Última atualização: 01/07/2018

Fanfic se baseia e se ambienta no filme Vingadores: Guerra Infinita, portanto contém spoilers!

1.

SANCTUM SANCTORUM
Nova York, 12h35 p.m.


tinha uma bela visão da grande e principal janela redonda localizada no último andar da mansão. Seu tamanho tomava boa parte da parede, inclinada em direção ao céu e proporcionando uma bela vista de algumas construções e prédios perto dali. As linhas grossas que se cruzavam do lado de fora do vidro formavam o símbolo de Vishanti, uma trindade de deuses antigos que garantiam proteção especial ao Sanctum. A todos eles. Não havia muitas diferenças entre os três, mas ela mentiria se dissesse que o dali não era o seu preferido. Mesmo incumbida de proteger o santuário de Londres, vez ou outra, se encontrava ali, admirando o céu claro e límpido de sua cidade natal.
Ter tido a chance de conhecer o lugar era a única boa experiência de sua vida medíocre. De todas as suas escolhas erradas, ainda tivera sorte de ter tido outra oportunidade para mudar seu rumo. A Anciã parecia ter visto algo a ser salvo em , mesmo depois de ela ter se tornado uma discípula de Kaecilius e ter se corrompido pelas falsas doutrinas que ele proclamava. Ela se peguntava como podia ter se cegado pelas promessas de vida eterna há mais de um ano. Havia perdido tudo, sua família, seu filho; o Kamar-Taj veio para ser a sua opção de libertação, mas Kaecilius foi quem propôs uma oferta melhor. E, naquela época, parecia ter sido uma boa opção. Porém, avaliando agora, sabia que era um caminho sem volta, que teria perdido muito mais se a Anciã não houvesse escolhido lhe salvar. Era uma dívida que jamais poderia pagar, no entanto. Kaecilius a tirou desse mundo cedo demais.
Sua memória não tardou a lembrá-la de quando tentou destruir aquele Sanctum uma vez. Talvez sua conexão com o santuário de Nova York também fosse por aquele fato; ela sentia-se na obrigação de protegê-lo depois de tudo o que fizera. Era o mínimo esperado para a pessoa que traiu a todos os que lhe acolheram no Kamar-Taj para seguir a ideais sombrios. tinha que viver com aquele fardo, de qualquer forma. Redimia-se aos poucos sendo protetora do Sanctum de Londres, aceitando a ajuda de pessoas como Wong e, principalmente, Stephen Strange.
Escutou passos se aproximando da escada atrás de si, mas não se virou para observar quem era. Seus olhos ainda pareciam atraídos para a luz que adentrava a janela e batia em seu rosto; fechou os olhos, enquanto respirava calmamente, aproveitando o espaço e a calmaria agora que tinha tempo. Aquela sensação de aprisionamento ainda existia dentro de si, porém em uma escala muito menor comparado ao tempo em que seu corpo ficou sob influência do poder da Dimensão Negra. agradecia por ter o apoio de Strange para aquela situação. Tê-lo conhecido era uma das poucas coisas boas depois de tudo o que aconteceu.
— Eu ainda tenho certeza de que a vista de Londres é bem melhor. – a voz aveludada e levemente enrouquecida chegou aos seus ouvidos, fazendo-a curvar os lábios em um sorriso, finalmente encarando o homem ao seu lado.
— Eu não venho aqui pela vista, Stephen.
— Então admite que vem por mim? – ao som do riso dela, ele também sorriu, cruzando as mãos atrás da lombar.
Strange estava sem o manto de levitação, ela percebeu. O uniforme também não era o que lhe acompanhava naquele instante, vestia apenas uma roupa comum civil; uma blusa cinza e um casaco preto por cima. Um pouco diferente do que estava acostumada. Ela própria raramente vestia outras roupas além daquela espécie de túnica, porém sem as mangas, em diferentes tonalidades de cinza. Havia uma pequena fenda frontal, que começava em seu quadril, se alongando até perto dos joelhos; apenas o tecido de sua calça se destacava na cor preta, além de uma espécie de faixa de couro que envolvia sua cintura.
soltou um suspiro curto, divertido, cruzando os braços abaixo dos seios.
— Eu gosto daqui. – a voz saiu serena, voltando a fitar o céu através da janela. – É onde eu pertenço, me faz sentir parte.
— Venha pra cá. – ela não deixou de sorrir com a proposta, sentindo os olhos claros do homem em seu rosto. – O Sanctum de Londres tem mestres o suficiente para protegê-lo. Há espaço para você na mansão, sabe disso. – havia uma firmeza prevalecendo no timbre do homem, algo que admirava em Strange. Ele se mostrava decidido e conseguia equilibrar a razão e a emoção em todas as situações, desde que se tornou mago. Não iria julgá-lo por quem era antes disso; o Kamar-Taj, apesar de tudo, ajudou os dois a tornarem-se melhores pessoas, mesmo passando por caminhos turbulentos e decisões precipitadas. Cada um ali tinha sua história e justificativas para terem tomado certas escolhas, mas tudo apenas garantiu para que eles se tornassem quem deveriam ser.
Strange continuou a observá-la, virando-se para ficar de frente a ela.
— Você seria de grande utilidade aqui, .
— Você não diz isso apenas como meu mestre. – ela soou sugestiva.
— Você sabe que não. – sentiu uma sensação reconfortante e calorosa quando as mãos de Strange se encaixaram em seu rosto, quando ele se colocou a uma distância mínima entre os dois. O sorriso que surgiu em seus lábios era a confirmação de que a presença do homem era mais do que bem-vinda; suas mãos se colocaram sobre as dele, sentindo as cicatrizes espessas e irregulares, que pareciam não mais incomodá-lo. – Mas sendo o mago responsável por você, eu poderei monitorar a sua adaptação de perto. Ter certeza de que a barreira mística não se romperá pelo uso incorreto de seus poderes.
reprimiu um suspiro, mordicando o lábio inferior.
— Você me ensinou como não romper. – sussurrou, parecendo hesitar ao tocar naquele assunto.
— Ainda assim, você tem medo de quebrá-la.
— Como não teria? – lamentou a garota, soltando um estalar de língua frustrado.
fechou os olhos por instinto, sentindo os dedos do homem acariciarem sua bochecha, aproximando o rosto o suficiente para que ela sentisse a respiração dele contra sua pele. Mais de um ano longo de recuperação e aprendizado para lidar com sua nova realidade fizeram com que Strange se tornasse mais do que seu mestre e a pessoa por trás de sua melhora. Com a morte da Anciã, a responsabilidade por trazê-la de volta ao mundo real era dele. E ela agradecia por Stephen ter aceitado tal fardo. Tudo o que recuperou, tudo o que ganhou havia sido por ele. Fora impossível não ter criado aquele espécie de vínculo e ter se deixado levar por sentimentos que há tempos desconhecia. Talvez ela não entendesse todo o motivo que levou o mago a fazer tal coisa ou por que teria tido aquela segunda chance, mas o equilíbrio que tanto precisava, a garota tinha conseguido encontrar em Stephen.
O suspiro cansado que Strange emitiu foi o que a despertou de seus devaneios.
— Confiando em sua capacidade. – respondeu ele, no mesmo tom de voz baixo que o seu.
— Foi essa mesma capacidade que me fez aliar a Kaecilius.
— O que você fez não importa mais, . – novamente, ele se mantinha firme diante de todas as suas lamentações; Stephen mostrou-se preocupado por um instante, ainda com o rosto próximo ao dela. – Nada mais importa do que o presente, das escolhas que você tomará daqui pra frente. O que aconteceu no passado, continua no passado. Não há como mudar o que foi feito, mas ainda é possível mudar o agora. Entenda isso. – ela engoliu em seco, percebendo seu corpo cada vez mais desconfortável por aquilo, mas não deixando de fitar os olhos incrivelmente claros do homem à sua frente. – O mais importante é que você está aqui agora.
— Só não sei por quanto tempo. – um nó se formou em sua garganta, fazendo-a respirar fundo diante da atenção que Stephen dava a sua expressão inquieta. Seu coração palpitou de uma forma que parecia querer rasgar seu peito, como se ela sentisse que seu tempo estivesse prestes a acabar. – Esse feitiço, essa barreira que você criou é a única coisa que impede que Dormammu me leve para a Dimensão Negra, o mesmo lugar onde ele levou Kaecilius e seus discípulos. Você não desfez o ritual, Stephen, você apenas o mascarou. – sentiu as mãos quentes de Strange apertarem suavemente seu rosto, como se tivesse certo medo de deixá-la escapar; sus mãos acompanharam o ato, mas a sua força depositada levemente sobre a mão dele era um indício de seu receio. Sua mente sempre lhe gritava que seus dias pareciam contados. – Eu ainda consigo sentir a marca.
