Última atualização: 01/12/2017

Capítulo 1

A brisa fria denunciava a noite atípica da primavera. Normalmente, em um dia frio como aquele, àquela hora, ela estaria deitada em sua cama, ou no sofá da sala, embaixo de uma coberta quentinha, uma xícara de chá ou chocolate quente por perto, e um filme na televisão. Qualquer filme servia, apesar de ela preferir as comédias românticas, apenas por não apresentarem nada desafiador e cumprirem com o objetivo de distraí-la após um dia cansativo de trabalho. Ela amava o frio, mas preferia passá-lo no conforto de sua casa, não na rua ou num bar, sendo aquecida pelo calor humano, cercada pelo cheiro de cerveja e demais bebidas alcoólicas.
Estava ali há mais tempo do que gostaria, e não aguentava mais as risadas altas demais, as vozes gritando por todos os cantos, e as pessoas que pareciam incapazes de se desviar dela. Decidiu ir embora, apesar de saber que desapontaria levemente a melhor amiga – que à essa altura já deveria saber que ela já havia aguentado muito mais do que o esperado. Inventou uma desculpa qualquer, feliz por ver que a amiga estava entretida com um novo interesse amoroso, e fez seu caminho para fora do local.
Recebeu com alegria o vento frio da noite, terminando de enrolar o cachecol e abotoando o casaco em seguida. Tarefa que se tornou levemente perigosa quando ela decidiu fazê-lo enquanto andava, seu inconsciente provavelmente trabalhando para levá-la para longe daquele local o mais rápido possível. Entretanto, não foi para casa imediatamente, como teria feito normalmente. Ao contrário, permitiu-se caminhar pelas calçadas, observando os demais bares cheios, as pessoas conversando à porta, outras entrando e saindo de táxis à procura da próxima aventura, aproveitando a noite fria.
Havia uma praça arborizada logo a frente, e foi para onde ela andou. Gostava de passear ali nos fins de semana, principalmente quando estava quente. O local ficava cheio de famílias fazendo piqueniques, crianças correndo de um lado para o outro com amizades recém-formadas e que não durariam mais que uma tarde ensolarada. À noite, entretanto, a iluminação permitia o passeio de alguns casais andando sozinhos ou com seus cachorros, discutindo os detalhes da vida nova que começavam a formar.
Ela gostava daquilo, das pessoas, de observá-las em diferentes ambientes. Escolhia um banco e esperava para ver quem passaria a sua frente, e então criava histórias. Todas com finais inacabados, mas com bon inícios e meios. Fora um hábito que pegara do avô, quando saia para passear com o mais velho quando era criança.
Parou antes em um carrinho de rua que vendia bebidas quentes e pequenos lanches. Comprou um chocolate quente grande, pagou um pouco a mais para o homem, deixando o troco para ele, e então seguiu para a praça. Fora uma semana difícil para ela, talvez por isso tivesse aceitado a proposta de Louise para saírem e irem nesse bar que a amiga estava louca para ir há muito tempo. Mas se pudesse ser honesta sem magoar a melhor amiga, ela diria que o melhor plano para relaxar após a semana difícil era aquilo, um chocolate quente e um banco qualquer na praça. Naquela noite ela tentaria não pensar, tentaria deixar as pessoas viverem a história de vida delas. Tinha sua própria história, e sua própria vida para pensar.
Sentou-se na ponta de um banco, apoiando um braço no apoio de ferro que havia ao lado, e tomou um gole do chocolate quente. Não era o melhor que havia tomado na vida, não era o seu próprio, mas ainda era doce e quente, e serviu para aquecê-la. Fechou os olhos e suspirou. Ouvia os passos das pessoas passeando ao seu redor, alguns latidos ao longe, os murmúrios das conversas trocadas, o roçar das folhas nas árvores. Uma pessoa falando com ela.
- Posso sentar? – Ela abriu os olhos, levemente assustada, e encarou a figura parada na outra ponta do banco. Ele era alto e forte, uma mão escondida no bolso da calça de moletom, era a única peça de roupa que serviria para protegê-lo do frio, já que fora isso usava somente uma camiseta de manga curta. A outra mão segurava um copo, parecido com o dela, com alguma bebida fumegante, já que era possível ver a fumaça saindo pelo buraquinho. Ela ponderou se devia se sentir assustada ou não, uma parte de sua mente dizia que sim, mas outra – bem maior – lhe dizia que apesar de ser alto e forte, ele parecia inofensivo.
- Praça pública. – Ela respondeu, apontando o local livre ao seu lado. Tomando mais um gole de sua bebida enquanto o homem sentava. Ela encolheu-se em seu casaco involuntariamente, talvez sentindo o frio que ele deveria sentir por usar tão pouca roupa. Olhou ao redor, todos estavam devidamente agasalhados. Até mesmo alguns cachorros usavam roupinhas de frio.
- Eu não sou um ladrão, se foi isso que você pensou. – Ela o ouviu dizer.
- Acho que isso é algo que qualquer um diria, até mesmo um ladrão. – Ela respondeu, tomando mais um gole do chocolate quente.
- Bem pensado. – Ele respondeu, tomando um gole da própria bebida. – Mas eu juro que não sou. Só queria um lugar para sentar mesmo.
- Se manter em movimento é a melhor forma de se manter aquecido se não estiver vestido apropriadamente. – Ela apontou. Observando algumas poucas pessoas que corriam pela praça. Pela visão periférica ela viu que ele levantou o copo, como se aquilo fosse o suficiente para manter o frio longe.
- Se eu estou pouco vestido para o frio, você está vestida demais para ficar sentada num banco de praça bebendo café.
- Chocolate quente. – Ela corrigiu, abrindo um sorriso de lado. – E eu estava em outro lugar.
- Aposto que mais quente que essa praça.
- Quente até demais. – Ela respondeu. – Resolvi sair e vir para cá, ficar sozinha...
- Com seus pensamentos. – Ele completou a frase dela. Isso foi o suficiente para chamar a atenção da mulher, que virou o rosto para ele. – Eu faço isso muito. Principalmente à noite.
- Vai muito a lugares cheios e quentes demais?
- Não, meu apartamento. Muito vazio, muito quieto. Muito confortável.
- Agora isso eu acho difícil de acreditar. – Ela riu levemente. – Um lugar muito confortável no Brooklyn.
- Vindo de onde eu vim, você não acharia difícil. – Foi a resposta que ela teve. Ela mordeu o lábio inferior, tentada a perguntar sobre o passado do desconhecido, mas não sabia se deveria. Uma voz baixinha no fundo da sua consciência ainda lhe alertava de algum perigo. Mas talvez saber mais sobre ele fosse afastar essa sensação, não?
- Ok, eu vou morder a isca... De onde você veio?
- Teoricamente do Brooklyn mesmo. – Ele respondeu, soltando uma risada baixa logo depois. – Mas fazia um bom tempo que eu não vinha para cá.
- E onde esteve todo esse tempo?
- Na guerra. – Ele respondeu simplesmente, mas ela percebeu que havia mais por trás dessa resposta. Resolveu ignorar. O tom de voz do desconhecido e o peso daquela palavra, guerra, a fez pensar em outras coisas. Ela não sabia como seguir a conversa a partir daquele ponto e ele pareceu perceber. – Bela forma de acabar com uma conversa, hein?
- É uma forma bem eficaz. – Ela respondeu, acompanhando a risada que ele deu.
- Desculpe.
- Tudo bem, eu perguntei. – Ela tentou colocar em sua voz um pedido de desculpas, esperando que ele percebesse. – Nesse caso, eu aceito Brooklyn ser um lugar confortável.
- Obrigado.
O silêncio que se seguiu entre eles pareceu natural. Cada um tomando a própria bebida e observando as pessoas que passeavam pelo parque. Em determinado momento, ambos notaram uma criança, não deveria ter mais que quatro anos, perseguindo um cachorro grande e peludo, parecia um urso, mas possuía uma delicadeza com a criança que nunca haviam visto antes. Ambos sorriram diante a cena. Os pais da criança se desculparam pela menina, enquanto a dona do cachorro dizia não ter problema, claramente se divertindo com a menina que acariciava o pelo do cachorro com a mão que não era segurada pelo pai.
Ela se distraiu da cena ao ouvir uma risada baixa ao seu lado. Olhou em direção ao desconhecido e se surpreendeu ao vê-lo rir, observando a cena. Seu copo de bebida estava no espaço vazio entre eles, provavelmente sem mais nada. Ela arqueou a sobrancelha, não conseguindo conter um sorriso, contagiada por ele.
- É fascinante, não é? – Ele perguntou. – Não importa aonde você vá, por quantos infernos você passe, quanto tempo fique longe... Sempre há algo bom, não? Aquela pontinha de esperança. Aquela partícula de pureza.
- É o que digo para meus pacientes. – Ela confessou, sem nem pensar direito.
- Pacientes? – Ele perguntou.
- Ah, sim.... Eu sou psicóloga. – Ela disse, voltando a observar o ponto onde a criança e os pais estavam. O cachorro e sua dona já haviam ido embora. O silêncio que se seguiu pareceu diferente do anterior, ela mordeu o lábio inferior e olhou para o lado. O desconhecido agora tinha a cabeça baixa, parecia observar suas mãos apoiadas nas pernas. – Algum problema? – Ele pareceu surpreso por ouvi-la falar, levantando a cabeça e olhando para ela. Era a primeira vez que seus olhares se cruzavam, e ela ficou surpresa por ver, mesmo que estivessem em um ponto pouco iluminado, que os olhos dele eram de um incrível tom de azul.
- Nenhum, eu estava só... pensando.
- Se eu estava te analisando todo esse tempo? – Ela tentou brincar. – Relaxa, fora do escritório eu desligo esse meu lado.
- Não, não era isso..., mas obrigado por já me tranquilizar. – Ele deu um sorriso sem graça.
- O que foi, então? – Ela estava curiosa de verdade. Esse lado ela nunca conseguia desligar.
- Ironias da vida. – Ele disse, após ficar em silêncio por mais um tempo. – Desde que eu... voltei, já passei por tantos psicólogos que já perdi as contas. Já estava até irritado, na verdade, cansado de ter que sempre passar por um. E então eu sento ao lado de uma. – Ela sorriu, desviando o olhar dele e olhando ao redor. Sua mente parecia perturbada com algo que havia escutado, uma palavra que ele havia falado não parecia certa. Sabia que ela deveria não insistir no assunto, ele provavelmente já estava criando alguma desculpa para sair dali e nunca mais voltar a encontra-la na vida, insistir no assunto talvez só o desse mais motivos.
- Desculpe, eu sei que eu acabei de dizer que desligo meu lado psicóloga, mas algo que você disse... eu não consigo ignorar. – Ela disse, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha, algo que ela sempre fazia quando fazia uma pergunta do tipo para seus pacientes. – Você disse “ter que sempre passar por um”. O que quis dizer com ter? Você pretende voltar à guerra e é uma obrigação para conseguir autorização?
- Quase isso. – Ele disse. Foi a vez dele morder o lábio inferior e desviar o olhar. – Talvez eu não tenha sido completamente honesto com você. – Ele se virou no banco e estendeu a mão, talvez aquilo ajudasse. – Sou Steve Rogers.
- Ah meu Deus. – Ela disse. Ele conseguiu acompanhar a informação sendo processada por ela, enquanto ela mantinha os olhos fixados nele e a boca semiaberta. A primeira emoção foi desconfiança, depois a confirmação, e então a surpresa.
Seu cérebro estava travado. Parecia seu notebook velho que vivia dando problemas. Travava a todo momento, sempre que ela precisava salvar um trabalho importante. Seu cérebro estava igual, mas no momento processando a informação que havia acabado de receber.
Para muitas pessoas aquele nome seria só mais um, sem qualquer imagem associada a ele. Era apenas um nome. Nada mais. Mas não para ela, não para sua versão adolescente fascinada por quadrinhos e aulas de história. Steve Rogers. Ela estava na presença de Steve Rogers. Ela estava sentada num banco, tomando chocolate quente e conversando casualmente com...
- Capitão América. – Ela conseguiu dizer após um longo tempo. – Meu Deus! – Ela piscou várias vezes, aos poucos voltando a si e percebendo como deveria estar sendo muito rude. Ele deveria odiar aquele tipo de reação. – Desculpe. – Ela pediu, passando as mãos no cabelo e respirando fundo, voltando ao normal. – Você deve odiar esse tipo de reação.
- Honestamente, já vi piores. – Ele sorriu. – Eu deveria ter falado antes.
- Talvez, teria feito mais sentido o início da nossa conversa. – Ela disse, sorrindo sem graça. Teria feito muito mais sentido. Eles ficaram em silêncio e ela suspirou, só então percebendo que ainda não havia se apresentado. – Sou , aliás.
- Prazer conhece-la. – Ele disse, voltando a estender a mão, que ele havia recolhido enquanto ela reagia à nova informação.
- Igualmente. – Ela apertou a mão dele. Sabia que soaria muito patética se dissesse que o prazer era todo dela. Só sua reação já era o suficiente para ele saber, ou desconfiar, que ela era uma fã. Não precisava confirmar e mostrar a carteirinha de integrante do fã-clube. Não que ela fizesse parte de um fã-clube, e não que tenha faltado vontade quando era adolescente.
- Você acha que foi destino?
- O que? Você passar por uma grande quantidade de psicólogos, rejeitar todos e então sentar ao lado de uma? Talvez. Até hoje não tenho uma opinião formada sobre essa coisa de destino.
- Como sabe que rejeitei todos os psicólogos? – Ele questionou.
- A forma como você disse. Talvez não tenha rejeitado todos diretamente, mas fez com que eles fossem rejeitados. – Ela disse, na verdade fora apenas um palpite. – Quer me contar o que eles fizeram para você?
A pergunta pairou no ar. Steve havia voltado a se sentar para frente, agora havia se inclinado para frente, com os antebraços apoiados nas pernas. Olhava o chão fixamente, provavelmente pensando nas inúmeras razões para não conseguir lidar com os diversos psicólogos pelos quais havia passado. Ela mordeu o lábio inferior, nervosa, esperando por alguma resposta. Sabia que estava em terreno delicado, não era muito inteligente permanecer pressionando a ferida. A qualquer momento ele poderia levantar e ir embora, e então ela ficaria só com aquela vaga lembrança daquele encontro inesperado.
- Quando você se encontra com um novo paciente – ele começou, ainda mantendo o olhar fixo no chão. Ela se aprumou no banco, prestando atenção. – Qual é a primeira coisa que você tenta estabelecer com ele?
franziu o cenho, não sabendo se havia entendido direito o que ele realmente queria saber. Havia tantas possíveis interpretações para aquela pergunta. Estabelecer uma rotina de encontros, um padrão de comportamento, uma conexão... Ela estava confusa.
- Não sei se entendi. – Confessou. – Estabelecer... Como assim?
- Entre você e seu paciente, para que ele volte sempre, para que ele se sinta confortável em se abrir com você. O que você faz? – Então ela entendeu.
- Confiança. – Ela disse. – Sim, essa é uma das coisas fundamentais nesse tipo de relação. – Na verdade, em todas as relações, mas na profissão dela era imperativo. – Se meu paciente não confia em mim, não posso fazer nada para ajudá-lo.
- Exatamente.
- Quer dizer que nenhum de seus psicólogos tentou construir essa confiança? – Ela questionou.
- Acho difícil confiar em alguém que responde a outro alguém, que quer me manter como algum tipo de arma. – Ela franziu o cenho, então suspirou. Era óbvio. Como poderia ter se esquecido daquele detalhe?
- A S.H.I.E.L.D. lhe designava seus psicólogos. Faz sentido. – Ela disse. Organizações como aquela geralmente exigiam de seus médicos relatórios mensais, as vezes semanais, sobre seus pacientes. Normalmente forçando-os a quebrar o sigilo entre paciente e médico. – Sinto muito por isso.
- Não posso culpá-los, não é? Os médicos, digo... Eles estão apenas seguindo ordens, fazendo o trabalho deles.
- Há quanto tempo está de volta?
Ela lembrava-se de quando leu sobre a queda do Capitão, como ele fora dado como morto. Após isso, sempre houveram muitas especulações sobre sua volta. Havia diversos rumores, fotos que provavam que o Capitão estava na Alemanha, ou em algum lugar das Américas. Mas nada concreto. Teorias sobre o Capitão e seu paradeiro só não eram maiores que teorias sobre alienígenas e suas “visitas” à terra. pesquisava muito sobre isso, o Capitão América fora um herói sempre muito presente na vida dela, veio de seu avô – que estava vivo na época em que o Capitão surgiu –, que passou para seu pai e, então, para ela, a filha única. Ela nunca se sentira ressentida, gostava muito de ler e reler as revistas em quadrinho sobre o super-soldado, de ler os livros de história e tentar encaixar o homem nos acontecimentos. Possuía até mesmo um boneco do soldado em seu escritório, aquilo era uma relíquia, passado para ela da mesma forma que a paixão pelo herói.
- Quase um mês, acho. – Ele disse.
- E como tem sido?
- Quanto você vai me cobrar? – Ele perguntou, rindo em seguida. Só então ela percebeu como, sem querer, havia deixado a psicóloga dominar a conversa enquanto sua versão “normal” relembrava a infância e adolescência brincando com os bonequinhos do Capitão América e lendo as histórias.
- Desculpe. – Ela disse, sorrindo sem graça. – Às vezes é mais forte que eu. – olhou para o relógio em seu pulso e assustou-se pela hora tardia. Olhou ao redor e notou que o movimento na praça havia diminuído consideravelmente.
- Está tarde. – Steve também notou.
- Sim. – Ela concordou, pegou o copo que antes continha seu chocolate quente e suspirou. Estava tarde, ela deveria ir embora, mas algo a prendia.
- Quer que eu te acompanhe? Quero dizer, se você já acreditar que não sou um estuprador. – Ela riu com aquele comentário.
- Não quero te tirar do seu caminho. – Ela disse. Levantou-se e notou que havia uma lata de lixo perto do banco que ocupavam, foi até lá para jogar fora seu copo. Ao voltar, notou que Steve também estava em pé, seu copo ainda em mãos.
- Prefiro desviar do meu caminho a te deixar andando sozinha por ai.
- Não consegue deixar de lado o herói, não é mesmo? – Ela perguntou e sorriu. – Não moro muito longe daqui. – Apontou para a direção que ficava seu prédio, completamente oposta à da praça.
- Vai contra a educação que recebi. – Steve disse, respondendo à brincadeira anterior que ela havia feito.
O caminho até o prédio onde ela morava foi silencioso. Eles passaram em frente ao bar onde ela estava antes e ela notou que Louise e sua turma ainda estavam lá. Ela suspirou, chamando a atenção de Steve, então explicou rapidamente que estivera ali horas antes. Ele pareceu achar engraçada aquela informação, talvez achando difícil imaginá-la naquele lugar, não tentaria provar que ele estava errado. Era difícil mesmo. Do bar até o prédio não demorou muito, só mais duas quadras e lá estavam, naquele silencioso constrangedor.
- Lugar bacana. – Ele disse, notando a estrutura e o estilo do prédio. Muitas coisas haviam mudado no mundo desde que ele fora congelado, mas o Brooklyn, de alguma forma, parecia ainda resistir à mudança. Com exceção de uma coisa e outra, um restaurante aqui, uma indústria ali, as coisas pareciam iguais ainda. Talvez por isso ele não pensara duas vezes antes de confirmar a Fury que permaneceria no apartamento que lhe entregaram, após ele sair da cabana isolada de tudo e todos, a qual a S.H.I.E.L.D. chamava de Retiro, o lugar mais impróprio para alguém que ficara longe do mundo por tanto tempo. Mesmo desconfiando que o local todo estivesse cheio de escutas e proteção para garantir a segurança dele.
- Mudei para cá logo no começo da faculdade. Minha amiga procurava por alguém para dividir o aluguel, na época éramos completas desconhecidas uma para a outra. Eu fui a única a responder o anúncio dela. – Ela explicou, ambos sabiam que aquilo era só uma tática para adiar o inegável momento da despedida. Há muito que os dois não sabiam o que era ter uma noite tranquila como aquela. suspirou. – Está tarde, eu deveria subir.
- Sim, sim. – Steve disse, apesar de querer pedir para que ela ficasse mais um pouco. Talvez eles pudessem atravessar a rua e sentar no banco do ponto de ônibus que havia em frente ao prédio e continuarem a conversar. Era algo do qual ele sentia falta, alguém para conversar.
- Bem... Obrigada pela companhia. Boa noite. – disse, sem saber se deveria abraça-lo, dar um beijo em sua bochecha ou só apertar a mão do soldado. Decidiu então por simplesmente dar as costas e subir os três degraus até a porta de entrada do prédio.
- Boa noite. – Steve disse, acompanhando os movimentos da mulher. Ficaria ali até que ela entrasse no prédio. Franziu o cenho quando notou que ela havia parado.
Encarando a porta, a mão dentro da bolsa à procura da chave, parou e mordiscou o lábio inferior. Enquanto remexia a bolsa, seus dedos tocaram na caixinha que ela carregava para todos os cantos e que continha seus cartões de visita. Perguntou-se se ofenderia o soldado se oferecesse um a ele. Afinal, Steve dera a entender que estava cansado de psicólogos, mas e se...
- Está tudo bem? – Ela ouviu Steve perguntar. virou-se para ele e sorriu, resolveu arriscar.
- Eu sei que você não pediu. Aliás você parece querer evitar isso a todo custo, mas... – Ela desceu os degraus, tirando a caixinha da bolsa enquanto o fazia. Abriu a mesma e pegou um cartão. Estavam acabando, ela precisava repor. – Caso queira alguém para conversar, prometo fazer um bom preço para você. – Ela brincou, relembrando a piadinha que ele fizera enquanto estavam no parque. Estendeu a mão, entregando ao soldado o cartão com seu nome, o endereço de seu consultório e o telefone para contato.
- . – Ele leu, após pegar o cartão da mão dela. – Talvez eu aceite.
- Ligue quando estiver pronto. – Ela disse, sorrindo. Em seguida voltou a lhe dar as costas, subiu os degraus, pegando as chaves enquanto o fazia. – Boa noite. – Ela disse, antes de abrir a porta do prédio e entrar.
- Boa noite. – Ele disse, alto o suficiente para que ela ouvisse. Olhou para baixo, para o cartão que ela havia lhe entregado.
Ligue quando estiver pronto.
Quando estiver pronto.
Estava ali o que ele havia procurado em todos os psicólogos que a S.H.I.E.L.D. havia designado para ele e Steve não havia encontrado. A conexão. Talvez ainda fosse cedo demais para dizer, mas havia a confiança. Em algumas horas, ele já havia se sentido mais confiante para se abrir com do que com dias e dias daqueles psicólogos. Ele havia acabado de acordar naquele mundo novo, havia tanto para se ajustar, para conhecer e eles não se importavam com isso. Mas , ele sentira, fora diferente. Ela foi com calma, e ele sentia que era daquilo que precisava.
Novamente desejou que ela voltasse e eles ficassem sentados no ponto de ônibus conversando. Steve sabia que não dormiria tão cedo, desde que acordara essa era a coisa que menos fazia. Não conseguia desligar seu cérebro o suficiente para conseguir descansar. Haviam muitas informações, muitas coisas que ele havia perdido naqueles anos todos. Como poderia dormir após ter ficado nesse estado por setenta anos?
Steve suspirou, guardou o cartão no bolso da calça e fez o caminho de volta. Talvez pudesse gastar algumas horas desenhando ou lendo os livros de história para ficar por dentro dos acontecimentos que perdera após o fim da guerra – algo que ele havia se habituado a fazer para lidar com as noites de insônia.

Da janela da sala do apartamento no segundo andar, viu o momento em que Steve guardou o cartão e foi embora. A psicóloga suspirou, só então se dando ao direito de surtar apropriadamente por ter acabado de conhecer o Capitão América. Se ainda estivessem vivos, seu avô e seu pai não acreditariam a menos se ela mostrasse uma foto, mas para isso teria que esperar um longo tempo. Ela suspirou e olhou a estante que havia na sala, as prateleiras superiores pertenciam a ela, e duas delas estavam cheias de coisas relacionadas ao herói. Alguns bonecos de ação, uns quadrinhos e alguns livros sobre a Segunda Guerra Mundial. Louise costumava dizer que ela era louca, e fascinada mais que o normal no assunto, mas não se importava, era sua forma de se manter conectada com o avô e o pai, duas figuras que lhe faziam muita falta.
Olhou o relógio e respirou fundo, já prendendo o cabelo longo em um coque. Só agora começava a sentir o cansaço chegando, o primeiro bocejo surgiu enquanto caminhava para o quarto a fim de pegar o pijama. Ao chegar ao banheiro, ela já imaginava o banho quente que tomaria e depois sua cama, igualmente quentinha, lhe esperando. Ao se deitar e fechar os olhos, voltou ao momento em que seus olhos e os de Steve se encontraram, o brilho daquele azul permaneceu em sua mente mesmo após a imagem do dono desaparecer. Inconscientemente, ela sorriu antes de cair num sono profundo.

Capítulo 2

- Eu não entendo.
- Entende o que?
- Você já sabe quem eu sou, por que precisa que eu diga tudo?
Ela suspirou e tamborilou com os dedos no braço da poltrona que ocupava. Estavam ali há mais de meia hora e não haviam saído da apresentação básica, mal haviam começado. sabia que era um grande risco aceitar aquilo, e que haveria complicações. Ela só não imaginava que seriam tantas.
Fazia quase duas semanas que ela e Steve Rogers haviam se encontrado naquela praça. Ela levara alguns dias para aceitar o fato de que realmente havia conhecido o herói de infância. E então, com o passar dos dias, ela aceitou que talvez aquilo fora um evento de uma noite só e que Rogers provavelmente havia jogado seu cartão na primeira lixeira que encontrou no caminho de volta para casa. Tal pensamento ficou tão fixo na mente dela que quando ele ligou, uma semana após a noite da praça, para agendar uma consulta, ela achou que fosse um trote. Ainda que não houvesse contado a ninguém que eles haviam se conhecido. Mas não era um trote, e Steve realmente queria uma consulta com a psicóloga, desde que mantivessem os encontros em segredo. Assim, ela agendou para seu último horário sobre um nome vago que não alarmaria nenhuma das recepcionistas que trabalhavam no consultório onde ela atendia. E, por ser o último horário, era bem provável que nenhuma delas ficaria para presenciar o encontro entre eles.
Pelo resto da semana ela aguardou ansiosa por aquele dia. Pesquisou mais sobre o soldado, procurando algum detalhe que ainda não soubesse sobre ele. Entretanto, percebeu que era uma tarefa extremamente difícil, já que não conseguia discernir a ficção da realidade no caso dele. Resolveu então pesquisar por fatos sobre a Segunda Guerra Mundial e os distúrbios psicológicos que surgiram na época. Ela já desconfiava que o primeiro quadro que Steve apresentaria seria o de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, e ela havia lidado com pouquíssimos pacientes naquela situação. Passara noites acordada pesquisando sobre qualquer doença mental que o soldado poderia desenvolver. Até que Louise interviu. Mesmo sem saber o que havia causado tal mudança no comportamento da amiga, Louise a fez perceber a razão e parar de antecipar o que viria a acontecer. Cada paciente era um paciente e eles sempre a surpreendiam, Louise lembrou, de nada adiantaria a incansável pesquisa que ela estava fazendo. Qualquer coisa só faria sentido após o primeiro encontro.
E ele finalmente havia chegado. Na noite de quinta-feira, Steve Rogers apareceu vestindo uma calça jeans, camisa cinza de manga curta, boné e óculos de leitura. teve que segurar a risada ao ir abrir a porta para ele, o consultório completamente vazio. Se a intenção dele era se esconder na multidão, ele não estava fazendo um bom trabalho. Já não ajudava o fato dele ser alto e muito forte.
- Seja bem-vindo. – Ela disse, guiando-o até sua sala.
O ambiente era simples, havia uma chaise longue próxima a janela, uma poltrona ao lado, outra de frente para os dois móveis, com uma mesinha, que continha apenas um abajur e um bloco de notas com uma caneta, ao lado. Em um canto afastado havia uma mesa de vidro, com um computador e alguns livros abertos. Ao lado da porta tinha uma estante com livros relacionados a psicologia, alguns porta-retratos e um globo de neve que seu avô lhe dera quando voltara de viagem da Alemanha. A única novidade ali era o globo, que substituía um boneco do Capitão América que ela havia se lembrado de retirar no último minuto.
- Desculpe a bagunça. – Ela apontou para os diversos livros abertos em sua mesa. – Eu estava revendo um caso para um diagnóstico, perdi a noção do tempo.
- Se isso é bagunçado, meu apartamento deve ser um cenário pós-apocalíptico. – Steve comentou, fazendo sorrir.
- Fique à vontade, eu só preciso organizar aqui. – Ela disse, indo até a mesa e começando a fechar os livros. Na verdade, não precisava realmente organizar aquilo, mas ajudava a mantê-la calma para o início da consulta.
- Alguém aqui é fã de guerras. – Steve comentou, chamando a atenção da psicóloga.
- Desculpe? – Ela perguntou, desviando o olhar dos livros que fechava e focando no soldado. Percebendo que ele olhava a prateleira no alto de sua estante, aquela que continha alguns livros não relacionados à psicologia.
- Segunda Guerra... Grande fã? – Ele perguntou, apontando para dois volumes grossos sobre o assunto.
- Ah, desculpe, eu deveria ter tirado eles daí. – Ela disse, sorrindo sem graça.
- Não precisava, eu gosto também. – Ele confessou. – Nunca tinha visto esses dois.
- Você gosta?
- Bem, é sobre a minha época... Gosto de saber o que eles contam sobre. – Steve confessou. – Qual é a sua justificativa? Ou você comprou só para me estudar? – sorriu, recostando-se à mesa, de frente para Steve.
- Meu avô, ele era dessa época e sempre gostou do assunto, ele preferia a primeira, porque não a viveu. – Ela disse. – Meu pai herdou esse gosto dele, focando nas duas, e eu fiquei com a segunda. Sou apaixonada por história num geral, mas a Segunda Guerra me fascina um pouco mais. Sou estranha, eu sei. – Steve sorriu, e balançou a cabeça, não a achava louca, principalmente após ver o brilho nos olhos dela enquanto falava sobre os familiares.
- Desde que você não defenda o Hitler, você é completamente normal.
- Deus me livre. – Ela disse, sentindo o corpo todo arrepiar só em ouvir o nome do líder nazista. – Enfim, eu deveria voltar, estamos atrasados já.
- Claro, porque a fila de pacientes que você tem depois de mim está virando a esquina. – Steve respondeu, não economizando no sarcasmo. riu e revirou os olhos, terminando de fechar e empilhar os livros que deveria voltar a consultar. Depois indo até a estante para devolver os que não lhe seriam mais úteis. – Onde devo me sentar? – Steve perguntou, percebendo que ela já estava terminando seus afazeres.
- Onde se sentir confortável. – Ela disse, sem dar muita atenção.
Steve ainda ficou em pé um tempo, observando o resto da sala que era ocupada pela mulher. A decoração era bem simples, alguns poucos quadros, e uns pequenos vasos de planta na beirada da janela. O soldado sabia que não conhecia a psicóloga por muito tempo, mas a sala parecia combinar com ela. Ele olhou as opções que tinha e optou por ocupar a poltrona, sentando-se e recostando-se na mesma, observando a mulher ir e vir algumas vezes antes de finalmente parar e se contentar com a organização da sala.
suspirou, passou as mãos no cabelo rapidamente e caminhou até um pequeno carrinho próximo à mesa que ele não havia notado. Havia uma jarra com água e alguns copos. Ela perguntou se ele queria algo, recebendo uma negativa como resposta. A psicóloga serviu-se de água e esvaziou o copo antes de, finalmente, ocupar a poltrona em frente a Steve. Cruzou as pernas, colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha – exatamente como havia feito na praça, ele notou – e então olhou para seu paciente.
- Pronto? – Ela perguntou.
- Se você estiver. – Ele respondeu. Havia feito aquilo mais vezes do que poderia contar, mas de repente não sabia como agir. Seus psicólogos anteriores todos tinham um gravador e um bloco de notas no colo, canetas a postos, prontos para anotar o que o soldado dissesse. Mas não . Ele havia notado o bloco de notas na mesinha ao lado da poltrona dela, e esperou que ela o pegasse e começasse a lhe fazer perguntas, mas ela simplesmente o encarava de forma pensativa. – O que devo fazer?
- Pergunte alguma coisa. – Ela disse, surpreendendo-o completamente. – Qualquer coisa que queira saber sobre mim, ou até sobre nossas consultas. Só não pergunte minha cor favorita. Ou qualquer coisa que as pessoas têm como favorita.
Aquilo o pegou de surpresa. Ele estava acostumado com os outros lhe fazendo perguntas. Como ele estava se sentindo? Sentia-se perdido? Tinha pesadelos? Como era o padrão de sono dele? Como se sentia no novo mundo? Ele havia aprendido a odiar aquela expressão, aliás. Mas nunca ninguém pedira que ele fizesse uma pergunta, e ele tinha muitas. Mas de alguma forma sentia que não deveria desperdiçar sua chance em uma pergunta banal, como perguntar à psicóloga sobre a internet. Ou a quantidade absurda de séries que existia na televisão. Ele resolveu voltar à noite da praça. Já havia revivido aquele momento tantas vezes que já decorara todos os detalhes.
- Aquela noite na praça – ele começou, após muito pensar. – Quando eu lhe disse quem eu era. Você reagiu de forma... Curiosa. Como se estivesse em frente a alguém de quem você é muito fã. – Ele disse, sentindo-se levemente constrangido por perguntar aquilo, imaginar-se como ídolo de alguém. – Você é? Uma fã, quero dizer. Minha, obviamente, caso não tenha ficado claro.
mordeu o lábio inferior, tentada a mentir, mas algo lhe dizia que ele já havia se convencido de que aquilo era verdade. E, afinal, qual era o problema em confessar? Tinha certeza de que não era a única nesse mundo que era fã do Capitão América. Ele já a havia absolvido de sua fascinação pela Segunda Guerra, talvez se ela voltasse a culpar o avô e o pai por aquilo, ele voltaria a perdoá-la por mais aquela estranheza dela.
- Sim. – Foi honesta. – Aliás... – Levantou-se de sua poltrona, foi até a mesa e abriu a primeira gaveta, retirando de lá o boneco do soldado que ficava antes em sua estante. – Isso estava no lugar do globo de neve. – Ela jogou o boneco para ele. – Eu guardei, não queria que as coisas ficassem estranhas... Ainda mais.
Steve sorriu, observando o boneco em sua mão. Ele parecia ser antigo, alguma edição rara provavelmente, já que nunca havia visto um como esse – e ele havia visto vários desde que voltara. O soldado olhou para a estante, no lugar onde estava o globo de neve e imaginou o boneco lá. De alguma forma, parecia combinar mais do que o objeto novo.
- Estou curioso para saber a história por trás desse fanatismo todo. – Ele disse, olhando para a mulher, que havia voltado para sua poltrona.
- Meu pai sempre quis um filho, meu avô sempre quis um neto. Não tiveram, então eu recebi toda a influência deles. As guerras e os heróis. Eles gostavam de outros, mas por algum motivo eu sempre gostei mais do Capitão América. – Ela confessou. – Tenho todas as revistas em quadrinhos. – Ela acrescentou, sentindo o rosto esquentar logo em seguida. – Não sei por que disse isso.
- Está tudo bem, eu gosto de saber. – Steve disse. – Pelo menos você não ficou me assistindo dormir e descongelar. – Ele comentou, relembrando o relato de um dos agentes da S.H.I.E.L.D. – Posso fazer uma segunda pergunta?
- A vontade.
- Por que começar assim? Geralmente vocês que fazem as perguntas.
- É uma forma de quebrar o gelo. – disse. – Tive um professor na faculdade que sempre dizia que tínhamos que quebrar o gelo inicial, que era a diferença entre um psicólogo qualquer e um ótimo psicólogo. Mostre ao paciente que a relação que vocês criarão não precisa ser estritamente profissional. Relaciona ao lance da confiança que conversamos. – Steve assentiu, compreendendo e gostando daquela ideia. – Acredite ou não, mas tivemos uma avaliação em que tínhamos que criar nosso quebrador de gelo. Essa foi minha ideia. Ele gostou muito da proposta, mostrava que o paciente e o médico tinham direitos iguais. Desde que mantivessem certos limites, claro.
- Limites?
- Geralmente estão implícitos. Apesar de criarmos essa relação mais próxima, ainda somos profissionais. Então, esperamos que o paciente tenha essa consciência. – Ela explicou. – Dizer “faça uma pergunta” e permitir que qualquer coisa seja questionada é muito amplo, então a gente joga na esperança de que o paciente saiba que há um limite. – disse, percebendo que Steve parecia realmente interessado. – Também ajuda a dar um início na análise. O que uma pessoa pergunta quando pode questionar sobre qualquer assunto... Isso é importantíssimo.
- O que você concluiu da minha pergunta? – Steve perguntou, surpreendendo-a.
- Estou dividida. – Ela confessou. – Uma parte quer acreditar que você passou muito tempo pensando nisso. Outra pensa que talvez você queira saber ser ainda tem fãs, mesmo tendo passado tanto tempo. Quer saber se você ainda tem algum efeito nas pessoas. – Eles ficaram em silêncio por um tempo. mordeu o lábio, talvez estivesse na hora dela começar a fazer as perguntas. – Então, qual parte minha está certa?
- No início, a primeira. – Steve respondeu. – Mas agora que você apontou a segunda, talvez seja isso também. – esperou ao perceber que ele parecia ter mais coisas para dizer. – Quero dizer, sei que passaram setenta anos, mas... Se ainda há bonecos sendo feitos e histórias sendo escritas, talvez eu ainda signifique algo, não é?
- Talvez. – Ela ponderou. – Isso é importante? Significar algo.
- Quero achar que não. – Steve respondeu, observando o boneco que ainda estava em sua mão. – Mas desde que voltei estive acompanhando as notícias, o passado e o presente... Mudaram o nomes, a aparência, a forma de se vestir e falar, mas nada realmente parece ter mudado. Acho importante ter algo que signifique alguma coisa, sabe?
- E o que você gostaria de significar? – Ela já estava cansada daquela palavra, mas não conseguia pensar em outra, e tampouco importava, desde que chegassem a alguma conclusão. Aquele não era exatamente o início que ela gostaria de ter com Steve, mas precisava seguir o rumo que a conversa levava, ou poderia retroceder com ele. E eles mal haviam avançado.
- Esperança, talvez.
- Era isso o que você queria no começo? Lá em 1940? Ser um símbolo de esperança? – Haviam chegado ao ponto do qual ela queria ter iniciado, ainda não estava no rumo que ela queria, mas estavam perto.
- Na verdade, eu só queria fazer algo importante. E não ficar lendo as notícias nos jornais. Ver as pessoas partindo sem perspectiva de retorno. Pessoas perdendo entes queridos. E eu ali, só assistindo tudo. – O silêncio se estendeu pela sala, Steve desviou os olhos do boneco em suas mãos para a mulher a sua frente, ela pareceu surpresa por ele ter focado sua atenção nela. Franziu o cenho quando viu que ele havia feito o mesmo. – Você não vai anotar nada? – Ele apontou para o bloco de anotações.
- Eu não gosto de fazer anotações enquanto conversamos. Sinto que fico mais distraída e posso perder algo. – Ela disse. – Sorte que tenho boa memória, depois escrevo tudo.
- Então por que o bloco ao lado?
- Às vezes alguns pacientes pedem para anotar alguma coisa. – Ela deu de ombros. – É sempre bom ter um papel e caneta por perto. – deu a ele mais um tempo antes de retomar o assunto. Precisavam prosseguir com a consulta, ela precisava de mais informações para saber como seguir com os encontros. – Estávamos falando de 1940. Que tal começarmos daí? Ou você pode contar um pouco sobre sua infância.
O silêncio que se seguiu foi ainda maior. Steve abaixou a cabeça ao ser questionado sobre a época de 1940 e sua infância. Estava acostumado a ouvir os psicólogos da S.H.I.E.L.D. perguntando sobre aquilo, de alguma forma não esperava que tocasse naquele assunto.
- Steve? – Ela o chamou.
- Eu não entendo.
- Entende o que?
- Você já sabe quem eu sou, por que precisa que eu diga tudo? – Ele observou enquanto ela tamborilava com os dedos, percebendo que ela não parecia feliz com aquela reação dele.
- Eu não sei quem você é, Steve. – disse, honesta. – Ou você vai me dizer que todos aqueles quadrinhos que eu li são representações fiéis de todos os seus feitos? Inclusive aqueles escritos enquanto você esteve congelado.
- Honestamente, eu não sei, nunca li um. – Ele confessou.
- Você quis saber se eu comprei os livros sobre a guerra para saber sobre você. – apontou. – Eu não o fiz, mas eu tentei pesquisar sobre você. E sabe o que eu encontrei? Incertezas. A internet é incrível, aposto que você está usando muito para ficar por dentro de tudo, mas também sei que muitas vezes você tem dificuldade para saber o que é real e o que é ficção. – Ela viu pela expressão dele que teria se dado bem naquela aposta. – Foi como me senti enquanto pesquisava sobre você. – Seu tom de voz era calmo, até baixo, compreensivo. Se ele quisesse, poderia até interpretar que ela pedia desculpas por fazê-lo reviver aqueles anos, sua infância. – Então, Steve, eu não sei quem você é. Mas gostaria muito de conhecer. Se você me der essa chance.
Como ele poderia negar? Entendia perfeitamente o que ela dizia por não saber discernir ficção e realidade. Ele mesmo quando fora apresentado a internet pesquisara sobre ele e sentira-se completamente perdido. Quase tivera uma crise de identidade ao ler tantas versões tão diferentes dele próprio. Como as pessoas conseguiam inventar tantas coisas? Havia questionado diversas pessoas na S.H.I.E.L.D. sobre os mais diversos assuntos a fim de confirmar se era real ou não. Existia muitas realidades que ele preferia que fossem mentira, e o oposto também era verdadeiro.
O problema em concordar com era não saber por onde começar. O que havia de sua infância? Mas também o que havia de 1940 em diante? Desde que voltara ainda não conseguira colocar em ordem seus pensamentos sobre essa época. Se pudesse ser completamente honesto, ele preferia não pensar no passado, havia perdido muito, e mesmo que tivessem passado setenta anos, foram setenta anos dele congelado, então aquelas feridas ainda não haviam se cicatrizado.
- Meus pais morreram quando eu era adolescente. – Ele disse. o esperou pacientemente durante o tempo em que ficou em silêncio. Era algo que ele gostava nela, a paciência dela. Provavelmente já estavam para estourar o tempo da consulta, mas algo lhe dizia que ela não o interromperia. – Eu cresci praticamente sozinho.
- Praticamente?
- Havia um amigo, e a família dele que sempre foi boa comigo. – Ele disse, engolindo em seco ao lembrar-se do melhor amigo. – Posso ter um pouco daquela água agora?
levantou-se e foi até o carrinho, servindo um copo de água para Steve e depois levou até ele, observando ele tomar o líquido calmamente após voltar a ocupar sua poltrona. Ela sabia que aquele assunto era delicado, era uma das coisas que havia encontrado sobre o soldado e que sabia ser verdade. O amigo de infância que havia morrido durante uma missão. deixou que ele levasse o tempo que fosse preciso para ingerir o líquido, independente de quem estava sentado à sua frente, aquele assunto e a forma como agir diante dele era padrão: dar tempo ao paciente. Muitos colegas da área e até alguns professores aconselhavam a tentar abordar outro assunto e deixar esse para trás. Mas sempre preferiu lidar com as coisas à medida em que elas apareciam, adiar um problema só causava ainda mais dor.
- Barnes, certo? – Ela perguntou, lembrando-se de ler aquele nome durante sua pesquisa.
- Sim. – Steve disse, apoiando o copo no braço da poltrona. – Nos alistamos juntos pela primeira vez, ele foi convocado e eu rejeitado por causa dos inúmeros problemas de saúde. Ele pediu para que eu não tentasse mais me alistar. Sempre querendo me proteger. – O soldado sorriu, lembrando-se do protecionismo do amigo. – Claro que não ouvi.
- Claro que não. – sorriu, mas não durou muito. – Como foi se alistar?
- Difícil. Fui rejeitado inúmeras vezes. – Steve confessou, lembrando-se das mentiras que havia contado nos formulários de inscrição. – Quando finalmente consegui, pareceu até mentira, algum tipo de pegadinha. Só depois eu fui descobrir que havia um motivo por trás daquilo.
- E como foi descobrir isso? – perguntou. Internamente ela travava uma batalha entre encher o soldado de perguntas sobre esse período e manter o lado profissional. Era mais difícil do que ela imaginava, manter a curiosidade de lado. Ela tinha que se lembrar toda hora que eventualmente ela acabaria descobrindo todos os detalhes, até mais do que gostaria, bastava ter paciência.
- Foi assustador. – Steve assumiu. – Eu não sabia o que esperar, não fazia ideia. Poderia dar muito certo ou muito errado. Só me restava ter fé e acreditar.
- Em algum momento pensou que Barnes poderia estar certo em te manter fora disso tudo? – Isso o fez rir, e pela primeira vez em um longo tempo, ele levantou o olhar para ela.
- Não. – Ele disse. – Como eu disse: ter fé e acreditar. Se desse certo, eu poderia ajudar ainda mais do que tinha planejado. Poderia provar a Bucky que ele estava errado.
- Era importante isso? Provar a, hm, Bucky que ele estava errado em te proteger tanto? – perguntou. – Ou havia mais alguém para quem você precisava se provar?
Steve emudeceu. Não por sentir-se ofendido com a pergunta da psicóloga, mas por nunca ter pensado naquilo por aquela perspectiva. Claro que havia pensado na parte do Bucky, mas quanto aos outros fora a primeira vez. Será que queria provar a todos que alguma vez haviam batido nele apenas por serem maiores e mais fortes que ele poderia ser mais do que eles imaginavam? Que ele, um dia, também poderia pisar neles?
- Não. – Steve concluiu em voz alta. – Eu só queria ajudar. – Ele disse. – Quando finalmente fui recrutado, fui entrevistado por esse médico, doutor Erskine, acho que ele era mais cientista do que médico, enfim... E ele perguntou se a razão por eu estar me alistando era porque eu queria matar nazistas.
- Era isso que você queria?
- Não. Disse a ele que não queria matar ninguém. – Steve disse, relembrando a conversa com o cientista. – Eu só não gostava de valentões.
- Então você se alistou por não gostar de bullying? – Ela perguntou.
- Basicamente. Quero dizer, eu sofria constantemente, então tinha que lidar com aquilo de alguma forma. – Steve disse. – Eu não tinha o corpo que tenho hoje.
- Sim, eu vi as fotos. – Ela disse, sorrindo de lado ao lembrar-se das fotos do menino raquítico que o soldado era. Ao ver aquelas imagens, ela achou impossível relacionar um com o outro, não fosse o rosto. – Voltando ao assunto... Como foi após a transformação?
- Difícil. – Ele fechou os olhos, lembrando-se da época em que teve que ser o garoto propaganda da guerra. – Mas depois as coisas voltaram a se encaixar. Eu finalmente estava fazendo o que queria e deveria fazer.
- E te ajudou a encontrar o Bucky. – Ela completou. – Como foi isso?
- Missão cumprida. – Steve disse. – Eu fui atrás dele, poderia não ter encontrado nada, quase não o encontrei. Mas ali estava ele. Foi uma boa forma de retribuir por todas as vezes que ele havia me protegido, eu acho.
Silêncio novamente. Discretamente olhou o relógio em seu pulso, notando que a consulta havia acabado há certo tempo. Mas ela já esperava por aquilo, já havia planejado que todos seus encontros com o soldado seriam longos. Não poderiam se contentar com encontros semanais de uma hora apenas. Não com a bagagem que ele carregava. Não fazia sentido. Porém ela tinha que manter certa linearidade para cada encontro. Planejava, agora, enquanto Steve se mantinha em silêncio, finalizar o assunto Bucky, mesmo sabendo que não era um assunto fácil de acabar. Mesmo sem perguntar muitos detalhes sobre aquela amizade, ela já havia percebido como era pesada a bagagem que Steve carregava em relação ao amigo.
- Foi incrível, sabe? – Ele quebrou o silêncio, surpreendendo-a. – Tê-lo ao meu lado durante a guerra. Óbvio que não era o melhor cenário. Mas era o que tínhamos.
- O que vocês tinham? – perguntou.
- Um ao outro; os demais da nossa equipe. Um local para beber cerveja após uma missão. – Steve relembrou. Aquela era uma das maiores feridas que havia ficado aberta. Ele havia perdido Bucky há apenas uns meses quando foi congelado, mas até aquele momento, aquela cicatrização nunca havia sequer começado. E ele sabia que não seria agora que ela iniciaria. – E acabou rápido demais. Muita gente diz que não, mas não é como eu sinto.
- Ele era seu melhor amigo, afinal. Sua família. – disse. – Qualquer tempo que vocês passassem juntos, nunca seria o suficiente. Sempre seria curto.
- Sim. – Steve disse. As cenas da missão voltando a sua mente como se fosse um filme. Era como se tivesse acontecido na semana passada, não tantos anos atrás. Ele se lembrava de tudo. Cada momento. Cada sentimento. – Sabe que eu não posso ficar bêbado? – Ele perguntou, rindo logo em seguida. – O único momento em que eu realmente queria beber e esquecer de tudo, e nem isso eu pude fazer.
- A realidade ainda estaria lá quando você acordasse. – apontou.
- Mesmo assim... – Steve curvou-se para frente, apoiando os cotovelos nas pernas e enterrando o rosto nas mãos. Sua voz veio abafada quando ele voltou a falar. – Qualquer breve momento de esquecimento seria o suficiente do que aguentar o que eu estava sentindo.
- O que você estava sentindo? – perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
- Mais coisas do que posso enumerar. – Steve disse, olhando para ela. – Sabe, o soro que foi injetado em mim, ele amplia tudo. Inclusive os sentimentos. Inclusive a dor de perder meu melhor amigo.
- Você se culpa. – Não foi uma pergunta. demorou a perceber, mas quando o fez, sentiu-se levemente idiota por não ter visto. E ele não precisou confirmar, estava estampado no rosto dele, em seus olhos azuis. – Steve, não é sua culpa.
- Você nem sabe o que aconteceu. – Ele disse, soando mais rude do que planejava. – Desculpe. – Ele se aprumou na poltrona.
- Há uma coisa que eu li sobre você. Algo que não destoa em nenhum momento. Seja ficção ou realidade, esse aspecto permanece o mesmo. E mesmo agora te conhecendo, eu percebo que é verdade. – Ela comentou. – Você nunca faria mal a alguém propositalmente. Não é quem você é. – apontou. – Então, mesmo sem saber o que aconteceu com todos os detalhes, eu posso afirmar que não foi sua culpa. E você também sabe disso. Ainda que não assuma.
- Eu não sei. – Steve disse. – Porque toda vez que volto àquele momento, eu repenso como poderia ter feito as coisas de forma diferente. Em como eu poderia ter garantido que não havia mais perigo. Garantir nossa segurança.
- Steve, você não pode se culpar pelo que os outros causaram. – disse. – Isso não faz bem. No final, ainda que repense tudo, você sabe que vocês dois fizeram o que podiam para evitar algo bem pior. – Foi a vez dela de curvar-se para frente, focando seus olhos nos do soldado a sua frente. – Era uma guerra, Steve. Ele se alistou e tentou te proteger porque ele sabia o que poderia acontecer. Você se alistou tendo a consciência disso. Vocês dois sabiam os prós e os contras dos seus atos e de suas escolhas. Você acha que ele em algum momento se arrependeu de ter se alistado? De ter se juntado a você? De ter tido a oportunidade de lutar ao seu lado? – Ela perguntou, observando a expressão do soldado ir mudando, mais para desmoronando a cada pergunta. – Como ele morreu? Qual foi a última coisa que ele viu?
- Era uma missão, invadimos um trem. E fomos atacados. Houve uma explosão. Algo assim. E usei meu escudo para nos proteger, isso já foi o suficiente para destruir a lateral do trem – Steve disse, fechando os olhos e revivendo aqueles momentos. – Na segunda vez, Bucky usou o escudo, o impacto o arremessou para fora do trem. Quando vi, ele estava preso, segurando-se em um pedaço de ferro do trem. Eu tentei chegar até ele, mas não consegui. A barra que ele segurava se soltou e ele caiu.
- Então a última coisa que ele viu foi você? – perguntou. Sua voz baixa, quase como se ela não quisesse importunar Steve ainda mais. Já sabia que o fazia sofrer mais do que desejava, aquela ferida ainda parecia recente, apesar de ser uma das mais antigas.
- Sim. Acho que sim.
- Você acha que se ele pudesse escolher uma forma para morrer, ele escolheria uma forma diferente? – perguntou. – Ele morreu lutando ao lado do melhor amigo, e vendo esse amigo abandonar a missão para tentar salvá-lo, novamente. – Ela suspirou, precisava encerrar aquele assunto. Mesmo sabendo que ele nunca acabaria de fato. – Steve, eu não tive a oportunidade de conhece-lo, mas se fosse eu no lugar do Bucky, eu não te culparia, e gostaria de saber que você também não passaria seus dias se remoendo por isso. Não faz bem algum.
Ele não sabia o que responder. Talvez não houvesse o que responder e o silêncio era a melhor alternativa. Steve também não conseguia olhar para , desde que ela começara a falar que ele abaixara o rosto, sentindo os olhos arderem com as lágrimas que haviam surgido junto com a lembrança de seus últimos momentos com Bucky. Não havia vergonha em chorar, disso ele sabia, só não gostaria de se mostrar tão fraco logo na primeira sessão. Sequer tinha noção de como havia permitido que eles insistissem naquele assunto. Havia sido tão brusco com os demais psicólogos, forçando-os a encontrarem outro assunto para falar que não fosse o melhor amigo. E ali estavam eles, falando sobre o tema como se falassem sobre o clima.
- Eu acho que é uma daquelas coisas que só o tempo mesmo. – Ele disse por fim. Ouvindo concordar com ele. – Acredito que nosso tempo tenha acabado, não? – Ele perguntou, tinha uma leve impressão de que já havia estourado seu tempo.
- Sim, mas eu já previa isso, você não é exatamente um paciente comum. – Ela sorriu, vendo que ele tentou retribuir, mas sem sucesso. – Eu sinto muito que nossa primeira sessão tenha sido tão pesada. Geralmente não é assim que gosto de começar. – Ela disse, quando o soldado finalmente voltou a encará-la.
- Acho que faz parte do pacote de ter o Capitão América como paciente. – Ele brincou.
Sem combinar, os dois se levantaram ao mesmo tempo. Em silêncio, abriu a porta da sala e observou Steve se movimentar. Primeiro ele depositou o copo de água na mesinha ao lado da poltrona dela, depois foi até a estante e colocou o boneco dele próprio ao lado do globo de neve. A mulher sorriu com o gesto, gostando de ter seu enfeite de volta. Depois, os dois seguiram pelo corredor silencioso do consultório até a porta de entrada.
- Se quiser, posso te acompanhar até seu prédio. – Steve disse, colocando as mãos nos bolsos da calça jeans.
- Eu ainda vou demorar muito, e não é uma caminhada tão longa. – Ela disse, dispensando-o. – Acho que você merece umas férias de mim.
- Férias de uma semana. – Ele apontou, rindo em seguida, sendo acompanhado por ela. – Mesmo horário na próxima semana?
- Sim, Capitão. – Ela disse, só depois percebendo o que havia saído de sua boca. – Desculpa, eu não...
- Está tudo bem. – Steve sorriu. – Obrigado por hoje. Até a próxima.
- Até. – Ela respondeu.
esperou até que Steve tivesse sumido de seu campo de visão para poder fechar a porta e trancá-la atrás de si. Na verdade, havia mentido para o soldado, não havia mais nada a fazer ali, só precisava de um momento sozinha para conseguir processar tudo o que havia acontecido. Normalmente, após uma consulta, ela correria para anotar todas as informações e no dia seguinte leria o que havia escrito, para então acrescentar suas impressões e sugestões para a próxima sessão. Mas naquele momento ela se sentia incapaz de anotar qualquer coisa. Não havia percebido o quanto aquela sessão a havia afetado até aquele momento. Suas mãos tremiam e ela sentia vontade de chorar de uma forma que há muito não sentia. Sentou-se na cadeira mais próxima na sala de espera e respirou fundo, passando as mãos no cabelo e levando-os para trás. De alguma forma, aquela conversa com Steve havia remexido mais coisas do que ela imaginara. Ele não fora o único a reviver coisas do passado, ela também começava a fazê-lo. Já havia sentido a diferença no final do encontro, logo que o soldado havia terminado de relatar os momentos finais com Bucky, mas só agora que estava sozinha que ela percebia a imensidão do que sentia.
Respirou fundo e fechou os olhos, contando lentamente até cem. Não podia permitir abrir essa porta, destruir esse muro. Não lhe faria nenhum bem, não ajudaria ninguém. Ao contrário, só prejudicaria, e não foi assim que ela fora criada. Precisava se recompor, já havia tido consultas parecidas com aquela tantas vezes e não sentira o impacto como agora. O que havia de diferente? Só porque ele era o Capitão América? Ao chegar ao número cem, ela respirou fundo novamente e abriu os olhos, sentindo que as mãos já haviam diminuído os tremores. Ela se levantou e foi até sua sala, organizando tudo o que havia para organizar – na verdade, só separando o copo utilizado por Steve para que ele fosse lavado no dia seguinte. Então pegou suas coisas, um caderno novo em folha e saiu do consultório. Enquanto caminhava para casa, ela já sabia que aquela seria mais uma noite em claro, anotando toda a conversa com Steve e logo em seguida repassando tudo. Nem mesmo se Louise escondesse o caderno dela, conseguiria dormir. Se Steve e sua consulta não tirassem seu sono, haveria outra coisa que o faria.

