Última atualização: 03/06/2018

Capítulo 1 - It's a kind of magic

MAIO DE 1976
Maria Stark estava bastante dividida sobre para quem daria sua atenção. Eram raras as ocasiões que toda a família estava de folga no mesmo fim de semana, ainda mais sendo dias de clima agradável. Por isso agora eles aproveitavam o amplo quintal da mansão. Bem, menos Howard, que entrara novamente na casa momentos atrás, dizendo que esquecera de fazer alguma ligação importante. Claro que ele percebera a decepção nos olhos da esposa assim que anunciou que se ausentaria por alguns minutos – que sempre viravam horas –, mas a mulher não disse nada, continuou sua conversa animada com Amanda Rogers, com sua amiga tendo a decência de ignorar a saída de Howard.
Se fosse ser bem sincera, Amanda estava surpresa do engenheiro ter ao menos ficado alguns minutos na companhia do grupo, mesmo estando claramente entediado. Não que Howard não gostasse de quando eles conseguiam um tempo para visitas, pelo contrário, mas atividades ao ar livre não eram exatamente sua praia, e ele não hesitaria por um segundo em chamar a todos para se reunirem na sala, beber algo e conversar a vontade, se as crianças não tivessem bem mais à vontade no quintal. Quero dizer, pelo menos uma delas. E um dos adultos.
Matthew Rogers, com os cabelos escuros começando a grudar na cabeça, já se sentia tentado a jogar sua camiseta para algum canto do gramado, até que surpreso pelo trabalho que sua filha começava a lhe dar no jogo informal. ainda tinha alguma dificuldade nos quesitos de força e direcionamento, mas não falhava mais na recepção de nenhum corte que o homem fazia, e ele definitivamente estava começando a pesar um pouco a mão. Em contrapartida, Tony estava sentado contra a porta de correr que dava acesso à sala, um livro de mecânica sobre as pernas esticadas, o mais distante que conseguia ficar do restante do grupo e daquele sol que em minutos de exposição poderia fazer com que ele começasse a suar. O garoto estava fazendo um trabalho maravilhoso em ignorar a vida humana próxima, apenas desviando os olhos de seu livro quando ouvia uma exclamação mais surpresa de , misturada sempre com um gemido discreto.
- Matt, por favor! – Amanda repreendeu o marido, assistindo a filha risonha dar uma cambalhota para trás depois de uma recepção falha para evitar se machucar – Você não está jogando com um adulto!
- Tudo bem aí, capitã? – perguntou ele à filha, depois de se desculpar com a mulher. apenas fez um gesto com a mão para que ele esperasse um pouco, libertando os cabelos escuros e volumosos do elástico que os mantinha no lugar apenas para os prender novamente antes de se levantar. Sua camiseta que ganhara de Howard meses atrás estampada com o icônico escudo já estava toda suja de terra e grama, piorando ainda mais quando ela limpou as mãos no tecido, volta à posição de defesa e pedindo para que o pai “mandasse de novo”.
Matt apenas pode sorrir satisfeito, dessa vez mandando uma bola muito mais fácil para a garota – Amanda estava de olho, era melhor não colocar a filha em risco –, que conseguiu devolver agora com muito mais perfeição, na altura certa para que ele continuasse com um simples toque, ciente de que a garota iria arriscar fazer algo que ainda não tinha dominado por completo. De fato, os olhos de chegaram a brilhar ao notar a altura boa da bola, mas se adiantou demais e perdeu o tempo para cortar, as pontas de seus dedos mal tocando na bola enquanto os adultos riam.
- Vamos tentar mais uma vez, ok? – avisou Matt, devolvendo a bola para a filha para que ela iniciasse a jogada – Não se adianta, e lembra de abrir bem a mão.
assentiu, exagerando bastante na altura do toque já que seu pai era bem mais alto do que ela. Mesmo tendo ignorado todas as instruções de Matt depois que ele fizera o levantamento, a garota conseguiu atingir a bola, só que com o pulso invés da palma da mão, mandando a bola em uma trajetória estranha que terminava muito próxima à cabeça de Tony.
Se os três Rogers e sua mãe não tivessem gritado para ele desviar, Tony teria terminado aquele final de semana com o maior galo da história.
- Tony, vem jogar com a gente. Larga esse troço! – ordenou Matt, indo buscar a bola enquanto o garoto se recuperava do susto, seu livro caído de qualquer jeito ao seu lado – A bola quer que você jogue, anda logo.
- É, não. Obrigado – resmungou a criança, mal tendo tempo de reagir antes das mãos do homem agarrarem sua cintura, jogando seu corpo sobre os ombros – Tio Matt, me põe no chão! Mãe!
- Se ele não quer jogar, deixa o menino, Matt – Amanda saiu em sua defesa, mesmo rindo das perninhas de Tony se debatendo para tentar ganhar liberdade.
- Ele quer jogar sim! Vamos lá, eu e você contra a , pode ser? – sugeriu ele, mudando o garoto de posição, deixado ele agora sentado sobre seus ombros. Como não se opôs, Matt continuou – , manda uma alta para o Tony. Do jeito que eu te ensinei mais cedo.
A garota fez exatamente como o pai dissera, saindo gritando pelo socorro da mãe quando viu Tony fechar a mão em punho para golpear a bola. Mesmo se ela tivesse ficado parada e tentando recepcionar, não teria sido atingida, mas mesmo assim rendeu várias risadas.
- Anthony, brinca direito – Maria repreendeu o filho, que não lhe deu muito ouvidos já que Matt o parabenizava pelo corte até que potente.
- Que tal vocês jogarem enquanto eu bebo alguma coisa, hein? – sugeriu o homem, que sorriu contente quando eles concordaram, o incidente que lembraria como “clara tentativa de assassinato” momentaneamente esquecida.
- Ela está ficando mais forte – comentou Maria, assim que Matt se jogou na cadeira vaga ao lado da esposa.
- Sim, eu ficaria de olho para caso ela tente se vingar do Tony, embora eu ache difícil ela fazer isso ainda hoje – brincou ele, os olhos acompanhando a filha ensinar o amigo como dar um toque melhor – Se formos ficar aqui à noite, é melhor garantirmos que cada um está em seu quarto, só por garantia.
Amanda se virou nada contente para o marido, que apenas alargou seu sorriso ciente de que fizera algo que ela reprovava. Ele praticamente se auto convidara para passar a noite na mansão, Matt realmente precisava criar um pouco mais de bom senso, e a mulher não fazia ideia de como ainda tinha esperança disso mesmo com ele e seus trinta anos recém completos. Claro que nenhuma pessoa em sã consciência daria mais que vinte anos para aquela cara de bebê e ar de adolescente, mas não faria mal ele agir de acordo com sua idade real uma vez ou outra.
- Eu ficaria preocupada durante o café da manhã, da última vez quase virou um campo de guerra – lembrou Maria rindo com a lembrança, principalmente quando o homem ficou confuso, já que não estava junto naquela ocasião.
- Vocês nunca vão me contar o que aconteceu da última vez, não é? – suspirou ele, revirando os olhos claros antes de se levantar quando as duas mulheres negaram em sincronia – Deixa vocês, ainda vou conseguir essa informação, mais cedo ou mais tarde. Se meu pai conseguiu sozinho salvar aquela galera na Itália, eu consigo arrancar essa informação de vocês.

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MAIO DE 2012
Tony desviou o olhar assim que percebeu que encarava há tempo demais aquela foto antiga, de um final de semana excepcional onde os então adultos da família estavam de folga e reunidos na mansão Stark, aproveitando o clima agradável daquela tarde. Sua versão infantil estava entretida com um livro, enquanto estava ao fundo, praticando movimentos de ginástica, seus braços finos suportando todo o peso de seu corpo enquanto ela aperfeiçoava seu handstand. Sempre que alguém questionava o motivo ser apenas e logo aquela foto estar na parede de seu laboratório, e mesmo quando o recinto costumava ser em sua garagem em Malibu, sempre dizia que fotos de tempos de criança faziam muito sucesso com as mulheres. O curioso era que nunca suas acompanhantes desciam até a garagem, e nenhuma entrara na nova Torre Stark, muito menos em seu laboratório. Ele apenas gostava demais daquela foto, mesmo com ela agora causando muito mais um peso em seu peito do que conforto.
A pedido de Pepper, ele terminara com seu auxílio o projeto da Torre Stark. A CEO acreditava que lhe faria bem focar em outra coisa, e até que aquele leve sensação de orgulho pelo seu trabalho chegara a distrai-lo um pouco. Claro que vez ou outra ele se lembrava de que a segunda pessoa mais envolvida naquele projeto não estava nas proximidades e sua animação diminuía consideravelmente, e era bastante difícil esconder aquilo da ruiva. Pepper estava preocupada em dobro em frente àquela situação, e, a cada dia que passava, ela se via mais e mais sem recursos.
A visita inesperada de Phil Coulson até que também poderia ser considerada uma boa distração, mas qualquer coisa que tinha envolvimento da S.H.I.E.L.D. trazia um pouco de consequentemente.
Tony analisou os dados que recebera por cima, sem dar muita atenção também para o que o agente lhe dizia, algo em sua mente já lhe avisando de que algo estava muito errado. A agência trabalhando com energia e não envolvendo seu consultor que era expert no assunto, vulgo ele próprio. Não, algo dera muito errado e saíra de controle, e agora precisavam de ajuda, mas sem entregar muitos detalhes, como sempre.
- Coulson? – Tony chamou o agente quando ele e Pepper já estavam próximos ao elevador, já que aparentemente ambos iriam para o aeroporto – E a America?
- Localização ainda indefinida. Mas alguns dos roubos ligados a Loki parecem demais com o estilo dela – explicou Phill apontando mesmo que de longe para as informações no holograma, onde algumas informações cruciais da agente também apareciam – Ele contatou alguns de nossos inimigos, talvez alguns deles estavam com ela.
- Você quer dizer que preciso estar pronto para lutar contra minha amiga de infância – deduziu o engenheiro, um riso sem humor em sua voz. Eles já haviam se enfrentado diversas vezes ao longo dos anos, mas nunca passava de uma forma inofensiva de lazer. A ideia de ter que realmente parar bagunçara seus pensamentos, impedindo de focar no que precisava fazer no momento.
- Você não está envolvido na luta, Stark, mas sim, a agente Rogers foi comprometida ainda mais.
- Pelo menos agora sabemos que está viva, não é? – Pepper tentou melhorar o clima, ciente de que a ordem implícita do agente não ajudara em nada para deixar Tony mais calmo – Não é tão fácil derrubar aquela mulher.
- Agora isso pode ser o problema – suspirou Coulson, sinalizando para que a ruiva entrasse logo no elevador – Só ache logo o cubo, Stark.
Se convencendo de que achando o tal cubo significava também encontrar , Tony trabalhou com mais empenho e determinação do que nunca. Faziam meses que a amiga estava desaparecida, e ele até ajudava da forma que podia – o que não era tanto quando desejava, já que Fury ainda estava relutante em permitir um envolvimento maior da sua parte na S.H.I.E.L.D. –, mas parecia que andavam em círculos. Meses e nenhuma pista concreta, nada que indicassem onde poderiam procurar. O destino semelhante que o avô da mulher tivera vez ou outra voltava a sua mente apenas para atormentá-lo, aquele medo incessante de ter o mesmo destino que seu pai: passar uma vida inteira buscando um Rogers, fadado ao fracasso. Claro que ninguém tivera a decência de lhe dizer que Steve Rogers havia sido encontrado, e, mesmo que fosse uma informação confidencial, ele deveria ter sido comunicado com antecedência, não agora que ele estava sendo convocado para atuar naquele cenário. Será que tinham pelo menos contado para ele da existência de uma descendência que ele não acompanhara? Ou iriam deixar que eles se encontrassem, ou pior, se enfrentassem primeiro?
Toda sua pesquisa foi feita no automático, aqueles diversos cenários diferentes e problemáticos ocupando sua mente, nenhum parecendo melhor que o outro. Vez ou outra, Tony até tentara tirar aquela história a limpo, contatara a agência e pedira maiores detalhes, apenas para ter tudo negado. Parecia que ele era o único realmente interessado em manter as coisas sob controle, por isso sequer pensou duas vezes quando conseguiu uma localização para começar. Stuttgart, Alemanha. Tony não fazia ideia de quem a S.H.I.E.L.D. pretendia enviar, mas esperava que não mandassem o tal Capitão, mesmo parecendo a escolha mais óbvia. Havia um número máximo de Rogers que ele podia lidar por vez, e a própria sozinha já estourava esse limite, então definitivamente não precisava de companhia.
Quando já estava dentro de sua armadura e pronto para partir, Tony chegou a mandar uma mensagem para Pepper, sentindo que era inteligente deixar a mulher ciente de seus passos, já que imaginava que mais aquilo faria com que ela ficasse ainda mais nervosa. Rhodes em missão, desaparecida, e agora ele sendo convocado pela S.H.I.E.L.D., a Iniciativa Vingadores sendo finalmente ativada, em razão do roubo de um artefato que não compreendiam por completo, roubo esse realizado por um extraterrestre. Um pequeno aviso de onde ele estaria não parecia ser uma má ideia, afinal de contas.

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Seus medos realmente se tornaram realidade, e Tony ainda não tivera tempo de avaliar o peso daquilo. estava em Stuttgart junto com o tal asgardiano, e, embora não tivesse tido a chance de tentar qualquer coisa antes que ela fugisse, Steve Rogers entrara em combate direto com ela, e perdera. O curioso era que, mesmo com certa vantagem antes da chegada do Homem de Ferro, Loki ainda fora capturado. Ele não estava trabalhando sozinho, tinha pessoal o suficiente para pelo menos tentar resistir, mas isso não acontecera. sumira no momento que Tony se juntara à cena, quase que ciente de que aquilo rumava para um desfecho e que seu papel tinha terminado.
Aquele pressentimento ruim não abandonara seu peito por nenhum momento, e, na primeira oportunidade que teve, já todo no quinjet a caminho do helicarrier, Tony não hesitou em arriscar um interrogatório, mesmo com os pedidos de Natasha para que se controlasse. A russa não só sentia que aquilo podia desandar como também já tinha sido avisada por Fury minutos mais cedo, já que ela tinha praticamente uma bomba relógio a bordo.
- Para onde você mandou a ? – rosnou o engenheiro, empurrando o ombro do deus contra a parede de metal. Seu humor apenas piorou quando ele manteve o silêncio, a expressão indiferente aos poucos passando para satisfeita – Se você não me der a localização da Rogers nesse moment...
- Rogers? O nome dela não era Sousa? – estranhou Steve, poucos passos atrás. O soldado havia recebido uma lista dos agentes que foram comprometidos por Loki, e um nome em especial havia lhe saltados aos olhos, não por ser o único destacado por se tratar de uma suspeita, mas sim por tê-lo visto dias antes, em meio a informações de outra ordem. Assim que saíra do gelo, uma forma de habituá-lo nos novos tempos foi construir algumas pontes, recebendo informações das pessoas que conhecera antes do acidente, breves resumos cheios de lacunas sobre o que fizeram naquele espaço de tempo de quase setenta anos. O nome Sousa até aquele dia nunca significara nada em especial para Steve, mas agora fazia algo travar em sua garganta. Nos documentos que recebera, não se lembrava de ter alguma foto da mulher, só que não era difícil fazer a ligação entre as duas – Aquela não era Sousa?
- Parabéns, Stark – riu Natasha irônica, sem sequer se dar o trabalho de virar a cabeça para o grupo, concentrada em sua tarefa e ciente de que não tinha muito que pudesse fazer no momento – Ganhou o prêmio boca aberta do ano.
- O homem fora do tempo – comentou Loki em um sussurro, mas tamanho era o silêncio que se instalou que todos puderam ouvir perfeitamente – Nem conhece a própria família.
- Ah, agora ele fala...! – bufou Tony, antes de pedir para que Steve deixasse para discutir aquilo mais tarde, de preferência não com ele, que não tinha nada a ver com aquela história. Era Fury que adorava compartimentalizar as informações, deixar as pessoas no escuro.
Mesmo durante todas as reviravoltas dos minutos seguintes, com a aparição repentina de Thor e o breve confronto entre o deus e os dois heróis, aquele tópico não abandonou a mente de Steve. Mesmo com seu esforço para o contrário, havia sempre um certo receio de sua parte em absorver informações novas, e agora mais do que nunca ele questionava tudo que lhe fora passado. Haviam alterações nos documentos que lhe foram disponibilizados, e nada mais parecia ser confiável em sua mente. Questionamento era de um nível que ele sequer sabia expressar, ainda mais que aquele detalhe poderia facilmente estar pessoalmente ligado a ele. O nome da mulher era Rogers, não Sousa. As poucas informações sobre chegaram às suas mãos por seu parentesco com seu romance da época da Segunda Guerra, sendo uma das netas de Peggy Carter, que mais tarde viria se casar com Daniel Sousa. O soldado até tentara arrancar mais informações de Tony, mas não só não parecia o momento e o local para aquilo, como Natasha o aconselhou a não fazer isso, que a situação era delicada demais para ser explicada ali.
Por isso tirar aquela história a limpo foi a primeira coisa que o soldado fez ao voltar ao helicarrier.
- Fury – disse Steve, alto o suficiente para que atraísse a atenção de todos enquanto entrava na ponte – Quem é Rogers?
O Diretor olhou rapidamente para Hill e depois para Natasha, que acompanhava o soldado alguns passos mais atrás. Já era de seu conhecimento que ocorrera um vazamento de informações no trajeto de volta, e, na verdade, não estava tão surpreso com o acontecimento. Stark até que estava se comportando, da melhor forma que podia. Tinha desobedecido ordens diretas? Claro que tinha, mas não em um nível problemático como costumava acontecer quando contrariava um Rogers. Aquele contraste curioso fez com que o diretor balançasse a cabeça em descrença, o mundo que conhecia não fazendo mais tanto sentido como antes.
- America Rogers é a filha de Amanda e Matthew, que é seu filho com Margareth Carter – contou Fury de uma vez, se virando para o Capitão com as mãos juntas atrás das costas – Ela está desaparecida há um pouco mais de seis meses, capturada em uma missão que deu errado. Até ontem, não tínhamos o menor sinal de seu paradeiro.
- A mulher que lutou comigo... É minha neta? – continuou o soldado, sua voz se intensificando e ficando mais séria. Entendendo aos poucos o tipo de cena que presenciavam, aos poucos os agentes que trabalhavam nas estações deixavam de lado seus trabalhos e prestavam atenção na conversa – E você em nenhum momento achou que era uma boa ideia me contar isso?
- Não tínhamos a localização dela – lembrou o diretor, uma frieza em sua voz que apenas fez com que Steve travasse ainda mais o maxilar – Estaríamos te expondo a uma preocupação desnecessária.
- Desnecessária? – retrucou o soldado. Com essa reação mais fervorosa, alguns agentes mais próximos tentaram fingir que não estavam prestando atenção. Todos ali foram informados a não se referirem a Comandante Rogers daquela maneira, que, devido ao status complicado dos membros da família, aquela informação não seria passada ao Capitão Rogers. E agora ali estava ele, tomando ciência de uma parte dele que estava inalcançável – Ela é minha família!
- Uma família que você não conhece – Fury fez questão de lembrar, diminuindo a distância entre eles na esperança de que uma abordagem mais agressiva fosse o suficiente para fazer o soldado voltar a seu lugar – Eu não comecei nisso ontem, Rogers. Nunca dá certo quando família tenta resgatar família. Perder o último Rogers que tenho disponível não é algo a que eu possa me dar ao luxo.
Steve não respondeu àquilo. Ele deveria de alguma forma entender as razões da forma fria e insensível que o diretor estava abordando o tópico, mas no momento ele era incapaz daquilo. Principalmente porque Fury estava certo: era uma família que ele não conhecia. Um filho, uma neta. Informações vagas e incertas que recebera sobre os dois que não era o suficiente para serem algo mais do que estranhos quaisquer. Uma família com uma mulher que ele amara, que sequer tivera coragem de visitar até o momento, sem fazer a menor ideia de como iniciaria essa conversa, se ela iria quer vê-lo depois de tudo. Isso antes mesmo de saber que tinham uma família. Steve não queria saber da porcaria do seu dever, e era nada mais do que injusto exigir aquilo dele. O problema era que, de forma indireta, resolver aquela questão estava ligada a terminar a missão. Eles tinham Loki e o que parecia ser uma fonte de poder estranha, mas isso ainda não colocava fim à história. O Tesseract ainda estava em jogo, e da mesma forma estava .
Então que fosse assim.
Ele seguiria as malditas ordens, completaria a maldita missão. E então compreenderia de uma vez tudo o que perdera para que outros ganhassem.

