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Última atualização: 30/11/2020

I don't know how to sum it up because words ain't good enough.

O ano era 2012. Eu tinha viajado com meus pais para as festas de fim de ano, mesmo sabendo que – com sorte – o evento mais importante de nossas vidas estava para acontecer. Não fazia ideia de que dia era. Estava apenas me importando com aproveitar a presença dos meus pais sem preocupações, algo que tinha se tornado raro nos últimos meses. Eu não queria me lembrar da faculdade que começaria no outro ano, não queria me lembrar de que, em semanas, teríamos que voltar para a triste realidade da vida em Nova Iorque. Apenas queria me focar no sorriso que estava nos rostos dos meus pais e de como eles pareciam pessoas perfeitas naquele momento.
A praia estava praticamente vazia. Todos deviam estar se preparando para a festa da noite, mas eu e meus pais ainda estávamos sentados na areia da praia do hotel, conversando sobre o cotidiano e meus planos para o futuro, quando o telefone dele tocou.
– Que ótimo, trabalho... – Falei baixo, achando que ninguém me escutaria, mas minha mãe me deu um tapa com a mão esquerda.
Meu pai escutava o que falavam do outro lado da linha com atenção. Eu e minha mãe o observávamos. O evento mais importante de nossas vidas, eu repetia na minha mente. Alguns segundos bastaram para que ele se despedisse de quem quer que fosse.
– Quem era? – Eu disse.
– Era o Fletcher.
– E então? – Minha mãe perguntou ansiosa, com os olhos brilhando. – Qual foi o resultado?
Meu pai olhou para o mar que se estendia na nossa frente. O sol estava se pondo, tingindo a água com uma cor alaranjada digna de cena cinematográfica. Ele passou a mão nos cabelos e olhou para nós duas, que esperávamos impacientes por uma resposta.
– Vocês estão olhando para o novo presidente dos Estados Unidos da América.


Another night stopped, will it never end?

As pessoas costumavam falar que eu reclamava de boca cheia. Bem, talvez sim, mas não era bem esse o meu ponto de vista. Minha vida, vista pelo resto do mundo, era boa. Para os Estados Unidos, eu era a filha do candidato à presidência que simplesmente não queria nada com nada. Será que ninguém sabia que eu estava lutando para ser aprovada na Texas A&M University? Ninguém estava percebendo que eu queria minha família de volta?
O último ano tinha afastado meu pai de casa. A campanha para a presidência do país mais importante do mundo – embora eu mesma não concordasse com essa classificação – estava tomando todo o seu tempo. Até eu e minha mãe tínhamos nos envolvido no trabalho pesado para poder ajudá-lo e, de certa forma, ficar mais perto dele. Mesmo assim, estar consciente de toda a tensão que nos cercava era preocupante. Mas o que importava naquele momento era que todo esforço, todo problema, tudo havia sido recompensado.
A universidade me chamou assim que soube que meu pai havia vencido as eleições presidenciais, é claro, mas talvez eu quisesse esperar naquele momento. Não queria olhar para mim, queria olhar para os meus pais, principalmente para o meu pai. Ele estava completamente realizado, nunca tinha visto o “homem da minha vida” tão feliz, e a felicidade dele fazia a minha. Eu ia primeiro me mudar para Washington e então, quando as coisas se estabilizassem por lá, iria para a faculdade. Queria acompanhar de perto cada um dos novos sorrisos do senhor Andrew – conhecido pelos demais simplesmente como presidente.
Minha mãe, Ava Robert – eu invejava secretamente seu nome –, era a mulher mais guerreira que eu já havia conhecido. Meu pai sempre havia sido envolvido com política. Eles, inclusive, se conheceram quando ela era secretária de um senador com quem meu pai trabalharia. Um caso de uma noite acabou se tornando a garota de então 18 anos na qual eu me transformara: .
Se ser a filha do presidente dos Estados Unidos era legal? Bem, para mim, eu não era a filha dele. Era a filha do Andy, o cara de quem todo mundo se orgulhava por amar a todos incondicionalmente. Eu nunca pude reclamar de nada dele. Mesmo nos tempos difíceis, eu tinha tudo o que podia querer. Estudei nos melhores colégios, usava as melhores roupas, frequentava os melhores lugares. Tudo porque ele sempre se esforçou para que eu fosse a melhor pessoa do mundo.
Eu tinha tudo a meu favor. Dinheiro, energia e tempo eram coisas que eu tinha de sobra, felizmente. Eu só queria me acostumar com a situação e então ir curtir o mundo do meu jeito.
Era sábado à noite, meio de janeiro. Estávamos na festa da posse do meu pai. A banda 30 Seconds To Mars tinha acabado de se apresentar. Eu havia visto na internet que eles estavam fazendo uma campanha de apoio à candidatura do meu pai, mas me surpreendi quando eles apareceram para parabenizá-lo pessoalmente em uma cerimônia que estava sendo transmitida para o mundo inteiro. Meu pai fez um discurso lindo enquanto era consolidado como novo presidente. Estava na hora da festa. Eu não achei ninguém para dançar comigo, então pedi a um dos seguranças, – um britânico alto e corpulento –, que me acompanhasse para que eu não dançasse sozinha.
– Você fala? – Eu o provocava.
– Só quando permitido. – Ele disse, sério.
– Bem, eu estou lhe permitindo ter uma conversa agradável e saudável comigo. E então?
– Senhorita, não acho que essa seja uma decisão muito sábia.
– Que decisão?
– A senhorita está flertando comigo.
E estava mesmo. Eu não me dava muito bem com os garotos. Também não me dava mal, só tinha o péssimo hábito de atirar para todos os lados na tentativa de conseguir entrar em um relacionamento sério. Se eu não achava que flertar com meu segurança era exagero? A resposta era não.
– E alguém disse que eu não posso?
Com um movimento ágil, me girou, executando perfeitamente movimentos no ritmo da dança.
– Onde você aprendeu a dançar, ? Posso te chamar de , não posso?
– Prefiro que continue me chamando de , senhorita.
– E eu prefiro que me chame de , ou , quem sabe. Mas “senhorita”... Sei lá! Você tem quantos anos? Vinte?
– Vinte e um, senho...
Ele ia falar aquela palavra, eu sabia, mas achei fofo quando ele se conteve.
– Você só é três anos mais velho que eu, novo demais pra esse serviço. Não acha que tá na hora de curtir a vida um pouquinho?
Uma mão apareceu em seu ombro. Qualquer um que estivesse atrás dele se esconderia facilmente, mas não era qualquer um. Era meu pai.
– Com licença, . Posso dançar com minha filha?
– Claro, senhor.
assumiu sua posição ao lado da pista de dança. Meu pai me tomou nas mãos e dançava graciosamente comigo pelo salão.
– Você estava flertando com seu segurança.
– Sim, eu tava.
Todos os olhos da festa estavam em mim ou era impressão minha?
– Não acha ele velho demais para você?
– Ele é três anos mais velho que eu.
– O quê?! – Meu pai disse, demonstrando assombro. – ? Ele tem vinte e um?
