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Finalizada: 11/08/2020

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"Assim como toda noite tem seu amanhecer
Assim como todo cowboy canta sua triste, triste canção
Toda rosa tem espinho"

(Every Rose Has It's Thorn - Poison).

A sala está escura e a pouca iluminação que tem ali são das luzes nos postes do lado de fora. Eu nem deveria estar ali, mas eu estou, eu estou aqui para finalmente pagar aquela dívida e ir embora. Eu tenho uma dívida enorme com o Morgan, quer dizer o meu pai tem. Eu assumi aquela dívida quando ele morreu e agora dois anos depois eu finalmente estou indo fazer meu último pagamento. Meu pai se meteu com lutas ilegais e contrabando de armas, usando um moto clube local. Quando ele morreu, foi uma queima de arquivo, ele sabia demais e não tinha como se proteger, eu sempre soube disso. Depois de sua morte repentina, os donos do moto clube e chefes do meu pai, me colocaram para pagar a dívida que ele tinha deixado, uma dívida que ele não teve como pagar em vida e não terá como pagar na morte. Eu assumi aquela dívida para proteger minha mãe e minha irmã mais nova, os caras nos ameaçaram e com a arma apontada para minha mãe, eu me vi obrigado a entrar naquele mundo, então eu me vi cara a cara com a obrigação de manter minha família em segurança. Eu fui jogado aos leões e acabei caindo nas lutas ilegais. Eu tive que vencer todas as lutas e o dinheiro que eu consegui, vai todo para o Morgan. A cada luta ganha, eu me vi cada vez mais perto de me livrar daquela dívida que o meu pai deixou e que acabou me prendendo em um mundo sombrio e perigoso.

Morgan está sentado em sua luxuosa cadeira de couro, com um charuto nas mãos ele me encara com o olhar surpreso, acho que ele não esperava que eu voltasse com todo aquele dinheiro. Ele me olha de cima a baixo, sorrindo ele me orienta a sentar a sua frente e me oferece um de seus charutos. Eu recuso, pego o envelope com a grana e o coloco no centro da mesa. Os capangas de Morgan me olham com a cara fechada, eles estão ali apenas esperando que eu faça alguma merda, para me colocarem pra fora. Mas eu não farei isso, apesar de tudo, durante esses dois anos o Morgan criou afeto por mim e me protegeu mesmo que tenha sido com o intuito de proteger a sua fonte de renda. Respiro fundo e encaro o homem a minha frente em silêncio, eu estou a tempo demais nessa sala e eu só quero sair daqui o quanto antes. Morgan me encara com um sorriso de meios lábios, tragando mais uma vez seu charuto ele orienta que os capangas saiam da sala, ele quer ficar sozinho comigo, na hora do pagamento ele não deixa ninguém ficar. Morgan não confia em ninguém quando se trata de seu dinheiro. Ele abre o envelope, olha o que tem dentro e então fecha o envolpe, guardando o conteúdo em um cofre.

— Dessa vez você não voltou tão machucado. — Morgan me olha e sorri.
— Estou com duas costelas fraturadas e um olho roxo. — Faço uma careta.
— Sua dívida está paga Kevin, você está livre agora.
— É estranho, mas vou sentir falta das lutas. — Entorto os lábios e o encaro.
— Para onde pretende ir agora? — Morgan diz enquanto se serve de um copo de uísque.
— Vou escolher alguma cidade qualquer e recomeçar, esquecer meu passado e seguir em frente. — Respondo.
— Já que você cumpriu suas responsabilidades e honrou seu compromisso comigo, eu lhe entrego a sua nova chance de recomeço. — Morgan abre uma gaveta e da lá retira um envelope.
— Não precisa Morgan, eu dou o meu jeito. — Respondo, devolvendo o envelope.
— Aceite logo rapaz, é o meu jeito de dizer obrigado. Nesse envelope tem dinheiro suficiente para o seu recomeço e o telefone de alguém que se você precisar, vai ajudar.
— Certo, muito obrigado, Morgan.

Eu assinto e sorrio para Morgan, pegando o envelope em minhas mãos eu saio daquela sala escura e abafada. Do lado de fora daquele galpão, eu sigo até minha moto que está estacionada e abro o envelope, dentro dele tem pelo menos uns dois mil dólares e uma identidade nova. Partindo em busca de um novo lar, dou adeus a minha vida antiga. Essa noite, Kevin Walker morreu e nasceu. Levo comigo apenas o envelope de Morgan e uma mochila com minhas roupas, não preciso de muita coisa, eu só preciso seguir a estrada e não me importa onde vou parar. Por enquanto, eu quero apenas recomeçar e deixar todo meu passado morto e enterrado.

Capítulo 01

House Of The Rising Sun


Estaciono a minha moto em frente a uma casa no fim da rua que eu comprei em um leilão e paguei apenas seiscentos dólares. A casa precisa de reforma, mas tem potencial com um tamanho bom e com a reforma, ela ficará ainda melhor. No andar de cima eu farei dois quartos, um pra mim e outro pra minha mãe e minha irmãzinha. Essa é a minha nova chance, e eu não vou deixar nada atrapalhar, aqui eu vou me reconstruir e me tornar uma pessoa melhor. Meu telefone toca e na tela mostra que é uma ligação de minha mãe, mas não posso atender ainda, não antes de estar tudo pronto. Desligo o celular e sigo para o centro da cidade onde vou comprar os materiais para reformar minha casa.

Do lado de fora da loja de construção, um grupo de meninas fazem roda em volta de dois meninos que estão brigando e aquilo me deixa nostálgico, eu sinto falta de lutar, de socar alguma coisa para extravasar. Paro alguns segundos depois de sair da loja e olho aqueles dois lutando, um deles leva um soco no olho e cai no chão, o segundo se vangloria e é declarado vencedor. Parado ali, encostado em minha moto eu fico encarando aquele grupo de meninos, que devem ter idades entre quinze e dezoito anos, mas que parecem estar conectados de alguma forma. Eu lutei ilegalmente por dois anos, mas eu amo a sensação de lutar e ser campeão. Um dos garotos me olha diretamente e me encara de uma maneira que eu não gosto, então eu ignoro aquele cara e acendo meu cigarro. Segundos depois, o garoto está na minha frente, me olhando torto.

— Você é novo aqui na cidade. — O garoto diz, me olhando de cima a baixo.
— Sou. — É tudo que eu respondo.
— Saiba que tudo que acontece nessa cidade passa por mim antes, estamos entendidos? — O cara diz e pega meu cigarro, tragando.
— Cara, na boa, eu não quero confusão. — Pego meu cigarro de volta.
— Estamos entendidos então, e você está avisado.
— Ok, eu posso ir embora agora? — Pergunto.
— Pode. Mas, saiba que se você saiu daqui com a cara limpa é porque eu, Andrew Young, deixei.

O tal Andrew me encara mais alguns segundos e depois sai agarrando a menina que está com ele, seguindo na direção contrária. Eu mal cheguei aqui e já estou me metendo com pessoas que não devo, talvez eu deva pegar minha moto e partir para outra cidade, tudo que eu quero aqui é me manter em paz e sem me meter em confusão. Antes de eu sair de volta a minha casa, um cartaz pequeno colado ao lado da porta da loja me chama a atenção, é um cartaz chamando todos para a eliminatória de boxe do campeonato local. Olho para aquilo com uma única certeza, aqui será o meu novo lugar, será minha nova casa. Pego o cartaz e saio de lá, com o sentimento de que finalmente eu estou recomeçando. Dessa vez, não seriam lutas ilegais com a chance de eu ser preso ou de morrer, agora era uma luta legal, um campeonato de verdade e a minha chance de consagrar o nome de nos octógonos desse estado. Essa é a chance de eu conseguir uma grana para pagar o dinheiro que o Morgan me deu, porque tudo que eu não quero é que me cobrem esse dinheiro, então eu faço questão de devolver. Eu vou ganhar meu próprio dinheiro e trazer a minha família para morar comigo.

