Última atualização: 08/10/2017

Prólogo

Olhou para o teste que tinha nas mãos enquanto a palavra ecoava na sua cabeça.
Positivo.
Saiu do banheiro ainda com o teste em mãos e encontrou sua amiga sentada em sua cama esperando-a. Quando não foi mais capaz de segurar as lágrimas, logo compreendeu qual fora o resultado.
caminhou até a amiga e a abraçou enquanto soluçava, sem saber o que fazer. E ficou assim até que, depois de um tempo, se acalmou um pouco e caminhou até a cama para se deitar enquanto murmurava palavras de consolo e encorajamento para ela. Elas estavam sozinhas na casa onde morava com a tia, esta havia viajado a trabalho e só voltaria dali a dois dias.
Ficaram em silêncio durante um tempo, e quando percebeu que já estava melhor, resolveu tirar algumas dúvidas, a fim de poder ajudar a amiga.
— Quando você pretende contar a ele? — indagou ela, com um olhar apreensivo enquanto a observava deitada na cama com os olhos inchados de chorar.
— Eu não sei o que fazer, . — disse em um sussurro.
— Eu acho que é melhor a gente ir amanhã em um médico, para saber com quanto tempo de gravidez você está. O que você acha?
— Eu não posso evitar o inevitável, não é?
— Concordo. E é por isso que eu acho que você deve conversar com a sua tia, logo quando ela chegar.
— Vou fazer isso, só me deixa pensar como, tudo bem?
— E com o , . É tem o direito de saber.
enrijeceu ao escutar o nome do homem que nem ao menos era seu namorado.
Conhecera-o há quase um ano atrás, através de , noivo de e melhor amigo de . Lembrou de que sentiu atração por ele logo que o conheceu e sabia que acontecera por parte dele também, mas nunca havia acontecido nada... Até aquela noite.
— Tenho que me preparar psicologicamente para isso. Não sei como ele vai reagir, principalmente depois da discussão que tivemos depois daquela noite.
— Eu sei, mas eu quero que saiba que, independentemente de qualquer coisa, eu vou te apoiar seja lá qual for sua decisão.

havia pagado um táxi para levá-la até o prédio onde morava em um apartamento simples e aconchegante. Quatro dias haviam se passado desde que se consultara e conversara com a tia logo após algumas horas que ela havia chegado em casa.
Encarou a fachada do prédio pensando em quantas vezes estivera ali no último ano, na maioria das vezes junto com e . Respirou fundo tentando criar coragem e apertou o interfone enquanto repetia, mentalmente, todas as palavras que havia planejado dizer ao futuro pai do seu filho.
. Quem está aí?
— Oi... . Sou eu...
. Preciso falar com você. — murmurou tentando não parecer nervosa.
— Ei, . Faz algum tempo que não a vejo... — É, , exatamente sete semanas. Desde a nossa pequena discussão sobre sua culpa após fazer amor comigo. Teve vontade de completar. — Vamos, suba para conversarmos um pouco. — e desligou.
pegou o elevador e tentava controlar os nervos quando parou em frente à porta de . Apertou a campainha e esperou até a porta se abrir e aparecer ali vestindo uma bermuda jeans desbotada, tênis e camisa branca aberta nos primeiros botões.
Sorriu assim que a viu e ela se perguntou se ele ainda estaria com aquele sorriso quando soubesse da grande notícia.
— Oi, entra. — deu espaço e ela passou.
— Nós precisamos conversar, . — disse enquanto caminhava para se sentar no sofá. — Acontece que aquela noite...
— Eu sei. Eu estava pensando em te ligar quando você tocou o interfone. Eu fui muito rude com você naquele dia, , e quero que me perdoe. Eu só não consegui me controlar e acabei colocando a culpa na bebida mesmo sabendo que estávamos quase que perfeitamente lúcidos quando aconteceu. Olhe... — segurou as mãos dela enquanto continuava a falar, ajoelhado no chão. — quero que saiba que nunca pretendi te magoar e sei que deve ter sido difícil ter que enfrentar uma discussão na manhã após a sua... — faltaram-lhe as palavras para continuar.
Ele precisava saber que ela não estava chateada, não queria ir embora sabendo que o odiava, e com razão.
, por favor. Eu não vim... — tentou falar, mas sendo logo interrompida.
— Eu gosto muito de você, . E, mesmo que tenha razão em me odiar, eu não quero que isso aconteça. Não quero ir embora sabendo que você me não suporta olhar para mim...
E então ela paralisou.
— Do que você está falando? Está indo viajar?
— Na verdade, não. Eu consegui a promoção que eu queria em Nova York, aquela que te falei há uns meses atrás, lembra? Eu pensei que não fosse conseguir, porque era muito concorrida e tudo mais... Mas, felizmente, eu consegui. — falou animado enquanto ainda tentava processar as palavras.
Tinha tanto tempo que ele esperava essa oportunidade.
E ela ia acabar com todos os seus sonhos quando dissesse que estava grávida.
Não. Ela não ia fazer isso. trabalhara demais para conseguir chegar aonde chegou, e ela não podia estragar tudo.
E, em vez de dizer que ele iria ser o papai do ano, colocou um sorriso no rosto tentando esconder suas emoções.
— Que notícia ótima, ! Quando você viaja? E não se preocupe com a nossa discussão, por mim ela já está esquecida. — Falou com a voz um pouco embargada.
— Você não sabe o alívio que me dá saber disso, . Eu viajo amanhã de manhã, acabei de fazer as malas. Ei, você está bem? Está sentindo alguma coisa? — perguntou ao vê-la lacrimejando.
— Não, não. Eu fiquei feliz por você, só isso. — sorriu tentando convencê-lo.
— Oh, ! — puxou-a para um abraço forte e acolhedor. — Não precisa chorar.
— Acho que deve ser TPM, . Você sabe como fico sensível.
— Eu te adoro tanto, garota. — murmurou enquanto tinha o rosto enterrado nos cabelos dela, sentindo o perfume de que tanto gostava.
— Você esperou tanto por isso. Estou muito orgulhosa de você, . — falou enquanto o abraçava forte, fazendo um leve carinho com as unhas na nuca dele, os dedos enterrados no cabelo castanho da mesma cor que o seu.
Quando ele a soltou, ela rapidamente enxugou as lágrimas sem se importar que borrasse a maquiagem, mas segurou em seus pulsos e os afastou no rosto dela para que ele mesmo pudesse segurá-lo enquanto a olhava com ternura.
quase chorou novamente ao encarar aqueles olhos azuis claros que tanto amava.
aproximou-se e colou seus lábios aos dela em um último beijo.
— Vou sentir sua falta, . — admitiu com a testa colada à dela.
entrou em casa e encontrou a tia assistindo TV no sofá da sala. Quando Claire notou a presença de na sala, pegou rapidamente o controle remoto e desligou a TV.
— O que houve, querida? Ele não recebeu bem a notícia?
— Eu não pude, Claire. — e então caminhou até o sofá enquanto contava o que havia acontecido.
— Você m entende, Claire? Entenderei se estiver zangada, mas...
— Não fale nada, . Você sabe muito bem que eu sou a última pessoa no mundo que pode julgá-la.
— Tia...
— Não, me deixe terminar agora. Você está disposta a fazer o que eu não tive coragem há treze anos. Estou orgulhosa de você, . Tem a coragem que eu não tive... Não se preocupe mais. Vou ajudá-la a passar por isso, você tem todo o meu apoio, querida.


1. O Filho Dela

Três anos depois...

terminava de lavar a louça do café da manhã, enquanto assistia desenhos na TV.
Haviam comido omeletes com torradas, depois eles fizeram biscoitos de chocolate e aveia, uma receita que aprendera ainda adolescente.
Ela terminava de lavar a louça quando o telefone tocou. Era , melhor amiga e madrinha de .
— Bom dia, . Como vai meu afilhado?
— No momento, precisando de um banho. — disse e riu.
— Me deixa adivinhar... Biscoitos de chocolate e aveia?
— Já virou tradição, não é? adora e eu também. E você, como anda a vida de noiva?
— Exaustivo, mas eu não me queixo. Você sabe que eu amo o , e eu sei que todos esses preparativos vão valer a pena no dia do casamento.
— Claro que vai. E eu estou orgulhosa de você, .
— Eu queria poder dizer o mesmo pra você, amiga. Mas...
...
— Você tem que contar a verdade ao , . Já se passaram três anos, e ele tem o direito de saber que tem um filho. Não pode esconder isso dele pra sempre. O que ele vai pensar quando vir a criança no dia do meu casamento?
, eu... — olhou para no sofá, rindo com os desenhos que assistia.
— Não quero que pense que estou com raiva de você, mas eu estou tentando fazer você enxergar a realidade. Ao menos tente contar a ele, . Não era você que dizia que não se podia evitar o inevitável?
— Mas eu tenho medo, . E se ele não entender? Ele vai querer tirar o meu filho de mim e vai conseguir, porque eu não tenho dinheiro suficiente para enfrentar em um tribunal.
— Ele nunca faria isso, . Vocês podem ter alguns problemas, mas nunca faria isso com você. Eu te aconselho a contar logo antes que seja tarde demais.
— Eu não posso, . — falou firme. — Você não entende.
— Eu te prometi uma vez que iria manter segredo, , e vou continuar assim como também vai. Mas talvez, o acaso ou destino, o ajude a descobrir sozinho. Pense nisso, está bem?
— Certo, .
— Agora mudando de assunto, você esqueceu sua pasta de anotações aqui ontem à noite... Não pude ir deixar porque estou ocupada com os preparativos do casamento, então eu mandei ir deixar aí, tudo bem? — perguntou.
E foi nesse momento que a campainha tocou.
— Na verdade, eu acho que acabou de chegar. Quem você... — tentou perguntar, mas a interrompeu rapidamente dizendo que tinha que ir a mais uma prova de vestido. — Tudo bem, obrigada por enviar minha pasta de qualquer forma. Eu estaria frita se perdesse. Até logo, .
— Mamãe, o “tu tu” está tocando. — falou , se referindo à campainha.
— Eu sei, meu bem, mamãe já está indo atender. A tia mandou uma coisa que a mamãe esqueceu na casa dela ontem. Vou pegar e depois vou te dar um banho bem gostoso, tudo bem, meu amor?
— apertou a ponta do nariz do pequeno fazendo com que ele risse e, em seguida, caminhou até a porta enquanto a campainha tocava de novo. — Já estou indo.
E então abriu a porta, dando de cara com aquele par de olhos azuis a encarando com um pequeno sorriso.
— Oi, .
me pediu para te entregar isso, você acabou esquecendo ontem... — falou enquanto entregava a pasta a ela.
... — olhou-o atônita, e percebeu o que aprontara quando sentiu duas mãozinhas envolvendo sua perna direita, após escutar um “Quem é ele, mamãe?”. Olhou para baixo, mesmo sabendo que era que estava ali e depois voltou a olhar jamim, que agora mantinha os olhos presos na criança agarrada a ela.
ficou sem reação ao ver o menininho que o encarava com o rostinho sujo de chocolate, tal como o pijama. Ele tinha cabelos castanhos e olhos azuis claros.
Idênticos aos seus.
De súbito, todas as conversas que tivera com e sobre o pai do filho de fizeram sentido.
“Ela preferiu deixá-lo livre para viver seu sonho.”
“A criança é idêntica ao pai.”
tem quase dois anos.”
Essas frases e muitas outras ecoavam agora na sua cabeça enquanto olhava a criança. Sentiu uma mistura de emoções ao mesmo tempo. Raiva. Culpa. Tristeza e até alegria ao descobrir o menino. Mas porque só agora?
Olhou para , e notou que ela o encarava com os olhos repletos de lágrimas.
— O que você fez? — perguntou antes que pudesse pensar em mais alguma coisa. — O que você fez? — gritou segurando-a pelos ombros.
... — murmurou, tentando controlar o choro.
— Como pôde fazer isso comigo? Por que, ?! — continuou, sentindo os próprios olhos arderem ao despejar o que sentia; a voz também começava a falhar. E continuaria se não tivesse sido interrompido pelo filho.
— Porque ele tá gritando, mamãe? — choramingou, escondendo-se atrás da mãe.
o olhou e sentiu-se um monstro por ter assustado a criança.
Sua criança.
Afastou-se de enquanto ela rapidamente pegava o menino nos braços para consolá-lo.
— Por favor, vai embora. — falou ela e passou a mão pelo rosto tentando manter o controle. — Vai embora, .
E sem ter forças pra fazer mais alguma coisa, ele atendeu ao pedido de . Deu as costas, caminhou até o carro que havia estacionado em frente a casa dela.
E depois foi embora.

Três semanas antes...

Tinha acabado de amarrar o cadarço do minúsculo tênis de quando a campainha tocou.
Pegou sua bolsa e a do filho e depois foi abrir a porta. Claire, sua tia, a esperava ali. Após cumprimentá-la, caminhou até o carro para colocar as bolsas dentro e arrumar a cadeirinha de no banco de trás do carro de sua tia.
Quando terminou, voltou para casa e encontrou Claire brincando com no sofá. Iriam almoçar os três juntos daquele domingo, como sempre faziam desde que havia se mudado para seu próprio lar.
Havia trabalhado e estudado o quanto pôde quando estava grávida e quando teve seu bebê, principalmente. Houve épocas difíceis, mas ela tinha a sorte de sempre contar com a ajuda de , e sua tia. Até porque Claire fora a única pessoa em sua família que a aceitara, que a ajudara quando ela estava grávida e depois. Os próprios pais de haviam cortado relações, não queriam ter “uma filha vagabunda”. E colocaram parte da culpa em Claire, já que morava com ela quando engravidou. Claire a apoiava porque já esteve em situação parecida quando tinha dezessete anos. Mas diferente de , ela abortou o bebê e acabou no hospital por isso, o que ocasionou em uma quase infertilidade. Agora, com trinta e três anos, suas chances de ser mãe eram ainda menores.
Agora que tinha quase dois anos, era um pouco mais fácil de cuidar dele. Pelo menos era o que ela achava. E depois que começou a estagiar, seu dinheiro aumentou um pouco, de modo que ela pudesse pagar pelo aluguel da casa que ela morava, não era muito grande e, embora ficasse longe da casa de Claire, ao mesmo tempo ficava próximo á casa de e , com apenas alguns quarteirões de distância.
Eram cerca de nove da manhã e a viajem era de quase vinte minutos de sua casa até a da tia. O plano era o mesmo de sempre, quase uma rotina: Chegariam a casa, começariam a fazer o almoço por volta das dez e ao meio-dia, provavelmente, estaria tudo pronto.
Depois Claire iria brincar com um pouco depois de almoçarem, enquanto cuidava da louça suja e, quando acabasse, poria o filho para dormir. Então, ela e a tia iriam passar horas conversando ou vendo filmes até a hora de acordar, daria banho nele e alimentaria, e depois Claire iria deixá-los em casa novamente. Então, ela tomaria um banho e passaria o resto do dia com seu bebê.
Era o que geralmente acontecia. Mas naquela tarde após o almoço, logo depois de colocar para dormir, recebeu uma ligação de .
— Tenho que ir ao aeroporto pegar um amigo que está chegando de viajem. — disse assim que ela atendeu ao telefone.
— E? — indagou confusa, enquanto descia as escadas para voltar à sala.
— Vamos comigo, por favor.
— Poxa, . Acabei de colocar o para dormir e estou na casa de minha tia. Hoje é domingo.
— Eu sei, eu sei. Mas não vamos demorar muito, prometo. — pediu.
— Por que não pede ao para ir com você?
— Por que ele está no escritório trabalhando e só volta à noite. Vamos lá, .
encarou Claire e esta apenas fez um sinal positivo com a cabeça.
— Tudo bem. Passa aqui pra me pegar e eu vou com você.
Dito e feito, depois de alguns minutos estavam chegando ao aeroporto.
— Você não fez alguma plaquinha, ou sei lá o quê? — perguntou a .
— Não precisa, a gente marcou de se encontrar perto do McDonalds.
— E quem é que vamos encontrar?
— Um cliente de ). Pensei que iríamos hospedá-lo no nosso apartamento, mas aparentemente o cara comprou um. se ofereceu para vir pegá-lo, mas acabou ficando lotado de trabalho e eu tive que vir pra não ficar feio, você sabe.
Estavam sentadas em uns bancos em frente à lanchonete quando, de repente, disse que precisava ir ao banheiro.
— Está sentindo alguma coisa? Quer que eu vá com você? — perguntou, enquanto se levantava.
— Não, não. Fica aí em pé, ele vai vir pra cá e se perguntar por mim, você fala que precisei sair, mas volto logo.
E saiu, antes que pudesse protestar. Revirou os olhos e virou-se para a bolsa para pegar o celular. Estava prestes a ligar para Claire para saber sobre , quando escutou uma voz conhecida atrás de si.
?
se virou e quase teve um troço ao vê-lo ali à sua frente.
a encarava com aquele sorriso que ela tanto conhecia. Não havia mudado quase nada nos quase três anos que estivera longe.
— Oh meu Deus, ! É você. — e largou as malas no chão, para no instante seguinte puxá-la para um abraço apertad, o qual ela não soube como corresponder.
se afastou um pouco apenas para olhá-la nos olhos, enquanto segurava seu rosto entre as mãos.
— Nem acredito que você está aqui. Senti sua falta, .— foi quando percebeu que ainda não tinha falado nada.
Desvencilhou-se dele rapidamente, pegou a bolsa e iria começar a falar de , quando, finalmente, ela apareceu.
, oi! — cumprimentou-o com um abraço.
— Ei, . — falou enquanto a abraçava. — E o ? Pensei que ele viria.
— Ele ficou atolado em trabalho, como sempre e então me pediu para vir te buscar.
— Eu é que não vou reclamar de estar em companhia de duas belas mulheres. — disse e eles riram. também, embora estivesse um pouco tímida com a súbita chegada dele.
Depois dessa, provavelmente iria ter uma conversa séria com sua melhor amiga cheia de armações.
No carro, a caminho de casa e não paravam de falar um instante. tinha ido sentada no banco de trás torcendo para ser ignorada pelos dois. O que não deu muito certo, porque começou a enchê-la de perguntas.
— O que anda fazendo? — ele perguntou virando para trás para olhá-la.
— Terminando a faculdade, estou estagiando em uma revista. E me formo no fim do próximo semestre.
— Você continua morando com sua tia?
— Me mudei há alguns meses.
— E agora mora só? — e levantou uma sobrancelha, como se não acreditasse no que ela havia falado.
— Basicamente. Achei melhor assim.
Omitiu a parte do filho, querendo adiar essa informação. Olhou o retrovisor e viu que lhe lançava um olhar cheio de reprovação. Ignorou e continuou a conversa com , rezando para chegar logo na casa de Claire.
— E você, ? O que te trouxe de volta à Londres?
— Trabalho, você sabe. Fui promovido, mas dessa vez não precisarei mais viajar tanto, vou voltar a morar aqui. Voltei pra casa, . — sorriu.
O apartamento de ficava em outra rota, um pouco mais distante da casa da Claire. Mas tinha que voltar logo por causa de .
— Podemos deixá-la em casa, . Não me importo. — disse ele quando pararam em frente a casa da tia de .
— Não é necessário, . — falou rapidamente. — Tem... uma pessoa me esperando. — e ela trocaram um olhar significativo antes dela abrir a porta. — Além disso, você deve estar cansado da viagem. — completou. — Até mais.
E caminhou em direção a casa.
observou-a caminhando até entrar em casa.
Depois, ligou o carro e começou novamente a dirigir em direção ao apartamento dele.
— Ela continua linda, não é? — comentou ela, com um sorriso.
— Sim. — e fez uma pausa, antes de perguntar: — Quem era que estava esperando por ela?
.
— Namorado?
— Não, ela continua solteira. — respondeu, voltando a olhar para a estrada.
— Então quem é ele?
ficou um instante em silêncio até que, por fim, respondeu:
— É o filho dela.


2. Pegadinha do Destino

Jogou as chaves em cima da mesa e caminhou para conhecer o apartamento que vira apenas em fotos. Pensou que era no mínimo grande demais para ele, comparando ao seu antigo de três anos atrás, esse tinha muito luxo e não era exatamente aconchegante; o espaço daria para no mínimo três pessoas.
Pegou as malas e levou-as até o quarto, tirando uma toalha e uma boxer preta para, em seguida, entrar no banheiro e tomar um banho quente e relaxante; ao acabar, voltou ao quarto e se jogou na cama.
Com os braços apoiados sob a cabeça, se pôs a fitar o teto branco deixando a mente devagar, na esperança que o sono chegasse logo. Não tinha fome ainda, mas sabia que logo que acordasse as barrinhas de cereais e guloseimas que mantinha dentro da bolsa não iriam ajudar muito e ele teria de fazer compras no dia seguinte para sobreviver e de preferência deixar o armário cheio de uma vez, ao invés de como fazia antigamente.
Foi quando se deu conta de que sentia falta da cidade, dos velhos tempos.
Não que não estivesse feliz com sua carreira e o rumo que sua vida havia tomado; era um jornalista respeitável apesar de ter apenas vinte e seis anos, solteiro, independente e livre de preocupações. Amava tudo aquilo, amava seu trabalho... mas sentia falta de alguma coisa. Faltava algo...
De súbito, lembrou de e da conversa que tivera com ; mal podia acreditar no que tinha ouvido.
tinha um filho. , a garota animada e extrovertida que havia conhecido, mas que por algum motivo não parecia exalar mais tanto brilho quanto antes. A engraçada que o fazia rir e que sempre ficava à vontade perto dele.
Sua .
Sua ? Imediatamente, ele afastou aquelas palavras da mente. Não era sua. Fora sua um dia, por algumas horas. Por uma noite. Uma noite que ocorrera por impulso dos dois, e que no dia seguinte, ele a magoara alegando um erro. Mesmo estando confuso; não sabia o que dizer ou fazer e então resolvera atacar. Atacá-la. Por que era o que ele fazia quando perdia o controle.
Ainda lembrava daquele olhos cheios de lágrimas e tristeza, que ele causara; vê-la daquele jeito fazia seu coração quebrar de pedacinho em pedacinho, nunca gostou de vê-la chorar e o fato que aquilo fora causado por ele, só piorava as coisas. Era assim, ele perdia o controle e começava a dizer coisas sem pensar, que não eram verdade e, no caso, em uma tentativa frustrada de tentar provar que aquilo tinha sido um erro quando no fundo ele sentia que era a coisa mais certa que já havia feito.
Sentia um carinho enorme por aquela garota desde o dia em que a conheceu. Mas além disso, sempre ouvera atração, desejo. Magnetismo, talvez. O que só aumentou com o passar do tempo. Havia ficado feliz por tê-la encontrado no aeroporto, mas não sabia de podia dizer o mesmo dela; era quase como se ela estivesse surpresa ao vê-lo ali.
Aqueles últimos anos haviam-na transformado de uma garota começando a faculdade para uma jovem mulher. E agora ela tinha um filho.
Não entendia por que continuava solteira., “Será que o pai havia rejeitado a criança?”, pensou. E cerrou os punhos, repentinamente com raiva do tal homem que ele nem ao menos sabia quem era. E se tivesse mesmo acontecido aquilo? Que tipo de monstro teria tido coragem de deixá-la sozinha, grávida e indefesa? Ele provavelmente teria matado o desgraçado se ouvesse estado ali. Mesmo que não tivessem se casado, era obrigação do pai ajudar com a criança.
Mas não.
havia dito que estivera sozinha desde o início, que o pai não estivera lá para assistir à gravidez, nem ao menos o nascimento do próprio filho.
Filho da puta egoísta.
Pensou em conversar com à respeito do que havia acontecido e que, se encontrasse o tal fulano que a tinha abandonado, diria umas verdades à ele. Depois fez uma lista mental sobre tudo o que tinha que fazer naquela semana, começando pelo dia seguinte. Sentiu o músculos do corpo relaxarem aos poucos e logo seus olhos pesaram, fazendo ele cair em um sono profundo.

***


segurava a foto enquanto mergulhava em pensamentos quando entrou no quarto, chamando sua atenção.
O menino subiu na cama e pulou; ela pôs a foto no colo e abriu os braços, para que ele a abraçasse. Foi quando notou o que ela tinha no colo e pegou a foto com as mãozinhas pequeninas.
— Mamãe, mamãe! Olha! Olho meu. Igual! — e riu, em seguida ainda observando a foto. Estava com o dedo indicador em cima do rosto de , naquela foto que ela “roubara” dele uns anos atrás; Tinha dezessete anos na época, seis anos antes dela conhecê-lo por intermédio de . Estava com um boné virado pra trás, uma camiseta branca de gola V, e um sorriso debochado no rosto.
Achara a foto certo dia quando bisbilhotava as de (com ele, claro); estava dentro de uma caixa de pertences que a mãe dele havia enviado quando ele se mudara para seu antigo apartamento, mas que ele ainda não havia desempacotado. E a maioria das coisas que havia dentro eram fotos. Ele não ficara muito satisfeito a ver, em especial a foto que ela tanto gostava; ele a odiava.
“Eu era muito magro”, era o que ele dizia. Mas ela tinha quase certeza que era mentira, pois ele estava lindo e não era tão magro quanto dizia ser, porém o que mais chamara sua atenção foram os olhos que se destacavam graças a luminosidade em que a foto fora tirada, ela ainda lembrava daquele dia como se fosse ontem...

Três anos e oito meses atrás...

— Pare de dizer isso, você não era feio; que idiota, . — disse sorrindo enquanto ele ainda fazia uma careta.
— Minha mãe não precisava mandar essas coisas. São constrangedoras. E, se você continuar a falar essas coisas, juro que vou ficar vermelhor de vergonha. — respondeu e ela riu com vontade.
— Sério? É difícil te imaginar vermelhinho. — debochou. — Além do mais, não faz bem seu estilo. Mas logo avisando, essa foto é minha agora. E já que você não gosta dela, isso não é negociável. — completou, segurando a foto ao lado do rosto enquanto sorria para ele.
— Tanto faz. — ele disse. — Só não vá postar na internet... — continuou, mas ela avistou uma bolinha de papel e jogou nele antes que ele acabasse de falar.
Riram.
— Besta. — ela disse.

Atualmente...

— É, querido. São iguais ao seus. — respondeu, sorrindo para o filho. E guardou novamente a foto em um criado-mudo do lado da cama. Queria evitar que perguntasse sobre o rapaz da foto, mas antes que pudesse mudar de assunto o filho já tinha esquecido e pediu permissão para assistir televisao, ao que parecia seu objetivo quando fora encontrá-la no quarto. Logo depois de consentir e ligar a televisão para ele em um desenho animado, ele sentou-se no sofá e ali ficou.
olhou em volta da casa. Era pequena e não tinha muitos móveis, apenas o essencial, porém ela esperava que ao terminar a faculdade e começar a trabalhar em período integral, poder comprar mais algumas coisas. No quarto, por exemplo, havia apenas uma cama de casal que dividia com o filho, um criado-mudo e um armário onde de segunda mão que comprara para guardar suas roupas e as do filho. Ela tinha o essencial, o que era de mais necessário, e embora quisesse logo terminar de arrumar o resto, sabia que tinha que espera. Mas se orgulhava de cada pedacinho que conseguira, não passara necessidades e a seu filho nunca tinha faltado nada.
E embora fosse difícil ás vezes, ela sabia que com o tempo as coisas iriam melhorar.

***


No dia seguinte quando chegou dez minutos atrasada na redação da revista onde trabalhava; sabia que isso não podia acontecer mais, mas não conseguiu chegar antes por que o trânsito da cidade estava péssimo após ela deixar na creche, claro que se tivesse um carro seria tudo mais simples. Assim que entrou, notou uma certa agitação entre o pessoal e não soube o porquê até que Anne, uma colega, apareceu para lhe contar a grande novidade do dia.
Aparentemente, o novo editor-chefe já havia se instalado do seu escritório. Honestamente, quando disseram que Steve McCormick iria se aposentar, ela não acreditou. Era bom demais pra ser verdade. Aos cinquenta e seis anos, o velho Steve era um terror firme e forte para os estagiários, todos tinham que dar duro para agradar o homem e atender a exigência dele.
Ao mesmo tempo que agradecia aos céus por ter se livrado dele, também pedia para que o novo chefe fosse mais razoável. Até porque, outro Steve era pedir pra morrer. caminhou até sua mesa e começou a ligar o computador pensando em uma pesquisa que tinha que terminar para então, começar a escrever um artigo. Só então que pecebeu que Anne a acompanhou e ainda estava no meio de um falatório sobre o novo chefe.
— ... Sério, ele é o contrário do Sr. McCormick. Chegou aqui cedo, e cumprimentou a todos amigavelmente, do tipo ‘igual-pra-igual’ e não ‘sou-melhor-do-que-você’ como o Steve, principalmente os estagiários. E o melhor: Ele é muito sexy. Fiquei balançada, amiga. Não deve ter mais que vinte e oito anos, talvez menos. E você teria conhecido ele, se não tivesse chegado atrasada de novo. — completou, repreendendo-a. — Minha cota de desculpas já está esgotando, colega. — e riu, em seguida.
suspirou, olhando para ela. Usava um terninho cinza e um sapato preto de salto, não era muito alta. Tinha o cabelo loiro avermelhado, e a conhecia desde que começara a estagiar um ano antes. Sorriu pra ela, a garota já a tinha livrado de muitas broncas broncas do Sr. M.
— Desculpe, Anne. É que o trânsito estava péssimo. Deixei na creche e vim pra cá o mais rápido que pude. E à respeito do chefe, eu ficarei satisfeita se ele não reclamar tanto quanto o velho Steve. — disse e volou-se para o computador para começar a trabalhar.

Na quinta-feira, soube que o Sr. ., como assim o chamavam, queria fazer uma reunião com todos os estagiários, às dez da manhã. Nos últimos três dias, estivera ocupada com o trabalho, e ainda não tinha conhecido o chefe. Não que isso fosse tão importante, mas ela estava curiosa e ao mesmo tempo, ocupada demais. No dia anterior, além de chegar atrasada novamente, não tanto mas ainda atrasada, o Sr. . já estava no escritório e, na terça-feira, ela tinha chegado no horário certo, mas ele não tinha aparecido pois tinha algo para resolver fora da redação.
E quando fora ao escritório do chefe entregar o artigo pronto, a secretária disse que ele estava ocupado falando com algum visitante; então deixara com ela, para entregar a ele assim que desocupasse e voltou ao trabalho.
Faltavam dez minutos para começar a tal reunião, quando seu celular tocou. Atendeu sem ver quem era.
— Alô?
— Estou disposta a te perdoar em nome do meu afilhado.
... — tentou falar, mas foi interrompida.
— Você quer gastar mais dinheiro com babá, tudo bem. Gaste. Mas o sempre avisa quando vai vir aqui, e eu poderia dar um jeito caso ele apareça. Sem contar que quase nunca estou em casa porque tenho um monte de coisas para organizar do meu casamento, eu poderia levá-lo comigo. Sabe, como eu faço sempre.
— Mas...
— Ainda não acabei! — gritou. — Mas já que você é tão chata, eu estou concordando em ir pra sua casa com ele, em vez de ir para a minha. Se atreva a negar e verá minha fúria. — finalizou, fazendo rir.
— Tudo bem. — olhou pro relógio, e viu que falta cinco minutos para a reunião. — , eu tenho uma reunião agora, posso te ligar depois?
— Você sabe que independente do que você faça, ele vai acabar descobrindo, não é? — perguntou, em tom sério.
— Sim, mas não estou pronta ainda.
é um cara esperto, . Você sabe disso melhor que ninguém, e conhecendo ele também deve saber que ele não vai ficar exatamente feliz quando souber que você tem um filho que também é dele.
— Eu vou pensar em algo, o.k.? Juro que antes do seu casamento, ele vai saber.
— Só espero que não esteja jurando com os dedos cruzados, mocinha.
— Tenho que ir. Até mais tarde. — e desligou, antes que respondesse.
Terminou de arrumar uns papéis na mesa e se levantou, acompanhando os outros sete estagiários até a sala de reunião no andar acima do que ela trabalhava.
sentiu um arrepio assim que avistou seu chefe. O Sr. . usava um terno grafite que parecia lhe cair perfeitamente bem. Era alto e tinha ombros largos, cintura estreita, cabelo castanho liso. Estava de costas, olhando pela janela e continou assim até que todos estavam acomodados. E quando ele se virou, se sentiu aliviada por estar sentada pois, se não estivesse, teria caído do chão pois suas pernas estavam como gelatina.
estava parado há alguns metros de distância.
E o pior: sorrindo para ela.


3. Senti Sua Falta

Ela estava paralizada, para não dizer chocada. Ele a olhou por mais um momento, desviando o olhar para os outros estagiários. viu ele colocar a mão esquerda dentro do bolso da calça e a outra no queixo, enquanto ele observava cada uma das pessoas ali a sua frente, mordendo o lábio inferior inconsientemente.
Sentiu um chute na perna direita e olhou para Anne ao seu lado, que continha um falso olhar repreendedor, e lutava para não rir dela quando o viu.
Mas Anne não sabia que ela já o conhecia... Até começar a falar.
— Primeiramente bom dia para vocês. Meu nome é e eu sou seu novo chefe. Convoquei essa reunião apenas para conhecer todos os estagiários e dizer que eu não vou ser um pé no saco como seu antigo chefe. Façam apenas seus trabalhos como devem ser feitos, sem grandes coisas para me impressionar. Conheço os métodos do velho Steve, como assim chamavam o Sr. M., e como já puderam notar não tenho um complexo de superioridade para com ninguém aqui. — falou, e alguns estagiários riram. — Então, vamos começar as apresentações. Não quero formalidades aqui, então me chamem apenas de ou , o que preferirem. — e então se dirigiu a um rapaz alto de cabelos loiros, e perguntou o nome dele. Seguiu com isso até chegar em Anne, que era a penúltima enquanto , a última.
Mas não perguntou o nome de , o que não foi surpresa para ela, mas não podia dizer o mesmo de Anne.
— Muito bem. Vocês podem ir agora e voltar ao trabalho.
— Chefe, você esqueceu de uma. — falou alto e em bom tom, apontando para , ao seu lado.
para , e notou que ela estava sem reação, os olhos levemente arregalados. Nervosa. Ele mordeu novamente o lábio inferior tentando, em vão, segurar um sorriso.
— Ei, . — saudou, chamando-a pelo apelido.
Anne chutou novamente sua perna, enquanto seguia sorrindo.
. — respondeu.
— Espera, aí. Vocês se conhecem? — perguntou Anne, curiosa.
— Há alguns anos. é uma velha amiga. — disse apenas, fazendo Anne murmurar um “Hmm”, enquanto assentia com a cabeça.
Logo depois, os estagiários começaram a sair.
se levantou da cadeira, agora mais calma, e caminhou em direção à porta.
, pode vir comigo um momento? — perguntou , antes que ela atravessasse a porta. Ela notou alguns olhares, em especial das mulheres, e algumas pessoas murmuravam disfarçadamente enquanto caminhavam. Algumas olhando para trás.
acompanhou até seu escritório que ficava quase do lado da sala de reuniões. Era o antigo escritório do Sr. M., com paredes de vidro, totalmente transparentes ao olhar dos outros funcionários, mas com algumas persianas que podiam ser abaixadas em caso de ser necessária uma conversa mais particular.
Mas ele não fez isso, e não soube como se sentir à respeito. Mais nervosa do que já estava ou aliviada, sabendo que isso facilitaria para que não saíssem comentários maldosos sobre ela e .
Ele caminhou até a mesa e encostou-se nela, apontando uma cadeira à sua frente para sentar. Ficaram olhando um pro outro durante um tempo, sem dizer nada, até que ela desviou o olhar e baixou a cabeça, olhando para suas mãos no colo.
— Então... — ela disse, chamando a atenção dele. — O que quer, ? — quis saber, mas ele ainda a olhava fixamente.
Estava a ponto de perder a paciência quando ele finalmente falou:
— Desculpe, é que é apenas... Surpreendente. Você trabalhando aqui, e eu sou seu chefe. O quão estranho é isso?
— Pois é. Eu estava esperando um velho rabugento e quando chego aqui encontro o pa...primeiro chefe legal da história. — corrigiu, repreendendi a si mesma por quase dizer “pai do meu filho”. O que ela estava pensando? — Na verdade eu nem sabia ainda que você, era o Sr. . — explicou.
Ele riu.
— Pois é, eu também só pude pegar hoje a lista de estagiários, e também não me disse onde trabalhava. Olha, eu li o artigo que você deixou com Amanda. — mudou de assunto.
Amanda era a secretária de , um senhora adorável de quase cinquenta anos.
— É mesmo? O que achou?
— Bem, eu não sei o que o seu outro chefe diria, mas eu achei ótimo. E você escreve muito bem, embora isso não seja uma novidade pra mim. — E era verdade.
sempre gostou de escrever e pôde ver algumas coisas quando eles eram mais próximos.
— Obrigada, . Isso é ótimo. Então, se era só isso... — disse enquanto se levantava da cadeira, pronta para sair dali.
— Não, . Na verdade, eu queria te convidar para jantar comigo hoje à noite. Você aceita?
— Desculpe, . Eu não posso hoje. — nem sei quando vou poder, quis completar.
Ele a olhou por um instante, e sabia que estava tentando esconder a decepção, até que por fim, pareceu lembrar de algo.
— É por causa de ? — perguntou, e estremeceu ao ouvi-lo pronunciar o nome de seu filho pela primeira vez. — Pode levá-lo, se quiser. Eu não me importo. Na verdade, eu gostaria de conhecê-lo. — completou, com um sorriso.
— Eu não acho que seja uma boa ideia. — respondeu ela. — Desculpe.
Ele suspirou.
— Tudo bem. Mas eu vou continuar te convidando até você aceitar.
Ela riu.
— Está bem. Então, chefe, estou liberada?
— Sim, Srta. . Volte ao trabalho já. — falou com falsa autoridade e ela riu, se levantando e caminhando até a porta.
Quando estava aponto de abri-la, a chamou. E ela se virou apenas para ser pega de surpresa por dois braços fortes que a estreitavam junto a seu corpo em um abraço quente e terno. Ela o abraçou de volta, fazendo carinho com as unhas na nuca dele, como antigamente. Sentiu os olhos arderem e piscou rapidamente, tentando afastar as lágrimas.
— Eu senti tanto sua falta, . — ele disse, baixinho no ouvido dela, com o rosto enterrado em seus cabelos. Ela só não desmoronou aos seus pés porque ele ainda a abraçava. Foi então que lembrou que o escritório era transparente, e provavelmente haveria alguns curiosos de plantão observando-os e conseguiu se afastar dele.
— Acho melhor eu ir agora, . — Saiu sem esperar que ele respondesse e caminhou até o elevador, ignorando os olhares que alguns colegas lhe lançavam pelo caminho, inclusive Anne, que ainda estava por ali conversando com alguns. Sentiu uma lágrima cair assim que as portas se fecharam e limpou-a rapidamente, tentando se recompor.
Respirou fundo.
As portas se abriram e ela se obrigou a esquecer o que tinha acontecido por um momento, para então voltar ao trabalho.

No final daquele dia, quando chegou em casa, encontrou brincando com no chão de sua sala. O garoto tinha o cabelo molhado, o que indicava que tinha acabado de tomar banho, e fez o mesmo após cumprimentar os dois. Pensou que já queria ir embora mas se enganou. Um tempo depois após o jantar, colocou para dormir enquanto assistia a algum programa da televisão, sentada no sofá da sala. Minutos depois voltou para conversarem.
vai trabalhar até tarde hoje. Não quis ficar sozinha, então estou me convidei para ficar mais um pouco na sua casa. — sorriu docemente. — E , por falar nisso, eu tenho uma confissão a fazer. Eu já tinha despensado a babá de antes de ligar pra você.
— Você fez o quê? — exclamou, incrédula.
— Eu tinha que ter uma carta na manga, querida. — deu de ombros.
riu.
— Eu também tenho algo pra dizer. É sobre a reunião com o novo chefe...
— Sei, você descobriu que o é seu chefe e ficou de boca aberta.
— Você sabia. — acusou . — Por que não disse?
— Preferi que você descobrisse sozinha. Mas olhe pelo lado bom, eu também não disse ao . Agora me conte tudo. — e se virou para ela, após desligar a televisão.

— Você o quê? — repetiu as palavras de , após escutar o que ela havia dito.
— Eu recusei o convite dele. — repetiu.
— Devia ter aceitado.
— É? E você ia ficar de babá a noite toda?
— Seria por uma boa causa. — respondeu . — Vocês têm mesmo que conversar.
— Não sei...
, pense comigo. Você ainda está se formando na faculdade, enquanto praticamente já tem uma carreira, e é rico. Ele poderia dar um futuro ótimo para tão rápido quanto você deseja.
— Assim como também poderia usar todo o dinheiro que tem e tomar meu filho de mim. — resmungou.
— Eu não acho que ele faria isso, mas supondo que sim, seria pior se você não dissesse a ele. Você conhece melhor que ninguém e sabe como aquele homem é. Ele, com certeza, iria assumir vocês dois. E, provavelmente, teria feito isso três anos atrás.
— Eu não queria interferir na vida dele.
— Entenda de uma vez por todas, o que e eu estamos tentando te fazer entender faz tempo: A culpa não foi só sua. é tão culpado quanto você por ter te engravidado. Eu também entendo seu lado de não-queria-interferir-na-vida-dele, mas isso não iria interferir tanto na carreira dele.
— Claro que iria, . — retrucou. — provavelmente teria ficado em Londres e desistido de vez de Nova York que era o que ele queria desde sempre. E eu não queria que ele ficasse só por causa disso.
— Não é por causa disso. Vocês estava grávida de um filho dele. E não se esqueça que esse disso, é o filho de vocês.
suspirou.
— Você tem razão.
— Eu sei.
— Certo, mas não precisa ficar arrogante. — revirou os olhos.
— Você precisa contar a ele, é melhor que vocês estejam em uma amizade legal quando fizer isso, e não evitando um ao outro. Claro que na parte de evitar, é só você que está fazendo isso. Claro que não vai ficar exatamente feliz, — continuou ela — mas não será pior se ele descobrir que vocês está evitando ele por medo de não falar.
— Eu vou contar. — prometeu. — Eu só preciso de tempo.
— Vou começar a contar esse seu tempo. Mas eu também quero que prometa outra coisa para mim.
— O quê? — quis saber.
— Se te convidar seja lá para o que for, você vai aceitar. E sem desculpas por causa de , deixe que dele cuido eu. — acrescentou.
— Tudo bem, mas eu não acho que ele vai me convidar novamente. — respondeu .
— O abraço que ele te deu e aquelas cinco palavrinhas que ele te disse, bem acho que minha intuição me diz que sim, ele vai.

***


foi visitar e na casa deles no domingo.
— Ei, . — cumprimentou , assim que abriu a porta. — está no escritório, e vem daqui a pouco. — Fiquei sabendo que você descobriu que conhece uma de suas estagiárias. — piscou, sugestivamente e ele riu. — Aceita um café, Sr. ?
Ele assentiu.
Caminharam até a cozinha e começou a preparar o café, enquanto ainda estava parado na soleira da porta.
— Você devia ter dito. — falou, ainda sorrindo. — Mas ao menos eu tive a oportunidade de ter a surpresa antes dela. A parecia estar vendo um fantasma.
— Eu conversei com ela. Ela me disse que você tinha convidado ela pra jantar, mas recusou.
Ele colocou a mão no pescoço, desconcertado.
— Acha que ela está com raiva de mim, ?
— Raiva? Por quê? — perguntou em frente à ele, encostada na ilha da cozinha.
— Talvez por eu ter ido embora daquele jeito. E ela nunca se comunicou comigo durante esses anos... Acho que ela ficou ressentida comigo. — murmurou, tão baixo que quase não escutou.
— Não se preocupe com isso, . — colocou a mão no ombro dele. — Ela não está com raiva de você.
— Quem está com raiva de quem? — indagou , entrando na cozinha.
— E aí, cara? — cumprimentou , com um abraço.
acha que está com raiva dele porque ele foi embora. — disse.
— Ela não está com raiva de você. — falou .
— Então porque ela está me evitando?
— Ela não está te evitando. — começou . — Apenas surpresa pela sua volta.
— Ela recusou meu convite. — retrucou.
— Por causa de .
— Eu disse que ela podia levar o garoto junto! — exclamou, exasperado. — Ela não tinha motivos pra negar, a menos que queira me evitar e eu nem sei porquê. — acrescentou.
— Talvez porque ela estava cansada demais. Por que você não a convida para almoçar amanhã?
— Ela vai negar.
— Não vai não. — retrucou .
— Como você sabe? — perguntou, estreitando os olhos.
— Porque eu sei.
— Deixa eu adivinhar... Intuição feminina?
— Eu apenas sei. — deu de ombros.
— Mas...
— Realmente, vocês vão ficar discutindo? — indagou .
— Tem mais uma coisa. — disse.
— O quê? — perguntou o casal, ao mesmo tempo.
— Vocês dois não me disseram que a tinha um filho. Na verdade, eu não sabia nem que ela tinha engravidado.
Fez-se silêncio.
, nós prometemos que não iríamos contar mais pra ninguém. Já bastava as pessoas olhando torto para ela na rua, e até os próprios coleas na faculdade. Muita gente se distanciou dela.
— Nem pra mim? Achei que eu tivesse o direito de saber, já que ela é minha amiga. Ou era, até três anos atrás.
— Você se distanciou quando foi embora. — apontou .
— Mas eu sempre entrava em contato com vocês, quando perguntava da , só me diziam que estava tudo bem. E ela nem sequer falou comigo uma só vez. E não estava tudo bem, ela engravidou e foi abandonada pelo imbecil do pai da criança, que você mesma disse que não estava lá pra ela nem na gravidez nem no nascimento do próprio filho.
— Tudo bem, . Então o que você faria? Você estava em Nova York, não podia fazer nada quanto a isso.
— Eu a teria apoiado e ajudado. não merecia o que ele fez.
— Na verdade... — Ressaltou . — meio que até merecia um pouco.
— O quê?!
... — repreendeu-o.
— Não, . Pelo menos isso eu posso dizer.
— Mas...
— Não. — interrompreu . — , nunca contou ao pai da criança que estava grávida.
— O quê?! — repetiu.
— Ele nunca soube porque ela não queria interferir na vida dele. — completou .
— Por quê?
— Porque ele tinha um sonho, e ela achou que talvez ele quisesse ficar com ela pela criança e isso iria interferir na vida dele. Ela não queria ser um peso.
— Um peso? Mas ele teve tanta culpa quanto ela.
não podia fazer isso, o pai tinha o direito de saber. — falou, e ficou um momento em silêncio antes de finalmente perguntar:
— Vocês o conheciam?
“Oh, isso é certamente muito irônico”, pensou .
— Sim. — responderam.
— Quem?
— Não podemos dizer.
— Por quê?
— Porque prometemos em nome do nosso afilhado. — respondeu .
— Vocês... Vocês são os padrinhos do garoto?
é o nome dele, . — corrigiu .
— Eu me sinto realmente excluído. Como se tivesse dormido por três anos.
— Entendo você. — disse .
— Terá que saber pela boca dela, . Isso se ela quiser falar do assunto. Mas eu não aconselho que fale disso ainda.
— Por quê?
— Você acabou de chegar, não está pronta pra dar um resumo de como foi a vida dela nesses últimos três anos que você estava fora assim do nada.
— Convide-a para almoçar amanhã. — sugeriu . — Se aproxime dela, . ) pode ter mudado um pouco mas ainda é a garota que conhecemos quatro anos atrás. A diferença é que agora ela é mãe de um garotinho adorável de quase dois anos. — completou ele.
sentiu-se diferente, como se alguma coisa dentro dele estivesse tentando dizer algo, mas ele não sabia o quê. Então, apenas respondeu:
— Irei convidá-la.


4. Biscoitinhos com Gotas de Chocolate

Dito e feito.
Na segunda-feira quando os empregados já começavam a se organizar e sair para o horário de almoço, foi até a mesa de . Ela estava de costas, concentrada em algo que lia na tela do computador.
Anne havia convidado para almoçarem juntas. Mas desistiu de esperá-la quando avistou se dirigindo à mesa dela. Pegou a bolsa, calmamente, enquanto se mantinha distraída e caminhou ao elevador, saudando com um sorriso ao passar por ele.
sorriu para Anne e quando a mesma entrou no elevador, ele pigarreou atrás de .
Ela rosnou, impaciente.
— Olha, você pode ir na frente que eu vou depois. — murmurou, de costas.
— Que pena, porque eu não estou pensando em sair daqui sem você.
Ela automaticamente enrijeceu as costas ao ouvir aquela voz. Girou a cadeira, lentamente até ficar em frente a ele.
, oi! O que está fazendo aqui? — perguntou, olhando discretamente para os poucos colegas que ainda estavam na redação, sentindo alguns olhares dos mesmos.
— Vim te buscar para ir almoçar comigo. E… — acrescentou, assim que ela abriu a boca para responder — Não aceito ‘não’ como resposta.
Ela o olhou por um momento, ponderando, mas por fim assentiu com a cabeça. Ele sorriu e ela sentiu um frio na barriga. Levantou-se e pegou a bolsa, quando Bem chamou sua atenção, novamente.
— Senhorita?
Ela o olhou e viu que ele estendia o braço em uma pose cavailheira. Não pôde deixar de rir baixinho da situação.
, pare. Estão todos olhando. — murmurou, tentando reprimir um sorriso.
Ele olhou para o teto e manteve-se imóvel na mesma posição, ignorando-a. Ela já sabia como isso iria acabar, já que não era a primeira vez que ele fazia aquilo.
Suspirou e tentou não sorri novamente.
— Você é irritante, . — murmurou, encaixando o braço ao dele.
— Também aprecio sua companhia, Srta. . Obrigado por falar.
No elevador havia algumas pessoas, duas delas trabalhavam no mesmo setor que e também eram colegas de faculdade.
As portas no elevador se abriram instantes depois e puxou-a pela mão, como sempre fazia na época em que saíam, porém ficou um pouco incomodada.
Já podia imaginar os comentários que viriam pelas suas costas. A estagiária, mãe solteira, saindo com o chefe. Definitivamente ótimo para a reputação dela.

levou à um restaurante simples e aconchegante, bem informal. Soubera por , que aquele era o preferido de , e ela quase sempre almoçava lá.
Sentaram a mesa e logo um senhor apareceu.
, como vai?
— Ei, Peter. — saudou. — Bem e você?
— O de sempre, você sabe. O que você e… — olhou interrogativamente para o homem em frente a ela.
.
. Certo. — murmurou com um sorriso, olhando para ela significativamente. — Então o que vão pedir?

Enquanto a comida não chegava, eles conversaram sobre vários assuntos.
estava feliz e relaxada, mas logo ficou séria e rígida quando perguntou:
— Como vai ?
— Bem, obrigada. — respondeu, seca.
, você mantém algum ressentimento por minha causa? — perguntou, direto.
— Por que está me perguntando isso?
— Você me evitou a semana inteira e… Quando eu estava fora, eu mandei algumas cartas pelo , mas você nunca respondeu e nenhuma delas. — ficou um momento em silêncio e, em seguida, acrescentou — E algo me diz que você nunca chegou a ler nenhuma delas. Por quê?
Ela ficou calada por um momento e desviou o olhar para as próprias mãos, à mesa, antes de responder:
— Desculpe, . Eu… Não tinha muito tempo, foi uma época muito… Muito corrida para mim, entende? Eu tinha que trabalhar e estudar, depois um filho… E eu só cheguei onde estou agora graças a ajuda que recebi de e e principalmente minha tia Claire. Eles me ajudaram quando eu mais precisei e quando ninguém mais quis ajudar.
— Talvez o pai da criança tivesse ajudado se você tivesse contado a ele que estava grávida. — ele falou, sem pensar. Olhou para pedindo desculpas, silenciosamente.
— Quem te contou isso, ?
pediu para não te contar mas…
— Então foi a ? — interrompeu ela.
— Na verdade, foi o que me contou. Você está zangada? Porque se estive a culpa é toda minha, eu que toquei no assunto. — falou, rapidamente.
Ela respirou fundo.
— Tudo bem.
… Eu sei que não é da minha conta, mas você é minha amiga, ou pelo menos era, e eu meio que estou no escuro… Mas porque você não contou nada ao pai do ?
Ela ficou um momento em silêncio, olhando para qualquer outra coisa que não fosse ele.
— Eu não queria interferir na vida dele.
— Mas ele também teve culpa no ato. E se ele quisesse a criança? Ele também tem direitos.
— Eu sei, . — ela interrompeu o falatório dele. — É aí que está, ele era uma ótima pessoa e se eu contasse ele provavelmente desistiria de tudo o que havia lutado para conseguir por causa dessa criança. E eu não queria que ele desistisse.
— Bem, talvez ele te amasse. — ele murmurou, mais baixo.
— Não, . Ele gostava muito de mim e isso não era suficiente.
Sem saber porque, começou a sentir novamente aquela sensação que tivera na casa de e . Tinha alguma coisa errada, porém ele não sabia o quê. Resolveu ignorar mesmo assim.
— E os seus pais, o que eles disseram quando você contou da gravidez?
— Basta dizer que não foi uma conversa agradável, o que é compreensível, e que eles simplesmente me deixaram por conta própria. Mamãe queria saber quem era o pai, mas eu não contei porque ela provavelmente iria dar um jeito de arrastá-lo até mim. — falou ela, indiferente. — Como eu não fiz o que ela queria, ela e meu pai resolveram cortar relações, mas é claro que ele culpou tia Claire antes. — acrescentou.
não sabia o que dizer. Mas sabia que talvez não iria ser muito sensato expressar a revolta repentina que sentiu ao saber que os pais abandonaram-na em um momento tão difícil. Então ele apenas engoliu o que realmente queria dizer e murmurou uma famosa frase.
— Sinto muito, .
— De qualquer forma — ela continuou —, agora eu já tenho as coisas sob controle. Em breve, terminarei a faculdade e vou poder trabalhar mais e a partir disso, quando der, irei arranjar um novo lugar para morar. Mais perto de Claire, talvez.
diz que seu bairro não é muito seguro.
— É o suficiente, por ora. — desconversou. — Agora podemos, por favor, mudar de assunto?
— Tudo bem, desculpe.
A comida chegou e eles começaram a comer, em silêncio.
— Por que não me conta de Nova York? — sugeriu, ela.
— Não tenho lá grandes coisas para contar. Eu passava a maior parte do tempo trabalhando.
— Sério? Vocês estava em Nova York e era só isso que você fazia? — perguntou, sarcástica.
Ele tomou um gole do suco, antes de responder, sem olhá-la.
— Teve uma garota.
— Hmm. — ela respondeu, sentindo uma pontada de ciúmes.
— O que é esse ‘hmm’?
— E ela era sua namorada? — quis saber, ignorando a pergunta dele.
— Ela foi minha noiva. Eu conheci há uns meses atrás e nós ficamos noivos por uns dois meses.
— E depois? Ela terminou com você?
— Eu terminei.
— Por quê?
— Não senti que era ela, sabe? — falou. — Sem contar que ela era meio doida. Neurótica! — ele acrescentou, rindo. — Na verdade eu nem lembro de ter pedido ela em casamento.
— O quê?! — ela exclamou e riu junto.
— Sério, eu acho que eu devia estar bêbado para aceitar. Mas depois eu estava confuso e fiquei com medo de magoar ela, até que ela confessou que ela que havia me pedido e eu bêbado, aceitei.
tentava controlar o riso antes mesmo dele terminar.

***


Estavam no elevador.
Sozinhos.
O caminho de carro na volta não fora exatamente diferente da ida. Ambos se mantiveram em silêncio, perdidos nos próprios pensamentos. estava encostado no espelho do elevador, com as mãos no bolso, enquanto o elevador subia. Já , estava perdida, olhando para o nada, relembrando cenas que ela gostaria de esquecer.

Três anos atrás…

Estava sentada no sofá da casa de Claire e a mesma se mantinha sentada ao seu lado, segurando sua mãe enquanto ainda esperava a reação dos pais dela que no momento se mantinham em silêncio, paralisados.
— Quem é o pai? — Caroline, sua mãe, perguntou.
olhou para Claire, procurando encorajamento e quando o encontrou, murmurou sem olhar para a mãe.
— Não posso falar.
— Como assim não pode falar? — a mãe retrucou.
— Ele não sabe porque eu não quis contar.
— Eu exijo que me conte quem é ele, .
— Não adianta. Ele está longe agora, e se eu não contei, não é você que vai contar e fazer o que pretende. Arrastá-lo para cá e forçá-lo à um casamento estúpido.
Caroline ficara em silêncio, olhando friamente para a filha.
— Isso é culpa sua. — disse seu pai à Claire, manifestando-se pela primeira vez. — Se ela continuasse morando conosco isso nunca teria acontecido.
— Sua filha queria estudar, Derek.
— E o que conseguiu foi uma gravidez indesejada.
— Vou continuar estudando como sempre fiz, papai.
— Com um bebê? Sendo mãe solteira? — indagou, fazendo uma careta.
— Não é como se eu fosse ser a única mãe solteira no mundo. — respondeu, orgulhosa. — E eu não estou pedindo sua ajuda nem de mamãe, achei apenas que deveriam saber que vão ser avós.
— Ótimo. — ele respondeu. — Porque você não ia ter. Você está por conta própria agora, . Vamos embora, Caroline. — acrescentou, em seguida, e os dois saíram pela porta da frente sem nem se despedir.
Aquela fora a última vez que vira seus pais. Desde então, nunca mais tivera notícias deles nem eles tiveram notícias dela. Eram estranhos agora.

