Última atualização: 18/01/18

Prólogo





LOCALIZAÇÃO: CENTRAL PARK, NEW YORK.


- Lewis, baixe a arma. – a voz de Phil Coulson soou atrás da agente, que mesmo hesitante diante da ordem do seu superior, fez o que lhe foi ordenado.
Na sua mira, há poucos segundos, estava uma mulher pálida; seus olhos desesperados e cabelos negros desgrenhados. Parecia não acreditar na bagunça que fizera, quando planejou somente passar despercebida sem mostrar suspeitas por estar tentando fugir com a filha. Haviam se encontrado no dia anterior, quando Tessa Lewis e sua equipe de agentes da S.H.I.E.L.D. a salvaram do laboratório onde havia sido presa por exatos dois meses, local em que a mulher era submetida a vários experimentos para que o Projeto Centopeia fosse aprimorado. Segundo as pessoas que a mantinham aprisionada, Stacy Coleman era a primeira mulher a passar por aquele projeto. E não era nada agradável ter esse privilégio. Stacy aproveitou a abordagem da S.H.I.E.L.D. e fugiu para encontrar a filha que havia ficado na casa da tia, onde ela achava estar em segurança, mas logo quando encontrou o corpo da mulher e o marido caídos no chão em meio a uma imensa poça de sangue, soube que na verdade esteve errada o tempo todo. Encontrou escondida no porão da casa, toda encolhida aos prantos, sem entender nada do que havia acabado de acontecer. Stacy foi até a filha que olhou para ela e logo parou de chorar ao reconhecer a mãe. O plano da mais velha era fugir, mas antes precisava encontrar um amigo que havia conseguido passagens para as duas irem embora do país, por isso ficou combinado que o Central Park seria o ponto de encontro. Mas não contava com o que aconteceria.
Coleman perdeu o controle dos seus poderes telecinéticos e logo instaurou pânico no lugar, causando um pequeno número de mortes e pessoas feridas, dentre os mortos, o corpo do homem que era seu amigo. A verdade era que Stacy não havia feito por mal, e quando conseguiu controlar-se novamente, deparou-se com um cenário que aos seus olhos parecia um filme de terror. Olhou para as mãos trêmulas e sua filha caída no chão com alguns ferimentos leves, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, o mesmo grupo de agentes do dia anterior apareceu, e com uma arma sendo apontada para si, Stacy continuou no mesmo lugar, assustada, sentido seu estômago revirar pelo pensamento que passava em sua cabeça repetitivamente: ela era um monstro. Quando Coulson ordenou que sua agente abaixasse a arma, Stacy apenas o olhou com seus olhos arregalados.
- Stacy... – começou Phil, com cautela, se aproximando devagar da mulher que o olhava ainda paralisada, lágrimas escorriam de seu rosto. – Sei que parece impossível devido a atual circunstância, mas preciso que se acalme.
Enquanto Coulson conversava e explicava a situação para a mulher, dois agentes foram em direção à garotinha que havia levantado e pretendia correr até a mãe, mas logo foi contida. O resto da equipe ficou encarregado de evacuar o local e tirar as pessoas do alcance de Stacy, que agora seria novamente um perigo se esgotasse o tempo estimado que a equipe dera, para que o soro Extremis injetado na mulher explodisse tudo em um raio de duas quadras. Para impedir a explosão seria necessário que Stacy fosse morta, e isso fazia Coulson se sentir impotente, por não conseguir nenhuma alternativa melhor para Coleman. Seu dever era proteger as pessoas e evitar que coisas como essa acontecessem, mas havia falhado nessa parte. A única coisa que podia fazer era dar a péssima notícia e tentar acalmá-la para que pudesse ganhar mais tempo. E foi exatamente o que ele fez. Após isso, viu a mulher ficar tensa e olhar para a filha que estava ouvindo alguma coisa que os dois agentes falavam.
- Senhor, eu sei que não tem nenhuma obrigação e estou lhe fazendo um pedido grande, mas prometa que vai cuidar da minha filha. – implorou a mulher já ciente de seu destino final. – Ela não tem ninguém além de mim, e agora que já não posso mais cuidar da minha menina, preciso que faça isso. Já poderia ter me matado por tudo que eu fiz e o perigo que tá correndo por estar aqui perto de mim, mas não fez isso. Tá me dando uma chance de me despedir da minha filha que é a única com quem me importo nesse mundo...
- Stacy – interrompeu Phil, arriscando segurá-la pelos ombros enquanto lançava um olhar firme para que a mulher relaxasse. – sua filha ficará em boas mãos. Isso posso lhe prometer.
Coleman continuou tensa por alguns segundos enquanto o encarava, procurando algum vestígio de que o homem pudesse estar mentindo, mas logo concordou.
- Muito obrigada, Coulson. – Stacy agradeceu, enquanto observava o homem dar um aceno de cabeça permitindo que soltassem a garotinha para que ela pudesse se despedir da mãe.
A mais nova dali, ao ser liberta, correu em direção à mãe e a abraçou firme, chorando. Stacy colocou uma mecha negra dos cabelos da filha atrás da orelha, aproveitando para lhe dar um beijo demorado na testa.
- Amor, preciso que se comporte. – começou a mulher, sentindo novas lágrimas escorrerem e o aperto no peito aumentar cada vez mais. – Eu não posso mais cuidar de você.
- Mas mamãe... – a garotinha estava pronta para questionar, seus olhos marejados enquanto lágrimas escorriam por sua bochecha corada de tanto chorar, mas foi interrompida pela mais velha.
- Maxi, meu bem, você precisa confiar nessas pessoas. Elas são as únicas que podem te ajudar agora. – falou a mãe, agora com rapidez, sentindo algo diferente dentro de si. Uma dor que parecia se alastrar dentro de suas veias. – Saiba que eu amo você.
- Mamãe, seu rosto tá brilhando... – avisou a menina, sem saber o que aquilo significava. – Também am...
A fala da garota foi interrompida pela agente Lewis que murmurou um “está na hora”, fazendo com que Stacy desse um último abraço apertado na filha, antes de vê-la partir chorando. Não havia mais ninguém no local, apenas a equipe de agentes que tinha observado a cena com um pesar. tentava olhar para onde havia estado com a mãe segundos antes, mas um homem alto atrás dela impedia que conseguisse enxergar alguma coisa. Quando foi levada a um carro, a mulher que havia lhe guiado até ali se apresentou como Tessa. A garotinha observou Tessa sorrir enquanto estendia a mão, para que a menina apertasse. Ela parecia ser legal, diferente do homem sério que estava atrás das duas enquanto caminhavam até o carro. Com esse pensamento, a menina se apresentou devidamente:
- Meu nome é Coleman. – disse, um pouco tímida enquanto erguia a mão para cumprimentar a agente. Porém, o barulho de um tiro interrompeu a ação da garota e foi o suficiente para fazer com que ela se jogasse nos braços de Tessa, assustada. A agente ficou sem reação por alguns instantes, mas logo a apertou em seus braços, transmitindo o máximo de confiança que conseguia.




