CAPÍTULOS: [Prólogo] [1] [2] [3]






Última atualização: Setembro/2016

Prólogo


Ouvia os passos vindos pela escada, a qual rangia vez ou outra com o peso da pessoa que subia.
A criança colocou as duas mãos em sua boca, tentando evitar que sua respiração saísse alta, que denunciasse seu esconderijo. Via pela pequena fresta do armário a luz do corredor ser tapada por algum tempo, durante o qual uma sombra era vista, parada enfrente á porta.
A pessoa resmungara alguma coisa, e a criança escutou o barulho de tiros vindo do andar de baixo.
Fechou os olhos, engolindo a vontade de gritar. Deixando as lágrimas escorrerem por seu rosto.
Pode ouvir o clique de uma arma que que era carregada, ouvia os pequenos estalos de quando a sombra colocava munição na mesma.
Sentia seu próprio suor cair lentamente por seu rosto, assim como sentia seus cabelos ficarem gradativamente molhados.
Seu coração entretanto, batia acelerado, fazendo-a ter medo de que o intruso pudesse escutar.
Tentou respirar fundo, e fechou os olhos com força por breves momentos, abrindo-os em seguida e vendo o dono da sombra dar passos lentos para dentro do quarto em que estava.
Era como se o mundo estivesse silencioso, tudo o que ouvia eram as fortes batidas de seu coração.
A pessoa virou-se em sua direção, de dentro do armário, a provável vítima, rezava para que não fosse vista. Fechou os olhos e deixou que as futuras cenas do que viria a seguir passassem por sua cabeça, quase podia ver as notícias nos jornais;


“Assassino foragido mata quatro pessoas...”
“Vítima escondida dentro do armário teria testemunhado as outras mortes...”
“O socorro não chegou a tempo...”


Quando abriu os olhos, o castanho encontrou-se com o azul do assassino, o qual parecia calmo e relaxado, como se fosse apenas mais uma brincadeira de pique esconde;
- Achei! – viu os lábios finos mexerem-se minimamente, e a voz baixa chegar aos seus ouvidos. Um arrepio passou por todo seu corpo.
A porta do velho armário de madeira foi aberta lentamente.
Ao que tudo indicava, o assassino iria brincar mais um pouco antes de matar sua última vítima.


