ou quarta ou domingo. Todos os dias eram iguais ali naquele hospital. O que mudava e melhorava os ânimos de todos era o estado de Ava, que finalmente começava a mostrar melhoras. Ninguém dizia, mas todos sabiam que a chegada de havia mudado muita coisa e todos eram extremamente gratos à mulher. Já começavam a perder as esperanças de qualquer melhora quando a ex-babá chegou e fez com que eles voltassem a acreditar.
Obviamente que nem todos estavam satisfeitos com a presença da mulher ali.
- Sonni, chega! – disse Jeremy, cansado da insistência da mulher. – Eu a chamei aqui, e ela vai ficar aqui o quanto for necessário. Ava chamou por ela e quer que ela fique aqui, eu não vou manda-la embora.
- Ava é uma criança, Jeremy – respondeu a mulher. – E você não é o único que decide com quem minha filha passa o tempo ou não.
- Ah, agora ela é sua filha? – O ator cruzou os braços, rindo da coragem que a mulher tinha. Ele estava entalado com aquilo desde o dia que Ava dera entrada naquele hospital, sempre esperando a melhora da filha para abordar aquele assunto. Mas Ava não melhorava e ele adiava cada vez mais o assunto. Não mais. – Era isso que ela era para você meses atrás, quando você resolveu quebrar a promessa que fizemos de manter a condição dela em segredo? E quando você passou adiante as fotos que eu te mandei? Ou você só leva isso em consideração quando está discutindo comigo e seus argumentos acabam? – A pose durona de Sonni caiu na hora quando ouviu a acusação do ator. – Sim, eu sei o que você fez. E sendo bem honesto, isso foi baixo até mesmo para você.
- Mas funcionou, não foi? – A mulher sorriu, Jeremy não acreditava no que estava ouvindo. Sonni, talvez, deveria ser a pessoa internada. E não num hospital geral, mas um psiquiátrico. Não podia ser normal aquilo.
- Qual é o seu problema? – perguntou o ator.
- Não acho que isso seja importante agora – respondeu Sonni, seu olhar captando uma movimentação atrás do ator e seu sorriso só se alargou.
Jeremy seguiu o olhar da mulher, encontrando encostada na parede, os braços cruzados e os olhos fixos no ator. Jeremy mal percebeu Sonni se afastando, dizendo que iria fazer companhia para Ava. Ele abriu a boca para dizer algo, mas fez um movimento com a mão, fazendo-o se calar. Em seguida, a mulher lhe deu as costas e, apesar de tudo indicar para que ele fizesse exatamente o contrário, Jeremy a seguiu. Ele não conhecia o caminho que fazia, e estava ali há muitos dias, mas quando viu estavam no terraço do hospital. O horizonte começava a ficar claro, a noite aos poucos dando lugar mais um dia, com sorte o dia em que eles receberiam os resultados dos últimos exames de Ava e seriam boas notícias, pelo menos era o que todos esperavam.
sabia que ele a havia seguido, viu isso no olhar dele, que Jeremy não a deixaria ir embora sem que conseguisse lhe dar uma explicação. Ela havia escutado seus passos enquanto subia as escadas para aquele que havia se tornado seu refúgio toda vez que sentira que a situação ficava um pouco pesada nos andares inferiores. achou que com o tempo ficaria mais tolerável acompanhar o estado de Ava, ainda mais quando só recebiam boas notícias desde que ela havia chegado, mas doía ver um ser tão indefeso em um lugar que não lhe pertencia. Ela não precisava ser mãe de Ava para desejar tomar seu lugar e sentir tudo o que ela estava sentindo. Ainda mais quando essa sensação parecia ser melhor se comparada com o que sentia naquele momento. Ela não havia planejado ouvir a conversa entre Jeremy e a ex-mulher, mas não conseguiu desviar o caminho assim que percebeu qual era o assunto, e ficou ainda mais difícil quando ela ouviu a confirmação de que ele sabia. O pior era que não conseguia nem sentir raiva do ator, de tão grande que era a dor que sentia.
- Você sabia – disse ela quando ele fechou a porta do terraço. Sua voz saiu baixa, mas ela sabia que Jeremy conseguiria ouvir. se virou para ele a tempo de ser sua boca se fechando, Jeremy não sabia o que responder. – Desde quando?
- Eu não tinha certeza – disse Jeremy, aproximando-se lentamente da mulher.
- Desde quando? – insistiu , cruzando os braços.
- Um pouco depois do meu aniversário – contou ele, desistindo de tentar acalmar a mulher, sabendo que ela ficaria irritada de qualquer jeito. – Foi quando eu finalmente consegui começar a colocar os pensamentos em ordem, afastar de mim todas as notícias que estavam saindo e focar em nós. Eu pedi para minha empr...
- Nós? – riu descrente. – Você acabou de destruir qualquer chance de voltar a existir um nós. – sabia que ele sentia como se estivesse levando uma facada no peito ao ouvir aquilo. As lágrimas vieram com força e ele nem mesmo tentou impedir.
- ... – Jeremy tentou se aproximar, mas o passo que ela deu para trás o fez parar.
- Como alguém pode ser tão inteligente em algumas situações e tão burra em outras? Explica para mim, Renner – pediu ela. – Porque eu não consigo entender. Ou tudo o que você precisava era de uma desculpa para terminar tudo entre a gente?
- O que? Claro que não! – Jeremy disse, esquecendo o receio e se aproximando da mulher, segurando suas mãos e a forçando a olhar em seus olhos. – , eu nunca quis acabar as coisas entre nós. Nunca.
- Bem, você fez um péssimo trabalho evitando isso de acontecer – respondeu ela, soltando suas mãos do aperto dele. – Você me perguntou antes se nós ainda tínhamos alguma chance... Bem, aqui está sua resposta: quando a Ava melhorar, estiver prestes a voltar para casa, eu vou embora. E não me peça para voltar, ou ficar.
desviou quando ele tentou se aproximar, saindo do terraço com passos acelerados, apenas se controlando para não correr por estar em um hospital, tinha que encontrar outro lugar para se esconder agora. Jeremy caiu ajoelhado onde estava, as mãos cobrindo o rosto lavado pelas lágrimas. Depois ele agradeceria por ninguém ter aparecido ali e vê-lo soluçando sem qualquer controle, porque a verdade era que ele havia desistido de lutar contra o que sentia. Por meses ele havia guardado todos aqueles sentimentos, havia escolhido não pensar no que havia perdido pelo que havia acontecido, ele tinha que ser forte por Ava e ajudá-la a compreender que não faria mais parte da vida deles. E mesmo quando as peças do quebra-cabeça começaram a se juntar e ele percebeu a enorme burrice que havia feito, ele preferiu manter tudo guardado, já havia aguentado tanto, o que era mais um pouco? Passaria logo, ele se convenceu. E quando Ava foi parar no hospital pelo descuido dele, a prioridade se tornou outra. Mas agora tudo estava fugindo de seu controle e ele estava cansado de tentar manter tudo junto, não havia adiantado de nada. Pela primeira vez em tanto tempo Jeremy desejou parar o tempo apenas para que ele conseguisse surgir com alguma solução para todos seus problemas. De que adiantava ter saído da zona de perigo de perder sua filha quando agora perdia a outra parte de sua vida? Antes ainda havia alguma esperança, agora não havia mais nada.