Capítulo 1





QUEENS, NEW YORK;
SEIS ANOS DEPOIS...



Um barulho alto e irritante interrompeu meu sono, fazendo-me levantar a cabeça do travesseiro, completamente grogue, e procurar a origem do som. Tateei as cobertas e logo depois do que pareceu ser uma eternidade, finalmente encontrei meu celular que apitava incessantemente por causa do despertador programado para aquele horário. Desliguei e me deitei novamente, sabendo que provavelmente Tessa já havia saído de casa. Talvez se eu dormisse mais um pouco...
- Bom dia, preguiçosa. – uma voz melodiosa invadiu meu quarto, ao mesmo tempo em que abri os olhos e observei a porta ser escancarada por um ser de longos cabelos esvoaçantes. – Tá na hora de levantar.
Revirei os olhos ao perceber que na verdade eu não estava sozinha como havia pensado, e que meus planos de matar o primeiro dia de aula dormindo, tinham sido frustrados.
- Bom dia, Tessa. – respondi, sem conseguir esconder o tom desanimado da voz. Tess balançou a cabeça em negativa, ainda com um sorriso nos lábios e as mãos na cintura. Quando ela abriu a boca para falar alguma coisa, fui mais rápida e a interrompi, já levantando. – Sim, eu sei... Primeiro dia de aula tenho que me arrumar, pois senão vou chegar atrasada. Já entendi.
Lewis deu uma risada leve e se aproximou de mim. Com as mãos em meus ombros, guiou-me até a cama me fazendo sentar novamente e depois fez o mesmo, mas antes disso, tirou algo do bolso. Algo que eu não consegui ver o que era.
- Na verdade eu ia dizer que o café da manhã já tá pronto, mas isso também serve. – respondeu em um tom divertido, mas logo diminuiu o sorriso, parecendo querer falar alguma coisa séria. Abriu a mão e logo pude ver o que ela havia tirado do bolso. Na palma um anel que era bastante familiar em minhas lembranças. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Tessa voltou a falar, me fazendo prestar atenção. – esse anel estava no bolso da sua mãe quando ela morreu. Achei que fosse bom guarda-lo por um tempo pra depois te entregar.
Peguei o anel depois de um momento em silêncio e o olhei, lembranças vagas passeavam em minha mente. Observei os detalhes e estava exatamente como eu me lembrava: prateado com algumas pedrinhas incrustadas, que mal eram perceptíveis se olhado de longe. Tentei colocar no meu dedo, mas ficava um pouco grande, então apenas continuei segurando o objeto enquanto era preenchida com uma sensação de nostalgia. Eu quase havia esquecido que não estava sozinha, até que senti uma mão em meu ombro, acarinhando o local. Olhei para Tessa e agradeci, vendo-a levantar e sair do meu quarto em seguida. Coloquei o anel, ainda em minhas mãos, sobre a penteadeira junto com alguns acessórios e rumei até o banheiro, ficando pronta em vinte minutos. Juntei minhas coisas na mochila e fui até a penteadeira escovar os meus cabelos, até que o meu olhar repousou no anel, me fazendo ter uma ideia. Abri minha caixinha de joias e lá encontrei uma correntinha a qual retirei o pingente e guardei na caixinha de volta, ficando apenas com a correntinha em mãos. Peguei o anel, coloquei-o na corrente e pus em volta do meu pescoço. Observando meu reflexo no espelho mais próximo, percebi como o anel havia dado um perfeito pingente e ainda fazia com que eu me sentisse mais próxima das lembranças que eu tinha da minha mãe. Dei um sorriso triste enquanto colocava a mochila nas costas e saía do quarto, pronta para começar definitivamente o meu dia.