Capítulo 1


O homem estava concentrado no movimento da rua, embora o mesmo fosse nulo, não tirava os olhos da estrada. Lembrava-se e repetia mentalmente passo a passo de todas as aulas teóricas e práticas que tivera anos antes, quando tirara sua licença para dirigir.
Donahan era um homem metódico, detalhista.
sofria de Transtorno Obsessivo Compulsivo.
Tudo precisava sair exatamente como ele imaginara, nada poderia jamais sair do ‘plano’, ou tudo ficaria extremamente confuso para ele.
tinha sido uma criança complicada, não tivera muitos amigos.
Não tivera muitas namoradas na adolescência.
Seus pais tinham se esforçado muito para ajudá-lo, seu pai trabalhava nos finais de semana e sempre fazia hora extra para poder pagar as consultas do filho com a psicóloga.
Tinha sido difícil, mas saíra-se melhor do que esperavam.
Contanto que tudo estivesse dentro do plano, não perderia o controle.
Mesmo depois de adulto continuara frequentando a clínica, menos vezes do que antes, mas era um habito que tinha adquirido e não o perderia.
Fora assim que conhecera , cerca de dois anos antes.
Lower agora era sua esposa.
A Sra. Lower-Donahan estava começando suas consultas na clínica quando esbarrara em , em uma tarde ensolarada de primavera.
havia se separado a poucos meses do primeiro marido, com o qual tivera o pequeno – com seus recém oito anos completados. Se pudesse voltar ao tempo, jamais teria se casado com o pai de seu filho, foi imprudente, - mas quando se descobre que está grávida antes de completar 23 anos e vive em uma família tão religiosa quanto à dela, o casamento com o namoradinho parece bastante apropriado.
, diferente de , era uma mulher muito segura de si.
Já com seus 31 anos a mulher tinha cabelos curtos e lisos, embora ela adorasse fazer grandes cachos nas pontas, não era sempre que ela passava no salão para retocar a raiz, como acontecera nas duas últimas semanas.
Com a mudança tão próxima não teve tempo de ir ao cabeleireiro, ou a manicure.
Não que se incomodasse, ás vezes ela pensava que por mais detalhista que ele fosse, ainda não perceberia certas coisas, a cor natural de seus cabelos vermelhos – que na verdade seriam castanhos escuros – era uma delas.
Ela estava entretida tentando ouvir a notícia sobre a forte chuva que atingia boa parte do país pelo rádio do carro, quando começou a ouvir um barulho estridente e irritante.
- , querido, pode brincar com isso mais tarde? Estou tentando ouvir o noticiário...
O garotinho bufou baixo, deixando o brinquedo rolar por suas mãos até cair no chão do carro. Mexeu-se um tanto inquieto no banco de trás, o cinto apertando sua barriga o fazia ter vontade de fazer xixi - ou talvez fosse o excesso de refrigerante que tomara na última parada, cerca de duas horas antes.
costumava ser um garoto como qualquer outro; esperto, risonho e brincalhão.
Adorava ir para á escola e tinha muitos amigos. Falava rápido e detestava quando não prestavam atenção no que ele dizia, porém tudo mudara no último ano, por duas razões;
A primeira: Seu pai havia tirado a própria vida, oito meses atrás, enquanto o garotinho dormia no quarto ao lado. A segunda, e mais importante: Sua mãe se casara com .
não gostava de , ele era estranho e por vezes repetia as mesmas frases, todas sem qualquer sentido em sua opinião.
era uma das razões da viagem que estavam fazendo naquele momento, um dos motivos para estarem se mudando. estava certa que morar em uma nova casa, em uma nova cidade e conhecer novas pessoas, ajudaria todos a esquecerem um pouco de tudo o que ocorrera no último ano, e voltaria a ser a criança adorável que costumava ser.
O garoto duvidava que isso pudesse acontecer, não enquanto morasse com eles.
talvez fosse novo para entender o quanto aquela palavra era forte, mas ele odiava Donahan. Sempre o culparia pela morte do pai.

A chuva que tinha parado por trinta e três minutos – tempo que Donahan conferiu no relógio no painel do carro – havia voltado com força, o que prejudicava sua visão e o fazia prestar ainda mais atenção na estrada.
- Tem certeza que não quer que eu dirija? – questionou docemente.
- Na próxima parada você pode pegar. – respondeu rapidamente sem tirar os olhos da estrada.
estava entediado em seu lugar, mas distraiu-se com algumas gotas na janela. Começou a apostar corrida contra si mesmo ao escolher uma das duas, a qual, ele tinha certeza, escorreria mais rápido.

BAM.

O barulho alto do pneu estourando vez gritar assustada, bater a cabeça contra o vidro, e começar a falar em voz alta passo a passo do que deveria fazer naquele momento para estacionar o carro com segurança.
- O que foi isso? – a mulher perguntou, mas não obteve resposta. O marido saiu de dentro do carro para olhar o problema, agachou-se ao lado do pneu direito verificando o acontecido.
Estranhou ao ver algo prateado preso no mesmo, puxou-o com cuidado e franziu o cenho no mesmo segundo. Levantou-se confuso, segurando o objeto e mostrando para os dois no carro.
- É um sapato. É um salto alto.


