Ultima atualização: 04/06/2020

Prólogo

“Sombria não é aquela noite escura e aterradora, mas aquela pessoa que carrega o ódio no coração.”
Jader Amadi


O cheiro de sangue já estava impregnado no ambiente. Dois corpos caídos sem vida em suas respectivas poças do líquido vermelho escarlate. O terceiro, de joelhos perante ela, esperava sua hora. Sabia que iria morrer. A questão era somente o tempo que isso levaria para acontecer. Observava a garota à sua frente. Imponente, decidida.
Em seus olhos nenhum resquício de piedade. Nem sequer algo que provasse que ali dentro do corpo esguio e pequeno, havia um pingo de humanidade. A arma, apontada para sua cabeça, o fazia questionar a burrice de seus atos recém quistos, porém nunca concluídos. À noite, de fato, não terminaria como planejou durante tanto tempo. Sequer teria um fim para ele. A escuridão eterna, para ele, se iniciaria dali poucos instantes. Respirou fundo uma última vez e clamou aos céus por alguma piedade. Mas ele sabia que, se existisse um Deus, não seria para ele que seu olhar estaria voltado. Não depois de tudo o que fizera durante sua miserável vida. Era um homem orgulhoso. Um homem que jamais abaixou a cabeça para mulher alguma, e hoje, estava de joelhos diante de uma garota, de no máximo 20 anos, esperando qual seria a hora em que ela decidiria que ele deixaria de viver. Não que sua existência fosse de fato fazer falta a alguém. Era um criminoso, culpado de atos terríveis. Sua morte mais traria paz do que qualquer outra coisa. Um som, além do de sua respiração descompassada e da forte chuva que caia sem piedade do lado de fora do galpão abandonado, o fez engolir em seco.

Uma risada.

Sentiu um arrepio mais forte do que todos que sentira durante a noite. Se tinha alguma esperança de sair vivo da merda em que ele próprio havia se enfiado, ela se esvaiu totalmente no instante em que a doce voz feminina reverberou em seus ouvidos.
- Olha pra você. - ela começou, com a voz divertida. - Acostumado a ter mulheres aos seus pés, usá-las como brinquedo, moedas de troca... tratá-las feito lixo e hoje está aqui, cheirando a xixi enquanto chora como um bebê. - a arma fez mais pressão em sua testa, o fazendo cerrar os olhos com força, sentindo o tremor em seu corpo se intensificar. - Você é um nojento de merda que merecia muito mais do que uma bala na cabeça. Sorte sua que eu não tenho tempo pra me divertir te fazendo sofrer. Espero que tenha aproveitado sua vida de merda, porque ela acaba agora. - o som do tiro ecoou alto pelo saguão vazio ao mesmo tempo em que o corpo do homem caia ao chão. A garota sequer piscou. Olhou para o corpo velho sendo banhado pelo sangue e se permitiu ter a visão prazerosa que era vê-lo morto por breves segundos, antes de virar as costas e rumar para fora do velho galpão. Antes de sair de encontro a chuva, pegou o pequeno aparelho celular que estava em seu bolso e digitou uma mensagem ao número tão conhecido e odiado em sua agenda.

"O trabalho está feito."


Capítulo 1

Aprendera a apreciar a noite da grande Londres. Quando chegou, seis meses atrás, a odiava com todas as forças. Não pela cidade em si, mas pela nova realidade à qual seria apresentada morando nela. Aprendeu a gostar do lugar, visando manter o pouco de sanidade que lhe restara. Há seis meses, perdeu a única pessoa por quem valia a pena ficar viva. Mas por ela também, e disso não se arrepende, fez dívidas que só seriam quitadas quando estivesse à sete palmos do chão. Talvez nem assim.
Sentiu a brisa gelada da noite Londrina lhe atingir a pele exposta onde o grande e grosso casaco preto que vestia, não conseguia cobrir. Respirou fundo e olhou para a cidade abaixo de si. Era linda, imponente... grandiosa. Poderia facilmente amar Londres, se não fosse, claro, pelas circunstâncias que a faziam ser obrigada a morar nela. Outra brisa gelada a atingiu, fazendo um arrepio descer por sua espinha. Conforme a madrugada ia anunciando sua chegada, o frio se tornava mais intenso.

Isso a encantava, o frio.