***




Assim que pisei os pés na Midtown High School, minha vontade de voltar para casa foi imediata. Primeiro dia de aula é sempre a mesma coisa: pessoas formando seus grupinhos ou os grupinhos já formados voltando a se reunir, apresentações desnecessárias de alunos novatos e todas essas baboseiras. E eu sou péssima em interações com seres humanos. Minha lista de amigos é praticamente nula, porque ninguém quer fazer amizade com a estranha que tá sempre de cara fechada. Mas eu não iria sair sorrindo para todos que nem uma maluca, então talvez fosse melhor assim mesmo. Coloquei meus fones de ouvido e pus na playlist enquanto caminhava pelo corredor da escola, observando alguns grupos se abraçando e outros conversando animadamente. Até que parei em frente a uma porta que dava para a secretaria, onde lá eu pegaria o horário das minhas aulas. Dei três batidinhas leves e esperei, até que um garoto abriu a porta para que eu passasse e quando eu o fiz, ele a fechou novamente e sentou em um dos bancos que tinha na saleta. Observei o local e vi uma porta que havia uma plaquinha em cima com o nome diretoria, ao lado do balcão, muito bem organizado com pastas, papeis e alguns acessórios de escritório. Não havia ninguém a não ser eu e o garoto que abriu a porta para que eu entrasse. Ele era gordinho, a pele dele era de um tom moreno claro e provavelmente deveria ter a minha altura. Parecia ser legal. Sentei em um dos bancos, ao lado dele. Depois de alguns minutos percebi que ele parecia nervoso e me olhava vez ou outra. Provavelmente querendo dizer alguma coisa.
- Huh... – começou, me fazendo tirar um dos fones e prestar atenção no que ele dizia. – Ela foi resolver alguns assuntos na sala do diretor e já volta.
- Quem? – perguntei, já imaginando de que ele se referia a pessoa que deveria ser responsável pela secretaria.
- A mulher que trabalha aqui. – respondeu, confirmando minhas suspeitas. Soltei um murmúrio de entendimento como resposta e agradeci pela informação.
Mas então o silêncio se fez presente dentro da sala, e foi aí que comecei a pensar novamente na minha limitada lista de amigos. Onde só estavam inclusas pessoas a partir de dez anos de diferença da minha idade, mas a maioria delas estava sempre em missões ou enfiadas em um laboratório, tipo o Stark. Mas dessa última parte até que eu gostava. Quando eu não tenho nada para fazer, o que é quase sempre, eu vou até o laboratório do Tony, na Torre; onde eu sabia que sempre o encontraria lá e passávamos horas ali, às vezes conversando enquanto ele cuidava dos protótipos, aprimorando alguma coisa e eu até o ajudava algumas vezes. Até tive a oportunidade de conhecer quase todos os Vingadores, o que me faz pensar que ser a protegida de Tessa Lewis, agente da S.H.I.E.L.D., tinha seus privilégios. Tessa é amiga de Pepper Potts, o facilitou para que eu me apegasse tanto à ruiva quanto ao Stark, que mesmo sendo a pessoa mais arrogante que eu já havia conhecido, ainda assim ele sabia ser legal e ainda me entendia como ninguém. Mas não eram só eles. Tinha também Daisy Johnson que eu conhecia desde quando virei uma protegida da S.H.I.E.L.D., ela foi uma grande amiga e ainda me ensinou tudo que sabia sobre informática. E mais uma vez me veio à mente que talvez eu devesse tentar fazer novas amizades, eu precisava fazer coisas normais para alguém da minha idade. Do tipo ir ao cinema, ou ao shopping, sorveteria. Eu estava cansada de apenas treinar com a Tessa todos os dias ou de fazer parte de coisas tão sérias. Não, na verdade eu não estava cansada, apenas entediada da minha rotineira vida como aprendiz de futura agente. Eu precisava aproveitar enquanto ainda tinha a chance, pois quando terminasse o ensino médio, eu pretendia entrar na Academia de Operações da S.H.I.E.L.D. e lá não seria um parque de diversões. Olhei para o garoto ao meu lado e pensei que poderia ser uma boa ideia puxar assunto, afinal, estava na hora de começar a fazer amigos novos e ele parecia ser legal.
- Qual o seu nome? – fiz a primeira pergunta que me veio em mente, vendo-o olhar para mim um pouco surpreso. Talvez minha cara não fosse de simpatia total para ele ter aquela reação.
- Ned. – respondeu depois de um tempo, como se seu cérebro estivesse processando a pergunta aos poucos. – Ned Leeds. E o seu é...?
- Coleman, mas pode me chamar de . – falei, dando um sorriso leve.
