Capítulo 1
Era mais uma manhã comum de terça-feira. acordou, lavou o rosto, ligou a televisão no canal de notícias e foi preparar seu café, abriu a geladeira, mas parecia que nada lá agradava seu paladar. A matéria no jornal era sobre um assalto que tinha acontecido no dia anterior.
“Muita tragédia pra logo cedo” ele pensou e desligou o aparelho. Foi até seu armário e trocou de roupa, garantiu que pegou um boné e óculos de sol, então pegou a chave do carro e saiu.
“O tempo até Café Rosário é de quinze minutos” disse o GPS assim que ele digitou o endereço de onde amava tomar café nos dias em que não tinha disposição para preparar nada. Aquele lugar era especial, foi onde tomou café quase todos os dias quando era estagiário da gravadora, muito antes de ser , o artista mundialmente conhecido e vencedor de Grammys, naquela época ele era só , o estagiário.
Antes de sair do carro, ele colocou o boné e o óculos de sol, para garantir que as pessoas demorassem mais para reconhecê-lo. Enquanto andava até o café, viu uma mulher passando em sua frente, ela carregava por volta de seis caixas e de repente parou, equilibrou todas elas em uma mão e com a outra começou a tatear o bolso frontal da calça. Foi como se ele visse em câmera lenta: as caixas de cima começaram a escorregar e em breve cairiam no chão.
- Moça, precisa de ajuda? – Ele perguntou correndo até ela.
- Está tudo bem! – Ela disse ofegante, mas sem passar confiança.
- Por favor, deixa eu te ajudar! – pegou quatro caixas de cima da pilha a aliviando.
- Ai, obrigada! Eu preciso ver o número certo de onde vou entregar isso! - Ela enfim pegou o celular e em poucos segundos olhou ao redor, buscando algo. – Conhece aqui o bairro?
- Um pouco.
- Essa rua é perto? – Ela virou o celular na direção dele.
- Virando ali a esquina, acho que já é bem no começo do quarteirão esse número.
- Perfeito! Muito obrigada pela ajuda, pode deixar que eu levo agora.
Algo em pareceu estar errado, ela tinha se mostrado totalmente capaz de carregar todas as caixas sozinha e equilibrá-las para pegar o celular no bolso, mas aquele bairro não era conhecido por ser o mais seguro de Nova York.
- Eu posso te acompanhar, se quiser, é aqui perto mesmo!
Pela primeira vez ela o olhou, teve medo de que ela o reconhecesse, mas ao invés de surpresa ou felicidade, seu rosto transmitia a sensação de estranheza com a oferta. entendeu imediatamente e tentou se justificar:
- Juro que é só pra te ajudar mesmo!
- Acho que tudo bem! Coloca uma caixa aqui, assim ficamos iguais.
Satisfeito, pois ela não era uma fã, os dois caminharam lado a lado e em poucos metros viraram a esquina. Ela olhou a placa com o nome da rua, estava no lugar certo.
- Número 72 é aqui! – Ela parou em frente a um prédio e tocou o interfone no número cinco.
Nenhuma resposta. Ela tocou novamente. Nada de novo.
- Será possível? – Ela resmungou e colocou a mão no bolso novamente, mexeu rapidamente e levou o celular ao ouvido. – Oi! Estou em frente ao seu prédio com o pedido. Sério? Quanto tempo mais ou menos? Tá, acho que posso esperar sim. Até já!
Ela desligou a chamada e respirou fundo.
- A moça que vai receber a entrega não está em casa, vai demorar mais quinze minutos, acho que vou esperar aqui na frente. Muito obrigada pela sua ajuda, vou deixar as caixas aqui na calçada mesmo e aguardar.
Ela posicionou as caixas que estava segurando no chão perto do muro, pegou as restantes que estavam nas mãos de e colocou em cima das demais. olhou para o outro lado da rua, era um prédio abandonado, todo destruído e pichado, na calçada tinham alguns homens sentados, outros em pé, todos conversando entre si, eventualmente olhavam para eles e desviavam.
- Aqui é um lugar meio perigoso pra você ficar sozinha. – Ele a olhou, mas, sem perceber, seu olhar se desviou para o outro lado da rua. Ela olhou discretamente na direção apontada.
- Ah, entendi...
- Se você não se importar, eu fico aqui com você ou vamos até o Café Rosário e você pode esperar tranquila a sua cliente chegar.
- Eu vou ter que voar daqui até a universidade, quase do outro lado da cidade. Acho que vou ficar por aqui caso ela chegue mais cedo.
- Então ficamos aqui mesmo! – Ele disse sorrindo e sentou-se na calçada perto da entrada e ao lado das caixas. Ela o olhou com curiosidade:
- Desculpa, eu aceitei a sua ajuda, mas eu nem sei o seu nome! – Ela disse rindo baixo e sentando-se do outro lado das caixas.
- e você é?
- ! – Ela estendeu a mão e ele a cumprimentou.
- Onde você faz faculdade, ?
- Eu faço na Universidade de Nova York, mestrado em escrita para roteiros.
- Mestrado?! Caramba, você aparenta ser nova pra fazer mestrado já!
- As aparências enganam! – Ela riu e ele a acompanhou.
“Você nem imagina o quanto”, pensou.
- Por que mestrado em escrita para roteiros?
- Eu me graduei em artes cênicas, pós-graduação em cinema e audiovisual, fiz uma especialização em teatro musical, a única coisa que parecia faltar era estudar roteiros e não tem lugar melhor pra isso do que Nova York...
- Espera, então você é atriz e cantora?
- Sim!
- Uau, e você veio de qual estado?
- Na verdade eu vim de outro país, Brasil.
- Ah, señorita! – disse sorrindo.
- Tirando o fato de que no Brasil...
- Vocês não falam espanhol, eu sei! É por isso que eu não sou daqui também, sou da Colômbia!
- Isso explica o conhecimento básico em geografia. – Os dois riram.
- E por que escolheu essa profissão? Esse curso?
- Eu decidi fazer esse mestrado porque eu amo contar histórias, tanto escrevendo como encenando, e o teatro musical ainda por cima trabalha com música, uma coisa que faz parte da vida de todo mundo.
- E aí você saiu do Brasil pra fazer esse mestrado aqui e vai ficar?
- Se tudo der certo, é possível!
olhou para o outro lado da rua e os homens o fitavam, alguns desviavam o olhar, conversavam entre si, ele ajeitou o boné e os óculos. olhou para o céu e mexeu na camisa para se abanar. Pegou o celular e em poucos segundos o guardou no bolso novamente.
- Será que isso aqui tá bom ainda? Tá muito quente e eu não esperava ficar quinze minutos aqui no calor.
Ela pegou uma das caixas e abriu a tampa para verificar o conteúdo.
- Eu te ajudo a ver se tá tudo bem! – se prontificou pegando uma das caixas.
- Não precisa, não!
Quando abriu a tampa, viu que dentro tinham diversos cupcakes com cobertura de chocolate e em cima... pequenas esculturas de pênis. Sua feição mudou automaticamente para surpresa e começou a rir, escondendo o rosto em suas mãos.
- Eu disse que não precisava! – Ela falou entre o riso.
- Tá tudo certo... eu acho. Nessa caixa aqui está tudo inteiro. – fechou a tampa e começou a rir.
- Pode deixar que eu vejo o resto!
- Achei meio ofensivo, sabe. – olhou para ele sem saber o que dizer. – São pênis muito comuns, onde está a diversidade? Os menores, apesar que esses as mulheres não são muito fãs, os ‘meio tortos’, os completamente tortos?
riu novamente e assentiu com a cabeça.
- Você tem razão, falta diversidade e inclusão!
observou enquanto, uma a uma, ela abria as caixas para verificar a integridade do conteúdo.
- Além de cantora, atriz e roteirista, você também é confeiteira de artigos para maiores de idade?
- Confeitaria é um dom que eu não carrego comigo, quem faz é minha amiga, Luna, a melhor confeiteira que eu já conheci na vida. Eu só ajudo ela com a entrega e outras coisas pontuais.
Ele viu que em cima da caixa estava escrito “Delícias da Luna”.
- Mas me conta sobre você: o que você faz, além de ajudar desconhecidas a carregar caixas?
- Eu também sou da área artística, sou cantor.
- Não acredito! Faz tempo?
- Algum tempo já...
- E qual estilo de música você canta?
- A grande maioria é pop.
- Como é pra você viver da música? É difícil? Tem bastante trabalho?
- Atualmente estou bem tranquilo de shows, mas eu vivo confortavelmente com esse emprego.
não sabia se deveria revelar quem era de verdade, estava gostando de ter uma conversa em que era tratado somente como uma pessoa e não uma estrela.
- Cúando te veo no puedo explicar lo que siento, pero sé que nos conocemos en una vida pasada!
Os homens do outro lado da rua começaram a cantar em uníssono, todos com sorriso no rosto e olhando para , que ficou envergonhado, mas sorriu e no ritmo da música acenou para eles, que comemoraram.
- O que tá acontecendo? – perguntou.
- Tá. Eu não fui completamente sincero com você.
o olhou com muita suspeita, não estava entendendo nada.
- Quando eu disse que era cantor, eu na verdade posso ter omitido que sou um cantor famoso.
- Famoso quanto? Qual é o seu sobrenome?
- . .
A feição de estava completamente diferente, uma mistura entre desconfiança, curiosidade e incredulidade. Ela imediatamente pegou o celular, digitou algo e sua cara era de total surpresa.
- Dois Grammys? Pra mim, isso é ser bem famoso!
- Um Grammy Latino, um Grammy usual...
colocou seu celular ao lado do rosto de , tinha uma imagem dele aberta. Ele a viu pelo canto do olho e tirou os óculos escuros para ela ter uma visão clara de seu rosto:
- Tá tentando ver se eu sou golpista?
- Mas é claro, por que do nada um cantor famoso, estou enfatizando o famoso, ajudaria uma pessoa no meio da rua? O que você quer? Favores sexuais?
começou a rir sem intenção e colocou os óculos novamente. ainda o encarava e, apesar de tentar permanecer séria, estava quase rindo também.
- Antes de ser um artista famoso, enfatizando o famoso, eu sou uma pessoa. Eu vi que você podia precisar de ajuda e resolvi ajudar! – Ela serrou os olhos e seu olhar ainda transmitia desconfiança. – Mas acho que não sou tão famoso assim, já que você não faz a menor ideia de quem eu sou...
apoiou a mão na testa, estava envergonhada.
- Isso é típico da , sabe? Se aparecesse aqui na minha frente o Lin-Manuel Miranda, Stephen Sondheim, apesar de que ia ser estranho porque ele já morreu, Alan Menken, Stephen Schwartz, qualquer outra pessoa de teatro musical, eu saberia imediatamente, agora as pessoas famosas, estrelas pop, eu não faço ideia.
- Pra ser honesto, eu não faço a mínima ideia de quem são essas pessoas que você mencionou.
tentou fazer ela se sentir melhor e sorriu como resposta.
- Então, senhor famoso, preciso assinar algum termo de confidencialidade pra nossa conversa?
- De forma alguma, inclusive eu fiquei feliz porque você não me conhecia, é realmente muito bom só conversar como pessoa e não como artista.
- Sua família mora por aqui também?
- Não, eles ficaram na Colômbia, não falam inglês e não queriam se mudar.
- No fim das contas, você é como eu: imigrante solitário tentando ganhar a vida com arte. Só que no seu caso, você meio que já conseguiu fazer isso! – disse rindo fraco.
Apesar de querer, não sabia se era o momento de fazer perguntas mais pessoais para , não sabia se ela entenderia errado, se ficaria incomodada, se pensaria que ele estava se aproveitando do fato de ser famoso, então só riu do que ela disse. Os dois ficaram em silêncio por curto tempo, ouviram passos correndo em sua direção e em poucos segundos uma mulher apareceu, ela estava ofegante e um pouco vermelha e suada:
- Demorei muito?
- Chegou até antes do que falou no telefone! – se levantou e fez o mesmo. Antes que ela se abaixasse, ele pegou as caixas. – Ah, obrigada!
- Aqui está o dinheiro. – A mulher entregou para , que começou a conferir. Enquanto isso, a mulher encarou , que automaticamente ficou nervoso.
- Tudo certo! Aqui está sua encomenda, precisa de ajuda pra levar? – entregou as caixas para a mulher.
- Não precisa, tem elevador aqui e as caixas não estão tão pesadas, mas obrigada!
Antes que falasse mais alguma coisa, a mulher encarou o homem novamente:
- Eu te conheço de algum lugar?
- Ah, eu duvido! Mas as pessoas sempre perguntam isso pro meu irmão, sabia? Falam que ele se parece com um cara famoso... – disse de prontidão e deu um empurrão em , tentando fazer parecer uma implicação normal entre irmãos.
- Parece muito! Podia ser sósia.
- Pois é, quem sabe a gente não fatura um dinheiro extra com isso? Obrigada e espero que goste da encomenda! – sorriu e se virou sem dar a oportunidade de a cliente perguntar nada. Andaram até virar a esquina em que se conheceram e começou a rir:
- Foi perfeito! Você é uma baita atriz, a voz nem tremeu.
- E correr o risco de sair nas manchetes: “cantor famoso é visto entregando cupcake com desenhos adultos no Harlem”? Não quero esse peso de arruinar a sua carreira!
- Falando sério, valeu mesmo por ter agido tão rápido. Tá vendo só, algumas pessoas me conhecem!
- É, você deve ser bem famoso mesmo, mas eu que agradeço por não ter me deixado lá! Apesar de ter mentido sobre sua identidade, você fez boa companhia.
- Mentido, não. Omitido! E você vai correr agora pra NYU?
- Se eu pudesse, eu iria voando, mas acho que de trem dá tempo.
- Quer carona? – A feição de mudou novamente para desconfiança.
- Apesar de isso ser completamente suspeito, eu acredito que um artista renomado como você não perderia seu tempo sequestrando uma qualquer. Mas não precisa, obrigada! – Ele riu:
- Tem certeza?
- Absoluta, vou aproveitar esse tempo pra rever uns exercícios. Foi um prazer te conhecer, ! – Ela estendeu a mão.