- Você não deveria ter voltado a ativa tão cedo. - Olhou para o lado ao ouvir a voz de Ander, seu amigo, e só então lembrou onde e com quem estava. Ele a fitava sério, enquanto segurava o cigarro de maconha entre os dedos de uma das mãos e estendia em sua direção, ela o tomou de sua mão e rapidamente o levou a boca, dando uma tragada e fechando os olhos em seguida, sentindo o torpor que a fumaça causava em seu organismo enquanto prensada por ela. - Caralho, que frio. - Ander resmungou, apertando o grosso casaco ao redor do corpo. sorriu soprado e soltou a fumaça da tragada recente, observando-a desaparecer por entre a escuridão. Devolveu o cigarro para o amigo, que o pegou de prontidão.
- Eu 'to bem. Se ficasse mais tempo parada ia fazer, segundo você e Celeste, a maior burrada da minha vida. Mataria minha mãe. - a última palavra saiu como ofensa dos lábios da garota, junto a careta desgostosa em sua face. Somente por chamar aquela mulher de mãe, seu estômago revirava tamanho nojo que carregava por Samantha. Ela não merecia ser chamada de mãe. Não depois do que fez.
- Se você realmente estivesse bem eu não precisaria estar aqui.
- Se o Falconne não acredita nisso problema é dele. Não meu. Eu sei que ‘to bem. - , dessa vez, arrancou o cigarro de Ander, ele riu. Não soube o porquê, mas achou engraçado. Talvez fosse o efeito da erva fazendo efeito em sua cabeça, ou talvez porque conhecia muito bem e não creditou em nenhuma palavra dita por ela.
- Não, gata, você não ‘tá bem. ‘Tá operando em modo louco. Você sabe do que ‘to falando. - bufou. Estava farta das pessoas achando que sabiam mais de seus sentimentos do que ela própria. - O Falconne tem razão de se preocupar. Se não fosse a Sky ter conseguido invadir o sistema de câmeras antes da polícia encontrar os corpos no último trabalho que você fez sozinha, você estaria presa.
- Você realmente acha que ele se preocupa comigo? - ela o fitava realmente incrédula. Ander assentiu. - Ele se preocupa é com o dinheiro e com tempo que gastou me transformando em uma Falcon. Não comigo em si. Eu o odeio e tenho certeza que o sentimento é recíproco.
- Você é a única da equipe de limpeza que o conhece além de mim, . Você sempre teve contato direto com ele desde que... - uma pausa foi feita, não era hora para tocar naquele assunto. Talvez nunca seria. Era delicado e Ander sabia. - Bom, você sabe. Você é uma das protegidas dele.
- Sim, porque eu mato quem ele manda matar sem questionar. Porque ele me fez assim. Não ache que tem algo a mais nisso. - Ander ergueu as mãos em rendição. A conversa havia acabado. Quando a garota se exaltava era hora de parar. A conhecia muito bem para entender e compreender seus momentos e sentimentos. O frio àquela hora era cortante, somado a altura em que estavam, ele duplicava. O terraço do prédio em que Ander morava era o refúgio para onde corria quando estava prestes a ceder as obscuridades que em sua mente residiam. O silêncio se fez presente e ambos se contentaram em observar o restante da madrugada naquele lugar, em silêncio. Embora, em suas mentes, houvessem gritos e lembranças de dias que nunca poderiam se apagar.