Ele ia falar mais alguma coisa, porém foi interrompido quando a porta da diretoria se abriu, revelando a figura de uma senhora de óculos e com alguns papeis nas mãos. Ela sorriu assim que nos viu, parecia ser simpática. Eu e Ned nos levantamos dos bancos em que estávamos e fomos até ela. Ela me deu o número do meu armário e a combinação, depois os horários das aulas. Esperei por Ned do lado de fora da sala quando terminei e assim que ele saiu, eu o cutuquei. Esperava não estar sendo chata.
- Hey, qual sua primeira aula? – perguntei na expectativa de ser a mesma que a minha, pois assim já teria companhia para a primeira aula.
Mas como nem tudo é um mar de rosas, nossas aulas não eram as mesmas e eu teria que suportar a terrível aula de geografia sozinha. Até que surgiu um convite.
- Que tal sentar com a gente no intervalo? – perguntou, ao ver minha cara de desânimo percebendo que teria que ficar sozinha.
- “A gente”? – indaguei, me questionando quantas pessoas ele conhecia. Talvez o meu receio tenha ficado estampado na minha cara, pois logo ele respondeu:
- Não se preocupe, é o só o meu amigo, Peter. – Falou, me fazendo relaxar. Depois me repreendi por estar sendo tão idiota; como iria conseguir fazer amigos se eu parecia ter medo de gente? Eu acho que não pertenço ao planeta terra.
- Ah, tudo bem então. – Assenti, dando um sorriso simpático. – Até daqui a pouco.
Acenei depois de me despedir de Ned e ir até o meu armário, ajeitando algumas coisas nele. O sinal logo tocou, indicando que era hora de começar a tortura. Assim que coloquei os pés na sala de aula, logo tratei de encontrar um lugar onde eu pudesse dormir discretamente. E foi isso que eu fiz por pelo menos metade da aula, até que o Sr. Dempsey percebeu e chamou minha atenção. Daí em diante decidi que era melhor ficar acordada, pois Tessa provavelmente arrancaria meu fígado se eu fosse expulsa de sala logo no primeiro dia de aula por estar dormindo. Abri meu caderno e fiquei rabiscando qualquer coisa, pois eu simplesmente também não conseguia prestar atenção na aula, algo atormentava minha mente. Antes que eu pudesse perceber, minha mão estava fechada em torno do anel que agora servia como um pingente.
Foi quando um barulho de música foi ouvido por todos os lados e eu não estava mais na sala de aula. Parecia um karaokê. Haviam grupos de pessoas sentados em algumas mesas, alguns conversando animadamente e curtindo a música, outros no bar e tinha também um homem no palco; ele cantava uma música que eu não conhecia, mas sua voz era incrível. Seus cabelos pretos, muito bem penteados, contrastavam com os olhos que continham um tom de azul tão intenso quanto um oceano em fúria. Minhas mãos foram até o meu queixo, servindo de apoio, enquanto um sorriso se formava em meus lábios e eu não parava de observá-lo cantar. Mas... eu não queria sorrir. Na verdade nenhum daqueles movimentos era o que eu realmente queria fazer. Estava me sentindo estranha, como um robô em que as ações eram automáticas, como se eu estivesse presa em um corpo que não era meu, enquanto apenas assistia meus próprios movimentos sem poder fazer muita coisa. O homem do palco retribuiu meu olhar, e deu uma piscadela fazendo com que eu sentisse minhas bochechas esquentarem e desviasse o meu por alguns segundos, envergonhada.
De repente a música acabou, aplausos e assobios eram ouvidos por todo o ambiente, inclusive eu mesma batia palmas. O homem bonito saiu do palco, mas não sem antes dar um sorriso de agradecimento à plateia, e começou a caminhar em minha direção. Meu coração disparou. Mas por quê? Eu não o conhecia! Provavelmente eu estava sonhando, mesmo não me lembrando de ter adormecido na sala de aula. Ele estava mais próximo agora, eu conseguia ver seus traços com mais detalhe, até que ele se pôs na minha frente e com um sorriso galanteador, o homem pegou minha mão esquerda e deu um beijo no dorso da mesma. Aquilo era exagerado, mas a mulher com quem eu estava compartilhando o corpo não parecia pensar o mesmo.
- Srta...? – o homem fez uma pausa, esperando que, quem quer que fosse eu, respondesse o meu nome para continuar a falar.
Antes que eu pensasse no que responder, as palavras saltaram da minha boca sem que eu desse permissão, mas o que me chamou atenção não foi isso. E sim a voz que era exatamente como eu me lembrava; a que me contava histórias antes de dormir ou às vezes cantava para me acalmar quando eu fugia da minha cama no meio da noite com medo de algum pesadelo.
- Stacy Coleman – respondeu, dando um sorriso.
A mulher, era minha mãe.

