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Última atualização: 21/09/2020

#1

Você está se sentindo bem?
(The City - The 1975)


O ano é 2021. O isolamento social finalmente está chegando ao fim. Pouco a pouco as pessoas estão retornando às suas atividades, com exceção de serviços que não sejam completamente seguros ou de pessoas em grupos de risco. Eu, como o bom jovem adulto que sou, faço parte de dois grupos de risco: problemas respiratórios crônicos e fumante.
Atualmente, trabalho em uma agência de publicidade voltada para o mercado da moda. Sou uma espécie de faz-tudo: fotógrafo, designer, produtor, barista… O salário não é ruim e amo o fato de poder fazer de tudo um pouco, já que costumo enjoar com facilidade das minhas atividades rotineiras.
Quando foi anunciada a necessidade de quarentena para todos, nossa chefe não hesitou em fechar as portas e nos colocar para trabalhar em casa em campanhas que precisavam ser finalizadas. O que Antonella não esperava era que seus queridos funcionários trabalhariam melhor se tivessem a oportunidade de acordar cinco minutos antes do turno começar.
Sim, por incrível que pareça, terminamos todos os trabalhos que tínhamos previsto durante sete meses em apenas quatro, nosso tempo recorde. Fizemos até uma festa cada um na sua casa pelo discord para comemorar tal feito.
Enfim, ao finalizarmos esses quatro meses de trabalho, algumas pessoas tiveram que voltar a trabalhar presencialmente. Estas eram as pessoas que não pertenciam a nenhum grupo de risco e não apresentavam sintomas de nenhuma doença, somando cerca de 12 pessoas de uma equipe de 37, incluindo Antonella, a chefona toda poderosa.
Todas estas pessoas trabalhavam majoritariamente no setor audiovisual, o único que não poderia parar em nenhuma circunstância. Nossos modelos fixos concordaram em se isolarem juntos em uma república próxima à agência para que pudéssemos continuar sem grandes transtornos.
Mesmo agora, após dez meses de trabalho remoto e uma maioria já de volta a ativa presencialmente, eu sigo em casa. Muitos dos meus colegas acreditam que é porque faço “horas extras” com Antonella quando ninguém está vendo. Sim, as pessoas acreditam que eu transo com a minha chefe em troca de vantagens. Porém, a verdade é que sou o único que não se importa em ficar com todas as tarefas que podem ser feitas de casa e que ninguém mais quer fazer, tipo editorar catálogo, selecionar e tratar fotos etc.
Além do mais, Antonella e eu éramos amigos desde o ensino médio. Fomos para a universidade juntos, moramos juntos por algum tempo e até chegamos a ficar algumas vezes, mas é claro que não deu certo. Éramos íntimos demais para envolver sexo no meio. Soava meio incestuoso.
Apesar de tudo isso, eu já estava sentindo falta de ter um motivo para levantar da cama e sair de casa para algo que não fosse ir ao mercado ou levar meu gato para vacinar. Quando se pode sair de casa, morar sozinho parece ser uma ótima ideia, pois você socializa com as pessoas e ainda pode ter seu momento de privacidade ao voltar; quando se está em isolamento social, tudo que você tem é uma casa vazia e um gato que te ignora o dia todo, a não ser que esteja com fome.
Claro que tudo isso que falei até agora tem um motivo. É para justificar os meus atos em uma noite que a solidão estava me consumindo.
Usar o tinder era algo fora de cogitação. De que me adianta iniciar uma conversa apenas no intuito de flertar, mas não poder elevar o flerte a outros níveis? Por isso, tive uma ideia que, no momento de desespero, pareceu ótima, no dia seguinte, ela já não era tão ótima assim.
Digitei um número qualquer no celular e o salvei. Isso mesmo, eu iria mandar mensagem para um completo desconhecido!

“Oi” Tinha que começar a conversa de um jeito comum, pelo menos é o que eu acho.

“Desculpa, quem é?”

“Por acaso, este é o telefone da Clair?”

“É sim. Quem é você?”

“Eu sou o , da agência”

“Desculpa… agência? Não sei do que você tá falando”

“Você não é a Clair do setor de design gráfico?”
Claro que eu estava inventando essa história toda. Eu não conhecia nenhuma Clair e, no meu trabalho, não havia um setor de design gráfico.

“Ah não. Nem mesmo trabalho com design”

“Opa, foi mal”

“Que coincidência, não? Você procurando a sua Clair e encontra outra Clair que não a sua”
Realmente, ainda mais se você considerar que eu não conheço nenhuma Clair, apenas falei o primeiro nome que me veio à cabeça.

“Pois então… bom, desculpe o incômodo. Vou tentar conseguir o número certo dela rs”

“Sem problemas :)”

Fiquei encarando a tela do celular durante cerca de quatro minutos. Ainda tinha esperança que a Clair “errada” falasse mais alguma coisa. Ao perceber que a resposta não vinha, desisti de esperar. Bloqueei o celular e acendi um cigarro, já era o 21º só hoje.
Sentei em frente a minha escrivaninha e voltei a trabalhar. Diferente de todo mundo no meu trabalho, eu trabalhava à noite. Minhas ideias afloravam sempre depois de anoitecer, por isso, não fazia a menor questão de cumprir meu turno durante o dia.
Era 23h23 quando meu celular vibrou. Imaginei que fosse Antonella me pedindo para fazer algo, entretanto, tamanha foi a minha surpresa ao ver que era Clair novamente. Horas iguais sempre significa que alguém está pensando em você? Acho que sim, já que eu estava pensando nela.

“Como tem sido seu isolamento?” Passei os primeiros 15 segundos lendo e relendo sua mensagem, tentando assimilar o que significava. Meu plano tinha realmente… funcionado?

“Meio solitário. Somos só eu e o Five, meu gato”

“Five?”

“Gosto muito do Michael Jackson, mas não queria colocar o nome do meu gato de Michael ou Jackson, então, coloquei de Five, tipo Jackson Five rs”

“Essa é a melhor ideia que alguém já teve????”

“Obrigado. Fico lisonjeado porque consegui pensar nisso sozinho”
Esperei alguns segundos antes de mandar a mensagem seguinte. “Como está o seu?”

“Ah, eu não tenho gato, não”

“Não, seu isolamento. Como está sendo?”

“KKKKKKKKKK Desculpa. Tem sido um pouco triste, considerando que estou sozinha. Nunca pensei que morar sozinha teria sido a pior ideia que tive em anos”

“Pensei a mesma coisa hoje mais cedo”

“E olha só como acabamos: conversando com alguém estranho”

“O que me deixa um pouco mais tranquilo é saber que não sou a única pessoa conversando com uma estranha hoje à noite”

“Então, do setor de design de gráfico, hein?”

“Não exatamente. Eu meio que pertenço a todos os setores”
Foi mais ou menos nessa altura da conversa que percebi que conversaríamos durante muito mais tempo.
Nosso primeiro diálogo se estendeu até 04h da manhã.


#2

O momento que você pegou a minha mão foi a melhor coisa que já aconteceu
(Guys - The 1975)


No dia seguinte, acordei por volta de 11h com meu celular tocando. Lembrei-me de ser quarta-feira, dia de reunião semanal de planejamento de projeto com Antonella. O ruim dessa reunião é que eu não podia faltar e nem não prestar atenção, pois éramos só nós dois em uma chamada de vídeo de, no mínimo, 1h30.
― Se existe algo nessa vida pra você se orgulhar, certamente essa coisa é a sua pontualidade. ― atendi enquanto me espreguiçava.
― Bom dia para você também, sr. . Dormiu bem? Espero que sim, pois temos uma longa conversa pela frente. ― ela mantinha um sorrisinho irônico no rosto.
― Já sei, vai comer meu couro porque acordei com o telefone tocando. ― sentei na cama.
― Você deve me odiar demais, né?
― Já conheci pessoas piores, tenha certeza.
― Me diz, por favor, que você não tá de ressaca.
― Não estou.
― Ótimo. Então, podemos conversar?
― Você se importa se eu colocar o café na cafeteira enquanto começamos? ― Antonella revirou os olhos e suspirou alto.
― Vá em frente, .
― Obrigada.
Levantei da cama o mais rápido que pude e me dirigi a cozinha. Coloquei água, o coador e duas colheres de café na cafeteira, ligando-a em seguida.
― Estou pronto. ― sentei em frente à minha escrivaninha, apoiei o celular na parede e liguei o notebook.
― Que bom, pois já estamos atrasados. Pra semana que vem, estamos com uma campanha de…
Não consegui focar em absolutamente nenhuma palavra que ela dizia. Primeiro: eu estava completamente podre de cansado; segundo: fiquei me questionando como Clair devia ser. Alta, baixa, loira, morena, pele clara, escura? Eram perguntas as quais eu não tinha a menor ideia de qual deveria ser a resposta.
Nunca tive um tipo exato de pessoas, afinal, me relacionei com mulheres bem diferentes umas das outras. E, considerando que não me relacionava com ninguém há pelos 11 meses, não estava podendo me fazer de difícil.
Enquanto minha mente divagava, fitava Antonella falando. Os lábios bem desenhados pintados de vermelho se mexendo, os cabelos curtinhos enrolados, os olhos grandes e amendoados, ornados com belos cílios postiços que usava sempre que possível, a pele amarronzada como um chocolate ao leite firme, porém que só de olhar você já sabia que era macia. Tudo isso sustentando aquela feição concentrada e séria, mas não do tipo sisuda. Era mais do tipo profissional.
― Pelo amor de Deus, me diz que você não tá tendo uma memória sexual neste exato instante! ― exclamou de forma rápida.
― O que? Não! ― franzi as sobrancelhas. ― Só viajei um pouco.
, eu sei que você acha sua vizinha gostosa e que deve ter sido muito legal a noite de vocês, mas foca aqui por uma única hora. É tudo que eu te peço. ― pelo seu tom de voz, estávamos na fase em que ela me implora algo.
― Faz pelo menos três semanas que não vejo a Tracy nem no corredor, ok? Não é nada demais.
― Como não? Fiquei pelo menos 15 minutos falando com o nada!
― Só preciso pegar meu café. Um minuto. ― levantei, arrumei o café puro em uma xícara e voltei a me sentar. Dei um gole grande na bebida e coloquei a xícara ao lado do notebook. ― Pode continuar.
― Acho que tenho que ir do começo, né? Fomos contratados pela marca…
O desligamento do meu cérebro era automático. Dessa vez, realmente comecei a pensar em coisas que não devia.
Lembrei da primeira vez que toquei a pele de Antonella e de como nos beijamos em um bar na esquina da minha casa em uma noite de terça-feira pós-provas finais. Estávamos bêbados e tudo foi muito engraçado. Sua risada esganiçada chamava a atenção de todos que estavam ao nosso redor e eu não tinha certeza se ri porque foi de fato engraçado ou se a risada dela tornava tudo melhor.
Em seguida, comecei a pensar se Clair se parecia com Antonella. Não que fosse fazer alguma diferença, no entanto, preferia que não. Aliás, existe uma teoria que diz que costumamos sempre nos relacionar com…
― Você é inacreditável, . ― ironizou, interrompendo meus pensamentos.
― Desculpe, eu…
― Meu Deus, eu devo realmente ser muito chata ou você deve estar chapado. ― suspirou. ― O que é que aconteceu?
― Nada.
.
― Tonya. ― sim, esse era o apelido dela quando estava de folga.
Ela continuou me olhando com aquele olhar que, ao mesmo tempo que me pressionava a dizer algo, tentava me tranquilizar.
― Desculpa, não posso te falar. Pelo menos, não sem você me julgar e eu morrer de vergonha.
― Achei que já tínhamos superado isso. ― cruzou as mãos sobre a mesa a sua frente, inclinando-se em direção a câmera. ― Até onde sei, sou sua melhor amiga e tudo de péssimo que você fez ou pensou em fazer, eu sei. Anda, desembucha.
― Promete que não vai rir?
― Meu Deus, , quantos anos você tem? Fala logo!
― Ontem, no auge da minha solidão e sabendo que não adianta de muita coisa usar o tinder porque lá as pessoas fervilham tesão e tudo o que menos querem é conversar, decidi digitar um número qualquer e salvar na minha agenda. Mandei mensagem e a pessoa me respondeu.
― Deixa eu ver se eu entendi: você digitou aleatoriamente um número, salvou e agora você conversa com um estranho? ― franziu o rosto em uma expressão pensativa. ― Mas como exatamente se deu esse diálogo interessantíssimo?
― Digamos que eu perguntei se ela era a Clair do setor de design gráfico.
― Mas nós nem temos um… ― abriu a boca quando percebeu o que eu havia dito. ― Seu safado! ― me acusou com olhos semicerrados.
― Cada um usa as armas que tem. ― dei de ombros e beberiquei meu café, que já começava a ficar morno.
― E como é o nome dela?
― Clair. ― ri nervoso.
― Mas como você pode ter tanta certeza que é uma mulher e que o nome dela é realmente Clair?
― Não tenho, mas, em algum momento, vou descobrir, não?
― É. ― se recostou na cadeira mais relaxada. ― Você é um sortudo miserável, né?
― Uau, essa doeu. ― coloquei a mão no peito. ― Agora que você já sabe, podemos voltar ao que estávamos fazendo.
― Negativo. Perdi 48 minutos do meu precioso tempo com você. Vou te enviar o material por e-mail e você que se vire pra fazer tudo até terça que vem. Outra coisa: sexta à noite tem o ensaio da campanha da próxima semana. Vamos fazer na praia e eu preciso estar presente, então…
― Já até sei. Vou arrumar o quarto pra Olliver.
Quando ainda estávamos na faculdade, Antonella não me atendeu durante um dia inteiro. Pensei que não era nada demais, aliás, não era a primeira vez que ela fazia algo assim. Todavia, após a última aula do dia, resolvi passar em seu dormitório para saber o que estava acontecendo.
Ao me ver, me apertou em um abraço como nunca tinha feito, se mantendo agarrada em minha cintura durante alguns minutos. Queria entender o que estava acontecendo, pois Tonya odiava ficar grudada em alguém mais do que o necessário.
Não tendo forças para me contar, me mostrou o que tinha acontecido. Um exame de gravidez que, segundo as instruções, dera positivo.
As poucas palavras que me dirigira naquele dia foram “por favor, me ajuda” e “fica aqui até eu dormir?” Em nenhumas das duas frases, Tonya precisava ter me feito uma pergunta. Eu teria ficado ao seu lado mesmo que não me dissesse nada.
Na manhã seguinte, fomos até uma clínica, que descobri assim que chegamos, para realizar um aborto. Antonella preencheu a ficha e, cinco minuto após entregá-la na recepção, pediu para que fossemos para casa.
Naquele dia, passamos o dia inteiro deitados, abraçados em sua cama. Ela chorou até pegar no sono com a cabeça recostada em meu peito. Quando acordou, me disse que iria ter a criança.
Considerando que provavelmente sua gravidez não tinha mais de dois meses, questionei-a se era meu filho. Tonya disse que havia possibilidade de ser meu e de mais duas pessoas. Não questionei quem eram, mas disse que não queria atrapalhar a vida de outra pessoa e que seria apenas ela e a criança.
Sabendo que teríamos que contar a sua mãe, decidi que eu assumiria o papel de pai, afinal, era melhor que fosse alguém que todos já conheciam. Por outro lado, a mãe de Antonella não gostou de saber que a filha estava “estragando o próprio futuro”, como ela havia feito um dia e escolheu cortar relações assim que a filha lhe disse que abortar estava fora de cogitação.
Quando Olliver nasceu, a registrei com meu nome, como sendo seu pai.
― Obrigada. Olli. ― chamou mais alto e a garota veio correndo. ― Diz ‘oi’ pro .
― Oi. ― acenou. ― Vou escolher uns joguinhos pra gente.
― Sua mãe não pode saber ― comecei a falar mais baixo perto da câmera. ―, mas vamos jogar a noite inteira.
― Eu tô ouvindo tudo. E você não deixe essa garota dormir depois das 23h. ― lançou um olhar autoritário para mim e respondi com um sorriso amarelo.
― Ótimo. Preciso desligar. Até mais.
― Beijos.
, isso é uma reunião de trabalho. ― repreendeu-me.
― Deixou de ser quando você insistiu pra que eu te contasse sobre minha vida pessoal.
― Não. Eu apenas tentei te ajudar porque sua vida pessoal está atrapalhando seu rendimento no trabalho. ― riu. ― Beijos. ― acenou e desligou antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.
Terminei de tomar o café quase frio, que estava horrível e pedi comida de um restaurante perto da minha casa.


#3

Parece que tem algo faltando, talvez seja você
(Nothing Revealed/Everything Denied - The 1975)


Era por volta de 18h40 quando a campainha tocou. Five correu para se esconder no quarto enquanto eu ia até a porta atender Antonella. Sabia que seria ela e Olliver, pois haviam me ligado há 20 minutos avisando que estavam à caminho.
― Oi, . ― disseram em uníssono.
Olliver correu para me abraçar com um sorriso e pude ver que um de seus dentes frontais havia caído.
― Quando foi que seu dente caiu? ― questionei segurando seu rosto entre minhas mãos.
― Ontem. ― assim que a mais nova respondeu, dei passagem para que ambas entrassem.
Antonella estava com uma máscara de bichinhos, o que era engraçado, pois não combinava em nada com sua personalidade, que, normalmente, era bem séria. Colocou a mochila da filha ao lado do sofá, suspirando de alívio. Provavelmente estava pesada.
― Me desculpe por termos vindo tão cedo. Ela estava impaciente e completamente inquieta.
― Tudo bem. Esperava que viessem cedo mesmo. Olliver? ― chamei a criança, que havia sumido de nossos campos de visão, fazendo-a aparecer segundos depois. ― Eu sei que você não tomou banho em casa. Então, já pro banho e colocar seu pijama, vou pedir o jantar, tá bom? ― ela assentiu e eu a guiei para o banheiro.
Entreguei a ela uma das toalhas guardadas no armário e Antonella, que nos seguia, entregou-lhe seu pijama. Fechamos a porta, sem trancar, avisando-lhe para nos chamar em caso de emergência.
― Preciso ir. Não consegui organizar todo o material da sessão ainda.
― Achei que você ia jantar com a gente. ― tentei não fazer beicinho. Sei o quanto ela odiava que eu o fizesse.
― Dessa vez, não. ― pegou a chave do carro que deixara sobre o balcão na cozinha. ― De novo, obrigada. ― como sua boca estava coberta, eu não tinha certeza, mas acho que Antonella sorria para mim. Pelo menos, seus olhos estavam com aquela expressão de quem está sorrindo pra mim.
― Como sempre, é o mínimo que eu posso fazer.
― Já sabe, né? 23h ela tem que estar na cama. ― falou enquanto saía.
― Bom trabalho. ― respondi antes que ela fechasse a porta.
Liguei para a pizzaria localizada a dois quarteirões do meu apartamento e pedi uma pizza de brócolis, rúcula e tomate seco. Olliver havia descoberto de onde vinha a carne e tinha decidido parar de consumi-la. Fazia aproximadamente seis meses que ela não comia mais nenhum tipo de carne.
― A comida já chegou? ― saiu do banheiro com a toalha na mão e os cabelos completamente molhados.
― Vai demorar uns 30 minutos até chegar. Vem aqui pra eu secar seu cabelo. ― sentamos no tapete da sala, eu de pernas abertas com a menina sentada no meio delas. Peguei a toalha para secar seus cabelos compridos.
― Tio, minha mãe disse que não era pra eu te chamar de tio.
― Por quê?
― Porque ela disse que não tem irmãos e tio é o irmão dos meus pais. ― ri.
― Sua mãe é uma boba. Vamos conversar quando ela vier aqui de novo. ― Olliver se parecia comigo em muitas coisas. Os olhos, o formato da boca, as sobrancelhas. Apenas o cabelo parecia ser a perfeita mistura do meu e de Antonella.
― Tio, minhas aulas voltam em um mês e vai ter o dia da profissão de novo. Minha mãe já foi o ano passado… ― quando Olliver queria pedir algo que podia haver a mínima possibilidade de recusarmos, fingia não estar fazendo um pedido, só jogava as informações despretensiosamente no ar.
― E sua mãe sabe que você quer que eu vá no lugar dela?
― Ainda não, mas acho que ela vai entender. Nós passamos muito tempo juntas, estou com saudades de você. ― ela se virou para mim. ― Por que você não foi morar com a gente? Você ficou sozinho esse tempo todo. ― seus olhinhos pareciam tristes.
― Não posso simplesmente sair da minha casa e ir pra de vocês sem falar com a sua mãe. Aliás, eu não estava sozinho, Five esteve comigo esse tempo todo.
― Mas vocês dois podiam ter ficado com a gente.
― Olli, lembra quando eu e sua mãe tivemos que viajar juntos e você ficou com a minha mãe durante um mês inteiro? ― ela assentiu. ― Nós levamos tudo aquilo que você precisava, mas você sentiu falta de algo?
― Do meu quarto, dos meus brinquedos e do jeito que minha mãe arruma meu cabelo.
― Tá vendo? É por isso que eu não posso ir morar na sua casa. Aqui é onde estão todas minhas coisas e onde eu me sinto à vontade, entende? ― ela assentiu.
A campainha mais uma vez tocou, fazendo-me levantar para ir atender a porta. Era nosso jantar. Paguei ao entregador, desejei-lhe bom trabalho e fechei a porta.
― Pedi uma parte de brocólis, como você gosta. ― ela sorriu ao ver a fatia que eu colocara em um prato para ela.
Após lavar as mãos, Olliver sentou-se em uma banqueta em frente ao balcão na cozinha.
― Tio.
― Que? ― respondi de boca cheia.
― Desde que você parou de ir trabalhar, minha mãe colocou uma foto de vocês dois do lado da cama dela. ― dei um risinho sem graça.
Às vezes, queria de Olliver fosse mais discreta ou menos observadora. Eu sei que ela só tem seis anos e é por isso mesmo que ela não deveria notar certas coisas.
― E qual o problema? ― ela deu de ombros enquanto mastigava sua pizza. ― Você sabia que eu e sua mãe somos amigos desde antes de vocês nascer? ― assentiu. ― E que fomos a escola juntos? ― ela negou. ― Não acredito que sua mãe não te contou isso.
― Ela deve ter esquecido. ― deu de ombros.
― Sua mãe fazia parte do time de futebol feminino da escola. Fui em todos os jogos que ela esteve desde que nos conhecemos.
― Tio, vocês já namoraram? ― soltou despretenciosamente, sem me olhar.
― Não. Como eu disse, eu e sua mãe somos amigos.
― Mas por que minha mãe não namora então?
― Porque homens são idiotas.
― Você também?
― Às vezes sim.
― Ela pode namorar uma menina, né?
― Se ela quiser, sim. Mas até onde eu sei, sua mãe não gosta de meninas. Infelizmente, ela gosta de meninos. ― seu semblante entristeceu. ― O que foi?
― Fiquei pensando que seria legal se tivéssemos outra menina em casa. Ela podia me ensinar a fazer trança.
― Sua mãe não sabe fazer trança? ― franzi as sobrancelhas.
― Não. ― terminou de comer sua pizza.
Larguei minha fatia na caixa, lavei as mãos e fui até a menina.
― Olha pra mim. Antes de fazer no seu cabelo, vou fazer no meu. ― separei uma mecha fina de cabelo e cuidei para ficar mais ou menos na altura dos seus olhos. ― Você vai separar em três mechas e vai usar as duas dos lados para passar por cima da que estiver no meio, uma de cada vez. Assim. ― demonstrei.
Olliver colocou os longos cabelos para o lado e começou a me imitar e estava dando certo. Assim que chegou ao final, lhe entreguei um elástico de dinheiro mesmo para que amarrasse.
― Tio?
― Que?
― Você precisa namorar minha mãe.
― Olliver, não. ― ri. ― Não preciso namorar sua mãe pra te ensinar a fazer as coisas.
― Mas você ia ficar mais tempo na minha casa.
― Eu posso ir na sua casa sempre que necessário.
― Mas minha mãe ia ser… feliz. ― desviou o olhar para suas mãos pousadas no colo.
― Por que você acha que ela não é feliz?
― Ela tem sorrido pouco e acho que ficar tanto tempo sozinha não tem feito bem a ela.
― Ela não está sozinha. Tem você, né?
― Mas não é a mesma coisa que outro adulto. Quando eu digo sozinha, é sem ninguém da idade dela pra conversar. Esses dias, ela bebeu uma garrafa de vinho inteira sozinha antes de dormir. ― arqueou as sobrancelhas. Como ela podia saber que isso era um sinal preocupante? Quer dizer, ela só tem seis anos, não deveria saber disso, né?
― Olli ― segurei uma de suas pequenas mãos entre as minhas. ―, todos os adultos passam por momentos difíceis, mesmo que pareça que não há motivos para não nos sentirmos tristes ou insatisfeitos. Isso acontece e é perfeitamente normal. Nós encontramos algumas formas para tentar passar por isso, tipo, ficar sozinho e beber álcool em uma quantidade muito maior do que deveríamos. Sua mãe não está infeliz nem solitária. Pense que ela só está tirando um tempo para si mesma.
― Então, quando eu crescer vou passar por isso também?
― Provavelmente, sim.
― E aí a solução é beber uma garrafa de vinho?
― Não. Em hipótese alguma beba vinho. ― abaixei a cabeça e suspirei. ― Olha, tudo tem seu tempo. O seu ainda não chegou. ― bati com o indicador na ponta de seu nariz, fazendo-a rir.
― Podemos jogar damas? ― questionou enquanto eu comia o último pedaço de minha pizza que havia largado na caixa.
― Claro. ― respondi com a boca cheia.
Fechei a caixa da pizza e fomos até a sala. Olliver colocou o tabuleiro no chão, decidindo que seria o lado branco. Cada um posicionou suas próprias peças.
Jogamos por quase meia hora, até ela enjoar e decidir que queria jogar videogame. Fomos para meu quarto após guardar o tabuleiro e as peças. Liguei o console para Olliver e a deixei colocar o jogo que quisesse. Acompanhei-a em sua jogatina somente nas partes em que não conseguia passar de forma alguma.
De vez em quando, eu ficava encarando-a e refletindo. Por mais que não houvesse nenhuma comprovação, pensava que não havia dúvidas sobre Olliver ser minha filha. Ela se parecia muito comigo não só na aparência, entretanto, seu jeito se parecia muito com o meu, o que também poderia ser proveniente da convivência.
Fui tirado dos meus devaneios com a vibração de meu celular sobre meu colo.
Era uma mensagem de Clair.

“Sei que pode parecer estranho, mas podemos fazer uma chamada de vídeo?” Li e reli algumas vezes aquela mesma mensagem para ter certeza de que era aquilo mesmo.

“Claro” Foi tudo que respondi e esperei que o aparelho começasse a tocar.

Deixei tocar algumas vezes antes de atender.
― Oi. ― disse timidamente com um meio sorriso.
― Oi. ― respondi sorrindo.
Olliver pausou o jogo e colocou a cabeça em frente ao meu celular, dizendo:
― Oiiiiii. ― e voltou a jogar.
― Só um minuto. ― ri. ― Olli, vou para a sala. Qualquer coisa, me chame. ― a menina assentiu sem tirar os olhos da TV.
Dirigi-me para a sala, sentando-me no sofá.
Assim que me sentei confortavelmente, admirei a imagem de Clair por alguns minutos. Ela era bem diferente do que eu poderia ter imaginado. Tinha traços orientais, sardas castanho escuras sob os olhos, nariz pequeno e achatado, cabelos curtos e escuros um pouco abaixo das orelhas, com uma franja que cobria metade de sua testa e uma mecha azul que ocupava parte da franja e uma mecha da parte mais comprida ao lado da franja. Usava óculos redondos de armação metálica, tinha lábios medianos, cuja parte superior lembrava um coração.
― Tudo bem com você? ― sorria.
Sua feição era bem jovial, por um segundo, pensei que estava falando com uma adolescente.
― Ah, sim. E você? ― perguntei, tentando parecer mais descontraído.
― Estou bem. ― ajeitou os óculos no rosto. ― Posso te perguntar uma coisa?
― Claro.
― Não quero parecer invasiva, mas quem é que me deu ‘oi’?
― Foi a Olliver, filha da minha melhor amiga e chefe. Ela tem 6 anos e hoje a mãe dela precisou trabalhar, quando isso acontece, ela fica comigo.
― Você realmente é um faz tudo, né? ― rimos.
― É. Mas, no caso da Olli, são motivos bem específicos.
― E posso saber quais são?
― É uma longa história.
― Eu tenho tempo.
― Ela meio que é minha… filha? ― franzi o cenho para demonstrar desentendimento.
― Como assim?
― De novo: é uma longa história.
― De novo: eu tenho tempo. ― riu.
― Bom, Tonya e eu costumávamos ficar na época da faculdade… ― contei toda aquela história que você aí que está lendo já sabe.
Seu olhar entregava o quão interessada ela estava e não era para menos, visto que era meio bizarro analisando por determinados ângulos.
― E até hoje você não sabe se é ou não?
― Não. ― dei um sorriso amarelo. ― Às vezes, fico olhando pra ela e pensando que somos parecidos demais para não ser e esses são os dias que mais me doem.
― Imagino que deva ser um pouco… cruel não saber a verdade. ― apoiou o rosto na mão. ― E ela também não sabe quem é o pai?
― Se sabe, o segredo está guardado à sete chaves.
Ficamos em silêncio nos olhando. Observei o movimento que seus olhos faziam a cada piscada, fazendo-a parecer um desenho animado.
― Quantos anos você tem?
― Fiz 27 no mês passado. ― respondeu colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha e arrumando o óculos. ― Por quê?
― Queria me certificar que não estou falando com uma adolescente.
― Deve ser o cabelo. ― sorriu enquanto passava os dedos pela franja. ― Pintei há pouquíssimo tempo, então, nem eu me acostumei ainda.
― Fica bem em você. ― sorri.
― E você? Quantos anos tem?
― 26.
― Então, estou conversando com um homem mais novo?
― É.
Silêncio novamente.
Alguns segundos depois, Clair olhou subitamente para trás e permaneceu naquela posição por um segundo. Voltou-se para mim e disse:
― Eu preciso desligar.
― Tá tudo bem? ― questionei, visto que ela parecia apreensiva com algo.
― Sim, está. ― deu um sorriso rápido. ― Gostei muito de ver como você é.
― Eu também.
― Até. ― disse, dando-me pouco tempo para lhe acenar ou responder antes que desligasse.
― Tchau. ― falei para mim mesmo, após Clair ter saído da ligação, com o braço erguido para lhe dar um aceno que ela nunca viu.
Decidi voltar para o quarto, pois Olliver estava sozinha há quase uma hora e estava chegando seu horário de dormir.
― Cansou de jogar? ― me encostei no batente da porta, observando-a sentada na cama lendo.
― Minha mãe sempre diz pra não jogar videogame, mexer no celular ou assistir TV antes de dormir.
― Sua mãe é inteligentíssima. ― sentei próximo aos seus pés. ― Você já consegue ler?
― Mamãe e eu temos lido juntas antes de dormir pelos menos três vezes na semana.
― Quer que eu leia com você?
― Não, eu consigo. ― voltou a olhar para o livro. ― O que é voraz?
― É algo ou alguém que destrói, que come muito e muito rápido. Algo assim. ― fez uma cara de pensativa. ― Mais alguma?
― Por enquanto, não.
― Vou trabalhar aqui, pode ser? ― acenou afirmativamente, sem me olhar.
Levantei em busca do notebook e sentei-me novamente.


#4

Nosso amor esfriou
(Somebody Else - The 1975)



― Voltou cedo. ― falei tentando disfarçar o nervosismo ao vê-lo entrar com a mochila nas costas.
― Minha visita na fábrica precisou ser cancelada de última hora. ― largou a mochila na sala e direcionou-se ao banheiro para lavar as mãos e rosto. ― E, claro, eu já estava com saudade de você, docinho. ― colocou a cabeça para fora e me mandou um beijo, seguido de um sorriso.
Sorri, sem graça.
era meu noivo há dois anos. Ao total, estávamos juntos há quase sete. Tivemos nossos altos e baixos ao longo dos anos, mas certamente nenhum dos erros que pode se comparar à termos decidido nos isolar juntos.
Desde o início, eu sabia que não era uma boa ideia. Odiava toda e qualquer possibilidade de permanecer na mesma casa com qualquer outra pessoa, pois sempre tinha a sensação de que ninguém sabia o verdadeiro significado das palavras “privacidade” e “espaço pessoal”. era uma dessas pessoas.
Concordei que ele viesse se isolar em minha casa porque pensei que poderia já começar a contar com a experiência do casamento que planejamos, afinal, estamos noivos. Além do mais, pensei que não seria difícil pelo fato de que nunca parou de trabalhar e, como seu serviço envolve viajar, não me afetaria mais do que o normal. No entanto, as coisas tinham se tornado cada vez mais complicadas à medida que percebi que não havia como fugir da presença dele em nenhum instante.
Suas roupas ficam jogadas pelo quarto até que eu as recolha, sua louça está sempre na pia, sua música, na maioria da vezes, é ouvida a um volume que não consigo trabalhar em paz e, de todas as situações a pior: sempre que penso que terei um tempo só meu para fazer o que quiser, ele volta para casa.
Sei que você deve estar se perguntando por que disse sim para seu pedido de casamento quando a resposta deveria ter sido um sonoro não?
Eu o amava. Ainda o amo.
Eu acho.
foi uma das poucas pessoas que me acolheram em sua vida, por isso, quando o ouvi proferir o pedido, não pensei muito sobre, apenas conclui que era uma boa forma de lhe mostrar acolhimento em minha vida também.
Sim, foi uma péssima ideia.
― Você estava falando com alguém?
― Não, só vendo uns vídeos bobos. ― comprimi os lábios no que era para ser um sorriso. ― O que aconteceu?
― Precisaram fechar duas fábricas para desinfecção de rotina, então, cancelaram minhas visitas. ― trabalhava na área de inspeção de qualidade para uma empresa de produtos alimentícios.
― Entendi.
Caminhou em minha direção e me envolveu pela cintura, selando nossos lábios em seguida.
― Senti sua falta. ― fitou-me por alguns segundos. ― Acho que podíamos matar a saudade, né? ― sorriu e começou a beijar meu rosto, descendo para meu pescoço.
Tentei relaxar e aproveitar. Aliás, fazia muito tempo que eu não conseguia fazer amor com . Desde que ele chegou à porta da minha casa para ficar durante sei lá quanto tempo, não tenho conseguido me sentir à vontade em sua presença. Pelo menos não o suficiente para tirar a roupa e transar com ele.
Inclusive, nossa última experiência foi incrivelmente horrível. fez tudo sozinho e no seu próprio ritmo. Consequentemente, só ele ficou satisfeito.
Esforcei-me para afastar os pensamentos que só me faziam ficar cada vez mais tensa, fechei os olhos por alguns momentos e, mesmo assim, não funcionou. Coloquei as mãos em seu peito.
― Preciso tomar uma banho rápido. Você pode me esperar? ― soltei meu melhor sorriso de quem estava querendo muito algo.
, eu também não tomei banho. Sabe que, se for por mim…
― Mas eu preciso. Independente de você estar aqui ou não, eu já devia ter tomado. ― franzi o rosto quando percebi que minha frase poderia ser mal interpretada.
― Tenho uma ideia melhor: e se tomássemos banho juntos? ― sorriu maroto, como se tivesse tido a melhor ideia de todas.
Sorri de volta, sem mostrar os dentes, tentando disfarçar o fato de que tinha odiado a ideia.
Meu plano inicial era me trancar no banheiro e tomar banho pelo máximo de tempo possível, provavelmente iria para o quarto e acabaria por se deitar para me esperar. Quando eu finalmente saísse, ele já estaria dormindo, do jeito que normalmente acontece. E é claro que desta vez ele queria que fosse diferente, afinal quer que aconteça.
Por fim, apenas o deixei voltar a me beijar e me guiasse para o banheiro. Chegando a porta, ele a abriu e me deixou entrar primeiro, seguindo-me logo após.
Encurralou-me contra a parede enquanto tirava seu suéter. Comecei a tirar minha roupa o mais rápido que pude, não queria que aquilo durasse mais do que o necessário.
Assim que estava somente de cueca, olhou meu corpo semi-desnudo com olhos cheios de desejo. Pôs as mãos em minha cintura, deslizando-as em direção ao meu sutiã para tirá-lo. Soltou a peça no chão e, com as mãos apertando minha bunda, puxou-me para mais perto de seu corpo. Beijou minha boca com avidez. Uma das mãos subindo do meu quadril até chegar em um dos meus seios, apertando-o.
Sua boca foi fazendo um caminho de beijos até chegar no seio que segurava, passando a chupá-lo. As mãos próximas às minhas coxas ajudaram-me a pular em seu colo e entrelaçar as pernas em sua cintura, enfim, roçando seu membro enrijecido em minha intimidade. Passei as mãos pelos seus cabelos, puxando-os com um pouco mais de força.
Pude sentir seus braços começarem a ficarem trêmulos. Por razões desconhecidas, sempre me fazia pular em seu colo, mesmo sabendo que não aguentaria me segurar por muito tempo. Tirei uma perna de cada vez de sua cintura até meus pés voltarem a tocar o chão. Desvencilhei-me dele, abaixei a calcinha e entrei no box, ligando o chuveiro. não demorou a também tirar sua roupa íntima e me seguir.
Não se passaram nem 30 segundos que estávamos dividindo o mesmo espaço, sem muito ensejos, ele me virou de costas, inclinei alguns graus para frente e distanciei uma perna da outra. me penetrou rapidamente, iniciando movimentos nem um pouco lentos. Não senti dor, mas aquilo não estava nem perto de ser prazeroso.
Querendo que aquilo acabasse o mais rápido possível, gemi em todas as tonalidades possíveis. Baixo, alto, rouco, agudo, suspiro. Para finalizar, gemi o mais alto que pude segundo antes dele tirar o pênis de dentro de mim para gozar.
Deixei que o homem, que, agora, era só sorrisos, terminasse de se lavar.
― Vai ficar mais um pouco? ― questionou enquanto abria a porta do box.
― Vou lavar o cabelo. ― mentira.
― Ok. ― beijou meu rosto, enrolou-se em sua toalha e saiu do banheiro, fechando a porta ao sair, pois sabia o quanto eu odiava portas abertas.
A sós, acionei a mangueira do chuveiro, apontei o jato de água diretamente para meu clitóris e a deixei fazer o trabalho por mim. Diferente de quando estava acompanhada de , controlei-me para não gemer alto. Penetrei dois dedos em minha vagina, fazendo movimentos de vai e vem, sem tirar o jato de água de meu clitóris. Aumentei a velocidade dos dedos à medida que ficava mais excitada.
Meu corpo enrijeceu e tremores tomaram conta dos meus braços e pernas até que todas essas sensações se transformaram no orgasmo que meu querido noivo não pôde me proporcionar.