Um mês depois e minha casa ficou pronta, agora eu posso finalmente receber minha mãe e a Violet, estou morrendo de saudades da minha garotinha. Olho para o papel que marca as eliminatórias do campeonato de boxe e ajeito minhas coisas, está na hora de começar a escrever meu futuro. Antes de sair de casa, eu ligo e deixo um recado para minha mãe, falando meu endereço e dizendo que as espero com ansiedade. Minha vida está começando a caminhar bem, agora eu posso receber minhas meninas e vou ganhar meu próprio dinheiro. Estou começando a deixar todo aquele passado de crime, de lutas ilegais, de contrabando para trás e começo a me acostumar com a ideia de que agora me chamo e não mais Kevin Walker. Olho para o meu passado, que está guardado em uma caixa lacrada e escondida, tudo que tem ali agora está morto e enterrado. Essa cidade é meu recomeço, eu vou reconstruir minha vida com dignidade e de cara limpa, longe de toda aquela merda do moto clube, longe do Morgan e dos capangas dele, longe do contrabando de armas, longe de tudo. Isso agora é passado e passado tem que ficar no passado. Eu não sou mais aquele cara que se metia em crimes pesados para pagar uma dívida, eu não era mais aquele cara que fazia todos a minha volta chorarem quando eu me arrebentava em uma luta ilegal ou quando deixava todos preocupados, sem saberem se eu voltaria vivo para casa. Aquele Kevin Walker morreu e ele morreu porque era necessário acabar com todo o mal que causei a aqueles que eu amava. Agora eu sou o , o cara novo em uma cidade nova, sem passado e sem sombras nas costas.

Eu escolhi essa cidade justamente por ser longe de tudo, pois, não tem como ninguém me achar aqui, se eu não quizer. O Fischer e os homens dele não vão me achar, a cidade de Sunnydale, é uma cidade ao norte da Califórnia, ou seja, bem afastada de tudo e todos. Eu a escolhi por ser bem afastada e por ter apenas quinze mil habitantes, me trazendo assim um certo conforto e a segurança de aqui eu vou ficar bem escondido. Aqui não tem moto clube, não tem traficantes de drogas e nem lutas ilegais, a cidade é ótima, bem monótona e calma e se tem eu não percebi. Tem alguns caras que parecem mandar por aqui e talvez seja por isso que a cidade é tão calma. Um deles é aquele cara do estacionamento, o tal do Andrew Young. E o vi algumas vezes pelas ruas, em atitudes suspeitas, mas ignorei, aquele cara não foi com a minha e eu não quero confusão com ninguém. Tudo que eu não quero é alguém me pesquisando ou me investigando, eu quero apenas seguir com minha vida, ganhar meu dinheiro e construir minha carreira no boxe de maneira discreta e sem alvoroços.

E falando no tal do Andrew, lá está ele, me encarando de cara fechada assim que chego na academia de boxe. Parece que ele é um dos competidores daquela eliminatória e eu aposto que vai ser com ele a minha luta, eu só rezo para aquele cara não encrencar pro meu lado, porque eu não quero ter que quebrar a cara de ninguém que não seja legalmente. Andrew parece aqueles caras de cidade de interior, que entra para uma gangue com um único propósito, ganhar as menininhas do colégio local. Na real que isso não me importa, porque eu tenho que focar em ganhar aquele eliminatória e passar para o campeonato. Leio o quadro de avisos e seleções, e cheque mate, lá está o meu nome ao lado do Andrew marcando a próxima luta. Me dirigo ao vestiário para me preparar e estou quase pronto quando escuto tocar o sino que anuncia a minha entrada no octógono, mas antes de sair dali e seguir meu caminho, eu avisto Andrew do outro lado, se sacudindo e se preparando. Ele tem um porte físico bem mais preparado que o meu, só que eu tenho o sangue das ruas na veia, eu tenho a veia de lutador que me permiti ganhar qualquer luta, então será fácil ganhar. Olho uma última vez para o meu adversário, e entro no octógono, logo depois ele entra também e me encara bem nos olhos. Os olhos dele estão negros e eu posso sentir seu desprezo por mim. Parece que pra ele, ganhar isso também é importante, mas essa luta só tem um campeão e esse um será eu, .

Alguns socos depois e eu sou declarado campeão, o que me deixa dentro do campeonato e elimina o Andrew. Minha visão é turva e meu nariz dói, mas eu consigo ver que estão todos me olhando, curiosos para saber quem eu sou e como eu consegui derrotar aquele que parece ser a maior aposta da cidade. Os olhares curiosos dos jurados me encaram sérios, um deles se levanta e me parabeniza por ter ganho e por estar no campeonato estadual. Saio do octógono um tanto machucado, sigo de novo para o vestiário e assim que entro eu posso sentir a respiração ofegante. Andrew me encara furioso, como se soubesse de todas as minhas sombras e espinhos.

— Só vou te avisar uma vez , você não vai se criar nessa cidade. — Andrew me encara e cospe em minha direção.
— Foi uma luta justa e eu ganhei, não tenho medo de suas ameaças. Eu nem te conheço. — O encaro da mesma forma.
— Você vai me pagar por essa vergonha que me fez passar na frente de todos. — Andrew rosna algo e se aproxima.
— Eu já disse que não tenho medo das suas ameaças, moleque. — Eu digo encarando os olhos dele bem na minha frente.
— Pois acho bom ter medo, vou fazer de tudo pra sua vida se ruir daqui pra frente. — Ele rosna mais uma vez e sai de lá, deixando tudo me absoluto silêncio.

Eu sinto aquela ameaça bater com força em meu corpo, bem mais do que os socos que eu levei. Eu odeio ser ameaçado, eu fui ameaçado a minha vida inteira, eu vivi com medo do que podiam fazer comigo e minha família, ameaça é uma coisa que eu não tolero, mas se aquele cara acha que eu vou abaixar minha cabeça diante das suas ameaças, ele se enganou. Eu não quero mais fugir por conta de ameaças a mim, eu parei de fugir faz tempo e dessa vez eu vou ficar e enfrentar o que vir pela frente, eu vou lutar e vou vencer. Não vai ser um carinha metido a valentão que vai me amedrontar, eu escolhi viver aqui e vou fazer de tudo para minha vida ser feliz, longe de toda sombra que meu nome antigo carrega. Eu já não tenho mais medo de ameaças e as ameaças de Andrew não são nada, eu lidei com ameaças muito piores ao longo da minha vida. Agora é o momento de enfrentar e de lutar pelo que eu quero, deixando bem claro que eu vim para ficar, atribuindo assim um novo significado ao nome que eu escolhi, bem diferente da sombra que acompanhou o nome Kevin Walker a minha vida toda.

Eu arrumei um emprego de auxiliar em uma oficina mecânica, o que me deixou bastante animado já que agora eu terei o meu dinheiro, sem precisar arrebentar a minha cara para conseguir isso. O dono da oficina, é um velho senhor de quase setenta anos, que atende pelo nome de William. Ele precisa de um auxiliar e eu de um emprego, eu comecei a trabalhar e aquilo me deu uma alegria enorme, agora sim eu vou poder trazer minha família em segurança e conforto. Aos poucos estou conseguindo reconstruir minha vida, com trabalho, dedicação e força de vontade. Nas minhas horas vagas eu consegui alugar um espaço na academia de boxe para treinar, o campeonato será em um mês e eu tenho que vencer, o prêmio total é de cinco mil dólares mais um contrato profissional.

Capítulo 02


Minha mãe e Violet chegaram na sexta, eu as recebi com uma mesa cheia de comida gostosa e com o quarto delas já pronto. Annie e Violet são as duas coisas mais importantes da minha vida, tudo que eu faço por elas ainda é pouco, elas merecem o céu, a terra e tudo que existe. Minha mãe, Annie, é uma mulher batalhadora e sonhadora, ela me teve quando tinha apenas quatorze anos, ela foi estuprada e acabou engravidando. Todos os dias eu agradeço aquela mulher maravilhosa, por ter me dado a chance da vida, já que ela poderia ter me abortado quando descobriu que estava grávida. Ela casou com o Duffy quando eu tinha dois anos de idade e ele foi um homem bom para ela, só que as atividades ilegais dele anularam toda a sua bondade, pois, a partir do momento que ele colocou minha mãe em risco, ele se anulou. Violet nasceu quando eu tinha dezessete anos e se tornou a luz da minha vida, o meu fio de esperança no meio daquele caos todo. Duffy morreu quando a Violet completou seis anos e desde então ficamos só nos três, lutando todos os dias para sobrevivermos em meio aquele mundo cruel. Matando um leão por dia e enfrentando o caos que o meu pai deixou, a gente seguiu a vida, um dia após o outro, se apoiando e se amando.