Capítulo 3

Dizer que ela havia conseguido dormir após aquela primeira sessão com Steve seria uma completa mentira. Louise já percebera a mudança em seu comportamento assim que ela passou pela porta, questionando a psicóloga se ela estava bem e se precisava de algo.
- Não, Lou, está tudo bem, obrigada. – se limitara a responder antes de entrar em seu quarto e largar suas coisas na cama.
Ela tentara não pensar naquele encontro, nas conversas e nas emoções que essas encadearam, mas foi impossível. A todo momento, cada passo que dava era uma nova lembrança, um novo momento trazido à tona. estava assustada com aquilo, não ia mentir para si mesma. Começava a pensar que talvez tivesse dado um passo maior que a perna, e percebera que finalmente sua mania de não conseguir recusar ajuda havia se virado contra ela. Ainda não conseguira concluir exatamente o que disparara aquele turbilhão de sensações, sabia apenas que era como se o soldado tivesse destrancado uma porta. Não. Era como se Steve tivesse arrancado a porta e deixado sair tudo o que havia atrás dela.
encolheu-se no pequeno sofá que havia pela janela, sentindo as mãos voltarem a tremer da mesma forma que o fizeram assim que se despedira do novo paciente. Ela voltava a sentir aquela queimação nos olhos que há muito não sentia. As lágrimas praticamente imploravam para serem derramadas, mas ela não era Steve, ela não arrancaria aquela porta. Havia prometido a si mesma anos atrás que não voltaria a chorar por aqueles sentimentos, não valia a pena. Não traria ninguém de volta.
Louise, sendo a amiga incrível que era, não se deixou convencer pelas palavras da psicóloga. Minutos depois, conseguiu ouvir batidas leves na porta do quarto, e a mesma sendo aberta depois. Louise trazia em suas mãos uma xícara, e mesmo com a distância, sabia se tratar do seu chá favorito: limão, gengibre e mel. A amiga aproximou-se da outra, e sentou-se ao seu lado, lhe estendendo a xícara. aceitou e tomou um gole, sorrindo por Louise acertar em todas as medidas.
- Paciente novo? – A mulher perguntou, arrumando-se melhor no sofá e sentando-se sobre as pernas.
- Sim. – sussurrou, acolhendo a xícara com as duas mãos e trazendo-a para perto do corpo. O utensílio estava mais quente do que ela poderia suportar, mas suas mãos estavam tão frias que era praticamente um consolo.
- Homem ou mulher?
- Homem. – A psicóloga sorriu, já sabendo o que vinha a seguir.
- Quer me contar alguma coisa sobre o... Bilbo? – Louise perguntou, sorrindo ao perceber que a amiga fazia o mesmo.
- Ele viveu grandes aventuras. – comentou. A amiga sempre fazia aquilo, dava nomes aos seus pacientes para que não pudesse comprometer a ética da psicóloga. Geralmente eram nomes aleatórios, mas se Louise estivesse lendo algum livro, ela adotaria o nome de algum personagem. – Boa escolha, aliás.
- Eu tenho um sexto sentido para essas coisas. – A moça respondeu. – Saber dessas aventuras te deixou assim?
O sorriso de sumiu e ela focou os olhos na rua abaixo, observando as pessoas irem e virem, o aroma do chá preenchendo o ar a sua volta. Como explicar a Louise o que estava sentindo? A amiga sabia do seu passado, de como ele a machucava e por isso entenderia se dissesse algo, não tentaria dizer que ela estava sendo boba e que logo isso passaria. Mas Louise também se preocuparia ainda mais, ficaria dias observando cada passo da psicóloga até se convencer de que tudo estava bem.
- Não. – disse, por fim, sabendo que não adiantaria mentir para Louise. – Não foram suas aventuras que me deixaram assim. – Louise observou a amiga, esperando pacientemente enquanto tomava mais uns goles do chá que havia preparado. Não era psicóloga como a amiga, mas sabia agir como uma quando necessário. – Mas digamos que algumas feridas foram reabertas. – Um olhar rápido de foi o suficiente para que Louise entendesse.
- Ah, . – A amiga disse, estendendo a mão para tocar a da psicóloga. Louise suspirou, a resposta imediata vindo à ponta da língua antes que ela pudesse processar o que iria dizer. Não foi preciso, porque também percebeu, e logo fixou o olhar na amiga.
- Não. – A psicóloga disse. – Eu não vou dispensá-lo.
- Mas, , não é justo, você não acha? – Louise perguntou.
- E é justo com ele? – perguntou, fazendo a amiga morder a ponta da língua, repreendendo a resposta que queria dar. – Lou, você não sabe pelo que ele passou, por quantos psicólogos passou até cair comigo e conseguir se desbloquear. Não posso fazer isso com ele. Não é certo.
- , uma sessão e você já está assim, imagine se continuar...
- Eu fui pega desprevenida. – disse. – Temos algumas semelhanças em nossos passados. Eu não esperava por isso. Foi só dessa vez. – A mulher disse, saindo de sua posição para segurar a mão da amiga e tentar passar alguma tranquilidade. – Só preciso colocar para fora, alguns dias em casa e pronto. Estarei nova em folha.
- Algum dia eu vou entender como você consegue ser uma psicóloga tão boa com os outros, mas péssima com você mesma. – Louise suspirou, apertando a mão da amiga com delicadeza.
- Em casa de ferreiro...
- Sim, sim, eu sei. – Louise revirou os olhos. – Mas não pense que não ficarei atenta em suas sessões com o Bilbo. Todas as quintas, certo? – Louise perguntou.
- Sim. – assentiu, sabendo que seria inútil discordar.

No dia seguinte, agradeceu por não ter pacientes. Sextas, sábados e domingos eram seus dias de folga. Ela havia estipulado isso enquanto ainda estava na faculdade, abrindo mão só quando precisou fazer uns estágios e era obrigada a trabalhar o quanto mandassem. Ao acordar, espreguiçou-se e sentiu o peso da noite anterior ainda pairar sobre si. Lembrou-se do que havia dito a Louise, precisava colocar aquilo para fora.
Levantou-se e abriu as cortinas para deixar a luz da manhã entrar. O céu estava claro, com algumas poucas nuvens ousando quebrar o azul constante. Ela suspirou e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo. Foi até o armário, onde pegou um shorts, um top de ginástica e uma regata bem larga. Quando ia fechar a porta do armário, reparou nas luvas de boxe que havia ali e lembrou-se que há muito não praticava alguns socos. Mudou de ideia, então, resolvendo que, ao invés de sair para correr como havia considerado, iria até a academia que havia perto de onde morava e passaria uma boa hora dando socos num saco de areia.
Louise já havia saído para seu próprio trabalho àquela hora, deixando um bilhete para pedindo desculpas por não ter acordado a amiga e que havia decidido que a mesma merecia umas horas a mais de sono. Havia vitamina pronta na geladeira e um croissant da padaria ao lado do prédio onde elas moravam. sorriu com a bondade da amiga. Ela tomou o café da manhã enquanto lia um artigo novo de psicologia que ela havia recebido em seu e-mail naquela semana. Mesmo após formada, ainda tinha a assinatura do fórum de psicologia da faculdade, e constantemente recebia as novidades do ramo. Ao terminar, voltou para o quarto, tirou o pijama e vestiu a roupa que havia selecionado antes. Olhou novamente para as luvas, assentindo com a cabeça ao perceber que definitivamente era sua melhor ideia.
A recepcionista da academia já a conhecia pelas vezes que ela aparecia ali, especialmente nos fins de semana chuvosos, quando estava muito ruim para correr. não pagava uma mensalidade pela academia já que não usava frequentemente, preferindo pagar a taxa avulsa e podendo utilizar o que quisesse naquele dia todo. Ela cumprimentou a moça atrás do balcão e passou pela catraca. Desceu dois lances de escada até se ver no andar de lutas em geral. Num canto havia um tatame para artes marciais. Mais próximo às escadas, havia um ringue de lutas, como boxe e muay thay. Ao redor de tudo, haviam outros aparelhos para desenvolvimento da força e outras habilidades necessárias.
Haviam algumas pessoas por ali, ninguém que tenha prestado atenção em , e ela fizera o mesmo. Olhou em para onde ficava o saco de areia e agradeceu por vê-lo vazio. Foi até o objeto, pendurou sua toalha no gancho que ficava na parede atrás dela e colocou a bolsa no chão. Enrolou sem pressa as faixas em suas mãos, ainda que usasse a luva, sempre se sentia melhor. Foi assim que seu pai lhe ensinou e ela nunca conseguira abandonar o costume. Quando foi colocar as luvas, hesitou, ponderando se conseguiria aguentar uma hora de socos sem as mesmas para absorver o impacto. Respirou fundo, ouvindo a voz do pai em sua consciência lhe dizendo para sempre usar as luvas. Havia um instrutor por perto e ela lhe pediu ajuda para deixá-las bem firmes em seu pulso. O homem perguntou se ela precisava de mais alguma coisa e recusou educadamente.
Posicionou-se em frente ao saco de areia, afastando os pés para melhorar seu apoio e respirou fundo antes de desferir o primeiro soco. Ela percebeu que estava fora de forma quando sentiu seu pulso dar uma pontada. Fechou os olhos e lembrou-se das aulas que o pai lhe dera. Dentro das luvas, posicionou melhor as mãos, respirou fundo novamente enquanto abria os olhos e então deu o segundo soco, sentindo que fora melhor. Sorriu para si mesma e deu o terceiro, e mais um, e outro, e outro...
Uma hora depois, ela sentia o suor por todo seu corpo. O cabelo havia grudado no pescoço e nos ombros, expostos pela regata. Seus olhos ardiam levemente pelas vezes em que o líquido salgado caíra neles. Seus pulsos protestavam, assim como seus braços e até mesmo sua canela – pois, afinal, ela resolvera tentar alguns chutes. A respiração estava ofegante, seu peito subia e descia com rapidez, na pressa que ela tinha para inspirar e expirar para suprir a necessidade de seus pulmões. O coração também batia acelerado com toda a adrenalina correndo por suas veias. Mas ela se sentia bem. Mesmo sabendo que no final do dia cada músculo em seu corpo protestaria em qualquer movimento, ela estava bem. Aliviada. Mais leve, até.
Com o auxílio dos dentes, ela soltou a fita ao redor dos pulsos e balançou a mão até que a luva saísse dela, depois soltou a outra mão. Suas mãos estavam vermelhas, as unhas haviam deixado suas marcas na palma, mas ela não se importava. Sumiriam com o tempo. foi até sua bolsa e puxou de lá a garrafa térmica que continha água gelada, virando metade do conteúdo de uma vez. Depois puxou a toalha e enxugou o suor do rosto, colocando o pedaço de pano em seu pescoço depois. Ela sentou-se em um dos bancos que havia por lá e suspirou. Todo aquele peso que havia sentido na noite passada havia sumido, assim como a porta, ou o buraco que havia aberto, parecia ter se fechado. Sorriu para si mesma, satisfeita com o resultado. Não recomendaria aquilo a seus pacientes, mas também sabia que eles não tinham o mesmo histórico que ela.
Por um momento pensou se deveria fazer mais alguma coisa pela academia para fazer valer o preço que pagaria. Mas a única coisa que queria naquele momento era um banho, gelado de preferência, uma roupa confortável e seu quarto. Uma música de fundo enquanto ela colocava em dia o trabalho da semana. Ainda precisava escrever tudo sobre sua consulta com Steve, além de suas opiniões e pensar em uma estratégia para os próximos encontros. Seu estômago começou a dar sinais de fome, então em sua mente ela reorganizou a ordem do que teria que fazer assim que saísse da academia. O almoço deveria entrar depois do banho e antes do trabalho. Provavelmente assistiria um episódio de alguma série para acompanhar a refeição.

Seu pulso protestava, pedindo por férias, quando Louise chegou em casa, quase meia-noite. suspirou e largou a caneta que usava, abrindo e fechando a mão várias vezes seguidas para tentar aliviar a dor que sentia nela. Estava acostumada a escrever muito, mas nunca fizera aquilo após uma intensa seção de socos num saco de areia. Era surpreendente não ter desenvolvido tendinite ainda. Talvez estivesse a caminho. Ela suspirou e espreguiçou-se na cadeira, observando o relógio que havia em cima da escrivaninha em seu quarto. Fazia horas que ela não comia, e só então começara a perceber que seu estômago protestava por estar vazio.
fechou o caderno no qual trabalhava até momentos antes, surpreendendo-se ao perceber que já havia usado metade do mesmo. Deveria ser algum recorde. Levantou-se, sentindo seus ossos todos protestarem pelo movimento repentino. Seus braços e ombros doíam, e as costas também possuía alguns pontos doloridos, até mesmo sua canela deu algumas pontadas no trajeto de sua escrivaninha até a porta do quarto. Talvez devesse tomar algum remédio para dor antes de dormir, sabia que no dia seguinte estaria ainda mais dolorida.
- Você ainda está acordada! – Louise disse ao vê-la saindo do quarto. – Não se ofenda, mas você está com um aspecto todo péssimo.
- Passei algumas horas na academia. – disse, arrastando-se até o balcão da cozinha americana e sentando em um dos bancos, observando a amiga se mover pelo espaço preparando alguma coisa para comer. – Uma hora brigando com um saco de areia.
- Pelo visto você perdeu. – A moça brincou.
- Obrigada. – deu um sorriso forçado com a piada da amiga, mas depois sorriu de verdade quando a mesma lhe entregou um copo com suco de laranja.
- Mas você parece bem melhor que ontem. – Louise observou. Pegando mais um prato para preparar um lanche para a amiga. – Talvez você saiba ser uma boa terapeuta para você mesma.
- Quem diria, não? – brincou. – Como foi o trabalho?
- Ah, a mesma coisa de sempre. As notícias chegam e alguém precisa dá-las. – Louise deu de ombros, estendendo um prato para .
- Alguma fofoca que eu precise saber? – perguntou.
- Nada de útil. – Louise respondeu, começando a comer o próprio lanche. – Tem muito trabalho para fazer? Estava pensando em assistir algum filme. Preciso fazer uma crítica nova para preencher um espaço na edição de domingo. A menina que faria isso não pôde por algum motivo que eu desconheço. E eu agradeceria muito se você pudesse colaborar um pouco sem receber nenhum crédito.
- Acho que posso me dar a noite de folga. – ponderou. Ainda não havia finalizado tudo o que tinha para fazer. Faltava um caderno, esse era mais pessoal, que precisava preencher. E ela sabia que usaria mais da metade do mesmo também, e então suas mãos a odiariam completamente. – Minhas mãos agradecem. Você me paga um yakissoba depois.
- Fechado. – Louise sorriu. – Só preciso de um banho, escolher o filme entre as opções que foram dadas e estamos prontas.
- Eu limpo as coisas aqui. – disse, apontando para a pequena bagunça que Louise havia feito.

Era quinta-feira novamente e, ao final do dia, se viu nervosa pelo que estava por vir em breve. A caneta era batida no tampo da mesa com frequência e com mais frequência ela se via encarando a porta a sua frente, completamente alheia às fichas dos pacientes do dia que ela tinha que preencher. Com o horário da última sessão do dia ficando mais próximo, ela começou a sentir os sintomas de um leve ataque de pânico. Precisou respirar fundo diversas vezes, andando lentamente de um lado ao outro do consultório para conseguir se acalmar. Lembrando-se que a sessão anterior estava no passado e hoje era outro dia, ela até mesmo tivera algumas ideias do que poderiam fazer ou falar naquele dia, coisas que deixariam a sessão passada onde deveria ficar: no passado mesmo.
Quando, enfim, deu o horário, ela já havia conseguido se acalmar tanto que deu um pulo na cadeira quando a porta de sua sala se abriu de repente. Ela levantou o olhar e se deparou com um Steve completamente ofegante e ligeiramente surpreso – como se parte dele não esperasse que ela realmente estaria ali. largou a caneta que usava e levantou-se, contornando a mesa para se aproximar do soldado.
- Steve? Está tudo bem? – Ela perguntou, preocupando-se com o fato do homem ter travado na porta. Ele piscou algumas vezes, então chacoalhou a cabeça e olhou ao redor, como se finalmente se situasse no espaço. Depois voltou a olhar para ela e abriu um sorriso simples.
- Desculpe, eu... – Ele parou, soltou a maçaneta da porta e focou em fechá-la. o observou com atenção, principalmente quando ele parou e ficou olhando para as opções de lugares que havia para sentar. Com calma, ela se apoiou na mesa e ficou a observá-lo, mordendo o lábio inferior na intenção de controlar a risada que ameaçava escapar. Poderia falar algo, mas preferiu dar algum tempo ao homem. Steve avançou um pouco, como se houvesse tomado a decisão de sentar-se na poltrona, como na sessão anterior, mas depois parou. Passou a mão nos cabelos e suspirou. cruzou os braços e resolveu se pronunciar.
- Você parece agitado, está tudo bem? – Perguntou, chamando a atenção do soldado. Steve olhou ao redor, parecendo completamente perdido. Como um cãozinho na chuva sem um lugar para se proteger.
- Eu... ahn... Eu realmente preciso me sentar? – Ele perguntou, apontando para a poltrona atrás de si.
- Se houver um motivo para você não querer, e você me dizer qual motivo é esse, não. – Ela disse, arqueando levemente a sobrancelha, percebendo a hesitação.
- Eu não... Eu...
- Ok, que tal começarmos devagar? – Ela sugeriu, descruzando os braços e se aproximando do soldado. – Feche os olhos, respire fundo algumas vezes. – Ele fez o que ela pediu, quase fazendo-a rir pela rapidez nas respirações. – Devagar.
Demorou, mas enfim Steve pareceu se acalmar. sorriu, observando o soldado tomar o tempo dele nas respirações, mantendo os olhos fechados. Ela notou as mãos do homem, que se abriam e fechavam acompanhando o ritmo da respiração. A mulher mordeu o lábio inferior novamente, tentada a quebrar o silêncio e perguntar o que havia acontecido, mas resolveu esperar.
- Agora, - ela disse, com a voz baixa – quando estiver preparado, abra os olhos, inspire e expire algumas vezes mais. – Ela voltou a se encostar na mesa. – E, quando quiser, me faça uma pergunta.
Steve demorou mais uns cinco minutos para finalmente abrir os olhos, quando o fez, analisou a sala toda como se estivesse à procura de algo, parando somente quando seu olhar encontrou encostada à mesa, o observando com uma concentração de dar inveja. Ele repetiu o processo da respiração mais algumas vezes antes de começar a pensar em uma pergunta que poderia querer fazer a ela, mas a única coisa que veio a sua cabeça foi...
- Como você está? – arregalou os olhos, pega completamente de surpresa com aquela pergunta. Não duvidava que era a primeira vez que algum paciente usava a oportunidade para lhe perguntar isso. Então ela sorriu, apoiando as mãos no tampo da mesa.
- Estou bem, Steve, obrigada. – Ela disse. – E você? Está melhor?
- Eu... Sim. Desculpe por isso. – O soldado estava levemente ruborizado, ela notou. Com uma mexida de cabeça ela lhe garantiu que estava tudo bem.
- Quer me contar o que aconteceu? Ou quer esperar um pouco? – Steve ponderou. Pensando se deveria adiar o assunto mais um pouco ou se deveria tirá-lo do caminho logo.
- Digamos que você tenha ficado ausente por uma quantidade considerável de tempo...
- Uns setenta anos, por exemplo?
- Por ai. – Ele sorriu com a observação dela. – Antes de partir, você combinou algo, então você...
- Congelou.
- Isso, e depois desse tempo todo, você volta. – Steve estava perdido nos próprios pensamentos, mas esperava que ela lhe entendesse. – Tudo mudou, claro, e você está atrasada para o que combinou. Como você reagiria a isso? Principalmente se tivesse acesso a informações, como um número de telefone? – Ele perguntou, passando a mão no cabelo. – Mas tudo mudou, lembra? Menos você, então como você lida com isso?
- Espera, eu me perdi. – disse. – Você está tendo uma crise da meia-idade e quer minha ajuda ou você está preocupado com o combinado antes de congelar?
- Eu não sei. – Steve disse, finalmente ocupando a poltrona que lhe era de direito, afundando a cabeça nas mãos. mordeu o lábio inferior e resolveu ocupar a sua. Aparentemente, a consulta havia começado, e já havia fugido de tudo o que ela havia planejado. Novamente.
- Esse combinado? Foi com alguém? – perguntou, era a tática mais prática: começar pelas informações menores e depois expandir o cenário.
- Sim. – Steve disse. – Peggy Carter. – respirou fundo, uma mulher, então.
- Quer me falar sobre ela? – A psicóloga perguntou.
- Ela ajudou a fundar a S.H.I.E.L.D. Estava desde o começo, antes mesmo de a S.H.I.E.L.D. ser o que é hoje em dia. – Steve disse. – Ela estava presente no meu treinamento no exército, quando eu passei pelo projeto, depois quando eu comecei a agir como Capitão América e lutar contra a Hidra. Ela me ajudou a encontrar meu caminho.
- E você se apaixonou por ela. – concluiu.
- Acho que ela por mim também. – Steve comentou, levantando a cabeça finalmente. – Na minha última missão, pouco antes do avião “pousar”, ela foi a última pessoa com quem eu falei. Marcamos um encontro, iríamos dançar e eu estava dizendo que deveria ser uma dança lenta, porque eu sou péssimo, e não queria pisar nos pés dela. Fiz uma promessa que eu sabia que não poderia cumprir. – Steve passou as mãos no rosto. Suspirando frustrado.
- E você acha que ela não sabia disso? – perguntou.
- Eu a iludi. Que tipo de pessoa faz isso? – Steve perguntou retoricamente. Ainda se lembrava da primeira coisa que havia falado para Fury logo que se vira no meio da Times Square. A primeira imagem que lhe veio ao ser informado o tempo que estivera ausente. Peggy. E como havia marcado um encontro com ela. – Às vezes, antes de dormir, eu fico imaginando como ela deve ter ficado durante aquela semana toda. Se no sábado ela estava lá, no lugar e hora marcados, me esperando. Fico imaginando que roupa ela estaria usando. O que bebia enquanto me esperava...
- Steve. – o parou, percebendo como aquilo o torturava da pior forma possível. Parecia que as memórias de Bucky e Peggy se alternavam para atormentar sua mente. Setenta anos haviam passado, mas para ele era como se fossem só alguns dias. Era ainda pior ter que sentir aquilo tudo e assimilar a distância que há entre o presente e o passado. – Você não pode fazer isso com você mesmo. Talvez você a tenha iludido, mas não foi o único a iludir alguém na história. Ela também o fez, e fez com ela mesma. – Ele a olhava, como se esperasse que ela fosse até ele e retirasse todo aquele peso, mas não podia fazer isso e, bem no fundo, Steve sabia disso. Era por isso que estava ali. – Você disse que ela ajudou a fundar a S.H.I.E.L.D., ela deve ser bem inteligente.
- Uma das mulheres mais inteligentes que já conheci.
- Então, você não acha que ofende um pouco a inteligência dela, até mesmo subestima, se pensar que foi o único a criar a ilusão? Naquele momento, conversando com você, ela sabia que era uma questão de cinquenta por cento de sucesso ou derrota. Ela sabia que, no sábado, havia cinquenta por cento de chance de você estar lá ou não. E mesmo assim ela incentivou a ideia, ela acreditou, ela também se iludiu. E, acredite, ela fez mais estrago do que você. – suspirou, tinha que tocar na segunda ferida para que ele pudesse entender. – Assim como você não pode se culpar pelo que houve com Bucky, você também não deve fazer isso com a Peggy. Todos eram adultos na situação, todos sabiam dos perigos, do que estava em jogo. E mesmo assim apostaram. E todos saíram perdendo, sem exceção.
Ela ficou em silêncio, deixando o que havia dito ser processado por Steve. O soldado respirou fundo, curvando-se para frente, voltando a enterrar a cabeça nas mãos. aproveitou o silêncio para se levantar e servir dois copos com água, um para ela e o outro ofereceu para Steve. Percebendo o quanto o soldado tremia enquanto pegava o copo da mão dela. Ao voltar a se sentar, ela levou o tempo dela para ingerir o líquido em seu copo e observou enquanto Steve apenas observava o seu, como se esperasse que respostas saíssem dali.
- Peggy. Ela foi a primeira pessoa em quem eu pensei quando soube o que havia acontecido. – viu o soldado dando uma risada sem humor. – Assim que Fury me disse por quanto tempo estive fora, ela surgiu em minha mente. Eu tinha um encontro marcado. – Ele recostou-se na poltrona. – Foi tudo o que eu consegui dizer.
- Ela ainda está viva?
- Sim. – Steve suspirou, finalmente bebendo um gole da água.
- Quando você soube?
- Essa semana ainda... Fury mandou algumas fichas para mim sobre as pessoas com quem trabalhei no passado. Howard Stark, os membros do Howling Commandos, e sobre ela.
- Foi isso que te deixou daquele jeito? – Ela apontou para a porta, lembrando-se da chegada do soldado.
- Hoje eu criei coragem para abrir a pasta dela. – Steve sorriu. – Não é uma ficha pequena.
- Imagino. – concordou. – Foi o fato de saber que ela ainda está viva que te deixou agitado?
- Não. Quero dizer... Não sei. – Steve largou o copo na mesinha que havia ali perto e suspirou. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. – Eu li todas as coisas incríveis que ela fez, sabe? Quando ainda era uma agente da S.S.R., e depois ajudando a fundar a S.H.I.E.L.D. Ela trabalhou duro, e naquela época não era fácil ser uma mulher e ainda trabalhar no ramo que ela trabalhava. Imagino quantas regras ela deve ter quebrado enquanto agia em suas missões. – O sorriso nostálgico que o soldado deu, provocou outro em . – E então veio o pensamento do quanto eu perdi. Era para eu estar ali, ajudando-a.
- Lembra quando você me perguntou se eu achava ter sido destino nós dois naquele banco e o fato de eu ser uma psicóloga? – perguntou, vendo o soldado assentir com um olhar confuso. – Eu te disse não ter uma opinião formada nessa questão. Mas, e você? Acredita em destino?
- Talvez.
- As pessoas geralmente acreditam em destino porque é uma forma mais fácil de lidar com as coisas que aconteceram sem se preocuparem muito com as consequências e culpa. – explicou. – Se você acredita em destino, então talvez você devesse se sentir menos culpado por ter ficado congelado, porque pode ter sido ele o culpado por você ter sumido por tanto tempo. Então, talvez de novo, se você não tivesse congelado, Peggy não teria conquistado tantas coisas incríveis. Talvez ela não tivesse ajudado a fundar a S.H.I.E.L.D., e você poderia não estar aqui.
- São muitos “talvez”. – Steve comentou.
- Sim. Mas você entende onde quero chegar? – perguntou. – São infinitas as possibilidades do passado que vocês poderiam ter tido se não tivesse congelado. Poderiam ter ganhado muita coisa, mas pense no quanto mais poderiam ter perdido. No quanto o mundo poderia ter perdido.
- Nova Iorque não existiria. – Steve comentou, lembrando-se do míssil que ele desviou.
- A S.H.I.E.L.D. não existiria e você provavelmente ainda estaria perdido em algum lugar no meio do nada. – disse. – Destino, se você acredita. Coisas da vida, caso não. Ossos do ofício.
Silêncio outra vez. observou enquanto Steve ponderava tudo o que havia sido discutido até aquele momento. Havia tanta coisa mais que ela gostaria de acrescentar que talvez pudesse ajudá-lo a se sentir melhor, mas ela sabia que aquilo deveria bastar. Havia um limite.
- Na ficha, logo no começo, havia um telefone. – Steve disse, por fim. Ela já havia notado que ele costumava abordar algum assunto levemente diferente, mas ainda referente ao anterior, quando havia assimilado tudo o que ela tinha dito. Aquilo era bom, ela considerava, e esperava que depois ele continuasse a pensar em tudo aquilo.
- Dela?
- Sim, com o endereço novo dela. – O soldado parou e observou a vista pela janela.
- Você foi visitá-la, então? – perguntou, ansiosa para saber como aquele encontro ocorreu.
- Não. – Steve destruiu suas esperanças rapidamente. – Mas pensei em ligar.
- Pensou?
- Sim. Cheguei até mesmo a começar a discar o número. – O soldado disse. notou o brilho em seus olhos azuis, e ela se permitiu se sentir animada de novo, aguardando ansiosa pela descrição daquele momento. Mas, novamente, Steve acabou com qualquer esperança. – Mas desisti no meio do caminho.
- Steve. – Ela sussurrou, queria poder bater a cabeça dele contra a parede, mas antes tinha que torcer para ele apresentar um bom motivo que justificasse aquela atitude. – O que aconteceu?
- Setenta anos passaram, isso aconteceu. – O soldado disse. – Ela envelheceu, eu continuo o mesmo. Ele se aposentou, teve filhos, uma família. E eu aqui, exatamente igual ao que era quando ela me viu pela última vez.
- Você ficou com ciúmes?
- Não. – Steve disse, fazendo uma careta como se aquela observação fosse absurda. – Fiquei aliviado por descobrir que ela seguiu em frente, que não ficou presa a mim.
- Mais um bom motivo para você não se sentir culpado. – comentou.
- Mas o que eu esperaria daquela ligação? Ou de uma visita? Só consegui imaginar a confusão na voz dela por me ouvir, ou no rosto dela se me visse ainda jovem. Eu não poderia fazer isso com ela.
- Desde que você não se torture, então. – apontou, fazendo o soldado encará-la, novamente confuso. – Steve, se você não acha justo fazê-la sofrer por te ver exatamente do mesmo jeito que setenta anos atrás, então também deve fazer o mesmo com você e não se martirizar por essas coisas. Você tem que lembrar que não pode ter controle de tudo, principalmente do passado. – Ela disse, então estava na parte mais difícil, o divisor de águas entre seus pacientes. – Você tem que começar a viver no presente, Steve. O passado não lhe trará nenhuma alegria se você permanecer preso nele como está neste momento. Voltar para viver os bons momentos, ok, mas permanecer para os maus momentos. Isso não compensa e só vai te destruir cada vez mais. – Ela suspirou. – Como você espera honrar a memória do Bucky e o legado que Peggy deixou se não se permite entrar no presente e lidar com o que ele lhe trouxer?
Ela se calou, sabendo que a última parte havia sido golpe baixo. Mas se havia aprendido algo referente a Steve, era que ele precisava do choque de realidade de forma bruta, em doses cavalares, mas administrada com cuidado ao mesmo tempo. Ele era o exemplo vivo dos paradoxos. Tinha que ser intenso e delicado ao mesmo tempo; acelerar e desacelerar logo em seguida. Em parte, entendia porque ele preferia se manter no passado, no presente haviam muitas informações esperando para serem digeridas. Mas se tinha uma coisa da qual ela tinha certeza, era a de que Steve conseguiria aguentar o que havia para ele no momento atual. Ele precisava ser forte para isso. Não havia outra escolha.
- Você é boa. – Ele disse, tirando-a dos devaneios dela. Havia um sorriso em seu rosto, e sorriu junto. – Joga as verdades sem medo.
- É meu trabalho. – Ela deu de ombros, pela primeira vez olhando o relógio em seu pulso.
- Já estouramos o tempo, não é?
- Como é que estouramos algo que não existe? – Ela perguntou. – Nunca limitei nossas sessões porque sei que não temos como, não ainda. Talvez no futuro, quando você já estiver por dentro de todos os clássicos do nosso tempo, ai podemos ter sessões normais, mas agora no começo, nosso tempo é ilimitado.
Steve sorriu e levantou-se, acompanhado por ela. Assim como na sessão anterior, os dois seguiram pelo corredor até a saída e, novamente, o soldado se ofereceu para acompanhar a psicóloga até a casa dela, proposta que recusou, culpando os trabalhos novamente – dessa vez não mentindo para o soldado, ela tinha que finalizar aquelas fichas e deixá-las na recepção para que as meninas atualizassem os arquivos no dia seguinte.
Naquela noite, tanto o soldado quanto a psicóloga sentiam-se mais leve – principalmente se comparado ao estado que ambos haviam ficado após a primeira sessão. respirou fundo ao ver o soldado ir embora e sorriu, satisfeita pelo trabalho que havia feito. Não fora como o planejado, mas não fora um completo desastre também. Prova disso era suas mãos estáveis e não haver nenhum peso em seus ombros. Porém, ela sabia, se quisesse realmente ver resultados, precisava começar a controlar melhor as sessões com Steve. Ela só não fazia ideia de como faria isso.

Capítulo 4

sabia que não demoraria muito para aquelas sessões de golpear o saco de areia nas manhãs de sexta se tornarem um padrão. Já era a segunda vez que ela ia em duas semanas, não duvidava que na próxima sexta estaria ali novamente após mais uma sessão com Steve seguida de uma noite de sono inquieta. Ela já havia usado os esportes para desabafar e se sentir mais leve após alguma sessão, mas nenhuma lhe incomodava tanto quanto as de Steve. Claro que nenhum dos seus outros pacientes era uma lenda viva, um super-soldado que passara setenta anos congelado, mas os mesmos problemas que os outros tinham, Steve também tinha. Mas de alguma forma pareciam afetá-la com mais força. Se até mesmo Louise havia percebido e se preocupado, sabia que era para ela ficar com um pé atrás naquela situação também.
A psicóloga suspirou após desferir o último soco no saco de areia, sentindo cada músculo de seu braço se tensionar ao sentir o impacto. Ela manteve o braço esticado por um tempo, respirando fundo, apreciando aquele breve momento em que ponderava se deveria continuar mais um pouco ou se já fora o suficiente. Como da outra vez, ela apenas abaixou o braço e encarou o saco de areia enquanto dobrava o outro para soltar a tira, que prendia a luva em sua mão, com o dente. Uma parte de seu cérebro a incentivava a continuar, mas a outra, talvez a mais sensata, lhe lembrava que estava fora de forma e que eram necessários mais dias de práticas, e outros exercícios, para que ela voltasse a aguentar aquelas pancadas todas por mais tempo.
Sentou-se no banco que havia em frente ao saco de areia que havia escolhido e observou as outras pessoas ao redor, cada uma lidando com seus próprios monstros, seus próprios fantasmas. Ela havia aprendido com os anos que eram raras as pessoas que aprendiam a lutar e faziam a prática do exercício pelo simples prazer. Sempre havia um motivo. Geralmente nunca era relacionado a lutar contra algo físico. As maiores lutas sempre eram aquelas mentais, da consciência, que bagunçavam nosso psicológico. Novamente, suspirou, bebendo metade da garrafa de água que trouxera em sua bolsa antes de guardar as coisas e se preparar para ir embora. O dia havia apenas começado, havia mais um lugar que ela deveria ir antes de se sentir satisfeita por dá-lo por encerrado.

Louise havia saído mais cedo do trabalho naquele dia, de forma que quando chegara da academia, a amiga já estava no apartamento, batendo as portas dos armários a procura de algo para fazer para o almoço. Louise fez uma careta ao ver o estado da companheira de apartamento, sequer ousando respirar muito fundo quando a psicóloga se aproximou para pegar uma garrafa de água na geladeira.
- Não temos o que comer. – Louise disse, batendo a última porta do armário.
- O que? – perguntou. – Estamos morando em lugares diferentes? Porque eu vejo muita comida aqui. – Ela apontou para as portas do armário, que havia detalhes em vidros que permitia ver seu conteúdo sem precisar abrir toda hora.
- Ah, , querida ! Quando você vai aprender a comer bem? – Louise suspirou, derrotada. revirou os olhos e sorriu, rendendo-se à amiga.
- O que você quer comer? – A mulher perguntou, não se surpreendendo ao ver a amiga mudar os ânimos rapidamente.
- Abriu um novo restaurante aqui perto de comida tailandesa. – Louise disse, puxando um cardápio que não havia reparado. – E eles entregam.
- Tailandesa? O que diabos é comida tailandesa? – perguntou, franzindo o cenho ao abrir o cardápio e não reconhecendo nada. – E não me diga que é comida que eles comem na Tailândia.
- Bem, meio que é. – Louise disse, fazendo um bico pela amiga ter cortado sua resposta.
- Peça o que quiser, eu vou comer o pedido que você fez ontem à noite daquele restaurante chinês novo. – disse, já abrindo a geladeira e tirando as duas caixinhas que haviam sobrado da noite anterior. – Se sobrar algo da comida tailandesa, eu como quando voltar.
- Você vai sair? – Louise olhou a amiga, a curiosidade explícita em seus olhos.
- Hoje é dia quatro de maio. – disse, como se isso fosse o suficiente.
- Ah... – Louise assentiu, entendo rapidamente o que a amiga pretendia para aquele dia. – Quer companhia? – Perguntou, já sabendo que uma negativa viria em seguida.
- Não, só vou tomar um banho e já vou sair. Aproveite sua comida tailandesa. – disse, colocando um garfo cheio de macarrão frio na boca antes de fechar a porta do quarto.
Louise suspirou, de repente perdendo a fome e o interesse na comida tailandesa. Como havia conseguido esquecer aquele dia? Sempre fora o mais esperado durante o mês de abril, principalmente durante as últimas semanas do mês. Perguntou-se se aquela mudança repentina nos hábitos de era um reflexo da data que havia chegado. Mas então lembrou-se que a psicóloga nunca havia feito isso nos anos anteriores. O que a levava a continuar a acreditar que a mudança era devido ao novo paciente. Bilbo. Ela precisava dar um jeito de descobrir mais sobre ele.

O dia claro e agradável não parecia combinar muito com aquele cenário. Geralmente, ao ver imagens de um cemitério – seja em foto ou em algo filme – o local era sempre conectado a dias frios e chuvosos. De alguma forma, sentia-se aliviada por só fazer aquela visita na primavera, não gostaria de ter que ir ali em dias chuvosos, não gostava daquela imagem. Parou na barraca que vendia flores ao lado do portão e comprou dois arranjos, um de rosas brancas e outro de rosas amarelas, eram as melhores opções que tinha com aquelas cores. Sorriu simpática para o vendedor enquanto o mesmo lhe entregava os buquês e saiu, virando logo para entrar no cemitério.
Ela conhecia o local como sua própria casa, nos primeiros meses após as perdas sofridas, visitara muito aquele local. Sabia até mesmo alguns nomes espalhados pelas lápides, gostava de, às vezes, parar em frente a alguma e inventar histórias para as pessoas ali enterradas. A grama verde e aparada, o caminho ladeado por lápides dos mais diversos tamanhos, formas e cores, algumas cercadas por flores, outras nem tanto. Ela observava tudo, sentindo o nó na garganta aumentar a cada passo que dava. Percorreu todo o caminho, contando mentalmente como uma forma de se acalmar. Era a única coisa que chegava mais perto de funcionar. Aquela data era sempre mais delicada para ela, a dor de uma perda tão significativa já era grande, de duas então, ela não havia encontrado ainda uma forma de descrever que fizesse jus ao que sentia.
Quando enfim chegou à fileira que lhe interessava, ela pisou na grama. Antes costumava ir pelo verde, sentindo o cheiro dos buquês novos e observando tudo. Só com o tempo foi perceber que isso lhe deixava ainda mais triste, principalmente quando parava para observar as datas e percebia que havia uma criança entre um e outro adulto. Logo reconheceu a árvore antiga e frondosa, com raízes que se espalhavam pelo gramado à frente e nas quais já havia chorado inúmeras vezes. Por fim, parou em frente à duas lápides, entre as duas. De um lado, a lápide de mármore branco com dizeres em dourado: Albert , logo abaixo os anos de nascimento e morte – 1930 – 2007, e a frase escolhida genericamente que não chegava perto de traduzir a grandeza daquele homem: amado avô. Do outro lado, a lápide também em mármore branco, mas com os dizeres em preto: Robert – 1957 – 2007, amado pai. Nenhuma das frases condiziam com o que ela realmente sentia pelos dois, mas não havia mais outra pessoa para fazer uma escolha melhor, então ficara por aquilo mesmo. Em frente a lápide do avô, ela depositou as rosas amarelas – a cor favorita do homem –, e para o pai ficaram as rosas brancas. Após tocar as duas lápides com as mãos por um tempo, sentou-se na grama, em frente as duas e suspirou.
Fazia aquilo há cinco anos e nunca conseguira mudar o ritual: entregava as flores, tocava as lápides, sentava-se e chorava por algum tempo. Não se permitia chorar muito, havia prometido anos atrás que não se permitiria isso, eles não gostariam de vê-la daquela forma. Sabia que os dois se orgulhavam mais de vê-la continuar a trabalhar e aproveitando cada dia da sua vida e não perdendo tempo chorando a morte deles. Fora uma fatalidade, e ela chorou tudo o que podia, não precisava mais.
- E ai, velhinhos, como estão? – Ela perguntou depois de ter enxugado as poucas lágrimas que haviam escorrido por seu rosto. Olhou brevemente para o céu azul, com algumas poucas nuvens, como se esperasse ver os rostos deles surgindo e eles fossem lhe responder. – Aqui estamos novamente. Desculpem não ter trazido flores melhores, eu até queria, mas estavam todas feias.
suspirou, esticando as pernas, observando o espaço ao seu redor. Nada realmente mudava naquela região, não haviam mais lápides novas, elas agora ficavam mais para frente, e poucas vezes ela vira alguma lápide ao redor com flores. Até mesmo a grama ao redor de algumas estavam mais descuidadas.
- Seus vizinhos continuam sem receber muitas visitas, então? – Ela perguntou e depois sorriu. Conseguia ouvir em sua cabeça o avô lhe repreendendo por fazer uma piadinha daquelas. – Eu sei, desculpa, vô. – Ela disse, sorrindo para a lápide do mais velho. Havia um espaço logo em cima de ambas as lápides onde deveria haver uma foto dos dois homens, mas ela se recusara a preencher aquele espaço. Não queria uma única imagem como lembrança deles quando viesse visita-los, preferia ter várias imagens de diferentes momentos. Conseguia até mesmo lembrar o tom de suas vozes, diferentes tons para diferentes tipos de conversa. – Bem, eu acho que as novidades de vocês continuam as mesmas, né? Só eu que tenho coisa nova para contar, como sempre.
Ela observou ao longe, ouvindo um choro infantil, e viu logo a família em frente a uma lápide. Quantas vezes já havia visto aquela cena? Todo fim de semana que viera até aquele local nos meses que seguiram a morte do avô e do pai, o cemitério estava cheio de famílias como aquela. Algumas pessoas costumavam olhar para ela, sozinha, sentada no chão, falando para o vento. Ninguém julgava. Esse era o lado bom do cemitério, ninguém te julgava por falar sozinho, todos faziam a mesma coisa.
- Bem, enfim... – Ela disse, desviando a atenção da família. Talvez quando fosse embora passaria em frente àquela lápide para descobrir quem estava enterrado. Ela gostava de fazer isso. – Eu tenho um paciente novo. E acho que vocês vão gostar de saber quem é. Na verdade, vocês são os únicos que vão saber, já que não posso sair contando essas coisas para todos, não é mesmo? Se vocês estivessem vivos, seria muito triste ter esse paciente e não poder contar. Se bem que se vocês estivessem vivos, talvez eu não teria desistido do meu caminho anterior, não é mesmo? – Ela suspirou, sentindo o nó na garganta apertando. – Enfim, meu paciente novo. – olhou ao redor, certificando-se de que estava sozinha. Havia apenas uma pessoa próxima a grande árvore, ela sequer conseguia ver seu rosto, mas não lhe apresentava qualquer perigo. Mesmo assim, ela se viu falando as palavras seguintes bem baixinho, como se temesse que um vento soprasse e conseguisse levar suas palavras para quem estivesse perto. – É o Capitão América! – O gritinho que veio em seguida ela não conseguiu, e nem quis, conter. Estava guardando aquilo por muito tempo, desde quando havia encontrado Steve na praça, mas sabia que não seria o mesmo se não dividisse com aqueles dois a sua frente. – Sim, vô, é ele mesmo! E, sim, pai, é um desafio e talvez seja maior do que eu possa lidar, mas eu estou tentando. Não podia negar ajuda, não é mesmo? Vocês me ensinaram isso. – Ela disse.
Seus olhos captaram um movimento próximo à árvore e ela prestou atenção, a pessoa que ali estava começava a se afastar. franziu o cenho ao notar que a pessoa parecia usar um longo casaco, que não condizia com o tempo abafado que fazia naquele dia. Ela mordeu o lábio inferior, incerta. Respirou fundo e piscou os olhos algumas vezes, afastando de si aquela sensação de insegurança. Era só mais uma pessoa vindo visitar um parente falecido. Ou um daqueles adolescentes estranhos que adoravam passar o tempo no cemitério.
- Foi até um susto, sabem? Ele aparecer assim, tão perto. – Ela voltou a falar, desviando a atenção da árvore. – E eu falei de vocês para ele. Ele pareceu gostar de vocês. Talvez teria gostado de conhecer vocês. – Uma lágrima teimosa conseguiu escapar e trilhar seu caminho pelo rosto dela. suspirou. – E eu voltei a praticar meus socos, pai. As primeiras sessões com Steve, sim é o Capitão verdadeiro, não um novo cara usando o escudo e o uniforme, foram difíceis. Só tivemos duas, a última foi ontem, mas foram difíceis. – Ela cruzou as pernas e arrancou uns pedaços da grama embaixo de si. – Sempre discuti perdas com meus pacientes e nunca me senti afetada, mas com ele foi diferente. E eu não sei por que, isso que é a pior parte. – Ela encarou as duas lápides. – Queria que estivessem aqui. Vocês com certeza teriam a resposta.
Em seguida ela se deitou na grama, observando o céu azul, algumas nuvens brancas que ousavam se formar. E o restante da tarde passou contando sobre suas seções com Steve e as impressões, contara as ideias que tivera e como acreditava que nenhuma conseguiria ser posta em prática, já que o soldado era extremamente imprevisível, assim como seus relatos. contou também sobre as sessões na academia, sobre como lembrava-se do pai lhe ensinando a dar um bom soco e das vezes que ela praticara no homem, sob o olhar atento e as risadas do avô. Contou sobre Louise e a preocupação com o novo paciente, e como ela de novo havia se oferecido para acompanha-la até ali. E então ficou em silêncio, apenas ouvindo o silêncio ao seu redor ser quebrado pelo farfalhar das folhas nas árvores quando alguma brisa soprava. A família provavelmente já havia ido embora. O sol já começava a dar seus primeiros sinais de descida, e ela permaneceu ali, em silêncio. Como costumava fazer inúmeras vezes com os dois homens quando ainda eram vivos. Ela sabia que aquele era um momento favorito dos três, ainda que nenhum houvesse se manifestado sobre isso alguma vez. Certas coisas não precisavam ser ditas, ela havia aprendido com eles.
Após um longo tempo, quando o céu começou a ficar mais alaranjado, e o sol já estava bem baixo, ela voltou a sentar na grama e a encarar aqueles dois pedaços de mármore. As lágrimas voltaram com força e ela não as impediu, o momento da chegada e o da partida eram os únicos que elas vinham e ela permitia. Talvez porque naquele mesmo dia, há cinco anos, ela não tivera a chance de dizer oi mais animado ou um simples tchau.
- Eu não sei se ainda volto esse ano, provavelmente não. – Ela disse. – Nunca volto, não é mesmo? – Riu sem graça, enxugou com calma as lágrimas que haviam umedecido sua bochecha e suspirou, levantando-se em seguida. – Obrigada por mais um dia. Se comportem, não briguem... E eu amo vocês. – Ela depositou um beijo no alto da lápide de cada um. Quando virou as costas para ir embora, não olhou para trás, sequer lembrou de voltar para conferir a lápide na qual a família chorava mais cedo.

A mesa de centro da sala estava repleta de caixinhas de comida recém-entregue quando ela passou pela porta. O cheiro forte de tempero e coisas que ela não reconhecia atingiu suas narinas com força e ela franziu o cenho. Louise, que vinha da cozinha com uma garrafa de vinho, sorriu e abriu os braços ao vê-la chegando.
- Bem na hora! – A mulher disse, voltando à cozinha para pegar mais uma taça.
- Que cheiro é esse?
- Comida tailandesa. – Louise disse, entregando a taça, já com vinho, para a amiga, que a aceitou e seguiu a outra até o local onde o cheiro estava mais concentrado.
- Achei que tivesse comido no almoço.
- Minha querida, em que mundo você estava? Eu comi um lanche no almoço. Até parece que eu ia comer comida nova sem minha fiel companheira.
- Você precisa de um namorado, ou uma amiga nova só para essas coisas. – disse, largando a bolsa no sofá, tirando o tênis e tomando um gole do vinho. – Você pediu o cardápio todo?
- O jornal que está pagando! Se eles querem uma crítica sobre o local, eles que paguem. – Louise deu de ombros, ajoelhando-se em cima de uma almofada que estava no chão e começando a abrir as caixas. – Confesse que está pelo menos um pouco curiosa, e com muita fome, para experimentar tudo isso aqui.
- Eu mal sei onde a Tailândia fica. – disse, ajoelhando-se no tapete e depositando sua taça na mesinha, ajudando a amiga a abrir algumas caixas.
- Até parece, rainha da geografia, você. – Louise disse, olhando a amiga e esperando que ela soltasse.
- Ásia. – disse, tentando buscar em sua memória mais algum dado, mas desistindo logo em seguida ao sentir o cheiro de uma caixa que havia acabado de abrir. – Certo, isso parece gostoso. Como foi o atendimento? – perguntou, lembrando-se das perguntas-chave para a elaboração de uma boa crítica.
- Satisfatório, a mulher não era muito educada, ou paciente. – Louise disse, pegando um garfo e espetando algo para comer logo em seguida. – A entrega foi boa, rápida. Acho que ajuda ser aqui perto, mas pela quantidade de coisa que eu pedi, achei que fosse demorar mais.
- Você pediu tudo do cardápio, não foi?
- Eu pedi o que não parecia muito estranho, o que não era muito. A comida tailandesa não é muito diferente e absurda assim. – Louise disse, passando uma caixinha para experimentar do que havia ali. – Tá ganhando daquele restaurante grego pelo menos.
- Qualquer um ganha daquele restaurante grego. – disse, de fato aprovando a comida tailandesa. Sabia que, em parte, Louise estava com aquele teatro todo para adiar a pergunta inevitável, que sempre vinha quando ela chegava em casa naquele dia. – Eu estou bem, Lou. – Louise parou o garfo a meio caminho da boca, para depois abaixá-lo e suspirar.
- Eu sei que sim. – A moça disse. – Acho que esse foi seu melhor ano. Eles sabem do Bilbo?
- Sim. – sorriu. – Desculpe, eles são os únicos que podem saber.
- Talvez seja o mais seguro, se eu soubesse mais, iria atrás dele e mandaria ele sumir.
- Lou...
- Eu sei, eu sei... Mas você não fica assustada por estar mais abalada por essas consultas do que por ir visitar seu avô e seu pai?
- São coisas diferentes, Lou. – suspirou. – Bilbo e eu... Eu não sei explicar, mas é diferente. Não vou mentir, eu estou assustada, mas também estou curiosa.
- Essa tua curiosidade é perigosa, .
- Eu sei, mas ela está controlada. Eu não posso desistir agora, não só pela curiosidade, mas por ele. Você me conhece, sabe que eu não vou desistir.
- Gosto de tentar, pelo menos. Só prometa que vai tomar cuidado.
- Prometo. – disse, sorrindo para a amiga e lhe entregando uma caixinha logo em seguida.
As duas seguiram daquela forma, cada uma experimentando algo e dando para a outra provar logo em seguida. Separando o que haviam gostado mais do que havia odiado ou só não gostado mesmo. Vez ou outra Louise anotava algo em um caderninho, pequenas anotações para sua crítica, que, pelo andar das coisas, seria muito boa. Ao terminarem, as duas estavam mais que satisfeitas, sequer tinham coragem de se levantarem do chão. Preferiram continuar ali, com Louise alcançando o controle da televisão para assistirem algo.
- Lou? – chamou quando o filme que assistiam foi interrompido para passar uma propaganda.
- Sim?
- Acho que vou começar a pesquisar para fazer um curso de doutorado, ou só especialização, ainda não decidi.
- Sério? – Louise levantou a cabeça, que estava apoiada no sofá, para olhar a amiga.
- Sim. Decidi hoje, enquanto... Acho que está na hora, não acha?
- Você sabe que eu sempre quis que você continuasse a estudar. Principalmente por você ter terminado tão rápido. – Louise disse. – Já tem alguma ideia?
- Vou começar a pesquisar ainda, mas provavelmente continuarei na NYU, sempre gostei de lá.
- E você não precisa se mudar. – Louise sorriu.
- E você não precisa procurar outra colega de apartamento.
- Como se eu fosse fazer isso caso você fosse embora. – Louise revirou os olhos, fazendo as duas rirem. – Estarei ao seu lado para o que precisar. A comida a gente já tem garantido, pelo menos.
- Torcer para eles não fecharem.
- Com a minha crítica, eles abrirão até mesmo uma filial perto da NYU. – Louise disse, as duas riram novamente.
- Você sabe que precisamos nos levantar, não é?
- Mas o filme voltou. – Louise apontou para a televisão. – Quando acabar, nós vamos.
suspirou, sabendo que as duas dormiriam ali mesmo se fosse por Louise. Decidindo deixar a amiga curtir o momento, se levantou e começou a recolher o que havia sobrado da comida, fechando as caixinhas e colocando na geladeira. As comidas que elas não haviam gostado, ela jogou fora, agradecendo por não ter sido muitas as comidas rejeitadas e por mesmo assim não ter sobrado muito para que ela não ficasse com a consciência culpada pelo desperdício.
Ela jogou mais uma almofada e um cobertor leve para Louise, que agradeceu com um aceno da mão, se posicionando confortavelmente no chão. sabia que não demoraria muito para a amiga dormir. Seguiu então para seu quarto, levando a bolsa e o tênis que havia largado na sala. Fechou a porta atrás de si e suspirou, já começando a tirar a roupa para vestir algo mais confortável. Talvez devesse tomar um banho, mas sabia que se o fizesse o sono viria logo em seguida e ela não conseguiria cumprir o que havia programado para o resto da noite. Queria pesquisar os cursos de pós-graduação que a faculdade oferecia e ver como faria para se inscrever neles, caso algum surgisse. Também queria pesquisar mais a fundo sobre as áreas da psicologia que poderia seguir. Havia decidido no caminho para casa que precisava primeiro analisar todos os casos de seus pacientes para descobrir um ponto em comum. Ela sabia que, atualmente, seus pacientes todos tinham uma linha psicológica em comum e que ela parecia atrair para si. Havia reparado aquilo meses atrás, ao ler um artigo sobre neurociência e outro em relação ao cognição e percepção. Os dois assuntos haviam chamado sua atenção e ela até mesmo ficara de pesquisar mais sobre, mas acabara se esquecendo. Agora via a oportunidade perfeita para isso.
Após vestir a calça de moletom e a camiseta da faculdade, dois números a mais do que o que ela realmente usava, puxou a caixa que continha todas as fichas de seus pacientes atuais e alguns que haviam acabado de receber alta. Em outra caixa ela mantinha os cadernos com as anotações de cada consulta, mas ela não via necessidade no momento. Nas fichas, costumava fazer um resumo de no máximo três linhas de cada consulta, além de anotar os progressos de cada paciente. Ela também acrescentava algum artigo ou informação relacionada ao principal problema do paciente e novas formas de abordar determinados assuntos. Muitos veriam aquelas fichas e fariam careta diante a aparente confusão e desorganização, mas conseguia se encontrar perfeitamente naquele sistema que havia criado. Estranhava quando recebia um paciente novo, encaminhado de outro colega de profissão e ele lhe entregava a ficha que havia do paciente, ela ficava dias perdida até conseguir se encontrar e organizar tudo.
Pegou também um caderno e uma caneta e começou a analisar as fichas, organizadas por ordem alfabética, separando-as em pilhas de acordo com as semelhanças de casos. Aquilo levou tempo, mas ela sequer sentiu o mesmo passando. Sentada no chão de seu quarto, com uma música baixa de fundo e algumas luzes acesas para dar um ar mais relaxante ao ambiente, ela mergulhou em suas fichas, analisando cada uma, anotando os pontos principais e juntando-as de acordo com seus interesses para a especialização. A de Rogers era a mais problemática, mais por afetar de forma inexplicável do que para encaixar em alguma pilha, ainda assim ela resolveu deixa-la separada. Talvez encontrasse ali, num futuro bem distante, algum estudo de caso interessante a se fazer.
Já passava das três da manhã quando ela, enfim, colocou a última ficha na pilha a qual ela pertencia. espreguiçou-se, sentindo a coluna protestar pela má-posição das últimas horas, e passou a mão no rosto. Sabia que aguentaria muito mais se quisesse, mas no dia seguinte ficaria imprestável e bagunçaria todo seu horário. E ela planejava sair um pouco, limpar a mente, esvaziá-la para que conseguisse tomar uma boa decisão. Levantou-se, aceitando a ideia do banho quentinho, e logo depois se jogando na cama, não demorando muito para dormir.