Capítulo 2 - I got issues

MAIO DE 2008
Matt estava uma pilha de nervos, mas ninguém ousaria dar a entender aquilo. Ele estava ali todas as manhãs, fazendo seu trabalho como devia, como se nada ao seu redor estivesse acontecendo. Não era tão simples como o militar renomado fazia parecer, só que não tinha muitas escolhas. Se queria continuar tendo algum poder, tinha que seguir suas ordens, e elas diziam claramente que ele precisava controlar a situação. E isso era uma forma educada e profissional de se dizer que ele precisava colocar alguns limites em sua filha, mesmo ela não sendo diretamente sua subordinada na agência.
- Fury não quer me deixar liderar uma expedição – a mulher resmungava andando de um lado para o outro na sala do pai que acabara de invadir. tinha se oferecido sem pensar duas vezes para aquela missão, ainda mais por ser uma das melhores agentes especializadas em encontrar alvos. Ela deveria ser o principal nome para coordenar toda a operação, tanto pela S.H.I.E.L.D. como pelo Exército e a Aeronáutica, e mesmo assim o diretor da agência teve a audácia de redirecioná-la para trabalho burocrático na capital.
- Você sabe que ele está certo.
- Qual é, pai! – grunhiu ela, os braços caindo os lado do corpo com um barulho alto – Estamos falando do Tony.
- Eu também estou preocupado, .
- Só que não parece! – a acusação pegou Matt desprevenido, não conseguindo mais ignorar a figura da filha agora parada do outro lado de sua mesa. Quando ela queria, sabia jogar baixo, e parecia que seria um desses momentos – Não foi um acidente, pai. Foi um ataque. Eu e você sabemos suportar tortura, períodos em cativeiro, mas o Tony?
- Se você não se controlar, aí que não vai ter como ajudar – aquilo deveria ter soado como um conselho, o homem sabia, mas tinha um teor natural de ordem em sua voz. Isso foi o que fez a filha respirar fundo e assentir – Te ensinei melhor que isso.
já tinha certa reputação até ali. Era um soldado disciplinado, uma boa líder, e uma estrategista ainda melhor. Sabia seu lugar e sabia ainda melhor se portar diante de superiores e até subordinados que a subestimavam, já estava mais do que acostumada com pessoas a contrariando, despejando ordens atrás de ordens mesmo que não tivesse nexo. Até um certo ponto, ela fora criada naquele regime, não tinha nada de estranho naquela cena.
Apenas por um detalhe.
- Foi mal, esqueci que estava falando com o Coronel, não com meu pai.
Determinada a buscar outra forma de resolver a situação, já que seu pai não parecia disposto a colaborar, girou os calcanhares e rumou para a saída, sua mente inquieta já em busca de alternativas para que integrasse de alguma forma aquela missão, já que a ideia de ficar de fora e de braços cruzados parecia absurda e tortuosa demais. Seu lado mais masoquista a questionava por não ter feito a segurança de Tony naquela viagem, que, mesmo que Rhodes não tivesse conseguido impedir, ela teria tido uma chance melhor. Atravessando o portal, a mulher encontrou um pensamento ainda mais obscuro: não sabia dizer se era pior não poder fazer nada ou se envolver na missão e falhar.
- ... – Matt até tentou alcançar a filha antes de ela deixar a sala, mas um de seus subordinados aparecer na porta atrapalhou seus planos. Se ainda se tratasse da pequena criança que conseguia com facilidade correr por debaixo da perna de todos, talvez ele até pudesse deixar de lado momentaneamente seu dever para ir atrás da criança, mas fazia muito tempo que aquela descrição não podia ser usada para . Ela era crescida, tinha suas obrigações, e não podia ter alguém em seu encalço direcionando seus passos, mesmo aquela sendo a vontade do homem – Sim, Jack?
- Algum problema com sua filha, senhor?
- Ah, só o de sempre... – suspirou ele, arriscando um sorriso que tinha a pretensão de ser animado, mas só sabia transmitir cansaço – Tony Stark.

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MAIO DE 2012
não fazia ideia de onde estava, mas pelo menos o cheiro do ambiente lhe era familiar – e ela esperava que aquilo fosse algo bom. Depois de meses em cativeiro, algum odor conhecido podia ser um falso amigo, representar algo que trazia qualquer coisa, menos segurança. O fato de não fazer ideia do que acontecera nos últimos dias também não ajudava em nada a tarefa da mulher de se situar. Havia alguns vestígios de memórias de combate em sua mente, mas ela não tentara fugir do cativeiro, e a ideia de ter lutado por seus inimigos soava ainda mais bizarro. Flashes confusos de um rosto e olhos hipnotizantes também apareciam com certa frequência, e um tipo de admiração parecia correr por suas veias. Não... Aquilo era diferente. Devoção? Que diabos de sensação era aquela?!
Impaciente por não conseguir chegar em lugar nenhum, abriu os olhos, inconscientemente já sabendo que a luz incomodaria suas vistas, mas ela não se importou. Havia uma agulha em seu braço e ela quase seguiu para o material para arrancá-lo, se uma mão estranha não tivesse impedido.
- Se comporte, Comandante – pediu o dono da mão, forçando seu corpo com delicadeza a voltar a se deitar. Como esperava, a mulher não chegou a apresentar resistência. Seu corpo ainda não tivera tempo o suficiente para se recuperar, e aquilo era o esperado. O médico estava até surpreso por ela ter acordado tão rápido, fazendo poucas horas que ela dera entrada na ala hospitalar – Você ainda precisa de mais repouso.
- O que aconteceu? – não reconheceu a própria voz, muito mais baixa e grave do que de costume, provavelmente pela falta de uso nos últimos tempos. A agente tinha perdido a noção de tempo, mas sabia que chegara na casa dos meses, o que significava que o número de palavras que pronunciara caíra drasticamente. Aquela não era a primeira vez e duvidava que seria a última que seria capturada, e boa parte de seu treinamento era voltado exatamente para aquele tipo de situação.
- Desculpe, não cabe a mim te atualizar sobre tudo – contou o médico – Dir. Fury irá se encarregar disso depois que terminar de instruir os Vingadores.
Ainda sentindo aquele cansaço estranho dominar seu corpo, chegou a assentir de leve, antes de se ajeitar no colchão desconfortável da maca. Ela nunca entendera como a S.H.I.EL.D. podia ter tanto dinheiro e gastar tão pouco com o conforto de seus agentes, já que era mais do que normal pelo menos os agentes de campo passarem parte do mês em acompanhamento ou recuperação.
- Espera, você disse que ele está instruindo quem?!

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Assim que retornaram para o helicarrier, os Vingadores não tiveram muito tempo livre para atividades de menor prioridade, como descansar. Ninguém queria manter o inimigo derrotado por mais tempo no planeta do que o necessário, por isso Fury logo tratou de colocar seus cientistas trabalhando na situação, já que “a ponte do arco-íris ainda não havia sido reconstruída”, segundo Thor. Havia sido uma despedida bastante discreta, na manhã seguinte, com todos os membros da recém-formada equipe sendo convocados em seguida para uma reunião com o Diretor da S.H.I.E.L.D., já que haviam diversos pontos que precisavam ser discutidos.
Assim que embarcaram, eles foram imediatamente direcionados para a ponte, onde a movimentação de agentes parecia ser bem menor, embora não fosse pouca. A maior parte da agência estava mobilizada para suporte dos órgãos locais em NY, em razão dos níveis de destruição da cidade e o grande número de vítimas. Nas estações que circulavam a mesa de reunião, a maior parte monitorava a ação de apoio da agência, algumas poucas continuavam a programação normal e acompanhavam as missões que estavam em andamento.
O Diretor apenas parou que assistir seus agentes trabalhando quando foi avisado que os heróis estavam prestes a entrar no ambiente, logo tomando seu lugar na ponta da mesa, mentalmente se preparando para o que deveria ser algumas horas de muito exercício de paciência.
- Cadê a America? – indagou Tony, assim que entrou no ambiente, andando alguns passos mais à frente do grupo. Fury teve que controlar sua vontade de revirar o olho. Até que tinha conseguido manter o engenheiro ocupado o suficiente para que ele não insistisse em ver a amiga de infância.
- Ainda inconsciente, Stark. Além da concussão, ela já estava muito debilitada pelo tempo em cativeiro – contou Fury, sinalizando para que tanto ele como o restante do grupo ocupassem seus lugares – Sem visitas por hora.
- Como você fosse conseguir me impedir de ir ver a idiota – devolveu o homem, já dando as costas ao grupo e disposto a bater em todas as portas da nave até encontrar , se fosse necessário.
- Stark...
- Não me vem com “Stark”, Fury – Tony o cortou, uma determinação em sua voz que surpreendeu a todos – America não saiu do meu lado em nenhum momento depois que eu voltei do meu passeio no Oriente Médio e pode ter certeza que eu pretendo fazer o mesm...
- Se você me chamar de America mais uma vez, você vai ser o que vai precisar ser hospitalizado, enlatado – a voz não parecia em nada com a calma e macia que Tony estava familiarizado, mas ele nunca seria capaz de esquecer aquele timbre, não importava quanto cansaço ele transmitisse. não estava nem com seu uniforme costumeiro ou as vestes hospitalares, mas sim um conjunto largo de moletom da agência que cumpria muito bem sua tarefa de esconder a maior parte de seus ferimentos e hematomas. Claro que as roupas em nada podiam ajudar no estado de seu rosto, agora muito mais fino que o considerado saudável, além das leves escoriações que aos poucos iam se curando na velocidade que era considerada normal para seu organismo aprimorado.
Tony sorriu aliviado ao avistá-la se direcionar para ele, perguntando rapidamente se ela estava bem quando se adiantou para beijar seu rosto.
- Agente Rogers, não me faça ordenar que te amarrem na maca.
- Não sabia que você curtia esse tipo de coisa, Diretor – debochou a mulher, sinalizando para que Tony se sentasse enquanto rumava para ocupar a cadeira ao lado de Clint – E eu realmente gostaria de ver vocês tentarem.
- Você realmente deveria estar descansando, – disse o arqueiro, e ela apenas negou com a cabeça – Qual é, mulher... Você fez por merecer essa folga, se você não aceitar, eu vou pegar no seu lugar.
- Eu deveria estar sendo atualizada sobre o que perdi nos últimos meses, já que nada mais está fazendo sentido na minha cabeça – continuou a comandante. tinha ambos cotovelos apoiados na mesa, as pontas dos dedos pressionando suas têmporas enquanto fechava os olhos com força – Em algum momento sei que teve aliens envolvidos e controle mental, e nem me faça comentar sobre o vovô em boa forma ali.
- Acredito que você esteja familiarizada com o Capitão Steve Rogers – disse Fury, num tom falso de simpatia que não foi nada bem recebido.
- Acredito que você esteja familiarizado com a minha falta de paciência e insubordinação.
- Engraçado como as coisas mudam num espaço de duas gerações – brincou Tony, ganhando um olhar irritado dos dois Rogers – Talvez nem tanto assim.
- O avião que desapareceu no final da Segunda Guerra foi encontrado mês passado. As baixas temperaturas mantiveram o Capitão em um estado de suspensão – Fury agora não se lembrava mais da explicação que havia ensaiado para a mulher, mas acreditava que era algo parecido com aquilo. O que ele dizia, na verdade, não tinha muita importância, já que não acreditava que ela estava de fato lhe dando ouvidos.
Steve se ajeitou desconfortável em sua cadeira, o olhar abismado de travado em seu rosto. Parecia que ela estava tentando procurar algo em seus traços que entregasse a suposta farsa, à espera de um vacilo seu que entregasse a verdade. Talvez algo semelhante tivesse passado pela mente da mulher, mas bem rápido. Poucas vezes naquela vida ela se classificara naquele estado, e aquela com certeza já entrava em seu TOP 3, completamente tomada pelo choque.
- Meu amigo tem um imã no peito, uma pessoa na mesa vira uma criatura verde quando se estressa – disse devagar, como se tentasse se convencer do que dizia. E tentava – Um avô preservado pelo gelo não chega a ser a coisa mais bizarra que aconteceu nesse mundo, certo?
- Acabamos de dar tchau para um deus nórdico que foi embora com seu irmão preso, que tentou subjugar nosso planeta – Natasha acrescentou um item à lista, quase rindo quando a colega bateu a testa na mesa sem delicadeza alguma.
- Minha mente está chegando a conclusões que dizem que eu deveria estar chapada, mas eu não me sinto chapada – resmungou ela, se deitando sobre a superfície apenas para notar um detalhe curioso em seguida – Espera, nórdico? Thor sei lá o quê? O cara de New Mexico?
- O irmão dele, Loki, foi o que te manteve sob controle mental – explicou Fury – Ele usou você, o agente Barton, e outras dezenas de pessoas para colocar seu plano em ação.
- A gente pode sair para tomar um porre depois – ofereceu Clint, cutucando as costelas da mulher com o cotovelo – Sei que eu preciso.
- A gente pode começar agora?
- Apoio essa ideia – Natasha concordou com a sugestão da comandante, que se permitiu rir mais um pouco de nervoso antes de respirar fundo e tentar ser um ser racional.
- Então você é Steve Rogers? Tipo, de verdade? – como se ainda não acreditasse, esperou a confirmação do homem, sua postura mudando completamente quando ele assentiu – Certo, eu já vou adiantar que não vou te chamar de vô. Você tem o que? Uns vinte anos? Meu avô é mais novo do que eu, essa família acabou de criar um novo nível de estranho!
chegou a procurar algum apoio em Tony, mas ele estava estranhamente sério, o que era preocupante. Era nesse momento que ele deveria fazer alguma piada inapropriada, ignorar por completo seus pedidos para que se comportasse e não constrangesse ninguém. Algo incomodava seu amigo, e não era nada interessante não saber o que era.
- Quem lidou pior com isso: eu ou meu pai? – jogou a pergunta para o grupo, esperando que aquilo fosse o suficiente para disfarçar sua súbita mudança de foco para o engenheiro, não seu avô reaparecido. O que a mulher não imaginou era que aí sim um clima estranho dominaria todo o ambiente e as pessoas nele – O que vocês não estão me contando?
- Seu pai e o Capitão ainda não foram apresentados – contou Fury de uma vez, sem estranhar rapidamente Hill se colocando ao seu lado, pronta para lidar com a possível agente insubordinada.
- Você não me deu a localização dele. Nem da America – comentou Steve, a falta daquelas informações agora lhe parecendo suspeita. “Ninguém me chama de America, fica esperto”, avisou em tom de ameaça, mas ele optou por ignorar – Você me deu a localização de todo mundo, menos deles. Onde ele está?
- Diretor – pela voz baixa de Hill, Fury sabia que ela estava aconselhando a contar de uma vez, mesmo que com cuidado. Era perigoso mantê-los no escuro, ainda mais ambos tendo tendências a fazer o que acreditavam ser certo, mesmo que tivesse ordens explícitas para fazer o contrário. Um Rogers contrariado era perigoso, e o diretor não estava nada interessado em descobrir o que acontecia quando tinha dois.
- Nick, cadê meu pai?
- O Coronel Rogers está desaparecido desde o mês passado.
Exatamente como esperavam, a reação de avô e neta foi semelhante, a breve surpresa logo dando lugar a uma determinação que não antecedia coisa boa.
- Pirralho 2, informações sobre o Coronel Rogers – Steve não sabia a quem a mulher se referia, mas notou um agente em uma das estações olhar rapidamente para ela, sem saber como agir diante da ordem direta.
- Você não tem autoridade para isso, está afastada até segunda ordem – lembrou Fury, conseguindo atrair para si o olhar raivoso da mulher. Nick podia ser o diretor, podia ser o presidente do mundo, mas se tinha algo que havia conquistado com o passar do tempo era respeito. Foi trabalhoso, já que constantemente sua imagem se confundia com a de seus parentes, mas ela saíra da sombra, e se orgulhava do peso que seu pedido tinha, mesmo que contradissesse ordens de superiores a ela.
- Edward?
- Coronel Rogers foi capturado durante uma missão de busca, dona – contou o garoto, engolindo em seco quando Hill se virou irritada para ele – Procurando por você.
fechou os olhos com força antes de apoiar as mãos na mesa e se levantar com o impulso, rumando para a estação de Edward mesmo com as ordens para se retirar do ambiente e voltar para a ala hospitalar. Steve acompanhou a movimentação da mulher, sem saber se deveria sair em seu apoio ou não. Estava à espera de um sinal, pelo menos.
- Me atualiza – pediu ela ao garoto, apoiando ambas as mãos no encosto de sua cadeira enquanto ele puxava as informações do caso para que ela estudasse.
- Eu vou chamar a equipe de contenção, – avisou o diretor – Você não tem autoridade mais aqui.
- Ah, eu tenho autoridade porque essa missão é minha – retrucou ela, se virando para Nick para ver se ele teria coragem de a contradizer – Eu vou você querendo ou não, e é melhor querer, já que eu não vou ter a menor vontade de cooperar se ficar no meu caminho.
Havia poucas vezes em que silêncio não significava consentimento, e aquela era uma dessas. Ao optar por não dizer nada, Fury estava a desafiando a descumprir suas ordens. sabia muito bem que aquilo se tratava de uma infração grave, que provavelmente não teria volta. O diretor só tinha se esquecido que aquilo era a última coisa com que ela se preocupava.
- Tony – disse ela, sem pressa nenhuma. Seus braços cruzados em frente ao corpo, e, mesmo se dirigindo a outra pessoa, não quebrando o contato visual com o diretor – Coloque o traje.
- Você não vai levar Stark a lugar nenhum.
- Ah coração – Tony riu, já se colocando de pé – Ela me leva para onde ela quiser.
Fury olhou de um para outro, toda sua paciência esvaída depois de dias tão estressantes. Ele queria permitir a participação da mulher na missão, sabia o quanto aquilo significava para ela. Só que ele não estava ali para ser amigo, ele estava ali para ser responsável. era uma responsabilidade que ele não queria ter, mas tinha, e não podia simplesmente deixar que ela fizesse tudo o que queria, ainda mais quando apresentava um risco considerável a ela.
- Eu cometi o erro de permitir que seu pai tentasse te recuperar, e olha no que deu – Fury diminuíra a distância entre eles, sua voz muito mais baixa e amigável do que de costume. Ele estava tentando apelar para o pessoal, e até poderia funcionar, se ela não estivesse tão determinada – Reúna sua equipe, Comandante Rogers. E é melhor não ser capturada novamente. Estou cansado de ter que limpar a bagunça de vocês.
- Obrigada, Nick – pediu ela em um sussurro, sua postura relaxando por um breve instante antes de retornar à mais séria – Hill, status da minha equipe.
- Estão em NY.
- Coloque eles na linha, cheque as condições atuais. Mande outra equipe no lugar deles, tenho quase certeza que vi Daniels por aqui, eles são bons em suporte pós-combate – foi emendando instruções atrás de instruções, até sua atenção ser direcionada para um agente entrando na ponte, outra possibilidade chegando a sua mente – Ou libera outra equipe S.T.R.I.K.E. A equipe do Rumlow já trabalhou comigo antes.
- Não sei qual a ocasião, mas estamos a seu comando, Rogers – o homem tratou logo de dizer, surpreso pela repentina atenção que estava recebendo de todos os colegas e vingadores. Na verdade, ele tinha certa noção do que poderia ser. Nos dias anteriores, alguma equipe havia conseguido pistas sobre o paradeiro do Coronel Rogers, mas, com toda a confusão do Tesseract, aquela missão estava suspensa por tempo indeterminado.
- Reúna a equipe, por favor – ordenou a mulher, assim que Fury autorizou sua escolha – Dez minutos na pista de decolagem.
Clint, assim como Natasha, chegara a se oferecer para integrar o time, mas a mulher negou sem pensar duas vezes. Ambos estava visivelmente cansados, não precisava força-los a voltar ao campo tão cedo. Ela tinha uma boa equipe em mãos, não era o caso de sair convocando os melhores agentes que conhecia, sem contar que o diretor não iria gostar nada da ideia.
Assim como ele não gostara nada dos eventos a seguir.
- Eu vou com você – decretou Steve, se colocando de pé e no caminho da mulher quando ela pretendia rumar para seus preparativos. ficou sem saber como reagir. Certo, ele foi um herói de guerra e toda aquela baboseira, pelo jeito havia lutado também em NY, mas ela não conhecia nada a seu respeito como soldado. Ela particularmente odiava quando algum rosto novo era remanejado para sua equipe, já que o processo de adaptação nunca era fácil, e as pessoas tinham o péssimo costume de achar que o nome de sua família tinha mais peso que o dela própria, e nunca terminava bem. Sem contar que, na pouca experiência que tivera em trabalhar com alguém minimamente relacionado a ela sem ser por trabalho, sempre terminava em problema.
- O que foi? – debochou Fury, assim que a mulher se virou para ele, seu olhar hesitante silenciosamente o questionando – Está pedindo a minha permissão agora?
- Qual é, Nick. Colabora comigo – ela choramingou, os ombros caídos não conseguindo mais manter a imagem mais profissional – Eu não sei qual o status dele, vínculo com a S.H.I.E.L.D. Eu posso levar ele junto? Acha que é uma boa ideia?
- Eu não aceito nada menos do que três Rogers aqui quando essa missão acabar – decretou o diretor, depois de respirar fundo. Hill ao seu lado não parecia muito contente também, mas duvidava que ela tinha outras opções em mente, ou teria se pronunciado. Era um saco ter que admitir, mas era a melhor rastreadora que tinham, aquela missão tinha que ser dela desde o começo.
apenas assentiu, puxando Steve levemente pelo braço para que a seguisse, coisa que praticamente todos os vingadores fizeram, com exceção de Natasha e Bruce. Brock seguia mais à frente, passando alguns detalhes que julgava importante dizer logo de cara, já que acompanhara a aquisição de informações apenas por precaução.
- Você ainda tem um uniforme? – perguntou a Steve, depois de dizer que precisava se trocar. Em sua mente ainda confusa, ela se lembrava de ter lutado com o homem e sua versão atualizada do traje que usara durante a Segunda Guerra, e por isso duvidava de estar em um bom estado.
- Tenho pedaços.
- Acha que o uniforme antigo do seu pai serve nele? – sugeriu Brock, diante da confirmação do capitão – Vi Coulson com um modelo por aqui. Eles são praticamente do mesmo tamanho.
- Vai ter que dar... Acompanha ele para mim? – Steve pareceu querer dizer algo depois do pedido da neta, mas, pela forma apressada que ela caminhava pelos corredores, acabou por deixar para depois qualquer que fosse a dúvida, permitindo que Rumlow o guiasse para onde quer que o tal uniforme estava guardado.
- Hm, ? – arriscou Tony, acreditando ser uma boa brecha aproveitar a diminuição do número de pessoas no grupo para tirar algumas dúvidas. Tanto ele como Clint, que também a acompanhava, estavam bastante abatidos pela última batalha, mas não hesitariam em integrar a equipe caso ela requisitasse – Quer que eu vá mesmo com vocês?
Depois de anos de convívio, Tony esperava desde uma confirmação a respostas mal-educadas. Só esquecera de levar em conta uma das formas preferida, porém pouco utilizada, da mulher.
Dor física.
- Anthony, eu vou matar você! – grunhia a mulher, depois de acertar um soco bem dado no ombro esquerdo do engenheiro, que chegara a se jogar no chão em vista do impacto poderoso. Clint logo segurou ela pelos braços, mais para tentar parecer que estava ajudando do que tudo, já que tinha ciência que não iria conseguir medir forças com ela.
- Mas o que eu...? Eu não...? – ofegou Tony confuso, a mão oposta no ombro atingido – Ai!
- Eu fico fora por três minutos e você quase morre? De novo? – continuou ela. O arqueiro soube naquele exato momento que realmente estava irada. Não que ela costumasse falar baixo, pelo contrário, mas havia momentos e ambientes para isso. A comandante nunca elevava a voz enquanto estava em serviço, a não ser em casos extremos, onde repreensões severas eram envolvidas. Mas mesmo assim não chegava nem perto da intensidade que ela gritava com Tony – Não, perdão. Corrigindo: você tenta se matar? Que porra passou pela sua cabeça para entrar num buraco de minhoca com um míssil?!
- O míssil ia destruir a cidade inteira, o que você esperava que eu fizesse? – retrucou Tony, do chão mesmo. Dali pelo menos era mais difícil a mulher conseguir o atingir novamente. Bem mais seguro.
- Que pensasse em outra coisa! – devolveu ela, ainda mais alto e soando ainda mais irritada – Do que adianta ser um gênio se quando a situação aperta toda ideia que você tem é praticamente se matar?
Com alguns outros agentes passando pelo corredor e tentando entender o que acontecia, Clint pediu que ela se acalmasse mesmo sabendo que essa ação podia fazer com que ela se virasse contra ele, mas também a lembrar de que precisava ir atrás do pai foi uma ideia inteligente, fazendo com que ela instantaneamente parasse para respirar fundo, mesmo que bufando em seguida.
- Eu estou muito perto de me demitir dessa relação, Tony – murmurou ela, um tom tão profundo e sério que fez com que ele engolisse em seco, ciente de que ela queria dizer cada palavra – E o pior é que, de acordo com meus dados, suas experiências de quase morte são quase sempre quando eu não estou por perto. Então se eu me demitir e você morrer, eu juro que arrumo de te trazer de volta só para você sentir como sua vida é miserável sem mim.
- , nosso tempo é apertado. Precisa se trocar – Clint voltou a interferir, antes que eles resolvessem estender a discussão, o que não era difícil – Eu levo o Stark para a enfermaria.
Ambos os homens só voltaram a respirar quando sumiu do corredor, Tony aceitando a ajuda para se levantar sem pensar duas vezes.
- Para de me julgar – resmungou ele, assim que notou o sorriso divertido no rosto do arqueiro enquanto apoiava o braço bom de Tony por cima de seus ombros – Ela soca forte, todo mundo sabe.
- Eu devo saber tanto quanto você. Quando estava para me aceitar na S.H.I.E.L.D., Fury deixou ela me testando para abaixar minha bola – contou ele, um riso nostálgico contaminando sua voz – Não foi uma experiência agradável. Piorou quando ela começou a treinar a Romanoff. Acredite, tem maneiras nada legais de estar no meio das pernas de alguém.
- Foi mal, cara – devolveu Tony, sem conseguir de fato se identificar com o relato do arqueiro – Só conheço a divertida.