O barulho alto do sinal fez com que eu despertasse do meu transe e só então eu percebi que meus olhos estavam fechados, mas não era como se eu tivesse adormecido. Minha mão continuava fechada em torno do anel, enquanto a outra segurava firmemente um lápis. Soltei-o e encarei completamente boquiaberta, o desenho que se encontrava perfeitamente bem desenhado em meu caderno. Havia dois motivos para que eu tivesse aquela reação. Motivo um: não era um simples desenho, era o mesmo homem com quem eu havia acabado de sonhar; motivo número dois: eu não sabia desenhar.




Capítulo 2





De todas as coisas que eu imaginei para o futuro, perder a minha sanidade era a última da lista. Eu sabia que iria ver coisas inexplicáveis ao longo da minha vida como agente, contudo, não fazia ideia de que isso pudesse acontecer tão cedo ou que pudesse, de fato, acontecer comigo. Analisando os acontecimentos que não se encaixavam devidamente em meu cérebro, continuei olhando para o desenho, percebendo agora que os rabiscos que eu havia feito no papel antes de mergulhar na alucinação ainda estavam ali, mas nada que atrapalhasse a análise do desenho. Os traços perfeitamente delineados pelo papel faziam-me paralisar, admirando cada detalhe. E só agora eu percebia o quanto aquele rosto tinha algo familiar, eu só não tinha certeza de onde eu já havia visto.
- Srta. Coleman, está tudo bem aí? – questionou Sr. Dempsey, um pouco incerto se havia acertado meu nome. Eu me assustei, voltando a realidade e olhando para ele, pois mal estava lembrando que ainda me encontrava na sala de aula. Foi então que eu reparei que só havia nós dois ali, todos já tinham partido. Eu deveria estar feito uma boba há uns bons minutos, pois o homem me olhava preocupado. Ainda perturbada assenti positivamente e guardei meu material na mochila, me despedindo rapidamente do professor.
As aulas que vieram em seguida passaram voando, talvez porque eu não prestei atenção nelas. Minha cabeça ainda estava divagando e questionando a minha própria lucidez. Era possível que eu estivesse ficando louca tão cedo? De qualquer forma, ninguém poderia saber o que tinha acontecido e quando eu digo ninguém, isso incluía Tessa em primeiríssimo lugar. O que aconteceu, embora fosse estranhamente bizarro, possa ter sido algo aleatório e, provavelmente, não aconteceria mais – ou ao menos eu esperava que não. Estava decidido que eu falaria a respeito apenas se fosse necessário, até lá eu não via o porquê de escandalizar algo que só aconteceu uma vez.
Caminhei em direção à cantina e procurei por Ned, apertando um pouco os olhos para tentar enxergar enquanto alunos passavam de um lado para o outro no refeitório, até que o encontrei. Andei até a mesa onde ele estava, tomando o cuidado necessário para não esbarrar em alguém e derrubar a bandeja de comida da pessoa logo no primeiro dia de aula, como nos filmes ou livros que eu era acostumada a ver. Ri internamente e balancei a cabeça de leve para espantar a minha imaginação fértil, mas ainda não deixava de estar certa em pensar isso. Afinal, cuidado nunca é demais, principalmente quando se tratava de mim que sou uma pessoa bem propícia a pagar micos. Quando estava próxima o suficiente percebi que, de fato, como ele me dissera mais cedo, Ned não estava sozinho. O garoto ao lado dele contava alguma coisa bastante animado e não pareceu perceber que eu iria me juntar a eles. Ned também pareceu empolgado, mas diferente do amigo, logo percebeu minha aproximação e acenou animado. Esse gesto chamou atenção do garoto que logo procurou o motivo do amigo ter parado de prestar atenção na conversa para acenar, e foi então que finalmente me viu de frente a eles. Nossos olhares se encontraram e com isso pude reparar mais em seu rosto. Ele tinha os olhos e cabelos castanhos, também era bem bonito até. Vestia um moletom com alguma piada nerd que eu não prestei atenção porque percebi que já havia perdido muito tempo encarando o rosto dele, então logo tratei de disfarçar para que nenhum dos dois reparasse, olhando para algum outro lugar. Provavelmente meu disfarce não deu muito certo, mas logo sorri e puxei a cadeira para sentar de frente a eles.
- , você veio mesmo! – exclamou Ned, parecia um pouco surpreso, ao mesmo tempo em que animado.
Respondi com um sorriso e logo ele nos apresentou devidamente, assim começamos a conversar. Eles eram divertidos, pareciam nervosos no começo, mas logo relaxaram e acabamos descobrindo que tínhamos muitas coisas em comum. Finalmente eu teria um ano legal como deveria ter sido os anteriores, pensei. De repente me lembrei de quando ficaram surpresos quando me aproximei, novamente imaginei que eu deveria ter uma carranca para que ficassem daquela forma. E eu precisava perguntar.
- Por que vocês ficaram estranhos quando me aproximei? – questionei, enquanto revezava meu olhar de um para outro.