Ele passou o polegar sobre os lugares onde anteriormente ficavam as marcas do ritual proibido; o dedo percorrendo ao redor dos olhos, até parar na testa, onde antigamente o símbolo de Dormammu ficava exposto. Não havia mais as marcas, uma vez que o ritual, apesar de não quebrado, estava adormecido depois das barreiras místicas que ele havia criado; aquilo garantia tempo para que se achasse uma solução definitiva, além de ocultar para que ela não fosse detectada pelo controlador da Dimensão Negra.
Stephen tensionou o maxilar, mantendo a respiração controlada ainda que sentisse certo incômodo retornando.
— Estamos trabalhando nisso. – tentou acalmá-la, sem um resquício de incerteza em sua postura. concordou em um aceno, parecendo mais paciente com a convicção expressa na voz do homem. – Enquanto o feitiço não for quebrado, ainda temos tempo.
— Eu sei. Confio em você. – ela logo afirmou, um meio sorriso cansado beirando em seus lábios. – Só é difícil não pensar nisso.
— Tente não pensar. Lembre-se de que quem controla isso é você, . A barreira está sob seu comando. E você está indo muito bem até agora. – o sorriso também suavizou a expressão antes preocupada dele; era incrível em como o som da voz de Strange, soando baixa e calma, trazia uma sensação de conforto, ainda mais quando era direcionada especialmente a ela. – Podemos conversar melhor antes de você voltar ao Sanctum de Londres, tudo bem? Temos tempo.
meneou a cabeça em concordância, antes de sentir os lábios de Strange tocarem os seus em um gesto suave, mas que parecia transmitir tudo o que nenhum dos dois conseguia expressar em palavras. O toque carinhoso do homem agora aquecia a região de seu rosto, espalhando-se por seu corpo conforme ela o trazia para mais perto, pousando uma das mãos no tórax dele enquanto a outra se encaixava na nuca. Havia uma delicadeza na forma como ele movimentava os lábios aos seus, uma ternura que Strange raramente costumava demonstrar em outros atos além daquele; não havia necessidade ou desespero, apenas uma pausa para se lembrarem de que, apesar de tudo, eles sempre estariam ali um pelo outro.
sorriu assim que se separaram, sentindo-o depositar um beijo em sua pálpebra antes de voltar a falar.
— Está com fome? Vou comprar algo pra comermos. Quer alguma coisa?
— Não, estou bem. Obrigada!
Stephen concordou em um aceno de cabeça, movimentando os lábios em um ok mudo. Não era de se impressionar que o homem captasse as reações que tentava esconder, ele fazia isso melhor do que ninguém, afinal; então parecia óbvio que Strange perceberia que o assunto estava longe de se encerrar ali, apesar de tudo. Ainda assim, colocando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha, ele tentou tranquilizá-la antes que pudesse se encaminhar até a escada.
— Tente não pensar muito nisso. Conversaremos assim que eu voltar.
— Quando quiser. – e então ela sorriu, observando-o descer os degraus até o segundo andar, escutando a voz de Wong ainda longe.
Por cima de todo o incômodo, não mentiria que havia um sentimento bom por toda aquela proteção exposta pelo homem. Era impressionante toda a mudança de comportamento em relação a ela; o que começou como uma relação profissional, em um ano aquela aproximação também dava lugar ao pessoal. Criou-se uma boa parceria. Ainda era difícil se envolver depois de tudo o que aconteceu, mas, aos poucos, os dois pareciam se permitir a quebrar aquela barreira do passado para descobrir novas possibilidades. gostava daquilo. Infelizmente, o que tinha como família se foi tempos atrás, então descobrir um outro lado dessa palavra era o que tanto a Anciã havia lhe dito quando buscou o Kamar-Taj. Ela só precisava saber como seguir e quem seguiria esse novo caminho com ela.
observou uma última vez a claridade atravessando a grande janela, antes de seguir o mesmo caminho de Stephen, na intenção de ir até a biblioteca, também no primeiro andar. Escutou algumas vozes próximas à outra escada, num corredor mais à frente que dava até o saguão, mas apenas percebeu quando uma delas foi direcionada a si:
! Que surpresa.
— Wong. – cumprimentou ao amigo com um sorriso, recebendo o mesmo gesto em resposta.
— Fico feliz que esteja aqui nesse momento, pois você pode contar sobre os ensinamentos que recebeu no Kamar-Taj. – havia um entusiasmo implícito na expressão pacífica de Wong, parecendo convicto em suas palavras. Os olhos do mago passaram da garota até Strange, que caminhava um pouco mais à frente, com as mãos no bolso da calça e continuando seu caminho até a escadaria principal, tão aleatório à conversa quanto , que não mostrava nada além de confusão em um cenho franzido e sorriso divertido nos lábios. – O que tenho certeza de que não será diferente do que acabei de mencionar. Você concordará comigo, . Diga a ele.
— Exatamente sobre o quê?
— Sobre como abdicar de coisas fúteis da nossa mísera existência nos ajuda a alcançar o ápice de nossa espiritualidade.
— Oh, não me coloque nessa conversa. – soltou um riso nasalado, erguendo as mãos na altura dos ombros, como se dissesse que não queria se envolver. O sorriso ainda brincando nos lábios enquanto ela lançava um olhar sugestivo ao amigo. – Acredite em mim quando eu digo que discutir com o Strange é inútil.
— Escute o que ela diz. Às vezes ela consegue ter razão em algumas coisas.
Na maioria das coisas. – rebateu a garota, um tom divertido em seu semblante. – Principalmente naquelas que dizem respeito a você.
— Vou adicionar isso como mais um ponto do seu fascínio por mim.
Stephen lançou-lhe uma piscadela, antes de começar a descer os degraus, sendo acompanhado pelos outros dois. não deixou de sorrir por um instante, encaixando as mãos no bolso de seu uniforme. Por um instante, aquele assunto ficou em segundo plano. Ela gostava de acreditar que o motivo era o lugar, as pessoas. Mudar-se para ali não parecia uma ideia ruim naquele momento. Ela andou pensado naquilo por muito tempo, não iria mentir. Tinha motivos de sobra para aceitar a proposta de Strange, porém ainda era cedo para tal decisão. Sua mente, por mais estabilizada que estivesse agora, ainda precisava de um espaço para lidar com todas as suas coisas do passado. Era um passo importante, que, apesar de tudo, ainda não estava segura o suficiente em dar.
Eles tinham tempo, não era o que Stephen tanto lhe dizia?
O resmungo ininteligível de Wong a trouxe à realidade outra vez.
— É dito que a conexão com o material é desconexão com o espiritual. – insistiu o mago, recebendo um negar de cabeça de Strange.
— É, eu direi isso na lanchonete. Talvez façam um sanduíche metafísico pra você.
— Espere, espere… – Wong chamou-lhe atenção, parecendo retirar algo de seu bolso. – Acho que tenho 100.
— Dólares?
— Rúpias.
— Que dá? – indagou Strange, sem encará-lo.
Wong ponderou por um instante.
— Quase um dólar.
— O que você quer? – Stephen pareceu derrotado, fazendo soltar um riso breve enquanto ambos chegavam ao piso principal.
O mago chinês esfregou as mãos em resposta, denotando certo entusiasmo em seu tom de voz.
— Eu não recusaria um de atum.
Não houve um tempo para nada mais quando um barulho estrondoso repercutiu no salão principal assim que algo atravessou o teto e as escadarias do Sanctum, fazendo com que os três se protegessem, principalmente das lascas de madeira arremessadas com o impacto. sentiu o coração bater mais forte pelo susto, virando-se para vislumbrar uma espécie de luz se descarregar naquele imenso buraco no meio das escadas, chegando a incomodar seus olhos tamanha claridade. Em questão de segundos, o Manto de Levitação se encaixou às costas de Strange, enquanto os dois magos subiam os poucos degraus intactos para verificar o que os esperava. os seguiu um pouco mais atrás, ignorando a poeira que se erguia e se colocando na beirada daquela grande abertura, franzindo a testa quando enxergou um homem caído no meio dos destroços.
Um tom esverdeado se apagava gradativamente do corpo do invasor enquanto ele se mostrava confuso, parecendo até mesmo assustado.
Thanos está vindo. – sua voz soava estranha conforme ele parecia se recuperar. – Ele está...
fitou a expressão desentendida de Strange por um momento, escutando-o verbalizar exatamente aquilo o que ela pensava:
— Quem?