Capítulo 3 - The apple and the tree

Amanda andava de um lado para o outro, próxima a cadeira do piloto da nave, sua filha apoiada contra o encosto apenas acompanhando sua movimentação, sua expressão neutra que às vezes ela tinha vontade de tentar arrancar no tapa nunca abandonando seu rosto, não importava o tipo de argumento que ela apresentasse.
- Isso é uma péssima ideia – repetiu a mulher, um recorde pessoal para um espaço tão curto de tempo.
- Nunca disse que era boa, mas vai dar resultado – a filha respondia com o tom monótono, sem querer gastar energia para brigar logo naquele momento tão delicado. sabia que passaria por um belo aperto por estar indo resgatar o pai, só que a pior posição era a de Amanda. Um dia no passado, ela fora uma boa agente, uma das melhores da agência. E agora ela estava ali, de mãos atadas, tendo que confiar que teria sua família de volta, e não que eles se perderiam para sempre – Agradeceria se tivesse um pouco de fé em mim.
- Você sabe que eu tenho, . Só que seu pai nunca vai me perdoar se algo acontecer com você, ainda mais indo atrás dele – a mulher se virou para a mãe, não surpresa ao notar que seu rosto continuava inexpressivo, mas seus olhos brilhavam com intensidade pelas lágrimas que se acumulavam – Você é a nossa prioridade.
- E vocês são a minha – devolveu a Rogers mais jovem, se ajoelhando em sua poltrona para abraçar a mãe, arrumando com cuidado os fios que foram bagunçados de seu penteado quando se separaram – Agora volte para casa. Volto com o papai antes da hora do jantar.
- Não se atrasem.
- Pode ser pizza? Tô morrendo por uma fatia de pizza.
Amanda hesitou ao se virar e avistar Rumlow e Steve se aproximando com passos apressados, ainda mais pelo traje que o Capitão usava. Matt e sempre tiveram uniformes parecidos, que lembravam vagamente o traje que Steve usara na Segunda Guerra. A estrela branca com as faixas em volta eram padrão para as duas peças, a maior diferença entre elas sendo que o traje de seguia o modelo de macacão da S.H.I.EL.D., só que sem mangas, enquanto a versão de Matt seguia com proteção extra nos braços e ombros. O tom de azul escuro que podia ser confundido com preto era idêntico para ambos, assim como o cinto com compartimentos e os aparatos e proteções na perna.
- Capitão.
- Dona – Steve a cumprimentou no mesmo tom, sua expressão serena entregando que ainda não tinha percebido quem ela realmente era. Talvez imaginasse que estivesse ali passando instruções para apenas mais uma agente, não se despedindo da filha.
- Conselheira Rogers.
Certo. Rumlow talvez tivesse entregado alguns detalhes a mais.
- Olá, Brock – disse a mulher rápido, apertando o passo para deixar a área de decolagem o mais rápido possível. Steve fora o único que acompanhara seu trajeto com os olhos, seu rosto deixando claro que fora pego de surpresa.
- Sua mãe acabou de correr do Capitão América – comentou Brock rindo ao embarcar, tomando seu lugar na estação de monitoramento da nave. não estava em um estado muito diferente, as mãos ainda sobre o encosto de sua poltrona e a sombra de um riso divertido em seus lábios.
- Pensei que eu estava alucinando – confessou ela, deixando seu posto para recepcionar o restante da equipe que chegava e permitir que outro agente se encarregasse de pilotar – Nunca vi aquela mulher correr de ninguém.
- Aquela é sua mãe – Steve constatou o óbvio, ganhando um sorriso de simpatia da neta. Iria demorar uma eternidade para ele se acostumar com a família até que numerosa que tinha agora.
- Amanda Rogers, parte do Conselho de Segurança Mundial. Acredito que já tenham conversado.
- Sim, conversamos. Só não sabia que ela era... Ela.
O assunto foi deixado de lado assim que toda a equipe estava a bordo e a nave decolou, todos muito ocupados em se preparar individualmente para a missão que começaria em breve, já que a viagem não seria tão longa assim. Brock estava responsável por atualizar sobre todo o caso e colocar Steve a par de tudo, o que deixava ele no meio da dupla, cada um de um lado dos apoios de sua cadeira, atentos a cada palavra e informação que ele tinha para oferecer.
- Traçando as informações obtidas até agora, chegamos a essa localização. Costumava ser um... – Rumlow ia narrando o que fazia, o mapa da região dominando uma das telas.
- Esse prédio é da S.H.I.E.L.D. – o interrompeu, causando um silêncio estranho na nave. Todos se viraram para ela.
Ela tinha dito que a S.H.I.E.L.D. estava envolvida?
- Perdão?
- Você está dizendo que a S.H.I.E.L.D. está mantendo Matthew em cativeiro? – Steve foi o primeiro e o único a tomar uma postura mais ofensiva, a forma que se adiantara para a Comandante fazendo que todos ficassem na defensiva, exceto a própria mulher. crescera com o conceito de que a melhor defesa era o ataque, não costumava recuar para qualquer um, especialmente alguém que chegasse parecendo querer saber e mandar mais que ela.
- Eu disse o que eu disse, que é um prédio da S.H.I.E.L.D. – Brock se repreendeu logo em seguida por aquele pensamento, mas nunca vira agir com tanta calma quando alguém se dirigia a ela de forma tão acusativa. Claro que era fácil perceber como ela tentava controlar seus impulsos de não vigiar a sua fala, mas não mudava o fato de que ela estava sim pegando leve com o avô, e isso não passou despercebido por ninguém – Não originalmente nosso, mas foi tomado.
- Comandante, o prédio não aparece na lista da SHIELD – comunicou um agente do outro lado da nave, que aproveitara a pequena distração para checar aquelas informações que agora lhe pareciam tão estranhas. Com o afastamento de e sua equipe sendo remanejada para outro superior, ele fora envolvido no caso, e tinha certeza que se lembraria se um prédio da agência tivesse sonhado em aparecer na lista de locais suspeitos.
- Porque você não tem clearance level para isso.
- O que é esse prédio, ? – Steve tentara recuperar a atenção da neta, mas o recém iniciado falatório dos outros agentes pedindo direcionamento chegava primeiro aos ouvidos da mulher, que parecia não estar falando com ele de propósito. Para o inferno com o protocolo, ele queria as informações.
- Abortamos a missão?
- Contate a Hill – pediu ela, depois de negar a sugestão de uma agente. Não valia a pena dar meia volta, talvez até fosse piorar a situação – Diga que vamos invadir uma propriedade da S.H.I.E.L.D. Diga que eu autorizei.
- O que é esse prédio, America?
sentiu o sangue voltar a esquentar ao ouvir o avô insistindo em chamá-la por aquele nome, ainda mais por ter algo em sua voz que deixava claro que ele tinha ciência da escolha que fazia.
- Costumava ser um laboratório que tomamos anos atrás. Por causa do seu histórico, adicionamos às propriedades da agência por segurança – contou ela, sem se dar o trabalho de parecer mais amigável e destravar o maxilar – Era de um cientista alemão, Strucker. Ele está preso, pelo menos espero que esteja.
- O que você quer dizer? – foi a vez de Rumlow questionar, diferente de Steve, que endurecia a expressão ainda mais enquanto a compreensão lhe atingia.
- Que esse prédio está na minha lista de monitoração, já que não é qualquer um que sabe dele. E eu chequei minhas notificações enquanto me arrumava, estava tudo na paz.
- Sistema corrompido – resumiu o Capitão, sua neta assentindo em seguida – Quem?
- Não sei – a mulher suspirou, jogando ambos os braços para trás da cabeça enquanto andava lentamente em círculos. Aquilo era algo grande, precisava tirar aquela história a limpo. O problema era que não era um bom momento para isso – Vou ter que lidar com isso depois.
- , requisito reforços?
- Não, estamos em bom número – ela respondeu à pergunta de Rumlow, já se adiantando para a área mais afastada da nave e sinalizando para que Steve a seguisse – Só acho que vamos ter um pouco mais de trabalho do que esperava. Vamos ter que mudar todo o plano de ação, só me dê cinco minutos.
O grupo de agentes tentou com o máximo de discrição que a situação permitia acompanhar a movimentação da dupla, assim como tentar descobrir o assunto que discutiriam. Haveria uma discussão, isso era certeza. A tensão que envolvia ambos era clara demais para ser ignorada, e eles começavam a questionar se não teriam que intervir em algum momento.
- Algum problema, Capitão? – soltou quando parou em um lugar, os braços cruzados em frente ao peito e a sobrancelha erguida – É a hora para dizer, se tiver.
- Sabe que eu terminei essa luta duas semanas atrás? – Steve começou em tom baixo, porém firme e nervoso, sem ver necessidade para rodeios. Inclusive, sequer tinha mais paciência para eles – E que no começo dessa semana Fury veio até mim dizer que eu estava errado e que não tinha acabado? Agora você vem me dizer que meu filho foi raptado debaixo do nariz de vocês?
- Abaixe o tom para falar comigo.
- Não é mais sobre o que perdemos para ganhar a guerra – continuou o soldado, ignorando o pedido um tanto sinistro de , que não reagia de forma alguma às suas palavras duras – Continuamos perdendo tudo e a guerra não acabou.
- Continue falando dessa forma e vai criar o caos.
- E?
O tom de desafio e descaso de Steve fez com que a mulher perdesse a linha, desistindo de tudo e entrando de cabeça em seu maldito jogo. Quem o homem pensava que era para falar daquela forma com ela? Jogar acusações daquela forma? Se era assim que a lenda da Segunda Guerra costumava tratar seus superiores nos seus dias de glória, estava mais do que disposta a mostrar que as coisas haviam mudado muito, e que era melhor ele se adaptar logo, para seu próprio bem-estar físico e mental.
- Acha que eu sou estúpida e ainda não percebi que tem algo errado nisso tudo? Os tempos mudaram, Steve. Na verdade, sempre foi desse jeito – ela voltou atrás, porém seu corpo estava mais adiantando para o soldado, que parecia tentado a recuar – É muito mais difícil resolver tudo aos berros e socos. Se controle e se esforce para fingir que está tudo bem, ou vai pôr tudo a perder.
- Você está desconfiada – deduziu Steve, um tanto surpreso. Nos últimos dias que passara na S.H.I.E.L.D. tivera tantos episódios de informações alteradas, mentiras sobre mentiras, que alguém chegar com tanta clareza parecia um motivo a mais para ficar com o pé atrás.
- O seu filho mantido em cativeiro debaixo do nosso nariz é meu pai, caso tenha se esquecido – grunhiu ela, uma compreensão confusa tomando o rosto do soldado – Eu nunca gostei da ideia da Fase 2, mas é muito mais fácil eu saber o que está acontecendo estando dentro do que fora.
- É preciso muito sangue frio para isso.
- Você foi do exército, não sei porque está estranhando – devolveu a mulher, com seu sorriso mais cínico finalizando a conversa. Tinha um resgate para organizar, e, mesmo que não se tratasse de alguém que era pessoalmente ligada, aquela era a prioridade de . Se Steve queria continuar com aquilo, que esperasse até o dia seguinte.

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Acabou que Steve não esperou pelo dia seguinte, nem pela hora seguinte. Claro que, quando ele voltou a pedir licença e um minuto com um pouco mais tarde, sua postura não tinha mais nada de ofensiva, pelo contrário. Era quase arrependimento e vergonha que se via nos gestos do capitão, e a comandante quase sorriu satisfeita.
- Desculpe por ter descontado a frustração em você – disse ele de uma vez, com uma sinceridade que era impossível questionar – E por ter me portado mal.
- Não costumo encarar insubordinação muito bem, Rogers – avisou a mulher, sem se deixar enganar pelos pequenos olhos azuis que lhe eram tão familiares, que transbordavam arrependimento – Se você é S.H.I.E.L.D., pode ter certeza que vai ter uma advertência com seu nome quando voltarmos.
Steve apenas assentiu, parando mais ao lado da neta, que separava os artefatos que pretendia usar em campo, distribuindo os objetos pelos compartimentos de seu traje.
- Como você está lidando com tudo? – perguntou depois de um tempo, ciente de que deveria puxar assunto de alguma forma, que era aquilo que o soldado estava esperando, assistindo com atenção seus menores movimentos.
- Não sei muito bem – confessou Steve, dando de ombros e afundando as mãos nos bolsos da calça – Setenta e duas horas atrás eu não tinha família alguma. Agora eu acabei de resgatar a minha neta e preciso fazer o mesmo com meu filho. Semana difícil...
- Eu quis dizer com toda a mudança de tempo, mas sim, acho que isso deve ser um tópico difícil também – ela concordou por fim, sorrindo quando a compreensão atingiu o homem.
- Não tive muito para parar e pensar a respeito. Acho que você também não.
- Eu não tenho energia para isso, só estou seguindo a onda – desconversou, fechando o último compartimento de seu cinto e sinalizando para uma fileira de bancos, para que Steve se sentasse com ela – Você disse que fazia duas semanas desde que a guerra acabou para você. Desculpe não estar sendo mais compreensiva, deve estar sendo um inferno.
- Muita coisa para me ajustar, pouco tempo para isso...
- Eu fiquei bastante tempo afastada depois do Afeganistão – contou ela, ganhando o olhar curioso do avó – Tenho uma boa lista de veteranos da Segunda Guerra que ainda lutam para se ajustar também.
- Conhece bastante veteranos? – perguntou Steve, embora já tivesse uma noção da resposta que receberia. Entre as informações que recebera quando acordara, a maior parte era sobre as pessoas que conhecera durante a guerra. Alguns ainda estavam vivos, todos tiveram filhos, e, de alguma forma, ele imaginava que tivesse tido contato com eles.
- O Comando Selvagem nunca chegou a se distanciar muito. Um pouco depois que a guerra acabou teve a criação da SHIELD e tudo mais – explicou ela – Os Carter e os Stark não foram os únicos a ficar por perto.
- Você definitivamente tem a atitude dela – o comentário vago de Steve deixou a mulher um tanto confusa, por isso ele logo completou – Peggy. Você parece ter muito mais os traços dela do que os meus.
- Ela diz que meu gancho de direita é dela – brincou ela, rindo sem conseguir se controlar quando Steve disse que se lembrava bem daquele golpe da mulher, que era muito bom de assistir – Se não sabia sobre Matt e eu, suspeito que não foi visitar ela ainda.
- É... Me faltou coragem.
- Ei, sem julgamentos – se apressou ela em dizer, notando como o homem ficara desconfortável – Não sei o que faria no seu lugar também.
- Como ela está?
- Bem, na maior parte do tempo. A idade não fez tão bem para a memória dela, mas ela ainda tem seus momentos de lucidez, o suficiente para ralhar com a S.H.I.E.L.D. inteira caso pisemos na bola.
Steve pigarreou de leve e desviou o olhar para o chão, o cenho franzindo enquanto encarava as botas pretas que tivera que pegar emprestado. Peggy estar viva definitivamente era um conforto, mas ao mesmo tempo era uma lembrança de que ela vivera a vida que ele devia ter a acompanhado, um lembrete exatamente como a mulher ao seu lado. Toda uma vida que continuara sem ele, sem ter a decência de o esperar.
- Eu não sei qual é o protocolo para quando seu avô volta dos mortos, mas estamos aqui – comentou depois de um tempo, quando o silêncio de Steve começou a ficar desconfortável demais. Ela só percebeu que fizera uma péssima escolha de palavras depois que elas foram pronunciadas, mas, para seu alívio, o homem não pareceu dar tanta atenção para sua brincadeira inapropriada, focando mais na declaração que realmente importava – Em algum momento você vai preferir que não estivéssemos, aí você vai saber que entrou de vez na família. Todo mundo se mete nos assuntos de todo mundo, é um saco.
- Obrigado, .
Sem saber como fazer e um tanto nervosa por não saber como responder o soldado que parecia tocado pelo que ouvira, se desesperou e socou de leve o ombro de Steve, um gesto tão inadequado para o momento que ela se socava mentalmente por tal escolha. Claro que um aperto de mão era distante demais, e um abraço ultrapassaria certos limites, mas definitivamente deveria ter algo melhor que um soquinho no ombro.
A sorte da mulher foi que, no instante seguinte, Rumlow convocou toda equipe para repassarem mais uma vez o plano antes de pousarem.

