Fortune Teller

Última atualização: 15/11/2017

Capítulo 1

Se olhasse pela janela panorâmica de seu apartamento em Manhattan, veria grandes prédios, pessoas que mais pareciam formigas àquela altura e um trânsito sem igual. Aquela era a sua cidade, a inspiração de todos os seus romances e seu sonho desde que tinha apenas oito anos e era só mais uma menina do interior de Wisconsin. Não importava quantos mendigos, ratos, malucos ou drogados tivesse, NY sempre seria a cidade dos seus sonhos.

— Você sabe que bufar e suspirar na frente desse computador não vai fazer seu livro se escrever sozinho, não é? — Ela fingiu que não ouviu Josh e continuou encarando sua obra e o prato de torta de limão ao lado do computador. — Você precisa de alguma diversão, garota. Morar sozinha nesse apartamento não está te fazendo bem, muito menos toda essa torta. Acho que vou falar para Zac aumentar a sua série. — Ele adicionou a última frase, olhando longamente o corpo da morena à sua frente. Ela definitivamente precisava de mais abdominais, pensou ele.

Ela o avaliou e olhou ao redor do apartamento, que antes vivia cheio de bebidas e amigos, sempre tinha o cheiro de algo delicioso que preparava no fogão ou o som alto tocando Carrie Underwood. Apesar de sair do interior, o interior nunca saiu de . Desde que se casou, tinha a impressão do apartamento estar mais vazio e infeliz. As festas foram deixadas para trás com o novo projeto (que teimava em não ser passado para o papel), assim como tinha feito quando decidiu não ser mais solteira. Sem as festas, sem os amigos de sempre. Tirando Josh e Cameron, que pareciam gostar mais de seu apartamento do que o que eles tinham no Upper West Side.

Deveria pensar bem antes de sair de casa. Charles Kruger, seu detestável editor, estava quase ameaçando-a de morte para receber novos capítulos. Odiá-lo apenas fazia com que ela demorasse mais e mais a escrever, afora que o stress nunca fora um bom catalisador para .

— O que você sugere? — Ela desistiu, pronta para beber um pouco e se divertir com Josh e seus amigos.
— Primeiro, um café da manhã de verdade no Starbucks, e depois... Uma festa de parar o trânsito! — Ele sorriu, animado, exibindo os dentes perfeitos. — Vou ligar para o Cam e a !

Ela riu e voltou a encarar o computador. Ela ganhou uma máquina de escrever assim que descobriu sua paixão pela escrita, mas agora a substituía pela modernidade do MacBook, embora mantivesse a outra intacta. Na adolescência, e sua irmã, , fizeram vários planos para fugir do infernal interior que viviam. Wisconsin e a grande fazenda dos pais foram deixados para trás assim que , a mais nova das duas, completou dezoito anos. Recolhendo as roupas preferidas em uma mochila e levando a máquina de escrever que ganhou aos treze anos, deixou um bilhete na cama, para a mãe não surtar.

Desde que entraram no ônibus com destino a Nova York, prometeram jamais olhar para trás ou voltar para Wisconsin. Morreriam de fome antes de voltar com o rabo entre as pernas e admitindo o fracasso que a família julgava tão certo. Os irmãos riram quando descobriram onde elas estavam, a mãe chorou, trancada no quarto, o pai, que morreu alguns anos antes, teria ficado irado. Elas, no entanto, estavam encantadas. Duras, mas encantadas. Quase morreram de fome, realmente. Meses de mesada das duas não foram suficientes nem para três meses em Nova York.

, mais velha e acostumada com as tarefas de casa, conseguiu um emprego de babá para uma executiva do Upper East Side, ela acordava cedo, chegava tarde e ganhava pouco, mas, mesmo assim, se divertia com as peripécias dos três filhos da sra. Lincoln. , mais desajeitada, conseguiu trabalho como garçonete em uma lanchonete que fedia a gordura no Brooklyn, servindo operários, bêbados e idiotas com um sorriso no rosto e uma coletânea de maldições na cabeça. O começo não foi fácil para nenhuma das duas.

Se, em Wisconsin, era conhecida por ser uma ótima jovem escritora que ganhava todos os concursos culturais de que participava, em NY era uma garçonete como outra qualquer, que ouvia as mesmas cantadas idiotas e servia o mesmo cheeseburger sem gosto todas as noites. Ninguém disse que seria fácil, mas dividir um colchão velho no meio da sala do cubículo que alugavam porque tinha goteiras no (único) quarto já era ridículo.

— Espero que você realmente consiga. — resmungou, observando a irmã bater freneticamente na máquina de escrever. — Acho que não consigo sobreviver mais um ano tendo que dormir nesse colchão com cheiro de mofo.
— Eu também espero. — A outra suspirou e parou de bater um segundo, para estalar os dedos.
— Nós podíamos ligar para a mamãe e ver se ela pode nos emprestar algum dinheiro para um colchão novo. — Ela voltou a reclamar, tamborilando os dedos na bancada da cozinha.
— Por que não pedimos também algum dinheiro para alugar um apartamento novo? — A outra retorquiu com ironia.
— Tudo bem, não está mais aqui quem falou. — Rolando os olhos, voltou para o fogão, onde observava se seu macarrão cozinhava do jeito que queria.

As duas comemoravam o aniversário de um ano que moravam na Big Apple, tradição que se arrastaria por anos. Lamentavelmente, naquele ano, nenhum passo foi dado em direção à maravilhosa carreira de escritora de sucesso que tanto queria. Foi rejeitada em três grandes editoras, todas dizendo que, apesar de ser boa, não estavam com vontade de apostar em uma desconhecida.

— Talvez nós estejamos fadadas a passar o resto dos nossos dias trabalhando como mulas nessa cidade maldita. — Ela falou para a irmã, com as bochechas coradas pelo vinho barato que dividiam.
— Nem fala isso! — A outra arregalou os olhos. — Eu vou conseguir, é só ter um pouco de fé em mim.

sorriu, se não tivesse fé na irmã jamais a teria acompanhado até outro estado ou arranjado um emprego como babá.

— Mais vinho, então? — Mais vinho!


Ela suspirou. Agora, já famosa, ria quando lembrava do passado. Os dois gatos vira-latas e como economizavam cada centavo que podiam, ou ficariam com a luz ou o telefone cortado. Geralmente faziam um sorteio para saber que conta deixaria de ser paga, naquele mês.

As preocupações maiores, como a falta de dinheiro e fama, foram deixadas de lado, apenas alguns meses depois do aniversário de dois anos em Nova York. Esse foi o ano em que Cameron apareceu em suas vidas. Mais uma pessoa para rachar as contas. Ele tinha acabado de montar um escritório e saído da casa dos pais. O apartamento de duas caipiras servia perfeitamente bem. teve receio em deixar o cara ficar, até ele afirmar que não tinha interesse algum pelas duas e nem era um psicopata. E, com mais um para dividir as contas, as coisas seriam mais fáceis.

Se mais um ano tinha passado sem chegar mais perto da tão desejada carreira, tinha algumas ótimas notícias para sua irmã caçula.

— Você sabe o que é isso? — Ela quase esfregou uma carta no rosto da mais jovem, que cochilava no sofá. Cameron vinha da cozinha, com um copo de suco de laranja na mão. — Minha sentença de morte? — Perguntou, sonolenta.
— Uma carta de aprovação! ! Acorda!

Nem o cavalo mais desobediente da fazenda pulara daquele jeito antes. Em um segundo, estava de pé e pronta para ler o que quer que fosse. Logo, uma linha apareceu entre suas sobrancelhas.

— Eu não mandei o Crimson Red para essa editora!
— Cala a boca, você não queria ser uma autora publicada? — Cam perguntou, lendo a carta por cima dos ombros da amiga. Poucos meses de convivência tornaram os três inseparáveis.
— Eu sei. — cantarolou, com um sorriso franco no rosto.
, que diabos de editora é essa?
— É a editora do marido da sra. Lincoln! — Ela deu pulinhos de alegria, batendo palmas e parecendo uma foca de circo.
— O gato? — Cam perguntou, desviando os olhos da carta.
— Não, esse é o irmão dela e...
— Caramba, ! Eu não acredito! Porque não me contou? — Agora ela também pulava e batia palminhas.
— Porque eu não sabia se ia dar certo. Eu deixei uma cópia do seu manuscrito na sala e então voltei correndo, esbaforida, dizendo: Oh, sr. Lincoln? O senhor viu um livro por aí? Você tinha que ver, , eu mereço um Oscar! O homem franziu a testa e me perguntou sobre o que era e ficou louco para ler! — Ela parou para respirar. — E hoje ele me disse que eles vão publicar! Disse que um tal de Kruger vai entrar em contato em até uma semana! Nós vamos sair de Hell’s Kitchen! — Com um gritinho, jogou-se no sofá.

gargalhava abertamente. Não era o jeito mais ortodoxo de se publicar um livro, mas que problema tinha nisso? Antes aceitar a ajuda de sua irmã dramática a continuar trabalhando naquela lanchonete horrorosa.

— Sabe o que essa ocasião merece? — As duas sorriram para Cam. Era hora de abrir aquele uísque caro!

Ela olhou um porta retrato em cima da mesa. Foi a primeira foto que e ela tiraram em Nova York. Duas adolescentes estranhas, usando botas de cowboy e com o sorriso mais deslumbrado do mundo. Atrás delas, a Estátua da Liberdade despontava, discretamente. Em outra foto, estava e Josh, em um de seus primeiros encontros, em um Starbucks. Os dois seguravam frappuccinos e usavam óculos escuros. Mais ao lado, uma foto com os quatro amigos juntos.

De volta aos dias atuais e longe das memórias de sua época de dureza, ela se viu cercada das pessoas mais importantes da sua vida no Starbucks perto do Central Park. sentou-se com seus melhores amigos em uma mesa circular da Starbucks com as devidas bandejas repletas de pequenos alimentos típicos de desjejum. Como era de se esperar, a garota tinha escolhido dois muffins de banana com gotas de chocolate, cinnamon roll e frappuccino (com base de creme, porque já tinha tomado muita cafeína) de chocolate.

— E lá vamos nós consumir várias calorias! — Cameron brincou, encarando os seus cookies.
— Depois eu, como seu personal trainer particular, vou ter que passar um treino mais reforçado. — Josh sorriu para o marido. — E você, ...
— Poxa, nem vem... Vocês me conhecem... — O interrompeu. — Um docinho aqui e uma corridinha ali. — Sorriu simplesmente.
— Deixa Zachary ouvir isso. — O amigo acusou e realmente, se o personal trainer dedicado de soubesse, provavelmente a faria correr mais de uma hora. Ou pior.
— Eu podia ser viciada em pintar a unha como umas e outras, mas não... Eu como doces. — Deu uma mordida em um de seus muffins e fez os amigos rirem.
— Isso foi uma indireta, ? — Sua irmã lhe lançou um olhar fulminante, fazendo-a gargalhar.

Estar passando por um bloqueio literário era realmente algo péssimo para uma escritora que precisava terminar o terceiro romance em um prazo curto de tempo antes que a editora cortasse os benefícios de uma autora fidelidade. Na tentativa de fazer seus neurônios ativarem de novo e a criatividade e inspiração a visitarem, , depois de tomar café da manhã, despediu-se dos amigos para dar uma volta no Central Park. Ah, sua amada Nova York. O lugar onde conheceu a diversão, a bebida, os caras despojados e os artistas “cult” que ela gostava tanto de namorar, embora nenhum durasse muito tempo. Nenhum cara durava muito, era só o tempo da paixão sumir, um ou dois meses, e logo tinha outro namorado. Não se imaginava em um casamento como o da irmã mais velha ou dos seus outros irmãos. Albert e Brendon, seus irmãos mais velhos, eram casados e felizes, enquanto o único outro solteiro era Daniel. Ela e Daniel sempre se entenderam melhor e ela cogitou a possiblidade dos dois serem meio deficientes. Nada de amor, só conquista e paixão.

O tempo não era dos mais quentes e por isso agradeceu por estar devidamente protegida e com um cachecol. Sentada em um ponto mais alto do gramado que lhe permitia ver boa parte da movimentação das pessoas por ali, começou o seu exercício de observação. Não muito longe, algumas pessoas solitárias liam livros deitadas em cima de toalhas na grama. Ao longe, crianças corriam brincando de pega-pega e alguns casais de idosos passeavam.

Mesmo aquelas sendo cenas não muito vistas por ela, que estava sempre em lugares não tão calmos e gostosos, aquilo não lhe chamou tanto a atenção. Seus olhos estavam totalmente presos em um canto específico do Central Park. Não que estivesse vendo algo muito chamativo, mas aquele músico de rua sentado em um banquinho com um violão realmente lhe intrigou. Como alguém tinha coragem de cantar no meio de um local público em busca de algumas moedas no chapéu? não sabia se achava a situação admirável ou repulsiva. O silêncio que fazia no local permitiu que ela ouvisse um cover dos Beatles, o que a fez sorrir instintivamente.

Finalmente tivera um insight e ali mesmo, abriu rapidamente a bolsa Prada e retirou o MacBook Air tão companheiro. Surpreendentemente, escreveu páginas em sua nova história e com isso nem percebeu o quanto as horas já haviam passado. O relógio marcava 18:20 e o sol já estava se pondo quando finalmente decidiu ir para casa, jantar algo leve e cumprir o treino diário para queimar aqueles donuts que comprou enquanto dava vida ao seu novo livro no Central Park. Bem, talvez não essa noite. Josh tinha prometido uma festa e ela teria uma. Estava cansada de ficar em casa. nem se lembrava mais de como era dançar com um cara, beber alguma coisa, flertar com um desconhecido, usá-los de inspiração. Ah, as luzes, o cheiro de bebida, suor e cigarro das boates. Engolindo a culpa de faltar ao treino, ela decidiu se arrumar.

— Uau! — Josh exclamou assim que a viu. — Sabe, se eu não amasse o Cameron, viraria hétero por você.
— Estou ouvindo isso, Josh. — Cam, logo atrás, rolou os olhos.
— Você sabe que eu amo você, querido.
— Ah, por favor, não comecem com isso na minha frente! — Ela bufou, fingindo irritação e os dois riram.
— Esqueci que a felicidade alheia te deixa assim.
— Vai se ferrar, Joshua. Cam, o que você viu nesse cara?

Alguns anos atrás, antes da fama, Cameron brotou em sua vida como uma erva daninha. Eles moraram juntos, fizeram planos para alcançar a fama juntos. Ela sabia que poderia se apaixonar por ele se o amigo não fosse gay, assim como já havia confessado. Achou que, como Josh e Cam eram os dois únicos gays que conhecia, seriam um casal perfeito. Surpreendentemente, deu certo. O resultado foi um lindo casamento em Vegas, onde ela, sua irmã, outros dois amigos e o casal em questão comemoraram, vergonhosamente bêbados. As fotos não eram as melhores coisas do mundo e só se lembrava do sim, que ela gritou junto com Josh.

— Me pergunto isso até hoje! — Os três riram, saindo do prédio chique onde ela morava.

Juntos, os dois eram perfeitos. Eles se amavam, se entendiam com um só olhar e toda aquela baboseira que se vê em filmes de romance. Talvez um dia tivesse um companheiro desses, mas, por enquanto, é melhor pensar em outras coisas. Como a festa que iriam essa noite.

— É a festa de um amigo meu. — Josh começou, enquanto Cameron dirigia. — Ele está organizando uma festa indie no SoHo, Ted vai fazer uma nova exposição e as festas dele são ótimas.
— Tão ótimas que o Josh perdeu a carteira, na última vez. — Cameron sorriu para ela, pelo retrovisor.
— Não quero perder minha carteira, talvez a consciência. — Ela murmurou, fazendo Josh rir e Cam simplesmente bufar.
— Ah, , eu senti sua falta nas últimas semanas! — Ele piscou.


Capítulo 2

O ambiente estava abafado, um pouco difícil de respirar. De repente, mal parecia que era somente uma festa em um loft. A fumaça dos fumantes se misturava a perfumes caros e cheiro de bebida. Um cachorro lambia o rosto de um bêbado dormindo no sofá e, quando ela foi para a varanda tentar ligar para a irmã (porque era o que fazia quando estava bêbada), foi barrada por um casal que estava ali, fazendo algo que ela não reprovava e até gostava bastante.
O tal amigo de Joshie era um fotógrafo apático e até meio entediante, que tinha uma visão deturpada do mundo e da arte. Bem o tipo de cara perturbadoramente clichê que ela gostava, ao contrário dos brutamontes de Wisconsin. Um cara sensível e artístico, como ela. Ele era pálido e nem era tão atraente, mas se viu dando seu telefone para ele.

— Hm, ? Como a escritora?
— A escritora, na verdade. — Ela riu de um modo leve, sob o efeito das diversas doses de uísque que tomara.
— Cara, eu adoro a sua trilogia Crimson Tales! Estou esperando o último livro! — Ele riu. — Você tem um jeito tão profundo de descrever cada personagem! É uma pena que todos sejam tão parecidos.
— Parecidos? — A voz dela tremeu e o álcool não conseguiu ocultar o efeito que aquelas palavras fizeram.
— Ah, você sabe, geralmente os seus mocinhos são bem parecidos, dá pra reparar se eles forem analisados de uma maneira mais profunda. — Tim ou Tom (ou qualquer que fosse o nome dele) afirmou com convicção. Vendo que a perturbara, decidiu mudar o tópico da conversa. — Mas então, quanto ao nosso encontro...

Aquilo arruinou a sua noite. Se pegou dissecando cada personagem mentalmente e nem Josh nem Cam conseguiram acalmá-la, a caminho de casa. Os poucos convidados que ainda tentavam ter uma conversa com ela foram ignorados por sua crescente frustração. Eles eram realmente parecidos. Deus, ela caiu naquele loop inerente a todo escritor! Ela tinha jurado que nunca ia cair nessa. Que tipo de escritora era ela? Ia continuar sendo a escritora de um personagem só?

— Não pira, , o Ted é assim mesmo. Ele tem que criticar tudo, ou não vai mais poder se chamar de hipster, indie ou sei lá mais o que!
— Não, ele tem razão! Sabe, todos eles! Todos! Eu sou uma fraude, Joshie!
— Você não é uma fraude, você é a escritora mais talentosa que eu conheço! — O amigo exclamou, indignado.
— Joshua! Eu sou a única escritora que você conhece!

Se observassem Cameron com atenção, veriam que ele rolava os olhos e ria baixinho. Seu marido às vezes podia ser tão desastrado. Todo mundo sabia que tinha que tomar o máximo de cuidado com , afinal, ela podia ser fútil, mas sempre fora teimosa e inteligente demais para ser levada de qualquer modo. Ninguém entra em uma discussão com e sai ganhando. Eles continuaram batendo boca por vários minutos, até Josh desistir e se virar para frente.
Pararam para abastecer (já que era de madrugada e não era uma perspectiva agradável ficar a pé, a essa hora, em NY) e respirou fundo, com a cabeça para fora do carro.

— Sabe, eu estou quase que completamente bloqueada. — Ela falou para Cam, que estava no banco do motorista. — Não consigo escrever muita coisa e, agora, ainda descubro que todos os meus personagens são, no fundo, a mesma pessoa.
— Isso vai passar, , é só ter calma. Às vezes, quando estou defendendo uma causa...
— O que é aquilo?

Ela não queria interrompê-lo (tudo bem, talvez quisesse), mas achava estranho ver aquela barraca roxa, bem no meio de uma vizinhança morta e sem vida.

— Eu não sei, não consigo ler a placa daqui.

Ela voltou a colocar a cabeça para fora do carro, apoiando as mãos na porta para poder se lançar mais à frente.

— Madame Shayanni? — Ela riu. — Oh, Deus, é isso mesmo o que eu estou lendo?
— Uma vidente, hein? — Cameron também sorriu.
— As luzes estão acesas. Acha que ela está atendendo? — Josh falou, enquanto entrava no carro.
— Eu gostaria de ir até lá. — Cameron disparou, com um sorriso zombeteiro no rosto.
— Vocês dois só podem estar tirando uma com a minha cara! — A morena reclamou.
— Por que não, ? Vai ser divertido! — Joshua tentou convencê-la.
— Isso é baboseira, essa coisa de vidente não existe!
— Por que não vamos até lá, então? Você pode perguntar quando seu bloqueio vai sumir... — Cam começou.
— Ou quando, finalmente, você vai arranjar um namorado que dure mais que o seu bronzeamento artificial. — Josh completou.
— Vocês são dois chatos. Não entendo como ainda saio com vocês!
— Porque você nos ama! — Josh arrematou, com uma expressão falsamente adorável no rosto.

Cam manobrou o carro e logo estavam estacionados na calçada da estranha barraca roxa.

— Eu só vou olhar. — Garantiu ela, achando graça dos dois amigos estarem tão excitados com uma vidente de rua.

Madame Shayanni era uma mulher jovem, de pele escura e cabelos cacheados e desgrenhados, amarrados com um lenço estampado. Tinha grandes olhos acinzentados, contornados fortemente e um sorriso malicioso.

— Ah, entrem, entrem, Madame Shayanni vai atender vocês.
— Oh, Deus, ela fala de si mesma na terceira pessoa. — Sussurrou para Josh, que riu junto com ela.
— Eu vou ser o primeiro. — Cam se candidatou, com a expressão séria.

Para um advogado tão brilhante, Cameron tinha uma horrível tendência a acreditar em todo o tipo de crendice barata.

— Não, ela. — Ela viu um braço cheio de pulseiras e braceletes apontar para ela. — Madame Shayanni vai atender a cética, primeiro.

Os dois homens ali arquearam as sobrancelhas e ela sentiu o coração acelerar timidamente. Depois, respirou fundo. Tudo isso era um monte de crendice barata. Sentou-se em frente à mulher, que não tinha uma bola de cristal, mas um baralho de tarô com 78 cartas em suas mãos.
A vidente fechou os olhos por um momento, dando tempo a para lançar um olhar debochado para os amigos. Depois de lhe lançar um olhar reprovador, Madame Shayanni separou 22 cartas, chamadas de arcanos maiores, e as dispôs na mesa.

— Pense em alguns questionamentos, dúvidas que tem em sua vida e quer respostas. Pergunte mentalmente algo que gostaria muito de saber sobre sua vida. — A mulher disse simples e calmamente, passando certa paz para . — Escolha.
— Quantas eu...
— Escolha, cética.

rolou os olhos. Não estava gostando do modo que a outra lhe chamava de cética, mas, se seguisse suas ordens, aquela tortura acabaria mais rápido. Sem pensar muito nas tais perguntas ou no que tudo aquilo poderia significar, estendeu a mão e virou uma primeira carta.

— Outra.

A mulher deixou que ela fosse virando e ao todo, virou sete cartas – o número da perfeição – até que Madame Shayanni a parou com um olhar. Ela era estranha. Algumas das cartas estavam invertidas, outras normais, mas todas desconhecidas para ela. O sorriso da vidente agora não era malicioso, era sinistro.
Das viradas para cima estavam: o Cavaleiro de Paus, um nove de paus invertido, a Temperança, o Diabo invertido e a Morte.

— Ow.
— A coisa está tão ruim assim, Madame? — Ironizou, segurando-se para não rir.

Os olhos da mulher a calaram instantaneamente. Estavam negros e faiscantes ao mesmo tempo, como se ela estivesse concentrada demais e com informações demais, talvez até levemente assustada ou fascinada também. Uma pausa de alguns minutos e novamente ela tomou as rédeas da situação.

— Madame Shayanni vê um perigo na sua vida, cética. — Ela disse, parecendo pesarosa. — Um grande perigo.

A seriedade da mulher e como seus olhos se estreitaram nervosamente voltando a atenção para as cartas fez se arrepiar pela primeira vez naquela sala. Por um momento, ela podia acreditar que aquilo era verdade. Por um momento, ela estava comprando toda aquela “crendice”.

— Mas calma... — Ela continuou e deu um sorriso nervoso. — A morte não é de toda ruim.

Por um momento a garota não sabia se a mulher falava no sentido literal ou se referia a uma das cartas a sua frente. Qualquer que fosse, sentiu sua respiração baixa e os olhares do casal de amigos atrás de si. Apostava que eles nem piscavam.
Depois de mais uma pausa que quase fez a garota consultada parar de respirar por alguns segundos, a outra continuou.

— Mudança de vida, é isso que a morte significa. Algumas coisas ruins vêm para o bem, alguns perigos precisam ser corridos e você precisa aceitar.
— Você me assustou, madame. Mas diga-me, tem algum grande príncipe encantado que devo encontrar? — Ela não iria abaixar a guarda e deixou sua barreira de ironia voltar à tona.
— Cética, cética... — Respirou fundo e sorriu graciosamente. — Tem um homem, um desconhecido. — Ela pousou seu grande dedo indicador em uma carta que podia se ler O Diabo.
— E como ele é? Bonito? Gostoso? Hm, tipo o Jensen Ackles, talvez? – Ela se empolgou, ouvindo Josh (provavelmente) segurar uma risada. Jensen Ackles era o sonho dos dois, mas Cameron não podia saber disso. Nem seus outros amigos. Jensen Ackles parecia ser o tipo de cara machão que ela abominava, mas com olhos expressivos de um artista. De qualquer maneira, não era o tipo de cara que ela namorava.

Mas, se estava na chuva, qual o problema de se molhar? A verdade era que não falava sério, mas qual seria o problema caso um Jensen Ackles aparecesse misteriosamente em sua vida? Problema nenhum, não é? Seria recompensador. Talvez ela até deixasse de trocar de namorados tantas vezes.

— Cuidado, cética. Desejo, sedução, paixão... Parece atrativo, não é? Mas não se deixe levar... Ele pode representar tanto o mal, manipulador e sagaz, como o bem. Tudo depende de você, porém, aqui do lado temos A Estrela e junto com O Diabo isto pode ser algo... Interessante.

resolveu não se manifestar. Grande perigo, homem desconhecido que pode ser bom ou mal, Estrela e Diabo serem interessantes... O que mais ela deveria esperar de uma consulta na cartomante? Ela realmente se lembrou de filmes, livros que lera e relatos de amigas. As cartomantes pareciam sempre bater na mesma tecla, sempre prevendo para todos as mesmas coisas... Primeiro algo ruim e depois homem. Ah, claro.

— Madame Shayanni sabe que está com um grande problema no trabalho. O problema vai continuar. Veja bem, — agora ela indicara a carta A Temperança — você precisa equilibrar a razão e a emoção, ser menos... Cética.
— Que simpática. — olhou as cartas na mesa.
— A cética só vai sair desse impasse quando amadurecer e aceitar o que a vida te dá. A cética deve esquecer o que sabe. É o que diz Madame Shayanni. — Ela apontou uma carta, onde se lia Sacerdotisa.
As cartas viradas na superfície da mesa não haviam sido todas citadas, mas já ouvira o suficiente. Enquanto as coisas estavam entre um grande perigo e um homem misterioso, até que as coisas pareciam mais agradáveis e divertidas do que uma tentativa de se meter no que ela estava passando quanto ao seu trabalho, na sua escrita, algo que lutou tanto para ser reconhecida.
Ela forçou um sorriso amarelo e levantou-se da mesa.

— Claro que sim. Quem é o próximo?

Ela realmente estava enfrentando uma crise neurótica particular com o seu trabalho e personagens e apesar de se manter fria, a leitura da maldita vidente não adiantou nada. Ela estava ainda mais inquieta, se aquilo fosse possível. Como se já não bastasse, a leitura dos outros dois, da qual ela ouvia sentada atrás de um pano que separava o local onde Madame Shayanni mantinha sua mesinha e uma cadeira, tinha sido tranquila e agradável, ao contrário da sua.
Até o nome das cartas soavam mais simpáticas. Os dois haviam virado a carta Papa, que representava a união e o casamento. Ela pode ouvir o tanto de previsões boas e conselhos positivos.
Finalmente eles pagaram a mulher e foi a primeira a sair da tenda.

— Cética? — A vidente chamou. — Use azul.
— Por que vai me dar sorte? — Ela perguntou, com escárnio.
— Porque combina com os seus olhos. — Com uma piscadinha, a mulher voltou para sua tenda.
— Que estranha! — Josh riu.
— Essa mulher é louca. E mais loucos somos nós, que ficamos lá esse tempo inteiro! São quase cinco da manhã!
— Você só está com raiva porque vai correr um grande perigo. — Cameron, todo bobo com as previsões da mulher, a alfinetou.
— O único perigo que eu vou correr é se o Kruger descobrir que ainda não tenho um novo capítulo para ele! — Ela resmungou, enquanto o casal ria.

É. Definitivamente aquilo havia mexido com ela e se conhecia bem a si, esse momento em que era pressionada e criticada iria contribuir para que o andamento de seu livro atrasasse um pouco mais. Como se já não estivesse travada e atrasada e frustrada o suficiente!
Cameron estacionou na porta do seu prédio depois de um caminho silencioso. Ela cumprimentou o porteiro, Jeremy, um senhor de aparência cadavérica, mas que era um amor de pessoa.

— Boa noite, srta. . — Ele respondeu, cortês.


Capítulo 3

— Falta pouco, ! Só mais cinco, vamos lá. Você consegue! — Seu personal trainer, o odiosamente feliz e saudável Zachary, a estimulava a continuar com os abdominais.

Depois de achar cerca de cinco palavrões diferentes para xingá-lo, ela resolveu que a primeira coisa que faria quando chegasse em casa era jogar aquela maldita torta de limão pela janela. Bem, talvez não inteira, é claro. Isso seria um desperdício. Quer dizer, tanta gente passando fome e ela ia, simplesmente, jogar uma torta inteira fora? Parecia loucura.

— Zac, já passou de dez horas da noite! — Reclamou, depois dos cinco abdominais prometidos.
— Tudo bem, , você foi bem hoje. — Ele ergueu a mão para que ela batesse com a dela, mas ela simplesmente fechou os olhos e soltou o ar com força. Ele riu diante da atitude dela. Zac já estava acostumado. Odiava malhar, academias e gente saudável.

Era uma maldita sexta à noite, e, ao invés dos rapazes bonitos se arrumarem para sair com suas namoradas — ou achar algumas namoradas ou namorados — eles estavam suando e pegando peso. Caras fortes querendo ficar ainda mais fortes e ela apenas rezando para que o sorvete de nozes não tivesse acabado.
E, embora tudo isso, não era especialmente gordinha ou, ainda, acima do peso. Tinha uma tara por doces fora do normal e, quando percebeu que comer demais aumentava seus quadris e sua barriguinha, foi se matricular na academia mais perto de seu apartamento. Em Nova York, sua aparência contava muito mais do que seu intelecto. E, se tivesse os dois, já era meio caminho andado para tomar a cidade.
Depois de uma ducha rápida e a promessa feita para a Voz Chata da sua cabeça de que se livraria daquela torta o mais rápido possível, ela arrumou suas coisas e rumou para fora da academia. Sempre que saía do lugar, um alívio sobrenatural tomava seu corpo, sua mente e seu coração. Atingia o nirvana cada vez que caía fora daquela casa de tortura. Sua irmã costumava dizer que, de tanto que odiava o lugar, se fosse para o inferno, seu castigo eterno seria malhar.
Apertou o casaco ainda mais contra o corpo e saiu andando pelas ruas frias de Nova York. Mesmo sendo só outubro, já estava ventando de um modo que lhe arrepiava a pele. O vento gélido bateu em sua nuca ao mesmo tempo em que ouviu algo atrás de si. Não soube se o arrepio foi pela sensação de estar sendo seguida ou pela brisa noturna. Fosse o que fosse, decidiu apressar o passo. E os passos atrás de si aceleraram na mesma velocidade que ela. Quando parou, para fingir ler um outdoor, o barulho atrás de si também cessou.
Dessa vez não era sua imaginação, alguém estava realmente seguindo-a. Por um ínfimo momento, desejou não ter saído de Wisconsin e deixado os concursos culturais para trás. Mas foi breve e, assim que se lembrou de tudo que tinha agora, lembrou-se o que Nova York realmente significava. O sucesso, a fama, tudo... Nova York sempre foi o centro de tudo.
O barulho ritmado atrás de si não a deixou esquecer que estava sendo seguida e ela decidiu desviar o caminho, talvez pegar um atalho, já que não ousaria entrar em casa – no prédio de apartamentos luxuosos logo no outro quarteirão – com o que quer que a estivesse seguindo. Se estivesse em um filme de terror, um vampiro teria pulado nela assim que ela entrou no beco ao lado da delicatessen onde comprava seus doces. Ela lidaria com um vampiro. Assistiu Buffy quando era adeloescente. Nunca tinha notado como aquele beco de merda não tinha saída. Ele sempre pareceu tão longo que ela imaginou que ele sairia no outro quarteirão. Maldito beco, maldita vidente. Um grande perigo! Era isso? Maldita fosse aquela vidente!
O perseguidor parou de andar assim que ela avistou a parede de tijolos ao fundo do beco, a lata velha (que ela suspeitava ter sido um carro, algum dia), um cachorro dormindo sobre uma pilha de trapos e uma lixeira alta. Ela respirou fundo para se acalmar, mas o odor de lixo e urina daquele lugar não a deixou pensar claramente.
Estava presa em um beco, com um assassino/assaltante/estuprador/psicopata na sua cola e nem ao menos poderia tentar pular uma cerca, como nos filmes de ação. Se sua vida fosse um romance, o cara apenas a seguira porque ela deixou algo cair e então eles tomariam um café juntos. Se fosse um drama, seria um ex-namorado suicida implorando-a para voltar.
O grande problema da situação era que não estava em um filme e a realidade era uma grande merda.

— Paradinha aí, doçura. — Uma voz rascante e baixa disse atrás dela. Se viraria? Ela queria mesmo ver o que aconteceria? Talvez fosse melhor que sua última visão da Terra fosse uma parede de tijolos, uma lata velha e um vira lata sujo.

Ela continuou parada, mais por não saber o que fazer do que por ter ouvido e acatado a ordem do maluco. Nunca tinha sido assaltada antes. Nunca na vida, mesmo morando em NY. Como se fazia? Tinha que erguer os braços como nos filmes? O delinquente respondeu sua pergunta por ela, puxando-a pela parte de trás do casaco e a encostando na parede fedida.

— Assim, bem quietinha. — Algo pontiagudo foi pressionado bem no meio de sua coluna e, se antes estava sem reação, agora seu coração ribombava no peito, sua respiração ficou falha e um gemido involuntário saiu de sua garganta.
— Por favor... Não. — Pediu, o choramingo mal parecendo sua voz habitual. — Pode levar a bolsa, eu não vou...
— Eu disse quieta! — Uma mão enluvada pressionou seu rosto contra a parede e ela o sentiu queimar, mas não ousou dizer mais nada. No momento, tudo que queria era sair dali. Nunca rezou antes, mas agora seria uma boa hora para começar. Sua mãe rezava constantemente e era fácil para ela a imitar, em pensamento. — Até que você é bem gostosinha... — Ele murmurou.

“Por favor, Senhor, só me livra disso. Eu prometo ir à missa — ou seria culto? — todo domingo! Por favor...”.
A faca cortou a alça de sua bolsa e sua pequena — e desajeitada — oração mental. Então era isso. Estava sendo castigada por todos os anos em que se negou a ir à Igreja com os pais e os irmãos. Sempre ouviu que Deus castigava os desobedientes. Péssima escolha ir contra Deus, , péssima escolha... Repetia para si.
Mãos brutas tiraram seu casaco e ela tentou se desvencilhar, apenas para sentir a faca pressionada contra o seu pescoço.

— Fica quieta, sua vagabunda! — Percebeu que estava chorando quando as lágrimas caíram por seu queixo. — Se tentar fugir de novo eu vou te cortar, entendeu?

Murmurou um sim choroso, enquanto ele continuava a despir-lhe. Depois do casaco, ele tirou sua blusa. Ele a virou de frente e ela pôde ver o cachorro os observando, deitado e abanando o rabo, timidamente.
Seus olhos vagaram para a rua e ela viu um homem ali, parado, silencioso e parecendo chocado, segurava uma sacola em uma das mãos e tinha a outra no bolso da calça. Fechou os olhos com força, não queria se lembrar de que havia alguém assistindo, de que havia uma testemunha daquela brutalidade.
Obviamente já não era virgem, embora soubesse que isso não importava. A violência era a mesma, sendo ela experiente ou não. Sempre via Law and Order: Special Victims Unit, mas jamais pensou que aquilo poderia acontecer com ela. sentiu as mãos afoitas machucarem seu corpo, a exclamação do homem que a apalpava. Ouviu o barulho de um zíper ser aberto e se preparou para o pior. Ele segurou sua mão com força, tentando guia-la a algum lugar e então... Nada. Ainda de olhos fechados, ouviu um barulho molhado e sentiu um baque em algum lugar perto de si. O cachorro agora latia e rosnava incessantemente para os dois homens que rolavam no chão.
O homem tentou tomar a faca da mão de seu agressor, mas apenas conseguiu cortar sua mão. Ela percebeu, com uma pontada de culpa, que ele parecia sujo e magro. Apoiou as duas mãos na parede atrás de si e observou o bandido se levantar e correr em direção à rua, seguindo pela direção oposta à que tomaria quando fosse para casa.
Ele se levantou segurando a mão direita, que sangrava com um corte feito de uma extremidade à outra. Ela o observou olhar a mão calmamente e, então, se virar para ela.
Não sentia mais o vento frio da Big Apple, sua vergonha era tão grande que o calor de suas bochechas irradiava para o resto do corpo, provavelmente. Não queria que aquele homem tivesse visto aquilo, mas estava agradecida a ele por ter interferido. Ela o observou andar até ela, parando no meio do caminho para pegar seu casaco do chão. Sem dizer nada, ele o estendeu para ela, evitando olhá-la.
Depois que o recebeu da mão dele, ainda chocada demais para agradecer, o viu se abaixar e acariciar a cabeça do cachorro com a mão boa.

— Hm, oi. — Como se falava com o seu salvador? — Você quer ajuda com isso?

Ele não se virou para olhá-la e ela vestiu o casaco, imaginando que ele poderia estar tão envergonhado quanto ela.

— Quer ajuda com o seu machucado? — Silêncio. — Senhor?
— Senhor? — Ele riu.

O cachorro latiu para ela, que se assustou e encostou-se novamente à parede.

— Wolf, quieto. — A voz dele era tão sem vida quanto o resto de sua aparência. Baixa e grave, bonita e mesmo assim tão morta.
— Olha, obrigada mesmo pelo que você fez. — Ela conseguiu falar, se forçando a não gaguejar ou tropeçar nas palavras.
— Não é nada. — Ele chamou o cachorro com um gesto, que fez festa para o dono.
— Hm, eu acho melhor você cuidar da sua mão... — Ela olhou para os lados. — Sabe, pode infeccionar.

Ela ouviu uma risada sem humor, grossa e pouco delicada enquanto recolhia a bolsa do chão.

— Claro, vou pegar meu antisséptico. — Ele sussurrou, completamente sarcástico. Pelo fato do homem ter salvado sua vida, decidiu ignorar a grosseria.
— Posso dar uma olhada, se quiser. Moro a alguns quarteirões daqui. — Ele virou a cabeça para ela. — É o mínimo que eu posso fazer. Você sabe, você me livrou de... — Só de pensar, lágrimas voltaram aos seus olhos e ela se calou, subitamente incapaz de falar qualquer coisa que fosse.
— Não precisa.
— Olha... – Ela deu três passos lentos e hesitantes até o lugar onde ele estava sentado. — Eu realmente quero fazer isso. Alguém precisa fazer um curativo e eu sou boa nisso.

Era mentira. O máximo que já havia feito foi colocar um band-aid no joelho do seu irmão mais velho, Daniel, quando os dois eram crianças. Virava e mexia, cortava o dedo enquanto tentava cozinhar e novamente o band-aid era utilizado. Se fosse usar o milagroso remédio no homem, entretanto, precisaria de quatro ou cinco.
Ele pareceu pensar por um segundo e logo se levantou. O cachorro se levantou ao mesmo tempo, mas ele fez um gesto para que ele fosse embora.

— Não, Wolf!
— Ah, não! O cachorro pode ir também! — Ela riu, sem graça. Gostava de cachorros, embora duvidasse que o porteiro fosse deixa-la passar com aquela comitiva.
— Tem certeza?

Quando criança, sempre quis ter um cachorro. Agora, deixar o animal abandonado em uma noite fria e macabra em Nova York parecia um grau de crueldade superior ao de Hitler.

— Claro. A propósito, meu nome é . – Ela estendeu a mão para ele, enquanto caminhavam.
— Eu sou . — Ele a apertou com a mão esquerda, sem entusiasmo. — E você me deve uma. — Ela pensou ver um princípio de sorriso, mas desapareceu antes que pudesse se dar conta. O que ele queria dizer com aquilo?

O resto do caminho foi feito em silêncio.

— Srta. ? — Jeremy, o porteiro, a chamou.
— Sim? — Ela se virou para trás e seu companheiro fez o mesmo.

Ele abriu e fechou a boca algumas vezes.

— Jeremy, este é e Wolf. — Ela apontou os dois. — São meus convidados.
— Convidados? — Balbuciou um pouco, logo reassumindo sua postura esnobe. — Boa noite, senhor .

pareceu achar graça da situação, mas , que não queria se demorar mais, apenas apertou o botão do elevador.

— Hm, desculpe por isso.
— Tudo bem. Eu tenho certeza que a situação é estranha.

Hm, ser quase estuprada e ser salva por um desconhecido, para depois leva-lo ao seu apartamento e cuidar do seu ferimento? Estranho? Que isso.

— É. — Foi a única coisa livre de ironia que ela conseguiu formular.

O elevador parou no terceiro andar e, seguindo-a, se encaminhou até a porta de mogno no começo do corredor.
Ela abriu a porta e o convidou para entrar, pensando no que diria à sua irmã, quando relatasse o ocorrido. Quando se mudaram para Nova York juntas, e juraram que nunca iam repetir a vida que poderiam levar se continuassem naquela roça — criando cinco filhos e sendo irritadiça permanentemente, como a mãe. Então, juntaram suas coisas e fugiram, no meio da madrugada, pegando um ônibus para Nova York.
Mas, desde que tinha se casado, sua única companhia era a quase frequente presença de Josh e a garrafa de vinho aberta na geladeira. O marido da irmã, Joseph (não Joe ou Joey, só atendia pelo nome Joseph e grunhia impaciente se alguém lhe dava um apelido qualquer), não era exatamente a pessoa mais agradável do mundo e ela evitava visita-los quando ele estava em casa, embora sentisse uma saudade absurda da irmã e das refeições que ela preparava.

? Santo Cristo, eu achei que você estava com algum ca... — estacou no meio da sala, olhando dela para e o cachorro, que cheirava o sofá de um modo que ela não gostava muito. — ? Quem é ele? E por que tem um cachorro aqui?
— Agora não, .

Não percebeu que a irmã não deveria estar ali, mas sim no novo apartamento que pertencia ao seu marido, tinha que pensar onde estava a caixa de primeiros socorros que ganhou de Cameron, assim que se mudou. Ela chutou o sofá na semana passada e se lembrava perfeitamente de ter pegado a caixa porque seu dedo mindinho sangrou um pouco e...

— Oi. — Ouviu a voz da sua irmã. — Eu sou a .
. — Acenou com um meio sorriso forçado e o desconforto mais que evidente de alguém que se sentia fora de lugar.

Talvez estivesse na área de serviço? Não, só Shawna utilizava a área de serviço. Ou, talvez ela tivesse deixado no escritório... Ultimamente, tudo ia parar no escritório, como seu robe atoalhado, na semana passada. Ou no chão do quarto.

— Você... — ia questionar o homem e porque parecia que sua irmã tinha brigado com um lobo, quando ela a interrompeu.
, você viu a caixa de primeiros socorros? — Mal percebeu que havia interrompido a irmã, mas não se importou. Escutaria tudo mais tarde.
— Sempre fica no banheiro. — Ela respondeu calmamente, observando a irmã arregalar os olhos e finalmente perceber que ela estava ali. Para uma escritora brilhante, às vezes sua irmã mais nova era mais lenta que uma lesma.
— Espera! ? — Ela olhou para a irmã, em choque. — O que você está fazendo aqui?
— Joshie me disse que você estava se sentindo sozinha. — Ela bufou e relanceou os olhos para o homem, imóvel e inexpressivo. — Mas acho que já tem companhia.

Claro, o banheiro. Como ela não pensou nisso? Lidaria com a visita surpresa da irmã depois.

— Espera, para que você quer a caixa? — Ela olhou para trás e viu os cachos tingidos de da sua irmã logo atrás de si. — Por que você trouxe um mendigo para cá? – Ela cochichou, franzindo a testa.
— Mendigo? — Ela olhou para trás. Ele não se parecia com um, mesmo que suas roupas estivessem um pouco gastas e tivesse a barba por fazer. — Ah, ele... — Ela respirou fundo. — Ele me salvou.
— O que aconteceu com você, ? — estava subitamente preocupada. Não sabia o que deduzir daquela equação que envolvia sua irmã maltrapilha, um mendigo bonitinho e seu vira-lata.
— É uma longa história... Podemos conversar depois?


Capítulo 4

Sob o olhar curioso da irmã, ela voltou à sala e o levou até o banheiro, onde lavaria a mão dele e aplicaria o antisséptico que usava sempre. Tentando ser o mais delicada possível, lavou a mão dele na pia do banheiro, mal prestando atenção na sujeira que saía ou no tremor constante das suas mãos. Depois de limpo, percebeu que o corte não era tão ruim quanto parecia. Afastando o vidrinho até uma distância segura, ela espirrou o líquido incolor no corte e, decidindo que jamais faria um curativo decente, usou uma gaze para enrolar toda a palma da mão dele.
Até que tinha ficado bom. Para uma primeira vez, é claro.

— Boa em fazer curativos, né? — Talvez o único vestígio de vida que ele tivesse fosse os olhos. e intensos, mas tristes, melancólicos.
— Talvez eu tenha exagerado um pouco. — Corou um pouco sob o olha dele. — Você quer tomar um banho enquanto eu esquento o jantar?
— Enquanto... Você esquenta o jantar? — Ele pareceu um pouco confuso. — Nós nos casamos nesse meio tempo?— tinha um tom irônico, ácido.
— O quê? — Ela piscou e então sorriu um pouco. — Você não quer? — Dessa vez, ela parecia confusa. — Eu pensei que...
— Eu não preciso da sua piedade, ).

Ela gaguejou, em choque.

— N-não é piedade! Sabe, o nome disso é gratidão, ! — Ele não respondeu nada. — De onde eu venho, é comum nos mostrarmos gratos a alguém que nos ajudou.

Achou melhor esconder de onde vinha, realmente. Naquele interior, todos se ajudavam e se cumprimentavam, talvez fosse a única coisa boa de lá. Pensando bem, ainda tinha algumas roupas de quando Cameron morava com elas. era magro, mas ela tinha certeza que as roupas ficariam boas.

— Não precisa. — Ele olhou ao redor. Ainda estava desconfortável com o luxo do lugar, apesar da mulher à sua frente ser simpática e até meio engraçada.
— Eu vou pegar uma toalha para você. Tem uma muda de roupa também... — Ela murmurou, enquanto andava e fingia que não o escutava. — Vou trazer em um minuto. Ah, você quer fazer a barba?

Ele rolou os olhos. Não adiantava discutir com aquela riquinha excêntrica.
atravessou a sala em direção ao antigo quarto de Cam, que agora servia como ocasional quarto de hóspedes — muito necessário quando se tem três irmãos mais velhos — e depósito de tralhas. Abriu o armário e pegou uma toalha preta e felpuda, logo se abaixando e revirando as roupas que ali estavam.

— O que você tinha na cabeça, ? Um mendigo? — sibilava, enquanto andava atrás dela.
— Ele não é um mendigo e ele salvou a minha vida. O que você queria que eu fizesse?
— “Obrigada, seu mendigo. Até mais tarde, se cuida!” já era suficiente.
— Por quê? Porque ele não tem casa? Porque ele está sujo? — A outra replicou, enquanto revirava as gavetas procurando algo quentinho para seu salvador vestir.
— Não começa com o papo humanitário, deixa isso pra ONU! Você está sendo irresponsável! Aquele cachorro acabou de fazer xixi nos meus sapatos, sabia?
— Você compra outro par. — Depois, retirou sua antiga máquina de escrever de cima da cama de hóspedes, colocando-a no canto do quarto. — Nós podemos arcar com isso.
— O que você está fazendo? — Sua irmã observava, perplexa, a cena.
— Arrumando o quarto.
...
— Você se lembra do que a vidente disse, ? Que eu ia correr um grande perigo?
— Sinceramente, dá para esquecer? Você ficou mastigando isso a semana inteira! Cameron e Josh ficaram falando sobre isso todo o tempo! Qualquer barulhinho e você já estava grudada no teto, feito um gato assustado!
— Pois eu acho que tem alguma coisa de destino nisso, eu não sei...

precisou respirar fundo. Ou isso, ou explodiria. Agora ) queria falar de destino!

) , você vai realmente deixar um cara que nós nem conhecemos dormir aqui?
— Hm, eu não sei se você lembra, mas esse apartamento é só meu, agora que você se casou. E eu vou contar tudo daqui a dois minutos, só me espera.

Batendo na porta do banheiro, ela entregou a toalha e a muda de roupas. , ainda desconfortável e ligeiramente irritado, estava sentado no vaso sanitário, que tinha a tampa abaixada, e as aceitou sem dizer nada. Ela simplesmente não conseguia entender o cara. Quer dizer, ela estava o ajudando, certo? Um mínimo de gratidão não faria mal a ninguém.

— Eu quero saber tudo, agora! — tinha as bochechas coradas e um olhar irritado.