FLASHBACK |

SANCTUM SANCTORUM
Nova York. 17 meses atrás.


— Mestre Daniel Drumm foi levado até o Kamar-Taj. – Mordo se aproximou em poucos passos, uma nota de pesar prevalecendo em seu tom de voz baixo e cauteloso; os olhos percorreram por breves segundos uma garota caída ao chão, antes de voltar a fitar a expressão impassível de sua mestre, a Anciã. – Ele está morto.
— E quanto ao Doutor Strange? – a voz sonora e firme permanecia na mulher, mesmo diante de todos os problemas à frente.
Em nenhum momento, ainda assim, ela pareceu oscilar entre a razão e a emoção. Havia uma pacificidade transposta até mesmo em sua linha corporal, ereta e resoluta; a cor neutra de suas roupas também pareciam passar a sensação de poder e autoridade que a Maga Suprema da Terra nunca se desafiava a mostrar. E conhecia bem tal comportamento, da mesma forma que a Anciã tinha plena consciência de quem e como era a jovem garota ajoelhada e derrotada a seus pés.
parecia não ter toda a segurança de antes para murmurar qualquer coisa, talvez porque sua mente ainda parecia bagunçada demais para formular frases coerentes e não dar atenção aos seus chiados emitidos em consequência das dores. Uma pressão em seu cérebro não a permitia sequer levantar do chão, onde a presença da Anciã e de Mordo se encontravam a poucos metros de si.
— Ele não está aqui. – respondeu o homem, recebendo um aceno positivo da mulher.
— Obrigada, Mestre Mordo. Pode, por favor, deixar-nos a sós agora? – ela disse, sem nem uma vez encará-lo.
Com um sibilo afirmativo, Karl Mordo se afastou, sumindo por entre os corredores do Sanctum, permitindo pela primeira vez que levantasse o olhar para fitar a Anciã. O ferimento em sua testa nem lhe incomodava mais, não mais do que o peso que ela sentia em sua mente, sabendo que tal bloqueio era um feito da Mestre das Artes Místicas à sua frente. Era o freio que a mulher colocara para que não tivesse acesso aos poderes concedidos por Domammu; além de desestabilizá-la e impedisse qualquer outra atitude que viria a ser uma ameaça.
— Por que não me mata logo? – a garota reuniu toda a força que conseguia para falar, estranhando o som da própria voz.
Por mais que sua cabeça doesse, tentava não expressar tal coisa diante da Anciã, que apenas se mantinha em silêncio, apenas na posição de observá-la. Ao redor, alguns objetos ainda se encontravam caídos ao chão, alguns até quebrados; o rastro perfeito deixado pelos Zealots¹, liderados por Kaecilius, durante a tentativa fracassada de destruição àquele Sanctum. A marca em sua testa e ao redor dos seus olhos era a péssima lembrança de que Dormammu os aguardava para finalizar a missão, algo que ela sabia que o Senhor da Dimensão Negra cobraria se eles permanecessem a falhar.
fechou os olhos com certa força, inspirando profundamente.
— E acaba de uma vez com isso.
— É o que deseja, ? – finalmente sua antiga mestre se pronunciou, recebendo um riso fraco da garota.
— Uma escória a menos pra humanidade, não?
— Eu não lhe qualificaria assim. – a Anciã endireitou os ombros, levando as mãos às costas; o rosto mantendo-se inexpressivo, mesmo diante dos grunhidos baixos que emitia. Com todas as coisas que aconteceram nos últimos minutos, a Maga Suprema não parecia sequer ter sido atingida tamanha calma que ela apresentava. Talvez o maior incômodo, mesmo implícito, fosse vislumbrar a situação de sua ex-pupila diante de si.
Os lábios da mais velha crisparam-se, os olhos ainda avaliando o estado da garota.
— Quando veio até mim, , você buscava uma solução para a sua dor e seu sofrimento pela perda de seu filho. Havia uma tempestade dentro de você, uma que eu não podia ensiná-la a eliminar, mas podia ensiná-la a atravessar e lidar com toda essa confusão que você não entendia. – começou a mulher, abusando de uma suavidade em seu tom de voz, como se não quisesse causar nada além de boas memórias na garota. – E eu o fiz, porém era necessário tempo e isso era a única coisa que eu não podia lhe conceder. Então… Sua tentação para se livrar desse sentimento tempestuoso foi o que a fez escolher o caminho mais fácil. – a garota tensionou o maxilar, notando uma ponta de decepção aparecer no semblante antes neutro da mulher. – Eu olho para você agora e não consigo sentir nada além do mesmo sofrimento e dor que você tanto buscou aliviar, . Você ainda sofre.
retesou os músculos, tentando não se apegar a essas palavras. Foi um longo trabalho para não permitir que as lembranças e os sentimentos atrapalhassem a sua missão pessoal, não poderia permitir que elas tivessem influência em suas escolhas agora, mesmo que tudo o que havia sido dito tivesse sua ponta de verdade. Prometeu sua lealdade a Kaecilius, se doou para aquele objetivo em um prol maior, não era hora para seus tropeços e suas falhas. Mesmo que, no fundo, por mais que não admitisse aquilo a ninguém, ela soubesse que faltava algo e que era esse algo que a impedia de se entregar por completo ao seu dever.