– Não parece, né?
Meu pai se virou para dar uma checada rápida nele.
– Não acredito. Mas seja o que for... Eu só quero que você ache alguém que goste realmente de você. – Ele disse e deu um beijo na ponta do meu nariz, o que me fez lhe dar um sorriso largo. – , pode retomar seu lugar.
Eles se cumprimentaram com um aceno de cabeça e eu voltei a dançar com . É claro que, no final da festa, eu estava com a perna doendo porque só dancei. Parava para cumprimentar algumas pessoas, é claro, e isso também causou uma forte dor na minha bochecha. Era desconfortável aquele ambiente, mas meu pai estava radiante. Ele e minha mãe nunca pareceram tão felizes em toda a vida deles. Por qual motivo eu deveria deixar que eles soubessem que eu não estava bem e estragar a noite?
Depois daquele dia, minha vida era resumida a isso: encontros importantes com bochechas e pernas doloridas. Nós viajamos o país inteiro fazendo inaugurações de instituições, visitas em comunidades, festas importantes... E é claro, com uma equipe de segurança absurdamente exagerada. Eu não podia ir ao banheiro sem que antes um grupo de três homens o revistasse e estava começando a me sentir incomodada. Foi quando eu decidi que estava na hora de mudar e ir para a faculdade.
Meus pais já tinham aprendido a viver sem mim. Liguei para o Texas e perguntei quando poderia começar. Ficaria instalada numa casa próxima ao campus – com seguranças de sobra, é claro – e teria todo o apoio necessário da faculdade. Era muita gentileza deles, não era?
Aquele foi um final de semana triste. Os últimos abraços que recebi de meus pais cortaram meu coração. Eu fiz o possível para explicar para eles que aquela vida de filha do presidente não era o que eu queria para mim e eu estava dolorosamente consciente de que isso não era satisfatório para eles.
– Você sabe que, se não se acostumar, se as coisas não estiverem acontecendo do jeito que você planeja...
– Mãe, eu tenho vocês dois na discagem rápida.
– E cuidado com os garotos. – Meu pai disse, quase gritando que, com “garotos”, ele queria dizer “” porque, em algum lugar dentro da sua mente, ele acreditava que estávamos tendo um caso.
Quem dera...
As aulas começaram e, com elas, as festas universitárias. Recebi meu primeiro convite e é claro que não o recusaria. Coloquei uma das minhas roupas favoritas e fui. Foi lá que fiz meus primeiros amigos. Jacob era nerd e epilético, uma combinação perfeita para alguém com quem eu realmente queria passar um tempo. Michael era da Carolina do Norte, tinha um bronzeado bonito e era óbvio que estava na universidade mais pelas festas do que pelo curso em si, mas era uma ótima pessoa – por mais incrível que parecesse. E Emily era a típica menina do interior, filha de fazendeiro, que estava cursando Medicina Veterinária para dar sequência aos negócios da família. Nós quatro, com a convivência de algumas semanas apenas, nos tornamos inseparáveis. Aquilo sim era o que eu queria.
Eu sentava na janela de casa todo dia para ligar para meus pais, saber como estavam as coisas onde quer que eles estivessem e contar sobre as minhas novas conquistas. Tudo podia acontecer, mas eu não podia ir dormir no dia sem fazer aquilo.
Dois toques depois, minha mãe atendeu.
– Filha! Como você está?
– Eu to ótima. E você?
– Estou bem, como sempre. Como foi o dia hoje?
– Foi tranquilo. Uma aula de anatomia que me deu mais sono que documentários sobre a Ásia. Tirando isso, tive um dia maravilhoso. E vocês?
– Bem, seu pai passou o dia inteiro em reunião com o governador de Massachusetts, então eu e a mulher dele estamos passando esse tempo visitando algumas lojas maravilhosas. Seu pai ficou preocupado, você demorou a ligar hoje.
– Eu tava dormindo.
– Ah, sim. Claro. Mas ligue pro seu pai.
– Mas ele ainda tá em reunião?
– Está, mas você sabe muito bem que ele abre mão de tudo por você. E ele me pediu para lhe dizer isso.
– Tudo bem, mãe. Depois você me liga pra gente conversar melhor?
– Claro! Te amo, filha.
– Também te amo, mãe. Até!
Desliguei e fui para o sofá. Sentei por cima das minhas pernas enquanto discava o número do meu pai. Ele demorou um pouco para atender, quase tempo suficiente para que eu desistisse.
– Filha!
– Oi, pai! Como você tá?
– Estou ótimo agora. E você?
– Bem.
– É bom mesmo. Caso contrário, eu mando irem te pegar no Texas agora. Como vão as coisas por aí?
– Nada demais. Uma vida chata de universitária, mas é isso que eu escolhi.
– Você sabe que, se quiser, pode voltar pra casa na hora.
– Eu sei, pai, mas eu quero ficar. Quero me formar.
– Desde pequena, você falava que queria ser médica veterinária, sabia? Eu falava que ia ser presidente e, bem, olha onde seu velho chegou! Você vai mais longe que eu, minha querida.
– Isso é impossível, pai. Melhor que você, só outro de você. Eu tenho que ir. Os meninos tão chegando aqui em poucos minutos pra gente estudar. Eu te amo.
– Eu te amo mais.
– Nunca! Beijos, pai.
– Beijos, minha querida. Mande notícias. Estou muito orgulhoso de você.
Tive que segurar o choro.
– E eu estou mais orgulhosa ainda do homem que o senhor é!
Desliguei na exata hora em que a campainha tocou. Fui abrir e encontrei Michael sozinho com uma pasta debaixo do braço.
– Dor de barriga por causa do almoço de hoje, foi isso que ele me disse. – Ele, obviamente, estava falando de Jacob.
– Então vamos lá nós dois mesmo. Eu preciso entender todos os detalhes da boca dos ruminantes e de hoje não passa. Espero que você esteja confortável, porque vamos demorar aqui.
Ele riu e ajeitou o cabelo comprido atrás da orelha.
– Digamos que eu vim preparado.


And you'll follow your heart even though it'll break sometimes.

O mundo à minha volta estava girando. Fui visitar o hospital da faculdade e um cavalo tinha acabado de morrer. Lembrei-me das palavras da minha mãe.
– Você tem que saber que é isso o que você quer, que você tem um dom natural pra isso. Sem esse sentimento, de nada vai valer você perder anos na faculdade. – Ela disse durante uma das nossas ligações diárias.
Eu queria Medicina Veterinária. Era meu sonho. Na verdade, eu acreditava que toda criança dizia – pelo menos, uma vez na vida – que queria ser veterinária. No meu caso, eu fui um pouco mais teimosa e levei isso para frente. Mas ali, ao ver aquele cavalo morto, na minha frente... Meu mundo caiu. Eu era sensível. Não importava o quanto me dissessem que eu tinha que ficar habituada, eu nunca ia me sentir “normal” vendo um animal sem vida.
– A senhorita está bem? – Scott, outro dos meus seguranças particulares, perguntou.
