Capítulo Único
A neve, impiedosa, criava um grosso tapete branco do lado de fora do aeroporto. null mexia em seu celular, procurando notícias sobre a nevasca que as prendia ali dentro. O Aeroporto de Bar Harbor não se comparava ao de Portland, mas Bar Harbor não era nada como a cidade mais populosa do Maine. Rolando o dedo preguiçosamente pela tela, null ouvia enquanto a outra mulher andava para lá e para cá, seus saltos altos fazendo barulho enquanto ela quase gritava em seu celular. Mas, se fosse null null, null também estaria bastante nervosa.
Quando o convite para o reencontro da classe de 2007 do Kingston High chegou, null cogitou não ir. Sempre tinha sido deslocada, a que não se encaixava em nenhuma das panelinhas do colégio. Ela não era talentosa o suficiente para o clube de artes, não era tão bonita para ser popular, não era particularmente boa em esportes e, para completar a lista de seus pecados adolescentes, eles sabiam que ela era diferente.
As pessoas notaram que null era diferente antes que ela mesma percebesse. Sua mãe sempre a tratou com mais delicadeza, sua irmã sempre a considerou estranha e todo a população de Bar Harbor parecia notar que algo nela era fora de sua querida – e hipócrita – normalidade. E, aos quinze anos, null confirmou o que todo mundo sabia que aconteceria, uma hora ou outra: ela era lésbica.
Não que fosse anormal por isso, muito pelo contrário. Custou, mas a sua mãe acabou aceitando que a sua filhinha não queria namorar garotos. Sua irmã deu de ombros, Jocelyn tinha descoberto antes de todo mundo o segredo de sua irmã. E Jocelyn não se importava se a sua irmã caçula beijava garotos ou garotas, contanto que a deixasse em paz. Mas, fora de sua casa, a realidade era bastante diferente.
Kingston High não era moderno o bastante para deixar que seus alunos fossem eles mesmos. Também não ajudava que a diretora do colégio fosse a mulher do pastor da cidade. null era reprimida o bastante dentro da escola, temendo, é claro, que a sua sexualidade fosse rechaçada. E seus temores não eram, ao todo, infundados.
Adolescentes farejam fraqueza como um tubarão sente o sangue na água. A reservada, sempre quieta e tímida null era, como já é de se imaginar, um alvo em cheio para aqueles que apenas conseguiam se sentir bem ao colocar os outros para baixo. Mas estava longe de ser a única homossexual da escola, disso ela sabia bem. Não era possível que todos aqueles adolescentes fossem heterossexuais. Ao menos alguma outra pessoa do colégio devia ser como ela.
Mas, na época, null não conseguia saber. Ela não conhecia outras lésbicas assumidas, a não ser que contasse suas amigas virtuais, onde conversavam através de um fórum sobre os problemas de suas vidas. Ela não conhecia nenhum outro rapaz gay que não fosse o seu melhor amigo. E, para dizer a verdade, ele era bem fácil de notar. null nunca foi muito discreto sobre a sua sexualidade, ao contrário dela.
E, entre a multidão de alunos do último ano, a classe de 2007, havia diversas outras pessoas que contribuiriam para a falta de vontade que sentia de atender à reunião: Paul, seu ex-namorado, o cara com quem ela se forçou a ficar porque achou que poderia esconder quem era; null, sua ex-melhor amiga superpopular, que se tornou sua pior inimiga durante o ensino médio; Jake, o jock babaca que a atormentava todos os dias; Kelly, a capitã do time de corrida que fazia, também, questão de atormentá-la; entre tantos outros que fizeram do seu ensino médio um verdadeiro inferno.
null sobreviveu. Ela frequentou uma boa faculdade, formou-se, arrumou um bom trabalho e pagava a hipoteca de um bom apartamento, que ela dividia com sua melhor amiga da faculdade em Nova York. Ela não deveria se sentir tão insegura agora. Sua personalidade tímida conseguiu se adaptar na faculdade. Ela conseguiu ser quem ela realmente era, namorou (mulheres, dessa vez, com quem ela realmente queria estar), fez amigos, frequentou festas e viveu de verdade. null não mudou da água para o vinho, mas aprendeu a se impor e a não se sentir inferior por ser diferente do que o pastor e sua esposa tinham ensinado como certo durante toda a sua vida. Ela não tinha mais medo daquelas pessoas. E ela sentia muita falta de null. Queria saber tudo sobre ele, o que ele tinha feito, se ele ainda morava em Bar Harbor. Por isso que, quando o convite chegou, null discutiu o assunto com null e ambas concordaram que não só ela deveria atender à reunião, como também mostrar que, apesar de todos aqueles idiotas, ela tinha conseguido se erguer. E, ainda segundo null, null precisava de algum tipo de encerramento para aquela época de sua vida. null não queria discutir com a psicóloga. Ela precisava mesmo disso.
null desligou o telefone, bufou de maneira nada condizente com a sua roupa cara e as botas de salto fino e se jogou na poltrona, do outro lado do saguão. null ergueu os olhos para ela por um breve segundo, constatando que esta a lançava um olhar fulminante, antes de voltar à sua pesquisa no Google.
null se perguntava como tinha se enfiado naquela situação: presa em um aeroporto com a pessoa que mais a odiava em todo o Maine. E, o pior: não sabia quando a situação se resolveria.
Sempre nevava no Maine. Dizer que os invernos do Maine eram frios era o eufemismo do século. Era um inferno congelado, todo pintado de branco dos vários centímetros de neve lá fora. A nevasca, que caíra há duas horas, atrasou cerca de doze voos e as pessoas se amontoavam nos saguões, esperando a nevasca passar. Não havia como deixar o aeroporto, não havia como embarcar em seu avião, pegar a estrada com aquele tempo e, certamente, não havia como deixar de notar o quanto null parecia incomodada com a situação.
null estava incomodada com o olhar dela, foi só assim que notou que null a olhava: porque seu encarar contínuo parecia furar a sua pele. null desviou o olhar assim que null percebeu que esta a observava, puxando sua mala de marca contra os joelhos. E, rolando os olhos, null respondeu a mensagem de null que pipocou na tela do celular.
null diz:
Que merda! Eles já deram uma previsão de quando você pode voltar?
Quando null respondeu que não, recebeu uma série de carinhas furiosas como reação da melhor amiga. Ela se levantou, indo buscar um café e novamente sentiu-se incomodada, observada. Dessa vez, no entanto, null não olhou para trás para confirmar o que já sabia: que era null que a observava com tanta animosidade, já que ninguém mais, naquele aeroporto, teria motivo para isso. null entendia, a reunião de ex-alunos tinha sido bastante desconfortável para as duas. E, depois do que aconteceu, como culpá-la?
20 horas atrás
Às sete e meia, com meia hora de atraso deliberado, null adentrou as portas que levavam à quadra de Kingston High. O local tinha sido enfeitado com faixas com as cores da escola, o ano da turma que ali estava e alguns banners ainda traziam algumas fotos do anuário. Desnecessário dizer que null não estava em nenhuma daquelas fotos. Ela não era fotogênica e ninguém a achava interessante o suficiente para colocá-la no anuário.
— null null! — null soltou um gritinho, abraçando-a com força e a erguendo vários centímetros.
null era alto e musculoso, definitivamente o tipo de cara que ninguém gostaria de encarar. Ele a ergueu com facilidade, abraçando-a com força. null tinha a sensação de que ele poderia quebrar suas costelas facilmente, se quisesse.
Ele, ao contrário dela, nunca tinha sido muito adepto de esconder a sua sexualidade. Que deus a perdoasse por confirmar qualquer estereótipo, mas null era mais feminino que ela, falava de modo afetado e era, possivelmente, o homem mais gay daquele lado do país. E seus pais, que seguiam religiosamente os princípios hippies com os quais foram criados, apenas queriam que seu filho fosse feliz. Neste ponto, null não podia reclamar de sua mãe. Ela a tinha aceitado, também, mas ouvira as mais cabulosas histórias de outras meninas lésbicas, no fórum que frequentava quando era jovem, e também ouvira outras no decorrer dos anos. Nem todos eram tão sortudos quanto null e null.
— null! — Ela sorriu quando ele a colocou no chão. Alguns ex-alunos os olharam, mas ambos estavam imersos em sua conversa para notar. — Você está ótimo!
— E você está… Tão feminina. — Ele parecia desapontado, o que a fez rir.
— Raspei o cabelo no segundo ano da faculdade, mas digamos que não combinou comigo. — null passou a mão pelos cabelos, bem penteados e brilhosos para combinar com o clima mais formal que a situação exigia.
— Você tem fotos? Quero julgar isso com meus próprios olhos. — null riu.
Mas bastou um olhar ao redor e reconhecer grande parte daqueles rostos para que ela se calasse e sua boca ficasse seca. Ali estava grande parte das pessoas que causaram toda a sua insegurança apenas por ser quem era, toda a sua ansiedade, os problemas em se aceitar. Ela sofreu e fez Paul sofrer com ela, ela o fez acreditar que era outra pessoa. E ela se sentia culpada.
Não que não tivesse amado Paul, a seu modo. Ele tinha sido seu único relacionamento heterossexual, tinha sido um grande amigo e ela o amava dessa forma. Ela não se sentia atraída por Paul, ela não conseguia sentir desejo quando ele a beijava, não como ela sentia quando assistia Malena na televisão, escondida da mãe, e achava Monica Bellucci a mulher mais bonita do mundo. Depois, null assistiu Gia e também se encantou por Angelina Jolie. Ela assistiu outros filmes, onde mulheres assumiam suas sexualidades, desde comédias românticas como Imagine Eu e Você até o divisor de águas que foi The L Word, que ela sempre assistia escondido por causa das cenas de sexo. Piper Perabo, aliás, ocupava sua mente desde o desastrosamente ruim, mas deliciosamente fácil de assistir, Coyote Ugly.
— Apagadas permanentemente. — null rolou os olhos para cima dramaticamente, fazendo um gesto de descaso com a mão esquerda. E null percebeu, então, o brilho dourado de uma aliança. — Você se casou!
A surpresa a fez sorrir e abraçá-lo novamente. null teve a dignidade de corar, dando de ombros como se não fosse algo importante.
Mas era, para os dois. Depois do casamento gay ter sido legalizado em 2015, null se sentiu estranhamente vitoriosa. Ela podia se casar em qualquer estado nos Estados Unidos. Ela podia escolher quem amar, com quem queria passar o resto da vida. No entanto, ela ainda não tinha achado essa pessoa. E, de alguma forma, sentiu um pouco de ciúmes por null ter achado.
— Foi no ano passado. Você está atrasada com as felicitações, mas ainda aceito um bom presente de casamento.
Os dois conversaram sobre como null conheceu e se apaixonou por Jim, que, na época, não era assumido para a sua família. null ouviu atentamente, enquanto bebia um ou outro copo de ponche “mágico”, enquanto seu melhor amigo da época da escola falava sobre as dificuldades de seu relacionamento.
— Então, depois de namorarmos por um ano e ele me apresentar como amigo para a mãe dele, fiz o que qualquer homem gay com um pouco de orgulho faria: terminei com ele. E chorei bebendo chardonnay. — Ela riu. — Imagine o meu espanto quando ele bate na minha porta, duas semanas depois, e me conta que se assumiu para a família? E então ele tirou um anel do bolso e eu lacrimejei.
— Imagino que você esteja bastante satisfeito consigo mesmo por não ter seguido as regras de relacionamento da Cosmo. — null soltou um suspiro.