— Você fez parte disso, mas isso não faz parte de você, . – continuou. – De quem você é.
Não fale por mim. – rangeu os dentes, soando com certa rispidez. – Você está tentando me manipular.
— E não é exatamente o que Kaecilius vem fazendo com você durante esses anos?
— Ele me mostrou a verdade. – aumentou o tom de voz, a respiração se desregulando pela primeira vez.
Os olhos da Anciã estreitaram-se diante daquela afirmação, mas ela não reagiu com nada mais além disso quando replicou:
— Ele lhe mostrou a visão dele, .
— Ao menos, Kaecilius fez o que você nunca teve coragem o suficiente para fazer.
Houve um silêncio momentâneo, enquanto a mais velha continuava a fitar a garota, sem nem mesmo transparecer em seu semblante o que tais palavras lhe causavam. Tudo o que se mostrava em sua linha corporal era a segurança, como se nada do que dizia lhe afetasse de alguma maneira. E não afetava, sabia disso. Como Maga Suprema da Terra, não seriam palavras de uma discípula de Dormammu que afetariam as centenas de anos de vida e aprendizado da mulher. Por mais que houvesse veracidade, que aquele discurso ensaiado tivesse intenções hostis, ainda era difícil se desligar de sua antiga vida e, consequentemente, de tudo o que havia aprendido com a Anciã. Estava em um outro lado agora, com outros princípios, mas ainda não tinha tido sucesso em abandonar seus antigos laços. Era a sina que ela não conseguia se livrar. Ou sua saída.
A Anciã comprimiu os lábios, a paciência ainda presente em seu rosto mesmo depois de toda situação. Ela parecia certa de uma coisa da qual sequer entendia.
— Dormammu não é a resposta, . Você foi envenenada por palavras que lhe prometiam uma paz inalcançável. – agora a mulher se permitia a expor certa preocupação, ainda que não baixasse a guarda em momento nenhum. a conhecia o suficiente para saber que ela não derrubaria aquela barreira construída e solidificada por anos. – Vida eterna é apenas uma maldição, não o paraíso que ele tanto lhes prometeu. Sofrimento e tortura é a única coisa que você irá recolher ao se tornar parte disso. – ela parou por um momento, analisando a feição intrigada exposta no rosto de , como se pudesse ler tudo aquilo que a garota se recusava a mostrar. – E eu sei que você reluta.
bufou, um sorriso desacreditado preenchendo seus lábios.
— Porque você continua vendo dentro de mim, não é?
— Nunca precisei para saber que você tem uma imensa capacidade para bondade. E que você nunca abdicou dela mesmo tendo se corrompido por ideais sombrios, . – uma ponta de tensão atingiu seu corpo, fazendo baixar o olhar e respirar fundo, evitando aquele contato visual para manter-se fiel à resistência que ainda lhe restava. – Continua em você. Talvez encoberta pelo excesso de poder que Dormammu lhe atribui, mas eu sei que está aí. Sempre esteve.
preferiu o silêncio como resposta, até porque nada parecia forte o suficiente para rebater. Apesar de tudo, a Anciã ainda depositava uma confiança que há muito achou ter sido quebrada. Ela traiu o Kamar-Taj, traiu os ensinamentos, deu as costas as pessoas que tanto lhe ajudaram a superar suas derrotas, mas, ainda assim, havia espaço para compreensão, mesmo depois de todas as suas decepções. A Anciã insistia naquele lado bondoso e esquecido de , parecendo não se importar com as antigas escolhas tomadas pela garota apenas para que ela pudesse ter uma chance de decidir por um caminho melhor agora.
Era aquela mesma esperança da qual Kaecilius tanto temia lhe perder.
— Quer saber o que eu vejo em seu futuro, ? – a mais velha continuou, finalmente atraindo o olhar dela para seu rosto. O silêncio ainda era a resposta que preferia dar, mas era nítido em como aquilo desencadeou algo a mais em seu interior. Algo que ela sabia ser um indício de receio. – Altruísmo. Você está destinada a grandes momentos. Há muitas coisas que você ainda precisa descobrir e fazer, coisas que precisam ser feitas por você. E o futuro perderia muito se eu lhe privasse de tal responsabilidade. – a Anciã agora tinha as mãos cruzadas em frente ao corpo, a postura ereta enquanto a observava suspirar em alívio após ter amenizado um pouco daquele bloqueio mental. emitiu um chiado baixo, umas das mãos indo à lateral da cabeça, ainda sem forças para se levantar. – Talvez você não entenda agora, mas espero que possa entender um dia.
— O que vai fazer? – percebeu a voz oscilar, ainda se recuperando aos poucos daquela barreira mística em sua mente.
— Levá-la para o Kamar-Taj.
— Pra quê? – a mais nova lamentou, desgastada. – Pra me banir para outra dimensão após seus julgamentos?
A Anciã baixou o olhar por um momento, permitindo que um sorriso de canto suavizasse sua expressão.
— Pra você aproveitar essa segunda chance que estou lhe oferecendo, .