#5

Hoje à noite eu queria ser o seu garoto
(Tonight (I Wish I Was Your Boy) - The 1975)


Por volta de 4h30 da manhã, ouvi a campainha soar. Eu ainda não tinha dormido, passara a noite toda trabalhando no quarto de hóspedes, pois Olliver havia pegado no sono na minha cama e, como ela costumava acordar com muita facilidade, imaginei que seria muito mais fácil deixá-la em meu quarto e me mudar para o silencioso quarto ao lado.
Fechei o notebook, o pus sobre a cama, levantei-me e fui atender a porta.
― Bom dia. Ou, pela sua cara, boa noite, não sei. ― por algum motivo, Tonya costumava ficar engraçadinha à noite.
― Achei que você viesse buscá-la mais tarde. ― fechei a porta assim que ela entrou.
― Bom, sua casa é caminho da minha, então, pensei que seria melhor fazer tudo de uma vez só. Sem contar que eu pensei que chegaria até 2h30. Parece que errei feio, né? ― foi falando enquanto lavava as mãos na pia da cozinha e tirava a máscara que lhe cobria o rosto.
― Você tá planejando acordar ela agora para ir pra casa?
― Por que não?
― Tonya, você sabe que não acho uma boa ideia. Você tá cansada, precisa dormir. Por que você não toma um banho aqui e dorme um pouco? Quando as duas acordarem, faço um café ou almoço, dependendo do horário. ― riu.
― Sabe que essa não foi a sua pior ideia? ― sentou-se no sofá, largando a bolsa no chão. ― Você tem vinho?
― Tá perguntando se no mercado vende arroz? ― rimos.
Peguei uma das garrafas de vinho e duas taças de dentro do armário da cozinha, servi-as e entreguei uma a Tonya quando voltei à sala.
― Como foi?
― Um pouco atrapalhado. Ventou muito durante à noite e foi um pouco difícil manter tudo intacto por isso. A iluminação também não foi das melhores. No fim, acho que teremos de fazer de novo. ― deu de ombros e bebeu um gole grande de sua taça. ― Você faz falta, sabia? ― sorri.
― Você sente saudades de ter um aliado.
― Não é verdade.
― É sim. ― ela bebeu todo o vinho restante em sua taça e eu a servi com mais um pouco. ― Tonya, eu sei que você pensa que não é bom dar intimidade demais para os seus funcionários, mas não seria nada mal você se aproximar deles. É assim que se consegue coisas.
― Tipo, o número de telefone de toda e qualquer estagiária sem nem ao menos pedir? ― bebeu novamente toda a taça em um gole só, porém, desta vez, apenas segurou a taça sobre o braço do sofá sem pedir por mais.
Sorri.
― Você não perde a oportunidade de tocar nesse assunto, né? ― bebi um pouco de vinho. ― Engraçado é que, não importa quantas estagiárias me deem seus telefones, sempre vão achar que eu estou comendo a minha chefe. ― acabei com o vinho em minha taça e a enchi novamente o máximo que pude.
― Isso que eles não sabem nem de metade da história. ― mordeu o canto do lábio inferior, dando um meio sorriso em seguida.
Algo dentro de mim ficou em uma espécie de estado de alerta, pra não dizer excitado. Em uma reação de nervosismo puro, virei a taça de vinho inteira garganta abaixo e pude ouvir uma risadinha abafada da parte de Tonya. Odiava quando Antonella decidia ser sensual em momentos completamente aleatórios, afinal, ela sabia como o ser quando queria e isso me deixava em um misto desenfreado de ansiedade, desequilíbrio e excitação.
, onde está a minha toalha? Quero tomar banho antes do sol nascer. ― levantou-se do sofá e caminhou em direção ao banheiro, sustentando sempre aquele sorrisinho debochado de quem sabia que tinha conseguido me desestabilizar.
― Vou pegar uma camiseta para você. ― dirigi-me o mais silenciosamente possível até o meu quarto e catei a maior e mais confortável camiseta que eu tinha guardada em meu armário. Antonella era alguns centímetros mais alta, ou seja, a camiseta não ficaria tão grande assim em seu corpo.
Fui até o banheiro para lhe entregar a camiseta e a vi pegando uma toalha do armário.
― Você se importa se eu deixar a porta meio entreaberta?
― Ainda tem medo de tomar banho sozinha? ― essa era uma das coisas mais engraçadas de Tonya. Mesmo sendo adulta e já morar sem a companhia de outro adulto há quase 5 anos, o que ela mais tinha medo era tomar banho sozinha em casa, por isso, quando morávamos juntos, a porta do banheiro sempre ficava entreaberta ou completamente aberta.
― Existem coisas insuperáveis, mesmo quando se é uma mulher forte e independente. ― rimos. ― Não precisa ficar na porta. ― repreendeu-me com aquele olhar de mãe que fazia, às vezes.
― Vou esperar no quarto de hóspedes.
― Tá bom.
Adentrei no cômodo para guardar meus utensílios de trabalho e arrumar a cama. Tirei um segundo travesseiro do roupeiro e o coloquei sobre a cama, troquei minha calça jeans por um samba-canção de dormir, que havia deixado preparada desde a noite anterior.
Cerca de 20 minutos se passaram, o chuveiro havia sido desligado há pelo menos dez minutos. Decidi sair do quarto para ver se algo tinha acontecido e me deparei com uma Tonya de cabelos úmidos, pernas desnudas, encostada no batente da porta de meu quarto, agora, ocupado por sua filha. Pus-me ao seu lado.
― Ela é linda, né? ― refletiu em um sussurro sem tirar os olhos da criança, que ainda dormia profundamente.
― Como você. ― soltei sem pensar muito sobre como aquilo soaria.
Do quarto, saía uma meia luz provocada pelo pequeno abajur de tomada ligado para Olliver. Tal iluminação contornava a silhueta de seu belo rosto, que me encarava com um brilho que eu já conhecia muito bem.
Virei-me para Antonella. Senti seus dedos compridos e finos passarem suavemente pelo meu rosto, como se estivesse tentando gravar suas digitais em minhas feições. Pôs a mão em minha nuca e aproximou-me mais de seu corpo.
― Você tem dois segundos pra decidir se quer ou não. ― sem deixá-la tomar fôlego após terminar de falar, com uma mão em sua cintura e outra em sua nuca, dei fim a distância entre nós, beijando-a.
Sua boca ainda era a mesma desde a última vez que a beijei, três anos atrás.
Nosso beijo era urgente. Uma espécie de súplica por afeto, lembranças, amor.
Eu não conseguia parar de pensar sobre o quanto senti falta de como Tonya me fazia sentir: amado.

#6

Para você, baby, é um ‘sim’
(Anobrain - The 1975)

Antonella


Beijá-lo novamente me deixava completamente desorientada e excitada. A última vez que e eu ficamos havia acontecido há mais ou menos três anos, quando viajamos para ir ao casamento de sua prima. havia sido convidado para ser padrinho de casamento e sua mãe não poderia ir para acompanhá-lo, mas ofereceu-se para cuidar de Olliver durante o tempo em que estivéssemos fora.
Não havia mais quartos disponíveis na casa de sua prima quando ele confirmou nossas presenças. Tentamos reservar quartos em hotéis próximos ao local da cerimônia, o que foi uma tarefa árdua por se tratar de um feriado em uma cidade turística. Todavia, achamos um único quarto de casal vago em um hotel localizado a dez quilômetros da casa da noiva. Não tendo muita escolha, nos hospedamos nele e era óbvio que, dividindo uma cama por duas noites consecutivas, dormir não seria a nossa única atividade noturna.
Estar em sua casa, em seus braços, apreciando mais um de seus beijos tranquilos e afetuosos era o que eu precisava para apagar toda a angústia e a frustração de uma semana em que tudo estava dando errado.
Desvencilhei-me dos braços em minha cintura e de sua boca, segurando seu rosto entre minhas mãos, tentei memorizar cada detalhe que parecia diferente desde a última vez que o vira tão de perto. As bolsas abaixo dos olhos pareciam maiores e mais escuras, as marcas de expressão um pouco mais visíveis em sua testa, os lábios rosados e levemente inchados.
Segurei sua mão e o puxei para o quarto, fechando a porta atrás de nós. Com a mão em seu peito, empurrei-o na direção da cama, fazendo-o cair sentado. Pus uma perna de cada lado de seu corpo, sentando-me em seu colo. Comecei a lhe beijar devagar enquanto rebolava em sincronia sobre ele. As mãos que antes estavam em minha cintura, deslizaram até as minhas coxas e subiram até o meu quadril, fazendo-o se afastar da minha boca.
― Perdeu sua calcinha ou você tirou sem eu ver? ― riu baixinho.
― Não precisei colocar. ― selei nossos lábios. ― Sabe, meu sexto sentido sempre diz quando é hora de guardá-la pra poupar tempo. ― sustentou um sorriso safado até que eu voltasse a lhe beijar.
Minha mente foi tomada furtivamente pelo fato de não me lembrar de ter tomado meu anticoncepcional nos últimos quatro dias. Instantaneamente, afastei meu rosto do seu para questionar:
― Pelo amor de Deus me diz que você tem camisinha. ― seus olhos se arregalaram um pouco e adquiriram uma aparência pensativa. ― Você não tem, né? ― suspirei e deixei minha cabeça tombar para frente, em sinal de decepção.
― A última vez que comprei foi há uns sete meses e joguei fora porque venceu. ― respondeu constrangido.
Mais uma noite em que eu iria dormir com tesão e triste. Obrigada, universo.
Prestes a sair de seu colo, inverteu nossas posições, jogando-me na cama.
― Você não acha mesmo que eu vou fazer essa desfeita, né? ― com o corpo sobre o meu, o desejo lhe enchendo os olhos, os lábios próximos dos meus.
Pude sentir seu indicador deslizar em linha reta sobre meu clitóris e, por fim, me penetrar.
― Parece que alguém estava com saudades de brincar. ― seu dedo entrou e saiu algumas vezes vagarosamente.
Fechei os olhos, me permitindo começar a sentir um pequeno formigamento em minha pélvis. A respiração batendo contra minha intimidade me indicava o que estava por vir. Sua língua passeando por toda a extensão de minha vagina me fazia arquear as costas à medida que ficava mais excitada.
Emaranhei uma das mãos em seus cabelos sem muito controle da força que estava exercendo sobre eles. Ouvi-o arfar e eu quase gemi alto ao sentir novamente sua respiração sobre meu clitóris, não fosse por sua mão cobrir minha boca no momento exato. Não poderíamos de forma alguma acordar Olliver.
Toda vez que eu começava a ficar muito sensível, meus membros inferiores não só tremiam, como involuntariamente tentava se fechar. Por isso, antes que lhe desse uma chave de coxa, tirou a mão de minha boca e passou a segurar minhas pernas abertas. Mordi o lábio inferior para evitar gritar.
Ao sentir que estava próxima de um orgasmo, parou de me chupar para beijar minha boca. Com os olhos abertos, passava a língua por entre meus lábios, que tentavam capturar sua boca para mais um beijo, observando todas minhas reações. Sabendo que este era mais um de seus joguinhos, tentei levar minha mão até meu clitóris para terminar o que ele havia começado, sendo impedida na metade do caminho. Prendeu meus braços acima da minha cabeça com uma de suas mãos.
― Você tá com pressa? ― selou nossos lábios.
― Por que você faz isso comigo? ― minha voz saía em sussurros entrecortados.
― Porque eu gosto demais dessa sua carinha de tesão pra não olhar pra ela. ― sorriu, em seguida, beijou meu maxilar, descendo beijos até meu pescoço, fazendo-me arrepiar da cabeça aos pés.
Por cima da cueca, conseguia sentir seu pênis ereto roçando em meu clitóris devido às investidas de seu quadril contra mim.
― Você tá tão molhada. O que deveríamos fazer sobre isso? ― sussurrou no meu ouvido.
Colocou dois dedos em minha boca e eu os chupei olhando em seus olhos, quase implorando para que me fizesse gozar de uma vez por todas. Aqueles foram os mesmos dedos que usou para me penetrar, iniciando movimentos lentos, que, em segundos, aumentaram a velocidade. A mão que anteriormente segurava meus pulsos sobre minha cabeça, foi colocada em volta de meu pescoço, os dedos pressionados de maneira firme ao seu redor, privando-me aos poucos de grandes quantidades de oxigênio.
Tinha certeza que seus dedos ficariam marcados em meu pescoço, mas, ao gozar, nenhuma dessas preocupações parecia fazer muito sentido.
Retirou os dedo de dentro de mim, lambendo os fluídos presos a eles.
Com uma das pernas ao redor de sua cintura e as mãos em seus ombros, empurrei-o para o lado, ficando por cima dele. Sentada sobre seu quadril, abaixei meu tórax e beijei-o intensamente, também apertando seu belo e comprido pescoço entre meus dedos.
Ajeitei meu corpo sobre o seu para conseguir chegar onde eu queria: seus mamilos. De todos os homens com quem transei, posso afirmar com absoluta certeza de que era o único que sentia prazer nos mamilos e adorava quando eu os chupava. Não sei se ele costumava pedir isso a todas as mulheres com quem dormia, entretanto, para mim, não era algo que precisava ser citado.
Das coisas que eu mais gostava quando transavamos, observar suas reações estava no topo da lista. Diferente da maioria dos caras que faziam o máximo de esforço para não demonstrarem o que sentiam, não tinha cerimônia alguma. Ele gemia, fazia caras e bocas e até se permitia perder o controle de suas ações quando eu estava no “comando”, o que tornava tudo mais interessante.
Alguns minutos brincando com seus mamilos, resolvi que era hora de partir para a ação. Desci até seu quadril e o olhei com um sorriso maroto correndo meus lábios.
― Enquanto eu me preocupei em estar pronta, alguém não fez o dever de casa. ― referi-me ao fato de ter se preocupado em colocar uma cueca para dormir.
resolveu sentar-se na cama, com as costas apoiadas na parede fria. Assim que terminou de se arrumar, aproximei-me dele, que, erguendo rapidamente seu quadril, ajudou-me a tirar sua roupa íntima.
Pus mão na base de seu pênis, fazendo certa pressão e comecei a lamber sua glande. Minha língua fazia todo tipo de brincadeira e de movimento até que decidi colocá-lo na boca e chupar, tentando manter o máximo de saliva possível para fazê-lo deslizar melhor. Passei a movimentar minha mão para masturbá-lo simultaneamente. Sua respiração pesada transformava-se em gemidos baixos.
Formou um tufo com meu cabelo e segurava-o em uma de suas mãos. Vez ou outra, sem parar de lhe chupar, o olhava. Por mais que se contorcesse às vezes, não tirava os olhos de mim.
Haviam duas coisas que me faziam querer transar mais de uma vez com o mesmo cara: 1) gostar de me chupar; 2) ter pau mediano. Você já deve imaginar porque eu gostava tanto de dar pro meu melhor amigo, né?
Ver sua pele arrepiada e sua mão livre trêmula me fez ter vontade de ir mais fundo. Introduzi o máximo que consegui na minha boca, movimentando a língua ao seu redor. começou a mexer seu quadril contra minha boca, ajudando a fazer movimentos de vai e vem.
Retirei-o da boca, continuando a masturbá-lo enquanto sugava seus testículos um de cada vez. Fechou os olhos, recostando a cabeça na parede, o corpo mole embaixo de mim. Suas coxas tiveram rápidos espasmos, o que era um sinal de que ele estava quase lá. Botei seu pênis de volta na boca, chupando-o avidamente.
Deixei que gozasse ali mesmo. Sem engolir ou jogar nada fora, aproximei-me de seu rosto e o beijei novamente. Queria fazê-lo sentir o gosto da própria satisfação.
Fitei seus olhos com um brilho saciado. Segurou meu rosto entre suas mãos, acariciando minhas bochechas com seus polegares. Cansada, impulsionei meu corpo para o lado, deitando-me. deslizou com um pouco de dificuldade seu corpo para a cama, na intenção de deitar-se também. Virei-me para o lado para pegar sua cueca jogada no chão e lhe entregar. Sabia o quanto ele ficava desconfortável em dormir nu, mesmo que aquela fosse sua casa.
― Ainda tô perguntando por que mesmo sabendo que eu estava vindo para a sua casa você não comprou camisinha. ― soltei com tom de deboche.
― Não achei que você fosse querer algo. Faz três anos, sabe? ― virou-se para mim.
― Sim, faz três anos, mas também faz quase um ano que eu não transo com ninguém, . ― ri nervosa ao pensar e falar em voz alta sobre o fato. Parecia ainda mais absurdo verbalizado. ― Ainda assim, obrigada por isso. ― sorri o olhando, ainda deitada de barriga para cima.
― Sempre um prazer lhe servir. ― riu e piscou pra mim.
― Como está a sua amiga, como é o nome dela mesmo? ― pensei por alguns segundos. ― Ah, sim, Clair.
― É sério que, depois de orgasmos maravilhosos, você quer falar de outra mulher?
― Sim, quero. Me chame de fofoqueira, mas só depois que me contar tudo.
― Conversei com ela por vídeo ontem. ― arregalei meus olhos em surpresa. Essa história tinha muito jeito de fanfic, eu só acreditava porque era quem estava me contando e ele tinha muita dificuldade de mentir para mim.
― E aí? Como ela é?
― Muito bonita. Parece bem mais jovem que eu e você, mas ela tem 27 anos.
― Uau, conseguiu fazer uma mulher mais velha se interessar por você. ― debochei novamente, rindo em seguida.
O silêncio se materializou, como se houvesse uma pessoa deitada entre nós. Tudo que eu ouvia era o barulho de sua respiração já normalizada e tive a leve impressão de que, se fizesse um esforço maior, ouviria o barulho de seus olhos abrindo e fechando.
― Você acha que teria dado certo?
― O que? ― virei-me para ele.
― Nós dois.
― Você diz em um relacionamento? ― assentiu. ― Sabe, , não vou negar que eu já fui apaixonada por você. Na verdade, eu amei você muito, mais do que a qualquer outra pessoa e sempre vou amar. Mas não acho que funcionaríamos. ― suspirei. ― Apesar de saber que você nutria por mim os mesmo sentimentos que eu, não quero que isso aqui acabasse. ― tirei uma mecha de cabelo de seu rosto. ― Depois da Olliver, você é a pessoa mais importante da minha vida e eu não sei o que faria sem você. ― sorri e pude sentir meus olhos arderem, provavelmente se marejando. ― Quando eu mais precisei do seu apoio e da sua companhia, você estava lá e fez muito mais do que o necessário. Você é um pai pra minha filha e não há nada no mundo que pague isso.
Em resposta, beijou minha testa demoradamente e sorriu ao me olhar novamente.
― Antes de eu falar qualquer coisa, quero pedir que você não fique chateada ou puta comigo e que me deixe terminar pra que possamos discutir sobre. ― fiquei intrigada com o que viria em seguida, no entanto, apenas assenti e o deixei falar o que quisesse. ― Entendo o porquê de você não querer ter uma figura paterna na vida da Olliver, todos os problemas que isso te causaria e como foi muito melhor ter sido só você e ela durante esse tempo, mas eu não aguento mais ficar com essa dúvida. Quero saber se sou ou não o pai biológico dela.
― E no que isso mudaria?
― Finalmente tiraria essa ansiedade que me consome durante todos esses anos. A todo momento, fico olhando pra ela e perguntando se é minha ou não, se é apenas a minha imaginação criando algo que eu gostaria que fosse verdade. ― virou-se de barriga para cima e colocou as mãos no rosto, respirando fundo antes de tirá-las. ― Não quero que você encare isso como algo que estou exigindo porque não estou, mas estou te pedindo para repensar a possibilidade.
, eu nunca quis que você fizesse esse teste por medo de você ficar decepcionado ou triste com o resultado. E se ela não for sua filha? Sei que não mudaria nada a respeito do que você sente por ela, porém também não quero que você se desaponte por isso. ― respirei fundo com os olhos fechados. Tinha a leve sensação de que poderia me arrepender do que estava prestes a dizer, porém, completei sem refletir muito sobre: ― Se é isso que você realmente quer, tem o meu aval e todo o meu apoio. Eu não posso continuar agindo como a única pessoa que se importa com a Olli. ― seus olhos reluziam.
― Não precisa me dar uma resposta agora…
― Não estou fazendo isso só por você. Acho que já passou o tempo da Olli também saber se você é ou não o pai dela.
Envolveu-me em seus braços, minha cabeça aconchegada em seu peito.
― Se importa se dormirmos abraçados como fazíamos quando me mudei pra sua casa e só tinha uma cama de solteiro?
― Nem um pouco. ― respondeu com a voz que parecia estampar um sorriso em sua face.


#7

Estou petrificado de estar sozinho e é patético
(If I Believe You - The 1975)


Alguns dias se passaram desde a primeira e única vez em que Clair e eu havíamos nos visto por videochamada. Queria ter ligado para ela nos dias que se seguiram, entretanto, fiquei com medo de estar sendo invasivo ou insistente em alguém que talvez não quisesse falar comigo. Sustentei estes pensamentos dia após dia até ver meu celular vibrar ao lado de meu notebook, onde trabalhava. Imaginei que pudesse ser Antonella me pedindo para apressar a primeira amostra da diagramação do catálogo que estava produzindo e obviamente que estava errado.

“Desculpe não ter mais falado com você depois daquele dia. Tive alguns problemas pessoais :/” Pensei se deveria esperar alguns minuto para respondê-la, porém era ansioso demais para fingir que não me importava.

“Tudo bem. É algo que eu possa te ajudar ou você já resolveu?”

“Por hora, está resolvido.”

“Como você tá?”

“Você tá livre pra me atender agora?”
Quase tive um surto nervoso ao ler suas palavras. A camiseta que estava vestindo estava manchada, meus cabelos desgrenhados e sem falar da bagunça atrás de mim que apareceria caso ligasse a câmera. Seria ótimo se eu pudesse resolver tudo em cinco minutos, mas isso seria impossível, então apenas ajeitei as coisas que estavam ao meu alcance. Arranquei a camiseta, jogando-a no chão, onde Clair não poderia vê-la, e dei uma leve ajeitada nos cabelos com as mãos.
“Pode me ligar” Foi tudo que consegui responder.

Não demorou para que meu celular voltasse a vibrar, no entanto, desta vez, indicando uma chamada de vídeo. Atendi com meu melhor sorriso:
― E aí?
― Antes de entrarmos em qualquer assunto, eu realmente quero me desculpar por aquela noite. Nem mesmo deixei você se despedir apropriadamente. ― ajeitou os óculos daquele jeito gracioso que costumava fazer com frequência.
― Não precisa se desculpar. Você deve ter tido um bom motivo para interromper nossa interessantíssima conversa. ― brinquei, fazendo-a sorrir.
― E tem mais uma coisa que preciso dizer. ― fiz um aceno com o queixo, indicando que ela prosseguisse com o que iria falar. ― Na última vez em que precisei trocar o número do meu celular, que agora é esse, comecei a receber todo o tipo de mensagem e ligações perguntando por pessoas e lugares aleatórios, provavelmente porque o meu deve ser um desses números reciclados pelas operadoras. Irritada por ter tanta gente que nunca vi na vida falando comigo e procurando por outra pessoa, resolvi que começaria a dizer que, sim, o meu nome era esse, mas que não era a pessoa. Obviamente que isso me rendeu todo o tipo de situação inusitada, desde gente me xingando até assédio. ― ajeitou os óculos. ― Aí apareceu você. ― pigarreou, tentando ganhar tempo ou formulando o que diria em seguida. ― Bem, o que estou tentando dizer é que… meu nome não é Clair. Na verdade, não conheço nenhuma Clair. Meu nome é ... ― ela parecia que tinha algo a mais para falar, mas se interrompeu e deixou no ar, como se quisesse que eu falasse.
Demorei alguns instantes para processar as informações.
― Não acredito que vou falar isso em voz alta para você, mas eu também não tenho sido completamente sincero com você. ― passei uma das mãos pelo cabelo e apoiei meu rosto nela. ― No auge da minha solidão, resolvi adicionar uma pessoa aleatória na agenda do meu celular e, por acaso, era você. ― sorri, tentando atenuar o peso da minha confissão.
― Eu sei disso. ― deu um sorriso sem graça.
― Como?
― Digamos que eu meio que te procurei nas redes sociais. Não quero que me ache stalker, mas, depois que nos falamos por vídeo na primeira vez, tive curiosidade de saber mais sobre você. Não sabia seu sobrenome nem o local onde você trabalhava, porém ainda podia procurar por coisas que pudessem estar ligada a você. Procurei por homens com o nome de que trabalhassem com produções gráficas. Selecionei alguns nomes que poderiam ser o seu e comecei a pesquisar no Instagram.
― Por que lá?
― Porque não é possível que alguém que trabalhe com produções visuais não tenha uma rede social que tenha como principal função a contemplação da vida de outrem. ― ouvi-la incluir em suas falas palavras que a maioria das pessoas não usava me deixava prestes a ter uma ereção, o que era simplesmente a coisa mais estranha do mundo.
― Faz sentido. ― dei de ombros.
― Olhei as quatro primeiras contas que apareciam na barra de buscas. Três delas não eram suas e a quarta era apenas um monte de composições imagéticas de luz e objetos, que, por sinal, eram lindas, além de algumas modelos que me deixaram com a autoestima meio baixa de tão estonteantes. ― queria muito que ela parasse de falar difícil comigo. ― Por isso, olhei as fotos em que sua conta tinha sido marcada e uma das primeiras era com uma mulher muito deslumbrante. Pelas características, pensei que pudesse ser sua amiga, Antonella, e não fiquei nem um pouco surpresa quando cheguei ao perfil dela e vi que, sim, era ela mesma. ― colocou as mechas frontais do cabelo atrás das orelhas, ajeitando a franja com os dedos. ― Não demorou até que eu achasse uma foto de vocês dois e, em seguida, uma foto de vocês três, incluindo a sua quase filha. ― sorriu.
― Talvez você devesse largar sua profissão de ghost writer e virar investigadora.
― É, talvez. ― riu baixinho. ― Aliás, quando vi a Antonella, entendi o fato de todos os caras serem apaixonados por ela. ― me permiti apenas sorrir sobre o comentário e o silêncio se materializou entre a tela do meu celular e eu.
Ao mesmo tempo em que fiquei revirando minha mente em busca de algo para dizer, olhar sua imagem quieta me confortou. O silêncio não era algo desconfortável ou que me incomodava. Era como se possibilitasse que nos conhecêssemos melhor enquanto nos encarávamos.
… ― pronunciei seu nome e percebi o quanto soava estranho ouvi-lo saindo dos meus lábios. Era uma palavra desconhecida.
― Sim?
― Você se importa se eu continuar de te chamando de Clair? ― a incompreensão correu por seus olhos por alguns milésimos, desaparecendo tão rápido quanto surgira. ― Vai ser como se fosse o seu apelido.
― Não me importo. ― ajeitou os óculos. ― Você está muito ocupado hoje? Já fez seu turno de trabalho?
― Bom, geralmente trabalho de madrugada. ― respondi coçando a nuca. ― Digamos que sou muito mais produtivo durante minhas noites insones.
― E quando você dorme?
― Geralmente de manhã ou no final da tarde, que é quando me sinto mais cansado. Mas o que você tinha em mente?
― E se assistíssemos um filme juntos?
― Tipo, eu ou você liga na tv e vemos ou cada um na sua tv e por ligação?
― Acho que a segunda opção é mais segura. Tem algum filme em vista?
― Já assistiu Ela?
― Ela quem?
― É o nome do filme. ― rimos.
― Por mim, pode ser. É sobre o que? ― questionou enquanto pesquisávamos por um local onde pudéssemos assistir em boa qualidade.
― Se eu te disser a sinopse, vai parecer bobo e estraga a experiência. Espere e verá.
― Ok. ― riu.
Depois de quase dez minutos procurando em vários sites de origem duvidosa, encontrei um que funcionava perfeitamente e lhe enviei o link por mensagem para que ela pudesse assisti-lo também.
Assisti a este filme somente uma vez. Tinha gostado muito, todavia, não era o tipo de filme que você assiste a todo momento, era reflexivo demais e nos expunha a realidades que nem sempre estávamos disposto a engolir.
Lá pelas tantas, no entanto, aconteceu algo que eu já não me lembrava mais: a tela preta e os gemidos mais que sensuais de Scarlett Johansson. Uma das coisas que mais me deixava constrangido era assistir sexo, ou apenas a sugestões dele, com minha família ou pessoas que não tinha tanta intimidade, como era o caso de Clair. Seus olhos não desgrudavam da tela, mas pude ver suas bochechas coradas. Fiquei imaginando qual de nós dois estava mais envergonhado.
Mais muitos minutos a frente, quando o filme acabou, a ligação caiu. Não demorou para que meu celular vibrasse com o nome “Clair” estampado no visor.
― Desculpa, quando venta a minha internet não fica muito boa.
― O que achou do filme?
― Achei apropriado para o momento. Quer dizer, estamos há quase um ano sem contato físico com pessoas no mundo exterior, imagino que a sensação que sentimos a esta altura possa ser comparada com a de Theodore. Obviamente que em intensidades diferentes, pois ele não estava isolado, podia conviver com outras pessoas. Em nossos respectivos casos, não é exatamente uma opção.
― Amo esse seu jeito que faz parecer que você está dando aula. ― sorri ao falar involuntariamente. O excesso de tempo em isolamento e a solidão causada por este estava me fazendo pensar pouco nas palavras que usaria antes de pronunciá-las, o que poderia vir a ser um problema muito facilmente.
― Desculpe. ― ajeitou os óculos. ― Às vezes, adoto este tom, porém não é intencional. Parece que estou tentando subestimar meu interlocutor, mas não é nada disso. ― novamente, suas bochechas ganharam aquela tonalidade coral tímida.
Ri, achando sua reação fofa.
― Você sugeriu esse filme porque parece conosco? ― questionou.
― É, acho que sim.
― Eu deveria fazer uma voz sensual como a da Scarlett, então. ― tentou engrossar a voz enquanto falava e rimos de sua péssima imitação.
Quando finalmente conseguimos parar de rir, o silêncio se refez. Clair conferiu alguma coisa na tela de seu computador, posto ao lado do celular, ajeitou a franja, pegou o parecia ser um elástico e amarrou a parte superior de seus cabelos, deixando a inferior solta.
― Tive uma ideia. ― foi tudo o que disse antes de a ligação cair novamente. Desta vez, era a minha internet que tinha caído.


#8

Estou apaixonado por ela há eras
(Me & You Together Song - The 1975)


Não consegui mais falar com Clair e não preciso dizer que fiquei me roendo de curiosidade para saber qual era a sua grande ideia, né? Tanto que, ao perceber que a internet não voltava, liguei para o portaria do prédio e fui informado sobre a queda de um dos postes em frente ao edifício devido ao vento forte e a chuva. Ótimo. Pelo menos não tinha sido a energia elétrica a cair.
Liguei a cafeteira para mais um de meus cafés de fim de tarde/início de noite e decidi tomar um banho, afinal, sem internet nem trabalhar eu conseguiria, visto que ficava completamente sem acesso a nuvem onde estavam guardados os materiais necessários para diagramar.
Durante o banho, não consegui conter os muitos sorrisos que dei enquanto pensava em Clair. Tudo que ela fazia parecia me encantar. O fato de sempre conversarmos, mesmo que só por mensagem e não por vídeo, me dava a sensação de que éramos muito íntimos. Clair era o tipo de pessoa que passava muita segurança em suas palavras e eu, inseguro como sempre fui, gostava disso. Sentia que com ela ou com Antonella sempre me tornava mais… confiante. Talvez fosse só a certeza de que podia ser eu mesmo sem ser julgado.
Depois de quase 20 minutos embaixo do chuveiro, saí para preparar minha xícara de café. Meu celular vibrava ensandecido sobre a ilha da cozinha.
― Tá sem internet de novo? ― era Antonella com aquela clássica voz de riso.
― Sim, tô. Caiu um poste na frente do prédio e, ao que tudo indica, lá se foram todas as instalações de internet de todo mundo por aqui. ― falei segurando o celular entre a orelha e o ombro enquanto colocava o café em minha xícara.
― Quero acreditar que você ainda não baixou o material para o catálogo.
― Que bom que você me conhece. ― ri, bebendo um pequeno gole da minha bebida.
― Não acredito que vou dizer isso, mas que bom que você não fez nada. Vamos refazer as fotos assim que tiver tempo bom marcado.
― Então, tô liberado dessa atividade?
― Dessa, sim, mas já tô te encaminhando o que pode ser feito no lugar dela. ― eu podia visualizar seu sorriso satisfeito por estar me enrabando neste exato minuto.
― Quando eu tiver internet, terei o maior prazer em fazê-lo, chefinha.
― Você tá muito calmo. Além da internet, o que mais aconteceu?
― Assisti um filme com a Clair há pouco.
― Olha, tá evoluindo. Já estão até com encontrinhos cibernéticos. ― debochou.
― Será que vai existir o dia em que eu vou te contar algo e você vai ter uma reação que não seja o deboche?
― Eu e você sabemos que não.
― Tudo bem. Era só uma dúvida mesmo.
― O que vai fazer enquanto estiver sem internet?
― Talvez ler um dos livros que estão na minha estante há séculos e até agora só acumularam poeira. Por quê?
― Sua amiga está completamente preocupada com você. ― ri.
― O que ela está fazendo?
― Lendo um livro novo que eu trouxe ontem pra ela. Fiquei sabendo que ela te convidou para passar o resto da quarentena conosco.
― Pois é. ― dei uma grande golada no meu café, que já começava a esfriar. ― Falei pra ela que não era uma boa ideia.
― Por quê?
― Bom, sinto que vou invadir, principalmente, a sua privacidade. E outra: sei que você se incomoda com a quantidade de cigarros que fumo em um dia. ― falei a última parte tirando um cigarro de dentro da caixa, colocando-o entre o lábios e procurando meu isqueiro por todas as superfícies próximas a mim.
?
― Oi? ― respondi de um jeito estranho devido aos lábios não estarem se tocando completamente.
― Você sabe que pode vir aqui e ficar pelo tempo que quiser, né? ― sorri por dois motivos: achei o isqueiro e pelo que ela disse.
Acendi o cigarro, traguei, soltei a fumaça e bebi mais um pouco de café.
― Eu sei disso, Tonya. Mas eu realmente não acho que seria uma boa ideia. Por mim e por você. Entende? ― Antonella ficou quieta por segundos que pareceram uma eternidade.
A verdade era que, quando mais novo, era totalmente apaixonado por Tonya e ainda conseguia me lembrar de como me senti no dia que ela confessou ter sentimentos por mim, mas que não queria ter um relacionamento por vários motivos, incluindo o de não querer destruir nossa amizade em caso de término. Após isso, fiz tudo o que estava ao meu alcance para afastar aquelas emoções e, por isso, não gostava da ideia de ficarmos por sei lá mais quanto tempo morando sob o mesmo teto, visto que não sei até que ponto tudo estava soterrado dentro de mim.
― Sei e agradeço. ― sua voz tinha uma entonação sincera. ― Sabe que se tivesse que ser alguém seria você, não é? ― aquelas palavras me aqueceram muito mais do que qualquer tragada no cigarro ou gole de café que eu tivesse dado.
― Meu eu de 17 anos está em surto neste exato momento. ― rimos.
Inalei um pouco mais de fumaça enquanto ouvia o som de sua respiração tranquila.
― Antes de eu desligar, quero te perguntar mais uma coisa. ― pausou e prosseguiu: ― Você ainda quer fazer o exame com a Olliver? Se sim, sei de uma clínica, mas não sei se devemos contar a ela sobre isso, pelo menos, não enquanto não tivermos uma confirmação de que você é realmente o pai dela.
― Acho que devemos ter cuidado em como vamos abordar isso com ela. E, sim, eu ainda quero fazer esse exame. Acredito que pra quanto mais cedo marcarmos melhor. Pode me passar o número?
― Sim. Vou te enviar uma mensagem. A partir da semana que vem, estou livre qualquer dia e horário, pois minha agenda ainda não foi montada.
― Ótimo. Quando marcar, te aviso.
― Tá bom. ― suspirou. ― ?
― Que?
― Só não esquece que amamos você independente do resultado.
― Também amo vocês e nada vai mudar isso. ― sorri.


#9

Se você não consegue sobreviver, apenas tente
(I Always Wanna Die (Sometimes) - The 1975)

Antonella
Deus abençoe as babás juvenis que cuidam das crianças da vizinhança. Se não fosse por Ranya, eu não seria capaz de sair todas as manhãs de casa e ir trabalhar. Ranya tinha 18 anos e cuidava de Olliver há quase três. Seus pais não tinham dinheiro suficiente para bancar seu curso de design de moda, então, trabalhar meio período era sua opção mais viável.
Quando fiquei sabendo que procurava por algo que respeitasse seus horários na escola, lhe ofereci o emprego. Suas tarefas consistiam em buscar Olliver na escola, ajudá-la a fazer seu dever de casa e mantê-la entretida com algo mais que videogame ou desenhos animados em seu tempo livre, o que poderia incluir voltas no parque, à sorveteria, passeios de bicicleta, piquenique, idas à praia ou qualquer outra atividade saudável para uma criança de quase sete anos.
Além disso, sempre que Ranya precisava de ajuda com alguma tarefa de seu curso, deixava que jantasse em minha casa para discutirmos sobre seus projetos e suas ideias para cada um deles. Considerando que era uma menina extremamente focada e habilidosa, era de meu total interesse contratá-la como estagiária quando entrasse na faculdade.
Naquela manhã, acordei mais cedo que o normal. Tive um ataque de ansiedade às 4h13 da manhã e lá se foi todo o meu soninho gostoso. Tomei um banho quente, seguido de um suco de laranja após ter me vestido e comecei a trabalhar no que precisava passar de recados na reunião que teria dentro de algumas horas com a equipe de criação a respeito dos atrasos de , da sessão de fotos que precisaríamos refazer e da reorganização das tarefas.
Por volta de 6h40, liguei para Ranya, que, por sorte, já estava acordada praticando sua yoga matinal e a perguntei se poderia vir um pouco mais cedo para cuidar de Olliver. Por sorte, Ranya, que morava do outro lado da rua, trouxe seu tapete e seus outros utensílios para terminar sua prática enquanto minha filha não acordava. Agradeci, deixei com ela seu pagamento semanal, com um pequeno acréscimo do valor de mais meio período por ter chegado mais cedo mesmo sem eu ter pedido com antecedência. Sem graça, a garota aceitou com um sorriso e trancou a porta assim que saí.
Não havia trânsito, o que aflorou minha vontade por um café bem forte, todavia, o medo de um novo surto fez com que eu me mantivesse firme em meu propósito de um dia livre de cafeína. Ao invés disso, bebi um suco de limão sem açúcar, que fazia meu rosto se retorcer em várias caretas todas as vezes que minha língua encontrava o líquido.
Não fiquei nem um pouco surpresa ao perceber que havia sido a primeira a chegar, às 7h23. O turno começava às 9h, por isso, fui para a minha sala tentar adiantar mais alguns compromissos do resto da semana, como pagamento de impostos, assinatura de alguns contratos, separação do que deveria ir para o arquivo e o que deveria ir para outros setores. Respondi alguns e-mails com propostas de vendas de serviços e, às 8h41, dirigi-me para a copa para fazer um chá de camomila. Não era possível que estivesse tão acelerada há essas horas. Certamente, se eu continuasse nesse ritmo, quando desse 14h, iriam me encontrar morta na minha sala.
Costumávamos deixar a fina porta sempre fechada, por este motivo, os recém-chegados não conseguiam ver nem ouvir quem estivesse lá dentro, no caso, eu.
― Que milagre que a Toninha não tá aqui ainda. ― ironizou alguém do outro lado da porta.
― Vai ver deram um mata-leão nela.
― Ou o finalmente o cachorrinho deu um jeito nela.
― riram.
― Como pode uma mulher tão bonita ser tão mal comida?
― Vai ver o lacaio não faz o serviço tão bem assim.
― Você acha que secretamente eles têm algo?
― E você tem alguma dúvida? Por que ele tem tantas regalias aqui dentro? Quer dizer, não que ele seja um péssimo profissional, mas ele deveria ser tratado como qualquer um aqui dentro, né?
― Talvez seja a forma dela de agradecer.
― É, talvez.