As duas são o maior amor da minha vida, são tudo que eu tenho e tudo pelo que eu tenho lutado esses anos todos. Violet é uma garotinha maravilhosa, inteligente, esperta, bonita e carinhosa, ela sabe te dar amor sempre que você precisa e luta todos os dias para fazer minha mãe sorrir. Violet e minha mãe são duas mulheres maravilhosas, uma é a mulher mais guerreira que eu conheço e a outra é a minha garotinha, dona do sorriso mais lindo do mundo. Por elas que eu lutei esses anos todos, foi por elas que eu entrei naquele mundo sombrio, foi por elas que eu venci cada luta e foi por elas que eu ganhei cada olho roxo, cada costela fraturada, cada arranhão e cada cicatriz que eu carrego. Eu fiz tudo isso por elas duas, então não tenho do que me arrepender. Violet abre o maior sorriso em seus lábios pequenos quando encontra o enorme urso de pelúcia em cima de sua cama, ela corre e o agarra com seus bracinhos magrelos, pulando de alegria ela roda pelo quarto todo com o urso pendurado. Minha mãe enche os olhos de lágrimas quando encontra a sua cama arrumada, logo abaixo da janela. Ela me abraça e beija o topo da minha cabeça, agradecendo por todo aquele conforto que eu ofereci as duas. Minha mãe me olha com aqueles olhinhos brilhando e eu abraço bem forte, enquanto Violet também sorri feliz com a sua caminha ao lado da mamãe. Violet fora sempre acostumada a dormir com nossa mãe, sempre fora assim, desde quando morávamos naquela casa na antiga cidade. Eu corro e abraço Violet, prometo a ela que a nossa vida será diferente agora e que eu não vou mais voltar machucado para casa, ela sorri e leva as mãos pequenas ao meu rosto, me abraçando ela suspira e deita a cabeça em meu ombro, dizendo que me ama. Naquele momento eu suspiro e garanto a ela que a amo também, garanto que ela é a coisa mais importante da minha vida e que eu farei de tudo para vê-la sorrindo, sempre.

— O Morgan morreu, semana passada. — Minha mãe diz, enquanto arruma suas coisas no armário.
— Você tá falando sério? — A questiono.
— Sim, parece que foi morte encomendada. — Mamãe fala enquanto eu a ajudo a dobrar suas roupas.
— Igual ao Duffy... — Eu sussurro a ela que faz um sim com a cabeça. Violet está no quarto e eu não quero tocar no nome do pai dela.

Duffy foi meu pai também e as vezes eu esqueço disso, eu esqueço que ele fora meu pai, que fora ele quem me criou e me ensinou tudo que eu sei sobre a vida, eu me esqueço que foi por causa dele que eu manchei meu nome e que carrego aquelas sombras, esqueço que foi por ele que eu entrei naquele mundo perigoso. Duffy assumiu minha mãe quando ninguém queria assumir, ele me deu todo amor e carinho que só um pai pode dar. Ele me apoiou, me ensinou e deixou a coisa mais importante do mundo pra mim, a coragem. Eu o amei com um filho ama um pai e amaria muito mais se ele estivesse vivo. Eu só esqueço as vezes de chamá-lo de pai e já me acostumei com isso, mas minha mãe não, ela insiste em me lembrar que o Duffy é o meu pai.

— Igual ao seu pai, Kevin. — Ela me corrige.
— O que tem o papai, mãe? — Violet pergunta, ela brinca com suas bonecas em um cantinho do quarto.
— Nada meu amor, brinca com a suas bonecas que isso é assunto de adulto, tá? — Eu digo a ela que concorda e sorri.
— Tá bom, vou descer e pegar sorvete. Posso? — Violet me questiona, eu digo que sim e ela sai do quarto nos deixando sozinhos.
— Eu me chamo agora mamãe, o Kevin não existe mais. — Volto a olhar para minha mãe.
— Eu acho isso uma idiotice, mudar seu nome. — Mamãe balança a cabeça e me olha.
— O meu sobrenome é , eu escolhi o sobrenome do pai. — Eu sorrio e ergo meus olhos pra ela.
— Que atitude nobre meu filho, prometo que vou tentar me acostumar com seu nome novo. — Ela sorri e se senta ao meu lado, me abraçando.
— Mas e a morte do Morgan? Como isso aconteceu? — Pergunto.
— Eu não sei dizer, foi tudo muito estranho, parece que ele foi morto pelos Bullets. — Ela suspira e me faz um carinho.
— Fischer voltou pra cidade então. — Eu digo e olho para um ponto qualquer.
— Voltou, mas não estamos mais lá meu filho, isso agora é passado. — Ela beija o topo da minha cabeça, de novo.
— Sim minha mãe, Morgan, Fischer, os Ravens e os Bullets são passados. — Me aconchego no abraço dela.
— Eu gosto dessa cidade nova filho, ela parece ser boa para nós recomeçarmos. — Ela suspira.
— É sim.

Saber que o Fischer está de volta e que matau o Morgan, causa um certo desconforto em meu peito, eu não quero que meu passado me encontre, não quero que aquela merda toda chegue as minhas meninas de novo, eu não posso deixar que elas sintam aquela sombra na vida delas outra vez. Tudo que eu quero é fazer elas sorrirem, todos os dias, é fazer elas se lembrarem de que a vida pode ser bonita, que a vida não é aquele mar de sangue que existia em Ray, tudo que eu quero é que elas sejam felizes. A sombra dos Ravens é passado e tinha morrido junto com o Morgan, exatamente como tinha de ser. Eu até senti um pouco de pena pelo Morgan, afinal de contas ele me ajudou bastante, do jeito errado dele, mas me ajudou, mesmo que tenha sido para garantir a grana dele. O Morgan me ajudou quando eu precisei, me deu essa chance de recomeçar e eu não vou deixar que o sangue dos Bullets chegue a minha nova casa, destruindo tudo que estou lutando para conseguir, isso nunca mais vai acontecer. O sangue dos Bullets vai ficar onde tem de ficar, nas ruas de Ray.

Quando eu entrei para os Ravens há dois anos, eu entrei pelo meu pai e pela dívida dele, mas eu também entrei porque era um jeito fácil de juntar dinheiro e poder garantir o futuro das minhas meninas. Os Ravens, são uma gangue de motoqueiros que agenciam lutas ilegais e lidam com o contrabando de armas, fazendo das ruas de Ray o verdadeiro inferno, ou paraíso, para aqueles que são adeptos. Os Bullets, são uma gangue antiga e a maior rival dos Ravens, eles lidam com coisa barra pesada, como tráfico de drogas, prostituição, assaltos e tentam roubar o contrabando de armas dos Ravens. A gangue é liderada pelo estúpido Derek Fischer, um cara barra pesada que está envolvido com prostituição infantil, aliciamento de menores e tráfico de cocaína na cidade, fora os desvios de dinheiro que ele faz para alguns figurões do governo, é um cara que gosta de ver sangue e não mede esforços para isso acontecer.

Os Ravens foram liderados pelo Pete Morgan, um cara que gostava de ver briga e ver sangue - mas só nas lutas - ele começou o ramo de lutas de rua ilegais para mascarar o contrabando de armas, mas aquilo acabou ganhando fama e virou uma coisa grande, atraindo assim o olhar de muita gente. Morgan liderou as lutas e o moto clube por doze anos e agora que ele morreu, o filho Alec deve assumir seu lugar e tomar a frente dos negócios ilegais do pai. As duas gangues disputam espaço em Ray durante anos, uma de cada lado, tentando conquistar seus territórios, marcar seu nome e isso é algo que vai continuar até uma delas cair.

Os Ravens ficavam do lado direito do rio Sanders e os Bullets do lado esquerdo, só atravessando quando tinham contas a acertar, o que aconteceu algumas vezes quando eu ainda morava lá. O Morgan me protegeu durante dois anos dos Bullets, garantindo assim que eu poderia pagar a dívida de meu pai, centavo por centavo. Em dois anos, eu me vi no meio daquele sangue todo, onde pessoas apareciam mortas quase todos os dias, onde as mulheres viviam com medo de andar pelas ruas e onde eu vi meninas adolescentes se prostituindo, o que sempre me levou a pensar na Violet crescendo no meio daquela merda toda e foi por isso que eu lutei, eu lutei para tirar minha irmã e minha mãe daquela merda toda, eu lutei todas as vezes para garantir que a Violet não seria mais uma das meninas que o Fischer aliciava. Eles podem fazer o que querem comigo, mas na minha irmã e na minha irmã ninguém toca, ninguém encosta um dedo e isso eu aprendi com meu pai. Aprendi a sempre dar a minha cara para bater e não as da minha mãe e minha irmã, meu pai me ensinou que se era pra bater que batessem em mim, porque nenhum homem pode bater em mulher. Nenhum.