A mulher dirigia em alta velocidade, queria sair o mais rápido possível daquela cidade, odiava aquele lugar. Odiava a vida que estava levando.
Odiava aquela situação em que se encontrava.
E, para piorar, não estava encontrando o isqueiro para acender o cigarro.
Já era a segunda vez que escutava a mesma música em um espaço de mais ou menos vinte minutos, gostaria de saber por qual razão as rádios repetiam músicas seguidamente, aquilo á irritava. Se quisesse ouvir a mesma música tantas vezes compraria um CD e pronto.
Fora como um estalo em sua cabeça, de repente lembrara-se de onde tinha guardado o isqueiro; tinha o usado para acender a vela do bolo na noite anterior, durante a festinha.
Olhou pelo retrovisor, não tinha nenhum carro naquela estrada.
Virou a cabeça para o banco de trás, tentando puxar sua mala, abriu-a com certa dificuldade, encontrando o que precisava no topo de suas roupas, as quais voaram no instante seguinte.
Maldito vento, maldito carro conversível.
Seu vestido vermelho preferido tinha voado, assim como uma camisola e um de seus sapatos de salto.


estava tendo certo problema para trocar o pneu, o macaco era muito mais difícil de ser manobrado do que ele esperava que fosse.
estava ao seu lado, segurando um grande guarda-chuva preto, embora o marido não estivesse muito preocupado com a chuva – e já estivesse totalmente molhado, ela estava lá mais pelo apoio moral do que por achar que poderia ajudá-lo em algo. Achava importante mostrar para ele que ela sempre estaria ao seu lado, sabia que isso sempre o deixava mais calmo.
afastou-se um pouco do homem, após alguns minutos ao seu lado, para olhar o pequeno , o qual continuava quente, seco e seguro dentro do automóvel.
O garotinho olhou-a com um pequeno sorriso nos lábios, esticando o braço até colocar a palma da mão contra o vidro do carro.
Rach sorriu achando o gesto bonito, distraiu-se esticando o braço e repetindo o movimento, colocando a mão contra o vidro, no mesmo local que o filho.

BAM.

piscou os grandes olhos verdes lentamente, abriu a boca e continuou olhando para o local que segundos atrás sua mãe estava parada.
levantou-se tremulo, andando até o local em que sua mulher estava jogada ao chão.
Olhou envolta transtornado, vendo uma Mercedes Benz M preta parada alguns metros á frente, o sinal de alerta ligado.

Capítulo 2


A chuva cada vez mais forte dificultava sua visão, não conseguia ver muito mais do que dois metros à frente. E ainda ouvia toda a conversa vinda do banco de trás, embora tentasse se concentrar apenas na estrada. Não queria prestar atenção nos problemas da mulher temperamental que precisava levar por mais 200 quilômetros.
Tinha seus próprios problemas para pensar, como quando poderia rever seu filho, por exemplo. Já faziam duas semanas que não o via e mal conseguia conversar com o garoto ao telefone. Perdera seu aniversário devido ao trabalho e não achava que a mãe da criança ficara feliz com isso.
Sabia o quanto a ex queria que ele fosse embora e nunca mais voltasse, desejava seguir a vida com o filho sem precisar conversar com , sem precisar encontrá-lo.
E, infelizmente, embora ele fizesse de tudo para tentar se manter o mais próximo possível, não só do filho, mas dela também, a mulher fazia todo o possível para afastá-lo. Era claro para ele que ela já não nutria os mesmos sentimentos de antes para com ele, mas seu coração e sua mente não pareciam entender e aceitar isso, continuava a amando mesmo sabendo que não era recíproco.