Capítulo 4 - Homecoming

não sabia dizer o motivo de estar tão nervosa, se estava sendo contagiada por Steve, ou se estava mesmo espelhando o estado do soldado, quase que em um apoio amigável. Era uma situação delicada, para dizer o mínimo, e, no momento que entrassem naquele quarto, não teria volta. Até agora, sequer ela parara para conversar com o homem como se devia, com a devida atenção que ele merecia. Eles trabalharam juntos, aprenderam algumas coisas um sobre o outro, além de terem criado um respeito mútuo e certa cumplicidade. Aquilo tudo era importante, nenhum dos dois podia negar, mas ainda faltava algo. Eles não eram colegas de trabalho, e, se fossem se considerar assim, ainda tinha algo de ordem maior que os conectava: eles eram avô e neta, e aquilo precisava ser levado em conta.
Incomodada demais com a própria hesitação, a mulher buscou algum apoio no soldado ao seu lado, quase revirando os olhos ao perceber como fora iludida. Steve estava uma pilha de nervos, as unhas fincadas no material da calça do uniforme emprestado, uma tentativa falha de aliviar a tensão, já que seu rosto continuava a transparecer toda a confusão que se passava em sua mente. O soldado sentia que podia vomitar a qualquer momento só de pensar em abrir a boca. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e ele não sabia como agir.
Fora difícil manter a compostura quando vira com Matthew nos braços, dizendo algumas palavras amigáveis para mantê-lo calmo, mesmo ele não estando consciente. Depois de anos vendo apenas seu melhor amigo como sua família, era difícil entender que aqueles dois que quase não passavam de estranhos também representavam isso. Sua mente se tornara um campo de batalha exatamente por Steve não saber lidar com aquela informação: eram dois completos desconhecidos para ele, e mesmo assim eles significavam demais. Como se agia diante disso?
– Está pronto? – perguntou de repente, só então o soldado percebendo que eles pararam em frente a uma porta. Ele agora não fazia ideia de qual era o número do quarto que eles receberam na recepção, mas não existia outro motivo para estarem ali.
– Fica feio para meu lado se eu disser que não? – Steve tentou brincar, o sorriso que arriscara mais aparecendo uma careta apreensiva. devolveu um sorriso encorajador.
– Eu também não estou – confessou ela, uma mão seguindo para a maçaneta enquanto a outra teve como destino o pulso do soldado, mantendo um aperto firme e ao mesmo tempo agradável para guiá-lo dali para frente.
Como era um pouco mais alto que a neta, Steve não teve dificuldade para avistar as duas pessoas que estavam no quarto mesmo com o mantendo mais afastado, entre entrar de vez ou continuar no corredor. Um homem que parecia estar em seus cinquenta anos era o que usava as vestes hospitalares, mesmo não sendo o único na maca. Seu cabelo de um tom escuro de castanho tinha alguns poucos fios prateados, as marcas ao redor dos olhos pequenos e azuis também denunciando sua idade. Ao seu lado, o envolvendo em um abraço lateral, estava a mulher que ele vira no dia anterior, a Conselheira Rogers. Sem suas roupas formais, ela parecia bem mais amigável. Sua expressão não era mais tensa como antes, já que seu marido e filha estavam finalmente em segurança, depois de tanto tempo. Ela ainda aparentava ser mais velha do que Matthew, mas agora Steve poderia chutar algo na casa dos sessenta.
O casal interrompeu a conversa que mantinha assim que notaram a porta ser aberta, ambos ignorando o visível desconforto da filha assim que a identificaram. Matthew ameaçou se levantar para correr até ela, mas apenas um sinal com a mão fez com que ele parasse, ciente de que estaria em sérios problemas com ambas as mulheres se ousasse desobedecer.
– Nós temos, hm... Não dá para chamar de companhia ou visita, mas é tipo isso...? – revirou os olhos ao não conseguir se expressar como desejava, todo o ensaio mental que fizera parecendo inútil. Com um puxão discreto, ela fez com que Steve terminasse de entrar no quarto, parecendo agora que talvez não tivesse sido descongelado de verdade, tanto pela dureza de seus movimentos como pela temperatura de sua pele que caíra drasticamente. Talvez o nervosismo dele realmente fosse contagiante, porque sentia que podia vomitar a qualquer momento – Steve, esses são Matthew e Amanda. Mãe, pai... Vocês conhecem o Steve.
– Definitivamente conheço – Amanda riu nervosa, sem saber se devia levantar para cumprimentá-lo ou não, sem saber o que aconteceria com seu marido caso se afastasse. E se ele desmaiasse e caísse da maca? Ela precisava estar preparada.
Matt, por sua vez, agradeceu pela mulher não ter se afastado e o apertado com mais empenho em seus braços. Amanda tinha feito um breve resumo – que ele sabia estar com mais lacunas do que notara – sobre o que acontecera nos últimos dias, assim como a descoberta da localização de seu pai depois de todos esses anos, que o gelo havia permitido que ele entrasse em um tipo de suspensão. Alguma parte sua mais infantil sequer questionara tal informação, depois de crescer esperando aquele momento. Outra se mantivera cética, mas os dados que seus olhos captavam eram difíceis de contradizer.
– A senhora correu de mim ontem – comentou Steve, lembrando dos comentários que fizera sobre se tratar de algo inédito. A Rogers mais nova riu agradecida por esse fato ter sido trazido à tona, se virando para a mãe com um sorriso muito mais relaxado, na medida do possível.
– P-por que você correu dele? – estranhou Matt, surpreso por ter achado sua voz com tanta facilidade – O que vocês não estão me contando?
– Não achei que seria certo falar com ele antes de você, só isso – explicou ela, uma mão afagando os cabelos do homem – Não sabia que tipo de reação você teria, quanto você iria querer se envolver. Fiquei com medo de ultrapassar algum limite. Ele é seu pai, não meu.
Matt assentiu, seu olhar incerto passeando rapidamente da mulher para Steve, que acompanhava seus movimentos com cuidado.
– Você já sabia que eu...? – Steve se direcionou para a Amanda, sem saber ao certo como perguntar aquilo.
– Eu monitoro as ações da S.H.I.E.L.D., querido. Eu sei sempre de muitas coisas – respondeu a mulher, um sorriso tão acolhedor no rosto que até vez o soldado se acalmar. Hm, não tinha adquirido aquela habilidade da mãe – Peço desculpas por não ter auxiliado na situação antes. Como disse, apenas julguei que seu primeiro contato deveria ser com e Matt, eu sou só sua nora.
– Eu compreendo. Foi até uma medida inteligente – ele se viu forçado a concordar. Uma estranha dizendo ser sua nora que seu filho e neta estavam desaparecidos há meses? Não dava para imaginar nenhum cenário que terminasse bem – Não sei o que teria feito se tivesse recebido as informações corretas.
– O que quer dizer por corretas? – Matt voltou a indagar, o semblante confuso nunca conseguindo deixar seu rosto. Bem, talvez aquilo fosse algo que ele devesse logo se acostumar, já que a situação não parecia que iria melhorar com o tempo.
– Eu sabia da existência de vocês, mas não como meus… – Steve travou ao pensar na palavra seguinte que a frase exigia, sem saber ao certo se seria certo pronunciá-la, logo mudando de ideia – Seus sobrenomes foram trocados nos arquivos que me deram.
– Matthew e Sousa – resumiu Amanda, com a dupla tendo reações bastantes distintas. Enquanto Matt apenas assentiu, mesmo não parecendo absorver a informação, fez uma careta desgostosa.
– Eca.
– America! – Matt não hesitou em ralhar com a filha, a reação da mais nova despertando o mesmo a mesma postura mais repreensiva tanto nele como em sua mulher – Mais respeito, por favor.
– Ah, fala sério! Não posso ter orgulho do meu nome? Vou ser repreendida por isso? – ela revirou, cruzando os braços em frente ao corpo e não suavizando a expressão por um segundo que fosse – Adorava o Vovô S, mas não peguei o nome dele por isso. Não mexe com meu Rogers.
Steve assistiu à cena sem saber como deveria reagir, mas não conseguia lutar contra o sorriso discreto que queria surgir em seus lábios. O orgulho da mulher era palpável em sua voz, e isso começava a fazer sua garganta querer fechar um pouco. Nos últimos dias, eles haviam convivido bastante – claro que a maior parte do tempo ele estavam ou planejando a ação, ou em combate de fato, mas não dava para ignorar o pouco que pudera conhecer da neta. Naquelas poucas horas, uma admiração pela mulher já havia sido criada, e seu empenho em proteger o nome que inicialmente era seu causava algo em seu peito que era difícil de explicar.
– Por que você não vai para a cafeteria com o Tony, ? – pediu Matt, ciente de que não resolveria muita coisa bater de frente com a filha, nem se tinha energias para isso no momento, assim como também não parecia ser um bom momento para tal. Havia um tempo mínimo de fingirem serem normais para não traumatizar novos membros da família, certo? Steve merecia uma colher de chá, e pelo jeito seria sua responsabilidade garantir isso.
– Stark está aqui? E por que você quer me tirar daqui? – emendou uma pergunta na outra, ofendida diante de tal ordem disfarçada de oferta – Eu faço parte dessa família, nem vem!
– Tony desceu para pegar café para mim, já deve estar voltando – contou a mãe – E deixa a garota. Ela não fez por mal. Ela está tão nervosa quanto você.
– Ela tem o péssimo hábito de verbalizar coisas que não deveriam ser verbalizadas – soprou para Steve, que riu de leve apenas por notar o desconforto na voz da neta – Você se acostuma com o tempo. Ou só aprende a deixar passar, já que ela é sua mãe e pode destruir sua carreira.
– Olha só que legal, minha própria filha me difamando para meu sogro!
– No momento que o Stark chegar aqui vai ser impossível ter uma conversa séria, se era isso que estava esperando – disse Matt para o soldado, que arriscou sorrir de lado. Suas primeiras impressões de Tony Stark não haviam sido as melhores, pouca coisa do homem que ele admirara durante a Segunda Guerra ele conseguia ver no filho, mas não podia julgá-lo por completo, seu coração era bom, até certo ponto. Porém, com certeza ele tornaria a cena ainda mais tensa assim que chegasse, então não tinha como discordar de Matt – Eu não faço ideia de como isso funciona, cara. Você é meu pai, é mais jovem do que eu. Não faço ideia do que aconteceu nas últimas semanas, e, o que quer que seja que me deram aqui quando eu cheguei, me deixou um pouco alto.
– Posso tomar também? – pediu , sendo ignorada para não levar outra bronca – Não aguento mais lidar com tudo sóbria.
– Eu não sei o que esperava, na verdade. Não tive muito tempo para pensar a respeito – confessou Steve, a troca de peso de uma perna para outra expressando fisicamente como ele não sabia como agir – Muita coisa aconteceu, e em um espaço de tempo curto demais.
– Onde você está ficando? – Matt franziu o cenho, outro questionamento lhe parecendo importante também – Para falar a verdade, onde estamos?
– Na capital, pai – a mais nova respondeu, medindo com cuidado o peso de suas palavras – NY está um pouco bagunçada demais.
– S.H.I.E.L.D. disponibilizou um apartamento para mim no Brooklin – respondeu Steve, assim como as duas mulheres, ignorando a pergunta de Matt sobre o que diabos acontecera em NY e o porquê de ninguém explicar isso direito – Mudou um bocado do que eu lembro.
– Aposto que sim – ele riu de leve, tentando dispensar a ajuda de suas duas mulheres quando tentou se sentar um pouco mais acima no colchão da maca. Claro que ele estava bastante debilitado pelo tempo em cativeiro, mas ele ainda podia se mexer sem quebrar – Bem, não acho que eu vá sair daqui tão cedo, mas você é mais do que bem-vindo em casa, não é muito longe daqui. Queria dizer que aproveitamos nossa aposentadoria, mas a verdade é que passamos a maior parte do tempo trabalhando em casa, é um saco.
– Você implorou para Nick te dar o que fazer, não minta para o seu pai.
– Nick pediu, é diferente.
– Se vocês vão brigar, eu vou descer para ficar com o Tony – interrompeu a discussão dos pais antes que aquilo tomasse proporções maiores, algo bastante recorrente, e que ela não se orgulhava de presenciar - Aposto que vocês assustaram o cara e ele fugiu do prédio.
– Ah querida, ligue para ele, por favor. Agora fiquei preocupada.
– Desculpe, tem algo que você queria perguntar... senhor? – perguntou Matt, enquanto sua filha ria ao fundo da preocupação real de sua esposa sobre o paradeiro do agregado da família.
– Me chame de Steve – pediu ele, sem pensar duas vezes, a correção lhe parecendo natural. Aquele homem tinha mais que o dobro de sua idade, aquele tratamento não parecia certo – Talvez em outro momento, agora apenas queria saber que você estava bem. Você precisa descansar. Você não parecia muito bem quand...
– Detalhes ainda confidenciais, Cap – logo parou de rir, sua expressão mais séria sendo o suficiente para que Steve se calasse. Nenhum dos dois sabia dizer quanto Matt se lembrava dos meses de cativeiro, mas não podiam de maneira alguma passar qualquer tipo de informação para Amanda. Havia um protocolo que fora inúmeras vezes quebrado durante todas as tentativas de resgate, e de alguma forma agora eles precisavam tentar amenizar os estragos. Família nunca devia ser envolvida naqueles casos, com o risco de não se tomar decisões objetivas e sem levar laços afetivos em consideração. Aquela missão fora liderada por pai e filha da pessoa a ser salva, não podia envolver a esposa também, mesmo nos detalhes pós-resgate.
America.
– Não me chamem assim – grunhiu ela – Assim que tivermos os relatórios prontos e respostas, falamos com vocês sobre tudo o que aconteceu. Até lá, ambos estão de folga e sem nenhum tipo de poder nessa instituição.
Amanda e Matt trocaram olhares rápidos, mas desistiram do assunto. Existia um motivo para o sigilo, e o cargo que tinha exigia que eles respeitassem o procedimento.
– Tem certeza que não quer perguntar algo, querido? – Amanda decidiu voltar a insistir, já que o tópico “o que diabos fizeram com o meu marido?” estava momentaneamente proibido – Mas também não precisa ver isso como um momento único, tipo “fale agora ou se cale para sempre”. Só não sabemos como agir mesmo, estamos nervosos.
– Eu só realmente não sei por onde começar, ou como. Me desculpem.
– Eu já perdi as lágrimas ou vocês me esperaram para começar? – brincou Tony assim que entrou no quarto, agradecendo a alma bondosa que deixara a porta aberta em seguida, já que não tinha mão para ajudar na tarefa – Seu café, Mandy.
– Ai meu Deus, Tony! – ofegou , assistindo o engenheiro ir até sua mãe entregar o copo de isopor, sem acreditar no que via. O braço esquerdo do homem estava imobilizado por uma tipoia, o mesmo braço que ela atingira no dia anterior – Isso foi eu?!
– Sim, você deslocou meu ombro. Muito obrigado, a propósito – resmungou ele, antes de se jogar na poltrona do acompanhante, ao lado oposto onde os Rogers recém-chegados estavam – Vou ter que ficar uma semana com esse troço, e não tenho nem noção do tanto de trabalho que tenho para fazer.
– Já pediu desculpas, America?
– Não me cham...! – estava pronta para ralhar com o pai novamente, mas uma aparição não planejada vez com que a discussão se esquecesse.
– Vocês realmente estão bem! – entrou um homem praticamente gritando no quarto, surpreendendo a todos. Ele aparentava ter a idade de Matt, a idade que seu filho não tinha de fato, e alguns traços também se assemelhavam, embora Steve não soubesse apenas com isso determinar o parentesco. Quando seu olhar caiu em Steve, ele apontou em sua direção, seu olhar confuso entregando que não o reconhecia – Você eu não conheço. Parece com aquele cara que se fantasiou de Capitão América em NY, não parece, gente?
– Tio Vic, esse… – começou , confirmando as suposições de Steve. Aquele devia ser irmão de Matt, então ele era...
– Mamãe e Leia falaram daquele cara o dia inteiro, imagina só como elas vão ficar vendo ele aqui! – ofegou o tal Vic, saindo do quarto tão rápido quanto chegara, deixando várias pessoas sem reação no quarto.
– Victor...! Ai meu Deus – Amanda tentou chamar o cunhado, mas ele já tinha corrido corredor a fora. Assim como o restante do grupo, ela também empalideceu – Eles trouxeram a Peggy?! Mais alguém sente o cheiro de desastre no ar?
– Pelo menos estamos em um hospital, não é? – Tony tentou aliviar os nervos de todos, mas no fundo até ele estava apreensivo, mesmo não se permitindo transparecer aquilo.
– Tony, corre.
– O quê? – devolveu ele, referente ao pedido de – Para quê? E por quê?
– Porque se entrarem com a vovó aqui sem avisar, a mulher vai enfartar! – explicou ela, em uma altura que fez com que uma enfermeira que passava no corredor pedisse por silêncio – A Tia Leia é cardíaca, Tony! As duas vão ter um troço!
– Vai você, então! Eu quero saber o que vai acontecer aqui.
– Alguém precisa controlar a situação aqui, e não vai ser você.
– Você não está controlando nem você, .
Anthony Edward!
– Tá bom! Credo – ofegou o homem, erguendo sua única mão livre em sinal de redenção enquanto caminhava para fora do quarto – Não estou vendo vantagens de ser considerado parte da família se sou dispensado nas partes boas. Precisamos rever esse contrato.
– Steve? – perguntou , se virando para ele e sequer se dando o trabalho de elaborar mais, ciente de que ele pegaria a dúvida no ar.
– Nem um pouco pronto – respondeu ele, mais sincero do que esperava soar. Suas mãos tremiam, sua testa parecia estar escorrendo suor frio, talvez ele desmaiasse em algum momento – Mas teria que acontecer em algum momento, certo?
– Eu vou vomitar.
– Senta, .
– Mandar Tony não foi uma boa ideia – comentou Matt, que quase se virava para deixar a maca, Amanda sendo a única coisa que ainda o mantinha no lugar – Consegue imaginar ele contando que Steve está vivo?
– Eu quando estou cansada nunca tomo decisões boas… – choramingou a mais nova, sem perceber que, enquanto cobria o rosto com as mãos em desespero, se adiantara para Steve, que não hesitou em erguer um braço para que ela se alinhasse contra ele, como se fosse algo completamente corriqueiro e natural.
– Santo Deus, é verdade.
Os quatro Rogers congelaram em seus lugares diante de uma voz tão familiar a todos, sem saber como as coisas caminhariam a partir de então. Steve sem dúvidas era o mais abalado com a nova aparição, antes mesmo de se desvencilhar de e seguir com seu olhar para a porta. A voz lhe era familiar, ainda tinha o timbre que tão bem conhecia, mas conseguia ouvir os tons do tempo em suas vibrações, e ele não sabia dizer como reagiria assim que a visse. Fotos lhe foram entregues, vídeos também, mas todos datavam muito próximos à Segunda Guerra, o poder do tempo ainda não tivera a chance de agir como tivera até então. Os setenta anos que Steve não sentiu passar enquanto estava congelado pareceu passar durante aqueles breves instantes em que seu olhar vacilara, parecendo querer postergar aquele momento, como se fosse possível um dia ele estar pronto para aquilo.
A primeira coisa que ele notou foi que Peggy não estava de pé: estava em uma cadeira de rodas. Havia alguém ao seu lado tentando mantê-la sentada, e Steve logo assumiu que se tratava da tia que tinha comentado com Tony, não por ter ouvido seu nome anteriormente, mas sim pela semelhança com a lembrança que tinha de Peggy. A mulher parecia ter a mesma idade do filho que entrara no quarto mais cedo e agora assistia a cena do lado de fora, mas seus cabelos eram bem mais escuros, com bem menos fios brancos que o irmão. Seus olhos, ainda mais que Vic, entregavam sua descendência.
– Stevie, é você.
Sua aparência podia ter mudado, mas Steve ainda via a mulher que um dia conhecera e ainda amava. Aquele tempo podia ter passado para ela, mas o soldado ainda estava preso naquele tempo. Mês passado eles apenas tentavam levar a vida da melhor forma que podiam, um sendo o pilar que mantinha o outro em pé enquanto o mundo ao redor desmoronava.
– Peggy – disse ele no mesmo tom, se agachando em frente a ela, suas mãos trêmulas buscando as gélidas da mulher. Ao sentir o toque quente e ainda conhecido depois de tanto tempo, Peggy apenas pode soltar uma risada que não sabia dizer ao certo o que devia expressar, apenas que um choro baixo e sentindo a acompanhava.
– Você está vivo…!
– Você também.
– Surpreso? – brincou a mulher, tentando sorrir travessa, completamente diferente de Steve, que apertou com mais empenho as mãos de Peggy nas suas.
– Contente – respondeu ele – Definitivamente contente.
Eles podiam seguir daquela forma por horas, semanas, mas alguém pigarreando no quarto foi o suficiente para quebrar o clima, a dupla logo localizando Victor ao lado de Amanda, escondendo o rosto no ombro da cunhada para disfarçar seu choro não tão silencioso. Basicamente todos estavam naquele estado – apenas Tony e estavam um pouco mais preparados para o momento –, e, mesmo não sendo capazes de deixar o ambiente e dar mais privacidade aos dois, ninguém realmente conseguia parar de assistir a cena, ou parar e sentir o peso que ela trazia.
– Me dê licença por um momento, querido – pediu Peggy depois de um tempo, passando os dedos fino pelo rosto para limpar as lágrimas. Com um simples aceno, Leia estava mais uma vez posta às costas da cadeira, virando o objeto para onde a mulher desejava – Preciso gritar com a minha neta.
– Só tem eu de neta aqui, o que eu posso ter feito enquanto estava em cativeiro? – disse rápido, recuando mais até a parte de trás de suas coxas esbarrarem com a maca do pai.
– Ter conseguido ficar em cativeiro?
– Eu não tenho permissão para discutir detalhes de missões com você – lembrou a mais nova, sua tentativa de se manter firme não sendo tão bem sucedida – O nome Carter não me assusta e você sabe.
– Prefere que eu grite com você apenas como avó?
– Se posso escolher, prefiro sem gritos – Peggy não aguentou e riu de leve, quase se divertindo com a neta gesticulando com exagero para quebrar sua seriedade. Enquanto falava, arriscou se aproximar da avó, agachando ao seu lado e lhe beijando o rosto – Talvez um abraço. Um “senti sua falta”, quem sabe… Faz uns seis meses que você não me vê! Eu mereço um pouco de amor, tá?
– Você definitivamente está bem – riu a mulher, apertando o braço da mais nova carinhosamente. então manteve os olhos fechados por um tempo consideravelmente maior ao piscar em seguida, seu pé chegando a escorregar e ela terminando com ambos joelhos no chão. Como Peggy logo mudou seu foco, ninguém chegou a notar o olhar da mais nova um tanto confuso – Tony? Os aliens tentaram arrancar seu braço?
– Aliens?!
– Presente da sua neta mais carinhosa – contou o engenheiro, depois de pedir para que Matt deixasse aquele assunto de lado. Havia muita coisa que a S.H.I.E.L.D. estava escondendo do coronel pelo seu tempo em cativeiro, e aquele detalhe dos últimos dias definitivamente deveria ser o menos importante para ele, mas era melhor segurar a informação por mais um tempo. Depois de meses em cativeiro, a pessoa meio que merece um tempo a mais para descobrir que haviam sofrido uma invasão alienígena.
– O que eu já disse sobre bater no Tony, America? – Peggy começou com um claro tom de bronca, a mulher já logo mostrando um de seus sorrisos mais inocentes.
– Apenas bata até deixar ele inconsciente?
– É muito amor para mim em um local só – resmungou Tony baixo, aumentando ainda mais os risos no quarto – Socorro.
– Como está, filho?
– Bem, na medida do possível – suspirou Matt, desistindo de tentar sorrir para a mãe, sabendo que não surtiria muito efeito em tranquilizá-la – Ainda vão me manter aqui por um tempo. Protocolo.
– Alguma informação sobre isso, ?
– É observação padrão – mentiu a mulher, sem pensar duas vezes – Nada demais.
– Por que você não está em observação?
– Fui encontrada antes, já passei por isso – Steve não sabia dizer como, mas tinha certeza que a história toda não tinha sido contada a Peggy, e que ela desconfiava daquilo. O “antes” de era muito relativo. Na realidade, se tratava de poucas horas antes de localizarem Matt. Um dia, no máximo. Algo dizia ao soldado que, se Peggy descobrisse naquele momento, quando tudo era recente demais, que saíra em missão sem preparo e sem permissão de fato de seus superiores, ele descobriria a potência de voz que a mulher ainda tinha.
– Tia Leia, senta aqui – Tony ofereceu seu lugar, sorrindo galanteador para a mulher quando ela agradeceu a gentileza. Steve foi o único a notar sua movimentação estranha, a forma tensa como seus músculos estavam contraídos e seu olhar um pouco mais firme em direção à mulher mais nova próxima a ele – , por que não senta um pouco também?
– Hm? – foi só então que Steve notou como os sintomas de nervosismo que notara em mais cedo ainda não tinham passado. Sua pele ainda seguia pálida demais, seus lábios começavam a sair de sem cor para um tom estranho de roxo, assim como o redor de seus olhos também pareciam mais escuros. Ela também parecia aérea demais, tendo dificuldades de focalizar Tony quando ele chamou sua atenção. Os fios de cabelo de sua testa também grudavam na pele, graças ao suor que seus poros emanavam que não parava por um segundo.
– Amanda, aperta o botão.
Amanda sequer pensou duas vezes, atentando a ordem de Tony enquanto Steve ia prestar socorro, hesitando quando ergueu uma mão, o dispensando antes que o soldado pudesse guiá-la para sentar em algum lugar do quarto. Ela se colocou de pé com bem menos velocidade do que de costume, quase tombando para trás, mas recuperando com agilidade seu equilíbrio.
– Gente, eu estou bem – garantiu ela, ciente de que todos a acompanhavam com o olhar enquanto ela rumava para a porta com o máximo de calma e delicadeza que conseguia no momento, sentindo que a menor movimentação a mais seria o suficiente para fazer com que ela vomitasse – Continuem conversando, só vou dar uma volta lá fora... Oi, doc!
O médico responsável corria para o quarto, e todos do lado de dentro conseguiam ouvir seus passos se aproximando. Ao avistar a mulher parada na porta, ele começou a desacelerar. Adam até chegou a olhá-la desconfiado.
, o que há de errado com seu pai?
– Não foi esse Rogers que te chamou, amor.
– O que você fez dessa vez? – perguntou ele, depois de praguejar baixo. Ele sinalizou para que voltasse para dentro do quarto, cumprimentando a todos rapidamente antes de voltar sua atenção para a mulher.
– Não consigo respirar – respondeu , ignorando todas as reações indignadas dos parentes no quarto e mantendo a calma em sua voz – Dor no abdômen. Muita dor.
– Tem uma cadeira de rodas ali no canto, alguém pega para mim – pediu Adam, vendo Steve prontamente indo buscar o objeto do outro lado do quarto – Com licença, Rogers.
Depois que assentiu, Adam desceu o zíper da parte superior do traje da mulher, revelando seu top esportivo e os ferimentos que ele próprio tratara quando ela fora resgatada. O hematoma no fim das costelas estava muito mais escuro e bastante inchado, mas o que mais preocupou o médico foram os pontos exteriores no abdômen da mulher, alguns estourados, uma quantidade de sangue considerável passando pelo corte recente.
– O que você fez, Rogers? – resmungou Adam, puxando seu zíper do cinto da calça e chamando apoio.
– Eu tive um encontro ontem à noite, não ocorreu como eu previa – brincou ela, ganhando com facilidade o olhar cínico do médico – Ele não me tratou bem. Você me tratava bem melhor.
– Talvez você não devesse ter terminado comigo.
– Bem, você me conhecia bem por dentro.
– Essa foi pobre, America.
– Cala a boca, essa foi maravilhosa.
– Consegue respirar fundo? – Adam interrompeu a pseudodiscussão de e Tony, querendo melhorar um pouco mais seu diagnóstico antes que os enfermeiros chegassem – Você deve ter estourado pontos interno também, praticamente um recorde pessoal. Parabéns.
– Já disse que não fiz nada! – insistiu ela.
– Mesmo? – Adam decidiu entrar no jogo, ajeitando o traje da mulher mesmo sem subir o zíper e depois cruzando os braços – Então por que está de uniforme, Comandante?
– Porque ele faz minha bunda ficar incrível? Você sabe.
– Veja qual sala de cirurgia está vaga. É emergencial – ordenou Adam para os dois enfermeiros que apareceram na porta, um tanto ofegantes pela corrida que fizeram ao notar que o chamado vinha logo daquele quarto – Dê entrada da paciente Rogers, America.
– Essa entrada foi dada meia hora atrás – comentou um deles, causando estranhamento em quase todos.
– Ah é, fui eu – explicou Tony, se sentando na beirada da maca de Matt – Fury pediu para ficar de olho, quis ficar um passo à frente.
– Você deu minha entrada no hospital? Você? – verbalizou a dúvida de todos, ficando ainda mais incrédula quando o engenheiro assentiu – Tony, quando é meu aniversário?
O homem ficou quieto por alguns instantes.
– Esse ano?
– Boa tentativa.
– Ok, J.A.R.V.I.S. passou os dados, mas eu que pedi, então...
Adam pediu que os enfermeiros preparassem a paciente, deixando assim o resto daquela conversa para mais tarde. Adam explicou brevemente o quadro de para a família, sem dificuldades notando o momento que percebeu que falara demais, que a maior parte deles não estava ciente de que a mulher estivera envolvida em mais de um combate nas últimas horas, e que talvez fosse levar alguma advertência mais leve por aquilo. Com um Rogers ele sabia lidar, mas com a trupe toda era outra história, não podia exigir tanto assim dele.
– Eu vou checar a idiota, sobrevivem alguns minutos sem mim? – anunciou Tony, depois de um longo período de todos em silêncio após a partida de Adam, sem saberem como reagir a mais um deles tendo que ser internado – Vovô Rogers, sem entregar nenhuma informação confidencial, por favor. Fury me deixou encarregado de vigiar vocês dois, tente facilitar para o meu lado.
– Desde quando você trabalha para a S.H.I.E.L.D.? – estranhou Victor, antes que Tony também deixasse o quarto.
– Obrigado por me fazer lembrar que nem estou recebendo para isso.
– O que vocês não estão me contando? – a pergunta foi simples, mas havia um tom de exigência na voz de Peggy que fez Steve hesitar.
– Duvido que Steve saiba, Peggy – Amanda saiu em sua defesa, sabendo que a mulher seguiria para a fonte mais fácil e menos preparada – Estamos todos no escuro dessa vez. Sem exceção.