Aquela merda toda das gangues afetava bastante a vida de todos, sempre causando desconforto e machucados em todos que os cercavam. Foi por isso que eu saí de Ray e procurei uma cidade longe para recomeçar minha vida, porque aquela cidade estava em ruínas e ficaria pior agora com a volta do Fischer no pedaço. Ele esteve preso depois da morte de um comerciante que devia pra ele e acabou pegando seis anos de cadeia. Ele já estava preso quando eu entrei para os Ravens, toda aquela merda já acontecia bem antes da minha entrada, aquilo já acontecia desde a época do meu pai, acontece que com o Fischer preso, os seus homens tomaram conta de tudo e aí quando ele saiu, ele matou o único homem que o afrontou. Morgan morreu porque foi ele quem denunciou o Fischer na época, mas agora com certeza que o matou não foi o Fischer, ele tinha seus homens para fazer isso, sem precisar sujar as mãos de sangue uma outra vez. Mas, agora com o Fischer de volta, o pesadelo tomaria contas das ruas e o sangue voltaria a pintar os muros da cidade.

Capítulo 03


Minha mãe ficou bem preocupada quando eu liguei e pedi para ela e Violet virem até Sunnydale, ela achou que eu estava metido em mais uma encrenca, mas eu a surpreendi quando disse que elas iriam morar comigo. Dessa vez não era nenhuma encrenca, o filho dela tinha conseguido uma casa nova e finalmente elas poderiam ter o sossego que precisam. Ela me olhou durante aquele jantar e sorriu, minha mãe sabe que eu estou feliz com ela ali do meu lado, ela sabe que ter ela e a Violet do meu lado me acalma e é isso que eu amo em minha mãe, eu amo isso dela me conhecer apenas pelas minhas expressões. Ela lavou a louça do jantar e colocou a Violet para dormir e eu olho pra ela, que expressa um sorriso de felicidade nos lábios. Minha mãe me olha e então vem até mim, que estou sentado na varanda de nossa casa, ela passa a mão em meus cabelos e me faz um carinho gostoso. Era disso que eu sentia falta, do carinho e do conforto de minha mãe. Ela é meu porto seguro, meu ponto de paz.

— Porque você não sai dar uma volta, filho? — Ela me questiona.
— Ah sei lá mãe, quero ficar invisível aqui, então pra mim tanto faz. — Respondo me agarrando em seu braço.
— A noite aqui é linda filho, olha esse céu. Acho que você devia sair e respirar um pouco, eu a Violet vamos ficar bem. — Ela diz enquanto beija minha cabeça.
— Não sei mãe, acho melhor não.
— Filho, você precisa achar seu caminho e viver, se não seu esforço todo foi pra nada. E além do mais, sua moto precisa sentir a rua de novo.
— Você fala igualzinha a uma mulher de motoqueiro mesmo. Eu já disse que te amo, mãe? — Ergo a cabeça e olho pra ela que me abraça forte.
— Eu também te amo meu filho. Agora vai.
— Tudo bem, se a senhora insiste, eu vou. Mas olha, qualquer coisa me liga que eu volto correndo, ok? — Pisco para ela que me abraça de novo.
— Não, por favor, sem correr. — Ela brinca e caímos na risada.

Seguindo o conselho de minha mãe, eu pego minha moto e saio um pouco de casa, eu preciso mesmo me distrair e começar a viver aqui nessa cidade, se não todo esforço que fiz pra chegar aqui vai ter sido em vão, minha mãe tem total razão nisso. Ela tem razão também em dizer que a noite aqui é linda, porque é mesma, tenho essa certeza quando olho em frente e vejo a lua brilhando sobre minha cabeça. Encosto minha moto na frente de uma placa que diz "bar do barba de bode", com aquele nome o lugar deve ser perfeito para uma distração. Entro no lugar com a sensação de que a noite naquela cidade não era de todo ruim, eles têm um bar que é onde toda a galera se reúne as sextas para beber, conversar, e se divertir. Percebo logo de cara que o lugar está cheio, constando assim a minha teoria de é esse bar onde as coisas acontecem de verdade. Me sento em uma das poucas mesas vazias em um canto qualquer, em poucos segundos uma garçonete usando patins me atende e eu peço uma garrafa de cerveja. Minha mãe tem razão, eu preciso sair e me encontrar, preciso distrair minha cabeça e deixar que o vento desenrolar aquela tempestade que é minha vida. Alguns goles depois, escuto alguém anunciar uma banda que irá tocar ao vivo, me recosto melhor na cadeira e aprecio a bela entrada daquela banda, que são apenas de mulheres, todas lindas e bem talentosas. É, o bar do barba de bode acaba de se tornar meu lugar favorito nessa cidade.

Em uma das mesas a minha frente, consigo ver o tal do Andrew sentado entre alguns outros garotos, enquanto por debaixo da mesa, alguns saquinhos do que eu deduzo ser metanfetamina são passados de mão em mão. Me escondo atrás de uma pequena pilastra que há perto da minha mesa e analiso aquela cena a minha frente e sem ser percebido por ninguém eu gravei cada detalhe dos pacotinhos, pois, se tem algo rolando nas ruas de Sunnydale era meu dever como morador novo saber. Os pacotinhos passam de mão em mão até que chegam no balcão do bar e uma das garçonetes pega um, colocando o entre seus peitos. Pelo jeito a atividade comandada pelo tal do Andrew é grande e bem arquitetada, já que ninguém percebeu nada naqueles dois minutos em que toda ação aconteceu. Olho para aquilo com uma certa curiosidade em saber, como que uma cidade tão isolada e tão pequena assim, trabalha com metanfetamina sem ninguém ter conhecimento? Talvez tenha alguém mais importante por trás, e talvez eu tenha que conhecer esse chefe, já que eu quero manter a minha família em uma cidade segura e que de preferência não tenha metanfetamina rolando pelas ruas, isso é o mínimo que devo fazer. Não quero confusão nem nada, quero apenas garantir a segurança das minhas meninas e a minha é claro.

Mas, parece que o tal do Andrew não encara dessa forma, pois, no segundo seguinte o vejo andando em minha direção, com mais dois ao seu lado ele me encara e então aponta para mim. Tudo que eu não quero é brigar e me meter em confusão, por isso eu decido ficar na minha e saio do lugar, deixando claro que minha presença ali deve ser ignorada. Do lado de fora do bar eu paro ao lado de minha moto e acendo um cigarro enquanto contemplo a visão do céu diante de mim. Minha vida não será fácil com esse cara no meu pé, eu preciso sair por aí e recomeçar minha vida, mas parece que a ameaça dele foi bem séria e pelo visto seria bem extensa também, me privando até de quem sabe sair nas ruas.

— Não liga pro Andrew não, ele não sabe o que faz. — Escuto uma voz me chamar e percorro o lugar para ver de onde vem.
— E você quem é? — Pergunto, assim que voz toma forma e surge em meu campo de visão.
— Paxton Jones. — O menino de cabelos loiros e encaracolados me encara.
— Você o conhece? — Pergunto tentando manter uma conversa.
— Sim, ele é meu amigo. Quero dizer, estudamos juntos. — Paxton responde e se aproxima, parando ao meu lado.
— Parece que ele não gosta de estranhos, ou de recém chegados. — Dou um sorriso e apago meu cigarro.
— Não é isso, é que o Andrew não lida muito bem com mudanças. Você é novo aqui e novidade sempre traz mudança. — Paxton indaga a mim, atraindo assim a minha atenção.
— Eu não quero incomodar ninguém. — Olho para ele que me encara com o semblante curioso.
— Você não incomoda ninguém, até porque a cidade é aberta a quem quiser vir e se chegar.
— Então porque ele se incomoda tanto? — O questiono.
— Porque pro Andrew essa cidade vale muito, mas para todos nós, o resto mortal, aqui é só uma cidade no fim do mundo. — Paxton responde balançando os ombros.
— Bom, eu pretendo ficar aqui um bom tempo, então vou ficar bem longe do seu amigo. — Respondo e subo em minha moto.
— O Andrew logo acostuma, fica tranquilo. E bem vindo a cidade.
— Valeu cara, agora vou nessa. — Eu digo e viro a chave na ignição.
— Até cara, e se cuida. — Paxton faz um aceno com as mãos e retorna para dentro do bar.

