Última atualização: 08/10/2019

25. Ajustes

achava que eventualmente ele iria abrir um buraco no chão, de tanto que havia andado para lá e para cá.
Já fazia quase duas horas que ele havia chegado em casa e ainda não tinha acordado.
Decidiu então ele mesmo ir ao quarto. Pisando forte no chão, ele deu alguns passos até parar de frente para a porta do quarto dela, mas a porta se abriu antes mesmo dele chegar a tocar na maçaneta.
apareceu, com os cabelos molhados, indicando que provavelmente teria tomado um banho ao acordar.
— Você está melhor?
— Hm? Sim.
— Anne entregou o que eu pedi?
— Entregou.
— Ok — ela respondeu e ia sair dali, se não fosse a mão de puxando-a pelo braço.
— Precisamos conversar.
— Sobre?
— Você.
— O que tem eu? — ela perguntou, enquanto caminhava até a cozinha.
a acompanhou.
— Acho que você esqueceu de me contar algo, não?
— Não que eu me lembre — ela disse, enquanto bebia um copo de água.
riu baixo, sentindo a irritação crescer mais uma vez dentro de si.
Foi até o sofá e pegou a caixinha do teste de gravidez.
— Você não lembra? Então, eu vou te ajudar a lembrar, — e colocou a caixinha em cima da bancada.
arregalou os olhos, surpresa.
— Você bisbilhotou o meu banheiro?
— Quando ia me contar sobre isso? — ele desconversou, ignorando a pergunta.
o encarou por um instante, lutando contra a vontade de revirar os olhos.
— Eu não ia — ela disse, simplesmente, guardando a garrafa de água na geladeira.
— Não ia? Como assim você não ia me contar, ? — ele quis saber.
— Porque eu não ia. Não era necessário.
— Se você desconfiou de uma gravidez, então é necessário sim. Não é como se você pudesse esconder isso novamente de mim, por anos, como você fez.
— Eu sei, eu não ia esconder, .
— E porque não me contou? Você estava esperando eu descobrir na surpresa mesmo, quando sua barriga estivesse aparecendo?
— Mas que merda você tá dizendo? , eu não-
— Eu só estou dizendo que eu não quero ficar no escuro de novo, e só descobrir sobre sua gravidez quando você sentir vontade de contar...
.
— Até porque da outra vez, você nem mesmo chegou a fazer isso, né? A teve que tramar tudo para que eu descobrisse porque você não tinha coragem. Sem contar que você não me deixa assumir você e para ninguém. Escute bem, , porque dessa vez eu vou- — Ah, meu Deus! , só cala a boca por um instante — ela o interrompeu, já sem paciência para aguentar toda aquela ladainha. — Me escute, você sabe porque eu não contei? Porque não foi necessário
. — Claro que era!
— Não!
— E porquê? Se eu sou o pai do bebê!
— Porque eu não estou grávida, seu idiota! Não existe bebê — ela gritou, fazendo-o calar-se. — O resultado deu negativo, e eu nem desconfiei de uma gravidez, a e a Anne que fizeram isso e me obrigaram a fazer o teste. Por mim mesma, eu nem teria feito, se você quer saber.
— Não está?
— Não.
ficou em silêncio, pensativo.
— Isso foi antes ou depois de nós terminarmos? — ele perguntou, um momento depois.
— Depois.
— Certo, então me responde uma coisa, . Se nós ainda estivéssemos namorando, você teria me dito sobre o teste?
— Não.
— E se tivesse dado positivo?
— Então, eu não teria escolha, infelizmente.
— Como assim, infelizmente?
— Porque moramos debaixo do mesmo teto, e você seria o pai. Sem contar que um filho agora iria atrapalhar na carreira que eu ainda nem tenho, mas que pretendo começar a fazer.
— Então, você quer dizer que seria um problema.
— O que eu quero dizer, , é que basicamente eu não quero ter outro filho.
— Por que não?
— Porque eu não quero, não tenho vontade. A única forma disso acontecer seria mesmo por acidente, coisa que é muito difícil de acontecer se depender de mim. O que penso agora é em cuidar de , que felizmente está maior agora, o que vai me permitir trabalhar por mais tempo, e construir uma carreira profissional. Não me entenda mal.
— Entender mal? É você mesma que está se referindo a um filho como um empecilho.
— Porque um filho nesse momento realmente seria um — ela disse entredentes, tentando conter a raiva que se formava por causa daquela discussão. — É fácil pra você reclamar quando já é estabilizado financeiramente e é um jornalista respeitado.
— Mas eu fui estudante um dia e sei como-
o interrompeu com uma gargalhada repleta de ironia.
— Por favor, , não me venha com aquele papo de ''sei como é'', porque você não sabe. Supondo que eu tenha lhe contado sobre a minha gravidez na época que você ia viajar... Supondo que eu tivesse ido junto, seria só nós dois e o bebê. Nós iríamos te atrapalhar também e você provavelmente não seria quem é hoje se isso houvesse acontecido.
— Nós teríamos dado um jeito, . Eu já disse isso — ele murmurou, baixo.
— Acontece que eu não queria isso, . As coisas só iam ficar mais complicadas pra gente e você sabe que, no fim, isso é verdade. Então, pode ter sido burrice da minha arte não ter te contado nada, mas eu acho que eu mesma preferi não me prender a ninguém mesmo, ainda mais você. Eu não quero ter que ficar com você por causa de e sim por mim mesma, por nós, mas isso também não estava dando certo — ela concluiu e percebeu que ela estava se referindo ao término deles.
— Eu só queria fazer o que era certo.
— Não, você queria fazer o que julga ser. Eu não posso impedir você de contar sobre para ninguém, até porque você indiretamente já fez isso, mas eu também não quero seguir esse modelo de família tradicional que você tem na cabeça. Não é porque temos um filho, que nós precisamos ser um casal de verdade. Já basta você ter conseguido me convencer, se é que pode ser chamado assim, de vir morar com você e aqui. Eu sinceramente sinto que todo o nosso envolvimento foi por causa dele. Na verdade, tenho certeza. Porque agora eu não sei mais de nada do que eu sinto em relação a você, porque é como se nosso término não tivesse feito diferença.
riu, irritado.
— Você tá dizendo que não me ama mais?
— Eu estou dizendo que me sinto confusa. Mas talvez seja isso, não sei. Na maioria das vezes, acho que não amo você como pensei que amasse e também acho que o mesmo acontece com você. Você acha que me ama, . Mas já parou pra pensar na nossa história? Como nos conhecemos, como chegamos a dormir juntos? Tudo parece apenas com tensão sexual entre duas pessoas que eram atraídas uma pela outra. Eu escolhi você para ser meu primeiro porque eu confiava em você, nós éramos amigos e eu me sentia atraída. Eu não sei quanto a você, mas visto a forma como você falou comigo, ou não falou, nos dias seguintes, não foi tão especial assim.
— É claro que foi, . Não diga isso — ele pediu. — Eu podia não te amar naquela época, mas eu gostava muito de você e sim, eu me vi atraído desde o dia em que te conheci, mas eu não gosto que fale de uma forma tão crua, como se tivesse sido algo irrelevante pra nós dois.
— Não foi irrelevante, . Claro que não. Até porque veio depois disso e eu não me arrependo nem por um segundo de ter o tido. Ele é importante, mas nossa relação de certa forma chega a ser. Talvez irrelevante não seja a palavra certa, está mais para uma confusão, tanto da minha parte quanto da sua. Você tem esse instinto de proteção e responsabilidade dentro de si que é enorme, e eu acho que nós dois deixamos que isso ditasse a nossa relação.
ficou calado.
Não sabia o que responder, pois o que dizia era, de alguma forma, irritantemente certa. A sua teoria, ou o que quer que fosse, fazia sentido.
— Certo. E o que você quer fazer depois de dizer tudo isso? — ele perguntou, depois de um tempo.
— Eu quero deixar as coisas como estão, acho que tanto eu quanto você precisamos de um tempo de nós mesmos. Então, eu acho que devemos nos concentrar em ser apenas os pais de , e não um casal.
— Tudo bem. Se é assim que você prefere. Não é como se eu fosse ou pudesse te obrigar a fazer algo — ele respondeu.
— Exatamente.
— Acho que chegamos a uma conclusão.
— É.
— É.

***


Se tinha certeza de algo, é que estava fazendo a coisa certa. Já fazia alguns dias desde que tivera aquela conversa com e as coisas pareciam estar indo bem.
Eles mantinham uma relação amigável, embora mal estivessem se falando. Por mais que tivesse concordado com aquilo, ela sabia que ele ainda tinha raiva por causa da história do teste de gravidez, afinal, toda vez que eles estavam sozinhos e se esbarravam pela casa, ele a encarava como se estivesse julgando-a, mesmo sem falar nada.
apenas ignorava, contanto que ele ficasse na dele. Achava engraçado também, de vez em quando; parecia uma criança que estava intrigada de um amigo que havia mentido para ele, o que não era bem o caso deles. podia ser o tal amiguinho, mas ela não tinha mentido sobre o teste, apenas omitido.
Era o corpo dela, era decisão dela.
Sem contar que só havia provado que tinha uma certa desconfiança para com ela e ainda guardava uma mágoa por causa da história de .
Ela não o culpava por isso, mas tampouco se arrependia do que havia feito. Não era como se ela e estivessem passando necessidades quando apareceu. No começo foi difícil porque não tinha muito dinheiro para se manter, ainda que quisesse ter a própria casa, mas depois do estágio remunerado que fazia na revista as coisas haviam melhorado consideravelmente. E ainda não tinha certeza, mas se conseguisse uma das vagas de emprego na revista, pretendia vender a antiga casa onde morava e tentar comprar uma menor, só para ela e , em um local mais seguro e próximo.
Claro que não iria aceitar aquilo, muito provavelmente, mas ela não sabia como estaria as coisas entre eles dali para frente. A única coisa que sabia que queria, era um emprego permanente que possibilitasse que ela e pudessem viver melhor.
Não que ela fosse recusar algo de nem nada, ele era o pai de , mas era só isso. Ele tinha obrigação com o filho e não com ela, tanto que umas das condições que ela impôs ao morar com ele, foi que dividissem as despesas de casa, algo que ele aceitou a muito contragosto, mas aceitou.
Mas para conseguir o emprego que ela tanto queria, ela ainda precisava trabalhar duro por isso.
havia mandado uma mensagem para ela, minutos antes, perguntando se poderiam se encontrar naquela tarde para começarem a se organizar. dissera que sim, até lembrar que deveria ir no hospital mostrar os exames ao médico, justamente naquela tarde.
“Não vai dar, . Lembrei que tenho que ir no hospital para o retorno no médico. Mas depois disso, estou livre. O que você sugere?”
“Você vai mostrar seus exames para ele?”
“Sim, por quê?”
“Acho que deve ser rápido. Vou com você e depois podemos ir para a biblioteca ou para o meu apartamento e começamos a trabalhar.”
“Nem morta que vou pro seu apartamento com você.”
“Acho que mortos não têm escolha. Então...”
“O quê?!”
“Me encontre no estacionamento às 14:00hs.”

Ótimo. Era só o que faltava, ela ter no seu pé, no hospital.
De novo.
Mas pelo lado bom, ao menos ela também teria carona.

— Que bom que você não está grávida — comentou no carro, depois de terem saído do hospital.
Claro que não, e agora ela tinha certeza disso. E não somente por causa do exame, pois havia recebido a velha visita mensal de todos os meses, mais uma vez.
E claro que continuava sendo esquisito e vergonhoso, o fato de ter estado lá na hora que ela falou para o médico. Ela não queria que ele entrasse no consultório com ela, mas o idiota insistiu e acabou fazendo a enfermeira convencê-la daquilo; a mulher havia dito que era errado desperdiçar toda aquela atenção de um homem.
Humph! Como se ela precisasse daquilo.
Ainda mais vindo de , que não tinha nenhuma relação senão a de trabalho com ela, mas infelizmente nem o médico ou a enfermeira pareciam acreditar naquilo. Ainda mais quando o próprio pareceu mais aliviado que ela, quando o médico dissera que o teste de beta HCG dera negativo.
— Não que seja novidade, — ela respondeu. — Eu disse que não estava, não sei porque todo esse seu interesse em mim.
— Não é interesse, . É curiosidade. Eu fiquei imaginando se você iria falar para as pessoas que seria o pai, ou se você ia esconder de novo.
— Isso não é da sua conta, . Por que você ainda insiste em voltar para esse assunto?
— Já disse, curiosidade. Eu infelizmente gosto de observar pessoas, mas me diga, . O não sabia de nada, não é? Eu posso até não ir muito com a cara dele, mas deu para perceber que ele é do tipo certinho, tradicional. Ele não abandonaria uma mulher grávida para que ela se virasse sozinha.
respirou fundo.
— Não, ele não faria isso.
— Então, porque você não contou? Por que você preferiu passar por tudo o que passou sozinha? — ele quis saber.
agora tinha um tom de voz sério, não mais provocando e com o olhar concentrado na estrada.
O sinal do trânsito ficou vermelho e só então olhou para ela.
— Quem te visse assim, , poderia jurar que você se importa — ela respondeu, com um sorriso irônico. — Cuidado com isso, as pessoas podem pensar errado.
— E se fosse assim, ? O que você faria? — ele disse, voltando a dirigir.
Mas permaneceu em silêncio.


26. Recordações

— Sobre o que você quer escrever? — perguntou, enquanto se sentava ao lado de no sofá, com o notebook no colo.
Haviam chegado há alguns minutos no apartamento dele — que ela insistiu que não queria ir, porém mais uma vez se deu por vencida. bebericou o copo de suco de laranja que havia lhe oferecido.
— Não tenho certeza. Você tem alguma sugestão?
— Que tal... Mulheres de sucesso? — ele disse, ainda olhando para a tela do computador, esperando os sites de pesquisa abrirem.
— Mulheres de sucesso? Você se refere a alguém específico? É bem surpreendente você vir com esse tema.
— Por quê? — ele perguntou, enquanto digitava.
— Quer mesmo que eu diga? — olhou para ela.
— Ah, claro, o machismo. Tudo bem, . Mas não deixa de ser um bom tema e é atual. Eu acho que seria legal a gente falar no geral, talvez citar algumas... Não sei. Emma Watson, talvez. Você gosta desse tema? Podíamos comparar com o machismo e bolar um debate fictício entre um homem e uma mulher.
— Hm... Eu concordo que o tema é bom. Mas eu não sei se sou muito confiante para esse tipo de coisa. O debate, eu digo.
— Ora, , vamos lá — ele a encorajou. — É como uma encenação, você já fez isso antes na faculdade. Todo mundo faz. Quem sabe você não conta a sua história?
— Minha história?
— Sim, sobre ser uma mãe solteira... Sobre o . Você mora com ele, não é?
— Eu... O quê?
— Vamos lá, . É verdade, não é? — ele indagou, sério.
, eu... Olhe, não quero que pense besteira. Eu não moro com ou me envolvi com ele por causa do trabalho. veio muito antes dele se tornar meu chefe, você sabe. Não é como se eu tivesse planejado tudo...
— Eu não sei porque, mas não gosto dessa história. — ele disse, franzindo o cenho. — E não estou jogando as coisas na sua cara, . Não dessa vez.
o encarou em silêncio, olhando-o bem nos olhos.
— Não acho que eu deva me encaixar nisso, não mesmo. Vou ter que dispensar, . Não é como se eu fosse uma mulher de sucesso, então eu acho melhor nós pensarmos em outra coisa.
— Mas você conseguiu ter independência e lidar com a faculdade, mesmo tendo um filho para criar. Eu sei que fui um filho da puta, , mas sei que você é uma boa mãe.
— Bem, obrigada, eu acho. No entanto, não acho que seria legal misturar a minha vida pessoal com a profissional.
— Tudo bem, desculpe. Deve ser desconfortável, podemos pensar em outra coisa, então.
— Aconteceram muitas coisas, … Esses últimos anos foram… bem, não importa. O que passou, passou e não dá mais para voltar atrás.
riu pelo nariz, olhando para nada em específico na tela do computador.
— É, tarde demais para voltar atrás…

chegou em casa cerca de duas horas depois e encontrou brincando com na sala assim que entrou no apartamento.
— Ah, oi — disse, assim que ela entrou. — Preciso mesmo falar com você.
— Claro — ela disse, enquanto tirava os sapatos.
— Vou precisar ficar uns dias fora. Tenho que ir em Nova York neste final de semana. Terá um evento importante segundo o Sr. M. e segundo ele, eu deveria ir.
— Ahn, certo. Vá. Boa sorte. Quando você viaja?
— Amanhã à noite.
— Vai viajar tão em cima? Já aprontou suas malas? Desde quando você ‘tá sabendo desse evento?
— Acho que desde a semana passada, ou é a semana retrasada? — ele disse e depois, confuso, perguntou a si mesmo.
— E você não fez as malas ainda?
— Eu coloquei umas coisas. Enfim… Eu precisava falar com você por causa de . Vou te deixar com meu carro, caso precise.
— Tudo bem. Eu vou tomar banho — e se dirigiu ao quarto.

***


Estranhamente, depois que viajou, sentiu que tinha voltado aos velhos tempos em que vivia sozinha com . A diferença era que agora ganhava um pouco melhor no trabalho, morava em um lugar melhor e mais seguro e estava com o carro de pelo final de semana inteiro.
Mas a rotina era a mesma.
Era noite e estava voltando para casa com após jantarem fora e irem no supermercado para fazer compras, em especial ingredientes para os biscoitos da semana.
— Mamãe, você vai chamar a tia amanhã?
— A tia não pode vir porque precisa ir provar o vestido dela de novo, . O casamento já é no próximo final de semana, lembra?
— Mas ela sempre prova esse vestido um monte de vez. Por que ela tem que ficar só vestindo isso?
— Porque ela quer que ele fique muito bonito nela. E para isso, a costureira precisa ver o tamanho e fazer um monte de correção até que fique perfeito.
— Ah — o garotinho assentiu, sem ter certeza se havia entendido direito. — Mamãe.
— Sim? — ela perguntou, acabando de estacionar o carro.
— Você e o papai vão se casar um dia? Porque vocês não são, né? A mãe da Lisa usa um anel no dedo. Eu perguntei uma vez pra minha professora e ela disse que você usava, mas você não tem um.
— Claro que tenho, . Mas não é de casamento. É de formatura — ela explicou. — Acho que é bem melhor do que de casamento, sabia? — ela cochichou no ouvido dele, fazendo-o rir.
— Mas porque você não casa com o papai? Você gosta dele, não gosta?
— Claro que gosto, . Mas as coisas são complicadas. Você gosta do seu pai também, não é? — ele assentiu. — E você quer casar com ele?
O garoto negou rapidamente com a cabeça, fazendo uma careta.
— Ele é meu pai, mãe! Só namorados se casam — justificou ele.
— Exatamente, . O seu pai é só um amigo da mamãe.
— Vocês não são mais namorados?
— Não, não somos.
— Por quê?
— Porque mesmo que você goste muito de uma pessoa, às vezes não dá certo ficar com ela dessa maneira, entende? Mamãe e papai são melhores sendo amigos do que namorados.
— E você vai se casar um dia com outra pessoa, mamãe? E o papai também?
— Talvez, . Mas se isso acontecer, vai demorar um pouquinho. talvez você seja um rapazinho quando isso acontecer. Mas porque está perguntando isso agora?
— Um menino na minha sala disse que tem dois pais e duas mães. Porque os pais de verdade dele se casaram com outras pessoas. Aí ele tem duas casas também, a do pai e a da mãe.
— E você acha isso legal?
— Acho.
riu.
— Tudo bem, então. Agora vamos que já ‘tá na hora de entrar — ela soltou o cinto de segurança dele no banco de trás.

Assim que conseguiu colocar para dormir, sentiu o celular vibrar no bolso do pijama que usava.
“O que acha de nos encontrarmos amanhã? Achei uns artigos legais e acho que seria bom discutirmos a respeito. Vou te enviar por email.”
.
“Não posso amanhã, . viajou e estou sozinha com em casa. E amanhã é sábado.”, ela respondeu na mesma hora.
“E daí? Pode trazer ele com você para cá. E qual o problema de amanhã ser sábado?”
“Amanhã é dia de biscoito. Eu e fazemos toda semana. Bem, eu faço e ele ajuda a sujar a cozinha, é claro.”
“Biscoitos? Só por causa disso? Que besteira, . Mas tudo bem. Já que é uma tradição e você não pode vir, então eu vou até aí. P.S. Não são os biscoitos que eu estou pensando que são, ou são? Se sim, se importa de ter mais um ajudante? Juro que me comporto. ;)”
riu ao ler aquela mensagem.
Havia se esquecido que também conhecia aqueles biscoitos.
Mas caramba, fazia tanto tempo! Como ele conseguiu lembrar disso?

28 de junho, 3 anos atrás...

— E você só mistura tudo de uma vez? — ele perguntou, vendo-a colocar todos os ingredientes ao mesmo tempo na tigela.
— É, . Você nunca fez biscoitos?
— Já, com minha avó, mas ela tinha várias etapas diferentes. Você só jogar tudo numa tigela e mistura.
— Talvez a receita dela seja diferente, mas você que concordar que essa é bem mais simples, huh?
— Realmente…
— Aqui, ponha mais um pouco de farinha — ela pediu, parando de mexer a primeira massa.
Haviam acabado de fazer o trabalho daquele semestre e havia prometido fazer biscoitos em comemoração, assim que terminassem.
— O que vai fazer com a massa branca? — ele perguntou, após fazer o que ela havia pedido.
— Eu, nada. Você vai, pode começar a mexer — ela disse.
— Não acho que seja uma boa ideia, . Eu não sou muito bom cozinhando.
— Acha mesmo, ? Não tem como você errar isso, vamos lá, misture logo a massa.
O garoto suspirou, passando a mão no rosto ainda sem os óculos de grau que usava. Mas estava okay, já que ele não precisava ler algo para fazer aquilo.
Era só misturar.
— Acho que não quer dar o ponto — ele disse, depois de algum tempo mexendo com uma colher de pau e vendo que a massa ainda estava grudenta.
— É só acrescentar farinha. É por isso que eu não sigo a receita ao pé da letra, quando você mistura tudo sempre precisa acrescentar alguma coisa a mais.
— E com quem você aprendeu isso? Sua mãe?
— Ah, não. Minha mãe não cozinha. Aprendi com minha tia, tia dela também. Ela adorava cozinhar e eu sempre gostei de aprender com ela enquanto era criança.
— Ah — ele assentiu, abaixando a cabeça novamente para mexer a massa e uma mecha de cabelo caiu em seu rosto. — Acho que agora vai dar certo, olha. Você vai adicionar gotas de chocolate? Ei! — reclamou, assim que sujou seu nariz e bochecha de farinha e riu, em seguida.
— Que bonitinho, . Você ‘tá parecendo uma criança agora. Realmente fofo, sabia?
— Ah, é? — ele fez menção de pegar o pacote de farinha, mas foi mais rápida e o afastou dele.
— Não! Tudo bem, . Eu tenho a impressão que se você pegar nesse pacote de farinha não vai acontecer algo muito legal, sabe? Tipo a minha roupa sendo suja e tal.
— Mas eu posso me sujar, não é? — ele perguntou com ironia.
— Você ‘tá em casa, é diferente. Não me encare assim, , eu tenho que sair na rua ainda — ela riu.
— Não estou fazendo nada — desconversou, voltando a mexer a massa.
pegou um lenço de papel em cima do balcão e o umedeceu com água.
— Aqui, me deixe limpar seu rosto, — ela pediu, virando o rosto dele para si.
Passou o lenço delicadamente pelas partes que havia sujado, limpando rapidamente enquanto ele apenas a observava calado. Quando acabou, repetiu o mesmo ato no cabelo dele quando finalizaram o trabalho, tirando a mecha insistente que teimava em cobrir-lhe os olhos.
— Você realmente precisa cortar seu cabelo, ele é muito teimoso, sabia? Mas é muito bonito, — ela o acariciou na nuca. — O que acha de trocar?
riu.
— O seu também é bonito, .
— Tudo bem, já entendi que você não quer trocar comigo — ela se virou, fingindo estar chateada e ele riu novamente.
— Acho que agora a massa tá ok, . Olhe.

encarou a mensagem por alguns instantes, ponderando sobre o responder, até que depois de alguns minutos enfim o fez.
“Promete? Se sim, aproveite e traga uma barra de chocolate junto, esqueci de comprar hoje.” ela enviou de volta.
“Feito.”
Tudo bem. Talvez fosse divertido.
Fazer biscoitos sempre era.


27. Uma Página Virada

sorriu de lado assim que abriu a porta. Segurava uma barra de chocolate meio amargo com as mãos, mas que logo se transformou em duas assim que ele mostrou a segunda escondida, abrindo como um leque.
No braço, tinha a pasta do notebook pendendo ali e, diferente dos outros dias — provavelmente porque era fim de semana —, ele não estava com o cabelo arrumado em um topete ou com roupas sociais como de costume. usava apenas uma bermuda jeans meio rasgada e uma camisa branca casual com as mangas enroladas até o cotovelo e, é claro, não pôde deixar de notar o par de tênis All Star preto que ele tinha nos pés.
Ele estava uma bagunça.
Isto é, se fosse para comparar com o habitual que ela via durante a semana inteira no trabalho. Aquele ali nem parecia o cara chato que a importunava sempre que podia.
pensou em fazer algum comentário perguntando o que diabos havia acontecido, mas apenas deu espaço para que ele entrasse, guardando o comentário para si mesma.
Conhecendo-o como conhecia, provavelmente teria uma resposta na ponta da língua, ou melhor, uma piada.
Então, preferiu evitar.

Assim que entrou no apartamento, observou ao redor depois de entregar as barras de chocolate para , que seguiu para a cozinha.
Foi quando notou pela primeira vez a presença de no local, já com as mãos suja de farinha, colocando aos poucos numa tigela. O garotinho levantou o olhar para ele e sorriu para ele, que o encarou por um instante antes de sorrir junto.
— Oi, .
— Oi, você é o colega da minha mãe?
— Sou sim, meu nome é . A sua mãe me deixou vir fazer biscoitos com vocês hoje.
trouxe chocolate para colocar nos biscoitos, disse, apontando para as barras de chocolate que tinha acabado de colocar lá.
Em um movimento silencioso, ela tocou o braço de e retirou a pasta do notebook que ainda pendia ali e a colocou no sofá.
— Você já fez biscoitos antes?
— Eu costumava fazer com minha avó quando era criança.
— Esse biscoitos são especiais, sabia?
— São mesmo? E por quê? — lançou um olhar para , prendendo um riso.
terminava de separar os ingredientes que iria utilizar e resolveu assistir em silêncio até onde aquela conversa iria.
— Porque são os biscoitos da minha mãe — o garotinho explicou, pacientemente. — São muito gostosos e a gente faz todo sábado, sabe? Eu gosto muito.
— Você tem razão. Eles são muito gostosos.
— Você já comeu deles? — o garoto o olhou surpreso.
— Claro, sua mãe fez pra mim uma vez.
— Fez? Ela só faz pra mim, mas o papai também come. Ele tentou fazer uma vez, mas não sai como os da mamãe.
— Você não tinha nascido ainda, eu estudava com a sua mãe, sabia?
— Você era um amigo da escola dela? Eu tenho uma amiguinha na escola também, mas ela é meio chata.
— Eu sei como é, eu também achava a sua mãe chata. Ela era muito mandona.
— Ei! — reclamou e os dois riram.
— Mas vamos lá, , você vai me ensinar a fazer os biscoitos?
— Vou! Primeiro a mamãe separa os ingredientes… e depois a gente junta tudo, aí é só enrolar.
— Puxa, só isso? Quando eu vi a sua mãe fazer pareceu ser mais difícil.
que estava juntando os ingredientes, assim que acabou entregou uma colher de pau para cada e, juntos, e mexeram a massa de chocolate enquanto ela cuidava da outra.