–--


Era uma sensação estranha, mas não demorou muito para que Steve se sentisse um pouco intruso na reunião no quarto, pedindo licença e dizendo que iria pegar um pouco de café. As visitas eram para Matt, ele que precisava de atenção e carinho, e sua presença ali fazia com que ele sentisse que estava atrapalhando o momento do filho, por isso Steve resolveu ficar na sala de espera, a postos para qualquer notícia que poderia ter de .
Por mais de três horas ele fora o único visitante ali, até alguém parar ao seu lado.
– Posso sentar com você? – perguntou Amanda, sorrindo agradecida quando Steve sinalizou para que ela se sentasse ao seu lado.
– Como Matt está?
– Deram alguma coisa para ele dormir um pouco – contou ela, respirando fundo antes de continuar – Considerando o ramo da família, ele costuma ficar um pouco mais apreensivo do que esperado quando precisa entrar em cirurgia. E essa ainda é a primeira vez que ela passa por isso por ter que ter resgatado ele.
– Não deve estar sendo fácil para você também.
– Nem vou tentar te convencer do contrário – ela riu, mesmo sem humor – Sei que nada de ruim vai acontecer com eles agora, mas… Não dá para controlar muito bem o emocional nesses momentos, sabe?
– Sim, eu sei – concordou o soldado, mordendo rapidamente os lábios, soando amargurado – Infelizmente, eu sei muito bem.
– Eu sinto muito por tudo que você passou, por tudo que perdeu… – Amanda quase colocou a mão sobre a coxa do sogro, mas voltou atrás. Era difícil consolar alguém que na prática ela mal conhecia – Realmente espero que se sinta bem com a gente por perto. Deu para notar como você já ficou bem próximo da .
– A garota gritou comigo, já me deu umas três advertências, e ainda fez questão de deixar claro que hierarquicamente eu tenho que responder a ela, não o contrário – ele listou o primeiro contato sem terceiros dos dois, sem conseguir não sorrir – Como não se deixar conquistar por isso?
– Os Carters são bem assim, mas acho que você já conhece.
– Esses eu não conheço. E não me importo de conhecer – Steve corrigiu rápido – Na verdade, estou na esperança de conhecer. Eu não sei ser pai de alguém, muito menos avô, mas…
– Você sempre será bem-vindo, só precisa ser o Steve.
O soldado sentiu seus olhos arderem então. Haviam sido dias difíceis, o choque de toda uma nova realidade sendo complicado demais para conviver. Aquela sensação boa no peito era algo que ele não sentia há muito tempo, algo que por um longo período se resumira a Bucky, depois a ele e Peggy, e que agora poderia significar tantas pessoas que ele não vira crescer, mas pareciam mais do que dispostas a acolhê-lo.
– Significa muito para mim.
Amanda então colocou a mão sobre o joelho do soldado, bem mais confiante do que antes. Steve hesitou por um instante, mas cobriu a mão da mulher com a sua.
– Srª. Rogers? Capitão? – Adam chamou a atenção dos dois, depois de pigarrear para avisar sua presença – America já está no quarto. Ela vai ficar inconsciente por mais um tempo, mas o Stark está lá com ela.
Ambos agradeceram e assistiram o médico sumir pelos corredores, se mantendo em silêncio por um tempo enquanto respiravam mais aliviados.
– Queria ir checar? – Steve foi o primeiro a se pronunciar, quase rindo quando de imediato a mulher assentiu com vontade.
– Hábitos de mãe. Eu preciso ver para acreditar.
Para a surpresa de ambos, Tony parecia tão apagado quanto a própria , adormecido em uma posição estranha onde parte de seu corpo estava na poltrona e outra apoiada na cama. Pelo ângulo que estavam, não tinha como ter muita certeza, mas parecia que Tony tinha os dedos entrelaçados com os de , assim como descansava sua cabeça sobre uma de suas coxas.
– Eles são bastante próximos – comentou Steve, assistindo a cena com um sorriso discreto assim como Amanda.
– Eles cresceram juntos, sempre se entenderam, na maior parte do tempo – lembrou a mulher – Não sei como Fury conseguiu controlar o garoto para ele não ir sozinho atrás dela, isso se ele não foi escondido.
– Seguir ordens não é muito o estilo dele, certo?
Horas depois de Steve e Amanda terem deixado o quarto que começou a despertar. O peso em sua perna e mão não lhe sendo de total algo desconhecido, o nome passeando por seus lábios antes mesmo de conseguir abrir os olhos devidamente.
– Tony...?
– Sim, amor? – respondeu o engenheiro de prontidão, voltando a se sentar devidamente enquanto a mulher se acostumava com a iluminação do quarto para focalizar melhor seu rosto. Fazia pouco tempo que a mulher saíra da cirurgia, mas Tony já conseguia notar seu aspecto mais saudável
– Me perdoa pelo braço? Sei que me exaltei. Eu não... Não foi legal acordar e saber que você quase morreu, de novo – disse ela em um sussurro, não estranhando quando ele desviou o rosto – Meu coração não precisa de bateria, Tony. Precisa começar a pegar leve comigo.
– A tipoia era mais para fazer charme do que tudo, estou legal. Vê? Quase novo – quando Tony se virou para a mulher de novo, tinha um ar mais brincalhão ao seu redor, até chegando a movimentar mais do que devia o braço esquerdo para comprovar que estava dizendo a verdade – Mas, se vamos ser honestos, nem com bateria facilita meu lado, sabia? Não encontrar você e Matt sumir também não foi nada interessante. Não é legal estar desse lado da situação. Realmente vou começar a maneirar.
– Agradeço – ela devolveu no mesmo tom brincalhão, conseguindo um sorriso mais contente do homem.
– Volte a dormir, você precisa descansar.
– Deita aqui comigo.
Tony sequer pensou duas vezes antes de atender o pedido, se livrando de seus sapatos e se ajeitando junto com ela, deitando mais acima na maca para que pudesse deitar parcialmente sobre ele.
...?
– Hm?
– Desculpa por não ter conseguido te trazer para casa mais cedo – não passara de um sussurro, mas fora alto o suficiente para sentir o peso daquelas palavras, como aquela suposta falha atormentava os pensamentos de Tony. Ela, que teoricamente era preparada para cenários como aquele, lidara da pior maneira possível quando a situação foi inversa, não gostava nem de imaginar como tinha sido os últimos meses para o homem.
– Sabe que não precisa pedir desculpas por isso – lembrou a mulher, se virando com o mínimo de movimento possível para fitar o engenheiro – Não teve nada a ver com você.
– Do mesmo jeito.
– Eu estou de volta, é o que importa.
– Vou melhorar em te manter segura, pode ter certeza.
até abriu a boca para insistir na mesma tecla, mas sabia que não teria sucesso, pelo menos não hoje. Tony ainda estava no modo “auto culpa”, e ela sequer tinha energia para lutar contra aquilo no momento.
– Vou pedir para o Fury me deixar com Os Vingadores, aí você pode ficar de olho em mim.
– Não sei se é uma boa ideia… – retrucou Tony, um tanto pensativo – Você é barulhenta demais e nunca me deixa trabalhar.
– Você precisa começar a me amar um pouco menos, Stark… – brincou a mulher, rindo um pouco mais quando sentiu os lábios do engenheiro em sua testa.
– Impossível, Rogers.