Sigo com a minha moto pelas ruas de Sunnydale, sentindo o vento bater em meu rosto e essa sensação é a melhor do mundo. Algumas ruas depois, paro com a minha moto em uma espécie de morro, de onde eu posso ver a cidade toda. Me sento ao lado da moto e fico contemplando aquela vista maravilhosa, a cidade toda acesa, o único barulho que escuro é do trem que geralmente passa naquele horário. Olho para o céu e conto todas das estrelas que consigo ver, respiro fundo e deixo que o pulmão se abra, o meu coração se acalma quando penso que escolhi um lugar tão bonito assim para recomeçar minha vida. Agradeço por ter essa nova chance, e eu queria mesmo era agradecer ao Morgan por ter me dado essa oportunidade, então eu olho pro céu mais uma vez e converso com ele. Digo a ele que eu nunca poderei agradecer o suficiente por tudo que ele fez por mim, que mesmo do jeito errado dele eu era agradecido por tudo, digo que vou honrar aquela nova chance e que ele foi o único que acreditou em mim e no meu potencial. Eu vou honrar meu nome aqui e o nome do Morgan, ele foi como um pai para mim também, do mesmo jeito que o Duffy foi, desde que casou com a minha mãe. Eu não agradeci o suficiente quando o Morgan era vivo, mas agora eu farei isso e todos os dias eu vou vir aqui agradecer.

O telefone que ele me deu antes de eu sair de Ray era do seu filho mais velho e que se eu precisar irá me ajudar, eu ainda não preciso de ajuda, mas se eu precisar eu ligo pra ele na hora. Morgan e seus filhos me acolheram quando meu pai morreu, mesmo que tenha sido com aquele propósito de garantir a grana deles, eles me acolheram como se eu fosse da família. Eu não posso os culpar, afinal foi o meu pai quem deixou aquela dívida monstruosa. Foi o meu pai que desviou as armas e roubou nas lutas ilegais, a culpa foi dele de eu ter me metido naquela merda toda para sanar sua dívida, ele morreu e quem pagou por tudo fui eu. Por isso tudo que eu sou grato ao Morgan, porque ele poderia ter me matado e matado minha família por causa das merdas do meu pai, mas ele preferiu investir em mim e me transformar em seu lutador, trazendo todo mês uma grana boa para ele e para os Ravens, por isso que eu sou imensamente grato, por ele ter me dado uma chance ao invés de acabar com a minha vida. Ali debaixo daquele céu maravilhoso, percebo que tudo começa a se encaixar e finalmente eu tenho um lugar que posso chamar de casa.

Fico mais um tempo ali e quando percebo já está tarde e é hora de ir pra casa, o meu relógio marca uma hora bem tarde, minha mãe deve estar preocupada, então me despeço por enquanto daquele lugar maravilhoso e sigo meu caminho de volta.

A minha moto voa por aquelas ruas desertas de Sunnydale, mas é em uma das curvas que algo estranho chama minha atenção, dois caras agarrando uma menina em um beco escuro e a menina parece estar desacordada. Em um segundo o meu sangue ferve, eu largo minha moto e corro em direção aqueles caras, para impedir que algo pior aconteça. Eu, como filho de um estupro, fui ensinado pela minha mãe e pelo meu pai a sempre identificar situações como aquelas, então eu sei muito bem o que está acontecendo ou o que vai acontecer. Me aproximo dos caras que se assustam e partem pra cima de mim, um deles ganha pelo menos um olho roxo e outro sai correndo de medo. A menina está caída no canto, praticamente desmaiada, mas pelo menos ela está viva e salva daqueles monstros. A menina começa a recuperar a consciência, alguns segundos depois ela pisca e me olha, ela está confusa e assustada. A vejo se levantar e limpar a roupa que usa, voltando a me olhar ela tomba a cabeça para o lado. Não me aproximo, deixo que ela me olhe e decida se eu posso ou não me aproximar, seu rosto começa a transparecer que está menos assustada e então ela se aproxima de mim. Olho para ela, sem dizer nada ela me encara por alguns segundos e abre um breve sorriso.

— É, obrigada. — Ela me olha e sorri.
— De nada, não fiz mais que a minha obrigação. — Puta merda, o sorriso dela é lindo.
— Eu sou uma estranha pra você, mas obrigada por me ajudar. Não sei o que teria acontecido se você não tivesse aparecido e me salvado. — Ela suspira e diz com os olhos fixos em mim.
— Mesmo assim, você estava em perigo e eu ajudei. Aqueles caras estavam em cima de você e você estava meio desacordada.
— Obrigada, de novo. Eu estava numa festa e do nada meu namorado sumiu aí eu bebi demais e eles se ofereceram para me trazer em casa, eu aceitei, mas não sabia que isso acontecer. — Ela me olha com uma certa melancolia em seu rosto.
— Ninguém sabe quando essas coisas vão acontecer e a culpa não é sua, saiba disso. — A encaro e me aproximo um pouco dela, conseguindo assim ver melhor o seu rosto.

Ela é linda, tem os olhos mais expressivos que eu vi na minha vida, depois dos olhos da Violet. Aquele rosto que parece ter sido esculpido por anjos, é o que compõe a sua beleza majestosa. Sou levado a crer que só aquele rosto é capaz de acabar com qualquer guerra mundial, ela é capaz de fazer qualquer coisa. Nunca em minha vida toda, eu tinha visto algo tão lindo, algo tão divino quanto aquela mulher a minha frente e nunca antes eu senti tanta admiração pela beleza de alguém que eu mal conheço. continua parada me olhando, como se quisesse manter alguma aproximação, mas não sabe como. Ela sorri para mim e então meu coração aperta, sentimentos como aquele não podem se instalar em mim. É perigoso, qualquer sentimento por alguém, para mim é perigoso.

. — Ela estica a mão para mim e abre o sorriso.
. — Respondo e imito seu sorriso.
— Agora que não somos mais desconhecidos, fica tudo mais fácil. — Ela solta minha mão e se mexe um pouco naquele pequeno espaço.
— É, sim, então, você precisa de uma carona até sua casa? — Pergunto com um pouco de receio, não quero assusta-la mais.
— Eu moro aqui na esquina, mas obrigada. — Ela aponta para a casa que fica na entrada daquele beco e sorri.
— Minha moto tá estacionada ali naquela esquina, então eu te acompanho. - Falo e então aponto para nossa frente.

Ela agradece, engancha em meu braço e então nós caminhamos até a casa dela, que fica bem ao lado de onde estacionei minha moto. me olha e então se despede de mim, entrando em sua casa. Eu paro por alguns segundos, admirando-a entrar em sua casa e só depois de alguns segundos que eu volto a realidade, quando ela já não está mais lá eu suspiro e subo em minha moto, seguindo de volta a minha casa. Saio de lá com uma sensação estranha, primeiro eu a salvo de um possível estupro, uma situação horrível pra caralho e depois ela se transforma na coisa mais linda que eu já vi nada vida. Chego em casa com algo dentro de mim se remexendo, ela conseguiu mexer com os sentimentos dentro de mim, sentimentos antes que eu nunca me permiti conhecer, mas que me causou uma sensação boa. É perigoso e bom ao mesmo tempo e é isso que eu levo em meu peito quando me deito para dormir. Adormeço sorrindo, com a mesma sensação que senti quando estive naquele morro conversando com o Morgan, a sensação de que finalmente estou em casa.

Capítulo 04


O tempo voa e quando percebo já é o grande dia da primeira luta no campeonato estadual. Eu estou nervoso pra caralho e ansioso, essa primeira luta garante um lugar na próxima fase, e também garante pelo menos dois mil no meu bolso, já que a cada luta tem um prêmio. Quando chegar a final, o ganhador leva dez mil dólares mais um patrocínio profissional. A luta acontece no ginásio da cidade, pelo menos essa primeira, as outras serão distribuídas pelo estado. Aquela manhã eu me senti vitorioso, mesmo antes de competir eu já me sinto vencedor. Minha mãe expressa preocupação, mas garante que vai assistir a minha luta e que vai levar a Violet para me assistir. Minha irmã sempre gostou de me ver lutar, mesmo que ela se assuste com os meus machucados, ela é a minha maior torcedora. O dinheiro que eu ganhar, será usado para uma poupança que vai para a Violet, garantindo assim o futuro e os estudos dela. Todo e qualquer dinheiro que eu ganhe daqui em diante será usado para a segurança da Violet e de minha mãe.