O assunto entre as duas pessoas acabou.
Não consegui identificar de quem eram as vozes, então, terminei de fazer meu chá e saí de lá cerca de dois minutos depois. Para chegar até a minha sala, era necessário passar pelas muitas mesas do pessoal da criação e não foi nenhum pouco imprevisível descobrir que os dois indivíduos em questão eram Adam e Ross.
Usei de toda a minha postura sádica para lhes cumprimentar quando me aproximei:
― Bom dia, meninos. ― sorri.
Um enrubesceu de vergonha e o outro empalideceu como se fosse desmaiar.
Ao entrar em minha sala, separei as pastas que deveriam ser entregues a Georgie, meu assistente, para encaminhá-las aos outros setores da empresa. Faltava aproximadamente quatro minutos para nossa reunião, então, bebi meu chá enquanto pensava em formas de abordar o fato de meus funcionários estarem me chamando de mal comida dentro do local onde eles eram pagos por mim apenas para trabalhar.
Peguei meu chá e as pastas e caminhei para fora da sala. Ao me verem, todo puxaram cadeiras ou se encostaram nas mesas atrás de si, formando um círculo para que eu pudesse ver a todos durante minha fala.
― Os recados hoje vão ser bem curtos. ― bebi o último gole de meu chá e larguei meu copo sobre a mesa ao meu lado. ― A campanha que entregaríamos a primeira versão na semana que vem vai precisar ter as fotos refeitas, pois tivemos alguns problemas relacionados ao clima. Já avisei a contratante e está tudo acertado para o final do mês. Preciso que os envolvidos fiquem de olho na previsão do tempo para que possamos refazer em um bom dia. Carol e Simon, vocês vão dividir a carga de trabalho com o , afinal, como tivemos esse atraso, ele está livre durante essa semana. Por favor, compartilhem com ele os materiais que faltarem. ― ambos assentiram e anotaram em suas devidas agendas algo.
Suspirei. Odiava bancar a megera que achavam que eu era.
― O último recado que eu tenho pra dar é algo direcionado a todos, não preocupem. ― dei um sorrisinho cínico. ― Tenho notado que minha vida pessoal tem gerado certo interesse em algumas pessoas aqui dentro e quero que fique explícito que, se estou falando sobre isso com vocês, não é por me sentir obrigada, mas é pra ver se os burburinhos acabam de uma vez por todas. Não, e eu não temos um caso, nunca nem mesmo namoramos. Sim, já ficamos algumas vezes quando ainda estávamos na universidade e, sim, temos uma filha juntos ― não era como se eu estivesse mentindo, afinal, o nome dele realmente estava na certidão de nascimento de Olliver. ―, mas ele é meu melhor amigo e meu funcionário. Não pensem que ele tem privilégios por ser meu amigo ou por me comer nas horas vagas. ― “apesar de que não seria uma troca nada injusta”, pensei. ― as tem por ser ótimo no que faz. Diferente de alguns aqui dentro, ele nunca chegou atrasado, muito menos atrasou a entrega de algum projeto. Foi meu primeiro funcionário e, sem sombra de dúvidas, é um dos melhores. Me ajudou a construir tudo isso aqui e só não está comando comigo porque não é algo que ele deseja. ― sorri. ― Enfim, quando quiserem ter novamente uma conversa sobre minha vida pessoal, me chamem pra participar, tenho histórias excelentes pra contar. E não se esqueçam que o pior lugar pra fofocar sobre a sua chefe é onde ela te paga pra você fazer o seu trabalho. ― apontei para Georgie. ― Vamos pra minha sala, o resto… não sei nem porque ainda estão me olhando. Ao trabalho.
Entrei em minha sala e encaminhei-me para trás da mesa, onde me sentei finalmente pude relaxar os ombros.
― Georgie, posso te pedir uma coisa? Sei que não faz parte do seu trabalho, mas agora que não está aqui… ― parei, vendo-o assentir, ajeitando-se na cadeira a minha frente. ― Quero saber se posso contar com você para ser meus olhos e meus ouvidos aqui dentro. ― cruzei as mãos e apoiei os braços sobre a mesa, inclinando-me em sua direção.
― Claro, conte comigo. ― soltou a agenda em seu colo, ainda com as mãos sobre ela. ― já pediu algumas vezes pra que parassem com os boatos.
― Ele já me contou algumas vezes sobre isso, mas eu nunca acreditei muito. Sempre pensei que não teriam coragem de falar algo dessa natureza dentro da minha empresa. ― peguei as pastas que já deviam ter sido entregues a ele e as empurrei em sua direção sobre a mesa. ― Preciso que entregue estas pastas na contabilidade e leve estas para o arquivo. Se possível, não comente nossa conversa com ninguém.
― Não comentarei. É só isso? ― posicionou as pastas embaixo de sua agenda.
― Só isso. Ah, converse com o pessoal do ensaio que precisa ser refeito. Precisamos reagendar o mais rápido que conseguirmos. Pode ir. ― retirou-se da sala.
Peguei o celular em mãos, hesitando se devia ou não contar a sobre os acontecidos. Antes que pudesse concluir o pensamentos, meus dedos já me traíam, digitando a seguinte mensagem:

“Você estava certo, eles realmente falam que transamos às escondidas”

“Eu disse. Aposto que você pegou Kat e Adam falando sobre”
Respondeu menos de um minutos depois.

“Não. Adam e Ross. Acredita que me chamaram de mal-comida!!!!”

“O ‘tenho certeza de que ele não dá conta’ veio antes ou depois do ‘mal comida’?”

“Você realmente já ouviu muitas vezes, né?”

“Não precisa fazer muito esforço. Às vezes, parecia que falavam perto de mim só pra eu ouvir rs”
A segunda mensagem chegou poucos segundos depois. “Será que emanamos toda essa tensão sexual?”

“Não seja ridículo. Só falam isso porque acham que você tem muitas regalias aqui dentro”

“Você sabe que, se for por tensão sexual, nós podemos resolver isso facilmente, né? Quer dizer, eu super topo”

, isso não é brincadeira”

“Tonya, relaxa. Eles só estão agindo como adolescentes. Se pararmos pra analisar, eles não estão tão errados assim. Às vezes, nós realmente… você sabe”

“Antes que chegue aos seus ouvidos, dei um sermão em todos, disse que já saímos algumas vezes em nossa época de faculdade e que temos uma filha”

“Bom, não é mentira. De qualquer forma, espero que você esteja bem. Estou enviando neste exato momento uma coisa pra te acalmar”

“O que é?”

“Surpresa. Amo você <3”


Quando encerrava nossas conversas de maneira repentina, eu sabia que não adiantava de nada tentar encher sua caixa porque ele não responderia minhas mensagens nem atenderia minhas ligações.
Cerca de 20 minutos depois, recebi uma entrega de uma mercearia próxima ao trabalho, contendo donuts com cobertura de chocolate, meu vinho preferido e suco de laranja.


#10

Estou tentando não olhar pra baixo enquanto ela fala sobre seus tempos difíceis
(If You're Too Shy (Let Me Know) - The 1975)


Voltei a ser um jovem adulto conectado à internet na tarde do dia seguinte. Até onde fiquei sabendo, mais da metade da vizinhança ficou sem internet. Alguns, sem luz também. Como eram só três da tarde, me permiti entrar em minhas redes sociais e distribuir curtidas entre meus amigos e pessoas famosas.
Ao ver uma foto de Tonya meditando, me questionei se ela estaria bem em relação aos acontecidos de mais cedo, mas conhecendo-a do jeito que conheço, tive certeza de que deveria estar remoendo aquilo dentro de si e, no mínimo, ter pedido a alguém de confiança, provavelmente Georgie, para ser seus olhos e ouvidos lá dentro.
O celular vibrou em minhas mãos, mostrando ser uma chamada de vídeo com Clair.
― Oi. ― cumprimentei ao atender.
― Oi. Está tudo bem com você? ― seu tom parecia preocupado.
― Sim. Aconteceu alguma coisa?
― Ah, é que você não respondeu minhas mensagens, então, pensei que... ― interrompeu-se abaixando o tom de voz à medida que pronunciava as palavras seguintes.
― Ah, não. Fiquei sem internet devido à chuva. Consertaram só hoje mesmo.
― Que bom. Digo, que você tem internet novamente. ― rimos.
― Você tinha dito ontem que teve uma ideia. ― disse como quem não quer nada.
― É, mas não sei se é uma boa ideia.
― Bom, diga. Talvez seja.
― Fiquei um pouco mal de saber que estava mentindo para você e achei desonesto de minha parte não te dizer desde o começo sobre a minha falsa identidade como Clair. Então, pensei que pudemos jogar duas verdades e uma mentira para nos conhecermos melhor. ― empurrou os óculos que escorregavam por seu nariz na direção de seu rosto. ― Claro que teríamos um diferencial para nos fazer tentar ao máximo descobrir a verdade.
― Que seria... – deixei no ar.
― Se eu acertar, você tira uma peça de roupa e vice-versa. ― fiquei sem palavras por alguns segundos, tentando processar o que a mulher havia dito, pois me parecia um pouco extremo tirar a roupa na frente de um completo estranho na internet.
― Tipo... é sério mesmo?
― Sim. ― franziu a testa levemente. ― Você não gostou, né? É uma ideia estúpida mesmo.
― Não, não. ― abanei as mãos de forma um pouco desesperada, ainda pensando se era mesmo uma boa ideia. ― Eu só... fiquei surpreso. Foi repentino.
― Tudo bem se você não gosta ou não se sente à vontade.
― Por mim, é ok. Podemos fazer, sim.
― Certo. ― coçou a nuca de leve. ― Ok, eu posso começar, se quiser.
― Claro.
― Tente descobrir qual das três afirmações é falsa: vou me casar dentro de dois meses; desisti do mestrado por síndrome do impostor; não gosto de me chamar .
― Ouvindo todas as opções, todas elas parecem falsas em algum nível. ― dei um risinho nervoso. ― Não acho que vá se casar em dois meses. Quer dizer, conversamos já há quase um e você nunca mencionou nenhum noivo.
― É, você acertou. ― tirou o cachecol que usava, soltando-o no chão. ― Por que não cogitou que talvez eu goste de me chamar ?
― Se isso fosse verdade, você não sairia por aí assumindo a identidade dos outros pra caras estranhos na internet.
― Ok. ― arqueou as sobrancelhas em um tom surpreso. ― Sua vez, Sherlock Homes.
― Em breve, vou descobrir se Olliver é realmente minha filha; não é meu primeiro nome; Tonya aceitou meu pedido de namoro. – por um breve instante, ao terminar de falar a última frase, tive impressão de ver algo parecido com tristeza passar pelos seus olhos.
― Seu nome realmente é , senão não estaria assim em suas redes sociais nem no seu portfólio. Não querendo desmerecer você, mas também não acho que Tonya aceitaria um pedido de namoro. – repuxou os cantos dos lábios, em um meio sorriso, como se quisesse amenizar o peso de suas palavras.
― E você tá certa em achar isso porque ela realmente não aceitou. Até porque não teve nenhum pedido. ― rimos. ― Como você bem pode ver, tô com menos roupas que você, será que posso tirar um pé de meia de cada vez?
― Já está anunciando sua derrota, ? ― riu.
― Claro que não. ― tirei uma das meias dos pés, tentando fazer um olhar sexy e jogando a peça em direção à câmera do celular, como em um strip tease. ― Só não quero que você se apaixone antes do tempo. ― gargalhou.
― Vai ter que tirar bem mais do que só uma meia pra isso.
― Tá bom. Esteja à vontade para mostrar do que você é capaz pra que isso não te aconteça.
― Meu cachorro se chama Pringles, por causa daquelas batatinhas gostosas; você é a única pessoa com quem converso por chamada de vídeo e não sou filha única.
― Acho que você é filha única, sim.
― BEEEEEEEEEN. ― imitou uma sineta de resposta incorreta. ― Não tenho nenhum animal de estimação, mas com certeza eu colocaria Pringles. ― ri e tirei a outra meia.
― Tá. ― pensei no que poderia dizer e prossegui. ― Tenho número de quase todas as estagiárias da empresa guardado em uma gaveta na minha mesa no trabalho; não falo com a minha mãe há cinco anos e não tenho certeza dos sentimentos que ainda tenho por Tonya.
― Os números da estagiárias é relacionado a flerte ou por questões de trabalho?
― Assim não vale.
― Tirou minha dúvida. É flerte mesmo, então deve ser verdade. Mas as últimas duas são difíceis. Quer dizer, você não fala muito da sua mãe. Acho que é a última.
― Nunca esteve tão errada na sua vida. Apesar de não morar com a minha mãe há quase dez anos, nós nos falamos com bastante frequência.
― Então, você não sabe ao certo o que sente por Antonella? ― perguntou, tirando o moletom.
― É complicado. Como já te disse, fui muito apaixonado por ela na adolescência, tive coragem de falar sobre já adulto, mas sempre tivemos convicções muito diferentes sobre relacionamentos. A primeira e última vez que ela namorou foi durante um mês, no segundo ano do ensino médio, com um cara popular pra conseguir ganhar as eleições do grêmio estudantil. ― rimos. ― Óbvio que ela não precisava disso, porém não teve pra mais ninguém naquelas eleições. ― sorri e desviei o olhar para minhas mãos, agora, postas sobre a mesa. ― Mas é uma sensação de insegurança e instabilidade porque, ao mesmo tempo que acho que conseguimos evoluir nosso relacionamento para um laço indestrutível e que conseguimos transitar bem entre todas as situações, sinto que, ao menor sinal de algo que se pareça com um relacionamento romântico, todos os sentimentos que eu nutria naquela época vão me atropelar até sobrar só um farelinho de . ― Clair segurou o riso na última parte, apenas assentindo para demonstrar compreensão do que eu falava.
― Sabe, eu acredito que nós estamos destinados a amar as pessoas para sempre, independente de termos terminado e entrado em outros relacionamentos. Nossas emoções são complexas e mutáveis ao longo de nossas vidas, por isso, não acredito que algo que um dia foi ou se aproximou de amor se esvai completamente ao ponto de nem mesmo lembrarmos da sensação de amar determinada pessoa. ― seus olhos fixos nos meus, continham algo que se parecia muito com conforto e reconhecimento. Talvez Clair tivesse se reconhecido em minha experiência.
Sorriu durante nosso novo silêncio.
― De quem era a vez mesmo?
― Sua. ― ri, incentivando-a a continuar.
Jogamos mais algumas rodadas e, como já era de se esperar, eu estava perdendo. Enquanto Clair mantinha as roupas íntimas e as calças, eu já estava só de cueca.
Todavia, cá entre nós, estar em um jogo que envolve tirar a roupa era algo estranho, mas ok. A única parte não ok era estar de frente para uma mulher por quem eu possivelmente estivesse desenvolvendo uma quedinha e ter que fazer força para não olhar para seus peitos enquanto ela falava sobre coisas de sua vida. Aliás, Clair, tinha um belíssimo par.
― Hã, Clair… ― interrompi sua fala sobre como era horrível revisar trabalhos acadêmicos durante seus tempos de universitária para ganhar a vida.
― Sim?
― Se você não se importar, acho que podemos encerrar o jogo aqui, antes que eu tenha que tirar minha última pessoa de roupa. ― dei um meio sorriso envergonhado. Ela corou um pouco, entendendo o que aquilo significava.
― Ah, sim. Desculpe, deveríamos ter colocado como regra ‘encerrar quando alguém estiver prestes a mostrar os genitais’. ― franziu os lábios para baixo.
― Sinceramente, de todas as coisas que já imaginei que faria, essa nem mesmo estava inclusa na lista.
― Bom, agora, já é algo que você pode cortar dessa tal lista. ― rimos. ― Fico feliz que pudemos dividir algumas coisas de nossas vidas.
― Fico feliz que tenha se sentido à vontade de dividir a sua vida. ― sorri.
― Eu vou desligar porque preciso tomar banho. E com o frio que está fazendo, quanto mais cedo melhor.
― Bom banho pra você. ― acenei para ela.
― Bom trabalho mais tarde. ― acenou de volta e desligou.
Geralmente, depois de algo assim, ficaria exatamente no estado que Tonya costuma descrever como “com tesão e triste”, no entanto, Clair me deixou feliz o suficiente para ficar só com tesão mesmo.


#11

Ela tem um namorado
(Sex - The 1975)


Dia de ir ao mercado. Por incrível que pareça, esse sempre era o dia que me deixava mais feliz, afinal, sairia de casa. Levantei e coloquei meu daily mix de músicas no aleatório enquanto tomava banho e me vestia. Fiscalizei todos os meus armários e minha geladeira em busca do que faltava e precisava ser comprado, sendo as coisas mais importante e no topo da lista: cigarros e vinho.
Ao terminar, fui até a varanda de uso comum no final do corredor para me sentar e fumar um cigarro antes de ir às compras.
Sentado próximo às plantas, pude ver uma mulher de estatura um pouco menor que a minha, cabelos na altura dos ombros e moletom amarelo descendo as escadas e sentando-se no último degrau.
Olhei-a de relance e tive impressão de conhecê-la, por isso, olhei novamente e mal pude acreditar no que meus olhos viam.
― Clair? ― a mulher levantou os olhos em minha direção, logo, voltando a prestar a atenção no maço de cigarros amassado que tirava de dentro do bolso do moletom. ― ? ― olhou-me novamente, franzindo as sobrancelhas.
Apontou para si mesma, tentando confirmar se eu falava com ela.
― Desculpe, você se… parece com alguém que eu conheço.
― Ela se chama Clair ou ? ― ironizou.
― Clair é só apelido. é seu nome real. ― ri, aproximando-me. ― Você é muito muito muito parecida com ela.
― Por acaso, o nome dela é Ito?
― Não sei seu sobrenome. Nos conhecemos há pouco tempo. ― cocei a nuca. ― Ela tem cabelo curto.
― Com uma parte azul? ― bufou ao constatar que não haviam cigarros dentro da caixa.
― Isso.
― Prazer, sou , irmã gêmea da adolescente tardia. ― deu um meio sorriso.
. ― apontei o maço para ela. ― Precisando de um?
― Obrigada. ― pegou e eu estendi o isqueiro em sua direção para acender o cigarro.
Em seguida, coloquei um cigarro na boca e o acendi.
― Nunca te vi por aqui.
― Me mudei há pouco. Umas três semanas. ― soltou a fumaça na direção contrária a que eu estava. Assenti.
Traguei o cigarro olhando o horizonte. Não queria parecer que estava forçando um diálogo com ela.
― De onde vocês se conhecem?
― Ah, é uma longa história.
― Quando alguém usa isso como justificativa, significa que tem algo escondido, embaraçoso ou perigoso.
― Bom, não é nada demais. Nos conhecemos pela internet.
― Sei. ― olhou para o horizonte. ― Foi usando o tinder? ― questionou sugestivamente.
― Não. Foi meio que ao acaso mesmo.
― Ok. ― riu. ― Sabe que não tem problema se foi no tinder, né? Quer dizer, pra você, não.
― Como assim pra mim não? ― traguei mais uma vez, esperando por sua resposta.
― Eu não sei em que circunstância que vocês se conheceram e nem as coisas que falou, mas fique com um pé atrás, ok? Dica de quem conhece bem a irmã que tem.
Mesmo que ainda tivesse um pouco menos que um cigarro inteiro, o apaguei e joguei no cinzeiro, ao lado dos degraus da escada.
― Além de vir fumar, você ia à algum lugar? ― questionei-a.
― Ao mercado. ― tragou o cigarro novamente, antes de também apagá-lo, porém, diferente de mim, o guardou dentro do maço vazio. ― Pra volta. ― deu um meio sorriso.
― Bom, eu também preciso ir às compras. Podemos ir juntos, se não se importar. ― dei de ombros, colocando uma máscara descartável no rosto.
― Programa de vizinhos. Gostei. ― riu, também cobrindo o próprio rosto. ― No meu antigo prédio, era festinha toda noite no apartamento de uns universitários. Eles nunca me convidaram, o que era bem chato. ― rimos.
Caminhamos em direção ao elevador, chamando-o e esperando pela sua chegada.
― Desculpe se pareço intrometido, mas fiquei um pouco… curioso sobre o que disse a respeito de . ― falei ao entrar no elevador e apertar o botão de térreo.
― O que eu quis dizer é: espero que sejam apenas amigos e que você não tenha nenhum interesse romântico na minha irmãzinha.
― Vai me dizer que ela não presta? ― debochei.
― Você sabe que ela é noiva, né? ― virou-se pra mim, segurando a porta do elevador aberta com um dos braços até que eu conseguisse sair de meu estado de choque e caminhar para fora.
― Hã… não?
― Tem certeza de que são amigos? ― deu uma risadinha irônica.
― Agora… não tenho mais.
― Ela costuma não falar muito sobre isso com homens em quem ela possa estar interessada. ― caminhando ao meu lado, retomou sua fala com naturalidade: ― Você namora?
― Não.
― Você é um homem charmoso para estar solteiro. Consigo entender por que ela não disse nada sobre .
― Obrigado, eu acho. ― abaixei o tom de voz na segunda parte. ― Há quanto tempo ela está com ele?
― Uns seis anos. Sinceramente, nunca achei que fosse durar tanto. é um homem muito sério e sem graça. ― silêncio por alguns segundos até que pareceu se lembrar de algo: ― Depois do que aconteceu no início do ano passado, achei que não voltariam mais.
Fiquei quieto, controlando-me para não perguntar sobre o que acontecerá no ano anterior.
― Não vai perguntar o que aconteceu?
― Não queria parecer enxerido, mas se você quiser, pode me contar.
sempre foi a certinha enquanto eu era a garota problema. Durante toda a minha adolescência, fui em todas as festas, não recusei nenhuma possibilidade de drogas ou álcool gratuito e digamos que não tenho muito orgulho de todas as pessoas com as quais me relacionei, já que não se dá pra ter muito filtro quando se está bêbada demais. foi à sua primeira festa aos 21 anos, tomou o primeiro e único porre de sua vida aos 24 e, honestamente, não sei se ela beijou alguém antes de namorar . ― pigarreou. ― Não que tenha problema ser certinha, mas ela meio que despirocou meio tardiamente. Acho que caiu a ficha de que estamos chegando nos 30 e ela ainda não tinha feito as coisas que queria ter feito, tipo pintar o cabelo de azul, mandar nudes pra um cara qualquer ou fazer alguém de trouxa. ― deu de ombros.
Atravessamos a rua, continuando nossa caminhada. Ainda faltava cerca de quatro quadras até o supermercado mais próximo.
― Ela conheceu um cara pelo tinder e ele se encontraram algumas vezes. Obviamente que ela acabou se deixando levar demais, ficou com o cara durante quase dois meses até que descobriu. Como ele é extremamente apaixonado por e tem uma visão completamente romantizada da vida adulta, aceitou ela de volta depois de uma semana separados e seguem até hoje.
Continuamos a andar em um ritmo tranquilo, lado a lado, às vezes, esbarrando ombro no ombro quando desviávamos de outras pessoas na rua.
Tudo que havia me contado fazia com que algo dentro de mim se revirasse de forma inexplicável. Não é como se eu tivesse esperanças de ter algum relacionamento com Clair para além de amizade, entretanto, pensar que ela havia omitido mais uma parte de sua vida enquanto eu havia me aberto totalmente sobre a minha, sobre meus sentimentos, as pessoas que amava. Senti-me um tolo exposto à um abismo que antes era incapaz de enxergar, como se uma neblina me cegasse.
No resto do trajeto, contei a um pouco sobre mim, o que eu fazia para sobreviver, sobre Five, o gato, e sobre quando me mudei para o prédio em que morávamos.
Chegando ao supermercado, nos separamos para fazer as compras e combinamos de nos reencontrar em frente à algum caixa para voltarmos para casa juntos.
Mesmo que não fosse espalhafatosa, era bem mais expansiva que . Conseguia falar abertamente sobre coisas que talvez fizessem sua irmã corar, por exemplo, o dia que em que foi levada para “dar uma volta” até sua casa de viatura por estar com cocaína escondida no bolso do moletom, quando era adolescente.
Pela primeira vez em minha vida, fiquei muito grato por ter anotado tudo que precisava ser comprado. Depois de ouvir o que me contara sobre a própria irmã, não conseguia mais me concentrar. Minha cabeça ficava voltando para o momento em que sua voz soou longe ao me contar sobre , o noivo chifrudo.
Em determinado momento de minhas compras, percebi que marquei como pego coisas que não constavam no meu carrinho de compras, fazendo-me ter de voltar a corredores pelos quais eu já tinha passado anteriormente. Comecei a jogar os itens com um pouco mais de descaso que deveria e não foi surpresa alguma quando, ao pegar um saco de ração para gatos na prateleira, todo o resto caiu e todas as pessoas ao redor olharam para mim com o olhar de “o cara tá puto com a ração?”
Mais ou menos meia hora depois, encontrei com no início dos corredores de shampoo.
― O que você usa no seu cabelo? Ele é tão brilhoso. ― disse ainda olhando a prateleira com uma infinidade de shampoos.
― Uso qualquer shampoo mais barato que tiver no mercado. O brilho de hoje é porque tá na hora de lavar. ― ri.
― Nem um condicionador básico?
― Às vezes. ― dei de ombros. ― Mas não tem uma marca que eu possa te indicar.
― Podemos ir. ― colocou um pote de shampoo dentro do carrinho e nos encaminhamos para o caixa.
Minutos depois, após pagarmos nossas devidas compras, tomamos o caminho de casa da mesma forma que viemos, lado a lado, ora esbarrando nossos ombros, ora nos mantendo meio afastados.
― Sabe, , não quero que pense que tentei estragar seu lance com a minha irmã nem nada. ― deu uma pausa um pouco longo, regada a respirações mais profundas. ― Você me parece um cara legal, por isso, achei que precisava te avisar onde você está se enfiando.
― Na verdade, fiquei até um pouco… grato por você ter me falado. Talvez ela tivesse intenção de me contar um dia, talvez não. Se a segunda opção for a correta, ainda bem que não deu tempo de eu virar o estepe de alguém.
― Ela não iria te fazer de estepe. ― começou a me olhar enquanto falava. ― Eu não sei por que ela ainda não terminou com de verdade. Quando digo pra você que não tem como ser estepe, é porque não é verdadeiramente a primeira opção. Apesar de estarem em um relacionamento há muito tempo, tenho certeza de que só um deles ama pelos dois.
Por motivos desconhecidos, senti um alívio no meu peito ao ouvir tais palavras.
Sem ter muito mais o que dizer um ao outro, seguimos até em casa em silêncio, com passadas ritmadas.
Quando chegamos ao meu andar, parou em frente a minha porta enquanto eu procurava pelas minhas chaves.
― Você está trabalhando em casa, né?
― Sim. ― respondi, ainda apalpando meus bolsos em busca do chaveiro.
― Podíamos marcar algo um dia? Sinto que preciso pagar pelo cigarro. ― riu.
― Sem problemas. Acho que vamos nos cruzar bastante pelos corredores. ― sorri, encontrando o que procurava.
― Você é um cara legal, . ― sorriu de volta. ― Vou nessa. Se precisar de açúcar ou cigarros, pode bater no 102.
― Nós podemos trocar telefones, se você quiser.
― Não. Prefiro que me procure, se quiser. ― sorriu uma última vez e saiu andando.
Era a primeira vez que não conseguia identificar se uma mulher estava flertando ou sendo amigável comigo.


#12

Eu amo muito vocês todas
(Antichrist - The 1975)


Fiquei muito tempo me questionando mentalmente se deveria ou não confrontar a respeito de tudo o que me contara: seu noivado, o fato de estar junto com o mesmo cara há seis anos e ter “esquecido” de citar isso em nossas conversas anteriores, o chifre que já metera no noivo e se ela tinha alguma intenção de que eu fizesse parte desta história também. Caso a resposta desta última pergunta fosse positiva, teria que lhe informar que nunca me envolvi com alguém que já estivesse em um relacionamento e que não seria dessa vez que o faria.
Sem muita noção do que fazer, resolvi pedir conselho a única pessoa que talvez ainda tivesse paciência comigo para fazê-lo: Antonella.
― Me diz que você tá me ligando pra dizer que sua parte do trabalho tá pronta. ― atendeu a chamada de vídeo já com um tom de risada.
― Óbvio que não. São 14h24, sabe que eu não trabalho durante o dia.
― Você sabe que precisa começar a dormir à noite, né?
― Fala isso pro meu cérebro que não desliga. ― ironizei.
― O que você quer?
― Preciso de conselho.
― Já sei até qual pepeca que te deixou assim.
― A sua é que não foi. ― debochei.
― Fico feliz em saber que a minha não causa problemas, apenas soluções. ― riu. ― O que você precisa?
― Vou te atualizar de todos os detalhes. Clair não se chama Clair e, sim, .
― Nada que a gente já não esperasse. ― deu de ombros.
― Descobri que ela tem uma irmã gêmea, que, por acaso, é minha vizinha e isso não é tudo. A irmã dela me contou que ela tem um noivo.
― Que? ― Tonya começou a rir. ― Mas isso é uma novela mexicana? Quanto tempo eles estão juntos?
― Seis anos.
― O que? ― a mulher franziu o cenho. ― E ela “esqueceu” ― fez aspas com os dedos. ― de te contar?
― Não sei ainda. Liguei porque eu não sei o que fazer. Confronto ela, peço explicações, deixo quieto ou simplesmente paro de respondê-la?
― Não acho que parar de responder seja uma boa ideia. Confrontar não seria a palavra certa. Acho que tentar conversar, colocar as cartas na mesa é uma boa. No fim, você sabia que ela podia estar omitindo coisas. Se não sabia, ou você é burro ou muito ingênuo mesmo. ― evitei me sentir ofendido por suas palavras, já que fazia sentido.
― Me sinto mal de ter dividido coisas pessoais da minha vida e ela não. ― , querido, entenda isso que vou te falar. Ela é mulher. Qualquer mulher em sã consciência não sai por aí contando a homens estranhos coisas pessoais de si própria. ― suspirou. ― Olha, talvez seja difícil pra você entender isso, mas nós mulheres temos uma lista de coisas que não fazemos, principalmente, se tiver um homem envolvido. Reconhecemos perigo mesmo em situações que pode ser que não exista. Entendo que você deve estar chateado por ela não ter te contado, mas também entendo as muitas razões que a levaram a escolher esse caminho.
― Você faz isso também?
― O que?
― Esconder algo?
― Depois que a Olli nasceu, comecei a pensar duas vezes sobre contar que tinha uma filha para os caras com quem eu saía. Parece algo absurdo, mas eu esperava pelo menos até o segundo encontro pra contar. Atualmente, já chego falando que tenho uma filha porque, se o cara achar que isso é um empecilho, talvez eu esteja me livrando de um empecilho maior ainda.
― Tenho certeza de que você não fala quem é o pai.
― Claro que não. Aí você já tá querendo demais. ― rimos.
― Tonya… ― a chamei depois de alguns segundos.
― Sim?
― Marquei a coleta de sangue pro exame pra depois de amanhã.
― Acho que posso levá-la até a clínica depois de amanhã também.
― Ótimo.
― Em quanto tempo sai o resultado?
― Em até duas semanas. ― podia vê-la balançar a cabeça do outro lado da tela. ― Você se sente mal por eu querer fazer?
― Não. Na verdade, há muito tempo tenho me preparado para isso. Se não fosse você a pedir, Olliver em algum momento pediria e eu nunca conseguiria negar para qualquer um dos dois.
― Sei que isso não era o que você queria.
― Pouco importa o que eu quero se essa decisão faz mal a alguém. ― respondeu baixinho. Mordi o lábio inferior sem saber o que lhe dizer.
Ficamos quietos pelo que pareceram décadas, todavia, tinha se passado, no máximo dois minutos.
― Se consegui resolver seus problemas com a sua garota virtual, acho que vou desligar. ― Tonya disse em tom de brincadeira.
― Tudo bem. Juro que envio a campanha até amanhã de manhã, ok?
― Nenhum problema. Até mais.
― Até. ― respondi e desliguei.
Por mais que fosse importante para nós três sabermos o resultado, Antonella parecia apreensiva com o que quer que pudesse acontecer pós-resultado. Eu também tinha medo, no entanto, evitava pensar sobre o assunto, mentalizando que tudo daria certo e que, afinal, nada iria mudar, certo?

Desde o dia que fizemos o exame de DNA, Antonella e eu tínhamos nos falado pouco, somente o necessário referente ao trabalho. Quando recebi a ligação informando que o resultado do exame já poderia ser retirado, avisei-lhe que iria até a clínica para pegá-lo. Mais do que depressa, Tonya disse que deveria esperá-la passar pela minha casa, pois queria ir junto.
Assim que estacionou em frente ao meu prédio, deu um toque no meu celular para que eu descesse. Coloquei comida para Five, uma máscara no rosto, tranquei a porta e saí. Desci as escadas o mais rápido que consegui, entrando no carro de Antonella ao avistá-la do outro lado da rua.
― Pronto? ― disse enquanto colocava o cinto de segurança.
― Acho que sim. ― falei e respirei fundo.
Dirigiu rumo à clínica, nós dois no mais profundo silêncio. Não sabia dizer o que estava acontecendo entre nós. Sempre tivemos tanto a dizer um ao outro e agora parecia que a quietude era nossa melhor escolha.
Ao estacionar em frente ao prédio, Antonella ficou me observando tirar o cinto de segurança e, antes que eu pudesse sair do veículo, colocou a mão em meu joelho.
― Espera. ― a olhei, esperando que dissesse o que queria. ― Antes que você vá, quero te dizer algo. Talvez eu seja completamente chata e redundante e você não me aguente mais falando isso, mas quero que saiba que esse exame não vai mudar nada pra mim. Você é e sempre foi o pai da Olliver. ― abraçou-me apertado, como fez quando descobriu que estava grávida, quando me disse queria o bebê e quando lhe disse que ela não precisava se preocupar, pois eu registraria Olliver como minha filha.
Desci do veículo um pouco abalado e sem muita certeza do que estava fazendo. Algo dentro de mim se remexia, como se estivesse me alertando das portas que eu estava tentando abrir e deveriam continuar do jeito que estavam, sem minha interferência.
Na recepção, falei que tinha vindo buscar o resultado e entreguei meu documento de identificação para que a recepcionista pudesse procurá-lo. Levantou-se da cadeira, entrando em uma porta atrás de si, voltando cerca de quatro minutos depois com um envelope em mãos. Entregou-me e agradeci, caminhando para a saída novamente.
Em minha curta caminhada, minha consciência parecia gritar comigo sobre o quão ruim seria se eu deixasse definir tudo o que tínhamos construído ao longo de anos com um “positivo” ou “negativo” escrito ao fim de uma página impressa. A única forma de evitar que isso acontecesse era fazendo o que decidi fazer assim que me sentei no banco carona, ao lado de uma Tonya que me encarava.
― E então? ― seus olhos eram pura ansiedade.
― Pega. ― entreguei-lhe.
― Ué, você não abriu? ― pegou o envelope, confusa.
― Não. ― fitei seus olhos. ― Não quero que o que tá escrito aí defina como devo ou não me sentir em relação a minha filha. Quero que fique com você. Se um dia Olliver quiser tirar essa dúvida, ela terá a resposta.
Com lágrimas que lhe transbordavam nos olhos, Tonya me abraçou apertado novamente. Retribui o abraço, afagando seus cabelos próximos a nuca. Quando desvencilhou-se de mim, segurei seu rosto entre as minhas mãos, dando uma boa olhada nela.
― Eu amo você e a nossa pequena família. ― as lágrimas escorriam pelo seu rosto uma a uma. Sequei-as com meus dedões e esperei até que se sentisse melhor para que fôssemos para casa.


#13

Seus olhos estavam cheios de arrependimento
(A Change of Heart - The 1975)


Perdi as contas de quantas vezes naquela semana digitei o número de para lhe telefonar e acabei de desistindo. Por alguma razão, me faltava coragem para ligar e perguntar o que queria. Sentia-me inquieto, tamborilando toda e qualquer coisa que estivesse ao alcance de minhas mãos e fumando o quinto cigarro seguido. Todavia, quando o celular começou a vibrar com “Clair” estampado na tela, senti como se pudesse sair correndo a qualquer momento só para poder evitar esse contato.
― Oi, . Por um minuto, achei que você não poderia me atender. ― sua voz demonstrava que estava dando um daqueles seus sorrisos expansivos e contagiantes.
? ― chamei-a com a voz mais firme do que gostaria.
― Nossa, você parece sério. Aconteceu alguma coisa?
― Por que você continua mentindo pra mim? ― automaticamente, ela ficou muda do outro lado da linha.
Resolvi não chamá-la novamente e esperei que me respondesse.
― Do que você está falando? ― sua voz soou baixa e tímida.
― Você sabe bem do que eu tô falando. ― rebati.
Traguei o resto do cigarro que estava entre meus dedos, esperando que ela mentisse novamente ou só mudasse de assunto.
― Você sabe sobre ?
― Sim. ― pude ouvi-la suspirar.
― Como descobriu?
― Acho que isso pouco importa, não?
― Olha, não era minha intenção que você descobrisse dessa forma. Quer dizer, eu… não achei que fosse de tanta importância. Pelo menos, não agora.
Fiquei absorvendo suas palavras durante uma nova tragada. Soltei a fumaça lentamente, sem saber o que lhe dizer ou se deveria dizer algo.
― Você está chateado?
― Não sei se essa é a palavra. ― bati o cigarro no cinzeiro para que as cinzas caíssem e dei uma última baforada antes de apagá-lo. ― Sabe, eu dividi coisas muito pessoais da minha vida com você porque achei que estivéssemos construindo uma amizade e, no fim, parece que só eu estava.
― Sinto muito. Não quis… ― deixou que a frase morresse sem finalizá-la.
― Não quero que você se sinta obrigada a me contar coisas que não quer dividir com um cara que acabou de conhecer, mas quero que seja honesta e me diga quando tá incomodada.
― Ainda quer ser meu amigo? ― tal questionamento fez com que me perguntasse o que eu realmente queria. Se éramos só amigos, por que me senti tão afetado por ela não ter me contado que já estava em um relacionamento?
― É, acho que sim. ― minha cabeça começou a rodar e se desfazer em indagações. A verdade é que nem eu mesmo sabia dizer se queria ser só seu amigo. ― Vamos negociar uma palavra-chave. Quando houver algo que não queremos dizer ao outro, podemos dizer sorvete. O que acha?
― É uma ideia um pouco infantil. ― arqueei as sobrancelhas. ― Mas eu gostei. ― riu.
― Ok. ― suspirei. ― Apesar de que não sei se ainda existe algo na minha vida que eu não queira te contar ou que você já não saiba. Não sou muito do tipo que guarda segredos.
― Não posso dizer o mesmo de mim.
― Naquela nossa primeira chamada de vídeo em que você desligou de repente foi por causa dele?
― É, mais ou menos.
― Ele não sabe também?
nunca está em casa. Ele nunca sabe de nada.
― Entendi. ― fiquei mudo durante algum tempo e, então, falei: ― Às vezes, tenho a sensação de que também não sei o que tá rolando dentro de mim.
― Tipo, não saber o que está sentindo?
― É. Parece que tá tudo misturado e confuso. Não consigo distinguir uma coisa da outra.
― Se quiser falar sobre…
― Sorvete. ― a interrompi. ― Além de que foi um teste pra saber se ia funcionar ou não, também não quero falar sobre isso. ― se começasse, teria que falar que essa confusão toda tinha a ver com ela.
― Ok, podemos fazer outra coisa.
― Tipo?
― Assistir um filme.
― Qual você sugere?
― O que acha de Homens, Mulheres e Filhos? Está na minha lista há algum tempo e eu finalmente consegui achar um link que funciona. ― já tinha assistido esse filme com Tonya umas quatro vezes, mas não diria isso a .
― Podemos ver sim. ― foi tudo o que respondi antes de receber por mensagem um link para assisti-lo online.