Os biscoitos tinham acabado de ir para o forno e enquanto terminava de lavar as mãos, pôde ouvir a conversa de com o filho a alguns metros de distância.
— Amor, o que acha de tomar um banho e depois assistir um pouco de TV enquanto a mamãe discute umas coisas do trabalho com o ?
— Só se você colocar Rei Leão — disse e riu baixo ao ver o garotinho negociando com a mãe.
— Rei leão de novo? Tudo bem, vamos tomar um banho, rapazinho.
Minutos mais tarde, ele a estavam sentados no escritório de , enquanto liam e discutiam alguns artigos encontrados.
O tempo passou consideravelmente rápido e já tinha tirado os biscoitos do forno para esfriarem e colocado uma outra fornada deles. Quanto a , o garoto havia adormecido pouco tempo depois do filme começar, o que contribuiu para que eles trabalhassem de forma mais tranquila, já que não tinha que ficar saindo hora ou outra para vê-lo.
— O que acha deste? Você acha que deveríamos falar de formas de violência ou algo do tipo que muitas mulheres sofrem antes de alcançarem o sucesso? Preconceito com gênero, idade… Até mesmo o fato de possuírem um cargo mais alto frente a outros homens…
— Eu tinha pensado nisso também, de usar como base para o artigo, talvez focar diretamente.
— Acho que todas as mulheres passam por isso em algum momento de suas vidas… — ela comentou distraída enquanto anotava algo em uma das folhas.
a encarou, sem que ela percebesse, lembrando de tudo o que havia dito a nos últimos anos.
Ele havia sido um filho da puta, é claro. Completamente infantil, babaca e todos os adjetivos ruins que pudessem se encaixar nele. Por mais que gostasse de trabalhar com , aquilo só aconteceu duas vezes, por coincidência, mas ele não esperava uma terceira vez.
Mas havia acontecido.
E agora ambos estavam diferentes. Não se tratava mais de um trabalho da faculdade para conseguir uma nota, era quase uma competição e sabia que queria muito conseguir uma vaga naquela empresa, embora achasse que ela seria capaz de conseguir uma em qualquer lugar que mandasse currículo, devido a sua competência e nível de responsabilidade.
não era a mesma garota que havia conhecido e se apaixonado anos atrás, nem ele era o nerd tímido e desleixado que costumava ser. A mudança havia sido por causa dela, é claro e teve seus prós e contras.
Para , especificamente, houve principalmente a parte dos contras.
não se orgulhava de ter sido um babaca e, por mais que dissesse a ela, tudo não se passava de uma fachada enorme que manteve com o passar dos anos. Achou que quando finalmente fossem estagiar, ele não a veria mais, porém acabaram indo para o mesmo local. E lá estavam ele dois novamente, trabalhando juntos.
De repente, suspirou se sentindo mal por tudo aquilo.
Lembrou de como viu agir com , de todo o cuidado que ela tinha com ele que demonstrava de longe que ela era uma boa mãe para seu bebê. Talvez não tivesse mudado tanto assim, apenas havia amadurecido mais rápido devido a maternidade prematura que tivera. Enquanto isso, ele sentia que ainda havia algo inacabado entre eles, talvez por conta de todas as discussões e, mesmo sem saber, todas as dúvidas que havia deixado nele.
passou a mãos no rosto e esfregou os olhos, sentindo as lentes de contato incomodarem um pouco.
— Está cansado? — perguntou.
Estavam há mais de uma hora ali dentro rodeados de papeis e a própria já se encontrada meio cansada de ler, então não duvidava que também estivesse.
Mas ele não respondeu imediatamente. Ao invés disso, lançou-lhe um olhar sério e cansado.
— Acho que estou cansado de muita coisa, — ele disse baixo e desviou o olhar para os papeis. — Principalmente de mim mesmo.
— O quê? Do que está falando, ? — ela sorriu, meio confusa, mas estava terrivelmente sério.
Ela não lembrava de tê-lo visto assim alguma vez.
— Eu… — ele parou, mordendo o lábio inferior, sem saber como realmente dizer aquilo. — , eu… sei que fui um idiota, mas eu só queria que você soubesse que eu não me orgulho disso.
— Você foi um idiota tantas vezes, , de quando exatamente você está falando?
— De todas elas. Desde quando tudo começou.
riu, sem acreditar no que ouvia.
— Isso é mais uma das suas brincadeiras? — ela perguntou, com um sorriso.
— Não, , não é. Eu não estou brincando dessa vez. Mas entendo que você não acredite nas minhas palavras. Ainda assim… sinto muito por tudo.
— ela o chamou, assim que o viu baixar o olhar mais uma vez. — O que está fazendo agora?
a encarou e sentiu os olhos arderem mais uma vez, pedindo por lubrificação, mas ele sequer piscou. Se levantou e se sentou ao lado de , no sofá que ela estava. o observou sem fazer um movimento sequer. pegou os papeis que ela tinha na mão e os depositou na mesa de centro que havia em frente para então, delicadamente segurar as mãos dela entre as suas.
, eu-
— Você não vai se declarar de novo, vai? Você sabe, é bem esquisito te ver assim, isso tudo já está esquisito demais.
riu, sinceramente.
— Acho incrível como você consegue estragar um clima, mas… não, eu não estou a fim de levar outro fora. Já deu para perceber que palavras não funcionam com você, contudo… Eu ainda tenho que falar. Desculpe por ter sido um babaca, você não merecia escutar todas as bobagens que eu te falei, nem naquela época nem agora e eu vou entender se você não quiser me perdoar e me afastar logo depois que a gente apresentar esse trabalho. Eu vou respeitar a sua decisão, .
abaixou a cabeça e olhou para o artigo que tinha acabado de ler, lembrando de uma frase interessante que havia visto.
— Eu vi uma frase interessante enquanto eu pesquisava, … “Observe como um homem trata as outras mulheres de sua vida. Se você é a única que ele trata bem, não significa que você é uma exceção e sim a próxima.” Interessante, não? Porque você faz exatamente o contrário disso, me trata mal, mas trata todos ao seu redor bem, independente de gênero. Eu não sei dizer se isso é uma coisa boa ou se você é realmente um filho da puta, sem ofensas para sua mãe, mas você me entendeu.
riu novamente, apertando as mãos dela.
— Isso significa que você me perdoa ou que só acha a situação interessante e eu continuo sendo um babaca e você continua me odiando?
— Eu nunca te odiei de verdade, . Só às vezes, quando você me fazia perder a paciência quando eu estava cansada. Então… Já que estamos colocando as cartas na mesa, eu acho que a gente pode e deve deixar isso para trás.
— Então… vamos começar do zero de novo? — ele quis saber.
negou com a cabeça.
— Não, vamos apenas virar essa página. Mas eu quero o nerdão de volta, ele sim era legal.
Ele sorriu.
— Acho que o nerdão ainda existe, só o desleixado que não, porque você sabe, uma garota deu uns conselhos pra ele e ele aprendeu a se arrumar direito para não afastar todas as garotas que havia por perto.
— Mas eu não me afastei, só quando você virou um babaca.
— É mesmo, não é? Você era minha única amiga naquela época — ele riu, pelo nariz.
subitamente lembrou-se de algo.
. Tem algo que eu quero dizer também. Quando você se declarou…
— Ah, não, . Faz muito tempo, não precisa trazer isso à tona novamente.
— Não, me escuta. Eu… não te dei um fora porque não te achava legal ou algo do tipo e, principalmente, não foi por conta do . Eu só vim me envolver com ele muitos meses depois.
— Então… a pessoa que você dizia…? — ele a encarou, confuso.
— O nome dele é Thomas, ex-namorado do colégio. Foi meu primeiro namorado, de anos e a família dele era amiga da minha, então nós meio que nos conhecemos desde sempre.
— E porque terminaram?
— Por causa da faculdade, ambos achamos que namoro a distância não era uma boa ideia, ainda mais na fase que estávamos acabando de entrar. Nós concordamos que tínhamos muito ainda para viver e conhecer, então… foi como uma espécie de acordo mútuo. Mas eu ainda o amei por muito tempo, até me apaixonar por , pouco antes de engravidar.
— Tudo bem — se encostou no sofá. — Me deixa só digerir o que você acabou de dizer porque eu não fazia ideia desse tal de Thomas no meio dessa história.
riu com vontade. A que ponto haviam chegado?
— Acho que os biscoitos já esfriaram, o que acha de fazer um lanche e deixar isso para um outro dia? Acho que já adiantamos muita coisa com esse material.
— Certo — ele disse e se levantou. — Quero mesmo ver se esse biscoitos melhoraram com o tempo — brincou.
— Você nunca tentou fazer sozinho?
Ele negou.
— Acho que fiquei com raiva demais e quis enterrar tudo o que me lembrava você. É claro que não deu muito certo, já que nos víamos frequentemente, mas…
— Entendo.
Ficaram se encarando por um tempo e coçou a nuca, sem jeito.
— Tudo bem, essa situação está bem esquisita agora.
— Concordo, eu quero o nerd de volta, mas ele pode deixar a timidez dele para trás. Fica meio difícil a comunicação quando o babaca não me perturba em nada, no sentido bom, é claro.
assentiu, com a cabeça e se levantou pronta para abrir a porta.
— ela se virou. — Se importa de eu te deixar desconfortável uma última vez?
— Huh? O que você-
— Como eu disse, parece que palavras não funcionam bem com você.
E antes de mais nada, ele a imprensou na porta.
sabia o que ele tinha em mente, mas não o fez imediatamente. acariciou seu rosto por alguns segundos e o observou de perto antes de, delicadamente, roçar seu nariz no dela. Naquele momento, suas respirações já se misturavam e , sentindo um frio na barriga, fechou os olhos e suspirou, tentando controlar a respiração que insistia em acelerar, devido a velocidade que seu coração batia.
sorriu um pouco ao ver aquela reação acontecer, percebendo que não estava sozinho no barco.
E então ele a beijou.


28. Um Duplo Tilintar

acabava de endireitar a gravata de seu smoking, quando seu celular vibrou com uma mensagem. Era David, um de seus colegas que também era jornalista e iria para o encontro com muitos outros. Estava esperando-o no hall do hotel onde estavam para então irem para o salão de eventos onde ocorreria o evento.
Minutos mais tarde, encontrou o amigo no salão, mais especificamente no bar do mesmo, tomando uma dose de whisky. David não perdeu tempo e pediu mais uma para assim que o viu se aproximar.
Ficaram jogando conversa fora durante algum tempo, enquanto os outros convidados chegavam, o evento era particular, organizado pelo antigo chefe de em Nova York e, até onde eles sabiam, haveria no máximo cinquenta pessoas no local.
Ele conhecia a maioria das pessoas ali, umas bem, outras só de nome… Mas não esperava ver uma delas, especificamente.
Era uma vez, um jovem jornalista inglês que atravessou o oceano até a cidade cidade que nunca dorme para perseguir seu sonho de se tornar um profissional de sucesso. Foi difícil, mas ele conseguiu e em bem menos tempo do que esperava. No meio do processo, ele conheceu uma mulher; doida, neurótica, porém adorável e divertida (quando não estava de TPM, é claro, que era quando a parte do doida e neurótica entrava), além de muito inteligente. Casos à parte, ela o pediu em casamento depois de apenas alguns meses de relacionamento e, na noite, ambos estavam bêbados, e acabara aceitando o pedido maluco, sabe-se lá o porquê, já que não era o tipo de pessoa que diria sim para algo assim de maneira tão impulsiva, mesmo bêbado.
Mas ele também não tinha motivos para dizer não. Angel era independente, responsável, tinha seu próprio trabalho mesmo vindo de uma família rica, coisa que admirava nela. Assim também como a sua ousadia, especialmente quando o pedira em casamento.
No entanto, não deu certo.
Talvez fosse insegurança da parte dele, talvez não a amasse o suficiente — e foi isso o que usou como desculpa para terminar seu relacionamento com ela —, ou talvez ele simplesmente não estivesse preparado. O que era irônico já que estava até algumas semanas atrás disposto a se casar com e oficializar a família que ela, e ele já eram. Mas tudo foi por água abaixo por conta das inseguranças dela e simplesmente perdeu a paciência; embora quisesse fazer o que achava certo, para não era algo realmente importante. Ela não queria que eles vivessem presos um ao outro por causa de e talvez até tivesse razão. gostava muito dela, a amava, mas então percebeu que também gostava muito da mulher que havia acabado de entrar no salão e, mesmo assim, terminou com ela. A grande diferença era que não tinha nenhum laço com ela, tal como tinha com , então talvez no fim das contas, fosse mesmo uma ilusão, que agora se desmanchava aos poucos, conforme os dias iam passando.
observou atentamente sua ex-noiva se movimentar pelo salão, provavelmente tentando encontrar alguém conhecido.
Angeline Reed, mais conhecida como Angel. Vinte e seis anos, loira morango, jornalista investigativa. E o mais importante, Angel odiava aquele tipo de evento, simplesmente porque achava uma perda de tempo, então por isso não a esperava vê-la ali. Fazia alguns meses desde que a tinha visto pessoalmente e durante esse tempo tudo o que soube a seu respeito era referente ao seu trabalho. Ao que parecia, Angeline havia conseguido uma pista de um cara que ela investigava há anos, mas só isso.
Após seu término com ela, não perdeu tempo em aceitar a proposta de emprego que havia recebido há algumas semanas antes e não perdeu tempo em voltar para sua tão amada Londres. Sentia falta da cidade e a oportunidade de comandar a Folks, uma das revistas de variedades mais populares da Inglaterra, veio no momento certo.
— Wow, chegou a rainha dos homicídios — David brincou assim que avistou a mulher. — Nunca pensei que embora tão doida, a Angel fosse tão inteligente.
— As aparências enganam, meu amigo — disse com um sorriso e bebeu o último gole de sua dose de whisky.
E como se tivesse escutado a voz de , Angeline virou o rosto em sua direção e o encontrou junto a David que assim que percebeu, levantou o copo para ela, cumprimentando-a de longe. Angel inclinou a cabeça para um lado, sorrindo, antes de se dirigir até onde estavam.
— Ora, ora… O que temos aqui. Um estrangeiro… e um palhaço — completou, olhando diretamente para David.
— O que é isso, Angel? Você sabe que eu te amo, não sabe?
— Ah, David, como sempre pegajoso… — ela disse, suspirando dramaticamente, fazendo ambos os homens rirem.
— Oi para você também, Angeline — disse, sorrindo. — Eu vi seu nome na lista de convidados, mas não pensei que fosse comparecer a essa reunião.
— Oh, acredite, Richard me convenceu; mas confesso que também foi empolgante ver seu nome na lista, . Talvez um estímulo a mais.
— Opa, acho que eu tô sobrando aqui, acho que é melhor eu ir cumprimentar alguns colegas — David disse, mas nenhum dos dois lhe deu atenção.
— E como você está? — quis saber. — Soube que conseguiu uma pista daquele assassino que você procura.
— Oh, sim. Maldito Eric, eu comuniquei aos detetives encarregados assim que soube, estamos a procura de mais, porém ao que tudo indica o cara se mudou para Londres, que é a mesma cidade que a última vítima dele mora há cerca de um ano sob o Programa de Proteção à Testemunha. Bem, talvez eu vá te fazer uma visita em breve, .
— Claro, espero que consiga pegá-lo, Angie — ele disse, casualmente e bebeu um gole de sua bebida.
— Wow. Faz tempo que não ouço esse apelido… — ela comentou, sorrindo.
— Que pena, é o meu favorito — ele devolveu o sorriso. — E o seu também.
— Parece que nos encontramos só para atrair lembranças, ? Espero que apenas boas, entretanto. A noite vai ser longa, ainda mais porque…
— Porque você odeia esses eventos, onde só tem gente chata fingindo que gostam umas das outras, quando em fato a realidade é outra.
— Jornalistas são hipócritas — ela constatou. — E os sensacionalistas são os piores. Às vezes, penso que o jornalismo se perde cada vez mais por causa dessa luta besta por vendas à base de tabloides.
— Tem razão, sempre falo para o meu pessoal procurar evitar esse tipo de matéria, mesmo em uma revista de variedades. Que venha a criatividade acima de tudo e as orações para conquistar o público e obter boas vendas.
— Fico feliz por isso. Você parece realizado, talvez eu me sinta assim quando ver o desgraçado daquele serial killer atrás das grades.
— Tenha cuidado, Angie — advertiu. — Investigue, mas se encontrar algo grande, não tente fazer nada sozinha para conseguir provas.
— Eu tenho uma boa equipe, . E você sabe que luto bem e sei me defender sozinha.
— Claro que sei, meu braço ainda doi vez ou outra, graças àquela vez que você o torceu — comentou, ironicamente, fazendo a mulher ri alto.
— Essa é definitivamente uma boa lembrança. Sinto muito, .

Angeline e passaram a maior parte do tempo conversando e inclusive sentaram na mesma mesa junto com David e mais um casal de jornalistas. Richard, o anfitrião do evento, fez um discurso no pequeno palco que havia ali, mas logo deu espaço para banda que havia contratado voltar a tocar músicas. No fim das contas, era apenas um jantar entre colegas e ex-colegas de trabalho, encontro entre amigos para alguns.
Reencontros para outros.
Como era o caso de e Angel.
— Você quer dançar? — ele a convidou, educadamente, depois de ver o casal que estava na mesa se levantar para fazer o mesmo.
— O quê? E eu? — perguntou David. — Vocês vão me deixar aqui sozinho?
— Aw, tadinho de você, Dave — ela disse e apertou sua bochecha. — A mamãe volta já, mas porque não vai atrás de alguma garota para dançar? Você já está na idade disso, se ainda não percebeu.
— Ela tem razão, Dave — comentou. — Quando vai nos apresentar uma namorada? Eu quero netos, sabia?
— Espere crescer, então, idiota — rebateu ele, descontraidamente.
— Vem logo, — Angel o puxou pelo braço. — Antes que a música acabe.
E assim eles foram.
Ficaram em silêncio por um tempo, até Angeline finalmente perguntar o que queria.
… é o seu filho, não é? — a encarou em silêncio, então ela continuou. — David me contou há algum tempo. Deve ter sido uma surpresa e tanto para você.
— É… foi sim — ele riu sem graça e abaixou a cabeça por um segundo, antes de encará-la novamente.
— Ele se parece com você, ?
— Praticamente minha miniatura.
— Sério? Você terá de me mostrar fotos, então. Só acredito vendo — ela disse e ele riu.
— Claro, tenho que ter as provas, certo?
— Exatamente — ela respondeu, com um sorriso. — E a mãe, deve ter sido difícil para ela também ter que te contar sobre ele depois de tanto tempo.
— Provavelmente, mas eu não soube por ela. Lembra da , a noiva do ?
— Noiva? Eles ainda não casaram? — ela perguntou, incrédula e ele riu.
— O casamento é semana que vem. Antes tarde do que nunca… Mas então, foi a que me contou, ou melhor, ela bolou um plano para que eu descobrisse. Tudo que precisei fazer foi ir até a casa de e acabei vendo pela primeira vez, no processo. No entanto, não é uma memória feliz, foram tempos difíceis, mas agora creio que as coisas estão bem melhores.
— Você estão juntos? — ela foi direta, fingindo indiferença.
— Não exatamente… nós moramos no mesmo apartamento por causa de . Ela não queria no início, mas eu queria ficar próximo dele e ter a oportunidade de conhecê-lo. Mas ela é meio cabeça-dura e só aceitou depois de um tempo e quando eu concordei que a deixaria arcar com as despesas junto a mim.
— Garota inteligente, eu faria o mesmo no lugar dela. Imagine só, depender de um homem… me dá até arrepios. Sem ofensas.
— Tudo bem. Acho que vocês, mulheres independentes se sentem mais confortáveis assim. Mas é isso, está com dois anos agora, é muito inteligente e está ficando um pestinha.
— Nem imagino a quem ele tenha puxado. Quando você volta para Londres? — ela quis saber.
A música acabou e eles resolveram voltar para a mesa, onde não havia nem sinal de David; talvez ele tivesse seguido o conselho que haviam dado, afinal.
— Em dois dias, resolvi aproveitar a deixa e tirar o final de semana de folga aqui.
— Você está hospedado neste hotel? — ele assentiu. — O que acha de sairmos amanhã, então? Eu queria te chamar para jantar algo decente, mas estou morrendo de vontade de comer pizza ultimamente e talvez curtir alguma boate. Faz tempo que tirei uma folga também, mas e então?
— Ousada como sempre. Você é sempre a primeira que chama os caras para sair, Angie?
— O que posso fazer se eles são lentos demais?
— Tem razão — ele sorriu. — Eu adoraria comer uma pizza enorme e curtia em alguma boate com você em prol dessa folga que tiramos.
— E fazer um brinde a este reencontro, nem que seja apenas com coca-cola. Até porque tenho certeza de que é melhor do que esse champanhe horrível que nos serviram aqui. O que as pessoas veem nessas bebidas chiques? — ela perguntou e não fez nada além de rir.
Quem a visse, nunca imaginaria que ela vinha de um família rica.
— Nem que seja só com coca, então.
— Tudo bem, mas já que não temos ela no momento, vamos usar esse troço agora — e entregou uma taça para ele, depois de pegar a sua própria. — Um brinde, . Ao nosso reencontro e também ao Richard por proporcioná-lo, mesmo sem saber.
Ele riu mais uma vez e tilintou sua taça junto a dela por um segundo.
— Um brinde, Angie.


29. Mussarela e Pepperoni

sorriu assim que viu que Angeline já na pizzaria, sentada com um copo gigante de coca-cola ao lado, e foi até a mesa. Angel estava distraída enquanto digitava avidamente algo em seu celular, tanto que só percebeu a presença de quando ele se sentou em frente a ela.
— Pensei que tivesse dito que estava de folga hoje.
— Eu não te vi chegar, desculpe. E sim, estou de folga, mas sabe como é... O trabalho ainda está lá. Mas prometo que serei toda sua hoje, portanto... — e desligou o celular, colocando-o dentro da bolsa.
riu.
Deveria imaginar que Angel ainda seria a mesma pessoa, afinal, só fazia alguns meses desde que haviam se separado, embora parecesse anos devido a tudo o que ele viveu em Londres.
— Você já pediu a pizza?
— Metade mussarela, metade pepperoni, acho que já deve estar chegando.
— Ótimo. Já pensou em que lugar iremos depois daqui?
— Que tal o D-Cave's? Não vou lá desde que você foi embora.
— Oh, o lugar onde você me pediu em casamento? — ele brincou.
Angeline fez uma careta.
— O lugar em que costumávamos ir sempre — ela corrigiu. — E eu estava bêbada também, ok? Eu nunca teria te pedido em casamento se não estivesse. Não daquele jeito, pelo menos...
— Ah, você ia preferir ser romântica e encher a nossa cama de pétalas de rosas e todos essas coisas do tipo? Às vezes, eu acho que você era o homem da nossa relação, Angel.
— Mas eu era. Você sempre foi muito lento, . Que culpa eu tenho de ter vênus em áries?
— Lá vem você com o papo de mapa astral de novo.
— Estou simplesmente relatando um fato. Ainda odeio ter que lidar com a sua lua em aquário — ela esnobou, olhando para a janela.
riu.
— Você me parece bem, Angel.
— Claro que estou, . O que esperava? Que eu ficasse na fossa de novo depois de te reencontrar pela primeira vez desde que terminou comigo? Eu só fiquei por umas duas semanas, se quer saber. O trabalho foi bem eficiente para me distrair na época.
Outch! Fico feliz em saber que você me superou tão rápido.
Angeline riu, brincando com o canudo do copo.
— Eu não te superei, realmente, . Se tivesse, provavelmente eu estaria em outro relacionamento agora, já que oportunidades não faltaram e, acredite, não estou me gabando.
— Não acho que esteja, Angeline. Você tem seus encantos — admitiu ele.

A pizza chegou vinte minutos depois, tempo longo o suficiente para que dissera estar faminto.
— Eles adivinharam que eu já ia reclamar ou o quê?
— Ei, você viu o tanto de gente que tem aqui? Já tinha um monte na nossa frente quando cheguei, por isso adiantei o pedido. Você continua tão impaciente quanto sempre, . Mas e então, você me falou do seu trabalho e eu do meu, mas ainda estou esperando a foto do que você disse que ia me mostrar. Não pense que eu esqueci, ouviu? — e apontou o indicador para ele.
abaixou a cabeça e sorriu para si mesmo, antes de voltar a encará-la.
Seria um prazer mostrar a foto de seu filho para ela e quem quisesse ver; se orgulhava muito de seu garoto.
— Você fala com tanta naturalidade… Quando descobriu?
— Acho que logo depois que você contou ao David. Eu fiquei surpresa, mas não é como se eu tivesse o direito de ficar com raiva ou algo do tipo. Você não sabia que tinha um filho e mesmo que soubesse, eu não iria me importar com isso, afinal ele teria vindo bem antes de mim, não é? Além disso, que culpa ele tem no meio dessa bagunça toda? O garoto é a pessoa mais inocente nessa história toda.
— É, tem razão. Fico feliz por isso, Angie… Digo, por você ver isso com naturalidade mesmo não estando mais comigo — ele disse a ela assentiu, apoiando o queixo na mão.
— Como reagiu quando soube que você era seu pai?
— Melhor do que eu esperava, acredite. Na primeira vez que o vi, fiquei com tanta raiva que tudo o que pude fazer foi gritar com porque, veja, eu sabia que ela tinha um filho e que era mãe solteira e na minha cabeça, o pai da criança era um completo filho da puta por ter deixado ela, mas… Aconteceu que esse filho da puta era eu e ela havia me dado várias dicas sobre isso, mas eu só as associei quando vi pessoalmente. Aqui — ele virou o celular para ela —, este é .
Angeline franziu o cenho, surpresa, e pegou o celular da mão dele.
— Isso é real? ! Ele é a sua cara, como isso é possível? — ela perguntou, fazendo-o rir. — Você também deve ter ficado chocado — ela riu.
— Completamente — ele a acompanhou. — E ele é muito esperto. Sério, foi o que mais me assustou, afinal, ele só tem dois anos, mas já consegue falar coisas como se fosse uma criança de quatro. Isso não é estranho? Tenho certeza que a esperteza ele herdou da mãe.
— E a ? Ela era sua amiga, não é? Parecia alguém especial para você.
— Ela é, nós tentamos algo juntos, mas não deu certo. Agora nós apenas dividimos o mesmo apartamento, como eu disse antes.
— E ? Não acha que talvez seja estranho para ele ver os pais juntos e depois separados?
— Acho que realmente não presta atenção nessas coisas. Talvez eu esteja errado ou sei lá, mas ele parece aceitar bem e não é como se e eu tivéssemos oficializado algo algumas vez ou coisa do tipo e tivéssemos dito a ele. No fim das contas, eu acho que ele apenas se acostumou comigo e me aceitou como pai. É claro, só há um problema entre nós dois…
— O quê? — ela perguntou, seriamente.
— Ele prefere o Homem de Ferro ao invés no Batman. Isso é quase uma tragédia! — ele dramatizou, fazendo-a rir.
— Isso porque a Marvel é melhor do que a DC Comics e até o seu filho de dois anos sabe disso melhor que você.