— Como eu lia aquilo? — Ele riu. — De qualquer forma, aqui estamos. E você? Alguém especial na sua vida?
null deu de ombros, aproveitando para beber um gole de ponche, que estava muito melhor do que ela se lembrava na adolescência, e, assim, estendendo seu tempo de resposta.
— Eu tinha alguém. Nós terminamos no meio do ano passado.
— Ah, meu bem, sinto muito.
— Eu não estou mais chateada. Vida que segue e etc. — null disse, tentando parecer confiante, muito embora ela tivesse chorado por Karen pelo menos três vezes nos últimos dois meses, quando ficava bêbada e decidia que stalkear o Facebook de sua ex era uma boa ideia.
Bem, nunca era uma boa ideia. Pelo menos, agora, null resistia à vontade de ver as fotos de Karen e sua nova namorada em qualquer viagem exótica que null tinha programado com a ex. Não valia a pena se torturar por alguém que claramente já tinha seguido com a sua vida.
— Sei. — null tirou um cantil metálico do bolso e despejou uma boa quantidade de álcool no ponche de frutas em sua mão. — Ela que se deu mal.
Foi quando a comoção tornou-se mais alta que tanto null quanto null viraram-se a tempo de testemunhar null null adentrar a festividade.
— null vadia null na área. — null recitou, ganhando um olhar feio de null. — Isso foi tão politicamente incorreto, não foi? Desculpe, eu só… Ela está usando um Valentino no Maine? Vadia esnobe.
Foi a vez de null rolar os olhos, negando-se a entrar no jogo dele. null desgostava de null desde sempre, praticamente. Mesmo quando null e null eram amigas, antes de null se tornar a cheerleader linda e popular e virar o clichê dos filmes americanos sobre a patricinha esnobe. Mas, antes, quando as duas tinham apenas doze anos e muito tempo livre, elas tinham sido melhores amigas.
Nem houve uma briga ou um ponto definitivo que null poderia apontar como algo sem remédio. O afastamento foi gradual, com null a trocando pelos novos amigos populares e a mudança de interesses das duas. Elas deixaram de assistir Charmed juntas, de fazer a lição juntas, de conversar. null parou de procurá-la e null pareceu aliviada com isso. Depois, quando seus novos amigos atormentavam null, null jamais fez nada para parar. E, para a surpresa de null, null até mesmo passou a humilhá-la com coisas de seu passado, em público, o que acabou com qualquer bom sentimento que ainda restasse entre elas.
Pensando bem, talvez null soubesse exatamente onde foi o rompimento entre as duas, mas não gostava de pensar nisso.
null era bem querida, continuava linda, sempre tinha sido inteligente. Ela apostava que tinha virado advogada ou qualquer outra coisa parecida. null poderia ser a nova Elle Woods, até. Ela certamente se parecia com a advogada da ficção. As duas se entreolharam por um segundo, mas null logo se virou e não deu nenhuma mostra de tê-la visto. null, por sua vez, apenas bebeu.
null a apresentou a Jim e os três conversaram longamente sobre a carreira de null como redatora de uma revista de economia. Não era o emprego mais fabuloso ou glamouroso do mundo, mas null amava o que fazia. E seu trabalho pagava suas contas e as despesas veterinárias de seu cachorro, um vira-lata que tinha adotado em uma feira de animais de rua, Simba. Jim falou sobre seu escritório de contabilidade e null os impressionou listando as celebridades que ele já tinha visto trabalhando como comissário de bordo.
A festa não parecia ruim. Tirando alguns outros deslocados que, como eles, tinham passado o ensino médio se escondendo e vieram conversar em termos amigáveis, null não viu nenhum outro de seus carrascos por ali. Ela não viu Kelly e nem Jake, muito menos Paul. Na primeira hora de festa, null teve a impressão de que nada daria errado.
Até, é claro, a culpa a corroer assim que Paul apareceu em seu campo de visão. Paul nunca tinha sido muito bonito, tinha até melhorado com os anos. Ele ainda usava óculos, mas seu senso de moda parecia ter melhorado. Ele parecia incerto sobre falar com ela ou não. E null estava ainda mais incerta sobre falar com ele.
— Ah, seu ex-namorado. — null comentou de maneira displicente. — É tão estranho falar isso.
— Como se você nunca tivesse beijado uma garota antes. — null rebateu em um leve tom de provocação, o que fez null se fingir de ofendido.
— Uma vez, sabichona. E porque Trevor King me desafiou, eu detesto ser desafiado.
— Acho que não te conheço mais, null. — Seu marido brincou, o que o fez rir.
— Cale a boca, você fingiu que era hétero por mais de vinte anos.
null observou Paul, de longe, até que ele resolveu se aproximar. Sorriu, sem jeito, e ela apertou sua mão, igualmente desconfortável.
— null, é um prazer vê-la de novo. — Paul disse e, por trás dele, null apontou a mesa de drinques e se ausentou com Jim a tiracolo.
— É ótimo ver você também, Paul. — Ela deu outro gole no ponche. Que o álcool a ajudasse.
Os dois ficaram em silêncio por vários segundos. Paul parecia buscar algo para lhe dizer, mas ela acabou tomando a dianteira. Bem que null lhe disse que ela precisava de um encerramento.
— Escuta… Eu sinto muito. Pelo ensino médio e por ter te usado para… Fingir que eu era uma garota hétero. — Paul deu de ombros. — É sério. Eu não achei que você gostasse tanto de mim.
— Isso tem muito tempo. — Paul disse de maneira séria. — Você não tem que se preocupar.
— Que bom.
— Claro que eu tive alguns problemas de autoestima depois disso… Mas não foi só culpa sua. — Ele acabou sorrindo.
— Isso foi uma piada? — O sorriso dele murchou e foi a vez de null rir.
— Você nunca entendeu o meu senso de humor.
— Desculpa. — Paul murmurou um “tudo bem” meio cabisbaixo e logo se despediu dela.
A festa seguia apesar de seus encontros meio estranhos. Ela fez questão de encher o marido de null com memórias vergonhosas da adolescência dos dois, o que rendeu ao casal umas boas risadas. As pessoas voltavam no tempo, relembrando épocas mais fáceis – ao menos para alguns – e se regozijavam em se gabar de como haviam mudado desde os tempos escolares. Trevor, o delinquente da turma, acabou por se tornar policial. Outras pessoas permaneciam em Bar Harbor, lecionando na escola onde tinham estudado. Algumas se casaram, outros tiveram filhos, outros nem mesmo tinham algo para se gabar. null ouvia alguns trechos de conversa aqui e ali enquanto buscava bebidas ou aperitivos.
E foi numa dessas viagens para buscar bebida, já ligeiramente alcoolizada com o cantil de gim que null carregava, que ela esbarrou em null null. As duas foram forçadas a reconhecer a presença uma da outra, por força da falta de atenção da redatora. A bebida que ela carregava derramou-se na pantalona preta que usava e ela sentia o tecido molhado grudar contra a sua coxa. O silêncio se instalou por pouco tempo, já que null reconhecia que tinha sido sua culpa, apesar de ter levado a pior nesse encontro. Como, aliás, tinha sido durante toda a vida, ao menos quando as coisas eram sobre null.
— Sinto muito, null. — Disse brevemente, logo descendo o olhar para analisar o estrago feito em sua roupa.
null ficou muda por um instante, olhando seu vestido Valentino de seda, procurando por alguma mancha. Quando constatou que não tinha nenhuma, null lentamente ergueu o olhar, analisando cada centímetro da pouca altura de null. null sentiu-se intimidada, como antes, mas algo também a deixou – e ela se sentia culpada por isso – um pouco excitada.
— Está tudo bem. — null falou-lhe, o tom desdenhoso e gelado acordando null para a dura realidade de que sua paixonite por null null jamais tinha passado. — null, não é?
Mas null sabia muito bem quem ela era. Lembrava-se perfeitamente dos anos de amizade e dos posteriores anos de inimizade e fria indiferença. Disfarçar suas emoções com a sua usual máscara de desdém tinha se tornado algo corriqueiro com o passar dos anos. Era fácil fingir. Ela tinha um MBA e quase um doutorado em fingir.
null null fingiu durante cinco anos de casamento que tudo estava bem, mesmo quando seu marido acabou deixando-a pela secretária. Ah, ele tinha sido tão clichê. Ela se sentiu mais ofendida pela falta de criatividade de Karl do que pela traição. Felizmente, não tiveram filhos. Ela não sabia como poderia se tornar uma mãe divorciada. Isso nunca fez parte dos seus planos e null era uma mulher que adorava planejar.
— Acho que você se lembra de mim, null. — O tom de null tampouco foi caloroso. Ela estava farta dos joguinhos. Uma coisa era o ensino médio, mas perpetuar aquela rivalidade era extremamente vergonhoso para duas mulheres de quase trinta anos.
As duas se encararam em silêncio, agora. null torceu os lábios, um claro sinal de sua indignação, mas acabou rindo e dando de ombros, saindo de perto dela em seguida. null ainda ficou parada por alguns segundos, esperando algo de ruim acontecer, como sempre acontecia quando ela enfrentava null, mas nada ocorreu. Foi quando null se lembrou de que elas não estavam mais no colégio e que null não podia intimidá-la mais.
As duas mantiveram-se afastadas pelo resto da noite e tudo caminhava bem. null com seus amigos, null com os dela. Para mulheres como null e null, certas coisas deveriam ser ocultadas.
Nem null e nem null contavam a verdade quando as perguntavam sobre seu primeiro beijo. null dizia que Jake Mathews tinha beijado-a pela primeira vez depois da aula de Álgebra, no primeiro ano, quando ela tinha planejado ficar a sós com ele com muito cuidado e dado todas as dicas sobre o quanto ela queria que ele a beijasse. null dizia que seu primeiro beijo tinha sido com Paul, no segundo encontro deles, quando ele a pediu em namoro e ela disse sim, mesmo sabendo que não sentia por ele atração ou afeto suficientes para manterem um relacionamento.
Nenhuma das duas mencionava o incidente que, aos doze anos, as levou a se beijarem. O primeiro beijo de null e de null tinha sido compartilhado no acampamento de verão. As duas tinham pegado dois dos monitores se beijando e posteriormente elas se puseram a conversar sobre beijos.
16 anos atrás
— A minha mãe sempre diz que devemos beijar apenas a pessoa que nós gostamos. — null respondeu quando null a perguntou como seria o seu primeiro beijo ideal.
— Isso não responde a minha pergunta. — null rolou os olhos e soltou um risinho. — O meu primeiro beijo ideal seria com Jake Mathews. Ele é tão… — Ela soltou um gritinho e escondeu o rosto ruborizado nas mãos, o que fez null rir.
— Jake é bonito, eu acho.
null insistiu:
— Vamos lá, primeiro beijo ideal: quem seria? — null deu de ombros. — Você não gosta de ninguém?
— Acho que não.
Não era verdade. null apenas não gostava de dizer que talvez não gostasse de garotos como deveria. Ela gostava da companhia deles. Deus, ela amava null com todas as suas forças, mas não era aquele tipo de amor. Era fraternal. null apenas começava a entender que, talvez, nem todas as garotas estavam destinadas a amar garotos. Então, porque isso causaria um escândalo, ela preferia ficar quieta sempre que as meninas ao seu redor começavam a falar desse ou aquele garoto.
— Caleb é bonito. — Ela acabou dizendo, atraindo a atenção de null.