Tremendo e respirando fundo, ela contou sobre tudo, desde o momento que saiu da academia até quando percebeu que estava sendo seguida. De verdade, dessa vez, assegurou para a irmã, chocada. Depois de escrever tanto sobre assassinatos e conspirações, era de se esperar que ) fosse uma mulher ligeiramente paranoica que tremia ao sinal de qualquer van preta com vidros fumê. Ou qualquer carro preto com vidros escuros.
Claro que, depois da consulta à vidente, qualquer barulhinho a deixava em alerta. Depois de uma previsão daquelas, como, simplesmente, ignorar? Mesmo que insistisse em seu ceticismo, estava perturbada.

— Oh, meu Deus, ! — A irmã a abraçou forte. — E você tem certeza que não está machucada? — A voz dela saía abafada.
— Tenho. — A voz dela tremeu e ela precisou respirar fundo. Na verdade, não tinha certeza de nada. A situação inteira tinha sido bem dramática. — Mas sabe que eu posso usar isso para um de meus livros? — Tentou fazer piada, mas viu que Wolf (depois de se empanturrar com as sobras da geladeira) rondava seu tapete branco sugestivamente. — Aí, não, totó!

Ela se levantou abruptamente, quase causando a queda da irmã mais velha. Antes ver no chão do que uma “surpresinha” no seu tapete!
O cachorro ficou de orelha em pé e a olhou com atenção, como se estivesse analisando-a. Só podia estar muito neurótica para achar que um cachorro estava analisando-a! Balançando a cabeça, como que para espantar o pensamento ridículo, ela se abaixou para acariciar a cabeça dele.

— Aqui não, tudo bem, amigo? Vem, eu vou te levar para a área de serviço, deve ter algum jornal por lá.
— Você sabe que ele não vai te responder, né?
— Você e Josh têm a mesma mania de fazer perguntas estúpidas... — Ela resmungou, sendo seguida por Wolf. Incrivelmente, o cachorro parecia entender o que ela dizia, porque logo que viu os jornais espalhados pelo chão, rondou o local do mesmo jeito.
— Nós não temos culpa que você teima em conversar com coisas que não falam!

Shawna iria mata-la amanhã de manhã, ela pensou, sorrindo. Sentiu cheiro de comida e soube que, na cozinha, preparava algo.

— Isso é só porque ele salvou a sua vida. — Ela disse, antes que a caçula pudesse dizer qualquer coisa. — Vou temperar de novo esse molho de tomate que está na geladeira e tornar esse espaguete que você fez alguma coisa comestível.
— Também não precisa ofender. — Ela disse, em tom de riso, sentando-se na bancada de sua cozinha para observar a irmã cozinhando. tinha graça e refinamento ao cozinhar, coisa que ela jamais teria e nem se preocupava em ter.
— O que me ofende é a sua culinária. — A outra revirou os olhos, retorquindo no mesmo tom divertido.

não soube como agir, vendo as duas conversarem animadamente na cozinha sobre coisas que, para ele, eram tão superficiais. O cheiro da comida lhe atingiu como um soco e ele se sentiu salivar, só de imaginar como seria o gosto, se o cheiro já era tão bom.
Nos últimos dois anos, não tinha comido nada que parecesse ser tão saboroso. Vivia, basicamente, dos lanches que comprava na delicatessen ao lado do beco que morava com seu cachorro.
A verdade é que tinha largado um emprego estável e rentável para viver seu sonho, a música, que não pagava suas contas, mas que o deixava feliz. Cada sorriso que provocava, cada olhar cheio de significado que via casais trocando ao som de suas músicas originais ou os covers que fazia. Não tinha preço. Fosse embaixo da ponte ou em um palco iluminado no Madison Square Garden, ele seria feliz contanto que tivesse seu violão.

— Ah, , o que você está fazendo parado aí? Minha irmã acabou de te salvar de comer alguma coisa que eu fiz. — Ela falou de um modo excitado, como se eles fossem amigos de infância, e não estranhos.
— Não se compara ao que você fez pela , é claro. — riu. — Ou talvez sim, já que aquele macarrão estava de matar. — Adicionou com um sorriso zombeteiro.
— Não começa. — Ele quase riu ao ver ) fazer bico, mas sua atenção estava toda no enorme prato de macarronada que estava servindo para ele.
— Vamos, sente-se.
— Obrigado. — Ele manteria sua educação, ao menos.

As duas o observaram comer, conversando um pouco para que não ficasse tão óbvio o que estavam fazendo. Cada uma tinha seus próprios pensamentos. achava que, limpo e vestido adequadamente, era um cara até bonito. Tinha o maxilar forte e os tão nostálgicos olhos para lhe dar um certo charme, apesar do rosto encovado. Ele acompanhava a conversa minimamente e parecia estar se deliciando com a comida, embora pensasse que o assunto das duas era um tanto fútil. , por sua vez, achava que sua irmã estava perdendo a sanidade. De vez. Trazer um homem desconhecido para o apartamento, mesmo que este tivesse salvado a sua vida, parecia completamente louco. Algo que ela não faria.

— Sabe, eu conheço você. — ) disse, estreitando os olhos. — De algum lugar...
— Você não está tentando me cantar, está? — Ele respondeu com uma pergunta, sem emoção.
— O quê? — Ela arregalou os olhos . — Não! Eu só sinto que conheço você de algum lugar!

Ele mastigou silenciosamente a garfada absurda que tinha levado à boca. Por um momento, ela se lembrou de quando servia peões de obra, no Brooklyn.

— Eu toco por Nova York. Sou músico. Fico mais no Central Park, mas não todo dia.
— Ah! Isso mesmo! Eu estava no parque e você tocou algo dos Beatles... — Ela sorriu com a lembrança. Penny Lane. — Graças a você, consegui escrever algumas páginas!
— Você é escritora? — Ele ergueu os olhos do prato por alguns segundos, analisando-a.
— Você mora mesmo em Nova York? — perguntou, com as sobrancelhas erguidas em espanto. Ultimamente, todo mundo conhecia a cara e o nome da sua irmã.
— Eu deveria conhecer você? — Perguntou com a boca cheia.
) . — continuou, depois de lançar um olhar para a irmã. Ele, no entanto, continuou mastigando sem expressão. — Da Trilogia Crimson Tales?

pensou por alguns instantes.

— Não, não conheço.
— Nunca me viu na televisão? — Ele negou. — Nem em um jornal ou uma revista qualquer? Nunca?

Sua autoestima e o orgulho de sua fama tinham ido pelo ralo. Como ele não sabia quem era ? ) tinha dois best-sellers, um deles, inclusive, sendo adaptado para o cinema. Foi eleita pela Times a mulher mais influente de NY com menos de trinta anos (e a terceira mais bem sucedida, mas quem está contando?), mas um músico de rua não sabia quem ela era. Sentiu-se, novamente, uma ninguém de Wisconsin.

— Eu não tenho uma televisão e, para falar a verdade, não me faz falta. — Ele deu de ombros.
— Você tá brincando! — rolou os olhos. Falar isso logo para ela, que não desgrudava mais da TV, de tão viciada em Downton Abbey...
— Enfim. — Ela resolveu se intrometer antes que desse um de seus ataques. Ela estava constantemente viciada em diversas atrações da TV. — Você mora naquele beco?
— Você vai escrever um estudo sobre a vida de um sem teto? — Ele perguntou, apático. — Ou a minha biografia?

Ele era rude e ignorante, mas surpreendentemente franco.

— Só estou curiosa. — Ela deu de ombros, imitando o gesto blasé que ele tinha feito antes.
— No meu carro. — Ele respondeu, depois de alguns segundos. — Eu moro no meu carro.
— Então você tem um carro. — alfinetou.
— Ele não anda há algum tempo, então ele é tipo a minha casa. — Ele as olhou, com seu ar de desconfiança natural. Como se fosse um gato de rua.

Elas iam continuar o inquérito, se Wolf não tivesse escolhido aquele momento para fazer festa para o dono. Ele havia reencontrado e parecia feliz com isso. Feliz demais, como todo cachorro.

— Bom, já que você tem um lugar para dormir, nós vamos deixar você ir embora. — disse com um tom diferente, como se desafiasse a irmã a convidá-lo a dormir ali, como ela planejava fazer.

Ele assentiu.

— Está frio lá fora.
— Eu me viro. — Ele disse simplesmente.
— Ele se vira. — repetiu para a cabeça de vento que era sua irmã.
— Pelo menos leva uma coberta quente e...
— Não... Vocês duas já fizeram o bastante por mim. — não queria parecer ingrato, mas era homem e ainda conservava uma pequena parcela de orgulho que o impedia de aceitar a piedade de duas burguesinhas endinheiradas e obcecadas com futilidades.
— Uma coberta quente é uma boa ideia. — concordou e foi buscar alguns cobertores. Assim, aquele homem sairia dali mais rápido e ela poderia ficar tranquila.

Depois que a irmã saiu, a escritora o olhou novamente. Ele parecia desconfortável. Seu orgulho e sua vontade de, realmente, ter uma coberta para suportar a noite fria entraram em conflito. No final, seu instinto de sobrevivência falou mais alto. De nada ia adiantar ser um músico congelado em um Chevy velho.

— O que você quis dizer quando disse que eu te devia uma?

Ele sorriu timidamente por alguns segundos. Aquela mulher à sua frente era engraçada. Tinha um bronzeado perfeito demais para o tempo frio e sem sol e dentes simétricos e brancos, fabricados, ele deduziu. O apartamento era decorado com algumas obras de arte nas paredes e móveis caros. O tapete valia mais que o carro dele. E, ainda assim, ela estava parada ali, se interessando por algo que ele falara no calor do momento. Uma mulher bonita como tantas outras em Nova York, superficial como tantas outras e, ainda assim, tão imprevisível.

— Eu não vou te pedir dinheiro, se é isso que te preocupa. E não precisa mais, depois daquele macarrão.
— Não, eu estou mesmo te devendo uma. O que você quer?

deu de ombros. Ele queria muitas coisas, embora duvidasse que aquela escritora pudesse ajudar. Queria poder ser realmente ouvido, queria não ter se precipitado tanto na juventude, queria ajudar aqueles na mesma situação que ele. Mas ela não podia fazer isso, podia?

— Você pode passar no beco para conversar, se quiser. Eu gosto de ouvir. — Era algo simples. Algo que ela poderia fazer se quisesse e evitar se não quisesse se meter com um cara como ele. não esperava nada dela, de uma escritora famosa e com um ego tão grande quanto seu apartamento.

Ela sorriu superficialmente.

— Eu prometo passar lá, vez ou outra.
— Então eu te vejo por aí. — Ele murmurou, e logo depois recebeu algumas cobertas felpudas e roupas mais quentes das mãos daquela de cabelo . Todas elas estavam dobradas dentro de um saco plástico.
— Eu dobrei para você. — Ela disse com um sorriso simpático. — Foi ótimo conhecer você, . Obrigada por salvar essa avoada.

Ele murmurou alguma coisa e foi quase chutado para fora pela mais velha, que queria vê-lo o mais longe dali possível.

— Bem, fizemos nossa boa ação do ano. — Ela sorriu para a caçula, que estava olhando o homem e o cachorro irem embora, pela janela.
— Você quase o chutou para fora do meu apartamento.
— Eu não estava confortável com ele aqui. Agora, por que não colocamos a conversa em dia?

a olhou desanimada, bocejando em seguida.

— Eu to com sono, já passou de uma hora da manhã e amanhã tenho que acordar cedo para escrever. Pode ser outro dia?
— Como é? Eu fiz todo o caminho do Upper East Side até aqui!
— É, você deve ter levado uns vinte quinze de carro até aqui, contando com o engarrafamento. — debochou. Desde quando Manhattan era longe?
— Você está mesmo chateada por causa daquele cara? — Ela perguntou, incrédula.
— Não, só acho que foi muita coisa para um dia só. — Ela colocou as duas mãos na nuca. — E eu malhei demais.

foi embora, mas se a irmã pensava que ela ia deixar aquilo barato, estava muito enganada.


Capítulo 5

— Bom dia, Charles, o que você quer me ligando tão cedo? — Não eram nem oito horas da manhã. Charles Kruger, seu editor, sabia que ela acordava cedo, mas ligar antes do café da manhã já era demais!
— O que você acha? — Nem bom dia, nem um tom agradável. Se Charles não fosse um coroa tão bonito, duvidava que ele teria chegado onde estava. — Quero novos capítulos, .
— Eles vão chegar para você, fique calmo.
— Quando eles vão chegar?

Assim que eu escrevê-los, ela pensou, cheia de culpa. Para falar a verdade, não é que estava se divertindo demais ou frequentando as festas do high society, mas depois do evento traumático de dois dias atrás e o fato da sua irmã estar cogitando seriamente a possibilidade de jogá-la em um manicômio não tinham deixado sua mente livre para pensar na última aventura de seu personagem, Caleb Teague. Ela bem que podia mata-lo, mas sabia que a editora que iria mata-la!

— Eles não marcam uma data para...
— Eu tenho data, ! — Ele suspirou pesadamente no telefone. — Você vai acabar me dando cabelos brancos.
— Você já tem, Charles. — Ela também suspirou. Não gostava de estar “bloqueada”! Escrever era o que a fazia se sentir viva e, ultimamente, a única coisa que tinha qualquer efeito parecido era o vinho que estava na geladeira.
— Só não me diga que você está farreando por aí, ao invés de escrever.
— Não estou. — Só tinha ido a uma festa na última semana. Não chamava aquilo de “farrear”.
— Vou te dar uma semana, . Quero um novo capítulo até semana que vem.

E eu quero que o Jensen Ackles apareça misteriosamente na minha vida, como a vidente disse, ela pensou, cheia de ironia. Ela não disse que ia ser o Ackles, é claro. Ultimamente, andava pensando que esse homem podia ser , ou Ted, que lhe ligara ontem, perguntando quando iam sair juntos. Para o azar do fotógrafo, ela não queria tomar outra bronca do seu editor (até porque já previa que Kruger iria lhe dar um sermão por ter passado do prazo de novo), então disse que seria em um futuro próximo. Quanto a , mesmo que tivesse prometido que ia visita-lo, não tinha a menor intenção de cumprir o que tinha dito.
A verdade é que a intrigava e não podia, simplesmente, se dar ao luxo de ficar pensando nele. Ela era famosa e reconhecida, mas não podia esquecer que só tinha escrito dois livros e que seus quinze minutos de fama poderiam passar a qualquer hora.
Suspirando, olhou pela janela. Fazia um dia gelado e nublado em Nova York e, lá embaixo, as pessoas pareciam formigas agasalhadas, correndo para se proteger do frio dentro de algum café ou restaurante. Tentou ouvir música e até assistir alguma coisa na TV, mas não sentiu a faísca tão familiar (e que agora parecia tão distante) que a fazia correr para escrever alguma coisa, nem que fosse só um parágrafo ou cinco, seis páginas de uma só vez.
O vinho que estava na geladeira estava acabando e a única outra bebida alcoólica que sobrava era o conhaque, que ela não se atrevia a beber demais em dias de semana. A torta de limão também já tinha sido devorada por completo e agora era uma caixa de cookies de chocolate que supria sua necessidade por doces. Estava mais do que na hora de ir às compras, mas a verdade é que odiava mercados. Podia ir à delicatessen do casal coreano, ao lado do beco de , e comprar algumas poucas coisas que faltavam, para depois fazer uma lista de compras para Shawna ou podia ligar para o delivery de comida tailandesa e sobreviver mais uma noite. Se não tivesse tanta preguiça de sair de casa, podia pegar um táxi até o Upper West Side e jantar com Cam e Josh. Ela sabia que lá podia comer alguma coisa gostosa e light, já que Joshua era o cozinheiro da casa e o fato de ser personal trainer fazia com que ele fosse saudável até na cozinha. “Eat clean” era uma realidade para o casal, não que Cameron gostasse muito de só comer coisas saudáveis.
Dando de ombros, decidiu que poderia muito bem comprar mais uma garrafa de vinho e pipoca de micro-ondas, além de atum para o gato do vizinho que a visitava regularmente. Pegando o trench coat branco da Burberry pendurado atrás da porta do quarto e sua echarpe estampada em roxo e dourado da Hermès, ela ajeitou os cabelos escuros e calçou as luvas que achou no bolso do casaco. Aquilo parecia ser o suficiente para encarar o frio de outubro lá fora.
A verdade é que queria ver , embora, se alguém perguntasse, tinha certeza que diria não. Ele parecia ser alguém fácil de conversar. Bom, pelo menos ele tinha dito que era um ótimo ouvinte. E tinha conseguido escrever várias páginas ouvindo a voz e o violão do homem. Talvez ele pudesse ajudar com seu bloqueio criativo e o assédio de Kruger para conseguir novos capítulos.
De repente, relembrou a previsão da vidente sobre o homem que surgiria na sua vida. Aquilo não deixava seus pensamentos. Um homem, o grande perigo, o problema no trabalho... As cartas que, para ela, não significavam coisa alguma. Se não fosse uma mulher tão prática, já teria voltado à vidente, perguntando qual o próximo passo a tomar, o que fazer, se usar azul realmente iria ajuda-la em alguma coisa.
Balançou a cabeça para afastar esses pensamentos e segurou a bolsa mais junto do corpo. Desde o incidente no beco, tinha ganhado um spray de pimenta de Cameron e Josh e ele não saía mais de sua bolsa. Se trocava de bolsa, lembrava-se de colocar o spray lá. O ataque a fez ficar mais ciente da violência de Nova York e como uma mulher podia ser presa fácil para aqueles predadores sexuais.
Um cachorro pulou em suas pernas e ela se assustou, sufocando um grito agudo para só depois identificar o vira-lata Wolf, com seu focinho longo e a mancha preta no olho esquerdo.

— E aí, rapaz? — Estendeu a mão enluvada para o focinho do animal, que continuou parado enquanto o acariciava. Adorava cachorros, mas eles eram um problema em apartamentos. Gatos eram mais limpos e mais discretos, e o do vizinho só ia ao seu apartamento para comer e tirar uma soneca no carpete. — Como anda o seu dono? — Perguntou baixo ao cão, enquanto olhava discretamente ao redor. Aparentemente, não estava por ali.

O cão latiu em resposta, como se entendesse e quisesse responder, mas não pudesse. Suspirando, ela se encaminhou para a delicatessen com o cachorro em seu encalço e sua mente cheia de ideias de que aquele cão era inteligente até demais. Era até bom que o músico não estivesse por lá. Aquela vozinha chata da sua cabeça, a racional, lhe dizia que o cara era encrenca das boas e que pensar nele só atrasaria seu livro. Como não queria entrar em uma batalha interna entre ela e a Voz Chata (ou ela mesma, como preferir), folheou uma das revistas de moda que achou no estande.
Podia dizer que era viciada em fazer compras, até porque não era mentira. Mesmo que seus pais tivessem uma condição mais abastada, nunca pôde se permitir comprar sapatos da moda ou roupas mais “enfeitadinhas”. Prática, a mãe dizia que tudo aquilo era besteira, um jeito do comércio forçar você a gastar mais dinheiro. Para ela, a beleza e o estilo eram superestimados. Cada vez que ela batia os olhos no novo e abarrotado closet da filha, murmurava algo sobre como o comércio tentava tornar as pessoas mais consumistas e como sua filha era mais um zumbi que só pensava em comprar. era outra que sofria com isso. Sua irmã sempre foi muito bonita e popular, tinha cabelos castanhos na época e seu sorriso não era tão certinho, mas ainda era linda e, mesmo assim, tinha que modificar as próprias roupas à mão se quisesse se destacar entre as amigas. Agora, o closet de era superpovoado por roupas e sapatos da moda, desde marcas mais baratas até o glamour discreto e elegante de terninhos Chanel e bolsas Prada. Era o seu dinheiro e, cada vez que via algo que queria comprar, se lembrava de como tinha batalhado e decidia que ela merecia mais um Jimmy Choo ou outro Louboutin. Trabalhava duro para isso.
A delicatessen, que ela chamava daquele jeito por mero hábito já que o lugar mais parecia uma loja de conveniências, estava vazia àquela hora, se não fosse contar o casal de adolescentes comprando cigarros. Apanhando uma cestinha, certificou-se de refazer seu estoque de açúcar, vinho e pipoca. Apanhou alguns salgadinhos e também duas latas de refrigerante. Aquilo devia bastar para uma semana, mais ou menos.

— E é nessas horas que sinto falta da ... — Falou por baixo do fôlego, escolhendo entre duas refeições prontas para ir ao microondas.
— Falando com comida congelada?

A voz grave e desinteressada a fez dar um pulo. devia ter acabado de entrar ali, já que ela o teria visto assim que entrou. Ele vestia um casaco pesado de cor escura, que ela reconheceu como sendo uma das roupas que Cameron tinha esquecido no apartamento dela e que devia ter dado ao rapaz. Uma touca de lã cobria os cabelos escuros e desgrenhados, mas o olhar apático e entediado continuava o mesmo que ela se lembrava. Na última vez que o vira, ela havia prometido que passaria no beco algumas vezes para conversarem, mas, até então, ela não tinha dado as caras por ali.

— Estava pensando na falta que faz alguém que saiba cozinhar. — Ela explicou e o olhar dele desceu automaticamente para a cestinha abarrotada de porcarias que ela tentava esconder.
— Quantos anos você tem? Dezesseis?

Ela rolou os olhos e não se dignou a responder. Para alguém que tinha acabado de conhecer, dava palpites demais. Então se lembrou que ela mesma havia estabelecido esse tipo de relação e se recriminou mentalmente por ter a língua mais rápida que o cérebro.

— O que você está fazendo aqui? — Ele quase riu com a tentativa miserável de de não parecer rude ou irritada.
— Vim comprar o jantar do Wolf. — Ele apontou uma sacola em sua mão, com algumas latas de ração.
— O movimento no parque estava bom? — Ela perguntou, tentando parecer menos interessada do que realmente estava.
— Eu estava no Greenwich Village. Aliás, se você não esqueceu, eu moro bem aqui ao lado. — Ela não respondeu novamente, contraindo os lábios em uma linha fina. — Ou talvez tenha esquecido.

Ele obviamente estava falando da promessa quebrada.

— Eu não tenho tido muito tempo, desculpe.
— Não precisa se preocupar, eu sabia que você não viria.

Ela estacou no ato de pegar um pote de Häagen-Dazs de morango.

— Como é?

Foi a vez dele de se manter em silêncio, analisando com muito interesse os preços dispostos em dois sorvetes diferentes. Ela entrou na frente dele, tornando impossível que ele não a visse.

— Como você sabia?
— É só olhar pra você, . — Os olhos a esquadrinharam por completo. — Aposto que o seu casaco vale mais que o meu carro ou que as suas luvas tenham valido mais que o meu violão. — Aquilo na voz dele soava a desdém e ela não gostou disso.
— Então, porque eu tenho algum dinheiro...
— Não se dignaria a se aproximar o suficiente de um músico de rua que não toma banho há dois dias. É, por aí. — Ele completou seu raciocínio, deixando-a plantada no corredor e de boca aberta. E com a consciência pesada.
— Você não sabe nada sobre mim! — O sr. Wong a olhou com seus pequenos olhos arregalados pelo susto do grito repentino.
— Discurso típico da burguesia. — Ele falou alto o suficiente para que ela o ouvisse do caixa.

Tudo bem. Ela tinha que admitir que aquilo havia sido tão clichê que doía. Aquilo refletia perfeitamente seu bloqueio criativo. Não tinha nem uma resposta para uma discussão em uma delicatessen com um músico de rua.

— Você é... Irritante. — Murmurou, finalmente colocando o pote de sorvete na cesta e também se dirigindo ao caixa.
— E você é previsível.

Ele sorriu torto, sem olhar para ela, que continuava emburrada.

— Boa noite, .
. — Ela disse de forma brusca, enquanto esvaziava o conteúdo adolescente de sua cesta no balcão. era tão formal! Além disso, achava o nome muito estranho. Todos os seus outros irmãos tinham nomes normais, já ela...

não ouviu a resposta dele, que foi embora com aquele sorrisinho idiota no rosto. Tanta gente que poderia tê-la salvado, e tudo o que Deus (e isso estava em discussão, já que ela ainda não sabia se deveria acreditar Nele ou não) mandava era um músico de rua apático e irônico, com um senso de humor suspeito e barba por fazer. Se Deus existia, Ele devia rolar de rir da cara dela.
Durante todo o discurso de , ela se sentiu uma garotinha fútil saída diretamente de “As Patricinhas de Beverly Hills”. Ela já tinha trabalhado no Brooklyn, por favor!

— Fútil... — Murmurava sozinha, lutando para segurar as sacolas e abrir seu apartamento ao mesmo tempo, apenas para achar o enorme gato branco do vizinho dormindo no carpete.

, até onde pôde perceber, era o tipo de pessoa que não alterava a voz para alfinetar alguém. Sonso, no mínimo, pensou enquanto abria o vinho. O tipo de cara que ela não gostava de ter por perto porque dava trabalho. E, em seus relacionamentos, a única coisa que abominava era aborrecimento. O cara podia ser entediante, os dois podiam não ter química, a visão dele sobre literatura podia ser a pior possível e ela podia aguentar, mas, se fosse dar trabalho e falar na sua cabeça, era mais que certo chutar o traseiro do indivíduo e achar outro artista qualquer, sofrido e clichê.
Além do mais, quem ele pensava que era? Ele tocava no Central Park com um chapéu no chão, quer mais algum indício que o cara não bate bem da cabeça? Ele não tinha dinheiro nem pra ele, mas se sacrificava pelo cachorro. O cara, definitivamente, tinha um parafuso a menos.
Ela acariciou a cabeça do gato, que ronronou em resposta. Nunca tinha visto seu vizinho, mas o gato era visita frequente, a não ser que houvesse mais alguém em casa. Snowball era bem tímido, ao que parecia.
O gato começou a aparecer no seu apartamento assim que se mudou. Tanto ela quanto contribuíram para a obesidade do gato branco, que era, literalmente, uma bola. Dava pra ver de onde tinha surgido “Snowball”, que estava escrito em sua coleira.
Servindo-se de uma boa dose de vinho e trazendo seu Macbook para o carpete da sala, sentou-se de pernas cruzadas, analisando tudo que já tinha escrito. Seu prazo terminava amanhã e ela não fazia a mínima ideia do que fazer para a inspiração não só bater na porta, como também entrar sem cerimônia e força-la a trabalhar.
O fato é que tinha muitas coisas na cabeça, embora nenhuma delas tivesse a ver com trabalho. Por mais que tentasse esquecer, a violência (quase) sofrida ainda a fazia acordar no meio da noite, suando frio, o ato de coragem de a impressionava e ela duvidava de que, naquela cidade, alguma outra pessoa pudesse ter feito o mesmo. Ele era um cara minimamente decente e gentil, apesar de sua aparência, o descaso frequente e a falta de tato, higiene ou boas maneiras.
Deixando o vinho de lado e vestindo novamente o casaco e a echarpe, decidiu ir a um lugar bem familiar e que, provavelmente, lhe traria as respostas que ela tanto procurava. Se não lhe desse as respostas, ao menos já teria um motivo palpável para ser internada em um manicômio.


Capítulo 6

Aos treze anos, deu seu primeiro beijo atrás da arquibancada da escola com um nerd que usava aparelho nos dentes, mas que tinha muito mais intelecto e sabia falar de assuntos mais interessantes que o jogador de futebol mais velho que queria leva-la para “tomar sorvete” nem poderia imaginar. Podia não ser a Megan Fox, mas também não era feia. Aliás, nunca tinha sido extremamente bonita, mas tinha um rosto agradável e um corpo esguio e elegante, o que lhe rendia alguns olhares. O nervosismo que ela sentira, então, nem se comparava ao que ela sentia agora.
A tenda de Madame Shayanni se destacava em meio ao cenário cinzento e sem vida. Antes mesmo que pudesse pensar no assunto e em seu ceticismo, a mulher apareceu com um sorriso no rosto de quem já sabia que voltaria.

— Entre logo, cética. Está frio aí fora.

Talvez ela não deva mais me chamar de cética, pensou ela enquanto entrava no local. O ambiente era surpreendentemente quente para apenas uma tenda. Havia um cheiro adocicado no ar, a foto de uma senhora idosa e de turbante em um porta-retratos. Madame Shayanni já não parecia tão assustadora quanto naquela noite. Ela embaralhava suas cartas de tarô enquanto a olhava intensamente. As várias pulseiras que usava balançavam com o movimento e eram a única fonte de barulho ali.
a observou em silêncio, tentando encontrar qualquer motivo que a tivesse levado até lá. Talvez a esperança de que a vidente soubesse algum tipo de voodoo para ajuda-la a escrever mais ou que a inspiração voltasse.

— Veio para ficar em silêncio, cética?
— Eu... — Ela sentiu o ar lhe faltar e a Voz Chata gritar com ela: Fale. Fale alguma coisa. Qualquer coisa.
— Madame Shayanni sabe o que a trouxe aqui, por que você não verbaliza a pergunta, cética? Ou será que Madame Shayanni ainda deve chama-la dessa maneira? — Ela ignorou o tom malicioso da vidente.
vai servir.
, então. O que quer saber, ? — Em um movimento fluido, Madame Shayanni espalhou as cartas de tarô coloridas em uma fileira reta e, com outro movimento delicado, virou todas elas para cima.
— Meu trabalho. Eu sou...
— Escritora, Madame Shayanni sabe. — Ao ver o espanto da outra, Shayanni logo disse: — Madame Shayanni gosta dos Crimson Tales. Sua foto vem no livro. — Ela sorriu ligeiramente. Então era isso, a vidente era apenas uma fã. Isso explicava muita coisa. De repente, sentiu vontade de correr dali.
— Pois então, eu preciso terminar a trilogia e podemos dizer que o trabalho não está... Hm, indo bem.

Madame Shayanni ficou em silêncio e de olhos fechados por alguns instantes enquanto embaralhava as cartas e as dispunha na mesa.

— Bem, é uma pena, mas você já sabe o que fazer.

Só não sei porque estou fazendo, a escritora pensou. Pondo um pouco mais de fé no poder sobrenatural da vidente, ela repetiu a mesma pergunta várias vezes enquanto virava as cartas. O Diabo foi a primeira carta que ela virou. Ótimo. Não importava o que dissessem, não achava a carta do chifrudo agradável, principalmente pelo fato de ter uma mãe religiosa que a ameaçava com uma eterna estadia no inferno caso não a obedecesse.

— Então ele já está na sua vida? Interessante. Vamos, vire mais. — A mulher de pele escura fez um gesto com a mão para que ela fosse adiante.

Quem já estava na vida dela? A mão dela estacou.

— Desculpa, mas quem já está na minha vida?
— O homem, . O homem que vai lhe mostrar do que a vida realmente é feita. — Ela entortou a boca. Nunca tinha precisado de homem para muita coisa. Podia ver a vida com os próprios olhos, obrigada. — Madame Shayanni sente que vocês já se conhecem. — A cartomante apontou para seu peito, onde seu coração batia descontrolado. — Seus corações se conhecem.
— Certo. — Balançando a cabeça para espantar ideias impróprias, ela virou mais uma carta.

A próxima carta foi Os Enamorados.

— Ah, Madame Shayanni estava certa! — A mulher sorriu. — Uma relação futura! Oh, querida, vire mais. Vamos.

Onde aquilo ia levar? Ela queria saber sobre o seu trabalho e se ia ou não terminar o maldito livro antes que Kruger fizesse uma jaqueta com o couro dela! Ela virou O Mago, A Roda da Fortuna invertida, O Eremita invertido, A Papisa e O Louco.
A mulher estudou as cartas à frente com uma expressão ligeiramente alegre.

— Seu trabalho vai continuar parado, , o que é uma pena, porque Madame Shayanni realmente quer saber da última aventura de Caleb Teague. — A vidente respirou fundo e deu de ombros. — Bem...
— Como assim o meu “trabalho vai continuar parado”? — Ela olhou a carta que a mulher apontava: O Eremita.
— Ele diz isso. Infelizmente você passará por uma fase bem ruim no trabalho. Lentamente, bem lentamente, você vai seguir. Bem devagar, querida. Você não pode fazer nada para mudar essa situação, então não adianta nada se estressar demais sobre isso, é o que diz Madame Shayanni.

O jeito como ela falava de si mesma na terceira pessoa era absolutamente irritante, mas se conteve, por hora.
— Ótimo! — Cruzou os braços com raiva das previsões da cartomante. Por que diabos ela sempre tinha as piores previsões possíveis?
— Em relação à sua vida amorosa, entretanto, as coisas irão bem, contanto que você deixe a lógica de lado. — Ela pousou o dedo indicador na carta A Papisa. — Não julgue tanto pelas aparências, , ou esse relacionamento irá pelo pior caminho possível! — Ela apontava O Diabo e Os Enamorados. — Não se deixe levar pelo que parece mais racional. Siga sua intuição ao menos uma vez na vida. Ouça Madame Shayanni.
— Tudo bem, e este aqui? — Ela apontou O Louco.
— Ah, O Louco... Sabe, aqui, junto da Papisa e dos Enamorados, essa carta fica bem interessante. — Um sorriso misterioso apareceu no rosto de Madame Shayanni.
— Eu devo implorar ou você vai me dizer por que ela é interessante? — Sua paciência e cortesia tinham caído por terra junto com as suas esperanças de voltar a ser escritora fértil, feliz e fútil que ela era.
— O Louco indica um começo novo na vida. E aqui do lado dos Enamorados, significa que esse novo começo vai se dar por uma relação bem complicada. O Diabo, bem aqui em cima, representa o perigo do desejo e da sedução, querida. Se quiser meu conselho, seja menos teimosa e superficial.

Superficial! Foi chamada de fútil e superficial no mesmo dia, era má sorte ou o que?

— Então meu trabalho vai por água abaixo, mas, em compensação, vou ganhar um namorado fixo que vai dar reset na minha vida? — Não pôde deixar de adicionar o máximo possível de sarcasmo em cada palavra.
— Como você fica mal humorada quando as coisas não saem como você quer, minha querida. — Sem se desfazer do sorrisinho irritante, ela continuou. — O Eremita dessa maneira me dá uma ótima noção de como você é: tímida, desconfiada, solitária... Não seria bom ter alguém do seu lado?
— Sem outros perigos, então?
— Você sobreviveu, não é? Deveria estar feliz. Madame Shayanni não entende porque tanta amargura.

Ela ergueu uma sobrancelha. Era impressão ou a mulher estava caçoando dela?

— Quanto é mesmo? — Ou acabava de vez com a consulta, ou sua paciência que se esgotaria.
— Duzentos dólares. — Madame Shayanni respondeu depois de olhar o relógio em seu pulso. — Não se esqueça de usar azul, .

Pensou em dar uma resposta malcriada, mas se refreou bem a tempo. Ainda estava ligeiramente tonta com as previsões e com o que a vidente lhe falara. Seu “bloqueio” não iria passar tão cedo, Shayanni dissera, com a expressão sinistra. Francamente!
Ela não foi para seu apartamento de imediato, ao invés disso, perambulou um pouco pelas ruas de Manhattan. Era um bairro caro onde se vias casas nobres, prédios de apartamentos luxuosos e carros caros. Já tinha esbarrado com um ou dois atores de Hollywood por ali, sendo ela mesma uma celebridade. Foi a melhor vizinhança que achou. Ela amava Manhattan assim como odiava Hell’s Kitchen.
O vento frio batia em seu rosto e ela sentiu um arrepio descer-lhe pela espinha. O vento frio, a quietude da rua... Tudo a lembrava daquela noite. Assustada, ela resolveu voltar ao seu prédio e se embebedar até dormir, o que não parecia atraente, mas era tudo o que queria. A noite já havia sido suficientemente frustrante, se é que podia confiar nas previsões de Madame Shayanni.
Ela cumprimentou Jeremy, que sorriu amavelmente. Perguntava-se se o porteiro não dormia nunca. Morava ali há anos e Jeremy estava sempre a postos e bem acordado, apesar de trabalhar no turno da noite/madrugada. Talvez ele fosse um vampiro. Ela riu do próprio pensamento.
Respirando fundo, entrou no elevador. Não sabia o porquê, mas sempre tivera receio de elevadores. Trauma de garota do interior? Talvez.

— Segure a porta! — Foi acordada de seus devaneios pelo grito de um homem, que a fez pular para frente e segurar a porta do elevador. — Uau, bons reflexos! — Ele a olhou admirado e ela não pôde evitar fazer o mesmo.

Em frente a ela estava um homem alto e de porte atlético, com olhos brilhantes e feições que só poderiam ter sido esculpidas por Michelângelo para ter tamanha perfeição. A barba e a pele bronzeada fizeram-na se sentir atraída de imediato, ela afirmava por seus olhos e a os músculos escondidos sob a roupa.

— Obrigado. — Ele sorriu e apertou o botão com o número dois. Um andar abaixo de seu apartamento.
— De nada.
— Eu sou o . — Ele estendeu a mão.
.
, eu sei. — Ele apertou a mão dela com firmeza. Todo mundo sabia quem ela era. Menos , aparentemente. — Eu sou simplesmente um grande fã. — O sorriso dele se alargou e o fôlego dela escapou.

Ela podia até não sair com os caras bonitos, mas gostava de apreciar uma boa vista. Principalmente quando a vista era particularmente forte, alta e bonita. , justiça seja feita, era completamente agradável a todos os seus sentidos no momento. A proximidade a fazia sentir o cheiro almiscarado do perfume dele e se sentir estranhamente quente. Foi a mudança de temperatura, ela se corrigiu, esse casaco é muito quente.

— Eu tinha ouvido falar que você morava aqui, mas nunca tinha cruzado com você antes. — Nem um andar se passou antes que ele retomasse a conversa.
— Hm, passo bastante tempo trancada em casa, escrevendo e tudo o mais. — Arriscou olhar para cima e viu a intensidade com a qual ele a olhava. , o vizinho gostoso, certamente a desejava. Que upgrade na autoestima!
— É uma pena, mas às vezes eu sinto falta de ficar um tempo em casa. Hoje é a minha folga. — Ele deu de ombros e ela notou, pela primeira vez, que ele tinha duas sacolas de compras na mão.
— E eu sinto falta de sair. — Os dois riram. — O que você faz?
— Sou organizador de grandes eventos. — Ele abriu um sorriso largo. — Você percebeu que eu estou tentando te impressionar ao frisar que eu só faço grandes eventos?
— Oh, com certeza! — O elevador parou no segundo andar e ele se virou para ela.
— Foi um prazer conhecer você, . Vou sair antes que eu me envergonhe e você tenha que segurar a porta para mim novamente.
— Ah, quando quiser!

Quando quiser? A Voz Chata reclamou. Tantas coisas para serem ditas e ela soltou um “quando quiser”? Francamente. O elevador logo passou para o seu andar e ela teve a agradável surpresa de ver Snowball deitado no seu carpete.

— Você ainda está aqui, seu gato gordo? — Ele miou, indicando que ou estava zangado ou com fome, as duas únicas situações em que ele se dava ao trabalho de “falar”. — Oh, certo. Seu atum.

Ela alimentou o gato e depois fez o mesmo consigo. Algumas taças de vinho e um pote de sorvete de morango depois bastaram para que dormisse no carpete da sala (e babasse). Acordou no meio da madrugada, suando frio e com um enorme peso no peito que a impedia de respirar normalmente. Enquanto no seu sonho o peso se devia a estar imobilizada, na vida real era apenas o gato, que dormira em cima dela.
Sábado de manhã. Ao invés de café, o que teve no desjejum foi um extenso sermão de Zac, que a acusava de ser desleixada com o cuidadoso programa de exercícios que ele tinha feito especialmente para ela. Snowball ficou nervoso com a presença de seu personal trainer e ela pegou o gato no colo, acariciando-o enquanto desfiava uma série de desculpas verbais e maldições mentais (algumas verbalizadas) para Zachary.

— Tudo bem, Zac, se você calar a boca, hoje juro que faremos o treino inteiro.

O latino a observou enquanto ela deixava a porta aberta para o gato passar. Ante seu olhar questionador, ela riu.

— Ele passa a noite aqui e volta para o apartamento do dono pela manhã.
— E quem é o dono dele?
Ela estacou e o olhou. Nunca tinha se perguntado quem era o dono do persa, apenas o alimentava, abrigava e cuidava dele todas as noites. e ela nunca se questionaram sobre isso.

— Bem, eu não sei.
— Nunca se perguntou?
— O que você queria que eu fizesse, Zac? Pegasse o gato e fosse perguntando de porta em porta como se eu fosse a Rachel?
— Bem, a Rachel conseguiu o Paolo, certo? — Agora até ele ia implicar com sua vida amorosa.

Zac e sua memória impecável. Ela bufou e ele simplesmente riu. Ela conseguia enxergar um bom amigo em Zac, apesar de ele lhe forçar a malhar, a coisa que ela mais odiava no mundo.

— Bem, eu conheci um Paolo ontem à noite. Sem gato.
— Eu ficaria feliz com a Rachel. — Zac atalhou.

Como se tivesse sido chamado, entrou no elevador quando este parou no segundo andar. Agora que o tinha conhecido (e conhecendo o senso de humor do Criador) ela tinha certeza que o encontraria toda hora.

. — Ele não pôde deixar de sorrir ao vê-la logo cedo de manhã. E vestindo uma roupa esportiva apertada e cor de rosa.
— Bom dia, . — Ela captou a troca de olhares entre os dois homens. — Ah, este é Zac, meu personal trainer. Zac, esse é o . — Ela elevou uma sobrancelha e ele entendeu subitamente que ele era o Paolo de que ela tinha falado.
— Indo cuidar do corpo, huh? — Ele ainda estava sorrindo quando se postou ao lado dela.
— Ou isso, ou sozinha eu atingirei o limite de peso máximo desse elevador.

Ela aproveitou o ambiente claro e a proximidade para analisa-lo mais de perto. A barba despontava como ontem à noite e seu queixo era forte, talvez um pouco grande demais, mas nada que alterasse seu rosto bonito. Mãos grandes, braços definidos, ela podia apostar que havia uma barriga tanquinho debaixo da blusa de manga. Ele devia gostar de cuidar do corpo.

— Exagerada. — Zac reclamou.

A blusa escura tinha alguns fios brancos. No começo, achou que fosse algo da máquina de lavar roupa, mas, depois de uma análise mais cuidadosa, observou que era pelo. Segundo andar mais pelo de gato? Se fosse o dono de Snowball, Deus definitivamente riria da sua cara. Assumindo a possiblidade que Ele existe.

— Você está olhando isso? — Ele não riu, parecendo menos bem humorado do que antes. — É meio difícil ter roupas livres de pelo com um gato em casa.
— Eu sei bem como é.
— Você tem um gato? — Ele a observava com a mesma expressão da noite passada.
— Hm, mais ou menos, ele só dorme no meu apartamento. — Zac a olhou intrigado, possivelmente pensando a mesma coisa que ela. — Posso fazer uma pergunta? — Ele anuiu. — Seu gato é obeso, branco e mudo a não ser que esteja com fome ou irritado?
— Então não é só Caleb Teague que tem um alto poder de dedução? — Os dois riram e ela sentiu Zac bufar ao seu lado. — O nome dele é Snowball.
— Bem, ele pode ser seu gato de dia, mas passa a noite comigo.
— Então é com você que aquele fanfarrão fica quando saio para trabalhar? — O grupo saiu do elevador, mas continuaram cruzando o corredor e o saguão juntos.
— Sim.
— Um gato sortudo, o meu.

Eles pararam em frente ao prédio. Ela andaria mais três quadras até a academia e ele seguiria para um brunch com alguns amigos. Ela pensou nas possibilidades. O trabalho ia mal, ela ia voltar mal humorada e provavelmente se entupiria de besteiras depois de maldizer sua vida perfeita. Podia tomar alguns riscos calculados.

— Bem, você pode visita-lo à noite, se estiver com saudade. — Ela deu de ombros e ele se animou. Ela viu sua expressão se acender.
— Eu adoraria.

Ligeiramente mais leve, ela seguiu para sua casa de tortura.


Capítulo 7

Uma noite foi tudo que bastou para que aceitasse o seu convite e aparecesse na porta de sua cobertura com uma garrafa de vinho nas mãos. , em seu moletom florido, amaldiçoou a escolha de roupas, mas, pensando bem, se estivesse usando um Hervé Léger em casa, ele iria desconfiar que ela estava desesperadamente tentando seduzi-lo e as coisas não eram assim com ela. Se um animal sabe que será abatido, a carne fica ruim, segundo sua própria experiência na fazenda. A mãe sempre dizia que o animal não deve ver a lâmina até seu momento final.

— Achei que aparecer do nada e de mãos vazias seria rude. — Ele lhe entregou a garrafa de vinho.
— Ah, que nada. — Snowball miou avidamente e caminhou com dificuldade até o dono, para passar-se nas suas pernas longas. Ela não se importaria de estar no lugar do gato, pensou.

Indiscretamente, deu uma olhada no pote de comida.

— Então quer dizer que é por isso que Snowball não come a ração de salmão?

Ela olhou o gato.

— Sério, Snowball? Você troca salmão por atum? — disse de forma curiosa, analisando o gato que havia voltado para junto de sua tigela, a fim de acabar com o atum que fora posto no potinho colorido.

abriu um sorriso de lado tão irresistível que não conseguiu evitar não retribuir. Lá estava ela, mostrando seus dentes brancos e perfeitos na tão típica demonstração de que, sim, ela estava caindo naquele chame quase barato do vizinho lindo e sexy. Não podia se culpar, entretanto. Há quanto não sabia o que era sair/ficar/namorar com alguém? Mesmo que terminasse depois de um mês (ou menos), ela estava tão concentrada no frustrante futuro do livro que Cam, Josh e até ) dariam pulos de alegria e convocariam uma superfesta para comemorar o avanço. Pensando nisso, ela colocou o vinho na bancada da cozinha.
Ela ouviu os passos do homem logo atrás de si. Podia dizer que ele estava logo atrás dela, mesmo sem que a tocasse ou dissesse alguma coisa.

Você gosta de salmão? — Ele falou baixo e colocou sua mão em cima da delicada de . Sorriu mais uma vez.

Céus, que pergunta era aquela? E por que diabos ela não conseguia simplesmente sair com uma tirada, ironia ou, ainda, evitar demonstrar suas emoções demais?

— Sim. — Respondeu normalmente, sem conseguir pensar em qual jogo estava entrando. Tarde demais para sua teoria de riscos calculados.
— Por que não vem ao meu apartamento amanhã para um jantar? — Ela não respondeu de imediato, pesando as possibilidades. Sempre podia adiantar o treino com Zac. — Está livre?

Ele havia se aproximado mais e todo o oxigênio correu para fora de seu corpo como pessoas correriam para fora de um prédio em chamas.

— Você cozinha?
— Entre outras coisas. — Ele respondeu com o mesmo sorriso lateral.

O clima foi quebrado pelo som alto de seu celular tocando. O nome e a foto da irmã piscavam na tela de seu iPhone.

— Tenho que atender essa.
— Tudo bem, vou ver se Snowball sente falta de mim.

A irmã mais velha queria sua opinião no jantar que ela daria para uma reunião íntima com os investidores que seu marido tentava atrair para o banco e, como sempre, precisava da opinião da caçula para fazer a escolha certa. Ou não.

— Eu estava pensando em coq au vin ou ensopado de vitela à provençal com aquelas batatas que você gosta. O que acha?
— O ensopado. E a sobremesa?

A mais velha riu. Tinha certeza que estava em seu modo automático, conhecia a outra bem demais para ser enganada por aquela resposta rápida e sem o mínimo de tempo de ponderação antes de responder. sempre era séria quando o assunto era comida.

— O que está acontecendo? Você não está prestando atenção em mim.
— Hm... Eu descobri quem é o dono do Snowball.
— Jura? E quem é?
— Um moreno gostoso de um metro e noventa de altura que me convidou para comer salmão no apartamento dele amanhã à noite.
— E você vai? E me responda sinceramente, estou mais que feliz por você finalmente retirar as teias de aranha!
— Sinceramente, eu não acredito que você acabou de falar isso, !
— Onde ele está? — ignorou a reprimenda.
— Na sala, com o gato.
— E o que você está vestindo?

Ela fez um muxoxo antes de responder.

— O moletom florido da Zara.
— Josh e eu nos esforçamos tanto para escolher uma camisola da Agent Provocateur para você no seu aniversário e você usa o moletom? — Ouviu a irmã mais nova soltar um gemido de vergonha do outro lado da linha e riu sozinha. nunca ia mudar.
— Eu não sabia que ele viria hoje!
— Não custava estar preparada! Agora, agarre-o pelo colarinho mostre alguma ação para aquela cama king size.
— Eu não consigo acreditar nisso... — Murmurou enquanto desligava o telefone.

Bem, pelo menos estava certa. Já tinha muito tempo desde a última vez e com certeza era o tipo que estava precisando no momento. Diversão garantida, sem cobranças e que a olhava como se venerasse uma deusa pagã. Era raro seguir os conselhos de sua irmã, mas geralmente se dava bem quando os seguia. Pensando nisso, voltou à sala com o ânimo renovado.
De uma taça de vinho para a cama não demorou absolutamente nada. Ela não se arrependeu nem um pouco de não ter tentado trabalhar ainda mais em seu livro e foi com um sorriso no rosto que ela atendeu a ligação de Kruger pela manhã. não era fácil, mas estava necessitada e não era só de sexo.
Depois de tudo, precisava se sentir valorizada ao menos por alguém, como o vizinho bonitão. Necessitava se autoafirmar como escritora e mulher. Necessitava esquecer as previsões da infame cartomante e o bloqueio criativo, que não tinha data para partir.
Ao contrário da crença popular, nunca teve problemas com homens por dormir com eles nos primeiros encontros. Algumas pessoas a recriminavam, mas achava melhor não discutir. Era a sua vida e vivia como queria, sem precisar se reportar a ninguém, afinal era uma mulher crescida de vinte e seis anos, que batalhou seu caminho até o topo e pagava suas contas sem a ajuda de ninguém. Definitivamente não deixava ninguém se meter em seus assuntos.

