Última atualização: 05/05/2018

PRÓLOGO

PLANETA ZEYAD
Dezessete dias antes



O tilintar da espada em contato com a lança de sua oponente chegou intensa aos seus ouvidos, misturando-se ao ranger de dentes da inumana assim que depositou certa força para se proteger de um ataque. Seu corpo estava enfraquecido, doloroso a ponto de ter que se esforçar ao limite para segurar o golpe, mesmo com ferimentos no braço e na costela. O cheiro de sangue fresco estava impregnado em suas narinas, derivado dos ferimento em sua maçã do rosto e no supercílio, que continuava a escorrer pela lateral e pingar em seu uniforme. não soube como resistiu tanto tempo, mas uniu o máximo de força que conseguiu para afastar a lança com a sua espada e chutar a região do abdômen de sua adversária.
Com o golpe, a inumana acabou também indo para trás, evidenciando seu extremo desgaste físico e a pouca resistência que ela tinha à dor naquele momento. A arma em suas mãos mal continuava em pé, mesmo com toda a dificuldade que ela teve ao erguê-la outra vez e deixar em frente ao seu corpo, como se dissesse que estava pronta para se defender.
Porém ela não estava.
Não importava se havia treinado durante toda a sua infância e metade da adolescência para se tornar a melhor guerreira de Attilan, lutar contra aquilo era mais do que ela conseguia lidar. Era mais do que lhe foi ensinado e ia além do quesito força ou destreza. E havia acontecido uma vez, talvez por isso que ela pretendia resistir até o último minuto, porque, definitivamente, voltar para as mãos do genocida e contribuir para os propósitos dele não estava em seus planos e jamais estaria.
Lembrar-se do que passou sob a regência de Thanos durante oito meses lhe causava ânsia, justamente por se recordar de todo o tormento e toda a tortura que sofreu para que seus poderes pudessem ser ampliados a ponto de atender aos propósitos do Titã.
A mais nova das Amaquelin sentia-se atordoada com os pensamentos, engolindo em seco enquanto tentava se concentrar naquela batalha outra vez. Ela esquivou o corpo para desviar de um golpe com a lança dourada da guerreira, para logo usar a espada em mãos na tentativa de acertar a barriga da mulher. grunhiu com a força exercida, porém falhou quando a mesma conseguiu segurar a lâmina de sua arma com o braço esquerdo, protegido desde o ombro até os dedos por um tipo de metal dourado. O gemido que escapou de seus lábios outra vez havia sido pelo soco recebido no estômago, seguido de um chute no mesmo lugar. A foi arremessada por alguns centímetros, rolando por sobre o próprio corpo até conseguir se apoiar naquele chão arenoso do planeta recém-devastado.
cuspiu o sangue, virando o corpo para assistir a guerreira se aproximar em passos lentos. O uniforme era composto inteiramente pelo preto, com apenas uma pequena parte em branco na região do busto, que contrastava com os longos cabelos azuis da mulher e o tom de pele da mesma cor. O elmo tomava grande parte de seu rosto, deixando a mostra a região do nariz e da boca, além dos olhos brancos; enquanto as pontas do acessório se erguiam separadas e quase formavam uma espécie de semicírculo. O conhecido braço de metal a deixava mais forte do que já era, somado a grande lança da mesma cor que a tornava destrutiva. Sua força sequer se comparava com a da integrante da Ordem Negra. Proxima Midnight era a mais letal dos membros e a mais impiedosa, talvez por esses fatores que era sempre a guerreira a escolhida para caçar, especificamente, .
Ela tensionou o maxilar, com a proximidade perigosa de sua oponente. Midnight abaixou a lança, lhe encarando com uma soberba já habitual em seu rosto. apenas encolheu os ombros, deixando exposto a raiva que atingia seu semblante. Os lábios crispados e um controle incomum para não disparar os insultos que tanto passavam por sua mente.
O tronco da inumana ergueu-se, porém resmungou quando o pé da alienígena forçou-o para baixo outra vez, sentindo as pedras pressionaram sua pele por debaixo do uniforme. Sua espada continuava em sua mão esquerda, mas não tinha forças para levantá-la naquele instante.
Com os olhos ainda fuzilando a oponente, apenas cuspiu as palavras com certa rispidez:
— Eu não vou voltar.
Midnight permitiu que um sorriso de canto surgisse em seus lábios, evidenciando a satisfação que ela tinha ao se mostrar superior. O pé forçando o tronco da inumana mais para baixo, fazendo-a grunhir com o incômodo e, de forma falha, tentar se desvencilhar com alguns chutes.
— Quando terminarmos o que pretendemos, Amaquelin… – seu sobrenome real soando com certo desprezo, enquanto a garota ainda exclamava baixo com aquela imobilização. Seu braço machucado tornando a doer, sentindo até os olhos marejarem como se seu corpo estivesse no limite e prestes a desistir. apenas crispou os lábios, assistindo o sorriso dela se alargar, ao tempo em que a lança retornava a se posicionar diante de seus olhos. – Essa será uma questão que você não precisará se preocupar. Nunca mais.
O golpe parecia certeiro quando a guerreira ergueu a arma e estava a centímetros de desacordá-la, mas surpreendeu-se quando algo interrompeu o ataque de Midnight e a arremessou para longe no segundo seguinte. até havia fechado os olhos – em uma tentativa de sentir menos o impacto –, chegando a perceber uma leve quentura à sua volta como se algo estivesse explodido bem à sua frente. Por consequência, voltou a abri-los, sentindo um leve conforto quando enxergou os cabelos esbranquiçados de seu amigo à frente.
O suspiro que deixou seus lábios não escondeu a felicidade que teve ao vê-lo.
— Theo.
— Temos que sair daqui, princesa. Agora. – Devlor esticou a mão, ajudando a inumana a se colocar em pé e não tardando a conduzi-la a correr em direção à floresta, ao longe. olhou por sobre o próprio ombro, observando a guerreira não demorar a se levantar e partir em direção aos dois, em uma velocidade sobre-humana. Seu coração palpitou, principalmente quando o inumano a afastou à medida que retirava uma das foices curtas presas em suas costas. – Eu estou logo atrás de você. Vai.
— Não vou deixar você aqui, Devlor.
Eu sou o seu guardião. Meu trabalho é te proteger e eu vou cumprir isso. – o inumano afirmou, um pouco mais arisco dessa vez enquanto caminhava em direção a ela. Os olhos azuis harmonizavam com os fios brancos que lhe caíam sobre a testa empoeirada, aderindo certa rigidez no semblante mais fechado. Ele apontou para o caminho, afastando-se novamente ainda que o olhar ainda estivesse na garota. – Agora vai.
— Theo.
Ela até tentou, mas a voz impaciente a impediu de continuar.
, vai. E não pare por nada.
O rapaz fez um aceno rápido e logo se pôs a correr em direção à oponente, deixando uma paralisada para trás. A sentiu a garganta se fechar e não conseguiu mover um músculo para acatar a ordem do inumano. Ela queria ajudar, ela tinha que ajudar. Theo era poderoso e inteligente, mas ele sozinho não conseguia lidar com a melhor combatente da Ordem Negra. Midnight parecia determinava a levá-la, independente do que tinha de destruir para alcançar tal feito.
E era Devlor o principal obstáculo em seu caminho.
fechou a mão em punho, considerando ir contra o pedido do seu guardião, mas parou quando viu ao inumano manifestar a habilidade de carga cinética em volta de seu próprio corpo. Aquela luz branca igualou-se à cor dos cabelos do rapaz, enquanto ele usava a manipulação para se impulsionar em um salto. Segundos depois, o guerreiro despencava de dezenas de metros de altura, mantendo apenas uma pequena chama esbranquiçada em torno de seu punho esquerdo. E em um estrondo rápido e destrutivo, Theo esmurrou o chão de areia, causando uma enorme nuvem de fumaça quando a energia literalmente explodiu o solo. sentiu uma vibração abaixo de seus pés, assistindo borradamente Devlor correr em sua direção à medida que uma fenda gigantesca se abria e dividia a terra em dois polos.
O último vislumbre que teve era da general encarando aos dois na extremidade da fenda, antes de sentir os dedos do inumano rodearem seu braço, indicando para que fugissem dali o quanto antes.
— Não temos muito tempo. Vem!
Theo disparou à sua frente, sendo seguido pela inumana para logo entrarem no coração da floresta. Os gravetos quebraram abaixo de seus pés, ao mesmo tempo em que a garota tinha certa dificuldade em afastar aos galhos para que não fosse atingida. Devlor parecia falar algo na frente, porém o barulho e a sua concentração extrema em não cair a impossibilitavam de entender alguma coisa, ainda que vez ou outra ela concordasse de forma silábica.
se sentia mais aliviada, quando a ficha de que Theo estava vivo caiu. Eles haviam se separado antes de ela cair naquela parte árida do planeta, enquanto ele tentava despistar o restante dos generais de Thanos. estava ali para se esconder – como sempre fez durante um pouco mais de oito anos –, um dos motivos que a fez adotar ao sobrenome e não se apresentar mais como Amaquelin. O rapaz era seu companheiro no mesmo período, desde quando ela decidiu deixar Attilan para viver como uma nômade, onde não tivesse um lugar fixo para dificultar os planos do Titã.
Mais de oito anos¹.
E Theo sendo seu companheiro durante todo esse tempo, como seu guardião, seu protetor. Sem poderes, a garota não tinha muita utilidade contra seres especiais como aqueles que a caçavam, mesmo com as ótimas atribuições físicas e sensoriais de um inumano. Passar pela terrigênese não lhe concedeu habilidades de combate, por essa razão Gorgon – seu antigo mentor – a treinou desde a infância, para se tornar a melhor guerreira nascida em Attilan.
Devlor, desde a infância, foi o protetor. O hábil inumano treinou com e a treinou. O rapaz foi o amigo que ela sempre precisou, principalmente para lidar com a sua transição para se tornar inumana. Além disso, foi ela quem o ajudou a controlar a manipulação cinética e fazer do homem um dos melhores guardiões que a família real possuiu. Portanto, por mais que tivesse negado, sua irmã Medusa e o próprio Devlor tomaram a decisão de que ele era a pessoa certa para ir com ela.
.
O grito de Theo a tirou dos devaneios, ao tempo em que ele diminuía a velocidade para que ela o acompanhasse. A mão do rapaz estendida, esperando que a inumana passasse na frente para que ele pudesse segui-la logo atrás. Apesar de nunca ter desejado que ele abandonasse Attilan e a própria vida para ir com ela, foi preciso apenas alguns meses para que a garota soubesse que Theo era a pessoa certa. Se não fosse por ele, provavelmente ela não teria sobrevivido nem mesmo nos primeiros dias.
— Não pare, ouviu? – ele continuou, fazendo-a estranhar por um momento. O fôlego diminuindo conforme os dois passavam pelas árvores, em uma velocidade constante e intensa. O ar faltando-lhe aos pulmões, mas não o suficiente para que a fizesse parar. – , não importa o que estiver pela frente, apenas não pare.
tentou não se espantar com o pedido, porém fora em vão quando percebeu que a floresta tinha um fim e ele não era nada agradável aos olhos dela. O limite se encontrava logo à frente, onde parecia haver uma queda de metros e metros de altura, tendo outra extremidade longe demais para que conseguissem alcançar. Ela sentiu um frio na barriga no mesmo instante. Qualquer coisa poderia esperá-los embaixo e a garota apenas esperava que fosse algo que pudesse amortecer a queda e não piorar.
Aspirou o máximo de ar que conseguiu, escutando o incentivo de Theo logo atrás se misturar com o barulho de passos se aproximando. A nem se deu ao trabalho de olhar, sentindo o vento balançar seus cabelos fervorosamente enquanto tinha Devlor gritando para que pulasse. Então, pegando ainda mais impulso e mesmo sem toda a coragem de antes, saltou.
Um arrepio percorreu sua espinha ao sentir o corpo cair em uma velocidade considerável, fazendo-a reprimir um grito quando não havia nada a se observar além do breu logo abaixo. Seus músculos tensionaram-se. Ela se mexia durante a queda, como se pudesse se salvar de alguma forma, no entanto apenas sentia seu corpo ser puxado para baixo e um certo temor se apossar com a possibilidade de cair nas pedras.
sibilou com certo pavor, não escutando mais nada quando a mão do inumano tentou agarrar o seu pulso no exato momento em que os dois mergulharam. O impacto da queda intensificou a dor em seu corpo, sentindo a água invadir suas narinas instantaneamente e a mão do rapaz se soltar enquanto ambos eram sugados para o fundo do rio.

¹ Considerando o ano de lançamento do filme Os Vingadores (2012), ou seja, essa fic se passa 8 anos depois, em 2020.