- O prazer foi todo meu, ! – Ele apertou a mão dela e os dois sorriram.
observou se virar e caminhar em direção a estação de trem. Ele sorria enquanto relembrava a conversa que acabara de ter, não imaginava nem por um segundo que, ao sair de casa, aconteceria tudo o que aconteceu. Ele também se virou e caminhou até o Café Rosário para finalmente tomar seu café da manhã.
Após tomar o café da manhã, foi até o prédio de sua gravadora. Ao chegar, foi recebido por seu assessor, . conhecia desde quando ele se apresentava em bares e festas sociais, já tinham uma intimidade quase digna de irmãos e, por isso, às vezes era difícil trabalhar um com o outro.
- Boas novas, recebi a versão final do roteiro do seu clipe! – Ele disse empolgado.
- A versão final vem com uma reunião ou vem impressa?
- Como eu te conheço muito bem, vem impressa e dentro de uma sala silenciosa. – respirou aliviado. Os dois caminharam até uma sala de concentração, um nome pomposo para uma sala pequena em que as pessoas vão exclusivamente para se concentrar sem serem interrompidas.
abriu a porta da sala e em cima da pequena mesa, tinha um chumaço de papel, um marca-textos e canetas.
- Quer alguma coisa pra beber?
- Tudo tranquilo. Acho que não vou demorar! – disse entrando na sala e fechando a porta. Era a terceira vez que ele avaliava aquele roteiro e não entendia qual a dificuldade em conseguir um roteiro que fizesse sentido com o que a música expressava. Fazia um longo tempo desde que não emplacava nenhum sucesso ou ganhava algum prêmio, mesmo que fosse uma indicação, ele queria que essa música marcasse o início de uma nova guinada na carreira dele, mas para isso acontecer, ele precisava que o clipe fosse perfeito.
Do lado de fora da sala, estava aflito e, enquanto esperava, estalava compulsivamente os dedos e pensava:
“De forma alguma o pode reprovar aquele roteiro novamente, esse diretor só trabalha com esse roteirista e nós estamos ficando sem tempo”.
Mal se passaram cinco minutos e saiu da sala com a cara fechada, o que significava más notícias:
- Não me fala que você odiou.
- Eu não gostei, acho que não passa a mensagem que a música pede, a gente tá apostando muito nessa canção e o clipe precisa estar de acordo, . Se esse roteirista não é capaz de entender isso, a gente arruma um que seja.
- Mas aquele diretor insuportável só trabalha com esse roteirista!
- Então arrumamos outro diretor. – revirou os olhos, mas conhecia muto bem seu amigo, quando tinha uma ideia, ninguém podia mudar seus pensamentos.
- Você tem alguma sugestão ou começo minha busca do zero? Você não quer trabalhar de novo com nenhum produtor dos vídeos antigos, assim fica difícil...
- Será que é tão difícil assim querer um profissional que saiba contar uma história? Roteirista é pra isso, não?!
Nesse exato momento, foi como se ouvisse uma voz ecoar no fundo de sua mente, mais precisamente, uma voz feminina:
“Eu decidi fazer esse mestrado porque eu amo contar histórias, tanto escrevendo como encenando”.
- Vou começar a procurar roteirista de filmes, de teatro, qualquer um...
- Espera, eu sei quem é a pessoa!
- Lembrou de alguém?
- Na verdade, conheci alguém hoje! Quando eu fui tomar o café da manhã, esbarrei com essa moça e ela me disse que fazia mestrado em escrita para roteiros.
- Isso é o que eu chamo de coincidência. Qual o nome dela?
- .
- do que?
percebeu que nunca perguntou o sobrenome dela e ficou congelado.
- Você não sabe?
- Eu não perguntei... só sei que é , brasileira, faz mestrado na NYU. Ajuda?
- Com certeza, vou ligar agora na universidade e pedir todas as informações sobre ela.
- Sério?
- Claro que não, tenho cara de polícia agora? Eles não passam esse tipo de informação.
Por um momento, tinha a solução dos seus problemas na mão, mas assim como veio, foi embora.
- Você já foi melhor, sabia? Havia uma época em que você teria pedido o número dela.
- É que nós ficamos conversando e nem pensei nisso, era como se eu já conhecesse ela há muito tempo.
- Mas não conhece e agora eu nem sei como vou encontrá-la! Ela vai muito naquele café?
- Ela não estava tomando café, eu encontrei ela no caminho até o café. É isso, é isso! Ela estava fazendo a entrega de uma encomenda da amiga dela, acho que se encontrarmos essa confeitaria, encontramos ela!
- Me sobrou um belíssimo trabalho de detetive. Qual é o nome da confeitaria?
- Delícias da... – congelou novamente.
- , você precisa ir ao médico. Como é que você se lembra da letra de todas as músicas que já cantou na vida e não consegue lembrar um nome?
- Eu não sei, eu lembro que vi muito bem o logo que tava na caixa, mas não lembro o nome.
- Perfeito, agora eu vou sair pela internet pesquisando sobre uma de não-sei-o-que, que trabalha na confeitaria delícias de não-sei-quem-lá.
- Eu juro que se vir o logo da empresa eu vou saber identificar, eu juro!
- Eu não sei. É sério que você vai querer chamar uma completa desconhecida pra um trabalho?
- Não é você que vive dizendo que eu preciso experimentar coisas novas?
- Sim, comidas e bebidas, não pessoas que você não sabe nem o sobrenome!
- Eu sempre confio em você, mas dessa vez você precisa confiar em mim, eu acho que a não-sei-o-que pode ser a solução de alguns problemas.
respirou fundo. De fato, sempre confiava na palavra e nas opiniões dele, essa era uma das poucas vezes em que ele tinha que fazer o mesmo, mesmo que tivesse que procurar por toda cidade de Nova York por uma garota.
- Eu acho bom meu presente de aniversário desse ano ser fantástico, porque honestamente, olha as coisas que eu faço por você, !
Já era final de tarde quando voltou de sua última entrega de encomendas. Após ir para NYU, ela voltou para Washington Heights, onde a confeitaria de Luna ficava, entregou pedidos no balcão e, mais para o final da tarde, saiu para a entrega da última encomenda.
- Acabou por hoje? – Ela perguntou entrando na confeitaria e sentando-se em uma cadeira que ficava atrás do balcão de atendimento.
- Por hoje sim, obrigada pela ajuda, o Santino volta amanhã a fazer as entregas! – Luna era uma mulher porto-riquenha de meia idade, cabelos castanhos claros, negra de pele clara, muito bom humor e um dom incrível para confeitaria.
- Fica tranquila, de vez em quando é bom sair da rotina um pouco, conhecer novos bairros de Nova York.
De repente, se deu conta de que não havia contado para Luna sobre sua aventura matinal:
- Por acaso você conhece um tal de ?
- O cantor? Muy guapo, Dios mio! – Ela se abanou e sua amiga riu.
- Ele mesmo. Acredita que eu conheci ele hoje? – Luna parou o que estava fazendo e encarou .
- O que?! Conheceu onde, como?
explicou brevemente o ocorrido da manhã, como ele a ajudou com as caixas e depois esperou a cliente com ela. Ao final, Luna estava boquiaberta:
- , eu não acredito que você conheceu um famoso e nem sabia o nome dele!
- Não é minha culpa, se ele fosse um ator de teatro musical eu provavelmente saberia! – Luna revirou os olhos e riu.
- Ele pediu o seu número?
- É óbvio que não, você acha que ele faria isso? Gente famosa não fica pedindo o número de desconhecidas na rua, além do mais, ele provavelmente tem uma lista enorme de mulheres lindas nos contatos dele.
- Você não sabe disso.
- E nem você.
- Fico feliz pela sua experiência, mas fico triste em saber que você não se considera linda o suficiente para entrar na lista de contatos dele.
Era comum Luna fazer aquilo: deixar sem palavras ao falar coisas que se passavam bem no fundo da mente dela, mas que ela não permitia que chegassem até o seu consciente.
- Odeio quando você faz isso. Mas as coisas acontecem por um motivo, às vezes esse encontro casual aconteceu só porque precisava acontecer. Além disso, me relembrou como o mundo é pequeno, hoje eu encontrei ele, amanhã eu posso encontrar um diretor famoso ou um produtor executivo, e aí sim minha carreira vai adiante.
- Si crees que este encuentro fue mera casualidad...
não gostava de criar expectativas e, apesar de ter facilidade para imaginar diversos cenários e possibilidades, preferia não imergir em cada um deles, pois só assim poderia manter seus pés no chão e traçar seu caminho sem desvios até a carreira que tanto lutou e almejou.
Mas um pensamento sempre aparecia em sua mente: e se todo esse esforço for em vão? E se, depois de passar meses em outro país, nenhuma oportunidade surgisse e ela tivesse apenas perdido seu tempo e dinheiro? Ela precisava fazer valer a pena tudo o que deixou para trás. Só não sabia como.
Capítulo 2
Três dias haviam se passado desde o encontro casual entre e . estava em seu apartamento tentando compor algo quando a campainha tocou. Como não o interfonaram, supôs que era .
- Bom dia, ! – disse sorrindo quando abriu a porta. Reparou que muitas folhas amassadas estavam no chão, outras rasgadas, poucas intactas e o violão estava apoiado no sofá. Ele estava compondo.
- Não gosto quando você me chama assim, significa que são más notícias. Achou a ?
- Você é muito pessimista. Mas sim, são más notícias. Não encontrei a ainda, porque não tive tempo de procurar todas as empresas de Nova York com “delícias da ou de” no nome.
- Deixa eu ver o que você tem até agora – ele estendeu a mão e seu amigo colocou o celular em cima. deu uma olhada nas três imagens que ele separou e não reconheceu nenhuma – não é nenhuma dessas.
- Porque seria sorte demais encontrarmos essa confeitaria logo de cara. Você chegou a olhar nos seus seguidores do Instagram? De repente ela te segue e você está dando bobeira.
- Eu já te disse, ela nem sabia quem eu era, dificilmente ela me seguiria no Instagram.
- Ela pode ter começado a te seguir depois.
pegou seu celular, foi até seus seguidores e digitou ‘’. Algumas pessoas apareceram, mas nenhuma se parecia com ela.
- Não, ninguém – bufou e sentou-se no sofá – você não veio até aqui só pra me falar isso, podia ter mandado mensagem, o que foi de verdade?
- David, também conhecido como meu chefe, está extremamente ansioso pra saber sobre suas novas músicas! – Ele disse irônico.
- Não tem novas músicas.
- Eu sei que não tem! Por isso nos últimos três dias eu tenho fugido, dando desculpas pra todo mundo falando que você está tão concentrado nesse novo álbum que não quer deixar ninguém ver, inclusive eu. Você precisa apresentar pelo menos UMA música!
- Eu não entendo qual é a pressa por um álbum novo, lancei um ano passado porque eles estavam me pressionando e foi uma merda, nenhuma música dentro do top 100 da Billboard! Eu não vou jogar um monte porcaria no colo deles só porque querem e não vou gravar nada que eu não aprove ou que não esteja de acordo com a linha musical que eu quero seguir.
havia se exaltado e ficou em silêncio, ele sabia como esse assunto era delicado e, por isso mesmo, não estava nem um pouco feliz por ser o portador das notícias ruins.
- E qual estilo musical você quer seguir?
- Não sei.
- Você precisa me ajudar pra eu poder te ajudar, !
- Eu não sei mesmo! Você acha que é divertido pra mim falar isso pra você? É a minha carreira que está em jogo, minha vida, meu nome, minha voz e minha cara.
- Você tem um contrato, eles vão fazer de tudo pra você cumpri-lo.
- É por isso que eu preciso encontrar a . – disse com determinação. – Tenta entender a minha linha de raciocínio: se eu tiver um vídeo foda, ele vai complementar a minha música foda, o que vai me deixar com um lançamento ultrafoda e eu vou poder usar isso como barganha praqueles malditos da gravadora me deixarem criar em paz!
Aquilo fazia sentido, tanto para quando para e, se tinha uma coisa que aprendeu ao longo dos anos trabalhando na indústria da música, era que nenhum artista se mantinha no topo somente com um hit de sucesso.
- Então a gente vai encontrar a hoje! – tinha um tom de voz decidido e animado. Ele pegou seu celular e começou a procurar, sentou-se perto dele e conforme seu amigo encontrava algo, ia mostrando.
Após duas horas e um almoço, as esperanças de já tinham se esgotado, ele teria que encontrar uma outra pessoa para escrever o roteiro que colocaria sua carreira de volta ao estrelato.
- Site meio suspeito, mas apareceu aqui: melhores lojas de doce e sobremesas de Washington Heights.
- Deixa pra lá, , acho que a gente nunca vai encontrar essa confeitaria. Vai ver é um aviso pra eu prestar mais atenção ao meu redor...
- Tem aqui uma “Delícias da Luna”, olha, ótimas avaliações.
- Já falei pra deixar pra lá.
- Olha logo essa porra desse logo. Nossa, comeria um brownie desses facilmente agora – praticamente enfiou o celular na cara de , que já tinha ficado tão desanimado que estava deitado.
não esperava receber tamanha iluminação na cara repentinamente, tanto que seu olho até doeu, mas quando ele focou, viu um logo que parecia familiar. Era ele, o logo que tinha visto na caixa com os cupcakes de pênis. Ele se levantou em um salto.
- É esse! , é esse o logo!
- Você tem certeza?!
- Absoluta, eu nunca tive tanta certeza na vida!
- Puta merda, logo o último do dia, quanta sorte.
- E agora?
- Vamos ver se eles têm Instagram – dizia enquanto seus dedos se movimentavam rápido – não tem? Quem não tem Instagram hoje em dia? Pelo menos eu achei um número e endereço.
- Ótimo! Você liga e pergunta se alguma trabalha lá.
Bem parou de mexer no celular e encarou seu amigo.
- O que?
- Esse é o seu plano?
- Não entendi.
- Se uma pessoa desconhecida me liga perguntando se eu trabalho com algum , você acha que eu falaria sim ou não? Agora pense nisso se colocando no lugar de uma mulher recebendo a ligação de um homem desconhecido.
- Eu provavelmente desligaria a ligação.