continuava a gritar no celular, não conseguia conformar-se com a incompetência de seu agente.
Não era possível que Owen, atriz mundialmente conhecida, ganhadora de um Oscar, dois Globos de Ouro e escolhida a mulher mais sexy do planeta – seis anos antes – não conseguisse mais do que um papel coadjuvante em um filme de um diretorzinho que estava começando.
Em sua opinião estava trabalhando de graça, era óbvio para que ela seria a responsável por conseguir levar o filme ao topo, a garota principal era ridícula e atuava mal, só conseguira o papel porque era a nova puta preferida de Frank Jr., diretor e roteirista, conhecido por dar fama às novatas, enquanto se divertia com elas nos bastidores.
Queria poder recusar o filme, não deveria aceitar trabalhar por 50 mil mensais. Merecia muito mais, era uma atriz do primeiro escalão de Hollywood! – Ou fora, há quase uma década.
Mas permanecer no topo não era mais tão fácil, e não podia se dar ao luxo de recusar o papel depois de tanto tempo sem trabalhar, porém não abriria mão de seu hotel cinco estrelas ou de seu camarim equipado!
- Alô? Alô? – gritou irritada quando parou de ouvir a voz do agente, olhou para o aparelho e constatou que a bateria tinha acabado. Furiosa, gritou para o motorista, o qual não fazia questão de lembrar o nome – Pegue na minha bolsa o outro aparelho! Rápido!
, distraído, demorou pouco mais de trinta segundos para entender o que a mulher de cabelos ruivos e volumosos falava. Olhou para o lado vendo uma bolsa azul turquesa no banco do passageiro. Olhou para a estrada e então meteu a mão no zíper na bolsa de alguma marca famosa, o qual ele não reconheceu, com certa dificuldade – e depois de muitos gritos histéricos de – finalmente conseguiu abrir, mas estava uma bagunça. Quinhentas coisas dentro, entre maquiagens, papéis e acessórios, conseguiu encontrar o celular jogado ao fundo, quase escondido.
Virou-se com o objeto em mãos, para entregar a mulher.

BAM.

freou assustado, as duas mãos no volante, o olhar estatelado e a respiração subitamente ofegante.
gritou exasperada, acabara de bater com a cabeça do banco da frente.
Olhando pelo retrovisor, embora a chuva continuasse intensa, o motorista conseguiu ver algo – ou alguém – caído poucos metros atrás do carro.
- Acelera! Acelera! Vai! Vai!
O homem ignorou o pedido, retirando o cinto de segurança, abriu a porta do carro e ao colocar o pé no chão, notou o quão tremulo ficara.
- O que está fazendo? Eu disse para continuar dirigindo, me obedeça ou perde o emprego!
- Espero que você saiba dirigir. – respondeu com a voz dura, batendo a porta em seguida.

Danohan voltou a olhar para a mulher desacordada e cheia de sangue.
Agachou-se ao seu lado, passando as mãos pelo rosto da esposa, sem saber o que fazer.
Escutou um barulho e logo pode ver um homem saindo da Mercedes, andando nervosamente até os dois.
- Eu sinto muito! Eu realmente sinto muito! Não a vi... – dizia apressado, arrependido e desesperado. O que tinha feito?
- Ela... Ela...? – não conseguia terminar a frase.
- Não! Não, ela está inconsciente! – declarou após checar o pulso da mulher. – Mas precisamos levá-la ao pronto socorro, rápido!
, por ser mais alto e, visivelmente, mais forte, pegou a mulher no colo e a carregou até seu carro, mas tinha se trancado no mesmo, não permitindo que ele deixasse uma mulher cheia de sangue manchar o banco do veículo.
Antes de mandar a mulher á puta que pariu, e pensando no quanto precisava do emprego, respirou fundo e andou até o carro de , colocando-a no banco de trás, próxima ao garotinho que ali estava.
Deu um leve sorriso para o menino, pedindo para que ele cuidasse da mulher, pois ela estava machucada. acenou com a cabeça, passando a mão pelos cabelos molhados da mãe.
segurou Danohan pelos ombros, olhando diretamente em seus olhos.
- Você consegue dirigir? Têm um motel mais a frente, estava pensando em parar lá para dormir essa noite, mas agora podemos ir pedir informações sobre o hospital, não vi nenhum quando estava vindo...
concordou com a cabeça, a mente ainda embaralhada e confusa com tudo o que estava acontecendo.
- A propósito, meu nome é .