UM ♦

FLASHBACK ●



NEW ATTILAN
Oito anos e quatro meses antes



— Você sabe que eu não preciso de Devlor atrás de mim.
informou, enquanto caminhava ao lado de Gorgon, deixando os corredores do castelo para trás. Os olhos do inumano lhe avaliaram rapidamente, ao tempo em que ele meneava a cabeça em concordância às suas palavras. Os lábios comprimidos em uma linha reta, sem um resquício de emoção, da qual a garota também não apresentava. Ambos preocupados, parecia nítido. Ainda sim, era Amaquelin quem ainda apresentava certa suavidade no comportamento, tentando não demostrar o quão temerosa ela estava.
A garota olhou ao inumano de soslaio, completando:
— Não sabe?
— Plenamente, princesa. – Gorgon continuou a guiando para onde quer que fosse, sem nem mesmo lançar um olhar a ela. O tom agudo de sua voz carregando a entonação determinada e precisa que a mulher precisava escutar. – Eu não te treinei para ser a melhor guerreira que tivemos à toa.
— Então por quê? – insistiu a inumana, dessa vez parando os passos e esperando que o inumano também o fizesse.
não escondeu a frustração em seu rosto. Theo era como um irmão para si, não podia negar. Por todos esses anos, a inumana tinha certeza de que ele a conhecia melhor do que a si mesmo e, por essa razão, o rapaz havia sido escolhido para acompanhá-la nessa viagem. Mas sua intenção nunca foi tê-lo atrás de si. Devlor ainda era novo, alguns poucos anos mais velho do que ela, contudo ainda tinha uma vida inteira pela frente, tinha propósito, tinhas os próprios princípios. Por mais que a garota tivesse uma afeição imensa pelo guerreiro, o que ela menos queria era tirá-lo de seu lar para que enfrentasse os perigos com ela. Muitas pessoas tinham sofrido desse mal uma vez, tinham sacrificado suas vidas, Amaquelin não queria ter de dobrar esse peso em suas costas, ainda mais com alguém a qual a guerreira tinha como irmão.
A inumana engoliu em seco, vendo Gorgon se postar a alguns poucos centímetros de si. Os olhos avaliando seu rosto com certa seriedade, ainda que demonstrasse uma preocupação misturada a um recente abatimento. Nem mesmo o sorriso que ele dirigiu a ela amenizou a expressão entristecida.
— Você não aceitou que nenhum de nós fôssemos com você, .
— Gorgon… – a mulher tentou, soltando todo o ar que conseguiu pela boca, de forma esgotada. – Seria egoísta de minha parte se eu permitisse. Attilan precisa de cada um de vocês e de cada um de seus deveres. – pousou uma mão sobre o ombro do inumano, denotando certeza como em todas as vezes em que disse a mesma coisa. Era difícil pra ela também, deixar a vida que teve ali e começar uma nova, mas era por razões óbvias. Ela apenas queria proteger ao seu povo, aos seus amigos e a sua família. jamais se perdoaria se toda a catástrofe e guerra ocorresse outra vez. – Além do mais, eu não quero que esse lugar queime de novo. Vocês precisam disso e isso precisa de vocês.
— Você faz parte da família. – o homem tentou, fazendo com que a garota sorrisse.
— Exatamente por isso que eu não posso ficar. – balançou a cabeça, precisando convencer mais a si mesma do que ao seu antigo treinador. – Eu já vi tudo se destruir uma vez, vi meu próprio povo se desfazer por minha causa. Eu não posso continuar acreditando que tudo ficará bem e que irá melhorar. – os olhos correram para o corredor à frente, um pouco abalada pelas memórias que tinha de todo aquele lugar se desmanchando meses atrás. O suspiro escapuliu por seus lábios, em uma tentativa de se recompor e acalmar a própria mente. – Attilan caiu uma vez, Petragon. Eu não quero que isso se repita pelo mesmo motivo. Por mim.
— Princesa…
— Gorgon, não gaste palavras tentando me convencer a ficar. Acredite, minhas irmãs já o fizeram. Por dias. – sorriu, observando seu mentor menear a cabeça em concordância e manter a expressão séria no rosto. Ela relaxou os ombros tensos, adotando uma postura mais certa e menos apreensiva perante o inumano. – É difícil pra mim também, mas sei que essa é a melhor decisão que posso tomar agora. Attilan também é meu lar e se eu o prezo, tanto quando prezo a todos vocês, não é meu dever ficar. Por mais que vocês não admitam isso, comigo aqui esse lugar nunca estará seguro de novo.
— Podemos protegê-la. Sempre o fizemos, Amaquelin. E você sabe disso.
— Eu sei, mas agora preciso fazer isso por mim mesma, Petragon.
Ela respirou fundo algumas vezes, sentindo uma sensação nova dentro de si. Não era medo ou apreensão, assemelhava-se mais a um alívio. Alívio por saber que as coisas poderiam começar a andar ali sem a presença da guerreira, que ela poderia finalmente afastar sua casa dos perigos que a rondaram durante meses. E que agora, suas batalhas seriam apenas suas batalhas e não mais de ninguém. Mesmo que abandonar sua antiga vida fosse ruim, não era nada comparado ao fato de que muitos sofreram e se sacrificaram quando os aliados de Thanos foram enviados até ali.
suspirou, limitando-se a sorrir.
— Eu vou ficar bem. Como você mesmo disse, eu não fui treinada para ser a melhor guerreira do reino à toa. Eu posso me cuidar, mesmo não possuindo as habilidades de minhas irmãs. – Gorgon soltou uma lufada de ar, parecendo desgastado. A princesa tocou-o no ombro outra vez, em um ato amigável, antes de continuar a seguir o caminho com ele ao seu lado. – Eu sobrevivi uma vez nas mãos da Ordem Negra. Posso fazer isso de novo.
— Não sozinha, , não sozinha.
— Você sempre dá um jeito de trazer isso à tona. – ela demonstrou certa frustração.
— Porque você sabe que é a verdade, apesar de eu confiar plenamente em você. – seu antigo treinador tentou controlar a situação com um tom de voz mais terno, quase paternal. – Um Império não se constrói sozinho, nem mesmo sozinho ele cairá, princesa. Eu sei que você desaprova o nosso modo de tentar protegê-la e sempre palpitar em sua atitude, mas isso significa que você tem uma importância gigante pra cada um de nós e pra Attilan também. Nós nos preocupamos com você. – os braços cruzaram sobre os seios, expondo certo desconforto em sua postura. Aquela necessidade de retrucar não lhe atingiu como antes, mas o seu silêncio não era certamente um consentimento. – Me parte o coração saber que seguirá sozinha, , que ninguém estará ao seu lado para ampará-la quando preciso. – Gorgon lhe mostrou certa esperança em um sorriso, do qual ela não conseguiu nem mesmo encarar por mais de dez segundos. – Você tem a ele. Você sempre o teve. E ele fará qualquer coisa para protegê-la, princesa.
Ela engoliu em seco, sentindo o olhar do mais velho em seu rosto. Petragon parecia ter se aproveitado da situação para trazer o assunto Theo Devlor outra vez. E não só ele, como também lembrá-la de que a inumana apenas conseguiu escapar da Ordem Negra com ajuda. Não sozinha, nunca sozinha, sempre com ajuda. E de Theo, principalmente. O guerreiro inumano, que havia arriscado a vida para salvá-la e continuaria arriscando para protegê-la. Foi ele quem comandou o resgate até o planeta, onde estava sendo mantida durante seis meses. Ele quem invadiu, ele quem decidiu destruir o lugar dominado por Thanos, com a ajuda da Família Real. Era sempre ele. O envolvido, o decisor. Mesmo que Medusa e Crystal tenham contribuído e também se arriscado, era Theo quem havia tomado a frente pra trazê-la de volta.
devia muito a ele, mas não queria pagar aceitando aquela escolha.
— Devlor...
— Devlor não merece um destino ligado ao meu, Gorgon. Ele não merece… – fez uma pausa significativa, respirando fundo outra vez. – Ele não merece desperdiçar a vida dele me protegendo, enquanto podia estar aqui, contribuindo com tudo. Ele é especial, um dos melhores guerreiros. – a inumana estalou a língua, descontente. Os olhos voltando a encarar Petragon, que novamente se mantinha impassivo e atento ao caminho à frente. – Eu não quero condená-lo como meu prisioneiro.
, essa decisão não cabe a mim ou a você, cabe a ele. Theo apenas quer que você aceite. – seu treinador parou, novamente com um sorriso suavizando os traços firmes do rosto do mais velho. Em oposição a ele e à situação, a princesa apenas se manteve séria, decidindo encarar os símbolos em relevo que adornavam a imensa porta dourada daquele corredor, que se estendiam do chão até o teto alto. – Devlor decidiu que iria por contra própria. E não acho que nem a sua palavra ou a da Rainha o fariam mudar de ideia. Não mais. – agora foi a vez do inumano a depositar uma das mãos em seu ombro, em um pedido de calma. – Vocês são muito próximos, por isso eu não consigo ver ninguém melhor do que ele para acompanhá-la. Theo se importa muito com você, princesa.
Ela bufou, relaxando os ombros.
— E, aparentemente, não se importa consigo mesmo.
— Quem decide sobre isso sou eu, certo?
Devlor logo entrou em seu campo de visão e manteve o sorriso nos lábios, mesmo que a garota não tivesse repetido o gesto. Os cabelos brancos estavam desalinhados e ele tinha uma expressão compreensiva no rosto, encarando-a a espera de uma resposta. Mesmo depois de ter conversado com ele a respeito disso, nem suas ameaças conseguiram fazer o rapaz desistir. Por mais insano que fosse, Theo estava disposto a se arriscar e insistir nessa ideia, independente de sua opinião ou a de qualquer outro. E mesmo a contragosto e depois de tantas insistências de sua parte, ela percebia que não tinha mais como reverter.
— Infelizmente. – comentou ela.
— Eu achei que soubesse que não mudaria minha opinião, . Na verdade, achei que eu tinha sido claro com isso.
— E foi, Dev, mas...
— Não há “mas”. – apesar da paciência para interrompê-la, a garota percebeu o semblante mais fechado. – Está decidido.
— Podemos entrar agora, por favor? Ainda quero lhe mostrar uma coisa, Amaquelin.
Gorgon logo interviu, fazendo-a arquear uma sobrancelha, ainda com os olhos no guerreiro. Provavelmente seu treinador queria amenizar um possível clima estranho que surgiria, considerando todas as outras vezes em que os dois discutiram por tal decisão. Amaquelin umedeceu os lábios, sabendo que não levaria nada se resmungasse. Devlor, infelizmente, tinha um comportamento difícil de lidar. E se o conhecia bem, não havia ninguém ali capaz de mudar sua decisão.
Com um aceno breve e voltando os olhos ao seu treinador, confirmou:
— Claro.
— Vamos, então!
Ela soltou um suspiro curto antes de observar Petragon abrir a imensa porta dourada e adentrar, apenas para dar espaço para que a princesa também o fizesse. A conteve uma exclamação surpresa, observando o ambiente pela primeira vez. O dourado não marcava apenas a entrada da sala, como também revestia os mesmos símbolos, que se estendiam da porta até chegarem à parede principal de frente a si. O grande desenho em relevo que estampava essa mesma parede principal pertencia à casa de Agon, o falecido pai dos irmãos Maximus e Blackagar Boltagon, o Rei dos Inumanos.
segurou um sibilo extasiado, impressionada por nunca ter conhecido tal sala.
Aproximando-se em alguns passos, havia uma espécie de pedestal adornado em ouro, onde, no centro, uma espada estava fixada. O cabo era preto, sem muito detalhe, assim como a lâmina, que tinha poucos desenhos marcados. Porém era grande e parecia brilhar diante de seus olhos. Por mais simples que fosse, era uma espada diferente, ela notou. Talvez fosse o modo como a inumana observava ou em como aquilo lhe chamava tanta atenção.
— Ela…
— Foi feita pra você. – Gorgon a cortou antes mesmo que conseguisse completar, fazendo com que a garota se virasse, com um semblante desentendido no rosto. – Nós forjamos a espada especialmente para você, . A pedido da Rainha Medusa. Ela não queria que saísse daqui de mãos vazias e desejava que houvesse uma arma tão forte e poderosa quanto você. Então, tratamos de realizar uma ordem da Rainha e um desejo seu, que tenho certeza que o tinha, princesa. – ela segurou a respiração por alguns segundos, antes de soltar todo o ar pela boca, em êxtase. O sorriso surgiu nos lábios da , que apenas se virou outra vez para a espada e aproximou-se, agora sabendo que pertencia e foi criada especialmente para si. – Ela tem o dobro do peso de uma espada normal e o encaixe do cabo é feito especialmente para a estrutura da sua mão. Tudo pensado para o seu desempenho.
— É incrível.
— Também queríamos que você fosse a única a manuseá-la, . – Gorgon continuou.
Queríamos?
— Devlor escolheu a arma e contribuiu muito para que ela fosse perfeita e eficaz para você.
— Tudo pensado para o seu desempenho. – Theo repetiu a frase de Petragon, com um indício de entusiasmo na voz.
— Ninguém melhor do que você para saber o que ou qual coisa funciona para mim, não é?
— Eu sei o quanto você é hábil com esse tipo de arma, . O que é bom pra você, acaba sendo bom pra mim também.
O guerreiro sorriu e, dessa vez, ela não conseguiu não retribuir.
— Eu nem sei o que dizer. – os olhos avaliaram aos dois, antes de pousar na espada, agora em suas mãos. Os dedos passando pela lâmina cintilante, sentindo os desenhos entalhados no metal e todo sentimento que aquele ato trazia. – Principalmente porque eu não consigo expressar o quanto eu estou grata por isso. É incrível. Perfeita. E eu fico ainda mais feliz por saber que eu posso ter uma lembrança a mais de todos você, de Attilan também. – a engoliu em seco, cedendo à insegurança pela primeira vez. – Esse apoio que vocês me dão é extremamente importante pra mim. Ainda mais agora.
— Você sempre terá o meu apoio. Em todos os momentos.
— E o meu, princesa. – Theo complementou, atraindo a atenção da inumana. Os olhos azuis cintilavam e pareciam combinar perfeitamente com o traje preto, com poucos detalhes prateados e vermelhos, que o guerreiro usava. Mesmo com tons claros, ainda sim, ele conseguia passar uma imagem soturna diante de todos os outros. – Porque, apesar de você não querer, eu estarei do seu lado. Não como seu guardião, mas, principalmente, como seu amigo. Eu espero que saiba disso.
Ela suspirou, como sempre fazia quando ficava sem ter o que comentar.
Não escondeu um pouco de seu acanhamento, uma vez que ela sentia a veracidade de cada palavra do rapaz, mas não queria aceitar. Era apenas uma questão de proteção, algo que ela tinha o dever de compensar depois de todos os anos sob a responsabilidade dele. Naquele momento, com toda aquela carga emocional em cima de seus ombros, sentiu uma tensão em seu corpo por saber que estava sendo individualista, sequer considerando a opinião de terceiros – principalmente de Theo. Sua tentativa de livrá-lo daquilo, apesar de nobre, também era, de certa forma, egoísta. Não podia impor sua escolha pra cima dele, mesmo com motivos justificáveis. Felizmente ou não, Devlor tinha decidido.
