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Última atualização: 20/10/2020

Capítulo 1

O barulho das roldanas fazendo o caixão descer para os confins da terra era irritante. Alguém precisava jogar um óleo lubrificante nelas urgentemente. Era inconcebível que, em um cemitério caro como aquele, a roldana simplesmente não estivesse lubrificada. O valor que eu estava pagando naquele enterro daria para cobrar os gastos com óleo lubrificante por anos. Ainda assim, havia o barulho irritante de metal com metal incomodando os meus ouvidos.
Ao receber a ligação do hospital na manhã anterior, soube que minha vida teria que passar por uma mudança brusca em poucas horas. Nem me dei o trabalho de atender, senti o que havia acontecido antes mesmo do telefone começar a vibrar sobre a mesa do escritório. Fui treinada desde que me entendia por gente para lidar com aquele tipo de situação, não tinha motivo para que eu me desesperasse diante da notícia, com exceção de que meu pai estava morto e havia tanto a se fazer que eu não sabia por onde começar.
O primeiro passo era comunicar seus sócios, já que havia um estrito testamento sobre o qual eu tinha ciência e que elegia-me como sucessora de seu poder como dono da montadora da Dodge em Milão. O segundo também envolvia sócios, mas se tratava de outro tipo de sócio, o mais perigoso. Com esses, eu não via necessidade em correr contra o tempo. Descobririam depois, provavelmente antes mesmo que eu contasse. Qualquer coisa, eu tinha a desculpa perfeita: meu pai estava morto e eu não tinha cabeça nenhuma para lidar com aquilo.
À minha volta, estavam dezenas de homens engravatados, acompanhados de suas esposas retocadas por bisturis e outras coisas mais. Poucos deles me conheciam, poucos deles conheciam de fato o meu pai. Talvez eu estivesse anestesiada pela dor, talvez eu estivesse tão revoltada com a morte dele que não estivesse sã. Mas a verdade é que eu sentia que estava fazendo mais um circo para pessoas que eu não queria por perto, ainda mais em um momento de luto.
Cada um fez questão de me cumprimentar antes de ir embora. Não entendiam o quanto aquele cumprimento seria melhor se não existisse, mas eu me portei educadamente e fui a menininha do papai que todos esperavam que eu fosse. Já tinha feito aquilo anos antes, quando estava naquele mesmo lugar, em pé no mesmo ponto, vendo o caixão que carregava o corpo da minha mãe descer para a terra. Não tinha como ser mais difícil, já que eu havia amadurecido. Ao menos, meu pai não havia sido levado repentinamente por um tiro como minha mãe, e o câncer me permitiu a preparação para o momento que, apesar de tudo, estava sendo difícil.
Ao longe, um pouco afastado do túmulo, eu pude ver um grupo que me observava desde o início da cerimônia. Eu já havia notado, mas procurei ignorar porque a presença deles ali podia desencadear respostas indesejáveis. Meu pai gostaria de paz ao menos naquele momento. Então eu esperei, junto com eles, que todos os presentes se afastassem. Fiquei ali até os coveiros terminarem de cobrir o caixão com a terra, mesmo sendo aconselhada a me afastar porque seria uma cena difícil de ver. Eu insisti, queria ficar. Mais do que nunca, precisava ser tão forte quanto fosse possível.
Quando eles terminaram, ainda fiquei ali por uns segundos, processando o que estava acontecendo e quais seriam os meus próximos movimentos. Tentava segurar dolorosamente as lágrimas para não sucumbir ao desespero, meu maior medo. E então decidi andar na direção deles de cabeça erguida. Não sabia exatamente por qual motivo estavam ali, deveria estar preparada para tudo, até para o pior. E foi por isso que chequei a pistola carregada no cós da minha calça antes de me aproximar definitivamente.
– Vocês podiam ter esperado o corpo esfriar, pelo menos. – Resmunguei.
– Hoje, mais do que nunca, estamos apenas cumprindo ordens. – Namjoon disse.
– Vi que você mudou o carro.
– Não é a hora pra isso, Hoseok. – Namjoon o interrompeu. – Nossos pais querem saber se o acordo permanece de pé.
– Eles precisam de uma resposta hoje?
– Eles não estão felizes com a morte de seu pai. – Taehyung disse. – Mandaram as mais sinceras condolências deles. Seu pai era muito útil para nós todos e prezava por uma relação de paz. Ninguém queria isso, por motivo nenhum.
