Finalizada em 20/10/2020
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Capítulo 35

Assisti de longe enquanto Georgia apresentava Julie para o marido finalmente barbeado. Eu sorria do lado de fora do quarto enquanto Craig colocava as mãos em meus ombros.
– Você vai ficar bem? – Ele perguntou.
– Vou ver o Louis antes de voltar pra casa.
– Precisa de carona?
Eu me limitei a negar. A equipe médica do Massachusetts General Hospital estava fazendo uma série de exames em Danny para se certificar de seu exato estado de saúde. Ele havia ficado em cativeiro por pouco mais de um ano e os riscos eram imensos. Por isso, demoraram a permitir que a pequena Julie pudesse finalmente conhecer seu pai. Eu estava tão extasiada com aquele momento que nem percebi os homens bem vestidos chegando. Revirei os olhos antes de olhar para Craig. Ele sabia, como eu, do que se tratava.
– É sério que eles não vão nem deixar o cara começar a se recuperar? – Questionei.
Craig riu.
– Eu tive dois motivos pra aceitar minha exoneração. O primeiro foi impedir que investigassem mais a fundo e chegassem até vocês. O segundo, – Ele apontou na direção dos homens que, àquela altura, estavam praticamente expulsando Georgia do quarto. – nunca mais ser perturbado pela Corregedoria.
– Senhorita Danté.
Quando ouvi meu nome ser chamado, eu murchei. Já sabia o que ia acontecer. Revirei os olhos mais uma vez e Craig riu de mim. Eu me virei para acompanhar os homens da Corregedoria.
– Avisa pro Louis que eu não fui ver ele por causa disso. – Disse, me virando para ver Craig uma última vez.
Fui deixada aguardando em uma sala escura como se fosse uma criminosa. Por algum motivo, simplesmente não me deixaram sair da sala nem para ir ao banheiro. Passei boa parte do tempo tamborilando meus dedos no tampo de metal da mesa, já que quase levei um tiro quando tentei puxar meu celular do bolso para jogar Tetris – foi essa a desculpa que dei para eles, minha verdadeira intenção era enviar uma mensagem para Georgia. Quando finalmente alguém foi me ver, se tratava de um rosto conhecido.
– Detetive Danté, é um prazer revê-la. – Charlie disse, com demasiada mesura.
– Gostaria de dizer o mesmo, Parker.
– Afiada como sempre.
– Como sempre. – Repeti com um sorriso irônico no rosto. – Vamos às vias de fato ou vamos ficar jogando conversa fora? Tenho dois amigos internados que gostaria de visitar.
– Se eu fosse você, ficaria bem confortável, porque podemos demorar aqui.
– E se eu fosse você, falava logo do que se trata ou eu vou ser obrigada a chamar um advogado.
– Você precisa de um, detetive?
Revirei os olhos. De novo. Dias em que eu revirava os olhos muitas vezes nunca eram bons.
– Como eu disse, eu vou sair daqui, por bem ou por mal.
Charlie riu de mim, mas logo ficou sério. Puxou alguns papeis de pastas que ele carregava e os colocou em cima da mesa.
– Você não está em posição de inflar o peito, detetive.
– E por quê?
– A senhorita foi a responsável por termos o detetive Jones no local de seu possível sequestro, na hora exata do crime.
Eu estava assombrada. Com o semblante transformado, olhei nos olhos dele.
– Danny me acusou?
– Ele deveria?
– Para com essa porra! – Eu me alterei. – Cacete, somos dois adultos e você vai ficar com essas perguntinhas babacas pra cima de mim?
– Olha bem como você fala comigo, Danté.
– Eu não sou um criminoso pra você interrogar assim, ok? Quer saber as coisas? Pergunte. Não fui responsável pelo sequestro dele, não fui responsável por nada de mal que aconteceu com ele e não vou aceitar que me acusem disso.
– Você deve entender que não tem que aceitar ou não. Quantas pessoas você já acusou de algo e descobriu, com o andamento da investigação, que eram inocentes? E quantas pessoas te juraram que eram inocentes mas depois confessaram com sorrisos doentios no rosto?
– A diferença é que eu não acuso sem provas concretas que me permitam fazer isso. – Afirmei.
– Que tal o fato de que a senhorita mexeu no corpo de Isaac Williams mesmo sabendo que isso é errado?
Joguei minha cabeça para trás e ajeitei meu cabelo, rindo de nervoso.
– Pelo amor de Deus, Parker! Eu achei que fosse o Danny!
– Mesmo que fosse isso, seria terminantemente errado adulterar a cena de um crime.
– Eu não tinha como raciocinar. Podia ser meu amigo ali.
– Então por que a senhorita continuou na investigação, conhecendo sua incapacidade de agir racionalmente?
– Pergunta pro Hiddleston. – Disse, firme. – Acusa o cara. Porque te garanto que ele sabia do quão emocionalmente envolvidos no caso eu e meus colegas estávamos, e ele nos permitiu continuarmos nele mesmo assim.
Alguém bateu na porta e a abriu. Pela pequena fresta, eu pude ver o rosto de Henry. Olhei de volta para Charlie Parker sorrindo.
– Eu nem precisei chamar, viu?
Eu me levantei e saí da sala imediatamente. Acabei recebendo Henry com um pouco mais de entusiasmo do que deveria. Nós nos abraçamos, sorrindo, e eu relaxei em seus braços.
– Como você sabia que eu tava aqui?
– Craig me ligou. – Ele explicou. – Como você tá?
– Com uma necessidade urgente de ir em casa tomar um banho e trocar de roupa mas, tirando isso, estou ótima. – Dei de ombros. – Parece que você já tá sabendo da grande novidade.
– Pois é, seu amiguinho me contou.
– Ele não é meu amiguinho.
– Não parece.
Caminhamos para fora do prédio enquanto eu tagarelava sobre todos os acontecimentos do dia anterior. Ele sorria enquanto me ouvia falar, como já havia visto fazer várias vezes. Abriu a porta para mim e dirigiu até minha casa. Quando paramos que percebi que eu estava falando e falando, sem nem fazer uma pausa para respirar. Henry riu mais ainda de mim nessa hora.
– Posso subir? – Ele perguntou, parecendo sem jeito, e rapidamente se retratou. – Soou errado eu me convidar assim. Desculpa, é que a vontade falou mais alto.
Eu sorri, calmamente. Depositei um beijo em sua testa depois de me desprender do cinto de segurança e abri a porta do carro.
– Não me entenda mal, mas eu preciso mesmo ficar sozinha. Passei o último dia no meio do mato, sentando no chão...
Só a lembrança me deu calafrios. Henry sorriu, compreensivo como sempre.
– Mais tarde então?
– Eu devo ir no hospital mais tarde ver Danny e Louis.
Ele arqueou as sobrancelhas.
– O que houve com Louis?
– Escorregou feio enquanto bancávamos os heróis e parece que teve uma lesão feia. Eu ainda não sei sobre o diagnóstico porque me tiraram do hospital antes de descobrir.
– Então eu te ligo? – Henry perguntou. – Pelo menos, isso eu posso fazer, certo? Ou você tá sem celular?
Eu sorri em resposta.
– Pode me ligar. – Respondi, terminei de sair do carro e fechei a porta.
Depois de um longo banho – e alguns confortantes minutos tirando um cochilo em minha cama –, voltei para o hospital. Corri, primeiramente, para o quarto onde Louis estava. Seu diagnóstico era apenas de um estiramento – como ele mesmo havia dito – e, com o tratamento certo, estaria completamente recuperado em um mês. Mas não era só eu que queria correr de volta para Danny. Ele praticamente me expulsou do quarto afim de me enviar para coletar informações sobre nosso renascido colega.
Danny sorriu ao me ver entrando no quarto. Parecia que cada movimento mínimo exigia muito dele. Coloquei minha bolsa sobre a poltrona de visitas e me aproximei.
– Antes de mais nada, o senhor não deveria falar. – Disse.
– Georgia saiu com a Julie. – Ele me desobedeceu, a voz extremamente rouca, mas ainda com um sorriso no rosto. – Foi levá-la para ficar com a avó, mas já volta.
– Acham que fui eu que fiz isso com você. – Eu soltei a bomba antes mesmo de perceber que ia dizer aquilo, ao que ele respondeu com uma cara feia. – A Corregedoria me interrogou, mas parece que o Craig avisou pro Cavill, que foi me tirar de lá correndo.
– Eu não disse nada. – Ele falou, com dificuldade.
– Sei disso. – Respondi, acariciando sua cabeça. – Você se sente bem?
Ele assentiu.
– Então deveria calar essa maldita boca.
– O que vocês fizeram enquanto eu estava fora? – Ele questionou.
Dei de ombros.
– Craig foi exonerado. Eu parei no tempo. Maitê e William se pegaram e terminaram. Recebemos um novato da Narcóticos que ficou puto comigo por eu insistir em você.
– Você insistiu. – Ele disse.
Seus olhos brilhavam. Segurei sua mão e ele apertou a minha de volta.
– Acho que vou ser formalmente acusada de ter algo a ver com seu sumiço.
Ele arqueou as sobrancelhas.
– Pois é. – Continuei antes que ele falasse alguma coisa. – Charlie Parker tentou me interrogar na sede da Corregedoria e foi bem direto quando disse que eu era a principal suspeita. O que me tranquiliza é que nós dois, em um ano, pegamos mais gente que o Parker pegou a vida inteira.
Danny deu de ombros e olhou para o teto. A televisão estava desligada – Deus sabe lá o motivo – e eu sentia que o quarto estava quente. Não podia mais adiar minha pergunta.
– Você já deve estar cansado de ouvir isso, mas...
– Quer saber o que aconteceu. – Ele afirmou.
Eu olhei para seu rosto com o semblante triste, mas Danny parecia tranquilo.
– Eu estacionei e esperei você chegar. Apaguei e, quando acordei, estava dentro de um quarto sem janelas. É tudo o que eu me lembro.
Olhei de volta para a televisão. Se estivesse ligada, talvez me ajudaria a desenvolver a conversa.
– Nós não estávamos muito bem quando tudo aconteceu e... Bem, eu não sei o que dizer, mas estou pronta pra responder qualquer pergunta que você tiver.
– Não tenho nenhuma pergunta. – Danny declarou. – Foi infantil da minha parte. Eu te conhecia e sabia que você nunca ia fazer aquilo sem motivos. E, além do mais, Cavill me disse.
– Disse?! – Perguntei, as sobrancelhas arqueadas.
– Ele esteve aqui logo depois de você ser levada e falou que o nome dele tava naquele bloquinho. Eu provavelmente faria a mesma coisa pela Georgia. E você e ele? Já casaram?
Não era a verdade. Mas era um prêmio de consolação. Decidi que, já que tinha como deixar Danny fora daquilo, eu não contaria tudo. Então me permiti relaxar.
– Não. – Eu respondi, rindo. – E estamos longe disso.
– Você conheceu outro?
– Como se eu tivesse tempo pra relacionamentos enquanto tava correndo atrás de você, né?
Danny sorriu.
– Sempre correndo atrás de homens... – Ele disse e suspirou. – Você falou da Maitê e do William. Sério?
– Sérissimo. Só que deu ruim, ele e o Henry quase saíram na porrada esses dias...
– William e Cavill ia ser uma boa luta.
– Ia mesmo. Mas eu não deixei rolar, já que você não tava lá pra ver a cena.
Nós dois rimos, ele tomou ar.
– Não acredito que perdi o nascimento da minha filha.
Sorri, tentando demonstrar solidariedade.
– O que importa é que você tá aqui hoje pra ver ela crescer e deixar isso tudo pra trás. – Declarei.
Ele sorriu e fechou os olhos. Quando tive certeza de que ele estava pegando no sono, Georgia chegou. Trocamos algumas palavras sobre Julie e eu a deixei no quarto com seu marido. Senti meu celular vibrar quando voltei a pendurar a bolsa em meu ombro. Henry havia deixado treze ligações perdidas e alguns recados no correio eletrônico. Eu ri enquanto via o celular, mas acabei trombando com alguém. Olhei para cima e Hiddleston não parecia muito feliz em me ver.
– Preciso de você na delegacia. – Ele disse, seu sotaque britânico soando mais firme do que sempre.
– Desculpa, eu só vim visitar os rapazes.
– Imagino que sim, mas precisamos de você lá. Alguém tem que dar a notícia pro Ryan.
Arqueei as sobrancelhas.
– Jay? O que houve?
Thomas deu de ombros.
– Bem, Jones demonstrou grande interesse em voltar ao trabalho assim que se recuperar. Na verdade, o interesse dele era até de voltar antes da hora, mas tive que negar por razões óbvias. Então o detetive Ryan provavelmente será remanejado.
Processei a informação por alguns segundos e então assenti, me dirigindo para a saída do hospital. Jay havia previsto aquilo. No dia em que descobrimos que o corpo que havíamos enterrado não era o de Danny, ele soube que sairia da Homicídios. Por alguns minutos, a caminho da delegacia, senti pena. Jay aparentava ser uma pessoa legal, apesar da personalidade meio confusa e aparente bipolaridade. Ele queria ficar na Homicídios e parecia merecer aquilo. Mas nada naquele dia tiraria o sorriso do meu rosto por saber que Danny e eu voltaríamos a trabalhar juntos. E o melhor: que as coisas estavam bem.
Respondi a mil perguntas antes de chegar à minha mesa. Danny estava bem. Eu estava bem. Louis estava bem, voltaria em breve. Ninguém me disse quando ou se Danny iria voltar. A filhinha de Danny continuava linda, como sempre. A Corregedoria não havia me acusado de nada – essa era uma mentira-bônus. Eu não havia chamado Henry para ser meu advogado lá, solicitaram a presença dele por mim, contra a minha vontade. Jay não seria realocado – outra mentira. Craig não ia voltar.


Capítulo 36

Respirei fundo enquanto encarava por mais alguns segundos a tela do computador. Louis havia voltado ao trabalho dois meses atrás. Danny, apenas uma semana. Mas Hiddleston não estava pegando leve só por causa disso e nós estávamos ralando. As desculpas haviam acabado e eu estava, em parte, frustrada. Mais frustrada ainda deveria estar a família de Joshua Roberts. O caso era a típica dor de cabeça que ninguém queria ter. Roberts era um cara cheio de gente que podia querer seu corpo em uma cova. Trabalhara como agente de condicional por mais de uma década e já havia colocado muitos bandidos de volta na cadeia. Durante uma noite romântica com sua mulher, Darcy, ele sofreu uma tentativa de assassinato que teria sido bem sucedida se o criminoso tivesse melhor mira. Joshua foi alvejado na cabeça mas, mesmo assim, estava apenas em coma.
Eu odiava ser a única mulher da unidade naqueles momentos. Claro que havia Maitê também, mas ela tinha sorte de ter a proteção do laboratório. Hiddleston queria que eu fosse falar com Darcy Roberts. Eu queria voltar para casa. Mas trabalho era trabalho então, esperneando igual criança, fui ao encontro dela. Fiz meu discurso – depois de tantos anos fazendo a mesma coisa, eu já havia gravado as palavras – de “sinto muito”, mas não me demorei a ir direto ao ponto.
Quando saí da sala, Hiddleston me esperava prontamente. Apenas revirei os olhos para ele.
– Abalada demais pra falar. – Resmunguei.
Terminei um breve relatório e fiquei olhando para o relógio da parede incessantemente até que desse a hora de sair. Danny e eu nos preparamos ao mesmo tempo. Eu havia ido trabalhar de carro e combinamos que eu lhe daria uma carona. Conversamos sobre o dia e suas rotinas com a volta ao “mundo” até que parei em uma vaga próxima a entrada de seu prédio.
– Tem certeza de que não quer entrar? – Danny perguntou, ainda comigo. – Nós pedimos uma pizza ou comida japonesa, eu pago. A Julie vai adorar te ver.
– A proposta é irresistível, mas eu preciso ter uma noite decente, longe e sem calmantes.
Danny riu.
– E quem de nós não precisa?
Ele abriu a porta e saiu. Estava pronta para pegar o caminho de casa quando meu telefone tocou. Era o número de Henry. Hesitei mais que Danny em sair do carro. Henry já estava tentando falar comigo havia um tempo, mas eu estava ignorando. Por alguma razão que eu não conhecia, o dia havia perturbado tanto minha mente – mesmo que eu não tivesse ficado muito ocupada – que acabou me fazendo mudar de atitude.
– Oi. – Eu tentei dizer do jeito mais suave possível.
– Juliette, eu fui sequestrado. Não sei por quanto tempo apaguei. Me soltaram no meio do nada. – Ele praticamente cuspiu as palavras.
Sua fala fez minha respiração simplesmente parar. No mesmo instante, olhei para a porta por onde Danny havia acabado de passar e disse ‘não’ para mim mesma. Da última vez em que Danny foi me ajudar com algo daquele tipo, as coisas saíram muito do controle.
– Henry, onde você tá?
– Eu não sei. To tentando enviar minha localização, mas não consigo.
Passei as mãos pelo meu cabelo, nervosa.
– Eu preciso de alguma coisa pra ir atrás de você, Henry.
– Juliette, eu não sei! – Ele gritou do outro lado. – Não sei.
O coração estava acelerado e eu precisava ficar me lembrando de respirar.
– Não tem ninguém por perto? – Eu perguntei, desesperada.
– Eu to numa estrada, Juliette.
– Que estrada?! Não tem nenhuma marca no asfalto?
– Não sei. Tá de noite, não tem ninguém passando por aqui. Minha bateria tá fraca, não quer ligar a lanterna do celular e eu não consigo ver quase nada em volta. Daqui, consigo ver uma luz, bem longe, mas isso é tudo.
Enquanto estava parada em um sinal de trânsito, tentava pensar mas, quanto mais tempo passava, mais nervosa eu ficava e menos eu conseguia raciocinar.
– Você sabe quanto tempo ficou em posse de seja lá quem te pegou? Sabe pra onde te levaram?
– Não faço ideia. Eu apaguei e acordei no acostamento, então te liguei.
Precisava ligar para William, mas estava nervosa e com medo de desligar e não conseguir mais falar com Henry. Ponderava entre o racional e o irracional. Tudo o que eu queria era achar Henry. Então coloquei no viva-voz.
– Então não tem nenhum poste por aí. – Eu puxei conversa enquanto abria o navegador do celular e começava a pesquisar sobre notícias de todas as estradas que passavam por Massachussets.
– Não que eu saiba.
Nada na I-95, nem na I-90, muito menos na I-93. Outro sinal me forçou a olhar para cima e então tive uma brilhante ideia.
– O céu tá limpo aí?
– Tá, por quê?
– Acha a Ursa Menor.
– Não to entendendo.
– A constelação, Henry!
Ele ficou em silêncio enquanto eu continuava a pesquisar sobre a rota 1 e a 20. Ainda nada.
– Ok, to olhando pra ela.
– As duas estrelas abaixo das Três Marias. Uma mais brilhante, uma mais apagada. A brilhante é o começo da seta, a apagada é a ponta. Indicam o sul. Agora preciso que você me diga se o sul é pra onde a estrada vai ou de onde vem.
– Como assim?
– O sul fica do lado da estrada ou na frente?
Ele ficou em silêncio.
– A estrada faz um caminho do sudeste pro noroeste. – Henry disse. – Não sei se ajuda mas, de onde a luz tá vindo, parece que tem uma grade não muito longe de mim. Além disso, parece que eu to ouvindo barulho de água, só não sei dizer se é corrente.
Estrada com grades e água, estrada com grades... Pensa, Juliette.
– Fecharam a Morton Street pra reforma. Ela beira o cemitério de Forest Hills que é cercado por...
– ... grades. – Ele completou.
– Eu já to indo praí, fica na linha.
– Não é como se eu tivesse muita escolha. – Henry resmungou.
Eu corri por cerca de mais vinte minutos e passei com o carro por cima das barreiras de contenção, um pouco antes da Harvard Street. Mas os postes estavam acesos.
– Henry? – Eu o chamei. – Henry?!
Minha voz mais desesperada não surtiu efeito. Eu simplesmente não conseguia raciocinar.
– Henry! – Eu insisti.
Logo vi que havia um carro parado no acostamento da pista e um homem encostado nele. Parei imediatamente e saí com a arma apontada na direção do carro.
– Polícia de Massachussets, mãos onde eu possa ver! – Gritei.
O homem riu.
– Calma aí, irritadinha. – Reconheci a voz de Henry.
Conforme ia me aproximando, ficava claro que era definitivamente ele.
– Que porra que tá acontecendo?
– Abaixa essa arma, era só uma brincadeira.
– Brincadeira, Henry?! – Eu gritei.
– Não precisa apontar a arma pra mim.
– Você tá de sacanagem comigo?
Eu me aproximei rapidamente e enchi a mão para dar um soco em seu peito, mas ele segurou meu braço firmemente e puxou meu corpo para mais perto, me beijando intensamente.
– Finalmente. – Henry murmurou.
– Você ficou maluco? Que porra é essa?
– Eu que deveria te perguntar! – Ele surpreendentemente levantou a voz. – Você finalmente cede sem lutar, me beija na frente da delegacia inteira e então, simplesmente, desaparece.
Henry deu um passo para trás e fez que ia me dar as costas enquanto mexia no cabelo, nervoso.
– Juliette, eu entendo que isso tudo tenha sido bem confuso pra você, mas o tempo passou. Você não sabe o quanto eu quis conversar sobre o que aquele beijo significou, mas simplesmente não conseguia. Então acabei pensando em fazer algo desse tipo, porque só assim você não fugiria de mim.
Eu não conseguir acreditar. Fui até a porta aberta do carro dele e me sentei, mantendo as pernas do lado de fora. Henry me seguiu e continuou procurando fazer com que eu olhasse nos olhos dele.
– Você não pode me dar um susto desses e depois achar que eu posso conversar sobre isso.
Seus ombros caíram.
– Me desculpa, Juliette, mas eu precisava te ver.
Levantei o rosto e olhei em seus olhos. Aquela barba extremamente bem feita me fez lembrar do último dia dele em Miami. O grupo com o qual ele havia viajado iria embora à tarde e o meu, na manhã seguinte. Eu estava sentada no jardim do resort onde ficamos hospedados, me perguntando exatamente o que Henry e aqueles dias loucos significavam para mim. Nós havíamos tido uma conversa estranha sobre aquele assunto antes do almoço e ele estava chateado comigo. O ônibus que o levaria para o aeroporto estava a trezentos metros de mim e eu podia vê-lo colocando sua mala dentro do bagageiro. O meu coração apertou imensamente e, sem pensar mais, levantei e saí correndo. Gritei seu nome uma, duas, três vezes. Ele não reagiu, mas eu não desisti. Na quarta vez, ele olhou para trás e, quando me viu, abriu o sorriso mais lindo do mundo e começou a andar na minha direção.
Seus braços me alcançaram, esbaforida, e me tiraram do chão. Entrelacei minhas pernas em volta de sua cintura ao som de sua gargalhada, que era simplesmente maravilhosa. Eu olhei em seus olhos e ele parecia a personificação da felicidade. O meu sangue pulsava com força, exatamente da mesma forma que estava pulsando naquele instante. Seu aroma havia mudado, provavelmente a loção pós barba. Anos haviam se passado desde aquele dia em Miami.
– Columbia não é tão longe assim. – Eu disse, segurando as lágrimas em meus olhos para fazer pose de durona. – De carro, eu consigo fazer em três horas e, de transporte público...
Henry não me deixou terminar a frase e me beijou novamente, seu gosto ficando para sempre cravado na minha memória.
– Não precisa dizer mais nada. – Ele falou. – Não precisa dirigir, nem ir. Eu vou até você, não importa, porque três horas não são nada comparado ao valor do seu sorriso. Só diz uma palavra e eu sou eu.
O toque da ponta dos seus dedos ao ajeitar uma mecha de cabelo meu se tornara um pouco mais áspero com o passar dos anos. E que anos. Não morávamos mais a três horas de distância e, sim, quinze minutos. Ele não precisava falar as palavras para que eu soubesse que os sentimentos estavam lá. Meu corpo ainda se lembrava exatamente de como havia sido oito anos atrás, e reagia da mesma forma, com um grande porém: o coração ainda estava saltado por causa do susto.
Ainda sentada, apoiei minha cabeça em minhas mãos e respirei fundo algumas vezes, tentando oxigenar meu cérebro. Henry colocou as mãos largas em meus joelhos e os massageava lentamente.
– Sei que desculpas não são o suficiente, mas eu gostaria que você entendesse o meu lado. – Ele murmurou. – Por semanas, morri de vontade de te ver, sentir seu cheiro, tocar sua pele... Foi uma loucura, sim, mas só porque estou louco com você.
Levantei minha cabeça aos poucos enquanto passava a mão na minha nuca.
– Um juiz e uma detetive, Henry? – Perguntei. – Enquanto você é a elite, eu sou a escória.
Suas sobrancelhas arquearam e um lapso de sorriso escapou de seus lábios.
– Você não é escória.
– Quer comparar? Só olhar o carro que você usa e o que eu uso. – Eu disse, apontando para os dois veículos.
Henry revirou os olhos como se estivesse impaciente. Tomou minhas mãos nas suas e me puxou para fora do carro, me abraçando antes de mais nada.
– Você quer o quê? Que eu organize uma cerimônia e te peça formalmente em namoro?
– Posso pensar nisso. – Brinquei.
Ele riu e se ajoelhou aos meus pés, segurando minha mão direita.
– Juliette Danté, pelo amor de tudo o que é sagrado, você me aceita de volta pra recomeçarmos de onde paramos e construirmos um futuro juntos?
Olhei séria para ele.
– Com uma condição.
– Estou a seu dispor.
– Se você sonhar em fazer algo desse tipo de novo, eu juro que não vou abaixar a minha arma.
Henry riu e seus músculos, antes tensionados, finalmente relaxaram. Ele me beijou com toda a intensidade que só ele sabia aplicar. Respirei fundo, guardando seu aroma.
– Podemos não ser Romeu e Julieta, mas...
Eu coloquei um dedo em sua boca, impedindo-o de continuar a frase.
– Não existe Romeu. Nem conto de fadas. Existe você. – Declarei.
Ele me puxou pela cintura com um sorriso enorme e aproximou seus lábios dos meus. Naquele exato momento, meu telefone começou a tocar. Ambos reviramos os olhos.
– Fala, Jones. – Atendi.
– Corpo achado numa lixeira, perto do centro. Vamos?
Eu olhei para Henry, que parecia decepcionado mas, ao mesmo tempo, extremamente feliz.
– Vai lá, minha Julieta. Eu te espero.


Capítulo 37


Eu peguei minha bolsa correndo e botei o carregador do celular em repartição.
– Merda, eu vou chegar atrasada...
Henry ainda estava seminu em cima da cama, enrolado nos lençois.
– Você bem que poderia faltar hoje. – Ele resmungou, ainda sonolento.
– Como se isso fosse viável!
Corri até ele, dei um beijo rápido e desci para a saída de sua casa o mais rápido que consegui. O trânsito não colaborou muito e eu acabei chegando à delegacia atrasada, o que era a coisa mais rara de se acontecer. A porta do elevador fechou e eu comecei a ajeitar meu cabelo, olhando no espelho. De repente, o elevador se abriu de novo. Louis me recebeu com uma risada.
– Não vou nem perguntar. – Ele sussurrou.
– Bom dia pra você também, Tomlinson.
– Grande noite?
– Claro, – Revirei os olhos. – grandíssima.
O elevador se abriu no meu andar e nós dois saímos. Hiddleston estava no corredor e não parecia muito feliz – ou seja, o de sempre.
– Onde é que você estava? – Ele esbravejou, enquanto eu continuava a ir para a minha mesa.
– Se agarrando com o juiz Cavill. – Louis disse.
Eu olhei para ele com ódio e ele, rindo, deu de ombros e entrou para o escritório de Maitê. Eu segui meu caminho, engolindo em seco.
– Tive um problema e me atrasei por cinco minutos. Aconteceu algo muito grave nesse meio tempo?
– Vítima de tentativa de homicídio. – Ele praticamente me bateu com a pasta. – Tá no Massachusetts General Hospital e só aceita falar com uma mulher.
– Por que você não me ligou antes? Eu poderia ter ido direto pra lá.
– Pra você ver isso aqui primeiro. – Hiddleston falou, apontando para a cela improvisada que tínhamos do lado oposto das salas de interrogatório.
Max estava encostado na grade, pelo lado de fora. Dentro da cela, um rosto conhecido. Olhei para Hiddleston de volta.
– Jack George é o suspeito?
– O irmão dele disse que queria falar com você e eu estou curioso pra saber o motivo.
Enquanto Hiddleston me respondia, Max caminhava até mim. Nós nos abraçamos brevemente e trocamos um pequeno sorriso.
– Max é meu ex. – Respondi logo, antes que Hiddleston começasse com suas peculiaridades. – Se puder nos dar licença...
– Em breve, você vai ser promovida a tenente. – Hiddleston disse, gesticulando. – Me diz se você, caso estivesse chefiando uma repartição da delegacia, deixaria você conversar com ele a sós.
Se eu estivesse chefiando uma repartição da delegacia, eu iria conhecer e confiar nos meus subordinados. – Eu disse, mantendo postura de quem estava segura. – Daqui a dois anos, eu posso estar no seu lugar.
– Isso se você passar nos exames. – Ele disse um pouco mais tranquilo e nos deu as costas, caminhando para o bebedouro.
Eu revirei os olhos.
– Eu vou passar nos exames. – Sussurrei para mim mesma.
Quase esqueci que Max estava ali. Ele, ao contrário de mim, não parecia nem um pouco tranquilo.
– Faz tempo, né?
Dei um meio sorriso.
– Um pouco. – Eu disse e apontei com a cabeça para Jack. – Vai me dizer o que aconteceu?
– Promete que não vai achar loucura?
Fiz uma careta.
– Tudo é possível.
– A mulher em questão se chama Isabelle Robinson. Jack estava em um relacionamento com ela. Do dia pra noite, ela apareceu grávida, e Jack sabia que não era dele. Meu irmão se negou a se casar com ela e a filha da puta disse que ia forjar uma tentativa de assassinato pra se vingar dele.
Eu quase ri.
– Parece cena de novela. – Eu disse, convidando-o com um gesto a se sentar junto à minha mesa. – Eu presumo que você tenha alguma prova.
– Tenho apenas a minha palavra, presenciei a discussão.
– E nós dois sabemos que isso não é suficiente, então o que exatamente você veio me pedir?
– Apenas sua confiança. – Max declarou. – Ninguém aqui vai acreditar em mim, e preciso de alguém que acredite e vá atrás de provas concretas de que isso aconteceu.
Eu olhei em volta, outros policiais – como de costume – olhando para nós pelos cantos dos olhos.
– Você tá me dizendo isso oficialmente ou não?
– Considere do jeito que você achar melhor. É a verdade. Me bota pra testemunhar, conversa com o promotor... Não sei! Meu irmão não pode ser acusado disso e não poder fazer nada a respeito é sufocante.
Passei a mão no meu rosto, um pouco de sono ainda preso a mim.
– Qual é, Juliette. Você conhece meu irmão. Sabe que o Jack não seria capaz de uma coisa dessas.
– Se tem uma coisa que eu aprendi durante todos esses anos trabalhando aqui foi que isso não significa nada.
– É o meu irmão! – Ele se alterou.
– Eu já vi filho matando mãe, pai matando filho, irmão matando irmão... Por que o Jack não poderia matar a namorada?
Ex-namorada.
– É a mesma coisa, Max!
– Danté! – Hiddleston me chamou e fez sinal com a cabeça na direção da saída.
Olhei um tanto quanto triste para Max.
– Eu preciso ir. – Falei e levantei da cadeira, já andando relativamente rápido na direção de Hiddleston. – Você ainda tem o mesmo número, né?
– Tenho. – Ele me respondeu, cabisbaixo.
Corri para o carro para chegar ao hospital o mais rápido possível. Hiddleston não parecia muito amigável, sempre mantendo o tom extremamente profissional ao manter-se em silêncio. Mas era estranho. Algo em sua postura despertava minha curiosidade, como se aquele homem não muito mais velho que eu tivesse um segredo obscuro. Ele percebeu meu interesse, mas disfarçou bem – ou nem tanto, já que eu não teria notado caso ele tivesse sido bem sucedido.
Isabelle não parecia o tipo de pessoa que forjaria uma tentativa de homicídio. Até então, Jack também não parecia alguém que seria capaz de matar alguém. Nesse caso, era um impasse, e dos grandes. Mesmo tendo minhas dúvidas, colhi seu depoimento. Era por volta de onze e meia da manhã quando senti o celular vibrando no bolso. Dei as costas para Isabelle e sua enfermeira e fui para perto da janela. Era Henry.
– Só fala se for urgente, to trabalhando. – Falei logo.
– Achei que nós íamos almoçar juntos hoje.
– Achou?!
– Bem, foi o que você disse ontem. Mas aí eu cheguei na delegacia e disseram que você tá em campo...
A lembrança veio rapidamente de Henry beijando minhas costas e pedindo para acompanhá-lo no dia seguinte. Levei uma mão à cabeça.
– Poxa, eu acabei esquecendo completamente. Me desculpa, foi um caso que chegou essa manhã e eu fui requisitada no hospital pra recolher o depoimento da vítima.
– Não tem problema.
Hiddleston bateu na porta e, logo depois, abriu um pouco. Colocou sua cara para dentro e olhou para mim com as sobrancelhas arqueadas.
– Talvez, se você puder me pegar no Massachusetts General Hospital, eu consiga uma folguinha.
Hiddleston não pareceu muito feliz com meu pedido, mas me liberou. Nós fomos para o 75 Chestnut, não muito longe do hospital – caso precisassem de mim. Mas, no meio da refeição, enquanto eu e Henry discutíamos sobre sua vontade de vender sua casa, o telefone tocou, avisando que Isabelle havia simplesmente desaparecido. Henry, então, logo me levou para a delegacia. Fez questão de abrir a porta para mim e despediu-se com um beijo seguido de um grande sorriso antes de entrar de volta no carro. Quando levantei o olhar para a entrada da delegacia, Danny estava gargalhando.
– Quando você ia me contar que a Julie ganhou, finalmente, um tio? – Ele perguntou, gargalhando.
– Quando fosse do seu interesse. – Respondi, revirando os olhos e rindo. – Estava me esperando?
– Eu não, o Max.
Olhei séria para Danny, deixando de esconder uma certa preocupação por ele.
– Você acha que vai dar merda?
– Tenho quase certeza. – Respondi.
Estávamos chegando na altura do laboratório de Maitê. Eu deixei Danny seguir seu caminho e entrei sorrateiramente. Ela me olhou por cima do ombro.
– Um passarinho verde me contou que você e o Cavill finalmente voltaram.
– É a fofoca do dia, não? – Eu disse, me sentando em uma das banquetas.
– Eu faria o mesmo se fosse você. Um homem daqueles, alto, todo definido, um carrão na garagem, casa própria no melhor bairro da cidade...
– Ele pretende se mudar pra mais perto de mim, mesmo eu tendo dito milhares de vezes que isso não é necessário. – Eu a interrompi.
– Melhor ainda. Ou seja, é um reprodutor perfeito.
Eu fiquei encarando Maitê, de olhos semicerrados.
– Ok então, vamos falar de outro macho. Que tal o bonitão que não sai da sua mesa desde cedo?
– Max é meu ex.
– Se ele é seu ex, não tem problema na amiga que gosta de reciclar, né?
– Da última vez que você quis reciclar alguém que eu já tinha beijado...
– Já entendi. – Ele gritou, levantando as mãos e rindo. – Mas você não passaria aqui no meio do dia só pra me ouvir falar besteira, então vamos ao ponto, por favor?
– Caso Scott. – Respondi, dando um leve tapa na mesa. – Queria saber qual o prazo pra terminarem de recuperar o celular da vítima.
– Eu preciso que o Luke termine o trabalho dele pra começar o meu.
– Então apressa o Luke que eu não estou de bom humor. – Resmunguei e deixei a sala.
Jack ainda estava na cela, todo contorcido no chão para se apoiar no banco e dormir. Max também dormia, mas sentado em minha cadeira, com Danny à sua frente, rindo de mim. Gesticulou seu próprio enforcamento e fez cara de morto. Eu ri dele e dei um tapinha nas costas de Max.
– Tenho más notícias. – Declarei.
Max não me conhecia muito, mas sabia que eu era incapaz de falar sobre tragédias de um jeito agradável. Fui sincera com ele sobre tudo o que podia falar e consegui convencê-lo a ir embora para casa que, de lá, ele seria mais útil. Só assim pude relaxar um pouco e me dedicar ao outro caso que tinha em mãos. Trabalhamos em teorias sobre o assassinato de um ativista durante um protesto. Éramos sete mentes pensantes que criavam estórias mirabolantes mas, justamente por pensarmos, um sempre achava falha na teoria do outro. Sem evolução, pedi permissão para ir embora.
– A vida de detetive começou a parecer entediante? – Danny disse, materializando-se ao meu lado enquanto eu arrumava minha bolsa para deixar a delegacia.
– Não entendi. – Respondi.
– Você e o Cavill finalmente se acertaram. Acho que era pra você estar pulando de felicidade, mas parece que alguém morreu.
Revirei os olhos.
– Foi uma piada horrível pra quem é detetive da Homicídios. – Falei e Danny começou a rir. – Alguém sempre morre. Se não morressem, eu tava em casa tomando uma cerveja agora.
– Aceita uma companhia?
– Você tem que ir pra casa ver sua filha, Danny.
– A Georgia tá com ela na casa dos pais essa noite.
Eu olhei para seu rosto enquanto um sorriso de criança inquieta brincava em seus lábios. Esperamos Maitê terminar uma análise de DNA e fomos para o pub na esquina próxima da delegacia. Eu pedi um coquetel de morango e os dois me olharam da cabeça aos pés.
– O que foi?! – Perguntei quando o barman se afastou.
Coquetel de morango. – Danny tentou, horrivelmente, me imitar.
– Se fosse pra beber cerveja, eu bebia em casa, não?
Maitê fez cara de pensativa enquanto dava um gole na sua long neck. Meu celular vibrou uma vez só, era Henry mandando mensagem.
– Se importam se eu chamar mais um pra somar à nossa noite?
Ambos deram de ombros e eu mandei mensagem, perguntando se ele gostaria de me fazer companhia. Terminei meu drink antes de receber sua resposta e pedi outro. Enquanto isso, Danny e Maitê estavam falando do cara novo da limpeza que agia como se tivesse medo de nós. Eu dei uma boa olhada em volta, o lugar estava relativamente vazio.
– Detetive! – O barman me chamou, trazendo novamente um copo cheio.
Eu agradeci com o olhar e Henry, de terno e gravata ainda, apontou na porta. Segurei firme o meu copo e, com um sorriso largo, caminhei até ele. Fui recebida com um breve beijo. Ele sorriu para mim.
– Achei que você não viria. Nem respondeu minha última mensagem.
Antes que Henry me respondesse, Danny bateu no meu ombro e tirou o drink das minhas mãos.
– Ei! – Gritei, em protesto.
– Seu amiguinho vai poder sair. – Ele me mostrou o celular. – Isabelle acabou de dizer que Jack George foi até o hospital e fez ameaças a ela novamente.
– Só que Jack George está sob custódia. – Respondi, rindo, e virei para Henry. – Quer dar um passeio na delegacia?
Ele deu de ombros e sorriu novamente.
– Já que estou aqui...


Capítulo 38

Jay não estava me olhando com bons olhos havia um tempo, mas Hiddleston queria que eu fosse comunicá-lo sobre sua transferência. Eu estava adiando a responsabilidade enquanto tudo o que Danny fazia era ficar rindo de mim.
– Quer levar um soco agora ou depois, Jones?
– Ui, nossa gata está de mau humor. – Louis disse, rindo, e jogou uma pasta em cima do teclado do meu computador. – Boa diversão.
Torci meu pescoço para ver seu sorriso de quem tinha mais cadáveres do que gostaria no porão.
– Tá tão ruim assim? – Perguntei, puxando a pasta e folheando as primeiras páginas.
– Uma merda. – Ele respondeu enquanto se afastava.
Eu arqueei a sobrancelha.
– Louis encontrou um pacote com o que ele acha que pode ser cocaína no... Hm... Reto da vítima.
– Ele lambeu? – Danny perguntou, gargalhando.
Revirei os olhos e levantei da mesa. Hiddleston parecia que estava apenas me esperando. Ele fez contato visual da porta de sua sala e apontou para dentro dela. Danny conteve o riso enquanto entendia o que estava acontecendo. Eu andei até nosso querido chefe, tentando parecer confiante.
– O que foi?
– Você e o Jones estão em condição de ir pra rua?
Dei de ombros.
– Por quê não?
– Quero alguém na casa dos Smith agora coordenando a equipe da perícia antes que eles façam alguma besteira.
– Sim, senhor. – Eu disse, assentindo. – Se enviar o endereço pro meu celular, chegamos lá o mais rápido possível.
– Já enviei.
Dei as costas para ele e fui até minha mesa. Enquanto eu pegava o casaco, Danny se tocou e começou a se arrumar também.
– Pra onde?
– West Roxbury.
Danny revirou os olhos e guardou a arma no coldre.
– Deveríamos levar coletes?
– Não, é só o Hiddleston que não confia na equipe de perícia dele.
– Tomlinson não vai junto? – Ele perguntou.
– Até onde eu sei, ele tá cuidando do cadáver, então...
Ele dirigiu com os vidros abaixados e um ar de diversão nos lábios. Antes mesmo de entrarmos na casa, nós dois colocamos luvas. Passei por baixo da fita de contenção e Danny me acompanhou. Dorothy passou na nossa frente assim que atravessei a entrada.
– O que vocês estão fazendo aqui? – Ela perguntou.
– Hiddleston mandou. – Danny respondeu enquanto eu dava uma boa olhada no ambiente. – Pegaram alguma coisa já?
– Nada.
– E o que vocês estão exatamente procurando?
– Pela informação do Tomlinson, drogas. E qualquer coisa que pareça importante pra investigação.
Revirei os olhos de costas para Dorothy. Danny viu e segurou a risada.
– O Hiddleston não gosta da gente... – Ele sussurrou.
– Você ainda acha?
Jason estava ensacando um notebook quando entrei no que parecia ser a suíte principal. Dei outra olhada e, quando vi que o local já parecia ter sido remexido, me dirigi ao banheiro.
– Não! – Jason gritou assim que eu entrei no outro cômodo.
Alguém havia literalmente cagado tudo ali. Havia fezes no chão, parede, banheira... Eu me virei, com a cara um tanto quanto aterrorizada, e voltei para dentro do quarto.
– Ainda bem que eu não comi nada ainda. – Murmurei.
– Desculpa.
Jason estava se divertindo com minha reação de nojo.
– Já pegaram amostras?
– Foi uma das primeiras coisas que fizeram.
– Ótimo. – Respondi e saí do quarto.
Danny estava no corredor.
– Devia ter trazido uma cadeira pra ficar esperando enquanto tomamos conta das crianças. – Ele resmungou.
– Somos menos de dez anos mais velhos que eles.
Você é! – Danny me corrigiu enquanto eu revirava os olhos e ia para o próximo ambiente. – Eu já sou quase um vovô.
– Você tem trinta e quatro, Danny.
– Em breve, trinta e cinco.
– Daqui a quatro meses. – Revirei os olhos.
Um outro quarto havia sido transformado em escritório. Quando bati o olho, soube de primeira que o lugar não tinha sido minuciosamente vasculhado e entendi o porquê de Hiddleston nos mandar para lá no meio da semana. Enquanto o pessoal recolhia os últimos detalhes, nós fomos almoçar e eu acabei derrubando um pouco de molho na camisa. Como a casa de Henry ficava no caminho pra delegacia e eu tinha algumas roupas lá, pedi para Danny parar. Saí do carro com uma pequena dificuldade por conta de uma dor na coluna.
– Quer entrar pra beber uma água?
– Acho que vou no banheiro. – Ele respondeu.
Ele começou a recolher seu distintivo e arma e desafivelou o cinto de segurança. Eu me virei para atravessar a rua e imediatamente tive uma sensação horrível. Olhei para a janela do quarto e meu corpo praticamente congelou. Havia tempo que eu não pensava naquele nome, mas seria difícil esquecer aquelas feições. Lisa não tinha me visto, mas eu tinha certeza de que era ela. Danny notou que tinha algo errado.
– Bloqueia a porta dos fundos. – Eu disse e ele rapidamente sumiu para trás da casa.
Coloquei uma mão na arma e, com a outra, puxei o celular. Meu coração batia com força. Disquei o número do escritório de Henry, e rapidamente Betty atendeu.
– Betty, é a Juliette. O Henry tá aí?
– Ele está recebendo um promotor, senhorita Danté.
– Pode repassar pra ele a ligação? É urgente.
Ela hesitou por curtos segundos.
– Só um instante.
Esperei enquanto o telefone tocava. Olhei para dentro da casa pela janela da sala, parecia tudo normal.
– Oi, Julie, o que houve?
No momento em que ouvi sua voz, parte de mim relaxou por completo. Henry estava no escritório, não em casa. Ele havia passado a noite no meu apartamento e eu havia dirigido até a corte para deixá-lo em seu trabalho. Mas eu não passava o dia inteiro colada nele, então não poderia excluir a possibilidade de eles terem se encontrado longe de mim e, assim, ele ter lhe concedido uma cópia da chave.
– Você tem alguma coisa pra me contar? – Perguntei.
– Me dá um minuto.
Eu ouvi pacientemente enquanto ele dispensava seja lá quem estivesse com ele.
– Do que você tá falando?
– De outra mulher, Henry. – Respondi, firme, tomando todo cuidado do mundo para não elevar o tom de voz.
Na primeira olhada que eu dei na porta, notei que a fechadura tinha sido arrombada.
– Você tá doida? Claro que não.
– Tem certeza?
– Julie, o que está acontecendo?
A vidraça na lateral da porta revelou que Danny já estava dentro da casa.
– Eu preciso ir. – Disse e desliguei na cara dele.
Lentamente, abri a porta e entrei com passos cautelosos e empunhando minha arma.
– Cozinha e banheiro estão limpos e alguém tentou arrombar a porta dos fundos. – Danny sussurrou em meu ouvido.
– A da frente, conseguiram. – Respondi. – Fica de olho aqui que eu vou subir.
Cada passo era uma reza diferente para que nenhum osso meu estalasse e nenhuma madeira rangesse. As portas do quarto de hóspedes, do escritório e do banheiro estavam fechadas. Entrei em sua suíte e tudo parecia normal. Mantendo a atenção na possibilidade de alguém sair dos outros cômodos, mesmo que Danny estivesse lá embaixo para justamente me ajudar com aquilo, abaixei ao lado da cama e dei uma olhada. Nada. Também não havia nada nem no closet nem no banheiro. Fechei a porta do quarto quando saí e tranquei.
Dei uma vasculhada no escritório, nada. Banheiro e quarto de hóspedes também foram devidamente vasculhados. Eu não podia estar louca. Tinha certeza absoluta do que havia visto. Danny, antes de eu comentar qualquer coisa, já havia comentado sobre a porta dos fundos ter sofrido uma tentativa de arrombamento. O andar de cima estava limpo. Então, contrariada mas ainda com a arma em mãos, desci.
– Limpo. – Falei.
– Ninguém saiu da casa enquanto eu tava aqui.
– Liga pro Hiddleston.
– Nós somos da Homicídios. A gente tem que ligar pra Roubos e Furtos, acho que a Linda ainda tá lá e...
– Sua ex? – Perguntei, interrompendo-o enquanto andava até a pia para pegar um copo de água. – Liga pro Hiddleston que ele chama as pessoas certas pra gente.
– Já ligou pro Cavill?
Eu era policial. Sabia mais do que ninguém que acusar sem provas era um tiro no escuro. Ou iam me superproteger e atacar o acusado ou eu ia perder toda a credibilidade. Enquanto eu ligava para Henry, me concentrava em não dizer que havia visto uma pessoa específica dentro da casa. Ele correu para lá e chegou logo depois da equipe de perícia. Insistiu em entrar para pegar algumas coisas, mas eu o convenci de que ele tinha o que precisava na minha casa.
Jay não entendeu quando eu fui explicá-lo sobre a necessidade de sua transferência no dia seguinte. Ele sempre havia se sentido deslocado, principalmente porque as pessoas mais sociáveis da delegacia estavam com a mente bem longe de lá e Danny roubou todo o resto das atenções quando voltou. No fundo, dava para ver nos olhos dele que ele sabia que aquele momento chegaria de um jeito ou de outro. Ele se manteve em silêncio o tempo inteiro enquanto eu tentava elaborar desculpas para que ele se sentisse menos pior. Parecia até que eu estava falando com a família de uma vítima.
Eu observava Maitê se esforçando para enxergar algo através da lupa enquanto tentava ajudá-la a achar uma possível identificação para uma substância arenosa azulada encontrada na cena de um crime. Por mais que eu estivesse realmente tentando olhar para o pequeno saco de plástico, meu sistema nervoso estava completamente desligado. Ela deu um leve tapa na mesa e voltou para o computador, digitando alguma coisa que eu não conseguia ver. Não era difícil notar que Maitê estava tentando olhar para mim pelo reflexo na tela.
– Como estão as coisas com Henry? – Ela perguntou.
– Ele tá maravilhado porque finalmente conseguiu o que tanto queria. – Respondi, dando a volta em sua estação de trabalho e tomando seu lugar na frente da lupa.
– E o que ele tanto queria?
– Que a gente morasse junto.
Maitê me olhou de canto.
– Você com um puta homem igual o Cavill em casa e ainda reclamando... A vida é realmente injusta.
– Não estou reclamando.
– Deixou bem claro que só ele tá feliz com a situação.
Desisti da lupa. Não estava entendendo merda nenhuma do que estava vendo.
– A casa dele foi arrombada, te garanto que ninguém fica feliz com o relacionamento evoluindo por um motivo desses.
– Até agora, nenhuma pista?
Respirei fundo.
– Acharam uma parcial de uma digital que não parece com nenhuma minha ou dele, mas não foi o suficiente pra fazer uma identificação.
– Se eu estivesse liderando o laboratório deles, com certeza, você não estaria de mãos abanando.
Nós rimos e Danny entrou na sala. Sua postura não escondia que tínhamos um caso novo. Eu arqueei as sobrancelhas com uma expressão quase divertida enquanto esperava suas palavras.
– Acidente na Hartford com a Wayland.
– E desde quando cuidamos de acidentes? – Maitê perguntou.
– Desde quando o motorista de um dos carros envolvidos foi baleado na cabeça.
Eu me despedi de Maitê com o olhar. Busquei meu distintivo e arma, vesti um casaco e saímos. Dirigi até o local do crime e a coisa estava bem bagunçada. Danny me olhava enquanto eu fazia uma anotação mental de como a roda do A4 esmagado era muito feia.
– Louis vai gostar dos presentinhos?
– Era tudo o que ele queria. – Respondi. – Os bombeiros vão demorar retirar os corpos?
– Alguma vez, as pessoas trabalharam rápido com a gente?
Danny se apoiou na viatura e colocou os óculos escuros, me fazendo rir.
– Horatio Caine, você por aqui?
– Babaca. – Ele respondeu e tirou os óculos, sorrindo.
O telefone vibrou no bolso da calça. Já na minha mão, ele parou de tocar, e Henry deixou uma ligação perdida. Antes mesmo que eu pudesse pensar em discar seu número de volta, ele estava ligando novamente. Danny olhou para a tela do celular, fingindo reprovação. Eu ri e dei as costas para ele, procurando um pouco de distância da confusão.
– Oi. – Atendi.
– Julie, você tá bem?
O tom de sua voz era preocupante. Suas ligações eram sempre divertidas, a não ser quando se tratava de algo importante, o que era extremamente raro. Henry nunca havia falado comigo daquele jeito. Eu me virei de volta para Danny, que olhava atentamente para mim e notou, na minha expressão facial, que havia algo errado.
– To. Na rua, trabalhando, mas estou bem. Por quê?
– Quebraram a janela do meu carro e deixaram um bilhete endereçado a você junto com uma arma no banco do carona.
Minha respiração ficou pesada enquanto eu tentava associar as palavras que ele havia acabado de me falar.
– Você já avisou a polícia?
– Eles já estão aqui.
– E onde você tá?
– No trabalho.
Olhei de volta para os carros batidos e apenas neguei com a cabeça em silêncio.
– Eu to indo te encontrar.
Danny ergueu a chave da viatura na altura dos meus ombros.
– Não precisa nem explicar, eu volto de táxi.
Agradeci com o olhar e entrei na viatura. Liguei a sirene e arranquei com o carro imediatamente.


Capítulo 39

Eu não era muito fã de andar de avião. O problema não era o meio tempo entre Boston e Paris mas sim a chuva forte que estava caindo na França, fazendo com que o avião desse mil voltas para conseguir pousar no Charles de Gaulle. Meu ouvido estava explodindo por causa da variação de pressão. Eu me encolhi em meu assento e tentava ao máximo não começar a chorar de dor, seria vergonhoso. Toda vez que eu olhava pela janela, nós estávamos no meio das nuvens e não dava nem para ver a asa da aeronave da AirFrance. Eu tinha pânico daquilo e só queria morrer. Henry segurou firme minha mão, tentando me passar tranquilidade – e, àquela altura, o significado dessa palavra nem existia mais no meu cérebro. Secretamente, me perguntava o motivo de ter deixado a segurança do chão de Boston.
Quando eu cheguei ao estacionamento do tribunal, um circo havia sido montado. Até a imprensa estava lá e eu não entendia o que tinha de tão importante no carro arrombado de um juiz da vara criminal. Henry parecia que tinha um radar para a minha presença. Mesmo de longe, ele lançou um olhar preocupado para mim. Enquanto caminhava em sua direção, uma mão bloqueou meu ombro.
– Só pessoas autorizadas, senhorita. – Um policial me disse.
Puxei o distintivo de dentro da blusa e ele se afastou. Henry me deu um beijo na bochecha assim que cheguei mais perto.
– O que houve? – Perguntei, imediatamente.
– Eu não...
– Detetive Danté! – Uma voz nos interrompeu e reconheci o homem como sendo Edward Miller, um cara da Roubos e Furtos que também tinha estado na casa de Henry. – Sinto que tenhamos que nos reencontrar.
Miller esticou a mão e eu a apertei.
– A recíproca é verdadeira.
– Eu entendo. – Ele disse. – Já estive conversando com o juiz Cavill e...
– Miller, se me dá licença, eu gostaria de conversar com ele. Você sabe muito bem que não estou aqui pra trabalhar. Então, se puder me dar alguns minutos, eu serei grata.
A surpresa tomou conta de seus olhos. Hesitante, ele se afastou lentamente. Voltei minha atenção para Henry, que parecia anestesiado.
– Você não faz ideia de nada a respeito disso? – Perguntei, apontando para o carro e suas janelas quebradas.
– Eu teria falado se soubesse de alguma coisa e agora eu sei que não é só sobre mim.
– O que você quer dizer com isso?
– Deixaram um bilhete endereçado a você.
Arqueei as sobrancelhas.
– Onde?
– Acho que o pessoal da perícia já levou, mas dizia “Você está descobrindo do que sou capaz.”. Ou algo do tipo.
Estavam preparando um guincho para levar o carro.
– Já ligou pro seguro?
– Deixei pra resolver isso quando as coisas aqui se acalmarem.
– Quero você no programa de proteção. – Declarei.
– E você não deveria estar também?
– Eu sou policial.
– Isso significa que você é imortal?
– Henry!
– Não posso parar minha vida, Julie.
– Você precisa pedir uma licença, qualquer um entenderia.
– Eu peço se você pedir também.
Havia um alarme ativado no meu cérebro que me dizia que eu devia contar sobre o que eu tinha visto em sua casa, mas os sinais visuais eram tantos que eu estava começando a me confundir. Seu olhar era sempre cauteloso, mesmo em momentos em que era preciso levar tudo muito a sério. A ligação de Renier caiu como uma luva. Não nos falávamos com frequência. Eu lhe dei autorização para me representar perante os sócios do meu pai porque eu realmente não queria nada a ver com tudo aquilo. Mas eles haviam chegado ao seu limite e queriam separar a “empresa”. Eu ainda era, legalmente, herdeira de parte daquilo, e precisavam de mim para acertar a documentação. A situação havia calhado de ser uma escapatória perfeita para a tensão que estava nos cercando em Boston, mesmo que isso fosse contra a vontade de Henry – e a minha.
Ele ficou no Mercure Paris Bercy Bibliotheque enquanto eu me diria ao escritório de Renier Margueríte. Pedi delicadamente que Henry me deixasse ir sozinha pois seria, de alguma forma, mais confortável para mim. O prédio na Franklin Roosevelt havia sofrido algumas mudanças ao longo dos anos, certamente, mas ainda parecia o mesmo para mim. Eu me perguntava, quando era mais nova, como que o escritório de advocacia naquela ruazinha escondida podia dar lucro. Depois acabei descobrindo que Renier, tal como meu pai, não era a pessoa mais honesta do mundo.
Enquanto eu passava por cima do Sena assim que peguei o táxi no hotel, eu tentava me manter mais calma. A temperatura amena me ajudava a lembrar dos bons tempos em Paris, que não foram muitos. No fim, me sentia pelada sem a arma pendurada no coldre. Entreguei o dinheiro com uma sobra, mas estava tão distraída que acabei deixando o motorista com uma gorjeta saudável. Ajeitei a blusa e dei meu primeiro passo para dentro do prédio.
O lado de dentro estava mais frio que o lado de fora. Da última vez que estivera ali, tinha acabado de perder meu pai e, devido às descobertas daquela época, estava tão em choque que não havia pensado no que a consequência daquele herança significava. Bati na porta quase com medo, esperando que não me ouvissem e eu pudesse dar as costas para tudo aquilo. Uma secretária diferente da última vez me atendeu com um sorriso exclusivamente educado.
– Senhorita Danté, o senhor Margueríte está lhe aguardando. Pode entrar.
Eu apenas assenti e não disse nada. Atravessei a recepção e abri a porta principal de seu escritório. Sua postura indicava que estava já me esperando.
– Juliette. – Ele disse, me oferecendo a mão por cima da mesa.
– Gostaria de dizer que é um prazer revê-lo, Renier, mas sabe que seria mentira.
– Não há surpresa em ouvir isso. Gostaria de sentar?
– Vai ser mesmo necessário? – Perguntei.
– Mesmo que eu seja direto e reto, você ainda precisará ficar aqui por um tempo.
Olhei para o celular, pensando se devia avisar Henry.
– Então vamos às vias de fato.
Ele abriu uma gaveta e tirou uma resma de lá.
– Fez um bom voo? – Renier perguntou.
– Nada tem sido bom ultimamente na minha vida.
– Bem, se forem problemas financeiros, pelo menos você veio até Paris buscar uma boa notícia.
– Se fossem problemas financeiros, eu não estaria preocupada com perder tempo em Paris.
Renier sorriu e empurrou os papeis para mim.
– Você é filha do seu pai mesmo. – Ele observou.
Eu folheei rapidamente, indisposta a ler aquilo tudo. Havia um termo enorme sobre as quebras de contratos da Danté et associe. Empurrei os papeis de volta na direção de Renier.
– Você leu tudo?
– Certamente, senhorita.
– E o que eu devo saber?
Ele limpou a garganta.
– Com esse desmembramento, nenhum dos associados terão direito a utilizar seu nome de qualquer forma. Caso seja da sua vontade, você tem direito a manter a empresa, mas deve entender que pagará a cada sócio sua respectiva parte, mas acredito que não seja isso que você quer. Então, como herdeira e sócia nominal, você deve assinar todas as demissões.
– Devo começar o mais cedo possível então, certo?
– Não vai ler ou perguntar sobre o financeiro?
– Financeiro?! – Ele me pegou de surpresa.
– Teoricamente, cinquenta e um por cento da empresa lhe pertencem. Ou seja, cinquenta e um por cento do caixa da empresa lhe pertence.
– Você não falou nada sobre isso.
– Bem, eu achei que não precisava falar, não é mesmo? A empresa de seu pai não era uma organização sem fins lucrativos, muito pelo contrário.
Enquanto eu sentia o estômago revirando, como sempre ocorria quando qualquer coisa saía do meu controle, fitei o chão, achando que aquilo me faria raciocinar melhor.
– De quanto estamos falando?
– A senhorita me orientou a apenas fazer com que as coisas continuassem funcionando como se seu pai ainda estivesse vivo, retirando toda e qualquer responsabilidade das suas costas então, tirando o rendimento da empresa, praticamente só houve gastos e...
– Quanto, Renier? – Eu o interrompi.
Ele suspirou.
– Do que lhe pertence a respeito do caixa da empresa, calculo em torno de treze milhões de euros. Talvez um pouco mais.
– Por que eu não fiquei sabendo disso antes? – Elevei o tom de voz.
– Não tivemos nenhum contato suficiente para tal, senhorita Danté. E já que estamos aqui, a senhorita poderia aproveitar e tomar as decisões corretas a respeito da conta bancária particular de seu pai e de seus bens.
Renier se levantou, dirigindo-se a um quadro pintado a óleo de uma bela cerejeira. Ele retirou o quadro da parede, colocando-o cuidadosamente no chão e revelando um cofre embutido. Seus dedos agilmente digitaram uma combinação e a porta se abriu. Ele retirou um chaveiro e um envelope pardo, me entregando imediatamente.
– O banco de seu pai era o Société Générale da Boulevard de Strasbourg. Leve esses documentos lá para retirar o dinheiro.
– E a chave?
– É a de sua casa. Mantive empregados visitando-a para realizar limpeza e manutenção do terreno, além de cuidarem dos queridos carros do seu falecido pai.
Olhei para o envelope e o chaveiro e me levantei.
– Se eu te dei permissão pra tudo isso desde que meu pai se foi, você pode assinar os papeis por mim também, não?
– As demissões, sim, posso. Mas, legalmente, só você pode assinar a documentação referente ao desmembramento da empresa.
– Separa os papeis estritamente necessários então e manda pra mim. Estou no Mercure Paris Bercy Bibliotheque e só...
Enquanto eu falava, ele mexeu nos papeis e separou algumas folhas, levantando-as para mim
– Eu consegui aumentar um pouco o prazo, mas os outros sócios estão bem impacientes.
Eu peguei as folhas, que eu olhei brevemente.
– Como você sabia?
– Seu pai gostava de mim porque eu sempre sabia o que seria feito antes da decisão ser tomada.
Ele abriu a porta para mim.
– Recomendo que leia a papelada, senhorita Danté. Foi um prazer revê-la.
Mais um passeio de táxi de meia hora – um pouco mais perto do hotel, para onde eu desejava ardentemente voltar – e eu cheguei ao banco. Na esquina oposta ao banco, havia um KFC. Talvez Henry devesse estar ali, ele gostaria de comer enquanto eu resolvia as coisas. A imagem formada na minha cabeça até me lembrava, de certa forma, nossa rotina em Boston.
Um funcionário prontamente me atendeu e me colocou em uma mesa com bonitos enfeites e uma cadeira vazia do outro lado, onde logo sentou uma senhora cerca de dez anos mais velha que eu.
– Boa tarde, senhorita...
– Danté. Juliette Danté. – Eu respondi, mantendo a linha.
– Ah sim. Seu nome foi falado aqui por um bom tempo. Imagino que veio tomar posse de fato de seu dinheiro.
– Sim.
– Vou precisar de uma série de documentos para abrir sua conta e...
– Desculpe, – Eu a interrompi. – mas meu advogado disse que eu deveria vir aqui apenas retirar o dinheiro, não abrir uma conta.
– A senhora deseja retirar o dinheiro do banco?
– Certamente. Quero transferir para minha conta nos Estados Unidos.
O celular vibrou. Ignorando a gerente completamente, eu tirei o aparelho do bolso e dei uma olhada no identificador de chamadas. Não me surpreendia que fosse Henry, então desliguei e abri um aplicativo para lhe enviar uma mensagem enquanto continuava resolvendo as coisas.
– Senhorita, nós podemos oferecer algumas vantagens de investimento para o dinheiro que provavelmente seu banco na América do Norte não poderá oferecer.
– Eu entendo, mas quero meu dinheiro lá. – Insisti enquanto digitava um breve “já ligo pra você”.
– Não há nada que possamos fazer? A possibilidade de negociar taxas e formas...
– Não sei seu nome, mas eu só vim aqui retirar o dinheiro e, sinceramente, não tenho interesse nenhum em voltar ao país depois disso.
A mulher se ajeitou em sua cadeira, nem um pouco satisfeita com meu comportamento. Ela mexeu em seu computador por alguns segundos e olhou de volta para mim, forçando exageradamente um sorriso.
– Vou pegar os papéis.
Eu aguardei sem muita paciência. Ela voltou com uma grande resma, que eu fiz questão de ler. Lá estavam todos os termos sobre o fechamento da conta no Société Générale e sobre o prazo de dois dias para que o dinheiro fosse depositado em minha conta. Eu rubriquei as primeiras páginas e fui até a última. A quantidade de número antes da vírgula me assustou de primeira e eu senti uma leve arritmia. Fiz as contas por cima, e aqueles trinta e oito milhões de euros dariam quase quarenta e cinco, em moeda americana. Engoli em seco e assinei a última página.
– Mais alguma coisa? – Perguntei, a garganta seca.
– Agora é só aguardar, senhorita Danté.
Eu saí correndo do banco. Fiz sinal para um táxi automaticamente. Murmurei o endereço onde morei por longos anos antes de me mudar para a América e o taxista perguntou se eu estava bem. Eu me limitei a apenas assentir.


Capítulo 40

Henry me encontrou um tanto quanto desnorteada, sentada no chão da sala e com as costas apoiadas na parede. Tudo parecia o mesmo de anos atrás, quando eu ainda achava que ia casar com o vocalista de uma boyband britânica. O cheiro era, certamente, de uma casa fechada por muito tempo, mas Renier realmente havia tomado conta para que nada se perdesse. As emoções de voltar àquele local foram fortes demais para mim e acabei recorrendo à minha companhia. Ele me abraçou logo que se ajoelhou ao meu lado.
– Quer conversar sobre isso?
– Quanto dá trinta e oito mais treze? – Perguntei.
– Cinquenta e um, mas não entendi.
– E quanto isso dá em dólares?
– Acho que um pouco mais de sessenta. Por quê?
– O que você faria com um pouco mais de sessenta milhões de dólares?
– Milhões?!
– Meu pai tinha muito mais dinheiro do que eu achava que tinha.
– Você tá falando sério?
Assenti. Ele respirou fundo e sentou ao meu lado.
– Em primeiro lugar, eu deixaria de trabalhar pra polícia de Massachusetts.
Eu soltei uma leve risada.
– É dinheiro demais, Henry.
– Você sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde.
– Eu não sei o que fazer com esse dinheiro.
– Então não faz nada. Se você tá abalada com essa notícia, dê um tempo pra si mesma. Não tem motivo pra se cobrar agora, você não é obrigada a fazer nada a respeito disso.
Olhei para o teto. Minha mãe adorava aquele lustre. Havia sido presente da minha avó. Seus olhos brilhavam mais que as lâmpadas quando foram instalar a peça em nossa casa. Ele parou de funcionar por um motivo que não conseguiram identificar. Meu pai deixou o lustre lá e chamou um arquiteto para planejar outra fonte de iluminação que fizesse o ambiente ficar bonito mesmo com o lustre apenas de enfeite.
– Por que não voltamos pro hotel, você dorme um pouco e amanhã vemos isso?
Eu assenti. Henry me arrumou um suco de maracujá – que era a mesma coisa que um soco na cara para mim – e praticamente desmaiei. Acordei indisposta e adiei o compromisso. No outro dia, a indisposição ainda estava em mim e Henry me chamou para uma breve ida até Londres a fim de visitar seu pai, mas eu passei a oportunidade de um passeio de trem e insisti para que ele fosse sozinho. Pouco depois do almoço, eu decidi ir para a casa.
Havia um homem podando as árvores do jardim frontal. Ele me cumprimentou de longe, como se me conhecesse. Observei a porta imponente por um longo tempo antes de destrancá-la com a chave que Renier havia me dado. Tinha poeira sobre os móveis, mas nem tanto. A casa certamente havia sido bem cuidada. Eu subi as escadas e o primeiro cômodo onde entrei foi o quarto que havia sido meu no passado. Era clichê dizer que tudo estava do mesmo jeito. As paredes haviam sido pintadas com uma cor um pouco diferente da antiga, mas a organização dos móveis ainda me lembrava minha adolescência.
Foi difícil seguir em frente e ir ao quarto que pertencera a meus pais. A memória da enxurrada de policiais invadindo o corredor da minha casa ainda estava bem vívida na minha mente. Na época, eu não entendi muita coisa porque estava em choque e constantemente me esquecia de que, por vezes, eu assustava as pessoas do mesmo jeito que aqueles policiais me assustaram. Quando meu pai faleceu, já tinha meus 26 anos, uma carreira em formação e um emprego relativamente estável. Além disso, a pouca relação com ele havia ajudado para que o luto não tomasse conta de mim. Com minha mãe, era completamente diferente. Eu era muito nova, não conhecia nada do mundo e minha vida era resumida à minha amizade com ela. De alguma forma, eu ainda sentia que o luto não havia me deixado por completo, mas era preciso seguir em frente. Mesmo assim, havia algo fora do lugar.
As palavras de Renier logo após a morte de meu pai ecoavam na minha cabeça. Eu era profissional em fazer as histórias terem sentido – literalmente – e aquele quebra-cabeça ainda parecia injustamente incompleto. Passeei um pouco mais pela casa, fazendo questão de deixar meus dedos tocarem cada pedaço de parede e móvel que estava ao meu alcance. Por um lado, era gostoso trazer de volta algumas memórias. Parei em frente à porta do escritório de meu pai. Era quase como uma ala da casa onde ninguém deveria passar perto. Nas poucas vezes em que estive lá dentro, fui fuzilada pelo olhar de um pai nada amigável e, então, me retirava na ponta dos pés.
Eu abri a porta. A mesa havia mudado. A estante também, com seus livros preciosos sobre economia e administração. Havia um computador – que provavelmente não funcionava mais – sobre a mesa e um arquivo da mesma cor que os outros móveis descansava ao lado da grande janela.
O celular tocando me pegou desprevenida e eu acabei dando um grito quando a música ecoou pela casa vazia. Henry, àquela hora, provavelmente nem havia saído de Londres ainda.
– Já está voltando? – Atendi.
– Ainda não. Na verdade, minha intenção era saber se você ainda insiste em ficar aí. Meu pai disse que a casa está à nossa disposição e, pra ser bem sincero, você nunca fez uma visita a ele. E eu gostaria de passar um pouco mais de tempo aqui, se fosse possível
– Eu to na casa do meu pai, Henry.
Pude ouví-lo suspirar do outro lado da linha.
– Você tá bem?
– To. Só achei que precisava vir aqui e ver as coisas com meus próprios olhos pra tomar uma decisão.
– Posso voltar pra Paris exatamente agora, se você quiser.
Henry fazia tudo por mim. Desde sempre. Seu pai já estava idoso e em tratamento para uma grave doença. Família significava muito para Henry, talvez o tanto que significaria para mim caso a minha não fosse completamente desestruturada. Eu sorri para mim mesma no cômodo vazio.
– Eu vou no hotel arrumar uma bolsa pra gente e pego o próximo trem praí. Pode ser?
– Claro!
Seu sorriso era quase palpável. Eu desliguei logo, decidida a melhorar o humor, quando algo me chamou atenção. Havia uma fita adesiva vermelha com meu nome e o de minha mãe colada a uma das gavetas do arquivo. Eu fui até o móvel e abri. Várias repartições extremamente organizadas e recheadas de papeis se espalhavam pela extensão da gaveta. Dentre elas, a etiqueta “Jones” se destacava. Imediatamente, puxei a pasta. As várias impressões eram definitivamente cópias de e-mails. Eu me sentei à mesa e espalhei as folhas por cima do tampo escuro de madeira.
O dinheiro, àquela altura, era insignificante. Eu senti meu coração apertando cada vez mais conforme ia lendo as frases. Eu rodei várias páginas onde meu pai e Danny tratavam de pagamentos e informações usuais sobre mim. Como eu estava, como meu humor andava oscilando, o tanto que meu cabelo havia crescido. No final de todos os e-mails, uma cópia de contrato. Meu pai estava pagando Danny para, teoricamente, me espionar. Havia um certo tom de preocupação em todos seus e-mails, um cuidado que ele jamais havia deixado transparecer. Pensei, imediatamente, em ligar para Danny, mas o telefone não chamou. Depois do contrato, cópias e mais cópias de comprovantes de pagamento.
Eu me levantei, sem nem ter certeza do que estava fazendo, e voltei à gaveta, mas especificamente à parte reservada para minha mãe. Olhei pasta por pasta, até achar o nome “Bongiovi”, estampado em letras garrafais na etiqueta da última pasta da gaveta. Não era exatamente o que eu estava procurando, nem de longe, mas foi o suficiente para me colocar em alerta.
Abri a pasta em cima da mesa. As fotos estavam em dezenas, talvez centenas. Não tinha a qualidade das imagens de um ensaio fotográfico profissional e eu precisei me esforçar para reconhecer o rosto de Bongiovi nas imagens datadas de 1990. Mesmo que eu fosse uma detetive, minhas habilidades profissionais não se faziam tão necessárias assim para ligar os pontos. Meus pais haviam se casado bem antes de minha mãe engravidar, o que não deixava espaço para um possível ex-namorado tão próximo do meu nascimento. Havia um envelope junto com as fotos e, assim que abri e li as palavras “teste de paternidade”, devolvi o papel para seu compartimento original.
Voltei à gaveta. Próximo ao local onde a última pasta estava, eu lembrava de ter visto uma etiqueta com a data da morte de minha mãe. Grampeadas, primeiramente, havia uma sequência de e-mails trocados com Renier com afirmações concisas sobre sua inocência. Logo depois, outra resma continha um destinatário identificado como Neville Chermont.
O nome não era estranho para mim. Eu puxei o celular do bolso e pesquisei o nome antes mesmo de ler o conteúdo dos e-mails. Neville Chermont havia surgido como o juiz responsável pela exoneração dos irmãos Dosseau quando eu comecei a investigar o assassinato da minha mãe. Meu estômago embrulhou quando li o conteúdo do primeiro e-mail, onde meu pai dizia a Chermont que não queria, de jeito nenhum, que eu soubesse do envolvimento da minha mãe com a máfia italiana. Ele pediu dinheiro e meu pai acatou. Em um novo contato, ele pediu para que Chermont impedisse a investigação de seguir em frente e solicitou, firme, que não chegasse a mim a informação de que minha mãe havia sido assassinada. Mais dinheiro foi solicitado. Um terceiro contato chegou, primeiramente, por Chermont, contando dos irmãos Dosseau e de sua insistência em seguir com a investigação. As palavras eram diretas. “Minha filha tem dezesseis anos. Cobre o quanto quiser, mas ela não tem idade pra ser envolvida numa investigação de homicídio e, custe o que custar, eu não vou deixar que cheguem nela. Nem a polícia, nem a máfia.”. A resposta foi curta: “O único jeito é tirá-la da Europa o quanto antes.
Meu pai não tinha assassinado minha mãe. Eu não precisava de mais nenhuma palavra para saber disso. Nova Iorque – e, posteriormente, Boston – não foi para me exilar, foi um jeito de não me deixar descobrir tudo o que aconteceu, enxerida que eu era desde nova. E, por mais que eu me perguntasse o porquê de ele não ter falado comigo depois que envelheci e arrumei um bom emprego, as coisas começavam a fazer um pouco de sentido.
Guardei tudo de volta no lugar e deixei o escritório. Enquanto descia os degraus correndo, digitava o número de Henry no celular. Assim que ouvi sua voz atendendo – enquanto trancava a porta principal –, o meu sangue esfriou.
– Oi, Julie.
– Hm... Eu ainda não fui pro hotel.
– Tá tudo bem?
– T-tá. Tá sim, eu só queria dar notícia e saber se você tem algum pedido em especial.
– Acho que nenhum.
– Eu queria saber também se você acha que seria muito ruim se eu voltasse para Boston um pouco mais tarde do que o planejado.
– A troca de passagem não vai sair cara?
Respirei fundo enquanto saía da propriedade e olhava em volta procurando um táxi.
– Não tem problema, eu herdei bastante dinheiro mesmo...
De repente, algo estalou em minha mente. Entrei de volta correndo. Subi de novo ao escritório e arrastei o arquivo. A fechadura do cofre era moderna, com senha numérica. Pensei, pensei, pensei... Do nada, a minha mente sugeriu uma combinação que, em outro momento, seria a última que eu testaria. Digitei a data do meu nascimento e, logo depois, a porta se abriu, revelando incontáveis maços de notas de euro. Eu desliguei todo o meu emocional a partir daquele instante.
Dali, fui direto para o escritório de Renier. Ele estava deixando o prédio quando eu praticamente pulei para fora do carro onde estava enquanto pedia que o taxista esperasse brevemente. Fiquei ofegante no mesmo instante.
– Você tem sua assinatura. – Eu disse, dando um susto em Renier, que ainda não tinha notado a minha presença.
Ele me deu uma boa olhada de cima a baixo.
– Tem certeza?
– Tenho. E queria te pedir um último favor.
– Sim, claro.
– Quero que venda a casa e os carros. Estarei em Londres por alguns dias, então voltarei e levarei comigo algumas coisas. Os móveis ficarão todos. Utensílios de cozinha, cortinas, eletrodomésticos... Apenas documentos serão retirados. Cobre o quanto quiser por isso e, o que sobrar, faça com que chegue a mim, por favor.
Esperei ver a aprovação em seu rosto para voltar ao carro. Logo, abri a página da Air France para ler sobre a política de excesso de bagagem. Eu entrei no trem para Londres e, imediatamente, chequei meu saldo bancário. Enquanto eu esperava que meu cérebro, por conta própria, assimilasse todos os novos dados, observava como o cabelo do passageiro da outra fileira estava oleoso. A primeira coisa que comprei ao chegar à capital inglesa foi uma mala grande. Da fila para pagar a mala, eu procurar saber como enviar todo aquele dinheiro em espécie para os Estados Unidos.


Capítulo 41

Danny olhou para cima e abriu seu sorriso de final de expediente.
– Nossa rainha voltou.
Eu revirei os olhos e joguei a bolsa em cima da mesa de qualquer jeito.
– O que eu perdi?
– Duas cesárias e uma amputação.
– O quê?!
Danny caiu na gargalhada enquanto eu dava o meu melhor para disfarçar meus sentimentos sobre a descoberta recente.
– Eu sempre quis dizer isso. – Ele disse, ainda confuso entre palavras e gritos.
Pensei em sentar, mas hesitei no instante em que tive um pressentimento. Não demorou nem cinco segundos para eu ouvir meu nome sendo chamado. Hiddleston parecia estar com tanta saudade que estava tendo que disfarçar sua felicidade com uma cara bem carrancuda. Ele só apontou com a cabeça para a porta de sua sala. Eu passei pela porta e meu coração quase saltou pela boca.
– Craig?!
Escutei o barulho da porta se fechando atrás de mim mas estava consciente de que Hiddleston havia ficado do lado de fora.
– Parece que a visita não foi uma boa escolha. – Ele murmurou, seu jeito de sempre tentar ser sedutor quando estávamos sozinhos.
– É que eu acabei de chegar de Paris.
– O Tom me disse.
– “Tom”... – Eu imitei, revirando os olhos e sentando na quina da mesa. – Você vai voltar?
– De forma alguma.
– Então posso perguntar o motivo da visita? Porque algo me diz que você não passou pra dizer ‘olá’.
– E o que te faz ter tanta certeza?
– Talvez sejam os anos de convivência.
– Talvez. – Ele concordou. – Na verdade, vim pedir que testemunhe a meu favor.
– Testemunhar?!
– Eu tentei evitar ir a julgamento de todas as formas possíveis, mas não teve muito jeito. – Craig disse, entregando-me alguns papeis.
– E estão te acusando de quê?
– Algumas famílias estão suspeitando de que a morte de uns bandidos não foi acidental.
– Então, pelo que posso imaginar, você veio aqui pedir pra eu cometer perjúrio.
– Nós só somos certinhos na teoria.
Dei uma olhada nos papeis e devolvi para ele, que aceitou contra sua vontade.
– Não sei se é muito bom pra você que eu testemunhe.
– Por quê não seria?
– Porque, se você ganhar, podem dizer que houve parcialidade do juiz.
Ele revirou os olhos.
– Cavill e você estão juntos. – Craig concluiu.
– E a promotora é a Hoggins. Você sabe que ela joga mais sujo que a gente quando necessário. Se chega na mão dela essa informação, ela vai humilhar nós três.
– Mexer com você ou com o Cavill é desacato a autoridade. Atualmente, eu sou só um civil. O humilhado serei eu.
– Você me entendeu.
– Sim. – Ele disse e levantou-se. – Acho então que a visita foi só pelo ‘olá’.
– Eu testemunho, Craig. – Falei. – Você só precisa saber dos riscos.
– To bem ciente.
– Só isso?
– Devido à minha nova descoberta, fica claro que é só isso.
– Que nova descoberta?
– Cavill.
– Ah, Daniel, tem outras mulheres no mundo.
– Não tem outras Juliettes no mundo.
Desci da mesa e dei um tapinha no seu ombro.
– Com sua coleção de carros e o tamanho de certa parte do seu corpo... – Murmurei. – Tenho certeza de que você é capaz de arrumar outra.
Ele abriu um sorriso de orelha a orelha e sua risada me contagiou pelos segundos que precederam meu encontrão com Danny assim que abri a porta.
– Vai ter batida. Tá afim de ir?
Craig passou pelo espaço entre eu e a porta e dirigiu-se ao corredor do elevador. Danny ainda esperava uma resposta, encarando-me.
– Tá acontecendo o que eu acho que tá acontecendo? – Ele perguntou, apontando para Craig por cima do seu ombro.
– Confidencial.
– Craig não tinha sido exonerado?
– Tinha, – Respondi, dirigindo-me à minha mesa. – mas é confidencial, como eu disse.
– Hm... E sobre a batida?
– O que tem?
– Nós estamos nos preparando pra uma batida, Juliette, acabei de falar.
– Ah, sim. Eu preciso encontrar alguém na hora do almoço, então vai ficar meio complicado.
– Nós vamos sair às três da tarde, to perguntando antecipadamente.
Olhei bem para Danny. Um filme ultra acelerado de todas as páginas que li e todas as informações que descobri passou pela minha mente. Respirei fundo e sorri.
– Vou tentar acelerar meu compromisso.
– Confidencial também?
– Acabei de descobrir.
Ele assentiu e se sentou. Disfarçando, mandei mensagem para Max. “Tem como adiantar? Preciso sair de lá, no máximo, às 01:45PM”. Continuei dando uma revisada nos casos que tinham passado na mão de Danny enquanto eu estava em Paris quando a confirmação chegou. “Vou pra lá agora”. Enquanto eu estava digitando, o celular tocou. Sorri.
– Passou tanto tempo colado em mim e já tá com saudade? – Atendi Henry.
– Na verdade, só queria saber se você tá bem. Afinal de contas, só fomos pra Europa por causa dos acontecimentos estranhos que estavam rolando por aqui.
– Eu trabalho dentro de uma delegacia, o lugar mais seguro da cidade. Quem deveria estar preocupada sou eu.
– Se você trabalha no lugar mais seguro, eu trabalho no segundo lugar mais seguro.
– Não tem o que fazer hoje, juiz Cavill?
Ele riu.
– Tenho, mas te irritar é mais divertido.
– Vai trabalhar, Henry, a gente se fala mais tarde.
Danny estava com o olhar fixo em mim e, embora estivesse transbordando receio, eu me limitei a sorrir.
– Se eu for pra batida com vocês, vou ter que sair agora pra resolver meu problema.
Ele ofereceu a chave da viatura e eu só neguei, levantando-me em silêncio e praticamente correndo após pegar a arma e o distintivo. Dispensei o elevador e desci as escadas na maior velocidade que pude. Craig estava se despedindo de um colega. Ele percebeu logo que eu estava ali por ele e tratou de vir até mim.
– Esqueci alguma coisa?
– Não, eu só queria falar com você sobre um detalhe.
– Fale.
– Em um lugar seguro. – Completei.
Nós fomos até seu carro, estacionado na rua ao lado da delegacia. Ele entrou logo depois de mim.
– O que foi?
– Se qualquer um perguntar, estamos tendo um caso.
– Seu querido juiz sabe disso?
– Eu dou um jeito de contar.
– Vai me dizer do que se trata esse assunto tão importante?
Olhei para fora. Uma van estava chegando com dois cadáveres. Louis estava na porta de entrada para o porão e eu dei graças a Deus pela película que escurecia o vidro do carro de Craig.
– Lembra de quando você me dizia que a gente tinha que fazer a coisa certa a qualquer custo?
– Claro que lembro.
– Isso se aplicava necessariamente ao ambiente de trabalho ou o lado de fora tava incluso nessa sua política?
– Do que você tá falando exatamente?
Respirei fundo.
– Entre a gente? – Perguntei e Craig assentiu. – Meus pais foram assassinados e eu finalmente tenho provas disso, mas sei que nem uma confissão seria suficiente pra botar o filho da puta atrás das grades porque... Bem, eu nem sei se é atrás das grades que ele merece estar ou que eu quero que ele esteja.
– Você tem certeza de quem é o culpado? A provas são consistentes?
– Afirmativo. Pras duas perguntas.
– Então você já sabe a minha resposta, mas ainda não entendi o porquê de você estar me falando isso.
– Talvez porque você seja a única pessoa em quem eu confio o suficiente e, por questão de segurança, eu gostaria que alguém de confiança soubesse no que eu to me metendo caso eu precise de ajuda.
– E você sabe que pode contar comigo.
– Sei. – Disse e, após um longo período em silêncio, ele saiu com o carro sem dizer mais nada.
Fui com Craig até a casa dele. Peguei um táxi até o terminal rodoviário. De lá, outro para Cambridge. Troquei novamente, um para Waltham e, depois de mais uma troca, o último carro me deixou no Fairfield Inn. Com óculos grandes o suficiente para tampar a maior parte do meu rosto e um boné escondendo meu cabelo propositalmente, apresentei-me na recepção da pequena pousada, dizendo que o hóspede com nome de Steven Martinez estava à minha espera.
Tirei a bolsa do ombro e joguei em cima da cama. Max riu.
– Isso quase me lembra uns certos meses de um tempinho atrás.
– De um tempão atrás, né? – Respondi.
Ele deu de ombros e ofereceu a cadeira da escrivaninha.
– Não vou negar que to morrendo de curiosidade pra saber o que é tão importante pra exigir tanta discrição.
– Lembra da última merda que nós fizemos juntos?
– A única conexão que tivemos depois que terminamos nosso relacionamento foi com o Bongiovi. E claro, o caso breve do meu irmão, mas não foi nada demais.
– Pois é. Se eu dissesse que descobri que o Bongiovi é meu pai, o quão surpreso você ficaria?
Max se sentou na cama, de frente para mim.
– Você não tá falando sério.
– Será que não? – Perguntei, tentando parecer menos desesperada do que estava.
Ele se levantou logo depois, inquieto, e deu umas voltas no pequeno quarto.
– Como você descobriu isso?
– Fui a Paris resolver algumas pendências referentes à minha herança e mexi nos papeis errados.
– Tá, mas ainda não entendi onde eu entro nisso.
– Eu confiei em você no passado pra lidar com isso e, por algum motivo, acho que deveria confiar novamente. Meu pai... Bem... O homem que me criou não era o monstro que eu achava que era. Danny era pago por ele pra mandar notícias, dizer como eu estava, tomar conta de mim de forma geral. E Bongiovi me fez acreditar numa história completamente diferente pra colocar a morte dele nas minhas mãos.
– E você pretende fazer o quê?
Olhei para o chão e pensei por longos segundos enquanto sentia minha respiração extremamente pesada. A garganta estava completamente seca.
– Você tá me fazendo uma pergunta cuja resposta você já sabe.
– Tá falando sério?
– To, Max. Tudo que eu to falando aqui é sério. E não é só sobre o Bongiovi.
– É sobre o quê mais?
– Uma mulher. Ex do Henry. Fui pra Paris de férias forçadas depois de invadirem a casa dele e quebrarem seu carro deixando um bilhete pra mim.
– E como você sabe que foi ela?
– Porque eu vi.
– E a polícia disse o quê?
– Não disse nada pra polícia, Max.
Ele olhou fixamente para mim. Ainda assustado porém mais calmo, voltou a sentar-se na minha frente.
– Cara... Eu nem sei o que falar.
– Não to te pedindo pra fazer nada. Se você disser que não quer ouvir mais nenhuma palavra, sabe que eu não forçaria nada. E espero que confie em mim do jeito que eu confio em você a ponto de saber que eu te excluiria da minha vida no momento em que você pedisse.
– Não é isso. Digo... Exatamente o que você quer com tudo isso?
– Matar dois coelhos numa cajadada só.
– Literalmente?
Ponderei por alguns instantes.
– Eu não negaria a possibilidade.
– E por quê eu?
– Porque é você quem sabe da história inteira que rolou antes. Só você e mais ninguém. E eu realmente não gostaria de tentar a sorte e contar tudo pra outra pessoa que pode colocar minha vida e carreira em risco.
– E você já pensou em alguma coisa?
– Não consegui colocar a cabeça no eixo ainda. Esse negócio da Lisa perseguindo o Henry e sabendo que eu sei sobre ela... Tudo tá mexendo comigo de um jeito que eu não consigo descrever.
– Então o nome dela é Lisa? – Max perguntou.
– Sim, por quê?
– Porque Lisa parece um nome bem merda pra alguém capaz de incomodar a grande Juliette Danté.
Eu voltei a tempo para colocar o colete e todo o equipamento correndo e entrar na viatura às pressas com Danny nos levando junto com um pelotão para um galpão próximo ao porto. A ação visava investigar, na verdade, a suspeita de que o lugar estaria servindo de depósito para cadáveres explorados no mercado do tráfico de órgãos devido ao mau cheiro relatado por vários denunciantes anônimos e algumas outras informações. Ninguém nos recebeu e nós entramos na marra. Encontramos vários cadáveres, de fato, mas eram de porcos. E, já que estávamos ali, não custava nada revirar tudo. Menos de meia hora depois de começarmos a agir, Louis cismou de dar uma olhada nos porcos e gritou por mim, pedindo que chamássemos o pessoal da Narcóticos imediatamente pois eles estavam recheados – literalmente – de alguma substância duvidosa.
Voltei para a delegacia e fiquei livre de todo o equipamento. Preenchi a papelada e, assim que percebi que minha saída não seria notada, escapei correndo na direção do elevador. Um banho quente me esperava em casa e Henry havia declarado que eu devia colocar boas roupas porque jantaríamos fora em um lugar bonito. Eu tentei relaxar. Estar vivendo temporariamente com Henry e todas as suas coisas também, de certa forma, era algo incômodo. Em algum lugar da minha mente, estávamos apertados ali de todas as formas possíveis.
Um pouco antes das oito da noite, Renier me enviou um e-mail confirmando a venda da casa por um valor cujos zeros eu nem quis contar. Respondi agradecendo e perguntei se faltava mais alguma coisa para que eu me desligasse por completo de Paris. Antes que eu saísse de casa, a resposta chegou com uma negativa. Agradeci seu serviço mais uma vez e fiz uma programação mental para ir ao banco em dois dias para descobrir exatamente quanto de dinheiro eu tinha.


Capítulo 42

– Mas eu juro! – Danny gritou, rindo alto enquanto o acompanhante de Maitê pegava mais uma caneca cheia de cerveja. – Juliette tava comigo nesse dia, ela pode confirmar.
Henry deu mais um gole em sua taça de vinho enquanto, inconscientemente, apertava o braço que estava em volta da minha cintura. Fui mais que breve em explicar minha pequena grande mentira, tratando de colocar Craig dentro dela para o caso de chegar aos ouvidos dele qualquer fofoca sobre meus rápidos instantes dentro de seu carro. Estava atenta a cada mínima movimentação, mesmo que fosse de Danny abraçado a Georgia.
– Julie? – Danny me chamou.
– O quê? – Perguntei, um tanto quanto assustada.
– A conclusão do caso White.
– Ah! – Eu voltei rapidamente para a terra. – Você tá falando sobre o julgamento?
– Sim, eu acabei de falar.
Senti que todos os olhos estavam em mim, famintos e curiosos. Respirei fundo e tentei não dar uma boa olhada em volta.
– Desculpa, eu não to me sentindo bem.
– O que houve? – Henry, atencioso, perguntou ao meu ouvido.
– Acho que passei dos limites. – Respondi, indicando o copo na minha mão.
Danny mudou de assunto e eu voltei a ficar aérea. O tempo passou rapidamente. Em um certo momento, eu percebi que estava já na porta do estabelecimento e Georgia estava trocando um abraço comigo enquanto nós nos despedíamos para irmos embora. O álcool, de certa forma, mal estava fazendo efeito naquele dia. Eu estava mais focada nas palavras de Max da última vez que entramos em contato, quando ele disse que achava que teria que me deixar na mão. Não podia cobrá-lo, aquilo era meramente um favor – e que puta favor! –, mas estava consciente de que, sozinha, eu não tinha poder nenhum.
Louis ficava admirado com casos como o que recebemos naquela semana. Ele levantou uma das larvas com a pinça assim que chegamos à cena do crime.
– Um incrivelmente belo exemplar de larva de Cochliomyia macellaria, embora seja surpreendente encontrar um desses curiosos animais por aqui.
– Co... Quem?! – Danny perguntou enquanto eu segurava a respiração para não inspirar o odor fétido do decomposto cadáver.
– Advogados... – Louis murmurou para si mesmo enquanto seus olhos brilhavam com seu novo brinquedo.
– Danny! – Eu gritei enquanto rumava para a porta de uma casa que despertou em mim um interesse incomum.
Lawrence não era exatamente uma cidade segura e era comum que recebêssemos chamados de lá. Eu puxei a arma do coldre e empunhei. Danny, eu pude observar brevemente, me seguia. Dei três batidas na porta da casa com a ponta da arma.
– Polícia de Massachussets, tem alguém em casa? – Gritei.
– Os policiais que chegaram aqui antes da gente disseram que entrevistaram vizinhos, mas ninguém viu o corpo ser desovado aqui. – Danny me explicou. – Aparentemente, essa é a única casa em que não encontraram ninguém.
Desci da varanda e dei uma olhada pela janela na lateral da casa. Definitivamente, não parecia que alguém morava lá. As outras casas da Phillips Street, embora igualmente humildes, estavam mais bem cuidadas.
– Vê com as casas do lado se eles sabem do proprietário. – Ordenei a Danny, que se afastou imediatamente.
Eu dei uma olhada em outras janelas e todas passavam a mesma impressão. Havia um Corvette 92 estacionado nos fundos da casa. O carro estava, aparentemente, em um estado razoável de preservação. Eu calcei uma luva e testei a maçaneta. Não fiquei surpresa quando descobri que ela estava aberta. Havia uma identificação no porta-luvas em nome de David Martinez.
– Craig ia ficar louco com esse carro, nesse estado.
– Ele não gosta de Chevrolet. – Observei, verificando que a única evidência restante era o documento do carro, também no nome de Martinez. – Vê com o Louis se ele tem como estimar idade da vítima.
– Só pra saber... Até quando você vai fazer essa de mandona?
– Mandona?!
– Quem é mandona? – Hiddleston perguntou, pegando nós dois de surpresa.
– Aparentemente, eu. – Respondi. – Devemos a honra a que exato motivo, senhor?
– Um passarinho verde disse que a Corregedoria estava indo pra delegacia e eu escapei, ainda sem ter formulado uma desculpa concisa.
– E podemos saber do que o senhor está fugindo?
– Só de chatice mesmo. – Ele deu de ombros. – O que temos aqui? Não vi nada, Louis estava se retirando com sua equipe quando estacionei.
– Corpo em avançado estado de decomposição, e a casa também. – Danny respondeu, apontando com a cabeça para a construção.
Na delegacia, enquanto Louis, Maitê, William e suas respectivas equipes davam duro em seus laboratórios para agilizar a identificação da vítima, eu pesquisava sobre o tal David Martinez e não encontrava nada de errado ou ao menos suspeito. Hiddleston ainda estava terminando de se livrar dos engravatados ao final do nosso expediente.
– Tenente Danté! – Ele me gritou da porta. – Está ocupada?
– Vou assinar uma papelada pra ir embora.
– Pode vir até aqui por um instante?
As persianas não estavam fechadas, o que me permitia ver que havia um engravatado ainda do lado de dentro. Até a pessoa mais santa do mundo ficaria preocupada caso sua presença fosse solicitada junto a um agente da Corregedoria. Hiddleston fechou as persianas assim que entrei. Olhei para o homem, era Adam Hall. Eu gelei.
– Tenente, – Ele se dirigiu a mim, esticando sua mão, que eu apertei firmemente. – um prazer revê-la.
– No que posso ser útil, comissário? – Perguntei, sentando na poltrona oposta à dele.
– Eu gostaria de perguntar sobre suas aspirações, tenente.
– Não estou entendendo. – Respondi, olhando para Hiddleston como se ele pudesse me explicar tudo com apenas um olhar.
– Querida, minha aposentadoria está para sair e eu recomendarei que o senhor Hiddleston assuma meu lugar. A delegacia ficará sobre o comando do capitão Wright e a DEA está precisando de alguém de qualidade para chefiar algumas investigações por aqui. Seus números são surpreendentes e gostaria de saber se está interessada na vaga.
– Os números do tenente Jones são igualmente surpreendentes, comissário. Por qual motivo o senhor não o escolheu?
– Por causa do incidente que ele sofreu recentemente, nenhum outro órgão o aceitaria.
Eu olhei para o piso de madeira nobre por alguns instantes.
– Comissário, é uma honra ouvir o senhor dizer que eu mereço trabalhar pro governo federal, mas acho que sou boa no que faço exatamente agora.
– Por que não acredita que seria boa com os federais também?
– Porque eles não são minha família como esta delegacia é, senhor.
– Então a senhorita está confortável com a ideia de ser subordinada ao capitão Wright?
– Wright é um homem inteligente que aprendeu com um homem mais inteligente ainda.
– Craig, você quer dizer?
– Ele mesmo. – Insisti.
Hall riu.
– Não fico surpreso com essa declaração de amor. Craig foi o melhor homem que já tive. Pena que...
– Que?! – Tentei forçá-lo a terminar a frase.
– Bem, sabemos como terminou. – Ele disse e levantou-me para, novamente, trocar um cumprimento breve comigo. – A vaga será sua se quiser, basta entrar em contato diretamente comigo.
Ele me ofereceu um cartão e eu aceitei. Quando saí da sala, Danny estava de olho fixo em mim.
– Problemas?
– De forma alguma.
Guardei o cartão no bolso e fui para casa. No outro dia, a identificação da vítima chegou e, mediante investigação, William deixou claro acreditar que se tratava de uma briga por herança após uma pesquisa rápida nas redes sociais de alguns relacionados com a vítima. Havia uma necessidade urgente em localizar os envolvidos e juntá-los para a tomada de depoimentos em massa que perseguiria a delegacia naquela semana, e minha disposição estava zerada. William estava se esforçando com os endereços. Nós recebíamos as informações e repassávamos para as patrulhas mais próximas dos locais.
O primeiro carro estava chegando com Melissa Martinez, mulher do dono do Corvette. Wright disse que ia receber a testemunha, o que me deu tempo para analisar os últimos detalhes. Espalhei alguns papeis em cima da mesa, contendo dados diferentes sobre os dois nomes que tínhamos àquela altura: David Martinez e Andrew Griffin, nossa identificada vítima. Eu procurava memorizar detalhes importantes quando senti a mão em meu ombro. Dei um pulo no meu lugar e Danny riu.
– Tá devendo?
– Só não esperava. Alguma novidade pra gente?
– Ainda não.
Eu suspirei e sentei no meu lugar, dando espaço para a confusão mental que instalava-se aos poucos. Antes de ir para o trabalho, abri o aplicativo do banco. Quase tive um ataque cardíaco. Parte de mim ainda romantizava o sonho realizado de ser uma detetive, a outra gritava para que eu mandasse tudo e todos irem à merda.
– Problemas no paraíso?
– Como?! Problemas? Não, por quê? – Respondi sem jeito.
– Vai que o Cavill não tá dando conta.
– Não tá dando conta de quê?
– De uma mulher como você.
– O quê?! – Eu quase gritei.
– Jones, Danté! – Hiddleston nos chamou após aproximar-se sem ser notado. – Eric e Kayla Griffin estão chegando agora. Os dois, ao trabalho. Salas 3 e 5, pra ontem.
– Sim, senhor. – Danny respondeu.
Eu assenti e ele foi na minha frente. Por alguns segundos, eu fiquei estática, tentando entender e raciocinar se o que tinha acabado de acontecer era só um erro de percepção. Juntei as folhas, coloquei em uma pasta e segui para a sala de interrogatório. Eric Griffin, o irmão mais velho, parecia impaciente. Levantou os olhos para mim assim que entrei.
– Vou precisar chamar um advogado?
– Não sei, senhor Griffin. Me diga se precisa de um.
– Seja lá o que for, eu sou inocente. – Ele declarou.
– Nem sabe o porquê de estar aqui e já supõe que tá sendo acusado de alguma coisa? Porque eu tenho certeza de que os agentes que foram te buscar não efetuaram uma prisão.
Estiquei a foto do rosto de David Martinez por cima da mesa, na direção dele.
– Tá, e daí?
– Não tem nada a dizer.
– Deveria?
– Me diga você. – Insisti.
– Quem é o cara?
– Dono da casa cujo quintal serviu de desova pro corpo do seu irmão.
– O quê?! – Ele elevou a voz, levantando-se da cadeira. – Andrew está morto?!
Eu revirei os olhos.
– Faça-me o favor de sentar, senhor Griffin, aqui não é um circo.
– Você tem noção do que acabou de me dizer?
Tirei um conjunto específico de folhas da minha pasta e espalhei sobre a mesa de forma que ficassem visíveis as marcações previamente efetuadas. O registro telefônico era direto e reto, mostrando que ele conhecia David Martinez sim. Eu sorri, forçando uma educação que não existia em mim.
– Se quiser, eu posso trazer o registro de e-mails interessantíssimos, na falta de uma palavra melhor, trocadas entre você e a senhora Martinez.
Ele se manteve em silêncio.
– Vamos lá, Griffin. – Provoquei. – Vai pedir arrego, chamar o advogado, me fazer perder mais a paciência... Qual vai ser?
– Você acha que intimida alguém? – Ele debochou e eu sorri.
– Intimidação é o que você menos precisa temer vindo de mim.
– Eu quero um advogado.
Bati na mesa.
– Ótimo.
Ia saindo rapidamente da sala e não percebi que tinha alguém no caminho. Os olhos azuis de Craig chamuscaram com a trombada. Respirei fundo três vezes.
– O que você tá fazendo aqui? – Perguntei, sussurrando.
– Não é pra fingir que estamos tendo um caso?
– É, mas...
– Craig! – A voz de Hiddleston surgiu atrás de nós, logo antes dos dois trocarem um caloroso cumprimento. – Não disse que viria.
– Tava de passagem. – Ele explicou. – Tom, você tem alguma sala livre?
– Qual a finalidade?
– Preciso trocar umas palavras com essa mocinha. – Craig apontou para mim.
Eu me encolhi, olhando para ele e querendo que fosse notável o desespero na minha postura corporal.
– Pode usar a minha, você sabe bem onde fica.
Craig assentiu com um sorriso e colocou a mão, gentilmente, no meu braço. Nós entramos na sala e ele passou a chave na tranca da porta, fechando também as persianas.
– To com um suspeito e preciso levar um telefone. O cara pediu um advogado.
– Ele pode esperar. Já contou pro seu queridinho? – A repulsa no seu tom de voz era palpável.
– Henry já sabe que nós vamos fingir ter um caso, se é isso que você tá me perguntando.
– Você não entrou em contato, achei que pudesse ter alguma coisa fora do lugar.
– Ainda estou ajeitando os detalhes pro meu plano. – Disse ao me sentar na poltrona destinada às possíveis visitas de Hiddleston. – Vou avisar quando tiver certeza de alguma coisa.
– Fiquei preocupado de você ter feito alguma besteira.
– Sou bem grandinha, Craig, sei o que to fazendo. Além do mais, achei que tinha ficado implícito que eu entraria em contato se precisasse.
– Então você não precisou. – Ele concluiu.
– Exatamente.
Podia ouvir nossas respirações, tensas, durante a pausa nas palavras.
– E você e o Cavill, vão bem?
Eu ri.
– Não vamos ter essa conversa, Craig.
– Só estou tentando puxar assunto.
– Vou arrumar uma mulher pra você. – Respondi, cruzando as pernas.
– Não precisa, estou bem como estou.
Ele debruçou sobre a sua antiga mesa, quase sentando-se, e deu uma boa olhada em mim, dos pés à cabeça. Minhas bochechas queimaram e eu descruzei as pernas. Maldito...


Capítulo 43

Eu e Maitê precisávamos de um dia de folga. Por ‘um dia de folga’, eu queria necessariamente dizer que havia a urgência em não trabalharmos. Henry tinha um jantar com membros da Ordem e nós tínhamos a desculpa perfeita para escapar. Passamos por uma boa amostra de possibilidades, desde o Cheeky Monkey Brewing Co, talvez a John Brewer’s Tavern, até o Corrib Pub and Restaurant. Como boas duas mulheres indecisas que éramos, acabamos em casa, com umas caixas de Budweiser e uma comédia romântica na TV.
Ela olhava o celular de minuto em minuto, ligeiramente incomodada, e eu estava notando.
– William? – Perguntei enquanto Bradley Cooper exibia todo seu sorriso na tela à nossa frente.
– Oi?!
– O celular. – Apontei.
– Ah, – Ela fingiu esconder o aparelho. – não. Não é o William.
– Hm... Sei.
– É sério.
– Não falei nada, senhorita Mistério. – Brinquei. – Só, depois, não venha me dizer que sou a rodada.
– Do que você tá falando?
Revirei os olhos.
– De nada, Maitê, nada. – Resmunguei e levantei do sofá. – Vai uma última?
– Já tomamos quantas “últimas”?
Eu contive uma risada e caminhei para a cozinha, levando as duas garrafas vazias comigo. Estava mexendo na geladeira quando a campainha tocou. Arqueei as sobrancelhas e fiz uma pequena pausa no tempo.
– Você tá esperando alguém? – Maitê perguntou da sala.
Deixei a cozinha imediatamente, não me dei o trabalho de responder. Inspecionei quem estava do outro lado da porta pelo olho mágico e fiquei sem entender nada. Destravei as trancas e abri a porta.
– O que houve?!
– Nada demais. – Henry me deu um beijo rápido. – Resolvi o que tinha que ser resolvido e pensei em fazer uma surpresa.
– A Maitê ainda tá aqui.
Ele olhou por cima do meu ombro e notou minha companhia.
– Estou mas to saindo. – Ela disse, levantando-se rapidamente e pegando a bolsa.
– Maitê! – Protestei.
– Se eu tivesse um homem assim todo pra mim, – Cochichou, alto demais, e Henry sorriu sacana ao ouvir. – eu nunca ia ter tempo pra olhar na sua cara.
Maitê me deu um breve abraço e trocou um cumprimento com Henry, composto por um simples aceno de cabeça. Nós esperamos que ela desaparecesse no corredor e, então, ele se virou novamente para mim.
– Desculpa atrapalhar sua noite das meninas.
– Não tem problema. – Respondi, dando passagem para que ele finalmente entrasse. – Deu tudo certo no seu jantar?
– Uma pendência ou outra, mas nada demais. Ainda tem uma cerveja pra mim?
– Na geladeira.
Ele foi para a cozinha e eu o segui, apoiando-me no batente da porta. Observava seus movimentos ao buscar o abridor e desprezar a tampa no lixo. Eram contornos maravilhosos e Maitê estava certa sobre a minha sorte. Henry notou que eu o observava e sorriu para mim, oferecendo uma das cervejas que ele havia aberto.
– Bebe comigo? – Pediu.
– Já que estou aqui... – Murmurei e dei um gole. – Você quer falar alguma coisa.
– Sou tão óbvio assim?
Acompanhei Henry até a pequena sacada do apartamento. Ele estava com os olhos distantes, completamente tenso, sem o romantismo exagerado de praxe. Henry não estava sendo ele mesmo, e eu saberia facilmente distinguir entre seus dias comuns e dias com ressalvas. Mas, ainda assim, mesmo já sabendo que eu pressentira algo fora do comum, ele me torturou com um longo silêncio.
– Vai falar? – Perguntei, quase sufocando em minha própria curiosidade.
– To criando coragem.
– Se você precisa criar coragem pra me contar algo, deve ser bem sério.
Ele sorriu, leve. Olhou para a garrafa de cerveja em suas mãos, apoiada no guarda-corpo, e depois para mim.
– Promete que vai tentar encarar isso com a mente aberta?
– Henry, você tá me deixando nervosa.
– Eu to nervoso também, caso você não tenha notado. – Ele disse, novamente desviando o olhar. – Amanhã você tá de folga, certo?
– Sim, certo.
– Você acha que teria disponibilidade pra ir comigo até próximo do santuário da lagoa Hall? – Henry pronunciava cada palavra como se sentisse medo delas.
– Poderia ir, claro. Posso saber o motivo?
– Não fica chateada, por favor.
– Henry! – Protestei.
– Ok. Eu andei vendo uns imóveis e gostaria que você fosse comigo ver um apartamento lá.
Eu o encarei.
– Você me disse que tava querendo se mudar já tem um tempo. Por que eu ficaria chateada por isso?
– Não estou vendo esse apartamento pra mim. – Henry falou, com a voz mais suave que eu já havia escutado. – Estou vendo pra nós dois.
O meu queixo caiu, muito provavelmente, enquanto eu ficava quase sem reação. Henry estava tentando decifrar a minha expressão, e eu estava incerta por completo sobre o que responder.
– É um grande passo. – Murmurei.
– Eu sei. E, por favor, não pense que acho seu apartamento ruim. É ótimo, só não seria confortável para duas pessoas.
– Não pensei nisso, Henry.
– O lugar é ótimo, eu juro. As fotos são sensacionais, tem a cozinha dos seus sonhos, fica perto dos nossos trabalhos e o preço está sensacional.
– Eu não sei se quero mexer no dinheiro do meu pai por enquanto.
– Não estou pedindo seu dinheiro. – Ele tomou minhas mãos nas dele. – É um presente meu, um presente meu para nós.
Eu suspirei enquanto ele me puxava para mais perto.
– Sua casa é o suficiente pra nós.
– E eu tenho motivos perfeitos pra querer me livrar dela.
– Tem mesmo? – Questionei. – Me diga três.
– Fácil. Primeiro, o fato dela já ter sido arrombada, ou seja, conhecida por seja lá quem estiver de olho na gente. Segundo, porque um apartamento é bem mais difícil de ser acessado que uma casa. Terceiro, o deslocamento pro trabalho vai ser melhor, pra nós dois. E ainda tenho um motivo bônus: você vai amar a cozinha. Se quiser, posso continuar com mais motivos.
Tentei sorrir, ainda um pouco confusa e indecisa.
– Temos dois carros, Henry.
– E eles tem lugar pra isso. – Ele disse, beijando a minha testa. – Eu pensei em tudo, juro. Só me dá uma chance.
Os olhos dele brilhavam como os de uma criança ao ver uma guloseima. Aquilo era, definitivamente, o que eu mais gostava em Henry. O sexo, o corpo, os carinhos, tudo era sensacional. Mas o seu entusiasmo, sua vontade de viver, seu otimismo... Era o tempero perfeito para um homem como aquele. E, da mesma forma que não se negava guloseima a uma criança, eu não conseguia negar nada quando ele estava naquele estado.
A porta de entrada era grande, observei, o que me deixou feliz a princípio, e a primeira coisa que notei foi que o apartamento era duplex. A sala era espaçosa, bem mais que a minha, além de possuir uma lareira a gás e uma linda e grande janela em U. O tom cinza claro na parede dava um toque especial ao ambiente, combinando com a madeira do chão e os contornos brancos. Havia uma porta sob a escada, no espaço entre a sala e o que deveria ser a cozinha, com um lavabo espaçoso que, certamente, seria muito útil.
Henry estava certo sobre a cozinha. Os armários eram todos feitos de madeira cara, escura, quase preta. Não havia uma ilha cinematográfica, mas a grande península, com uma cuba enorme, era linda. O granito cobria a bancada inteira e era um dos mais bonitos que eu já havia visto. Dois fornos embutidos ficavam separados do fogão, que estava preso à pedra. Uma geladeira de duas portas era tudo o que eu havia sonhado em ter, mas meu apartamento modesto jamais comportaria. Notei que havia uma estrutura para guardar vinhos e taças, e achei sensacional. As banquetas da península eram outro charme, cobertas de um couro preto e com a estrutura em aço galvanizado.
A sala de jantar era ao lado, sem divisões. A mesa de mármore parecia extremamente cara e pesada. As cadeiras, fazendo conjunto com a mesa, combinavam em estilo com as banquetas da península. O ambiente era muito bem iluminado, muito melhor que meu simples apartamento, onde nem havia janela na cozinha. As cortinas eram de voal, romantizando a cena, deixando tudo mais delicado e bonito.
Subimos a escada e a quantidade de portas era assombrosa. Como havia possibilidade física para aquilo, eu não sabia, mas quatro suítes de boas dimensões eram as componentes do andar de cima. Os quartos eram enormes, espaçosos, caberiam três do meu em cada quarto. Tudo o que eu olhava fazia com que eu ficasse deslumbrada, e Henry observava isso muito bem com um sorriso enorme no rosto.
A maior suíte, que eu deveria supor que seria a nossa caso nos mudássemos para lá, possuía lareira a gás, dois closets enormes e um banheiro maior ainda, este composto por banheira e box separados, algo que eu não imaginava ser possível em Boston. Havia um outro quarto com estrutura semelhante. Os dois outros eram um pouco menores mas, ainda assim, luxuosos demais para o que eu acreditava ser necessário.
Tudo era muito bonito, desde os ladrilhos até a simples decoração do ambiente. Eu estava enfeitiçada pelo lugar. A localização era ótima, realmente, e nisso eu deveria confessar que Henry havia feito um ótimo trabalho. Mas nós dois trabalhávamos fora, muito ocupados, e aquilo era espaço demais para mim. Era tudo o que eu conseguia pensar.
– E então?! – Henry perguntou, com aquele mesmo brilho nos olhos, assim que nós nos sentamos na sala de estar ao final do tour. – O que você achou?
– É tudo muito lindo, mas... Henry, é muita coisa pra duas pessoas.
– Imagino que você esteja falando dos quartos.
– Claro que estou falando dos quartos! – Gritei. – São quatro, todos enormes.
Henry sorriu, alheio à minha preocupação.
– Os dois quartos menores, pensei em transformar em escritórios para nós. Vamos, eventualmente, trazer trabalho pra casa, e seria interessante ter um espaço privado pra isso. E mais interessante ainda seria porque nós poderíamos simplesmente trancar a porta quando precisássemos ficar distantes de tudo aquilo.
– Ainda assim, teríamos um quarto absurdamente gigante sem utilidade.
– Sem utilidade agora. – O sorriso em seus lábios aumentou e eu senti que estava perdendo alguma coisa. – Daqui a alguns meses, quem sabe, nós podemos encher aquele quarto com um bonito berço e brinquedos infantis.
Senti meu coração perder o compasso quando Henry disse aquilo. De novo, eu estava hipnotizada pelo brilho de seus olhos. Aqueles malditos olhos azuis! Eu queria ter tempo para processar, tempo sem aqueles olhos queimando a minha pele. Não conseguia raciocinar direito sob o olhar dele.
– Henry, você não pode gastar isso tudo sozinho.
– Não posso?! – Ele perguntou, fingindo sentir-se ofendido. – Então a gente tem um problema, porque eu já gastei.
– Henry?!
– Desculpa não ter pedido sua opinião antes, mas eu fiquei com medo de você negar.
– Mas Henry... Eu... Eu...
Ele me tomou em seus braços e beijou-me subitamente, sem avisar. Com o movimento dos seus lábios nos meus, a tensão dos meus músculos foi perdendo força até que eu me entreguei por completo. Pelo riso dele, sabia que esse era seu único objetivo. Henry me puxou para seu colo e eu coloquei um joelho de cada lado do seu corpo. Suas mãos, firmes em mim, ainda faziam com que eu sentisse como se fosse a primeira vez. Quando o ar faltou e eu precisei minimamente de um pouco de espaço, nossas testas se encontraram. Os dois, ofegantes, ficamos trocando um longo e poderoso olhar.
– Eu amo você, Juliette. – Henry declarou. – Você nunca vai fazer ideia do quanto eu te amo. Nunca.
Eu sorri, ainda olhando em seus olhos. Levei a mão direita do seu pescoço até a lateral do seu rosto, deixando uma leve carícia no caminho. Com o dedão, fazia carinho na sua bochecha. Henry fechou os olhos e deixou o rosto pender para o lado onde minha mão descansava.
– Você sabe que eu também te amo, não sabe?
– É claro que sei. – Ele disse, buscando minha outra mão e levando-a até a boca para depositar um beijo sobre os nós dos meus dedos. – Por isso que fiz o que fiz.
– Por que não conversou comigo antes?
– Tinha medo de você negar, já disse. E aí voltaríamos ao que éramos antes? A incerteza? Estar com você e, ao mesmo tempo, não estar? Voltei pra Boston por você, Julie, e fiquei aqui esperando você. Se não fosse por isso, teria ficado em Londres de vez quando fui pra lá depois da minha formatura. – Ele suspirou, tomando fôlego. – Eu sei que cruzar um oceano não é o suficiente pra você, mas...
Eu sorria com suas palavras. Imediatamente, coloquei um dedo sobre sua boca, impedindo-o de continuar.
– Cavill... – Sussurrei.
– O que foi? – Ele perguntou, as sobrancelhas arqueadas.
Mais uma vez, sorri para ele.
– Cala a boca e me beija. – Declarei sem mais hesitar.


Capítulo 44

– Ainda não vejo necessidade disso.
– Eu te dou quantas cobertas novas você quiser.
– Henry! – Eu gritei. – Você não tá colaborando.
– Meu Deus, Juliette, você nunca se mudou na vida?
– Tentando esconder de Deus e o mundo que eu estou tentando me mudar? Não, nunca.
– Ah, qual é! Não tem nada demais nisso.
– São três horas da manhã e você quer me convencer a não levar a minha coberta preferida com a gente.
Ele revirou os olhos, bufou e deixou o meu quarto. “Não leve isso, não leve aquilo...”. O filho da mãe tinha comprado um puta apartamento de presente para mim e eu não podia reclamar, nem querer socar aquele lindo rosto, mas não podia – não significava que isso me impedia de considerar. Ele voltou com mais uma caixa e eu joguei o restante de minhas roupas dentro. Olhava a mobília saudosamente sem nem ter saído ainda.
– Isso tudo é mesmo necessário?
– Você é a detetive, me diga você.
– Você é o juiz da vara criminal, me diga você.
Henry riu.
– Muito teimosa.
– É a convivência com a sua pessoa.
Eu ia passando quando ele me segurou gentilmente pelo braço.
– Ei, por favor, tente me entender.
Deixei meus ombros caírem e larguei a caixa em cima da cômoda. Eu me aproximei de Henry e enlacei seu pescoço com meus braços. Por consequência, ele deixou um olhar carregado de carinho cair sobre mim.
– Entendo você. – Murmurei antes de lhe dar um breve beijo. – É que tá de madrugada. Eu tive um dia cheio no trabalho, era pra estar dormindo.
Henry beijou minha testa e abraçou-me de volta. Minutos depois, estávamos encaixando tudo dentro da mala de seu carro, parado propositalmente no estacionamento do subsolo do prédio – a primeira vez que eu usei, já que não me importava de deixar meu carro na rua. O local era bem pequeno, privado e cercado de câmeras cujo acesso era permitido apenas a mim e ao meu senhorio, dono da loja embaixo do meu apartamento e da cobertura logo acima. Ele não fazia ideia de que usaríamos. Ninguém fazia. Esperamos por um horário em que ninguém estivesse passando por perto da entrada, isso por volta das duas e meia da manhã, e colocamos o veículo para dentro.
Então era subir de volta e esperar o dia amanhecer. Separei uma bolsa grande o suficiente para levar algumas peças restantes comigo. Eu não costumada usar bolsas enormes para ir trabalhar, mas ninguém ia estranhar se eu a deixasse quietinha dentro do meu carro. E assim, na manhã seguinte, após ser despertada com um delicioso beijo na nuca, deixei meu apartamento, rumo à sorte.
Peguei uma das viaturas à minha disposição e parti para o prédio do fórum. Henry não fazia ideia de Lisa, e eu nem pretendia contar sobre ela, mas eu fiz o que pude para convencê-lo de que tudo indicava que era uma pessoa agindo sozinha. Entrar no estacionamento privado do fórum era difícil até para mim, que tinha anos na polícia. Qualquer outra pessoa teria sorte de conseguir burlar o sistema. As câmeras eram outro desafio, mas a vaga de Henry, felizmente, ficava perto de um ponto cego. E aí disfarçar seria fácil.
Para qualquer um, eram caixas de arquivos. Documentos referentes a um caso anterior, eu diria se alguém perguntasse. Para nós, eram minhas roupas. Coloquei tudo dentro da viatura e, sem mais nem menos, parti em direção ao apartamento. Dei algumas voltas na cidade, garanti que não havia carro atrás de mim e entrei no estacionamento. Craig balançava a chave de seu carro entre as mãos, encostado ao veículo. Sorriu quando me viu.
– Quem diria...
– Por favor, Daniel, sem piadas. Eu só confio em você.
– Não falei nada. – Ele levantou as mãos em rendição. – Como posso ser útil?
– Se alguém nos vir, já é bom o suficiente. Agora, se não se importa, preciso de ajuda pra levar umas caixas pro andar de cima.
– É louco o suficiente pensar que seu namoradinho concorda com isso tudo.
– Concorda porque é pra nossa própria segurança.
– Eu sei, eu sei... – Ele falou, aproximando-se da mala da viatura que eu tinha acabado de abrir. – Você tá bem? Digo, com tudo isso que tá acontecendo.
– To ótima. – Respondi e coloquei uma das caixas mais pesadas em suas mãos. – É o quarto andar.
Os instantes no elevador foram tensos. Craig empurrou as caixas para fora enquanto eu segurava a porta aberta. Logo, abri o apartamento e ele entrou. Ficou embasbacado como eu na primeira vez. Eu sorri ao observar a cena.
– Ele fez um ótimo serviço com isso aqui.
– Também achei. Deve ter sido por isso que aceitei.
– Então não tem mais volta?
– Daniel!
– Eu só estou brincando. – Ele se defendeu. – Onde deixo as caixas?
– Deixe que me viro com elas. Agora me faça um favor. Vá até a janela. Observe por um bom tempo o entorno. Se vir algo, grave com sua mente. Mas demore. E então, feche a cortina.
– É pra parecer que estou querendo garantir que ninguém veja nada se alguém realmente estiver seguindo vocês. – Craig concluiu, encaminhando-se para a janela. – Até que seu namoradinho pensa bem. Só me surpreende que ele concorde com eu estar com você, aqui, sozinho.
– Ele pode não confiar em você, mas confia em mim.
Girei a chave na porta do apartamento quando empurrei a última caixa para dentro. Olhei em volta, o cheiro de lavanda invadiu minhas narinas gentilmente. Henry havia orientado bem a faxineira. Deixei as caixas de lado por um momento e fui para a cozinha.
– Quer uma cerveja?
– Já abasteceu a geladeira? – Ele perguntou, aproximando-se.
– É o mais importante.
Abri as duas garrafas e lhe direcionei uma.
– E agora? O que fazemos?
– Esperamos.
– E por que não podem contar pra ninguém?
– Porque não confiamos em ninguém.
– Mas você confia em mim.
– Sim, já disse isso. E Henry também confia em você pra me proteger caso servir de isca seja arriscado demais.
– Ótimo... – Ele murmurou
Eram três horas da tarde, exatas, quando meu telefone tocou. Henry havia recebido um e-mail não rastreável com fotos minhas entrando no prédio e de Craig na janela. Ótimo, sabiam que estávamos lá. E queríamos que soubessem porque, assim, estaríamos um passo à frente. No meu caso, dois passos, porque eu tinha pleno conhecimento sobre o alvo de nossa caçada pessoal, e eu adorava isso.
Deixei o local minutos depois, Craig na minha cola. Estava distraída com a música do rádio, esperando o sinal abrir, quando a vi. Os óculos escuros jamais permitiriam que pudesse conhecer a direção do meu olhar. Tive que ser rápida para programar meu cérebro a não deixar meu corpo reagir. Busquei o celular rapidamente e liguei para Craig.
– O que houve?
– Seu vidro é mais escuro, mas procure não encarar tanto. Mulher de bata marrom e bota preta, parada no ponto de ônibus.
– É ela?
– Sim.
– Mas essa não é...
– Sim, Daniel, é ela.
– Você sabe que a garota tá dentro do programa de proteção à testemunha, não sabe?
– Não me importo.
– Juliette, vai ser extremamente difícil.
– Mas eu sei como fazer.
– É perigoso.
O sinal ficou verde e eu desliguei imediatamente. Acenei para ele quando virei a esquina contrária à sua direção. Pelo retrovisor, pude ver Lisa acompanhar meu carro com o olhar. Eu tinha mil desafios pela frente e não estava disposta a considerar nenhum deles naquele momento. Precisava ver Henry, e tinha que ser rápido. Evitei todos quando entrei no fórum correndo, ignorando por completo o celular que não parava de vibrar no bolso da minha calça. Entrei de supetão no escritório. Um policial estava na porta, pelo lado de dentro, e ele bateu continência. Henry estava saindo de sua sala.
– Howard, pode nos dar licença, por favor?
Acompanhei a saída do homem com os olhos.
– Betty, por favor, tranque a porta e não permita que ninguém entre. – Henry começou a dar ordens para sua secretária. – Se alguém ligar, eu não estou aqui. Anote os recados.
– Sim, senhor. Mais alguma coisa?
– Por enquanto, é isso.
Ele abriu a porta de sua sala para mim, indicando o caminho. Os papeis em cima da mesa não eram muito convidativos e eu sabia que tinha uns daqueles me esperando quando voltasse para a delegacia. Tomei a liberdade de me servir de um de seus uísques favoritos que estavam à disposição para visitar. A dose desceu pela minha garganta de uma vez só.
– Ok, o que faremos agora? – Ele começou a conversa, o tom de voz extremamente baixo. – Eu não falei pra ninguém.
– Eu também não, o que significa necessariamente que estamos sendo mais vigiados do que pensávamos. Fez o que te pedi ontem?
– Sim, fiz. A equipe veio aqui pela manhã e revirou o escritório. Sem escutas. Agora, como você pode ver, estou usando um computador reserva. O meu está com a equipe de crimes cibernéticos, passando por uma rigorosa varredura.
– O que você alegou?
– Nada demais. – Henry deu de ombros. – Disse que estava achando que podia ter alguma coisa anormal no meu computador e queria garantias de que não haveria a possibilidade de alguém estar acessando remotamente.
– E o seu notebook de casa?
– Já está lá com eles. Mas eu queria entender ainda o porquê de você não querer envolver uma equipe de detetives nisso, Julie.
– Eu sou detetive, eu posso lidar com isso.
– Mas, meu amor...
– Sabe que tenho inimigos nas minhas costas, não sabe? – Eu o interrompi. – Você provavelmente teve uma amostra grátis quando tentou foder com o Craig, então deve raciocinar que eu posso ter feito coisas não tão certas pra colocar os culpados onde eles merecem estar.
Seus ombros caíram.
– O que eu faço então? Espero? Dou a você e Craig mais um encontro supostamente escondido?
– Se isso estiver te incomodando, eu acabo com essa história agora.
– Não, não está me incomodando. Já disse, confio em você.
– Então o que você quer que eu faça, Henry?
– Só quero que isso chegue a um fim.
Eu observei em silêncio enquanto via seu semblante perder toda a vontade de viver. Henry se sentou na sua cadeira e eu, no oposto. Busquei o celular no bolso, já se passavam das cinco da tarde. Eu precisava agir, e tinha que ser rápido. Aquilo tudo estava evoluindo rápido demais. Não fazia ideia de qual era de fato o objetivo de Lisa com aquela merda toda, muito menos por quanto tempo ainda aguentaria guardar segredo de Henry. Não queria ter feito isso nem em um primeiro momento, mas sentia que não me restava escolha. Pelo menos, no apartamento, tínhamos um pouco mais de segurança.
Deixei Henry arrumando suas coisas para deixar o fórum e encaminhei-me para a delegacia. Disse as desculpas que precisava dar para meu sumiço e parti, ainda de viatura. Sabia o caminho muito bem, então não demorei a chegar ao Red Roses. Estacionei o carro propositalmente em uma parte escura e fiquei esperando. Mais cedo ou mais tarde, Bongiovi daria as caras e, para a minha sorte, foi mais cedo. Com a arma no coldre e minha cabeça programada para usá-la a qualquer indício de problema, caminhei com passos firmes até ele, que dispensou os seguranças assim que me viu.
– Achei que não te veria tão cedo, jovem Juliette.
– Não era da minha vontade estar aqui, se te consola.
– O que você quer?
Engoli em seco. Minha vontade era de fazer uma merda grande ali mesmo, mas sabia que as chances estavam contra mim. Ainda assim...
– Preciso resolver um problema.
– E onde eu entro nisso?
– Você é a pessoa certa pra fazer as coisas erradas.
– Do que você tá falando? – Ele perguntou, fingindo estar prestando atenção em qualquer outra coisa que não fosse eu.
– Eliminar uma pessoa.
Bongiovi riu.
– Não sou um assassino.
– Nós dois sabemos que isso não é verdade.
– E por que eu deveria cometer um crime por você? – Ele finalmente olhou nos meus olhos. – Não sou assassino de aluguel pra ninguém, quem dirá pra uma detetive da homicídios. Além do mais, não sujo minha mão com sangue de inocentes.
– Não falei em inocente.
– Então é o quê?
– Uma mulher que está ameaçando a minha segurança e a do meu namorado.
– Ah, o juiz Cavill...
– Sim, Bongiovi, o juiz Cavill. Agora pode me dar uma resposta?
– Está muito agitada para o meu gosto.
– Eu só achei que um pai se incomodaria de ter a vida da própria filha em risco. – Declarei, sem mais nem menos. – Se alguém perguntar, eu vim aqui perguntar sobre o caso daquela sua puta que morreu, anos atrás, porque de repente tive uma epifania e pensei que arrancaria uma informação de você. Lembra disso, certo? Eu me lembro muito bem, foi nosso primeiro encontro.
Deixei Bongiovi sozinho, boquiaberto e sem reação alguma. Enquanto caminhava de volta para a viatura, tentava segurar as lágrimas e não vomitar. As palavras que eu havia acabado de dizer me deixavam com nojo de mim mesma.


Capítulo 45

– Sem mais perguntas, excelência.
Eu evitava olhar para Henry a todo custo. A outra visão também não era exatamente ideal. Craig, por mais que mantivéssemos nosso caso falso, estava deslumbrante em terno e gravata pretos, e eu tinha certeza de que aquilo era totalmente proposital. A seu lado, estava Richard Fortus. O mesmo que poderia ter sido meu professor, que ensinou-me coisas que eu não deveria saber com a idade que tinha, que quase largou tudo por algo que nós achávamos que fosse durar. O tempo havia feito bem a ele, embora suas feições já denunciassem os anos que carregava nas costas. Seu olhar no meu, enquanto fazia suas perguntas, me deixava, de certa forma, incomodada, e eu torcia para que Henry não notasse. Foi um alívio quando seu interrogatório terminou, mas eu sabia que o pior ainda estava por vir.
– Detetive Danté, a senhorita está ciente de que está sob juramento, certo?
– Não é a minha primeira vez em um tribunal. – Respondi a promotora. – Receio, inclusive, que não será a última. A senhorita mesmo mostrou conhecer a minha profissão, embora saiba muito bem que não estou aqui depondo como tal.
– Perfeito então, era apenas um esclarecimento. De acordo com o que a senhorita disse a meu colega... E relembro, estando sob juramento! Você quis dizer que tem plena confiança no réu.
– Sim, disse.
– E não poderia estar dizendo inverdades baseadas em seu interesse porque já teve um relacionamento com o acusado?
– Protesto, excelência! – Richard se levantou. – A testemunha fez seu juramento, não tem motivo nenhum pra sua autenticidade ficar sendo questionada a todo tempo.
– Retiro. – A promotora disse, sorrindo. – A senhorita acha que este é um julgamento justo?
Olhei de relance para Richard, perguntando a mim mesma que porra de pergunta era aquela.
– Sim, – Dei de ombros. – por quê não?
– O que a senhorita pensaria de um julgamento onde o réu é ex da testemunha, que se encontra em um relacionamento com um juiz do mesmo?
– Hoggins, – Henry disse com o tom mais firme que eu já havia ouvido ele usar. – se quiser colocar minha eficiência em jogo, tem toda a liberdade de fazer isso junto à Ordem. Enquanto isso, no meu tribunal, você vai me respeitar. Estamos entendidos? Se insistir nessa, mando prendê-la por desacato.
Ela engoliu em seco, mas assentiu. Claramente, não esperava que Henry tomasse aquela atitude, o que deixou-a desconcertada quando sua intenção era fazê-lo a mim. Craig deu um sorriso de lado, disfarçado. O filho da puta estava divertindo-se com aquilo.
– Bem... Detetive Danté, qual a sua lotação?
– Tenente do Departamento de Homicídios da Polícia de Massachusetts.
– E por que a senhora disse que esse julgamento não é justo?
– Eu não disse para o doutor Fortus que não é justo, disse que é inválido. – Tratei de corrigí-la, feliz por ter a chance. – O réu está sendo acusado de homicídio qualificado de supostas vítimas e não há uma prova sequer de que qualquer delas esteja realmente morta. Aliás, como se acusa alguém de ocultação de cadáver sem ao menos saber e provar, de fato, que há um cadáver?
Dessa vez, Craig aumentou o sorriso, deixando-o visível a quem quisesse ver, inclusive Henry.
– Quantos anos a senhorita tem dentro da polícia?
– Quase oito anos.
– Então está prestes a ser promovida a capitã, estou correta?
– Sim, está.
– E, ainda assim, acha mesmo que esse julgamento é, nas suas palavras, inválido? Caso Livingston, 2016. A senhorita depôs, nessa mesma corte, que estava certa sobre Carl Livingston estar morto. Caso não se lembre, não havia cadáver ou qualquer indício do mesmo.
– Na verdade, havia sim. – Respondi, adotando também um sorriso. – A quantidade de sangue encontrada no carro da vítima era suficiente para afirmar que estava morto.
– Calculado por uma mancha!
– Mancha não. Temos uma equipe de perícia muito competente, promotora, e equipamentos bons e confiáveis o suficiente. Se fez bem sua pesquisa para usar esses fatos contra mim, deve ter visto que um de nossos melhores softwares, cujo desempenho nunca foi manchado por uma falha sequer desde que começamos a usá-lo na nossa delegacia, detectou que a quantidade de sangue na sua dita mancha era de, pelo menos, cinco litros, quantidade essa definitiva para afirmar que uma pessoa está morta. O cálculo foi feito pela área e profundidade atingida pela mancha, levando em conta a densidade do material afetado, caso a senhorita duvide disso também.
– Diz então que sua equipe é extremamente eficiente.
– Sim, claro.
– Mas, ainda assim, vocês enterraram um estranho achando que se tratava de um dos seus.
Foi minha vez de engolir em seco. O sorriso no rosto de Craig morreu, o mesmo para mim. Respirei fundo algumas vezes, procurando obter o tanto de força necessário para continuar naquela posição sem perder a razão e a linha de raciocínio, muito menos a confiança em mim mesma.
– O sistema foi incrivelmente burlado. Deveria saber disso, já que procurou tanto para usar contra mim, mas não vejo como tal pergunta pode ser relevante pra esse julgamento.
– Então o sistema é burlável?
Por um segundo, pensei em olhar para Henry e protestar por conta própria. Mas então lembrei que, de forma alguma, poderia agir como namorada dele ou coisa do tipo. Não ali. Ele não permitiria, ficaria irritado se acontecesse e estaria certíssimo. Então segui com a resposta.
– Qualquer sistema é, isso é óbvio. Mas soubemos identificar que ele estava vivo mediante, também, tecnologia que temos a nosso alcance. Por mais que tenhamos demorado alguns longos meses, tínhamos provas de que ele ainda estava vivo e tínhamos fundamento científico para acreditar em tal. Não era só um grupo de amigos torcendo pra tudo estar certo com um deles. Tanto que, a senhorita bem deve saber, eu resgatei o tenente Jones.
– O mesmo tenente Jones cujo desaparecimento teve, a princípio, a senhorita como principal suspeita?
– Protesto, excelência. – Richard se levantou mais uma vez, dando um golpe no tampo da mesa à sua frente que demonstrava seu péssimo humor. – Peço perdão pelas palavras, mas não posso mais tolerar o que está acontecendo aqui. Quem deveria defender, o réu ou minha testemunha? Porque o que vi até agora foi minha colega tentando, a todo custo, denegrir a imagem da detetive Danté sem motivo algum para tal.
– Deferido. Vou desconsiderar todo o depoimento da testemunha até aqui a partir do momento que a promotoria assumiu a fala. Doutora Hoggins, a senhorita tem, de fato, algo relevante para perguntar à testemunha ou prefere terminar por aqui?
– A promotoria pede por um intervalo, excelência.
Henry ponderou por longos instantes antes de dar o parecer favorável ao pedido. Na volta no recesso de vinte minutos, a promotora adotou uma postura mais profissional, na falta de uma palavra melhor, o que facilitou o meu trabalho ali. Fui rápida em deixar a audiência quando foi permitido que eu o fizesse, mas ainda havia uma testemunha para ser ouvida além de mim e eu precisava da carona para casa. Antes tivesse ido por conta própria de primeira.
Ele deixou a sala com a promotora-metida-a-gostosona-Hoggins em seu pé e eu bufei, ainda mais por Henry não ter notado a minha presença, já que eu estava sentada estrategicamente bem próxima à porta. Levantei dali, disposta a pegar o primeiro táxi que passasse pela rua. No entanto, Daniel saiu da sala no instante em que decidi deixar o tribunal. Ele sim foi capaz de colocar os olhos em mim. A carona oferecida foi aceita de bom grado imediatamente. Em vez de ir para nosso apartamento, pedi que ele me deixasse na delegacia.
– Você por aqui? – Danny brincou assim que colocou os olhos em mim. – Achei que...
– Não me venha com essa. – Ralhei. – Sala 03. Agora.
Danny fechou o semblante. Ele jamais havia encontrado Juliette Danté irritada daquela forma em todos os anos de convivência entre nós. Eu bati a porta da sala de interrogatório com força, tanta força quanto tinha intenção de usar. Tranquei-a imediatamente.
– Que tipo de contato você tinha com o meu pai, Jones?
– O quê?!
– Chega! – Gritei. – Chega de mentiras, de fingir que eu ainda não sei dessa sujeira toda. Que porra de negócio doentio você estava fazendo com o meu pai?
– Juliette, eu acho que você tá...
– Me responde, porra!
Ele arregalou os olhos.
– Ok, Julie, eu falo. – Disse com a voz branda. – Pode se sentar, por favor? Respondo as perguntas que você quiser.
– Pode começar pela primeira então.
Danny respirou fundo e afrouxou a gola da camisa social que usava.
– Ele só queria saber se você estava bem, se estava faltando alguma coisa pra você...
– Quanto ele te pagava?
– Julie, eu...
– Quanto, Danny?
– Quinze.
Dei um soco na mesa. Parecia que eu estava interrogando um criminoso, e sentia como se estivesse.
– Desde quando?
– Desde antes de você vir pra cá, na verdade. Eu recebi o seu pai na minha casa poucos dias...
– Meu pai veio aqui?
– Ele pediu pra não te contar. Disse que você não gostava dele e que era pra permanecer desse jeito.
O som alto de alguém socando a porta ressoou pela sala. Respirei fundo uma, duas, três vezes. Não me acalmei nem um pouco, mas destravei a tranca.
– Você ficou maluca, Danté?!
– Fiquei. – Respondi Hiddleston, pegando a arma do coldre e retirando o distintivo do pescoço. – Eu to fora. Pode queimar qualquer coisa que tiver minha por aqui.
Passei por ele como um furacão. Do salão principal da delegacia, todos os olhares se dirigiam a mim. Peguei o casaco que havia deixado na mesa e segui para o elevador. Maitê me interceptou no caminho.
– Ei, o que tá acontecendo?
– Por favor, me deixa passar.
– Julie, isso não é de você.
– Eu conto depois, ok? – Disse, passando também por seu bloqueio.
A coberta que Henry insistiu em não levar do meu apartamento, enfim, teve seu uso. Boston estava particularmente fria naquela noite de novembro e eu não lembrava de termos um começo de inverno tão intenso quanto aquele em anos. Sem muita paciência para nada, tomei um calmante que também havia ficado para trás na mudança corrida e apaguei.
No outro dia, meu celular estava prestes a entrar em pânico. Não dei muita atenção a princípio. Apenas ajeitei a roupa o máximo possível e deixei o apartamento onde morei por tanto tempo naquela cidade. O táxi me levou direto para o apartamento que dividia com Henry. Dentro do carro, pude observar as chamadas perdidas e mensagens não lidas de todos – literalmente todos – que eu tinha por perto nos últimos meses. A vontade era de largar o celular pela janela e ficar rodando dentro daquele carro para sempre.
Ouvi os passos pesados e apressados pelo apartamento enquanto destrancava a porta de entrada. Henry, de olheiras imensas, me abraçou com força quando coloquei meu corpo para dentro.
– Graças a Deus! Achei que tivesse acontecido alguma coisa. Por onde você esteve?
– Em casa. – Respondi quando ele, finalmente, me soltou.
– Mas você... Espera. Você estava no seu apartamento?
– Sim, estava.
Falava naturalmente. Deixei o casaco em cima do sofá e encaminhei-me para a cozinha, com ele no meu pé. A primeira coisa que fiz foi apertar o botão para ligar a cafeteira.
– Julie, pode me dizer o que está acontecendo?
– Não sei, pergunta pra Hoggins.
Henry bufou.
– É sério isso?
Esperei, em silêncio, até que minha xícara estivesse completa. Bebi um pouco antes de continuar.
– Não, Henry, não é, estou de brincadeira. – Revirei os olhos. – Você estava bem preso a ela quando saiu do tribunal. Tão preso que nem me viu sentada igual uma idiota esperando pela carona que você mandou eu esperar. Então é claro que não é sério que a Hoggins sabe o que tá acontecento porque você tava com ela não sabe.
– Julie, não é nada disso que você tá pensando.
– Ah, não é? – Abri um sorriso sarcástico. – Problema resolvido então. Posso subir para tomar um banho ou você vai continuar no meu caminho?
– Eu deixo você subir quando resolvermos isso, Julie. Nunca te dei um motivo sequer pra sentir ciúmes, nem mesmo quando...
Ele não terminou a frase. O ódio me subiu à cabeça.
– Quando o quê, Henry? Quando você me deixou desesperada achando que um filho da puta tinha feito algo com você enquanto, na verdade, você tava comendo a Lisa? Inclusive no mesmo lugar em que você me comeu também, né? Interessante como sua memória é seletiva quando quer.
Henry baixou a cabeça, mas ainda permaneceu no meu caminho.
– Juliette, eu sinto muito.
– E deveria sentir. – Respondi, ríspida. – Posso tomar meu banho agora?
Ele deixou o caminho livre para que eu passasse. Terminei o café e deixei a xícara em cima do balcão. Quando comecei a subir os degraus, sabendo que não estava sendo seguida, percebi em que pé minha vida estava. E já que tinha começado a chutar o balde, iria terminar.
– Aliás, eu pedi demissão.
– O quê?!
– Estou fora da polícia. Creio que você entendeu de primeira. E preciso dos seus dados bancários.
– Pra quê?
– Vou pagar a metade correspondente a mim nesse apartamento.
– Julie, por favor, eu disse que era um presente.
– Não foi um pedido, Henry. E vou atrás da Hoggins também.
– Pelo quê?
Respirei fundo. Meu coração estava acelerado, pedindo copiosamente para que eu me acalmasse. Então respirei fundo de novo e recuperei o sorriso natural em meu rosto.
– Sou advogada também, esqueceu? – Disse ao virar-me para um Henry confuso ao pé da escada. – A Ordem vai gostar de saber sobre a conduta dela no julgamento de ontem.
– Podem dizer que é pessoal e irem atrás da sua licença. – Ele comentou, as sobrancelhas arqueadas.
– Que digam. Eu sou rica, não sou? Então foda-se.


Capítulo 46

Os formandos jogaram seus respectivos capelos para o céu, menos Henry. Ele era sempre o diferente nessas horas, o que me fazia rir. Seus olhos permaneciam presos em mim, sentada timidamente em uma das primeiras fileiras de convidados. A cerimônia, no Central Park, tinha detalhes minimalistas que tornavam tudo mais especial. Para mim, é claro. Se tudo desse certo, aquele seria o fim das minhas idas e voltas de Boston a Manhattan, dos finais de semana melancólicos por conta de uma prova ou outra, das noites em que eu me sentia sozinha mas não podia reclamar da sua ausência.
Quando Henry finalmente desceu do palco montado, seus passos foram certeiros. Aquele beijo não foi exatamente surpresa, mas foi um dos melhores momentos que dividimos. Eu podia sentir o amor dele em cada toque, cada simples movimento. Ele repousou sua testa na minha ao terminar e sorriu.
– Ufa! Acho que acabou.
– E agora? Qual o próximo passo?
– Irmos pra minha casa e nos arrumarmos pra festa à noite. – Ele disse e aproximou a boca do meu ouvido. – Quem sabe, nesse meio tempo, sobra uns minutos para...
Dei um tapa em seu peito, fingindo indignação. Nós dois dividimos uma gargalhada gostosa e ele me ofereceu o braço para caminharmos, juntos, na direção da área mais provável de ter táxis. Enquanto isso, algumas breves paradas para cumprimentar um ou outro colega de classe e, finalmente, estávamos a caminho de seu apartamento.
– E então, doutor Cavill, como se sente?
– Como se tivesse tirado um puta peso das minhas costas.
– Se quiser mesmo se tornar um juiz, seria bom dar uma revisada nesse seu palavreado sujo.
– Eu aprendi essas coisas feias com você. – Henry brincou.
– Comigo?! Ah, mocinho, você...
– Com licença. – O taxista nos interrompeu, abrindo a divisória. – Acho que vai ser mais rápido ir pela 7th Avenue, mesmo o caminho sendo mais longo. Posso ir por essa rota?
– Claro, – Henry respondeu. – sem problemas.
Recostei-me em seu corpo, observando os últimos resquícios do entorno do Central Park ficando para trás. O trânsito estava particularmente caótico aquele dia e eu mal podia esperar para chegar em casa e livrar-me dos malditos saltos. O elevador, para meu azar, estava parado. Quando o zelador do prédio olhou para mim e eu entendi tudo, bufei. Segundos depois, Henry me pôs no ar, em meio a gargalhadas por parte dele e gritos histéricos por minha parte, começando a subir as escadas sob juras de que íamos, os dois, levar um tombo. Só voltei a sentir o chão de novo quando estávamos na porta de seu apartamento.
– Achei que o senhor ia dar uma de mágico e abrir comigo no colo.
Essa habilidade eu ainda não tenho. – Ele riu e abriu passagem para mim.
Tirei os sapatos e coloquei na estante improvisada logo ao lado da porta.
– Sabe o que cairia bem agora? Um capuccino!
– Julie, – Ele me chamou. – precisamos conversar.
Eu estava com um sorriso no rosto que murchou imediatamente quando virei de volta para ele. Estava sentado no sofá, afrouxando sua gravata. Podia pressentir o que viria, só ainda não fazia ideia exatamente do que era. Então, sem enrolar mais, sentei ao seu lado, procurando transmitir compreensão com o olhar. Por dentro, no entanto, a curiosidade, o nervosismo e a ansiedade estavam acabando comigo.
– O que houve?
– Eu não sei como te dizer isso. Sei que fizemos planos e...
– Você tá terminando comigo?
– Não! Não, Julie, claro que não. Você sabe que eu te amo.
– Então o que tá acontecendo?
Ele respirou fundo algumas vezes, mantendo os olhos fechamos e longe dos meus.
– Recebi uma boa proposta.
– De quê?
– Pós-graduação.
– Isso é ótimo, não é? – Eu abri um sorriso. – Seria uma boa, já que você...
– Em Oxford, Julie. – Henry me interrompeu.
O sorriso em meu rosto terminou de desaparecer e eu sentia como se estivesse sendo engolida por algo dentro de mim. Foi inevitável afastar-me e, quando Henry direcionou uma mão à minha, eu puxei de volta para mais perto do meu corpo.
– O caminhão de mudança já está pago pra levar as suas coisas para Boston... – Murmurei.
– Eu sei, Julie, e não estou cancelando isso. Estou apenas adiando. Você sabe o quanto isso seria importante pra mim, não sabe? E, além do mais, meu pai não está muito bem de saúde, acho que a ficha do falecimento dos meus avós finalmente caiu. Ele está precisando um pouco da presença do filho.
– Era só você não ter feito nenhuma promessa pra mim que estaria tudo bem. Em teoria, né...
Eu me levantei e fui direto para o chuveiro. Sentei dentro da banheira, ainda em meu vestido longo florido que combinava perfeitamente com aquele dia ensolarado de verão em Nova Iorque. Eu chorei naquele dia como jamais tinha chorado. Deixei que todo o mal que aquela surpresa havia causado em mim saísse por meus olhos. Henry me chamou algumas vezes pela porta, mas eu me recusei a abrr. Fiquei lá por tempo indeterminado, simplesmente não queria pensar naquilo. Quando saí, fui decidida ao closet. Abri uma mala sua e comecei a jogar as poucas roupas que mantinha ali dentro do compartimento maior.
– Julie, por favor, eu não queria que as coisas ficassem assim.
– Você tomou a decisão antes de conversar comigo.
– Mas pense bem, olhe pela minha perspectiva. Em que mundo eu conseguiria isso?
Seu pai conseguiu isso, estou certa? – Eu o enfrentei. – Sabe bem que ele nunca gostou de mim!
– Se ele não gostasse, não teria arrumado uma vaga para você fazer o intercâmbio e me acompanhar.
Se ele gostasse, saberia que eu estou envolvida em projetos aqui e não posso deixar Boston por muito tempo. Aliás, pensando bem, você sabia disso e não considerou. Como se eu devesse abrir mão de tudo por você...
– Você quer que eu abra mão de Oxford por você, Julie, não é justo.
– Richard conseguiu a vaga pra você em Harvard, Henry!
– Ah, claro, o Richard, como se eu quisesse que você devesse algum favor àquele velho tarado.
Terminei com as roupas e fechei o zíper. Estava furiosa.
– É isso que você pensa de mim então?
Ele mexeu nos cabelos, nervoso.
– Julie, desculpa, eu...
– Vai se foder!
Desci as escadas correndo, percebendo que havia esquecido os malditos saltos novos em seu apartamento mas decidia a não colocar o pé lá novamente. O táxi apareceu rápido o suficiente, mas nem tanto. Henry tentou me impedir quando eu já estava colocando a mala dentro do carro.
– Por favor, vamos conversar. Dez minutos, Julie, é tudo o que eu te peço.
– Dois anos, Henry! Mais de dois anos! Foi o tempo que você teve comigo e jogou tudo fora por um ciúme estúpido. Quantos ‘dez minutos’ tiveram dentro desses dois anos? Faz a conta e, depois, pensa se eu não te dei vários dez minutos.
Pedi para o taxista arrancar imediatamente. Perguntei se ele toparia uma corrida até Boston. Ele se mostrou relutante mas aceitou. No caminho, liguei para meu pai, pedindo algum dinheiro pois ia estourar minhas contas com aquela viagem impensada. Quando cheguei em casa, Louis estava dormindo no sofá. Deu um pulo imediatamente e olhou para mim assustado.
– Desculpa, não queria te acordar. – Sussurrei.
– Julie, o que aconteceu? O que o Henry fez?
Eu desabei de novo. Estava com tanta raiva que nem sabia o porquê, se era a insinuação, se era a tomada de planos sem me consultar... Dois anos! Dois malditos anos! Eu queria morrer naquele instante, dormir e não acordar mais. Fui honesta com ele no princípio. Contei tudo o que ele precisava saber para entender que eu era insegura demais, que tinha medo de entrar em um relacionamento novamente só para ser, mais uma vez, abandonada, e ele fingira perfeitamente que estava de acordo com aquilo. “Ah, mas só são dois anos distantes.” Só mais dois anos! Só mais o mesmo tempo que nós tínhamos juntos!
Louis era o melhor amigo que eu podia ter, e melhor ainda era nada ter ficado estranho entre nós. Dividir o apartamento com ele, no início, pareceu algo impulsivo demais, mas não houve um momento sequer em que eu me sentisse arrependida de ter tomado aquela decisão. Éramos dois jovens responsáveis, dentro do possível. Claro que tínhamos nossas farras – e que farras! –, mas um estudante de Medicina e uma estudante de Direito, ambos levando seus respectivos cursos muito a sério, era uma boa combinação. Dias e dias de estudo pesado e delivery. Era o ideal? Não, claro que não, mas sustentava a nós dois com boas notas e, até então, desde que essas notas permanecessem boas, nada mais importava.
– Julie...
– O que foi?
– Henry está na portaria, pedindo para entrar.
– Não quero falar com ele. – Declarei e aninhei-me ainda mais na namoradeira da varanda de nosso apartamento. – Pode mandá-lo de volta para Nova Iorque, diga que perdeu a viagem.
– Julie, me escuta. – Louis disse e se aproximou. – Eu vou descer. Vou lá no Grasshopper, pegar uma boa quantidade de frango xadrez pra gente. Seja lá qual decisão você for tomar, acho que vocês precisam ter essa conversa. Imagina só se ele for lá pro outro lado do Atlântico e você ficar se remoendo porque deixou de dizer isso ou fazer aquilo? Não parece bom pra mim.
– Louis, por favor...
– O quê?! Fala mais alto! Não to te escutando!
O aperto em meu coração era crescente. O verão estava sendo de arrasar naquele ano e minha vontade era de estar no mais frio lugar, com camadas e camadas de cobertores sobre mim. O lençol fino de linho não era o suficiente para satisfazer a minha vontade de sentir-me envolta por algo. No entanto, nada era suficiente para distrair minha mente dos passos quase silenciosos que adentravam o apartamento. Olhei para o céu como se, de lá, fosse obter alguma resposta. Nada.
– Por que você foi embora desse jeito?
– Era o certo a se fazer. – Mal pude reconhecer minha voz e mantive os olhos fechados e a cabeça recostada enquanto sentia que ele se aproximava. – Você não deveria ter vindo.
– Juliette, você sinceramente tem dúvidas de que eu te amo?
– Sinceramente, sim.
Henry bufou e eu não gostei de perceber que sabia exatamente qual era o seu estado de espírito naquele momento.
– Por que outro motivo eu pilotaria por tanto tempo a essa hora?
– É justamente por isso que estou dizendo que você não deveria ter vindo.
– Te fiz chorar, Julie! Não sabe o quanto isso tá doendo em mim também. Eu nunca quis te fazer mal algum, mesmo que mínimo.
– Mas fez, não é? – Ironizei e, finalmente, encarei-o. – Não pensou nessa possibilidade antes? Será que a sua mente brilhante não percebeu o quanto eu estava animada pra você vir pra Boston? Foi um desleixo você não considerar que eu sentiria o meu coração quebrando em pedaços com a notícia?
– Você sabe como eu sempre disse que o professor Palmer era o meu sonho de orientador, e agora isso tá alcançável pra mim... Você não faz ideia da felicidade que me deu saber que eu poderia optar por essa possibilidade! Eu quero demais ir, Julie, e queria muito que você pudesse ir comigo mas, se você não quiser ou não puder, tudo bem. Quando tiver tempo, venho aqui. Ou você pode ir lá também.
– Claro, ficar com seu pai, que me adora. Uma puta proposta irresistível!
– Julie, meu pai não é assim.
– Quer colocar na ponta do lápis quantas vezes eu fui a Nova Iorque e quantas vezes você veio até Boston, Henry? Posso colocar, me lembro bem de tudo. Agora quer se lembrar da viagem fatídica que fizemos a Londres? Seu pai não é assim mesmo? Porque, se ele realmente não fosse, você não aceitaria voltar mais cedo que o planejado sem resistir.
– Olha só, Julie, – Ele se ajoelhou no chão, próximo a mim, e tomou minha mão na sua. – eu te amo mais do que jamais achei que amaria uma mulher. Você é tudo pra mim. Nesses últimos anos, as coisas na faculdade apertaram e você foi o pilar pra tudo o que eu conquistei. Não quero me separar de você, nunca quis. Quero ficar contigo, construir uma família contigo, te fazer feliz. Se, ainda assim, você não confia em mim...
Seus olhos começaram a lacrimejar e eu não aguentei mais segurar minhas lágrimas. Henry se levantou e segurou-me em seus braços, apertando-me com ternura. Eu voltei a soluçar, mais uma vez. Minha cabeça parecia que ia explodir de tanto chorar.
– Henry, – Eu o chamei e ele olhou em meus olhos. – por favor... Fica. Por tudo que é mais sagrado, não me deixa sozinha.
– Eu prometi à minha mãe, Julie.
– Por favor, Henry! – Eu supliquei mais uma vez.
– Você não pode ir comigo?
– Como vou abrir mão do estágio na delegacia, Henry? Foi um parto conseguir isso!
– Da mesma forma que esse é o seu sonho, eu tenho o meu, Julie. Por favor, não pode ser tão difícil assim.
– Eu não consigo, Henry, não consigo. Eu posso ter sonhos também.
Nós nos encaramos por longos segundos, os dois chorando, até que ele se aproximou e deixou um beijo na minha testa, virando as costas para mim logo em seguida. Em um ato completamente impensado, eu corri até ele e puxei-o de volta para um beijo de verdade. Eu não fazia ideia de que seria o último, mas também não queria perder a chance e deixá-lo ir sem aquilo. Choramos juntos mais uma vez e ele, como sempre costumava fazer, encostou a testa na minha.
– Eu amo você. – Falei. – Sabe disso, não sabe?
– E eu te amo mais ainda. Vou mandar notícias quando chegar.
– Henry...
– O que?
– Fica comigo essa noite. Por favor.
Ele hesitou por um instante mas deixou o capacete no aparador, logo ao lado da porta. Então tomou-me em seus braços mais uma vez e, juntos, fomos para o meu quarto.


Capítulo 47

Ainda estava de olhos fechados quando o odor invadiu minhas narinas. Era padrão que, quando Henry me levasse café na cama, houvesse um croissant de recheio sortido e um copo de suco de manga, meu favorito. No entanto, o habitual havia sido substituído por ovos mexidos e um copo enorme de achocolatado. Não era exatamente o que eu tinha planejado no dia anterior, mas teria de servir. Então Henry saiu do banheiro, a toalha enrolada na cintura. Respirei fundo e sorri, satisfeita com a nova pessoa que eu decidira ser quando acordasse naquela manhã. Pelo café da manhã também mudado, podia ver que havia certa sincronia entre nós dois.
– Bom dia. – Eu disse.
O semblante de Henry passou de tenso a calmo e um belo sorriso abriu em seu rosto.
– Bom dia. – Ele respondeu e aproximou-se para trocar comigo um rápido beijo. – Fiz os ovos não tem nem dez minutos, estão uma delícia.
– Eu acredito. Que horas são?
– Sete.
Resmunguei algo que nem mesmo eu entendi e cobri o rosto com a coberta.
– Ei, nós podemos conversar agora como um casal civilizado?
– Sempre fomos um casal civilizado, Cavill.
– É sério. – Ele disse e puxou a coberta de mim, fazendo com que eu o encarasse. – Estamos bem com o que aconteceu? Você quer falar mais alguma coisa? Ficou algo fora da conversa de ontem?
– Eu estou ótima. Sobre tudo.
– Vai mesmo se demitir?
– Já me demiti.
– E o que você vai fazer hoje?
– Primeiro, eu vou comer. Depois, eu vou na Ordem.
– Ainda a história da Hoggins?
– Ainda a história da Hoggins. – Repeti. – Depois, eu vou voltar pra casa e dormir como não durmo há anos nessa cama maravilhosa. E vai ser aqui que você vai me encontrar quando chegar do trabalho.
Ele deu de ombros e levantou-se, indo em direção ao closet.
– Tudo bem então, – Ele falou de lá. – não vou ir contra seus interesses. Posso reservar um restaurante para jantarmos essa noite?
– Pode. – Respondi e levantei. – Algo italiano seria ótimo.
Estava sendo irônica comigo mesma. Fui para o banheiro começar meu dia. Queria estar particularmente bem arrumada para aquela cena. Gostava de olhar-me no espelho, embora soubesse que haviam milhares e milhares de mulheres mais lindas que eu. Se eu me importava? De forma alguma! Mas era um grande dia o que eu tinha pela frente e eu queria estar vestida para tal ocasião.
O relógio marcava 9AM quando eu coloquei meus pés no prédio da Ordem. Informei ao recepcionista o motivo da minha visita e ele pediu que eu esperasse. Não tinha problemas em esperar. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha todo o tempo do mundo. Mas não foi tão demorado assim, levei menos de duas horas para sair de lá. Dessa forma, eu pude apressar-me para meu próximo compromisso.
Dei o endereço de Craig ao taxista que solicitei. Normalmente, evitaria usar táxis a todo custo, mas estava em um recente surto de “vou gastar toda a minha herança de uma só vez” e não estava importando-me com quanto ia custar aquela e outras corridas. No mais, ainda tinha a desculpa de estar, supostamente, mantendo um caso com ele, então não havia motivo para sentir-me receosa com aquela visita.
Paguei o motorista com uma nota maior do que devia e permiti que ele ficasse com o troco. Esperei até ser seguro e atravessei a rua, caminhando firmemente para a porta dele. Toquei a campainha e aguardei.
– Você demorou.
– Max já chegou?
– Sim, ele tá na sala e...
Eu fiquei sem palavras. Daniel provavelmente ficou também quando viu as minhas feições. De todas as pessoas que eu esperava encontrar naquele dia e naquele lugar, Hiddleston era a que eu menos diria ser possível.
– O que o Hiddleston tá fazendo aqui, Craig?
– Agora não sou mais seu chefe, então pode me chamar de Tom. – Ele disse. – Ou Thomas, se preferir manter um pouco menos de intimidade.
– Você ainda não respondeu a minha pergunta. – Insisti em direcionar-me a Craig.
– Coloquei Hiddleston na reta de assumir a delegacia porque, muito embora ele seja bem mais certinho que eu, não duvido de sua ambição por fazer os culpados pagarem pelo que fizeram, mesmo que isso signifique desviar um pouco da lei. – Daniel me respondeu. – O Tom é confiável e precisamos do máximo de gente pra garantir a efetividade do seu plano.
– Você contou a ele?
– Nós contamos. – Max finalmente abriu a boca. – Você pode escolher desistir de tudo e sair pela porta que acabou de passar ou sentar com a gente, ter uma conversa decente, analisar suas opções e, aí sim, tomar uma decisão final.
– Além disso, eu não deixaria que tivesse chegado a esse ponto se soubesse que havia um dos meus correndo tal risco.
O coração estava saltando do meu peito, podia sentir o pulsar da minha veia jugular como se estivesse com a palma da mão junto a ela. Fingindo uma calma que não existia dentro de mim, tomei lugar na poltrona mais afastada de Hiddleston. Malditos britânicos...
– Podem começar a me explicar.
– Em primeiro lugar, eu queria ouvir de você que isso tudo tem fundamento.
– Craig acha que você é confiável, mas você não acha o mesmo dele. – Concluí.
– Uma coisa não diz respeito a outra. Ouvi o Daniel, ouvi o Max, agora quero ouvir você.
Eu bufei.
– Bongiovi é meu pai biológico e, muito embora essa descoberta não tenha despertado qualquer sentimento em mim, eu vou usar a meu favor.
– E onde a protegida do caso Harris se encaixa nisso?
– Em tudo. Ela encaixou a si própria quando arrombou a casa do meu namorado, quando fez um estrago no carro dele e deixou recado para mim, quando me perseguiu pela cidade. Não penso que ela tem seus parafusos nos devidos lugares e, atualmente, não faço a mínima ideia do que ela pode fazer comigo ou com quem está perto de mim.
– Só falta o motivo para não envolver a polícia.
– Hiddleston, – Eu disse, olhando em seus olhos e caprichando no tom de ironia da minha voz. – você já parou pra observar o número das outras delegacias de Boston? Nós confiamos em nós mesmos, querido, e eu duvido sim da capacidade de outros policiais que não sejam os que trabalharam lado a lado comigo por esses anos. Alguns que eu conheci, não considero como sendo de confiança. Não vou dar o braço a torcer com a minha vida e a vida do Henry em risco. Como eu disse, não sei do que ela é capaz. Ela e o Bongiovi.
Ele olhou para Craig de novo, como se confirmasse alguma coisa. A troca de olhares entre os dois foi intensa e, por um instante, pensei ver um lampejo de ódio cobrindo os olhos de Hiddleston.
– O plano é o seguinte... – Ele começou.
Deixei a casa de Craig bem a tempo de disfarçar minha chegada em casa. Larguei os sapatos pela sala e subi correndo as escadas. Sabia que Henry chegaria a qualquer momento e não queria dar explicações sobre estar na rua até aquela hora. Então tratei de espalhar as roupas pelo chão do quarto e, só de calcinha, enfiei-me na coberta. Foi quando percebi que a tensão daquela tarde havia me deixado mentalmente exausta.
– Julie. – A voz firme porém suave me chamou.
– Henry?! – Respondi, não reconhecendo a voz sonolenta que tinha. – Você chegou faz tempo?
– Nem dois minutos, vim direto te ver. Não pensei que você tinha falado tão sério sobre dormir.
Esfreguei os olhos e dei um bom bocejo.
– Nem eu. Perdi a hora?
– Não, ainda temos quarenta minutos para sairmos de casa. Algo me fez pensar na reserva para as oito horas da noite, muito embora nós sempre façamos nossos jantares às sete e meia. Acabou que fiquei agarrado com um caso no tribunal e a reserva tardia foi de um grande adianto. Parece que foi bom pra você também.
– Eu dormiria mais. – Disse. – Acho que vou tomar um banho.
– Faz isso. Eu tomo o meu enquanto você faz a sua maquiagem.
Eu dormiria mais mesmo. Estava sentindo o corpo pesado, o clássico mal estar de quem pegou no sono no meio do dia mas não deveria ou simplesmente não dormira o suficiente. Cheguei a encostar a testa na parede gelada, deixando a água escorrer livremente pelo meu corpo, sentindo saudades instantâneas da minha cama. Enquanto eu pensava em uma boa desculpa para atrasarmos um tanto na reserva, a mente mais distante do que nunca, senti as mãos frias, em contraste com a água, abraçando meu corpo. Henry me virou para si e tomou-me em seus braços. O beijo tinha um gosto de vitória, comparado àquela tarde. Era como se os seus lábios fossem a garantia de que tudo ficaria bem. Ainda assim, eu estava escondendo as coisas dele, e odiava isso.
– Henry, você abriria mão do magistério por mim? – Murmurei contra a pele do seu peito. – Digo... Do magistério aqui.
– Do que você tá falando?
– De irmos embora de Boston.
Ele levantou minha cabeça com o polegar, levando meu olhar até o seu. Henry estava definitivamente preocupado comigo.
– Aconteceu alguma coisa?
– Você confia em mim?
– É claro que confio.
Desviei o olhar e encostei a lateral do meu rosto na sua pele, ouvindo calmamente seus batimentos cardíacos. Não aguentaria continuar – ou, pelo menos, começar – aquilo sob seus olhos detalhistas.
– Lembra dos documentos que trouxe de Paris?
– Tem a ver com eles?
– Sim. Com eles e com o Jones.
– Danny?! O que houve com ele? O que ele tem a ver com o que seu pai deixou?
– Você confia em mim, não confia?
– Já disse que sim.
– Eu não quero falar a respeito. Não agora, pelo menos. Mas quero ir embora.
– Foi por isso que você pediu baixa da polícia?
– Sim.
Henry me fez olhar para ele novamente. Estava um pouco mais tranquila. Ao menos, era isso que eu deixaria transparecer.
– Tem certeza do que você tá falando?
– Tenho sim, absoluta.
Ele, então, beijou o topo da minha cabeça.
– Só voltei pra Boston por você. Por mim, teria ficado em Londres. Tive dois grandes sonhos na vida, Julie. O magistério e você. Boston só tava no pacote, era um meio para um fim.
– Você sabe que não vai ser piscar os olhos e se tornar juiz lá também, não sabe?
– Acha que eu nunca considerei isso? – Seus olhos brilhavam e um sorriso sapeca brincava em seus lábios. – Tenho uma carreira sólida aqui, posso usar isso a meu favor facilmente. Além disso, seria fácil achar uma cidade no interior, começar por lá e ir seguindo até as grandes metrópoles.
– Você realmente pensou em tudo.
– Mas e você? Não é só de mim que estamos falando.
– Acha mesmo que preciso trabalhar com a quantia que tenho no banco?
– Não acho, mas você não é o tipo que ficaria parada em casa e se satisfaria com isso apenas. Ou estou errado?
– Acho que não está.
– Então a Scotland Yard...?
– Não quero ser policial de novo, Henry. Me trouxe riscos demais. É um dos motivos pelos quais quero ir embora.
– Se você tem certeza disso, uma palavra e eu começo a arrumar as coisas. Não seria muito rápido, claro, porque levaria um tempo até...
– Eu tenho certeza, Henry. – Eu o interrompi. – Tanta certeza como tenho de que é com você que eu quero fugir disso tudo.
Ele sorriu. Não era um de seus sorrisos brincalhões ou românticos, mas era o sorriso que ele sempre tinha quando precisava e queria passar tranquilidade. Como previsto, isso levou nós dois a um certo atraso na reserva, mas Henry tinha boa reputação nos restaurantes mais chiques da cidade e aqueles minutos não seriam de muita importância afinal. Aproveitei a ocasião para estrear o vestido longo preto que comprara havia alguns dias, sendo completamente aprovada por um Henry dividido entre sentir ciúmes e felicidade por estar satisfeito com a mulher ao seu lado.
O que mais causava surpresa era que eu me sentia perdidamente apaixonada por ele no passado mas, durante aqueles dias, com o peso da vida adulta nas costas, eu entendia que era com ele que eu deveria ter ficado desde o começo. E não me arrependia mais da pausa. Não me arrependia de mais nada que havia feito nessa instância porque, não importava mais o meio, o fim era o desejado. Estava disposta a fazer o que fosse necessário para manter as coisas daquele jeito, custasse o que custasse.
Ainda assim, havia dúvida, preocupação com o que poderia acontecer. Sentia que o mundo podia desmoronar a qualquer momento. Mas precisava manter-me firme. Afinal de contas, só havia sido o começo de tudo, não é mesmo? Eu estava sendo neurótica, para variar, quando eu precisava ter em mente uma coisa: aquela conversa no chuveiro, estendida para o jantar, só confirmava que a fase um do plano de Hiddleston estava concluída com sucesso.


Capítulo 48

Eu aguardei pacientemente. Ter paciência era algo prático na vida de um detetive, diria até necessário, mas eu nem era mais detetive, então para quê exercitar aquilo? Bem, tudo na vida tinha um objetivo. Enquanto eu aguardava, torcia para tudo estar dando certo com outra parte da improvisada equipe, que procurava um arquivo de áudio de Henry em arquivos antigos meus, algo que pudéssemos usar pra atrair Lisa. Isso só servia para que eu ficasse mais tensa ao invés de distraída.
E então ele saiu. Estava caminhando calmamente para seu carro como se não houvesse motivo para preocupar-se. O estacionamento era mal iluminado, e estava dentro do meu planejamento que ele demorasse a notar-me, aparada no capô do meu carro. Era definitivamente estranho ver Bongiovi sozinho, mas isso significava que eu estava mais segura do que pensei estar. E, quando ele parou seus passos repentinamente, soube que ele havia percebido a minha presença ali.
– Você voltou. – Ele disse sem ao menos olhar para mim.
– O que eu fiz foi dar um tempo pra que você pudesse pensar no que eu disse. Se eu te conheço bem, você mordeu a isca.
– Como ficou sabendo?
– Meu pai deixou informações para trás. Meu pai adotivo. – Meu estômago revirou ao usar a palavra. – Ele com certeza sabia que eu ia revirar as coisas na casa.
– Juliette...
– Qual foi o seu objetivo com isso tudo, Bongiovi?
– Te deixar sob a minha proteção de um jeito que não deixasse óbvio que você era minha filha. – Ele respondeu. – Caso você não tenha percebido, não sou exatamente uma pessoa amigável e coleciono gente que quer me fazer mal.
– Era só me deixar de fora, não tinha nada que aparecer na minha vida.
– É aí que você se engana. Seu pai estava cavando demais e pessoas erradas ficaram sabendo da possibilidade. Então eu criei um cenário onde você definitivamente fosse alguém que eu estivesse apenas usando e, assim, não levantaria a suspeita de que eu me preocupava com você.
– Ameaçou pessoas que eu amo, ameaçou a minha carreira... – Murmurei. – Ainda quer que eu acredite nessas suas lágrimas de crocodilo, Bongiovi?
– Você pode acreditar ou não, isso aí vai da sua índole.
Eu soltei um riso sem querer, era puro sarcasmo.
– Soube que você pediu baixa da polícia.
– Isso é problema meu.
– É problema meu também.
– Te garanto que não é. Você mal se deu o trabalho de tocar no assunto que trouxe na última vez e...
– Eu pesquisei, Juliette. – Bongiovi me interrompeu. – Entrei em contato com as pessoas certas, busquei as informações que precisava e descobri que era tudo verdade. Mas eu não podia simplesmente aparecer na sua casa, já que nem na delegacia eu poderia te rastrear de alguma forma. Não pensou nisso?
– Você sempre acha um jeito.
– Eu acho, é verdade, mas isso é bem mais delicado e pessoal.
– Você ainda não me disse suas intenções quanto a isso.
– Me diga o local em que você quer que eu esteja.
– Preciso atrair a desgraçada antes.
– Posso tomar conta disso.
– Eu já estou tomando. – Disse, abrindo um sorriso contido e espontâneo. – Como posso entrar em contato com você?
Bongiovi tirou um aparelho celular do bolso e entregou para mim. Logo depois, fez o mesmo com um cartão, que tirou de dentro do paletó.
– É o telefone do escritório. Tudo aqui é legal, então não tem problema. Esse celular, – Ele apontou para o aparelho. – no entanto, não é rastreável. Pode me ligar dele. Se houver qualquer problema, aperte o botão para bloquear a tela cinco vezes seguidas, segurando por alguns segundos na última vez, que ele irá apagar todos os dados.
– Você tem tudo sempre bem planejado?
– É o que me fez chegar onde cheguei. Agora vá pra casa, a área aqui é perigosa.
– Sei cuidar de mim mesma. – Resmunguei.
– Sei que sabe, mas não custa fazer o apelo.
Assim que disse essas palavras, me deu as costas e voltou o caminho para seu carro. Eu me mantive em pé por uns segundos embora estivesse completamente instável por dentro. Por mais que meu emocional estivesse em estilhaços, precisava manter a pose. Primeiro, porque alguém sem confiança jamais conseguiria burlar o sistema como eu estava burlando. Segundo que ainda havia Henry quando eu chegasse em casa, então...
– Como foi a noite com Maitê?
– Boa. – Respondi, sem querer entrar em muitos detalhes.
– Chegou uma coisa pelo correio pra você, mas acabou chegando aos meus ouvidos antes no fórum. Marcaram a audiência com a Hoggins e você deve saber que tem que ir.
– Pra quando?
– Daqui a duas semanas.
Em duas semanas, eu nem pretendo estar nesse país, Henry...
– Ótimo. – Falei. – E como foi o jantar com o senador?
– Desnecessário, inútil, dispensável, inconveniente... Posso continuar se você quiser.
– Acho que já entendi o recado.
– Eu simplesmente odeio política.
– Todo mundo odeia, inclusive os próprios políticos. – Respondi e fui para o banheiro, começando a tirar a roupa para ir tomar banho. – O que você tem de compromisso amanhã?
– Três audiências. Uma é preliminar, então não deve gastar muito tempo. A outra tem júri e o julgamento já tá se prolongando demais, então devo forçar a barra e impedir um novo adiamento. Pode ser que eu demore a chegar em casa, então pensei em comermos fora pra você não ter que cozinhar sozinha. Mas e você, vai fazer o quê?
– Hiddleston quer falar comigo, parece que eu tenho umas pendências pra resolver na delegacia relativas ao meu desligamento.
– Problemas?
– Não, só papelada inútil.
– Como meu encontro com o senador?
– Como seu encontro com o senador. – Repeti e sorri para ele.
Adorava observar Henry quando ele chegava em casa gritando com sua tensão muscular o quanto estava cansado. Eu estava adiantando o banho mas, através do vidro, podia ver cada contorno de suas costas bem desenhadas. Com isso, eu me perguntava o que havia feito para merecer um homem como aquele na minha vida. Não evitei abrir um sorriso, mesmo que ele não estivesse vendo. Mas aquilo levava-me a outro ponto, este mais importante. Estava omitindo as coisas de Henry, e queria tanto que ele soubesse toda a verdade que chegava a doer. Infelizmente, sabia que contar tudo a ele podia tirá-lo de mim, e eu não teria uma nova chance dessa vez.
A primeira coisa que notei ao chegar na delegacia foi que a minha antiga mesa era ocupada por dois desconhecidos. Danny não poderia ser promovido por conta do trauma que havia vivido, o que era de se estranhar mas, antes que eu tirasse mais conclusões, Hiddleston apareceu na porta de sua sala, olhando fixamente para mim. Sem dizer uma palavra sequer, fez sinal para que eu fosse até lá. Minhas costas queimavam, provavelmente Maitê me olhando à distância.
– Temos um problema. – Ele disse assim que eu entrei na sala.
– Qual?
Hiddleston fechou as persianas que davam para o salão principal e eu sentei no divã que Craig havia colocado ali durante o tempo em que comandou a delegacia.
– A garota está no programa de proteção à testemunha. Mudou o nome e eu preciso de um bom motivo pra descobrir qual nome ela está usando agora. Sendo assim, como eu conseguiria o número dela?
– Merda...
– Além do mais, há outro furo. – Ele se sentou na poltrona à frente do divã onde eu estava. – Você tem certeza de que ela está te seguindo?
– Já disse que sim.
– Então você deveria estar aqui ainda, mesmo que só na teoria. Mudanças drásticas agora só vão levantar suspeitas desnecessárias.
– Mas eu...
– Ainda não protocolei sua saída. Perante os papéis, você ainda é da minha unidade.
Eu respirei fundo e encostei a coluna.
– Onde está o Jones?
– Licença médica. Estresse pós-traumático.
Arqueei as sobrancelhas. Estava pronta para fazer um comentário descabido, mas acabei desistindo.
– Como vamos resolver esses problemas?
– Você, eu quero que fique vindo pra cá, mesmo que não saia. Vou deixar disponível um dormitório pra você lá em cima, é o que posso fazer de melhor.
– E Lisa?
– Você sabe como atraí-la? Na rua, eu digo.
– Não tem como eu saber com precisão, ela surgiu em momentos diferentes. Craig já viu.
– Então pode ser que ele seja a resposta. – Hiddleston disse e levantou-se, pegando algumas coisas na sua mesa. – Vá para a casa dele e só saia quando eu permitir.
– O que você vai fazer?
– Deixe comigo essa parte, você vai ser informada. Pode fazer o que te pedi?
– Bem, tenho que ver se ele está em casa ainda...
– Ele está.
Eu me levantei também, vendo que não seria prolongada a minha visita ali.
– Como você pode ter tanta certeza de tudo que está dizendo?
– Porque foi o Craig que me ensinou. – Ele respondeu e abriu a porta para que eu passasse. – E Juliette... Não vamos nos ver provavelmente até isso tudo estar terminado. Pelo que você já falou, nem sei se vamos nos ver novamente. Eu vou distrair seu namorado enquanto você estiver fazendo o que tem que fazer, então seja bem rápida. Posso ser bom no que faço, mas Cavill é inteligente.
Eu me limitei a assentir. Desci as escadas, cumprimentando Maitê apenas com o olhar através das paredes de vidro. Ela tinha o semblante cansado, parecia que carregava um peso quase concreto nas costas. Mas eu nem tinha tanto tempo assim para notar esses detalhes. Estava depositando confiança que não sabia de onde tinha tirado em Hiddleston, e era o caso de mergulhar de cabeça ou cair fora logo. E eu estava praticamente afogando-me na situação.
– Aconteceu alguma coisa? – Craig perguntou quando atendeu a porta.
– Seu melhor amigo mandou eu vir pra cá. – Respondi. – Posso entrar?
– Claro. – Ele me deu passagem. – Você fala do Tom?
– O Tom, é...
Revirei os olhos e deixei a bolsa sobre o aparador no hall de entrada.
– Acho que ele tem uma teoria.
– Sobre...?
– Sobre como achar a Müller. E me mandou vir pra cá pra servir como uma armadilha pra ela.
– Ele me disse que não estava conseguindo localizar o contato dela.
– É, acho que tem algo a ver com isso...
– E Cavill?
– O que tem ele?
– O que pensa sobre isso?
– Continua ciente de que estamos fingindo ter um caso pra resolver a questão da suposta perseguição à minha pessoa. E ele confia em você pra me proteger, acredite ou não.
Craig seguiu para a sala e eu, em silêncio, o acompanhei. Esperei como estratégia que ele se sentasse primeiro e, então, tomei o lugar mais distante.
– É verdade que você vai embora?
– Como soube disso?
– Cavill começou a mexer no seu desligamento do judiciário do estado, e eu conheço alguns de lá. Essas fofocas correm rápido. E aí você pediu o desligamento da polícia também, não precisei me esforçar pra juntar as peças e interpretar o contexto todo.
Respirei fundo, apoiando o meu corpo no encosto. Meus músculos estavam pagando o preço por toda aquela tensão. Fechei os olhos, então, e tomei mais uma boa porção de ar.
– Sei que isso não me diz respeito, você não precisa responder.
– Você tá certo. – Murmurei. – Isso realmente não te diz respeito.
Podia sentir que ele estava pronto para dizer alguma coisa, mas fomos interrompidos pelo barulho de um carro arrancando do lado de fora. Foi instintivo. Craig pulou do seu acento, correndo imediatamente para a janela. Fiz o mesmo, embora adotasse menos pressa nos meus movimentos. Um carro que eu não reconheci estava virando a esquina com tudo.
– Era o carro dele.
Craig se limitou a assentir, e eu soube ali que não havia mais necessidade de ficar. Peguei minha bolsa e abri a porta por conta própria. Então senti a presença atrás de mim.
– Eu te vejo no dia?
– Seu namorado confia em mim pra te proteger. O que você acha que vai acontecer?
Eu apenas assenti, peguei meu carro e fui para casa. Henry não havia chegado ainda e ele tinha comentado que poderia demorar um pouco naquele dia, então eu me permiti encher a banheira com água bem quente e uma bath bomb de lavanda. Estava prestes a entrar na água quando o telefone tocou. Prestei atenção no barulho para certificar-me de que estava mesmo sozinha antes de atender quando vi o número na tela.
– Achei. – Hiddleston falou. – O que faço agora?
– O combinado.
Eu nunca havia atirado usando silenciador. Foi para isso que eu e Craig nos dirigimos para o estande de tiro que ele costumava visitar. Por mais que uns dias tivessem passado desde meu oficial desligamento da polícia, eu ainda tinha muita prática na minha bagagem. Então era só certificar-me da arma que estava usando, de que saberia manuseá-la no caso de ser necessário um tiro à distância. Tinha os outros três para ocuparem-se de manter a área limpa para mim. No final daquele dia insanamente cansativo, só me restava uma mensagem de texto no celular.
“Ela mordeu a isca.”


Capítulo 49

Isso acaba hoje, vai dar tudo certo. Eu repetia essas pequenas sentenças na minha cabeça como um mantra. Henry ainda estava no banho e eu precisava entrar logo, mas não queria dividir o chuveiro por medo dele ler em mim o nervosismo.
– Você vai onde mesmo hoje?
– Na delegacia. – Menti. – Vou tratar de alguns assuntos com o Hiddleston pra terminar de fechar o buraco que eu deixei lá quando saí. E ele quer conversar comigo pra ver se desenvolve mais alguma coisa sobre o caso de seja lá quem tá perseguindo a gente.
– Vai precisar de carona?
– Não, obrigada. – Respondi, olhando no espelho mais uma vez. – Danny vai passar aqui e me pegar.
– Achei que vocês estavam brigados.
– Nos resolvemos, eu acho.
Henry foi até mim e deixou um beijo no meu ombro.
– Eu acho que não vou poder te esperar, tenho audiência em trinta minutos.
– Não tem problema, pode ir.
– Tem certeza?
Virei para ele, abri um sorriso e aproximei-me para beijá-lo.
– Fica tranquilo, a gente se vê mais tarde.
Isso acaba hoje, vai dar tudo certo. Craig me pegou logo depois de ele sair, ainda repetindo o mantra. Entrei no carro em silêncio e, em silêncio, partimos. Estávamos os dois exalando tensão.
– Trouxe tudo o que precisa?
– Claro que sim.
– As armas são rastreáveis?
– Eram armas sem registro de casos antigos. O máximo que vai acontecer é ligarem um assassinato ou assalto de quinze anos atrás a esses.
– Hiddleston conseguiu isso?
– Ele tem mais poder do que você imagina, é o próximo na linha de sucessão do Hall.
– Sei disso. – Murmurei e olhei pela janela.
Chegamos ao imóvel que pertencia à família Craig em menos de uma hora. Hiddleston havia ordenado William que colocasse os meus registros de outro dia nas filmagens para cobrir minha ausência, e eu nem queria saber de que forma havia acontecido essa negociação. Ajeitamos as armas, trocamos as roupas. A intenção era que realmente não levássemos muito tempo ali, mas não havia o que fazer. Novamente, eu precisava esperar. E esperar ao lado de Craig era bem tenso.
Nós nos colocamos em alerta com o primeiro barulho estranho no lugar, mas era apenas Max chegando.
– Acho que vou indo então. – Craig disse, olhando uma última vez para mim. – Você vai ficar bem?
– Vou. – Respondi de primeira. – Não demora, o Hiddleston vai precisar de você.
Max estava bem tenso também, mas sua postura fazia com que eu questionasse o quanto ele já estava dentro daquilo e o que ele não havia feito com a coragem que eu lhe dei antes. Era necessário isolar o lado emocional completamente para estar ali, ao meu lado. Mas ele sabia que eu tinha salvado sua pele de uma merda grande, e o senso de fidelidade e gratidão dele era muito bem formado. Se tinha alguém em quem eu poderia confiar plenamente de todos os que eu podia considerar, esse alguém era ele.
– Tem alguém chegando. – Max me alertou.
O barulho do carro não era nada similar ao barulho do carro de Craig, muito menos ao carro de Hiddleston. Nós nos preparamos para seguir com o plano e fomos até a suíte principal, deixando o caminho livre. Liguei o rádio, para que seguisse de isca naquele momento. Respirei fundo e fiquei olhando através da janela, que dava vista para um bonito lago.
– Mas o quê...?
– Surpresa. – Falei, colocando um belo sorriso debochado em meu rosto antes de me virar. – Achou mesmo que ia passar a perna em mim?
– Cadê o Henry?
– Ele só serviu pra te mandar as mensagens. – Exagerei na história, não faria mal que ela ainda se sentisse um tanto traída. – Não sei o que é pior, você achar que eu não ia atrás de você ou achar que ele realmente te daria bola de novo.
– Do que você tá falando, detetive?
– Ah, por favor! – Disse, debochada. – Vamos parar com essa palhaçada, nós duas sabemos o tipo de mulher que você é.
Foi então que o sorriso demoníaco no rosto dela apareceu, mostrando a sua verdadeira face. Eu engoli em seco e, naquele exato momento, soube que precisaria ser rápida. Pisquei o olho direito, sinal que havia combinado previamente com Max, que estava escondido no banheiro até então. Ele foi ágil em abraçá-la por trás, tampando sua boca, e eu não me demorei em pegar a fita para tampá-la permanentemente. Max usou a mesma fita para prender seus pulsos e tornozelos, então a colocou na cama, forrada previamente com uma lona impermeável. Assisti em silêncio enquanto ele a prendia na cabeceira.
– Onde tá sua prepotência agora, Müller? Ah, é, você não pode falar.
Encaixei o silenciador na ponta da arma e vi o olhar dela sair de curioso para aterrorizado. Eu estava, no mínimo, divertindo-me. Aguardei pacientemente enquanto meu ajudante verificava se havia qualquer possibilidade de companhia indesejada.
– O perímetro tá livre. – Max disse quando voltou.
– Pode sair. – Disse para ele, sabendo que não era certo obrigá-lo a ir até aquele ponto. – Vai pra casa o mais rápido que puder. Pra todos os efeitos, você nunca esteve aqui.
– Tem certeza?
Fiz que sim. Esperei que ele saísse do cômodo para ir até ela e retirar a fita da sua boca.
– O que você quer? – Ela gritou imediatamente.
– Por quê, Müller? – Perguntei com tranquilidade.
– Do que você tá falando.
– Invadir a casa dele, depredar o carro dele, seguir o Henry.
– Você tá doente.
– Eu?! – Puxei a arma e apontei para ela. – Tem certeza?
– O que você quer? – Lisa voltou a gritar, mais alto ainda dessa vez.
– Você tava sozinha nessa?
– Sim, eu tava, não tinha mais ninguém.
Considerei sua expressão facial por alguns instantes. Não precisei esforçar-me para constatar que a filha da puta estava falando a verdade. Dei as costas para ela por um momento. A possibilidade de deixá-la livre era, no mínimo, insana. Lisa apresentava risco para mim, para Henry e para sabe lá quem mais. De certa forma, eu estava fazendo o certo por caminhos errados.
– Juliette, não, por favor. Eu vou embora, vou atrás do meu irmão, eu juro. Vou sumir e...
Não aguentava ouvir sua voz por nem mais um segundo. O tiro foi certeiro, entre os olhos. Lisa não era a primeira pessoa que eu matava – feliz ou infelizmente, eu não sabia dizer – e, por mais que ela merecesse, de certa forma, não tornava aquilo mais fácil para mim.
Eu me aproximei do corpo e desatei as fitas. Enrolei a lona em volta dela e prendi tudo com mais fita. Fechei a cortina e a porta, buscando o luminol na maleta que Craig havia levado. Não havia sangue em nenhum lugar, o que era muito bom. Passei mais um pouco de fita na lona, por garantia. Tirei as luvas que eu usava e as coloquei dentro do bolso do macacão que também Craig havia arrumado e deixei a casa com as maletas que havia usado.
Cheguei ao segundo local combinado. Dentro da mesma propriedade da família Craig, mas cerca de três milhas de distância da outra construção. Na entrada, dois corpos estavam caídos lado a lado. Eu continuei caminhando, entrando na casa, e um outro corpo estava largado no corredor. Quando cheguei no que devia ser a sala, Bongiovi estava amarrado a uma cadeira de madeira. Atrás dele, outro corpo no chão. Eu larguei a arma que segurava em cima da moldura da lareira.
– Deu tudo certo?
Apenas assenti, caminhando até o tripé montado logo à frente da cadeira. Bongiovi, até então, estava com a boca tampada. Eu programei a câmera e botei para começar a filmar. Fui até ele e tirei a fita que estava mantendo-o calado.
– Juliette...
– Sem “Juliette”. Abre a boca. Fala sobre o que você fez com o meu pai.
– O quê?!
– Como você matou o meu pai? – Gritei.
– Acho que você tá confundindo as coisas.
– Ou você fala ou eu estouro os seus miolos. – Hiddleston disse, apontando uma arma para ele de onde a filmagem não pudesse pegar sua imagem.
Bongiovi abaixou a cabeça por um instante. Quando levantou de novo, os olhos estavam carregados de remorso.
– Eu tinha um contato na cola dele.
– Por quê?
– Porque seu pai sabia demais. Se continuasse vivo, poderia dar com a língua nos dentes.
– E me envolveu nisso pra quê?
– Você é sangue do meu sangue, teria a desculpa perfeita. Ele estava te colocando em risco, eu só queria te proteger... Tinha tudo planejado
Respirei fundo pela milésima vez.
– Foi você quem matou minha mãe?
– Você quer mesmo saber disso?
– Não responde a minha pergunta com outra.
Ele bufou.
– Foi um mal necessário.
– Eu quero nomes. Todos os contatos que você tem, na França e na Itália, começando pelo nome da pessoa que matou meu pai.
– Não sei o nome de verdade de quem matou seu pai.
– Mentira! – Gritei novamente.
Hiddleston e Craig apontaram a arma para ele. Em questão de segundos, estava tão aterrorizado quanto Lisa em seus últimos segundos de vida.
– Tem um documento no meu celular chamado ‘CODE’. Lá tem a relação de nomes, codinomes, endereços, contatos... Tudo. Pega o celular, tá no meu bolso. Pode me soltar agora?
Eu ri. Craig e Hiddleston abaixaram suas armas e eu dei as costas para os três, mas qualquer um saberia que o meu olhar estava fixo na arma que já tinha usado alguns minutos atrás.
– Pega o celular. – Disse, não importando com quem fosse obedecer a ordem.
– Mais o quê?
Eu estava ofegando, não tinha percebido até então. Podia sentir o sangue pulsando nas minhas veias. A cabeça chegava a doer.
– Juliette...
– Não me chama pelo nome. – Rosnei.
– Vamos conversar, eu estou disposto a te contar o que você quiser.
– Não temos mais nada pra conversar.
– Juliette, eu...
– Já disse pra não me chamar pelo nome, porra! Não foi você quem deu, você não tem o direito de usar.
Dei um passo incerto na direção da lareira, o braço direito hesitando em levantar e tomar a arma novamente.
– Vai fazer isso com o seu pai? – Ele usou um tom de voz mais agudo.
Respirei fundo, fechei os olhos. Sem titubear, caminhei até onde a arma estava e peguei o objeto em minhas mãos. Logo depois, parei a gravação da câmera.
– Meu pai é Loring Danté, filho da puta. – Disse e disparei por fim.
Craig sabia o que estava fazendo, não era a primeira vez. Eu fiquei para acompanhar. Havia os metido naquilo, era mais do que obrigação minha ajudar nos últimos detalhes. Craig foi buscar o corpo de Lisa na outra casa enquanto eu e Hiddleston verificávamos, mais uma vez com o luminol, onde havia sangue para poder limpar. Com dificuldade, os dois homens encaixaram os corpos no carro.
A lona do primeiro assassinato foi usada para cobrir a mala. A princípio, se descobrissem, Lisa havia sido vítima de Bongiovi. Havia recebido uma bala na testa de uma arma que continua as digitais do mafioso, forjadas posteriormente ao último assassinato, deixada no carro propositalmente. As outras duas armas usadas com seus seguranças também passaram pelo mesmo processo. O único corpo que ficou de fora foi o de Bongiovi. Seria perfeito. Matou a garota, matou seus seguranças. Depois, ainda sumiu, e não seria grande novidade um cara do porte dele sumir do mapa da noite pro dia. Então Bongiovi teria largado o carro no fundo do lago de uma propriedade privada do antigo responsável pela delegacia que tanto perturbou sua vida. Quanto ao corpo dele, Craig já tinha um bom jeito de dar fim e não encontrarem mais, coisa que não questionei.
Craig me deixou em uma rua atrás da delegacia, onde sabíamos intencionalmente que não havia vigilância por meio de câmeras ou qualquer outra possível fonte de provas físicas. Saí de lá andando. No pior dos casos, eu havia saído pelos fundos da delegacia. Peguei um táxi na frente e parti para casa. Sentia, pela primeira vez em muito tempo, que não havia mais o que temer. Eu estava certa de que só faltava a última parte do meu plano, ir embora para a Europa e nunca mais voltar. Mandei uma mensagem para Henry, perguntando onde ele estava e se ia demorar para chegar em casa. Mas não ia ser fácil assim. Não para mim.
Desci na frente do prédio. Tive um pressentimento ruim brevemente, mas tratei de dissipar isso da minha mente. Eu me virei para a porta de entrada e puxei a chave do bolso. De repente, tudo ficou escuro.


Capítulo 50

A cabeça doía e, por mais que eu forçasse a vista, não conseguia ver nada. O meu corpo inteiro doía, para falar a verdade. Eu não fazia a mínima ideia do que havia acabado de me acontecer e estava morrendo de medo de todas as possibilidades, porque sabia bem que tinha mexido onde não devia. No entanto, um som prendeu a minha atenção. Uma respiração. Tinha mais alguém ali comigo.
– Quem está aí?
– Julie?
– Henry?! Mas que...
– Quietos, os dois. – Uma terceira voz familiar se fez audível e, então, uma luz forte acendeu.
Levou alguns segundos até que a minha vista assimilasse a figura, e isso só se deu ao fato de que eu já tinha uma ideia de quem era por conta da voz. De todas as pessoas no mundo, ele era o último que eu esperava ver ali.
– O que tá acontecendo?
– Você devia ter deixado tudo quieto, Juliette.
– Danny, do que você tá falando?! – Eu disse, beirando o desespero.
– Você sabe muito bem do que eu estou falando, vadia! – Ele gritou e deu um tapa no meu rosto.
– Eu não sei!
Tentei manter a respiração. Havia um treinamento específico para essa possibilidade, mas nenhum dos módulos ensinava a gente como reagir quando seu próprio parceiro te sequestrava.
– Se você não abrir a boca, eu juro que...
– Jura que o quê, Jones? – Inflei meu peito. – Vai fazer alguma coisa com o Henry? Seu problema é comigo!
O olhar de Henry, pelo canto, conotava terror. Eu engoli em seco. Era assumir o papel de dominante ou seguir à risca qualquer coisa que Danny falasse.
– Mas o Henry é problema seu.
– Então vai em frente e faz alguma coisa com ele. Vai ser o sangue de uma pessoa que não tinha nada a ver contigo nas suas mãos.
Um aparelho celular começou a vibrar. Danny puxou uma arma no cós da sua calça e colocou-a apontada para a têmpora de Henry.
– Silêncio os dois. – Ele disse e atendeu a ligação. – Oi, meu amor.
Georgia?
– Não tem problema. Vocês estão onde?
Enquanto Danny não falava nada e mantinha a vista em qualquer outro lugar, eu esperava que Henry, apenas com o olhar, pudesse dizer se sabia de alguma coisa que eu não tinha conhecimento ainda. Aproveitei para checá-lo por completo e foi um alívio verificar que, aparentemente, não havia nenhum ferimento.
– Olha só, eu preciso que você faça uma coisa por mim, ok? Pega a Julie, vai pro aeroporto. Compra uma passagem no seu nome mas não vai. Aluga um carro, pega a estrada. Encosta em um motel na beira do asfalto, inventa uma identidade pra se registrar. Se der, não deixem que vejam que você tem uma criança. Não conte a ninguém, ok? Ninguém! Nem a mim. Quando for a hora, vou atrás de vocês.
Danny fez uma pausa para escutar a esposa, muito provavelmente.
– Por favor, eu preciso que confie em mim.
Mais uma pausa. Eu estava angustiando debaixo da minha pele.
– Meu amor, por favor, é tudo o que eu te peço. Vou pegar vocês duas logo, ok?
De repente, ele tirou a arma da cabeça de Henry e começou a afastar-se. A luz foi apagada e Danny sumiu. Estávamos sozinhos de novo.
– Julie, o que tá acontecendo?
– Eu esperava que você me respondesse.
– O que houve com o Danny?
– Também não sei, Henry.
Ele suspirou.
– Não vão demorar a chegar aqui.
– Como assim? – Perguntei.
– Eu estava sendo vigiado já havia um tempo por causa de tudo que andou rolando com nós dois. Tinha policiais no escritório, policiais vigiando as câmeras de segurança. Alguém vai notar que tem coisa fora do lugar, e tem um rastreador na fivela do meu cinto.
– Por que você não me contou nada disso?!
– Você ia dizer que era exagero, que você dava conta de proteger nós dois.
– E você não confiaria em mim. – Concluí. – Entendi tudo.
– Julie, por favor...
– Deixa isso quieto, Henry. A merda agora tá feita.
A minha pressão baixou e eu comecei a apagar na cadeira. Não era confortável, mas eu estava realmente me sentindo mal. O escuro só servia para me deixar mais tonta ainda, ironicamente. Podia ser também alguma coisa que Danny havia usado para fazer com que eu apagasse e ainda não tinha saído do meu organismo. Acordei novamente com Henry me chamando, mas escutei outra voz ao longe no mesmo instante.
– Fica quieto. – Sussurrei.
– Eu vou conseguir o dinheiro. – A voz estava abafada, mas não irreconhecível. – Só me dá mais um tempo.
– Você não tem mais tempo, Jones. – Outra pessoa falou.
– O acordo era até amanhã à noite.
– Estamos reformulando o acordo.
– Eu preciso de mais tempo.
– Dá seu jeito, não é isso que o chefe quer.
– Ele sabe muito bem das minhas limitações.
– E agora ele tá pouco se fodendo pra isso. Vamos lá, Jones. Cadê a porra do dinheiro?
– Eu não tenho o dinheiro aqui agora.
– Não mente pra mim. – Ouvi um barulho seco, e provavelmente Danny havia levado alguma porrada. – Ou você me arruma agora ou eu juro que vou fazer você se arrepender.
– Boone, eu vou arrumar esse dinheiro. Só preciso de tempo, já disse.
O dinheiro era comigo?
– Você tá querendo brincar, Jones? – A voz da outra pessoa soou ameaçadora. – Sabe com quem eu adoraria brincar? Aquele loirinha que você chama de esposa. Tenho certeza de que ela vai gostar de descobrir como um homem é de verdade.
– Você não ousaria...
Houve uma risada. Os meus pelos se arrepiaram, não no sentindo bom da coisa.
– Sua filha é uma gracinha também. Com a criação certa, em quinze anos, ela vai se tornar um petisco delicioso.
– Seu filho da puta! – Danny gritou.
Houve uma sequência de sons que eu não conseguia identificar. Se tivesse que palpitar, provavelmente apostaria na chance de estar ocorrendo um confronto corpo a corpo. Não que o som parecesse o de um, mas cada briga era diferente. Depois de um tempo, houve um silêncio sepulcral. Danny entrou onde nós estávamos e ligou a luz segundos depois.
– Juliette, me dá o número do Craig.
– O que houve?
– O número do Craig! – Ele gritou.
– Ok, tudo bem. Você vai anotar?
Ele assentiu e buscou o celular.
– 617 281 8694.
– Se ele não atender, eu estouro os seus miolos.
– Ele vai atender, mas você não pode dizer que eu estou aqui. Caso diga, ele...
Danny apagou a luz, voltou para onde estava e deixou-me falando sozinha. Eu respirei fundo. Tinha mais coisa ali e eu não conseguia identificar precisamente o que era. Pensa, Juliette...
– Julie...
– Eu realmente não sei o que tá acontecendo, Henry.
– Ele disse que você o obrigou a fazer isso.
– Deve estar maluco.
– Falou alguma coisa sobre você ter encarado ele na delegacia. Disse que ele tinha um acordo com o seu pai e que você estragou tudo quando descobriu.
– Meu pai tá morto faz mais de ano, Henry.
– Então deve ter alguma coisa.
– Ter o quê, Henry?! – Elevei meu tom de voz. – Eu vi o corpo do meu pai, eu fiz o reconhecimento. Ele tá morto. Não precisa teorizar nada absurdo, fantasioso.
– Não sabia desse detalhe.
– Agora sabe.
– Julie, eu fiz alguma coisa?
Respirei fundo, a cabeça estava a ponto de explodir.
– Você não fez nada. Me desculpa. Eu to tentando pensar em algo pra tirar a gente daqui.
– Posso te ajudar?
– Só me deixa pensar.
Apaguei de novo. Era, definitivamente, alguma coisa que Danny havia usado em mim. O problema era que eu tinha hipotensão, e ele sabia disso. Talvez não tivesse ligado os fatos e não entendesse que eu estava correndo sério risco de vida se continuasse com a minha pressão caindo toda hora. Mas o importante era que eu fui acordada, em algum momento. O barulho da porta abrindo de uma hora para a outra me colocou alerta. A luz na minha cara foi a cereja no topo do bolo.
– Se ele encostar um dedo na minha filha, eu juro, eu vou te matar, fazer seu namoradinho assistir, e depois acabar com a raça dele também.
– Ele quem?
– Bongiovi.
As peças se encaixaram na minha cabeça. Não era só a minha vida que John Bongiovi havia tornado um inferno. Eu tinha a minha própria vida, a carreira e, quando muito, a vida de Henry. Danny estava casado há anos, tinha uma filha pequena... Em suma, Daniel Jones tinha muito mais a perder que eu. Bongiovi, no entanto, não ia aceitar perder o contatinho na polícia. Aquele era o jogo que eu havia vivido nas entrelinhas com ele. Quando eu levantei a cabeça, mostrei que sabia do meu parentesco com ele e que não ia mais submeter-me aos seus propósitos, ele daria o jeito de encontrar uma nova cobaia.
– Danny, o Bongiovi tá morto.
– John Bongiovi?! – A terceira pessoa na conversa perguntou.
– Danny. – Eu o chamei novamente, ignorando completamente Henry, que estava desesperado com a situação. – Ele morreu.
– Como você pode saber?
– Liberta o Henry, por favor.
– Me responde! – Danny gritou de volta e eu me encolhi.
Respirei fundo algumas vezes, pensando bem nas palavras que escolheria usar. Eu precisava tirar Henry do recinto, não poderia confessar tudo aquilo na frente dele.
– Tira ele, Danny.
– Não vou libertar ninguém.
– Então me leva pra outro lugar. – Insisti. – Vou contar o que sei, mas ele não precisa foder a cabeça nesse jogo do qual nós dois fomos vítimas.
Danny ponderou por alguns instantes, isso foi óbvio. Enquanto eu torcia para a sorte cair para o meu lado, ele se aproximou violentamente de mim e passou uma faca na corda. Henry me gritava enquanto eu era arrastada para longe. Eu só tentava dizer com o olhar que tudo ficaria bem, embora eu não fizesse ideia do que estava de fato acontecendo àquela altura. E então nós passamos por uma porta que se fechou.
– Diga. Por que tem tanta certeza?
– Porque o tiro partiu da arma que eu tava segurando.
– Isso é insano.
– Insano é o que você tá fazendo. – Retruquei. – Sou sua parceira há anos, caralho. Olha nos meus olhos, vê se eu to mentindo.
– Você tem seus truques.
– Danny, para! Ele queria fazer isso com a gente, colocar um contra o outro. Mas acabou, Danny. Georgia e Julie estão seguras. Nós estamos seguros. Bongiovi nunca mais vai fazer mal a nós ou a ninguém.
Ele fechou os punhos e deu socos na cabeça. Ainda apontava a arma para mim, e eu não tinha ideia sobre haver segurança em tentar tomar a pistola dele. Mediante isso, escolhi permanecer ali, em pé, o mais distante possível. Danny sabia que eu não iria a lugar nenhum sem Henry, que era a minha prioridade naquele momento.
– Quando você me pegou, – Comecei. – eu tinha acabado de fazer.
– Por quê?
– O quê? Matar o Bongiovi? – Perguntei e ele assentiu. – Porque eu devia ter dado um jeito de fazer isso há anos, quando ele se meteu na minha vida da primeira vez.
– Desde quando você sabe?
– Sobre o quê?
– Sobre ele ser seu pai.
Respirei fundo. Aquilo ainda incomodava demais.
– Desde quando soube que você andava se metendo com o meu pai de criação.
– Agora você gosta homem que te deu o sobrenome.
– Eu não sabia de nada, e agora eu conheço o que de fato aconteceu. E eu não estava sozinha nessa, tem gente inteligente que sabe que eu sumi. Danny, a gente tem o álibi perfeito. – Falei, chamando imediatamente sua atenção. – Você foi ameaçado pelo Bongiovi e me sequestrou porque ele te fez achar que eu estava dando informações privilegiadas a ele e, assim, eu teria como encontrá-lo. Enquanto isso, fica a cargo de qualquer outra pessoa ser culpada pela morte dele.
– Do que você tá falando?
– Henry não precisa saber de nada disso. – Sussurrei. – Danny, está acabado. Nós dois podemos sair livres disso tudo. Eu estou me organizando para voltar pra Europa, não dá mais pra ficar aqui. Posso oferecer um novo começo pra você e pras suas meninas.
– Se eu deixar você sair...
– Não vou abrir queixa. Nem eu, nem o Henry.
– Como você pode ter certeza de tudo?
Respirei fundo, uma última vez, e deixei um sorriso escapar.
– Porque eu sou aprendiz de Daniel Craig.


Capítulo 51

O corpo de Lisa Decland Müller, uma das herdeiras da Cooper&Müller, foi encontrado nesta madrugada através de uma denúncia anônima feita ao departamento de homicídio do distrito de Beacon Hill. A jovem foi executada com um tiro na noite de ontem, de acordo com o serviço médico legista do departamento. Em sua casa, foram encontradas evidências que a ligavam aos ataques pessoais feitos a Henry Cavill, juiz da vara criminal, e Juliette Danté, ex-detetive do departamento de homicídios. Os dois estavam sendo mantidos em cárcere privado no momento estipulado do assassinato pelo antigo parceiro da detetive e não se sabe ainda se há conexão entre os dois crimes. Porém um nome surge, conectando todos os incidentes: John Bongiovi. O empresário, que era investigado por diversos departamentos da polícia de Massachusetts, foi definido como um dos mais importantes membros da máfia italiana no estado. A senhorita Müller e o agora afastado detetive Jones tinham, ambos, conexão com o italiano naturalizado americano. John Bongiovi estava na lista de passageiros de um jato particular que decolou do Logan hoje de manhã, rumo à Itália. A Interpol já entrou em contato com a polícia italiana e espera poder contar com a colaboração deles para localizar Bongiovi, que está sendo dado como foragido em território americano. Enquanto isso, o capitão Hiddleston está...
Eu peguei o controle no braço do sofá e desliguei a televisão. Henry olhou para mim, pronto para reclamar.
– Nem começa! – Fui mais rápida. – Chega disso, Henry! Você não vê? Os noticiários locais não falam de outra coisa. Nossa vida já tá um inferno suficiente com tudo o que aconteceu, não precisamos ficar remoendo esse problema. Ou precisamos?
– Não precisamos.
– Ah, bom!
Henry me puxou pelo braço quando estava preparando-me para ir até a cozinha. O desequilíbrio consequente de sua ação acabou fazendo com que eu caísse em seu colo.
– Eu to tão feliz que você tá bem... – Ele disse, alisando a lateral do meu rosto.
Eu abri um sorriso, dentro do que podia.
– Você nunca tem boas intenções quando começa com essas suas declarações aleatórias.
– Não é aleatória. – Henry protestou.
– Não é?
– Não. Eu estou apenas comemorando.
– Comemorando o quê?
Ele abriu um sorriso e baixou o rosto, escondendo os olhos de mim.
– O que foi, Henry?
– Consegui uma proposta.
– De quê?
– Bournemouth. Um juiz, que é amigo do meu pai, está pra se aposentar e pode indicar um pro lugar dele.
– Isso é incrível, amor! – Eu abri um sorriso enorme e busquei seus lábios para um beijo. – Eu pensei que fosse ser mais difícil.
– Eu também. – Henry riu.
– Quando?
– Em dois meses, no mínimo.
– Não é muito longe, mas também não é exatamente perto.
– Melhor que nada. É uma boa cidade. Eu precisaria passar em uma prova de proficiência e...
– Você vai passar. – Garanti. – Você é incrível, conhece a legislação britânica, é esforçado e vai conquistas todas as mulheres avaliadoras.
– Achei que você não gostava de ter outras mulheres perto de mim.
– Ah, agora eu estou segura.
– Só agora?
– Só. – Respondi e peguei impulso para levantar. – Agora, vamos. Se continuarmos aqui, vamos acabar nos atrasando. Por mais ideal que seja a ideia de comemorar...
– Jantar no Ma Maison hoje. Eu pago.
– Você está rico, meritíssimo?
– Minha mulher está. – Ele deu de ombros, riu mais uma vez e levantou-se, finalmente, do sofá.
O caminho até o tribunal foi regado de algumas risadas, por parte dele em sua maioria. Eu estava fervendo com tudo que tinha acabado de acontecer e o medo de não lembrar de todos os detalhes combinados entre eu, Craig, Hiddleston, Max e Louis – ele não fugiria de uma última confusão comigo, não é mesmo? – estava consumindo-me ainda viva. Danny estava preso em uma das celas da delegacia a pedido de Hiddleston, por tudo o que ele havia passado. Craig trouxe Richard de volta à cena para advogar a favor de Danny. Por mais que eu estivesse assustada, preocupada e transtornada, o sentimento fraterno que eu sentia ainda por Danny havia deixado um belo resquício em meu coração e eu não conseguia sentir tanta raiva dele quanto devia. Afinal de contas, eu também havia sido vítima de Bongiovi. O problema é que o promotor, Ronald Mathis, queria passar por cima do nosso papel de vítimas e, mesmo que eu e Henry não tivéssemos aberto queixa, ele colocou Danny como réu. E ainda nos convocou como testemunhas, é claro.
– Senhorita Danté, você e o réu já se envolveram romanticamente de alguma forma?
– Não. – Respondi, suscinta.
– Notou alguma coisa depois que ele voltou de seu cativeiro?
– Que tipo de coisa, promotor?
– Alterações comportamentais, de forma geral.
– Nós vemos assassinatos todos os dias. Nós temos alterações comportamentais de rotina.
– Que conste nos autos que a testemunha respondeu com uma afirmação.
– Não respondi com afirmação alguma, o senhor está enganado.
– A senhorita que deve estar enganada quando se refere no tempo presente a uma profissão que abandonou há semanas.
– Não estou nem um pouco enganada. – Retruquei. – O termo presente não se refere à profissão. Refere-se, sim, às consequências. Estas não permanecem apenas enquanto somos policiais.
– Percebe que sua fala dá a entender que está tentando me distrair?
– Doutor Mathis, – O juiz Hoffmann o chamou. – por favor, ninguém aqui pode perder seu tempo com uma conversa. Interrogue a testemunha ou a dispense.
– Ok. Perdão, meritíssimo. Reformulando... Por que a senhorita e seu cônjuge não abriram queixa contra o réu formalmente?
– Porque Danny é meu amigo desde que eu entrei na polícia e eu entendo que ele tenha sido levado a cometer erros enormes com medo de que sua filha, principalmente, fosse lesada de alguma forma.
– Então é uma justificativa?
– Sim, é.
– A senhorita foi policial por anos. Já viu homicídios justificáveis ao ponto de pensar que o assassino não merecia punição?
– Sim. – Confirmei mais uma vez.
– Mas a lei não fala sobre intenção, fala?
– Eu... – De repente e sem motivo algum, a minha voz começou a escapar. – Eu...
Fui perdendo os sentidos aos poucos. Primeiro, a audição. Depois, a visão. Logo, eu não conseguia manter-me sentada na cadeira disposta no espaço para testemunhas e, completamente inútil, senti meu corpo tombar no chão da sala de audiência. Sabe-se lá quanto tempo depois, eu acordei, mas estava no ambulatório do tribunal e Henry estava ao lado da maca onde eu fui acomodada.
– O que aconteceu? – Perguntei, dando um pequeno susto nele, mas quem veio até mim correndo foi a enfermeira.
– Olá, querida, você teve uma baixa enorme de pressão. Tem dormido bem?
– Sim, eu...
– Ela tem usado calmantes. – Henry me interrompeu.
– Deixe que ela responda por si mesma, juiz. – A enfermeira cortou Henry. – Agora, me diga... Quem te receitou esses calmantes?
– O psiquiatra que tá me acompanhando desde que... – Parei por um instante. – Passamos por um trauma bem feio.
– Ok, e você tem tido outros efeitos colaterais?
– Como assim?
– Qualquer outra coisa fora do normal que você esteja sentindo e que não costumava sentir antes.
– Tá tudo fora do normal...
– Como o quê?
– Eu não consigo mais tomar café da manhã, me sinto enjoada e dá vontade de vomitar se eu tentar forçar alguma coisa pra dentro. Não que eu tivesse o hábito antes, mas... E tenho sentindo algumas dores musculares incomuns.
– Juiz, o senhor poderia esperar lá fora por um instante? Preciso fazer algumas perguntas privadas para a minha paciente.
– Mas ele pode...
– Não pode. – Ela me interrompeu.
Henry se rendeu rapidamente e caminhou até a porta. A enfermeira observou até que ele se afastasse e trancou a fechadura, voltando a aproximar-se de mim.
– Você ainda não contou para ele?
– Contei o quê?!
– Sobre o bebê!
– Que bebê?!
– Como assim?! – Ela abriu a boca em um perfeito ‘O’. – Você ainda não sabe?
– Não sei o quê?! Pelo amor de Deus, você tá me assustando.
Quase tive outro episódio súbito de mal estar quando pedi que a enfermeira, Dorothy Parish, chamasse por Henry de volta. Ele me levou para casa e, muito embora sua feição denunciasse o quanto estava preocupado comigo, Henry não fez nenhuma pergunta. Apenas ofereceu-me ajuda para descer do carro na garagem do prédio e, a todo momento, estava pronto para acudir-me ao menor sinal de fraqueza.
Eu entrei no apartamento e segui direto para a cozinha. Abri a gaveta dos remédios mas lembrei-me do motivo pelo qual estava ali, naquela situação, então acabei fechando a gaveta novamente. Peguei um bom tanto de água e coloquei tudo para dentro em goles grandes. Henry se materializou no batente do corredor que vinha da sala, ladeado pela escada.
– Nós precisamos conversar.
– Eu sei. – Ele caminhou até a bancada e sentou em cima da pedra. – Tá tudo bem?
– Tá. Eu acho...
– Posso ajudar?
– Eu não sei, Henry, eu...
Antes que pudesse perceber, estava desmanchando-me em lágrimas, e depois perguntando-me o porquê de estar chorando tanto daquele jeito. “Alterações hormonais”. Puta que pariu... Isso só fez as lágrimas se intensificarem mais ainda. Ele veio até mim, tomou-me em seus braços e apertou meu corpo contra o seu.
– Calma, amor, eu to aqui. – Henry disse e beijou o topo da minha cabeça. – Não vou a lugar algum. Seja lá o que tiver acontecido, pode me contar. Sou seu amigo também, lembra?
Que grande babaca que eu era! Tanta merda que eu deveria contar para Henry, tanta coisa muito mais séria, e estava com medo logo
daquilo!
– Eu... Eu...
– Ei, – Ele levantou meu rosto com um dedo sobre o meu queixo, fazendo-me encontrar o sorriso angelical que ele abriu para mim. – nós três vamos fazer isso dar certo. Juntos.
Meus ombros caíram e até as lágrimas deram uma pausa.
– O quê?! Como você...?
– Desculpa. – Ele deu de ombros. – Escutei por trás da porta.
Henry, então, ajoelhou aos meus pés e levantou a barra da minha blusa.
– É verdade então.
– Ela tinha um teste rápido. Deu positivo.
Ele deixou um beijo na minha pele, na altura do meu ventre. Aproximou seu rosto da minha barriga e, daquele jeito mesmo, abraçou-me. Sem saber muito como reagir, eu coloquei minhas mãos sobre a sua cabeça e comecei um ensaio de cafuné. A minha vida estava indo de zero a cem rápido demais, de novo.
– Henry, tem outra coisa que eu preciso te contar. – Tomei a decisão de uma hora para a outra, sabendo que não merecia continuar com ele se ficasse escondendo tanta coisa como estava.
– Não importa. – Ele respondeu, simples. – O que passou, passou. O que importa é daqui pra frente, a nossa família. E eu vou cuidar dela, custe o que custar.
Henry se levantou e tomou meus lábios nos seus. Se eu me arrependi de não ter tido a chance de contar a verdade a ele? Bem, a verdade é que eu só agradeci e imaginei se ele já não sabia de algo com o comentário que fez. De qualquer forma, eu topava seguir com o acordo dele.
– Me mande notícias! – Maitê disse ao me puxar para um abraço apertado. – Vou tentar encaixar minhas férias quando o bebê nascer pra ir fazer uma visita pra vocês.
– Você vai ser bem-vinda.
Hiddleston era o próximo na linha de cumprimentos. Ele me olhou sério por um momento, mas logo puxou-me para um abraço com um sorriso largo nos lábios, o primeiro daquele tipo que eu vi partindo dele.
– Se precisar voltar, você sempre terá um lugar aqui.
– Obrigada, capitão.
Comissário. – Ele me corrigiu.
– Sério?!
– Wright vai assumir, o Hall vai finalmente aposentar e eu vou ganhar mais.
– Não vai gastar tudo com besteira, hein?
– Não vou. – Ele respondeu e riu.
Louis estava com os olhos marejados e eu acabei deixando que isso afetasse o meu emocional. Nós nos abraçamos com força e ficamos naquele estado sabe Deus por quanto tempo. Ele deu uns trinta beijos no topo da minha cabeça, mas demorou a convencer-se de cortar o abraço.
– Nós finalmente vamos nos separar. – Brincou.
– Até os mais fortes se separam. Mas é só por um tempo, Tomlinson.
– Vou sentir saudades.
– Eu também. – Segurei sua mão. – Leve Freddie pra nos visitar quando puder.
– Vai ser difícil, mas...
– ‘Mas’ nada! – Repreendi Louis uma última vez. – Se precisar de qualquer coisa, Lou, vou estar a uma ligação de distância.
Ele sorriu uma última vez e nós nos abraçamos de novo. Bati o olho em Craig, que estava fingindo que não se importava comigo. Dei uma última olhada para Maitê, que revirou os olhos para mim, e caminhei até ele.
– Depois disso tudo, você vai fazer charme?
– Não estou fazendo charme.
– Ah, tá bom, vou fingir que acredito.
Ele finalmente olhou para mim. O brilho nos seus olhos já não era mais tão intenso, as pregas que começavam a aparecer na sua pele denunciavam que até Daniel Craig era sujeito aos efeitos da idade. Nós hesitamos, mas acabamos trocando um abraço. Craig me apertou além do confortável, mas logo soltou-me.
– Não se mete em confusão por lá. – Ele disse. – Ou então se meta em uma confusão que dê tempo pra eu cruzar o oceano e te ajudar a resolver.
– Chega de merdas. – Sentenciei.
– Eu duvido.
Abri um sorriso, joguei a bolsa por cima do ombro e olhei uma última vez para o homem que tinha surpreendido-me desde o primeiro momento até o último segundo.
– Ainda bem que você me conhece, né? – Brinquei, deixei um beijo na sua bochecha e virei-me para o restante do pessoal. – Obrigada por tudo, Craig. Você me salvou de mim mesma.
– Eu faria tudo de novo por você.
Nós trocamos um sorriso fiel, escondendo em nossos olhares muito mais do que qualquer um poderia imaginar.
– Jones, vamos? O voo vai sair logo.
Danny terminou de falar com William, trocou um último cumprimento com Craig e correu até mim. Henry já esperava nós dois com o motor ligado e logo partimos, deixando um último aceno para as pessoas que despediram-se de nós na frente da delegacia.
– Quanto tempo até o aeroporto? – Henry perguntou.
– Dez minutos, de acordo com o GPS. – Georgia respondeu do banco de trás.
– Tia Juliette, – Julie chamou. – onde estamos indo?
– Pra nossa nova casa, bebê. – Respondi, virando para trás por um momento a fim de olhar para ela, que deu um risinho inocente e estendeu a pequena mão para segurar a do pai.


Epílogo

– E aí? Vamos deixar por isso mesmo?
– Por hoje, sim. – Disse e tirei o telefone do gancho. – Daqui a pouco, Henry vai chegar em casa. Prefiro começar e ir até o fim, se for o caso.
– Ok então. Tá chegando a hora de pegar Julie no colégio também, e a Georgia ainda não falou que tava saindo do trabalho.
Eu assenti, puxei meu caderno e fiz algumas anotações breves.
– Que horas começamos amanhã?
– Henry deve sair por volta das sete da manhã, mas eu te mando uma mensagem.
Meu telefone tocou naquele exato momento e a identificação na tela me colocou de orelha em pé. Danny se aproximou e eu atendi já no viva-voz.
– Tentei ligar pro seu telefone do escritório mil vezes e você não atendeu.
– Olha a hora, o expediente acabou.
– De qualquer forma... Alvo 13 abatido.
– O quê?!
– Tenho certeza de que você ouviu.
Danny pegou meu caderno de volta, abrindo na lista que eu mesma havia levado horas para fazer e planejar. Pegou o marcador vermelho no meu organizador e passou por cima do nome ‘Pierpont Proulx’.
– Quem é o próximo?
Puxei o caderno para mim e passei o dedo na página até localizar o que queria. Virei as páginas até achar aquela que era destinada ao alvo 14.
– Ivan Giordano. 39 anos, técnico em museologia numa empresa chamada Media Play. Mora na vila Zaccheo, em Térramo. Dirige um Mazda Spiano 2005. Posso falar o endereço completo?
– Pode, estou anotando.
– Stradone Antonio Provolo, número 22.
– Tem família?
– Não que conste nos registros.
– Tá ok, te aviso quando puder ir pra lá.
– Craig?
– O que foi?
– Toma cuidado, esse é mais alto que você.
Ele riu do outro lado.
– Quem tem que ter medo de alguém é ele de mim. – E desligou.
Danny ajeitou algumas coisas na pasta de couro que levava e a pendurou com a alça tira colo.
– O que você vai fazer quando apagar todos os rastros de quem esteve entre você e o Bongiovi?
– Aí nós deixamos de fingir que somos detetives particulares com esses casos pequenos e nos tornamos detetives particulares de verdade.
O carro de Henry fez barulho na garagem. Fechei o caderno, joguei dentro da gaveta e passei a chave. Eu e Danny saímos pela porta do meu escritório e o vento que vinha pela janela acabou batendo-a. O choro veio logo em seguida. Revirei os olhos, Danny riu de mim, acenou no ar e eu corri até o quarto de Lola.
– Oi, filha. Foi só a porta da mamãe. – Disse ao pegá-la do berço.
Colei seu pequeno corpo contra o meu peito, ninando-a enquanto checava a fralda. Fui logo até a cômoda dela e acendi o abajur. Esperei até que Lola parasse de chorar para colocá-la em cima do trocador.
– Dia difícil? – Henry perguntou, entrando no quarto e beijando-me antes de oferecer o dedo para a filha.
– A porta bateu, ela acordou.
– To falando do Jones aqui até agora.
– Ah, começamos a conversar sobre a época de Boston e não vimos a hora passar.
– Quer que eu termine isso aí?
– Não tem problema, eu dou conta.
– O que vamos jantar hoje?
– Vou pedir delivery.
– Com preguiça, senhora Cavill? – Ele brincou e pegou Lola no colo assim que eu terminei.
Ela deu um sorriso para o pai e, logo que ele a trouxe mais próxima a seu corpo, Lola se ajeitou e fechou os olhos novamente, colocando o dedão na boca em seguida.
– Não deixe que ela durma, ainda tem que tomar banho hoje.
– Que mamãe chata, né, bebê? – Henry mexeu com Lola, que abriu um pequeno sorriso.
– Se eu sou chata, o que isso faz de você, hein?
Henry riu, puxou-me para perto e beijou a minha testa.
– Eu amo vocês duas.
– Ama mesmo?! – Questionei.
– Como assim? É claro que amo.
Eu sorri para ele, que estranhou. Caminhei até a janela do quarto de Lola e ajeitei a cortina.
– Você ama muito ou pouco?
– Juliette, do que você tá falando?
Virei para Henry uma última vez e coloquei a mão sobre o meu ventre. O queixo dele caiu imediatamente.
– Tá brincando?
– Eu não. – Resmunguei e fui até os dois. – Quem é chato é o papai¸ que não deixa a mamãe dormir quando tá cansada e insiste em ficar fazendo brincadeiras feias.
O celular vibrou antes que eu chegasse na cozinha. A mensagem era objetiva.

“Alvo 14 foi abatido por outra pessoa. Posso tirar folga ou vamos continuar botando pra foder com quem tentou foder a gente antes?”


“O que você acha que eu quero?”, respondi e deixei escapar um sorriso mal intencionado enquanto não havia ninguém me observando. Eu não conseguia ficar longe de problema, isso era fato, mas Daniel Craig conseguia menos ainda. Mas então o celular tocou. Ele sabia que não deveria ligar a não ser que houvesse uma emergência grave. Olhei pelo corredor, sem sinal de Henry.
– Rápido como um foguete em abater o próximo alvo e tem problemas agora? – Sussurrei ao atender.
– Julie, eu...
Perdi o fôlego quando ouvi o barulho de uma pistola sendo carregada do outro lado da ligação.
– O que tá acontecendo?
– Tem um homem aqui, – A voz de Craig era embargada. – quer falar com você?
– Quem?!
– Loring. Loring Danté.
O celular caiu da minha mão. Aos poucos, a visão foi escurecendo. A última coisa que vi foi Henry correndo na minha direção enquanto eu tremia no chão da cozinha.


Fim!

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Nota da autora: Gente, eu sei que a galera tem preferência por fics interativas, em geral, mas seria complicado você colocar seu nome como sendo um que não parecesse francês, por exemplo. Acho melhor manter a qualidade ao máximo e, por isso, não deixei essa fic interativa. Espero que compreendam e, mesmo assim, curtam essa história maravilhosa ao máximo!

Poucas pessoas acompanharam essa história até o seu fim porque, como eu bem sei, não é do agrado de todos por não ser interativa. Mas ela é a minha queridinha, foi a primeira fanfic que eu consegui finalizar depois de anos de bloqueio criativo e eu gosto demais do fim que eu dei pra ela. Eu espero que vocês que estiveram comigo nessa jornada tenham aproveitado também, tanto ou mais que eu, e que Badges and Guns fique gravada na mente de vocês com muito carinho. Daqui pra frente, a luta é outra, mas nós podemos sempre esbarrar umas nas outras por aí em outras fanfics, que eu adoraria que vocês conhecessem. Obrigada por me darem uma chance, por darem uma chance pra minha criação!



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