Atualmente…

O elevador apitou e voltou ao presente. Murmurou uma rápida despedida para e as portas se abriram. Porém quando estava prestes a sair, ele a segurou pelo braço, forçando-a a olhar para ele.
, eu só quero que saiba… Pode contar comigo sempre que precisar, ok?
— Certo. — respondeu ela, automaticamente.
Ele soltou o braço dela e quando deu por si, estava com a mão no rosto dela, acariciando suavemente. O toque fez com que ela lembrasse da despedida deles três anos antes e ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Então se afastou, perfurando a bolha em que pareciam estar. deu um passo para trás e apertou novamente o botão do elevador, acenando para ela antes que as portas se fecharem.
Em seguida, ela respirou fundo e caminhou novamente para sua mesa, ignorando os olhares dos colegas, e agiu normalmente como se nada tivesse acontecido.

***


Cinco dias depois, tinha ligado para para perguntar se ela podia cuidar de por algumas horas, para que pudesse estudar uma prova importante e adiantar um trabalho que tinha que entregar para a próxima semana. , como sempre, veio com um discurso sobre madrinhas e melhores amigas antes de vir pegar para um passeio.
tinha acabado de guardar o material e pegava ingredientes na geladeira para fazer alguns cookies para o filho, quando a campainha tocou.
Caminhou até a porta e abriu-a.
— Oi. — disse. — me ligou e me mandou em uma missão de resgate.
Ele falou aquilo mas ela ainda se mantinha parada na porta, sem falar nada e a única coisa que pensava era “que bom que não está em casa”.
, você está bem? — perguntou, passando a mão em frente ao rosto dela para chamar atenção. — Parece que o caso aqui é sério.
— Ben. Sim, estou. Ahn, entra. — convidou meio sem jeito, dando espaço para ele entrar.
— Na verdade eu estava pensando em te convidar pra sair.
— Eu estava prestes a fazer cookies, e não seria legal deixar de babá pela noite também.
— Pelo que eu soube, e estão em algum parque de diversões com ele nesse momento. Mas se você não quer sair, eu ainda sou um ótimo assistente quando se é para fazer biscoitos. — disse, sorrindo de lado.
Foi impossível não comparar os sorrisos de e . O menino era uma miniatura do pai, e não tinha quase nada dela na aparência.
Não que ela estivesse reclamando.
sempre foi um homem bonito e parecia ainda mais naquele momento.
— Acho que tudo bem, já que meu assistente está de folga em um parque de diversões. — ela respondeu, sorrindo também.
E então era como se o tempo não tivesse passado e eles estavam de volta a três anos atrás quando e tinham sido assistentes dela e de na casa de Claire.
Mas eles não faziam de graça, óbvio.
Biscoitos eram o pagamento.
— O pagamento ainda é o mesmo? — ela perguntou.
— Hoje eu tinha pensado em fazer de graça mas já que você insiste, eu não vou negar alguns cookies.
Típico.
adorava biscoitos, não somente cookies mas vários outros tipos.
O que era apenas mais uma coisa em comum que tinha com ele.
— Por que eu não estou surpresa? — respondeu. — Então, vamos lá.

Na cozinha começou a preparar a massa enquanto ia pondo os ingredientes.
— Mais farinha, chefe?
— Sim, mais um pouco. — respondeu ela, enquanto mexia a massa com as mãos.
— Quero só ver você se livrar dessa gosma depois. — brincou ele.
— Gosma que você adora comer, né?
— Acho que para mim, qualquer coisa que tiver chocolate é comestível.
— Até produtos de beleza?
— Nah. Essa é a exceção, eu coloquei o shampoo de minha irmã uma vez quando eu tinha oito anos e não foi muito agradável. — ele disse, com uma careta, fazendo rir alto. — Sabia que é feio rir das desgraças dos outros? — reclamou, tentando parecer bravo.
Mas só riu mais.
— Acho que a massa já está boa. — ela disse, começando a se limpar com a ajuda de uma colher para tirar o resto da massa dos dedos. Raspou tudo de modo que apenas as pontas dos dedos estavam meio sujas, nada que um pouco de água não resolvesse.
— Você sabe, tem um jeito mais gostoso de fazer isso. — ele falou, quando ela repetia o mesmo processo com a outra mão.
— Eca, . Nem vem, ainda bem que eu não te deixei misturar a massa.
— Tudo bem, é meio nojento. Mas ainda assim é gostoso.
— Então prova.
— Ok.
Ela pensou que ele provavelmente enfiaria a mão da massa para depois lamber os dedos, mas ele segurou a mão dela antes que ela pudesse dizer qualquer coisa e colocou o dedo indicador dela na boca, raspava os dentes de leve e chupava a massa. E repetiu o processo vagarosamente com os outros, ao mesmo tempo que fazia, olhava para ela. E ela nem notou que ofegava enquanto ele o fazia.
A única coisa que via era aquele par de olhos azuis encarando-a. Era quase como uma hipnose.
acabou o processo e então disse:
— Viu? É bem melhor.
Mas ela não disse nada. Encarou-o por um momento antes de se virar para a pia e lavar as mãos.
— Hora de modelar os biscoitos, Sr. Assistente.

E assim eles fizeram. Após colocar os biscoito para assar, insistiu em ajudá-la com a louça. A cena anterior já parecia esquecida pelos dois, e eles agiam e conversavam normalmente, rindo um do outro de vez em quando.
O telefone de tocou enquanto ela lavava a louça.
— Um passarinho me contou que você arrumou um assistente novo para os biscoitos.
— Provavelmente o passarinho aprendeu a enviar torpedos, então. — respondeu, fazendo rir.
— Ele ainda está aí?
— Sim.
— Então acho que não seria uma boa ideia levar agora.
— Concordo plenamente.
está na sua frente, não é?
— Exatamente.
— Bem, tudo bem. Divirtam-se, e eu vamos levar para comer uma pizza depois que eles saírem do carrinho bate-bate. Juro que parece ter a idade de naquele troço. — comentou , rindo.
— Tire uma foto porque eu preciso ver isso.
— Certo, te vejo daqui a umas duas horas?
— Tudo bem, e obrigada por… Você sabe o quê. Não que eu não queira conversar com você sobre isso depois.
— Querida, nós muito a conversar quando eu chegar aí. — respondeu.
Então desligaram o telefone.
colocou o telefone no balcão, e quando virou-se foi atingida por um jato de água, bem no meio da cara. começou a rir assim que a boca dela formou um ‘O’ perfeito.
, como você ousa?! — ela praticamente gritou, e ele riu mais.
então mergulhou as mãos na pia cheia d’água e esguichou água nele, e no mesmo instante ele parou de rir e foi a vez dele de formar um ‘O’ com a boca e olhar para o estado de si mesmo, a roupa toda molhada. Em seguida, ele olhou pra ela e ela soube imediatamente o que aquele olhar indicava.
Virou-se pronta para correr mas ele a agarrou por trás antes, fazendo com que ela gritasse e explodisse em risadas. Ele pegou o chuveirinho da pia e começou a molhar ela e, consequentemente, ele mesmo.
— Tarde demais para fugir, moça. — falou ele, ainda rindo.
— Pára! Ah! — gritou, tentando se soltar dele.
Ele largou o chuveirinho e ela se virou para ele. Olharam-se rindo um do outro.
Então, no impulso, ele a beijou.
Assim, sem mais nem menos. Um beijo, depois outro. Mero encostar de lábios, duas vezes. Depois se afastam um pouco, e outra vez apenas se olharam. E quando ele se aproximou querendo beijá-la outra vez, ela se afastou.
— Ah… Eu… Vou olhar os biscoitos no forno.
— É… Acho que essa é minha deixa pra ir… — ele murmurou, baixo.
— Espere. Eu vou… — então, rapidamente colocou uns biscoitos dentro de uma vasilha com tampa e entregou a ele. — Ahn… Seu pagamento, Sr. Assistente.
— Obrigado, chefe. — ele disse.
o acompanhou até a porta e eles murmuraram um “Boa noite” vago.
Depois, ele foi embora. Ela fechou a porta, e encostou-se na porta, escorregando até o chão, perdida nos próprios pensamentos mais uma vez. Entretanto, eles não eram sobre o passado distante e sim recente, envolvendo um casal encharcado em uma cozinha e rindo um do outro.


5. A Verdade Sempre Vem à Tona

tentava terminar de arrumar uma pilha de livros que havia encostado num canto qualquer do apartamento desde a semana anterior quando o resto de seus pertences haviam chegado.
Já estava com vontade de desistir novamente da arrumação e procurar outra coisa para fazer naquela noite de domingo, mas se o fizesse não iria terminar nunca. Também pensara em contratar uma empregada para cozinhar para ele, porém não queria uma invasão de privacidade por mais que fosse mínima. Tinha sobrevivido três anos sem nenhuma empregada, agora não ia ser mais difícil do que já era antes.
Pegou a última pilha de livros, ainda perdido em pensamentos e começou a distribuí-los um a um. Isso, claro, até derrubar os três últimos restantes só Deus sabe como.
Com um resmungo, se abaixou e começou a recolhê-los ao mesmo tempo que reconheceu como alguns livros de leitura que ganhara de alguns amigos. Quando acabou, deu um passo para trás para apreciar a estante recém organizada e acabou por pisar em algo.
Olhou para o chão e apanhou o pedaço de papel. Virou e viu que na verdade era uma foto, e talvez a primeira que tirara com e pensou que devia ter por volta de uns quatro anos.
Colocou a foto em cima da mesinha da sala ao lado do sofá, sem dar muita importância e caminhou até a cozinha para fazer um lanche. Quando voltou, jogou-se no sofá e ligou a TV de plasma à sua frente.
Parecia a preguiça em pessoa.
Jogado, com um moletom aberto sem camisa por baixo e calças do próprio conjunto de moletom. Passou os canais sem achar nada interessante enquanto mantinha uma expressão de puro tédio.
Pensou em dar uma saída e ir à algum pub, mas quando olhou as horas, desistiu.
O antigo nem se importaria de eram nove da noite ou uma da manhã. Tipo o da foto que olhara ainda pouco.
Esticou o braço acima da cabeça e pegou novamente a imagem. Parecia uma ampliação de uma de cabine, devido ao fundo. E tinha anotado algo em uma caneta azul neon, “uma letra de música talvez?”, perguntou-se. Na verdade, ele nunca tinha entendido direito o que aquilo significava. Nem lembrava ao exato quando havia sido tirada aquela foto.
O que, certamente, era irônico já que ele lembrava de tantas outras coisas. E, falando em lembrar, lembrou-se do beijo que dera em .
Era como a primeira vez, e ele sentira-se como se tivesse voltado para o lugar ao que realmente pertencia. Uma sensação boa e feliz, se é que assim podia dizer. Mas ela havia ficado estranha, talvez surpresa. Afinal, claro que ele sempre a achou atraente, mas das vezes que se aproximaram mais do que devia, acontecia algo. Os dois ficavam estranhos um com o outro, mais ela do que ele. E ás vezes, uma discussão ocorria como aquela que tiveram depois da única vez em que dormiram juntos. Porém, sempre quis algo mais com e era um pouco irônico já que ele quem a magoara naquela manhã.
Foi quando tudo mudara e, semanas depois, ele fora embora para outro país.
Mas dessa vez ia ser diferente, ele queria ela e sabia que ela também. Ele não queria ser presunçoso, entretanto vira um brilho de desejo nos olhos dela quando fez aquela pequena brincadeirinha com a massa dos biscoitos nas mãos dela. Ainda existia atração! Sim, ele iria chamá-la para sair mais vezes e iria conquistá-la novamente, mas não só como amigo.

No dia seguinte, decidiu que queria se encontrar com novamente.
Pegou o telefone e chamou-a.
. — ouviu-a responder.
. Sou eu, . Pode vir na minha sala um instante?
— E do que se trata?
— De nós.
— Olhe, estou trabalhando, não tenho tempo para isso.
— Juro que não vou demorar, e se quiser posso fazer disso uma ordem já que eu sou o chefe. — falou, engrossando a voz de uma maneira engraçada. Ela riu um instante mas ficou em silêncio depois. — Por favor. — pediu ele. Ouviu-a suspirar e não conseguiu conter um sorriso.
— Está bem.
Alguns minutos depois, ela apareceu.
— Ei, . — disse cumprimentando-a com um beijo no rosto.
.
— Como você está?
— Bem. Pode ir direto ao assunto? Você disse que ia ser rápido e eu preciso trabalhar.
— Nossa, quem dera eu tivesse mais empregados como você. — ele brincou, mas ela não sorriu. — Tudo bem. Eu... quero falar sobre o que aconteceu no sábado.
— Não aconteceu nada no sábado. Fizemos biscoitos e só. Fim de papo, posso ir agora?
— O que deu em você? — indagou, perplexo com a frieza dela. — É claro que aconteceu e você sabe muito bem disso.
— Está bem. O que você quer agora? O que quer que eu diga? — perguntou, seca.
— O que eu quero é que pare de falar comigo como se eu fosse alguém que você não suporta. — ele respondeu, no mesmo tom.
— Certo, desculpe. — ela baixou o olhar para o chão.
Ele respirou fundo.
— Olhe , eu quero… Quero sair com você, quero voltar a ser seu amigo. Mas eu também quero ser mais que isso. — falou, suavemente, com um sorriso. Ela olhou para ele, estreitando os olhos.
— Quem você pensa que é? — ralhou — Se acha que porque sou mãe solteira, eu estou disponível, então você está profundamente enganado. Eu não tenho tempo para joguinhos, .
Ele franziu o cenho.
— De que diabo você está falando?
— Eu, meu caro, estou falando quero que fique longe de mim. — ela respondeu, e se retirou, em seguida, deixando-o pasmo e irritado com a súbita explosão.
Afinal, o que diabos tinha acontecido ali? O que o fato dela ser mãe solteira, tinha a ver com ele saírem juntos? Ela simplesmente tirara suas conclusões e foi embora sem, ao menos, deixar que ele se defendesse.
Mas, tudo bem, se ela queria tornar as coisas mais difíceis entre eles, assim seria.
Irritado, ele voltou à sua mesa para trabalhar. Alheio, mais uma vez, às pessoas que o olhavam através da parede de vidro do escritório.

— Quem ele pensa que é? Fazer-me uma proposta daquelas. Ora essa…
resmungava no elevador, sozinha. Iria trabalhar, depois iria na faculdade e por fim, iria para casa ficar com o filho que estava com uma babá, naquele dia. Depois aquilo tudo iria passar e que arrumasse outra mulher para ter aventuras.

***


acordou com o despertador que tocava insistentemente. Eram cinco da manhã e terça-feira. Tinha que ir trabalhar e esperava não ter que encontrar e/ou falar com , ainda estava um pouco irritada com ele. Olhou para o lado e viu o filho encolhido entre os lencóis, dormindo.
Levantou-se e caminhou até o armário a fim de pegar uma muda de roupa e seguir ao banheiro para tomar banho logo em seguida. Enquanto isso, repassou mentalmente o que tinha de fazer durante o dia. Após acabar o banho, foi até a cozinha para preparar algum café da manhã rápido para ela e o filho, iria acordá-lo em alguns minutos. Estranhamente, havia estado quieto durante o dia anterior e demorara um pouco para dormir.
Arrumou as coisas que iria levar para o trabalho e para a faculdade, depois as próprias do filho em uma pequena mochila vermelha que ele tinha. Depois de tudo pronto, olhou para o relógio e viu que passava das seis. Iria acordar dali a pouco e daria um banho nele, o faria comer e o deixaria na casa de , ela iria levá-lo a uma creche e iria trabalhar e no período da tarde bancaria a babá.
Às vezes, até bancava o babá de seu filho quando estava em casa. Se bem que ele era a única figura masculina que tinha por perto. Entretanto, sabia que aquilo iria mudar em breve. Como a própria havia falado na conversa que haviam tido na noite anterior.
Também perguntara sobre o almoço com , disposta a ouvir os mínimos e mais insignificantes detalhes. Sem contar a visita inesperada dele em sua casa.
Mas não contou do beijo.
Falar sobre e ela para era como contar um capítulo esperado de alguma novela.
era uma romântica incurável.
Tinha quase certeza de que era aquilo que ela queria ouvir e sabia que de um jeito ou de outro ela iria descobrir. Sabia quando escondia algo.

Quando foi ao seu quarto para acordar o filho, encontrou-o encolhido e chamando baixinho seu nome.
— Mamãe…
— Ei, . O que houve, meu amor? — quis saber, aproximando e sentando ao lado do menino. Pôs a mão na testa dele e sentiu-a quente.
— Dodoi… — choramingou com os olhinhos cheios de lágrimas.
— Oh, bebê… Onde dói, mostra para mamãe?
Ele colocou a mãozinha na garganta enquanto uma lágrima escorria pelo rosto logo sendo seguida por mais outras. sentiu o coração partir-se em dois quando ele começou a soluçar seu nome.
— Ma-mãe... — ele colocou uma mãozinha no olho, desconsolado.
então o abraçou e o colocou no colo enquanto murmurava palavras de consolo.
— Calma, meu amor. A mamãe está aqui. Vai passar.
Após alguns minutos quando parou de chorar, pegou o celular e ligou para .
está doente. — murmurou antes que ela pudesse falar algo.
— Estou indo. — respondeu e desligou, em seguida.

Alguns minutos depois, antha) apareceu e levou-os ao hospital. No caminho até lá, contou o que havia acontecido, ainda um pouco nervosa. Mais tarde, se encontrava em observação depois de uma consulta com o médico. Aparentemente, o menino estava com imunidade baixa e por isso ficara doente. O médico havia recomendado alguns remédios e vitaminas além de dizer que era algo completamente normal em crianças da idade dele.
— É melhor que ele adoeça enquanto é pequeno para adquirir imunidade do que quando for mais velho. — foi o que havia dito o médico.

— Ele vai ficar bem, confortou-a, algum tempo depois quando notara que ela ainda se preocupava.
— Eu sei, mas é só essa coisa, instinto materno. Provavelmente. Mas, mesmo assim, se você tivesse visto como ele acordou, ele mal conseguia falar… Acho que não só essa, mas todas as vezes que ele adoecer, nem que seja algo menor que isso, eu irei me preocupar.
— Wow, você pareceu a velha Sra. agora. — disse, rindo.

Algumas horas depois, e saíam do hospital com .
— Acho que você deveria dormir lá em casa hoje, só por garantia. — sugeriu.
concordou com a cabeça e olhou para que agora se encontrava adormecido no seu colo.
— Só preciso pegar algumas coisas em casa.
— Eu te ajudo — disse, já abrindo a porta do carro para sair e ajudá-la.

preparou roupas, sapatos, remédios, brinquedos e tudo que precisava, e até um pouco mais que isso. Lembrou-se de seu caderno de anotações da faculdade, seu tesouro, andava para todo lugar com ele e justo naquele dia quase esquecera. Menos mal.
Saiu com para a casa dela vinte minutos depois, mas tinha a impressão de que deixara algo para trás. Repassou novamente tudo o que tinha posto, estava tudo ali. Então porque sentia que ainda faltava algo importante? “Deve ser invenção da minha cabeça”, pensou. Estava cansada e já era tarde da noite, no dia seguinte teria que trabalhar.
Caminhou até o banheiro e livrou-se de suas roupas, ligou o chuveiro e ficou ali por alguns longos minutos, enquanto dormia no cômodo ao lado, no quarto de hóspedes.
Ao sair e trocar de roupa, desceu para a cozinha onde encontrou , que havia dito que iria preparar algo para que as duas comessem.
, está com raiva, você sabe — falou, de repente.
— Hm? — olhou para a amiga, confusa.
— Ele disse que te convidou para sair e você deu chilique — acrescentou. que antes se via confusa passou a ter um olhar duro e indiferente no rosto.
— Bem, eu não queria sair.
— Tem certeza? Você sabe que ele me contou tudo, né? Ou melhor, pro

discou os números no telefone e esperou meio impaciente, que o atendesse. Havia chegado em casa estressado, e não conseguia parar de pensar naquela reação maluca que tivera.
— Alô? — ) respondeu do outro lado da linha — Como vai, Sr. ?
— Qual o problema daquela mulher? — perguntou, enfezado.
— Ih, ele tá de TPM — comentou com que estava deitada na cama ao lado dele, cerrando as unhas.
— Sem piadas, . A é uma maluca, quem ela pensa que é pra me tratar com oito pedras na mão? Eu vou lá, chamo ela pra sair numa boa e ela vem com um discurso feito de que só porque ela é mãe solteira não quer dizer que ela esteja disponível, e mais um monte de baboseiras nada a ver. Ela praticamente teve um ataque e saiu feito um furacão da minha sala, e graças ao bom Deus, as benditas persianas estavam fechadas. Foi um show e tanto.
— Nossa, quanto desabafo. Você parece uma adolescente à procura de um conselho da melhor amiga. Que gay.
— É, mas sou um homem de 26 anos, tentando descobrir se o melhor amigo dele pode dizer algo útil em relação a isso. Eu não aguento, cara, a tá muito estranha. Ela não é mais a garota que eu conheci quatro anos atrás. Será que tudo isso é por causa do imbecil que abandonou ela? Ou melhor, ele não abandonou de verdade, não é? A culpa é dela mesma! Mas mesmo assim…
é a mesma pessoa, . Mas muita coisa aconteceu, e a gravidez a forçou a amadurecer mais rápido e se tornar mais responsável. Ela abriu mão de muita coisa por causa dessa criança. Namoros, festas, amizades... Até onde eu sei a só fala com mais uma pessoa fora e eu. Contando com você, duas.
— Eu não sou mais um amigo, . Não sou mais o melhor amigo dela, e nem a conheço mais. Mas mesmo assim, mesmo que eu esteja chateado e sem entender porra nenhuma do que tá acontecendo, eu ainda... — respirou fundo, antes de completar — Eu não quero ser apenas um amigo, . Não mais.
Silêncio.
realmente ficara surpreso ao ver o amigo falar tão abertamente do jeito que fizera. Vamos lá, ele era , não era um cara que costumava falar de sentimentos tão abertamente. E embora tenha demonstrado anos antes que tinha interesse em , nunca tinha admitido de forma tão...
nem mesmo sabia como descrever aquilo. Mas só teve uma confirmação de que suspeitara anos atrás.
estava apaixonado por .
— Cara... Você está mesmo-
— Estou.
E então a ligação caiu, e ficara encarando a noiva que esperava ansiosa pelas (fofocas) novidades.
— Desembucha — ela disse, ansiosa e riu.
Pareciam duas adolescentes fofocando sobre o novo capítulo de uma novela mexicana.


Mas obviamente, não contara tudo para a amiga.
Omitiu a parte do apaixonado. Era bom demais pra ela contar assim, de graça pra ela.

— Ele sempre tem que agir como uma velha fofoqueira. Não sabe guardar nada pra si.
— E você sabe? — perguntou, irônica — Eles são como a gente, e você sabe.
— Odeio quando você fala “E você sabe”. Me faz parecer meio idiota, às vezes.
— Não dessa vez, mas sim mesquinha e arrogante. Que não escuta ninguém, mas vê se presta atenção, .
é o pai do seu filho. Ele não é um desses caras da faculdade que costumam dar em cima de você ou fazer comentários maldosos porque você é uma mãe jovem e solteira. Você conhece o e sabe que ele é a última pessoa no mundo que faria isso. Tanto que, quando ele soube que você tinha um filho, ele não te julgou nem te criticou, muito pelo contrário. Então vê se abre os olhos porque se eu fosse você, eu não iria querer esse cara como inimigo. Principalmente quando ele souber que o filho que você tem também é dele.

***


ainda estava estressado quanto a conversa, e só piorou quando lembrou de um artigo que pedira a para trazer com antecedência para ele, naquele dia, já que o resto da semana estaria lotado de coisas para fazer, tanto dentro como fora do trabalho.
E ela ainda não havia ido entregar.
Pegou o telefone e mandou que a secretária a chamasse rapidamente.
Pouco tempo depois, entrara na sala. E se não estivesse tão estressado e chato como estava, teria notado as olheiras e a afobação dela assim que entrara, como se tivesse funcionando à base apenas de energéticos.
O que, em parte, era verdade.
— Srta. , você tem algo a dizer? Ou entregar? — ele perguntou, ácido.
imediatamente lembrou-se do artigo e pôs as mãos na boca, surpresa pelo próprio esquecimento. Ela nunca esquecia nada assim.
— O artigo!
— É. O artigo — repetiu.
— Eu... Esqueci. Vou trazê-lo amanhã sem falta! Por favor, .
— E porque não trouxe hoje, ? Eu falei que precisava revisar hoje! E é bom mesmo que você tenha um motivo muito importante para não entrega-lo e, ainda por cima, ter faltado ontem sem avisos! Pelo visto o Senhor M não estava tão certo assim, afinal.
— Sim, eu tive um grande motivo, Sr. . Meu filho estava doente, e eu estive o dia inteiro no hospital com ele — disse ela, num tom de voz duro — Isso é motivo suficiente pra você, ?
, sem saber por que, se aquietou um pouco ao ouvir ela falar do filho doente. Foi quando notou que a aparência dela não era das melhores, o que o fez ter um misto de raiva e preocupação o mesmo tempo. Virou-se de costas, tentando se acalmar.
E foi então que ele falou sem pensar.
— Talvez se você não fosse uma mãe solteira, se tivesse falado ao pai do seu filho que ele seria pai, você não estivesse enfrentando essa situação agora mesmo.
Ele cuspiu as palavras na cara dela. De forma suave e dura, aparentemente calma. Mas o conhecia bastante para saber que estava fervendo por dentro, o que a fez se perguntar se talvez ou tivessem tido alguma coisa sobre ele ser o pai do seu filho.
Não. Eles não fariam aquilo.
Mas as palavras de doeram tanto quanto como se ele soubesse de tudo. O que afez imaginar, por alguns segundos, como seria quando ela contasse, ou como seria se ela tivesse contado três anos atrás.
ficara imóvel por um tempo, e não percebera as lágrimas que começavam a rolar no seu rosto. Nem percebera que agora a olhava novamente, dessa vez, assustado e culpado pela reação dela.
... — ia se desculpar por tê-la feito chorar, mas fora interrompido antes de começar.
Ela queria muito dizer que aquilo não era da conta dele, que ele falava injustamente com ela fazendo acusações falsas, e muito menos que ele nunca podia tocar naquele assunto.
Mas ela apenas aguentara calada. Ele, mesmo sem saber, tinha esse direito. E ela sabia que tudo que ele falara era a mais pura verdade. E que seria bem pior quando ele descobrisse que seu bebê, de quase dois anos de idade, também era dele. E que seria bastante óbvio que ele era o pai, devido à aparência do menino. quase contou na hora, mas de repente, sentiu medo. Medo de perder seu garoto.
Então ela apenas secou as lágrimas rapidamente, e deu um sorriso sem graça, para logo depois falar de maneira muito formal, não ao , mas ao seu chefe que ainda a encarava.
— Desculpe pelo ocorrido, Sr. . Prometo que não ocorrerá novamente, e se o senhor me der meia hora, eu posso ir em casa e pegar o artigo. Agora, se me der licença...
. ! — ele chamou, mas ela apenas saiu, fingindo que não ouvia e se enfiou no banheiro mais próximo.
Ficara alguns minutos tentando se recompor, para então fazer o que havia dito antes de deixar a sala do chefe. Lavou o rosto, e caminhou até a cantina.
Foi até a máquina de café e pegou um para tentar ficar mais um pouco alerta.
Embora estivesse muito cansada na noite anterior, sua mente ainda maquinava pensando no filho e planejando os cuidados a mais que teria de ter para que ele melhorasse de vez.
— Ora, ora… Teve uma noite difícil, ? — ela escutou a voz atrás de si, reconhecendo-a como a de Carter, um colega da faculdade — Ou será que a noite foi boa demais? — ele acrescentou.
ficou calada. Fingiu não escutar. Não era a primeira vez que escutava coisas do tipo, principalmente vindas de e seus amiguinhos.
Gostavam de dar em cima dela, de soltar piadinhas e insinuar coisas.
Principalmente pelo fato dela ser mãe solteira. Nada incomum nos dias de hoje, mas mesmo assim. só recebia críticas e mais críticas de pessoas como ele. Mas não se importava. Tinha seu filho e era feliz assim, ainda mais agora que podia dar uma vida melhor para o pequeno.
Pegou um copo descartável e se serviu com um pouco de café. Havia saído apressada da casa de e não tivera tempo para comer. Ela estava tremendo desde quando saíra da sala de e com seu coração acelerado pela discussão ainda tentava se acalmar.
— Não vai me responder? O gato comeu sua língua, ? Ou você perdeu ela de outro jeito?
— É pra você, Carter. Nem , nem — ela respondeu enquanto soprava o café.
— Mas o chefinho pode te chamar assim, não é? — perguntou, com inocência fingida — Por que ele pode e eu não?
— O Sr. não é o único que me chama assim e você sabe.
— Hm… agora é Sr. … Me diga, , você já está dormindo com ele ou… ele é um antigo amor?
— Não e isso não é da sua conta.
— Não, é? Hm… — ele passou a se aproximar dela, enquanto falava — Eu soube que o passou uns três anos em Nova York. Eu não estou dizendo nada, mas ele bem que podia ser o pai do seu moleque, não é?
levava o café em direção à boca e paralisou quando ouviu aquilo. Certo. De onde aquele cara havia tirado aquilo?
Soprou mais um pouco o café, para disfarçar o nervosismo e tomou um gole.
— Isso não quer dizer que seja ele. Como você mesmo falou, Carter.
— Hm… Tem razão. Mas e então, , quer sair hoje? Ou você está muito cansada da noite de ontem? — insinuou ele.
— Estou muito cansada de ontem à noite — retrucou, cínica.
teria saído de lá naquele instante se não a tivesse puxado e a feito derramar todo o café no chão.
— Então… eu estava certo, não é? Mas e quanto a um beijo, ? — ele sorriu, sarcástico.
tentou soltar seu braço, mas foi em vão. era forte e ela não estava em suas melhores condições.
— Se você não me soltar, eu irei gritar — ela disse, calmamente.
Mas a ameaça do grito pareceu servir como impulso para e só fez com que ele a agarrasse de vez, tentando beijá-la.
E conseguiu. lutou, dando socos no peito dele até que ele a soltasse. E, quando o fez, ela proferiu um tapa em seu tosto, deixando o local vermelho.
Obviamente, não algo que ele achou interessante.
— Essa vadia louca! — exclamou, com a mão no local atingido, logo notando uma fileta de sangue que escorria, devido a um anel que ela usava.
tentou escapar dali, mas novamente ele a puxou pelo braço.
— Me larga, seu imbecil! Já disse pra me deixar em paz!
— Você vai ver só, sua…
— Acho que a dama pediu para deixá-la em paz, Carter.
que estava de costas, se virou e viu a pessoa que tinha dito aquilo.
estava em pé, com as mãos no bolso. Quem olhasse, veria um homem relaxado, mas o gelo que aqueles olhos azuis demonstravam era o que o traía.
Se falava sem pensar quando ele estava com raiva, só piorava quando a raiva virava ódio.
Ele não agiria descontrolado, óbvio. Mas ele faria o que tivesse ao seu alcance para acabar com aquele sentimento. Se ele fizesse algo, não seria por simples descontrole.
E realmente desejou que ele apenas ficasse parado, tentando resolver o assunto civilizadamente, falando e não… socando.

Quatro anos atrás…

dançava animada numa boate, enquanto havia saído para pegar algumas bebidas. E sentados num sofá ali perto estavam e . Conhecera os dois havia aproximadamente seis meses e vinham saindo desde então. Acenou para os rapazes e continuou a dançar.
Até que sentiu alguém segurando-a pela cintura, por trás. Tentou se afastar calmamente, mas a pessoa a apertou mais contra si. Logo, ela sentira um cheiro forte de álcool vindo dele. Virou-a fazendo com que ela o encarasse, e não conhecia a pessoa. Ela tentou chutar o cara, mas ele a mantinha muito próxima para que conseguisse, foi quando ela começou a ficar com medo. Embora tivesse muita gente ao redor, ninguém parecia prestar atenção neles, e gritar não adiantaria de muita coisa devido à música alta que tocava.
Olhou em volta à procura de e não a encontrou. No sofá, e também não estavam mais.
O que piorou sua situação.
— Por favor, me solta.
Sua voz já falhava devido ao medo, e seu coração se mantinha acelerado. O cara que a agarrava sorriu e tentou beijá-la, mas lutava e para controlá-la, ele agarrara os cabelos dela, puxando-os com força.
— Quietinha, moça.
sentiu os olhos encherem de lágrimas e os fechou tentando contê-las. Mas antes que ele fizesse mais alguma coisa, ela sentiu alguém afastá-lo de si.
Quando abriu os olhos, viu que socava o rapaz com fúria. O problema é que ele não parava de socá-lo e o cara já estava quase desmaiando. Era a primeira vez que via agir daquela forma.
! Pára! — ela pediu, mas pelo visto ele não a escutara.
Foi quando finalmente apareceu e o afastou do cara.
— Nunca mais ponha as mãos nela, seu filho da puta! — gritou, com ódio.
estava em choque. Sentiu a abraçá-la e afastá-la da multidão.
Logo estavam os quatro indo em direção ao carro de no estacionamento.
entrou no carro chorando devido ao susto e, assim que o carro entrou em movimento, a olhara assustado e preocupado.
Aproximou-se dela, meio desesperado e a abraçou forte.
, pára de chorar! Não aconteceu nada, vai ficar tudo bem. Fica calma, por favor.
— Eu tive tanto medo, — ela o abraçou forte e chorou em seu ombro.
— Shhh! Vai ficar tudo bem. Isso não vai mais acontecer.
— Obrigada por ter me salvado, embora você quase tenha matado o cara.
— Pois é, e se ele tivesse feito algo mais sério com você, eu teria matado mesmo — falou, brincando.
riu. Mas não duvidava que a brincadeira não era uma simples brincadeira para fazê-la rir.


— Ora, ora… .
— Pode soltá-la, por favor? — pediu, educadamente.
— Tudo bem. Certo, , vá lá com seu salvador. Mas se lembre que sempre há uma próxima vez em que podemos brincar mais um pouquinho. Te vejo por aí, chefinho.
— Não irá haver próxima vez, Carter — disse, assim que o outro estava pronto para sair — Você não vai tocar nela novamente. E eu não quero nem que você se aproxime dela em uma distância menos que dez metros.
Wow! Nossa, . E você ainda diz que não está dormindo com ele! Mas pelo visto, você foi bem rápida, não é? — ele insinuou, caminhando pelo corredor saindo dali.
trincou os dentes e cerrou o punho, pronto para se virar e fazer o que bem entendesse, quando o abraçou impedindo.
, por favor — sussurrou, agarrando a camisa dele.
, me larga — pediu, devagar.
— Não. Você não vai fazer isso.
respirou fundo, e foi se acalmando lentamente.
, eu…
— Tudo bem, . Não é a primeira vez que isso acontece, e não será a última. E você sabe disso.
— Aquele cara… ele-
— Eu sei. Mas você não precisa mais se meter, porque eu sei me defender sozinha e venho fazendo isso nos últimos três anos.
— Eu só queria ajudar.
— Eu não preciso da sua ajuda, . Muito obrigada, mas eu não preciso dela — disse, apanhando o copo de café que havia caído e pondo no cesto de lixo.
Ele suspirou.
— Por favor, me desculpe. Por dizer aquilo na sala, você sabe.
— Tudo bem, . Você não fez nada mais do que jogar a verdade na minha cara. Agora se não se importa, eu vou indo.
E caminhou para sair, mas antes que conseguisse sequer dar um segundo passo e passar por ele, ela sentiu uma tontura e quase caiu, se não fosse os braços que a seguraram.
! Você está bem?
… Sim. Eu só estou um pouco cansada. Eu tenho que ir, o documento.
— Shhh! Você pode trazê-lo amanhã. Não se preocupe mais com isso. Você comeu hoje? Porque está me parecendo que não.
— Eu sai atrasada. Não tive tempo.
— Ah, . Não deve fazer isso, eu já disse milhares de vezes. Venha almoçar comigo, sim?
.
— Por favor, me desculpe — abraçou-a — E me desculpe por ter te feito chorar. Eu odeio isso. Odeio te ver chorar, ainda mais quando é por minha causa.
— Eu… Tudo bem — ela se deu por vencida.
— Obrigado — e a apertou-a novamente contra si, sentindo o perfume que saía de seus cabelos soltos.

A semana passou-se sem muitos problemas. Logo, era sábado de novo e, melhor ainda, dia de fazer cookies. Tinha dormido com na casa de e na noite passada, e se divertiu com o filho e seus padrinhos. estava absorta quanto ao preparativos do casamento que seria dali à algumas semanas e, perfeccionista como era, não queria que nada saísse errado.
Já o almoço com correra sem muita conversa.
Ambos ainda estavam meio desconfortáveis quanto aos últimos acontecimentos e depois que voltaram para a empresa não se viram mais durante aquele dia. No dia seguinte, ela levara o arquivo para ele e tudo se resolvera. Estavam, por assim dizer, em paz mais uma vez.

***


acordou um pouco mais tarde naquele dia e resolveu sair e fazer uma visita aos futuros Sr. e Sra. . Tomou um banho quente e comeu algumas torradas com geléia. Daquelas prontas mesmo, porque desde que saíra da casa de sua mãe, sua alimentação se resumia a coisas prontas.
Na época da faculdade, na maioria das vezes só comia porcaria.
Já depois de se formar, quando passou a trabalhar de verdade, a coisa evoluiu um pouco e as coisas prontas vieram. Torradas de pacote, geleias, enlatados e até macarrão instantâneo.
Típico de gente que não tem tempo nem disposição para preparar comida.
Às vezes, ele sentia falta de uma boa comida caseira. E não é como se os restaurantes conseguissem o satisfazer propriamente. Enquanto estava fora, trabalhando, ele comia em restaurantes e parecia que tudo era a mesma coisa. As comidas tinham aquele gosto bom, de comida de restaurante. Raramente havia um defeito, e achava aquilo muito monótono.
Ele tinha enjoado daquele gosto de restaurante.
Pensando bem, talvez tivesse cozinhado algo caseiro e quentinho. Poderia tirar proveito disso.

Apertou a campainha e logo apareceu meio afobada, enquanto falava ao telefone, pra atender a porta.
entrou e passou direto pra cozinha, onde encontrou com cara de tédio comendo uma torrada, também pronta.
— Parece que estamos no mesmo barco — falou, apontando para o pacote de torradas prontas em cima do balcão.
— Eu que o diga. Mas qual o motivo da visita repentina?
— Sei lá. Acordei com vontade de vir aqui, melhor do que ficar sozinho.
— Sei. Cara, a tá quase me matando — suspirou, colocando a cabeça entre as mãos — Eu esqueci de ir provar o smoking do casamento essa semana, eu nem sei pra que tantas provas de roupas, não é como se eu fosse a noiva.
— É isso que dá viver com uma estilista — respondeu, calmamente, fazendo rir.
— É, pois é. E como vão as coisas entre você e a Ash?
— Não vão.
— Como assim?
— Pensei que já soubesse. Eu me zanguei com ela e acabei falando coisas que não devia. Eu me desculpei e a convidei para almoçar, mas o clima ainda tava meio tenso e, embora estejamos em paz, por assim dizer, eu acho que ela ainda está ressentida pelas coisas que eu disse.
se alertou.
— E que tipo de coisas você falou pra ela?
— Besteiras, cara. Eu disse que talvez a vida dela fosse um pouco melhor se ela tivesse dito ao pai do bebê dela que estava grávida.
— E ela?
— Aguentou calada. E começou a chorar… Me senti um lixo — suspirou.
E lá estava desabafando com o melhor amigo mais uma vez.
Para não dizer que estava distante, digamos que ela apenas agia de maneira profissional e só. Era Sr. aqui e acolá, ou , o que só demonstrava mais ainda o desconforto que ela tinha em relação a ele e embora escondesse, ele se sentia horrível e arrependido por ter jogado aquelas coisas pra ela, ainda mais quando ela tinha passado — e talvez ainda estivesse passando —, por um momento difícil.
— E o que aconteceu depois? — quis saber o amigo.
— Depois ela limpou o rosto e saiu da minha sala. Tentei chamá-la, mas ela ignorou. Depois de um tempo, resolvi ir atrás dela e mais uma vez tentar me desculpar, e a encontrei na cantina… com um cara — dito isso, viu o rosto de escurecer.
Ah, ele conhecia aquela expressão. Sempre aparecia quando ele tinha ciúmes de ou raiva quando via ou descobria que alguém havia feito algo a ela.
E conhecendo , e convivendo com ela, optou pela segunda opção. E também poderia apostar como o tal cara se tratava de , que importunava desde o tempo que ela estava grávida.
— Fala de uma vez, cara — pediu, já sabendo o que havia por vir.
— Esse cara, , encontrei ele a beijando. No começo fiquei surpreso, até que vi dar um tapa na cara dele e tentar sair dali, foi quando percebi que ele tinha feito aquilo contra a vontade dela. Fiquei puto na hora, principalmente quando ele começou a xingá-la. Foi quando eu resolvi intervir.
— Não me diga que você…
— Não. No começo, eu tentei resolver as coisas sem tumulto, civilizadamente. Mandei largá-la e que ficasse longe dela, foi aí que ele veio com um papo de que estava dormindo com o chefe. Tive vontade era de quebrar a cara dele e eu teria feito isso se ela não tivesse me impedido. Afinal, quem ele pensa que é pra falar com ela daquele jeito?
— Ele quem? — perguntou , entrando na cozinha e pegando um copo de água.
— respondeu o noivo.
é um imbecil de primeira linha que vive importunando a desde quando ela engravidou e ele descobriu que ela seria uma mãe solteira. É um típico riquinho mimado e que gosta de ficar fazendo suposições sobre quem seria o pai da criança e faz isso até hoje. Sem contar que vive dando em cima dela na maior cara de pau. E não bastando ele, ainda tem os amiguinhos dele. Ridículos — ela disse de uma vez, bebendo água, em seguida.
— Filho da puta! — exclamou , com raiva.
— Mas do que vocês estavam falando?
— O idiota beijou ela à força e insinuou que ela estava dormindo comigo.
— E o por pouco não quebrou a cara dele — acrescentou .
— Tevia ter quebrado.
— Bem que eu queria. Mas a interviu.
— Típico — comentou ela — Mas mudando de assunto, o que veio fazer aqui fora desabafar?
— Eu acordei com vontade de comer comida caseira, mas vejo que você resolveu fazer uma greve.
— É isso aí. Ando ocupada demais com os preparativos do casamento.
— Ora, . Não se estresse demais. Você não vai querer adquirir mais rugas para o casamento, não é? — brincou .
— Ei! Quem é que tem rugas aqui, idiota! Veja o que vai falar — disse, dando um tapa no ombro dele.
— Poxa, você ainda tem a mão pesada, hein, ? Caramba — reclamou, massageando o ombro e os três riram.
— Essa aí só é delicada com os desenhos dela, e olhe lá! — disse e também levou um tapa — Wow! Calma, amor.
gargalhou da cara de e percebeu o quanto sentira falta daquilo também nos últimos anos. Claro que conversava sempre que podia com eles, mas pessoalmente era outra coisa.
Foi aí que lembrou de algo que tinha curiosidade.
, como é o bebê da ?
Os sorrisos nos rostos do casal desapareceram com a pergunta.
— Por que tanta curiosidade, ?
— Porque eu sou curioso. Nasci assim, ora.
— Só isso?
— Eu queria conhecê-lo. Gostaria de saber como é o filho da mulher que costumava ser minha melhor amiga… Ele se parece com ela, ? — perguntou, de uma maneira que achou fofa; parecia um menino e ela tinha vontade de apertar suas bochechas quando ele agia assim. Fizera muito isso no passado e odiava.
Olhou para com um meio sorriso, antes de responder ao outro que parecia perdido em pensamentos.
— Ele é a cara do pai. Olhos, nariz, a cor do cabelo… Tudo. É como uma miniatura. E é lindo. Um doce de criança.
Ele sorriu.
— É… Deve ser. Quantos anos você disse que ele tinha?
ia responder quando o celular tocou. Caminhou até a sala, atendeu rapidamente e logo desligou, comentando algo sobre o casamento com .
Mas antes de voltar a cozinha, avistara a inseparável pasta de anotações de .
E isso a fez ter uma ideia maléfica, porém necessária.
iria ficar com raiva, mas…
, você podia fazer um favor pra mim?
Ele a olhou com a cara mais preguiçosa que conseguiu fazer.
— E por que eu faria isso?
— Porque eu sou sua amiga, é importante, e se você não fizer, você apanha. E você sabe que apanha mesmo — ameaçou.
— Ahhh! — resmungou, enfezado — Certo, certo! O que quer?
foi a sala e pegou a pasta em cima da mesinha que a pasta estava.
— Pode deixar isso na casa da pra mim? Por favor. Essa pasta é como o segundo filho dela, ela não vive sem essa coisa rabiscada.
imediatamente se alertou assim que tocara no nome da amiga.
— Claro.
— Obrigada — e acenou, enquanto ele saía pela porta dos fundos.
… — começou a repreendê-la.
— Eu prometi a ela que não iria contar, não é? E não contei. Nem você. É bom que ele veja com os próprios olhos, antes que descubra através de nossas conversas.
— Ela vai ficar muito chateada.
— Ela sabe que é o certo, — ele suspirou.
— Eu sei.
esperou uns minutos e então discou o número da amiga e esperou até que ela atendesse.
— Bom dia, . Como vai meu afilhado?
— No momento, precisando de um banho. — disse e riu.
— Me deixa adivinhar... Biscoitos de chocolate e aveia?
— Já virou tradição, não é? adora e eu também. E você, como anda a vida de noiva?
— Exaustivo, mas eu não me queixo. Você sabe que eu amo o , e eu sei que todos esses preparativos vão valer a pena no dia do casamento.
— Claro que vai. E eu estou orgulhosa de você, .
— Eu queria poder dizer o mesmo pra você, amiga. Mas...
...
— Você tem que contar a verdade ao , . Já se passaram três anos, e ele tem o direito de saber que tem um filho. Não pode esconder isso dele pra sempre. O que ele vai pensar quando vir a criança no dia do meu casamento?
, eu... — calou-se por um instante, e resolveu continuar a falar.
— Não quero que pense que estou com raiva de você, mas eu estou tentando fazer você enxergar a realidade. Ao menos tente contar a ele, . Não era você que dizia que não se podia evitar o inevitável?
— Mas eu tenho medo, . E se ele não entender? Ele vai querer tirar o meu filho de mim e vai conseguir, porque eu não tenho dinheiro suficiente para enfrentar em um tribunal.
— Ele nunca faria isso, . Vocês podem ter alguns problemas, mas nunca faria isso com você. Eu te aconselho a contar logo antes que seja tarde demais.
— Eu não posso, . — falou firme. — Você não entende.
“Não, quem não entende é você, sua doida!”, ela quis dizer, mas se segurou.
— Eu te prometi uma vez que iria manter segredo, , e vou continuar assim como também vai. Mas talvez, o acaso ou destino, o ajude a descobrir sozinho. Pense nisso, está bem?
— Certo, .
— Agora mudando de assunto, você esqueceu sua pasta de anotações aqui ontem à noite... Não pude ir deixar porque estou ocupada com os preparativos do casamento, então eu mandei ir deixar aí, tudo bem? — perguntou.
— Na verdade, eu acho que acabou de chegar. Quem você...
, tenho que desligar agora. Tenho outra prova do vestido de noiva, e ai daquela costureira se não tiver apertado ele direito. Depois nos falamos.
— Tudo bem, obrigada por enviar minha pasta de qualquer forma. Eu estaria frita se perdesse. Até logo, .
havia acabado de tocar a campainha e esperou.
Não podia negar que estava com vontade de vê-la e de, se possível conhecer o filho dela, ainda mais depois do que havia falado.
abriu a porta e ele a encarou com um pequeno sorriso ao perceber sua blusa suja pelo o que ele reconhecera ser massa de biscoitos.
— Oi, . me pediu para te entregar isso, você acabou esquecendo ontem... — falou enquanto entregava a pasta a ela.
... — ela parecia surpresa ao vê-lo e ficou confuso por um instante até que viu quando duas mãozinhas envolveram a perna direita dela, e ouviu um voz doce de criança perguntando quem era ele. Foi quando ele olhou pra baixo e viu o motivo.
ficou sem reação ao ver o menininho que o encarava com o rostinho sujo de chocolate, tal como o pijama. Ele tinha cabelos castanhos e olhos azuis claros.
Idênticos aos seus.
De súbito, todas as conversas que tivera com e sobre o pai do filho de fizeram sentido.
o encarava sentindo seus olhos umedecerem e viu que parecia chocado, como se finalmente tivesse caído na real.
— O que você fez? — ele explodiu — O que você fez? — repetiu, dessa vez gritando enquanto segurava-a pelos ombros.
... — murmurou, tentando controlar o choro.
— Como pôde fazer isso comigo? Por que, ?! — continuou, e viu aqueles olhos azuis se inudarem de lágrimas, assim como os dela. Era óbvio que ele estava surpreso, com raiva e sabe-se lá mais o quê. Mas ela não conseguia falar, se falasse iria desabar. Precisava ser forte.
pareceu que ia fala algo mais, porém o interrompera, choramingando.
— Porque ele tá gritando, mamãe? — escondendo-se atrás dela, e ela sabia que seu menino havia se assustado com a reação repentina do homem à sua frente.
o olhou assustado e afastou-se dela, dando dois passos para trás, e ela viu uma lágrima escorrer no rosto dele, logo sendo seguida por outras. Passou a mão no rosto rapidamente, tentando afastar suas próprias lágrimas e pegou o filho nos braços para consolá-lo.
— Por favor, vai embora — pediu e o viu passar a mão pelo rosto numa clara tentativa de manter o controle — Vai embora, .
Ela apertou o filho contra si, sentindo que o mesmo havia escondido o rosto no seu pescoço. E então viu dar as costas e caminhar até o carro estacionado em frente a casa dela.
Atendera o pedido dela.


6. Lembranças

dirigiu novamente até a casa dos amigos, desligou o carro e desceu apressado, chamando atenção de algumas pessoas que passavam por ali, que se assustaram ao vê-lo tão perturbado. Desde que saíra da casa de , ele passava as mãos continuamente pelo rosto para tentar conter as lágrimas que caíam contra sua vontade. Ele não queria chorar, mas estava com raiva e, acima de tudo, magoado.
“Então era eu o tempo inteiro. Como não percebi isso?”, pensou, enquanto ainda dirigia.
Parecia tudo uma piada agora. Uma brincadeira de mal gosto.
queria entender tudo aquilo. Se sentia estúpido por não ter percebido antes. Claro que dera diversas dicas, e só agora ele percebia.
Mas estava com raiva no momento e tudo que pôde fazer fora entrar na casa novamente e assim que encontrou o casal, apenas os encarou.
Ele sabia que não precisava falar nada. Bastava que olhassem pra ele para que percebessem a mágoa que nele haviam causado. E, embora entendesse o lado deles, ainda se sentia traído com tudo aquilo.
O casal observava o homem à sua frente sem surpresa por aquela reação.
os encarava sem falar nada, parado, apenas alternando o olhar entre os dois. Os olhos estavam vermelhos e era visível que ele havia chorado, coisa que compreendiam perfeitamente.
Já era difícil um cara saber que ia ser pai acidentalmente quando descobria uma gravidez, que dirá quando descobre que já tinha um filho de quase dois anos sem nem imaginar que a mãe dele estivera grávida.
Sem que percebesse, mais um par de lágrimas escapou de seus olhos azuis já encharcados novamente. caminhou até ele e o abraçou e, por um instante, apenas ficara parado enquanto ela falava com ele.
começou a chorar junto com ele assim que o abraçara, sentia tenso e nervoso.
— Me desculpe, . Desculpe — choramingou no ouvido dele e o apertara mais em seu abraço. Foi quando ele finalmente correspondeu, abraçando-a de volta e finalmente soltando o choro de vez que tentava segurar.
Agora as lágrimas vinham junto de soluços, enquanto parecia se agarrar à amiga como se fosse um menininho procurando consolo na mãe. acariciava os cabelos dele, consolando-o, e observava a cena sentindo-se culpado em relação ao amigo.
— Shh! Vai ficar tudo bem, . Tenha calma e paciência, nós vamos te ajudar a passar por isso e entender tudo.
— Por que, ? Vocês não deviam tê-la escutado, deviam ter me contado no tempo certo.
— Ela nos fez prometer, . E, na época, foi tudo muito difícil. Vendo de hoje, eu me arrependo de não ter te contado.
— Foi por isso que ela ficou calada quando eu disse aquelas coisas, ela sabia que estava errada e que eu... Tinha e tenho o direito real de falar aquilo.
, por favor, só se acalme. Não pense em nada que se arrependa depois, por favor.
viu se aproximar e se soltou de , deixando que o noivo abraçasse o amigo em seu lugar.
deu uns tapinhas amigáveis nas costas do amigo.
— Você vai ficar legal, cara. As coisa vão se resolver, você vai ver. E nos desculpe por deixar você saber só agora.
suspirou e se soltou do amigo, sentando num banquinho no balcão e colocando a cabeça entre as mãos.
— Me contem tudo.
E assim fizeram. Contaram desde o começo, a partir do momento em que descobrira a gravidez, como ela iria contá-lo e não contou, falaram também da trajetória da gravidez, e de todas as alegrias e dificuldades enfrentadas, até chegarem ao presente novamente.
No meio da conversa descobrira sobre os empregos de meio período, sobre a briga com os pais que até então nada sabia da filha ou do neto, enquanto a tia dela, Claire, fizera o contrário, apoiando-a desde a descoberta da gravidez e fazendo isso até hoje.
E estremeceu ao saber que quase morrera durante o parto do bebê.
Soube como foi o primeiro passo do filho, a primeira palavra que dissera — não por que ou quiseram contar, mas porque ele insistira para que o fizessem —, e o primeiro aniversário em família, aniversário que seria em menos de dois meses a partir da data que estavam.
quisera deixar essas coisas pessoais para que a própria contasse para ele, quando conversassem mais calmos, mas quisera o contrário.
Ela tinha passado três anos o excluindo de tudo aquilo, nada mais certo de que ele já soubesse de tais coisas quando a mesma chegasse a comentar. Era como uma forma que ele sentia de estar mais presente. À medida que os amigos falavam, ele se sentia como se estivesse escutando a estória de um livro, e era tudo muito surreal.
pensou em como seria se ela tivesse o contado no tempo certo, e em como ele teria participado da vida do filho, e que talvez os dois estivessem casados aquela altura. Nunca se sabe.
A única coisa que ele sabia era que precisava pensar e fazer uma velha visita à tia Claire.
— O que está planejando, ? — perguntara, assim que ele mencionara a visita que queria fazer.
Estava mais calmo e o rosto estava menos inchado. Ao que aparentava, estava voltando ao seu normal. E, por alguns momentos, estivera perdido em pensamentos.
— Nada de mais, . O que eu resolver fazer, vocês saberão no tempo certo.
estranhou aquele comportamento, mas preferiu ignorar.
— E então… — começou , fazendo com que o olhasse — Parabéns, papai.
sorriu involuntariamente, fazendo os outros dois sorrirem também.
Era estranho ser chamado de pai pelo amigo, mas ao mesmo tempo era, sem dúvidas, bom de se ouvir. Ele sempre tivera o desejo de ser pai um dia, fosse de um menino ou menina. E agora ele era um.
— Ele sempre quis te dizer isso — comentou , revirando os olhos.
— Obrigado. E obrigado por me contarem tudo que pedi.
— De nada, cara. Mas pensa direito antes de falar com a , não faça isso de cabeça cheia, certo?
— Acho que o momento de depressão passou, meu chapa.
— Espero que sim.
E era verdade.
Mas a raiva de ter sido enganado ainda permanecia.
E com raiva ou não, apaixonado ou não, agora queria o filho perto dele e faria de tudo para conseguir.
estacionou o carro na frente da casa onde tudo começara. Depois de fazer mais algumas perguntas, descobrira que Claire morava no mesmo lugar de sempre e que no momento, estava em casa, visto as luzes acesas da mesma.
Era segunda-feira, e ele não tinha ido pro escritório naquele dia. No domingo, contatara seu advogado e os dois passaram a tarde de segunda em uma reunião. Não tinha visto desde o ocorrido, e pretendia vê-la apenas no momento certo, quando confirmasse que iria mesmo fazer o que ele havia decidido mais cedo, após falar com o advogado.
Caminhou até a porta e tocou a campainha.

Claire estava terminando de aprontar as malas para a viajem à trabalho que iria fazer no final de semana. Depois alguns muitos imprevistos, ela chegara à conclusão de que era melhor fazer aquilo uma semana antes da viajem, assim dava tempo de tirar ou acrescentar ao que esquecera.
Faltavam apenas algumas coisas pequenas quando ela ouviu o som da campainha.
Estranhou.
Nunca recebia visitas sem aviso prévio, até mesmo de que ainda tinha a chave da casa.
Desceu as escadas e olhou o relógio da sala, marcando quase oito horas da noite. Quem poderia ser?
O jeito era descobrir.
Caminhou até a porta e a abriu, surpreendendo-se ao ver o homem à sua frente.
estava mais velho, o que era óbvio, mas o olhar não enganava, era o mesmo de antes. O mesmo rapaz que visitava sua sobrinha e que era pai do filho da mesma. E o mesmo ao qual ela gostava de tratar como um irmão mais novo.
— Oi, Claire. Há quanto tempo…
… O que está fazendo aqui? — perguntou, meio confusa. Sabia que ele havia voltado, mas não entendia por estava ali, visitando-a. A não ser que…
— Eu já sei de tudo. — ...isso.