– Eu vou pensar e entro em contato pra informar sobre a minha decisão. – Revelei. – Meu compromisso é honrar, momentaneamente, com as palavras do meu pai enquanto não decido de vez o que fazer a respeito de tudo.
– Eles têm pressa porque um carregamento vai chegar hoje à noite. – Seokjin falou baixinho atrás deles.
Merda... – Sussurrei.
Os sete me encararam. Nós nos conhecíamos havia um bom tempo e jamais havíamos estado em situação tão intensa quanto àquela, nem quando a polícia quase nos pegou. Éramos o elo entre a máfia italiana e a coreana. A morte do meu pai podia significar a quebra do elo ou o maior fortalecimento dele. Ter a decisão nas minhas mãos não era fácil.
? – Namjoon insistiu.
– Digam a eles que o carregamento está de pé e que vou providenciar o necessário pra isso. Só me passem o horário exato pra eu alinhar com os carros.
– Vou enviar as informações por mensagem pra você. – Jimin disse e eu assenti.
– Nós sentimos muito por precisarmos vir aqui a essa hora. – Jungkook tomou a frente pela primeira vez. – Fomos forçamos a isso. Nós realmente sentimos muito.
Em silêncio, um a um foi virando de costas para mim e caminhando para longe. Eu engoli em seco, a garganta apertada em um sentimento sufocante que eu nunca havia vivido. Yoongi ficou por último, ainda quieto. Olhou para mim com extremo carinho. Nunca havia visto aquele sentimento nos olhos dele, mas o dia estava todo estranho, então eu não estava disposta a considerar aquilo como novidade. Os outros já estavam afastados quando ele finalmente deu um passo na minha direção, ainda hesitante.
– Eu sinto muito, . – Ele disse, abaixou o olhar e afastou-se com os outros seis.
Esperei que se distanciassem. Não havia motivo para que desconfiasse deles, naquele momento mais do que nunca. Mas não era dos coreanos que eu tinha medo. Desde os quinze, eu tinha plena ciência de tudo o que meu pai fazia, como dono da unidade da montadora ou como um dos líderes de um dos movimentos mais importantes da máfia italiana. E se tinha uma coisa que eu sabia era que, com o passar do tempo, todos os colegas do meu pai eram contra aquele acordo com os coreanos mas não se metiam com o meu pai por medo, o que me colocava como alvo dos dois lados: os coreanos lutando em me manter a favor deles e os italianos torcendo para que eu fosse mais maleável que meu pai – um termo mais doce que ‘manipulável’.
Eu sabia que, do lado dos coreanos, dificilmente me colocariam em uma posição onde eu me sentisse acuada. Estavam em meu território, distantes da casa deles. Precisavam de mim e precisavam manter-me ao lado deles. Não era como se eu achasse que eram uns santos. Sabia também que eles usariam do que estivesse ao alcance deles para conseguirem o que queriam, mas tinha muito menos medo deles do que dos italianos.
Dirigi para casa bem irritada naquele dia. Irritada pelas decisões à minha frente, irritada por ser tão cobrada o tempo inteiro, irritada por causa do maldito carcinoma que tirou meu pai de mim. Entrei em casa pronta para socar o primeiro que passasse na minha frente. Todos os funcionários, sem exceção, me esperavam no hall de entrada. Eu respirei fundo após olhar para cada um deles por, ao menos, um segundo. Até eles esperavam que eu tomasse decisões que não estava pronta para tomar.
– Tranquem o quarto e o escritório do meu pai e não abram novamente até segunda ordem. – Disse, firme. – Retirem todas as pinturas de todas as paredes, todos os enfeites antigos, tudo que não seja desse século, e coloquem no quarto de hóspedes maior. Depois disso, quero todos de folga durante três dias.
– Mas senhorita ...
– Ainda não acabei, Luna. – Interrompi uma das empregadas. – Não se preocupem, o pagamento de vocês não sofrerá nenhum tipo de prejuízo. Esses três dias de folga serão remunerados devidamente, como se fosse um dia trabalhado normal. No quarto dia, estejam prontos para voltarem ao trabalho. Vocês acham que conseguem terminar o que pedi ainda hoje?
– Sim, senhorita. – Disseram em um coro.
– Enquanto isso, vou estar entre meu escritório ou meu quarto. Não precisam se preocupar com me incomodar antes de saírem. Se tudo estiver feito, estão liberados. Vejo vocês na sexta.