– Óbvio que não.
– Quer ir embora?
– Também não. “Tenho que me acostumar.” – Disse, abrindo as aspas no ar com os dedos e revirando os olhos.
Scott retomou seu lugar atrás de mim, com cara de mau e braços cruzados. Quem o via, nem imaginava o quanto nós nos divertíamos dentro de um salão de jogos. Esse era um estereótipo que chegava até a ser engraçado. As pessoas de fora olhavam para nossos seguranças como se eles fossem robôs cuja função era atirar nos outros e incomodar. Claro que não era a melhor coisa do mundo ter pelo menos dois homens atrás de você o dia inteiro, mas eu sabia que era necessário. E ter eles por perto fazia com que nós os considerássemos – querendo ou não – membros da nossa família.
e Scott tinham ficado responsáveis por ficarem comigo durante o dia. Em casa, outra equipe com quatro seguranças – Benjamin, Freddie, Daniel e Joe – era encarregada de fazer da casa, onde eu passava a maior parte do tempo, o lugar mais seguro do mundo. Eu me dava muito bem com eles e achava incrível ninguém perceber que eu mal saíra da adolescência e estava dividindo minha casa com seis homens, mas não podia reclamar. Todos eles eram simpáticos, ótimos amigos e respeitosos acima de tudo. Afinal de contas, quem, em sã consciência, não respeitaria a filha do presidente? Bem, a resposta para essa pergunta era “muita gente”.
O pessoal da faculdade olhava para mim com desgosto.
– Não é só porque você é a filha do presidente que tem poder aqui dentro. Você não é melhor do que ninguém. – Uma menina disse uma vez quando eu pedi para o professor tentar falar um pouco mais devagar para que eu entendesse.
É claro que levantou seu corpão e colocou-se entre eu e a menina. O professor atendeu o meu pedido, felizmente, mas depois daquele dia, minha vida na faculdade nunca mais foi a mesma. Em outra ocasião, fizeram um desenho no quadro desdenhando de um menino do quinto período que era gay. Tirei uma foto e enviei para ele, denunciando o ato. No outro dia, a faculdade inteira espalhava boatos sobre eu ter feito aquela “obra de arte”, e eu comecei a ser ridicularizada por onde quer que eu andasse. Mas eu estava lá pela faculdade, não por eles.
A imagem do corpo do cavalo estava tirando o meu sono. Já estava deitada na minha cama e a cena se repetia na minha mente. Eu estava escutando um cavalo relinchando e tudo. Fiquei rolando durante incontáveis minutos, sem conseguir dormir, fazendo uma pergunta crucial na minha cabeça: será que era aquilo mesmo que eu queria?
Três batidas na porta me tiraram do transe.
– Senhorita , está tudo bem?
– Quem é?
– Daniel, senhorita.
– Ah, ok. Tá tudo bem. Por quê?
– Estamos escutando um cavalo relinchando e parece que vem daqui o barulho.
Eu levantei da cama assustada, esquecendo-me de que estava trajando roupas não muito apropriadas para se usar na presença de um homem. Mas que porra estava acontecendo?
– Você tá louco? Eu to ouvindo isso na minha mente, mas é por causa de...
Outra vez, um cavalo relinchando. Merda. O rádio pendurado no ombro de Daniel apitou.
– Tem um cavalo no quintal. Dá pra alguém me explicar isso?
Meu olhar se encontrou com o de Daniel.
– Um cavalo? No quintal? – Falamos ao mesmo tempo.
Nem tive tempo de vestir um roupão. Desci as escadas correndo na frente de Daniel, que seguiu meu ritmo. Quando saí pela porta, um vento frio me recebeu violentamente. Tentei proteger meu corpo, cruzando os braços enquanto fitava o animal gigante que alimentava-se da cerca viva dividindo o meu lote do terreno vizinho. estava do lado dele, tentando enlaçá-lo com o que devia ser uma corda. Andei lentamente na direção deles.
– De onde surgiu esse cavalo? – Fiz a pergunta óbvia.
– Não sabemos, senhorita.
– Para com isso, .
– Não dá.
Olhei para o bicho. Não era um cavalo qualquer. Ele era enorme, bem tratado, com um porte físico de dar inveja. O cavalo, com certeza, tinha um dono e um valor financeiro alto.
– Podemos amarrá-lo na árvore por hoje, não podemos? – Sugeri, apontando para a nogueira-pecã no meio do quintal dos fundos. – Se ninguém vier regastá-lo, quem sabe eu possa...
Eu estava apenas imaginando, como sempre. O dono veio buscá-lo e desmanchou-se em pedidos de desculpas ao ver quem eu era. Ele tinha fugido de uma fazenda muito importante da área, pelo que pude entender, e os proprietários já tinham colocado até a polícia atrás do animal. O cavalo, como todos os sonhos que eu tinha e queria realizar sem ter que colocar o trabalho do meu pai no meio, foi embora com a chegada da manhã.
Depois de um longo período de provas, o fim de semana finalmente chegou. Nós tínhamos um voo marcado para Washington. Meu pai receberia alguns líderes de Estados mas, mesmo assim, fazia tempo que não nos víamos pessoalmente e aquela seria a minha primeira oportunidade de ir para a capital visitá-lo com calma. Fomos até o aeroporto em um jato e, de lá, fui levada para a Casa Branca.
Quando entrei, senti como se estivesse em um hotel. Embora as pessoas que olhassem de fora imaginassem que aquele prédio seria um palácio, a planta baixa da casa em si não era algo tão extraordinário. A residência oficial, a parte central do prédio, era algo mais simples do que parecia. O primeiro andar tinha, de importante, o salão de recepção e a biblioteca, onde eu passava a maior parte do tempo quando estava em casa. O segundo andar era o andar das festas, onde tinha os salões verde, vermelho e azul. Lá, também estava localizada a sala de jantar onde meu pai fazia refeições com pessoas importantes. Era um cômodo bonito, porém não o meu preferido. O salão leste sim era um lugar magnífico, onde ocorriam todas as festas importantes que meu pai realizava e onde, geralmente, eu me sentava ao piano para dedilhar algumas notas.
Então havia o terceiro andar.
Todos os outros eram um exagero. O terceiro andar era o que realmente importava. Era a nossa casa. Lá, nós tínhamos os quartos leste e oeste, que serviam para convidados especiais, o quarto do meu pai, junto com seu escritório. O quarto da rainha, que tinha esse nome devido aos convidados que se instalaram lá – na sua maioria, rainhas, o que é bem óbvio. Uma sala de convivência de cada lado servia para momentos descontraídos que quase nunca existiam lá dentro por falta de tempo. A nossa cozinha pessoal talvez fosse a parte mais divertida da casa para mim. Eu poderia ter o que quisesse, na hora que quisesse, e essa era uma parte boa do “poder” que eu tinha. Ao lado do meu quarto, tínhamos um teatro particular, para onde eu geralmente ia nas noites frias de Washington – quase toda noite. E era lá também que ficava o famoso Salão Oval. Era outro exagero, das pessoas que não viviam lá dentro, falar dele como se fosse o lugar mais importante do mundo.