— Bom dia. — A voz rouca de se fez ouvir e ela se virou para admirar mais uma vez o corpo escultural dele. Era como ver o David de Michelangelo ao vivo e a cores.
— Bom dia, raio de sol. — Era oito horas da manhã e ela já estava em sua segunda caneca de café. O robe branco foi amarrado de qualquer jeito e ela estava sentada no sofá com o gato aos seus pés.

Ele sorriu e também foi se servir do café fumegante. Ela calculou tudo de manhã: poderia ficar com ele por alguns dias, sair algumas vezes e até usá-lo de troféu (e ser usada também) entre os amigos.

— Eu tenho que ir trabalhar. — Ele anunciou depois de beijar-lhe a testa.
— É, eu também. — Seus olhos vagaram para o pouquíssimo utilizado MacBook.
— Não se esqueça do nosso jantar hoje à noite.
— Claro que não.

Ela sorriu. Talvez as coisas não estivessem tão ruins assim. Quando ligou, ela não hesitou em marcar um café da manhã para o dia seguinte.
Estava no Starbucks novamente, enquanto se derretia em elogios sobre a aparência física do novo “peguete” da irmã.

— Josh, você tinha que ver aqueles braços! Braços esculpidos pelos anjos, eu juro!
— Será que você pode parar de descrever outros homens para o meu marido? — Cam pediu, sentindo-se ligeiramente enciumado. Cam não tinha um corpo escultural, muito menos braços esculpidos pelos anjos. Como , não era um grande fã de exercícios físicos ou alimentação saudável.
— Fala sério, Cam, até parece que você não gostaria de ver meu novo brinquedinho. — Cameron a olhou com ironia e um tom de perigo.
— Sabe, , um dia você vai sair seriamente machucada por brincar com os homens desse jeito.
— Você está parecendo aquela vidente. Na última vez ela estava toda: não faça isso ou aquilo, deixe de ser tão racional, ouça Madame Shayanni e tudo o mais.

Todos eles se entreolharam confusos. Acidentalmente, tinha deixado escapar demais.

— Ela não disse isso quando estávamos lá. — Cam começou.
— Você voltou lá, não voltou?
— Não. — Droga, rápido demais.
! — Os três disseram em um coro quase perfeito.

Não adiantava mais negar e ela logo narrou a nova consulta para os outros enquanto recebia os olhares de reprovação da igualmente cética .

— E você pagou duzentos dólares por isso?
— Você tem que admitir que ela é boa, .
— Boa? — Ela se virou para Cam. — Cameron, essa mulher é uma charlatã!
— Você devia se consultar com ela também. — Joshua aconselhou enquanto tomava seu macchiato.
— Para que?
— Para comprovar.
— Vocês podem ter corrompido minha irmã, mas não a mim! — Ela elevou uma sobrancelha e riu de um jeito cínico.
não precisa de ninguém para corrompê-la! — Eles riram em conjunto, tomando mais um café da manhã no seu Starbucks preferido.
— Talvez o vizinho. — Josh sugeriu com um sorriso cínico.
— Você não disse isso! — Ela riu, dessa vez de verdade. Claro, estava na mira de Kruger e, óbvio, seu bloqueio ainda estava enraizado em sua vida, mas aquela conversa, naquele lugar... Era quase como se sua vida estivesse de volta.

Naquela noite, malhou sem reclamar, não bebeu, se arrastou até o apartamento de , mas não dormiu tranquilamente como previra. Nem naquela noite e nem em nenhuma que se seguiu.
Havia algum tempo que vinha tendo pesadelos. Para ser mais precisa, os tinha desde o jantar íntimo na cozinha de última geração de . Naquela noite, não dormiu bem. Achou que fosse a diferença entre a cama dele e a dela, mas na noite seguinte o mesmo ocorreu. E na noite depois dessa. E na outra. O mesmo pesadelo, por noites a fio. Pensou nisso enquanto se preparava para dormir. estava trabalhando em um evento e chegaria de madrugada, indo direto para seu próprio apartamento. Naquela noite, usou seu baby doll favorito e arrastou Snowball para a cama com ela.
O caminho que o sonho tomava era perturbador, mas não dormir era ainda pior. Precisava de sua mente bem descansada e alerta, e não ficar bocejando o dia inteiro, como ocorreu hoje. Precisava estar sã, física e mentalmente. Bebeu leite quente e desligou qualquer aparelho eletrônico horas antes de dormir. O treino fora feito porcamente e ela sentia que Zac estava a ponto de enforca-la com uma toalha.
Quando perguntado, ontem à noite, nada notou e disse que dormia consideravelmente bem, em ambas as camas. Durante o jantar, entretanto, tinha quebrado um copo e cortado a mão ao catar os cacos de vidro. Se fosse supersticiosa, diria que era azar. Como não era, procurava pensar racionalmente e se preparar para dormir da melhor maneira que conhecia: desligando seu cérebro preguiçoso.
Sem reconhecer por onde exatamente estava andando naquele breu de NY, apenas apertava o passo a fim de chegar ao seu destino desconhecido o mais rápido possível. Estava sozinha, vestindo apenas o baby doll de seda que usava para dormir e surpreendia-se por não estar com a pele arrepiada com o frio que a cidade fazia.
Em um golpe rápido, um homem encapuzado e de touca puxou fortemente seu braço e a empurrou em seguida conta parede. Não sabia dizer como, mas ela estava no beco, no tão conhecido e fedido beco onde Wolf e moravam naquele carro enferrujado e totalmente sem valor algum.

— Não, não... — Ouviu-se implorando enquanto o cara encapuzado apertava sua cintura.

Lembrava-se dessa cena. Não queria passar por ela novamente. Cadê aquela expressão de que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes? Ela estava sendo aplicada naquela situação.
De longe se ouvia uma gargalhada. Um riso alto e totalmente frio. .
, por favor... Por favor... — Sua voz suplicava, ela podia sentir o gosto do sal das próprias lágrimas.
— Eu já te salvei uma vez. –— Foi o que o músico respondeu. O olhar frio e desconfiado substituindo o apático.
— Mas, mas... Ele está me machucando. — Lágrimas escorriam de seu rosto e ela sentia a dor por toda a parte.

Wolf latiu algumas vezes para o dono e o encapuzado parecia não se abalar com o fato de ter outro alguém no beco, aliás, ele não parecia nem ouvir. Ele continuava despindo-a, agredindo-a, brandia a faca. O encapuzado não tinha rosto. Ele fedia a suor e tinha mãos ásperas que agarravam, beliscavam...

— Talvez se você tivesse cumprido sua promessa, eu te salvaria novamente.

O bandido e gargalharam ao mesmo tempo em que gritou com toda a força de seus pulmões.

Promessa.
E foi com essa palavra que despertou na madrugada de uma quinta-feira. Como poderia ter se esquecido daquele que salvou sua vida? E se ele realmente estivesse tão certo de que ela nunca apareceria ao ponto de deixá-la sofrer caso algum tarado tentasse abusar dela uma segunda vez? Não, ele não faria isso. Faria?
Como as coisas poderiam estar tão estranhas dessa forma? Começando com o livro. Ok, ela havia decidido que mandaria as poucas páginas escritas para o Kruger a fim de se livrar de sermões significativos e ele, bem, não era um capítulo inteiro e nem o final do livro, então claro que não fora totalmente satisfatório, mas dera pra acalmar os ânimos daquele quarentão rabugento. Porém, ainda tinha toda problemática de continuar bloqueada e se sabotando depois da crítica de todos os personagens se parecerem. Talvez ela precisasse de uma opinião sincera, conversar com algum fã e tentar tirar alguma análise e críticas que impulsionasse sua criação. Pensou em Ted. Pensou em .
Não, não. Ele era lindo, educado e inteligente. Tinha um beijo característico e o sexo era maravilhoso, mas estavam saindo há uma semana. Como iria simplesmente recorrer a ele? Além disso, ele não era artista. Não entenderia sua situação como Ted. Ou .
Pensou em . Fora vendo o músico pela primeira vez tocando no Central Park que algumas páginas foram escritas num piscar de olhos. Claro, !
Promessa. . Sonho.
sentou-se na cama. Como poderia acabar de acordar e já repassar tudo isso em sua cabeça? Que tipo de maldição ela tinha? Era claro, maldição.

— Ele me amaldiçoou. — Murmurou para si enquanto rolava pela cama. — Eu não voltei a vê-lo e, bem, tudo está dando errado.

Snowball, irritado por ter sido acordado, a cutucou com uma pata gorda. O gato se espreguiçou e pulou da cama, indo procurar um lugar quieto para dormir, longe do sono agitado da escritora e de seus gritos noturnos.

— Você também, Snow? — Claro, o gato não respondeu, mas seu desprezo foi o encorajamento que precisava.

Ela mesma sabia que era loucura. Antes da vidente e do acidente, ela não acreditava em horóscopo, destino, previsões do futuro, sorte, azar ou, ainda, maldições. E olha como estava agora. Respirou fundo e tentou voltar a dormir. já sabia qual seria a primeira coisa que ela faria de manhã.


Capítulo 8

Quando imaginava sua vida bem sucedida e sem nenhuma falha em NY, não pensava que algum dia estaria carregando uma cesta de mantimentos para um apático músico de rua quando tinha um promoter excitante na sua cama. Absolutamente não. A culpa, entretanto, a corroía por dentro como ferrugem. Ela olhou o que tinha nas mãos: uma cesta com comida, água e algumas roupas. Era uma cesta bem grande.
Olhava o beco do outro lado da rua em dúvida. De madrugada, a ideia de trazer aquelas coisas para parecia boa, mas, agora, ela se perguntava o que ele faria. Nunca apareceu para conversar com ele. Passou muito tempo sem vê-lo. Podia dizer que era doloroso voltar àquele beco, mas seria uma mentirosa se dissesse que esse era o único motivo para nunca ter voltado.
Respirando fundo e balançando a cabeça, atravessou a rua e se dirigiu ao interior do beco. O carro-casa de estava todo fechado e, pelo vidro, ele a viu chegar. Não esboçou reação, não se moveu, continuou imóvel como se ninguém estivesse parado do lado de fora, querendo falar com ele.
Ela bateu no vidro. Nada. nem piscou.

, preciso falar com você.

Com movimentos deliberadamente lentos, saiu do carro e ficou em pé de frente para ela. não se lembrava que ele era tão alto. parecia bem, considerando o fato de que morava na rua. Também não fedia (embora não pudesse dizer o mesmo do beco). Wolf, deitado no banco do carona, abanava o rabo para ela.

— Antes de mais nada, eu sinto muito mesmo! Eu deveria ter vindo antes e cumprido a minha promessa, mas estou muito ocupada com o livro e é tão frustrante simplesmente não conseguir escrever nada que eu fico completamente...
— Calma. — levantou a mão, em um gesto apaziguador. Ela nem percebeu que falava tão rápido e sem pausas até ficar sem fôlego. — Não precisa tudo isso.
— Desculpe. — Ela corou.

Ela, , a rainha do flerte, corando. Josh pagaria para ver essa cena.

— Pelo quê? — cruzou os braços. Por um momento, não entendeu. No momento seguinte achou que ele sabia muito bem pelo que ela pedia desculpas. Sádico.
— Você sabe, por ter quebrado a minha promessa.
, são oito horas da manhã. Não poderia ter vindo depois?
— E você não pode simplesmente me perdoar?

O músico notou que a morena parecia frustrada, mas não imaginava o porquê. Talvez fosse pelo livro. Ela disse que não conseguir escrever era frustrante.

— Está bem, está perdoada. — Concordou, como se falasse com uma criança.
— Oh, bem, obrigada. — Ela olhou a cesta em sua mão. — Isto é pra você.

Ele observou a cesta estendida perfeitamente imóvel. Nem um sorriso irônico, nem mesmo um único gesto desinteressado. O olhar de vagou da cesta estendida para os olhos dela.

— Por quê?

Uma pergunta simples, com uma resposta tão complicada. Por um lado, achava loucura explicar que achava que estava amaldiçoada por ele, por outro, fazia sentido. Ou não. Nada mais fazia sentido em sua vida.

— Porque eu quero dar isso para você.
— Eu não quero.

Ela abaixou a cesta com um suspiro irritado. Ele era terrivelmente difícil para alguém que morava em um carro. Custava aceitar alguma comida e casacos? Custava ser menos orgulhoso e assumir que faria bem alguns mantimentos e roupas novas? Ok, talvez ela estivesse sendo um pouco invasiva. Estava indo rápido demais.

— Por que não, ?
— Porque você está se sentindo culpada. Não quero sua piedade nem seu remorso. Dê isso para outra pessoa.
— Será que uma vez na sua vida você pode aceitar uma coisa que eu quero te dar sem rebater?

Os dois estacaram diante da súbita explosão. Ela, envergonhada pelo modo que o tratou. Ele, admirado pela mudança de tom em sua voz. pensou que essa seria o típico momento de brincar e sair com a frase: “Aposto que você envenenou essa comida”. Aquilo provavelmente os faria rir e quebraria o clima estranho, porém a culpa e a postura de pedia algo mais sério e maduro. Sua cabeça deveria estar a mil.

— Você quer conversar?

Conversar. Não foi o que ela prometeu fazer? Ir até o beco e conversar com ele?

— Quero, é óbvio que eu quero conversar. — Respondeu irritada, preparando-se para sair dali.
— Então por que está indo embora?

Ela olhou para trás, abismada pela pergunta. As mãos de enfiadas nos bolsos dianteiros da calça jeans surrada e seu corpo encostado no capô do carro, na típica pose descontraída que a fez considerar aquele momento por um instante. Ele realmente estava disposto a ouvi-la e conversar às oito da manhã? Bem, só naquele momento ela se tocou de que o horário era algo que testava o bom humor de qualquer pessoa, mas ele realmente não pareceu se abalar.

— Eu estou com fome. Vamos comer alguma coisa enquanto conversamos.
, não é uma boa ideia.
— Por que não? Eu pago.
— Olhe pra mim. — Ela o fez. O avaliou de cima a baixo, notando, talvez pela primeira vez, que estava bem mais apresentável do que quando o conheceu.
— O que tem?
— Não sou bem vindo onde você frequenta.

Ela rolou os olhos. Claro que ele não era, ela era absolutamente estúpida se não tivesse notado isso.

— Vou comprar alguma coisa aqui ao lado, então. Espere aqui.
— Aonde mais eu iria? — Brincou.

Ele a olhou ir embora segurando o riso. era maluca, afinal. Wolf se sentou no chão, também olhando o caminho que a escritora tinha acabado de percorrer.
Ela levou muito tempo para vir até ele. já achava que a riquinha estava apenas se gabando para seus amigos por ter levado um morador de rua para casa e cuidado dele por uma noite, como se fosse um cão de rua. Achou que, talvez, ela tivesse medo dele. Achou, também, que estivesse irritada pelo modo que ele a destratou na loja de conveniência. achava muitas coisas sobre , mas não podia ter certeza sobre nenhuma delas.
Prestando atenção às notícias que ouvia esporadicamente ou os jornais que achava, viu que ela era, realmente, famosa. As pessoas falavam sobre seus livros, sobre seu estilo de vida, seus amigos e até sobre suas roupas. E, se antes a achava fútil, depois de saber mais sobre ela, apenas acreditou mais ainda em seu pré-julgamento.
— Eles não tinham café. — Ela disse enquanto lhe entregava um suco de caixinha e uma sacola com sanduíches, doces e alguns biscoitos. — Eu também não sabia do que você gostava, então comprei um pouco de cada coisa. Espero que isso você aceite.

Ele bufou e apontou o carro.

— O que é? — Ela olhou a lata velha. O banco de trás tinha um travesseiro e várias cobertas. No banco do motorista, algumas roupas.
— Entre.
— Por quê?

não respondeu e jogou as roupas do banco do motorista no banco traseiro. Em seguida, sentou-se e começou a comer. Ele estava, do seu jeito peculiar, chamando-a para entrar em sua “casa”. Já tinha comido em outros carros, obviamente, mas continuava a achar curioso o estilo de vida dele.

— Então, como você veio parar aqui? — Ela disparou a pergunta assim que ele terminou de mastigar a mordida que tinha dado no sanduíche de frango.
— Aqui? — Ele rebateu a pergunta com outra, não entendendo onde ela queria chegar.
— Você sabe, nas ruas. Para dizer a verdade, meu primeiro palpite foi drogas, mas depois que eu vi que você não era nenhum viciado, fiquei curiosa.

Ele ignorou a explicação e continuou comendo tranquilamente. notou que ele não parecia tão faminto quanto na noite que ele a salvou.

— Não quer falar sobre isso? Tudo bem, vamos falar de outra coisa.
— Sobre o que é o seu livro? — Ele a interrompeu e ela levantou os olhos para ele.
— Hm, eu escrevo sobre assassinatos, mistérios, conspirações governamentais... Mais ou menos. Pode não parecer, mas eu sou inteligente.
— Já entendi. — Ele tinha um sorriso de lado e ela piscou. O que ele tinha entendido?
— Desculpe?
— Você está ganhando a minha confiança para me assassinar e me usar de inspiração para os seus livros.

Não pôde evitar. Ela riu e ele fez o mesmo. O humor dele certamente era melhor pela manhã. Ou talvez ele vivesse mal humorado porque vivia com fome. Ela sabia que ficava mal humorada quando não devidamente alimentada.vv — Usando humor como autodefesa? Admirável, .
. — Ele atalhou. — Se eu te chamo de , você me chama de .

Um ponto para a ponte sentimental que ela estava tentando construir. Se estabelecesse um pouco de intimidade, ele se abriria mais com ela.

— Tudo bem, . — Sentiu-se estranha chamando-o pelo apelido em uma situação como aquela. Levando em consideração que ele morava no carro, estavam tendo um café da manhã juntos, algo que parecia mais íntimo do que realmente deveria ser.
— De onde você é? — Vendo a expressão de confusão espalhar-se no rosto sem um traço de maquiagem, ele explicou: — Você tem sotaque.

Ela titubeou. Todo mundo sabia de onde ela vinha, mas ainda assim não gostava de dizer em voz alta. E o sotaque dela não era tão perceptível assim. Ou era?

— Wisconsin. Você?
— Califórnia. — Eles pausaram a conversa enquanto comiam. Enquanto atacava outro sanduíche, comia seus biscoitos recheados Oreo. — Sobre o que você quer falar?

Tinha tantas coisas sobre o que queria falar: seu livro, a vidente, as roupas azuis, a noite fatídica. Seu suposto namorado, (podia chama-lo assim?), a onda de sonhos macabros onde , ! — era o protagonista. Haviam tantas coisas a serem ditas e, no entanto, não conseguia verbalizar nenhuma delas.

— Estou bloqueada. Não consigo escrever nada. Nem uma linha. E aí eu me lembrei de você. Achei que poderia me ajudar. — Decidiu pelo assunto mais urgente. Era esse o principal motivo de tê-lo procurado, de qualquer maneira.
— Não sou escritor.

Ela bebeu seu suco de uva e olhou o teto do carro. O forro tinha se soltado aqui e ali, mas ainda estava bem conservado. Na verdade, todo o carro na parte de dentro não era tão ruim assim. A lata velha externa podia dar uma denotação de lixo, abandono e ferrugem, mas por dentro era até que conservado na medida do possível e parcialmente limpo.

— Eu escrevi algumas páginas ouvindo você cantar. — Confessou, finalmente. — Foi no dia anterior a... Àquela noite. Eu... — Olhou para ele de esguelha. Ela tinha a completa atenção do músico. — Bem, eu estava ouvindo você e tive um insight. E, desde então, nada. Eu sei que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas achei que poderia tentar.
— Então você veio me ver.
— Foi isso.
— E quer que eu cante para você?
— Não. Sim. — Ele ergueu as sobrancelhas. — Eu não sei. Não sei se foi a música, se foi você, se foi o parque...
— Eu?
— Você é um cretino. Como Caleb. — praticamente deu de ombros.
— Isso realmente atingiu meu coração, obrigado.

Ela bufou, aquilo saiu errado. Ela teria mesmo que explicar que estava se referindo a personalidade? Jeito de ser? Humor? Olhar misterioso e todas essas coisas? Homens...

— Não foi...
— Você quer me usar de inspiração? Pro seu livro? — Ele a interrompeu.
— Não necessariamente. Meus personagens já estão desenvolvidos. — fez uma pausa, aproveitando para colocar os pensamentos no lugar e respirar profundamente. — Eu não sei o que eu quero com você. No momento, eu quero conversar. Ver se dá certo.
— Não sabia que uma garota rica poderia ser tão solitária.
— Eu não sou solitária. — Rebateu irritada.
— Não? — Ela negou com a cabeça por ter a boca cheia com um Kit Kat. — Então porque você andou não sei quantas quadras para vir conversar com um músico de rua, ao invés de ligar para um de seus amigos riquinhos?

Ela pensou em xingá-lo. Em apontar o filho da puta que ele estava sendo, dizer que ele era um desgraçado e que ela esperava que ele congelasse durante a noite, mas se controlou. Ele era um cretino e era por isso que ela estava ali, não era? Era por seu humor ácido e o sorriso sarcástico que aguentava tudo aquilo. Era por seu trabalho.

— Você tem uma perspectiva diferente das coisas. — Respondeu simplesmente, dando de ombros ao final da frase.

Ele não a contestou. Tinham, realmente, perspectivas diferentes. Viviam em Nova Yorks opostas. Para ele, Nova York era fria e sombria, para a escritora, entretanto, NY ainda era um sonho, um conto de fadas.

Continuaram conversando por vários minutos, que logo se transformaram em horas. Compraram mais sanduíches para o almoço e refrigerantes. Conversar com teve lá seus prós e contras. Seguiu para o apartamento com pressa, porque achou que, pela primeira vez em anos, ou era o que parecia, ela iria escrever algo bom. Algo que poderia ser usado de verdade. Uma promessa quebrada para Caleb Teague? Parecia bom.

? — Ela ouviu a voz de na sala. Tinha estado em seu escritório desde que voltou e se surpreendeu ao ver que estava escrevendo há três horas seguidas. Tinha certeza de que Kruger a beijaria na boca se soubesse que ela tinha achado a fonte da inspiração que lhe faltava.
— No escritório. — Ela gritou, passando a mão pelo cabelo a fim de ajeitar qualquer fio fora do lugar.

Supreendentemente, tinha funcionado. — não, — era seu ingrediente secreto. Ela tinha que esfregar isso na cara daquela vidente maldita! Seu trabalho ficará parado... Uma ova!
Aqui estou eu, , desafiando as previsões de uma vidente do SoHo. Por um momento, se sentiu uma grande fracassada, mas, no seguinte, se lembrou que não acreditava em previsões e videntes. Então por que vai procura-la de novo? Perguntou a Voz Chata em sua cabeça. Ela não tinha resposta.


Capítulo 9

Estava frio, coisa que ela não gostava muito. ) gostava de praia e calor, caras sarados jogando na areia e a água gelada do mar em contato com o seu corpo. Preferia Malibu aos Hamptons. Mesmo assim, ainda amava Nova York.
O frio, porém, a lembrava de quando o pai havia morrido. Era inverno e ela era pequena, tinha acabado de completar oito anos, portanto, havia ainda vários aspectos da morte que não entendia. Seu pai morreu tranquilamente, durante o sono, quando um aneurisma que ninguém sabia que ele tinha estourou. Foi simples, rápido e ele tinha o semblante pacífico, disso ela se lembrava perfeitamente.
A mãe, mulher pragmática e matinal, havia acordado cedo (talvez a única coisa que tivesse herdado dela) e pediu a ela que não fizesse barulho para não acordar o pai.

— Seu pai está cansado, ). Ficou horas falando com os empregados ontem, deixe-o dormir. — Ela havia dito mais de uma vez naquela manhã.

Talvez ela sentisse algo estranho no ar. não sabia o que era, mas obedeceu a mãe, mesmo inquieta. Ela tomou seu café e se preparou para ir à escola enquanto a neve não bloqueava o caminho que ela e os irmãos tomavam para o ponto de ônibus a apenas alguns blocos dali.
Quando voltaram da escola, o caos era completo. Ela se lembrava dos três irmãos correndo para saber o que tinha acontecido, enquanto ela e haviam ficado para trás, confusas. A mãe estava em cacos, os empregados estavam tristes e ela se sentiu culpada por não tê-lo acordado. Anos depois, descobriu que não havia nada que poderia fazer. Seu pai não poderia ter sido salvo. Desde então, o inverno se tornou uma lembrança triste da morte do pai, uma memória dolorosa que voltava ano após ano.
Às vezes queria acreditar que havia um Deus e que seu pai estava em um lugar melhor, mas às vezes se sentia oprimida pela simples ideia da morte. Era como deletar um arquivo do computador, exceto que você não podia restaurar uma vida da lixeira. Era assustadora e, ainda assim, tão complexa e misteriosa que a inspirou várias e várias vezes. Havia um considerável número de mortes em seus livros.
A neve caía calmamente lá fora, enquanto ela se deliciava com uma caneca particularmente grande de café. Estava esperando Joshua, Cam e sua irmã, já que estava surpreendentemente adiantada. sempre havia sido o tipo de garota que chega invariavelmente atrasada para seus compromissos, mesmo antes do estrelato. Uma SMS de piscava na tela do iPhone e ela não estava com muita vontade de responder, embora não estivesse brigada ou chateada com seu vizinho. Simplesmente não queria ter trabalho.
chegou alguns minutos depois, os cabelos encaracolados balançando debaixo de um chapéu Fedora. Ela tirou o cachecol e o colocou em cima da mesa com um suspiro.

— Tenho uma coisa pra te contar. — Ela começou com uma voz urgente, sem o tom sofisticado que ela usava na frente dos amigos do marido e nas festas de alta classe. — Eu estou absolutamente apavorada.
— Sua base da Dior acabou e eles não têm mais a sua tonalidade na Sephora? — Joshua debochou, chegando junto com seu marido. Cam tirava flocos de neve de seu casaco e brigava com um cachecol chumbo.
— Muito engraçado, Josh. — rolou os olhos, idênticos aos da irmã. — É um problema sério.
— E desde quando a sua maquiagem não é mais um problema sério para você? — Cameron riu e beijou as testas das duas. Os dois eram uma verdadeira visão juntos.
— Eu estou grávida. — Ela despejou sem pestanejar, seus olhos brilhantes e curiosos procurando qualquer vestígio de reação em cada um deles.

Os outros três se olharam em silêncio. Joshua abriu e fechou a boca algumas vezes, desistindo de falar qualquer coisa em seguida. Cameron piscou os olhos várias vezes, mas não demonstrou nenhuma outra emoção além de morder o lábio inferior.

— Oh, meu Deus. O bebê de Rosemary finalmente virá ao mundo? — Alguém tinha que falar alguma coisa. fez o sacrifício.
— Muito engraçado, . — Os olhos de sua irmã mais velha estavam brilhantes, dessa vez de lágrimas.

Não era segredo para que sua irmã não gostava de crianças. Não era segredo para ninguém. Seu marido também manifestou o desejo de não ter filhos por enquanto, o que deixou o casal em bons termos por terem concordado sobre esse problema. , então, se calou sobre o que mais queria conversar — que era e seu livro — e, junto com os amigos, se dedicou completamente ao problema da irmã.

— Se você não estava se precavendo...
— Claro que eu estava, Cameron! — Ela respondeu irritada, falando rápido e deixando transparecer todo o seu sotaque do sul de Wisconsin. — Eu estava tomando pílula até o retardado do meu médico decidir trocar o meu remédio. E agora? O que eu vou fazer? Joseph não quer ter um filho!
— Joseph não vai se separar de você porque você engravidou. — Josh afirmou, embora não tivesse muita certeza. Nenhum deles havia se dignado a conhecer Joseph propriamente, já que ele era entediante.
— Nem matar você. — completou. — Vocês simplesmente terão que conviver com isso.
— Não chame meu filho de isso. — Ela reclamou em voz baixa, à beira das lágrimas.
— Bem, tecnicamente ainda é um “isso”. — Cameron murmurou.
— Eu devia saber que você não tinha nos convocado até aqui porque estava com saudades. — Josh reclamou, fazendo biquinho. — Você só nos chama quando tem um problema desse pela frente e não sabe o que fazer.
— Não é verdade! Quantas vezes eu te dei uma carona para casa quando Cameron não estava em casa? — Defendeu-se a socialite. — Quantas vezes levei canja pra você quando você estava de cama? — Ela apontou para Cam. — E você, , quantas vezes menti para a mamãe para você poder entrar naqueles concursos de redação? Vocês não podem reclamar de mim!

trocou olhares com os amigos. Todos eles, provavelmente, pensavam o mesmo que ela.

— Então você já é uma mãe formada. — Ela disse sem rodeios. — Fala sério, , foi você que cuidou de mim quando a mamãe não tinha tempo. E quando o papai morreu, você estava lá para mim. Você me defendia do Brandon e das garotas na escola que me chamavam de feia.
— Você era chamada de feia? Que merda essas caipiras tinham na cabeça? — Josh indagou, fugindo do assunto. Ela anuiu, escondendo um sorriso.
— E quando você me leva aquela canja, eu melhoro quase na hora. — Cam também falou, pegando na mão da amiga.
— E se o Joseph for um bastardo com a minha garota eu vou até lá e chuto a bunda dele para você. — Josh flexionou os músculos do braço direito, como se estivesse se exibindo para uma donzela em perigo. O físico avantajado dele seria um fator e tanto para uma luta corpo a corpo com o bancário franzino.

As lágrimas agora escorriam livremente por seu rosto sem maquiagem. Ela sorriu para eles, em uma expressão contraditória.

— Eu não quero que você chute a bunda do Joseph, ele não sabe lutar.
— Eu sei disso. — Joshua sorriu e a abraçou de lado.
— Querida, nós estaremos aqui por você e por esse marciano dentro de você. — Cam completou a fala de seu marido, sorrindo.
— Não é um marciano, é o bebê de Rosemary. — corrigiu.
— Desculpe! — Cam sorriu, sendo acompanhado pelos outros.
— Ele vai ter os tios mais legais do mundo. — pegou a outra mão de sua irmã por cima da mesa.
— Eu amo vocês. Eu amo muito vocês. — Ela soluçou e logo limpou as lágrimas enquanto se olhava em um espelhinho. — Oh, eu não queria ter chorado. Olhe como meu nariz está vermelho! Vou ao banheiro.

Eles esperaram se distanciar o suficiente para voltar a falar.

— Mas é sério, se aquele almofadinha metido destratar nossa garota eu vou descer a porrada nele. — Josh começou, roubando um dos cookies que tinha comprado e enfiando-o na boca de uma vez só.
— E eu vou descer a porrada em você se mexer na minha comida de novo! — rosnou, protegendo seus cookies com os braços ao redor do prato.
— Eu também. — Cameron concordou com o marido. — Eu não vou com a cara dele.
— Joseph não é assim tão insuportável. — tentou amenizar a conversa enquanto uma das atendentes do Starbucks gritava o nome de Joshua. — Fora que nós temos três irmãos mais velhos e dois deles são brutamontes. Ele não vai ousar fazer isso com a . O Bran vai quebrar ele em três se o Joseph destratar a irmã preferida dele.
— Ela não parece grávida, parece? — Cam entortou a cabeça, analisando a silhueta distante da outra.
— Ela vai ficar absolutamente desesperada quando a barriga começar a crescer. sempre foi tão vaidosa. — Josh disse enquanto voltava com um espresso na mão. — Nunca faltava os treinos na academia, ao contrário de algumas pessoas que eu conheço.
— O Valentino que ela mais gosta não vai mais caber nela. — disse, concordando e tentando se safar de uma bronca. — Mas acho que ela será uma grávida maravilhosa. E uma ótima mãe também, ela sempre cuidou de mim.
sempre cuidou de todos nós. — Cam concordou, sorrindo. — É, , você tem razão.
— Você quer dizer que eu tenho razão como sempre. — Ela levantou o queixo, fingindo arrogância e rindo em seguida.

Uma outra mensagem de texto apareceu na tela. Nessa, dizia que estava no centro e pedia para se encontrar com ela.

— Você acha que pode dar uma passada aqui? Ele quer tomar café comigo.
— Por favor, traga esse deus grego para cá! — Josh pediu baixo, escondido do marido, que havia ido buscar algo para comerem. — também vai gostar de vê-lo, ela adora homens bonitos. — Ele passou a mão pelo próprio cabelo, exibindo um charme todo dele.
— Okay, seu pervertido.

chegou dez minutos depois, quando já haviam conseguido animar os ânimos de ( a lembrou de que ela poderia comprar milhares de coisas para o bebê e não levar bronca por ter gastado demais) e a conversa rumava para os acontecimentos da semana nas vidas de cada um.

— Pessoal, esse é o , meu vizinho. — Ela pensou no que diria sobre ele naqueles dez minutos que ele tinha demorado para vir. Namorado ele não era, mas se viam demais para chama-lo de seu ficante ou algo parecido. Vizinho era o modo mais correto de chama-lo e, além do mais, não era nenhuma mentira. — , este é Cameron, Josh e você já conhece a .
— Como vão, caras? — , enérgico e bem humorado, apertou a mão dos outros dois e esperou a atenção passar dele para a nova gestante para satisfazer sua curiosidade em um sussurro: — Eles são...?
— Um casal. — sussurrou de volta, sorrindo ao ver o modo como Cam e Josh, mesmo que inconscientemente, estavam sempre se tocando ou sorrindo um para o outro. Era a perfeita relação, um amor que ela nunca havia sentido.
— Ah. Não era isso que eu ia perguntar. — Ele olhou novamente, parecendo ligeiramente incomodado sob o olhar inquisitivo de , mas não disse nada.

Consequentemente, todos foram embora. e ficaram sozinhos, ambos remoendo os votos de bom namoro (meu bom Deus, o que se passava na cabeça de Josh?) e incertos do próprio relacionamento. Não eram adolescentes inexperientes, tampouco estranhos que transavam em uma noite e nunca mais se veriam. Além de tudo eram vizinhos e dividiam o afeto de um gato em comum. Snowball os uniu, apesar de tudo, e ela sempre soube que havia algo de especial naquele gato.

— O que você achou de Cam e Josh? — Ela perguntou em um surto de loucura, quando o silêncio constrangedor do momento estava prestes a mata-la.
— Eles são dois caras bem legais. — respondeu por cima de seu copo de café, encarando uma mãe com um bebê do outro lado da rua. — E a sua irmã também é legal. Eles foram, sei lá, maneiros comigo.
— Eles são assim. — Deu de ombros com uma sensação viscosa e grudenta no peito que vinha assolando-a durante os últimos dias.

Ela tinha dividido seus medos e incertezas com , um músico sem teto que a salvara de um quase estupro. , um cara sem qualquer relação com ela, a não ser a boa conversa que jogavam fora vez ou outra, sabia mais sobre ela do que o homem que dividia sua cama. Ela podia ter poucos princípios, mas não achava aquilo certo.

— Quer jantar lá em casa essa noite? — Ela fez o convite, incerta do que faria mais à noite. Podia tentar cozinhar para ele e conversar. Ela queria saber como ele reagiria se soubesse de tudo. correria dela?
— Pode ser amanhã? Tenho um evento essa noite. — Ele respondeu depois de olhar seu celular, provavelmente checando sua agenda.
— Claro, amanhã está bem.

Murmurando um pedido de desculpas, se despediu com um beijo ardente, caminhando apressado para resolver algum problema que surgira com o buffet. A noite passou sem que ousasse escrever uma só página de seu livro. O bloqueio, a preguiça, a culpa surpreendente que sentia por saber de tudo e não. Preferiu ver uma reprise de Law & Order, seminua e comendo sorvete após um treino vigoroso na academia. O gato estava aboletado no sofá ao seu lado, dormindo ruidosamente. Seu notebook parecia olhá-la de forma acusadora, mas, se não procrastinasse (deixe que a pobre finja que é preguiça e não seu bloqueio que a impede de escrever) que tipo de escritora seria?
Seu principal problema era a constante falta de inspiração e a teimosia em não ver o que estava bem à sua frente, Precisava se abrir com , mas também precisava conversar com . Uma mente traidora, a sua. Vestiu-se às pressas e comprou dois cafés pretos para viagem.
O miado de um gato faminto, o ruído onipresente da cidade que nunca dormia e seus próprios pensamentos barulhentos tornaram uma rápida caminhada até o beco ao lado da delicatessen (tinha que se lembrar que aquele lugar era mais uma loja de conveniências) uma cacofonia absurda e enlouquecedora. A Voz Chata continuava a gritar que estava louca, enquanto a própria intuição dizia que aquilo era o certo. Ou terminava o livro ou em um hospício.
Ela avistou o carro, mas não o cachorro. E se Wolf não estava lá, era pouquíssimo provável que estivesse. Com os dois copos de café na mão, olhou pelo vidro da loja e procurou a figura alta e esguia de , encontrando apenas o baixinho sr. Wong cochilando no balcão.
Soltou um suspiro exasperado, não podia esperar que estivesse naquele lugar vinte e quatro horas por dia, sete dias da semana. Ou que fosse seu disque-confidente. E , que se gabava de ser uma mulher independente emocionalmente, chutou uma latinha de raiva por estar passando frio, vergonha e sentindo raiva de si mesma. Nada disso teria acontecido se tivesse ficado em seu apartamento, assistindo suas reprises de seriados policiais.

, o que faz aqui? — Uma voz masculina atingiu seus ouvidos e ela se virou rapidamente.


Capítulo 10

Virou-se na direção da voz completamente surpresa. Afinal, pensava que estaria trabalhando até tarde.

— Eu ia encontrar um amigo, mas ele meio que não apareceu. — Sentir-se-ia estúpida contando toda a verdade e como conversar com um músico de rua tinha efeitos calmantes (e surpreendentes) em seus nervos.
— Aqui? — A surpresa de seu vizinho-ficante era normal. Já passava de onze horas da noite e estava frio demais para que qualquer pessoa sã saísse de sua casa quente e confortável para encontrar-se com qualquer um.
— Ele é um cara estranho. — Afirmou sem qualquer sombra de incerteza, entregando ao homem o segundo copo de café. , parado em sua moto, o recebeu com um meio sorriso.
— Aposto que deve ser bem estranho, para deixá-la esperando desse jeito. — Ele fez uma careta ao beber o café. Provavelmente tinha esfriado. — Sobe aqui.

A escritora olhou a moto com receio. Uma vez, tinha tido um namorado que tinha uma moto (e naquela cidade minúscula do Wisconsin, era algo tão escandaloso!) e usava jaqueta de couro, assim como ele, agora. O seu cabelo longo para os “padrões” masculinos estava ligeiramente desgrenhado por causa do capacete e as mãos grandes eram tão convidativas e quentes. Que diabos ela ainda estava fazendo parada ali? Ah, é claro, o ligeiro pavor de motocicletas.

— Eu posso andar. — Forçou um sorriso no rosto, como se aquilo não fosse nada.
com medo de uma moto? — Seu tom jocoso a irritou levemente e ela mostrou-lhe um sorriso de escárnio.
— Não tenho medo de motos, bobo. Apenas não gosto delas.
— Não seja infantil e suba na moto. — Retrucou dando de ombros, como se aquela conversa o entediasse.
— Não vou subir nisso. — Apesar da ideia de segurá-lo por trás e sentir o cheiro de sua jaqueta de couro fosse imensamente atraente e convidativa.
, você acha que eu a colocaria em perigo? — O olhar intenso sobre o dela era como uma tempestade violenta que você podia observar da segurança de sua própria casa, sem medo, e ela negou com a cabeça. — Então suba e eu prometo que vou devagar.

deu um jeito nos copos de café e ela subiu no veículo, cujas duas rodas não a inspiravam simpatia ou confiança. Fechou os olhos e enterrou o rosto em suas costas largas, apesar de saber que, de moto, a viagem até o edifício não demoraria mais de três minutos.
olhou a cena de longe. Vinha com o cachorro em seus calcanhares e observou parte do pequeno diálogo entre o motociclista e a escritora, sem tomar parte ou anunciar sua presença. A vasta experiência que tinha em ser um músico invisível em Nova York entrava em cena. Sabendo que, se chegasse perto deles, o cachorro provavelmente correria para (e porque diabos aquele bicho gostava tanto dela era um completo mistério) e denunciaria sua presença. Preferiu encostar-se em uma loja fechada no fim da rua, esperando que aquilo acabasse para que pudesse voltar para casa.
Uma coisinha que nem lembrava que tinha chamada vaidade acendeu uma pequena chama em seu peito, fora até ali para vê-lo, entretanto esta logo se extinguiu quando a mulher subiu na moto, mesmo depois de toda a resistência. Se achasse que ela precisava de ajuda (e era óbvio que ela e o motoqueiro se conheciam), talvez tivesse ido até lá para ajudá-la, como quando saiu em sua defesa contra o estuprador, o perfeito cavalheiro, vestido em andrajos e trapos esfarrapados. Apertou no bolso do casaco a chave do carro, pronto para entrar ali, comer e dormir.

— Vamos, Wolf. — O vira-lata latiu e abanou o rabo, seguindo-o rapidamente.

Alguns anos atrás, fazia pequenos shows em bares de beira de estrada, ganhava pouco dinheiro, mas se divertia aos montes. As eventuais transas no carro, garotas que queriam conhecer aquele músico melhor, eram as melhores. Sexo casual nunca tinha sido tão fácil. Ele era bonito, bem cuidado, cabelo e barba bem aparados e corpo bonito, com músculos tonificados sem exagero. Ele nunca teve uma barriga de tanquinho, mas seu físico era atraente e másculo, o que era agora era apenas uma sombra de quem já tinha sido. Até que chegou em Nova York e se apaixonou pela cidade. Outros músicos como ele tocavam nas ruas, em parques... Nova York era uma cidade maravilhosa. Multicultural, lotada de pessoas, grande, sempre debaixo dos holofotes. O lugar perfeito para fazer sua estrela brilhar. Mas aquela noite não fora feita para se arrepender, fora feita para dormir. deixou o mergulho nostálgico em suas lembranças para outro dia e dormiu.

Mais um dia em que montava seu pequeno espaço para as músicas acústicas no Central Park. Não que precisasse de muitas coisas, seu tão companheiro e surrado violão e sua voz doce e ao mesmo tempo rouca faziam todo o trabalho, mas era importante não se esquecer do chapéu para que as pessoas depositassem cents e dólares que pagariam seu almoço e, com sorte, o jantar no final do dia. Wolf havia o seguido até ali naquele dia e deitado próximo ao dono, descansava sua cara nas patas dianteiras cruzadas e observava a movimentação apenas com seus olhos escuros.
Era um dia bonito de outono. As folhas secas caiam das árvores e o parque estava mais colorido e radiante, o clima estava mais agradável. Até nas músicas tocadas por aquele cenário transparecia. O cantor de rua tinha seu humor completamente elevado quando dedilhava seus dedos no violão e chamava atenção com sua voz.
Quem via há um ano, nunca imaginaria que ele fosse estar em uma condição peculiar como aquela. Viu-se reduzido a um mero músico de rua que morava no seu carro. Na verdade, talvez alguns imaginassem aquela possibilidade devido ao temperamento do cantor e a vida suja dos bares, bebidas e mulheres poderia o corromper. Felizmente, não insistiu em vícios. Os vícios que o arruinaram serviram de lição e já não bebia ou transava com mulheres aleatórias. levantou os olhos depois de agradecer cordialmente as poucas palmas no fim de uma de suas canções e enrijeceu o maxilar em uma mordida forte ao ver aquela mulher que contribuiu para sua ruína. Ruiva, tatuagens, um corpo chamativo e roupas lembrando os anos 50, detalhes inconfundíveis que lhe trouxeram recordações indesejadas. Ela se aproximou e ele mordeu o lábio inferior em um gesto de nervosismo e raiva. Não dela (ao menos não completamente), mas de si mesmo.

— Esse é provavelmente o dinheiro mais bem gasto dessa manhã. — Rinna murmurou enquanto jogava algumas notas no chapéu dele. — Já pensou em tentar ser profissional, docinho?

suspirou em alívio e perplexidade. Rinna não o havia reconhecido. Era claro, ela estava acostumada a vê-lo bem cuidado, barba e cabelos bem aparados, vestido como um astro do rock. E agora… Ele se lembrou de quando alugou um apartamento no SoHo, tocava em um bar ali perto e perambulava por vários outros bares à procura de mais emprego. Não podia negar que adoraria ser um músico profissional. Chegou ali com aquele sonho e, por mais que negasse, ainda o alimentava discretamente, na forma de sonhos borrados e a inveja que sentia dos astros na televisão. Bebida, mulheres, a cena noturna de NY. Tudo tem um lado ruim. A bebida levou seu dinheiro, as mulheres também. A faminha que tinha entre os bares havia lhe subido a cabeça e tudo aquilo o levou à irresponsabilidade. Não comparecia mais aos shows, outros bares não o contratavam por ter transado com a mulher do dono de um dos maiores bares de SoHo, o antigo chefe havia feito sua caveira para os seus conhecidos. Estava feito, foi parar nas ruas, de volta com seu carro de estimação.
Já havia se passado quase duas horas que estava ali no Central e algumas pessoas que trabalhavam ali por perto se faziam presente nos bancos do parque com seus embrulhos de papel na mão, típico dos lanches do qual costumavam almoçar. fez uma pausa em sua cantoria quando sentiu sua boca encher de água com o cheiro de hambúrguer. Até Wolf tinha as grandes orelhas em pé, em alerta, farejando o ar.
Com sorte, teria arrecadado um valor suficiente para suprir suas necessidades naquele momento. Com o chapéu em mãos, sorriu sozinho ao constatar que os dias pareciam estar melhorando para ele. Quem sabe ele não estivesse em seu dia de sorte?
Quer dizer, sorte? Ele nem acreditava nessas coisas para falar a verdade. Talvez fosse só um modo de o mundo retribuir qualquer boa ação que ele tenha feito. Apesar de que ele só conseguia se lembrar de duas em sua vida, que era ter salvado Wolf e ter ajudado .

— Vamos campeão, hoje nós comeremos hambúrguer. — colocou seu violão nas costas e acariciou o espaço entre as orelhas de Wolf.

O cachorro Wolf apareceu em sua fase mais revoltada, para salvá-lo, quem sabe. Já morava nas ruas há dois meses e, mal acostumado com a situação, ainda remoía a vida que tinha, chafurdava no passado e não pensava em mudar o presente. Havia estacionado o carro no beco há duas semanas e o maldito não queria mais andar, não tinha dinheiro para consertá-lo e muito mal para comer. O carro, então, ele decidiu, vai servir de casa. Voltava para sua “casa” com o violão nas costas, alguns trocados no bolso e uma quentinha barata que havia comprado em uma lanchonete gordurosa do Brooklyn. Ouviu a barulheira no seu beco e viu três garotos rindo, chutando algo branco e peludo.
Os ganidos do animal, o pelo sujo de algo vermelho e grudento, seus olhos tristes. não aguentaria essa cena. Aproveitando o fato de estar sujo e ser bem mais alto que qualquer dos três garotos sádicos, investiu contra o que, naquele momento, chutava o animal. Os outros rapazes gritaram, correram e tentaram agredi-lo, mas ele os assustou e ao agressor também: os três foram embora apressados deixando para trás o filhote machucado e fraco, magro demais para ser saudável. Os cortes espalhados pelo corpo e o frio que fazia naquela noite de novembro não davam ao bichinho chance alguma de sobreviver. Os dois eram farinha do mesmo saco, pensou. Dois vira-latas tentando sobreviver naquela cidade. Trouxe o animal para o carro, enfiando-o por sua camisa, a fim de esquentá-lo. Quando Wolf teve fome, dividiu sua comida com ele. Em tempo, o filhote se curou e havia se tornado imensamente grato ao seu salvador. Wolf o acompanhava quando ele tocava no parque e o protegia quando algum playboy tentava fazer alguma coisa contra ele. Se conhecia o que era amizade, isso devia-se ao cachorro.
e Wolf eram unha e carne, praticamente inseparáveis. Ele era seu único amigo, humanos tendiam a não prestar, enquanto animais eram sempre sinceros. E quando se conhece o pior dos humanos, você tende a se tornar um tanto cético em relação a eles. Talvez se devesse a isso a distância que ele tentava manter de . Embora preferisse não pensar dessa maneira, o distanciamento que impunha entre eles podia se dever a medo de se machucar novamente. Ou de machucá-la. O céu sobre sua cabeça era testemunha de tudo que ele havia feito para sobreviver. E aquilo não o tornara mais forte, só mais machucado e desconfiado.
O latido do vira-lata o fez despertar e o ronco do seu estômago também. Ambos estavam com fome e Wolf, já do lado do dono, enfiava o focinho pela abertura do saco plástico, cheirando o sanduíche dos dois que estava ali dentro. largou a divagação de lado, era hora de comer e como não comia muito, aquela hora era sagrada.
Entre um pedaço de sanduíche e outro, lembrava-se de Rinna, a mulher que ele culpara pela sua desgraça. Como é engraçado o ser humano, que, mesmo admitindo que agia feito um moleque irresponsável e brigão na maioria das vezes, ainda assim empurrava a responsabilidade de sua derrocada para outra pessoa. Enquanto Rinna estava, teoricamente, errada em se deitar com um homem que não fosse seu marido, era a que cabia a culpa de ter feito a escolha de trair seu próprio patrão, o homem que tinha feito tanta coisa por ele.
E, uma vez que tivesse feito essa escolha, só cabia a ele aguentar as consequências dela. No momento, entretanto, ele continuava culpando-a. E culpando a si mesmo, em parte. Ele era brilhante e no próximo momento ele não era nada.