- Este é o meu plano: vou ligar lá e encomendar algumas coisas, na hora da retirada eu me apresento pra... como é mesmo o nome?
- Luna.
- Me apresento pra Luna e pergunto sobre a . Se a estiver lá eu me apresento para a e pergunto a porra do sobrenome dela e o telefone de contato. – riu e assentiu. se levantou e foi para outro cômodo fazer a ligação.
No fim das contas estava dando tudo certo e, em poucas horas, veria novamente a . Ele nem sabia como seria esse encontro, o que ele falaria para ela, qual roupa vestiria, será que convidar ela até o apartamento dele era demais para uma reunião profissional?
- Tenho boas e más notícias. – disse voltando até a sala. – A boa é que eu consegui fazer a encomenda, a má é que eu só consigo buscar na segunda-feira após o almoço. Aparentemente essa tal de Luna tem uma agenda bem cheia.
- Que merda.
- Pensa pelo lado positivo, pelo menos você está muito mais perto da sua roteirista do que estava até hoje de manhã!
- Valeu, de verdade, pelo esforço e pela ajuda, eu não sei o que faria sem você!
- Provavelmente estaria gravando alguma música horrível que a gravadora te forçaria a aceitar – os dois riram.
Nem todas as palavras positivas de , sobre como as coisas se resolveriam na segunda-feira à tarde, foram capazes de tirar a ansiedade que se instaurou durante todo o final de semana. Além da preocupação sobre a falta de criatividade ou inspiração para compor novas canções, pensava sobre a gravadora, como estava o influenciando e quase o forçando a gravar um álbum pelo simples fato de terem um contrato e não porque ele tinha músicas de qualidade. Também estava ansioso para finalmente rever , mas o que mais o preocupou foi começar a pensar se ela aceitaria trabalhar com ele.
O que aconteceu naquela manhã pareceu surreal, sentiu uma conexão tão natural com que, quando pensou nela para o trabalho, foi como se uma voz sussurrasse que ela aceitaria, mas quando a razão tomou conta de seus pensamentos, ele finalmente pensou em outras possibilidades. Ele não saberia o que fazer se não aceitasse sua proposta, e se ela já estivesse trabalhando com outra pessoa? E se ela não estivesse mais em Nova York e tivesse voltado para o Brasil?
Ainda tinha o fato de que ela não o conhecia, podia achar que ele não era o tipo de profissional que ela gostaria de trabalhar, um cantorzinho de músicas pop que não conseguia lançar uma canção de sucesso há quase dois anos. Ela era muito mais culta do que ele, falou nomes de pessoas que ele nunca ouviu na vida, tinha uma graduação, uma pós-graduação e estava fazendo um mestrado, enquanto isso, ele tinha um apartamento, dois Grammys e um conhecimento básico em música. Ela estava muito além do seu alcance, pessoal e profissional.
O final de semana parecia ter durado dois anos ao invés de dois dias. Quando a manhã de segunda-feira chegou, ele acordou antes do despertador. Era o grande dia.
Do outro lado da cidade, acordou, tomou seu café da manhã, fez alguns exercícios de alongamento para despertar seu corpo e sua mente, então foi para a frente do computador fazer aquilo que mais temia: verificar as correções do seu professor do mestrado. Toda vez que ela tinha que entregar uma atividade, era como se ela estivesse se provando e entregando a parte mais pessoal de si, eram as suas ideias, suas palavras e sua mente que estava naqueles exercícios.
“O exercício está bom, mas falta desenvolvimento maior dos personagens, suas motivações, medos, objetivos, empecilhos para alcançar os objetivos e o mais importante, as ações do personagem. Lembre-se, a história não anda se o personagem não age!”.
Era tudo o que ela precisava ler para deixá-la desanimada logo no início da semana. Escrever personagens sempre foi difícil para , ela imaginava todo o desenrolar da história, tudo o que poderia acontecer, todos os possíveis diálogos, mas ela sempre se esquecia do principal, a essência do personagem, as motivações, os sentimentos, a personalidade, os conflitos e, sem isso, sem história.
“Algo que pode te ajudar é escrever personagem por personagem, características, personalidades, medos. Revisite o exercício de personas e defina com mais detalhes a persona de cada personagem, isso dará um norte para você”.
bufou e se preparou para um longo dia quebrando a cabeça na frente do computador. Mas foi justamente para isso que ela tinha saído de seu país, estava longe da família, dos amigos e de tudo o que conhecia: para ter um diploma e poder exercer sua profissão em um lugar com muitas oportunidades, pelo menos, bem mais oportunidades do que o Brasil.
Ela abriu seu livro de anotações, revisitou brevemente cada personagem que tinha criado e, seguindo a ideia do professor, abriu a matéria sobre personas. Era hora de corrigir alguns erros e se aprofundar mais na própria mente.
Quando o horário do almoço se aproximou, recebeu uma mensagem de , lembrando-o sobre o compromisso da tarde e reforçando algumas informações sobre , na verdade, as poucas informações que ele tinha sobre ela.
Após almoçar, ele dirigiu até Washington Heights no endereço que constava no artigo do site suspeito. Parou em frente a um estabelecimento simples e pequeno, com uma placa escrito “Delícias da Luna”, ele saiu do carro com um único pensamento: “se você soubesse o quanto te procuramos, Luna, você daria cem bolinhos de graça!”. Ao entrar na loja, reparou nas mesas de café que ficavam encostadas nas paredes e uma que ficava bem na vitrine, muito aconchegantes e um tanto quanto caseiras.
Mais ao fundo, a vitrine do balcão estava repleta de bolos, tortas e outras sobremesas que pareciam ser apetitosas. Atrás do balcão estava um homem, era alto, bem magro, cabelos e olhos escuros e um sorriso simpático, ele vestia uma roupa preta e um avental em degradê rosa e roxo claros. Certamente, ele não era . Será que ela estava lá?
- Boa tarde! Como posso ajudar? – ele perguntou. notou um leve sotaque.
- Olá! Eu vim retirar uma encomenda, está em nome de . – O homem atrás do balcão olhou em um caderno e assentiu com a cabeça.
- . O seu pedido ficou pronto agora, vou buscar dentro da cozinha, só um minuto! – Ele saiu por uma porta que ficava atrás do balcão. Pelo pouco tempo em que ficou aberta, ele não conseguiu ver se tinham mais pessoas lá. Seus dedos começaram a tamborilar em cima do balcão. E se não trabalhasse lá? De zero a dez, quão estranho seria se, repentinamente, ele perguntasse sobre ela?
Quanto mais essas dúvidas pipocavam em sua mente, mais ele desejava que o homem ficasse dentro cozinha. Entretanto, ele saiu pela porta com uma caixa média, posicionou-a em cima do balcão e abriu a tampa para que pudesse ver o conteúdo: doze cupcakes de chocolate com coberturas diversificadas. Se o gosto estivesse tão bom quanto a aparência, eles tinham acabado de ganhar um cliente fiel.
- Tudo certo com o seu pedido? – O homem perguntou.
- A aparência está ótima! – respondeu sorrindo. O homem sorriu em retribuição e fechou a caixa, colocou alguns adesivos para que ela não abrisse e mexeu no computador que ficava parcialmente escondido no balcão.
- Ficou cinquenta dólares. Qual a forma de pagamento?
- Cartão – tinha que agir logo, se ele voltasse para a gravadora sem um número de telefone ou qualquer outro meio de contato, o mataria. Estava prestes a entregar o cartão quando a porta de entrada se abriu, o homem atrás do balcão olhou para a pessoa e fez uma cara de confusão.
- Você por aqui hoje? – Ele perguntou e olhou discretamente para trás, viu uma mulher colocando um computador em cima de uma das mesas.
- Eu não aguentava mais ficar no apartamento. A correção do exercício tá acabando comigo!
Correção do exercício? Talvez fosse a .
- Aqui, pode aproximar o cartão – o homem disse para . Ele tomou coragem e se manifestou.
- De vez em quando é bom arejar a mente, não é? – Ele disse sorrindo e a mulher olhou para ele concordando com a cabeça.
- De vez em quando, tudo o que eu preciso é de um pedaço de torta da Luna, isso abre minha mente! – Ela disse se aproximando para ver o que tinha exposto. notou que ela também tinha um pouco de sotaque, mas não tinha mencionado isso. Talvez não fosse ela.
- Aqui está a sua nota e o seu pedido, aproveite!
Antes de pegar o pedido, respirou rapidamente e decidiu se arriscar:
- Espero que não pareça estranho, mas você se chama ? – Ele olhou para a mulher, que estava meio abaixada olhando as sobremesas. Ela o encarou profundamente enquanto se levantava. O homem atrás do balcão automaticamente se aproximou mais.
- Sim. E você seria?
- Sou e nós temos um conhecido em comum. – Ele estendeu a mão e ela não reagiu, apenas olhou para ele. – ! Ele me contou do encontro de vocês.
A feição dela mudou completamente, o olhar de desconfiança se tornou um olhar de total entendimento e um toque de confusão.
- Claro! É um prazer te conhecer, sou . – Ela apertou a mão dele.
Aí estava o nome e sobrenome. Como não tinha tido a capacidade de pegar uma informação simples como essa?
- Aconteceu alguma coisa? Eu vou precisar assinar algo? Foi uma conversa de menos de quinze minutos! – Ela disse rapidamente e ele riu baixo.
- ? O cantor? Quando foi que você conheceu ele? – O homem atrás do balcão perguntou olhando a amiga.
- Lembra semana passada que você foi fazer aquela prova e eu cobri as suas entregas? Nesse dia.
- Eu sempre faço as entregas e, no único dia em que você vai no meu lugar, você conhece um cantor famoso que vai te fazer assinar um termo de confidencialidade? Isso não é justo! – Ele parecia indignado, mas não a ponto de ficar bravo de verdade com ela, pois ela riu.
- Na verdade, eu não sou advogado do , sou assessor dele. Ele quer conversar com você, te fazer uma proposta.
- Que tipo de proposta? – Ela novamente assumiu um tom desconfiado.
- De trabalho!
- Ele quer trabalhar comigo? Pra fazer o que?
- Que tal se você conversar pessoalmente com ele? Pode ser no escritório da gravadora, fica perto da quinta avenida.
Escritório da gravadora? Uma gravadora com artistas renomados e conhecidos mundialmente? Na quinta avenida? Aquilo devia ser um sonho e desejava não acordar.
- Claro!
- Você pode agora?
- Agora eu não consigo, que tal amanhã de manhã?
- Às nove?
- Combinado.
não podia repetir os erros de , então pegou o número de celular dela e aproveitou para pedir até o nome no Instagram. Após a saída de , Santino encarou .
- O que foi?
- ? Você tá falando sério que conheceu ele?
- Sim, foi muita coincidência na verdade, foi quando eu estava no Queens fazendo uma entrega...
- Ainda por cima no meu bairro? – Ele a interrompeu. – Por que raios você não foi agora lá fazer a reunião?
- Olha pra mim, tô com o cabelo todo sujo e seboso, com uma roupa de ficar em casa e sem uma gota de maquiagem. Você acha que eu iria desse jeito numa reunião que pode me dar um emprego?
Santino a olhou de cima baixo e assentiu:
- Espero que amanhã você esteja minimamente apresentável, espero que você consiga esse emprego e espero que você me apresente o já que, em tese, eu deveria ter conhecido ele!
- Já que você é aparentemente um fã, quais são as músicas mais famosas dele?
- Você realmente nunca ouviu falar dele antes?
- Pois é, e agora vou fazer uma entrevista pra trabalhar com ele.
Tinha se passado duas horas desde que saiu para almoçar, mas para estava mais para duas semanas. O tempo todo checava seu celular por mensagens ou olhava para o elevador quando ele fazia algum barulho, já tinha esperado muito tempo. Estava pronto para enviar uma mensagem quando o elevador se abriu e, ao olhar pela milésima vez naquela direção, ele finalmente viu seu amigo. Estava segurando uma caixa, seu rosto não esboçava nenhuma reação e estava sozinho.
se levantou e o encontrou no meio do caminho:
- E aí?
pegou seu celular e mexeu rapidamente em algo:
- Por acaso, essa aqui seria a ? – Ele perguntou virando o celular no Instagram. reconheceu imediatamente ela e sorriu.
- Você encontrou ela! – Ele quase não se conteve de tanta felicidade.
- Guarde esse nome: . Peguei o perfil do Instagram e também o número do celular.
- . E cadê ela?
- Só vem amanhã de manhã.
- Amanhã de manhã?! – Repentinamente ele ficou indignado.
- Ela tinha mais o que fazer, você queria que eu jogasse ela no meu porta-malas? Nem todo mundo vive por você, ! – De vez em quando, precisava lembrá-lo de que as pessoas trabalhavam para ele, mas não viviam para satisfazê-lo.
- Tem razão, pelo menos agora temos o nome, o contato e finalmente vou poder conversar com ela. Isso vai ser incrível!
- Sabe o que é incrível de verdade? Esse cupcake. Eu nunca provei nada assim na minha vida!
olhou a caixa e reconheceu de imediato, era igual à caixa daquele fatídico dia. Lembrou-se também do conteúdo interno e riu em silêncio.
Após o retorno de , pareceu que um enorme peso foi tirado dos ombros de , parte dos seus pensamentos se tornaram mais tranquilos, mas isso não mudava o fato de que mal podia esperar para reencontrar . Já tinha repassado diversos cenários em sua mente sobre como seria esse encontro, sobre como ele contaria sua proposta, como pediria para ela escrever o roteiro, inclusive pensou em todas as respostas e reações que ela poderia ter, ou pelo menos, todas as que ele conseguiu imaginar.
No dia seguinte, se sentiu confiante e positivo e, ao chegar no prédio da gravadora, já estava o esperando, ele andava de um lado para o outro passando a mão no rosto quase freneticamente.
- Más notícias.
- Bom dia pra você também.
- David está no prédio.
Isso não era uma má notícia, era uma péssima notícia. Se David estava pressionando para que enviasse logo suas novas músicas, encontrar com ele era pior, significava que seria pressionado pessoalmente e teria que confrontá-lo. Algo que não queria fazer.