Percebendo seu silêncio repentino, Petragon pigarreou para chamar atenção.
— Vou deixá-los a sós, então. Imagino que ainda tenham coisas a discutir. Tente não matá-lo, .
— Não posso prometer. – a admitiu, com um tom descontraído, ouvindo a risada nasalada de Devlor mais atrás.
Gorgon também sorriu, fazendo um aceno rápido.
— Esperamos vocês dois na entrada.
E dito isso, o inumano saiu. A garota acompanhou os passos de Petragon, agora em silêncio, notando os olhos azuis de Theo fixados em seu rosto. Ela não sabia exatamente o que falar. Depois de toda a semana que teve, de toda a discussão, naquele momento, não havia nada a se dizer. Talvez ela devesse começar a repensar como seria sua nova trajetória se tivesse uma companhia. De certa forma, Devlor realmente era a melhor escolha. Eles cresceram juntos, lutaram juntos, protegiam um ao outro. Quem melhor do que o rapaz para acompanhá-la? Ele sabia todos os seus pontos fracos e sabia, também, o quão forte ela poderia ser mesmo sem poderes de combate. Esse era um dos motivos para que a Rainha Medusa houvesse incumbido o garoto a protegê-la, a ser o guardião. Justamente por ter nascido sem habilidades para batalhas, Devlor, filho de Lor, da linhagem dos guardas reais da Família Real, havia sido escolhido para essa missão desde a infância.
A inumana afastou-se momentaneamente, mais entretida em manusear a espada em suas mãos.
Theo, então, decidiu quebrar o silêncio entre os dois.
— O que achou?
— Não consigo imaginar nada melhor.
Ela sorriu, colocando uma mecha do cabelo solto atrás da orelha.
— Ainda há algo melhor nisso tudo, na realidade. – o guerreiro afirmou, fazendo-a arquear uma sobrancelha, em desentendimento. O sorriso de canto preenchendo os lábios dele, enquanto o rapaz apenas cruzava os braços por sobre o peito e era incentivado por um olhar curioso da garota. – Ela está conectada com os meus poderes.
O cenho pareceu ter franzido ainda mais ao notar os lábios curvados do inumano abrirem em um sorriso animado.
— Eu acho que não entendi.
— A espada é alimentada por energia cinética, que é derivada dos meus poderes. Quando ela é energizada com essa carga, torna-se ainda mais letal e muito mais poderosa. Eu dei a ideia à Rainha Medusa. Acredito que esse fator a mais possa ser importante e até necessário para o que está por vir. – o guerreiro balançou a cabeça, com ela atenta a cada palavra. – Mas é você quem decide se quer ligá-la, não eu. Eu funciono apenas como uma espécie de bateria. – a inumana prolongou o olhar durante um tempo, sequer sabendo se comportar diante de tudo aquilo. A afeição do mais velho transpassando na postura levemente encurvada e nas mãos entrelaçadas, às costas. – Eu só quero o melhor pra você, . Sabe disso.
O rapaz encolheu os ombros, com um sorriso no rosto, como se dissesse que não se importava com isso. A garota ainda estava surpresa para reagir com algo a mais. Os olhos passando do inumano para a espada, imaginando como ela ficaria com toda aquela energia branca flamejando em torno do metal. Amaquelin não evitou soltar um riso nasalado, voltando a fitá-lo, agora com um tom agradecido pairando em sua face.
— Ainda acha mesmo que minha presença não é útil? – Theo se pronunciou.
— Não foi tão inútil quanto eu achei que seria.
Ele riu, fazendo-a acompanhar o gesto. O riso sonoro do garoto chegando aos seus ouvidos e permitindo que ela divagasse por alguns segundos, com algumas lembranças surgindo em sua mente. Todas elas envolvendo Theo e a quantidade de vezes em que os dois riram um para o outro. Ela se perguntava se aquele gesto continuaria quando eles partissem juntos, se ele seria animado como antes quando decidisse ir. tinha medo das coisas mudarem, principalmente em relação ao guerreiro. Porque foi exatamente o que aconteceu com ela. Uma mudança brusca, que quebrou aquela linha entusiasmada para dar lugar à desconfiança e a ansiedade, causadas pelo medo de todo o caos se repetir.
E tal coisa era o que ela não desejava que acontecesse a Devlor.
engloiu em seco. O tom duvidoso surgindo em sua voz, que oscilou quando ela pretendeu se pronunciar:
— Não vou conseguir te convencer do contrário, não é?
— Não. – ele sorriu, erguendo o queixo como se quisesse desafiá-la a fazer. – Eu sempre procurei algo além de Attilan, Amaquelin. Talvez aqui não seja o meu lugar e eu fico feliz por poder descobrir isso com você. – o rapaz aderiu a uma postura mais sutil, abandonando aquela destreza para se portar com certa ternura. – Eu sei que não precisa de proteção, nunca precisou, mas, apesar de ser seu guardião e que meu propósito é te manter viva, estou indo para ser seu companheiro. Nós temos um tipo especial de conexão e eu não queria quebrá-la, . Você é importante demais para mim para que eu abdique de tudo o que criamos e vivemos até hoje.
— Você será caçado, Theo. – insistiu a . – Perseguido. Não terá paz. É isso o que quer?
— Eu fui criado para ser um guerreiro, não um pacificador. Sempre gostei de uma boa luta.
Devlor mostrou um sorriso, embora não tenha sido acompanhado pela garota.
— Por que está fazendo isso? – ela decidiu questionar.
— Como assim? Achei que estivesse claro.
— Está claro pra mim, Theo. Quero saber se você tem a mesma visão que a minha ou só finge ter, como todos os outros daqui. – a garota permitiu que um tom incisivo denotasse em sua voz, recebendo um olhar desconfiado do rapaz. – Sabe, nenhum de vocês demonstrou isso alguma vez, mas eu percebi, desde sempre, que vocês temem. Por mim. É como se vocês tivessem medo do meu fracasso. E isso desde quando Attilan sofreu pelos atos de Maximus, anos atrás. – a molhou os lábios, afastando-se do inumano para observar melhor a sala, na esperança de que tal atitude pudesse deixá-la menos intrigada. – Você tinha 12, mal sabia a extensão dos próprios poderes e, ainda sim, foi encarregado para ser meu guardião, sendo que ninguém do nosso povo precisava de um. A Família Real tinha a Guarda, mas, de todo modo, eles conseguiam lidar com essas coisas perigosas por conta própria, afinal eles são a Família Real, os poderosos inumanos. Mas... Não eu. – finalizou, voltando a fitar o mais velho e recebendo nada mais do que uma sobrancelha arqueada. – E sabe o que era isso, Dev? Medo. Não o meu, o de vocês.
— Você não precisa provar nada a ninguém.
soltou um riso fraco em resposta.
— É por isso que está indo comigo, não é? Porque minha queda é inevitável. E você quer tentar impedir, porque sabe que sozinha eu não consigo.
— Você sabe que não é verdade. – replicou o guerreiro, com toda a paciência possível.
— É o que todos eles acham.
— E você acha que eu partilho dessa mesma opinião?
— Me diga você.
Por mais que seu tom não tivesse soado ofensivo, havia um certo desafio implícito até mesmo em sua postura, o que fez Theo soltar um suspiro longo. Os olhos observando a inumana por alguns segundos, antes de negar com a cabeça, como se aquilo fosse a pior coisa que ele poderia ter escutado. O rapaz massageou as têmporas por um instante, voltando a fitar os grandes olhos de Amaquelin, querendo que ela sentisse o que se expressava através dos seus.
, olha… Eu tenho medo sim de te deixar ir sozinha, mas não porque eu te considero inferior ou qualquer outra besteira que você está pensando. – Theo engoliu em seco, estranhando o semblante ainda calmo da mulher. – Você não é fraca, nunca foi. Gorgon tem orgulho de espalhar aos quatro cantos de Attilan que você é a melhor guerreira que ele já treinou. E eu ainda mais, porque sei das suas qualidades, princesa. Você é destemida, determinada, conhece os próprios limites… E eu admiro tudo isso em você, acredite. Principalmente por saber tudo o que passou desde o ataque da Ordem Negra, . E você sobreviveu. Sobreviveu às manipulações, às torturas. – ele pressionou os lábios, tentando conter as palavras, que pareciam querer sair embaralhadas de sua boca. – Todos nós temos limitações, inclusive eu, Amaquelin. Não é porque você não tem poderes que não é capaz.
— Não foi isso que eu perguntei, Devlor.
O guerreiro fez uma pausa breve, absorvendo melhor a frase. O riso nasalado se fez presente logo em seguida, enquanto ele meneava a cabeça em concordância e passava a língua no canto da boca. pareceu não se importar quando ele relaxou a postura por um instante e a encarou demoradamente, como se quisesse que a inumana adivinhasse sua resposta.
— Você sabe a resposta dessa pergunta. – um sorriso tímido surgia em seus lábios. – Eu vou aonde você for.
— Parece um jeito difícil de se viver.
O comentário o fez encolher os ombros, parecendo não se importar.
— Por outra pessoa? Talvez. – os braços cruzaram-se sob o peito, enquanto ele aspirava o máximo de ar que conseguiu, para depois soltar lentamente pelo nariz, em um ato de calmaria e uma tentativa de reforçar sua coragem. – Mas, desde que nasceu, desde que… Eu fui escolhido para protegê-la, , eu sei, e sei porque eu sinto, que o meu propósito de vida é ligado ao seu. – Devlor engoliu em seco, percebendo o semblante, antes sério dela, se desmanchar para um mais afetivo, com uma ponta de surpresa na face por não esperar tal coisa naquele momento. O guerreiro estalou a língua, usando aquele breve silêncio para pensar. – De alguma forma, eu tenho essa missão de garantir a sua segurança porque o seu destino, o seu objetivo é muito maior do que o meu. E eu quero e pretendo manter minha responsabilidade para que ele nunca se desfaça.
— É o que você pensa.
— É o que eu sinto. – ele mostrou um sorriso sincero, sob o suspiro pesado da inumana.
— Não se rebaixe ao insignificante, Dev. Se tem uma coisa que você não é, essa coisa é dispensável. – a não poupou uma firmeza expressa em sua postura, os lábios crispados e certa dureza apresentada em seu semblante. – Sozinho, você coleciona mais feitos do que a guarda da Família Real. Inteira. Você destruiu um dos planetas governados por Thanos, mostrou que o que te faz um guerreiro não são os seus poderes, mas sim o que você consegue fazer sem eles. Você é poderoso, Theo. – agora era a garota que fazia questão de exaltar o mais velho, o que gerou um sorriso da parte do inumano, em agradecimento. – E se você tem um propósito, como eu sei que tem, eu acredito que ele deva ser tão grande e essencial quanto você.
Theo estalou os lábios, os olhos fixos na face mais calma da guerreira.
— Em que momento nós invertemos isso? – Devlor indicou aos dois com o dedo, arrancando um riso breve da mais nova.
— É sério isso? Argh! Você e seu incrível dom de quebrar o clima.
— Juro que não fiz de propósito, só que… Tava ficando um pouco sentimental demais.
Amaquelin revirou os olhos, recebendo um pedido divertido de desculpas dele. O rapaz mordeu o lábio inferior, curtindo aquele silêncio momentâneo, parecendo mais à vontade e notando que sua companheira também parecia. Aquilo o acalmou. Saber que não adotaria mais a um comportamento ofensivo para cima de si, pelo contrário, dava indícios de que aceitava sua companhia o deixava extremamente animado e confortável. E ele não podia não manifestar tal reação em um incentivo verbalizado:
— Então é isso? – inclinou a cabeça, ainda com um resquício de sorriso no rosto.
— Acho que é isso.
Amaquelin soltou um riso fraco, apertando os lábios. O suspiro forte escapulindo de sua boca entreaberta, tendo cada ato acompanhado pelo mais velho. Um curto silêncio se formou entre os dois, com a inumana observando a face do guerreiro, ainda pensativa. Não havia nem mesmo um pingo de incerteza pairando sobre o rapaz, ele demonstrava mais firmeza em suas escolhas do que ela apresentou. Ele queria aquilo. E sabia que o inumano não desistiria enquanto não tivesse o que desejava. A sua aceitação.
, então, meneou a cabeça em negação. Sem muitas opções restantes, ela relaxou os ombros e finalmente cedeu:
— Já que não posso te convencer, então…
— Bem-vindo a bordo, parceiro?
Devlor tentou, recebendo nada mais do que as mãos erguidas da mulher, em desistência.
— Você é louco.
— Ou talvez alguém faça com que eu seja.
Ele fez um barulho com a boca – quase como algo festivo e um riso misturado –, passando a mão por sobre o ombro da mais nova e puxando-a para um abraço desajeitado. Ele depositou um beijo no topo da cabeça da inumana, antes de apoiar o queixo, sentindo-a rodear os braços – também desajeitadamente devido a espada ainda em mãos –, ouvindo o riso breve da princesa ser abafado contra sua armadura. Seu peito inflando e desinflando lentamente, ao tempo em que ele se colocava a observar a sala ao redor, apertando ainda mais a garota entre seus braços.
— Nós vamos ficar bem. – afirmou o guerreiro.
Theo notou a própria voz se alterar. Ele se dividia entre a satisfação e frustração naquele momento. O sentimento reconfortante era óbvio, mas o perturbador nem tanto. Era como se, momentaneamente, Theo tivesse se lembrado do que teria de deixar para trás devido aquela decisão, algo que lhe caiu sobre os ombros de uma forma quase instantânea, enquanto encarava aos símbolos gravados na parede. Por mais que não quisesse, aquilo remetia ao conjunto. Ao castelo, à família, ao lar. À Attilan. Durante toda a semana, ele imaginou aquela despedida, o que faria caso a princesa aceitasse, porém parecia que finalmente encarar e perceber que estava deixando sua casa era ainda mais desconcertante.
Devlor aspirou o máximo de ar que conseguiu, afastando-a enquanto observava os olhos dela.
— Ouviu? Vamos ficar bem. – Amaquelin apenas concordou com a cabeça, não demonstrando tanto conforto por suas palavras. Ao contrário disso, a garota apenas tentou sorrir, como se seu ato pudesse acalmá-lo de alguma forma. – Eu prometo.
— Eu sei.
— Isso vai passar, . Você vai ver. Nós começaremos de novo quando tudo isso acabar. – ele não escondeu o tom esperançoso que carregava em sua voz, mostrando um sorriso de canto à inumana enquanto pousava suas mãos nos ombros da mais nova, uma em cada lado. Havia uma confiança exalando do rapaz, manifestada em cada músculo e linha facial de seu rosto. Theo parecia certo do que dizia. – Sem preocupações, sem fugas, confia em mim. E quando você menos esperar, nós estaremos de novo aqui, rindo de…
— Eu não vou voltar, Dev. – por mais que não houvesse certeza, não expôs tal hesitação, permanecendo a fitá-lo mesmo com o rapaz lhe encarando, em um misto de confusão e surpresa. Talvez fosse apenas uma reação adotada por seu corpo na esperança de que pudesse digerir melhor cada palavra dita por Amaquelin, as sobrancelhas unidas, incentivando-a com uma pergunta silábica em desentendimento.
— Como?
Em resposta, ela apenas estalou a língua e reforçou com certa dureza:
— Eu não pretendo retornar pra Attilan. Nunca mais.