Quando chegaram ao seu apartamento, se preparou para contar a verdade. Nessa noite, ela iria contar tudo a e como ela quase foi estuprada. Vai contar como está em negação desde então?, ela podia ouvir a Voz Chata ecoando em sua cabeça. Tecnicamente, ela não estava em negação, ela só não queria cuidar disso como um problema. Na verdade, uma vez que quase aconteceu, era um quase-problema que ela podia empurrar para debaixo do tapete, como ela fazia sempre. Se ela ainda olhava para trás toda vez que saía na rua? Sim. Se ela tremia e achava que todo sujeito encapuzado estava seguindo-a? Sim. Mas, na lógica de , era um problema secundário. Não precisava de tratamento. Ela poderia conversar sobre isso, e só. Era o suficiente. Os dois foram ao apartamento dela. O gato obeso se encontrava dormindo em cima do aparelho de TV a cabo, que era quentinho. colocou os capacetes em cima do sofá e sorriu para ela. Seu perfume almiscarado acariciou suas narinas assim que ele escorregou um braço por sua cintura e a puxou para ele com um quê de brutalidade.

… — Ela ronronou seu nome, praticamente incapacitada de pensar com clareza diante da visão dos olhos dele tão de perto e do calor do corpo dele, que emanava através de suas roupas. — Tem uma coisa que eu preciso te contar.

A outra mão de acariciou sua nuca. Seus dedos nus contra a pele quente de seu pescoço a fizeram fechar os olhos. Com delicadeza e maestria, os lábios dele roçaram a base de seu pescoço e a escritora soltou um ruído de aprovação.

— Depois, ... — Ele sorriu para ela, assim que a vizinha abriu os olhos. — Eu estou cansado e... — A mão que estava em sua cintura escorregou pela curva em suas costas. Segurando-a pelo traseiro, ele a trouxe mais para perto de seu corpo e gemeu. — No momento, eu só quero você.
— Mas é uma coisa séria! — Ela tentou ignorar o fato de que ele já a despia, enquanto seus lábios e língua acariciavam a parte sensível entre seus ombros e seu pescoço.
— Você está grávida? — Ele fez a pergunta ligeiramente mal humorado, com as sobrancelhas franzidas e uma ruguinha no meio da testa.
— Eu... Não, claro que não! — A expressão mal humorada dele se dissolveu em um sorriso tão felino quanto satisfeito.
— Então pode esperar. — E, com isso (e uma talentosa e rápida manobra com as mãos), a blusa dela foi ao chão.

Outras peças de roupas juntaram-se à primeira, sua vontade de se confessar com ele sendo esquecida quando a luxúria tomou conta dela. Os beijos de pareciam apagar qualquer traço de preocupação, as suas mãos firmes posicionadas em lugares estratégicos e a boca na sua seguida de um maravilhoso sexo no sofá da sala tinha servido de terapia o suficiente para aquela noite. Quando ele a perguntou sobre o que ela quer ia conversar, balançou a cabeça para os lados e mostrou-lhe um sorriso culpado. Talvez não fosse a hora de estragar a noite com aquele assunto pesado.
Ela sabia o que o assunto faria com o relacionamento dos dois e, talvez por isso, relutasse tanto em falar. A partir do momento que contasse para ele, que o fizesse de seu confidente, eles não mais teriam um relacionamento sexual e aberto como tinham. Eles teriam um relacionamento com um laço um pouco mais profundo que isso e, no momento, isso não era algo que queria para si. Toda a graça da coisa que tinha com era a despreocupação, a falta de cobranças, o sexo maravilhoso e inusitado. Ela tinha medo de se envolver com ele, talvez por saber, lá no fundo, que não era alguém com quem ela poderia contar.
Eles não conversavam com frequência e, quando o faziam, era sobre assuntos superficiais, leves e alegres. Coisas que não revelariam muito dele ou dela. Assuntos que não dariam errado e se transformariam em uma briga. E, para conversar, ela tinha , embora fosse outro com quem não pudesse contar sempre. Tinha que colocar sua vida nos trilhos e ela sabia exatamente quem poderia ajudá-la.
Durante algum tempo, negou para si mesma que pensou em voltar ao SoHo em busca de Madame Shayanni. tentou buscar seu ceticismo de volta, usando argumentos e contra-argumentos contra sua própria mente, embora soubesse que era uma causa perdida: a cética se tornara o tipo de pessoa que acreditava na crendice barata de que uma vidente de rua poderia ajudá-la com seu futuro.


Capítulo 11

Estava difícil de evitar os pensamentos de que, mais uma vez, ela poderia ter feito algo de errado que afastou suas noites quentes com . sabia que eles não eram compatíveis, não que ela tivesse esse ideal de homem perfeito, mas não ajudava nada para sua autoestima mais um término.
Todas as vezes que os dois tentavam uma conversa importante, era desapontamento atrás de desapontamento, mas aquele sorriso e aqueles músculos simplesmente anulavam seu lado racional. Quem poderia julgá-la?
Sorriu ao ver o gato conhecido adentrando a espaçosa sala de seu apartamento. Snowball vinha todo mimoso com o rabo no alto abanando o ar e preenchendo o ambiente com seus miados finos. abaixou e acariciou o espaço entre as orelhas da bolinha de pelo conhecida.
Seria bom se pelo menos aquele serzinho não a abandonasse também. Qual era o problema dela em não conseguir manter as pessoas por perto? Essa era a pergunta que repetia incansavelmente em sua mente. 

— Karma. — sussurrou. — Novamente, o problema é esse. 

Segundos depois de praticamente ter falado sozinha, riu, balançando a cabeça negativamente, sem acreditar que estava cedendo mais uma vez aos misticismos, esoterismos e coisas do tipo, as quais sempre achou bobagem.
Passar o dia naquele apartamento estava lhe deixando limitada e entediada. Tão entediada que queria até procurar por Madame Shayanni.
Não. Afastou a ideia.
Precisava escrever, trabalhar, mas também precisava viver e se divertir e ser ela mesma. Quem sabe ir até o Soho e fazer umas compras não lhe fizesse bem.
Cinco horas da tarde, algumas sacolas em seus braços e o cansaço tomando conta de suas pernas. Josh com certeza lhe diria que estava com problemas sérios, o primeiro deles por cansar fazendo compras e outro pelas coisas que havia comprado. Em dias normais, seria um sacrilégio evitar levar todas as bolsas e sapatos, porém, naquele dia, os acessórios deram espaço para os artigos musicais e roupas confortáveis, como uma camiseta larguinha dos Beatles, a qual achara linda.

— O que está acontecendo com você, ? — Resmungou sozinha, abanando a cabeça.

No momento em que parou em frente a um brechó e se interessou por algumas peças de decoração vintage expostas na vitrine, soube que era hora de encerrar sua pequena aventura do dia, digamos assim. 
Assim que seu braço estendeu e parou um táxi, o celular começou a tocar.

— Eu me sinto tão sortuda por saber que você não vive sem mim, irmã linda. — sorriu ao atender o celular.
— Menos, bem menos, . — As duas riram. — Estou tentando falar com você há horas. 
— Já estou indo para casa, mas o que aconteceu, Jess? — Preocupou-se, a irmã estava grávida, afinal de contas.
— Acho que minha barriga está aparecendo. Eu estou muito grande. — Choramingou e por mais que achasse aquilo uma besteira podia perceber que sua irmã estava verdadeiramente chateada.
— Quem é a rainha do drama agora? — riu e rolou os olhos.

Sem muitas delongas, conseguiu convencer a irmã de que talvez ela pudesse usar blusas amplas, vestidos com saias godês e tecidos mais leves, para fazê-la sentir-se melhor. Até se ofereceu para ir com ela às compras.
E por falar em compras... Já em casa, encarou as sacolas em cima de sua cama. Abrindo uma por uma na intenção de guardar em seu closet, se deparou com uma camisa xadrez flanelada bem maior que seu corpo. Colocou a peça em frente a seu corpo e se olhou no espelho. O que faria com aquilo? Muito provavelmente não a usaria nunca. Por que tinha comprado algo assim? Ela jogou a peça em cima da cama e a encarou, pensativa.

— Essa camisa ficaria perfeita em . — Comentou sozinha e sorriu.

Realmente. Era seu estilo usar algo grunge e já que comprara no impulso e não era algo que usaria, poderia presentear com ela. voltou a camisa na sacola e, em seguida, colocou os sapatos e o casaco novamente. Só havia um destino em que conseguia pensar no momento: o beco. Wolf foi o primeiro que apareceu na escuridão. Com o rabo abanando e latidos animados, o cachorro deu lambidas em sua mão antes que ela acarinhasse o espaço entre suas orelhas. A escritora sorriu com o carinho.

— Oi, garotão. — Abaixou-se para dar mais atenção ao cachorro de . — Cadê seu dono, Wolf?

Olhou a sua volta, forçando um pouco a vista tentando enxergar além da escuridão. Aparentemente o beco estava vazio. Adentrou um pouco mais o pequeno e deserto local até perceber uma luz fraca acesa dentro do carro e os acordes de violão.
estava lindo — é, ela tinha acabado de pensar isso — com o violão em seu colo dedilhando algumas notas e parando algumas vezes para anotar algo em um papel. Compondo. E ele lhe disse que não era escritor, sim, claro.
Ao lado do vidro do passageiro, onde o cantor estava, limpou a garganta, sendo notada pela primeira vez.

— Ora, ora... — admirou-se.
— Surpreso?

mostrou-lhe um sorriso de canto e deu um passo para o lado ao ver deixar o violão no banco do motorista e abrir a porta.

— Obviamente eu não esperava uma aparição em menos de dois dias. Acho que tem alguém que não consegue mais me tirar da cabeça. — colocou as mãos no bolso e encolheu os ombros, agindo como se estivesse falando a coisa mais natural do mundo. apenas revirou os olhos. — Mas me diga, o que a traz aqui?
— Tenho um presente para você. — Retrucou, animada apesar das palavras dele.
— Presente?
— Sim. — Estendeu a sacola, animada.

apenas olhou para a mão da mulher e a sacola com papel de seda saindo pelas beiradas. Uma frescura que ele com dispensava completamente.

— Não, obrigado. — Empurrou a mão dela, fazendo-a baixar e ela o olhar como se fosse uma criança.
— Mas você nem viu o que é. Aposto que vai gostar! Sério. Hoje eu estava triste, aconteceram coisas que realmente mexeram comigo e então fui às compras me distrair. Ironicamente, eu comprei muitas coisas que não compraria em dias normais e quando cheguei em casa e fui desempacotar tudo para guardar, me dei conta de que essa camisa não tem nada a ver comigo, mas é absolutamente a sua cara. — Monologou rapidamente, mal parando para respirar entre as frases.
— Como eu disse, você não consegue me tirar da cabeça. — Sorriu e logo em seguida voltou a sua pose grosseira e brusca. — Mas obrigado, não preciso de presentes.
— Ah, vamos lá, ... Já passamos dessa fase. Não é como se eu tivesse lhe dando esmola ou algo assim.
— Esmola. — Repetiu cinicamente, a voz mais sombria.
— Pare com isso...
— Não estou fazendo nada. — Levantou as mãos no ar, em sinal de rendição.

continuava com suas convicções intactas. Não era possível que uma pessoa fosse tão dura ao ponto de recusar um presente. Quem não gosta de presentes? mesmo os adorava.

— Aceite. — Estendeu-lhe a sacola novamente, determinada a não aceitar a negativa dele.
— Está na hora de você ir embora. — abriu a porta de seu carro, mas foi impedido de entrar por uma mão segurando seu braço.
— É só uma camisa flanelada, muito maior que o meu corpo. Eu não paguei nem quarenta dólares nela! — Sua voz estava mais aguda pela frustração, mas ela não se importou ou notou.
— Eu não dou a mínima para quanto você pagou. — Se desvencilhou das mãos macias e suaves de . — Aliás, o que você está insinuando? Que eu não valho uma das suas camisas de quatrocentos dólares de marcas famosas?

Homens!, a Voz Chata reclamou, concordando com pela primeira vez em algum tempo.

— Não, não. Você entendeu errado, . Eu só quis dizer que nem é grande coisa, é apenas uma camisa.
— Tchau, . — entrou e bateu a porta do carro com uma força estrondosa.

Wolf aproximou-se dos dois, latindo fortemente para o dono. Talvez nem o próprio cachorro acreditasse que estava agindo daquela forma rude com quem só o tinha tratado bem. E talvez estivesse apenas tentando humanizar o comportamento do cachorro. Não seria a primeira vez.

… Por favor. — pediu, com um tom magoado, e foi terrivelmente ignorada. —

Ela bateu no vidro no carro, mas nem ao menos fora digna de receber um olhar. Estava chateada. Nem quando ela fazia algo bom, algo que qualquer um acharia admirável, ganhava reconhecimento? O que custava ele aceitar e ficar quieto?

— Quer saber? É por isso que você não tem nada! — Elevou a voz e atraiu o olhar de . — Não é capaz de aceitar um presente, de aceitar um gesto bondoso de alguém! Você é um grosso, um… Um… — Era uma louca, em um beco deserto, vestida em roupas caras e gritando com um músico que morava em seu próprio carro.

Antes que pudesse terminar, foi surpreendida com o músico, que saiu rapidamente do carro e segurou seus ombros firmemente, mas sem machucá-la. Olhos e se encontraram e se calou.

— Escute aqui…. — Sua voz saiu baixa e controlada, o que o tornava mais ameaçador. — Eu não preciso de piedade de ninguém, então pega essa sua camisa de quarenta dólares e... Por que não pula na moto do seu namorado e se manda daqui? — Ele a soltou.

Por um momento, ela apenas apertou os olhos na direção dele, sua respiração sibilada por causa do ódio que lhe tomara naquele momento.

— Não fale do ! Você não sabe nada sobre ele! — Ele era um assunto delicado principalmente depois de sua súbita epifania emocional e prática sobre ele. A própria não sabia muita coisa sobre o vizinho com quem, constantemente, dividia a cama. Ou o sofá.
— Sabe o que eu sei, ? — Ela fez uma careta diante do nome pronunciado com tanto desprezo. Desprezo que não era todo dirigido a ela, mas uma consequência do mergulho ao passado do músico. — Eu sei que ele é o seu tipinho de cara. Aposto que tem uma tatuagem do tempo que serviu na Marinha, fala coisinhas bonitinhas pra te levar pra cama. Aposto que você não tenta enfiar uma blusa de quarenta dólares nele! Aposto que ele é o tipo de cara que fica com as garotinhas mimadas do seu tipo!

Foi rápido demais. Um estalo, sua mão levantada, o rosto de que começava a se avermelhar.

— Eu realmente tentei ser sua amiga, . — A voz estava estrangulada. Chocou-se com sua própria reação e mais ainda. Mesmo assim, não pediu desculpas.

Sem saber mais o que dizer, abaixou a cabeça, derrotada, dando passos hesitantes. Não foi só o episódio que acontecia agora que a magoava. Era tudo, era , era seu trabalho, eram as previsões da vidente e o fato de nunca ser boa o bastante.

— Rude, é isso que você é. E orgulhoso… — Resmungou antes de acariciar Wolf, que nada tinha a ver com a briga e a olhava desolado, e ir embora quase correndo.
— Mimada. — exclamou por fim.

não ouviu a última palavra dele, porque saíra do beco a passos rápidos, para impedi-lo de ver que ela estava, sim, chorando. Estava magoada com ele, com ela mesma, com tudo que a cercava no momento. A sensação agonziante de não ser boa o suficiente, a sensação que queimava sua mão e a lembrava da violência que cometera contra ele, a sensação de não fazer “nada” de sua vida fazia as lágrimas rolarem mais rápido pelo seu rosto e ela mal cumprimentou o porteiro ao entrar novamente no prédio luxuoso onde morava. Naquela hora, até a merda do elevador demorando a chegar ao térreo a estava irritando.
Ao chegar ao seu apartamento, lançou a sacola com a blusa do outro lado da sala, como se tudo que estivesse dando errado fosse culpa dela, da maldita blusa xadrez. Snowball miou irritado com a interrupção de sua soneca e ela pegou o gato no colo, o abraçando forte junto ao corpo. Mais uma vez, o gato miou, reclamando, mas ela o ignorou. As lágrimas escorriam por seu rosto e caíam no pelo branquíssimo do gato persa.

— Você acha que eu estou errada, Snow? — Murmurou com a voz embargada, mas o gato apenas miou alto, irritado e pulou de seu colo, sacudindo o pelo branco e lambendo-se de modo delicado.

Ela olhou ao redor, para o apartamento bem arrumado, bem decorado, bem caro e bem vazio. O MacBook parecia olhá-la e reprová-la por sua falta de responsabilidade com os prazos (Kruger deixou três recados malcriados sobre isso), o vinho tinto barato na geladeira parecia chamar por ela e ela não queria nenhuma das duas coisas. Queria companhia. Como não tinha nem se despido ainda, deu meia volta e pegou um táxi. O porteiro, que a viu ir e vir tantas vezes em tão pouco tempo a olhou com uma preocupação simpática, seu personal trainer tinha perguntado por ela algumas noites atrás e ele achava que ela não estava bem, mas era só o porteiro da noite. Não interessava a ele.
No caminho, ligou para a sua irmã que, preocupada (e maldita fosse ela por preocupar sua irmã grávida e muito, muito emocional) a disse para ir direto para casa. Nem mesmo a presença de seu detestável cunhado fez com que desistisse de se deitar no colo de e chorar suas mágoas com algum quitute que ela prepararia para a ocasião.
deveria ter sabido que algo assim aconteceria alguma vez na vida. Em todas as outras vezes que precisou de ajuda emocional foi algo relacionado ao pai, à carreira, a algum rumor particularmente espinhoso que havia saído de uma revista. E, mesmo que não soubesse o que era no momento, ela poderia apostar sua bolsa Prada da última coleção que era um homem a causa do problema. Isso porque, das duas, sempre foi a mais cabeça fria. Lidou com términos muito bem, principalmente por usar da política do desapego em todos os seus breves namoros. sempre era a que chorava vendo O Diário de Bridget Jones e comia sorvete barato com uma caneca de cerveja do lado. sempre tinha outro cara na agenda. Ela costumava dar de ombros e dizer que tem muitos homens no mundo e nenhum deles merecia o seu choro. Mas ela ainda era humana. Deus, tinha acabado de se lembrar que sua irmã podia chorar!
Foi para a cozinha, ver o que tinha na geladeira ou o que podia fazer para ajudá-la. Joseph, que estava na sala lendo seus jornais, disse que ela devia ficar longe da cozinha e não tentar cozinhar nada.

— Vá pastar, Joseph, minha irmã precisa de mim! — Olhou-o de rabo de olho e o homem, que jamais contrariaria sua esposa grávida que carregava o herdeiro de seu banco, anuiu, dizendo que, se precisassem dele — pobre iludido! — estaria no quarto.

Viu a mousse de chocolate que fez para o almoço e decidiu que aquilo serviria. Antes mesmo que a tirasse da geladeira, a campainha tocou e a empregada foi atender. Viu andar lentamente para a cozinha, com os olhos vermelhos e o nariz do mesmo jeito. Ela parecia fazer um esforço hercúleo para não gritar e espernear.

— Oh, meu Deus, ! — Pegou a caçula pela mão, levando-a para o sofá e pedindo à Lucy que trouxesse porções generosas da mousse de chocolate.

A situação fez com que se lembrasse do primeiro amor de , quando ela foi trocada por alguém com peitos maiores do que ela. E do namorado seguinte, que trocou por alguém que não tinha peitos, mas um pênis. Agora, a situação se invertia. E nem era seu namorado.
Viu-se contando — entre soluços e palavrões —, com a boca cheia de mousse, tudo o que tinha acontecido. Desde a falta de comprometimento de até o escândalo com . E tudo por causa da porra de uma blusa de quarenta malditos dólares!
ouviu tudo quieta, vez ou outra aquiescendo e algumas vezes pedindo para que continuasse. Era a mais velha, a que cuidara de sua irmã quando a mãe passou a cuidar da fazenda, era a irmã mais velha que colocou juízo na cabeça de quando se mudaram para Nova York. E, agora, era mãe. E os hormônios da gravidez fizeram bem ao seu cérebro.

— O que você queria, ? — Sua irmã perguntou em voz baixa, oferecendo sua própria porção de mousse para a mais nova. — Você não deixa nenhum dos dois chegar perto de você. Você não deu uma chance ao desde o começo, muito menos ao . — deixou de lado que ela mesma não tinha dado muitas chances ao músico de rua. — E vamos ser francas, : o que você quer do ? Ele não é como nós, a realidade dele é completamente diferente da nossa. Ele mora na rua, , pelo amor de Deus! Você realmente acha que vai mudar a vida dele com presentes?

olhou o chão, pensativa. Se tudo que dizia era verdade, então ela era a errada. E ela não gostava de estar errada. A bem da verdade, odiava estar errada.

— Eu só queria ajudar! — Murmurou baixo. Não parecia uma mulher adulta, apenas uma adolescente com o coração partido. E a boca cheia de mousse.
— Querida, ele precisa de muito mais ajuda do que você pode imaginar. — Puxou a irmã para seus braços, acariciando seus cabelos macios enquanto a outra chorava. Devia ser difícil para . Todo mundo sabia dos seus problemas com a escrita e como suas aparições em eventos e shows de televisão tinham diminuído durante o último ano. E no topo de tudo isso, sua primeira desilusão amorosa. a abraçou como se pudesse proteger sua irmã de tudo isso, mas nem mesmo sua super irmã mais velha conseguiria tirá-la dessa.
— Mas , eu não quero vê-lo sozinho naquele beco, morando naquele carro velho…. — Murmurou mais para si mesma do que para a irmã.
— Ache outra coisa que possa fazer por ele, . Blusas e cobertores não vão ajudá-lo agora.

Quando saiu dali, na manhã seguinte, estava mais calma. Mais calma e com uma ideia na cabeça. E a primeira coisa que faria era terminar com .


Capítulo 12

Os raios de sol o acordaram. sempre tivera um sono leve e qualquer som fora do comum no beco o punha em alerta. , então, se levantaria, se limparia como podia com os lenços umedecidos baratos que podia comprar na loja de conveniência ao lado (e ele percebia uma melhora nos lucros quando estava mais limpo e apresentável) e tomaria um café frio que alguém esqueceu na mesa de um Starbucks a poucas ruas do Central Park. O café nem sempre era garantido, mas essa era sua rotina básica. Naquele dia, porém, deu-se ao luxo de virar-se para o lado oposto ao dos fracos raios solares e dormir por mais duas horas, mais ou menos. Ficara acordado repensando sua vida e como teria feito escolhas diferentes se pudesse. Dizia isso, mas o constante hábito de se enganar fazia com que esquecesse que ele era jovem e sua ganância e ambição o levariam pelo mesmo caminho.
A briga com não fora planejada. Em momento algum ele pensou em magoá-la, mas aquilo já era demais. Daqui a pouco, colocaria uma coleira nele, o levaria para casa e o faria comer em um pote no chão. não era nenhum cachorrinho de madame e nem seria. Quando perdeu seu pai, achou que sua vida iria se endireitar. Ele não queria mesmo ser advogado. E recusava-se a morar com sua mãe. Foi tentar a vida, caindo na estrada. Por mais que amasse seu velho, jamais seria capaz de ser o filho que ele sempre quis.
Quando perdeu seu pai, no entanto, ela achou que sua vida tinha sido sacudida de cabeça para baixo. A mãe, que sempre tinha sido a parte prática do casal, tentou levar a garota para o mesmo caminho que o seu: queria ver a filha casada, talvez com o dono da fazenda vizinha, estável, com filhos, um bom emprego. Mas a tola da sempre tinha sido uma sonhadora e foi a duras penas que se estabeleceu em Nova York. E embora nem um e nem outro soubessem das particularidades e pontos em comum em suas histórias, ambos sentiam que deviam se desculpar, por alguma coisa ou outra.
Claro, os dois tinham muita coisa para remoer: querendo ou não, tinha nascido rica. Viveu confortavelmente, jamais tendo seus pais que se preocupar em como pagariam a conta de luz. era carismática e bastava alguns minutos de conversa para que a maioria das pessoas (todos, na verdade, exceto Kruger e ) caíssem aos seus pés. Ela era engraçada, bonita (mesmo que não excessivamente) e jovem. E mesmo enquanto estava lutando para sobreviver em Nova York, se as coisas dessem realmente errado, ela ainda tinha sua mãe, os irmãos, a fazenda, seus cavalos e Shawn, o herdeiro da fazendo ao lado que se contentaria em tê-la como esposa. Tinha muita coisa sobre abandono e humilhação que ela não entendia.
E … Bem, verdade seja dita, era um passatempo. Alguém que ela mantinha por perto para impedir seu ego de cair muito. Alguém que poderia distraí-la em momentos de tensão.
De manhã, quando chegou em casa, arregalou os olhos com espanto. A mesa de jantar tinha sido posta, mas não tinha mais comida ali. E uma olhada no quarto revelou que tinha dormido ali em sua cama, seminu. A escritora respirou fundo, passando a mão pelo cabelo. Ele tinha preparado uma surpresa. E estava dormindo sozinho, numa cama cheia de pétalas de rosas. Mas será que é possível? Por que raios não conseguia dar uma dentro? Brigar com a fizera dormir no quarto de hóspedes da cobertura de sua irmã e o celular, descarregado, estava em sua bolsa. Ela apostava a unha de seu dedo mindinho que, caso o aparelho estivesse ligado, mostraria várias ligações de .
Snowball miou alto atrás dela, fazendo-a dar um pulo de susto e derrubar uma pequena estátua de Buda, em bronze, no chão carpetado. Com sorte, a estatueta estava intacta, ou Joshua a teria matado. Uma olhadela rápida por cima do ombro a mostrou que ainda dormia e abaixou-se para falar com Snowball. O gato ronronou e se esfregou em sua mão. O que ela faria quando resolvesse levar o bichano embora?
Snow logo entediou-se e foi procurar um de seus ratinhos de brinquedo, provavelmente escondido em algum lugar para que ela não achasse. Deixando a bolsa em cima da cômoda, sentou-se com cuidado na cama, para que o enorme homem à sua frente não acordasse. Músculos definidos, uma boca sexy, olhos tentadores…. Tudo em era um conjunto de coisas que ela geralmente não procurava em um cara. Os tipos artísticos, franzinos, inexoravelmente estranhos ou sem muitas habilidades sociais eram os seus preferidos. E ela se assustou ao constatar pela primeira vez que tinha mudado seu comportamento. E nos seus livros, quando um assassino mudava seu comportamento, é porque alguma coisa tinha acontecido. Alguma coisa tinha mudado.
analisou seu comportamento nas últimas semanas. Muita coisa tinha mudado. Ela tinha entrado em crise, estava bloqueada, sua irmã tinha se casado há um ano, sua mãe cobrava netos, ela tinha sofrido uma tentativa de estupro e tinha conhecido e …. Sua vida deveria ser perfeita. Ela deveria ser perfeita. Deus, sua vida tinha sido perfeita um dia! Com seus livros vendendo como água, com sua imagem jovem e simpática sendo vendida tanto quanto eles, com seu closet abarrotado de roupas caras e seu apartamento próprio em Manhattan, pelo amor de Deus! Quando foi que sua vida tinha virado uma bagunça?
Levou sua mão ao cabelo de , acariciando-o por pouco tempo, até que ele finalmente acordou. Abriu os olhos lentamente, de um jeito adorável, como um filhote de cachorro. E sempre foi uma pessoa de gatos.

— Bom dia. — sussurrou enquanto o homem passava a mão por seu rosto, sonolento, olhando o relógio em seguida.
— Bom dia. — Ele respondeu, esticando os braços e levantando-se. A cada vez que o olhava, tinha certeza de que ele tinha sido esculpido por Michelangelo.
— Bela decoração. — Tentou manter seu tom leve e jovial, mas o olhar acusador de fez com que sua pequena farsa se desmanchasse rapidamente. — Sinto muito, eu dormi na minha irmã….
— E eu te esperei durante horas aqui. — levantou-se, vestindo suas roupas rapidamente. — Seu telefone estava desligado e eu não fazia a mínima ideia de onde você estava! — Ele gesticulava, nervoso.

Silenciosamente, ela o observou se vestir, ajeitar o cabelo, praguejar e bufar. E então gritar e perguntar qual era o problema dela.

— O que eu sou para você? — Ela finalmente pronunciou seu pensamento mais traiçoeiro, a voz desafiadora, o olhar inquisidor pregado nele.

Foi a vez de ficar em silêncio. Nunca antes uma mulher o havia desafiado de tal forma ou até esnobado seu jantar romântico. Ele conseguia qualquer mulher aos seus pés com aquela tática. Vê-la indiferente, firme e não se desculpando foi um baque. Ele não estava preparado para aquilo.

— Você está gritando e andando de um lado para o outro como se fosse o meu namorado, mas você não é. — seguiu com o mesmo tom. — Também não é o meu dono e quando eu quis conversar algo importante, você não deu a mínima. Você só liga para o que você faz, o que você quer. Você nem me perguntou porque eu dormi no apartamento da minha irmã.
…. — Estava embasbacado e sem palavras, abrindo e fechando a boca como um peixe.
— Quer dizer, você estava realmente preocupado ou só estava irritado porque eu não estava aqui para o jantar?

Ela não estava irritada e nada em sua postura denotava isso, mas ele se sentiu ameaçado. só precisava realmente entender o que se passava. Era essencial para ela tomar controle da situação, antes que perdesse a cabeça. pensou bem no que responderia. E então falou:

— Eu estava preocupado. Achei que alguma coisa tinha acontecido. — Analisou a expressão dela, que tinha amolecido um pouco.

podia ter se preocupado com ela, mas não quis ouvir quando ela quis dizer a ele algo que quase aconteceu com ela. Algo muito mais sério que perder um jantar. Ela suspirou. Resolveu que não estava pronta (ou com animação) para uma briga mais complexa.

— Então pare de gritar. Eu tive um dia difícil, fui dormir na …. — A escritora se levantou da cama, encaminhando-se para o banheiro. Parou no batente da porta e olhou-o por cima do ombro. — Aliás, acho melhor nós terminarmos… O que quer que nós tenhamos.

E deixou o vizinho de boca aberta no meio do quarto, se perguntando onde é que ele havia dado uma bola fora naquele jogo. O problema não era , mas dizer isso pareceria genérico. “Não é você, sou eu” nunca foi algo que gostaria de dizer. Esse tipo de término genérico parecia desrespeitoso. A verdade é que poderia fazer uma lista de motivos para terminar com ele. E nenhum desses motivos faria com que ela se sentisse melhor.

Seus motivos eram:
a) Ele não tinha tempo para ouvi-la;
b) Ele era ótimo para o sexo, mas não para ficar sentado no sofá vendo Law & Order: SVU;
c) Ele não era seu tipo;
d) Ele não assistia Orange is the New Black .

E seu medo em dizer esses motivos a ele?
a) Ela não queria nada sério, então admitir que queria alguém com quem pudesse contar e ter apoio emocional era mais complicado do que parecia;
b) Law&Order: SVU era seu seriado favorito. E ele não calava a boca;
c) Os tipos bonitões a encantavam, mas não a atraíam. Transar com um cara como ele, tão vaidoso, era mais um experimento psicológico: ela nunca achava que ele lhe dava toda a atenção (embora o sexo sempre tenha sido fantástico);
d) Precisa de explicação? Como ter algo com alguém que não assiste Orange is the new Black?

Estava se traindo. E traindo tudo o que ela sempre pregou em sua vida. Talvez, aos 26 anos, estivesse amadurecendo. Talvez fosse hora de tentar ter uma família. Isso acontecia a algumas mulheres, certo? Pensou em como se sairia sendo mãe, como sua irmã seria em alguns meses. E sua imaginação não lhe mostrou nada de bom. Também não se via morando em um subúrbio, com uma casa branca e um cachorro.
Confusa, parou de pensar nesses assuntos. Deixou que a água quente caísse em sua cabeça e levasse esses pensamentos frustrantes. Tinha algo para fazer. E isso envolvia uma visita à vidente.

Ao mesmo tempo, mais longe dali, observava o movimento no parque enquanto se sentava no seu banco de sempre. Dessa vez, tocava Iris do The Goo Goo Dolls, depois de observar a quantidade de casais no parque. Por causa do filme (ou algo assim) a música fazia sucesso entre os casais e, ao final de um dia de trabalho, ele e Wolf teriam comida por algum tempo.
Era sempre uma questão de fazer boa leitura do público. Se tivesse mais famílias, podia tocar algo animado e de bom tom, algo como Beatles ou Elvis. Se fossem mais jovens, Maroon 5, Ed Sheeran e outros do mesmo estilo. Depois de algum tempo fazendo aquilo, podia ter uma boa noção de como se dar bem.
A briga com ainda o incomodava e chegou a parar na frente do prédio dela por alguns minutos, atraindo o olhar simpático do porteiro de aspecto cadavérico, depois de seu “dia de trabalho”. O cachorro latiu para ele e, violão nas costas e o casaco bem fechado, ambos voltaram a andar em direção ao beco. Talvez um dia conseguisse sair daquele beco. Não com a música, ele não esperava mais (pelo menos não achava que tinha chances reais de) se tornar um músico. Talvez pudesse conseguir um emprego se conseguisse um lugar para ficar. Ele sabia que tinha abrigos, alguns arrumavam trabalhos por lá. Ele poderia tentar aquilo. Depois de alguns anos morando na rua, ele não tinha muita coisa em que se segurar. Sem grandes sonhos ou esperanças. Estava à beira dos trinta anos e era um fracassado. Os anos que levara vivendo uma boa vida em NY eram boas lembranças nos dias em que amaldiçoava sua sorte, mas sabia que aquilo não iria se repetir. Ele teve chances de ser uma estrela, três anos atrás. Agora, no entanto, ele só tinha chances de morrer de hipotermia.
Passou anos viajando pelo país e sua última parada fora NY. Foi em NY que ele chegou ao topo e ao fundo do poço. Se ele morresse ali, congelado, em Nova York, seria até um pouco poético. Ele sentou dentro de seu carro, dedilhando alguns acordes, murmurando as notas enquanto lia o que tinha escrito. Tinha escrito uma música. E não estava orgulhoso. Todas as vezes em que lia aqueles versos, pensava em amassar o papel, queimá-lo, jogá-lo fora. E então voltava a dedilhar os acordes e cantar baixo. Não fazia sentido. Mas, naquela altura, o que poderia fazer sentido na vida de ou ?

No SoHo, a escritora batia um pé nervosamente no chão, enquanto aguardava Madame Shayanni. Esfregava as mãos por causa do frio e também para ter algo para se ocupar, já que não gostaria de pensar que tinha se tornado uma daquelas pessoas dependentes de adivinhações ou coisas como horóscopo e astrologia. Não. Ela só queria… Mas não tinha a menor ideia do que ela queria. Pela milésima vez em algum tempo, não sabia qual seria o seu próximo passo. Kruger começava a ficar impaciente com seu silêncio e mandava e-mails de duas em duas horas, aproximadamente. E, cada vez que os lia, sentia uma dor em seu âmago, algo parecido com contrações, porque sabia que não tinha material com o qual trabalhar agora.
Finalmente Shayanni se despediu do cliente e, ao virar-se, se admirou com a presença da escritora que, incomodada e ao mesmo tempo envergonhada, não sabia se desviava o olhar dos penetrantes olhos da mulher diante dela ou se fingia estar absolutamente certa de estar ali. Dentre as duas opções, depois de pouca hesitação, escolheu a última, encarando Shayanni de modo altivo.

— Nós já passamos por isso, . Não precisa afirmar o seu ceticismo para mim. — Um sorriso caloroso e um gesto leve com uma de suas mãos, balançando suas inúmeras pulseiras, indicaram à escritora que poderia entrar no outro ambiente da tenda.

, então, caminhou à frente, sentando-se na já tão conhecida cadeira de forro roxo berrante da vidente. Madame Shayanni sentou-se à sua frente silenciosamente, apenas embaralhando as cartas enquanto encarava o baralho em sua mão. Ela ainda não tinha desviado os olhos de suas cartas quando abriu a boca.

— Está se sentindo perdida, criança? — Com gestos rápidos, espalhou as cartas sobre a mesa e convidou a tirá-las com um olhar estranho, como o de quem sabia um segredo que ela não fazia ideia. — Quando estiver pronta.

A mão trêmula e bronzeada se adiantou até uma das cartas, mas pairou no ar por alguns segundos, antes de se decidir por outra. A Lua, de cabeça para baixo. Sem que fosse interrompida, foi virando outras seis cartas: o Ermitão, o Sol, o Carro, a Imperatriz, o Imperador (em sua mente, fez uma piada interna sobre montar um casal) o Enforcado e… O Diabo.
Madame Shayanni elevou uma sobrancelha ao ver a última carta e emitiu um grunhido baixo. Mas a vidente, em vez de começar a falar, simplesmente encarou as cartas por mais tempo, o indicador direito batendo lentamente em seu lábio inferior. Foi preciso que limpasse a garganta por quatro ou cinco vezes para chamar a sua atenção.

— Oh, sinto muito, fiquei um pouco… Bem, você terminou com ele, não é? Com esse homem que estava na sua vida.
— Eu…
— O Sol me disse. — Ela apontou a carta com um dedo longo. — Ele te deu clareza e você finalmente viu a situação como ela era, não é verdade? Mas tem um outro homem… — Seus olhos cinzentos flutuaram para a carta do Diabo. Francamente, essa carta iria aparecer toda vez? Ela não era simpática. — E me parece que vocês dois tiveram uma briga. O Ermitão e o Enforcado juntos… Perto do Diabo… — Ela bateu em seu lábio por mais algumas vezes. — Deixe que ele pense mais um pouco. Eu sei que você está se sentindo mal, mas ele precisa ficar um pouco sozinho. Precisa de tempo para refletir. Ele está muito imerso no passado agora e isso o magoa… — Ela franziu o cenho, ainda estudando as cartas. — Ele fez as escolhas erradas.

prendeu a respiração. Ela não acreditava nessa baboseira, mas… Não é que ela estava certa? Ou, pelo menos, a escritora achava que sim. Tudo condizia perfeitamente.

— Agora, a Lua invertida. — Sua voz vigorosa chamou a atenção da escritora, que logo se viu agarrada às palavras que saíam da boca carnuda da vidente como quem se agarrava a um bote salva vidas. — Sua imaginação não vai bem, o que me diz que o seu livro e o seu trabalho também não. É uma pena, eu realmente estou ansiosa para ler esse… Bem. Eu vejo aqui o Imperador. É um homem rígido que está pressionando você, eu diria que profissionalmente, pelo arranjo das cartas. Ele pode parecer assustador, não é? Esta carta? — A vidente a levantou e a entregou a ela. — Mas eu garanto que ele é melhor do que parece. É uma figura paternal que vê a sua real capacidade. — Ela apontou o Carro, dessa vez. — Ele acredita piamente que se você se planejar melhor, pode terminar o livro dentro do prazo… Ele é bem racional.
— Bem, se parece muito com o meu editor. — murmurou para si mesma enquanto jogava a carta em cima da mesa. — E esta?
— Ah, a Imperatriz. — Um sorrisinho convencido tomou conta de seus lábios. — Geração de frutos.
— Geração de frutos? — perguntou, incrédula. — O que isso quer dizer, pelo amor de deus?
— Bem, pode ser no plano material ou… — O sorriso ainda estava lá. — Ela representa um desejo de… Como posso dizer isso? Amadurecimento. Constituir uma família.

piscou algumas vezes e mordeu o lábio ao pensar que — mas que diabos — ela tinha cogitado essa possibilidade.

— Você quer fincar raízes em algum lugar. E ela também indica que a sua criatividade pode voltar… Mas não é por isso que ela está aqui.

A escritora tirou o dinheiro da carteira e o entregou à vidente, que a chamou com um último aviso.

, quanto ao Diabo… Ele nem sempre é tão ruim quanto o pintam. É o lado obscuro dele, a hesitação… Ele já foi magoado. E não quer que isso aconteça de novo. Ele não gosta de ser controlado, então ouça Madame Shayanni: vocês podem mudar o rumo das coisas se deixarem o orgulho de lado e reconhecerem seus erros.
— Pensei que eu deveria dar espaço a ele. — Ela repetiu o que ouviu poucos minutos atrás, cruzando os braços na frente do corpo de modo afetado.
— E deve. Mas se der muito espaço a ele, pode apenas aumentar o abismo que existe entre os dois. E eu sei que você não quer isso.

evitou responder à provocação ao sair da tenda e ser recepcionada pelo vento frio diretamente no seu rosto. Respirou o ar gelado e olhou ao redor, procurando por um táxi. Tudo o que ela tinha dito fazia sentido e, ao mesmo tempo, apenas tinha servido para que ficasse mais confusa. De uma forma ou de outra precisava acertar-se com seu livro e seu editor, talvez esse fosse o tempo que precisaria para perceber que estava sendo um bastardo orgulhoso.


Capítulo 13

Novembro trouxe a neve e as decorações de Ação de Graças a Nova York. Faltava duas semanas para a Black Friday e a Ação de Graças. Em breve teria que começar a tocar canções festivas, embora não gostasse desse tipo de música. O espírito do natal nunca tinha conseguido atingi-lo. E seria difícil isso ocorrer. Levantou a gola de um dos casacos que tinha enfiado nele para proteger-se do frio e entrou na loja do sr. Wong, que, sobressaltado, virou-se para ver quem tinha acabado de entrar em sua loja tão tarde da noite. Naquela época do ano não eram incomuns assaltos.

— Ah, , entre. — O sr. Wong sorriu, caloroso, e voltou a assistir a TV, aliviado que não fosse um assaltante.

O cachorro o aguardava do lado de fora, sentado obedientemente enquanto seu dono comprava algo quente para os dois dividirem. Tinha pouco dinheiro, então tinha que ser cuidadoso ao escolher. Se pegou dividido entre duas refeições prontas, as quais o coreano sempre esquentava para ele, uma vez que sabia que não tinha nada além de um cachorro, um violão e um carro que servia de casa. Foi só quando colocou a escolhida sobre o balcão (depois que contou as notas amassadas de um dólar e viu que era suficiente), que viu o que o sr. Wong assistia com tanto interesse. Na tela da televisão, um apresentador já na casa de seus cinquenta anos interagia com a plateia com um livro em suas mãos. Ele então se virou para a mulher que entrevistava. observou o quão bonita ela estava. Como seu cabelo tinha sido arrumado para parecer ondulado e sofisticado, reparou nas poucas joias que usava, embora fossem de alto valor. Ela estava maquiada demais para o seu gosto, como se estivesse tentando demais ser bonita, coisa que ela não precisava forçar.

— E então, , quando finalmente saberemos o destino de Caleb Teague? — Ele bateu na capa dura do livro. — Eu devorei este aqui em três dias! Mal posso esperar pelo próximo!

sorriu. Sua pose relaxada só era denunciada pelo sorriso forçado. Ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha e tocou o colar de pérolas inconscientemente.

— O último livro. — Suspirou e então deixou de tocar o colar. — É um pouco opressivo pensar nele como o destino final de Caleb, entende? É como se eu desse fim a uma parte importante da minha vida. O que eu quis fazer com Caleb foi mostrar que mesmo cretinos como ele podem fazer algum bem, vez ou outra. Mesmo que ele faça isso dos modos mais incorretos possíveis! — Arrematou com uma risada leve, completamente falsa.
— Bem, bem, bem! Está querendo dizer que, talvez, Caleb Teague não se aposente nesse último livro?
— É o livro que fechará a trilogia, com toda certeza. Mas não tenho como afirmar que será a última vez que vocês verão Caleb Teague. — Observando a plateia, ela sorriu de modo felino. — E também não posso afirmar que ele será visto novamente. É um mistério. Você sabe o que dizem sobre escritores, não sabe? — Diante da negativa, ela continuou. — Hm, eu também não, mas não deve ser nada bom!

Isso arrancou risadas tanto da plateia quanto do apresentador. Ela falava com tanta desenvoltura e de modo natural, parecia estar no meio de uma festa com alguns amigos, embora ele pudesse dizer que ela estava sendo completamente falsa consigo mesma.

— Eu li seus dois primeiros livros. E eu não consigo acreditar que você escreveu o primeiro com vinte anos de idade! É brilhante, tem conspiração, suspense, romance, sexo… Tudo na medida ideal.
— Na verdade, eu terminei de escrever aos vinte. Eu fiquei escrevendo o livro por dois anos e reescrevi tantas vezes… Era muita coisa para balancear e eu não queria deixar pontas soltas. Cheguei a um ponto onde comecei a ter um TOC com esse livro. Foi então que minha irmã me atingiu na cabeça… Com um bife de fígado congelado! — Aquilo arrancou risadas. — Tive que parar, fui forçada. Vocês não sabem como dói ser atacada com um bife! — Deu de ombros com um sorriso agradável enquanto observava a plateia. — Mas o grande segredo para um bom livro é saber quando parar de escrever. Esse é o grande desafio.
— Se não se importa que eu pergunte… De onde tira essas ideias? — Ele girou o livro nas mãos, olhando-o maravilhado.
— Sabe, o problema não é arranjar as ideias… — Ela se inclinou na direção do apresentador, embora continuasse virada para a plateia. — É fazer com que elas parem de chegar e de falar na sua mente! As vozes, meu Deus, as vozes! — Sibilou de forma teatral, mais uma vez arrancando risadas da plateia.
— O que eu quero dizer é: de onde surgiu Caleb Teague?

observou que ela demorou algum tempo para responder a pergunta e cruzou a perna, pousando as mãos sobre os joelhos. Seus olhos se desfocaram — ou teria sido impressão sua?

— Está brincando? — Ela seguiu com um tom leve e divertido, como se não tivesse hesitado. — Eu me mudei do interior para cá aos dezoito anos, eu e minha irmã, sozinhas e caipiras. Conheci tantos cretinos… Me tornei expert neles. Caleb é um pouco de cada homem que conheci. Alguns mais que outros, é claro.
— Estão vendo? Jamais quebrem o coração da Taylor Swift dos livros de suspense ou ela pode escrever um livro sobre você! — O apresentador tinha as piores piadas possíveis, talvez fosse por isso que rissem tanto de . — Comprem Crimson Chess nas livrarias!
— E aguardem o Crimson Reverie! — Ela disse alegremente, como quem não tinha ouvido o que ele tinha dito.

O comercial apareceu na pequena tela de dezenove polegadas e o coreano se virou para ele.

, acredita? Vive aqui, compra vinho! — O baixinho sr. Wong exclamou com uma pontada de orgulho, batendo com a mão no balcão animadamente.
— É mesmo? — perguntou, fingindo desinteresse, enquanto o sr. Wong colocava o prato congelado no micro-ondas.
— Boa moça, boa moça. Um pouco distraída, mas sempre gentil. — Ele disse. — Você conhece? Ela aqui outro dia. — Ele continuou fingindo desinteresse e o coreano insistiu. — Vocês brigaram. Ali, perto de sorvete.
— Ah, ela. Não é tão bonita pessoalmente, hein? — Disse com desdém, passando as notas para ele, que as olhou pensativamente.
— Não, muito bonita. Na TV parece velha. É nova. — O sr. Wong continuou com seu inglês precário, enquanto afastava a mão dele com um gesto. — Escuta, . Wong velho e cansado. Se levar lixo para fora, Wong faz comida de graça.

Isso acontecia uma vez ou outra. O sr. Wong era muito mais simpático do que sua mulher, que simplesmente fingia não falar inglês quando ele estava lá. Ele aceitou a oferta do velho coreano, carregando os diversos sacos de lixo para fora, assim como sempre fazia.
Voltou para a loja apenas para pegar seu prato e correu com ele para o carro, seria péssimo se esfriasse antes que eles comessem. Wolf seguiu para dentro do carro atrás dele e comeu assim que terminou. Ele pensou na pequena parte da entrevista de que tinha visto e em como ela parecia uma pessoa completamente diferente da mulher que tentara dar a ele uma blusa de presente. Havia algo de artificial em sua aparência… E, mesmo assim, havia um quê de vulnerabilidade que ele não tinha notado antes, mas talvez fosse porque estava tendo problemas em terminar seu livro.
tirou um bloco de notas gasto e bem rabiscado de dentro do porta-malas, virando algumas folhas até achar a que ele tinha escrito recentemente. Se ela era a Taylor Swift do suspense, o que ele era?

— Como eu estava? — perguntou no celular para sua irmã. Tinha acabado de assistir ao programa em seu apartamento e tinha roído as unhas. Era a mesma coisa sempre que tinha que ser entrevistada.
— Você se saiu maravilhosamente bem! Não deu nem para notar que você não faz a mínima ideia do que fazer com o seu personagem principal.
— Oh, bem, obrigada por notar logo isso. — Retrucou sem ânimo.
— Não use esse tom comigo. Eu só disse algo óbvio. — provavelmente estava rolando os olhos, agora. — Esse apresentador era um pé no saco! Ele deve ter passado uns dez minutos insistindo que você falasse sobre a sua vida pessoal.
— Deus do céu, isso ia ser pior do que falar sobre o novo livro. — Com um gemido, largou-se no sofá. Imaginou-se falando sobre . Não, mas que diabos, não falaria dele na TV. E muito menos de .
— Acha que a mamãe assistiu?
— Se viu, foi pra criticar. — Snowball surgiu no meio da sala. Mesmo depois de ter terminado com , o gato continuava aparecendo ali.
— Sei que Bran e Daniel assistiram. Eles devem ter gravado para ela, sabe como ela dorme cedo.

Sua mãe não aprovava sua carreira de escritora ou seus livros. Achava que era baboseira e que ela deveria ter uma carreira mais estável. Recriminava seu estilo de vida de todas as formas possíveis.

— Você vai passar o dia de Ação de Graças com ela, certo? — perguntou, usando seu tom maternal e firme.

realmente odiava voltar à fazenda, embora amasse ver seus irmãos. Mas ela os via e então notava como sua vida não era nada especial. Como ela era vazia, apesar de ter mais sucesso que os outros.