— Caleb do segundo ano? Bom gosto! — null sorriu e null entendeu que fingir era mais fácil do que dizer a verdade.
As duas se puseram a comentar sobre garotos. Na verdade, null comentava mais, null apenas concordava vez ou outra, levando o assunto adiante. A verdade é que null achava null muito mais bonita do que todos os rapazes do mundo. Na época, null e null passavam pela estranha fase da adolescência onde garotas começam a se parecer menos com crianças, mas ainda eram jovens o bastante para se parecerem com jovens mulheres. Aquela fase esquisita e desengonçada não era o suficiente para convencer null de que null não era absolutamente linda.
Ela adorava ouvir null falar, o modo como os olhos dela brilhavam e as caretas que ela fazia quando contava uma piada. Ombro a ombro, as duas conversavam baixo, lembrando-se do beijo entre os monitores.
— Como você acha que é? — null perguntou, de repente, referindo-se, é claro, a beijar alguém.
— Eu não sei. Deve ser bom, mas também parece…
— Meio estranho? — null anuiu, concordando com a amiga. — Eu só sei que mal posso esperar para beijar alguém.
null queria beijá-la, a despeito da curiosidade. Sabia que, no fundo, o que sentia por null ia além da amizade normal entre duas garotas. null sentiu o coração se acelerar e ela respirou fundo, tomando coragem para sugerir que, talvez, as duas pudessem se beijar, apenas para saber como é.
— Você quer me beijar? — Mas foi null quem sugeriu primeiro e null sentiu que, agora, seu coração estava prestes a explodir.
— Beijar você? — Fez-se de inocente, como se a ideia não tivesse passado por sua mente.
— É. Minha prima fazia isso o tempo todo com a amiga dela. Elas treinavam para quando fossem beijar alguém de verdade.
Apesar de falar sobre o beijo casualmente e bastante desembaraçada, as maçãs do rosto de null estavam ligeiramente coradas.
— E o que você sabe sobre beijar? — null a provocou um pouco, fazendo a outra rir.
— Tudo o que eu li na Teen Cosmo.
As duas riram e concordaram. O que era um beijo entre melhores amigas? Não significaria nada, elas prometeram, e aproximaram os rostos, olhando nos olhos da outra. null sentiu o hálito morno de null bater em seus lábios e ela jurava que nunca seu coração bateu tão forte.
— Nós fechamos os olhos e encostamos os lábios. — null sussurrou.
O ar na cabana estava tenso. As duas estavam nervosas, embora não quisessem transparecer. Os lábios se tocaram com delicadeza. Ficaram daquela forma por vários segundos, até que finalmente se afastaram. null a olhou com as bochechas rubras e pigarreou.
— Foi bom.
— Foi, sim.
Ela voltaram a se beijar, o selinho era casto. Não havia nada demais nisso. Beijaram-se daquela forma diversas vezes até que null questionou:
— Acha que devemos tentar beijo com língua? — null pareceu pensar por alguns segundos.
— Acho que poderia ser legal. Quer dizer, se você quiser…
— Quero. — null tentou não demonstrar o quanto ela queria aquilo, mas seu tom de voz tinha revelado uma pontinha de ansiedade. null sorriu.
— Tudo bem.
Dessa vez, as duas aproximaram-se com os lábios entreabertos. Em um primeiro momento, as línguas se tocaram de forma desengonçada. null achou muitíssimo estranho ter a língua de outra pessoa na sua boca, era molhado e quase alienígena, mas, eventualmente, as duas deram seu jeito. null inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, como via nos filmes, e null logo passou a achar aquele tipo de beijo incrível. Quando afastaram-se, as duas estavam coradas, os lábios formigando e avermelhados, a respiração um pouco descompassada.
— Uau. — Foi tudo o que null conseguiu dizer.
— Caleb teria sorte de beijar você. — null brincou, apenas para inclinar-se na direção de null novamente e iniciar um novo beijo.
19 horas atrás
— Eu vi você e a Barbie Vadia se falando. Está tudo bem? — null perguntou assim que null juntou-se a eles de novo.
null demorou alguns segundos para responder, recuperando-se das memórias que null tinha despertado. Não das ruins, de quando ela era uma idiota com ela no ensino médio, mas do primeiro beijo das duas e de como elas continuaram se beijando por algum tempo, ainda sob a desculpa de “treinar” para beijos reais, embora as duas tivessem ficado muito boas em beijar naquele meio tempo.
null encarou null e deu de ombros, bebendo e tentando não dizer nada que a fizesse se arrepender depois.
— Eu não sei como vocês já foram amigas… — Ele suspirou dramaticamente.
— Ela era doce. Você se lembra.
— Hm, não. Eu me lembro de null sendo uma mini-vadia com todo mundo, exceto com você.
— Aí está a sua resposta. — null disse ironicamente, os olhos procurando null por um momento.
— Você era apaixonada por ela, não era? — null acertou em cheio e null o encarou com seriedade.
— Isso de novo?
— É bastante óbvio, na minha opinião. — null apenas se interrompeu por um momento para beijar seu marido quando este chegou. — Qual é, isso é normal, null. Eu mesmo tive uma queda enorme pelo capitão do time de futebol.
null suspirou, desanimada. Não queria falar sobre como a sua queda por null durou o ensino médio inteiro, praticamente.
— Talvez eu tenha tido uma queda pela null.
— Talvez? Deus perdoe a sua alma mentirosa, null. — Ela fez uma careta para ele quando ouviu seu nome em vez do apelido.
Mais tarde, quando foi ao banheiro depois de uma quantidade exorbitante de ponche, null se surpreendeu ao ver que sua única companhia era null. E se surpreendeu mais ainda quando null se virou para ela, surpresa estampando os olhos azuis e brilhantes de lágrimas.
A situação era tão estapafúrdia que, por um mísero segundo, null achou que talvez null tivesse colocado mais que álcool no seu ponche. Quando null gritou para que ela saísse dali, no entanto, null percebeu que tudo aquilo era bem real.
— Na verdade, eu realmente preciso ir ao banheiro. — null bufou, limpando cuidadosamente os olhos para não borrar a maquiagem.
— E o que está esperando? Vá logo e saia daqui.
null hesitou. null costumava dizer que ela era quase “patologicamente gentil” e que isso algum dia a destruiria. Mesmo assim, null simplesmente não podia deixar uma mulher sozinha e chorando no banheiro. Ela olhou para o reservado do banheiro e de volta para null, respirando fundo quando notou que faria exatamente o que sempre a metia em encrenca.
— Alguma coisa errada?
null a olhou com descrença por um momento, fungando delicadamente enquanto analisava os danos em sua maquiagem. Ela não ia contar para null que estava chorando de ódio porque seu marido estava realmente disposto a pegar de volta a casa dos Hamptons que ela tinha pedido no divórcio.
— Nada que te interesse. — Ela disse sem nem olhar para a mulher que queria ajudá-la.
— Você é quem sabe. — null deu de ombros e entrou no reservado.
Quando saiu, ela viu que null refazia sua maquiagem como se nada tivesse acontecido. E seguindo a deixa dela, null pôs-se a lavar as mãos sem insistir no assunto. null pigarreou elegantemente, fechando seu batom com um clique suave.
— Não conte nada a ninguém.
E, em seguida, ela saiu do banheiro.
Atualmente
null null parecia absurdamente desconfortável em estar presa na mesma sala que null null. Ela não acreditava que de todas as pessoas que podiam ter entrado naquele banheiro, justamente ela tinha flagrado seu momento de fraqueza. E, agora, aparentemente as duas estavam no mesmo voo para Nova York. Ela se perguntavam porque null tinha escolhido Nova York. O pensamento de morar no mesmo estado que null a tirava do sério.
Fixou seus olhos em null. Sabia que ela era lésbica. null sempre soube. E null também sabia que por mais que ela negasse, em dezesseis anos ainda não tinha achado outra pessoa que a tivesse beijado tão bem quanto quando null “treinou” nela.
E isso tinha sido dezesseis anos atrás. Ela imaginava que null tinha ficado muito melhor nesse departamento com os anos.
Pensar em tudo isso era a exata razão de null ter tanta animosidade em relação a ela: null jamais saía de sua mente. E isso era inaceitável. null namorava homens, fazia sexo com homens, se envolvia sempre com homens e homens apenas. Ela não era lésbica. Ela era apenas curiosa. null tinha sido a primeira e única garota que ela tinha beijado. Era natural que não a tirasse da cabeça, não? Era o que ela dizia a si mesma, de qualquer forma.
null, no entanto, não fazia ideia do que se passava na bela cabecinha de null. Ela apenas queria voltar para Nova York e contar a null tudo o que tinha acontecido naquela noite idiota. Ela estava com dor de cabeça, a ressaca era sua melhor amiga desde os vinte e cinco anos, quando notou que já não bebia como antes. Ela bocejou e checou o grande relógio do aeroporto, levantando-se do assento e indo em direção ao banheiro.
Lá, ela molhou o rosto, a água gelada a deixou mais desperta e alerta. Levantando a cabeça da pia, ela secou o rosto com uma toalha de papel a tempo de ver null entrar no banheiro. null riu com a ironia da situação. Era a segunda vez em menos de vinte e quatro horas que as duas se encontravam em um banheiro.
— Ressaca? — null perguntou, postando-se ao lado dela e ajeitando os cachos loiros de cabelos com as mãos.
— É assim tão óbvio?
— Está escrito na sua testa.
O silêncio tomou conta enquanto null secava as mãos, agora, analisando pelo espelho o que null poderia querer com ela.
— Eu não disse a ninguém. — null anunciou, jogando a toalha de papel no cesto de lixo. — Sobre o que aconteceu na festa.
— E para quem você diria? Seu único amigo é o null. — O tom desdenhoso fez null se irritar um pouco, mas ela apenas manteve a calma.
— Eu estava tão errada sobre você… — null riu depreciativamente. — Eu achei que você apenas queria se encaixar com os populares, lá no ensino médio, quando você era uma babaca comigo. Só que nós crescemos, saímos da escola e você ainda é uma valentona babaca.
null parou de mexer no cabelo e se virou lentamente para olhar null que, corada e bufando, parecia descarregar nela toda a mágoa guardada no peito durante todos esses anos.
— E eu costumava desculpá-la porque eu tinha tantas memórias boas da nossa infância, mas você apenas se tornou podre e insegura o suficiente para só se sentir bem quando coloca outras pessoas para baixo. — null parou e respirou. — O que eu te fiz? O que eu te fiz de tão grave que você dedicou a sua vida a fazer da minha um inferno?
null não se intimidou com o tom exaltado de null e tampouco se envergonhou quando duas mulheres desistiram de usar o banheiro por causa da briga lá dentro. Ela era gerente financeira de uma multinacional, não se intimidava com muita coisa. null deu de ombros.
— Não sei bem.
— Mentira!
null sorriu como uma predadora. Ela deu de ombros e deu à sua voz o tom mais doce que conseguia.
— Você já imaginou que talvez eu não gostasse de você porque eu tinha uma queda por você e não queria ter?
O choque que perpassou o rosto de null foi o suficiente para fazer null se divertir com a situação. null jamais tinha pensado que null gostava de mulheres. Ela nem ao menos tinha motivos para isso. Apesar dos beijos que trocaram por meses, ela jamais tinha imaginado. Como poderia? null era o sonho americano, a garota perfeita, um exemplo quase pleonástico de garota hétero.
— Você não me conhece mais, null. — null enunciou calmamente, depois que a surpresa evaporou-se. — Se conhecesse, não teria dito isso.