Assim que cheguei ao andar, corri para o meu quarto. Oficialmente, as pessoas o conheciam como quarto de Lincoln. Sim, Abraham Lincoln. Durante o seu período no poder, foi ali que ele ficou. E então, anos depois, ele era todinho meu.
Deixei minha mala em cima da cama e corri para o quarto do presidente, que ficava na posição oposta. Abri a porta e dei de cara com o vazio. Corri até a cozinha e nada. No corredor, sempre encontrava alguns seguranças. Fui até Archie, um baixinho de aparência franzina mas que faria até mesmo , que era do tamanho de um armário, correr como uma menininha.
– Archie, onde estão meus...?
– Sua mãe está participando de um programa televisivo no momento e só volta depois do horário do almoço. Seu pai está no salão verde conversando com os líderes da ONU para resolver a questão da Guerra Civil Síria. Eu sugiro que a senhorita não os interrompa. É uma reunião muito importante e...
– Obrigado, Archie, era só isso que eu queria saber. – Respondi com um sorriso e uma piscada de olho.
Desci as escadas correndo e, então, notei o grande número de seguranças na porta do salão verde. Além de Luke, Joshua, Eli, Jake e Harry – com Jack, que devia estar dentro do salão, eles formavam a equipe pessoal de segurança do meu pai –, outro grupo de seguranças, provavelmente equipes dos tais líderes que encontravam-se ali, estava conversando de forma descontraída. Eu me aproximei sem fazer alarde. Apenas caminhei até a porta e levei a mão até a maçaneta. Só então olhei para trás e percebi que e Joe estavam na minha cola.
– A senhorita não pode entrar! – Um dos seguranças que eu não conhecia disse com a voz elevada.
Eu me virei para ele e dei-lhe uma boa olhada de cima a baixo.
– Você acha que tá falando com quem?
– O meu chefe está aí dentro e ele ordenou que impedíssemos quem quer que fosse de adentrar o recinto. Então vou pedir educadamente que a senhorita se retire imediatamente ou terei que retirá-la à força.
– Você vai ter que fazer o quê? – gritou, posicionando-se entre eu e o outro segurança, como sempre fazia quando queria montar um circo para mim.
Eu até podia dizer que havia química entre eu e . Uma química fraca, mas existia alguma coisa. Talvez houvesse muito mais interação física do que química entre nós, mas havia. O jeito como ele me defendia quando precisava era másculo demais, até mesmo para um segurança que trabalha para a filha do presidente dos Estados Unidos. Eu sabia que ele forçava.
Por cima do ombro de , pude olhar a cara de decepcionado do forasteiro. Coloquei minha mão na maçaneta novamente, olhando nos olhos dele, e abri a porta. Meu pai se virou na minha direção e, levantando atrapalhado, correu para me abraçar. Aquele não era mesmo o presidente dos Estados Unidos. Era o meu pai, e eu estava feliz por poder sentir seu abraço depois de tanto tempo longe.
Infelizmente, aquele momento não podia ser só meu e do meu pai. Se eu pedisse, tenho certeza de que ele interromperia qualquer reunião para poder ficar comigo, mas eu não era chata a esse ponto. Quero dizer, eu era, mas estava controlando isso e procurando relembrar que ele seria meu pai por menos tempo do que era antes. Minha mãe chegou depois, quase perdeu o jantar. Ela tinha participado de um programa de TV e, depois, foi conhecer a casa da apresentadora.
No mais, o final de semana foi o esperado. Meu pai lutava contra tudo que pudesse atrapalhar nossos curtos momentos juntos e minha mãe não parava de fazer perguntas sobre como estava sendo a vida no Texas. É claro que eles voltaram a insistir para que eu desistisse de tudo e ficasse em casa de vez, mas não.
No domingo depois do almoço, tive que enfrentar a despedida novamente. Eu tinha que voltar para a vida de responsabilidade que eu tinha escolhido no sul do país. Tinha que abrir mão de toda aquela mordomia disponível para um mundo onde eu tinha que fazer minha própria comida, dirigir meu próprio carro e arrumar minha própria casa. Era isso o que eu queria, não era? Então, como sempre, a filhinha mimada do presidente teria o que pediu. Só que não!


You've got everything you need but you want accesories, got to hold it in your hands.

A semana estava passando lentamente. Ainda era terça-feira. As memórias do final de semana com meus pais estavam vivíssimas na minha mente. Eu me tranquei no salão de jogos e pedi um pouco de privacidade, alegando que queria estudar um pouco, mas o que eu realmente fiz foi sentar em cima da mesa de sinuca e começar a considerar minhas opções. Eu queria mesmo continuar na faculdade? Quer dizer, eu seria bem sucedida no que eu escolhesse fazer devido à posição do meu pai naquele época. Mas era isso mesmo a minha primeira opção? Medicina Veterinária era o meu sonho mesmoi> ou era apenas mais um na lista de coisas que eu imaginei para mim? Eu tinha consciência de que meus pais eram minha prioridade – sempre seriam – e a faculdade estava começando a atrapalhar isso.
bateu duas vezes na porta e, abrindo-a lentamente, colocou a cabeça para dentro do salão.
– Estou atrapalhando, senhorita?
– Eu podia dizer que não, mas você me chamando de senhorita realmente me dá nos nervos, cara.
Ele sorriu, entrou e fechou a porta novamente.
– Estou tentando.
– Todo mundo consegue, menos você!
– Talvez seja porque eu sou novo demais. A senhorita está bem? Ah, desculpa! Você está bem?
Eu sorri.
– Por quê?
– Porque não parece.
Respirei fundo e olhei para o quadro na parede à minha frente.
– Ser o segurança da filha do presidente é realmente o seu sonho? – Perguntei séria, o que fez com que sua expressão facial mudasse.
– Você está se questionando se fazer a faculdade vale a pena? Não precisa responder, acho que a resposta é bem óbvia.
se aproximou e sentou-se ao meu lado, também em cima da mesa.
– Se não é a sua prioridade, desista. E não, meu sonho não era ser seu segurança, era ser segurança do seu pai, mas a gente vai aceitando o que o destino coloca na nossa frente. Eu não tive escolha. Era pegar ou largar. Mas você tem tudo.
– Já falamos sobre esse lance de “ter tudo”.
Com um pulo, ele desceu da mesa e ficou na minha frente, olhando nos meus olhos.
– O que é ter tudo pra você?
Devolvi o olhar antes de começar a responder.
– Eu vi como você me defendeu sexta quando eu fui encontrar meu pai.
– Não mude de assunto, .
– Você tá me chamando pelo nome, que bonitinho. – Eu disse com um sorriso que ele retribuiu. – É sério, eu vi. Foi... Diferente.
Ele desviou o olhar.
– Ter tudo, meu caro , é ter tempo pra minha família, ter tempo pra viajar pelo mundo, ter tempo pra entrar num relacionamento sério com um garoto que realmente goste de quem eu sou, ter tempo pra ter amigos, ter tempo, sabe...