Eles assentiram e dispersaram-se. Eu ajeitei a bolsa em meu ombro e subi para o quarto. Deixei a bolsa em cima da cama e fui para o banheiro da suíte. Olhei meu reflexo no espelho e fiquei lá, encarando-me como se aquilo fosse ajudar com alguma coisa. Não encontrei o que estava procurando e fui para o escritório. Liguei o computador mas não sentei na cadeira. Ao invés disso, fui até a parede que dividia o meu escritório do escritório do meu pai. Afastei a estante o suficiente para deixar à mostra a porta blindada do cofre. Digitei a combinação que formava a senha e, segundos depois, a porta estava aberta.
Entrei e analisei o cenário à minha volta. Mais uma vez, estava diante de escolhas que devia mas não queria fazer. Deixei a arma que havia levado para o enterro e peguei outras três, também Berettas. Enchi os pentes, vesti o cinto, encaixei os coldres e guardei as pistolas nele, colocando pentes reservas ali também. Fiquei observando, quando a tarde já estava chegando ao fim, enquanto um por um dos funcionários deixava a casa em direção ao centro de Milão.
Quando a noite chegou de vez, liguei os sensores de movimento da parte externa da casa e voltei ao cofre, preparando duas submetralhadoras para uso também. Desci para a cozinha, esquentei um resto de macarrão no forno e sentei na sala para comer na companhia das armas e assistindo o circuito interno de monitoramento da casa. Seria assim enquanto a noite não terminasse, eu teria o dia para dormir.
Às onze e doze da noite, recebi uma mensagem de texto de Namjoon, agradecendo a minha parte na colaboração com eles e avisando que tudo tinha, mais uma vez, dado perfeitamente certo. Deixei o celular de lado e continuei focada em observar o que estava no entorno da casa. O sensor de movimento foi disparado duas vezes, mas era apenas um esquilo, talvez o mesmo nas duas vezes.
Em certa altura, o cansaço e tudo o que estava somado àquilo me tomou por completo e eu apaguei, inconsciente até mesmo de que estava deitada sobre as armas. Acordei no susto depois de sonhar que meu pai estava morrendo novamente. Dessa vez, ele morria na ponta de uma pistola, apontada por uma pessoa cujo rosto eu não conseguia identificar. Tinha medo daquilo, mas era um problema solucionável. O câncer não era, o que me fez achar que talvez as armas não tivessem aquele poder todo.
No dia seguinte, após muito considerar, peguei o carro e segui para o endereço que conhecia melhor do que seria capaz de assumir. Não confiava em ninguém além dele para repassar a minha mensagem, ainda mais depois de receber dezenas de e-mails dos companheiros do meu pai pedindo por uma reunião. Eu sabia o que ia ser falado, tanto naquela reunião quanto quando eu cruzasse a porta do apartamento de Yoongi. Mas eu teria que pagar para ver e estaria fazendo o que sabia que meu pai faria no meu lugar – ou o que eu achava que ele gostaria que eu fizesse.
– Não esperava te ver de novo tão cedo. – Yoongi disse ao abrir a porta para mim.
– Eu não esperava sair de casa de novo tão cedo. – Resmunguei enquanto entrava, parando no meio da sua sala de estar. – Diga ao seu pai que eu quero manter o acordo.
– Foi o que você decidiu de ontem pra hoje?
– Sim. Mas tenho condições.
– E quais são elas? – Ele me perguntou enquanto me observava atentamente.
– Precisamos remodelar as operações e elas vão ficar em segredo. A partir de hoje, só eu saberei disso e vou ser a única conexão entre vocês e a Itália.
– Os outros concordam com isso?
– Eles não têm que concordar.
, você tem certeza disso?
– Não. – Encolhi meus ombros. – Mas sei o que vai acontecer se não começarmos logo por esse caminho. Depois vamos estudando as opções. Por enquanto, não quero que saibam da minha decisão de continuar apoiando vocês. Conto com você pra me ajudar com isso.
– Você sabe que pode contar comigo. – Ele falou e chegou mais perto de mim, levantando o meu rosto para que eu olhasse em seus olhos.
– Não banca o carinhoso comigo só porque eu perdi meu pai, Yoongi.
– Estou bancando o carinhoso com você porque quero bancar o carinhoso com você, , então só aproveita um pouco. – Ele disse e nós nos beijamos.