Apesar de ser uns bons dez centímetros mais baixa que null, null encurralou a loira contra a pia do banheiro. Foi a vez de null ficar surpresa. null costumava se sentir intimidada por ela. A null do ensino médio provavelmente abaixaria a cabeça e deixaria o banheiro. Ela só não entendia que agora as duas eram adultas. Não havia hierarquia entre elas. Não havia um motivo sequer para que null se sentisse menos do que a outra. null tinha crescido, amadurecido, tinha aprendido muita coisa para que se acovardasse agora. E se a queda de null fosse verdadeira, então ela queria provar, queria saber até onde a garota hétero conseguia ir.
— O que você está fazendo? — Os olhos azuis de null lhe analisaram o rosto, agora bastante perto porque null estava nas pontas dos pés.
— Estou testando você.
Era um pouco errado, null sabia, ficar excitada naquela situação. Ela tinha sido ensinada de que aquilo era errado, mas ela também sabia que sentia falta de alguma coisa em sua vida. Sexo com homens era bom, sim, mas ela sabia que queria mais do que aquilo. Toda a sua vida, null queria alguma coisa além e não importava com quantos homens estivesse, ela jamais parecia achar o que realmente faltava.
O hálito quente de null fez a pele do pescoço da outra arrepiar. null não ofereceu resistência quando a outra se inclinou, encostando o nariz em seu pescoço e inspirando profundamente. O perfume doce, mas com notas cítricas era quase uma alusão perfeita à personalidade de null: doce à primeira vista, mas com um sabor mais ácido abaixo da superfície.
— Você não trocou de perfume durante todo esse tempo? — O hálito de null continuou batendo em sua pele e null sentiu os joelhos tremerem.
— Não.
Os olhos negros de null desviaram-se para o rosto dela, que estava enrubescido. Os lábios pintados de coral entreabertos, convidativos, prontos para serem beijados. null jamais acreditaria nisso, que ela estava ficando com sua paixonite platônica do ensino médio no banheiro do aeroporto.
Ela não forçaria nada. Não era assim que agia. null inclinou a cabeça na direção da dela, os lábios perigosamente próximos. Se null a repelisse, então null voltaria para o salão de embarque. Mas se null quisesse ser beijada…
null não se afastou, pelo contrário. Ela fechou os olhos, ela se entregou. E null a acolheu. Parecia que ainda tinham doze anos e a química de antes. As bocas se encontraram em um beijo lento, profundo e sensual. Uma das mãos de null se embrenhou nos cachos loiros e perfeitamente penteados, a outra pousou na cintura de null, puxando o corpo da outra contra o dela. E null soltou um suspiro, passando os braços pelo pescoço da morena, deixando-se levar.
Os beijos, que tinham começado lentamente, logo se transformaram em algo mais. Eram mais bruscos, os lábios se chocavam com mais agressividades. Mãos apertavam, acariciavam e puxavam peças de roupa para que essas saíssem do caminho. Os botões da blusa da loira foram abertos um a um, deixando à mostra a fina peça de renda champanhe que ela usava. O cetim contrastava a pele macia e ligeiramente bronzeada, os seios perfeitos, subindo e descendo com rapidez porque ela respirava aos borbotões.
Os olhos negros de null estavam fixos nos azuis quando ela tocou o seio ainda meio coberto, sorrindo ao ver a expressão de desejo da outra, da mulher que sempre a infernizou por sua orientação sexual. E era tão claro quanto o dia que null gostava tanto de mulheres quanto null.
— Pobre null… Sempre se escondendo, não é? — null murmurou, os lábios beijando a clavícula exposta, lábios quentes e úmidos descendo pelo colo até que plantou um beijo lento em um dos seios da outra. null gemeu baixo. — Eu perdoo você.
O som de vozes lá fora tornava tudo mais excitante. E se fossem pegas? null tremia só de pensar que alguém poderia entrar e vê-las a qualquer momento. E se lá fora a nevasca era intensa, dentro do banheiro do aeroporto estava cada vez mais quente. A blusa de seda de null foi logo descartada, ela se sentou na pia e a saia foi empurrada até que as coxas estivessem desnudas.
Ela sentia as pontas dos dedos de null deslizando pela sua coxa, subindo até seus quadris. Sentiu quando null apertou a sua bunda, puxando-a para mais perto, para que ficasse mais ao alcance de sua boca, que beijava, mordia e chupava ora seus seios, ora seus ombros, ora seu pescoço. E ela soube que tinha encontrado o que sempre tinha faltado em sua vida. Era assustador, mas não menos excitante por isso.
— Por que você ainda está vestida? — Ela conseguiu perguntar a null, abrindo os olhos por um momento e notando a discrepância entre elas.
— Porque não é você quem manda aqui.
Com isso, as mãos de null abriram o sutiã da outra com experiência e destreza. Mal a peça tinha saído de seu corpo, as mãos da outra logo seguraram seus seios, massageando-os com delicadeza.
— O que você quer? — Os olhos negros de null estavam cravados na mulher à sua frente. null se calou.
— Eu… — Um de seus mamilos foi apertado entre o indicador e o polegar da morena. Ela suspirou. — Eu não sei.
— Não sabe o que quer? — null parecia se divertir com a situação, em ter o controle da situação.
Normalmente, era null quem sempre queria estar no controle. Ela planejava tudo com antecedência e tinha bastante dificuldade em aceitar as coisas passivamente. Se ela não estivesse no controle, então nada dava certo. Era assim que pensava. E apesar de seu primeiro impulso ser justamente o de dominar, controlar, ela estava feliz que null estava exercendo esse papel. Ela queria se entregar sem pensar, ao menos uma vez.
— Eu não vou escolher por você. — null continuou. Ela beijou o seio, a língua passeou pela pele e rodeou o mamilo, que enrijeceu-se imediatamente com o toque.
— Quero transar com você. — A voz firme de null chamou a atenção da outra, que sorriu. Sorriu e capturou o mamilo ereto entre os lábios, chupando-o por um momento.
null já não queria saber se estavam em um local público. Ela já não se importava com o atraso de seu voo e nem com o que ocorrera entre as duas, no passado. Ela fora até ali para ter um encerramento, para acabar com as mágoas passadas. E ela faria exatamente aquilo. Substituiria as coisas ruins da noite passada com momentos prazerosos da tarde atual.
— É a sua primeira vez? — null puxou o suéter cinzento por cima da cabeça, livrando-se dele facilmente. Viu null um tanto exasperada, mas logo concordou, entendendo que null se referia à sua primeira vez com mulheres. — Isso vai ser interessante.
Ela deu a mão a null, fazendo com que ela descesse da pia e pressionando-a contra a parede. As duas se beijaram ardentemente. A calcinha molhada de null era o indício perfeito que null procurava, a prova cabal de que elas eram iguais, de alguma forma. null beijou o pescoço dela, desceu a boca por sua pele, enfiou a mão pela calcinha, tocando a intimidade molhada. null null estava molhada por ela.
O gemido que escapou dos lábios inchados de null a assustou. Ela nunca tinha soado tão sensual, mas também tão necessitada de alguma coisa. Os dedos de null entravam e saíam dela, o som lúbrico a enlouquecendo ainda mais. Ela também queria tocar null. Também queria sentir o corpo dela. null tomou os seios da outra nas mãos, os apertou, massageou, provocou os mamilos com os dedos, satisfazendo-se ao arrancar um grunhido de null, ao vê-la parar por um momento e encará-la.
Mas null a puxou pelos cabelos, tomando os lábios dela em um beijo sem nenhuma delicadeza. null desceu as mãos pelas costas esguias de null, tocou a bunda dela, enfiou a mão pela calça jeans e sentiu a carne dela entre seus dedos.
— Eu quero tocar você. — Aquilo soou mais como uma súplica do que como uma constatação e até mesmo null se surpreendeu.
null anuiu e, com a ajuda dela, livrou-se da calça jeans. A calcinha preta, sem rendas, sem o design sofisticado como a lingerie de null, não importava. null afastou-a para o lado, a ponta do dedo tocando o clitóris sensível, molhado, sentindo-se extasiada ao ver a expressão lasciva no rosto da morena, que devia espelhar a própria. As duas se tocaram enquanto olhavam uma nos olhos da outra. O orgasmo de null veio primeiro e ela sentiu todo o corpo tremer. Os dedos de null estavam fundos, dentro dela, a palma da mão roçava contra o seu clitóris e a fazia gemer. null não parou nem por um segundo, sentindo os músculos internos da loira apertarem seus dedos, ouvindo os gemidos dela pedindo para que não parasse. E então foi a sua vez. Quando null passou a acariciá-la, a beijar seu pescoço, a pedir que ela gozasse em seus dedos para que ela pudesse provar… Era demais para null resistir.
Ela gozou intensamente, sentindo as lágrimas nos olhos enquanto o prazer parecia despedaçá-la por dentro. Ela explodia de dentro para fora. Sentia a pele arrepiada, os joelhos tremerem, o sangue latejar em seus ouvidos. Ofegantes, se entreolharam e sorriram. null olhou os dedos melados, levando-os à boca, provando o gosto de null que ainda estava ali. E null se sentiu excitada, ainda mais.
Ela não ficou surpresa quando null a fez se sentar na pia novamente. Seu corpo ainda estava mole do orgasmo que acabara de ter, mas ela ainda queria mais. Queria mais e mais agora que sabia que ela sempre tinha buscado nos seus parceiros, todos homens, o que só uma mulher podia dar a ela. Ela gostava mais do toque da pele macia de null do que dos músculos de seu ex-marido. Gostava mais do gosto da boca de null. Gostava mais do toque de null. E, imitando a morena, ao provar o sabor de null, ela sabia que gostava mais dele do que do sabor de seu marido.
— Eu sou lésbica. — Ela disse, fazendo null olhá-la com um sorriso sacana no rosto. — Eu não acredito que nunca percebi.
— Bem vinda ao time.
O voo de volta para Nova York seria longo e torturante, null pensou enquanto a língua se deleitava na intimidade da loira. Em meses divorciada, ela ainda não tinha encontrado uma parceira que a instigasse tanto quanto null. Talvez porque, para a loira, tudo era novidade. Ela gemia alto quando a língua de null se movia contra o clitóris, ela se surpreendia com o modo como mulheres não precisavam dar um tempo para engajar uma nova rodada de sexo. Para ela, tudo aquilo era novo e maravilhoso.
null tinha achado o que faltava em sua vida. null tinha feito as pazes com seu passado. As duas passaram as quatro horas de seu voo conversando e pondo tudo em pratos limpos. E, quando conversar não era o suficiente, enfiavam-se no banheiro minúsculo do avião. Elas foram realmente criativas para aproveitar o espaço ali dentro. E, com as duas morando em Nova York, não era errado supor que aquela não seria a única vez em que se encontrariam. Afinal de contas, null precisaria de apoio de uma mulher mais experiente quando decidisse contar a verdade à sua família. E null estaria lá para ela, com certeza. Assim como, com toda certeza do mundo, null sabia que null sempre estaria ao seu lado também, não só pela amizade recém-reconstruída como também pelo sexo maravilhoso que sempre faziam.
Quando o convite para o reencontro da classe de 2007 do Kingston High chegou, null cogitou não ir. Sempre tinha sido deslocada, a que não se encaixava em nenhuma das panelinhas do colégio. Ela não era talentosa o suficiente para o clube de artes, não era tão bonita para ser popular, não era particularmente boa em esportes e, para completar a lista de seus pecados adolescentes, eles sabiam que ela era diferente.