– Quanto a esse tópico sobre relacionamento sério...
se aproximou, colocando uma mão em cada um dos meus joelhos. Eu estava com as pernas um pouco abertas na posição em que estava sentada, então ele se aproximou mais ainda, abriu um pouco mais minhas pernas e colocou-se entre elas.
– ... Acho que a gente pode começar a tentar resolver.
Seus lábios roçaram nos meus e coloquei minhas mãos na sua nuca. Scott abriu a porta na hora em que ele me beijaria e eu fiquei com raiva instantaneamente. se afastou rápido e Scott limpou a garganta.
– Freddie quer falar com você. – Ele disse para , que imediatamente retirou-se. – O que você estava fazendo?
– Ah, Scott! É sério, para. Você não é meu pai. Ele mesmo sabe que eu sou afim do e não fala nada. Você não vai querer me dar lição de moral, vai?
! Eu não sou seu pai, mas sou o chefe do . E eu não admito isso. Você não precisa seguir minhas regras, mas ele precisa. Eu vou dispensar o por sua causa, porque você não sabe se segurar quando vê um homem.
Desci da mesa de sinuca com uma postura violenta e posicionei-me bem na frente dele, erguendo a cabeça para olhar nos seus olhos.
– Ok. Você quer brincar? Vamos brincar. Foda-se se você é o chefe dele. Eu sou a sua chefe. Não é porque eu tenho 18 anos que você vai me fazer de boba. Você pode dispensar o ? Pode. Mas eu também posso te dispensar e manter ele no trabalho.
– Se eu for embora, a minha equipe inteira vai junto. E eu não vou deixar o aqui com os equipamentos sobre os quais eu tenho responsabilidade. Você vai ser protegida apenas por um cara desarmado?
– Só nos seus sonhos que você vai levar a arma dele embora. Eu já disse. Eu sou a sua chefe. Você faz o que eu digo.
– Sabe qual é o seu problema? Você é apenas uma adolescente mimada que tem tudo o que quer. Você nunca teve que lutar pra conseguir o que quer, nunca teve que se sacrificar pra colocar comida dentro de casa. Você acha que manda em todo mundo, mas em mim você não manda. Você não merece esse mundinho de merda que você tem.
– Esse mundinho de merda me deu um telefone e esse telefone me dá a capacidade de falar com o presidente dos Estados Unidos de graça. Não demora nada pra ele queimar você em todo tipo de lugar pra você nunca mais conseguir um emprego. E, no caso de eu ser realmente tudo isso que você falou... Foda-se! Você continua sendo um merda, não muda a realidade na qual estamos inseridos.
Eu andei para a porta e gritei por .
– Me dá sua arma. – Pedi quando ele chegou.
– O quê?!
– Sua arma! É sério, não to brincando.
Relutante, ele tirou a pistola do coldre na sua cintura e entregou. Verifiquei que tratava-se de uma arma automática, então imediatamente a apontei na direção de Scott.
– Você vai tirar sua arma do coldre e vai colocar ela em cima da mesa de carteado. Depois, você vai andar até a porta da minha casa e nunca mais voltará. Estamos entendidos?
Os dois se assustaram com o meu ato. Scott olhava assustado para mim e, depois de alguns segundos percebendo que eu não estava brincando, fez o que eu mandei. Quando ele saiu pela porta, fiz questão de falar com todos os outros para que repetissem o que Scott fez, mas é claro que lhes dei tempo de recolher seus pertences pessoais e não os ameacei com uma arma.
Era fim de noite. Eu e estávamos sentados na sala, um de frente para o outro, ainda imaginando como ligar para meu pai e contar o que eu havia feito. Às vezes, ele fazia menção de esticar a mão na direção do telefone fixo, porém desistia em um segundo. Eu mesma já havia feito o mesmo algumas vezes. Então eu me decidi e peguei logo o telefone. Disquei o número do meu pai com uma coragem que eu desconhecia. Coloquei o aparelho no ouvido sob o olhar curioso de . Depois de dois toques, meu pai atendeu.
– Filha! Eu já estava ficando preocupado! Você não nos ligou hoje ainda!
– Hm... Bem... Pai... Eu preciso te contar uma coisa.
– Está tudo bem com você, não está?
– Sim, está. Eu to perfeitamente bem, só tem um problema.
– Qual?
– Bem... Eu só to com o aqui.
– Como assim? Onde estão os outros?
– Foram embora.
– Como assim “foram embora”, ? Deve haver uma justificativa!
Respirei fundo e olhei para . Ele estendeu sua mão, segurando a minha e passando um pouco de confiança. Então respirei fundo novamente e contei – da forma mais resumida possível – o que havia ocorrido naquela tarde. Meu pai ficou em silêncio quando eu terminei, um silêncio que me deixou preocupadíssima.
– Volte para Washington.
– Mas pai...
– Sem mais, ! Você vai voltar para Washington amanhã. Um carro irá buscar vocês dois e os levará ao aeroporto para virem para cá imediatamente. Tenho que desligar.
Era a primeira vez em dezoito anos de vida que eu ouvia meu pai falar comigo rispidamente. O olhar que eu direcionei para o preocupou.
– Arrume suas coisas. Vamos sair pela manhã. – Eu disse e levantei, indo para o meu quarto.
Enquanto eu jogava as roupas de qualquer jeito dentro das minhas malas, lágrimas escorriam pelo meu rosto. Horas atrás, eu estava ponderando se deveria desistir da faculdade. E então estava sendo forçada a arrumar minhas coisas e ir embora, mas não queria de jeito nenhum abrir mão de tudo aquilo que eu tinha aprendido a gostar. O pior era saber que a culpa era inteiramente minha, por realmente ter agido como uma idiota em um surto sem razão. Durante meus devaneios, ouvi duas batidas na porta.
– Entra, ! – Gritei.
Ele colocou seu corpo enorme para dentro do meu quarto e ficou em pé, colado à parede ao lado da porta. Seu olhar gritava um pedido de desculpas silencioso que eu retribuí. Provavelmente, ele seria punido de alguma forma também. Seu corpo estava mais rígido do que sempre. Eu forcei o zíper da última mala algumas vezes, mas não obtive nenhum sucesso.
– Pode me ajudar? – Falei baixo.
conseguiu fechar a mala com facilidade. Depois disso, endireitou o corpo e ficou em pé na minha frente.
, eu queria...
– Não... Não fala isso, tá? Talvez seja o empurrão que eu precisava pra tomar minha decisão.
– Isso não justifica. O erro foi meu.
– Na verdade... , eu que tenho que te pedir desculpas. Quem se irritou fui eu. Quem provocou o Scott fui eu. Quem mandou todo mundo ir embora fui eu. Eu coloquei você nessa furada. Me perdoa.
Ele sustentava meu olhar com seus olhos claros.
– Pode me chamar de ... Se quiser, é claro.