O motorista dirigia apressado, ignorando os gritos da mulher no banco de trás, via pelo retrovisor o Ford azul escuro seguindo-o, embora um pouco mais devagar. A chuva parecia ainda mais forte e os pingos grossos atrapalhavam sua visão, o limpador do para-brisa ajudava, mas não era suficiente para deixá-lo ter uma visão ampla da estrada por mais de três segundos. Sentia o coração acelerado pelo acidente e a cabeça trabalhando rapidamente.
Precisavam chegar ao hospital o mais rápido possível, ou a mulher não sobreviveria.
sabia que não poderia ser preso, fora um acidente.
Mas a simples ideia de causar a morte de alguém de uma forma tão tola, o desesperava. Fora por isso que deixara a polícia de Chicago, não aguentava mais lidar com tantas mortes.
Pensando mais amplamente, sabia que seria processado; pelo acidente e pela mulher ruiva que ainda tagarelava indignada no banco de trás. o culpava pelo acidente, pelo atraso para chegar ao hotel cinco estrelas que deveria estar hospedada, pelo celular sem bateria e até pela chuva.
Por duas vezes respirou fundo e tentou relembrar momentos mais felizes, caso contrário mandaria a atriz se foder, e não podia se dar ao luxo de ser desempregado.
O salário era bom demais para dispensá-lo.
Precisava pagar as contas.
Precisava mandar dinheiro para a pensão.
E, definitivamente, precisava ver o filho o mais breve possível.
Mas no momento, tudo o que precisava, era chegar ao maldito motel e conseguir informações para chegar ao hospital.
Se a mulher morresse por sua culpa...

falava coisas desconexas em voz baixa, suas mãos tremiam e ele segurava com mais força o volante.
Tinha o corpo inclinado ligeiramente para frente e os olhos semicerrados para olhar a estrada. Via as luzes do carro preto á frente, olhou rapidamente para o painel do carro, estava dirigindo à 80km/h, o carro da frente não estava a menos de 140km/h, tinha certeza.
Olhou brevemente para sua esposa, ensanguentada no banco de trás.
O que faria se ela morresse?

Depois de vinte minutos, que parecera mais longa do que a maldita viagem com a atriz, finalmente viu a entrada do motel, acelerou mais um pouco e estacionou o carro de qualquer jeito um pouco depois da entrada. Abriu a porta e correu em direção à recepção do lugar, gritando por ajuda.
Pouco mais de 40 segundos depois um homem saiu de uma porta lateral, secando as mãos da calça jeans.
O homem devia estar na casa dos 40 e poucos, o cabelo castanho claro começava a ficar branco e as entradas em sua cabeça estavam um tanto visíveis. A camisa listrada de botões não era suficientemente larga para cobrir sua barriga de cerveja, de modo que os dois últimos botões estarem abertos.
- Preciso chegar ao hospital, com urgência!
O homem negou com a cabeça.
- Impossível, a estrada está bloqueada devido à chuva. Você teria de voltar quase 300 quilômetros para encontrar um, duas cidades daqui.
abriu e fechou a boca rapidamente, um arrepio passou por sua espinha.
- Você não está entendendo... – sua fala foi interrompida pelo barulho do outro carro estacionando, saiu do Ford e correu em direção à recepção, limpando seus óculos grandes de armação bege.
- Para que lado fica o hospital?
- Acabei de dizer para esse senhor, o mais próximo fica duas cidades daqui, vocês teriam de fazer o retorno... – o recepcionista começou, então olhou de um para o outro. O primeiro homem, o qual usava um terno preto e camisa social branca, tinha as mãos sujas de sangue, assim como a camisa. – O que aconteceu?
- Um acidente, precisamos de socorro imediato, a mulher dele está muito mal...
O recepcionista olhou-os por um tempo, puxou o telefone do gancho e discou o número da emergência. Colocou o aparelho no ouvido e esperou o toque, o qual não veio.
Franziu o cenho e olhou para o aparelho, discando novamente.
Esperou e nada.
- Está mudo... – mostrou para os homens.
pegou o aparelho e tentou discar, sem sucesso.
- Talvez seja problema na linha, com essa chuva pode ter caído algum poste..
. passou as mãos pelos cabelos molhados, pensando no que fazer para tentar melhorar a situação.
sentou-se em uma cadeira próxima a porta, os cotovelos nos joelhos e o corpo inclinado para frente, à cabeça baixa, escondida pelas mãos.
- Eu sinto muito, mas o máximo que posso oferecer é um quarto ou dois...