As pessoas notaram que null era diferente antes que ela mesma percebesse. Sua mãe sempre a tratou com mais delicadeza, sua irmã sempre a considerou estranha e todo a população de Bar Harbor parecia notar que algo nela era fora de sua querida – e hipócrita – normalidade. E, aos quinze anos, null confirmou o que todo mundo sabia que aconteceria, uma hora ou outra: ela era lésbica.
Não que fosse anormal por isso, muito pelo contrário. Custou, mas a sua mãe acabou aceitando que a sua filhinha não queria namorar garotos. Sua irmã deu de ombros, Jocelyn tinha descoberto antes de todo mundo o segredo de sua irmã. E Jocelyn não se importava se a sua irmã caçula beijava garotos ou garotas, contanto que a deixasse em paz. Mas, fora de sua casa, a realidade era bastante diferente.
Kingston High não era moderno o bastante para deixar que seus alunos fossem eles mesmos. Também não ajudava que a diretora do colégio fosse a mulher do pastor da cidade. null era reprimida o bastante dentro da escola, temendo, é claro, que a sua sexualidade fosse rechaçada. E seus temores não eram, ao todo, infundados.
Adolescentes farejam fraqueza como um tubarão sente o sangue na água. A reservada, sempre quieta e tímida null era, como já é de se imaginar, um alvo em cheio para aqueles que apenas conseguiam se sentir bem ao colocar os outros para baixo. Mas estava longe de ser a única homossexual da escola, disso ela sabia bem. Não era possível que todos aqueles adolescentes fossem heterossexuais. Ao menos alguma outra pessoa do colégio devia ser como ela.
Mas, na época, null não conseguia saber. Ela não conhecia outras lésbicas assumidas, a não ser que contasse suas amigas virtuais, onde conversavam através de um fórum sobre os problemas de suas vidas. Ela não conhecia nenhum outro rapaz gay que não fosse o seu melhor amigo. E, para dizer a verdade, ele era bem fácil de notar. null nunca foi muito discreto sobre a sua sexualidade, ao contrário dela.
E, entre a multidão de alunos do último ano, a classe de 2007, havia diversas outras pessoas que contribuiriam para a falta de vontade que sentia de atender à reunião: Paul, seu ex-namorado, o cara com quem ela se forçou a ficar porque achou que poderia esconder quem era; null, sua ex-melhor amiga superpopular, que se tornou sua pior inimiga durante o ensino médio; Jake, o jock babaca que a atormentava todos os dias; Kelly, a capitã do time de corrida que fazia, também, questão de atormentá-la; entre tantos outros que fizeram do seu ensino médio um verdadeiro inferno.
null sobreviveu. Ela frequentou uma boa faculdade, formou-se, arrumou um bom trabalho e pagava a hipoteca de um bom apartamento, que ela dividia com sua melhor amiga da faculdade em Nova York. Ela não deveria se sentir tão insegura agora. Sua personalidade tímida conseguiu se adaptar na faculdade. Ela conseguiu ser quem ela realmente era, namorou (mulheres, dessa vez, com quem ela realmente queria estar), fez amigos, frequentou festas e viveu de verdade. null não mudou da água para o vinho, mas aprendeu a se impor e a não se sentir inferior por ser diferente do que o pastor e sua esposa tinham ensinado como certo durante toda a sua vida. Ela não tinha mais medo daquelas pessoas. E ela sentia muita falta de null. Queria saber tudo sobre ele, o que ele tinha feito, se ele ainda morava em Bar Harbor. Por isso que, quando o convite chegou, null discutiu o assunto com null e ambas concordaram que não só ela deveria atender à reunião, como também mostrar que, apesar de todos aqueles idiotas, ela tinha conseguido se erguer. E, ainda segundo null, null precisava de algum tipo de encerramento para aquela época de sua vida. null não queria discutir com a psicóloga. Ela precisava mesmo disso.
null desligou o telefone, bufou de maneira nada condizente com a sua roupa cara e as botas de salto fino e se jogou na poltrona, do outro lado do saguão. null ergueu os olhos para ela por um breve segundo, constatando que esta a lançava um olhar fulminante, antes de voltar à sua pesquisa no Google.
null se perguntava como tinha se enfiado naquela situação: presa em um aeroporto com a pessoa que mais a odiava em todo o Maine. E, o pior: não sabia quando a situação se resolveria.
Sempre nevava no Maine. Dizer que os invernos do Maine eram frios era o eufemismo do século. Era um inferno congelado, todo pintado de branco dos vários centímetros de neve lá fora. A nevasca, que caíra há duas horas, atrasou cerca de doze voos e as pessoas se amontoavam nos saguões, esperando a nevasca passar. Não havia como deixar o aeroporto, não havia como embarcar em seu avião, pegar a estrada com aquele tempo e, certamente, não havia como deixar de notar o quanto null parecia incomodada com a situação.
null estava incomodada com o olhar dela, foi só assim que notou que null a olhava: porque seu encarar contínuo parecia furar a sua pele. null desviou o olhar assim que null percebeu que esta a observava, puxando sua mala de marca contra os joelhos. E, rolando os olhos, null respondeu a mensagem de null que pipocou na tela do celular.
null diz:
Que merda! Eles já deram uma previsão de quando você pode voltar?
Quando null respondeu que não, recebeu uma série de carinhas furiosas como reação da melhor amiga. Ela se levantou, indo buscar um café e novamente sentiu-se incomodada, observada. Dessa vez, no entanto, null não olhou para trás para confirmar o que já sabia: que era null que a observava com tanta animosidade, já que ninguém mais, naquele aeroporto, teria motivo para isso. null entendia, a reunião de ex-alunos tinha sido bastante desconfortável para as duas. E, depois do que aconteceu, como culpá-la?
20 horas atrás
Às sete e meia, com meia hora de atraso deliberado, null adentrou as portas que levavam à quadra de Kingston High. O local tinha sido enfeitado com faixas com as cores da escola, o ano da turma que ali estava e alguns banners ainda traziam algumas fotos do anuário. Desnecessário dizer que null não estava em nenhuma daquelas fotos. Ela não era fotogênica e ninguém a achava interessante o suficiente para colocá-la no anuário.
— null null! — null soltou um gritinho, abraçando-a com força e a erguendo vários centímetros.
null era alto e musculoso, definitivamente o tipo de cara que ninguém gostaria de encarar. Ele a ergueu com facilidade, abraçando-a com força. null tinha a sensação de que ele poderia quebrar suas costelas facilmente, se quisesse.
Ele, ao contrário dela, nunca tinha sido muito adepto de esconder a sua sexualidade. Que deus a perdoasse por confirmar qualquer estereótipo, mas null era mais feminino que ela, falava de modo afetado e era, possivelmente, o homem mais gay daquele lado do país. E seus pais, que seguiam religiosamente os princípios hippies com os quais foram criados, apenas queriam que seu filho fosse feliz. Neste ponto, null não podia reclamar de sua mãe. Ela a tinha aceitado, também, mas ouvira as mais cabulosas histórias de outras meninas lésbicas, no fórum que frequentava quando era jovem, e também ouvira outras no decorrer dos anos. Nem todos eram tão sortudos quanto null e null.
— null! — Ela sorriu quando ele a colocou no chão. Alguns ex-alunos os olharam, mas ambos estavam imersos em sua conversa para notar. — Você está ótimo!
— E você está… Tão feminina. — Ele parecia desapontado, o que a fez rir.
— Raspei o cabelo no segundo ano da faculdade, mas digamos que não combinou comigo. — null passou a mão pelos cabelos, bem penteados e brilhosos para combinar com o clima mais formal que a situação exigia.
— Você tem fotos? Quero julgar isso com meus próprios olhos. — null riu.
Mas bastou um olhar ao redor e reconhecer grande parte daqueles rostos para que ela se calasse e sua boca ficasse seca. Ali estava grande parte das pessoas que causaram toda a sua insegurança apenas por ser quem era, toda a sua ansiedade, os problemas em se aceitar. Ela sofreu e fez Paul sofrer com ela, ela o fez acreditar que era outra pessoa. E ela se sentia culpada.
Não que não tivesse amado Paul, a seu modo. Ele tinha sido seu único relacionamento heterossexual, tinha sido um grande amigo e ela o amava dessa forma. Ela não se sentia atraída por Paul, ela não conseguia sentir desejo quando ele a beijava, não como ela sentia quando assistia Malena na televisão, escondida da mãe, e achava Monica Bellucci a mulher mais bonita do mundo. Depois, null assistiu Gia e também se encantou por Angelina Jolie. Ela assistiu outros filmes, onde mulheres assumiam suas sexualidades, desde comédias românticas como Imagine Eu e Você até o divisor de águas que foi The L Word, que ela sempre assistia escondido por causa das cenas de sexo. Piper Perabo, aliás, ocupava sua mente desde o desastrosamente ruim, mas deliciosamente fácil de assistir, Coyote Ugly.
— Apagadas permanentemente. — null rolou os olhos para cima dramaticamente, fazendo um gesto de descaso com a mão esquerda. E null percebeu, então, o brilho dourado de uma aliança. — Você se casou!
A surpresa a fez sorrir e abraçá-lo novamente. null teve a dignidade de corar, dando de ombros como se não fosse algo importante.
Mas era, para os dois. Depois do casamento gay ter sido legalizado em 2015, null se sentiu estranhamente vitoriosa. Ela podia se casar em qualquer estado nos Estados Unidos. Ela podia escolher quem amar, com quem queria passar o resto da vida. No entanto, ela ainda não tinha achado essa pessoa. E, de alguma forma, sentiu um pouco de ciúmes por null ter achado.
— Foi no ano passado. Você está atrasada com as felicitações, mas ainda aceito um bom presente de casamento.
Os dois conversaram sobre como null conheceu e se apaixonou por Jim, que, na época, não era assumido para a sua família. null ouviu atentamente, enquanto bebia um ou outro copo de ponche “mágico”, enquanto seu melhor amigo da época da escola falava sobre as dificuldades de seu relacionamento.
— Então, depois de namorarmos por um ano e ele me apresentar como amigo para a mãe dele, fiz o que qualquer homem gay com um pouco de orgulho faria: terminei com ele. E chorei bebendo chardonnay. — Ela riu. — Imagine o meu espanto quando ele bate na minha porta, duas semanas depois, e me conta que se assumiu para a família? E então ele tirou um anel do bolso e eu lacrimejei.
— Imagino que você esteja bastante satisfeito consigo mesmo por não ter seguido as regras de relacionamento da Cosmo. — null soltou um suspiro.
— Como eu lia aquilo? — Ele riu. — De qualquer forma, aqui estamos. E você? Alguém especial na sua vida?
null deu de ombros, aproveitando para beber um gole de ponche, que estava muito melhor do que ela se lembrava na adolescência, e, assim, estendendo seu tempo de resposta.
— Eu tinha alguém. Nós terminamos no meio do ano passado.
— Ah, meu bem, sinto muito.
— Eu não estou mais chateada. Vida que segue e etc. — null disse, tentando parecer confiante, muito embora ela tivesse chorado por Karen pelo menos três vezes nos últimos dois meses, quando ficava bêbada e decidia que stalkear o Facebook de sua ex era uma boa ideia.
Bem, nunca era uma boa ideia. Pelo menos, agora, null resistia à vontade de ver as fotos de Karen e sua nova namorada em qualquer viagem exótica que null tinha programado com a ex. Não valia a pena se torturar por alguém que claramente já tinha seguido com a sua vida.