- Ele está em uma reunião, mas conhecendo ele, sei que assim que terminar, ele vem direto falar com você.
- Deixa ele vir então! – bufou. Aquilo realmente não era como ele imaginou. Antes que pudesse responder, seu celular tocou:
- Aqui é o . Sim, pode deixar ela subir – ele desligou e o encarou. – chegou!
O estômago de deu um salto triplo carpado ao ouvir essas duas palavras. E se chegasse ao mesmo tempo em que David? E se David barrasse a contratação de ? sentou-se em uma das muitas poltronas que ficavam naquele andar e respirou fundo, tentando não vomitar seu café da manhã. foi em direção ao elevador para recepcioná-la, em poucos segundos o som de aviso do elevador anunciou a chegada da pessoa mais aguardada por .
- , muito bom rever você! – sorriu para ela e estendeu a mão, ela o cumprimentou.
- Bom te ver também, ! – Era a voz dela, se levantou e olhou na direção em que estavam, estava totalmente diferente daquele dia, estava com uma roupa mais social, sua postura tinha algo diferente também.
- , não. Só , por favor! Quem me chama assim é a minha mãe e nunca vem acompanhado de alguma frase positiva. – riu e, sem perceber, sorriu.
- Quer dizer que seu sobrenome é , senhorita . – disse e ela o encarou pela primeira vez depois de exatamente uma semana.
- Quer dizer que vocês me procuraram pela cidade inteira, senhor ? – Ela respondeu sorrindo e ele olhou para , que deu de ombros.
- Eu contei, ué! Ela estava achando estranho eu aparecer do nada na loja da amiga dela, você queria que eu fizesse o que? – sentiu suas bochechas queimarem. observou a reação dele e sorriu fraco.
- Eu confesso que fiquei lisonjeada. Na verdade, eu pensei que alguma coisa tivesse acontecido e eu tinha que assinar um termo de confidencialidade.
- Você acha que alguma coisa que nós conversamos era um risco? – brincou.
- Eu não sei, tinha um conteúdo para maiores de idade, se é que você me entende. – se referia aos desenhos nos cupcakes e riu.
encarava os dois, mas não entendia sobre o que estavam conversando. Será que tinha chamado por que estava interessado nela? A princípio, ele pensou que era algo puramente profissional, mas vendo a forma como estavam conversando, essa dúvida surgiu. No entanto, não podia se dar ao luxo de divagar sobre o teor da relação dos dois, David estava no prédio e apareceria a qualquer momento.
- Vamos ao que interessa, então? – Ele os interrompeu.
- Sim! , não sei se te contou alguma coisa, mas em breve eu vou lançar uma música e, eu acredito tanto no potencial dela, que quero fazer um videoclipe que não seja simplesmente bom, quero que ele seja fantástico!
Enquanto explicava, notou um brilho nos olhos dele, um brilho que não tinha visto durante aquela pequena conversa que tiveram. Talvez esse fosse o mesmo olhar que seus amigos e familiares se referiam quando ela começava a falar sobre o teatro, sobre as histórias. Parecia que ela o estava conhecendo pela primeira vez, o imigrante solitário tentando ganhar a vida com arte.
Enquanto explicava um pouco sobre suas intenções, de dentro do elevador saiu um homem com roupas sociais, postura muito correta e um ar de superioridade:
- , , preciso falar com vocês! – e se olharam.
- David, que bom ver você! Pode ser daqui a pouco? Estou no meio de uma reunião. – respondeu tentando parecer calmo.
- Não. Você dispensou outro roteirista e outro diretor? O que te faz pensar que aquelas pessoas não eram qualificadas? Nós temos prazos, compromissos e comprometimento, trabalhamos com essas pessoas há muito tempo para você dispensar elas como se fossem lixo. Em trinta minutos nós vamos entrar em uma sala de reuniões e você vai aceitar a última proposta que te enviaram.
- Isso não vai ser possível, eu me recuso a aceitar aquela proposta, não tem nenhuma conexão com a música. Não vou fazer.
- Conexão com a música? É só um vídeo, que tipo de conexão precisa ser feita?
É só um vídeo? Teria como desprezar ainda mais uma forma de comunicação? já tinha entendido tudo. Chefe tirano? Já teve. Pessoas que não entendiam a importância de uma boa narrativa? Conhecia aos montes. Aquela discussão estava quase se tornando pessoal, mesmo sem ela ter sido sequer mencionada.
- Não é só um vídeo. É um meio de contar uma história. Muito antes de existir som nos filmes, as pessoas eram capazes de compreender uma história só com imagens. – nem permitiu que começasse a defender seu projeto. David a olhou de cima a baixo.
- E você é?
- , muito prazer!
- é uma grande roteirista, ela está aqui justamente pra finalizar essa pendência, David! – se prontificou.
- Quantos clipes você já roteirizou, ?
- Alguns. – disse confiante.
- E o que te faz pensar, , que a é mais qualificada do que roteiristas com anos de experiência?
Agora sim estava ficando pessoal. E então, um momento súbito de coragem e autoconfiança emergiu:
- Você tem uma reunião em trinta minutos? Ótimo. Eu te apresento uma proposta melhor do que qualquer outra que você já viu na sua vida em quinze minutos.
e olharam para ela, em seguida trocaram olhares e encararam David, que ficou em silêncio. Ele encarou e cedeu:
- Tudo bem então.
- O que você precisa? – perguntou para , eufórico.
- Uma sala silenciosa, um papel, caneta ou lápis, quero a letra da música, e se a música já estiver gravada eu preciso ouvi-la, se não estiver, a partitura já serve.
- Seu desejo é uma ordem, vem comigo! – começou a andar e o seguiu. David e ficaram para trás em silêncio.
- Quem é ela, ?
- É a futura roteirista e diretora do meu clipe.
- Eu sei que você quer que tudo seja perfeito, mas não se esqueça de que nós temos um contrato.
travou seu maxilar, mas não disse nada, apenas andou em direção à sala que tinha acabado de sair.
- Que ideia de milhões, ! – resmungou para si própria enquanto sentava-se em uma das cadeiras disponíveis. Tinha recebido um tablet com a letra da música, assim como a própria música gravada.
“Destinos Entrelaçados” estava escrito no título da música. Só com isso ela já conseguia visualizar diferentes histórias. Estava pronta para ouvir a música quando a porta se abriu e entrou, fechando a porta com certa agressividade.
- O que é? – Ela perguntou um pouco mais brava do que gostaria e ele parou no meio do caminho.
- Que grossa! – Ele disse sério e depois sorriu. Ela fez o mesmo.
- Eu só tenho quinze minutos pra provar que sou uma roteirista melhor do que qualquer outro.
- Um prazo que você mesma estipulou! – Ele disse sentando-se.
- Porque aquele homem horrível estava duvidando de mim e da minha capacidade criativa.
- Você foi brilhante lá fora, nem precisei te dizer nada, em poucas palavras do David você conseguiu entender o motivo de eu odiar tanto ele e...
- A não ser que você queira dizer pro tal David que eu vou precisar de mais tempo, sugiro que você saia da sala! - Ela interrompeu sorrindo.
- Sim, senhora! – se levantou e, quando saiu da sala, não viu nem , nem David.
Em uma sala de ensaios, David chamou e pediu que ele fechasse a porta ao entrar:
- , eu sei que você é amigo do , mas algumas decisões que ele toma não prejudicam somente a carreira dele, podem prejudicar a sua e a minha.
- Eu entendo.
- . Quem é ela?
Aí estava. David fez a pergunta de um milhão de dólares e tinha duas escolhas: falar a verdade e prejudicar seu amigo ou mentir e correr mais riscos do que já estavam correndo.
- É uma antiga colega do . Ela é brasileira e estava passando um tempo com a família, chegou ontem de viagem, por isso a demora.
David o encarou profundamente e teve medo de que algum movimento seu entregasse que tudo aquilo era uma mentira, então ficou imóvel.
- Ok. Vamos aguardar a proposta dela. – Ele assentiu e saiu da sala.
Parecia até a recepção de um hospital de tão silencioso que estava aquele andar do prédio. De um lado, estava rabiscando freneticamente um pedaço de papel para tentar se acalmar. Do outro, tamborilava os dedos na perna em um ritmo tão rápido que em breve começaria a sentir cãibra. A porta da sala de ensaios se abriu e David apareceu olhando no relógio de pulso:
- Quinze minutos.
Todos olharam em direção à porta fechada da sala de reuniões. respirou fundo e se levantou:
- Vou chamá-la. – Antes que pudesse fazer isso, a porta se abriu e surgiu com um maço de papeis. Ela entregou todas as folhas para .
- Espero que vocês entendam a proposta, se eu tivesse mais quinze minutos eu teria formatado esse roteiro. Agora, onde é que eu consigo um copo enorme de café nesse lugar?
- Eu te acompanho! – sugeriu e os dois caminharam até uma cozinha. Ele pegou duas xícaras de café, colocou a bebida para ela, e um pouco menos para ele.
- Esse David é sempre assim?
- Assim como?
- Você sabe como, nós estávamos no mesmo lugar durante a conversa.
- Ele é sempre assim, muito intenso. Mas você precisa entender, ele produziu grandes nomes da indústria, você tem que ter um certo tipo de personalidade pra sobreviver nesse meio.
- Não sei se isso justifica certas atitudes.
- Com certeza não justifica.
encarou , pareceu que ele tinha dito aquilo do fundo do coração, quase um desabafo de quem já tinha sido tratado pior. Ela se esquecia de que a indústria do entretenimento podia ser cruel, mas não disse mais nada, apenas tomou seu café e apreciou a pausa que deu para seu cérebro, fazia muito tempo que ele não trabalhava freneticamente em uma ideia. Ainda mais uma ideia que literalmente poderia mudar sua vida.
Muitos minutos se passaram em silêncio, eles ouviram passos apressados vindo em sua direção, cada vez mais alto e mais próximos, até o dono entrar no recinto com um sorriso que ia de um canto ao outro do rosto. caminhou até e a abraçou. A mulher não esboçou nenhuma reação, a não ser surpresa.
- Como?
- Como o que? – Ela perguntou.
- Como foi que você conseguiu dar vida às minhas palavras?
- O que você escreveu já tinha vida, eu só organizei de uma forma que visualmente contasse uma história.
- O que o David disse? – não se aguentava de curiosidade.
- Você devia ter visto, ele disse: parece promissor! – imitou a voz de David e eles sorriram.
- Isso é praticamente um: você mandou muito bem, ! – comemorou enquanto explicava.
- E o que isso quer dizer? – A mulher questionou.
- Quer dizer que, se você quiser, a vaga é sua. , quer ser a diretora e roteirista do meu vídeo?
- Diretora?! – Ela não esperava tanto.
- Eu não consigo pensar em mais ninguém, mesmo que eu tente, mais qualificado que você pra dar vida a esse roteiro. O que me diz?
Capítulo 3
Diretora e roteirista . Aquilo não soava nada mal, passava uma imponência. Mas ser diretora e roteirista significava que todo o peso narrativo recaia nela. Será que ela estava preparada para ter toda essa responsabilidade? E se fizesse tudo errado? Sua carreira terminaria bem antes de começar.
- Quantos roteiros de vídeo você já escreveu? – Luna perguntou.
- Tirando os roteiros que eu fiz como exercício?
- Sim.
- Bom, tirando esses... nenhum.
- E você disse que já tinha escrito alguns roteiros? – Santino perguntou rindo.
- O que você queria que eu fizesse? Se vocês estivessem lá sendo julgados e questionados por aquele homem, tenho certeza de que falariam que são profissionais da área de audiovisual há mais de vinte anos.
Os dois assentiram com a cabeça. Os três estavam tomando café da tarde em uma mesa pequena dentro da cozinha, enquanto contava o que tinha acontecido naquela manhã.
- E agora, o que eu faço?
- Eu realmente queria ter a resposta para a sua pergunta, mas a única pessoa que pode decidir alguma coisa é você! – Santino disse se levantando e saindo de lá, pois um cliente tinha acabado de entrar na loja.
- Luna? Seus conselhos sempre são bem-vindos.
- Mi amor, você fez todas essas faculdades e cursos, estudou, se dedicou, praticou, mas nunca exerceu.
- Nunca exerci porque nunca tive a oportunidade.
- Aí está. A oportunidade acabou de aparecer, está batendo na porta. Ter medo é normal, é justamente o medo de algo novo que torna a sensação de realização ainda melhor. Eu digo e repito: se dê uma chance, . Confie em você.
- Não é só isso. Tem tantos profissionais bons e qualificados por aí, aí tem eu...
- Uma profissional boa e qualificada.
- Mas sem experiência! Começar em um trabalho desse nível, com uma visibilidade global e sem nenhuma experiência e confiança é arriscado demais.
- Então esse tal de deve ser louco. Porque ele, que nem te conhece, viu algo em você, que você mesma não é capaz de enxergar. Então alguém interne ele! Porque só isso justifica ele defender você pro chefão mesmo sem ver seu trabalho.
não respondeu. Na verdade, ela não sabia o que responder. Luna se levantou e foi lavar as louças que já estavam acumuladas na pia. Por um momento, ela havia se esquecido de que também estava arriscando a própria carreira para dar essa oportunidade a ela. sabia que ter a confiança dele era importante, mas ela não podia aceitar aquela proposta por ele. Não podia aceitar por causa das palavras de Luna, nem Santino. Principalmente, não podia aceitar para provar algo para sua família, que sempre duvidou de suas escolhas de vida. Ela precisava aceitar por ela mesma. Para sua própria satisfação e realização.
Aceitar significaria um grande desafio pela frente, muitos compromissos, muito estudo, muito trabalho antes, durante e depois; conheceria muitas pessoas e, conhecer pessoas influentes era sempre muito bom, mas o melhor de tudo: teria um trabalho de destaque para chamar de seu, seu portfólio atingiria um novo patamar.
Não aceitar significava não ter tanto trabalho, na verdade, trabalho algum, apenas voltaria aos estudos e o freelance com Luna. Seu currículo ficaria o mesmo de hoje: muitas qualificações, mas nenhuma experiência.