— Eu não sei. Achei que Josh e Cam fossem fazer um jantar.
— E eles vão, é só que… — Ouviu sua irmã suspirar. — Olha, , eu estou grávida. Quero que a mamãe veja isso ou como Joe me trata bem ou deus sabe o que! Eu só quero que ela saiba que eu estou feliz, entende?

podia entender. Mas aquilo não a influenciava em nada a querer entrar em uma casa de tortura de modo espontâneo.

— Eu sei,
— E Daniel disse que está com saudades! Os gêmeos querem te ver, também. Vai ser divertido. A gente pode arrastar o Josh e o Cam para chocar a mamãe, o que você acha?
— Você quer levar um casal gay para o jantar de Ação de Graças dela? — explodiu em uma gargalhada. Bem, aquilo a fazia querer ir para a fazenda. Sua mãe teria um choque gigantesco!
— E talvez você possa levar o …?

Ah, isso. Ela ainda não tinha contado a , nem aos seus amigos, sobre o término, apenas que estava muito ocupada tentando driblar seu bloqueio (até mesmo um suspeito chá de cogumelos alucinógenos ela tomou… E além de não dar certo, fez com que ela vomitasse o resto do dia).

— Hm, nós não estamos mais juntos.

não respondeu, em vez disso começou a fazer planos e perguntar que tipo de sobremesas gostaria de comer na ceia. A mudança de assunto agradou a mais nova, aliviada em não ter que se explicar e, consequentemente, não revelar a mais recente ida à tenda da vidente.

— Acho que só torta de abóbora está bom. — falou ao celular enquanto punha ração para o gato, que miou agradecido.
— Mas eu tenho essa receita de sorvete…
, pelo amor de Deus, você está grávida. Não vá ficar se matando na cozinha. Do jeito que a mamãe é, ela não vai te deixar carregar uma bandeja do forno para a bancada! — A escritora continuou falando enquanto ia checar o aquecedor dessa vez, estava fazendo frio dentro do apartamento.
Ouviu murmurar um pouco do outro lado da linha, provavelmente reclamando que estava grávida, não inválida, mas já tinha aprendido a driblar esse problema, ela simplesmente afastava o celular da orelha e a deixava falando sozinha por alguns instantes. Todo ano conseguia arrastar com ela para o Wisconsin, para o jantar de Ação de Graças. Afinal, dizia, as duas tinham muito o que agradecer. Para , no entanto, comemorar aquele feriado era algo chato, que ela fazia mais por obrigação do que por se sentir grata. E, no topo de tudo isso, ainda teria sua mãe a criticando de cinco em cinco minutos. Isso, é claro, se tivesse sorte, às vezes era de dois em dois minutos.
E por mais que pudesse levar um casal de amigos que faria sua mãe gaguejar o tempo inteiro, ainda não se sentia pronta para a tortura mental que sofreria nos próximos dias.
Havia outra coisa que a incomodava e, dessa vez, não era nada ligado à sua família. Olhou o tempo lá fora. Com a proximidade dos feriados, o inverno já colocava suas garrinhas para fora e a temperatura hoje estava especialmente baixa. Perguntou-se como estaria se virando, se estava bem, se tinha tido algo para comer. Ela, realmente, era uma idiota. Não era?


— Eu juro, Zac, qualquer dia eu vou morrer de exaustão. E a culpa será sua! — Murmurou mal humorada para o personal trainer, que apenas abriu um sorriso largo.
— A culpa é minha ou sua de comer tantas besteiras? — Para ilustrar seu ponto, ele beliscou a barriga dela, que estapeou sua mão prontamente.
— Assédio sexual, Zac! Assédio sexual! — Repetiu, ainda com a testa franzida e a boca contraída em uma fina linha. Tinha plena consciência de que tinha se descuidado um pouco e foi preciso Zac tirá-la de seu apartamento quase carregada. Quase.
— Acho que, por hoje, estamos terminados. — agradeceu internamente por isso.

Como detestava malhar! Observava algumas pessoas “viciadas” naquilo e como elas se orgulhavam de quantas horas passavam treinando. não confiava em pessoas assim. Pessoas que corriam quilômetros e treinavam durante quatro horas por dia eram capazes de coisas muito piores. Como matar uma velhinha no parque.
Zac a acompanhou para fora da academia, como fazia desde que ela tinha sido atacada. Era, apesar da mania horrenda que tinha de forçá-la a malhar — embora seja justo, uma vez que era pago para isso —, um bom amigo. Talvez não se desse conta de como conseguia atrair as pessoas. Fosse pela sua falta de jeito, piadas ou até mesmo o sorriso brilhante que dava a torto e a direito, ela tinha um dom natural para atrair as pessoas e conquistar sua simpatia.

— A maioria das pessoas tem uma descarga de serotonina depois de fazer exercícios. — Zac anunciou, olhando-a de esguelha como se temesse olhá-la diretamente. Ela estava de mau humor.
— Vou anotar isso no meu testamento. Eles podem estudar meu cérebro depois que eu morrer. — Seu tom de voz apenas confirmava as suspeitas do personal.
— Você tem que ser tão mórbida a essa hora da noite? — Ele fez um muxoxo, mas ela não cedeu.
— Minha… “Morbidez”, como você diz, foi o que fez a minha carreira. — Estava cansada, suada, louca para uma barra de chocolate. Era pedir muito?

Ele não respondeu depois disso. Tentar travar uma conversa com ela e todo esse seu mau humor não seria bom para o seu cérebro. Zac tinha que admitir que ela era estranha até mesmo para uma escritora. Não que fosse particularmente excêntrica ou que mudasse de humor a todo segundo, como ocorria com muitos dos intelectuais que conhecia. Se perguntassem a ele, se dissessem “Hey, Zac, o que há de errado com a ?”, ele não saberia dizer. Ela apenas tinha uma vibração diferente. Alguma coisa que ele não conseguia identificar.
Foi mais rápido levá-la do que das outras vezes, talvez porque ele tenha passado todo o tempo imerso em seus próprios pensamentos, sem tentar uma conversa com a irritda mulher ao seu lado.

— Está entregue, Vossa Alteza. — Ele gracejou, mas ela apenas bufou novamente. — Não falte mais. Você não pode aparecer assim na TV de novo.

ergueu uma sobrancelha bem feita, em um claro gesto de descontentamento.

— Eu odeio você. — Ela retrucou, parecendo uma garota de 16 anos.
— Eu também te amo, querida.

Rolando os olhos, trotou até a entrada do prédio, parecendo ainda mais rabugenta do que antes. Bufava e pisava forte com seus tênis Nike, mal sentindo o impacto desse ato. E ainda bem, porque pagara caro nesses tênis justamente para isso. O cachorro a achou primeiro, correndo em sua direção e pulando na direção dela, as duas patas dianteiras erguidas para se apoiarem em sua cintura. Por pouco, não caiu de cara no chão. Zac caiu na gargalhada, ela poderia tê-lo ouvido rir até de Hell's Kitchen. Ela virou-se, acariciando a cabeça do cachorro com ternura, mas lançando um olhar de congelar o inferno para o seu personal. E então apareceu em seu campo de visão.
No começo, olhá-lo foi esquisito. Sentiu-se envergonhada, embora não soubesse o motivo. Sentiu-se ligeiramente ansiosa, também, e subitamente autoconsciente do estado deplorável que se encontrava em seu moletom de oncinha. Parecia uma perua do Upper East Side. Do tipo que sai para correr e transar com o personal trainer, faz a babá passear com seu yorkshire e mal liga para os filhos. Uau, que tipo de escritora clichê ela estava se tornando?
Por um breve segundo, pensou em dar as costas ao cachorro. Wolf certamente saberia o caminho para casa, mas não fez isso. Lá estava de novo. Ao vivo, não na tela da pequena TV do sr. Wong. Uma sem maquiagem, vestido apertado e joias. Quase uma pessoa normal.
Enquanto isso, Zac observava os dois com uma expressão confusa. Porque viu a superconfiante, arrogante e, no momento, agressiva hesitar. Zac poderia investir contra o morador de rua (ou hipster, nesses tempos não dava para ter certeza de quem era quem), se estivesse assustada. Em vez disso, ela parecia quase tímida.

? — Ele gritou o nome dela, que o olhou com olhos arregalados. — Tudo bem?

O olhar que ele deu a — que retribuiu com um olhar tão hostil quanto — disse o que ele não havia falado. Ela acenou com a cabeça.

— Tudo bem, Zac. — forçou um sorriso, que não serviu para tranquilizar nenhum dos dois. Ela se aproximou de , ainda com Wolf em seus calcanhares, tentando pular em cima dela a cada passo que dava.

O personal os observou por um tempo e virou as costas. Se tinha dito que estava tudo bem, ele acreditaria. Afinal de contas, ela era pequena, mas sabia se virar como ninguém.
virou-se para trás, checou Zac e então virou-se novamente para o músico à sua frente, agasalhado e com as duas mãos nos bolsos, parecendo desconfortável. Talvez ainda fosse cedo.

— Ele gosta de você. — apontou com o queixo barbudo na direção do cachorro, evitando os seus olhos.
— Ah. — , então, estendeu a mão para o cachorro, que pulou em sua direção de pronto.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Era desconfortável, opressivo e parecia fazer querer um deles correr e o outro chutar alguma coisa, de frustração.

Mas se der muito espaço a ele, pode apenas aumentar o abismo que existe entre os dois. Maldito fosse o dia que concordou em acompanhar seus amigos até aquela vidente.
abriu a boca para se desculpar, mas foi mais rápido.

— Eu vi a sua entrevista. No Wong's. — Ela sentiu a respiração pausar e olhou para ele novamente.
— E como eu estava? — Sua pergunta foi um sussurro frágil, que o fez encará-la.
— Parecendo que queria correr dali.

arregalou os olhos e ele achou que ela tinha se ofendido. estava prestes a desistir de interagir com outros seres humanos quando ela soltou uma gargalhada. Foi a vez dele de arregalar os olhos com espanto.

— Só você podia ter reparado algo assim, . — A escritora disse depois que conseguiu recuperar seu fôlego. Ela olhou para baixo, para o cachorro, e sorriu. — Tudo bem, eu aceito o seu pedido de desculpas.
— Eu não pedi desculpas. — Ele franziu a testa.
— Quer tomar um chocolate quente? — deu as costas para ele. E seu cachorro também. E apesar de ter lançado um olhar acusatório para o vira-lata, ele apenas seguiu a mulher para dentro do prédio sem pensar duas vezes.

E ainda dizem que o cão é o melhor amigo do homem.


Capítulo 14

Ele a observou se mover pela cozinha enquanto estava sentado na bancada. O cachorro, ao seu lado, fazia o mesmo do chão. Logo, abaixou-se com um pouco de comida enlatada. Ele nem ao menos cheirou a comida e passou a devorá-la e se sentiu um pouco culpado por não poder alimentar o cachorro como ela.

— Então, o casaco é quente? — Ela perguntou, ainda de costas, e o músico se forçou a parar de olhar o cachorro.
— Bastante. — Ele a observou colocar alguns muffins prontos em um prato e entregar a ele.
— Eu não sei cozinhar muito bem. — Apesar de ser uma desculpa, ela não parecia nem um pouco mal com isso.

não respondeu. Ainda não sabia lidar muito bem com aquilo. o vestiu, o alimentou e até cuidou de seus machucados. Ele tinha uma enorme dívida com ela, uma que só aumentava.

— Então. — Ela voltou com duas canecas de chocolate quente. — Mini marshmallows?

olhou para a sua caneca de chocolate quente, a fumaça rodopiando e os marshmallows flutuando no líquido escuro. E então, como se tivesse sido atingido pelo calor da bebida, ele se sentiu um pouco culpado.

— Eu nunca quis… — cravou os olhos nele, parecendo ter sido pega de surpresa. — Eu não quis descontar em você. Pela camisa.
— Eu também não quis… Não, na verdade eu quis bater em você. Mas não me sinto orgulhosa disso. — Ela abriu um sorriso apaziguador, o mesmo daquela noite.

Tinha que ser ela.



Seus olhares se encontraram. E ela percebeu, ali, no meio de sua cozinha, que os olhos de já não pareciam sem vida e que ele já não parecia tão sisudo e fechado. Ele já não parecia tão bravo, muito menos tão orgulhoso. se parecia exatamente com um homem que tinha algo a dizer. Sua boca, que ela notou ser bem atraente, estava entreaberta. Os olhos, fixados nos dela. E, de repente, já não podia se mexer, como se estivesse presa no chão por raízes. Ela se pegou ansiando pelas palavras que ele queria dizer. Em seus livros, aquela era a parte onde os personagens se beijavam. Seu coração ribombava no peito. finalmente tomou fôlego:

— Eu acho que nós dois…

As batidas na porta o impediram de falar e ela se virou, rolando os olhos. Pelas batidas impacientes, tinha a noção exata de quem poderia ser.

. — Ela cumprimentou sua irmã assim que ela irrompeu pela porta com seu usual jeito enérgico, completamente alheia ao fato de que tinha algo importante a dizer ou que estivesse absolutamente corada e assustada com sua própria reação.
— Eu trouxe três tortas, quero que você me ajude com a melhor receita… Oi, ! — acenou para ele, agitada, enquanto o motorista do táxi carregava duas travessas de tortas e o porteiro trazia uma terceira. Ela tirou o casaco de modo apressado e uma nota de cinquenta dólares. — Obrigada, Jed. — Com seu ininterrupto fluxo de palavras, ela continuou. — Eu elaborei três receitas. Você sabe, eu preciso da torta perfeita. Algo como a torta da Nana, você se lembra? Não se levante, , preciso de tanta ajuda quanto eu puder arranjar. Aliás, , você é alérgico a nozes ou canela?

O músico, que parecia perturbado com a interrupção e tinha até tentado se levantar para ajudá-la, olhou a irmã mais velha como se a visse pela primeira vez.

— Eu?
— Sim, você. — Ela se virou para a irmã. — Sério, ele é sempre tão lento? Ou sou eu que estou acelerada de novo? Você acha que eu devia…
— Se sentar? Com certeza. — Ela encaminhou sua irmã grávida para a bancada, ao lado do músico. — Respira fundo.

comprimiu os lábios de modo nervoso, mas acabou cedendo e respirou fundo algumas vezes.

— Melhor agora?
— Um pouco. ? — Ela virou-se para ele.
— Não, nem um pouco alérgico. — Ele respondeu de imediato. riu. Ele certamente se parecia com alguém intimidado. E não tirava os olhos da barriga redonda evidenciada pelo suéter.
— Na verdade eu ia perguntar se vocês tinham feito as pazes, mas isso funciona. , corte essas tortas.
— Você tinha que fazer três tortas inteiras? Não podiam ser minitortas? — A mais nova reclamou enquanto buscava talheres e pratos.
— Não. — A própria cortou três pedaços de torta e serviu para eles.
— Zac vai me matar se eu engordar. — continuou reclamando, mesmo quando sua boca encheu d'água com o cheiro da torta de abóbora.
Eu vou te matar se você não calar a boca.

O cachorro latiu e os três se sobressaltaram.

— Sinto muito, Wolf. Dessa vez você tem que ficar de fora, amigão. — murmurou enquanto atacava seu próprio pedaço de torta. Não ia se fazer de rogado agora. Não quando aquele era o melhor cheiro que já tinha sentido nos últimos anos.

Não demorou para que eles experimentassem um pedaço de cada torta. E demorou menos ainda para que jogasse pela janela qualquer receio de engordar. Quem se importava em ter um corpo dentro do padrão quando sua irmã tinha feito torta de abóbora? Três, ainda por cima.
observava os dois com olhos de águia enquanto também analisava o que comia. Para ela, cozinhar era algo sério. Para ser completamente sincera, não sabia como ela não tinha aberto um restaurante. Ela podia não ter feito um curso chique de culinária, mas podia fazer qualquer receita em que conseguisse colocar suas mãos ansiosas.

— O que vocês acham? Sinceridade completa. — Ela pediu, parecendo um dos pobres competidores do Master Chef.
— Eu não sei qual é melhor, . — disse, um grande sorriso nos lábios. parecia igualmente satisfeito.
— Não, nada disso! Você tem que saber! — Ela começou a cortar um pedaço de uma das tortas, para iniciar uma nova rodada de degustação, mas foi interrompida pela sua irmã.
— Pelo amor do meu perfume importado, não! — E então caiu na gargalhada. — Acho que a segunda.
? — Ela virou-se para ele, completamente absorvida na tarefa de escolher a melhor receita para o jantar de Ação de Graças.
— Hm. Essa. — Ele apontou para a última torta. — Tinha alguma coisa diferente nela.
— Pensando bem, … O que tinha nessa?

Mas não estava mais ouvindo, ela olhou a lateral do tabuleiro, onde tinha uma etiqueta de papel. E então voltou o olhar para as suas duas cobaias.

— Vocês tem certeza de que querem se enveredar por esse caminho? Depois de escolher uma delas, não tem mais volta.
— Agora você está me assustando. — riu. E então respondeu: — Sim, , é essa. O que tinha nessa torta?
— É segredo. — Ela abriu um sorriso, parecendo realizada.
— Açúcar mascavo.

As duas mulheres olharam para ele, que não se incomodou. Pelo menos, não muito.

— Quer dizer, parecia com…
— Como você fez isso? — olhou para ele com espanto.
— Bem, é porque o gosto se parece com o da torta da minha mãe e ela… Ela usava açúcar mascavo.

As irmãs entreolharam-se mais uma vez. E então fez algo que pegou todos de surpresa. Até mesmo o cachorro, que latiu alto.

, você quer passar a Ação de Graças com os ?
— Não seja inconveniente. Ninguém quer ir ao Wisconsin para um jantar. — se intrometeu, já que parecia incomodado.
— E quem falou de Wisconsin? Falei com a mamãe hoje de manhã. Os rapazes conseguiram convencê-la a vir para cá. Eu vou ser a anfitriã este ano. — Ela parecia prestes a sair voando, de tanta felicidade. observou a barriguinha de grávida, sua mãe ficaria muito orgulhosa. E não a deixaria preparar o jantar de jeito algum. — Você vem ou não, ?

se despediu dos dois. Joseph a esperava na portaria e ela pegou o elevador bem mais alegre e calma do que quando chegou. Comida era algo sério para aquelas duas, de modos diferentes: amava comer, amava cozinhar. suspirou depois de fechar a porta, tinha acabado de colocar as três tortas na geladeira.

— O que eu vou fazer com tudo isso? — Ela resmungou. — Ei, , quer levar uma delas? Por favor, leve uma delas. Vou tentar empurrar uma para o Josh, também, então não é como se…
— Quero.
— Ah. — Apesar da surpresa, sorriu. — Muito obrigada. Sério. Você está me salvando das vilanias do meu cruel, cruel personal trainer.

Ele voltou a retirar uma das tortas, pela metade, da geladeira. rapidamente a embalou e empurrou para as mãos dele. Só ela sabia o que aquilo faria com sua silhueta. Ela bateu com as unhas nervosamente na bancada. tinha pouco ou nenhum tato em algumas situações.

— Olha, você não precisa se sentir obrigado a ir só porque ela te encurralou. — Ela começou e isso fez com que se virasse para olhá-la. — Ela pode ser muito intensa. E assustadora. Então…
— Eu não me sentiria muito bem. — Ele confessou.

Uma barreira tinha se quebrado entre os dois e era algo que ambos podiam sentir. E isso só tornava a atmosfera mais insuportável.

— Não que eu não queira que você vá. Você salvou minha vida e, tudo bem, é um chato, mas eu te acho um grande amigo. — emendou rapidamente. — Pelo menos, quer dizer, não vai ser na fazenda, o que já é bem…
— Fazenda? — Ele arqueou as sobrancelhas.
— Meus pais tinham uma fazenda de gado, agora meu irmão e minha mãe que cuidam de lá. É no fim do mundo, em Wisconsin, mas é um bom lugar.
— Mimada. — Ela ia reclamar, mas riu, dispersando a tensão. — Eu não quero me meter. É família, , então eu não quero me meter.
— Você não vai se meter. Você vai se sentar à mesa, comer algo maravilhoso e então vai ouvir em primeira mão da minha mãe o quanto eu sou seu grande desapontamento.

Sentando-se ao lado dele na bancada, ela sorriu.

— Eu sou a ovelha negra da família. — Ela disse, de costas para ele, embalando a outra torta. — Todos os anos me arrasta para a fazenda e eu tenho que me forçar a ser essa pessoa idiota que não tira um sorriso do rosto porque no momento que eu baixar a minha guarda… Minha mãe cheira o sangue na água, .

Ele não respondeu. Sabia, mais do que ela podia imaginar, uma vez que jamais contara sua história para ela, o que era ser a ovelha negra da família. E o quanto isso podia ser cansativo. Ele jamais diria isso dela, no entanto. Olhando para o apartamento, vendo sua entrevista na TV, Como não se orgulhar dela? Como olhar para ela e não ver a determinação, a paixão, as horas dedicadas ao trabalho, o quão jovem e, ainda assim, bem-sucedida ela era?
Finalmente, se virou da bancada, batendo as mãos no jeans. Então ela apagou sua expressão conturbada com um sorriso brilhante e passou a mão pelos cabelos.

— Eu falei demais de novo, não é? — Parecia completamente sem jeito e até um pouco envergonhada. — Bem, o que você queria me dizer antes?
— Não é nada.
— Mas…
— Não era nada de importante.

Aquilo a decepcionou. Ela baixou os olhos. Ela não sabia porque tinha dito aquelas coisas. Não entendia como pôde ter falado aquilo e estragar o clima descontraído — bem, em parte — com aquilo. E então ela olhou para ele e se lembrou de outra coisa que tinha pensado em pedir-lhe.

— Eu preciso da sua ajuda. Quero comprar um violão. E como você é a única pessoa que eu conheço que toca… E que pode me ajudar em vez de simplesmente fingir que não tem um violão em casa… — Ela ainda mataria Cameron por não ajudá-la. Mas, com os lagos e rios congelados, ela teria que esperar até o verão para se livrar do corpo dele.

Ele pensou sobre o que ela lhe pedia. Parecia fácil.

— E o que eu ganho com isso? — Ele se inclinou para trás e cruzou os braços, parecendo ainda desconfiado.
— É um trabalho. — Ela sorriu, entendendo o recado. — Eu vou pagar você.
— Tudo bem.
— Pegue o seu casaco.

Ela pulou da bancada para o quarto e ele ficou ainda mais desconfiado.

— Nós vamos comprar um violão de presente para a minha mãe. — Ela gritou do quarto.
— Agora?
— Desculpe, você tem alguma outra coisa para fazer? — Ela debochou.

Ele pensou consigo mesmo que não devia estar muito bom da cabeça. E então o olhou do corredor.

— Na verdade, esqueça o casaco e vá tomar um banho.

Ele a olhou, parecendo aborrecido com a sugestão, mas se percebeu, ela fingiu muito bem ao ignorá-lo.

— E, talvez, tenhamos que cortar esse cabelo…
— Não. — Aquela parecia ser a única palavra que saía da boca dele.
— Ah, não se preocupe, não vou te levar em uma barbearia chique. Só tome um banho e deixe o resto comigo. — Ela o dispensou com um aceno de mão, fazendo sinal para que ele fosse para o banheiro.

E quando ele reapareceu, limpo e devidamente vestido, ela o sentou em uma cadeira. Wolf era sua plateia, deitado no sofá dela e observando os dois com olhos atentos.

— Quando eu e minha irmã éramos mais novas, cortávamos o cabelo uma da outra porque minha mãe achava besteira gastar dinheiro em um cabeleireiro. — Ela falou enquanto penteava o cabelo dele, a tesoura em sua mão brilhando perigosamente.
, acho que isso não é uma boa ideia. — A mera ideia de deixar aquela doida cortar o seu cabelo fazia os pelos de seu braço se eriçarem.
— Besteira. Eu cortava o cabelo do Danny o tempo inteiro. Danny é meu irmão. — Ela explicou, fazendo o primeiro corte. Agora não tinha mais volta, pensou. — Você vai adorá-lo. Ele é bem… Hm, talvez vocês não se deem tão bem. Vocês são bem parecidos.

Em pouco tempo, uma quantidade considerável de cabelo jazia no chão. deixou que ele penteasse seu cabelo da forma que mais lhe agradasse e observou seu trabalho. Os anos cortando o cabelo de Daniel finalmente tinha valido a pena. parecia bonito. Limpo, vestido de modo digno, a barba feita, o cabelo finalmente cortado. E ela se pegou olhando-o mais do que deveria. Para as mãos calejadas, para seu maxilar quadrado, para os olhos dele que pareciam muito mais vivos do que quando ela o conheceu. parecia ter mudado. Ou talvez ela tivesse mudado.

— O que achou? — Ela espanou as mãos, para jogar fora qualquer resquício de cabelo que ainda tivesse em suas palmas.

estava surpreso. Não esperava grandes coisas e, é claro, não era tão bom quanto o corte de um profissional, mas não era isso que o surpreendia. Era olhar-se no espelho e reconhecer um pouco do homem que já tinha sido. Seu maxilar se apertou e seus olhos tornaram-se mais escuros com a lembrança. Um grande homem, uma grande carreira pela frente… E tudo isso jogado fora.

— Você odiou. — Foi trazido à realidade pela voz dela, que tentava esconder seu desapontamento.
— Não é isso. O cabelo ficou bom. — Arriscou-se a olhar para ela. Era tão parecida e tão diferente com quem ele conhecia.
— Então o que é? Eu cortei algum pedaço da sua orelha ou…? — Ela parecia preocupada.
— Não vamos comprar o violão?

Então ele não queria falar sobre o que o afligia. Ela entendia. Ela, também, muitas vezes preferia fugir do assunto. Comprar o violão foi rápido. conhecia uma boa loja, sabia exatamente qual o melhor violão e ainda a apresentou ao velho senhor, o qual era o dono da loja. Um senhor simpático, baixo e magro que atendia pelo apelido de Al.

— Al me vende as cordas do violão. Ele é um ótimo cara.
— Então, você acha que esse violão é o melhor para a minha mãe? — olhou o violão em dúvida. Por ela, teria comprado algo chamativo, vermelho ou azul, não o violão simples, envernizado e em madeira clara que ele tinha trazido.
— Você está vendo isso aqui? Ela vai conseguir alcançar as cordas com facilidade. E ele é leve. — ainda não parecia muito convencida, mas ele era o profissional. Se fosse ele que estivesse lhe ensinando a escrever livros, ela certamente ficaria nervosa, por isso não tentou discordar dele. Ele sabia o que fazia.

Seus olhos foram atraídos pelos outros instrumentos da loja enquanto finalizava a compra. Ela pousou seus olhos em uma flauta prateada. De repente, uma ideia lhe assomou. Ela tirou o celular do bolso e remexeu na tela até achar seu gravador de voz. Ditou algumas palavras, então pediu para ver a flauta. E encheu Al de perguntas. Aquele súbito arroubo de criatividade a deixava em um estado muito semelhante ao de sua irmã, apenas algumas horas mais cedo.
Vê-la tão apaixonada e querendo saber tanto sobre a flauta, para seu romance, como ela disse pelo menos dez vezes, fazia rir. Ela parecia uma louca, com olhos ligeiramente arregalados e falando muito rápido enquanto fazia Al correr com suas palavras para acompanhar o fluxo dela. Aparentemente, ela queria transformar a flauta em uma arma. E imaginou uma grande cena em um teatro. A ópera. Carmen ao fundo. A Europa e suas localidades maravilhosas. Caleb Teague, assassinado em um teatro?
— Al é um cara e tanto. — A escritora tinha um sorriso satisfeito no rosto, como se tivesse acabado de chegar ao topo do Monte Everest.
— Você o cravou de perguntas. — Seu tom era jocoso e ele quase riu da cara ofendida que ela fez.
— Eu o paguei pela consultoria. — Defendeu-se sem embaraço. E, como se tivesse se lembrado de algo importante, ela buscou sua carteira novamente. Tirou duas notas de cinquenta dólares e as dobrou, colocando-a na mão do músico. — E isso é pela sua consultoria.
— A minha consultoria? — repetiu, confuso.
— Sem você, eu teria trazido algum violão que ela nem conseguiria tocar. — Ele fez menção de devolver-lhe o dinheiro, mas ela recuou e sorriu. — Não, nem tente. Esse dinheiro é fruto do seu trabalho. Sabe, você devia se valorizar mais. — e deu-lhe as costas, andando com o violão debaixo do braço, deixando-o boquiaberto e até mesmo um pouco frustrado. — Te vejo sexta-feira que vem! — Ela gritou enquanto fazia sinal para um táxi.


Capítulo 15

estava nervosa. Tinha comprado um vestido especialmente para o jantar na cobertura de sua irmã. E ainda bem que Joseph tinha comprado um apartamento grande o suficiente para que todos os seus irmãos, suas esposas e os filhos a visitassem. Afora sua mãe, Josh, Cam, ela e . Olhou-se novamente no espelho, alisando a saia de seu Diane von Furstenberg vermelho, estampado e com saia mikado, o design wrap que marcava sua cintura e a tinha tornado famosa. Diane, é claro, não .
Colocou seu brinco de pérolas, seu cabelo estava arrumado à perfeição e sua maquiagem estava no ponto. Estava perfeita, mas, ainda assim, nervosa. Para sua mãe, sempre havia um defeito. E enquanto agradecia a velha Margot por ter criado uma mulher forte que conseguiu resistir a Nova York, ao mesmo tempo temia seu perfeccionismo rígido que muitas vezes a frustrara.
Todos tinham seus fantasmas, seus esqueletos no armário, suas lembranças sombrias ou vergonhosas. Foi isso que se lembrou ao ver a geralmente segura e cheia de si , remexendo-se irrequieta na frente do espelho enquanto alisava a saia do vestido pelo que parecia a milésima vez nos últimos segundos. Ela tinha achado um velho paletó no armário e o dera para que ele vestisse. As roupas combinadas com seu corte de cabelo e a barba bem feita faziam parecer um modelo saído das páginas da Vogue. Mas ele não reparou isso, acostumado a olhar para si mesmo com o mesmo olhar depreciativo que muitos lhe davam quando o viam pelas ruas. Ela viu. E ela virou-se para ele, completamente espantada.

, você está… Uau. — Ela riu, corando um pouco. Ainda bem que estava usando maquiagem o suficiente para esconder isso.

Ele olhou-se novamente no espelho. É claro, estava limpo, bem cuidado, mas não havia nada ali que o lembrasse de quando fazia sucesso com as mulheres. Naquela época, usava barba mal feita, jaqueta de couro e tratava qualquer pessoa de mau jeito. Mas ele tinha amadurecido, talvez fosse disso que precisava. Mal notou quando se aproximou, passando a mão por seus ombros.

— Imaginei que fosse precisar de alguns ajustes, mas… — Ela tirou um pequeno pelo branco do paletó. Snowball… — Ficou perfeito.

Estavam próximos. constatou isso com um pouco de desconforto e uma sensação esquisita na boca do estômago. , por outro lado, ajeitava a gola de sua camisa social e a gravata preta que tinha comprado para ele (mas fingiu que era velha e já usada). Ela não percebeu o motivo do desconforto dele e muito menos porque ele tinha ficado tão aliviado quando o porteiro lhe avisou que seus amigos tinham passado para buscá-los.
A escritora correu até onde sua bolsa estava e carregou a caixa que continha o violão, que seria dado de presente à sra. , apesar dos protestos de de que poderia carregar a caixa sem problemas (“Sou uma mulher independente, . Além de tudo, eu sou feminista, me dá esse maldito violão!”).
Passaram feito balas pelo cadavérico porteiro, entrando no sedan modesto de Cam. , já acostumada com a relação entre os amigos, não pode deixar de perceber a estranheza que causou. E ele, obviamente, também notou.

— Cam, Josh, vocês se lembram de quando fui salva no mês passado? Esse é o , desculpe. , estes são Cam e Josh, meus melhores amigos. — Abrindo um sorriso largo e cativante, ela esperou até que Josh e Cam recuperassem a compostura.
— Desculpa nossa má educação, , é que não nos disse que levaria você. — Cam, com seu jeito conciliador de advogado, foi o primeiro a falar. — Meu nome é Cameron e esse é meu marido, Josh.

nem ao menos piscou. Em vez disso, acenou educadamente com a cabeça.

— É um prazer conhecê-los.

, no entanto, protestou.

— Eu disse que levaria alguém. — Elevou a voz, mas Josh apenas a olhou por cima do ombro, sem responder. Pelo olhar dele, estava claro que ele estava esperando alguém mais alto, forte, com um jeito cafajeste e um sorriso digno de causar um ataque cardíaco em alguma pobre desavisada.

lançou ao amigo um olhar de advertência, fazendo com que ele rolasse os olhos e se virasse para frente resmungando o quanto ela era “mal humorada e intragável” nessa época do ano. Era durante as festas de fim de ano que sentia ainda mais a falta do pai. E era quando sua mãe a criticava que ela sentia que, caso ele estivesse lá, ela não faria isso de modo tão escancarado. No fim, acabava sempre colocando seu pai como seu protetor. Era mais fácil associá-lo a essa imagem, uma vez que eram iguais. Se o pai tinha defeitos — como todo e qualquer ser humano — todos tinham morrido com ele. E ela lembrava-se apenas do melhor porque era o que queria se lembrar. Foi com a imagem dele na cabeça que decidiu que não deixaria sua mãe colocá-la para baixo essa noite. E que, também, a trataria da melhor forma possível.

, tudo bem? — inclinou-se em sua direção, os olhos , gentis e ligeiramente ansiosos analisando seus traços. E, então, ela notou que sua testa estava franzida.
— Eu não reajo bem a festas de família. — Respondeu-lhe do melhor jeito despreocupado que conseguiu.
— E o livro? — Os dois assustaram-se com a voz de Cam, que ecoou claramente no banco de trás.
— Dando trabalho. — Ela respondeu, mas sorriu. — Tive uma ideia que vai deixar todo mundo de cabelo em pé!
— Você vai matar alguém de novo, não vai? — Cameron perguntou e ela sorriu como uma gata satisfeita. — Meu Deus, você vai. Qual personagem querido você vai matar dessa vez, ?
— Acho melhor você não saber. — E ela riu. E então seu sorriso se desvaneceu ao pousar os olhos em Joshua.

Josh olhou para ela do mesmo jeito que ele sempre fazia quando sentia que ela escondia algo dele.

— Bom, e as novidades? — Ele perguntou como quem não quer nada. E ele nunca queria “nada”. — Mais especificamente, como anda o seu namorado?

Se surpreendeu-se com o uso da palavra “namorado”, nem reagiu e Cam fingiu que não estava ali. Ela olhou para Josh com os olhos queimando de raiva.

— Você sabe muito bem que eu não tenho um namorado! — Retorquiu, ciente de que e Cam nem pareciam respirar, de tão silenciosos.
— Você sabe de quem eu estou falando, . — Josh não se intimidou. — O seu vizinho gostoso.
— Não nos vemos mais. — Ela bufou, apesar de não parecer notar o que tinha acabado de fazer. E então recostou-se no banco com os braços cruzados, os olhos pregados na paisagem lá fora enquanto todos seguiam para o Upper East Side.

É que o término, assunto recente, não lembrava-lhe coisas boas. Em vez disso, lembrava de sua necessidade por algo mais que apenas sexo e um corpo quente em sua cama. A “geração de frutos” que a vidente tinha previsto para ela. O seu próprio amadurecimento a assustava, ela, que encarava aquele comportamento natural como algo de outro planeta, não estava pronta para admitir que queria seguir em frente.
E , sentindo sua estranheza, manteve-se ao seu lado de forma rígida, com os olhos preocupados pousados em Josh e as mãos apertando a caixa do violão.

Margot era o tipo de matriarca rígida, com rugas marcando-lhe as expressões e cabelos grisalhos que ela não se importava de ostentar. Sua praticidade era fora de série e vestia-se como a matrona de uma grande família que era: o coque rígido, a saia longa, suéter cor de abóbora (bem, era o Dia de Ação de Graças) e sapatilhas baixas. O rosto sem maquiagem contrastava com os de suas filhas. estava, como sempre, deslumbrante. Era a irmã mais bonita e mais charmosa e sorriu ao vê-la tão radiante. Ter a família em casa, uma mesa cheia e cozinhar para o clã e agregados era uma alegria que só poderia pertencer a .
Cam e Josh entraram de braços dados, causando alguma estranheza entre a grande família do Wisconsin. Estranheza que fora quebrada pela própria , que correu para abraçá-los.

— Tive que tirar os saltos, eles estavam me matando! — sussurrou ao vê-los e então virou-se para sua irmã e , logo atrás do casal. — Eu chamei o , não esse cara. Quem é você? — brincou, embora , que conhecia a irmã há mais tempo, soubesse que, no fundo, ela também estava impressionada com a aparência de .
— Eu cortei o cabelo. — respondeu de forma simples e então coçou a lateral do rosto. — E fiz a barba.

se virou para a família, abraçando Cam e Josh, que pareciam constrangidos com toda a atenção. Não era todo dia que um casal gay era apresentado de forma tão natural para a família. O primeiro a se recuperar foi Danny, motivo pelo qual era o irmão preferido de . Ele sorriu e se aproximou, apertando as mãos dos dois.

— Tudo bem, caras? Prazer em conhecer vocês! — Uma olhada rápida para a mãe revelou que ela simplesmente desviou os olhos. Conservadora demais para aceitar, educada o bastante para não destratá-los. O que era bom, porque odiaria ver seus amigos sendo destratados por algo que, para ela, era tão natural quanto o sol.

Para ou , a realidade era bem tranquila. Ver Cam e Josh como um casal sempre foi algo tão natural que, por vezes, esqueciam-se que outras pessoas (retrógradas, tais quais sua mãe) poderiam não achar aquilo assim tão normal. Mas, se o amor não era normal, o que mais seria?

— Esse é o ! — continuou as apresentações, muito atenta ao fato de que sua irmã mais nova parecia mais alheia do que nunca. — Ele é amigo da .
— Oi. — respondeu, depois de olhar para cada um ali presente.

E pela primeira vez em alguns anos, não se sentiu como um desperdício de espaço. Falaram com ele, o cumprimentaram, ofereceram-lhe bebidas e pareciam interessados no que tinha a dizer. Era quase como se fosse um deles novamente. Era quase como se, uma vez mais, ele pertencesse a algum lugar. Ninguém comentou o fato de que ele morava na rua, em vez disso falaram do músico que ele era. E viu-se explicando o que gostava de tocar e suas grandes inspirações. Falou sobre o grunge dos anos 90 e sobre o rock clássico dos anos 70 e 80. Sobre Bon Jovi e também sobre Foo Fighters, assim como sobre Blake Shelton e Willie Nelson (o cantor preferido da matriarca).
Ali, não era um peso morto para a sociedade. Ali, no meio do clã , ele era querido novamente. E sentir isso o fez ser grato pela primeira vez. Em décadas, era a primeira vez que se sentia grato por qualquer coisa no Dia de Ação de Graças.
, que não deixava o lado do músico com medo de que ele fosse subitamente engolido pelos inúmeros irmãos, sobrinhos e cunhadas. Tinha a menina mais jovem de Albert em seu colo, uma coisinha loira e sardenta chama Nora, de apenas dois anos de idade e que muito parecia a mãe, e tentava acompanhar a conversa como podia. Não era, no entanto, algo fácil. Não só pela apreensão que sentia a cada vez que sua mãe lhe lançava um olhar, mas também porque era difícil ver toda a família reunida e não lembrar de seu velho pai, a quem amou mais que tudo nessa vida.

— E o seu trabalho, ? — A mãe e seu forte sotaque se fizeram ouvir em meio a algazarra.
— Hm. — Ela hesitou, mas logo se recompôs. — Estou terminando o último livro da minha trilogia. E vou ter um dos livros adaptados para o cinema, também. — Finalizou com um sorriso trêmulo, mas sua mãe apenas bebeu um gole de vinho branco.
— Você deveria arrumar um bom marido. Alguns filhos. Você não está ficando mais jovem.
— Você já viu o presente que eu trouxe para o seu aniversário? — A escritora desconversou.
— Meu aniversário é só semana que vem… O que significa que você não vai para a fazenda, não é? — Perspicaz como sempre, ela notou.

O rumo da conversa seguiu sem que sua mãe ousasse fazer mais perguntas sobre o seu trabalho ou qualquer outra coisa, na verdade. Sabia que ela achava sua carreira (e sua vida) inteira uma grande piada. Já não deveria ficar chateada. Em vez disso, ela deu colo para a sobrinha mais nova, que puxava a saia de seu vestido.
Por mais que Margot tivesse criado mulheres fortes, também fizera desenvolver um ligeiro complexo de inferioridade em . Constantemente tinha pensamentos de não ser boa o bastante, de não tentar o bastante (e aquela sensação amarga na boca do estômago de que estava decepcionando sua mãe, 24 horas por dia). E a escritora desesperava-se a cada vez que estava em vias de ficar sozinha com sua mãe, principalmente depois do curto diálogo. Por isso, quando moveu-se, a mão bronzeada da mulher voou em seu braço, segurando-o com firmeza.

— Onde você vai? — Ela perguntou em um sussurro apressado. A pequena Nora agora mexia em seus brincos e ela parecia não notar.
— Buscar cerveja com o seu irmão. — respondeu-lhe no mesmo tom e ela lançou um olhar lancinante para Brandon.
— Fique aqui. — Sussurrou de volta para o músico, com a mesma inflexão de antes. Olhos e se encontraram em um entendimento gradual. O que a afligia, isso ele não sabia. Mas notava sua agonia e desânimo. E queria estar ali por ela.

Brandon, no entanto, menos sensível às emoções da irmã, pousou a mão grande e calejada em seu ombro, soltando uma gargalhada estrondosa.

— Relaxa, ! Seu namorado vai voltar são e salvo! — Bufando, lançou mais um olhar para a sua mãe. E então pisou no pé de Brandon com toda a sua força, que não era muito impressionante, mas seus saltos finos eram armas letais e ele logo se arrependeu de ter provocado a caçula.
— Ele não é meu namorado. — Ela entoou de forma calma, tirando uma risada de .

Já Danny, que conhecia a irmã como a palma de sua mão (talvez até melhor), aproximou-se de Brandon com um sorrisinho.

— Deixe os pombinhos em paz, Bran. Vamos você e eu, Albert está tentando controlar um dos quinhentos filhos que ele tem.

Albert e sua cunhada tinham cinco filhos. Cinco crianças loiras e sardentas, todas a cara da mãe, mas com o espírito enérgico e desafiador do pai. Pareciam anjinhos loiros, mas na realidade não poderiam passar mais longe disso. Controlar cinco crianças não era tarefa fácil e ela admirava sua cunhada profundamente por isso.
Quando seus dois irmãos, por fim, se afastaram, acercou-se da escritora, sorrindo por alguns segundos para a criança em seu colo.

— Qual é o seu problema? — Sem falar nada, direcionou o olhar até a mãe, que permanecia com uma expressão agradável, porém ainda tesa. — Ah.

Não sendo capaz de se dar bem com a própria mãe, entendia a situação melhor do que esperava. Ele olhou ao redor e sorriu de lado, coisa que a intrigou. E, quando menos esperou, ele sussurrou em seu ouvido.

— Livre-se da criança.

E então sumiu entre os , deixando embasbacada. A pequena Nora, no entanto, sorriu.

! Namorado! — Disse a pequena, batendo palminhas. Talvez realmente fosse melhor devolvê-la para a mãe.


Quando se reencontraram, a levou para a varanda da cobertura, que tinha sido trancada para que as crianças se mantivessem longe. Ele destrancou as portas de vidro enquanto a escritora segurava duas taças de vinho branco. Embora, inicialmente, as duas fossem para ela (e caso enchessem um cocho com vinho branco, ela mergulharia e beberia o quanto pudesse), decidiu fazer uma gentileza e ofereceu a taça a assim que este finalmente destrancou as portas.

— Madame. — Gracejou, fazendo um gesto exagerado para que ela passasse.

Surpreendeu-se. Desde que o conhecia, muito pouco vira de seu bom humor. Em geral, era apenas melancólico e irônico, além de mal educado e orgulhoso.
Fecharam a porta novamente. Não queriam ter crianças correndo por ali e, se perguntasse a , não queria ter nenhuma outra pessoa ali. Observou ir até a balaustrada e inclinar o corpo para olhar lá embaixo, do alto de mais de quarenta andares. O prédio luxuoso tinha uma vista inesquecível de Nova York. De lá, podia observar as luzes da cidade, como parecia bonita apesar de piscar com vida e condenar tantos à morte. Como parecia acolhedora, apesar de lhe condenar ao exílio solitário das ruas. também olhou a cidade, com olhos diferentes dos delas, ao seu lado. Quando elevou a cabeça, surpreendeu-se ao ver que ele, também, parecia perdido em pensamentos.

— Não sou nada divertida como sua acompanhante, não é verdade? — Dirigiu a ele um sorriso depreciativo e, como ele não respondeu, ela tomou para si a tarefa de fazer seguir a conversa. — Sabia que estar em família durante muito tempo faz a taxa de depressão aumentar durante as festas de fim de ano?

analisou seu rosto, sua voz, como, ao contrário de , ela não parecia radiante perto da família.

— Você se sente deprimida? — Perguntou, enfim.
— Vai me achar alguém horrível por isso? — observou a festa por cima do ombro e bebeu seu vinho antes de continuar a falar. — Eu amo a minha família, . Eu realmente amo. Amo meus milhares de sobrinhos e minhas cunhadas são mulheres maravilhosas. Mas não sou como eles. E minha mãe sabe disso. — tinha toda a certeza de que Margot, mesmo diante de sua pragmaticidade, entendia que sua filha mais jovem não pertencia ao resto da família. — Eu sempre tive sonhos grandes demais e finalmente estou fazendo o que eu amo. Mesmo com o bloqueio, mesmo com tudo isso. E ela vem me falar de filhos? Maridos? Eu quero me casar e ter filhos, talvez, algum dia. Isso não significa que eu tenha que largar a minha carreira.

refletiu por alguns segundos, em silêncio. Via nos olhos dela sua dor por não conseguir agradar sua mãe.

— Você não precisa. — Ele a viu sorrir de modo desanimado.
— Você não entende. Por ela eu me casaria com nosso vizinho, a mulher de um fazendeiro com sete filhos correndo pela casa. Eu não sou assim.
— E não precisa ser. — Ele a interrompeu, fazendo-a parar de falar. — Você não precisa agradar a sua mãe. Você precisa ser feliz, fazer o que te faz bem. Você é uma ótima escritora.
— Bobagem, você nunca leu um livro meu. — Ela disse depois de mais um grande gole de vinho.
— Seus livros serão adaptados para o cinema. Aos vinte anos você lançou seu primeiro livro e foi um best seller. Eu não preciso ler os seus livros para saber que você é boa, .

Diante daquilo, elevou as sobrancelhas e bebeu mais um pouco. também bebeu um gole de vinho. Decidiu partilhar um pouco de sua história com ela. Sabia que ela tinha certa curiosidade por seu passado.

— Eu passei a minha vida tentando agradar o meu pai. Ele sempre quis que eu fosse um grande advogado, como ele nunca conseguiu ser. E eu ia ser um advogado. Eu entrei na faculdade e era um ótimo aluno. — Ela prestava atenção, os grandes olhos pregados nele. — Quando ele morreu, eu percebi que estava livre das expectativas dele. E então eu fui procurar uma carreira, vim a Nova York… As coisas desmoronaram daí. Eu era jovem e arrogante. Talvez, se não tivesse passando uma parte tão grande da minha vida reprimindo o meu próprio sonho, eu pudesse ser alguém reconhecido hoje. Quem sabe?
— Você tem talento. Deveria mesmo ser reconhecido. — Foi a vez dela de tentar animá-lo. Para uma festa, as coisas estavam cada vez mais deprimentes.
— Mas se eu seguisse o sonho do meu pai, talvez tivesse uma vida confortável, como a sua como mulher de um fazendeiro, e ainda seria infeliz.

apreciou a conversa. Era a primeira vez que ele se abria para ela, a primeira vez que falava de passado, sonhos, mágoa. Era um lado dele que ainda não conhecia e surpreendeu-se.

— Bom, um brinde a seguir os nossos sonhos. — Ela inclinou a taça de vinho na direção da dele. Os dois brindaram sem animação.
— Um brinde a decepcionar nossos pais.

Ela sorriu para ele em um compreendimento não verbal dos sentimentos que os assolavam. Decidiu contar uma história engraçada, para aliviar o humor.

— Uma vez, quando eu ainda era garçonete, um homem bêbado entrou na lanchonete que eu trabalhava. Ele se sentou e me pediu uma cerveja, e eu o servi mesmo achando que ele já estava bêbado demais. Era época de Natal, então ele me olhou e disse: Você não tem família para celebrar o Natal? — Ela parou para refrescar a garganta com bebida. — E eu disse que não, em Nova York eu não tinha família. Ele se virou para mim e disse: Como dá pra notar, eu tenho. E então ele bebeu quase toda a cerveja em poucos goles.
— É por ter que aguentar esse tipo de coisas que adultos podem beber. — disse.
— Eu fiquei muito impressionada com ele. Até aquela época – e eu só tinha dezoito anos – eu não conhecia a pressão familiar. Quer dizer, não como é agora, entende? Na época, eu ri do bêbado. Hoje em dia, eu meio que quero ser ele. — Ela acabou confessando. — Céus, é incrível a minha capacidade de transformar uma história dessas em algo deprimente! Eu queria animar a nossa conversa. — Ela riu, mais para tentar (com sucesso, dessa vez) alegrar o humor do que por se sentir feliz.

, no entanto, apenas a olhou com novos olhos. Era ela, não era?