Capítulo 5

Steve estava tenso. Havia dias que ele estava assim. Precisamente, desde que acordara num quarto estranho e correra pela Times Square. Era muito para assimilar e ninguém parecia realmente querer ajuda-lo. Eram noites sem dormir, e quando o sono vinha, era cheio de pesadelos. A guerra havia acabado, ele estava em segurança, mas as memórias e os fantasmas ainda o caçavam. Então ele havia desistido de dormir. Tirava uns cochilos aqui e ali, mas ao menor sinal de um pesadelo ou um sonho mais inquieto, ele acordava.
Era a situação naquele momento. O lençol branco que forrava o colchão – macio demais na opinião dele – estava ensopado de suor, assim como a calça que usava e toda sua pele descoberta. Ele sentia o suor na nuca e em sua testa. O coração batia acelerado e a respiração estava descompassada. As imagens sequer haviam aparecido, mas os sons faziam tanto estrago quanto. Ele esperou um momento, encarando o teto acima dele, respirando fundo e sentindo o coração bater no ritmo mais rápido que o normal. Tentou encontrar algum som que pudesse ajuda-lo a desviar a atenção de mais um sono perturbado, mas àquela hora da noite, não havia muito o que ouvir. O que talvez também fosse bom, a certeza da segurança, de que nenhuma bomba explodiria perto de sua cama a qualquer minuto. Pessoas normais talvez se sentissem aliviadas por essa certeza, mas não Steve. Para ele, ainda estava em guerra.
Sentou-se na cama e jogou as pernas para fora da mesma, apoiando os cotovelos nos joelhos e esfregando as mãos no rosto. Suspirou derrotado. Era para as sessões estarem ajudando, e ajudavam. No dia. Depois tudo voltava à estaca zero. Cada dia era como o dia em que acordara naquela nova era. As informações novas eram vomitadas em cima dele sem dá-lo uma chance de assimilar cada coisa. Achara que se mudar para o bairro de infância, um local tranquilo, fosse ajudar, fosse desacelerar o processo de adaptação e permiti-lo seguir o próprio ritmo, mas aquele novo mundo não se importava com o seu ritmo. Era o dele e de mais ninguém.
O soldado suspirou e se levantou, andando pelo quarto e dando pequenos pulos. A rotina já lhe era familiar: levantar, andar pelo quarto, sentar na cama novamente, lembrar-se de informações-chave, deitar, tentar dormir, falhar, levantar e fazer alguma coisa. Ele sabia que toda noite seria aquilo, e mesmo assim não mudava, tinha esperança de que algum dia conseguiria ter sucesso em voltar a dormir.
Quando desistiu, pegou o caderno que carregava consigo pela casa, um lápis e sentou-se à janela, olhando a rua em frente ao prédio onde a S.H.I.E.L.D. o havia colocado. Não havia um movimento sequer, e o relógio na parede que indicava passar das três da manhã lhe explicava o motivo. Steve encarou a página em branco e o lápis em sua mão, uma coisa que não havia mudado era sua facilidade e o gosto por desenhar, mas até isso vez ou outra apresentava certa dificuldade. Aos poucos ele passou a alternar desenhar com escrever. Não mantinha um diário, escrevia apenas palavras aleatórias que surgiam em sua mente enquanto contemplava a rua deserta. Vez ou outra, quando o tédio batia na tarde do dia seguinte, ele voltava ao caderno para reler o que havia escrito e surpreendia-se pela grande maioria das palavras ainda serem referentes à guerra.
Naquela noite, entretanto, nada lhe vinha à mente, palavra ou desenho, e ele fechou o caderno. Considerou vestir uma camiseta e sair para dar uma caminhada, a última vez que fizera isso lhe rendera uma nova psicóloga, mas ele sabia que as chances disso acontecer novamente eram mínimas. Para não dizer nulas. Perguntou-se se haveria a possibilidade de passar pelo mesmo que ele, se ela passava noites em claro perturbada pelas sessões. Será que alguma sessão com ele já havia feito a psicóloga perder o sono? Steve se viu perguntando. Pegou-se sorrindo ao se lembrar da primeira sessão, em como ela não titubeara em assumir que era fã do Capitão América e até mesmo possuía um boneco do super-herói. Ele se perguntou porque seus outros psicólogos não poderiam ser como ela, talvez ele já estaria conseguindo dormir caso eles não estivessem mais preocupados em fazê-lo voltar a ser uma arma do que adaptá-lo para a nova humanidade.
Steve suspirou novamente, frustrado por não conseguir chegar a lugar algum com sua mente. Observou ao redor, sua sala, e viu a mala que levava para a academia perto de onde morava, o local quase abandonado onde passava boas horas socando o saco de areia enquanto as imagens assolavam sua mente. Decidido, o soldado se levantou e voltou ao quarto, onde pegou uma camiseta branca e vestiu os tênis. Voltou para a sala, pegando a mala da academia e rumou para a porta. Brigaria com o sono de uma forma mais eficiente.
O local estava completamente vazio, Steve colocou a mala no banco que havia próximo a entrada, foi até o canto onde ficavam os sacos de areia reservas e pegou dois para deixar próximo a ele. A experiência havia lhe ensinado que nas mãos dele, os equipamentos não costumavam durar muito. Enrolou as mãos na faixa para proteção, fechou os olhos, ouvindo claramente os sons que haviam feito com que ele acordasse e, ainda de olhos fechados, desferiu o primeiro soco, não dando muito espaço de tempo entre ele o segundo, emendando o terceiro e seguindo assim por um longo tempo. Aos poucos os sons ganhavam cores e imagens, as explosões vinham a ele como se ocorressem a sua frente, e isso só aumentava ainda mais a força com que Steve socava o saco de areia a sua frente. Quando o suor começava a brotar em sua testa, ele estourou o primeiro, fazendo o objeto voar longe. Steve parou, levemente ofegante, e olhou a trilha que a areia havia feito até onde o saco havia parado. Suspirou pesadamente e caminhou até onde havia colocado os reservas, pegando um, pendurando no suporte e dando sequência aos socos. Permanecendo ali até o dia amanhecer e mais além.

~ * ~


Quintas-feiras costumavam ser os dias mais agitados para , desde cedo até o fim da tarde ela tinha pacientes, parando apenas por meia hora no almoço para comer algo. E desde que havia começado a atender Steve, ela agradecia por essa rotina pesada, uma vez que impedia que ela gastasse mais tempo que o necessário pensando no novo cliente. Porém, naquela quinta-feira parecia que todos seus pacientes haviam se reunido e entrado em comum acordo de não irem à terapia naquele dia, deixando-a sem nada para fazer o dia inteiro. Bem, claro que ela fizera algo, aproveitara a folga não desejada para organizar as fichas dos pacientes dos dias anteriores, que ela havia deixado acumular.
Mas isso fora o suficiente para preencher sua manhã. Agora, duas da tarde, ela já havia terminado de comer o último resquício da comida tailandesa do fim de semana e não aguentava mais encarar as paredes do consultório. Suspirando pesadamente, ela se levantou, guardou o pote onde trouxera a comida na bolsa e saiu da sala. Confirmou com a recepcionista se realmente não havia nenhum paciente, recebendo a afirmativa de estar livre pelo resto da tarde, só tendo que voltar para o tal Bob – o nome que ela criara para Steve, já que não podia dizer quem ele realmente era. Estando livre, ela saiu do prédio, encarando o dia ensolarado do último mês da primavera.
As ruas estavam consideravelmente tranquilas, devido ao horário, e assim conseguiu andar sem muitos problemas. Conseguiu olhar algumas vitrines, passar vontade querendo comprar algumas roupas novas, e passou em uma pequena confeitaria para comprar um pedaço de torta e um suco de frutas vermelhas. Depois andou mais um pouco até encontrar um banco em frente a uma livraria de bairro, pequena e discreta, completamente charmosa aos olhos dela.
apoiou o suco no espaço vazio ao seu lado, abriu a embalagem com a torta, pegou o garfo e passou a apreciar o doce, observando as poucas pessoas irem e virem, entrando e saindo da livraria com suas sacolas e as expectativas de uma boa história que viria pela frente. Sentia o sol aquecendo sua pele exposta, o cabelo, preso em um rabo de cavalo, movia-se de acordo com a brisa que passava vez ou outra. Ali, aproveitando cada garfada do pedaço de torta, ela considerou que talvez pudesse diminuir sua carga de trabalho para ter mais momentos como aquele. Tinha trabalho e pesquisas a fazer, sabia disso, mas sabia ainda mais que seu cérebro apreciava aquele momento de paz.
- E eu aqui pensando que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. – Uma voz chamou a sua atenção e ela se voltou para o dono, já abrindo um leve sorriso por ter reconhecido o som.
- Bem, e não cai. Mesmas pessoas, banco diferente. – Ela disse, sorrindo e pegando o copo de suco ao seu lado, logo depois apontando para o espaço, convidando o recém-chegado a lhe fazer companhia.
- Achei que estivesse trabalhando.
- Você não recebeu o memorando? Todos os meus pacientes de quinta cancelaram a consulta.
- Acho que eles não gostam muito do cara novo. – Ele brincou, fazendo ela rir.
- Há boatos de que ele é meio antissocial, ficou meio afastado de tudo e todos por um longo tempo. – Ela brincou de volta, provocando a risada dele. – Então, o que faz aqui? – Ela perguntou depois que ficaram um tempo em silêncio.
- Gosto de sair andando por ai, não tenho muito o que fazer no meu apartamento, e chega um momento que a claustrofobia começa a se desenvolver aqui dentro, então saio para andar.
- Você ficou setenta anos dormindo, eu diria que você tem muita coisa para ler, assistir e ouvir para preencher seus dias. Posso até dar algumas sugestões se quiser. – Ela disse.
- Me deram um computador, me ensinaram a mexer nessas coisas e eu até tentei, mas é muita coisa ao mesmo tempo. – Ele disse, mexendo no cabelo.
- Eu entendo, vai devagar, segue seu ritmo. – disse, comendo o último pedaço de torta e colocando a embalagem ao seu lado.
Eles permaneceram em silêncio, observando o movimento ao redor. A princípio, seguiu aproveitando seu suco e a tarde livre, mas logo depois ela começou a perceber a certa tensão que emanava da pessoa ao seu lado, fazendo-a voltar-se para o homem e franzir o cenho.
- Steve, está tudo bem? – A psicóloga perguntou, deixando de lado o copo agora vazio.
- Você tem a sensação, às vezes, de que tudo fica demais? Como se tivesse um peso enorme sobre você e não importa o quanto você se esforce, chega um ponto em que não aguenta mais e parece que aquele peso vai te esmagar e sufocar?
- É como você se sente agora? – Ela perguntou, observando o homem com atenção.
- Eu não consigo não me sentir assim. Desde que eu acordei estou assim. No início eu achei que fosse coisa do momento, iria passar logo, só um estágio de adaptação. Mas não passou até hoje. – Steve disse, encarando as mãos, apoiadas em seu colo.
suspirou, mordeu o lábio inferior e tentou pensar em algo. Talvez não tivesse sido uma simples coincidência ter a tarde livre – destino, pensou ela de forma irônica. Ela olhou para o relógio, concluindo que ainda era cedo, e havia bastante tempo para fazerem uma consulta incomum, exatamente o que ela e Steve pareciam precisar naquele dia.
- Vem comigo. – Ela disse, pegando o copo e a embalagem da torta para jogar na lixeira mais próxima, ignorando completamente as perguntas de Steve e dando sinal a um táxi que passava por ali. – Apenas confie em mim. – Ela disse, entrando no táxi logo em seguida.
O endereço que ela deu, Steve não reconheceu, e eles não conversaram durante o caminho. O soldado sabia que não adiantaria perguntar para onde estavam indo, ela só revelaria quando chegassem ao destino. aproveitou a viagem para ligar para o consultório onde trabalhava e dizer que a última consulta também fora cancelada, pedindo para que as garotas fechassem a sala dela e deixassem a chave no local de sempre. A psicóloga agradeceu por ter resolvido pegar a bolsa antes de sair, ou teriam que fazer todo o caminho de volta ao consultório em algum momento.
O táxi os deixou em frente ao que parecia ser uma loja. fez questão de pagar pela corrida, que nem fora tão cara, e desceu do carro sendo seguida por Steve. Só quando pisou na calçada e olhou o local para o qual estava parada de frente foi que o soldado entendeu a intenção da psicóloga.
- Você me trouxe a um museu? – O soldado perguntou, observando a fachada do local. – Como se eu não tivesse feito isso ainda.
- Aposto que você foi naqueles museus gigantes, cheios de coisas para olhar, informações para ler e absorver. – Ela bufou, fazendo pouco caso da tentativa do soldado de se atualizar da história do país. virou-se para ele, inclinando a cabeça levemente para trás para poder olhá-lo, o soldado retribuiu o olhar da psicóloga. – Você precisa ir aos poucos Steve, coisas pequenas. E é isso que faremos hoje. Bem-vindo ao The City Reliquary, um dos melhores museus que eu já fui. E um dos meus favoritos também. – Ela disse, pegando no braço do soldado e o puxando para a porta de entrada.
Por fora o local não parecia grande coisa, mas por dentro Steve se surpreendeu ao ver a quantidade de coisas que o museu possuía. preferiu ficar atrás do soldado, deixando que ele criasse o passeio pelo local. Vez ou outra ela apontava para algo que talvez ele não tivesse notado. Ela o observava com atenção, percebendo como a tensão aos poucos foi saindo dos ombros dele. Quando chegaram à grande maquete que havia da cidade de Nova Iorque, Steve parou, debruçou-se na grade que havia para separar o público da maquete e ficou observando cada detalhe. perguntou-se se ele estaria comparando o antes com o agora. Ele não teceu comentários, e ela não forçou. Somente quando passaram pela exibição referente aos atentados do 11 de Setembro que mordeu o lábio inferior e ficou tensa diante a reação do soldado.
- Você leu sobre isso? – Perguntou ela, enquanto Steve observava cada detalhe da peça exposta.
- Sim. – O soldado respondeu. – Mas não tinha conseguido ver a dimensão da situação. – Ele completou, assentiu. – Os tempos são outros, as situações são as mesmas.
- Você disse algo parecido em nossa primeira sessão. – Ela apontou, enquanto eles seguiam em frente pelo passeio.
- Bem, é a verdade, não é? – Steve disse. – Ganhamos a guerra, é o que dizem. Mas e o que perdemos? – Ele apontou para a exibição que haviam acabado de deixar. – O que continuamos perdendo? – Questionou, sem realmente esperar uma resposta.
- É isso o que te prende? Não saber o que foi perdido?
- Não acha importante saber isso?
- Só o fato de termos ganhado não é o suficiente, você quer saber o que mais foi abalado. – Ela concluiu. – Você quer saber que não foi o único a perder algo.
- Eu sei que não fui. – Steve rebateu, as mãos nos bolsos da calça, observando alguns objetos aparentemente aleatórios.
- Mas...
- Mas... – O soldado suspirou, parando em um canto e voltando-se para a psicóloga. – Eu acho que, em parte, não consigo me adaptar não porque há muito a ser absorvido, mas porque nada parece realmente ter mudado. Há internet, televisão colorida, inúmeros carros, trens, metrôs, ônibus... Enfim, a quantidade de melhorias é infinita, mas quando você observa o que há além disso, quando você aprende sobre tragédias como 11 de Setembro... Ainda sinto que estamos em guerra, só que contra um inimigo invisível. – O soldado suspirou, respirando fundo e olhando a psicóloga com atenção. – Então, me diga, o que há para me adaptar sendo que todo esse cenário eu já conheço?
abriu e fechou a boca diversas vezes, surpresa pela resposta do soldado. Havia pensado em diversas formas que ele poderia ter respondido suas investidas, mas nunca uma resposta daquela. Todo aquele tempo, tanto ela quanto os demais psicólogos estavam errados quanto a Steve. O soldado não precisava se adaptar, ele só precisava saber contra o que estava lutando. Ele precisava de um inimigo. Fora para aquilo que ele fora criado. Steve sofria não pela guerra ter acabado, mas por ver uma acontecendo e não haver um inimigo declarado. Naquele contexto, adaptação se confundia com o real problema por não terem conhecimento de como a mente de Steve funcionava. Nenhum dos psicólogos pelos quais o soldado havia passado eram soldados. Haviam lutado alguma guerra. Tudo o que eles sabiam e conheciam do ser humano vinha de livros e algumas experiências, mas quantos deles haviam lidado com soldados? Com super-soldados? Quantos deles foram tirados do jogo antes de cumprirem com seu objetivo?
sentia que sua mente explodiria diante de tantas revelações e conclusões que essas informações novas causaram. Duas sessões com o soldado e ela caíra no mesmo erro dos psicólogos anteriores. O que um ambiente diferenciado e as instigadas certas, além da curiosidade imensurável da mulher em relação ao soldado e sua mente, não causavam. Ela sentia que via o homem com outros olhos agora, como se até então ele fosse um estranho, mas que agora ela conseguia vê-lo realmente.
- Uau. – Ela disse após um tempo, chamando a atenção do soldado que havia focado sua atenção em um objeto curioso que parecia formar a Estátua da Liberdade.
- O que foi?
- Você parece uma pessoa completamente diferente agora. – Ela confessou, sorrindo de lado. – Se soubesse que todo esse tempo a resposta estaria em um museu da comunidade, teria feito esse passeio antes.
Steve sorriu com a declaração dela e eles seguiram o passeio. Tinha que admitir, a princípio não tinha dado muita confiança para a ideia da psicóloga. Havia visitado alguns museus desde que voltara e fora exatamente como ela havia descrito: muitas informações, muitos dados, nada que realmente lhe dissesse algo. Nada que ele quisesse saber, pelo menos. Não que Steve realmente soubesse o que ele queria saber. As pessoas perguntaram muito isso para ele no começo, e ele não sabia o que responder.
Ele gostou de andar pelo museu com , ela não tentava despejar muitas informações nele, deixou que ele seguisse o caminho que quisesse, observando cada detalhe pelo tempo que fosse preciso. Vez ou outra ele perguntava algo, não necessariamente sobre a história do que viam, as vezes ele queria saber se ela estava se sentindo incomodada pela demora dele, o que fazia com que ela sorrisse e o tranquilizasse.
Quando saíram do museu, a tarde já começava a dar lugar para a noite, o horário de fechamento do local já estava bem próximo também. Os dois pararam na calçada, um de frente para o outro e se encararam, dando uma risada levemente constrangida logo depois. fez um sinal para trás e pediu para que Steve a seguisse, o que o soldado fez sem questionar. Se aquela experiência ao museu havia lhe provado qualquer coisa, era que podia confiar na psicóloga e nos planos inesperados dela.
- Por que nossas sessões não são todas assim? – Ele perguntou quando já fazia um tempo que caminhavam.
- Podem ser. Não sempre, mas vez ou outra podemos fazer algo diferente. Se for te ajudar. – respondeu, olhando rapidamente para o rosto do soldado antes de voltar a focar no caminho que faziam. – Hoje foi coisa do momento, confesso. Se você não tivesse me encontrado, estaríamos em minha sala discutindo qualquer coisa.
- E para onde iremos agora? – Ele perguntou.
- Achei que gostaria de comer alguma coisa. Seu metabolismo não deve ser muito normal, então você provavelmente está com fome. – Ela disse.
- Eu como muito, doutora. – Steve brincou.
- Eu conheço lugares baratos. – Ela respondeu à brincadeira.
Os dois seguiram até um restaurante bem discreto e aconchegante, se Steve passasse em frente nem saberia que se tratava de um restaurante. Eles entraram e seguiram pelas mesas, sentando-se em uma que ficava próxima à janela que dava para a rua. que os havia levado até lá, Steve sequer pensara em que lugar gostaria de sentar, quando viu já estava sentando-se em frente à mulher. Uma garçonete veio atendê-los e entregou os cardápios, saindo logo em seguida para deixá-los à vontade para escolher.
- Confesso que não esperava isso de um lugar tão... Sofisticado. – Steve disse ao ver as opções no cardápio. riu da escolha de palavras do homem.
- Você morou no Brooklyn toda sua vida, não aprendeu nada do lugar?
- Eram tempos diferentes. – Ele se justificou.
- Muitas lanchonetes, aposto. Milk-shake, batata frita... – Ela disse.
- Algo assim, muitos bares também. – Steve respondeu, lembrando-se dos lugares que frequentava quando voltava de alguma missão.
- Certo, eu sei que você atualmente não consegue ficar bêbado, mas algum dia na vida já ficou? – Ela perguntou, genuinamente curiosa para saber.
- Não.
- Nunca?
- Nunca.
- Meu Deus, como você era chato! – Ela respondeu. – Não saía para curtir a noite, beijar algumas mulheres... Sei lá como chamavam isso naquela época.
- Você já viu alguma foto minha de antes da transformação? – Ele perguntou, não conseguindo segurar o riso. – Eu não era o homem dos sonhos de ninguém.
- Quer dizer que hoje você é? – Ela perguntou, provocando. A garçonete trouxe uma cestinha com uns palitinhos feitos de pão e um potinho com manteiga, pegou um e mordeu um pedaço.
- Não sei, sou? – Steve perguntou, visivelmente constrangido.
- Você é adorável. – Ela disse, rindo do constrangimento dele.
- E você não respondeu minha pergunta. – Ele disse. – Diga, doutora, já sonhou comigo? – sentiu a boca se abrir, chocada com a ousadia do soldado. Depois ela sorriu de lado e deu de ombros.
- Tá ai uma resposta para os próximos capítulos. – Ela respondeu, abrindo o cardápio e focando nas informações que haviam ali.
- Achou que só eu poderia ficar constrangido em uma conversa, não é? – Ele brincou, imitando a mulher a sua frente.
- Você engana bem, vou confessar. – respondeu, fechando o cardápio após decidir o que pediria.
Ela chamou a garçonete e eles fizeram seus pedidos, depois a conversa voltou a fluir, com ela perguntando a Steve sobre o passeio no museu e o que ele havia achado de tudo. conseguia perceber a mudança significativa que aquela tarde havia causado no soldado, ele parecia mais tranquilo, mais leve. A conversa logo seguiu seu curso, com eles discutindo alguns fatos sobre a Segunda Guerra Mundial, que perguntara, não contendo a curiosidade, e para outros assuntos paralelos que surgiam de alguma frase ou informação específica.
Quando a comida chegou, eles interromperam o falatório o suficiente para saborearem o que haviam pedido. Cada um pedira um hambúrguer com porção de batata frita, ainda que o restaurante oferecesse diversas outras opções, mas os dois preferiram jogar no seguro. Steve sabia que comia muito, mas surpreendeu-se ao ver que conseguia acompanha-lo com certa facilidade.
- Louise, minha companheira de apartamento, faz críticas de restaurantes, comer faz parte da minha vida. Comer muito é praticamente exigência. – Ela disse quando ele comentou sobre o fato. – Não vamos esquecer que fui criada por dois homens também.
- Isso explica, então, você conhecer esses lugares. Sua amiga.
- Sim, ela adora fazer críticas de lugares inesperados, coisas que saiam do óbvio. – disse, finalizando o hambúrguer e trabalhando em acabar com sua porção de batata frita. – Aumenta meu conhecimento gastronômico também, conheço a culinária de praticamente todos os países do mundo. Lou sempre acha um restaurante atípico.
- Já teve alguma surpresa?
- Boa ou ruim?
- As duas.
- Ruim, um restaurante grego ano passado. Eu costumava adorar comida grega, mas depois daquela experiência, estou traumatizada até hoje. – Ela disse, sentindo um arrepio percorrer o corpo após lembrar da experiência com a comida. – Nunca passei tão mal na vida, e olha que já tive muitas ressacas. Agora boa... Acho que foi um restaurante que vendia essa comida árabe, shawarma. – Steve fez uma careta ao ouvir o nome. – Sim, eu sei, fiz essa mesma careta quando Louise recomendou, mas foi incrível, sério. A aparência dele também não é lá muito convidativa, mas o sabor compensa.
- Com licença, vocês gostariam de conferir as sobremesas? – A garçonete voltou, chamando a atenção dos dois.
- Na verdade, eu queria mais uma porção de batata frita, o que acha? – perguntou ao soldado, que concordou. – Uma porção grande.
- Você realmente não tem fim. – Ele comentou quando a garçonete saiu.
- Você não viu nada. – Ela respondeu, sorrindo em seguida.
Depois daquela porção, Steve ainda pediu mais uma, e depois eles aceitaram conferir as sobremesas, com cada um pedindo duas opções para conseguirem aproveitar mais da variedade do cardápio. O soldado já havia desistido de se surpreender com os hábitos alimentares da psicóloga, que se divertia contando sobre as experiências que Louise havia lhe proporcionado. Ele achava que já havia comido muitas coisas diferentes durante o período da guerra, mas havia ganhado completamente.
Quando enfim saíram do restaurante, a noite já havia caído completamente, com a lua bem cheia iluminando o caminho. Uma brisa fria soprava vez ou outra, mas nada que incomodasse os dois, que resolveram que após tanto comerem, eles conseguiriam andar até o prédio onde a psicóloga morava – que realmente não ficava tão longe assim.
- Eu deveria ter te encontrado antes, definitivamente. – Steve soltou em determinado ponto.
- Você teria me rejeitado igual fez com os outros. – Ela apontou.
- Como pode ter tanta certeza?
- É tudo questão de estar preparado, Steve. Uma pessoa não tem nenhum avanço na terapia se não estiver preparada para isso. Há um compromisso muito forte quando você para e pensa sobre isso. Se abrir completamente não só para si mesmo, mas para um completo estranho. Ouvir e descobrir verdades sobre si que muitos não teriam coragem de te falar. – Ela disse. – As pessoas não nascem preparadas para ouvir verdades cruéis sobre si mesmas. Desde o princípio somos criados e ensinados a nos manter na ilusão. Mentimos diariamente sem mesmo perceber. – sentia o olhar do soldado sobre si, mas ela preferiu manter o olhar para frente. – Seja numa simples promessa de acordar mais cedo no dia seguinte e começar a ir para a academia, ou se olhar no espelho e dizer para si mesmo que aquele dia será um bom dia. Nós nunca temos certeza de nada, como podemos nos prometer que teremos um bom dia? Entende? – Ela finalmente olhou para ele.
- Acho que sim. Mas é um modo muito frio de pensar.
- Frio, mas realista. – Ela deu de ombros. – Não digo que sou a exceção e não me encaixo nesse grupo de viver de ilusões. Eu sei bem a minha cota de mentiras diárias, mas pelo menos estou consciente, sabe? Muitas pessoas não estão, e muitas não estão preparadas para ficarem.
- É aí que você entra?
- Às vezes sim, às vezes não. – Respondeu ela. – Algumas pessoas me procuram quando já estão conscientes disso, e só querem uma forma de seguir em frente. Cada caso é um caso, por mais clichê que isso soe.
- Aquilo que você me disse na primeira sessão, sobre as perguntas... Permitindo que eu fizesse uma pergunta qualquer. – Steve começou, após pensar um pouco sobre o que ela havia falado. – Essa coisa das perguntas, vale só para a primeira sessão ou para qualquer outro momento.
- Qualquer momento, a intenção é que você se sinta confortável para perguntar o que quiser desde o princípio, em qualquer momento. – disse. – Por quê?
- Eu tenho uma pergunta e quero que você seja honesta.
- Não tenho motivos para mentir. – Ela disse. Àquela altura, os dois já estavam chegando na praça onde haviam se conhecido, os dois caminharam até o mesmo banco onde haviam se sentado e só então Steve fez sua pergunta.
- Eu sou seu caso mais difícil? – Ele perguntou. – Sei que os psicólogos tentam ver todos seus pacientes como iguais, ou algo parecido com isso, mas sei que isso é muito utópico.
- Você não é o mais difícil. – confessou. – Mas é o que mais me atinge pessoalmente. – Ela completou. – Somos ensinados a criar uma espécie de casca, um muro de proteção para não sermos afetados pelos nossos pacientes e suas histórias. Caso contrário, estaríamos em eterna depressão. Tanto que somos aconselhados a nos consultar com um psicólogo por conta própria, para não enlouquecermos ou algo do tipo.
- Mas eu quebrei esse seu muro? – Steve perguntou, olhando preocupado para a psicóloga.
- É uma forma de dizer. – Ela sorriu, olhando para ele também. – Pode não parecer, mas compartilhamos algumas semelhanças, e só percebi isso depois da primeira consulta. – Ela confessou. – Quando aceitei ser sua psicóloga, achei que o único desafio seria essa adaptação, mas quando a primeira sessão aconteceu, eu percebi que estava em mais problemas do que imaginava. – sorriu. – Louise nem mesmo queria que eu voltasse a te encontrar.
- Ela sabe que eu existo?
- Ela sabe que você existe, mas não sabe que você é... você, entende? – Ela tentou explicar, mas o soldado negou, visivelmente confuso. – Ética profissional, não revelo muito sobre meus pacientes para ninguém. Ela sabe alguns detalhes só. O suficiente para ficar preocupada. Ela também viu o estado que eu fiquei depois de nosso primeiro encontro.
- Sinto muito por isso. – Steve disse, claramente se sentindo culpado.
- Você não tinha como saber. Nem eu sabia. – Ela logo o tranquilizou. – Nada que uma sessão de socos e chutes não desse conta no dia seguinte.
- Você luta? – Ele perguntou, visivelmente surpreso com a nova informação.
- Não luto, mas sei me defender bem. – disse, tentando parecer convencida.
- Não acredito nisso. – Steve riu.
- Desculpe? – se fingiu de ofendida. – Não esqueça, Rogers, fui criada por dois homens. Eu posso ter ficado um tempo afastada, mas ainda consigo fazer um bom estrago.
- Duvido. – Steve desafiou. Ele levantou a manga da camiseta que usava e flexionou o braço. – Dê um soco aqui.
- Eu não vou te bater de graça, sou contra isso. – Ela disse, não sem antes dar uma boa olhada no braço musculoso do soldado.
- Deixe disso, vamos, quero ver do que você é capaz.
- Não vale eu fazer isso em você. – Ela disse, não conseguindo controlar o riso. – Você é um super soldado, eu mal consigo fazer cócegas em você.
- E eu espero que não tente. – Steve disse, de repente ficando muito sério, o que causou mais risos ainda na psicóloga.
- Um homem desse tamanho, com esse braço, que tem medo de cócegas. – Ela riu. – Você é realmente uma caixinha de surpresas, Rogers.
- Você está desviando do assunto. – Ele disse, voltando a flexionar o braço. – Vamos, quero um soco. Ou prefere aqui? – Steve virou-se completamente de frente para , abrindo os braços, sinalizando que ela poderia bater em seu peitoral.
- Meu Deus, você é impossível. – Ela disse, negando com a cabeça. Vendo a determinação nos olhos do soldado, percebeu que ele não desistiria tão cedo. – Certo, mas lembre-se que faz um tempo que eu realmente não pratico e eu voltei a treinar quando nossas sessões começaram, só fui três vezes à academia até hoje.
- Pare de inventar desculpas. – Steve disse, mantendo os braços abertos.
- Levante-se. – Ela disse, se dando por vencida e levantando, sendo imitada pelo soldado, que ficou parado de frente para ela. – Não ria de mim. – pediu, rindo de nervoso em seguida. Ela respirou fundo, fechou a mão e posicionou os pés de forma correta. Quando Steve estava prestes a reclamar que ela estava demorando demais, ela deu o soco. O soldado ofegou e colocou a mão no local socado, não conseguindo disfarçar a surpresa e a leve pontada de dor que sentiu com o ataque da mulher.
- Uau. – Ele disse, massageando o ponto atingido. – Tem certeza que você voltou tem só três semanas? – Steve perguntou, voltando a se sentar e ouvindo a risada da mulher.
- E só praticando uma vez por semana. – Ela concordou, olhando o homem com atenção. – Você realmente sentiu algo?
- Eu juro que ficaria com um hematoma se não tivesse o organismo que tenho. – Steve disse, ainda massageando o local. – Você é uma super soldado também e esteve escondendo isso de mim todo esse tempo?
- Sim, sou. – Ela disse, revirando os olhos em seguida. – Vamos embora, as pessoas já estão começando a nos olhar estranho.
- Claro, você acabou de me dar um soco. – Ele disse, levantando-se e acompanhando a mulher para fora da praça.
- Você que pediu! – Ela disse, dando outro agora em seu braço. Era para ter sido fraco, só de brincadeira, mas ela viu que o soldado logo massageou o local também, porém não reclamou como fizera da outra vez.
- Tomarei mais cuidado perto de você de agora em diante.
- Exagerado. – disse. – Eu não gosto de violência gratuita, então pode ficar tranquilo.
- Quero um dia treinar com você. – O soldado disse.
- Steve, meu treino se resume a parar uma hora, as vezes um pouco mais, socando um saco de areia, nada mais.
- A gente inventa algo mais, não tem problema. – Steve disse, parecendo animado mesmo.
- Você me destruiria só de pensar em me atacar. – Ela apontou.
- Eu pego leve, juro. – Steve garantiu, colocando a mão no coração e erguendo a outra, como se fosse fazer um juramento solene.
- Um dia, quem sabe. – acatou. – Ainda preciso treinar muito para ousar enfrentar o Capitão América.
Quando e Steve se despediram, e ela subiu para o apartamento, surpreendeu-se por não encontrar Louise na sala. Mas logo entendeu o motivo ao ouvir a mensagem de voz que a amiga havia deixado, explicando que sairia com uns colegas do trabalho. Havia até mesmo convidado para se juntar a eles, mas mesmo sabendo que ainda não era muito tarde, tudo o que a psicóloga queria era ficar em casa e fazer as anotações do dia, genuinamente feliz pelo avanço que ela e Steve haviam feito.

Capítulo 6

Steve mais uma vez encontrava-se na academia fechada, socando o saco de areia. Apesar da última sessão com ter melhorado consideravelmente sua situação mental e ele conseguir dormir melhor na maioria das noites, ainda haviam problemas que o impediam de relaxar. Problemas que ele sequer conseguia compreender, uma vez que acreditava que tudo, ou boa parte, havia sido resolvido na última sessão com . Porém, vez ou outra ele ainda acordava no meio da noite ofegante, com o som das explosões ecoando em seus ouvidos. A imagem de Bucky caindo. Do avião que ele pilotava indo de encontro ao chão. A voz de Peggy marcando o encontro com ele.
O saco de areia voou longe, o rasgo abrindo-se na lateral e espalhando seu conteúdo pelo chão. Steve já havia perdido as contas de quantos já havia estourado, sequer sabia como o pessoal da academia ainda permitia que ele frequentasse o espaço e usasse os aparelhos. O soldado virou-se e pegou um dos sacos dispostos numa fileira, pendurando-o no suporte e preparando-se para mais uma maratona de socos. Após dar o primeiro que uma voz chamou sua atenção.
- Problemas para dormir? – O homem estava parado na entrada do espaço, usando preto, como Steve já havia se acostumado, e as mãos para trás. O soldado interrompeu a sequência de socos o suficiente para reconhecer a presença do homem, logo depois voltando à atividade anterior.
- Dormi por setenta anos, senhor. Acho que já foi o suficiente. – Respondeu ofegante, dando continuidade aos socos.
- Então devia sair, celebrar, ver o mundo. – Disse o homem, aproximando-se de Steve.
O soldado olhou para o homem, agora já bem próximo, percebendo que dar continuidade a sua atividade não daria em nada, pois ele permaneceria ali. Suas intenções eram claras, Steve percebeu. Finalmente desistindo e afastando-se do saco de areia, desenrolando a faixa em torno de sua mão.
- Quando congelei, o mundo estava em guerra. – Disse ele, aproximando-se do banco onde havia deixado suas coisas, percebendo que o homem o seguia. – Eu acordo e dizem que vencemos. Não disseram o que perdemos. – O soldado suspirou, sua última consulta com , se é que podia considerar aquele passeio uma consulta, vindo à sua memória. O soldado lembrando-se de ter falado algo parecido à psicóloga.
- Cometemos alguns erros pelo caminho. – Disse Fury, ficando de frente para Steve. – Alguns, bem recentes. – Steve então notou que as mãos à frente do corpo do homem carregavam uma pasta com o símbolo da S.H.I.E.L.D.
- Está aqui numa missão, senhor? – Perguntou o soldado.
- Estou.
- Tentando me levar de volta ao mundo? – Steve deu um sorriso descrente, desenrolando a faixa da outra mão.
- Tentando salvar o mundo. – Disse Fury, abrindo a pasta e estendendo-a para Steve. Que imediatamente sentiu-se alarmado ao ver o que havia na primeira página.
- A arma secreta da Hidra. – Disse o soldado, pegando a pasta das mãos de Fury e encarando a foto do bloco azul, o Tesseract.
- Howard Stark pescou isso no mar enquanto procurava por você. – Disse Fury, chamando a atenção de Steve ao mencionar o antigo amigo. – Ele pensou o que nós pensamos: que o Tesseract poderia ser a chave para energia sustentável ilimitada. É algo que o mundo precisa urgentemente.
- Quem o roubou de você? – Perguntou Steve, devolvendo a pasta ao homem e indo direto ao ponto.
- Ele se chama Loki. Ele não é... daqui. – A hesitação de Fury não passou despercebida por Steve, que preferiu ignorá-la quando o homem continuou. – Temos muitas informações para você, se aceitar participar. – Disse Fury. Steve sentiu uma tensão espalhar por seu corpo, o chamado pela missão finalmente ocorrendo. – O mundo ficou ainda mais estranho do que você já conhece.
- Neste momento, duvido que algo me surpreenda. – Disse Steve, lembrando-se do pouco que já havia pesquisado sobre os últimos setenta anos. Ele pegou a bolsa que havia trazido para a academia e começou a se levantar.
- Aposto dez pratas que você está errado. – Disse Fury, não se abalando pela relutância do soldado. – Há um pacote de instruções a sua espera no seu apartamento. – O homem continuou, ainda que Steve não desse qualquer sinal de estar interessado na continuidade daquela conversa, o soldado queria um banho e a disponibilidade de , felizmente não precisaria esperar muito para o próximo encontro com a psicóloga. – Há alguma coisa sobre o Tesseract que você pode nos dizer e que precisamos saber? – Perguntou Fury, fazendo Steve hesitar levemente antes de continuar.
- Deviam tê-lo deixado no mar.

mordia o lábio inferior com força, mais do que seria saudável ela arriscaria dizer. A pasta em sua mesa era desconcertante. Seus dedos brincavam com o lápis sem que ela sequer tivesse consciência disso. As informações eram muitas e ela não sabia o que fazer com aquilo tudo, era péssima em tomar decisões e se via diante de uma que ditaria o seu futuro. Literalmente. Suspirou, percorrendo as folhas a sua frente com os olhos atentos, esperando um detalhe que se sobressaísse e a ajudasse a tomar uma decisão. Estava tão absorta que sequer ouviu as batidas leves na porta, e só quando a mesma se abriu num rompante que ela reagiu, pulando em sua cadeira e observando a figura alta e forte parada no portal.
- Steve, que susto. – Disse ela, pousando a mão sobre o coração, sentindo suas batidas aceleradas.
- Desculpe, mas eu bati e você não respondeu. – Disse o soldado. – Posso entrar?
- Claro. – A psicóloga respondeu, olhando a hora no relógio em seu notebook. – Eu me distraí, não vi o tempo passar.
- Está muito ocupada? – Steve perguntou, aproximando-se da mesa da mulher após fechar a porta atrás de si. Ele franziu o cenho, confuso enquanto lia de cabeça para baixo alguns papéis na mesa dela.
- Não, quero dizer, sim, mas nada de importante. – Ela se levantou, unindo os papéis de qualquer forma e jogando-os na primeira gaveta da mesa. – Sua sessão é prioridade. – então notou que as mãos do soldado não estavam vazias. – O que é isso? – Perguntou ela, apontando para o envelope que o soldado carregava.
- Nossa sessão. – O soldado sorriu sem graça, como se pedisse desculpas por parecer trazer mais um problema para a mulher.
- Como assim? – Perguntou , contornando a mesa e ficando de frente para Steve.
Ele era alto, ela sabia disso, mas ela também não era uma pessoa baixa, mesmo assim sentia-se minúscula perto do soldado. Não importava o tamanho do salto que usasse, e naquele dia era um bem alto por conta da calça mais comprida que sua perna que ela usava, ela não conseguia olhar para ele sem ter que inclinar a cabeça levemente para trás. Os olhos azuis do soldado olharam para ela, só então percebeu como estavam próximos, mas nenhum dos dois se mexeu para aumentar a distância.
- Uma missão. – Disse Steve, entregando a ela o pacote. piscou, tirando sua atenção dos olhos do soldado para focar no que ele lhe estendia.
- E eu posso ver isso? – Perguntou ela, olhando o envelope com o logo da S.H.I.E.L.D. na frente.
- Provavelmente não, mas eu confio em você. – Disse Steve, sorrindo para a psicóloga, como se a incentivasse a seguir em frente. – E eu preciso de você para tomar uma decisão, então é bom que você saiba tudo.
assentiu, abrindo o envelope e puxando os papéis que continham nele. Ela afastou-se de Steve e voltou a ocupar a cadeira atrás da mesa, espalhando o conteúdo do envelope pela superfície. O soldado puxou a cadeira em frente à mesa da psicóloga e sentou-se logo em seguida, esperando pacientemente enquanto ela lia as informações que ele sentia já ter decorado de tanto que havia lido durante o dia até a hora da consulta.
Se ela achava que os papeis que lia anteriormente continham muita informação, sentiu-se ainda mais perdida com os que Steve havia lhe entregado. A psicóloga suspirou, tentando entender as especificações técnicas daquele elemento, Tesseract, mas não houve êxito. Levantou o olhar para Steve.
- Esse Tesseract, diz aqui que é da sua época, o que pode me falar sobre ele? – Perguntou ela, observando o soldado se arrumar na cadeira, inclinando-se para frente.
- Na minha época, o líder da Hidra era o Caveira Vermelha. Seu verdadeiro nome era Johann Schmidt, ele e Hitler eram praticamente melhores amigos. Ele era uma das cobaias do soro que me transformou. Quando finalizou a primeira versão do soro, Erskine se recusou a entrega-la para Schmidt, mas ele a roubou e injetou em si próprio. Aquele soro estava instável, e apesar de dar a ele os poderes que me deu, também trouxe uma deformação no rosto como efeito colateral. – Contou Steve, tendo a total atenção da psicóloga. – Ele foi para os Alpes, onde criou sua base da Hidra e começou a desenvolver armamento para o Terceiro Reich. Mas, na sua ganância por poder, ele resolveu expandir seus horizontes e encontrar uma forma de ter a Hidra completamente no poder. Em suas pesquisas, ele descobriu sobre o Tesseract, e foi atrás dele. Com a ajuda de outro cientista, Arnim Zola, Schmidt conseguiu usar o Tesseract para criar armas extremamente avançadas, incluindo bombas nucleares.
- Uau. – não escondeu a surpresa pela quantidade de informações. Ela olhou para um ponto fixo na parede atrás de Steve, dando um tempo para sua mente se organizar, então voltou a concentração para os papeis em sua mesa. – Howard Stark... Stark... Tony Stark? – franziu o cenho, tentando conectar as informações.
- Tony é filho do Howard. – Explicou Steve.
- Ah, claro. – Ela assentiu. – Ele, Howard, encontrou o Tesseract no oceano.
- Sim, enquanto procurava por mim. – Steve suspirou, passando a mão no rosto. – Schmidt ia lançar uma bomba nuclear nos Estados Unidos, e eu tentei impedi-lo. Durante a luta, eu consegui danificar a máquina que utilizava o poder do Tesseract na bomba, mas Schmidt tentou reparar o dano com as mãos, o que causou alguma anormalidade no Tesseract, que logo depois atravessou o avião e caiu no oceano.
- Atravessou o avião?
- Onde ele encostava, ele abria um buraco. – Explicou Steve.
- Foi nisso que você...
- Congelei? Sim. – assentiu, seus dentes prenderam o lábio inferior, ato inconsciente da psicóloga, enquanto ela processava todas as informações. Sua atenção voltou aos papeis e ela foi lendo o que podia entender. Algo sobre energia sustentável e vários projetos. Até que chegou a última parte, o relatório mais recente.
- Ele foi roubado. – Apontou ela, enquanto passava os olhos pelo relatório da S.H.I.E.L.D.
- Sim. – Assentiu Steve, observando a mulher enquanto ela analisava tudo. Ao terminar de ler, levantou a cabeça, seus olhos cruzando com os de Steve.
- E eles querem sua ajuda para recuperar. – Concluiu ela, suspirando ao ver a expressão do soldado, que era o suficiente para confirmar sua conclusão.
Steve passou a mão pelo cabelo e levantou-se da cadeira, andando pela sala da mulher. recostou-se na cadeira e observou o soldado. Deixando que o silêncio se instalasse até que o homem se sentisse confiante para externar seus pensamentos. Ela só conseguia imaginar o que acontecia na mente de Steve, o conflito pelo qual ele deveria estar passando. O soldado suspirava e parava diversas vezes, mostrando hesitação em começar a falar.
- Uma coisa de cada vez, Steve. – Disse ela, concluindo que seria hora de começar a intervir para conseguir ajuda-lo. – Vamos por partes. O que vem a sua mente primeiro?
- O que eles estavam pensando? – O soldado soltou logo, mal dando tempo para a pergunta da mulher terminar de ser feita. – Por que sempre queremos estar a um passo à frente de tudo? Sem medir as consequências? Os erros do passado não são o suficiente para aprendermos e não repetirmos no presente? No futuro? – suspirou, pegando a caneta em sua mesa e mordiscando a tampa antes que causasse algum ferimento em sua própria boca. – Há um motivo para essas coisas ficarem escondidas. Perdidas.
- Você falou isso para eles?
- Eu disse agora, quando já é tarde demais. – Disse Steve, parando em frente a ela. – E mesmo que eu dissesse antes, o que iria adiantar? Parece fazer parte da condição humana querer lidar com coisas que não entendemos.
- Certo, sua revolta é pelo que exatamente? – Perguntou .
- Eu quase morri para proteger milhares de pessoas, para que ninguém mais tivesse acesso a esse tipo de poder. – Steve parecia furioso, nunca imaginara que um dia viria o soldado naquele estado. – Perdi meu melhor amigo lutando contra isso. A mulher que eu amava. E para que?
- Talvez eles pensassem que, hoje em dia, com nossas tecnologias atuais não fosse mais um perigo.
- Ninguém deveria ter tanto poder assim, doutora. – Disse Steve, finalmente voltando a se sentar. abriu a boca, mas logo a fechou, optando por permanecer em silêncio antes de dar continuidade àquela conversa. – Desculpe, eu perdi o controle. – Ela se surpreendeu ao ouvir aquelas palavras saindo de Steve. Com tanto para se preocupar, e o homem ainda colocava de lado para se desculpar por ter se exaltado.
- Você não é o primeiro e nem será o último a perder o controle em uma sessão, Steve. Não se desculpe. É natural, é esperado até. – Explicou , sorrindo para o soldado. – Vamos focar em como eu posso te ajudar, que tal? – Perguntou ela, sentindo-se aliviada ao ver o soldado concordando. – Você obviamente não acredita que o Tesseract deva voltar para as mãos erradas.
- Teoricamente, já está. – Disse Steve.
- Muito bem. – assentiu. Pensando no que poderia falar que fosse ajudar o soldado. – E sua missão seria o que? Recuperar o Tesseract?
- Sim. – Steve concordou, lembrando-se de mais alguns detalhes. – E salvar os agentes que foram comprometidos.
- Certo. – suspirou, largando a caneta e apoiando as mãos nos papéis espalhados por sua mesa. – Isso aqui... Esse monte de informações não é útil para você, certo? – Perguntou ela, vendo o soldado negar com um aceno de cabeça. – Ótimo. – Ela juntou tudo de qualquer jeito e jogou no cesto de lixo ao lado da sua mesa.
- Eu não acho que...
- Isso é simbólico, vamos focar no que é importante para você. – estalou os dedos para chamar a atenção do soldado, que ainda observava com a boca aberta os papeis jogados na lixeira. – Semana passada, durante nosso passeio pelo museu, você disse algo que chamou minha atenção. Seu discurso deixou claro para mim que seu problema era estar aqui, saber estar em guerra, mas não conseguir perceber quem é seu inimigo. Estou errada?
- Não. – Steve arrumou-se na cadeira, concentrado no que a psicóloga dizia.
- Bem, agora você tem um inimigo. – Disse ela, puxando uma das folhas que havia jogado no cesto de lixo. – Esse cara que roubou o Tesseract, e os agentes. Seu inimigo, sua missão. Eu sei que você não está feliz por descobrir que algo tão poderoso está em mãos perigosas e que vem sendo estudado por tanto tempo, mas agora o recado está dado, só falta você ajudá-los a recuperar o que foi perdido.
- Então você acha que eu devo aceitar a missão?
- É isso o que você quer de mim, então? Permissão? – franziu o cenho.
- Não permissão, claro que não... Mas... Eu não sei. – Steve voltou a se levantar. – Não sei o que fazer.
- Claro que sabe. – revirou os olhos. – É o que você quer fazer provavelmente desde que recebeu essa missão, mas quer que eu te diga se é certo ou não para fazê-lo com a consciência mais leve.
observou enquanto Steve andava de um lado para o outro em sua sala. O conflito era claro em toda sua postura. A psicóloga não imaginou que algum dia viria o soldado naquelas condições. Sempre pensou que no momento em que uma missão surgisse, ele a aceitaria sem sequer considerar as consequências. Mas lá estava ele, aguardando pela autorização dela para seguir em frente, como se parte dele não confiasse em si mesmo para tomar decisões.
- Steve, respira, relaxa. – Disse ela, por fim, sentindo seu próprio corpo começar a ficar tenso. – Que tal falarmos sobre outra coisa? Apenas para tirar sua mente disso um pouco. Pelo jeito você pensou nisso o dia todo.
- E mais um pouco. – Disse o soldado, dando uma risada fraca. – Posso pegar um pouco de água?
- Fique à vontade. – Disse , apontando para a mesinha com a jarra de água e os copos.
- Quer? – O soldado perguntou, olhando para a psicóloga apenas para vê-la negando. Steve serviu-se de água e então voltou a ocupar a cadeira em frente à mesa da psicóloga. Tomando o líquido calmamente, tentando controlar os tremores em sua mão para que não alarmasse a mulher. – Sobre o que quer falar?
- Você escolhe. – encostou-se na cadeira, observando o soldado.
- Sobre o que estava lendo quando cheguei? Você parecia bem preocupada.
- De todos os assuntos... – Ela riu, abrindo a gaveta e puxando alguns papeis. – Estou pensando em fazer um curso de pós-graduação. Quero decidir em qual faculdade e qual curso.
- Procurando o próximo desafio? – Perguntou Steve, apoiando o copo na mesa e puxando alguns papeis para si.
- Algo assim. Acho que está na hora. – deu de ombros. – Não sei porque demorei tanto, honestamente. Eu fiz um plano durante a faculdade, mas assim que me formei a carga de trabalho aumentou, então... Adiei.
- O que mudou? – Perguntou Steve, desistindo de tentar ler o conteúdo nos papeis.
- Honestamente? – Perguntou ela, chamando a atenção do soldado. – Você. – Steve abriu a boca, levemente constrangido e surpreso pela revelação.
- Devo agradecer? – O soldado realmente não sabia como reagir, fazendo a psicóloga rir.
- Acho que eu fico com essa obrigação. – Disse . – Foi aniversário do meu pai e do meu avô algumas semanas atrás, eles faziam aniversário bem próximos, então a gente sempre comemorava no meio. Eu fui visitá-los, e enquanto colocávamos a conversa em dia, eu percebi que estava mais do que na hora de seguir em frente com minha educação.
- E onde eu entro nisso? – Perguntou Steve, o constrangimento já havia passado.
- Sem ofensas? Você perdeu setenta anos da sua vida, e agora tem que achar alguma forma de correr atrás e voltar a se encaixar. Você perdeu muita coisa, ainda que não saiba ou não acredite... Eu não quero que o mesmo aconteça comigo. – suspirou. – Durante o curso, eu era interessada em várias áreas, e muito curiosa também, e sempre tive em mente que me graduaria e logo em seguida emendaria a pós-graduação, vários cursos de especialização... Mas não deu. Acho que está na hora de voltar.
- Fico feliz por ter ajudado de alguma forma.
- Eu disse que as sessões eram vias de mão dupla. – Os dois riram.
- E já descobriu que caminho vai seguir? – Steve apontou para os diversos papeis.
- Estou tentando, mas, como eu disse, eu sou curiosa e tenho vários interesses.
- Vamos lá, doutora, me ajude a te ajudar! – Steve fez com que ela risse. – Deve ter alguma área que você se interesse mais.
- Bem... – Ela ponderou. – Eu sempre gostei muito das doenças mentais e da área da neurociência.
- Já diminuímos as coisas um pouco. – Disse Steve.
- Não muito, todos esses papeis são relacionados a isso. – riu, fazendo Steve afundar o rosto nas mãos, não conseguindo conter o riso também.
- Assim você complica, . – O soldado comentou. – Escolheu onde irá estudar, pelo menos? Espero que eu não tenha que procurar outra psicóloga.
- Você provavelmente aterrorizaria a pobre coitada, ou pobre coitado. – comentou. – Pretendo ficar por aqui, talvez continuar na mesma que eu me graduei.
O silêncio voltou, fazendo perceber que a mente de Steve já havia divagado. Apesar de manter o olhar nos papeis que ela havia mostrado, a mulher sabia que o soldado voltara a pensar na missão que recebera e pesar os prós e contras daquela situação. suspirou, tirando os papeis do cesto de lixo onde os havia jogado e os organizou, colocando-os de volta no envelope que Steve trouxera. Ela, então, se levantou e contornou a mesa, apoiando-se na mesma logo em seguida, ficando frente a frente com o soldado.
- Aqui. – entregou o envelope a ele. – Se eu acho que você deve ir? Parte de mim sabe que sim, outra espera que não. O que você decidir fazer, faça por achar que é o certo, não por achar que tem algum dever com a sociedade ou com as pessoas que te encontraram. – O soldado a olhava com atenção, o cenho levemente franzido. – E se você for, por favor, tome cuidado, Steve.
O soldado não soube o que responder, pegou o envelope que ela lhe estendia e acenou com a cabeça. Ambos sentiam o ar de despedida, mas ambos esperavam que na próxima semana, no mesmo horário, eles estariam ali novamente. só percebeu que lágrimas haviam preenchido seus olhos quando a porta se fechou atrás de Steve. Ela pressionou os lábios um contra o outro, num esforço para controlar as lágrimas. Não havia motivo para fazê-lo, ela sabia disso. Assim como sabia que ele aceitaria aquela missão e daria o seu melhor para recuperar o Tesseract e aqueles comprometidos. Era o que Steve fora criado para fazer, foi para aquilo que ele treinara. Foi isso que o fizera congelar por tanto tempo. Ela não precisava de anos tendo-o como paciente para saber que ele não ficaria de fora daquela missão.
Quando chegou em casa, agradeceu por Louise já estar dormindo, ela sabia que não conseguiria explicar a amiga o motivo de sua expressão tão abatida. Não era nenhum segredo que pelos próximos dias a psicóloga não conseguiria dormir direito, e talvez ela fosse pagar mais diárias na academia. Ficaria lá até que alguém a expulsasse do local, e iria na esperança de que cada soco afastasse sua mente dos riscos que Steve estaria correndo.