Ainda tinha o pior dos sentimentos: a dúvida. Dúvida sobre si mesma, sobre sua capacidade, sua competência e sua coragem. Mas ela só poderia responder as dúvidas sobre si própria se tentasse, se ousasse se desafiar.
Luna observou de relance sua amiga, era evidente que ela estava em uma batalha interna, pois sua respiração era quase ofegante e seus olhos estavam fixos na xícara de café em sua frente.
- Sabe o que eu mais tenho medo? – se pronunciou após uma longa pausa. Luna se virou e a encarou, seu rosto estava sério. – Que eu me arrependa profundamente se não aceitar. – sorriu e sua amiga retribuiu se aproximando para abraçá-la.
- Eu sei que você vai fazer história.
O conforto do abraço de Luna foi revigorante. Aceitação interna é muito importante, mas saber que você tem com quem contar é tão quanto.
- Acho que preciso falar pro que eu aceito a proposta! – pegou seu celular e foi para um pequeno quintal que ficava atrás da cozinha. Santino abriu a porta.
- E aí? – Ele perguntou colocando meio corpo dentro da cozinha.
- Ela vai! – Santino sorriu e celebrou com uma pequena dança enquanto fechava a porta.
O quintal que ficava atrás da cozinha era pequeno, não cabia mais de cinco pessoas, tinha pisos claros, parede pintada de bege e algumas plantas para dar vida ao local. As plantas acalmavam os ânimos de Luna quando algo dava errado, ela sabia que podia ir até aquele espaço e cuidar delas para se desestressar.
digitou uma mensagem em seu celular e estava prestes a enviar, mas parou. Uma mensagem era a melhor forma de dar essa notícia? Talvez uma ligação fosse mais emocionante, poderia ouvir a animação de , comemorar com ele a mais nova parceria. Ligação de vídeo ou de voz? Uma ligação de voz, com certeza, pareceria mais profissional. Então é isso, ligação de voz para para contar a ele que aceitava a oferta de emprego. E que oferta! Esse dinheiro viria a calhar para, pelo menos, pagar o aluguel sem sofrer.
Ela procurou o contato dele e fez a ligação, de repente sentiu sua mão suar na capa protetora do celular e seu coração bater mais forte. Três toques e nada. É claro que ele não atenderia no primeiro toque, ele tem compromissos, não é um qualquer. Se ele não atendesse, seria melhor não insistir, tentaria mais tarde. Ou mandaria uma mensagem mesmo. Talvez passasse no escritório para dar a notícia pessoalmente, mas isso parecia exagero demais.
- ! Que bom receber sua ligação. – atendeu a chamada enquanto estava perdida em seus pensamentos.
- Oi! É... bom, que bom que você ficou feliz! – O que ela tinha pensado em falar mesmo? Tinha preparado todo um discurso de agradecimento que levava até a conclusão sobre aceitar o trabalho, mas sua mente simplesmente não funcionava mais.
- Será que podemos conversar daqui a pouco? Eu estou no meio de uma prova de roupa. – O rosto de ficou vermelho. De todos os momentos do dia para ligar, tinha que ser bem no meio de um compromisso.
- Claro. Assim que você puder falar, me manda uma mensagem!
- Com certeza, estou ansioso pra falar com você! – Ela sorriu e assentiu com a cabeça, mesmo sabendo que ele não veria.
- Até mais então! – Ela respondeu e em seguida desligou. Até mais então?
voltou para a cozinha e Luna se espantou. Ela estava batendo o recheio de um bolo na mão, mas parou para olhá-la.
- Que conversa rápida.
- Ele estava no meio de uma prova de roupa e eu interrompi ele. – Ela disse bufando.
- Quando foi a última vez que você fez uma prova de roupa, hein? – Luna perguntou provocativa.
- Eu não sei nem o que é isso! – respondeu rindo.
- Já que você ainda não conversou com ele e nem sabe que horas vai conversar, que tal me ajudar a preparar essas caldas?
Era uma boa ideia. se conhecia muito bem para saber que ficar sentada esperando uma mensagem dele poderia levá-la a loucura. Ela assentiu com a cabeça para Luna, que apontou para o gancho em que ficavam os aventais. pegou um e prendeu em seu corpo, se afastou um pouco mais de onde Luna estava preparando as comidas e prendeu seu cabelo.
- O que eu preciso fazer?
- Eu deixei alguns pedaços de chocolate cortados naquela bacia, você pode derreter em banho-maria. – Não era a primeira vez que ela ajudava Luna. pegou uma panela, colocou um pouco de água e posicionou a bacia com chocolate em cima, então levou para o fogo e começou a mexer.
Levou cinco caldas diferentes (chocolate, limão, caramelo, avelã e frutas vermelhas) para ficar suada, cansada e totalmente imersa. Cada recheio tem sua particularidade, temperatura, ingredientes e modo de preparo.
- Tá bom aqui a consistência? – perguntou mexendo a calda de frutas vermelhas, que já estava desgrudando do fundo da panela. Luna observou por cima do ombro dela e respirou fundo para sentir o aroma.
- Está ótimo, pode desligar. – Ela respondeu e assim fez. Posicionou a panela em cima de um recipiente de vidro e despejou dentro.
- O que mais?
- . – Santino abriu a porta da cozinha, seu rosto estava impassivo. – Tem uma pessoa querendo te ver. – A voz de Santino tremeu e ela sabia de quem se tratava.
- ? Tá aqui?! – Ele assentiu com a cabeça.
- Na minha loja? Dios mio.
se apavorou por um minuto, tirou o avental e o jogou no outro canto da cozinha.
- Como é que eu tô? – Perguntou para Luna.
- Solta esse cabelo. – Ela soltou e arrumou desesperadamente.
Santino entrou de vez dentro da cozinha e respirou fundo, caminhou até a porta e a abriu. Viu agachado na frente do balcão olhando as sobremesas, ele fazia caras e bocas diferentes.
- Posso ajudar? – Ela se pronunciou e ele se levantou em um salto.
- ! – sorriu a olhando.
- Você me surpreendeu. Eu pensei que fosse me mandar uma mensagem avisando quando eu pudesse te ligar!
- Eu estava aqui perto já, então resolvi conhecer pessoalmente o lugar que foi o motivo pelo qual nos conhecemos.
Não, na verdade não estava nem perto de Washington Heights, mas se a ligação de fosse pelo motivo que ele estava pensando, ele queria ouvir pessoalmente e olhando nos olhos dela. Ela sorriu em retribuição.
- Essas sobremesas são tão boas quanto o cupcake? – Ele a questionou. Naquele fatídico dia em que encontrou e voltou para a gravadora com cupcakes, os dois passaram a tarde se deleitando e sonhando com a próxima encomenda.
- Ouso dizer que são melhores até.
- O que um homem precisa fazer para comer um pedaço dessa torta de frutas vermelhas?
- É por conta da casa. – abriu a porta deslizante e tirou a torta de dentro, posicionou em cima do balcão, pegou uma espátula e cortou um pedaço generoso. Se virou e pegou um prato e talher. Então entregou para ele.
- Não vai me acompanhar?
- Só com um café, eu estava ajudando a Luna a preparar algumas caldas, não tenho a menor condição de comer nada doce no momento! – pegou uma xícara e colocou na máquina de café. Apertou alguns botões e em poucos segundos a bebida quente já estava em suas mãos.
Os dois se sentaram na mesa que ficava mais afastada da janela, para não correr o risco de ser reconhecido.
- Aqui é mais seguro, não é?! – brincou e ele riu, pegou um pedaço da torta e comeu. Sua feição mudou em questão de segundos para puro prazer.
- Eu preciso conhecer a Luna e pedir pra ela nunca parar de cozinhar!
- Eu tenho certeza de que ela vai amar te conhecer.
- Então me conta, – ele disse enquanto levava outro pedaço de torta até a boca – o que você queria me dizer por telefone?
Se no momento da ligação já tinha se esquecido de todo o discurso, naquele momento ela mal se lembrava de seu próprio nome. Ela respirou fundo, se preparando para criar um monólogo ao vivo.
- Primeiramente, eu queria te agradecer por toda a confiança que você depositou em mim, – isso, era algo assim mesmo que ela tinha planejado no início – algo em você disse que eu era a pessoa certa pra esse projeto e eu fico muita agradecida.
Essas frases não pareciam ser o início de um discurso positivo. já estava se arrependendo de ter ido até lá, ouvir uma recusa presencialmente era bem mais doloroso do que por telefone. Pelo menos aquela torta de frutas vermelhas amaciaria o peso de não ter trabalhando com ele.
- Mas?
- Não tem mais. Só tem o: eu aceito trabalhar com você! – sorriu e ele arregalou os olhos.
- Você aceita?! De verdade?
- Verdade verdadeira! – se levantou rapidamente e se assustou, levantando-se em seguida e, novamente naquele dia, foi abraçada por ele.
- , você não sabe como essa notícia me deixa feliz. Eu mal posso esperar para trabalhar com você!
- Vai ser uma honra! – Os dois se abraçaram novamente, mas desta vez, o olhar dele captou duas pessoas os espiando pela porta da cozinha.
- Viu, tem duas pessoas olhando pela porta da cozinha. – Ele sussurrou ainda no abraço. se separou e olhou para o local. Era Luna e Santino. Quando os olhares se cruzaram, eles fecharam a porta rapidamente e se esconderam atrás dela. e riram.
- Luna, por que você não vem até aqui? O quer te conhecer.
Durante alguns segundos, não houve nenhum barulho ou movimento. A porta se abriu novamente, desta vez por completo e, de dentro da cozinha, uma Luna mais arrumada, sem avental e cabelo preso saiu. Ela sorria abertamente e esfregava uma mão na outra.
- Luna, esse é . , essa é Luna Delgado. – Luna estendeu a mão, mas quando fez menção de abraçá-la, ela se empolgou e o abraçou apertado, respirando bem fundo para sentir o perfume dele.
- Que fragante es este hombre! – Luna comentou quando se separaram e ficou com as bochechas vermelhas. tentou segurar o riso e tapou a boca com a mão. Sem sucesso.
Luna não era o tipo de mulher que fazia elogios assim na frente das pessoas, ela era uma mulher de classe, mas se aproveitava de que muitas pessoas não falavam espanhol, para fazer comentários sobre elas sem que entendessem. O que certamente não era o caso, já que era da Colômbia.
- Ele fala espanhol, se lembra? – Santino sussurrou por trás do balcão e o rosto de Luna atingiu um tom de vermelho nunca visto antes. Ela escondeu o rosto nas mãos.
- Senhor, ... – Luna disse com a voz abafada.
- Todo es perfecto, señorita, agradezco el cumplido y debo decir que tú también huele muy bien. Y por favor, llámeme, ! – A voz de engrossou quando ele começou a falar em espanhol. Estava explicado por que tantas mulheres babavam por ele. Ele tinha um dom natural para sedução. Ou era fruto de muito ensaio.
Santino e se olharam surpresos. Luna estava o encarando, seus olhos brilhavam e ela sorria abertamente, o dia dela tinha acabado de ficar perfeito.
- As suas sobremesas são, de longe, as melhores que já comi na vida! Meu amigo, , está completamente apaixonado, assim como eu.
- Fico lisonjeada, ! – Ela disse risonha o apelido dele. – Pode deixar que mando mais algumas especialidades minhas para você e o , na próxima vez que se encontrar com a . Agora vão trabalhar juntos, não é?!
- Vamos sim e vai ser incrível! – respondeu sorrindo para , que assentiu em retribuição.
- E quando vocês vão se ver novamente?
- Nós ainda não combinamos... – respondeu.
- O quanto antes, você viu como o David está impaciente. Podemos nos encontrar na quinta-feira?
Tão cedo assim? pensou que teria pelo menos um mês para revisitar seus materiais sobre direção e produção audiovisual. Mas a indústria do entretenimento não descansa, aparentemente, e muito menos dá tempo para você se lembrar de coisas que já estudou há muitos anos. engoliu em seco e sorriu como pôde.
- Pode ser! De manhã no prédio da gravadora?
- Isso, mesmo horário de hoje.
- Combinado então!
- Luna, a torta estava estupenda! – A mulher sorriu e ficou envergonhada.
se despediu com um aceno de Santino e Luna. o acompanhou até o lado de fora da loja. Os dois se encararam. estava leve como uma pluma após a resposta de . Ela tinha acabado de mudar completamente a vida dele e nem sabia. Após um álbum de sucesso e outro álbum de completo fracasso, estava pronto para se colocar novamente sob os holofotes e seria parte fundamental dessa reerguida em sua carreira. Tudo o que ele queria fazer era apertá-la e não soltar nunca mais.
- Te vejo quinta, então? – disse e se arrependeu na hora, será possível que ele não sabia se comunicar? Eles tinham acabado de combinar.
- Quinta-feira às nove horas no prédio da gravadora, estarei lá!
Para evitar que qualquer outra frase sem sentido saísse, ele apenas sorriu abertamente e ela retribuiu. entrou em seu carro e em poucos segundos saiu de lá. respirou tão fundo que seu peito doeu. Ela entrou na loja e Luna e Santino estavam conversando e rindo alegremente.
- Eu não acredito que disse aquilo na frente dele. O que deu em mim? Me esqueci que ele fala espanhol!
- Foi fantástico, a não conseguiu segurar o riso, não é?!
Os dois a encararam ao mesmo tempo, ela sorria para eles, mas seu coração batia descompassado, seus olhos estavam vendo tudo parcialmente lento e ela não se lembrava de como respirar.
- Tudo bem, ? – Santino perguntou e sua voz ecoou bem no fundo da mente dela.
- Não. Eu preciso urgentemente ir pra casa e enfiar minha cara em uns materiais da faculdade.
- Se acalma, mulher, vai dar tudo certo.
Era só ir para a casa, procurar em seu laptop seus materiais de consulta da faculdade, ler bastante, fazer anotações, começar um rascunho do roteiro do vídeo, lembrar sobre os planos de direção, quais eram mesmo? Plano aberto, plano fechado, plano americano, tinha aquele outro lá, plano sequência? Não, esse era muito complicado, não podia ousar tanto assim no seu primeiro trabalho, dirigir pessoas em uma única tomada. Espera, quantas pessoas ela teria que dirigir? Quantas ela podia colocar no roteiro? Era muito cedo para pensar sobre isso? E o salário, quando a pagariam? Mas ela ainda nem assinou um contrato. Ela precisava ler com atenção. Seria melhor enviar para um advogado? Mas ela não conhecia nenhum.