— Será que podemos conversar?
Claire suspirou.
— Não antes de você dar um abraço — respondeu, abrindo os braços com um sorriso.
sorriu junto e a abraçou, em seguida.
E, antes que percebesse, já derramava algumas lágrimas no ombro da mais velha.
— Você tem certeza disso, ? — Claire perguntou, duvidosa.
— Absoluta, Claire. E eu só quero que você concorde comigo. Não precisa escolher um lado se não quiser e, de certa forma, é como uma permissão que estou te pedindo já que você é a única família dela.
— Você sabe que eu não me oponho, mas quero que faça as coisas direito, . sofreu muito nos últimos anos.
— Eu sei, Claire. E é exatamente por isso que estou te contando.
— Sua mãe já sabe?
— Minha mãe está ocupada, viajando, e a saúde dela vem se deteriorando desde o ano passado. Prefiro contar pra ela calmamente, na hora certa. Afinal, já se foram três anos, não é? Mais alguns dias não irão fazer muita diferença, desde que eu já saiba da verdade. E eu não quero preocupá-la, quando ela tiver que saber que tenho um filho, eu quero mostrar a ela que está tudo bem, e fazer ela confiar nisso.
— Entendo.

***


não se encontrou com nenhuma vez durante aquela semana torturante à qual ela não parou de pensar aquilo por um segundo, não dormia ou comia direito, mesmo com as milhares de broncas que levava de , e até mesmo Annie, sua colega, havia reclamado. E por falar em Annie, era ela quem era chamada por durante aquela semana e era ela quem fazia coisas que deveria estar fazendo, ou terminando.
Não que ela se importasse, pois até se sentia agradecida por ter tido a sensibilidade — ou não — de não procurá-la durante os dias que se passaram.
Não queria encontrá-lo ainda e nem sabia quando estaria pronta para encontrá-lo. Entretanto, ela tinha consciência de que não iria demorar muito.
Após sair de sua casa, tratou de consolar ao mesmo tempo em que falava que não era um homem mau, ao que a criança achou que fosse, mas sim que ele era “amigo da mamãe” e estava somente tendo um dia ruim.
— Mas porque ele tava brigando com você, mamãe? — perguntara, com a voz ainda chorosa, e as palavras meio emboladas por ainda estar aprendendo a falar.
— Porque mamãe machucou ele, bebê — disse, admitindo para si mesma que aquilo era verdade.
era até que um pouco evoluído para a idade dele, o que agradava à mãe. Aprendia as coisas com facilidades desde que dera o primeiro passo e quando falava a primeira palavra.
Lembrou-se da vez em que esteve na casa de quando ele a convidara para seu aniversário. Ele mesmo a levara e lá, conheceu a Sra. , mãe dele. A mulher era um amor de pessoa e imediatamente a adorou. Conseguiu se dar bem com a mãe de seu amigo nos dois dias que passou na casa dele antes de descobrir, mais tarde, que fora naquela mesma noite do aniversário de que a sua vida mudara por completo.
reencontrara alguns antigos amigos do colégio naquele dia. Durante o dia, seus amigos vieram e comemoraram seu aniversário junto dele mas, durante a noite, a mãe dele fizera um jantar para comemorar em família, nada que demorou muito. dos amigos, apenas , e estavam lá, da família, estavam o irmão mais velho com a esposa, e a Sra. , obviamente. naquela noite, e ocuparam o quarto de hóspedes enquanto iria dormir com no antigo quarto que ele dividia com o irmão, quando era adolescente.
Após o jantar, os quatro ficaram na sala assistindo filmes, comendo besteiras e bebendo, isso até começar a cochilar, fazendo com que a acordasse algumas vezes, fazendo os outros dois rirem da situação. não era lá delicado, muito menos e ele realmente a cutucava para acordá-la, fazendo-a resmungar na maioria das vezes. Depois de uns minutos, os dois subiram para o quarto e suspeitou que talvez bebera além da conta e por isso ficara sonolenta. Afinal, até ela estava meio alta, àquelas horas, mas não tinha sono.
Continuaram assistindo o filme e ouve um momento em que ela encostara a cabeça no ombro dele, cansada.
— Já quer dormir? — quis saber, mas ela negou com a cabeça.
— Não estou com sono, só cansada. Acho que foi a viajem — ele riu e entrelaçou sua mão na dela.
— Um dia, você se acostuma.
— Talvez — sorriu e ficaram assim, assistindo ao final do filme que já se aproximava.
não sabia dizer ao certo quando eles começaram a se beijar. A única coisa que podia lembrar era de ter desligado a TV, e olhado para ela.
Momentos depois, entre beijos e carícias, subia as escadas com , puxando-a pela mão. Entraram no quarto e ele fechou a porta com o pé, tornando a beijá-la, em seguida.
segurava seu rosto com as duas mãos, beijando-a com urgência enquanto ela enfiava as mãos por baixo de sua camisa, acariciando o abdome, fazendo-o estremecer ao toque.
… — falou entre beijos — Você… você tem certeza?
A resposta que obteu foi mais um beijo vindo dela.
segurou na barra de sua blusa e puxou pra cima, retirando-a assim que ela levantou os braços e depois tirou a sua própria ao mesmo tempo que fitava o par de olhos que tanto o encarava. Puxou-a pela cintura, colando o corpo dela ao seu e levou uma mão ao rosto dela, em um carinho suave.
Já era tarde da noite, e a única luz que os iluminava vinha da lua e dos postes que iluminavam a rua, ainda acesos. , um pouco receosa do que fazer, entrelaçou os braço abraçando-o pelo pescoço e se ficou na ponta dos pés para beijá-lo. As mãos de corriam pelas suas costas, mas logo voltaram para sua frente e ele abriu o botão do short que ela usava. começou a correr as mãos pelo tronco do rapaz e o mesmo começou a distribuir beijos pelo pescoço dela, até ela se afastar para se livrar do short, e ajudou a se livrar do seu também. O maior empurrou em direção a cama e os dois caíram juntos, ainda entre beijos.
Percorreu as costas dela novamente, dessa vez, para achar o fecho do sutiã que ela usava. sentia seu corpo arrepiar ao mesmo tempo que esquentava enquanto ele a acariciava.
… — chamou, ofegante.
— O quê? — perguntou baixinho, com a voz rouca enquanto a encarava — Você quer… parar?
— O quê? Não. Só… vai devagar, tá bom?
— Você nunca fez isso, não é? — e viu ela afirmar, envergonhada.
achou aquilo fofo, e também se sentiu privilegiado por ela tê-lo escolhido.

Instantes depois, não haviam mais peças íntimas os separando, e agora era só eles dois prestes a se tornarem um só. inconscientemente lembrou de algumas aulas de biologia no colégio falando sobre aquilo, e tentou relaxar e não ficar nervosa. se introduziu dentro dela, aos poucos, esperando-a se acostumar com ele para poder, então, se movimentar de novo.
Depois de um tempo, quando ela deu o sinal de que estavam bem e o rapaz começou a se movimentar e a única coisa que pensava era que estava sendo melhor do que ela imaginava. Por incrível que pareça, não sentiu dor, apenas um desconforto para se acostumar com dentro de si.
E quando ele passou a se movimentar, sentiu seu corpo tensionando aos poucos. Não conseguia falar nada naquele momento e nem tinha ar para isso, ela apenas ofegava e os gemidos que saíam de sua boca eram baixinhos, algo que só ouvia.
Ouvia e amava por saber que era por causa dele que ela estava assim.
Sentiu a garota tremer em seus braços e se movimentou mais rápido, prolongando aquela sensação para ela até ele mesmo cair em cima do corpo pequeno da garota. Iria sair de cima dela, mas ela colocara os braços em volta de si, prendendo-o.
esperou sua respiração normalizar, assim como a dela, para enfim apoiar-se nos braços, segurando seu peso e observar a garota ainda embaixo dele.
Não disseram nada naquele momento.
Se beijaram mais uma vez, e ele saiu de cima dela, deitando-se ao seu lado. Puxou-a para perto, abraçando-a e logo os dois, exaustos, caíram no sono.

***


Era a milésima vez que relembrava aquela cena durante a última semana, desde que descobrira que era pai do garotinho chamado .
Esvaziou a garrafa de cerveja e, ainda segurando-a, apoiou-a no sofá ao qual estava sentado. Observou as fotos que lhe haviam sido entregues. Pegou uma entre ela e viu com enquanto o buscava na escolinha. O menino sorria ao ver a tia, fazendo com que sorrisse junto ao ver o pequeno.
E por falar em , nem ela nem sabiam daquele feito de .
Contratara um detetive particular para investigar a vida que levava com , e como era a sua rotina. Durante a semana, foi recebendo fotos e arquivos relatando o que acontecia.
Não havia nada de extraordinário.
trabalhava durante o dia e ficava com , levando-o à escolinha e pegando-o quando fosse a hora. Soube que costumava chamar uma babá para ficar com o meninos, coisa que achava desnecessário já que ela podia cuidar de e desde que conseguira um emprego numa empresa após a formatura, trabalhava em casa. Desenhava roupas e sapatos, o que, segundo ela, era bom já que assim ela tinha tempo para cuidar do afilhado ao mesmo tempo que trabalhava e podia resolver seus próprios assuntos, enquanto ele estava na escolinha.
Mais tarde, quando saía do trabalho, passava para pegar o filho na casa da amiga, e os dois iam juntos para casa. Porém raramente a deixava-a ir sozinha para o lugar estranho ao qual morava e, para saber desse fato, não precisou de nenhum detetive. A própria lhe contara. E também lhe contara que tinha muito orgulho do que havia conseguido até hoje. Inclusive da casa a qual morava, mesmo que não fosse em uma região muito segura da cidade e mesmo que ficasse um pouco distante da casa da amiga e da tia. quis sentir um pouco de culpa pelo fato de planejar acabar com aquele mundinho de , mas seu instinto protetor falou mais alto.
o mataria se soubesse que estava investigando a melhor amiga dela, disso tinha certeza. Entretanto, não achava suficiente o que ela e lhe contavam. Mesmo que muitas coisas tivessem sido esclarecidas e explicadas pelo casal e por Claire, quando ele conversara com ela. O fato é que precisava ver o que acontecia com os próprios olhos, para ao menos ter uma boa base sobre aquilo, antes de ir falar com sobre o garoto que também era seu filho. e como não tinha tempo para ele mesmo insvestigar, contratou um profissional para isso. Coisa que nunca, em toda sua vida, achou que ia precisar. Porém, ele também achava que o filho de era de outro cara e deu no que deu.
Procurou evitá-la durante aquela semana, para assim também evitar constrangimentos de ambos os lados. Se a visse, iria querer arrancar-lhe explicações e o ambiente de trabalho não era um local apropriado para aquilo.
Planejava fazer uma surpresa a . Uma surpresa que ele tinha quase certeza que ela iria negar, mas aceitaria, porque não estava nem um pouquinho disposto a dar a ela uma opção melhor.
Faria o que devia ter feito anos antes, se tivesse tido conhecimento da existência de seu filho.
Iria fazer com que ela aceitasse.
E iria sem por bem, ou por mal.


7. A Proposta

sentiu o celular vibrar na mesa enquanto digitava. Olhou para a tela e viu o nome de brilhando. Haviam trocado números da última vez que saíram para almoçar juntos.
Suspirou antes de atendê-lo, ainda um pouco receosa.
Já fazia quase duas semanas desde que soubera da verdade e ela ainda não sabia o que ele estava pensando em fazer quanto a isso, mas sabia que quieto não ficaria. Também não tentou conversar com ela, pois sabia que ele precisava do próprio tempo e, mais cedo ou mais tarde, ele viria até ela.
tinha medo da reação dele. Tinha que ter. Não é como se ele fosse o mesmo cara de três anos atrás, embora parecesse o mesmo. Todos eles mudaram, querendo ou não.
Principalmente ela, por causa do filho. Costumava ser uma garota que saía e se divertia com os amigos, e a única obrigação que tinha era de estudar.
Agora era diferente. Depois da gravidez e de ter cortado relações com os pais, ela tivera que se virar, claro que não completamente sozinha, pois ainda tivera ajuda de Claire. Porém, adquirira sim mais maturidade e responsabilidade.
Começou a trabalhar e se dedicar mais na faculdade e estava assim até hoje.
Antes de jamin) voltar, ela tinha planos. Iria se formar e, se tudo desse certo, iria ser uma das três estagiárias a permanecerem trabalhando na empresa na qual se encontrava. E, assim, iria poder sustentar ela própria e o filho de um modo mais confortável.
Mas agora era diferente. Ela não sabia mais de nada, desde que reaparecera e se tornara seu chefe.
— Almoce hoje comigo — ele disse, assim que ela atendeu.
, eu…
— Eu preciso ordenar isso, Anderson? — interrompeu-a, seco.
suspirou.
— Tudo bem.
— Ótimo, eu passo aí para irmos juntos. Precisamos conversar.
— É… eu sei.
— Sério? Pensei que não sabia, — ironizou — Até meio-dia, então — e desligou, antes que ela pudesse falar algo.
olhou para o relógio e constatou que faltava pouco mais de uma hora até o almoço. Alternou o olhar entre os papeis ao seu lado e a tela do computador. Com sorte, talvez terminasse o trabalho antes dele chegar.
Respirou fundo e voltou a digitar.

***


encontrou assim que as portas do elevador se abriram. Estava de costas, mexendo na bolsa. Havia poucas pessoas ali e as que restavam pareciam prontas a sair também.
Caminhou sem pressa até a mesa dela e pigarreou, chamando sua atenção.
— Você chegou.
— Está pronta? — indagou, cordialmente e estendeu a mão a ela para que se levantasse.
parecia indecisa e olhou para os lados antes de segurar em sua mão.
Oh, ele certamente achava aquilo muito irônico, o que as pessoas diziam ou pensavam a respeito dos dois.
Não passava de meias verdades.
e ele dormiram juntos.
Uma vez.
Só que isso já fazia três anos.
Porém, se tudo fosse de acordo com o planejado, daria a eles um motivo real para que falassem dos dois.
E ele sabia que iria ser pior para , então não deixaria que ninguém se aproximasse dela para importuná-la, mas tampouco facilitaria para ela.
Ele podia visualizar algumas cenas que gostaria de ver depois que ela aceitasse sua proposta.
Uma delas era com o filho.
Imaginou-se cansado do trabalho endo surpreendido pelo filho que viria correndo pelo escritório fazendo alarde entre os funcionários, chamando por ele e, quando o encontrasse, daria-lhe um abraço que acharia fantástico e renovador.
Era um pensamento bobo.
Mas bobo ou não, ele queria que se tornasse real.
Riu consigo mesmo.
— O que foi? — perguntou , querendo saber o motivo do riso.
— Nada de mais, só uma que eu lembrei quando vinha pra cá.
Ela assentiu, desconfiada e logo depois ele saíram.

O restaurante que escolheu não ficava exatamente perto da empresa, até porque ele não queria correr o risco de encontrar alguém conhecido quando fosse ter aquela conversa com .
E também escolheu um local público para evitar, caso fosse, que tanto ele como ela discutissem.
Logo que pediram a comida, um silêncio incômodo se instalou entre os dois.
esperava que ele falasse e olhava para qualquer coisas, menos para o homem à sua frente.
, que também não sabia como começar, suspirou.
— Como está ? — perguntou, de repente.
— Ele está bem.
— Está na escolinha uma hora dessas, certo? Ele gosta de lá?
— Sim…
— Que bom — e ficou um momento calado, antes de acrescentar — Certo, , vou direto ao ponto. Eu tenho uma proposta a te fazer.
, ainda meio receosa, finalmente olhou para que aguardava uma reação dela.
— Que tipo de proposta? — perguntou, desconfiada.
— Quero você e morando comigo no meu apartamento — disse de uma vez.
— O q-quê?
— Isso que você ouviu. Eu quero ter o meu filho perto de mim, já que você fez questão de manter a existência dele em segredo por três anos — acusou, friamente.
— Eu não posso fazer isso, . O que está sugerindo não faz sentido.
— Por que não? Estou facilitando pra você, .
— Ou o quê? Eu não quero morar com você, jamin). Sempre foi apenas e eu, sem você. Você não precisa fazer isso, você pode visitar ele se quiser, sempre que quiser, mas não quero sair da minha casa e ir pra sua. Você já sabe o que as pessoas pensam sobre a gente na empresa, apenas porque eu sou uma velha “amiga” sua. Eu não posso ter mais rumores relacionados a mim se eu quiser arranjar um bom emprego depois que eu me formar.
— Você não costumava ligar para a opinião dos outros três anos atrás.
— Porque três anos atrás eu não tinha um filho pra criar.
— Você fala como se estivesse sozinha o tempo inteiro.
— Falo porque essa é a verdade. Sempre foi e eu, então vo-
— Porque você quis — interrompeu-a.
pegou a bolsa e a ajeitou meio afobada, pronta para sair dali.
— Eu vou voltar para a empresa, perdi a fome. Me ligue quando você estiver pensando direito, , e assim conversamos.
— Se levante agora dessa mesa e você está demitida — ele disse, friamente.
Aquilo a fez parar imediatamente.
— O que disse? — perguntou, sem acreditar no que tinha ouvido.
— O que você ouviu, Anderson. Faça mais um movimento para ir embora e eu te demito.
— Você não faria isso.
— Não só isso, como faria pior. Eu te dei uma proposta, cabe você aceitar ela ou não. E se negar, acho bom que esteja preparada porque, se esse for o caso, é bom que saiba que eu já tenho tudo pronto para isso. Acredite, eu não quero separar você do nosso filho, tal como você fez comigo, mas eu farei caso você não coopere comigo — disse, o tempo inteiro encarando-a com um olhar tão frio como a voz. Em seguida, acrescentou — E aí veremos, quem é que vai ficar com as visitas.
— Por que está fazendo isso comigo, ? — perguntou, com a voz falha.
— Por que eu não faria? — retrucou, sem demonstrar emoções.
Mas a verdade é que quase vacilou quando viu a expressão no rosto dela, após ameaçar demiti-la.
não disse mais nada e quando a comida chegou, ela não comeu muito. Ficaram o tempo inteiro em silêncio enquanto comeram até quando chegaram na empresa.
Quando abriu a porta para descer do carro, ele disse:
— Eu não quero esconder que é meu filho, . Muito pelo contrário, quero que todos saibam disso. E acredito que a melhor solução pra você é aceitar minha proposta, de todo jeito irão surgir mais rumores sobre você, por minha causa, você querendo ou não. Se vier morar comigo, eu prometo que vou tentar fazer com que ninguém chegue perto de você para falar algo.
— Isso não é algo que está no seu alcance, .
— Mas é mais viável para sua reputação, morar com o filho e o pai dele, juntos, ao invés de continuar como está, como uma mãe solteira. Não é como se eu tivesse propondo um casamento, você sabe. Mas eu quero que tenha uma família e que saiba que ele vai sempre ter um pai que vai estar lá para ele, sempre que ele precisar e quando não precisar, também.
… — ela tentou falar algo, mas foi interrompida mais uma vez.
— Eu não sou mais um garoto em busca de um sonho, . Eu voltei para Londres para morar aqui, definitivamente. Você ficou equivocada em relação a mim durante muito tempo. Não me contou sobre porque não queria que eu deixasse de seguir o meu sonho, mas você não pensou em um segundo sequer que talvez eu teria te levado junto comigo para Nova York e lá teríamos construído algo juntos.
— E largar a minha vida aqui? A minha faculdade?
— Você sabe que poderia muito bem fazer faculdade lá, talvez fosse até melhor, porque você evitaria ter sido tratada como foi durante esses últimos anos — retrucou e respirou fundo, um pouco impaciente, antes de continuar — Você sabe onde me encontrar.
E assim que ele falou isso, ouviu a porta do carro bater, em sinal da saída dela.
encostou a cabeça no banco do carro e fechou os olhos. Ficou assim durante mais alguns minutos antes de resolver sair e voltar ao trabalho.

***


cancelou a ligação mais uma vez.
Não tinha coragem de ligar. Resolveu que faria isso depois, quando conversasse com à respeito, mesmo sabendo que ela e provavelmente concordariam com .
Mais tarde, quando a amiga apareceu em sua casa, pôs-se a contar toda a conversa que tivera com e a tal proposta que ele fizera.
— E o que você está esperando para ligar para ele e dizer sim?
— Nossa, quanta ajuda! Eu imaginei que você ia ficar do lado dele, mas também não precisa esfregar isso na minha cara.
revirou os olhos. Já sabia daquilo pois já dito falado com ela e à respeito na semana anterior e inclusive pedira a ela ajuda para montar um quarto para o filho. E claro, ela fizera feliz de decorar cada pedacinho do cômodo que pertenceria ao seu afilhado dali em diante.
— Não estou do lado dele, apenas sei que isso é melhor pra você e pro . Você sabe que eu nunca apoiei a sua decisão de vir morar nesse bairro. Desculpe, mas está coberto de razão e, como você mesma disse, você não tem como enfrentar ele em um tribunal e mesmo se tivesse, ele ainda teria grandes chances de te vencer.
respirou fundo, sentindo os olhos arderem.
já tinha dormido fazia um tempo e essa fora a única coisa que a impedira de ir onde ele estava e pegá-lo no colo em um abraço forte.
Era seu bebê e costumava ser apenas seu.
Agora não mais.

assistia basquete com , enquanto os dois tomavam cerveja e comiam besteiras naquela noite, quando o telefone ao seu lado começou a tocar.
Quase derrubou as tigela de salgadinhos do colo, tamanha a afobação que tivera para pegar o celular.
Claro que aquilo não fazia muito sentido. Ele praticamente não dera opções para e, apenas estava esperando uma confirmação vinda dela. , quando chegara, comentara que tinha ido vê-la e que provavelmente as duas estariam conversando sobre a tal proposta.
— Não faça nada de que se arrependa depois — advertira.
— Tipo o quê? Você acha que trazer meu filho para morar comigo iria me trazer arrependimentos?
— Não. Acho que não seria o motivo, mas sim a mãe dele, cara.
— E por quê?
— Você sabe por quê. Sabe que agora é tudo diferente de três anos atrás, e com a morando aqui…
, você me conhece. Eu nunca faria nada que magoasse a , ao menos não intencionalmente — suspirou, jogando um salgadinho na tela da TV — Eu pensei muito sobre isso, e eu quero me aproximar dela também, você sabe. E eu já tinha decidido isso bem antes de saber do . Mas eu também não vou facilitar as coisas para ela, nem vou tratá-la como se nada tivesse acontecido.
— Você quem sabe, cara — respondeu, dando uma batidinha amigável no ombro do amigo — Mas e aí, o que achou da decoração da pro quarto do ?
— Por mim tá legal, mas você acha que vai gostar?
riu da preocupação besta do amigo. havia decorado de acordo com o que gostava. O quarto era azul claro, cheio de adesivos de desenhos animados que o menino gostava de ver. Sem contar nos diversos brinquedos que comprara para ele, desde os educativos até os mais idiotas que basicamente serviam apenas como enfeites.
apenas dera seu cartão de crédito à sua noiva para que ela comprasse o que bem entendesse para seu filho, ou que achasse que o garoto gostaria, incluindo roupas e sapatos. E para , tinha feito questão de comprar diversos daqueles livros ensinando a cuidar de crianças, mas já sabia que o amigo já vinha pesquisando e estudando aquele tipo de coisa bem antes disso. Até ele, se tivesse a idade de , gostaria de ter um quarto como aquele. E foi pensando assim, que respondeu ao amigo, com um sorriso no rosto.
— Acho que ele vai adorar, vai amar aquilo lá até porque ele dorme com a mãe dele ao invés de ter o próprio quarto. Só não te garanto dele querer dormir lá sem ela, ele é muito apegado à mãe dele. No começo do estágio, quando ele foi ficando mais grandinho, era bem difícil para Claire e a de fazê-lo se acalmar quando a mãe dele tinha que sair para trabalhar. Era fofo e irritante ao mesmo tempo, acho que ele puxou a você nesse sentido. Boa sorte com ele, porque não sei se você vai conseguir conquistar o moleque assim de cara, até porque ele não gosta de estranhos — disse, rindo da cara que o amigo fez.
— Que ótimo. Ainda mais depois que eu assustei ele na primeira vez que o vi. Me senti um monstro quando vi ele começar a chorar — falou baixo, passando a mão no rosto.
— Relaxa, cara. Vai dar tudo certo e você vai ver que depois que você conquistar aquele moleque ele não vai mais querer descolar de você, ainda mais agora que ele tá crescendo e começando a fazer amiguinhos na escola, então boa sorte nisso também.
Dessa vez riram juntos.
estava ansioso para conhecer o filho, de verdade. A ideia de ser pai havia o assustado no começo, mas agora ele estava mais que animado em saber da existência do menino, e ainda mais quando tinha quase certeza de que morariam juntos.
Queria conquistá-lo o mais depressa possível.


jamin) pigarreou antes de atender ao telefone.
?
… Eu liguei para… para…
— Para?
— Eu… aceito sua proposta, tá bom? Você já pode cancelar todos os seus planos maléficos pra cima de mim — completou, com um toque de ironia na voz.
— Sim, senhora — respondeu, ironizando também — Quando quer se encontrar comigo para resolvermos o que falta?
— Pode ser daqui à dois dias, na quinta? Eu tenho ainda uns assuntos pendentes na faculdade e queria resolver logo…
— Tá, beleza. Resolve o que você tem que resolver e depois a gente se encontra.
— Certo, obrigada.
, você fez a escolha certa. Sabe disso, não é?
Mas ela não respondeu. escutou apenas sua respiração antes que ela desligasse na cara dele.
sabia sim que tinha feito o certo, mas para seu filho. Mas não sabia ainda se aquela escolha seria boa para si própria.
Principalmente depois de tudo que acontecera após a volta de .
Ela ainda tentava negar a si mesma que não sentira nada demais relacionado à ele após aquele dia, semanas antes, recheado de biscoitinhos com gotas de chocolate.
Agora, mais que tudo, ela tinha que se manter focada. Veria tudo aquilo de foma positiva.
Iria dividir apartamento com ele e o veria assim, como colegas de apartamento. Ele era o pai do seu filho e a partir de então iria ajudá-la a cuidar dele. Poderia se dedicar a sua faculdade, agora que estava perto de terminar seu curso e, também ao trabalho, para que pudesse conseguir seu tão sonhado emprego.
se despediu de após conversarem mais um pouco, depois que ela desligara o telefone com . Em seguida, foi se deitar junto ao filho e começou a pensar sobre como seria dali em diante, fora daquela casa, em um lugar completamente diferente do qual ela e o filho estavam acostumados.
E foi assim, perdida em pensamentos que ela, lentamente, foi caindo no sono. E, mal sabia ela que , do outro lado da cidade, se encontrava na mesma situação.
Porém com um sorriso no rosto, alegre de, finalmente, poder ter o filho e a mãe dele por perto.


8. Você Pode Me Chamar de Papai, Se Quiser

ainda não acreditava que tinha aceito aquela proposta.
Morar com .
Com o pai do seu filho.
Era tudo muito surreal e se sentia apreensiva, sem saber ao certo o que iria acontecer dali em diante, e ainda pensava em como iria dar aquela notícia ao filho.
Na manhã seguinte, iria buscá-los, enquanto mandaria empacotar o que tivesse que ser empacotado. Porém, era meio óbvio que não iria levar seus móveis, nem os queria.
Tinha vontade de bater nele sempre que ele mencionava algo à respeito. Como se não fosse grande coisa.
Mas era, para ela. Havia conseguido aquilo sozinha, trabalhando. E daí que eram móveis usados? Continuavam em perfeitas condições na opinião dela.
estava vendo desenho na TV da sala enquanto ela começara a empacotar as coisas naquela sexta à noite. Planejava contar a sobre o pai ainda naquela noite, antes de colocar o pequeno para dormir.
Ela, sinceramente, esperava que ele tivesse uma boa reação, embora não tivesse idade suficiente para entender direito o que tudo aquilo significava.
Fechou a mala com suas próprias roupas e pôs-se a guardar as do filho em outra. Não era um trabalho difícil, quando aquilo era tudo o que tinha que fazer, o que ela mesma levaria. Outra coisa que não parava de rondar em sua mente era como as pessoas no seu trabalho reagiriam quando soubesse que ela, uma mera estagiária estava morando com o próprio chefe e que o mesmo era pai se seu filho.
Até porque fizera questão de dizer que não queria esconder o filho.
Talvez ser chamada de vadia fosse o mínimo, embora estivesse acostumada. Só que agora seria diferente pois antes ela era apenas uma mãe solteira cujo pai de seu filho ninguém conhecia e agora seu chefe tinha sido promovido a papai do ano.
Caminhou até a sala e escutou a risada do filho, antes de avistá-lo, com os olhos vidrados na televisão.
Sentou-se ao seu lado e puxou-o pra si em um abraço, ao memso tempo em que fazia cócegas do pequeno.
— Mamãe! — disse, entre risos.
, mamãe precisa te dizer uma coisa.
— Depois… — respondeu, olhando novamente para a televisão.
— Tem que ser agora, . Olha pra mim, bebê — pediu, com voz suave porém autoritária. Desligou a televisão com o controle remoto e finalmente conseguiu a atenção que queria do menino, depois de algumas reclamações.
— Mamãe… — choramingou, baixinho.
, você lembra do homem que veio aqui?
— O homem mau que brigou com você?
— Ela não é mau, meu amor. A mamãe já te disse.
— Você disse que você machucou ele, mas ele machucou mamãe também — explicou, falando com seu jeito embolado de criança.
— Lembra da foto que você achou?
— O homem do olho igual o meu?
— Sim, . Lembra também quando você perguntou pra mim se o tio era seu papai porque ás vezes ele ia te buscar na escolinha que nem os outros papais?
— Tia falou que meu papai tava viajando e por isso não podia me pegar na escolinha. Mas eu nunca vi o papai, mamãe.
sentiu os olhos arderem com o que o menino disse. Não fazia muito tempo que ele tinha perguntado aquilo tanto pra ela quanto para .
— Meu amor, o homem da foto é o papai.
— O meu papai? — perguntou, inocente.
— Sim, o seu papai. Mas ainda tem mais, papai não vai mais viajar e vai poder te pegar na escolinha às vezes assim como o tio faz quando a tia tá ocupada.
— Ele vai morar aqui?
— Não, ele vai morar com a gente sim, , mas a gente vai pra casa dele morar lá com ele. Você entende, meu amor?
— Hm. Sim, mas como é ele, mamãe? Tommy diz na escolinha que o pai dele às vezes fica zangado e ele tem medo.
Droga. Como ela iria explicar aquilo?
, você lembra do homem que veio aqui?
— O que você machucou e gritou com você?
— Sim, , aquele é o seu papai. Ele estava zangado naquele dia com a mamãe, mas agora não tá mais.
— Não?
— Não, . Você vai conhecer ele amanhã. Ele é um homem bom e legal, você vai gostar dele, e ele quer muito conhecer você, meu bem.
— Amanhã? De que horas? — perguntou, inocente.
quase riu.
— De manhã, querido. Ele vai vir pegar a gente aqui, meu amor. Agora que tal irmos dormir? Mamãe tá cansada e já e tarde pra ver TV.
— Hm, tá bom.

***


— Cara, relaxa. Não tem necessidade de ficar nervoso, — resmungou .
— E se ele não gostar de mim, ? Ele tava muito assustado no outro dia e eu fiz ele chorar…
, deixa de estresse. Você tem que estar calmo pra conhecer seu filho, a me falou que ele estava até animado quando soube de você.
— Verdade? Eu comprei um boneco do Homem de Ferro pra ele, você acha que ele vai gostar, ? disse que ele gosta do Homem de Ferro.
— Ele também gosta de Tom e Jerry, . Então eu acho que ele vai gostar de qualquer coisa que você comprar. Só, por favor, não seja um desses pais que vivem comprando brinquedos, sim? Já basta o pra encher aquele moleque de brinquedos.
— Mas eu quero comprar coisas pra ele, . Você não pode me impedir.
— Mas a pode, já que ela é a mãe — retrucou, fazendo-o bater o pé no chão como uma criança birrenta.
, e seu lado infantil.
— Vou andando na frente — avisou, enquanto caminhava até o carro.
Durante o caminho ia treinando as palavras que ensaiara na noite anterior.
Parou o carro no sinal vermelho e olhou para o boneco no banco de carona, ao seu lado e fingiu que era o filho.
— Oi, , eu sou o seu pai. Você gosta do Homem de Ferro? Eu gosto mais do Batman, mas tudo bem você preferir o Tony ao Bruce, afinal, os dois são fodões, né?
Claro que ele não ia falar aquilo. o mataria se falasse algum palavrão na frente do garoto. Se ela não fizesse, o faria.
Sacudiu a cabeça, tentando organizar os pensamentos e logo ouviu alguns carros buzinando atrás de si.
Algumas quadras depois, chegou a casa de . Respirou fundo antes de descer do carro e ir até a porta. Quando chegou, tocou a campainha.
Alguns segundos depois, abriu a porta e os dois trocaram um olhar antes dela dar espaço para que ele entrasse.
— Pronta? — perguntou e ela balançou a cabeça levemente.
Ao menos ele não era o único nervoso ali.
— E você?
— Onde está ele?
— No quarto — apontou ela para uma porta entreaberta perto da sala onde estavam — Você quer ir lá?
encarou a porta meio receoso.
— Você pode me ajudar?
— Claro — respondeu baixo, tímida — Eu estava com ele lá antes de você chegar.
Ambos ainda se mantinham desconfortáveis perto um do outro.
caminhou na frente, e em alguns passos chegaram ao quarto.
empurrou a porta e pôde ver o filho na cama, deitado, brincando com um ursinho. Usava uma calça, camisa branca e um mini All Star preto que fez derreter por dentro. Ele costumava usar roupas assim na adolescência.
Sorriu com a cena e olhou para que sorria junto ao ver a reação dele.
— Ele é um mini eu, como isso é possível?
Ela riu, o que acabou por chamar a atenção do menino antes distraído.
se sentou na cama e ficou encarando o homem ao lado da mãe.
Aquele era o seu papai, e ele era igual ao moço da foto. E o olho dele era igual ao seu.
deu um passo hesitante em direção ao filho, mas logo sentiu a mãe da mulher nas suas costas, incentivando-o.
não havia esboçado reação, apenas o encarava, parado, só piscando os olhos azuis que era idênticos aos seus.
Ora, o menino era idêntico a ele. Tudo.
ficava se perguntando que ele tinha de .
, esse é o seu pai. O nome dele é .
— Oi, — saudou o menino.
— Oi . Você pode me chamar de papai, se quiser.
— Pa-pai? — olhou para a mãe que sorriu pra ele — Tá.
— A sua mãe te disse que vocês vão se mudar pra morar comigo?
— Disse. Como é lá?
— Lá é grande, fica num prédio, e você vai ter um quarto só seu, sabia?
— Um quarto só meu?
— É sim.
Uma buzina soou do lado de fora da casa e logo estavam os três na sala. abriu a porta e o casal entrou.
— Tio ! — correu até o homem que o levantou, o pondo nos braços.
— E aí, campeão?! Como anda lá na escolinha?
— Tá bem — respondeu e se aproximou para cochichar no ouvido do homem — Olha, mamãe disse que aquele é o meu papai.
— Ah, é?
que estava assistindo tudo, sentiu ciúmes e uma pontada de raiva que resolveu ignorar.
Poderia ser ele ali, mas infelizmente, um atraso havia ocorrido.
Agora restava a ele recuperar o tempo perdido.

caminhava pelo apartamento com em seu encalço, enquanto mostrava o apartamento para ela.
— Esse é o seu quarto. Você é livre para deixar ele como quiser, e o quarto no fim do corredor é do .
o decorou e comprou algumas coisas pra ele, porque eu não sabia como fazer isso, nem do que ele gostava. Enfim.
— Tudo bem. Só não acho que ele vá conseguir dormir sozinho lá, por enquanto. Ele tá acostumado a dormir só comigo, sabe?
— Eu imaginei que você diria isso. Você vai guardar suas coisas agora? Eu já coloquei as malas no quarto assim que entrei.
— Vou sim. E obrigada.
— Tudo bem.
Deixou lá e voltou para a sala, encontrando no colo de e tomando uma cerveja.
, olha. Seu pai voltou — apontou — Você não quer ir conhecer seu quarto?
— Quero.
— Então pede pra ele te levar. Faz assim, vocês vão na frente e eu vou atrás, o que você acha?
— Tá bom.
se aproximou do menino e estendeu a mão. Seu coração bateu rápido quando sentiu a mão do menino sobre a sua, aquele era o primeiro contato físico que tinham a vontade dele era de pegar o garoto e abraçá-lo apertado contra si.
Mas, infelizmente, ainda não podia fazer aquilo.
Tinha sorte do menino ao menos segurar sua mão, quando ficara muito assustado da primeira vez que o vira e, além disso, comentara que não gostava de estranhos e demorava algum tempo para se acostumar com pessoas novas.
Abriu a porta do quarto e o menino olhou para dentro surpreso.
— Você gostou, ? Pode entrar, o quarto é seu.
— Entra, ! — animou .
acabou por lembrar então do boneco que havia comprado e deixara no carro.
, tio falou que você gosta do Homem de Ferro, é verdade?
— É sim, — confirmou o menino, chamando-o pelo nome. Ainda.
Mas não podia esperar que o menino o chamasse de pai logo que o visse, não é?
— Certo, então eu tenho algo que você vai gostar. Se você tivesse vindo no meu carro com a sua mãe eu já teria te dado. Então vou lá pegar pra você, tá bom?
— Tá.
— Vem, — chamou — Vamos ver o que o seu pai preparou pra você, bebê.
Enquanto isso, passava correndo por que estava no corredor e , na sala, vendo TV, para pegar o presente que havia comprado.
e seu lado ansioso.


9. Mudanças

chegou ofegante no apartamento.
O elevador estava ocupado e ele resolveu usar as escadas de uma vez. Descer todos os degraus foi moleza, o ruim mesmo foi subir.
Afinal, porque tinha tanta gente usando aquele elevador justo naquele dia?
Apoiou-se na soleira da porta por um instante e pôde notar no sofá, que havia congelado, quando estava prestes a tomar um gole de cerveja, enquanto o observava meio espantado.
— O quê? — perguntou.
— Sabe… O não vai fugir se você se afastar por cinco minutos — comentou o amigo, rindo em seguida — Sério, cara, você tá uma comédia, sabia?
puxou o ar mais uma vez e ignorou a brincadeira do amigo.
— Vou levar pra ele — comentou, apontando para o boneco.
Escondeu o brinquedo atrás de si e abriu a porta do quarto.
brincava com algum carrinho enquanto ajudava a guardar algumas roupas no armário do garoto.
pigarreou para que o notassem, e assim aconteceu.
Os três olharam para o homem à porta, ainda ofegante. Ele mordeu o lábio inferior, ansioso, e sorriu, caminhando até o menino.
— Adivinha o que eu tenho? — perguntou-o, mas não disse nada nem expressou reação nenhuma com a tentativa falha do homem para brincar com ele.
, o seu pai comprou um presente pra você — disse .
, notando a falta de jeito de com o garoto, aproximou-se do menino e abaixou-se até que ficasse na altura dele.
— O que será que você vai ganhar, huh? Pede pra ele te mostrar — ela murmurou no ouvido do garoto mesmo que todos pudessem escutar o que ela dizia.
— Me mostra — pediu.
sorriu, ainda sem jeito e mostrou o boneco do Homem de Ferro que tinha comprado para ele.
— Você gosta do Homem de Ferro, ?
O garoto assentiu, olhando para o boneco.
o entregou e o garoto sorriu quando viu que as luzes do brinquedo realmente acendiam.
— Como é que se diz agora, ? — perguntou .
— Obrigado — falou, com a voz embolada de criança que tinha, por ainda ser muito pequeno.
achou aquilo tão fofo que sentiu vontade de pegar o menino nos braços e apertá-lo contra si, tamanha a alegria que sentiu ao ver que o menino havia gostado do presente.
Mas não queria assustá-lo, então se conteve.
não parecia ser o tipo de criança que simpatizava com alguém logo após o primeiro encontro, e não iria ser diferente só porque ele era o pai do menino.
pretendia ganhar a confiança dele à medida em que fossem convivendo juntos.
E ele iria se esforçar para atingir esse objetivo.

Mais tarde, se encarregou de pedir algumas pizzas para o jantar super saudável deles.
Após o jantar, os dois homens trataram de entreter o menino enquanto as mulheres cuidavam da cozinha do apartamento.
Algum tempo depois, adormeceu no sofá, no colo da mãe, enquanto assistiam à alguma animação que passava na televisão.
estava sentado ao lado deles e se ofereceu para levar o garoto para o quarto.
— Não acho que ele vá conseguir dormir lá ainda — murmurou — Melhor que eu o leve para meu quarto.
— Deixa comigo. Eu o levo — insistiu ele, se levantando.
e apenas assistiam à cena calados, sentados no outro sofá.
se abaixou e pegou o filho com cuidado para não acordá-lo.
Não pôde deixar de sorrir ao vê-lo daquele jeito, tão sereno.
Parecia um anjinho, e era realmente parecido com ele. Ainda sorrindo, ele caminhou com o menino até o quarto de , agora já arrumado por ela.
Depositou o filho na cama e o cobriu com um cobertor.
Em seguida, sentou no chão e apoiou-se na cama, observando cada pequeno detalhe de , com um sorriso de lado.
Olhou para o lado e encontrou uma foto de com ele e mais outra dos dois com e .
Suspirou.
Queria muito ter visto o nascimento dele, a primeira palavra, os primeiros passinhos…
Pensava nisso desde que soube que um dia queria ser pai.
Porém nem tudo é como queremos, e com foi assim.
Levantou-se, ficando de pé para sair do quarto. Porém antes de ir, beijou a testa do filho e acariciou seu cabelo.
Quando voltou para a sala, encontrou os outros três conversando animadamente.
— Ei, papai! — exclamou — Ele dormiu mesmo?
— Sim — respondeu com um sorriso — Ele é muito lindo.
O casal riu.
sorriu, porém nada falou. Era tudo novidade para e era de certa forma engraçado vê-lo daquela forma, bobo por causa de uma criança.
— Espera só até ver quando ele estiver elétrico. Nunca, mas nunca dê açúcar demais ao , aconselhou.
— Nunca — reforçou.
— Por quê? — quis saber.
— Porque ele fica hiperativo — respondeu — Você mal pode controlá-lo.
Ele a encarou um pouco espantado.
— Pensei que essa história era besteira. Se realmente acontece coisas assim, acho bom que vocês me passem uma lista de coisas que eu não posso deixar o fazer. E por falar nele… — ele se virou para — Amanhã mesmo você vai comigo à um cartório para adicionarmos meu sobrenome ao dele. E vamos juntos para o trabalho, no caminho deixamos ele na escolinha, assim eu já fico sabendo onde fica para quando eu for buscá-lo. Vou tentar sair mais cedo do trabalho para poder ficar tomando conta dele já que está ocupada demais com os preparativos do casamento… Mas eu posso contratar uma babá também, ou você contrata, afinal, não ser sempre que iremos poder cuidar dele por causa do trabalho e você tem o seu Trabalho de Conclusão de Curso para fazer.
Ele falou de uma vez e os três apenas o olharam sem reação.
— O que foi? — quis saber.
— Você não acha que está se apressando muito, não? — perguntou — Não dá pra fazer isso tudo de uma vez só, cara.
— Eu sei que não, apenas quero deixar claro de uma vez sobre o que precisamos fazer.
— Não vou para o trabalho com você — falou.
— Por quê?
— Você sabe muito bem o porquê, . Você pode me obrigar a morar com você, ajudar com e tudo mais, mas isso você não vai conseguir de mim.
— Como é que é? — ele a encarou, incrédulo.
— Você sabe o que andam falando sobre a gente e mesmo assim quer aparecer lá junto comigo. Eu não quero levar fama de amante do chefe, vão pensar que sou algum tipo de oportunista que está tentando garantir o emprego ou ganhar alguma promoção… Coisas assim.
— Você e a Anne são as pessoas que têm os melhores resultados dentro daquela revista, . Não tem porquê você se sentir insegura, sendo que todos sabem como você realmente trabalha e se comporta. Por acaso, você já deu a entender para eles que você é algum tipo de mulher vulgar e oportunista? — ele perguntou e ela manteve-se em silêncio — Foi o que pensei. Por que, então, não confia mais em si mesma e na sua capacidade, nos seus resultados, em vez de ligar para o que os outros falam?
desviou o olhar do dele e respirou fundo.
, você tem que entender, ainda é difícil para ela.
— Ótimo, então que tal deixarmos todos saberem que eu sou o pai do seu filho? Eles vão mesmo descobrir isso de uma forma ou de outra, não é?
— Você ficou louco? Óbvio que não. , você vai respeitar minha decisão e vai pelo menos me largar um quarteirão antes do edifício ao qual trabalhamos.
Ele revirou os olhos, impaciente.
— Se você insiste…
— Obrigada.
— Ótimo, então já que vocês, aparentemente, se entenderam… — se levantou — Vamos, amor? Você tá quase dormindo aí — perguntou ao noivo e levantou-se, meio preguiçoso.
— Tchau para vocês dois, nos vemos amanhã — ele disse, antes de caminhar até a porta com .
os acompanhou até a porta e depois voltou para a sala.
— Você ainda vai ver TV? — ela perguntou — Vou dormir.
— Deixa que eu desligo, ainda não tô com sono.
— Certo. Boa noite, então.
— Boa noite, .

***


Haviam acabado de chegar à escolinha de , e havia pedido para conversar com a professora.
— Olá, Srta. — a mulher sorriu, chamava-se Sophie.
— Olá, desculpa chamá-la assim, porém irei ser breve. Sophie, este é — apontou para o homem ao seu lado — Ele é…
— O pai do — interrompeu-a — Prazer em conhecê-la, Sophie — cumprimentou-a com um aperto de mão.
— Oh, então é você? se parece muito com você.
— Sorte minha, não é mesmo? Ou não —disse, fazendo a mulher rir.
, apenas assistia a tudo aquilo, calada. Ficara sem jeito quando a interrompera, até porque, não era nenhum segredo para todos ali que ela era mãe solteira.
— Sophie… — chamou, depois de um tempo — Então, o vai vir buscar , e eu o trouxe para que soubesse quem ele é.
— Pois é, acabei de me mudar de volta para Londres, e não sabia onde ficava a escola do meu filho, então pedi a para que me mostrasse.
— Oh… Então você estão vivendo juntos agora?
— Bem… — começou.
— Sim — interrompeu-a, mais uma vez.

Estavam à cerca de dois quarteirões do edifício onde trabalhavam, quando pediu para que parasse o carro para ela.
— Por quê? Você já veio até aqui. Ainda tá cedo, . Não vai ter ninguém no estacionamento.
— Para a porra do carro, .
imediatamente encostou no canto, porém quando ela tentou descer, ele travou a porta.
E pôs-se a rir, em seguida.
— Abre logo essa merda, caralho.
! — falou, entre risos — Pára! Assim você vai me matar.
— O que foi?
— Você falou palavrão. Cara, à quanto tempo eu não te escuto xingar? Quase me esqueci de como era engraçado.
Oh, claro.
sempre dizia que era controlada e educada demais, e quando ela falava palavrões, acabava por ser engraçado de se ver, já que ela quase nunca xingava.
— Você vai ver já o que é engraçado se não abrir essa porta em cinco segundos — ela respondeu, enfezada.
— E eu bem que queria ver você tentar — provocou — Você sabe que nunca vai ganhar de mim, amor.
Ela respirou fundo, tentando se controlar para não enfiar uma bofetada bem merecida na cara dele.
— Pode, por favor, abrir a porta? — pediu, séria.
Ele destravou a porta e ela murmurou um agradecimento baixo.
— Nos vemos daqui a pouco. Quero você na minha sala, . Não esquece de revisar o último artigo que eu te pedi — dito isso, ele se foi.
E ela também.
Caminhar um pouco iria ser bom para esfriar sua mente e enfim, enfrentar mais um dia de trabalho.
Estava livre da faculdade durante aquela semana, porém teria que escrever alguns relatórios de estágio para entregar na próxima.
E então, dali a duas semanas ela entraria de férias.
Teria um mês, e planejava organizar algo para o aniversário do filho naquele ano.
Talvez uma pequena festinha com os amiguinhos da escola.
Porém, uma parte dela sabia que talvez não concordasse com aquilo.
Tinha quase certeza como ele iria querer exibir o filho para a família que ainda não o conhecia.

***


saiu do elevador e caminhou até sua mesa, já ligando o computador.
Abriu o artigo que pedira e pôs-se a ir em direção ao escritório do chefe. Encontrou com a secretária dele e pediu para avisar-lhe.
— Ele já está te esperando, — disse, com um sorriso.
— Obrigada.
Em seguida, ela entrou, encontrando-o meio jogado na cadeira enquanto olhava algo no computador. Se tinha uma coisa que admirava profissionalmente em , era que ele não enrolava para trabalhar.
Quanto mais rápido pudesse terminar algo, mais rápido ele o faria.
Porém, ele queria fazer aquilo fora do trabalho também, o que era de certa forma, não tão admirável, devido à pressa que ele tinha. Inclusive, pressa essa que fora demonstrada, mias uma vez — pelo tempo que ela o conhecia —, na noite anterior.
Resolveram o que tinham que resolver e naqueles instantes, eram apenas chefe e empregada. Algo que era bem visível já que as paredes do escritório eram de vidro, e todos podiam vê-los.
— chamou-a, quando ela estava prestes a sair.
— O quê?
— Me passa depois por mensagem o número da babá que você contratava pro .
— Tudo bem — e se foi.

— Ei, vadia — Anne a cumprimentou, tão suave quando um porco-espinho.
— Oi, Anne. Como foi seu final de semana?
— Um tédio e o seu?
— Nada de mais também — respondeu, com um meio sorriso.
— É a vida. Como está o ?
Anne era uma boa amiga, e tinha a apoiado na faculdade durante a gravidez também. Porém, nunca tivera coragem de contar quem era o pai de seu filho.
Se bem que achava que Anne tinha sua desconfianças à respeito.
Ela sabia que o nome do pai de era , apenas.
Nada de ou .
Poderia muito bem ser qualquer-coisa.
Porém ela se mostrara desconfiada quando soube que conhecia o chefe, e percebera isso. Principalmente porque ela já vira pessoalmente algumas poucas vezes e, se ela era realmente inteligente como aparentava, provavelmente já teria notado alguma semelhança.
Quem ela estava tentando enganar? O próprio o reconhecera.
Ela mesma estava se sentindo um pouco estúpida com Anne, depois que se lembrara disso, após a pergunta dela sobre como tinha sigo seu final de semana.
Pensando nisso, ela decidiu ter uma conversa séria com a colega, antes que ela descobrisse de outro jeito. Ou que tivesse certeza quando todos descobrissem.
Porém, não naquele dia e não naquela semana.
Veria isso depois.
Por enquanto, ainda tinha um dia de trabalho pela frente, mais um relatório para escrever quando chegasse em casa.
Ou na casa de .
Sua nova casa.


10. Energia

— Como assim seu advogado se mudou? perguntou, confusa.
estava mais afobado que nunca pela notícia que recebera.
— Ele aparentemente vai se aposentar, então resolveu passar o meu caso para outro advogado.
— E você tá pirando por causa disso?
— Ora, agora tudo de burocrático que tiver à respeito de vai ter que esperar mais! E ainda tem o meu apartamento de Nova York! Vou pedir pra esse cara contatar uma empresa de imóveis ou sei lá, e se ele for realmente bom como o Sr. Wilson diz, pedirei para que seja meu advogado fixo. Dessa forma, evito coisas assim.
— Certo. E quem é esse cara? — perguntou, entediada.
era a pessoa mais agoniada que ela já vira.
Sempre queria fazer as coisas logo, não importasse o quê.
— Derick Greenville — respondeu, sentando-se em um banquinho no balcão da cozinha, de frente para , logo após parar de andar de um lado para outro.
— Você é muito hiperativo, . De que adianta isso? Você já esperou até agora, então não custa nada esperar mais um pouco — ela finalmente disse.
Ele pôs os braços estirados no balcão e deitou a cabeça entre eles, soltando o ar em desanimação.
riu.
— É, eu sei… Espero que não tenha puxado esse lado meu… Ei, do que está rindo?
— De você.
— De mim porquê?
— Por causa disso — ela imitou a posição que ele se encontrava.
— E o que tem de engraçado nisso? — perguntou, confuso.
— É que também faz isso. Então eu espero que ele realmente não tenha puxado ao seu lado hiperativo porque, até onde eu vi, de mim ele não tem quase nada.
sorriu, mordendo o lábio inferior, como um menino.
— Ele é realmente muito parecido comigo — concordou.
— Daqui a pouco vocês estão usando roupas iguais e as pessoas vão mesmo pensar que ele é algum tipo de miniatura sua.
continuou na mesma posição que ele e fechou os olhos, por um instante.
Era sexta-feira e ela tinha resolvido algumas coisas da faculdade naquele dia, sendo então dispensada do trabalho. estava na escolinha e o combinado era que iria pegá-lo na hora, como vinha fazendo nas duas últimas semanas. E por falar em , ele não havia ido trabalhar naquele dia.
— Porque você não foi trabalhar? — perguntou, curiosa, ainda de olhos fechados. naquele momento estava do mesmo jeito que ela e do mesmo jeito, ele respondeu.
— Não tinha nada importante hoje, e eu não estava com vontade.
— Privilégios quando você é o chefe — ele riu baixo.
— Como está a faculdade?
— Eu finalizei o penúltimo período. E eu nem acredito nisso! — ela riu — Agora preciso preparar meu Trabalho de Conclusão de Curso. Mas ainda preciso encontrar um novo orientador. Tinha um professor que eu queria, mas ele já está bastante ocupado — concluiu, desanimada.
— Hmm… — ficaram em silêncio por mais um tempo, até que ele falou novamente — .
— O quê?
— Se quiser, eu posso te ajudar. Posso não ser tão experiente quanto o seu professor, mas passei poucas e boas com o meu orientador do mestrado. O que quero dizer é que…
— Você quer ser meu orientador? — ela abriu os olhos, confusa.
Ele parou um pouco para pensar, não que ele não quisesse orientá-la, mas será que ele podia?
— Eu não sei se a sua universidade permite isso, já que não sou professor, mas eu posso te ajudar mesmo assim — disse, por fim.
— Tem razão. Eu preciso ver isso da próxima vez que eu for lá.
— Okay.
E ficaram daquele jeito, em um silêncio confortável, por mais um tempo até dar a hora de ir buscar na escolinha.
tomou um banho enquanto ele saiu, e começou a preparar algumas panquecas para que lanchassem naquela tarde, já que havia chegado cedo em casa.
Os últimos dias vivendo ali não haviam sido ruins, pelo contrário. Fora as pequenas discussões sobre carona ou coisas do tipo, ela e estavam vivendo passivamente com o filho até aquele momento.
já se mostrava mais aberto em relação e, embora ele ainda não chamasse de pai, já conversava com ele amigavelmente, fazendo se derreter cada vez mais.
E ela estava agradecendo aos céus por aquilo.

***


— Alô? — Anne respondeu ao telefone.
— Anne, oi. Podemos nos encontrar hoje à noite? Você está livre? — perguntou.
Planejava ver a amiga e colocar as “cartas na mesa” ante que sua consciência a matasse de vez.
— E você está?! — Anne perguntou, sem acreditar.
— Inacreditável, não é?
— E o ? Você vai trazê-lo.
— Oh, não. Hoje, ele vai ficar com o pa...drinho dele. E a madrinha, claro — ela riu, sem graça.
— Tudo bem, então. Que tal ás oito no Domino’s? Preciso urgentemente de pizza depois desse fim de período!
— Okay. Até mais tarde — desligou.

— Então, o que você quer me contar?
— Como você sabe que eu quero te contar algo?
— Dã. Eu te conheço, . E até quase posso adivinhar sobre o que seja.
ficou sem jeito. Não sabia o que dizer.
— Faz tempo que o sabe? — Anne ajudou.
— Certo, Anne. Primeiramente, desculpe por não ter dito antes, de verdade. E segundo, desde quando você sabe?
— Eu desconfiei desde que o falou o nome dele, e desconfiei mais ainda quando soube que você era uma “velha amiga” dele. E bom, acabei de confirmar minhas teorias.
— E porque não me perguntou nada?
— Não queria te pressionar, e acredito que já foi algo grande pra você o fato dele ter voltado e principalmente, quando ele soube do filho. Tenho a impressão de que ele não gostou muito de saber dessa notícia tão tarde, não é mesmo?
— Sim. Mas bem, agora está tudo bem, aparantemente. Sabe, ás vezes você é tão perspectiva que eu tenho medo de você — concluiu, fazendo a outra rir.
— Eu tenho os meus talentos. Mas e então? Como vocês estão?
— Ele… Me obrigou a ir morar no apartamento dele. Eu não queria ir, mas…
— Caramba! é melhor do que eu pensava! — Anne riu — Aquela cara de bom moço dele é pura fachada, desconfiei desde o princípio!
— O que você quer dizer com isso?
— Que eu faria o mesmo! Talvez até pior, se eu ainda gostasse de você.
— Como assim, Anne? nunca quis nada comigo.
— Não, . Você que nunca quis se envolver.
nada disse. Anne estava praticamente repetindo o que lhe dissera diversas vezes e ela já estava, de certa forma, cansada de retrucar.