Capítulo 2

Os papéis pareciam multiplicar à minha frente. Eu respirava fundo e coçava os olhos a cada trinta segundos. Estava demorando cinco vezes mais o tempo que costumava levar para ler um parágrafo simples. Se não envolvesse uma quantia grande, talvez eu me sentiria tentada a assinar a papelada sem ler o que estava escrito nela minuciosamente.
– Senhorita , – Bianca bateu na porta, permanecendo do lado de fora da minha sala. – os senhores Rossi e Romano estão solicitando uma reunião com a senhorita hoje à tarde, se possível.
– Tente marcar pras três, Bianca, por favor.
– A empresa de buffet contratada para o lançamento do novo modelo RAM quer saber se o evento continua de pé.
– Claro que continua. – Ergui uma sobrancelha. – Pode responder isso a qualquer um que perguntar algo do tipo. A programação seguirá normalmente, apenas o no comando que foi... Mudado.
– Sim, senhorita.
Ela saiu da sala e eu decidi jogar a toalha. Juntei todos os papéis e guardei na segunda gaveta na minha mesa – bem, tinha passado a ser minha naquela semana. Tranquei a gaveta e guardei a chave no bolso da minha calça. Olhei para o monitor no mesmo instante em que subiu a notificação de uma nova mensagem chegando no meu celular pelo aplicativo de sincronização. O conteúdo não apareceu, o que eu estranhei a princípio, mas logo entendi do que se tratava. Peguei o celular na minha mão e verifiquei o que tinha sido enviado para mim.

Lugar de sempre
Oito horas da noite
Esteja lá
B.


Estava demorando. Surpreendente foi os coreanos terem ido atrás de mim primeiro. Mas então eu precisava lembrar de que, formalmente, já havia feito um comunicado a eles sem consultar os italianos antes. Eu precisava mesmo era de tempo para parar e pensar no assunto, mas isso era o que eu tinha de menos.
– Senhorita , repórter do Corriere della Sera no telefone. – Bianca gritou de sua mesa, do outro lado da parede que dividia a minha sala do ambiente dela. – Posso repassar?
– Pode. – Gritei de volta e deixei a mão pronta sobre o meu telefone, que tocou logo depois. – falando.
Senhorita , Eugenio de Luca. Eu troquei e-mails com a sua equipe de comunicação pessoal. Conversei com Rachel Caputo pessoalmente na semana passada, a nossa intenção é fazer uma reportagem especial como forma de homenagem póstuma a seu pai. Ela me orientou a entrar em contato diretamente com a senhorita para conversar mais a respeito.
– Certo, a Rachel me informou por alto sobre suas intenções.
Fiquei sabendo que a senhorita vai seguir com o planejamento para a festa de lançamento do novo modelo?
– Sim, correto.
Gostaria de saber se é negociável a exclusividade de cobertura do evento.
– Posso levar a ideia para o meu conselho e repassar a decisão na próxima semana.
Perfeito, eu agradeço a disposição. – De Luca disse. – Agora gostaria de saber se a senhorita estaria disponível para um encontro pessoal a fim de conversarmos mais detalhadamente a respeito das várias possibilidades que temos para trabalhar nessa homenagem em conjunto.
– Claro, pode ser. Você tem mais alguma observação a fazer ou posso devolver a ligação para a minha secretária? Ela tem controle da minha agenda, pode fazer a programação junto a você.
Ótimo, ficaria extremamente grato. Foi um prazer, senhorita .
– Igualmente. – Falei e apertei o botão para repassar a ligação para a mesa de Bianca.
Decidi sair para o almoço mais cedo do que o previsto. Peguei o motorista disponível e solicitei que ele me levasse ao Giannino dal 1899, meu restaurante favorito, onde eu já havia efetuado reserva previamente. Fui mais do que grata por aceitarem adiantar o horário da reserva e sentei à mesa já tendo feito o pedido por saber o menu de cor. Mesmo que estivesse em um dia de trabalho, eu me permiti tomar ao menos uma taça de vinho.

Estou aguardando uma confirmação
B.


A mensagem insistente no meu celular estava acabando com a minha paciência. Eu não tinha a mínima vontade de responder. Para ser bem sincera, eu nem tinha vontade de ir ao encontro solicitado. Enquanto aguardava o meu pedido chegar, fiz uma ligação.
Senhorita , em que posso ser útil hoje?
– Lorenzo, preciso de dois códigos vermelhos pra hoje à noite. – Informei. – Preciso estar às oito no B.
Perfeito, vou providenciar, senhorita. Com motorista?
– Sim, por favor.
Estarão em sua residência às sete e aguardarão pelos seus comandos.
– Ok, Lorenzo, obrigada.
Disponha, senhorita .
Conforme ele desligou, eu abri um aplicativo de mensagens e enviei um texto breve para Dorotea, responsável por fazer os vestidos especiais que eu utilizava em eventos de gala organizados por meu pai ou seus amigos. Pedi para entrar em contato com minha secretária para combinar um bom horário entre os que ela tinha disponíveis e os que eu tinha na quinta-feira. Então o garçom chegou com o meu prato e eu agradeci com um olhar e um sorriso, ambos suscintos.
Após o almoço, de volta ao escritório da montadora, eu percebi como a atmosfera do lugar havia mudado. Não só os membros do executivo me olhavam com outros olhos, mas os trabalhadores também. De repente, quase que do dia para a noite, eles não eram mais comandados pelo temível Giuseppe , bruto em tudo, mas sim pela filha dele, , que parecia delicada demais para o cargo. Eu sabia que era isso que pensavam de mim, e sabia também que não poderiam estar mais errados.
– Senhorita , nós gostaríamos de apresentar ao conselho a proposta de nomear nossa sala de conferências como a sala Giuseppe . – Rossi disse assim que eu lhe dei a palavra em nossa reunião na tarde daquele dia.
Você me chamou aqui, interrompeu o meu dia, pra falar disso?, foi a primeira coisa que passou pela minha mente, mas eu me contive no deboche.
– Acredito que há coisas mais importantes para serem definidas no momento. – Falei, dizendo o que queria nas entrelinhas com o tom de voz alterado.
– Como o quê?
– Como a lista de convidados para o lançamento do novo modelo da RAM. – Disse e abri a planilha pelo notebook que levava comigo, cuja tela era transmitida por conexão wireless à televisão de setenta e cinco polegadas na parede do lado oposto da sala de reunião. – Eu repassei essa planilha por e-mail para vocês dois e ainda não obtive resposta sobre a necessidade de efetuar correções ou substituições nelas.
– Minha secretária está cuidando disso, senhorita . – Romano interferiu.
– Você está cobrando urgência? – Perguntei. – A confirmação de presença deve ser recolhida até sexta.
– Vamos reforçar o pedido com nossas secretárias.
– Entendem que isso é o que temos de mais importante agora? – Questionei os dois, que estavam com tanto medo de mim quanto tinham do meu pai, de uma hora para a outra, e eu realmente achava que aquilo era algo bom. – Nossa concorrência não pode sequer imaginar que temos alguma fraqueza com a troca na diretoria. Nossos clientes e fornecedores precisam confiar que estamos, mais do que nunca, sólidos. Temos contratos fechados para daqui a três anos e eles vão continuar chegando porque, em hipótese alguma, essa fábrica vai fechar, entenderam?
Os dois assentiram. Eles se olharam e mantiveram um silêncio sepulcral.
– E o relatório de caixa que eu solicitei, Rossi?
– Será enviado até o final do expediente de amanhã.
– Será mesmo? – Insisti, desafiadora.
– Nós estamos nos esforçando para cumprir a agenda, senhorita.
– Não quero que se esforcem. Quero que cumpram e ponto final.
– Sim, senhorita, vamos mudar nossas estratégias.
– Quero também um relatório minucioso sobre todos os que estão abaixo de vocês dois. Quero que cada um de vocês faça relatórios sobre os que estão diretamente sob o seu comando e ordene que eles façam relatórios sobre os que estão sob suas respectivas supervisões também, até chegar à escala mais baixa da hierarquia.
– Sim, senhorita, vamos providenciar esses relatórios com urgência.
– Alguma intercorrência que tenha comprometido, mesmo que minimamente, a cadeia de produção hoje?
– Não que seja do meu conhecimento.
– Do meu, também não. – Rossi completou. – Se houve algo, resolveram antes que ficássemos sabendo.
– Ótimo. Eu quero os relatórios sobre a movimentação do caixa dos últimos vinte meses para ontem. Vamos rever os gastos e verificar onde podemos fazer economias sem perda de qualidade aqui. E quero isso feito imediatamente. A única coisa mais importante que isso é a confirmação de presença no lançamento que vocês devem orientar as suas secretárias a fazerem até o final do expediente de amanhã, sem exceção. Fui clara?
– Sim, senhorita. – Os dois responderam ao mesmo tempo.
– Bem melhor assim. – Fiz a observação sem muita paciência. – Espero não termos outros problemas além desses nos próximos dias, não há necessidade para desandarmos agora.
Com todos os meus compromissos profissionais encerrados naquele dia, fui para casa. Os últimos empregados já estavam indo embora quando eu cheguei. Deixei o carro na garagem, tomei um banho, separei uma arma e coloquei uma roupa para o encontro que tinha marcado para aquela noite. Às sete, em ponto, os homens que fariam companhia a mim como seguranças até Pietro Bianchi se apresentaram. Não muito tempo depois, eu estava pronta para ir.
O trajeto até o restaurante de fachada no coração de Milão levou menos tempo do que o previsto, mas eu fiz questão de esperar no carro para ser anunciada na hora certa. Tinha fama de ser extremamente pontual e gostava de manter aquela reputação. Então, quando finalmente o relógio anunciou oito horas da noite, entrei pela porta principal.
– Senhorita ...
– Bianchi... – Eu acenei com a cabeça para ele. – Qual o assunto?
– Está melhor?
– Por que eu deveria estar mal? – Perguntei ao sentar na poltrona do salão nos fundos do restaurante, ajeitando a arma que deslocou-se com o movimento que eu fiz.
– Bem, eu...
– Sem falsas condolências, Bianchi. Nós dois sabemos que a única coisa pela qual você tem sentimento são as cédulas.
– Ótimo então. – Bianchi se levantou, dispensou os dois seguranças que estavam com ele, eu dispensei os meus com apenas um olhar e ele fechou a porta em seguida. – Passei a tarde de ontem conversando com Ricci, Manzino e Ferrara sobre como vamos prosseguir com os negócios daqui pra frente.
– E o que decidiram?
– Sabe que não podemos tomar nenhuma decisão sem os cinco presentes.
– Bem, tomaram a decisão de fazerem uma reunião sem mim.
, por favor, não encare as coisas dessa forma.
– Sobre o que vocês conversaram? – Cruzei as pernas após fazer a pergunta.
– Sobre os coreanos. – Ele disse e sentou de volta em sua poltrona, o que deu-me tempo para disfarçar qualquer possível reação. – , o que pensa sobre eles?
– São bons aliados.
– Só isso?
– Não acho que tenha mais o que falar sobre eles. – Dei de ombros. – As relações entre nós e os coreanos sempre foram inabaláveis, eles sempre cumpriram muito bem com a parte deles do acordo, a função deles nunca foi manchada por um erro sequer.
– Você apoia a continuação do acordo então. – Bianchi concluiu.
– Sim, apoio.
– Bem, nós quatro não apoiamos.
Respirei fundo lentamente. Na minha cabeça, planejava o próximo movimento e tentava montar uma estratégia rapidamente. Eu só tentava lembrar constantemente que precisava agir como durona, tal qual meu pai, porque era disso que eles tinham medo.
– Fui devidamente orientada pelo meu pai a seguir com o acordo com os coreanos em qualquer condição.
– Mas seu pai morreu, .
– E deixou a filha. – Insisti.
, eu não queria ir por esse caminho mas, infelizmente, é necessário. – Bianchi pegou a taça de vinho à sua frente e tomou dois goles. – Você sabe que eu tinha muito respeito pelo seu pai, e que esse respeito se mantém mesmo após o seu falecimento. Mas os outros três não são assim, não pensam assim, e eles são a maioria entre nós. E eles podem recorrer a métodos bem incomuns para fazerem verdade a vontade deles. Então preciso perguntar... É da sua vontade continuar nos negócios?
– Eu herdei os negócios, herdei essa posição. Não estou aqui por vontade, estou aqui porque é meu lugar por direito. Lugar esse que está acima do lugar que vocês ocupam, devo lembrar.
– Eles querem que você prove que merece estar aqui então.
– O que eles querem, Bianchi? Vá direto ao ponto!
– Querem que você execute os sete.


Continua...



Nota da autora: MAIS UM SURTO.





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