🔥

Não se orgulhava da pessoa que havia se tornado. Não se orgulhava do que fazia, tampouco da vida que levava. Mas sabia que toda ação tem uma reação e, em consequência de sua ação desesperada para tentar salvar a vida de seu pai, teria consequências que perpetuariam por toda sua vida. Quando se meteu com Frederick Falconne, foi com um objetivo claro em mente: Pagar o tratamento de uma doença que seu pai tinha. E ela o fez, obteve êxito. O tratamento foi eficaz e lhe permitiu alguns anos há mais com o homem que lhe criou sozinho, e mesmo com todas as dificuldades impostas pela vida, lhe deu tudo. Ele era sua âncora, mantinha-lhe estável em meio às tempestades que desde sempre sondavam sua mente turbulenta. Era sua bússola, lhe ajudando a encontrar o caminho de casa sempre que se perdia pagando pelo o que havia lhe proporcionado o benefício de anos há mais. Mas a vida, ela é trágica. Pelo menos para . Segundo ela, a vida acharia uma forma de lhe punir pelos maus que causara em prol de seus próprios desejos, sempre soube disso. Mas não estava preparada para quando aconteceu. A vida lhe tirou seu pai de outra forma. Um acidente de carro lhe ceifou a vida, deixando uma completamente devastada e sozinha para lidar com a dor. A dor de perder quem sempre foi seu Norte. Seu herói. Seu melhor amigo. E foi lembrando do pai que saiu do apartamento de Ander às 4 horas da madrugada, rumando sozinha pelas ruas de Londres em direção à casa na qual morava. Não demorou muito para avistar os portões imponentes do condomínio luxuoso. Sempre que passava por ele, o ar em seus pulmões se comprimiam. Odiava aquele lugar. Odiava ter que morar ali. Odiava não ter opção. Conforme se aproximava da residência, notou um Bugatti Chiron - reconheceria em qualquer lugar - preto, estacionando em frente a mesma. Revirou os olhos e pensou em dar meia volta quando teve a certeza de que ele estava ali. Conviver com Samantha não era nada agradável. Conviver com Samantha e Hector, o marido milionário por quem foi abandonada, era horrível. Agora, passar mais de 10 minutos com Samantha, Hector e - o filho pródigo de seu padrasto e criado como filho pela mãe que a rejeitou, era, de fato, insuportável. Metido, arrogante e um tanto quanto narcisista, era tudo o que desprezava. Respirou fundo e seguiu em direção à porta de entrada, retirando a chave que estava em sua posse do bolso do casaco e colocando-a na fechadura, tentando fazer o mínimo de barulho possível durante o processo. Assim que entrou em casa, o ar quente a abraçou e o frio de Londres ficou do lado de fora. rapidamente trancou a porta e seguiu rumo as escadas, querendo acima de tudo um banho quente e sua cama. Mas, quando estava prestes a subir o primeiro degrau, notou uma movimentação na divisão que separava a sala de estar, que era onde estava, da cozinha. Não iria parar, no entanto, pela sua visão periférica já o havia reconhecido. Não estava com saco para aturar . Não agora. E nem nunca, se pudesse escolher. Mas não compartilhavam do mesmo pensamento, já que se fez ser notado não somente pela presença, como por sua voz que se fez presente assim que percebeu que a garota não iria parar.
- Boa noite pra você também, . Perdeu os bons modos que ainda tinha? - assim que a voz rouca do rapaz - que em qualquer mulher causaria reações diretas em seus ventres, mas que em causava repulsa – ecoou pelo cômodo silencioso, a garota parou e girou nos calcanhares, fitou e o mesmo carregava um sorriso irônico nos lábios bonitos.
- Você não vale o esforço que teria que fazer para usá-los. – Retribuiu o falso sorriso e voltou a subir os degraus. O homem gargalhou.
- Afiada como sempre. Vejo que nada mudou por aqui. – Ele andou poucos passos até ficar no pé da escada, e olhava a garota continuar a subir sem lhe dar atenção. – Mas me diz, , o que você tanto faz pelas madrugadas de Londres? Não é a primeira nem a segunda vez que passo a noite aqui e você chega nesse horário. - parou, novamente. O pouco de paciência que lhe restava se esvaindo conforme olhava seriamente para o homem que tinha o semblante sereno aguardando por sua resposta. Ele certamente sabia que não viria. Mas era divertido, para ele, deixar a menina estressada. Já havia tentado uma aproximação assim que a garota veio morar com sua madrasta e, consequentemente, com seu pai. Mas nunca lhe dera uma brecha sequer. Sempre com respostas prontas e língua afiada. Por mais que entendesse o que sentia em relação à mãe, não achava correto o modo que ela a tratava e, muito menos, o modo que tratava seu pai. Não morava com a garota, mas sempre que podia vinha visitar seu velho e, nunca houve uma vez sequer em que estivesse presente, que não tenha presenciado discussões feias entre Samantha e a filha. Seu pai tentava ficar afastado e não se meter, mas quando não conseguia, também virava alvo das grosserias de . Consequentemente ele também se metia e tudo virava uma bola de neve com gente gritando por todo lado.
Ele odiava.
Então, quando percebeu que nada do que fizesse ou falasse faria com que lhe escutasse ou gostasse ao menos um pouco de si, resolveu que seria engraçado devolver tudo na mesma moeda. Deixá-la irritada era divertido.
- E desde quando o que eu deixo ou não de fazer te interessa?
- Não interessa. Bom, pelo menos não pessoalmente. Mas como policial, me preocupo com a sua segurança. As madrugadas de Londres não são muito seguras.