Chego no ginásio, ele já está lotado com todas as cadeiras ocupadas e em duas delas estão minha mãe e Violet, sentadas bem a frente do octógono. As duas me olham e eu vou para o vestiário, me preparar para ganhar a primeira luta. No vestiário escuto a risada fofa da minha irmã, que chega ali e me abraça bem forte. Ela corre até mim e beija na bochecha, me desejando sorte e pedindo para que eu não volte machucado para casa. Eu garanto a ela que isso não vai acontecer e então ela e minha mãe voltam para seus lugares. Eu respiro fundo e peço a ajuda de todos que me protegem, para que eu possa ganhar aquela luta e todas as outras. Carrego comigo uma correntinha, que foi presente do meu pai e aquilo sempre me protegeu, agora estou mais uma vez precisando dessa proteção, fecho meus olhos e aperto a corrente, trazendo a segurança que preciso para vencer.

Entro no octógono e do outro lado está o cara que vai ser o meu adversário, ele parece ser lutador profissional, mas isso para mim não é problema, eu encaro isso numa boa e pode vir quem for, que eu vou vencer. O sinal é dado e o meu adversário vem pra cima, ele me dá o primeiro soco, mas o segundo eu vou pra cima e o acerto em cheio fazendo o cair, mas ele se levanta e me atinge outra vez. No segundo round eu parto pra cima e lhe dou um soco que o faz cair sobre as cordas, ele levanta e vem pra cima, mas em seguida ele cai no chão quando o acerto no rosto outra vez. O juiz faz a contagem, mas ele não se levanta, o que declara enfim a minha primeira vitória naquele campeonato. O juiz levanta minha mão e me declara campeão, todos na plateia me encaram curiosos e surpresos, afinal de contas eu não sou lutador profissional, não treino em nenhuma academia com renome e mesmo assim fui capaz de vencer um dos favoritos. Todos me olham, me analisam e me parabenizam, todos querem me conhecer, mas eu só quero correr e abraçar a minha garotinha que está com sua pipoca, me olhando carinhosamente. Vou até ela, lhe dou um abraço bem apertado e então me mãe vem até nós dois, ela me abraça e também me dá os parabéns, é, eu tenho tudo que preciso bem aqui comigo.

— Você sempre vai ser o meu campeão. Eu te amo, Buddy. — Violet diz enquanto faz carinho em meu risoto. Ela me chama de Buddy desde que aprendeu a falar, ela diz que é porque eu a lembro de um urso antigo seu, eu apenas sorrio e retribuo o carinho.
— Eu também te amo, Bae. — Dou um beijo em sua bochecha e ela sorri.

Bae (gíria inglês para before anyone else, que significa antes de qualquer pessoa);

Estou com as duas quando um dos juízes me chama para entregar meu primeiro cheque e a faixa que me passa para a nova fase, eu agradeço e recebo aquilo sorrindo, ele faz a entrega na frente de todos, que aplaudem aquele momento em uníssono. Eu recebo meu cheque e o guardo no meu bolso, voltando para minhas meninas. Olho para um canto qualquer e percebo que o Andrew está ali, com alguma menina pendurada em seu pescoço, ela sussurra algo em seu ouvido e ele me encara. É só o que me falta, aquele cara querer confusão justo agora que estou com minha mãe e minha irmã. Ele fica me olhando por alguns e então caminha até mim, mas para a minha surpresa o olhar dele é diferente dessa vez, ele está sorrindo pra mim, é isso mesmo? A menina ao lado dele é a menina daquela noite, agora eu entendo tudo, maldição.

— Oi . — Ele diz se aproximando de mim.
— Andrew. — O respondo.
— Não quero brigar com ninguém, só quero te agradecer por ter defendido a naquela noite. — Ele estende a mão e me olha.
— Não fiz mais que a minha obrigação, ela estava em perigo e eu ajudei. — Aperto a mão dele e devolvo o olhar.
— Nós começamos com o pé esquerdo, saiba que tudo que falei pra você foi coisa de momento. Fico agradecido por você estar aqui na minha cidade, você salvou a minha namorada de algo grotesco, vou ficar te devendo. — Andrew diz e sorri para a , sua namorada.
— Concordo com você. Selamos a paz então? — O questiono.
— Sim. — Ele responde e aperta minha mão.
— Obrigada de novo, . — A voz doce de ecoa pelo ambiente.

Dou um sorriso a ela que corresponde, logo depois os dois saem dali e somem pela porta lateral. Aquilo mexe comigo, eu nunca fui recebido assim em nenhum lugar antes na minha vida e agora, eu sou bem recebido naquela cidade, todos ali parecem aceitar bem a ideia de um cara novo nas ruas. Mas, foi outra coisa que mexeu comigo: o fato de ser namorada do Andrew. Se ela fosse a minha namorada eu não iria agradecer ninguém por salvá-la, pois, se ela fosse minha namorada eu não a deixaria sozinha tendo que voltar para casa com dois desconhecidos. Eu iria ficar com ela o tempo todo, grudado, a protegendo de todo mal que existe no mundo. Se aquela mulher fosse minha, com certeza ela seria tratada como uma rainha e não iria passar por situações constrangedoras, como a de ter que contar pra alguém que quase foi estuprada porque o seu namorado a deixou sozinha, se ela fosse minha, isso nunca iria acontecer. Mas, eu não posso nem pensar nisso agora, nesse momento eu só tenho olhos para o sorriso da minha mãe e da Violet, meus dois maiores orgulho e meus dois maiores tesouros. Paxton me localiza em meio a todos e caminha até mim, com um sorriso de orelha a orelha.

— Parabéns campeão. — Ele diz e me abraça.
— Obrigado, Paxton.
— Vamos para a festa de comemoração? Uma vitória de um de nossos lutadores, merece uma festança. — Ele me olha e coloca sua mão em meu ombro.
— Não sei. — Respondo e olho para minha mãe e Violet.
— Elas podem ir com a gente ué, não vai ter nada ilegal lá não. Vai ser uma festa pra todo mundo comparecer. - Paxton sorri e olha para minha mãe.
— Vamos meu filho, você merece essa comemoração. — Minha mãe vem até mim e cumprimenta Paxton.
— Tá bom, vocês venceram. Eu vou. — Sorrio, pego Violet em meu colo e sigo Paxton com todas as outras pessoas.

Capítulo 05


A festa é na rua mesmo, um palco está montado e algumas barraquinhas de comida espalhadas. Realmente é uma festa bem diferente daquelas que eu vi no bar aquela noite, agora é uma festa de famílias mesmo, ao ar livre e com um tom de comemoração. Uma faixa pendurada bem no meio da rua, marca o meu nome com a palavra "campeão" ao lado. Todos os moradores agora sabem de mim, sabem como me chamo e sabem que é minha família. Um deles vem até mim e comenta que em quatro anos, nunca um morador de Sunnydale ganhou alguma luta naquele campeonato, eu me sinto agradecido com aquilo e digo ao homem que estou feliz por ter ganho aquela luta. Os moradores daquela cidade são hospitaleiros e simpáticos, agradeço mais uma vez por ter escolhido Sunnydale como meu novo lar. Paxton vem até mim e me chama para se juntar a ele e seus amigos, eu aceito ir com ele e seus amigos me recebem com palmas e agradecimentos. e Andrew estão ali também, juntos. Violet me acha e corre até mim, pulando em meu colo. Apresento minha irmã a todos, que sorriem e cumprimentam a minha pequena. Estou com ela em meu colo, interagindo com meus novos amigos quando algo chama minha atenção, uma mulher baixinha sobe no palco e anuncia o show da banda de rock "Lost Girls", a banda entra no palco e meu coração pula, a vocalista da banda é a . Maravilhosa, perfeita, é assim que ela se apresenta durante a primeira música. O pessoal que está na festa parece não dar muita atenção, mas tem um certo grupo que aplaude as meninas e eu sou um deles. Me pergunto, como que uma mulher daquelas não é aplaudida o tempo todo? Ela devia ser aplaudida apenas por existir.

Durante a apresentação da banda, meus olhos percorrem o lugar e logo eu vejo os pacotinhos, passando de mão em mão. Devolvo a Violet para minha mãe e puxo Paxton para um canto, eu preciso saber o que de verdade está acontecendo. Ele me olha sem entender nada, então eu aponto com a cabeça para o pessoal em um canto, que segura os pacotes de meta.