● FLASHBACK



NEW ATTILAN
Atualmente


— Nunca mais?
Devlor retirou as duas foices curtas de suas costas – uma em cada mão –, escutando a própria voz se perder em meio ao silêncio que fazia em sua antiga casa. Ele seguia logo à frente, em passos calmos e temerosos, com os olhos atentos a todos os cantos como se algo pudesse aparecer a qualquer instante e atacá-los. Até mesmo sua respiração pesada chegava a incomodá-lo, enquanto ele apertava ainda mais os dedos envolta do cabo de suas armas, preparando-se mentalmente para o que quer que os esperassem.
À frente, apenas reagiu com um resmungo baixo.
— Eu não tive escolha.
A voz saindo abafada pela máscara, que cobria apenas a região do nariz e da boca, deixando os olhos à mostra e tomando a área toda das maçãs do rosto, chegando até o maxilar em um encaixe perfeito. Pequenas aberturas permitiam que ela respirasse, mas dificultavam para que sua voz saísse clara e nítida. Não por pura estética, a máscara era apenas um dos meios que a fazia se misturar em meio aos outros e dificultar algum tipo de reconhecimento. deveria ter todo esse cuidado, especialmente quando ela era a inumana caçada por toda a Ordem Negra e o alvo constante do Titã Louco. Durante oito anos, basicamente aquela foi a sua vida. Fugir, se esconder e lutar. E, nos últimos dias, foi o que ela mais teve feito. Os Generais de Thanos voltaram a procurá-la recentemente, depois de deixá-la livre durante um bom tempo, provavelmente precisando das habilidades da inumana por mais uma vez.
até conseguiu escapar durante os últimos dezessete dias, mas parecia óbvio que eles tentariam uma tática que sabia que iria atraí-la. E era justamente onde ela se encontrava naquele instante: caindo na isca. A Ordem Negra decidiu atacar Attilan, seu antigo lar. E depois de tudo o que passou naquele lugar, o que ela menos queria era vê-lo cair de novo. Por isso, sem pensar duas vezes, lá estava , praticamente se entregando para que pudesse tentar livrar sua casa, seu povo e sua família de um destino que era seu.
— Tem certeza de que eles estão aqui, ? – Devlor questionou, ainda atrás de si.
— Eles estão, Dev. Eu sei que estão.
Ela engoliu em seco, sentindo um vento leve balançar seus cabelos e tocar sua pele em algumas partes descobertas, que o seu uniforme de batalha não cobria. As partes metálicas, diferentemente das de Theo, apenas serviam como proteção para um de seus ombros, para o dorso de suas mãos e os joelhos; tendo o restante do traje completado por tecido, alguns mais densos, outros um tanto curtos. Ele era composto por uma espécie de vestido, um pouco justo ao seu corpo, que chegava até metade de suas coxas e tinha uma das pontas mais longas, pendendo para o lado direito. Suas botas pretas de batalha chegavam até um pouco acima do joelho, um pouco antes de uma meia média da mesma cor que cobriam até a metade de suas coxas, tendo um tipo pequeno de argola que ajudava a fixar o coldre de facas que ela apoiava do lado esquerdo do quadril. Os braços eram cobertos – o esquerdo até um pouco acima do cotovelo, enquanto o direito ficava um pouco mais abaixo do músculo deltoide – com um tipo especial de couro, que protegiam a área o suficiente sem que o peso se tornasse um incômodo para ela.
andou mais alguns passos, aproveitando para retirar a espada às costas, em prevenção.
Havia um certo temor mascarado em sua respiração profunda. Os olhos se incomodavam com o normal, tanto que seus batimentos apenas aceleravam com aquele silêncio perturbador. Sua casa estava vazia, muito embora ela soubesse e sentisse que cada um de seus inimigos estavam ali.
— Eu nunca me engano. – a guerreira sibilou para si mesma, apertando os dedos em torno do cabo da espada, visivelmente apreensiva. Ela mal respirava, temendo que o som ou qualquer outra coisa fútil pudesse distraí-la. – Eles queriam que eu os achasse. E sabiam que eu viria quando decidissem aparecer.
— Então por que eles estão se escondendo? – Devlor estranhou.
— Não tenho certeza se estão.
afirmou, finalmente parando alguns bons metros da escada principal que dava ao castelo quando uma silhueta feminina surgiu no segundo seguinte. O maxilar enrijeceu em reação, sentindo os batimentos cardíacos aumentarem intensamente quando a adrenalina atingiu sua corrente sanguínea. Seu corpo reagia clara e naturalmente diante da imponência e ameaça que uma das generais de Thanos indiretamente apresentava. Não como Proxima Midnight, que se demonstrava letal e hostil; ou como Supergiant, que, em sua forma mais poderosa, causava certo temor. Justamente por sua aparência humana, Loan ou Algea1, como a mulher se denominava, não era tão poderosa fisicamente quanto as outras duas, mas suas habilidades eram tão letais e destrutivas quanto a de qualquer outro membro da Ordem Negra.
Assim, sabendo que qualquer passo em falso podia comprometê-la, respirou fundo.
O sorriso surgindo nos lábios da humanoide, que havia parado na extremidade da escada especialmente para fitá-la.
— Que bom que veio, Amaquelin. – a voz grave de Loan soou, observando a máscara da inumana se retrair para revelar o restante de seu rosto. Os lábios da mulher ainda curvados, apenas para intensificar a irritação que consumia . – Estávamos esperando por sua presença, apesar de ter certa dúvida quanto a isso. Era difícil saber que escolha você decidiria tomar.
— Ainda sim, você sabia que eu viria.
Esperávamos. – a general corrigiu, lançando um olhar breve a Theo, que ainda se postava atrás da princesa, na mesma posição ofensiva de antes. Diferentemente dela, o guerreiro parecia pronto a atacar a qualquer instante, como se soubesse que havia companhia ao redor. Loan umedeceu os lábios com a língua, descendo um degrau na escada. – Mas eu não imaginaria que você pudesse ser tão audaciosa, vossa alteza.
— Vocês me trouxeram até aqui, Loan. Não era isso o que queriam?
— Queríamos saber o quanto você estava disposta a arriscar. E, pelo visto, muito.
sentiu o maxilar enrijecer, decidindo interrompê-la enquanto a via descer mais dois degraus.
— Onde estão os outros?
— De todo o modo, esse ato não foi nada altruísta. Eu não consigo ver nada além de egoísmo em você, . E sabe por quê? Porque você sabe muito bem o motivo de estarmos lhe caçando. E, ainda sim, decidiu vir. – sua expressão logo se modificou, tentando controlar a respiração e conter os batimentos cardíacos, que continuavam a aumentar, parecendo querer explodir em seu peito. – Se você não viesse, também seria egoísta e apontada como alguém que se preocupa só consigo mesmo, mas… Você veio. E o pior: sabendo o que sua contribuição pode causar não somente ao seu povo, como a todos os outros. Todos os outros. Salvar a sua família é mais importante, ? Mesmo que isso custe a vida de toda a galáxia? De todo o universo? – agora a mulher se encontrava a poucos centímetros da , tocando-lhe a face com sua mão gélida e sentindo a tensão consumir a inumana. Um sorriso ainda preenchendo os lábios, enquanto os olhos se mantinham fixos e incisivos em . – Você não se importa em saber que suas escolhas farão com que bilhões queimem sob a dinastia de Thanos?
— Deixe-a ir, Loan. Você não vai querer fazer isso.
Devlor vociferou, dando apenas um passo em direção às duas. Os dedos finos da general apertaram a mandíbula da inumana, escutando-a chiar com o incômodo que logo a atingiu. A atenção ainda se mantinha na garota, mesmo que a voz do rapaz ainda chegasse branda e até ameaçadora aos seus ouvidos.
— Loan!
— Seu capacho continua vivo, ? Parece que está mesmo incumbido a mim dar um fim a esse inumano. – a mulher empurrou-a em seguida, decidindo dar a devida atenção ao homem. O peito dele inflando e desinflando desesperadamente, enquanto os olhos acompanhavam os passos lentos da guerreira em sua direção. – Na verdade, Theo, eu quero fazer isso. Quero muito fazer isso. Ao contrário de você, que não parece ter certeza do que quer. Será que é por que você sabe que eu posso matar você, sem nem mesmo precisar te tocar? – ela mordeu o lábio inferior, percebendo em como o rapaz agarrava firmemente o cabo da foice curta, como se pensasse o quão viável era atacar. Comportamento esse que Loan conhecia muito bem e sabia exatamente como acabava. – Você teme, inumano. Eu posso sentir o seu receio de longe. O cheiro que você emana quando está com medo.
— Eu não tenho medo de você.
— Mas também sabe que não consegue me vencer, Devlor. – o sorriso indecente delineando os lábios da mulher.
— Isso não me impede de tentar.
— Só que você não quer que aconteça aquilo de novo. – ela afirmou, conseguindo denotar toda a hostilidade tanto na voz quanto no modo como o encarava. Apesar de toda a rispidez presente, aquele tom desdenhoso e zombeteiro ainda prevalecia no comportamento da general. – Eu via o desespero estampado em sua expressão, Theo, a maneira como você suplicava por ajuda, toda a dor que você sentia e que eu causava. – os olhos azuis do rapaz ainda fitavam o rosto da mulher, tentando se manter impassível ainda que as lembranças aturdissem sua mente. Ele engoliu em seco, mas não demonstrou o incômodo nem mesmo quando ela repousou uma das mãos em seu tórax, por cima da armadura. – Felizmente ou não, você não consegue suportar tanta tortura, Devlor.
— Ninguém está aqui para ser sua distração, Loan. Tenho certeza de que não foi por isso que nos trouxe.
cortou-a, ainda menos paciente. Sua intromissão conseguiu chamar a atenção da mulher, que sutilmente afastou a franja que atrapalhava sua visão e voltou a se aproximar de , com a língua passando pelos lábios. Amaquelin apenas manteve a expressão fechada, tendo uma pequena ruga surgindo na testa franzida enquanto encarava a humanoide. Os olhos da general2 eram cinzentos, parecendo ter um toque púrpura quando ela observava mais de perto; os cabelos tão escuros quanto a noite, em um estilo mais curto que sequer chegava ao pescoço, tendo apenas uma franja cobrindo a testa. O queixo pontudo e as maçãs do rosto bem definidas, condizendo com os lábios avermelhados, que vez ou outra esboçavam um sorriso irônico.
Apesar de sua fisionomia similar a um humano, Algea era de uma raça alienígena bem antiga, habitante de um planeta distante chamado Obrionn, o mesmo o qual a própria general ajudou Thanos a invadir e a dominar. Com todas as histórias que escutou sobre Loan, em todas elas era dito que a mulher era impiedosa por ter sido feita de escrava pelos reis de seu planeta natal, o que era um dos grandes motivos para que ela tenha se voltado contra o próprio povo e se tornado tão insensível e desumana, características perfeitas para que fosse escolhida como serva leal do Titã.
Algea logo mostrou um sorriso divertido em resposta à guerreira.
— Você sabe o motivo de estar aqui. Vocês dois sabem. E devo dizer que Devlor é o que tem o fim mais angustiante.
— Onde estão os outros? – engoliu em seco, fingindo desinteresse no comentário anterior. – Onde eles estão?
— Você acreditaria se eu dissesse que estão todos mortos, Amaquelin? Nós os matamos. Cada um deles sofrendo nas nossas mãos. – a princesa não reagiu, embora encarasse a general de uma forma nada pacífica, o que apenas resultou em um riso nasalado por parte de sua inimiga. Loan soltou um estalido divertido com os lábios, sentindo até mesmo a raiva que a inumana expressava apenas com o olhar. – Você sabe que estou mentindo. É por que você os sente, não é? Eu gosto disso.
Novamente, a mulher se colocava de frente à , erguendo o queixo em um gesto de superioridade, algo que não intimidou a inumana nem por um segundo. O problema continuava sendo o sorriso arrogante que ela fazia questão de mostrar, fazendo com que a garota engolisse em seco, como se precisasse reprimir os insultos que queriam escapulir.
— Eu gosto dessa sua habilidade. Encontrar qualquer coisa, em qualquer lugar do universo. Essa possibilidade de sempre estar um passo à frente, sabe. – a cabeça inclinou-se, ainda naquela observação minuciosa na garota. Loan parecia procurar algum vestígio de medo, que, há minutos, a inumana fez questão de descartar. – Você é poderosa. De um jeito diferente, mas ainda é. Talvez seja por isso que eu fico impressionada por saber que você simplesmente vai se entregar e abrir mão dessa sua grandiosa habilidade sem uma boa luta, .
— Isso é o que você acha, Loan. Eu não disse que pretendia me entregar.
— É bom que saiba que você pode resistir o quanto for, , contra todos nós, você não tem a menor chance de ganhar.
Loan terminou dizendo antes de dar espaço para a guerreira e indicar a entrada do castelo com a cabeça. apenas engoliu em seco e continuou com o olhar sobre o dela, tentando não se intimidar com a resposta, mesmo sabendo que não havia chances se todos os seus adversários decidissem aparecer e lutar contra os dois. Amaquelin sabia que sairia viva daquela situação, mas temia que o destino de Theo fosse ainda pior.
O maxilar enrijeceu apenas com o indício desse pensamento, decidindo observar a entrada aberta do castelo após Loan incentivá-la a entrar com um aceno de cabeça. respirou fundo, hesitando em dar o primeiro passo. De fato, ela sentia a presença de sua família ali dentro, mesmo que de uma forma estranha, com um sentimento de receio por saber que não eram todos que sua habilidade conseguia encontrar. A tinha medo do que acharia ali ou do que não acharia, uma vez que não era apenas a presença de seus familiares que sua mente pressentia. Mesmo com toda a situação deixando-a em um estado de alerta, relutou contra aquela sensação de medo que queria lhe atingir, lançando um olhar a Theo para confirmar de que ele continuava ali.
Soltando um suspiro curto, a inumana subiu as escadas e seguiu o caminho em direção à entrada principal, com uma apreensão preparando-a para o que estava por vir. Seu coração palpitava de uma forma anormal, então, por puro instinto, apertou o cabo da espada, escutando os passos dos outros dois lhe acompanharem enquanto ela era atingida pelo frio que envolvia o interior do palácio. Seus pelos se arrepiaram de forma quase instantânea, com o menor vento gélido que lhe tocou a pele, muito embora não soubesse identificar se a causa era o tom familiar ou os indivíduos que lhe esperavam ao final daquela espécie de corredor. O sentimento que se apossou de si não era o medo previamente, porém passava longe de deixá-la calma ao caminhar por entre a extensa entrada do castelo, que era um caminho linear que dava direto ao trono do rei. Um arrepio parecia corroer suas entranhas, a ponto de fazê-la estranhar o próprio lugar ao qual estava pisando. E não era pra menos. Aquela sensação pessoal dava lugar à desconfiança, sabendo que tudo aquilo que um dia fora sua casa havia sido tomada por inimigos declarados seu e, agora, de sua família também.
— Amaquelin, minha princesa.
Os passos de diminuíram quando ela estava próxima o suficiente, deixando uma expressão rígida tomar-lhe a face quando reconheceu ao homem que ocupava o trono de Blackagar Boltagon, o verdadeiro rei. Um aperto preencheu seu peito, deixando-a sem palavras durante os segundos seguintes, ainda em fase de absorver o que seus olhos viam. Theo, atrás de si, reagiu de forma semelhante, com um sibilo espantado escapulindo por entre seus lábios entreabertos, enquanto ele decidia postar-se ao lado da inumana.
— Eu queria acreditar que não seria você, Maximus. – constatou a garota, a respiração desregulada atrapalhando em sua dicção. – Mas, aparentemente, eu nunca me engano.
Os olhos analisando a expressão satisfeita do inumano, que se acomodara ao trono como se, de fato, tal lugar sempre houvesse pertencido a ele. estava extasiada demais para adotar algo além de surpresa, mas não se importou em demonstrar uma nota desacreditada em seu rosto, soltando um riso nasalado em clara perplexidade.
— Ajoelhe-se perante o seu rei. – ordenou o moreno, corrigindo a postura para impor certa autoridade.
balançou a cabeça em negação.
— Você não é e nunca será o meu rei.
— Tem razão. Não o seu. – ele limitou-se a sorrir. – Você estará morta antes mesmo de testemunhar minha ascensão.
comprimiu os lábios, sentindo a mandíbula enrijecer diante do perigo que seu corpo sentia. Foi aquele instante de um silêncio repentino que a teve a oportunidade de percorrer o olhar pelo restante que acompanhava ao suposto rei. Quatro dos cinco integrantes da Ordem Negra se encontravam ali, incluindo alguns poucos guardas aliados do exército que, agora, servia a Thanos. Os Sakaarianos³, antigos aliados do kree Ronan, O Acusador. Lado a lado, eles se postavam. Os quatro pares de olhos lhe encarando em uma mistura de deleite e hostilidade, características essas que conhecia muito bem e que eles não se importaram em demonstrar perante a inferioridade apresentada pela inumana.
Ela engoliu em seco, os batimentos em seu peito completamente acelerados em decorrência de seu súbito temor.
respirou fundo.
O salão era ocupado e cercado pelos seus inimigos, a grande maioria armada. De todos os rostos desconhecidos dali, três deles eram o que lhe chamavam atenção, especialmente quando eles sequer estavam amarrados e pareciam lhe fitar da mesma forma que seus inimigos fitavam. Com agressividade. tentou ao máximo conter o suspiro que escapou, observando suas irmãs, Medusa e Cristalys, postadas ao lado de Maximus, parecendo protegê-lo exatamente como o Raio Negro fazia. Onde deveria haver um brilho e cor natural nos olhos de cada um, havia um tom escarlate intenso, que chegava a lhe incomodar com a ideia de que tal anomalia era feito de Maximus. Seu coração apertou por encarar aquela cena, principalmente por ver suas duas irmãs naquela situação e não poder fazer nada sem que pudesse comprometê-las. Porém, muito mais do que impotência, sentia raiva e uma que ela mal conseguia controlar quando voltou os olhos a Maximus.
— Como teve coragem de trair sua própria raça em troca de poder? Como teve coragem de trair seu próprio irmão por isso? – não controlou o tom de sua voz, estranhando o som repercutir em meio ao salão silencioso. Mais alguns passos em direção ao inumano, expressando todo o ódio mascarado como indignação que conseguia. – O mundo desaba à sua frente e você não se importa em sua própria espécie cair diante dos seus olhos, Maximus? Ou pior, todo o universo cair para alimentar aos desejos de um Titã genocida?
— Eu não me importo em ver o mundo perecer sentado em meu trono, por direito, . – replicou o rapaz.
— Você acha mesmo que estará em paz depois de contribuir para a ascensão de Thanos? Ele destruirá a todos nós, incluindo a você, Boltagon. – a garota apontou ao homem, sequer contendo a agressividade. – O poder que você obtém agora não é nada comparado ao que está ajudando Thanos a construir. Você não é nada mais do que insignificante pra ele, Maximus. – cuspiu as palavras, causando um olhar de desprezo no homem, que havia se levantado de seu trono para se aproximar da garota. tentou controlar a respiração descompassada, apenas para que pudesse afirmar: – Um descartável.
Ela logo sentiu duas mãos pousarem sobre seus ombros e a forçarem a se ajoelhar, deixando que sua espada caísse com o ato. soltou um grunhido baixo em reclamação, escutando Devlor contestar, mas também ser detido quando os guardas o impediram de reagir e o colocaram ao chão, ainda ao lado de . Os dentes rangeram em direção ao inumano, ainda tentando se desvencilhar por algumas vezes e recebendo apenas um aperto mais forte de dois soldados do exército para que a ficasse quieta. O sorriso de Maximus surgiu assim que ele diminuiu a distância entre os dois, apanhando sua espada do chão e tocando a lâmina com os dedos antes de fitá-la de cima, com um ar que esbanjava prepotência.
— Nem ouse, Maximus. – Theo o ameaçou, uma entonação ríspida tomando conta não apenas da voz, mas do comportamento impulsivo do rapaz.
O rei sequer se deu ao trabalho de observar o guerreiro mais atrás, ainda entretido em avaliar a submissão da inumana, mesmo que ela demonstrasse repulsa diante do homem. O semblante tomado por uma raiva, sentimento esse que atingia a Theo ao seu lado, que ainda despejava centenas de ameaças a quem quer que escutasse, o que ocasionou em um sorriso ainda maior nos lábios de Maximus. Ele se deleitava pela situação e fazia questão de demonstrar o poder que tinha ao lado dos novos aliados.
— Eu gosto quando as pessoas se ajoelham pra mim. Quando elas demonstram fraqueza e submissão, .
Seu nome de civil teve uma conotação pejorativa, como se ele tivesse aversão por proferir, algo que ela fez questão de reagir ao encará-lo com certa fúria e não se abalar pela situação inferior. O inumano mostrou-lhe um sorriso de escárnio, antes de usar a lâmina de sua própria espada para acertá-la no rosto, jogando-o fortemente para o lado com o impacto. não evitou gemer, o corpo amolecendo e tendo de ser sustentado pelas mãos dos soldados, que trabalhavam em mantê-la na mesma posição. Theo rosnou atrás de si, ainda impedido pelas mãos dos sakaarianos, enquanto voltava a fitar os olhos do então rei de Attilan. O sangue quente não demorou a escorrer pelo machucado recém-aberto, de uma forma lenta e não constante, que, felizmente, não lhe incomodava mais do que encarar a expressão satisfeita de seu então primo.
— Que é exatamente o que você me apresenta agora. Fraqueza. Uma palavra que eu imagino ser muito familiar a você, princesa.
— Maximus. – Devlor rosnou.
O inumano transpondo a impaciência, mesmo que a não estivesse na opção de sucumbir. Porém, ainda sim, ela sentiu o maxilar enrijecer diante de tais palavras, embora houvesse permanecido com a irritação pairando sobre a face. sabia que sua reação mais retraída era pelo incômodo da declaração de Maximus. Era exatamente o que o Boltagon mais novo queria fazer, rebaixá-la a ponto de fazê-la perder a própria fé em si mesma e, nas incertezas que ela deveria se afundar, a faria desistir. Ela não mentiria que as palavras se faziam dolorosas em seu interior, mas não permitia que aquilo a abalasse para que se tornasse suscetível aos planos de seus inimigos. Ela era forte, tinha de ser.
— Você tanto proclama sobre a minha insignificância que não reconhece a própria, não é? – os olhos chegando quase ao seu nível quando ele se agachou, usando a lâmina da espada outra vez para tocar-lhe o queixo, triscando mais do que o necessário na pele de seu pescoço. , obrigatoriamente, teve de encará-lo. O prazer expresso nos olhos de Maximus eram paralelos aos seus, que se mantinham firmes em demonstrar desprezo. – Nascida na Família Real, você é a única inumana, , que é tão irrelevante que precisa de alguém para lutar as próprias batalhas, porque você mesma sequer tem alguma habilidade pra isso. – a sobrancelha do moreno arqueada, enquanto a cabeça apenas balançava em negação. – Tem sorte de que o sangue que corre por suas veias descende da realeza, . Ou você seria como qualquer outro inumano insignificante de seu povo. Descartável.
De todas as escolhas que a inumana tinha, ela escolheu a menos sensata ao sorrir.
— Eu tenho algo que você jamais terá, Maximus. Honra. E respeito.
— Não se ganha uma guerra com essas coisas, .
— Também não se comanda um reino sem elas.
sentiu a ponta de sua espada chocar em seu rosto outra vez, agora fazendo-a se debruçar ao chão. Uma dor logo atingiu ao lado direito de sua face, provavelmente em decorrência do ferimento que abriu um pouco mais com essa segunda vez. O sangue, agora, não mais tímido em descer pelo seu rosto, escorrendo até pingar umas duas vezes ao chão, ao qual ela ainda estava apoiada. gemeu, mal lhe sobrando tempo para se recuperar quando foi puxada outra vez para cima, agora com os braços devidamente presos às suas costas enquanto a mão de um dos soldados puxava um punhado de seu cabelo para trás. A rangeu os dentes, sob os protestos de Theo ainda constantes. Ela assistiu Maximus se afastar após avaliá-la com certo descaso, finalmente dando o lugar para que um dos integrantes da Ordem Negra ocupasse, após uma demonstração silábica em impaciência.