Capítulo 5 - Responsabilidades

OUTUBRO DE 1982
Maria não gostava muito de ter que acompanhar o marido durante seus compromissos, mas sabia que não tinha muitas escolhas, por isso sempre ia. A dinâmica das coisas não mudou muito depois do nascimento de Tony, embora tenha tornado as coisas no mínimo interessantes. Quando bebê, era apenas conseguir controlar seu choro, o que não era tão difícil. Só que o desafio atingiu um outro nível quando ele aprendera a andar. Falar então... O fato era que a mulher não tinha muitas opções. Não gostava de deixar o filho sozinho com babás por tanto tempo, quando se tratava de viagens muito longas, por isso acabava levando o menino consigo. Em alguns raros momentos como aquele em questão, um dos Rogers estava com a agenda mais livre e podia vigiar a criança, que reclamava bem menos já que pelo menos teria uma companhia da sua idade por algumas horas do dia.
Tony continuou emburrado na hora de se despedir da mãe, que pediu desculpas mais uma vez antes de partir. Amanda tentou animar o garoto de diversas formas pelas horas seguintes, quase dando o braço a torcer e tentando contatar Matt para descobrir como distrair o menino já que o homem tinha muito mais experiência com Starks do que ela, mas suspeitava que estaria recorrendo à Rogers errada para o caso, e só sairia da escola no meio da tarde.
Pelo menos era isso que ela esperava.
Uma ligação um pouco depois da hora do almoço pegou a mulher despreparada, a convocação para que aparecesse na escola para conversar sobre o comportamento de sua filha diante dos colegas mudando completamente seus planos para o resto do dia. Tony percebeu que a amiga estava encrencada pela forma assustadora que a expressão da mulher mudou, sequer ousando discordar quando ela pediu que ele terminasse de comer logo porque precisavam sair o mais rápido possível, e ele não estava afim de dividir a bronca com .
Havia uma criança com o nariz quebrado na escola, e, aparentemente, tinha sido a agressora.
Amanda já imaginava que não seria uma conversa nada agradável no escritório da diretora da instituição, por isso pediu que Tony ficasse sentado em um dos bancos do corredor, longe o suficiente para não ouvir a possível discussão e perto o bastante para caso se metesse em algum problema.
Ela tinha que ser realista, afinal de contas. Tony não era a criança mais sociável do mundo e as crianças naquela idade adoravam se meter em problemas.
- Ela é uma criança violenta! – a mãe da criança agredida gritava a cada dois segundos, e Amanda tinha que se controlar para não usar qualquer artefato da S.H.I.E.L.D. que a fizesse finalmente calar a boca. Ela conhecia muito bem sua filha, e ela podia afirmar que a última coisa que era, era violenta.
- Ela está aprendendo a medir a força dela, assim como qualquer outra criança.
- Então que ela não faça isso com os filhos dos outros – a mulher continuava a berrar aos quatro ventos, como se suas interlocutoras estivessem a quilômetros de distância, não a poucos centímetros – Ela deveria estar sendo educada em casa, se não sabe viver em sociedade.
ouvia tudo de cabeça baixa, o cabelo escuro e volumoso organizado em um penteado alto deixando parte de seu rosto exposto, onde todas as adultas podiam ver sua falta de expressão. Desde o incidente ela permanecera daquela forma, e a diretora estava preocupada com aquilo. Não importava o histórico da criança, nenhuma se mantinha inexpressiva daquela forma quando era comunicada da convocação dos pais, na maior parte das vezes envolvia algum choro – fosse real ou forçado – para amolecer o coração da autoridade em questão, mas não . Seu semblante seguia inalterável desde o momento que notara que quebrara o nariz de um colega.
- , conta o que aconteceu – pediu Amanda, depois de um bom tempo ignorando a outra mãe raivosa e assistindo com cuidado o silêncio da filha.
- Danny disse coisas ruins – contou a criança, sem erguer a cabeça. Sua figura parecia ainda menor na cadeira de adulto, suas pernas finas balançando lentamente sem conseguir tocar o chão – Sobre mim e meu avô.
- Por isso você bateu nele? – questionou a diretora, surpresa quando a criança negou com um aceno de cabeça.
- Porque eu fiquei brava por ele estar falando a verdade. Qualquer que seja minha punição, sei que mereço – explicou ela, erguendo o olhar para alguém pela primeira vez em horas, passando da diretora abismada para a mãe furiosa que agora só parecia confusa – Me desculpe por machucar seu filho, não foi com ele que fiquei chateada, mas foi nele que descontei. Foi errado.
Amanda naquele momento desejou que não fosse sua filha ali, porque não fazia ideia de como lidar com a situação agora. Nem com Matt, mesmo depois de anos de casados, ela sabia como lidar quando questionamentos em relação a sua linhagem lhe atingiam, e ela definitivamente não sabia o que fazer quando uma criança que na maior parte do tempo era tão calma dizia algo daquele peso. Quão errado seria deixar Peggy lidar com aquilo?
imaginava que as mulheres estavam em silêncio planejando seu castigo, e esperou pacientemente por ele. Na sua cabeça, ele apenas não chegou logo porque uma confusão passou a ser ouvida em um dos corredores próximos ao escritório, gritos infantis de “briga” fazendo com que as três mulheres imediatamente corressem para fora do cômodo e fossem apartar qualquer confronto que estivesse acontecendo.
Para a surpresa de todos, era uma criança não matriculada na escola que estava causando tudo.
- Tony! – esbravejou Amanda, não sendo tão rápida com a filha, que se locomovera com facilidade entre o mar de crianças, afastara com um único movimento o garoto com quem Tony brigada, e em seguida imobilizou o amigo, ambos os braços passando por debaixo dos seus e travando as mãos em sua nuca.
- Ninguém faz mal contra a , entendeu? – o garoto continuava a gritar, assim como a se debater para escapar da chave de braço da amiga – Ninguém!
- Eu quero os pais dessa criança aqui! Que comportamento absurdo! – a mãe, agora mais furiosa ainda, gritava ao fundo – Quem é responsável por ele?
- Eu sou. É meu afilhado. Ele não estuda aqui...– assim como Amanda esperava, aquilo foi o suficiente para que a tal mãe iniciasse mais uma vez seu discurso de “como era uma péssima influência e não deveria ser mantida perto dos outros”. Ela, por sua vez, apenas ajudou a filha acalmar o garoto, seu tom claro de bronca quando se direcionou a ele, com uma mão em seu ombro – Anthony.
- Não vou pedir desculpas! – foi a primeira coisa que ele disse, seus ânimos voltando a se agitar quando percebeu os planos da madrinha. Ela não podia estar falando sério! – Ele estava falando coisas ruins sobre a !
- Anthony Stark, peça desculpas agora.
- Desculpas – disse o garoto depois de respirar fundo, sem um pingo de sinceridade em sua voz.
Mesmo tendo sido um pedido sem boa vontade alguma, foi o suficiente para que a situação caminhasse para um desfecho: sendo obrigada a manter as duas crianças agora em seu campo de visão, todos foram levados para o escritório da diretora, assim como a criança que tivera envolvida nas duas agressões – Danny agora tinha um lábio rachado além do nariz quebrado – e outros que se envolveram na última confusão. Assim foi quase mais uma hora até tudo fosse resolvido – estava suspensa pelo resto da semana –, e Amanda pode retornar para o carro com as duas crianças de expressões fechadas. Bem, sua filha estava de cara fechada, Tony estava mesmo era emburrado.
- Ambos estão de castigo – anunciou ela, depois de conferir se ambos estavam com os cintos de segurança travados – Pelo resto da semana.
- Vai contar para meus pais?
- Não – ela respondeu no mesmo tom mal-humorado de Tony, apenas para fazê-lo revirar os olhos – Você querer defender a foi legal, a agressão que não foi interessante. Howard não vai entender isso e pesar demais no castigo. Preciso dizer que não estou te incentivando? eu até entendo, mas você?
- Eu só fiquei bravo, desculpe – suspirou o garoto, e Amanda chegou a sorrir satisfeita. Dessa vez não fora um pedido de desculpas forçado, inclusive duvidava que Tony fosse conseguir ser mais honesto que aquilo. Eles podiam brigar vez ou outra, mas era claro o instinto de proteção que tinham um pelo outro, e não tinha como a mulher não se orgulhar daquilo.
- ? Precisamos conversar sobre que o garoto te disse? – ela mudou rapidamente seu foco para a filha que fitava a movimentação do lado de fora do carro, sem dar sinais de que pretendia encarar a mãe – Você é especial. Não é pelo soro que faz parte de você, ou por quem foram seus avós, seus pais... Não tem nada a ver com isso, entendeu? Se alguém alguma vez nessa vida tentar te diminuir por qualquer uma dessas coisas, eu vou ficar muito decepcionada se você não socar a pessoa.
Aquilo pegou desprevenida, ela virando a cabeça rápido antes mesmo de entender o que pretendia dizer, completamente abismada pelo que ouvira.
- Mas mã...!
- Eu disse exatamente o que eu disse – Amanda a cortou com firmeza, o que apenas deixou ambas crianças mais confusas. Vez ou outra ela usava o retrovisor para checar os dois, e quase ria ao notar um buscando explicações no outro – Se você conseguir ter a maturidade de simplesmente dar as costas e ser melhor que a pessoa, ótimo para mim também. Caso contrário, um nariz quebrado também resolve. Você já viu hoje, tem várias pessoas aqui que sabem como você é especial e estão dispostas a te proteger, mas você tem que entender esse valor e saber respeitar isso. Se você acha que a luta não vale a pena, não quero ver você desperdiçando energia. Caso contrário, quero você lutando com tudo que tem. Entendeu?
voltou a olhar para Tony, na esperança que o amigo tivesse entendido melhor o que acabara de acontecer, apenas para descobrir que ele seguia tão confuso quanto ela. Até aquele dia, nunca ouvira nenhum de seus pais dizer algo como aquilo. Era sempre o velho e cansativo discurso de como ela precisava ter um melhor tato com sua força superior à de uma criança comum da sua idade, toda a baboseira de respeito pelos outros e tudo mais. Mas aquilo?
- America , você me entendeu?
- Sim, mãe.
Mas ela não tinha entendido, pelo menos não naquele dia.

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JUNHO DE 2012
Fury queria dizer que as coisas estavam mais calmas agora, semanas depois de uma invasão alienígena malsucedida. Tudo que ele queria era poder voltar a se preocupar com agências inimigas tramando contra a S.H.I.E.L.D., com crises e guerras que precisavam de sua interferência, mas não. Ele tinha que estar ali, na antiga Torre Stark, lidando mais uma vez com os Vingadores.
NY ainda estava lidando com todo o processo de recuperação da cidade, e o próprio prédio onde eles estavam ainda tinha algumas áreas interditadas por motivos de reformas, mas nada que atrapalhasse aquela transição que Fury já sabia que só lhe traria dores de cabeça. Tony Stark como consultor em momentos específicos já não lhe parecia uma boa ideia, mas aceitar uma parceria com as Indústrias Stark, permitir que os Vingadores tivessem certa autonomia de ação, e deixar parte da equipe da S.H.I.E.L.D., era quase um pedido por escrito para colar uma bomba relógio na testa. Era sentar e esperar pela explosão mais cedo ou mais tarde.
Mas até que as coisas estavam caminhando bem, por hora.
Durante as intermináveis reuniões que precisava ter com a equipe, todos se comportavam extremamente bem. Quer dizer, Romanoff e Barton nunca sonhariam em dar problema, já estavam mais do que acostumados com os protocolos da agência, Capt. Rogers tinha seus momentos de questionamentos, mas nunca levara nada muito além disso, e Banner era sempre a calma em pessoa, mesmo quando estava nervoso ou não concordava com algo. Sua surpresa mesmo era Stark prestando atenção em tudo o que dizia, fazendo até anotações com o auxílio de J.A.R.V.I.S. e comentários pontuais e condizentes sempre que julgava necessário.
Bem, isso nos outros dias. Hoje Tony estava mais do que disperso.
A cada cinco segundos, o engenheiro tirava a tela de seu celular, apenas para virá-la novamente contra o tampo de vidro da mesa, mas não antes de revirar os olhos e bufar de leve. Aquela rotina se tornava ainda mais frequente com o passar do tempo, a impaciência de Tony aumentando gradualmente com qualquer que fosse a origem da notificação. No fundo, o Diretor até que estava satisfeito com o empenho de Tony em pelo menos fingir prestar atenção nas informações que recebia, já que, se fosse algo sério, acreditava que ele não hesitaria em interromper a reunião.
Sendo bastante sincero, Fury estava surpreso por ele não ter interrompido a reunião por um motivo qualquer.
- Me perdoem pela intromissão – pediu J.A.R.V.I.S., um pouco depois que o diretor desistira de tentar descobrir o que, ou quem, tanto atormentava Tony – Mas, Sr. Stark, essa é a terceira ligação perdida seguida da Srta. Rogers. Creio que seja aconselhável retornar a chamada.
Tony dessa vez não poupou esforços para não bufar alto.
- Estou ocupado, falo com ela mais tarde.
- Por que não está atendendo as ligações dela? – estranhou Steve, agora inquieto. Normalmente ele fica um tanto sem jeito quando a neta era mencionada na sua presença, mas daquela vez ele ficou genuinamente preocupado. não parecia ser o tipo de pessoa que ligava tantas vezes para alguém caso não fosse nada – Pode ser importante. Ela pode estar precisando de algo.
- Ela só está tentando me irritar, deve estar entediada – continuou Tony, sem se deixar abalar – Ela já me mandou umas mil mensagens repetidas, e nós temos coisas importantes para resolver aqui. Então, por favor...?
- J.A.R.V.I.S., você pode contatar a Comandante Rogers, por favor? – pediu Fury, tendo que ignorar o tom quase ofendido do engenheiro questionando seus atos, algo que não foi muito difícil quando o informou que o celular da mulher se encontrava fora de área. Perfeito. Ele nunca terminava com uma dor de cabeça quando não tinha a localização da Rogers, nunca passara por isso antes – Hill, o rastreador.
- Desativado – anunciou a agente depois de checar o status – E faz alguns dias, pelo visto.
- Como ninguém percebeu isso até agora? “Quero os passos dela monitorados” tem outro significado agora?
- Se ela está fazendo isso pra me fazer sentir culpado... – resmungou Tony, buscando seu celular jogado na mesa e relendo agora com atenção as inúmeras mensagens que recebera. Não tinha nada importante ali, completa perda de tempo – J., eu bloqueei o cartão dela esse mês e isso é algum tipo de vingança?
- Por que você bloquearia o cartão dela? - estranhou Clint.
- Como que você bloquearia o cartão dela? – Natasha melhorou a pergunta – Você comprou o banco que ela usa ou algo assim?
- Ela tem um cartão da Stark. Eu nunca lembro de comprar presentes de aniversário, aí já deixo o cartão com ela. Às vezes bloqueio só para ver ela reclamar.
- Senhor, a Srtª. Rogers acabou de entrar no prédio.
- Tá vendo? E vocês quase me fizeram ficar preocupado...
- Acredito que ela esteja com altos níveis de embriaguez, senhor.
- De volta para o preocupado – ofegou o engenheiro, se colocando de pé em um pulo.
- Ela está... bêbada? – Steve repetiu a informação, mais tentando absorvê-la do que de fato questionando o aviso de J.A.R.V.I.S. – Ela consegue ficar bêbada?
- Ser só 1/4 super soldado tem suas vantagens, Capitão – brincou Tony, encostando a cadeira que usava contra a mesa e buscando seu celular sobre o tampo, devolvendo o aparelho ao bolso – Vocês vão ter que continuar sem mim. é um perigo alterada e não quero minha Torre destruída tão cedo de novo.
O grupo seguiu Tony para o andar da academia sem pensar duas vezes, mais preocupados do que curiosos, mesmo que não fossem admitir. Como lembrado mais cedo, não podia ser considerada uma super soldado completa, mas a pequena porcentagem em seu sangue já era o suficiente para fazer algum estrago mesmo com ela sóbria, fora de si era perigoso até de se pensar. Experimentos com bebidas eram os únicos que permitia de bom grado e sem ficar chateada pela oferta, e Tony sabia melhor do que ninguém os tipos de resultados possíveis da combinação álcool e ¼ super soldado.
- ! – ofegou Clint, um dos últimos a sair do elevador, de repente tendo que controlar sua vontade de rir, embora sua voz apenas expressasse espanto – O que é isso?!
A mulher tinha ambas as mãos apoiadas no assento de uma cadeira que sabe-se lá de onde ela tinha tirado, sustentando todo o peso de seu corpo. Devido ao vestido que parecia ser colado demais para aquela atividade, o material havia sido erguido até a cintura, permitindo assim que suas pernas tivessem mais liberdade, além de dar ao grupo uma visão privilegiada de suas coxas bem definidas. Aquela pose nada mais era que um handstand um pouco mais artístico, as pernas de não alinhadas com o resto do corpo, mas sim curvadas sobre ele, com as pontas dos pés segurando um arco e uma flecha.
- Não me julgue, isso é mais difícil do que parece – resmungou ela baixo, nem ousando tentar olhar para o grupo para não quebrar sua concentração e perder o equilíbrio que estava tão difícil de manter. Quando ela disparou e errou o alvo mais uma vez, ela emendou – Duvido que você consegue fazer isso, Gavião.
- Me dá o arco e eu te mostro como se faz.
soltou a arma a sua frente, voltando suas pernas para trás para ficar em pé, seu equilíbrio vacilando e fazendo com que ela caísse de costas no chão. Steve até chegara a se adiantar para socorrê-la, mas a mulher emendou uma cambalhota para trás, para bem próxima do que parecia ser uma garrafa de bebida escura pela metade, de onde ela não hesitou em beber uns bons goles.
- America, onde você estava? – questionou Tony, ainda no mesmo lugar, apenas cruzando os braços para parecer mais sério.
- Festa da Andy – respondeu ela depois de respirar fundo e tomar mais um gole – Levemente surpresa por você não ter ido.
- Estou trabalhando. E você está me atrapalhando.
- Foi mal, Tio Howard. Vou lembrar de ficar longe do laboratório da próxima vez.
acompanhou quase que com um sorriso satisfeito as alterações nos traços do homem. Baixo, muito baixo. Havia uma lista bastante restrita de coisas que poderiam tirar Tony do sério, e as vezes ele próprio se esquecia que a militar praticamente escrevera todas.
Era exatamente por isso que ele apenas gostava da bêbada quando ele também estava embriagado.
- Vem – sinalizou ele, depois de muita meditação. E ponderar se valia a pena começar uma briga com a mulher quando todos os Vingadores estavam presentes, avô incluso – Vamos descer para te dar um banho gelado ou terminar de te dar um porre.
- Eu posso opinar? A segunda opção me parece bem mais legal – brincou ela, tentando se colocar de pé apenas para um pé ceder e escorregar pelo chão liso, a mão com que segurava a garrafa indo inconscientemente para o chão em busca de apoio. Enquanto todos ofegavam preocupados, logo ergueu a mão para longe dos cacos, sua pele apenas encharcada pelo líquido – Droga, isso tinha sido um presente.
Tony não deu mais possibilidade para que a mulher fizesse mais alguma gracinha, travando com precisão a mão debaixo de seu braço, a erguendo em um movimento ágil e a jogando sob seus ombros. De todos os presentes, ofegando surpresa foi a reação que o engenheiro mais prestou atenção.
- Uau, você andou malhando? – perguntou ela, a admiração tão clara em sua voz que Tony não conseguiu conter um sorriso divertido em um primeiro momento – Da última vez que tentou me carregar assim, você quebrou em três segundos.
- Agradecido por ter notado – grunhiu ele, ajeitando melhor para que ela não caísse e já rumando para a saída. Ela podia não estar apresentando resistência no momento, mas era fácil demais ela virar o jogo, por isso precisava agir rápido – Vocês voltem para a reunião. Já estou acostumado a ficar de babá dela.
- Mentiraaaa – não bastava praticamente ter gritado em seu ouvido, ela ainda fez questão de sustentar a última sílaba o máximo que sua excelente capacidade pulmonar permitia – Normalmente ficamos os dois acabados, nem vem.
- Deus me ajude.

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Tony Stark era muitas coisas, mas não se considerava um homem que perdia com facilidade a paciência.
Tirá-lo do sério não era exatamente uma tarefa muito difícil, claro, mas exigia certo esforço conseguir com que ele revidasse. Apenas em situações extremas ele se via obrigado a tomar controle da situação, ser aquele que comandava a retaliação. O engraçado era que raramente não estava envolvida quando isso acontecia.
Dessa vez não era diferente.
- ...! – suspirou Tony, mordendo os lábios no final para se controlar e não gritar de uma vez com a mulher que praticamente grudara as mãos na porcaria da parede e não saia de jeito nenhum – Só entra no chuveiro, amor.
- Entra comigo.
- Eu preciso trabalhar – ele tentou devolver no mesmo tom manhoso, mas tudo que conseguiu foi soar impaciente.
- Você parece cansado demais para trabalhar... – insistiu a mulher, suas mãos finalmente soltando a parede e indo parar nos ombros de Tony, que quase sorriu vitorioso, passando a discretamente direcionar a mulher para a área do chuveiro. Suas mãos na cintura da mulher garantiam que ela ficava próxima o tempo todo, apenas ousando sair dali quando estava perto o suficiente para alcançar o registro, mas ainda sim sem movimentos bruscos. podia ser pior que um gato com medo de água nesses momentos – Bebe alguma coisa comigo...
- Se você tomar um banho primeiro – ofereceu ele, os dedos hesitantes sobre o metal brilhoso que controlava apenas a água fria. Seu lado mais inocente esperava que fosse concordar com sua proposta, e assim ele poderia sair dali com a consciência limpa, além do mais importante: suas roupas secas. Naquela distância, ele seria atingido mesmo se corresse o máximo que suas pernas permitiam.
- Está tentando me enrolar, Sr. Stark? – não era idiota, e Tony sabia o quanto ela precisaria beber para ter sua inteligência diminuída, por isso ele tinha completa ciência de que ela sabia muito bem o que ele planejava. Tudo aquilo não passava de uma simples brincadeira: as mãos que sem pudor nenhum escorregavam se seus ombros para o meio de suas costas, seu corpo se pressionando mais contra o dele enquanto ela ficava na ponta dos pés, assim como seu nariz roçando contra o dele e o par de olhos atentos que nem por um segundo vacilavam.
- Meu principal objetivo de vida, Comandante.
No segundo seguinte, os únicos sons que os ouvidos de Tony captavam eram os xingamentos calorosos de e os ruídos da água gelada colidindo contra os dois. Não demorou muito para que a mulher apenas se conformasse com seu destino, virando de costas para que Tony tivesse acesso ao zíper de seu vestido, ela podendo assim se livrar da peça sem possíveis acidentes, e seguir com seu banho não planejado.
Depois de não ser mais necessário no ambiente, Tony pegou uma das toalhas extras antes de deixar o banheiro, usando o tecido para secar principalmente seu rosto e cabelo, já que não via muito futuro nas roupas que usava. Enquanto estava em seu closet buscando roupas secas, J.A.R.V.I.S. aproveitava o tempo para lhe atualizar sobre as informações e os pedidos de Fury durante o fim da reunião que perdera. Ele estava bem perto de admitir que talvez estivesse certa e que ele estava trabalhando demais depois de avisar sua inteligência artificial que logo faria o que lhe foi requisitado quando o som de algo caindo atraiu sua atenção, e ele voltou para o quarto com o máximo de preocupação que a situação lhe permitia.
A mulher era ¼ super soldado. Ela não quebrava tão fácil.
Tony não estranhou nem um pouco notar que a mulher completamente despida dormia pacificamente em sua cama, mesmo sendo uma cena que não presenciava em muitos anos. mal tivera o trabalho de se secar devidamente. Ele conseguia ainda ver gotículas de água pela pele exposta, assim como as marcas de água no tecido de seu travesseiro ao redor de onde o cabelo encharcado de encostava. Tony se questionou por um bom tempo se se juntaria a ela, aproveitar o resto da noite e de fato descansar, em nenhum momento cogitando a possibilidade de algum clima estranho pela manhã, mas acabou por optar por voltar ao seu laboratório, já que nem com sono estava. O problema foi esbarrar com um impaciente Steve Rogers ao deixar seu apartamento.
- Ela está bem?
- Ela não é um bebê, Rogers – resmungou Tony, sem lhe dar muita atenção, caminhando para o elevador como se o soldado não estivesse ali – Embora esteja exatamente como veio ao mundo, capotada na minha cama.
- Eu não acho que você esteja brincando – soltou Steve, um tanto surpreso.
- Vou deixar essa para sua imaginação.
- Ela é minha neta, Stark – rosnou o homem, só percebendo que fora uma péssima ideia quando assistiu Tony já ao longe virar minimamente o rosto, o suficiente para que Steve pudesse ver seu sorriso sacana.
- E você é um velho bem safado se está pensando no estado de pouca roupa que sua neta se encontra no momento.