***


caminhou com o brinquedo que havia comprado ainda na caixa, pronto para ser montado e andou até que, como sempre, estava entretido com algum desenho que passava na televisão.
, vem me ajudar a montar a pista de corrida que montei pra você, campeão — o mais velho pediu.
— Quando o desenho acabar, — respondeu o menino.
— Agora, . E que desenho é esse? Phineas e Ferb? O que aconteceu com os bons e velhos desenhos? Garoto, você precisa assistir Tom e Jerry.
— Tom e Jerry? — o menino encarou-o, confuso.
— Sim. Tá vendo? Você nem conhece! Mas venha cá, você vai me passar as peças.
O menino revirou os olhos, mas obedeceu mesmo assim.
não era um cara mal, afinal de contas. E como sua mamãe havia dito, ele era seu papai.
Desceu com um pouco de dificuldade do sofá, devido as curtas pernas que tinha e caminhou até o homem, sentando-se em frente a ele no chão atrás do sofá.
leu o manual por cima, e pôs as mãos à obra.
Depois de algumas enrolações, dúvidas e um pedindo por doces, eles conseguiram finalmente montar o brinquedo.
— Eu quero chocolate! — pediu mais uma vez.
— Certo, você quer pipocas também? Eu posso fazer pra gente. Depois a gente vai assistir alguns episódios de Tom e Jerry, o que você acha?
— Tá.
Porém, aquela não havia sido uma ideia muito boa.
Depois de alguns episódios de Tom e Jerry, uma tigela de pipocas e algumas barrinhas de chocolates, planejava colocar para dormir e então esperar a mãe dele chegar do encontro com a amiga. Contudo, a única coisa que ele conseguiu foi um elétrico, cheio de energia que só corria pra lá e pra cá, e no momento não se importava com qual desenho passava na TV, ou com os carrinhos que ainda corriam na pista que montaram, mesmo depois dos dois pararem de brincar com o brinquedo.
A única coisa que queria era correr, e já havia chamado o pai para brincar também. No começo, parecia interessado em apostar corrida com ele, mas agora não era assim, e ele parecia ter sono enquanto só olhava para televisão, sem ao menos se mexer.
Na verdade, estava xingando a si mesmo por esquecer que não podia dar muitos doces ao filho, para que ele não ficasse muito hiperativo, como estava agora, quando ele devia estar dormindo há pelo menos duas horas.
A única coisa que lhe restava agora era deixar que o menino cansasse de brincar assim como ele já havia cansado depois da primeira hora de hiperatividade do menino.
E claro, continuar esperando chegar para que ela pudesse socorrê-lo daquela situação.
Mas aquilo só aconteceu meia hora mais tarde, quando finalmente cansou de brincar e agora dormia no colo do pai, que acabara adormecendo junto dele e assim, nem viu quando chegou.
trancou o apartamento atrás de si e quando se virou, encontrou os dois dorminhocos no sofá, ambos com os cabelos bagunçados.
dormia no peito do pai, e a televisão estava ligada em algum DVD de Tom e Jerry que já devia ter acabado faz tempo e agora estava no menu inicial novamente.
Ela sorriu involuntariamente com a cena.
Caminhou até eles, desligou a TV e pegou o menor nos braços, levando-o para a cama.
Trocou de roupa, vestindo um pijama confortável e voltou para a sala para acordar , que continuava na mesma posição.
e seu sono pesado.
Cutucou-o um pouco, e sacudiu os ombros dele mais um pouco, porém foi em vão.
, acorda. Vai pro seu quarto.
— Hmm… — ele virou de lado.
suspirou cansada e sentou no sofá, derrotada.
Já estava a ponto de desistir de acordá-lo e deixá-lo acordar com dores, embora sem saber se isso seria possível com um sofá tão fofo.
Tentou mais uma vez e mais uma vez não conseguiu.
Levantou-se e estava a ponto de sair dali quando sentiu ele puxando-lhe no braço, o que acabou fazendo com que ela se desequilibrasse e caísse deitada ao seu lado.
! — tentou se levantar, mas ele a impediu quando pôs um braço ao redor de sua cintura, prendendo-a contra si.
apoiou a mão no peito dele e se afastou um pouco para olhá-lo, entretanto, ele ainda mantinha os olhos fechados.
— Me larga, . Eu vou pro quarto.
— Que horas você chegou? Agora? Você não saiu com nenhum cara, saiu? — ele perguntou baixo, no ouvido dela.
— O quê? É claro que não! Eu estava com a Anne. O que é isso agora, um interrogatório? — perguntou, irritando-se.
— Então tá — ele disse, ignorando a pergunta dela.
, me larga.
Silêncio.
— tentou novamente, mas ele só a apertou mais contra si.
— Só dorme — foi o que ele disse.
E foi o que ela fez, cansada de lutar.


11. Biscoitinhos de Aveia, Chocolate e Dois Bagunceiros

acordou com o barulho irritante do liquidificador.
Se assustou por um momento quando sua mente ainda registrava de onde vinha aquele barulho.
Sentou-se no sofá e alongou um pouco os braços, espreguiçando-se.
E só depois de alguns segundos, foi capaz de captar o que acontecia.
— Tem certeza, ? É essa a receita?
— Sim! Eu te dei o caderno da mamãe! — insistiu o menino — Nós usamos esse caderninho ás vezes.
— Hm, tudo bem… — assentiu, tentando ler a receita no caderno.
Aparentemente, ele só tinha que juntar todos os ingredientes e misturar com a mão até que a massa ficasse unida.
Tudo bem.
Ele poderia fazer aquilo.
Ajudara da última vez mesmo.
estava sentado na bancada comendo um sanduíche com um copo de suco de maracujá que ele havia preparado.
O menino fora o primeiro a acordar e pareceu um pouco surpreso quando encontrou a mãe dormindo com ele no sofá.
acordou ao sentir as cutucadas em si e pediu para que não fizesse barulho para que a mãe dele não acordasse.
Minutos depois, estavam os dois preparando o café da manhã, e insistindo em acordar a mãe dele pra fazer os biscoitos de chocolate já que aquele dia era o dia dos biscoito.
— Não acorde ela ainda, insistiu — Que tal se você e eu fizermos os biscoitos, huh?
— Hm… Mamãe tem um caderno que ensina como fazer. Você quer que eu pegue? Eu sei onde ela guardou.
— Garoto, você tem mesmo dois anos? — perguntou — Vai lá, vai.
— Tenho quase dois — o menino respondeu, sem entender direito o que o mais velho quisera dizer.
A verdade era que achava inteligente demais para o tamanho dele.
Normalmente, crianças daquele tamanho não conversavam muito, e só diziam coisas sem sentido.
Ficou orgulhoso de seu filho já saber conversar, embora a maioria das palavras saíssem ainda meio emboladas.
terminou de fazer o sanduíche do filho e serviu-se de um copo de suco enquanto esperava o menino voltar.
E agora ele estava separando os ingredientes enquanto o filho tomava o café da manhã.
se levantou finalmente, chamando a atenção dos dois.
— O que vocês estão fazendo? — ela perguntou, mesmo tendo ouvido parte da conversa dos dois.
— Biscoitos, mamãe — respondeu, dando outra mordida em seu sanduíche.
— Biscoitos, é? E por que não deixam isso comigo? Eu só vou me trocar e…
— Não precisa! — interrompeu-a — Quero dizer, eu disse a que ia fazer os biscoitos e não é tão difícil assim, não é? Eu já te ajudei... hm… outras vezes — concluiu.
Mas era somente uma cena que se passava na cabeça dos dois naquele momento, e os dois sabiam daquilo já que evitaram se encarar durante aquele momento.
— Tudo bem, eu… vou tomar banho. E você, , vai tomar banho também assim que acabar de ajudar seu pai, tudo bem? — o garoto assentiu e ela saiu de lá, não notando o pequeno sorriso idiota que surgira no rosto de quando ela se referira a ele como pai de seu filho.
Era bom que agora ela estivesse se acostumando com aquilo, ao invés de chamar o menino de apenas seu.
Para completar sua felicidade agora, só o chamando de papai.
Mas ele tinha consciência de que o menino ainda estava se acostumando com ele, embora já se mostrasse confortável perto de si.
Isso também o fizera lembrar que teria que se encontrar com seu novo advogado.
Marcaria um encontro naquele mesmo dia com o Sr. Greenville, se possível em seu próprio apartamento já que também possuía um escritório em casa.
terminou de comer e lavou as mãos na pia da cozinha — com ajuda de , já que era lata demais para ele.
Logo, os dois voltaram a bancada onde já estava tudo separado e puseram a mão na massa.
Claro, depois de juntar todos os ingredientes na tijela.
já tinha misturado açúcar, manteiga, chocolate em pó, farinha, ovos e é claro, a aveia. Tinha sido meio nojento, em sua opinião, mexer aquela gosma no início, porém logo se acostumou.
também resolvera lhe ajudar, acabando por sujar a si mesmo e o pai que agora tinha o nariz sujo devido à ideia do menino de brincar com a massa.
, põe mais farinha. Tá tudo pregando — pediu e o menino obedeceu.
Ainda com as mãos cheias de massa, ele abriu o pacote de farinha e enfiou uma das mãozinhas dentro pegando um bocado e jogando dentro da tijela.
E isso se repetiu até que o mais velho dissesse que estava bom.
Trataram de fazer bolinhas e colocar para assar, logo depois.

voltou à cozinha após tomar um banho quente.
Ela sabia que bagunçava quando eles faziam biscoitos, o que era compreensível para uma criança. Mas não esperava encontrar igualmente sujo ao menino, e a cozinha dua vezes mais suja do que quando ela fazia os biscoitos.
Ela simplesmente ficou ali, parada. Estava chocada com a tamanha bagunça dos dois, porém eles não pareciam preocupados com aquilo já que estavam ocupados demais lambendo a massa dos dedos.
Quando finalmente se mexeu, caminhou lentamente até a bancada.
— Que zona! Vocês são dois porquinhos, sabiam? — ela ralhou a bronca.
Os dois se olharam e abaixaram a cabeça.
, é claro, tentava prender o riso e o imitou quando viu sua reação.
fingia não ver aquilo tudo e continuava a brigar com os dois bagunceiros.
— Quero só ver quem é que vai limpar isso tudo.
o que é esse pacote de farinha com essas mãos pintadas?
— Ele pediu farinha — apontou para o pai, em defensiva.
— Você não escreveu na receita que tanto de farinha era necessário — explicou.
abriu um dos armários e tirou de lá uma vasilha com tampa. Colocou o resto da farinha ali, livrando-se do pacote sujo de massa.
Aqueles dois desperdiçavam muito e ela apenas queria ver tudo limpo e organizado de novo.
— Agora, você mocinho — ela apontou para o filho — Vai tomar um banho agora e você — foi a vez de —, fique de olhos nos biscoitos para que não queimem. Marque no relógio quinze minutos.
— Não vai tomar café?
— Quando eu der banho nele, eu tomo — respondeu, enquanto pegava o filho nos braços.
Quando os biscoitos ficaram prontos, resolveu experimentá-los e, por sorte, não ficaram ruins. Talvez um pouco mais doce que o normal, mas ainda estava feliz por eles não terem queimado.

***


O final de semana acabou tão rápido quando os biscoitos que fizera e, mais uma vez, ele estava a caminho do trabalho com após terem deixado o filho na escolinha.
vai fazer dois anos dia dezoito de agosto. Eu pensei em fazer algo e convidar os coleguinhas dele da escolinha, o que você acha? — comentou, enquanto checava a bolsa para ver se não tinha esquecido nada importante em casa.
— Depende do que for o algo…
— Uma festinha, simples.
— Hm… Por que você não faz uma festa grande? Podemos alugar um salão, e decoradores. E se fosse à fantasia? Você sabe que crianças adoram se fantasiar.
apenas o encarou.
O que diabos, estava imaginando quando ela só queria algo simples?
— Não quero uma festa grande, . Nem vem — ela rejeitou logo.
— Não precisa ser grande, mas você não acha melhor em um salão? É daqui a três semanas, certo? Tempo tempo de organizar e de fazer mais uma coisa que eu gostaria.
— O quê? — ela quis saber.
— Primeiramente, eu gostaria de resolver o assunto dos documentos do nosso filho e incluir meu sobrenome neles — ele disse, olhando-a de canto de olho — E segundo, minha mãe ainda não sabe que é avó, e eu acho que ela vai surtar quando descobrir. Eu também acho que ela vai brigar com você, mas isso já é problema seu — ele concluiu, sorrindo.
já podia ouvir as broncas da Sra. quando mencionou que ela ainda não sabia.
Mas por que ela ainda não sabia? Já fazia mais um mês que ele sabia, então por que ele ainda não tinha contado? Geralmente, isso seria o certo a se fazer já que ele era o filho dela e pai do neto dela.
— Por que você não contou a ela?
— Por que eu não quis. Não agora.
— Por quê?
— Por que eu não sabia como contar a ela, nem quando. Quero ir visitá-la com você e no próximo final de semana, quando eu contar a ela. A gente conta, deixa ela absorver e vai.
Por um momento, parecia uma criança com medo de levar bronca da mãe ao invés de um adulto de vinte e seis anos de idade.
pensou nisso e teve que prender o riso antes de, por fim, perguntá-lo.
— Você está com medo do que ela vai dizer? Que ela vai te chamar de irresponsável ou coisa assim?
— Ah, ela vai chamar, com certeza. E com razão! Eu fui irresponsável…
— Nós dois fomos — corrigiu.
— É.
Já não havia mais ar de riso em nenhuma das partes. Ambos ficaram calados, em um silêncio meio desconfortável até chegarem ao estacionamento da empresa, e nem perceberam que estavam lá.
Nem ela lembrou de pedir para que parasse um quarteirão antes, como o de costume, nem ele lembrara disso.
— Nós chegamos? — ela perguntou, quando finalmente se deu conta.
— É…? Chegamos — ele percebeu.
— Você devia ter parado para que eu pudesse descer, .
— E você devia ter me lembrado disso — ele retrucou.
— Ah, certo. Que seja — ela revirou os olhos, abrindo a porta do carro, mas antes de sair virou-se para ele — , se serve de consolo — ela acrescentou —, eu não morri quando contei pros meus pais, embora eles tenham me abandonado. E, por muitos meses, eu não tive um emprego como o que você tem hoje e naquela época para ajudar nisso. O máximo que sua mãe vai fazer é te chamar de irresponsável — concluiu, antes de sair e fechar a porta, deixando-o sozinho refletindo sobre aquela pequena conversa que tiveram logo de manhã, o típico horário que odiava ter conversas sérias.
Ainda mais quando as conversas evoluíam de um extremo a outro em questão de instantes, como ocorrera naquele momento.

***


Derick Greenville era alto, com cabelo e olhos da cor de chocolate, de pele branca, meio bronzeada.
Era um homem bonito, constatou logo quando entrou no apartamento e o apresentara.
Ainda que de uma maneira bem estranha.
esperava que ele fosse mais velho porém essa não era a realidade.
Derick devia ter no máximo a idade de , ou talvez fosse mais novo.
E era simpático, educado e a tratou bem.
Tinha acabado de chegar no apartamento junto a e foram conversar no escritório que possuía ali.
tomou um banho e bateu na porta do escritório.
— Sim — respondeu.
Ela abriu a porta e colocou a cabeça dentro.
— Está na hora de pegar na escolinha, você vai ou eu vou? — ela perguntou.
— Eu vou… — ele começou — continuar minha reunião com Derick e você pega ele — ele corrigiu, rapidamente — Aproveita e trás torta para mais tarde, as chaves estão em cima da bancada.
— Tudo bem.
Quando voltou, Derick já havia ido embora.
Deu um banho em e deixou-o brincando com o pai, enquanto fazia algumas pesquisas para último trabalho na faculdade.

. O que você acha de , huh? — perguntou ao menino, embora o mais novo nem estivesse prestando atenção — Vai estar em seu nome, sabia? Já que eu sou seu pai — ele continuou.
Entretanto, continuava a achar o carrinho com que brincava bem mais interessante do que o pai tagarelando ao seu lado sobre algo que ele não entendia.
Segundo Derick, poderia colocar o seu sobrenome no filho naquela mesma semana. No fim, era tudo questões burocráticas chatas e que deixou nas mãos do advogado. A reunião não demorara muito e Derick havia ido embora pouco tempo depois que saíra para buscar o filho na escolinha.
Tinha os apresentado um ao outro, embora não tivesse gostado tanto disso.
Por que, diabos, tinha que ser tão educada?
Sem contar, que ele agora tinha quase certeza que Derick se encantara por sua mulher… Sua mulher, riu sozinho, quando percebeu o que havia pensado.
Infelizmente, aquela não era sua realidade e ele teria de parar de pensar nisso.
Quem sabe um dia, talvez, aquela realidade dele mudasse para a que ele realmente queria.
Mas teria que esperar, e ser paciente.
Tal como estava sendo paciente com , esperando que ele lhe chamasse de papai.
chamou, novamente e dessa vez o menino o encarou.
— O quê?
— Você pode me chamar de papai uma vez? — perguntou, com um sorriso — Em breve, você vai conhecer sua avó, sabia? A minha mãe.
— Sua mamãe?
— Sim, ela é sua vovó. Mas você ainda não me chamou de papai — falou, fingindo que estava triste.
— Ei. Não fica triste — o menino falou, em seu jeito de criança tipicamente enrolado.
não aguentou e agarrou o menino, começando a fazer cócegas nele, fazendo-o gritar.
— Seu pestinha! Você devia chamar o seu pai de pai, sabia? Chegar de enrolar, ! Ou sofrerá as consequências! — ele brincou, fazendo o menino rir e gritar ao mesmo tempo, cada vez mais.
— Pára!
— Não vou deixar você comer torta!
— A mamãe deixa! — o menor retrucou, mostrando a língua.
— Você mostrou a língua? Quem você pensa que eu sou, seu moleque? — perguntou, apertando-lhe uma das bochechas.
E assim, se seguiu o resto daquela tarde até que finalmente saísse, duas horas depois, de seu quarto para preparar o jantar para os dois.


12. Pequena Coisinha Reclamante

tinha acabado de chegar ao prédio onde morava e estava prestes a entrar, quando ouviu uma buzina atrás de si.
Virou-se e pôde ver Derick estacionando o carro e vindo em sua direção.
Ele estava um pouco diferente desde a última vez que o vira, não usava terno ou gravata, mas apenas calças e uma camisa branca social.
— Oi! — ele saudou — Você sabe se o está em casa? — perguntou.
notou que ele carregava uma pasta em uma das mãos.
— Ele está no escritório, por quê?
— Oh, são os papeis dos documentos do , ele precisa assinar.
— Eu estou voltando da faculdade e passei aqui pra pegar umas coisas para poder ir pra lá. Se você quiser…
— Infelizmente, não. Eu não posso. Mas que tal se fizermos assim, eu te dou uma carona até lá e aproveito e falo com o . Tudo bem pra você?
— Claro.
Ele sorriu e ela fez o mesmo.
— Eu te espero no carro, então.
— Tudo bem.
entrou no prédio e pegou alguns documentos que não ela, mas , havia esquecido e pedido pra ela pegar quando fosse para o trabalho.
Tinha ido na faculdade resolver algumas coisas e falar com alguns professores e acabou por encontrar um orientador para seu TCC.
estaria livre, basicamente, agora que ela tinha quem orientá-la.
E ainda tinha a prova de seleção que ela, Anne e outros que estagiavam na revista, teriam que fazer para concorrer a uma das cinco vagas de emprego fixo quando se formassem.
teria basicamente uns seis meses até a prova, e queria se preparar o melhor que pudesse, levando em conta que ainda teria um TCC para fazer.
Entrou no escritório de , no apartamento, e pegou o envelope que ele havia pedido e trocou o sapato baixo que usava por um com um pequeno salto para o trabalho.
Passou um batom rapidamente e pegou novamente sua bolsa.
Quando chegou ao carro, encontrou Derick batucando no volante alguma música que passava no rádio. reconheceu como “Uptown Funk”, alguma música que o Bruno Mars cantava e tinha ouvido algumas vezes.
Ela entrou no carro e quando ele a percebeu, esticou o braço par abaixar o volume.
— Eu gosto dessa música também — ela falou simpática.
— Ah, é uma música legal — ele sorriu.
— Então, só precisa assinar os papeis agora e pronto?
— É sim. Foi tão rápido como ele queria.
— Ele é meio apressado e impaciente mesmo.
— Pois é, o antigo advogado dele me avisou sobre isso antes de passar o caso pra mim — ele comentou.
Pararam em um sinal vermelho e ficou inquieta por um momento.
— Você acha estranho? Digo, esse caso… Sobre eu não ter contado ao que-
— Na verdade, não é nenhuma surpresa pra mim — ele interrompeu —, eu não sei bem a história de vocês, mas você provavelmente teve seus motivos e não é a primeira vez que vejo algo assim acontecer. Já vi outros casos como esse, então… Não sei, pra mim é algo normal — ele riu — Isso soa estranho?
Dessa vez, foi a vez de rir.
— Na verdade soa reconfortante.
— Reconfortante?
— As pessoas não me vêem com bons olhos. Imagine só uma mãe solteira que para eles, teria sido possivelmente abandonada. Sem contar que eu ainda estava na faculdade, ainda estou na verdade…
— Entendo o que você quer dizer. Sabe, minha melhor amiga é formada em Jornalismo também.
— Sério?
— Sim, ela se formou em Nova York, mas ela não exerce a profissão.
— Não? Qual o nome dela?
— Aria. Aria Belmont. Ela trabalha como garçonete, no momento. E ela mora aqui em Londres também… Foi um dos motivos que me fez aceitar o emprego aqui, sabe? Ela é minha melhor amiga, mas eu passei muito tempo longe dela. Me sinto mal com isso… Aconteceu muita coisa na vida dela e eu devia ter estado lá, mas eu não estava — ele comentou, e em seguida deu uma risada nervosa — Eu não devia estar comentando isso, certo? Nem nos conhecemos direito.
— Não, tudo bem. Só não entendo como ela prefere trabalhar como garçonete, ao invés de jornalista.
— Como eu disse, aconteceram algumas coisas com ela e, o jornalismo seria muita exposição que ela não pode sequer pensar em ter no momento, mesmo se ela quisesse. É tudo maior do que parece. Mas agora que estou aqui, não vou sair mais de perto dela.
— Acho muito legal da sua parte — sorriu diante daquela declaração.
— Obrigado — ele disse, meio sem graça.
— Sua amiga parece uma boa pessoa, eu gostaria de conhecê-la qualquer dia desses e, quem sabe, pedir alguns conselhos sobre Jornalismo.
— Por mim, tudo bem. Posso falar com ela, e talvez podemos sair depois. Aria também precisa conhecer novas pessoas, e eu acho que vocês podem se dar bem.

***


Chegaram no escritório alguns minutos depois, já no andar onde trabalhava. Continuaram conversando animadamente até lá e caminharam juntos até o escritório de .
Porém quando estavam prestes a entra, acabou escorregando por conta de uma folha que estava no chão e iria cair feio se Derick não tivesse tido o reflexo de segurá-la; os dois acabaram rindo da situação e ela o agradeceu antes de abrir a porta da sala.
não estava em um bom humor naquele dia e muito menos ainda, quando pôde avistá-los, ainda sentado em frente ao computador, desde quando saíram do elevador até a entrada do escritório, quando havia quase caído. Mas afinal, porque era mesmo que estavam andando, conversando e rindo juntos? Desde quando era tão simpática com estranhos?
Ele estreitou os olhos, pensativo, tentando encontrar respostas para todas essas perguntas à medida que eles se aproximavam, porém a única coisa que conseguia pensar não era algo que considerava bom.
Ao menos não para ele.
Estariam eles, por acaso, flertando?
com certeza não gostaria de confirmar isso.
abriu a porta e a segurou para que Derick pudesse entrar e então fechá-la novamente.
— Derick o cumprimentou — Fui ao seu apartamento e disse que estaria aqui, tentei te ligar mas não consegui e cá estou eu. Os papeis ficaram prontos e agora você só precisa assiná-los.
— Já estão prontos? — perguntou, um pouco surpreso.
— Você disse que queria o mais rápido possível, não é?
— Obrigado — Derick entregou-lhe os papeis e rapidamente pegou uma caneta para assiná-los — É só isso? — quis saber.
— Sim — o advogado respondeu — Agora eu já posso ir.
Derick se despediu dos dois, porém quando estava prestes a sair pareceu lembrar-se de algo.
— chamou — Pode me passar seu número, para podermos combinar o jantar? — ele pediu.
— Claro — ele entregou o telefone a ela e ela anotou.
— Obrigado e até logo.
Quando o advogado saiu da sala, pegou o envelope que carregava e tirou os papeis de dentro.
— Eram esse que você queria? — mostrou-os a e simplesmente pegou os papeis e jogou em cima da mesa, sem ao menos ver.
— Por que você deu seu número pra esse cara? — ele perguntou de uma vez.
o encarou, sem responder.
— Eram esse os papeis que você queria? — ela perguntou, novamente.
— Me responda, .
— Eu não tenho que te responder isso, . Quem você pensa que é?
— Você é a mãe do meu filho — ele disse, entredentes.
— E daí? Isso não te dá nenhum direito sobre mim. Eu não lhe devi satisfações apenas porque moro debaixo do mesmo teto que você — ela falou, friamente — Não se meta na minha vida, . Não é da sua conta pra quem eu passo ou deixo de passar meu número — acrescentou.
a encarou como um menino irritado.
— Você tava flertando com ele? — perguntou, tentando conter a raiva.
— Isso também não é da sua conta — ela respondeu — Se era apenas isso que queria, Sr. , eu estou indo trabalhar agora — ela se virou, mas voltou-se para ele novamente — Antes que me esqueça, eu consegui um orientador para mim hoje. Só para você saber e não precisar mais se preocupar em me ajudar.
E então, ela saiu, deixando um emburrado e ciumento para trás, não que ela precisasse perguntá-lo para saber daquilo.
era ciumento até antes de se envolverem, quando eram apenas amigos.
E ele não fazia muita questão de esconder aquilo.
Não dizia em voz alta, porém suas expressões o acusavam e ele não as escondia, mesmo sendo ótimo nisso.
Quando saiu, ele tratou de voltar ao trabalho, tentando ignorar a irritação que sentia. Pegou os papeis que havia pedido para que ela trouxesse e sentou-se novamente na cadeira, apoiando os pés na mesa, tentando ficar confortável para ler o artigo; e sem ao menos se importar de que todos poderiam vê-lo naquela posição um tanto desleixada.
Quando estava prestes a sair do trabalho, enviou uma mensagem limpa e seca para , avisando que iria levar para tomar um sorvete depois que o pegasse na escola e foi o que ele fez, em seguida.
Haviam pedido dois sorvetes de casquinha com duas bolas cada, de chocolate e leite condensado. já havia terminado de comer o dele e observou com um sorriso no rosto, o filho se sujar com o dele enquanto tentava tomá-lo.
— Como foi na escolinha hoje, campeão? — perguntou.
— Dylan implicou comigo.
— O quê? Implicou com você? Quem é esse Dylan e o que ele disse?
— Ele disse que eu não tinha pai, ele sempre diz isso, aí eu falei que tinha — respondeu, simplesmente, ainda concentrado no sorvete.
— E o que ele disse?
— Nada, você chegou depois disso.
— Da próxima vez você me apresenta pra ele — disse.
Quem aquela coisinha pensava que era para falar aquilo para seu filho?
Ele suspirou.
Ah, as crianças de hoje em dia, pensou.
— Tá bom.
Minutos depois, quando comeu o último pedaço da casquinha, se pôs a pegar alguns guardanapos parar limpar o filho da própria sujeira.
— Tava bom o sorvete? — o garoto assentiu com a cabeça, enquanto ele ainda limpava suas mãos — Acho melhor irmos ao banheiro lavar essas mãos, huh? Só espera aqui enquanto eu pago os sorvetes, campeão.

— Suquinho! — pediu, enquanto passeavam pelo Hyde Park.
— Suco? Você tem suco aí é? — perguntou, quando viu ele tentando alcançar a pequena bolsa que estava em suas costas com os bracinhos pequeninos.
— Pega — o menino pediu, mais uma vez.
abriu a bolsa e encontrou uma garrafinha com o que parecia ser suco de laranja, que embora não estivesse gelado, aparentava estar frio.
Puxou a tampinha e a colocou com cuidado na boca de , que fez questão de segurar a garrafinha mesmo com o apoio dele. Tomou alguns goles e depois simplesmente largou a garrafa e saiu andando, deixando um um tanto confuso para trás.
— Ei, de nada! — falou e o menino riu travesso, parecendo entender o que o pai queria dizer com aquilo — Seu pestinha, volte aqui! — começou a andar atrás dele e começou a correr, entre risos. Porém, ao olhar para trás durante um momento, não pôde perceber um pequeno galho de árvore à sua frente, que fez com que tropeçasse e caísse para a frente, de bruços.
O choro foi instantâneo, assim como a pequena corrida que dera para chegar até o menino.
Ajudou a levantar e percebeu as mãos do menino um tanto vermelhas e um pequeno arranhão em uma delas, que sangrava um pouco, porém nada muito grave. Suspirou aliviado por isso e tratou de acalmar o menino assustado.
Se ele tivesse quebrado algo, com certeza o mataria por tê-lo deixado sair correndo por aí; talvez ela nem chegasse a tempo, pois era do tipo que se culpava por coisas assim, talvez ele mesmo o fizesse.
Pegou o filho nos braços e o aninhou contra o ombro, esfregando as costas do menino, enquanto caminhava até um banquinho, sentando-se com ele no colo, ainda chorando de forma desconsolada.
— Shh! Já passou, campeão! — tentou — Foi só um susto, você só arranhou a mão, tá vendo? — ele pegou a mão do garoto, mostrando-a — Isso tá doendo muito?
O garoto negou com a cabeça.
— Então! — exclamou — Vamos numa farmácia e aí compramos um remédio e um band-aid bem bonito pra colocar, huh?
— Mas o remédio arde! — o menino reclamou.
— Então vamos procurar um que não arde, que tal?
— Tá bom — olhou para o pai, meio desconfiado ainda, e embora ainda tivesse vestígios de lágrimas em seu rosto, ele já não estava mais chorando.
não demorou a encontrar uma farmácia. Por sorte, havia uma consideravelmente perto de onde estavam; então ele comprou o que precisava, usou o banheiro para lavar o ferimento ainda sob os pequenos protestos daquela pequena coisinha reclamante e, em seguida, voltou para o parque com o menino, segurando-o pela mão enquanto caminhavam.
Sentaram-se novamente em um banquinho e pegou o remédio para colocar no ferimento, e encarou que o olhava um tanto desconfiado, com o cenho franzido enquanto ele abria o pequeno frasquinho.
— A moça da farmácia falou que não arde, você ouviu — ele falou, porém o garoto continuou com a mesma expressão, embora agora tivesse a mão estendida, à pedido do pai.
fechou os olhos, com um pouco de medo, porém não sentiu nada.
Abriu os olhos, e encarou o pai com um expressão surpresa.
pegou um pedaço de algodão e tirou o excesso de líquido do ferimento, pegou um band-aid do Batman que havia escolhido e o colocou sobre o pequeno arranhão.
O menino agora apenas observava, curioso, tudo o que o pai fazia para cuidar do dodoi dele. Quando acabou, sorriu para e o menino fez o mesmo.
— Ainda tá doendo? — o menino negou — Eu te disse, não foi? Agora me dá um abraço — pediu, abrindo os braços.
O menino ficou em pé no banquinho e pulou nos braços do pai, abraçando-o pelo pescoço.
— Obrigado, papai.
arregalou os olhos, ainda abraçado ao menino e o afastou, em seguida para olhá-lo nos olhos.
— O que você disse?
— Obrigado — o menino repetiu.
— Não, depois disso. Do que você me chamou…?
— De papai, você é meu papai, não é? Mamãe me falou que sim — explicou o menino — Então agora vou te chamar assim.
não acreditava no que estava ouvindo.
Ora essa! Como aquela coisinha dizia isso completamente de repente? Ele não estava esperando e até já tinha se acostumado com o menino o chamando pelo nome.
Papai!
Ele o chamou de papai!
Era quase surreal, e ele apenas pôde rir diante daquela situação enquanto puxava o menino para mais um abraço.
— Pode me chamar assim sempre que quiser campeão. Sempre que quiser, ouviu bem?
— Tá bom.
E foi tudo o que a pequena coisinha reclamante respondeu.


13. (Re) encontro

se concentrava em pintar o desenho que havia feito durante o trabalho, quando viu o celular vibrar em cima da mesa.
Pegou para ler a mensagem que havia chegado, e antes mesmo que pudesse abrir a caixa de entrada, escutou a gargalhada alta do noivo em seu escritório. E assim que leu, pôde ter um palpite do motivo do riso dele, quando ela mesma começou a rir também.

ME CHAMOU DE PAI!!!!!!!!!! ELE ME CHAMOU DE PAAAAAAAAAAAAAI! E DISSE QUE VAI FICAR FAZENDO ISSO AGORA PORQUE EEEEEEU SOU O PAI DELE!”

daria tudo pra ver a cara de na hora que ele ouviu o filho chamá-lo de pai. Dava para ver pela mensagem enviada em caixa alta, o quanto ele devia estar alegre e eufórico.
Caminhou até o escritório do noivo e abriu a porta.
— Você recebeu também? — perguntou, mostrando o celular, assim que a viu — chamou de ‘pai’. Ele deve estar pirando! — ele acrescentou, ainda rindo, e ela o seguiu.
— Será que isso requer uma comemoração — ela perguntou.
— Já enviei uma mensagem pra ele! Acho que mais alegre do que isso ele não fica, a não ser que diga que aceita se casar com ele — ele comentou.
— Nisso, o teria que se empenhar muito, porque aquela ali…

***


abriu a porta do apartamento e foi praticamente atacada por , eufórico.
me chamou de pai! Ele me chamou de pai! — ele disse, e ficou repetindo, dando pulinhos ao redor dela.
riu, pensando em como ele parecia uma criança naquele momento.
E quando ele parou, ela a abraçou e o parabenizou, contagiada pela alegria dele.
— Ele disse que agora vai me chamar assim, ! De papai! — ele riu e a apertou mais forte, depois se separou para olhar o rosto sorridente dela.
O que não esperava, e talvez nem mesmo , era que ele a beijasse naquele momento.
Num impulso, ele colou seus lábios aos dela, em meio a toda aquela euforia repentina.
Mas logo que o fez, os dois pareceram ficar mais calmos e até um pouco rígidos quando perceberam o que estavam fazendo.
se afastou um pouco e olhou para ela, que também o olhava.
Naquele momento, se sentia perdida naquele olhos azuis claros que tanto amava. Não conseguiu falar nada e apenas o encarou, sem reação, porém com o coração acelerado a ponto de que ela pensasse que ele poderia sair do seu peito a qualquer momento.
não estava muito diferente dela, e quando a encarou aquela boca novamente, não pensou duas vezes antes de beijá-la, mais umas vez.
Agora eles não estavam rígidos, muito pelo contrário.
usou uma das mãos para puxá-la para mais perto e abraçá-la contra si, enquanto a outra se mantinha no rosto alheio, que ele acariciava com o polegar hora ou outra.
Não sabiam dizer quanto tempo durou aquele beijo assim que ele acabou, mas os dois estavam, com toda certeza, ofegantes.
E foi naquela hora que a ficha caiu.
arregalou os olhos e se afastou e fez o mesmo, quase como se um queimasse o outro.
… eu… — ele tentou dizer algo, qualquer coisa, mas nada saiu.
está dormindo? — ela perguntou, rápido demais, visivelmente nervosa e por pouco não entendera o que ela perguntara.
— S-sim — ele respondeu, e quis bater em si mesmo por ter gaguejado.
— Eu vou tomar banho.
e vêm aqui mais tarde. quer comemorar... é.
— Tudo bem — foi o que ela respondeu, antes de sair daquela sala, praticamente correndo.


achou que era uma péssima hora para ter aqueles tipos de pensamentos em mente.
Na verdade, ela achava que qualquer hora era péssima para aquilo.
Porém, a única coisa que ela pensava depois daquele beijo fora na única noite que passara nos braços do homem que vivia sob o mesmo teto que ela.
Enquanto se ensaboava no banheiro e o vapor da água subia, ela não conseguia controlar a própria mente. Ficou alguns segundos debaixo do chuveiro, tentando esfriar a cabeça para poder pensar claramente.
Acabou por decidir, enquanto se enxugava, que iria fingir que nada daquilo tinha acontecido.
Talvez fizesse o mesmo.
Ele era bom nisso.

***


Derick tocou a campainha e esperou.
Quando a porta se abriu, ele pôde ver o sorriso de Aria e sorriu junto. Não esperou ela convidá-lo para entrar e foi logo puxando-a pra si em um abraço apertado.
Enterrou o rosto entre os cabelos castanhos dela, sentindo o cheiro bom de frutas que emanava dele.
— Senti sua falta — ele murmurou, baixinho e ouviu ela dizer o mesmo.
— Como você está? — ela quis saber.
— Do mesmo jeito de sempre, só trabalhando. E você? — ele perguntou, enquanto os dois entravam no apartamento dela.
— Idem. Você veio só pra uma visita?
— Você acha que eu só vim para uma visita? Pode ajeitar meus travesseiros porque hoje vou lhe incomodar.
— Por um instante achei que fosse dizer ‘hoje vou lhe usar’; eu iria realmente ficar com medo de fosse assim — ela falou brincando.
— Ora, eu que não me oponho — piscou, com um sorriso malandro, fazendo rir e jogar uma almofada nele.
E depois outra. E outra. Até que as almofadas, que não eram tantas assim, acabaram e eles continuaram rindo.
Derick então resolveu agir e segurou-a pelos pulsos, imobilizando-a e a empurrou para o sofá, ficando por cima.
Sentiu Aria ficar rígida por um instante, mas logo ela sorriu novamente para ele e relaxou. Talvez fosse porque ela sabia que ele nunca seria capaz de fazer nenhum mal à ela, talvez fosse porque ele havia sido o seu primeiro… assim como ela fora a sua. Ou porque eles confiavam demais um no outro, e se amavam das forma deles.
— Você já pode sair de cima de mim — ela disse.
Em resposta, Derick apenas largou de vez o peso do próprio corpo em cima do dela, fazendo gemer em reclamação.
— Não sei, tô com preguiça — ele falou, aparentando estar tão confortável quanto como se estivesse sozinho naquele sofá.
— Eu vou te dar um chute!
— Vai, é?
— Naquele lugar — ela continuou.
— Quero ver você tentar.
Mas obviamente, ela não podia. Então só tratou de tentar se remexer embaixo dele até que conseguiu empurrá-lo pelos ombros, fazendo-o cair no chão, rindo tanto quanto ela.
Derick colocou os dois braços atrás do pescoço e fitou a amiga.
— Você lembra que te falei sobre ?
— Claro. Como ela anda no TCC?
— Não sei, você vai encontrá-la? Podemos marcar um dia.
— Você indo junto, por mim ‘tá tudo bem. Pode marcar — ela respondeu.
— Você vai gostar dela.

***


— Olha o papai do ano! — exclamou , agarrando pelo pescoço assim que ele abriu a porta. Ambos pareciam dois adolescentes brincando, enquanto entrava e cumprimentava a amiga que se encontrava na cozinha, logo ao lado.
— Tudo é motivo de comemoração para você e falou, fazendo a amiga rir.
— Ora, fazia tempo que não fazíamos um sessão de cinema em casa, o que tem pra hoje?
— Sei lá, acho que deve ter escolhido algo, ou não — ela deu de ombros, sem se importar.
— E ?
— Dormindo.
— Já? Sete e meia da noite? O que vocês fizeram com ele.
o colocou para dormir, pergunte a ele.
, o que você fez pro meu afilhado dormir uma hora dessas?
— Dei suco de maracujá pra ele — ele respondeu simplesmente.
o encarou como se ele tivesse dito algo estranho.
— Suco de maracujá? Hm… Por que nunca pensamos nisso, ?
— Porque vocês são duas bobocas — falou, jogando uma almofada em .
— Ei! — ela reclamou — Eu sou madrinha dele, sabe? E é o padrinho. é praticamente nosso filho também, porque somos como segundos pais dele, ‘tá bom?
— Ah, claro — prendeu o riso — Tudo bem.
— Que filme vocês escolheram? — perguntou.
— Que tal o novo filme do Drácula? — sugeriu e eles apenas balançaram a cabeça, concordando.

Estavam no meio do filme quando o celular de tocou.
Ela olhou quem era e se levantou, indo até a cozinha para atender.
— Ei, . É o Derick. Eu falei com a minha amiga, você ‘tá livre amanhã à noite?
— Amanhã à noite? Tudo bem. Onde nos encontramos?
— Eu passo aí pra te pegar e depois pegamos Aria no apartamento dela. Ela sugeriu irmos ao Domino’s. O qu você acha? Você gosta de pizza? — ele perguntou, meio apreensivo.
— E quem não gosta? — ela perguntou, rindo.
ficou alguns minutos conversando com ele, antes de voltar para a sala e se jogar no sofá.
— Quem era? — perguntou, baixo, sentada ao lado dela.
— Derick.
— Derick? O que ele queria?
— Ele me chamou para sair amanhã.
— E você vai? — perguntou, surpresa.
— Por que não? Ele parece ser gente boa.
, que estava sentado do outro lado dela no sofá, acabou escutando a conversa e perguntou, antes de pensar:
— Por que o Derick te chamou pra sair? E como assim você vai? Você em conhece ele!
— Não é da sua conta — ela sussurrou de volta — E eu vou porque eu quero.
Ele estreitou os olhos enquanto a encarava e voltou a olhar para a televisão.
Não disse mais nada depois daquilo.
Pelo visto, parecia fingir que não havia acontecido nada ele eles dois. Ele quis rir diante daquilo, mas não o fez.
Iria entrar no joguinho dela também, já que ela gostava tanto de “faz de conta”.

A campainha tocou e correu para atender, depois de pegar sua bolsa. Porém, havia chegado primeiro e se encontrava conversando animadamente com o advogado.
Ela estranhou aquilo.
parecia simpático demais para alguém que não gostava que ela saísse com outros homens.
— Oi — ela cumprimentou o advogado, interrompendo a conversa dos dois homens.
— Oi, ‘tá pronta? — Derick perguntou.
— Sim, vamos?
— Tchau , Derick. Cuida dela pra mim, cara — disse.
“Como assim ‘cuide dela’?”, quis saber.
— Pode deixar, cara — Derick disse, apertando a mão dele.
— E manda um ‘Oi’ para a sua amiga — ele acrescentou.
Foi então que entendeu.
Ele sabia que não era um encontro de verdade.
Que babaca.
Claro que ele ia sondar o território até descobrir algo, por isso estava tão simpático.
— Tchau, — ela falou, seca, mostrando a ele que ela havia entendido o joguinho dele.
— Até mais tarde, amor — ele respondeu, com um sorriso irônico e ela por pouco não o xingou e deu-lhe uns tapas, naquele momento.
Porque essa era a vontade que ela tinha depois daquela última frase.

***


discou os números do telefone pela terceira vez naquela noite, tentando criar coragem para deixar o telefone chamar e não haver uma quarta vez discando os números.
Depois de pensar durante a semana inteira, ele resolveu que seria melhor preparar o terreno antes de simplesmente aparecer na casa de sua mãe no próximo final de semana, levando uma antiga amiga e um netinho surpresa.
Sua mãe não andava vem de saúde já fazia um bom tempo, e ele não queria dar um susto nela, assim resolveu ligar e conversar com calma antes.
— Alô?
— Mãe. Sou eu.
! Oh, como você está? Quando vai vir para cá? Você voltou para Londres e só veio aqui uma vez.
— Hã… Eu vou bem, e talvez eu apareça aí no próximo final de semana.
— Que bom! Vou preparar seus pratos favoritos, então — ela falou, animada.
— Mãe, eu liguei porque eu preciso conversar algo importante com a senhora.
— O quê? Tem alguma coisa acontecendo, ? O que quer contar?
— Primeiro, eu preciso que me prometa que não vai surtar, ‘tá bom?
, diga-me agora — ela falou autoritária e ele suspirou, se sentindo um adolescente.
— Mãe, você lembra de quando levei meus amigos para passar uns dias em casa? Lembra da ?
? — ela perguntou e ficou um momento em silêncio, parecendo pensar — ? Aquele moça simpática, de cabelos castanhos, baixinha…
— Sim, essa mesma.
— Você reencontrou ela em Londres? Como ela está? Já deve ter terminado a faculdade, não é? Eu lembro de conversar com ela.
— É… não, na verdade ela ‘tá terminando ainda. Mas então… O que eu quero dizer é que… — ele respirou fundo — aconteceu uma coisa com ela por minha causa.
… — ela falou em tom de alerta.
— Mãe, a … Ela engravidou de mim.
— O quê?!


14. Desejo

— Como assim você engravidou ela? Que irresponsabilidade foi essa, ? Quantos anos você pensa que tem? E essa menina, como ela está passando por isso?
— Na verdade, ela já passou… Mãe, Mãe! — interrompeu a mulher que insistia em falar uma coisa atrás da outra — A já teve nosso filho.
— O quê?! Como assim?
— Calma me deixa terminar, ‘tá bom? — ele pediu, antes de continuar — Eu estava em Nova York quando ela teve o , ela nunca me contou que estava grávida e eu só vim descobrir isso algumas semanas atrás. Ele vai fazer dois anos em poucos dias.
— E por que você só está me contando isso agora? — quis saber.
— Eu precisava consertar algumas coisas e organizar outras. Inseri meu sobrenome no do meu filho e convenci de vir com ele morar comigo no meu apartamento. até montou um quarto pro
— Você convenceu ela? Porque isso me parece estranho? E por que essa moça não disse a você que estava grávida? — a mulher não parava de fazer perguntas atrás de outras, mas a última o fez ficar rígido e levemente irritado — , esse garoto é mesmo seu filho?
— Mãe, o que você pensa que eu sou? Uma criança? — ele perguntou, irritado — Quando teve esse bebê eu já era um adulto com emprego fixo, estabilizado. Ela errou em não me contar e eu deixei isso perfeitamente claro para ela. E sabe mais o quê? Eu via ela todos os dias porque, adivinhe, eu sou o chefe dela no trabalho; e ela nunca me contou.
… — tentou falar, mas foi novamente interrompida.
— Eu descobri por acaso, por meio da , que esse garoto é meu filho. E bastou eu olhar para ele para que eu tivesse certeza disso. e depois apenas confirmaram o que eu já tinha visto e também quando eu conversei com ela. Então não tire conclusões precipitadas sobre o que você não sabe e me escute terminar de falar antes de dizer algo. Eu não sou mais o garoto de dezessete anos que você costumava dar broncas!
O telefone ficou em silêncio por alguns segundos, mas sabia que a mãe ainda estava lá pois ouvia sua respiração do outro lado.
— Tudo bem, me desculpe.
— Obrigado — ele disse, ainda que com uma pontada de ironia.
Conversaram por mais alguns minutos e pôde contar o resto da história com mais detalhes e enfim dizer que iria visitá-la no próximo final de semana, não sozinho mas com e e pediu para que ela preparasse quartos na casa para quando chegassem.
A mãe se mostrou bastante animada com a visita, especialmente por saber que iria conhecer o neto.
Agora só restava a contar aquela pequena novidade para , assim que ela chegasse em casa.

***


Derick, Aria e resolveram trocar um jantar saudável para comer besteiras como três adolescentes fariam.
Coisa que nenhum deles era, mas mesmo assim fizeram.
Por que pizza era algo que eles suspeitavam que tinha sido inventado pelos deuses e eles apenas comeram até não aguentar mais, enquanto se conheciam por meio das conversas.
descobriu que Aria tinha usado um tema parecido no TCC da universidade, quando se formara, e deu a ela várias dicas; tanto que ela precisou pegar o celular e abrir no bloco de notas para anotar e não se esquecer de nada. Depois disso, eles ficaram apenas jogando conversa fora enquanto comiam.
descobriu que eles se conheciam desde crianças e estudaram juntos até a faculdade, quando ambos seguiram rumos diferentes. Porém acabaram se encontrando alguns anos depois; Aria havia vindo morar em Londres tinha apenas alguns meses e, segundo ela, era para reconstruir sua vida. não perguntou o porque e ela também não parecia inclinada a dizer. Já Derick, como ela já sabia, havia recebido uma proposta de trabalho e quando soube que Aria estava morando por lá, ele não pensou duas vezes em aceitar o emprego e, inclusive, deixar uma noiva para trás.
também disse que tinha uma noiva e também terminou com ela — comentou — Vejo que vocês dois têm algumas coisas em comum — brincou ela.
— Oh, sinceramente? Eu não sabia nem o que eu estava fazendo com ela — ele disse, fazendo as duas garotas rirem.
— Você também não é a pessoa mais agradável do mundo, Dery — Aria provocou.
— Tem razão, a única pessoa no mundo capaz de me aguentar é você mesmo. , eu já pensei muito sobre isso e decidi que me arrependo de não ter pedido Aria em namoro quando tive a chance — ele comentou, fazendo ela e principalmente Aria ficarem sem palavras.
— Você ia me pedir em namoro? — Aria perguntou, confusa — Quando exatamente?
— Um dia depois de você aceitar o pedido de Eric — ele respondeu, fazendo Aria ficar rígida de repente. viu-a respirar fundo, tentando se recompor e soube claramente que aquele tal de Eric não havia deixado boas lembranças.
Aria passou os dedos de leve pela sobrancelha, visivelmente nervosa mas no fim ela sorriu, e pareceu estar melhor.
— Sério — ela perguntou — Você tinha tudo planejado?
— Sim, não é engraçado? Você partiu meu coração sem nem saber — ele riu, sem humor — Eu ia te levar naquele parque de diversões que costumávamos ir e iria te pedir lá, quando estivéssemos na roda gigante. Eu tinha até te comprado um anel de compromisso. Bem brega, na verdade. Mas eu tinha certeza que você ia gostar porque você costumava ser meio melosa e gostar de coisa fofinhas como essa.
Aria sorriu, um pouco emocionada com aquilo. Então, ela pareceu lembrar de algo.
— Espere, o anel… Era o que você me deu antes de ir embora?
— Sim — ele sorriu, nostálgico — Você gostou dele? Eu sequer tive a chance de perguntar.
Aria não disse nada, mas fez. Puxou uma corrente de dentro da blusa e de lá eles puderam ver um anel servindo como pingente.
— Não cabe mais no meu dedo, porém… — ela sorriu sem graça.
— Como eu não percebi isso? Não acredito que você ainda tem!
— Eu só uso ele em ocasiões especiais — ela respondeu, sorrindo junto a ele.
sentiu quase como se estivesse assistindo a algum tipo de novela ao vivo. Ela era uma telespectadora ali, que não sabia muito da história dos dois, porém havia percebido as várias entrelinhas escondidas que ela não entendia bem o que significavam.
Contudo, ela percebeu o carinho em meio as palavras quando falavam um com um outro e sentiu uma pontada de inveja daquela relação, lembrando que ela mesma tivera uma parecida com , mas que ela tinha certeza que não voltaria a ser como era; Nem tinha certeza, também, de como era para ele e como eles iriam viver futuramente. Seriam sempre distantes como ela sentia que eles estavam como sua suspeita indicava ou ela recuperaria algum dia o amigo que tivera, independentemente ou não de terem um filho juntos?
Essa e outras perguntas ficaram um bom tempo rodeando sua mente até Derick estacionar o carro no seu prédio e ela se despedir, brevemente, dele e de Aria.

se encontrava vendo um filme de terror, completamente concentrado com uma tigela de pipocas na mão, quando ouviu a porta ranger.
Infelizmente ou não, coincidiu com um péssimo momento para ele, levando em consideração a cena que se passava na TV e ele não pôde evitar de dar um grito quando viu aquele vulto em meio a escuridão.
gritou junto a ele, pelo susto que teve quando o próprio gritou e quase caiu para trás ao tropeçar em algum brinquedo de que havia ali.
Acendeu a luz enquanto respirava fundo e encontrou o próprio com uma das mãos no coração e os olhos fechados, respirando fundo em meio a uma careta de alívio e um monete de pipocas espalhadas pelas sala.
— O que, diabos, foi isso, ? Você ‘tá doido ou o quê?
Ele fez uma careta de um misto de medo e alívio.
— Eu estava assistindo Anabelle — ele explicou e desligou a TV, desistindo do filme.
, de verdade. Você merecia uns tapas bem — e ela bateu nele, antes de concluir — agora.
— Ai! — reclamou, esfregando o local atingido — Pelo visto, sua mão continua bem pesadinha, hein?
— Você… é muito irritante, sabia?
— Sim. E por falar nisso, precisamos conversar. Vem, senta aqui — ele deu umas batidinhas no sofá, ao lado dele, depois de tirar as pipocas que caíram ali durante o susto. se sentou e o encarou, esperando que ele começasse a falar.
tinha as mãos entrelaçadas uma na outra e as encarava, como se fosse uma criança prestes a confessar um malfeito para a mãe.
. Diz. Logo — ela pediu, impaciente.
— Eu liguei pra minha mãe e contei tudo, ela ficou meio irritada no início e eu também me irritei; entretanto, nós já resolvemos tudo e eu disse que iremos visitá-la no próximo final de semana para que ela possa conhecer .
— Como assim ‘vamos’? — ela quis saber — Como é que você marca algo assim sem combinar comigo? Eu tenho uma vida também, sabia? E ando muito ocupada, você sabe. Devia ter conversado comigo antes, .
— Eu sei — ele admitiu — Desculpe.
— Tá, tá — respondeu, irritada.
— Desculpa, — ele pediu, novamente. Porém, dessa vez, com uma voz fofa — ,
a abraçou pela cintura, de repente.
Mais uma vez, ele parecia um menino agarrado a mãe.
Por que ele insistia em agir assim? Certamente era para fazê-la rir, porque era só isso que ela sentia vontade de fazer todas as vezes que o via daquela forma.
, me larga.
— Não — respondeu, emburrado — Estou com medo, fique aqui.
— Medo de quê? — ela perguntou com um meio sorriso, não acreditando no que ouvia.
— Do filme, e de ficar só. Essas coisas assustam, sabia? Tipo você entrando em casa daquele jeito.
— Eu não tenho culpa por você ter se assustado com um filme de uma boneca idiota.
— Você não pode dizer isso. Aposto que se assustaria também, . Já viu como aquela boneca é feia? Isso é suficiente pra se assustar. Eu não sei que tipo de pessoa cria um troço feio daquele, mas se algum dia eu tiver uma filha eu com certeza vou preferir dar coisas mais úteis pra ela brincar. Bonecas são assustadoras, e eu não gostaria de entrar no quarto dela à noite e encontrar com alguma coisa esquisita como uma boneca. Já parou pra pensar?
— Bonecas não são assustadoras, . Deixe de paranoia, você com certeza vai dar alguma boneca pra ela; e, se você não der, alguém vai — ela comentou e riu quando ele fez uma careta.
Por um instante, pensou em segurando uma menininha nos braços, ninando-a para dormir.
Não soube o porquê, mas tinha uma impressão que ele seria ótimo para colocá-la para dormir.
Imaginou como teria sido com , caso ela tivesse contado que estava grávida. Estariam eles juntos? Ou seriam apenas amigos?
Certamente, ele seria um pai atencioso e, talvez mais do que já era.
Por um momento, ela imaginou que a menininha que ele segurava poderia ser dela também.
Apenas imaginou. E sorriu sem humor, sonhando acordada com algo que ela sabia que nunca viria, sem se importar com que ainda a abraçava sem falar nada, tanto que não pôde ver que ele estava tão preso em pensamentos como ela estava naquele momento.
lembrou então de Aria e Derick e da relação que eles mantinham.
Amigos de infância, com muita história.
e ela não eram amigos de infância e, certamente, não tinham muita história como eles dois.
Entretanto, se identificou com Derick em um ponto.
Ele havia amado Aria um dia, sendo que quase a pedira em namoro, se tivesse tido a chance.
Talvez ele ainda a amasse. Não, ela tinha certeza que sim. Mas não podia dizer se era da mesma forma que antes, sendo que não os conhecia direito.
Todavia, ela já os admirava.
Mais uma vez, sentiu inveja da relação que os dois tinham e se sentiu triste, de repente, porque queria ao menos recuperar a amizade que tivera um dia com .
Assim como Derick, ela amara .
Arriscava dizer que sempre estivera apaixonada por ele, e talvez ainda estivesse. Mas ela tinha medo da aproximação, tinha medo de ser magoada e de magoá-lo, já que a única vez que se envolveram como algo além de amigos, ela sofrera consequências por isso.
Ser abandonada pelos próprios pais fora uma delas.
ainda sentia aquela ferida aberta, e achava que talvez ela nunca iria se fechar.
Por outro lado, ela encontrou o apoio dos amigos e da tia, ainda que tivesse tido, mesmo com a ajuda deles, um tempo difícil.
Ela não sabia como, nem em que momento algumas lágrimas começaram a lhe borrarem a vista. Muito menos sabia quando começara a abraçar contra si, ainda rodeada pelos braços dele.
Como se aquele fosse um momento muito comum entre eles.
Um abraço tão simples e ao mesmo tempo que aparentava tanta intimidade.
Encostou o queixo na cabeça dele e suspirou. Em seguida, passou a acariciá-lo distraidamente nos cabelos, enquanto olhava para um ponto qualquer do chão.
entrou em alerta por um momento assim que sentiu-a abracá-lo de volta. E quando ela começou fazer-lhe carinho nos cabelos, ele se surpreendeu mais ainda.
Não estava esperando aquilo e tinha curiosidade de saber o que se passava na mente de naquele momento. Porém, não teve coragem de perguntar; assim, relaxou em seus braços e continuou ali, quietinho como estava, perdido em pensamentos.
E no meio de todos os pensamentos que tivera, ele tentava encontrar uma forma de se aproximar dela. Ele queria se aproximar e ousava dizer que necessitava disso.
Queria que ela, e ele fossem uma família de verdade e não somente pais e colegas de apartamento ou chefe e empregada, como eram no trabalho. Entretanto, ela não dava nenhuma brecha para que ele pudesse derrubar o muro que ela havia imposto nos dois, o que o fazia hesitar a tentar algo que talvez pudesse afastá-los ainda mais.
Sentiu que relaxava cada vez mais conforme o acarinhava e desejou secretamente que aquela cena pudesse se repetir mais vezes, percebendo que aquela talvez fosse a aproximação mais sincera que eles tiveram desde que ele voltara para Londres.
E talvez ela nem estivesse percebendo isso.
Talvez estivesse apenas distraída.
Subitamente, começou a recordasse das últimas semanas. De quando a viu novamente, pela primeira vez, no aeroporto e das conversas simpáticas que conseguira ter com ela antes de descobrir tudo.
Lembrou-se de quando chamou-a para almoçar com ele pela primeira vez e como ela parecia relutante em aceitar. Mas acima de tudo, ele lembrou algo sobre aquele dia e a conversa que tiveram no restaurante, que fez com que aparecesse uma pontinha a mais, senão uma grande ponta, de coragem em seu coração.
“Bem, talvez ele te amasse” “Ele gostava muito de mim e isso não era suficiente” Ela parecia magoada quando dissera aquilo, como alguém que criara espectativas e tivera uma péssima desilusão. Sentiu-se culpado, sabendo que era dele o tempo inteiro de quem falavam e desejou que pudesse voltar no tempo para poder fazer as coisas direito.
Talvez não isso, mas se ele ao menos pudesse consertar tudo aquilo…
apenas queria de volta, como amiga e como companheira.
Decidiu que ia tentar conquistá-la. E, caso não desse certo, ele poderia dizer que ainda tentara ao invés de ficar se martirizando por ser um covarde que não conseguia lidar com os próprios sentimentos.
… — chamou-a, baixinho.
— Hm?
levantou a cabeça, bem como o próprio corpo e encarou-a, enquanto se endireitava no sofá ao lado dela.
— Lembra do dia que fomos almoçar naquele restaurante que você gosta? Lembra quando eu te perguntei sobre — ele riu — ‘o pai de ’?
— Aonde você quer chegar, ?
— Quando eu te perguntei se ele tinha te amado… Você disse que ele.. eu, gostava muito de você. Bem, eu… quero me desculpar por isso. Eu não fiz você ouvir as palavras que você deveria ter ouvido no dia em que te falei isso. Eu sei que você merecia muito mais que isso e eu sinto muito por não poder ter te dado naquela época e depois, quando você teve que suportar tudo sozinha.
… do que está falando? — ela encarou, confusa por ele ter entrado naquele assunto tão repentinamente — Não precisa se desculpar por isso, já faz muito tempo. E o que eu passei não foi por culpa sua. Eu não te contei da gravidez, lembra? Eu escolhi isso, já tendo uma ideia do que eu iria enfrentar.
… eu tive culpa sim, você sabe. Tudo isso não teria acontecido se naquela noite eu… — ele respirou fundo — eu não soube lidar com meus sentimentos na época, e acho que eu nunca soube lidar direito com isso, para falar a verdade. Me desculpe por isso também.
… O que você está…
— Eu quero saber de uma coisa, . Eu preciso saber disso e preciso que seja cem por cento sincera comigo ao me responder.Só depois que eu souber disso, eu terei… eu saberei como… não — ele interrompeu a si mesmo — Apenas me diga, sim? Você pode me prometer ser sincera, independentemente do que eu vá perguntar?
pareceu um pouco receosa, mas mesmo assim assentiu com a cabeça.
respirou fundo e tomou coragem de perguntar, ainda meio tenso em ter aquela conversa.
, você… Você me amou algum dia?
prendeu a respiração por um momento.
Por que ele estava perguntando aquilo?
, isso é importante? Por que você quer saber disso? — ela tentou fugir.
— É claro que é, . Na verdade, é muito importante — ele insistiu — Eu preciso saber disso. Apenas me responda com um sim ou não. Você me amou em algum momento, quando estivemos juntos naquela noite, ou até mesmo durante outras situações em que éramos apenas amigos? Me responda, . Por favor.
sentiu os olhos começarem a arderem novamente e logo eles se encontravam marejados, mais uma vez, naquela noite.
Ela não sentia forças para falar, ou se mexer. A única coisa que conseguia fazer era encarar aqueles globos azuis brilhantes em espectativa que a encaravam.
Quando finalmente conseguiu falar algo, não passou de um sussurro baixo.
— Sim — ela disse, e se não tivesse balançado a cabeça de acordo com a resposta, poderia dizer que poderia ter imaginado tudo aquilo.
Imediadamente, ele sentiu o próprio peito se encher em um misto de alegria e esperança.
Sentiu vontade de sorrir, mas não conseguiu, devido ao nervosismo. Então, ele apenas soltou o ar que havia prendi pouco antes dela responder, sentindo-se aliviado.
Mas aquilo não era tudo, ele ainda tinha que terminar de falar o que queria. Claro que, aquela resposta apenas lhe dava mais coragem para fazer aquilo.
Respirou fundo e procurou se concentrar.
… Eu preciso te dizer algo, e eu ficaria muito, mas muito feliz se você dissesse sim. Então… Se, por acaso, ainda restar em você um pouquinho que só… Uma migalha talvez, desse sentimento que você sentiu por mim… — ele soltou o ar, novamente, porém mais nervoso. Resolveu falar de uma vez, então — , eu… quero começar de novo. Do zero. Eu quero voltar a ser seu amigo, mas eu também quero ir além disso com você. Eu preciso remover essa barreira que há entre a gente, e sinto que só quando isso acontecer, é que nós poderemos ter um pouco mais de paz um com o outro.
… — ela sussurrou, sem saber o que dizer, algumas lágrimas já escorrendo desde o momento em que respondera a tal pergunta.
Entretanto, ele não esperou ela responder. Tudo o que pôde fazer naquele momento foi simplesmente... beijá-la.