— Garçonete?
— Uma lanchonete horrorosa no Brooklyn. — Ela respondeu sem hesitar. Sempre tinha detestado aquela lanchonete.

não respondeu, bebeu seu vinho em silêncio, mastigando se deveria ou não falar sobre aquilo. analisou o perfil dele. As palavras da vidente ecoaram em sua mente sobre o lado obscuro dele, sobre ele ter sido magoado.

— A pior coisa do mundo é estar sozinho. — Ela disse, despertando-o de seus pensamentos. Ele olhou para ela, em dúvida. — Você sabe, ficar ao redor da família durante muito tempo é ruim para a cabeça, mas ficar sozinho também não é muito bom. As pessoas devem pertencer a algum lugar. Então, … Você não precisa estar sozinho.

Por um momento, a olhou como se ela batido a cabeça forte demais e começado a falar um monte de asneiras. No seguinte, ele se aproximou dela. Era muito mais alto que e assomava-se diante dela mesmo que não fosse musculoso ou um gigante, e conhecendo-o, sabia que não tinha nada a temer.

— Você vai me fazer companhia? — O tom dele não foi mais que um sussurro. estava demonstrando sua própria vulnerabilidade, o que parecia justo quando a própria tinha exibido, também, a sua.
— Sim. — Foi sua resposta curta, simples e completamente sincera.

A conversa parecia seguir um contexto mais profundo que os dois entendiam, apesar de não dizer. A mão calejada de pousou sobre sua bochecha, em um toque suave, tão leve que se não visse a mão dele em seu rosto, pensaria que ele não a tocava. Havia ali um clima de intimidade e conforto que nenhum dos dois parecia querer quebrar. Pela primeira vez em muito tempo tinha se aberto para alguém. Pela primeira vez em muito tempo, tinha discutido com um homem sobre sua insegurança em relação à sua família. Ele sabia de seus sentimentos, ele sabia de sua luta com seu trabalho, ele sabia do ataque que sofrera. sabia tantas coisas sobre ela que nenhum de seus namorados ousou tentar descobrir. Ele descascava suas camadas e ela sentia que poderia fazer o mesmo com as dele. Ali, na varanda da cobertura de sua irmã, os dois entendiam que o que os ligava era mais do que apenas alguns fatos em comum, seus sentimentos solitários ou, ainda, piedade ou o ato heroico de salvar uma moça indefesa. O que os ligava e não deixava um desistir de buscar a companhia do outro era um sentimento há muito esquecido pelos dois, cujo nome poderia fazê-los querer correr ou fugir.
Os dedos de traçaram as feições da escritora à sua frente. Tinha um rosto belo. Os olhos que fitavam os dele com intensidade, os cabelos que agora estavam um pouco mais bagunçados. Tudo nela o atraía, uma grande evolução do desprezo que sentiu por ela à primeira, segunda e, talvez, terceira vista. Admitia que ela era bonita. E agora tinha certeza de que ela era a garçonete que o salvou.

— Sim, é você. — franziu as sobrancelhas, perguntando-se o que diabos ele estava dizendo, mas relaxou sua expressão quando o polegar dele acariciou sua pele. Toque suave como suas palavras não costumavam ser.

Depois de pousar ambas as taças na balaustrada, abaixou o rosto em direção ao dela e a própria viu-se quase ficando na ponta dos saltos para que pudessem se encontrar. A poucos centímetros, com os narizes quase se tocando, ele olhou em seus olhos de novo, tomando o rosto dela nas duas mãos. E então, finalmente, seus lábios se encontraram.
Para ambos, foi uma experiência maravilhosa. O beijo com gosto de vinho, decepção, mágoa familiar e redenção foi o melhor da vida dos dois. A carga emocional que o sustentava era ainda maior. Não fora um beijo fruto apenas de paixão. Era mais que isso. Era o passado que os assombrava, era o companheirismo entre eles. Era a forma como um poderia ajudar a solucionar os problemas do outro, ainda que não soubessem, por enquanto.
Suas bocas encaixavam-se com perfeição e o barulho da festa, da cidade, dos carros; diminuiu drasticamente. Eram duas pessoas beijando-se numa festa de Ação de Graças, mas também eram apenas duas pessoas se beijando, apesar de qualquer outra coisa. Separaram-se e olharam-se nos olhos por alguns segundos.
O segundo beijo não foi assim tão calmo, este nascido da paixão que o primeiro despertara. Paixão que há muito esquecera, que há muito não sentia. Beijaram-se como se não houvesse mais nada para ser feito. Como se aquela fosse a última vez que se veriam. tinha abraçado o pescoço do músico e os corpos estavam tão perto que o calor que sentiam nada tinha a ver com o sistema de calefação de . Sentia o coração dele bater contra o seu, em conjunto, em uma só melodia. E quando já se esqueciam de onde estavam, um barulho alto foi ouvido. olhava para os dois, absolutamente chocada, enquanto seus irmãos levavam embora seus sobrinhos. Aparentemente, as crianças tinham assistido sua tia e o convidado se beijando na varanda como dois adolescentes.
não passou impune. Sua mãe ralhou com ela, os irmãos ralharam com ela, passou-lhe uma meia compostura (pois jamais gritaria o quanto queria com sua irmã na frente de toda a família). Josh, no entanto, acercou-se dela, uma vez que os dois pombinhos ficaram livres de todas as broncas.

— E então? — Seu melhor amigo perguntou-lhe simplesmente enquanto ela bebia mais uma taça de vinho, desta vez sem usá-lo como consolo.
— Eu não sei. — Ela sorriu para , do outro lado da sala, que agora era inquirido pelos seus irmãos. — Eu gosto dele.

Josh analisou-lhe o rosto e bebeu sua própria taça de vinho (branco). Ela parecia embasbacada.

— Parece que nosso milagre de Natal chegou mais cedo.


Capítulo 16

No dia da festa, e foram juntos para casa. E quando ela o ofereceu um lugar para ficar em seu apartamento, ele aceitou. Não era uma proposta indecente. o desejava, mas o queria bem. Com o frio, achava desumano deixá-lo dormir no carro. Ele tomou banho, ela deu-lhe pijamas. A memória do beijo criava tensão entre os dois a cada vez que se aproximavam. O quarto de hóspedes foi preparado. Para Danny.
Além de , o irmão preferido de também ficaria hospedado com ela. haveria de se virar no sofá. Talvez ela não devesse ter transformado o quarto de em seu escritório, até porque o usava muito pouco e era mais uma biblioteca que outra coisa.

— Vocês podem ir para o quarto, eu não vou fingir que minha irmã é uma santa. — Danny disse-lhe, em voz baixa, quando saiu para tirar suas tralhas do quarto de hóspedes.

pensou em responder-lhe uma gracinha. Seu humor estava bom o suficiente para que fizesse piadas e mais piadas. O beijo tinha sido… Mágico. E ele jamais achou que algum dia descreveria um beijo com essa palavra. Ele e se encaixavam com perfeição.
No entanto, tudo que respondeu, naquela noite, foi:

— As coisas não são assim.

Precisava manter a cabeça sobre seus ombros e não enfiar os pés pelas mãos. Ele sabia que tinha um histórico de casos passageiros, como vira na rua mesmo, no outro dia. E ele não era nada como . Era forte, musculoso, um tipinho bonito e convencido.
Antes que Danny começasse a cravá-lo de perguntas, reapareceu com Wolf em seus calcanhares. Tinham buscado o cachorro no meio do caminho, já que sem seu vira-lata era apenas meia pessoa.

— O quarto está arrumado, bonitão. — Ela disse enquanto dava um soco no braço do irmão, que a puxou para perto.
— Sabe, eu estava conversando com o meu cunhado aqui… — Danny deu-lhe uma piscadela. — Vocês podem dormir juntos. Eu não sou a mamãe.

Se alguma vez ficara tão vermelha, Danny não se recordava. Até mesmo suas orelhas estavam escarlate. Ela socou-lhe com força no peito e mesmo o grandalhão gemeu de dor.

— Imbecil. — A escritora se afastou, indo até a cozinha buscar o resto de pudim que havia enfiado em suas mãos. — Por quanto tempo você vai ficar aqui, Danny?

observou os dois conversarem, notando a dinâmica entre os dois. Havia carinho e compreensão (apesar do soco), algo que ele, que nunca tivera irmãos (pelo menos irmãos criados com ele), não entendia.

— Até o Natal, mas a mamãe deve ficar até o Ano Novo.

A escritora engasgou-se. Foi necessário que os dois homens a socorressem, levantando seus braços e dando-lhe batidinhas nas costas. Também, não era pra menos. Ter seu irmão mais velho morando com você por quase um mês inteiro (e sua mãe na cidade por ainda mais tempo) não é uma notícia que qualquer pessoa recebesse de bom grado. Não porque não amasse sua família, mas finalmente sentia que as coisas com deslanchariam (e, coincidentemente, também as coisas com seu livro).
abanou-lhe o rosto e quando ela finalmente parou de tossir e respirou fundo, notou o quão perto um do outro estavam novamente. A tensão entre os dois fez Danny sorrir.
Havia muito tempo queria que sua irmã arranjasse alguém que fosse bom para ela. , a bela , sempre fora solitária. Cercada de gente e, ainda assim, alguém que se sentia sozinha. E Danny sabia porque eram absolutamente iguais. Não conhecia , não sabia o que ele fazia, onde trabalhava, mas sentia que entre os dois havia uma conexão maior do que diziam. E não estava nos planos dele atrapalhar o romance dos dois.
O músico e a escritora afastaram-se rapidamente. Ela, envergonhada por causa de seu irmão. Ele, querendo dar a ela espaço o suficiente para que decidisse o que fazer. rapidamente lembrou-se do que causou o seu acesso de tosse e se virou para Danny com um olhar sanguinário, a colher com que tinha comido o pudim ainda estava em sua mão e ela a brandiu como se fosse algo muito ameaçador (e, considerando que alguém teve um olho arrancado com uma colher em seu primeiro livro, talvez Danny devesse temer a irmã).

— Por quê!? — Sua voz saiu estrangulada e riu baixo.
— Por quê? — Danny repetiu, bancando o desentendido.
— Sim, mais especificamente: por que mamãe vai ficar tanto tempo? — Deus certamente existia. E seu senso de humor era absolutamente deturpado.
— Qual o problema? Ela quer ver a tal bola do Ano Novo!

O jeito como Danny se defendera fez com que ela quase avançasse nele novamente. Foi por pouco que manteve a compostura.

— Foi você! Diabos, Danny, eu não acredito!
— Acho que vou dormir agora. — Danny disse para antes de praticamente correr pelo corredor.
— Você vai ficar sem comida nessa casa! — gritou para ele, alarmando Wolf, que enfiou a cabeça entre as patas. — Seu covarde! Volte e me enfrente se for homem! — Mas a única coisa que ouviu foi a porta do quarto de hóspedes bater com um sonoro baque, causando um suspiro cansado da parte da escritora.

Ela pegou o pudim e sentou-se no sofá, ao que Wolf a imitou. Enquanto a observava, ela ligou a TV, aparentemente alheia ao fato de que ele queria dormir. Ou forçando-o a ficar acordado com ela, qualquer uma das duas possibilidades certamente não respeitava o espaço de , mas quem era ele para reclamar quando estava sendo abrigado na casa dela?
não disse nada por bastante tempo. Na TV, algum episódio de uma série policial qualquer passava. Ele não se atreveu a quebrar o silêncio e só no meio do episódio ela elevou a voz:

— Aquele brutamontes vai se ver comigo! Minha mãe em Nova York! Por um mês! — Balançou a cabeça, irritada, e enfiou uma colher cheia de pudim na boca.

Wolf colocou a cabeça no colo dela, logo depois de pular em cima do sofá de modo confiante. , por sorte, pareceu não ligar para o cachorro estar em seu sofá e apenas pousou a mão na cabeça dele, fazendo carinho no vira-lata.

— Vocês podem tentar trabalhar a relação entre as duas.

virou a cabeça para ele, por um instante parecendo surpresa em vê-lo. Ela riu sem humor.

— Não conhece a minha mãe.
— Ela ama você. — o olhou longamente. E concordou com a cabeça.

Sua mãe era… Difícil, para dizer o mínimo. Era bruta e indignava-se por muito pouco. Era uma conservadora ferrenha, também. Mas não duvidava de seu amor por ela, mesmo que ela não o demonstrasse sempre. Para a matriarca dos , a rigidez era essencial. Demonstrações de carinho podiam ser contadas nos dedos de uma mão, mas ela sempre quisera seu bem. Apesar disso, era difícil para Margot conceber a ideia de que sua filha tinha se desviado tanto do caminho que traçara para ela. Tinha fugido para a cidade grande e, ao contrário de suas expectativas, tinha conseguido se tornar uma grande escritora.
Sua mãe detestava admitir derrota e, por isso, nunca o fazia. Tudo que ela fez ao saber das conquistas da filha foi abanar a cabeça e criticar seu modo de vida fútil.

— Ainda assim, , não é tão fácil assim. Minha mãe é… Complicada. — Esperou uma resposta, mas parecia querer ouvir o que ela tinha a dizer. — Ela… Ela detesta o meu estilo de vida. Nunca tentou ler nenhum dos meus livros. Vê minhas entrevistas e critica minhas roupas.

Tudo o que ela fazia era reclamar sobre o que fazia. E isso era motivo o suficiente para fugir da mãe em todas as situações.

— Minha mãe abandonou meu pai quando eu tinha dez anos. — A voz de soava inflexível, como se não tivesse nenhuma emoção em especial em relação àquela memória. — Se casou de novo, teve outros filhos… Ela nunca se preocupou em saber sobre mim. Ela era indiferente.

não era tola, no entanto, e entendia perfeitamente o que ele tinha a dizer. Sua mãe falava aquelas coisas porque a amava. O que sua mãe não entendia, porém, era que aquilo só a deixava mais para baixo. Antes, quando estava mais confiante com seu trabalho, poderia não ligar muito. Mas com o bloqueio criativo e as constantes ligações de seu editor, as críticas doíam ainda mais.
Para , a indiferença doeu. Seu apoio fora o pai. E só por isso ele tinha concordado em seguir os sonhos do velho. E agora? Ele não tinha ninguém no mundo que sentiria falta dele. A mãe nunca ligou. O pai estava morto. Wolf certamente choraria por ele… sentiria sua falta? Ele a olhou de esguelha, ela parecia imersa em suas próprias ideias.

— O que aconteceu com você, ? — Seus olhos estavam pregados nele e desviou o olhar. O dela era intenso, como um farol.
— Comigo?
— As ruas. — Ele enrijeceu o maxilar, seus olhos escureceram. sabia que ele tinha pontos sensíveis. Alguns assuntos deviam ser pessoais demais… Mas ela queria saber. — Nunca tentou arrumar um empregou ou…

Ele riu e o som de sua risada depreciativa fez com que ela se calasse na hora, o que era bem atípico de alguém que sempre achava ter a verdade consigo.

— Olhe bem para mim, . O que você vê?

Ele estava de volta ao modo arisco, fugitivo, escorregadio, mal humorado e sarcástico. Por um momento, ela nada disse. No seguinte, deu um pequeno sorriso.

— Eu vejo um ser humano. Como eu. — Aquilo fez com que ele parecesse menos com o rabugento que tinha sido até então. Foi a vez dele de balançar a cabeça.
— Então você deve ser realmente especial. A maioria das pessoas vê uma pilha de lixo humano.

E se ele nunca tivesse tentado salvá-la, pensou, ela também o veria daquela forma. O cinismo necessário para viver nesse mundo era, também, algo deplorável. Ele endurecia o coração e fazia com que centenas de pessoas passassem por um homem necessitado sem nem pensar em estender a mão. A única coisa que pensavam quando o viam era: melhor esconder o meu relógio. O mundo não era um lugar tão bom. E nunca foi.
Para ele, isso era óbvio há muito. Para ela, esse fato tinha sido esquecido quando sua carreira seguiu em frente e ela deixou para trás as dificuldades. Por mais que tivessem lutado para sobreviver, tinha sua irmã, Cam, Josh. tinha um cão e um violão. Não era a mesma coisa. Ela quis consolá-lo. Era uma resposta emocional óbvia. E, também, era um pouco de culpa.

— Eu tenho um amigo. — Ela começou, timidamente. ergueu os olhos verdes para ela. — Ele vai abrir um restaurante em breve, no SoHo. Eu posso te dar o endereço, se quiser. Você pode ir lá e ver se tem uma vaga… Em alguma coisa.

Ela não estava oferecendo um emprego de mão beijada. Não ia forçar seu “amigo” a admiti-lo. Ela deu a ele uma chance. Ou tentava. anuiu com a cabeça, lentamente.

— Sim. Tudo bem.
— Olha, . — Ela pegou a mão dele entre as suas. Ele foi forçado a olhar para ela. — Sabe, não importa o seu passado. Todo mundo merece uma segunda chance.

Uma vez mais, naquela noite, se inclinou para beijá-la. E ela correspondeu ao beijo. Era aflito, necessitado, carente. Era um espelho dos dois. Eles não falaram mais sobre empregos, mas ficaram abraçados um ao outro, sem falar nada, assistindo a televisão. Ele tinha um braço ao redor dos ombros dela e ela o abraçava pela cintura, com a cabeça em seu peito. Era intimidade, em sua forma mais crua. Era solidão, vinda de ambos os lados. E era o desejo de uma segunda chance, tanto para ela quanto para ele.


Na manhã seguinte, os raios de sol incomodaram seus olhos. levantou os olhos para as cortinas escancaradas e ouviu a barulheira advinda da cozinha. Era Danny, que praticamente batia panelas para acordá-los.

— Ah, a pombinha acordou? — Ele lhe mostrou um sorriso cafajeste. Uma almofada acertou em cheio sua cara, tirando dali o sorriso com extrema eficácia.
— Que horas são? — Resmungou, finalmente acordando e dando-se conta de que tinha dormido com no sofá e o vira-lata entre ambos.
— Nove horas. — Ele parecia menos feliz depois de ter sido acertado com uma almofada indiana.
— Porra, Danny! É domingo!

Wolf virou, preguiçosamente, de barriga para cima. Nem mesmo o cachorro queria acordar. Danny, por outro lado, deu de ombros.

— Você tem que me mostrar a cidade. Me apresentar algumas amigas…? — Quando uma outra almofada voou em sua direção, ele conseguiu desviar habilmente. xingou alto e rolou para fora do sofá, parecendo prestes a arrancar os olhos dele. — Qual é, , tenho certeza de que você deve conhecer alguma modelo que esteja aqui em NY! Você é famosa, não é?

Sem respondê-lo, rumou direto para a cafeteira. É claro, conhecia um punhado de celebridades (e, para o governo de Danny, ela conhecia até mesmo o Leo DiCaprio, que interpretaria Caleb nos cinemas), mas nenhuma mulher que odiasse o suficiente para apresentar seu irmão mais inútil. Ela deu uma golada no café preto, ponderando.

— Talvez eu conheça alguém… — Danny sorriu. — Mas você precisa me fazer um favor antes.

O sorriso dele desapareceu quase na hora. É que, na noite anterior, e conversaram durante horas. E ele fez com que ela repensasse seu relacionamento com a mãe.

— O que você vai querer? Meu sangue para um ritual de magia negra? — Ela fez um gesto casual com a mão, denotando seu desinteresse.
— Eu só uso sangue de homens, não de moleques. Não, não é isso. Eu quero que você faça a mamãe vir almoçar comigo, aqui.
— E você não pode ligar para ela por que…? — Danny não entendia porque tinha que ser ele o mediador.
— Porque ela não viria. Você sabe muito bem o que ela pensa de mim. Uma casa sem filhos e sem marido, blá blá blá.
— Sem marido? E a linda cena romântica que eu presenciei com vocês dois agarradinhos no sofá? — procurou algo para jogar na direção dele, mas acabou desistindo.
— Daniel. — O nome fez com que ele reprimisse uma careta, ainda mais com seu tom inflexível.
— Vocês são iguaizinhas, sabia? Duas mulas teimosas. — E, resmungando, ele estava prestes a deixar a cozinha, quando se virou para ela e sorriu. — Aliás, quem você vai me apresentar?
— Uma linda modelo solteira da Victoria's Secret. — E, cantarolando uma música country, Danny saiu da cozinha com o humor renovado.


Capítulo 17

tinha sido extremamente gentil em fornecer o almoço para as duas. A comida era a preferida da mãe, torta de carne, e Margot tinha parecido bem disposta ao entrar na sala de jantar da filha e dar de cara com uma mesa tão bonita.
É claro, estranhou o convite de . Achava que a distância que mantinha dela era algo realmente vergonhoso, talvez não mais vergonhoso que abandonar a própria mãe para ir viver na “cidade grande”, mas ainda assim…
tinha ido ao SoHo ver o amigo de (e, mantendo sua palavra, ela não ligou para que Jasper o aceitasse apenas porque ela o conhecia), Danny estava fora (depois de se engraçar tanto com a vizinha do andar de baixo, era compreensível) e a oportunidade para as duas terem um tempo íntimo (que causava arrepios na espinha da escritora) era perfeita.
estava nervosa. Temeu a mãe durante toda a sua vida, não que ela fosse lhe fazer algum mal, mas temia sua reprovação. Não era como seus irmãos e disso tinha certeza. Seu pai uma vez lhe dissera que ela tinha o espírito de sua vó, que, no passado, foi quem fundou a fazenda que ele gerenciava, ao brigar com o irmão. No fim, sua avó Gertrudes (sempre tinha achado esse nome abominável) acabou se saindo melhor que o próprio irmão e foi a sua fazenda que prosperou, não a dele. Fosse verdade ou não, gostava de ouvir a história, sentada nos joelhos de seu pai, enquanto ele acariciava seus cabelos. Teria gostado da avó, se a tivesse conhecido, ele costumava dizer. Infelizmente, não a conheceu. Teria gostado de um exemplo como aquele em sua vida, o de alguém que agarrou o destino pelos chifres e o domou.
E era impetuosa, era o mínimo que se podia dizer de alguém que triunfara em uma cidade como Nova York, tendo agora o ramo literário aos seus pés (contanto que pudesse contornar seu bloqueio) e, em breve, o cinematográfico também, já que seus livros virariam filmes em breve. É claro que, aos olhos de Margot, sua filha estava apenas sendo rebelde ao se desviar do negócio que a família tinha seguido por tantos anos.
Para o mérito de Margot, ela amava igualmente todos os seus filhos. E, por amá-los tanto, era normal que quisesse proteger todos eles, muito embora sua caçula agora já fosse uma mulher feita. O problema é que Margot conhecia apenas a estabilidade do negócio de família, que ajudou o marido a gerir por tantos anos e, ainda agora, levava seus negócios com mãos de ferro. Para ela, Hollywood, a indústria literária e todo o mundo ilusório da cidade grande apenas servia para fomentar ambições e sonos em sua filha e, quem sabe, tirá-los em um momento inoportuno. Não havia garantia alguma de que ela fosse fazer uma carreira longa e duradoura daquela forma. E, ainda, levava a vida de modo leviano, sempre às voltas com um rapaz novo e negando-lhe o direito de ser avó (mesmo que já tivesse outros seis netos – e mais um a caminho), o que apenas a fazia questionar qual era o problema de assentar-se com um bom homem e se casar.
No fim, as duas eram mulheres fortes e, cada uma com seu ponto de vista, queriam, realmente, fazer as pazes de modo que a relação entre mãe e filha pudesse ser restaurada da melhor forma possível.
sorriu, servindo a torta de carne para a mãe com um gesto singelo.

— Fico feliz que tenha concordado em vir.

O apartamento tinha passado por uma faxina pesada, passou a manhã inteira procurando qualquer coisa que pudesse fazer Margot reclamar de desleixo. Todos os quadros estavam alinhados, o chão brilhava, não havia sequer um grão de poeira em cima de seus móveis. E a mãe percebeu isso assim que pôs os pés dentro do apartamento.

— Eu jamais teria recusado seu convite, . — Respondeu com a voz firme que se lembrava da infância, um misto de nostalgia e ansiedade fez com que seu estômago se agitasse (mas também podia ser apenas o cheiro divino de torta que enchera suas narinas assim que cortou um pedaço para sua mãe). — Você que nunca me convidou.

E estava bem ciente disso. As duas sabiam, com alguma culpa, que não era assim que mãe e filha deviam se portar uma com a outra. Deixando de lado a formalidade, resolveu buscar um lugar comum entre as duas. O assunto surgiu leve, as duas falaram sobre , sobre como estava feliz e radiante. Como se Margot soubesse que deveriam construir uma ponte sobre as águas turbulentas de seu relacionamento (ou como se tivesse lhe dado um longo sermão sobre como era injusta com a filha caçula), nenhuma menção foi feita à vida de solteira de .
Ela era jovem ainda! Tinha vinte e seis anos, uma trilogia de sucesso, uma carreira boa, por que, então, pressioná-la? Se casaria e teria filhos em seu momento, quando achasse que estava preparada. sabia que, talvez, com tudo o que passou nos últimos meses, formasse uma família, um dia. E, quando pensava nisso, era para que seus pensamentos apontavam. Duas pessoas tão diferentes e, ainda, extremamente parecidas. Ela sabia que se importava com ele, mas era o bastante para se casar? Para ter filhos? Sequer namorar? E, principalmente, como se sentiria sobre isso? Ele já tinha se mostrado reticente quando tentou ajudá-lo, mas não agora. Agora ele teria um emprego. Ele poderia ter um lugar para ficar, também, por que não? Se ele quisesse, poderia até mesmo ficar ali.

— Você ficou quieta de repente. — Sua mãe apontou, fazendo com que a escritora deixasse seu transe para elevar os olhos, observando sua mãe, que tinha um sorriso bondoso nos lábios. Tal visão era rara e fez sorrir de volta, instintivamente. — Você é assim desde criança, sempre no mundo da lua.
— Papai me chamava de Astronauta, porque me dizia exatamente a mesma coisa.

Margot anuiu, pois também se lembrava de seus filhos, de cada um deles, e suas particularidades. A caçula jamais tinha sido a pessoa mais sensata do mundo e talvez tenha sido por isso que sempre exigiu dela um grande senso de praticidade e responsabilidade, refletiu , pois agora podia ver claramente que, apesar dos métodos de Margot terem sido ausentes de muito carinho, ela quis ver sua filha bem sucedida, mesmo que seu conceito de uma mulher plenamente satisfeita fosse diferente do seu.
Não adiantou. tinha sido destinada a grandes coisas e lutou bravamente por isso. Ela era, do começo ao fim, uma mulher que se construiu sozinha. E, disso, Margot tinha orgulho, pois soubera criar seus filhos, o que era uma realização para alguém que teve que se adaptar tão rápido à morte do marido. Margot também tivera que se construir sozinha. Aprendeu a administrar a fazenda, criou todos os seus filhos e estes jamais foram grandes fontes de decepção (embora sempre achasse que ela e Danny fossem as ovelhas negras da família). No final de tudo, fizera as coisas corretamente.

— Seu pai sempre acreditou em você. — As duas se entreolharam. A lembrança parecia envolver ambas em um carinhoso momento de saudade daquele que já não estava entre elas. — Antes de todo mundo, ele acreditou em você.

Era bem verdade que o pai a tratava diferentemente. Nunca tinha brigado com ela, era sua caçula e orgulho.

— Vocês sempre foram parecidos demais. Sonhadores, os dois, — Os olhos de encheram-se de lágrimas. A escritora viu-se segurando o choro. Lembrar do pai era algo difícil.

Ele tinha sido tirado de sua vida quando ela era pequena demais. Tinha poucas e boas memórias dele, mas era apenas isso. Queria ter dividido com ele todos os seus ritos de passagem porque, se havia alguém no mundo que podia entendê-la, esse alguém era ele. Quando chorou, sua mãe a abraçou. Era algo raro a demonstração de carinho entre as duas, então a escritora apenas se refastelou nos braços da mãe, aproveitando o abrigo quente e amoroso que Margot tão gentilmente oferecia.
No fim da tarde, quando retornou ao apartamento (já um velho conhecido do porteiro), encontrou uma cena improvável: e Margot, sentadas lado a lado, assistindo juntas uma das entrevistas recentes da escritora. Precisamente, aquela que assistira na delicatessen.

— São as pérolas da Nana? — A mais velha perguntou, o que fez a outra apenas anuir. — Sua avó teria adorado ver isso.
ficou tão fula da vida quando a Nana me deu as pérolas dela! — A escritora riu, sua risada era um som gostoso, que ecoou pela sala.

Sem querer assistir muito da interação entre as duas sem se anunciar propriamente, elevou a voz.

— Boa tarde, senhora . — levantou os olhos para ele, sorrindo de orelha a orelha. As coisas pareciam ter dado certo para ela, o que já era de se esperar. — Oi, . Eu vou… Tomar um banho, tudo bem?
— Ah, sim. Tudo bem. — Ela anuiu, sem pensar muito. Quando saiu, no entanto, sua mãe a olhou de modo significativo. — Não, mãe.
— Vocês dois estão…? — Margot podia ter rolado seus olhos diante da resposta negativa da filha. — Mas ele toma banho na sua casa.
— Bem, é um pouco… — virou-se na direção do banheiro, quase como se pudesse ver . Ela assoprou a respiração, em um claro sinal de derrota diante da expressão interrogativa de sua mãe. — Ele está passando um tempo aqui.
— Aqui? — Ela olhou o apartamento. — Sozinhos?
— E com Danny. — Reformulou, antes que…

Bem, o que sua mãe podia pensar? Eles ainda não tinham dormido juntos. Alguns beijos, certo, mas nada além disso. Eles eram como amigos, amigos que se sentiam atraídos um pelo outro, tudo bem… Diabos, qual era o problema dela? , devoradora de homens, estava se atrapalhando toda. Era tão fora do comum que até se parecia com uma comédia romântica ruim.

— O que você quis dizer com complicado?

E, em um tom leve, mas solene, se viu contando toda a história de , desde quando ele a salvou (ela não disse do que, apenas que poderia se machucado, deus sabia que sua mãe teria uma síncope se ouvisse a versão completa) até quando ela o convidou para a Ação de Graças, e então do convite para que ele ficasse ali. No fim, a matrona dos ouviu tudo em silêncio, fazendo alguns seus “hmmm” e “ohs” aqui e ali. continuou sentada à frente dela, esperando que sua mãe digerisse tudo. Não esperava que ela aceitasse (sua mãe sempre teve uma proibição muito forte sobre meninos e meninas dormindo juntos, mesmo entre seus irmãos) ou entendesse, apenas que ela respeitasse e, principalmente, não pensasse menos de por isso.
Pareceu uma eternidade até que Margot abriu a boca para falar.

— Então, esse , ele não tem uma casa e nem um trabalho? — Foi o que perguntou, enfim.
— Eu o apresentei a um amigo, então acho que agora ele tem um trabalho…
— Eu gosto dele.
— E é claro que ele vai arranjar um lugar para… O quê!? — Parou, em choque, descontinuando até mesmo sua linha de raciocínio.
— Eu disse que gosto dele. Parece um bom homem, trata você bem… O que não teria para gostar nele? — Agora, sua mãe exibia um sorrisinho nos lábios, um que ela não via há tempos.
— Eu não sei…? — Tinha perdido completamente o fio da meada. Sua mãe devia ter realmente gostado das emendas que fizeram no relacionamento durante toda a tarde.
— E, bom, na sua idade não é como se muitos homens bons quisessem te namorar. Você está ficando ultrapassada.
— Uau, mãe, obrigada pelo apoio. — Era bom demais para ser verdade, de qualquer maneira.

Quando voltou para a sala, o assunto já tinha se desviado para outro: as antigas colegas de classe de , seus casamentos, seus bebês, seus maridos idiotas e suas casas de cerca branca.
Mesmo assim, não estava de todo irritada com o assunto. Não quando sua mãe tinha voltado a, aparentemente, ter com ela uma boa convivência, algo que não passou despercebido para . Quando veio buscá-la às nove da noite, até mesmo já tinha sido alvo dos conselhos da matriarca, o que fez rir dele, discretamente, por vários minutos.
Eles lhe deram tchau e, quando Margot saiu, desabou no sofá, expirando profundamente.

— Deus, eu amo a minha mãe, de verdade, mas céus! Como ela fala! — E caiu na risada, fazendo com que também risse. Ele se sentou ao lado dela e se aconchegou em seus braços, causando-lhe certa rigidez, que logo se dispersou. — Como foi no restaurante?
— Já fiquei trabalhando lá por hoje. Ele foi… Bem compreensivo quanto à minha falta de referências. — No fundo, ele imaginava que havia um dedo de nisso e ela o olhou, ligeiramente desconfiada.
— Eu não tive nada com isso. — Defendeu-se dos olhos e acusadores.
— Você se acusa rápido demais. — Ele retorquiu, ao que ela respondeu, imediatamente:
— Você é óbvio demais. E eu sou uma escritora de romances policiais, eu sei ler as pessoas. — Seu tom de voz tinha subido uma oitava, ligeiramente ofendida com o assunto, mas ele sorriu e ela se acalmou. Um pouco.

Wolf pulou no sofá, babando os dois, no típico modo canino de expressar o quanto sentia falta de seu dono – mesmo que ele só tivesse se ausentado durante algumas horas. Músico e escritora ficaram em silêncio depois de contar, detalhadamente, como foi seu primeiro dia de trabalho. O cão, entre os dois, deitado no espaço que tinham aberto para ele, parecia prestar atenção na conversa.

— Está na hora de levá-lo lá fora, . — Geralmente, era Danny quem fazia isso, mas considerando que ele tinha um encontro essa noite, ela duvidava que ele fosse chegar em casa cedo.

E os motivos de seu irmão para levar o cachorro não eram nobres, apesar de, inicialmente, ter pensado que sim. Segundo Danny, o cachorro atraía a atenção de mulheres solteiras e que queriam ter uma família – e de onde ele tirou isso, não fazia ideia.

— Quer comprar comida? — Isso a fez olhá-lo preguiçosamente. O frio já tinha se instalado em Nova York e ela não queria encará-lo, não quando estava tão quente nos braços dele.
— Temos mesmo que fazer isso?
— Se você quiser comer. — Sua resposta lacônica a fez bufar, levantando do sofá apenas para ir buscar um casaco quente.

Wolf estava ainda mais animado quando entrou no elevador. Aquela era a hora que ele poderia passear um pouco, latir para alguns pombos, (tentar) vasculhar as lixeiras e ganhar carinho de mulheres desconhecidas – ao menos quando estava com Danny, O casal ouviu o apelo de uma voz masculina pedindo para que segurassem o elevador e, sem pensar, colocou o pé na porta, impedindo que as portas se fechassem. Antes não tivesse o feito.
Ele o viu. O homem com quem , naquele dia fatídico, foi embora de moto. Ele o reconheceu pelo porte, pela jaqueta e, principalmente, pelo olhar que ele dedicou à filha mais nova de Margot. Se lá fora os ventos do inverno uivavam, dentro do elevador a temperatura beirava os graus negativos. não sabia que ela tinha entrado ali e , ainda ligeiramente culpada pelo modo como terminou com ele, olhou de para com alguma ansiedade. O cão parecia ser o único imune ao clima de tensão.
se recuperou particularmente rápido, sorrindo para e estendendo a mão para .

— Tudo bem, cara? Eu sou o , vizinho da .

Uma olhada no rosto de lhe diria que ela ainda estava estupefata.

. — Seu tom grave pareceu ecoar no elevador, causando calafrios em .
— Hm, boa noite, . — Ela conseguiu dizer em um tom leve, livre de culpa, o qual ele respondeu com uma piadinha.
— Então, esse é o novo cara? — piscou os olhos, escuros com a ansiedade, não disse nada. — Vai partir o coração dele também?

Por um momento, por um mísero segundo, o olhou embasbacada. Como ele se atrevia? E como diabos uma descida de elevador levava tanto tempo? apertou o braço de , que abriu a boca para falar algo, elevando a própria voz, em sua defesa:

— Não acho que isso seja da sua conta, .
— Eu estava…
— De qualquer forma — ela o interrompeu —, é bom ver que superou o enorme trauma que eu te causei depois do nosso casamento de dez anos. Ou, ao menos, é o que parece, da forma como você se sentiu tão ofendido.
O apito informou aos três ali que tinham, finalmente, chegado ao térreo. puxou e o cão para fora, o rosto ruborizado pelo comportamento ultrajante de seu último amante. Não tinha ideia se ele sentia ciúmes ou se, simplesmente, era tão mesquinho quanto superficial, isso não importava. Ele tinha merecido a ferroada que lhe dera,

— Babaca. — Murmurou por baixo do fôlego, chamando a atenção de um transeunte, que a olhou como se tivesse sido ele o babaca de quem ela falava. Aquilo não lhe importou, também.
— Você está bem? — tocou seu ombro, delicadamente.

Sim, ele tinha querido defendê-la, talvez se deixando iludir pela forma como se conheceram. Aquela não era uma situação análoga à outra: podia ser uma boa pessoa, mas sabia se defender sozinha quando era necessário. Por um minuto, ela se irritou com ele por achar que precisava interferir, mas, agora, sua raiva tinha tomado uma direção diferente: o ex-marinheiro de braços fortes e tatuagem no bíceps que tinha se mostrado um idiota da maior estirpe.

— Sim. Eu só… Quero socar a cara dele. — E era a verdade. Seus punhos estavam cerrados, prontos para acertar o desavisado vizinho, que tinham deixado para trás.

sorriu. Sim, ela tinha um ferrão e podia usá-lo. Ele mesmo tinha vontade de bater em , mas não pelas palavras jocosas: vê-lo tirar do sério o irritava o suficiente para que quisesse dar-lhe uma surra.

Felizmente, o caminho até a delicatessen foi pacífico, assim como a volta para o prédio onde morava. Não havia ninguém no elevador além dos dois e mesmo Wolf pareceu mais aliviado assim que entrou no apartamento quente e aconchegante no terceiro andar.
Ela pôs a mesa, se ocupou colocando as refeições no forno para esquentá-las. Compraram também uma lata de comida para Wolf, que comeu muito antes do dono e, à hora que se sentaram para jantar, ele já dormia no tapete perto da porta.
Sentaram-se no chão, almofadas para todo lado, um cobertor de lã cobrindo-os. tinha o corpo encostado no sofá enquanto ela, animadamente, escrevia no MacBook, depois de uma súbita inspiração. Quando ele se esticava para tentar ler por sobre o seu ombro, ela o empurrava de volta ao seu lugar.

? — Ela o respondeu com um mero grunhido interrogatório, sem tirar os olhos da tela de seu MacBook.

Qualquer um que a conhecesse bem o bastante diria que aquele era o seu normal. Quando estava em modo de trabalho (e, principalmente, tentando escrever algo que não detestasse), pouco poderia ser feito para chamar a sua atenção.

— Eu só quero que saiba que… Eu não vou depender de você por muito mais tempo. Assim que sair o meu primeiro salário eu vou…
— O quê? — Ela ergueu os olhos, as sobrancelhas franzidas em uma clara confusão. — Você não gosta daqui?
— Eu gosto. Eu só não me sinto à vontade para ficar na sua aba por muito mais tempo.

Ah, lá estava o velho orgulho do macho alfa ferido. dobrou as pernas dos óculos pousando-os no sofá.

— Bem, eu não o considero um explorador.
— Eu sei que não. — parecia resoluto. Ele estava determinado a não ser um peso na vida dela. E ela, mesmo que ele não soubesse, não o via assim. Tê-lo ali era ter uma constante fonte de inspiração para o seu livro e, também, ter alguma companhia que não fosse o imprestável do Danny. — Isso é sobre o que aconteceu no elevador? — Ele apenas negou com a cabeça.

Ela o olhou, ainda curiosa.

— Tudo bem, então. Você tem algum lugar para ficar? — Ele fez que não, relutantemente. —
— Eu já resolvi isso, .

Ela suspirou diante de sua teimosia irritante e pôs de lado o computador. Realmente não o entendia. Ela não fazia aquilo por pena, havia um benefício em ter-lhe ali e ela realmente não se achava uma companheira tão irritante. Seu orgulho ferido não lhe fazia sentido, mas, ao menos naquele momento, preferiu não revidar e nem começar uma briga. Tinham acabado de conseguir dar uma certa tranquilidade ao seu relacionamento e queria mantê-la.

— Tudo bem.

Por um momento, ele a olhou surpreso. Esperava que ela fosse insistir, mas acabou por não fazer isso.

— Sério?
— Você não é meu refém, , relaxa. — A escritora fez um gesto de descaso e ergueu-se do chão, esticando a coluna uma vez que estava de pé.

Ele a observou. Era bonita, embora não de um jeito óbvio. Claro, seu rosto era agradável, seu corpo não era o de uma supermodelo, mas também lhe atraía. Ela não se parecia em nada com as mulheres que ele costumava arrastar para a sua cama e nem com a esposa de seu antigo patrão. Mas, ainda assim, algo nela despertava-lhe uma certa urgência, algo que ele gostaria de saciar, embora não soubesse por onde começar. Fazia tempo desde que havia se considerado o homem que foi um dia, embora, agora, começasse a ver-se de forma diferente. Seu pai costumava dizer que “o trabalho edifica o homem” e ele certamente sentia-se diferente.
começava a ter de volta o que ele considerava sua dignidade: a aparência estava melhor, ele comia bem, tomava banho todos os dias, tinha um trabalho e… Tinha . era uma parte fundamental de sua nova fase. Ela acreditou nele, ela o viu, deu-lhe uma chance, ajudou-o a se recuperar.

— Eu vou ter um seguro-saúde. — Ele comentou, mudando de assunto ao ver que ela notara seu olhar duradouro.
— Ah, isso é bom. — Ela sorriu de modo felino.
— Não é nada muito sofisticado, mas acho que eu já posso fazer um check up em breve.
— É mesmo? — se aboletou ao lado dele, seu ombro roçando o dele levemente, de uma maneira que lhe causou algum embaraço… E também alguma excitação.

Dessa vez, ficou sem fala. Ele resmungou algo ininteligível ( achou ter entendido a palavra sono em algum lugar, mas não se ateve a isso) e a olhou de lado.


— O que é agora? — Ela tinha avançado para cima dele, ladeando seu quadril com as pernas e sentando-se em seu colo.
— Seu irmão.
— Danny não vai voltar até de manhã, acredite.

— Meu deus, fique calado para que eu possa te beijar.

E ambos sorriram: ela, de um jeito coquete; ele, de um jeito inicialmente tímido, algo que logo se perdeu tão logo começaram a se beijar.


Capítulo 18

tinha sido extremamente gentil em fornecer o almoço para as duas. A comida era a preferida da mãe, torta de carne, e Margot tinha parecido bem disposta ao entrar na sala de jantar da filha e dar de cara com uma mesa tão bonita.
É claro, estranhou o convite de . Achava que a distância que mantinha dela era algo realmente vergonhoso, talvez não mais vergonhoso que abandonar a própria mãe para ir viver na “cidade grande”, mas ainda assim…
tinha ido ao SoHo ver o amigo de (e, mantendo sua palavra, ela não ligou para que Jasper o aceitasse apenas porque ela o conhecia), Danny estava fora (depois de se engraçar tanto com a vizinha do andar de baixo, era compreensível) e a oportunidade para as duas terem um tempo íntimo (que causava arrepios na espinha da escritora) era perfeita.
estava nervosa. Temeu a mãe durante toda a sua vida, não que ela fosse lhe fazer algum mal, mas temia sua reprovação. Não era como seus irmãos e disso tinha certeza. Seu pai uma vez lhe dissera que ela tinha o espírito de sua vó, que, no passado, foi quem fundou a fazenda que ele gerenciava, ao brigar com o irmão. No fim, sua avó Gertrudes (sempre tinha achado esse nome abominável) acabou se saindo melhor que o próprio irmão e foi a sua fazenda que prosperou, não a dele. Fosse verdade ou não, gostava de ouvir a história, sentada nos joelhos de seu pai, enquanto ele acariciava seus cabelos. Teria gostado da avó, se a tivesse conhecido, ele costumava dizer. Infelizmente, não a conheceu. Teria gostado de um exemplo como aquele em sua vida, o de alguém que agarrou o destino pelos chifres e o domou.
E era impetuosa, era o mínimo que se podia dizer de alguém que triunfara em uma cidade como Nova York, tendo agora o ramo literário aos seus pés (contanto que pudesse contornar seu bloqueio) e, em breve, o cinematográfico também, já que seus livros virariam filmes em breve. É claro que, aos olhos de Margot, sua filha estava apenas sendo rebelde ao se desviar do negócio que a família tinha seguido por tantos anos.
Para o mérito de Margot, ela amava igualmente todos os seus filhos. E, por amá-los tanto, era normal que quisesse proteger todos eles, muito embora sua caçula agora já fosse uma mulher feita. O problema é que Margot conhecia apenas a estabilidade do negócio de família, que ajudou o marido a gerir por tantos anos e, ainda agora, levava seus negócios com mãos de ferro. Para ela, Hollywood, a indústria literária e todo o mundo ilusório da cidade grande apenas servia para fomentar ambições e sonos em sua filha e, quem sabe, tirá-los em um momento inoportuno. Não havia garantia alguma de que ela fosse fazer uma carreira longa e duradoura daquela forma. E, ainda, levava a vida de modo leviano, sempre às voltas com um rapaz novo e negando-lhe o direito de ser avó (mesmo que já tivesse outros seis netos – e mais um a caminho), o que apenas a fazia questionar qual era o problema de assentar-se com um bom homem e se casar.
No fim, as duas eram mulheres fortes e, cada uma com seu ponto de vista, queriam, realmente, fazer as pazes de modo que a relação entre mãe e filha pudesse ser restaurada da melhor forma possível.
sorriu, servindo a torta de carne para a mãe com um gesto singelo.

— Fico feliz que tenha concordado em vir.

O apartamento tinha passado por uma faxina pesada, passou a manhã inteira procurando qualquer coisa que pudesse fazer Margot reclamar de desleixo. Todos os quadros estavam alinhados, o chão brilhava, não havia sequer um grão de poeira em cima de seus móveis. E a mãe percebeu isso assim que pôs os pés dentro do apartamento.

— Eu jamais teria recusado seu convite, . — Respondeu com a voz firme que se lembrava da infância, um misto de nostalgia e ansiedade fez com que seu estômago se agitasse (mas também podia ser apenas o cheiro divino de torta que enchera suas narinas assim que cortou um pedaço para sua mãe). — Você que nunca me convidou.

E estava bem ciente disso. As duas sabiam, com alguma culpa, que não era assim que mãe e filha deviam se portar uma com a outra. Deixando de lado a formalidade, resolveu buscar um lugar comum entre as duas. O assunto surgiu leve, as duas falaram sobre , sobre como estava feliz e radiante. Como se Margot soubesse que deveriam construir uma ponte sobre as águas turbulentas de seu relacionamento (ou como se tivesse lhe dado um longo sermão sobre como era injusta com a filha caçula), nenhuma menção foi feita à vida de solteira de .
Ela era jovem ainda! Tinha vinte e seis anos, uma trilogia de sucesso, uma carreira boa, por que, então, pressioná-la? Se casaria e teria filhos em seu momento, quando achasse que estava preparada. sabia que, talvez, com tudo o que passou nos últimos meses, formasse uma família, um dia. E, quando pensava nisso, era para que seus pensamentos apontavam. Duas pessoas tão diferentes e, ainda, extremamente parecidas. Ela sabia que se importava com ele, mas era o bastante para se casar? Para ter filhos? Sequer namorar? E, principalmente, como se sentiria sobre isso? Ele já tinha se mostrado reticente quando tentou ajudá-lo, mas não agora. Agora ele teria um emprego. Ele poderia ter um lugar para ficar, também, por que não? Se ele quisesse, poderia até mesmo ficar ali.

— Você ficou quieta de repente. — Sua mãe apontou, fazendo com que a escritora deixasse seu transe para elevar os olhos, observando sua mãe, que tinha um sorriso bondoso nos lábios. Tal visão era rara e fez sorrir de volta, instintivamente. — Você é assim desde criança, sempre no mundo da lua.
— Papai me chamava de Astronauta, porque me dizia exatamente a mesma coisa.

Margot anuiu, pois também se lembrava de seus filhos, de cada um deles, e suas particularidades. A caçula jamais tinha sido a pessoa mais sensata do mundo e talvez tenha sido por isso que sempre exigiu dela um grande senso de praticidade e responsabilidade, refletiu , pois agora podia ver claramente que, apesar dos métodos de Margot terem sido ausentes de muito carinho, ela quis ver sua filha bem sucedida, mesmo que seu conceito de uma mulher plenamente satisfeita fosse diferente do seu.
Não adiantou. tinha sido destinada a grandes coisas e lutou bravamente por isso. Ela era, do começo ao fim, uma mulher que se construiu sozinha. E, disso, Margot tinha orgulho, pois soubera criar seus filhos, o que era uma realização para alguém que teve que se adaptar tão rápido à morte do marido. Margot também tivera que se construir sozinha. Aprendeu a administrar a fazenda, criou todos os seus filhos e estes jamais foram grandes fontes de decepção (embora sempre achasse que ela e Danny fossem as ovelhas negras da família). No final de tudo, fizera as coisas corretamente.

— Seu pai sempre acreditou em você. — As duas se entreolharam. A lembrança parecia envolver ambas em um carinhoso momento de saudade daquele que já não estava entre elas. — Antes de todo mundo, ele acreditou em você.

Era bem verdade que o pai a tratava diferentemente. Nunca tinha brigado com ela, era sua caçula e orgulho.

— Vocês sempre foram parecidos demais. Sonhadores, os dois, — Os olhos de encheram-se de lágrimas. A escritora viu-se segurando o choro. Lembrar do pai era algo difícil.