Era a primeira vez que me ligava em dias, mesmo depois de aparentemente termos nos entendido no que se referia ao fato de ela omitir um relacionamento de quase uma década.
― Antes de engatarmos uma conversa aqui e eu esquecer o que quero te dizer, por favor, me responde uma única pergunta. ― iniciei sem nem um “oi” ou “boa tarde”.
assentiu ajeitando os óculos, a face séria que andava aparecendo muitas vezes em nossas últimas conversas.
― Não quero soar invasivo nem nada do gênero, mas o que exatamente está acontecendo aqui, entre a gente? ― suspirei com um sorriso nervoso estampado no rosto. ― Desculpe, não gosto de soar assim, mas também não gosto quando não sei o que está acontecendo. Gosto de coisas bem definidas.
Parecendo confusa, colocou as mechas frontais de seu cabelo atrás de suas orelhas e posicionou-se de forma mais ereta possível em sua cadeira de escritório à frente do computador.
― Bom… ― sorriu. ― sua pergunta é, no mínimo, inesperada. ― uniu as mãos com dedos cruzados sobre a mesa, depois as pôs sobre o colo. Ela estava visivelmente incomodada. ― Não posso dizer que não é nada porque eu e você sabemos que seria mentira. Você chamou minha atenção desde a primeira vez que conversamos por mensagem. No começo, achei que pudesse ser uma espécie de efeito colateral do isolamento. A falta de convívio social com outras pessoas fisicamente tem me feito muito mal em vários sentidos. ― apoiou o rosto em uma da mãos cobertas pela manga do moletom preto que usava. ― Em você, vi a oportunidade de conversar com alguém que não fosse e sobre coisas as quais eu realmente queria falar. Não aguento mais falar sobre um casamento que eu não sei quando poderá ou se irá acontecer ou sobre como o trabalho consegue ser ainda mais entediante não podendo sair para espairecer de vez em quando. ― sorriu.
Acendi um cigarro enquanto ela fazia uma pausa, provavelmente, escolhendo suas próximas palavras.
― Não posso negar que sinto algo em relação à você. Não sei denominar isso. ― sorri e bati algumas cinzas no cinzeiro. Ouvir falar me deixava excitado, pois, na maioria das vezes, ela usava palavras que ninguém costuma usar em conversas do dia-a-dia. ― Sinto que talvez eu não consiga dar nome a esses sentimentos por não ter criado um laço que não seja cibernético. Nunca ouvi sua voz de uma forma que não reproduzida roboticamente nem senti seu cheiro. Não te toquei nem te vi frente a frente. ― suspirou. ― Além do mais, como você já bem sabe, estou em um relacionamento há quase sete anos, então… ― deixou no ar.
― Entendo. ― dei uma longa tragada no cigarro e continuei: ― Não é vantajoso trocar o certo pelo duvidoso, algo que você não tem certeza se vai dar certo ou não. Você está certa. ― falei o mais sinceramente possível, sorrindo em seguida para tirar o peso das palavras. ― Pelo menos, agora sei o que está rolando.
― Espero que isso não mude nada entre nós. ― sentou-se de maneira mais confortável na cadeira, com uma das pernas em frente ao seu peito e apoiando o queixo no joelho. ― Pensei que o fato de descobrir que Olliver realmente é sua filha mudaria algo entre você e Antonella. ― soltou, mudando completamente de assunto.
― Antonella, além de minha chefe, é minha melhor amiga há tanto tempo que nem sei dizer. Como se fosse minha irmã. ― apoiei o rosto na mão em que eu não estava segurando o cigarro. ― Não vou dizer que nunca me apaixonei por ela. Na realidade, quando eu era adolescente, ela era tudo o que eu mais queria. ― sorri ao lembrar-me de sua figura mais jovem. ― Pra falar a verdade, ela era tudo que qualquer cara queria. Inteligente, bonita, engraçada. Entendia muito de artes, mas também se dava muito bem com ciências. Era tipo a Hannah Montana e a Miley: o melhor dos dois mundos. ― a comparação a fez rir. ― Demorei muito até ter coragem de chegar nela pela primeira vez e, nessa época, eu já era adulto. ― rimos. ― Sempre tive muito medo de perdê-la, por isso, escolhemos não ter um relacionamento. Tonya é uma das únicas pessoas no mundo que faz com que eu me sinta amado sem precisar dizer uma única palavra.
Os olhos de tinham um brilho que parecia querer me dizer o quanto ela compreendia o que eu estava dizendo.
― Você e … como começaram?
― Nos conhecemos uma festa. Éramos os únicos deslocados lá. Fazia, sei lá, duas horas que eu estava bebendo a mesma lata de cerveja e tinha me perdido da minha colega de quarto. começou a puxar assunto comigo, trocamos telefone e ele me mandou mensagem no dia seguinte. ― sorriu.
― Quando foi que percebeu que estava apaixonada por ele?
― Não sei se esse momento existiu. ― desviou o olhar com uma feição pensativa. ― Digo, não que eu não tenha sentimentos por ele, é só que… nosso relacionamento sempre foi tranquilo. ― obviamente que eu não diria isso a ela, mas só de olhá-la contando fiquei entediado e me perguntei como alguém poderia viver durante sete anos em um relacionamento como aquele e não ficar entediado.
― Se ele te pedisse em casamento hoje, você ainda diria sim? ― minha pergunta parecia tê-la feito perder completamente as palavras. Seu rosto enrubesceu, ajeitou os óculos, colocou as mãos dentro das mangas do moletom, remexeu-se na cadeira. Sua figura nunca me soou tão desconfortável quanto naquele instante.
― Sorvete. ― foi tudo o que disse para encerrar o assunto.
― Admita, minha ideia não foi tão ruim quanto parecia, né? ― ri.
― Tenho uma pergunta. Por que, de repente, você parece tão curioso a respeito do meu relacionamento com ?
― É que você não fala muito dele. ― dei de ombros. ― Nas realidade, antes ele nem existia, né? ― sorri e pareceu ficar sem graça.
― Acho que não entenderia nossa amizade. ― franziu os lábios. ― Por isso, prefiro que ele fique fora de toda a minha bagunça.
― E não saiba nada sobre você? ― silenciou-se novamente. ― Sabe, , sempre acreditei que para manter relações precisamos ser honestos não só com as pessoas com quem nos relacionamos, mas com nós mesmos. Já parou para pensar que talvez você não esteja se escondendo do seu noivo e, sim, de você mesma? ― desviou o olhar para além da tela do celular. Odiava que fizessem isso, pois, assim, se tornava impossível saber o que a outra pessoa está olhando e se está olhando para algo.
Passou a língua pelos lábios, mordiscando o inferior vagarosamente, pensativa.
― Podemos não falar mais sobre isso?
― Sobre o que quer conversar, então?
― Na realidade, eu preciso trabalhar. Estou com a entrega de dois capítulos de um livro atrasados. ― deu um meio sorriso, ajeitando os óculos.
― Ok. Me ligue se precisar de algo ou só quiser jogar conversa fora. ― não iria insistir no assunto, muito menos para continuarmos conversando.
Mesmo que gostasse da companhia de e de como me sentia confortável em passar horas a fio conversando sobre assuntos aleatórios, não gostava da forma como ela se esquivava de toda e qualquer conversa séria sobre sua vida. Era como se a todo instante ela se recusasse a aceitar que está tudo bem não se sentir confortável ou satisfeita com a própria vida, como se tivesse algo errado em não ser feliz.


#14

Agora nós estamos fora da cidade e você está descendo
(Sex - The 1975)

Antonella


As notícias no jornal eram animadoras: a curva de infecção por covid-19 já era praticamente inexistente, as vacinas estavam prontas para começarem a ser distribuídas, sendo que as pessoas em grupos de risco seriam as primeiras a serem imunizadas. Assim que li a tal notícia no jornal do dia, mandei foto para . Fazia quase um ano e um meses que não saía mais de casa nem para trabalhar, apenas fazer compras, ir ao médico ou levar o gato ao veterinário ― isso quando eu não o fiz.
Para comemorar, aproveitamos que Olliver estaria o fim de semana inteiro no torneio de handebol na cidade vizinha e marcamos de irmos de madrugada à um mirante ao fim da estrada saindo da cidade para comer besteira e beber vinho, como fazíamos quando éramos universitários.
A temperatura estava amena, o que me permitia vestir apenas um vestido de lã com mangas compridas e um tênis. Tomei um banho rápido, me vesti e fui até a cozinha pegar duas garrafas de vinho, coloquei-as dentro de uma ecobag e procurei pelas chaves do carro. Sempre as perdia quando estava prestes a sair.
Na garagem de casa, percebi que tinha esquecido o celular. Voltei correndo para buscá-lo. Entrei no carro, colocando a bolsa no banco de trás, conectei o bluetooth do celular com o som do carro, pus uma playlist aleatória e saí em direção a casa de .
Quando cheguei ao prédio, ele já me esperava do lado de fora, encostado no portão, mexendo no celular. Era a primeira vez em muito tempo que nos víamos do lado de fora e sem máscaras. Seus olhos se iluminaram ao sorrir em minha direção.
― Demorei muito? ― perguntei enquanto ele sentava e colocava o cinto de segurança.
― Claro que não. Trouxe o vinho?
― Você só se alimenta de comida de restaurante? ― ironizei. ― O que vai querer comer?
― Batata frita.
― Obrigada por ler minha mente. ― rimos.
― Olli me mandou mensagem mais cedo, dizendo que estava nervosa com o jogo.
― Ela me disse isso também.
― Disse a ela que não importa o resultado do jogo, o importante é que ela dê seu melhor. ― sorriu.
― Por que não te deixei ser o pai dela antes, hein? ― rimos.
― Você estava ocupada tentando ser a melhor mãe que consegue pra ela.
― Você sabia que a coisa que eu mais odeio depois de feminista liberal é homem puxa-saco? E olha que os dois a 80 km/h eu não sei dizer quem é pior. ― riu.
― Eu realmente acredito nisso, não se preocupe.
Paramos em um drive-thru para comprar as tais batatas fritas. Pedimos quatro pacotes grandes e retomamos nosso rumo assim que recebemos o pedido.
Ao chegarmos no mirante, abri as janelas do carro, aumentei o volume do som que ainda tocava músicas aleatoriamente, pegamos as batatas e abrimos uma garrafa de vinho. Descemos do veículos e nos encostamos no capô com nossas batatas fritas e o vinho, observando a cidade abaixo de nós.
― Tive saudade de vir aqui. ― confessei colocando uma batata na boca.
― Fazia quanto tempo?
― Uns dois anos, quando sua mãe veio te visitar e ficou com Olli à noite.
― Temos que fazer isso mais vezes.
― É. ― limpei a mão em um guardanapo para poder pegar a garrafa e beber.
― Como estão seus dias? ― encheu a boca de batatas.
― O que é isso? Uma sessão de terapia? ― rimos. ― Bem, eu acho.
― O que tá rolando? ― limpou as mãos e pegou a garrafa de vinho, bebendo um gole grande. Aproveitei para comer mais um pouco.
― Não sei. Esses últimos meses tem sido… solitários. Sem você, parece que não conheço ninguém. ― dei um sorriso sem humor. ― Quer dizer, eu já não tenho família, tipo mãe e pai, e, quando me questiono quem são meus amigos, eu não sei. ― dei de ombros. ― Sem contar que sou uma mulher sem hobbies. Já tentei inclusive ser aquelas mães que se voluntaria pra coisas na escola ou pro time da Olli.
― Tonya, convenhamos que você não faz muito o tipo que gasta um sábado a tarde fazendo sanduíches pra garotinhas de sete anos, né? ― rimos.
― Tentei um clube do livro também.
― Mas você odeia livro de romance.
― Argh, eu sei. ― esbravejei.
― Sei que você odeia quando te sugiro isso, mas se aproximar de quem trabalha pra você não é uma péssima ideia.
, a pessoa mais velha que trabalha lá depois de você tem 21 anos e acabou de sair da casa dos pais. ― debochei.
― Não é bem por isso que você não se dá bem com eles. ― deu mais um gole no vinho. ― Georgie é uma ótima pessoa, por exemplo. Sei que ele tem sido útil pra você. ― piscou um dos olhos para mim.
― Como sabe disso?
― Tenho meus próprios informantes.
― Georgie é um traidor.
― Na verdade, eu é que deveria acusá-lo. Ele era meu informante muito antes de ser seu. Enfim, o que quero dizer é que nunca é tarde para fazer amigos. ― peguei a garrafa de sua mão e bebi um gole grande, colocando-a no chão para que pudéssemos encerrar nossa batatas. ― O que você precisa é ter um hobby. O que tá gostando de fazer nos últimos tempos?
― Trabalhar me acalma.
― Que não seja trabalhar. E você não fica nem um pouco calma enquanto trabalha. ― botou a última batata na boca, amassando o pacote em seguida. ― O que você precisa é algo que possa ser feito manualmente. Trabalhos manuais acalmam. ― lancei um olhar safado para ele. ― Algo além de sexo, Tonya. ― riu. ― Lembra que você me disse que queria aprender a fotografar? Vi esses dias uma turma de fotografia analógica com matrículas abertas.
― Fotografia analógica? , onde vou usar isso? ― franzi as sobrancelhas.
― Os princípios da analógica e da digital são os mesmo. É só porque a analógica tem trabalhos manuais envolvidos. ― costumava gesticular muito quando falava de algo que gostava e meu cérebro parava de focar em suas palavras, me condicionando a ficar excitada com qualquer resquício de paixão que demonstrava enquanto explicava cada pequeno detalhe.
Mordi meu lábio inferior tentando reprimir a vontade de fazer “trabalhos manuais” com ele.
― Você vai querer?
― O que? ― voltei a prestar atenção.
― Se inscrever.
― É, vou. Parece legal.
― Vou mandar mensagem pro Tim.
― Quem é Tim?
― O professor da turma que eu te falei.
― Como você o conheceu?
― Numa exposição fotográfica em um bar, há uns dois anos.
― Ok. Mas não mande mensagem pra ele.
― Por quê? É só pra garantir sua vaga.
― Quero conseguir sozinha. Sem ser a amiga de um amigo, que vira a queridinha do professor.
― Não que você não goste de ser, né? ― debochou.
― Calado. ― dei uma cotovelada leve em suas costelas, segurando o riso.
Abaixei-me pra pegar a garrafa no chão e bebi. Não sei como, entretanto, já tínhamos praticamente tomado o vinho inteiro, faltava apenas dois dedos, que bebeu quando lhe passei a garrafa.
― E a sua garota lá?
― Ela não é minha garota. ― colocou a garrafa no chão novamente.
― Ok, então, a garota que não é sua. Como ela está?
― Bem, acho. Faz uns dias que não nos falamos.
― Aconteceu alguma coisa? ― questionei enquanto ia até a porta traseira do carro para pegar a outra garrafa de vinho.
― Acho que falei algo que não deveria.
― Tipo?
― Ela me contou que o noivo não sabe que conversamos, perguntei por que e ela só disse que ele nunca sabe de nada por nunca estar em casa. Óbvio que era uma desculpinha qualquer só pra mudar de assunto. Então, disse a ela que talvez ela não estivesse enganando ao noivo e, sim, a si mesma com toda essa história. ― franzi os lábios, tentando sacar a rolha.
tomou a garrafa das minhas mãos e arrancou a rolha sem muito esforço, dando o primeiro gole. Ao me entregar, tateou os bolsos até encontrar seu maço de cigarros e isqueiro.
― Não acha que pegou um pouco pesado? ― deu de ombros. ― Sabe, vocês se conhecem faz pouquíssimo tempo. ― dei uma golada na bebida.
― Pode até ser, mas me enlouquece o fato de ela tentar a todo custo fazer com que eu não faça parte da vida dela.
― E você quer? ― olhei-o acender o cigarro e dar a primeira longa tragada.
― O que?
― Fazer parte da vida. A de verdade, não a que ela inventou pra te encaixar.
― Não sei se quero ser parte de uma vida onde não sei os limites da realidade. Entendo que existem coisas que ela não quer compartilhar comigo e respeito isso, mas não quero ser parte de uma fantasia. ― suspirou antes de pôr o cigarro novamente na boca, puxando a fumaça e soltando-a devagar. ― Gosto de gente de verdade e que não tem medo de ser de verdade.
Observei-o fumando. Estávamos no mais completo escuro, não fosse pelas luzes da cidade abaixo de nós, mas, ainda assim, conseguia ver sua silhueta ao redor da pequena brasa, que se iluminava mais forte a cada tragada. Os cabelo um pouco mais bagunçados que o normal denunciavam que hoje tinha sido seu dia de lavá-los. As bolsas abaixo dos olhos continuavam ali e finalmente ele tinha ganhado alguns quilos, fazendo seu corpo inteiro parecer mais viçoso que antigamente.
― Adoro quando você fica me olhando assim achando que eu não to te vendo me olhar. ― riu, ainda olhando para o horizonte à nossa frente.
Bebi dois goles grandes e seguidos de vinho. Minha garganta já estava um pouco amortecida, fazendo com que o excesso de álcool não a queimasse. O que queimava mesmo eram as minhas bochechas, parte pelo rubor de ser pega o encarando, parte por já começar a me sentir “alegre”.
― Você é muito narcisista, por isso achou que tava te olhando, quando não tava.
― Não é nada disso. Você me ama, só não quer admitir. ― estreitei o olhar em sua direção, mostrando-lhe a língua, abraçada com a garrafa de vidro.
botou a mão no gargalo para pegá-la e eu a soltei. Fiquei olhando o contorno de sua boca em volta do bico da garrafa sem conseguir evitar pensar no quanto queria estar beijando sua boca naquele exato momento, o que eu não deveria fazer, visto que havia prometido para mim mesma que não o faria mais. era como se fosse meu irmão e estava começando a gostar de outra mulher, ou seja, eu não deveria interferir no processo.
Todavia, ao mesmo tempo em que queria deixar que ele seguisse em frente com o que quer que estivesse sentindo em relação à Clair/, não queria perdê-lo. E, quando digo perdê-lo, não falo de sua presença em minha vida e, sim, de tudo o que vinha junto: seu toque, seu cheiro, seu beijo…
― O vinho tá batendo legal, né? ― riu, apagando o cigarro na sola do sapato e colocando a bituca dentro da garrafa vazia que estava no chão.
Pus a mão em sua nuca, puxando-o contra meu corpo e selando nossos lábios demoradamente.
Quando nos desvencilhamos, trocamos olhares entre nossos lábios e nossos olhos, tentando compreender o que acabara de acontecer. Ao fundo, começou a tocar uma da minhas músicas preferidas. [n/a: coloca pra tocar essa música ao fundo]
― Senti saudades de te beijar aqui. ― sorriu, as mãos postas em minha cintura.
Afastei uma mecha de seu cabelo que lhe caía sobre o rosto, colocando-a atrás de sua orelha. Fitando-o de perto ficava muito fácil entender por que todas as estagiárias faziam o máximo de esforço para serem notadas por ele.
nunca foi o tipo de homem esplendorosamente bonito. Sua beleza era até bem normal, no entanto, haviam outros fatores que chamavam atenção nele, como seu jeito de sorrir, a forma como seus cabelos pareciam sempre propositalmente bagunçados e seu corpo permanentemente cheirando a uma mistura de sabonete de bebê e cigarro. O rosto com ar de cansado era seu charme a parte.
― Tava aqui pensando uma coisinha. ― quase sussurrei a centímetros de seu rosto, sem desgrudar os olhos de sua boca. ― Já que estávamos falando tanto de trabalhos manuais, tem um que acho que seria perfeito pra fazermos aqui e agora, às ― olhei relógio em meu pulso. ― 1h27 da madrugada.
― Acho que você vai ter que me explicar porque não sei do que você está falando. ― passou a língua pelo lábio inferior, mordendo-o em seguida.
Fiz com que ele encostasse as pernas no capô do carro, desvencilhando-me de seus braços para abrir seu cinto, tarefa que se tornava ainda mais difícil no escuro.
Mesmo vendo minha dificuldade, não se intrometeu. Ele sabia o quanto eu odiava receber reforço em momentos como aquele, pois sentia que estava acabando com toda a atmosfera de sensualidade.
Assim que consegui abrir sua calça, abaixei-me a sua frente e tirei seu pênis de dentro da cueca. Comecei chupando vagarosamente a cabeça, envolvendo-a com a língua, fazendo com que ele se apoiasse com as mãos no capô do carro.
Olhei para cima em busca das reações estampadas em seu rosto. Seus olhos estavam fechados, a boca entreaberta e a cabeça um pouco inclinada para trás. Até que resolvi colocá-lo um pouco mais fundo, dando início a movimentos de vai e vem e tudo que pude ouvir em resposta foi:
― Puta merda! ― em uma voz rouca e falha.
Não contive um sorriso, sem parar o que estava fazendo, porém não demorou para que pusesse a mão em meu ombro, tirando seu membro de minha boca em seguida. Inclinou-se para frente e me beijou, segurando meu rosto pelo queixo. Seus lábios tinham gosto de álcool, uva e nicotina, a língua quente dançando em minha boca me deixava um desorientada.
ajudou-me a levantar, passando a segurar meu rosto entre suas mãos e voltando a me beijar de forma intensa, mas sem pressa. Deu passos para frente, pouco a pouco, empurrando meu corpo em direção ao capô do carro. Logo, era eu quem estava com uma das pernas apoiadas ali.
Suas mãos desceram até a barra de meu vestido, subindo-o lentamente enquanto selava nossos lábios. Reprimiu uma risadinha ao ver o que lhe esperava.
― Você já tava planejando isso? ― apontou com o queixo em minha direção, sinalizando que eu estava sem calcinha.
― Claro que não. ― ri, marota. ― Sabia que faz bem não usar calcinha? ― ele riu.
― Safada e saudável. Que outra qualidade sua eu ainda não conheço, Tonya?
― Chega mais perto que eu te mostro. ― puxei-o pela lapela da jaqueta para mais um beijo.
Senti uma certa cabecinha roçando em minha vagina e não pude conter o gemido baixinho que escapou por entre meus lábios. Isso foi suficiente para seu beijos descerem de minha boca para meu pescoço, fazendo-me arfar a medida que senti sua língua em determinados pontos, intercalando com leves mordidas. Sem querer, fui deixando meu corpo cair para trás, até que minhas costas encostassem na lataria do carro. Provavelmente, me arrenpederia amanhã de manhã de ter ficado nessa posição.
Com os olhos fechados e totalmente entregue às sensações, senti meu corpo ser penetrado por , agora, levemente inclinado em minha direção. ― Não feche os olhos. Gosto como você fica me encarando. ― sorriu, entrelaçando os dedos das suas mãos nos das minhas, movimentando-se devagar dentro de mim.
Abri os olhos para fitar os seus.
Soltou uma de sua mãos e passou a estimular meu clitóris.
Ao mesmo tempo em que eu queria muito gritar um “SEM CONDIÇÕES, MEU FILHO, TÔ FALECENDO AQUI”, meu cérebro e minha boca pareciam desconectados, não conseguindo formar uma frase inteligível que fosse. Da minha parte, eram apenas gemidos cada vez mais altos. Um calor insuportável tomando conta do meu corpo inteiro, bem como, podia ver pelo suor se formando em seu rosto, que, provavelmente, também estava se sentindo assim.
Não era como se ele estivesse gemendo, era muito mais uma respiração alta e profunda, como se estivesse fazendo algum exercício de meditação um pouco mais… agitado. Seus movimentos eram rápidos e precisos até que diminuiu a velocidade, saindo por inteiro e entrando novamente.
Resmunguei alto em protesto e tentei soltar a mão, cujos dedos dele ainda estavam entrelaçados, para lhe agarrar pela cintura e eu mesma aumentar a velocidade. prendeu meus pulsos com suas mãos, usando um pouco mais de força que o habitual. Depois disso, voltei a senti-lo entrar em sair, cada vez mais ágil, fazendo-me revirar os olhos.
Perdi o total controle de meu corpo, que formigou, se contorceu e enrijeceu até que eu desfalesse em um orgasmo delicioso.
saiu de dentro de mim segundos antes de gozar, o que comemorei mentalmente cerca de dois minutos depois.
Endireitei minha postura, ainda sentada sobre o capô e fui tomada por um abraço. Naquele instante, o tempo pareceu parar diante de nós. Eu só consegui envolver sua cintura com meus braços e encostar minha cabeça em seu peito, sentindo o cheiro de amaciante do suéter que usava embaixo da jaqueta. Queria me afundar e me misturar naquele cheiro até não sobrar mais nada de mim, até que eu não lembrasse mais meu próprio nome.
― Queria que isso durasse pra sempre. ― sussurrou antes de um suspiro, com o queixo apoiado sobre a minha cabeça.
Ouvi as batidas de seu coração começarem a se normalizar.
― Nós somos para sempre. E vamos durar. ― apoiei meu queixo em seu tórax para olhar em seu olhos.
Sorriu para mim e senti como se toda a escuridão que nos rodeava tivesse ido embora.


#15

Eu não posso existir dentro da minha cabeça, então, eu insisto em assombrar a sua cama
(Haunt // Bed - The 1975)


Abri meus olhos, mas demorei alguns segundos para entender onde estava. Dentro do carro de Antonella. Ela estava dirigindo e, eu, com o banco um pouco reclinado, fazia minha jaqueta de coberta.
― Onde estamos indo?
― Pra minha casa. É mais perto daqui e pensei que você pudesse querer tomar um café da manhã de verdade e não só o café preto, feito por uma máquina. ― ri.
Antonella dirigia cantando baixinho e batucando no ritmo da música com o dedão no volante. A silhueta de seu rosto era iluminada pela fortíssima luz do sol que entrava por sua janela. Seus olhos estavam avermelhados de cansaço e sono, entretanto, ela ainda continuava linda.
― Adoro quando você fica me olhando achando que eu não tô te vendo me olhar. ― desvio olhar da estrada rapidamente para me olhar e sorrir.
― Você é muito narcisista mesmo, né? ― ri.
Nos minutos que se seguiram até sua casa, permanecemos em silêncio. Vez ou outra a vi me olhar de soslaio, enquanto que eu a observava descaradamente
Antonella já não era mais aquela menina que conheci nos corredores da escola e vi jogar em todas as finais do campeonato de futebol feminino, porém seu jeito ainda me lembrava muito esses tempos. E, Deus, ela só ficava cada vez mais bonita conforme o tempo passava.
― Tá me olhando demais. ― disse abrindo a porta do carro, após estacioná-lo em sua garagem.
― Nem tô nada. ― disfarcei, saindo do veículo.
― Aham, tá bom. Vamos, tô morrendo de fome já. ― abriu a porta da casa, nos encaminhando diretamente para a cozinha.
Tonya adentrou o ambiente já o preenchendo com uma música saindo de uma caixinha de som, tirando várias alimentos de dentro dos armários e da geladeira. Diferente de mim, ela ainda passava o café manualmente por achar que o “gosto era mais caseiro”. [n/a: coloquem pra tocar essa música]
Durante nossa refeição, em diversos momentos, tive a sensação de que ela gostaria de me dizer algo, mas não questionei. Esperei que ela conseguisse verbalizar sem ser pressionada para isso.
...
― Sim? ― larguei minha xícara sobre a mesa, esperando que me dissesse o que tinha em mente. Pela sua cara, não deveria ser algo bom.
― Acho que deveríamos parar.
― Com o que? ― suspirou.
― De transar. ― inclinou-se sobre a mesa. ― Não acho que continuarmos assim seja justo comigo ou com você. ― senti o sangue se esvair do meu rosto devido ao choque.
― Eu fiz algo errado? ― minha voz saiu tão baixa que tive certeza que mais um pouco começaria a miar como um filhote de gato pedindo leite.
― Não tem nada a ver com ter feito algo errado. É sempre incrível quando faço sexo com você porque é como se você conhecesse meu corpo como a palma da sua mão… ou como se esse fosse o seu corpo. ― franziu o cenho. ― Eu só… não quero mais misturar as coisas. ― colocou a mão sobre a minha. ― Você é meu irmão e está começando a gostar de outra pessoa. Não quero te confundir nem te atrapalhar.
― Mas você não me atrapalha em nada.
, por favor, não dificulte as coisas. ― tirou a mão da minha, cruzando os braços sobre a mesa.
Tinha algo de errado em todo o seu discurso.
― Por que não me diz logo a verdade? ― passou a língua pelos lábios, umedecendo-os. ― Até onde eu sei, você ainda pode confiar em mim.
Tonya passou as mãos pelo rosto, abaixando-as novamente e colocando sobre a mesa novamente.
... eu não quero mais ser a pessoa que acorda na cama de alguém que sente algo por uma terceira pessoa. Você quer um relacionamento e eu não. ― deu um meio sorriso tímido. ― E você não pode negar que sente algo pela . Talvez devesse investir em você dois.
tá quase se casando, Tonya. Não quero ser o tipo de cara que estraga o relacionamento alheio.
― E eu não quero ser a mulher que alimenta esperanças alheia. ― arrumou a postura, ficando ereta. ― Podemos não falar mais sobre isso? ― seus olhos pareciam mais avermelhados que anteriormente, como se estivessem prestes a produzir quantas lágrimas conseguissem. ― Tô tão cansada. Acho que vou deitar.
― Se importa se eu for junto? Como nos velhos tempos? ― complementei o pedido com uma segunda parte para que ela soubesse que não havia malícia em minha pergunta.
Antonella assentiu, caminhando, em seguida, rumo ao seu quarto, no segundo andar da casa.
Entrando no cômodo, tirei os sapatos, o cinto e a jaqueta, sentando-me em sua cama, observando-a tirar seus sapatos, o relógio e pegar seu pijama. Foi até o banheiro, voltando alguns minutos depois já devidamente vestida.
― Vou deixar você dormir no canto com uma condição. ― disse, amarrando os cabelos em um rabo de cavalo. ― Que você faça a conchinha maior até eu dormir.
― Mas isso é completamente injusto. ― protestei em um tom brincalhão. ― Você é mais alta que eu, deveria ser você a conchinha maior.
― Mas quem tá triste sou eu. ― enfim, assumiu o que estava sentindo.
Dei um meio sorriso e a ajudei organizar as cobertas.
Deitei-me primeiro e, assim que ela também se deitou, cobri nossos corpos, abraçando-a pela cintura e moldando meu corpo ao seu, pelas suas costas.
Seu cabelo tinha um cheiro delicioso de camomila e seu corpo ostentava o mesmo perfume que usava quando éramos adolescentes. As pontas dos dedos de uma de suas mãos, posta sobre a minha, acariciava-me, dando um pouco mais de seu toque macio. Senti seu corpo tremer sob o meu, como se estivesse soluçando.
Não demorou até que percebesse que Antonella estava chorando, daquele seu jeito: baixinho, poucas lágrimas, os calafrios percorrendo o corpo, tentando não afetar ninguém, muito menos a mim, com sua tristeza. Não havia nada que eu pudesse dizer que a fizesse se sentir melhor. Não sabia dizer nem mesmo se eu era o motivo daquele choro.
Tudo que fiz foi lhe aconchegar em nosso abraço, ouvindo-a murmurar:
― Promete que não vai me abandonar?
― Nunca. Jamais. Eu sempre vou estar aqui.


#16

E por que você acreditaria que pode controlar a forma como é vista?
(Sincerity is Scary - The 1975)



As notícias de uma vacina foram muito bem recebidas em minha casa. ficou extremamente contente de saber que poderíamos planejar nosso tão adiado casamento. Já eu, fiquei feliz que poderia voltar para sua casa em breve.
Quase todas as manhãs em que meu noivo estava em casa eu ficava inquieta, pois ele era o tipo de pessoa que me deixava assim. O assunto da vez era que gostaria de receber a visita de sua mãe em minha casa e ele não parava de planejar onde ela dormiria, como a buscaríamos e o que faríamos durantes quase três dias em que ela ficasse hospedada conosco.
. ― o chamei, finalmente parando de olhar para a xícara de chá em minhas mãos e olhando em seus olhos.
― O que foi, docinho? ― deu uma mordida em uma fatia de pão.
― Só tem um problema em todo esse planejamento.
― Qual é? ― bebeu um gole de suco, sem tirar os olhos de mim.
― Você não me perguntou se por mim tudo bem sua mãe vir.
― Mas tudo bem, não é? ― a capacidade que ele tinha de deduzir algo e tornar uma verdade antes mesmo de confirmar me irritava de uma forma ainda não descrita na história da humanidade.
― Não. ― era uma das primeiras vezes que conseguia ser firme ao contradizer .
O homem à minha frente franziu as sobrancelhas, não escondendo a surpresa ao processar minha monossílaba negativa.
― Por quê? ― sim, era muita cara de pau da parte dele me perguntar isso como se não houvessem motivos aparentes.
― Bom, primeiro que, mesmo que tenham anunciado uma vacina e uma redução da curva de contágio, ainda precisamos respeitar o isolamento social na medida do possível, pois caso não se lembre eu tenho problemas respiratórios. Segundo que a sua mãe não gosta tanto assim de mim pra ficarmos quase três dias sob o mesmo teto. ― suspirei. ― Por último, mas não menos importante, até onde eu sei, esta é a minha casa. ― enfatizei o pronome possessivo. ― Acho que o mínimo que você poderia fazer era, antes de convidar a sua mãe e planejar a estada dela aqui, me perguntar se tudo bem pra mim.
Seu olhar era um misto de espanto e descontentamento. Se em algum momento ele estivera empolgado e falante naquela manhã, agora se encontrava mudo e sisudo.
― Eu achei que… ― deixou a frase morrer antes de concluir seu pensamento. ― Quer saber? Deixa pra lá.
Continuei a mirá-lo. Levantou-se, tirou seu prato com farelos e seu copo da mesa, colocando-os na pia. A louça que ele não iria lavar.
― Então, é assim que vai ser? ― questionou de costas, sem me olhar.
― Vai ser o que?
― Quando nos casarmos. Você vai agir como se tudo fosse seu?
― E você vai agir como se a minha opinião não importasse pra nada? ― rebati, sem refletir muito sobre.
― Você acha que eu faço isso? ― virou-se em minha direção, os olhos pareciam decepcionados.
― Você faz mais do que imagina. ― levantei da mesa e pus a xícara sobre a pia, ficando de frente para ele. ― Não estou pedindo nada absurdo, apenas que você entenda que eu também tenho direito a opinar sobre as coisas, de me sentir desconfortável em determinadas situações, com determinadas pessoas, que eu também tenho direito ao meu espaço pessoal.
― Mas eu nunca disse que você tem que concordar com tudo que digo muito menos invadi seu espaço.
― Tem certeza? ― arqueei as sobrancelhas.
― Você acha que é perfeita? Você não faz o menor esforço pra disfarçar seu desprezo pela minha presença. Nunca quer fazer nada comigo. Na verdade, não sei nem se você ainda me ama ou se algum dia me amou.
― Se eu aceitei me casar com você é porque, sim, eu te amo, mas eu não tenho como passar por cima do fato de que você não está nem se esforçando para me respeitar e respeitar minhas decisões. ― suspirei. ― Quando você está em casa, não lava a sua própria louça, mesmo que seja a única na pia, não guarda suas roupas nem as põe para lavar. Você ouve música alta mesmo quando estou trabalhando e eu preciso de silêncio para trabalhar! ― elevei o tom de voz, atitude que nunca tomava.
― Quando digo que você nunca quer fazer nada comigo, falo até de antes do isolamento. Você nunca queria sair, quando saía, sempre reclamava. Quando era na companhia dos meus amigos, você ficava emburrada a noite toda, como se estivesse lá forçada ou coisa que o valha!
― Porque seus amigos são uns idiotas e eu não sou obrigada a gostar deles! ― rebati. ― Se você quer sair com eles, por mim, tudo bem. Só não quero ter que ir junto. Não quero estar na presença de gente que faz chacota com a minha raça, com a minha aparência, com meus costumes!
― Era só brincadeira.
― Fale por você.
― É por isso que ninguém gosta de você! ― alterou-se e aquela foi a gota d’água para mim.
Passei por ele, esbarrando em seu ombro, caminhando em direção a porta.
― Onde você vai?
― Pra mim, já chega. ― peguei meu celular sobre a estante de vinis na sala, as chaves do carro e da casa na tigela onde as deixávamos e saí.
Não sabia exatamente onde ir, então, dirigi sem um rumo certo pela cidade.
Decidi por estacionar em frente à praça no centro da cidade. Fiquei dentro do veículo, pois na rua parecia estar muito frio e eu não estava agasalhada o suficiente. Liguei o aquecedor do carro, peguei o celular em mãos, digitando o número de o mais rápido que consegui. Por algum motivo, seu número de telefone foi o único durante toda a minha vida que fui capaz de decorar.
? ― atendeu com uma voz confusa, mas, ao mesmo tempo, sonolenta. ― Oi, . ― o sorriso que meus lábios formaram foi inevitável.
― Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
― Como você sabe?
― Você sempre pergunta se pode me ligar antes de fazê-lo, então, essa é a situação atípica. ― já estávamos na fase em que eu conseguia visualizar sua expressões faciais enquanto falava.
― Vai soar estranho se eu disser que talvez você seja a única pessoa que me veio a cabeça parar ligar e que não iria invadir minha privacidade?
― Talvez você precise de novos amigos. ― rimos.
― É por isso que você é uma da melhores pessoas pra ligar nesses momentos. Menos de dois minutos de ligação e já estou rindo. ― tirei o celular da orelha e coloquei-o no viva-voz. ― O que aconteceu de novidade nesse tempo em que não nos falamos? ― desconversei.
― Bom, lembra que te contei sobre Tonya e eu termos decidido fazer o exame de DNA para saber se Olliver era mesmo minha filha?
― Sim. E aí? É ou não?
― Na realidade, eu não sei. Peguei o resultado e entreguei para Tonya. Pedi que guardasse para caso algum dia Olliver quisesse saber.
― Você não o abriu?
― Não. Quer dizer, no fim, não faz diferença. Fui eu quem fiquei acordado durante várias noites para fazer aquela garota dormir. ― riu.
― Antonella tem muita sorte de ter você. ― sorri.
― Talvez eu tenha muita sorte de ter ela.
― Ou… talvez vocês tenham sorte de ter um ao outro. ― sorri, apesar de ter ficado triste ao concluir que eu não tinha ninguém.
Pensando bem, estava certo.
Ninguém gostava de mim. Não a ponto de estar lá quando precisava de colo.
? ― o chamei depois de alguns segundos de silêncio.
― Diga.
― Acho que vou desligar.
― Tem certeza? Você tá bem?
― É, vou ficar. Só… preciso ir em um lugar.
― Ok. Sabe que se precisar, estou disponível. Não precisa me avisar que vai ligar, tá?
― Sabe que não precisa fazer isso, certo?
― Mas eu quero. Somos amigos, né?
― Somos? ― duvidei um pouco. Pelo que consegui achar sobre ele em suas redes sociais, era um cara que, provavelmente, em seus tempos de escola, era descolado. Não se parecia em nada com o estereótipo de pessoa que concordaria em ser minha amiga.
― Claro que somos. A não ser que você não queira ser minha amiga.
― É claro que eu quero. ― sorri.
― Ótimo. Nos falamos mais tarde, então?
― Sim. ― mordi o lábio inferior, incerta se seria eu a puxar conversa de novo ou ele. ― Até mais.
― Até.
Desliguei e, após largar o celular sobre o banco do passageiro, girei a chave na ignição, ligando o carro e parti em direção à casa da única pessoa a quem eu poderia recorrer em tempos não tão fáceis.