Capítulo 6, Parte 1 - Wrong Side Of The Bed

JUNHO DE 1986
já tinha acordado de formas mais confortáveis antes, e o maior motivo de sua infelicidade logo de cara foi a dor latente em sua cabeça, que só piorou ao tentar abrir os olhos. A janela aberta e a falta de cortina fechada não impediam que a luz do dia entrasse com toda força no quarto, por isso a garota apenas se encolheu e virou para o outro lado, a dor de repente virando algo de menor importância ao notar que não estava sozinha no colchão. O corpo em que esbarrara parecia ainda estar adormecido, já que sua respiração era calma e constante, mas isso não acalmou . Pedindo baixo repetidas vezes para que não fosse uma pessoa desconhecida e aleatória, aos poucos ela foi abrindo os olhos, sem muitas dificuldades para reconhecer os traços relaxados de Tony, que parecia até babar de leve no travesseiro que quase sumiu com todo seu rosto enquanto deitava de bruços.
Aquela cena era tão recorrente que a garota chegou a respirar aliviada. Levando em consideração há quantos anos se conheciam e o tempo que passavam juntos, várias vezes eles acabaram adormecendo lado a lado, fosse na sala enquanto assistiam um filme ou quando um fugia para o quarto do outro no meio da noite para conversar ou apenas por companhia. Não deveria ser nada para se alarmar, até notar que seu corpo estava muito mais em contato com os lençóis do que deveria, que não havia uma maldita peça de roupa para impedir o contato direto.
- Ah, merda – ela praguejou baixo, com muito receio olhando para o garoto adormecido ao seu lado, xingando um pouco mais alto ao notar que também não parecia que ele estava vestido por debaixo do lençol que cobria seu corpo da cintura para baixo. Aquilo não podia ser apenas um sonho ruim, certo?
- Anthony Stark!
O grito da entrada da casa fez com que Tony acordasse em um pulo, empurrando sem querer . Ambos se encararam por alguns segundos, completamente estáticos, voltando apenas a se mexer quando Tony deixou cair um pouco o olhar e subiu o lençol até a altura dos ombros.
- Ah, merda! – resmungou Tony por sua vez, afundando seu rosto no travesseiro enquanto a garota se colocava de pé em busca de suas roupas. Sua camiseta e calcinha estavam à vista, mas ela não encontrava suas calças de jeito nenhum, chegando até a olhar no banheiro do quarto e debaixo da cama. Ciente da sua incapacidade de deixar o quarto e continuar a busca, acabou por pegar o bolo que havia se transformado as calças que Tony usara no dia anterior, o garoto a fitando confuso enquanto ela virava a peça do lado certo e rumava para a janela. Mesmo sem querer, um riso debochado surgiu em sua voz – O que você vai fazer? Pular a janela?
- Exatamente isso – respondeu ela sem pensar duas vezes, não ganhando apenas da velocidade que Tony se colocou de pé, puxando uma perna da calça antes que ela pudesse vestir – Ei!
- , você nã...! – ele tentou dizer, puxando o material com mais vontade quando ela decidiu medir forças – Você não vai sair pela janela!
- Ah, se eu vou! Agora solta a minh... – Tony estranhou ela soltar uma das mãos, apenas entendendo quando ela tampou os olhos – Quer se cobrir, por favor?!
- Bem, pelo visto você viu bastante disso ontem de noite – brincou o garoto, depois de um rápido pedido de desculpas enquanto puxava um lençol e enrolava na cintura.
- Mas isso não quer dizer que eu precise ficar vendo o tempo todo agora – retrucou , tendo que comprimir alguns xingamentos quando o garoto voltou a puxar a barra da calça antes que pudesse terminar de vesti-la – Solta, Tony.
- Você não vai pular a janela. Vai acabar se machucando – disse ele, um leve desespero aparecendo em seu rosto por saber que ela estava falando sério – Estamos no terceiro andar.
- Não é tão alto e eu pretendo descer pela árvore.
- Está a uns três metros de distância, .
- Eu consigo pular essa distância! – devolveu ela ofendida, arriscando um puxão mais forte que Tony também revidou, fazendo com que ela cambaleasse para o lado e derrubasse um porta-casacos – Droga!
- Anthony, eu não acredito que você ainda está com alguém aí em cima – a voz de Howard soou do corredor do lado de fora, ambos congelando momentaneamente. se aproveitou disso para tirar de vez o tecido de sua posse, desistindo de vestir a peça de uma vez e saindo com apenas uma perna um pouco acima do joelho.
- Eu não estou. Eu só... tropecei – respondeu Tony, um pouco mais alto, na tentativa de ganhar tempo. Algo que não deu muito certo, já que segundos depois a porta do quarto foi aberta, e só tinha conseguido passar uma perna para fora da casa.
- Talvez sua amiga queira sair daqui com as calças dela – rosnou Howard depois de jogar a peça embolada em suas mãos na cama bagunçada, seu humor apenas piorando quando notou que a garota pretendia pular a janela – E que convidados deixam essa casa pela porta da frente, não importa o motivo para que estiveram aqui.
Tony se virou para o pai com a expressão apreensiva, segurando com mais empenho o lençol ao redor da cintura para descontar seu recém nervosismo. No momento que ele reconhecesse , tudo iria para os ares. A garota estava de costas, os cabelos desgrenhados de uma forma que Howard nunca reconheceria já que apenas a via nos seus melhores momentos apresentáveis, só que se ela se virasse ou abrisse a boca, não teria como não a reconhecer.
- Bom dia, Tio Howie – suspirou ela por fim, sem se dar o trabalho de se virar para o mais velho dos Stark. Ela ouviria seus gritos em alto e bom som mesmo se estivesse a quilômetros de distância.
- America Rogers – disse o homem pausadamente, o tom baixo e ameaçador fazendo com que ela se encolhesse um pouco – Você tem três segundos para que cada célula do seu corpo esteja dentro dessa casa.
Relutante, passou a perna para dentro novamente, girando os calcanhares sem pressa para que ficasse de frente para Howard, sem sequer ousar erguer os olhos para fitar sua expressão que só podia ser irada. Suas mãos inconscientemente seguiram para a barra de sua camiseta, puxando o tecido para baixo na falha tentativa de cobrir mais suas coxas.
- Vocês se vistam e estejam na cozinha em cinco minutos – ordenou Howard, sua mão voltando para a maçaneta da porta – E vocês vão estar em mais problemas se alguém tentar fugir de novo.
- Eles vão comer nossa alma de café-da-manhã – comentou Tony, começando a se vestir da melhor forma possível – Esteja preparada.
A mesa do café ainda estava sendo posta quando a dupla desceu, Howard e Maria sentados lado a lado na mesa, sinalizando para que eles ocupassem os lugares opostos, mas permaneceram em pé. Os empregados que organizavam a refeição tentaram disfarçar a surpresa ao entender o que acontecia ali, visto que algumas marcas de arranhões eram visíveis no pescoço de Tony e sumiam por debaixo de sua camiseta, enquanto os cabelos soltos de não era capaz de esconder alguns hematomas avermelhados em seu pescoço.
- Isso é inaceitável – foi a primeira coisa que a dupla ouviu, depois de um bom tempo em silêncio enquanto o patriarca dos Stark cortava suas panquecas, sem erguer os olhos aos dois.
- Pai...
- Eu não quero ouvir um pio de vocês – Howard cortou o filho logo de uma vez, sua bastante falsa calma dando lugar a uma fúria sem igual – Vocês são praticamente irmãos! Cresceram juntos!
- Alguém não anda vendo muitos filmes de romance... – debochou Tony, buscando apoio na garota ao seu lado, apenas para revirar os olhos quando percebeu que ela estava era o olhando feio. Se tinha uma coisa que odiava em , era aquela maldita postura sempre que alguém a repreendia, ou dizia algo com que ela não concordava. Ela nunca brigava, nunca discordava.
- Tenho certeza de que fui bastante claro sobre o estado que queria encontrar essa casa quando retornássemos.
- Você disse sem festa – lembrou Tony, se fingindo pensativo – E nós não demos nenhuma, hm...
- Os seguranças têm uma versão diferente – retrucou Maria.
- Não dá para chamar dez pessoas de festa.
- Você quer dizer que dez pessoas fizeram esse estrago na casa? – insistiu a mulher, estranhando quando Tony apenas olhou para a garota, que até agora se mantivera em silêncio.
- É, isso foi Tony e eu – contou , surpreendendo o casal. Tony, por sua vez, riu de leve – Perdemos um pouco o controle das coisas, peço desculpas.
- E você, America. Eu esperava um melhor comportamento da sua parte – Howard trocou o foco da bronca, não hesitando ao conquistar a atenção de seu olhar indiferente – Isso não diz jus a sua boa reputação e eu definitivamente espero que você mude sua postura.
- Sim, senhor.
- Eu não estou acreditando que você vai abaixar a cabeça! – grunhiu o garoto exasperado – Como diabos você ainda não cansou dessa porcaria de “sim, senhor, não, senhor”? Cacete, muda o disco!
- Anthony!
- Porque ficar discutindo sem motivo sempre deu muito certo para você, não é? – retrucou ela, ignorando os pedidos do casal para que parassem a discussão. Tony não respondeu àquilo, apenas cruzou os braços com mais vontade e virou para o outro lado, emburrado – Se me dão licença, eu vou para casa.
- Você não vai a lugar nenhum – se apressou Howard em dizer, antes que a garota conseguisse se afastar muito – Você não sai daqui sem sua mãe ou seu pai.
- Minha mãe está no Triskelion, e meu pai est...
- Eu sei muito bem a localização de ambos, America – ele voltou a cortá-la – E, na ausência deles, você é minha responsabilidade, e estou dizendo que você não sai dessa casa. Entendido?
Por alguns poucos segundos, Howard conseguiu ver um brilho diferente nos olhos da garota, quase certo de que aquele seria o momento que ela chutaria a mesa, mas apenas respirou fundo, sua expressão se alterando para uma que o homem ainda se lembrava muito bem. Era a mesma que Steve Rogers fazia quando estava contrariado e tinha que continuar na linha.
- Estarei no meu quarto, se precisarem de mim.
- Acredito que isso não me inclua – sussurrou Tony para ela, antes que estivesse muito longe. sequer lhe deu atenção, rumando para as escadas e só parando quando chegou no quarto que costumava habitar.
- Você vai continuar se recusando a levar a situação a sério – desaprovou Maria, sua expressão se tornando mais dura ao assistir o filho rir com a reação que conseguira da amiga.
- E você vai continuar a fazer um escândalo por nada.
- Por nada?! – Howard explodiu, soltando os talheres de qualquer jeito sobre a mesa e espalmando as mãos na madeira coberta por uma fina toalha enquanto se colocava de pé – Olhe quantos limites você violou!
- O que limites?! Não importa o quanto vocês queiram, ela não é minha irmã – devolveu o garoto – Não tem uma gota de sangue Rogers em mim, nem Stark nela.
- Isso não muda o fato de que ela é parte dessa família! Não se trata de uma garota com quem você pode se divertir e depois fingir que não conhece.
- Eu não estav...!
- Então vai me dizer que o que quer que isso tenha sido, foi algo sério? – Howard sabia muito bem o efeito que aquela perguntaria teria, e não foi decepcionado.
Tony travou no mesmo instante, o ar saindo de seus pulmões como se tivesse levado um soco no estômago, sua expressão abismada sendo o suficiente para expressar o que ele não seria capaz de colocar em palavras. Ele nem sabia o motivo de estar surpreso, era a cara de seu pai fazer aquele tipo de suposição e criar um clima desconfortável. Howard realmente não sabia de nada.
- Estarei no meu quarto – anunciou o garoto, respirando bem fundo para se controlar e não continuar naquela conversa que não levaria a lugar nenhum – Se precisarem de mim, não apareçam lá.
- Anthony!
O rapaz não olhou para trás mesmo com os pedidos nervosos do pai, que logo desistiu e tornou a se sentar, tudo sob o olhar atento da esposa. Aquilo sim era um belo jeito de se começar o dia.
- Temo que essa abordagem tenha sido um erro – comentou Maria, se servindo de um pouco de chá para tentar acalmar os nervos – Talvez tivesse sido melhor deixar eles se resolverem primeiro antes de intervirmos.
- Você acha mesmo que eu pensei por um segundo que seria a no quarto com ele? Eu ainda não estou acreditando nisso – resmungou ele em resposta, a irritação ainda presente em sua voz – Sempre pensei que a garota Rogers pudesse ser uma boa influência para o Tony, agora sinto que ele corrompeu a garota.
Maria estava preocupada assim como o marido, mas teve que virar o rosto discretamente para esconder o sorriso divertido que se rebelava e começava a aparecer em seus lábios. Um mordomo notou tal ação e teve que engolir a risada, ciente de que causaria mais estragos se entregasse a diversão da matriarca. Ela sabia que Tony era a personificação de problemas, mas não podia negar que a imagem de seu filho com a amiga da família lhe agradava bastante.
Tony estava mais nervoso do que admitiria.
não tinha mentido quando dissera que voltaria para seu quarto, a porta estranhamente fechada fazendo com que seu coração batesse em um ritmo agoniante, sem saber ao certo como agir. Ele adorava a amiga, mas isso não queria dizer que ele aprovava tudo a seu respeito, e o contrário também era verdade. O dom que tinham de irritar um ao outro era absurdo, e agora o garoto temia que tivesse de fato magoado a amiga.
Ou aquilo era uma projeção de sentimentos que seus pais ao mesmo tempo negavam e afirmavam existência?
- Você realmente não quer falar comigo? – perguntou Tony alto, sem ousar encostar no material que os separava.
- Quando foi que eu te disse isso? – gritou a garota de dentro – Entra logo.
estava bem confortável em sua cama, um livro qualquer que ganhara de sua mãe em mãos. Ela abaixara o objeto apenas para acompanhar com mais atenção a entrada do garoto, que tinha as mãos escondidas atrás das costas, provavelmente apertando os próprios dedos. A hesitação estava tão clara em Tony que ela chegou a ficar com pena, pensando no que ele podia ter ouvido dos pais no andar inferior.
- Estamos bem então?
- Claro que estamos. Por que não estaríamos? – estranhou a garota, sorrindo maldosa enquanto erguia mais uma vez o livro e virava apenas uma página – Oh Tony... Está desenvolvendo sentimentos por mim?
- Está vendo, é por isso que eu te amo – riu o garoto instantaneamente, apenas depois percebendo o que estava falando e emendando uma correção, de uma forma quase desesperada que fez rir – De um jeito completamente amigável. Embora o sexo tenha sido muito bom, ainda mais para alguém que não sabia o que estava fazendo.
- Ah, você chega lá um dia...
Pela falta de resposta, desviou o olhar de seu livro, não conseguindo controlar a gargalhada ao notar a cara de indignação de Tony.
- Que tal a gente se casar e endoidar nossos pais?

Capítulo 6, Parte 2 - Wrong Side Of The Bed (Again)

JUNHO DE 2012

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USA
“Tony cadê você”
Enviada às 9:46 AM

Tony ignorou a dupla que conversava a sua frente, já sorrindo divertido antes mesmo de abrir a notificação, o apelido que aparecera na tela já adiantando que teria uma boa distração pela próxima hora, no mínimo. Aquela era a sua recompensa por ter sido o amigo responsável, e ele aproveitaria o máximo que pudesse.
2 novas mensagens
Idiota Em Lata
“Bom dia, luz do dia”
“No laboratório”
Enviada às 9:46 AM