| FLASHBACK



¹ No filme Doutor Estranho (2016), o termo foi traduzido para Fanáticos.


2.

SANCTUM SANCTORUM
Nova York, 1h10 p.m.


— Já chega.
baixou a cabeça sob a afirmação atormentada de Stark, cruzando os braços abaixo dos seios e apoiando-se com as costas no corrimão das escadarias do Sanctum. Estava dois degraus acima do piso, sendo apenas uma espectadora da discussão que acontecia no saguão, onde, ao lado dos outros dois magos, o cientista Bruce Banner e o bilionário Tony Stark não demonstravam nada além do que sentia no momento: preocupação. Não havia nada que ela pudesse comentar, principalmente considerando toda a gravidade do caso. Eles falavam sobre uma ameaça, uma que talvez fosse grandiosa demais para que conseguissem lidar, algo que a deixou com uma sensação inquieta martelando em seu peito, principalmente sabendo quem era o alvo principal nessa possível guerra.
Seus olhos logo pararam em Strange, que ainda permanecia de costas a ela enquanto se reunia com os outros três. Ele era o protetor de uma das joias do infinito, da qual se encontrava, naquele instante, pendurada no pescoço do homem e protegida pelo Olho de Agamotto. Thanos buscava reunir as seis, então era apenas uma questão de tempo até que ele viesse atrás daquela, o que colocava muita coisa em risco, visto a ameaça que esse ser apresentava.
sentiu o corpo tensionar, sob aquela sensação implícita de perigo. Strange era um dos melhores mestres a pisar no Kamar-Taj, ela jamais duvidaria disso, mas Thanos foi colocado como um ser que parecia transcender muitas coisas tendo posse apenas de duas joias. Por mais poderoso que Stephen fosse, a garota não deixou de temer pela vida dele. O fato de saber que Thanos faria qualquer coisa para colocar as mãos naquela pedra era o suficiente para deixá-la naquele estado. Qualquer coisa significava derrubar qualquer pessoa ou plano que atrapalhasse seu caminho, consequentemente colocando em risco muito mais do que aqueles que o confrontariam. Se ele conseguisse todas as joias, não seriam apenas eles a perder naquela história, seriam a todos.
— Quanto tempo temos?
— Não sei dizer. – Banner respondeu ao amigo, observando se afastar, mas não deixando de segui-lo mais atrás. manteve a atenção na conversa, percebendo em como o Homem de Ferro ainda parecia assimilar toda a informação; o semblante não demonstrando nada mais do que incômodo enquanto ele se aproximava das escadarias, apoiando-se no caldeirão, ainda com a voz do cientista soando alarmada ao fundo. – Ele tem as joias do espaço e do poder, isso faz dele a mais forte criatura de todo o universo. Se ele vier a conseguir todas as seis joias, Tony…
— Pode destruir a vida em uma escala, até hoje, incomensurável.
Strange completou, de uma forma que parecia querer atrair um pouco mais da atenção do vingador, que se mostrava atormentado desde que colocara os pés naquele Sanctum. Todo o peso que o assunto trazia apenas colaborava para que o ambiente se tornasse ainda mais desconfortável, mesmo que nenhum deles estivesse propenso em demonstrar tal coisa. Ainda assim, era Stark quem lutava para não externar nada do que se passava internamente, mesmo que cada detalhe em sua linha corporal ou expressão revelasse o que parecia óbvio aos olhos de .
— É sério que você disse “incomensurável”? – uma ponta de ironia surgiu na voz do bilionário, que agora se encontrava de costas ao mago, parecendo se alongar apoiado no Caldeirão.
— É sério que está se apoiando no Caldeirão do Cosmos?
— Esse é o nome disso, é? – a frase quase não foi terminada quando o Manto da Levitação o atingiu na perna esquerda, fazendo-o se desequilibrar por uma fração de segundos, mas não deixando de lançar um olhar desconfiado a Stephen em seguida. Os olhos se alternaram entre o homem e a capa, ao tempo em que Stark finalmente se colocava de frente ao ex-neurocirurgião. – Eu vou fingir que nem senti. – o moreno firmou o olhar por alguns segundos, antes de voltar ao que realmente interessava. – Se Thanos precisa das seis, por que não nos livramos dessa?
— Nada disso. – Strange negou com a cabeça, antes que Wong pudesse completar:
— Juramos proteger a joia do tempo com nossas vidas.
— E eu jurei cortar laticínios, mas a Ben & Jerry's fez um sabor com meu nome, então…
Stark contrapôs, os ombros inclinando-se brevemente à medida que recebia um comentário contrariado de Strange, do qual não teve interesse em ouvir. Parecia ocupada demais ainda processando o caminho daquela conversa, um pouco surpresa pelo rumo que estava tomando. Não havia exatamente pontos a se levantar, quando o problema era nítido e cada vez mais próximo. E no momento em que deviam se discutir medidas para tal ameaça, os quatro homens no saguão se dividiam em se alfinetar em assuntos aleatórios ou disputar sobre uma banalidade em um momento que necessitava de toda atenção e cuidado.
não teve outra reação além de respirar fundo, buscando um resquício de paciência que há muito fora deixada para trás.
— Isso existe?
— Tanto faz. – a voz de Stark voltou a prevalecer, a atenção ainda fixa em Stephen. – O ponto é que as coisas mudam.
— Nosso juramento de proteger a joia do tempo não pode mudar. – retrucou o mago, tão firme em sua voz e em sua escolha quanto em qualquer outro momento daquela conversa. – E ela pode ser a nossa melhor chance contra Thanos.
— Acontece que também pode ser a melhor chance dele contra nós.
O bilionário pareceu enfatizar a última parte de uma forma quase pausada, não desviando o olhar um minuto sequer do mago. encarou qualquer outro ponto fixo ao chão, não se sentindo confortável o suficiente para interferir naquela conversa, mesmo que sentisse certa rispidez em ambas as partes. Sob a arrogância e o desdém contidos naquela discussão, ainda era possível notar toda a preocupação velada em cada olhar ou silêncio que faziam. Ela sabia que havia perturbação ali, não se sentia tão diferente ao escutar todos aqueles problemas e não ter achado nenhuma solução plausível ainda.
Strange pareceu não se importar com a afirmação quando devolveu:
— Só se não fizermos o nosso trabalho.
— E qual é seu trabalho, além de fazer animais com balões?
Uma nota de sarcasmo apontou na voz de Stark, enquanto ele estreitava os olhos sob o curto silêncio de Strange. O mago demorou um certo tempo para responder, mas não deixou de manifestar uma ponta de soberba e desdém em sua voz quando o fez.
— Proteger sua realidade, seu boçal.
— Pessoal, podemos adiar essa discussão agora? – Banner tomou a atenção para si outra vez, notando que a relação entre os dois parecia a um fio de estourar. não deixou de se aliviar por ele colocar o verdadeiro problema em pauta outra vez, soltando todo o ar pelo nariz em uma tentativa de amenizar aquele recente nervosismo. – O fato é que temos a joia. Sabemos onde ela está. – o cientista continuou, seu tom de voz soando com certa impaciência enquanto ele apontava para a pedra guardada dentro do Olho de Agamotto. – Já o Visão está por aí com a joia da mente. E precisamos achá-lo agora.
Stark soltou um suspiro baixo, os braços agora cruzados em frente ao peito.
— É, esse é o problema.
— Como assim?
— Há duas semanas, o Visão desligou o comunicador. – Tony deu de ombros, encarando Bruce. – Ele está offline.
O quê? – Bruce se mostrou desacreditado por um instante, observando o amigo se afastar, mas não deixando de segui-lo logo atrás. Os olhos de acompanhando cada movimento, notando que o assunto também interessava aos outros dois magos. – Tony, você perdeu outro super-robô?
— Claro que não! Ele é mais do que isso. – defendeu-se o bilionário, ainda sendo seguido pelos outros três. – Ele está evoluindo.
— Quem poderia encontrar o Visão?
Strange questionou, parando a alguns poucos metros da escada enquanto observava o vingador continuar a se afastar lentamente. Stark não respondeu de primeiro momento, parecendo desacreditado demais para murmurar alguma coisa além de um baixo xingamento que se seguiu. Houve um silêncio estranho da parte do herói, ainda de costas ao público que o observava a espera de uma resposta. E ela viera, porém não da forma otimista que eles tanto esperavam.
— Provavelmente Steve Rogers.
Stephen foi a primeiro a reagir com um murmúrio do qual sequer entendeu, mas sabendo que, dada a atual relação dos Vingadores, ela sabia o que significava. O suspiro cansado deixou seus lábios, enquanto ela voltava a analisar os próprios pés, com a cabeça a mil para pensar em formular algo naquele momento. Por mais que tivesse optado por ficar em silêncio, por fora ainda era difícil não manifestar todas as emoções que toda a conversa anterior lhe causou internamente. sabia que seu dever, como maga, era proteger a joia do tempo, independente do que tivesse de sacrificar para tal coisa. Mas era difícil admitir que, sem nenhuma vantagem à vista, eles teriam muito a perder. Era muito em jogo para pouco tempo para uma estratégia.