- Garotas geralmente não costumam sentar com a gente no intervalo. Ou querer fazer amizade. – Ned respondeu, dando de ombros como se já estivesse acostumado. Peter concordou. E então pensei nas minhas escolas anteriores, onde existiam os famosos grupinhos dos populares, nerds e os estranhos. Eu não me considerava em nenhum daqueles grupos, até porque não conversava com muitas pessoas, a não ser quando precisava fazer trabalhos ou atividades em dupla.
- Ah, eu entendo vocês. – respondi, balançando a cabeça. – Comigo sempre foi assim, até mesmo aprendi o nome de quase todos os tios da limpeza e da cantina.
Respondi, dando de ombros e sorrindo leve.
- Difícil de acreditar... – comentou Peter, fazendo com que a atenção fosse voltada para ele. Arqueei a sobrancelha, esperando que ele continuasse. – Digo, é que você é muito... bonita e parece ser o tipo de garota que todo mundo quer ter por perto.
Ele respondeu todo atrapalhado e parecia da cor de um pimentão, tanto esse fato quanto a resposta me fizeram sorrir mais. Ned concordou com a resposta dele, assentindo com a cabeça e então eu resolvi mudar de assunto, pois percebi que o garoto parecia desconfortável e eu também deveria estar um tanto vermelha, pois minhas bochechas esquentaram de leve.
Mas logo conversas aleatórias surgiram naturalmente e eu me sentia, finalmente, parte de um grupo social.
Quando o intervalo acabou, Ned e Peter foram para as suas respectivas aulas e novamente não tinha ninguém que eu conhecia na minha, mas pelo menos dessa vez consegui prestar atenção no que o professor explicava, pela primeira vez naquele dia. O episódio da aula anterior ainda ficava repassando milhares de vezes em minha mente, tentando entender de onde eu conhecia aquele homem. Todavia, eu não deixei que isso afetasse meu desempenho na aula, assim como nas outras. Apenas na última aula, avistei Peter sentado falando alguma coisa com uma garota. Eu ia sentar em uma cadeira um pouco longe, mas quando ele me viu, logo acenou chamando-me para sentar em uma cadeira de frente a ele. E assim fiz. Ele me apresentou a garota com quem estava conversando, que descobri se chamar Michelle. Ela era um pouco estranha, mas ignorei esse fato.
Concentrei-me na aula que pareceu uma eternidade para acabar, era sempre assim nas últimas aulas, elas sempre pareciam demorar mais do que as outras. Agradeci mentalmente quando o sinal tocou, indicando a tão esperada liberdade. Fui caminhando com Peter até a saída e acabamos encontrando Ned no caminho, fazendo com que ele se juntasse a nós. Conversamos um pouco sobre nossas aulas mórbidas até o momento em que precisaríamos ir cada um para um lado, ou pelo menos eu e Peter íamos para um e Ned para o outro. E enquanto caminhávamos silenciosamente, percebi que Peter ainda parecia não saber como puxar assunto comigo enquanto estávamos sozinhos, era explícito como ele ainda ficava desconfortável. Eu o encarava fixamente enquanto fazia essa análise, ele retribuiu o olhar e ficamos nos encarando por alguns segundos, até ele franzir o cenho de repente com uma cara estranha.
- Juro que não tô seguindo você, minha casa também é por esse caminho. – explicou rapidamente, passando a mão na nuca um pouco nervoso.
- Ainda bem que você me disse isso logo, eu já tava pensando em gritar para todos que você estava tentando me sequestrar. – Brinquei enquanto colocava a mão no peito como se dissesse que estava aliviada. Contudo, ele pareceu levar a brincadeira a sério e logo abriu a boca para falar alguma coisa quando eu interrompi, revirando os olhos e dando uma risada leve. – Estou brincando, Peter.
Observei a expressão dele mudar para entendimento e em seguida ele riu um pouco.
Minha casa se aproximava, me fazendo diminuir o ritmo dos passos e o garoto ao meu lado percebeu, diminuindo os passos também até pararmos em frente a minha residência. O lado bom de morar perto da escola era esse: em poucos passos eu já estava em casa.
- Bom, eu fico por aqui. – comentei em tom de despedida, me virando para ficar de frente a ele.
- A minha fica a um quarteirão daqui. – falou me olhando, em seguida desviou olhar para a casa atrás de mim. – Ela é bem bonita.
- Obrigada. – Agradeci, dando um sorriso fraco e em seguida mordendo o lábio inferior sem saber muito que falar. Percebi então que era hora de me despedir de vez, senão ficaríamos feitos dois bobos sem saber o que falar apenas olhando um para a cara do outro. – Então... até amanhã, Peter.
- Até amanhã, .
Ele sorriu, suas mãos repousadas dentro dos bolsos do moletom enquanto me observava andar em direção à casa até que eu fechasse a porta, consequentemente saindo de seu campo de visão.
- Finalmente fez amizade com alguém... – dei um pulo sobressaltado quando ouvi a voz de Tessa próxima a mim e olhei indignada na direção da mulher, vendo que ela me fitava com uma expressão divertida no rosto e os braços cruzados.
- Theresa Lewis! – Exclamei, minha voz em uma entonação afetada ao falar o nome da minha protetora. Fingindo uma cara brava e colocando as mãos na cintura, senti as batidas do meu coração acalmando-se aos poucos devido ao susto. – Isso não se faz! Tava me espionando pela janela?