- Pode pegar a sua preocupação e redirecioná-la para quem se importa com ela. O que, certamente, não é o meu caso. – não conseguia ficar irritado com as respostas atravessadas da garota. Bom, pelo menos não mais. Ele achava graça, até. Obviamente, quando redirecionadas a si. Quando era ao seu pai, a história era outra.
Estava pronto para testar mais um pouco da paciência da garota quando ouviu o barulho da porta atrás de si abrindo e fechando logo em seguida. Se virou e viu seu pai, que o era principal motivo da sua vinda à residência àquela hora da madrugada. Hector olhou para o filho com a testa franzida. Depois, olhou para o alto da escada a tempo de ver subindo o restante dos degraus e sumindo de suas vistas. Olhou novamente para o filho, não entendendo o que ele estava fazendo ali.
- ? Quando voltou de Nova York? – O senhor falou, já indo em direção ao filho para lhe cumprimentar.
- Hoje mesmo. Cheguei há pouco tempo. – Deu um abraço em seu pai e logo lembrou o porquê de ter voltado. Um semblante sério se formou em seu rosto e Hector percebeu. – Quando o senhor ia me contar que está recebendo ameaças? – Seu pai respirou fundo e retirou um dos grossos casacos que vestia, jogando o mesmo em cima do sofá, indo, logo após, em direção à uma mesinha na sala com várias bebidas e alguns copos. Pegou a garrafa de whisky e colocou uma pequena dose em dois copos, voltando ao filho e lhe entregando um.
- Eu não iria contar. Tinha esperanças de resolver antes de você voltar das férias. – Hector andou em direção ao sofá sentando-se nele. – Não é nada para se preocupar.
- Você está brincando, não é? – estava de fato, indignado. – Rowan me contou tudo o que aconteceu, pai. Não tente diminuir a gravidade disso.
- Não estou diminuindo a gravidade de nada. Só estou querendo dizer que já tenho tudo sob controle.
- Chegou a essa conclusão hoje? Antes ou depois de receber isso aqui? – retirou do bolso traseiro de sua calça um papel, um tanto quanto amassado, e estendeu em direção ao seu pai que, já imaginando do que se tratava, pegou-o de sua mão e deu uma rápida olhada para os escritos que continham ali, já sabendo de cor o que estava escrito, por tê-lo lido e relido várias vezes durante a tarde.
- Quando a Rowan te entregou isso?
- Assim que sai do aeroporto, fui no apartamento dela. – rumou em direção ao sofá em frente do qual seu pai estava, sentando-se ali. – Ela está apavorada, pai.
- E consequentemente te deixou apavorado também. Mas novamente, não tem com o que se preocupar. – Hector virou o resto do whisky em seu copo, sentindo o arder tão caraterístico em sua garganta. – De verdade, filho. São ameaças vazias. Ninguém nessa cidade teria coragem de me fazer alguma coisa.
- Ele teria. – o olhou sério.
- Não é coisa do Falconne. – Hector respondeu, convicto.
- Você já deve imaginar que eu estou sabendo de tudo que o senhor tentou esconder de mim, não é? Inclusive da lista que interceptaram de um e-mail de um dos caras dele.
- Um e-mail que supomos ser de um dos caras dele. Não temos certeza.
- Pai, Félix Northen morreu semana passada e já sei que confirmaram ser obra dos Falcons. O nome dele está na lista. Seria muita coincidência não ter ligação, não acha? O senhor é um detetive bem melhor que eu, pai. Sabe que isso tem ligação, sim.
- Então nós vamos focar ainda mais na investigação contra ele. É assim que vamos resolver. Não criando um caos e dando palco para joguinhos ridículos. – Hector levantou, respirou fundo e fitou o filho, que ainda permanecia sentado. – Agora, eu preciso dormir. Hoje foi um dia cheio. Vá para o seu apartamento também, descanse. Fico esperando você na Scotland segunda. Tire o dia de hoje para colocar a cabeça no lugar.
- Eu não vou embora, pai. – também levantou, sinalizando com a cabeça para perto da porta, onde suas malas estavam. – Vou ficar aqui por um tempo, pelo menos até resolvermos isso.
- , realmente não vejo necessidade....
- Não precisa gastar sua voz tentando me convencer do contrário, pai. Eu vou ficar. Não quero deixar o senhor sem proteção nenhuma em casa.
- Se é por isso eu posso pedir proteção, filho. Não quero incomodar e sei o quanto você desgosta de estar aqui no meio da confusão que é e Samantha.
- Eu não quero deixar o senhor sem a minha proteção, pai. Sou o melhor daquele departamento, depois do senhor, claro, e você sabe. Não confio em deixar sua segurança com aqueles policiais incompetentes. – Hector riu da fala do filho, modéstia nunca fora sua qualidade mais notável. – E eu posso suportar uns dias de drama se é para ter certeza de que o senhor está bem.
- Tudo bem então, como queira. Já sabe onde fica seu quarto. – acenou com a cabeça e Hector começou a se afastar. – Preciso realmente dormir agora. Nos vemos no almoço. – Mais uma vez acenou, e viu seu pai subindo escada a cima. Sentou novamente no sofá e pegou seu celular, assim que o visor acendeu, discou rapidamente os números que já sabia de cor e colocou o aparelho na orelha, aguardando. Não demorou muito para o “Alô” sonolento do outro lado da linha ser ouvido.
- Hunter, desculpa a hora. Sei que teríamos mais umas semanas de férias, mas surgiu uma coisa grande em Londres. Preciso da minha equipe. Preciso que acione todo mundo pra mim. Quero todos na Scotland segunda. Temos um peixe grande para pegar.