— Tudo bem?
finalmente levantou o olhar para encarar Stephen, notando que os olhos claros do homem também se prendiam a seu rosto. Ele não tardou a se colocar ao pé da escada, observando-a descer e se posicionar no primeiro degrau para se colocar em frente ao homem, enquanto as vozes e a conversa paralela ficavam em segundo plano. Ela tentou até se aliviar com uma respiração profunda, tendo cada movimento acompanhado pelo olhar preocupado do mago.
— Você está estranhamente quieta. – continuou ele, recebendo um concordar de cabeça da mulher.
— Muito pra processar. – ela percebeu os ombros enrijecerem momentaneamente. – Temos uma situação ruim aqui.
— É por isso que eu acho que você deve retornar ao Sanctum o quanto antes.
uniu as sobrancelhas, uma nota de desconfiança pairando em seu semblante.
— Você não diz isso apenas como meu mestre.
— Você sabe que não.
Ela não evitou mostrar um sorriso de canto, beirando ao desacreditado, não tanto pela familiaridade das palavras, mas em qual contexto elas eram ditas. Strange demonstrar aquela preocupação não era exatamente novidade, muito embora estranhasse aquela hesitação se tratando de seu envolvimento. até entendia, toda a sua história ainda vívida em sua mente era um grande problema em sua recuperação, porém eles estavam falando de uma ameaça que pretendia devastar o mundo. Toda e qualquer ajuda era muito mais do que necessária naquela situação, seria estupidez negar algo àquela altura tamanho risco que cada um deles corria.
— O Sanctum de Londres tem mestres o suficiente para protegê-lo. – ergueu uma das sobrancelhas, parecendo não se importar com aquela mudança de comportamento de Stephen. – Não foi você que disse que eu seria de grande utilidade aqui?
— Está usando minhas palavras contra mim?
— Aprendi com o melhor. – ela permitiu que um sorriso delineasse seus lábios.
Em resposta, Strange apenas meneou a cabeça, soltando todo o ar pelo nariz, em claro cansaço.
, eu estou falando sério. – a expressão dele permaneceu fechada diante da situação.
— Eu também, Doutor.
— Não temos tempo pra discutir sobre isso agora.
— Não precisamos, certo? É nosso dever proteger a joia com a nossa vida, por que eu faria algo diferente disso? – a voz não escondeu o tom inconformado, apesar de ainda manter certa paciência; o maxilar enrijeceu em seguida, não desviando um minuto sequer o contato visual, mesmo que Strange manifestasse toda a sua frustração na maneira como a olhava. – Você precisa de mim aqui, Stephen. Mais que tudo, nós precisamos proteger a pedra porque o que está em jogo aqui é muito mais do que a sua vida ou a minha. É a vida de todos os outros. E por mais que você queira, jamais conseguiria lidar com isso sozinho. – havia ternura no modo como se pronunciava, como se o manto de mestre estivesse sido deixado de lado para que ela adotasse uma postura mais íntima em relação a ele. Explicitamente, seu dever estava em cada palavra, mas, implicitamente, a garota não se importava em demonstrar um pouco de sentimento naquela frase. – Você queria que eu ficasse, não queria?
— Você não aceitou o meu convite ainda.
— Estou aceitando agora, se ainda estiver de pé.
Strange a fitou, o maxilar marcando quando ele pressionou a própria mordida.
— Eu sei o que está tentando fazer.
— O que qualquer outro faria no meu lugar. – ela o encarou nos olhos. – O que você faria no meu lugar.
Por mais que certeza fosse algo que lhe faltava, sabia que aquele era o caminho mais justo a se seguir. Como seu dever, como pessoa, tudo levava à mesma escolha. não sentia arrependimento por tomar tal decisão, a garota apenas tinha receio por toda sua situação delicada; um passo em falso podia comprometê-la e cair não era exatamente a melhor consequência que ela esperava, não em um momento em que sua presença era mais do que necessária. Equilibrar entre a precisão e a cautela era a sua batalha diária, mas, especialmente agora, sua mente precisava entender e aceitar aqueles riscos como um incentivo.
Era isso ou sucumbir ao seu receio enquanto seu mundo perecia nas mãos de um genocida.
Stephen meneou a cabeça, não desviando um minuto sequer, mesmo após ter assumido uma postura mais calma.
— Eu só estou tentando te proteger.
— De mim mesma? – contestou ela.
— Da sua insegurança. – não fez nada além de desviar o olhar, sentindo a presença do mago se aproximar um pouco mais; uma das mãos encaminhando-se até a cintura dela, ainda ignorando o que acontecia ao redor. – Você não confia em si mesma, , não tanto quanto eu confio em você. Eu sei que você sabe do que é capaz, mas ainda tem medo de onde isso possa te levar. E eu não quero que isso se torne um problema, que o medo seja o que te impeça de avançar. – o toque do homem era suave, mesmo por cima de todo o tecido; havia uma firmeza calculada, apenas para que ela entendesse que ele estaria ali, no momento em que ela precisasse. – Você mesmo disse que o que está em jogo é muito mais do que podemos contar. Tem certeza de que está pronta pra isso?
— Ninguém nunca está. – soltou um suspiro longo, colocando sua mão sobre a dele, ainda em sua cintura. – Mas não dá pra se esconder pra sempre, não quando o assunto diz respeito ao destino do mundo. – um sorriso discreto surgiu em seus lábios, enquanto ela fazia uma pausa rápida para acalmar seu corpo. O silêncio do ambiente misturou-se ao seu durante aqueles poucos segundos, enquanto ela reafirmava a própria ideia em um balançar de cabeça. – Eu lutei por causas piores, quando minhas ações prejudicavam pessoas. Se eu tenho a chance de fazer a coisa certa agora, de ter minhas próprias escolhas para ajudar e não destruir, eu não posso hesitar. É o nosso dever. E eu, tanto quanto qualquer outro daqui, jurei seguir… Independente de tudo.
Stephen estreitou os olhos, usando do silêncio para absorver melhor toda a situação. Talvez ele procurasse algum traço de incerteza, mas, no fundo, havia uma sensação reconfortante por saber que continuava com os bons princípios de antes da influência da Dimensão Negra. Apesar de tudo, Strange apreciava aquela firmeza na garota. Mesmo que as coisas estivessem críticas para o lado dela, nunca se negava a ajudar, como se ela carregasse um peso nas costas e quisesse se aliviar fazendo o que fosse preciso.
O homem soltou todo o ar pelo nariz, balançando a cabeça sob o olhar atento da garota a seu rosto.
— Parece que vamos ter que adiar aquela conversa, então.
Ela mostrou um sorriso com a afirmação, dando de ombros.
— Não teríamos terminado o dia conversando, de qualquer forma.
O sorriso de não durou muito tempo quando um barulho chamou a atenção dos presentes. Era constante, embora não intenso, parecendo se aproximar de forma lenta, com força o suficiente para causar uma estranha vibração abaixo de seus pés. uniu as sobrancelhas, um certo arrepio correndo por sua espinha enquanto sentia um leve vento balançar seus cabelos suavemente. Intrigada, a garota analisou o ambiente ao redor por alguns segundos, antes de avaliar a feição também intrigada de Strange, percebendo-o se afastar para encarar os outros três mais uma vez. O barulho gradativamente se misturava a outros, fazendo com que uma nota de desconfiança crescesse no semblante de Tony, que parecia buscar entender o que e de onde aquele estranho ruído vinha.
Stark estreitou os olhos, tornando a se pronunciar depois de alguns minutos em silêncio.
— Doutor, por acaso está mexendo seu cabelo?
— Não no momento, não. – respondeu ele.
E então, como se algo tivesse atraído aos cinco, eles se viraram para a grande porta da frente do Sanctum, observando uma movimentação estranha através das vidraças. O silêncio ali dentro era incômodo, talvez pelo fato de que o lado de fora fosse o cenário de algo, até o momento, indefinido. Correria para um lado, porém as vozes eram abafadas e todo o barulho do lado de fora não chegava cem por cento nítido ao interior do Sanctum, embora fosse audível tamanho tumulto. engoliu em seco, aquela mesma sensação de desconforto esmagando seu peito apenas com as possibilidades que passavam por sua mente. Ela não teve outra reação além de permanecer parada no primeiro degrau da escada, sentindo a respiração pesada enquanto assistia o bilionário Tony Stark ser o primeiro a caminhar em direção à porta.