- Só estava observando o movimento na rua... – falou sorrindo divertida, descruzando os braços e dando de ombros.
Ela se aproximou e pegou a mochila das minhas costas, jogando-a em seu ombro esquerdo. E assim como fazia quando eu era criança, guiou-me pelos ombros até meu quarto. Chegava a ser cômico o fato de que Tessa parecia não aceitar que eu havia crescido. Theresa sabia ser bastante imponente quando se tratava da S.H.I.E.L.D., os treinos eram árduos e parecia existir nenhum tipo de afeto quando entrávamos no modo tutora-pupila, mas em contrapartida, Tessa era tão carinhosa quanto às lembranças que eu tinha da minha mãe. Eu a admirava e me sentia eternamente grata por ser capaz de amar uma órfã, vulgo eu, tanto quanto se fosse uma filha que ela jamais tivera a oportunidade de ter. Perdida em pensamentos, mal percebi quando chegamos ao meu quarto. Ela jogou minha mochila na cadeira de frente à penteadeira e me olhou.
- Vá tomar um banho, vou preparar um lanche e então você me conta sobre o seu primeiro dia na Midtown. – Falou enquanto caminhava até a porta, me fazendo revirar os olhos quando ela saiu sem dar a oportunidade que eu pudesse contestar.
Separei um pijama, pois pretendia passar o resto do dia fazendo nada. Após isso, caminhei até o banheiro, fechando a porta em seguida. Despi-me lentamente, pensativa, enquanto olhava o reflexo do meu rosto no espelho. Eu era quase uma cópia da minha mãe. Os cabelos negros e o rosto triangular, até mesmo o meu sorriso era como o dela. Mas os olhos... Eles eram a única herança que eu tinha do meu pai que nunca havia chegado a conhecer; morto quando eu ainda tinha apenas poucos meses de vida. Minha mãe nunca me contara com muitos detalhes de como ele era, pois, segundo ela: eu era pequena demais para entender. Mas o que havia para entender? Eu questionava isso há muito tempo.
Dei um suspiro longo e joguei as roupas no cesto, finalmente indo em direção ao chuveiro, prendendo meus cabelos em meio ao processo. Enquanto sentia a água deslizando pelo meu corpo, não me permiti continuar pensando sobre aquelas pessoas que haviam contribuído para a minha existência e não tiveram a oportunidade para ter continuado nela. Ou pelo menos não naquele dia.
Esfreguei os olhos, tirando os resquícios da máscara de cílios e continuei ali por mais alguns minutos até estar devidamente limpa. Enrolei-me na toalha, levando alguns minutos para me enxugar completamente e vesti meu pijama. Ao sair do banheiro Tessa já estava ali, provavelmente eu havia demorado.
- Tá me esperando faz muito tempo? – Indaguei, vendo-a negar com a cabeça. Tessa estava sentada na minha cama, ao lado, uma bandeja com alguns cookies, brownies e um copo de suco de laranja. Exatamente como eu gostava, pois eu era como uma formiga quando se tratava de coisas doces.
- Trouxe seu lanche favorito. – Falou, dando um sorriso. – Você merece, principalmente depois do treino de ontem. , você mandou muito bem.
Involuntariamente um sorriso animado surgiu em meus lábios.
- Obrigada, Tess. – Agradeci, enquanto me sentava e partia para a bandeja como uma esfomeada.
- É uma forma de me desculpar também, eu não deveria ter exagerado tanto no treino ontem. Você tinha aula hoje, deve estar bem cansada.
- É verdade que eu tava até planejando matar aula hoje, mas tá tudo bem. – Respondi dando algumas pausas enquanto mastigava e falava ao mesmo tempo. Mas não foi o suficiente para que o semblante culpado de Tessa desaparecesse, porém, o motivo agora parecia ser diferente. Acompanhei seu olhar, vendo que ele havia repousado no colar com o mais novo pingente circundando meu pescoço. Eu tinha ciência que ela sentia uma parcela de culpa pela morte da minha mãe, mas eu sempre soube que a equipe havia feito tudo que estava em seu alcance para ajudar. Até mesmo conseguiram uma solução para que não acontecesse com a próxima vítima. Eu concordava que se a solução tivesse vindo no tempo certo para conseguir salvar minha mãe as coisas teriam sido diferentes, mas culpar pessoas que estiveram comigo desde o início e me protegendo há anos, seria ingratidão. Eu culpava apenas as pessoas que realmente eram: as que fizeram minha mãe passar por todas aquelas coisas. Entretanto, eles já estavam mortos e os que não estavam, sentiam o gostinho amargo que as consequências causavam. Dei um suspiro quando percebi que havia falhado na parte do ‘não pensar no passado pelo resto do dia’. Era quase impossível não lembrar, mesmo depois de tantos anos. Aquele momento ficou implícito entre eu e Tessa, pois não era necessário ser colocado em palavras para ela saber o que se passava na minha mente quando se tratava daquele assunto. Nós tínhamos uma regra de quais assuntos não tocar e aquele, definitivamente, era um deles. Quando terminei de comer deitei a cabeça no travesseiro que se encontrava no colo de Tessa e começamos a conversar sobre várias coisas, inclusive minha tentativa de fazer amizades, enquanto sentia Tessa fazer carinho no meu cabelo.