15. Redenção

empurrou quando finalmente conseguiu sair do transe em que ele a tinha colocado. Estava tão nervosa que podia sentir o coração quase saindo do peito.
, eu… — ela não sabia o que dizer e nem teve tempo para pensar, sendo interrompida por um barulho alto, seguido de um choro bastante conhecido.
Imediamente os dois puseram-se de pé e correram até o quarto do filho que até então tinha adormecido lá.
O motivo do chororô foi entendido assim que eles entraram no quarto. esfregava o pé enquanto chorava desconsoladamente, com as lágrimas jorrando rapidamente dos olhinhos pequenos, já um tanto avermelhados.
! O que houve? — quis saber a mãe, preocupada.
O menino então, entre soluços, apontou para um carrinho de brinquedo perto do armário.
— Eu c-caí…
— Oh, meu Deus, já vai passar, meu amor. Deixa mamãe ver o pé — ela pediu, afastando a mão dele, vendo que não foi nada sério — Você vai ficar bem, tá bom?
que até então só observava de lado, resolveu se manifestar.
— Ei, campeão! Você já pode parar de chorar, hein? Daqui a pouco, você não vai sentir mais nada, sabe? O menino o olhou de canto e balançou a cabeça, negando.
— Ei, vem pro papai. Vem, ? — ele pediu, abrindo os braços para o menino.
Em seguida, o menino obedeceu-lhe e saiu dos braços da mãe para ir para os braços de seu papai, coisa que surpreendeu e .
abraçou o filho e se levantou com ele nos braços , lançando um olhar cúmplice para , que sorriu. E então ele começou a brincar com o filho, jogando-o para cima e pegando-o de volta. Típica brincadeira que homens adoram fazer com crianças e que elas adoram. Não demorou muito para que estivesse sorrindo e soltando gritinhos, ainda que os olhos soltassem algumas lágrimas restantes.
Pelo menos, ele não estava mais triste. Disso, tinha certeza.
***


Luton continuava uma cidade bonita, pelo que pôde ver. Localizada ao norte de Londres, há exatamente 40 km.
Era a cidade natal de Sarah , mãe de . Segundo ele, depois que seu pai morrera, a Sra. resolvera voltar para sua cidade, um pouco mais tranquila do que a capital inglesa. Na época, tinha acabado de entrar na faculdade, foram alguns tempos difíceis, mas depois de um tempo os dois seguiram em frente e superaram o trágico acidente do Sr. Daniel.
estava no banco de trás do carro, dormindo há cerca de trinta minutos. e não conversaram muito durante o trajeto, e os dois pareciam bastante estranhos um com o outro desde a cena de dois dias atrás, em casa, quando a beijara. Ele não tentou se aproximar novamente e fingia que nada havia acontecido, como ele já esperava. E assim ficavam naquele pequeno ciclo vicioso de fingir esquecer tudo o que acontecia entre eles.
Quando na verdade, é claro, era tudo mentira. não parava de pensar no que dissera naquela noite, e se encontrava confusa e duvidosa em relação à tudo aquilo. Ela deveria dar uma chance aos dois, mesmo correndo risco de se machucar outra vez? E o pior era que, se caso isso acontecesse, ela não teria como fugir de tudo outra vez, porque agora moravam juntos e era a ligação entre eles, que sempre faria encarar , mesmo que ela não quisesse.
Ela tinha medo disso tudo e muito mais. Contudo, e se ela não arriscasse e se arrependesse? Os dois provavelmente continuariam estranhos como estavam no momento. Por outro lado, só conseguia pensar que tinha que convencer a todo custo para que ela o aceitasse como mais que um amigo. Queria construir uma família com ela, queria que ela, e ele fossem uma família de verdade.
Uma parte dele quis isso desde quando descobrira que era pai do menino. A outra parte, é claro, quis fazer se arrepender de tudo o que ela tinha feito com ele, de toda a omissão que houve entre os dois durante aqueles últimos três anos, e ele acreditava que tinha até funcionado.
Sentira muita raiva e não mediu esforços nem pensou duas vezes ao chantageá-la para que ela e fossem morar com ele em seu apartamento. Mas agora era hora da segunda parte do plano e dessa vez, ele tinha que demonstrar verdadeiramente, que tudo o que ele havia dito era real e que ele não desistiria tão fácil assim.
acordou assim que terminou de estacionar o carro na casa de Sarah, esta que já se encontrava na soleira da porta, vendo a chegada deles, sorrindo de orelha a orelha. desceu do carro e logo sua mãe foi à seu encontro, puxando-o para um abraço aconchegante.
Enquanto isso, desfazia o cinto da cadeirinha de , que ainda bocejava sonolento quando ela pegou-o nos braços. Não ficou muito tempo com ele nos braços porque logo um ansioso havia pego o menino e agora o apresentava a sua mãe.
olhou a mulher calado, com os olhinhos curiosos, enquanto escutava o pai falar.
, essa é a vovó Sarah, a mãe do papai. Diga olá para ela — pediu.
— Olá — ele disse, simplesmente. Sarah já tinha os olhos cheios de lágrimas àquela altura.
— Oi, meu amor — respondeu, docemente, com a voz emocionada — Ele é tão parecido com você, . Igualzinho a quando você era criança — completou, acariciando os cabelos castanhos do menino.
— Você quer ir para a vovó, ? — perguntou e, diferente do que ele esperava, não se escondeu ou balançou a cabeça, negando.
Pelo contrário, ele estendeu os bracinhos para a mulher sorridente de cabelos loiros à sua frente e deixou que ela o pegasse.
Pegou nos cabelos dela, admirando a cor, pensando que eram iguais o de sua tia e verbalizou isso aos mais velhos. — Sim, é da cor dos cabelos da tia , campeão — confirmou.
— Você gosta, ? — Sarah perguntou e ele assentiu com a cabeça, um pouco tímido.
tirava as bolsas de dentro do carro e logo a ajudou abrindo o porta-malas e retirando tudo o que precisavam para passar aquele fim de semana em Luton.
— Olá, Sra. disse, finalmente. Estava um pouco tímida e envergonhada, mas se sentiu mais calma quando a mulher sorriu-lhe.
— Nada de senhora, eu já lhe disse — Sarah repreendeu-a — Venha querida, , vocês devem estar enfadados de estar dentro desse carro nessa tarde quente. Espero que não se importem em saber que organizei um jantar em família para que todos conheçam o meu neto.
— Mãe! Ainda não era o momento e a senhora sabia.
— Ora, , não seja chato, por que adiar o inevitável? Não concorda, ?
Mas apenas sorriu-lhe sem graça. Claro que diante das circunstâncias, ela dava toda a razão do mundo para .
— Ainda assim, mãe. A senhora não precisava sair espalhando tudo, sendo que ainda é tão recente.
— Ora, , cale a boca e me siga. Eu pensei e resolvi que você pode dormir com no seu antigo quarto e pode ficar com o quarto de hóspedes. O que acham?
— Por mim está ótimo, Sarah — respondeu.
— Perfeito, então.
Logo depois, eles subiram para os respectivos quartos e arrumaram as coisas que trouxeram enquanto uma vovó muito animada, tentava mimar o neto, que ainda estava um pouco tímido.
***


não lembrava de ter dito alguma vez que a família da mãe dele era tão grande.
Já havia perdido a conta do tanto de gente que conhecera na última meia hora, durante aquele jantar que mais parecia uma pequena festa.
havia ficado assustado no início, mas abandonara sozinha com esse sentimento assim que se entrosou com algumas crianças, provavelmente filhos dos primos de . Agora ele brincava tranquilamente na sala de estar, enquanto tentava se lembrar o nome de todos e ao mesmo tempo procurava por , em busca de ajuda.
A família era acolhedora e amigável, entretanto, faziam muitas perguntas. achava que não podia ficar pior até a pergunta mais constrangedora da noite surgiu, vinda de um dos tios de .
— E então, para quando é o casamento?
Naquele instante, toda a barulheira se foi e o que restou foi apenas aquele silêncio constrangedor, uma vermelha de vergonha e um que não sabia muito bem o que dizer, mas que por fim, disse.
— Nós não estamos juntos — ele sorriu, sem graça, ao falar a verdade — Mas porque ela não quer — acrescentou, cutucando-a com o cotovelo, brincalhão.
riu sem graça, e quis matar naquele instante. Entretanto, tudo o pôde fazer foi beliscar a barriga dele, ainda sorrindo, quando ele a abraçou de lado na frente de todos.
— Eu vou te matar, seu idiota — ela sibilou, entredentes, só para ele escutar.
— Não vai não, você me ama — provocou e recebeu outro beliscão, que o fez trincar os dentes tentando conter uma careta de dor.
Se afastou de que, em seguida pediu licença e saiu dali.
pensou um pouco e esperou que todos se distraíssem novamente para que pudesse seguir atrás dela. Encontrou-a no quarto de hóspedes, a porta estava aberta e ele entrou, fechando-a atrás de si.
— Você é muito idiota, — ela disse, virando-se para encará-lo — Por que, diabos, você disse aquilo?
encarou-a por alguns segundos, com o rosto sério, antes de responder.
— Porque é verdade — disse, simplesmente.
o encarou séria, antes de se virar novamente de costas.
Ouviu bufar, parecendo cansado de tudo aquilo.
, precisamos conversar. Você sabe disso!
— Não, , eu não quero falar sobre isso. Eu sei que o vai sempre nos deixar ligados, mas você tem a sua vida, e eu tenho a minha. Fim.
— Não, , não é o fim e você sabe — ele retrucou, se aproximando dela — E eu não perguntei se você queria ter essa conversa, eu disse que nós precisamos tê-la.
Ela não respondeu nada e ele suspirou, realmente cansado dessa vez. Aproximou-se dela e a pegou pelo braço, virando-a para que o encarasse.
— Tudo aquilo que eu te disse é verdade — começou — Eu quis começar de novo com você desde quando eu te encontrei novamente, e ainda mais quando descobri que eu sou o pai do seu filho. Você não pode simplesmente ignorar isso, porque nunca se tratou se eu ser apenas um cara qualquer achando que você era fácil só porque você era uma mãe solteira, como você pensou no início. Nunca se tratou disso, e se você realmente me amou algum dia, , eu acho que você deveria reconsiderar o meu pedido. Eu quero que você, e eu sejamos uma família de verdade, mas isso só depende te você. Não é um pedido de casamento, não ainda. Porque eu sei que nem você, nem eu estamos prontos para isso, mas é um pedido de recomeço, como homem e como mulher e não como amigos.
tentava segurar as lágrimas que insistiam em aparecer, mas não conseguiu por muito tempo. Entretanto, enxugou-as para ela, com gentileza, antes de puxá-la para um abraço apertado.
— Diga apenas que sim, . Só sim. Eu quero muito poder te beijar, sabendo que você não vai fugir outra vez ou que iremos ficar estranhos depois que isso acontecer. E é justamente por isso que eu ainda não te beijei aqui e agora, e estou me segurando para não fazer.
Ele se afastou dela e segurou seu rosto com as duas mãos, com o rosto próximo ao dela e a boca mais ainda.
— Diga que sim e dê um fim a essa tortura que está acabando com nós dois. Só que naquele momento, não conseguia falar nada com daquele jeito, tão próximo dela. A única coisa que ela conseguia pensar era em ter aquela boca junto da sua e foi isso que ela fez quando acabou com o espaço entre eles.
Enroscou os braços no pescoço dele e o puxou pra para perto.
“Dane-se”, pensou. Ela queria aquilo e também, então ela apenas seguiu o conselho dele de acabar de vez com aquela tortura.
agora tinha uma mão apertando a cintura dela enquanto que a outra permanecia em seu rosto.
Se beijar fervorosamente, demonstrando o tanto de saudades que sentiam um do outro naquele aspecto, e pararam apenas por falta de ar. Entretanto, não se desgrudaram e o beijo foi parando em meio a outros, curtos, e sem preocupações. Quando por mim acabou, os dois sorriam um para o outro, bobos, e daquela vez não havia nenhum tipo de bebida envolvida nem apenas desejo apenas de um dos dois.
A reciprocidade era o que predominava ali e agora e os dois apenas conseguiam se sentir felizes com tudo aquilo.
acariciou os cabelos de e os colocou atrás da orelha dela, tirando-os do rosto. soltou uma risada e ele perguntou o porquê.
— Sua boca está suja de batom vermelho — ela respondeu, logo limpando toda a mancha, enquanto ele fazia o mesmo com ela.
— Mas eu tenho que dizer que é uma linda cor — eles riram e a beijou mais uma vez.
E eles teriam continuado ali se não tivessem batido na porta. Logo a cabeça de Sarah apareceu avisando que todos já estavam indo embora e queriam se despedir.
— Claro — os dois responderam ao mesmo tempo e riram juntos, um pouco envergonhados.
puxou pela mão e os dois caminharam para fora do quarto, deixando uma Sarah para trás, totalmente desconfiada.


16. Confusão

— Não! — gritou entre risos, enquanto corria pelo jardim.
— Eu vou te pegar! — gritou logo atrás dele, fazendo voz de monstro — Vem cá, seu pestinha!
Já faziam alguns minutos que os dois estavam naquela situação, brincando de pega-pega no gramado do jardim naquela manhã de domingo.
Enquanto os dois se divertiam, e Sarah riam juntas, observando-os sentadas na varanda da casa.
é tão cheio de vida! É uma alegria vê-los juntos — Sarah comentou com um sorriso — Faz tempo que não vejo tão feliz. Acho que tenho que agradecer a você por isso, .
— De modo algum, Sarah — respondeu acanhada — Você conhece nossa história e sabe o tanto que eu errei e…
— Shh! Não vamos falar disso. Mas devo confessar que no início fiquei apreensiva quando me contou, só quando eu soube de tudo é que pude entender melhor o seu lado da história. Eu não concordo com o que você fez, mas acho que o que você passou durante esse tempo deve ter servido de lição, não é mesmo? Eu sei que não é fácil criar uma criança, mesmo com um pai e uma mãe, imagine uma mãe apenas! Mas isso já passou e pelo o que eu percebi você e já se resolveram quanto a isso.
— Digamos que sim…
sofreu muito por causa do pai dele, e eu fico feliz que ele tenha descoberto logo sobre o , mesmo que tenha sido depois de três anos. Eu não sei se ele te contou sobre o pai dele… Mas quando Anthony morreu, ainda era uma criança prestes a entrar na adolescência e ele passou o resto da infância perguntando sobre o pai e porque ele tinha ido embora. Ele não entendia direito o significado ainda naquela época e quando entendeu finalmente, ele não aceitou bem.
— Mas hoje ele está bem quanto a isso, não é? — quis saber.
— Sim, mas ele teve uma adolescência conturbada. E me deu muito trabalho durante alguns anos, mas ainda assim ele era do tipo tranquilo. Quem olhava para ele naquele tempo nunca diria que hoje ele seria um jornalista de sucesso e editor-chefe de uma das maiores revistas do país. Eu me orgulho muito. Na verdade, o que quero dizer é que será um ótimo pai assim como o dele foi e que agora você não vai ter que se preocupar caso comece a perguntar sobre o pai dele, porque agora ele tem um que vai sempre estar ao lado dele. Imagine se você criasse sozinha, um dia ele iria crescer e além de perguntar pelo o pai, talvez ele se revoltasse contra você quando soubesse de tudo.
— Sim, eu sei — assentiu, sem saber muito o que dizer — Eu penso nisso desde o dia que foi embora. E confesso que sempre ficava apreensiva quando pensava em contar pra ele. Eu sempre hesitava, tanto que chegou um dia que ele mesmo descobriu.
— Com o empurrão de , é claro — Sarah riu — Mas você sabe que foi o melhor pra todos, não sabe?
— Sim, claro. está mais feliz agora também, já que ele tem um pai assim como os coleguinhas. Ele está começando a entender o significado disso e é sinceramente gratificante ver no que isso está dando certo. Eu nunca duvidei que fosse ser um ótimo pai, pelo contrário. E ele está realmente me mostrando que é um de verdade.
— Hmm, alguém está ficando um pouquinho emocionada? — Sarah brincou quando viu os olhos de brilharem.
Rapidamente a mais nova secou os olhos, com um riso envergonhado, antes que ficassem mais molhados do que já estavam.
— Impressão sua — respondeu e as duas riram. Quase no mesmo instante, dois porquinhos suados apareceram na frente delas, o maior segurando o menor como se fosse um livro debaixo do braço, ambos sorriam.
— Meu Deus, ! Vocês rolaram tanto assim na grama? — Sarah os olhou assustada, e tanto o pai quanto o filho riram, cobertos de grama da cabeça aos pés.
— Vocês precisam de um banho urgente! Vão já tomar banho os dois.
— Tá bom, mamãe — respondeu, com falsa irritação — Vamos lá, seu pestinha, vamos tomar banho.
E então colocou o menino no ar fazendo-o rir, brincando de aviãozinho até chegarem ao banheiro.

***


Quando anoiteceu, conseguiu convencer sua mãe que uma noite comer pizza no jantar não mataria ninguém.
E foi o que eles comeram por fim, longe de todas as coisas saudáveis e coloridas que a Sra. gostava.
comprou duas pizzas grandes e comeu quase uma inteira sozinho, o que fazia achar que ele tinha um buraco no lugar do estômago.
já estava todo lambuzado e como era criança, não aguentava e nem podia comer mais que uma fatia, mesmo que fosse um faminto parecido como o pai dele era.
A noite pareceu passar mais rápido do que esperava e logo ela se viu colocando o filho para dormir no quarto do pai. não demorou muito a cair no sono e logo ela voltou para a sala, para pouco tempo depois ver Sarah se despedir e dar boa noite, dizendo que pretendia dormir cedo naquele dia.
ficou meio envergonhada, entendendo o que a mulher queria fazer.
Deixar o casal ter um momento a sós, apenas os dois. Afinal, será que Sarah já sabia sobre os dois? E foi justamente isso que ela perguntou a assim que viu a mais velha sair.
— Não tenho porque esconder, ela é minha mãe e sabe que gosto de você.
— Mas você não achou que fosse um pouco cedo demais? — ele deu de ombros — Quero dizer, nós estamos apenas recomeçando, , e por enquanto não é nada sério...
— Não é sério pra você, ? — ele a interrompeu — Porque pra mim é. Mas eu não te perguntei o que você queria, certo? Mas você pode me perguntar agora.
— Eu não quero me prender agora, . Quero dizer, o problema não é você e sim o fato de que eu nunca tive um relacionamento sério depois do ensino médio e o que tivemos foi algo passageiro, ao menos naquela época. Eu não estou acostumada a ter alguém e muito menos dar satisfação a quem quer que seja. Quero que seja compreensivo comigo e que entenda que não quero entrar de cabeça em um relacionamento tão rápido assim. Como você mesmo disse, temos que recomeçar do zero.
— Sim, eu sei. Você está certa, mas ainda quero que seja minha namorada e não vou parar de importuná-la até conseguir — ele deu um passo a frente, e puxou pela cintura — E você sabe como sou insistente — completou, passando os braços ao redor dela, abraçando-a. riu baixinho.
— Sim, eu sei — respondeu, passando os braços ao redor do pescoço dele, fazendo um carinho na nuca enquanto o via sorrir junto a ela.
Sem perder tempo, se aproximou juntando seus lábios aos dela, sendo retribuído. continuou o carinho na nuca dele, e ambos sentiam uma certa nostalgia por estarem novamente assim, juntos e sendo companheiros um do outro como foram um dia, a única diferença agora é que eles tinham um filho para criar e uma relacionamento para tentar.
se arrepiou ao sentir o pequeno cafuné na nuca, coisa que ele adorava e se afastou aos poucos dela, para encará-la. Encostou sua testa na dela e a observou por alguns instantes.
— O que foi? — ela perguntou, com um sorriso, ele balançou a cabeça.
— Quer ver algum filme?
— Por mim tudo bem, mas sem cerveja dessa vez — ele riu.
— Claro, sem cerveja.
ligou a TV e procurou algo que pudessem assistir, perguntou a se ela queria algo para comer ou beber mas esta respondeu que ainda estava cheia do jantar.
Se sentaram no sofá, um ao lado do outro, entretanto com poucos minutos que o filme tinha começado, já se encontrava com a cabeça deitada no colo de enquanto ela mexia distraída em seu cabelo, quase o fazendo cochilar.
Mas em certo intervalo do filme, precisou ir ao banheiro e quando voltou trouxe dois refrigerantes para eles, que dessa vez se deitaram juntos.
— Você já decidiu o que vamos fazer no aniversário de ? É daqui a dois meses.
— Por que você quer fazer uma festa?
— Porque sim. Eu quero fazer uma pra ele, dessas bem clichês mesmo, e chamar os coleguinhas e mostrar pra todos que ele é meu filho e que eu tenho orgulho disso. Quero compensar o últimos dois anos que não estive presente também.
suspirou.
— Quem são todos exatamente, ? Você não quer que as pessoas do trabalho saibam, quer?
— E qual o problema delas saberem? Por que você se importa tanto, ? É a sua vida, e não é da conta de ninguém.
— Exatamente. É a minha vida, e eu não quero isso.
— Eles irão saber mais cedo ou mais tarde, queira você ou não — ele retrucou.
— E acharem que eu sou sua amante?
— Não importa o que eles acharem, , eles vão descobrir sobre a gente também, não podemos e nem iremos conseguir esconder tudo pra sempre. Uma hora isso vai vir à tona, sem contar que você mesma disse que já falam de você, então porque não deixarem eles saberem que eu sou o pai do seu bebê e que você está vivendo conosco de forma digna?
estava ofegante por ter falado tão rápido, mas ao menos ele disse o que queria.
— Tudo bem, . Mas eu não quero misturar o que temos com o trabalho e, por isso, quero que continuemos lá do mesmo jeito de sempre: Você, o chefe e eu, a estagiária. E por favor, não me chame na sua sala novamente a menos que seja realmente importante. Você entende o meu ponto, não é? Se quer agir do seu jeito, também vai ter que agir do meu.
— Certo, então. Acordo fechado? — ele estendeu a mão.
Ela respirou fundo, ainda nervosa, mas mesmo assim contendo um sorriso por saber que conseguiram resolver aquele assunto de forma civilizada. Contudo, não deixou que ela chegasse a apertar sua mão e puxou-a para si, fechando aquele acordo com nada mais, nada menos que um beijo.
Não prestaram mais atenção no filme desde então, ficaram conversando entre um beijo e outro até o filme acabar.
E quando acabou, cada um seguiu para seu respectivo quarto.

***


A viajem de volta foi tranquila e mais uma vez, dormiu a maior parte do tempo.
E por incrível que pareça, achou até que o tempo passou mais rápido que durante a ida. Logo chegaram em casa.
— Mamãe, água — pediu, assim que eles estraram no apartamento.
Quando a noite caiu, resolveu levar e a um shopping para jantar. Entretanto, não estava tão calmo como eles esperavam, de modo que acabou sendo deixada pelo trombadinha pai e o trombadinha filho em uma fila do McDonalds enquanto os dois iam para a área de jogos e brinquedos para brincarem de alguma coisa juntos.
— Vocês vão me deixar aqui sozinha nessa fila? — ela dramatizou.
— Nós voltamos logo, . Vou mostrar ao o parquinho e o salão de jogos. Você tá lembrada do pedido, certo? Não vai esquecer nada! — ele lembrou
— Certo, ! Já entendi. Se vocês demorarem muito, eu te ligo e você vai vir ficar no meu lugar! Olha o tamanho dessa fila — apontou para as vinte e sete pessoas recém contadas em sua frente.
— Não está tão grande assim — ele retrucou.
— Nem vem! Eu ainda vou ter que enfrentar outra fila dessa pra esperar os pedidos. Você tá tirando uma com a minha cara, né? — ela perguntou, irritada e o viu prender o riso.
— Porque você fica fofa irritada, você sabe.
— Eu vou mostrar o fofo com a minha mão na sua cara se você não voltar logo.
— Uh, a gatinha quer mostrar as garras. Aqui não, amor. Deixa pra mais tarde — ele provocou, e ela mesma não aguentou e riu pelo o que ele tinha dito, dando-lhe um tapa no ombro, logo em seguida.
— Eu não acredito que você disse isso!
— Pois eu disse! — confirmou.
que apenas encarava a discussão dos dois, começou a puxar a camisa do pai, tentando apressá-lo.
Por que ele não vinha logo e deixava de discutir com sua mãe? Eles não iam brincar mais? E por que a mamãe bateu nele? O menino os observava sem entender nada, mas ficou definitivamente mais tranquilo quando viu os dois sorrirem um para o outro e logo percebeu que era tudo brincadeira do papai com a mamãe. Puxou a camisa do pai mais uma vez e dessa vez ele olhou.
— O que foi, ? — perguntou — ‘Tá com fome?
— Brincar — ele disse, batendo o pé no chão.
— Brincar? Sim, nós já vamos. Dê tchau para a mamãe e até logo. Até logo, mamãe! — os dois acenaram e se viraram, saindo dali.
caminhou segurando pela mão, acompanhando calmamente os passinhos curtos do menino. Os dois usavam bonés semelhantes naquela noite, que tinha comprado alguns dias atrás e apenas podia pensar enquanto os observava, que um era a miniatura do outro. era uma cópia de e não tinha quase nada seu em si.
Não que ela achasse ruim, era um homem muito bonito e atraente, ela admitia. Nada mais justo que um filho dele nascer com toda aquela beleza também. riu sozinha por um momento, enfim dando-se conta dos pensamentos que estava tendo sem ao menos perceber.
Quando os dois desapareceram, ela virou novamente para frente e suspirou, lembrando-se da espera entediante que tinha ali.
A fila parecia não andar, e já estava perdendo a paciência com aquilo. e tinham saído havia quase quarenta minutos e ela já estava prestes a sacar o celular do bolso para ligar para o mais velho e trocar de lugar com ele. Ela tinha certeza que era melhor esperar brincar em algum brinquedo no parquinho do que ficar enfrentando aquela segunda fila de gente para poder pegar os lanches.
“Sim, realmente voltam logo, com certeza” , pensou ironicamente, lembrando-se do que havia dito antes de sumir.
Tinha começado a digitar o número quando sentiu alguém esbarrar nela quase a fazendo derrubar o celular.
— Oh, me desculpe! — ela ouviu a voz dizer e a achou familiar.
E realmente era. levantou a cabeça e mal pôde acreditar no que viu. Imediatamente abriu um sorriso ao perceber que ele também a tinha reconhecido e os dois não hesitaram em se abraçar antes mesmo de falarem alguma coisa.


17. Ameaça

? — ele perguntou — Por onde você andou, garota?
Thomas Rockins, vinte e três anos, antigo capitão do time de basquete no colegial e provavelmente tinha jogado na faculdade também. Alto, loiro e tinha olhos verdes e um sorriso de matar. Ele era o velho e melhor amigo de infância de , além de ter sido seu primeiro e único namorado. E há cinco anos eles não se viam.
— Tom! Oh, meu Deus! Eu não acredito! — exclamou, eufórica — O que está fazendo aqui em Londres?
— Eu terminei a faculdade e me mudei para cá recentemente após conseguir um emprego aqui. Você sabe como são as coisas, você deve estar terminando a faculdade agora, certo? Ou já terminou?
— Terminando ainda, falta o trabalho final — ela fez uma careta.
— Mas como está sua vida? Eu soube que você não fala mais com seus pais, minha mãe comentou há alguns anos quando perguntei de você e se iria passar o natal com seus pais. Eu quis te ver, mas aparentemente vocês já tinham cortado contato. Não sei o porque, mas você talvez deva ter seus motivos.
Sim, ela os tinha.
“Até demais, para ser verdade”, ela quis dizer.
Tom a conhecia bem e sabia até onde perguntar ou não.
Sabia o seu limite e o dela e tinha sido exatamente por isso que eles tinham tido um ótimo relacionamento juntos tanto como amigos, como também namorados.
— Olá. se virou e viu os encarando, segurando , que naquela hora estava um tanto suado, pela mão.
disse, um pouco assustada por não ter percebido eles se aproximarem.
— Olá — Tom cumprimentou, amigavelmente, antes de lançar um olhar interrogativo para .
— Oh, claro. Tom, este é o e , este é o Tom.
— Thomas Rockins — Tom estendeu a mão.
a apertou e quase podia ver faíscas saindo dos olhos dele.
— E este é disse, em seguida pegando-o nos braços — Ele é meu filho. dá oi pro tio Thomas.
— Oi — o menino disse quase automaticamente.
— Wow, não sabia que estava casada, — Tom falou, surpreso.
— E não estou — ela riu — É uma longa história.
— Vamos ter que marcar um dia então para colocar o papo em dia. Afinal, foram cinco anos — ele riu — E você, é muito lindo, sabia? — completou, bagunçando os cabelos de que já estava sem boné.
— Espero que não esteja muito ocupado — ela brincou.
— Você sabe que eu sempre arrumo um tempo pra você — Tom respondeu, de modo galante, fazendo rir.
Ele continuava o mesmo, pelo o que ela podia ver.
Sem contar que não havia mudado quase nada, fisicamente falando.
Ela não esperava encontrá-lo novamente e tinha sido uma verdadeira surpresa. Tanto que mal percebeu a fila andar e sua vez chegar.
Quando chegaram em casa, tratou de colocar para dormir enquanto que havia ido tomar banho.
Quando o filho finalmente dormiu — ele estava um pouco eufórico ainda —, fez o mesmo que e foi para a cozinha procurar algo para beber, encontrando-o lá sentado na bancada balançando as pernas como um menino, com um copo de suco do lado.
bocejou quando abriu a geladeira, se sentindo um pouco cansada daquele dia.
— Com sono? — perguntou, como quem não quer nada.
— Um pouco. Foi um dia meio cansativo — ela respondeu, pegando um copo de suco também, aproximando-se dele logo em seguida, ficando em pé ao seu lado.
— Hmm — pegou o copo de suco e terminou de tomar.
— E você? Muito cansado? Você dirigiu por um bom tempo hoje e também não é a pessoa mais calma do mundo, como você sabe.
Ele riu baixo.
— Puxou ao pai — ela continuou, com um sorriso.
não disse nada e apenas segurou em uma das mãos dela, entrelaçando-a com a dele.
Suspirou.
— Algum problema? Você ‘tá quieto.
— Sim e não. Talvez — respondeu, sem humor.
— O que foi, ? Aconteceu algo? Foi alguma coisa com o trabalho?
— Não, não foi — ele respirou fundo — Quem era aquele cara, ? De verdade. Eu não quero parecer ciumento nem possessivo com relação a você, mas eu estou no escuro. E você pareceu bastante animada quando o viu, e você nunca me falou desse tal de Thomas.
— Você diz que não quer parecer ciumento, mas já está, .
— Ele te convidou para sair na minha frente. Como você espera que eu esteja quando você mesma disse que ainda era solteira quando ele perguntou.
— Porque eu sou mesmo solteira, por isso ele me chamou pra sair. Mas vou responder à sua pergunta primeiro. Thomas é um antigo amigo de infância, nós crescemos juntos no mesmo bairro, meus pais eram amigos dos dele, e provavelmente ainda são. Ele era meu melhor amigo. Isso é suficiente para você e sua curiosidade?
— Ele pareceu bem mais que um amigo quando foi embora.
Ahsley suspirou, começando a se irritar.
— Eu não devia te dar satisfações, sabia?
— E por que não? Eu sou seu namorado.
— Não, você não é. O que temos não é algo sério e você sabe. E acima de tudo, você sabe que odeio quando pegam no meu pé. Eu passei anos da minha vida sem dar satisfações a ninguém e não é de uma hora pra outra que eu vou dar só porque estamos nesse...rolo ou seja lá o que for.
— Como você ousa falar tão desdenhosamente? Quer dizer que só sou eu que me importo com o que temos? Você já está começando a mudar de ideia, ? O que, porra, aquele cara te disse para você estar assim porque até ontem a gente tinha feito um acordo que íamos deixar as coisas aconteceram como elas tem que ser, que íamos deixar todos saberem do nosso filho e mesmo não sendo da conta de ninguém, do nosso relacionamento.
— Tom não me disse nada, . E você, mais do que ninguém, deveria saber que não sou uma pessoa facilmente influenciável.
— Você está quase desistindo, — ele riu, sem humor — Eu ‘tô vendo isso nos seus olhos. Mas que porra! — gritou, com raiva.
— Não levante o tom, . Assim você pode acordar , e se você fizer, eu juro por Deus, que você vai passar a noite toda tentando colocá-lo para dormir novamente.
— Você disse que ainda me amava, não foi? — ela o encarou, em silêncio — Me responde, . Você não vai mudar de ideia agora que nós acabamos de recomeçar, vai?
continuou encarando-o em silêncio enquanto ele procurava na expressão dela algum tipo de resposta, mesmo sendo em vão, já que ela permanecia impassível.
— Eu… — ela começou, logo calando-se novamente.
, por favor, não desista da gente — ele pediu, baixinho.
pediu mesmo sabendo que era o tipo de coisa que iria contra os princípios de alguém orgulhoso como ele.
Mas uma parte dele sabia que valia a pena tentar convencer aquela mulher de que eles eram melhores juntos do que separados e que, assim como o tal amigo de infância dela, eles dois também tinham uma história juntos e, acima de tudo, um laço que os ligaria para sempre.
Se sentiu inseguro naquele momento, com todo aquele silêncio e hesitação da parte dela e, sinceramente, ele não sabia o que fazer.
, me responde.
, eu… só quero que não se meta nas minhas amizades, tudo bem? — ela falou, de repente.

— Eu estou indo dormir. Amanhã nós temos que ir trabalhar e eu prometi à ajudá-la com alguns preparativos do casamento, mesmo sabendo que ela poderia tranquilamente se virar sozinha, já que é acostumada a esse tipo de coisa. De qualquer forma, boa noite.
E deixou-o sozinho, mais uma vez, naquela cozinha.
***


“Você sabe que eu sempre arrumo um tempo pra você” imitou o Thomas havia dito ao se despedir de — Mas que porra! E ela ainda diz que meu ciúmes é sem razão. Você precisava ver ela retrucando, ! Parece que tudo o que eu disse para ela foi por água abaixo. Mas que porra! Eu tô fervendo de raiva, porque eu sei que tô certo e ela ainda me deixa naquela merda de cozinha, sozinho!
— Poxa, cara. Sinceramente, eu nem sei o que te dizer, eu acho que a deve estar confusa. E você disse que ela estava normal antes de encontrar com esse cara, então…
— ‘Tá vendo? Nem você que é você, , sabe o que dizer. Imagina como eu tô.
— Que barulheira é essa na minha casa, ? Não dá pra ser menos escandaloso? — apareceu na porta, segurando alguns pacotes de compras — Do que estão falando?
— responderam juntos.
foi até a cozinha e colocou os pacotes em cima da mesa, antes de voltar.
— Certo, agora podem me contar. O que houve?
— Um cara… Amigo da reapareceu do nada.
— Que tipo de amigo?
— Um tal de um amigo de infância dela — respondeu, ainda contrariado.
— Amigo de…Oh! — ela deu um grito de surpresa — Vocês, por acaso, estão falando de Thomas Rockins?
— Sim, esse mesmo — respondeu — Mas… você conhece ele?
— Sim! Quero dizer, não. Não pessoalmente, mas já me falou dele várias vezes.
— Já? — perguntou, surpreso — E quem é esse cara?
— Ora, ele é um amigo de infância dela e eles cresceram juntos. E foi o primeiro e único namorado dela, é claro — ela completou, um pouco animada.
— Ele é o quê? — os dois perguntaram juntos, surpresos.
— Eu sabia que aquele cara era mais do que um amigo — apontou — Eu te disse, ! Eu te disse!
— Espera, o que houve? — perguntou.
— Esse cara, Thomas, brotou do nada e esbarrou com no shopping ontem à noite — explicou, contando toda a história, logo em seguida.
— Eu acho que a ‘tá confusa — ela disse, por fim, tal como dissera.
— É? Pois eu também estou confuso. Ela saiu e me deixou no escuro, e eu até pedi pra ela não desistir! Vocês sabem que eu não nunca fui de ficar correndo atrás de ninguém, e eu só faço isso porque…
— Porque você a ama — completou.
— E porque eu quero que ela, e eu sejamos uma família, como provavelmente estaríamos sendo se ela tivesse me contado bem antes.
— Você não era apaixonado por ela naquela época, — rebateu .
— Mas eu gostava muito dela, isso era suficiente.
— Não para ela!
— Mas já era um começo. Uma hora ou outra eu ia descobrir que o que eu sentia por ela não era só atração. Mas olha, eu tô muito, mas muito frustrado com tudo isso. , por favor, conversa com a e tenta descobri o que está passando na cabeça dela, pelo amor de Deus — ele praticamente implorou — Ela vai sair com aquele cara e o pior é que eu não vou ter nem como impedir porque ela não é nem minha namorada — acrescentou, jogando-se no sofá do escritório de .
— Tudo bem — disse, depois de um tempo — Você sabe que eu torço por vocês, . Vou falar com ela hoje à noite e aí tento descobrir alguma coisa. Mas digo de agora que não é uma pessoa facilmente influenciável e que provavelmente isso é só insegurança sua porque ela ficou confusa e não te respondeu na hora. Acho realmente difícil que ela desista de vocês, ainda mais porque ela também sente algo por você e como você mesmo disse, ela falou que ainda te amava. Isso já vale alguns pontos pra você contra o Rockins, seja lá ele quem for e o que esteja fazendo.
— Obrigado, — ele saltou do sofá e a apertou entre seus braços.
— ‘Tá, já pode me soltar. Outra coisa que você deve ter em mente é que talvez esse Rockins nem esteja interessado nela como você pensa que ele está.
— Quê? — perguntou, indignado — Ele deu em cima dela na minha frente. Qual é, eu sou homem, eu sei dizer quando um cara quer algo ou não.
— Mas não esquece que eles são amigos de anos e pelo o que ela me falou, o Rockins embora fosse amado pelos pais dela como um genro perfeito, ele tinha uma máscara por trás daqueles olhinhos verdes. O anjo era meio capeta, — ela riu, lembrando de como o havia descrito — E eu acho que foi era isso que a gostava nele. Mas olha pelo lado bom, você também é um que sabe direitinho como infernizar a vida de alguém, não é mesmo? — brincou.
— Ei!
— Leve isso como um elogio, por favor — ela acrescentou. , que apenas assistia a conversa deles, começou a rir da cara que o amigo fez quando sua noiva o “elogiou”.
— Certo, então. Se vocês acabaram, já podem me deixar trabalhar. Até logo e de nada — falou por fim, voltando a atenção para os papeis que estavam à sua frente na mesa.
***


estava esparramada na cama de esperando-a sair do banho para que pudesse finalmente conversar com ela.
Alguns minutos depois, a amiga apareceu já vestida com uma roupa de dormir. — Ah! — se jogou na cama também — Estou pronta. Sobre o que você queria falar?
— Sobre o , ele foi lá em casa hoje e fez a fofoca toda sobre a última conversa de vocês. Você sabe como ele e o são duas velhas fofoqueiras, eu escutei porque cheguei no meio e ele acabou me pedindo pra conversar com você.
Ela suspirou.
— ‘Tá. O que quer saber?
— Você ficou confusa em relação ao e a relação de vocês depois que o Tom reapareceu?
— Um pouco.
— Por quê?
— Porque me fez pensar em como vai ser se, por acaso, der tudo errado. O Tom não pareceu ter mudado nada desde a última vez que o vi, e nem pareceu muito surpreso quando viu , eu… sei lá…
— Você ainda pensa nele como mais que um amigo?
— Eu sinceramente não sei, . Eu estou com o , e ainda não é nada sério. Estamos recomeçando do zero novamente, mas ao mesmo tempo eu fico pensando que pode dar errado e o Tom aparecer assim, de repente, me fez relembrar em como nós dois éramos juntos, ele com todo aquele jeito brincalhão dele, enquanto que na frente dos nossos pais agia como um príncipe — ela riu — Ele não me fez sofrer e você sabe como ele foi importante na minha vida.
— Mas o também é, certo? Você disse que ainda o ama.
— E amo, mas eu ainda estou insegura quanto a nós dois. Mas também não é como se eu fosse me apaixonar novamente pelo Tom. Eu só o vi uma única vez e sem contar que ele deve ter uma vida totalmente diferente da minha, sem tantas responsabilidades. E provavelmente tem uma namorada também.
disse que ele pareceu bastante interessado quando te reencontrou.
— Mesmo assim. Eu não estou dizendo que vou desistir da minha relação com o agora que recomeçamos, mas eu também não garanto que o que temos ira durar, mesmo que eu continue o amando caso acabe. Eu não iria ficar com alguém que fosse me fazer sofrer, mesmo que seja inconscientemente. Ninguém quer isso na vida, muito menos eu. tem se mostrado um ótimo pai pro , e tem sido maravilhoso comigo, embora tenha todo esses ciúmes de mim e é isso. O que for, será — finalizou, desviando os olhos da amiga para encarar o teto.
apenas assentiu calada e fez o mesmo que .
E as duas ficaram, por longos minutos em silêncio, apenas encarando o teto.


18. Retorno

levantou-se da cama, e foi fazer o café da manhã. Enquanto esperava o café ficar pronto, tratou de preparar alguns sanduíches para e . Ela não gostava de comer de manhã cedo, então apenas preparou um suco e tomou.
Quando terminava de tomar o último gole, sentiu dois braços ao seu redor, abraçando-a.
deu um beijo em seu pescoço e ela imediatamente pensou que já havia passado o relatório da última conversa que as duas tiveram para ele.
— Bom dia — ele murmurou, ainda abraçado à ela.
— Bom dia — ela respondeu, com um sorriso, colocando as mãos por cima das dele.
— Você vai na faculdade hoje?
— Sim, preciso resolver umas coisas. Vou chegar um pouco tarde no trabalho.
— Tudo bem, eu peço pro chefe segurar sua barra — ele sorriu.
— Tem certeza? Ele é meio durão. Não gosta de atrasos.
— Deixa comigo.
sorriu e o beijou carinhosamente. a abraçou pela cintura e colou o corpo dela ao seu.
desceu os beijos pelo seu pescoço e a colou em cima da bancada da cozinha, ficando entre suas pernas.
Levou sua mão à coxa desnuda dela, devido ao pequeno short que usava para dormir e apertou ali, enquanto sentia a mesma percorrer as unhas de leve pelo seu pescoço, mais uma vez fazendo o carinho que ele tanto gostava.
Continuaram com as carícias por mais um tempo, antes de se separarem quando ouviram um barulho vindo do quarto de . Instantes depois, o garotinho aparecia na cozinha segurando um lençol com uma mão e coçando os olhos com a outra.
— Acordou, meu amor? — Perguntou .
apenas resmungou e assentiu com a cabeça, ainda um pouco sonolento.

Algumas horas depois, todos estavam em seus devidos lugares. na escolinha, trabalhando e resolvendo suas coisas na universidade.
Ela andava pesquisando há alguns meses sobre o assunto que queria escrever e se tratava de mulheres que sofreram estupro e se escondem da sociedade, ou que superaram e tentam viver ou já vivem uma nova vida.
sabia que era um assunto muito complicado de se escrever, mas gostaria daquilo e, se possível, conversar com uma quantidade de mulheres que aceitassem uma entrevista, nem que fosse anônimas. De qualquer forma, ela também achava muito delicado colocar o nomes delas no trabalho, mesmo que algumas aceitassem.
Geralmente, as que estavam superando o acontecido.

No dia seguinte, convocou , e o próprio para a prova de roupas de seu casamento.
As duplas se dividiram e foram cada uma para o devido local onde experimentariam os trajes.
havia decidido finalmente pela cor creme para as damas de honra e estava mais do que contente por não usar nenhum vestido amarelo ou rosa, como era de costume entre os casamentos.
— Acho que está bom em você — comentou, analisando cuidadosamente o vestido que ela mesma tinha desenhado para e as outras damas de honra, que se tratavam de mais duas amigas dela da faculdade, Tyna e Karol. E pelo que percebeu ao conversar com elas duas, também concordavam quanto ao seu gosto sobre cores de vestidos de damas de honra.
Algumas quadras dali, e tentavam dar um nós decente naquelas gravatas borboleta.
— Sério, cara — comentou — Por que ela não escolheu a gravata normal que a gente costuma usar, a gente quase nunca usa essa merda.
— Me pergunto o mesmo, e todas as vezes que precisei era a que me ajudava a dar o nó.
— Mas é bom a gente aprender, porque ela não poder te ajudar com isso aí no dia do seu casamento e eu só acho que a não tem muita habilidade com isso também não. Bem que essas poderiam ser aquelas de elástico, que nem as de criança. Você já perguntou aquela mulher que nos atendeu se ela não tem daquelas?
— Infelizmente não. Acredite, cara, eu fui o primeiro a pensar nisso. Não sei porque a insiste nisso. Mas olha pelo lado bom, a gravata não é rosa.
— Mas é quase isso — disse , observando a gravata creme que ele ainda tenta amarrar.
— Cara, isso não é rosa — retrucou — Precisaria de pelo menos um tom de vermelho para isso ser rosa.
o encarou assustado.
— Desde quando você sabe esse tipo de diferença?
— É o mínimo que você aprende quando sua namorada é formada em moda.
— Isso é muito estranho.
— Acredite, é até interessante quando você descobre que não exite só as sete cores do arco-íris — disse , quando por algum milagre conseguiu amarrar a gravata — Consegui! Olha isso! Chupa essa, dude! — falou eufórico, apontando para o nó (não tão bem) feito na gravata.

***


Algumas horas depois, os dois se encontravam em um bar de uma boate, bebendo juntos. havia ligado para minutos antes e o mesmo avisara onde estavam.
Ela e , pelo que entendeu estavam na casa de cuidando de e fazendo uma noite de garotas junto com Tyna e Karol.
— E aí, ? Como você e a estão?
— Aparentemente bem, eu acho. Parece que a conversa que teve com ela surtiu efeito. Ela tá agindo mais normal comigo, sei lá.
— Normal como? Uma namorada?
— Basicamente. Quando esse cara apareceu, esse Thomas, ela ficou um pouco distante. e acho que confusa, como você e disseram.
— Pensa pelo lado dela, cara, se fosse com você e ex-namorada que você amou reaparecesse na sua vida, você não ia ficar mexido?
— Eu não sei. Acho que ia depender muito de como eu e a estaríamos, mas eu nunca amei nenhuma outra mulher como eu amo ela.
— Wow! Espera aí, já está de declarando em público? Se controla um pouco, cara. eu não gosto de quando você fica todo meloso.
— Falou o cara que disse que está doido para ver a vestida de noiva.
— Ei, não tente virar o jogo! Você sabe que é bem diferente o meu caso do seu. Eu e estamos juntos há cinco anos, diferente de você e .
— Por culpa dela, é claro. Eu sempre demonstrei interesse.
— Nisso você tem razão. Mas não tinha como vocês se prenderem por muito tempo, se a não tivesse engravidado. Você ia ter o seu trabalho e ela a faculdade dela. Você acha que se ela não estivesse grávida, ela iria largar tudo aqui para ir morar com você e tentar uma outra faculdade pelos Estados Unidos?
— Não — admitiu — Ela não quis nem fazer isso quando estava grávida, quanto mais sem estar. Preferiu não contar que eu seria pai de um filho dela e passar por dificuldades do que viver comigo. Eu ainda tenho raiva por isso, sabe, cara?
— Eu também teria se fosse você.
— No fim, eu acho que sempre fui apaixonado pela . Eu poderia fazer qualquer coisa para vê-la feliz. Mas eu não posso suportar a ideia de perdê-la, ainda mais para aquele cara, o Thomas. Espero que ele suma como fez antes.

***


Entretanto, mal sabia que, enquanto ele queria que Thomas apenas sumisse da vida de , mais ele aparecia.
conversava com as meninas após dormir, quando seu celular tocou.
— Alô?
— Ei , é o Tom.
— Tom! Oi! — ela respondeu alegre — Como você está?
— Bem, eu te liguei para saber se você não quer jantar comigo amanhã à noite, talvez? Eu gostaria de conversar com você.
— Claro, por mim está ótimo — ela respondeu, lembrando só depois que não iria gostar nada de saber daquilo.
— Quem era? — perguntou, assim que ela desligou o celular.
— Tom me convidou para jantar — disse com um sorriso e fez uma careta, em seguida, quando falou que não queria estar por perto quando descobrisse.
— Mas qual o problema? Ele ainda podem ser amigos, certo? — Tyna comentou.
— O não pode te privar de ter amigos. Mesmo nessa situação, quando o amigo da vez é um namorado seu, mas eu concordo na parte de que ele é meio que uma ameaça, mesmo você e estando ligados por um laço inseparável.
— Eu amo o . Eu passei anos amando-o, desde quando ele partiu. Mas ele é como um furacão e Tom é apenas calmo e relaxante, me sinto confortável com ele, tanto como me sinto com . Mas não estou em dúvida, se é o que pensam. é meu namorado e por mais estranho que ainda soe falar isso em voz alta, eu não sou capaz de traí-lo, até porque eu não iria gostar que ele fizesse o mesmo comigo.
— Você está certa, comentou — Mas o Thomas não sabe que você é comprometida e eu acho bom deixar isso claro para ele amanhã.
— Sim, . Você tem razão — ela concordou.

Quando chegou em casa, estava sentada no sofá vendo TV. Ele caminhou até ela e se jogou no sofá, afrouxando a gravata e deitando-se no colo dela.
riu, enquanto ele permaneceu de olhos fechados, apenas procurando sua mão para colocá-la em seu cabelo, querendo carinho.
começou a mexer nos cabelos castanhos dele, em silêncio, até lembrar do motivo pelo qual ainda estava acordada, esperando-o.
… Eu preciso de contar algo. Mas espero que não fique bravo.
— Hm… O quê? — ele resmungou, sonolento com o carinho.
respirou fundo e soltou de uma vez.
— Thomas me ligou e me convidou para jantar amanhã. E eu aceitei.
— É o quê?! — ele se levantou num pulo, pegando-a de surpresa.
O sono de tinha passado mais do que rapidamente quando ouvira aquela notícia.
— Foi o que você ouviu, . Só porque estou com você, não significa que não posso sair com um amigo.
— Amigo? — ele riu, sem humor — , a última coisa que aquele cara quer é ser seu amigo! — ele praticamente gritou.
— Não grite! está dormindo. E eu vou sair sim, e ninguém vai me impedir. Eu vou falar para Thomas que estou com você, portanto pare com esse ataque de ciúmes sem sentido.
— Você sabe que não é sem sentido. Você teve com aquele cara, tudo o que eu queria de dar e ainda quero. Ele foi o único relacionamento estável que você teve, sem que você precisasse ser presa a ele, como nós somos.
— É assim que você nos vê? Então, você está comigo só por causa de ?
— Você sabe que não é assim. O que eu quero dizer é que você esteve com ele por espontânea vontade e liberdade, sem que nada te impedisse, enquanto que eu praticamente te obriguei a vir morar comigo — ele disse, abaixando a cabeça.
— Acredite, , você pode até estar certo quando diz que praticamente me obrigou a vir morar com você, mas eu não estou com você por , pelo laço que ele nos liga. Se eu aceitei ser sua namorada, é porque eu realmente gosto de você e eu quis ficar contigo.
não sabia o que dizer depois daquilo.
Então tudo o que fez foi o que ele sempre fazia nessas circunstâncias. Caminhou até ela e beijou-a, reivindicando-a para si.

O caminho até o quarto foi curto, e embora estivessem um tanto apressados para chegar lá, tomaram cuidado para não fazerem barulho e acordar o .
Benjamin empurrou para a cama e pairou sobre ela, beijando seu pescoço, fazendo-a ofegar.
Seus corpos pareciam ter uma saudade imensa um do outro e isso se concretizou pela rapidez com que se desfizeram das roupas. , diferente da outra vez, não se importou com seu corpo, fazia com que sua insegurança fosse embora pelo jeito que a olhava.
Os olhos dele pareciam mais azuis que nunca naquele momento.
… —ele sussurrou no ouvido dela, fazendo-a soltar um gemido baixo quando mordeu o lóbulo de sua orelha.