Ele tinha sido tirado de sua vida quando ela era pequena demais. Tinha poucas e boas memórias dele, mas era apenas isso. Queria ter dividido com ele todos os seus ritos de passagem porque, se havia alguém no mundo que podia entendê-la, esse alguém era ele. Quando chorou, sua mãe a abraçou. Era algo raro a demonstração de carinho entre as duas, então a escritora apenas se refastelou nos braços da mãe, aproveitando o abrigo quente e amoroso que Margot tão gentilmente oferecia.
No fim da tarde, quando retornou ao apartamento (já um velho conhecido do porteiro), encontrou uma cena improvável: e Margot, sentadas lado a lado, assistindo juntas uma das entrevistas recentes da escritora. Precisamente, aquela que assistira na delicatessen.

— São as pérolas da Nana? — A mais velha perguntou, o que fez a outra apenas anuir. — Sua avó teria adorado ver isso.
ficou tão fula da vida quando a Nana me deu as pérolas dela! — A escritora riu, sua risada era um som gostoso, que ecoou pela sala.

Sem querer assistir muito da interação entre as duas sem se anunciar propriamente, elevou a voz.

— Boa tarde, senhora . — levantou os olhos para ele, sorrindo de orelha a orelha. As coisas pareciam ter dado certo para ela, o que já era de se esperar. — Oi, . Eu vou… Tomar um banho, tudo bem?
— Ah, sim. Tudo bem. — Ela anuiu, sem pensar muito. Quando saiu, no entanto, sua mãe a olhou de modo significativo. — Não, mãe.
— Vocês dois estão…? — Margot podia ter rolado seus olhos diante da resposta negativa da filha. — Mas ele toma banho na sua casa.
— Bem, é um pouco… — virou-se na direção do banheiro, quase como se pudesse ver . Ela assoprou a respiração, em um claro sinal de derrota diante da expressão interrogativa de sua mãe. — Ele está passando um tempo aqui.
— Aqui? — Ela olhou o apartamento. — Sozinhos?
— E com Danny. — Reformulou, antes que…

Bem, o que sua mãe podia pensar? Eles ainda não tinham dormido juntos. Alguns beijos, certo, mas nada além disso. Eles eram como amigos, amigos que se sentiam atraídos um pelo outro, tudo bem… Diabos, qual era o problema dela? , devoradora de homens, estava se atrapalhando toda. Era tão fora do comum que até se parecia com uma comédia romântica ruim.

— O que você quis dizer com complicado?

E, em um tom leve, mas solene, se viu contando toda a história de , desde quando ele a salvou (ela não disse do que, apenas que poderia se machucado, deus sabia que sua mãe teria uma síncope se ouvisse a versão completa) até quando ela o convidou para a Ação de Graças, e então do convite para que ele ficasse ali. No fim, a matrona dos ouviu tudo em silêncio, fazendo alguns seus “hmmm” e “ohs” aqui e ali. continuou sentada à frente dela, esperando que sua mãe digerisse tudo. Não esperava que ela aceitasse (sua mãe sempre teve uma proibição muito forte sobre meninos e meninas dormindo juntos, mesmo entre seus irmãos) ou entendesse, apenas que ela respeitasse e, principalmente, não pensasse menos de por isso.
Pareceu uma eternidade até que Margot abriu a boca para falar.

— Então, esse , ele não tem uma casa e nem um trabalho? — Foi o que perguntou, enfim.
— Eu o apresentei a um amigo, então acho que agora ele tem um trabalho…
— Eu gosto dele.
— E é claro que ele vai arranjar um lugar para… O quê!? — Parou, em choque, descontinuando até mesmo sua linha de raciocínio.
— Eu disse que gosto dele. Parece um bom homem, trata você bem… O que não teria para gostar nele? — Agora, sua mãe exibia um sorrisinho nos lábios, um que ela não via há tempos.
— Eu não sei…? — Tinha perdido completamente o fio da meada. Sua mãe devia ter realmente gostado das emendas que fizeram no relacionamento durante toda a tarde.
— E, bom, na sua idade não é como se muitos homens bons quisessem te namorar. Você está ficando ultrapassada.
— Uau, mãe, obrigada pelo apoio. — Era bom demais para ser verdade, de qualquer maneira.

Quando voltou para a sala, o assunto já tinha se desviado para outro: as antigas colegas de classe de , seus casamentos, seus bebês, seus maridos idiotas e suas casas de cerca branca.
Mesmo assim, não estava de todo irritada com o assunto. Não quando sua mãe tinha voltado a, aparentemente, ter com ela uma boa convivência, algo que não passou despercebido para . Quando veio buscá-la às nove da noite, até mesmo já tinha sido alvo dos conselhos da matriarca, o que fez rir dele, discretamente, por vários minutos.
Eles lhe deram tchau e, quando Margot saiu, desabou no sofá, expirando profundamente.

— Deus, eu amo a minha mãe, de verdade, mas céus! Como ela fala! — E caiu na risada, fazendo com que também risse. Ele se sentou ao lado dela e se aconchegou em seus braços, causando-lhe certa rigidez, que logo se dispersou. — Como foi no restaurante?
— Já fiquei trabalhando lá por hoje. Ele foi… Bem compreensivo quanto à minha falta de referências. — No fundo, ele imaginava que havia um dedo de nisso e ela o olhou, ligeiramente desconfiada.
— Eu não tive nada com isso. — Defendeu-se dos olhos e acusadores.
— Você se acusa rápido demais. — Ele retorquiu, ao que ela respondeu, imediatamente:
— Você é óbvio demais. E eu sou uma escritora de romances policiais, eu sei ler as pessoas. — Seu tom de voz tinha subido uma oitava, ligeiramente ofendida com o assunto, mas ele sorriu e ela se acalmou. Um pouco.

Wolf pulou no sofá, babando os dois, no típico modo canino de expressar o quanto sentia falta de seu dono – mesmo que ele só tivesse se ausentado durante algumas horas. Músico e escritora ficaram em silêncio depois de contar, detalhadamente, como foi seu primeiro dia de trabalho. O cão, entre os dois, deitado no espaço que tinham aberto para ele, parecia prestar atenção na conversa.

— Está na hora de levá-lo lá fora, . — Geralmente, era Danny quem fazia isso, mas considerando que ele tinha um encontro essa noite, ela duvidava que ele fosse chegar em casa cedo.

E os motivos de seu irmão para levar o cachorro não eram nobres, apesar de, inicialmente, ter pensado que sim. Segundo Danny, o cachorro atraía a atenção de mulheres solteiras e que queriam ter uma família – e de onde ele tirou isso, não fazia ideia.

— Quer comprar comida? — Isso a fez olhá-lo preguiçosamente. O frio já tinha se instalado em Nova York e ela não queria encará-lo, não quando estava tão quente nos braços dele.
— Temos mesmo que fazer isso?
— Se você quiser comer. — Sua resposta lacônica a fez bufar, levantando do sofá apenas para ir buscar um casaco quente.

Wolf estava ainda mais animado quando entrou no elevador. Aquela era a hora que ele poderia passear um pouco, latir para alguns pombos, (tentar) vasculhar as lixeiras e ganhar carinho de mulheres desconhecidas – ao menos quando estava com Danny, O casal ouviu o apelo de uma voz masculina pedindo para que segurassem o elevador e, sem pensar, colocou o pé na porta, impedindo que as portas se fechassem. Antes não tivesse o feito.
Ele o viu. O homem com quem , naquele dia fatídico, foi embora de moto. Ele o reconheceu pelo porte, pela jaqueta e, principalmente, pelo olhar que ele dedicou à filha mais nova de Margot. Se lá fora os ventos do inverno uivavam, dentro do elevador a temperatura beirava os graus negativos. não sabia que ela tinha entrado ali e , ainda ligeiramente culpada pelo modo como terminou com ele, olhou de para com alguma ansiedade. O cão parecia ser o único imune ao clima de tensão.
se recuperou particularmente rápido, sorrindo para e estendendo a mão para .

— Tudo bem, cara? Eu sou o , vizinho da .

Uma olhada no rosto de lhe diria que ela ainda estava estupefata.

. — Seu tom grave pareceu ecoar no elevador, causando calafrios em .
— Hm, boa noite, . — Ela conseguiu dizer em um tom leve, livre de culpa, o qual ele respondeu com uma piadinha.
— Então, esse é o novo cara? — piscou os olhos, escuros com a ansiedade, não disse nada. — Vai partir o coração dele também?

Por um momento, por um mísero segundo, o olhou embasbacada. Como ele se atrevia? E como diabos uma descida de elevador levava tanto tempo? apertou o braço de , que abriu a boca para falar algo, elevando a própria voz, em sua defesa:

— Não acho que isso seja da sua conta, .
— Eu estava…
— De qualquer forma — ela o interrompeu —, é bom ver que superou o enorme trauma que eu te causei depois do nosso casamento de dez anos. Ou, ao menos, é o que parece, da forma como você se sentiu tão ofendido.
O apito informou aos três ali que tinham, finalmente, chegado ao térreo. puxou e o cão para fora, o rosto ruborizado pelo comportamento ultrajante de seu último amante. Não tinha ideia se ele sentia ciúmes ou se, simplesmente, era tão mesquinho quanto superficial, isso não importava. Ele tinha merecido a ferroada que lhe dera,

— Babaca. — Murmurou por baixo do fôlego, chamando a atenção de um transeunte, que a olhou como se tivesse sido ele o babaca de quem ela falava. Aquilo não lhe importou, também.
— Você está bem? — tocou seu ombro, delicadamente.

Sim, ele tinha querido defendê-la, talvez se deixando iludir pela forma como se conheceram. Aquela não era uma situação análoga à outra: podia ser uma boa pessoa, mas sabia se defender sozinha quando era necessário. Por um minuto, ela se irritou com ele por achar que precisava interferir, mas, agora, sua raiva tinha tomado uma direção diferente: o ex-marinheiro de braços fortes e tatuagem no bíceps que tinha se mostrado um idiota da maior estirpe.

— Sim. Eu só… Quero socar a cara dele. — E era a verdade. Seus punhos estavam cerrados, prontos para acertar o desavisado vizinho, que tinham deixado para trás.

sorriu. Sim, ela tinha um ferrão e podia usá-lo. Ele mesmo tinha vontade de bater em , mas não pelas palavras jocosas: vê-lo tirar do sério o irritava o suficiente para que quisesse dar-lhe uma surra.

Felizmente, o caminho até a delicatessen foi pacífico, assim como a volta para o prédio onde morava. Não havia ninguém no elevador além dos dois e mesmo Wolf pareceu mais aliviado assim que entrou no apartamento quente e aconchegante no terceiro andar.
Ela pôs a mesa, se ocupou colocando as refeições no forno para esquentá-las. Compraram também uma lata de comida para Wolf, que comeu muito antes do dono e, à hora que se sentaram para jantar, ele já dormia no tapete perto da porta.
Sentaram-se no chão, almofadas para todo lado, um cobertor de lã cobrindo-os. tinha o corpo encostado no sofá enquanto ela, animadamente, escrevia no MacBook, depois de uma súbita inspiração. Quando ele se esticava para tentar ler por sobre o seu ombro, ela o empurrava de volta ao seu lugar.

? — Ela o respondeu com um mero grunhido interrogatório, sem tirar os olhos da tela de seu MacBook.

Qualquer um que a conhecesse bem o bastante diria que aquele era o seu normal. Quando estava em modo de trabalho (e, principalmente, tentando escrever algo que não detestasse), pouco poderia ser feito para chamar a sua atenção.

— Eu só quero que saiba que… Eu não vou depender de você por muito mais tempo. Assim que sair o meu primeiro salário eu vou…
— O quê? — Ela ergueu os olhos, as sobrancelhas franzidas em uma clara confusão. — Você não gosta daqui?
— Eu gosto. Eu só não me sinto à vontade para ficar na sua aba por muito mais tempo.

Ah, lá estava o velho orgulho do macho alfa ferido. dobrou as pernas dos óculos pousando-os no sofá.

— Bem, eu não o considero um explorador.
— Eu sei que não. — parecia resoluto. Ele estava determinado a não ser um peso na vida dela. E ela, mesmo que ele não soubesse, não o via assim. Tê-lo ali era ter uma constante fonte de inspiração para o seu livro e, também, ter alguma companhia que não fosse o imprestável do Danny. — Isso é sobre o que aconteceu no elevador? — Ele apenas negou com a cabeça.

Ela o olhou, ainda curiosa.

— Tudo bem, então. Você tem algum lugar para ficar? — Ele fez que não, relutantemente. —
— Eu já resolvi isso, .

Ela suspirou diante de sua teimosia irritante e pôs de lado o computador. Realmente não o entendia. Ela não fazia aquilo por pena, havia um benefício em ter-lhe ali e ela realmente não se achava uma companheira tão irritante. Seu orgulho ferido não lhe fazia sentido, mas, ao menos naquele momento, preferiu não revidar e nem começar uma briga. Tinham acabado de conseguir dar uma certa tranquilidade ao seu relacionamento e queria mantê-la.

— Tudo bem.

Por um momento, ele a olhou surpreso. Esperava que ela fosse insistir, mas acabou por não fazer isso.

— Sério?
— Você não é meu refém, , relaxa. — A escritora fez um gesto de descaso e ergueu-se do chão, esticando a coluna uma vez que estava de pé.

Ele a observou. Era bonita, embora não de um jeito óbvio. Claro, seu rosto era agradável, seu corpo não era o de uma supermodelo, mas também lhe atraía. Ela não se parecia em nada com as mulheres que ele costumava arrastar para a sua cama e nem com a esposa de seu antigo patrão. Mas, ainda assim, algo nela despertava-lhe uma certa urgência, algo que ele gostaria de saciar, embora não soubesse por onde começar. Fazia tempo desde que havia se considerado o homem que foi um dia, embora, agora, começasse a ver-se de forma diferente. Seu pai costumava dizer que “o trabalho edifica o homem” e ele certamente sentia-se diferente.
começava a ter de volta o que ele considerava sua dignidade: a aparência estava melhor, ele comia bem, tomava banho todos os dias, tinha um trabalho e… Tinha . era uma parte fundamental de sua nova fase. Ela acreditou nele, ela o viu, deu-lhe uma chance, ajudou-o a se recuperar.

— Eu vou ter um seguro-saúde. — Ele comentou, mudando de assunto ao ver que ela notara seu olhar duradouro.
— Ah, isso é bom. — Ela sorriu de modo felino.
— Não é nada muito sofisticado, mas acho que eu já posso fazer um check up em breve.
— É mesmo? — se aboletou ao lado dele, seu ombro roçando o dele levemente, de uma maneira que lhe causou algum embaraço… E também alguma excitação.

Dessa vez, ficou sem fala. Ele resmungou algo ininteligível ( achou ter entendido a palavra sono em algum lugar, mas não se ateve a isso) e a olhou de lado.


— O que é agora? — Ela tinha avançado para cima dele, ladeando seu quadril com as pernas e sentando-se em seu colo.
— Seu irmão.
— Danny não vai voltar até de manhã, acredite.

— Meu deus, fique calado para que eu possa te beijar.

E ambos sorriram: ela, de um jeito coquete; ele, de um jeito inicialmente tímido, algo que logo se perdeu tão logo começaram a se beijar.


Capítulo 19

, por um momento, quedou estática. As palavras, ainda estranhas aos seus ouvidos, fizeram sentido apenas segundos depois. Segundos que, para , soavam mais e mais como mau agouro. Talvez , escritora famosa e bem-sucedida, não quisesse namorar um homem como ele. Era compreensível. Ele entenderia se ela não quisesse. Quem poderia culpa-la?

— Levante-se daí.

Ela o urgiu a levantar com um gesto impaciente. Sua mudez não era voluntária. As palavras, depois que entendera o que havia perguntado, ficaram presas na garganta. Sua incapacidade em falar, então, deixava os dois nervosos, enquanto uma roda de parentes se formava, todos com o mesmo olhar analítico, prontos para acompanhar e dissecar aquele drama prestes a se desenrolar ao vivo.
Quando se levantou, ainda incerto se deveria se recolher ou encarar a humilhação de frente, foi puxado – com bastante força para alguém que sempre achava um jeito de se livrar da academia – pela escritora. Suas sobrancelhas franzidas, ele a viu abrir e fechar os lábios em silêncio.

, você está me deixando um pouco nervoso. — A voz repleta de sarcasmo a fez esboçar um sorriso. Não era sua intenção, mas, ao vê-lo daquela forma, divertiu-se.

Ela o puxou para um beijo tenro. Os familiares, incluindo três irmãos mais velhos orgulhosos, duas cunhadas e diversos sobrinhos, bateram palmas animadas e assoviaram alto, fazendo com que corasse assim que o beijo se encerrou. Olhos brilhantes, ela encarou cada familiar que se aproximou desejando felicidades. E , ao seu lado, tinha um sorriso largo no rosto, como nunca antes havia visto. Ela olhou para Josh, que, ao seu lado, sorria ao vê-los tão felizes.

— Eles se gostam mesmo, não é? — Sabia, é claro, a resposta. Não era difícil de adivinhar e conhecia sua irmã o suficiente para saber que aquele cara era diferente.
— Espero que a gravidez não tenha te deixado cega. — Josh retrucou, o que a fez dar-lhe uma cotovelada nas costelas. — Cega, não, mas agressiva... Não me bata de novo! — Ele desviou-se do segundo golpe, rindo.

Os dois encararam a felicidade explícita do casal de longe. Não era usual. Não mesmo. sempre se cansava dos caras. Ela namorava caras melancólicos, artistas torturados e homens absolutamente inaptos para o convívio com seus amigos. E em menos de duas semanas, antes que qualquer coisa se tornasse oficial, eles eram substituídos por algum outro homem. Era sempre assim com a sua irmã. Não que fizesse de propósito, mas cansava-se rapidamente dos tipos que arrumava.
Isto é, até agora. estava surpresa pela quantidade de tempo que tinha durado. Pobre diabo, não demoraria muito agora. Esperava que a irmã o chutasse com a mesma rapidez usual. A irmã mais velha deu-lhes as costas. Já era quase meia noite, em breve teria que servir o presunto, uma tradição familiar.
E mesmo que soubesse muito bem que sua irmã e seu, agora, namorado, não estavam exatamente em paz, sentia-se magoada por não ter o apoio da pessoa, em todo o mundo, que se sentia mais próxima: . No entanto, era Natal. Não iria deixar que esse sentimento estragasse a excitação crescente em seu peito. Nem mesmo tiraria isso dela.

ainda estava deitado na cama e ela conseguia observá-lo, enrolado na manta de pele que tinha ganhado de sua agente, no Natal retrasado. De pé, na bancada da cozinha, ela bebeu um gole de café quente – e com apenas uma pitada de sal e canela, o que realmente fazia diferença – e olhou o relógio digital na parede. Em alguns minutos, apenas. Esperou, em seu pijama de flanela, pacientemente.
O celular tocou assim que tinha terminado o seu café da manhã. Ela observou a foto na tela do celular, constatando que era Charles e sorriu. Serviu-se de mais uma caneca da bebida cafeinada, que fazia o seu mundo girar, enquanto atendia o celular.

— Você ficou louca, !? — Seus lábios se esticaram em um sorriso felino que ele não conseguiu ver. — Você matou Caleb!? Sem nem terminar o livro? Sabe o que os seus fãs vão fazer quando lerem isso?
— Vão devorar o próximo capítulo.

Na noite passada, não tinha dormido muito. Entre sexo majestoso e altamente satisfatório com , os votos por sua felicidade da família, na ceia de Natal, e a rejeição de , tinha escrito um novo capítulo. Sentada na beirada da cama, com o MacBook no colo, tinha conseguido escrever cerca de vinte páginas em algumas horas, selando o destino de Caleb Teague em um assassinato incrivelmente intrigante. E ela sabia exatamente o que faria dali.
Charles, no entanto, não fazia ideia do que tinha entrado na cabeça daquela desmiolada. Ele sabia, assim como todo mundo, que Crimson Tales era suposto para ser uma trilogia durante todo o tempo. Esse não era o problema, embora achasse que ela podia estender e fazer uma franquia realmente lucrativa, mas ele era o seu editor e apesar de sempre ser real e cru com ela, não podia forçá-la a escrever. Entre saber que o terceiro livro seria o último e matar seu protagonista antes do final do livro, no entanto... estava, decididamente, muito avariada das festas frequentes em que costumava se meter. O álcool tinha tirado seu brilhantismo.

, você sabe que eu sou seu editor há quase nove anos... — Ela continuou em silêncio, divertindo-se com o nível de stress que lhe infligia. — E que eu realmente não tenho medo de te dizer o que você precisa ouvir, então, ouça: isso é maluquice. Você não pode fazer isso com...
— Aí que está, Charles, eu posso. É o meu livro e o meu personagem. — Ela o ouviu respirar pesadamente. — E, além do mais, eu sei o que farei, fique calmo, não sou nenhuma amadora. Afinal, eu estou no ramo há quase nove anos, não?

Quando a ligação acabou, sentiu-se muito satisfeita consigo mesma. Tinha as rédeas de seu livro, ele era de sua criação e se queria trucidar Caleb Teague com uma motosserra, ela poderia fazer isso.
Terminou de beber seu café, voltou para a cama e aninhou-se nos braços quentes do músico. Ele trabalharia no turno da noite, mesmo que ainda fosse tão próximo do Natal. E ela, também, tinha planos para a noite, mas nenhum envolvia o seu personal trainer.

A tenda estava no local de sempre e Madame Shayanni sorriu ao vê-la. Esfregando as mãos enluvadas, surpreendeu-se com a temperatura amena dentro da tenda roxa da vidente. Ela retirou o cachecol e olhou a mulher de pele morena.

— Madame Shayanni estava esperando você, .

Tinha perdido o apelido de cética, notou, o que era justo. Há muito o seu ceticismo tinha evaporado. Ao contrário, agora era uma supersticiosa que acreditava nas cartas de tarô de uma mulher que trabalhava em uma tenda roxa. Era patético e ela sabia.
Sentou-se, a contragosto, na cadeira de sempre, observando a mulher embaralhar as suas cartas com uma habilidade invejável. No ritual que ela já conhecia, a Madame Shayanni dispôs as cartas de seu baralho em fileiras, aguardando as virar. E a escritora, concentrada em seus questionamentos, virou as sete cartas: a Morte, a Estrela, o Carro, o Mundo ao centro, juntamente com o Julgamento, o Sol e a Força. E muito embora a carta da Morte tivesse assustado-a inicialmente, agora já a olhava com familiaridade, era a segunda vez que aquela carta aparecia em sua leitura. Com paciência, ela aguardou a vidente. A mulher olhou atentamente cada carta, a expressão séria e compenetrada.

— Finalmente, ! — A outra murmurou, sorrindo.
— Finalmente...?
— Ah, claro, a leitura! Perdão, Madame Shayanni se distraiu. Oh, bem. — Ela apontou a carta do Mundo, no centro das sete que tinha puxado. — Esta aqui me diz que finalmente restabeleceu o equilíbrio na sua vida. E a Morte me diz que, finalmente, está deixando para trás a fase antiga de sua vida. O Julgamento, o Sol... Suponho que as coisas deram certo com aquele homem?
— Ah, eu... Hm, sim, nós...
— Ótimo, ótimo. Eu vi ali, querida. Os problemas familiares também se resolveram, vejo aqui, quase todos, ao menos. Isso é muito bom. E a Estrela! Ah, sim, Madame Shayanni vê que seu livro será um sucesso, ela vê, sim. Agora, precisa apenas se impor, minha cara. Vão tentar diminuí-la, não permita.
— Claro, claro.

A leitura seguiu-se com previsões bem humoradas tais como: um casamento, a possibilidade de achar dinheiro perdido e até mesmo sorte nos jogos de azar. Quando, ao final da consulta, depois de pagar a vidente, preparava-se para sair, Madame Shayanni a parou.

, vejo uma mulher. Ela tem ciúmes de você. — A escritora não lhe disse nada sobre a irmã, por isso observou a outra com intento enquanto pensava no que falar. — Ela não faz por mal. Tente não ser muito dura com ela.

Como não sabia o que lhe dizer, apenas assentiu. Sabia que, de certa forma, tinha também certa culpa em relação aos ciúmes de . E, por outro lado, sua irmã tinha abandonado-a bem antes. Não que pensar assim fosse diferente de como pensava agora, sobre ela, mas tinha plena consciência de que as vidas das duas tinha mudado desde quando a mais velha tinha se casado. Antes, eram apenas as duas contra o mundo, engajadas em namoricos tolos ou casos de uma noite só. A casa estava sempre cheia de amigos e bebida e os vizinhos as odiavam intensamente. Agora, era só , quando, na verdade, tinha se acostumado a morar com Cameron e . E nem por isso ela ficava se queixando sobre tudo.
Não via como poderia ser tão egoísta. E tampouco via o quanto a sua felicidade poderia machucar a mais velha. nem ao menos considerava que isso pudesse ocorrer, que talvez estivesse mais infeliz do que deixasse transparecer. Nunca lhe ocorrera que talvez a ausência de Joseph, seu marido, pudesse ser mais sentida durante o período de gravidez e que, em momentos como aquele, costumava depender da irmã mais nova.
não se deu conta disso, tampouco levou as palavras da vidente em consideração. Achava injusto que sua irmã fosse tão intolerante, ainda mais tendo ouvido, recentemente, as confidências de . Nem ao menos tinha conseguido contar-lhe as coisas que tinha descoberto sobre ele e como ele desnudou seu passado para ela (além de algumas outras coisas) na véspera de Natal.
E porque irmãs são inexoravelmente amáveis e intragáveis na mesma medida, amavam-se suficientemente para saber que nem uma e nem outra dariam o braço a torcer primeiro. considerava um passo particularmente grande ter proposto uma trégua ao músico e não achava que isso fosse lá grande coisa, mas, por ora, serviria. Mesmo assim, ainda tinham se desentendido e ainda precisavam se acertar propriamente. Não nessa noite, pensou, tomando o metrô para ir para casa. Já passava um pouco da hora do jantar quando subiu até o andar de seu apartamento, trazendo comida para Wolf, que farejava audivelmente a porta enquanto ela procurava as chaves, e Snowball, que tinha decidido reaparecer, apesar do vira-latas incomodá-lo um pouco. E porque odiava apenas o dono do gato e não o bichano em si, continuava a cuidar dele e alimentá-lo como sempre fizera.
Tinha recebido diversos presentes, tanto da família – sua mãe tinha quebrado seus próprios costumes e lhe dado um cartão-presente da Macy’s, o que era um grande salto para quem sempre lhe mandava um tricô –, quanto de colegas de trabalho e até alguns fãs. Sua caixa postal estava lotada e o correio já tinha deixado uma boa leva de caixas. Havia de tudo, até mesmo um pedaço de pernil recheado que a vizinha do andar de baixo, uma fã confessa da trilogia, tinha lhe mandado como presente.
jogou o cachecol em cima do sofá da sala, ganhando uma festa animada de Wolf e um olhar entediado do enorme gato branco deitado debaixo de sua pequena árvore de Natal. Tinha certeza que sua mãe tinha lhe forçado a levar algum eggnog para casa... Ela ligou a secretária eletrônica e seguiu para a cozinha, inspecionando sua geladeira em busca de algo para comer, o que, considerando o tanto de sobras que tinha levado para casa e o tanto de comida que tinha ganhado, não era uma tarefa particularmente difícil.
O primeiro recado era da editora. Eles tinham mandado uma cesta de queijos e vinhos, que ela apreciaria mais tarde. A assistente de Charles tinha ligado para lembrá-la que ela deveria dar-lhes uma resposta sobre a divulgação de seus livros na plataforma eletrônica. Rolando os olhos, achou o eggnog na geladeira e o pôs no copo do liquidificador, já que a mistura tinha ficado um tanto de tempo sem ser mexida. O recado seguinte foi de sua agente, que atualmente estava curtindo um Natal tropical na Colômbia. As mensagens seguintes se dividiram entre contatos de trabalho, uma parte mais afastada da família e, claro, seus amigos.
Suspirando, sentou-se na poltrona, enrolada em uma coberta de lã, o MacBook em seu colo aberto no arquivo de seu derradeiro livro. O fim de Caleb Teague. Sorriu, bebericando a especialidade de sua mãe enquanto relia alguns de seus capítulos anteriores. Apesar de tudo, a decisão de matar Caleb Teague não era fácil. Era como matar uma parte importante de sua vida, como matar sua galinha dos ovos de ouro. O apartamento caro, as mobílias elegantes escolhidas a dedo por um decorador e tudo o que tinha conquistado sozinha, até agora, devia-se ao seu personagem, suas aventuras e seus modos deliciosamente incorretos para alguém que deveria ser o mocinho.
Naturalmente, matá-lo era a coisa certa a se fazer. Em três livros, ele já tinha sofrido tentativas de assassinato, mutilações, traições e decepções o suficiente para que desenvolvesse tramas intrincadas e profundas sobre espionagem e política. Livros suficientemente desafiadores e bem-humorados, bons para uma leitura casual e ótimos para seus fãs mais ferrenhos, que elaboravam todo tipo de teoria sobre mensagens subliminares escondidas no contexto. Finalmente, era a hora de deixar Caleb Teague descansar em paz.
Quando chegou ao apartamento, já passava das três da manhã. Ele abriu a porta com a chave extra que a escritora tinha lhe dado e massageou o pescoço dolorido com as pontas dos dedos enquanto andava, no escuro, até a cozinha. Wolf latiu uma vez, mas, quando ele sussurrou para que parasse, o cão apenas tentou lamber seu rosto, pulando animadamente ao seu redor. Cansado, pensou em ignorar o cão, mas aquele era seu melhor amigo. Tinham passado por tanta coisa juntos que parecia torpe não corresponder ao cumprimento desajeitado do cachorro.
Precisava beber alguma coisa, tomar um banho quente e enfiar-se debaixo das cobertas com . Apesar de já se conhecerem há alguns meses, a noite passada tinha sido a primeira que haviam passados juntos. Na cama, ganharam uma conexão diferente da que já tinham, o que apenas serviu para ele pensar que tinha perdido sua mente. No trabalho, ele a desejava a todo momento e sempre que via algo digno de nota, fazia questão de lembrar-se para contá-la. Quando via algo na vitrine, queria levar para que ela usasse e quando seu chefe o elogiava pelo bom trabalho, era a insistência dela para salvá-lo que ele relembrava. Tudo em seu mundo parecia girar ao redor dela. Os amigos dele, eram os dela. O trabalho dele, ela tinha arrumado. O cão dele estava bem cuidado e alimentado porque ela se dispunha a tomar conta dele.
E, de alguma forma, aquele era exatamente o motivo que o levava a querer ter um lugar para si mesmo. Não podia pagar nada luxuoso. Não podia pagar mais que um quarto e sala, mas, pela primeira vez em anos, ele podia pagar algo que não fosse comida congelada e cordas para o seu violão. Então, quando saiu da cozinha e a viu esparramada no sofá, o gato dormindo em cima de sua barriga e o notebook dobrado na mesinha de centro, sorriu e a observou, à meia luz, por algum tempo.
Percebeu, então, que ambos tinham mudado de maneira notável nas últimas semanas. A começar, ele já não era o homem soberbo que tentou afastá-la a todo custo. Ela, tampouco, dava sinais de ser a mesma escritora avoada e superficial de antes. Ambos evoluíram juntos, mudaram juntos e, de alguma forma, não via nada de errado nisso. Mesmo porque, mudando ou não, ainda era a mulher que o salvara e cuidara de suas feridas, mais de uma vez. Ainda tinha o mesmo olhar inteligente, o mesmo tom de voz morno e o sorriso sarcástico que ele aprendera a amar. A amava inteiramente e, para ele, isso era uma novidade e tanto. Em seus dias de glória, amou apenas a si mesmo. Em seus dias de miséria, odiou tudo e todos, mais ainda a si mesmo. E, em seus dias de redenção, aprendia a amar até mesmo as falhas daquela mulher que, inicialmente, era apenas uma dor de cabeça, assim como também era um sonho distante.
O destino trabalhava de formas engraçadas. Quando ele a queria e finalmente tomou coragem para voltar àquele lugar no Brooklyn, desapareceu. E quando não a queria, ela tinha reaparecido em seu beco, quase vítima de um homem mal-intencionado. E porque o destino era sábio, dessa vez ele a tinha salvado, equilibrando a balança entre os dois.
Depois de muito refletir, entrou no banheiro e tomou uma ducha quente, rápida e relaxante. Vestiu as calças de moletom, retornou à sala e, em um gesto cheio de carinho, a tomou entre os seus braços, carregando-a até a cama. Foi só quando ele a pôs na cama, gelada pela falta de um corpo para aquecê-la, que ela abriu os olhos, ainda sonolenta, e sorriu lentamente para ele.

— Oi. — Disse de forma simples, pontuando o cumprimento com um bocejo preguiçoso. Esticou-se na cama, chegando perto dele e abraçando-o de lado. — Como foi o trabalho?
— Foi bom. O seu?
— Ótimo.

Ele não a via mais reclamar de um bloqueio, embora soubesse que nem tudo eram flores no processo criativo. O músico colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha e beijou-lhe os lábios levemente. Os dois dormiram um sono tranquilo e sem sonhos, aquecendo-se juntos.
O som de seu telefone tocando a despertou. tateou o criado-mudo cegamente, achando finalmente o aparelho sem fio, que levou à orelha sem nem mesmo abrir os olhos.

— Alô? — Sua voz grogue nem ao menos disfarçava o mau humor de ter sido acordada.
— Acordei você?

Sua mãe era acostumada a acordar com o sol, por causa da vida cotidiana na fazenda. Quando olhou o relógio digital, viu que eram sete da manhã. Ela também gostava de acordar cedo, mas isso já era ridículo.

— Não, mamãe. — Embora fosse bem óbvio para as duas que Margot tinha acordado-a, sua mãe consideraria isso uma grosseria e não queria desentender-se com ela tão cedo.
— Ah, que bom. Eu pensei em ligar para saber como estão as coisas aí.

Sua mente ainda estava um tanto lenta, por ter acabado de acordar. Ela ouviu resmungar e levantou-se, finalmente, enrolando-se em um robe atoalhado enquanto conversava com a mãe no telefone e saía do quarto.

— As coisas aqui? Está tudo bem. — Não tinha entendido bem o que a matriarca queria dizer com isso.

Não tinha motivo algum para que ela acreditasse que as coisas iam mal. Sua vida profissional ia bem, a amorosa também, na noite passada tinha chamado Josh e Cam para tomar o resto da gemada que tinha levado para casa e os três passaram uma noite agradável antes que fossem embora e ela fosse dormir, depois de escrever mais páginas. Sentia, claro, falta do contato com a irmã mais velha, mas esse parecia ser o único problema em sua vida agora.

— Já falou com a sua irmã?

A escritora suspirou. Não tinha nem tomado café ainda, tinha sido brutalmente arrancada de sua cama quente e seu namorado para falar com a mãe, no telefone, sobre sua irmã mais velha comportando-se como uma criança mimada? O dia começava vertiginosamente mal.

— Não, ainda não.

Do outro lado da linha, houve apenas silêncio, mas a imaginava torcendo os lábios e franzindo a testa de seu modo característico, exatamente como fazia em sua infância inteira quando a achava fazendo algo errado.

— E o que está esperando para fazer as pazes? — ficou em silêncio. Não daria o primeiro passo. Quem dava o primeiro passo automaticamente admitia que estava tanto errado quanto derrotado. E a culpa não tinha sido dela, a derrota também não seria.
— Já pensou que talvez tenha que me pedir desculpas pela cena que ela fez no Natal? — Acabou rebatendo, a voz um pouco mais aguda denotava que algum nervosismo ainda rondava o assunto.
— Ela pediu desculpas, . Ao rapaz também, eu soube. E mesmo assim você a tem ignorado.

Não tinha sido suficiente. não podia pensar que ficaria tão amarga com a sua felicidade ou que rejeitasse o único homem que tinha amado até agora. E parecia tão distante de seu comportamento usual que a tinha assustado um pouco. Mesmo assim, mesmo com tudo isso, amava a sua irmã e sentia-se culpada por não ser capaz de perdoá-la ainda.

— Mamãe, vamos deixar esse assunto de lado. O que achou do Natal em Nova York?
— Sem desviar-se do assunto, . — O tom rígido era exatamente o mesmo de sempre. E, mesmo sendo uma mulher adulta, subitamente viu-se de volta aos dias em que encolhia-se só de pensar no sermão que estava prestes a ganhar. — Ou vocês se acertam...
— Mamãe, isso é realmente necessário?
— É claro que é necessário! Se vocês não se acertarem, eu mesma vou acertar as coisas, . E vocês duas vão se arrepender por ter me metido no meio.

Ninguém tinha envolvido a mãe na briga, mas não queria irritá-la ainda mais e, entre algumas promessas vagas de acertar-se com , conversou com a mãe por alguns minutos. Ouviu-a reclamar sobre o marido de , Joseph, sobre como Danny tinha insistido em ficar por Nova York e perguntou-a por onde ele andava.

— Danny mal tem ficado aqui no apartamento. Ele aparece, toma banho, troca de roupas e só volta no dia seguinte. — Confidenciou, embora achasse que aquilo se devia também ao seu desejo de não incomodar o casal. E sentia-se, de certa forma, agradecida com a boa intenção, embora também quisesse ter a companhia de seu irmão de vez em quando.
— Conhecendo Danny, ele deve ter achado um rabo de saia por aí. — Nisso, ambas concordavam. — E como está o ?
— Mamãe...
— Eu não estou perguntando quando você vai se casar, , eu só quero saber do rapaz.
— Ele está bem. — Respondeu, logo depois de respirar profundamente. O silêncio a compeliu a continuar falando. — Nós dois estamos bem.
— E então?
— E então o que, mamãe? — Sabia que acabaria se arrependendo de perguntar.
— Acha que ele pode ser... Como vocês falam? “O cara”?

Reprimiu a vontade de perguntar onde Margot tinha ouvido essa expressão, mas só porque a vontade de rir acabou sobrepondo a outra. teve que tampar a parte inferior do telefone com uma mão, sua própria boca com a outra ou sua mãe ficaria nervosa com o descaso com o qual levara aquela perguntinha pretensiosa.

? — Ela respirou fundo, tentando parecer normal.
— Desculpe, foi o gato que, hm... — Desistiu de inventar uma mentira, na maioria das vezes sua mãe as farejava no ar. — Eu não sei, mãe. Talvez. Vamos ver como as coisas vão andar.
— Eu já te disse que você não está ficando mais jovem?
— Trinta e nove vezes, sem contar essa.
— É porque você não está ficando mais jovem. Você nunca será tão bonita quanto é agora, querida, aproveite.

Não era a beleza, sabia, que poderia amarrar um parceiro a si. Também não era a necessidade de se assentar e formar uma família, suas visões artísticas ou quanto dinheiro um deles tinha. Um relacionamento para a vida toda não era baseado em coisas fúteis como essas, embora, no começo, se apegasse a toda uma conceituação supérflua do que poderia ser um relacionamento, apenas para se decepcionar ao descobrir que seu amante não era nada do que desejava, mas, sim, uma pessoa como ela, de carne e osso.
Quanto ao músico, conheceu seus defeitos muito antes de enxergar suas qualidades, viu nele o que ninguém mais tinha visto e deu a ele a chance que precisava para recuperar a sua vida. Isso era importante. Ela, que, inicialmente, seria como qualquer outra pessoa, fechando os olhos para alguém como ele, teve um choque violento de realidade ao ver que ele não tinha se fingido de cego, tentando ajuda-la como podia.
E, se perguntado, provavelmente diria a mesma coisa, que, no Brooklyn, anos atrás, uma mulher o tinha salvado da morte certa. Não tinha nenhuma dívida entre os dois e o que ela achou que tinha sido o motivo de sua atração, desapareceu na frente de seus olhos na noite de Natal. E, ainda assim, ela queria continuar com ele, ser sua namorada, falar com ele sobre o seu dia e reclamar sobre as coisas erradas que ele fazia. Não era perfeito, ela sabia, o relacionamento que tinham, mas era real e, mais do que isso, era algo para chamar de seu.
respirou fundo. Havia, ainda, um assunto que a sua mãe não entendia. E ela queria fazê-la entender. Desesperadamente.

— Mamãe, é tão ruim assim se, no final das contas, eu terminar solteira? — Margot foi pega de surpresa.
— O que quer dizer, ? — Decidiu não se precipitar, afinal, para que o relacionamento de ambas não voltasse a ser fundado na maior distância que conseguiam impor à outra.
— Eu quero dizer que eu trabalhei para caramba. Eu tenho vinte e seis anos e uma trilogia de sucesso, um contrato com um estúdio em Hollywood para adaptar meu primeiro livro e, com sorte, toda a trilogia. Eu estou sempre entre as pessoas mais influentes de Nova York abaixo de trinta anos, eu viajo pelo menos três vezes no mês para divulgar o meu trabalho, fazer uma entrevista ou aparecer em um coquetel. Sabe, eu fiz tudo isso sozinha. Não sozinha, não, mas solteira. Eu não preciso ser definida por um homem, ou um relacionamento, para ser uma mulher de sucesso.
— Você também não vai se sentir amada pela sua carreira. — A mãe atalhou.
— Mamãe, eu já me sentia amada, mesmo antes do . Eu tenho a minha família, quatro irmãos, vários sobrinhos, cunhadas maravilhosas e um cunhado absolutamente detestável. E tenho você.

Com isso, a linha ficou em silêncio. chegou a pensar que sua mãe tinha desligado em sua cara, quando ouviu algo que, em seus vinte e seis anos, poderia contar em uma mão todas as vezes em que algo semelhante aconteceu.

— Eu sinto muito, .

Sua mãe tinha se desculpado.


Capítulo 20

suspirou novamente, embora por fora sorrisse de maneira impecável e polida diante de sua sogra. Tinha dois dias até o Ano Novo. Ela tinha que se lembrar que seus sogros iriam embora logo depois da festa, logo no dia seguinte à festa. E, além do mais, nenhum dos dois tinha culpa por seu mau humor. Não era sua culpa, não particularmente. Seus sogros eram, sim, um tanto esnobes e irritantes, sempre torcendo o nariz para qualquer coisa que não obedecesse aos seus padrões de qualidade (o que frequentemente incluía a esposa de seu filho e tudo que dela provinha).
A verdade era que não tinha sido criada como uma socialite. Sua família era abastada, isso era certo, mas seus modos deixavam a desejar. O modo como se vestia, também. O cabelo deveria ser tingido de uma cor sóbria, aparentemente. Até mesmo tinha sido questionada sobre a família, já que sua sogra certamente se importava com a pedigree de seu neto.
E quando sua sogra se ofereceu para ficar com ela no último trimestre da gestação, viu-se negando profusamente com a desculpa de que ficaria com ela. Claro, em condições normais, talvez ficasse com ela. Eram inseparáveis antes de .
Quando sua mãe se sentou para almoçar com ela, percebeu-a olhando-a bastante. franziu as sobrancelhas, intrigada. Margot queria dizer alguma coisa, o que a fez respirar fundo e preparar-se psicologicamente.

— Liguei para a sua irmã hoje de manhã. — enfiou uma garfada particularmente grande de macarrão carbonara na boca, para impedir o muxoxo que certamente deixaria os seus lábios, caso contrário. Ela sabia que esse assunto viria à tona uma hora ou outra. — Está na hora de resolverem isso. E logo. Como vão passar o Ano Novo juntas e brigadas?

A mãe era teimosa. Isso tinha sido um traço passado a todos os filhos. Alguns, como Danny, eram menos teimosos. Outros, como e , eram teimosos como burros velhos.

— Eu não vou pedir desculpas a alguém que não se importa comigo. — Retorquiu, sentida.

tinha sido o seu porto seguro, mesmo que, em realidade, fosse a irmã mais velha. Não que fosse muito mais responsável ou que não fosse uma mãe a todo e qualquer um de seus amigos. Mas, nos dias em que se sentia triste, a animava. Quando precisava beber e relaxar, sabia o lugar ideal para onde ir. Quando precisava de um ombro para chorar, estava lá para aninhá-la.
Perder a companhia, então, de sua única irmã era mais difícil do que tinha imaginado. se sentia solitária. Seu marido jamais estava em casa. Sua sogra tinha se instalado em sua casa há dois dias e, com a mãe também morando ali, nunca tinha um momento de paz para si mesma. Além de tudo, era muito vaidosa e ver que suas antigas roupas já não cabiam nela ou que seus pés estavam inchados demais para seus Blahniks preferidos lhe fazia chorar.
Era uma grávida que mudava de humor a todo tempo, para o desespero de Joseph. Chorava quando estava feliz, muito mais quando estava triste e mesmo quando queria brigar com seu marido, começava bradando ofensas e terminava em lágrimas, afogando qualquer briga no inquieto silêncio incômodo de Joseph, que jamais sabia o que fazer quando ela estava assim. Imaginava que , sendo mulher como ela, a entenderia.
Não ajudava, também, o fato de morar longe dos amigos. Morava no Upper East Side, em um prédio caro, longe do apartamento no Greenwich Village de Josh e Cam, mas, mesmo assim, eles marcaram para jantar juntos no Nobu, o restaurante preferido de , no centro de Manhattan.

, se eu não a amasse tanto, jamais viria até Manhattan na véspera da véspera do ano novo. — Josh resmungou, beijando-a no rosto.
— Eu precisava sair de casa. — Ela anunciou, com remorso, pousando a mão em cima da barriga em um ato inconsciente. — Minha mãe já é controladora o bastante, mas tente viver com a sua mãe e a sua sogra.

Cameron sorriu, simpático à sua dor, enquanto Josh simplesmente fez um gesto displicente.

— Não precisa dizer mais nada. — Ele gesticulou para o garçom.

Todos fizeram seus pedidos. De alguma forma, mesmo Josh estava fazendo o possível para respeitar a recente distância entre e . Se bem que, possivelmente, seu marido pudesse tê-lo convencido a não falar nada, já que a política pessoal de Josh poderia se resumir a: perguntar não ofende. De fato, tinha quase certeza de que isso tinha ocorrido.
Para dizer a verdade, a última coisa que queria era afastar-se de . Deus do céu, a briga toda tinha começado precisamente porque queria vê-la mais. Porque sentia ciúmes. O afastamento tinha sido imposto por . E, de uma forma ou de outra, até mesmo conseguia entender a irmã. Devia ser difícil balancear tudo. E embora entendesse, não podia perdoá-la. Trabalho, homens, falta de tempo… Nada disso as tinha separado antes. Nada. Nem mesmo quando se apaixonaram por Gerold Lane, simplesmente o rapaz mais bonito da escola, na época.
E naquele tempo longínquo, quando estava no último ano e no oitavo, as duas decidiram que nem uma e nem outra o chamaria para sair, além de, se Gerry Lane quisesse sair com uma delas, a outra não aceitaria. É claro que, quando Gerry quis sair com e ela aceitou, , em retaliação, jogou toda a sua maquiagem pelo vaso sanitário e não conseguiu sair com ele porque não confiava em sua beleza natural.
Agora, o incidente era motivo de risadas. Na época, as duas ficaram sem se falar por dois dias até perceber a tolice que era brigar por garotos. Garotos iam e vinham, mas elas eram irmãs. Nada poderia superar esse laço. Nada além de .

— É ridículo. — anunciou, fazendo Josh parar seus hashis a meio caminho de sua boca. — É ridículo, sabe? Mais de dez anos atrás nós fizemos um pacto para nunca mais brigar por causa de garotos – homens, agora. E olha o que aconteceu. — Seus olhos encheram-se de lágrimas.

estava farta das mudanças de humor e do sentimentalismo. Também estava cansada de ter suas emoções tão à flor da pele e de chorar a todo tempo. Era ridículo e não combinava com ela. O que dizer, então, de Josh e Cameron, que apenas dois minutos atrás estavam fazendo a futura mamãe rir com uma situação ocorrida em seu escritório de advocacia? Os dois estavam perplexos.

— Quer saber de uma coisa? — A voz de Josh soou, depois de entregá-la um guardanapo. — Cam me fez prometer que eu ia calar a minha boca…
— Josh, não. — Ele advertiu, mas o personal mal lhe deu atenção.
— Eu vou falar de qualquer jeito. , você foi uma babaca. — Ele pontuou a frase apontando um hashi pra ela. — E suas lágrimas não vão me amolecer. Pare de chorar e vamos conversar como adultos.

, a princípio, chorou e soluçou, mas à medida que se acalmava, ela limpou os olhos com o guardanapo e voltou seus olhos para o seu amigo.

também foi uma babaca. E, sinceramente, todos nós somos babacas. É como somos capazes de nos aguentar. — Cameron já tinha desistido de controlar a boca do marido e pousou o queixo na mão, olhando de um para outro. — Mas você acha mesmo que tinha direito de destratar ? Sério?
? Isso não é só sobre , Josh! — Ela estava sentindo vontade de chorar novamente, mas segurou-se. — não tem mais tempo pra mim…
, cresça. Vocês não estão mais na roça onde vocês nasceram. Ela trabalha. Ela está há séculos tentando escrever aquele livro. Ela arranjou um namorado. Ela está tentando ser feliz pela primeira vez na vida.
— Ela não tem o direito de me deixar sozinha. — A outra fungou.
— Engraçado, eu me lembro de uma noiva que até pouco tempo atrás justificava tudo com “eu estou planejando meu casamento”. — Josh continuou. Cam deveria convencê-lo a fazer direito. Ele seria um ótimo promotor.
— Josh, era meu casamento. Eles não estão casados!
— Não, mas para a é quase isso! Quantas vezes você viu a se entusiasmar com um cara e largá-lo logo depois? Ou então quantas vezes você a viu deixando de lado tudo o que ela estava fazendo para te ajudar?
— E o contrário? — A voz da grávida subiu uma oitava. — Quantas vezes eu a ajudei?
— Bom, quantas vezes você a ajudou quando Joseph estava com você? — abriu a boca, mas fechou-a novamente. — Eu não estou dizendo que ela está certa,
— Não, acho que é exatamente isso que está fazendo. Vocês estão do lado dela.
— Pelo amor de deus! — Josh olhou para ela, frustrado. — Eu sou o primeiro a dizer a quando ela está errada, me dá um tempo! — Ele se inclinou sobre a mesa, olhando fundo nos olhos de . — , não está certa de te ignorar por isso. Eu só quero que você veja as coisas da perspectiva dela. E se está assim tão incomodada, então pega a merda do seu celular e ligue para ela. Proponha uma trégua. Mostre a ela como você se sente. É tão difícil assim? — Ela mordeu o lábio. — , isso é importante pra ela. Ela vai precisar de você, também, como você precisa dela agora. Vocês são irmãs. Façam as drogas das pazes.