~ * ~


Era o segundo dia seguido que estava ali na academia. Dessa vez, ela havia aceitado a sugestão do treinador disponível e agora eles estavam no tatame, praticando alguns golpes de luta. Durante aquelas duas horas que ficaram ali, Steve sequer passara pela mente da psicóloga. Ela havia se concentrado em cada demonstração e cada explicação dada pelo treinador, surpreendendo-o pela facilidade com que conseguia aprender e aplicar os movimentos. Ao final das duas horas, ela sabia que deveria voltar para casa, tomar banho e estudar, mas sua mente praticamente implorava para que ela continuasse ali. De forma que se viu encarando um saco de areia por mais uma hora. Quando enfim chegou em casa, suada e louca para tomar um banho, surpreendeu-se ao ver Louise em frente à televisão e não assistindo a um filme ou série.
- O que é isso? – Perguntou , largando a bolsa da academia no chão ao lado da porta de entrada.
- Jornal, está em todos os canais. – Respondeu Louise, sequer desviando os olhos da televisão para olhar a amiga. – Parece o fim do mundo, começando em Nova Iorque.
aproximou-se da televisão para enxergar melhor e seus olhos não acreditavam no que viam. As imagens não eram as melhores, provavelmente gravadas de celulares e de repórteres que saíram correndo para se proteger, mas era o suficiente para entender o que Louise queria dizer com fim do mundo. O repórter, a salvo no estúdio, narrava em tempo real e na medida do possível a aparente invasão alienígena. Somente quando um vídeo passou, de um grupo lutando em uma das ruas, foi que conseguiu compreender porque parecia estar mais apreensiva do que o normal. Ali entre aquelas pessoas lutando contra os invasores, ela viu o borrão azul tão característico dos quadrinhos que passara sua infância toda lendo.
- Não. – Disse tão baixo que Louise não conseguiu ouvir.
Sem se preocupar em estar toda suada e precisando desesperadamente de um banho, sentou-se no sofá, não confiando mais na estabilidade de suas pernas. As mãos cobriram a boca, aberta em choque, e os olhos não desviavam da tela a sua frente, os ouvidos atentos a qualquer notícia sobre o grupo de heróis lutando para proteger a terra.
Louise saiu do chão, onde estava sentada, e ocupou o espaço ao lado da melhor amiga, as duas segurando as mãos enquanto observavam as imagens que o canal passava e repassava quando não conseguia novas. Era difícil ter equipes no chão gravando em tempo real, mas eles estavam tentando. Em determinado momento, uma das imagens mostrou o enorme buraco no céu de Nova Iorque, sobre a Stark Tower, de onde as criaturas não paravam de sair. As mãos se apertaram com força, e as duas se aproximaram ainda mais, quando o repórter anunciou que parecia que havia um míssil indo em direção à cidade. E juntas elas seguraram a respiração quando viram o Homem de Ferro carregando o míssil em direção ao buraco. Nem mesmo o repórter conseguiu manter sua narração enquanto Tony Stark não saía daquele buraco. E todos comemoraram quando, enfim, o homem surgiu em queda livre, o buraco completamente fechado e as criaturas morrendo instantaneamente.
- O que diabos foi isso? – Perguntou Louise assim que o repórter voltou a narrar o que havia acabado de acontecer. olhou para a amiga, percebendo que ela chorava, assim como a própria.
- Experiência de quase morte? – Tentou brincar a psicóloga, apesar de não conseguir se concentrar muito no que Louise respondeu, sua atenção focada na televisão, tentando conseguir alguma informação sobre o Capitão América e sua equipe. Ainda não havia notícias sobre a condição de Tony Stark.
Louise continuava a falar, narrando quando a confusão toda começou, sem perceber que a psicóloga não prestava atenção em nada que ela dizia. passou a mão pelo cabelo, olhando rapidamente o relógio em seu pulso para confirmar que apenas algumas horas haviam passado, e não dias desde que ela havia chegado no apartamento. Naquele momento, odiou-se por não ter nenhuma forma de contato com Steve para saber se o soldado estava bem ou não. Como se ela precisasse de mais um motivo para não dormir à noite. Ficaria colada àquela televisão até que alguém lhe desse alguma informação sobre o grupo de heróis que havia lutado naquela batalha.
- ? ! – Louise gritou, chamando a atenção da amiga.
- O que?
- Você não ouviu uma palavra do que eu disse, não é?
- Desculpe, eu... Eu me distraí. – A psicóloga suspirou. – O que você disse?
- Você precisa de um banho. – Louise apontou.
- Não, eu... Eu quero saber o que aconteceu, se acabou mesmo. – apontou para a televisão.
- Você viu o que aconteceu, claro que acabou. – Louise havia levantado e ido para a cozinha, procurando algo para comer. – Estamos vivas, assim como o resto da população. Você já pode ir tomar um banho.
- Mas...
- Se tiver qualquer novidade, eu te aviso. – Louise suspirou impaciente, olhando para a amiga de forma a mostra-la que não havia nada que a psicóloga pudesse dizer que a faria se convencer de que um banho não era necessário no momento.
- Qualquer novidade, você invade aquele banheiro. – apontou o dedo para a amiga.
- Pode deixar.
Nenhuma novidade veio, e o banho serviu apenas para tirar o suor do corpo de , porque ela não conseguiu relaxar um momento sequer. A cada cinco minutos ela fechava o registro para se certificar que Louise não havia tentado chama-la para mantê-la por dentro dos acontecimentos. Mas quando saiu do banheiro, a mulher viu que a amiga não havia mudado o canal e havia até mesmo voltado a se sentar no sofá, comendo e prestando atenção às notícias.
- , está tudo bem? – Louise perguntou quando a amiga voltou para a sala, vestindo suas roupas mais confortáveis. – Você não ficou tensa assim nem no 11 de Setembro.
- Bem, ali foi um atentado, mas não um alienígena, não é mesmo? – A psicóloga comentou, pegando um pedaço da torta de frango que Louise comia.
- É só isso mesmo o problema? – Louise observou a mulher.
- Tenho um paciente que foi para Nova Iorque para resolver algumas pendências. – Explicou , seu cérebro trabalhando mais que o normal para conseguir criar quase-verdades sobre a condição de Steve. – Fiquei preocupada.
- É com ele que você tem estado preocupada esses dias? – olhou para a amiga, surpresa pela pergunta. – Qual é, , não sou sua melhor amiga por qualquer motivo. Aliás, que tipo de melhor amiga eu seria se não notasse que tem algo te incomodando? – Louise sorriu. – Você ir para a academia na sexta já estou acostumada, agora ficar mais tempo e ainda ir no sábado e passar a manhã toda lá? Só não me diga que esse paciente é o Bilbo. – O suspiro que deu foi a afirmativa que Louise precisava. – , eu avisei que isso não ia dar certo.
- Lou, eu não preciso de “eu avisei” agora. – Retrucou , parando a amiga de responde-la com um sinal da mão para que as duas prestassem atenção na televisão, que agora dava detalhes sobre o estado de Tony Stark e seus companheiros.
- Capitão América? – Louise perguntou. – Não é ele que você... Meu deus! Ele voltou? Como assim? Ele não tinha morrido?
- Parece que não. – respondeu, tendo que se esforçar para parecer mais surpresa do que aliviada pela notícia.
- Seu avô e seu pai ficariam tão felizes. – Comentou Louise em seguida. – Imagine ter a oportunidade de verdade de conhecer o Capitão América? – preferiu não responder, preferindo comemorar internamente a notícia de que Steve estava vivo. – Será que é aquele mesmo de eras atrás? Como será que ele está vivo ainda?
- Quem sabe? – Perguntou , aproveitando a distração da amiga para roubar mais um pedaço da torta.
- Enfim... – Louise balançou a cabeça, voltando sua atenção para a psicóloga. – Bilbo. Isso tem que acabar.
- Lou, eu não posso! – levantou-se do sofá, desistindo de acabar com sua fome com pedaços roubados da torta da amiga, e procurando algo para ela mesma comer. – E se ele tiver sobrevivido a isso? Vivenciado algo e queira minha ajuda para superar?
- , querida, eu amo essa sua necessidade de ajudar os outros e essa sua incapacidade de negar ajuda, mas você precisa parar nesse caso. Desde que você começou a tratar seus pacientes, nenhum te afetou tanto quanto ele. Você está lutando, ! Você! Que não faz mal a uma mosca! – Apontou Louise, olhando atentamente a amiga. – Eu não gosto disso.
- Você não precisa gostar, Lou. – retrucou, largando o pote com o resto da comida da noite anterior e olhando a amiga. – Apenas entenda que eu não posso abandoná-lo! Estamos fazendo progresso, você tem ideia do quanto ele tem melhorado? Sim, ele me afeta, não vou negar, mas eu não vou deixar isso ficar no caminho. Não é certo eu terminar isso agora, e mesmo que fosse, eu não o faria.
- Você não está apaixonada por ele, está? – Perguntou Louise, surpreendendo até mesmo a si própria por essa conclusão que havia chegado.
- Não seja absurda, Lou. – desdenhou da ideia da amiga. – Se eu não acho ético abandoná-lo só porque você não está feliz com nossas consultas, até parece que eu permitiria isso acontecer.
- Sabe o que dizem... A gente não escolhe por quem se apaixona. – Louise provocou.
- Eu não estou apaixonada pelo Bilbo. – Disse , achando dificuldade em acreditar que realmente havia falado aquelas palavras. Se Louise não levasse tão a sério aqueles apelidos, e aquela conversa em particular, as duas provavelmente teriam caído na risada pelo que a psicóloga havia acabado de falar.
O silêncio que se seguiu tornou o ar pesado, pegou sua comida recém esquentada no micro-ondas, informou a Louise que tinha trabalho a fazer e foi para seu quarto, onde sentou-se na cama e ficou encarando o prato de comida por um longo tempo, a fome sumindo. Ela finalmente estava sozinha e podia comemorar que Steve estava bem, na medida do possível. sentia a tensão abandonando seu corpo aos poucos, à medida em que seu cérebro ia processando apropriadamente a informação. Deveria até mesmo tomar um outro banho para aproveitá-lo do jeito certo, mas sabia que aquilo seria absurdo. Em determinado momento, a conversa com Louise encontrou seu caminho para a área principal de seu cérebro, incomodando-a enquanto ela tentava ingerir a comida em seu prato. Ela não sabia por qual motivo seu cérebro havia trazido aquele momento de volta, sendo que ela tinha tanta certeza das coisas que havia falado. respirou fundo e focou sua atenção na comida, aos poucos fazendo sumir a conversa com Louise.
Ela não havia mentido, realmente tinha trabalho a fazer. Tudo o que havia deixado de lado durante aqueles dias de tão tensa que estava com a partida do soldado. Agora que estava em seu quarto, ela até se surpreendia pelo desenrolar dos eventos, esperando que aquela batalha, que agora os jornais chamavam de Batalha de Nova Iorque e estava em todos os sites de notícia que existia na internet, fosse o ponto final daquela missão. se via ansiosa agora para a próxima quinta-feira, perguntando-se, enquanto lia os detalhes sobre a batalha, se Steve apareceria já naquela semana ou ficaria afastado por mais algum tempo. Pelo que podia ler, percebia que a situação ia muito mais além que aquela batalha, e ela desejou não só que Steve aparecesse, mas que ele trouxesse os relatórios mais completos para que ela pudesse saber todos os detalhes de como tudo havia realmente acontecido.
- Deixe de ser curiosa, . – Disse a si mesma, fechando os inúmeros sites de notícias e focando no trabalho que tinha a fazer. – Ele está bem, agora foca no dever.
Ela focou, mas não conseguia afastar completamente a ansiedade pela próxima quinta-feira. Que chegou e foi embora sem qualquer notícia de seu último paciente. se viu roendo todas as suas unhas durante aquela noite insone, perguntando-se milhares de vezes que motivos Steve teria para não ter aparecido. Ele estava em Nova Iorque, afinal, que trabalho teria em aparecer para sua sessão?
- Não enlouqueça, , ele está bem. – Disse a si mesma, enquanto encarava o teto, sem qualquer sinal de sono. – E ele vai aparecer. Talvez tenha ficado preso na S.H.I.E.L.D. resolvendo algum problema. Você leu sobre, sabe que não é tão simples quanto parece.
O saco de areia recebeu toda sua frustração na sexta, sábado e domingo que se seguiram ao não-comparecimento de Steve. Até mesmo o treinador surpreendeu-se, durante a sessão de treino deles, com a intensidade da psicóloga, que se desculpou ao final após acertar um chute certeiro no queixo do homem.
Ela tentava repetir para si mesma as palavras que havia dito na noite de quinta, que tudo estava bem, que a S.H.I.E.L.D. o havia prendido para alguma ação burocrática. Muitas vezes funcionava, principalmente quando ela estava entre pessoas que não conseguiam começar a compreender a confusão que estava sua cabeça. Em outras, quando estava sozinha, aquelas palavras não faziam efeito algum. Louise percebia a tensão na amiga, mas preferiu não comentar, as lembranças da última conversa sobre o assunto ainda bem frescas em sua memória. Conhecia bem a psicóloga e sabia que quanto mais pressionasse, mais a estressaria e a afastaria. Louise, então, apenas observava, atenta a qualquer sinal de que fosse necessária sua interferência.
A semana passou e mais uma quinta-feira chegou. atendeu cada paciente na esperança de que alguma das meninas da recepção surgissem para dizer que havia chegado um de última hora e que precisava desesperadamente de sua atenção. Mas nada disso aconteceu. E quando todos foram embora, e ela ficou na sala a espera de sua porta ser aberta porta por Steve, e isso não aconteceu, suspirou derrotada, já imaginando mais uma noite insone. A mulher se levantou de sua cadeira, juntou suas coisas e saiu da sala, tendo que fazer malabarismos enquanto trancava a porta a segurava as pastas com os dados dos pacientes daquela semana, que ela precisava atualizar.
Enquanto caminhava em direção a recepção, começou a sentir um cheiro forte de comida, percebendo seu estômago se manifestar por não ter almoçado naquele dia. Ela então parou na porta que separava a recepção do corredor com as salas dos demais psicólogos. A figura alta e forte, parcialmente iluminada pelas poucas luzes acesas na sala, carregava um pacote na mão direita. sequer percebeu as pastas caindo ao seu redor com um estrondo, as mãos indo diretamente para a boca semiaberta.
- Meu Deus! – Foi tudo o que ela conseguiu dizer, enquanto acompanhava o homem se aproximar dela lentamente, um pequeno sorriso em seus lábios.
- Desculpe o atraso. Mas pelo menos eu trouxe shawarma.

Capítulo 7

mal conseguia reagir. Sabia que o soldado esperava uma resposta, mas tudo o que ela conseguia fazer era manter a boca aberta, ainda coberta pelas mãos, e ficar olhando-o de cima abaixo, se certificando de que nada estava fora do lugar. De fato, não fossem alguns hematomas no rosto, Steve parecia absolutamente bem. Seu impulso inicial, após processar que o soldado realmente estava ali, foi correr até ele e abraça-lo, mas ela se controlou, consciente de que talvez fosse um ato muito além do lugar em que eles estavam na relação que construíam.
- Doutora? Você está bem? – Steve se aproximou mais um pouco, colocando o pacote de comida em uma das poltronas da sala de espera.
- Eu... – piscou, chacoalhou a cabeça rapidamente, tentando recobrar o controle de seus pensamentos e atos. – Não acredito que está aqui.
- Achou que eu tivesse morrido? – O soldado deu um sorriso de lado.
- Teria saído nas notícias. – Comentou ela, se abaixando para começar a recolher as pastas que havia caído.
- Eu te ajudo. – Steve se aproximou, ajudando a organizar a pilha.
- Obrigada. – Disse ela, quando ele a ajudou a levantar.
- Estava indo embora antes da nossa consulta? – Perguntou ele, apontando para a bolsa que a moça carregava no ombro.
- Bem, você não apareceu, achei que não viria.
- Eu me atrasei só um pouco. – Apontou o soldado, colocando as pastas na mesinha de centro da sala. – E ainda trouxe comida. Shawarma ainda. Você gosta não é?
- Como você... Eu não acredito nisso. – riu, abrindo o pacote e encontrando a comida lá dentro. – Não acredito que lembrou disso.
- Como se fosse possível esquecer. – O soldado comentou, corando rapidamente após perceber o que havia falado, e o que tais palavras poderiam implicar. – Bem, espero que esteja com fome, porque eu trouxe muitos.
- Você é inacreditável. – disse, sentando em uma das poltronas e ajudando Steve a organizar a comida. – Uma invasão alienígena e você pensa em me trazer comida.
- A comida veio depois. – Steve contou, sentando-se finalmente. – Quando Tony voltou para a terra...
- Após parar o coração de todo mundo. – Observou .
- Sim, ele sugeriu que fôssemos a esse lugar que vendia shawarma porque ele queria experimentar. Eu sabia que já tinha escutado esse nome em algum lugar, e ai lembrei de quando saímos, e você me falou sobre as comidas que já havia provado. – Steve deu de ombros e desviou o olhar, como se de repente tivesse ficado consciente de que estava falando mais do que deveria. – Espero que seja tão bom quanto o que você experimentou.
- Tenho certeza que estará ótimo. – Ela sorriu para ele, pegando um shawarma para si e mordendo um pedaço. – Então, quando você voltou?
- Hoje, na verdade. – Steve disse, imitando a mulher. – Cheguei há pouco tempo.
- Você sabe que não precisava ter voltado hoje para a sessão, não é?
- Já faltei uma semana, doutora, não podia faltar mais.
- Isso não é escola, que você tem limite de faltas, Rogers. – A mulher brincou, pegando um pouco de molho e passando no lanche. – Isso aqui está delicioso, aliás.
Steve sorriu, e os dois dividiram o tempo entre comer a quantidade absurda de comida que o soldado havia trazido e conversas. achou melhor não fazer perguntas sobre o incidente em Nova Iorque, sabia que teriam tempo para isso mais tarde. Apesar de dar risadas e parecer descontraído, percebia que a tensão estava de volta aos ombros do soldado e aquilo a preocupava, algo deveria ter acontecido para tal acontecimento. Perceber isso dificultava ainda mais a determinação da psicóloga em não comentar sobre Nova Iorque.
- Steve... – mordeu o lábio inferior, transformando o guardanapo em uma bolinha enquanto pensava no que falar. O soldado a olhou, tomando o último gole do seu refrigerante.
- Sim?
- Está tudo bem? – Perguntou a psicóloga. – Eu não ia perguntar sobre o que ocorreu hoje, mas não consigo ignorar essa tensão.
- Tensão? – O soldado franziu o cenho.
- Eu demorei a perceber, confesso... Mas você está tenso da mesma forma que estava semanas atrás. É como se tivéssemos regredido. – O soldado pigarreou e se mexeu na poltrona, claramente desconfortável. – Aconteceu alguma coisa?
- Foi uma Batalha, , claro que coisas aconteceram. – O soldado disse, olhando um ponto fixo no chão.
- Eu sei, não esperava que você voltasse intacto, sem algum retrocesso, mas não esperava que fosse ser dessa forma. – A psicóloga apontou. – Parece que estamos nas primeiras sessões novamente.
- Eu... – Steve passou a mão nos cabelos. – Desculpe, doutora, eu não quero falar sobre isso. Não hoje.
- Steve...
- Não! – Disse o soldado, um pouco mais alto que o pretendido. Ele olhou para , que viu o arrependimento estampado ali. – Desculpe.
- Está tudo bem. – Ela pressionou um lábio contra o outro. Não estava, mas ela deixaria o assunto de lado por enquanto. – Eu vou lavar minha mão, depois você pode me acompanhar?
- Claro, eu vou limpar essa bagunça. – Steve disse.
As mãos de tremiam quando ela as colocou embaixo da água gelada que jorrava da torneira. A psicóloga olhou seu reflexo no espelho e respirou fundo. Havia se assustado com a explosão repentina de Steve, não iria mentir, e a mudança ainda mais repentina dele a havia assustado. Era como se ele tivesse um autocontrole maior do que o que ela sabia ser possível para certas situações. Talvez fosse aquilo que o transformasse em um bom líder. jogou um pouco de água gelada no rosto, apenas para se acalmar mais um pouco, e então fechou o registro. Respirou fundo mais algumas vezes enquanto enxugava o rosto e as mãos. Precisava fazer aquele ar tenso entre eles sumir, ou poderia piorar ainda mais o caso do soldado.
Steve a esperava com as mãos nos bolsos da calça, olhando para a rua por uma das janelas. Ele virou-se levemente quando ouviu os passos da psicóloga se aproximando. A mulher se surpreendeu ao ver a sala completamente organizada, até mesmos suas pastas estavam empilhadas perfeitamente na ponta da mesinha de centro, próximas a sua bolsa. Ela recolheu suas coisas e se aproximou do soldado, que sorriu levemente para ela antes de acompanha-la até a porta. Ela sentia que ele estava diferente, como se estivesse mais contido após a explosão, e isso a preocupava, não o queria se contendo para não causar mais problemas, mas deixaria para lidar com aquilo em outro momento.
- Então, quais são os planos para o fim de semana? – Perguntou ela quando já estavam do lado de fora, andando pela calçada.
- A mesma coisa de sempre, treinar na academia, ler um pouco, talvez começar a ficar por dentro do que ocorreu no mundo desde que eu sumi. – O soldado deu de ombros. – E você? Vai socar um saco de areia com a minha foto colada para descontar a raiva que está sentindo de mim?
- Por que estou com raiva de você? – Perguntou ela, olhando rapidamente para o homem ao seu lado.
- Não sei. – Steve disse, parecendo se encolher como se estivesse envergonhado por ter feito algo errado. – Eu realmente sinto muito pelo que ocorreu antes.
- Steve, fique tranquilo. – disse. – Eu não deveria ter puxado esse assunto, deveria ter mantido a conversa em águas rasas. – A psicóloga suspirou. – Mas você não está errado quanto ao saco de areia, só não terá sua foto colada nele. – Os dois riram.
- Já está pronta para me encarar em uma luta? – Steve perguntou, sorrindo para a psicóloga.
- Isso eu sempre estive, mas me dê mais algumas semanas. – A psicóloga sorriu de volta. Eles passaram em frente ao um caminhão que vendia sorvetes, Steve parou.
- Pergunta do dia – o soldado disse após a mulher perguntar o que havia acontecido. – Qual é o seu sabor favorito?
- Steve...
- Não, doutora, sem fugir da pergunta. – Disse ele, apontando para ela.
- Você tem noção de como isso está pesado? – Perguntou ela, mostrando as pastas. Steve foi até ela, pegou a pilha e colocou embaixo do braço. – O que...
- Não está mais pesado, não é? – O soldado sorriu. – Então, sabor favorito?
- Tá certo, então. – A psicóloga sorriu, observando o soldado com atenção. – Qual você acha que é?
- Inteligente. – Steve fez uma cara pensativa, causando risos na mulher por ter exagerado um pouco mais que o necessário. – Preciso de algumas dicas.
- O que? Isso não é justo. – A mulher riu. – Vamos, Capitão, analise a situação, descubra meu sabor favorito de sorvete.
- É um que existia na minha época? Ou é algum completamente muito diferente que inventaram nos últimos anos?
- Rogers, isso é patético. – não conseguia parar de rir. – Como eu vou saber quais sorvetes existiam na sua época?
- Engraçadinha. – Steve revirou os olhos.
- E você está enrolando... Vamos, descubra meu sorvete favorito. – Ela cruzou os braços. – Aposto que até o moço que vende já descobriu, não é? – olhou para o homem, que riu e acabou assentindo. Se ele mentia ou não, Steve não conseguia dizer. – Vamos fazer um acordo? Você descobre meu sorvete favorito e amanhã vai me ver treinar para ver se eu já posso te enfrentar ou não.
- Agora ficou interessante. – O soldado ponderou. – Certo, vamos lá, você consegue, Rogers. – Ele disse para si mesmo. Pediu licença ao homem do caminhão de sorvete e colocou as pastas da psicóloga no balcão, para poder cruzar os braços e analisa-la. tentava controlar a risada, também cruzando os braços. – Você tem cara de quem gostaria de um sorvete comum, como chocolate ou morango... Mas você gosta de comer, então já deve ter experimentado muitos sabores, e não ficaria em um tão clichê. Arrisco a dizer que é um com algo bem banal, que geralmente só crianças gostam. – Ele se virou para o vendedor do caminhão. – Ei, você tem daqueles que meio que explode na boca? Ou algo parecido? Daqueles que fazem algo na língua.
- Sim, tenho dois. Um que explode e outro que deixa a língua colorida. – O homem disse. Steve olhou para , que permanecia de braços cruzados e agora mordia o lábio inferior.
- Sorvetes que explodem na boca são da sua época? – perguntou, arqueando a sobrancelha, como se não acreditasse naquilo.
- Estou no caminho certo, pelo menos? Não consigo ler sua expressão. – O homem parecia desesperado, e isso fez a mulher voltar a rir.
- Você está... Se tiver voltado no tempo e estiver conversando com minha versão de dez anos. – A mulher disse. – Ou se eu estiver realmente muito triste. – A verdade era que aquele realmente era o favorito de , mas há anos ela não o comia pelas memórias tristes que ele trazia, então ela evitava os sorvetes que explodiam na boca.
- Então cancela a explosão, moço. – Disse Steve, olhando rapidamente para o moço. – Aliás, me ajuda um pouco, moço.
- Não posso, senhor. – O homem disse, sorrindo pesaroso para o soldado. – Tenho mais medo dela do que tenho do senhor. – explodiu em risadas.
- Perdeu a moral mesmo, Rogers. – Disse a psicóloga. – Vamos, última chance.
- Como assim, última chance? Eu nem sabia que havia um limite. – Steve se desesperou.
- Não tinha, mas eu estou perdendo a paciência, então ou você acerta ou desiste logo. – A psicóloga se apoiou na lateral do caminhão, esperando o soldado se decidir.
- Não diga que é pistache. – Steve fez uma careta.
- Pelo amor de Deus, Rogers! – suspirou, não conseguindo conter a risada. – Por que você complica quando a resposta é tão simples? Moço, perdoa meu amigo aqui, nós vamos querer um de chocolate normal com cobertura de morango e outro de cookies.
- Cookies! Esse não existia no meu tempo. – Steve apontou.
- O de cookies é para você, Rogers. – A psicóloga respondeu, pegando as casquinhas que o homem lhe entregava. – Ele vai pagar, moço.
- Mas cookies não é o meu favorito. – O soldado comentou, pegando a casquinha que a mulher lhe entregava. Depois de pagar o homem do sorvete, Steve pegou as pastas da psicóloga e começou a segui-la.
- Porque você nunca comeu, mas você tem cara de quem vai gostar. – Ela o olhou com uma sobrancelha arqueada, esperando ele experimentar o sorvete.
- Uau, isso é bom. – Comentou Steve, após ingerir um pouco do sorvete. – Ponto para você, doutora.
- E menos dez para você, soldado. – Ela revirou os olhos. – Não acredito que não conseguiu acertar uma coisa simples como essa.
- Mas você gosta de comer!
- Rogers, eu te levei num restaurante com inúmeras opções e escolhi um hambúrguer com batata frita! – Apontou a mulher. – Eu gosto de comer? Sim. Mas eu gosto de coisa simples. Eu fui criada por dois homens, não esqueça. Não havia muita abertura para gostarmos de coisas refinadas. O paladar que eu tenho hoje, eu o tenho por culpa da Louise, mas no fundo, no fim do dia, eu ainda vou para minhas origens. Um pote de sorvete de chocolate ao leite, nada de amargo.
- Não gosta de algo um pouco mais forte, doutora? – Steve brincou.
- De amarga já basta a vida, Rogers. – A mulher retrucou, rindo em seguida. – E você está muito saidinho, Capitão.
- Estou de folga. – Comentou ele.
- Pena que não irá aproveita-la me vendo treinar. – Apontou a mulher, apreciando seu sorvete.
- Ah, não! Não acredito. – Steve grunhiu, batendo em si próprio rapidamente para se punir por ter perdido algo tão banal como aquilo.
- E eu ia te dar a chance de me enfrentar. – A mulher deu de ombros, suspirando como se realmente estivesse triste por aquilo não acontecer.
- Algo me diz que você sabia que eu não iria acertar. – Steve comentou, andando de frente para ela por um tempo, como se quisesse olhar a reação dela àquela informação.
- Eu leio mentes agora, Rogers? – Retrucou a mulher. – Se fosse o caso, não teria dificuldades para analisar meus pacientes.
- Você leria a minha?
- Você tem algo para me esconder? – Replicou ela, arqueando a sobrancelha.
- Quem não tem alguns esqueletos no armário, não é mesmo? – Steve perguntou, voltando a andar normalmente, ao lado da mulher.
- Porém, agora honestamente, se eu pudesse ler mentes, eu provavelmente não leria a sua. – confessou, finalizando seu sorvete.
- Por quê? – Ele percebia que estavam chegando perto do prédio onde a psicóloga morava, e queria prolongar a conversa por mais tempo.
- Sem ofensas? – Perguntou , vendo o soldado assentindo. – Sua cabeça deve ser uma bagunça, acho que às vezes nem você queria conviver com ela. Se eu durmo umas horas a mais depois de alguma noite fora em algum barzinho, eu já acordo desnorteada, imagino como deve ser para você.
- As noites são piores, durante o dia tem mais distração. – Steve comentou. – Acho que você se divertiria durante o dia.
- Eu imagino... Pensando em quantos novos sabores de sorvete foram inventados.
- Não vou mentir, foi difícil. – O soldado confessou, fazendo os dois rirem. – E você acertou, acho que cookies realmente pode ser o meu favorito.
- Qual é o original? – Perguntou ela, vendo que seu prédio já estava na próxima quadra.
- Creme.
- Meu Deus, Rogers, como você é chato! – Exclamou , rindo da expressão aterrorizada que o soldado fez. – Não é possível que em 1940 não existissem tantos sabores de sorvete assim. Pelo menos um chocolate!
- Na verdade, eu nem podia tomar muito sorvete por conta de todos os problemas de saúde que eu tinha. – Steve disse, colocando a mão que não estava ocupada com as pastas da mulher no bolso da calça. – E quando passei pela transformação, eu não tinha muito tempo para tomar sorvete. Não é como se tivéssemos uma sorveteria exclusiva para nós na guerra, sabe?
- Eu entendo, Steve. – Ela disse, ficando em silêncio por um tempo, só para depois voltar a rir. – Mas creme? – O soldado se rendeu à frustração da psicóloga e riu.
- Ah, o destino final. – Steve suspirou quando os dois pararam em frente ao prédio onde a psicóloga morava.
- Ele sempre chega. – A psicóloga suspirou também. – Obrigada por hoje, pela comida e pelo sorvete. Na próxima eu te dou um desafio mais fácil.
- Engraçadinha. – Steve sorriu. – Meu próximo desafio será nossa luta, essa eu ganho.
- Confiante assim, Rogers? – A mulher cruzou os braços e arqueou a sobrancelha. – Não vamos esquecer que eu já te dei um soco e você reclamou de dor.
- Não foi de dor! – Steve protestou.
- Finge que me engana, Rogers. – A mulher sorriu. – Confesse que está com medo de me enfrentar.
- Talvez um pouco.
- Disse o homem que acabou de lutar contra alienígenas. – revirou os olhos e riu em seguida. Depois se adiantou e pegou as pastas que o soldado ainda carregava. – Boa noite, Steve.
- Boa noite, . – O soldado sorriu, observando enquanto a moça entrava no prédio.
Steve suspirou, olhando ao redor antes de voltar todo o caminho que haviam acabado de fazer. Voltando para casa. Sequer havia passado em seu apartamento quando voltou de Nova Iorque, havia até mesmo deixado sua moto para trás, próximo ao consultório onde atendia. Se tivesse sido honesto, talvez o soldado teria pedido para a psicóloga ficar mais um pouco com ele, discutindo amenidades, adiando a volta para casa. Mas Steve não queria ser tão honesto naquele dia, as lembranças da Batalha de Nova Iorque ainda vivas em sua mente. Como se ele precisasse de mais cenas de guerra para fazê-lo revirar na cama à noite.

A sala não estava escura como costumava ficar quando ela chegava em casa às quintas, isso porque Louise estava em casa, sentada no chão com o notebook no colo digitando furiosamente. tirou os sapatos e os jogou para o lado, colocou as pastas em cima do aparador na parede em frente à porta e suspirou, sentindo seus pés agradecerem por não estarem mais presos.
- Alguém demorou para voltar para casa. – A psicóloga ouviu a amiga dizer, os dedos ainda batendo nas teclas do notebook.
- Alguém está com raiva do computador.
- Alguém está fugindo do assunto.
- Alguém vai ter que parar com isso. – suspirou, indo até a cozinha para pegar uma garrafa de água.
- Alguém vai explicar o motivo do atraso?
- O último paciente atrasou. – se sentou no sofá, Louise largou o notebook na hora e virou para a psicóloga.
- Bilbo está de volta de sua nova aventura? – Louise perguntou.
- É uma forma de dizer. – A expressão da amiga não passou despercebida pela jornalista, que se sentou melhor no chão para observá-la com atenção.
- O que aconteceu?
- Nada. Esse é o problema. Nada aconteceu. Ele não quis conversar sobre o que aconteceu. – passou a mão na testa. – O que me deixa ainda mais preocupada.
- Deve ter sido uma aventura bem perigosa, ou traumática.
- Acho que está mais para traumática. – se viu falando. – Era como se tivéssemos voltado às primeiras sessões, em que eu não conseguia atravessar o muro.
- Se vocês não conversaram sobre o que aconteceu, o que fizeram, então? – Louise perguntou, logo depois fazendo uma careta sugestiva.
- Pelo amor de Deus, Louise! – jogou uma almofada nela. – Nós conversamos sobe banalidades, ele levou comida, nós comemos... Depois ele me acompanhou até em casa, no meio do caminho tomamos sorvete.
- Ele sabe onde nós moramos? – Louise arregalou os olhos. – , e se ele for um pervertido? E se ele só estiver esperando o momento oportuno para nos estuprar e matar?
- Não seja absurda, Lou. – revirou os olhos. – Você pode confiar nele, eu garanto.
- O dia em que eu o conhecer, podemos discutir isso. – A mulher jogou, fazendo a amiga rir.
- Como se eu fosse deixar isso acontecer algum dia. – respondeu. – No que está trabalhando? Você parecia bem focada, e nervosa.
- Meu editor idiota. – Louise revirou os olhos. – Ele não gostou da última matéria que eu escrevi sobre os caminhões de comida da região, disse que não parece honesto. – A jornalista suspirou. – Vou enfiar a honestidade no...
- Louise! – disse, mas não controlou a risada.
- Não tenho culpa se é uma pauta ridícula. Eu fiz o melhor que eu pude.
- Bem, eu gostaria de ajuda-la, mas nós duas sabemos que sou uma negação para isso. – colocou a mão no ombro da amiga, apertando de leve. – Sem contar que estou cansada, então vou tomar um banho e dormir.
- Trouxe trabalho para casa, não foi?
- Sim. – suspirou ao se lembrar da pilha de pastas que ia encarar durante o fim de semana.
- Vai treinar amanhã cedo?
- Sim, mãe. – A mulher brincou, abaixou para dar um beijo na cabeça da amiga e depois se levantou. – Boa noite, e boa sorte.
- Obrigada. – Louise soltou um palavrão baixinho. – Boa noite, desculpe se eu gritar e te acordar.
- Está perdoada.

De certa forma, havia seguido a sugestão de Steve em colar algo no saco de areia, mas não fora a cara dele. Ao contrário, a psicóloga colara os papeis de inscrição para a bolsa de mestrado. O prazo estava acabando e ela ainda não conseguia decidir o que ia fazer com seu futuro acadêmico e profissional. Ela estava pingando, já estava ali há mais tempo que o normal, mas o saco de areia continuava a ir e vir com seus socos.
- Eu não gostaria de ser esse papel. – Disse Nick, seu treinador, se aproximando dela. parou, estabilizando o saco de areia, e olhou o homem. – O que ele te fez?
- Ele não se preencheu sozinho. – A psicóloga suspirou, passando o braço no rosto para tentar afastar o suor. Nick foi até o saco de areia e desgrudou o papel, olhando as primeiras informações, logo compreendendo do que se tratava.
- Mestrado, huh? – O homem perguntou, sorrindo. Aproximou-se de e a ajudou a retirar as luvas. – Você deve estar morta de cansaço.
- Por incrível que pareça, não. Acho que voltei ao ritmo de antes.
- Sabia que não era sua primeira vez lutando. – A psicóloga riu, desenrolando a faixa em seu pulso.
- Não, eu lutava há muitos anos, mas parei por motivos pessoais. – Ela desviou o olhar, se concentrando na faixa da outra mão.
- E voltou pelo trabalho? – Nick colocou a folha de papel em cima da bolsa da mulher, sentando-se no espaço vago do banco.
- Sim, alguns pacientes podem ser intensos demais, às vezes. – A mulher suspirou, puxando a garrafa de água da bolsa e ingerindo praticamente metade de seu conteúdo de uma só vez. – Achei que correr na esteira ou fazer musculação por uma hora não bastaria para descarregar todas as sessões, sabe?
- E tem funcionado?
- Na maioria das vezes. – deu de ombros. – Ultimamente tem sido mais por minha causa do que por eles.
- Muitos fantasmas do passado?
- É uma forma de dizer. – A psicóloga ponderou. – Enfim, desculpe não usar seus serviços hoje, precisava de um momento só para mim.
- Eu entendo, acredite. – Nick levantou as mãos, num gesto com a intenção de tranquilizar a psicóloga. – Te vejo amanhã? Ou só na próxima semana?
- Ainda não sei, depende do meu humor. – sorriu, acenando para o treinador quando ele foi embora.
A psicóloga suspirou, pegando a toalha e passando no rosto, sentindo as gotas de suor escorrerem por suas costas. Não havia mentido para Nick, não estava cansada, não daquilo pelo menos, só de ter que tomar uma decisão e não conseguir fazê-lo. Ela colocou a toalha atrás do pescoço, deixando-a caída pelos ombros e se sentou no banco para organizar suas coisas em sua bolsa. Só então notando o papel que Nick havia desgrudado do saco de areia, percebendo que não havia uma única folha ali. franziu o cenho, afastando o papel referente a inscrição do mestrado e observando o outro.
- Que p... – Ela olhou ao redor, perdendo a fala enquanto procurava a figura do treinador não o encontrando em lugar algum. A mulher voltou a encarar o papel, reconhecendo sem dificuldade alguma o símbolo no canto esquerdo, e passando os olhos rapidamente pelas informações. Seus olhos travaram em uma informação crucial, a boca abrindo-se em um perfeito “o”, os olhos enchendo de lágrimas. – Não, ele não.
passou a mão no rosto, amassando a folha em sua outra mão, não conseguindo acreditar no que havia acabado de ler. Parte dela sequer entendia porque havia recebido aquilo, mas a outra não se importava, preocupada demais em tentar diminuir o aperto que sentia em seu coração e desfazendo o nó em sua garganta. Ela queria chorar, mas não o faria em público, não no meio da academia pelo menos. Havia um lugar onde ela poderia fazê-lo, mas já havia cumprido a cota de visita do ano, ir lá mais de uma vez somente pioraria sua situação. A mulher encarou o saco de areia a sua frente e considerou soca-lo até que aquela sensação sumisse, o faria sem faixas e luvas, queria sentir as mãos se machucando gradativamente, os nós dos dedos se cortando a cada soco, o sangue brotando e escorrendo sem parar. Ela queria externar sua dor. Ainda que não fosse a forma mais saudável de fazê-lo.
Encostou-se na parede atrás de si, fechando os olhos e respirando fundo, não podia deixar aquele sentimento vencê-la, não podia. Já estava acostumada com perdas, uma a mais não deveria causar tanto efeito. Respirou fundo e contou até cem, tática que sempre usava quando precisava se acalmar. Levou seu tempo, até mesmo ultrapassou o número cem. Talvez tenha ficado ali por quase uma hora, até sentir os batimentos cardíacos normalizando, assim como o nó se desfazendo. Quando voltou a abrir os olhos, localizou Nick no fundo do espaço, ajudando outro aluno, ele olhou brevemente para ela e acenou, engoliu em seco. Talvez estivesse na hora de encontrar outra academia para treinar.

~ * ~


- E então? – Louise perguntou, mastigando o pedaço de barra de alcaçuz que havia comprado para ela. A psicóloga não entendia como alguém poderia gostar daquilo, mas era o vício da amiga, então vez ou outra ela a presenteava com a bomba de diabetes. – Já decidiu? O prazo é até depois de amanhã.
- Obrigada por lembrar, Lou! – Disse ironicamente. – Mas, sim, eu decidi, já até preenchi o formulário! – A psicóloga estendeu os papeis para a amiga, que os pegou e leu com atenção.
- Neurociência. Nerd. – Louise brincou. – Desde quando isso está pronto?
- Alguns dias? – se contorceu levemente, como se temesse a reação da amiga.
- E por que não levou para a faculdade ainda, ? – Louise olhou a amiga, não acreditando no que acabava de ouvir. Acompanhara lidando com aquela decisão há tanto tempo que já havia até começado a perder as esperanças da amiga escolher algo naquele ano.
- Não parecia certo, eu acho. – deu de ombros.
- ! – Louise chamou, e a psicóloga se assustou, a amiga só a chamava pelo sobrenome quando estava muito irritada, ou bêbada. – Eu vi você sofrendo por essa escolha por semanas e você vem me dizer que não parece certo?
- É que parece ser uma grande decisão, sabe? Maior que um simples curso de graduação... – A voz de foi diminuindo, Louise logo percebeu onde ela queria chegar. – Parece errado sem eles aqui, sabe?
- Ei, nada disso, você me escuta. – Louise contornou o balcão da cozinha e ficou ao lado da amiga. – Vai parecer muito clichê, eu sei, mas você sabe que é verdade, então dane-se! Eles estão aqui, e estão orgulhosos demais de você! Pelo que eu vejo, eles vão é ficar decepcionados se você decidir não tentar isso só por algo trivial quanto não os ter aqui. Eu sei que eu ficaria e vou ficar se você escolher não fazer isso. – Louise colocou a mão no ombro da amiga. – Eu sei que não é fácil, posso nunca ter passado por isso, mas se não é fácil te ver assim, imagino que deve ser difícil passar por isso, mas não deixe de viver sua vida e seguir seu sonho por isso. – suspirou, e Louise sorriu levemente ao perceber que seu discurso fazia efeito. – Você tem se corroído há dias por causa disso, como pode ser errado se ocupou tanto espaço na sua mente, e na sua mesa, porque eu vi a quantidade de coisa que você leu?
- Acho que você está certa.
- Sem achismo, você sabe que estou. – Louise revirou os olhos. – Vamos, eu mesma te dou uma carona até a faculdade, depois vamos jantar em algum lugar, eu pago.
suspirou, dando-se por vencida, sabendo que a amiga estava certa, ela desceu da banqueta onde estava sentada e puxou a jornalista para um abraço breve antes de soltá-la e ir até o seu quarto para se arrumar. Estava de pijama desde que havia acordado, seus pacientes todos haviam cancelado as consultas daquele dia antes mesmo dela sair de casa, de forma que ela sequer havia se dado ao trabalho de sair da roupa confortável. Ela tomou um banho rápido, vestiu a calça jeans e a blusa regata, deixando os cabelos soltos. Pegou a pasta com os documentos que precisava para fazer a inscrição e a colocou na bolsa. Ao chegar na sala, Louise já a esperava sentada no sofá, assistindo a algo na televisão.
- Finalmente! – A jornalista disse, desligando o aparelho e se levantando. – Vamos antes que você desista pela sei lá qual enésima vez.
- Não vou desistir, Lou. – Disse , rindo enquanto a amiga a empurrava para fora do apartamento. – Já tenho um projeto em mente, não vou desistir dele agora.
- É assim que se fala!
As duas entraram no carro da jornalista e logo ela deu a partida, as levando até a faculdade onde haviam se conhecido e se formado há quase dois anos. O caminho lhes era tão familiar que as duas nem mesmo prestavam mais atenção ao redor, com indo contando alguns detalhes sobre as ideias que tinha sobre seu projeto, explicando alguns termos para Louise quando a mesma o pedia. A jornalista também contava do trabalho, das discussões mais recentes com o editor-chefe. Fluía tão naturalmente que as amigas mal percebiam as mudanças no assunto ocorrendo, uma coisa puxava outra e por assim seguia.
Ao chegarem à faculdade, as duas se olharam e deram risada. Passaram quatro anos ali, cada uma no seu próprio curso, se encontrando em alguns raros intervalos e, depois, no apartamento. Costumavam sentar toda sexta no chão da sala para comer pizza e beber cerveja e reclamar dos professores e das aulas mais cansativas. Aquilo as ajudava a enfrentar o fim de semana cheio de trabalhos a fazer e textos para ler. Vez ou outra terminavam o domingo assistindo a algum filme e comendo restos de comida do dia anterior. No final de todo o semestre, elas se reuniam para queimar algo simbólico daquele período como forma de se livrar do mesmo. Eram rituais estranhos e que poucas pessoas – e ocasionais namorados e casos – entendiam, mas para elas não fazia diferença, eram sagrados e faziam efeito.
- Quanto tempo. – Louise comentou.
- Nem tanto. – Respondeu , andando pelo campus até o departamento específico. – Dois anos só.
- Parece uma eternidade. – Louise replicou, olhando ao redor. – Parece diferente.
- Talvez porque você raramente vinha para esse lado. – Comentou , abrindo a porta do prédio e cumprimentando a moça atrás do balão. – Boa tarde, as inscrições para mestrado ainda estão abertas, certo?
- Boa tarde. – A moça respondeu. – Sim, senhorita. Você possui os documentos e as fichas necessárias?
- Sim, aqui. – estendeu a pasta com toda a documentação. Observou, nervosa, enquanto a moça conferia toda a papelada, se certificando de que não havia nada faltando.
- Tudo certo, senhorita . Preencha e assine aqui, por favor. – Disse a moça após um tempo, entregando uma folha a , que leu tudo antes de assinar. Era só um papel informando a entrega e recebimento da documentação de mestrado. – Até o final do próximo mês você deve receber uma resposta.
- Tudo isso? – Louise comentou de onde estava, chamando a atenção da moça e de . – Desculpe. É que já estamos sofrendo de ansiedade há tanto tempo por isso, ter que esperar ainda mais parece tortura.
- Ela está exagerando. – disse a moça, preferindo ignorar a amiga. Ela o preencheu o papel com as informações pedidas e depois assinou. – Muito obrigada por sua atenção.
- Disponha, boa sorte e boa tarde. – A moça disse, mantendo o mesmo sorriso simpático.
- Não acredito que nos farão esperar mais um mês e meio para uma resposta! – Reclamou Louise quando já estavam fora do prédio.
- Nos farão esperar? – Perguntou , rindo da amiga. – Não sabia que você tinha feito inscrição também.
- Como se eu não fosse passar por esse processo com você. – Louise comentou. – Tinha um lugar aqui perto onde eu costumava almoçar, era uma espécie de bar, podíamos ir lá, o que acha?
- Um bar, Lou?
- Ah, qual é! Você acabou de dar um passo rumo ao mestrado, temos que comemorar! – Louise disse, já enganchando seu braço no da amiga e a puxando pelo caminho até o tal bar.
Era um lugar que conhecia, ela mesmo tendo passado algumas noites ali. No começo da faculdade ela era mais aventureira e saía mais à noite, depois que começaram os estágios e o projeto para a conclusão do curso, ela parou de sair tanto e começou a preferir suas noites em casa para relaxar após semanas e dias estressantes. Vez ou outra ela ainda encontrava resquícios daquela caloura dentro de si, mas era tão raro que ela duvidava que realmente ainda restava algo dela em si ou era só fruto de sua imaginação.
Louise e ela entraram no local, não estava muito cheio, provavelmente devido ao horário e por ser o meio da semana. Escolheram uma mesinha próxima a janela que dava para a rua e ocuparam seus lugares. Uma garçonete logo veio recebe-las e entregar o cardápio. Elas discutiram sobre o que deveriam pedir, Louise sempre presando pela diversidade, já que gostaria de fazer uma crítica sobre o local assim que voltassem. A jornalista vinha reclamando da falta de lugares novos para suas críticas, o que era um dos principais pontos de discussão entre ela e o editor-chefe. Fizeram o pedido e logo as bebidas chegaram.
- Certo, vamos fazer um brinde! – Louise disse, ficando toda animada sem nem mesmo beber algo.
- Lou, não!
- Quieta, por você estaríamos a caminho de casa, colocando os pijamas e comendo a pizza de ontem.
- E reviver o arrependimento? – fez uma careta ao se lembrar do sabor horrível da pizza que haviam pedido na noite anterior. – Não sei por que não jogamos aquilo fora. Eles deveriam se envergonhar de se denominarem pizzaria.
- Certo, certo, tudo isso já está na minha crítica. Agora vamos ao que importa. – Louise disse, pegando o copo com sua bebida, a imitou. – Se te faz sentir melhor, não vamos brindar seu passo rumo ao mestrado.
- Não? O que mais há para brindar?
- Bem, eu a crítica de ontem e a de hoje serão minhas últimas. – Contou Louise, não contendo a expressão de felicidade. – Meu chefe gostou do texto que fiz sobre a Batalha de Nova Iorque e me ofereceu uma vaga como colunista, poderei escrever sobre o assunto que eu quiser, finalmente! – Louise comemorou.
- Todos aqueles seus textos finalmente verão a luz do dia? – Perguntou , genuinamente feliz pela amiga.
- Verão tudo! A luz do dia, as tintas, os papéis, sentirão os cheiros dos jornais! Tudo o que eles tiverem direito. – Louise parecia pular no banco onde estava sentada.
- Espere... Desde quando você sabe disso? – arqueou uma sobrancelha. Louise mordeu o lábio inferior.
- Você estava tão preocupada com o lance do mestrado, e a volta do Bilbo... Não quis te distrair disso até uma coisa sair do caminho. – A jornalista confessou. – Não faz muito tempo, ele me chamou para conversar na segunda-feira.
- Então, ao meu mestrado e à sua nova coluna. – disse, erguendo o copo de bebida e batendo levemente no de Louise, que sorriu animada, repetindo o brinde da amiga. As duas beberam um gole de suas respectivas bebidas e logo começaram a fazer observações sobre o local, Louise vez ou outra fazendo uma anotação no guardanapo.
Aquele era um dos motivos que as levava a evitar frequentar lugares diferentes, elas sempre acabavam perdendo um longo tempo observando as características do local e discutindo sobre para que Louise pudesse fazer suas críticas. vez ou outra brincava que o nome dela deveria estar ao lado da amiga nas postagens semanais das críticas, o que só fazia Louise revirar os olhos e fazer um longo discurso entre observar e depois escrever de forma que os outros pudessem fazê-lo só através da leitura. já havia decorado cada palavra do discurso, e vez ou outra ficava atrás da amiga, ou de costas para ela fazendo qualquer coisa e imitando as caras e bocas que Louise fazia.
Ao chegarem em casa, já eram quase dez horas, as duas haviam se empolgado e aproveitado para continuarem no local por mais tempo, conversando e criando possíveis futuros após o mestrado e a promoção da jornalista na empresa. Em determinado momento, Louise havia criado sua própria rede internacional de jornais, e dirigia um hospital psiquiátrico focado em neurociência. Como elas haviam chegado àquele futuro, era um mistério para a psicóloga que havia bebido mais que a amiga, que era a motorista da rodada e ficara só na primeira bebida alcoólica. estava levemente alterada quando Louise fechou a porta atrás delas, contando as experiências que teria no tal hospital. A jornalista revirou os olhos e suspirou, já indo até a cozinha para preparar um café bem forte para a amiga, sabendo que com a bebida aquele efeito passaria rapidamente.
E não deu outra, bastou tomar uma xícara do café preparado por Louise, já estava quase de volta ao normal. O cansaço agora batia e a fazia se sentir pior, como se estivesse de ressaca mesmo sem ter bebido o suficiente para isso. Ela agradeceu a Louise pelo café e pela tarde, foi até seu quarto e tomou um banho quente, aproveitando a água para permitir que seus músculos relaxassem como há muito não fazia. Desde que havia decidido entrar no mestrado que ela não conseguia relaxar. sentia que se saísse do banho e fosse direto para a cama, dormiria de tal forma que só voltaria a despertar no dia seguinte. Gostou tanto da ideia que foi exatamente o que decidiu fazer. Desligou o chuveiro, enxugou-se e vestiu o pijama, foi rapidamente até a sala para dar boa noite para Louise e voltou ao quarto, colocando uma playlist calma para tocar no celular, antes de apagar as luzes, se jogar na cama e cair rapidamente no sono, na posição mais confortável, antes mesmo da segunda música terminar de tocar.

Capítulo 8/center>

não sabia dizer para o que se sentia mais ansiosa, pela carta de aceitação do mestrado ou para finalmente conversar com Steve sobre o que ocorrera em Nova Iorque. Normalmente ela já ansiava pelos dias de suas consultas porque era curiosa demais e queria entender o soldado e descobrir mais sobre sua história, o que ia além dos quadrinhos, obviamente, após o atentado ao país, ela ficara ainda mais ansiosa, especialmente pela relutância do soldado em falar sobre o que ocorrera. Porém, para sua decepção, quando o dia chegou e a sessão após a volta do homem começou, Steve se recusou a falar sobre o incidente.
- Steve, precisamos falar sobre isso eventualmente.
- Sim, eventualmente. Não hoje. – O soldado estava irredutível quanto a isso. percebia que sua expressão mudava completamente quando tocava no assunto, assim como sua postura. A tensão das primeiras sessões voltava e ela sentia o homem se afastando dela.
- Steve...
- Por favor, doutora. – O soldado pediu, suspirando resignado. – Eu ainda não consegui absorver tudo o que aconteceu. Eu quero falar sobre isso, mas eu mal sei por onde começar. Foi muito além do que eu esperava. Dê mais um tempo, por favor.
A mulher o analisou. Steve havia chegado ao consultório animado, provavelmente ainda se lembrando da sessão anterior, em que eles saíram e ficaram comendo sorvete até chegarem à casa dela. Foi doloroso, mas ela precisou estourar a bolha onde ele se encontrava para abordar o assunto de sua última missão, e foi exatamente como pareceu. O riso morreu na hora e ele fechou as mãos em punho. mordeu o lábio, ponderando se deveria tomar as rédeas e fazer a psicóloga carrasca ou se deveria deixar passar daquela vez e voltar a abordar o assunto numa próxima sessão.
- Na próxima semana, Steve, esse é o seu limite. – Disse ela, determinada. O soldado sequer pensou em contestar, vendo que não havia nada que a faria mudar de ideia. Simplesmente concordou e eles seguiram com a sessão.
À véspera da sessão limite sobre a conversa da Batalha, se perguntou se o soldado tentaria fugir. Enquanto tomava uma xícara de chá sentada no beiral de sua janela, a psicóloga tentou imaginar um cenário em que Steve Rogers fugisse de algo. Não parecia ser o perfil do soldado, ela tinha que admitir. Ele poderia não vir feliz no dia seguinte, mas faria o que ela havia pedido. Não era típico do homem negar uma ordem. A psicóloga suspirou, temendo a sessão que estava por vir. Chegara ao estágio em que ao mesmo tempo em que queria saber o que havia acontecido, ela também não queria. Provavelmente seria como a conversa que tiveram sobre Bucky e Peggy, ele ficaria mal e ela se arrependeria por ter que deixá-lo naquela situação.
Quando a quinta-feira amanheceu, suspirou, enrolando em sua cama o máximo que podia. Gostaria que seus pacientes todos cancelassem para que ela pudesse ficar ali até a hora de enfrentar o grande monstro do dia. Mas não podia prejudicar todos por causa de um. Contentou-se em agradecer por Louise não estar ali para tomar café da manhã com ela. Desde que havia sido promovida, a amiga havia ganhado o direito de entrar mais tarde no trabalho, o que para Louise era sinônimo de café da manhã juntas para conversarem sobre os planos do dia. Naquela manhã, entretanto, tudo o que encontrou foi um bilhete informando que Lou tivera que ir trabalhar mais cedo e por isso não ia poder comer com ela. sorriu diante o pedido de desculpas da amiga, sequer conseguindo comemorar pelos momentos de paz que teria antes do trabalho. A psicóloga comeu o croissant que havia sobrado do dia anterior e um copo de suco de laranja antes de ir se arrumar para o dia que tinha pela frente.
Cada consulta parecia durar uma eternidade, mas quando acabava ela sentia que havia passado voando. Nem ela conseguia mais entender seus humores. Sabia que aquilo só passaria quando desse tchau ao último paciente e para as meninas do consultório. Quando ela ficasse sozinha e conseguisse um tempo para se acalmar e poder receber Steve como se fosse qualquer outra consulta. Quando isso finalmente ocorreu, e ela estava completamente sozinha, fechou a porta atrás de si e respirou fundo. Havia uma pilha de coisas do trabalho para resolver, mas ela preferiu deixar a bagunça do jeito que estava em sua mesa. Caminhou até sua estante, selecionou um livro antigo que narrava alguns acontecimentos curiosos durante as guerras, sentou-se na poltrona e começou a lê-lo. Ela adorava aquele livro, havia recebido de seu avô no seu aniversário de dezesseis anos, após passar toda a sua vida esperando para tê-lo. Sempre que estava nervosa demais ou quando queria relaxar a mente após um grande período tenso ela se sentava para ler os fatos, distraindo-se de tudo. Além daquela cópia, alguns anos atrás ela havia adquirido outra para deixar no apartamento, para não ter que ficar carregando de um para o outro.
- Essa do frio é completamente verdade. – A psicóloga deu um grito e pulou na poltrona ao ouvir a voz tão próxima dela. Com a mão no coração e os olhos arregalados, ela virou para trás e encarou a figura do Capitão América, que a olhava com um sorriso divertido no rosto.
- Nunca mais faça isso! – Ela apontou um dedo para ele, a outra mão ainda sobre seu coração, sentindo-o bater tão acelerado que parecia que ia pular para fora de seu peito.
- Desculpe. – O soldado disse, não parecendo nada arrependido. – Eu bati, você não respondeu, entrei e te cumprimentei, você nem se mexeu. Comecei a ler alguns fatos para ver se você percebia minha presença, mas nem isso. Eu estava quase indo sentar no seu colo. – Steve sorriu.
- Eu estou tremendo, Rogers! – A mulher acusou, estendendo uma mão e mostrando os dedos trêmulos.
- Quer água? – Perguntou ele, apontando para a jarra. Sem esperar resposta, ele foi até lá e serviu um copo de água para a psicóloga. – Aqui. Eu realmente sinto muito.
- Sente nada. – Respondeu ela, pegando o copo e tomando um gole. – Que isso não se repita.
- Eu prometo. – O soldado levantou a mão, como se fizesse um juramento.
Steve ocupou a poltrona em frente à de e esperou enquanto a psicóloga terminava de ingerir a água e depois guardasse o livro. Ele ficou curioso para ler mais de seu conteúdo, deixando para perguntar ao final da sessão o título para que depois pudesse comprar. Quando voltou a ocupar sua poltrona, ainda não parecia muito feliz com o soldado, ainda sentia o coração batendo em um ritmo mais acelerado que o normal, apesar de já estar bem mais calmo se comparado com a hora do susto. Ela respirou fundo algumas vezes, tentando ignorar o sorriso divertido que Steve mantinha no rosto.
- Vai ter volta, Rogers. – A psicóloga disse, revirando os olhos após ter uma risada do soldado em resposta.
- Eu estou arrependido, juro.
- Você mente muito mal, Capitão. – A mulher observou.
- Já está mais calma? Podemos começar?
- Você parece tranquilo. – Ela apontou.
- Tive toda uma semana de preparo, tive o pressentimento que você não deixaria eu sair daqui se não conversássemos sobre isso. – O sorriso no rosto do homem sumiu, e ela constatou que a brincadeira realmente havia ficado para trás. cruzou as pernas e apoiou os cotovelos nos braços da poltrona, observando o soldado a sua frente.
- Então, como foi? – Ela escolheu ser direta, já haviam adiado aquilo por muito tempo.
- Aterrorizante.
- Não te treinaram para isso no exército?
- Quando é que conseguiríamos imaginar algo daquela proporção? – Perguntou Steve. – Mal conseguíamos visualizar alguém como eu, quem dirá alienígenas.
- Tenho permissão para saber o que ocorreu mesmo?
- Você não tinha permissão para saber sobre aquela missão, e mesmo assim eu te contei, não foi? – Steve sorriu.
O soldado ainda não se sentia bem para falar sobre o assunto, ainda tinha os pesadelos, mesmo quando acordado. Diversas vezes ao dia ele repassava cada momento, ponderando o que podiam ter feito diferente. Sabia que não adiantaria em nada e que o melhor seria seguir em frente, mas não havia algo no horizonte para ele considerar seguir, então só lhe restava viver aquilo diversas vezes. Reviver cada detalhe o ajudou quando Steve respirou fundo e começou a contar para tudo o que havia acontecido desde a chegada dele ao hellicarrier, até o surgimento de Thor, o Deus do trovão, e a apreensão de Loki, irmão do deus. Steve falou sobre as brigas desenvolvidas entre a própria equipe, como o cetro de Loki, alimentado pela energia do Tesseract, afetou cada um individualmente. E então ele chegou à grande Batalha, ao terror que os nova-iorquinos viveram naquele dia, e que eles próprios, os Vingadores, tiveram que lidar.
A psicóloga ouviu tudo com atenção, sem interromper a narrativa do soldado uma vez sequer. Vez ou outra ela se sentia tentada a fazer uma pergunta, mas mordia levemente a ponta da língua e se controlava, deixando que Steve fizesse aquilo uma única vez, sem ter que voltar sempre para retomar o que estava falando. Ela notava como aquilo era dolorido para o soldado, como ainda o incomodava toda aquela situação. Era como Steve havia dito, eles nunca imaginariam um cenário daquele. E a equipe designada para lidar com aquilo, apesar de apropriada, era a combinação mais complexa e explosiva que poderiam imaginar, e que nunca haviam sido treinados para tal situação. E então ele chegou ao momento das perdas, claro que muitos cidadãos haviam sofrido com aquele atentado. Mas eles também haviam sido desfalcados, a morte do agente da S.H.I.E.L.D. parecia abalar Steve ainda mais que tudo o que ele havia acabado de narrar. Ela sabia que não tinha ligação com Bucky, era algo diferente. Um sentimento diferente. Era como os amigos do exército, perder alguém de seu próprio time, alguém que havia lutado ao seu lado, era uma grande responsabilidade, pois seus atos seguintes, ainda que você não pensasse nisso, seria tentando honrar a vida da pessoa morta.
- Seja honesto comigo. – disse, após Steve aparentemente ter finalizado sua narrativa. O soldado olhou para ela, esperando o resto. – Foi pelo que aconteceu, a luta com esses chitauri, ou pela morte desse agente que você não queria falar sobre a Batalha?
- Um pouco dos dois... Mas acho que definitivamente mais pelo agente. – Steve confessou. – Claro que eu não imaginava que sairíamos completamente impunes, sem perder algo, mas não imaginei que seria alguém. Não queria reviver o sentimento. – mordeu o lábio inferior, levemente arrependida por ter forçado tanto o assunto, mas com a certeza de que havia feito a coisa certa. – Pelo menos não foi em vão. Cumprimos a missão, o Tesseract está em mãos confiáveis e bem protegido.
não tinha o que responder, todas as perguntas que tinha pensado em fazer antes sumiram de sua mente e ela suspirou. Não queria dar a sessão por encerrada quando sentia que ainda não haviam conseguido terminar com aquele assunto, sabia que não conseguiria criar uma outra oportunidade para trazer aquilo à tona, então precisava se esforçar um pouco mais. Ela deu um tempo ao soldado, observando enquanto ele parecia muito interessado em seus dedos, que estavam entrelaçados em seu colo.
- Você se arrepende? – Perguntou a psicóloga, chamando a atenção do soldado. – De ter aceitado a missão, digo. Se arrepende de ter ido? Ou gostaria de ter esperado uma próxima oportunidade.
- Eu pensei nisso, sabe? Arrependimento... Praticamente a única coisa que tenho pensado todos esses dias, repassando cada momento e tentando decidir o que eu faria diferente. – Steve falou, inclinando-se para frente, os braços apoiados nos joelhos. – Eu sinto que, claro, cometemos erros, mas se eu não tivesse ido, teria muito mais arrependimentos do que tenho agora.
- Quais são seus arrependimentos?
- Não são exatamente arrependimentos, são mais decisões ou atos que eu faria diferente se tivesse a oportunidade. – O soldado falou.
- Mas não acha que se mudasse, o resultado seria diferente? Talvez se você desse um passo para o lado ao invés de ir para frente, as coisas não dessem certo. Entende?
- Acho que você tem razão. – Steve ponderou. – Mas, mesmo assim, se você pudesse voltar no passado e alterar algo, não o faria?
- Se minha memória fosse apagada e eu não soubesse o resultado final, talvez fizesse alguma coisa diferente. – Ela pensou um pouco. – Mas se eu fosse consciente, acho que eu manteria tudo igual.
- Deixaria o destino se cumprir?
- É uma forma de enxergar. – Ela sorriu. – Então, depois de toda essa aventura, sente que está pronto para voltar de vez?
- Já quer se livrar de mim? – O soldado brincou.
- Quero me preparar. Vai que te convocam para outras missões, sei que não vai ser fácil.
- Eu quero ajudar e fazer o certo. Se isso significa que estou pronto para voltar, eu não sei, mas se me chamarem e eu achar que vai de encontro a isso, eu aceito.
- Só não me deixe no escuro, por favor. – brincou. Ela olhou para o relógio, surpresa por já ser tão tarde, sequer havia percebido a hora passar.
- Já passamos do horário de novo, não é? – Steve perguntou, sorrindo sem graça.
- Eu acho que sempre passaremos do horário. – A psicóloga observou.
Ele se ofereceu para acompanha-la até em casa, mas a mulher negou apontando que ainda faltava arrumar algumas coisas em sua sala antes de ir, liberando o soldado para seguir seu próprio caminho. Steve fez com que ela prometesse que pegaria um táxi caso realmente planejasse levar aquele monte de pasta para casa, o que fez a psicóloga rir, mas concordar após ver que o soldado estava falando sério. No fim, foi exatamente o que ela fez. Colocou as pastas em uma caixa que havia na sala, saiu do prédio e chamou o primeiro táxi que passou, dando o endereço de casa. Estava exausta e sabia que não teria forças para andar para casa mesmo que não tivesse a caixa cheia de arquivos. Quando entrou no apartamento, agradeceu por não ver nenhum sinal de Louise, indo direto para o quarto, tomando um banho e caindo no sono poucos instantes depois de se deitar em sua cama.

~ * ~


Ela achou que conversar sobre a Batalha de Nova Iorque a ajudaria a conter sua ansiedade, pelo menos fora um item a menos na sua lista de coisas pela qual esperar, o problema é que agora havia um outro assunto mais urgente: a resposta de seu mestrado. Durante os meses seguintes, o foco dela só não era total na chegada da carta de admissão ou recusa, porque ainda tinham os pacientes, e Louise a ajudava na distração no resto do tempo – apesar de estar tão ansiosa quanto a psicóloga.
Após dias de ansiedade, finalmente havia cedido e começado a frequentar a academia todos os dias, se não ia pela manhã, ia ao final do expediente. O saco de areia apanhando com frequência, recebendo toda a carga de ansiedade que ela carregava diariamente. Colin, o novo treinador, também recebia um pouco dessa carga devido aos treinamentos diários, que só aumentavam de intensidade a cada dia. Colin era bem treinado, mas parecia que a cada dia a psicóloga lhe oferecia um novo desafio. Logo ele percebeu que o que a movia era a ansiedade e a frustração pela falta de uma resposta.
- Está ficando cada vez mais difícil te acompanhar. – Disse o homem após finalizarem mais um treino, com ele novamente terminando no chão, com o braço torcido enquanto ela segurava sua mão e pisava em sua cabeça levemente para mantê-la imobilizada. – Não consigo ser tão criativo.
- Desculpe. – Ela riu, ingerindo um pouco de água.
- Vai me contar o que te deixa tão tensa? – Ele passava uma toalha no rosto, vez ou outra conferindo seus braços para ver se possuía algum hematoma novo.
- Resposta da faculdade. – Respondeu ela, começando a desenrolar as faixas em sua mão direita. – Inscrição para mestrado. Disseram que até o fim de agosto, esse mês, chega.
- Bem, disseram até, então logo estará nas suas mãos. – Colin sorriu, tentando tranquiliza-la.
- Não sei se deu para perceber, mas eu não lido bem com esperas. – A mulher replicou, sentando-se no banco ao lado de sua bolsa.
- Fique calma, tenho um bom pressentimento sobre isso. – Colin disse, afastando-se dela logo em seguida. suspirou e se encostou na parede atrás de si, estava encharcada em suor. Ela sabia que o treinamento intensivo não era inteiramente por causa da ansiedade, essa parte ficava mais centrada no saco de areia, o treinamento era por outros assuntos inacabados.
A psicóloga terminou de retirar as faixas, passou a toalha no rosto e no pescoço, tentando amenizar a quantidade de suor, apesar de senti-lo por todo seu corpo, colocou a bolsa no ombro e saiu da academia, encarando a noite morna que fazia, o que só piorava ainda mais o calor que ela sentia. Enquanto caminhava para casa, ela percebeu como estava com fome, implorou mentalmente para que Louise já estivesse em casa e com alguma comida pronta para ela. O que ela achava bem difícil, já que a amiga costumava ficar até mais tarde no trabalho às quartas. desconfiava que a jornalista estava de namorado novo, mas continuaria acreditando na história do trabalho até tarde enquanto Louise não dissesse o contrário. Para sua surpresa, Louise estava confortavelmente instalada no sofá, abrindo a caixinha de comida de um restaurante chinês. sorriu ao sentir o cheiro da comida, largando a bolsa no chão ao lado da porta e aproximando-se do balcão onde haviam as outras caixas com os pedidos.
- Você é uma santa. – A psicóloga disse para a amiga, enquanto pegava os talheres e a caixinha, e ia sentar ao lado da mesma.
- E você está nojenta! – Louise disse, vendo a amiga toda descabelada e vermelha pelos exercícios. – Essa sua nova rotina de academia todos os dias, não sei, não.
- Eu preciso aliviar a ansiedade, Lou! – exclamou, notando pela primeira vez o que passava na televisão. – Você está assistindo desenho do Capitão América? Por quê?
- Estava passando e eu deixei. – Louise deu de ombros, não soando nada convincente.
- Sabia! – quase gritou. – Quem é ele?
- Ele? Quem? – Louise perguntou, sua atenção focada na comida em sua mão.
- Qual é, Lou, você acha mesmo que eu compro essa de trabalho até tarde de quarta-feira? de quarta?
- Talvez tenha alguém. – A jornalista cedeu, ainda não olhando para a amiga. – Mas não sei se vai dar em algo, por isso não te falei nada.
- Não sabe por quê? – olhou a amiga com atenção. Louise não era muito apegada às pessoas, na verdade a homens em geral. Ela vivia para os casos de uma noite, raramente aparecia com um namorado que não durava mais que três meses. Vê-la daquela forma era uma novidade para .
- Não sei, ele não parece interessado, sabe? O que é irônico, porque pela primeira vez eu estou. – Louise revirou os olhos, fazendo notar as lágrimas em seus olhos. – E ele está meio fascinado pelo Capitão América, então resolvi tentar, sabe? Tentar entender o que vocês veem nesse cara. – A jornalista riu, pressionou os lábios um contra o outro, se ela soubesse...
- Você mexeu nas minhas coisas? Ou realmente estava passando? – perguntou, não estava brava, não se importava com a amiga mexendo nas coisas dela, moravam juntas há bastante tempo para não ligarem para isso.
- Encontrei uns episódios salvos. – Louise sorriu. – Até pensei em olhar na sua coleção, mas tem tanta coisa que nem sei por onde começar.
- Ele deve ser bem importante, então. Tanto tempo que a gente se conhece e você nunca mostrou interesse, só aparecer um cara na sua vida e você vai atrás. Vai me contar mais sobre ele?
- É um cara que frequenta o mesmo café que eu perto do trabalho. Ele é arquiteto, se não me engano, ou trabalha em um escritório. – Louise revirou os olhos. – Não que seja importante.
- E o que é importante? – Perguntou , comendo enquanto observava a amiga.
- Que eu estou gostando dele e ele não parece estar afim? – Louise olhou para a psicóloga. – Não tente me analisar, .
- Não estou fazendo isso. Estou sendo sua amiga, palhaça. – A psicóloga revirou os olhos. – Mas o que te faz achar que ele não está interessado?
- Bem, para começar, até hoje não fomos a um encontro de verdade. Só conversas após o trabalho, até hoje ele não aprendeu seu nome, toda vez erra. – Louise bufou, largando a comida no espaço entre elas no sofá. – Com todos os outros, eles sempre queriam ir além, sabe? Eu percebia... Nesse não tem nada. Acho que é meu castigo por ter dispensado tantos.
- Lou, vou te dar o mesmo conselho que me deram hoje: vai com calma. – segurou a amiga da mão, que estava nas costas do sofá. – Você está acostumada a ter as coisas de forma rápida, imediata, e agora só porque está vindo nas costas de uma tartaruga, não significa que não virá. E te digo mais, gostar ou não do Capitão América não fará diferença. Se ele gostar de você, será com ou sem o super soldado.
- Mas se ele me ajudar a conseguir, eu aceito. – riu junto com a amiga.
- Bem, não vou me opor a essa sua decisão, até faço companhia se você me aceitar. – disse, já olhando a televisão.
- Desde que você tome banho antes, eu até pauso para te esperar. Mas no sofá limpinho e você nojenta assim, não dá. – Louise forçou uma careta, fazendo lhe dar um tapa na mão. – A comida continuará te esperando.

No dia seguinte, não conseguiu sair do escritório nem para almoçar. Havia recebido o ultimato de última hora do chefe da clínica onde atendia que queria todas as fichas atualizadas de seus pacientes e ainda uma lista dos que havia atendido e dado alta nos últimos seis meses. Ela tinha que organizar tudo até o dia seguinte, mas como não ia ao escritório nas sextas, o prazo era a quinta-feira mesmo, e ela não estava nem na metade, já que tinha que parar para atender seus pacientes do dia.
Suas costas protestavam com veemência no final do dia, e ela sequer aguentou pegar a caixa que havia colocado no chão e que possuía o registro de seus últimos pacientes. A psicóloga suspirou e colocou as mãos nas costas, sentindo-se mais velha do que realmente era ao fazer aquilo. O pior nem era tirar a caixa do chão, mas coloca-la de volta à estante que ela estava antes no corredor, antes ela tivera ajuda de um paciente, agora estava sozinha. A psicóloga suspirou e voltou a se sentar em sua cadeira, apoiando os cotovelos no tampo da mesa e enterrando o rosto nas mãos, derrotada. Dois meses de treino intensivo e ela não se sentira tão cansada quanto naquele dia.
- Por que toda vez que eu chego ou você está completamente distraída ou parecendo que vai desmaiar a qualquer momento? – Ela levantou a cabeça, surpresa. – Ou os dois. Está virando hábito, devo fazer algum sinal quando estiver vindo para cá?
- Por que você tem que ser tão silencioso? Não pode fazer um barulho sequer? – Ela perguntou, forçando um sorriso cansado para o homem.
- Sabe que é extremamente perigoso você ficar sozinha aqui com essa porta aberta? – Ele apontou para o corredor, indicando que se referia a porta de entrada do escritório.
- Se te faz sentir melhor, quinta é o único dia que fico aqui até mais tarde e sozinha. – assegurou. – E eu acho que não preciso me preocupar se for considerar que meu último paciente é o Capitão América. Tenho dó da pessoa que tentar fazer qualquer coisa comigo.
- Não vamos esquecer que é o mesmo Capitão que sentiu uma leve pontada de dor quando você o socou, então eu tenho mais dó do que vai acontecer com a pessoa antes de eu chegar aqui.
- E eu tenho treinado. – riu, notando que o soldado ainda estava parado no batente da porta. – Você vai entrar ou vai fazer papel de porta hoje?
- Estava esperando você garantir que é um ambiente seguro. – Steve sorriu. – Você não estava com uma expressão muito convidativa.
- Desculpe, minha cabeça parece que vai explodir, não aguento mais tantos papeis. – Ela apontou para as demais caixas espalhadas ao redor.
- Espero que isso tudo não seja sobre mim. – O soldado brincou, finalmente entrando na sala da psicóloga.
- Está de bom humor hoje. – Observou a mulher. – Não, meu chefe pediu uma lista dos pacientes que atendi e dei alta nos últimos seis meses, entre outras coisas.
- Sinto muito, precisa de ajuda? – Steve perguntou.
- Não, está tudo bem. Agora é só organizar e devolver essas caixas para onde elas estavam, mas posso cuidar disso na segunda.
- Tem certeza? Eu posso ajudar.
- Tenho certeza absoluta, Rogers. Não aguento mais pensar nessas caixas por hoje. – disse, finalmente se levantando e contornando sua mesa. – Inclusive, vamos lá para a recepção e... O que é isso na sua mão? – Ela olhou o envelope que o soldado carregava, reconhecendo o logotipo que havia no canto. – Rogers, onde você achou isso?
- Estava no porta-arquivos na parede ao lado da porta, achei que fosse importante. Ia entregar a você agora. – O soldado estendeu a mão, entregando o envelope para a psicóloga. Mas não o pegou de imediato, ao contrário, ficou olhando o pedaço de papel como se ele estivesse prestes a explodir. – ?
- Eu... – Ela olhou para Steve, notando que ele parecia bem confuso. – Eu não consigo...
- É só um envelope, . – O soldado disse, apesar de suspeitar que era mais do que aparentava. – Aliás, achei que normalmente você recebia isso em casa.
- Eu coloquei o endereço da clínica, porque eu e Louise raramente estamos em casa e... – Ela se afastou do soldado, começando a andar em círculos pela sala. – Rogers, meu Deus, Steve! Eu não consigo! – Steve notou que as mãos dela tremiam. Ele colocou o envelope em cima da mesa e se aproximou da mulher, fazendo-a parar.
- Ei, respira. – Ele disse, a ajudando a se concentrar, provavelmente fazendo uma careta bem idiota enquanto forçava os movimentos de inspiração e expiração para a mulher. – Está tudo bem, se quiser eu jogo no lixo e não precisamos enfrenta-lo hoje. – Aquilo chamou a atenção da mulher, que o olhou como se ele fosse louco.
- O que há de errado com você? – Perguntou , seu olhar logo desviando para o envelope. – Está tão fino, não é? Eles não costumam ser assim a menos que você tenha sido recusado. Meu Deus, Steve, eu não consegui! Eu não consegui! Eu não passei! Eles não acham que eu sou boa o suficiente.
- , se acalma. – Sem pensar muito, Steve a puxou para um abraço, sentindo-a tremer em seus braços. A psicóloga afundou seu rosto no peito do soldado, tentando se acalmar focando em outras coisas, como a respiração dele ou as batidas de seu coração. A mão dele subindo e descendo por suas costas em um carinho delicado e suave também a ajudou a se acalmar. Havia esperado tanto tempo por aquilo, e quando finalmente estava prestes a acontecer, ela nem conseguia passar da etapa de abrir um mísero envelope. Meio a contragosto, se afastou de Steve, sorrindo agradecida para o soldado. – Está melhor?
- Só posso te responder isso quando abrir aquilo. – Ela disse, mordendo o lábio inferior.
- Quer que eu abra e leia para você? – Steve perguntou, ponderou a sugestão por um momento, mas logo depois suspirou, agradecendo a sugestão do soldado e negando logo em seguida.
- É algo que eu preciso fazer. – Assegurou ela. – Louise já vai me matar por não abrir com ela, imagine o que ela fará se souber que foi você quem leu o conteúdo para mim.
- Ela sabe que eu existo? – Perguntou Steve, sorrindo divertido para a psicóloga.
- Ela sabe de todos os meus pacientes, na medida do possível. – disse. – Não se ache tão especial.
- Não estava. – Steve riu. – E ai, pronta?
- Não, mas... – respirou fundo e foi até sua mesa, pegando o envelope. Steve percebeu que apesar de parecer mais calma, as mãos da psicóloga ainda tremiam.
ainda respirou mais três vezes antes de finalmente abrir o envelope, olhou seu interior e notou que havia mais conteúdo do que imaginava. Puxou a folha que parecia estar sozinha e a desdobrou, suas mãos tremendo ainda mais enquanto o fazia. Ela conseguia sentir os olhos de Steve sobre si, esperando ansiosamente por uma resposta. fechou os olhos e fez uma rápida oração, pedindo força a seu pai e seu avô. Por fim, ela voltou a abrir os olhos, focando rapidamente em Steve, que abriu um sorriso lhe encorajando a seguir em frente, e então começou a ler o conteúdo do envelope.
- Senhorita , temos o prazer... Meu deus! – Ela gritou, assustando o soldado. – Meu deus! Meu deus! – Ela levantou o olhar para ele, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. – Eu passei! – gritou por fim, indo em direção a Steve e o abraçando com força, praticamente pulando em seu colo. O soldado a abraçou, rindo pela reação da psicóloga, e a tirou do chão, girando com ela pela sala. Quando voltou ao chão, a psicóloga ria entre as lágrimas, afastando do soldado para reler o conteúdo da carta. – Eu não acredito! Eu consegui!
- Parabéns, doutora, eu sabia que você conseguiria. – Disse Steve, ainda sorrindo com a reação da mulher.
ainda ficou em silêncio por um tempo, uma mão na boca enquanto a outra, que ainda tremia, agora de alegria, segurava a carta e ela lia o conteúdo inteiro, não só a parte que informava que ela havia sido aceita para o mestrado que teria início em setembro. Surpreendendo Steve, de repente a psicóloga estava ajoelha no chão, as lágrimas agora mais intensas. O soldado se aproximou e se agachou ao lado da psicóloga, tocando a mão dela. riu e balançou a cabeça, apertando levemente a mão do soldado antes de passa-la em seu rosto para enxugar as lágrimas.
- Eu estou bem, desculpe. – Ela respirou fundo, ainda evitando olhar o soldado, sabendo que encontraria apenas confusão e milhares de perguntas que ele não faria. – Só me lembrei de algumas coisas.
- Sei que não sou psicólogo, mas se precisar conversar, estou aqui. – O soldado sorriu.
- Longa história, para outro dia. – disse, finalmente olhando para o homem. – E a consulta é sua, e já perdemos muito tempo, então vamos.
- Vamos para onde? – Perguntou Steve, observando enquanto a psicóloga levantava e colocava a carta dentro da bolsa.
- Para a recepção, não quero ficar aqui com esse monte de caixas.
- Sabe, se você não quiser ficar, quiser cancelar a sessão de hoje, tudo bem... Não é como se eu tivesse muito para falar mesmo. – O soldado disse, enquanto acompanhava a psicóloga até a recepção.
- Querendo se livrar de mim, Rogers? – A psicóloga sorriu, sentando-se em uma das poltronas, esperando o soldado fazer o mesmo.
- Não tão cedo, doutora. – O soldado sorriu de volta. Eles ficaram se olhando, ele esperando ela falar algo e ela tentando colocar seus pensamentos ordem. Por fim, riu e a observou, o sorriso divertido de volta aos seus lábios.
- Desculpe, eu não consigo me concentrar. – Ela pediu. – Foram dois meses esperando esse envelope.
- Eu entendo. Como eu disse, não é como se eu tivesse algo para falar sobre. – Steve comentou. – Quer sorvete? Ouvi dizer que o de chocolate é seu favorito.
- Só se você conseguir acertar meu segundo sabor favorito. – cruzou as pernas, observando o soldado.
- De novo isso não! – Steve reclamou, a oferta é chocolate ou nada feito.
- Eu acabei de passar no mestrado, você não vai deixar eu escolher que sorvete comer?
- Se você escolher, eu deixo, mas me fazer adivinhar, não.
- Vou pegar minha bolsa. – disse, levantando-se. Normalmente, ela nunca admitiria cancelar uma consulta por algo tão pessoal, mas a felicidade lhe preenchia de tal forma, e ver que Steve estava tão disposto a deixar de lado suas próprias necessidades para deixa-la ter o momento dela, só a fazia se animar ainda mais.
Eles caminharam até o mesmo caminhão de sorvetes da outra vez e Steve acabou entrando no jogo e tentando adivinhar o sorvete que a psicóloga queria. Na opinião do soldado, ele havia errado, mas a mulher estava tão feliz que simplesmente relevou e aceitou o sorvete de frutas vermelhas que ele pedira para ela. Sem perceber, os dois foram conversando e caminhando até pararem novamente na mesma praça de sempre. Steve acabou sentindo-se mais relaxado para falar sobre os problemas para dormir e como havia recebido alguns convites da S.H.I.E.L.D. para voltar às missões. Parecia que a Iniciativa Vingadores iria sair do papel de vez, após o considerável sucesso da Batalha de Nova Iorque, e ele, assim como suas habilidades, poderiam ser bem utilizadas com a agência.
Enquanto conversavam, conseguiu deixar de lado a felicidade pelo mestrado e focou no que o soldado dizia, ponderando as informações e tentando construir uma opinião sobre o assunto. Era complicado opinar quando ela percebia que Steve já estava com sua mente convencida de que iria acatar ao pedido da agência eventualmente, ele só parecia estar pedindo pela permissão dela. E não queria ter uma responsabilidade daquele tamanho. Estava ali apenas para ajudá-lo a lidar com os seus demônios do passado e os danos que eles causavam no presente, não avaliar se o soldado estava apto ou não a voltar para a ação. Se tivesse que ser muito honesta, escolheria nunca mais submeter o soldado aos terrores de qualquer missão, principalmente se soubesse que poderia lhe trazer memórias do passado. Mas sabia que não podia seguir esse caminho, desde jovem Steve queria aquela vida, fora escolhido à dedo para servir o país, ele não desistiria tão fácil daquela vida. duvidava que ele sequer conseguiria seguir sua vida se não tivesse uma missão pela qual ansiar. Ela conseguia ver nos olhos do soldado o brilho cada vez que ele falava das missões do passado ou até mesmo durante a Batalha de Nova Iorque. Elas traziam memórias ruins, mas nem mesmo Steve conseguia disfarçar o prazer e a alegria que sentia por estar de volta à ativa.
- Steve, você está me pedindo permissão de novo. – A psicóloga apontou quando o soldado terminou de falar. – Fez a mesma coisa antes da Batalha.
- Mas é que eu...
- Não, Steve, você sabe sim o que fazer. – disse. – Eu não sei por que você se sente tão receoso em aceitar o que te faz tão feliz. Você sempre quis isso, Steve, não foi para isso que se alistou? Proteger os outros?
- É mais difícil do que parece, doutora. – O soldado confessou, inclinando-se para frente. – Quando estou na missão, é fácil desligar esse Steve e ligar o Capitão, mas até chegar a esse processo, e o que vem depois...
- Para isso que estou aqui, Steve. – Disse a mulher, seu tom de voz baixo e tranquilizador. – Se você quer a permissão explícita, eu nunca lhe darei. Meu conselho é, e sempre será, que você faça o que achar certo. Quando o depois chegar, eu estarei aqui pronta para te ajudar. – Ele a olhou e sorriu de lado. – Só não me deixe no escuro... E tome cuidado.
- Sempre tomo, doutora. – Steve riu, endireitando a postura.

~*~


Agosto passou mais rápido que esperava, e antes que ela pudesse perceber, setembro já começava com Louise pulando em sua cama até acordá-la, mais animada do que a própria psicóloga se sentia. Se fosse honesta, se sentia enjoada e na primeira oportunidade colocaria para fora todo o café da manhã que Louise a forçou a comer antes de leva-la para a faculdade. havia usado agosto inteiro para alterar seus horários na clínica, agradecendo por poder liberar alguns pacientes e deixando sua agenda mais vazia para que ela pudesse ter suas manhãs livres para todas as suas aulas.
Enquanto Louise falava sem parar sobre seu trabalho, as expectativas para o curso de e seu novo namorado – que ainda não podia ser chamado assim, mas ela o fazia mesmo assim por ser mais simples – se concentrava em não surtar e controlar o nervosismo, e tentava se lembrar a todo momento por qual motivo considerou uma boa ideia fazer um curso de pós-graduação quando já tinha tudo o que poderia desejar àquela altura. Para se distrair, tentou prestar atenção no que Louise falava, mas falhou, então passou a observar a paisagem durante o caminho até a faculdade. Sem que ela percebesse, sua mente viajou até Steve e o último encontro que tiveram, no qual o soldado anunciou que teria que fazer uma viagem para Washington e que ele esperava ser curta. Aparentemente queriam que ele começasse a se familiarizar com a forma de agir da S.H.I.E.L.D. para quando precisassem dele em alguma missão.
- Terra para ! – A psicóloga ouviu Louise chamar e piscou, encarando a amiga. – Eu sei que eu falo demais, mas você geralmente disfarça melhor que não está prestando atenção.
- Desculpe, Lou. – sorriu sem graça. – Ansiedade, você sabe como é.
- Ah, claro, desculpe! – Louise agarrou o braço da amiga. – Você nervosa com o primeiro dia e eu não consigo calar a boca por dois segundos para te ouvir.
- Não é como se eu tivesse muito para falar. – deu de ombros, só então percebendo que elas estavam paradas em frente ao prédio da faculdade. – Estava tentando encontrar os motivos que encontrei antes para me convencer de que isso era uma boa ideia. – Ela apontou para o prédio, Lou observou a construção por um tempo e então suspirou.
- Não é por isso que está nervosa, . – Disse a jornalista. olhou para a amiga sem entender. – Eles estão orgulhosos de você, sabe disso. – suspirou, entendendo onde a amiga queria chegar. – E estão aqui com você, também sabe disso. – Louise sorriu, vendo a psicóloga sorrir também.
- Eu sei, Lou. – Concordou . – Mas, ainda assim, seria bom tê-los aqui, sabe... De verdade.
- Vai soar muito piegas isso, mas... Se eles estão em seu coração, então eles estão aqui. – Disse Louise, fazendo revirar os olhos e rir logo em seguida. – Pelo menos te fiz rir.
- Obrigada, Lou. – Disse , soltando o cinto de segurança para poder abraçar a amiga. – E obrigada pela carona também. Te vejo mais tarde.
- Tenha um ótimo primeiro dia. – Disse Louise, retribuindo o abraço e observando enquanto a amiga saia do carro e se dirigia ao prédio. Sentia-se como uma mãe levando a filha para a escola, mas não se importava.
viu quando Louise saiu com o carro, deixando-a sozinha em frente àquele prédio que parecia tão assustador quanto na primeira vez em que estivera ali. A mulher suspirou, ajeitando a alça da bolsa que carregava e fechou os olhos, pedindo força para seu pai e seu avô, torcendo para que eles realmente estivessem com ela naquele momento e a ajudassem a encarar mais um primeiro dia. Ao abrir os olhos, ela já se sentia diferente, abrindo um sorriso simpático antes de finalmente passar por aquelas portas, logo se perdendo entre a multidão de estudantes indo de um lado para o outro, a maioria também encarando seus primeiros dias.

Capítulo 9

Foi mais fácil do que imaginava se adaptar à nova rotina. Logo ela se via na mesma excitação que sentia quando tinha provas e trabalhos para fazer, o que deixava Louise confusa e desacreditada de que alguém realmente pudesse ficar feliz com tal coisa, mas assim era . Quando menos percebeu, já estava na nova rotina há um ano, se desdobrando para cumprir prazos e atender seus pacientes. Ficava mais fácil à medida em que ela ia aprendendo novas técnicas e casos que se relacionavam com os dela, deixou sua vida mais fácil em alguns casos. Mas em outros ainda eram desafios para ela.
Quanto a Steve, o soldado ainda estava na fase de adaptação da S.H.I.E.L.D., treinando intensivamente para estar preparado assim que a agência pedisse, o que diminuiu seus encontros para duas vezes por mês no máximo, geralmente uma. Em parte, agradecia, pois era bom ter as noites livres para lidar com a quantidade de textos, relatórios e demais trabalhos que tinha que ler e fazer, por outro era difícil, pois Steve ainda apresentava uma carga emocional pesada, principalmente agora que ele voltava ao mesmo ritmo que tinha antes quando entrou no exército.
Naquela quinta de outubro, havia se dado o dia de folga, agradecendo por não ser um dia com muitas aulas pesadas. Louise havia lhe preparado um café da manhã especial, separando um cupcake com uma velinha e começando a cantar parabéns assim que a amiga saiu do quarto para se juntar a ela. revirou os olhos, mas não conteve o sorriso, assoprando a vela quando lhe foi pedido, pulando apenas a parte de fazer um pedido. Fazia anos que ela não pedia por alguma coisa. Louise bateu palmas, animada, e pegou um cupcake para ela, enquanto dava uma mordida no seu. Conhecia bem o local de onde ele viera, era um dos favoritos dela após uma longa fase de testes feitos por ela e Louise. A amiga também havia tirado o dia de folga, como sempre fazia, e as duas passaram a manhã no sofá assistindo aos filmes favoritos da psicóloga – como sempre faziam.
- Vai para o consultório ainda? – Perguntou Louise, quando estavam para começar o segundo filme, olhando o relógio para conferir se daria tempo.
- Alguns pacientes cancelaram, preciso ir só depois do almoço. – Respondeu , entre uma mordida e outra do croissant que Lou havia trazido para ela.
- O Bilbo vem? – Louise olhou para a amiga, que sorriu de lado e revirou os olhos.
- Acho que sim, ele não disse que não viria. – Respondeu .
- Então nem vou tentar te esperar acordada. – Disse Lou. – Faz o que? Um mês e meio que ele não vem?
- Dois meses, sim. – Ponderou .
Louise notou a diferença no tom da amiga, mas preferiu ficar quieta. Ela sempre ficava diferente quando o paciente misterioso sumia, e Louise nunca conseguiu entender o porquê. Sabia que não adiantaria nada perguntar, era correta demais para falar qualquer coisa sobre o paciente e o máximo que Louise havia conseguido arrancar dela era sobre o estado dele, se estava melhorando ou não. Nos últimos meses, era uma montanha russa, as vezes parecia mais otimista, outras parecia que haviam regressado dez passos na recuperação do paciente, Louise se sentia impotente. Principalmente porque a alternativa da amiga era se enterrar nos treinos na academia ou nos estudos ainda mais.
Falar sobre Steve só deixou ainda mais tensa sobre mais tarde. Ele havia lhe mandado uma mensagem dizendo que havia conseguido uns dias de folga e viria ao Brooklyn para a consulta deles. Fazia mais tempo do que ela havia falado para Louise que ele não aparecia, já havia até mesmo decorado o conteúdo de sua mensagem, sempre a mesma coisa. Provavelmente copiado e colado. Sempre ignorando as perguntas dela sobre como ele estava. Steve já havia dito antes que não iria arruinar as expectativas dela de cada consulta, precisavam de assunto a ser discutido. fingia acreditar, quando na verdade sabia que ele queria apenas poupá-la de se preocupar ainda mais com ele e focar nos estudos. Porque Steve sabia que ela se preocupava com ele mais do que deveria.
Quando enfim chegou ao consultório, não conseguiu conter o sorriso por ver sua sala cheia de vasos de flores, além de alguns cartões colados na porta. As meninas da recepção lhe deram abraços e desejaram tudo de melhor à psicóloga, que apenas sorriu e agradeceu. Nunca soube como reagir em momentos como aquele. Ela focou nos pacientes que vieram, somente dois, agradecendo aos parabéns que recebeu deles de forma educada. E depois que o último foi embora, ela voltou à tensão que sempre sentia em momentos como aquele, quando mesmo que uma mensagem confirmasse sua presença, ela ainda não tinha certeza se Steve apareceria ou não. Algo sempre podia acontecer e mantê-lo preso em Washington.
- Por acaso eu perdi mais algum memorando? – Ela se sobressaltou ao ouvir a voz de Steve, virando-se para a porta para vê-lo parado com as mãos nos bolsos, olhando os cartões colados na madeira. Então ele olhou para ela com os olhos arregalados e uma expressão de surpresa. – Você não me disse que era seu aniversário.
- Em minha defesa, você não tem aparecido muito, não é mesmo? – sorriu. – E eu também não saio divulgando por ai meu aniversário, não é uma data que eu gosto de lembrar.
- Desculpe, doutora, mas não consigo confiar em pessoas que não gostam de aniversários. – Disse Steve, entrando na sala e sentando na cadeira em frente à mesa dela.
- Eu gosto de aniversários. – Disse . – Eu só não gosto do meu.
- Agora você me deixou curioso, doutora. – Steve abriu um sorriso de lado, fazendo revirar os olhos.
- A consulta é sua, não minha.
- Mas eu tenho direito a uma pergunta.
- Steve, não perca seu tempo. – Pediu ela, e pela sua expressão o soldado percebeu que não adiantaria insistir, ele não descobriria a verdade tão cedo.
- Muito bem, mas ainda posso perguntar algo? – suspirou, sabendo que não teria como fugir do soldado naquele assunto.
- Claro, pergunte. – Disse ela, recostando-se na cadeira e esperando o que ele tinha a oferecer.
- Já está treinada o suficiente para lutar contra mim? – Perguntou o soldado, com um sorriso de lado. riu, não deixando de revirar os olhos.
- Você nunca vai se esquecer disso, não é? – Perguntou ela.
- Eu tenho uma boa memória. – Observou o soldado.
- Vamos fazer um acordo, então? – Sugeriu ela, observando enquanto ele se aprumava na cadeira para receber a proposta dela. – Você me dá uma consulta honesta, sem fugir das minhas perguntas e sem respostas meia-bocas, e eu luto com você.
- Eu nunca fujo das suas perguntas.
- Rogers, achei que não mentisse. – Disse ela.
- Isso é vingança pelos dois meses que eu sumi, não é? – Perguntou ele, voltando a relaxar na cadeira. apenas arqueou a sobrancelha em resposta. – Bem, eu espero que você esteja livre amanhã.
- Minha agenda nunca esteve tão livre em uma sexta-feira. – Respondeu . – Vai querer ficar sentado ai mesmo?
- Espera, a sessão honesta vai ser hoje? – Perguntou Steve. – Mas é seu aniversário, doutora!
- Encare isso como seu presente de aniversário para mim. – Disse ela, se levantando para ocupar a poltrona de sempre.
- Você é estranha. – Observou ele, levantando-se também para poder ocupar a poltrona em frente a ela. – Muito bem, por onde quer começar?
Eles conversaram por horas. De longe foi a consulta mais longa que tivera na vida. Ela começou perguntando sobre o passado do soldado, coisas que ela não tivera coragem de perguntar nas primeiras consultas, como a família dele, a relação mais aprofundada dele com Bucky e a família do amigo, Peggy e a relação deles, Steve e sua relação com o soldado, e seus parceiros durante as missões já como Capitão América. Diversas vezes, viu o soldado fechando as mãos em punho, como se fosse um assunto difícil demais para ele, e de fato deveria ser, e diversas vezes ela pediu para ele parar caso não se sentisse confortável, mas ele se manteve fiel ao acordo e respondeu todas as dúvidas dela e foi mais além. Ao final das primeiras duas horas, se sentia capaz de escrever um livro inteiro sobre o Capitão América na Segunda Guerra Mundial, e sentia que venderia muito se o fizesse, era de longe o livro mais fiel que tocaria aquelas prateleiras sobre o assunto.
Após fazerem um pequeno intervalo, no qual serviu um copo de água ao soldado, eles voltaram a conversar, dessa vez sobre o retorno do soldado. A psicóloga fazendo perguntas mais aprofundadas sobre as consultas pelas quais ele passou logo que acordou, e a forma como a agência foi cercando-o.
- Eu teria ficado de qualquer jeito. – Disse Steve, quando o questionou sobre como ele se sentiu ao ser abordado pelos agentes. – Percebi isso quando descobri que Peggy ajudou a criar a S.H.I.E.L.D., acho que é uma forma de me manter conectado a ela após todo esse tempo, sabe?
- Você já foi visita-la? – Perguntou , lembrando-se de quando ele a informou sobre o paradeiro da ex-agente.
- Conheço o lugar, já fui até lá mais vezes do que consigo contar. – Confessou Steve, evitando encarar . – Nunca consegui entrar.
- Aquele mesmo medo?
- O mundo mudou, doutora, ela mudou, eu estou mudando... Eu não acho que sou aquele Steve que ela conheceu.
- Assim como ela não é aquela Peggy que você conheceu. – Observou .
- É para mim. – Respondeu ele, fazendo perceber a dor na voz dele. Ela não precisava perguntar para saber que Steve ainda sonhava com Peggy e com a vida que eles poderiam ter tido.
- O que você acha que vai acontecer se for visita-la? – Perguntou , querendo entender o verdadeiro motivo por trás da relutância do soldado. – Ambos estão diferentes, é verdade, mas você acha que ela vai reagir como ao te ver? Te xingar? Te bater?
- Seria a melhor reação. – Ponderou Steve. – Mas Peggy é boa demais para reagir dessa forma. – O soldado ficou em silêncio por um momento, tentando se imaginar indo visitar a ex-agente, como seria sua reação. Era algo que sua mente tentava imaginar constantemente, mas ele sempre fugia. – Acho que ela ficaria feliz. Contente por me ver bem.
- Então por que não ir? – Perguntou , sabendo que não receberia uma resposta.
Ela deu um tempo para a conversa ser absorvida pelo soldado, então mudou o assunto, perguntando a ele sobre as missões que ele tinha feito em nome da S.H.I.E.L.D., principalmente Nova Iorque, finalmente fazendo todas as perguntas que queria fazer, mas não o fizera por respeitar as emoções do soldado. Steve achou engraçada a curiosidade da psicóloga, uma atitude que contrastava com a sempre controlada dela, e talvez isso o tenha impulsionado a responder todas as perguntas que ela fizera, indo além. Provavelmente ele não possuía permissão para contar aquilo tudo, mas isso não o incomodou naquele momento.
Eles conversaram por mais duas horas sem parar, Steve se abrindo com de uma forma que ela nunca imaginara que aconteceria. Ao final, ela cedeu e permitiu que ele fizesse algumas perguntas sobre os últimos meses dela, apenas para deixar o ar mais leve e a sessão com um clima de que não havia sido tão longa e pesada. Quando terminaram, Steve abusou do cavalheirismo e se ofereceu para acompanhar a psicóloga até em casa, não aceitando não como resposta, por mais que ela tivesse insistido. A esperança do soldado era que encontrassem o caminhão de sorvete parado no meio do caminho para ele comprar um como presente de aniversário para ela.
E mal acreditou quando passaram pelo caminhão e Steve parou, pedindo dois sabores completamente diferentes, apesar dela protestar dizendo que aquele não era o favorito dela. Mas era sorvete, e ela geralmente comia qualquer um, então não havia problema. O soldado ainda quis cantar “Parabéns pra você” para a mulher, mas nesse ela se manteve firme dizendo que nunca mais olharia na cara dele se o fizesse. Quando chegaram em frente ao prédio onde ela morava, pararam e se olharam, rindo ao se lembrar do dia seguinte.
- Que horas amanhã? – Perguntou a mulher. – E onde.
- Eu venho te buscar, conheço um lugar tranquilo.
- Um lugar tranquilo para uma luta? – riu. – Que horas, Rogers?
- O horário que você preferir. – Disse o soldado.
- À noite? No horário das nossas sessões? – Sugeriu ela, vendo o soldado assentir em concordância.
- Até amanhã, doutora.
- Até amanhã, soldado.

teve sonhos tumultuados, alimentados pelos relatos de Steve e pela própria ansiedade da mulher para a tão esperada luta entre eles. Ela sabia que o soldado não a machucaria, e que ele até pegaria leve com ela, e mesmo que não o fizesse, sabia que podia enfrenta-lo sem muitos danos a seu corpo. Ainda assim, era um evento que elevava sua ansiedade a níveis que ela só sentia quando tinha provas ou trabalhos a serem entregues.
Louise até tentou questionar a psicóloga no dia seguinte, durante o café da manhã, mas se recusou a explicar o motivo, sabendo que seria complicado de explicar porque ela lutaria contra um paciente. A amiga resolveu aceitar a desculpa esfarrapada de que haveria uma prova na terça-feira para a qual estava nervosa por não ter conseguido dominar o assunto ainda.
E talvez por ela estar tão ansiosa, o dia pareceu passar ainda mais lentamente, com inquieta não conseguindo terminar metade das leituras e relatórios que deveria fazer para a próxima semana. O relógio nunca foi tão consultado em sua vida, e a todo momento ela checava seu celular para confirmar que Steve não havia cancelado, apesar de saber que ele nunca cancelaria aquele dia. O soldado provavelmente estava mais ansioso que ela para aquele encontro.
Faltando meia hora para a chegada de Steve, desistiu de fingir que fazia algo e foi se arrumar, optando até mesmo por tomar um banho apenas para tentar se acalmar. Constantemente ela se via tentando passar mensagens ao seu cérebro de que era bobagem se sentir daquela forma, e que era um simples treino como qualquer outro. Com a exceção de que não era um simples treino, e muito menos como qualquer outro. Era um treino com ninguém menos que Steve Rogers, o Capitão América, a lenda viva. Seu pai e seu avô estariam tão ou mais ansiosos que ela, além de extremamente orgulhosos.
Steve chegou pontualmente para buscar a psicóloga, deixando a moto estacionada em um canto afastado, incerto sobre a reação da mulher em relação ao veículo, caso ela fosse contra, pegariam um táxi até o local. O soldado esperava na calçada, as mãos nos bolsos da calça de moletom, olhando os arredores até sua atenção ser chamada pela porta se abrindo. Steve engoliu em seco ao ver a mulher surgindo, já a havia visto nos mais diversos looks, e já havia visto Natasha em roupas muito mais provocantes, mas parecia ser diferente, ainda mais usando a calça legging preta, acompanhada de uma blusa regata cinza que lhe dava uma visão privilegiada do top também preto que ela usava. Nos pés os tênis que apesar de muito usados, eram bem cuidados, e os cabelos presos em um alto rabo de cavalo. Ela carregava uma bolsa pequena, com um casaco amarrado na alça.
- Rogers.
- Doutora. – O soldado sorriu brevemente.
- Então, para onde vamos? – Perguntou , visivelmente ansiosa, para o divertimento de Steve.
- É um pouco distante, então o que importa realmente é: como você quer ir? – Perguntou ele, fazendo franzir o cenho. – Táxi ou moto?
- Moto? – Perguntou ela, olhando ao redor e se perguntando se o soldado estava alucinando, não havia moto alguma.
- Eu coloquei mais afastada para você não achar que não tinha uma opção. – Explicou Steve, sentindo o rosto esquentar quando viu a expressão de , como se ela quisesse fazer um comentário sobre o cavalheirismo exagerado do soldado, mas estava se controlando para não envergonhá-lo ainda mais.
- Foi mesmo para mim ou foi para você mesmo que você fez isso? – Perguntou , mordendo o interior da bochecha para controlar a risada. – Eu não me importo com a moto.
- Certeza?
- Você não parece ser um motorista imprudente, provavelmente estou mais salva com você em uma moto do que em um táxi. – deu de ombros. – Vamos de moto.
Steve não discutiu, fazendo um gesto com a cabeça para que a mulher o acompanhasse até onde a moto estava estacionada. Ele a ajudou com a bolsa, logo depois sentando e esperando que ela fizesse o mesmo. O soldado prendeu a respiração levemente quando sentiu os braços da psicóloga contornando sua cintura e agarrando-se a ela, logo depois soltando o ar quando ouviu rindo de sua reação.
- Eu não vou te atacar, Steve. – Disse ela, diante a tensão do soldado. – Mas talvez agora seja um ótimo momento para eu te dizer que eu morro de medo de moto, e estou aqui só porque é você.
- Obrigado pela confiança. – Respondeu Steve, sorrindo divertido.
Assim que a moto foi ligada e Steve arrancou, escondeu o rosto nas costas largas do soldado, intensificando o aperto ao redor de sua cintura, apesar de sentir que Steve dirigia tranquilamente e sem pressa. Se estivesse em pé, sentiria seus joelhos fraquejando, mas sentada era mais fácil de disfarçar o desconforto e o medo. Felizmente a viagem não demorou muito – o que a fazia pensar que Steve talvez tivesse corrido mais do que ela havia pensado, mas ela preferia não pensar nisso ou não conseguiria andar até a academia.
Steve desceu da moto e parou de frente a ela, notando que a mulher enrolava um pouco para se levantar.
- Quer ajuda, doutora? – Perguntou Steve, percebendo ela mordendo o lábio inferior.
- Engraçadinho. – revirou os olhos, finalmente começando a se mover para descer da moto. – Não ria se eu cair.
- Nunca. – Prometeu Steve, oferecendo sua mão para ajudar a mulher, que não a recusou. Suas pernas tremiam levemente, mas não o suficiente para que ela não conseguisse andar normalmente.
- Acho que você fez isso de propósito. – Comentou , voltando-se para a moto a fim de pegar sua bolsa. – Para ter mais vantagem sobre mim.
- Sim, doutora, eu li sua mente e descobri que você tem medo de moto. – Debochou Steve. – E como se possuir um soro que me deixa mais forte do que o normal e me eleva à condição de super soldado não fosse o suficiente, eu ainda resolvi ir te buscar de moto, porque assim você não teria chance alguma contra mim. Faz muito sentido.
- Não precisa me desanimar também, Rogers. – Disse , revirando os olhos. – Eu já sei que nunca eu serei capaz de te derrotar.
- Nunca é muito tempo, . – Disse o soldado, abrindo a porta da academia para a mulher entrar. – Fique à vontade, estamos a sós.
- Primeiro a moto, agora uma academia isolada... O que você pretende, Rogers? Vai me matar e esconder meu corpo aqui.
- Isso tudo é para disfarçar seu nervosismo?
- Talvez.
Por fim eles entraram, Steve se afastou para acender algumas luzes enquanto entrava no local e analisava os detalhes. Não passou despercebida por elas os sacos de areia vazios em um canto, assim como alguns resquícios da areia pelo chão mal varrido. A psicóloga mordeu o lábio inferior, se perguntando quantas noites em claro Steve havia passado ali, e quanto prejuízo ele já havia dado a quem quer que fosse o dono do local. Por fim, ela chegou ao espaço reservado para a prática de lutas, parando entre o tatame e o pequeno octógono que havia, esperando Steve se aproximar para eles decidirem onde ficariam. Sua bolsa ficou jogada em um canto e ela aproveitou para fazer um brevíssimo aquecimento, sentindo as mãos tremendo diante a excitação do momento inevitável que se aproximava. Steve logo se juntou a ela, as mãos novamente nos bolsos e um rosto de lado brincando nos lábios.
- Preparada?
- Não. – Disse , evitando olhar o para o soldado imediatamente. – Mas promessa é dívida.
- Por que está parada aqui?
- Não sabia onde você ia preferir acabar comigo. – Respondeu ela, rindo brevemente.
- Eu não faria isso. – Disse Steve, tirando os tênis antes de subir no tatame. – E eu sei que você é capaz de acabar comigo também.
- Você vai ficar de meia para facilitar minha vida e escorregar com mais facilidade? – Perguntou , ignorando o segundo comentário do soldado, e notando como o tatame era escorregadio.
- Na verdade não é permitido tênis no tatame. – Disse Steve, apontando para um aviso atrás dele que indicava o que ele havia acabado de falar. respirou fundo e retirou o tênis, agradecendo por ter escolhido uma meia que possuía algumas faixas antiderrapantes, foi a primeira que ela pegou na gaveta.
- Muito bem, vamos lá. – Disse ela, respirando fundo e se juntando a Steve no tatame, mordendo o lábio inferior para controlar a risada.
Os dois se encararam por um tempo, claramente segurando a risada diante a situação inesperada. Steve começava a se perguntar porque fizera tanta questão daquele encontro, e queria saber onde estava com a cabeça quando aceitou aquilo. O soldado fez o primeiro movimento, sendo bloqueado pela psicóloga com facilidade, que suspirou e respirou fundo, já percebendo que ele estava exagerando no pegar leve. Mas foi só no quinto movimento que ela suspirou audivelmente e parou, ficando em posição normal.
- Se você não vai fazer isso direito, é melhor pararmos aqui mesmo. – Disse ela, com as mãos na cintura, encarando o soldado que tentava com muito esforço parecer inocente. – Eu sei que você está facilitando, Rogers, assim não tem graça.
- Eu sei, desculpa. – Disse Steve, com as mãos levantadas e se aproximando da psicóloga, que se aproveitou da baixa guarda do soldado para atacar, pegando-o desprevenido e se divertindo com a expressão incrédula dele após receber o ataque.
- Vai fazer direito agora? – Provocou ela, contornando o soldado para fugir da tentativa dele de agarrá-la.
- Pode ter certeza.
E ele não a deixou na mão. Steve sentiu como se estivesse lutando contra Natasha e em diversos momentos se perguntou onde havia conseguido aprender tanto sobre o assunto, ela facilmente conseguiria enganar qualquer pessoa na rua, que nunca acreditaria que ela possuía tais habilidades. Em mais de um momento, não só ela bloqueou seus movimentos e os usou a seu favor, como o derrubou no chão só com um chute bem dado. Ela realmente vinha treinando, e Steve conseguia sentir. Se ele achou que aquele soco que lhe dera na praça meses atrás foi dolorido, nada se comparava com os que ela dava agora.
estava curtindo aquilo mais do que gostaria de admitir, Steve não havia deixado de lado o cuidado, ainda facilitando em alguns momentos que ela aproveitava para mostrar ao soldado que aquilo era desnecessário, mas em diversos outros era como se ele estivesse lutando com alguém no mesmo nível de habilidade e força que ele, o que só deixava as coisas mais divertidas para a psicóloga, que estava amando aquela dose nova de adrenalina e o novo treino. Talvez eles devessem fazer aquilo mais vezes, considerou ela enquanto dava uma rasteira no soldado e logo depois rolava para cima de seu corpo, prendendo os braços de Steve com os joelhos. Aquele pareceu ser o golpe final para o soldado, que tinha a respiração levemente ofegante, e jogou a cabeça para trás, seu corpo inteiro se relaxando sob o da psicóloga. o olhou e arqueou a sobrancelha, sem acreditar no que via, não tinha nem duas horas que estavam ali.
- Mas já, Rogers? – A psicóloga perguntou, observando o homem. – Achei que fosse aguentar muito mais que isso, estou decepcionada. – O soldado respirou fundo.
- Doutora, eu posso fazer isso o dia todo. – Ele sorriu de lado, antes de aproveitar da guarda baixa dela e derrubá-la para o lado com um pouco mais de força que vinha usando, deixando-a sem ar por um breve momento devido ao impacto de suas costas no tatame. riu, aceitando a oferta da mão de Steve, apenas para usá-la a favor de si e puxá-lo de volta para o chão, mas esse truque o soldado já conhecia e não deixou vencer, fazendo a mulher se levantar a voltar a ataca-lo novamente.
Os movimentos estavam ficando mais ousados e certeiros, era como se Steve finalmente tivesse perdendo o medo de machucar , e ela que já havia reconhecido o padrão dele, se aproveitava disso para melhorar suas táticas. Mas em determinado momento, um soco do soldado saiu mais forte que o previsto e pediu um tempo para recuperar o fôlego, sentindo-se levemente culpada por ver o remorso na expressão de Steve. Quando voltou, o alertou para não mudar nada do que vinha fazendo, mas sabia que não adiantaria. E não demorou muito para ela perceber o retorno à estaca zero do soldado. Aquele comportamento dele estava exigindo muito da paciência da psicóloga, que aproveitou a oportunidade para pausar o treino mais uma vez quando percebeu que ele pretendia lhe dar um chute, Steve, entretanto, não pegou a intenção da mulher a tempo de parar o movimento.
sentiu o pé de Steve batendo em sua têmpora, jogando-se ao chão e soltando um gemido de dor. Seus olhos estavam fechados, mas ela sabia que Steve correu em sua direção imediatamente, se não fosse entregar seu jogo, ela teria sorrido diante à inocência dele. Os dedos do soldado tocaram a região atingida delicadamente e ele chamou seu nome, aproveitou a distração do soldado para passar sua perna ao redor de seu corpo, imobilizando os braços do homem e o jogando para o lado. Ela sorriu ao ver a expressão derrotada do soldado, como se não acreditasse que havia caído em um truque tão comum e óbvio.
- Steve...
- Eu sei, eu sei... – O soldado suspirou, sentindo-se imobilizado pelas pernas da mulher ao redor de seu corpo, prendendo seus braços. Ele conseguiria sair dali facilmente, mas sabia que a machucaria de verdade se o fizesse.
- Você está se segurando de novo, impossível me machucar se não lutar direito.
- Quer que eu te machuque, doutora? – Steve perguntou, arqueando a sobrancelha. revirou os olhos, jogando-se para o lado.
- Quero que pare de me tratar como se eu fosse feita de cristal. – Pediu ela, se levantando e arrumando a faixa que havia colocado ao redor de sua mão em determinado momento. – Foi você quem pediu por isso, Rogers, não esqueça. Então lute direito. – O soldado se sentou, observando a movimentação da mulher. – E eu não aceitaria se não tivesse certeza que poderia lidar com você e sua força.
- Eu sei, desculpe. – Pediu o soldado, estendendo a mão para pedir a ajuda da psicóloga para se levantar. olhou sua mão e depois riu.
- Eu não nasci ontem, Rogers. – Disse ela. – Ou fui descongelada... Quer se levantar, faça sozinho.
Aquele foi o último incidente dos dois, já que após a mini-bronca Steve resolveu lutar direito, e eles conseguiram levar o treino por mais umas duas horas. Terminando com ambos jogados no chão, ofegantes e suados. sentia o coração batendo acelerado, a adrenalina correndo em suas veias impossibilitando ela de se sentir cansada ou dolorida, mas ela sabia que sentiria tudo aquilo no dia seguinte. Apesar disso, ela havia gostado. Havia gostado muito daquilo. Queria que tivessem feito aquilo antes e que pudessem fazer mais vezes. Steve parecia ter gostado também, e só estava jogado no chão em respeito a ela, porque sabia que ele aguentaria por muito mais tempo. Sabia que ela não havia sequer feito cócegas nele. O único machucado que Steve realmente teria daquele encontro seria o arranhão que ela deu em seu ombro sem querer, enquanto tentava escapar de uma chave de braço.
- Isso foi divertido. – Disse ela após conseguir normalizar a respiração um pouco.
- Deveríamos ter feito isso antes. – Comentou Steve, sentando no tatame, observando a psicóloga deitada com um sorriso no rosto. – Você me enganou, doutora.
- Enganei? Como?
- Você não me disse que era lutadora profissional. – Disse Steve, fazendo revirar os olhos.
- E eu não sou. – Respondeu ela, sentando-se no tatame e respirando fundo ao sentir a região que Steve socara dolorida, ali com certeza ficaria um hematoma. – Acho que você chegou bem perto de quebrar minha costela.
- Desculpe. – Disse Steve, voltando a parecer com a consciência pesada.
- Quantas vezes eu vou ter que dizer, Rogers? Pare de pedir desculpas. – Ralhou a psicóloga, se levantando para pegar água.
Eles se levantaram e limparam o espaço que haviam usado, secando as manchas e gotas de suor espalhadas. ainda pediu para ir até o vestiário, não dizendo a Steve que era apenas para se olhar no espelho e admirar o belo hematoma que já se formava em sua barriga. Pelo menos não era no rosto ou em qualquer outro pedaço de pele que ficava exposto para qualquer um olhar. Quando ela voltou, Steve já estava pronto, segurando a bolsa dela, apenas esperando a mulher para saírem dali.
Ambos seguiram para a moto do soldado em silêncio, notando como a rua estava praticamente vazia devido ao horário tardio. Steve já se aproximara da moto e arrumava as coisas para que eles pudessem sair quando notou parada no meio do caminho, encarando um ponto distante, os olhos levemente fechados como se ela tentasse enxergar algo à distância.
- ? Está tudo bem? – Perguntou o soldado, alarmado, mas ela não a respondeu, jogando a bolsa rapidamente para Steve e correndo em direção ao lugar que olhava. Steve a seguiu, com medo de ser algo perigoso, mas parou há poucos passos de distância quando viu a mulher agachada próxima a uma caixa, pegando algo dentro da mesma e retornando com um filhote no colo. – Como você enxergou isso?
- Oi. – Dizia para o filhote, fechando a boca quando ele lambeu seu queixo. – O que você está fazendo aqui?
- Alguém deve ter abandonado. – Observou Steve, aproximando-se para examinar a caixa e depois olhando o cachorro quando não encontrou nada.
- Quem abandonaria um serzinho desse? – Perguntou , acariciando o cachorro, agora aninhado em seu braço.
- Sempre tem alguém. – Disse Steve, acariciando a cabeça do filhote.
- Vamos. – Disse , começando a voltar para a moto.
- Doutora, você ainda está com o filhote nas mãos.
- Eu sei.
- Você vai...
- Levá-lo para casa? Sim. – Disse , sentindo o rabinho do cachorro batendo em seu braço. – Acho que Marvel é um ótimo nome para ele.
- Marvel?
- É.
- Mas e se ele tiver dono?
- Steve, você mesmo disse que alguém deve ter abandonado. – Disse a mulher, parando para encarar o soldado. – Não está frio, mas ele deve estar com fome, não vou deixa-lo no meio da rua. Você viu a caixa, não tinha nada.
- Mas você não mora sozinha, .
- Como se a Louise fosse se importar, ela é doida para ter um cachorro. – voltou a andar, parando ao lado da moto e tentando abrir a bolsa que Steve havia deixado para trás com uma mão enquanto a outra ainda segurava o cachorro. – Obrigada por deixar minha bolsa para trás, aliás. E por me ajudar agora.
- O que você precisa? – Perguntou Steve, abrindo a bolsa.
- O casaco que tem ai, quero vestir para colocar ele dentro. – Explicou a mulher, sorrindo agradecida quando Steve lhe entregou a peça. – Vamos, Marvel, vem para dentro para o tio Steve levar a gente para casa.
- Tio Steve? – Perguntou o soldado, sorrindo divertido.
- Irmão que não vai ser.
- E pai? – Perguntou inocentemente, fazendo o olhar com os olhos arregalados.
- Steve... Tão inocente tadinho. – riu diante a confusão do soldado. – Quando você crescer, eu te explico. – Completou a mulher. – Vamos, ainda precisamos parar em um pet shop.
Quando finalmente chegou em casa, ainda tinha Marvel dentro de seu casaco, e a outra mão carregava as sacolas com as diversas coisas que ela havia comprado no pet shop. Steve havia se oferecido para subir e ajuda-la com as compras, mas a mulher garantiu que conseguia, se arrependendo quando viu o soldado ir embora e a primeira sacola caiu no chão. Demorou, mas ela conseguiu levar tudo. Louise estava sentada na sala, assistindo a um programa de culinária.
- Finalm... O que é isso tudo? – Perguntou Louise ao ver a amiga chegando até a sala com todas as sacolas.
- Nós temos um novo morador. – Disse , descendo o zíper do casaco e revelando o filhotinho.
- Ah meu deus! – Louise correu até eles, pegando o cachorro no colo.
- O nome dele é Marvel, ele estava abandonado na rua e eu resolvi pegar como presente de aniversário. – Explicou , voltando para fechar a porta e pegar o resto das compras.
- Não acredito que quebrei a cabeça para conseguir encontrar um presente para você, e todo esse tempo você querendo um cachorro.
- Eu não queria, ele apareceu.
- Que seja. – Disse Louise, já se levantando para colocar ração para o filhote. – Onde você estava, inclusive?
- Treinando, não é óbvio? – apontou para a vestimenta.
- Estou desconfiada desses seus treinamentos.
riu e aproveitou que Louise estava cuidando de Marvel para organizar as compras e depois ir tomar um longo e demorado banho. Agora que a adrenalina começava a passar, ela começava a sentir os músculos doloridos tanto pelo esforço como pelos golpes que havia recebido – isso porque Steve havia usado menos da metade de toda sua capacidade. Ela não queria nem imaginar como seria se ele usasse pelo menos metade.

~ * ~


No domingo à noite, se lembrou de uma consulta de emergência que teria que fazer na segunda de manhã, tendo que faltar à faculdade, assim, ela acabou aproveitando para ir mais cedo e pegar alguns arquivos que precisava para um projeto que estava escrevendo. Àquela hora da manhã, o consultório estava sempre vazio, gostava do ambiente calmo para conseguir se organizar. E antes de entrar no mestrado, ela chegava sempre mais cedo, pois aquela meia hora antes do consultório finalmente abrir era a que ela aproveitava para conferir quais pacientes teria naquele dia e quais assuntos abordaria com qualquer um, além de fazer uma espécie de revisão para relembrar os últimos temas discutidos nas sessões anteriores. Ela atravessou o corredor até sua sala, destrancando-a e abrindo logo em seguida, porém não entrou na sala, ficou parada na porta. Havia um alguém ali e sua respiração ficou presa na garganta. O intruso estava sentado em sua cadeira atrás da mesa, sobre a superfície da mesma, algumas pastas abertas. olhou para o resto de sua sala rapidamente, vendo que não havia nada mais fora do lugar, mas sabendo que tudo havia sido remexido. Ela engoliu em seco.
- Doutora ... – O homem se pronunciou finalmente, a voz rouca quebrando o silêncio. – Você tem estado ocupada.
- Característica das pessoas que trabalham e estudam, geralmente. – Respondeu ela, não sabendo de onde vinha sua ousadia. – Posso ajudá-lo em algo?
- Você possui um paciente...
- Possuo vários. – Cortou ela, mordendo a língua logo em seguida, tentando se controlar.
- Alguém acordou inspirada hoje. – O homem respondeu, sua voz não se alterando, apesar de ela perceber que ele havia se remexido em sua cadeira.
- Não gosto quando pessoas invadem meu local de trabalho. – Respondeu a mulher, cruzando os braços. – Em que posso ajudá-lo?
- Como eu ia dizendo... Você possui um paciente um tanto quanto, como posso dizer, incomum. – O homem disse.
- Você terá que ser mais específico. – Disse ela, apesar de já desconfiar de quem o homem falava.
- Steve Rogers. – O homem respondeu, cansado de dar voltas.
- O que tem ele?
- Não se faça de desentendida, doutora. – O homem apoiou as mãos no tampo da mesa e se levantou. – Você sabe as implicações de possuir um paciente como Rogers.
- Considerando que eu não possuo um paciente com esse nome, eu não faço ideia de quais implicações seriam essas. – Disse , novamente engolindo em seco ao perceber que o homem se aproximava. A sala estava escura, mas o corredor não, e um pouco da luz entrava no ambiente, o suficiente para ela perceber o tapa-olho, além do figurino todo preto.
- Doutora, eu não nasci ontem. – O homem disse. – Você sabe quem eu sou, não é aconselhável mentir para mim.
- Ameace o quanto quiser, isso não muda o que eu disse antes. – A mulher respondeu, endireitando sua postura para tentar pelo menos fingir que não se sentia ameaçada. – E tenho certeza que o senhor não encontrou provas que digam o contrário.
- Você é inteligente...
- Obrigada. – Ela respondeu, apesar de saber que não se tratava de um elogio.
- Tenho certeza que escondeu bem os rastros, mas não há como se esconder de mim, ou de nós, você deveria saber disso. – Ele falou, parando há poucos metros de distância dela.
- Senhor, se há tanta certeza que Steve Rogers é meu paciente, por que ainda não foi direto ao ponto? – Ela perguntou, arqueando a sobrancelha. – Vocês obviamente reviraram todo meu consultório, provavelmente farão o mesmo em minha casa, e de nada vai adiantar eu dizer para não perderem seu tempo, pois vocês farão de qualquer jeito. Mas eis minha tentativa: Steve Rogers não é meu paciente. – Calmamente, ele tirou um envelope do bolso interno do sobretudo preto e o abriu, tirando de lá algumas fotos.
- Então como tenho registros de vocês dois juntos? – Ele estendeu as fotos para a mulher. o olhou antes de pegá-las, repassando uma a uma, reconhecendo o dia em que ela e Steve haviam se encontrado na praça. – Vai me dizer que não é você ai?
- Não. – Ela disse, olhando o homem e devolvendo as fotos. – Mas vou dizer que esta foi a primeira, última e única vez que Steve Rogers e eu cruzamos caminho. Talvez o senhor deva atualizar suas fontes. – voltou a cruzar os braços. – Eu ofereci meu cartão a ele neste dia, ele nunca me ligou.
O homem a olhou com seu único olho. sentia que ele a lia por inteiro, de dentro para fora, mas não se abalou, mantendo a pose, fingindo uma força e calma que ela não sentia. Iria desmoronar assim que o homem a deixasse sozinha. Ela sabia que ele não estava convencido, conhecia homens como ele e organizações como a qual onde ele trabalhava, eles não desistiam com facilidade, principalmente se percebiam algum mínimo fraquejar da pessoa confrontada. não lhe daria esse prazer.
- Se eu descobrir que está mentindo para mim...
- Vai fazer o que? Mandar me prender e me torturar por informações? – Ela revirou os olhos, fazendo pouco caso. – Achei que vocês tivessem melhor controle de seus funcionários.
- Gostamos de conhecer com quem estamos lidando, doutora. – O homem disse. – Steve Rogers é um membro importante de nossa organização. Precisamos saber o que ele está fazendo, com quem está fazendo, e como isso pode afetá-lo e a nós.
- Se quer saber o que Steve Rogers está fazendo com seu tempo, talvez devesse perguntar a ele, senhor, ao invés de invadir consultórios alheios. – Respondeu , sentindo um calafrio percorrer sua espinha. – Agora, se o senhor puder deixar meu consultório, eu agradeceria. Preciso trabalhar, me manter ocupada.
- Voltarei a entrar em contato, doutora .
- Mal posso esperar. – Respondeu a mulher, antes do homem finalmente sair de sua sala e deixá-la sozinha.
esperou ainda por um longo tempo até se certificar de que estava sozinha, antes de finalmente tentar se mover, seus joelhos fraquejando logo no primeiro passo e ela indo ao chão imediatamente. Suas mãos tremiam com grande intensidade e as lágrimas que escorriam por seu rosto eram mais de nervoso e ansiedade do que por medo do que o homem poderia fazer a ela. A mulher sabia que não conseguiria fazer ou focar em nada pelo resto do dia, por isso, esperou até que seus tremores diminuíssem e se levantou. Escreveu um bilhete apressado para deixar para as meninas da recepção, pedindo que elas ligassem para seu paciente daquele dia e cancelassem a consulta do dia, agendando-a para o dia seguinte no primeiro horário livre que ela tivesse. Ela precisava de ar, precisava se acalmar.

Capítulo 10

Levou alguns dias para deixar no passado a visita inesperada em seu escritório, agradecendo quando Steve mandou uma mensagem dizendo que não seria possível ter suas consultas naquele mês. A todo canto que a psicóloga ia, ela tinha a sensação de que estava sendo seguida. Por um instinto, ela havia trocado o aparelho de celular e até mesmo o aparelho de telefone fixo de casa, com medo de que tudo estivesse grampeado. Seu notebook foi enviado à assistência técnica com uma desculpa bem fajuta apenas para que alguém o revirasse e constasse que não havia nenhuma escuta instalado nele. Ela não havia feito nada de errado, todos seus arquivos estavam protegidos e sem qualquer problema de serem descobertos, mas a paranoia havia se instalado e levou quase dois meses para sair. Louise estranhou o comportamento da amiga, e não riu quando lhe disse o que lhe preocupava, na forma mais resumida possível, mais por ver como a psicóloga realmente acreditava naquilo, do que por não ter achado graça no que ela havia contado.
Seus sonhos às vezes possuíam como protagonista o homem do tapa-olho, nos quais ele descobria que ela havia mentido e a sequestrava para tortura-la atrás de informações, mesmo sabendo que aquilo nunca ocorreria. Ela não havia feito nada de errado. Seguira seus instintos e eles raramente estavam errados, quando estavam, ela sentia. Não havia sentido nada daquela vez.

~ * ~


Steve encarava a tela de seu celular, a mensagem já digitada só esperando para ser enviada para sua psicóloga. Era um pedido de desculpas por sua ausência e um pedido para se verem na próxima semana, quando ele estivesse de volta ao Brooklyn. Ele planejava contar à que estaria indo embora do Brooklyn, já que a SH.I.EL.D. estava exigindo muito dele. O soldado sabia que a psicóloga não ficaria muito feliz com a partida dele, mas também sabia que ela não iria se opor. sempre queria o melhor para ele, e mesmo que não gostasse daquela ideia, ela tinha consciência de que o melhor para ele era Steve em ação.
- Não mandou a mensagem ainda? – A voz falou atrás dele, perto demais para que ele confirmasse que ela estava lendo o conteúdo. – Tão frio... O que ela fez? Chutou seu gato?
- Precisamos conversar sobre privacidade novamente. – O soldado suspirou, travando a tela do celular e se voltando para a ruiva atrás dele. Ela usava os trajes usuais de treino e o cabelo ruivo preso em um coque. – Pronta?
- Estou há meia hora esperando você decidir enviar essa mensagem, estou pronta para uns cinco treinos.
O soldado revirou os olhos e se levantou, ele e Natasha tinham uma sessão de treinos agendada e foi a russa que informou que ele teria uma semana de folga para voltar ao Brooklyn e pegar seus pertences para realizar sua mudança definitiva para Washington. Ele já possuía um apartamento, cedido pela agência de espionagem, e durante os últimos meses vinha se mudando aos poucos, mas não havia sido nada definitivo, até eles virem com o projeto de missões do soldado, e aquilo foi o último sinal para ele concluir que a mudança era necessária.
Havia semanas que Natasha vinha tentando descobrir detalhes da vida amorosa de Steve, por mais que ele insistisse que não havia vida amorosa alguma, sabendo que havia alguém na vida do soldado que era uma mulher e com quem ele mantinha constante contato, apesar do loiro não ceder informação alguma – a ruiva era boa. Durante os treinos, quando não o atualizava dos últimos nomes importantes do crime, a russa tentava informações sobre a Mulher Misteriosa do Brooklyn, como a havia apelidado, e falhava todas as vezes. Porém, em muitas vezes, mesmo sem saber quem exatamente era em relação a Steve, Natasha conseguia dar muitos conselhos bons e úteis.
- O que quer que seja, não dê as notícias sobre sua mudança por mensagem, ou de forma informal – sugeriu a ruiva, quando eles deram o treino do dia por finalizado. – Ela é importante para você, e provavelmente é recíproco... Então faça de uma forma que dê para perceber que você valoriza isso – concluiu, jogando uma garrafa de água para o loiro. – Mande a mensagem apenas para comunicar que está voltando para o Brooklyn, deixa o resto para o dia do encontro.
Steve pareceu gostar daquela ideia, concordando com a sugestão da ruiva e mandando uma mensagem mais simplificada a , informando apenas que estaria na cidade na próxima semana e se ela estava livre no dia de sempre. O soldado ficou tanto tempo sem conversar com a psicóloga que até estranhou a forma rápida que ela respondeu, menos de meia hora depois, confirmando o horário de sempre. Steve agora estava ansioso, ainda mais do que antes.

Na manhã do dia da consulta deles, lhe mandou uma mensagem comunicando que havia surgido um imprevisto em relação à faculdade, e sugerindo que eles se encontrassem no dia seguinte, implicando até mesmo que eles poderiam fazer um novo treino de luta, o qual Steve concordou, marcando o horário certinho, na mesma academia onde haviam treinado antes. Quando o dia e a hora chegaram, Steve já estava suado, tanto de nervosismo, quanto por ter aproveitado que chegara bem mais cedo para socar alguns sacos de areia. Aquela semana havia sido uma correria com ele juntando seus pertences e enviando para Washington, impossibilitando-o de treinar como estava acostumado.
Quando chegou, ele havia acabado de estourar mais um saco, a mulher soltando uma exclamação de surpresa chamando a atenção dele. Ela estava vestida de forma parecida à primeira vez, porém agora com uma calça e um casaco de moletom por cima da camiseta, já que a temperatura estava um pouco fria naquele dia. largou a bolsa no banco e se aproximou dele, seus olhos admirando o rastro de areia que o saco havia deixado enquanto era lançado para longe.
- Eu tenho medo de perguntar o que esse saco fez para você – brincou ela, agora próxima do loiro e o olhando, um sorriso de lado.
- Doutora – disse Steve, levemente ofegante, olhando para o saco de areia antes de voltar a olhar para ela, dando um sorriso envergonhado. – Às vezes eu me empolgo demais.
- Percebe-se – confirmou ela. – Só agradeço por não ser eu.
- Eu nunca...
- Eu sei – abaixou o zíper da blusa, retirando-a e jogando em um canto. – Então, vamos começar?
- Sem rodeios dessa vez? – Steve a acompanhou até o tatame onde haviam lutado na outra vez, retirando o sapato e se posicionando no centro do local.
- Podemos conversar depois – ela deu de ombros.
Eles passaram as duas horas seguintes treinando, Steve muito mais relaxado e menos preocupado do que estivera na primeira vez, principalmente pela confiança que transparecia ainda mais naquela vez. Eles se permitiram relaxar e a luta muitas vezes parecia mais uma brincadeira do que um treino – em determinado momento, percebera que Steve era sensível a cócegas, e usou esse detalhe a seu favor, desarmando o soldado e conseguindo derrubá-lo com mais facilidade, apenas para sentir o loiro devolvendo a tática, com os dois passando os minutos seguinte em uma guerra completamente infantil de cócegas.
Cansados e ambos assumindo empate com essa guerra, os dois ficaram jogados no chão, suados e ofegantes. Steve sentia algo dele se apertando diante o que havia a ser anunciado quando eles fossem se despedir. Fazia dois anos que se conheciam, e em tão pouco tempo a psicóloga havia entrado na vida dele de forma que ele sequer consideraria ser possível, e agora a mera perspectiva de ter que se despedir dela o deixava desconfortável.
- Não é por nada, não, mas eu estou com fome – comentou , sentando-se no tatame e olhando para Steve, que sorriu para a psicóloga e se levantou também.
- Vamos, conheço um ótimo lugar aqui perto.
Enquanto Steve limpava a trilha de areia que deixara no chão, foi até o banheiro jogar uma água no rosto e aliviar um pouco a quantidade de suor em seu corpo, pelo menos na pele exposta. Quando voltou, o soldado a esperava da mesma forma que a primeira, a mulher sorrindo quando ele entregou a sua bolsa para ela.
- Então, você vai me dizer agora ou mais tarde o que está rolando? – ela perguntou enquanto eles saiam da academia, Steve trancando a porta antes de acompanha-la pela calçada.
- Pelo jeito eu fiz um péssimo trabalho em disfarçar – comentou ele, sorrindo quando ela riu.
- Não fosse o saco de areia destruído, eu nem teria percebido – observou .
Steve abaixou a cabeça, colocando as mãos nos bolsos e suspirando. Ela queria que ele dissesse agora, mas ele não queria. Algo dentro dele dizia que se revelasse o que fosse acontecer, aquele dia acabaria, e ele estava bom demais para acabar tão cedo. Por isso, Steve resolveu que aquele era um bom momento para dar ouvidos aos milhares de conselhos e as várias indiretas de Natasha e arriscar.
- Nós deveríamos sair para jantar. – Steve disse de repente, chamando a atenção de .
- Eu sei que é cedo, mas almoço não é quase a mesma coisa? – A psicóloga observou, querendo pelo menos ter uma ideia de para onde eles estavam indo, e ainda estranhando o comportamento de Steve.
- Não, eu digo... – Steve parou, fazendo parar também. O soldado estava com o rosto levemente corado, e ela sabia não ser por causa das recentes atividades deles, e passou a mão no cabelo, como se estivesse sem jeito. – Isso não conta, só porque não estamos conversando sobre coisas, ainda sinto como se fosse uma sessão... Quero dizer algo marcado, eu te buscando na sua casa, nós dois nos arrumando, sabe?
- Espera... – franziu o cenho, finalmente percebendo o motivo do soldado parecer tão envergonhado. – Está me chamando para um encontro?
- Bem... – O soldado encolheu os ombros, aproximando-se um pouco mais da mulher.
- Steve... – ofegou levemente, notando a aproximação do soldado. – Isso não... – Ela levantou a cabeça para olhar para ele com atenção, notando que algo havia mudado em sua expressão, toda a vergonha pelo convite inesperado havia sumido e ele parecia mais determinado. – Isso não é certo, Steve.
- Claro que é, doutora. – O soldado respondeu, admirando cada traço do rosto da mulher a sua frente, que parecia cada vez mais confusa. – Você não pode negar que não sente também.
- Sinto o que? – Lentamente ele se aproximava mais, se estendesse as mãos o soldado alcançaria sua cintura, se via levemente assustada com aquela aproximação repentina, não havia percebido qualquer indício de mudança na relação entre eles.
- Nós, doutora. – Os olhos azuis a encaravam com determinação, se fosse completamente honesta, admitiria a dificuldade que estava tendo em se concentrar para manter a negativa. Sua ética estava prestes a pular do barco, bastava ele dar mais um passo em sua direção. Para seu alívio, a freada brusca de um carro próximo a eles distraiu o soldado, que desviou sua atenção para ver se nada grave havia acontecido. suspirou aliviada, aproveitando a distração do soldado para se afastar um pouco. Quando Steve voltou a olhar para ela, notou logo o afastamento, sua expressão determinada desmoronando rapidamente.
- É errado, Steve. – disse. Parte dela gritava com a outra, dizendo o quanto era burra por fazer aquilo; a outra parte parecia ter colocado os dedos nos ouvidos, interrompendo qualquer barulho, mantendo-a concentrada. – Não é ético. Apesar de eu não fazer com os outros o que faço com você, como os jantares e passeios, e as conversas que não abrangem só você, mas caem em mim também... Apesar de ter uma diferença entre vocês e eles, não quer dizer que nós...
- Eu entendo. – Não, ele não entendia, percebeu. Os dois permaneceram parados e em silêncio por um tempo, Steve olhando para um ponto fixo no chão enquanto ela observava seu rosto. De repente, o soldado riu, fazendo a psicóloga franzir o cenho. – Se Bucky estivesse aqui, provavelmente estaria me aplaudindo por isso. Ele vivia querendo me arrumar uma namorada. Ou só fingia para conseguir ficar com a amiga de uma menina. – Steve deu de ombros. – Não que eu pudesse ajudar daquele jeito que eu era... E não que ele reclamasse muito, no fim ele se dava bem de qualquer jeito.
- Steve...
- Está tudo bem, . – O soldado a olhou brevemente. Estava tudo qualquer coisa, menos bem. – Não posso dizer que foi um fracasso total... Quase cem anos de vida e essa é realmente a primeira vez que chamo uma garota diretamente para sair. Se fosse com qualquer outra pessoa, você provavelmente estaria me parabenizando por esse avanço.
- Isso é verdade. – A psicóloga cedeu, afinal, se ele queria agir como se tudo estivesse bem, quem seria ela para insistir no assunto? Afinal, não foi ela que o afastou? – Então, Bucky tentava fazer o papel do cupido? – Ela perguntou, retomando o assunto que ele mesmo trouxera à tona. – Alguma vez deu certo?
- Doutora... Você já viu fotos minhas de como eu era antes da transformação. – Steve riu. Os dois voltaram a andar, retomando o caminho de volta ao restaurante que ele havia comentado. – Não, Bucky sempre se dava bem, e eu dava um jeito de fugir. Nunca fui o cara mais confiante em relação às mulheres.
- Mesmo assim conquistou algumas. – A psicóloga comentou.
- Algumas? – Steve perguntou, só então percebeu o erro que havia cometido.
- Bem, Peggy não deve ter sido a única a se apaixonar por você. – A mulher tentou escapar.
- Bem, talvez, mas nunca te falei de nenhuma outra pessoa. – Steve observou, sorrindo de lado, notando como ela se complicava cada vez mais tentando achar uma forma de sair daquela situação. – Ah, ética. – Ele comentou baixinho, tão baixo que a psicóloga considerou se realmente havia entendido certo. Para seu alívio, eles finalmente pareciam ter chegado ao restaurante, já que Steve parou e a puxou levemente pelo braço.
Era uma lanchonete bem simples, provavelmente sequer a notaria se passasse em frente, porém aconchegante. Steve os guiou até uma mesa no canto, cumprimentando algumas pessoas que trabalhavam por ali, levantando a possibilidade de ele frequentar aquele local mais do que fazia parecer. Antes mesmo que pudesse pensar em abrir o cardápio para decidir o que pedir, Steve se pronunciou, fazendo o pedido para eles.
- Pedindo por mim, Rogers? – a mulher brincou, deixando de lado o cardápio que ela havia pegado.
- Não achei que fosse se importar – o loiro sorriu. – Se bem me lembro, você gosta de comer e se aventurar.
- Não me importo, só achei curioso – disse ela, sorrindo para o soldado. Ela apoiou os cotovelos na mesa e cruzou os dedos das mãos, apoiando o queixo em seguida. – Então... Você e a Peggy. Ou devo perguntar sobre você e seu passado amoroso?
- Eu sei que você disse que não era ético, mas eu me sinto em um encontro – observou o loiro.
- Eu quero entender as razões de você ser tão travado – observou , ela própria achando aquela desculpa bem idiota. – Finja que acreditou pelo menos.
- Você que manda – disse Steve, não conseguindo conter o sorriso. – Então, Peggy você quer saber?
- Sim, como ela era? E por que ela? – Steve quis fazer um comentário, mas se conteve, não querendo entregar a impressão que teve ao notar uma nota de ciúmes na voz dela.
- A versão resumida? – perguntou ele, percebendo como aquele assunto ainda era dolorido para ele. – Ela gostou de mim quando eu era apenas esse garoto magrelo, que não tinha jeito algum com as mulheres... E ela continuou gostando de mim depois que eu mudei. – mal percebeu a chegada da comida, só a notando pelo silêncio do soldado, que esperou a garçonete servi-los antes de continuar. – Ela continuou, não porque eu estava mais forte e maior, porque eu estava fisicamente diferente... Mas porque eu ainda era aquele garoto magricela que não sabia como conversar com as mulheres... E porque eu não tinha ideia do que fondue realmente era.
- Fondue? – franziu o cenho, inclinando a cabeça para o lado, notando o sorriso divertido no rosto do soldado.
- É uma longa história – disse ele, deixando claro, apesar do sorriso, que não queria continuar com aquele assunto. Não que fosse necessário, ela já conseguia ter uma boa ideia de quem Peggy era.
- Ela te viu por quem você era – disse a psicóloga, começando a comer as batatas fritas que vieram com o lanche.
- E quem eu era? – perguntou Steve retoricamente.
- Provavelmente a mesma pessoa que você é atualmente – ela respondeu mesmo assim.
Steve escolheu não responder ou perguntar mais nada, os dois aproveitando o silêncio para comer e colocar a conversa em dia, com fazendo perguntas sobre sua nova rotina e a adaptação a ela. Steve contou sobre tudo, até sobre Natasha e sua insistência em encontrar uma namorada para ele, o que pareceu divertir , que agora conseguia entender de onde viera a coragem dele em convidá-la para um encontro.
Quando eles saíram da lanchonete, após uma larga taça de sundae para cada um, perceberam quanto tempo haviam ficado no local. A temperatura havia ficado mais fria, e voltou a vestir seu casaco de moletom, acompanhando Steve em silêncio enquanto eles faziam o caminho de volta à academia. queria perguntar, descobrir o que o soldado estava escondendo, mas ela respeitou a escolha dele de deixa-lo decidir quando se abrir, não querendo arruinar o clima que estava entre eles. Infelizmente, Steve não demonstrou sinais de falar o que estava acontecendo até eles estarem na porta do prédio onde ela morava, o soldado tendo dado uma carona a ela até lá com sua moto.
- Steve... – o olhou após entregar o capacete. O soldado retribuiu o olhar dela por um momento, antes dele abaixar a cabeça e suspirar. esperou pacientemente.
- Eu estou indo embora, doutora – disse ele, a cabeça ainda baixa. franziu o cenho, não conseguindo entender exatamente o que ele queria dizer.
- O que... Como assim?
- Estou me mudando, indo embora do Brooklyn.
- Para onde? – perguntou ela, mesmo tendo uma ideia de qual seria a resposta.
- D.C. – respondeu o soldado, finalmente voltando a encará-la. – A S.H.I.E.L.D. precisa de mim lá... – completou ele, percebendo como ele não parecia exatamente feliz com isso. – Eu não tenho certeza se vou conseguir vir para cá tanto quando no ano passado...
- Bem, é bom você conseguir – disse ela, cortando-o. – Eu não te dei alta ainda, você ainda é meu paciente – observou , sorrindo para o soldado. – Não vou te deixar ir tão fácil.
- Sabe... – disse Steve, retribuindo o sorriso dela – Isso pode significar tantas coisas.
- Bem, considere o significado mais ético.
- Eu consideraria... Se você também considerasse – retrucou Steve, sorrindo quando ela revirou os olhos e corou levemente.
- Tchau, Steve.
sorriu para o soldado uma última vez antes de lhe dar as costas e traçar o caminho até seu prédio, em nenhum momento olhando para trás, apesar de sentir o olhar de Steve em suas costas.

~ * ~


Steve estava cansado, algo que ele nunca pensou ser possível. Foram dias intensos de treinamento desde sua mudança, mesmo quando não estavam agendados, ele saia para correr, já que os pesadelos haviam voltado, e tudo parecia quieto demais. Era uma sensação estranha para ele, a calmaria antes da tempestade, não era algo com o qual ele estava acostumado. Havia conseguido deixar de lado por um tempo, quando tinha suas sessões com , ela o ajudava a focar, a deixar de lado a necessidade de sempre estar em guerra... Mas agora sem ela, salvo algumas mensagens de texto aqui e ali, o soldado se via com dificuldades de deixar aquela sensação de lado.
De certa forma, por isso havia sido algo bom ter encontrado uma espécie de parceiro nesse assunto. Natasha podia ser uma espiã, podia ter inimigos e estar sempre pronta para lutar. Mas ela não era um soldado, nunca havia lutado em uma guerra, não igual ele. Natasha ainda conseguia ter boas noites de sono vez ou outra. Sam Wilson não. Sam era um soldado, tinha os pesadelos à noite, e os mesmos problemas para dormir que Steve. Era alguém com quem ele podia se identificar, ainda que não conseguisse encontrar no moreno a mesma calmaria que encontrava em ... Steve não achava que algum dia isso seria possível.
E Sam havia se tornado também um amigo a quem recorrer nas horas de necessidade, como agora. Após a morte de Fury e a descoberta do Projeto Insight, o ataque a ele e Natasha. Eles tinham amigos, mas não sabiam quem eles eram. Sam era o mais próximo que eles conseguiram no curto momento que tinham. E o moreno não só queria abrir sua casa para um refúgio, ele queria ajudar. Steve não sabia se estava de acordo com aquilo, mesmo com Sam afirmando que aquela era a escolha dele, e que, na verdade, tal escolha não existia.
Enquanto o moreno e Natasha discutiam como entrar no local super protegido para conseguir o equipamento necessário para seguirem com a missão, Steve se afastou, aproveitando para pegar o aparelho de Natasha que o daria a oportunidade de fazer uma ligação irrastreável. A ligação foi atendida no terceiro toque, a voz levemente arfante, como se a pessoa tivesse corrido para atender o telefone.
- Me diga que não interrompi nenhum momento muito... Constrangedor.
- Steve? – a pessoa perguntou, e ele conseguia perceber o sorriso em sua voz.
- Olá, doutora. – soltou um suspiro que pareceu aliviado do outro lado, e Steve sorriu. Fazia um tempo desde a última mensagem que ele havia mandado para ela. E então ele parou, o acompanhando, provavelmente esperando que ele continuasse ou puxasse algum assunto, mas Steve não sabia o que dizer. Ele percebia agora, apenas precisava ouvir a voz da mulher, ter certeza de que havia uma parte dele que não havia sido atingida no meio daquela confusão em que ele havia se metido e sequer sabia sobre o que se tratava direito.
- Steve, está tudo bem? – , enfim, cortou o silêncio.
- Honestamente? – Steve riu, olhando para trás, onde Natasha e Sam ainda analisavam a planta do local. – Eu não sei. Você provavelmente já deve ter visto as notícias...
- Sim, eu sinto muito – disse , e seu tom entregava que ela estava sendo honesta. talvez fosse a única que soubesse o quanto a agência era importante para Steve, ele sabia que se qualquer pessoa fosse realmente entender pelo que ele estava passando, seria ela.
- Você acreditou neles?
- Não estaria conversando com você se tivesse acreditado – respondeu a mulher. Steve sabia, só queria confirmar. – Você está a salvo? Seguro?
- Por enquanto – Steve lembrou-se dos planos que tinham em mente, em onde estariam em uma hora no máximo, e riu ao ouvir o som de protesto que soltou do outro lado.
- É demais pedir por uma semana de folga, pelo menos? – perguntou ela retoricamente, fazendo Steve sorrir.
- Quando tudo acabar, doutora, teremos folga – disse Steve, mesmo sabendo que havia uma grande chance de ser mentira.
- Você vai...
- Tomar cuidado? Vou, , sempre tomo, não é? – Steve passou a mão no cabelo, conseguindo imaginá-la mordiscando o lábio inferior em sinal de nervosismo.
- Eu quero notícias, assim que vocês terminarem o que estiverem tramando – pediu ela, deixando pouca margem para ele tentar negar. Não que Steve fosse tentar de qualquer jeito. Ele abriu a boca para responder, quando ouviu uma batida no vidro da porta que dava ao quintal dos fundos, por onde ele e Natasha haviam entrado.
- Steve? – A ruiva o chamava, fazendo-o virar a cabeça para olhá-lo. – Estamos prontos.
O soldado assentiu, e esperou a ruiva se retirar para voltar a dar as costas para a casa, soltando um alto suspiro e sabendo que o havia escutado. A mulher dessa vez permaneceu em silêncio até ele resolver se pronunciar, a própria não sabendo o que dizer.
- Eu preciso ir – disse, por fim. Steve passou a mão no rosto, conseguindo sentir a tensão na mulher.
- Tente não morrer, por favor. – pediu , alternando um pouco o pedido de sempre, apenas porque o soldado já havia adiantado antes.
- Eu te ligo quando tudo acabar.
Ele esperou o tempo necessário para ela responder, e então encerrou a ligação. Fechou os olhos e apoiou o rosto nas mãos por um momento, sentindo-as tremendo diante o que vinha pela frente. Havia muitas coisas em jogo, era um assunto que renderia uma longa sessão com e que uma mera ligação de, no máximo, quinze minutos, não fora o suficiente para acalmá-lo e deixa-lo com a confiança necessária para seguir com aquela missão. Como vinha fazendo muito nos últimos meses, Steve respirou fundo e abriu os olhos, vestindo a máscara do soldado que sempre tinha certeza de cada passo que dava.

Dizer que aquela missão havia dado extremamente errado era apelido. Steve sentia a dor se espalhar pelo seu corpo, sabendo que sumiria em questão de segundos, mas ainda assim, a sentindo, enquanto se recuperava da queda no ônibus. Aquele ataque havia sido inesperado, mas ele sentia certo alívio por estar novamente cara a cara com o assassino de Fury, via ali sua chance de vingar a morte do diretor da S.H.I.E.L.D., ainda que no meio do processo tivesse que colocar em perigo alguns civis, algo que definitivamente estava fora dos planos.
Eles tinham um plano sólido, acabar de uma vez com a farsa e a ameaça que vinha manchando a imagem da S.H.I.E.L.D., apesar de Steve já estar planejando acabar com tudo, já que sabia não valer a pena tentar reerguer a imagem da agência, que já não era bem-vista pelos cidadãos. Porém, a chegada do Soldado Invernal e o ataque a sua equipe havia mudado os planos deles no momento, já que eles se tornaram o alvo e precisavam se proteger a qualquer custo. Parte dele se preocupava com Natasha e Sam, principalmente com o moreno que não viera preparado para uma luta.
O soldado começava a se levantar quando a chuva de tiros começou, alguns poucos passageiros ainda dentro do ônibus. Steve fechou os olhos rapidamente, tentando se lembrar de onde seu escudo havia parado e tendo uma vaga lembrança dele sendo jogado para o lado do ônibus. Steve levantou-se e começou a correr para fora do veículo, sentindo alguns estilhaços de vidros atingindo seu corpo. Faltava pouco para chegar ao fim do ônibus quando viu o brilho usual do escudo, aumentando a velocidade para chegar logo. Os homens atiravam sem dar qualquer pausa, dificultando para Steve montar uma estratégia, fazendo-o improvisar, e agradecendo mentalmente quando Sam surgiu para ajudá-lo, permitindo que ele corresse na direção que o Soldado Invernal e Natasha haviam corrido.
Steve não sabia o que esperar, apesar de já tê-lo encontrado antes e ter um breve conhecimento das habilidades do inimigo, o soldado se viu surpreso ao finalmente encontra-lo e entrar no confronto mão a mão. O adversário era extremamente habilidoso, movendo-se rapidamente e sem desperdiçar tempo e seus movimentos. Cada passo, cada soco, cada ataque era minimamente calculado em questão de milésimos de segundos. Ele era certeiro e decisivo, desafiando Steve e alternar seu padrão de luta para se ajustar ao dele. Não era o loiro que mantinha o controle da luta, mas o moreno. E aquilo parecia deixar Steve ainda mais frustrado.
Era difícil também não conseguir encará-lo, ver seu rosto e conseguir colocar uma imagem concreta de quem era seu adversário. Mas aquilo, pelo menos, pareceu ficar a seu favor, quando em um dos movimentos ele conseguiu arrancar a máscara do moreno. E então tudo pareceu se mover em câmera lenta, tudo ao redor deles parando, pelo menos na visão de Steve. Os cabelos ele já estava acostumado, longos e escuros, e os olhos também já haviam causado certa intriga no loiro antes, mas só quando a máscara caiu e ele pode ver o conjunto completo que Steve conseguiu entender o que vinha lhe incomodando há um longo tempo. Porque ele conhecia aqueles olhos, ainda que estivessem extremamente mais frios do que ele estava acostumado a reviver em suas lembranças, e o maxilar mais definido e magro também lhe era familiar... Steve abaixou a guarda imediatamente, abandonando a luta num piscar de olhos enquanto a nova informação se assentava nele.
- Bucky? – ele perguntou em um sussurro, notando a mudança imediata na postura do outro, que pareceu hesitar, mas foi tão rápido que Steve julgou ter apenas imaginado.
- Quem diabos é Bucky? – A voz veio fria e cortante, e Steve engoliu em seco quando o moreno apontou a arma para ele. A chegada imediata de Sam o impedindo de seguir em frente com seu plano, apesar de não ter sido eficiente. Ao contrário da granada lançada por Natasha, que logo cedeu à fraqueza devido à perda de sangue excessiva devido ao ferimento no ombro.

Eles estavam a salvo, mas Steve não conseguia processar todas as informações. Hill estivera infiltrada na equipe da S.T.R.I.K.E. e os levava a algum lugar seguro e secreto. As mãos do soldado se abriam e fechavam, querendo segurar algo, socar algo, alguém... Qualquer coisa. Ele fechou os olhos e passou a mão no rosto, um sorriso e um par de olhos familiares surgindo em sua mente e fazendo-o perceber o que realmente queria. Um passo de cada vez, ela diria a ele se estivessem lado a lado. Foque no que é importante, no que você pode fazer agora. Em que precisa de você agora. Natasha. Ela estava a sua frente, sangrando incessantemente após ter impedido que a pessoa em quem ele mais confiou um dia, e ainda confiava se fosse bem honesto, o matasse.
Era Bucky e Steve sabia, mas o moreno não parecia ter esse conhecimento. O que quer que a HIDRA tivesse feito com o moreno, havia apagado de sua memória a existência do sargento Barnes, do melhor amigo do Steve. Ele agora era uma máquina mortífera, agindo como se fosse um robô, sem qualquer hesitação, sem qualquer pingo de piedade ou dó. Frio e calculista, algo que Bucky nunca fora antes da HIDRA pegá-lo. Steve engoliu em seco, não conseguindo impedir a culpa de se apossar dele, mesmo que lá no fundo ele soubesse que não era exatamente culpa dele. Mas, mesmo assim... Ele deixara Bucky cair do trem, e ali a HIDRA viu sua oportunidade.

Capítulo 11

Steve achou que nada mais o surpreenderia após o encontro com Bucky, mas ele estava extremamente enganado. Hill os levou até um esconderijo no meio da floresta, mas ainda perto do Triskelion, o que só indicava que a missão deles ainda não havia acabado. Não que Steve realmente acreditasse ou julgasse que tivesse, principalmente agora que descobrira que Bucky ainda estava vivo e, pior, aparentemente estava alheio a todo seu passado e sua importância durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto entravam no que parecia ser uma base improvisada da agência que um dia fora a S.H.I.E.L.D., carregando uma quase desfalecida Natasha, Steve perguntava-se como conseguiria trazer seu amigo de volta, até que entraram em uma sala e, pela segunda vez naquele dia, tudo pareceu sumir de seus pensamentos.
Deitado em uma cama no canto do amplo cômodo, estava ninguém menos que Nick Fury. Havia algumas bandagens ao redor de seu abdômen, além de um acesso em seu braço que pingava o que deveria ser algum remédio e soro. Natasha pareceu despertar um pouco mais em seus braços, endireitando sua postura enquanto tentava manter firme a pressão no ferimento próximo ao ombro. Steve sabia que sua expressão estava ridícula, já que ele sequer tentara disfarçar a confusão misturada a surpresa por ver que o diretor da agência ainda estava vivo, apesar de parecer extremamente fraco ainda.
A lista de contusões era maior e a explicação acerca de sua sobrevivência era ainda mais complicada, para não dizer dispensável para o momento. Para Steve, a informação importante que ficou foi a imagem do diretor “fugindo” da confusão que a agência de espionagem estava se tornando. Os argumentos de Fury não eram suficientes para ele, mesmo que tivesse uma leve consciência de que estava levando para o lado pessoal, e não se achava errado por aquilo.
- Temos que impedir o lançamento – disse Natasha, olhando para Steve e chamando a atenção do loiro para a discussão que ocorria na mesa. Ele sabia a qual lançamento ela se referia, mas, por mais que tentasse, seu pensamento ainda se voltava para Bucky. Era importante aquilo, ele sabia, mas era seu melhor amigo.
- Acho que o conselho não vai mais me atender – respondeu Fury, abrindo uma das maletas em cima da mesa e revelando três chips. Aquilo foi o que faltava para Steve entrar no modo Capitão e esquecer o lado pessoal, ainda que temporariamente. Depois, quando o plano estivesse decidido, ele encontraria uma forma de encaixar o salvamento de Bucky na missão.
- O que é isso? – perguntou Sam, dando abertura para Hill explicar a intenção deles com aqueles chips: destruir completamente os helicarriers e, consequentemente, o Projeto Insight, algo no discurso da mulher e do próprio ex-diretor da S.H.I.E.L.D. chamando a atenção de Steve.
-... E talvez, só talvez, a gente consiga recuperar o sobrou. – Para bom entendedor, meia palavra bastava, e Steve conseguir entender muito bem o que Fury pretendia com aquilo.
- Não vamos recuperar nada – cortou Steve, atraindo a atenção dos demais. – Não vamos só destruir os helicarriers. Vamos destruir a S.H.I.E.L.D.
A mudança na postura de Fury foi imediata, não exatamente física já que ele não estava muito possibilitado de mudanças brusca, mas seu olhar mudou, parecia ferido.
- A S.H.I.E.L.D. não teve nada a ver com isso – disse ele, querendo de alguma forma apontar ao loiro que havia uma salvação e não era necessária uma atitude tão extrema. Mas ele deveria saber, após sua última discussão com o Capitão, que ele não venceria aquela.
- Você me deu essa missão – retrucou Steve, sua posição também mudando, se tornando mais decidida. – É assim que termina. A S.H.I.E.L.D. foi comprometida, você mesmo disse. A HIDRA cresceu debaixo do seu nariz e ninguém percebeu.
- Por que acha que estamos nesta caverna? – perguntou Fury, mesmo sabendo que era arriscado tentar bancar o espertinho que possuía controle de tudo. – Eu percebi.
- E quantos pagaram o preço antes de você perceber? – retrucou o loiro, deixando o moreno sem palavras. Era claro como o dia a quem Steve se referia, até mesmo quem não tivesse conhecimento dos últimos acontecimentos saberia quem era o elefante no cômodo.
- Olha, eu não sabia sobre o Barnes – disse Fury, na vã expectativa de ganhar alguma forma de perdão.
- Se soubesse, teria me contado? Ou teria compartimentalizado isso também? – Atacou o loiro, vendo nos olhos do ex-diretor que ele já havia desistido daquela discussão. - S.H.I.E.L.D., HIDRA... Tudo será destruído. – Concluiu Steve, a determinação em sua voz não deixando abertura para discussão.
- Ele está certo – concordou Hill, chamando a atenção de Fury, que parecia ainda querer que alguém surgisse para ficar ao lado dele. Mesmo que ele soubesse que seria impossível, nem ele próprio ficaria do seu lado.
Natasha e Sam concordavam com o Capitão, finalizando de vez a discussão. Fury, no fundo, sabia que havia coerência no que era abordado pelo loiro. Mas a S.H.I.E.L.D. era sua agência, por anos ele a dirigira e batalhara muito para conseguir atingir boa parte de seus objetivos. Trazer paz na Terra, havia tropeçado e caído algumas vezes, mas sentia que havia conseguido certa vitória durante seu tempo de ação. Depois de lançar olhares ao trio, ele voltou a olhar para Steve, enfim cedendo.
- Bom... parece que você está no comando agora, Capitão.

Steve sentia que sua cabeça poderia explodir a qualquer momento. Eram muitos acontecimentos em pouco tempo, e nem seu metabolismo acelerado conseguia processar tanta coisa sem deixar algum traço de resistência. Parado na ponte, encarando o rio e as árvores ao redor, ele sentiu o aparelho celular no bolso. Havia pegado o aparelho antes de sair da caverna, já tendo em mente com quem ele precisava falar antes de finalmente voltar ao seu estado dominante daquele dia. Mas antes, ele precisava de um momento para si. Colocar seus pensamentos em ordem antes de encarar a ligação telefônica que o obrigaria a fazer aquilo de qualquer forma, a melhor saída era poupar tempo e o trabalho da outra parte.
Ele retirou o aparelho do bolso e encarou o teclado digital, os números vindo a sua mente com facilidade. Fazia menos de seis horas que ele havia feito aquela mesma ligação. Steve sabia que logo voltaria a fazê-la, mas não imaginava que seria mais cedo do que o esperado. O soldado suspirou e, enfim, digitou a série de números e códigos que manteria a ligação segura e irrastreável.
- Me diz que isso não é você ligando da prisão e pedindo para eu agir como sua advogada – foi a primeira coisa que ele ouviu do outro lado, fazendo Steve sorrir instantaneamente. O loiro ainda tinha que se lembrar de falar como era fácil esquecer todos seus problemas ao ouvir aquela voz.
- Doutora – disse ele lentamente, parecendo saborear a palavra em seus lábios. Do outro lado, entretanto, a mulher não se deixou ser enganada pelo tom falsamente alegre. Sabendo que havia algum motivo muito importante para ele realizar aquela ligação. – Eu não estou preso.
- Eu vi na televisão – disse ela, não parecendo acreditar no que o loiro dizia –, os noticiários não falam de outra coisa. A prisão do Capitão América, está em todos os lugares.
- Eles estão mentindo para não entregar que a HIDRA conseguiu perder três prisioneiros.
- HIDRA? Espera... O que?
Steve suspirou, rindo brevemente da confusão da mulher, mas logo resumindo e deixando-a por dentro dos últimos acontecimentos. A HIDRA crescendo dentro da S.H.I.E.L.D, o encontro com o Soldado Invernal e a descoberta de que Fury ainda estava vivo. Como sempre, ele sabia estava revelando mais do que o que seria certo, mas era , para quem mais ele se abriria daquela forma? Ainda mais naquelas circunstâncias. A mulher, como sempre, o ouviu atentamente, sem interromper a narrativa e apenas absorvendo cada informação, tentando encontrar as verdades sobre o psicológico de Steve atrás daquela tentativa dele de parecer inalterado.
- Steve... – começou, após ele finalizar o relato e ela ficar um tempo em silêncio. – Você sabe que eu adoro quando você me deixa por dentro do que está acontecendo, mas o que realmente me interessa nesse momento é...
- Saber como eu estou – completou Steve, já sabendo o que ela iria dizer, e sorrindo diante a preocupação da mulher. Ela havia pedido para ele tomar cuidado, e ali estava ele, provando que havia cumprido com sua palavra. Deveria ser o bastante para ela, mas Steve já deveria saber a essa altura que ela nunca estaria realmente satisfeita.
- Que bom que você já sabe. – Ele conseguia perceber o sorriso dela em sua voz.
Steve abaixou a cabeça, o aparelho se afastando um pouco de seu ouvido enquanto ele ponderava sobre os últimos acontecimentos, mas dessa vez focando nele e como ele se sentia. O soldado havia deixado de fora a identidade do Soldado Invernal, sabendo que pegaria o primeiro voo para Washington para que pudessem ter um encontro cara a cara. E não era algo que ele estava preparado para falar ainda.
- Tudo está caindo aos pedaços. Eu não sei o que fazer, no que acreditar... Ou em quem acreditar. – Não era completamente verdade, ele sabia em quem acreditar, tanto que estava falando com ela. Mas ambos sabiam que não era sobre aquilo que ele se referia. Do outro lado, suspirou, Steve imaginou onde ela estaria e se estivesse mudando de posição para uma mais séria, ou talvez ela tivesse mudado logo que ele começou seu relato.
- Acredite em você, e siga seu coração – disse , o tom de psicóloga presente em sua voz, algo que ela fazia sem nem mesmo perceber. – Você é um bom homem, Steve, não se esqueça... Não deixe toda essa loucura, esse mundo que você está conhecendo arruinar isso.
- Um bom homem... Eu já ouvi isso antes. – Steve não conseguiu conter o sorriso, lembrando-se de anos atrás, quando alguém lhe dissera a exata mesma coisa. teria gostado de conhecer Erskine, os dois com certeza compartilhavam a mesma opinião sobre o soldado.
- Talvez porque seja verdade – disse ela. – Eu sei que deve ser difícil, Steve, destruir algo pelo qual ela lutou tanto. Mas lembre-se que, na verdade, você está salvando o legado dela. Limpando a imagem que ela construiu tão brilhantemente.
Peggy, era óbvio que a traria para o assunto. Mesmo que ele não verbalizasse tudo, provavelmente até mesmo pensava em Bucky, mas não o traria à tona, pensando que ele não se encaixaria... Se ela soubesse. Steve não teve o que responder, ouvindo ao longe o portão de acesso à ponte se abrindo, sem precisar se virar para saber que Sam começava a se aproximar. Ele suspirou pesarosamente e pareceu imitá-lo.
- Você tem uma missão para se preparar – disse a doutora, já antecipando a despedida. – Foque nela, e não se esqueça que há boas pessoas ainda. Pessoas que não se deixaram corromper. – O soldado sorriu, e esperou mais um pouco sabendo o que vinha a seguir. – E, não acredito que estou dizendo isso de novo em tão pouco tempo, tome cuidado. Eu sei que você é um herói, mas tente não ser muito herói hoje, tudo bem? Faça o que tiver que fazer, e saia vivo. Inteiro.
- Pode deixar, doutora. – O loiro sorriu, percebendo Sam próximo a ele, provavelmente já conseguindo ouvir o que ele dizia. – Eu preciso ir...
- Até mais, Steve – disse .
- Até, doutora – respondeu ele, encerrando a ligação logo em seguida.
Ele ainda estava encerrando os protocolos da ligação quando ouviu um riso divertido atrás dele, levantando o olhar para o rio a sua frente, à espera da piada que estava a caminho. Mas Sam esperou que ele colocasse o aparelho no bolso e se virasse para ele, para enfim se pronunciar.
- Doutora, hum? – brincou o moreno, seu olhar claramente pedindo por mais detalhes. Mas Steve não cedeu, sabendo a verdadeira razão para o colega estar ali.
- Eu sei o que você está fazendo aqui, Sam – disse o loiro, fazendo o moreno mudar de postura imediatamente.

~ * ~


suspirou ao desligar o celular, deixando-o cair em seu colo enquanto ela se encolhia ainda mais no assento pela janela, agarrando a xícara de chá que fizera mais cedo ao ver as notícias. Queria que Lou estivesse com ela para animá-la, mas a mulher tivera que sair quando a confusão começara em Washington para cobrir as notícias. não conseguiu deixar de pensar, no momento, como era irônico que a colega podia ter ainda mais informações se a psicóloga não fosse tão ética e não tivesse um paciente tão complicado.
- Onde eu fui me enfiar? – se perguntou , apoiando a cabeça na parede atrás dela e suspirando, o chá já frio em sua mão parecendo deixa-la ainda mais fria.

Ela acordou com o telefone tocando insistentemente, reconhecendo rapidamente o número da redação. O que Louise poderia querer àquela hora? A colega raramente a ligava no meio da tarde, mais por sempre estar trabalhando naquele horário, mas até nos dias livres da psicóloga, a jornalista esperava algum horário melhor. passou a mão no rosto e se virou no sofá para alcançar melhor o celular.
- O que foi?
- Onde você estava? – Louise perguntou, mal dando tempo de terminar sua fala inicial.
- Lou, o que...?
- Liga a televisão – disse a mulher do outro lado, especificando para a amiga sintonizar no canal de notícias.
o fez, mas logo se arrependeu. Era a Batalha de Nova Iorque tudo de novo. Pelo menos em relação aos sentimentos. Na mesma hora, ela sentiu a respiração ficando suspensa e a mão agarrando com força o celular, Louise ficando em silêncio do outro lado.
Era o puro caos, os três helicarriers atacando uns aos outros. A linha de notícia na base da televisão comunicando que o Capitão América estava no meio da confusão. As manchetes indicavam a queda da S.H.I.E.L.D. e o vazamento de informações privilegiadas da agência e da inimiga da mesma. Era real, então, HIDRA estava viva ainda. Não que tivesse duvidado de Steve, mas a agência inimiga era uma lenda tão grande da época do Soldado e que sumiu junto ele, que a psicóloga ainda acreditava não passar de uma informação errada.
- Lou? – chamou após um tempo, voltando a focar na ligação, enquanto um dos helicarriers começava a cair em direção ao Triskelion. – Quais informações você tem?
- Não muito além do que está na televisão – confessou a amiga, sabendo que a psicóloga estaria preocupada com o herói favorito. – Mas parece que ele não está sozinho, tanto em ajuda, quanto em luta.
- Como assim?
- Rumores de que um tal Soldado Invernal está entre os agentes da HIDRA.
engoliu em seco instantaneamente, lembrando-se do relato de Steve, da forma como ele narrara o estilo do soldado, a forma como ele agia que mais o fazia parecer uma máquina mortífera do que um soldado, um ser humano.
Ela queria Louise ao seu lado, da mesma forma que as duas ficaram quando ocorrera a invasão a Nova Iorque, mas ao mesmo tempo agradecia pela jornalista estar apenas do outro lado da ligação, ou teria muitas explicações para dar. Como explicar a forma como seus olhos se encheram de lágrimas e as mesmas começaram a lavar seu rosto assim que o prédio começara a despencar? Ou como ela ficava murmurando tão baixo que Louise confundiu com a respiração ofegante dela, o nome do Soldado, implorando para que ele estivesse vivo e bem. Mas sabia que aquilo era esperar demais, Steve se sacrificaria sem pensar duas vezes se isso incluísse salvar mais vidas. Tampouco conseguiria explicar porque estava pesquisando quais eram os hospitais mais próximos da região e preços de passagens aéreas para Washington.
- Está tudo acabado, – disse Louise do outro lado. – S.H.I.E.L.D., Hidra... Todas as informações estão públicas, são inúmeros arquivos criptografados liberados.
, novamente, respirou fundo e engoliu em seco, abrindo uma nova janela do navegador e começando a pesquisar sobre o que Louise falava, a primeira pesquisa clara em sua mente: quem era o Soldado Invernal? Ela queria fazer aquela pergunta a Steve desde que o loiro lhe contara sobre o encontro entre eles, porque a mulher havia percebido na voz do soldado como aquilo o havia abalado de forma pessoal. Não era mais somente a morte de Fury, ou o ataque pessoal... Era algo além disso, e não conseguira reunir a coragem necessária para perguntar. E o motivo logo se tornou claro para ela.
- Merda – soltou ela ao conseguir encontrar alguns links com informações que pareciam confiáveis, mas que ela rezava para não ser verdade.
Ela voltou a encarar a televisão, se arrependendo de tê-lo feito, apesar de Louise logo depois a informar das novas notícias que haviam chegado. Alexander Pierce estava morto, Fury estava vivo, e Steve não fora encontrado ainda. Os últimos relatos era dele em um dos helicarriers enfrentando algum agente da HIDRA que parecia ter um braço diferente. O Soldado Invernal, pensou , encarando a foto que estava aberta na página de seu notebook. A psicóloga confirmou a compra da passagem e respirou fundo, informando a Louise que precisava desligar, justificando que a amiga tinha trabalho a fazer.
Seus instintos gritavam para que ela viajasse logo, mas sabia que Steve ainda precisava ser encontrado e, quando isso ocorresse, ele provavelmente teria que passar por exames médicos. A mulher se recusando a acreditar que algo grave aconteceria ao soldado. Seriam os três dias mais longos de sua vida, pensou ao voltar seu olhar para a televisão, onde eles começavam a reprisar as imagens de quando o ataque havia começado.

~ * ~


Se tinha uma coisa que ela odiava era hospitais. Nunca gostara do ambiente, das cores, do cheiro... De nada que aquele lugar tinha a oferecer. Mas lá estava ela, percorrendo os corredores, tentando ao máximo ignorar o som que seu sapato fazia quando ia de encontro ao chão encerado. A cada dois passos ela olhava para trás, certificando-se de que ninguém a seguia, suspeitando de seus movimentos. O bom de hospitais era que todos pareciam estar com pressa, desesperados para encontrar o ente querido ainda vivo.
Ela dobrou em um corredor e parou de repente, surpresa pela quantidade de segurança que havia ali. Nenhum outro estava tão vigiado quanto aquele. voltou alguns passos e observou a movimentação, mordendo o lábio inferior enquanto percebia que somente pessoas autorizadas e com uniformes do hospital conseguiam transitar livremente pelo corredor. Olhou ao seu redor, procurando algo que lhe ajudasse. Parte dela sabia que não havia pressa ou perigo, este já havia passado, mas ela também não queria perder tempo. Queria se certificar com os próprios olhos de que tudo estava bem.
Havia uma sala há algumas portas de distância de onde ela estava, onde ela pode reconhecer alguns armários e estantes, ao andar até ali, a placa na porta lhe informava que era uma sala relacionada aos funcionários. sorriu, olhou ao redor e entrou no local, fechando a porta atrás de si. Ela não precisou procurar muito para encontrar o que precisava, a roupa de enfermeira lhe serviu perfeitamente e ela logo saia da sala, sem levantar qualquer suspeita. O guarda na porta sequer olhou duas vezes para ela quando passou por ele, abrindo a porta do quarto e adentrando o mesmo em seguida. Para sua sorte, o local encontrava-se vazio, com exceção da pessoa que ocupava a maca. Ela notou que ele havia algum acompanhante, pela forma como a poltrona estava posicionada e pela revista largada na mesma de qualquer jeito.
Cautelosamente, aproximou-se da maca, prendendo a respiração ao ver o rosto que conhecia tão bem marcado por tantos hematomas e cortes. Ela havia chegado na capital alguns dias após o ocorrido, tempo suficiente para o super-soldado conseguir se recuperar de muitos machucados, mas os hematomas provavam a seriedade da situação. ofegou ao pegar a ficha médica e ler a lista de ferimentos e procedimentos pelos quais o soldado havia passado.
- Estou alucinando ou você está usando uma roupa de enfermeira? – A voz rouca se fez ouvir e desviou a atenção da prancheta em sua mão para olhar o homem que jazia na cama.
- De todas as formas que você poderia alucinar comigo, seria vestida de enfermeira? – Ela perguntou, largando a prancheta e aproximando-se do homem.
- Alucinação é a única explicação que eu encontro para você estar aqui.
- Você é meu paciente, Steve, tenho o direito de vir te ver e ter certeza de que você está bem. – Ela disse, como se fosse a explicação mais óbvia.
- Como você me encontrou? – Ela sorriu, aliviada por ele ter acatado a explicação dela.
- Não sei se você percebeu, mas o que vocês fizeram não foi algo pequeno. – Ela brincou, mexendo com cuidado em algumas mechas do cabelo do soldado que estavam em sua testa. – Não é muito desafiador encontrar você.
- Não acredito que você veio do Brooklyn até aqui só para ver se eu estava bem, bastava ligar. – Ele disse.
- Como se eu fosse acreditar. – Ela riu. – Não é um voo muito longo. Você sabe disso.
- Isso é bom. – Ele disse, fazendo-a arquear a sobrancelha, incerta sobre o que o soldado queria dizer, talvez nem mesmo fosse relacionado ao estado dele.
- O que é bom?
- Você aqui. – Steve disse, olhando-a e confirmando as suspeitas dela. – Prova que você também sente alguma coisa.
- Eu nunca disse que não sentia. – confessou, retribuindo o olhar de Steve. – Mas não é profissional. Não é ético.
- Quem liga para a ética? – Steve disse baixinho, como se não quisesse que ninguém ouvisse.
- Steven Rogers querendo desobedecer uma regra. – Ela falou, fingindo estar chocada. Os dois riram levemente, Steve fazendo uma careta logo em seguida, fazendo voltar a ficar preocupada. – Como você está?
- Ah, a substituição de personagens.
- Steve, eu estou falando sério. – Ela disse, revirando os olhos apenas para fingir certa impaciência. – Como você está?
- Vivo.
- O que aconteceu?
- Achei que tivesse visto tudo.
- Eu vi a queda da S.H.I.E.L.D. e da HIDRA, não entraram em detalhes sobre como você veio parar aqui. – Ela disse.
- Bucky. – Steve disse, o semblante denunciando a tristeza por não ter conseguido recuperar o amigo.
- Vocês se encontraram de novo – disse ela, sua expressão confirmando que ela sabia que o melhor amigo do Capitão era o Soldado Invernal.
- É um modo de dizer. – O soldado tentou fazer piada, mas nem ele, nem a psicóloga riram. – Eu tentei, , juro que tentei recuperá-lo, fazer ele voltar a ser o que era, mas...
- Steve. – procurou a mão do homem, dando um aperto de leve. Ver os olhos azuis do soldado brilhando com as lágrimas que ele não iria derramar, ela sabia, lhe apertava o coração de forma sufocante. – É difícil julgar sem saber todas as informações, mas seja lá o que tenha acontecido com ele, eu aposto que não foi por vontade própria.
- Ele disse que eu era a missão dele. – Steve revelou, as cenas da luta contra Bucky voltando com força enquanto ele fechava os olhos para tentar controlar as lágrimas. – Eu vi nos olhos dele que ele não iria parar enquanto não acabasse comigo. Eu não podia lutar com ele, , não conseguiria.
- Eu sei, Steve. – Ela queria chorar por ele. Ouvir e ver a dor em sua voz e seu semblante fazia com que ela a sentisse também. Haviam passado muito tempo juntos, muito havia sido compartilhado entre eles. seria ingênua se tentasse convencer a si mesma que havia ali somente uma relação entre paciente e médica, como ela fazia muitas vezes. Steve estava certo, afinal, ela estar ali desmentia completamente essa teoria. – E eu sinto muito por isso, de verdade.
- Vamos ter muita coisa para discutir em nossa próxima consulta. – Ele disse, após um tempo em silêncio.
- Ou não precisamos falar sobre isso. – sugeriu, sabendo que ela própria não suportaria discutir aquele assunto. – De qualquer forma, não é importante agora. Vamos focar na sua recuperação.
- Eu me recupero rápido, , não se preocupe.
- Se você visse o seu estado, você entenderia o meu. – Ela disse, observando novamente cada detalhe do rosto machucado do soldado. O corte em seu lábio, pelo menos, já estava praticamente cicatrizado, eram os hematomas que mais assustavam a psicóloga.
- Eu quero entender por que você está vestida de enfermeira.
- Chama-se disfarce. – Ela explicou. – A segurança aqui está reforçada, só pessoal do hospital ou demais autorizados podem entrar aqui, então tive que improvisar.
- Você acha que não está autorizada?
- Eu sei que não estou. – Ela disse. – Ninguém sabe que eu existo na sua vida.
- Sua escolha. – Steve respondeu, os olhos fechando enquanto ele voltava a sentir uma onda de sono. Havia despertado pouco antes de entrar no quarto, mas ainda estava num leve estado de torpor quando percebeu a entrada de alguém no cômodo. Abrir os olhos e vê-la ali fizera com que ele despertasse completamente, mas o efeito passara rápido e ele já voltava a sentir as pálpebras pesando.
- Você precisa descansar. – Ela disse, notando que o soldado lutava bravamente para manter os olhos abertos.
- Você estará aqui quando eu acordar? – Steve perguntou, forçando-se a olhá-la novamente, sentindo que talvez ela não estivesse mais presente quando ele recobrasse a consciência.
- Eu adoraria, mas você sabe que não é meu único paciente.
- Mas aposto que nenhum outro quase morreu. – Ele disse, fazendo um carinho leve com o polegar na mão dela, que estava entrelaçada a sua. – Fique, por favor.
- Dorme, Steve. – disse, acariciando o cabelo dele, sabendo que aquilo era golpe baixo para qualquer pessoa. Não deu outra, em instantes os olhos de Steve já estavam fechados, e o que quer que ele tivesse começado a falar, ficou perdido no meio de sua sonolência.
ainda permaneceu observando o soldado adormecido por um tempo, finalmente permitindo que algumas lágrimas de alívio escorressem por confirmar que ele estava bem. Sabia que tinha sido extremamente impulsiva por fazer a viagem até Washington, mas ao acompanhar tudo o que havia ocorrido foi o suficiente para que ela largasse o conceito de ética tão definido e gastasse seu dinheiro comprando aquela passagem, esperar aqueles dias até que o soldado estivesse estável havia sido a pior tortura de todos.
Cada pedaço seu implorava para que ela ficasse ali, ao lado de Rogers, esperando que ele melhorasse completamente. Parte dela não acreditaria na melhora do soldado se não fosse presenciada por ela, mas sabia que não podia ficar. Haviam mais problemas que soluções para a estada dela ali. Em primeiro lugar, seus pacientes, que não podiam ficar sem suas consultas só para que ela ficasse ao lado de um que ela tinha total certeza que se recuperaria muito em breve. Em segundo, havia Louise que não tinha ideia de onde a amiga estava, já que saíra sem deixar qualquer bilhete e sequer mandara uma mensagem para a mulher. Ela sabia que esse problema seria fácil de solucionar, na teoria, pois Louise exigiria uma completa explicação para o impulso da amiga. E havia o problema da segurança, como havia dito, ninguém sabia de sua existência e ligação com Steve, e duvidava que alguém fosse acreditar caso ela tentasse explicar. Assim, relutante, a psicóloga depositou um beijo na testa do soldado, fazendo uma última carícia na mão do homem antes de se soltar dele e sair do quarto. Considerou deixar algum sinal de que ela realmente estivera ali, mas sabia que Steve não duvidaria de sua própria mente quando recobrasse a consciência.

~ * ~


Ao chegar ao apartamento, sabia que Louise não estava em casa, mas também sabia que não estava sozinha. A visita também não fizera questão de se esconder. O homem estava posicionado em frente à janela da sala, observando a movimentação na rua, de costas para ela. suspirou, fechando a porta atrás de si, esperando que o homem se manifestasse.
- Fez boa viagem, doutora?
- Um pouco cansativa, se quer mesmo saber, planejava dormir, mas certas visitas são inconvenientes demais. – Ela retrucou, largando a bolsa no sofá e cruzando os braços. Observou o homem se movimentar, lentamente virando-se de frente para ela. O olho direito a observava com atenção, enquanto o esquerdo permanecia escondido pelo tapa-olho.
- Como está o Rogers?
- Vivo. – Ela retrucou.
- Eu sabia que você estava mentindo antes. – O homem disse, um sorriso discreto e irônico surgindo em seus lábios. – Sabia que não podia haver outra explicação para a melhora dele além de se consultar com você.
- E mesmo assim você acreditou no que eu disse. – disse.
- Acreditei? Tem certeza? – O homem perguntou, uma risada sem humor preenchendo a sala brevemente.
- Bem, você me deixou em paz. – se deu por vencida. – O que faz aqui?
- Bucky Barnes.
- O amigo de Steve? O que tem ele?
- Ele é mais perigoso que você imagina, ou que o Rogers tenha lhe dado a entender. – O homem disse, estava curiosa sobre a importância daquela informação em sua vida. – Rogers se recusa a vê-lo por quem ele realmente é.
- E quem seria essa pessoa?
- Trouxe algo para algum momento livre que tiver. – O homem mostrou o arquivo que carregava nas mãos, depositando-o na mesa de centro. – Ele é conhecido por muitas agências como Soldado Invernal. – engoliu em seco. – Achei que gostaria de saber um pouco mais sobre ele enquanto atende o Capitão América.
- Obrigada pela informação que eu já possuía. – disse, achando dificuldade para se concentrar. – Mas não acredito que tenha vindo até aqui só para isso.
- A S.H.I.E.L.D. caiu, acredito que você saiba disso também. – Ele disse, aproximando-se dela, o tom de voz ainda sério, mas não tanto se comparado a momentos antes. – Tivemos que liberar informações guardadas à sete chaves.
- Ouvi dizer. – disse, observando cada movimento do homem.
- Você sabe o que isso implica, não sabe, doutora? – A única coisa entre eles era o sofá, o observava com atenção, percebendo que ele fazia o mesmo com ela. – É só uma questão de tempo...
- Você fez toda essa viagem para me falar isso?
- Eu queria me certificar, doutora, que não haveria qualquer dúvida de que tudo está disponível. – Ele aproximou-se lentamente dela, parando lado a lado, permaneceu olhando para frente, atenta a cada palavra. – Basta saber o que procurar.
As palavras dele não grudaram nela como o homem parecia esperar, não estava assustada como no primeiro encontro deles. Assim, quando ele saiu, a mulher apenas respirou fundo e passou a mão no rosto. Era como dissera antes, tudo informação que ela já possuía. A última coisa que ela precisava naquele momento era alguém lhe apontando o óbvio ao invés de lhe dar soluções para os problemas que ela começaria a ter muito em breve.

Capítulo 12

Steve se revirava na cama. Fazia algumas semanas que ele havia saído do hospital, Sam havia oferecido a ele o quarto de hóspedes de sua casa, e o soldado decidira aceitar. Era como se tivesse acabado de ser descongelado novamente, sua mente não conseguia parar por um minuto que fosse. Não ajudava em nada a pasta-arquivo que descansava no criado-mudo ao lado de sua cama. Havia recebido aquilo de Natasha há uma semana e ainda não tivera coragem de ir além da primeira página, o que só deixava Sam mais ansioso, já que o moreno estava louco para decidirem o que iriam fazer com aquelas informações e como ir atrás de Bucky.
O loiro passou a mão no rosto, virando a cabeça de lado para enxergar o relógio no criado-mudo e encarando a hora. Seus olhos depois se fixando na pasta que vinha encarando-o há dias. Steve suspirou, sabendo que seria mais uma noite mal dormida por conta daquela pasta e dos últimos episódios que havia encarado. Ele sentou na cama e encarou suas opções: mais uma noite em claro, ou encarar o elefante no quarto e ver o que aquela pasta guardava.
Era uma escolha tão fácil que Steve não sabia porque demorara tanto para fazê-la. Ele se levantou e pegou a pasta, saindo do quarto e indo até a sala, agradecendo o sono pesado de Sam que não permitiria que ele acordasse para ver o que o loiro estaria fazendo. Steve acendeu o abajur ao lado do sofá e respirou fundo antes de, finalmente, abrir a pasta. A foto de Bucky congelado estava em um lado, e Steve não se demorou muito encarando-a, rapidamente focando na primeira página, que era uma ficha do ex-sargento. Mas não foi a ficha que Steve já havia lido uma vez, logo que Natasha o havia entregado, que ele viu. O loiro pegou a folha que não estava presa no clipe e a examinou, sabendo que não fora Natasha que a colocara ali.
- O que... – Steve leu a folha diversas vezes até conseguir reconhecer o que lia.
Sam acordou com o som de sua porta sendo esmurrada, pulando de susto na cama e se levantando imediatamente. Fazia muito tempo desde que algo assim havia acontecido, e ele demorou um pouco para conseguir se lembrar o que poderia levar àquele acontecimento. As últimas semanas voltando como um flash em sua mente e fazendo-o correr até a porta para ver onde era o fogo. O rosto furioso e confuso de Steve o recebeu, e o moreno pareceu refletir uma parte da expressão do loiro, ficando confuso.
- O que é isso? – perguntou Steve, mostrando a folha que segurava, percebendo a expressão de Sam ficando mais relaxada, como se ele finalmente entendesse o que estava acontecendo.
- Steve... – começou o moreno, querendo se justificar, seguindo o Capitão até a sala quando o mesmo lhe deu as costas.
- É verdade? – perguntou Steve, voltando a olhar para o amigo.
- Parece que sim.
- Como você descobriu? – Sam se sentia em uma sala de interrogatório, mas não eram as perguntas de Steve, e sim a forma como o loiro lhe olhava, querendo perceber nos mínimos detalhes alguma mentira ou hesitação que indicasse a mentira do moreno.
- Após ouvir você no... – Sam passou a mão pelo rosto. – Eu resolvi fazer algumas pesquisas quando a S.H.I.E.L.D. caiu e os arquivos foram liberados.
- O que exatamente você estava pesquisando?
- Eu queria saber com o que eu estava lidando – explicou Sam, vendo que Steve estava há um passo de ficar extremamente enfurecido com ele. – Pesquisei todos com quem cruzei pelo caminho, pesquisei sobre o Bucky também... Se eu for mesmo seguir essa missão com você, eu precisava saber com quem eu estava lidando, não apenas a lenda, mas a pessoa.
- Você poderia ter me perguntado.
- Você teria respondido? – perguntou Sam, apontando para a folha ainda na mão do loiro. – Sobre ela? – Steve hesitou, abaixando o olhar brevemente antes de voltar a encarar Sam. – E mesmo se respondesse, pela sua reação, aposto que não sabia disso.
- É verdade? – Steve perguntou, não mais tão enfurecido como antes, apenas... Frustrado.
- Parece que sim, puxei dos arquivos da S.H.I.E.L.D.
Steve sabia que Sam não mentia, não havia motivos para o moreno fazê-lo. O soldado sentou-se no sofá, apertando a folha em sua mão e levando a que estava livre para o rosto, esfregando-o com força enquanto tentava começar a processar todas as informações. Desde que havia encontrado a folha, ele havia lido duas vezes, mas ainda não conseguia acreditar que fosse verdade, até ver a expressão firme de Sam.
- Merda – soltou ele, fazendo uma careta logo depois. – O que eu faço agora?
- Você precisa falar com ela – disse Sam, como se fosse a única resposta. O que provavelmente era. – Ouvir o lado dela da história.
O loiro queria tanto que aquela não fosse a única alternativa.

~ * ~


não sabia como aquelas últimas semanas haviam passado. Ela vivia no automático, esperando por qualquer mínima notícia sobre Steve, qualquer sinal sobre qualquer coisa. Desde a visita do homem com o tapa-olho, seus pesadelos haviam voltados, e dessa vez mais assustadores, Marvel já havia até mesmo se acostumado a se deitar todos os dias na cama da psicóloga quando ela ia dormir, já sabendo que iria pular ali assim que ela acordasse assustada. Ela agradeceu por Louise estar tão ocupada naqueles dias, fazendo-a chegar tarde em casa e sair cedo, com os horários das duas se desencontrando.
Ela sabia que não havia nada que pudesse fazer com aqueles pesadelos tão cedo, então ela focava no que ela podia fazer: ajudar seus pacientes, conversar com Steve sobre as últimas semanas e tentar ajudar, ainda que de longe, o soldado a lidar com seus próprios monstros, além de focar também nos trabalhos da faculdade, que ajudavam bem mais do que todo o resto.
Sua rotina era simples, todos os dias como aquele: acordar cedo, treinar um pouco, ir para a faculdade e depois para o consultório, não mudava, e havia se acostumado. Naquela noite, ela já ansiava pelo apartamento, a comida chinesa quentinha em sua mão, já que ela havia retirado no próprio restaurante, que seria consumida em frente à televisão enquanto ela assistia a algum programa qualquer. Entretanto, algo naquele dia parecia diferente e não conseguia deixar de se sentir inquieta, desde que acordara fora aquele desconforto e ela ansiava em dobro chegar logo em casa na esperança de aquilo fosse mudar.
E, talvez, se soubesse o que fosse acontecer, ela não teria desejado tanto o conforto do lar.
Antes mesmo de terminar de fechar a porta ela já sabia que não estava sozinha no apartamento. O fez mesmo assim, sabendo que a presença da vez era diferente da que recebera semanas atrás. Respirou fundo e contou até dez antes de se virar e encarar sua visita. Steve estava em frente a ela, porém de costas, observando o movimento na rua abaixo deles. mordeu o lábio inferior, sabia que ele aguardava a mesma coisa que ela: Marvel parar de pular nas pernas da dona e ir se deitar no cantinho dele.
- Então, você descobriu meu apartamento. – Ela disse, não se movendo, apenas encostou-se à porta e observou a figura do soldado. A sala estava parcialmente iluminada pelas luzes que saiam dos dois abajures ao lado do sofá, como elas costumavam deixar quando pretendiam ter uma noite tranquila, assistindo qualquer coisa na televisão, ou um filme tranquilo.
- Uma das vantagens, ou desvantagens, depende do ponto de vista, de ter registro com a S.H.I.E.L.D. – Ele respondeu, fazendo-a fechar os olhos.
Seu pesadelo finalmente se tornando realidade, apenas esperou que aquele fosse o fim dos sonhos perturbados. Talvez fora sorte dela que Steve estava tão debilitado quando fora visita-lo no hospital, que ele sequer pensou em ligar os pontos na hora. Porém, apesar de temer e sonhar constantemente com aquilo, ela não havia se preparado para quando esse momento chegasse. De forma que, quando Steve resolveu deixar de vigiar a rua para olhar para ela, sentiu todo o ar sumir de seu corpo, tamanha era a decepção nos olhos dele. Sentiu que seus joelhos enfraqueciam, e agradeceu por estar apoiada na porta.
- Steve...
- Eu deveria ter percebido, não é? – Ele a interrompeu. Tinha as duas mãos nos bolsos da calça jeans, havia ainda o resquício de um hematoma em seu rosto. – Quero dizer, agora que eu paro para pensar em tudo, eu deveria ter visto os sinais, não?
- Eu...
- Você soube quem eu era no momento em que eu disse meu nome. – Ele a interrompeu novamente. – Como eu deixei escapar isso? E sabia sobre a S.H.I.E.L.D. em nossa primeira consulta. – Ele apontou, ela voltou a fechar os olhos. Sabia que seria inútil tentar falar, ele precisava colocar para fora. Ela sabia que ele se sentia traído, e não o culpava. – Provavelmente sabia sobre a Peggy, até mesmo sobre o Bucky. Todo aquele papo de não saber separar ficção da realidade, alguma coisa era real? – Ele perguntou, ela fechou os olhos com ainda mais força, sentindo as lágrimas queimarem, mas não as derramaria. Não a ajudaria em nada chorar naquele momento. – Admita, você foi só mais uma que a S.H.I.E.L.D. mandou para me avaliar. E sabe o que é pior? Eu estava tão mal que eu simplesmente acreditei. Eu caí na sua. E todo esse tempo você, o Fury, e sei lá mais quem provavelmente estavam rindo da minha estupidez, da minha inocência.
- Eu nunca ri. – Ela disse, não conseguindo mais se controlar. – Não de você. Não disso. De nada.
Isso pareceu apenas piorar a situação, porque ao abrir os olhos e encarar os azuis do soldado, o que ela via agora era dor. O sentimento mais forte e dominante do traído. Ele desviou o olhar dela, focando na mesa que havia próximo a ele, reconhecendo seu nome escrito na caligrafia corrida dela. Suas fichas, seus cadernos com o registro de suas consultas. Então voltou a olhá-la, percebendo pela primeira vez que ela parecia tão esgotada quanto ele.
- Alguma coisa foi real? – Ele perguntou num ar cansado. Cansado de manter aquela pose, de se fazer forte. Ela já havia visto tantas versões suas, inclusive aquela, não adiantava tentar esconder mais. Viu quando ela finalmente perdeu a luta contra as lágrimas e a primeira escorreu, trilhando lentamente um caminho por seu rosto.
- Cada momento. Cada encontro. Cada palavra. Foi tudo real, Steve. – Ela disse num sussurro, não conseguindo elevar a voz mais que isso.
passou a mão no rosto, eliminando a segunda lágrima rapidamente. Juntou forças e desencostou da porta, aproximando-se lentamente do soldado, mas não chegando muito perto. Acendendo o resto das luzes da sala enquanto o fazia, sentindo por algum motivo que precisavam das luzes acesas, e deixando a comida na mesinha do abajur. O arrependimento bateu logo, pois com mais iluminação ela conseguia ler melhor as expressões do soldado, e o que via ali era pior que qualquer tortura que poderiam fazer com ela.
- Eu sinto muito por ter escondido isso de você. Mas, assim, apenas para deixar as coisas bem claras, eu saber quem você era desde o princípio não é evidência. Eu sou fã do Capitão América, quantas vezes você acha que eu fui àquela exposição no Smithsonian? Quanto ao resto... – Ela voltou a falar, sua voz um pouco mais alta. – Antes de saber tudo sobre mim, você precisa saber que em nenhum momento eu estava trabalhando especificamente para o Fury ou para a S.H.I.E.L.D. – o observou enquanto ele cruzava os braços, prestando atenção em cada palavra dita por ela. – Eu já estava afastada há um bom tempo quando Fury me chamou para uma consulta logo que eles te encontraram. Inclusive, eu disse que aquele teatro todo de ambientar o quarto em 1940 não daria certo, mas ele não quis me ouvir. Eu era a única entre vários outros que dizia que não funcionaria. Quando não funcionou e você começou a rejeitar todos os psicólogos, ele voltou a me procurar. Mostrou todos os relatórios, todos os vídeos de todos os seus encontros com os demais. Então ele pediu que eu tentasse.
- E você aceitou – acusou Steve, a sua voz transparecendo todos os sentimentos do soldado e funcionando como uma faca que apunhalava lentamente .
- Sob a condição de que eu pudesse trabalhar sozinha, sem a S.H.I.E.L.D. ou ele no meu caminho, me dando ordens e exigindo coisas. – Ela admitiu, não havia porque mentir e ela sentia que não conseguiria mesmo se tentasse. – Eu disse a ele que enviaria relatórios ou qualquer informação quando eu quisesse. Mas nunca enviei uma palavra sequer, nem um cartão postal.
- Você quer mesmo que eu acredite que nesses dois anos que estamos nos vendo, em que você esteve me atendendo, você nunca enviou nada para Fury? – Steve perguntou, dando uma risada descrente. – Ele nunca deixaria isso acontecer.
- Pergunte a ele. – Ela respondeu, percebendo logo em seguida que isso não seria possível, devido ao sumiço do antigo diretor da agência. – Ele tentou, veio até mim pouco depois da Batalha de Nova Iorque. Revirou meu consultório, talvez tenha até mesmo inserido algum vírus no meu computador para tentar encontrar qualquer rastro seu. Mas, como você pode ver – ela apontou para a desorganização na mesa – eu não mantenho nada digital, ou fácil de encontrar, principalmente em relação a você.
- Como conseguiu convencê-lo de que não estava me atendendo? – Ele perguntou. Estava incomodado porque não era sobre aquilo que queria falar, mas estava curioso para saber como ela conseguira enganar o diretor.
- Falei que você nunca entrou em contato após nosso encontro na praça. – Ela deu de ombros. – Óbvio que ele não acreditou, mas sem provas que dissessem o contrário, ele não teve como insistir.
Ela se calou após isso, e Steve seguiu seu exemplo, absorvendo as informações. Gostaria de dizer que aquilo era o suficiente, que bastaria para restaurar sua confiança nela, mas havia lido sua ficha, ou pelo menos parte dela, e sabia que havia mais. E não poderia deixar o assunto morrer ali. A confiança era uma via de mão dupla, ela mesma havia reforçado isso em todas as sessões de terapia.
- S.H.I.E.L.D. – Ele disse, chamando a atenção dela. – Você fazia parte, o que aconteceu?
- Guerras Mundiais, Heróis... Tudo isso eu herdei do meu avô e do meu pai. – disse, sentando-se no sofá e apoiando os pés na mesinha de centro. – Mas não foi a única coisa. – Steve seguiu seu exemplo e sentou-se na cadeira que havia em frente à mesa dela, ficando de lado para a psicóloga. – Eles eram da S.H.I.E.L.D. também. Meu avô entrou um pouco depois que ela foi fundada, dizia ter conhecido Peggy. Até mesmo me contava algumas histórias sobre ela quando eu era criança, que circulavam pela agência no tempo dele. – sorriu ao reviver as memórias. – Ela era minha heroína, cresci querendo ser como ela. E quando meu pai entrou para a S.H.I.E.L.D., anos depois, isso só me incentivou ainda mais. Acho que deu para perceber que eu gostava de agradar aos dois. – Ela comentou, rindo de leve. – Eu treinava dia e noite diversos tipos de luta, malhava... Fazia o que podia para me encaixar no perfil da agência. E, anos depois, vieram até mim para me recrutar. Eu tinha dezessete anos na época.
- Você nunca falou da sua mãe ou qualquer outra figura feminina. – Steve comentou, aproveitando que a mulher ficara em silêncio por um tempo.
- Minha avó paterna morreu antes de eu nascer, o que só me ajudava ainda mais a fantasiar que eu era parente da Peggy. – Ela riu com a lembrança, vendo que Steve sorria também. – Minha mãe nos abandonou pouco depois que eu nasci, e meu pai nunca teve contato com a família dela. Então, éramos só nós três.
- Os três agentes da S.H.I.E.L.D.
- Sim. – Ela disse. Steve virou o rosto para o lado levemente, surpreso por ouvir uma mudança no tom da voz da psicóloga. – Uns três anos depois que eu entrei, meu pai começou a trabalhar numa missão antiga do meu avô. Ele dizia que ia ser a última missão dele, para fechar os cinquenta anos com chave de ouro. – suspirou, as lágrimas voltando a seus olhos. Steve juntou as mãos, prevendo o que viria a seguir. – Talvez você não fique tão surpreso em ouvir que meu avô cruzou caminho com o Soldado Invernal. Acho que muitos agentes daquela época o encontrou. – Ela acrescentou, lembrando-se de algumas histórias sobre o tal “fantasma”. – Bem, meu pai achou ter encontrado uma nova pista, mas naquela época acredito que o Soldado não estava mais ativo, não tanto pelo menos. De qualquer forma, meu avô tentou convencer meu pai a não seguir aquele caminho, que era perigoso e poderia não haver volta... Você já deve ter deduzido o final, mas você pediu, então vamos até o fim. – Ela sorriu sem humor, sentindo o olhar de Steve em seu rosto, ainda que ela permanecesse encarando o chão, lutando contra as lágrimas. – Meu pai ignorou o que meu vô disse e seguiu em frente, quando ele finalmente foi agir, meu avô resolveu sair da aposentadoria dele para ir ajudar. Nenhum dos dois voltou. E eu fiquei em casa, com um bolo e algumas velas em cima da mesa e ninguém para cantar “parabéns para você” e celebrar meu aniversário comigo.
Steve surpreendeu-se com o final, já era bruto demais perder sua família de uma vez, mas no dia do próprio aniversário. Não era certo. Ele permaneceu observando a mulher, mesmo sentindo que deveria desviar o olhar e dá-la alguma privacidade, mas ele não conseguia. Havia algo nela que o prendia, talvez fosse a determinação em não chorar. Perguntou-se, de repente, há quanto tempo ela não chorava a morte do pai e do avô. Pensou, então, em Bucky. No choque que fora descobrir quem ele fora todos aqueles anos que foi dado como morto. Então, por fim, perguntou-se como havia se sentido ao descobrir que seu melhor amigo era o provável assassino de sua família.
- Eu nunca descobri o que realmente aconteceu. – Ela disse, sua voz levemente rouca, mas Steve sabia que nenhuma lágrima havia caído. – Nunca fui atrás, de tão assustada que estava. – levantou a cabeça e olhou para Steve, ele surpreendeu-se ao ver que naquele exato momento uma lágrima escorreu, dando liberdade para as outras fazerem o mesmo. Não durou muito, entretanto. Logo passou a mão no rosto e não havia mais qualquer resquício, não fosse o olho levemente vermelho. – Dois anos depois, uma das agentes da S.H.I.E.L.D. cruzou caminho com ele enquanto cuidava de um cientista, acho.
- Natasha. – Steve lembrou-se da história que a russa havia contado para ele.
- Sim. – assentiu. – Pela primeira vez eu percebi que ele era real, e que talvez ele fosse o assassino do meu pai e meu avô. Foi quando eu resolvi sumir.
- Sumir?
- Sim. Pedi demissão da S.H.I.E.L.D. Fury não aceitou, óbvio, eu sabia demais sobre muitos agentes valiosos. Então eu apenas me afastei por tempo indeterminado. – Ela disse, revirando os olhos diante as ideias absurdas do ex-diretor. – Entrei na faculdade de psicologia, algo que eu queria fazer há muito tempo, mas coloquei de lado por causa da S.H.I.E.L.D., e segui minha vida. Fury sabia que eu nunca contaria algo para alguém, ele sabia que não havia ninguém para quem eu poderia contar, por isso me deixou em paz. Ajudou também eu sempre ter sido uma boa agente. – Ela parou por um momento, seus olhos perdidos em algum ponto no chão, então voltou a focar em Steve. – Até você voltar.
Steve não sabia como reagir àquilo tudo. Havia imaginado muitas coisas sobre a vida da mulher, antes e depois de descobrir sobre sua vida na S.H.I.E.L.D., mas nunca aquilo. As informações em sua ficha eram rasas comparadas a tudo o que ele havia acabado de escutar. Fury havia feito um ótimo trabalho em proteger a mulher, provavelmente temendo o mesmo que ela: que o Soldado Invernal a encontrasse e tentasse extrair alguma informação dela. Porém, Steve percebia, havia sido inteligente mantendo-se invisível. Fora para um local que ninguém escolheria, entrara na faculdade e construiu sua vida sem qualquer indício que chamasse a atenção para ela.
E agora ele sabia tudo, até mais do que gostaria de saber. Faltava dar seu veredito. O soldado sabia que ela não mentira, em dois anos sentia que conseguia dizer que conhecia bem a psicóloga. Mas ele não sabia se isso tudo era o suficiente para confiar nela. Afinal, estando afastada ou não da agência, ela havia omitido a informação. Ainda que tivesse recusado num primeiro momento cuidar dele, havia cedido.
Porém, ao mesmo tempo Steve começava a perceber como estava sendo hipócrita. Acabara de ouvir a história da mulher, seu passado e conexão com o Soldado Invernal e ele tinha a informação, e, não iria mentir, planejava mantê-la escondida caso ela não o tivesse descoberto de alguma forma. Por muito tempo, após voltar a acordar no quarto do hospital ele ficou dividido entre acreditar que a visita da mulher havia sido um fruto da sua imaginação ou não, Steve ponderou sobre o que deveria fazer com aquela informação. Afinal, se a visita dela fosse mesmo um mero fruto da imaginação dele, Steve sabia, então, que não fazia ideia que por trás da máscara, por trás da lenda fantasma, estava o melhor amigo de seu paciente. Ponderou por muito tempo o que deveria fazer, o que teria feito caso ela de fato não soubesse a verdade. Imaginou como seria sua consulta de volta após todos os acontecimentos. Teria contado a sobre Bucky e o que descobrira sobre ele? Confiaria a ela aquele segredo? Ele sabia que sim. E agora hesitava, porque não sentia mais que eram paciente e médica. A conexão havia se perdido de alguma forma. Fora impedido de tomar uma decisão quando sentiu a mão fria de na sua. Sequer havia escutado ela se mover, e ali estava ela, agachada a sua frente, segurando sua mão. E ele viu que ela sabia mesmo antes de ela confirmar.
- Steve, eu sei. – O soldado fechou os olhos, sentindo a mão dela apertar a sua.
- Como você descobriu?
- Eu pesquisei quando os arquivos vieram a público. Já queria te perguntar desde que você me contou sobre o primeiro encontro de vocês, porque vi como aquilo havia te abalado... E, bem depois o Fury confirmou. – Ela confessou, chamando a atenção do soldado. – Ele veio me visitar quando voltei do hospital. – franziu o cenho ao perceber uma expressão estranha no rosto do soldado quando afirmou que estivera no hospital, ele acreditava que havia sonhado com a presença dela ali? Ficaria para outro momento. – Queria me alertar sobre o vazamento das informações, foi assim que deduzi a razão de você estar aqui. Ele também me contou sobre o Soldado e Bucky. – Steve abriu os olhos que havia fechado brevemente, agora eram os azuis dele que tinham lágrimas. – Eu sinto muito.
- Eu... Eu ia te contar. – Ele admitiu. – Na nossa próxima sessão.
- Mas ai você descobriu a verdade e não confia mais em mim, certo? – Ela pareceu ler os pensamentos anteriores dele. Steve abaixou a cabeça, sentindo-se constrangido por ser tão transparente. – Mesmo após saber de tudo, você iria me contar sobre Bucky?
- Eu não sei. – Steve foi honesto. – Estava pensando nisso quando você disse já saber.
- É uma pena que não teremos essa sessão. – disse, soltando a mão de Steve e voltando a sentar-se no sofá. Ele franziu o cenho, a mulher deu de ombros. – Eu gostaria de ouvir você falar sobre como foi reencontrá-lo. O que você sentiu, e está sentindo por saber que ele está vivo apesar de tudo... Apesar de descobrir o que ele tem feito todos esses anos. – sorriu. – Algo me diz que você ainda consegue enxergar seu melhor amigo ali, e que foi por isso que você ficou naquele estado no hospital. Queria ter a chance de discutirmos sua decisão sobre ter decidido não lutar, ainda que fosse partir meu coração também por te ver sofrendo.
- Sim, acho que teria sido uma boa sessão. – Steve se viu admitindo, mesmo que não quisesse contar mais nada para ela. Bem, não que não quisesse, apenas não se sentia seguro.
- Bem, você sabe onde eu moro. Quando quiser me contar sobre isso, basta tocar a campainha. Ou marcar uma consulta. – Ela sorriu. Sorriso que contrastou com a lágrima que escorreu de seu olho. Steve desviou o olhar, não conseguindo aguentar vê-la tão... Frágil. Talvez aquela fosse a melhor palavra para descrever. – Basta ligar quando estiver pronto.
Ao dizer isso, ela se levantou e saiu da sala, Marvel a seguindo para o quarto. Ela estava permitindo que ele partisse sem que as coisas ficassem ainda mais estranhas. Talvez mais lágrimas tenham se seguido àquela que caiu com o sorriso. Ele sabia que fora assim com ele, assim que percebeu as intenções dela, uma lágrima caiu e outras a seguiram. Steve abaixou a cabeça e enterrou-a nas mãos, sentindo que algo estava errado e ele não sabia dizer o que. Era praticamente a mesma sensação que tivera quando Bucky caiu do trem, e quando ele acordou e se viu perdido no meio da Times Square, setenta anos após ter marcado o encontro com Peggy. Mais uma vez ele perdia alguém. E mais uma vez ele não conseguia nomear culpados. Se fora ele, ou ela, ou o destino.
“Você acha que foi destino?”, ele lembrou-se de quando conheceu e fez essa pergunta após descobrir a profissão dela. Ela dissera não saber se acreditava ou não em destino. Sorriu com a lembrança. Apesar de saber que ela não o ajudaria em nada. À época ele acreditava um pouco na ideia de destino e de como nada acontecia por acaso. Agora não sabia mais, pois se acreditasse, então deveria perceber que estava sendo piada da entidade todo esse tempo. Diziam que a terceira vez de algo era a da sorte, e ele não se sentia sortudo. Era a terceira pessoa que conhecia e que parecia significar algo para ele, e novamente saia perdendo. Que sorte era aquela, afinal?
Steve suspirou, passando a mão no rosto para enxergar as lágrimas. Tinha que partir antes que voltasse do quarto para pegar a comida que trouxera ou que sua amiga chegasse. Seria uma situação estranha em qualquer um dos cenários. O soldado se levantou e olhou ao redor, notando pela primeira vez a decoração da sala da mulher. Não era muito bagunçada, com exceção da mesa que estava caótica. Havia uma estante em frente ao sofá que continha a televisão e, nas laterais, diversos DVDs e alguns porta-retratos. Steve se aproximou e admirou a foto de um deles, que possuía a mulher com mais dois homens, seu avô e seu pai provavelmente. Ele sorriu ao notar a semelhança entre os três. A marcação no canto inferior da foto indicava que ela fora tirada em 2003, julgando o rosto jovem da psicóloga, Steve deduziu que aquele fora o ano que ela havia se juntado a S.H.I.E.L.D. O móvel havia três divisões embaixo e três em cima, além das laterais, na inferior parecia ser a de . No meio tinham alguns livros de história, no canto esquerdo algumas revistas em quadrinho – ele não conseguiu conter o sorriso ao ver que eram todas sobre o Capitão América, apesar de não seguirem uma ordem, então provavelmente deveriam ser as edições favoritas dela – e no canto direito havia alguns enfeites, entre eles mais um boneco do Capitão América. Steve se perguntou quantos daquele ela tinha. Não duvidava de que deveria ter mais espalhados pela casa.
Novamente o soldado suspirou e olhou ao redor. Não havia mais nada a fazer ali. Precisava partir e tirar um tempo para si e tentar descobrir o que fazer com todas as informações que havia recebido. No desenrolar de todos os eventos, acabara perdendo a oportunidade de perguntar a como ela se sentia em relação a Bucky após descobrir sua identidade nova. Percebeu, então, que preferia não saber. Não conseguiria suportar se a psicóloga revelasse nutrir ódio pelo melhor amigo.
Atravessou a sala e começava a sair pela porta quando percebeu que havia um bloco de notas acompanhado de uma caneta na mesinha ao lado do sofá, onde ela havia deixado as sacolas com a comida. Steve não sabia porque fazia aquilo, mas se viu voltando um pouco, sentando-se no braço do sofá da mulher e pegando o bloco e a caneta. Queria escrever algo, não sabia o que. Qualquer frase parecia tosca, e não conseguia cumprir tudo o que ele realmente queria dizer. Resumiu em duas palavras então. Eram as duas palavras mais clichês da história, mas pareciam traduzir tudo naquele momento. Colocou o bloco no local o qual pertencia, apagou as luzes e começou a sair do apartamento da psicóloga. Fazendo o caminho até a saída sem olhar para mais nenhum lugar. Sabia que se o fizesse, não sairia dali.
ouviu quando Steve saiu, sentada no chão e encostada na porta, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto, Marvel sentado ao seu lado, com a cabeça apoiada no joelho flexionado da mulher, olhando-a como se quisesse pegar para si todo o sofrimento da dona. Mas não havia nada que pudesse ser feito. Ela havia sonhado com aquilo inúmeras vezes, em nenhum dos sonhos o final havia sido diferente. Como poderia? Estava fadado ao fracasso desde o começo, ela mesmo se certificara daquilo mesmo que inconscientemente.

Ela acordou com Louise fechando a porta e se sentando no pé do sofá, onde havia se instalado após o longo banho que lavara todas as suas lágrimas derramadas até então, e as que vieram depois. Ela conseguira comer um pouco do que trouxera, e depois resolvera se torturar com uma maratona de todos os desenhos do Capitão América que possuía em casa. Sequer percebera quando caiu no sono, só agora que Louise se sentava em seu pé com dois potes de sorvete na mão.
franziu o cenho e abriu os olhos, encarando a amiga, que havia colocado um pote no canto do sofá, enquanto abria o outro e começava a comê-lo. Seus olhos estavam fixos na psicóloga a sua frente, sem deixar qualquer brecha para que tentasse fugir do que viria a seguir. Talvez não tivesse sido a escolha mais sábia se jogar no sofá e dormir ali. A psicóloga suspirou e se sentou, chutando Louise levemente no processo para reclamar da jornalista por tê-la acordado de forma brusca.
- Bom dia, flor do dia – disse Louise, quando entregou a colher e o pote de sorvete para a amiga, que olhou rapidamente para a janela.
- Não é dia – reclamou a psicóloga.
- Quem se importa? – Louise deu de ombros, notando a falta de resposta da psicóloga, mas preferindo ignorar.
Elas ficaram comendo o sorvete e observando a televisão, que ainda passava os desenhos do Capitão América, não passando despercebido por Louise que evitava com frequência a tela. Foi só quando a jornalista estava na metade de seu próprio pote que ela decidiu quebrar aquele silêncio.
- Então... – começou ela, chamando a atenção da amiga. – Ele descobriu, não é? – Diante a expressão confusa de , a jornalista pausou a televisão no exato momento em que o Capitão América aparecia e apontou para a tela. arregalou os olhos, engolindo com certa dificuldade a colherada que havia colocado em sua boca.
- Como você sabe? – perguntou, mal tendo forças para tentar contrariá-la.
- O Capitão América invade minha casa, que eu divido com uma ex-agente da S.H.I.E.L.D., e você acha que eu não vou saber disso? – Louise sorriu. – Que tipo de amiga eu seria?
- Você ouviu ele aqui? Achei que não estivesse em casa – começou, mas algo mais importante na fala de Louise a atingiu e ela arregalou. – Espera...
- Ouvi ótimas histórias sobre você na academia, estou levemente desapontada com sua lerdeza – confessou Louise. – Nunca conheça seus heróis, não é?
estava levemente confusa, sua cabeça rodava com aquele monte de informações. Para não contar a última frase de Lou, que definitivamente possuía um duplo sentido.
- Lou... O que? – olhou para a amiga, que se moveu no sofá e retirou algo do bolso traseiro da calça.
- Não acho que isso valha alguma coisa mais, mas... – ela abriu a carteira que carregava o distintivo prata com o símbolo que reconheceria até de olhos fechados. Ela olhou da carteira jogada entre elas para a amiga, que, em sua defesa, carregava um olhar culpado. – Desculpe nunca ter contado, mas...
- Ordens do Fury? – riu sem humor.
- Você não parece irritada.
- Seria bem hipócrita da minha parte, não? – perguntou , enfiando mais umas colheres de sorvete na boca antes de voltar a rir. – Eu deveria saber desde o começo... Você tinha os horários mais absurdos, e as funções mais idiotas também.
- Confesso que muitas vezes eu perguntava ao Fury se você realmente era quem ele dizia que você era, porque as histórias que ouvi sobre você...
- Eu abaixei demais a minha guarda – confessou . – Ou ficaria paranoica achando que...
Ela parou de repente, engolindo em seco, Louise pareceu entender e se moveu para ficar mais ao lado da amiga, encostando a cabeça no ombro da psicóloga em demonstração de apoio.
- Eu sei que geralmente esse é o seu trabalho – disse Lou baixinho, sentindo a amiga apoiar a própria cabeça na dela. – Mas vai dar tudo certo, , dê um tempo a ele.
- Você não viu o olhar dele. Nem ouviu a voz dele – disse , sentindo os olhos arderem com a volta das lágrimas, o encontro com Steve voltando com tudo em sua mente.

~ * ~


A sala estava completamente silenciosa, e estaria vazia não fosse a presença dos dois ocupantes dela. Um deles, vestido inteiramente de negro, observava a paisagem a sua frente pela parede de vidro, enquanto a outra pessoa estava sentada à mesa analisando com atenção algo em suas mãos, não demorando muito para largar a folha sobre as demais que se espalhavam pelo tampo de vidro escuro da mesa.
- Para que fique claro. – Ela disse, após terminar de ler o relatório e assistir ao vídeo das câmeras de segurança. Os dedos de sua mão tamborilaram na mesa, em cima do arquivo à sua frente, as unhas compridas pintadas de vermelho fizeram um barulho rítmico. – Eu avisei que era uma ideia idiota.
- Sim, você disse. – O homem em pé, em frente à grande parede de vidro que contornava o prédio, disse, mantendo-se de costas para ela. – E eu preferi não escutar.
- Como sempre. – Ela suspirou. – Então, estou aqui para ouvir você admitir que estava errado?
- Alguma vez isso aconteceu? – O homem retrucou. A mulher sorriu, fechou a pasta a sua frente e levantou o olhar para o homem.
- Sempre há esperança. – Ela abriu um singelo sorriso, que logo sumiu. – O que estou fazendo aqui? – O homem virou-se para ela, um olho fixo no rosto dela, o outro escondido por um tapa-olho. Há muito tempo ela aprendera a ignorar o adereço incomum no rosto do homem. – Preciso lembrar que estou afastada por tempo indeterminado?
- Preciso que você saia de sua aposentadoria. – O homem disse, aproximando-se da mesa sob os olhos atentos da mulher.
- É bom que você tenha um ótimo motivo para isso.
- Acabei de te mostrar. – Ele apontou para a tela onde, antes, ela assistira ao vídeo da segurança, e para os papéis espalhados na mesa à frente dela. Ela riu em descrença, cruzando os braços e recostando-se à cadeira.
- Você deve estar muito desesperado para pedir isso. – Ela comentou.
- Você acabou de ler todos os relatórios, viu os vídeos... Você sabe que sim. – A resposta veio com um tom discreto de desespero. Se ela se esforçasse, ouviria um tom de súplica. – Você mesma acabou de admitir que estava certa desde o começo. Já desde aquele tempo você já trabalhava no caso.
- Eu te dei uma opinião, é diferente. – Ela respondeu.
- Então me dê outra agora. – Ele pediu. – Após tudo o que leu, o que viu... O que você acha?
Ela mordeu o lábio inferior, contendo a resposta que estava na ponta da língua desde que terminara de ler os relatórios. Não queria dar o braço a torcer, sabia que era exatamente isso que o homem queria que ela fizesse. Era ele quem precisava dela, não o contrário. Ela havia saído daquela vida, havia se afastado e começado do zero. Meses atrás fora retirada de sua vida normal para aconselhar o homem, e esperara que nunca mais tivesse que voltar àquele lugar. Mas ali estava ela novamente. As informações já haviam encontrado lugar no cérebro, na nova casa, e já andavam de um lado para o outro, procurando respostas e soluções para os problemas que o homem lhe apresentava.
Ela não queria, mas havia feito um juramento. E sua natureza curiosa nunca lhe permitia negar um bom mistério, um bom caso. Fora para isso que ela estudara anos, afinal. Desde os dez anos encontrara sua paixão, e agora que havia encontrado o novo obstáculo perfeito, queria negar. Bastou um olhar rápido em direção ao homem para saber que ele sabia que ela não iria negar o que ele pedia. E ela se odiava levemente por isso.
- Ele não vai confiar em mim se souber quem me enviou. Ele não confiou em ninguém até agora exatamente por isso. – Ela disse, suspirando em derrota.
- Pode ser um segredo entre nós dois.
- O senhor sabe o que dizem sobre segredos... Dois podem mantê-lo, se um estiver morto. O senhor não pretende morrer, pretende?
- Pretendo viver por muito tempo. – O homem respondeu. Ela se manteve em silêncio, apenas esperando a confirmação de segurança. – Não há qualquer registro desse nosso encontro. Só eu e você sabemos que estamos aqui e o que discutimos aqui.
- Nem mesmo digital?
- Nada. Essa é a sala mais segura desse prédio. – Ele disse. Ela o analisou com atenção, as unhas voltando a tamborilar na mesa enquanto ela ponderava suas opções. Por fim, umedeceu os lábios e suspirou, dando-se por vencida.
- Se eu for fazer isso, e é um grande se, pois não depende de mim, precisará ser nos meus termos. Sem qualquer influência de qualquer um de vocês.
- Ficaremos longe.
- Não me cobre relatórios, você terá o que eu achar que deverá saber. Pretendo honrar o acordo entre paciente e médico, ao contrário desses médicos que você resolveu contratar.
- Apenas não me deixe completamente no escuro.
- E mais uma coisa. – Ela disse, levantando-se. – Ele não pode saber que a S.H.I.E.L.D. me enviou.
- Nenhuma mentira até ai. – Ele disse, concordando com os termos da mulher.
Ela assentiu, deu as costas ao homem e caminhou para fora da sala. Fechou as mãos em punho enquanto fazia seu trazendo, sentindo-as tremerem pela excitação de se tornar a nova psicóloga do Capitão América.

acordou num pulo, levemente ofegante e sentindo o coração batendo acelerado. Fazia mais de dois anos que vivera aquela cena e imaginou que nunca mais passaria por aquilo, mas como estava enganada. O olhar atento do homem parecia continuar a segui-la mesmo após ela já ter acordado e se retirado daquele cenário. O cenário onde tudo havia começado a desmoronar sem que ela fizesse ideia. A mulher passou a mão pelo cabelo, encarando o relógio ao lado para ver que horas eram.
Fazia uma semana desde que Steve havia invadido seu apartamento e fora embora sem qualquer previsão, ou esperança, de volta. Os horários dela haviam ficado mais confusos e ela não conseguia dormir mais de três horas por sono, evidência era esse último sonho. Talvez não tivesse sido à toa que justo aquele sonho havia invadido sua mente, talvez fosse o sinal que ela vinha precisando de que não bastava mais continuar naquela rotina. Ajudara um pouco ela finalmente poder contar algumas coisas para Lou, mas sua ética ainda a havia travado em diversos momentos, deixando a amiga no escuro em alguns pontos.
Cansada, a psicóloga suspirou e levantou, olhou o relógio ao lado da cama novamente e constatou que ainda era consideravelmente cedo, não passava das três da manhã ainda. Saiu de seu quarto e foi até o de Louise, sorrindo ao ouvir a música baixa tocando, a amiga provavelmente finalizando algum artigo, já que ainda mantinha o trabalho no jornal principalmente agora que a S.H.I.EL.D. havia caído. Bateu na porta levemente e entrou ao ouvir a permissão.
- Lou? – começou, preparando-se para a enxurrada de perguntas que viria assim que fizesse o pedido. – Sei que vai parecer estranho, mas pode me emprestar a chave do seu carro? – Louise desviou a atenção do artigo que escrevia para olhar a amiga.
- Aonde você acha que vai a essa hora? – Perguntou, cruzando os braços, desde que havia revelado seu verdadeiro emprego, Louise não conseguia mais deixar de lado a parte agente dela.
- Eu juro que explico quando voltar. – pediu, apelando para sua melhor cara de cachorro que caiu da mudança para amolecer a amiga.
- Você sabe que levo juramentos a sério, não é? – Louise perguntou, já procurando as chaves para entregar à amiga.
- Sim, eu sei. – suspirou. – Quando eu voltar, a janta é por minha conta do restaurante que você quiser e eu te conto tudo o que eu puder.
- E um pouco mais. – Louise exigiu, antes de entregar a chave. – E abasteça, por favor.
- Obrigada. Amo você! – fechou a porta e voltou ao seu quarto.
Tirou a calça do pijama e colocou uma calça jeans, não se daria ao trabalho de tirar a blusa regata que usava, já que a mesma estava limpa, jogando só uma jaqueta por cima. Prendeu o cabelo num coque, calçou os tênis, pegou a bolsa e saiu do apartamento. Sabia que Louise estava pensando ser muita loucura sair àquele horário, ela também o considerava. Mas no momento só haviam duas pessoas para quem ela poderia contar tudo o que estava acontecendo, e elas valiam aquela loucura. Apesar de sair no meio da madrugada, ela sabia que chegaria ao destino final quando o sol já estivesse no alto há um bom tempo. Parou antes para abastecer e comprar um copo bem grande de café, logo depois caindo na estrada e acelerando o máximo que era permitido.
A fazenda lhe era tão familiar que ela até mesmo se permitiu sorrir enquanto andava pelo gramado para chegar até a casa. Já eram quase oito da manhã, ela sabia que não estaria acordando ninguém. De fato, enquanto subia os degraus que dava para a varanda, ela podia sentir o cheiro do café sendo passado, do bacon e dos ovos nas frigideiras. respirou fundo, fazia tanto tempo desde a última vez que estivera ali que temia ser expulsa não pela visita não anunciada, mas pelo tempo ausente. Fechou a mão e bateu à porta, torcendo para ser bem recebida como sempre fora. Demorou, mas finalmente ela ouviu os passos se aproximando, e logo a porta foi aberta permitindo que ela visse a expressão de surpresa da mulher. Sorrindo sem graça, ela acenou.
- Bom dia. – Disse ela, sem ter ideia do que realmente dizer, a mulher piscou, confusa.
- Meu Deus, ? – Perguntou a mulher.
- Oi, Laura!

Capítulo 13

Sete anos atrás


As pessoas sussurravam ao redor dela. A olhavam. Faziam cara de dó. Fingiam dor. Fingiam sentimentos que ela sabia não serem reais. Tudo o que ela queria era gritar e mandar todos embora. Eles não tinham que estar ali. Não, eles tinham que estar lá. O resto era resto. Ninguém era mais importante. O bolo estava esquecido na geladeira, as velas ainda espetadas e que nunca seriam acesas. Ela havia sentido vontade de vomitar naquela manhã quando o vira ali na prateleira. As lembranças a atingindo como um soco no estômago, e ela já estava mais do que acostumada a sentir esses, mas nunca daquela forma.
A vontade de vomitar estava ali ainda, mas agora tinha o acréscimo do cheiro das inúmeras tigelas de comida que haviam trazido para ela. Em momentos como aquele, ela tinha a vontade de ser mais engajada em causas sociais, muitas pessoas certamente ficariam bem felizes de receber aquela comida toda.
Para seu alívio, uma face familiar e que realmente importava surgiu e ela suspirou, se levantando da cadeira em que estava acomodada desde que tudo começou e se aproximou da pessoa, que olhava cada canto da sala, provavelmente a procura dela, já que pareceu mais aliviada ao vê-la chegando.
- Hill – cumprimentou, sorrindo fracamente para a mulher.
- – a morena devolveu, gastando cinco segundos para fazer uma expressão que dizia o quanto ela sentia pela perda da mulher a sua frente.
- Algum contato para distribuir toda essa comida?
- Posso conseguir alguns – disse Hill, analisando a pilha enorme de tigelas que a moça havia recebido. – De onde surgiu tanta gente?
- Não faço ideia, mas a maioria parece conhecer os dois. – A mulher deu de ombros. – Além da comida... Eu preciso de outro favor.
- Eu vim prestar meus respeitos, não te servir – a morena disse, fazendo a outra sorrir com mais sinceridade.
- Eu também te amo, Maria – disse a moça. – Mas dê um jeito de mandar essas pessoas embora, por favor. Eu não quero ficar aqui por mais cinco segundos.
- Dessa vez é de graça – disse Maria, tentando fingir uma seriedade que não enganava a outra. – Vai, eu cuido daqui.
- Muito obrigada.
A mulher sorriu, abraçando rapidamente a outra, e então saiu calmamente do local, pegando sua bolsa e casaco, além da chave do carro que costumava ser de seu pai. Era fim de tarde, o sol começava a abaixar no céu, dando ao azul intenso uma cor alaranjada. Havia algumas nuvens aqui e ali, além da brisa fria que soprava e fez com que ela se encolhesse contra o casaco que havia acabado de vestir. Antes de entrar no carro, parado na entrada de carros da casa, ela parou e encarou o que antes costumava chamar de lar. Um aperto surgiu em sua garganta e seus olhos arderam levemente, fazendo-a respirar fundo. Não cederia agora. Não ali. Rapidamente, ela entrou no carro e saiu, dirigindo pelas horas seguintes sem parar até chegar ao seu destino.
A casa acesa lhe deu uma sensação de volta ao lar. Fazia alguns meses que não pisava ali. O gramado ao redor e a floresta que contornava o terreno lhe dava a sensação de proteção que ela estava buscando quando saiu horas antes. Ao sair do carro, o céu estrelado e limpo a cumprimentou, junto com a brisa fria que ela recebeu de braços abertos, finalmente sentindo que agora estava liberada para sentir tudo o que vinha suprimindo até então. As lágrimas rolaram livremente antes que ela percebesse, encostada contra a lateral do carro, afundando o rosto nas mãos e se permitindo colocar para fora antes mesmo que chegasse à porta da casa.
Vozes foram ouvidas ao longe, seguida da tela de proteção batendo contra o batente da porta. Passos abafados e apressados foram ouvidos no gramado, se aproximando dela e, antes que ela pudesse levantar a cabeça para dizer oi a sua companhia, braços a envolveram com força e o perfume familiar a envolveu, lhe permitindo soltar os soluços que ela tentou controlar. Um novo par de braços, mais delicados, a abraçou com força, e vozes que tentavam acalmá-la foram ouvidas, mas para ela não importava aquilo. Bastavam aqueles braços a envolvendo, lhe garantindo silenciosamente que ela estava segura e protegida.
Ela não sabia quanto tempo ficou ali, o quanto chorou ou o quanto lhe foi dito. Sabia que havia lavado a camiseta de quem a abraçava de frente e o frio começava a atingir sua pele desprotegida. Fazia uns cinco minutos que as lágrimas haviam secado, sobrando apenas os soluços e ela tentando normalizar a respiração. Suas duas companhias não reclamaram, lhe dando o tempo necessário para que ela se recuperasse o suficiente para poderem ao menos leva-la para dentro de casa e lhe dar abrigo, algo para comer e para aquecê-la. Com calma, ela começou a se afastar, agradecendo quando as duas pessoas entenderam sua deixa e começaram a se afastar, lhe dando espaço.
Estava escuro onde eles estavam, a única luz que vinha era da casa e ela estava um pouco longe, mas ela conseguiu identificar a preocupação no rosto e no olhar do casal a sua frente. Ver aquilo, lhe deu vontade de voltar a chorar, mas ela respirou fundo e controlou a onda de emoções. Ela sabia que uma vez que aquela porta havia sido aberta, seria difícil de voltar a fechá-la. E complicaria ainda mais uma vez que ela revelasse o motivo de estar ali, naquele estado, depois de tanto tempo.
- Vamos entrar – a mulher se pronunciou, abraçando a recém-chegada de lado e indicando para o homem que não iriam ter qualquer conversa que fosse ali fora, não enquanto a mais nova estava arrepiada devido ao frio e claramente levemente instável.
A casa estava aquecida, fazendo-a se arrepiar devido ao choque de temperaturas. O casal a ajudou a retirar o casaco e a bolsa, e depois a levaram até a cozinha, onde uma chaleira foi rapidamente preenchida com água e colocada no fogo para que o chá fosse feito. Enquanto o casal se movimentava pela cozinha, trocando olhares preocupados enquanto separavam as xícaras e os sachês de chá, a recém-chegada ficou sentada, apenas admirando os detalhes que foram acrescentados à casa. Havia alguns brinquedos infantis espalhados, o que não era surpresa para ela. O bebê havia chegado há uns sete meses, se as contas dela estivessem certas. Perdida em seus pensamentos, ela se sobressaltou ao sentir mãos tocando seus ombros, envolvendo-a em um cobertor com cheiro de lavanda que a fez sorrir levemente. Logo em seguida, o homem sentou à sua frente, estendendo a mão para tocar as dela e trazê-la de volta para a casa.
- Está tudo bem – ele sussurrou. Ela sabia que ele queria dizer algo com aquilo, mas a fez sentir algo completamente diferente.
- Não, não está – ela sussurrou, abaixando a cabeça e sentindo as lágrimas voltarem a rolar. As mãos em seus ombros voltaram, apertando levemente antes de envolve-la em um abraço.
- , querida – a mulher disse, afagando seu cabelo enquanto tentava consolá-la – o que aconteceu?
- Eles se foram – ela revelou, o choro se intensificando. – Os dois juntos, eles se foram... Eles...
- Shhh, shhh... Estamos aqui – a mulher disse, apertando o braço ao redor da garota e deixando-a chorar contra seu ombro. Ela trocou olhares com o outro e juntos eles entenderam todo o conteúdo da mensagem. Não precisava ser um gênio para saber que poucas coisas abalavam daquela forma. Na verdade, apenas duas coisas poderiam deixa-la daquela forma. – Você está segura.
- Nós estamos com você – o homem sussurrou, apertando a mão dela. Era extremamente difícil vê-la naquela situação, doía vê-la tão machucada, tão frágil. Ele havia ensinado a ela todos os mecanismos possíveis para esconder suas emoções, para ser forte e não se deixar quebrar tão facilmente, e ela havia sido uma de suas melhores alunas. Mas havia um limite que nem ele sabia encarar com tanta frieza.

Clint e Laura Barton eram a família que ela havia escolhido para complementar a sua anos atrás, e agora era tudo o que restava para ela. O casal a acolheu mesmo com um bebê recém-nascido que ainda estava entrando em sua rotina. Eles não fizeram perguntas, deixando-a se adaptar ao novo ambiente e à sua nova realidade. Meses se passaram e ela aos poucos ia dando as informações para o casal, as missões, as pistas, as buscas que nunca acabavam, os conselhos que foram ignorados... Tudo o que culminou ao dia em que a notícia havia chegado a ela. Foi como se tivessem lhe arrancado todos os órgãos, de repente ela não possuía mais nada que a ligasse a sua família. Tudo agora era um enorme vazio e ela não conseguia preencher com nada. Nem mesmo as memórias tão felizes ajudavam a preencher aquele vazio para que ela seguisse em frente. E nada realmente ajudaria. Seu pai e seu avô haviam morrido, juntos, no dia de seu aniversário. Como alguém preenchia um vazio daqueles? Quantas memórias felizes seriam necessárias para absorver aquele impacto?
Não havia como. Mas havia formas de preencher sua mente e seu tempo para que ela não ficasse tão fissurada naquilo. E foi o que ela fez, se tornando a melhor babá que Laura podia precisar na vida. Ela ajudava na fazenda, cuidando das galinhas, ajudando a expandir a horta e até mesmo auxiliando Clint em suas reformas na construção do lugar perfeito para sua família. sabia que ele sabia todos os detalhes da missão que havia levado o último resquício de sua família, mas o arqueiro nunca a abordaria com aquele assunto. Não, os três haviam entrado em um acordo mútuo e silencioso de não tocarem no assunto a menos que fosse extremamente necessário. Eles não comentavam sobre as madrugadas que acordava gritando, ou nas noites em claro em que ela passava chorando. Na quantidade de fronhas manchadas com as lágrimas da mulher que Laura lavava. E ninguém fazia qualquer comentário sobre os olhos vermelhos e as olheiras que já haviam se instalado confortavelmente sob eles.
Foram meses difíceis, que rapidamente se tornaram em um ano e, ao final daquele ano, finalmente começava a dar sinais de melhora. Rindo com mais facilidade, não desviando mais tanto o rosto toda vez que percebia a interação entre Laura, Clint e Cooper, seu filho recém-nascido. Ela não fugia mais na hora da janta, em que aquela interação era mais forte, e já conseguia dormir por longas horas a noite, a quantidade de pesadelos diminuindo para uma ou duas vezes, no máximo, por semana. Aos poucos ela foi voltando à ativa, se juntando a Clint nos treinos matinais que o homem fazia, mas nunca respondendo quando ele perguntava ou insinuava que ela já estava pronta para voltar. não queria voltar, sentia que todo aquele processo que havia feito iria por água abaixo no minuto que voltasse à ativa.
Foi na manhã do dia que completava um ano desde à chegada dela, que eles receberam a visita inesperada. Não que o homem precisasse de convites para aparecer, ele que havia ajudado a encontrar aquele lugar, ele se sentia tão proprietário dele quanto os verdadeiros donos. voltava da horta com uma cesta cheia de frutas, cenouras e batatas quando ouviu a voz característica vinda da cozinha. Ela parou na porta dos fundos, apoiando o cesto no banco atrás dela e se permitindo ouvir a conversa que, ela sabia, era sobre ela.
- Ela precisa voltar.
- Ela não pode voltar – a voz de Laura falou, fazendo sorrir. Gostava daquele lado da mulher que não se importava com quem ela estava falando, mas mantendo a voz calma e suave como sempre. – Você não faz ideia de como esses meses foram difíceis.
- Diretor – disse Clint, o tom mais sério e grave – acha mesmo que é sábio fazê-la voltar?
- Ela ainda é uma agente, uma das melhores, Barton, não posso me dar ao luxo de perde-la.
- Mas ela pode se dar ao luxo de perder a família toda e engolir tudo isso só porque você quer que ela volte? – teria aplaudido a audácia de Laura se aquilo não fosse entregar sua posição.
- Senhora Barton, – disse o visitante, sua voz extremamente controlada para não perder a paciência com a mulher – temos protocolos a serem seguidos. Ela é uma agente valiosa, com informações cruciais, não posso me dar ao luxo de deixa-la andando por ai.
- Eu não vou ficar andando por ai – era o máximo que ela poderia aguentar. Não permitiria que Clint ou Laura levassem a bronca por ela. – Eu sei das minhas obrigações, Diretor, não pretendo fugir delas. E muito me ofende o senhor achar que eu vou revelar qualquer coisa, afinal, você mesmo foi um dos meus treinadores. Não confia no próprio taco?
- , ninguém irá te forçar a nada – Clint disse, olhando para a garota, não exatamente surpreso por descobrir que ela havia escutado parte da conversa.
- Não mesmo – concordou. – Eu voltarei quando sentir que estou preparada para tal, tanto física quanto mentalmente. E se alguém estiver incomodado com isso, que engula esse incomodo, ou deveria ter pensado em tudo isso quando permitiu que meu pai seguisse naquela busca que todos sabiam que levariam a um único destino.
Ninguém conseguiu pensar em qualquer coisa para dar como resposta àquilo. Os Barton se olharam surpresos, enquanto o visitante encarava a garota, claramente incomodado com a resposta dada por ela, mas não ousando dar uma réplica por, em parte, concordar com o que ela havia insinuado. Mas Fury morreria antes de concordar com alguém o atacando tão diretamente. O ator se contentou em acenar positivamente para a mulher e se retirar logo depois, agradecendo aos dois Barton por recebe-lo antes de partir.
Eles não conversaram sobre aquela visita, mas Clint sabia que havia causado algum efeito em quando ela veio pedir para que eles intensificassem o treino no dia seguinte. Ele sabia que a garota pretendia voltar logo, e aquela visita de Fury parecia ter sido um combustível a mais. Havia aprendido logo cedo com que ela não gostava de desapontar ninguém, que gostava de provar que era digna de fazer parte daquele time, daquela agência.

Quase mais um ano havia se passado. A primeira missão de volta de fora ao lado de Clint. Deveria ter sido Natasha, mas a ruiva recebera outra tarefa e o posto de parceira do arqueiro havia ficado vago, e aproveitou para aproveitar para fazer seu retorno. Foi uma missão tranquila, sem qualquer contratempo. Diferente do retorno deles.
sabia há muito tempo o que seu pai e seu avô procuravam quando foram mortos. Ela havia ficado longe dos arquivos, deixando-os em um depósito alugado num local bem afastado, pagando apenas a mensalidade e deixando-o quieto. Até mesmo a chave estava escondida no terreno dos Barton. Mas ela sabia o nome de quem eles procuravam. E as lendas que seguiam esse nome também havia chegado a seus ouvidos. Assim como o atentado contra Natasha.
Até os dias atuais ela conseguia se lembrar do momento exato em que descobrira o que havia acontecido com a ruiva. O café que tomava se tornou amargo e frio, e o copo escapou de seus dedos assim que ouviu o nome do suspeito que havia atirado contra ela. Clint estava próximo a ela e ficou tão alarmado quanto, afinal, eles poderiam nunca ter conversado sobre aquilo, mas ele sabia tanto quanto ela o que os homens faziam antes de morrerem. Ele a levou para longe, para que ela tivesse seu ataque de pânico sem plateia e sem o medo de a julgarem por se assustar tão facilmente com uma lenda.
Claro que, àquela altura, tudo ainda era fofoca. A única que podia confirmar algo era Natasha, que ainda estava sendo tratada. Não que aquilo fosse obstáculo para ou Clint, que aproveitaram uma brecha de segurança da enfermaria para visitar a ruiva. A conversa foi curta para , ela tinha o necessário nas primeiras palavras proferidas pela espiã. Saindo do quarto rapidamente com a desculpa que não gostava do ambiente – era mentira e todos sabiam, mas aceitaram para lhe dar privacidade. E Clint desejou que nunca tivesse feito aquilo, pois ali foi a última vez que ele viu a parceira.
No momento em que saiu da enfermaria, traçou seu caminho até sala do Diretor, sabendo que ele estaria ali àquele horário – Fury sempre estava ali. Ela não quis ouvir as objeções dele ou os malditos protocolos para completar a saída. Ela nunca havia dado motivos a ele para duvidar de sua palavra, e Fury sabia que quando prometia algo, ela iria cumprir até o dia que essa promessa se encerrasse ou até sua morte. Ela partiu na mesma noite, juntando seus poucos pertences e sumindo no meio da noite, deixando para que o diretor lidasse com Clint e qualquer outra pessoa que viesse perguntar sobre ela. Não era certo, mas era o que ela tinha coragem de fazer. Se fosse até os Barton, sabia que não conseguiria dizer adeus e, naquele momento, tudo o que ela precisava era dizer adeus. Não pretendia voltar tão cedo.

Cinco anos depois



Laura parecia dividida e não a culpava. Fazia muito tempo desde a última vez que haviam se visto. Desde a última vez que a psicóloga havia aparecido do nada na fazenda. A morena a encarava não com dúvida, mas com espanto, surpresa e, talvez, um pouquinho de raiva – que mais tarde aumentaria e pagaria o preço. Após cumprimentar a mulher, se afastou um pouco para que a tela de proteção se abrisse e Laura pudesse encará-la com mais nitidez, sem obstáculos dessa vez. Ela precisava dizer algo, mas as palavras sumiam diante a expressão cada vez mais revoltada da mulher a sua frente.
- Desculpe aparecer assim – ela se adiantou, sabendo que aquele era o menor dos seus problemas.
- Desculpe aparecer assim? – Repetiu Laura, seu tom a epítome do ultrajado, e se adiantando alguns passos. – Que tal pedir desculpas por desaparecer assim?
- Eu juro que elas estavam a caminho – garantiu, tentando soar e parecer bem arrependida. O arrependimento foi logo substituído por surpresa ao ser puxada para um abraço sufocante. – Não consigo respirar, Laurinha.
- Você não mudou nada – disse a mulher, se afastando para poder observar melhor a psicóloga.
- Não posso dizer o mesmo – disse , olhando para o volume discreto no ventre da mulher. – Quantos meses?
- Quatro – disse ela, colocando a mão na barriga. – Até a cara de zumbi é a mesma que eu lembro, precisamos mudar isso. – revirou os olhos, sempre delicada. – Vem, entra – a mulher entrou na casa e fez sinal para que a psicóloga a seguisse. – Clint! – Gritou, fazendo se encolher enquanto fechava a porta. Se Laura havia poupado sua vida, o marido da mulher certamente não o faria. – Coloca mais um lugar na mesa, temos visita.
As duas seguiram pela casa, observando cada detalhe, notando os desenhos novos e a bagunça usual. Não passou despercebido por ela os porta-retratos que mostrava a segunda criança da família, e o quanto Cooper estava grande. Como sempre, havia algo no meio da sala, provavelmente algum projeto não acabado de Clint, coberto por folhas de papel com desenhos infantis. sorriu, aquilo a fazia se sentir como sempre quando estivera ali. Casa. Ali era sua segunda casa. A definição de lar que ela havia reconstruído após perder tudo anos atrás.
Ao chegarem à cozinha, ela parou no batente do portal de entrada e cruzou os braços, observando o cômodo e focando sua atenção no homem em frente ao fogão, fazendo malabarismos com duas frigideiras. A psicóloga não conseguiu controlar o sorriso, sentindo aquela cena tão normal para ela. Como se tivesse voltado no tempo e fosse uma manhã normal, como qualquer outra. Olhou para a mesa e notou que havia um terceiro lugar posto, apesar de ainda não muito organizado como os outros. Só podia ser para ela, a recém-chegada, já que as crianças comiam em horários diferentes. Pelo menos era assim quando ela morou ali por um ano.
Laura afastou-se de , não sem antes beliscar o braço da mulher, que teve que se controlar muito para não fazer um barulho que denunciasse sua presença ali, e se aproximou do homem, tocando-o nas costas para chamar a atenção dele e fazendo um sinal com a cabeça para que ele olhasse para trás e visse quem era a visita. O homem virou, usando um avental quadriculado vermelho e branco com alguns babados e que custou muito para que não risse. Ele não conseguiu esconder a surpresa, largando a espátula na mão da esposa para se aproximar da recém-chegada – que não conseguiu impedir de se encolher um pouquinho diante aquela movimentação.
- ? – perguntou ele, sua voz rouca surpresa e feliz ao mesmo tempo. – É você mesma?
- Oi, Clint – sorriu, retribuindo ao abraço que o arqueiro lhe deu, um pouco menos apertado e sufocante que o da esposa.
- Meu Deus, quanto tempo! – O homem disse, ainda abraçado a ela. deveria saber que Clint não seria tão cruel quanto sua esposa. Ele não lhe cobraria uma explicação, não naquele momento pelo menos. Ele era o que mais sabia das razões de seu afastamento, mesmo com eles nunca tendo realmente sentado para conversar sobre aquilo. Quando ela estava começando a se sentir nostálgica naquele abraço, o homem se afastou, mantendo as mãos nos ombros dela e a olhando dos pés à cabeça, fazendo uma careta ao olhar o rosto dela. – Sem ofensas, mas você está com uma cara péssima. – Comentou, fazendo a mulher rir.
- Vocês realmente nasceram um para o outro – disse a psicóloga. – Laura até me chamou de zumbi.
- Bem, está parecendo – a mulher deu de ombros, apagando o fogo e servindo os ovos mexidos em seus devidos pratos. – Há quanto tempo você não dorme?
- Alguns dias – disse ela, dando de ombros como se não fosse algo tão sério quanto eles faziam parecer. Ela se sentou à mesa, acompanhada de Clint e, logo depois, de Laura.
- Aposto que há uma razão para isso, mas não é importante agora – disse Clint, fazendo um sinal discreto para a mulher que já se preparava para começar o interrogatório. – Diga, como está? O que tem feito?
- Bem... – começou , fingindo não ter notado a troca de olhares enquanto pegava um pedaço dos seus ovos. – Eu me formei em psicologia, depois de tanto tempo tentando. E estou trabalhando na área. – Resumiu, sabendo que os dois já sabiam das inúmeras tentativas da mulher em finalizar a graduação, mas sempre colocando em segundo plano devido a seu trabalho na S.H.I.E.L.D. Além disso, ela sabia que Clint só estava sendo educado. – E agora eu estou fazendo meu mestrado em Neurociência.
- Essa é minha garota! – comemorou Clint, fazendo sorrir um pouco envergonhada. Não podia deixar de pensar que era esse o tipo de reação que queria ter tido quando decidiu por seguir com os estudos.
- Eu sabia que você gostava de psicologia, mas, de certa forma, não te via seguindo carreira – disse Laura, deixando implícito o motivo de não imaginar aquilo. havia nascido para ser uma agente. Deveria estar no mesmo patamar de Clint, ou um acima pelo menos.
- Hoje em dia eu já não sei mais se foi uma boa decisão – comentou , logo em seguida focando no casal. Não querendo entrar ainda naquele assunto. – Mas não vamos pular para isso agora, quero saber de vocês... Sei que faz tempo que não venho aqui, na verdade eu sumi mesmo, fui comprar cigarro e nunca mais voltei, eu sei. Não foi por descaso, acreditem.
- Nós entendemos, querida – disse Laura, notando a forma como a postura de Clint havia mudado. Aquele era um assunto delicado, a mulher ainda se lembrava de como o marido havia ficado após o sumiço da parceira. Se acalmando somente após Fury garantir que ela não estava morta, que ela não fora atrás do assassino de seus pais, e que ela estava segura.
- Então, quais são as novidades? Além de Clint ser um Vingador?
- Até você sabe sobre isso? – o arqueiro perguntou, rindo em seguida. – Bem, fora isso... Tivemos uma filha, Lila, faz cinco anos no próximo ano, e estamos esperando o terceiro bebê.
- Já sabe o sexo?
- Ainda não – disse Laura. – Estamos decidindo ainda se iremos descobrir ou não, mas Natasha já está chamando de pequena Natasha. – Chloe sorriu com aquilo. Laura olhou para algum ponto além de e depois sorriu. – Cooper vai gostar de te ver.
- Onde elas estão? – perguntou , olhando o relógio pendurado na parede.
- Tiveram uma excursão da escola hoje, devem voltar para o almoço – disse Laura.
O trio continuou a tomar o café, detalhando mais as experiências dos anos que passaram afastados, mas deixando alguns detalhes de lado – principalmente . Clint ainda contou alguma história sobre o tempo dele com na S.H.I.E.L.D., mas não prolongou ao perceber que a psicóloga estava sorrindo apenas para agradar o antigo parceiro. Ele substituiu por alguma história que se lembrou da experiência como um Vingador e como o trabalho não havia finalizado ainda.
Quando terminaram, ainda fez questão de ajudar Laura com a louça suja, alegando que havia chegado sem sequer ter sido convidada, então aquilo era o mínimo que podia fazer. Ao terminar, ela seguiu para a parte dos fundos da casa, onde Laura e Clint estavam sentados, tendo uma discussão não muito sutil sobre a visita. sorriu e pigarreou de leve ao se aproximar, fazendo-os ficarem em silêncio. Clint se levantou e se apoiou na grade da varanda, deixando o espaço ao lado de Laura no banco para que sentasse.
Não demorou muito para que o casal abandonasse a postura que vinham forçando e assumissem a preocupação que vinham contendo. quase riu diante a mudança tão evidente e repentina.
- Então, – começou Laura, após uma troca de olhares significativa com o marido. – Estamos felizes com sua visita.
- Mas sabemos que não apareceu aqui por saudades.
- Tem um pouco disso também – disse , tentando fazer piada e sorrindo verdadeiramente para o casal.
- O que está acontecendo, criança? – perguntou Clint, adotando o mesmo tom que ele usava quando ela se abria sobre o que vinha sonhando e sentindo. Aquilo quase trouxe às lágrimas, mas ela respirou fundo e se controlou.
- Só, por favor, prometam não contar a ninguém o que eu falar hoje – pediu a psicóloga, olhando para o casal antes de voltar a falar. – Bem, como eu disse, eu sou psicóloga, certo?
- Sim – os dois disseram juntos.
- Então... – suspirou, passando a mão no cabelo, não havia como enrolar aquele assunto. – Steve Rogers é um dos meus pacientes. – Ela soltou de uma vez, revezando o olhar entre Laura e Clint para acompanhar suas reações.
- Steve Rogers? O Capitão América? – perguntou Laura, tentando controlar a boca que parecia querer ficar permanentemente aberta.
- O próprio – confirmou .
- Você é a psicóloga do Capitão América? Digo, do Rogers? – Clint parecia querer rir, só não o fez pelo olhar que a esposa lhe dirigiu. – Bem, isso explica muita coisa sobre ele agora.
- , como isso aconteceu? Achei que você tivesse se desligado da S.H.I.E.L.D. – Laura assumiu o dever de fazer os questionamentos enquanto Clint ainda tentava se recuperar da informação que havia acabado de receber.
- Eu me desliguei! – começou a psicóloga – Mas quando o encontraram, Fury me contatou para pedir minha opinião sobre como proceder, o que obviamente ele ignorou. – A psicóloga revirou os olhos, lembrando-se das reuniões com o ex-diretor da agência. – E quando Steve rejeitou todos os psicólogos, Fury me chamou novamente, pedindo minha ajuda. E eu aceitei sob meus termos... Mas como as coisas aconteceram foi puro acaso.
- Como assim, seus termos? – perguntou Clint.
- Eu disse a Fury que não era para ele ficar atrás de mim toda hora – explicou . – Mas até uns tempos atrás, ele acreditava que eu e Rogers não tínhamos qualquer vínculo.
- O que mudou agora? – Laura estava preocupada, ela sequer tentava esconder, enquanto Clint parecia mais relaxado.
- Steve descobriu meu passado com a S.H.I.E.L.D.
- Que você provavelmente havia escondido – observou Clint.
- Eu não podia dizer a ele! Não depois de ele ter rejeitado todos os psicólogos por eles trabalharem para a S.H.I.E.L.D. – se defendeu. – Eu precisei esconder, ele precisava de ajuda. Você me conhece, Clint, sabe que não consigo recusar ajuda.
- E como sei... – o arqueiro suspirou, fingindo drama. – Perdi as contas de quantas vezes eu quase morri por essa sua mania.
- Exagerado – revirou os olhos. – Foram só três vezes.
- Eu não queria correr esse risco nem uma vez, – o arqueiro comentou, logo depois retomando o assunto principal. – Rogers descobriu seu vínculo com a S.H.I.E.L.D., como?
- Com a queda da agência, os arquivos vieram a público. Fury não os protegeu tão bem quando essa fazenda e o resto da família – respondeu , vendo a expressão do casal se alterar, como se os dois já estivessem compreendendo. – Ele teve acesso a algumas coisas, eu preenchi com o resto.
- Você contou a ele sobre seu avô e seu pai – apontou Laura, segurando a mão da psicóloga como forma de confortá-la.
- Foi a única forma que eu encontrei para fazê-lo acreditar que eu havia saído dessa vida... Contando o motivo. – Clint se aproximou, sentando do outro lado da psicóloga. – Ele acreditou, mas não me perdoou por eu ter aceitado trabalhar para o Fury. Mesmo comigo garantindo que Fury nunca ouviu ou leu uma palavra sequer sobre nossas consultas.
- Por isso você não tem dormido? – perguntou Laura, agora que estavam mais perto, a mulher conseguia ver a profundidade das olheiras da psicóloga, e como sua expressão estava mais abatida por tocar naquele assunto.
- Eu não consigo para de lembrar da nossa última conversa, a decepção nos olhos dele – admitiu , permitindo que algumas lágrimas caíssem pela primeira vez em dias. – Dois anos jogados no lixo por uma escolha errada que eu fiz.
- , você não pode pensar isso! – disse Laura. – Você mesma disse que não podia revelar isso antes, ou não teria como ajuda-lo.
- Mas eu deveria ter contado em algum momento – rebateu a psicóloga.
- Tem mais coisa, não tem? – perguntou Clint de repente, surpreendendo as duas mulheres. e Laura viraram o rosto para ele, a esposa o repreendendo, a psicóloga assustada com o que o arqueiro poderia dizer a seguir. – Eu sei que é ruim essa situação, mas você não estaria aqui só por ele ter descoberto seu passado e resolvido não te perdoar por escondê-lo.
- Clint – Laura tentou repreendê-lo, mas o arqueiro não iria parar naquele momento, não quando ele via a resposta bem clara nos olhos da sua antiga parceira.
- Você gosta dele – concluiu o arqueiro.
não respondeu, ela não conseguiria nem se tivesse uma resposta. Apenas encostou a cabeça no ombro de Clint, sentindo as lágrimas escorrerem com mais força enquanto ele a abraçava de lado.
- Ah, querida – disse Laura, estendendo a mão para acariciar o cabelo da mulher.
Anos atrás, quando ela havia perdido o avô e o pai, Laura e Clint foram os mais próximos de uma família que havia conseguido encontrar. Já os tinha nesse patamar antes, quando conheceu o arqueiro na S.H.I.E.L.D. e saiu com ele em algumas missões, tendo sua vida salva pelo mais velho mais vezes do que ela realmente poderia contar. Clint a ajudou a melhorar, assumindo o posto de seu treinador enquanto estavam livres de missões. Aos poucos, a confiança foi crescendo e ele lhe contou sobre sua família, como Fury ajudava a escondê-los. Quando a mulher viera a perder os últimos parentes, de bom grado Clint e Laura oferecera o quarto de hóspedes na fazenda para que ela ficasse ali o tempo que fosse necessário. Em nenhum momento deixando transparecer qualquer tipo de incômodo a cada dia e mês que virava e a mulher continuava ali. E mais uma vez, Clint a havia ajudado a melhorar, a se reerguer.
Eles podiam tranquiliza-la o quanto quisessem, mas não se perdoaria por tê-los abandonados como o fez, sem qualquer explicação. Durante os anos que seguiram, diversas vezes ela quis fazer a viagem até a fazenda, deitar no sofá com sua cabeça no colo de Laura e chorar quando o emocional pesava e ela sentia que estava sendo perseguida. Ela sabia que poderia ter confiado neles, que eles não a julgariam e não diriam que estava louca como achava que estava. Não a considerariam fraca por ter fugido. Mas como ela teria coragem de aparecer ali, chorar e depois voltar a sua vida normalmente? Além disso, ela havia feito um acordo com Fury, não deveria manter contato ou correria o risco de expor não somente ela, como o casal e sua família também. Ela sabia que era exagero do diretor, mas de alguma forma ela se convencia que era verdade.
E apesar do tempo afastado e de ter tentado com todas as forças esquecer aquele período doloroso que passara ali na fazenda, aquele cenário lhe era familiar. Ser consolada pelos dois era como uma rotina que nunca se tornaria velha, nunca pareceria estranho. Era como se a última vez que ela havia chorado no colo de Laura tivesse sido no mês anterior, e não há quase seis anos. Os dois ainda conseguiam lê-la com a mesma facilidade de antes, entender seus sentimentos pelos mínimos detalhes, sem que ela precisasse dizer muito. E, como sempre, não havia questionamentos ou julgamentos. Era o que mais apreciava no casal. Eles a apoiariam, lhe dariam a ajuda que poderiam oferecer. E se não pudessem, só o apoio e aquele colo já eram o suficiente.
- Eu não sei o que fazer – confessou após sentir que as lágrimas haviam diminuído. – É como se eu estivesse presa novamente no ano em que eles foram embora. Não consigo seguir em frente. Não sei como reagir.
- Você precisa ir com calma, querida – disse Laura, seu tom de voz e expressão serenos. – Sabe disso.
- Não é por nada não, mas é mais fácil falar do que fazer – respondeu , fungando de leve e fazendo o casal rir.
- Dê tempo ao Rogers – Clint resolveu falar. – Em algum momento ele vai perceber que está exagerando. E se não perceber, eu acerto uma flecha no olho dele.
- Isso é quase fofo, Clint – comentou , recebendo um beijo do arqueiro em sua testa.
- Se sua preocupação for sobre o sentimento ser recíproco ou não, eu acho que posso afirmar que é – comentou Clint, chamando a atenção das duas mulheres. – Durante a Batalha de Nova Iorque, ele parecia bem diferente, claro que na época eu mal o conhecia, mas dá para perceber. Principalmente depois que acabou, a pressa que ele tinha para ir embora... Tínhamos uma pilha de coisas para fazer e resolver e ele só queria ir embora. Dizendo que estava atrasado – o arqueiro bufou. – Agora faz sentido. Você já estava com ele naquela época, não é?
- Sim, eu já era a psicóloga dele, se é isso que você quer dizer com “estar com ele”. – sorriu para o arqueiro.
Eles permaneceram em silêncio, Laura ainda mexendo com o cabelo da psicóloga, enquanto Clint mantinha seu braço ao redor dos ombros dela. O dia estava claro apesar do inverno, que só se fazia presente pelo vento frio que soprava vez ou outra. De repente, Clint se afastou de para poder olhá-la.
- Aliás, você está bem com os últimos acontecimentos em Washington? – perguntou o arqueiro. – Eu recebi algumas informações sobre isso com a Natasha. A verdade sobre o Soldado Invernal...
- Sim, Fury me contou – disse , suspirando em seguida e segurando a mão de Laura que havia parado de acariciar seu cabelo. – Steve não teria me contado, eu acho.
- Faz sentido – comentou Laura, recebendo dois olhares questionadores. – Provavelmente ele queria proteger o melhor amigo, e você.
- Ela não precisa que ele a proteja, Laura – disse Clint. – Ela precisava que ele fosse honesto e contasse a verdade, desse a ela alguma chance de escolher se queria ir atrás do Soldado ou se manter escondida.
- Ele não sabia do meu passado ainda quando descobriu a verdade sobre o Bucky – disse . – Só depois que eu contei tudo a ele que tivemos uma conversa sobre isso, já era tarde demais para eu querer ir atrás de alguém. Não que eu quisesse também.
- Espero que não me coloquem em alguma missão com ele tão cedo – resmungou Clint. – Vai ser difícil não querer atirar uma flecha na direção do Rogers “por acidente”.
- Clint, por favor, não – olhou alarmada para Laura e depois para o homem. – Eu não vim até aqui contar tudo isso para vocês para que você resolva agir como um pai super-protetor. Steve sequer pode sonhar que eu conheço vocês.
- Vai continuar com os segredos, ? – perguntou Laura, não parecendo muito feliz com aquela decisão.
- Ele quer distância, Laura, a melhor coisa a fazer é deixa-lo achar que não tem qualquer vínculo comigo. Se ele souber que nos conhecemos, como acha que ele irá se sentir? – perguntou a psicóloga, sabendo que a última coisa que Clint se importava no momento era como Rogers se sentia. – Eu sei que vou gostar de saber como ele está caso Clint saia em missão com ele.
- Não consegue desligar a psicóloga, não é? – O arqueiro sorriu um pouco a contragosto. Ela deu um beijo no rosto dele, sabendo que aquilo quebraria a careta que ele fazia.
- Lembrem-se que prometeram não contar a ninguém sobre hoje – lembrou – e isso vai ter que incluir meu vínculo com vocês.
- Com a condição que você prometa aparecer mais vezes – pediu Laura.
- Clint? Sem flechas? – A psicóloga olhou para o arqueiro.
- Sem flechas.
- Temos um acordo, então – disse a psicóloga, sorrindo para o casal antes de receber um abraço duplo.
- Você vai ficar para o almoço, certo? – perguntou Laura, já se levantando e começando a se dirigir para o interior da casa para começar a preparar a refeição. – Vocês vão buscar as crianças e depois ficarão de babá enquanto eu preparo tudo.
olhou para a mulher e continuou olhando naquela direção mesmo após Laura ter entrado em casa. Havia um sorriso em seus lábios e lágrimas que não eram de tristeza escorrendo por seu rosto, Clint se levantou para seguir a esposa, mas parou ao ver a psicóloga naquele estado. Se abaixando em frente a ela e passando a mão por seu rosto, claramente preocupado. piscou, olhando para o arqueiro.
- Está tudo bem? Tem mais alguma coisa que você não nos contou? – perguntou Clint.
- Não – disse , negando com a cabeça para dar mais ênfase. – Eu só... – Ela olhou do homem a sua frente para o terreno da fazenda, suspirando e depois voltando a encarar o arqueiro. – Eu me sinto em casa.
- Você está em casa – disse Clint, sorrindo quando assentiu, levantando-se para abraça-lo com força. – Senti sua falta, parceira.



Continua...



Nota da autora: HOJE VAI TER UMA FESTAAA.... Eu não sei a música da Xuxa pra cantar aqui, mas É PIQUE, É PIQUE, É PIQUEEEEEEE, VIVA O FFOBS!!!!! Mais um ano nesse site, nessa equipe! O começo das outras n/as tão mais animadas, eu já esgotei minha inspiração pra isso, hahahha

Sobre essa atualização, a única coisa que eu tenho a dizer é EU AMO DEMAIS ESSA FAMÍLIA BARTON, ME ADOTEM, AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, me apaixonei demais por esse capítulo, mesmo sem dor, mas ah meus amores <3 <3 <3 <3 <3
Agora a fic entra numa fase meio dark porque né, nossos bonitos tão sendo bem teimosos e não vão dar o braço a torcer, e porque a MCU não deixa a gente ser bem feliz também. Mas confiem que tudo vai dar certo - esperamos, haha

Não esqueçam de, por favor, deixarem um comentário ai embaixo dizendo o que acharam desse capítulo ;)



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