Aquele dia tinha sido longo demais e tudo o que ela precisava era de um bom banho e dormir. Considerando, é claro, que ela conseguiria dormir.
- Até dar tudo certo, eu preciso agir como se tudo fosse dar tudo errado e me preparar pra isso.
Capítulo 4
Existe uma sensação única, que talvez seja uma das piores de todas, e que todo ser humano passa pelo menos uma vez na vida: acordar. Mas não é qualquer tipo de acordar. É acordar após apagar. Não é nem dormir, é literalmente apagar. O corpo é como se fosse um aparelho eletrônico que fica ligado na tomada e nos dias de cansaço extremo o cabo de energia é puxado e a gente desliga.
É aquele sono que você não sonha, que você nem se mexe, que você acorda como se tivesse dormido a oito minutos e não oito horas. Isso quando você dorme oito horas por dia.
acordou e sentiu uma extrema tristeza. Parecia que tinha dormido somente dois minutos, do jeito que se deitou foi como acordou naquela manhã de quinta-feira. Tinha passado o dia anterior estudando e revisando tudo o que podia sobre conceitos de direção. Não conversou com ninguém, não ligou para a família, não visitou Luna ou Santino; apenas estudou e estudou.
Na terça-feira, após conversar pessoalmente com , ligou para os seus pais para contar sobre a novidade; queria mostrar para eles que seu empenho já estava dando frutos. Mas depois disso, nada mais passou por sua mente, além do que tinha que preparar para quinta-feira.
sentiu seus olhos arderem assim que eles se abriram; um efeito de tanto ficar com a cara na tela do laptop durante o dia anterior. Mas ela não podia deixar que o cansaço, a ardência nos olhos, o medo dessa nova experiência, medo de errar, medo de fazer tudo ser horrível, medo, medo e medo de tudo, a abalasse. Se ela resumisse uma emoção para esses últimos dois dias seria: medo. Será que existia um troféu Framboesa de Ouro por videoclipes fracassados e ruins? Ela não podia começar a carreira internacional já recebendo um desses.
Sua psicóloga dizia para ela que ela deveria confiar mais em si mesma; e lá estava ela, nem tinha acordado e sua autoconfiança já tinha se trancado dentro de um poço. Era hora de mostrar para Nova York que eles estavam na presença de uma profissional excepcional.
Munida de diversos materiais, saiu de seu apartamento com uma dose de confiança e com o estômago cheio do café da manhã. Ao chegar no prédio da gravadora, foi recebida no saguão por um sorridente.
- Você aqui logo cedo? – perguntou.
- Eu tinha que receber a mais nova funcionária da gravadora!
- Funcionária não, prestadora de serviço – ela o corrigiu.
- Vamos, tem algumas pessoas que você precisa conhecer.
entregou para um crachá temporário e a guiou até o elevador. Desta vez, eles não foram para o mesmo andar daquele fatídico dia, estavam em um andar completamente diferente, não se parecia com um escritório, era um estúdio.
No exato momento em que saíram do elevador, a acústica daquele lugar era outra, as luzes, decorações e até a energia era nova. Conforme andavam pelo corredor, havia várias portas que se fechavam hermeticamente para barrar o som; eles passaram por salas que tinham somente pufes, cadeiras e mesas; salas com diversos instrumentos e, por fim, estúdios de gravação com mesa de som e microfones. Os olhos de estavam brilhando com tudo aquilo e nem toda atuação do mundo poderia disfarçar a emoção que ela sentia por estar ali.
Ao final do imenso corredor, estava uma sala toda iluminada por janelas que iam do teto ao piso e davam uma visão parcial da parte leste do Central Park. Era realmente como uma sala de estar, com sofás, poltronas, pufes, mesas e ao fundo um balcão que separava a sala de uma cozinha. sentiu que poderia viver naquele andar para o resto de sua vida.
Sentados nas poltronas e sofás estavam algumas pessoas, entre elas , que sorriu abertamente com a chegada de e .
- Aqui está a minha diretora e roteirista! – se levantou e caminhou em direção a , que acordou de seus pensamentos e sua repentina paixão por aquele lugar. – Como você está? Passou bem esses últimos dias?
- Tudo certo! – Que grande mentira.
- Eu quero que você conheça a equipe que vai fazer parte desse projeto – disse e em seguida apresentou para o produtor, o assistente de produção e a especialista em storyboard.
O produtor também era um prestador de serviços da gravadora e ele era o responsável pela contratação de toda a equipe técnica de som, iluminação, gravação e pós-produção. trabalharia diretamente com ele e toda a equipe que ele contrataria, mas antes disso, ela precisava começar o trabalho de pré-produção:
- O me mostrou o roteiro que você esboçou, achei fantástico, combina tão bem com a música! – A especialista em storyboard disse e ela se sentiu lisonjeada.
- Obrigada! Ainda não está finalizado, eu esbocei só uma parte, falta o resto.
Eles conversaram por um curto período de tempo; o produtor explicou que dependia que finalizasse o roteiro para que o storyboard fosse feito e após isso a etapa seguinte era fazer a contratação da equipe de filmagem, som, figurinos, maquiadores, locação de um ou mais espaços para filmagem e a equipe da edição. Sem contar que ela precisaria aprovar cada mínimo detalhe das locações de filmagem, roupas, maquiagens e penteados; e ao final, acompanhar de perto o trabalho do colorista e do editor.
Ao final da reunião escondeu muito bem o pânico que sentia. Enquanto acompanhava a equipe até o elevador, a mente de estava a mil. Ela seria responsável literalmente por todas as etapas: pré-produção com o roteiro, produção com a direção e pós-produção ainda com a direção. Esse projeto literalmente dependia dela para ter sucesso. Ela já se arrependia lá no fundo de ter aceitado essa proposta. E se ela simplesmente saísse correndo e não voltasse mais? Ela não tinha assinado nenhum contrato ainda, podia sair sem sentir remorso.
- E então, animada? – perguntou para , que tentou suavizar todos os seus sentimentos desesperadores.
- Essa palavra nem passa perto do que eu estou sentindo! – Respondeu sorrindo, mas de desespero.
- Esse vídeo vai ser incrível, eu já tô sentindo.
- Teve uma coisa que eu me esqueci de perguntar: a pré-seleção do elenco é ele quem faz ou vocês têm uma agência? Eu já tenho na mente como gostaria que fosse a atriz que vai contracenar com o .
- Ah – olhou para e tentou não demonstrar nada.
- “Ah”, o que?
- É que meio que... tipo assim... lá atrás, faz um tempo já, não tanto tempo, tempo suficiente, mas o que é o tempo também, né?
- O tempo é aquilo que você está me fazendo perder. , fala de uma vez.
- ? Sabe o que é, o meio que já tem uma pessoa pra esse clipe.
- Jura? Quem?
se despediu da equipe e nunca esteve tão feliz, seu vídeo finalmente sairia, ele tinha a música pronta e uma roteirista e diretora que não só daria conta do recado, mas faria isso magistralmente. Já era hora de voltar a ter destaque.
Ao retornar para a sala, ele foi recebido no meio do corredor por apavorado.
- Eu preciso te preparar para uma coisa! – Aquilo assustou , mas ele nem teve tempo de perguntar o que estava acontecendo, pois encontrou com e sua feição não era nada agradável.
- Uma modelo? Você convidou uma modelo pra participar desse vídeo e pretendia me falar quando?
- Hoje? – Ele respondeu sem tanta certeza.
Ela colocou uma das mãos na testa e massageou o local. estava imóvel, mal respirava, mas não compreendeu o motivo do estresse.
- Qual é o problema de eu chamar uma modelo?
- O problema é que você não chama uma modelo pra fazer o trabalho de uma atriz, assim como você não chama uma atriz pra fazer o de uma modelo. Nunca fica bom.
- Ah, tem alguns casos que até funciona... – comentou e recebeu um olhar cruel de . – Mas eu não vou entrar nesse mérito agora.
- Esse vídeo precisa de uma profundidade de atuação que uma modelo não vai saber me dar, eu vou ter que, além de tudo, ensinar ela a atuar. – bufou.
tinha acabado de perceber que isso poderia se tornar uma briga, pois quando cismava com algo, nada o fazia mudar de ideia, e aparentemente, era igual. estava pronto para intervir, mas a resposta de seu amigo o chocou.
- Me desculpa – respondeu e arregalou os olhos ao encarar o amigo. – É que eu tinha prometido isso a ela quando cantei no desfile da Victoria’s Secrets.
Ótimo, ela era uma modelo da Victoria’s Secrets. Devia ser feia que dói.
- Eu não sabia que o roteiro ia tomar esse rumo e que tudo isso ia acontecer, senão eu não chamaria a Yelena.
Yelena? Ela era o que? Russa? Parecia que tinha lido os pensamentos de .
- Yelena Pavlova, ela é russa, não é?! – assentiu.
Um silêncio tomou conta do local. queria quebrar o pescoço de , mas ele tinha se desculpado, o que a deixou quase sem reação; estava com o olhar fixo, tentando se lembrar da aparência de Yelena; e encarava , queria saber o que se passava na mente dela, não queria começar esse projeto com desentendimentos, mas também não podia cancelar com Yelena, não depois da compensação que ele recebeu ao prometer que daria essa oportunidade para ela.
sentia-se insegura com toda a responsabilidade que o projeto demandava, mas pensou que pelo menos poderia se beneficiar com uma atriz de alta qualidade pra elevar seu roteiro. Infelizmente isso não aconteceria graças a modelo russa que ela teria que pegar pela mão e ensinar umas coisas básicas de atuação. Ela devia ser linda e, sem sobra de dúvidas, os dois vão ficar um casal lindo na tela, mas não era só sobre isso. Não é só beleza. É contexto, é história, é emoção. Se ela pudesse, pegaria o rostinho lindo de e esfregaria naquele piso até ele chorar.
- Você tá brava? – Ele quebrou o silêncio e pareceu fazer despertar dos pensamentos profundos.
- Não sei. Mas não faça mais isso, você não sabe o que se passa na mente de um diretor, e não tô falando só de mim.
- O que você quer que eu faça? Cancelo com ela?
- Nada. Não precisa cancelar com a Ivanova Ivaneva, sei lá o nome dela.
- Yelena Pavlova! – a corrigiu.
- Foda-se.
viu que fez uma cara de ofendido.
- Desculpa, , é que eu fui pega de surpresa hoje. Melhor eu fazer o que eu preciso, posso usar qualquer sala aqui nesse andar?
- Em cada sala tem um sistema que mostra se foi reservada, então pode ficar à vontade!
sorriu fraco, pegou seus materiais e caminhou em direção ao corredor cheio de portas. e se olharam.
- Acha que ela ficou brava? – perguntou ao amigo.
- Acho que ela ficou chateada em não poder escolher a atriz.
bufou. Não queria ter chateado , mas já tinha prometido para Yelena e ela sempre perguntava se ainda estava escalada para participar. Não podia cancelar agora. Já até imaginava o que aconteceria após o término das gravações com ela.
- E se eu comprar um presente de desculpas pra ela?
- E se você prometer em um contrato não convidar nenhuma modelo pra participar dos seus vídeos sem a autorização dela?
- Sem presentes então?
- Mantenha o profissionalismo, . Deixa ela fazer o trabalho dela e você tem que fazer o seu, que é escrever mais músicas. Enquanto isso, eu vou fazer o meu, que é mentir pro David sobre o andamento do seu álbum.
saiu de lá e caminhou até uma das salas vagas para tentar compor algo. Ele viu uma porta entreaberta e lá dentro estava digitando rapidamente em seu laptop, estava concentrada, digitava com precisão e nem parava para pensar. se viu parado admirando ela, como ela fazia as tarefas com confiança e sem ao menos hesitar. Completamente diferente dele, que não era capaz de compor uma música sequer.
respirou fundo e soltou o ar com pesar, fazendo barulho. olhou para a porta e o viu, apesar de ele ter tentado se esconder. Não queria parecer um psicopata assistindo ela trabalhar.
- ? – A voz de o chamou. – Para de se esconder, eu te vi.
Ele saiu de trás da porta e sorriu como uma criança que tinha acabado de aprontar e tentava esconder.
- Tá tudo bem? Precisa de algo? – Ele perguntou.
- Eu é que te pergunto.
- Eu?! Tô tranquilo, só queria ter certeza de que você estava confortável.
- Dá próxima vez, você pode bater na porta e entrar ao invés de ficar olhando pela fresta. Não seja estranho! – riu fraco e concordou com a cabeça.
- Eu tô na sala do lado, qualquer coisa me chama – acenou positivamente com a cabeça e ele saiu da sala. – Não seja estranho, ! – Ele repetiu para si.
Assim que fechou a porta, voltou sua atenção para o laptop e releu o que tinha acabado de escrever. Queria entregar o roteiro hoje para o aprovar e assim dar continuidade no processo.
Na sala ao lado, bufava enquanto amassava mais um papel com uma letra de música horrível. Nenhuma ideia parecia surgir em sua mente e isso o frustrava. Não podia ser um artista de um só sucesso e se recusava a entregar mais um álbum nas mãos da gravadora, para gravar músicas que não tinham mensagem ou significado para ele.
- Por que é que eu não sou capaz de compor nada bom?
finalizou o roteiro e o releu diversas vezes para garantir que estava coerente, sem erros e, acima de tudo, se estava bom o suficiente. Saiu da sala em que estava e foi até a sala ao lado, para mostrar pessoalmente a , antes de enviar formalmente para toda a equipe. A porta estava entreaberta e, antes mesmo de se aproximar, ouviu ele bufando e resmungando.
Ela ouviu uma batida forte e se assustou, pensou em voltar em outro momento, mas antes que pudesse sair de lá, a porta se abriu abruptamente e e se assustaram ao mesmo tempo.