— Eu quero saber desse lance da meta aqui na cidade, como isso acontece? — O questiono e ele me olha confuso.
— Você está interessado em vender aqui na cidade? Você? — Ele responde me questionando. Balanço minha cabeça e o encaro de volta, ele não entendeu nada.
— Não quero vender nada, quero saber como isso acontece aqui na cidade? — Refaço minha pergunta.
— Eu não sei de muita coisa, o que sei é que isso é lance do pai do Andrew. — Ele reponde e sacode os ombros.
— É só isso que você sabe, só isso mesmo? — Ergo minha sobrancelha e volto a questiona-lo.
— Eu sei que o pai dele é quem fabrica a droga e o Andrew vende. Juro que isso é tudo que eu sei.
— Certo, vou ficar de olho em como isso rola por aqui. — Coloco minhas mãos no bolso e volto a encarar as pessoas.
— Porque você tá tão interessado nisso se não quer vender? — Ele questiona.
— Isso é assunto meu Paxton, não me entenda mal. — Olho para ele de novo.
— Está certo. — Ele sacode os ombros.
— Agora, mais uma coisa. Qual é o lance dela? — Aponto para com meus olhos.

Paxton ri com a minha pergunta e então me olha, balançando a cabeça em sinal de negativa. Ele fica em silêncio por alguns segundos, coloca a mão sobre meus ombros e abre um sorriso de diversão. Só quero saber o que foi que eu disse que é tão engraçado assim, pra ele estar nasalando aquela risada? enquanto me encara sem dizer uma palavra. Respiro fundo e ergo minha sobrancelha, não tenho tempo pra brincadeiras.

— A , ela é namorada do Andrew e vocalista das Lost Girls. — Paxton responde, ainda sustentando aquele sorriso.
— Você me disse o que eu já sei, Paxton. — Rolo os olhos. — Quero saber, qual é o lance dela? — Volto a perguntar.
— Se você tá interessado, pode desistir meu amigo. Ela e o Andrew vivem brigando, são como cão e gato, mas nunca se separam.
— Eu não estou interessado, mas obrigado pela informação. — Agradeço. — E ela, ela sabe dos lances do namorado dela? — Pergunto mais uma vez.
— Pra quem não tá interessado, você pergunta bastante. Mas vou responder. — Ele dá de ombros mais uma vez e responde. — Ela deve saber, ou pelo menos parece saber.
— Obrigado e de novo, eu não estou interessado. Entendido?
— Entendido cara, relaxa. Agora vamos aproveitar a festa? — Paxton coloca a mão sobre meu ombro e eu sorrio como resposta.

Nos despedimos de todos quando a Violet pegou no sono escorada em meu ombro. Aquela garotinha tem energia de sobra e fez bastante amigos durante a festa, mas quando o cansaço bate, ela desmaia e só acorda no dia seguinte. O dia foi intenso e bastante animado, nunca antes em minha eu senti tamanha felicidade por estar com tantas pessoas em volta. Eu ainda tenho algumas questões pessoais a resolver, mas por enquanto tudo está a salvo e minha vida começa a tomar um novo rumo.

Ter o sentimento de que estou em casa, sem nenhum bandido atrás de mim ou da minha família, me acalma o coração. Eu posso respirar livre pela primeira vez em dois anos e isso não tem preço. Saber que naquela cidade eu tenho um lar, com pessoas que me acolheram sem perguntar nada, é algo gratificante. Eu sempre achei que ficaria para sempre preso aquelas gangues e sempre achei nunca ia conseguir seguir minha vida. Mas eu segui, eu consegui vencer. Caminho com a minha mãe do meu lado, em direção a nossa casa e pela primeira vez em dois anos, eu posso andar pela rua sem me preocupar com nada e nem ninguém. Hoje eu só me preocupo em fazer minhas meninas felizes, hoje é por isso que eu acordo todos os dias. É bom demais saber que eu tenho um propósito para acordar todos os dias agora e que não envolve aqueles bandidos de Ray. A sensação de ser livre é boa demais, poder respirar sem ter ninguém a sua sombra é a melhor coisa que existe. Violet está pendurada em meu colo, dormindo feito o anjinho que ela é e aquilo aquece meu coração.

Minha vida nunca foi fácil, não estou dizendo que sou um anjo, porque eu nunca fui e não pretendo ser agora. Eu me meti em muita coisa pesada, algumas delas porque fui obrigado, mas outras eu me meti por livre e espontânea vontade. As merdas que eu fiz ao longo da minha vida, são de minha inteira responsabilidade, eu escolhi fazer parte do contrabando de armas, eu escolhi entrar para o moto clube, eu escolhi lutar ilegalmente. Eu até posso ter sido obrigado em nome do meu pai, mas eu escolhi tudo aquilo, eu escolhi o que marcou meu nome para sempre. Os anos que eu passei naquela gangue dos Ravens, me levaram a fazer muita coisa errada, as lutas e o contrabando, são os menores dos meus erros. Teve uma época da minha vida em que eu trafiquei, vendi muita cocaína, enchendo o bolso do Fischer de dinheiro e fazendo o nome dele ser conhecido nos quatro cantos de Ray. Sim, eu trabalhei para os Ravens e para os Bullets, em um eu era obrigado a fazer aquilo para pagar a dívida do meu pai, mas, no outro eu escolhi fazer aquilo, eu escolhi traficar a cocaína que circulava nos Bullets.

Os Bullets me pagavam uma quantidade que eu juntava com o dinheiro das lutas, para sanar a dívida do meu pai. Eu trafiquei durante aqueles dois anos, ajudei o Lowell - cara que ficou no lugar do Fischer naquela época - a apagar algumas pessoas que entravam no caminho do Fischer e do seu império. Enquanto ele ficou preso, eu o ajudei a refazer seu nome e a ganhar uma boa grana, circulando toda a coca pelas ruas de Ray. Aquilo me ajudou durante todo o tempo em que eu fiquei por lá para pagar aquela dívida, me ajudou a garantir uma boa grana e fazer o meu dinheiro. Toda vez que o Lowell precisava de alguém para apagar alguém, eu era recrutado e a grana entrava, foi assim durante aqueles dois anos. Eu não reclamo disso, porque eu escolhi fazer aquilo que manchou meu nome, mas que também me fez ficar vivo no meio daquela tempestade toda em que eu vivia. Eu fiz o que era necessário naquela época para garantir minha sobrevivência e a segurança da minha família. Não faria isso de novo, nem em outra vida, mas eu sei que tudo que eu escolhi fazer me levou até aqui, o dia em que posso respirar livre.

Só que a liberdade tem seu preço e quando ela precisa cobrar, ela cobra. É essa sensação que tenho ao chegar na minha casa e presenciar aquela cena. O medo toma conta de mim, observo aquela figura ali parada e então meu coração desacelera, eu soube naquele momento que não posso fugir daquilo que não era meu passado, mas sim o meu destino. Sombrio, perigoso, manchado, mas esse é o destino que marca minha vida. Não tenho mais como negar e nem pra onde fugir, não adianta mais fugir. Fugir nunca ajudou em nada, e agora eu sei disso. Ainda tremendo eu consigo olhar para minha mãe, que está igualmente assustada ao meu lado. Ela me olha e então eu peço que ela e Violet entrem em casa. A figura do homem ali parado não se mexe, apenas concorda e deixa que as duas entrem em minha casa. Com as duas em segurança eu me aproximo dele e seu olhar cai sobre mim.

Derek Fischer me encontrou.

Capítulo 06


Ele está sentado em minha varanda, apoiando uma arma em seu joelho esquerdo ele me encara com o olhar mais sombrio que existe. O medo de morrer toma conta de mim, agora eu não tenho mais a proteção de ninguém, estou sozinho nessa e vou ter que arcar com as consequências de tudo que eu escolhi. Derek me olha em total silêncio, então me aproximo e fico bem a sua frente, encarando seu rosto fechado o meu corpo todo treme outra vez. Aquele homem representa tudo de ruim que pode existir no mundo, por onde ele vai, ele leva seu rastro de sangue e desastres. Agora ele está ali na minha nova cidade, trazendo com ele as suas sombras e isso eu não sou capaz de suportar. Não posso mais suportar a ideia daquele homem em minha vida outra vez, mas eu não tenho mais como fugir já que ele me marcou e me encontrou, então tudo que posso fazer agora é encarar a realidade e aceitar.

— Foi difícil de te achar hein, mas eu achei, Kevin. Ou devo dizer ? — Fischer me encara e solta um sorriso em tom de ironia.
— Diz logo o que você quer. — Eu digo e me afasto dele.
— Olha o tom quando fala comigo, garoto. — Ele se levanta e vem até mim.

Eu apenas o encaro em silêncio, eu não tenho palavras para falar alguma coisa, ele toma toda minha coragem e eu volto a ser aquele menino assustado e medroso que eu fora um dia. Eu nunca tive medo de ninguém, mas aquele homem é o mal em pessoa. Apenas respiro fundo e contenho as lágrimas que querem sair de meus olhos, olhando para ele enquanto forço a minha melhor expressão.