— Pode me matar agora porque eu não vou ajudar você e nem ao desgraçado do seu líder.
— De nada adianta relutar contra isso, Amaquelin, você é a prova viva de que se opor a nós apenas resultará em consequências piores.
Ebony Maw colocou-se de frente a ela, expondo toda a rigidez com uma postura que lhe causava pavor. Diferentemente de todos os outros membros da Ordem Negra de Thanos, o alien não era um lutador, pelo contrário, com sua estatura alta e aparência extremamente magra e medonha, ele passava longe de ser. Os olhos eram completamente azuis e emitiam um brilho estranho, deixando-a desconfortável para cada vez que o olhava; os cabelos brancos lambidos para trás, focalizando ainda mais a face quase cadavérica e enrugada do alien.
acreditava que era capaz de derrotá-lo, ao menos fisicamente. Mas perderia antes mesmo que pudesse tocá-lo. Maw, apesar de não ter nenhum atributo ou habilidade física, era talvez o mais perigoso general de Thanos, justamente por seus poderes de manipulação. Era quase como um controle metal, com Ebony instigando seu alvo a realizar o que ele desejasse através de palavras, usando as próprias memórias e pensamentos do alvo contra ele mesmo, algo que teve o desprazer de experienciar uma vez. Ela havia sido infectada por Ebony Maw – na época em que foi capturada pela primeira vez pela Ordem Negra –, sendo induzida pelo alien para que revelasse a Thanos a localização de uma das Joias do Infinito.
O general uniu as mãos em frente ao corpo, fazendo-a ter dificuldade de encará-lo por sua altura.
— Eu não me importo. – proferiu, agradecendo por ter soado firme. – Qualquer destino que me espera é melhor do que servir ao propósito de vocês.
— Você é igual a todos os outros, Amaquelin. – Proxima Midnight tomou a frente do alien, expressando impaciência para toda aquela conversa e oposição. – Com um instinto protetor aflorando a pele, tendo sede em defender aos iguais sem se importar o quão ferida pode ficar por tal escolha. E isso os entrega, expõe a um dos vários pontos fracos que possuem. – a garota rosnou assim que o soldado puxou ainda mais os seus cabelos, ainda emaranhados na mão de seu oponente. Um ato que parecia gritar a sua situação inferior, talvez como forma de amenizar a fuzilada que não se importava em dar. – Isso é o mais previsível da sua raça e de todas as outras tão fracas quanto a sua.
— O irônico é que vocês precisam mais de mim do que eu de vocês. – a inumana cuspiu as palavras, denotando certa presunção.
— Não precisamos de você, precisamos de sua habilidade. E iremos consegui-la, querendo você ou não. – a ameaça estava ali, contida e mascarada, mas a garota sentia até mesmo o ódio velado no tom de voz. Proxima Midnight agiu como se esperasse alguma oposição por parte da inumana, ainda que a dureza e a soberba continuassem ali. tentou demonstrar que não se importava com o próprio destino, mas a general parecia saber que aquele seu indício de coragem não era cem por cento verídico. – Qualquer escolha que tomar será inútil. Você veio até nós sabendo como isso acabaria.
— Ingenuidade sua pensar que eu vim por vocês.
— Veio pela morte, posso perceber. E por sua família. – o rosto da general se contorceu em escárnio, enquanto ela meneava a lança e a pousava alguns centímetros à frente de , apoiando-se sobre a arma. Havia uma certa calma transposta no comportamento da vilã, de uma maneira em que ela parecia se vangloriar por um triunfo ainda incerto. – Esse foi um dos motivos para termos induzido você a vir, Amaquelin. O seu lado humano prevalecendo sobre suas decisões, sequer se importando quais tipos de lugares está pisando e o que irá perder com tal decisão. Essa necessidade de salvar a sua família lhe faz baixar a guarda, lhe enfraquece e a torna vulnerável. – a inumana não ousou desviar o olhar nem por um segundo, vez ou outra rosnando em direção à mulher, ora em raiva, ora em consequência da dor. – Como eu disse, fraca quanto qualquer outro.
— Está tão disposta a perder assim? – intimidou Ebony Maw, aproximando-se um pouco mais da .
— Vocês estão?
— Você tem muito mais a perder aqui do que nós, Amaquelin. E pelas nossas mãos.
— Então faça o que for fazer, Midnight. Porque, se depender de mim, vocês sairão daqui do mesmo jeito que vieram. Sem nada. – desafiou a garota, permanecendo com a voz calma embora não controlasse o tom provocativo. Ela engoliu em seco, sabendo que não soava tão determinada quando completou: – Não importa o que aconteça, não vai ser por mim que vocês alcançarão seus planos. Eu vou me opor o quanto precisar para que vocês não consigam nada. Essa é minha palavra final. – a respiração se tornou pesada, devido a força que a inumana fazia para falar e respirar, enquanto tentava se manter ereta com dois pares de mãos lhe segurando. – Diga ao seu chefe se quiser.
Midnight se mostrou até tolerante diante de sua resistência. Provavelmente a general não estava surpresa por toda aquela situação, uma vez que a inumana apresentar tal comportamento era absurdamente plausível, mesmo com todas as circunstâncias contra ela. sabia que estava indo por um caminho sem volta e que toda palavra proferida era como eliminar qualquer possibilidade de se salvar e livrar os seus familiares. Mas não havia escolha. Ceder não era nem mesmo uma opção, muito menos contribuir para os planos deles – acreditando que tal coisa poderia poupar sua vida e a dos outros dali. Era ridículo achar que havia alguma forma de salvação, não com todos contra os dois.
sentiu a mandíbula tensionar, em alerta.
O olhar de Proxima Midnight demoradamente em seu rosto, estudando cada traço diferente que ela poderia apresentar à espera de uma reação impulsiva da general. O medo era implícito e relutava a todo instante para não demonstrá-lo à mulher, nem a qualquer outro dali. Era seu medo que a entregaria e faria com que eles a instigassem a ajudar, usando esse fator contra ela mesma. Tudo era desvantagem naquele instante, afinal. Desde sua situação até mesmo a ligação que tinha com sua família, que, a qualquer momento, poderia ser usada contra ela, em um nível muito maior que aquele.
— Eu aprecio o seu ato de bravura, Amaquelin.
Midnight aproximou-se em alguns passos e, de uma forma nada pacífica, encaixou a mão esquerda em torno do queixo da inumana, erguendo-a do chão sem muita dificuldade. nada mais fez do que resmungar, sendo atingida pelo incômodo e pelo sufocamento que não tardou a surgir, deixando-a aos grunhidos abafados e tentativas falhas de se soltar. Uma das mãos da inumana segurando o pulso dela, ao mesmo tempo em que a outra se estendia para alcançar o rosto em uma tentativa de afastá-la, estranhando os próprios chiados e sendo contemplada pelos olhos completamente brancos da mulher.
— Mas ele é tão inútil quanto qualquer outra atitude sua.
E no outro segundo, tossia desesperadamente quando a general lhe jogou ao chão. O baque do seu corpo, deslizando por alguns poucos metros. Uma busca desenfreada por ar, assistindo ao próprio sangue do ferimento se acumular abaixo de seu rosto. permaneceu naquela mesma posição, escutando um sibilo rápido da mulher e logo as queixas de Devlor preencherem o ambiente, igualmente ao som que se formava com ele tentando, desesperadamente, se desvencilhar.
— Não há espaço para clemências aqui. Estão condenados. Todos vocês. – a tossiu mais algumas vezes, mantendo-se naquela posição ao som da voz de Midnight. – É muita ingenuidade de sua parte acreditar que há alguma chance de reverter isso, .
— Não vai ser isso que irá me impedir de tentar.
— Pode fazê-lo o quanto for.
reuniu os resquícios de força que havia para girar o corpo, permanecendo no chão, apenas para encarar seus inimigos e o sorriso que estampava a face satisfeita da general. Uma nota de receio pairou sobre sua face, quando percebeu que Theo era arrastado pelos guardas e praticamente arremessando aos pés de Corvus Glaive, embora tenha sido Supergiant que decidira se aproximar do rapaz e tocá-lo, um ato que não o fizera reagir, possivelmente ciente de que estava lidando com uma parasita mental.
Instantaneamente, temeu.
O coração quase parou com a possibilidade de atingirem Theo naquele momento, o que a fez suspirar baixo e controlar algum indício diferente que poderia apresentar. O seu plano, naquele instante, não era nada atrativo, mas, de todas as escolhas possíveis, era a única que poderia funcionar, por mais que aquilo significasse perder. Por mais que salvar sua família fosse a prioridade, havia uma coisa que a inumana tinha de fazer: e não era apenas destruir a Ordem Negra, como também acabar com qualquer plano ou chance que Titã tinha. Era difícil admitir, mas as fatalidades dali não seriam nada comparadas as quais Thanos causaria em posse das pedras.
apenas fechou os olhos por alguns segundos, buscando se acalmar.
O medo era uma fraqueza. Uma que ela não poderia manifestar naquele momento.
— Mas nós já vencemos, independente de suas atitudes. O que você imaginava que aconteceria quando viesse até nós?
Uma imponência exalando no comportamento de Midnight, acompanhando o meio sorriso que ela lhe direcionou.
— Você esperava que eu pedisse misericórdia por minha família. – informou a , a voz falhando por breves segundos.
— Esperava que tentasse.
— Pois é. Parece que eu não tenho tanto a perder assim, afinal. – encolheu os ombros, sob um riso discreto da general.
— Não deveria ter se arriscado a vir, então.
— É, eu sei, mas…
O maxilar tensionou, tendo tempo apenas de respirar fundo ao observar a situação de Theo. Ele, agora, estava com o corpo de frente ao seu, ainda sendo mantido por Supergiant, que permanecia com uma das mãos sobre o ombro dele para afirmar quem estava no comando. segurou a vontade de soltar o ar pela boca, notando que ela segurava a respiração por mais tempo do que o necessário. Uma consequência de uma leve apreensão que lhe atingiu, sabendo que o momento era extremamente delicado. Mas o silêncio não era nenhum pouco confortável também, muito menos permanecer naquela subordinação.
molhou os lábios, decidindo se levantar após limpar a bochecha com o dorso de sua mão.
— Se eu não viesse, não teria a certeza de que, agora, vocês não podem me controlar mais. Afinal, se vocês quisessem mesmo, já teriam o feito. Então... O que estão esperando? – abandonando toda aquela áurea temerosa, a inumana intimidou, endireitando os ombros e ainda sendo avaliada por diversos pares de olhos, incluindo os preocupados de Devlor. – Da última vez, vocês entraram na minha mente e sequer esperaram que eu contestasse. Mexeram com minhas memórias, disseram o que eu tinha que fazer, mas hoje… Bem, estamos conversando demais. Será que é porque vocês precisam da minha submissão? Isso explicaria o motivo de usarem minha família contra mim. – o cenho franziu-se, observando um semblante frio se instalar na maioria dos generais. – E vocês perceberam isso em Zeyad, não é? Que meu cérebro não era tão mais vulnerável quanto antes, que não podia ser comandado. Então, como poucas opções restantes, vocês me ameaçam na esperança de que eu me torne mais suscetível e faça o que eu tenho que fazer. – a inumana engoliu em seco, a rigidez tomando conta de sua linha corporal. – Mas você sabe a minha resposta, General. É não. E eu a direi quantas vezes quiser ouvir.
O silêncio se instalou durante os segundos seguintes, enquanto relutava contra o desconforto. As sobrancelhas se uniram, mas eram em desconfiança, uma reação adotada por seu corpo para avisá-la do perigo ao redor. apenas seguia uma intuição, um instinto que passava longe de ser protetor. Ela instigava o ataque, parecia querer iniciá-lo, talvez assim desviasse a atenção de si para uma guerra que estava prestes a eclodir. A inumana poderia estar em desvantagem, porém, felizmente, a única vantagem que tinha ela conseguia usar a seu favor.
Ao menos, era o que parecia.
De fato, ela estava pisando em um campo minado, correndo o risco de jogar tudo aos ares por um passo em falso.
Contudo, era o risco que ela tinha de correr. Era o único, talvez.
comprimiu os lábios, escutando os protestos de Theo quando Midnight, pessoalmente, o pegou.
O grito sufocado do rapaz ecoando por todo o salão, em decorrência da maneira como a mulher o segurava pelo pescoço.
— Então você aceita o risco? – ela lhe questionou, abusando da autoridade em sua voz.
A sentiu a mandíbula tensionar, no entanto, reunindo toda a contagem que ainda tinha, ela afirmou:
— Eu aceito. – a garota agradeceu por ter soado com convicção. – Porque vai ser com ele que eu vou acabar com todos vocês.
Proxima Midnight estreitou os olhos em sua direção, aproximando-se em dois passos à medida que apenas fechava a mão em punho, se preparando para o que quer que fosse. O coração acelerou quase que instantaneamente, devido a adrenalina que se elevava conforme o silêncio corria; ela tentava evitar encarar Devlor, porém, vez ou outra, seus olhos viajavam para o rosto do rapaz, ainda imobilizado pela mão de Midnight em seu pescoço. não sabia se ter ficado congelada era pela espera de uma atitude da Ordem Negra ou pelo receio de agir e piorar tudo, mas sabia que o controle que limitava suas ações não era nenhum pouco consciente. Esse fato ordenado por sua mente era apenas uma tentativa de prevenir o pior, mesmo sabendo que esse pior já estava ali.
— Já que não temos problemas aqui, então…
O gemido de Theo ecoou por todo o salão quando a general não poupou força para jogá-lo ao chão, passando por cima do rapaz enquanto girava a lança e caminhava vagarosamente até . Sua respiração vacilou por alguns segundos, erguendo o queixo para se mostrar impassível quanto a mulher, muito embora a própria soubesse que certeza era o que mais lhe faltava no momento. Um leve arquear de sobrancelha pareceu desafiá-la e ao menor sinal de sua mão, Loan logo tratou de agir ao empurrar o rapaz com o pé, enquanto o salão novamente repercutia o som da voz do inumano. Porém, dessa vez, eram os gritos agudos que inibiam o silêncio. Ele desgastava suas cordas vocais em consequência da dor causada por Loan, chegando a colocar as duas mãos na cabeça em uma tentativa falha de amenizá-la.
A dor era incontestável, era nítida, era sentida. Tão sentida que parecia atingir a garota em cheio, fazendo-a se reatrir apenas com o que via.
teve de fechar os olhos, relutando contra o desconforto ao som dos gritos de Devlor.
Ele parecia suportar o máximo que conseguia; a voz mal saindo, o sangue escorrendo de seu nariz enquanto a cena era apreciada pelos olhos cinzentos de Algea, que, vez ou outra, também admiravam a naquela situação sofrida. O sorriso sujo delineando os lábios da general, extasiada com o som da voz estridente do inumano, como se aquilo, de fato, fosse uma música a ser contemplada. sentia as unhas perfurarem a própria pele, mas seu corpo parecia paralisado, como se a única atitude possível fosse apenas a observação.
Cada grunhido, cada protesto era um motivo a mais para sentir-se completamente inútil.
Ninguém deveria pagar por um destino que era seu.
E mais uma vez, era Devlor quem o fazia.
Era sempre ele.
segurou a vontade de revidar, molhando os lábios embora soubesse que ato nenhum conseguiria diminuir a angústia que lhe atingiu. Devlor não demonstrou medo em nenhum momento, algo que não era surpresa para ela, visto todas as vezes em que ambos estiveram por um fio e ele sempre soube como resolver. E era isso que atingiu o seu peito ao observar a cena. Theo era sempre impassível, controlado. Em todos os oito anos juntos nessa jornada de fuga, o rapaz foi a mente e, por mais que tivesse lutado contra isso, ela era o coração. Tinha suas táticas, sua descendência guerreira, porém, vez ou outra, parte da emoção que a inumana evitava mostrar sempre voltava à tona. Talvez por isso eles funcionavam tão bem, se encaixam tão bem naquele quebra-cabeça. E esse era um dos principais motivos para que a sentisse e muito por aquela situação.
A mandíbula tensionou em consequência e a garota sentia as mãos tremelicarem por breves segundos.
A emoção, que tanto ela tentava controlar, conseguiu atingi-la em cheio naquele instante.
— Implore pela vida dele, Amaquelin. – a general não suavizou o tom sombrio pairando sobre a face. – Eu sei que quer.
.
Theo quase se engasgou, lhe mostrando um olhar complacente, embora percebesse que havia certa repreensão naquele chamado. O rapaz parecia querer avisar para que não cedesse, complementando com um aceno negativo de cabeça disfarçado e sendo repreendido fisicamente pela mão de Loan, agora plantada em seu ombro direito, ajudando-o a endireitar a postura mesmo o corpo dele querendo desistir. Ele estava enfraquecido, grogue, os olhos comprimidos e a boca entreaberta, para a passagem desordenada de ar. Uma cena que só serviu para alimentar a aflição que ela sentia, por visualizar o amigo em uma situação em que não podia se intrometer. Sua única atitude possível, então, era reprimir a raiva soltando todo o ar pelas narinas, na esperança de que tal ato lhe deixasse menos agoniada. Afinal, era tudo o que podia fazer e esperar no momento.
— Está tudo bem, Dev. – disse, não sabendo se tais palavras foram para acalmar a ele ou a si própria.
Midnight foi quem meneou a cabeça em negação, os olhos não desviando um minuto sequer de sua expressão, de certa forma, tolerante.
— Eu sei que está com medo. Eu posso sentir. O desespero através de seus olhos.
— É o que você quer que eu sinta.
— É prazeroso saber que a causa de seu comportamento é uma reação ao meu, . – continuou, como se sua fala anterior não houvesse sido dita, embora certamente compreendida. – Você tenta expor a mim uma ideia contrária, mas é nítido em como cada palavra minha lhe afeta de uma maneira diferente. – os olhos levemente comprimidos, em um ato que buscava o detalhe mais minucioso que poderia comprometer a inumana. – Mas ainda é uma incógnita o motivo de seu pavor, muito embora eu imagine que não seja pela sua própria vida. Ou sequer daria a trabalho de vir. E, além do mais, você ainda se mantém resistente, mesmo diante dos problemas colocados de frente a você. É interessante. – fez um estalo com a língua, soando com menos hostilidade do que imaginou. – É realmente interessante saber que sua força vai muito além da física, Amaquelin.
— Como eu disse, conversas e conversas e mais conversas. – pronunciou-se, agradecendo por não ter oscilado quando sua mente ainda estava completamente hesitante, exatamente como seu corpo. – Se quisessem ter feito algo, já teriam o feito. Não é a mim que estão tentando atingir, mas é bom que saibam que, independente do que for, eu estarei em frente ao que quer que planejam.
Midnight limitou-se a sorrir, achando graça naquela afirmação.
— Ah, essa esperança que você exalta, Amaquelin, me entedia. É só uma ilusão que você se apega como forma de tentar livrar os seus pesadelos, os seus prováveis fracassos, . – a mulher crispou os lábios, de forma desdenhosa. Por mais distante que a alienígena estivesse, a inumana se sentia estranhamente desconfortável, chegando a recuar um passo imperceptivelmente quando a general fez menção em adiantar um. – É uma mentira. E você sabe disso. E, ainda sim, não deixa de ser consumida por ela. – um minuto de silêncio correu, expondo a respiração pesada da e o sorriso em deleite mostrado por Midnight. – Você está cega por algo que não pode alcançar.
— Vocês também. – devolveu a garota.
— Você é o meio mais fácil de achar a última joia, . – mais alguns passos e a mulher se encontrava perto o suficiente para que percebesse cada detalhe da expressão prepotente dela, incluindo a lança que a general empunhava mais à frente. Midnight tivera que abaixar levemente a cabeça para observá-la melhor, delineando ainda mais as linhas faciais quando permitiu-se sorrir por um momento. – Mas, certamente, não é o único.
— Então o que está esperando para dar um fim nisso tudo? – provocou a inumana, os ombros endireitados e uma postura mais sólida em relação à mulher.
A ausência de uma resposta não a surpreendeu de primeiro momento, porém admitia que o jogo que eles estavam fazendo começava a lhe intrigar. O que ela esperava ser uma vantagem, não soava como uma naquele instante e isso se devia ao comportamento minucioso e consistente de cada um deles. tentou esconder aquele súbito receio, sabendo que havia motivos de sobra para ficar daquele jeito. Encarou a Theo por um momento, percebendo que os olhos do inumano, agora vermelhos, ainda estavam vidrados em seu rosto, analisando cada parte de si ainda em silêncio. Não havia medo ou preocupação expresso neles, ao contrário dos seus, que relutavam para permanecerem firmes, imaginando que a sua respiração pesada e desconforme era o que entregava a sua desconfiança.
Proxima Midnight girou a lança com o braço metálico, o mínimo movimento, devido à proximidade, chegando a sacudir alguns fios de seus cabelos desprendidos de sua trança lateral. Uma confiança era percebida até na maneira como ela parecia considerar as palavras para lhe responder, estalando os lábios como se a resposta estivesse evidente.
— Você sabe o que estou esperando.
Aqueles segundos duraram uma eternidade quando assistiu a general colocar a lança em posição de ataque e girar o corpo em meia volta, dando espaço para que ela observasse Theo e percebesse que o rapaz estava na linha de mira da mulher. Durante aqueles três segundos de observação, o tempo pareceu passar mais lentamente do que ela imaginou e nem mesmo a tentativa frustrada de sibilar algo mudaria alguma coisa naquele instante. O suspiro que ficou entalado em sua garganta não havia sido por surpresa quando viu a arma viajar até Devlor, mas por alívio ao notar a lança da general cravar em uma parede de gelo que surgiu entre a mulher e seu alvo.
O ar, antes preso, escapou totalmente por sua boca entreaberta.
Quando seus olhos foram até a parte onde Maximus estava sentado, seu único vislumbre era Cristalys cambaleando até cair de joelhos, abaixando a mão que usara a habilidade e parecendo retomar o controle do próprio corpo e da mente. Sua irmã respirava com dificuldade, mas conseguiu encará-la por um momento e expressar tudo o que ela precisava saber apenas em um aceno de cabeça. Na medida do possível, aquilo significava bem. Talvez não só fisicamente, mas em processo de recuperação mental também. deixou aquela sensação perturbada se esvair, assim que aquele mínimo ato de sua irmã permitiu, nem que por um segundo, que um indício de conforto acalentasse seu coração.
Então, mais do que um simples aceno, retribuiu com um sorriso de canto.
Qualquer outra tentativa de atitude sua foi cessada por um golpe que recebeu na região da barriga, fazendo-a cambalear alguns passos para trás. O tempo que teve de reação apenas possibilitou que não fosse atingida outra vez, agora em direção ao rosto, usando o antebraço para absorver o impacto do ataque. Ela chiou com o incômodo, não sustentando o corpo tamanha intensidade e caindo de costas ao chão, tendo que erguer os braços outra vez para se proteger assim que a alienígena de pele azul fez menção em pisoteá-la.
O impacto do chute em si não viera, pelo contrário, tudo o que a obteve foi apenas um gemido abafado de sua oponente e um rastro de luz passar acima de seus olhos, atingindo a general e arremessando-a para qualquer canto que fosse. O barulho de sua respiração era forte, porém não mais do que os passos que escutou se aproximando de si, logo percebendo alguém entrar em seu campo de vista e lhe estender uma das mãos. Uma máscara espacial cobria seu rosto, deixando apenas os fios dourados de seu cabelo à mostra, algo que não demorou por mais tempo quando o homem levou a outra mão livre atrás do capacete e decidiu revelar o seu rosto enquanto dizia:
— Espero não ter chegado atrasado pra festa, majestade.