Capítulo 3


A mulher dirigia com rapidez, queria afastar-se o mais breve possível daquele lugar. Já estava começando a sentir fome quando os primeiros pingos de chuva começaram a molhar seus cabelos. Felizmente conseguira fechar a capota do conversível antes da chuva piorar, cerca de cinco minutos depois.
Fazia mais de uma hora que seguia reto naquela estrada, o céu já estava escuro e ela pouco enxergava devido às gotas grossas que caíam no para-brisa.
A luz alta dos faróis não ajudavam muito, iluminavam pouco mais de um metro a frente, mas com a rua vazia, aquilo era uma preocupação a menos.
Seu estômago roncava e a sinalização era nula, não tinha visto nenhum posto de combustível ou qualquer outra coisa nos últimos 70 km que percorrera, já tinha considerado parar o carro no acostamento e dormir ali mesmo, mas a fome era maior que seu sono. Precisava encontrar alguma comida, não se alimentava desde a festa ás quatro horas da tarde no dia anterior, na qual estava ocupada demais para realmente comer alguns dos salgados ou mais de uma fatia de bolo de morango.
Sentiu o estômago roncar ainda mais alto, e colocou a mão na bolsa no banco ao lado, procurando alguma goma de mascar ou bala de hortelã, qualquer coisa que enganasse seu cérebro a ponto de sentir-se satisfeito com a refeição.
O que, obviamente, não aconteceria.
Quando olhou para frente, depois de desistir de encontrar algum doce, precisou pisar no freio e olhar com mais atenção o que estava acontecendo;
A ponte estreita de madeira, que deveria estar ali segundo o Google Maps, tinha sido levada pelo rio, que transbordara com a chuva. Não parecia um espaço muito longo para passar com o carro, talvez uns cinco ou dez metros, sabia que não era fundo - já tinha passado por aquela ponte semanas atrás -, mas não sabia se seu carro aguentaria o “passeio”.
Resolveu esperar um pouco para ver se a chuva diminuiria e com isso o rio baixaria o volume, mas trinta minutos se passaram até ela desistir, começando a dar a ré para retornar – torcendo para encontrar um posto de combustível, ou sua viagem terminaria ali no meio do nada –, quando foi virar o volante o carro, o pneu acabou deslizando em uma poça maior, fazendo-a perder o controle do automóvel momentaneamente e acertar um poste de madeira, logo atrás, o qual nem tinha reparado existir.
Ouviu um barulho alto e, pelo espelho retrovisor direito, algumas faíscas saírem dos fios, antes de dois cabos se soltarem.

O homem deixou a mulher na cama de casal do quarto 208, e pediu para o recepcionista ajudar com o que ele precisasse, enquanto o motorista estivesse fora. sentou-se no canto da cama, próximo a cabeça da esposa, limpando um pouco do rosto machucado da mulher desacordada. Timmy estava sentado no sofá ao canto, próximo à televisão antiga de quatorze polegadas.
- Vou tentar buscar alguma ajuda, precisamos de um médico! – disse antes de sair do quarto, seguido pelo dono do motel, .
- Estou dizendo, a estrada está bloqueada...
- Vi um caminho alternativo alguns quilômetros daqui, vou tentar por lá, talvez a estrada esteja aberta...
- É a passagem do rio, é provável que tenha transbordado, estou te dizendo é perda de tempo...
- Preciso tentar! Aquela mulher é minha responsabilidade, não posso ficar aqui de braços cruzados sabendo que cada minuto conta! – disse de forma rude, não dando espaço para o outro argumentar, apenas concordou com a cabeça. estava andando de volta para a entrada do motel quando se lembrou de alguém – Será que pode me arranjar mais um quarto? Tenho mais uma pessoa para deixar... – apontou com a cabeça para seu carro, olhou com atenção, podendo ver uma sombra no banco de trás.