Capítulo 2

Dormir sempre fora algo sagrado para a garota. Sentia que era o único momento em que podia ficar em paz. Mas também, amava a noite. Gostava de olhar para a escuridão por se familiarizar com ela. Então, sempre trocava as noites pelos dias. Dormiria facilmente o dia todo se deixassem. E seu humor, que já não era dos melhores, se tornava ainda mais insuportável quando era acordada sem motivo. E para ela, o único motivo tinha nome, sobrenome e uma fama terrível: Frederick Falconne.
No entanto, naquela manhã, não fora o toque estridente de seu celular que a acordou. O aparelho, desta vez, nada tinha a ver com os barulhos irritantes que a acordaram. Batidas na porta. Eram esses os sons que tentava diminuir colocando o travesseiro em volta de sua cabeça. Porém, de nada adiantava. Quem quer fosse do outro lado estava disposto a acorda-la e, certamente, teria que lidar com as consequências de seu humor ácido pelo feito.
Bufou, jogando as cobertas pelos ares e levantando da cama impaciente. Não se importou com a roupa que vestia – ou que não vestia, no caso – e rumou com passos pesados até a porta abrindo-a num rompante. Do outro lado, uma Elena assustada estava encolhida já temendo pelos desaforos que teria que ouvir. No entanto, não lhe falou nada. Sabia que, se Elena estava ali, não era por vontade própria. Era uma funcionaria e obedecia a ordens.

- Desculpe lhe acordar, senhorita. – A mulher, baixinha e corpulenta de 40 e poucos anos, falou, com a voz baixa. – Sua mã... dona Samantha me pediu para acordá-la. O almoço será servido em breve.
- Bom, avise para ela que, como sempre, não vou me reunir à mesa para fazer parte de um teatro ridículo de família feliz. Tenha um bom dia, Elena. – Não esperou por respostas e fechou a porta em seguida. Já estava quase chegando em sua cama novamente quando as batidas na porta voltaram a acontecer. Estancou no lugar e respirou fundo algumas vezes, odiava soar grosseira com quem não merecia. E, para , naquela casa, Elena era uma das poucas pessoas que mereciam ser tratadas com respeito. As outras duas eram o motorista, Jasper, e a cozinheira, senhora Choi. Sendo assim, e sabendo que quem batia à porta era Elena, voltou os poucos passos que havia andado e com uma calma que não lhe pertencia, abriu a porta novamente.
- Desculpe novamente, senhorita. Mas dona Samantha exigiu que eu insistisse. E falou que se a senhorita insistisse em não descer, era para ir avisa-la pessoalmente.
- Tudo bem, então. – saiu para o corredor e Elena arregalou os olhos no mesmo instante.
- A senhorita vai descer a-assim? – Se atreveu a perguntar, se punindo na mesma hora, mentalmente, pela ousadia. Mas oras, a garota vestia somente uma camisola que mal cobria sua bunda. E era um tanto transparente!
- Vou sim, Elena.
- Não, não vai. – A voz que se sobressaiu não fora a de Elena e sim, de Samantha. Atraindo no mesmo instante a atenção de e Elena pra si. – Saia. – Falou para a empregada que, sem questionar, saiu em passos apressados para qualquer outro lugar longe o bastante da troca de tiros que aconteceria dali instantes.
- É, não vou. Já que está aqui me poupa o trabalho de descer até lá embaixo.