— Eu não posso aguentar mais — ele disse — Você tem certeza?
Claro que ele tinha que perguntar, e se ela se arrependesse daquilo? Tudo o que ele menos queria era uma discussão pela manhã.
Mas então ela respondeu, e regojizou-se de alívio.
— Sim, acabe logo com isso, — ela pediu.
se afundou em naquele momento e os dois gemeram juntos quando seus corpos se conectaram, formando um só.
agarrava os lençois com força, sendo tomada aos poucos por aquela sensação que só sentira com ele; fora o único homem com qual dormira e sentira-se atraída o suficiente para tentar aquilo mais uma vez.
E tal como na primeira vez deles, ele foi gentil, porém firme e não poupou esforços para agradá-la naquele momento. Apertou uma coxa dela e elevou sua perna para sua cintura, à procura de um melhor acesso. , entendendo o recado, enrolou-se contra ele e deixou que ele se aprofundasse mais dentro de si.
A sensação entre os dois parecia crescer cada vez mais, e a qualquer momento os dois explodiriam juntos.
Uma camada de suor preenchia seus corpos, entretanto o calor era agradável. Ele não estavam pensando em nada naquele momento além de matar a saudade que sentiam com seus corpos.
E quando finalmente explodiram, tudo parecia certo.
Era como se uma peça de um quebra-cabeça tivesse se encaixado novamente e eles estivessem, mais uma vez, onde deveriam estar.
Juntos.


19. Exemplo

suspirou mais uma vez.
Tentava se concentrar para continuar a escrever seu TCC, mas tudo parecia distraí-la.
Depois de quase duas horas parada em frente ao computador, apenas cinco páginas haviam saído e ela ficava cada vez mais ansiosa. Por sorte, não faltava muito para acabar, ela só precisava encontrar alguns relatos que pudesse encaixar no seu tema.
Por um momento, ela tentou refletir sobre porque escolhera aquele tema tão complicado.
Abuso sexual não era algo especialmente comum em temas de TCC, por isso ela resolvera tentar algo diferente, e talvez fazer algo com o qual pudesse ajudar as mulheres que passaram por coisas como aquela. Talvez, ela gostaria de transformar seu trabalho em um livro que pudesse mostrar às mulheres vítimas que poderia sim haver uma nova saída, uma nova vida em meio a todos os acontecimentos trágicos ocasionados.
Nunca foi segredo que grande parte das mulheres que sofriam com isso nunca realmente superaram, outras nem sequer tentaram, mas ainda existe aquela outra grande parte constituída das mulheres que resolvem ter uma nova vida e deixar para trás aqueles acontecimentos, apesar do fato de serem lembradas ou de elas próprias não conseguirem esquecer aquilo.
, no lugar delas, achava que seria algo impossível de esquecer, mas não de deixar para trás. E era exatamente algo sobre o qual ela queria escrever, propor, ou o que quer que fosse. Ela queria mostrar de alguma forma que era possível continuar viver e não apenas sobrevivendo.
Depois de algum tempo tentando escrever, ela acabou desistindo e foi quando lembrou de Aria. Derick apresentara elas uma à outra pois as duas eram do mesmo ramo. E embora fosse um pouco mais nova, Aria já era um senior em relação a , contudo ela não exercia a profissão por algum motivo.
gostaria de perguntar, mas tinha medo de soar metida pois devia ser algo muito pessoal e ela não queria passar esse tipo de impressão para ela. Talvez algum dia pudessem ser amigas, já que tinham algo em comum, o trabalho.
E foi com esse pensamento em mente que resolveu ligar para Aria e marcar um encontro. A garota atendeu no segundo toque e rapidamente expôs o que queria, recebendo logo uma resposta positiva, em seguida. Felizmente, Aria era uma pessoa simpática e isso ajudava muito. Talvez pudesse pegar algumas dicas com ela que ajudassem no seu trabalho.
havia saído há algumas horas com para passearem e provavelmente ejá deviam estar voltando. resolveu ligar para e avisar que ia sair, para caso os dois chegassem em casa e não a encontrassem.
— Alô? — atendeu finalmente depois do telefone tocar cerca de cinco vezes.
— Até que enfim você atendeu. Eu liguei para avisar que estou saindo para encontrar com Aria, aquela amiga do Derick, lembra?
— Sim. Você vai demorar? Pensei que talvez pudéssemos jantar fora.
— Por que não pede algo em casa? Eu pedi ajuda a ela com meu TCC e eu não sei que horas eu volto.
— Por que você não me pede ajuda também?
— Porque você é homem e eu preciso da opinião de uma mulher.
— Está bem, está bem. Mas só porque eu sou homem, não significa que eu tenha uma opinião diferente de você, você sabe que os babacas que você cita no seu trabalho não são nem homens de verdade. Porque se fossem, não fariam esse tipo de coisa.
— Claro que não. Você está coberto de razão, mais ainda sim. Estou desligando, até mais tarde.
— Tchau.

***


— Olá, faz um tempo que não nos vemos — Aria comentou, depois que as duas se cumprimentaram com um abraço.
— Sim, faz. Você estava ocupada? Porque se estiver, podemos deixar para outro dia.
— Não se preocupe, hoje estou livre. Eu iria sair com meu namorado, Ethan, mas ele acabou tendo que resolver algumas coisas do trabalho dele.
— Entendo. Ás vezes, também precisa fazer esse tipo de coisa, mas não acontece muito. Geralmente, no horário do trabalho mesmo e eu não sei se você sabe, mas ele também é meu chefe, ainda que os outros funcionários, com exceção de uma colega minha, não saibam do nosso relacionamento.
— Então, vocês realmente se resolveram? Derick comentou comigo que é muito ciumento e estava inclusive com ciúmes dele quando te chamou para sair.
— Sim, ele é. É meio chato, às vezes, principalmente pelo fato de nós termos um filho e morarmos juntos, e nessa época nós não estávamos em um relacionamento firme ainda. Então, eu não devia satisfações para ele, mas ele parecia não entender isso. Foi uma pequena dor de cabeça, mas agora estamos bem e é como um alívio.
— Eu acho que te entendo, embora meu relacionamento com Ethan tenha começado de forma mais complicada. Quero dizer, você conhece há alguns anos, certo? Vocês tiveram um filho juntos. No meu caso, eu apenas conheço Ethan há alguns meses. E eu não tenho um histórico bom em relacionamentos. É muito doloroso falar disso, pois não me traz lembranças boas, mas ainda assim eu acho que Ethan me ajudou muito, mas Derick principalmente. Derick é provavelmente a pessoa em quem mais confio no mundo, ele é meu melhor amigo que sempre esteve do meu lado, ainda que tenhamos passado alguns anos separados.
— Vocês parecem se dar muito bem mesmo. Eu pensava que vocês eram um casal, sabia?
— Sério? Bem, talvez nós tivéssemos sido um se não fosse o destino, mas o tempo passou, entende? No dia que fomos jantar, Derick me contou algo que mexeu comigo e me fez pensar eu muitas coisas.
— E o que foi isso? — quis saber.
— Ele disse — Aria sorriu — que bem no dia que eu contei a ele que eu tinha um namorado… Nesse dia, ele iria se declarar para mim. Isso foi meio interessante de saber, entende? Eu e Derick não éramos o tipo de melhores amigos inocentes — ela disse, com uma risada que fez rir junto — Nós crescemos juntos e fomos os primeiros em tudo um do outro. Meu primeiro beijo, minha primeira vez foi com ele e vice-versa. Nós realmente éramos algo como amigos coloridos, basicamente. Mas não durou muito tempo, porque ele apareceu — concluiu Aria, com o sorriso desaparecendo.
— Ele quem?
— A pessoa que foi meu namorado — ela suspirou.
— Você não precisa contar, se não quiser. Dá pra ver que é um assunto bem pessoal.
— Está tudo bem. Na verdade, eu acho que talvez isso ajuda no seu TCC. Eu sei que não é permitido usar nomes, então para mim não vai ser um problema se você quiser incluir a minha história nele.
— Incluir… a sua história? — perguntou, confusa — Aria, você…. você está me dizendo que…
— Que eu sou uma vítima de abuso sexual. Sim, exatamente isso, . Faz quase dois anos depois que aconteceu e é um dos motivos de eu não exercer minha profissão, pois caso contrário eu ficaria muito exposta e… ele está solto em algum lugar por aí.
— Oh, meu Deus! Como aconteceu isso? Como… Eu não consigo acreditar, eu nunca desconfiaria disso se você não tivesse me dito.
Aria respirou fundo, antes de começar a contar sua história. Por mais que ainda fosse doloroso falar daquele assunto, ela não sentia mais tanta vontade de chorar com sentia antes.
— O nome dele era Eric, ele era bonito e a princípio era como um cavalheiro que me tratava muito bem. Mas com o tempo ele foi mudando aos poucos, ficou cada vez mais ciumento, inclusive sentia muito ciúmes de Derick. Entretanto, Derick teve que ir embora e acabou não presenciando essas coisas, ele só soube o que acontecera comigo muito tempo depois. Eric começou a abusar de mim, me batia às vezes, mas ele nunca havia abusado sexualmente d emim. E por ele me bater, eu terminei o namoro com ele, pois aquilo foi a gota d’água para mim, é claro, mas o pior veio depois. Ele não aceitou o fim do namoro e me perseguia a todo custo e uma vez chegou a me sequestrar e… — ela cortou a voz — Foi quando aconteceu tudo. Foram as piores duas semanas da minha vida, . Eu pensei que fosse morrer e no fundo eu achava que queria isso, para não ter que passar mais por aquela tortura. Quando a polícia finalmente nos encontrou, já era tarde demais para reverter qualquer coisa.
— E Eric? Não prenderam ele?
Aria riu.
— Eric é um verdadeiro psicopata. E tendo a inteligência de um, ele conseguiu fugir sem deixar rastros para a polícia. Eu fui posta no programa de proteção à testemunha, com o nome de Mikaela Walker, e foi com esse nome com o qual eu entrei na Inglaterra. Mas isso não foi o pior, pois depois de algumas semanas… Eu descobri que estava esperando um bebê, mas eu não o quis e abortei. Eu tomei uma grande quantidade de abortivos e outros tipos de remédios, e eu… — ela levantou as mangas da blusa que vestia, exibindo duas cicatrizes de cortes — tentei me matar no mesmo dia. Acabei tendo um intoxicação pelos remédios e um claro aborto.
— Eu sinto muito por isso, Aria. Eu… não sei o que dizer.
— Tudo bem. Eu passei por alguns tratamentos depois, mas eu fiquei cerca de um ano sem sair de casa e as únicas pessoas a quem eu vinha era Kate, minha irmã e Anthony, meu cunhado. Eu morava com os dois até o dia em que acordei e decidi que queria construir uma nova vida. Essa ideia simplesmente veio, ainda que não tenha vindo cedo, como poderia ter sido. Eu vim para Londres e antes de vir, eu enviei uma carta para Derick, contando que estava indo embora. Quando cheguei aqui, eu era uma pessoa nova, totalmente desconhecida, e logo consegui fazer amizade com minha melhor amiga, Julia, e até arrumei um emprego onde eu e ela trabalhamos. Somos garçonetes, mas Julia é uma pintora incrível que está terminando sua faculdade de Artes. Ethan é o melhor amigo dela, um amigo bem decente, inclusive. Basta que eu lhe diga que eles nunca foram coloridos, ou pelo menos dizem que não — ela riu.
— Aposto que não — disse, rindo.
— Pois é. Não foi fácil até que eu me aproximasse dele, pois até então eu não gostava de ter qualquer tipo de contato com homens, e isso incluía até meu cunhado. Eu fui superando isso aos poucos, com o tempo, e depois que Derick apareceu novamente foi muito mais fácil. Eu não pensei duas vezes em cair nos braços dele, assim que o vi novamente depois de anos. Hoje em dia, eu estou mais tranquila, mas é verdade que ás vezes isso ainda me perturba. mas eu tenho apoio de meus amigos e de Ethan, que além de ser meu namorado, é também um amigo incrível.
— Fico feliz em ouvir isso. Principalmente em saber que você está conseguindo superar e ter uma nova vida. E obrigada por confiar em me dizer toda a sua história, eu sei que é muito delicado para você e que é complicado de se falar.
— Sim, ainda é muito complicado, mas antes já foi pior. Hoje eu consigo falar calmamente, sem chorar, mas antes as lágrimas mal deixavam que desse uma palavra a respeito disso. Eu espero que isso realmente te ajude a adiantar o trabalho, se você quiser posso de ajudar a encontrar mais mulheres com situações parecidas. Você está com algum problema na estrutura do trabalho?
— Acho que a estrutura está indo bem, me ajuda ás vezes com isso. Ele queria ser meu orientador, na verdade. Mas eu realmente apreciaria a sua ajuda e agradeceria muito se você lesse o meu trabalho quando ele estiver pronto.
— Por mim, tu do bem — ela sorriu.

***


Depois de um tempo, finalmente chegou em casa e encontrou pai e filho vendo um filme infantil juntos na TV.
, para ser mais clara, pois já devia estar dormindo há algum tempo no sofá, enquanto ele próprio estava absorto no filme, que constatou ser Procurando Nemo.
— Deve estar realmente muito interessante já que você nem notou que dormiu — brincou, enquanto tirava os sapatos.
— Tem pizza na cozinha e suco de laranja na geladeira, caso você ainda não tenha jantado. Como foi o encontro com Aria?
— Foi… profundo e emocionante.
— Profundo e emocionante?
— Eu não sei bem como descrever. basta que eu lhe diga, , que Aria é a melhor pessoa para me falar do assunto do meu TCC, pois ela já passou por aquilo.
— Você está dizendo que Aria foi uma vítima de estupro?
assentiu com a cabeça.
— Eu não sei como ele consegue, mas eu estou realmente feliz que ela esteja superando bem, aos poucos. Ela até tem um namorado agora, e eu jurava que ela e Derick eram algo como um casal — ela riu.
— E ela te contou tudo o que aconteceu com ela?
— Ela não entrou em detalhes, mas o que ela disse foi mais do que suficiente. Ela disse que eu posso usar o relato dela no meu trabalho e que pode me ajudar a encontrar outras mulheres e tentar convencê-las de participar também.
— Isso é bom — disse, puxando-a para um abraço.
encostou a cabeça no peito dele e suspirou.
— Estou cansada. Mal posso esperar para que isso acabe logo e eu tenha um diploma.
— Vai acabar quando você menos esperar, você vai ver. E você vai ser tornar uma jornalista mais incrível do que já é.
sorriu, apesar de cansada.
— Você vai me ajudar a comer esses pedaços de pizza? Acho que não vou aguentar tudo. Estou mais interessada no suco que você fez.
— Deve ser porque meus sucos são maravilhosos, pode dizer.
— São bons mesmo. Mas não se gabe — ela disse, solando-se dele e indo em direção a geladeira para pegar o suco e sentar-se a mesa para comer.
pegou dois copos para eles e sentiu-se junto a ela.
— Acho que vou capotar depois de comer. E você devia levar para cama, já deveria ter levado.
— Sim, sim. vou colocá-lo lá. Pode ficar tranquila e ir dormir, se quiser. Eu não estou com sono, então acho que vou ficar vendo TV por aqui mesmo.
— Vou fazer isso, pode deixar v ela disse, mordendo um pedaço de pizza.
— Então, qual a história que a Aria te contou?
— Você quer mesmo saber? É meio longa.
— Fiquei curioso. Derick sempre fala dela quando nos encontramos, às vezes.
— Tudo bem.
Dito isso, contou tudo o que havia descoberto para , enquanto os dois comiam. Quando enfim terminou, ela foi tomar um banho para logo em seguida, cair na cama.
Adormeceu tão facilmente que nem percebeu.
E a , que permanecera acordado, só restou fazer uma maratona de seriados, até ele próprio adormecer eventualmente no sofá e ficar por lá mesmo até amanhecer.


20. Nem Tudo na Vida é Doce

esfregou as mãos, ansiosa.
Alguns dias tinham passado e com a ajuda de Aria, ela foi capaz de encontrar outras quatro mulheres que concordaram em relatar seus casos. escreveu seus relatos com extrema rapidez, levando em consideração também algumas dicas técnicas que Aria havia dado quanto às referências que seriam utilizadas.
As duas haviam encontrado essas mulheres através de um projeto chamado My Body Back, relacionado especificamente à vítimas de abuso sexual.
Dentre as quatro mulheres selecionadas, três haviam sido relatadas pela imprensa. Porém, apenas a história de uma delas foi tratada corretamente pelos jornalistas.
As outras duas mulheres relataram que alguns jornalistas chegaram a tratá-las com desdém, jornalistas homens e, inclusive alguns policiais e ambas desconfiavam que talvez era por conta de situações financeiras ou até mesmo o local onde viviam. A quarta mulher, entretanto, era a que se sentia mais injustiçada, pois nem a própria família acreditara nela.
O foco do tema de era quanto a mídia, mas ela achou que talvez fosse interessante relatar esse específico, que não havia sido relatado em lugar nenhum.
— Você está bem? — ela sentiu uma mão em seu ombro.
.
— Só nervosa.
— Você vai se sair bem, já apresentou pra mim e para a Aria três vezes. É só fingir que só tem a gente na sala.
— Tentarei — respondeu e na mesma hora, chegou o último professor que havia sido convidado para a banca.
Mas quase caiu para trás. Seu orientador havia dito que seria uma surpresa, e que se tratava de um amigo dele. Talvez se ela tivesse juntado as peças, ela teria adivinhado que se tratava do Sr. McCormick, seu antigo chefe.
Sr. M! sorriu quando o viu. Havia aprendido muito com aquele homem, com certeza.
havia estudado duas matérias com ele na faculdade, antes de conseguir o estágio onde ele trabalhava e onde estava até hoje e, se desse sorte, ficaria permanentemente. , como o novo chefe, seria um dos avaliadores, mas não dependia somente dele. Sr. M também faria isso, mesmo que já tivesse se aposentado e mais outros dois professores. torcia para se sair bem, juntamente com Anne já que haviam duas vagas disponíveis.
— Desculpem o atraso. Srta. — Sr. McCormick a cumprimentou com um sorriso.
— Tudo bem, . Você já pode começar — seu orientador anunciou.
respirou fundo e olhou para .
Ele sorria para ela, tentando passar um pouco de confiança. E quase podia ouvir a voz dele dizendo “você vai se sair bem” apenas pelo olhar que ele lhe lançava.
sorriu de volta e se apresentou, iniciando finalmente aquele grande passo de sua vida.
— De acordo com o relatório mais recente do Ministério da Justiça, Instituto Nacional de Estatística e Home Office, de 2013, há aproximadamente 85 mil casos de estupro por ano na Inglaterra e País de Gales, correspondendo a cerca de 230 casos por dia. O relatório também afirma que 1 a cada 5 mulheres sofreu algum tipo de violência sexual desde os 16 anos. Entretanto, mesmo que o nosso país esteja entre a lista de mais casos, no Estados Unidos da América, por exemplo, alguém é estuprado a cada 157 segundos.
“O estupro é um assunto bastante polêmico em todo o mundo e cada país tem suas formas de lidar com esse tipo de crime e de relatar esse tipo crime. Em Aleppo, na Síria, existem pais pedindo permissão ao governo para matarem suas próprias filhas para que não sejam estupradas pelo Estado Islâmico e algumas meninas, inclusive, estão praticando suicídio para que isso não aconteça.
Contudo, ainda há aquilo que deve ser considerado, nas leis, como estupro. No Reino Unido, não se considera crime de estupro aquele ato em que não haja penetração entre órgãos genitais. Enquanto isso, há países que — dependendo da situação —, um beijo ou sequer uma ‘mão boba’ podem ser considerados como estupro. Obviamente, ainda que haja vítimas do sexo masculino, as mulheres detêm de cerca de 85% dos casos, segundo o relatório mencionado anteriormente. Meu objetivo foi focar nessa maioria, nessas mulheres que muitas vezes são injustiçadas por conta de preconceito e machismo, ainda bastante presente no mundo e, ainda, pelas próprias leis do país. Sem mencionar que cerca de 15% das mulheres vítimas desse crime, não fazem denúncia à polícia por medo ou vergonha.
Quanto a isso, podemos dizer que a própria justiça acaba cometendo muitas injustiças, por falta de investigações mais detalhadas. O que é um tanto irônico, certo? Mas por causa disso, muitas mulheres acabam por sofrer mais, temerem mais; chegando mesmo até a terem medo de andar sozinhas com medo de o crime aconteça.
Imaginem uma garota de 16 anos, abusada pelo padrasto por meses, mas sem a penetração genital. Ele era advogado e conhecia bem as leis britânicas; Entretanto nada era consensual e a garota adolescente era ameaçada constantemente de não somente ela ser morta, mas também sua mãe. Ela, com medo, esconde de todos até o dia que seu melhor amigo descobre tudo por acidente e acaba por fazer a denúncia dos abusos. O homem foi punido, mas não pelo crime específico de estupro. Entretanto, ainda houveram agressões e a garota ainda era menor de idade.
Embora, o homem fosse punido, ainda havia algo faltando. A garota sofreu as mesmas dores de um estupro oficial, os mesmos traumas. Mas isso não foi considerado na hora do julgamento. Sendo assim, pode-se dizer que ela não obteve a justiça que merecia por ter sofrido tal coisa. Deixem-me facilitar para vocês homens e mulheres aqui presentes; Imaginem que essa garota fosse sua filha, irmã ou sobrinha. Vocês ainda acham que ela obteve justiça?
Deixando a parte judiciária um pouco de lado, mencionarei agora a mídia. Ah, a mídia principalmente, afinal é o tema do meu estudo, afinal. O machismo disfarçado na mídia do estupro. Contudo, não me refiro apenas à mídia-imprensa, mas também à mídia social, sendo ela ligada ou não à internet. E menciono ainda a principal coisa de que falei em meu estudo: o respeito, a ética e, principalmente a falta de ambos.
A imprensa muitas vezes esconde a realidade do público e casos extremamente importantes são tratados como algo trivial. No caso do estupro, é algo tão comum que a importância de informar ao público, de relatar o que aconteceu e justamente por ser algo tão comum, chegamos aqueles 15% mencionados que não denunciam os crimes por medo ou vergonha. Eis que a ‘culpa’, se é que pode-se dizer assim, passa a ser não somente da justiça ou da imprensa machista, mas também é dividida com essa minoria que são vítimas mas acham constrangedor demais contar à alguém. Compreensível, claro, mas extremamente errado.
Não há porque ter vergonha de ser uma vítima de estupro, afinal o próprio termo diz: vítima. Mas porque será que isso acontece? É aí que o machismo entra. E o mais incrível é que não me refiro somente aos homens, mas também às mulheres que preconceituam o estupro, geralmente por ignorância mas também a falta de respeito e ética, principalmente quando as palavras que vêm dessas pessoas não passam de deboches e piadas de muito mau gosto para com as vítimas. Do vídeos e imagens de vítimas que circulam pela internet, também. Novamente, volto para a pergunta anterior; e se essas vítimas fossem suas filhas ou irmãs? Tenho certeza de que ninguém gostaria de ter imagens de seus entes, vítimas, circulando por aí na mídia. E ver pessoas fazendo isso, só me leva a crer, pessoalmente, que a humanidade de algumas pessoas só desaparece com o passar do tempo.
Dos cinco casos que escolhi relatar em meu trabalho, resolvi falar apenas de dois. E o último se trata do caso de uma mulher, na época com 18 anos, terminando o ensino médio. Morava no subúrbio de Londres e não tinha muito dinheiro, nem a melhor educação, ainda que gostasse de estudar. Ela foi, como podemos dizer, ‘oficialmente’ estuprada, segundo as leis britânicas. Porém, ninguém acreditou nela, quando denunciou o crime. Nem mesmo o jornalista que estava presente porque tinha ouvido falar de um possível caso de estupro. A garota foi abusada sexualmente, mas passou-se por mentirosa perante aqueles dois homens machistas — o policial e o jornalista. E sabem porquê? Sua mãe era uma prostituta. E o agressor da garota, era um cliente dela. Aconteceu de a mãe não estar em casa e o homem simplesmente decidir usar a garota como substituta, já que já havia pagado antecipadamente pelo serviço.
É nítida a falta de ética e respeito dos profissionais para com a garota, automaticamente rotulando-a como prostituta também. Entretanto, se na época tivesse havido uma investigação mais à fundo, eles logo teriam sido capazes de descobrir a verdade. Enquanto aquilo acontecia, a garota levava a fama de mentirosa também na escola, sendo alvo de fofocas e piadas, principalmente dos rapazes da escola, o que fez de seus últimos meses de colégio totalmente infelizes; e embora ela tivesse todos os motivos para desistir, ela não o fez, pois preferiu estudar e ter um futuro melhor com um bom emprego e uma boa vida, apesar de tudo. E ela conseguiu, com muito esforço, mas sim. Hoje, ela é advogada, especialista em casos de agressão sexual.
Todas as garotas dos casos que relatei no trabalho conseguiram seguir em frente em algum momento de sua vida, umas há anos atrás, outras há não muito tempo — ela disse e olhou discretamente para Aria, que assistia atenta — Mas o que importa é que elas conseguiram e que muitas outras podem conseguir também. A garota do primeiro caso teve muito medo de se relacionar com homens depois do abuso, assim como todas as outras; mas hoje ela está casada, esperando o segundo filho e o mais importante: feliz.
As feridas podem perdurar por anos e anos, mas um dia elas cicatrizam. Não há porque ter vergonha de um machucado, ou de uma cicatriz, pois eles só provam o quão forte e capaz você foi de sobreviver àquilo. E as cicatrizes significam exatamente isso, lembranças de uma ferida que foi curada, mas que deixou rastros que não irão ser esquecidos. Contudo, um dia elas param de doer e, quando isso acontece, seguir em frente se torna mais fácil.
Minha proposta final é mais como um pedido à toda a sociedade, inclusive às vítimas, em especial as que não denunciam suas agressões. Peço por respeito, ética, por apoio. Que respeitem todos os possíveis casos, sejam eles reais ou não - porque querendo ou não, existem os falsos. Mas não há como saber o que é real ou não, às vezes e, por isso, o respeito deve permanecer acima de tudo. Porque se fosse o inverso e se nós fôssemos a vítima em questão, seria o mínimo que iríamos desejar. Pois as pessoas machucadas realmente não precisam de alguém que só cutuque sua ferida ao invés de ajudar a tratá-la. Obrigada — ela disse, finalmente.
Todos as pessoas presentes ali bateram palmas e sorriu, orgulhosa por terem gostado. Tremia da cabeça aos pés, ansiosa pela avaliação da banca, mas ficou feliz por sua voz não ter falhado durante a apresentação, nem ter esquecido de nada.
— Parabéns, amor — disse no ouvido dela e a abraçou, seguido de Aria e as outras mulheres presentes.
— Obrigada a todos vocês, por terem me ajudado tanto. Eu tive um tempo difícil durante o processo de escrita e a ajuda de vocês foi como um pontapé.
nem acreditava que tinha conseguido, que finalmente havia acabado e que agora ela era, oficialmente, uma jornalista.
— Sr. M. chamou, colocando-se ao lado dela — Meus parabéns, ótimo trabalho, garota. Estou orgulhoso. Imagine minha surpresa quando descobri que o trabalho era seu. Realmente, fico feliz por você ter terminado. E você , como está indo as coisas na revista, garoto? — Ele perguntou, começando uma conversa com o rapaz, enquanto continuava a conversar com as outras pessoas.

***


, eu já mandei de parar de comer a porra dos brigadeiros! — reclamou, mais uma vez — E nada de surpresinha de uva pra você! — acrescentou, vendo que ele iria atacar os outros docinhos.
O aniversário de havia chegado e, depois de muito pedir, havia convencido de não preparar nada gigante. A festinha seria apenas entre a família e os coleguinhas de da escola.
terminava de organizar as coisas com o , para que no dia seguinte, precisassem bolar apenas a decoração.
— Tu ‘tá com os pulmões preparados para hoje à tarde? — perguntou, com um sorriso.
— Faz tanto tempo que eu ajudei a preparar uma festa… Mas concordou comigo de que faríamos competição hoje de tarde de quem conseguiria acabar primeiro de encher os balões.
— Que ótimo. Boa sorte pra vocês — ela riu, colocando a última bandeja de docinhos na geladeira, que estava ocupada em 80% somente com os docinhos.
tinha passado o dia com os padrinhos, que o levaram para passear, alegando que não iriam ter tempo de brincar com ele — lê-se mimar — direito no dia do aniversário por causa dos preparativos e acabou que o garoto havia passado a noite com eles também. ligou de manhã e disse que o levaria depois de almoçarem, no mesmo horário em que ela e haviam prometido de ir para ajudar com a festa.
Entretanto, a ausência de acabou por contribuir para a agilidade de e nas preparações.
A sala, inclusive, já estava decorada e faltava apenas os balões.
era muito ansiosa e se não tivesse se intrometido, talvez ela tivesse decorado dois dias antes da festa. Mas ao mesmo tempo, havia o lado bom, pois não teriam mais que se preocupar com aquilo durante o dia, que seria menos cansativo por causa disso.

— Eu que ganhei, caralho! — disse, fazendo e rirem.
, eu já disse pra você não falar palavrão na frente do , seu idiota! — reclamou, prendendo o riso, enquanto fingia tapar os ouvidos do menino.
— E o que você acabou de fazer agora? — ele acusou.
— Eu? Isso bem pode ser considerado como um palavrão. É muito comum e não é tão feio.
— Que mentira! Todo palavrão é comum — insistiu ele —, desde os tempos antigos.
— Tudo bem, . Você ganhou — disse, impaciente com a história dos palavrões e riu novamente.
— Eu sei que eu ganhei, eu terminei de amarrar o balão primeiro.
— Não isso, seu besta. Quanto aos balões, sinto informar, mas ganhou. Aceite a derrota.
— O quê? Por quê? Por que ele ganhou? Huh? O balão dele estourou.
— Mas ele acabou primeiro, o balão estourou na mesma hora que você acabou — explicou ela e fez uma careta, jogando o balão de lado, como uma criança birrenta.
— Aw, o bebezinho ficou tiste brincou, como se tivesse falando com uma criança.
— Cala a boca, — ele disse, emburrado, lutando contra um sorriso.

***


— Ele dormiu — fez que sim — Graças a Deus, porque eu ‘tô todo quebrado — ele disse, estalando o pescoço para um lado e para o outro.
— A culpa é sua que ficou correndo com as crianças a tarde toda. E dando um monte de doces para elas. Você não sabe que em festa de criança, essas coisas são mais para os adultos? — ela disse, como se fosse óbvio.
E realmente era.
As crianças gostavam de roubar doces, mas não comiam tanto quanto os adultos.
— Eu não culpa se eu gosto de crianças e elas gostam de mim.
— Elas não gostam de você, seu idiota. Elas gostam do que você dá pra elas — brincou.
— Isso não é verdade!
— Claro que é. Crianças são espertas assim, mas você é quem decide se vai fazer a vontade dela ou não e você sempre diz sim.
— Tudo bem, eu admito que sou muito manipulável por elas. Mas falando em dizer sim… — ele ficou sério, novamente — , eu quero que meus colegas de trabalho conheçam o meu filho.
— Huh?
— Exatamente, amor. Eu acho que esperei tempo demais. Veja, você já se formou há quase uma semana… e a última vez que falamos disso foi há meses. Eu quero poder ver meu filho também quando a levar ele na revista pra ver você, quero poder almoçar junto de vocês durante essas vezes também.
, eu…
, mais cedo ou mais tarde, todos irão descobrir. Quer você queira ou não. E que mal há nisso? Nós moramos juntos — apontou ele.
— As pessoas vão falar.
— Deixe que falem, eu não ligo. Nós moramos juntos, e…
— E você sabe exatamente como conseguiu me convencer para que isso acontecesse, — ela alfinetou, já irritada — Você pode não se importar com as fofocas, mas eu me importo. Não é você que vai ser chamado de vadia por toda a empresa.
— Você é minha namorada! — ele insistiu — .
“Ah! , amante do chefe. Sempre desconfiei que tinham um caso, dizem que se conheceram anos atrás, mas esse filho é realmente dele?” Eu já posso ouvir isso pelos corredores, .
— Você foi mãe solteira porque quis — ele disse, irritado também.
Se ela queria cutucar a ferida deles, ele ia fazer o mesmo também.
Se ela queria briga, então era o que ela iria ter.
estava cansado de esperar e, dessa vez, ele não ia ceder.
— Eu fui mãe solteira e vivi um inferno porque eu quis que você fosse feliz.
— Mas eu também tinha responsabilidade. Sabe, eu odeio, odeio de verdade o fato de você ter escondido isso de mim por três anos. Que droga! — ele disse, andando de um lado para o outro na sala — Eu me irrito só de lembrar, . Que se dane tudo! Nós já tivemos essa discussão um milhão de vezes, você acha mesmo que eu seria mais ou menos feliz por ter cuidado de vocês desde a sua gravidez? Você sabia muito bem que eu poderia ajudar, mas nunca teve coragem de dizer que estava grávida de mim, que eu tinha um filho com você — concluiu, magoado.
Mas ele não era o único.
também estava magoada, principalmente com ela mesma. Ela sabia que tinha errado em não falar com ele, mas mesmo assim, ela também não queria ceder e deixar que aquilo aparentemente interferisse em seu trabalho.
Não iria ser a amante do chefe.
Nem a vadia dele.
— Tudo bem, . Já que você insiste tanto nisso, que faça então. Apresente aos seus amigos, mas só ele.
— O que você quer dizer com isso?
— O que eu quero dizer, … É que eu não vou ser a vadia do chefe.
— Quantas vezes eu vou ter que dizer que você-
— Não, .
— Você é minha namorada, — ele disse, novamente.
— Não mais, . Agora, se você não se importa, eu estou cansada e quero dormir.
— Você ‘tá terminando comigo? — ele perguntou, incrédulo.
— Ah, agora vejo que você finalmente entendeu, — ela riu, sem humor — Tenha uma boa noite — ela disse e se virou indo em direção ao quarto, mas antes de entrar pôde ouvir bem as últimas palavras de .
— Ah, é? Ótimo, então!
E então ela se trancou no quarto.


21. Esquecimento

Quando acordou no dia seguinte, já havia saído com , o que o irritou profundamente; mas ele deixou de lado.
Chegou no trabalho e fez o que tinha que fazer. Não falou, nem precisou falar com durante aquela manhã, entretanto o bichinho da vingança parecia atiçá-lo para que aprontasse algo.
Pegou o telefone e discou o número de .
— E aí? — ele respondeu.
, você tem um tempo livre hoje no almoço? Tem algum plano?
— Não, porque… Vai me convidar para sair com você, docinho? — brincou, afinando a voz.
— Isso mesmo. E quero que traga o junto com você aqui na revista.
— Na revista? Cara, o que você ‘tá tramando? A sabe disso?
— Deixe que com a eu me resolvo. Apenas o traga, sim?
— ‘Tá bom. Mas! Eu não sou seu cúmplice.
— Você sempre é — riu e desligou.

Duas horas mais tarde, entrou no escritório de acompanhado de .
— Papai! — o garotinho correu até ele, que se ajoelhou para ficar na altura do menor.
— Ei, campeão! ‘Tá tudo bem? Como foi hoje na escolinha? — perguntou, depois de bagunçar os cabelos dele.
— Foi bom. Mamãe falou que era melhor deixar você dormir mais hoje, porque você tava cansado.
— Ah, é? Eu chamei o tio e você para irem almoçar comigo, o que você acha?
— A mamãe vai também?
— Não, vai ser só homens hoje. Mas você pode ver ela antes de irmos, que tal? — perguntou e balançou a cabeça, concordando.
— Tudo bem. Então, vamos lá. Eu e o tio vamos levar você pra ver a mamãe antes de irmos comer.
pegou no colo e se levantou.
… — o chamou. — Você vai fazer o que eu acho que você vai?
— Depende de que lado você olha, .
— Cara, isso não vai dar certo. A vai ficar-
— Eu não ‘tô interessado em como ela vai ficar, . Não mais nada a perder — ele disse e depois olhou para . — Ei, garoto, você quer conhecer os colegas do papai depois? Eles são gente boa.
— Que nem o tio ?
— Que nem o tio e eu. O que acha?
— ‘Tá bom.

— Mamãe! — gritou, correndo até a mesa de .
— Ei! — sorriu, pegando-o no colo. — Você veio com a tia ?
— Não, com o papai e o tio .
— Com o… papai? — ela perguntou e quando levantou a cabeça para olhar ao redor, encontrou caminhando até sua mesa, com ao seu lado.
— Oi, . Vou levar o para almoçar comigo e o , ele quis vir te ver antes de irmos — disse, na cara de pau.
Aquela altura já havia algumas pessoas prestando atenção no que acontecia.
se segurou para não brigar com ali mesmo, para não chamar mais atenção.
— Oi, — Anne disse, assim que o viu. Havia ido pegar água para ela e e as duas haviam combinado de ir almoçar juntas.
— Tia Anne! — a abraçou.
— Vamos, ? — o chamou e o pegou no colo. — Dá “tchau” pra tia Anne e pra mamãe.
— Meu Deus, vocês são mesmo idênticos, Sr. — Anne comentou, sem pensar.
Ela era provavelmente a única pessoa na revista que sabia que era filho dele.
riu.
— Nada de “Sr. ”, Anne. O que foi que eu disse no meu primeiro dia?
— Sim, tudo bem. — ela corrigiu. — É a força do hábito.
— Tudo bem. Estamos indo agora — ele disse, antes de sair.

As pessoas que os viam juntos pareciam bastante curiosas, principalmente aquelas que já haviam visto com . Para essas, estava mais que óbvio que era o pai da criança devido a tanta semelhança entre dois, que parecia aumentar cada vez mais à medida que crescia.
E uma dessas pessoas era , que não conseguiu evitar sorrir sarcástico ao ver a linda cena.
Parece que vou ter uma conversinha com a depois, pensou.
As outras pessoas que conheciam apenas , apenas os olhavam com curiosidade. Afinal, ele não era casado, mas também nunca havia mencionado sobre ter um filho.
De qualquer maneira, estava satisfeito por hora.
Ainda não havia dito que era seu filho, mas para bom entendedor, ver os dois juntos já bastava.

***


batucava o pé com raiva enquanto esperava o pedido chegar.
— Eu não acredito que ele fez isso! — ela disse, contrariada. — Agora vão todos ficar fofocando sobre isso.
— Mas o tem razão, . Você sabe que sim. Independente de você ter ou não um relacionamento com ele, vocês ainda tem um filho e isso já é mais que suficiente para ligar você dois. Mesmo se vocês morassem em casas separadas, eles ainda iriam falar, simplesmente pelo fato do existir e por ele ser o filho do chefe.
— Sim, mas eu não queria. Eu...
— Você não tem que querer, . É direito dele como pai apresentar o filho aos amigos, ou quem quer que seja. Ele esperou tempo demais e você só piorou as coisas ao terminar com ele. Amiga, melhore. Isso não foi uma das atitudes mais adultas que você já teve.
— Anne! De que lado você está, afinal? — quis saber, indignada com toda aquela defesa a .
— Do lado da realidade. Eu ‘tô tentando te fazer abrir os olhos para que você possa enxergar a merda que tu fez.
— Oh! — olhou para ela, indignada, ainda mantendo o olhar acusador para a amiga, entretanto sem saber realmente o que dizer.
— Basicamente, . Falando de um modo meio bruto… Você ia ser chamada de amante de um jeito ou de outro.
— Sabe o que eu ‘tô lembrando? já insinuou isso uma vez. Que eu era amante do ; e nessa época nem estávamos juntos ainda, mas o me defendeu dele uma vez e… uma coisa levou a outra. Antes de aparecer, ele até sugeriu que ele fosse o pai de .
— Quando foi isso? — Anne se aproximou na mesa, curiosa. — Você nunca me contou isso. Por quê não me contou? Eu poderia ter dado uns bons tapas naquele otário.
— Não achei que fosse necessário. Foi há uns meses, fazia pouco tempo que tinha chegado.
Assim que terminou de falar, o garçom chegou com o pedido, colocando em cima da mesa. Porém, assim que o cheiro da comida subiu às narinas de , ela imediatamente colocou a mão na boca e correu para o banheiro do estabelecimento.
Tudo o que ela havia conseguido ingerir de manhã fora jogado na privada, graças ao seu estômago, sensível demais, para conter o alimento de mais cedo.
Já faziam dois dias que ela estava assim e suspeitava que fosse por causa uma pizza que havia comido com , tinha deixado seu estômago sensível.
E ainda tinha o aniversário de , o que devia ter piorado.
! Você ‘tá bem? — Anne perguntou, logo que a encontrou, praticamente agarrada com o vaso.
se levantou e deu descarga para, então, falar com Anne. Suava frio e estava um pouco tonta, mas sentia seu estômago melhor pois, agora que estava vazio, não parecia que ia vomitar de novo.
— Eu acho que estou com uma infecção. Eu comi uma pizza dois dias atrás e eu acho que me fez mal, depois teve o aniversário de e…
— Mas você tem certeza que é só isso? — Anne perguntou, desconfiada. — Há quanto tempo está assim?
— Desde que comi a pizza, dois dias atrás. Eu vou procurar algum remédio para tomar depois, mas acho que vou dispensar o almoço, Anne. Acho que talvez a única coisa que talvez possa descer seja um suco.
sabe que você ‘tá doente?
— Não, ele não tava em casa quando eu passei mal. De qualquer forma, foi rápido e passei o resto do dia bem.
— Talvez devesse consultar com um médico, .
— Talvez.
… Me prometa uma coisa. Se depois que você tomar os remédios e não ajudar, você vai fazer algo.
— Algo? — perguntou, enquanto lavava as mãos e a boca na pia.
— Até onde eu entendi, são enjôos matinais, certo? — Anne perguntou, com um olhar de eu-acho-que-você-já-sabe-o-que-estou-querendo-dizer, e instantaneamente entendeu.
— Anne — riu, sem graça —, você não acha que eu ‘tô… não é isso, certo? Não pode ser.
Ok. Agora estava com medo.
Ela não podia estar grávida de outra vez.
Não mesmo.
Ela havia acabado de se formar, e planejava conseguir um emprego estável e tentar fazer carreira na sua profissão. Ela não podia estar… grávida.
Por um momento, divagou em seus pensamentos, mas logo foi interrompida por Anne novamente.
, se amanhã você se sentir enjoada de novo, me prometa que vai comprar um teste e fazer em casa. Pode fazer isso?
olhou para Anne, sem dizer nada, mas concordando com a cabeça.
Estava um pouco atordoada e rezava para que os remédios funcionassem e ela não precisasse fazer o maldito teste outra vez.

***


— O que quer dizer com ela terminou com você? — disse, sem mencionar o nome de , para não correr o risco de perguntar algo.
Porém, parecia prestar mais atenção no joguinho do celular do pai.
— Ela terminou comigo, ontem à noite. Porque eu disse que queria apresentar meu filho aos meus colegas de trabalho e que eu ia fazer isso ela querendo ou não.
— Cara…
— Eu já esperei tempo demais, . Eu não quero ter que ficar escondendo que tenho um filho só porque a é insegura demais. Toda vez que a leva para ver ela depois da escolinha, eu tinha vontade de vê-lo também, mas eu não podia por causa dela. Porque ela tinha medo do que as pessoas iam falar.
— Bem, por um lado, ela está certa em achar isso ruim, mas você também tem razão. Eu acho que o problema todo é porque você é o chefe dela. Mas não há nada que possa ser feito quanto à isso e como você mesmo falou, isso teria que acontecer mais cedo ou mais tarde.
— Exatamente.
— E eu acho injusto ela ter terminado com você por causa disso. Afinal, ela estando com você ou não, não ia fazer diferença. Vocês ainda moram juntos e têm um filho juntos.
— Acho que ela só quer manter a consciência limpa quando falarem que ela é minha amante — disse, revirando os olhos. — Como a espera ser respeitada por seus colegas quando nem ela mesma faz isso, ? Ela é minha namorada. Bem, era minha namorada — corrigiu ele. — O resto não é da conta de ninguém, ela não tem porque se importar com isso.
— Talvez seja por causa da vaga de emprego. Se ela conseguir, talvez as pessoas possam pensar que foi porque você mexeu os pauzinhos.
— Certo. Só que mesmo que eu quisesse mexer os pauzinhos, a decisão não é só minha. Eu acabei de chegar, e tem pelo menos mais outras três pessoas para tomar a decisão final. O resultado não depende só de mim e eu acho que todo mundo sabe disso.
— Tem razão. De qualquer forma, boa sorte hoje à noite com a , porque você vai precisar, depois de todo o material para fofoca que você deu hoje na empresa.
— Com certeza.

não havia levado bronca, pelo contrário.
sequer falou com ele naquela noite, o que o deixou um pouco confuso, mas ele também não reclamou. Pensou que talvez ela tivesse visto, finalmente, que ele tinha razão.
Entretanto, havia ficado tão atordoada com a possibilidade de estar grávida que até esqueceu de brigar com por causa do que ele havia aprontado.
Mas como nem tudo é como queremos… Lá estava ansiosa, no banheiro, esperando alguns minutos para o resultado do teste aparecer.
Anne e a esperavam na sala de estar, ansiosas.
, e tinham saído para comprar comida para jantarem e as três estavam sozinhas.
Obviamente, ela também não havia comentado nada com .
Ainda mais quando estavam brigados, e ainda por cima, depois que ela tinha acabado de terminar com ele.
Quanto a , ela havia explicado por telefone mesmo, depois de garantir que não estava por perto, é claro.
Porque e eram como duas velhas fofoqueiras e não escondiam nada um do outro; o que levava a pensar que fora realmente algum tipo de milagre que não havia dito nada para sobre nos últimos anos.
saiu do banheiro com o teste em mãos, ainda esperando o resultado.
, acho que dessa vez eu prefiro que você olhe — ela disse, nervosa.
Faltava cerca de um minuto, e pegou o teste, enquanto as três esperavam.
Quando por fim, o resultado apareceu, sentiu seu corpo ser preenchido por uma onda de alívio. A voz de nunca havia soado tão bonita para como quando ela falou a palavra negativo.
— Ah, que alívio. Isso significa, Anne, que o que eu tenho mesmo é uma infecção. Vou melhorar daqui há alguns dias e tudo voltará ao normal — disse, com convicção.
Porém, e Anne não acreditavam naquelas palavras, e talvez nem acreditasse, no fundo.
E não era somente porque havia terminado com . Mas uma coisa era certa: elas tinham que esperar as coisas acontecerem.
Esperar somente; e assim, elas iriam realmente descobrir se as palavras de fariam sentido.
Mesmo havendo um bichinho rodeando elas com a palavra não.


22. Hot Nerdy

Depois daquele dia assustador em que fizera o teste de gravidez, não passou mal novamente. Ao que parecia, o resultado dera mesmo negativo e ela agradecia aos céus por isso.
Haviam se passado cerca de três dias e tudo parecia tranquilo, exceto pelo fato de que ela e trocavam apenas as palavras necessárias. E ainda não tinha ninguém perguntando sobre e para ela; mas isso iria mudar logo em breve.
estava à espreita do melhor momento.
E esse momento havia chegado, ele percebeu, quando convocara a todos para uma reunião, em especial os estagiários, por conta da seleção final à vaga de emprego que um deles iria conseguir.
Quando a reunião estava para começar, se misturou aos que se dirigiam para a sala onde ela ocorreria. Possuía um sorriso involuntário no rosto, já imaginando a cara que todos iriam fazer quando descobrissem o segredinho sujo de .
Ora, ora… provavelmente iria pagar por todas as vezes que agiu como uma vadia com ele, sempre que ele tentava dar alguma investida nela.
Houve um tempo em que havia mesmo gostado de . Na época, eles tinham acabado de começar a faculdade, e embora a maioria de seus horários fossem diferentes, havia uma disciplina que faziam juntos.
Foi exatamente nessa época também que ela se meteu com aquela estilista insuportável e seu namoradinho, além de conhecer um tempo depois. na época não o conhecia, já que só o havia visto algumas vezes de longe; mas agora tinha certeza que era ele.
Além disso, também nem sempre foi o cara arrogante que tratava mal, pelo contrário, ele a tratava muito bem quando a conheceu.
Achava-a adorável.
Sim, essa era a palavra.
Não demorou muito para que caísse em uma paixonite por na faculdade, mesmo falando tão pouco com ela.
era uma garota simples, que não tinha muitos amigos mas conseguia manter uma boa conversa com qualquer pessoa que falasse com ela.
era... .
Nerd. Loiro. Magricelo. Tímido. Embora fosse bonito, naquela época ele tinha uma franja e um óculos enormes que mal deixavam seus olhos castanhos aparecerem e, além disso, ele estava sempre de boné virado para trás.
Quem imaginaria, não é mesmo? Já que o rapaz bobo e magricelo da turma de agora era o contrário disso.
Por coincidência, eles dois acabaram trabalhando juntos em um artigo para uma nota na faculdade, na única disciplina que os dois estavam matriculados no mesmo horário.
Ambos eram responsáveis, então não corria perigo de um trabalhar mais que o outro, como acontecia muito por aí. Eles tinham harmonia e equilíbrio, as ideias fluíam facilmente e raramente eles discordavam um do outro.
Se encontraram várias vezes durante um semestre inteiro naquela época, mas só teve coragem de se confessar para ela no fim dele, quando já nem tinham mais motivos para se encontrarem.
Exceto pela amizade adquirida durante aquele tempo.
Coisa que não era suficiente para . Porque ele funcionava em extremos. Ou era isso, ou aquilo. Se ele não pudesse tê-la como namorada, ele também não iria querer ser apenas um amigo. Não mesmo. Ele sofreria mais se assim fosse, ainda mais do que sofreria ao estar longe dela. Talvez ele já fosse bastante egoísta naquela época, mas a rejeição de à ele talvez tenha aflorado mais esse seu lado.
era a primeira garota que tinha gostado na vida.
E ela tinha acabado de fazer picadinho com o coração dele.
Assim como com era tudo aos extremos, quando o rejeitou, o seu amor, paixonite ou o que quer que fosse pareceu sumir e ser substituída pela raiva que ele adquiriu instantaneamente.
As palavras de , as desculpas esfarrapadas dela, ainda rodeavam a mente de depois de vários anos. E ele tinha raiva de si mesmo por ter deixado uma mísera lágrima cair naquele dia.
— Eu não acho que sejamos compatíveis juntos, . O problema não é você, sou eu. Eu tenho dificuldade de me relacionar e... Eu amo outra pessoa.
— Mas, ...! — pegou a mão dela com as suas, que tremiam em nervosismo. — E se... E se a gente tentar. O que você acha, huh? Você foi a primeira garota ao qual eu gostei, porque eu também sempre tive dificuldade em me relacionar. Só que com você tudo parece natural; por favor, nos dê essa chance. Eu prometo que vou te fazer feliz, huh? — ele sorriu, mas não um sorriso alegre, pois ele já sentia seus olhos arderem.
O sorriso de era de alguém desesperado. Ele havia se apegado a ela, se apaixonado e agora parecia que tudo aquilo não havia valido quase nada para ela.
— Eu não consigo. Me desculpe — ela disse.
E não pôde evitar que aquela lágrima caísse. Mas o pior de tudo, foi ver o olhando com pena.
— Tudo bem — ele se forçou a dizer.
Depois daquilo, ele não disse mais nada. Secou seus olhos como conseguiu e foi embora.
E foi a partir daí que tudo mudou.
Ou melhor, ele mudou.
O rapaz magricelo já vinha se exercitando há um tempo e fez ainda mais quando as férias do semestre chegaram.
também cortou o cabelo, deixando os olhos à vista e trocou os óculos por lentes de contato. Entretanto, a personalidade dele também havia mudado. Começou a sair para pubs e se encontrar com várias garotas, mesmo que achasse algumas delas completamente insuportáveis.
Usava seu instinto masculino para aguentar tudo aquilo, afinal, ele também era um homem e não havia ficado com ninguém por pura opção.
Entretanto, no começo foi meio esquisito.
Ele ainda lembrava da primeira vez que acordou com uma garota nua ao seu lado, depois de uma bebedeira daquelas. olhou assustado para todos os cantos possíveis até encontrar o que lhe acalmaria. A camisinha no chão ao menos provava que ele havia sido responsável, embora não se lembrasse de exatamente nada da noite anterior.
Tampouco lembrava o nome da garota. Apenas juntou suas coisas e foi embora antes que ela acordasse.
Alguns dias depois, quando as aulas voltaram, as garotas que antes o ignoravam passaram a cair aos seus pés. O que um corte de cabelo não fazia, não é mesmo? A maioria das pessoas não o reconheceram, inclusive .
Ah, .
Se não podia fazer com que ela gostasse dele, então ele ia fazer o contrário.
Agora ele daria motivos para ela ter rejeitado seus sentimentos.
Porque preferia ser odiado do que sentir a pena e a culpa no olhar da primeira garota a qual ele havia se apaixonado.

12 de agosto, 3 anos atrás…

? É você? — perguntou, assim que ele parou ao seu lado.
— Olá, . Como vai?
— Eu vou bem e... Você também, eu acho. Quase não te reconheci.
— É. Eu realmente mudei. Não sou mais o garotinho que foi rejeitado por você, como pode ver.
, eu...
— Não, . Apenas esqueça tudo aquilo, porque eu estou começando do zero. Talvez você devesse também, é libertador. De qualquer forma, esqueça que um dia fomos amigos. Era isso que eu queria dizer — e saiu, sem esperar resposta, esbarrando em que tinha acabado de chegar.
— O que foi isso? — perguntou para . — Esse cara tem algum complexo de superioridade ou o quê? Não era aquele nerd que passou um semestre inteiro trabalhando com você?
suspirou.
— Sim, é ele. Eu não sei o que houve.
— Ah, pois eu acho que sei. Você deu o fora nele e ele resolveu se revoltar e mostrar o que você ‘tá perdendo.
— Bem, ele vai perder o tempo dele, então, . Eu ainda sinto falta do Tom.
— É, eu sei. Mas você precisa desapegar dele. Vocês estão morando em lugares diferentes, vivendo vidas diferentes, com novos amigos… O Tom foi o seu namorado da escola, mas você sabe que esse tipo de namoro geralmente acaba assim. Não seria saudável para vocês dois continuarem com isso à distância, principalmente para ele, que é homem. Você sabe como os homens são, infelizmente. Eu sei que eu ‘tô generalizando, mas se fosse comigo, eu também terminaria com o .
— Sim…
— Você precisa sair mais, o que acha? Por que você não sai com o ?
— Eu já saio com o , .
— Eu ‘tô falando de um encontro de verdade. Vamos lá, , você já se conhecem há cinco meses, sei que sentem atração um pelo outro e esse lance de amizade já ‘tá meio que enchendo o saco, sabia? E eu aposto que ele faz mesmo o seu tipo. Você acha ele bonito, não acha? Por que até eu acho e olha que eu adoro implicar com ele.
— Sim, ele é bonito — ela respondeu, sem dar muita atenção.
— Vocês também têm muito em comum. Eu acho que você deveria logo dar uma chance à ele, . ‘Tá na cara que ele gosta de você. Que tal sairmos nesse final de semana, huh? Conheço um pub legal que costumo ir às vezes com o . Você quer ir? Prometo que você vai gostar.
— Claro, tudo bem.
— E vê se ignora esse nerd babaca metido à besta que veio falar com você.
— Ele não é uma má pessoa, . Só deve estar… meio bagunçado por dentro. Eu ainda me sinto culpada por ele.
— Bem, pelo visto ele não quer que você sinta isso. Ele está com o orgulho masculino ferido e… bem, tanto faz, só esquece logo isso.
Era verdade que não era uma má pessoa. Mas ele estava determinado a ser uma… com .
As perturbações vieram logo depois, e ainda mais quando algum tempo depois, a barriga de começou a aparecer. Havia se passado meses desde a confissão atrapalhada de e agora ele se divertia fazendo piadinhas com ela.
poderia dizer com certeza que toda a sua desconfiança para com os homens que se aproximavam dela era tudo culpa de , que desde que descobriu sobre a gravidez dela, fazia piadinhas machistas e idiotas, levando os amigos idiotas que ele havia feito a fazer aquilo também.
Bando de babacas.
Ela já tinha coisas demais na cabeça e a última coisa que precisava era daqueles idiotas zombando ou até dando em cima dela por conta de sua gravidez e, mais tarde, por ser mãe solteira.
costumava ignorar todos eles, mas houve uma época em que realmente conseguiu atingi-la, E ela se lembrava de um dia em especial, o dia que ela odiou de verdade pela primeira vez.