***


Era quase dez da noite quando Angel e entraram no D-Cave’s, um bar aconchegante e bem movimentado que costumavam ir quando ainda morava em Nova York.
— Vem, — ela o puxou pela mão, assim que entraram no recinto. — Joey não vai acreditar quando te ver aqui outra vez.
Angel o guiou até o bar, onde Joey Hall preparava os drinks especiais dos clientes. Era o dono do local, porém poucas pessoas sabiam já que aparentava estar ali apenas como um empregado como todos os outros.
— Dois Joey’s drinks aqui, por favor, senhor — ela bateu na mesa, com falsa autoridade, chamando atenção do homem que até então não havia os percebido ali.
— Ora, ora. O que temos aqui? Voltou para Nova York, ? Ou está apenas a passeio, ou será que foi outro motivo…? — ele olhou para Angel, sugestivamente.
— Nada disso, cara. Estou visitando, por conta do trabalho, você sabe. Acabei encontrando Angel no mesmo evento e combinamos de sair juntos hoje.
— Oh, que pena. E eu achando que vocês dois tinham voltado — ele fingiu tristeza. — Servi muitos drinks de morango e vodca para essa moça aqui depois que você foi embo-Ai! — ele reclamou, após receber o tapa da mulher.
— Segure a língua, Hall. Esse realmente não é o tipo de coisa que precisa ser compartilhada — ela reclamou e riu.
— Caramba, Angie, eu não imaginei que o estrago seria tão grande… — ele provocou. — , eu ainda faço Muay Thai, sabia? Caso você não se lembre — ela sorriu.
fez uma careta e pegou a bebida que Joey tinha acabado de colocar no balcão.
— Eu acho que também esqueci de como você era assustadora, Angie. Talvez esteja pior.
— Ei!
— Estou brincando — ele riu. — Na verdade, se formos comparar, acho que você amadureceu definitivamente um pouco mais, porque na minha mente, eu pensei que iria colocar em prática os seus golpes de Muay Thai assim que me visse novamente. Portanto, já é uma evolução.
— Obrigada, , mas tenho que admitir que a ideia passou pela minha cabeça. Mas eu decidi ser piedosa, ao invés de estragar seu lindo rostinho, seria um desperdício.
— Wah, o que é isso, Angie, uma declaração? Você ainda está sóbria, não está? O que tinha naquela coca-cola, afinal? — brincou ele.
— Completamente sóbria, . Mas é aquela coisa, você sabe que eu falo o que penso e coloco as cartas na mesa quando acho que devo. Não é como se eu fosse tentar te ter de volta nem nada do tipo, mas não posso negar que você ainda mexe comigo. Gostei de reencontrar você e achei que seria legal sairmos e nos divertimos juntos em nome dos velhos tempos, até porque, você sabe que antes de tudo nós éramos amigos.
“Wow”, foi o que pensou naquele momento. Sim, ele sabia de tudo isso, mas não esperava que Angeline fosse ser tão sincera e direta com ele. Até porque, ele sabia que a tinha magoado com o término do namoro, embora ela tivesse aceitado aquilo consideravelmente bem quando aconteceu, quase como se esperasse o acontecido.
— Então… você quer se divertir comigo?
— Quero me divertir com você.
— Tá legal… — ele sorriu de lado. — Devemos começar com uma dança, então? Essa música é legal…
— Tem certeza que quer mesmo começar com uma dança? — ela arqueou uma sobrancelha.
colocou o drink no balcão e se aproximou, para falar-lhe no ouvido.
— Eu não sei, não acha que vai ser muito estranho se eu te beijar agora? — ele perguntou, com a voz rouca, fazendo Angel se arrepiar. — Não queremos dar falsas esperanças ao Joey. Afinal, você disse que ele até seria nosso padrinho de casamento.
— Pare de enrolar, . Você sabe que eu odeio isso — ela disse, olhando-o nos olhos, mas tudo o que ele fez foi rir, adorando deixá-la impaciente.
— Acho que gosto mais quando você toma a iniciativa. Você fica sexy e confiante — ele sussurrou e mordiscou o lóbulo dela levemente.
— Como quiser, — ela disse assim que ele se afastou, antes de puxar seu rosto de encontro ao dela e juntar suas bocas em um beijo, sem mais rodeios.
Automaticamente, as mãos de se dividiram para tocar a cintura e o rosto dela, trazendo-a mais para perto e moldando melhor suas bocas.
Do outro lado do balcão, Joey sorriu com a cena e sacou o celular do bolso para registrar aquele momento. Voltando ou não, aquele casal não haveria como negar aquela noite, mesmo que fosse só diversão.
E então, ele voltou ao trabalho.
Angie se afastou de , ofegante, devido a falta de ar. Contudo, continuou a provocar-lhe espalhando pequenos beijos pelo seu rosto, fazendo-a sorrir quase relaxada.
— Rápido demais, não? — ele perguntou no ouvido dela e a viu assentir.
— Acho que agora podemos ir dançar um pouco — ela disse e assim eles foram.
No entanto, aquele não foi o único beijo que surgiu entre eles naquela noite. Dançaram algumas músicas juntos e entre uma e outra, lá estavam suas bocas mais uma vez grudadas, como se fossem imãs.
Mas só foi por volta de meia-noite que os dois deixaram o local e seguiram até o hotel que estava, indo rapidamente ao elevador que, por sorte, estava vazio. Pareciam um casal normal e comportado voltando para o hotel, não deixando transparecer o efeito do álcool que estava em seus sangues.
Porém, isso durou até as portas do elevador se fecharem, quando rapidamente atacou a ex-namorada com mais um beijo, dando-lhe impulso para que colocasse as pernas em volta de sua cintura e espalhando beijos pela pele pálida de seu pescoço, onde provavelmente haveria algumas marcas no dia seguinte.
Foi só quando as portas do elevador se abriram novamente, que colocou Angel de volta ao chão. E em meio a beijos e tropeços, eles chegaram até o quarto, não perdendo mais tempo e indo diretamente para a enorme cama que os aguardava ali.
E aproveitaram o resto da noite.

se espreguiçou na cama antes de, por fim, abrir os olhos e encontrar uma Angeline já vestida, mexendo em algo dentro de sua bolsa.
— Sua raposa — ela a acusou, em um tom brincalhão.
Angie o olhou sobre o ombro, antes de virar novamente a cabeça e terminar de fechar sua bolsa.
— Eu tava de folga ontem, . Mas acabei me atrasando um pouco por sua causa...
— Quem trabalha num domingo? — ele reclamou. — Por que não volta e dorme mais um pouco, Angie?
— Tentador, mas terei que recusar. Acabei de checar meu celular e recebi uma mensagem sobre uma nova pista a respeito do Eric — ela disse e caminhou até ele, que já estava sentado na cama. — Tenho que ir, , mas se quer saber... Talvez eu vá te fazer uma visitinha em Londres daqui a alguns dias. Afinal, a pista me leva até lá — e depositou-lhe um beijo no rosto, antes de se afastar.
— Isso se o seu trabalho não fizer você não se esquecer de mim antes — ele brincou e ela arqueou uma sobrancelha.
— Acredite, , vou lembrar de você pelos próximos dias, querendo ou não — ela disse e ele a encarou confuso.
Angeline então colocou o cabelo para trás, mostrando as marcas que ele havia deixado na noite anterior.
— Desculpe, Angie. Eu sei que você odeia isso.
— Tudo bem, nada que uma boa maquiagem não resolva — ela deu de ombros e colocou a bolsa no ombro. — Estou indo agora, . Foi legal me divertir com você.
— Idem, senhorita — ele piscou em uma pose galante, fazendo-a rir.
— Volte a dormir, ainda está cedo. Até algum dia, .
— Até logo, Angie — ele corrigiu, sabendo que a veria de novo, logo em breve.
E quando ela foi embora, voltou a dormir, sentindo-se completamente relaxado pela primeira vez em semanas.


30. Ah, o inesperado...

deixou os últimos arquivos que precisava copiando para um pen drive e foi tomar banho. A apresentação seria no dia seguinte e ela queria ter certeza de que não esqueceria de nada, então resolveu copiar tudo com antecedência assim que lembrou.
Embora, talvez a ansiedade que tinha contribuísse para tanto. Estava nervosa e com muito medo de falhar já que era sua última chance de permanecer na revista, com um emprego fixo.
Enrolou-se em uma toalha assim que acabou o banho e foi até a cozinha preparar algo para comer. Havia passado um tempo com naquela tarde, trabalhando nos últimos detalhes pendentes do artigo e fazia pouco tempo que tinha chegado em casa, porém logo teria que sair novamente. estava na casa de , como sempre já que sua amiga insistia em não lhe deixar pagar uma babá, e ainda estava trabalhando. Preparou um sanduíche rápido, mas quando estavas prestes a mordê-lo, assustou-se com o barulho repentino da porta. Virou-se e encontrou a encarando com um olhar arteiro.
— Parece que cheguei na hora certa, huh? — ele brincou, olhando-a de cima a baixo.
— Achei que fosse chegar mais tarde. Eu… vou trocar de roupa — ela disse, pronta para sair dali.
— Bem, não é como se tivesse algo que eu já não vi — resmungou.
— Verdade, besteira minha, não é? — ela respondeu irônica e foi até a bancada e sentou-se, pronta para comer. — Você quer? — ofereceu do sanduíche, mas ele balançou a cabeça.
— Não estou com fome — disse e ela deu de ombros. — Vou tomar banho — e saiu.
Já fazia algumas semanas desde que havia voltado de Nova York, e percebeu que havia algo diferente nele. Nada demais, é calmo, ela também havia mudado um pouco desde o término deles e apenas sentiu que … Bem, talvez ele estivesse lidando melhor com aquilo do que antes já que não a atacava com piadinhas sem graça ou coisas do tipo. Ele era apenas… ele. Como quando era seu amigo, anos atrás. Eles estavam se dando bem, sem discutir como antes e talvez fosse porque ambos haviam percebido que não valia a pena.
Mas uma coisa que ela achava que nunca mudaria nele era o ciúmes.
Ah, que chato…
a olhava desconfiado toda vez que a via com . Muito provavelmente porque não gostava dele, e com razão, mas agora e ela se davam bem e eram amigos como no passado, antes dele virar um babaca.
E por falar em babaca, ela tinha que dizer que estava no momento se saindo como um completo cavalheiro. Ela não o reconhecia.
Agora ele era um homem que ela respeitava e que a respeitava.
Desde a última vez que haviam se beijado, ele havia prometido que seria a última vez, como uma despedida. E estava cumprido com a promessa.
não podia dizer, no entanto, se ela satisfeita com aquilo ou não.
a evitava nesse sentido o máximo que podia, se esforçando para que a relação dos dois não cruzasse a linha da amizade. Não era como se tivesse faltado oportunidades para que os dois se aproximassem, pelo contrário, eles passavam muito tempo sozinhos trabalhando juntos, às vezes quando resolviam dar uma pausa saíam para comer e conversavam bastante.
Talvez eles tivessem mais próximos, afinal.
Só não romanticamente.

No dia seguinte, chegou cedo no trabalho e meia hora antes estava na sala onde ela e apresentariam seu trabalho. As apresentações começariam a partir das nove horas, e ela não queria correr risco de se atrasar ou de esquecer alguma coisa. Então, aproveitou aquele tempo para revisar sua apresentação.
chegou dez minutos depois e a encontrou entretida nas próprias anotações.
— Ei — chamou. — Está tão nervosa assim? Você vai se sair bem, .
Sentou-se ao lado dela e pôs uma das mãos em seu ombro.
— Obrigada, mas é inevitável. Sempre fico nervosa quando tem algo importante para apresentar.
— Nós ensaiamos dezenas de vezes, vai ser legal, você vai ver — garantiu ele.

E tal como disse, aconteceu.
A apresentação havia sido impecável, exatamente da mesma forma como haviam planejado e ensaiado, mas eles não haviam sido os únicos. A apresentação de outras duas duplas também haviam sido perfeitas, entre elas estava a de Anne, mas não se surpreendia. Anne era ótima com apresentações, seja um simples seminário ou um trabalho sério como aquele, se ela ficava nervosa, nunca deixava que aquilo lhe abalasse.
sabia que ela era uma grande candidata desde o início e se uma das vagas fosse dela, não podia deixar de ficar feliz pela amiga.
Assim que as apresentações terminaram, os jurados pediram um tempo para fazer as devidas avaliações e, por fim, decidirem o resultado final.
— Não acho que eu já conseguir, murmurou, assim que saíram.
— Ei, porque não? Você foi ótima, . Nem parecia que estava nervosa — ele garantiu. — Não sofra com antecedência. Não sabemos os resultados ainda.
Ela suspirou.
— Você está certo.
— Vem cá — a puxou para um abraço. — O que acha de irmos comer alguma coisa agora?
— Se eu comer agora, eu não almoço.
— Então, vamos comer algo que seja suficientemente gostoso a ponto de servir como almoço. Por minha conta — sorriu.
— Certo, mas não vamos demorar muito.
— Sim, senhora.

levou a um restaurante de comida árabe que ficava a alguns quarteirões de distância. Um pouco longe se fossem caminhando, mas como estavam de carro, logo chegaram lá.
— Um restaurante árabe? Você já veio aqui?
— Já sim, é muito bom. Tenho certeza que você vai gostar também.
Logo que acharam uma mesa livre, se sentaram e um garçom lhes deu os cardápios do local.
— Tem muita coisa aqui que parece lanche — comentou enquanto lia.
— Sim, mas que na verdade é uma refeição. Vai por mim, as porções são enormes, às vezes mal aguento e olha que eu como muito.
— Hmm… O que você recomenda, então? — perguntou, incerta sobre o que escolher, resolvendo deixar essa parte para ele.
— Esse sanduíche aqui — ele apontou. — É feito com carne assada, você pode escolher o tipo, salada, molho, queijo… e o pão, é claro. Mas ele é bem fino, não é como os pães de hambúrguer.
— Então é recheio com pão, ao invés de pão com recheio? — ela brincou.
— Tipo isso — ele sorriu.
— Tudo bem, então. Eu quero o meu com carne suína, mas sem queijo.
Minutos mais tarde, aguardava a reação de ao morder o sanduíche.
— E aí? — perguntou, ansioso.
balançou a cabeça, como se estivesse ponderando sobre o gosto.
— É bom. Eu gostei.
— Nossa. Eu esperava uma reação mais animada, sinceramente — ele resmungou, depois mordeu o próprio sanduíche.
— Eu não sou muito boa com reações, não sou muito expressiva. Às vezes, posso estar sem nenhuma expressão no rosto, mas gritando por dentro.
— E isso acontece muito? — ela confirmou. — Em que situações?
— Em quase tudo.
— Uuuh… — ele disse e desviou o olhar novamente para a comida.
— O quê?
— Hm? — ele olhou para ela.
— O que esse “uuuh” significa? — ela quis saber.
— Hm, não significa nada. Eu ia fazer um comentário, mas achei melhor não.
— Por quê?
— Porque faz parte dos comentários desnecessários que eu fazia antes, e eu te prometi que não ia mais fazer nada do tipo.
— Você disse que não ia me beijar, não que ia evitar fazer comentários.
— Então, sente falta deles?
— Não falta, eu ainda odeio aqueles comentários horríveis que você fazia para me irritar, mas os brincalhões são suportáveis.
— Ahh… suportáveis, é? — ele riu. — Ainda assim, se eu disser o que quero dizer, isso vai me fazer pensar… e lembrar — e encarou a boca dela, um segundo antes de voltar a falar. — E estou me esforçando para que isso não aconteça.
— Porque você fez uma promessa.
— Exatamente.
E aquela era uma das vezes que mantinha uma expressão neutra por fora, mas por dentro tinha uma luta interna consigo mesma. Deveria estar feliz por ele estar cumprindo a promessa, mas não estava. Às vezes se pegava pensando em como teria sido se ela nunca tivesse conhecido e ao invés de se envolver com ele, ela tivesse se envolvido pelo nerd que havia se declarado para ela.
Não que ela tivesse arrependimentos. Mas esse era um daqueles tipos de pensamentos que sempre surgiam aleatoriamente.
“E se eu não tivesse comido aquela comida apimentada? Eu provavelmente não teria tido uma crise de gastrite…”
“E se ao invés de ter me envolvido com mais alguém, eu tivesse permanecido com Thomas?”
Se ela estivesse com Thomas, bem… provavelmente seus pais ainda a considerariam como sua filha. Mas ela não tinha notícias de casa, ou mandava notícias desde o dia em que fora expulsa e tivera que lidar com tudo por conta própria.
Felizmente, havia Claire.
Nunca conseguiria expressar tamanha a gratidão que sentia por sua tia, disso tinha certeza.
Uma hora mais tarde, e voltaram para a sala de apresentações. Os jurados haviam decidido, afinal e já era hora deles saberem. Originalmente, haviam três jurados durante as apresentações, sendo e o senhor McComick um deles. Mas quando voltaram, havia uma outras pessoa. Uma mulher, loira e alta se encontrava junto à mesa de jurados. tinha a impressão de que a conhecia de algum lugar, mas não se lembrava de onde.
— Wow, o que Angeline Reed está fazendo aqui? — comentou ao seu lado.
— Angeline Reed? — perguntou. É claro! Sabia que a conhecia de algum lugar. Era a jornalista investigativa que estava envolvida no caso de Aria, procurando pistas sobre o agressor há mais de um ano.
— Será que ela é jurada também? Algum tipo de jurada surpresa? — perguntou. — Não fomos avisados, fomos? Eu me lembraria disso.
— Não, não fomos. Mas acho que sim.
Felizmente, não precisaram pensar muito sobre aquilo já que o próprio McCormick confirmou minutos depois.
— Então, meus caros. Infelizmente, a srta. Reed não pôde comparecer às apresentações devido ao atraso de seu vôo, porém seu voto será decisório quanto ao resultado final dos escolhidos. Quanto a nós, que assistimos às apresentações, escolhemos duas duplas como as melhores não somente por causa das apresentações em si, mas pelas temáticas as quais escolheram falar, que consideramos realmente muito interessantes, ainda mais na atualidade — explicou ele.
Logo, foi a vez de falar.
— A srta. Reed aqui presente foi convidada para avaliar todos os artigos escritos aos quais vocês nos enviaram. Contudo, como forma de avaliação mais justa, os artigos foram enviados sem os nomes dos participantes. Dessa forma, ela já havia votado antes mesmo de descobrir quem de vocês os escreveu. Agora, quero convidar para que venham a frente, , , Anne e Mackenzie — ele pediu. — Seus trabalhos foram escolhidos como os melhores. Parabéns.
O som de palmas ecoou na sala. começou a suar frio, mais uma vez.
— Iremos anunciar os dois escolhidos agora — Sr. Miller, o terceiro jurado, falou. — Queremos dar os parabéns para Anne… e . Em termos de apresentação, consideramos os dois com a melhor postura. Então, sejam bem-vindos a-
— Com licença, senhor — o interrompeu.
— Sim, sr. ?
— Será que posso dar minha vaga para a srta. ? Sinceramente, ela merece bem mais que eu.
! — arregalou os olhos e o puxou pelo braço, mas ele apenas a ignorou.
— Senhor? — perguntou.
— Ora, ora… O que temos aqui — a srta. Reed falou, chamando a atenção de todos para si. — Muito considerado de sua parte, sr. , mas creio que não será necessário. Acho que todos aqui já devem ter ouvido o rumor de uma terceira vaga, certo? Bem, o Sr. Miller estará deixando a revista em breve e se juntar ao time de golf do sr. McComick nos finais de semana — disse, fazendo-os rir. — O que quero dizer é que houve sim uma nova vaga e um terceiro jornalista escolhido. Meu voto foi dado a um dos trabalhos, antes mesmo de saber a quem ele pertencia, então imagine que coincidência incrível, Sr. … pois a srta. foi a escolhida. Meus parabéns, .
Mas que porra… se perguntou internamente, enquanto por fora se mantinha paralisada sem saber o que fazer. Mas logo voltou a si, quando Anne pulou em seus braços, parabenizando-a.
— Eu sabia que você ia conseguir!
— Então, senhoras e senhores, creio que estamos terminados — anunciou. — Parabéns Anne, e . E uma salva de palmas para o sr. Miller, desejamos boa sorte em sua nova vida e ao time de golf, é claro — brincou. — Quanto ao três escolhidos, depois faremos uma reunião para decidirmos para qual área vocês serão designados.
— Obrigado — os três disseram.
Minutos depois a sala estava quase que completamente vazia, com exceção de e Angeline, que havia ficado para trás.
— Parece que e tal é mesmo boa. Bem, ela e o , o trabalho estava realmente bom — ela comentou. — Mas eu sou suspeita… já que é um tema que me atrai.
— Bem, de qualquer forma, você foi justa. Mesmo sem saber — ele riu.
— Eu acho que você me mandou tudo isso, já sabendo que eu ficaria tentada a esse tema. Mas ainda sou exigente — garantiu.
— Claro que é. Obrigado por participar, Angie. Deve estar cansada do vôo…
— Cansada… sim. Mas estou com mais fome do que cansaço. O que acha de irmos almoçar juntos? Não conheço Londres muito bem, mas vou ter que me acostumar aqui de agora em diante. Então, estou te nomeando oficialmente meu guia turístico — disse e ele riu.
— Vamos comer logo, eu acho que você não ‘tá pensando direito… — disse e levou um tapa. — Ai! Certo, certo… Eu prometo que te arrumo um folheto informativo...

— Não precisava ter feito aquilo. Você é doido?! — perguntou, empurrando a testa de .
— Ai! Por que está brava? — perguntou e terminou de beber água, jogando o copo descartável no lixo, em seguida.
estava tão nervosa antes do resultado e depois em choque após o resultado que achou melhor levá-la para tomar um pouco de água para que se acalmasse.
— Porque não tinha necessidade daquilo, porque se você foi escolhido é porque mereceu e tem capacidade mais que suficiente para o cargo — ela disse, jogando o próprio copo fora também.
— Bem, nós dois temos, então. E mesmo que você ainda esteja zangada… — a puxou para um abraço apertado. — Meus parabéns, .
o abraçou de volta, sentindo uma súbita vontade de chorar.
— Obrigada. Parabéns para você também, . Metade do crédito é seu, ou talvez mais da metade, já que foi você que sugeriu o tema... — ela disse com a voz abafada pelo abraço e ele deu um risinho, antes de se afastar e beijar sua testa.
o encarou nos olhos por um instante e lembrou-se de algo, de repente.
— Você tem descendência asiática, ?
— O quê? Que pergunta aleatória… por um segundo achei que você fosse me beijar — brincou, sem pensar. — Ah, quer dizer… Eu-
Mas interrompeu os lábios dele com os seus próprios em um beijo simples e curto, mas que o deixou desconcertado.
— O que você estava dizendo? — ela perguntou, fazendo-se de inocente.
— Minha mãe é uma coreana que se casou com um inglês, daí vem meu sobrenome.
— Sempre quis perguntar isso — e tornou a beijá-lo.


31. Escrevendo Uma Nova Página


— Então finalmente chegou o grande dia! — disse a assim que a viu. — Você está linda, amiga — e as duas se abraçaram.
— Você não vai vir com nada sentimental agora, não é? Guarde o discurso para o jantar, eu acabei de fazer a maquiagem.
riu e sentou-se no sofá que havia no quarto.
— Não acredito que você está se casando. Me sinto culpada por ter sido uma péssima madrinha, você cuidou de tudo praticamente sozinha.
— Você sabe como sou perfeccionista, . Eu ia ficar sempre no seu pé, então não faz tanta diferença, faz? Não se preocupe com isso — disse. — E poderia ser você também se casando um dia, mas você não coopera.
— De novo essa história?
— Desculpe. Você e o não cooperam — se corrigiu.
— Você sabe muito bem como são as coisas entre mim e o , não estamos mais juntos há mais de dois meses. Você sabe… acho que não era amor, afinal. E você sabe que não sou uma fã de casamentos.
— E com o é? O cara que te encheu o saco por anos?
riu baixo.
— Eu não sei. Eu concordo que foi um completo babaca, e ele também admite isso e se sente culpado, mesmo eu dizendo que já esqueci aquilo.
— Bem, ele deveria mesmo.
— Sabe, … Há coisas sobre o que eu nunca te contei. Acho que eu não tive coragem porque eu também me senti culpada na época.
— Oh, meu Deus! Que tipo de hora da confissão está acontecendo aqui? — se sentou ao lado dela. — Desembucha agora, . E é melhor me contar tudo senão eu mesma encurralo o bonitinho hoje e arranco a verdade dele.
— Por que você me deu a senha para convidá-lo, afinal? Você não gosta dele.
— Dei porque disse que ia trazer aquela amiga Angie dele e achei que ia ser meio deprimente se você estivesse sozinha, e já que você e o estão meio que se dando bem ou… seja lá o que for, achei melhor que viesse com ele.
— Isso é muito infantil, .
— Ah, qual é, . Acha mesmo que o não sabe de nada? Ele sabe que tem algo entre você e o . Ele também ‘tá com um pé atrás com essa história, mas está tentando não se meter. Talvez ele tenha finalmente aceitado o fim do relacionamento.
— Acho que ele finalmente entendeu o que eu quis dizer. Você sabe, … não é como se ele fosse uma parte de mim. Acho que confundi a…
— Atração com amor. Sim, você já disse, mas quero saber do , então pare de desconversar e diga de uma vez.
— Ah… claro. Bem, não foi nada grande, mas… Você lembra de uma vez que eu tive que fazer um trabalho com ele? Estávamos na faculdade, em uma sala e ele estava realmente sendo irritante e me mantendo lá de propósito, enquanto me enrolava para terminar o trabalho. Então houve um momento que ele disse que faria um trato comigo.
— Um trato? Amiga, não se faz tratos com demônios — disse e riu.
— Ele disse que queria um beijo em troca de terminarmos o trabalho. Eu concordei em fazer o contrário, terminaríamos antes e depois nos beijaríamos — explicou, sentindo as bochechas esquentarem. — Por que estou ficando com vergonha agora?
riu.
— Você tá parecendo uma adolescente contando sobre o primeiro beijo com o crush.
— Tudo bem, então… ele concordou. Terminamos o trabalho e depois ele me beijou. E eu… correspondi.
— Minha nossa! — gargalhou. — Você sobre de alguma Síndrome de Estocolmo ou algo assim? Só faltou ele te dizer que tem gostos muito peculiares. Quem diria que aquele nerd iria virar um sedutor?
— Me faço essa pergunta sempre. Mas… foi só essa vez, o resto da história você conhece. No entanto, esses últimos meses em que trabalhamos juntos foram esclarecedores. Eu descobri, , que o garoto que era meu amigo ainda estava lá em algum lugar. não havia mudado completamente, afinal de contas. E ultimamente ele está cada vez mais parecido com o nerd que conheci do que o cara que me perturbava. Acho que era tudo uma fachada para me irritar.
— Fachada? Isso é muito infantil.
— Completamente. Eu não sei o que está acontecendo entre nós, para falar a verdade. Mas às vezes, eu me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse aceitado os sentimentos dele quando se confessou.
— Você teria aceitado se não houvesse o ?
— Acho que sim. era uma pessoa realmente fácil de gostar. Ele era só um pouco tímido, na época. Mas era muito divertido passar um tempo com ele. E claro, ele também sempre foi bonito.
— Só desleixado, talvez. Pelo menos você o ajudou nesse quesito quando partiu o coraçãozinho dele — comentou e as duas riram. — Eu vou dar ao um voto de confiança, , mas vou eu mesma dizer para ele que se ele te magoar de alguma forma, eu acabo com ele.
— Acho que ele meio que sabe disso.