- Que susto, ! – Ele disse colocando a mão na cabeça. não queria que ele pensasse que ela estava espionando, então se adiantou:
- Eu não estava te espionando! Só vim te falar que eu terminei o roteiro – a mulher olhou dentro da sala e viu muitos papéis amassados por todo o chão. – Mas se quiser eu volto depois.
- Não, eu estou ansioso pra ler o que você escreveu! – Ele sorriu e entrou novamente na sala. – Não repara a bagunça, eu fico um pouco atordoado quando não consigo compor.
Não parecia que estivesse somente atordoado, parecia que algo mais estava acontecendo com ele. se sentou e ficou em silêncio enquanto seu contratante lia atentamente o roteiro. Ela não gostava daquilo, ficar esperando uma pessoa ler algo que ela escreveu; imaginava o que se passava na mente de quem estava lendo, o que a pessoa achava, se tinha gostado; tentava ler as expressões faciais de , mas ele estava com as mãos na boca, totalmente concentrado.
Contar histórias era a vida de , fosse por meio da escrita ou atuando, mas eram histórias suas ou histórias de roteiristas consagrados, que ela apenas interpretava. Agora não. Aquela era a história de , a letra dele, a música dele, ele. Era impossível não sentir uma pressão por isso. Como honrar algo tão profundo e pessoal de outra pessoa? Um que de fato você conhece?
respirou fundo e finalmente encarou a mulher que o estava encarando enquanto tentava esconder sua ansiedade:
- Ficou horrível? Você odiou?
- A única coisa que eu odeio é o fato de eu não ter te conhecido antes.
ficou em silêncio, pois não sabia como interpretar aquela frase. Isso significava que ficou bom?
- Eu amei, . Seu roteiro ficou incrível! Ele é profundo, bonito, emocionante.
- Eu só coloquei ações em algo que você escreveu! O crédito é todo seu.
- Não. Você deu vida a algo que eu compus. Já pensou em compor também? Você faria um ótimo trabalho.
- Compor já é um pouco acima do que eu consigo entregar...
- Com certeza não, se você compuser da mesma forma como escreve seus roteiros, vai se sair melhor do que muitas pessoas, inclusive eu. – deu um sorriso fraco, desanimado e envergonhado.
estava pronta para perguntar o que estava acontecendo, mas uma batida na porta a interrompeu antes mesmo de começar.
- Atrapalho vocês? – perguntou colocando somente a cabeça dentro da sala.
- Não, a acabou de me mostrar o roteiro finalizado. Fantástico! – sorriu abertamente enquanto a encarava. Ela sentiu seu rosto queimar de leve.
- Eu quero ler! – disse animado.
- Eu vou enviar no e-mail pra todos vocês. Está aprovado então, né ?
- Absolutamente aprovado! Você é demais, .
? tentou, mas sem sucesso, esconder a cara de surpresa com o apelido dela saindo da boca dele.
- Tudo bem te chamar de ? – Ele tinha reparado. Ela riu nasalado.
- Pode sim! Vou voltar pra minha sala e deixar vocês conversarem.
, ou melhor, pegou seu laptop e caminhou de volta para a sala ao lado. Mas estava esquecendo de algo importante:
- Só uma coisinha! – Ela se virou para os dois. – Uma coisinha que na verdade é muito importante. O meu visto é de estudante, o que significa que eu legalmente não posso trabalhar.
e se olharam. Aquilo era um problemão.
- Eu vou conversar com algumas pessoas, ver o que pode ser feito. Deixa comigo, ! Você não vai ser expulsa do país por trabalhar com a gente, eu garanto. – disse confiante e riu ao dizer o apelido dela.
- Muito obrigada, ! – Ela enfatizou o apelido dele também e saiu da sala.
- Vai dar certo um visto de trabalho pra ela? – questionou seu amigo.
- De zero a dez, o quão bom é o roteiro?
- Onze.
- Então eu faço dar certo esse visto, nem que todo mundo tenha que sair do país pra gravar esse clipe.
enviou o roteiro finalizado por e-mail para toda a equipe, o que incluía o David, e aproveitou que estava tudo calmo naquele andar e pesquisou alguns lugares que poderiam servir como inspiração para as locações externas. Nem todo lugar pode ser fechado ou alugado para uma filmagem, portanto ela dedicou algumas horas pesquisando a fundo.
Quando finalmente fechou seu laptop e saiu da sala em que estivera enfurnada, viu pelas janelas que já estava escuro. Definitivamente era hora de ir para casa.
- MERDA! – Alguém gritou e foi possível ouvir um estrondo na sala ao lado.
Ela tentou espiar para ver se estava tudo bem e viu que a quantidade de papeis no chão tinha dobrado de número. Aquilo não era nada ecológico.
- ? Tá tudo bem? – Ela o viu passar a mão no rosto enquanto estava de costas.
- Tudo bem, ! Eu só fico atordoado quando componho. – Ele não tinha se virado.
Essa de atordoado de novo?
- Eu sei que não temos muita intimidade, mas parece que isso vai além de estar atordoado. Quer me falar o que tá acontecendo?
Ele ficou em silêncio, apenas ouvia-se a respiração pesada dele, que se controlava para não chorar na frente dela. Ou nesse caso, de costas para ela.
- Tem a ver com seu novo álbum, não é? – Ele assentiu sem dizer uma única palavra. – Estão te pressionando para entregar? – Assentiu novamente. – Você não gostou das músicas que compôs?
Ela estava ali querendo se aproximar dele, entender o que estava o aborrecendo tanto, mas para isso ele precisava estar disposto a se abrir. era uma escritora, com certeza já teve bloqueios mentais, poderia até ajudá-lo a enfrentar isso, pensou .
- Aí é que está o problema. Eu não compus nada. – se virou para olhá-la. – Nada além de Destinos Entrelaçados. Eu não sei mais o que fazer, nenhuma ideia surge, nada que eu escrevo é bom.
- Você não está se cobrando demais, não?
- Provavelmente. Mas eu não posso falhar de novo, não posso...
- Você se refere ao seu último álbum? – Ele a olhou surpreso. – O que? Você acha mesmo que eu trabalharia pra você sem fazer uma pesquisa minuciosa primeiro? Eu ouvi suas músicas.
não sabia se ficava triste ou feliz com aquela informação. Então decidiu ficar triste.
- Sinto muito por isso.
riu fraco.
- Não sinta. Você só conhece um artista quando vê suas obras, então eu vi as suas pra conhecer seu trabalho.
- E qual a sua conclusão? Péssimo compositor?
- Se eu for honesta, você vai me demitir? – Ele sorriu.
- Nunca. Você não vai me dizer nada que eu já não tenha me dito mil vezes.
- Talvez eu diga.
O que ela poderia dizer de diferente? Será que notou algo em que ele mesmo não percebeu? Assim como ele fez com ela.
- Ouvindo Destinos Entrelaçados e o seu primeiro álbum, pra mim é tão claro que é você no comando da composição. Mas quando ouvi seu segundo álbum... aquilo não era você. Era a indústria da música te encaixando no padrão que as pessoas querem ouvir.
Era isso! Era isso que cansava de dizer para . Aquele álbum não era ele, não tinha significado, não passava nenhuma mensagem. Finalmente alguém o entendia. E esse alguém era .
- Não sei o que aconteceu, mas não parecia mais você, parecia que você tinha se perdido, perdido sua essência, perdido sua identidade.
- Eu tento, juro que tento voltar a ser quem era antes, quando gravei minhas primeiras músicas, mas não consigo mais!
- Você fala sobre coisas que qualquer pessoa pode se identificar, você fala sobre sua vida na Colômbia, sobre momentos especiais e pessoas especiais. Isso torna sua música única. Você não pode mais voltar a ser quem era antes, mas não significa que em sua nova realidade, você não possa expressar os mesmos sentimentos. Você precisa se reconectar.
- Me reconectar como? Voltar pra Colômbia?
- Por que não?
- Porque minha vida não está lá mais.
- Não falo da sua vida, falo da sua cultura! Pare de fingir ser um norte-americano, você não é. Você é colombiano. – disse firme e ele se espantou. – Se você não consegue escrever sozinho, vá atrás de parcerias. Tem tantos artistas bons que poderiam contribuir com você!
Como nunca havia pensado naquilo? Parcerias são ótimas. Claro, se forem com as pessoas certas.
- Eu consigo pensar em alguns nomes que eu gostaria de fazer parceria... – Ele confessou e ela sorriu.
- Eu consigo pensar em alguns compositores, instrumentistas, músicos que fariam trabalhos incríveis com você!
Aquela ideia fazia total sentido para ele. Precisava se reconectar consigo mesmo, com sua própria cultura, sua identidade.
- E se você precisa se reconectar com a Colômbia, bom, eu acho que tenho uma solução que não vai fazer você sair do país.
Aquilo era estranho.
- Solução tipo?
- Não sei se você sabe, mas eu também sou da américa do sul. E existe uma comunidade muito forte de sul-americanos aqui em Nova York, a gente se reúne a cada três meses. Se quiser, te coloco na nossa próxima festa, que coincidentemente vai ser semana que vem.
- Comunidade só de latinos?
- Latino-americanos. Você vai se sentir em casa, se quiser ir, claro.
Ele sabia que em Nova York tinham centenas de imigrantes, mas não sabia que eram uma comunidade unida a ponto de darem festas.
- Você faria isso por mim? – Ele a questionou.
- Por que não faria? Vai ser meu convidado de honra. – Ela sorriu e ele também.
- Então eu aceito!
- Viu só, eu disse que falaria coisas que você não imaginava!
Capítulo 5
Os dias que seguiram não foram tranquilos para , após enviar o roteiro aprovado para toda a equipe, ela recebeu o retorno de todos a elogiando, inclusive de David que, após , era a segunda pessoa a ser agradada. Dias depois, recebeu o storyboard e sentiu uma emoção ao ver suas palavras se transformarem em cenas.
Era hora de falar sobre as locações, foi uma reunião exaustiva e muito criteriosa. No fim das contas, usariam locações internas, como uma casa, um bar e um restaurante, mas queria uma locação externa.
- Eu não falo isso porque é meu roteiro e eu quero seguir ele à risca, mas eu acho que uma cena na praia ia ser incrível, começar e encerrar o vídeo na praia vai ser o toque principal.
- Gravar na praia é difícil, precisamos contar com a luz natural, o tempo precisa ser cronometrado senão perdemos um dia de gravação, além de fechar o local onde vai ser gravado. – O produtor rebateu.
- Por favor, Barbie gravou várias cenas em Venice Beach, que é literalmente uma praia supermovimentada, o que eu estou sugerindo é um pedacinho de areia ao nascer e pôr do sol pra gravar um casal. Não é um mutirão de Barbies e Kens passeando de patins.
riu baixo e colocou a mão na boca para abafar. Todos o encararam e sorriu discretamente.
- , você é o produtor executivo. O que me diz? – perguntou.
respirou fundo, ele entendia os dois lados, mas queria que seu relançamento viesse com tudo.
- Eu compreendo tudo o que você disse sobre valores, iluminação, equipe, autorizações e prazos – disse olhando para o produtor. – Mas eu realmente quero seguir com a ideia da praia!
O produtor confirmou com a cabeça. comemorou internamente, mas por fora estava muito calma e contida. Se pudesse, soltava um rojão de alegria.
Depois que a reunião acabou, ela já tinha riscado da sua lista de tarefas: finalizar o roteiro, aprovar o storyboard e definir as locações. Ainda tinham muitas outras coisas a serem feitas, mas a semana já estava se encerrando e ela queria muito se empanturrar de vinhos e doces da Luna.
Tinha arrumado seus materiais e se preparava para ir para casa quando a interceptou.
- Posso roubar seu tempo por um minuto?
- Vai dizer que mudou de ideia sobre a praia?
- O que? Claro que não, vai ser bem melhor a praia do que a ideia dele de fazer num estúdio com fundo verde.
somente juntou as mãos em forma de agradecimento e o deixou falar o que queria.
- Na verdade eu vim te perguntar sobre amanhã.
- O que tem amanhã? É uma reunião? Reunião do que? Ou é visita técnica? Visita onde? Ué, como é que eu não anotei isso...
- Respira. Eu tô falando da festa. Você ainda vai?
- A festa! É claro, eu me esqueci por um minuto, mas eu vou sim, você é meu convidado de honra.
Droga. não tinha se esquecido por um minuto, tinha se esquecido por completo. Era uma tradição da festa cada um levar um prato de comida, o que ela tinha que levar mesmo? Luna tinha combinado algo com ela...
- Que horas eu te busco então? – ele interrompeu os pensamentos dela.
- Você vai me buscar?
- É claro que eu vou, não posso simplesmente chegar sozinho. Amanhã eu vou ser como um daqueles introvertidos que dependem totalmente que um extrovertido o apresente pra todo mundo.
riu e concordou.
- Pode passar umas sete da noite, te mando meu endereço por mensagem, pode ser?
- Combinado!
recolheu o restante de suas coisas e rumou para seu apartamento, não via a hora de tomar uma taça enorme de vinho e dormir. estava empolgado para essa festa, não sabia o que o aguardava, apenas esperava que fosse divertido e esclarecedor.
O dia seguinte pareceu passar devagar para ele, não tinha nenhum compromisso além daquele que já estava tentando cumprir há muitas semanas: compor. Quando a tarde caiu, ele tomou um banho e colocou uma roupa leve; de praxe levou seu boné, era sempre um bom disfarce, não cobria muito o rosto, mas já o ajudou a escapar de alguns lugares.
tinha enviado para ele seu endereço e ele foi buscá-la. Era um prédio antigo de apartamentos, tinha uma aparência acolhedora, na frente tinha um portão gradeado, um caminho de pedras que levava até a porta de entrada do prédio, esse caminho era cercado por um jardim; essa entrada diferente deixava os apartamentos mais ao fundo do que se via normalmente pela cidade. Enquanto esperava ela descer, ele pensou em como a vida era engraçada, porque até pouquíssimo tempo ele não conhecia , não tinha nenhuma perspectiva positiva de uma gravação decente de seu vídeo e nem ideias do que fazer para ajudar sua criatividade fluir, mas bastou esbarrar nela que tudo isso mudou.
Foi a primeira vez que ele a viu com uma roupa leve e descontraída, até então eles se encontraram em ocasiões formais. Ela segurava um pacote que parecia pesado, então ele desceu do carro rapidamente e abriu a porta para ela.