6 de maio, 2 anos e 3 meses atrás…

estava com quase seis meses de gestação e completamente atarefada com o final do semestre chegando, tendo que estudar e trabalhar ao mesmo tempo. E para piorar, ela e tinham um outro trabalho para fazerem juntos, só que diferente da outra vez, em que tudo fluía facilmente, desta ele fez questão de irritá-la e estressá-la ao máximo, antes de finalmente fazerem algo de verdade.
Quando cooperou, tudo foi muito rápido. mas mesmo assim, estressante, porque ele fazia questão de jogar os erros de na cara dela, a cada vez que ela apresentava alguma dificuldade.
— Se você não tivesse engravidado, teria mais tempo de estudar. Ah, quanta irresponsabilidade, . Camisinha existe, sabia?
, por favor — ela pediu, cansada. — Você pode me dar uma trégua? Eu estou cansada disso.
— Eu sei que sim, mas o que posso fazer? É divertido. — ele deu de ombros, equilibrando a cadeira que estava sentado para trás.
Os dois estavam em uma sala vazia da faculdade, era folga de naquele dia e ela havia aproveitado para que pudessem terminar logo aquele trabalho que, por sorte, era rápido e não com duração de um semestre inteiro de pesquisas.
Mal podia esperar para acabar logo com aquilo se ver livre de novamente.
— Eu não me importo sobre o que você acha, . Eu não estou nem aí se você me acha irresponsável ou indigna apenas porque eu engravidei cedo ou porque vou ser mãe solteira — ela disse rapidamente, chegando a ficar ofegante e sentindo a voz cortar a cada palavra que dizia. — Isso é algo que não posso mudar e que agora faz parte da minha vida e vai continuar fazendo para sempre, mas isso não dá direito a você ou a seus amiguinhos babacas de me perturbar. Eu não te devo satisfação nem nada do tipo, então por favor, porque você não só ignora a minha existência?
— Não sei… Olha, eu sempre tive curiosidade, . Afinal, quem é o pai do seu bebê? Porque eu nunca te vi sair com ninguém da faculdade e… hm, eu tenho duas possibilidades. Talvez seja aquele cara que você conheceu algum tempo atrás, eu vi ele te buscando na faculdade junto com a algumas vezes, com o namoradinho dela. Ou… — ele fez uma pausa para sorrir, antes de continuar — Talvez seja o tal cara que você ainda “amava” — ele fez aspas com as mãos —, quando você me rejeitou. Sabe, aquela época em que eu só era um rapaz idiota e bobinho.
— Não é da sua conta quem é o pai do meu filho, . Como eu disse e torno a repetir, eu não te devo satisfação. Então podemos, por favor, voltar ao trabalho? Eu estou cansada e quero ir logo para casa.
— Ah, porque tão cedo, ? Não são nem sete da noite — ele disse, mas já fazia quase duas horas que estavam ali.
— Eu estou cansada, — ela repetiu.
— Ah, é! Deve ser a gravidez. Que chato.
, se o seu objetivo é me fazer te odiar, você está conseguindo cumprir ele com sucesso.
— Tudo bem, . Eu volto a trabalhar, civilizadamente, sem fazer piadinhas com você — ele disse e o encarou, desconfiada.
— Por que eu sinto que isso não é tudo? — ela quis saber.
— Porque não é. Eu tenho uma condição, — ele se aproximou dela e a encarou nos olhos.
viu o próprio reflexo nas íris castanhas dos olhos pequenos e puxados que ele tinha. Ela desconfiava de alguma descendência asiática por causa deles e talvez ela tenha pensado por milésimo de segundo que era realmente bonito, lembrando-se da única vez em que o viu sem óculos e boné, quando finalizaram o primeiro trabalho que fizeram e ele os tirou por um momento, devido ao cansaço.
o impediu de colocar o boné novamente, naquele dia.
— Você devia usar menos, você tem um cabelo bonito, . Só está um pouco grande demais — ela disse e, sem aviso, colocou a mão na testa dele, levantando a franja de modo que o cabelo ficou meio dividido. a encarou meio tímido, mas não disse nada. — Você fica mais bonito assim, mas ainda precisa aparar essa franja — ela sorriu.

não era feio naquela sua época de nerd clássico, só era desleixado.
Porém, embora desleixado, ele era gentil. Mas agora ele era o inverso, ao menos com ela. Então de que adiantava ser bonito, mas ser um babaca?
— O que você quer, ? — ela perguntou, secamente.
— Hm… Só uma coisa pequena, sabe? Nosso trabalho está quase no fim, . Não levaria nem vinte minutos para acabar, mas você não pode fazer sem mim.
— Fale de uma vez. O que você quer, ? — ela perguntou novamente.
sorriu, malicioso. Olhou para a boca dela rapidamente, antes de voltar aos seus olhos.
— Um beijo.
— O quê? — ela perguntou, não acreditando no que tinha ouvido.
Entretanto, parecia falar sério.
— É minha condição, — ele disse, se recostando na cadeira novamente. — Você que sabe, eu posso ficar aqui a noite toda, sabe?
— Eu odeio você, — ela disse, pela primeira vez.
— Que palavras doces, mas a resposta do meu pedido.
suspirou, tentando se controlar.
— Tudo bem, mas eu também tenho uma condição.
— Ah, é? E eu posso saber qual?
— Eu beijo você, mas depois que nós finalizarmos o trabalho.
— Sério? E como eu vou ter certeza de que você vai cumprir a sua parte?
— E como eu vou ter certeza de que você vai cumprir a sua? — ela retrucou. — Você sabe que não é muito confiável, , ao menos para mim. E eu não quero te beijar e continuar aqui, como se nada tivesse acontecido. Seria desconfortante demais — ela acrescentou.
— Que pena, . Porque o que eu queria realmente era te deixar desconfortável. Mas tudo bem, eu vou acreditar em você, mas fique sabendo que não vou te deixar sair daqui enquanto não cumprir com o acordo, ouviu?
— Pode crer, . Enrolar você só me faria perder mais tempo aqui, então não se preocupe.
— Tudo bem — ele deu de ombros, novamente.
Depois disso, eles voltaram ao trabalho que, como havia dito, não havia levado nem vinte minutos para ficar pronto.
Na verdade, não havia levado nem quinze e não sabia dizer se isso era bom ou ruim, porque por um lado ela já estava livre, mas por outro, ela ainda tinha que beijar ele.
respirou fundo, depois que guardou o arquivo e organizou suas coisas.
Como havia prometido, ele não a perturbou mais durante aquele tempo, mas agora ela também tinha algo a cumprir.
Então, que fosse de uma vez.
— Tudo bem, . Vamos logo acabar com isso — ela se virou para ele, que estava ainda recostado na cadeira e a encarava com um sorriso de canto.
— Você esqueceu de tirar o notebook da tomada — ele apontou com a cabeça para o cabo preto. — Não está querendo perder tempo, não é, ? estou facilitando para você.
suspirou e se levantou, indo tirar o cabo da tomada. Entretanto, assim que desconectou, ela viu a sombra de atrás dela, o que a assustou levemente.
Ela soltou o cabo e se virou para encará-lo. Mas apenas sorria para ela e antes que ela falasse algo, ele a tocou no rosto suavemente e com cuidado, quase como se tivesse medo de quebrá-la ou algo do tipo.
o encarou confusa diante daquele simples toque e foi quando finalmente falou.
— Tudo bem, vamos cumprir logo a sua parte do trato.
E sem mais rodeios, ele a beijou, pegando-a de surpresa diante do misto de firmeza e delicadeza que ele demonstrou assim que pôs seus lábios aos dela.
fechou os olhos, automaticamente e sentiu pedir permissão para aprofundar o beijo; e ela concedeu, sem perceber. Sentiu-o apertar sua cintura e fazer um carinho com o polegar, em movimentos circulares, na lateral de sua barriga.
Uma coisa, tinha que admitir.
Aquele babaca beijava bem.
gemeu contra a boca dele quando ficou sem ar e se afastou, ofegante, com os olhos ainda fechados e ainda sentindo espalhar beijos por seu rosto e selar seus lábios uma última vez, antes de se afastar.
abriu os olhos e o encontrou sorrindo.
Sorrindo de verdade.
Sorrindo como o nerd que ela havia conhecido há mais de um ano. O sorriso que, nunca tinha dito, mas que ela achava um dos mais bonitos que já vira.
— Não foi tão ruim, foi? — ele brincou.
Mas tudo o que fez foi desviar o olhar para baixo e se afastar dele.
— Eu tenho que ir, enviei o trabalho pro seu email. Você pode enviar para a professora, certo? — ela falou rapidamente, enquanto pegava todas as suas coisas meio desajeitadamente.
— Eu posso te dar uma carona, se você quiser.
— Não precisa — ela respondeu, rapidamente. — Eu mandei mensagem para , ele já deve estar estar me esperando lá fora.
E então, ela saiu.
Era mentira, é claro, que iria buscá-la. Ela apenas queria se afastar logo de , por conta do desconforto.
E foi isso que fez.
E sabia exatamente o que ela estava fazendo, já que ela não havia chegado perto do celular durante o tempo que ficavam na sala.
Entretanto, tudo o que ele fez foi sorrir, vendo-a ir embora, e deu algum tempo para ela, antes de sair da sala e ele mesmo ir também.


23. Surpresa

achava que tinha melhorado dos enjôos que sentira, entretanto seu corpo estava ali provando o contrário mais uma vez. Já fazia quase meia hora que ela estava se sentindo enjoada e, para piorar, sentindo uma dor no estômago que parecia aumentar de instante em instante, cada vez mais a fazendo ter vontade de largar tudo o que tinha que fazer e apenas se deitar em posição fetal; tomou um remédio alguns minutos antes da reunião e ele pareceu aliviar um pouco aquele sintoma irritante.
caminhava distraída, tentando organizar os papeis que carregava ao mesmo tempo em que tentava se distrair do enjôo e da dor de estômago que estava sentia, quando sentiu seu braço ser puxado por alguém.
Ela suspirou, impaciente.
— O que você quer? — quis saber, assim que percebeu que a pessoa se tratava de ninguém mais, ninguém menos que .
— Ora, ora, . Bom dia para você também, estou bem e obrigado por perguntar — ele sorriu irônico.
— Fale de uma vez, .
— Bom… Não sei. Foi apenas uma ideia que me ocorreu e que envolve você e o nosso adorado chefe. Acho que não preciso dizer mais nada, certo?
fechou os olhos, tentando se controlar. — Ouça, -
! Nossa, mas fazia muito tempo que eu não ouvia meu nome saindo da sua boca, . Era só , … Mas isso me relembrou como ele soa bonito quando você fala — ele disse e piscou para ela.
— Ha, ha! Muito engraçado, . Mas eu não caio mais nesses seus joguinhos.
— Joguinhos? De verdade, , eu não sei se você percebeu, mas eu não estou realmente brincando — ele a encarou sério — E estou apenas falando que vou revelar o seu segredinho sujo para todos os nossos colegas de faculdade. Acho que eles já perceberam tudo no dia que o apareceu com o seu filho no nosso setor, mas uma confirmação não seria nada mal, sabe?
— E o que você ganha com isso, ? Você se diverte tanto assim ao me ver nervosa? Realmente? Porque eu acho isso meio doentio, sabe? Se fosse o inverso, tenho certeza de que você não iria gostar de nada disso também.
— Bem, … — ele falou, pensativo — Se fosse o inverso, não iria adiantar em nada, porque esse não é o tipo de coisa que eu esconderia por vergonha, porque é isso, não é? Você não quer se passar pela amante do chefe, a namorada ou o que for. Porque mesmo que vocês não estivessem juntos, era isso o que todos iriam pensar. E pior, que você está ganhando vantagem por conta disso.
— Isso não é verdade, . Eu não sou esse tipo de pessoa e você sabe.
— Sei? Eu também não achava que você seria do tipo irresponsável que iria engravidar tão cedo e se tornaria uma mãe solteira, mas então boom! Você foi lá e fez isso. Então eu não me surpreenderia com mais nada em relação a você.
— E você sente, obviamente, muito prazer em jogar esse tipo de coisa na minha cara, não é?
— A verdade doi, ? Bom saber que eu ainda te afeto de alguma forma.
— Você fala como se isso fosse uma coisa boa. Eu odeio você, . Não era isso que você queria depois que eu te rejeitei anos atrás? Você que escolheu não ser mais meu amigo e eu realmente não sei porque você se tornou tão idiota à ponto de me fazer te odiar. Mas sabe o que é pior? É que eu sei que você só é assim comigo. Você faz questão de ser assim só comigo. Tanto que se eu dissesse a qualquer um que nunca presenciou nossas conversas, eles estranhariam e provavelmente acharia que eu estava inventando tudo.
— É verdade. Até porque eu não tenho motivos para fazer isso com outra pessoa.
— E que motivos eu te dei? O “não” na época da faculdade? Ou os outros “não” quando você ou seus amigos babacas davam em cima de mim porque eu ser uma mãe solteira? Que tipo de cabeça machista vocês têm, que achavam que eu seria tão fácil assim?
sorriu e se apoiou na parede com um antebraço, tomando a cabeça de lado como se fosse para observá-la melhor.
— Ora, . Desde o início, eu sabia, mas eu gostava de te ver nervosa, de ter ver irritada comigo. Mas eu não sou tão imbecil à ponto de te forçar a fazer algo, disso eu sei que você sabe. Tirando a vez que-
— A vez que você me beijou à força e o apareceu. — Em minha defesa, eu achei que você ia desviar, mas você não desviou. E eu te dei oportunidade para isso já que não te apertei com tanta força assim a ponto de você não poder se soltar. Então, eu também não sei porque você permitiu aquilo.
não respondeu.
A verdade era que no momento, ela não percebeu que realmente poderia ter se soltado dele. Ou que talvez, tudo o que ela quisesse era uma oportunidade de marcar os seus cinco dedos na cara de , por todos os anos de perturbação e porque ele simplesmente merecia.
— Tanto faz, . Você ainda assim forçou a barra, de novo e sabendo o quanto eu odeio esse tipo de coisa. Faça o que quiser hoje, eu não me importo.
— Não se importa, ? — ele perguntou e se aproximou para sussurrar no ouvido dela — Tem certeza?
se arrepiou com aquelas palavras e ela não sabia se aquilo era realmente de nervosismo ou não.
Sentiu as mãos suarem frio e tremerem, quando as passou pelo cabelo ao mesmo tempo em que dava um passo para trás, tomando alguma distância dele.
— Sim — ela disse, olhando nos olhos dele, mas desviando quase no mesmo instante.
sorriu, mais uma vez.
— Tudo bem. Bom saber disso, — ele disse, antes de entrar na sala.
respirou fundo por algumas vezes, antes de segui-lo e sentar-se na cadeira ao seu lado, que era a única que até então se encontrava vaga.
encarou de cima a baixo, curioso.
Estava tensa e inquieta, com as mãos suando, o que fazia com que ela as esfregasse na saia preta que usava de instante em instante e, eventualmente, colocasse a mão sobre o estômago.
Ela estava nervosa, isso era um fato.
Ele estava exatamente o contrário dela e segurou um risinho, fingindo não prestar atenção na garota enquanto estava sentado de maneira relaxada, com os braços cruzados, bem ao lado dela.
Alguns minutos depois, entrou na sala.
— Bom dia, pessoal. Vejo que já estão todos aqui, então vamos direto ao assunto, porque não quero tomar muito do tempo de vocês. Então, como vocês sabem, nós temos uma vaga de emprego fixo aqui a qual vocês estão concorrendo, sendo que o vencedor irá ser aquele classificado com o melhor desempenho. Pois bem, acontece que ocorreram algumas mudanças e nós não teremos mais uma vaga — disse e quando alguns começaram a reclamar, ele continuou —, calma, pessoal. Deixem-me terminar, ok? O que aconteceu é que não há apenas uma vaga, foi oferecido uma nova vaga e possivelmente uma terceira, mas isso é só uma possibilidade, então não criem esperanças.
‘‘Originalmente, vocês apresentariam um trabalho final com o tema de sua escolha, porém o Sr. M. sugeriu que vocês formassem duplas e fizessem juntos, assim não ficariam sobrecarregados com o estresse de ter que fazer isso nem o espírito competitivo forte que eu sei que a maioria de vocês têm e, eu e os outros avaliadores concordamos com ele. Então, as duplas serão sorteadas e vocês irão ter dois meses a partir de hoje para finalizar o trabalho e então apresentá-lo. Lembrando, é claro, que embora serão apresentações em dupla, será contado o desempenho individual de vocês nela, apenas o trabalho escrito que terá a mesma pontuação para as duas pessoas. E o que eu quero dizer, exatamente, é que mesmo que vocês sejam duplas, há a possibilidade apenas um de vocês poderá ser escolhido bem como os dois, mas como vocês são um número de dez pessoas, eu acho que vocês podem imaginar que é algo difícil. E é isso, acho que podemos sortear as duplas agora. Por favor, eu quero que as primeiras cinco pessoas próximas a mim anotem seu nome e coloquem nesse saquinho para que as outras possam sortear.’’
Quando terminou de explicar, ele entregou um bloquinho de post-it amarelo para uma moça, que era a mais próxima dele e ela os distribuiu para as outras pessoas até chegar em , que era a última, dividindo assim os dois grupos. Depois que terminou de anotar seu nome, colocou dentro do saquinho e o sacudiu um pouco, passando para que tirou um e passou para frente. Alguns segundos depois, algumas duplas já estavam formadas, restando apenas Anne, e abrirem seus papeis.
Anne foi a mais rápida e falou primeiro.
— Mackenzie Williams — ela correu os olhos pela sala e encontrou a morena baixinha, que usava óculos e anotou.
mordeu os lábios, tentando conter o sorriso que insistia em aparecer.
Qualquer um podia perceber que ele e eram a dupla final, já que só tinha sobrado ele dois, mas mesmo assim ele abriu o papel e falou.
— ele disse baixo, como se saboreasse as palavras e de modo que só ela ouvisse.
suspirou e abriu seu papel.
— ela disse uma vez e amassou o papel com a mão, tentando esconder a raiva.
olhou para assim que ela falou o nome de . Contudo, ela não percebeu e, de qualquer forma, ele nada podia fazer quanto aquilo já que era sorteio.
— Vai ser legal trabalhar com você mais uma vez, disse, deixando com uma pulga atrás da orelha.
Mias uma vez?
Quer dizer que eles já haviam trabalhado juntos antes? Mas aquele não era o babaca que vivia perturbando ela? Por que, diabos, ela fez algum trabalho da faculdade com ele alguma vez?
não disse nada, porém.
Apenas anotou os nomes das duplas em uma folha e estava prestes a liberá-los, quando começou a falar.
— Ah, pessoal. Eu quase me esqueci de falar o que eu estava planejando há algum tempo. Deixei para dizer hoje já que estão todos os estagiários presentes. Mas vocês souberam da novidade da ? — ele perguntou, sorrindo e olhou para a garota sentada ao seu lado, não parecendo exatamente interessada no que ele ia dizer, coisa que ele até acreditaria se ela ainda não estivesse esfregando as mãos suadas na saia, devido ao nervosismo.
queria perguntar que novidade era que o idiota do iria falar, mas felizmente, ele não precisou, visto que alguém fez isso antes dele.
— Bem, acontece que eu não sei se vocês souberam, mas a ... — ele olhou novamente para ela e a viu fechar os olhos e fechar a mão em punho — Apresentou um ótimo trabalho de conclusão. Eu queria apenas parabenizá-la pela coragem de usar um tema tão delicado, que eu sei que a maioria de nós pensaria várias vezes antes de escolher algo do tipo — ele concluiu.
abriu os olhos e o encarou, confusa.
Algumas pessoas começaram a parabenizá-la também e ela agradeceu, meio sem jeito. Ainda esfregava as mãos na saia, quando sentiu algo tocar nelas.
Um lenço.
olhou confusa para ele.
Ele estava sendo… gentil? E mais, aquele não era o lenço que ele havia ganhado da avó uns anos atrás? Ela se perguntou, mas quando estava prestes a falar, já acompanhava o pequeno grupo que saía da sala.
se apressou para tentar alcançar e quando conseguiu, foi quando ele havia entrado no elevador. correu e entrou antes que as portas se fechassem e tentou recuperar o fôlego que havia faltado graças a pequena corrida que fizera.
— O que é isso? Vai me seguir agora? — perguntou, desconfiado, assim que as portas dos elevadores se fecharam, e então ele apertou o botão do estacionamento.
— Seu lenço, não precisava — ela estendeu o pedaço de tecido.
Ele olhou de soslaio e pegou-o de volta, colocando no bolso de trás da calça.
— É o mesmo daquela época? — ele assentiu. — Estou surpresa que você ainda o tenha. Você parece ter se livrado de tudo que lembrava o antigo você, depois da sua mudança.
— Mudança? — ele sorriu e se virou para encará-la — eu só mudei com você, como você mesma disse.
— Sim, você é um idiota comigo e com as garotas com quem você sai, suponho.
— O que posso fazer se não gosto de garotas grudentas?
— Sorte delas, então. Pelo menos, você mostra logo o que quer.
— É, eu não gosto de ficar enrolando. Eu já aprendi que isso não resolve nada, o melhor é dizer tudo na lata mesmo — ele respondeu e teve a impressão de que não era apenas às garotas que ele se referia, mas a ela também.
Contudo, ela ignorou e juntou coragem para engolir o orgulho e dizer o que ela julgou ser certo, no momento.
, eu… — ela fez uma pausa, sem saber como falar — Sobre hoje mais cedo… Obrigada.
Ele a olhou de cima a baixo, sem demonstrar nenhuma reação, como se não se importasse com o que ela estava dizendo.
— Você parecia nervosa e… não muito bem hoje — ele comentou. — Não que eu tenha me comovido pela sua condição, eu não disse nada apenas porque eu não quis. E que isso fique claro! — ele acrescentou, rapidamente.
— Ah, é… — ela olhou para baixo, achando aquela situação realmente estranha, levando em consideração que ela e estavam praticamente discutindo não fazia nem uma hora ainda. — De qualquer forma, obrigada.
olhou para frente e puxou seu celular do bolso, entregando para , sem nem olhar para ela.
— O quê…?
— Seu número.
— Hã? — ela o olhou sem entender.
— Nós estamos supostos a nos comunicar para fazer o trabalho final — ele explicou, como se fosse óbvio. — Ou você achava que eu ia enviar um email sempre que quisesse falar com você?
— Ah, tem razão — ela disse, distraída, estendendo o aparelho pouco depois, para que ele pegasse. — Aqui.
Contudo, quando se virou, acabou esbarrando na mão de , fazendo o aparelho escorregar e cair no chão, fazendo-o resmungar baixo, antes de se abaixar para pegá-lo. Ele se levantou, examinando o celular para ter certeza de que não tinha quebrado e quando viu que parecia tudo bem, ele voltou seu olhar para .
Porém, dessa vez, era ela quem se encontrava no chão, encolhida no canto do elevador com a cabeça apoiada nos joelhos, de modo que ele não conseguia ver bem o seu rosto, por causa do cabelo.
— Ei, — ele a sacudiu de leve, pelo ombro — .
Ela demorou um tempo para ter alguma reação, o que fez com que ele ficasse um pouco preocupado, mas antes que pudesse chamá-la novamente, ela levantou a cabeça, mostrando o rosto pálido e suado.
, eu… meu estômago...
— Você ‘tá enjoada? ‘Tá doendo? — ela assentiu. — Certo, você consegue se levantar, ? Vamos, eu te ajudo — ele disse, já colocando o braço dela em volta de seus ombros — Faltam só dois andares e chegamos no estacionamento. Eu vou te levar pro hospital, ok?
estava de olhos fechados, com a cabeça apoiada nele. Por mais que estivesse em pé, a segurava firme contra si, pois parecia que ela iria cair a qualquer momento.
Ela gemeu baixinho e colocou a mão no estômago outra vez.
… Eu não… consigo… ouvir... direito — ela disse, com esforço, pois cada palavra que saía parecia difícil de dizer, como se houvesse algo dificultando.
— O quê? , tente abrir os olhos — ele pediu e ela o fez, mas quase no mesmo instante ele a viu ficar assustada.
— Eu não… consigo ver… nada. — ela o chamou, com voz de choro, piscando rapidamente, sem conseguir enxergar.
, fica calma. Se você ficar nervosa, é pior, demora mais para passar. Vamos, respire fundo. O elevador já vai abrir, ok?
Ela assentiu com a cabeça e um instante depois, o som do elevador apitou pela última vez.
— Eu ‘tô com medo — ela disse, parecendo uma criança, enquanto ele a guiava até o local onde havia estacionado seu carro.
— Vai ficar tudo bem, . Eu acho que sua pressão caiu, mas vai ficar tudo bem — ele a consolou.
Quando, por fim, chegou aonde queria, puxou a chave do bolso e destravou o carro.
Mas quando ele estava prestes a colocá-la dentro do carro, sentiu o corpo de ficar mais pesado.
— Qual é, ?! Não morre, não, ok?! Vão achar que eu sou o culpado. Vamos lá, eu juro que não te encho mais o saco — ele brincou, em meio ao nervosismo.
Mas já não ouvia mais nada.


24. As Aparências Enganam

acordou antes de chegar ao hospital, alguns minutos depois, quando xingava o trânsito à sua frente.
— Ô, desgraça, sai da frente! Eu preciso levar alguém pro hospital! — ela o viu gritar para o motorista da frente, assim que abriu os olhos.
— O que você ‘tá fazendo, ? — ela perguntou, baixo.
— Você acordou? Como se sente?
— Sonolenta.
— E a dor?
— Não está mais tão forte. Parece suportável, de novo — ela respondeu, passando a mão pela barriga.
— Que bom. De qualquer forma, nós já estamos perto do hospital, eu só preciso sair desse sinal.
— Certo, — ela fechou os olhos novamente.
— Ei, . Acho que não é bom você dormir de novo, espera pelo menos a gente chegar no hospital e você ser examinada.
— Hm — ela fez que sim, ainda de olhos fechados.
colocou uma mão na testa dela.
— Você não tem febre. Acho que é um bom sinal — ele disse, voltando a dirigir alguns segundos depois, quando finalmente foi possível.

***


acompanhou na consulta médica, alguns minutos mais tarde, depois de terem chegado ao hospital e passado pela consulta com uma enfermeira, que a examinou, fez algumas perguntas e, ao final, entregou uma folha com as anotações para serem entregassem ao médico, logo que entrassem no consultório.
— Bom dia — o médico saudou, assim que entraram. — O que trazem vocês aqui?
— Ela está enjoada, com dor no estômago e tonta. Eu acho que ela teve uma queda de pressão, doutor e, além disso, ela desmaiou quando estávamos de saída para cá — disse, antes que pudesse pensar em abrir a boca.
— Ei! Eu acho que quem deve dizer o que sente é a paciente — reclamou.
— Eu só repeti o que você me disse — ele retrucou.
— Mesmo assim — insistiu e caminhou para sentar na cadeira em frente ao médico, entregando as anotações da enfermeira à ele.
— Certo, srta. . Como se sente? Você passou mal hoje pela primeira vez?
— Na verdade não, já faz alguns dias que estou me sentindo assim. Geralmente, eu acordo enjoada e não consigo comer nada de manhã cedo e às vezes sinto dor de estômago.
— E como anda o seu ciclo menstrual? — ele perguntou, de repente e olhou para , meio desconfortável pela presença dele ali em uma hora tão inoportuna.
desviou o olhar dela e passou a mão pelo pescoço.
— Ele atrasa às vezes — ela disse, sentindo as bochechas corarem.
Que coisa besta, ela pensou. Não é como se fosse a primeira vez que um médico estivesse perguntando isso a você.
E não era mesmo.
Mas era a primeira vez que um homem a acompanhava em uma consulta com um médico.
— Hm, e ele está atrasado agora? — ele quis saber.
— Sim, acho que amanhã faz duas semanas. Mas não é a primeira vez que acontece, meu ciclo é desregulado desde que eu era adolescente.
— Muito bem, eu quero que você faça um hemograma completo, incluindo o de beta HCG e daqui a dois dias, uma endoscopia para vermos se tem algo de errado com seu estômago.
— Beta HCG? — ela perguntou, achando que tinha ouvido mal.
— Sim — o médico confirmou e tossiu do lado, olhando para um ponto qualquer da sala.
— Eu não estou grávida, doutor. Meu ciclo é desregulado, é só isso.
— Bem, mas não fará mal confirmarmos — justificou. — São só exames de rotina, e se por algum acaso, der positivo, parabenizo desde já o casal — ele brincou.
— Ah, nós não somos um casal — negou rapidamente.
— Ah, é claro que não. Eu esqueci que os jovens de hoje em dia são mais liberais. Mas mesmo assim — ele sorriu.
— Não, doutor. Ele é só meu colega de trabalho que me trouxe até aqui porque eu passei mal — ela explicou.
O médico olhou para , que sorriu, confirmando com a cabeça.
— Ah, me desculpe, então — ele pediu. — De qualquer forma, eu aguardo a senhorita com os resultados dos exames daqui a alguns dias. Por enquanto, vou prescrever alguns medicamentos que vão aliviar seus sintomas. E eu recomendo que, ao menos por hoje, você deve ficar de repouso. Os sinais vitais mostram que você realmente teve uma queda de pressão, então quero que beba bastante água de agora em diante e não esqueça dos remédios.
— Tudo bem — ela sorriu, sem mostrar os dentes. — Obrigada, doutor — acrescentou, assim que recebeu a receita médica.

— Você não está mesmo grávida, está? — perguntou assim que eles saíram do hospital, logo após fazer o exame de sangue.
— Claro que não! — ela negou, veemente. — É só o meu ciclo, .
— Tudo bem, eu estou só comentando — ele levantou as mãos, em redenção.
— Não precisa comentar, porque já foi bastante constrangedor o fato de você ter estado lá.
— E o que é que tem? — bufou com a pergunta.
— Porque você é homem.
— O médico também é.
— Mas é diferente — ela retrucou.
— É nada.
— É sim!
— Isso é frescura, .
— Não é frescura! Você foi meu acompanhante, .
— E daí? — ele perguntou, como se não fosse nada.
— Eu nunca me consultei com um homem me acompanhando.
— Nunca? — ele perguntou. — Nem seu pai? — ela negou com a cabeça.
— Ele muito menos. E eu sei que você também ficou desconfortável, pode admitir.
— Admito. Não é todo dia que escuto uma mulher falar do seu período menstrual na minha frente, ainda mais você.
— E eu não costumo falar do meu período na frente de homens que não sejam médicos. Entendeu agora? É desconfortável pra mim também.
— Ainda assim, acho frescura — ele insistiu, só para irritá-la e saiu caminhando na frente.
o alcançou em meio a resmungos e a pequena discussão se estendeu até alguns minutos depois quando eles estavam de volta ao trânsito de Londres.

>***


— Esse não é o caminho para o trabalho — constatou, quando virou o carro a algumas quadras da revista.
— Eu sei que não é, mas eu não vou voltar lá ainda, não antes de comer — justificou. — E você precisa também, já que nosso horário de almoço só serviu pra te levar no hospital.
parou o carro no restaurante que costumava almoçar; bem, ela e mais outras pessoas que trabalhavam no mesmo local. Aparentemente, conhecia o restaurante também, embora não lembrasse de tê-lo visto por ali alguma vez.
Viu ele caminhar até os fundos, em uma mesa mais reservada e o acompanhou.
— Sr. , bom dia. Vai pedir o de sempre? — o garçom o cumprimentou. — Srta. , olá. E você, o que vai querer?
— Pra mim também, John.
Minutos depois, John trazia exatamente o mesmo prato para os dois que se encararam confusos.
— Ele errou seu pedido? — perguntou, assim que o garçom saiu e ele deu uma olhada no prato de — Fui eu que pedi o de sempre, será que ele entendeu que era o meu ‘‘de sempre’’ que você queria?
E o de sempre não se passava de nada mais, nada menos que macarrão acebolado com carne e batatas fritas e arroz, se chamava ‘‘moda da casa’’. Não era exatamente saudável, mas ele não ligava.
Entretanto, a única coisa que diferia o dele para o de , era o fato de que o arroz havia sido trocado por salada.
— Não, aparentemente você também gosta desse prato — ela respondeu. — E de arroz, o que eu prefiro trocar, obviamente. Mas você não acha esquisito, ? Você não sente arrepios? Porque eu acho assustador saber que temos algo em comum.
— Inclusive o sarcasmo, suponho.
— Acho que esse é o principal — ela disse, após engolir um pedaço de carne.
— Bem, tanto faz. Você quer que eu te deixe em casa depois daqui? — perguntou, de repente, lembrando-se do que o médico havia pedido.
— Não precisa, eu volto sozinha, ainda preciso pegar algumas coisas na revista.
— ‘Tá, você que sabe — ele voltou a comer.
Terminaram o almoço em silêncio e com uma pequena discussão ao final, quando insistiu em pagar a conta.
— Eu posso não ser seu amigo nem nada, , mas eu ainda tenhos meus princípios.
— Que princípios? Isso é machismo, .
— Não, isso é ser gentil. É cavalheirismo, geralmente as mulheres costumam gostar disso.
— Isso quando elas gostam do cara, ou quando são amigos.
— Nós somos colegas de trabalho, então dá pra relevar.

A primeira coisa que fez ao voltar para o trabalho foi pegar o celular na bolsa. Por sorte, não tinha marcado de almoçar com naquele dia, mas mesmo assim havia uma mensagem nova dela, assim como uma ligação perdida e outra que, segundo os registros do celular, havia sido atendida.
E na mensagem dizia: Você já está em casa? Está se sentindo melhor?
nem se deu ao trabalho de responder, iria ligar para , depois de sair do trabalho, quando entregasse o atestado médico.
Porém, não queria encarar naquele momento, ele faria perguntas e ela não estava com um pingo de vontade de responder. E por ironia do destino, Anne apareceu naquele instante.
— Por que você demorou a chegar? Aconteceu alguma coisa? — ela quis saber.
— Aconteceu — disse. — Naquela hora que eu saí para falar com o , eu acabei passando mal no elevador e ele me levou ao hospital, depois fomos almoçar.
— Oi? Pode repetir, por favor? — ela olhou para , não acreditando no que ouvia. — Eu escutei mesmo você, e almoço na mesma frase? E porque, diabos, você passou mal? Ainda é o estômago?
— Acho que sim. O médico passou alguns exames e eu vou fazer uma endoscopia daqui a dois dias, porque tenho que ficar em jejum para o exame. Vou retornar ao hospital quando eu tiver os resultados, mas hoje ele disse que era bom eu ficar em casa.
— E você provavelmente está odiando.
— Sim, mas eu não quero arriscar passar mal outra vez. Vou aproveitar enquanto ainda tenho o direito de fazer ao menos isso, já que as coisas estão mais tranquilas essa semana por aqui, até porque… Depois elas apertam — ela concluiu, com uma careta.
— E você vai trabalhar com o , de novo. Magnífico. Mas o que foi isso? E o que foi aquilo na sala de reuniões, aquele elogio repentino? Eu sei muito bem que ele é um idiota com você, então foi consideravelmente esquisito.
— Ele ainda é um babaca. Na verdade, ele queria falar sobre e , por causa do dia que apareceu aqui com ele, mas por algum motivo ele mudou de ideia. Também não entendi, mas agradeci mesmo assim.
Anne riu.
— Será que ele cansou da própria babaquice?
— Quem sabe. Mas agora eu preciso de um favor seu, Anne — ela pediu. — Eu não quero ter que ir entregar esse atestado ao , porque ele vai fazer perguntas e eu não ‘tô com vontade de ter alguém pegando no meu pé; tudo o que quero no momento, é dormir. E eu sei que não vou conseguir fazer isso enquanto não contar tudo o que aconteceu para , você sabe como ela é. Então, você pode ir entregar por mim? — ela tirou a folha dobrada ao meio.
— Ah, — Anne suspirou. — O que você não me pede chorando que eu não faço sorrindo? — dramatizou.
— Obrigada — sorriu. — Agora eu tenho que ir e, se você puder, evita mencionar o , okay? Não quero que faça perguntas sobre ele também.
— Certo.

— Ela passou mal? Como assim? O que houve? — praticamente bombardeou Anne com as perguntas.
— A pressão dela caiu, ela foi no hospital e o médico mandou ela ficar de repouso. Fim.
— Será que é o estômago de novo? — ele perguntou e Anne não soube dizer se a pergunta era para ela, ou para ele mesmo.
Mas de qualquer forma, ela respondeu.
— Ela acha que sim. O médico pediu uma endoscopia para ter certeza.
— Certo… É melhor mesmo que ela descanse. Ela não tem estado muito bem esses dias, mas preferia se medicar em casa em vez de ir logo no hospital.
— Ela já ‘tá bem, . Eu falei com ela há pouco, e ela me pediu para te entregar o documento porque queria ir logo embora e ainda tinha que conversar com a . Agora eu vou indo — ela disse e se virou para sair, mas parou lembrando de algo — Ah, . Antes que eu me esqueça; se você puder, não encha ela de perguntas, tudo bem?
Mas antes que ele respondesse, ela saiu.

Quando chegou em casa, no final da tarde, estava tudo em silêncio. havia ligado mais cedo e dito que ficaria com para que pudesse descansar por mais tempo e no dia seguinte o levaria de volta.
Caminhou até o quarto, que estava com a porta entreaberta, e entrou sem fazer barulho. estava deitada, de barriga para baixo, no meio da cama e o quarto estaria completamente escuro se não fosse a luz do banheiro acesa.
Olhou em volta e notou algumas roupas sujas caídas no chão, perto do cesto onde costumava colocá-las, e imaginou que ela provavelmente ela havia jogado e não acertado o cesto.
riu baixo e pegou as roupas para colocar as roupas no cesto. Ia apagar a luz do banheiro também e sair em seguida, porém quando foi fazer isso, viu uma caixa na pia do banheiro.
Estava vazia.
olhou a embalagem, antes de abrir o lixeiro do banheiro, em busca de seu conteúdo, mas estava praticamente vazio e não tinha nada lá.
E aquilo foi o bastante para irritá-lo.
Saiu do quarto, levando a embalagem consigo e se controlando para não ir lá e acordar a ex-namorada para enchê-la de perguntas.
Mas que ele estava profundamente irritado, isso era um fato.
Seria problema de estômago mesmo o que tinha? Ou ela estava mentindo mais uma vez? E ainda por cima quando eles estavam vivendo juntos! De qualquer forma, ela devia tê-lo avisado que iria ao menos fazer a droga do teste de gravidez, mesmo eles não estando mais juntos.
Sem contar que ele não sabia o resultado daquele teste, n tinha como saber a não ser que fosse por ela; ele desconfiava, entretanto. provavelmente iria enrolá-lo outra vez até contar sobre aquilo até quando fosse possível e lerdo como era, ele também não ia perceber nada.
Ia ser tudo assim, debaixo do nariz dele e depois ele teria um choque.
Que grande merda era aquilo.
E agora ele tinha que ficar ali esperando de boa, ou nem tão boa assim, vontade até ela acordar.
Ah, que Anne o desculpasse, mas ele iria sim enchê-la de perguntas.


25. Ajustes

achava que eventualmente ele iria abrir um buraco no chão, de tanto que havia andado para lá e para cá.
Já fazia quase duas horas que ele havia chegado em casa e ainda não tinha acordado.
Decidiu então ele mesmo ir ao quarto. Pisando forte no chão, ele deu alguns passos até parar de frente para a porta do quarto dela, mas a porta se abriu antes mesmo dele chegar a tocar na maçaneta.
apareceu, com os cabelos molhados, indicando que provavelmente teria tomado um banho ao acordar.
— Você está melhor?
— Hm? Sim.
— Anne entregou o que eu pedi?
— Entregou.
— Ok — ela respondeu e ia sair dali, se não fosse a mão de puxando-a pelo braço.
— Precisamos conversar.
— Sobre?
— Você.
— O que tem eu? — ela perguntou, enquanto caminhava até a cozinha.
a acompanhou.
— Acho que você esqueceu de me contar algo, não?
— Não que eu me lembre — ela disse, enquanto bebia um copo de água.
riu baixo, sentindo a irritação crescer mais uma vez dentro de si.
Foi até o sofá e pegou a caixinha do teste de gravidez.
— Você não lembra? Então, eu vou te ajudar a lembrar, — e colocou a caixinha em cima da bancada.
arregalou os olhos, surpresa.
— Você bisbilhotou o meu banheiro?
— Quando ia me contar sobre isso? — ele desconversou, ignorando a pergunta.
o encarou por um instante, lutando contra a vontade de revirar os olhos.
— Eu não ia — ela disse, simplesmente, guardando a garrafa de água na geladeira.
— Não ia? Como assim você não ia me contar, ? — ele quis saber.
— Porque eu não ia. Não era necessário.
— Se você desconfiou de uma gravidez, então é necessário sim. Não é como se você pudesse esconder isso novamente de mim, por anos, como você fez.
— Eu sei, eu não ia esconder, .
— E porque não me contou? Você estava esperando eu descobrir na surpresa mesmo, quando sua barriga estivesse aparecendo?
— Mas que merda você tá dizendo? , eu não-
— Eu só estou dizendo que eu não quero ficar no escuro de novo, e só descobrir sobre sua gravidez quando você sentir vontade de contar...
.
— Até porque da outra vez, você nem mesmo chegou a fazer isso, né? A teve que tramar tudo para que eu descobrisse porque você não tinha coragem. Sem contar que você não me deixa assumir você e para ninguém. Escute bem, , porque dessa vez eu vou- — Ah, meu Deus! , só cala a boca por um instante — ela o interrompeu, já sem paciência para aguentar toda aquela ladainha. — Me escute, você sabe porque eu não contei? Porque não foi necessário
. — Claro que era!
— Não!
— E porquê? Se eu sou o pai do bebê!
— Porque eu não estou grávida, seu idiota! Não existe bebê — ela gritou, fazendo-o calar-se. — O resultado deu negativo, e eu nem desconfiei de uma gravidez, a e a Anne que fizeram isso e me obrigaram a fazer o teste. Por mim mesma, eu nem teria feito, se você quer saber.
— Não está?
— Não.
ficou em silêncio, pensativo.
— Isso foi antes ou depois de nós terminarmos? — ele perguntou, um momento depois.
— Depois.
— Certo, então me responde uma coisa, . Se nós ainda estivéssemos namorando, você teria me dito sobre o teste?
— Não.
— E se tivesse dado positivo?
— Então, eu não teria escolha, infelizmente.
— Como assim, infelizmente?
— Porque moramos debaixo do mesmo teto, e você seria o pai. Sem contar que um filho agora iria atrapalhar na carreira que eu ainda nem tenho, mas que pretendo começar a fazer.
— Então, você quer dizer que seria um problema.
— O que eu quero dizer, , é que basicamente eu não quero ter outro filho.
— Por que não?
— Porque eu não quero, não tenho vontade. A única forma disso acontecer seria mesmo por acidente, coisa que é muito difícil de acontecer se depender de mim. O que penso agora é em cuidar de , que felizmente está maior agora, o que vai me permitir trabalhar por mais tempo, e construir uma carreira profissional. Não me entenda mal.
— Entender mal? É você mesma que está se referindo a um filho como um empecilho.
— Porque um filho nesse momento realmente seria um — ela disse entredentes, tentando conter a raiva que se formava por causa daquela discussão. — É fácil pra você reclamar quando já é estabilizado financeiramente e é um jornalista respeitado.
— Mas eu fui estudante um dia e sei como-
o interrompeu com uma gargalhada repleta de ironia.
— Por favor, , não me venha com aquele papo de ''sei como é'', porque você não sabe. Supondo que eu tenha lhe contado sobre a minha gravidez na época que você ia viajar... Supondo que eu tivesse ido junto, seria só nós dois e o bebê. Nós iríamos te atrapalhar também e você provavelmente não seria quem é hoje se isso houvesse acontecido.
— Nós teríamos dado um jeito, . Eu já disse isso — ele murmurou, baixo.
— Acontece que eu não queria isso, . As coisas só iam ficar mais complicadas pra gente e você sabe que, no fim, isso é verdade. Então, pode ter sido burrice da minha arte não ter te contado nada, mas eu acho que eu mesma preferi não me prender a ninguém mesmo, ainda mais você. Eu não quero ter que ficar com você por causa de e sim por mim mesma, por nós, mas isso também não estava dando certo — ela concluiu e percebeu que ela estava se referindo ao término deles.
— Eu só queria fazer o que era certo.
— Não, você queria fazer o que julga ser. Eu não posso impedir você de contar sobre para ninguém, até porque você indiretamente já fez isso, mas eu também não quero seguir esse modelo de família tradicional que você tem na cabeça. Não é porque temos um filho, que nós precisamos ser um casal de verdade. Já basta você ter conseguido me convencer, se é que pode ser chamado assim, de vir morar com você e aqui. Eu sinceramente sinto que todo o nosso envolvimento foi por causa dele. Na verdade, tenho certeza. Porque agora eu não sei mais de nada do que eu sinto em relação a você, porque é como se nosso término não tivesse feito diferença.
riu, irritado.
— Você tá dizendo que não me ama mais?
— Eu estou dizendo que me sinto confusa. Mas talvez seja isso, não sei. Na maioria das vezes, acho que não amo você como pensei que amasse e também acho que o mesmo acontece com você. Você acha que me ama, . Mas já parou pra pensar na nossa história? Como nos conhecemos, como chegamos a dormir juntos? Tudo parece apenas com tensão sexual entre duas pessoas que eram atraídas uma pela outra. Eu escolhi você para ser meu primeiro porque eu confiava em você, nós éramos amigos e eu me sentia atraída. Eu não sei quanto a você, mas visto a forma como você falou comigo, ou não falou, nos dias seguintes, não foi tão especial assim.
— É claro que foi, . Não diga isso — ele pediu. — Eu podia não te amar naquela época, mas eu gostava muito de você e sim, eu me vi atraído desde o dia em que te conheci, mas eu não gosto que fale de uma forma tão crua, como se tivesse sido algo irrelevante pra nós dois.
— Não foi irrelevante, . Claro que não. Até porque veio depois disso e eu não me arrependo nem por um segundo de ter o tido. Ele é importante, mas nossa relação de certa forma chega a ser. Talvez irrelevante não seja a palavra certa, está mais para uma confusão, tanto da minha parte quanto da sua. Você tem esse instinto de proteção e responsabilidade dentro de si que é enorme, e eu acho que nós dois deixamos que isso ditasse a nossa relação.
ficou calado.
Não sabia o que responder, pois o que dizia era, de alguma forma, irritantemente certa. A sua teoria, ou o que quer que fosse, fazia sentido.
— Certo. E o que você quer fazer depois de dizer tudo isso? — ele perguntou, depois de um tempo.
— Eu quero deixar as coisas como estão, acho que tanto eu quanto você precisamos de um tempo de nós mesmos. Então, eu acho que devemos nos concentrar em ser apenas os pais de , e não um casal.
— Tudo bem. Se é assim que você prefere. Não é como se eu fosse ou pudesse te obrigar a fazer algo — ele respondeu.
— Exatamente.
— Acho que chegamos a uma conclusão.
— É.
— É.

***


Se tinha certeza de algo, é que estava fazendo a coisa certa. Já fazia alguns dias desde que tivera aquela conversa com e as coisas pareciam estar indo bem.
Eles mantinham uma relação amigável, embora mal estivessem se falando. Por mais que tivesse concordado com aquilo, ela sabia que ele ainda tinha raiva por causa da história do teste de gravidez, afinal, toda vez que eles estavam sozinhos e se esbarravam pela casa, ele a encarava como se estivesse julgando-a, mesmo sem falar nada.
apenas ignorava, contanto que ele ficasse na dele. Achava engraçado também, de vez em quando; parecia uma criança que estava intrigada de um amigo que havia mentido para ele, o que não era bem o caso deles. podia ser o tal amiguinho, mas ela não tinha mentido sobre o teste, apenas omitido.
Era o corpo dela, era decisão dela.
Sem contar que só havia provado que tinha uma certa desconfiança para com ela e ainda guardava uma mágoa por causa da história de .
Ela não o culpava por isso, mas tampouco se arrependia do que havia feito. Não era como se ela e estivessem passando necessidades quando apareceu. No começo foi difícil porque não tinha muito dinheiro para se manter, ainda que quisesse ter a própria casa, mas depois do estágio remunerado que fazia na revista as coisas haviam melhorado consideravelmente. E ainda não tinha certeza, mas se conseguisse uma das vagas de emprego na revista, pretendia vender a antiga casa onde morava e tentar comprar uma menor, só para ela e , em um local mais seguro e próximo.
Claro que não iria aceitar aquilo, muito provavelmente, mas ela não sabia como estaria as coisas entre eles dali para frente. A única coisa que sabia que queria, era um emprego permanente que possibilitasse que ela e pudessem viver melhor.
Não que ela fosse recusar algo de nem nada, ele era o pai de , mas era só isso. Ele tinha obrigação com o filho e não com ela, tanto que umas das condições que ela impôs ao morar com ele, foi que dividissem as despesas de casa, algo que ele aceitou a muito contragosto, mas aceitou.
Mas para conseguir o emprego que ela tanto queria, ela ainda precisava trabalhar duro por isso.
havia mandado uma mensagem para ela, minutos antes, perguntando se poderiam se encontrar naquela tarde para começarem a se organizar. dissera que sim, até lembrar que deveria ir no hospital mostrar os exames ao médico, justamente naquela tarde.
“Não vai dar, . Lembrei que tenho que ir no hospital para o retorno no médico. Mas depois disso, estou livre. O que você sugere?”
“Você vai mostrar seus exames para ele?”
“Sim, por quê?”
“Acho que deve ser rápido. Vou com você e depois podemos ir para a biblioteca ou para o meu apartamento e começamos a trabalhar.”
“Nem morta que vou pro seu apartamento com você.”
“Acho que mortos não têm escolha. Então...”
“O quê?!”
“Me encontre no estacionamento às 14:00hs.”

Ótimo. Era só o que faltava, ela ter no seu pé, no hospital.
De novo.
Mas pelo lado bom, ao menos ela também teria carona.

— Que bom que você não está grávida — comentou no carro, depois de terem saído do hospital.
Claro que não, e agora ela tinha certeza disso. E não somente por causa do exame, pois havia recebido a velha visita mensal de todos os meses, mais uma vez.
E claro que continuava sendo esquisito e vergonhoso, o fato de ter estado lá na hora que ela falou para o médico. Ela não queria que ele entrasse no consultório com ela, mas o idiota insistiu e acabou fazendo a enfermeira convencê-la daquilo; a mulher havia dito que era errado desperdiçar toda aquela atenção de um homem.
Humph! Como se ela precisasse daquilo.
Ainda mais vindo de , que não tinha nenhuma relação senão a de trabalho com ela, mas infelizmente nem o médico ou a enfermeira pareciam acreditar naquilo. Ainda mais quando o próprio pareceu mais aliviado que ela, quando o médico dissera que o teste de beta HCG dera negativo.
— Não que seja novidade, — ela respondeu. — Eu disse que não estava, não sei porque todo esse seu interesse em mim.
— Não é interesse, . É curiosidade. Eu fiquei imaginando se você iria falar para as pessoas que seria o pai, ou se você ia esconder de novo.
— Isso não é da sua conta, . Por que você ainda insiste em voltar para esse assunto?
— Já disse, curiosidade. Eu infelizmente gosto de observar pessoas, mas me diga, . O não sabia de nada, não é? Eu posso até não ir muito com a cara dele, mas deu para perceber que ele é do tipo certinho, tradicional. Ele não abandonaria uma mulher grávida para que ela se virasse sozinha.
respirou fundo.
— Não, ele não faria isso.
— Então, porque você não contou? Por que você preferiu passar por tudo o que passou sozinha? — ele quis saber.
agora tinha um tom de voz sério, não mais provocando e com o olhar concentrado na estrada.
O sinal do trânsito ficou vermelho e só então olhou para ela.
— Quem te visse assim, , poderia jurar que você se importa — ela respondeu, com um sorriso irônico. — Cuidado com isso, as pessoas podem pensar errado.
— E se fosse assim, ? O que você faria? — ele disse, voltando a dirigir.
Mas permaneceu em silêncio.


26. Recordações

— Sobre o que você quer escrever? — perguntou, enquanto se sentava ao lado de no sofá, com o notebook no colo.
Haviam chegado há alguns minutos no apartamento dele — que ela insistiu que não queria ir, porém mais uma vez se deu por vencida. bebericou o copo de suco de laranja que havia lhe oferecido.
— Não tenho certeza. Você tem alguma sugestão?
— Que tal... Mulheres de sucesso? — ele disse, ainda olhando para a tela do computador, esperando os sites de pesquisa abrirem.
— Mulheres de sucesso? Você se refere a alguém específico? É bem surpreendente você vir com esse tema.
— Por quê? — ele perguntou, enquanto digitava.
— Quer mesmo que eu diga? — olhou para ela.
— Ah, claro, o machismo. Tudo bem, . Mas não deixa de ser um bom tema e é atual. Eu acho que seria legal a gente falar no geral, talvez citar algumas... Não sei. Emma Watson, talvez. Você gosta desse tema? Podíamos comparar com o machismo e bolar um debate fictício entre um homem e uma mulher.
— Hm... Eu concordo que o tema é bom. Mas eu não sei se sou muito confiante para esse tipo de coisa. O debate, eu digo.
— Ora, , vamos lá — ele a encorajou. — É como uma encenação, você já fez isso antes na faculdade. Todo mundo faz. Quem sabe você não conta a sua história?
— Minha história?
— Sim, sobre ser uma mãe solteira... Sobre o . Você mora com ele, não é?
— Eu... O quê?
— Vamos lá, . É verdade, não é? — ele indagou, sério.
, eu... Olhe, não quero que pense besteira. Eu não moro com ou me envolvi com ele por causa do trabalho. veio muito antes dele se tornar meu chefe, você sabe. Não é como se eu tivesse planejado tudo...
— Eu não sei porque, mas não gosto dessa história. — ele disse, franzindo o cenho. — E não estou jogando as coisas na sua cara, . Não dessa vez.
o encarou em silêncio, olhando-o bem nos olhos.
— Não acho que eu deva me encaixar nisso, não mesmo. Vou ter que dispensar, . Não é como se eu fosse uma mulher de sucesso, então eu acho melhor nós pensarmos em outra coisa.
— Mas você conseguiu ter independência e lidar com a faculdade, mesmo tendo um filho para criar. Eu sei que fui um filho da puta, , mas sei que você é uma boa mãe.
— Bem, obrigada, eu acho. No entanto, não acho que seria legal misturar a minha vida pessoal com a profissional.
— Tudo bem, desculpe. Deve ser desconfortável, podemos pensar em outra coisa, então.
— Aconteceram muitas coisas, … Esses últimos anos foram… bem, não importa. O que passou, passou e não dá mais para voltar atrás.
riu pelo nariz, olhando para nada em específico na tela do computador.
— É, tarde demais para voltar atrás…

chegou em casa cerca de duas horas depois e encontrou brincando com na sala assim que entrou no apartamento.
— Ah, oi — disse, assim que ela entrou. — Preciso mesmo falar com você.
— Claro — ela disse, enquanto tirava os sapatos.
— Vou precisar ficar uns dias fora. Tenho que ir em Nova York neste final de semana. Terá um evento importante segundo o Sr. M. e segundo ele, eu deveria ir.
— Ahn, certo. Vá. Boa sorte. Quando você viaja?
— Amanhã à noite.
— Vai viajar tão em cima? Já aprontou suas malas? Desde quando você ‘tá sabendo desse evento?
— Acho que desde a semana passada, ou é a semana retrasada? — ele disse e depois, confuso, perguntou a si mesmo.
— E você não fez as malas ainda?
— Eu coloquei umas coisas. Enfim… Eu precisava falar com você por causa de . Vou te deixar com meu carro, caso precise.
— Tudo bem. Eu vou tomar banho — e se dirigiu ao quarto.

***


Estranhamente, depois que viajou, sentiu que tinha voltado aos velhos tempos em que vivia sozinha com . A diferença era que agora ganhava um pouco melhor no trabalho, morava em um lugar melhor e mais seguro e estava com o carro de pelo final de semana inteiro.
Mas a rotina era a mesma.
Era noite e estava voltando para casa com após jantarem fora e irem no supermercado para fazer compras, em especial ingredientes para os biscoitos da semana.
— Mamãe, você vai chamar a tia amanhã?
— A tia não pode vir porque precisa ir provar o vestido dela de novo, . O casamento já é no próximo final de semana, lembra?
— Mas ela sempre prova esse vestido um monte de vez. Por que ela tem que ficar só vestindo isso?
— Porque ela quer que ele fique muito bonito nela. E para isso, a costureira precisa ver o tamanho e fazer um monte de correção até que fique perfeito.
— Ah — o garotinho assentiu, sem ter certeza se havia entendido direito. — Mamãe.
— Sim? — ela perguntou, acabando de estacionar o carro.
— Você e o papai vão se casar um dia? Porque vocês não são, né? A mãe da Lisa usa um anel no dedo. Eu perguntei uma vez pra minha professora e ela disse que você usava, mas você não tem um.
— Claro que tenho, . Mas não é de casamento. É de formatura — ela explicou. — Acho que é bem melhor do que de casamento, sabia? — ela cochichou no ouvido dele, fazendo-o rir.
— Mas porque você não casa com o papai? Você gosta dele, não gosta?
— Claro que gosto, . Mas as coisas são complicadas. Você gosta do seu pai também, não é? — ele assentiu. — E você quer casar com ele?
O garoto negou rapidamente com a cabeça, fazendo uma careta.
— Ele é meu pai, mãe! Só namorados se casam — justificou ele.
— Exatamente, . O seu pai é só um amigo da mamãe.
— Vocês não são mais namorados?
— Não, não somos.
— Por quê?
— Porque mesmo que você goste muito de uma pessoa, às vezes não dá certo ficar com ela dessa maneira, entende? Mamãe e papai são melhores sendo amigos do que namorados.
— E você vai se casar um dia com outra pessoa, mamãe? E o papai também?
— Talvez, . Mas se isso acontecer, vai demorar um pouquinho. talvez você seja um rapazinho quando isso acontecer. Mas porque está perguntando isso agora?
— Um menino na minha sala disse que tem dois pais e duas mães. Porque os pais de verdade dele se casaram com outras pessoas. Aí ele tem duas casas também, a do pai e a da mãe.
— E você acha isso legal?
— Acho.
riu.
— Tudo bem, então. Agora vamos que já ‘tá na hora de entrar — ela soltou o cinto de segurança dele no banco de trás.

Assim que conseguiu colocar para dormir, sentiu o celular vibrar no bolso do pijama que usava.
“O que acha de nos encontrarmos amanhã? Achei uns artigos legais e acho que seria bom discutirmos a respeito. Vou te enviar por email.”
.
“Não posso amanhã, . viajou e estou sozinha com em casa. E amanhã é sábado.”, ela respondeu na mesma hora.
“E daí? Pode trazer ele com você para cá. E qual o problema de amanhã ser sábado?”
“Amanhã é dia de biscoito. Eu e fazemos toda semana. Bem, eu faço e ele ajuda a sujar a cozinha, é claro.”
“Biscoitos? Só por causa disso? Que besteira, . Mas tudo bem. Já que é uma tradição e você não pode vir, então eu vou até aí. P.S. Não são os biscoitos que eu estou pensando que são, ou são? Se sim, se importa de ter mais um ajudante? Juro que me comporto. ;)”
riu ao ler aquela mensagem.
Havia se esquecido que também conhecia aqueles biscoitos.
Mas caramba, fazia tanto tempo! Como ele conseguiu lembrar disso?