― O que você tá fazendo aqui? ― foram as primeiras palavras a saírem da boca da mulher que tinha a minha cara e dividira um útero comigo por nove longos meses.
― Boa tarde pra você também, . Tudo bem com você? ― ironizei.
― Entra, tá muito frio aí fora. ― abriu mais a porta para que eu pudesse passar por ela.
― Como você está?
― Bem. Quer dizer, tão bem quanto uma stripper desempregada pode estar.
― Está mesmo decidida a procurar um emprego normal? ― sentei-me no sofá.
― É. Cansei dessa vida de velhos babões que pagam uma fortuna pra uma novinha qualquer dançar. E, sinceramente, conforme a idade vai batendo, a profissão vai perdendo o seu valor. ― sentou-se ao meu lado com uma xícara nas mãos. ― Quer chá?
― Não, obrigada.
― O que te traz aqui?
e eu brigamos.
― E vocês tem força pra isso? ― debochou. ― Não leva a mal, irmãzinha, mas vocês são o casal mais sem graça que o universo já viu.
...
― Eu sei, eu sei. Mas você deveria aproveitar essa sua fase bad girl do cabelo azul pra ver se arranja uma coisinha melhor, né? Por favor, você é gostosa demais pra um bunda mole branco daqueles. ― bebeu seu chá.
Odiava o linguajar que usava para elogiar ou ofender as pessoas. Ela era uma das pessoas mais linguisticamente vulgares que conheci em toda a minha vida.
― O que aconteceu dessa vez?
planejou que sua mãe viesse passar um fim de semana na minha casa sem ao menos falar comigo antes, como se aquela fosse a casa dele de verdade.
― E você sabe que um dia vai ser, né? Digo, vocês ainda vão se casar.
― É, eu sei, mas não agora.
― Então, quando? Não falo só do casamento, mas quando você pretende deixar que o cara com quem você sustenta uma relação há quase sete anos passe a compartilhar efetivamente coisas com você, tipo casa, carro, móveis? ― sem saber o que responder, escolhi o silêncio. ― Acho que a sua resposta fala muito sobre o que você tá sentindo, né? ― bebericou seu chá, que ainda fumegava.
Desviei o olhar de e apoiei minhas costas no sofá.
― Sinceramente, não sei o que você tá esperando pra investir naquele seu amigo virtual gostoso. ― largou a xícara sobre a mesa de centro, colocando uma perna sobre o estofado e apoiando um dos braços por cima do sofá para poder me olhar diretamente.
― Não sei do que você está falando. ― estremeci por dentro em curiosidade. Como ela sabia sobre ?
― Ai, por favor, , não se faça de sonsa. Vai dizer agora que você não tem um amigo virtual bonitão? Vou até descrever ele pra você ver que eu o conheço. Ele tem o cabelo preto enrolado meio compridinho, magro, alto, geralmente usa preto, é fumante, às vezes, ele usa óculos…
― Tá, tá. Você o conhece. ― interrompi-a, virando para ela. ― Mas como?
― Ele mora no apartamento 95. ― respondeu casualmente.
― Como assim? ― tinha quase certeza de já ter entendido do que ela estava falando, porém preferia confirmar, ouvindo-a falar.
― Ele é meu vizinho, ué. Mora no andar de baixo. ― deu de ombros, como se fosse o fato mais óbvio do mundo.
― Como você o conheceu? Quer dizer, você não deveria estar conhecendo pessoas novas pessoalmente.
― Bom, me diga você, já que vocês se conhecem. ― senti meus ombros enrijecerem e pareceu notar. ― Pera, vocês não se conhecem pessoalmente? ― dei de ombros. ― Eu deveria ligar pra ele pelo interfone agora e chamá-lo aqui?
― Não! ― quase gritei. ― Por favor, não. Não acho que seja o momento apropriado para isso.
― Olhar pra um cara mais bonito e mais interessante poderia abalar seus sentimentos pelo ? ― movimentou as sobrancelhas de maneira sugestiva.
― Se o acha tão interessante assim, por que não investe nele? ― rebati com o que parecia um mal estar na boca do estômago.
― Até queria, mas, depois de duas horas conversando com ele, dá pra perceber que ele não é o tipo de cara que fica com uma stripper.
― Tenha certeza de que não iria te julgar.
― Não estou falando de julgamento. Tô falando que ele não é o tipo de cara que gosta do tipo de coisa que uma stripper tem a oferecer. parece alguém que tá em busca de uma relação sólida, com quem ele possa ficar agarradinho, fazer amor, essas coisas. E digamos que eu não sou esse tipo de mulher. ― deu uma risadinha marota. ― No final das contas, ele é muito mais o seu tipo que o meu. Realmente acho que você não deveria descartar completamente a ideia de investir nele. ― piscou.
― Não seja tola, .
― Você já era chata antes de conhecer o , agora, parece uma idosa de 77 anos xingando. Não vai nem precisar aprender a tricotar ou ter 12 gatos. ― debochou.
― Cada um tem uma forma de viver, , e esta é a minha, pode, por favor, respeitá-la?
― Ok. Não tá mais aqui quem falou. ― terminou de beber seu chá e foi botar a xícara na pia. ― Mas, antes de eu encerrar de vez todas às minhas críticas à você e seu estilo de vida chato, me responde uma coisa honestamente?
― Se você parar em definitivo, até duas. ― ri, observando-a voltar para a sala e sentar-se novamente ao meu lado.
― O que o tem de tão bom pra você ter aceitado se casar com ele? Ele é tão chacota que só de olhar pra cara dele já sei que nesses seis anos de relacionamento você nunca teve um orgasmo sequer.
é um cara legal. Sei que não gosta dele, mas ele me acolheu em sua vida como nenhum outro o fez.
― Caraca, maninha, o cara só é branco. Às vezes, penso que você se juntou com ele só porque foi emocionada.
― Sabe, , são em momentos como esse que me lembro por que não conversamos tanto. Há vários instantes em nossa conversa que eu realmente não sei o que você está falando.
― Porque você não vive no mundo real. ― riu. ― Talvez conversar com pessoas verdadeiramente legais, tomar um porre de vez em quando e ficar com uns caras que não usem gola polo possa te ajudar a deixar de ser tão engessada. ― normalmente, eu ficaria extremamente ofendida com suas palavras, entretanto, desta vez, eu ri.
Apesar de termos a mesma idade, em determinados momentos, parecia não ter mais que 21 anos, não pela sua aparência, no entanto, pelo seu jeito de levar a vida e de encarar determinadas situações. costumava fazer piada com tudo e com todos, achava que não haviam problemas que não pudessem ser resolvidos com um banho quente ou um fardo de cerveja ― às vezes, com os dois. Entramos na faculdade aos 18 anos; aos 20, minha irmã decidiu que seria perda de tempo gastar tanto dinheiro ao ano para, futuramente, trabalhar durante 30 anos e não conseguir recuperar nem metade daquele valor. Depois dessa decisão, nossos pais a colocaram para fora de casa.
Foi aí que surgiu a stripper e renegada da família.
Mesmo sendo fisicamente muito parecidas, nossas personalidades não batiam em nada. sempre foi mais extrovertida, mais sorridente, popular e diria até mais bonita. Diferente de mim, as pessoas queriam por perto, ela conseguiu a atenção de cada garoto do qual gostou e era totalmente confiante dos rumos que sua vida tomava diante de suas escolhas.
?
― Oi?
― Se importa se eu dormir aqui hoje?
― Em outra situação, eu diria que sim, me importo, por favor, vá pra sua casa. Mas como já até riu da minha última crítica direcionada à você, não me importo. Pode ficar. ― deu um sorrisinho de canto. ― Meu apartamento só tem um quarto, então, vai ter que dividir a cama comigo ou dormir no sofá.
― Se lembra quando a gente dividia a cama na casa da vovó?
― Não só lembro, como tenho algo pra te mostrar agora que você falou. ― levantou-se e foi até o que parecia ser seu quarto. Voltou com uma foto em mãos, entregando-me. ― Lembra disso?
― Meu Deus, isso faz tanto tempo. ― sorri, olhando para a foto de quando éramos crianças.
― Achei durante a mudança e guardei.
― Isso foi no dia que não queríamos ir para a escola e nos vestimos iguais?
― Esse dia mesmo. Lembro que o pai ficou furioso por não conseguir diferenciar nós duas. ― quando éramos crianças, nossos pais tiveram que nos matricular em escolas diferentes, pois não havia vaga para ambas. Como odiávamos ir para a escola por ser o único momento do dia em que éramos obrigadas a nos separar, não eram raros os dias que nos vestíamos iguais para que nossos pais não soubessem qual de nós deveria ser levada para qual escola. ― Era tão bom quando nos entendíamos, né?
― Sabe que não importa muito se somos diferentes, né? ― pus minha mão sobre o seu joelho. ― Sei que, às vezes, você tem razão nas coisas que fala sobre mim e que eu poderia relaxar um pouco mais, mas nada disso importa. Você é a única pessoa que eu nunca vou esquecer, nunca vou me afastar e muito menos deixar de amar.
― Essa coisa com o te afetou mesmo, né? ― rimos. ― Eu também amo você, maninha. ― pegou minha mão entre as suas e beijou-a. ― Sabe o que eu mais gosto em você? ― fiz um sinal com o queixo para que ela prosseguisse. ― Não importa o que as outras pessoas achem de mim, você nunca me tratou como alguém inferior ou que deu errado na vida.
― Porque você não é nenhuma dessas coisas. Você é brilhante, é engraçada, é esperta e uma ótima dançarina, mesmo bêbada. ― riu. ― Sem contar que tem um dos rostos mais bonitos de toda a região. ― gargalhou mais alto.
― Você é incorrigível, né?
― Eu tento. ― dei de ombros, rindo com ela.
― Vem, vamos preparar nosso almoço. ― estendeu a mão para mim e deixei que ela me guiasse para a cozinha.
Por mais que nos víssemos menos do que deveríamos, quando eu estava na companhia de , era um dos raros momentos em que não me sentia solitária.


#17

Você tem algo a dizer, por que não diz em voz alta ao invés de viver na sua cabeça?
(Heart Out - The 1975)



Na manhã seguinte, decidi que voltaria para casa sem nem ao menos tomar café. já estava na cozinha, fazendo suas infusões e com a torradeira ligada.
― Eu já vou embora.
― Tem certeza? Posso te fazer um café.
― Não precisa. Vou tomar em casa. Como vim sem nada, atrasei o que eu tinha de tarefas para ontem, então, vou passar o dia inteiro trabalhando hoje.
― Não quer mesmo conhecê-lo? ― sabendo como minha irmã era, eu sabia que enquanto estivéssemos sob o mesmo teto, ela faria essa mesma pergunta pelo menos a cada uma hora.
, não me sinto preparada para isso e acredito que estivermos prontos de verdade, vai acontecer naturalmente. ― respondi, tentando dar o assunto por encerrado.
― Você gosta dele, né?
― Nós nos conhecemos há, sei lá, três meses! Não se gosta de ninguém nesse tempo, ainda mais alguém que nunca nem vi pessoalmente.
― E você acha que precisa disso?
― Acho. ― dei de ombros. ― De qualquer forma, preciso ir pra casa. Foi ótimo passar um tempo com você novamente. ― abracei-a.
― Me ligue quando estiver por perto da próxima vez. ― brincou e eu saí de sua casa, chamando o elevador no final do corredor.
A única coisa que passava pela minha cabeça a todo instante era como eu não gostaria de cruzar com enquanto saía do prédio, o que provavelmente não aconteceria visto que ele era um animal noturno. Como ainda eram 8h14 da manhã, ainda deveria estar na cama em sono profundo.

Entrar em casa me reservou uma surpresa: ainda não havia saído para trabalhar como eu imaginara.
― Acho que precisamos conversar, né? ― dissera assim que fechei a porta de entrada.
estava sentado no sofá com um ar cansado. Seus olhos denunciavam que ele não tinha dormido ou dormira pouco na noite anterior, mas já estava com a roupa que normalmente usava para trabalhar.
― Pensei muito sobre as coisas que você me disse ontem e de fato você tem razão. Não deveria assumir que sempre está tudo bem pra você. ― suspirou. ― Mas é muito difícil saber se você não fala nada.
― Tenho minha parcela de culpa também, admito, porém, achei que, por já estarmos há tanto tempo juntos, algumas coisas seriam óbvias, como o fato de que gosto de ficar só às vezes, preciso de silêncio para trabalhar e que eu também fico cansada mesmo sem sair de casa. Mesmo que não pareça, eu também me sinto sobrecarregada.
― Eu sei. E quero mudar isso. ― caminhou até mim e pôs as mãos em meus ombros. ― Não vou prometer mudar tudo da noite pro dia porque isso não existe, mas quero que me ajude. Que me diga quando estou errado, quando preciso me corrigir, quando estou te incomodando, invadindo seu espaço. Quero aprender a ser respeitoso com você da mesma forma que você é comigo. ― dei um meio sorriso.
― Tudo bem. ― senti seus braços me envolverem em um abraço caloroso e aconchegante. Era bom estar em casa novamente.
afastou seu corpo do meu o suficiente para me olhar nos olhos, dizendo:
― E sobre nosso casamento: sei que não está tão empolgada porque não está pronta para um passo tão grande, por isso, eu sugiro adiarmos ele. Não devemos ter pressa alguma para algo que ambos devem ficar satisfeitos e felizes com o resultado. ― dentro de mim, senti tudo se remexer. Fiquei aliviada, porém me sentindo culpada por estar me sentindo aliviada. ― Quero você seja feliz. ― disse, segurando meu rosto entre suas mãos e selando nossos lábios em seguida. ― Preciso trabalhar. Já estou atrasado. ― sorriu.
Desvencilhei-me de e o deixei sair de casa.
Quando finalmente estava só, deixei-me desabar sobre o sofá. O fato de finalmente descobrir sem que eu precisasse dizer que não estava de forma alguma pretendendo me casar naquele momento me fez entrar em outros questionamentos. Se não agora, quando?
me perguntara isso.
me perguntara isso.
.
Só de pensar em seu nome sentia meu coração palpitar e minhas mãos começarem a suar, mesmo que lá fora estivesse fazendo 13 graus. Pensar em seu nome não me fazia lembrar das coisas que me dissera, mas de como seus olhos adquiriram um brilho próprio que estava animado em relação a algo, como seus dedos magros seguravam o cigarro, como seus cabelos eram charmosamente desgrenhados em nossas ligações durante o dia, as forma como seus lábios se curvavam quando sorria.
Pensar nele me deixava desconcertada. Sentir o que sentia quando pensava nele me deixava desconcertada. Não lembro de nenhuma vez que pensei em e senti a agonia que sentia ao pensar em .
Era algo que parecia me sufocar aos poucos, como uma cobra que se enrola em sua presa e passa a apertá-la aos poucos até matá-la. Sentia como se estivesse me afundando em areia movediça e ninguém ouvisse meus gritos de socorro, mas, ao mesmo tempo, não sabia o que estava acontecendo e acabava ficando mais desesperada ainda. Não saber definir meus próprios sentimentos em relação a me abalava.
Sem perceber, meus olhos estavam cheios d’água, que escorria pelas minhas faces.
E, como se soubesse de tudo o que se passava em mim, meu celular gritava em alto e bom tom com seu nome estampando minha tela.
Pensei por alguns segundos se deveria ou não atendê-lo. Por fim, sequei o rosto com as mangas do casaco e atendi:
― Oi.
― Resolvi te ligar. Fiquei pensando se você estava bem. ― um dos lados de seus lábios se curvava em uma tentativa de sorriso.
― Você parece cansado.
― Geralmente, esse é horário que uso pra dormir, mas hoje não consegui pegar no sono, pensando em você.
― Estou bem, não se preocupe. Voltei para casa.
― Onde esteve? ― não sabia se deveria respondê-lo sinceramente ou não.
― Em um hotel. ― na dúvida, resolvi mentir. ― Passei a noite lá. Posso te perguntar uma coisa? ― mordi o lábio inferior, incerta se deveria voltar no assunto.
― Sim.
― Foi que te contou sobre ?
― Ela te contou isso?
― Já sei que são amiguinhos. ― sorri.
― Ok, então foi ela, sim. ― rimos.
― Ela falou muito mal de mim para você?
― Na verdade, não. Ela só me contou sobre seu noivado porque achou que eu já soubesse disso. ― suspirou. ― Sei que devo parecer bem chato e insistente, mas tem certeza de que você tá bem mesmo? Sua voz parece um pouco preocupada, sei lá.
― Aconteceram muitas coisas de ontem para hoje e fiquei me perguntando sobre o valor que tenho agregado às pessoas na minha vida. Conversei com sobre… enfim, estou um pouco confusa ainda.
Ficou quieto por alguns segundos, que mais se pareceram com décadas. Estava em uma fase que, todas as vezes que decidia dividir algo com , precisava ouvir suas palavras de conforto ou de conformismo assim que eu finalizasse minha fala.
― Devo estar em um nível bem baixo da sua escala, né?
― Por quê?
― Bom, te vi sair do meu prédio hoje de manhã e, ainda assim, você preferiu me dizer que estava em um hotel.
― O que? ― paralisei. Os dedos pressionando o celular mais do que necessário para segurá-lo contra minha orelha.
― Pensei que pudesse ser a , mas sua irmã tem cabelo mais comprido e o casaco que você estava usando hoje de manhã é o mesmo que estava usando em uma das últimas ligações que fizemos por vídeo. ― olhei para o casaco com o qual eu ainda estava vestida e ele tinha razão. ― Quer dizer, não que você tenha alguma obrigação comigo de me falar sobre onde você está ou algo do tipo, mas… ― suspirou. ― Esquece.
― Por que você não me chamou?
― Se você quisesse mesmo falar comigo, teria me ligado, mandado mensagem ou me interfonado da casa da . Você não fez nenhuma dessas coisas e, como era bem cedo, tenho certeza de que você dormiu lá também, né? Então… ― deixou no ar.
, me desculpe. Não é isso, eu… ― respirei fundo, passando a mão livre pelo rosto. Meus ombros estavam tensos e eu já começava a sentir a tão conhecida queimação no meu pescoço, devido ao estresse começando a se acumular. Eram muitas pendências para lidar em poucos dias. ― Eu ainda não estou pronta para te ver. Não porque não quero, mas porque não consigo. Você não é só um cara que eu conheci na internet e com quem troco algumas mensagens. Ainda não sei identificar o que sinto e isso me assusta demais. Nunca me senti dessa forma. ― senti meus olhos arderem novamente.
Um nó estava se formando muito apertado em minha garganta. Tinha a sensação de que não conseguiria falar tudo o que precisava para ele, entretanto, era tão necessário que tivéssemos essa conversa. Eu precisava despejar tudo o que estava dentro de mim para a única pessoa que deveria ser a maior interessada no fim das contas.
― Você não sabe o quanto me senti culpada por estar aliviada de finalmente ter percebido que não estou pronta para organizar um casamento e me casar. E sabe por quê? ― pausei, tentando normalizar meu tom de voz embargado. ― Porque a quantidade de vezes que pensei em desde o início do nosso relacionamento, há quase sete anos, não chega nem perto da quantidade de vezes que me peguei pensando em você só na semana passada.
Tudo que conseguia ouvir era a respiração de um emudecido.
― Não sei o que te dizer. ― finalmente, pronunciou-se, mas sua voz era tão baixa que quase não consegui lhe ouvir.
― Não precisa me dizer nada. Não quero que pense que estou tentando de arrastar para as minhas confusões internas.
― Não é isso. É só que… ― fez uma pausa, como se estivesse escolhendo suas palavras seguintes com cuidado. Retomou após aproximadamente seis segundos. ― Olha, não quero que pense que não sinto nada em relação à você, mas também não sou o tipo de cara que se relaciona com alguém que já tá em outro relacionamento.
― Entendo e de forma alguma é minha intenção submeter você ou a isso. Quero que as coisas estejam elucidadas para mim. ― um novo silêncio se formou na chamada.
Não havia muito que eu pudesse dizer que já não o tivesse feito, bem como não havia nada que pudesse me dizer que já não tivesse me dito.
Mais uma vez, me encontrava em um beco sem saída.
― Enfim, o que eu tinha para lhe dizer era isso. ― essa era a minha tentativa de encerrar a ligação de uma forma amigável, sem ser bruta demais.
― Tudo bem. Se precisar de algo ou só quiser conversar, pode me ligar. Ou só me mandar mensagem também, você decide. ― entendia quando alguém estava tentando finalizar o assunto sem soar mal-educado.
― Obrigada. ― dei um meio sorriso. ― Até mais.
― Até. ― desliguei.
Levantei do sofá, indo para o quarto. Tirei meu casaco, deixando-o sobre uma estante, arranquei os sapatos do pé e me permiti desmoronar sobre a cama. Cobri-me até a cabeça, os olhos já começando a arder novamente. Dei-me conta de que ainda estava de óculos, tirando-os em seguida e depositando-os sobre a mesinha de cabeceira. Enrolada como um rocambole de cobertas, me concedi o direito de me sentir o ser humano mais infeliz do mundo.
Não havia nada naquele momento que me fizesse sentir melhor ou mais confortável em minha situação. Pensava em e no quanto ele já tinha se aberto para mim, no relacionamento que construímos juntos ao longo dos anos. Segundos depois, pensava em e todo o seu charme existencial. Até seu jeito de pronunciar as palavras soava sensual e atraente. Era difícil pensar nele e não lembrar de sua figura seminua quando jogamos duas verdades e um mentira.
Ao ter esta lembrança, comecei a chorar com mais intensidade porque ele era um dos homens mais lindos que eu já tinha visto.
É, talvez eu estivesse de TPM, afinal.


#18

Há uma mudança na pressão; nós nunca vamos mentir pra você
(Pressure - The 1975)


Ficar três semanas inteiras sem conversar com estava sendo um dos cortes bruscos de comunicação mais difíceis pelos quais passei nesse ano de isolamento. Já estava acostumado com nossos contatos quase todos os finais de semana e as nossas trocas de mensagem ao longo dos dias, sem nenhum motivo específico. Ao mesmo tempo em que eu queria lhe ligar e perguntar se ela estava bem, sentia que estaria sendo injusto depois de tudo que havia me dito em nossa última ligação.
Entendia o que significava tudo o que ela me dissera, entretanto, como proceder caso ela descobrisse que o que sentia por mim valia muito mais a pena do que ela e tinham formado e idealizado ao longo dos anos? Quer dizer, não que eu não gostasse dela, mas também não me sentiria bem sabendo que fui o pivô de uma separação.
Era a quarta vez só naquele dia que perdia completa atenção e, quando voltava aos meus afazeres, via Antonella me encarando com uma feição debochada.
― Quer conversar sobre o que quer que esteja rolando nessa cabecinha? ― estávamos organizando uma festinha de aniversário surpresa para Olliver, que chegaria da escola em duas horas acompanhada de Ranya. Neste ano, teria que ser só nós.
Minha mãe também estava a caminho das comemorações, porém seu voo estava atrasado e provavelmente só chegaria de madrugada.
― É só… nada. ― dei de ombros.
― Ok, garotão. Vamos fingir que eu não te conheço da vida toda. ― sorriu.
― É que, às vezes, me sinto mal falando sobre isso com você. ― fiquei olhando-a, tentando ao máximo parecer tranquilo e espantar o décimo pensamento do dia sobre .
― Sobre o fato de não parar de pensar na ? ― cruzou os braços em frente ao peito. ― E como você provavelmente tá apaixonado por ela?
― Acho que apaixonado é uma palavra forte. ― ri, sem graça, passando a mão pelos cabelos na nuca.
― Sabe que não tem problema algum em falar sobre isso comigo, né? ― sorriu. ― Mas tudo bem se você não se sente à vontade também.
― Mesmo não me sentindo à vontade, fico me perguntando com quem vou dividir todas essas coisas se não com você. ― suspirei. ― Mas, ao mesmo tempo, me sinto mal porque até esses dias estavamos transando no capô do seu carro.
, por favor. ― riu. ― Não é como se não tivéssemos passado por isso antes, né? ― piscou e caminhou em minha direção, seu corpo ficou a centímetros de distância do meu, fazendo com que uma onda de calor passasse dela para mim. Ou poderia ser simplesmente meu cérebro dando um bug geral, pois a temperatura ambiente estava mais quente que nos outros dias, visto que já nos aproximávamos do verão.
Passou a mão pelo meu rosto, acariciando-o. Sentir seu toque era uma das melhores sensações da minha vida. Tonya e eu tínhamos uma conexão indescritível. Desde sempre era como se não precisássemos usar palavras para nos comunicar. Seus olhos e a forma como me tocava me diziam muito sobre o que ela queria me falar.
Em qualquer outro momento, acharia que ela estava em mais um daqueles surtos de sensualidade, onde flerta comigo até que eu ceda e comece a perder total noção do que estava fazendo. Não desta vez. Antonella era uma daquelas pessoas que sentimos como se estivéssemos em casa na sua presença, não importa onde fosse.
Envolvi meus braços ao redor de sua cintura, aconchegando a cabeça em seu peito. Automaticamente, seu queixo se apoiou no alto da minha, os braços entrelaçando meus ombros. Queria que seu cheiro ficasse impregnado em mim, bem como sua presença já estava. Seus braços me pressionavam contra seu corpo de uma forma acolhedora, me aquecendo no calor que ela emanava.
Antonella beijou o alto da minha cabeça, pondo uma de suas mãos em minha nuca, afagando meus cabelos.
― Às vezes, eu me sinto um adolescente quando não sei o que fazer ou como agir.
― Você não precisa saber sempre o que fazer. ― desvencilhei-me dela, olhando-a nos olhos. ― Isso que você sente é bem parecido com quando estamos prestes a perder a virgindade. A vontade é grande, mas o medo de errar é maior ainda e aí a gente vai adiando até não dar mais porque sabemos que um dia vai ter que acontecer. ― sorriu. ― Um dia, vai acontecer. Vocês vão se encontrar.
― Mas e se, sei lá, a gente não for aquilo que acha que é?
― Não acho que você gostaria de alguém que não vale a pena. ― seu sorrisinho convencido dizia muito sobre ao que ela estava se referindo.
― Tá falando de você mesma? ― deu de ombros.
― É você quem tá dizendo. ― riu.
― Você é péssima, sabia?
― Eu tento. ― pegou o saco de balões em mãos, colocando entre nós, na altura dos meus olhos. ― Precisamos voltar ao trabalho. Perdemos uns bons minutos tendo esse momento.
Peguei o saco de suas mãos, abrindo-o e tirando um balão ainda vazio de lá. Fiquei olhando-o por alguns segundos, até que deixei meu campo de visão se voltar para uma Antonella retomando suas atividades juntando as embalagens que iriam para o lixo.
― Você acha que devemos fazer isso mesmo?
― O que? Supreendê-la? Ela vai adorar!
― Não isso. Digo, contar sobre ela ser minha filha.
― Bom, em algum momento, vai ter que acontecer. Dentro de mim, eu já sabia que teria que falar sobre isso com ela. Claro que não esperava que fosse tão cedo, mas prefiro assim.
― Como você acha que ela vai reagir?
― Acho que ela vai adorar. ― puxou um banco e sentou-se de frente para mim, que já estava encostado em uma cadeira. ― Às vezes, eu tenho a sensação de que ela gosta muito mais de você do que de mim. ― sorriu.
― Sabe que isso não é verdade. Você é a super heroína preferida dela. ― pus o bico do balão entre os lábios e comecei a enchê-los com grandes lufadas de ar.
Antonella ainda continha um sorrisinho bobo nos lábios, como uma menina sapeca que estava aprontando. Acho que há muito ela já idealizava este momento em sua cabeça, só não compartilhara comigo.
Terminamos de decorar a cozinha poucos minutos antes de ouvirmos Ranya e Olliver abrindo a porta da cozinha para entrarem na casa. Assim que a mais nova pôs o pé no recinto, cantamos parabéns em alto e bom tom. Neste ano, também não haveriam velinhas para que ela apagasse com um sopro. Espantada, Olliver abraçou Antonella e depois a mim, questionou a Ranya se sabia que aquilo aconteceria e a mesma confirmou.
Ranya entregou a Olliver seu presente e disse que precisava voltar para casa, uma vez que tinha trabalhos a serem finalizados. Antonella lhe um pedaço grande de bolo e alguns salgadinhos para levar em agradecimento por ter tirado um tempo para nos ajudar.
Após sua saída, Olli, Tonya e eu nos sentamos no chão para comer o tal bolo. A menina nos contou sobre o seu dia na escola, como seus coleguinhas estavam felizes em poder vê-la em seu aniversário e como a professora de ginástica a liberou das atividades que não gostava, pois “era seu dia”. Também nos disse que não se sentia diferente por ter completado sete anos.
― Filha, tenho mais uma surpresa para você. ― Antonella começou a falar na primeira pausa que a pequena dera. ― Lembra que você me perguntou há algum tempo se um dia iria conhecer seu pai? ― a criança assentiu. ― Bom, temos algo para te dizer e esperamos que você entenda. Quando eu dizia pra você não chamar de ‘tio’, não tinha muito a ver com o fato de ele não ser seu tio. Mas…
― Porque ele é meu pai. ― a menina completou as palavras que não saíram da boca da mãe, colocando um pedaço de bolo na boca sem nos olhar.
Meus olhos se arregalaram. Tonya congelou com a boca aberta. De todas as situações que poderiam ter acontecido, certamente não contávamos com essa.
Apesar de haver a possibilidade de que ela só estivesse sugerindo aquilo, Olliver não era o tipo de criança que sugeria coisas que não tinha certeza. Ela era curiosa e fazia perguntas extremamente vergonhosas e inconvenientes, mas jamais afirmava algo que não sabia se era verdade.
― Como você sabe disso? ― perguntei, sabendo que Antonella continuaria com aquela mesma feição durante mais algum tempo.
― Eu só sei… ― deu de ombros. ― Mamãe pediu que eu procurasse meus documentos porque ela precisava pra quando fôssemos fazer exame de sangue. Eu achei e li que seu nome estava onde dizia que era meu pai.
― Quanto tempo faz que você sabe?
― Um mês.
― E por que não nos contou que você sabia?
― Mamãe sempre diz que aquilo que eu sei e que ela não me contou é porque eu não deveria saber. ― olhou-me com aquele brilho inocente resplandecendo em seus traços infantis. ― Vocês estão bravos comigo por não ter contado? ― seu olhar alternou entre mim e Antonella.
― De forma alguma. E você? Está brava com a gente por não ter te contado antes?
Antonella começava a sair de seu transe, alternando o olhar entre mim e Olliver como se estivéssemos jogando ping-pong.
― Mas agora todas as vezes que ela te disser algo você pode responder.
― E eu posso te chamar de pai? ― seus olhinhos pareciam ter dobrado de tamanho devido a alegria, o rosto se retorcendo para não sorrir mais que o necessário. Uma das características que, aos poucos, estava herdando de Antonella: esconder suas verdadeiras reações.
― Pode, sim. ― passei a mão pelo seu rosto.
Todos os dias era impossível deixar de notar a semelhança que Olliver tinha com Antonella. E, a cada ano, elas ficavam cada vez mais parecidas.
Apesar de só ter sete anos, Olli era a mais alta de sua classe e, por ser atacante do time de handebol, tinha uma estrutura corporal mais forte que a de outras meninas de sua idade. Os olhos castanhos amendoados e a pele escura faziam da menina uma versão criança da própria mãe.
― Mamãe? ― sua voz infantil tirou-nos de nossos pensamentos.
― Hm?
― Por que você nunca me contou? ― seu tom não era acusatório, apenas curioso, como já esperávamos.
― Como você bem sabe, eu e seu pai nos conhecemos há muito tempo… e tem muitas coisas complicadas na vida adulta, coisas que, mesmo que te contássemos, você não entenderia. Durante muito tempo, seu pai também não soube que era seu pai, mas ele esteve sempre aqui, então, acho que, no fundo ― nos entreolhamos demoradamente e a mulher segurou minha mão. ―, ele sempre soube. Além do mais, fiquei esperando pelo momento certo, em que você entenderia e valorizaria uma figura paterna.
― Agora que eu e você sabemos de tudo, o que acha do nosso primeiro abraço como pai e filha? ― perguntei. Olliver pulou em meu colo e tive certeza de que seria estrangulado ali mesmo por uma garotinha de sete anos. Que belo fracote eu era.
Meu rosto se perdeu pelos seus cabelos soltos, que mais se pareciam com uma nuvem encaracolada. O cheiro de jasmim invadiu minhas narinas como se uma leve brisa de primavera tivesse passado por mim. E, como já era de costume, em meio aos seus pequenos braços, senti que tinha um lar para me abrigar.
― Pai? ― resmungou com o rosto contra meu ombro.
― Que?
― Nada, não. Estava só testando. ― tive a impressão de ouvi-la dando uma risadinha, mas eu nada disse.
Antonella nos olhava com um pequeno sorriso no rosto, os olhos avermelhados como se estivesse prestes a chorar os rios de lágrimas que segurara ano após ano.
― A gente pode assistir um filme em família? ― desvencilhou-se dos meus braços, olhando muito mais para a mãe do que para mim.
― Claro que pode, meu amor. O que você quer ver? ― a mulher passou a mão pelos seus cabelos.
― Podemos assistir Moana? ― nem Tonya nem eu aguentávamos ver pela vigésima vez esse filme, porém relevamos, afinal, era o aniversário dela e entendíamos que era seu filme preferido por ser um dos poucos em que a protagonista se parecia fisicamente com ela.
― Vamos assistir Moana. ― ri do esforço que Antonella estava fazendo para não resmungar nem mesmo fazer careta ao pronunciar o nome do filme. ― Mas, antes, precisamos limpar essa bagunça primeiro, ok?
Levantamos do chão e começamos a nossa limpeza da cozinha.
Olliver, ao invés de guardar os docinhos dentro da geladeira, colocava um na boca e outro no pote que a mãe lhe dera para guardá-los, alternando os movimentos. Quando entregou o pequeno pote de vidro em minhas mãos, só havia metade dos docinhos que estavam em cima da mesa. Não contive a gargalhada e Antonella nos lançou um olhar semicerrado um pouco mais ameaçador que o necessário.
Era por volta de 18h15 quando terminamos de arrumar tudo. Tonya pediu que Olliver fosse tomar banho enquanto comprávamos algo para o jantar e, depois, assistíriamos Moana pela, sei lá, sétima vez só em 2021.
― Alguma notícia da sua mãe?
― Ela me mandou uma mensagem há duas horas dizendo que estava embarcando. Acredito que ela chegue a qualquer momento a partir de agora.
― Espero que tenha dado tudo certo. Ainda bem que não contamos a Olli que ela vem porque, se algo der errado, ela ficaria arrasada de não ver Denise. ― assenti, com os lábios franzidos.
Existia uma única pessoa no mundo que faria Olliver se esquecer totalmente da existência de seus pais e amigos: minha mãe. As duas eram como unha e carne e talvez não houvesse ninguém no mundo que minha mãe amasse mais do que Olliver.
Minha mãe, antes de , era a única a pessoa além de mim e Antonella que sabia sobre Olliver talvez não ser minha filha biológica. Este fato, em momento algum, impediu que ela insistisse desde sempre que a criança a chamasse de “vovó” ou que ela chamasse Tonya de “nora”, sem se importar muito que a mesma não gostasse disso.
Quando Olliver saiu do banheiro, Antonella já havia pedido o nosso jantar e, infelizmente, não havia mais nada que nos impedisse de sentar no sofá para assistirmos o tal desenho.
Sentada entre nós, a menina mantinha os olhos vidrados na tela da televisão, cantando todas as músicas que eventualmente tocavam e não pôde evitar de soltar um muxoxo quando sua mãe pausou o filme para buscar a comida com o entregador.
Por entender o quão importante estava sendo aquela ocasião para Olliver, Antonella, pela primeira vez na vida, permitiu que jantássemos na sala enquanto assistíamos algo.

O relógio marcava exatamente 22h30 quando ouvimos alguém bater na porta. Pedimos que Olliver a atendesse, pois sabíamos de quem se tratava. Antes que chegássemos até a porta, pudemos ouvir um “vovó” ecoar pelo corredor.
― Como eu estava com saudades de você, minha florzinha. ― minha mãe a abraçava forte, o que era péssimo, já que ela nem bem tinha chegado da rua e já estava passando todas as bactérias possíveis para a neta que havia tomado banho há apenas duas horas. Parece que alguém teria que tomar um novo banho antes de deitar. ― Também senti falta da minha nora preferida. ― disse sorridente ao olhar Tonya parada ao meu lado.
― Denise, também senti sua falta, mas as coisas continuam as mesmas desde a última vez que você esteve aqui, ou seja, ainda não sou sua nora. ― seu tom era brincalhão, entretanto, eu sabia o quão séria eram aquelas palavras.
― Bom, você mesma disse. Ainda não é. ― frisou o “ainda” sorrindo. ― Meu filho, por favor, faça algo de decente na sua vida e dê um jeito de fazer dessa mulher linda minha nora.
― Mas é ela quem não me quer. ― rebati, segurando a risada.
― Aí já não é comigo. Dê seus pulos. ― respondeu, como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Peguei a mala que estava ao seu lado enquanto a minha mãe passava pela porta, acompanhada de Olliver. Pude ver Antonella e sua risadinha debochada de soslaio. Não consegui evitar rir também.
Aquela seria uma longa semana.


#19

Você sabe que não posso ser visto com você
(Settle Down - The 1975)


Por ter vindo muito mais para passar um tempo com Olliver do que comigo, minha mãe decidiu ficar hospedada na casa de Antonella durante aquela semana. Por sorte, as duas se davam muito bem, então, não tivemos problemas relacionados à duas mulheres adultas tentando se matar por terem de passar tempo demais sob o mesmo teto. Sem contar que Antonella ficava agradecida por ter alguém que ficasse com nossa filha durante o dia e que tivesse tempo para cozinhar refeições minimamente decentes.
A tensão por excesso de trabalho tinha reduzido e muito nos últimos dias, tanto que Antonella estava se permitindo trabalhar de casa para poder passar um pouco mais de tempo com Olliver e sua convidada, mais conhecida como minha mãe. Naquele dia em específico, Tonya havia pedido que eu passasse o dia com ela para que pudéssemos trabalhar juntos, visto que minha mãe e Olli tinham planejado um passeio de bicicleta e um piquenique à beira do lago no parque.
Conseguimos adiantar boa parte dos projetos que tínhamos com algumas pendências ou com revisões atrasadas. Particularmente, eu gostava muito de trabalhar na companhia de Tonya. Sua presença sempre era envolta em uma áurea profissional e séria, o que me fazia querer ser uma pessoa séria também. Portanto, ao mesmo tempo em que parecíamos ser apenas colegas de trabalho sem intimidade alguma, tinha certeza de que só funcionávamos muito bem trabalhando juntos porque tínhamos um nível de intimidade que nos permitia pensar e construir juntos.
― Senti falta disso. ― fitei-a por alguns instantes, fazendo-a parar de olhar para o computador e olhar para mim.
― Isso o que?
― Nós dois trabalhando juntos.
― Achei que você se sentisse incomodado de ter que trabalhar sob a minha supervisão. ― seus lábios estampavam um pequeno sorriso brincalhão.
― Só falo isso pra te irritar, mas a verdade é que eu amo trabalhar com você. ― sorri, cruzando as mãos sobre a mesa, em frente ao meu notebook.
― Por quê? ― tombou a cabeça para um dos lados.
― Sei lá, eu só… gosto. Parece que a gente consegue ter um fluxo de trabalho só nosso e que a gente fala a mesma língua.
― Talvez gente seja assim mesmo. ― deu de ombros.
― Acho que eu preciso de um cigarro. Posso só ir na janela? ― lancei-lhe um olhar pidão.
Antonella odiava cheiro de cigarro, ainda mais em sua casa.
― Pode. ― não pude evitar a surpresa que tomou conta de mim, entretanto, sabia que não deveria comentar nada se não quisesse que Antonella mudasse de ideia e me mandasse fumar do lado de fora.
Tateei meus bolsos em busca do maço de cigarros e do isqueiro, abri a janela, acendendo o tabaco e dando o primeiro trago. Puxei uma cadeira que estava atrás de mim com o pé para que pudesse me sentar. Tonya sentou-se em uma poltrona ao lado da janela.
― Nem te perguntei como foi sua primeira aula de fotografia, né?
― Tim pediu que todos fotografassem os mesmos objetos individualmente, cada um escolhendo as formas que o fariam. Depois, ele revelou todas elas e nós discutimos em sala o que gostamos de cada uma, a sensação que tivemos ao olhá-las e essas coisas. Pra finalizar, pediu que, sem falar quais eram as nossas fotos, falássemos como concebemos as nossas ideias, como nos sentimos ao fotografar… enfim, ele é muito bom nisso.
― A primeira aula é sempre a mesma pra toda as turmas. E ele realmente é muito bom. ― dei mais um trago, soltando a fumaça pela janela.
― Eu adorei. Pensei que iria odiar e desistir depois de dez minutos de aula, mas até que é divertido. ― deu de ombros. ― Mas, mudando de assunto, sabe quem perguntou de você esses dias? ― acenei com a cabeça, incentivando-a a continuar. ― Sophie.
― A editora de vídeos?
― Não, a estagiária.
― Tonya… ― soltei em tom de repreensão, fazendo-a rir.
― Que foi? Só repassando o recado. ― respondeu, sugestiva. ― Ela perguntou se você estava bem e se nos víamos com frequência. Respondi que sim.
― Essa garota não tem tipo 19 anos?
― 18. ― riu. ― Tadinha. Ela te acha bonito. Vi ela comentar com a Carol esses dias.
― Ela é bonita também, mas é um pouco… nova demais pra mim?
― Ah, vai dizer que você nunca ficou com uma novinha?
― Tonya, você me conhece desde sempre, acho que você melhor do que ninguém, sabe que não. ― ri.
?
― Que? ― coloquei o cigarro na boca novamente, esperando que ela fizesse sua pergunta.
― O que exatamente te fez olhar pra mim quando éramos adolescentes? Quer dizer, a gente nunca teve essa conversa, né? ― sorriu.
― Na verdade, eu é quem deveria estar perguntando isso, sabe? Você era, tipo, uma das garotas mais populares da escola? Eu era só o cara que andava de preto e transitava entre grupos de amigos que não tinham nada a ver comigo.
― Para. Você era um cara bem legal. Tinha uma vibe meio mocinho misterioso, fumante, de cabelo preto, com passado obscuro.
― Você tá me comparando com protagonista de livro de romance infanto-juvenil? ― segurei uma gargalhada.
― Talvez. Mas tem que admitir que eles são ótimos. ― riu, levantou-se e pegou o cigarro da minha mão, tragando-o e colocando-o de volta entre meus lábios.
Surpreendido com seu ato, encarei-a por mais tempo do que o normal, tentando entender o que estava acontecendo.
― Esses dias descobri que você anda sem calcinha por aí, agora, você tá começando a fumar também? ― ironizei.
― Foi só um pouquinho pra entender o que é que tem nesse negócio que você vive com ele grudado na boca. ― soltou o restinho da fumaça próxima ao meu rosto.
Bingo!
A Tonya sensual estava voltando a atacar.
Traguei novamente o cigarro, tentando não pensar no fato de que talvez a mulher a minha frente começaria a dar sinais de que queria que eu fizesse “horas extras” com ela. Olhar para Tonya e não sentir nada estava começando a ficar cada vez mais difícil. Seus olhos eram luxuriosos e sua boca mantinha aquelas pequenas curvas nos cantos, que indicavam um possível sorriso.
Voltou a sentar na poltrona atrás de si, cruzando as pernas e deixando seus braços sobre os apoios do assento. As costas relaxadas no encosto. Seu rosto continha uma feição de quem estava imaginando mil coisas e só pude concluir isso quando a vi passar a língua pelos lábios, discretamente, demorando-se um pouco mais no inferior, como se o estivesse mordendo. Copiei seu gesto de cruzar as pernas, pois senti meu pau começar a dar sinais de vida e talvez não fosse um bom momento para isso, já que eu tinha saído de casa para trabalharmos. Continuei fumando, tentando ao máximo ocultar o fato de que estava excitado com seu olhar indecente, que parecia já ter me despido por completo em sua mente. Queria poder abrir sua cabeça só para ver o quão longe sua imaginação ia quando ela me comia com os olhos daquela maneira.
O ar parecia denso entre nós, como se eu pudesse tocá-lo. O ambiente começava a ficar quente demais e minha camiseta parecia me sufocar. Não fiz menção de me abanar, nem de tentar afastar um pouco a gola da camiseta do meu pescoço, afinal, ela saberia o que estava se passando. Sustentei essa postura de quem não estava sendo afetado até que vi suas mãos se moverem em direção ao cós de seu short. Acompanhei cada um dos mínimos movimentos que Antonella fez enquanto abria o botão, o zíper, levantando-se do assento e deixando que a peça deslizasse por suas coxas grossas até encontrar o chão.
Engoli em seco, olhando-a nos olhos, tendo certeza de que nesse instante ela já sabia como eu estava me sentindo, independente de minhas falhas tentativas. Apaguei a bituca do cigarro, deixando sobre o parapeito, sem conseguir desgrudar os olhos da mulher a minha frente.
Antonella sentou-se outra vez na poltrona, agora, de pernas abertas, trajando apenas uma calcinha preta e uma camiseta, cujos mamilos ficavam aparentes e eu não havia notado até então.
― Sempre imaginei como seria se eu te deixasse ficar só olhando enquanto eu faço todo o trabalho. ― não conteve o sorrisinho vitorioso em seus lábios.
Não respondi.
Não tinha certeza se seria capaz de verbalizar qualquer palavra.
Uma de suas mãos encaminhou-se para dentro de sua calcinha e, nervoso, acompanhei todo o trajeto que ela fez até se posicionar, provavelmente sobre o seu clitóris. Meus olhos, sem muito foco devido ao nervosismo, alternavam entre a mão dentro de sua roupa íntima, seus olhar com aquele brilho lascivo e sua boca entreaberta.
Nunca uma calça jeans pareceu apertar tanto meu pau quanto naqueles longos minutos em que passei de frente para Antonella.
Sua mão não fazia movimentos bruscos, apenas o suficiente para que sua respiração começasse a ficar pesada, sua cabeça tombar para trás com os olhos fechados e seus músculos se retesarem levemente.
Passei a língua pelos lábios, concluindo que aquela era uma das cenas mais lindas que eu já tinha visto em minha vida. Os curtos e quase inaudíveis gemidos que saíam por entre seus lábios eram música para os meus ouvidos.
Alguns minutos depois, sob gemidos um pouco mais altos, tremores e o movimento involuntário que suas pernas fizeram, chocando-se uma contra a outra, indicavam que ela tivera um orgasmo, o que só aumentou a onda de calor que passava por mim.
Depois de alguns segundos, Antonella levantou-se, pegou uma de minhas mãos e me guiou até uma das paredes. Pressionei seu corpo contra a superfície fria atrás de nós, nossos lábios a milímetros um do outro. Com um fio de voz que mais parecia um sussurro, disse:
― Pensei que você não quisesse mais ser a mulher que acorda na cama de alguém que gosta de outra pessoa. ― vi de relance suas mãos sobre o cós de sua calcinha, abaixando-a até metade das coxas e deixando que a gravidades agisse sobre a peça.
― É por isso que, dessa vez, vamos de pé. ― colou nossos lábios em beijo intenso e demorado.
As mãos subindo pela minha nuca, agarrando-se aos meus cabelos.
― Você tem certeza? ― perguntei, olhando em seus olhos quando nos desvencilhamos brevemente. Não queria que Tonya fizesse algo impulsivamente e se arrependesse no dia seguinte.
Sem me dizer nada, suas mãos escorregaram até o botão da da minha calça, abrindo-o e abaixando o zíper. Habilidosamente, abaixou minhas calças e parte da minha cueca juntas apenas o suficiente para deixar meu pênis para fora. Enlaçando uma de suas pernas em meu quadril, posicionou meu membro na entrada de sua vagina para que a penetrasse.
Entrei nela por inteiro, saindo lentamente, fazendo-a respirar fundo, segurando-se em mim pelos ombros.
De todas as partes mais sensuais do corpo de Antonella, diria sem medo algum de errar que seus olhos eram os que mais me enlouqueciam. Grandes e brilhosos, sempre me diziam as coisas mais sujas, que, conhecendo-a há tanto tempo, tinha plena certeza de que sua boca era incapaz de pronunciar.
Quebrando nosso contato visual, pude sentir seus lábios tocando o meu pescoço com beijos quentes e molhados, subindo aos poucos até uma de minhas orelhas. Senti o lóbulo ser envolvido pela sua boca e, por alguns breves milésimos, perdi minha coordenação motora e quase parei de me movimentar dentro dela por completo.
Minhas mãos, antes postas sobre sua cintura, subiram até a sua blusa, fazendo-a se afastar de mim para que eu pudesse tirar a peça de seu corpo. Aproximando-me mais dela, segurei-a pelas coxas, impulsionado seu corpo para cima para que seu colo e seus seios ficassem mais próximos da minha boca.
Beijei sua pele exposta, ouvindo sua respiração entrecortada, descendo a boca para seus mamilos. Circundei um deles com a língua, sentindo sua pele se arrepiar sob minhas mãos.
Quando decidi olhar novamente em seus olhos, seu rosto se contorceu em uma expressão de incompreensão. Com os olhos arregalados, pôs o dedo indicador em frente a boca, pedindo que eu fizesse silêncio.
― Mamãe, voltamos! ― ouvimos a voz infantil ressoando longe.
Antonella pulou do meu colo, juntando suas roupas do chão e correndo para o banheiro. Já eu, ergui minhas calças o mais rápido possível, percebendo que o nervosismo de ser pego pela minha filha ou pela minha mãe me fez broxar mais rápido do que Tonya abrindo minhas calças.
Sentei em frente a mesa, fingindo que estava focado no trabalho, esperando o instante em que ambas escancarariam a porta do escritório.
― Ué, cadê a mamãe? ― foi a primeira coisa que Olliver falou ao entrar no cômodo.
― Precisou ir ao banheiro.
― Você tá um pouco vermelho. Tá tudo bem, filho? ― minha mãe questionou com as sobrancelhas franzidas.
― Ah, é que aqui tá um pouco abafado. Como foi o passeio? ― indaguei, mudando o foco da conversa.
Denise continuou a me analisar, os cantos dos lábios de contraindo, como se estivesse segurando uma risada. Senti seus dedos passando por entre meus cabelos e eu entendi. Preocupei-me tanto em vestir minhas calças e parecer normal que esqueci de um outro detalhe: provavelmente, eu estava descabelado, além de absolutamente vermelho.
Antonella saiu do banheiro, devidamente vestida, como se o caos já não estivesse instaurado na cabeça de Denise, que não falaria nada porque Olliver estava sentada no meu colo, esperando a mãe voltar do outro cômodo e tagarelando sobre como fora incrível finalmente sair com a avó.
― Parece que o passeio de alguém foi bem animada, hein? ― deu um beijo no topo da cabeça da menina.
― E parece que você também se divertiram na nossa ausência. ― Denise murmurou em tom de risada.
― O que disse? ― Tonya lançou-lhe um olhar desentendido.
― Que ficar no parque foi um teste de sobrevivência. ― sorriu, fazendo as sobrancelhas de Tonya se franzirem. ― Enfim, queria saber se, caso nenhum dos dois se incomode, posso ir passar uma noite na sua casa, ? ― mudou de assunto antes que Antonella perguntasse novamente algo sobre o que ela havia dito.
― Pra mim, não tem problema nenhum. ― respondi.
― Nem pra mim.
― Mas só te deixo dormir lá com uma condição. ― Denise assentiu em minha direção, indicando que eu prosseguisse com o pedido. ― Que você faça aquela macarronada com almôndegas.
― Nem cheguei na sua casa e já quer me escravizar. ― brincou.
― Faz muito tempo que você não cozinha pra mim.
― Denise, aproveite porque faz muito tempo que aquela cozinha não é usada para cozinhar. ― Tonya debochou, fazendo minha mãe rir. Pelo jeito que ela segurava uma gargalhada, não havia dúvidas de que ela havia pensado alguma besteira, como “deve ser usada só para outras finalidades”.
Ao mesmo tempo em que era ótimo ter uma mãe com quem tinha intimidade para falar sobre qualquer assunto, era horrível ter uma mãe para falar sobre qualquer assunto porque, se fosse como Denise, iria achar que precisa saber sobre literalmente qualquer coisa da sua vida pessoal. Sem contar que ela não sabia ser uma pessoa discreta em determinadas questões.