grunhiu com a resposta do engenheiro, sua dor de cabeça parecendo se intensificar ao entender que realmente seria obrigada a encarar Tony logo cedo, e que ele se esforçaria ao máximo para não facilitar sua vida. Mesmo ciente de que não adiantaria em nada deixar clara sua frustração e falta de paciência no texto, ela seguiu o respondendo.
“Por que eu estou no seu quarto?”
“E cadê as minhas roupas”
Enviada às 9:47 AM
Steve olhou feio para Tony quando ele riu alto, largando de vez todo seu trabalho para digitar algo em seu celular com um sorriso que o soldado apenas podia definir como presságio de confusão.
“Nossa, não acredito que você não lembra a noite maravilhosa que tivemos”
“Estou um pouco ofendido”
Enviada às 9:47 AM
“Depois que a minha cabeça explodir, eu vou te dar um soco”
“Sério, cadê minhas roupas?”
Enviada às 9:47 AM
“Seu belo vestido não sobreviveu à noite de ontem, sinto muito”
“Mas você está mais que convidada para se juntar a mim no lab para tomar café”
“Eu só colocaria alguma roupa porque Papa e Vovô América estão aqui comigo”
Enviada às 9:48 AM
“Me mata agora”
Enviada às 9:50 AM
“Pega aquele meu moletom azul que destaca a sua bunda”
Enviada às 9:50 AM
“Ou talvez eu devesse matar você”
Enviada às 9:50 AM
“Ou sei lá, vem sem roupa mesmo”
“Não vou me importar”
Enviada às 9:50 AM
“Definitivamente vou matar você”
Enviada às 9:50 AM
pegou a bendita calça, enfiando seu celular de qualquer jeito dentro do bolso depois de vesti-la, junto com a primeira camiseta de banda de Tony que encontrou no amplo closet do homem. Várias notificações haviam sido ignoradas logo de cara, e ela tinha certeza que seu comunicador deveria estar apitando - onde quer que ele estivesse. Aparentemente, a S.H.I.E.L.D. não entendia muito bem o conceito do que significava férias, então medidas precisaram ser tomadas. Claro que provavelmente ela teria que pagar por outro aparelho porque tinha a leve impressão de que, em algum momento da noite anterior, ele terminara dentro de um copo cheio de bebida. Agora o que acontecera depois era um mistério que a mulher sequer tinha interesse de desvendar.
J.A.R.V.I.S. até tentara lhe passar algumas informações enquanto se arrastava pelos corredores ou quando estava no elevador, mas a mulher não conseguia dar atenção à Inteligência Artificial, apenas resmungando vez ou outra, mesmo sabendo que ele tinha ciência de que ela não absorvia nada do que ouvia.
- Ah, você não estava brincando quando disse que eles estavam aqui - disse alto ao entrar no laboratório, sua voz sem expressão combinando com seu rosto. Talvez ela deve ter se esforçado para ouvir o que J.A.R.V.I.S. lhe falara, afinal. Já era ruim demais ter que encarar seu pai de ressaca, agora ter que lidar com Steve era pedir demais para logo cedo.
- Você não parece bem, - comentou Matt, chegando até a puxar uma cadeira para se sentar devidamente. Ia ser uma longa conversa, pelo visto. A postura de sua filha estava completamente na defensiva, e ela nunca fazia isso sem um bom motivo. O que apenas podia significar problemas - Bebeu demais?
- Talvez – soltou ela, sem dar muita importância ao tópico, já se virando para o amigo de infância, a única pessoa na sala que não parara de fazer o que fazia para lhe dar atenção, mexendo com seus hologramas sobre a mesa como se nada demais tivesse acontecido – Eu quebrei alguma coisa?
- Sua moral com os Vingadores, talvez.
- Nunca tive uma, então nada demais – apenas deu de ombros, tendo que ignorar o olhar nada amigável de Steve e de seu pai. Pelo menos Tony parecia estar do seu lado, soltando uma risada nasalada depois da boa recuperação da mulher com a resposta que recebera - Bem, melhor eu indo. Preciso arrumar umas coisas.
- É só dizer o que quer e alguém vai atrás – lembrou o engenheiro, as sobrancelhas um pouco mais próximas ao ver pelo canto de olho a mulher começar a se afastar.
- Agradeço a oferta, mas tenho um encontro.
- Um encontro a essa hora? Com quem? – estranhou ele, se virando por completo para a mulher, um sorriso travesso aos poucos aparecendo em seus lábios quando um nome lhe veio à mente – Hm... O doutor vai te examinar agora?
- Talvez...
- Adam? – arriscou Matt, optando por não dar atenção às piadas de seu afilhado, para sua própria preservação mental – Você continua vendo aquele cara?
- Ela não tem muita escolha, já que vive se quebrando – lembrou Tony, rindo mais abertamente quando notou a expressão ofendida de .
- É, acho que não estou afim de falar com você agora – resmungou ela, dando as costas ao grupo. A mulher até teria deixado o laboratório se um outro tópico não tivesse lhe vindo à mente, além de que provavelmente esqueceria de tocar naquele assunto mais tarde – Hm, Tony. Vai fazer alguma coisa hoje à noite? É sua deixa para repensar e dizer que está livre.
- Muito ocupado, – respondeu ele, depois de respirar fundo e soltar o ar todo de uma vez. Claro que Tony não se importava de tirar algumas horas de folga depois do tanto que estava trabalhando nas últimas semanas, mas nada que planejava acabava bem, e ele não se sentia confiante em dar motivos para Fury pegar no seu pé. Do jeito que sua paciência andava, era capaz de jogar todos os avanços e acordos dos últimos tempos para o alto.
- Qual é, é reunião importante – insistiu ela, quando olhares confusos do trio, que soltaram um “reunião?” praticamente sincronizado – O Comando. Faz tempo que a gente não se junta e hoje é por comemoração.
- E qual seria o motivo da comemoração?
- Lembra que o Morita estava naquela escola do Queens faz um tempo? Ele foi promovido a diretor – ela respondeu a pergunta de Tony, de repente ganhando um interesse imenso pelas suas unhas mal cortadas – E o Dugan também foi promovido.
- Nossa, está sendo uma boa seman... Espera, Dugan é subordinado seu – lembrou o engenheiro, agora mais atento, quase desconfiado – Ele foi remanejado?
- Não exatamente...
- .
Até mesmo Steve, o mais alheio a tudo, estava tenso, à espera de respostas. Matt estava estranhamente quieto, como se apenas esperasse a confirmação da filha para fazer algo – e isso que mais preocupava . Seu pai estava afastado da S.H.I.E.L.D. praticamente de todas as formas possíveis, até mesmo sua mãe estava sem exercer boa parte de suas funções. Se ela passasse mais informações do que ideal, a família inteira poderia ser desligada definitivamente da agência, ou qualquer outro problema tão sério como aquilo.
- Ele está assumindo a minha equipe – contou a mulher por fim, sentindo que enrolar ou tentar mentir poderia ser mais desastroso. Talvez acabasse sendo desastroso de qualquer forma, já que a reação um tanto descontrolada de Tony não lhe parecia um bom presságio. O eco de sua mão espalmando na mesa em que trabalhava quase fez a mulher se encolher assustada, mesmo estando preparada para as mais diversas respostas.
- Perdão? – sua voz ainda soava calma, mas os olhos de Tony entregavam como ele estava irritado. Todo dia tendo que lidar com Fury em seu pé, e em nenhum momento ele achou que era importante lhe atualizar sobre o papel de na agência? Ela havia cometido alguns erros, claro. Sabia que o afastamento da mulher não era apenas para recuperação psicológica, como também era uma suspensão por insubordinação, mas tirá-la de sua equipe? Não, sendo que era, podia atropelar o gato de todos os membros do Conselho, ela não seria rebaixada com tanta facilidade. Tinha algo a mais que nem ela nem Fury estavam contando.
- Eu fui desligada da S.H.I.E.L.D. mês passado, não estou em período de reabilitação.
- Preciso falar com o Fury – rosnou Matt assim que sua filha terminou a frase, já se adiantando para a saída com o celular na mão. Ele teria conseguido sair, se não tivesse segurado seu braço.
- Pai, não começa – pediu ela baixo, mas com a voz firme – Fury tem um motivo para estar fazendo isso e eu concordo. Não te diz respeito.
- É por causa d...? – Steve começou a formular a pergunta, a expressão séria e determinada de se diluindo no mesmo instante, seus olhos escuros se arregalando em desespero.
- Calado, Steve!
- Ei, você não pode mandar ele calar a boca – Matt ralhou com a filha, mesmo sem entender o motivo de tanta comoção – Do que diabos vocês estão falando?!
Um pigarro vindo do corredor dispersou a discussão, o quarteto se virando ao mesmo tempo para a entrada do laboratório, encontrando um Adam desconsertado, sem saber o que fazer. Já era ruim o bastante interromper conversas entre a mulher e Tony, agora se meter no meio do que parecia ser uma discussão séria com ¾ da família Rogers? Provavelmente não fora sua melhor escolha do mês.
- É uma hora ruim? – arriscou ele, ainda sem entrar por completo no ambiente. sorriu e se afastou de seu pai.
- Para você, nunca – respondeu ela, seu sorriso se alargando ao ver o Adam lhe estender uma sacola de sua loja favorita.
- Duvido que tenha errado seu número – comentou o médico, assistindo a mulher tirar de dentro da embalagem um vestido de tecido leve em azul claro. colocou a peça em frente a seu corpo apenas para seguir o protocolo, ciente que o vestido iria lhe servir perfeitamente apenas por bater o olho – Vou te esperar lá embaixo. Ficar conversando com o Clint.
- Tudo bem. Desço em cinco minutos – avisou ela depois de agradecer pelo presente, partindo logo depois de Adam, mas não antes de se voltar para o trio às suas costas. Eles pareciam bem mais calmos agora, mas era melhor não arriscar – Tony, passo aqui para te buscar mais tarde. Tchau, pai. Tchau, Steve.
Mesmo contrariado, Steve assentiu de leve, discretamente para apenas a mulher ver. O soldado não estava nem um pouco confortável com aquilo, mas manteria sua promessa de silêncio.
Pelo menos enquanto lhe parecesse o certo.

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A maior parte dos Vingadores não conhecia Fury há tanto tempo, mas já eram capazes de dizer que ele estava enrolando para chegar no ponto principal daquela reunião.
As reformas no prédio já tinham sido finalizadas, o controle de danos da cidade também já se encerrara. As coisas já estavam mais uma vez em sua normalidade, menos na Torre dos Vingadores, que ainda tinha muita interferência do Diretor da S.H.I.E.L.D. e de Maria Hill, visto que a inclusão da equipe na agência era algo bastante delicado, que necessitava da atenção de ambos. Os Vingadores não seriam considerados para agentes da S.H.I.E.L.D., mas respondiam a eles em certo nível, assim como também apenas podiam agir com seu consentimento. Devido a uma parceria com as Indústrias Stark, parte da iniciativa científica da agência funcionaria também no prédio, assim como equipes táticas para atuarem e treinarem juntamente com o time de heróis. Tudo aquilo era complexo e poderia facilmente dar errado sem um olhar atento e criterioso da dupla, então só agora com tudo acertado que eles poderiam se afastar.
Isso se o bendito responsável aparecesse na reunião, para variar.
O Diretor teve que controlar a vontade de começar a gritar reclamações quando viu a porta principal da sala sendo aberta, a cabeleira escura familiar entrando no cômodo primeiro para ter uma noção do ambiente antes de entrar de vez.
- Posso? - perguntou incerta, seu sorriso nervoso fazendo com que o homem revirasse os olhos.
- Um pouco atrasada, não?
- Foi mal, tá um trânsito e eu estava do outro lado da cidade… - se explicou ela, caminhando em direção ao diretor sem dar atenção ao olhares confusos dos Vingadores, que não entendiam o motivo de ela estar invadindo uma reunião que deveria ser restrita - Já falou muita coisa?
- Não, estava repassando alguns detalhes antigos para ver se você chegava a tempo - respondeu ele, esticando para a mulher o agasalho que ficara devendo entregar no dia anterior. vestiu a peça sem pensar duas vezes, ganhando reações distintas dos dois lados da longa mesa de reuniões. Quem estava à esquerda via em seu ombro o emblema da S.H.I.E.L.D., nada de se estranhar vindo de uma oficial da agência. Quem estava à direita não entendia o porquê de ter o símbolo dos Vingadores em seu ombro - Senhores, essa é a Comandante Rogers e ela é a superior imediata de vocês. Rogers vai ser meu olho nesse prédio. Vocês não respiram mais alto sem a permissão dela.
Assim, quem estava à esquerda passou a espelhar a expressão confusa de quem estava à direita, bem diferente dos três agentes em pé, que tinham no rosto sorrisos bastante satisfeitos com a pequena surpresa que organizaram.

Capítulo 7 - Legados

aproveitou do silêncio surpreso de todos para assumir seu lugar na ponta da mesa, agradecendo quando J.A.R.V.I.S. ativou em sua frente em diversos hologramas todas as informações que precisava ter em mãos no momento, para expor os últimos detalhes daquele acordo para os heróis.
- Juro que não sei como não vi isso acontecendo antes... – comentou Clint rindo depois de um tempo, ganhando apenas um olhar indiferente da mulher enquanto ela digitava algo em um dos arquivos, murmurando apenas um “se comporta, Barton” antes de voltar sua atenção por completo para seu trabalho – Claro, Comandante.
Steve desde o anúncio mantinha uma expressão dura, como se fosse virar a mesa a qualquer momento. talvez tivesse subestimado o avô, ele já tinha entendido o motivo da sua transferência repentina. Ele estava desconfiado desde o outro dia, e agora estava claro que sua infelicidade com todo o cenário não era pouca. Até mesmo Tony parecia estar levando aquilo numa boa – mas claro que o Stark e o Capitão não compartilhavam das mesmas informações, era um fator importante. Era engraçado pensar que Tony era o menos bem informado do ambiente, e ao mesmo tempo preocupante. Ele não teria aceitado a S.H.I.E.L.D. em seu prédio se não tivesse um passo à frente, certo? Talvez tivesse que tomar cuidado com isso também.
- Acredito que possa levar as coisas sozinha a partir daqui, Rogers – comentou Fury, sinalizando para Hill para que deixassem a sala – Tente não me atormentar a cada dois segundos.
- Farei meu melhor, Diretor.
esperou até que a dupla saísse, na espera que aquele tempo a mais fosse o suficiente para que sua equipe voltasse à Terra, já mais acostumados com a ideia de quem era sua superior. Até que não tinham muita coisa para discutir naquele dia, as coisas estavam bastante calmas, na medida do possível. Precisava apenas informar alguns compromissos que eles precisavam cumprir, alguns horários em que precisavam marcar presença, até onde podiam agir sem sua permissão, o que não era muito. Fury havia brincado que ela se tratava da nova babá dos heróis, e não estava por completo errado. apenas esperava que eles fossem se comportar um pouco melhor do que supercrianças.
- Posso ter uma palavra com você, Comandante? – a voz de Steve não tinha seu tom usual, parecia um tanto raivosa, mal controlada. ergueu o olhar para o soldado apenas para confirmar suas suspeitas. Steve estava possesso.
- Uh, isso vai ser interessante.
- Mais tarde, Capitão – avisou ela, ignorando o comentário inapropriado de Barton, sequer se dando o trabalho para repreendê-lo. Se fosse fazer uma advertência por escrito, Hill já ficaria em seu pé por não saber controlar a equipe, era melhor deixar passar. Para sua surpresa, Steve se manteve em silêncio pelo resto da curta reunião, apenas assentindo quando alguma pergunta mais ampla era direcionada a todos.
Claro que esse silêncio não se estendeu tanto, com o soldado impacientemente esperando por assim que a mulher dispensou a todos, ficando para trás na sala junto com ela.

- Quer me explicar o que diabos está acontecendo? – grunhiu ele, no exato momento em que ficaram sozinhos. Já estava há tempo o suficiente na Torre para saber que o isolamento acústico era muito bem feito e não havia risco de suas palavras saírem dali – Por que você foi transferida para uma área que não é sua especialidade?
- É minha especialidade, Cap. Caso não se lembre, eu fui criada para liderar – devolveu a mulher, não no mesmo tom, mas com impressões claras de arrogância em sua voz, o que apenas fez com que Steve ficasse mais tenso – E eu posso não ser uma Stark, mas sou inteligente também. Posso muito bem supervisionar a iniciativa científica.
- E para exatamente o que você está nos liderando, hm? – insistiu ele. Talvez fosse uma peça de sua mente, mas viu o que parecia hesitar um pouco, a determinação em seus olhos falhando por um breve segundo. Ela estava escondendo algo, mas pelo visto não queria – Não sou idiota, America. Sei que tem algo maior por trás disso.
- Você realmente não vai deixar eu fazer meu trabalho, não é? – suspirou ela, apoiando as mãos no encosto da cadeira que ocupara nos últimos minutos, deixando sua cabeça pender para frente. Quando Steve percebeu que não seria repreendido por chamá-la pelo primeiro nome, ele entendeu que estava realmente abaixando a guarda – Não é seu papel saber de tudo, nunca foi.
- E olha como tudo sempre terminou bem, não é mesmo? Você sabe que eu já suspeito do que seja, só me deixa a par de tudo.
ergueu a cabeça, seu rosto inexpressivo e seu olhar relutante. Fury confiava que ela tomaria a melhor decisão sempre, em qualquer cenário. Aquele caso poderia se encaixar, certo? Não era a estratégia ideal, o Diretor esperava que ela fosse conquistar a confiança do avô de outras maneiras, com meios e dados diferentes. Talvez fosse uma ideia idiota, confiar aquela informação mínima ao Capitão, mas sua intuição dizia que valia a pena arriscar, e, ultimamente, ela não vinha errando tanto.
- Eu não tenho permissão para trabalho de campo, pelo menos não enquanto a psiquiatria não me liberar. Por mais incrível que pareça, ter socado o Tony é o principal argumento deles de que eu não sei mais lidar com pressão. Sim, ridículo – contou ela, para a surpresa de Steve, que não esperava a mulher soar tão verdadeira – Tem algo errado com a S.H.I.E.L.D., não sabemos exatamente o que é, quem está por trás disso. Só que não tem como a agência fazer uma varredura nela própria, atrairia muita atenção e caos entre nós, então...
- Os Vingadores não são S.H.I.E.L.D. – concluiu o soldado, antes que pudesse finalizar a ideia. Ela, por sua vez, assentiu enquanto suspirava alto.
- Não, vocês têm mais liberdade de ação. Há bastante coisas que uma supervisora pode deixar passar... Eu estou ficando velha, afinal de contas.
- Então é isso que vamos fazer? Limpar a bagunça da S.H.I.E.L.D.? – certo, não previra aquela reviravolta, sua irritação começando a se aproximar do nível do soldado, que espalmara as mãos sobre a mesa da sala – Não estou aqui para ser faxineiro.
- Não, você está aqui para fazer a coisa certa – ela devolveu no mesmo tom, mas Steve não recuou, parecia preparado para aquilo – O que quer que seja que está acontecendo, não é a S.H.I.E.L.D. que criou. No mínimo, não fomos capazes de ver ou lidar com o problema. Se não está tão disposto a seguir nisso, lembre-se que o sequestro do Coronel Rogers também está nessa história.
- É por isso que você aceitou tudo isso? Vingança pessoal? – Steve mostrou um sorriso debochado, e, pelo brilho diferente que passou pelos olhos da mulher, quase se viu levando um soco, ciente de que tinha ultrapassado algum limite.
- Pode ter certeza que é vingança pessoal, pai sequestrado ou não – concordou , para a surpresa do soldado – S.H.I.E.L.D. é meu legado. Os Carter e os Stark vêm dando seu sangue por isso aqui por quase setenta anos, e se alguém chega querendo ameaçar todo esse esforço, pode ter certeza que eu sou a primeira voluntária para quebrar a cara de alguém.
Embora sua vontade fosse aquela, Steve parecia ter sido atingido no estômago, os lábios partidos deixando que sua respiração pesada saísse com mais facilidade. Talvez aquele fosse jogo baixo fazer com que o soldado se lembrasse as conexões familiares, só que era a mais pura verdade. Steve precisava viver um pouco mais para conseguir encurralar como ele pretendia. Expor suas motivações pessoais não fazia com que ela recuasse, pelo contrário.
E ela soube no momento que a discussão estava encerrada pela forma que os olhos de Steve adquiriram um brilho triste, machucado.
- Caso ainda não tenha percebido, as iniciais da S.H.I.E.L.D. não são coincidência – comentou a mulher, depois de já ter decidido seguir seu caminho e já estava a uns bons metros do soldado. Ele, por sua vez, continuava na mesma posição, o olhar perdido no espaço que ocupara anteriormente – A agência é seu legado também, se ainda estiver precisando de um pouco de incentivo pessoal para embarcar nessa.

---

Tony já tinha passado do nível de impaciente, mas mesmo assim não deixou seu quarto.
Ele poderia ter seguido para seu laboratório na companhia de Bruce, que com certeza não teria se incomodado em dar uma volta por alguns minutos assim que aparecesse, mas o engenheiro também preferia ficar um pouco sozinho.
Não sabia dizer os motivos do Capitão ter ficado tão alterado com a promoção da mulher, mas até compreendia. O próprio Tony não estava tão confortável assim: nunca, durante toda a história, aconteceu coisa boa quando eles eram obrigados a passar longos espaços de tempo no mesmo ambiente, por isso tinham costumes bastante respeitados de não contrariar aquilo mesmo agora sendo adultos. Três dias, esse era o limite.
E agora iria morar na Torre.
Era a superior de Tony.
Ah, não tinha como isso terminar bem.
Tony se sentou no colchão assim que ouviu a porta do quarto se abrindo, os sons dos passos pesados demais da mulher ecoando pelo quarto enquanto ela se livrava do novo agasalho, atirando a peça sobre uma peça qualquer e passando a trabalhar em seus calçados.
- Uau, acho que não foi uma conversa muito amigável – comentou ele, ciente de que teria a fúria de direcionada para si, mas nada do que já não tivesse acostumado. Tony se orgulhava de ser um dos poucos que não vacilava diante de seu olhar assassino, e era até bom de vez em quando confirmar se ainda tinha essa imunidade.
- Ele me irrita, Tony. Ele me irrita mais que você e meu pai juntos – grunhia ela. Depois de já ter os pés livres, ela se pôs a andar em círculos pelo quarto, a única forma mais segura de gastar energia no momento – Se ele tentar me enfrentar mais uma vez, alguém vai ter que me segurar ou eu vou socar a cara dele, e vai ser um soco com gosto.
- Engraçado, ele me lembra bastante de você – comentou Tony, sem pensar duas vezes. Quando parou e se virou para ele com as mãos na cintura, ele chegou à conclusão de que talvez era melhor que tivesse ficado quieto – Era praticamente por causa disso que eu queria socar a cara dele mês passado.
- Engraçadão você, hein? – devolveu ela, revirando os olhos quando Tony riu, deixando que suas costas voltassem a se encontrar com o colchão.
- Se eu não fizesse graça, você iria perguntar o que tem de errado comigo.
- Tem algo errado contigo? – a postura da mulher mudara completamente, se tornando mais urgente, preocupada. Em segundos, estava ajoelhada na cama, puxando o engenheiro pelas mãos e analisando seu rosto – O que está escondendo?
- Larga as paranoias, Rogers – resmungou ele, usando a perna mais próxima à mulher para empurrá-la, um sinal não tão discreto para que ela se deitasse também – Sai um pouco do modo soldado, sinto falta da minha amiga.
- Como se no modo amiga eu não ficasse mil vezes mais paranoica.
- Argh, não estou pronto para essas conversas...
- Então precisamos ter essas conversas?
Tony puxara um travesseiro e jogara no rosto da mulher, se levantando com o som de sua risada de fundo.
- Só morre, Rogers.
- Como se você fosse conseguir sobreviver muito tempo sem mim – devolveu ela, seu rosto virado na direção do homem, mas os olhos fechados enquanto ela lhe mostrava um sorriso largo sem mostrar os dentes. Tony soltou uma risada nasalada, concordando.
- Seu quarto já está pronto, caso queria descansar – contou ele, se sentindo melhor trocando de assunto. Aquele tipo de brincadeira era recorrente entre os dois, mas mesmo assim não se sentia tão confortável expondo que a mulher realmente era uma figura importante em sua vida.
- Não sou mais bem-vinda em seu quarto, Stark?
- Ah, você sempre vai ser bem-vinda aqui – respondeu ele de imediato, seu sorriso sacana adiantando que não viria coisa boa a seguir – E acho que seria bem divertido assistir a cara inconformada do Capitão vendo você sair daqui todo dia de manhã.



Continua...



Nota da autora: Acho que podemos tirar um consenso de que amo Steve sendo peitado, não importa a fic. É isso.

Para comentários, críticas, xingamentos e ameaças de morte, a caixinha de comentários continua no mesmo lugar e pedindo por atenção!





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