1 Algea é usado no plural como a personificação de tristezas, representadas como as filhas de Eris, deusa grega da discórdia. O singular Algos, em grego, é um substantivo neutro que significa literalmente "dor".
2 O visual da personagem Loan foi inspirada na personagem da DC Comics Faora Hu-Ul, interpretada pela atriz Antje Traue, no filme Man Of Steel (O Homem de Aço), em 2013.
3 Os Sakaarianos aparecem no filme Guardiões da Galáxia (2014), sendo os soldados de Korath e aliados a Ronan, O Acusador.





DOIS ♦

FLASHBACK ●



PLANETA HULIOWA
Nove anos antes


respirou o máximo de ar para seus pulmões, durante longas e ininterruptas quatro vezes. O fôlego aquecendo seu organismo, concedendo-lhe força para tentar quebrar a corrente que envolvia seus pulsos, tendo as extremidades presas no concreto, acima de sua cabeça. Um grunhido escapuliu por entre seus lábios quando ela puxou mais uma vez, ouvindo apenas o chacoalhar do metal reverberando naquela cela, onde uma pequena janela, ao alto, não lhe mostrava nada mais do que a escuridão ao lado de fora.
Todos os dias. Durante todo o tempo em que esteve ali, nenhuma vez ela viu luz.
Reprimiu um gemido quando a dor em seu pulso se intensificou, fazendo com que ela suspirasse diversas vezes em uma tentativa falha de amenizar não só o incômodo, como também aquela sensação estranha que esmagava seu peito. Talvez fosse a consequência de sua incapacidade. O rosto molhado pelas lágrimas, que ela não sabia se eram de medo ou de raiva. Medo de tudo, raiva de si própria. Uma mistura severa que piorava aqueles repentinos sentimentos ruins.
Rangeu os dentes, em protesto. Um grito agudo escapulindo de sua garganta, enquanto ela se permitia a desistir, cedendo ao cansaço e a derrota. Nem aquela sua força pessoal conseguia lhe incentivar para arrancar as correntes, que também prendiam seus calcanhares, ao chão. Os hematomas nítidos em sua pele, que se estendiam desde as regiões amarradas até outros pontos em seu corpo. E ainda ganharia mais um, quando percebeu um fio de sangue escorrer pelo seu braço, por todo esforço feito.
O maxilar logo tensionou, sentindo o corpo amolecer.
O barulho ao lado de fora continuava cada vez mais alto. Gritos, vozes, passos pesados, que pareciam cada vez mais próximos. O que quer que estivesse acontecendo do outro lado, ela não se interessava em saber. Passou tempo demais presa, aos comandos do soberano daquele planeta, para se impressionar com mais uma tentativa de rebelião. Centenas de outros prisioneiros abrigavam aquele lugar, alguns apenas esperando para serem mortos ou escravizados. Outros, como ela, apenas aguardando quando seriam úteis. Esse era o motivo de Thanos mantê-la viva. Não por sua valiosidade, mas porque ele precisava dela.
Mais especificamente: o Titã precisava do que ela encontraria para ele. As Joias do Infinito.
As vozes se tornavam cada vez mais próximas. Os ruídos a assustavam superficialmente, enquanto ela encarava a porta como se esperasse que o próprio Thanos adentrasse por ela. começava a sentir um certo receio, misturado a um temor que afundava ainda mais qualquer sentimento de conforto que já sentiu. Naquele momento, o medo era real, era palpável, era grandioso. Por mais que quisesse reter aquela sensação, conforto nenhum conseguia amenizar o seu pavor.
— Minha princesa.
Uma voz feminina chegou aos seus ouvidos assim que a porta de sua cela se abriu, revelando uma silhueta indistinguível em meio a luz que chegou aos seus olhos. Suas pupilas se contraíram pra se acostumar, erguendo o rosto de modo a identificar a mulher que encontrava-se à sua frente, tendo dificuldade em reconhecer e até mesmo manter os olhos abertos. Foi apenas quando a mulher se agachou, mantendo o rosto na altura de seus olhos, que Amaquelin pôde notar o sorriso indecente de Loan e a expressão satisfeita manifestada pela general por encarar a sua precária situação.
— Como se sente hoje? – questionou, um tom de voz carregado de escárnio. – Espero eu que mais convidativa. Infelizmente hoje eu não posso garantir que tenhamos tanta tolerância com a sua resistência, . – a seriedade retornou ao semblante, parecendo que a mulher pretendia incitá-la a colaborar naquela conversa amigável e, implicitamente, ameaçadora. – Thanos não gosta de esperar. E nós não gostamos de fracassar com ele. Você sabe onde as joias estão, princesa, não é muito difícil. – os olhos cinzentos avaliando desde o rosto contraído em dor de Amaquelin, até mesmo aos machucados em seu lábio e o sangue que continuava a escorrer pelo seu braço. – É só nos dizer. E eu lhe garanto que estará nos poupando de torturá-la ainda mais.
E então, viera o silêncio, enquanto a respiração pesada e desproporcional de preenchia o ambiente, misturado ao tintilar das correntes conforme seu corpo se movimentava, de forma involuntária. Loan esperava que a inumana confirmasse suas palavras, lhe implorasse para tirá-la dali, que ela colaboraria com qualquer coisa que eles pedissem, a sabia disso. Mas não havia nada, nem mesmo um acordo pacífico ou mais torturas, que a fizessem mudar de ideia, assim, reunindo a força que ainda lhe restava, cuspiu no rosto da general, recebendo nada mais do que um sorriso irônico enquanto ela se erguia outra vez.
— Você é corajosa, princesa. – Algea limpou a face, fuzilando a inumana por dois segundos. – Eu gosto disso.
E sorriu outra vez, revidando com um tapa no rosto, que fez a cabeça da ser jogada para o lado direito e os cabelos dela se desarrumarem, com alguns fios caindo sobre a face. soltou um grunhido baixo após uma joelhada em seu estômago, mantendo a cabeça abaixada e tentando respirar normalmente, ainda sob voz sonora e ríspida de Loan ao fundo.
— Não banque a esperta, Amaquelin. Não se esqueça de que é você que está em uma posição inferior.
— Já terminou, Loan?
escutou uma segunda voz feminina, erguendo o queixo para vislumbrar, por entre suas madeixas, duas mulheres paradas à frente da cela, lhe encarando severamente antes de adentrarem o lugar. Agora acostumada com a luz diante de seus olhos, a inumana reconheceu as filhas de Thanos, ambas não demonstrando nada mais do que autoridade diante da prisioneira. Uma delas lhe observou com um certo ar de superioridade, observando seu rosto machucado, enquanto a outra apenas ignorava a sua presença e continuava o diálogo com a general.
— Tire-a daí. Vamos levá-la.
— Para o pai de vocês? – Loan questionou, ainda com os olhos grudados em .
— Thanos tem coisas mais importantes para fazer.
— Por que eu não estou impressionada, Gamora?
Loan soltou um suspiro longo, revirando os olhos. Logo a inumana era a peça a ser observada outra vez, como se contemplassem o trabalho feito para disciplinar a garota. O cheiro de sangue impregnado, o estalo dos ossos conforme a se movimentava, ainda que minimamente, como se estivesse travada depois de permanecer horas na mesma posição. Não havia nem três dias em que ela foi colocada em uma cela, sofrendo dia após dia para que usasse de suas habilidades inumanas em benefício do Titã. Uma pressão não apenas física, mas, principalmente, psicológica, que, felizmente ou não, conseguiu suportar até esse determinado momento. O que viria agora, no entanto, era o que começava a lhe assustar.
— O que é mais importante do que isso, afinal?
— Um asgardiano¹. – Gamora completou, sem muito interesse.
— Aliado?
— Depende do que ele tem a oferecer. – a guerreira sorriu.
Algea demonstrou irrelevância quanto à afirmação, aproximando-se das correntes, mas não a liberando por enquanto. Amaquelin se mantinha em silêncio, provavelmente por não ter muito o que fazer ou falar – ao menos, não diante da impaciência exposta da general. Ela recebia olhares curiosos e carregados de arrogância e mesmo assim, nada chegava a surpreendê-la depois de tudo o que viu, passou e ouviu. Um dos motivos para o seu comportamento alheio também era a fraqueza que sentia e o cansaço, que se acumulava em todo o corpo e mal a fazia movimentar os dedos. Pareciam até congelados. estava destruída, nem mesmo tendo forças para suspender o corpo quando despencou ao chão, assim que Loan a libertou.
— Vamos acabar logo com isso. A Ordem Negra está esperando.
Nebula, que até então se mantinha em silêncio, resolveu se pronunciar. Um suspiro pesado e baixo escapulindo por entre seus lábios, fixando os olhos numa inumana ainda esmaecida ao chão, que, agora, tinha de ser levantada pelas outras duas enquanto a filha de Thanos permanecia a observá-la, numa postura irritada. Os grandes olhos e totalmente negros cravaram na expressão exausta de Amaquelin, permitindo que a última visão que a teria antes de ir fosse de seu rosto, agora totalmente envolvido pela luz.
— Talvez Ebony Maw consiga fazê-la falar.