Forcei um sorriso educado enquanto afastava meu corpo para que ele passasse. Nós dois queríamos um envolvimento mais íntimo, mas o momento não permitia. Meus hormônios gritavam por ele e, enquanto se retirava do meu quarto, sabia que essa reação era correspondida. Mas eram apenas hormônios, não eram?
Mais tarde, eles se aquietaram. A parte racional do meu corpo trabalhou com afinco durante as horas da madrugada, tanto que não me deixaram dormir. E, por algum motivo sem lógica, eu imaginava que também passava pelo mesmo problema.


And, girl, you and I... We're about to make some memories tonight.

Nunca, estar perto dos meus pais tinha sido ruim. Não até aquele dia. Eles me tratariam como uma adolescente rebelde? Pois bem. Então, como uma adolescente rebelde, eu agiria.
Quando cheguei em casa, corri para meu quarto, sendo acompanhada fielmente por , que não desgrudara de mim desde que entramos no avião para Washington. Eu acreditava que ele estava com medo de enfrentar meu pai. Ele ficou parado na porta enquanto eu me jogava na cama e respirava fundo. Apoiei o peso do meu corpo nos cotovelos, levantando meu tronco para que eu pudesse olhar em seus olhos.
– O que foi? – Ele perguntou, a curiosidade emanando de sua expressão facial.
– Tive uma ideia.
Dei um pulo da cama e corri até ele, pegando sua mão.
– Vem, estou com fome.
– A gente tá vivendo essa confusão toda e você quer me levar pra cozinha? – Ele perguntou divertido e, mesmo assim, seguindo-me.
Olhei para ele, deixando claro que minhas intenções não eram ligadas a qualquer tipo de alimento. Ele sorriu de lado e colocou a mão na minha cintura, puxando-me de volta e fazendo com que meu quadril se chocasse contra sua pélvis.
– Na cozinha, ? – Ele sussurrou no meu ouvido.
– Sabe que eu adoro quando você diz meu nome? É tão delicioso, cada letra...
Nesse exato momento, meu pai se materializou à nossa frente. Nossos corpos se separaram enquanto o olhar irritado do presidente Andrew caía sobre nós.
– Eu quero conversar com os dois.
– Sim, senhor...
– Nada de “sim, senhor”, . Você tá atrapalhando a gente, presidente. – Respondi grosseiramente.
– Desde quando você não me chama mais de pai?
– Desde quando essa merda que você chama de trabalho não te permite agir como tal.
– Você tá revoltada porque eu não lhe permiti continuar a faculdade?
– Eu só to cansada de ser privada de viver o que a minha idade tem a oferecer porque você acha que tá tudo bem me privar, ok? Eu voltei pra casa. Pronto. Não precisa colocar uma equipe de segurança em cima de mim. pode muito bem fazer o trabalho sozinho.
Meu pai fuzilou com o olhar e, depois de um tempo, apontou um dedo acusador na direção de seu peito.
– Já que você é tão capacitado assim, é melhor que realize seu trabalho com perfeição. Do contrário, mando te matar. Estamos entendidos?
Podia escutar a frequência cardíaca acelerada e a respiração pesada de atrás de mim. Eu não ouvi mais nenhum som, então acreditava que ele tinha acenado com a cabeça. Não demorou para meu pai voltasse sua atenção para mim.
– Não terminamos aqui, mocinha.
Ele foi embora e nós continuamos ali. Eu fui a primeira a sair do lugar, virando meu corpo para que ficasse de frente para ele. Empurrei lentamente de volta para dentro do quarto, fechando a porta e levando-o até a beira da cama. Sem emitir nenhum som, ele me puxou com força e colocou seus lábios nos meus em um beijo completo de paixão. Não era desejo, era paixão mesmo. E a delicadeza com que ele me deitou na cama só deixou mais claro o tipo de sentimento que ele nutria por mim.
– Sabe que eu nunca vou deixar nada acontecer com você, não sabe? – Ele disse, alisando a lateral do meu rosto enquanto seu corpo estava sobre o meu. – Eu tenho te acompanhado por onde quer que você vá por quase um ano e não dá mais pra esconder. , você sabe que o que eu sinto por você vai além do profissional, você deixa claro que sabe.
Coloquei a mão no peito de , fazendo pressão. Ele se afastou como se houvesse a mínima possibilidade de que a minha força fosse maior que a dele.
, é tudo muito... Recente. Você sabe que, no momento, o que eu sinto por você é puramente físico, não sabe? – Eu perguntei e ele assentiu. – Eu não quero te prejudicar de jeito nenhum. Você é um cara legal, eu gosto de você. Então, por favor, tenha certeza do que você tá fazendo.
Ele pareceu ponderar sobre o que eu tinha dito por alguns instantes e, depois, voltou-se para mim e beijou-me tão lentamente quanto da primeira vez.
– Que seja só físico por enquanto. – Ele disse com um sorriso maroto nos lábios, colocando as mãos fortes na minha cintura e puxando-me para um beijo um pouco mais carregado de luxúria, o que guiaria nós dois até a hidromassagem do meu banheiro e ocuparia o tempo de toda a manhã.



– Você está dormindo com o segurança. – Minha mãe disse com assombro.
Eu sentei na poltrona onde estava lendo na biblioteca. Fechei o livro e o depositei na mesa de centro. Olhei para minha mãe como se eu fosse uma psicanalista pronta para começar a analisar minha paciente.
– Por quanto tempo, ?
Desviei o olhar.
– Eu perguntei por quanto tempo! – Ela elevou a voz pela primeira vez. – Eu te fiz uma pergunta, ! Tenha a decência de me responder!
Respirei fundo, controlando todas as emoções e as frases formadas na minha mente para que nada se exteriorizasse.
– Três meses.
– Três... O quê?! Você voltou para casa só para passar a dormir com o seu segurança pessoal, ? O que seu pai diria sobre isso?
– Que ela já é bem grandinha pra ter conhecimento das besteiras que ela está fazendo e dos riscos que ela está correndo. – Meu pai disse ao entrar na biblioteca. – Ava, deixe-a. O recado já foi dado: se der errado, se der algum problema, ela não terá nosso apoio. Simples assim.
Por um momento, achei que minha mãe ia levantar meu pai pelo pescoço.
– Você sabia?
– Ora, Ava! Estava bem claro. Não me venha com essa.
Ele deu a volta na poltrona onde eu estava sentada e colocou as mãos no meu ombro, massageando-os.
, eu te amo, mas você vai ter que aceitar quaisquer que sejam as consequências desse seu relacionamento.
– Eu sei, pai, o senhor já falou isso para mim.
– Viu? Problema resolvido! Agora vamos, Ava.
– Pra onde vocês vão?
– Seu pai tem um compromisso em Oklahoma. Já havíamos conversado sobre isso.
Minha mãe se aproximou e depositou um beijo sem emoção de cada lado do meu rosto. Quando meu pai chegou mais perto, eu me levantei e permiti que ele me desse um beijo na testa.
– Nós te amamos, filha.
– Mas temos que amar menos. Ela não está merecendo isso tudo. Não quero saber de problemas enquanto estivermos fora, entendeu, ? – Minha mãe disse, o que eu respondi com um aceno.