Continua...



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Nota da autora: Quem queria o Jeremy sofrendo pelas cagadas, espero que estejam felizes hahahaha. E quem chutou que a Sonni era a culpada, parabéns! HAHAHAH não precisam me bater por ameaçar da pp ser a verdadeira culpada. Eu só peço desculpas mesmo pela Ava, ela foi só efeito colateral, sorry.
Não esqueçam de deixar aquele comentário maroto, e até a próxima <3

ATENÇÃO: Eu criei um novo grupo para as minhas fanfics, então caso você estava no antigo, clica ali no ícone do facebook para entrar no novo e saber quando as atualizações são enviadas ou entram no site ;)

Caso tenha alguma curiosidade para saber um pouco mais sobre a personagem Erin, essa estilista maravilhosa que eu tanto amo, eu tô escrevendo algumas fanfics para ficstapes incompletos ou outros que estão para entrar com uma quase backstory dela. O bom da Erin é que ela é daquelas personagens em que tudo pode e vai e já aconteceu com ela, então tem fic para todos os gostos. Caso tenham interesse em se apaixonar ainda mais por essa mulher - que eu queria muito que fosse eu - só clicar aqui e conferir todas as fics que fazem parte do que eu estou chamando de Série No Promises.




Outras Fanfics: Clica no ícone "ffobs" ali em cima e seja feliz :)


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