***




Um mês. Apenas um mês foi o suficiente para que eu me adaptasse com a rotina da Midtown High School. Para algumas pessoas era muito tempo, mas para mim, era um recorde. Eu já tinha conseguido conversar com algumas pessoas e formar opiniões sobre algumas delas. Todavia, apenas com duas pessoas eu passava mais tempo: Ned Leeds e Peter Parker. Havíamos nos tornado um trio inseparável e confesso que até me impressiono, considerando que Peter tinha problemas de comunicação comigo logo quando me conheceu. Naquela manhã, o sol entrava radiante pela janela e nem mesmo precisei de despertador, já que os raios cintilantes em direção ao meu rosto já desempenhavam um bom papel. Abri os olhos com dificuldade, levantando o braço para pegar meu celular na mesinha ao lado da cama, onde se encontrava o abajur. Olhei as horas e amaldiçoei-me mentalmente por ter esquecido de fechar as persianas, ainda estaria dormindo por uns bons minutos caso contrário. Repousei o celular em cima da mesinha novamente e levantei-me da cama em passos preguiçosos até a janela, meus pés descalços em contato com o chão frio fez com que eu me arrepiasse. Olhei para as minhas pantufas ao lado da porta do banheiro e percebi o quanto eu havia feito tudo errado na noite anterior, talvez seja aquele famoso dia em que as pessoas costumam chamar de acordar com pé esquerdo.
Com a mão segurando o fio da persiana, foi então que decidi que não voltaria mais para a cama novamente, pois do que adiantava se daqui alguns minutos iria ter que acordar novamente? Só iria servir para me deixar de mau humor pelo resto do dia. Abaixei a mão, desistindo da janela e caminhei até as minhas pantufas do Scooby-doo, calçando-as em seguida. Saí do quarto andando silenciosamente, como estava acostumada. Tessa ainda não havia saído de casa e isso foi confirmado ao ouvir o som de sua voz que parecia falar com alguém. Minhas suspeitas concretizaram-se quando, pela fresta da porta que se encontrava meio aberta, vi Tessa de frente ao guarda-roupa, provavelmente procurando algo para vestir e com o celular no ouvido. Havia uma pasta branca em cima da cama, com um símbolo da S.H.I.E.L.D. apenas. Não era novidade para mim que Tessa tinha a missão de ser minha tutora até que eu tivesse a idade ideal para ser considerada legalmente adulta de acordo com a lei, pois fora uma promessa que Phil Coulson fizera a minha mãe. Mas com o passar do tempo, meu interesse em fazer parte da agência contribuiu para que isso se tornasse prioridade. Por esse motivo era normal Tessa fazer relatórios mensais do meu desempenho. Entretanto, algo no que ela falava chamou minha atenção fazendo com que eu me escondesse melhor para escutar. Era errado eu sabia, mas minha curiosidade falava mais alto do que qualquer outra coisa.
- Não, diretor. – A mulher estava calma e cautelosa, talvez controlando o som da voz para que não fosse ouvida por terceiros, falhando drasticamente, pois eu me encontrava bem ali ouvindo quase perfeitamente. – Nenhum sinal de manifestação ou qualquer anomalia nela.
Ela se calou, dando espaço para o homem falar alguma coisa que eu, infelizmente, não tinha como ouvir. Tessa deu um suspiro resignado e voltou a falar novamente.
- Senhor, tem certeza que a garota tenha mesmo tais... – Ela hesitou em continuar a fala, demorando um pouco para completar, mas logo prosseguiu cuidadosa. – habilidades?
Silêncio novamente.
Eu tentava me aproximar mais do que era possível, tendo em mente o risco que seria ao ser pega ouvindo uma conversa de um nível elevado de confidencialidade como aquela parecia ser. Contudo, eu sentia uma necessidade enorme de saber do que se tratava, pois minha intuição gritava que aquilo era de meu interesse.
- Não acha que já tá na hora dela saber, senhor? – Questionou Tessa, desistindo da procura no guarda-roupa e sentando na cama. Recuei um pouco para o lado, agora com um pouco mais de dificuldade para visualizar o recinto. Após alguns segundos que levaram tempo o suficiente para a pessoa do outro lado da linha responder, Tessa, pela pouca visão que eu tinha, adotou uma expressão frustrada e passou uma mão nos cabelos levando-os para trás que, teimosamente, voltaram para o mesmo lugar. Ela levantou da cama e sumiu da minha visão por alguns minutos, aparecendo novamente com a pasta branca na mão, a mesma que eu havia visto anteriormente. Olhou por alguns segundos para a pasta enquanto despedia-se formalmente da pessoa, desligando o celular em seguida. Ela foi em direção ao criado-mudo, abriu a primeira gaveta e colocou a pasta dentro, fechando com uma chave. Aquela foi a minha deixa para sair dali. Tessa esconderia aquela chave e eu não teria como pegá-la, mas eu iria dar um jeito de conseguir abrir aquela gaveta. Minha única preocupação no momento era torcer para que a minha presença não tivesse sido percebida de forma alguma.


Continua...



Nota da autora: Oooi meninas! O que acharam dessa att?!
Quero agradecer a cada uma que leu, comentou e, principalmente, pelo carinho com que me trataram. Eu estava bem insegura sobre enviar a fic ao site, pois ela tá sendo a primeira e eu acabei ficando bem nervosa. Mas DOTO foi recebida tão bem que até mesmo teve indicação só nos primeiros capítulos - aliás muitíssimo obrigada, Angélica <333 -.
Por enquanto os capítulos estão saindo bem pequenos, mas prometo que logo isso vai mudar!
Beijosss <3





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