- Que cavalheiro – ela disse entrando e sentando-se. Respirou fundo quando ele fechou a porta. Era uma sensação estranha estar no carro de um artista famoso, parecia que não era real e que a qualquer momento acordaria, mesmo já o conhecendo.
- O que é isso? Doces em formato de pênis de novo? – ele apontou para o pacote e ela riu, lembrando-se da primeira vez que se encontraram.
- Comida.
- Tinha que levar alguma coisa pra comer?
- Você não, como eu disse, você é meu convidado de honra, só leva seu bom humor, disposição e estômago.
- Bom humor e disposição depende o dia, mas estômago tá sempre pronto pra qualquer ocasião!
Assim que chegaram no local, era uma casa num bairro mais afastado, conhecido por abrigar diversos imigrantes. viu diversas bandeiras de diferentes nacionalidades penduradas em sacadas e janelas, de repente, começou a sentir um frio na barriga, como se estivesse voltando para casa. Não que lá eles precisassem reforçar sua nacionalidade.
tocou o interfone e em poucos segundos a porta se abriu e uma mulher de meia idade recebeu eles com um abraço.
- , qué bueno verte!
- Muito bom te ver também!
Era oficial, estava em outro ambiente, ver elas se cumprimentarem em espanhol e português o fez se sentir animado.
- Y éste quién es?
- Meu amigo, !
- Es un placer conocerte – disse sorrindo e recebeu um sorriso em retribuição.
- Bienvenido!
Os dois seguiram pela casa, passaram pela sala e saíram no quintal, um quintal grande e repleto de pessoas que conversavam alto e muito animados, a música ambiente estava alta e o local completamente iluminado. Definitivamente eram latino-americanos.
De longe, reconheceu Luna, que estava acenando animada e caminhou apressada até eles, os abraçando.
- me disse que você viria! Que bom que está aqui.
- A foi muito gentil em me convidar.
Luna encarou sua amiga ao ser chamada por seu mais novo apelido.
- Cadê o Santino? – perguntou tentando disfarçar a vontade de rir.
- Está em um encontro, acredita? Negou a família pra ir num encontro... – ela respondeu balançando a cabeça negativamente.
- Isso não parece ser do feitio dele. Mais tarde ele aparece, tenho certeza.
- Espero. Sabe, o Santino é meu sobrinho, a mãe dele é minha irmã, as vezes eu acho que ela negligenciou esse menino, ele não fica perto da família de jeito nenhum! – Luna contou para , que não fazia a menor ideia de que eles eram parentes. Nem se pareciam.
- Luna, sua missão hoje é fazer com que o se sinta em casa, assim como você fez comigo. Eu já estou sendo chamada ali do outro lado.
olhou para onde apontava, um grupo de pessoas acenava para ela.
- Você não vai ficar por aqui? – perguntou tentando não parecer desesperado.
- Confia em mim, a Luna conhece todos por aqui. Vai ser melhor ser apresentado por ela do que por mim. Luna, só em espanhol, ok?
- Ahora si!
se afastou na direção do grupo e Luna pegou o braço de e os dois caminharam juntos enquanto ela o apresentava para todas as pessoas daquela festa.
- Este es , un amigo de .
Foi a primeira vez em muito tempo que ele falou tanto em espanhol fora de sua terra natal. Foi como se estivesse novamente em casa, principalmente quando encontrou outros colombianos; nesse momento, esqueceu até que estava em outro país e não visitava seu lar há anos.
De longe, observava ele se divertindo e rindo. Conversava tranquilamente com todos que Luna o apresentava e tinha uma facilidade enorme em conquistar as pessoas. A única coisa que a preocupava era que ele fosse reconhecido. Isso podia ser um problema.
A conversa em que estava totalmente imerso foi interrompido momentaneamente pelo som alto de instrumentos musicais, uma banda começava a tocar Corazón Espinado. Fazia muito tempo que ele não escutava aquela música e sendo tocada tão bem por músicos talentosos. Durante o solo de guitarra, ele mal podia acreditar no quão bom eles eram. Como pessoas tão boas não eram reconhecidas?
- Sempre tem música ao vivo? – Ele questionou Luna.
- Não, mas hoje é aniversário daquela senhora ali, ela é como se fosse a abuela de todos. Um dia muito especial hoje.
Luna apontou para uma senhora que estava sentada, aparentava ter mais de oitenta anos, batia palma no ritmo da música e estava cercada por pessoas, inclusive .
Ao seu redor, pessoas cantavam junto as canções e dançavam em casais, homens e mulheres, mães e filhos, mulheres e mulheres, pais e filhos, o que importava era que ninguém podia ficar parado.
- Vamos! – Luna segurou a mão de e o puxou para dançar. Ele não soube como recusar, então acabou dançando com ela e com mais três mulheres e uma garotinha, até o momento em que se cansou e pediu para beber algo.
Caminhou até uma mesa enorme com diversas comidas e ao lado uma geladeira. Serviu-se de suco e aplaudiu assim que a banda terminou a música.
- Ahora, una invitada muy especial! – O vocalista anunciou no microfone e caminhou até lá. se surpreendeu e voltou para onde estava. Que raios estava acontecendo?
- Abuela, espero hacerle justicia a esta canción que tanto te gusta. – nem percebeu, mas sorriu ao ouvi-la falando em espanhol.
olhou para a banda e em questão de segundos ouviu os acordes de Quizás, quizás, quizás. As pessoas começaram a aplaudir e gritar em apoio a . A música era um dueto, que começou com o vocalista, que tinha uma voz firme e marcante. No momento em que começou a cantar, ele se arrepiou completamente.
Estava tão focado em ver como sua roteirista e diretora, que se esqueceu completamente de que ela era uma atriz de teatro musical. Cantar também era sua vida. Não imaginava que sua voz fosse tão linda. E que ela falasse tão bem espanhol.
Luna observou de relance o homem ao lado e notou imediatamente que seu olhar estava fixo na apresentação, ele mal piscava, só admirava. Ela sorriu com aquilo.
Ao final da música, todos aplaudiram animadamente, inclusive . ficou com o rosto quente e agradeceu a todos. Caminhou até a abuela e a abraçou, então correu para onde Luna estava e também foi recebida com um abraço.
- Você não para de me surpreender! – disse para ela. Que sorriu abertamente.
- Como me saí cantando em espanhol?
- Você me impressionou. Português, inglês e espanhol!
- Tudo o que eu sei, aprendi com a melhor! – ela direcionou com a cabeça para Luna.
- Yo soy increíble, lo se!
- Eu não sei vocês, mas eu estou morrendo de fome, quero devorar tudo o que tem naquela mesa. – comentou olhando para a enorme mesa de comida.
- Se você for, eu te acompanho. – respondeu.
- Vou lavar minhas mãos e aí nós vamos!
Ela se retirou e o homem voltou sua atenção para a banda, que permanecia impecável. Enquanto aproveitava aquele momento tendo pequenas ideias de ritmos e temas para suas músicas, Luna ao seu lado resmungou enfaticamente.
- Que merda! Quem convidou ele? – ela olhava para a porta que dava para a entrada do quintal. Um homem alto, cabelos castanhos claro cacheados e olhos azuis estava conversando com uma pessoa. .
Ele não conseguia ver a cara de , mas ele falava e ela balançava a cabeça positivamente.
- Quem é ele?
- Pedro. El idiota que rompió el corazón de en pequeños pedazos.
- Como assim?
- Um completo imbecil, os dois namoravam ano passado, mas ele decidiu que trair a era uma boa ideia. Nunca vi a garota tão arrasada como quando ela descobriu.
não conhecia esse tal Pedro, mas já não gostava dele. Quem teria coragem de trair uma pessoa como a ?
- Sabe, quando uma mulher perde a autoconfiança e a autoestima, ela perde tudo. Não fala pra ela que eu te contei isso, senão ela me mata, mas ela não conseguiu se envolver com mais ninguém depois dele. Disse que precisava de um momento pra se reconectar consigo mesma, mas é só uma desculpa pra não dizer que não quer sofrer por amor de novo. E que tudo isso acabou com ela.
Ele não conseguia imaginar chorando e triste, parecia uma imagem muito diferente da qual ele já estava se acostumando a ver quase diariamente. Olhou novamente para os dois conversando e ele ainda estava falando, cruzou os braços e olhou de relance para onde eles estavam.
- , você precisa ir lá.
Ele nem hesitou.
- Tá, o que eu faço?
- Resgata ela de lá, inventa qualquer coisa.
se arrumou rapidamente e assumiu uma postura diferente. Ao se aproximar deles, Pedro não era tão alto como parecia, devia ser até um pouco mais baixo do que ele, mas conseguiu ouvir algo.
- A gente não conseguiu conversar depois daquilo, as coisas terminaram meio estranhas entre nós.
- A gente não conversou porque eu não queria, Pedro. E não terminou estranho, você me traiu, o que queria que eu fizesse? Te parabenizasse?
- Queria que você não tivesse ignorado minhas ligações, eu merecia me explicar.
bufou e riu sarcasticamente.
- Quem te disse que eu queria ouvir alguma explicação?
O olhar de Pedro encontrou com , que apenas retribuiu de forma seca. se virou e o viu.
- , algum problema aqui? Tudo bem?
- Estava até poucos minutos.
- A gente precisa conversar, ... – Pedro insistiu.
- Não precisa não. – Ela o cortou e se virou.
- Vamos voltar pra lá – disse esperando ela passar por ele.
- Não vai me apresentar seu amigo? – Pedro disse e ela respirou fundo.
- Eu mesmo me apresento. ! – ele disse estendendo a mão para ele, que em um ato de afronta, a apertou. aproveitou esse momento para puxá-lo para mais perto. – E eu sou mais do que amigo dela! – Ele disse e piscou com um olho. Então soltou sua mão e seguiu para onde estava, passou a mão em volta dos ombros dela e voltaram juntos para Luna.
começou a rir baixo.
- Obrigada por ter me resgatado daquele imbecil.
- Eu juro que vou estrangular quem convidou ele! – Luna disse com raiva e saiu de lá.
- Sempre que precisar, pode contar comigo!
Ela sorriu sem mostrar os dentes. Era visível como ele ainda a deixava abalada.
- Eu tive que me controlar pra não rir quando você disse que era mais do que meu amigo.
- Ele não precisa saber que eu sou seu... parceiro de negócios. Deixa a imaginação dele agir.
- Você pensou rápido.
- O que posso dizer? Acho que nesse pouco tempo que passei com você, você já me ensinou algumas lições sobre atuação.
Ela riu baixo.
- E aí? A gente vai comer ou não?
- Eu tô faminto!
Os dois caminharam até a mesa e, nesse meio tempo, olhou novamente para Pedro, que o encarava. Afinal de contas, quem era aquele cara que simplesmente chegou e levou consigo? O rosto era familiar, só não sabia onde já tinha o visto.
Durante o restante daquela noite, e ficaram juntos, não porque queriam fazer ciúme em Pedro, mas porque repentinamente surgiu uma conexão maior entre eles. Jantaram (e repetiram) juntos; apresentou ele para os músicos da banda, que elogiou diversas vezes, inclusive anotou o número de alguns deles.
Ela também o apresentou para a abuela, que achou ele muito bonito.
- Qual é o nome dela? – questionou sussurrando no ouvido de sua colega.
- Eu não faço ideia – ela respondeu disfarçadamente.
- Como assim? Você até dedicou uma música pra ela.
- É que todo mundo chama ela de abuela, agora eu tenho vergonha de perguntar o nome dela depois de um ano frequentando essa festa.
- A Luna não sabe?
- Não faz nem ideia...
Após se despedir de todos prometendo aparecer no próximo encontro, ele deixou em sua casa.
- Muito obrigada, ! Eu me diverti muito.
- Que bom, fico feliz de verdade!
- Você tinha razão, eu precisava me reconectar com as minhas origens, eu me esqueci de quem eu era.
- De quem você era não. De quem você é! – ela fez uma careta. – Eu tô me sentindo meio o Mufasa agora...
- Mufasa... pai do Simba?
- É! Lembra? Tem uma cena em que ele diz: – pigarreou e engrossou a voz como pôde – Simba, você se esqueceu de mim, você se esqueceu de quem é e se esqueceu de mim. Você é o verdadeiro rei, e blá blá blá, não lembro mais...
riu. Não só riu como teve um ataque de risos, não conseguia parar.
- Foi tão ruim assim? – o questionou encarando enquanto ele ficava vermelho de tanto rir e seus olhos se enxiam de água.
- Pelo contrário, foi muito bom! Eu juro que não esperava por essa.
- Às vezes eu gosto de surpreender as pessoas. – olhou para o lado e riu baixo.
- O que foi? – ele perguntou enquanto enxugava as lágrimas.
- Olha ali nas janelas, são as minhas vizinhas, senhoras de uns setenta ou oitenta anos que não fazem nada o dia inteiro e amam fofocar.
Ele se abaixou um pouco, se inclinando sobre e viu algumas janelas com luzes acesas e pessoas se esgueirando, tentando se esconder.
- Amanhã com certeza elas vão me perguntar com quem eu estava por tanto tempo no carro. Velhas fofoqueiras.
- Vou deixar elas me verem então, pra terem uma impressão boa de mim já!
nem teve tempo de perguntar o que ele quis dizer, pois ele abriu a porta do carro e caminhou até a porta dela, abrindo em seguida. Estendeu a mão para ela, que se apoiou e saiu do carro, ficando os dois frente a frente.
- Obrigado de novo!
- Conta comigo se precisar de ajuda. Não sei compor, mas sei criticar e apoiar.
sorriu e os dois se abraçaram rapidamente. Então a mulher se virou e começou a caminhar para dentro do prédio. Ele se escorou no carro e esperou até que ela entrasse; caminhou até a porta do motorista e rumou de volta para seu apartamento do outro lado da cidade.
Sentia-se leve, livre e, finalmente, com muitas ideias em sua mente.
Continua...
Nota da autora: Olá! Espero que vocês gostem dessa história que tem um espaço enorme no meu coração. Esse é só o começo de algo muito bom!