Pela primeira vez, não retorquiu nada do que foi dito. Ela olho para Cam, que comia seus sashimis de atum com uma elegância silenciosa, e dele para Josh, que ainda parecia prestes a dar-lhe outro sermão.

— Agora, será que eu posso comer meu tartar de salmão em paz?


Dia trinta de dezembro. O trânsito era um inferno absoluto, todas as lojas estavam lotadas e, felizmente, tinha contratado uma excelente planejadora para lidar com sua festa de Ano Novo. Ela não precisava de todo o stress com sua irmã e a gravidez se acumular com o planejamento de uma festa perfeita. Amanhã, nessa mesma hora, uma equipe de decoradores estaria na cobertura onde morava, o buffet seria entregue e a planejadora teria tudo sob controle. Ela só desejava poder fazer a planejadora obrigar a perdoá-la pelo comportamento indevido no Natal. Quando abriu a porta pra ela, franziu a sobrancelha e olhou os dois homens atrás da irmã.

— Intervenção! — Josh gritou, empurrando para o lado e puxando com a outra mão.
— Intervenção? — , pelo jeito, estava imersa em seu mundo literário. O notebook estava na mesa, ao lado de um pedaço de cheesecake com calda de frutas vermelhas… se lembrava do cheesecake que elas costumavam comer sempre, quando a mais velha ainda morava ali.
— Vocês precisam. — Cam disse, de modo apaziguador.
— Olha, isso é muito legal, mas eu estou ocupada. — Ela gesticulou para o MacBook. — Sabe, eu trabalho.
— Senta a bunda no sofá, . — Josh ordenou.
— Não. — Ela cruzou os braços.
— Não? — Josh perguntou, ameaçador, pairando sobre ela. Ele era mais alto que qualquer pessoa do apartamento.
— Não. — Ela repetiu, nem um pouco intimidada.
— Eu odeio você, . Por sorte, eu trouxe reforços. — Ele se virou para . — Você, senta.
— Reforços? Joshua, o que diabos você…

sentou-se na poltrona em frente ao sofá, olhando a irmã de esguelha. Tinha insistido para ir sozinha. Na verdade, mesmo que estivesse hesitante em relação àquilo, era mil vezes preferível ir sozinha do que ter Josh e Cameron se metendo… E a mãe ainda estava no meio.
Margot adentrou o apartamento de modo bastante digno.

, sente logo. — Diante da ordem da matriarca, se sentou, a contragosto.
— Mamãe? Como chegou aqui? — Ela olhou para Josh, que sorria, muito satisfeito com ele mesmo. — Você está morto.
, isso é jeito de falar com os seus amigos? — O tom exasperado de Margot a fez se calar. — Eu pedi a eles para me trazerem aqui. E são muito simpáticos, aliás.

podia apenas observar as reações de . Será que ela estava brava? Sabia que toda a ideia tinha sido idiota, como a maior parte das ideias de Josh. Não sabia o que tinha dado nela para ter sido convencida a topar uma empreitada daquelas.

— Agora… — A mãe olhou de uma à outra. — Peçam desculpas.
— Eu não fiz nada errado. — foi rápida em rebater, irritada que tinham atrapalhado seu trabalho para algo tão infantil.
— Fez, sim. — Margot a cortou. — Mas vai falar primeiro.

A irmã mais velha sentiu quatro pares de olhos a observando e engoliu em seco. Ela respirou fundo, tentando acalmar as batidas erráticas de seu coração, e se endereçou a .

, eu sinto muito pelo modo que tratei você. E o .
— Me chamou? — Com uma camisa de malha e calças de moletom, ele apareceu do corredor. — É uma festa? — Troçou, observando a quantidade de pessoas ali.
— Ah, , sente-se. — Margot disse, gentil, gesticulando para o mesmo sofá onde sua filha caçula se sentava.

Era incrível como ela tratava melhor o namorado da caçula do que sua própria filha, observou, emburrada, assentindo para que ele fizesse o que foi pedido pela mãe.

— Nós estamos resolvendo um mal-entendido. — Margot explicou, assim que ele se sentou ao lado da namorada.
— Bem, como eu estava dizendo… — continuou, depois de sua mãe olhá-la com bastante intensidade. — Eu sinto muito pelas coisas que eu disse a vocês dois.

Ela olhou para , cheia de expectativa, mas a caçula apnas soltou um muxoxo. Josh e Cam estavam olhando a pequena cena de camarote, do balcão da cozinha e quase riram quando Margot olhou a filha mais nova com desaprovação.

, o que você tem a dizer para a sua irmã?

O tom da matriarca não dava margem para uma objeção. rolou os olhos, sabendo exatamente o que aconteceria ali: Margot forçaria as duas a se falarem. Ela bufou e olhou para o namorado, que parecia perdido.

— Não foi a mim que ela humilhou no Natal. — Disse de mau humor.
… — A mãe começou, mas um gesto de a fez parar.
— Não, mamãe, ela tem razão. — Seu estômago tinha dado uma volta completa ao dizer aquilo, mas precisava reconhecer seus erros se desejava que reconhecesse os dela. — , eu sinto muito. Desde o começo eu não fui muito receptiva com você. — Ela começou de maneira calma, embora estivesse nervosa. — Isso para dizer o mínimo. Eu não confiava em você. Também não queria um homem que eu não conheço perto da minha irmã. Ela é a minha única irmã. A única pessoa que consegue me entender nesse mundo, porque fomos criadas da mesma forma. E, mesmo sendo criadas da mesma forma, conseguiu se livrar de seus preconceitos bem antes de mim.

As feições da escritora se suavizaram, enquanto o músico permanecia calmo e quase imóvel. Tanto Margot quanto o casal de amigos prestava atenção em , agora. Se alguma vez tinha se desculpado do fundo de seu coração, essa hora era agora. As coisas que ela fazia por amor…

— Você não tinha casa, não tinha dinheiro e eu não sei nada do seu passado. Mas, mais do que isso, você e a estavam sempre juntos, para lá e para cá, de segredinhos e eu… Eu tive ciúmes. Eu tinha todo o tempo dela. Nunca houve um cara na vida dela como você… Bem, nenhum mesmo, mas não estou falando nesse sentido. A nunca foi tão séria sobre ninguém. Eu vejo o modo como ela olha para você. — As bochechas da escritora coraram, mas ela se manteve firme. E o único movimento perceptível de foi quando ele buscou a mão de sua namorada e a segurou com gentileza. — Eu não soube lidar com isso, com a atenção dela dividida… E não só entre nós dois, mas com o livro também. E eu fui extremamente rude com você, então eu peço desculpas… Se você puder me perdoar.

A atenção de todos, então, se fixou em . Ele olhou para a namorada e para a cunhada, pesando bem suas palavras antes de falar.

— Eu estou acostumado com isso. Com as pessoas me olhando como se eu não fosse nada. O jeito que você me tratou não foi novo. — Ele deu de ombros. — Eu só achei que seria diferente com vocês, por causa da .

, então, chorou. Como fazia, praticamente, a cada cinco minutos. Ela limpou as lágrimas, no entanto, e manteve uma expressão determinada no rosto.

— Isso não vai acontecer, . Eu juro. A partir de hoje, eu vou tratá-lo como uma pessoa da nossa família, se você permitir.

Ele anuiu. , então, olhou de um para o outro. E então para a mãe e para o casal.

— Eu amo o . — Ela anunciou calmamente. — De verdade. Qualquer pessoa que o destrate, estará me destratando também. — Ela olhou a irmã. — E eu fui relapsa com você. Eu entendo.

As palavras de Madame Shayanni ecoaram em sua cabeça. Não seja muito dura com ela. respirou fundo. Coisas maravilhosas e incríveis estavam acontecendo. Primeiro, sua mãe pediu desculpas por sempre cobrá-la um casamento. tinha pedido para namorar com ela no Natal. Ela estava escrevendo seu livro sem grandes interrupções, movida por uma ideia que faria o final da trilogia ser o mais bombástico dos três livros. Por que, então, ela alimentaria uma picuinha familiar? Não via motivos para isso.

— Eu preciso de você. — , timidamente, revelou. — Joseph evita ficar perto de mim porque não sabe lidar comigo. Minha sogra está me deixando doida. A gravidez… — Ela fungou, segurando o choro. — A gravidez não me deixa usar nada do meu closet. Meus sapatos não cabem nos meus pés. — Ela limpou os olhos cuidadosamente, para não borrar a maquiagem. — Eu preciso tanto de você, … Me perdoa?
— Por ser uma vadia dramática e uma manipuladora emocional excelente? — riu. , entre as lágrimas, também.
— Pelo amor de deus, acabem com isso logo! — Josh meteu-se, mas ganhou uma cotovelada do marido, um recado claro para manter-se em silêncio.
— Eu te perdoo. — deu de ombros.

moveu-se com rapidez e abraçou a irmã com força. Margot suspirou um “finalmente” e apenas sorriu. Josh e Cam sorriram um para o outro, embora o sorriso de Josh contivesse uma nota de ironia que seu marido leria como “eu sabia que ia dar certo”. Já , presa entre os braços da irmã mais velha, gemeu.

, você está grávida ou tomando esteroides? Alguém me leva até o hospital, acho que fraturei algumas costelas… — Com o rosto vermelho, sorriu.

Ela tinha a sua irmã de volta.

A primeira coisa que notou, na sua festa de Ano Novo, foi que Joseph estava, uma vez mais, longe dela. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não estava sentida com isso. Pelo contrário, queria que ele distraísse seus pais. De sua família enorme cuidava ela. Cada um com seus parentes, tinha dito a ele mais cedo.
Na varanda, seus irmãos estavam falando sobre futebol. As cunhadas estavam comentando sobre a decoração e seus sobrinhos já tinham vindo beijar sua barriga três vezes, saindo correndo rindo logo depois. Ela estava feliz. Claro, o que tinha em sua taça era água com gás e algumas cascas de frutas cítricas e folhas de hortelã para aromatizar, mas, ainda assim, estava feliz. tinha a acompanhado durante a maior parte da festa, impedindo que sua irmã grávida se exaltasse demais com os preparativos.
As duas estavam, aos poucos, reconstruindo seu relacionamento de forma saudável. Entendiam que cada uma tinha a sua vida, mas que nada disso as impediria de serem irmãs e ter uma na vida da outra. tentava, com algum custo, ainda, não se chatear com as longas horas que a outra passava escrevendo. Até tinha feito algum esforço para conhecer mais a fundo. Os dois também estavam, pouco a pouco, construindo uma amizade, em nome de , alguém que os dois amavam.
Com o passar das horas, os sobrinhos foram, um a um, caindo no sono e sendo abrigados no quarto de hóspedes, ao menos até o término da festa. Os adultos, então, se sentaram e conversaram animadamente. Até mesmo os pais de Joseph estavam se mostrando mais simpáticos e seu marido fazia esforço para não se intimidar com seus irmãos… Principalmente com Brandon, que era grande como um urso e gostava de falar sempre tocando o cunhado. Mesmo um tapa amigável no ombro de Joseph parecia tirá-lo do eixo. Depois de tantos desentendimentos, sorria ao ver que, finalmente, sua família estava unida novamente. Margot e não mais se bicavam, tinha achado alguém para caminhar ao seu lado, não estava estressada com qualquer detalhe. A noite parecia perfeita. E faltava apenas um detalhe.

— A bola vai descer a qualquer momento! — Alguém anunciou.

No telão montado na sala de estar, a família se reunião para ver a bola de Ano Novo no Central Park, uma tradição nova-iorquina. Era a primeira vez que todos os passavam as festas em Nova York, por isso era importante dá-los algum gostinho das tradições das duas. Quando a contagem regressiva findou-se, todos se abraçaram e fizeram desejos para o ano que estava por vir. segurou a namorada pela cintura e plantou um beijo cândido em seus lábios.

— Quero te mostrar uma coisa. — Ele sussurrou para ela. sorriu.
— Depois da festa, eu e
— Já falei com ela e ela me permitiu levá-la embora. Vem comigo?

Detrás dele, ergueu o polegar e gesticulou para que eles fossem embora. E enquanto os observava pegarem o elevador, apaixonados e rindo entre si, ela sentiu uma pontinha de inveja daquele começo doce de qualquer relacionamento. Mas mesmo que Joseph não fosse a pessoa mais afável do mundo, tinha que admitir que o amava. E, assim como veio, sua inveja diminuiu, afogada em toda a alegria que ela sentia ao ver sua família junta, feliz e em harmonia. Um novo ano… E uma nova vida, pensou, com a mão em cima de sua barriga. Lá dentro, seu filho chutou. Sua vida seria completamente nova. E ela mal podia esperar.


Capítulo 21

As luzes dos holofotes eram fortes demais. Enquanto na TV Sean Carlton parecia um coroa ainda meio jovial e muito bonito, ao vivo podia ver suas linhas e rugas de expressão com uma clareza magnífica (e toda a maquiagem que usavam nele). Na TV, ele parecia muito mais bonito, mas, na vida real, era apenas ilusão. Ela não ligou. Seu humor estava especialmente bom desde a semana passada. Era o final de fevereiro e, depois de muitas noites sem dormir, com o prazo de seu livro se aproximando cada vez mais, tinha conseguido entregar o livro completo ao seu editor no mês anterior, agora ela já estava ali fazendo a propaganda do seu novo livro. E o peso que tinha sido levantado de seus ombros era o suficiente para fazê-la flutuar sem aquela preocupação horrível com seu trabalho, a divulgação era o de menos.
Tudo bem, talvez tivesse um dedinho naquela situação. Ele era um bálsamo para a sua vida e humor.
Um assistente de produção ajustou o microfone no decote quadrado de seu vestido enquanto ela esperava, sentada na cadeira. Sean, do outro lado dela, recebia uma última camada de pó no rosto quando os funcionários do estúdio começaram a contagem regressiva. Quando findou-se, Sean se virou para a câmera.

— Estou aqui com ela, a mulher do momento, a autora da série Crimson Tales! , pessoal! — Houve uma pausa em sua fala enquanto o som das palmas da plateia tomava corpo.

, sentada em sua cadeira, tinha as pernas cruzadas e um sorriso simpático no rosto, acenando para o público de forma calorosa.

— Obrigada por me receber, Sean. — Ela piscou para a plateia. — Obrigada, pessoal.
— É uma honra recebê-la aqui, . — Ele apontou a plateia. — Acho que eles também pensam isso.

Uma nova salva de palmas se seguiu enquanto ela sorria. devia estar mais acostumada aos programas de televisão, mas a cada entrevista, a cada aparição na TV, ela conseguia ficar nervosa e se perguntar se faria alguma besteira. Malditos fossem os programas ao vivo.

— E é uma honra estar aqui, também. Sonhei com esse momento desde menininha. — O outro fez-se de ofendido.
— Assim você revela a minha idade, . — Ele riu, de maneira forçada, e ela também, o apresentador olhou a ficha em sua mão. — Fiquei sabendo que você finalizou o Crimson Reverie.
— É verdade. Demorou algum tempo, mas, finalmente, a trilogia foi finalizada. — Ela sentia alívio em dizer aquilo. Até mesmo Charles tinha gostado do rumo que ela tomou, embora não concordasse em matar o personagem principal.
— Eu li os seus dois livros anteriores e tenho que perguntar: o que nos aguarda nesse livro?
— Eu poderia te contar, mas teria que te matar, Sean. — Ela riu. — Não posso dizer nada! Eu estragaria a emoção de todos os leitores se desse um spoiler aqui, mas adianto que o Crimson Reverie não é para os fracos de coração.
— É por isso que o box com a trilogia completa vem com um desfibrilador de brinde? — Ele brincou e ela entrou na brincadeira.
— E um termo que me isenta de qualquer morte causada pelos livros, não se esqueça.

A plateia riu. era jovem, tinha vindo do interior, era alguém que causava simpatia quase imediata na maioria das pessoas. Eles a amavam. Sean via isso com facilidade. Trinta anos na indústria e ele poderia saber, com um olhar, se alguém fracassaria ou não naquele ramo. Ele tinha que admitir que parecia ainda ter uma ótima carreira pela frente.

— As vendas começam mês que vem, não é?

não fazia ideia. Ela quase não se intrometia nesse aspecto, apenas fazia a publicidade. Ela assentiu delicadamente, tomando um gole de água do copo à sua frente.

— Então, a América quer saber: quais são os seus planos para o futuro? Uma nova trilogia?
— Por enquanto, não. Mas eu tenho um novo livro a caminho e acho que surpreenderá um pouco… Não é o meu estilo usual, então eu espero que a recepção seja boa. Fora isso, eu só pretendo ser uma tia babona por algum tempo.
— Eu soube que a sua família é bem grande.
— Bem, tenho quatro irmãos. Vários sobrinhos, também, mas sempre consigo superar os meus próprios níveis de corujice quando tenho mais um sobrinho a caminho.
— Sem planos para filhos? — Aquilo a fez rir. Ela até queria ter filhos, mas certamente não agora.
— Nenhum plano para um futuro imediato, mas quem sabe? — A plateia fez um som animado. Havia alguns fãs ali e até a vice-presidente de um de seus maiores fã-clubes marcava presença, assistindo-a.

Do apartamento, tinha Wolf aos seus pés, uma caixa de comida chinesa apoiada nos joelhos e sua total atenção na namorada, na tela da TV, no programa do horário nobre de sábado. Sua folga tinha caído em um sábado, miraculosamente, e ele mentiria se não dissesse que estava um pouco decepcionado por não poder ficar com naquele dia, mas era o trabalho dela e ela entendia as diversas vezes que ele só chegava de madrugada do restaurante. Sua obrigação, então, era ser um bom namorado e apoiá-la, principalmente quando sabia o quanto odiava aparecer na televisão.
Ele riu de suas piadas e deu um pedaço de frango agridoce para o vira-latas, que latiu alto, atraindo a atenção do dono. Na televisão, o diálogo entre os dois continuava em um clima leve e descontraído.

— … A produção para o segundo filme vai começar em breve, o Crimson Reverie saiu bem a tempo.

Ele observou o sorriso simpático que tentava demonstrar naturalidade, e talvez conseguisse servir o seu propósito para aqueles que não a conheciam como ele ou ela. Ele ouviu o falatório na cozinha enquanto e sua barriga anormalmente grande se sentava ao lado dele.

, eu preciso cheirar a sua cerveja. É só um segundo. — Ele riu quando a cunhada pegou a garrafa de Heineken e inspirou fundo. — Eu vou beber tanto quando esse bebê sair de mim. — Cochichou para ele, repousando as mãos na barriga.
— Tira o seu leite com uma bomba antes, não quero meu sobrinho sofrendo porque a mãe dele é alcoólatra. — A voz de Cameron fez-se ouvir da cozinha, onde ele abria o resto dos pacotes de comida chinesa. A resposta de foi simplesmente levantar o dedo médio, o que fez os outros amigos rirem.

Josh, sentado no chão, comia seu chop suey, e se virou para o marido, sinalizando para que ele se calasse. Na televisão, contava uma anedota sobre como foi conhecer Leonardo diCaprio, o intérprete de seu protagonista, pela primeira vez.

— Ela está brilhando! — Josh comemorou. Ele parecia o mais empolgado dos quatro intrusos no apartamento de . Ele tinha sido, afinal, a pessoa a coagir e a invadir o lugar.
— O nome disso é holofote, Josh. — atalhou, ganhando um olhar feio do amigo. — E felicidade, é claro.
— Sexo. Sexo faz isso com a pele. — Josh tornou a comentar. Seu marido, vindo da cozinha, rolou os olhos.

suprimiu um sorriso convencido, desviando os olhos do casal para a tela da televisão. estava muito bonita, embora ele admitisse para si mesmo que preferia vê-la sem maquiagem, os cabelos bagunçados e o brilho no olhar depois de uma noite com ele. Era quando ele a achava o mais linda possível. E isso, é claro, ele não diria em voz alta na frente de Josh. Já tinha que lidar com zombaria o suficiente vindo dele para adicionar mais aquilo à lista.

— Achei que era para assistir a entrevista.
— Shhh, fique quieto, Cam! — Josh sinalizou para que o advogado se calasse, como se não tivesse sido ele o primeiro a interromper o programa.

Na televisão, finalizava sua anedota e levava tanto a plateia quanto o apresentador aos risos. Sean, então, sorriu para ela. Ele fez algumas perguntas sobre sua vida pessoal, o que a fez se esquivar habilmente de toda e qualquer pergunta que a fizesse revelar demais. nunca antes tinha falado sobre sua vida pessoal, embora eles tentassem inquiri-la, e não seria agora que ela começaria a fazer isso. No entanto, quando Sean a perguntou sobre “alguém especial” em sua vida, ela sentiu suas bochechas esquentarem ao pensar em . Ainda bem que havia muitas camadas de maquiagem para salvá-la daquele constrangimento.
a viu rir, sem graça, e seu rosto assumiu, aos poucos, uma expressão pensativa.

— Eu tenho alguém especial. — A plateia assoviou e aplaudiu, ela riu baixo. — Ah, parem com isso. É verdade. Ele é… Ele é ótimo pra mim. — Sean ergueu as sobrancelhas de modo cômico, a urgindo a falar mais. — Você não vai conseguir tirar mais nada de mim, eu juro.

No apartamento de , Cam, Josh e cutucaram , rindo e gritando gracinhas, o que o fez se acanhar, mas logo sorriu também, entrando no clima. Era difícil, depois de tanto tempo sozinho, se acostumar a tudo aquilo. Ele achou, inicialmente, que não se encaixaria na vida dela. tinha amigos, uma carreira, sua família e não tinha nada além de um cachorro, seu violão e poucos pertences. Ele morava na rua, em um carro que já não funcionava e, desde então, desde que conheceu aquela mulher que era tão fútil e superficial no começo, tudo mudou. Para melhor. Talvez tenha sido por isso que, na noite de Ano Novo, quando comemoravam uma nova vida, um novo ano, ele quis mostrar a ela o seu passado. Livrando-se de seu passado, ele podia construir um novo futuro com ela.
Enfrentaram, juntos, a neve e o vento enregelante para andar pelas ruas de Nova York rumo aos lugares onde mais marcaram . Ele a guiava, segurando-a pela mão, que a todo momento perguntavam aonde iam. “Em uma viagem ao passado”, ele respondeu, depois de alguma insistência da autora. E ela entendeu, de pronto, que aquilo era importante para ele, por isso seguiu com ele em silêncio, apenas aguardando o que ela descobriria. A primeira parada dos dois foi um prédio requenguela no SoHo. Ele a puxou para um abraço de lado, tentando aquecê-la um pouco mais. O olhar de desceu pelo rosto da mulher que ele amava e seu coração se apertou. Se permanecesse com ele depois de tudo o que tinha para falar, então ela era a mulher da sua vida e ele devotaria sua vida a jamais deixá-la partir.

— Eu morei aqui, quando cheguei em Nova York. — Ela o olhou e logo voltou a observar o prédio. — Meu pai morreu quando eu estava na faculdade. Eu larguei tudo e resolvi seguir meu sonho. — Ela conhecia aquela história, mas deixou que ele continuasse. — Eu morava naquele apartamento. — Ele apontou uma janela acesa no terceiro andar do prédio. — Eu era feliz ali.

Seu pai pagou a faculdade com o dinheiro que tinha juntado e o próprio vivia fazendo bicos para ajudar seu velho. Seu pai, advogado incompetente, sempre havia sonhado com o sucesso e via no brilhante (e desajeitado) adolescente que tinha em casa a chance de fazer alguma coisa dar certo. Um investimento de toda vida. Seus pais haviam se divorciado assim que ele atingiu os dois dígitos e, filho único, preferiu ficar com o velho pai sonhador a ir embora com a estranha que era sua mãe.
A vida não fora fácil, seria demais para ter qualquer coisa mole em sua vida. A faculdade também não foi a melhor coisa do mundo e a cada aula e semestre que passava ele simplesmente sabia que aquilo não era para ele. Fazer petições, cuidar de clientes problemáticos, ver sua vida passar pela janela sem poder fazer nada... Não. Aquele era . O , apenas o , sempre havia sido um rapaz que não largava seu violão. Tinha uma voz bonita, grave e bem afinada, tocava bem e gostava de escrever suas músicas. Aquele era ele.
Foi só depois que o pai morreu que ele resolveu abandonar tudo. Largou a faculdade e rescindiu o contrato de locação de seu apartamento. A casa do pai foi vendida e o dinheiro foi dividido entre ele e o irmão de seu pai, um senhor já idoso que tinha uma situação financeira mais precária que a dele. Com o violão na mala, algumas roupas e o velho carro de seu pai, colocou o pé na estrada. Ele contou isso a e ela o ouviu atentamente, sem fazer uma pergunta que fosse.

… — Ela apertou a sua mão, sorrindo um pouco.
— Vem.

Os dois andaram por mais alguns quarteirões, muito próximos de modo a dispersar o frio. A parada seguinte era um pub animado, que mesmo na noite de Ano Novo estava cheio.
conseguia ouvir, de longe, a música do local. O público jovem fumava do lado de fora e gritavam em vez de conversar. O local era notadamente popular, atraía uma clientela jovem, ao que parecia, e parecia um bom lugar para ir e beber alguma coisa.

— Eu toquei em alguns outros lugares, mas foi aqui que eu conheci um pouco de fama. — Ele recomeçou a contar sua história. — Eu comecei a tocar aqui todas as sextas-feiras, tocava em outros lugares, mas aqui… Esse lugar era minha segunda casa. O dono do lugar me deu uma chance e eu comecei a deixar as coisas subirem para a minha cabeça.

A essa hora, já tinha os olhos cravados nele, aguardando. Ela sabia que ele sempre mencionava a arrogância como o motivo de sua derrocada, mas até agora não sabia exatamente o que tinha acontecido.

— Eu conheci Rinna aqui. — Ela não negava que sentiu ciúmes do modo como ele falou o nome dela, com um tanto de nostalgia, mas, pelo bem da narrativa dele, se manteve quieta. — Ela era a esposa do dono do lugar, acho que agora o lugar é só dela. Eu não sei. — Ele deu de ombros. — Eu não me importo. Da última vez que nós nos envolvemos, não acabou bem. Eu traí a confiança do cara que mais me ajudou desde que eu cheguei aqui. Comecei a chegar atrasado para os shows, dormia com quantas mulheres quisesse… Dormi com a esposa dele e aquilo foi a gota d’água. Ele me chutou e eu fiquei queimado.
— Por quê?
— Os outros bares onde eu tocava eram de amigos dele. Ele me queimou, o dinheiro começou a acabar porque eu gastava com mulheres, bebidas e drogas. — Ele deu de ombros. — Quando dei por mim, não restava nada. Meus amigos não me ajudaram, eles deram no pé assim que notaram que eu estava na pior. Eu também não tenho família e as mulheres também não ficaram…
— Eu sinto muito, .

Ali, tinha conhecido seu ponto alto e seu ponto baixo. Depois que tudo passou, ele entendeu que tinha que mudar a sua vida. E por mais que tivesse tentado reerguer a sua vida, as coisas não eram assim tão fáceis. deu de ombros.

— É Ano Novo, , e isso aqui é só o passado.

A escritora anuiu, sorrindo para ele, apertando a mão dele ligeiramente. Os dois seguiram até o Brooklyn e a parada seguinte conhecia muito bem. Como não, depois de tanto tempo servindo as mesas dali? A lanchonete gordurosa onde costumava trabalhar parecia não ter mudado nada, ao menos por fora. Os dois se entreolharam por um momento e tentou mostrar a ele que ela estava ali por ele, pelo olhar, que ele podia contar com ela.

— A comida aqui era barata. — riu. A comida era barata, o hambúrguer era sem gosto, o café era aguado. E tudo fedia a gordura velha.
— E péssima. — Ela completou.
— Eu tinha conseguido algum dinheiro, naquela noite. Pensei em me drogar… Aquilo ajudava. — tinha o olhar longínquo, como se não visse a lanchonete diante de si, mas sim o passado. — Eu… — Ele suspirou. — Eu devia a um traficante e quando fui buscar mais droga com ele, ele simplesmente se negou a me vender, disse que eu já devia demais. E quando eu insisti… Você sabe o que aconteceu depois. Eu tomei uma surra, você me acolheu… — anuiu. Já acreditava mais no destino e achava aquilo possível, como se, desde aquele momento, seu destino tivesse se entrelaçado ao dele. — Você me salvou, . Eu voltei aqui, alguns dias depois, mas não tive coragem de falar com você.
— Eu fiquei preocupada. — Ela admitiu. — Não sabia o que tinha acontecido com você.

se inclinou para a frente, abaixando o rosto e encontrando os lábios dela com os dele. Ele a beijou de forma carinhosa, aninhando um lado da face dela em sua mão enluvada. Ela a encarou com um sorriso no rosto, ela era linda.

— Eu quero que você saiba o que aconteceu comigo. Eu quero enterrar aqui essa parte da minha vida e construir algo novo com você. É por isso que estamos aqui, foi isso que eu passei até te encontrar e a minha vida só melhorou depois que você apareceu nela, , desde que você me ajudou aqui, nessa lanchonete.
… — Ela sorriu, os olhos encheram-se de lágrimas, mas era apenas emoção.
— Quero que me ajude a me despedir desse antigo .

Os dois encararam a lanchonete. Agora, entendia o motivo de tanta mágoa, de tanta desconfiança. Os dois entraram na lanchonete, comeram os hambúrgueres sem gosto e contou a ele tudo sobre o Wisconsin, seu pai, sobre a sua jornada para tornar-se uma escritora. Ambos trocaram confidências, medos, receios, as “primeiras impressões” que tiveram um do outro na ocasião de seu reencontro e tudo parecia estar certo. se sentia em paz ao lado dele. Eles podiam conversar ou não e, de uma forma ou outra, ela se sentia confortável com ele. Depois de tanta coisa, depois de tantos obstáculos, depois de tanta luta, ela jamais imaginou que estaria sentada naquela lanchonete e por vontade própria. Mas parecia certo.

relembrou os eventos da noite de Ano Novo com um sorriso no rosto. E mesmo depois que todos foram embora, ele continuou no apartamento dela. Deitou-se na cama e os travesseiros ainda tinham o cheiro dela.
Ainda naquela noite, depois de tudo, insistiu que deveria levá-lo a um lugar. Apesar de já ser de madrugada e pleno Ano Novo, ela sentia que Madame Shayanni estaria em sua barraca roxa de estrelas douradas. E lá estava, a barraca vibrante contra o cinza do concreto que a cercava. conhecia o SoHo como a palma de sua mão, mas jamais tinha visto aquela barraca aqui antes. Ele franziu a testa, confuso, mas o arrastou mesmo assim.
Ela riu da expressão dele.

— Eu vim aqui, uma noite, quando saí de uma festa. Cam e Josh levaram como uma brincadeira e eu não acreditava em nada dessas crendices… — Foi a vez de falar sobre o passado. — E ela previu duas coisas: que eu correria um grande perigo e que eu conheceria um homem. — Ela olhou para ele de maneira significativa.
— O beco. — Ela anuiu.
— O beco. — Repetiu, impedindo que a má memória daquele evento manchasse o momento em que os dois se reencontraram. — Eu não acreditava em nada disso e desde então eu já perdi as contas de todas as vezes que vim aqui… Madame Shayanni é… Eu não sei. Você tem que ver para crer.

Quando terminou de falar, a mulher com jeito de cigana apareceu na porta da tenda.

— Prefere morrer de frio aí fora? — Perguntou, olhando a escritora da mesma forma de sempre. — Entre também, querido. Adoro fazer consultas com casais.

E, sorrindo, Madame Shayanni entrou na tenda com o tilintar de seus braceletes. elevou as sobrancelhas, como se perguntasse se eles realmente fariam aquilo. , para responder a pergunta não verbalizada dele, deu de ombros e entrou na tenda. Sem muita escolha, fez o mesmo.

— Vamos, . Sete cartas. — A cartomante estendeu as cartas na mesa.

, já acostumada ao procedimento, virou as sete cartas. , sentado ao lado da namorada, apenas observou a interação entre as duas sem expressar muito interesse. A cartomante tocou a carta Mágico, sorrindo.

— Ah, sim, se resolveu com ela, eu vejo. Bom para você, querida. Fico feliz que tenham se acertado com a sua irmã. Sim, sim, eu vejo. A Força e a Estrela juntas, ah, isso é bom. — A mulher sorriu. — Fico feliz por vocês dois. Sabe, rapaz, eu já estava cansada de falar com essa cabeça dura para se resolver com você. Francamente, é tão teimosa…
— Eu que sei. — Ele respondeu, rindo, e o cutucou com o cotovelo.
— Ah, fica quieto. — Ela riu, no entanto, e sua reprimenda foi completamente ineficaz.
— Agora, a Lua e o Mundo estão me dizendo que você terminou o livro, o que é bom porque Madame Shayanni quer saber como acaba a trilogia! — Ela sorriu para o casal. — Vai ser um sucesso, também. Eu vejo isso.

A vidente encarou os dois com um sorriso sabido, como se tivesse um segredo e se recusasse a contá-lo. , no entanto, quebrou o silêncio, o olhar da mulher o incomodava.

— Falta uma carta ainda.
— Eu sei. Essa carta é sua. — Ela sorriu diante da confusão estampada no rosto dele.

No centro das sete cartas, estava o Sol. ao menos achou a carta de bom tom, não parecia que ele podia morrer a qualquer momento. O dedo longo da cartomante apontou a polêmica carta e ela parecia ver além da mesa por um momento. Quando voltou a olhá-lo, ela tinha a mesma expressão sabida no rosto.

— Você está feliz, não? E depois de tanto sofrer e achar que ia morrer sozinho, sem ninguém para te lamentar além do cachorro. — observava a reação de . Ele parecia chocado. — Um novo trabalho, felicidade, um bom relacionamento… Você tem tudo isso agora. Venha, tire duas cartas. Preciso saber mais.

olhou para a namorada e dela para a vidente. Aquilo era um tanto demais, mas, ainda assim, ele se viu pegando duas cartas, pondo uma à esquerda, mediante a instrução da mulher, e outra à direita. Madame Shayanni virou a carta à esquerda primeiro e depois a outra.

— Veja aqui, à esquerda temos o Amante, é o seu passado. Jovem, inconstante, cheio de problemas causados por si mesmo… Mulherengo, também, pelo que vejo. — A última frase tinha um tom suave de repreensão. não podia deixar de pensar que a vidente o tratava muito melhor do que a tratara pela primeira vez. — E aqui é o seu futuro, querido, a Carruagem. É a carta da sorte, do sucesso… Quem leva a Carruagem é o Amante da outra carta, vê? Aqui, ele vai rumo aos seus sonhos e à sua glória. Você tem uma vida muito bela pela frente ainda, meu caro. É o que diz Madame Shayanni.

ficou em silêncio. , já acostumada a esse efeito da vidente, pegou sua carteira para pagá-la, mas a mulher ergueu uma mão cheia de badulaques.

— Não, , esse é o meu presente para os dois. Desejo muita felicidade a vocês, meus caros.

Na rua, a escritora encarou o namorado. As previsões de Madame Shayanni costumavam ter uma precisão incrível. Ela entendia que ele tinha que digerir tudo aquilo.

— Você disse a ela sobre o Wolf?
— Por que eu diria a ela sobre o seu cachorro? — Ela riu. estava absurdamente confuso. — Eu disse.
— E eu não acreditei. Quer dizer, como ela…?
— Sinceramente? É melhor não pensar nisso. Eu prefiro não pensar em como ela sabe de tudo isso.

O caminho de volta até o apartamento dela foi feito em silêncio. pensou naquela velha frase, que agora ele tinha como verdade: há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.
Quando voltou a Nova York, depois de uma agenda lotada com aparições e entrevistas, até mesmo algumas no rádio, ela se jogou em sua cama e soltou um suspiro longo. Tinha sido exaustivo, mas finalmente estava de volta ao seu apartamento. Ela tinha combinado de jantar com , no apartamento dele, mas seus olhos se fecharam e, antes que ela se desse conta, caiu em um sono profundo. Ela não acordou para o jantar ou até a manhã seguinte, mas a perdoou, já que ela estava cansada. Ele era um namorado felizmente compreensivo.
Março chegou e, com ele, as vendas do Crimson Reverie e o aniversário da escritora. Os irmãos reuniram-se na fazenda, ao redor da lareira, já que lá os invernos eram rigorosos e os verões eram quentes como o inferno. e sua barriga saliente estavam ao lado de Joseph, que parecia sempre bastante intimidado diante da visão de Brandon e Albert. Também, pudera, Brandon ameaçou quebrar-lhe o braço, no dia do casamento, ainda por cima, se ele ousasse magoar sua irmãzinha. A impressão de que Albert e Brandon eram brutamontes nunca deixou o banqueiro.
Do outro lado, e Danny conversavam animadamente enquanto a abraçava. já tinha observado isso, mas ver como Danny e interagia era algo refrescante. Danny parecia, em termos de personalidade, alguém mais compatível com do que ou os outros irmãos. Aquilo fez pensar em sua mãe, nos irmãos que tinha e não conhecia, e ele passou grande parte do aniversário da namorada quieto. Ao final da noite, aproximou-se dele sorrindo.

— O que anda passando por essa cabecinha?

, que vinha atrás dela, estava tão grande que poderia explodir. agradecia por ser homem e jamais poder engravidar. Ele acreditava firmemente que, se homens engravidassem, então o planeta já não teria vida humana há séculos. Depois de observar a cunhada, ele voltou os olhos para a namorada.

— Eu estava pensando, só. Você tem uma família maravilhosa.
— Passe mais alguns dias com eles e você vai mudar de pensamento bem rápido.

Quando a família se reunia, todos os sobrinhos estavam juntos, as mulheres e maridos e a mãe que, particularmente, adorava estar cercada de gente. Ela tinha se recolhido cedo naquela noite, mas, ademais, a matriarca dos sempre presidia as comemorações.
riu do comentário e a puxou para um beijo casto, já que estavam entre a família dela. sorriu e passou os braços pelo pescoço dele, baixando a voz.

— Eu espero que você possa me esquentar, se é que você me entende.
— É uma ordem da aniversariante? — Ele respondeu, sussurrando, ganhando um sorriso cheio de malandragem como resposta. Os dois se beijara de novo, com o desejo prestes a aflorar mesmo sob a aparência de um beijo calmo.
— Eu te espero no meu quarto. — apertou a sua mão, de maneira íntima, e se virou para a escadaria de madeira, quando a voz de fez-se ouvir.
— Hm, gente? — Ela estava na porta do banheiro, a calça grossa de algodão escuro exibia uma mancha molhada entre as pernas.

O caos fez-se presente. A matriarca foi acordada, a família toda, excetuando as cunhadas e as crianças, entrou em seus carros e correu para o hospital. , no início, manteve-se calma, mas quando as contrações começaram ela passou a gritar e ameaçar Brandon para que andasse mais rápido para o hospital ou ela quebraria as duas pernas dele. A ameaça fez efeito, porque Brandon foi o primeiro a chegar no hospital e parecia bastante abalado.
estava, é claro, ao lado da irmã a todo momento, deixando para depois o momento a dois com o namorado. foi relegado à sala de espera, junto do marido da grávida e dos irmãos . Margot, já bem desperta, estava no quarto com as duas filhas.
, no entanto, só se acalmou depois que a epidural foi aplicada e algumas horas depois toda a família se reuniu para dar as boas vindas à mais nova integrante da família.

— Ela é tão pequena. — sussurrou para , que observava a neném nos braços de Joseph de modo terno e gentil.
— Todos eles nascem assim. — Ela assegurou , que continuava a encarar a bebê. — Você nunca viu um recém-nascido antes?
— Não de perto. — Admitiu, depois de hesitar um pouco. — Vou me acostumar quando tivermos nossos três filhos.
— Nossos três o que!? — A surpresa de o fez rir, ele beijou-lhe o topo da cabeça.
— Calma, por enquanto podemos treinar para fazer nossos três filhos.
, continue falando assim e eu nunca mais faço sexo com você.

Os cochichos foram interrompidos pela mãe, que os olhou feio, mas logo voltou a babar sua nova netinha. Aquele era realmente um novo ano. E não poderia estar mais feliz.

(…)


— … O enredo misteriosamente intrincado, os personagens profundos e verossímeis e o desfecho emocionante da última aventura de Caleb Teague me fazem pensar em como a versão feminina e atraente de Dan Brown. Crimson Reverie, é, na minha opinião, o melhor livro de e confesso estar particularmente ansioso por seus próximos trabalhos.

abaixou o jornal, olhando, ansiosa, para e Josh, que tomavam o café da manhã com ela.

— Então, você está feliz? — Josh perguntou, incerto de como reagir. Para ele, o elogio era enorme, mas nem sempre tinha a resposta emocional óbvia.
— Feliz? — Ela soltou um gritinho e se jogou no sofá. — Ele me comparou a Dan Brown, que é um dos melhores escritores que eu conheço!
— Parabéns! — Josh apressou-se a dizer, aliviado que ela não daria um piti àquela hora da manhã.
— Meu deus, eu tenho que ligar para a minha mãe! — correu para o quarto, ainda de pijamas, sem nem ligar para as torradas francesas, que ela geralmente comia aos montes.
— Ela está tão feliz que nem consegue comer. Essa é nova. — Josh murmurou, rindo.

As críticas começaram a sair na época de seu aniversário, mas foi só na volta da viagem, que acabou culminando com o parto da pequena Violet, que pôs-se a ler tudo o que tinham achado de seu livro. As críticas do New York Times e do Post tinham sido estelares, outras logo se seguiram, coroando o Crimson Reverie como um dos trabalhos mais complexos e profundos de seu gênero, além de ser a “obra-prima de ”, o pièce de résistance de . Se os dois livros anteriores tinham sido bons, o terceiro ganhou o mundo como sendo o melhor da trilogia, algo que apenas impulsionou o buzz criado para o filme que adaptaria o primeiro livro para as telas de cinema.
Com a trilogia Crimson Tales finalizada, ainda lançou, no final daquele ano, um romance sobre as forças inexoráveis do destino, sobre um casal que, mesmo após inúmeros desencontros, acaba sempre achando seu caminho nos braços um do outro. Os amigos sabiam que a história era sobre a própria escritora e , com os floreios necessários para se tornar um romance que vendesse. Embora, no final, tivesse continuado mesmo a escrever suspenses, tramas para assassinatos políticos e muitas conspirações. Era aquilo que a fazia feliz. E, agora, era feliz na vida pessoal e profissional, o que poderia ser melhor do que isso? A escritora acabou publicando mais um livro com seu protagonista, Caleb Teague, onde contava a história do personagem e explorava novamente a sua morte pelo ângulo de outra personagem.
A vida segue para todos nós. É feita de ciclos, momentos e sensações. Para a escritora e o músico, os ciclos seriam sempre encarados de frente, já que tudo que recebemos do destino, seja bom ou mau, pode apenas nos fortalecer e nos engrandecer. E eles entenderam isso. A vida dos dois teria vários ciclos: o fim da trilogia, o pedido de casamento feito no Central Park, o casamento em si, que foi uma nova vida para os dois, e o crescimento profissional de ambos. casou-se de azul, como a vidente uma vez previra. O músico voltou a estudar, foi para a Juilliard, e dá aulas de música. E ? Continuou escrevendo.
Os seguem bem. Os , também. A pequena Violet acabou chamando a tia antes mesmo de falar mamãe (talvez porque tanto ouvia a mãe gritar a todo momento), Margot ficou extasiada por finalmente casar todos os filhos. E tudo seguia o rumo da vida, que pode até se desviar em vários momentos, mas jamais deixa de seguir o curso que deve seguir.


Epílogo

Com vocês, a escritora.

Querido leitor,
Sobre a minha narrativa, confesso ter hesitado em publicá-la. Faço deste o último livro e aventura de Caleb Teague, que achou a paz que tanto procurava e que jamais poderia obter de outra forma. Minha reticência em terminar este livro assim devia-se a duas razões, as quais logo explico. A primeira razão é que eu realmente não acredito que a morte é a última e melhor forma de se ficar em paz. Talvez não haja nada depois da morte. Talvez deus realmente exista e suas ações nesta vida lhe rendam o descanso eterno merecido, seja onde for. Para Caleb, acredito não saber dizer para qual direção ele irá, se a salvação ou a perdição, mas isso não me preocupa. Caleb sempre estará vivo em minha mente. O segundo motivo dá-se, nada a mais e nada a menos, ao apego que criei pelo personagem, portanto matá-lo seria um golpe desferido a mim mesma. Escrevo a trilogia desde que me entendo por gente, esse livro é uma homenagem ao personagem que tanto me fez pensar, as aventuras de Caleb evoluíram e, assim, eu também o fiz. Portanto: obrigada, Caleb.
No entanto, todas as coisas devem chegar a um fim. A trilogia chegou e, agora, as aventuras de Caleb também. Desejo agradecer aos meus fãs, por todo o apoio pelas redes sociais. À minha família, que aguentou minhas constantes crises artísticas, à minha mãe que, finalmente, me fez enxergar o quanto a vida é feita de momentos especiais, mas, principalmente, de momentos comuns, entediantes e rotineiros. Agradeço ao meu marido, , por ter sido minha maior fonte de inspiração e quem segurou na minha mão, me apoiando a cada dificuldade que surgia no caminho deste livro. Não posso deixar de dizer um grande obrigada ao meu casal de amigos preferidos, Cam e Josh, pois sem eles eu jamais teria encontrado o amor da minha vida, levando-me em uma tenda para me consultar com uma cartomante! Ao meu editor, por conseguir lidar com essa mulher neurótica e viciada em doces. Ao meu gato, Snowball, por simplesmente ser o pior gato do mundo. À minha irmã, por jamais me abandonar, e aos meus irmãos por serem os melhores trogloditas da face da Terra. Ao amor, por existir. Aos meus sobrinhos, por serem as alegrias da minha vida, e à pequena , minha estrelinha querida e desejada por mim e meu marido, que está para nascer. Ao meu pai, que sempre acreditou no meu talento, tenho certeza que ele olha por mim.
Meu maior agradecimento, apesar de tudo, vai para você que chegou até aqui e leu toda a trilogia e este conto sobre nosso cretino preferido, não deixou Caleb de lado, como muitas editoras fizeram, e me deu forças para continuar. A todos que me deram força, a todos que me ajudar, à Madame Shayanni, aos meus vizinhos estúpidos, aos músicos do Central Park: meu mais sincero agradecimento.
Um novo ciclo se iniciará agora, para todos nós. Eu escreverei novos livros e todos nós seguiremos com as nossas vidas. Apreciem os momentos pequenos. Vivam, apenas. E, sempre, sempre, sempre se lembrem que seguir os seus sonhos não deve ser nenhum motivo de vergonha ou de culpa. Nossa trajetória e tudo o que nós passamos é o que nos torna únicos. Amem, amem muito. E tenham uma boa vida.
Com amor, .


Fim



Nota da autora: (15/11/2017) Eu levei três ou quatro anos para finalizar Fortune Teller. Quando conheci a Gabs, no começo, nós duas nos apaixonamos pelo projeto e ela foi uma parte importantíssima para o rumo que esse pedacinho do nosso coração tomou. E eu não pude abandonar esse projeto mesmo depois que perdemos contato. Não sei muito bem a partir de qual capítulo comecei a escrever sozinha, mas queria dedicar essa fanfic a ela pelos motivos acima expostos. Gabs, obrigada!
Da mesma forma, a escritora e o músico criaram um lugarzinho só para eles no meu coração. A fanfic não era para ter um rumo tão feliz, no começo eu pensei em deixá-los seguir seus caminhos, mas ficaria tão incompleto e desleal que eu não conseguiria deixar isso acontecer. Então, dei um final feliz a cada um, respeitando cada personagem.
Eu quero agradecer a cada uma que deixou seu comentário, seu carinho, sua admiração por essa fanfic que eu amei escrever. Foi demorado, apesar de ser uma estória curta para o tempo que demorei a escrever, mas não me arrependo das horas que empreguei e nem das noites maldormidas que enfrentei para postar algo novo. Nesse capítulo final, por exemplo, eu levei dias e terminei de manhã, já quase sete da manhã, tudo para conseguir levar a cabo a visão que eu tinha para Fortune Teller.
Eu quero agradecer às minhas amigas que me deram força para postar, que ralharam comigo para ir escrever (e me ameaçaram, também), que perguntavam sempre da fanfic. Quero agradecer a Deus, também, por ter conseguido terminar antes das provas! Hahaha.
Eu tenho a minha consciência limpa com essa fanfic, abordei os temas que pensei, inicialmente, e espero que ela gere ao menos um pouco de reflexão nas pessoas que a leram. Espero que gostem tanto de lê-la quanto eu gostei de escrevê-la.
Já me estendi demais, como sempre, então deixo aqui essa última nota da autora para mandar um beijo a todo mundo que chegou até aqui comigo. Para as órfãs de Fortune Teller, indico minhas outras fanfics, que vocês podem acompanhar na minha página da autora. O twitter também está lá para comunicações, eventuais puxões de orelha e cobranças de capítulos. Até a próxima!





Outras Fanfics:
The Swan Dive (Restritas/Outros - Em Andamento)
Mixtape: Coisas Que Eu Sei (Awesome Mix: Vol 6 “Brasil 2000’s” – Finalizada)


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