Terminei ler o capítulo de A Sombra do Vento, cuja leitura minha mãe havia interrompido. Quando estava guardando o livro de volta na estante, senti mãos fortes envolvendo minha cintura de um jeito que eu já conhecia perfeitamente. arrastou a barba por fazer na pele exposta do meu pescoço, provocando. Deixei que um gemido baixo escapasse por entre meus dentes enquanto eu fechava meus olhos e imaginava o desfecho que aquela “brincadeira” teria.
– Vá se arrumar. – Ele sussurrou no meu ouvido.
– Ok, você não falou sacanagem, então minha mente ficou meio confusa. – Eu disse e virei para ele, beijando rapidamente seus lábios. – Dá pra repetir? – Pedi, rindo.
– Eu quero que a senhorita vá se arrumar. Vou te levar para jantar fora. – Ele disse com um dos sorrisos mais sinceros que eu já havia visto.
Olhei para ele e reparei que ele não vestia seu uniforme normal. Em vez disso, uma camisa polo de algodão cobria seu corpo e uma calça social o envelhecia, no mínimo, três anos.
– Acho que você já está pronto.
Ele fez que sim com a cabeça, sorrindo.
– Você vai dirigir?
acenou positivamente de novo.
– Ok, então me espere no carro em frente à porta de entrada. Eu estarei pronta em dez minutos, no máximo.
Beijei-o novamente e corri pelas escadas até meu quarto. Foi uma ótima escolha ter tomado banho antes de descer para a biblioteca. Coloquei uma calça jeans e uma blusa de manga comprida, continuando com o All Star que estava usando antes. Como sempre, executei meu ritual de colocar o celular e a carteira nos bolsos da calça e, na mesma velocidade alta com a qual tinha subido, desci os degraus da Casa Branca.
estava parecendo poderoso atrás do volante do Audi R8 V10 blindado que era justamente para ele usar quando saíamos pela cidade. Não era exatamente o disfarce perfeito, mas era dentro dele que eu passava os momentos mais próximos da vida normal.
Nós jantamos no Four Seasons, um hotel maravilhoso cujo restaurante servia pratos incomparáveis. Durante a refeição, ficamos concentrados em conversar sobre assuntos do cotidiano, deixando de lado tudo o que pudesse possivelmente envolver o trabalho dele ou do meu pai. Enquanto esperávamos o garçom trazer a conta, um flash foi disparado na minha direção. Instintivamente, arrastou uma cadeira para o meu lado, cobrindo-me facilmente com seu corpo. O gerente do restaurante, imediatamente, se aproximou e fechou as persianas, que esconderam o interior do aposento. Agradeci a ele com um olhar enquanto se reposicionava.
– O que foi isso?
– Isso é o resultado de você estar saindo com a filha do presidente. – Eu disse com um sorriso, mas não tão feliz quanto aparentava.
– Sobre isso... – Ele disse baixinho, talvez achando que eu nem fosse escutar.
– O quê?
– Nada, me desculpa, eu tava pensando alto.
– Não. Você ia dizer alguma coisa. O que é, ?
Ele suspirou, sorrindo.
– Acho que o que você sente quando te chamo de “senhorita” é algo bem próximo do que eu sinto quando você me chama de , se não é o mesmo sentimento.
Eu sorri e estiquei-me sobre a mesa, alcançando seus lábios por alguns segundos.
– Por favor, me conta.
Ele esticou o braço para, com a ponta dos dedos, acariciar meu antebraço.
– Eu quero te pedir em namoro oficialmente pros seus pais quando eles voltarem de Oklahoma no domingo.



aguardou pacientemente na porta principal da casa desde nove horas da manhã, horário em que meus pais deveriam estar chegando à capital. Eu mantive distância, esperando o pior. Quando a comitiva presidencial estacionou na frente da casa e meus pais saíram do carro, acompanhados por seus respectivos seguranças, avançou na direção deles e eu corri para acompanhá-lo.
– Senhor presidente, senhora primeira dama, eu gostaria de falar com vocês, se possível.
, acabamos de chegar de viagem. Estamos cansados. Isso não pode esperar?
– Na verdade, eu preferiria antecipar o máximo possível esse pedido.
Minha mãe parou contra sua vontade, deixando bem claro que não gostava mais de . Meu pai o olhava com curiosidade estampada em sua linguagem corporal.
– Eu sei que é tardio e que eu deveria ter pedido isso antes, mas quis esperar para que tivesse certeza de que era a decisão certa a se fazer.
– Vamos, , diga.
– Quero pedir permissão para namorar a filha de vocês.
Ela nem tentou disfarçar. Minha mãe bufou, jogou a alça de sua bolsa de qualquer jeito no ombro e, como uma criança fazendo pirraça, afastou em direção à escadaria. Eu ainda olhava esperançosa para meu pai que, depois de quase perder minha admiração como filha, voltou a ser mais atencioso e procurava apoiar-me em tudo, dando sempre conselhos sobre o que eu estava fazendo e encaminhando-me para a independência de verdade. Seus olhos analisavam profundamente , deixando-o completamente tenso.
– Bem... – Meu pai começou a responder lentamente. – Não vejo motivo para não permitir! Sejam responsáveis, jovens.
Ele piscou o olho para nós dois. Eu encarei , surpresa.
– Então é isso? – Ele me perguntou.
– É... – Respondi, ainda olhando para meu pai enquanto ele começava a subir os degraus. – Acho que sim... Namorado.


When you're lost, you'll find a way, I'll be your light.

Eu parecia uma idiota. Estava reclamando de estar sendo forçada a fazer o que todo jovem na minha idade gostaria: absolutamente nada. Comecei a pensar que talvez pudesse ser ridícula ao ponto de aceitar isso, e eu fui. Deixei que meu pai me forçasse a dedicar-me exclusivamente aos seus eventos mais importantes, e o resto resumiria-se a viagens para cidades paradisíacas e horas gastas na biblioteca de casa.
Meu relacionamento com não era dos melhores, mas era de admirar que, mesmo vendo que nós nos dávamos muito bem e que ser meu namorado não impedia de realizar sua função como meu segurança, minha mãe ainda estivesse olhando para ele com cara feia. Nós já tínhamos alcançado um mês e meio de um namoro cheio de sarcasmo, brincadeiras e "pegação" nas horas mais inusitadas. Eu não podia reclamar, podia?
Claro que podia!
Eu queria mais que aquilo. Queria meu pai só para mim. Embora estivesse agindo como uma adolescente rebelde, eu ainda amava meus pais acima de tudo e queria que – não importasse qual fosse a minha decisão – eles me apoiassem, mesmo enchendo de críticas, porque significaria que eles se importavam e isso era o que eu queria. Talvez eu tivesse mesmo que agradecer pela oportunidade que eu estava tendo e parar de reclamar.