virou as costas e voltou para o quarto, fechando a porta atrás de si em um baque. No entanto, a mesma logo fora aberta por Samantha, que adentrou o cômodo e fechou a porta atrás de si, com calma. Fitou a filha parada no meio do quarto que retribuía seu olhar com o dobro de sentimentos negativos do que ela própria carregava nos seus. Não gostava de . Sequer suportava olhar para a garota. Mas era obrigada a suportar sua existência e ser lembrada todos os dias do quanto imbecil foi por ter dado à luz a ela. Se arrependia.
- Você vai colocar uma roupa decente e descer para o almoço. - sua voz não carregava nenhum sentimento sequer.
- Para quê, exatamente? Pra você entrar no seu papel de mamãe desprezada pela filha e passar de coitadinha na frente do seu amado marido? - riu da própria constatação. Samantha era inacreditável.
- Não exatamente. - ela começou, andando pelo quarto e indo em direção a penteadeira de , se inclinando em direção ao espelho e ajeitando alguns fios soltos de seu cabelo. - O também está aqui, então, vou precisar encenar na frente dele também. - sequer era capaz de pronunciar qualquer palavra. Quanto mais conhecia Samantha, mais a odiava. E odiava ainda mais o fato de que, ninguém além dela, lhe conhecia verdadeiramente.
- Eu não vou descer. - conseguiu pronunciar, apesar do nó que se formava em sua garganta.
- Olha , eu, de verdade, não queria ter que apelar para isso, mas você não me dá escolha. - Samantha rumou para mais perto da garota, parando a um passo de distância. se encolheu quando, com um desprezo no olhar, a mulher levou uma de suas mãos aos cabelos da garota passando a ponta dos dedos neles. E, quando ela começou a falar, o bolo em sua garganta aumentou e a cara de incredulidade que fez foi inevitável. Por mais que tivesse que lidar com a verdadeira face de Samantha todos os dias, não estava preparada para o que ouviu.
- Sabe o asilo onde seus avós estão e eu, encarecidamente, assumi os custos quando seu amado pai morreu? Seria uma pena se, infelizmente, eu cortasse esse pagamento, você não acha? - A mais velha fez um bico com os lábios, como se estivesse triste. nunca quis tanto pegar sua arma, que guardava em um fundo falso na sua gaveta de calcinhas, e meter uma bala no meio da cabeça de Samantha. Mas ao invés disso, deixou com que tudo que estava sentindo saísse em tom de espanto junto com sua voz quando pronunciou:
- SÃO SEUS PAIS!
- Deixaram de ser quando não me deram a vida que eu merecia. - a mulher se afastou, indo em direção à porta.
- Você está se ouvindo? – Samantha cada vez mais se mostrava ser uma pessoa horrível. E mesmo sabendo que só tendia a piorar, ficou complemente em choque com a frase proferida pela mulher.
- O importante é se você me ouviu. - Ela deu meia volta, e fitou novamente.
- Eu odeio você. - a mais nova falou, pausadamente e com a voz embargada. Não poderia chorar em frente de Samantha. Mas a dor que sentia em seu coração naquele momento, quase foi demais para que conseguisse se conter.
- Gostaria de dizer que é recíproco. Mas eu não me importo o suficiente para me permitir sentir qualquer coisa que seja por você. - Dito isso, ela virou novamente e caminhou em direção a porta. ficou parada, chocada demais para ter qualquer reação a princípio. O bolo em sua garganta se intensificou e a primeira lágrima desceu rolando por sua bochecha. Por mais que soubesse desde o princípio que Samantha nunca iria ter qualquer sentimento afetivo por ela, ouvir isso sair de sua boca com todas as letras esmagou tudo o que restava do coração da garota, que mesmo inconscientemente e nunca jamais admitindo, tinha esperanças de um dia poder ter uma relação que fosse no mínimo descente com a mulher. Antes de Samantha chegar à porta, no entanto, rumou em passos apressados até a penteadeira agarrando a primeira coisa que viu - um vidro de um perfume qualquer - e atacou na direção de Samantha, que somente parou de andar quando o vidro atingiu a parede à sua frente e se desfez em cacos no chão. Alguns segundos de silêncio se passaram. A mulher não havia esboçado nenhuma reação, como se estivesse esperando por alguma atitude da garota.
- Vou mandar a Elena vir limpar isso. - Voltou a andar, chegando finalmente na porta e abrindo-a com calma. - Desça em no máximo 5 minutos. - Foram as últimas palavras proferidas pela mulher antes de sair do quarto, deixando uma completamente desestruturada para trás.