Aquela era uma das primeiras vezes em meses que eu tirava o carro da garagem, o que se mostrou bem útil no fim das contas, já que voltei com Denise em meu encalço para casa. Nenhum de nós dois falou muito durante a viagem, mas era divertido tê-la ao meu lado para cantarmos músicas antigas durante o trajeto.
Ao chegarmos em casa, após lavarmos as mãos, nos confinamos na cozinha para cozinhar o tal macarrão que eu pedira mais cedo. Denise era muito empolgada com tudo o que fazia, tanto que, às vezes, me perguntava se era mesmo filho dela, pois o desânimo e a preguiça eram os meus melhores amigos. Já ela, não havia nada que uma música agitada em volume mediano não pudesse resolver.
― Você e Antonella voltaram a… você sabe, né? ― deu uma piscadinha para mim e eu não contive uma risada.
― Meu Deus, Denise, não vou falar sobre isso com você. ― respondi, voltando minha atenção para a carne que precisava ser temperada.
― Se você não fala sobre isso com a sua mãe, então, com quem irá falar?
― Com ninguém? ― ironizei. ― Sinceramente, não costumo falar sobre com quem eu transei ou deixei de transar.
― Tenho certeza de que pra Antonella você conta. ― fingiu estar enciumada e eu apenas ri de sua feição. ― E, olha, não há nada de errado entre você e a Antonella manterem relações. Na realidade, eu só queria que aquela mulher fosse minha nora. É pedir demais? ― questionou, mexendo seu molho com uma colher de maneira indignada.
― É pedir demais se essa mulher não quer ser sua nora.
― Pelo menos, uma neta vocês não podem mais me recusar. ― sorriu, vitoriosa.
Ficamos quietos por alguns minutos até Denise voltar a se manifestar:
― Mas a chave de coxa que ela tava te dando hoje devia estar bem hardcore pra você ter ficar vermelho daquele jeito.
― Mãe! ― exclamei mais alto.
― Desculpa. ― riu. ― Já que você não quer deixar sua mãe por dentro das coisas maravilhosas que anda fazendo com sua melhor amiga, poderia pelo menos atualizar sobre essa menina que você está conhecendo, né? ― soltou despretensiosamente.
― Deixa eu adivinhar. Foi a Antonella que te contou?
― E era segredo? ― olhou-me com as sobrancelhas arqueadas.
― Não. ― ri. ― O nome dela é , mas não se empolga, não. Somos só amigos mesmo. ― senti um mal-estar no estômago ao dizer “amigos” em voz alta.
― Por que eu tenho a sensação de que você não queria ser só amigo dela?
tem um noivo. Então, somos só amigos mesmo. ― Denise tinha que parar de me fazer falar aquela palavra ou meu suco gástrico iria comer todo o meu sistema digestivo em minutos.
― E daí? Isso não te impede de gostar dela. ― deu de ombros. ― Como ela é?
― É uma mulher inteligentíssima, engraçada, tem um sorriso doce e um cabelo bem maneiro. ― sorri ao me lembrar de rosto se contorcendo em uma daquelas risadas gostosas que dava, o jeito como ela arrumava a franja e os óculos. ― não tem aquele mesmo ar mulherão que a Tonya, que parece que vai me matar às vezes, mas o jeito que ela fala todas as palavras corretamente e, na maioria das vezes, usa um palavreado formal é bem sexy. ― Denise riu, inclinando a cabeça para trás.
― E você tá caidinho por ela, né?
― É, pode ser. Mas eu sou só o cara que ela conheceu por mensagem. ― dei de ombros.
― E vai continuar sendo só isso se não investir nela de verdade. ― parou de mexer seu molho, desligando o fogo e limpando as mãos no pano pendurado em seu ombro. ― Olha, filho, você não deve viver com arrependimentos. Sei que às vezes te tira do sério o fato de eu brincar tanto sobre você e Tonya, mas eu sei que vocês são só amigos e fico muito feliz que tenham um ao outro. Mas também acho que você deve ir atrás da sua felicidade. ― segurou minha mão. ― Não estou dizendo que você não seja feliz sozinho ou que não possa ser feliz sem alguém, mas se você gosta mesmo dessa mulher, fale com ela. O máximo que vai acontecer é ela dizer não.
Ser uma mulher engraçada nunca impediu minha mãe de dar os conselhos que eu precisava ouvir.


#20

Vou levar um dia de cada vez, em breve você será meu
(Fallingforyou - The 1975)



Fazia um mês e alguns dias que e eu não trocávamos uma única palavra fosse por mensagem ou por ligação. Entretanto, não houve nenhum dia em que não pensei nele e em seus cabelos desgrenhados ou no seu sorriso com dentes levemente tortos. Estava cansada de todos os dias tentar me convencer de que pensava nele por sermos amigos e por me importar.
A verdade era que eu estava me apaixonando por um homem que nunca tinha visto na minha vida e só a ideia de me entregar ao desconhecido era o pior de meus terrores noturnos.
Nos últimos dias, tudo que conseguia fazer era a cada cinco minutos desbloquear meu celular procurando pelas notificações das mensagens que ele não me mandou. Tudo isso sob os olhos atentos de , que estava cada vez mais incomodado com meu uso constante do aparelho e como eu já nem conseguia mais fingir que prestava atenção no que ele dizia.
? ― cobriu a tela do meu celular com uma das mãos, fazendo-me olhá-lo com um pouco mais de raiva do que deveria.
― Diga.
― Aconteceu alguma coisa? Você parece preocupada. ― franziu as sobrancelhas.
― Está tudo bem.
― Não falo só de hoje. ― virou seu tronco em minha direção. Bloqueei o celular e o abaixei, tendo certeza de que não me deixaria prestar atenção em mais nada além dele. ― Você tem estado distante há dias.
Eu poderia continuar a mentir, no entanto, lembrei de e de como sua voz ficou grave e séria enquanto me falava sobre estar enganando a mim mesma. De fato, todo o esforço que fazia para que não soubesse sobre minha amizade secreta e sobre como estava me sentindo nada tinha a ver com não estragar nosso relacionamento. Era apenas eu despistando meu maior medo: não estar no controle da situação.
Fitando meu noivo, tentei recapitular tudo aquilo que me fazia gostar dele, o que nos levara até aquele momento e o único item que conseguia pôr em minha lista mental era: era uma pessoa fácil de ler, logo, se tornava extremamente manipulável.
Não conseguindo pensar em mais nada, tentei enumerar o que me fazia gostar de e a lista era gigantesca. Seus olhos, seu sorriso, o jeito que seus dedos seguravam o cigarro, seus cabelos encaracolados e quase sempre desarrumados, o rosto cansado, as rugas que se formavam em sua testa quando estava sério, o jeito carinhoso com que falava da filha, as tatuagens um pouco desconexas, a forma como corou quando ouvimos os gemidos de Scarlett Johansson interpretando um software em Ela, como ele ficou envergonhado de estar somente de cueca na minha frente e a facilidade que ele tinha em se abrir comigo, como se fôssemos velhos amigos.
Quando minha ficha finalmente caiu, não havia nada que eu pudesse dizer a que não fosse:
― Acho que devemos terminar.
― Quê? Por quê?
Suspirei. Era óbvio que não seria fácil.
, todos os dias tenho tentado achar os motivos que me levam a estar nesse relacionamento e não tenho mais certeza se quero isso. ― sentei-me de lado no sofá, ficando frente a frente com ele. ― Quando você me disse que poderíamos adiar o casamento, me senti aliviada e não era assim que eu deveria me sentir. Depois, me senti culpada. E, então, percebi que talvez… eu só não queira mais estar em um relacionamento.
― Mas, ... estamos juntos há sete anos.
― E não acho que devemos prolongar mais. Eu estaria desperdiçando o seu tempo por puro comodismo e egoísmo.
― É por causa dele, né? ― a raiva estampada em seu rosto era palpável, deixava o ambiente carregado e me deixava nervosa.
― Do que você está falando?
― Você acha que eu não sei que você conversa com um cara? Já te vi várias vezes mandando mensagem pra ele.
, é apenas um amigo. Não tem nada a ver com ele. ― por um lado, eu não estava mentindo.
apenas me fez enxergar coisas que não consegui sozinha. Estava fazendo aquilo muito mais por mim do que por ele propriamente dito.
― Claro. Um amigo que você só fala quando eu não estou em casa. Sei bem que tipo de amigo é esse. Igual ao Benjamin? ― para você entender sobre o que ele estava falando, precisamos voltar um ano no tempo.
Eu estava no início do mestrado e, em uma das minhas turmas, tinha um cara que era a pessoa mais silenciosa que já vira na vida. Quando andava seus sapatos não faziam barulho, não respondia a chamada verbalmente e também não produzia o menor dos ruídos ao mexer em suas coisas, o que me deixava completamente intrigada. Ele sempre estava lá, mas era como se não estivesse.
O professor nos colocou juntos como dupla de um trabalho justo no dia que o silencioso do fundão não aparecera na aula. Por isso, procurei por seus perfis em redes sociais para que pudesse avisá-lo. Seu nome era Benjamin e ele era apenas ouvinte daquela matéria. Ao saber que teria que fazer um trabalho mesmo sendo apenas um ouvinte não matriculado, Benjamin decidiu que largaria a disciplina.
Todavia, isso não impediu de continuar conversando comigo. Conhecemo-nos melhor e não demorou até que ele revelasse ter interesse em mim.
No início, contei-lhe sobre e disse que não teria coragem de trair sua confiança. Entretanto, era impossível negar que me sentia atraída por Benjamin. Por fim, acabei cedendo aos seus encantos.
― Como você pode ser egoísta ao ponto de jamais considerar como me sinto? ― passou a mão pelo rosto. ― É sempre sobre você. Tudo sobre você.
― E o que exatamente você quer que eu faça? Continue fingindo que está tudo bem quando é óbvio que não está? ― indaguei, já com a paciência esgotando.
― É em momentos como esse que me arrependo de não ter ouvido ninguém. ― levantou-se, ficando de costas para mim. ― Eu já deveria saber.
― Saber o que? ― levantei-me também, tentando controlar a raiva que começava a fervilhava em mim.
Olhou-me, dando um sorriso de escárnio. ― Que você era só mais uma vagabunda que se fazia de santinha. ― se fosse possível, teria tostado ali mesmo com o fogo que saía de meus olhos.
Não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
Não iria gritar, não iria estrangulá-lo, como minha imaginação estava sugerindo, muito menos continuar aquela discussão.
Com passos largos e firmes, fui até meu quarto, peguei a mochila que costumava usar para ir para a ioga, coloquei algumas mudas de roupa, minha carteira, meu carregador de celular, meu notebook e minha escova de dentes.
Voltei para a sala e ele ainda estava lá, de pé, esperando que eu voltasse.
― Você tem até domingo pra sair da minha casa. Tire todas as suas coisas e deixe as chaves com o porteiro. Na segunda de manhã, quando chegar, não quero encontrar nenhum vestígio da sua existência na minha vida.
― O que vai fazer se eu não fizer isso? ― perguntou com um ar de deboche.
― Não queira descobrir. ― eu não tinha um plano para o caso de voltar para casa e ele ainda estar lá, mas sabia quem poderia me ajudar quanto a isso.
Fui até o estacionamento, joguei a mochila no banco carona, dando a partida.

― Uau, me visitando em menos de seis meses? O que tá acontecendo? ― debochou ao abrir a porta e dar de cara comigo.
― Digamos que eu meio que preciso de um favor seu.
― Agora sim eu tô surpresa de verdade. Entra. ― deu-me espaço e caminhei até a sala, deixando minha mochila no chão. Fui para o banheiro lavar as mãos. ― Qual é a sua emergência?
― Posso ficar aqui até segunda? ― perguntei ao voltar para a sala e me sentar ao seu lado no sofá.
― Ué, pode. Mas o que aconteceu com seu castelinho de princesa?
― Eu… ― respirei fundo, ajeitei os óculos e olhei-a nos olhos antes de dizer: ― terminei com .
― Uaaaaaaau! Esse é o tipo de informação que eu não estava pronta pra receber. Como exatamente isso aconteceu? Por favor, me diga que tem alguma coisa a ver com o meu vizinho gostosão.
― Não. Pelo menos, não completamente. ― meus ombros ficaram tensos, era a primeira vez que estava admitindo isso para outra pessoa, sendo que não sabia ao certo se já havia admitido para mim mesma. ― Passei os últimos dias tentando listar coisas que me faziam gostar de e por que deveríamos seguir adiante com este relacionamento. Só que não achei nenhum motivo plausível para me fazer ficar. ― suspirei, frustrada. ― Há tantas coisas que quero fazer e que não consigo imaginar fazendo comigo.
― E tenho certeza de que imagina fazendo. ― deu um sorrisinho maroto.
Bufei.
― Por favor, não vai mentir pra mim e dizer que não sente nada por ele. Aliás, agora que você e não tem mais nada, acho que é o momento perfeito de ir conversar com ele, depois de um mês de gelo.
― Como sabe que não nos falamos há um mês?
― Você não é a única que é amiguinha dele. ― deu um soquinho no meu braço e não pude evitar que meu rosto se contorcesse em uma careta ao ouvi-la falar. ― Não se preocupe, quando digo ‘amiga’, é amiga mesmo. ― riu.
― E bem íntima, pelo visto.
― Não existe nada que seja secreto demais depois de três garrafas de cervejas. ― sorriu. ― Eu acho que você deveria falar com ele, de verdade.
Desviei o olhar do seu, voltando-o para a parede à nossa frente.
Odiava quando tinha razão.
― Você vai falar com ele, né?
― Do que você tá falando?
― Você tá fazendo aquele olhar de quem tá decidindo sobre algo. ― sorriu.
Não havia dúvidas de que e eu, mesmo muito diferentes em personalidade, éramos irmãs gêmeas, com direito à conexão e toda essa besteira.
― Se você vai mesmo, por favor, faz uma ligação comigo e deixa seu celular no bolso pra eu ouvir.
― É claro que não. ― ri nervosa. ― Na verdade, nem mesmo sei se vou ter coragem de ir.
― Antes você não ia porque não tinha certeza do que sentia e porque estava noiva, agora tá solteira e me parece bem ciente dos seus sentimentos. Não tem muitos motivos pra não ir. ― mordi o canto interno dos lábios devido a uma ideia que me ocorrera.
― Se eu te pedisse mais uma coisa, você faria?
― Depende.
― Você poderia ir comigo até à casa dele?
― Só se for agora. ― agarrou meu pulso e me arrastou apartamento à fora.
morava no andar de baixo, por isso, nem mesmo cogitou chamar o elevador, apenas foi pulando os degraus da escada, segurando meu braço como se quisesse arrancá-lo ou algo do tipo.
Ao chegarmos a porta demarcada como número 95, bateu na campainha e eu me posicionei do lado esquerdo da porta para que, à princípio, o homem não pudesse me ver.
― Oi. ― ela disse assim que a porta se abriu.
― E aí? ― a voz dele tinha um toque aveludado presencialmente.
― Você tá muito ocupado?
― Não, não. Quer entrar?
― É que eu trouxe alguém que queria falar com você. ― olhou para o lado, fazendo com que ele inclinasse o corpo porta à fora para olhar na mesma direção que minha irmã.
? ― suas sobrancelhas se franziram durante alguns milésimos de segundos, dando espaço para um daqueles belos sorrisos bem abertos.
― Oi. ― sorri de volta, corando ao ver o quanto ele parecia alegre em me ver.
― Caraca, por essa eu não esperava. ― rimos. ― Entrem.
― Bom, eu vou nessa. Acho que vocês tem muito o que conversar, né? ― alternou o olhar entre nós, dando uma piscadinha nada discreta. ― Te vejo mais tarde, vizinho.
― A cerveja tá de pé ainda? ― questionou antes que ela desse as costas.
― Só me dizer quando. ― sorriu.
Dando as costas ao homem, minha irmã pôs a mão sobre meu ombro, fazendo uma leve pressão, sussurrando um “boa sorte” antes de subir correndo as escadas no fim do corredor.
― Entra. ― deu-me espaço e eu passei por ele.
Durante muitos meses, imaginei como seria sua casa e, ao olhá-la ao vivo, conclui que não se parecia em nada com o que pensei que seria considerada a casa de um homem solteiro.
Sua sala era absolutamente organizada e limpa. O ar não tinha cheiro de cigarros, como idealizei, muito pelo contrário, cheirava à algum tipo de flor suave que eu não saberia identificar. Five, o gato, tinha o pêlo lustroso, de um preto profundo e parecia hesitar em vir até mim. Todavia, não demorou para que o felino pulasse do sofá e viesse se esfregar em meio as minhas pernas.
― Parece que ele gostou de você. ― apareceu atrás de mim.
― Ele é lindo.
― Ele não gosta de todo mundo. ― sorriu. ― Senta. ― apontou o sofá à minha frente e eu me sentei, sendo seguida por ele, que sentou-se há aproximadamente um metro de distância . ― Quer beber algo? Tipo, água, café, vinho…
― Mal cheguei e você já quer me embriagar? ― rimos.
― Desculpa. Faz tempo que não recebo visitas além da Olli e da Tonya…
― Como elas estão?
― Bem. Estiveram na companhia da minha mãe até esses dias. ― contou, sorrindo.
― Isso é bom ou ruim?
― Depende do que você considera bom e ruim. ― rimos. ― Minha mãe ama Olliver e veio pra fazer uma surpresa no aniversário dela, mas ela e Antonella aproveitaram para fofocarem a meu respeito enquanto eu não estava lá.
― Pelo menos, elas se dão bem, né? ― dei de ombros.
― É. Se não, ambas seriam insuportáveis. E você? Como está? ― suspirei.
― Vim aqui porque precisava te falar algo e achei que seria inapropriado se te falasse por ligação, uma vez que sei onde você mora e tudo o mais. ― senti um peso recair sobre meus ombros, uma queimação tomar conta da minha nuca e a palpitação em minhas veias, fazendo com que ouvisse meu coração bater em meus ouvidos. Minhas mãos suavam como nunca e não estava calor. ― Pensei muito sobre o que você me disse a respeito de estar enganando a mim mesma e a nossa última conversa. Enfim, eu… - pigarreei, tentando achar as palavras, que antes pareciam na ponta da língua e agora haviam sumido por completo.
não parecia ansioso com o que eu iria dizer. Sua figura soava calma, sendo o equilíbrio que aquela tensão insaturada por mim precisava. Fixei os olhos nas minhas mãos sobre o meu colo, inspirando e expirando, no intuito de me acalmar o suficiente para voltar a verbalizar algo coerente. Pus as mechas frontais de cabelo que costumavam formar minha franja atrás das orelhas, corrigi minha postura e sequei o suor das mãos na calça antes de voltar a encará-lo. Seu olhar continuava lá, amigável, acolhedor, afetuoso e paciente.
e eu terminamos. ― seus olhos se arregalaram quase que imperceptivelmente. ― De fato, fazia muito tempo que me sentia desconfortável de estar em relacionamento de longa data e ainda não ter certeza se gostaria de me casar com o homem para quem eu disse ‘sim’.
― E você tá bem quanto a isso?
― Estou. Sinto que tinha muitas coisas acumuladas que só se resolveriam se eu tomasse essa decisão.
― Mas você não veio até aqui só pra me contar isso, né? ― passou as língua pelos lábios, pondo as mãos cruzadas sobre um dos joelhos.
― Não. estava isolado comigo, pedi para que saísse até segunda da minha casa, então, perguntei à se poderia ficar na casa dela até ele retirar todas as coisas dele de lá.
― E ele ficou de boa com o término? Porque foram sete anos, né?
― Digamos que ele não foi a pessoa mais agradável do mundo.
― Ele fez algo com você? ― identifiquei algo similar a preocupação em seu tom de voz.
― Não. Ele me xingou, mas não foi nada que eu já não esperasse. ― dei um sorriso amargo. ― ?
― Oi?
― Sobre a última conversa que tivemos, eu… ― senti seus dedos quentes envolverem minha mão, que, apesar de suada, estava fria como gelo devido ao nervosismo. Olhei-as unidas, fazendo que ele recuasse em seu gesto.
― Desculpa. Não devia ter te tocado.
Quando sua mão encolhida recaiu sobre suas pernas, repeti seu gesto, envolvendo-a.
― Não precisa se desculpar. Eu meio que esperei por isso bastante tempo. ― sentir sua pele sob meus dedos era uma das sensações que não achei que provaria tão cedo. Era macia, quente e tinha o tamanho certo sob minha mão.
Um meio sorriso tomou conta de seu rosto, parecendo iluminar aquele instante.
― Sei que parece que nos conhecemos há anos, pelo menos, essa é a sensação que tenho ― comecei, procurando pelas palavras seguintes. ―, mas eu não quero me envolver agora, se você me entende.
― Entendo e não pensei que fosse querer mesmo. ― acariciou minha mão com a que estava livre. ― Fico feliz que tenha dividido isso comigo. ― não pude conter o sorriso que tomou conta dos meus lábios. ― Espero que possamos ter mais momentos como esse.
Após mais alguns minutos nos encarando, senti meu celular vibrar. Era uma mensagem de , perguntando se estava tudo bem e se queríamos subir assim que nossa conversa acabasse.
concordou, pegando algumas garrafas de cerveja em sua geladeira, seu maço de cigarros e o isqueiro, colocando-os dentro de uma ecobag para que pudéssemos subir.
Ao abrir a porta, demos de cara com uma pendurada de cabeça para baixo e pernas abertas na barra de pole dance que havia no meio de sua sala.
― MEU DEUS DO CÉU, É A MULHER-ARANHA! ― gritou e eu gargalhei. deslizou até seus pés tocarem o chão e, ao se soltar, começou a rir descontroladamente. ― Desde quando você faz pole?!
― Há alguns anos.
― Espera. Você não sabia? ― questionei. Olhei para , perguntando: ― Você não contou para ele? ― franzi o cenho.
― Ele não perguntou.
― O que? ― ainda parecia confuso sobre o que estávamos falando.
era dançarina. ― respondi sem saber se tinha permissão para falar exatamente qual sua profissão.
― Maninha, não distorça os fatos. Eu era stripper.
― Tipo, dança e tira a roupa? ― perguntou, como se pisasse em ovos.
― Não sei se existe algum outro de strip que não envolva dança e tirar a roupa. ― riu. ― Mas, sim, esse mesmo.
― Nunca conheci alguém que trabalhasse com isso. ― falou com uma expressão pensativa tomando seu rosto.
― Nunca mesmo? ― minha irmã lançou um olhar e um sorriso sugestivo.
― Se está querendo perguntar se nunca contratei um serviço assim, a resposta também é não. ― riu. ― Você gosta?
― Do que? De dançar, sim. Dos velhos babões, não, por isso, eu saí.
― Quando você parou?
― Tava pensando em me contratar, é? ― tinha uma cara de pau que jamais imaginei na minha vida ter.
Por mais que tenha corado levemente, o homem riu, balançando a cabeça negativamente.
― Não, foi só curiosidade mesmo.
― Parei um pouco antes de me mudar pra cá. Consequentemente, tive que mudar de casa porque não tinha como manter meu aluguel anterior.
― E o que você pretende fazer agora? ― perguntei, pegando uma garrafa de cerveja da ecobag que ainda segurava em mãos. veio em sua direção, pondo a mão dentro da sacola para pegar uma para si também.
― Ainda não sei. Por favor, façamos um brainstorm pra eu descobrir minha mais nova vocação.
― Você sabe que poderia tentar testes em companhias de dança, né? ― disse, também pegando uma garrafa e finalmente largando a bolsa sobre a mesa.
― E ficar fazendo coreografias pomposas com gente elitista? Não, obrigada. ― bebeu um gole de sua cerveja.
― Você não deveria desistir da dança. ― entreguei minha garrafa em suas mãos para que ela abrisse-a.
― Não estou desistindo. É apenas uma… pausa. ― sorriu.
Alguns minutos de silêncio depois e começando minha segunda garrafa de cerveja, comecei a matar a curiosidade de ambos sobre como havia sido toda a situação com e como cheguei a conclusão de que terminar com ele seria o melhor para nós dois. Obviamente que exclui a parte em que eu deveria falar abertamente sobre meus sentimentos em relação ao meu amigo, que agora não era mais exclusivamente virtual.
Seus olhos interessados fixos sobre mim e a cada movimento que eu fazia quase me faziam corar. Era difícil sair de um relacionamento onde eu não era vista e, de repente, me tornar o centro das atenções para outro alguém.
Depois da terceira garrafa de cerveja, decidiu que era hora de seu banho, provavelmente, era uma desculpa para nos deixar a sós novamente.
― Se aqui só tem um quarto, onde você vai dormir? ― bebia sem me olhar.
― Geralmente, dormimos juntas na cama dela. Não é muito diferente de quando éramos crianças na casa da minha avó. ― dei de ombros.
― Se você quiser, tenho um quarto extra na minha casa. Normalmente, é a Olli quem dorme lá, mas esse fim de semana ela não vem. ― semicerrei os olhos, provavelmente, ele leu meus pensamentos antes de prosseguir: ― Não é uma oferta de cunho sexual nem nada do gênero. ― sorriu. ― É só que… bom, você é freelancer, então, acredito que não tenha folga no fim de semana, logo, precisa de paz e tranquilidade pra trabalhar, né?
― Agradeço a oferta, mas não acho que ainda seja o momento. ― bebi o último gole da minha garrafa. ― Quer dizer, nós dois ainda não temos essa intimidade, né?
― Já parou pra pensar sobre o conceito de intimidade?
― Como assim?
― Enquanto estávamos na internet parecia seguro falar toda e qualquer coisa sem medo de ser julgado pelo outro. Todos os dias a gente faz isso quando tuíta, quando posta fotos pessoais em nossas redes, enfim… mas e na vida real? Até hoje à tarde eu não sabia nem se você era alta ou baixa, qual seu cheiro ou se suas mãos eram pequenas como imaginei que fossem. ― sorriu. ― Sem contar que, pode parecer um pouco idiota, mas ainda tô um pouco sem palavras. Te encontrar foi um pouco inesperado. ― seus olhos brilhavam.
― Não foi nada planejado na realidade. ― ficamos nos encarando por alguns segundos.
Pessoalmente, seu rosto era ainda mais iluminado. Apesar de um ar permanentemente cansado, sua pele tinha um viço saudável, seus cabelos pareciam hidratados e as sobrancelhas eram alinhadas, como se tivessem sido penteadas momentos antes.
― Espero não estar atrapalhando o momento de vocês. Só vou jogar minha toalha na lavanderia. ― rimos ao ouvir.
― Acho melhor eu ir. ― levou suas garrafas de cerveja até a lixeira.
― Ixi, estraguei o momento. ― debochou e eu nem me importei. lançou um meio sorriso de quem dividia um segredo parecia ser só para mim. Aceitei-o, guardando a imagem de seu rosto como uma das mais lindas que meus olhos já tinham capturado nos últimos anos.
Acenou para nós duas, desejou boa noite e foi para sua casa, me deixando na companhia de uma com cara de safada.


#21

Eu nem mesmo te vi quando gostei de você
(Undo - The 1975)


Os acontecimentos da tarde e da noite de sexta-feira não estavam nem próximos do que eu imaginara para começar meu fim de semana. Como não eram meus dias de ficar com Olli, achei que seria mais uma sequência de dias em que fumaria mais do que deveria, compraria comidas que não fariam bem à minha saúde com a desculpa de que mereço e assistiria filmes que, ao final, teria certeza de que não valeram as duas horas que gastei.
Conhecer me deixara extasiado. Não sabendo muito bem como manter um diálogo com ela, agradeci à santa por ter nos chamado para beber. Não queria já no primeiro dia ser o pateta que não consegue formular frases coerentes com uma mulher na qual tem algum tipo de interesse.
Além disso, não pude evitar me sentir tranquilo quando disse não querer entrar em um relacionamento agora. Não que eu não gostasse dela, entretanto, tínhamos acabado de nos “descobrir” no mundo real.
Vê-la sentada em meu sofá com seus olhos brilhantes, o sorriso estampando o rosto, a franja já em um tamanho muito maior do que me lembrava, as mãos um pouco mais inquietas que o normal me deixava agitado. Significava que algo dentro de havia mudado tanto que a fizera me procurar. Observando a forma pouco confortável com que falava e o suor em sua mão quando a segurei, consegui me acalmar. Ela estava tão nervosa quanto eu.
No dia seguinte, perdido em meus pensamentos, não era raro que meu rosto fosse tomado por um sorriso bobo toda vez que me lembrava dela. Não conseguia parar de voltar no exato instante em que coloquei meus olhos sobre sua figura parada ao lado da minha porta.
Acendi um cigarro, traguei e soprei a fumaça ao mesmo tempo que a campainha soava. Five estava deitado sobre o sofá e assim continuou, o que passou a servir como aviso de quem era a pessoa do outro lado da porta.
Atendi já com um sorriso no rosto.
― Você está ocupado? ― ajeitou os óculos. Os cabelos presos em um meio rabo de cavalo, pois metade ficava solta devido ao cumprimento, vestindo um daqueles seus grande moletons.
― Entra. ― dei espaço para ela passar.
Fomos até a sala, onde a voz de Phoebe Bridgers [n/a: coloca pra tocar baixinho essa aqui] saía das caixas de som e preenchia todo o ambiente.
― Você se incomoda com o cheiro? ― indiquei o cigarro.
― Não. Perto da casa de , sua casa nem tem cheiro de cigarro. ― deu um meio sorriso.
― Se a música estiver…
― Não termina. ― interrompeu-me. ― Eu gosto. Aliás, nem mesmo estou na minha casa, não posso reclamar de nada. Vim aqui porque precisou sair pra ir buscar uma caixa de pertences dela que ficaram na casa de uma amiga e eu supostamente deveria estar trabalhando, porém toda a minha inspiração fugiu pela janela. ― pus o cigarro na boca, tragando-o longamente e soltando a fumaça na direção contrária a dela.
― Acho que já sei do que você precisa. ― coloquei o cigarro em dos cantos entre os lábios, aspirando e soltando a fumaça pelo outro lado enquanto ia até a cozinha para pegar duas taças e uma garrafa de vinho, levando para a sala. ― Pega. ― estendi as taças na direção dela.
― São só 14h30. ― franziu o cenho.
― E tem hora pra apreciar um bom vinho? ― abri a garrafa, despejando uma quantidade generosa do líquido em ambas as taças. Assim que larguei a garrafa, tirei o tabaco da boca brevemente apenas para beber o primeiro gole de vinho, recolocando-o logo após engolir a bebida para mais uma tragada.
― Se depender de você e da minha irmã, volto arrastada para casa. ― rimos.
― Se você não impuser limites pra nós… bom, nós não temos muitos. ― dei de ombros, voltando a fumar.
― Um não dorme e come cigarros, a outra só se alimenta de porcarias, que também incluem cigarros, e bebe pelo menos umas quatro garrafas de cerveja todos os dias.
― Ah, também não é pra tanto.
― Realmente não. Estou apenas brincando com você. ― bebeu um gole do vinho. ― Nossa, se a minha inspiração não voltar, pelo menos, o vinho era bom. ― ri.
― Tá vendo? Você tem muito pouca fé nos vícios que se pode adquirir em nome do processo criativo.
― Por que nunca me disse que gostava de ouvir Phoebe? ― bebericou mais um pouco.
― Você nunca perguntou. Sem contar que esse é meu lado boiolinha falando alto, só pode ser mostrado quando eu fico muito íntimo da pessoa.
― Mas quem não é boiolinha pela Phoebe?
― É uma boa pergunta. ― sorri, bebendo um gole grande do meu vinho e me aproximando dela. Depositei minha taça sobre a estante, ao lado do aparelho de som, apaguei meu cigarro no cinzeiro, deixando-o lá e estendi minha mão para ele. segurou o riso, apontando para si mesma. ― Vem. É só essa.
― Mas eu não danço.
― Não precisa saber dançar. É só pra ser divertido.
― O dom de dançar bem ficou inteiro com , depois não diga que eu avisei. ― riu enquanto eu tirava a taça de suas mãos e colocava ao lado da minha.
Peguei-a pela mão, aproximando seu corpo do meu, uma de suas mãos pousando sobre meu ombro. Pus minha mão no meio de suas costas, conduzindo em uma dança lenta no meio da minha sala.
O leve rubor que tomava conta das suas maçãs do rosto era visível e, olhando de perto, não parecia ter as expressões faciais de uma adolescente como achei na primeira vez que a vi por chamada de vídeo. As sardas que pigmentavam seu rosto abaixo de seus olhos lembravam-me de um céu estrelado em uma noite de verão.
Não conseguia desviar meus olhos de seu rosto que parecia iluminado, entretanto, não conseguia evitar de alternar minha atenção entre seu olhar e sua boca tão bem desenhada. Por mais que não conseguisse parar de olhar para sua boca, não era como se estivesse sentindo algo magnetizar meu corpo, era muito mais pela proximidade de nossos corpos.
Seus olhos reluziam em hesitação e, vez ou outra, parecia ofegar, como se o ar do ambiente ficasse rarefeito ou algo similar. Diminuiu aos poucos a distância entre nós, aproximando seu rosto do meu, vacilando a alguns centímetros, parecendo desistir do que estava prestes a fazer. Continuei onde estava, esperando que ela se decidisse.
Em um piscar de olhos, sua boca encostou na minha, selando nossos lábios. Diferente do que imaginei que seria, não senti nada. Tive uma breve sensação de formigamento onde seus lábios tocaram, que foi embora segundos após desvencilhar-se de mim.
Ao ver seus olhos se afastando dos meus, não sabia como deveria me sentir. Seu olhar parecia cheio de expectativas sobre mim e me senti mal por isso. Dei um meio sorriso, tentando amenizar minha provável falta de expressão facial, sendo correspondido por um sorriso tímido de sua parte.
Querendo evitar olhar em seus olhos, rodopiei-a e, ao puxá-la de volta, envolvi-a em um abraço pelas costas, continuando nossa dança de pequenos passos para a esquerda e para a direita. Seu corpo parecia menos tenso em meio aos meus braços, o que me fez ficar ainda menos à vontade em olhá-la.
Ao término da música, desvencilhou-se de mim em busca de sua taça de vinho novamente, sentando-se no sofá.
― É, você até que não é péssima dançando. ― brinquei, buscando minha taça para disfarçar a tensão.
― Você também não é nada mal. ― deu de ombros, bebendo mais um gole de sua taça, que ainda estava quase cheia.
Com o intuito de que não ficássemos em um clima estranho e necessitando que ela não falasse sobre o que acontecera, comecei a lhe fazer perguntas sobre seu projeto. Animada, contou sobre como gostava de trabalhar com este cliente em específico, que já se conheciam de longa data e sobre o quão frustrada estava por estar com bloqueio para finalizar a encomenda.
Conversamos por aproximadamente duas horas até que decidiu que era hora de voltar para casa, sentar em frente ao computador e encarar o teclado até as palavras fluírem de seus dedos.