Forçada a agir como filha do presidente, decidi então dedicar-me a uma boa causa. No mínimo uma vez por semana, eu visitava o Children’s National Medical Center para fazer trabalho voluntário com crianças vítimas de câncer. Era uma causa nobre e eu comecei a me orgulhar de mim mesma e deixar um pouco de lado o antes tão necessário apoio dos meus pais. Além disso, comecei a dar muito mais valor à minha vida.
– Tia, você pode ler uma historinha pra mim?
Os olhos verdes brilharam na minha direção. Zoe era uma adorável garotinha de quatro anos de idade, vítima de leucemia. Mesmo a doença estando levando-a aos poucos, ela ainda tinha a capacidade de sorrir como se todo dia fosse Natal. Seus pais trabalhavam arduamente para conseguirem pagar o custo do hospital, lutando com todas as suas forças para manter a filha viva.
– Claro, minha linda. Qual você quer que eu leia?
– Aquela com o cavalinho na capa. – Ela disse com a voz infantil, apontando o pequeno dedo para uma das várias mesas onde, em cima, estava minha bolsa e o livro que eu estava lendo, Uma Longa Jornada, do Nicholas Sparks.
– Mas aquele livro é de gente grande, Zoe.
– Eu queria ouvir a história mesmo assim.
– É muito grande pra você, pequena. Que tal escolher uma da estante de livros pra você? Qualquer uma!
– Qualquer uma? – Ela perguntou com os olhos brilhando mais intensamente.
Eu sorri em resposta enquanto observava Zoe correr até a estante e trazer nas mãos um livro pequeno sobre a Cinderela, entregando e sentando-se à minha frente. Então eu me sentei ao seu lado, puxando-a para que ela se sentasse no meu colo. Abri o livro, cuidando para que ela pudesse ver todas as imagens. Em um segundo, um grupo de dez crianças tinha sentado ao nosso redor. Quando terminei a história, uma mão bateu em meu ombro.
– Temos que levar a Zoe para fazer punção. – O doutor Brook disse.
Senti Zoe se encolhendo nos meus braços.
– Eu não quero ir. – Ela gemeu. – Tia , não deixa eles me levarem.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, o que fez com que os meus se encontrassem no mesmo estado.
– Zoe, você tem que ir. Lembra? É pra curar o dodói.
– Mas eu não quero, tia , não quero. Dói muito. Não deixa eles me levarem, tia , por favor.
– Zoe, você tem que ir! A tia não pode fazer você ficar. Se eu pudesse, não ia deixar você fazer isso nunca, mas você tem que ir, Zoe.
– Vem comigo então, tia .
Eu respirei fundo. Será que conseguiria realmente aguentar a cena? Lembrei-me de quando vi o cavalo morto no hospital e quase desmaiei. Eu não tinha condição emocional nenhuma de ir com ela, mas eu precisava. Fiquei de pé e peguei-a no colo.
– Você tem certeza disso, senhorita ? – Brook sussurrou para mim enquanto eu afirmava com a cabeça. – Então vou levá-la para se vestir adequadamente. Zoe, quer vir comigo?
– Não! – Ela disse e enfiou a cabeça entre meu queixo e meu ombro, escondendo o rosto e apertando-me entre seus bracinhos com o pouco de força que restava em seu corpo.
– Zoe, olha pra mim. A tia tem que colocar uma roupa de médico pra poder ir com você. Eu já vou voltar, prometo.
Começamos a andar pelos corredores do hospital até as devidas salas. Eu estava certa em questionar sobre aguentar ou não a cena. Eu segurei as pequenas mãos de Zoe durante todo o tempo mas, quando o doutor Brook colocou a agulha nas suas costas, o grito que escapou de sua garganta fez com que eu sentisse a dor dela. Chorei compulsivamente enquanto assistia a pequena e indefesa Zoe dizendo que não aguentava mais e pedindo para que eu a levasse para longe dali. Eu devia ir embora, mas fiquei até ela adormecer, exatamente o momento em que seus pais chegaram.
– Senhorita . – O pai de Zoe disse, estendendo a mão para me cumprimentar.
, por favor.
– Nós ficamos sabendo sobre o que tem feito com nossa filha. Eu só queria dizer muito obrigado. – Ele disse emocionado.
A mãe de Zoe se lançou na minha direção. , do lado de fora do quarto, observava tudo. Mesmo no hospital, eu tinha sempre um segurança na minha cola. Eu olhei para ele, deixando claro que tudo estava bem. Enquanto ela me abraçava, senti seu corpo tremer com os soluços. Um som estridente saiu da sua garganta enquanto ela chorava. Meio sem jeito, devolvi o abraço, passando a mão de leve em seus cabelos. Quando ela me soltou, colocou uma mão de cada lado do meu rosto.
– Muito obrigada. Muito obrigada mesmo. A Zoe é tudo pra mim e estar longe dela, não poder acompanhar o seu tratamento, tudo tem me causado uma dor horrível.
Com lágrimas nos olhos, sorri e tentei demonstrar confiança.
– Ela vai ficar bem. – Disse com medo de que minhas palavras não virassem realidade.
Fiquei lá durante a noite conversando com Anna e Patrick Donavan, pais de Zoe. Eles me contaram a história da pequena que eu tinha aprendido a amar em instantes. Escutei sobre como Patrick se sentiu a pessoa mais feliz do mundo quando Anna descobriu que estava grávida, sobre como Zoe nasceu perfeita, sobre suas primeiras palavras e seus primeiros passos. É claro que também ouvi sobre o aparecimento dos primeiros sintomas da leucemia e sobre como a doença tinha progredido de forma rápida. A cada momento, eu segurava na mão dos dois e tentava tranquilizá-los, falando palavras de conforto.
Pela manhã, procurei , que havia dormido em um canto da sala de espera enquanto deixava Paul, um integrante da nova equipe de seguranças, tomando conta de mim. Ele se assustou com a minha aparência, cansada por causa da noite que havia passado em claro, levantando-se rapidamente e passando a mão nos lados do meu rosto.
– Eu quero ir pra casa. – Minha voz saiu arrastada.
– Isso tá bem óbvio. Você precisa dormir.
– Não vou dormir. Só vou tomar um banho e trocar de roupa. Vou voltar para cá.
– Mas seus dias aqui não são só às quartas?
– Eu vou ficar com Zoe, . Por favor. Me leva pra casa o mais rápido possível. Tenho que voltar antes de Anna e Patrick irem embora. Prometi isso a eles.
Ele suspirou e abraçou-me.
– Eu to orgulhoso de você. Seus pais também tão, tenho certeza. E devem estar muito mais orgulhosos do que eu estou.
Eu tentei sorrir, mas não encontrei forças. Minha rápida passagem em casa foi exatamente como eu tinha planejado: tomei banho, juntei alguns pertences, deixei um recado para meu pai e voltei imediatamente para o hospital.
– Eu vou lhe pagar isso de alguma forma. Você não sabe o quanto isso significa para nós! Deus lhe abençoe, . – Anna me disse quando estava despedindo-se.
– Eu sou um ser humano. Apenas estou fazendo minha parte como tal. E eu amo a filha de vocês, