Última Atualização: 14/01/2026

Capítulo 1

Um mês antes


O apartamento estava mergulhado em uma bagunça confortável, do tipo que só existe entre pessoas íntimas. Embalagens de delivery vazias se amontoavam na mesinha de centro, copos esquecidos pela metade, e almofadas estavam espalhadas de forma caótica sobre o tapete felpudo da sala. No meio disso tudo, três garotas estavam largadas, quase coladas umas nas outras, como se o mundo lá fora não tivesse mais importância.
A luz azulada da TV piscava sobre os rostos delas, enquanto um compilado de vídeos virais passava. Na tela, cenas completamente absurdas tomavam conta: Kian84 sendo arremessado em uma banheira de slime, tentando montar uma barraca com guarda-chuvas quebrados ou cozinhando um peixe inteiro com um secador de cabelo. O nome do programa, “Kian’s Weird Challenge”, piscava no canto da tela, quase como um aviso de que o que viria a seguir não teria absolutamente nenhum sentido lógico.
— Isso é completamente idiota — comentou , o coreano saindo com aquele sotaque arrastado e inconfundível que ela nunca conseguiu disfarçar totalmente. Os olhos estavam semicerrados, não de tédio, mas de tanto rir. — E eu amei.
— Eu disse! — exclamou Nari, com um brilho vitorioso nos olhos, como se tivesse acabado de ganhar uma aposta. — Esse cara é genial, os programas dele são os melhores. Caóticos, mas perfeitos.
Jiyoon, que estava meio deslocada no canto do sofá, rolava o feed do celular distraidamente até que algo a fez engasgar com a própria saliva.
— VOCÊS VIRAM ISSO? — a voz dela cortou o ar, alta e empolgada, fazendo dar um pequeno pulo e Nari levantar uma sobrancelha, desconfiada.
olhou na direção da amiga com uma expressão que dizia claramente “isso não vai prestar”. Nari arqueou uma sobrancelha com desconfiança, e sequer tentou esconder a careta.
— Se for mais um daqueles vídeos de comida coreana feita com Nutella e gochujang, eu juro que vou te bater — disse Nari, franzindo o nariz como se já sentisse o gosto horrível da combinação.
— Não, escuta isso! A Netflix. O Kian84. Ele vai fazer um reality show numa pousada flutuante. Tipo, FLUTUANTE. No meio do mar. E... estão aceitando inscrições.
— Espera. Kian84? Esse aí? — apontou para a TV, onde ele tentava escalar uma parede feita de caixas de papelão com fita crepe.
— Esse mesmo! Mas agora ele vai ser o dono da pousada. Olha isso aqui — Jiyoon abriu o vídeo e virou o celular para elas.
A propaganda começava com uma filmagem tremida, claramente feita por ele mesmo, apontando para uma ilha isolada ao fundo. O mar ao redor era absurdamente azul, e o céu, limpo demais para parecer real.

> “Se você está pronto pra sair da rotina, ser alimentado de forma questionável e talvez fazer amigos… ou inimigos, bem-vindo ao meu B&B!”

— Isso é insanidade — murmurou , ainda tentando processar.
— Isso é perfeito. Como se inscreve? — perguntou Nari, já rindo.
— Tem um link na bio do canal da Netflix. É só preencher o formulário e mandar contando por que você quer participar. E adivinha a gente vai com você! — Jiyoon estava elétrica, digitando freneticamente no celular.
— A gente? — olhou para as duas com desconfiança.
— As gravações vão ser em Ulleungdo. A gente pode escolher a quantidade de dias que quer passar lá. Sem rotina, sem responsabilidades. Só gente aleatória, talvez alguns desafios esquisitos e o Kian sendo… o Kian. Parece uma fanfic maluca acontecendo ao vivo! — disse Jiyoon, como se isso fosse o maior argumento possível.
— Esse tipo de loucura é exatamente o que a gente precisa. Uma pausa da vida real — completou Nari, com os olhos brilhando.
— Se por “pausa” você quer dizer dormir em tatames duros e tomar banho gelado com câmera filmando, então passo — respondeu , esticando o braço para pegar uma batata frita fria esquecida no fundo da caixa.
Jiyoon virou o corpo para ela, com aquele sorriso que dizia “vou te inscrever, você querendo ou não”.
— Você vive estudando. Nunca sai, nunca bebe, nunca topa fazer nada idiota — apontou com o dedo em riste. — Tá na hora de colocar essa sua alma brasileira pra viver de verdade, garota.
bufou, revirando os olhos. Era sempre assim. Jiyoon e Nari tinham esse dom de arrastá-la para as ideias mais mirabolantes com uma facilidade absurda. Desde que se mudara para Seul, já tinha vivido de tudo: karaokês embaraçosos, noites dormindo em jimjilbangs, acampamentos improvisados em sacadas minúsculas... mas um reality show?
— A gente vai te inscrever — anunciou Jiyoon, como se estivesse falando que iam pedir sobremesa no restaurante.
— Nem fodendo.
tinha dado o assunto como encerrado, depois que disse aquilo e as amigas não falaram mais nada sobre o assunto.
Atualmente
O calor da primavera se arrastava como um cobertor pesado naquela tarde, entrando pelas frestas da janela e se espalhando pelo quarto como se quisesse sufocar qualquer resquício de produtividade. Do lado de fora, os pássaros cantavam com entusiasmo irritante, como se zombassem de quem ainda estava trancado entre quatro paredes. Mas não ouvia nada. Ou melhor, ouvia apenas o som abafado do próprio tédio.
A escrivaninha entulhada de livros, anotações e canetas espalhadas como se tivesse explodido uma papelaria. No centro do caos, permanecia imóvel — uma estátua viva de cansaço e foco forçado. Os óculos escorregavam teimosamente pela ponta do nariz, o coque no alto da cabeça ameaçava colapsar a qualquer segundo, e a mão segurava um marca-texto como se fosse uma arma contra o fracasso acadêmico.
O quarto exalava uma mistura de café velho, tinta de caneta e leve desespero. O tipo de cheiro que só um estudante universitário reconhece de olhos fechados. Cada canto do espaço parecia gritar “sacrifício silencioso”, e o ambiente estava tão quieto que podia ouvir seu próprio coração batendo no ritmo da ansiedade.
Ela sublinhava pela terceira vez a mesma linha de um resumo da matéria que estudava, tentando forçar o cérebro a absorver o conteúdo pela insistência. Ao seu lado, uma xícara de café esquecida já esfriava há horas, intocada. O tec-tec do notebook era o único som constante, quebrado apenas pelos rabiscos rápidos da caneta deslizando sobre o papel.
Ali, naquele cenário abafado e silencioso, era a imagem viva da dedicação. Ou da prisão auto imposta.
Ela mal piscava, mergulhada num transe quase meditativo de estudo, quando tudo — absolutamente tudo — desabou.
A porta do quarto se escancarou com um estrondo que fez as paredes tremerem. Um vento quente, misturado com caos puro, invadiu o ambiente como se tivesse vindo direto de um furacão. E no olho do furacão estava ela: Jiyoon.
— A GENTE CONSEGUIU, ! A GEEEEENTE CONSEGUIU! — Jiyoon gritava como se tivesse ganhado um Grammy, sacudindo o celular no ar como um troféu olímpico, os cabelos esvoaçando, o sorriso alucinado no rosto.
O susto foi tão grande que deixou o marca-texto cair no colo e piscou várias vezes, como se estivesse tentando acordar de um sonho estranho. Primeiro, olhou para o celular. Depois, para o rosto de Jiyoon, vermelho de euforia. Por fim, suspirou — longo, cansado, já pressentindo o tipo de problema que só Jiyoon conseguia arranjar numa tarde qualquer.
— Oi pra você também, Jiyoon... O que exatamente a gente conseguiu?
Mas antes que tivesse resposta, outro elemento do caos apareceu: Nari, a terceira integrante do trio e a mais calma — pelo menos na maioria dos casos. Seu andar era tranquilo, quase flutuante, e ela entrou no quarto ajeitando a alça da bolsa com um sorrisinho indecifrável. notou, no entanto, que havia algo de... cúmplice naquele sorriso.
... lembra daquela inscrição que a gente fez mês passado? — Nari começou, olhando para os livros como se estivessem prestes a pegá-la em flagrante. — e das perguntas para meu trabalho “antropológico” que te fiz alguns dias depois? Aquelas sobre coragem, dormir em lugar desconhecido, conviver com estranhos...
ergueu uma sobrancelha, o cérebro tentando ligar os pontos no meio da névoa de café e fadiga. Uma sensação desconfortável começou a se formar no estômago, como se soubesse exatamente onde aquilo ia dar — mas não queria admitir.
— Não me digam que vocês…
— Inscreveram a gente? — Jiyoon interrompeu, com a voz triunfante de quem tinha acabado de anunciar a salvação do mundo. — Sim. Pro programa novo do Kian84! E... fomos escolhidas!
Ela estendeu o celular com orgulho, os olhos brilhando de empolgação.
leu as primeiras palavras na tela — algo sobre “selecionadas”, “primeira edição”, “projeto idealizado por Kian84” — e o sangue gelou. Tudo ao redor pareceu se afastar, como se o quarto tivesse ficado mais quente, mais abafado, mais irreal.
— Ilha? Pousada? Reality show?
Ela nem percebeu que tinha falado em voz alta.
— Você não tem ideia do quanto isso vai ser incrível! — Jiyoon apenas gargalhou e jogou-se de barriga na cama, batendo os pés como uma adolescente apaixonada.
Mas estava longe de compartilhar da empolgação. Porque, até onde sabia, nada bom começava com “inscrição surpresa” e “ilha remota”. E ela ainda nem fazia ideia do que vinha pela frente. — Cês ficaram malucas de vez? — A voz de cortou o ar como uma navalha fina, embebida em pânico, incredulidade e uma pitada generosa de fúria contida. — Eu disse que não queria e cara, um Reality show? Com câmeras? Pessoas assistindo minha vida?
Ela falava rápido demais, o tom oscilando entre a negação e a histeria. Seus olhos, ainda arregalados, iam de Jiyoon — que parecia prestes a soltar confete — para Nari, que mordia o lábio inferior tentando esconder o riso.
— Por que vocês fariam isso? — perguntou, o coração batendo forte no peito, como se tentasse escapar do corpo para correr sozinho até um lugar seguro.
— Porque você precisa disso, mana — respondeu Jiyoon, virando-se de barriga pra cima e cruzando os braços atrás da cabeça, como se estivesse absolutamente tranquila com a decisão mais aleatória do ano. — Você tá presa nessa rotina maluca de estudo, trabalho, metas, metas, metas… sua vida tá cinza. E você sabe que tá.
— Eu gosto da minha vida cinza! — retrucou , mesmo que, no fundo, uma voz muito irritante lá dentro sussurrasse que Jiyoon tinha um pouco de razão.
— Você acostumou com ela — rebateu Nari, agora sentada na beirada da cama, olhando com ternura. — Mas isso não quer dizer que tá feliz.
A frase caiu como uma pedra no peito.
O quarto ficou em silêncio por alguns segundos. Um silêncio pesado, que fez até o barulho do ventilador parecer dramático demais. respirou fundo, buscando algum tipo de argumento que não envolvesse fugir pela janela.
— Eu tenho estágio, tenho que apresentar um seminário semana que vem, tenho a prova final daqui a um mês…
— E é por isso mesmo que você precisa ir — interrompeu Jiyoon, sentando-se de uma vez e se aproximando com aquele olhar que conhecia bem. O olhar de quando ela já tinha decidido por todo mundo. — Vai ser só uma semana. Uma semana fora do mundo real. Câmeras bem discretas, nada invasivo, e um lugar paradisíaco. Sem sinal de celular, sem despertador, sem pressão.
— E com estranhos. — cruzou os braços, franzindo a testa. — Eu vi os vídeos do Kian84, ok? Ele é engraçado, mas também é maluco. Essa ideia de juntar pessoas aleatórias numa pousada pra "voltar ao básico" parece um surto coletivo.
— Sim, mas é um surto bonito — disse Nari, rindo baixinho. — É o tipo de coisa que muda a gente por dentro. Olha... a produção mandou o vídeo da pousada. Quer ver?
hesitou, mas a curiosidade — sempre ela — venceu.
O celular foi colocado à sua frente e, em segundos, o vídeo começou: Parecia... irreal. Quase mágico.
sentiu os ombros relaxarem por um segundo, só de imaginar estar ali. Respirando ar salgado, ouvindo o som das ondas em vez de notificações, deitada numa rede em vez de uma cadeira desconfortável da biblioteca.
— É só uma semana, — repetiu Nari, quase num sussurro.
— A gente nem precisa fazer nada forçado, — completou Jiyoon. — Eles querem mostrar pessoas comuns em situações reais. Você pode estudar na rede, dormir cedo, fugir das câmeras se quiser.
— Mentira, você não vai dormir cedo nem aqui — provocou Nari, rindo.
ficou em silêncio por longos segundos. Sentia o peito apertado, como se estivesse à beira de um abismo — entre o conforto sufocante da rotina e o desconhecido vibrante do novo. A ideia era absurda. E exatamente por isso, talvez... necessária.
— E se eu odiar?
— Então você volta e ganha o direito de jogar na nossa cara pelo resto da vida — disse Jiyoon. — Mas e se você amar?
bufou, passando a mão pelo rosto.
— Uma semana. E se alguém me filmar dormindo de boca aberta, eu processo vocês duas.
— Combinado — disseram as duas, em uníssono, antes de explodirem em comemoração.
Naquele instante, não fazia ideia de que sua vida estava prestes a sair completamente do eixo.
E que talvez fosse exatamente isso que ela precisava.

Capítulo 2

O quarto de , que habitualmente exalava um ar quase monástico, agora parecia um cenário caótico e em plena desordem. O ambiente normalmente calmo, com as estantes cheias de livros dispostos de forma ordenada, havia se transformado em uma zona de guerra de roupas espalhadas e objetos perdidos. As canecas de café, antes organizadas com precisão, estavam espalhadas por toda parte, como se a rotina estivesse em completo colapso. O único indício de alguma organização era um conjunto de post-its colados nas paredes, ainda tentando manter algum tipo de controle sobre a mente cansada de , que, de alguma forma, ainda tentava seguir seus objetivos de forma rígida e previsível.
Mas naquele momento, tudo parecia estar fora de lugar. A cama de estava coberta por uma montanha de roupas amontoadas, como se ela tivesse tentado jogar tudo de uma vez, sem conseguir decidir o que levar. Sapatos solitários estavam jogados pelo chão, completamente deslocados de seus pares, enquanto biquínis e agasalhos se misturavam a cosméticos e outros itens pessoais, criando uma sensação de caos que só aumentava a frustração de . Em meio à bagunça, três malas estavam abertas, como se estivessem tentando engolir o mundo ao seu redor, e não havia sequer espaço para ver a superfície do colchão.
No meio de tudo isso, Jiyoon parecia estar em seu próprio mundo. Ela dançava como se fosse o centro de uma festa, com sua energia contagiante que preenchia cada canto do quarto. O som pulsante da música preenchia o ar enquanto ela se movia com facilidade, seu corpo acompanhando o ritmo da playlist energética. Ela não parecia perceber o caos ao seu redor — para ela, a bagunça era apenas uma parte do processo, uma tela em branco para criar algo novo, algo excitante.
Ela usava óculos escuros, com uma confiança natural, como se estivesse prestes a embarcar em uma turnê mundial. Cada movimento seu parecia ser parte de uma coreografia ensaiada, com um sorriso nos lábios que refletia sua excitação genuína.
— Vocês acham que eles vão cortar o wi-fi? — perguntou Jiyoon, franzindo o cenho enquanto vasculhava uma mochila que parecia um apocalipse portátil. Ela tirou um carregador solar, duas lanternas de cabeça, uma bússola e uma flanela, como se estivesse prestes a embarcar numa missão em Marte.
— Jiyoon, isso é uma pousada, não o apocalipse zumbi — respondeu , sem levantar os olhos enquanto dobrava mais uma troca de roupa e a largava sobre a cama com precisão quase militar. Seu tom era calmo, mas carregado daquele cansaço irônico que só os amigos de longa data sabiam decifrar.
— Com o Kian envolvido? Pode muito bem ser os dois — retrucou Nari do outro lado do quarto, o rosto iluminado pela tela do celular, enquanto deslizava o dedo por vídeos antigos do canal do apresentador. — Olha esse aqui, ó: “Sobrevivendo com um saco de arroz e uma panela no meio da floresta por 48 horas”. Ele terminou pelado, coberto de lama e chorando num buraco que ele mesmo cavou.
se sentou na beirada da cama, segurando uma meia na mão por mais tempo do que deveria, antes de explodir numa gargalhada leve.
— Vocês têm certeza que a gente vai pra uma pousada de verdade? Isso não soa muito Kian. Vai ver é só o nome. Tipo... uma ironia. “Pousada do Kian” e a gente dorme em sacos de dormir pendurados em árvores.
— Reformatório espiritual disfarçado de reality show — disse Jiyoon, com os olhos arregalados, como se a própria teoria tivesse a assustado. — Eles vão fazer a gente acordar às cinco da manhã, plantar hortelã orgânica e meditar com monges tailandeses.
— Se tiver comida inclusa e massagem nos pés, eu não reclamo — respondeu , abrindo um zíper da nécessaire com cuidado. — Mas se aparecer um sem noção muito good vibes, eu me jogo no mar e nado de volta pra casa.
— Você fala isso agora, mas imagina abrir o olho com o Kian gritando no seu ouvido e jogando farinha na sua cara — Nari rebateu, inclinando o celular em direção às amigas. O vídeo mostrava exatamente isso: Kian acordando a equipe de produção com uma buzina ensandecida e jogando talco no travesseiro de um câmera-man desavisado.
— Você precisa de um look pra cada tipo de atividade, ! — exclamou Jiyoon, enquanto jogava uma calça legging por cima de um maiô de forma despreocupada, como se fosse a solução para um desafio estilo que ela tivesse acabado de criar. — Pode ser trilha em floresta tropical, jantar à luz de velas com um idol aposentado ou, quem sabe, meditação subaquática!
, no entanto, não compartilhava da mesma animação. Ela estava ali, no meio de toda aquela confusão, tentando organizar seus pensamentos. Seu corpo parecia fazer movimentos automáticos enquanto ela dobrava o mesmo moletom pela quarta vez, cada dobra feita com uma calma forçada. Seu olhar estava distante, perdido em alguma realidade que ninguém ali parecia compartilhar. A mente dela estava sobrecarregada com a ideia de que, de alguma forma, ela estava prestes a embarcar em uma aventura sem saber o que esperar, sem ter controle sobre o que viria.
— Eu ainda tô processando o fato de que a gente vai pra uma pousada que ninguém viu, numa ilha que mal sei pronunciar. — Ela murmurou, a voz carregada de um cansaço que ia além da fadiga física. Cada palavra parecia um esforço, como se estivesse tentando racionalizar a loucura de tudo aquilo.
Enquanto isso, Nari, sentada no chão em meio a uma pilha de produtos de higiene e cuidados pessoais, não parecia preocupada com os mesmos problemas. Ela estava totalmente imersa no processo, como se já tivesse internalizado o mistério e a diversão do que estava por vir. Seu sorriso era amplo e contagiante, os olhos brilhando com uma expectativa que contrastava com a visão mais cautelosa de . Ela tinha uma abordagem totalmente diferente, vendo tudo isso como uma oportunidade de se desprender de qualquer pressão e viver algo único.
— Justamente! É o mistério que faz tudo valer a pena! — Nari exclamou, como se o desconhecido fosse uma espécie de desafio irresistível. Para ela, a ausência de informações era parte do encanto. O enigma da experiência só aumentava o desejo de explorar o que estava à frente.
Ela estava cercada por frascos de shampoo, protetor solar, lenços umedecidos e embalagens de máscaras faciais, como se estivesse criando um arsenal de cuidados pessoais para garantir que sua aparência fosse impecável, independentemente do que acontecesse. Nari estava pronta para tudo, e essa confiança se refletia no seu comportamento. Ela parecia ser a amiga que sempre encontrava o lado positivo de qualquer situação.
, por outro lado, não estava convencida. Sua mente ainda estava lutando contra o que ela via como uma invasão da sua ordem pessoal, algo que ela não conseguia controlar. Ela se perguntou como, exatamente, sua vida havia chegado a este ponto.
— Vocês lembram que eu tenho uma relação profundamente traumática com surpresas? Que sou do tipo que pesquisa o final do filme antes de assistir? — disse ela, com uma voz que misturava desespero e uma ponta de humor negro.
Jiyoon não perdeu tempo e respondeu, como se já tivesse antecipado esse tipo de resistência.
— E é exatamente por isso que te arrastamos pra isso. — Ela interrompeu, parando sua dança momentaneamente para olhar com um sorriso cheio de malícia. — Vai te fazer bem, . Vai descongelar esse cérebro de vestibular que você carrega há anos.
bufou, mas o sorriso que ela tentou esconder não passou despercebido. A resistência estava ali, ainda forte, mas ela sabia que era inútil lutar contra a empolgação de Jiyoon e Nari. Elas tinham algo que ela não conseguia negar: uma capacidade de tornar o imprevisível excitante, enquanto ela, , estava acostumada com o controle, com a certeza de que o futuro poderia ser desenhado com precisão.
E assim, mesmo sem querer admitir, uma ponta de curiosidade começou a brotar dentro dela. Não era mais apenas sobre a viagem, mas sobre o que essa mudança repentina poderia significar para ela. Algo estava prestes a acontecer, e o mistério do que viria começou a engolir suas certezas.
À medida que o caos no quarto de aumentava, ela sentia seu cérebro começar a desconectar-se da realidade ao seu redor. Cada vez mais, as palavras de Jiyoon e Nari pareciam ecoar à distância, como se estivessem em uma outra dimensão. A ansiedade crescente de se manifestava na leve tensão de seus ombros, que ela tentava disfarçar ao focar em dobrar mais uma peça de roupa. O som da música vibrante e das risadas de suas amigas preenchia o ambiente, mas ela estava distanciada de tudo isso, perdida em seus próprios pensamentos.
A viagem, para , representava um salto no desconhecido, algo que ela não sabia se estava pronta para enfrentar. Ela nunca gostou de mudanças, sempre preferiu a estabilidade e a previsibilidade, e o fato de não saber o que esperar dessa nova experiência a fazia sentir-se vulnerável. A mente de trabalhava a mil, tentando visualizar um cenário onde pudesse ter controle, onde pudesse prever o que viria. Mas, como sempre, ela se via em um território desconhecido, sem nenhuma referência, sem um mapa a seguir.
Ela respirou fundo, tentando se acalmar, mas as palavras de Jiyoon continuavam a martelar sua cabeça.
— Vai te fazer bem, .
Essa frase, simples mas carregada de uma verdade que ela não queria admitir, ficou repetindo-se em sua mente, como uma música que não se pode tirar da cabeça. Ela não sabia se confiava na ideia de Jiyoon, mas havia algo na maneira despreocupada e otimista de sua amiga que a fazia questionar suas próprias crenças. E ali estava a tensão, entre a razão e o impulso, entre a segurança do previsível e a atração pelo inesperado.
Enquanto isso, Nari se aproximava dela, com um sorriso travesso no rosto, pegando uma camisa de manga longa da pilha de roupas que tentava organizar.
— Vamos, ! Não pode ser tão difícil se livrar dessa armadura de "sempre no controle". Relaxe! A vida vai te surpreender. Quem sabe você não descobre um lado seu que nem sabia que existia? — Nari falou com uma leveza que contrastava profundamente com o peso que sentia em seu peito.
olhou para sua amiga, percebendo, pela primeira vez, o quão diferente ela era. Nari, com seu entusiasmo contagiante e sua capacidade de abraçar o inesperado, era o tipo de pessoa que fazia da incerteza uma amiga. Para ela, não havia espaço para medo. Tudo era uma oportunidade.
— Eu realmente não sei como você consegue ver tudo isso com esses óculos cor-de-rosa. — disse, um sorriso tímido se formando no canto de seus lábios, embora sua voz ainda carregasse um tom de ceticismo. Ela, por mais que quisesse resistir, sabia que Nari tinha algo que ela não possuía: uma confiança inabalável no caos.
Jiyoon, que estava agora de pé diante da janela, observando a rua movimentada abaixo, virou-se com um brilho nos olhos, como se já soubesse que a decisão de estava em um ponto de virada.
— Porque o caos é onde tudo acontece. — Ela disse, a voz firme, mas com um toque de diversão. — E, se você não se arriscar, vai perder a melhor parte da viagem, que é o desconhecido. Confie na gente, . Vai ser inesquecível.
Por um breve momento, sentiu um pequeno impulso de querer acreditar naquelas palavras. A mente dela tentava se defender, mas uma parte dela, uma parte bem no fundo, sabia que talvez fosse hora de deixar o controle de lado e simplesmente ir. Afinal, o que ela estava realmente perdendo? O medo do imprevisto? O medo de se descontrolar?
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo mais uma vez, e a tensão em seu corpo começou a amolecer, mesmo que lentamente. Não sabia o que o futuro lhe reservaria, mas a ideia de ir sem expectativas a fazia questionar suas próprias limitações. Se, ao menos por um momento, ela pudesse se permitir sentir o que fosse, sem precisar analisar cada detalhe, talvez essa viagem fosse exatamente o que ela precisava.
— Você está certa... Eu estou tentando segurar demais, né? — falou, mais para si mesma do que para as outras. Ela começou a dobrar uma camiseta com mais leveza, seus movimentos mais relaxados. Não completamente, mas mais soltos, como se uma pequena abertura tivesse se aberto em sua mente.
Jiyoon sorriu, satisfeita com a evolução de , enquanto Nari pulava para o lado dela, rapidamente pegando sua mala e a jogando sobre a cama.
— Aí está a nossa ! Agora, tudo o que você precisa fazer é deixar o restante da diversão acontecer por si mesma.
pegou o celular, agora quase sem bateria, e rolou as miniaturas chamativas dos vídeos do canal do Kian. Os títulos eram absurdos, as thumbnails mais ainda. "Comendo apenas comida azul por 72h", "Fingindo ser guia turístico sem saber nada da cidade", "Acampando no quintal dos meus pais como se fosse a Amazônia". Cada título parecia uma aposta mais ousada com a própria sanidade.
Ela suspirou. Kian era impossível de prever. Um caos carismático com carinha de anjo e risada de vilão da Disney. Era o tipo de pessoa que deixava um rastro de confusão onde passava — e, ainda assim, você queria seguir atrás.
— Ok — disse ela, largando o celular de lado e puxando os joelhos pra cima da cama. — Vocês têm alguma teoria real sobre o que vai ser esse programa?
— Eu acho que vai ser estilo reality de convivência, mas com tarefas doidas. Tipo… sobrevivência light, sabe? A gente vai ter que cozinhar, fazer tarefas físicas, cuidar da pousada… enquanto tudo é filmado 24h, estilo vlog — sugeriu Jiyoon, com a empolgação misturada ao nervosismo de quem sabe que vai se meter em encrenca. — Ou vai ser tipo Terrace House, só que com armadilhas, provas de resistência e zero roteiro — completou.
— Ou — disse Nari, com um sorriso enigmático nos lábios e os olhos brilhando — vai ter alguém infiltrado entre a gente. Um espião da produção. Vai fingir que é participante, mas vai sabotar tudo.
— Você precisa parar de ver doramas às três da manhã — resmungou , jogando uma almofada na amiga. A almofada caiu no chão, e a risada que se seguiu foi mais longa do que deveria.
O assunto sobre o que poderia ser, acabou por ali.
Enquanto Nari e Jiyoon continuavam a bagunçar o quarto de , a preocupação de dela foi sendo lentamente substituída por uma sensação incômoda, mas intrigante. Ela sabia que estava prestes a atravessar uma linha invisível, uma linha que a afastaria de sua zona de conforto e a empurraria para um mundo desconhecido, mas, de alguma forma, ela já não queria lutar contra isso. Havia algo de excitante nesse novo caminho, uma promessa de liberdade que ela nunca soubera que precisava.
No entanto, o controle era como uma segunda pele para . A ideia de estar perdida ainda a incomodava, mas, ao olhar para as amigas, ela sentiu uma breve faísca de esperança. Talvez, apenas talvez, fosse hora de dar o primeiro passo em direção ao desconhecido, não mais com receio, mas com a possibilidade de que algo grande e inesperado estivesse prestes a acontecer.
As horas seguintes foram uma mistura de risos e mais caos, mas, em meio à bagunça, finalmente sentiu algo que não experimentava há muito: excitação. E foi isso que a levou a fechar a última mala com um suspiro, a certeza de que algo em sua vida estava prestes a mudar, e que ela estava decidida a ver o que seria.
olhou para a mala fechada aos seus pés. O zíper ainda um pouco torto, como se o destino tivesse deixado uma brecha de propósito. Respirou fundo. O peito apertado de ansiedade, mas também de excitação. A sensação de que a vida estava prestes a sair do trilho — e ela estava mais do que pronta para isso.
— Que seja estranho, então — murmurou.
— Que seja inesquecível — respondeu Minji, ainda segurando a lanterna de cabeça como se fosse uma coroa.
— Que tenha gente bonita — completou Chaeyeon, já deitada no chão, com as pernas pra cima, arrancando outra gargalhada das duas.

Capítulo 3


As malas estavam prontas no canto da sala desde a noite anterior. Nenhuma das três conseguiu dormir direito. virou de um lado para o outro, tentando conter a ansiedade que crescia no peito. Jiyoon, por outro lado, mandava mensagens para o grupo até altas horas, organizando o último checklist. E Nari... bem, Nari assistia vídeos sobre Ulleungdo no TikTok e riu tanto com um deles que foi silenciada pelo travesseiro da .
Na manhã seguinte, a luz entrou suave pela janela. As três estavam “dormindo” na sala, levaram os colchões para lá, porque estavam nervosas demais para ficarem sozinhas em seus quartos. Mochilas revisadas pela terceira vez, baterias externas carregadas, documentos em mãos e o nervosismo compartilhado como um segredo cúmplice.
Jiyoon pegou o celular com o número novo que a produção tinha enviado e respirou fundo.
— É agora — disse, com um sorriso nervoso.
e Nari estavam ao lado, observando atentas enquanto a ligação tocava no viva voz.
— Alô, pousada do Kian? — atendeu uma voz masculina do outro lado, com sotaque leve e acolhedor.
— Oi, meu nome é Jiyoon, somos as novas hóspedes. Queríamos saber se podemos confirmar nossa reserva de hoje?
— Ah, perfeito! São quantas pessoas e vocês vão ficar quanto tempo?
— Somos três. Melhores amigas. Vamos ficar seis dias.
— Ah, legal. Vocês podem encontrar a gente no porto às 17h?
— Acho que a gente chega a tempo. Combinado.
— Combinado. Até mais tarde.
A ligação terminou e por um segundo houve silêncio. Depois, um grito abafado de empolgação tomou conta da sala.
— A gente vai mesmo! — Nari comemorou, batendo palminhas no ar.
— Tá, vamos focar. Precisamos sair às 10h no máximo pra dar tempo de chegar no trem — avisou, já pegando a mochila.
Às 9h45, elas trancaram a porta e chamaram o táxi para a Estação de Seul. Dentro do carro, a mistura de música baixa, o som do trânsito e a excitação tornava o clima quase irreal.
— Vocês têm noção que a gente vai ficar numa pousada, em uma ilha real, em um programa da Netflix? — Jiyoon dizia, pela milésima vez.
— Eu só espero que a pousada tenha um banheiro decente — respondeu, abraçada ao travesseiro de pescoço.
Chegaram à estação com tempo de sobra. Compraram cafés gelados, sanduíches para a viagem e embarcaram no KTX rumo a Pohang. A viagem durou cerca de 2 horas e 45 minutos. No vagão, olhava pela janela, vendo os campos passarem, enquanto as amigas revezavam entre cochilos e vídeos.
— E se a gente der de cara com celebridades de verdade? — Jiyoon perguntou em voz baixa.
— Você já pensou se tem algum idol disfarçado de pescador? — Nari completou, rindo sozinha.
— Eu não entendo muito de celebridades, mas vocês sabem que o próprio Kian é uma, não sabem? — respondeu as amigas e ficaram olhando para ela, pensativas.
Chegaram em Pohang um pouco antes das 14h. A cidade costeira tinha um cheiro salgado no ar e brisa leve. Caminharam até o porto com as mochilas nas costas e puxando as malas pela calçada trepidante, ainda desacreditando que tinham realmente conseguido fazer parte da experiência.
— Esse lugar parece saído de um dorama — Nari comentou, olhando ao redor.
Compraram as passagens do ferry e aproveitaram a última hora antes do embarque para almoçar num restaurante simples perto do terminal. Comeram arroz frito com kimchi e sopa quente, tentando não pensar muito no mar agitado.
O ferry partiu pontualmente às 15h. Lá de cima, viram o continente ficando para trás. O balanço suave do mar quase embalava, mas o vento frio e os respingos de água salgada mantinham as três bem acordadas.
— Eu sabia que vinha pra um lugar assim quando escolhi continuar morando neste país... só não imaginava que viria pra ser filmada! — comentou, apoiada no corrimão, olhos fixos no azul que parecia infinito.
— Vai ser memorável, de um jeito ou de outro — Jiyoon disse, tirando uma foto das duas.
— O Kian parecia simpático, né? A voz dele? — Nari completou, já stalkeando se tinha vazado alguma informação sobre o programa.
Às 16h50, a silhueta da ilha de Ulleungdo surgiu no horizonte — montanhosa, verdejante, como uma joia isolada no meio do oceano. Era o cenário perfeito para algo novo, para recomeços, para encontros inesperados.
— Aí está — murmurou, sentindo o coração acelerar.
— E que comece a aventura — Jiyoon disse, enquanto o ferry se aproximava do porto.

🏝🏝🏝


O táxi deslizou lentamente pela estrada sinuosa que levava até o ponto marcado. A paisagem de Ulleungdo parecia ainda mais impressionante do que nas fotos que e suas amigas haviam visto. O mar brilhava ao longe, com as montanhas imponentes recortando o horizonte.
— Estamos chegando — disse o motorista, estacionando o veículo ao lado de um pequeno ponto de embarque à beira-mar.
O vento frio e salgado do oceano entrou pela janela, e as três olharam pela última vez à paisagem que tinham só imaginado. Jiyoon foi a primeira a sair, seguida por Nari, enquanto , a mais hesitante, saiu por último, observando atentamente o cenário.
À medida que caminhavam em direção ao ponto de encontro, suas malas pesadas pareciam mais leves com a empolgação do momento. Um grupo de aproximadamente quatro pessoas estava parado na plataforma, olhando para elas enquanto arrumavam suas próprias malas e mochilas. O clima entre os grupos era de curiosidade mútua.
— Vocês são...? — perguntou um dos homens do grupo, com um sorriso educado, antes que ele fosse interrompido por uma risada baixa de uma das mulheres ao seu lado.
— Eles devem ser novos participantes, também? — ela disse, e o tom de voz deles não passou despercebido para , que começou a se perguntar sobre quem eram.
— Sim. Somos novas aqui — Jiyoon respondeu, sorrindo de forma amigável, tentando quebrar a tensão no ar.
Os outros responderam com sorrisos discretos, mas parecia que havia algo mais ali. Era uma sensação de quem estava ciente de que uma nova dinâmica estava prestes a começar. O ambiente, embora simples e tranquilo, estava carregado de expectativas.
observou os novos rostos, mas seu olhar logo foi atraído para o som de um motor se aproximando. Uma lancha, com o logo da pousada, se aproximava lentamente do cais.
— É a nossa hora — Nari comentou, ajeitando a alça da mochila.
— Acho que o destino vai ser mais interessante do que imaginávamos — disse, com um sorriso nervoso, olhando para as outras duas, antes de dar o primeiro passo em direção à lancha.
O grupo que estava ali também começou a se preparar para embarcar. Eles trocaram olhares rápidos, alguns mais curiosos, outros com um toque de indiferença, mas sentiu que era só o começo de algo grande. Uma nova fase estava prestes a começar, e ela só não sabia o quanto isso mudaria tudo.
— Pousada do Kian as 17:00 horas, hóspedes da pousada do Kian. — A voz de uma mulher saia alto entre o barulho das ondas e do motor.
A lancha parou ao lado deles, e o barulho do motor se dissipou, dando lugar ao som das ondas quebrando suavemente contra a rocha. As três amigas subiram primeiro, sem saber exatamente o que esperar, mas com a certeza de que o que estava por vir seria completamente diferente de tudo que já tinham experimentado.
— Ah você é a… — Jiyoon disse olhando para a pessoa que estava grudada no “timão” da lancha.
— Meu Deus, é a Ji Ye-eun, eu amo o SNL KOREA. — Nari disse empolgada.
— Sim, sou eu e eu sou a capitã dessa lancha, não se preocupem, eu tenho habitação. — Disse alto para que todos ouvissem e abriu um sorriso.
Os outros participantes entraram também reconhecendo a mulher e sendo amistosos.
Quando todos estavam a bordo, a lancha se afastou do cais, e a visão do vilarejo de Ulleungdo foi desaparecendo lentamente à medida que se afastavam. O céu estava começando a escurecer, e as luzes da pequena ilha pareciam acender como estrelas no mar.
Enquanto o barco navegava, olhou para as amigas, sentindo uma mistura de ansiedade e excitação. O programa seria mais intenso do que ela imaginava, e, talvez, aquelas primeiras impressões pudessem ser o prenúncio de algo muito maior.
se inclinou para frente, os olhos apertados pelo brilho do sol. A visão que se abria diante dela parecia surreal demais até para um cenário de reality show. A estrutura flutuante era de um amarelo tão vibrante que beirava o ridículo, com torres pontudas, escorregadores coloridos e uma parede de escalada na lateral.
— Aquilo… é de verdade? — perguntou, franzindo o cenho, tentando entender o que estava vendo. Seus olhos passavam de um ponto a outro, mas não parecia possível que aquilo fosse real.
— Parece brinquedo de parque aquático. — Nari comentou ao lado, sua expressão de cansaço contrastando com a surpresa de .
— Parece episódio de desenho animado. — Jiyoon riu, sem conseguir esconder o espanto enquanto levantava o celular para gravar tudo, mesmo sabendo que não teria sinal para postar. — Sério, isso aqui vai render um documentário.
bufou, não sabia se ria ou se ficava preocupada, e enquanto o grupo aguardava sua vez na plataforma flutuante, ela observou mais atentamente a estrutura da pousada. Olhou para o topo, onde algumas figuras pareciam observar os recém-chegados. Uma delas chamou sua atenção instantaneamente. Ele estava parado lá em cima, com um moletom largo demais e os cabelos presos de qualquer jeito no topo da cabeça. O mais curioso, no entanto, era a toalha que ele carregava no ombro e a forma como parecia relaxado demais para o lugar.
— Quem é aquele ali? Será que é o Kian? — perguntou, tentando identificar o homem estranho enquanto o observava com mais intensidade.
— Não. Aquele é o Kian. — Jiyoon apontou para o outro lado da estrutura, onde um homem de chapéu de pescador gritava instruções animadas, gesticulando tanto que parecia estar comandando um navio pirata.
— E o outro? O do moletom? — insistiu , a curiosidade tomando conta dela.
Nari se virou lentamente, como se tivesse acabado de ouvir uma blasfêmia. Seu olhar era de incredulidade.

— O quê?
— Você tá de brincadeira comigo.
— Por quê?
— É o Jin.
— Jin, quem?
— DO. BTS. — Nari respondeu com todas as letras, como se fosse impossível não saber quem ele era.
fez uma pausa, tentando absorver o que ela acabara de ouvir. Ela estreitou os olhos, sem conseguir acreditar totalmente.
— …aham, BTS não é aquele grupo super famoso que vocês amam?. — Ela não estava completamente convencida.
Jiyoon estava prestes a ter uma crise nervosa. O olhar dela era de puro choque.
— MEU DEUS, . — Ela parecia quase em pânico. — COMO VOCÊ MORA NA COREIA TANTOS ANOS E NÃO SABE QUEM É O KIM SEOKJIN?
— Desculpa, passo mais tempo com artigos acadêmicos do que com boybands. — deu de ombros, como se isso fosse algo perfeitamente razoável.
— Isso é um crime nacional. — Nari resmungou com o tom de quem estava perdendo a paciência.
observou Jin mais uma vez, tentando entender como alguém com aquele perfil podia ser famoso. Ele estava lá, no topo da pousada, discutindo com outro homem de forma tão animada, segurando um chinelo como se fosse o item mais valioso do mundo.
— Ele parece só um cara de ressaca. — disse.
No topo da construção, Jin estava em um debate sério com Kian, que elas não conseguiam entender, apontando com vigor para um canto específico da pousada. A toalha escorregou do ombro dele, e, por um segundo, ele quase caiu do parapeito tentando pegar o item perdido.
balançou a cabeça em incredulidade.
— Ele acabou de quase morrer porque se distraiu discutindo… tentando pegar aquela toalha laranja? Isso é real? — Ela perguntou, achando impossível que alguém pudesse ser tão distraído e, ao mesmo tempo, tão importante.
— Ele é assim. — Nari suspirou, os olhos brilhando com admiração. — E eu amo.
— Isso é um programa de variedades, não um hospício? — brincou, tentando aligerar o momento.
Mas antes que pudessem fazer mais piadas sobre a situação absurda, subiram na plataforma e todos os novos hóspedes estavam lá, eles eram os primeiros da temporada.
A visão ao redor dela era estonteante. O mar se estendia em uma vastidão azul, quase irreal. O sol da tarde criava brilhos cintilantes nas pequenas ondas, e a ilha de Ulleungdo parecia flutuar no horizonte, com suas montanhas cobertas por vegetação densa e verde. Por um momento, a paisagem era tão linda que ela quase se esqueceu da ansiedade. Mas logo o pensamento de estar sendo filmada e de ser observada pelo grupo voltou à tona.
— Oi pessoal, sou o Kian, dono da pousada e anfitrião. Sejam bem vindo a pousada do Kian. — O sorriso brilhava no rosto dele. E os participantes, todos sem exceção, deram uma olhada 360° para observar a loucura que era aquela pousada. — Esse é um lugar pouco convencional, espero que curtam a estadia aqui. — Ele finalizou e palmas tímidas começaram a ecoar, uma recepção simpática que parecia querer aliviar a tensão do momento.
Mas, no entanto, um olhar curioso se cruzou com o de . Ela sentiu a presença antes de realmente ver quem era.
— Oi gente, eu sou a Yeeun, comandante do barco e parte da equipe da pousada. — Ela também sorriu, como já conhecia um pouco mais os hóspedes, sorriu e acenou.
— Olá a todos! Eu sou Seokjin, e sou o gerente geral da pousada. — Ele Sorriu igualmente, atraindo olhares admirados e burburinho sobre ele ser o “BTS”, mas nada com fanatismo exagerado. — Como podem notar, não temos porta no primeiro andar e para entrar na pousada é preciso escalar a parede. — Ele apontou para a parede amarela com as presilhas e garras coloridas espalhadas de maneira aleatória, mas que fazia todo sentido para a subida. — Eu vou subir primeiro, e mostro para vocês como funciona, depois subimos as malas. E lá em cima mostramos o resto. — Passou pó de magnésio nas mãos e encaixando as mãos nas presilhas mais em cima.
Ele subiu com mestria, como se fosse um profissional, e um sonoro “uau” foi dito por todos que observavam.
— Quem vem primeiro? — Seokjin perguntou com um sorriso aberto e olhos cheios de expectativas.
— Isso é loucura. — Um dos participantes disse alto e rindo.
— Quem se arriscaria? — Outra participante se pronunciou com um temor na voz.
olhou fixamente para a parede e sentiu um frio na barriga. Ela não era fã de altura e muito menos de ser observada por câmeras enquanto tentava escalar uma parede de madeira flutuante no meio do mar.
— Eu vou! — Ela anunciou largando a mala no lugar que estava e dando um passo à frente, sendo aplaudida pelos demais enquanto passava o pó também nas mãos. Segurou as presilhas mais próximas, onde os braços alcançaram, com os dedos firmes e o coração acelerado. Olhou para Nari e Jiyoon, nervosa. “Escalada no meio do mar? Eu não assinei para isso”, pensou. — E se eu cair? — perguntou com uma mistura de humor e insegurança, os olhos se estreitando enquanto tentava se controlar.
— Vai ganhar destaque na edição. — Jiyoon respondeu com aquele sorriso travesso que sempre surgia em momentos de descontração.
Enquanto subia lentamente a parede de escalada, seu corpo estava em constante tensão. Cada degrau parecia mais desafiador que o anterior, e o fato de ser observada pelos outros participantes não ajudava nem um pouco. Ela mal conseguia se concentrar na subida, com o pensamento a mil. O vento forte bagunçava seus cabelos e ela tentava, sem sucesso, ignorar as gagueiras do coração que ficavam mais evidentes a cada movimento.
Quando finalmente alcançou o topo, a mão firme de Jin segurou seu braço e a ajudou a entrar, seu corpo estava exausto e seus pulmões queimando, mas havia um alívio. Ele estava ali, parado de forma despreocupada, com os pés apoiados no parapeito da estrutura. Jin. O mesmo homem que, aparentemente, nem se importava em esconder sua identidade de celebridade. O moletom largo e os cabelos bagunçados estavam ainda mais evidentes agora que ele estava perto, a toalha pendurada em seu ombro parecendo um detalhe insignificante, mas que, em algum nível, fazia questionar o que ele estava fazendo ali.
Ele sorriu para ela, mas não um sorriso qualquer. Era mais um sorriso de quem sabia que estava incomodando, ou provocando. Ele a observou por um instante, como se estivesse testando sua reação. E , sem saber o que fazer, o encarou de volta.
— Parabéns. — A voz grave e despreocupada de Jin cortou o silêncio.
Ela congelou por um momento, sem saber como reagir. Não era exatamente como ela imaginava que um famoso fosse agir, muito menos em uma situação como essa.
— Obrigada… — murmurou, ainda um pouco desconfiada.
Jin deu um passo à frente, seus olhos brilhando com um brilho travesso. Ele parecia tão desconectado da realidade do programa quanto se sentia. Era como se ele estivesse ali por motivos próprios, sem pressa de ser o "astro" que todos esperavam que ele fosse.
— Então você é a que não sabe quem eu sou? — ele perguntou, levantando uma sobrancelha com um ar de leve provocação.
congelou, o sangue pareceu congelar nas veias por um segundo. A vergonha se espalhou por todo o seu corpo como uma onda quente e constrangedora. Ela sentiu a pressão de todos os olhares ao redor dela, mas conseguiu se controlar, embora suas mãos estivessem ligeiramente trêmulas.
— O quê? — ela perguntou, sem saber se deveria rir ou se simplesmente se encolher em um canto.
— Fiquei sabendo. — Jin deu de ombros, como se aquilo fosse uma grande piada. — Tô ofendido. Mas achei engraçado. Tô dividido.
se forçou a sorrir, mas a sensação de estar sendo observada o tempo inteiro ainda estava ali, esmagadora. Não sabia se deveria achar graça ou se deveria se desculpar por não estar atualizada com o mundo das celebridades. Não estava em um programa de variedades apenas para divertir os outros?
— Eu não sabia que ignorância em cultura pop causava crises existenciais. — Ela respondeu, tentando manter o tom descontraído.
Jin sorriu de volta, mas seu sorriso não parecia forçado. Pelo contrário, parecia genuíno, e um pouco provocador. Ele estava curtindo aquele desconforto que ela sentia.
— Só quando é comigo. — Ele respondeu, como se fosse óbvio.
revirou os olhos, mas por dentro, sentiu uma onda de constrangimento. Aquela troca de palavras e o fato de ele ser quem era, mas agir como qualquer outra pessoa normal, a desconcertavam. Ele não era o tipo de celebridade que ela imaginava. Era… diferente.
Ela deu um passo para trás, tentando se distanciar um pouco. A brisa forte fazia seus cabelos se agitar, mas isso não era nada comparado ao turbilhão dentro dela. Ela olhou para baixo, vendo que outro participante já começava a subir tentando desviar o foco.
— Pra constar, você realmente não parece um astro. — disse, o tom mais casual, mas sem esconder o fundo de curiosidade.
— É meu disfarce. — Ele respondeu, com um sorriso de canto de boca.
— Tá funcionando. — murmurou, sentindo algo mais leve tomando conta de seu corpo. Aquele sorriso dela parecia finalmente quebrar o gelo entre eles.
Jin riu escandalosamente, como de costume e olhou para ele por mais alguns segundos, antes que a autora pessoa se juntasse a eles
O que acontecera? Jin parecia ser tão… comum, mas ao mesmo tempo, alguém completamente fora do lugar. Ela não sabia como se sentia a respeito dele. Sua confusão crescia, assim como uma sensação inexplicável de que aquele encontro não fora por acaso.
Os outros participantes chegaram ao segundo andar e aí começou o “tour” pelos espaços.
A pousada, por dentro, era ainda mais absurda do que por fora. A mistura de escorregadores, pontinhas que davam acesso às camas suspensas e grandes cápsulas que davam acesso a bolhas brancas com mesinhas, para que os hóspedes tomassem café e conversassem, e o poste de bombeiros no meio de tudo que dava acesso ao primeiro andar que era a cozinha e o refeitório, davam uma sensação de total falta de sentido. Mas, mais do que tudo, o que sentia era que estava cercada por um cenário surreal, com um ídolo global vivendo como se estivesse em um parque de diversões. E, de alguma forma, aquilo a fazia questionar tudo o que sabia sobre fama, realidade e o próprio programa.
Ela não sabia o que estava acontecendo, mas sentiu que estava prestes a descobrir.

Capítulo 4

Enquanto os outros subiam — cada um com seus gritos, gargalhadas nervosas e quase quedas —, Marina foi orientada a esperar sentada no chão, encostada na estrutura amarela, até que todos estivessem a bordo. Dali, com os pés ainda úmidos e o corpo levemente trêmulo pelo esforço da escalada, ela observou o mar abaixo.
O céu parecia mais azul visto daquela altura.
A água, mais funda.
Mais próxima.
Era como estar num universo paralelo. Um reality show que talvez fosse, na verdade, um experimento social disfarçado de entretenimento. E, sem saber explicar exatamente por quê, Marina começou a sorrir.
Algo estava prestes a mudar.
Não havia quartos.
Esse foi o primeiro choque.
Depois da escalada dramática, Marina acreditou que qualquer coisa seria um alívio: comida, sombra, uma cama minimamente normal. Mas o que encontrou foi apenas um espaço comum, aberto, circular, com tapetes de palha presos ao chão, pufes coloridos espalhados sem muita lógica e uma grande mesa comunitária feita de pedaços de madeira reciclada.
E só.
Nenhuma porta.
Nenhuma divisória.
Nenhum sinal de camas.
— Tá… — Nari foi a primeira a quebrar o silêncio, girando lentamente sobre si mesma, os olhos arregalados. — Onde exatamente a gente dorme?
— Talvez seja algum conceito artístico. — Jiyoon murmurou. — Tipo… “o sono é uma construção social”.
Antes que alguém pudesse responder, Jin surgiu novamente. Agora usava um avental florido — ninguém sabia de onde ele tinha tirado aquilo — e segurava uma prancheta, como se aquilo automaticamente lhe desse autoridade.
— Bem-vindos oficialmente à Flutuante 84! — anunciou, abrindo os braços. — Esse aqui é o espaço principal. Onde vocês comem, convivem, brigam, fazem as pazes… e são observados vinte e quatro horas por dia por quarenta e duas câmeras escondidas!
— Quarenta e duas? — Jiyoon piscou. — Isso é um número específico demais pra ser saudável.
— É a resposta para o sentido da vida. — a voz de Kian ecoou de algum lugar acima deles. — Douglas Adams explica!
Marina não entendeu a referência, mas teve a clara sensação de que aquilo era apenas o prólogo da loucura.
Jin começou a andar pelo espaço como quem conduzia um tour guiado. Em um segundo, parecia um apresentador de documentário. No outro, alguém que claramente esquecia o que estava explicando no meio da frase.
— Agora… — ele bateu a prancheta na palma da mão. — Vamos à parte divertida. — Ele caminhou até a lateral da estrutura e fez um gesto amplo.
Marina seguiu o movimento com os olhos. E congelou.
Do lado de fora da construção, presas à fachada amarela, havia plataformas suspensas. Pequenas varandas individuais, com estruturas de metal e madeira, cada uma sustentando um colchão fino, preso por cordas grossas e barras de segurança. Algumas tinham pequenas coberturas. Outras, não.
Todas… sobre o mar.
— Essas… — Nari engoliu em seco. — São as camas?
— Exatamente! — Jin respondeu, animado demais para alguém que não ia dormir ali. — Cápsulas de descanso ao ar livre. Ventilação natural, vista panorâmica, conexão direta com a natureza!
— Conexão direta com a queda livre. — Jiyoon murmurou.
Marina sentiu o estômago afundar um pouco. Não de medo exatamente — mas de consciência. Dormir ali significava não ter para onde fugir. Nenhuma parede. Nenhuma porta para fechar.
Só o mar.
E o céu.
E as pessoas.
— As camas são externas, mas o resto da convivência é interna. — Jin continuou. — E por isso… vocês vão precisar se organizar. Dividir tarefas. Cozinhar juntos. Limpar juntos. E, claro… dormir em dupla.
— Em dupla? — Marina perguntou, finalmente.
Ele se virou para ela, como se tivesse esperado aquela pergunta.
— Isso mesmo. Cada plataforma acomoda duas pessoas. — explicou. — Vocês vão dividir o espaço, a coberta, o vento, o frio… e provavelmente a paciência.
O silêncio que caiu foi pesado o suficiente para fazer a estrutura inteira parecer instável.
— Eles querem acelerar o colapso psicológico. — Jiyoon cruzou os braços.
— É um experimento social com trilha sonora de ondas. — Nari completou.
Marina respirou fundo. Observava tudo com atenção, tentando manter o controle. Se ia sobreviver àquele reality, precisava se adaptar. Mesmo quando tudo ali parecia projetado para tirar as pessoas do eixo.
— Ah. — Jin levantou um dedo. — Detalhe importante. Quem não formar dupla… entra no modo solo.
— O que significa isso? — alguém perguntou.
— Significa dormir sozinho. — ele respondeu, simples. — Na plataforma mais externa. Aquela ali.— Ele apontou para a menor delas. A mais afastada. A mais exposta ao vento. — Vista incrível. — ele completou. — Gaivotas inclusas. — Marina suspirou, cruzando os braços. Não ia sair implorando parceria. Mas também não tinha nenhuma intenção de virar atração turística para aves marinhas. — Vocês têm cinco minutos. — Jin anunciou. — Depois disso, quem sobrar… boa noite e bons sonhos marítimos.
E saiu.
O burburinho começou imediatamente. Pessoas cochichavam, formavam alianças rápidas, algumas claramente estratégicas. Marina permaneceu onde estava. Observando, viu Nari se agarrar em Jiyoon e soltar um “desculpa” sem som e ficou brevemente desesperada, talvez tivesse que dormir com as gaivotas.
— Quer fazer dupla comigo? — Foi então que uma voz surgiu atrás dela. Calma. Próxima demais.
Ela se virou devagar.
Jin.
De novo.
Avental florido. Prancheta. Como se aquilo fosse perfeitamente normal.
— Acho que não podemos, você não é hóspede. — ela disse, confusa.
— Quem disse? — ele deu de ombros, sorrindo de canto. — Até a gente vai precisar dormir do lado de fora, e parece que meus parceiros e as suas, já se escolheram. — Ele deu uma risadinha.
— Ou você só quer me provocar. — Ela o encarou.
— Também. — ele admitiu. — Mas eu prefiro pensar que estou te salvando de dormir sozinha no vento.
Marina hesitou. Um segundo apenas. Mas havia algo naquele sorriso — entre a provocação descarada e uma gentileza inesperada — que a desarmava.
— Tá. — ela disse, por fim. — Mas se você se mexer muito, eu te empurro.
— Justo. — ele respondeu. — Se você falar dormindo, eu relato tudo pra produção.
Ela sorriu. De canto. Sem perceber.
E ali, no meio de uma estrutura flutuante, com camas penduradas sobre o mar e o caos oficialmente instaurado, a primeira dupla foi formada.
E aquilo…
Aquilo era só o começo da insanidade flutuante.

Capítulo 5

O cheiro veio antes do barulho da panela reclamando no fogo.
Yeeun estava no centro da cozinha improvisada, de avental amarrado às pressas, mexendo a panela com precisão quase coreografada. Havia algo naturalmente seguro nos movimentos dela — como alguém que sabia exatamente o que estava fazendo, mesmo naquele cenário absurdamente caótico.
Ao lado dela, Jin conferia os ingredientes alinhados sobre a bancada com um olhar atento, segurando uma colher de pau em uma mão e o celular na outra, aberto em uma receita que ele claramente já conhecia, mas insistia em revisar.
— A pasta de pimenta vem agora. — ele avisou, calmo. — E só agora.
— Eu sei. — Yeeun respondeu, sem tirar os olhos da panela. — Confia.
Do outro lado da cozinha… havia Kian.
Ele cortava legumes de maneira totalmente aleatória, cantarolando alguma coisa sem sentido, cercado por cascas, pedaços irregulares e decisões culinárias questionáveis.
— Isso é gengibre? — Jin perguntou, franzindo a testa ao observar um pedaço estranho cair perigosamente perto da panela.
— Não sei. Era o mais bonito. — Kian parou, analisou o objeto entre os dedos e deu de ombros.
Jin fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. Contou mentalmente até três.
— Kian… — ele disse, num tom perigosamente controlado. — Por favor, me diz que você não colocou isso aí dentro.
— Ainda não. — Kian respondeu, satisfeito consigo mesmo. — Mas estava pensando.
— Não pensa. — Jin respondeu imediatamente. — Principalmente perto da comida.
Yeeun riu baixo, tentando manter o foco enquanto afastava a panela alguns centímetros.
— Kian, isso é um nabo. — Jin continuou, agora apontando diretamente para o corte suspeito. — Um nabo não entra numa sopa de kimchi. Isso é praticamente um crime cultural.
— A culinária também é uma forma de arte. — Kian ergueu os ombros, completamente imperturbável.
— E você é uma ameaça à humanidade. — Jin rebateu, já puxando a tábua de cortar para longe dele.
Yeeun colocou a colher de lado por um instante e encarou os dois, com aquele sorriso de quem já estava acostumada a lidar com homens caóticos.
— Certo. — ela disse. — Kian, você fica responsável por lavar a louça. Jin, me ajuda aqui antes que isso vire um documentário sobre tragédias culinárias.
Jin assentiu imediatamente, aliviado por finalmente estar em território conhecido.
— Com prazer.
E enquanto Kian se afastava, ainda filosofando sobre vegetais subestimados, Jin e Yeeun retomavam o controle da cozinha — tentando salvar a receita, a sanidade coletiva… e talvez o jantar da casa inteira.
As câmeras filmavam tudo. A produção parecia estar se divertindo com a situação, pegando os momentos em que Jin se exasperava e Kian parecia completamente alheio ao caos ao seu redor e Yeeun parecia se divertir com tudo ao redor. O clima na cozinha era como um jantar entre amigos que mal sabiam o que estavam fazendo — e talvez por isso fosse tão divertido de assistir. Um típico cenário onde a diversão estava no erro, e não na perfeição.
Do lado de fora, uma das duplas assumia a liderança na organização da mesa. Almofadas coloridas no chão, pratos de madeira e copos de metal completavam o cenário. O vento do mar balançava as lanternas à vela que ela cuidadosamente posicionava ao redor. Ela olhava para o trabalho sendo feito lá dentro, uma mistura de curiosidade e cansaço visível.
— Isso aqui tá mais bonito do que eu imaginava. — disse Marina, observando a vista com um sorriso de leve satisfação.
— Eu tô só com medo de comer o que eles tão cozinhando. — Jiyoon comentou em tom brincalhão, arrancando risos das outras.
Nari, em contraste, estava deitada numa rede improvisada, observando o céu que começava a escurecer. O ambiente era relaxante e íntimo, um refúgio da agitação da cozinha.
— Cês perceberam que não tem cobertura de celular? A gente tá realmente fora do mundo.
Marina refletiu por um momento, o pensamento dela se distanciando do presente.
— É... — ela murmurou, sem tirar os olhos da porta da pousada. — Isso é meio bom, né?
Aquelas palavras pairaram no ar por um instante, e as três se calaram. Era como se, naquele momento, todas tivessem pensado na mesma coisa: talvez o isolamento fosse exatamente o que elas precisavam.
A porta da pousada se abriu com um rangido. Jin apareceu primeiro, carregando uma travessa com um tipo indefinido de ensopado. Kian vinha logo atrás, com o avental manchado de ingredientes misteriosos e um sorriso orgulhoso no rosto.
— Jantar está servido! — anunciaram juntos, sem perder o entusiasmo, apesar do caos evidente na cozinha.
As meninas aplaudiram, mais pela coragem do que pela aparência do prato. Sentaram-se ao redor da mesa, curiosas, mas com um ar animado de quem estava mais interessado na experiência do que no prato. Ji Ye-eun começou a distribuir os talheres. Ninguém parecia muito certo de como usá-los, considerando a proposta "bizarra" do programa, mas todos estavam prontos para experimentar.
— Tá quente, hein. Cuidado. — Jin alertou, lançando um olhar rápido para Marina, que estava mais concentrada no prato à sua frente do que em qualquer coisa ao redor.
Ela soprou a colher com delicadeza antes de provar, e o sabor a surpreendeu — era bom. Estranhamente bom.
— Uau... — ela disse, erguendo as sobrancelhas com uma expressão de surpresa genuína. — Não esperava por isso.
Jin fez uma careta fingida de ofensa, ainda com o sorriso brincalhão.
— Por quê? — ele perguntou. — Você acha que eu sou só um rostinho bonito?
— Não, eu só... achei que o nabo ia dominar tudo. — Marina respondeu com um sorriso divertido, mexendo o prato, como se confirmasse a incredulidade.
Jin riu alto, virando-se para Kian.
— Viu? Falei que aquele nabo era criminoso.
A conversa continuou descontraída e as risadas fluíram durante o jantar. Jin, sempre o carismático líder, fazia piadas o tempo todo — algumas boas, outras péssimas, mas todas de um jeito autêntico e estão emaranhadas no seu jeito estabanado. Kian, por outro lado, embora mais reservado, observava os outros com um olhar curioso, soltando comentários inesperadamente sábios que pareciam, muitas vezes, captar a essência das situações com precisão.
Mas, ao longo do jantar, Marina sentiu que algo estava diferente. Ela evitava olhar diretamente para Jin por mais de alguns segundos, mas sentia o olhar dele pousar nela de tempos em tempos. Não era intrometido nem intenso — mais como se ele estivesse apenas curioso, observando sem pressa de interagir, mas com um interesse genuíno.
— Tá quente, hein. Cuidado. — Jin alertou, lançando um olhar rápido para Marina, que estava mais concentrada no prato à sua frente do que em qualquer coisa ao redor.
As luzes foram diminuindo à medida que a noite avançava, e uma música suave começou a tocar de dentro da pousada. O som envolvia os sentidos como uma névoa leve, trazendo uma sensação de tranquilidade, mas também de algo inacabado, como se a noite ainda estivesse a se desenrolar.
As lanternas à vela, com a chama dançando suavemente, iluminavam os rostos dos presentes, criando um ambiente acolhedor e ao mesmo tempo misterioso. Todos estavam agora espalhados pelos colchões ao redor da mesa, com o vento do mar sussurrando ao fundo, como se quisesse se juntar à conversa. Havia uma sensação de suspensão no ar, como se aquele momento fosse o marco de algo maior, algo que se desenrolaria com o tempo.
— Vocês estão prontos pra dormir em camas penduradas sobre o mar? — perguntou Ji Ye-eun, tentando manter o clima descontraído com sua risada suave.
— Absolutamente não. — respondeu Jiyoon, fazendo todos ao redor rirem. — Mas vou fingir que sim.
O grupo riu, mas havia uma leveza no ambiente que contradizia a tensão que começava a se formar entre eles. Marina, por sua vez, estava distante do centro da conversa. Ela se afastou um pouco, sentando-se na beirada da estrutura que os suportava, com os pés balançando no vazio escuro do mar abaixo. O vento bagunçava seu cabelo e fazia com que a paisagem à sua frente parecesse ainda mais distante e indescritível.
Ela fechou os olhos por um instante, permitindo-se ser envolvida pela sensação de liberdade e desconexão. Era algo novo para ela, essa ausência de preocupações, de responsabilidades, de pressões externas. O programa estava se tornando mais do que um simples desafio — estava criando uma sensação de pertencimento e de descoberta.
— Bonito, né? — disse uma voz suave atrás dela.
Ela não precisou se virar para saber quem era. Era uma voz que ela já começava a identificar sem esforço, uma presença que parecia tão familiar quanto o som das ondas batendo na praia. Era Jin.
— É... bonito. E esquisito. Perfeito pro nome do programa. — Marina respondeu com um sorriso leve, não precisando de mais palavras para expressar o que realmente sentia. Ela não estava mais tentando esconder sua percepção da situação, nem se preocupando em ser perfeitamente controlada.
Jin se aproximou e se sentou ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas ao mesmo tempo confortável. Havia algo de natural no modo como ele se posicionava, sem pressa, como se estivesse compartilhando o momento, mas sem exigir nada em troca.
— Você não parece o tipo que se inscreve num reality show maluco desses. — Jin comentou com uma leve provocação na voz, observando Marina com interesse.
Ela olhou para ele, surpresa com a observação. Era verdade. Ela não parecia ser o tipo de pessoa que aceitaria entrar em algo tão imprevisível e caótico. Mas aqui estava, e o que era mais surpreendente, estava começando a gostar.
— E você não parece o tipo que cozinha com um nabo criminoso. — Marina respondeu, soltando uma risada, tentando manter o tom leve e brincalhão, mas com um toque de sinceridade. Afinal, Jin tinha feito exatamente o que ninguém esperava, e isso tinha seu charme.
Os dois riram, e por um momento, o som do mar foi a única coisa entre eles. Era quase como se o mundo lá fora tivesse desaparecido, e eles estivessem sozinhos, sem pressa, sem expectativas, apenas vivendo aquele instante.
— Acho que isso é a graça. — Jin disse, olhando para o horizonte com um sorriso tranquilo. — Quando a gente faz o que ninguém espera, coisas boas acontecem.
Marina mordeu o lábio inferior, pensativa. Ela sabia que havia algo mais no que ele dizia. Algo que tocava diretamente no que ela estava vivendo. Estava começando a entender que o caos ao seu redor, o inesperado, não era algo para se temer, mas para se abraçar.
Talvez fosse verdade. Talvez aquele fosse apenas o começo de um tipo de caos que ela ainda não conhecia... mas estava começando a gostar. Algo que se movia rapidamente, que quebrava as regras, mas que trazia com ele uma liberdade inexplicável.
Ela se afastou um pouco da beirada, voltando-se para o grupo. Jin ficou ali por um momento, observando o mar e refletindo sobre o que acabara de dizer. A noite estava no seu auge, e as estrelas acima pareciam mais próximas, mais reais, como se estivessem ouvindo e compartilhando os mesmos pensamentos.
O silêncio continuou, confortável, até que Marina falou novamente, desta vez com mais clareza, quase como se estivesse se convencendo daquilo para si mesma.
— Talvez o caos seja realmente o que a gente precisa.
Jin sorriu para ela, sua expressão suave e cheia de uma compreensão silenciosa. Não era uma resposta, mas o tipo de comunicação que só aqueles que estavam verdadeiramente conectados podiam entender.
O tempo passou, e, à medida que a noite avançava, todos se acomodaram nas camas penduradas sobre o mar, se preparando para o sono. O vento continuava a balançar as lanternas e as risadas ainda ecoavam na brisa. A atmosfera parecia leve, mas havia uma tensão crescente, uma sensação de que algo estava prestes a mudar. Marina, deitada, não conseguia parar de pensar no que Jin dissera, nas palavras dele sobre o inesperado e sobre o caos.
Talvez, finalmente, ela estivesse começando a ver o programa, e as pessoas ao seu redor, sob uma nova perspectiva.


CONTINUA...



Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? É, podemos dizer que eu surtei assistindo o programa da Netflix que o jin ta participando. mas em minha defesa, ele ta um gostoso e cozinhando é muito meu ponto fraco hahahaha. Espero que goste e não esquece de comentar, ok?

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AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.