GREENWICH VILLAGE
Nova York, 1h25 p.m.


— Ouçam-me e alegrem-se.
virou-se para observar o dono da voz, depois de socorrer uma civil presa em um dos carros, tendo um pouco de dificuldade em enxergar algo devido aos escombros, carros e os resquícios de poeira que ainda pairavam no ar. A grande e perigosa nave se encontrava planando sobre as ruas da cidade e, mesmo sem a movimentação de antes, a pressão que se fazia pelas estruturas metálicas girarem intensamente para se manter estática no ar causava ainda certo estrago nas construções ali próximas. As ruas eram uma zona, o barulho dos alarmes disparando e alguns gritos eram um dos fundos sonoros, muito embora fosse irrelevante comparado ao ruído agudo que a nave, ainda em movimento, fazia.
Comprimindo os olhos e adiantando alguns passos, conseguiu vislumbrar duas criaturas paradas no meio da rua, uma delas tendo o dobro do tamanho da outra, portando um grande e estranho machado; visualmente, ele passava uma sensação maior de ameaça, em razão de sua altura e toda a monstruosidade de sua aparência, grandes músculos eram encobertos por uma espécie de armadura acinzentada. O outro, incomparavelmente menor, tinha uma aparência medonha e franzina, da qual não conseguiu reparar muito bem devido a distância, mas não deixou de se intimidar ao perceber que aquilo era o que eles tanto queriam evitar.
Seu coração disparou em seu peito, todo aquele cenário contribuindo para aquele receio que preenchia seu interior de uma forma sufocante. Sua mente piscava com o alerta, sabendo que os problemas haviam chegado cedo demais. E tendiam a piorar. Todo o tumulto que a invasão causou, toda a onda de destruição e os rastros deixados para trás pareciam apenas o início de algo maior que ainda estava por vir. Tudo levava a esse caminho, afinal. E aquelas companhias eram a prova viva de que paz era algo distante naquele momento.
O maxilar dela trincou, escutando a voz da criatura franzina soar outra vez naquele ambiente caótico.
— Vocês estão prestes a morrer pelas mãos dos filhos de Thanos. – as mãos do alienígena uniram-se em frente ao corpo, enquanto ele abusava de uma paciência e superioridade diante dos quatro que se encontravam a poucos metros de distância. franziu o cenho, seus pés inconscientemente caminhando a passos lentos em direção ao grupo enquanto uma onda de apreensão lhe atingia apenas com a mera menção daquele nome. – Fiquem gratos por suas vidas insignificantes contribuírem para o equilíbrio…
— Foi mal, a Terra está fechada hoje. – Stark o interrompeu, uma nota de sarcasmo implícita na voz firme e até paciente do herói, que se encontrava um pouco à frente dos outros três, com uma postura que aparentava certa tranquilidade. – Arrumem suas coisas e se mandem daqui.
— Portador da Joia… – a criatura fingiu não se importar, ao dirigir a palavra a Stephen. – Esse insignificante animal fala por você?
— Certamente não. Eu falo por mim mesmo.
teria continuado a observar a cena se um grito de socorro não tivesse soado atrás de si, não muito distante, mas parecendo abafado por algo que ela buscou identificar quando se virou em direção a voz. Percorreu os olhos por entre os carros prensados um contra o outro, alguns parados no meio da avenida enquanto outros foram largados em cima das calçadas, caminhando por entre os escombros para encontrar um casal preso dentro de um carro, tendo o teto achatado por outro veículo em cima. correu, tentando inutilmente desemperrar a porta após conferir a que estado os civis estavam.
Agradeceu por ambos estarem conscientes, murmurando algo para que o homem que estava no banco do passageiro se proteger no exato momento em que usou o cotovelo para quebrar o vidro. Destravando a porta por dentro, a garota precisou usar de um pouco mais de força para abri-la; não tardou a retirar os dois das ferragens, com toda a delicadeza que conseguiu, enquanto um tumulto se iniciava a poucos metros dali. Ela teve apenas tempo de retirar aos dois, mas não conseguiu ajudá-los a se levantar quando algo passou ao seu lado, atingindo a lateral do carro que antes o casal estava. Seu tempo de reação apenas possibilitou que ela os empurrasse conjurando uma espécie de escudo, para então receber todo o impacto sobre si, assim que o veículo girou.
Suas costas colidiram contra outro carro estacionado não muito longe dali, emitindo um muxoxo dolorido, porém não estendendo o repouso ao visualizar a imensa e monstruosa criatura tentar acertá-la com o machado. se assustou, dando apenas tempo de cruzar os braços em um x e reforçar o escudo com a energia dimensional, conseguindo absorver o impacto do golpe, porém sendo arrastada para trás junto com o carro tamanha intensidade da pancada.
Grunhiu, a firmeza do escudo suportando apenas o ataque antes de se estilhaçar no ar em pequenos fragmentos cintilantes.
Evitando um segundo ataque, rolou por sobre o ombro quando o machado foi arremessado outra vez em sua direção, aproveitando o espaço para materializar uma adaga de energia dimensional e lançá-la à criatura. Cull Obsidian grunhiu de forma animalesca, desviando a sua arma com o punho fechado, novamente estilhaçando-a sem muita dificuldade no ar. soltou uma exclamação baixa, desacreditada. Não tardou a se colocar em pé, retirando o bastão que carregava às costas enquanto partia para cima do monstro duas vezes maior do que si. Ativando a lâmina em uma das extremidades, tentou a sorte para acertá-lo nos pontos que ela achou ter alguma vantagem, mas falhou nas diversas vezes em que o metal pontiagudo atingiu o casco daquela criatura. Conseguiu apenas afastá-lo alguns metros quando manipulou magia no ataque, percebendo sua arma se quebrar quando não resistiu as constantes golpeadas.
estalou a língua em frustração, largando o bastão, agora sem utilidade, em qualquer lugar.
Usou aqueles poucos segundos de paz para realinhar seus pensamentos. Seu corpo ainda se mantinha calmo, apesar das circunstâncias, assim como seu estado mental. Todo o treinamento e recuperação que tivera durante o último ano a ajudou novamente a equilibrar entre a emoção e a razão, permitindo que seu corpo conseguisse agir e superar certas dificuldades. O feitiço ainda era a principal barreira que ela temia quebrar, mesmo que soubesse todas as especificações para não fazê-lo. O poder estava em suas mãos, ainda assim, era difícil não temer que qualquer erro de seus poderes pudesse trazer consequências à sua vida. Talvez fosse o maior empecilho para seus avanços, mas era isso que a fazia balancear o uso de magia e não extrapolar, como teria feito naquele instante, sob a ameaça do filho de Thanos.
Paciência era uma dádiva e ela deveria saber usar isso a seu favor.
Um barulho chamou sua atenção, fazendo-a observar o tumulto que acontecia do outro lado ao perceber que a outra criatura prensava Strange no alto, contra a parede de um dos poucos edifícios ainda intactos. Um frio na barriga se alastrou, sentindo o maxilar enrijecer e uma tensão consumir seu corpo de uma forma instantânea. Ainda não tivera uma pausa para que pudesse absorver toda a situação e perceber a gravidade daquilo, sua única intuição era se livrar daquelas ameaças e proteger o que fosse necessário naquela ocasião. não se surpreendia por presenciar o ataque, porém admitia que aquele em específico a perturbava justamente por levar a um fim que eles tanto precisavam conter.
O grunhido animalesco do alienígena despertou sua atenção ao perigo mais uma vez.
Seu corpo entrou em um estado de alerta, não apenas para a sensação de ameaça diante de si, mas, principalmente, para o risco que acontecia a poucos metros de onde estava. Sua mente praticamente lhe implorava para fazer algo, como se o tempo fosse um inimigo naquele instante e lutasse contra cada um deles. Tentou acalmar o corpo com uma respiração profunda, colocando-se em posição de ataque quando Cull Obsidian fez menção em se aproximar, elevando o corpo em um salto em sua direção.
Unindo as duas mãos em frente ao corpo, deslizou uma das palmas sobre a outra até que elas apontassem em sentido contrário, logo direcionando-as abertas até a criatura que parecia pronta para atacá-la. Faíscas alaranjadas se juntaram para formar vários padrões geométricos centralizados em um círculo à frente de seus punhos, para então as tais formas se separarem e se alinharem um a frente do outro, enquanto ela trazia as mãos unidas para trás outra vez antes de impulsioná-las em um movimento mais forte, como se estivesse empurrando algo à sua frente. Os dentes rangeram enquanto assistia os padrões geométricos crescerem exponencialmente naquele feitiço, com força e energia o suficiente para que ela observasse a criatura ser arremessada a metros de distância.



GREENWICH VILLAGE
Nova York, 1h34 p.m.