🔥


Quando chegou à sala de jantar, onde todos já estavam devidamente sentados em seus devidos lugares, as vozes, devido a conversa paralela que estavam tendo, deu lugar ao silêncio instantâneo. E os olhares de todos os presentes se voltaram para a garota. não retribuíra nenhum, no entanto. Rumou para o lugar que estava reservado para você ao lado de Samantha, em silêncio.
- Fico feliz em ver você aqui, . - A voz que ecoou pelo ambiente silencioso fora a de Hector. se limitou a voltar seu olhar para o mais velho, não esboçando nenhuma reação ao seu comentário. Não gostava dele. Sentia que era sua culpa ela ter crescido sem sua mãe. Se bem que, conhecendo Samantha como conhece hoje, sabia que no fundo fora melhor.
Sentiu sua pele queimar sob a fina blusa preta que optou por usar. Samantha e Hector já haviam engatado em uma conversa qualquer e soube assim, que estava sendo alvo dos olhos raivosos de . E soube também, que era por culpa do silêncio que fez quando seu pai lhe dirigiu a palavra. Não o julgava por isso. Fora uma atitude mal-educada. E entendia que ele tomava as dores de seu pai para si. Ela também fazia isso quando o seu ainda era vivo.
Pensar no pai fez a ardência característica do choro ser sentida em seus olhos, mas tratou de pensar em qualquer outra coisa quando percebeu que estava prestes a chorar em meio a todos eles. Nunca se permitia mostrar fraqueza perante ninguém. E não seria hoje que aquilo iria mudar. Hector tentava, e ela achava sim ser de verdade, ter uma relação boa com ela. Ele não parecia ser um terço do que sua mãe era. Parecia ser um bom homem. Mas, por mais que quisesse o tratar melhor do que tratava, não conseguia ignorar o fato de ele ter sido o pivô da separação dos pais. O homem que tirou Samantha de sua vida.
Se já conhecesse como sua mãe era, iria ter lhe agradecido. Mas nunca soube de fato antes de viver com ela. E por todos os anos que passou chorando e sozinha sem o colo de uma mãe que ela achava ter, o sentimento ruim que carregava por ele era mais forte do que a vontade de fazer isso mudar. Com o tempo, talvez, ela conseguiria. Mas, sabia que isso demandaria tempo demais e sabia também, que não ficaria morando com eles mais tempo do que o necessário.
- Então, meu querido, por quanto tempo você vai ficar conosco? - Samantha perguntou para , que não estava com uma cara muito boa.
- Até resolvermos o assunto do papai.
- Que assunto? - ela perguntou, fitando o marido que estava olhando feio para , o repreendendo com o olhar.
- Nenhum, querida. É um caso em que estamos trabalhando. - iria começar a falar quando Elena e senhora Choi entraram com os pratos de comida.

Odiava ser servida. Parecia que não tinha capacidade de o fazer. Se sentia uma dondoca. E odiava se sentir uma dondoca. A comida posta em seu prato era diferente das demais refeições que foram devidamente colocadas em cada prato. Enquanto nos outros três havia uma gororoba estranha que ela não soube identificar, no seu havia um pedaço de lasanha de 4 queijos. Odiava comida de rico. Estava prestes a abrir a boca para agradecer senhora Choi - havia contado para a cozinheira uma vez qual sua comida preferida e, desde então, a senhora sempre fazia pelo menos uma vez na semana - quando ouviu a voz de Samantha ao seu lado e se segurou para não enfiar a faca, que já estava em sua mão, na jugular da mulher e vê-la sagrar.
- Pedi para Choi fazer seu prato preferido hoje. Por isso insisti que descesse para almoçar conosco. - a fitou e a mulher tinha um sorriso forçadamente gentil nos lábios. Falsa do caralho, foi o que pensou. No entanto, sua única reação foi rir ironicamente, negando com a cabeça. Samantha abaixou a cabeça e fitou sua comida, parecendo estar envergonhada de ter tentado um contato com a filha sabendo qual seria sua reação. Depois de uns segundos com o silêncio reinando novamente, ouviu bufar. Ele fazia isso sempre que estava na presença de . Ela tinha uma leve impressão que tirá-lo do sério era sua especialidade. Não se importava, no entanto. para si não significava nada.
- Será que é...
- Eu estou sofrendo ameaças. - Foi a voz de Hector que cortou a fala de . Certamente preferia ser alvo da atenção de todos os presentes antes de mais uma discussão se iniciar. Porque era o que iria conseguir ao tentar recriminar as atitudes de . Uma discussão generalizada e gritaria sem igual. Estava cansado disso todos os dias. - É esse o assunto que temos que resolver. vai ficar aqui até que consigamos achar quem está o fazendo.
- Como assim ameaças? - Samantha perguntou, com a voz levemente trêmula. - Você está sendo ameaçado e não me contou? Eu não acredito que não me contou, Hector . - a voz da mulher aumentava a cada palavra dita. - Eu vou tirar você da cidade! É isso. Da onde já se viu? Ameaças, Hector! Você está em perigo e não me contou! - até , que estava absorta demais saboreando sua lasanha, levantou seu olhar para cada um dos homens presentes querendo saber suas reações ao chilique que Samantha estava dando. fitava o pai, o julgando também por não ter dito nada a mulher. Hector, por sua vez, estava com os cotovelos apoiados na mesa e as mãos na cabeça. Com os dedos, massageava as têmporas. não pôde evitar rir da cena. Um riso contido, claro. E que ninguém percebeu.
- Por isso eu não contei. - O mais velho entre eles falou, pegando seu copo com suco e bebericando um gole.
- Mas nós já sabemos quem está por trás disso. Não vai demorar para isso acabar. - Hector rolou os olhos quando acabou de falar. Céus, seu filho era inacreditável.
- E quem é? - Samantha perguntou, sua voz ainda mais trêmula do que antes.
- Frederick Falconne. - nesse instante os olhos de correram para imediatamente, em sua testa, um grande ponto de interrogação em neon piscava e, se alguém estivesse prestando atenção na reação que teve, de fato notariam que ela fora exageradamente estranha.
- Nós não temos certeza, . Pare de afirmar isso sempre que tiver a oportunidade ou passara a acreditar somente nisso sem se abrir a outras possibilidades. E isso, no nosso trabalho, é um erro gravíssimo. - a voz de Hector estava impaciente.
- Pai, está mais do que óbvio! Felix Northen morreu. Nome dele em primeiro da lista. Obra dos Falcons. O seu nome está em quinto! Quinto, pai! Nós não temos tempo de criar mil e uma possibilidades e suspeitos diferentes! - A careta de estava pior agora. Ela era a responsável pela morte de Felix Northen. E não foi por uma lista idiota que ele morreu. O que estava acontecendo, afinal? Deixou sua comida de lado e passou a prestar mais atenção na conversa, mesmo que tentasse disfarçar ao máximo sua curiosidade.
- Você está sendo irresponsável.
- Que lista? Alguém pelo amor de deus me explica direito o que estava acontecendo! - Samantha estava chorando. Chorando! Céus, pelo visto, a simples possibilidade de perder seu banco particular era realmente assustadora para a mulher.
- Nós temos acesso a um endereço eletrônico possivelmente pertencente à um cara que trabalha para o Falconne. - Hector explicou, pacientemente. E antes que voltasse a falar, Hector o fez um sinal para que ficasse quieto. - Deste endereço, interceptamos uma suposta lista de possíveis futuras vítimas dele.
- Por que você é cheio de suposições e possivelmente’s enquanto seu filho tem tanta certeza? - Samantha novamente questionou. E Hector novamente interrompeu o filho antes deste começar a falar.
- Porque meu filho está cego de ódio, fato este que está o fazendo agir irracionalmente.
- Eu estou agindo com a razão, pai. Só quero que o senhor fique seguro. Só isso. E eu não estaria o culpando se não tivesse certeza de que estou certo!
- Estaria sim. Você quer colocá-lo atrás das grades desde que....
- Não, pai. Não precisa terminar a frase. - levantou da cadeira, e fitou seu pai. - Eu quero sim que ele pague pela morte da minha noiva. Mas não é por isso que defendo a culpa dele nas ameaças ao senhor. E muito obrigada por tocar nesse assunto. Com licença. - dito isso, o rapaz rumou para fora da sala e pode perceber o arrependimento imediato que Hector sentiu ao tocar no último assunto abordado. tinha uma noiva. Noiva que morreu por culpa de seu chefe. Havia recebido muitas informações para assimilar tão rapidamente. Precisava de ar. Se pôs de pé e rumou em direção ao seu quarto, sem ao menos se importar se Hector ou Samantha achariam sua atitude mal-educada. Precisava falar com Ander. Urgentemente.

🔥


- Lista? Que porra de lista? - Ander falava do outro lado da linha. Tão chocado quanto a garota por ouvir tal absurdo.
- Estranho, né? O e-mail é o que achei mais bizarro nisso tudo.
- Nós não fazemos nada pela Internet! Isso está muito estranho, .
- Eu sei. Por isso vim com falar com você. - a garota estava jogada na cama enquanto falava com Ander pelo telefone celular.
- O chefe do departamento de homicídios da Scotland sendo ameaçado pelo Falconne! - O garoto gargalhou. - Caralho, isso é muito surreal de se pensar. Desde quando o cara mata polícia?
- Hector não está certo de que é ele que está por trás disso. O filho que acha saber tudo é que está.
- Bom, então vemos que o filho dele não procede a fama que tem.
- tem uma história com o Falconne. Ele está convicto de que está certo e não parece que vai mudar de ideia. - se virou de barriga para baixo, estavam há tampo tempo em ligação que suas costas doíam.
- Cara, eu desconfio do que isso possa significar.
- Que alguém está querendo comprar briga com o Falconne? - a garota chutou. Também havia pensado nisso.
- Sim. E você sabe o que isso significa, não é? - suspirou. E mais convicta do que nunca, respondeu:
- Guerra.


Continua...



Nota da autora: Mais um capítulo pra vocês! Espero que gostem ♥
Se você leu até aqui, não esqueça de deixar seu comentário, tá? Isso incentiva demais toda e qualquer autora.
Os pps tem insta, sigam lá: @evelinesanderss e @_olivercarter (links diretos pros perfis deles ali embaixo)
É isso, até a próxima ♥



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