— Eu vim até aqui porque eu tenho um serviço pra você fazer. — Fischer me olha e em nenhum momento ele larga a sua arma.
— Eu não vou fazer serviço nenhum pra você. Vai embora. — Imponho minha decisão e ele me olha furioso.

Fischer me pega pela camiseta e me prensa no muro de minha casa, levando sua arma até meu pescoço. Nesse momento sinto um frio horrível, sinto minha alma deixando meu corpo e tudo que desejo nesse momento é que ele tenha misericórdia de mim. O escuto engatilhar a arma e fecho meus olhos, mas não escuto nenhum barulho e então consigo respirar. Abro meus olhos e ele está sorrindo a minha frente, se divertindo com aquela merda toda ele continua com a arma apontada para minha garganta.

— Você vai fazer tudo que eu mandar, tudo. — Ele sussurra em meu ouvido. — Porque se você não fizer o que eu quero, eu vou acabar com sua vida e vou começar pela Violet.
— E o que você pretende fazer, se eu recusar? — O questiono, minha voz sai abafada e eu não consigo me mexer.
— Sua irmã está numa idade ótima, ela pode me servir pra muita coisa. — Fischer roça a arma em meu pescoço e eu cedo.

Ele fala o nome da minha irmã como se ela fosse apenas um objeto pra ele brincar e não uma pessoa. Aquilo me pega de jeito, e eu cedo a pressão, ele ganhou mais uma vez. Pela minha irmã eu sou capaz de tudo, até mesmo voltar para aquela vida de merda que o Fischer oferece. Respondo que topo e ele me solta, voltando a me olhar com o seu semblante sombrio ele sorri e aponta para eu me sentar.

— E o que eu tenho que fazer? — O questiono ainda ofegante.
— Você vai traficar a minha cocaína aqui. — Ele responde.
— Aqui é uma cidade no fim do mundo Fischer, sua droga não vai render nada nessas ruas.
— Deixa que disso cuido eu. Sunnydale é uma cidade turística, fora esses campeonatos de luta que reúnem bastante gente. Você vai vender a rodo a minha cocaína.
— Aqui já rola a venda de metanfetamina, a sua coca não vai render aqui. - Tento o convencer a não insistir mais nisso.
— Você não entendeu garoto, você vai vender, não importa como. — Ele se aproxima novamente de mim, com a arma em mãos. - Porque se você não fizer isso, não der seu jeito, eu levo a Violet e trago a sede do Bullets pra essa cidadela. — Ele rosna e meu coração aperta.
— Tá bom, eu vendo sua droga por aqui. Mais alguma exigência, Fischer? — Pergunto a ele que não tira os olhos de mim.
— Por enquanto nenhuma, mas vou deixar alguém de olho em vocês. Sua primeira remessa de cocaína chega em dois dias, quero retorno o quanto antes. — Fischer cospe aquelas palavras e se afasta, entrando em um carro preto que estaciona. O carro parte e eu sinto meu corpo desabar.

Assim que o Fischer vai embora, eu solto todo o ar que tem em meus pulmões e choro, me jogo no chão e choro. As lágrimas caem de meus olhos e pesam sobre meu rosto, me fazendo tremendo inteiro. Cada palavra daquele pesadelo ecoa em minha cabeça e sentindo todo o peso do meu passado eu não consigo suportar, mais uma vez estou metido naquela merda toda que envolvem os Bullets. Tudo que eu fiz, todo que eu tentei fugir me encontrou e agora tomou conta de mim outra vez, me sufocando e me fazendo refém daquilo que eu mais temia: as sombras que o nome dos Bullets carregam.

Recupero minha consciência e me levanto, eu preciso proteger minha mãe e minha irmã enquanto ainda é tempo. Entro em casa correndo, chorando e minha mãe vem até mim, ela me abraça e eu desabo mais uma vez. Aquela mulher é tudo que me segura em pé, é minha forca, meu porto seguro. Nos braços dela eu não consigo me segurar e choro ainda mais, eu não posso machucar aquela mulher. Não posso colocar ela e a Violet em perigo mais uma vez, eu preciso proteger as duas. Minha mãe me abraça forte e me conforta de um jeito que só ela sabe fazer. Meu coração aperta, eu estou metido de novo naquela merda toda e dessa vez não tenho como fugir, se eu fugir ele me encontra e leva as duas de mim. Eu não posso perder as duas, eu prefiro morrer do que ameaçar a vida delas.

Naquele momento o medo toma conta de mim, e tudo que eu penso é que preciso sobreviver de novo e manter todos que eu amo em segurança. Não preciso dizer nada a minha mãe para que ela saiba o que aconteceu, ela tem experiência com isso e sabe muito bem o que o Fischer veio fazer aqui. Minha mãe sabe que eu farei o que ele me pediu sem nem ponderar, ela sabe que farei isso por ela e por Violet e que farei isso pra salvar nossas vidas. Ela apenas me encara em silêncio e faz um carinho em minha bochecha, pois sabe que dessa vez não temos escapatória e sabe que estamos na mão de Derek Fischer. Dessa vez, estamos à mercê de um homem capaz de coisas horríveis, que é capaz de matar sem nenhuma piedade.

Eu tentei fugir do meu passado e recomeçar minha vida, mas o meu passado me encontrou. Aquela merda toda vai voltar a acontecer e eu não posso mais fugir do meu destino. As sombras tomam conta de mim e eu sinto os meus espinhos me machucando, como jamais pensei que fosse machucar de novo. Agora está tudo nas mãos dele, o meu futuro está nas mãos do homem mais perigoso que já conheci em minha vida e não há nada mais que eu possa fazer. Não tenho mais como lutar e não posso mais deixar minhas meninas desprotegidas, o que posso fazer agora é encarar que a minha vida vai voltar a ser o pesadelo que era antes. Naquele momento só penso em como proteger a minha família, então lembro do telefone que o Morgan me deixou antes de eu sair de Ray e que ele disse que quando precisasse, eu podia ligar que a pessoa iria me ajudar. O telefone era do seu filho mais velho, Alec Morgan. Saio do abraço de minha mãe, pego meu celular e disco os números que estavam naquele papel, segundos depois a voz de Alec Morgan ecoa do outro lado da linha.

, eu estava esperando sua ligação. — Alec diz do outro da linha e expressa preocupação em sua voz.
— Alec, eu preciso da sua ajuda. — Eu respondo enquanto tento parar de tremer e chorar.
— Eu já estou sabendo. Eu chego com os Ravens aí na segunda-feira pela manhã. — Alec diz e meu corpo todo parece entrar em êxtase.
— Muto obrigado Alec. Nós precisamos da proteção dos Ravens.
— Não precisa me agradecer Ryder, eu devo isso ao meu pai e o clube deve isso a você.
— Estamos te esperando. Vamos acabar com esse cara. — Eu digo e Alec ri do outro lado da ligação.
— Derek Fischer vai conhecer a fúria dos novos Ravens e vai pagar por cada gota de sangue que ele derramou. — Alec expressa sua determinação e eu concordo com ele.

Alec desliga a chamada e pela primeira vez em segundos consigo respirar aliviado, dessa vez aquele merda do Derek não vai conseguir nada, eu não vou deixá-lo acabar com as pessoas dessa cidade. Eu vou proteger todos aqui, nem que para isso eu tenha que acabar com a minha dignidade e manchar meu nome mais uma vez. Essa cidade merece ser protegida de todo mal que o nome Derek Fischer carrega. Todos aqui merecem ficar livres do sangue e sombras que os Bullets trazem por onde passam. Dessa vez, terei ajuda e tudo será mais fácil de conseguir. Alec chega na segunda-feira junto com o moto clube e junto com as drogas do Fischer, mas dessa vez não haverá sombras e ameaças que me façam desistir da minha nova cidade.

Dessa vez, não existe mais dívida a ser paga e tudo que eu vou fazer agora, eu vou fazer por escolha minha.

Derek Fischer não vai vencer.




FIM



Nota da autora: Espinhos é a primeira de uma série de três shortfics: Espinhos, Arranhões e Cicatrizes, que juntas compõe a série "Sombras". Eu espero que essa primeira short tenha agradado a vocês, o intuíto dela foi descrever um pouco a história desse meu novo badboy - que eu mau conheço e já considero - e introduzir assim a próxima short, que será a narrativa da nossa badgirl. A base para essa primeira e para segunda short é a música Every Rose Has Its Thorn, do Poison. A terceira vai ser baseada em Scar Tissue, do RHCP. É isso e até a próxima.





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