abriu a boca assim que entrou no quarto 205, viu a cama de casal com aquela colcha de renda horrível, a televisão pequena e fora de época. O cheiro de mofo a fez espirrar.
- Você não está esperando que eu fique aqui? – virou-se para o motorista que arrastava suas bagagens para o quarto.
- disse que é o melhor quarto que têm, é isso ou ficar lá fora na chuva.
- Você se acha muito importante, não é? – colocou as mãos na cintura, andando envolta do homem. – Mas saiba que se eu estalar os dedos você está no olho da rua, ou na cadeia. Posso te acusar de sequestro, ou de tentativa de estupro, ou...
- Ou eu posso dizer em algum jornal que você quis fugir do local do acidente, deixando uma mulher ferida que poderia estar morta. – olhou-a profundamente, a sobrancelha arqueada e a pose durona e intimidadora.

Owen abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. Aproveitando o silêncio temporário da mulher, o motorista virou-se abrindo á porta do quarto;
- Pela manhã eu te levarei até seu hotel, até lá você pode ficar aqui e ver um pouco de televisão... – apontou com a mão para o aparelho, mordeu a língua para não dizer à frase que estava quase pulando para fora, “é tão fora de época que talvez tenha algum dos seus trabalhos".

Olhava atentamente para a rua mesmo sabendo que estava vazia, afinal fora em uma estrada “vazia” que tudo aquilo começara. A chuva tinha dado uma diminuída quando finalmente encontrou a bifurcação, cerca de 20km do motel em que parara. Precisou rodar cerca de trinta e oito minutos até encontrar a ponte que comentara, e próximo a ela um carro fechado, batido em um poste. O possível responsável pelo telefone mudo.
Diminuiu a velocidade quando viu a porta do conversível abrir e uma mulher sair de dentro, colocando a toca da jaqueta que usava, acenou para ele.
abriu a janela do lado do passageiro para falar com ela.
- Pode me dar uma carona? Meu carro já era! – apontou com a mão, o homem não conseguia vê-la direito devido a chuva e a falta de luz, e precisou de alguns segundos para entender o que ela falara, visto que ela falou em voz baixa e bem na hora ouviram uma trovoada forte.
- Estou tentando chegar ao hospital! – respondeu olhando para frente.
- Você não vai conseguir passar, o rio transbordou, é loucura! – avisou-o, mas ele não deu atenção.
- O carro não é meu... – deu de ombros começando a acelerar, a mulher recuou.
Não entraria no carro se aquele cara iria realmente tentar passar pelo rio, e se a correnteza o levasse? Voltou para seu carro em tempo de ver o homem dando a ré e então acelerando para passar pelo rio, estava indo bem... Avançara quase dois metros até o carro enguiçar e a água começar a invadir.
tentou acelerar, mas a água já estava no motor, não conseguiria ligar mesmo que passasse o resto da vida tentando. Ficou bons dois minutos ali até desistir por completo.
Soltou o cinto de segurança e abriu a janela do seu lado, já sentia a água gelada no seu tornozelo. Com agilidade conseguiu passar a cabeça, braços e tronco pela janela, ficando momentaneamente sentado sobre a mesma, até conseguir puxar as pernas e sair por completo do veículo. Olhou envolta, vendo a mulher ligar os faróis do carro, tentando ajudá-lo a enxergar algo na escuridão em que se encontravam.
Logo em seguida ela saiu do veículo novamente vindo até próximo da onde ela estava, caso precisasse de ajuda devido à correnteza.
Ela ofereceu a mão quando o viu escorregar no pequeno barranco enlameado que se formara, segurou com firmeza, fazendo com que ela desses dois passos para frente, devido ao esforço.
Assim que conseguiu sair por completo, totalmente encharcado e gelado, o motorista levantou o olhar para agradecer a mulher. Olhou-a desde os pés, nos quais ela usava um tênis gasto, até a cabeça, reparando nos olhos castanhos brilhantes que ela tinha;
-?

Continua...



Nota da autora: 26/09/2016

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