FLASHBACK ●





PLANETA NETRIXXIA
Dezesseis dias antes


encarou os próprios pulsos, os pensamentos ainda vagando por cada lembrança que sua mente enviava. Não havia mais as marcas que um dia gritaram que ela fora prisioneira de Thanos, mas havia uma cicatriz fantasma que não a deixava esquecer o passado doloroso que viveu. Poderiam se passar anos desde que a inumana tinha sido libertada, continuaria com cada tortura e cada ameaça sofrida na cabeça, que nunca a deixaria cem por cento em paz. O receio sempre estaria ao seu lado, apesar de tudo. O medo de sofrer todas aquelas atrocidades mais uma vez, de nunca poder seguir seu caminho porque ela sempre seria alvo e nunca estaria livre de verdade. Ela viveu todos aqueles anos na base da precaução. Uma vida que Thanos impôs a ela, que não a deixou com outras opções além de se isolar e tentar seguir outro rumo para não prejudicar sua família.
sentia raiva daquilo. Aquela falsa liberdade, fazendo-a viver como uma nômade, tentando passar despercebida na esperança de que tivesse mais alguns anos de vida. Sempre fugindo, sempre se escondendo. Aquilo lhe causava a pior das emoções. sentia ódio de tudo, de todos. Raiva por não fazer tudo o que pôde, raiva por ter escolhido fugir para livrar sua própria pele, raiva de não poder fazer mais. Thanos e a Ordem Negra sempre estariam no controle de seus atos e tinha que saber viver se esquivando deles. E ainda assim, era apenas mais uma mentira que a inumana contava a si própria, achando que poderia se livrar. Mas ela não poderia, nunca poderia. E todo o ataque e perseguição que sofreu no planeta Zeyad era a maior prova disso. nunca estaria livre ou segura. E talvez fosse a hora de admitir tal coisa.
Ela respirou fundo, massageando o próprio pulso para aliviar aquela dor fantasma, como se ainda sentisse as correntes pressionando sua pele. Sua mente ainda se lembrava do ataque que sofrera há um dia. Toda a Ordem Negra movendo em uma caça implacável à inumana, dizimando populações e planetas apenas para encontrá-la. Aquilo era um péssimo sinal. Se eles precisavam das habilidades da garota mais uma vez, depois de nove anos, significava que Thanos precisava da última Joia do Infinito e moveria céus e terra para consegui-la. E, infelizmente, estava no centro disso. Era improvável que a Ordem Negra parasse o ataque em Zeyad, o que significava que, a partir de agora, só haveria caos e guerra.
— Podemos ficar. Há um quarto disponível. Um não muito bom provavelmente, mas foi o que deu pra pagar.
acompanhou Theo sentar-se no banco à sua frente, apoiando-se com os cotovelos sobre a mesa enquanto falava. apenas o observou durante aquela pausa, parecendo não muito à vontade para verbalizar alguma coisa, ainda com os pensamentos a mil. Além dos recentes acontecimentos, o lugar também não era dos melhores para que ela se sentisse à vontade. Netrixxia era um planeta esquecido, não era destino de ninguém além dos sem rumo ou daqueles que paravam porque era estritamente necessário. Por isso não era nada impressionante encontrar as piores criaturas em espeluncas como a que o se encontrava naquele instante. Centenas de espécies circulavam naquele lugar, desde os exilados de seus planetas natais, fugitivos da Tropa Nova e até mesmo Ravagers² expulsos de suas facções.
Havia todos os tipos, de todos os lugares, com as mais variadas histórias.
era uma delas, com uma vida trágica e medíocre se misturando em meio às outras.
— Eu tive que fazer um esquema pro dono aceitar apenas cinco mil unidades em troca de dois dias. Vamos ter que fazer alguns serviços pra ele, espero que não se importe... – Devlor chamou sua atenção com um murmúrio desconexo, enrugando o nariz de uma forma preocupada, que a teria feito sorrir se fosse em outra ocasião. – Mas eu tive que dizer que você é a Caçadora. Foi o meio mais fácil e mais rápido de conseguir a aprovação do cara. Sei que odeia tirar proveito disso, porém foi necessário. – Theo encolheu os ombros, mordiscando o canto da boca e parecendo não se incomodar com o silêncio e o olhar distante de . – O restante das unidades é pra reparar os danos da nave causados pela Ordem Negra, se for possível reparar aquilo. De qualquer forma... É melhor você ir pro quarto enquanto isso. Não me espere por agora. Eu vou a um ferro-velho não muito longe daqui, talvez eu consiga comprar algumas peças ou, se tivermos sortes, conseguir uma nave nova...
— Temos que ir embora pela manhã.
Foi o que disse, sem nem mesmo comentar sobre os assuntos anteriores. Theo fez uma pausa breve, fitando o rosto da mais nova, mas não surpreso por receber certa indiferença quanto suas tentativas de tornar as coisas melhores. Ele apenas meneou a cabeça em concordância, decidindo se encostar à cadeira enquanto endireitava os ombros.
— Não vamos a lugar algum sem uma nave.
— Não podemos ficar, Dev. Não podemos ficar mais em lugar nenhum por muito tempo.
— Não precisa ter medo por agora...
— Eu não estou com medo, estou apavorada, Theo. Você sabe o que isso significa. – teve de inclinar-se levemente para frente para que o amigo escutasse melhor sua voz; o rosto contraindo-se em uma preocupação que lhe acompanhava desde a saída de Zeyad. – Aquela falsa liberdade que tínhamos durante esses anos acabou. Nossa vida vai voltar ao caos que era antes, as fugas, as lutas, aos ferimentos... Se a Ordem Negra está atrás de mim outra vez, significa que Thanos precisa das joias. – a tensão que consumia logo atingiu a Theo, que retesou os músculos, desviando o olhar por alguns segundos por ter de encarar uma realidade que a todo custo ele evitava pensar. – E nós dois sabemos que não há nada no mundo que o impeça de concluir os próprios objetivos.
— Se nós permanecermos juntos, talvez possamos...
— Isso não é sobre permanecermos juntos ou não. – ela o interrompeu, na esperança de que ele pudesse entender seu ponto e perceber que não havia mais espaço para reflexões ou tentativas de tornar as coisas melhores naquela conversa. – É sobre aceitarmos o fato de que eles são implacáveis e admitir que talvez o fim da linha esteja cada vez mais perto pra nós dois.
Devlor demonstrou certo desconforto em um balançar negativo de cabeça.
— Não gosto desse seu jeito de pensar.
— O meu jeito realista?
— O pessimista, .
— Não é porque não queremos admitir uma coisa, que significa que essa coisa não seja verdade. Estamos presos nessa caçada, Theo, sempre como alvos. Eles não vão desistir, nem que pra isso precisem destruir centenas de milhares de pessoas, planetas ou qualquer coisa que se opor a eles. Você, inclusive. – enfatizou, encostando as costas na cadeira enquanto sentia os ombros tensionarem. Usou aqueles breves segundos de uma pausa para respirar e controlar seus desregulados batimentos cardíacos. Ela sentia os olhos azuis do inumano em seu rosto, mas não conseguia encarar nada além de suas próprias mãos. A impotência retornava e se unia ao seu medo naquele momento. – Dev... Você não é poderoso o suficiente pra bater de frente com os Generais de Thanos. Não contra todos juntos. Você sabe que estamos vulneráveis, que somos vulneráveis. Por anos, eu achei que estávamos livres dos rastros da Ordem Negra, que eu conseguia despistá-los porque podia rastreá-los... – ela finalmente o olhou, a expressão não demonstrando nada mais do que receio. – Mas não era bem assim. E eu descobri isso em Zeyad. Estávamos livres porque eles nunca vieram atrás de nós durante esses oito anos, Theo. Até agora.
Devlor inclinou-se sobre a mesa, apenas para depositar sua mão sobre a da inumana.
— Ei, nós vamos dar um jeito nisso, ok? Nós passamos por muitas coisas juntos, , e sobrevivemos. Isso conta. – uma ruga surgiu na testa do rapaz de cabelos brancos, enquanto ele repetia as mesmas palavras que ela ouviu durante esses últimos anos juntos. Os olhos azuis do inumano brilhavam em sua direção, demonstrando um carinho e confiança já habitual para situações como aquela, mas que, dessa vez, não surtiam o efeito desejado. Não era culpa dele, de qualquer forma. Sua cabeça ainda se encontrava no conflito em Zeyad e no que seria dos dois dali pra frente. – Eu não vou permitir que nada aconteça com você. Eu prometo.
— E quanto a você? – resmungou ela, a voz oscilando entre preocupação e indignação. – Eu não consigo te proteger.
— Esse não é o seu trabalho.
— E arriscar a sua vida por mim não deveria ser o seu. – retrucou, recebendo um suspiro descrente em resposta. – Dev, não estamos mais em Attilan. Aqui você não deve lealdade à Família Real Inumana, não tem mais deveres como Guarda Real ou precisa seguir um trabalho que minha irmã, a Rainha Medusa, incumbiu a você. – ela balançou a cabeça em negação, sabendo que o assunto incomodava mais a ela do que ao amigo. não suportava o fato de que ele dedicava a própria vida apenas para protegê-la, não queria que Theo tivesse um destino traçado por causa dela. Era um assunto que perdurava oito anos. E se dependesse dela, não iria embora tão cedo. – Não somos os mesmos fora de Attilan. Aqui eu não sou uma princesa e você não é um guardião. Aqui você é Theo Devlor, meu parceiro. Alguém que eu quero que lute comigo, não por mim.
— É a mesma coisa. – rebateu o inumano.
— Você sabe que não é.
— Lutar e proteger foi o que me ensinaram a fazer desde criança. O palácio, a cidade, o povo, você. Especialmente você, . – ainda havia serenidade, apesar de tudo. Devlor conseguia equilibrar entre a razão e a emoção naquele momento, coisa que sequer pensava em fazer. – Eu tenho que te proteger. Talvez seja um hábito enraizado, eu não sei. Mas está intrínseco a mim, a que eu sou. Porque você é minha parceira, minha família, a única pessoa que me importa agora. – a voz do rapaz trazia preocupação, afeto; eram palavras familiares, tantas vezes ditas, mas que não deixavam de carregar os mesmos significados. – Eu não sei o que seria de mim se alguma coisa acontecesse a você. Eu não quero te perder, eu não suporto nem pensar nessa ideia. É por isso que eu prometo fazer o que estiver ao meu alcance para que nada disso venha a acontecer, para que possamos passar por isso. Juntos.
soltou todo o ar pela boca, parecendo esgotada.
— É exatamente disso que eu to falando, Theo. Nós sempre temos que "passar por isso". – os lábios crisparam-se em frustração, enquanto ela apoiava os cotovelos sobre a mesa, sendo acompanhada pelos olhos azuis do inumano. O cansaço era explícito em ambos, mas nenhum dos dois parecia se importar com tal coisa no momento. – Nunca, em oito anos, a gente conseguiu seguir em frente porque sempre tivemos medo. Você por mim. Eu por você. Isso nunca mudou, agora então... – encolheu os ombros, deixando que o ato falasse por si só. – Estamos condenados, amaldiçoados a viver essa vida de fugas, esconderijos, receios. Não tivemos uma segunda chance, não teremos agora. Não mais. Eles conseguiram uma vez, o que te faz pensar que não conseguiriam de novo?
— Estávamos despreparados na primeira vez. – tentou o mais velho, fazendo-a sorrir, desacreditada.
Estávamos? – contrapôs a guerreira. – Theo, Attilan abriga seres poderosos, abriga um exército poderoso e a Família Real Inumana. Isso não impediu os Generais de Thanos e as filhas dele de invadirem o lugar, colocar nossas construções e nosso povo pra baixo apenas para me capturar. – as sobrancelhas da garota se uniram, até um pouco exasperada. – Éramos em centenas de milhares contra oito deles e um exército que nem se comparava ao nosso. Gorgon treinou cada um de nós pra lidar com o inesperado. E aquilo era o inesperado, Devlor, e estávamos longe de conseguir lidar com algo parecido.
— Amaquelin...
Não me chame pelo nome verdadeiro aqui.
Rebateu a inumana, tentando não soar tão irritada quanto estava. Ela sabia que o rapaz deixou escapar devido ao nervosismo, mas não se sentia culpada por deixar a impaciência tomar conta de suas atitudes. Não havia mais tempo para lamentações, para tranquilidades e palavras de conforto. estava com os pensamentos a mil, ainda sentindo as dores dos golpes recebidos pela Ordem Negra. Cada pontada lhe lembrava da realidade que ela teria de encarar de novo. Cada novo ferimento, cada novo perigo que teria de enfrentar na esperança de que pudesse se salvar. Era desconcertante pensar em tudo aquilo, porque ela sabia que as chances de sair ilesa diante desses obstáculos era quase nula. Principalmente quando só havia os dois naquela luta, sendo que era quase inútil diante dos implacáveis generais de Thanos.
A inumana jogou a cabeça para trás, fechando os olhos com força enquanto suspirava.
O silêncio da parte de Theo era o indício de que ele estava tentando escolher as melhores palavras para voltar a falar.
, me escuta... Eu sei que essa vida não era a que nenhum de nós dois queríamos. Eu sinto falta de Attilan. E sei que você também sente. Faríamos de tudo para ter nossa vida de volta, sem preocupações e ameaças, é óbvio. – Devlor apelou para seu lado racional outra vez, tentando não deixar que as emoções conduzissem a conversa como o fazia. Ela estava preocupada e não iria julgá-la por isso, mas as intenções da princesa pareciam querer travar uma guerra, não evitá-la. – Mas não podemos arriscar. Talvez isso seja mais do que possamos lidar. Eu sei que é ruim, mas, infelizmente, o destino escolheu a nós dois para passar por tudo isso. O que nos resta é tentar sobreviver ao final.
— Dev, não estamos tentando nada, nunca tentamos nada. – contestou a garota, repuxando os lábios em um sorriso cabisbaixo. – Eu cansei de fingir que eu não tenho escolha. Nós dois sabemos que há muitos caminhos além desses que nos obrigaram a seguir.
— Fugir e nos esconder foi o que nos manteve vivos e nos trouxe até aqui, .
— O problema é que eu não sei se isso continuará nos levando a esse mesmo caminho a partir de agora.
encolheu os ombros, observando Theo concentrado demais em lhe fitar para lhe dar uma devida resposta. Ele entendia cada ponto e admitia que concordava, mas entender era completamente diferente de agir, principalmente quando havia vidas em risco. Tudo o que faziam era uma questão de segurança e proteção, era um pensamento a longo prazo. Revidar eliminava qualquer espaço de sobrevivência e tornava insignificante tudo o que eles fizeram durante esses oito anos juntos.
Devlor balançou a cabeça, corrigindo a postura e até cogitando retrucar, se não fosse tomando a frente outra vez.
— Acho melhor você ir. Ainda temos que dar um jeito de partir amanhã.
Os olhos fitaram o rosto da por alguns segundos, entendendo que aquele era o ponto final da discussão e que ela realmente queria um tempo para digerir tudo aquilo, provavelmente longe dele. Theo apenas concordou em um sibilo curto, levantando-se em seguida, enquanto era observado pelos olhos de . Os lábios repuxaram-se pra baixo e com um murmúrio desconexo, o inumano se pôs em direção à saída, deixando uma frustrada para trás. Ela jogou as costas na cadeira e encarou o teto daquela espécie de bar, parecendo finalmente sentir as dores e a exaustão se acumular em seu corpo. Precisava de um descanso urgentemente, limpar os ferimentos – agora secos e grudando em sua roupa da batalha, da qual também não estava em boas condições depois de afundar no rio, em Zeyad. Tudo o que ela necessitava era de roupas limpas e algumas horas de descanso, antes de seguir viagem no dia seguinte. Era bom recuperar um pouco as forças caso precisasse se defender – coisa que ela sabia ser uma constante a partir de agora.
Com um suspiro cansado, se levantou da mesa e se encaminhou para onde deveria ser os dormitórios daquele lugar. Resquícios da batalha passavam por sua mente, misturados à discussão de segundos atrás, mas ela tentava não se apegar a essas memórias enquanto caminhava por um corredor estreito. Já tinha pensado sobre isso demais durante as últimas horas. Apenas queria um tempo para que sua mente se recuperasse e pudesse colocar, não apenas os pensamentos no lugar, mas sua sanidade também.
Suspirou.
O cheiro de esgoto e urina prevalecia naquele ambiente precário, onde a tintura das paredes descascava conforme o tempo e o chão parecia rachar ao menor de suas pisadas. O crack chegava a ressoar de forma estranha naquele corredor, igualmente o som e as vozes provenientes do bar, levemente abafadas pelas paredes. Nada que não tivesse acostumado, aliás. Frequentar lugares como aquele – alguns até piores – era mais normal do que a inumana gostaria que fosse. Eram os únicos que aceitavam pessoas como ela: fugitivas, por vezes debilitada e sem muito a oferecer.
diminuiu os passos por um instante, sentindo o coração palpitar quando o menor dos ruídos chegou aos seus ouvidos. Um arrepio logo deixou seu corpo em alerta, ao tempo em que ela passava as mãos sob uma das facas que guardava em seu coldre. travou o maxilar, parando de caminhar enquanto seu sentido natural lhe gritava a palavra perigo. Os olhos estreitaram no exato momento em que sentiu uma mão aproximar de seu ombro, deixando que seu instinto girasse seu corpo e capturasse a mão do sujeito antes que pudesse tocá-la. passou o braço dele por cima de sua cabeça e entortou o pulso o suficiente para que o prensasse contra a parede, escutando-o grunhir enquanto encostava sua faca na garganta do homem.
Que porra...?
— Quem é você? – o cortou, pressionando a arma um pouco mais no pescoço dele. O rapaz chiou em resposta, instintivamente erguendo o queixo para evitar ser perfurado pela garota; o alerta não permitindo nem que ele se movesse naquele instante, os olhos encarando uma ameaça implícita no rosto da inumana, enquanto ainda tinha o corpo imobilizado pelo dela. – O que você quer? Por que está atrás de mim?
O homem fechou os olhos por dois segundos, parecendo absorver a situação ao respirar profundamente.
— Qual a necessidade disso? Caramba, eu só queria conversar.
— Começou da maneira errada tentando me seguir sorrateiramente.
O quê? – ele pareceu surpreso, reclamando em um sibilo quando tentou se mexer e foi impedido pela mão da guerreira. O homem soltou um suspiro longo, tentando se acalmar. – É assim que você recebe todos que tentam se aproximar de você?
— Só aqueles que me perseguem pelos corredores. – proferiu ela, com certa rigidez. – E não respondem as minhas perguntas.
— Se você abaixar a arma, eu posso te esclarecer tudo o que quiser.
— Não sem antes me dizer quem é você e o que quer.
disse entre dentes, forçando ainda mais seu corpo principalmente pela diferença de tamanho entre os dois. Foi naquela curta pausa que a garota pôde observar melhor com quem estava lidando. Os cabelos do rapaz eram castanhos com um tom levemente dourado, alguns fios pendiam por seu rosto, provavelmente pelo movimento bruto pelo qual ele foi jogado contra a parede; os olhos brilhavam em um azul-esverdeado intenso e uma barba curta da mesma cor dos fios de cabelo envolviam seu maxilar. Trajava um uniforme que combinava o preto das botas e da calça, ao escarlate presente em uma espécie de jaqueta, tendo duas armas repousando ao lado do quadril, onde ela notou dois coldres presos em um tipo de cinto de utilidades.
Vestes muito parecidas com a de um ravager, ela pôde perceber. Conhecia alguns deles bem demais para ter mantido a desconfiança primeiro, por isso fizera questão de manter as mãos dele longe das armas, para evitar qualquer imprevisto.
ergueu os olhos outra vez, assim que ele fez menção em se pronunciar.
— É exatamente por isso que eu to pedindo pra você abaixar a arma.
— Sem chance.
O homem engoliu em seco, parecendo derrotado.
— Meu nome é Peter Quill, ok? – a voz dele soava em uma mistura de receio e pacificidade. – Eu não sou seu inimigo.
— Devo dizer que não foi exatamente essa impressão que você passou.
— Eu não vou fazer nenhum mal a você, tem a minha palavra.
Ela soltou um riso nasalado breve, fazendo questão de pressionar ainda mais a faca no pescoço dele.
— Não conseguiria mesmo se tentasse, forasteiro.
Forasteiro? Gostei. – Quill ergueu a sobrancelha, sugestivo. Ele umedeceu os lábios com a língua, não se importando em permanecer naquela posição, ainda que sentisse a ponta da faca cada vez mais fincada em sua pele; nada que ele já não tivesse passado antes, principalmente quando a ameaça partia, bem... do sexo feminino. – Olha, abaixe essa arma. Vamos conversar. Se eu realmente quisesse ter feito algo, teria feito no bar enquanto você conversava com seu namorado do cabelo estranho. – o guardião fez uma pausa breve, assistindo o semblante da garota se alterar para um quase desacreditado enquanto ele finalmente percebia as palavras que saíram de sua boca. Peter soltou um muxoxo descontente, amaldiçoando-se internamente por ter dado um passo em direção à morte naquele instante. – Tudo bem, não foi muito inteligente da minha parte admitir isso nesse momento.
— Você estava me espionando? – a guerreira protestou, um tom ríspido manifestando em sua voz.
Quill repuxou os lábios pra baixo, sentindo o maxilar tensionar.
— Eu estava, mas pacificamente. Eu juro.
— Não foi uma bela escolha de palavras pra quem se encontra na sua posição, Peter Quill.
— É, eu sei. É difícil ser sensato cem por cento das vezes. Especialmente quando se tem uma faca na sua garganta.
Peter reclamou, soltando um suspiro curto enquanto era analisado pelos olhos intrigados da inumana. A proximidade entre os dois era tanta que conseguia sentir a respiração dele bater contra seu rosto, ainda assim, não a fazia recuar nem mesmo se estivesse em desvantagem. Sua mão continuava posicionada com a faca pressionando o pescoço do rapaz, enquanto seu outro braço ajudava a prensar o corpo dele contra a parede, forçando o suficiente para que ela o deixasse até com uma leve dificuldade para respirar. Um tom sombrio pairou sobre o semblante de , finalmente deixando a paciência se esvair diante daquela situação.
— Eu vou perguntar mais uma vez: o que você quer?
— Você não vai desistir mesmo disso, não é? – Quill indagou, indicando a arma com os olhos.
— Tem sorte de meu mecanismo de defesa buscar respostas, não soluções rápidas para problemas como você.
Peter deixou um sorriso de canto surgir em seus lábios, achando graça naquela exasperação da guerreira. O olhar se segurou no de por alguns segundos, relaxando o corpo para não demonstrar ameaça e amenizar a situação, esperando que ela também o fizesse. não pareceu hesitar nem por um segundo, o que não foi um empecilho pra Quill tentar afastá-la ao usar o braço esquerdo para empurrar o pulso da inumana. Derrubando a faca com o impulso, a garota foi surpreendida quando ele inverteu as posições, conseguindo prendê-la entre suas pernas e usando uma das mãos para segurar o pulso dela contra a parede. grunhiu, não esperando que ele se acomodasse ao acertar uma joelhada na lateral da coxa dele, aproveitando o espaço para agarrar a mão do guardião e aplicar um wrist lock, forçando-a em direção ao pulso para imobilizá-lo. Peter protestou com um murmúrio desconexo, agora com o rosto colado à parede e sem forças o suficiente para se desvencilhar.
— Você é boa, admito. – Quill se pronunciou, em meios aos resmungos.
— Isso não é nem um por cento do que eu sei fazer.
— Eu vou fingir que não pensei em outras coisas nesse mom... Argh! – Peter balbuciou assim que a inumana forçou um pouco mais a mão dele em direção ao pulso, depositando mais força na imobilização e dificultando uma possível saída. Quill sentiu a respiração desregulada, o braço começando a formigar pela dificuldade de circulação de seu sangue. – Ok, me escuta... Eu só estou aqui pra te ajudar, Amaquelin. Nós não somos seus inimigos.
Como sabe meu nome? – cuspiu ela, cada vez menos paciente.
— Porque eu contei a ele.
parou assim que uma voz familiar chegou aos seus ouvidos, fazendo-a largar seu oponente e se virar para o final do corredor, onde uma silhueta feminina se aproximava em poucos passos. Sua expressão não relaxou nem por um segundo, mas não pôde esconder a surpresa que era vê-la ali, depois de tantos anos. Instintivamente, caminhou um passo em direção à mulher, enquanto assistia a assassina de pele verde parar a poucos centímetros de si; a mão passeando pela espada que ela carregava na bainha, presa à cintura, enquanto os olhos encaravam uma desentendida à frente. A expressão menos mortal do que um dia fora, mas ainda carregava aquela implacabilidade ensinada pelo ser que estava destinado a caçar até os confins do inferno.
— Gamora? – a inumana tentou, recebendo um sibilo em concordância da outra.
— Precisamos conversar, .



PLANETA TERRA
Dezesseis dias antes


INSTITUTO XAVIER
PARA JOVENS SUPERDOTADOS


TEMPO.
Ethan Crawford apoiou as costas na parede do corredor, próximo à porta onde ele dividia o quarto com seu irmão mais velho Nathan, e escreveu a palavra tempo em seu diário dos sonhos. Em letra de forma, da melhor maneira que um garoto de onze anos e com os estudos ainda incompletos conseguia. O silêncio o ajudava a pensar, não pra menos quando o horário também não permitia que ninguém estivesse acordado no Instituto; era a hora em que todos os estudantes deveriam estar em seus dormitórios, tendo uma boa noite de descanso para a aula de amanhã, com o Professor X. Ethan estava, até cinco minutos atrás. Mas depois de ter se revirado na cama durante dez minutos após um sonho, o pequeno desistiu de tentar dormir e decidiu escrever o que aquela noite tinha revelado a ele.
Sentado no corredor, às 3h45 da manhã, o menino de cabelos castanhos tentava detalhar o que ainda se lembrava. Sua mãe vivia lhe contando que ele nunca deveria levantar pela madrugada; sua mãe, uma mulher de fé, lhe dizia que aquele era os horários dos espíritos, que ele não poderia dar bobeira para não topar com um. Crawford mais novo sabia que eram tentativas para que ele continuasse a dormir, para talvez não se importar com seus sonhos – que lhe acompanhavam desde quando ele completara cinco anos de idade. Ainda assim, ele tinha medo de levantar pela madrugada. Vez ou outra, achava que havia visto alguma coisa passar no final do corredor, porém ele não se levantava – e também não temia tanto quanto antes. Ethan saberia caso se encontrasse com um, algum dia. Ele sempre sabia.
Seu estômago reclamou de fome naquele instante, mas ele continuou a escrever; o diário, apoiado em seus joelhos dobrados, resguardava seus sonhos, de todos os tipos. Às vezes, ele desenhava. Não sabia os nomes de todas as coisas, objetos ou pessoas que surgiam, então desenhar era mais fácil para seu irmão entender. Havia sido uma ideia de Nathan descrever tudo o que aparecia na sua mente, só assim era possível entender os significados de alguns deles. Às vezes, eles eram diretos; noutras, nem tanto. Ethan tentava fazer aquilo da melhor forma possível para seu irmão, mas nem sempre ele conseguia. Era uma criança ainda, explicar não era exatamente a coisa mais fácil de se fazer para alguém como ele.
Assim como seu irmão Nathan Crawford, Ethan era mutante.
Ambos acharam um refúgio no Instituto, há pouco menos de três meses. Foi o primeiro lar que passaram mais tempo depois de fugir por anos, na tentativa de sobreviver e não ser julgado por ser uma aberração. Ele, principalmente. Seu dom era uma maldição para alguns, um fardo grande demais para uma criança de onze anos carregar. Prever um futuro, considerado incerto pela humanidade, sem erros. Saber o destino de alguém, seja ele bom ou não. Foi assim que Ethan viu a morte de algumas pessoas, motivo pelo qual teve de abandonar a casa de seus pais, com seu irmão, para que pudessem se salvar e sobreviver.
"Isso nunca seria uma benção de Deus".
"Uma aberração que espalha o mal merece morrer".
"Criaturas como vocês, que destroem e amedrontam, nunca serão o próximo passo da humanidade".