***


O cerimônia de casamento foi um tanto longa, mas emocionante. Como padrinhos, e ficaram ao lado um do outro todo o tempo. Às vezes cochichavam amigavelmente principalmente quando passou da primeira hora e ele já estava impaciente para sair dali.
Quando tudo acabou, cada um foi para um lado. pegou com Claire e juntos foram encontrar .
— Tio ! — correu, assim que o viu e o homem o pegou nos braços.
— E aí, carinha! Está se divertindo no casamento da sua tia?
— Não— disse simplesmente.
— Por quê?
— Porque é chato e demora, e eu quero comer — explicou.
riu.
— Eu te entendo, . Também estou morrendo de fome. O que acha de irmos agora para o salão de festas e roubar vários docinhos?
— Ei, . Nada de doces agora, vocês dois — apontou um dedo repreendedor para eles. — Estou avisando.

tinha noção de toda a pompa que seria o casamento de e , mas quando chegou ao salão de festas do hotel que havia reservado não imaginou que estivesse tão lindo, mais do que ela esperava.
Sentiu-se mais uma vez culpada, por não ter ajudado muito com os preparativos, mas tinha outras madrinhas, então isso a tranquilizava.
Sentou com e na mesa que havia reservado para ela e sua tia. Felizmente, não na mesma mesa que ; ela se sentiria desconfortável se estivesse, afinal ele também havia trazido uma acompanhante. Claire chegou pouco tempo depois e se juntou à eles, deveria estar com o noivo, mas infelizmente o tio postiço estava no meio de uma viajem à negócios. A noite de se passou em meio à danças, comida, risadas e um que corria vez ou outra para a mesa do pai para passar um tempo com ele. Mas em determinado momento da noite, ele acabou adormecendo nos braços de .
— Deixe-me segurá-lo — ela pediu para o homem, que negou prontamente. — !
— Deixe ele aqui. Eu não ligo para isso, ele só está cansado de brincar por aí.
— Acho que já é hora de ir, já que ele dormiu.
Mas quando ela encontrou a tia e comunicou que estava indo embora, ela negou prontamente, assim como .
— Deixe que eu levo comigo, querida. Ao menos, não irei dormir sozinha já que ele me fará companhia. Fique e aproveite mais um pouco com — ela disse e olhou para o rapaz de longe, que ainda tinha adormecido em seu colo. — Ele me parece um bom rapaz, afinal.
— Tia...
— Nada de tia, a interrompeu. — Faça o que Claire diz e depois você pode subir para a suíte e descansar. E você vai — enfatizou quando viu viu a amiga revirar os olhos. — Eu não reservei as suítes para as minhas madrinhas não usufruírem delas.
— Não é como se você estivesse gastando por isso… — retrucou. — O hotel é da sua família. E eu não moro tão longe, disse que me daria uma carona.
— Bem, o hotel pertence a minha família, sim. Mas você ainda é minha madrinha e vai dormir aqui, assim como as outras, então sem discussão. Por que você não faz o que sua tia diz e aproveita a noite com , depois vocês podem ir para a suíte juntos…
!
— Eu concordo com ela, querida — disse Claire. — Acho que deveria se divertir mais, está fazendo o mesmo. A menos que… você ainda gosta dele?
— Vocês tiraram o dia para me perguntar isso? Bem, eu gosto muito do , Claire. Mas não me vejo com ele, no momento. E ele está com Angie e eu sinceramente acho ela uma boa mulher, eles têm muito em comum. Não é como se eu conseguisse odiá-la, ela é muito simpática para isso.
— Posso tentar odiá-la por você, se quiser. Eu mal a conheço — ofereceu, fazendo a amiga rir.
— Eu passo. Mas talvez eu esteja mesmo pensando em seguir o conselho de vocês duas…
— Como estão as coisas com o , afinal? — quis saber.
— Acho que bem, nós não definimos nada ainda, acho que por enquanto apenas estamos saindo e… Digamos que ele agora me trata como sempre tratou a todos.
— Acho que isso é bom. Ele está tentando se redimir, afinal. Como você disse.
— Sim… — disse, com um sorriso e avistou o homem a alguns metros dali, parecendo meio alheio ao redor de pessoas que ele não conhecia. — Talvez esteja funcionando.
— Tudo bem, . Fico feliz em saber disso, você parece feliz, então espero que dê certo.
— Eu vou buscar agora e levá-lo comigo — Claire anunciou.
Contudo, não permitiu.
— Deixe que eu o levo, Sra. .
— Bem, sendo assim, , eu agradeço. Meus saltos estão me matando, de qualquer forma — riram.
foi até a mesa de para avisá-lo sobre , mas o outro casal que ainda se encontrava nela lhe disse que ele já havia ido embora. Sentiu um pouco incomodada por isso, mas resolveu ignorar. Então apenas sacou o celular da bolsa e mandou-lhe uma mensagem.
Bem, ele poderia ao menos avisar que estava indo embora… Não custava nada.
Mas talvez tivesse outros planos com Angeline; que não eram da conta dela.
Voltou para a sua mesa e ficou observando os poucos casais que ainda estavam ali; inclusive e . Eles iam viajar em lua de mel para a Tailândia apenas no dia seguinte, então tinham como curtir um pouco mais da própria festa de casamento.
Escutou os primeiros versos de “You and me” do Lifehouse soar nas caixas de som e admirou a música por alguns segundos, antes de avistar atravessando tranquilamente o salão para encontrá-la. Mas antes que chegasse à mesa, foi ao seu encontro primeiro, puxando-o pela mão até a pista de dança.
— Ah claro, eu aceito dançar com você, srta. . Obrigado por perguntar — ele disse ironicamente ao que respondeu com uma pequena risada enquanto colocava os braços ao redor de seu pescoço.
— Eu amo essa música, . Portanto, não estrague as coisas.
— Eu também gosto dela, a letra diz muito…
— É? E você se identifica? — ela perguntou, com um sorriso.
— Algumas partes, talvez… Ela me lembram você.
— Quais?
“Eu não sei porque eu não consigo tirar meus olhos de você”. “Tudo o que ela faz é adorável, tudo parece certo”.
— Bem específico… — ela abaixou a cabeça, meio sem jeito. Não esperava por aquilo.
riu baixo.
— Não vai ficar com vergonha agora, vai? — levantou o queixo dela. — Foi você que perguntou.
— Eu estava apenas brincando, não pensei que fosse mesmo dizer.
— Bem, eu disse. O que devemos fazer à respeito agora?
— Me diga você.
— Que tal nos divertirmos como sua tia aconselhou?
— Me parece bom. Você está se divertindo agora?
— Sim, mas falta uma coisa. Algo que senti vontade de fazer o dia inteiro, mas eu não queria correr o risco de borrar sua maquiagem — brincou.
riu baixo.
— Bem, acho que agora não fará mal se ela for um pouquinho borrada. Eu já estou meio acabada mesmo.
— Você continua linda, eu só tenho vontade de te beijar mais e mais, . Em todos os lugares — murmurou no ouvido dela.
agradeceu mentalmente por ele estar apoiada nele. Sua pernas agradeceram.
— Então por que não começa?
Ele sorriu.
— Eu estava esperando seu aval.
— Você o tem, . Já faz algum tempo que o tem — ela disse.
Faziam algumas semanas desde o dia em que foram oficialmente admitidos na revista, e que , pela primeira vez, o havia beijado.
E ela o havia beijado outras vez depois daquele dia.
Estavam saindo desde então, estavam tecnicamente juntos, mas não tinham definido nada, ou conversado tanto a respeito. Tudo parecia muito confortável e natural entre eles outra vez, e passou os dias pensando em o que poderia ter acontecido se aquilo tivesse ocorrido antes.
Não se arrependia de suas escolhas, afinal. Mas agora ela queria fazer novas escolhas, queria poder realmente fazê-las agora que tinha oportunidade.
E pensando nisso, deixou que a beijasse tranquilamente e o beijou de volta.
Porque naquele momento parecia bom, parecia certo.
Uma nova música começou e eles continuaram a dançar por mais alguns minutos antes de irem pegar bebidas e docinhos para comer enquanto conversavam.
— Você acha que deveríamos roubar uns desses e colocar dentro da sua bolsa? Podemos levar para o quarto — ele disse, fazendo-a rir.
— Aposto que você era desses garotos que só ia para as festas por causa da comida.
— Logicamente. Mas quem nunca fez isso? Eu faço até hoje. Diga a que ela está de parabéns, a comida estava realmente deliciosa.
— Aqui está o seu coquetel, senhorita — o barman colocou a bebida à sua frente.
estendeu a mão para pegar o copo, mas o copo escorregou um pouco derramando um pouco de líquido no seu vestido.
— Ah! Que droga.
— Aqui, deixe-me limpar isso — e pegou um punhado de guardanapos, para tentar absorver um pouco do líquido azulado.
— Tudo bem, . Nada que uma lavagem não resolva, mas acho que prefiro subir agora. E vou ter que aceitar a sua oferta dos docinhos.

— Pedra, papel, tesoura! — disseram juntos.
Rááá! gritou em vitória, apontando o dedo para ela. — Parece que o último morango trufado é meu, não é mesmo? — provocou.
fez uma careta.
— Pelo menos eu ganhei a uva.
— Oh, querida. O que é uma uva perto de delicioso e suculento morango? — ele perguntou, mostrando o docinho à ela em provocação.
— Você é irritante.
— Você diz isso todo dia.
— Porque você é — e riram.
Estavam ali há uns bons vinte minutos, sentados de frente um para o outro na cama e vendo quem ganhava mais docinhos.
— Eu preciso trocar de roupa — ela se levantou, indo até uma pequena maleta que havia trazido mais cedo. — Fique à vontade também, .
— Querida, não me diga para ficar à vontade. Talvez eu queira ficar mesmo…
— Ninguém está te impedindo — ela retrucou e foi em direção à ele. — Pode me ajudar com o vestido? O zíper está preso.
sorriu, mas não disse nada.
Nada até descer o zíper do vestido.
— Você está tentando me seduzir, srta. ?
— Por que pergunta isso?
— Porque o zíper não estava preso. E porque sua lingerie é linda — depositou um beijo no ombro dela.
virou-se de frente para ele e deu um passo para trás, deixando que o vestido caísse no chão. Em seguida, pegou a camisola que havia deixado na cama para vesti-la, mas a tomou de suas mãos.
— Você é um tremenda provocadora, — a acusou com um sorriso.
— Estou apenas tentando trocar de roupa — ela desconversou e tentou pegar a camisola, mas ele a elevou para o alto e riu por ela ainda ter feito a tentativa de alcançá-la.
— Finja-se de inocente e eu finjo que acredito, — ele disse e arremessou a peça de roupa para longe. tentou correr, mas ele a impediu abraçando-a por trás, fazendo-a rir alto.
— Tudo bem, . Eu vou ficar quieta, mas com uma condição.
— Ah, é? Qual?
— Direitos iguais.
Ele riu.
— Por que você não diz logo que me quer e acabamos logo com isso, ?
— Porque é mais divertido te provocar ao invés de inflar esse seu ego do tamanho do Everest.
— Tudo bem, então eu digo primeiro — a puxou pela cintura, aproximando seus rostos. — Eu te quero; te quero pra caramba. Mas e você?
— No momento, eu só quero que você se livre de sua roupa.
E ele o fez. Se livrou se peça por peça até ficar apenas com a peça íntima.
— Satisfeita? — ele abriu os braços.
— Creio que agora pode me beijar, sr. — ela disse, fazendo-o rir.
— Você tem noção do quanto isso é ridículo, não tem?
— Eu posso colocar a culpa na bebida e fingir amnésia de manhã, ao menos quanto a essa parte.
— Então eu vou ter que lembrá-la que não estava bêbada.
foi até a cama e pegou o morango trufado que havia ganhado, dando uma mordida.
— Isso está realmente gostoso, sabia? — ele disse dando outra mordida. — Você quer provar? Eu te dou um pedaço — e o colocou entre os dentes.
riu.
— Você é muito infantil.
Mas infantil ou não, ela se aproximou e tirou um pedaço do doce.
— Acho que você devia me agradecer agora. O que acha?
— Justo — e selou os lábios nos dele, ainda sentindo o gosto de chocolate e morango. pressionou os lábios contra os dela, mais uma vez e sorriu durante o beijo, antes de enfim aprofundá-lo.
Levou até a cama e a empurrou, fazendo-a cair no colchão macio.
Ela deu uma risadinha quando o viu subir e ficar por cima, a encarando com um sorriso brincalhão.
— Eu acho que amo você, srta. . Na verdade, acho que nunca deixei de amá-la.
— Dizem que amor e ódio andam lado a lado — ela disse.
— Dizem que sim; mas você provavelmente não sente o mesmo — ele fez uma careta.
— Ah, é? E com base em que você chegou a essa conclusão, gênio? — ela brincou.
franziu o cenho.
— Então…
— E eu estou definitivamente apaixonada por você, . Eu não sei porquê. Você é irritante, idiota e meio cabeça-dura. Mas é bem divertido e bem humorado, e eu gosto disso. Então… eu acho que posso dizer que amo você também — o encarou nos olhos.
Sim, ela podia. Ao menos naquele momento, ela o amava.
Mesmo depois de todos os dias ruins, de todos os altos e baixos. Era hora de virar a página daquela história, afinal. E ela estava adorando a nova que ambos estavam escrevendo.
a beijou lentamente em todos os lugares. Foi gentil e carinhoso até o momento em que ambos ficaram impacientes.

— ela choramingou e se contorceu quando ele a beijou lá. Segurou os cabelos loiros com ambas as mãos e os puxou à medida que ele a beijava. Se contorcia na boca dele o máximo que podia, enquanto ele segurava em ambas as suas pernas, mantendo-as afastadas.
sentiu o corpo esquentar cada vez mais e não tardou até que se derramasse na boca dele.
— Hoje é tudo sobre você, — a beijou outra vez na boca.
percorreu as mãos por seu abdômen definido, e parou no elástico da boxer que ele usava. Mas a parou.
— Quero tocá-lo também — ela disse.
Ele negou com a cabeça.
— Só você hoje. Eu preciso de você agora, . Se você fizer agora, eu não vou aguentar — deu-lhe um selinho. — Tudo bem?
assentiu, mordendo os lábios para tentar esconder um sorriso e ajudou a livrar-se da última peça de roupa que os separava e assim que o fez, ela o puxou para si, beijando-lhe o pescoço.
Puxou o lóbulo dele entre os dentes, fazendo-o se arrepiar. Sabia que ele era sensível ali.
, eu preciso… minha carteira…
— Shh, ‘tá tudo bem, . Confio em você e estou protegida.
— Eu sei que está…
— Então pare de enrolar a acabe logo com—Aah! Filho da mãe! — ela xingou, pega de surpresa, fazendo-o rir. Ele se afastou um pouco e investiu outra vez. Forte, fundo e rápido.
gemeu baixo, mordendo os lábios.
— Você tem ideia do quão linda é, ? do quão gostosa você é? Você vai me deixar maluco, querida — ele murmurou, enquanto investia contra ela. O suor aparecendo aos poucos entre seus corpos. O quarto estava silencioso, exceto pelos gemidos do casal e o barulho de seus corpos se chocando um contra o outro.
suspirou, pouco antes dele aumentar a velocidade mais um vez. E se manteve assim até que ambos explodissem de uma vez só. cravou as unhas nas costas dele enquanto tremia em seus braços por longos segundos, sentindo-o derramar-se dentro de si, ainda investindo uma vez e outra até que por fim deixasse seu corpo cair em cima do dela.
o abraçou contra si carinhosamente e o beijou no pescoço. Quando por fim, a respiração de ambos se acalmaram, se afastou e rolou para o lado, puxando-a para si. E selou seus lábios uma última vez, antes que os dois finalmente fossem vencidos pelo cansaço e caíssem no sono.


32. Oops!


— Ele dormiu? — perguntou a quando ela reapareceu na sala.
Tinham chegado há alguns minutos de um passeio com e ele a estava aguardando na sala de estar enquanto ela tinha ido colocar o filho para dormir.
assentiu com a cabeça.
— Viu como foi rápido? Se você tivesse ido também, ele ia querer brincar com você. Acontece o mesmo com e . Deve ser algo com os caras e suas brincadeiras de menino.
— Então, agora somos só nós? — e a puxou para que sentasse em seu colo.
— Até o chegar sim.
— Então eu deveria aproveitar um pouco mais com minha namorada, não acha? — perguntou, com um sorriso e a beijou suavemente.
Mas chegou poucos minutos depois.
Algumas semanas haviam se passado desde o casamento de e e também o dia em que e oficialmente começaram a namorar.
parou na porta e os encarou, antes de fechá-la.
o cumprimentou.
— em seguida olhou para , que tinha acabado de levantar do colo do namorado. — Eu vou dormir na Angie hoje. Vou só pegar umas roupas e…
— Eu posso falar com você um minuto? — o interrompeu.
— Claro — e caminharam até o quarto dele.
— O que é isso? Você disse que ia dormir em casa hoje.
— Bem, não vou mais. Por que não aproveita que não estou em casa e dorme com seu namoradinho aqui. Só sejam cuidadosos para não acordar — ele murmurou, enquanto abria o armário e enfiava as coisas em uma mochila.
— Nós combinamos de não trazer ninguém aqui, . Eu estou cumprindo com o trato, então porque você não para de agir feito um babaca?
— Estou apenas dizendo que pode ficar à vontade. O apartamento também é seu. Você ajuda a pagar as contas.
— Às vezes eu penso que seria melhor nunca ter saído da minha casa.
Ele suspirou.
— Já conversamos milhares de vezes sobre isso, . Sinto muito se te ofendi em relação ao seu… namorado. Mas você sabe que ainda é um pouco difícil para mim aceitar que vocês estão juntos. Ele era um babaca com você! — exclamou, apontando para a porta.
Felizmente, falavam baixo de modo que não poderia escutá-los.
— E eu o perdoei. Nós dois decidimos deixar isso para trás, . As coisas são diferentes agora e… você não entende.
largou a mochila e a empurrou contra a parede.
— O que-
— Você está feliz com ele? — a interrompeu.
— Estou.
— Mais do que quando estava comigo?
respirou fundo.
— Nós já conversamos sobre isso. Você sabe que nunca daríamos certo juntos, . Era tudo ilusão.
— Não parecia ilusão, .
— Claro que não parecia, mas era e você sabe. Você não voltou para Londres só para virar meu namorado. Você voltou por você, por seu emprego, eu e o fomos apenas um bônus na sua vida que você não esperava, mas por ser tão a favor de uma família tradicional, você veio com o papinho de assumir nós dois. Agora olhe nos meus olhos e negue — o desafiou. — Você só gostava de mim, . Não era amor o que sentíamos e, quando você embora… eu estava apaixonada, mas sobrevivi nos últimos três anos sem você. E você sem mim, você até mesmo seguiu em frente.
— O que queria que eu fizesse? Eu não sabia que você estava grávida!
— Não estou te culpando, . Só estou dizendo que podemos viver um sem o outro e seguir em frente. No final, o nosso amor era só uma palavra de quatro letras e não um sentimento real que sentíamos. Nós só achávamos que sim.
— E como chegou a essa conclusão?
— Começou quando encontrei com Thomas. E depois quando tive que me reaproximar de .
— E o que o sr. Babaca te ensinou?
— Que podemos ser muito infantis e idiotas, às vezes. E que não podemos lutar contra os nosso reais sentimentos, mas apenas escondê-los — ela disse e riu em deboche. — Há muito que você não sabe, . Tudo o que sabe é que fizemos as pazes, mas há muito por trás disso. não era um babaca quando o conheci, mas a parte irônica disso tudo é que ele se tornou um e parte do crédito pertence a você — ela riu.
— Por quê?
— Ele era meu amigo, e era bem diferente do que você conheceu. Um dia ele se confessou para mim, mas eu o rejeitei porque estava apaixonada por você. Consegue imaginar as proporções de toda essa história?
ficou calado por alguns instantes.
— Você teria dito sim a ele se não fosse por mim?
— Provavelmente.
— Entendi — e se afastou, voltando a pegar a mochila. — A Angie quer ir em um passeio amanhã, fica fora de Londres. Decidimos de última hora, então por isso vim pegar algumas roupas. Eu falei sério quando disse que poderia ficar aqui, talvez ele possa te ajudar caso algo aconteça… você estava com o dor de estômago essa semana, então…
— Certo. Agradeço por isso.
— Sinto muito se a ofendi, — a olhou nos olhos. — Não foi minha intenção, você sabe.
— Tudo bem, acho que deve ser o seu lado de amigo protetor aflorando novamente, você sempre teve isso. Espero que se divirta com Angeline, ela é uma boa mulher; e não uma doida, como você tinha me falado antes — e ele riu.
— Bem, ela também gosta de você. Estou vendo a hora vocês virarem amigas de repente e me deixarem de lado junto com .
Foi a vez de rir.
— Diga a ela que ela é bem vinda no clube da meninas malvadas.
— Ah, é? Ela vai adorar saber disso, mas acho que ela e vão competir pelo papel da Regina George — riram.
— Clube das Winx, então.
— Certo. Eu vou indo agora — ele apontou para porta e ela o acompanhou até a sala. — Depois revezamos quem fica com para que vocês possam sair também.
— Okay, tchau. Diga a Angeline que mandei um abraço — e fechou a porta.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou. — Pensei que você não ia mais voltar.
— Bem, nós discutimos, trocamos algumas farpas e falamos de assuntos passados, mas no fim fizemos as pazes e acho que finalmente nos entendemos agora — ela disse. — Desculpe a demora.
— Tudo bem, mas eu acho que vou indo agora — ele olhou para o relógio, mas riu. — O que foi?
— Não precisa ir, . Pode dormir aqui comigo.
— Mas o , vocês…
— Sim, nós temos um trato, mas ele vai viajar e deu passe livre. Não que ele vá muito com a sua cara, mas ele prefere que eu não fique sozinha com porque acha que posso passar mal outra vez.
— Como está o seu estômago?
— Agora? Melhor impossível, mas às vezes sinto que vou ter outra crise daquelas.
— Então, acho melhor eu ficar mesmo e cuidar de vocês dois — ele sorriu.
mordeu o lábio inferior e sentou-se no colo dele, com uma perna de cada lado da cintura e o beijou.
— Só que hoje a noite, sou eu que quero cuidar de você — murmurou no ouvido dele. O que acha?
— Soa promissor. O que está planejando?
— Que tal um banho quente para começar?
riu baixo, mordendo lábio.

Minutos mais tarde, eles tomaram banho juntos.
— Eu já te disse hoje que você é linda? — ele perguntou, enquanto esfregava a esponja de banho na barriga dela.
riu.
— Às vezes não consigo acreditar que um cara tão quente como você pode ser tão meloso.
Ele riu.
— Tudo bem, eu já te disse hoje que você é gostosa para caramba? — a puxou contra si.
— E você é gostoso pra caramba — ela disse, correndo os dedos pela barriga dele.
— Sou, é? — ela assentiu e desceu mais a mão, segurando seu membro enrijecido.
— Agora que tenho que cuidar de você agora, querido.
— Acho uma boa ideia — ele disse e ela riu, antes de beijá-lo uma vez e depois se abaixar.

, se você não parar com isso agora, eu juro que te mato — ela disse, agarrada a ele, que a segurava contra a parede do banheiro enquanto entrava e saía de dentro dela, em um ritmo lento torturante.
Ele riu em resposta.
— Qual é a palavrinha mágica, amor?
— Agora, seu filho da puta.
— Hm, palavra errada. Mas vou atender o seu pedido, porque para sua sorte estou de bom humor hoje.
E atendeu.
E em questão de segundos, eles tremeram pela segunda vez naquela noite.
deixou que escorregasse até o chão e a beijou, puxando-a para debaixo do chuveiro ainda ligado e finalmente terminaram o banho, antes de irem para a cama e caírem num sono profundo.
No dia seguinte, amaldiçoou , enquanto vomitava tudo o que havia comido na noite anterior, depois de sentir o cheiro do café da manhã que havia preparado.
Quando finalmente acabou, levantou-se, deu descarga e tratou de escovar os dentes para tirar o gosto ruim da boca. Saiu do banheiro e encontrou sentado na cama, com um copo de água, um comprimido para enjôo e algumas bolachas água e sal.
— Dizem que essas bolachas são boas para enjôos matinais — justificou. — Como está seu estômago?
— Melhor agora que não tem nada dentro.
— Você acha que foi o jantar de ontem?
— Não sei, talvez seja só outra crise de gastrite novamente. Da outra vez, aconteceu assim…
— Acho que deveríamos ir ao médico e ter certeza.
negou com a cabeça.
— Eu vou tomar os remédios que tomei da outra vez, ainda tenho deles.
— Tudo bem, você que sabe. Mas se não melhorar até amanhã, nós vamos ao médico, ouviu?
— Certo, certo… — ela revirou os olhos.
— Ei, eu estou tentando cuidar de você, de preferência antes que você desmaie nos meus braços de novo. Tem ideia do quanto eu fiquei preocupado? Eu não sabia o que fazer.
— Claro que sabia, você me levou para o hospital — ela retrucou, mordendo uma bolacha.
— Puro extinto — disse, fazendo-a rir. — Se amanhã você ainda estiver enjoada, nós vamos no médico na hora do almoço, okay?
— Sim, senhor — ela riu e bateu continência, voltando a comer outra bolacha.
… como está a sua menstruação? — ele perguntou, de repente e engasgou com a bolacha. deu tapinhas em suas costas — Calma, foi só uma pergunta.
— Por que quer saber? — ele deu de ombros. — Bem, eu não lembro direito, acho que ainda falta alguns dias, mas às vezes acontece de atrasar, se é o que quer saber. Mês passado foi assim, lembra? — ele assentiu. — Depois que comecei com o contraceptivo, ela só diminuiu, mas não regulou realmente. Minha médica disse que isso é normal, então eu nunca dou muita importância.
— E você não tomou nenhum antibiótico ou algo do tipo nesse último mês?
Ela negou com a cabeça.
— Você sabe que a chance de um contraceptivo injetável falhar é de menos de 1%, não sabe?
— Eu não estou dizendo que você está grávida… mas o médico perguntou isso da outra vez.
— E foi constrangedor ter que responder tudo com você do meu lado — murmurou com uma careta e ele riu.
— Mas foi bem engraçado.
— Pra você. Cadê o ?
— Ainda dormindo, senão acho que já teria vindo aqui atrás de você.
— Eu vou tomar um banho e depois acordá-lo — e se levantou. — Obrigada pelo café da manhã delicioso que eu infelizmente não pude comer. E pelas bolachas água e sal.
— De nada, amor. Pode deixar que eu e comemos por você. Talvez seja melhor que fique comendo coisas leves até que se recupere totalmente.
— Acho que sim.
E realmente comeu comidas leves naquele dia; e também tomou todos os remédios corretamente. Costumavam ser muito eficientes e da última vez ela havia melhorado rapidamente. Achava que dessa vez também seria, já que os tomou com antecedência, antes que seu estômago piorasse como da outra vez.
Mas não foi o que aconteceu na manhã de segunda-feira.
— Você devia ter ido ao médico com o ontem — disse, assim que ela voltou para a cozinha, já arrumada para o trabalho. — Acho melhor ficar em casa hoje, .
— Não vou ficar em casa, . E ontem não fui ao médico porque senti o mesmo que a outra vez, e eu melhorei depois dos remédios.
— É, melhorou ontem e acordou assim outra vez. Por que eu estou com a impressão de que estou tendo um Déjà vu?
— Isso tudo é culpa sua — ela o acusou. — Você que veio com o papinho de que talvez eu fosse passar mal e realmente passei. Você me amaldiçoou secretamente, não foi, ?
riu com tamanha acusação.
— Acho que eu tinha razão então de deixar o dormir aqui. Dito e feito.
— Você e sua boca… — resmungou, dando uma mordida em uma bolacha água e sal.

***



— Por que estou com a impressão de que estou tendo um Déjà vu? — perguntou e apenas o encarou séria. — O quê?
— Você e estão de complô? Ele me fez essa mesma pergunta hoje de manhã!
tentou segurar um sorriso.
— Bem, é só que estamos no hospital outra vez, no mesmo consultório médico após responder as mesmas perguntas que o mesmo médico fez da outra vez e esperando os mesmos exames de sangue que ele pediu. A diferença é que você veio antes de desmaiar outra vez.
— E vai dar o mesmo resultado da outra vez. É só a droga da minha gastrite de novo.
— Temos que esperar o médico dizer isso, querida. Você disse isso ontem e acordou passando mal novamente, mesmo depois de tomar os remédios.
— ‘Tá bom, senhor só-o-médico-pode-confirmar-isso.
E minutos mais tarde, os exames chegaram e o médico confirmou.
Só não o mesmo que imaginava que ele fosse confirmar.
— Vocês são namorados agora? — o homem perguntou, ao ver com a mão entrelaçada à dela.
— Sim… — franziu o cenho e o médico sorriu.
— Desculpe a intromissão, mas fico feliz por saber disso — e pegou novamente os papeis do exame. — Os resultados indicam que a srta. está com um pouco de anemia, mas nada que a alimentação não resolva. Contudo, creio que deverá tomar algumas pílulas de ferro de agora em diante devido a esses níveis de beta HCG — ele apontou. — Meus parabéns, vocês vão ser papais.
— O quê? Eu estou grávida? Mas eu...
— Nem sempre os anticoncepcionais funcionam, acho que a senhorita agora faz parte do menos de 1% de margem de erro que às vezes pode acontecer.
Não!, ela pensou. Aquilo não podia estar acontecendo!


33. É O Que É


— Nós podemos fazer uma ultrassonografia agora para descobrir a idade do feto. A menos que queira fazer com sua médica.
— Nós faremos aqui, doutor — disse, antes que de falar algo.
o encarou, espantada.
Como ele podia estar tão calmo? Ela estava prestes a ter um colapso nervoso.
— Vou aprontar os equipamentos, então. Poderiam aguardar um momento? Daqui a pouco, minha assistente irá chamá-los.
Na sala de espera, pegou um copo de água para ela.
— Beba isto. Você precisa se acalmar.
— Meu Deus, eu estou tão nervosa que não consigo nem ao menos chorar.
— Não tem porque chorar.
— Como você pode estar tão calmo com isso? — ela perguntou, nervosa, mas ele apenas deu de ombros antes de se sentar ao seu lado.
— Não é o fim do mundo, . Vamos ter um bebê.
“Vamos ter um bebê” — o imitou. — Bem, espere só até a ficha cair e você vai querer sair correndo.
— Não vou sair correndo. Eu vou te dar todo o apoio que você não teve durante sua primeira gravidez, nós vamos fazer isso dar certo. Digamos que só… estamos andando um pouco rápido, dando um passo maior, talvez.
— E que passo — ela ironizou. — Eu não queria ter outro filho, . Eu nunca me imaginei tendo outro filho. Foi muito difícil com
— Mas não vai ser agora, — segurou a mão dela. — Eu estou aqui com você. Agora é diferente e você sabe. Você não é mais uma estudante, eu também não sou. Podemos criar uma criança tranquilamente.
— Mas… Ah, , eu não quero pensar nisso agora. Vamos dar um passo de cada vez, ok?
— Tudo bem — beijou a mão dela.
— Srta. ? — uma mulher a chamou.
Estava na hora. Era isso, afinal.

— Um mês?! — ela exclamou. — Não tem como eu estar grávida de um mês, doutor! Eu menstruei durante esse período.
— Algumas mulheres continuam menstruando por algum tempo mesmo estando grávidas, srta. . Isso é normal, não tem nada que errado com você.
— Se acalme, . Já conversamos sobre isso — disse, com uma mão no ombro dela.
— Ainda não dá para ouvir o coração, infelizmente. Talvez na próxima semana, mas acho que irá preferir se consulta com a sua médica. Bem, srta. , está liberada agora — e entregou um lenço para . — Acho que é melhor você do que eu.
limpou o gel da barriga de , tranquilamente.
Mais tarde, ele voltaram para a revista.
O caminho foi tranquilo. estava pensativa, e preferiu deixá-la quieta por um momento, mas segurou sua mão durante todo o trajeto. Queria mostrar para ela que estava ali, que iria apoiá-la em tudo e, acima de tudo, que queria aquele bebê.
Não sabia explicar o que havia sentido quando o médico confirmou a notícia. Era um misto de ansiedade e alegria… Talvez fosse porque ele desconfiasse. Mesmo que ela tivesse os mesmos sintomas do problema no estômago, não se tratava mais disso.
Estacionou o carro e então foram em direção ao elevador do estacionamento.
— Vai dar tudo certo, .
— É fácil falar — ela resmungou. — Não é você que vai passar nove meses com um bebê na barriga.
Ele riu, divertido.
— Mas prometo que vou estar do seu lado sempre que você sentir um desejo maluco e, se por acaso eu não estiver, você liga pra mim e eu vou atrás e encontro o que quer que você queira.
— Mesmo de madrugada?
— Mesmo de madrugada.
— Tudo bem, então. Acho que posso tirar algum proveito disso — olhou para frente, pensativa.
— Cuidado com o que vai pedir, huh? Não se aproveite da minha boa vontade.
Ela revirou os olhos.
— Reze para não sofrer muito, — disse e ele riu outra vez.
— Farei isso, .

Algum tempo depois de voltar para a revista, no andar onde trabalhavam, encontraram com que comentava algo com Anne enquanto lia algo que tinha em mãos.
— Ah, já voltaram? Como foi lá? — ele perguntou, voltando a atenção para os papeis que analisava.
— Você está melhor, ? — Anne quis saber.
permaneceu em silêncio, assim como , o que chamou a atenção de novamente.
— O que houve? Você está bem, não está, ? — a olhou preocupado. — Não está com nada grave, não é? — mas ela nada disse, não sabia como dizer. —
— Ela está grávida — murmurou calmo, com uma expressão neutra no rosto e a mesma tranquilidade que usara para acalmar ela, quando souberam da notícia.
— Como é que é? — perguntou,pensando não ter ouvido direito.
está grávida — ele repetiu, um pouco mais alto, porém no mesmo tom que usava da primeira vez. Sentiu a garota apertar sua mão entrelaçada à dela e a encarou por um momento, antes de voltar o olhar para , que os encarava como se estivesse tentando matá-los com a mente. E provavelmente o faria, se pudesse.
— Como isso aconteceu, ? — perguntou a ela, tentando não transparecer a raiva que sentia. Estavam em um canto da redação, mas ainda assim em público, de modo que ele, principalmente, não podia se exaltar.
— Foi um acidente — ela murmurou baixo. — Meu anticoncepcional falhou e… — e então ele riu. Riu como se aquilo fosse uma verdadeira piada.
— Que irônico, não é? Tinha que falhar justo com vocês. Bem, meus parabéns, pais do ano — e saiu para sua sala, planejando ficar trancado trabalhando por um tempo até digerir aquela notícia fantástica.
Por que as coisas tinha que ser assim, afinal?
E logo depois daquela conversa que tivera com ela… e que ainda martelava em sua cabeça.
“Consegue imaginar as proporções de toda essa história?”
“Você teria dito sim a ele se não fosse por mim?”
“Provavelmente.”

Seria o destino pregando uma pegadinha em todos eles? Se não havia tido uma oportunidade antes, agora ele tinha. E tinha certeza de que ele não iria desperdiçá-la.
Mas tudo aquilo era muito difícil de digerir. Parecia realmente uma grande piada.
O que tinha dado de errado, afinal? Por que as coisas ocorreram daquela forma? Ele e estavam bem por um tempo e depois… tudo pareceu confuso. Talvez ela estivesse certa, talvez ele tivesse sido apressado e quisesse consertar algo que ele achava que teria dado certo três anos atrás.
Ele a amava, é claro. E era uma ótima companhia, uma ótima mãe e ele apreciava isso. Mas ele seria capaz de viver nessa zona de conforto por toda sua vida? Ele a amava o suficiente? Antes de saber sobre , não pensava em se casar ou estar em um relacionamento tão cedo. Sentiu-se atraído por assim que a reencontrou, mas quando foi que ele não se sentiu atraído por ela? Ela era alguém especial para ele, sempre tinha sido. Mas ela não estava feliz antes, não estava feliz com ele…
O que ele podia fazer agora? Ela estava grávida de outro cara. quis tanto ter outro filho… talvez por ter querido a chance de participar da gestação de , de querer ter acompanhado e tudo mais. Talvez ele tivesse a chance agora, se ela permitisse. Iria vê-la com frequência, de qualquer forma. No entanto… continuaria morando com ele nessa situação? achava que não. Já podia prever ela saindo de casa dali a algumas semanas e levando consigo. Se assim fosse, ele não poderia impedi-la de qualquer maneira, mas agora não seria um motivo de briga. Não que fosse ser em qualquer momento, afinal, nunca teria sido capaz de tirar o bebê de sua mãe, mesmo quando disse que o faria. Mas sabia que aquela era uma forma de fazer com que ela vivesse com ele, não gostava de brigas e preferia evitar dores de cabeça desnecessárias.
Embora, às vezes parecesse o contrário.

Quando saiu do escritório, naquele dia, não foi para casa. Encontrou-se com Angeline no apartamento que estava ocupando em Londres. Estava de pijama quando o atendeu, um de seus típicos pijamas curtos e confortáveis com estampas infantis.
Sim, Angel tinha um lado assim. E costumava se divertir muito com isso antigamente, fazendo piadinhas com suas roupas.
— Adorei o pijama, Angie — ele disse, assim que a viu. Ela o encarou, encostado na soleira da porta, com o paletó em uma das mãos.
— O que está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? — ela quis saber. suspirou e moveu-se para dentro do apartamento.
— Há apenas algumas horas, eu tive a maior notícia do ano — e se jogou no sofá dela. Angeline o acompanhou, sentando-se ao seu lado e esperou que continuasse. — está grávida.
Angel abriu a boca, chocada.
— De você?
a encarou, cético.
— Sério que você acha que é de mim? Talvez se fosse por telepatia, é claro. Mas não, ela está grávida do .
— Caramba, . E como você está com isso?
— Tão chocada quanto você quando pensou que talvez o bebê fosse meu — disse, ironicamente. — Eu ainda estou tentando digerir tudo isso…
— Imagino. Eu sinto muito… Você ainda gosta dela, não é?
— Por que está fazendo essa pergunta? Nós estamos juntos, Angie.
— Bem… eu sei. Mas também sei que você tem sentimentos por ela, você ficaram juntos por meses. Acho que no fim, eu estou apenas esperando que você acabe com tudo novamente. Talvez eu esteja me preparando psicologicamente… não sei.
— Está sendo muito dura com você, Angie. As coisas são diferentes agora, e eu gosto de você. Você está certa quando disse que tenho sentimentos por , realmente tenho. Mas ela é a mãe do meu filho, talvez seja algo automático… Eu refleti muito hoje no meu escritório e embora eu tivesse vontade de sair de lá algumas vezes para socar o , eu sabia que não adiantaria de nada. As coisas não iriam mudar; agora eu só tive a certeza de que e eu… não existe mais um nós. Eu só demorei para aceitar isso. De qualquer maneira, espero que continue a tratando da maneira que ela merece.
— Você acha que ela irá se mudar do seu apartamento agora?
— Não imediatamente, mas acho que sim. Ela sabe que é bem-vinda lá, mas tenho certeza de que não irá querer viver mais lá. E não é como se eu pudesse fazer algo quanto a isso. Teremos só que decidir como faremos quanto à guarda de , pois quero compartilhá-la. Não quero ser o tipo de pai que fica com o filho somente nos fins de semana, eu já fui bastante ausente na vida dele e não quero que seja mais presente que eu. Isso eu não vou permitir que ele tire de mim.
— Tenho certeza de que não vai se importar em dividir a guarda com você. É a coisa certa a ser feita. Obrigada por me contar sobre isso, . Por confiar em mim para isso.
— Na verdade, eu deveria me desculpar com você, Angie. Nenhuma mulher gosta de ver um homem falando de sua ex para ela. Sinto muito.
Angeline balançou a cabeça.
— Tudo bem. Antes de tudo, eu sou sua amiga, . E eu gosto que seja sincero comigo e me conte sobre o que se passa com você.
sorriu de lado, segurando a mão dela e depois se inclinou para dar-lhe um abraço.
Agradeceu-lhe outra vez. Silenciosamente.


34. Inevitável


Algumas semanas depois, encarava sentado no sofá da sala de estar do apartamento de onde moravam.
A mulher olhava para ele, ansiosa, aguardando por uma resposta depois de tudo que tinha falado. estava planejando se mudar. Ela estava grávida agora e queria ir morar com o pai de seu bebê.
não seria hipócrita de dizer que não esperava que isso acontecesse, pois ele sabia que iria, mais cedo ou mais tarde. No entanto, aquilo só fez ele ter mais noção ainda da realidade que os cercava, na qual ela não lhe pertencia mais e a única coisa que os mantinha ligados era .
disse que precisava conversar com ele naquela noite, depois que chegaram do trabalho e assim que adormeceu, ela colocou tudo para fora.
— Eu não estou tentando comprar uma briga com você, — ela tinha deixado claro. — Mas não posso viver com você agora que estou grávida de outro homem com quem tenho um atual relacionamento. Acho que isso será o melhor para nós dois. Você pode ver o ou levá-lo para passear ou até mesmo dormir aqui com você sempre que quiser. Quero que saiba que você tem acesso livre a ele e que sua guarda deve ser compartilhada entre nós dois.
— Entendo o que está querendo dizer, . Não posso dizer que estou feliz com tudo o que anda acontecendo, mas não tem nada que eu possa fazer quanto a isso. Não está mais no meu controle — ele deu de ombros, rindo sem humor. — De certa forma, eu já esperava que isso acontecesse. A decisão é sua e estou bem com isso desde que eu tenha acesso livre ao meu filho sempre que eu quiser, como você mesma disse.
soltou a respiração, aliviada. Nem mesmo percebeu que a tinha prendido.
— Podemos ser amigos ainda? — ela quis saber. — Não gosto muito desse clima entre nós, — admitiu. — Prefiro sua versão boazinha do que a malvada.
riu e abriu os braços, chamando-a para um abraço.
sentou ao seu lado e passou os braços ao redor dele, se sentindo em casa.
Mesmo que eles não tivessem mais um relacionamento amoroso, sempre iria passar esse sentimento para ela todas as vezes que ela o abraçasse. Ele costumava ser seu melhor amigo, afinal de contas. Talvez não houvesse mais chance de serem tão próximos como costumavam ser anos atrás, antes de que tudo acontecesse, quando eles eram apenas o e a sem nenhum envolvimento; mas pelo menos, ainda podiam manter uma relação amigável.
— Obrigada por entender, — murmurou, com o queixo apoiado no ombro dele.
— Por nada, — respondeu, acariciando as costas dela. — Mas eu quero que fique claro que se o for um babaca com você outra vez, ele vai se ver comigo.
riu nos braços dele, antes de enfim afastar-se.
— Boa noite, .
— Boa noite, .


estacionou o carro e esperou até que entrasse, antes de seguirem juntos para o trabalho.

— E então, como foi? — perguntou, curioso. — Você disse que foi tudo bem, mas não me deu os detalhes por telefone.
— Eu estava com sono, acho que não os sintomas da gravidez. Normalmente não durmo tão cedo — ela justificou, antes de continuar. — foi bem tranquilo. Ele disse que já esperava por isso. Acho que ele foi absorvendo tudo nas últimas semanas.
Fazia um mês desde que e tinham dado a grande notícia a , que havia ficado furioso quando soube. No entanto, era um alívio que ele estivesse agora disposto a aceitar tudo aquilo.
o entendia, de certa forma.
Não tirava a razão de ser tão desconfiado em relação a ele, afinal, tinha passado anos a fio sendo um completo babaca com e infelizmente, embora fosse algo de que se arrependia bastante, não era algo que podia simplesmente ser deletado de sua memória e, principalmente, da dela.
se sentia o cara mais sortudo do mundo, mesmo que soubesse que não merecia tudo aquilo. era alguém completamente fora de seu alcance, e embora tivesse conseguido conquistá-la por algum milagre do destino, nunca se sentiria bom o suficiente para ela.
No entanto, ele iria se esforçar ao máximo para compensá-la por todos os momentos ruins que a fizera passar e tentaria o seu máximo para fazê-la feliz.

***


O apartamento que morava não era gigante, mas também era definitivamente um lugar grande demais para uma só pessoa morar.
já havia estado ali algumas vezes, mas era a primeira vez que ele a apresentava a todos os cômodos, agora que ela viveria ali também.
E ele tinha separado um quartinho especialmente para o bebê. Era todo branco, pois ainda era cedo demais para saberem o sexo, mas iriam decorá-lo assim que soubessem. Também havia outro quarto separado para , para os dias em que ele estivesse por lá, visto que e iriam dividir sua guarda.
— Ficou lindo, . vai adorar ter dois quartos em duas casas diferentes agora — comentou.
— Quero que ele se sinta em casa e à vontade, embora eu ache que talvez ele vá achar estranho, no começo.
— Sim. Mas acho que ele irá entender. e eu conversamos com ele, lembra? Logo mais, ele vai se acostumar. se adapta rápido e mal pode esperar para conhecer o irmãozinho — ela sorriu, colocando a mão na barriga.
— Ou irmãzinha — ele acrescentou, juntando as mãos com as dela na barriga já proeminente.
estava completando a 16ª semana de gestação logo mais e embora faltasse bastante tempo ainda até o bebê nascer, já estava bastante ansioso e empolgado.
— Temos que escolher os nomes — ele disse, com um sorriso.
observou seus olhos pequenos e brilhantes.
— Ainda temos tempo, você sabe.
— Mas já podemos ir vendo, assim teremos certeza quando chegar a hora — ele retrucou, tentando convencê-la.
— Se você insiste…
riu e a beijou, abraçando-a pela cintura.
A verdade é que ele já tinha uma lista enorme de opções.
Só restava escolher.

Dois meses depois, Alexander e Isabella tinham sido os escolhidos.
também havia participado com louvor da escolha, ficando do lado de na maioria da vezes.
“Garotos…”, pensava .
No dia em que e decidiram contar a sobre a grande notícia da mudança e, principalmente, sobre o bebê que estava a caminho, eles estavam consideravelmente nervosos. E não se encontrava muito diferente deles.
Embora tivesse planejado dar a notícia apenas com , no fim os dois acharam melhor que também estivesse presente e assim aconteceu.
— Um irmãozinho? — ele havia perguntado. — Que nem o irmão do George? — quis saber, citando o exemplo de seu colega da escolinha.
— Sim, meu amor. Mas pode ser uma irmãzinha também. Ainda não sabemos — disse .
— E uma casa nova? Mas e aqui?
— Você vai ter duas casas agora, campeão — foi a vez de explicar. — Vai ter dias que você vai dormir na casa do tio e da mamãe e dias que você vai dormir com o papai.
— E eu vou ter dois quartos também? — indagou, curioso.
riu baixinho. Já sabia que ele ia perguntar isso.
— Vai sim, respondeu. — Seu quarto já está pronto.
encarou os três com seus grandes olhos azuis, pensativo.
e se entreolharam, um pouco ansiosos. então desviou o olhar para o pai, que também o encarava e podia jurar que era como se estivessem lendo a mente um do outro.
E era incrível a semelhança que compartilhavam. Ela nunca cansava de olhar. era a perfeita miniatura do pai.
Será que seu próximo filho ou filha seria a sua? Ou também seria parecido com o pai, com os olhos pequenos e caídos?
Riu sozinha com o pensamento, percebendo que isso não era algo que importasse muito.
— Tudo bem, campeão? — perguntou, percebendo que estava calado demais.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Vai ser legal. Mas eu quero um irmão. Garotas são chatas — disse por fim, fazendo os três adultos rirem, enquanto ele os encarava confuso.
Garotas eram chatas mesmo. Mas talvez adultos não entendessem isso.
Tio e o papai gostavam de sua mamãe, afinal. Talvez quando fosse adulto um dia, também gostaria mais das meninas da sua escola.
Não, pensou com cuidado, talvez não. Elas não eram legais que nem a mamãe.


Se mudaram na sexta-feira daquela mesma semana.
dormia três dias com o pai e quatro com a mãe. Só que um dia da semana, geralmente sábado ou domingo, ele ia passear com os dois, como sempre faziam.
Era sábado de manhã e tinha ido dormir com o pai na noite anterior. No dia seguinte, eles iam juntos buscar para um passeio em família e depois ele voltaria para casa com ela.
Iria aproveitar aquele dia para descansar um pouco da semana de trabalho, fazer umas compras no supermercado e também para o enxoval do bebê.
Estava em sua 24ª semana de gestação e dali a 12 semanas, o bebê poderia vir a qualquer momento.
Era um menino, e mal podia esperar pela chegada de Alex. O tempo havia passado mais rápido do que ela imaginava e aquela gravidez estava sendo definitivamente mais tranquila do que sua primeira.
Provavelmente, porque dessa vez ela não tinha que se preocupar com emprego nem faculdade. Diferente de antes, agora era estabilizada financeiramente já há algum tempo.
Por enquanto, a coisa mais importante era manter a si mesma e o bebê saudáveis.
Estava terminando de prender o cabelo em um rabo de cavalo quando abriu a porta do quarto e colocou a cabeça para dentro.
— Pronta, amor? Vamos ter que usar as escadas hoje, o elevador está em manutenção e talvez funcione só mais tarde ou amanhã de manhã.
— Que animador — ela disse, pegando a bolsa. — Vamos logo, antes que desista.
— Encare como um exercício — ele brincou. — Vai fazer bem para vocês dois — concluiu, colocando a mão na barriga dela.
O bebê, como se reconhecesse que aquela era a mão de seu pai, começou a chutar. fez uma careta de dor, sentindo uma pontada debaixo de suas costelas.
— Calminha, garoto. Não é hora de brincar agora — ela disse, colocando a mão em cima do local da dor.
riu, alegre.
— Aposto que Alex será muito bom em artes marciais — ele comentou. — Ele já tem talento.
— Você ri agora, porque não é com você.
— Tem razão — ele disse. Não tinha como argumentar contra aquele fato. — Vamos?

Duas horas mais tarde, estacionava o carro na garagem do prédio.
— Eu preciso ir no banheiro — disse, assim que ele abriu a mala do carro para pegar as compras. Pegou duas sacolas mais leves, mesmo contra a vontade de . — Não estou doente, . Relaxa. Vou na frente, enquanto você pega o restante das compras.
— Tudo bem. Tenha cuidado na hora de subir.
— Okay.
caminhou e se preparou mentalmente para o primeiro lance de escadas. Eles moravam no quarto andar. Descer era fácil, o problema era subir aquelas dezenas de degraus.
Se apressou para acabar logo com aquilo. Quando estava indo para o terceiro andar, encontrou uma de suas vizinhas que subia pouco mais à sua frente junto com o filho, pouco mais velho que , que carregava alguns brinquedos na mão. As duas haviam ficado amigas depois que se mudou para o prédio, assim como seus filhos.
— America! — Chamou pela mulher, que se virou um pouco rápido demais, fazendo com que seu filhos derrubasse um saquinho de bolinhas de gude, que se espalharam por todo o local dentro de segundos.
E no exato momento que tinha se apressado em subir as escadas para cumprimentar a amiga. O barulho das bolinhas de gude ecoou no local, assim como também o grito de quando pisou em falso e sentiu seu corpo ser jogado para trás.
! — America gritou, apavorada quando viu a amiga rolar pelas escadas abaixo.
Aconteceu em míseros segundos.
bateu forte com a cabeça e sentiu uma dor insuportável no braço esquerdo e na sua barriga.
Caiu de bruços no chão, depois de finalmente parar de rolar. Tentou se mexer, sentindo-se tonta demais e a dor era insuportável. Ouviu vozes de longe e alguns segundos depois, que pareceram minutos, estava ao seu lado, segurando-a nos braços.
Sentiu um certo alívio quando o viu com sua visão embaçada pelas lágrimas. No entanto, ele não parecia calmo.
Pelo contrário.
Seus olhos pequenos e caídos a olhavam desesperados depois de gritar para America chamar uma ambulância.
… — tentou falar.
— Shh, calma, meu amor. Calma... — ele disse, mesmo estando desesperado.
sentiu suas lágrimas escorrerem livres por seu rosto. Num instinto, ela colocou a mão na barriga, sentindo algo molhado.
Foi então que ela olhou para baixo e viu que se encontrava em uma poça de sangue que lhe escorria por entre as pernas.
Meu bebê… — exclamou, em um sussurro falho que apenas ouviu.
Era por isso que ele estava tão desesperado.
Sentiu seu coração acelerar cada vez mais quando se deu conta do que estava acontecendo, porém tudo ficou escuro antes que ela conseguisse dizer outra coisa.


35. Tormenta


estava indo para o segundo andar quando ouviu o grito de .
Largou as sacolas que carregava no mesmo instante e correu. A primeira coisa que viu foram bolinhas de gude que quicavam em direção a ele. Segundos depois, viu caída no chão com uma poça de sangue ao seu redor.
! — gritou, desesperado quando viu a cena. Ela estava bem a um minuto atrás e de repente…
! — America, sua vizinha, gritou aos prantos. — Ela…
— Liga para uma ambulância! — pediu, enquanto segurava ela nos braços.
… — ela tentou falar e pareceu um pouco aliviada quando o viu.
— Shh, calma, meu amor. Calma… — falou baixinho para ela, sentindo os próprios olhos arderem.
Naquele momento, sua mãos e roupa estavam sujas de sangue, assim como as delas, mas ele não se importou com aquilo. Precisava se segurar, ao menos na frente dela. o encarou confusa e em seguida, colocou a mão na barriga, olhando para baixo.
viu os olhos dela se iluminarem com clareza o que tinha acontecido.
Meu bebê… — murmurou num sussurro falho, antes de desmaiar.
! ! Não dorme, amor, por favor! — tentou chamá-la. A voz embargada e carregada de desespero, enquanto ele sentia lágrimas quentes escorrendo por seu nariz.
Não demorou muito para que uma ambulância aparecesse e fosse socorrida, porém aqueles poucos minutos que se passaram pareceram horas para , que a segurava nos braços.
Ele a acompanhou na ambulância até o hospital e imediatamente uma equipe médica veio socorrê-la, levando-a para uma sala que ele não podia entrar, o que só o deixou mais nervoso. ficou sozinho por uns cinco minutos, antes de America aparecer procurando por ele.
!
Ele olhou para cima, com os olhos molhados e ainda tremendo.
America observou suas roupas sujas de sangue em choque, antes de ir até ele e abraçá-lo, tentando acalmá-lo.
— Eles acabaram de levá-la para uma sala e não me deixaram ir. Eu… não sei o que fazer, Meri — ele sussurrou, caindo em prantos.
America lhe sussurrou palavras de controle por alguns minutos, até que ele se acalmasse e finalmente perguntasse como tudo havia acontecido. Ela explicou então, que seu filho tinha deixado cair um saquinho de bolinhas de gude que se espatifou no chão, espalhando as bolinhas no mesmo instante que subia as escadas.
— Foi tudo tão rápido, que não teve como desviar. E então, ela caiu e rolou pela escada. Você chegou, antes que eu pudesse ir até ela.
balançou a cabeça, passando a mão no rosto para se livrar das lágrimas que caíram. Ele não disse nada sobre o ocorrido. Não tinha o que dizer.
— Eu tenho que uma ligação — disse, antes de sair da sala.

***


carregava nos braços, quando seus celular tocou no bolso traseiro. Pediu para Angeline, que também estava junto, atender.
— É o — ela disse, trocando um olhar confuso com .
Ele colocou no chão e pegou o celular.
.
… — ouviu dizer, com a voz embargada. — A , ela…
— O que aconteceu, ? — perguntou, já em alerta.
— Ela… caiu das escadas do nosso prédio… Estávamos voltando do supermercado e ela foi na frente… — começou a explicar.
Angeline o encarou, tentando descobrir o que estava acontecendo.
— Em que hospital vocês estão? — disse e ela arregalou os olhos. — Eu estou indo aí — e desligou.
— O que houve? — Angel quis saber. olhou para baixo e parecia distraído brincando com seu boneco do homem de ferro.
sofreu um acidente — falou, baixo. — disse que ela caiu enquanto subia as escadas do prédio. Uma criança tinha acabado de derrubar bolinhas de gude e ela acabou pisando em falso.
— Meu Deus! Ela está bem?
— Ele está no hospital, esperando por notícias. Pode vir comigo? Queria que você esperasse no carro com , enquanto eu entro. Não quero que ele saiba ainda — pediu.
— Claro.
— Eu vou ligar para e , avisando.

Meia hora mais tarde, encontrava com na sala de espera. Se alarmou quando viu as roupas dele sujas de sangue e o rapaz se levantou, assim que o viu.
— Alguma notícia? — quis saber, mas apenas balançou a cabeça.
— Uma enfermeira veio e disse que em breve o médico virá aqui.
— Eu avisei e e . disse que ia ligar para Claire para deixá-la a par, mas ela está viajando — disse, observando o rapaz que parecia bastante nervoso, com seus olhos inchados e vermelhos e suas mãos que ainda tremiam.
— E ?
— Ele está com Angeline no carro, achei melhor ele não saber ainda — explicou e concordou com a cabeça.
— Ela perdeu muito sangue — disse baixo, quase em um sussurro.
respirou fundo, preocupado, e colocou uma mão no ombro dele. Sentiu que estava ficando nervoso também, mas precisava segurar as pontas já que estava um caco.
Dez minutos depois, um médico apareceu.
— Quem é o responsável por ?
— Nós — disse, levantando um braço. — Como ela está, doutor?
— A srta. está bem, mas deve levar algumas horas para acordar. Ela quebrou o braço esquerdo com a queda e sofreu uma concussão na cabeça, mas nada grave.
— E o bebê? — quis saber.
— Sobre o bebê… o impacto da queda acabou sendo muito forte. Infelizmente, ele não sobreviveu — explicou, enquanto e o encaravam em choque. — Como a gravidez já estava em um estágio mais avançado, será necessário fazer uma curetagem para retirar a criança. Iremos providenciar isso, assim que ela acordar. O bebê pode provocar uma infecção grave caso não seja retirado logo.
soltou a respiração pesada e encarou ao seu lado.
— Não… não! Você está mentindo! — ele gritou, desesperado. — Não pode ser…. O nosso bebê… ele…
— Sinto muito pela perda, Sr. . Fizemos o que pudemos pela srta. , no entanto, o bebê já estava sem vida quando chegou ao hospital.
— Não…! Não pode ser! — exclamou, caindo em prantos outra vez. — Nosso bebê…
America e tentaram acalmá-lo, em vão.
O médico fez um sinal para se aproximar e disse discretamente que iria prescrever um calmante para . concordou com a cabeça e agradeceu.
Uma enfermeira administrou a medicação nele alguns minutos depois. se acalmou, mas parecia aéreo o tempo inteiro.
Logo mais, e Jo apareceram. explicou para eles o que havia acontecido — assim como America, que tinha testemunhado tudo — e pediu para que ficassem com durante o dia, considerando que só acordaria dali a algumas horas.
ligou para Angeline avisando que iria ficar com os padrinhos e ela subiu alguns minutos depois para entregar a chave do carro a ele, avisando que pegaria um táxi de volta para casa.
então ficou sozinho com e prometeu que ligaria para todos assim que tivessem mais notícias. foi transferida para um quarto e o médico permitiu que ambos a acompanhassem, visto que ainda estava em choque.

***


abriu os olhos, sentindo a cabeça doer um pouco, assim como o resto de seu corpo.
Olho para o quarto branco, dando-se conta de que não estava em casa e logo lembrou da razão.
Olhou para o lado e encontrou com a cabeça apoiada num braço, enquanto segurava a mão direita dela e pensou que talvez ele tivesse adormecido.
Seu braço esquerdo, por sua vez, estava imobilizado com gesso. Era a primeira vez na sua vida que o quebrava.
Fez um movimento para levantar o braço direito com cuidado para não perturbar , no entanto, ele percebeu no mesmo instante, levantando a cabeça. Não estava dormindo, afinal.
... Como está se sentindo? — perguntou, com cuidado.
notou que seus olhos estavam vermelhos e um pouco inchados, parecendo ainda mais pequenos.
... E o nosso bebê? — foi a primeira coisa que ela quis saber.
engoliu em seco, olhando para como se ela fosse uma bomba prestes a explodir.
— Amor... — ele respirou fundo, tentando encontrar as palavras. — Você caiu e...
, eu sei que eu caí. Eu quero saber do bebê! — demandou, impaciente.
abaixou a cabeça por um instante e fungou. Foi quando viu que ele chorava.
, olha pra mim — exigiu e assim ele o fez. — O que aconteceu com ele?
— O bebê... Não sobreviveu — disse, a voz falhando no final.
Não… Não, não, não, não! — ela balançou a cabeça, nervosa. Sentiu seus olhos arderem e segundos depois seu rosto estava molhado. — Isso é algum tipo de brincadeira de mau-gosto? Isso não pode ter acontecido! O meu bebê... Meu bebê...
passou a mão pelo rosto rapidamente, quando percebeu o estado dela.
, amor. Vamos ter calma — falou, segurando a mão dela.
ouviu a voz embargada dele e teve vontade de chorar mais ainda.
— O meu bebê, meu bebê — ela colocou a mão na barriga, acariciando. — Não pode ser...
— Amor, calma...
— Calma? Como você quer que eu tenha calma?! Eu acabei de perder um filho, eu... Não fui capaz de sustentá-lo dentro de mim, ... Eu... — colocou a mão no rosto, caindo em prantos.
— Não, , não é culpa sua - disse, rapidamente. — O que aconteceu foi um acidente, meu amor. Por favor... Não se culpe por isso. Nós... Nós vamos passar por isso juntos, tá bom?
Mas não pareceu ouvir. A dor que sentia agora era pior do que sentira após sofrer o acidente. Ultrapassava a dor física e tudo que ela conseguia pensar era nas possibilidades...
E se não tivesse chamado por America para cumprimentá-la?
E se não tivesse corrido pelas escadas para acabar logo com aquilo?
E se, desde o início, tivesse aguentado um pouco mais a vontade de ir ao banheiro e tivesse esperado por para que subissem juntos até o apartamento?
Eram tantos "e se" que ela poderia ter escolhido, mas optou pelo pior e mais imprudente.
Estava tão distraída com a própria dor que sequer notou quando saiu do quarto para chamar um médico, que veio acompanhado por outras duas mulheres. Sentiu ele segurar sua mão outra vez.
olhou para o lado e viu que havia acabado de entrar na sala também e a encarava com um olhar preocupado.
— Doutor, meu bebê...
— Sinto muito pela perda, srta. . Infelizmente, o seu bebê já estava morto quando você chegou no hospital.
— Não pode ser... Como...?
— Sr. , será que podem nos deixar a sós por um instante? Minha equipe e eu iremos explicar o que aconteceu para ela — o médico pediu a , que assentiu com a cabeça, calado.
colocou as mãos nos ombros dele e o guiou para que ambos saíssem da sala.
Eles já sabiam o que a equipe iria dizer.
tinha tido um aborto incompleto com o acidente e precisaria passar por uma curetagem para retirar o que havia restado em seu útero.
Seriam vinte e quatro horas de preparação com medicamentos comuns de preparação para partos.
Em breve, ela seria levada para a maternidade, quando chegasse a hora.
Ben e ouviram um grito de do lado de fora do quarto, seguido da voz suave da psicóloga que tinha acompanhado o médico e a enfermeira.
chorou outra vez, baixinho, enquanto afagava seus ombros.
Não havia mais nada a ser dito.
se sentiu mal pelos dois, por estarem passando por aquilo tão repentinamente. No dia anterior, estavam bem na revista e agora...
Suspirou, sentindo-se impotente por não poder nada em que pudesse ajudar, além de estar lá dando apoio aos dois.
Meia hora mais tarde, a equipe saiu de dentro da sala.
— A srta. está a par de tudo agora — o médico explicou. — Ela está em um momento difícil agora, então todos têm de ser pacientes.
— Ela se acalmou mais, mas pediu para ficar sozinha por algum tempo - disse a psicóloga. — Sugiro que não entrem agora e esperem um pouco, antes de tentar falar com ela outra vez.
Ambos assentiram com a cabeça e agradeceram a equipe.
— As coisas vão ficar bem, Sr. — a enfermeira disse, com uma mão no ombro dele. — Vai ser difícil no início, mas vocês vão ficar bem.
assentiu de novo e agradeceu a ela.
— Você precisa comer algo — disse a ele, assim que ficaram a sós no corredor.
— Não estou com fome.
— Mesmo que não esteja, você precisa comer. precisa de você forte, .

***


foi transferida para a maternidade do hospital às quatro horas da tarde.
Estava em uma enfermaria com outras três mulheres que também estavam se preparando para fazer o mesmo procedimento que ela.
Ficou sentada na cama, quieta, olhando para nada em específico.
Cerca de dez minutos depois, uma enfermeira veio conversar com ela e a instruiu a ir ao banheiro e introduzir uma espécie de comprimido em sua região íntima. O médico havia explicado que ela tinha que tomar quatro daqueles, um a cada seis horas, para ajudar a dilatar o colo do útero e facilitar para que fosse retirado o que havia restado de material em seu útero.
O que havia restado de seu bebê.
foi ao banheiro e fez o que a enfermeira pediu, antes de voltar para a cama.
Sentiu vontade de chorar outra vez, lembrando que poucas horas antes seu bebê estava bem e saudável, a chutando nas costelas enquanto ouvia a voz de .
Ficou perdida nos pensamentos até ouvir alguém falando com ela.
Era uma das mulheres.
— É sua primeira vez? — a delas perguntou, com a voz suave. olhou para ela e assentiu com a cabeça.
— Logo você se acostuma — disse outra. — Já é a terceira vez que faço. Infelizmente, sempre deixo para tirar depois e acabo tendo que passar por tudo de novo.
franziu o cenho.
Deixar para depois?
— Eu também — disse a outra. — Se acontecer de novo, vou lembrar de tirar antes que fique maior.
— Não falem assim — a primeira mulher que falou com disse. — É a primeira vez que ela passa por isso.
— Vocês... Não queriam o bebê? — perguntou, hesitante.
— Claro que não. Eu não nasci para ser mãe — uma disse.
— E eu detesto crianças — falou a outra.
— Vocês vão parar ou não? — a primeira quis saber. — Não estão vendo como ela está? Parem de ser tão insensíveis.
— Pelo jeito que você fala, Krissie, até parece que você também queria o seu bebê — ela retrucou.
— Vocês são loucas — disse , indignada. — Vocês todas são loucas! — repetiu, dessa vez gritando. — Como podem dizer isso de seus próprios filhos? Vocês mataram um bebê inocente. Mataram uma criança que não tinha culpa nenhuma por vocês terem sido estúpidas a ponto de engravidar. Usem a porra de um contraceptivo se não querem crianças, suas vadias! Eu daria tudo pra ter meu bebê de volta!
gritava em plenos pulmões enquanto chorava alto e pouco depois a enfermeira entrou no quarto, tentando acalmá-la.
— Eu não quero ficar aqui, não quero. Não posso ficar no mesmo quarto que essas mulheres loucas — falou rápido. — Por favor, me tira daqui. Me tira daqui! Eu não quero ficar aqui — implorou, em meio aos soluços.
— Calma, senhorita. Nós vamos tirar você daqui, tudo bem? — a enfermeira garantiu. — Só precisamos que se acalme.
Antes das seis da tarde, ela foi transferida de volta para o quarto onde estava antes. Ainda chorava, desconsolada, mas dessa vez estava mais calma.
A primeira pessoa que viu assim que voltou foi , que estava parado no corredor. Ele não falou nada a princípio e apenas a encarou de longe. Uma enfermeira explicava para ele o que tinha acontecido.
ouvia a enfermeira atentamente. Ela explicou que iria terminar as medicações naquele quarto, para evitar mais atritos com outras mulheres e no dia seguinte, ela seria levada ao bloco cirúrgico para fazer o esvaziamento do útero.
Explicou o que havia acontecido na maternidade e que pediu novamente a transferência dela , pois achou melhor que voltasse para lá.
assentiu com a cabeça. Quando a enfermeira foi embora, ele entrou no quarto.
estava deitada de lado, olhando para a janela, chorando baixinho.
a observou em silêncio. Seu corpo estava coberto de hematomas roxos, incluindo na sua barriga. Ele assistiu a mulher chorar e sentiu agonia, desejando que pudesse trocar de lugar com ela, só para não vê-la naquela situação.
Infelizmente, não era algo que estava a seu alcance.
Mas ele faria o melhor que podia para confortá-la.
Pensando nisso, deu a volta pela cama e sentou em uma cadeira que havia ali, olhando para ela em silêncio.
E em silêncio, segurou sua mão. permitiu que ele a segurasse , mas não olhou para ele em nenhum momento.
E ficaram naquela posição por quase uma hora.

***


foi anestesiada e sedada e dormiu durante todo o procedimento.
Sentiu-se desconfortável várias vezes por conta das doses de comprimidos que induziram o dilatamento do colo do útero.
A curetagem aconteceu vou depois das quatro da tarde do dia seguinte.
Ela entrou na sala sem acompanhantes e saiu cerca de uma hora depois. Mas para ela pareceu apenas que havia tirado um cochilo de dez minutos.
Ficou um tempo numa salinha no bloco cirúrgico até que acordasse e quando o efeito da anestesia passou, ela foi levada de volta para o quarto.
Ficaria internada por pelo menos mais dois dias. Desde o dia anterior, estava lá na maior parte do tempo com ela, no entanto o convenceu de ir para casa e descansar um pouco durante a manhã. Claire voltou de viajem naquela manhã e foi para o hospital ficar com ela durante a tarde.
fez uma breve visita pouco antes para que pudessem conversar e acabou contando que tinha ficado com durante o dia anterior, mas agora ele estava com o pai.
se sentiu um pouco culpada por sequer ter lembrado do filho mais velho, mas agradeceu a pela ajuda. , por sua vez, apareceu pouco antes dela ir para a sala de operação e falou com ela rapidamente, tentando consolá-la, assim como .
Ele quis acompanhá-la durante a cirurgia, mas recusou a companhia dele e de qualquer um dos outros.
A eles, só restava esperar até que ela voltasse.
Seis e meia da tarde, já estava de volta ao quarto devidamente instalada. notou que ela parecia estranhamente calma agora que o procedimento tinha acabado.
... — ele sentou na cama e segurou a mão dela. — Como está se sentindo, amor?
olhou para ele pela primeira vez desde o dia anterior e o encarou confusa.
Não respondeu.
... Você está bem? — ele perguntou. Ela puxou a mão que ele segurava, se afastando — ?
Foi a vez dele de ficar confuso.
— Onde está Claire? — ela quis saber.
— Está lá fora. Permitiram apenas uma pessoa hoje como acompanhante e...
— Chame Claire — pediu em um tom que beirava a exigência. — Vá embora, . Eu quero apenas ela aqui.
a encarou assustado por aquela reação. o encarava com uma expressão feia no rosto, como se ele fosse a última pessoa que ela quisesse ver no momento.
Ele se afastou devagar, sentindo-se um pouco embaraçado.
— Amor...
— Vá embora, — ela repetiu, uma palavra mais gélida que a outra. — Eu não quero ver ninguém além de Claire aqui. Eu quero todos vocês longe, você ainda não entendeu? Vá. Embora.
encarou os olhos frios dela, que começavam a brilhar com lágrimas outra vez. Por fim, assentiu e saiu dali.
Contou o que havia acontecido para Claire e , que esperavam do lado de fora e ela entrou no quarto, logo em seguida.
... Vai ficar tudo bem, cara — disse, sentado ao seu lado em uma das cadeiras que ficavam no corredor. estava de cabeça baixa, com as duas mãos no rosto.
— Eu não sei o que fazer, — falou, baixinho. — Não sei o que fazer. Ela me olhou como se eu fosse a pessoa que ela mais odeia.
— As coisas vão melhorar, . Tenha paciência.

Mas as coisas não melhoraram. E não pareciam melhorar nem tão cedo.
Minutos mais tarde, Claire saiu de dentro do quarto e foi falar com eles.
— Como ela está? — perguntou. Ele e a encaravam, ansiosos.
— Ela quer que vocês vão para casa. Ela adormeceu agora — disse. — Vai ser um período difícil, rapazes. Eu já passei por isso em uma situação menos pior que a dela e acho que só posso imaginar um terço da dor que ela está sentindo agora.
— Ela falou mais alguma coisa? — quis saber.
Claire assentiu com a cabeça.
— Ela disse quer quando tiver alta, quer ficar um tempo na minha casa. Ela não sente vontade de ver ninguém. Estou preocupada com essa reação.
— Acho que será melhor ela ficar algumas semanas em casa e ser acompanhada por um terapeuta — sugeriu.
— Uma das enfermeiras disse o mesmo hoje, antes dela ir para a sala de operação — comentou . — Eu só espero que ela fique bem.
— Vamos orar para que ela chique — disse Claire.
Mas no quarto, naquele momento, a única coisa que pensava era em dormir.
Queria dormir muito e compensar o que não tinha conseguido dormir na noite anterior.
Sentia vontade apenas disso: de dormir e não acordar mais.


36. Restabelecendo-se


— Você tem certeza? — Claire perguntou, mais uma vez.
assentiu, sem hesitar.
Era isto, então. Iria morar na casa de sua tia durante um tempo, longe de tudo e todos. Queria apenas se isolar e ficar sozinha.
Para ela, o plano parecia bastante simples, mas os olhares de preocupação de Claire, , e a psicóloga do hospital pareciam dizer o contrário.
… — começou. — perguntou se você… Ele quer te ver.
— Digam a ele que eu viajei — falou, simplesmente.
… — franziu o cenho, sem entender.
— Acho que a srta. quer dizer quer não está pronta ainda — a psicóloga disse, dando-lhes um olhar significativo, em seguida, virando para . — , você deverá fazer ao menos duas sessões de terapia por semana, como eu conversei com você. Uma delas você irá fazer sozinha e na outra, eu quero que o sr. esteja presente. Vocês dois precisam disso.
assentiu com a cabeça, ao lado da cama. Estava perto de e tudo o que queria fazer era abraçá-la. Mesmo com a tragédia que aconteceu com o bebê, ele ainda tinha de agradecer aos céus por ela estar bem, ao menos fisicamente. Depois de algumas semanas, os hematomas desapareceriam e seu braço quebrado se curaria.
Ele só esperava que sua mente também se curasse.
Depois que conversou com , a psicóloga pediu para falar com ele.
esperava receber algumas orientações sobre sua terapia com , mas ela disse outra coisa.
— Sr. , não sei se é a melhor hora para falar isso e é apenas uma grande suspeita, mas o psiquiatra será capaz de confirmar… Mas eu e o Dr. Johnson suspeitamos que tenha desenvolvido um estresse pós-traumático depois da cirurgia.
Os olhos de entraram em alerta.
— Como assim…?
— Ela mostrou alguns sinais para suspeitarmos… o fato dela não querer você perto dela, de não deixar que a toque foi o que levantou nossas suspeitas. Depois ela disse que não queria voltar para casa e sim para a casa da tia e a cereja do bolo foi ela não querer ver o filho. Talvez seja um mecanismo de defesa para mascarar o que aconteceu, como se ela estivesse em estado de negação sobre tudo.
— Então, é como se ela estivesse tentando enganar a si mesma e fingir que nada aconteceu?
— Basicamente. Talvez ela não queira vê-lo por conta disso, talvez você a faça lembrar do bebê. E quanto a a … Talvez lá no fundo ela tenha consciência plena do que aconteceu e não queira ter contato com crianças, por isso está o evitando. Nós iremos passar o caso para o psiquiatra que irá cuidar do tratamento, então não se preocupe. Talvez seja apenas temporário.
suspirou, assentindo com a cabeça.
— Obrigado, doutora. Eu vou fazer o que eu puder para ajudar a a ficar bem, mesmo que isso inclua ficar longe dela por um tempo.
— Você ainda irá vê-la uma vez por semana, na sessão de terapia. Tente se reaproximar aos poucos, sr. . Talvez assim seja melhor para que ela não tenha nenhuma reação inesperada. No entanto, tenha em mente que levará algum tempo até que ela melhore. Não é fácil passar pelo o que ela passou, nem pelo o que você passou também. Então, espero que tenham paciência — disse, por fim.
Ela se despediu e saiu pelo corredor, cumprimentando , que tinha acabado de sair do quarto.
veio em sua direção, meio hesitante e sabia que era porque ela não ficava ainda muito confortável perto dele; como se a qualquer momento, ele fosse se tornar o babaca que costumava ser antes. não culpava ela nem ninguém por pensar assim.
Ele se sentou em uma das cadeiras do corredor e ela o acompanhou.
— O que ela disse?
— Estão suspeitando que tenha desenvolvido estresse pós-traumático depois da cirurgia...
Quando ele terminou de falar, deu um suspiro, preocupada.
— Tenho certeza que irão conseguir passar por isso, — disse, o chamando pelo nome pela primeira vez. olhou curioso para ela. — O quê?
— Nada… Obrigado, . Eu espero que sim. Sei que vamos ter que ser pacientes, só espero que também seja. Não quero que ele se sinta rejeitado.
e eu vamos cuidar disso. Eu acho que tenho uma ideia de como acalmar por um tempo.

***


— A mamãe ‘tá doente? — indagou, olhando para sua madrinha que tinha se abaixado até sua altura.
— Está, campeão — reforçou. — Só que é você não pode ver ela ainda, se não você pode ficar doente também. Só os adultos que não ficam porque já são grandes.
— Tipo catapola? — perguntou, inocente e riu.
— Isso aí. Tipo catapora. Só que como a tia , o tio , tia Claire e eu já tivemos, a gente não pega.
— E o tio também?
— Tio também está doente, explicou, suavemente. — Ele e sua mamãe vão voltar assim que melhorarem e ficarem fortes de novo. Você vai ficar com só com o papai durante uns dias, ‘tá bom?
assentiu. Aparentemente, acreditando no que haviam dito. Só esperavam que a compreensão daquele garotinho durasse por tempo suficiente.

A primeira sessão de terapia foi numa segunda-feira. estava sozinha na sala com o psicólogo, que havia se apresentado como Dr. Bryan Fletcher. Era um homem robusto, com cabelos um pouco grisalhos e devia estar nos seus cinquenta anos.
, eu estou aqui para te ajudar e sei que sabe disso, certo? — perguntou e ela assentiu com a cabeça. — Pois bem, eu quero te ajudar, no entanto, eu preciso te conhecer para que eu possa fazer isso. Então, vamos do início... Você é uma jornalista, não é? Essa foi a profissão que você sempre almejou quando decidiu cursar jornalismo?

contou sobre a época que estudava ainda no ensino médio e como decidiu que queria fazer faculdade de jornalismo também. Mencionou seu antigo namorado Thomas que a apoiou bastante e também falou sobre seus pais. Embora estivesse um pouco desconfortável em fazer terapia, aquele era um assunto que ela conseguia falar sobre e, de certa forma, estava grata ao Dr. Bryan por ele não ter ido direto ao ponto, ao motivo por ela estar ali. Daquela forma, parecia apenas que ela estava conhecendo uma pessoa nova.
A conversa seguiu e vez ou outra ele perguntava sobre Tom e sobre seus pais. acabou contando sobre a rejeição que tivera por parte deles quando souberam que estava grávida e chorou um pouco ao falar. Ainda era um assunto que a magoava. Não tinha visto os pais desde então e já fazia quase 4 anos.
Dr. Bryan lhe estendeu uma caixa de lenços e ela pegou alguns, agradecendo e em seguida, deu-lhe alguns conselhos.
A sessão daquele dia foi sobre isso; como ele disse, para conhecê-la. Ele não perguntou muito sobre nem e muito menos sobre . Mas ela sabia que essas perguntas iriam chegar nas próximas sessões.

Na sexta-feira daquela mesma semana, houve a segunda sessão. estava lá dessa vez e foi a primeira pessoa que viu assim que chegou ao consultório do Dr. Bryan. Ele estava sentado em uma das cadeiras da sala de espera e levantou o olhar assim que a ouviu entrar. A encarou com seus olhos pequenos e acenou com a cabeça, sem falar nada.
foi a primeira a desviar o olhar, antes de se dirigir até a recepcionista.
Diferente da sessão de segunda-feira, nessa ela mal conseguia falar.
Sentia como se fosse uma tortura ter ali, assistindo tudo, embora uma parte dela soubesse que aquilo era necessário.
Dr. Bryan então perguntou como eles se conheceram.
— Nos conhecemos na faculdade — disse. — Éramos amigos no início, mas depois... Bom, eu não fui a melhor pessoa que apareceu na vida dela. Nós tivemos nossos problemas... Eu não a tratava bem — admitiu.
— E como acabaram juntos? — o psicólogo perguntou.
— Tivemos que trabalhar juntos em um projeto e... Uma coisa levou a outra. Acabamos fazendo as pazes, começamos a namorar e depois... O resto o senhor já sabe.
assistia tudo quieta e só falava quando Dr. Bryan lhe perguntava algo.
Depois de alguns minutos, ele tocou no assunto que ela insistia em negar para si mesma que havia acontecido. Era algo involuntário e nem ela sabia porque se sentia assim.
Já fazia alguns dias que não via e uma parte dela se sentia culpada por rejeitar o filho, mas a outra ainda não estava preparada para vê-lo.
— Ouça, srta. . Quero que fique atenta ao que irei dizer — pediu Dr. Bryan. — Eu sei que você está um pouco confusa sobre si mesma e seus sentimentos, mas isso é algo que faz parte do processo de luto. Você engravidou, sofreu um acidente e perdeu seu bebê e você sabe disso, mas você tenta negar para si mesma. Quero que entenda que faz parte. É algo normal de acontecer e embora não pareça, você irá superar isso, mas irá levar um tempo. Eu a aconselho a não fugir e refletir sobre isso, mesmo que doa. Você pode chorar e colocar tudo para fora, chore o quanto quiser. E entenda, que você tem pessoas boas ao seu redor que só querem te ajudar, então não tente se isolar, tudo bem? Se apoie em quem quer te ajudar. Permita-se fazer isso.
ouviu tudo atentamente, os olhos se enchendo de lágrimas à medida que ele falava.
— Foi minha culpa. Eu devia ter sido cuidadosa — pensou. Mas só quando viu os olhares de e Dr. Bryan foi que percebeu que havia pensado em voz alta.
— Não foi sua culpa, disse imediatamente, segurando sua mão. tentou puxar de volta, mas ele não deixou. — Amor... Não foi sua culpa. Por favor, ... Nós vamos passar por isso juntos. Por favor, não me afaste.
— Eu preciso de um tempo, — ela disse e puxou novamente a mão. Dessa vez, ele a soltou.
soltou o ar de uma vez, como se tivesse tentando controlar as próprias emoções e então percebeu que seus olhos também estavam brilhantes de tristeza.
— Srta. ... Não tinha como você prever o acontecido.
— Mas eu podia... Eu podia... Nem o meu corpo foi forte o suficiente para protegê-lo — disse com um fio de voz. — Eu ainda sinto como se ele estivesse aqui, sinto ele se mexer... Mas então lembro que é tudo imaginação minha...
... — tentou falar.
— Você também queria esse bebê... — ela olhou para ele, chorando. — Você estava tão feliz...
— Claro que eu queria, amor — ele segurou suas duas mãos. — Mas não foi sua culpa. Nós temos que superar isso juntos, . Nós vamos passar por isso. Mesmo que leve tempo, eu quero que você saiba que eu vou estar aqui para você. Eu vou esperar pelo tempo que for necessário, querida.
deixou que seu corpo fosse tomado pelos soluços e permitiu que a abraçasse.
Chorou por longos minutos em seus braços e sabia que ele havia feito o mesmo, embora silenciosamente.
Quando se acalmou, Dr. Bryan repetiu alguns de seus conselhos, pouco antes de e irem embora.
Juntos.

***


dirigiu em silêncio até a casa de Claire. não tinha falado nada desde que haviam saído do consultório, mas pelo menos tinha aceitado sua carona. E o seu abraço.
Talvez isso fosse um progresso, embora ele tivesse certeza de que ela ainda não conseguiria passar muito tempo perto dele. Então, deixou-a à vontade durante todo o percurso.
ainda estava com os olhos inchados devido ao choro e os dele, por sua vez, também estavam ainda um pouco vermelhos. Mas tinha esperança. Eles passaram por muito, mas ele acreditava que um dia isso seria superado.
Tinham acabado de perder um filho há menos de duas semanas, e se para ele era doloroso, para devia ser três vezes mais. Mas se ele pudesse remover toda a dor que ela estava sentindo, ele o faria.
Odiava vê-la assim.
Quando chegou em frente a casa de Claire e desligou o carro. Acho que ela fosse sair o mais rápido possível, no entanto não parecia ter pressa. Tirou o cinto de segurança calmamente, enquanto a observava atento.
— Até semana que vem, — ele disse baixo, um pouco incerto.
tinha o olhar baixo e piscou duas vezes, antes de levantar a cabeça e encará-lo nos olhos.
Respirou fundo.
— Até… até semana que vem, — ela respondeu. Era novamente uma daquelas vezes em que se sentia como se ela e fossem estranhos ainda se conhecendo. Mas ela sabia que era apenas porque não sabia mais como se dirigir a ele; sua cabeça era uma confusão de sentimentos.
sorriu de leve, o pequeno fio de esperança crescendo cada vez mais.
Não esperava que ela respondesse.
desceu do caro e seguiu até a entrada da casa de sua tia.
Pela primeira vez em quase duas semanas sentia-se um pouco melhor. A terapia havia sido dolorosa e ela mal podia esperar para que a tortura que era falar sobre tudo aquilo acabasse.
Talvez Dr. Bryan estivesse correto. Colocar para fora ajudava, ainda que fosse doloroso. Durante aqueles últimos dias, ela estivera tão concentrada em sua própria dor que não tinha parado para pensar em como estava se sentindo. Diferente dela, que tinha várias pessoas ao seu redor, estava sozinho.
Ouviu comentar com Claire outro dia que ele tinha voltado para o trabalho naquela semana e tentava se distrair com aquilo. Sabia que não mantinha contato com ele, então era provável soubesse de tudo aquilo por .
suspirou.
Lembrar de automaticamente a fazia lembrar de .
Seu bebê provavelmente não tinha ideia do que estava acontecendo. Embora sentisse falta dele, sabia que ainda não era hora de vê-lo.
Talvez em alguns dias… Quando estivesse melhor…
Felizmente, sabia que o filho estava em boas mãos. Então, era algo que de certa forma a acalmava um pouco mais.

As próximas sessões de terapia que se seguiram foram bastante parecidas com as da primeira semana. Ela chorava, ouvia os conselhos do Dr. Bryan, depois chorava mais um pouco. e Dr. Bryan a consolava e depois quando estava mais calma, ela iria embora; na segunda-feira com e na sexta-feira com .
E aos poucos, com o passar de dias, ela ia compreendendo melhor a situação e se permitia tentar superar tudo aquilo. Na segunda-feira da quarta semana de terapia, não chorou. Dr. Bryan e ela própria, encararam aquilo com positividade, pois significava aceitação.
Não significava que havia parado de doer, no entanto, porém conseguiu falar sem chorar pela primeira vez, ao menos sozinha. Achou que talvez fosse diferente quando estivesse presente, no entanto, na sexta-feira ela também não chorou.
Sentia-se um pouco mais à vontade com ele agora.
E também começava a sentir falta do trabalho e de sua antiga rotina.
Mas acima de tudo, sentia falta de .
Talvez já fosse hora de dizer a ele que a catapora tinha sarado. Iriam restar algumas cicatrizes, que talvez não a permitisse ter tanta proximidade com seu garoto ainda, mas esperava que ele tivesse um pouco mais de paciência, assim como no último mês.
Pensando nisso, ela pegou o telefone.


37. De volta aos Eixos


— Você vai pintar o pêlo do monstro de azul? — perguntou a , que parecia muito concentrado no desenho que os dois estavam pintando.
— O Sully é azul, papai — o menino disse, como se fosse óbvio.
— Ele não era verde?
— Não, papai. O Mike que é verde — ele explicou. — Você não assistiu Monstros S.A? — perguntou, um pouco incrédulo. sentiu vontade de rir ao ver aquela miniatura de gente quase lhe dando uma bronca por não reconhecer os personagens da animação que ele tanto gostava.
— Acho que papai confundiu, campeão. Vamos pintar de azul, então — disse e pegou outro lápis para pintar o desenho com o filho.
Foi quando seu telefone tocou. atendeu sem olhar quem era.
— Alô?
?
? Tudo bem? Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, enquanto se levantava.
— Eu queria falar com você.
— Só um instante — ele pediu e foi até a cozinha. — Angel, pode ficar com para mim? Preciso conversar com a .
— Claro — ela disse, se levantando da mesa onde estava trabalhando. Como não tinha amigos em Londres, às vezes ela aparecia para visitar e desde que havia sofrido o acidente, ela e tinham-no ajudado algumas vezes com .
Embora o menino entendesse que sua mãe estava doente e não podia vê-lo, ele ainda perguntava por ela várias vezes. Então, sentiu-se aliviado logo depois de ouvir falar, assim que se afastou para conversar com ela.
— Você quer ver ?
respirou fundo.
— Sim, eu quero. Acho que já estou… pronta — ela disse, um pouco hesitante. — E sinto falta dele também, embora não pareça — acrescentou, em um tom de voz amargo.
… Em nenhum momento eu pensei isso. Sei que está sendo difícil para você.
— Tudo bem… Você pode trazê-lo amanhã? Vou fazer biscoitos para ele.
— Claro que posso — ele respondeu, suavemente. — Te vejo amanhã, então. Quero conversar pessoalmente com você também.
— Tudo bem. Boa noite, .
— Boa noite, .
Assim que desligou, se dirigiu até a sala para contar a notícia a .
Os olhos do garotinho pareceram se iluminar, assim que ouviu que já podia ir visitar a mamãe.
— A catapola acabou?
— Acabou, campeão — respondeu e o garotinho sorriu.
— Tem que dormir cedo hoje para descansar mais e ir visitar a mamãe amanhã, — disse Angel.
Normalmente, ele protestaria e pedia para ver desenhos antes de dormir, porém, dessa vez, apenas assentiu.
— Mamãe disse que ia fazer biscoitos para você amanhã — acrescentou e o garotinho comemorou.
Claro que sentia falta dos biscoitos da mamãe também.
também sentia.
tinha acabado de tirar os últimos biscoitos do forno.
Eram pouco mais de duas da tarde, mas ela tinha acordado mais cedo para preparar a massa. Queria fazer muitos biscoitos e, como estava sozinha, era um pouco demorado.
Claire tinha ido a um retiro de negócios com o marido naquele fim de semana, então ela estava sozinha em casa até segunda-feira. Resolveu ocupar a mente cozinhando, já que ainda não tinha voltado para o trabalho.
Tinha um atestado inicial de duas semanas para a sua recuperação física, mas Dr. Bryan ainda lhe dado outro por um período maior devido ao tratamento psicológico. No entanto, ela já tinha começado a sentir falta.
Diferente dela, continuava trabalhando normalmente com exceção das sextas-feiras, pois era o dia que tinham terapia juntos. Não tinha falado muito com ele no dia anterior durante a sessão e a volta para casa foi completamente em silêncio. estava pensativa durante o trajeto inteiro e apenas se despediu brevemente, assim que chegaram.
A campainha tocou assim que ela terminou de arrumar tudo.
Respirou fundo, sentindo-se um pouco nervosa e então foi abrir a porta.
— Mamãe! — gritou abraçando suas pernas.
Paralisou por um instante, surpresa. Achou que talvez estivesse chateado durante esse tempo, mas ele parecia feliz em vê-la e, diferente do que tinha imaginado, não ficou sem jeito ao reencontrar o filho.
Era quase como se apenas tivesse ido passar o final de semana com o pai e estivesse retornando para casa.
Quase.
Se abaixou, ficando da mesma altura que o filho. Era impressão dela ou tinha crescido mais no último mês? Parecia tão maior agora.
— Não chora — pediu, passando a mãozinha no rosto dela. Foi só então que ela percebeu que estava chorando. — A catapola dói?
riu, suavemente e passou a mão no rosto tentando livrar-se das lágrimas.
— Dói um pouquinho, meu amor. Mas mamãe vai ficar bem melhor agora que você ‘tá aqui — o abraçou, enchendo-o de beijos, em seguida. — Você não deu trabalho ao papai, não é?
— Ele não sabia que o Sully era azul. Ele pensava que o Sully era verde, mas eu disse que o Mike que é verde, mamãe — ele contou, um pouco indignado. — Eu e papai pintamos o desenho pra você.
riu e olhou para , que ainda estava parado na porta com um sorriso no rosto. Ele então lhe estendeu uma folha de papel com o desenho do Sully que tinham pintado.
— Que lindo, meu amor. Obrigada — disse, abraçando . — Eu fiz um montão de biscoitos pra você. Vamos comer?
outra vez comemorou pelos biscoitos e a acompanhou até a cozinha junto de seu pai.
Depois de algum tempo, após comer vários biscoitos, o garotinho decidiu que queria ver desenho. então ligou a TV da sala e escolheu um filme na Netflix intitulado “Magia Estranha”. Enquanto estava entretido com o filme, voltou para a cozinha para que pudesse conversar com .
— Os biscoitos estavam deliciosos — ele disse, assim que ela voltou.
— Obrigada. Já tinha algum tempo que eu não fazia…
se sentou ao seu lado e colocou um pouco mais café para tomar.
— Como você está? — perguntou, suavemente.
— Acho que estou melhor do achei que estaria. Principalmente depois de ver .
— Você ficou com medo de não conseguir encará-lo?
assentiu com a cabeça, um pouco envergonhada.
— Que bom que isso não aconteceu, certo? — ele sorriu, ainda meio sem graça. — Me desculpe, . Por fazer você ter que tomar conta dele sem mim.
— Não precisa se desculpar, . Eu já te disse isso e outra, é tão meu filho quanto é seu. Você não estava bem e era totalmente compreensível. Fico feliz de confiar em mim.
— É claro que eu confio em você, . Sempre confiei. E quem melhor do que você para ficar com ? Você sabe como cuidar dele.
— Bem, tive que ter ajuda feminina algumas vezes, mas consegui dar conta sim — ele deu de ombros.
riu.
— Que bom, então. Eu também precisava de ajuda masculina, às vezes.
— Como está indo na terapia? — ele quis saber.
respirou fundo.
Respirava fundo com bastante frequência naquelas últimas semanas para controlar as emoções.
— Está indo bem… Dr. Bryan decidiu que me dar um banho de água fria era melhor do que contribuir para a ilusão que eu tinha criado na minha cabeça de que nada tinha acontecido.
— Deve ter sido difícil.
— No início foi, mas acho que foi melhor assim.
— E como você e estão?
— Eu não conversei com ele fora da terapia nenhuma vez ainda. Ele me traz para casa assim que a sessão acaba, mas eu nunca converso nada além do necessário. Então acho que não conta, certo? Estamos dando um passo de casa vez na terapia…
colocou sua mão sobre a dela.
— Eu sinto muito pelo o que aconteceu, . Por vocês dois. Foi bastante difícil para ele também. Acho que foi por isso que ele resolveu se afundar no trabalho. Acho que era uma forma dele se distrair dos próprios pensamentos.
— Eu ainda me sinto culpada, — ela confessou, quase em um sussurro. — sempre foi protetor e sempre me fazia ter bastante cuidado. Eu sempre debochei disso, mas no fim…
— O que aconteceu foi um acidente, a cortou, com a voz firme. — Não tinha como você prever o que ia acontecer.
— Eu sei… Mas isso não me impede de me sentir assim. Estou tentando aceitar isso aos poucos também, . Tenho que voltar a minha vida normal em breve, sinto que preciso disso… Fazer como e me distrair com o trabalho. Talvez ajude também.
— Quando pretende voltar?
— Ainda tenho duas semanas do atestado médico. Assim que terminar, voltarei.
— Se quiser mais tempo, posso adiantar suas férias.
balançou a cabeça.
— Não precisa. Acho que estou pronta para isso também. Mas se puder conversar com o pessoal para que eles não toquem nesse assunto comigo…
— Claro que sim. Não se preocupe com isso.
— Obrigada, .
— Você é bem-vinda para retornar assim que quiser, — ele disse.
sorriu e o abraçou.
— Amo você, .
sorriu. Sabia muito bem o significado daquelas palavras, mas isso não o impedia de ainda sentir um leve frio na barriga após escutá-las outra vez. Mesmo depois de meses.
— Eu também te amo, .

***


e tinham ido embora há pouco mais de uma hora, levando um pote de biscoitos junto, quando recebeu uma mensagem de , coisa que não esperava já que ele não tentava mais falar com ela fora da terapia.
Perguntou se podia ir vê-la. hesitou por um instante, antes de responder, mas no fim disse que sim.
Sentiu-se um pouco nervosa, mas não havia nada a fazer quanto aquilo.
Então, ela apenas sentou-se no sofá da sala e esperou até que a campainha tocasse.

48 horas antes…

tinha acabado de terminar de escrever um artigo, quando Anne apareceu em sua mesa com um folheto informativo.
— O que é isso?
— Haverá um congresso de jornalismo em Manchester. É daqui há duas semanas, mas as inscrições ainda estão abertas e adiaram o prazo de envio de trabalhos para quem quiser apresentar algo.
— Onde conseguiu isso? — ele perguntou, segurando o folheto.
— Deixaram hoje na recepção da revista. Bem oportuno, considerando que aqui tem um monte de jornalistas. Por que não participa? Você e ainda não publicaram aquele artigo da competição, não é?
— Não era uma competição, Anne — ele corrigiu. — Era uma seleção e nós vencemos. Você, ela e eu.
— É a mesma coisa — ela revirou os olhos e ele riu. — Por que não vai, ? Acho que seria bom para você. Eu iria também, mas tenho compromisso na mesma data.
— Não está bem nos meus planos por enquanto, mas acho que conheço alguém que talvez se interesse por isso. Obrigado, Anne.

Atualmente…

A campainha tocou exatamente trinta e dois minutos mais tarde.
Não que estivesse contando.
Respirou fundo outra vez, tentando controlar a ansiedade que insistia em atingi-la e então foi abrir a porta.
Paralisou na porta, assim que viu . Ele usava um boné vermelho para trás e óculos grandes de uma armação quadrada que conhecia bem.
Eram seus antigos óculos, aqueles que ele usava no início da faculdade, logo quando o conheceu. A franja que lhe caía na testa, meio bagunçada era um bônus. Fazia um tempo desde que ele tinha pintado o cabelo de castanho, sua cor natural; no entanto, naquele momento estava exatamente com a mesma aparência de quando ela o viu pela primeira vez.
Mas duvidava que aquilo tinha sido proposital, embora não tenha o visto usar aqueles óculos nenhuma vez durante o período em que moraram juntos. Já fazia quantos anos desde que tinha visto aquela versão dele bem em sua frente? Quatro… cinco anos, talvez? Ele tinha olheiras bem aparentes que ela sabia que eram devido ao trabalho, mas continuava bonito mesmo assim.
Subitamente, sentiu vontade de sorrir. Seus olhos também arderam um pouco.
— Oi, — ele disse.
sentiu uma súbita vontade de pular em seus braços, mas se conteve.
— Oi, .
— Posso entrar?
— Ah, claro — ela disse, dando espaço para ele passar.
Fechou a porta, em seguida e ambos sentaram-se no sofá.
— Como você está?
— Bem melhor. Eu vi hoje — ela contou.
a encarou, surpreso.
— Sério? Que bom! E… como foi?
— Foi bem. Muito bem, na verdade. Como se não tivesse nada de diferente acontecendo. Exceto que eu acho que ele cresceu um pouco mais no último mês do que eu me lembrava — disse e ele riu.
— Fico feliz em saber disso. Onde está Claire? Você está sozinha? Não ouço nenhum barulho de gente aqui…
— Estou só. Ela viajou com o marido e só volta na segunda-feira.
— Entendo…
— Não sabia que ainda tinha esses óculos — ela comentou, antes que pudesse se conter.
a encarou confuso por um segundo.
— Ah… é. Ele é bem velho. Minhas lentes acabaram e esqueci de comprar novas — explicou. — Eu ainda tinha que dirigir, então… lembrei que ainda tinha eles em algum canto.
— Ah, … — ela sorriu. — Você está idêntico a quando eu te conheci.
fez uma careta e se mexeu no sofá, um pouco desconfortável.
— Desculpe por aparecer assim… Eu queria te mostrar algo ontem, mas acabei esquecendo também e…
— Por que está se desculpando? Você está ótimo.
— Eu… O quê? — ele a encarou, confuso.
— Parece o nerd que eu conheci e que eu sei que ainda existe aí dentro de você — ela explicou.
— Ah, o cara desajeitado que não liga muito para a aparência, você quer dizer.
riu e balançou a cabeça.
— Não. O cara fofo que me fazia querer apertar as bochechas dele o tempo inteiro — ela confessou. Nunca havia dito aquilo, mesmo depois de ficarem juntos.
a encarou, sem saber o que dizer; o que era raro, considerando que ele sempre tinha uma palavra na ponta da língua.
pigarreou, sentindo o rosto corar.
— Então… O que… O que você queria me mostrar? — ela perguntou.
— Ah… — ele puxou um papel dobrado do bolso e entregou a ela. — Anne me deu isso quinta-feira.
então abriu a pequena folha e viu o anúncio do congresso.
— Um congresso? Em Manchester? — era em sua cidade natal.
— Pensei que talvez você pudesse se interessar já que há algum tempo me falou que gostaria de participar de um outro, assim que tivesse oportunidade. Pode enviar e apresentar nosso artigo lá, se ele for aceito, já que ainda não o publicamos.
leu o folheto atentamente. Não podia negar que havia realmente se interessado.
— O que acha? — ele perguntou, depois de algum tempo que ela começou a ler.
— Acho que é uma ótima ideia, — ela o encarou.
sorriu de leve, sentindo uma pontinha de felicidade por fazê-la sorrir.
— Imaginei que seria bom para você também viajar um pouco e se distrair mais… Bem… era isso.
— Obrigada por me avisar, nerd.
fez outra careta e dessa vez, riu e ele a seguiu.
— Você fica bem com esse óculos, — ela elogiou.
— Ah, é? Por que eu fico fofo? Você pode apertar minhas bochechas, se quiser — ele sorriu, de leve.
sentiu suas bochechas esquentarem um pouco.
podia estar com a mesma aparência de quando ela o conheceu, mas diferente de antes, não havia nenhum pingo de timidez ali.
Definitivamente.
E aquela pequena provocação foi a fez perceber isso.
Naquele momento, ele parecia um lobo em pele de cordeiro.
E não podia pensar em outra definição melhor. Mas ainda era o seu . Tímido ou não.
Pensando nisso, ela se aproximou e tirou os óculos de seu rosto e, em seguida, livrou-se do boné. Repetiu então, o mesmo que havia feito anos atrás e passou os dedos por sua franja, a empurrando para trás, deixando a testa dele à mostra. Aquilo lhe dava um ar mais maduro e sexy.
E adorou fazer aquele contraste outra vez.
Segurou o rosto do rapaz à sua frente com as duas mãos e o encarou. Sem dizer nada, deixou que seu corpo tomasse conta de seus movimentos e, segundos depois, sentiu seus lábios tocarem os de .
Na semana seguinte, ela viajou para Manchester.


38. O Lugar Certo


Fazia cerca de quatro anos desde a última vez que estivera em sua cidade natal.
A viajem até Manchester não era muito longa, durava em torno de quatro horas de trem, mas ela nunca teve nenhum motivo para voltar, desde que tinha engravidado pela primeira vez.
A cidade parecia tão bonita quanto ela se lembrava e sentiu um certo sentimento de nostalgia ao observar as ruas movimentadas, enquanto um táxi a levava até o hotel onde iria ficar.
Assim que chegou, abriu a mala e tirou apenas uma muda de roupas e a necessaire com os produtos que tinha levado e foi tomar banho. O credenciamento do evento era naquele mesmo dia, mas a programação não era muito importante, então preferiu apenas pegar o ônibus no mesmo dia e aparecer apenas durante à tarde, depois que almoçasse.
Havia muitas pessoas no local, no entanto, não encontrou com ninguém que conhecia. Realizou o credenciamento e resolveu assistir a uma palestra que estava ocorrendo. No segundo dia, chegou cedo ao local; iria apresentar seu trabalho durante a manhã e já que as apresentações eram por ordem de chegada, quanto mais cedo ela se livrasse, melhor. Assim ficaria livre para passear um pouco depois ou simplesmente aproveitar mais o evento.
Felizmente, a sala onde ela apresentaria o trabalho era na verdade um auditório bastante espaçoso, embora não fosse muito grande. Agradeceu mentalmente por isso, lembrando de uma ocasião em que havia apresentado um trabalho há alguns anos atrás em Londres, em uma sala que mal cabia dez pessoas. Havia sido bastante apertado e desconfortável, então ficou feliz que daquela vez seria bem diferente.
A apresentação ocorreu bem, sem maiores acontecimentos. Reproduziu a mesma apresentação que havia feito com alguns meses atrás e, por fim, esperou pela opinião dos avaliadores. Geralmente, ficava nervosa antes de apresentar, mas estava estranhamente à vontade naquele dia. Talvez porque tudo estava ocorrendo conforme planejado.
Sentia-se um pouco mais independente ali.
Viajar era algo que ela raramente fazia e sozinha, então, podia contar nos dedos todas as vezes que aquilo acontecera. Era um sentimento agridoce. Uma parte dele sentia um pouco de ansiedade por estar sozinha, mas a outra se sentia bem por isso.
Os avaliadores apresentaram opiniões positivas em relação ao artigo, assim como na primeira vez que ele havia sido avaliado e agradeceu, feliz. Após o final da apresentação, ela foi embora.
Andou pelo prédio, observando o local um pouco distraída, quando esbarrou em alguém.
— Desculpe — disse o homem. olhou para cima e se deparou com um rapaz de cabelos claros e olhos dourados e teve a impressão de que o conhecia de algum lugar.
— Eu que peço desculpas. Estava distraída — ela disse, ainda tentando se lembrar de onde o tinha visto. Foi quando uma voz conhecida chamou seu nome.
? — Aria apareceu a alguns metros de distância do rapaz.
— Aria? Você está participando do evento também? — perguntou, enquanto a abraçava.
— Sim, resolvi que era hora de voltar para o nosso ramo — ela disse. — Como você está? Derick me contou sobre o seu bebê. Eu sinto muito — acrescentou, segurando as duas mãos de .
— Obrigada, Aria. Acho que você deve saber como estou me sentindo — comentou, lembrando que Aria já havia passado por aquilo duas vezes. — Ainda é recente, mas… estou tentando seguir em frente. Vim para cá para tentar me distrair um pouco, antes de retornar ao trabalho. Tenho alguns dias livres ainda, mas confesso que sinto falta da rotina, pelo menos assim posso me distrair com mais facilidade — deu de ombros.
— Vai passar, . Você vai conseguir e vai ficar bem — afirmou.
sentiu-se um pouco mais segura com as palavras da mulher à sua frente. Aria era um exemplo vivo do que resiliência representava, tendo em conta tudo o que já havia passado nos últimos anos. Sentia-se feliz por ela também estar conseguindo seguir em frente.
— Obrigada, Aria. Aprecio muito suas palavras.
Aria sorriu e então olhou para o homem dos olhos dourados.
— Ethan, essa é . Lembra que falei dela? Participei do seu trabalho de conclusão de curso — ele assentiu com a cabeça, parecendo lembrar de algo. — , este é Ethan Shaw, meu noivo.
— Prazer em conhecê-la, — ele disse, cumprimentando-a com um aperto de mão.
— Igualmente, Ethan — ela sorriu. — Estava me perguntando de onde o conhecia quando nos esbarramos, mas acho que devo ter visto alguma foto sua com Aria em algum lugar.
Aria deu um risinho.
— Ethan é arquiteto, mas eu o fiz me acompanhar até aqui.
— Me arrastou, você quer dizer — ele corrigiu. Sua voz era séria, mas havia humor em seus olhos. — Você disse que ia ser interessante.
Aria revirou os olhos, ignorando-o e riu.
— Você apresentou algo? — Aria indagou.
— Acabei de apresentar. Estava fazendo hora aqui, decidindo se ia ou não assistir outra palestra ou simplesmente passear pela cidade. Percebi que senti um pouco de falta de Manchester ao chegar aqui. É minha cidade natal.
— Sério? É minha primeira vez aqui. O que acha de ser nossa guia turística? Podíamos andar por aí. A menos que já tenha compromisso, é claro.
negou com a cabeça.
— Viajei sozinha. Seria ótimo passar um tempo com vocês.

De fato, passou a tarde passeando por Manchester com o casal e até aproveitou para comprar um presente de aniversário para nathan, visto que já era na próxima semana.
Seu garotinho iria fazer três anos de idade e estava aprendendo a ler, então quando eles entraram em uma livraria e ela viu um pequeno stand com livros de O pequeno príncipe, achou que era uma ótima opção.
Ademais, ela tinha certeza de que iria comprar algum brinquedo legal para ele, então que ela ficasse com a parte educativa.
No dia seguinte, encontrou novamente Aria e Ethan no evento e assistiram uma palestra juntos na parte da manhã, já que eles iriam pegar um trem para Londres de tarde. Ethan não era o cara mais falante do mundo, mas depois de passar um tempo com eles, percebeu que ele havia ficado um pouco mais à vontade em sua presença.
Se despediu do casal logo após almoçarem juntos em um restaurante próximo ao local do evento. Iria embora no dia seguinte pela manhã, mas estava pensando seriamente em fazer o mesmo que Aria e Ethan e cabular o encerramento do congresso para passear por aí, ou… resolver algumas coisas inacabadas que haviam passado pela sua cabeça desde que tinha chegado na cidade.
Decidiu que já tinha se passado tempo demais, e era algo que ela precisava se livrar para que pudesse recomeçar sua vida (ao menos, emocionalmente falando). Sua saúde mental também clamava um pouco de consolo em relação aquilo. Assim, algum tempo depois de andar pela rua após o almoço, ela decidiu pegar um táxi e quando ele perguntou para onde ela estava indo, deu-lhe o antigo endereço que nunca tinha sido capaz de esquecer.
Precisou respirar fundo, em busca de coragem, assim que se viu em frente a casa que um dia chamou de lar. Caminhou até a porta de entrada, apertou a campainha e esperou, segurando a alça de sua bolsa com força. Estava um pouco nervosa e não fazia ideia de qual seria a reação que obteria assim que a vissem ali.
Alguns instantes depois, uma mulher atendeu. Seu cabelo estava curto, mas o rosto não havia mudado quase nada com o passar dos anos. Sua mãe continuava praticamente a mesma. A mulher arregalou os olhos, surpresa, como se não acreditasse no que estava vindo.
? O que… O que está fazendo aqui?
se remexeu um pouco desconfortável.
— Oi, mãe — falou, depois de alguns segundos. — Estive em um congresso aqui em Manchester nos últimos dias e… resolvi fazer uma visita, antes de ir embora. Seu marido está? Preciso conversar com vocês dois — disse de uma vez.
Não sentia-se à vontade de chamar o homem de pai há muitos anos e isso ainda não havia mudado.
— Sim, está. Oh, meu Deus, querida. Entre, entre — ela disse, finalmente parecendo voltar à realidade, dando espaço para que passasse.
caminhou devagar até a sala e sentou-se no sofá, enquanto sua mãe foi chamar o marido. Observou em volta e sentiu-se esquisita. Conhecia cada pedacinho daquele lugar, mas não sentia mais nenhuma falta dali. Tinha desapegado completamente com o tempo e agora tudo o que havia conseguido construir sozinha era bem mais valioso para ela.
Respirou fundo novamente e, segundos depois, seu pai apareceu na sala junto de sua mãe. Em outras circunstâncias, teria se levantado e abraçado os dois ali, mas tudo o que fizeram foi se encararem durante um tempo. Ele não disse nada e entendeu que era a deixa para que ela falasse o que queria.
Sua mãe, no entanto, sentou-se ao seu lado no sofá e segurou suas duas mãos no colo, claramente feliz por vê-la outra vez. O que era, no mínimo, irônico, considerando que em todos aqueles anos eles não tentaram fazer nenhum tipo de contato com ela.
A realidade era dura, mas tinha parado de se importar há muito tempo.
— Bom, como eu disse… Viajei para um congresso em Manchester e decidi fazer uma visita, antes de ir embora. Não estou aqui para fazer as pazes ou algo do tipo, nem implorar por perdão. Até porque não tenho motivos para isso — disse e percebeu seu pai respirar fundo. — Mas acho que já passou do tempo de colocarmos as cartas na mesa. Eu cansei de ser a filha deserdada, exilada da família. E embora isso não faça muita diferença, hoje em dia, queria atualizar vocês dois sobre o que aconteceu em minha vida nos últimos anos.
… — sua mãe chamou, fazendo encará-la. — Querida, eu…
— Não, mãe. Também não vim para que clamassem por meu perdão. Quero apenas que saibam que eu consegui refazer minha vida e estou estabilizada hoje. Deu muito trabalho? Sim. Mas tudo valeu a pena e não me arrependo de nada.
E então, ela contou.
Falou sobre os vários empregos de meio período que teve durante a gravidez e o restante da faculdade; de quando reencontrou e ele finalmente descobriu sobre , mencionando também que passaram alguns meses juntos, mas depois decidiu que eles eram melhores apenas como amigos; contou sobre , sobre as constantes discussões que tiveram durante toda a faculdade e de como acabaram juntos depois e, por fim, sobre a gravidez interrompida que tivera recentemente.
Seus pais ouviram tudo sem falar nada, quase em um completo silêncio, com exceção dos soluços baixos de sua mãe, que tinha começado a chorar em determinado ponto. Contudo, à medida que falava, sentia como se estivesse tirando um peso dos ombros.
Aquela não era uma conversa para fazer as pazes, mas apenas uma atualização de fatos para que ela pudesse dizer aos pais que, mesmo sem a ajuda deles, tinha conseguido lidar com tudo o que tinha passado, até mesmo quando achou que não conseguiria, especialmente depois que perdera seu bebê.
Só quando terminou de contar, foi que percebeu que também tinha algumas lágrimas escorrendo por seu rosto. Sentiu-se aliviada por contar, mas ao mesmo tempo, um pouco triste ao falar de tudo tão abertamente com eles.
— Oh, … Sei que sua vinda até aqui nada tem a ver com perdão, mas eu sinto muito, querida — sua mãe falou, com a voz falha. — Sinto muito por todos os anos longe, sem entrar em contato… Por tudo. Mas quero que saiba que estou orgulhosa de você, por ter se tornado uma mulher tão forte. Sei que não fazemos mais parte da sua vida e pedir por isso seria muito, mas… Confesso que sempre estive curiosa sobre como meu neto se parece… — sorriu, triste e fez o mesmo.
— Posso mostrar algumas fotos — sugeriu.
Sua mãe pareceu ficar um pouco mais animada depois disso. então, mostrou algumas fotos de para ela e seu pai — que ainda não tinha falado nada, até então, mas sentou-se ao lado de sua mãe quando ela começou a mostrar as fotos.
Tinha fotos de nathan em todas as suas fases. Recém-nascido, engatinhando, dando os primeiros passinhos… Havia fotos com ela, , e Claire nos primeiros anos. Depois fotos onde se encontrava e até mesmo — que também serviu de oportunidade para apresentar os dois.
é tão parecido com ! — sua mãe exclamou, abismada. — Não concorda, Derek?
Seu pai assentiu fracamente.
— Esse aqui é , mas agora ele está com o cabelo castanho.
— Eu acho que lembro dele… Você o mencionou algumas vezes, não foi? Um rapaz com cara de nerd que você dizia que era muito simpático — sua mãe disse.
franziu o cenho.
— Eu disse? Não me lembrava disso.
— Ele parece ser um bom homem. também. É um alívio que tenha tantas pessoas boas a sua volta, filha.
— Obrigada — disse, meio sem graça. O clima desconfortável aparentemente tinha voltado, assim que ela terminou de falar. — Bom, acho que eu já vou indo…
— Tem certeza? Não quer ficar para o jantar?
— Acho melhor não, mãe… — respondeu. — Vou voltar para o hotel e amanhã cedo, irei pegar um trem de volta à Londres.
Sua mãe não insistiu mais. Felizmente, pareceu entender que não se sentia à vontade e não quis pressioná-la. No entanto, concordou em trocarem seus números de contato e em mandar notícias para ela, eventualmente.
Não estavam de volta na vida uns dos outros, mas agora não tinham mais assuntos pendentes a tratar.
Só quando estava prestes a sair, ouviu o pai desejar-lhe uma boa viajem, antes de ir voltar para o escritório, onde estava horas antes. Trocou um abraço com sua mãe, instantes depois e então foi embora.
Pegou um táxi e foi até um shopping que ficava próximo ao seu hotel e passou um tempo lá, aproveitando para jantar por ali mesmo, antes de voltar ao hotel. Tomou um banho e vestiu um pijama assim que chegou e depois arrumou a mala, se certificando que não estava esquecendo de nada ali.
Antes de dormir, pegou o celular e avisou para Claire e que estava voltando e chegaria em Londres por volta das onze da manhã. No dia seguinte, pouco depois das seis da manhã, ela já estava na estação de trem devidamente acomodada em uma das cabines de viajem. Se perguntou se alguém iria pegá-la na estação. Não havia pedido a ninguém nem tinha recebido nenhuma mensagem sobre isso. Mas não custava nada procurar por algum rosto conhecido, antes de simplesmente resolver pegar um táxi.
Porém, quando chegou na estação de Londres, viu que havia realmente alguém que esperava por ela. Um homem sentado em uma das cadeiras de espera segurava uma folha A4 na frente do rosto com seu nome e sobrenome escrito nela. parou a alguns metros de distância tentando reconhecê-lo.
Vestia roupas casuais simples: shorts jeans, camiseta e tênis. se aproximou um pouco mais e o homem, por sua vez, abaixou um pouco a folha até que seus olhos estivessem descobertos.
então sorriu.
Reconheceria aqueles olhos sorridentes mesmo de longe.
Sem mais delongas, ela caminhou até o dono deles. No fim, depois de todas as idas e vindas em sua vida, ele ainda estava ali. Há uns anos atrás, havia desacreditado que algum dia seria capaz de encontrar o verdadeiro amor.
No entanto, após o homem finalmente abaixar a folha que lhe cobria o rosto e sorrir para ela assim que parou à sua frente, ela acreditou novamente.
E quando ele se levantou e a confinou em um abraço apertado, ela teve certeza de que havia o encontrado.
Finalmente tinha voltado para o lugar certo.


Epílogo


se despediu de dando um beijo em seu rosto. Era a vez de ficar com ele.
— Tchau, mamãe!
— Tchau, meu amor. Durma bem e nada de ficar vendo desenhos a essa hora — ela disse, olhando de soslaio para o pai de seu filho que tinha uma expressão de falsa inocência no rosto.
— Tchau, meu amor. Durma bem e nada de ficar vendo desenhos a essa hora — ela disse, olhando de soslaio para o pai de seu filho que tinha uma expressão de falsa inocência no rosto.
Angel riu baixo, ao lado dele.
— Não se preocupe, Ash, vou garantir que os dois se comportem — disse, olhando para ela com um sorriso cúmplice.
Ashley sorriu de volta.
— Tchau, tio disse, abraçando o homem assim que ele se abaixou, ficando à sua altura.
— Tchau, garotão. Não vá dar trabalho ao seu pai. Ou dê — ele sorriu, olhando para , que sorriu de volta, porém de forma sarcástica.
— Boa noite a vocês — pegando o filho no colo e indo embora.
se virou para e a puxou pela cintura.
— Enfim sós — brincou, encostando a testa na dela.
riu baixinho.
— Acho que também quero ir embora daqui a pouco. Estou um pouco cansada. Essa semana foi pesada na revista, odeio fases de revisão.
— Todo mundo odeia — ele afirmou. — Mas pelo menos o chefe não é um pé no saco… muito — ele disse, ganhando um tapinha dela. — Ai! Você sabe que é verdade.
— Sei, mas não deixe ele ouvir isso ou você vai ter um novo carrasco no seu pé.
— Pior que o velho Steve? Vou manter isso em mente — sorriu. — Você quer ir se despedir dos seus pais, antes de irmos? Tem uma coisa que eu quero te mostrar quando chegarmos em casa.
— Uma coisa, é? É de comer? — quis saber.
riu alto.
— Não, não é. Mas espero que goste.
— Tudo bem. Vamos lá falar com eles, então. Eu quero mesmo é um banho quente, assim que chegarmos em casa.Caminharam até a mesa onde Claire estava com seu noivo, ambos agora recém-casados. Os pais de conversavam animadamente com eles e alguns outros amigos e membros da família. Fazia três meses desde que tinha voltado de Manchester e, diferente de antes, agora ela se comunicava vez ou outra com seus pais, em especial a mãe, que sempre tinha curiosidade em saber notícias de .
os tinha conhecido no dia anterior, em um jantar para amigos e familiares que Claire tinha dado antes do casamento e a mãe de pareceu gostar dele assim que o conheceu, o que ele considerou um sinal bom, embora ela também tivesse simpatizado com (não que ele estivesse com ciúmes, claro). ainda estava um pouco distante deles, mas pelo menos parecia mais à vontade agora.
Desde que tinha voltado de Manchester, eles voltaram a morar juntos e, embora no início tivesse sido um pouco esquisito, considerando que ainda estava se readaptando, eles tinham conseguido seguir em frente. E o mais importante: juntos.
agradecia aos céus por isso.
Se despediram dos mais velhos e logo estavam a caminho de casa. olhou de soslaio para o relógio no visor do carro e viu que já se passava de meia-noite.
Olhou para e ela parecia distraída, olhando pela janela, enquanto cantarolava baixinho “Always” de Bon Jovi, que tocava no rádio.
Estava usando um vestido rosado de tecido fino e sandálias da mesma cor. Tinha sido uma das damas de honra de Claire, mas sabia que ela mal podia esperar para tirar aqueles saltos, assim que chegassem em casa, embora ela não tivesse reclamado ainda.
também mal podia esperar para que chegassem, mas não pelos mesmos motivos. Já era dia 9 de novembro, o que significava que eles estavam completando um ano juntos e ele tinha preparado uma surpresa para ela.

— Ah! Eu mal podia esperar para tirar esses saltos — disse, suspirando de alívio, assim que se livrou das sandálias.
riu baixinho, enquanto trancava a porta do apartamento.
— Sabia que diria isso — ele comentou.
se virou para ele e o assistiu caminhar até ela, ainda vestido completamente no smoking que ela o tinha ajudado a escolher para o casamento de Claire. Seu cabelo agora estava completamente preto, dividido de lado com a franja meio solta, permitindo que sua testa fosse vista. Também tinha sido ideia dela, que às vezes gostava de fazer de bonequinho e, por sorte, ele confiava nos gostos dela.
— Você sabe que dia é hoje? — ele indagou, com um sorriso. prestou atenção na pequena covinha que apareceu em seu rosto, antes de encará-lo um pouco confusa.
— O casamento de Claire? — sugeriu, mas revirou os olhos.
— Sua habilidade com datas é impressionante, querida. Já é dia 9, estamos completando um ano juntos e tem algo que eu gostaria de te dar.
— Ah! Me desculpa, amor. Eu me distraí ajudando Claire com os preparativos do casamento e teve a semana de revisão na revista e…
— ‘Tá tudo bem, . Sério. Eu imaginei que isso fosse acontecer, na verdade.
— Sim, mas… Eu já comprei o seu presente — ela sorriu, travessa.
— Ah, é? E cadê ele?
— Por que não vai pegar o seu, enquanto pego o meu? — sugeriu e assim fizeram.
Minutos depois, segurava uma pequena caixinha preta com um laço vermelho em cima, enquanto carregava um pacote enorme que mal lhe cabia nos braços.
— O que diabos você comprou? — ele perguntou, com o cenho franzido.
— Pega logo — disse, com dificuldade de carregar.
— Posso abrir primeiro, antes de você abrir o meu? — fez que sim com a cabeça.
então se livrou da sacola e encontrou uma caixa branca enorme e, de fato, um pouco pesada. Desfez o laço dourado que prendia a tampa e abriu, dando de cara com uma coleção de artigos personalizados de seus filmes favoritos. Haviam copos, camisas, bonés e até mesmo meias de Harry Potter, Star Wars, De Volta para o Futuro, entre outros.
— Gostou? — ela perguntou, ansiosa, sentada ao seu lado no sofá.
Wow! Olhando assim, até parece que o meu é uma coisinha de nada. Mas dizem que tamanho não é documento, não é? — ele piscou. — Eu amei, amor. Especialmente as meias de Grifinória, embora eu não saiba exatamente quando irei usar isso.
— O inverno ‘tá logo aí. Então aproveite a estação — sugeriu ela.
colocou a caixa de lado e entregou o presente dela.
— Deu muito trabalho pra fazer, aviso logo. Anne me ajudou com algumas coisas, porque aparentemente não tenho talento para as artes.
balançou a cabeça, sorrindo com o pequeno drama antecipado e puxou a ponta do laço vermelho; e assim que o fez, os quatro lados da caixinha caíram para o lado, revelando algumas camadas de cartolina preta, que ela abriu uma por uma, encontrando colagens com fotos dela com e, para sua maior surpresa, algumas eram antigas e tinham sido tiradas enquanto eles trabalhavam em algo para a faculdade.
Algumas selfies quando eram amigos, logo quando se conheceram, outras selfies dele que ela aparecia no fundo, distraída lendo ou olhando para alguma coisa. As mais recentes tinham sido tiradas no último ano, também aparecendo em algumas delas.
Havia alguns mini cartões com frases como “eu te amo” e “feliz um ano” escritas, mas o que mais chamou a atenção de foi uma outra pequena caixinha que havia no centro, um dos lados apontando para ela, ao mesmo tempo que continha várias pequenas folhinhas, que ela leu uma por uma.
“O presente de verdade está aqui”, era o que tinha na primeira página.
“Estou nervoso, mas quero que abra logo ㅠㅠ”, tinha na segunda.
“Tudo bem, vamos lá!”, era a terceira.
Ela riu e tirou a tampa da pequena caixinha e os lados dessa também caíram, assim como a primeira. Cada lado da caixinha, com exceção do lado frontal de cima, que tinha a frase “Certo, é agora. Estou ansioso. Abra um lado de cada vez, seguindo a ordem dos números”.
riu baixinho e olhou para ao seu lado, que a encarava visivelmente ansioso, assim como dizia a caixinha. Voltou o olhar para a caixinha em seu colo e levantou o lado que indicava o #1. Depois o #2 e logo o #3 que, juntos formavam apenas uma frase: vocês quer se casar comigo?
colocou a mão na boca, os olhos marejando.
— Ainda falta uma disse em seu ouvido, fazendo-a se arrepiar.
Com cuidado, ela levantou o pequeno pedaço de cartolina que havia bem no centro da caixinha, dessa vez, com nada além de um pequeno coração torto, feito à mão, assim como todo o resto.
Segundos depois, se deparou com o que pensou ser o anel mais lindo que já havia visto. Sentiu algumas lágrimas quentes escorrerem por suas bochechas e virou o rosto para encarar , com um sorriso. E isso foi tudo o que ele precisou para sorrir de volta e esticar o braço para pegar o anel.
— Posso? — estendeu uma mão para ela.
colocou a mão em cima da dele e o observou colocar o anel que se encaixou com perfeição em seu dedo anelar. Olhou para a própria mão por alguns segundos, agora entrelaçada com a de .
— É lindo.
— Isso significa um sim? — ele quis saber. — Eu sei que você deixou eu colocar o anel, mas você sabe… É bom confirmar.
riu e ele a acompanhou.
— É claro que é, seu besta.
sorriu e encostou a testa na dela, como fizera mais cedo naquela noite no salão da festa de casamento de Claire. De repente, ouviu sua voz soar baixinha e doce, cantarolando o refrão da música que tinha escutado mais cedo no carro.
— I will love you, baby... Always. And I'll be there, forever and a day... Always… sorriu e cantarolou junto o restante.
Não era uma música feliz, mas o refrão pareceu ser perfeito naquele momento.
Só dependia do ponto de vista.
Assim como eles.




FIM.



(Última) Nota da autora: (08.10.2019) Pensei muito sobre o que dizer quando esse momento finalmente chegasse e agora, ele finalmente chegou. Espero que vocês não tenham ficado decepcionadas com o final, mas como eu disse na história, só depende do ponto de vista.
Há muito tempo, eu decidi que a nossa pp não ia ficar com o primeiro pp. Sei que isso dividiu muitas e muitas opiniões a respeito do segundo pp, porque eu criei ele para vocês odiarem e sei que muitas odiaram o fato de eu vir tentar fazer com que vocês o amassem depois. Eu sinceramente pensei em terminar a história sem que vocês soubessem com quem a pp realmente tinha ficado, mas decidi que seria cruel demais e decidi deixar o último capítulo em aberto, apenas para esclarecer no epílogo depois. ♥
Gostaria de agradecer a todas as pessoas que leram essa história, principalmente as leitoras antigas que não desistiram dela, vocês são parte disso também. Esse carinho de vocês com a história foi o que me fez continuá-la, mesmo depois de tanto tempo sem atualizar. Getting Back teve seus primeiros capítulos enviados para o FFOBS no dia 03/10/2013. Nesses últimos 6 anos, eu fui uma autora que passou por diversos bloqueios criativos com essa história e muita coisa mudou de lá para cá. Comecei essa fic quando ainda nem tinha entrado na faculdade e terminei algum tempo depois de sair dela. Escrevi o epílogo de GB no dia 27/09/2019 e confesso que a ficha ainda nem caiu direito (ai gente, muito tempo parindo essa fic). Fiquei tanto tempo sem atualizar (1 ano e meio, para ser exata), que não imaginei que essa história ainda fosse ser lembrada por leitores antigos ou, ainda, ganhar novos leitores. Então imaginem minha surpresa, quando vi que ela até mesmo entrou para o topfictions recentemente! Quase chorei de emoção (mentira, mas eu derramei o refrigerante que eu tava bebendo em cima de mim).
Obrigada a todos que acompanharam e que, vez ou outra, vinham aqui comentar pedindo para eu não abandoná-la. Não abandonei. Mas acho que finalmente terminei no tempo correto. Obrigada também as minhas antigas betas, Flávia Crossetti, que betou GB até o capítulo 13 e a Mayh Angeli (cap 14. ao 16), as opiniões de vocês sobre a história também foram importantes. E por último, obrigada à equipe do FFOBS, por permitirem que esse site ainda exista, mesmo depois de quase 10 anos. Eu sei que o site dá muito trabalho e admiro muito a organização e determinação de vocês para mantê-lo de pé. ♥
P.S. Clica aqui para ler Ambivalente agora. ♥ Siga @aquelally no instagram, criei pra divulgar minhas histórias. Participem também do meu grupo de leitoras no facebook, o link está entre os ícones! Nos vemos em Ambivalente agora. XxAlly





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