28 de junho, 3 anos atrás...

— E você só mistura tudo de uma vez? — ele perguntou, vendo-a colocar todos os ingredientes ao mesmo tempo na tigela.
— É, . Você nunca fez biscoitos?
— Já, com minha avó, mas ela tinha várias etapas diferentes. Você só jogar tudo numa tigela e mistura.
— Talvez a receita dela seja diferente, mas você que concordar que essa é bem mais simples, huh?
— Realmente…
— Aqui, ponha mais um pouco de farinha — ela pediu, parando de mexer a primeira massa.
Haviam acabado de fazer o trabalho daquele semestre e havia prometido fazer biscoitos em comemoração, assim que terminassem.
— O que vai fazer com a massa branca? — ele perguntou, após fazer o que ela havia pedido.
— Eu, nada. Você vai, pode começar a mexer — ela disse.
— Não acho que seja uma boa ideia, . Eu não sou muito bom cozinhando.
— Acha mesmo, ? Não tem como você errar isso, vamos lá, misture logo a massa.
O garoto suspirou, passando a mão no rosto ainda sem os óculos de grau que usava. Mas estava okay, já que ele não precisava ler algo para fazer aquilo.
Era só misturar.
— Acho que não quer dar o ponto — ele disse, depois de algum tempo mexendo com uma colher de pau e vendo que a massa ainda estava grudenta.
— É só acrescentar farinha. É por isso que eu não sigo a receita ao pé da letra, quando você mistura tudo sempre precisa acrescentar alguma coisa a mais.
— E com quem você aprendeu isso? Sua mãe?
— Ah, não. Minha mãe não cozinha. Aprendi com minha tia, tia dela também. Ela adorava cozinhar e eu sempre gostei de aprender com ela enquanto era criança.
— Ah — ele assentiu, abaixando a cabeça novamente para mexer a massa e uma mecha de cabelo caiu em seu rosto. — Acho que agora vai dar certo, olha. Você vai adicionar gotas de chocolate? Ei! — reclamou, assim que sujou seu nariz e bochecha de farinha e riu, em seguida.
— Que bonitinho, . Você ‘tá parecendo uma criança agora. Realmente fofo, sabia?
— Ah, é? — ele fez menção de pegar o pacote de farinha, mas foi mais rápida e o afastou dele.
— Não! Tudo bem, . Eu tenho a impressão que se você pegar nesse pacote de farinha não vai acontecer algo muito legal, sabe? Tipo a minha roupa sendo suja e tal.
— Mas eu posso me sujar, não é? — ele perguntou com ironia.
— Você ‘tá em casa, é diferente. Não me encare assim, , eu tenho que sair na rua ainda — ela riu.
— Não estou fazendo nada — desconversou, voltando a mexer a massa.
pegou um lenço de papel em cima do balcão e o umedeceu com água.
— Aqui, me deixe limpar seu rosto, — ela pediu, virando o rosto dele para si.
Passou o lenço delicadamente pelas partes que havia sujado, limpando rapidamente enquanto ele apenas a observava calado. Quando acabou, repetiu o mesmo ato no cabelo dele quando finalizaram o trabalho, tirando a mecha insistente que teimava em cobrir-lhe os olhos.
— Você realmente precisa cortar seu cabelo, ele é muito teimoso, sabia? Mas é muito bonito, — ela o acariciou na nuca. — O que acha de trocar?
riu.
— O seu também é bonito, .
— Tudo bem, já entendi que você não quer trocar comigo — ela se virou, fingindo estar chateada e ele riu novamente.
— Acho que agora a massa tá ok, . Olhe.

encarou a mensagem por alguns instantes, ponderando sobre o responder, até que depois de alguns minutos enfim o fez.
“Promete? Se sim, aproveite e traga uma barra de chocolate junto, esqueci de comprar hoje.” ela enviou de volta.
“Feito.”
Tudo bem. Talvez fosse divertido.
Fazer biscoitos sempre era.


27. Uma Página Virada

sorriu de lado assim que abriu a porta. Segurava uma barra de chocolate meio amargo com as mãos, mas que logo se transformou em duas assim que ele mostrou a segunda escondida, abrindo como um leque.
No braço, tinha a pasta do notebook pendendo ali e, diferente dos outros dias — provavelmente porque era fim de semana —, ele não estava com o cabelo arrumado em um topete ou com roupas sociais como de costume. usava apenas uma bermuda jeans meio rasgada e uma camisa branca casual com as mangas enroladas até o cotovelo e, é claro, não pôde deixar de notar o par de tênis All Star preto que ele tinha nos pés.
Ele estava uma bagunça.
Isto é, se fosse para comparar com o habitual que ela via durante a semana inteira no trabalho. Aquele ali nem parecia o cara chato que a importunava sempre que podia.
pensou em fazer algum comentário perguntando o que diabos havia acontecido, mas apenas deu espaço para que ele entrasse, guardando o comentário para si mesma.
Conhecendo-o como conhecia, provavelmente teria uma resposta na ponta da língua, ou melhor, uma piada.
Então, preferiu evitar.

Assim que entrou no apartamento, observou ao redor depois de entregar as barras de chocolate para , que seguiu para a cozinha.
Foi quando notou pela primeira vez a presença de no local, já com as mãos suja de farinha, colocando aos poucos numa tigela. O garotinho levantou o olhar para ele e sorriu para ele, que o encarou por um instante antes de sorrir junto.
— Oi, .
— Oi, você é o colega da minha mãe?
— Sou sim, meu nome é . A sua mãe me deixou vir fazer biscoitos com vocês hoje.
trouxe chocolate para colocar nos biscoitos, disse, apontando para as barras de chocolate que tinha acabado de colocar lá.
Em um movimento silencioso, ela tocou o braço de e retirou a pasta do notebook que ainda pendia ali e a colocou no sofá.
— Você já fez biscoitos antes?
— Eu costumava fazer com minha avó quando era criança.
— Esse biscoitos são especiais, sabia?
— São mesmo? E por quê? — lançou um olhar para , prendendo um riso.
terminava de separar os ingredientes que iria utilizar e resolveu assistir em silêncio até onde aquela conversa iria.
— Porque são os biscoitos da minha mãe — o garotinho explicou, pacientemente. — São muito gostosos e a gente faz todo sábado, sabe? Eu gosto muito.
— Você tem razão. Eles são muito gostosos.
— Você já comeu deles? — o garoto o olhou surpreso.
— Claro, sua mãe fez pra mim uma vez.
— Fez? Ela só faz pra mim, mas o papai também come. Ele tentou fazer uma vez, mas não sai como os da mamãe.
— Você não tinha nascido ainda, eu estudava com a sua mãe, sabia?
— Você era um amigo da escola dela? Eu tenho uma amiguinha na escola também, mas ela é meio chata.
— Eu sei como é, eu também achava a sua mãe chata. Ela era muito mandona.
— Ei! — reclamou e os dois riram.
— Mas vamos lá, , você vai me ensinar a fazer os biscoitos?
— Vou! Primeiro a mamãe separa os ingredientes… e depois a gente junta tudo, aí é só enrolar.
— Puxa, só isso? Quando eu vi a sua mãe fazer pareceu ser mais difícil.
que estava juntando os ingredientes, assim que acabou entregou uma colher de pau para cada e, juntos, e mexeram a massa de chocolate enquanto ela cuidava da outra.

Os biscoitos tinham acabado de ir para o forno e enquanto terminava de lavar as mãos, pôde ouvir a conversa de com o filho a alguns metros de distância.
— Amor, o que acha de tomar um banho e depois assistir um pouco de TV enquanto a mamãe discute umas coisas do trabalho com o ?
— Só se você colocar Rei Leão — disse e riu baixo ao ver o garotinho negociando com a mãe.
— Rei leão de novo? Tudo bem, vamos tomar um banho, rapazinho.
Minutos mais tarde, ele a estavam sentados no escritório de , enquanto liam e discutiam alguns artigos encontrados.
O tempo passou consideravelmente rápido e já tinha tirado os biscoitos do forno para esfriarem e colocado uma outra fornada deles. Quanto a , o garoto havia adormecido pouco tempo depois do filme começar, o que contribuiu para que eles trabalhassem de forma mais tranquila, já que não tinha que ficar saindo hora ou outra para vê-lo.
— O que acha deste? Você acha que deveríamos falar de formas de violência ou algo do tipo que muitas mulheres sofrem antes de alcançarem o sucesso? Preconceito com gênero, idade… Até mesmo o fato de possuírem um cargo mais alto frente a outros homens…
— Eu tinha pensado nisso também, de usar como base para o artigo, talvez focar diretamente.
— Acho que todas as mulheres passam por isso em algum momento de suas vidas… — ela comentou distraída enquanto anotava algo em uma das folhas.
a encarou, sem que ela percebesse, lembrando de tudo o que havia dito a nos últimos anos.
Ele havia sido um filho da puta, é claro. Completamente infantil, babaca e todos os adjetivos ruins que pudessem se encaixar nele. Por mais que gostasse de trabalhar com , aquilo só aconteceu duas vezes, por coincidência, mas ele não esperava uma terceira vez.
Mas havia acontecido.
E agora ambos estavam diferentes. Não se tratava mais de um trabalho da faculdade para conseguir uma nota, era quase uma competição e sabia que queria muito conseguir uma vaga naquela empresa, embora achasse que ela seria capaz de conseguir uma em qualquer lugar que mandasse currículo, devido a sua competência e nível de responsabilidade.
não era a mesma garota que havia conhecido e se apaixonado anos atrás, nem ele era o nerd tímido e desleixado que costumava ser. A mudança havia sido por causa dela, é claro e teve seus prós e contras.
Para , especificamente, houve principalmente a parte dos contras.
não se orgulhava de ter sido um babaca e, por mais que dissesse a ela, tudo não se passava de uma fachada enorme que manteve com o passar dos anos. Achou que quando finalmente fossem estagiar, ele não a veria mais, porém acabaram indo para o mesmo local. E lá estavam ele dois novamente, trabalhando juntos.
De repente, suspirou se sentindo mal por tudo aquilo.
Lembrou de como viu agir com , de todo o cuidado que ela tinha com ele que demonstrava de longe que ela era uma boa mãe para seu bebê. Talvez não tivesse mudado tanto assim, apenas havia amadurecido mais rápido devido a maternidade prematura que tivera. Enquanto isso, ele sentia que ainda havia algo inacabado entre eles, talvez por conta de todas as discussões e, mesmo sem saber, todas as dúvidas que havia deixado nele.
passou a mãos no rosto e esfregou os olhos, sentindo as lentes de contato incomodarem um pouco.
— Está cansado? — perguntou.
Estavam há mais de uma hora ali dentro rodeados de papeis e a própria já se encontrada meio cansada de ler, então não duvidava que também estivesse.
Mas ele não respondeu imediatamente. Ao invés disso, lançou-lhe um olhar sério e cansado.
— Acho que estou cansado de muita coisa, — ele disse baixo e desviou o olhar para os papeis. — Principalmente de mim mesmo.
— O quê? Do que está falando, ? — ela sorriu, meio confusa, mas estava terrivelmente sério.
Ela não lembrava de tê-lo visto assim alguma vez.
— Eu… — ele parou, mordendo o lábio inferior, sem saber como realmente dizer aquilo. — , eu… sei que fui um idiota, mas eu só queria que você soubesse que eu não me orgulho disso.
— Você foi um idiota tantas vezes, , de quando exatamente você está falando?
— De todas elas. Desde quando tudo começou.
riu, sem acreditar no que ouvia.
— Isso é mais uma das suas brincadeiras? — ela perguntou, com um sorriso.
— Não, , não é. Eu não estou brincando dessa vez. Mas entendo que você não acredite nas minhas palavras. Ainda assim… sinto muito por tudo.
— ela o chamou, assim que o viu baixar o olhar mais uma vez. — O que está fazendo agora?
a encarou e sentiu os olhos arderem mais uma vez, pedindo por lubrificação, mas ele sequer piscou. Se levantou e se sentou ao lado de , no sofá que ela estava. o observou sem fazer um movimento sequer. pegou os papeis que ela tinha na mão e os depositou na mesa de centro que havia em frente para então, delicadamente segurar as mãos dela entre as suas.
, eu-
— Você não vai se declarar de novo, vai? Você sabe, é bem esquisito te ver assim, isso tudo já está esquisito demais.
riu, sinceramente.
— Acho incrível como você consegue estragar um clima, mas… não, eu não estou a fim de levar outro fora. Já deu para perceber que palavras não funcionam com você, contudo… Eu ainda tenho que falar. Desculpe por ter sido um babaca, você não merecia escutar todas as bobagens que eu te falei, nem naquela época nem agora e eu vou entender se você não quiser me perdoar e me afastar logo depois que a gente apresentar esse trabalho. Eu vou respeitar a sua decisão, .
abaixou a cabeça e olhou para o artigo que tinha acabado de ler, lembrando de uma frase interessante que havia visto.
— Eu vi uma frase interessante enquanto eu pesquisava, … “Observe como um homem trata as outras mulheres de sua vida. Se você é a única que ele trata bem, não significa que você é uma exceção e sim a próxima.” Interessante, não? Porque você faz exatamente o contrário disso, me trata mal, mas trata todos ao seu redor bem, independente de gênero. Eu não sei dizer se isso é uma coisa boa ou se você é realmente um filho da puta, sem ofensas para sua mãe, mas você me entendeu.
riu novamente, apertando as mãos dela.
— Isso significa que você me perdoa ou que só acha a situação interessante e eu continuo sendo um babaca e você continua me odiando?
— Eu nunca te odiei de verdade, . Só às vezes, quando você me fazia perder a paciência quando eu estava cansada. Então… Já que estamos colocando as cartas na mesa, eu acho que a gente pode e deve deixar isso para trás.
— Então… vamos começar do zero de novo? — ele quis saber.
negou com a cabeça.
— Não, vamos apenas virar essa página. Mas eu quero o nerdão de volta, ele sim era legal.
Ele sorriu.
— Acho que o nerdão ainda existe, só o desleixado que não, porque você sabe, uma garota deu uns conselhos pra ele e ele aprendeu a se arrumar direito para não afastar todas as garotas que havia por perto.
— Mas eu não me afastei, só quando você virou um babaca.
— É mesmo, não é? Você era minha única amiga naquela época — ele riu, pelo nariz.
subitamente lembrou-se de algo.
. Tem algo que eu quero dizer também. Quando você se declarou…
— Ah, não, . Faz muito tempo, não precisa trazer isso à tona novamente.
— Não, me escuta. Eu… não te dei um fora porque não te achava legal ou algo do tipo e, principalmente, não foi por conta do . Eu só vim me envolver com ele muitos meses depois.
— Então… a pessoa que você dizia…? — ele a encarou, confuso.
— O nome dele é Thomas, ex-namorado do colégio. Foi meu primeiro namorado, de anos e a família dele era amiga da minha, então nós meio que nos conhecemos desde sempre.
— E porque terminaram?
— Por causa da faculdade, ambos achamos que namoro a distância não era uma boa ideia, ainda mais na fase que estávamos acabando de entrar. Nós concordamos que tínhamos muito ainda para viver e conhecer, então… foi como uma espécie de acordo mútuo. Mas eu ainda o amei por muito tempo, até me apaixonar por , pouco antes de engravidar.
— Tudo bem — se encostou no sofá. — Me deixa só digerir o que você acabou de dizer porque eu não fazia ideia desse tal de Thomas no meio dessa história.
riu com vontade. A que ponto haviam chegado?
— Acho que os biscoitos já esfriaram, o que acha de fazer um lanche e deixar isso para um outro dia? Acho que já adiantamos muita coisa com esse material.
— Certo — ele disse e se levantou. — Quero mesmo ver se esse biscoitos melhoraram com o tempo — brincou.
— Você nunca tentou fazer sozinho?
Ele negou.
— Acho que fiquei com raiva demais e quis enterrar tudo o que me lembrava você. É claro que não deu muito certo, já que nos víamos frequentemente, mas…
— Entendo.
Ficaram se encarando por um tempo e coçou a nuca, sem jeito.
— Tudo bem, essa situação está bem esquisita agora.
— Concordo, eu quero o nerd de volta, mas ele pode deixar a timidez dele para trás. Fica meio difícil a comunicação quando o babaca não me perturba em nada, no sentido bom, é claro.
assentiu, com a cabeça e se levantou pronta para abrir a porta.
— ela se virou. — Se importa de eu te deixar desconfortável uma última vez?
— Huh? O que você-
— Como eu disse, parece que palavras não funcionam bem com você.
E antes de mais nada, ele a imprensou na porta.
sabia o que ele tinha em mente, mas não o fez imediatamente. acariciou seu rosto por alguns segundos e o observou de perto antes de, delicadamente, roçar seu nariz no dela. Naquele momento, suas respirações já se misturavam e , sentindo um frio na barriga, fechou os olhos e suspirou, tentando controlar a respiração que insistia em acelerar, devido a velocidade que seu coração batia.
sorriu um pouco ao ver aquela reação acontecer, percebendo que não estava sozinho no barco.
E então ele a beijou.


28. Um Duplo Tilintar

acabava de endireitar a gravata de seu smoking, quando seu celular vibrou com uma mensagem. Era David, um de seus colegas que também era jornalista e iria para o encontro com muitos outros. Estava esperando-o no hall do hotel onde estavam para então irem para o salão de eventos onde ocorreria o evento.
Minutos mais tarde, encontrou o amigo no salão, mais especificamente no bar do mesmo, tomando uma dose de whisky. David não perdeu tempo e pediu mais uma para assim que o viu se aproximar.
Ficaram jogando conversa fora durante algum tempo, enquanto os outros convidados chegavam, o evento era particular, organizado pelo antigo chefe de em Nova York e, até onde eles sabiam, haveria no máximo cinquenta pessoas no local.
Ele conhecia a maioria das pessoas ali, umas bem, outras só de nome… Mas não esperava ver uma delas, especificamente.
Era uma vez, um jovem jornalista inglês que atravessou o oceano até a cidade cidade que nunca dorme para perseguir seu sonho de se tornar um profissional de sucesso. Foi difícil, mas ele conseguiu e em bem menos tempo do que esperava. No meio do processo, ele conheceu uma mulher; doida, neurótica, porém adorável e divertida (quando não estava de TPM, é claro, que era quando a parte do doida e neurótica entrava), além de muito inteligente. Casos à parte, ela o pediu em casamento depois de apenas alguns meses de relacionamento e, na noite, ambos estavam bêbados, e acabara aceitando o pedido maluco, sabe-se lá o porquê, já que não era o tipo de pessoa que diria sim para algo assim de maneira tão impulsiva, mesmo bêbado.
Mas ele também não tinha motivos para dizer não. Angel era independente, responsável, tinha seu próprio trabalho mesmo vindo de uma família rica, coisa que admirava nela. Assim também como a sua ousadia, especialmente quando o pedira em casamento.
No entanto, não deu certo.
Talvez fosse insegurança da parte dele, talvez não a amasse o suficiente — e foi isso o que usou como desculpa para terminar seu relacionamento com ela —, ou talvez ele simplesmente não estivesse preparado. O que era irônico já que estava até algumas semanas atrás disposto a se casar com e oficializar a família que ela, e ele já eram. Mas tudo foi por água abaixo por conta das inseguranças dela e simplesmente perdeu a paciência; embora quisesse fazer o que achava certo, para não era algo realmente importante. Ela não queria que eles vivessem presos um ao outro por causa de e talvez até tivesse razão. gostava muito dela, a amava, mas então percebeu que também gostava muito da mulher que havia acabado de entrar no salão e, mesmo assim, terminou com ela. A grande diferença era que não tinha nenhum laço com ela, tal como tinha com , então talvez no fim das contas, fosse mesmo uma ilusão, que agora se desmanchava aos poucos, conforme os dias iam passando.
observou atentamente sua ex-noiva se movimentar pelo salão, provavelmente tentando encontrar alguém conhecido.
Angeline Reed, mais conhecida como Angel. Vinte e seis anos, loira morango, jornalista investigativa. E o mais importante, Angel odiava aquele tipo de evento, simplesmente porque achava uma perda de tempo, então por isso não a esperava vê-la ali. Fazia alguns meses desde que a tinha visto pessoalmente e durante esse tempo tudo o que soube a seu respeito era referente ao seu trabalho. Ao que parecia, Angeline havia conseguido uma pista de um cara que ela investigava há anos, mas só isso.
Após seu término com ela, não perdeu tempo em aceitar a proposta de emprego que havia recebido há algumas semanas antes e não perdeu tempo em voltar para sua tão amada Londres. Sentia falta da cidade e a oportunidade de comandar a Folks, uma das revistas de variedades mais populares da Inglaterra, veio no momento certo.
— Wow, chegou a rainha dos homicídios — David brincou assim que avistou a mulher. — Nunca pensei que embora tão doida, a Angel fosse tão inteligente.
— As aparências enganam, meu amigo — disse com um sorriso e bebeu o último gole de sua dose de whisky.
E como se tivesse escutado a voz de , Angeline virou o rosto em sua direção e o encontrou junto a David que assim que percebeu, levantou o copo para ela, cumprimentando-a de longe. Angel inclinou a cabeça para um lado, sorrindo, antes de se dirigir até onde estavam.
— Ora, ora… O que temos aqui. Um estrangeiro… e um palhaço — completou, olhando diretamente para David.
— O que é isso, Angel? Você sabe que eu te amo, não sabe?
— Ah, David, como sempre pegajoso… — ela disse, suspirando dramaticamente, fazendo ambos os homens rirem.
— Oi para você também, Angeline — disse, sorrindo. — Eu vi seu nome na lista de convidados, mas não pensei que fosse comparecer a essa reunião.
— Oh, acredite, Richard me convenceu; mas confesso que também foi empolgante ver seu nome na lista, . Talvez um estímulo a mais.
— Opa, acho que eu tô sobrando aqui, acho que é melhor eu ir cumprimentar alguns colegas — David disse, mas nenhum dos dois lhe deu atenção.
— E como você está? — quis saber. — Soube que conseguiu uma pista daquele assassino que você procura.
— Oh, sim. Maldito Eric, eu comuniquei aos detetives encarregados assim que soube, estamos a procura de mais, porém ao que tudo indica o cara se mudou para Londres, que é a mesma cidade que a última vítima dele mora há cerca de um ano sob o Programa de Proteção à Testemunha. Bem, talvez eu vá te fazer uma visita em breve, .
— Claro, espero que consiga pegá-lo, Angie — ele disse, casualmente e bebeu um gole de sua bebida.
— Wow. Faz tempo que não ouço esse apelido… — ela comentou, sorrindo.
— Que pena, é o meu favorito — ele devolveu o sorriso. — E o seu também.
— Parece que nos encontramos só para atrair lembranças, ? Espero que apenas boas, entretanto. A noite vai ser longa, ainda mais porque…
— Porque você odeia esses eventos, onde só tem gente chata fingindo que gostam umas das outras, quando em fato a realidade é outra.
— Jornalistas são hipócritas — ela constatou. — E os sensacionalistas são os piores. Às vezes, penso que o jornalismo se perde cada vez mais por causa dessa luta besta por vendas à base de tabloides.
— Tem razão, sempre falo para o meu pessoal procurar evitar esse tipo de matéria, mesmo em uma revista de variedades. Que venha a criatividade acima de tudo e as orações para conquistar o público e obter boas vendas.
— Fico feliz por isso. Você parece realizado, talvez eu me sinta assim quando ver o desgraçado daquele serial killer atrás das grades.
— Tenha cuidado, Angie — advertiu. — Investigue, mas se encontrar algo grande, não tente fazer nada sozinha para conseguir provas.
— Eu tenho uma boa equipe, . E você sabe que luto bem e sei me defender sozinha.
— Claro que sei, meu braço ainda doi vez ou outra, graças àquela vez que você o torceu — comentou, ironicamente, fazendo a mulher ri alto.
— Essa é definitivamente uma boa lembrança. Sinto muito, .

Angeline e passaram a maior parte do tempo conversando e inclusive sentaram na mesma mesa junto com David e mais um casal de jornalistas. Richard, o anfitrião do evento, fez um discurso no pequeno palco que havia ali, mas logo deu espaço para banda que havia contratado voltar a tocar músicas. No fim das contas, era apenas um jantar entre colegas e ex-colegas de trabalho, encontro entre amigos para alguns.
Reencontros para outros.
Como era o caso de e Angel.
— Você quer dançar? — ele a convidou, educadamente, depois de ver o casal que estava na mesa se levantar para fazer o mesmo.
— O quê? E eu? — perguntou David. — Vocês vão me deixar aqui sozinho?
— Aw, tadinho de você, Dave — ela disse e apertou sua bochecha. — A mamãe volta já, mas porque não vai atrás de alguma garota para dançar? Você já está na idade disso, se ainda não percebeu.
— Ela tem razão, Dave — comentou. — Quando vai nos apresentar uma namorada? Eu quero netos, sabia?
— Espere crescer, então, idiota — rebateu ele, descontraidamente.
— Vem logo, — Angel o puxou pelo braço. — Antes que a música acabe.
E assim eles foram.
Ficaram em silêncio por um tempo, até Angeline finalmente perguntar o que queria.
… é o seu filho, não é? — a encarou em silêncio, então ela continuou. — David me contou há algum tempo. Deve ter sido uma surpresa e tanto para você.
— É… foi sim — ele riu sem graça e abaixou a cabeça por um segundo, antes de encará-la novamente.
— Ele se parece com você, ?
— Praticamente minha miniatura.
— Sério? Você terá de me mostrar fotos, então. Só acredito vendo — ela disse e ele riu.
— Claro, tenho que ter as provas, certo?
— Exatamente — ela respondeu, com um sorriso. — E a mãe, deve ter sido difícil para ela também ter que te contar sobre ele depois de tanto tempo.
— Provavelmente, mas eu não soube por ela. Lembra da , a noiva do ?
— Noiva? Eles ainda não casaram? — ela perguntou, incrédula e ele riu.
— O casamento é semana que vem. Antes tarde do que nunca… Mas então, foi a que me contou, ou melhor, ela bolou um plano para que eu descobrisse. Tudo que precisei fazer foi ir até a casa de e acabei vendo pela primeira vez, no processo. No entanto, não é uma memória feliz, foram tempos difíceis, mas agora creio que as coisas estão bem melhores.
— Você estão juntos? — ela foi direta, fingindo indiferença.
— Não exatamente… nós moramos no mesmo apartamento por causa de . Ela não queria no início, mas eu queria ficar próximo dele e ter a oportunidade de conhecê-lo. Mas ela é meio cabeça-dura e só aceitou depois de um tempo e quando eu concordei que a deixaria arcar com as despesas junto a mim.
— Garota inteligente, eu faria o mesmo no lugar dela. Imagine só, depender de um homem… me dá até arrepios. Sem ofensas.
— Tudo bem. Acho que vocês, mulheres independentes se sentem mais confortáveis assim. Mas é isso, está com dois anos agora, é muito inteligente e está ficando um pestinha.
— Nem imagino a quem ele tenha puxado. Quando você volta para Londres? — ela quis saber.
A música acabou e eles resolveram voltar para a mesa, onde não havia nem sinal de David; talvez ele tivesse seguido o conselho que haviam dado, afinal.
— Em dois dias, resolvi aproveitar a deixa e tirar o final de semana de folga aqui.
— Você está hospedado neste hotel? — ele assentiu. — O que acha de sairmos amanhã, então? Eu queria te chamar para jantar algo decente, mas estou morrendo de vontade de comer pizza ultimamente e talvez curtir alguma boate. Faz tempo que tirei uma folga também, mas e então?
— Ousada como sempre. Você é sempre a primeira que chama os caras para sair, Angie?
— O que posso fazer se eles são lentos demais?
— Tem razão — ele sorriu. — Eu adoraria comer uma pizza enorme e curtia em alguma boate com você em prol dessa folga que tiramos.
— E fazer um brinde a este reencontro, nem que seja apenas com coca-cola. Até porque tenho certeza de que é melhor do que esse champanhe horrível que nos serviram aqui. O que as pessoas veem nessas bebidas chiques? — ela perguntou e não fez nada além de rir.
Quem a visse, nunca imaginaria que ela vinha de um família rica.
— Nem que seja só com coca, então.
— Tudo bem, mas já que não temos ela no momento, vamos usar esse troço agora — e entregou uma taça para ele, depois de pegar a sua própria. — Um brinde, . Ao nosso reencontro e também ao Richard por proporcioná-lo, mesmo sem saber.
Ele riu mais uma vez e tilintou sua taça junto a dela por um segundo.
— Um brinde, Angie.


29. Mussarela e Pepperoni

sorriu assim que viu que Angeline já na pizzaria, sentada com um copo gigante de coca-cola ao lado, e foi até a mesa. Angel estava distraída enquanto digitava avidamente algo em seu celular, tanto que só percebeu a presença de quando ele se sentou em frente a ela.
— Pensei que tivesse dito que estava de folga hoje.
— Eu não te vi chegar, desculpe. E sim, estou de folga, mas sabe como é... O trabalho ainda está lá. Mas prometo que serei toda sua hoje, portanto... — e desligou o celular, colocando-o dentro da bolsa.
riu.
Deveria imaginar que Angel ainda seria a mesma pessoa, afinal, só fazia alguns meses desde que haviam se separado, embora parecesse anos devido a tudo o que ele viveu em Londres.
— Você já pediu a pizza?
— Metade mussarela, metade pepperoni, acho que já deve estar chegando.
— Ótimo. Já pensou em que lugar iremos depois daqui?
— Que tal o D-Cave's? Não vou lá desde que você foi embora.
— Oh, o lugar onde você me pediu em casamento? — ele brincou.
Angeline fez uma careta.
— O lugar em que costumávamos ir sempre — ela corrigiu. — E eu estava bêbada também, ok? Eu nunca teria te pedido em casamento se não estivesse. Não daquele jeito, pelo menos...
— Ah, você ia preferir ser romântica e encher a nossa cama de pétalas de rosas e todos essas coisas do tipo? Às vezes, eu acho que você era o homem da nossa relação, Angel.
— Mas eu era. Você sempre foi muito lento, . Que culpa eu tenho de ter vênus em áries?
— Lá vem você com o papo de mapa astral de novo.
— Estou simplesmente relatando um fato. Ainda odeio ter que lidar com a sua lua em aquário — ela esnobou, olhando para a janela.
riu.
— Você me parece bem, Angel.
— Claro que estou, . O que esperava? Que eu ficasse na fossa de novo depois de te reencontrar pela primeira vez desde que terminou comigo? Eu só fiquei por umas duas semanas, se quer saber. O trabalho foi bem eficiente para me distrair na época.
Outch! Fico feliz em saber que você me superou tão rápido.
Angeline riu, brincando com o canudo do copo.
— Eu não te superei, realmente, . Se tivesse, provavelmente eu estaria em outro relacionamento agora, já que oportunidades não faltaram e, acredite, não estou me gabando.
— Não acho que esteja, Angeline. Você tem seus encantos — admitiu ele.

A pizza chegou vinte minutos depois, tempo longo o suficiente para que dissera estar faminto.
— Eles adivinharam que eu já ia reclamar ou o quê?
— Ei, você viu o tanto de gente que tem aqui? Já tinha um monte na nossa frente quando cheguei, por isso adiantei o pedido. Você continua tão impaciente quanto sempre, . Mas e então, você me falou do seu trabalho e eu do meu, mas ainda estou esperando a foto do que você disse que ia me mostrar. Não pense que eu esqueci, ouviu? — e apontou o indicador para ele.
abaixou a cabeça e sorriu para si mesmo, antes de voltar a encará-la.
Seria um prazer mostrar a foto de seu filho para ela e quem quisesse ver; se orgulhava muito de seu garoto.
— Você fala com tanta naturalidade… Quando descobriu?
— Acho que logo depois que você contou ao David. Eu fiquei surpresa, mas não é como se eu tivesse o direito de ficar com raiva ou algo do tipo. Você não sabia que tinha um filho e mesmo que soubesse, eu não iria me importar com isso, afinal ele teria vindo bem antes de mim, não é? Além disso, que culpa ele tem no meio dessa bagunça toda? O garoto é a pessoa mais inocente nessa história toda.
— É, tem razão. Fico feliz por isso, Angie… Digo, por você ver isso com naturalidade mesmo não estando mais comigo — ele disse a ela assentiu, apoiando o queixo na mão.
— Como reagiu quando soube que você era seu pai?
— Melhor do que eu esperava, acredite. Na primeira vez que o vi, fiquei com tanta raiva que tudo o que pude fazer foi gritar com porque, veja, eu sabia que ela tinha um filho e que era mãe solteira e na minha cabeça, o pai da criança era um completo filho da puta por ter deixado ela, mas… Aconteceu que esse filho da puta era eu e ela havia me dado várias dicas sobre isso, mas eu só as associei quando vi pessoalmente. Aqui — ele virou o celular para ela —, este é .
Angeline franziu o cenho, surpresa, e pegou o celular da mão dele.
— Isso é real? ! Ele é a sua cara, como isso é possível? — ela perguntou, fazendo-o rir. — Você também deve ter ficado chocado — ela riu.
— Completamente — ele a acompanhou. — E ele é muito esperto. Sério, foi o que mais me assustou, afinal, ele só tem dois anos, mas já consegue falar coisas como se fosse uma criança de quatro. Isso não é estranho? Tenho certeza que a esperteza ele herdou da mãe.
— E a ? Ela era sua amiga, não é? Parecia alguém especial para você.
— Ela é, nós tentamos algo juntos, mas não deu certo. Agora nós apenas dividimos o mesmo apartamento, como eu disse antes.
— E ? Não acha que talvez seja estranho para ele ver os pais juntos e depois separados?
— Acho que realmente não presta atenção nessas coisas. Talvez eu esteja errado ou sei lá, mas ele parece aceitar bem e não é como se e eu tivéssemos oficializado algo algumas vez ou coisa do tipo e tivéssemos dito a ele. No fim das contas, eu acho que ele apenas se acostumou comigo e me aceitou como pai. É claro, só há um problema entre nós dois…
— O quê? — ela perguntou, seriamente.
— Ele prefere o Homem de Ferro ao invés no Batman. Isso é quase uma tragédia! — ele dramatizou, fazendo-a rir.
— Isso porque a Marvel é melhor do que a DC Comics e até o seu filho de dois anos sabe disso melhor que você.

***


Era quase dez da noite quando Angel e entraram no D-Cave’s, um bar aconchegante e bem movimentado que costumavam ir quando ainda morava em Nova York.
— Vem, — ela o puxou pela mão, assim que entraram no recinto. — Joey não vai acreditar quando te ver aqui outra vez.
Angel o guiou até o bar, onde Joey Hall preparava os drinks especiais dos clientes. Era o dono do local, porém poucas pessoas sabiam já que aparentava estar ali apenas como um empregado como todos os outros.
— Dois Joey’s drinks aqui, por favor, senhor — ela bateu na mesa, com falsa autoridade, chamando atenção do homem que até então não havia os percebido ali.
— Ora, ora. O que temos aqui? Voltou para Nova York, ? Ou está apenas a passeio, ou será que foi outro motivo…? — ele olhou para Angel, sugestivamente.
— Nada disso, cara. Estou visitando, por conta do trabalho, você sabe. Acabei encontrando Angel no mesmo evento e combinamos de sair juntos hoje.
— Oh, que pena. E eu achando que vocês dois tinham voltado — ele fingiu tristeza. — Servi muitos drinks de morango e vodca para essa moça aqui depois que você foi embo-Ai! — ele reclamou, após receber o tapa da mulher.
— Segure a língua, Hall. Esse realmente não é o tipo de coisa que precisa ser compartilhada — ela reclamou e riu.
— Caramba, Angie, eu não imaginei que o estrago seria tão grande… — ele provocou. — , eu ainda faço Muay Thai, sabia? Caso você não se lembre — ela sorriu.
fez uma careta e pegou a bebida que Joey tinha acabado de colocar no balcão.
— Eu acho que também esqueci de como você era assustadora, Angie. Talvez esteja pior.
— Ei!
— Estou brincando — ele riu. — Na verdade, se formos comparar, acho que você amadureceu definitivamente um pouco mais, porque na minha mente, eu pensei que iria colocar em prática os seus golpes de Muay Thai assim que me visse novamente. Portanto, já é uma evolução.
— Obrigada, , mas tenho que admitir que a ideia passou pela minha cabeça. Mas eu decidi ser piedosa, ao invés de estragar seu lindo rostinho, seria um desperdício.
— Wah, o que é isso, Angie, uma declaração? Você ainda está sóbria, não está? O que tinha naquela coca-cola, afinal? — brincou ele.
— Completamente sóbria, . Mas é aquela coisa, você sabe que eu falo o que penso e coloco as cartas na mesa quando acho que devo. Não é como se eu fosse tentar te ter de volta nem nada do tipo, mas não posso negar que você ainda mexe comigo. Gostei de reencontrar você e achei que seria legal sairmos e nos divertimos juntos em nome dos velhos tempos, até porque, você sabe que antes de tudo nós éramos amigos.
“Wow”, foi o que pensou naquele momento. Sim, ele sabia de tudo isso, mas não esperava que Angeline fosse ser tão sincera e direta com ele. Até porque, ele sabia que a tinha magoado com o término do namoro, embora ela tivesse aceitado aquilo consideravelmente bem quando aconteceu, quase como se esperasse o acontecido.
— Então… você quer se divertir comigo?
— Quero me divertir com você.
— Tá legal… — ele sorriu de lado. — Devemos começar com uma dança, então? Essa música é legal…
— Tem certeza que quer mesmo começar com uma dança? — ela arqueou uma sobrancelha.
colocou o drink no balcão e se aproximou, para falar-lhe no ouvido.
— Eu não sei, não acha que vai ser muito estranho se eu te beijar agora? — ele perguntou, com a voz rouca, fazendo Angel se arrepiar. — Não queremos dar falsas esperanças ao Joey. Afinal, você disse que ele até seria nosso padrinho de casamento.
— Pare de enrolar, . Você sabe que eu odeio isso — ela disse, olhando-o nos olhos, mas tudo o que ele fez foi rir, adorando deixá-la impaciente.
— Acho que gosto mais quando você toma a iniciativa. Você fica sexy e confiante — ele sussurrou e mordiscou o lóbulo dela levemente.
— Como quiser, — ela disse assim que ele se afastou, antes de puxar seu rosto de encontro ao dela e juntar suas bocas em um beijo, sem mais rodeios.
Automaticamente, as mãos de se dividiram para tocar a cintura e o rosto dela, trazendo-a mais para perto e moldando melhor suas bocas.
Do outro lado do balcão, Joey sorriu com a cena e sacou o celular do bolso para registrar aquele momento. Voltando ou não, aquele casal não haveria como negar aquela noite, mesmo que fosse só diversão.
E então, ele voltou ao trabalho.
Angie se afastou de , ofegante, devido a falta de ar. Contudo, continuou a provocar-lhe espalhando pequenos beijos pelo seu rosto, fazendo-a sorrir quase relaxada.
— Rápido demais, não? — ele perguntou no ouvido dela e a viu assentir.
— Acho que agora podemos ir dançar um pouco — ela disse e assim eles foram.
No entanto, aquele não foi o único beijo que surgiu entre eles naquela noite. Dançaram algumas músicas juntos e entre uma e outra, lá estavam suas bocas mais uma vez grudadas, como se fossem imãs.
Mas só foi por volta de meia-noite que os dois deixaram o local e seguiram até o hotel que estava, indo rapidamente ao elevador que, por sorte, estava vazio. Pareciam um casal normal e comportado voltando para o hotel, não deixando transparecer o efeito do álcool que estava em seus sangues.
Porém, isso durou até as portas do elevador se fecharem, quando rapidamente atacou a ex-namorada com mais um beijo, dando-lhe impulso para que colocasse as pernas em volta de sua cintura e espalhando beijos pela pele pálida de seu pescoço, onde provavelmente haveria algumas marcas no dia seguinte.
Foi só quando as portas do elevador se abriram novamente, que colocou Angel de volta ao chão. E em meio a beijos e tropeços, eles chegaram até o quarto, não perdendo mais tempo e indo diretamente para a enorme cama que os aguardava ali.
E aproveitaram o resto da noite.

se espreguiçou na cama antes de, por fim, abrir os olhos e encontrar uma Angeline já vestida, mexendo em algo dentro de sua bolsa.
— Sua raposa — ela a acusou, em um tom brincalhão.
Angie o olhou sobre o ombro, antes de virar novamente a cabeça e terminar de fechar sua bolsa.
— Eu tava de folga ontem, . Mas acabei me atrasando um pouco por sua causa...
— Quem trabalha num domingo? — ele reclamou. — Por que não volta e dorme mais um pouco, Angie?
— Tentador, mas terei que recusar. Acabei de checar meu celular e recebi uma mensagem sobre uma nova pista a respeito do Eric — ela disse e caminhou até ele, que já estava sentado na cama. — Tenho que ir, , mas se quer saber... Talvez eu vá te fazer uma visitinha em Londres daqui a alguns dias. Afinal, a pista me leva até lá — e depositou-lhe um beijo no rosto, antes de se afastar.
— Isso se o seu trabalho não fizer você não se esquecer de mim antes — ele brincou e ela arqueou uma sobrancelha.
— Acredite, , vou lembrar de você pelos próximos dias, querendo ou não — ela disse e ele a encarou confuso.
Angeline então colocou o cabelo para trás, mostrando as marcas que ele havia deixado na noite anterior.
— Desculpe, Angie. Eu sei que você odeia isso.
— Tudo bem, nada que uma boa maquiagem não resolva — ela deu de ombros e colocou a bolsa no ombro. — Estou indo agora, . Foi legal me divertir com você.
— Idem, senhorita — ele piscou em uma pose galante, fazendo-a rir.
— Volte a dormir, ainda está cedo. Até algum dia, .
— Até logo, Angie — ele corrigiu, sabendo que a veria de novo, logo em breve.
E quando ela foi embora, voltou a dormir, sentindo-se completamente relaxado pela primeira vez em semanas.


30. Ah, o inesperado...

deixou os últimos arquivos que precisava copiando para um pen drive e foi tomar banho. A apresentação seria no dia seguinte e ela queria ter certeza de que não esqueceria de nada, então resolveu copiar tudo com antecedência assim que lembrou.
Embora, talvez a ansiedade que tinha contribuísse para tanto. Estava nervosa e com muito medo de falhar já que era sua última chance de permanecer na revista, com um emprego fixo.
Enrolou-se em uma toalha assim que acabou o banho e foi até a cozinha preparar algo para comer. Havia passado um tempo com naquela tarde, trabalhando nos últimos detalhes pendentes do artigo e fazia pouco tempo que tinha chegado em casa, porém logo teria que sair novamente. estava na casa de , como sempre já que sua amiga insistia em não lhe deixar pagar uma babá, e ainda estava trabalhando. Preparou um sanduíche rápido, mas quando estavas prestes a mordê-lo, assustou-se com o barulho repentino da porta. Virou-se e encontrou a encarando com um olhar arteiro.
— Parece que cheguei na hora certa, huh? — ele brincou, olhando-a de cima a baixo.
— Achei que fosse chegar mais tarde. Eu… vou trocar de roupa — ela disse, pronta para sair dali.
— Bem, não é como se tivesse algo que eu já não vi — resmungou.
— Verdade, besteira minha, não é? — ela respondeu irônica e foi até a bancada e sentou-se, pronta para comer. — Você quer? — ofereceu do sanduíche, mas ele balançou a cabeça.
— Não estou com fome — disse e ela deu de ombros. — Vou tomar banho — e saiu.
Já fazia algumas semanas desde que havia voltado de Nova York, e percebeu que havia algo diferente nele. Nada demais, é calmo, ela também havia mudado um pouco desde o término deles e apenas sentiu que … Bem, talvez ele estivesse lidando melhor com aquilo do que antes já que não a atacava com piadinhas sem graça ou coisas do tipo. Ele era apenas… ele. Como quando era seu amigo, anos atrás. Eles estavam se dando bem, sem discutir como antes e talvez fosse porque ambos haviam percebido que não valia a pena.
Mas uma coisa que ela achava que nunca mudaria nele era o ciúmes.
Ah, que chato…
a olhava desconfiado toda vez que a via com . Muito provavelmente porque não gostava dele, e com razão, mas agora e ela se davam bem e eram amigos como no passado, antes dele virar um babaca.
E por falar em babaca, ela tinha que dizer que estava no momento se saindo como um completo cavalheiro. Ela não o reconhecia.
Agora ele era um homem que ela respeitava e que a respeitava.
Desde a última vez que haviam se beijado, ele havia prometido que seria a última vez, como uma despedida. E estava cumprido com a promessa.
não podia dizer, no entanto, se ela satisfeita com aquilo ou não.
a evitava nesse sentido o máximo que podia, se esforçando para que a relação dos dois não cruzasse a linha da amizade. Não era como se tivesse faltado oportunidades para que os dois se aproximassem, pelo contrário, eles passavam muito tempo sozinhos trabalhando juntos, às vezes quando resolviam dar uma pausa saíam para comer e conversavam bastante.
Talvez eles tivessem mais próximos, afinal.
Só não romanticamente.

No dia seguinte, chegou cedo no trabalho e meia hora antes estava na sala onde ela e apresentariam seu trabalho. As apresentações começariam a partir das nove horas, e ela não queria correr risco de se atrasar ou de esquecer alguma coisa. Então, aproveitou aquele tempo para revisar sua apresentação.
chegou dez minutos depois e a encontrou entretida nas próprias anotações.
— Ei — chamou. — Está tão nervosa assim? Você vai se sair bem, .
Sentou-se ao lado dela e pôs uma das mãos em seu ombro.
— Obrigada, mas é inevitável. Sempre fico nervosa quando tem algo importante para apresentar.
— Nós ensaiamos dezenas de vezes, vai ser legal, você vai ver — garantiu ele.

E tal como disse, aconteceu.
A apresentação havia sido impecável, exatamente da mesma forma como haviam planejado e ensaiado, mas eles não haviam sido os únicos. A apresentação de outras duas duplas também haviam sido perfeitas, entre elas estava a de Anne, mas não se surpreendia. Anne era ótima com apresentações, seja um simples seminário ou um trabalho sério como aquele, se ela ficava nervosa, nunca deixava que aquilo lhe abalasse.
sabia que ela era uma grande candidata desde o início e se uma das vagas fosse dela, não podia deixar de ficar feliz pela amiga.
Assim que as apresentações terminaram, os jurados pediram um tempo para fazer as devidas avaliações e, por fim, decidirem o resultado final.
— Não acho que eu já conseguir, murmurou, assim que saíram.
— Ei, porque não? Você foi ótima, . Nem parecia que estava nervosa — ele garantiu. — Não sofra com antecedência. Não sabemos os resultados ainda.
Ela suspirou.
— Você está certo.
— Vem cá — a puxou para um abraço. — O que acha de irmos comer alguma coisa agora?
— Se eu comer agora, eu não almoço.
— Então, vamos comer algo que seja suficientemente gostoso a ponto de servir como almoço. Por minha conta — sorriu.
— Certo, mas não vamos demorar muito.
— Sim, senhora.

levou a um restaurante de comida árabe que ficava a alguns quarteirões de distância. Um pouco longe se fossem caminhando, mas como estavam de carro, logo chegaram lá.
— Um restaurante árabe? Você já veio aqui?
— Já sim, é muito bom. Tenho certeza que você vai gostar também.
Logo que acharam uma mesa livre, se sentaram e um garçom lhes deu os cardápios do local.
— Tem muita coisa aqui que parece lanche — comentou enquanto lia.
— Sim, mas que na verdade é uma refeição. Vai por mim, as porções são enormes, às vezes mal aguento e olha que eu como muito.
— Hmm… O que você recomenda, então? — perguntou, incerta sobre o que escolher, resolvendo deixar essa parte para ele.
— Esse sanduíche aqui — ele apontou. — É feito com carne assada, você pode escolher o tipo, salada, molho, queijo… e o pão, é claro. Mas ele é bem fino, não é como os pães de hambúrguer.
— Então é recheio com pão, ao invés de pão com recheio? — ela brincou.
— Tipo isso — ele sorriu.
— Tudo bem, então. Eu quero o meu com carne suína, mas sem queijo.
Minutos mais tarde, aguardava a reação de ao morder o sanduíche.
— E aí? — perguntou, ansioso.
balançou a cabeça, como se estivesse ponderando sobre o gosto.
— É bom. Eu gostei.
— Nossa. Eu esperava uma reação mais animada, sinceramente — ele resmungou, depois mordeu o próprio sanduíche.
— Eu não sou muito boa com reações, não sou muito expressiva. Às vezes, posso estar sem nenhuma expressão no rosto, mas gritando por dentro.
— E isso acontece muito? — ela confirmou. — Em que situações?
— Em quase tudo.
— Uuuh… — ele disse e desviou o olhar novamente para a comida.
— O quê?
— Hm? — ele olhou para ela.
— O que esse “uuuh” significa? — ela quis saber.
— Hm, não significa nada. Eu ia fazer um comentário, mas achei melhor não.
— Por quê?
— Porque faz parte dos comentários desnecessários que eu fazia antes, e eu te prometi que não ia mais fazer nada do tipo.
— Você disse que não ia me beijar, não que ia evitar fazer comentários.
— Então, sente falta deles?
— Não falta, eu ainda odeio aqueles comentários horríveis que você fazia para me irritar, mas os brincalhões são suportáveis.
— Ahh… suportáveis, é? — ele riu. — Ainda assim, se eu disser o que quero dizer, isso vai me fazer pensar… e lembrar — e encarou a boca dela, um segundo antes de voltar a falar. — E estou me esforçando para que isso não aconteça.
— Porque você fez uma promessa.
— Exatamente.
E aquela era uma das vezes que mantinha uma expressão neutra por fora, mas por dentro tinha uma luta interna consigo mesma. Deveria estar feliz por ele estar cumprindo a promessa, mas não estava. Às vezes se pegava pensando em como teria sido se ela nunca tivesse conhecido e ao invés de se envolver com ele, ela tivesse se envolvido pelo nerd que havia se declarado para ela.
Não que ela tivesse arrependimentos. Mas esse era um daqueles tipos de pensamentos que sempre surgiam aleatoriamente.
“E se eu não tivesse comido aquela comida apimentada? Eu provavelmente não teria tido uma crise de gastrite…”
“E se ao invés de ter me envolvido com mais alguém, eu tivesse permanecido com Thomas?”
Se ela estivesse com Thomas, bem… provavelmente seus pais ainda a considerariam como sua filha. Mas ela não tinha notícias de casa, ou mandava notícias desde o dia em que fora expulsa e tivera que lidar com tudo por conta própria.
Felizmente, havia Claire.
Nunca conseguiria expressar tamanha a gratidão que sentia por sua tia, disso tinha certeza.
Uma hora mais tarde, e voltaram para a sala de apresentações. Os jurados haviam decidido, afinal e já era hora deles saberem. Originalmente, haviam três jurados durante as apresentações, sendo e o senhor McComick um deles. Mas quando voltaram, havia uma outras pessoa. Uma mulher, loira e alta se encontrava junto à mesa de jurados. tinha a impressão de que a conhecia de algum lugar, mas não se lembrava de onde.
— Wow, o que Angeline Reed está fazendo aqui? — comentou ao seu lado.
— Angeline Reed? — perguntou. É claro! Sabia que a conhecia de algum lugar. Era a jornalista investigativa que estava envolvida no caso de Aria, procurando pistas sobre o agressor há mais de um ano.
— Será que ela é jurada também? Algum tipo de jurada surpresa? — perguntou. — Não fomos avisados, fomos? Eu me lembraria disso.
— Não, não fomos. Mas acho que sim.
Felizmente, não precisaram pensar muito sobre aquilo já que o próprio McCormick confirmou minutos depois.
— Então, meus caros. Infelizmente, a srta. Reed não pôde comparecer às apresentações devido ao atraso de seu vôo, porém seu voto será decisório quanto ao resultado final dos escolhidos. Quanto a nós, que assistimos às apresentações, escolhemos duas duplas como as melhores não somente por causa das apresentações em si, mas pelas temáticas as quais escolheram falar, que consideramos realmente muito interessantes, ainda mais na atualidade — explicou ele.
Logo, foi a vez de falar.
— A srta. Reed aqui presente foi convidada para avaliar todos os artigos escritos aos quais vocês nos enviaram. Contudo, como forma de avaliação mais justa, os artigos foram enviados sem os nomes dos participantes. Dessa forma, ela já havia votado antes mesmo de descobrir quem de vocês os escreveu. Agora, quero convidar para que venham a frente, , , Anne e Mackenzie — ele pediu. — Seus trabalhos foram escolhidos como os melhores. Parabéns.
O som de palmas ecoou na sala. começou a suar frio, mais uma vez.
— Iremos anunciar os dois escolhidos agora — Sr. Miller, o terceiro jurado, falou. — Queremos dar os parabéns para Anne… e . Em termos de apresentação, consideramos os dois com a melhor postura. Então, sejam bem-vindos a-
— Com licença, senhor — o interrompeu.
— Sim, sr. ?
— Será que posso dar minha vaga para a srta. ? Sinceramente, ela merece bem mais que eu.
! — arregalou os olhos e o puxou pelo braço, mas ele apenas a ignorou.
— Senhor? — perguntou.
— Ora, ora… O que temos aqui — a srta. Reed falou, chamando a atenção de todos para si. — Muito considerado de sua parte, sr. , mas creio que não será necessário. Acho que todos aqui já devem ter ouvido o rumor de uma terceira vaga, certo? Bem, o Sr. Miller estará deixando a revista em breve e se juntar ao time de golf do sr. McComick nos finais de semana — disse, fazendo-os rir. — O que quero dizer é que houve sim uma nova vaga e um terceiro jornalista escolhido. Meu voto foi dado a um dos trabalhos, antes mesmo de saber a quem ele pertencia, então imagine que coincidência incrível, Sr. … pois a srta. foi a escolhida. Meus parabéns, .
Mas que porra… se perguntou internamente, enquanto por fora se mantinha paralisada sem saber o que fazer. Mas logo voltou a si, quando Anne pulou em seus braços, parabenizando-a.
— Eu sabia que você ia conseguir!
— Então, senhoras e senhores, creio que estamos terminados — anunciou. — Parabéns Anne, e . E uma salva de palmas para o sr. Miller, desejamos boa sorte em sua nova vida e ao time de golf, é claro — brincou. — Quanto ao três escolhidos, depois faremos uma reunião para decidirmos para qual área vocês serão designados.
— Obrigado — os três disseram.
Minutos depois a sala estava quase que completamente vazia, com exceção de e Angeline, que havia ficado para trás.
— Parece que e tal é mesmo boa. Bem, ela e o , o trabalho estava realmente bom — ela comentou. — Mas eu sou suspeita… já que é um tema que me atrai.
— Bem, de qualquer forma, você foi justa. Mesmo sem saber — ele riu.
— Eu acho que você me mandou tudo isso, já sabendo que eu ficaria tentada a esse tema. Mas ainda sou exigente — garantiu.
— Claro que é. Obrigado por participar, Angie. Deve estar cansada do vôo…
— Cansada… sim. Mas estou com mais fome do que cansaço. O que acha de irmos almoçar juntos? Não conheço Londres muito bem, mas vou ter que me acostumar aqui de agora em diante. Então, estou te nomeando oficialmente meu guia turístico — disse e ele riu.
— Vamos comer logo, eu acho que você não ‘tá pensando direito… — disse e levou um tapa. — Ai! Certo, certo… Eu prometo que te arrumo um folheto informativo...

— Não precisava ter feito aquilo. Você é doido?! — perguntou, empurrando a testa de .
— Ai! Por que está brava? — perguntou e terminou de beber água, jogando o copo descartável no lixo, em seguida.
estava tão nervosa antes do resultado e depois em choque após o resultado que achou melhor levá-la para tomar um pouco de água para que se acalmasse.
— Porque não tinha necessidade daquilo, porque se você foi escolhido é porque mereceu e tem capacidade mais que suficiente para o cargo — ela disse, jogando o próprio copo fora também.
— Bem, nós dois temos, então. E mesmo que você ainda esteja zangada… — a puxou para um abraço apertado. — Meus parabéns, .
o abraçou de volta, sentindo uma súbita vontade de chorar.
— Obrigada. Parabéns para você também, . Metade do crédito é seu, ou talvez mais da metade, já que foi você que sugeriu o tema... — ela disse com a voz abafada pelo abraço e ele deu um risinho, antes de se afastar e beijar sua testa.
o encarou nos olhos por um instante e lembrou-se de algo, de repente.
— Você tem descendência asiática, ?
— O quê? Que pergunta aleatória… por um segundo achei que você fosse me beijar — brincou, sem pensar. — Ah, quer dizer… Eu-
Mas interrompeu os lábios dele com os seus próprios em um beijo simples e curto, mas que o deixou desconcertado.
— O que você estava dizendo? — ela perguntou, fazendo-se de inocente.
— Minha mãe é uma coreana que se casou com um inglês, daí vem meu sobrenome.
— Sempre quis perguntar isso — e tornou a beijá-lo.




Continua...



Nota da autora: (09.10.2017) Olaaaaaaaaaaaaaaar~ Há quanto tempo, não? Desculpem a demora, muita coisa aconteceu nesses últimos meses TT Mas cá estou eu~ null cumpriu com a promessa dele~ A que agora não facilita HAHA. Sobre a Angel... como essa história é interligada com outra, a da Aria, então ela estará em Londres também por causa do tal psicopata (que vocês só irão entender na outra história haha). Mas enfim~ O que acharam? Comentem aqui ?? XxAlly





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