Strange grunhiu ao sentir as costas colidirem contra a lataria de um carro, até chegar ao chão, rolando o corpo por mais um pouco até que conseguisse se colocar ajoelhado sobre o asfalto já destruído da avenida, com uma leve ajuda de sua capa. O mago fez um movimento rápido com os braços, os dedos médio e o indicador das duas mãos levantados de modo que o Olho de Agamotto se abrisse, permitindo que os círculos esverdeados provenientes da joia do tempo se espalhassem em torno de antebraço, mas não pudessem ser usados quando algo agarrou o seu pulso, impedindo de dar continuidade à ideia.
Resmungou baixo com o aperto, tentando inutilmente se desvencilhar, porém nem todo o esforço foi o suficiente para impedir que os cabos de aço conseguissem prendê-lo, prensando seus braços ao lado do corpo e o envolvendo até que rodeasse seu pescoço, fazendo-o ter certa dificuldade em respirar. Os olhos claros de Stephen analisando a feição determinada de Ebony Maw, o ar sôfrego escapando por seus lábios ao sentir o aperto se tornar cada vez mais forte conforme o filho de Thanos manipulava o metal em volta de seu corpo.
O mago chiou em consequência, a voz oscilando pela dificuldade de respirar com o metal ainda pressionando seu pescoço.
— Vai ver… que remover o feitiço de um morto… é bem complicado.
— Você vai desejar ter morrido.
E então, com um gesto simples com a mão para finalizar, o cabo de aço apagou o último resquício de consciência de Strange ao pressioná-lo contra o pescoço do homem, assistindo-o cair no asfalto, já desacordado. Levitando, a criatura utilizou da telecinese para retirar uma parte do concreto da rua onde Stephen estava, para carregá-lo até a nave que os esperava ainda pairando a poucos metros dali. Maw teria continuado seu caminho se não tivesse notado seu alvo se desprender das amarras de ferro dois segundos depois, observando-o disparar pelo ar e sumir por entre a fumaça e os carros. Ele rosnou enraivecido. Toda a ideia de seguir o mago e recuperar a joia fora interrompida quando algo passou raspando de atingir as costas da criatura, que teve de se concentrar em parar tal objeto ao erguer uma das mãos e perceber um brilho cintilante e alaranjado em forma de adaga pairar a poucos centímetros de si.
endireitou a postura, tentando normalizar a respiração intensa pela pequena corrida que teve até ali, enquanto encarava a expressão indiferente que surgia no rosto cadavérico e enrugado de Ebony Maw. Com um movimento brusco, sua arma improvisada de energia dimensional se fragmentou em milhares de pedaços ao tempo em que a criatura decidia pousar ao chão. Havia uma raiva se mostrando na forma como o filho de Thanos encarava a garota, o que não atingia em nada na postura determinada e ofensiva que ela adotou diante dele. O queixo ergueu-se minimamente, como se quisesse mostrar que ela não o temia apesar de tudo.
— Deveria desistir enquanto ainda há tempo, criança.
— E deixar o caminho livre pra vocês? – um fantasma de um sorriso cínico surgindo nos lábios dela. – Eu acho que não.
— O que te faz pensar que insistir trará alguma vantagem a meros mortais como vocês? – a paciência era exposta tanto no tom de voz quanto no comportamento ainda neutro do Maw, mesmo que a garota tivesse a sensação de risco a todo momento.
apenas deu de ombros, os lábios curvando-se para baixo como se não fizesse diferença.
— Não trazendo vantagem a vocês, o resto não importa. – ele mostrou sorriso medonho em desdém.
— Toda essa resistência que demonstram apenas me entendia.
— Bom saber. – ela arqueou uma das sobrancelhas, uma nota de desafio se mostrando evidente em seu rosto. – Porque eu não pretendo facilitar nenhum pouco pra você a partir de agora.
, então, não tardou a atacá-lo, conjurando uma espécie de laço e lançando-o até que conseguisse agarrá-lo pelo pulso, para logo puxar e trazer o corpo magrelo do alienígena a poucos metros de si. O plano parecia bom, até sentir o corpo dele colidir com o seu quando ele tomou impulso com ajuda da telecinese, empurrando-a até a superfície metálica mais próxima. resmungou ao sentir as costas se chocarem contra a lataria do carro, conseguindo manter o pulso da criatura presa mesmo com o impacto desconcertando-a por alguns segundos.
Ela inspirou com certa dificuldade, materializando a ponta de uma lança em torno de seu punho livre e direcionando-o até tórax do alien, com o máximo de força que conseguiu. Seu golpe sequer conseguiu acertá-lo, sendo bloqueado pelo antebraço dele durante as suas três tentativas. lamentou em um suspiro, não restando outra opção além de chutá-lo na região da perna, tendo que conjurar uma barreira de energia dimensional entre os dois para afastá-lo antes que sua situação piorasse. Com um pouco de dificuldade, ela conseguiu se desvencilhar da lataria do carro ao qual estava presa, sentindo o braço arder, mas nem se dando ao trabalho de conferir.
Fechou as mãos em punho, mal tendo tempo de se recuperar quando precisou desviar de um objeto lançado em sua direção. Rolou por sobre o ombro, aproveitando para disparar pequenas adagas de energia em direção ao alvo assim que pousou com uma das pernas flexionadas, ainda ao chão. Maw não tinha dificuldade alguma para desviar de seus ataques, pelo contrário, apenas demonstrava impaciência com suas tentativas frustradas. parecia sequer se importar com tal coisa, apenas movida pelo instinto e guiando seus passos até seu adversário outra vez, pronto para atacá-lo. Nem as dores que começara a sentir no quadril e nas costas conseguiam diminuir a intensidade de seus golpes, que apenas atingiam o ar ou tinham como alvo as paredes rachadas dos prédios mais atrás.
suspirou em cansaço, o punho esquerdo fechado materializou novamente a ponta de uma lança, da qual ela conseguiu acertar o filho de Thanos próximo ao rosto depois de falhar ao tentar socá-lo com o outro braço. Maw rosnou em sua direção, eliminando o resquício de paciência que ainda havia ao segurá-la pela gola do uniforme e, junto a ele, erguê-la a uma altura considerável do chão, sem que tivesse a chance de revidar ou se soltar quando atingiu uma altitude perigosa. A garota prendeu a respiração, o tom de choque atingindo sua face e revirando seu estômago apenas com a possibilidade de cair, fazendo-a inconscientemente se segurar naquela criatura, ainda irritado pela situação.
— Você é uma boa combatente. – a voz esganiçada do alienígena causou arrepios na garota. – Uma pena que se resume a isso.
Um grito ficou entalado na garganta da garota quando toda a firmeza que a impedia de cair se esvaiu. Ela sentiu seu corpo se soltar, sendo praticamente arremessada com um impulso forte em direção ao solo. até teria tentado amortecer a queda conjurando alguma coisa útil, mas o tempo e a posição com que caía apenas dificultaram em suas tentativas, não sentindo mais nada quando as costas finalmente encontraram o teto de um carro, antes de rolar o corpo e finalmente despencar ao chão.
Ela gemeu, uma dor dilacerando seu corpo enquanto mal conseguia se mover. Permaneceu no chão por alguns minutos na esperança de que pudesse aliviar todo aquele desconforto, grunhindo apenas com o ato de inspirar. Ainda assim, ela lutou contra aquela sensação ao se colocar em pé, uma das mãos indo de imediato à lateral da barriga, não evitando que alguns chiados baixos e doloridos escapulissem de sua boca. olhou para o céu, a expressão de derrota estampada em sua face ao perceber que Stephen estava sendo levado até a nave por um feixe de luz azul, que também parecia abduzir a um segundo indivíduo.
fechou os olhos com força e lamentou em um estalar de língua frustrado.
Porém sua frustração durou apenas poucos segundos assim que notou que o Manto da Levitação pairava ao seu lado. tensionou o maxilar, observando a capa vermelha flutuar graciosamente, como se esperasse que a garota tomasse alguma decisão. Ela apertou os lábios um contra o outro, sabendo o que aquilo significava. Por mais estúpido que fosse, ajudá-lo ainda era sua prioridade e não podia desmanchar a promessa que havia feito ao entrar no Kamar-Taj, ao aceitar aquela segunda chance. Strange tinha feito muito por si, admitia, mas salvá-lo naquela situação era uma questão bem maior do que os seus sentimentos por ele. Era seu dever como maga acima de todas as outras coisas. Daria a sua vida, se fosse necessário, para manter a joia longe de qualquer coisa que ameaçasse àquele mundo. E, naquele momento, muita coisa estava sendo ameaçada apenas com aquela possibilidade. Se havia alguma chance de reverter isso, por menor que fosse, não dava pra hesitar.
Com um aceno e um suspiro baixo, apenas se limitou a dizer enquanto sentia a capa se encaixar ao seu corpo:
— Você sabe o que fazer.



Continua...



Nota da autora: Originalmente, eu dividiria cada núcleo em 1 parte, ficando três capítulos no total, mas achei melhor dividir para que não ficasse muito longo. Então a parte na Terra foi finalizada, agora começa o núcleo do espaço (entre as cenas, alguns flashbacks da vida da pp!). Essa é a primeira vez que eu escrevo com Stephen Strange, então é bem possível que ele esteja um pouco diferente, mas espero que não esteja ruim (eu to um pouco nervosa por isso diasjdi).
Críticas, sugestões, xingamentos, reclamações, você irá me encontrar em @thxpunishr


Inspiração para o uniforme da personagem principal.





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