No domingo, e eu apenas trocamos mensagens. Mesmo que tivesse permanecido por um espaço de tempo relativamente curto em minha casa, não conseguiu retomar suas atividades assim que voltara para a casa da irmã, atrasando toda a sua demanda de trabalhos para o fim de semana.
Na segunda-feira à tarde, recebi uma nova mensagem sua, perguntando se poderia ficar uns dias em minha casa, pois havia acontecido algo com a sua e que não poderia permanecer lá. Respondi que sim.
Quando chegou, me contou que havia deixado responsável pelo pagamento das contas de luz de sua casa enquanto ele estivesse isolado com ela. No começo, ele lhe dava o dinheiro para compensar o que ela já havia pagado, porém, em busca de praticidade, retirou o pagamento em débito automático de sua conta bancário para que até então noivo cadastrasse na dele. Entretanto, por algum motivo, nunca cadastrou a despesa em sua conta, logo, não haviam pagamentos efetuados nos últimos três meses e, considerando que o máximo de contas que se pode acumular antes do corte da energia elétrica são três, bom… a companhia de energia elétrica foi lá e fez seu trabalho.
― Acredita que, depois de pagar contas atrasadas, demora três dias úteis só para processarem o pagamento? E só posso pedir a energização da minha rede após a confirmação do pagamento. ― disse enquanto largava sua mochila ao lado do sofá, indo até o banheiro lavar as mãos.
Seu tom de voz e as sobrancelhas franzidas entregavam uma que eu ainda não havia conhecido: brava e sem muita paciência.
― Desculpe ter pedido pra ficar aqui. Eu só não… queria pedir mais um favor para . Quer dizer, acho que ela já foi bem legal me ajudando durante o fim de semana.
― Vocês não são tão próximas assim, né?
― Desde a época da faculdade seguimos direções completamente diferentes, mas, ainda assim, ela é minha melhor amiga. Tenho certeza de que não existe nada que eu peça a ela que não vá fazer das tripas coração para me ajudar. Eu só não quero abusar.
― Por mim, você pode ficar o tempo que precisar.
― Tinha me esquecido completamente. Olliver vem essa semana para cá?
― Fica tranquila. Ela pode dormir comigo no meu quarto.
― Tem certeza?
― Ela sempre pede pra dormir lá quando tem pesadelos e tem sido meio frequente, então… ― franzi os lábios.
― Tem algum motivo em específico?
― O que?
― Os pesadelos.
― Ela começou a fazer terapia há pouco tempo. Segundo a psicóloga, é normal, pois ela está entrando em uma fase de transições.
― Para você, é estranho de repente assumir algumas tarefas que antes você não tinha, tipo, ficar um fim de semana inteiro com ela?
― De forma alguma. Na realidade, eu sempre quis que isso acontecesse. Tonya nunca fez muita questão dessa divisão porque supostamente Olliver não tinha pai, então, não fazia sentido ela ter uma guarda compartilhada comigo. ― dei de ombros.
ficou em silêncio por algum tempo, os olhos correndo a sala inteira, como se estivesse se preparando para dizer algo.
― Não sei se esse é o momento certo para falarmos sobre isso ou se existe um momento certo, mas… ― ajeitou os óculos, respirando antes de retomar. ― apesar do que aconteceu sábado, nada muda o que disse para você. Eu ainda quero que tenhamos esse tempo de nos conhecer, de conviver um com o outro… enfim, não quero que atropelemos as etapas. ― tive que conter um suspiro aliviado que se formou em pulmões, pronto para ressoar pela sala.
― Quero que saiba que meu convite e o meu ok pra você ficar aqui nada tem a ver com tentar acelerar esse processo. Quero que se sinta confortável como se esta fosse sua casa. ― sorrimos um para o outro.
Saber que estávamos na mesma página era o que eu precisava para acabar com a sensação de incômodo que me tomava todas as vezes que veio à minha cabeça desde nosso… contato.


#22

Se vamos fazer qualquer coisa, podemos muito bem apenas transar
(Sex - The 1975)


Ter a permanente presença de em minha casa não foi tão estranho quanto achei que seria, uma vez que ela passava boa parte do dia no quarto trabalhando. Silenciosa, eram poucos os momentos que ouvi algo além de seu teclado ou de uma música muito baixinha soando pelo ambiente. Sem contar que ela era extremamente regrada: às 08h tomava café, às 12h almoçava, às 16h tomava um café da tarde; às 19h jantava, às vezes, na casa de .
Os três dias da confirmação de pagamento já haviam passado, entretanto, um novo problema surgiu tão rápido quanto os dias se acabavam: só conseguira agendar a manutenção e restabelecimento de sua rede para uma semana depois, fazendo com que a brava voltasse a cena.
Para tranquilizá-la, falei que sua presença não me atrapalhava, portanto, não fazia diferença quanto tempo demoraria para que a situação em sua casa se normalizasse. A realidade era que eu queria que continuasse ali. Sua presença era reconfortante, mesmo que quase não nos víssemos ao longo do dia, com exceção de suas refeições. Além disso, por razões desconhecidas, sua mera existência dentro de minha casa parecia como um campo de camomilas, pois não houve um dia que tivesse insônia. Fazia pelo menos dois anos que não dormia tão bem quanto naquela semana.
Tentando respeitar ao máximo o fato de não ser fumante, criei pausas durante meu dia para ir até a varanda compartilhada e fumar quantos cigarros fossem preciso para reativar meu cérebro criativamente. Em um dessas pausas, meu celular vibrou com o nome de Antonella na tela.
― A que devo a honra da ligação, chefinha? ― atendi.
― Liguei para saber o que estava acontecendo porque faz quatro dias que você não trabalha mais durante a madrugada e tem me enviado os materiais em horário comercial.
― Obrigado pela preocupação. ― ri. ― Sim, não estou mais trabalhando durante a madrugada.
― É sério, aconteceu algo?
está ficando na minha casa. ― dei uma última tragada no cigarro que segurava antes de apagá-lo no cinzeiro e jogar a bituca fora, ouvindo apenas o silêncio de Tonya como respostas.
Alguns segundos depois, retomou:
― O que rolou? ― repeti a ela o que me contara sobre toda a questão envolvendo sua energia elétrica. ― E você aproveitou pra enfiá-la na sua casa, né, sem vergonha? ― riu.
Por um breve instante, considerei contar a Tonya sobre o beijo e sobre o quão estranho me senti em relação aos acontecimentos. Todavia, conclui que não era relevante o suficiente para que dividisse com ela. Pelo menos, não agora.
― Não tem nada a ver e você sabe disso.
― Ok, vamos fingir que você é esse tipo de pessoa altruísta e inocente. ― brincou. ― Você sabe que é zoeira, né?
― Sim, eu sei. ― ri.
― Mas vai me dizer que não rolou nada? Porque, sinceramente, eu não acredito nisso, não, viu?
― Nós estamos nos conhecendo. Sem contar que ela deixou explícito que não tem a menor vontade de entrar em um relacionamento agora.
― Mas você sabe que um dia pode ser que ela queira e que isso não demore tanto, né?
― Bom, não ache que as coisas serão assim. Quer dizer, ela esteve durante sete anos com a mesma pessoa. Não acho que seja algo que esteja passando na cabeça dela.
― Na dela ou na sua? ― calei-me porque sabia onde Antonella queria chegar. ― , não tente usar todas as suas experiências frustradas como parâmetro pra uma que nem de perto é convencional. Não é porque nenhuma das mulheres com quem você quis ter algo correspondeu a isso que com vai ser a mesma coisa.
Refleti sobre suas palavras.
No fundo, eu sabia que Antonella estava coberta de razão, só não queria admitir. Talvez eu só fosse mais uma dessas pessoas que cansou de se frustrar todas as vezes que acredita que vai dar certo com alguém e só tenha desistido de dar certo com alguém.
― Agora a pergunta que não quer calar é: quando vou conhecer a sua amiguinha?
― Ela vai ficar aqui até quinta que vem.
― Fale com ela, podemos marcar no início da próxima semana, após a terapia da Olliver. Aliás, será que você poderia levá-la na próxima segunda?
― Primeiro: sim, vou conversar com a ; e segundo: sim, posso levá-la. Inclusive, se você quiser, posso buscá-la todas as semanas.
― Ainda prefiro que você continue em casa enquanto não for imunizado. Se importa?
― Tudo bem. ― não consegui me impedir de ficar frustrado com sua resposta.
― Juro que a partir do momento que estiver tudo bem e não houver mais tantos riscos nem pra você nem pra Olli, deixo ela ficar quanto tempo quiser aí na sua casa. Se ela quiser se mudar praí, vai estar autorizada também.
― Sério?
― Seríssimo. Palavra de jogadora de futebol.
― O certo não de e escoteira?
― Mas eu nunca fui escoteira. O uniforme não caía bem em mim. ― rimos.
― Tudo bem, então, boleira, acredito na sua palavra.
O silêncio refez-se entre nós, como se ainda houvesse muito a ser dito, mas nenhuma palavra poderia ser usada. Por algum motivo, estava se tornando cada vez mais complicado para mim verbalizar algo a respeito de para Antonella. Talvez ainda não tivéssemos alcançado o ponto em conseguiríamos falar de uma pessoa com quem um de nós estivesse se relacionando.
Após me fazer mais algumas perguntas referentes a algumas campanhas que estavam sob a minha responsabilidade, encerrou a ligação reforçando seu pedido para que jantássemos juntos na semana seguinte.
Ao voltar para casa, estava sentada à mesa, bebendo café e olhando algo em seu celular.
― Cansada de trabalhar? ― fui até a pia e me servi de um pouco de café também.
― Pausa para um cafézinho porque estava quase dormindo em cima do teclado.
― Bloqueio de novo? ― sentei-me de frente para ela, com a xícara em mãos.
― Não, desta vez, é uma correção de um artigo científico, mas é muito chato. ― deu um sorrisinho.
― Semana que vem, no início da semana, você tem algum compromisso?
― Bom, é meio difícil ter compromissos quando não se pode sair para lugares. ― riu. ― Mas o que você me propõe?
― Antonella e Olliver queriam jantar aqui em casa para te conhecer.
― Você mentiu para elas que sou interessante? ― brincou.
― Não foi preciso. ― dei de ombros. ― O que acha?
― Acho que é uma boa ideia.
― Vou falar pra elas decidirem o dia e virem, tá?
― Tudo bem. ― levantei-me da mesa, sendo atingido pelas palavras de Antonella durante nossa ligação. “Não tente usar todas as suas experiências frustradas como parâmetro pra uma que nem de perto é convencional.”
Suas palavras faziam a minha cabeça rodopiar, tanto que nem percebi que havia se levantado de sua cadeira e caminhava em direção ao quarto.
? ― chamei-a, fazendo-a se virar para trás, com a mão já na maçaneta.
Aproximei-me dela o suficiente para sentir sua respiração me alcançando levemente. Sendo relativamente mais baixa que eu, sua cabeça estava parcialmente inclinada para olhar meu rosto.
― Talvez essa seja a pergunta mais estranha que você vai ouvir na sua vida, mas eu… posso te beijar? ― as maçãs de seu rosto coraram e seus olhos quase que imperceptivelmente se arregalaram.
Demorou alguns segundos até que ela assentisse. Segurei seu rosto entre minhas mãos, aproximando meus lábios dos seus. Diferente do dia em que apenas me dera uma selinho, dessa vez, seus olhos se fecharam e sua boca se encaixou perfeitamente na minha.
Como da primeira vez, meu coração não acelerou, minhas mãos não suaram e minhas pernas não ficaram bambas. Todavia, sentir nossos corpos tão próximos, sua língua na minha, uma de suas mãos tocando minha nuca com seus dedos gelados me proporcionava uma sensação de familiaridade. Era um misto de efeitos sob o meu corpo. Seu toque era uma novidade, entretanto, era como se já nos conhecêssemos há muito tempo.
Ao me afastar, abri os olhos a tempo de vê-la abrindo os dela vagarosamente, como se ainda experienciasse um restinho daquele momento. Não contive um sorriso quando seu olhar encontrou o meu, sua mão deslizando da minha nuca para minha bochecha.
― Achei que teria que te beijar de novo. ― falou baixinho.
― Foi você quem disse que queria me conhecer primeiro. ― rimos.
― Posso dizer que estou um pouquinho arrependida?
― Vou aceitar essa desculpa só dessa vez.
Envolvi meus braços ao seu redor, fazendo-a aconchegar sua cabeça em meu peito. Seu cabelo cheirava a alguma fruta cítrica que eu não seria capaz de identificar e seus braços estavam firmes ao redor da minha cintura.
Desvencilhando-se de mim, peguei-a pela mão e guiei-a para o sofá, sentando ao seu lado.
― Sabe o que eu fiquei pensando?
― O que?
― Você nunca me falou sobre como era sua vida quando você era mais nova. ― encarei-a.
― Não tinha nada de interessante na minha vida quando era mais nova, por isso, não costumo falar sobre. ― deu de ombros. ― Mas, em relação a você, me sinto um pouco mal de não falar sobre porque desde sempre você se abriu sobre coisas muito mais pessoais suas.
― Mas não é uma obrigação sua falar nada pra mim. Pelo menos, não quero que você se sinta assim. Só me conte o que você quiser e se quiser. ― beijou minha bochecha, entrelaçando nossas mãos.
A troca de olhares e de sorrisos durou alguns minutos até que dissesse que precisava ir terminar suas tarefas. Por mais que quisesse fazê-la ficar, também tinha que terminar uma campanha que precisava ser entregue em dois dias. Para compensar, combinamos que naquela noite jantaríamos juntos.

Durante o jantar, trocamos muito mais sorrisos do que palavras. quis saber mais sobre como estava minha relação com Olliver desde que revelara ser seu pai e novamente perguntara se sua presença em minha casa estava incomodando. Para tranquilizá-la de vez, falei sobre como sempre me sentia mais confortável em minha própria casa quando havia companhia e com quem conversar.
Pós-jantar, cada um de nós foi para seu devido quarto.
Deitado na cama, minha cabeça, em um looping infinito ia e voltava o tempo todo nas palavras de Antonella, que, de novo, estava certa. Mesmo que estivesse gostando de , me sentia tomado por uma frustração de acabar sendo só o cara engraçadinho e fofo com quem ela queria trocar saliva e ir embora assim que uma proposta melhor surgisse. Além do mais, outra coisa que não parava de martelar meus pensamentos: se eu sentia algo por ela e tinha consciência disso, deveria me sentir diferente, certo? Por que não sentia as borboletas no estômago, as mãos frias de nervosismo e o corpo inteiro formigar sob seu toque? Por que eu não estava ficando desestabilizado?
Meus pensamentos foram interrompidos por leves batidinhas na porta. Pedi que entrasse.
― Estou sem sono. Podemos… sei lá, matar um tempo? ― sugeriu com a cabeça enfiada por uma fresta na porta.
― Claro. Entra. ― ajeitei-me na cama, ficando sentado, as costas apoiadas na cabeceira.
A mulher entrou e sentou-de timidamente na cama.
― Tá sentindo falta da sua casa já? ― questionei enquanto ela posicionava um travesseiro às suas costas.
― Acho que sim. Foram raras as vezes que dormi fora de casa e, geralmente, não é por tanto tempo seguido.
― Também me sinto assim quando fico fora de casa.
― Que coisa, né? A gente se apega a coisas tão pequenas. ― balançou a cabeça, sorrindo e olhando para o nada à sua frente. ― Quando eu era adolescente, não dormia na casa de ninguém.
― Por quê?
― Porque eu não conseguia pregar o olho, imaginando a possibilidade de algo ruim acontecer comigo. ― riu.
― Acho que todo o adolescente passa por umas situações meio engraçadas que cria na própria cabeça.
― Você não tem cara de quem passava por isso. ― olhou-me com as sobrancelhas franzidas e um sorriso zombeteiro no rosto.
― E do que eu tenho cara, então?
― Você tem cara de quem era super popular na escola.
― Eu fui popular por, sei lá, duas semanas. Até descobrirem que eu não era maneiro de verdade. ― rimos.
― Ele só se afastaram de você?
― É. Foi assim que eu conheci a Tonya.
― Ela era super popular. ― falou como se respondesse uma pergunta que não fora feita.
― Era e todo mundo olhava pra gente como se fôssemos completamente esquisitos juntos.
― Na minha vida, era a garota super popular.
― E por que você não era? Quer dizer, vocês têm exatamente a mesma cara.
― Digamos que fazer parte do clube de literatura expele pessoas populares dos seus círculos sociais. Na minha escola, qualquer um que soubesse ler e interpretar um romance não era digno de atenção. ― riu, parecendo triste.
― Que bom que no mundo real popularidade importa pouco.
― Mais ou menos, né? A sensação que tenho é de que vivemos em um eterno ensino médio.
Ficamos quietos por longos instantes, seus olhos vagavam por todo o quarto, como se fizessem o reconhecimento do local. Desde que chegara, ainda não tinha entrado no cômodo, provavelmente, evitando ser invasiva. Até que seu olhar encontrou o meu, encarando-a sem muito pudor.
Os olhos, que estavam em contato com os meus, desceram para minha boca e pude notar a quase discreta mordida que deu na parte interna de seu lábio inferior. Coloquei uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha, acariciando seu rosto. Era impossível olhá-la tão de perto e não achar sua figura intrigantemente linda.
Contrariando a minha falta de sentidos nos últimos dois beijos que compartilhamos, beijei-a novamente. Desta vez, de forma lenta, porém intensa. Sua boca se entreabrindo para que minha língua pudesse invadi-la. Suas mãos frias postas em minha nuca, subindo e entrelaçando seus dedos em meus cabelos.
Parecendo se lembrar de alguma coisa subitamente, usou suas mãos para afastar de maneira suave meu rosto do dela.
― Tem algo que preciso te dizer.
― Você tem sete ex-namorados do mal com quem eu preciso brigar? ― suas sobrancelhas se franziram em descompreensão. Alguém não tinha ouvido falar de Scott Pilgrim contra o mundo. ― Pode falar. ― sorri.
― É que… bom, eu nunca… ― pigarreou. ― Eu só fiz… isso com duas pessoas. ― seu tom era um misto de preocupação e nervosismo, como se as palavras fossem grandes lâminas afiadas atravessadas por sua garganta que custaram a sair.
Passei meu dedão por sua bochecha, dando um meio sorriso. Aquilo parecia ser um tópico delicado e que de fato a afetava.
― Sabe que se você não quiser, não precisamos fazer isso, né?
― Mas eu quero. Só queria, sei lá, avisar. ― deu de ombros.
― Tá tudo bem. Se te faz se sentir melhor, também transei com poucas pessoas na minha vida e, diferente de você, nunca estive em um relacionamento, então, meio que você tá ganhando essa competição. ― enruguei os lábios e ela abafou uma risada selando nossos lábios. ― Já que nenhum de nós dois é o cúmulo da experiência, você pode ir me falando o que gosta e nós dois aprendemos juntos, o que acha?
Em uma sequência de selinhos transformados em um beijo intenso, entendi que sua resposta era sim.
De joelhos sobre a cama, chegou seu corpo mais perto ao meu. Pus minhas mãos em sua cintura, em busca da barra de sua blusa. Quando a encontrei, escorreguei meus dedos para dentro dela, apenas o bastante para sentir sua pele quente se arrepiar sob meu toque. Afastou sua boca da minha para tirar seus óculos. Aproveitei o embalo para tirar sua blusa, deixando-a descabelada e risonha.
Ao se dar conta que seu tórax estava exposto, tentou abraçar o próprio corpo, tentando escondê-lo do meu campo de visão. Delicadamente, segurei seus antebraços, descruzando-os e afastando de seu corpo.
― Desculpe, estou com um pouco de… vergonha. ― sua voz era apenas um fio quase inaudível.
― Não precisa se envergonhar. Você é linda. ― beijei o canto de seus lábios. ― Quem quer que tenha dito que não, tá ficando louco. ― sorriu.
― É que… você olhou direto para… ― gesticulou, indicando os próprios seios.
― É um problema pra você?
― Não… gosto muito deles.
― Mas eles são lindos. ― puxei-a em minha direção, fazendo-a se inclinar para frente, sua boca a milímetros da minha.
Seus lábios pressionaram os meus antes que ela se afastasse novamente para dizer:
― Você gosta muito de peitos?
― Tanto faz. ― dei de ombros.
― Se importa de não dar muita atenção para eles? Quer dizer, não… você sabe…
― Fica mais fácil de saber se você falar. ― brinquei.
― Não me deixa tão… ― sua feição se tornou pensativa por alguns segundos. ― Não tenho tanta sensibilidade assim.
― Tudo bem. Nada de peitos. ― deu um sorriso voltando a me beijar.
Tomando cuidado para que ela não caísse da cama nem que nos batessemos, inverti nossas posições, descendo beijos pelo seu pescoço e colo.
No sentido oposto ao que imaginei após beijá-la pelas primeiras vezes, eu estava conseguindo entrar no clima. Meu maior medo era me tornar uma decepção para logo na nossa primeira vez. Saber que ela tinha transado com menos pessoas do que eu havia me deixado mais nervoso do que já estava.
tinha acabado de sair de um relacionamento que durara sete anos e a única coisa que passava pela minha cabeça é que, se nossa primeira vez fosse ruim para ela, provavelmente, me compararia com seu ex-noivo e duvido muito que saíria campeão nesta, visto que é pouco razoável que tenha ficado a ponto de se casar com um homem que não sabia o que estava fazendo.
Tracei um caminho de beijos entre seus seios até à sua barriga, depositando ali alguns beijos úmidos enquanto abria sua calça. Retirei a peça de seu corpo sem pressa, escorregando-a por suas belas pernas, largando-a no chão. Pus minhas mãos sobre suas coxas, apertando-as levemente, inclinando-me para beijá-las em uma tentativa de desviar a atenção da ansiedade que só crescia em meu peito.
Sua respiração era baixa e levemente descompassada, o corpo arrepiado dos pés a cabeça. Beijando suas coxas, subi até a altura da sua virilha, afastando-me dela e observando-a com os olhos semicerrados. Reposicionei meu corpo sobre o dela, apoiando-me com os braços postos em cada lado de seu corpo. Voltei a beijar-lhe os lábios vagarosamente, sentindo cada pequeno detalhe, cada textura, cada tentativa de sorriso que se formava nos seus ou nos meus lábios.
Encerrando nosso beijo, tomei um pouco de fôlego antes de questioná-la:
― Algum pedido especial?
― Tem uma coisa.
― O que é?
― Meu Deus, por que me fizeste uma mulher tímida? ― cochichou, possivelmente, mais para si mesma do que para mim, porém não consegui conter um sorriso.
― Se você quiser ― abaixei o tom de voz, cochichando para ela: ― pode falar assim, como se estivesse falando consigo mesma. ― completei.
― Você pode… usar sua boca? ― passei a língua pelos lábios. Mesmo corada, mantinha contato visual enquanto falava.
Selei nossos lábios.
― Seu pedido é uma ordem.
Ao invés de ir direto ao seu pedido, deslizei uma das mãos por sua barriga até adentrar em sua calcinha. Sem pressionar muito, passei o dedo por toda a extensão de sua vagina, vendo-a se contrair um pouco embaixo de mim. Fiz movimentos circulares sobre seu clitóris algumas vezes, fazendo-a fechar os olhos sem saber muito bem o que fazer com as próprias mãos.
Penetrei um dedo nela no intuito de lubrificá-lo para continuar a massagear a parte externa.
Sua respiração começava a ficar mais profunda enquanto segurava uma pequena quantidade de carne do lábio inferior entre os dentes. Ficando de joelhos no meio de suas pernas, puxei sua roupa íntima para baixo, dando a ela o mesmo destino que o do par de calças.
Inclinei-me sobre sua pélvis, passando meus braços por baixo de suas coxas e depositando curtas lambidas em sua virilha. estava completamente molhada e nada me deixava mais contente do que perceber que estava dando tudo certo.
Querendo que ela aproveitasse ao máximo a experiência, escolhi não ir direto com a boca em seu clitóris, passando algumas vezes a língua desde o início até o fim de sua vulva calmamente. Sua intimidade estava tão quente parecia a ponto de entrar em combustão espontânea. A parte interna de suas coxas apresentavam leves espasmos devido a tensão que depositava nelas para mantê-las na posição que as coloquei.
Quando concentrei toda a minha atenção na parte mais sensível, pude ouvir seu primeiro gemido e sua respiração entrecortada. À medida que ficava mais excitada, suas mãos apertavam o lençol com força. Geralmente, pararia quando ela estivesse prestes a ter um orgasmo, entretanto, preferi fazê-la gozar assim por ter sido um pedido seu.
As sobrancelhas de se franziram, os olhos se reviraram, sua boca se abriu como se fosse soltar o grito mais alto que conseguisse, no entanto, nenhum som saiu. Nem mesmo o de sua respiração. Sorri por ter tido a oportunidade de capturar aquele exato momento com meus olhos.
Impulsionando meu corpo para que ficássemos cara a cara, juntou nossos lábios com voracidade, como se a mulher tímida que estava deitado sob mim há alguns instantes tivesse se vestido e ido embora, deixando para trás uma mulher enérgica em seu lugar.
Suas mãos rapidamente encontraram a barra da minha camiseta, arrancando-a e, consequentemente, arranhando minhas costas. Desvencilhei-me dela para passar a camiseta pela minha cabeça, aproveitando para tirar as calças. Enquanto a beijava novamente, minha mão correu para a gaveta da mesinha de cabeceira em busca de um preservativo. Agradeci mentalmente ao do passado por ter se lembrado disso na última ida ao mercado.
Mesmo depois de tanta “movimentação”, constatei que ainda não estava duro o suficiente para colocar a camisinha. Colei meu corpo ao de na esperança de que o atrito e sua alta temperatura me ajudassem a chegar no ponto que eu precisava, o que funcionou depois de alguns poucos segundos.
Suas mãos deslizaram pelas minhas costas, até encontrarem o cós de minha cueca, forçando-o para baixo para descê-la pelas minhas pernas. Livrei-me da peça, abrindo o pacote da camisinha e pondo-a em meu pênis.
Rocei a cabeça do membro em seu clitóris algumas vezes antes de penetrá-la.
Ao começar a me movimentar, enroscou uma das pernas pela minha cintura, dando-me mais espaço para entrar e sair dela. Conforme aumentei a velocidade e a mantive constante, a mulher passou a arfar, o abdômen contraindo-se vez ou outra. Suas unhas se cravaram em meus ombros e, em qualquer outra situação, certamente, eu choraria de dor.
chocava sua intimidade contra minha enquanto se contorcia. Os olhos se revirando, seus braços e pernas pareciam querer perder as forças a qualquer instante. Abafei um de seus gemidos com um beijo. Com uma das mãos na cabeceira da cama e a outra em seu rosto lhe fiz um pedido:
― Olha nos meus olhos. ― e assim o fez com muito esforço, como se estivesse perdendo o controle dos próprios movimentos.
Seu olhar tinha um toque de lascívia, mas também de cansaço, prestes a fazê-la desfalecer quando menos esperasse. Os lábios entreabertos deixavam escapar pequenos gemidos espontâneos demais para serem falsos.
Todavia, eu, mesmo que estivesse excitado, não sentia que estava próximo de gozar. Nem sabia se conseguiria.
A imagem de uma perdendo seu autocontrole com espasmos distribuídos pelo corpo todo era como a mais bela das obras de arte em uma exibição particular. Contudo, talvez nem isso nem o fato de meu pau estar deslizando para dentro dela de uma maneira sequencialmente deliciosa fosse o bastante para me fazer gozar.
E, como já era se esperar, arqueando as costas levemente e com as pernas tremendo, gozou pela segunda vez enquanto eu só consegui me retirar de dentro dela, pois senti meu pau começar a amolecer pouco a pouco.


#23

Me trate como um velho amigo
(Haunt // Bed - The 1975)


Ao acordar no dia seguinte, não pude evitar sorrir ao ver deitada sobre meu braço, o qual eu já não sentia mais devido a dormência, com as pernas entrelaçadas nas minhas e com boa parte da coberta sobre si. Tentando não acordá-la, tirei o braço devagar e pus um travesseiro sob sua cabeça. Sentado, escorreguei até os pés da cama e saí do quarto.
Tão logo que fiquei de pé, as memórias da noite passada vieram e, assim como elas, a frustração. Não era muito comum, pelo menos, não pra mim, não conseguir ter um orgasmo e era sem sombra de dúvidas uma das sensações mais decepcionantes que já tivera em minha vida. O sentimento que tomava conta era o de começar muito bem um trabalho e, por alguma razão, não conseguir finalizá-lo de maneira satisfatória, sendo, no máximo, mediana. E tentar me convencer de que era algo normal na vida de qualquer pessoa, que nem sempre nosso corpo consegue alcançar tudo aquilo que queremos não surtia efeito nenhum, só fazia eu me sentia plenamente culpado com o desfecho da noite.
Sentindo a necessidade de cafeína para conseguir passar por aquela manhã, coloquei a cafeteira para funcionar. Enquanto as gotas de café caíam dentro do recipiente de vidro, enviei uma mensagem para Antonella avisando que estava de acordo com o jantar e que poderíamos marcá-lo para o início da semana. Ela, por sua vez, enviou uma foto de Olliver fazendo um joinha, questionando se poderia ser na quarta à noite. Respondi afirmativamente, servindo uma xícara quase transbordando de café.
Uma das coisas que aprendi sendo uma pessoa insone foi que para descobrir se você pode ou não puxar assunto com alguém não é ver se ela já está online e, sim, se ela já havia curtido ou compartilhado alguma postagem em suas redes sociais. não só já tinha compartilhado como também estava online, por isso, preparei-lhe uma xícara de café puro e sem açúcar, do jeito que gostava, e levei para ela no quarto.
Ao me ver, coçou os olhos e sorriu, sentando-se na cama.
― Você costuma fazer isso com todo mundo? ― pegou a xícara das minhas mãos, dando um pequeno gole.
― Se a noite anterior da pessoa foi cansativa, sim. ― rimos.
Pus a mão sobre seu joelho esticado, bebendo meu próprio café. Não havia nenhuma sensação matinal melhor que a cafeína entrando em contato com meu corpo e começando a fazer efeito.
― Ainda é muito cedo pra gente conversar sobre isso? ― franziu os lábios ao questionar.
― Não. O que quer falar? ― bebeu um gole de café, parecendo pensativa.
― Nunca me senti tão bem na presença de outra pessoa. ― sorriu. ― Como eu disse, não sou a pessoa sexualmente mais experiente, mas nunca ninguém me deixou tão à vontade. ― pus a mão em seu rosto, acariciando com o dedão.
, quando eu disse que queria que você se sentisse confortável, era sobre isso também. Lembra sobre a construção da intimidade? É sobre isso. Ter segurança e confiança pra dividir qualquer coisa. ― beijei sua testa. ― Eu jamais tocaria você ou faria coisas que você não quer fazer. E quero se sinta livre pra me falar o que quiser a qualquer momento, não importa o que seja, ok? ― assentiu.
― Obrigada. ― apoiou sua xícara sobre o joelho, fazendo aquela cara de quem queria perguntar algo.
― O que é?
― Eu não disse nada.
― Ainda. Mas você quer. ― dei um sorriso. ― Pode falar.
― Bom… é que tive a impressão de que ontem, no final, você… parecia desconfortável, mas pode ter sido só minha imaginação mesmo.,br> Na minha cabeça, surgira muito rapidamente a ideia de mentir para ela, fingir que estava tudo bem e que não tinha nada errado comigo. No entanto, esse não era o tipo de relação que desejava construir com . Se ela havia se aberto comigo sobre ter se sentido segura, não deveria haver nem a mais remota possibilidade de mentir para ela.
― Eu estava nervoso. ― ri. ― Não esperava que fosse acontecer tão cedo, então, eu meio que não tava pronto. ― dei de ombros. ― Desculpa se você ficou mal com isso. Não sou muito bom em disfarçar.
― E nem precisa. Está tudo bem. Só fiquei preocupada que talvez você não tivesse gostado. ― voltou a beber seu café, desviando o olhar do meu.
Queria poder lhe dizer algo que a tranquilizasse sem precisar mentir, porém não era simples assim. Dentro de mim, eu ainda estava processando uma espécie de sentimento de culpa por não ter conseguido me sentir completamente à vontade na presença de , pelo menos não o suficiente para que aquela experiência fosse prazerosa para nós dois.
― Sabe que, se estiver precisando desabafar sobre algo, podemos conversar, não é? ― segurou uma das minhas mãos e os cantos dos meus lábios se comprimiram, tentando produzir um sorriso para ela.
― Sei disso. Mas, de verdade, não foi nada demais. ― coloquei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.
depositou sua xícara sobre a mesinha de cabeceira, sentando-se mais perto de mim, segurando meu rosto entre suas mãos, que, como já era de costume, estavam frias.
― Foram várias as vezes que me peguei imaginando como seria quando eu te veria pessoalmente e pudesse te tocar. ― seus olhos percorriam todo o meu rosto. ― E nem nos meus melhores sonhos eu consegui reproduzir a realidade. ― aproximou seu rosto do meu, selando nossos lábios demoradamente.
Novamente, fui invadido por uma sensação plenamente esvaziada de emoções. Era angustiante vê-la tão vulnerável em relação às suas emoções e me sentir incapacitado de corresponder na mesma proporção.
Por muitos meses, foi uma bóia de salvação em meio ao mar de solidão no qual me encontrava e eu esperava que fosse ser assim também no mundo real. No entanto, algo dentro de mim dizia constantemente que éramos dois desconhecidos que tínhamos trocado apenas meia dúzia de palavras durante um determinado espaço de tempo. E, por mais que tentasse silenciar essa voz na minha cabeça, não conseguia evitar concordar com a veracidade dos fatos.
Era nítido o esforço que estava fazendo para ser verdadeira e sincera, mas ainda haviam muitas coisas que ela não estava pronta para dividir.
― Você acha que a Olliver e a Antonella vão gostar de mim? ― afastou uma mecha dos meus cabelos do meu rosto.
― Mesmo se elas não gostarem, eu gosto. ― sorri, fazendo-a se inclinar na minha direção para me abraçar.
Sentia-me um completo idiota por não entender a bagunça que estava acontecendo no meu peito. Eu não podia negar que tinha sentimentos por ela, que cada dia que passava queria conhecê-la melhor e que permanecesse ali comigo. Todavia, não era o tipo de sentimento que poderia ser definido como paixão. Não tinha a ardência e a loucura de uma paixão, porém em nada se igualava a uma amizade.
Todas as vezes que me olhava nos olhos toda a minha calmaria se ia porque podia jurar que ela conseguia ler tudo o que eu estava sentindo, todas as minhas angústias, meus desejos, meus medos, minhas alegrias e meus desconfortos. Tudo. Nada escapava daqueles brilhantes olhos.
Já eu, quando a olhava nos olhos, não sabia bem o que procurar. Não sabia quais eram seus maiores medos, suas angústias, seus sonhos, seus desejos. Estava em frente à uma completa estranha com a qual conversei ao longo de meses. A verdade era que eu sabia muito pouco sobre e isso estava começando a me incomodar.
Por que só eu tinha que ser um livro aberto sobre tudo?
― Queria passar o dia todo deitada aqui. ― fechou os olhos, pronunciando as palavras em um tom manhoso.
― Você pode fazer o que quiser.
― Não, não posso. Prometi para um cliente que ia entregar a segunda versão revisada de um artigo hoje. O artigo tem 200 páginas e eu nem comecei a ler ainda. ― seu rosto se contorceu em uma feição chateada.
― Se eu puder ajudar em algo… ― deixei no ar.
― Obrigada, mas só preciso ficar em pleno silêncio, sozinha em um canto e abastecida com café ao longo do dia.
― Posso fazer isso por você. ― dei um beijo em sua têmpora. ― O que vai querer de almoço?
― Você sabe cozinhar?
― Sei. Só não gosto. ― ri. ― Por isso, convenci a mim mesmo de que não sei, mas eu sei sim.
― Bom, vou deixar você encarregado dessa.
― O que acha de algo mais saudável?
― Uau, você come algo além de fast food e cigarros? ― arqueou as sobrancelhas.
― Engraçadinha. ― semicerrei os olhos, fingindo estar bravo. ― Caso não saiba, estou tentando aprender com a minha filha. Faz quase um ano que ela não come carne.
― Inversão de papéis?
― Mais ou menos. ― gesticulei com as mãos.
― Eu amo comida vegetariana e, mesmo que não gostasse, faria a espiral do silêncio acontecer porque não tenho coragem de reclamar de algo que não vou ajudar a fazer.
― A sua resposta está corretíssima. ― sorri. ― Vou fumar um cigarro na varanda e já volto.
― Um só? ― arqueou a sobrancelha, debochando.
― Foi forma de falar, mulher! ― rimos.
― Foi o que pensei. ― descobriu-se, levantando da cama, em busca de suas roupas espalhadas pelo chão.
Observei seu corpo e os movimentos que fazia enquanto se abaixava para juntar as peças e levantando-se para vesti-las. A visão era tão bonita que fazia com que me questionasse repetidamente o que havia de errado comigo para não desejá-la de todas as maneiras possíveis e impossíveis.
Saí do quarto, passando pela cozinha para pegar meu maço de cigarros e o isqueiro.
Rumo a varanda coletiva, vi um moletom amarelo com alguns fios de cabelos castanhos caindo sobre os ombros e já sabia de quem se tratava.
― Você sempre acorda cedo assim? ― perguntei, parando ao lado de .
― Não tem como acordar se você não dormir, né? ― sorriu, desviou o olhar para a rua à nossa frente.
Não eram nem 09h e a fila de carros estava formada.
Coloquei um tabaco entre os lábios para acendê-lo. Apertei o isqueiro uma, duas, três vezes e nem faíscas saíam. Rindo, tirou seu isqueiro do bolso, acendendo para mim.
― Parece que alguém esqueceu de fazer o estoque na última ida no mercado.
― Acabou o fósforo e comecei a usar o isqueiro. ― dei de ombros, soltando a fumaça.
Diferente da primeira vez que a vi, agora estava mais magra e parecia pouco saudável. Seu rosto estava pálido e os cabelos ressecados. As olheiras profundas abaixo dos olhos completavam o combo.
― Você tá bem? ― a questão era mais voltada à sua aparência, mas obviamente que ela não iria falar sobre isso.
A mulher apenas deu de ombros aspirando vagarosamente uma grande quantidade de fumaça, soltando-a aos poucos depois de alguns segundos.
― Tão bem quanto uma pessoa que não pregou os olhos à noite. De resto, tô bem, sim.
― Tem certeza? ― encarei-a. ― Sabe que se precisar de algo, qualquer coisa que for, pode falar comigo, né?
― Tá tudo bem, . De verdade. ― deu um sorriso sem graça.
Continuamos por alguns segundos em silêncio, fumando e olhando os carros que não haviam se mexido um centímetro em nenhuma direção.
― Consigo entender perfeitamente por que ela tá caidinha por você. ― riu baixinho com o cigarro entre os lábios. ― No começo, eu achava que você era só mais um cara bonitinho que ela encontrou por aí e que ia arranjar mais uma penca de problemas e, no fim, você tá se mostrando um amigo. ― tirou o cigarro da boca, a fumaça saindo todas as vezes que pronunciava uma palavra que necessitava de um pouco mais de ar para sair: ― Sinceramente, a minha vida toda achei que amizade mesmo era coisa de filme de adolescente e todos os dias você tem me provado que não. ― sorriu.
― Uma vez minha mãe me disse que nem todas as pessoas do mundo são ruins e, se desejamos conhecê-las, nós não podemos ser ruins. ― sorri de volta, tragando longamente em seguida.
, naquela manhã, estava estranhamente silenciosa. O olhar perdido em todos os elementos à nossa volta fizera menos contato visual comigo que o habitual, não fez nenhuma piadinha de cunho sexual nem questionou quando será a próxima vez que vamos beber ou ir ao mercado juntos.
Meus olhos seguiram seus movimentos enquanto sentava em um dos degraus mais baixos da escada.
― Você já imaginou como seria se você morresse hoje? ― perguntou, cutucando suas cutículas.
― Nunca pensei muito sobre como seria morrer. ― pensei rapidamente sobre o assunto. ― Não haveriam muitas pessoas as quais sentiriam a minha falta. ― dei de ombros. ― E, provavelmente, morreria satisfeito com a vida que levei. Conheci minha filha, trabalhei com o que gosto, tive poucos, mas bons amigos. Acho que essa é a vida que deveríamos querer, né? ― a vi assentir, ainda sem me olhar. ― E você?
― Certamente, eu seria o cadáver mais exausto de todos. ― riu sem humor. ― Quer dizer, não teria nenhum arrependimento. Fiz tudo o que quis, da forma que quis, quando eu determinei, mas tudo isso é cansativo, sabe? Ter total controle e responsabilidade da sua vida, digo.
― Você tem pensado muito sobre isso?
― O quê? Morrer? ― assenti. ― Pode ficar tranquilo, . Não é como se eu fosse fazer algo agora mesmo. Tô cansada da vida, mas não quero morrer. Apesar de tudo, essa é uma boa vida. ― deu uma última tragada no restinho de seu cigarro antes de apagá-lo e jogar fora. ― Não sei se somos íntimos o bastante pra isso, mas você pode me prometer uma coisa? ― assenti novamente, jogando minha bituca apagada no cinzeiro, pegando seu isqueiro emprestado para acender um novo. ― Cuide da . Sei que às vezes ela é chata demais e tem mania de simplesmente ficar quieta quando não quer falar sobre algo, o que pode ser extremamente irritante com o passar do tempo, porém… ela é a única e mais importante das pessoas na minha vida. ― diferente das outras pessoas, não estava chorando e nem parecia querer chorar. Sua expressão estava congelada, não transmitia nervoso, tristeza, muito menos alegria.
― Você ama ela demais, né?
― É a única pessoa que nunca foi embora. ― deu de ombros com um sorriso amargo estampando seu rosto.
Levantou-se dos degraus, pondo as mãos dentro do bolso em seu moletom.
― Preciso de um chá. ― subiu os primeiros degraus.
? ― parou de subir, voltando-se para mim. ― Já falei isso antes e vou falar de novo: qualquer coisa que você precisar, pode me chamar, ok? Qualquer coisa mesmo.
― Mesmo se eu estiver precisando de um P.A.?
― Não faço a mínima ideia do que seja isso e tenho certeza que vou me arrepender de concordar, mas sim, mesmo se for isso. ― riu e o nó em minha garganta afrouxou. Aquela era a mulher que eu conhecera. ― Eu devo chegar em casa e jogar isso no google?
― Acho melhor não. ― franziu as sobrancelhas, ainda sorrindo. ― ?
― Sim?
― Obrigada. ― assenti.
deu as costas, subindo as escadas para ir para casa. Dois minutos depois, ouvi sua porta fechar no corredor acima.
Terminei de fumar aquele cigarro e voltei para casa, com o celular em mãos, descobrindo o que significava P.A.


#24

Você está entrelaçando sua alma com outra pessoa
(Somebody Else - The 1975)

Antonella


Olliver, como sempre no que dizia respeito a , estava inquieta. Queria ir mais cedo para a casa do pai e conhecer a sua nova “amiga”. Eu não podia negar que também estava curiosa para finalmente conhecer a figura mitológica que se transformara no meu imaginário. Poder dar um rosto e características para sua personalidade era a única coisa que eu almejava quando o ouvia falar dela com tanto… fervor.
Portanto, o relógio mal marcou 18h e já estávamos a caminho daquela noite a qual não sabia o que esperar. Antes de me sentir preparada para sentar atrás do volante com minha filha sentada no banco traseiro, precisei tomar duas xícaras de chá de camomila antes que a ansiedade me comesse em vida.
Constantemente me vigiava para relaxar as mãos no volante. Meus dedos estavam se apertando tanto ao seu redor que as juntas perdiam a coloração e doíam. Perdi as contas de quantas vezes tive que pedir para que Olliver repetisse o que estava falando por não ter prestado atenção em uma palavra sequer. Sem contar que a base da minha nuca queimava de dor pela tensão.
Ao chegarmos, antes de descer do carro, questionei-me se era uma boa ideia, se nós três estávamos preparados para passarmos uma noite inteira juntos conversando. Por mais que tivesse pleno interesse em conhecer a famosíssima Clair/, tive medo de estar me colocando em uma situação desnecessária.
parecia gostar dela muito mais do que gostara de qualquer outra garota que tenha conhecido e, por algum motivo, isso me afetava.
― A gente não vai descer do carro? ― a voz de Olli me tirou dos pensamentos e precisei me controlar para não sobressaltar com o susto que levei.
― Claro, filha. Vamos. ― peguei minha bolsa no banco carona, saindo do veículo. A menina praticamente pulou para fora do carro com a mochila nas costas.
Depois de ter contado quem era seu pai, parecia que tudo tinha mudado para Olliver. Um mundo inteiro de possibilidades estava à sua frente e ela mal podia conter a alegria de finalmente ter um pai para poder compartilhar todas elas. Ao mesmo tempo em que estava feliz de ter podido realizar o que aparentava ser o maior sonho da pequena, era quase impossível evitar o aperto de ter que dividi-la com mais alguém.
Batendo a porta de , senti a aflição começar a se esvair do meu corpo quando o vi abrir a porta.
― Pai! ― se abaixou para abraçar uma Olliver animada, que parecia querer lhe arrancar a cabeça com um abraço apertado. Nem parecia que haviam se encontrado dois dias antes quando pedi a ele que a buscasse na terapia por mim.
Das situações que jamais imaginei que passaria, meus olhos se marejarem toda vez que os visse tendo um momento de pai e filha com certeza estava no topo da lista.
― Como você tá? ― levantou-se sorrindo assim que a criança se desvencilhou dele.
― Como se fosse uma bomba de ansiedade. ― brinquei. ― E você?
― Esperando que você só respondesse seu costumeiro ‘bem’. ― riu. ― Mas eu também tava ansioso por esse momento. Vamos. ― acenou com a cabeça para que eu entrasse.
Ao ver a figura feminina sentada no banco em frente à ilha da cozinha não pude evitar me surpreender com a sua baixa estatura. Ainda não a tinha visto nem mesmo por foto, por isso, não sabia bem o que me esperar quando a encontrasse pela primeira vez.
Quando se virou em nossa direção, deu um pequeno sorriso sem abrir os lábios. Sua pele cheia de sardas abaixo dos olhos e as maçãs do rosto tão redondinhas de fato lhe conferiam um ar bem jovial. Os óculos arredondados e os cabelos curtos reforçavam muito seu visual adolescente, porém adulta.
, essa é Antonella. ― o homem apontou de uma para a outra.
― Não te cumprimento apertando a mão porque não lavei elas. ― rimos uma para a outra. ― É um prazer te conhecer, morena misteriosa. ― pisquei para ela, fazendo-a corar.
― O prazer é meu. E você deve ser a Olliver, né? ― passou a mão pelos cabelos de Olliver, que lhe deu um sorriso.
― Você é a nova namorada do meu pai? ― nós três nos entreolhamos. riu baixinho, corou ainda mais e eu não sabia onde enfiar a cara.
― Na verdade, eu e seu pai somos amigos. Ele me deixou ficar uns dias aqui porque estou sem luz em casa. ― respondeu, a voz afinando devido ao nervosismo.
― Filha, o que nós já falamos sobre isso? ― chamei sua atenção.
― Desculpa. ― virou-se para o pai. ― Eu trouxe o último jogo que a mamãe comprou pra gente testar.
― Nosso jantar ainda vai demorar um pouco pra ficar pronto. Vocês se importam se formos jogar no quarto?
― Por mim, tudo bem. ― respondi.
― Por mim também. ― deu de ombros.
Contentes, ambos se retiraram de mãos dadas para o quarto.
… posso te chamar de , né? ― questionei, lavando as mãos na pia da cozinha. Não queria que ela me achasse metida ou forçando uma familiaridade que não temos.
― Claro.
― Se quiser, pode me chamar de Tonya também. ― sequei as mãos em uma toalha que sempre deixava pendurada em um dos armários da cozinha.
― Ah, não. Não chamo ninguém por apelidos. ― ajeitou os óculos no rosto.
― Tipo, ninguém mesmo? ― meneou a cabeça negativamente.
― É uma trava minha. Não consigo criar este hábito. ― deu de ombros.
― Você faz o que? Tipo, sua profissão?
― Me formei em literatura e língua inglesa. Atualmente, trabalho como freelancer. Faço alguns trabalhos como ghost writer, mas a maioria é com revisão de texto mesmo.
― Você já, tipo, escreveu uma biografia?
― Não inteira, apenas partes. Geralmente, as pessoas me contratam para dar ideias, para escrever esqueletos, coisas do tipo. É como vender minha ideias para que alguém as execute.
― Parece legal. Você gosta?
― Sempre gostei muito de literatura, então, escrever é algo que me deixa satisfeita. ― um meio sorriso se formou em seus lábios e eu a observei.
Olhando-a tão de perto era possível entender o porquê de se interessar por ela. tinha uma áurea misteriosa, como uma garota saída de um filme, e quanto mais ela respondia minhas perguntas, mais eu queria fazê-las. Suas respostas não pareciam totalmente verídicas, entretanto, eu não era capaz de afirmar se eram falsas. Assemelhavam-se a um amontoado de informações incompletas.
― Você estava em um relacionamento antes, né? ― soltei como quem não queria nada.
O ar pareceu ficar carregado.
― Não precisa responder se não quiser, ok?
― Acho que estou sóbria demais para falar sobre isso. ― deu uma risadinha sem graça.
― Não seja por isso. ― abri o armário atrás de mim em busca de uma garrafa de vinho branco e taças, servindo-nos.
Após o primeiro gole, busquei um banco para me sentar e voltei a me inclinar sobre o balcão. sorveu pequenos goles antes de começar a falar:
― Sete anos. ― seus olhos estavam fixos em um ponto sobre o mármore. ― Parece que foi pouco tempo, mas reflito sobre e percebo que se foi quase uma década da minha vida em um relacionamento que nunca tive certeza se de fato queria estar. ― virou a taça, bebendo quase todo o vinho de uma vez.
― Vai com calma. ― ri um pouco nervosa.
― Não sou tão fraca assim para bebida, apesar de beber muito pouco.
― Deve estar sendo difícil pra você.
― Já estive pior. Agora, me sinto aliviada por não ter levado isso adiante. ― serviu a si mesma o equivalente a dois dedos de vinho enquanto eu dava mais alguns goles no meu. ― Você já esteve em um relacionamento assim?
― Que durou muito ou ruim? Ou as duas coisas? ― ela riu.
― As duas coisas.
― Só namorei uma única vez na minha vida, ainda na minha adolescência. Nunca mais repeti a experiência. ― ri. ― Acho que fico melhor sem ninguém mesmo.
Olhei para o forno para ver a situação da comida e não parecia suficientemente dourada. Voltei minha atenção para quando a ouvi dizer:
― Logo que você saiu da faculdade montou sua empresa?
― Demorou mais ou menos uns três anos pra ela virar uma empresa com funcionários que eu conseguisse de fato sustentar com direitos trabalhistas.
― E teve algo em especial que te levou a tomar essa decisão?
― Enquanto éramos estudantes, tivemos um monte de empregos ruins, que pagavam muito mal e cujos empregadores não tinham o menor respeito conosco. A situação foi de mal a pior depois que descobri que estava grávida e só piorou quando Olli nasceu. Foi aí que decidi que não queria mais ser a pessoa que se sujeita por pouco e nem iria sujeitar ninguém a isso. ― cruzei os braços sobre o mármore frio à minha frente, inclinando o tronco em sua direção. ― Comecei a trabalhar como freelancer nas horas vagas com tudo o que aparecia na nossa área. Guardei todo o dinheiro que ganhei na época, primeiro para comprar equipamentos melhores, depois pra pagar quando me ajudava e aí começamos a ganhar dinheiro suficiente para um escritório. ― sorri com a lembrança da primeira sala que dividimos no centro da cidade.
― Você sempre foram muito próximos? ― para além de uma curiosidade descarada, era nítido que estava tentando saber se as informações que já havia lhe concedido coincidiam com tudo que eu tinha a lhe dizer e não seria eu a pessoa que deixaria minha intuição sobre o assunto passar despercebida.
― Se você quer saber se já fomos mais do que só amigos, não se preocupe. Apesar de termos uma filha juntos, nunca foi mais do que sexo. ― rebati. ― E nós dois sempre fomos muito unidos, desde que nos conhecemos. Sei lá, meio que rolou uma conexão instantânea. ― dei de ombros.
Fitei-a por alguns instantes, notando algo que se assemelhava a uma espécie de desconforto, começado a partir do momento que citei a palavra “sexo”.
― Enfim, o que eu ia dizer é que talvez eu saiba de onde vem todas essas perguntas que você tem em relação ao . ― suspirei. ― Bem, eu e você somos mulheres racializadas e muitas das nossas inseguranças vem de nossas experiências anteriores. Isso explica porque só tive um namorado a minha vida inteira e não terminou nada bem. Também explica porque e eu somos amigos há tanto tempo. Ele foi um dos poucos homens que sempre esteve lá por mim, respeitou minhas opiniões, meus posicionamentos e me tratou com a mesma importância que eu o trato.
Apoiou os braços sobre a ilha, inclinando-se como eu.
― Nunca tive com quem conversar sobre essas coisas e sempre me angustiava o fato de ser tratada diferente, mas ninguém notar isso. ― disse baixinho.
― Bom, comecei a falar sobre isso e não cheguei onde eu queria. ― dei um meio sorriso. ― O que eu queria mesmo dizer é que você não precisa pisar em ovos pra falar sobre minha relação com . Sei que ele já deve ter contado sobre nós e quero que fique explícito que da minha parte não é um problema nem vai ter climão por isso. ― seus lábios se comprimiram nos cantos em uma breve tentativa de sorriso. ― Mas preciso também dizer algo. Você também já deve saber que não tenho família, portanto, é o mais próximo que tenho disso. Eu jamais vou aceitar que alguém o magoe, seja da forma que for. ― desta vez, sorriu abertamente.
― Não se preocupe quanto a isso.
Pude ouvir a porta do quarto se abrir. e Olliver saíram de lá.
― Agora que as moças se conhecem e que nosso jantar tá pronto, podemos comer, né? ― seu olhar correu entre mim e . ― Todo mundo inteiro, sem roupas rasgadas e com os cabelos no lugar. Acho que se deram bem. ― fingiu cochichar para Olliver.
― Sim, acho que esse é o início de uma amizade. ― sorri para , que retribuiu.
Sentamos à mesa para jantar. havia preparado um belíssimo bacalhau assado com legumes, que, em sua maioria, eram de Olliver, para nossa refeição.
Enquanto estávamos sentados comendo, tentava puxar vários assunto, evitando que o silêncio se tornasse algo presente. parecia incomodada com algo, mas não quis perguntar. Talvez nossa conversa tivesse sido um pouco precoce demais.
Ao terminarmos de comer, Olliver e começaram a tirar os pratos de cima da mesa e os levar para a cozinha, deixando e eu a sós. Seu celular não parava de vibrar, provavelmente, recebendo um sem número de mensagens.
― Vou ajudar você pra que Olli e eu possamos ir pra casa. ― levantei da mesa.
― Não. Você bebeu. Sabe que não deve sair daqui com a Olli no carro. ― sua expressão não demonstrava que ele estava bravo, porém sabia que ele seria inflexível quanto a possibilidade de nos deixar ir.
― Foram só duas taças. ― menti, como se ele não soubesse que estive bebendo desde a hora que cheguei.
― Mesmo assim, eu insisto. Olliver tem um pijama reserva no quarto de hóspedes e você pode pegar algo meu. ― sugeriu.
― Gente, tive um problema com a encomenda de um cliente e ele quer fazer uma chamada de vídeo para discutirmos sobre. Vocês se importam? ― questionou, alternando o olhar entre nós três e a tela do aparelho.
― Imagina. Fique à vontade. ― respondeu. ― Acho que vou fumar um cigarro lá fora. Tudo bem? ― perguntou de volta para a mulher, que negou com a cabeça, jogando-lhe um beijo no ar.
― Eu vou junto. Olli, escove os dentes e troque de roupa. Pode ler seu livro antes de dormir. ― a criança assentiu e correu em direção ao quarto.
pegou a carteira de cigarros e o isqueiro. Já eu, peguei o que restou da garrafa de vinho e levei junto para finalizá-la. Cada um sustentando seus vícios da forma que pode, não é?
― E aí? O que achou dela? ― perguntou, tirando um tabaco da caixa e colocando-o na boca, procurando pelo isqueiro no bolso para acendê-lo.
― Ela é muito bonita. Sobretudo, uma garota esperta.
― Quando você fala assim, faz parecer que a ameaçou de alguma forma. ― deu uma risadinha.
― Não ameacei. Apenas avisei que, por mim, não há motivos pra rolar torta de climão entre nós três.
― Você acha que existe essa possibilidade? ― tragou e soprou a fumaça na direção oposta a minha.
Bebi um gole do vinho, direto da garrafa mesmo, visto que não tinha levado nem um copo para me servir.
, nós temos uma filha e ela sabe que já tivemos algo. É normal que fique insegura de ter que te “dividir” ― fiz as aspas com uma das mãos. ― comigo.
deu de ombros, esticando a mão em minha direção para pegar a garrafa e beber. Assim que deu um gole maior do que certamente aguentava, fez uma careta e me devolveu a garrafa.
― É, pode ser. ― deu uma baforada longa após tragar seu cigarro novamente. ― Você falou sobre a com a Olli?
― Apenas disse que iríamos conhecer uma pessoa que era importante para você e que você iria explicar pra ela depois. Por quê?
― Ela perguntou ‘secretamente’ de novo ― fez aspas com os dedos. ― se era minha nova namorada. ― riu. ― Disse que é bonita, parece ser inteligente e que gostaria de ter um cabelo de sereia como o dela. ― revirei os olhos.
― O que essa garota quer dizer com isso?
― Ela quer ter o cabelo azul também. ― rimos depois de alguns segundos nos olhando.
― E o que você acha?
― Por mim, não tem problema algum. Acho que ela deve saber que é livre pra poder se expressar também. ― deu de ombros. ― Se quiser, posso pedir a para pintar o cabelo dela. Ou eu posso fazer isso também.
― Bem, esse fim de semana é seu. Só, por favor, não pinte o cabelo todo. Se ela enjoar de ser uma sereia fica mais fácil de cobrir se for só uma parte. ― rimos. ― Enfim, de qualquer forma, preciso dizer a ela pra parar de ser tão direta.
― Ela é só uma criança. Crianças são curiosas.
― Sim, ela pode ser assim conosco. Não com pessoas que não conhece.
Bebi um gole grande do vinho, fitando um vaso de plantas à minha frente.
― Caso esteja se perguntando se respondi sim ou não, não é minha namorada. ― coloquei a garrafa com o restinho de lado e o olhei fumar o final do tabaco, jogando a bituca no cinzeiro, pegando um novo cigarro.
― Mas em breve vai ser. E você não deveria fumar um atrás do outro.
― Por favor, eu só fumei meia carteira hoje. Já reduzi bastante. ― deu um sorriso amargo enquanto segurava o cigarro com os lábio e o acendia. ― E eu não sei se quero ter um relacionamento. Quer dizer, eu nem mesmo sei como se faz isso!
― Você não precisa saber. Relacionamento é algo que se constrói a dois.
― Pra você é fácil falar, foge de toda e qualquer possibilidade de relacionamento.
― Eu não fujo, só não quero. ― meu tom era ofendido. Não gostava quando eram as minhas decisões colocadas em cheque.
― Ah, para, Tonya. Você sempre diz isso, mas na primeira oportunidade você fala sobre não estar com alguém.
― Mas eu tenho os meus motivos pra não querer.
― Motivos esses que eu nem sei se são os reais.
― O que está querendo insinuar?
― Não quero insinuar nada. Só tenho minhas dúvidas a respeito do que você coloca como motivos para não namorar.
― Não querer não é o suficiente?
― Não acho que seja só isso. ― voltou seu olhar em minha direção, afrouxando a postura, mostrando-se cansado. ― Às vezes, tenho a sensação de que você só está esperando que eu namore pra você começar a procurar por alguém.
― Por que eu faria isso? ― franzi as sobrancelhas.
― Porque não quer me magoar dizendo que não tem interesse em ficar comigo.
, por favor, pare antes de se arrepender das coisas que está falando. É a maior besteira que eu já ouvi na minha vida. ― peguei a garrafa de vinho na mão e entornei o resto do líquido que ainda estava lá de uma vez só.
Respirei fundo e olhei-o nos olhos. Um brilho triste estava estampado neles, ornados por olheiras fundas e a barba por fazer. Nunca me pareceu tão abalado quanto naquele instante que meus olhos capturaram em minha memória.
― Sei que já falei isso várias vezes, mas, pra mim, não custa nada falar de novo. Eu amo você. Sempre amei e sempre vou amar. Você foi o primeiro homem que verdadeiramente me tratou com respeito em todos os momentos da minha vida. Esteve lá por mim quando mais precisei. Você não é só minha família, é também o meu lar. ― pus a mão sobre a sua. ― Todas as vezes que me pergunto ou de alguma forma me sinto arrependida de não ter namorado você, eu olho pra nossa filha e penso em tudo aquilo que construímos juntos. ― dei um meio sorriso. ― Eu e você somos um time. Moramos juntos, construímos uma empresa do zero… o que temos é tão forte e tão lindo que até geramos uma terceira pessoa incrível. ― seus olhos marejaram. ― Então, se tivesse que ser alguém, certamente seria você por várias razões que nem citei e você sabe quais são. Não perca isso de vista nunca. ― passou uma parte da mão com a qual segurava o cigarro aceso pelos olhos para secar as lágrimas antes que rolassem.
― Não foram poucas as vezes que me perguntei onde foi que errei pra não ter você. ― Você não errou. E você me tem. Sempre teve. ― sorri, encostando minha cabeça em seu ombro.
E, naquele momento, tive certeza de que o mundo todo ao nosso redor parou, existindo apenas ele, seu cigarro aceso e eu.


#25

Eu te daria todos os anos da minha vida
(I Couldn't Be More In Love - The 1975)



Atualmente, conhecer Antonella e uma de nós não gostar da outra, por muitos dias, configurou o primeiro lugar da minha lista de maiores medos na vida. Portanto, ter conseguido passar por essa situação e ainda descobrir que, no final das contas, ela era uma boa pessoa, como me dissera, me tranquilizou.
Antonella tinha grande apreço pelo melhor amigo, por isso, também tinha consciência de o quão importante era que conseguíssemos nos relacionar. Já eu, sabia do que sua figura representava na vida de , afinal, além de amiga, era também sua chefe e mãe de sua filha.
Após o jantar, Olliver e Antonella dormiram conosco. Na manhã seguinte, depois de muita insistência da parte de e de Olliver, Antonella deixou que a menina ficasse dois dias a mais além do fim de semana com pai, assim, ela não teria o trabalho de trazê-la de volta na sexta à noite. E eu não fui para casa devido à novos problemas com a companhia de energia elétrica: uma pane generalizada no sistema de computação impedia que os técnicos acessassem as agendas do dia, logo, não sabiam quais eram as ocorrências a serem atendidas. O prazo para o gerenciamento da crise era de até 72 horas úteis.
Por mais que não tivesse muita familiaridade com crianças, Olliver e eu estávamos nos dando bem. Na maior parte do tempo, era uma criança silenciosa e que tinha seus próprios métodos para se manter entretida quando estava livre. No sábado de manhã, resolvi me dar uma folga para ir até a farmácia comprar pó descolorante e tonalizante.
havia me contado sobre o quão encantada Olliver tinha ficado ao ver meu cabelo e o quanto queria pintar suas próprias madeixas. Ajudá-la nesta tarefa talvez fosse o que faltava para que nos aproximássemos por completo.
Ao voltar da rua, encontrei pai e filha sentados em frente a ilha da cozinha, tomando café da manhã, rindo sobre qualquer aleatoriedade da qual estivessem falando sobre.
― O assunto chegou. ― falou um pouco mais alto para que eu ouvisse, fazendo a menina sorrir abertamente ao me ver.
― O que falavam sobre mim? ― soltei as sacolas sobre a pia da cozinha para lavar as mãos e, em seguida, higienizar as compras com álcool.
― Papai me contou como vocês se conheceram.
― Sério? ― franzi as sobrancelhas, olhando para o homem, que sorriu e deu um beijo na lateral da minha cabeça.
― Sim. Ela queria saber e eu contei. ― Olliver olhava para nós dois, ainda sorrindo.
― Já que vocês estavam falando de mim, ontem eu e seu pai estávamos falando de você. ― apontei para ela, que arregalou os olhos, lhe conferindo uma expressão confusa. ― Está vendo essa tinta? ― coloquei a caixa em frente a ela. ― Você ainda quer pintar?
― É sério? ― seus olhos brilhavam e tinha a impressão de que, se a garota estivesse costas, ainda assim, seria possível saber que ela estava sorrindo. Olhou para o pai, inclinando-se em sua direção e dizendo: ― Eu posso mesmo?
― Pode. Falei com sua mãe quando ela estava aqui. Mas com uma condição: ― Olliver assentiu, os olhos ainda atentos sobre o homem. ― não pode pintar o cabelo todo porque, se precisar tirar, dá muito trabalho.
A criança pulou de sua cadeira, vindo até nós e abraçando-nos apertado pela cintura.
― Obrigada, obrigada, obrigada! ― sua voz era esganiçada pela empolgação e abafada devido ao rosto pressionado contra nossos corpos.
― Você quer fazer agora? Mais tarde, vou precisar trabalhar e acho que seu pai não vai saber fazer. ― Olliver concordou. ― Então, você vai precisar colocar uma roupa um pouco mais velha que esta. Se manchar, não tem problema.
― Vem comigo. ― a pegou pela mão, guiando-a até o quarto.
Dez minutos depois, quando voltou, vestia uma camiseta longa, cuja estampa já estava desbotando.
― Vocês vão usar a lavanderia ou o banheiro? ― perguntou parado na entrada do cômodo.
― O banheiro. ― respondi, pegando todos os utensílios para levá-los para a pia do banheiro. ― Olliver, trás aquele banquinho do seu quarto, por favor? ― pedi, fazendo-a ir atrás de um pequeno assento que estava guardado.
― Como ainda é cedo, vou trabalhar um pouco e, quando der umas 11h, eu peço o almoço, pode ser? ― assenti.
― Vou fechar a porta, ok? ― disse encaminhando-me para o banheiro.
Olliver já estava devidamente posicionada no banquinho. Misturei o pó descolorante e a água oxigenada até que ficassem homogêneos enquanto Olliver tagarelava sobre o quanto gostava de azul ou como ficou feliz de saber que poderia ter “cabelo de sereia” também.
― Onde você quer que fique azul? ― ela indicou a parte inferior do cabelo e eu o dividi ao meio, amarrando a parte superior com um de seus amarradores de cabelo.
― Meu pai disse que você é escritora.
― Digamos que sim.
― Você escreve histórias?
― Na verdade, não. Eu ajudo as pessoas que não sabem se o que escreveram está certo.
― Então, você é tipo uma professora?
― É, mais ou menos.
Ficou calada por alguns segundos.
― Não se mexa muito para eu conseguir fazer direitinho, tá? ― ela assentiu. ― Não vou passar desde a raiz porque vai doer. Pode ser da metade para baixo? ― fez um sinal positivo com o dedão e eu comecei a aplicar o descolorante na primeira mecha.
― Você não é mesmo a nova namorada do meu pai?
― Não. ― ri, porém, no fundo, queria estar mentindo. ― Como eu disse, somos apenas amigos. Minha casa teve a energia elétrica cortada e preciso trabalhar. Seu pai foi muito legal me deixando ficar aqui. Por quê?
― Seria legal meu pai ter uma namorada. Seria mais uma pessoa pra brincar comigo.
― Mas agora que você sabe que tem um pai, você não quer que ele fique com a sua mãe? ― essa poderia muito bem ser uma pergunta maldosa, afinal, quem era a adulta ali? Todavia, quando o assunto era , parecia que todos os meus escrúpulos perante algumas situações sumiam por completo.
― Antes, era só eu e minha mãe, agora, tem meu pai também. Os pais da minha amiga Sophie se separaram no ano passado e agora ela não vê mais o pai dela, então, eu prefiro que eles sejam amigos mesmo. ― meu peito se apertou ao ouvi-la falar e, instantaneamente, me arrependi de ter questionado. ― Mas eu ia gostar que você fosse namorada do meu pai. ― sorriu.
― Por quê?
― Bom, você é legal e bonita. Meu pai gosta de você e acha seu cabelo muito maneiro. ― deu de ombros. ― Ele parece ficar feliz com você, então, seria bem legal.
― Você me acha legal? ― franzi as sobrancelhas, não conseguindo conter o sorriso quando ela confirmou.
― Se você não fosse, não pintaria meu cabelo, né? ― respondeu, encolhendo as compridas pernas para balançá-las.
Durante a descoloração de seus fios, conversamos sobre sua escola, seus amigos, a garota malvada de sua turma chamada Jullia e o quanto tinha gostado muito mais de seu aniversário deste ano do que dos anteriores, pois sua avó e seu pai estavam lá para comemorar com ela.
Olliver era esperta demais para sua idade e entendi perfeitamente porque costumava dizer que, em alguns momentos, ter uma criança como ela poderia facilmente oscilar entre dádiva e constrangimento. Era curiosa e não tinha medo de perguntar o que queria saber. Se conseguiria uma resposta, já era outra história, porém não custava tentar. Além do mais, Olliver era divertida a sua própria maneira, independente e tão apaixonada pelos livros quanto eu.
Quando o momento de tirar o produto de seu cabelo chegou, jogou os cabelos para frente e entrou no box para que eu pudesse ajudá-la a tirar. Depois, secamos seu cabelo e apliquei o tonalizante apenas na parte clara.
― Seu cabelo vai ficar lindo. ― disse, terminando a aplicação.
Enrolei a parte com tinta em um pequeno coque, prendendo-o com o amarrador de cabelo novamente.
― Posso te chamar de tia?
― Pode.
― Minha mãe não gosta que eu chame ninguém de tio e tia.
― Porque não são seus tios de verdade?
― É. ― olhou-me nos olhos. ― Você se incomoda com as minhas perguntas?
― Não. Acho incrível que você seja desinibida a esse ponto.
― O que é isso?
― Desinibida? ― assentiu. ― Quando você é uma pessoa que não tem vergonha de falar, de ser quem você é.
― Que palavra legal. ― sorriu. ― A maioria das pessoas se incomoda com as minhas perguntas.
― Tenho certeza de que não é por mal. Adultos costumam ter mais vergonha de determinados assuntos, por isso, os evitamos.
― Ser adulto deve ser chato demais. ― franziu o rosto de um jeito engraçado e eu ri.
Mexi em seu cabelo, vendo que já estava suficientemente pigmentado, por isso, a fiz ir até o chuveiro novamente para lavarmos. Abri o registro, fazendo a água correr por entre seus fios enquanto eu massageava sua cabeça para tirar todo o excesso.
Ao terminar, minhas unhas estavam azuis, mostrando uma prévia de como ficaria a toalha assim que a tirasse de sua cabeça.
― Ficou lindo demais. ― sorri enquanto passava a toalha pelos seus cabelos.
Olliver correu para se olhar no espelho, os olhos brilhosos, um sorriso enorme estampado no rosto.
― FICOU DEMAIS! ― exclamou. ― Obrigada, tia. ― abraçou-se a minha cintura, correndo para fora do cômodo. ― Pai, pai, pai.
Saí a tempo de vê-lo pegá-la no colo para olhar seu mais novo cabelo.
― Ficou ótimo mesmo. Você fez um belo trabalho aqui, hein? ― mostrou o dedão positivo para mim. ― O que vai fazer agora que está com esse cabelo maneiro?
― Posso jogar videogame só um pouquinho? ― exemplificou a quantidade com os dedos.
― Pode, mas só uma hora, tá bom? ― colocou-a no chão e a menina correu para o quarto. ― Obrigada por isso. ― segurou minha mão.
― Imagina. Achei que era uma oportunidade para nos aproximarmos e deu certo. ― sorri. ― Olliver é uma criança preciosa, vocês fizeram um ótimo trabalho.
― Às vezes, tenho a impressão de foi a única coisa que fiz certo nessa vida. ― riu.
― Vocês outras coisas bem. ― acariciei seu rosto.
― Tipo, o que?
― Tipo, mandar mensagem para uma estranha naquela noite. ― sorri.
Seus lábios tocaram os meus, selando-os prolongadamente.
― Se queremos manter a narrativa de que sou só sua amiga, acho que esse é o tipo de interação que não podemos ter com ela aqui. ― falei baixo, assim que nos desvencilharmos. ― E, sinceramente, acho que devemos continuar com ela, principalmente, porque acabei de conhecê-las. Pelo menos por agora. ― ele assentiu, puxando-me em direção à cozinha, onde envolveu-me pela cintura e beijando-me.
Seus lábios eram mornos, sua língua contra a minha fazia um arrepio correr solto pelo meu corpo inteiro toda vez que elas se roçava. Uma de suas mãos se encaixou em minha nuca, pressionando-me mais contra ele. Um calor começou a me incendiar, como se estivesse tomando sol durante um período prolongado em um dia de altas temperaturas.
A vontade que senti foi de arrancar nossas roupas ali mesmo, todavia, sempre fui a pessoa que se sente pouco à vontade de transar quando há outras pessoas no local, quem dirá se essa pessoa for uma criança, que está plenamente acordada.
Parti o beijo antes que perdesse a noção de tempo e espaço. Seus lábios estavam avermelhados e levemente inchados.
― Está quase na hora do almoço. ― falei, fazendo-o rir.
― Parece que alguém tá com fome.
― Sim, estou.
― Vamos cuidar disso, então. Você quer algo mais caseiro ou pode ser algo pronto?
― Por mim, tanto faz. ― respondi, vendo-o tirar o celular do bolso traseiro da calça para pedir comida. ― Por que eu tinha certeza que, quando você disse caseiro, ainda assim era sobre a comida que você iria pedir?
― A preguiça de cozinhar é algo que reina em mim desde o início dos tempos. ― rimos.
― Não serei a pessoa que vai reclamar. Deus é minha testemunha de que se eu pudesse, iria pedir comida todos os dias.
― Muito caro?
― Acaba sendo devido ao custo da entrega. Diferente de você, não moro em uma área tão próxima do centro.
― Não tem nada a ver com o assunto, mas posso te perguntar uma coisa? ― questionou ao parar de mexer no celular.
― Até duas. Uma já foi. ― tentei ser engraçada, entretanto, não riu. Seu tom era sério, totalmente diferente de instantes anteriores. ― Você notou algo diferente na ?
― Como o que?
― Conversei com ela esses dias e parecia estar, não sei, triste? ― completou em tom de pergunta. ― Não sei se essa é bem a palavra, mas ela não parecia bem.
― Conversamos apenas por mensagem e, se aconteceu algo, como já é de se esperar, não me contou nada. ― revirei minhas memórias em busca de alguma pista do que poderia estar acontecendo. ― O que ela te disse?
― Ela tem algum histórico relacionado à saúde mental?
― Diagnosticado, não. E eu estou começando a ficar preocupada. Tem algo que eu deveria saber?
― Talvez tenha sido só impressão minha. ― deu de ombros.
― Vou checar como ela está, ok? ― assentiu. Saí de seu apartamento rumo ao andar de cima.
Parada em frente à porta marcada como 102, bati algumas vezes de leve e esperei até que ela viesse abrir. A figura do outro lado da porta não me parecia nada bem. Seus olhos continham grandes bolsas de exaustão embaixo, algumas espinhas se acumulavam ao redor de seu lábio inferior ― algo que nunca tinha acontecido ―, os cabelos mais bagunçados que o normal, como se não os penteasse há dias.
― Eu ia perguntar se você está bem, mas está bem óbvio que não. ― falei, adentrando no ambiente, fechando a porta atrás de mim e seguindo-a até a sala de estar.
havia emagrecido muito desde a primeira vez que eu a visitara naquele apartamento. Suas bochechas pareciam menores, os dedos das mãos mais finos, suas clavículas estavam mais evidentes do que nunca.
― Você está se sentindo bem? Digo, de saúde. ― sentei-me a seu lado no sofá.
No braço do estofado ao lado dela, havia uma caixa de primeiros socorros aberta.
― O que aconteceu? ― analisei a grande ferida em seu antebraço.
― Me queimei há uns dois dias. Tá tudo bem. Pode me ajudar com o curativo? ― assenti, pegando o algodão e a água boricada para limpar o ferimento.
O cheiro de carne queimada e pus invadiu minhas narinas. A aparência do ferimento estava horrível e precisaria bem mais do que só antisséptico para curá-lo.
― Eu acho que você deveria ir no médico. Ele está infeccionado.
― Não! ― exclamou. ― Tá tudo bem. Só… faz o curativo logo. ― entregou-me a gaze e o esparadrapo.
Terminei de limpar e cobri a ferida com o curativo.
, eu… estou preocupada com você. ― fechei a caixa de primeiros socorros, encarando-a. ― Tem algo que você queira me dizer?
― Eu só… ― sua voz, que já era um fio, morreu antes de encerrar a frase.
Até que aconteceu.
começou a chorar copiosamente, como eu não via desde que éramos adolescentes.
De nós duas, ela sempre fora a mais forte. Conseguia contar nos dedos as vezes que ficou visivelmente abalada ou estarrecida. Durante todos os anos que permanecemos juntas, minha irmã chorou quatro vezes. Em nenhuma delas, suas lágrimas eram grossas, o rosto adquirira uma cor tão vermelha ou soluçava alto como naquele momento.
Deixou sua cabeça tombar sobre meu ombro e eu a envolvi em meus braços.
Não tinha a menor ideia do que acontecera e muito menos do que fazer para ajudá-la. A única coisa que eu tinha certeza é de que, o que quer que fosse, não era simples ou fútil. jamais se desestabilizaria por pouco.
Um aperto tomou conta do meu peito e, por um segundo, tive medo.
Desde pequena, sempre tive pressentimentos, principalmente, relacionados à . Quando algo ruim ou bom iria acontecer com ela, algo dentro de mim se agitava a ponto de me fazer ter certeza dos acontecimentos. Não foram poucas as vezes que cheguei a ponto de ver machucar, fosse física ou emocionalmente.
Desta vez, a diferença era que temi perdê-la. Não no sentido de decidir não falar mais comigo ou algo do gênero, mas de que talvez ela deixasse de existir.
Um calafrio percorreu minha espinha e eu a apertei mais em meus braços. Não poderia chorar e não iria. Tentei me convencer que aquela era uma sensação irracional e injustificada.
Todavia, sabia exatamente o que acontecia todas as vezes que decidi por ignorar o que senti tão fundo em meus ossos.




Continua...



Nota da autora: Além de att, temos +2 NOVIDADES!!!!
A 1ª é que agora temos um GRUPO NO FACEBEOOK pra chorar as mágoas, teorizar e conhecer as outras amigas que tão sempre por aqui ou no whats. O link vai tá aqui embaixo.
A 2ª é que novamente ESTAMOS ENTRE AS MAIS LIDAS DA SEMANA!!! Toda vez que eu vejo a fic no top fics fico toda boba e toda agradecida porque sem vocês isso não ia ser nem um pouco possível. Obrigada de coração por compartilharem comigo dessa história <3
Nos vemos na próxima semana, lindas ;*




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nothing revealed, everything denied


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