— Sei. — null tirou um cantil metálico do bolso e despejou uma boa quantidade de álcool no ponche de frutas em sua mão. — Ela que se deu mal.
Foi quando a comoção tornou-se mais alta que tanto null quanto null viraram-se a tempo de testemunhar null null adentrar a festividade.
— null vadia null na área. — null recitou, ganhando um olhar feio de null. — Isso foi tão politicamente incorreto, não foi? Desculpe, eu só… Ela está usando um Valentino no Maine? Vadia esnobe.
Foi a vez de null rolar os olhos, negando-se a entrar no jogo dele. null desgostava de null desde sempre, praticamente. Mesmo quando null e null eram amigas, antes de null se tornar a cheerleader linda e popular e virar o clichê dos filmes americanos sobre a patricinha esnobe. Mas, antes, quando as duas tinham apenas doze anos e muito tempo livre, elas tinham sido melhores amigas.
Nem houve uma briga ou um ponto definitivo que null poderia apontar como algo sem remédio. O afastamento foi gradual, com null a trocando pelos novos amigos populares e a mudança de interesses das duas. Elas deixaram de assistir Charmed juntas, de fazer a lição juntas, de conversar. null parou de procurá-la e null pareceu aliviada com isso. Depois, quando seus novos amigos atormentavam null, null jamais fez nada para parar. E, para a surpresa de null, null até mesmo passou a humilhá-la com coisas de seu passado, em público, o que acabou com qualquer bom sentimento que ainda restasse entre elas.
Pensando bem, talvez null soubesse exatamente onde foi o rompimento entre as duas, mas não gostava de pensar nisso.
null era bem querida, continuava linda, sempre tinha sido inteligente. Ela apostava que tinha virado advogada ou qualquer outra coisa parecida. null poderia ser a nova Elle Woods, até. Ela certamente se parecia com a advogada da ficção. As duas se entreolharam por um segundo, mas null logo se virou e não deu nenhuma mostra de tê-la visto. null, por sua vez, apenas bebeu.
null a apresentou a Jim e os três conversaram longamente sobre a carreira de null como redatora de uma revista de economia. Não era o emprego mais fabuloso ou glamouroso do mundo, mas null amava o que fazia. E seu trabalho pagava suas contas e as despesas veterinárias de seu cachorro, um vira-lata que tinha adotado em uma feira de animais de rua, Simba. Jim falou sobre seu escritório de contabilidade e null os impressionou listando as celebridades que ele já tinha visto trabalhando como comissário de bordo.
A festa não parecia ruim. Tirando alguns outros deslocados que, como eles, tinham passado o ensino médio se escondendo e vieram conversar em termos amigáveis, null não viu nenhum outro de seus carrascos por ali. Ela não viu Kelly e nem Jake, muito menos Paul. Na primeira hora de festa, null teve a impressão de que nada daria errado.
Até, é claro, a culpa a corroer assim que Paul apareceu em seu campo de visão. Paul nunca tinha sido muito bonito, tinha até melhorado com os anos. Ele ainda usava óculos, mas seu senso de moda parecia ter melhorado. Ele parecia incerto sobre falar com ela ou não. E null estava ainda mais incerta sobre falar com ele.
— Ah, seu ex-namorado. — null comentou de maneira displicente. — É tão estranho falar isso.
— Como se você nunca tivesse beijado uma garota antes. — null rebateu em um leve tom de provocação, o que fez null se fingir de ofendido.
— Uma vez, sabichona. E porque Trevor King me desafiou, eu detesto ser desafiado.
— Acho que não te conheço mais, null. — Seu marido brincou, o que o fez rir.
— Cale a boca, você fingiu que era hétero por mais de vinte anos.
null observou Paul, de longe, até que ele resolveu se aproximar. Sorriu, sem jeito, e ela apertou sua mão, igualmente desconfortável.
— null, é um prazer vê-la de novo. — Paul disse e, por trás dele, null apontou a mesa de drinques e se ausentou com Jim a tiracolo.
— É ótimo ver você também, Paul. — Ela deu outro gole no ponche. Que o álcool a ajudasse.
Os dois ficaram em silêncio por vários segundos. Paul parecia buscar algo para lhe dizer, mas ela acabou tomando a dianteira. Bem que null lhe disse que ela precisava de um encerramento.
— Escuta… Eu sinto muito. Pelo ensino médio e por ter te usado para… Fingir que eu era uma garota hétero. — Paul deu de ombros. — É sério. Eu não achei que você gostasse tanto de mim.
— Isso tem muito tempo. — Paul disse de maneira séria. — Você não tem que se preocupar.
— Que bom.
— Claro que eu tive alguns problemas de autoestima depois disso… Mas não foi só culpa sua. — Ele acabou sorrindo.
— Isso foi uma piada? — O sorriso dele murchou e foi a vez de null rir.
— Você nunca entendeu o meu senso de humor.
— Desculpa. — Paul murmurou um “tudo bem” meio cabisbaixo e logo se despediu dela.
A festa seguia apesar de seus encontros meio estranhos. Ela fez questão de encher o marido de null com memórias vergonhosas da adolescência dos dois, o que rendeu ao casal umas boas risadas. As pessoas voltavam no tempo, relembrando épocas mais fáceis – ao menos para alguns – e se regozijavam em se gabar de como haviam mudado desde os tempos escolares. Trevor, o delinquente da turma, acabou por se tornar policial. Outras pessoas permaneciam em Bar Harbor, lecionando na escola onde tinham estudado. Algumas se casaram, outros tiveram filhos, outros nem mesmo tinham algo para se gabar. null ouvia alguns trechos de conversa aqui e ali enquanto buscava bebidas ou aperitivos.
E foi numa dessas viagens para buscar bebida, já ligeiramente alcoolizada com o cantil de gim que null carregava, que ela esbarrou em null null. As duas foram forçadas a reconhecer a presença uma da outra, por força da falta de atenção da redatora. A bebida que ela carregava derramou-se na pantalona preta que usava e ela sentia o tecido molhado grudar contra a sua coxa. O silêncio se instalou por pouco tempo, já que null reconhecia que tinha sido sua culpa, apesar de ter levado a pior nesse encontro. Como, aliás, tinha sido durante toda a vida, ao menos quando as coisas eram sobre null.
— Sinto muito, null. — Disse brevemente, logo descendo o olhar para analisar o estrago feito em sua roupa.
null ficou muda por um instante, olhando seu vestido Valentino de seda, procurando por alguma mancha. Quando constatou que não tinha nenhuma, null lentamente ergueu o olhar, analisando cada centímetro da pouca altura de null. null sentiu-se intimidada, como antes, mas algo também a deixou – e ela se sentia culpada por isso – um pouco excitada.
— Está tudo bem. — null falou-lhe, o tom desdenhoso e gelado acordando null para a dura realidade de que sua paixonite por null null jamais tinha passado. — null, não é?
Mas null sabia muito bem quem ela era. Lembrava-se perfeitamente dos anos de amizade e dos posteriores anos de inimizade e fria indiferença. Disfarçar suas emoções com a sua usual máscara de desdém tinha se tornado algo corriqueiro com o passar dos anos. Era fácil fingir. Ela tinha um MBA e quase um doutorado em fingir.
null null fingiu durante cinco anos de casamento que tudo estava bem, mesmo quando seu marido acabou deixando-a pela secretária. Ah, ele tinha sido tão clichê. Ela se sentiu mais ofendida pela falta de criatividade de Karl do que pela traição. Felizmente, não tiveram filhos. Ela não sabia como poderia se tornar uma mãe divorciada. Isso nunca fez parte dos seus planos e null era uma mulher que adorava planejar.
— Acho que você se lembra de mim, null. — O tom de null tampouco foi caloroso. Ela estava farta dos joguinhos. Uma coisa era o ensino médio, mas perpetuar aquela rivalidade era extremamente vergonhoso para duas mulheres de quase trinta anos.
As duas se encararam em silêncio, agora. null torceu os lábios, um claro sinal de sua indignação, mas acabou rindo e dando de ombros, saindo de perto dela em seguida. null ainda ficou parada por alguns segundos, esperando algo de ruim acontecer, como sempre acontecia quando ela enfrentava null, mas nada ocorreu. Foi quando null se lembrou de que elas não estavam mais no colégio e que null não podia intimidá-la mais.
As duas mantiveram-se afastadas pelo resto da noite e tudo caminhava bem. null com seus amigos, null com os dela. Para mulheres como null e null, certas coisas deveriam ser ocultadas.
Nem null e nem null contavam a verdade quando as perguntavam sobre seu primeiro beijo. null dizia que Jake Mathews tinha beijado-a pela primeira vez depois da aula de Álgebra, no primeiro ano, quando ela tinha planejado ficar a sós com ele com muito cuidado e dado todas as dicas sobre o quanto ela queria que ele a beijasse. null dizia que seu primeiro beijo tinha sido com Paul, no segundo encontro deles, quando ele a pediu em namoro e ela disse sim, mesmo sabendo que não sentia por ele atração ou afeto suficientes para manterem um relacionamento.
Nenhuma das duas mencionava o incidente que, aos doze anos, as levou a se beijarem. O primeiro beijo de null e de null tinha sido compartilhado no acampamento de verão. As duas tinham pegado dois dos monitores se beijando e posteriormente elas se puseram a conversar sobre beijos.
16 anos atrás
— A minha mãe sempre diz que devemos beijar apenas a pessoa que nós gostamos. — null respondeu quando null a perguntou como seria o seu primeiro beijo ideal.
— Isso não responde a minha pergunta. — null rolou os olhos e soltou um risinho. — O meu primeiro beijo ideal seria com Jake Mathews. Ele é tão… — Ela soltou um gritinho e escondeu o rosto ruborizado nas mãos, o que fez null rir.
— Jake é bonito, eu acho.
null insistiu:
— Vamos lá, primeiro beijo ideal: quem seria? — null deu de ombros. — Você não gosta de ninguém?
— Acho que não.
Não era verdade. null apenas não gostava de dizer que talvez não gostasse de garotos como deveria. Ela gostava da companhia deles. Deus, ela amava null com todas as suas forças, mas não era aquele tipo de amor. Era fraternal. null apenas começava a entender que, talvez, nem todas as garotas estavam destinadas a amar garotos. Então, porque isso causaria um escândalo, ela preferia ficar quieta sempre que as meninas ao seu redor começavam a falar desse ou aquele garoto.
— Caleb é bonito. — Ela acabou dizendo, atraindo a atenção de null.
— Caleb do segundo ano? Bom gosto! — null sorriu e null entendeu que fingir era mais fácil do que dizer a verdade.
As duas se puseram a comentar sobre garotos. Na verdade, null comentava mais, null apenas concordava vez ou outra, levando o assunto adiante. A verdade é que null achava null muito mais bonita do que todos os rapazes do mundo. Na época, null e null passavam pela estranha fase da adolescência onde garotas começam a se parecer menos com crianças, mas ainda eram jovens o bastante para se parecerem com jovens mulheres. Aquela fase esquisita e desengonçada não era o suficiente para convencer null de que null não era absolutamente linda.
Ela adorava ouvir null falar, o modo como os olhos dela brilhavam e as caretas que ela fazia quando contava uma piada. Ombro a ombro, as duas conversavam baixo, lembrando-se do beijo entre os monitores.