Foi o que ele mais ouviu enquanto se afastava do lugar que um dia fora seu lar.
Ele sentia falta de seus pais. E sabia que Nathan também. Ter abandonado suas vidas antigas para seguir uma totalmente nova e incerta fora o motivo maior de medo dos dois, que perdurava até os dias de hoje. Mas, felizmente, eles tinham um ao outro. Seu irmão mais velho o protegia e cuidava de si, como havia prometido fazer. Toda a dificuldade e problema que ambos enfrentaram durante esses anos, agora dava lugar aos momentos de paz. Pessoas incríveis dali os abrigaram como se fossem da família, deram um lar, deram esperança. Era a melhor coisa que poderiam receber depois de anos de angústia e confusão.
— O que faz acordado a esse horário, Ethan?
O garoto de onze anos ergueu a cabeça quando sentiu uma presença parar à sua frente, apoiando-se nos calcanhares para ficar na mesma altura que ele. A pele negra da mulher parecia brilhar mesmo com a luz natural que adentrava pela janela no corredor, realçando ainda mais seus cabelos brancos. Tempestade sorriu, como quem pretendia acalmá-lo e dizer que a presença dela ali não demonstrava nada mais do que preocupação, o que o fez repetir o gesto e fechar o diário, voltando a fitá-la.
— Não consigo dormir.
— Tem a ver com seus sonhos? – a mutante perguntou, a voz soando com certa ternura. Ethan confirmou em um aceno, sentindo a mão dela arrumar alguns fios de seus cabelos, antes de perguntar. – Onde está seu irmão?
— No quarto, dormindo.
Concordou em um sibilo, parecendo pensar na atitude que tomaria a seguir. Crawford gostava de Ororo Munroe. Gostava de todos dali, na realidade, mas a mutante foi a que mais se aproximou da presença materna que ele sentia falta. Era Tempestade que lhe dizia que o que eles tinham, que o que todos os mutantes tinham, não era uma maldição, era um dom. Que não havia nada errado com nenhum deles, por mais que dissessem o contrário. Por todos os momentos difíceis, fora ela que teve a paciência de acalmá-lo e lhe ensinar um pouco mais sobre os próprios poderes, principalmente para entendê-los melhor. Nathan era seu conforto, o pedaço de família que o protegia, que estaria sempre ao seu lado, mas era Munroe que lhe passava a sensação de que tudo ficaria bem no final.
Crawford sorriu assim que a mutante tocou a ponta de seu nariz com o dedo, após alguns segundos em silêncio.
Um sorriso suave delineava os lábios da mulher, enquanto ela estendia a mão antes de pronunciar:
— Que tal se eu te preparar um leite quente enquanto você me conta o que sonhou?

*


4h15 a.m.

— A gente tava em um carro, indo pra algum lugar.
Ethan começou, bebericando do copo de leite em seguida e apoiando-se com os cotovelos sobre uma das bancadas da enorme cozinha do Instituto. Seu diário estava logo ao lado, onde vez ou outra ele rabiscava algumas coisas que ainda lembrava, sob a voz sonora de Munroe à sua frente. Sua mente estava um pouco menos clara naquele momento, talvez por culpa do sono que havia dado as caras outra vez, depois de três copos de leite morno. O lápis em sua mão chegou a escorrer uma duas vezes após um bocejo, mas ele continuou após um incentivo rápido da mutante.
— Eu tava no banco de trás, tinha uma garota do meu lado. Ela tinha um nome legal, me lembrava uma flor. E sorria pra mim, me deixava confortável. – o garoto deixou um sorriso de canto escapar, pintando a última das pétalas e terminando seu copo de leite em mais um gole. De todo o sonho, aquela cena era a que o deixava mais confortável, diminuía o medo que Ethan se lembrava de sentir; não conhecia aquela garota, mas ela conseguia trazer conforto em meio a tudo o que acontecia. – Tocava uma música legal no nosso carro. Tinha mais duas pessoas, mas eu não conhecia nenhum deles. Eles pareciam preocupados. Tinha mais carros atrás da gente, alguns na frente; vocês estavam em alguns deles também, mas se perderam por causa da chuva. Chovia forte. Muito forte. O céu tava estranho, escuro. Não dava pra ver nada, os pingos de chuva eram tão fortes que pareciam querer atravessar o vidro do carro.
— Você tinha medo? – Tempestade perguntou, os olhos atentos a cada movimento do mais novo.
— Tinha, mas a garota do nome legal tentava me acalmar. – Ororo chegou a sorrir pela inocência do garoto diante daquilo; a expressão dele parecia um pouco distante naquele momento, parecendo desconfortável por certas memórias. – A gente estava perdido na estrada. Depois de um tempo, a água da chuva se transformou em ácido. Os carros da frente foram os primeiros a sumir. Eu conseguia ouvir os gritos... E... eu perguntava do Nathan, mas eu sabia que ele tava no carro da frente. – os olhos baixaram para encarar a mármore do balcão; Ethan sabia que era apenas um sonho, mas os sentimentos retratados continuavam sendo bem reais a ele. – Eu tava com muito medo. E chorava muito.
— O que aconteceu depois? – a mulher questionou, agora um pouco mais preocupada.
Crawford esfregou os olhos, parecendo forçar a mente para se lembrar.
— Aquela mesma garota dos outros sonhos entrou no nosso carro e se sentou no banco da frente. – os olhos da criança agora fitavam o rosto atento de Tempestade, embora tivessem observado o próprio diário cheio de anotações e desenhos segundos antes. – Mas agora ela tinha uma tatuagem legal no braço. Parecia um tigre. Era grande e branco. Só o pingente verde no pescoço que era o mesmo, continuava com ela. – Ethan pausou a própria fala, buscando se lembrar melhor da garota em seu sonho; apesar da dificuldade para reconhecer os detalhes, ela era a única que sua mente se recordava melhor depois de tanto tempo sonhando. E em todas as vezes, trazia uma estranha sensação de paz, de que ele não precisava temer, pois sempre haveria uma saída. – Apesar de toda a chuva lá fora, ela não tinha se molhado. Nem um pouco. E não tava machucada também, nem nervosa ou com medo.
Tempestade uniu as sobrancelhas, ainda estranhando. Havia escutado muito sonhos de Ethan durante aqueles meses, nem todos ela conseguia decifrar, mas sabia que cada um deles dizia alguma coisa específica. Ultimamente, ele vinha sonhando com algo que nenhum deles conseguia exatamente saber, mas sempre havia alguém no centro daquilo tudo. Duas garotas, normalmente. Sempre sendo o foco dos sonhos precognitivos do garoto; com propósitos completamente diferentes, mas, simbólica e significativamente, sempre como as responsáveis por salvar o "sonho", por trazer esperança e paz. O problema, porém, era que Ethan nunca as via, sabia seus nomes ou quem eram. A única coisa que ele havia dito era que uma delas se encontrava na Terra, enquanto a outra estava cada vez mais perto de chegar.
Munroe umedeceu os lábios, inclinando o corpo sobre o balcão.
— E o que ela fez depois? – questionou, curiosa.
— Ela voltou a música no começo. E mostrou pra gente como sair dali.
Tempestade concordou com a cabeça, nada muito diferente dos sonhos anteriores.
— Ela disse alguma coisa dessa vez?
— Não.
— E aquela segunda garota? Ela estava também? – a mutante tentou, sabendo que estava forçando demais o garoto.
— Não, só a do pingente. – ele negou, coçando os olhos, fazendo-a soltar um suspiro curto.
Era intrigante a maneira como ele sonhava eventos futuros de forma metafórica. Nenhuma das coisas que Ethan sonhou, da qual envolvia as duas personagens femininas, havia acontecido. Parecia algo distante ainda, mas, certamente, significativo. Pessoas que o garoto não conhecia ou nunca viu na vida eram protagonistas de acontecimentos que envolviam o destino de muitos. Era estranho em como ele tinha conhecimento de algo daquela magnitude, ainda mais sendo apenas uma criança. Uma criança que via tragédia em forma de sonhos, mas também via respostas, esperança. Tempestade sabia que tudo aquilo dizia alguma coisa, o problema era encontrar uma explicação para algo que ela sequer entendia.
A mutante esfregou as têmporas, logo encarando um Ethan sonolento à frente.
— Posso te perguntar uma coisa? – o pequeno confirmou em um aceno. – Estamos perto de encontrá-las?
Crawford encolheu o corpo, parecendo ter sentido um frio repentino.
— Eu não sei, mas... Eu sinto que a gente tá perto de alguma coisa.



PLANETA NETRIXXIA
Dezesseis dias antes


— Eu tinha tudo sob controle.
Quill sussurrou para a parceira ao seu lado, lançando um olhar rápido para vislumbrar a inumana os seguindo, não muito longe dos dois. Ele bufou, voltando sua atenção à frente e recebendo uma revirada de olhos nada discreta de Gamora. Diferentemente dele, as duas mulheres pareciam pensativas demais para se importar com as reclamações vindas do homem; os dois guardiões caminhavam na frente, mostrando o caminho, enquanto a princesa de Attilan os acompanhava logo atrás. Nenhum dos três trocando uma palavra sequer, embora fosse Peter o responsável por quebrar aquele silêncio a cada dois segundos.
Gamora lançou um olhar indiferente a ele, antes de encarar a espaçonave da equipe espacial, não muito longe dali.
— Claro que tinha. – a assassina respondeu, sob um resmungo do parceiro.
— Se era tão mais fácil com você, por que não apareceu antes? – o homem continuou sussurrando, parecendo tomar todo o cuidado para que a garota atrás não os ouvisse; os olhos, outrora verificando a distância entre eles, agora repousavam no rosto preocupado de Gamora.
— Porque você gritou que queria vir.
Como líder, eu queria causar uma boa impressão.
— Não causou, Príncipe das Estrelas. – comentou ao fundo, recebendo um olhar enigmático do rapaz, que parecia se preparar para retrucar sua fala, se a própria garota não tivesse o cortado segundos depois. – Pra onde estão me levando, aliás?
— Pra Milano, nossa nave. Podemos conversar melhor por lá. – Gamora respondeu, sem olhá-la.
— Conversar sobre o quê? – inquiriu a inumana, as sobrancelhas se unindo, intrigada.
— Sobre você, . – a assassina finalmente lhe encarou. – Sabemos que a Ordem Negra está te caçando outra vez.
parou de caminhar, notando que a guardiã de pele esverdeada também o fez logo em seguida. Um ponta de tensão atingiu seus ombros, fazendo-a trincar o maxilar e respirar com certa dificuldade, sabendo que seu corpo reagia a muitas coisas naquele momento. À informação, ao receio, ao alerta. tinha ciência de quem era a mulher à sua frente, talvez por isso ainda havia uma desconfiança apontando em seu comportamento, fazendo-a hesitar. Estava diante de uma das filhas de Thanos, uma das responsáveis pela queda de Attilan e de sua primeira captura. Por mais que ela tenha feito várias outras coisas depois, ter traído Ronan e o Titã, a inumana tinha vários motivos para suspeitar. Era seu alerta soando. Era difícil confiar em alguém depois de tudo o que ela passou.
se aproximou em poucos passos, a mão pousada sobre uma das facas, em seu coldre.
— Como sabiam que eu estaria aqui? – questionou a inumana, adotando uma cautela em sua postura.
— Porque estávamos procurando por você. Há alguns dias. – Gamora não pareceu se importar com a suspeita da princesa, aproximando-se em poucos passos. Havia uma paciência e entendimento surgindo em seu semblante. – Sabemos sobre o ataque em Zeyad. Thanos está em busca da última joia, não é de se surpreender que ele use você como o melhor caminho pra chegar até ela. – a guardiã tentou passar confiança, apesar do assunto; o incômodo transparecendo no olhar perdido de , tanto quanto se mostrava na postura de Gamora. – Se ele está movimentando a Ordem Negra pra isso, ele não pretende parar até que consiga colocar as mãos em você.
— E como sabem de tudo isso? – indagou a inumana.
— Porque alguém que eu confio me contou. – respondeu ela, a voz oscilando por um segundo. – Confie em nós também.
— É difícil quando vem de uma pessoa que já me causou muito mal.
Gamora sentiu o maxilar tensionar, cada vez mais perto da garota.
— Você sabe o que eu fiz por você, Amaquelin.
— Isso não apaga todas as coisas que causou. – contestou, em um tom um pouco mais baixo; apesar da desconfiança de antes, a princesa desistira do comportamento defensivo. – Você não deixou de ser a filha de Thanos por isso, Gamora.
— Você me conhece o suficiente pra saber que eu nunca fui a filha dele. – a guardiã esclareceu, demonstrando um cansaço evidente sobre aquele assunto, mas mantendo a firmeza em sua voz. Gamora a encarou, agora perto o suficiente para observar com clareza os olhos da inumana. – Eu sei que você confia em mim. Caso contrário, nem teria se dado ao trabalho de nos seguir até a nave, apenas para conversar. – manteve a postura intacta, apenas na posição de escutar; havia muita coisa em relação à Gamora que ela pensava, coisas que se acumulavam de anos e situações, mas nenhuma delas conseguia diminuir a hesitação por encarar a mortal filha de Thanos. Lutou com ela vezes o suficiente para saber que havia justificativas para seu comportamento cauteloso. – , nós duas sabemos o quão perigoso Thanos pode ser, ainda mais se estiver em posse das joias. E se tem uma coisa que eu não quero que aconteça, é que ele consiga atingir esse objetivo. Você é o meio mais fácil pra isso, quanto mais longe estiver dele, menos problemas nós duas teremos.
balançou a cabeça em negação, deixando um sorriso desacreditado escapar.
— Você acha que eu não tentei? Oito anos. Eu fiquei oito anos longe de Thanos, o máximo que eu consegui... – encolheu os ombros. – Não funcionou.
— Isso não soa como uma resposta de quem deseja fugir. – Quill pronunciou, após tantos minutos em silêncio.
— Talvez porque eu não queira.
— Você não sabe do que está falando. – a guardiã advertiu, parecendo surpresa para esboçar alguma reação.
— Eu tive oito anos pra me certificar de que agora eu sei, Gamora.
Os dois pares de olhos se firmaram no rosto da princesa, parecendo aguardar que ela negasse tal ideia e admitisse a estupidez daquela declaração, mas ela não o fez. Agora havia a certeza que ela tentou buscar durante as últimas horas, era a certeza de que ela própria precisava ouvir, em alto e bom som. sentiu certo arrepio correr por sua espinha, não tendo outra atitude além de balançar a cabeça, enquanto ainda os encarava. O ar deixando seus lábios poucos segundos depois.
— Acho que eu sempre soube. – e então se afastou, como se quisesse que o assunto se encerrasse ali.
Gamora fechou os olhos em seguida, sequer disfarçando o incômodo por ouvir tal coisa. Quill, antes observando a inumana continuar a caminhada em direção à Milano, agora tinha total atenção à preocupação explícita no semblante da assassina. Ele não teve muita reação além de negar com a cabeça, não escondendo a frustração em um estalar de língua, seguido de um suspiro cansado.
— Por que eu tenho a impressão de que isso será um grande problema pra nós?



1 Referência ao filme Thor (2011), quando, no final, Loki cai num buraco negro causado pela destruição da Bifrost. É deixado implícito no filme Os Vingadores (2012) que Loki se encontrou com o próprio Thanos e O Outro, o mensageiro do Titã. Inclusive, fora Thanos quem o ressuscitou para que o asgardiano pudesse atacar a Terra, a mando dele.
2 No Universo Cinematográfico da Marvel, Os Saqueadores, no português, são várias facções ao redor da Galáxia, que funciona como uma espécie de sindicato de crime interestelar, tendo cada facção liderada por um capitão próprio. O grupo ao qual o personagem Peter Quill atuou é liderado por Yondu Udonta, tendo sua primeira aparição no filme Guardiões da Galáxia (2014).


Uniforme -


ORDEM NEGRA

|| Proxima Midnight || Ebony Maw || Black Dwarf || Supergiant || Corvus Glaive ||





Continua...



Nota da autora:
VIDA LONGA AO REI THOR

Depois de anos parada, eis que Dark Reign está de volta. E QUERIA DIZER QUE INFINITY WAR ACABOU COM AS MINHAS ESTRUTURAS e agora é um ano de dor e sofrimento até eu descobrir o que aconteceu (porque aquele final foi um tiro certeiro no meu coração!). Queria dizer também a trama de Infinity War vai se encaixar em DR (com muitas modificações, POR EXEMPLO O FINAL NÉ FEIGE?!), mas deixo avisado que muitos detalhes do filme estarão aqui, não por enquanto, mas é isso ai. Inclusive, essa fic se passa na mesma linha do tempo que Acts Of Vengeance (uma outra fic minha), porém em anos diferentes, o que, obviamente, trará alguns spoilers (alguns bem grandes idshadu)
Mas acho que é isso.
Eu sei que o Quill ta sendo apedrejado pelo o que ele fez disajois mas deem uma chance ao meu amor (tanto aqui, quanto no filme <3), prometo que aqui ele vai continuar sendo o Peter Quill dos outros filmes dos Guardiões! <3
QUERIA DIZER QUE AMO MINHA ORDEM NEGRA!
É isso. Crítica, sugestões, reclamações, xingamentos e paranoias é só me avisar. Você irá me achar em @thxpunishr ou no grupo do facebook Marvel's Legion!

Para quem deseja socar a cara de Thanos, aliás, recentemente entrou no site uma fic chamada Starforce: Desafio Infinito, que reúne três personagens principais de histórias/universos diferentes. Soprano, a personagem principal e fodona de Ghost (INCLUSIVE LEIAM GHOST, TAMBÉM ESTÁ NO SITE: /independentes/g/ghost.html); Cisne Negro, a maravilhosa e sensacional personagem que ainda não deu as caras no site, mas quem em breve será apresentada em seu filme solo sua fic, pelas mãos da Lótus (fiquem ligados, enquanto isso conheça a personagem em Starforce)! E a Agente 31, protagonista de Acts Of Vengeance! Três personagens completamente diferentes que precisam se unir pra acabar com uma realidade dominada por Thanos e sua Supremacia! Deem uma passada lá, ficaremos muito felizes em saber sua opinião!
É isso, galere. Até a próxima att e segurem as pontas até Avengers 4!





Outras Fanfics:
    Acts Of Vengeance
    /independentes/a/actsofvengeance.html

    Starforce: Desafio Infinito
    /independentes/s/starforcedesafioinfinito.html


comments powered by Disqus




Erros de script/português, reclamações e/ou avisos apenas através do meu e-mail.