— Como você acha que é? — null perguntou, de repente, referindo-se, é claro, a beijar alguém.
— Eu não sei. Deve ser bom, mas também parece…
— Meio estranho? — null anuiu, concordando com a amiga. — Eu só sei que mal posso esperar para beijar alguém.
null queria beijá-la, a despeito da curiosidade. Sabia que, no fundo, o que sentia por null ia além da amizade normal entre duas garotas. null sentiu o coração se acelerar e ela respirou fundo, tomando coragem para sugerir que, talvez, as duas pudessem se beijar, apenas para saber como é.
— Você quer me beijar? — Mas foi null quem sugeriu primeiro e null sentiu que, agora, seu coração estava prestes a explodir.
— Beijar você? — Fez-se de inocente, como se a ideia não tivesse passado por sua mente.
— É. Minha prima fazia isso o tempo todo com a amiga dela. Elas treinavam para quando fossem beijar alguém de verdade.
Apesar de falar sobre o beijo casualmente e bastante desembaraçada, as maçãs do rosto de null estavam ligeiramente coradas.
— E o que você sabe sobre beijar? — null a provocou um pouco, fazendo a outra rir.
— Tudo o que eu li na Teen Cosmo.
As duas riram e concordaram. O que era um beijo entre melhores amigas? Não significaria nada, elas prometeram, e aproximaram os rostos, olhando nos olhos da outra. null sentiu o hálito morno de null bater em seus lábios e ela jurava que nunca seu coração bateu tão forte.
— Nós fechamos os olhos e encostamos os lábios. — null sussurrou.
O ar na cabana estava tenso. As duas estavam nervosas, embora não quisessem transparecer. Os lábios se tocaram com delicadeza. Ficaram daquela forma por vários segundos, até que finalmente se afastaram. null a olhou com as bochechas rubras e pigarreou.
— Foi bom.
— Foi, sim.
Ela voltaram a se beijar, o selinho era casto. Não havia nada demais nisso. Beijaram-se daquela forma diversas vezes até que null questionou:
— Acha que devemos tentar beijo com língua? — null pareceu pensar por alguns segundos.
— Acho que poderia ser legal. Quer dizer, se você quiser…
— Quero. — null tentou não demonstrar o quanto ela queria aquilo, mas seu tom de voz tinha revelado uma pontinha de ansiedade. null sorriu.
— Tudo bem.
Dessa vez, as duas aproximaram-se com os lábios entreabertos. Em um primeiro momento, as línguas se tocaram de forma desengonçada. null achou muitíssimo estranho ter a língua de outra pessoa na sua boca, era molhado e quase alienígena, mas, eventualmente, as duas deram seu jeito. null inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, como via nos filmes, e null logo passou a achar aquele tipo de beijo incrível. Quando afastaram-se, as duas estavam coradas, os lábios formigando e avermelhados, a respiração um pouco descompassada.
— Uau. — Foi tudo o que null conseguiu dizer.
— Caleb teria sorte de beijar você. — null brincou, apenas para inclinar-se na direção de null novamente e iniciar um novo beijo.
19 horas atrás
— Eu vi você e a Barbie Vadia se falando. Está tudo bem? — null perguntou assim que null juntou-se a eles de novo.
null demorou alguns segundos para responder, recuperando-se das memórias que null tinha despertado. Não das ruins, de quando ela era uma idiota com ela no ensino médio, mas do primeiro beijo das duas e de como elas continuaram se beijando por algum tempo, ainda sob a desculpa de “treinar” para beijos reais, embora as duas tivessem ficado muito boas em beijar naquele meio tempo.
null encarou null e deu de ombros, bebendo e tentando não dizer nada que a fizesse se arrepender depois.
— Eu não sei como vocês já foram amigas… — Ele suspirou dramaticamente.
— Ela era doce. Você se lembra.
— Hm, não. Eu me lembro de null sendo uma mini-vadia com todo mundo, exceto com você.
— Aí está a sua resposta. — null disse ironicamente, os olhos procurando null por um momento.
— Você era apaixonada por ela, não era? — null acertou em cheio e null o encarou com seriedade.
— Isso de novo?
— É bastante óbvio, na minha opinião. — null apenas se interrompeu por um momento para beijar seu marido quando este chegou. — Qual é, isso é normal, null. Eu mesmo tive uma queda enorme pelo capitão do time de futebol.
null suspirou, desanimada. Não queria falar sobre como a sua queda por null durou o ensino médio inteiro, praticamente.
— Talvez eu tenha tido uma queda pela null.
— Talvez? Deus perdoe a sua alma mentirosa, null. — Ela fez uma careta para ele quando ouviu seu nome em vez do apelido.
Mais tarde, quando foi ao banheiro depois de uma quantidade exorbitante de ponche, null se surpreendeu ao ver que sua única companhia era null. E se surpreendeu mais ainda quando null se virou para ela, surpresa estampando os olhos azuis e brilhantes de lágrimas.
A situação era tão estapafúrdia que, por um mísero segundo, null achou que talvez null tivesse colocado mais que álcool no seu ponche. Quando null gritou para que ela saísse dali, no entanto, null percebeu que tudo aquilo era bem real.
— Na verdade, eu realmente preciso ir ao banheiro. — null bufou, limpando cuidadosamente os olhos para não borrar a maquiagem.
— E o que está esperando? Vá logo e saia daqui.
null hesitou. null costumava dizer que ela era quase “patologicamente gentil” e que isso algum dia a destruiria. Mesmo assim, null simplesmente não podia deixar uma mulher sozinha e chorando no banheiro. Ela olhou para o reservado do banheiro e de volta para null, respirando fundo quando notou que faria exatamente o que sempre a metia em encrenca.
— Alguma coisa errada?
null a olhou com descrença por um momento, fungando delicadamente enquanto analisava os danos em sua maquiagem. Ela não ia contar para null que estava chorando de ódio porque seu marido estava realmente disposto a pegar de volta a casa dos Hamptons que ela tinha pedido no divórcio.
— Nada que te interesse. — Ela disse sem nem olhar para a mulher que queria ajudá-la.
— Você é quem sabe. — null deu de ombros e entrou no reservado.
Quando saiu, ela viu que null refazia sua maquiagem como se nada tivesse acontecido. E seguindo a deixa dela, null pôs-se a lavar as mãos sem insistir no assunto. null pigarreou elegantemente, fechando seu batom com um clique suave.
— Não conte nada a ninguém.
E, em seguida, ela saiu do banheiro.
Atualmente
null null parecia absurdamente desconfortável em estar presa na mesma sala que null null. Ela não acreditava que de todas as pessoas que podiam ter entrado naquele banheiro, justamente ela tinha flagrado seu momento de fraqueza. E, agora, aparentemente as duas estavam no mesmo voo para Nova York. Ela se perguntavam porque null tinha escolhido Nova York. O pensamento de morar no mesmo estado que null a tirava do sério.
Fixou seus olhos em null. Sabia que ela era lésbica. null sempre soube. E null também sabia que por mais que ela negasse, em dezesseis anos ainda não tinha achado outra pessoa que a tivesse beijado tão bem quanto quando null “treinou” nela.
E isso tinha sido dezesseis anos atrás. Ela imaginava que null tinha ficado muito melhor nesse departamento com os anos.
Pensar em tudo isso era a exata razão de null ter tanta animosidade em relação a ela: null jamais saía de sua mente. E isso era inaceitável. null namorava homens, fazia sexo com homens, se envolvia sempre com homens e homens apenas. Ela não era lésbica. Ela era apenas curiosa. null tinha sido a primeira e única garota que ela tinha beijado. Era natural que não a tirasse da cabeça, não? Era o que ela dizia a si mesma, de qualquer forma.
null, no entanto, não fazia ideia do que se passava na bela cabecinha de null. Ela apenas queria voltar para Nova York e contar a null tudo o que tinha acontecido naquela noite idiota. Ela estava com dor de cabeça, a ressaca era sua melhor amiga desde os vinte e cinco anos, quando notou que já não bebia como antes. Ela bocejou e checou o grande relógio do aeroporto, levantando-se do assento e indo em direção ao banheiro.
Lá, ela molhou o rosto, a água gelada a deixou mais desperta e alerta. Levantando a cabeça da pia, ela secou o rosto com uma toalha de papel a tempo de ver null entrar no banheiro. null riu com a ironia da situação. Era a segunda vez em menos de vinte e quatro horas que as duas se encontravam em um banheiro.
— Ressaca? — null perguntou, postando-se ao lado dela e ajeitando os cachos loiros de cabelos com as mãos.
— É assim tão óbvio?
— Está escrito na sua testa.
O silêncio tomou conta enquanto null secava as mãos, agora, analisando pelo espelho o que null poderia querer com ela.
— Eu não disse a ninguém. — null anunciou, jogando a toalha de papel no cesto de lixo. — Sobre o que aconteceu na festa.
— E para quem você diria? Seu único amigo é o null. — O tom desdenhoso fez null se irritar um pouco, mas ela apenas manteve a calma.
— Eu estava tão errada sobre você… — null riu depreciativamente. — Eu achei que você apenas queria se encaixar com os populares, lá no ensino médio, quando você era uma babaca comigo. Só que nós crescemos, saímos da escola e você ainda é uma valentona babaca.
null parou de mexer no cabelo e se virou lentamente para olhar null que, corada e bufando, parecia descarregar nela toda a mágoa guardada no peito durante todos esses anos.
— E eu costumava desculpá-la porque eu tinha tantas memórias boas da nossa infância, mas você apenas se tornou podre e insegura o suficiente para só se sentir bem quando coloca outras pessoas para baixo. — null parou e respirou. — O que eu te fiz? O que eu te fiz de tão grave que você dedicou a sua vida a fazer da minha um inferno?
null não se intimidou com o tom exaltado de null e tampouco se envergonhou quando duas mulheres desistiram de usar o banheiro por causa da briga lá dentro. Ela era gerente financeira de uma multinacional, não se intimidava com muita coisa. null deu de ombros.
— Não sei bem.
— Mentira!
null sorriu como uma predadora. Ela deu de ombros e deu à sua voz o tom mais doce que conseguia.
— Você já imaginou que talvez eu não gostasse de você porque eu tinha uma queda por você e não queria ter?
O choque que perpassou o rosto de null foi o suficiente para fazer null se divertir com a situação. null jamais tinha pensado que null gostava de mulheres. Ela nem ao menos tinha motivos para isso. Apesar dos beijos que trocaram por meses, ela jamais tinha imaginado. Como poderia? null era o sonho americano, a garota perfeita, um exemplo quase pleonástico de garota hétero.
— Você não me conhece mais, null. — null enunciou calmamente, depois que a surpresa evaporou-se. — Se conhecesse, não teria dito isso.
Apesar de ser uns bons dez centímetros mais baixa que null, null encurralou a loira contra a pia do banheiro. Foi a vez de null ficar surpresa. null costumava se sentir intimidada por ela. A null do ensino médio provavelmente abaixaria a cabeça e deixaria o banheiro. Ela só não entendia que agora as duas eram adultas. Não havia hierarquia entre elas. Não havia um motivo sequer para que null se sentisse menos do que a outra. null tinha crescido, amadurecido, tinha aprendido muita coisa para que se acovardasse agora. E se a queda de null fosse verdadeira, então ela queria provar, queria saber até onde a garota hétero conseguia ir.
— O que você está fazendo? — Os olhos azuis de null lhe analisaram o rosto, agora bastante perto porque null estava nas pontas dos pés.
— Estou testando você.
Era um pouco errado, null sabia, ficar excitada naquela situação. Ela tinha sido ensinada de que aquilo era errado, mas ela também sabia que sentia falta de alguma coisa em sua vida. Sexo com homens era bom, sim, mas ela sabia que queria mais do que aquilo. Toda a sua vida, null queria alguma coisa além e não importava com quantos homens estivesse, ela jamais parecia achar o que realmente faltava.
O hálito quente de null fez a pele do pescoço da outra arrepiar. null não ofereceu resistência quando a outra se inclinou, encostando o nariz em seu pescoço e inspirando profundamente. O perfume doce, mas com notas cítricas era quase uma alusão perfeita à personalidade de null: doce à primeira vista, mas com um sabor mais ácido abaixo da superfície.
— Você não trocou de perfume durante todo esse tempo? — O hálito de null continuou batendo em sua pele e null sentiu os joelhos tremerem.
— Não.
Os olhos negros de null desviaram-se para o rosto dela, que estava enrubescido. Os lábios pintados de coral entreabertos, convidativos, prontos para serem beijados. null jamais acreditaria nisso, que ela estava ficando com sua paixonite platônica do ensino médio no banheiro do aeroporto.
Ela não forçaria nada. Não era assim que agia. null inclinou a cabeça na direção da dela, os lábios perigosamente próximos. Se null a repelisse, então null voltaria para o salão de embarque. Mas se null quisesse ser beijada…
null não se afastou, pelo contrário. Ela fechou os olhos, ela se entregou. E null a acolheu. Parecia que ainda tinham doze anos e a química de antes. As bocas se encontraram em um beijo lento, profundo e sensual. Uma das mãos de null se embrenhou nos cachos loiros e perfeitamente penteados, a outra pousou na cintura de null, puxando o corpo da outra contra o dela. E null soltou um suspiro, passando os braços pelo pescoço da morena, deixando-se levar.
Os beijos, que tinham começado lentamente, logo se transformaram em algo mais. Eram mais bruscos, os lábios se chocavam com mais agressividades. Mãos apertavam, acariciavam e puxavam peças de roupa para que essas saíssem do caminho. Os botões da blusa da loira foram abertos um a um, deixando à mostra a fina peça de renda champanhe que ela usava. O cetim contrastava a pele macia e ligeiramente bronzeada, os seios perfeitos, subindo e descendo com rapidez porque ela respirava aos borbotões.
Os olhos negros de null estavam fixos nos azuis quando ela tocou o seio ainda meio coberto, sorrindo ao ver a expressão de desejo da outra, da mulher que sempre a infernizou por sua orientação sexual. E era tão claro quanto o dia que null gostava tanto de mulheres quanto null.
— Pobre null… Sempre se escondendo, não é? — null murmurou, os lábios beijando a clavícula exposta, lábios quentes e úmidos descendo pelo colo até que plantou um beijo lento em um dos seios da outra. null gemeu baixo. — Eu perdoo você.
O som de vozes lá fora tornava tudo mais excitante. E se fossem pegas? null tremia só de pensar que alguém poderia entrar e vê-las a qualquer momento. E se lá fora a nevasca era intensa, dentro do banheiro do aeroporto estava cada vez mais quente. A blusa de seda de null foi logo descartada, ela se sentou na pia e a saia foi empurrada até que as coxas estivessem desnudas.
Ela sentia as pontas dos dedos de null deslizando pela sua coxa, subindo até seus quadris. Sentiu quando null apertou a sua bunda, puxando-a para mais perto, para que ficasse mais ao alcance de sua boca, que beijava, mordia e chupava ora seus seios, ora seus ombros, ora seu pescoço. E ela soube que tinha encontrado o que sempre tinha faltado em sua vida. Era assustador, mas não menos excitante por isso.
— Por que você ainda está vestida? — Ela conseguiu perguntar a null, abrindo os olhos por um momento e notando a discrepância entre elas.
— Porque não é você quem manda aqui.
Com isso, as mãos de null abriram o sutiã da outra com experiência e destreza. Mal a peça tinha saído de seu corpo, as mãos da outra logo seguraram seus seios, massageando-os com delicadeza.
— O que você quer? — Os olhos negros de null estavam cravados na mulher à sua frente. null se calou.
— Eu… — Um de seus mamilos foi apertado entre o indicador e o polegar da morena. Ela suspirou. — Eu não sei.
— Não sabe o que quer? — null parecia se divertir com a situação, em ter o controle da situação.
Normalmente, era null quem sempre queria estar no controle. Ela planejava tudo com antecedência e tinha bastante dificuldade em aceitar as coisas passivamente. Se ela não estivesse no controle, então nada dava certo. Era assim que pensava. E apesar de seu primeiro impulso ser justamente o de dominar, controlar, ela estava feliz que null estava exercendo esse papel. Ela queria se entregar sem pensar, ao menos uma vez.
— Eu não vou escolher por você. — null continuou. Ela beijou o seio, a língua passeou pela pele e rodeou o mamilo, que enrijeceu-se imediatamente com o toque.
— Quero transar com você. — A voz firme de null chamou a atenção da outra, que sorriu. Sorriu e capturou o mamilo ereto entre os lábios, chupando-o por um momento.
null já não queria saber se estavam em um local público. Ela já não se importava com o atraso de seu voo e nem com o que ocorrera entre as duas, no passado. Ela fora até ali para ter um encerramento, para acabar com as mágoas passadas. E ela faria exatamente aquilo. Substituiria as coisas ruins da noite passada com momentos prazerosos da tarde atual.
— É a sua primeira vez? — null puxou o suéter cinzento por cima da cabeça, livrando-se dele facilmente. Viu null um tanto exasperada, mas logo concordou, entendendo que null se referia à sua primeira vez com mulheres. — Isso vai ser interessante.
Ela deu a mão a null, fazendo com que ela descesse da pia e pressionando-a contra a parede. As duas se beijaram ardentemente. A calcinha molhada de null era o indício perfeito que null procurava, a prova cabal de que elas eram iguais, de alguma forma. null beijou o pescoço dela, desceu a boca por sua pele, enfiou a mão pela calcinha, tocando a intimidade molhada. null null estava molhada por ela.
O gemido que escapou dos lábios inchados de null a assustou. Ela nunca tinha soado tão sensual, mas também tão necessitada de alguma coisa. Os dedos de null entravam e saíam dela, o som lúbrico a enlouquecendo ainda mais. Ela também queria tocar null. Também queria sentir o corpo dela. null tomou os seios da outra nas mãos, os apertou, massageou, provocou os mamilos com os dedos, satisfazendo-se ao arrancar um grunhido de null, ao vê-la parar por um momento e encará-la.
Mas null a puxou pelos cabelos, tomando os lábios dela em um beijo sem nenhuma delicadeza. null desceu as mãos pelas costas esguias de null, tocou a bunda dela, enfiou a mão pela calça jeans e sentiu a carne dela entre seus dedos.
— Eu quero tocar você. — Aquilo soou mais como uma súplica do que como uma constatação e até mesmo null se surpreendeu.
null anuiu e, com a ajuda dela, livrou-se da calça jeans. A calcinha preta, sem rendas, sem o design sofisticado como a lingerie de null, não importava. null afastou-a para o lado, a ponta do dedo tocando o clitóris sensível, molhado, sentindo-se extasiada ao ver a expressão lasciva no rosto da morena, que devia espelhar a própria. As duas se tocaram enquanto olhavam uma nos olhos da outra. O orgasmo de null veio primeiro e ela sentiu todo o corpo tremer. Os dedos de null estavam fundos, dentro dela, a palma da mão roçava contra o seu clitóris e a fazia gemer. null não parou nem por um segundo, sentindo os músculos internos da loira apertarem seus dedos, ouvindo os gemidos dela pedindo para que não parasse. E então foi a sua vez. Quando null passou a acariciá-la, a beijar seu pescoço, a pedir que ela gozasse em seus dedos para que ela pudesse provar… Era demais para null resistir.
Ela gozou intensamente, sentindo as lágrimas nos olhos enquanto o prazer parecia despedaçá-la por dentro. Ela explodia de dentro para fora. Sentia a pele arrepiada, os joelhos tremerem, o sangue latejar em seus ouvidos. Ofegantes, se entreolharam e sorriram. null olhou os dedos melados, levando-os à boca, provando o gosto de null que ainda estava ali. E null se sentiu excitada, ainda mais.
Ela não ficou surpresa quando null a fez se sentar na pia novamente. Seu corpo ainda estava mole do orgasmo que acabara de ter, mas ela ainda queria mais. Queria mais e mais agora que sabia que ela sempre tinha buscado nos seus parceiros, todos homens, o que só uma mulher podia dar a ela. Ela gostava mais do toque da pele macia de null do que dos músculos de seu ex-marido. Gostava mais do gosto da boca de null. Gostava mais do toque de null. E, imitando a morena, ao provar o sabor de null, ela sabia que gostava mais dele do que do sabor de seu marido.
— Eu sou lésbica. — Ela disse, fazendo null olhá-la com um sorriso sacana no rosto. — Eu não acredito que nunca percebi.
— Bem vinda ao time.
O voo de volta para Nova York seria longo e torturante, null pensou enquanto a língua se deleitava na intimidade da loira. Em meses divorciada, ela ainda não tinha encontrado uma parceira que a instigasse tanto quanto null. Talvez porque, para a loira, tudo era novidade. Ela gemia alto quando a língua de null se movia contra o clitóris, ela se surpreendia com o modo como mulheres não precisavam dar um tempo para engajar uma nova rodada de sexo. Para ela, tudo aquilo era novo e maravilhoso.
null tinha achado o que faltava em sua vida. null tinha feito as pazes com seu passado. As duas passaram as quatro horas de seu voo conversando e pondo tudo em pratos limpos. E, quando conversar não era o suficiente, enfiavam-se no banheiro minúsculo do avião. Elas foram realmente criativas para aproveitar o espaço ali dentro. E, com as duas morando em Nova York, não era errado supor que aquela não seria a única vez em que se encontrariam. Afinal de contas, null precisaria de apoio de uma mulher mais experiente quando decidisse contar a verdade à sua família. E null estaria lá para ela, com certeza. Assim como, com toda certeza do mundo, null sabia que null sempre estaria ao seu lado também, não só pela amizade recém-reconstruída como também pelo sexo maravilhoso que sempre faziam.
Fim
Nota da autora: Minha primeira fanfic lésbica, yay! Piadas à parte, não é a primeira vez que tenho um projeto como esse. Tenho outros que foram esquecidos no computador, por falta de motivação e também por falta de público no site. Quando vi o projeto, o Nós Existimos, eu percebi que eu precisava me forçar e tirar uma dessas ideias da gaveta e escrever sobre o que eu gosto sem me importar se gostariam ou não. Quando terminei Closure, me senti satisfeita, não só por ser um dos meus primeiros projetos lésbicos (aguardem o ficstape de Born to Die, Carmen também será uma história lésbica), mas também por ser uma história que eu tinha começado há muito tempo e só tomei coragem de terminar com o Nós Existimos! Espero que tenham gostado! Um beijão!

Outras Fanfics:
Fortune Teller (Outros - Finalizada)
The Swan Dive (Restrita - Outros - Em Andamento)
Mixtape: Coisas Que Eu Sei (Awesome Mix: Vol 6 “Brasil 2000’s” – Finalizada)
09. Thunder (Ficstape EVOLVE)
11. Not Coming Home (Ficstape Songs About Jane)



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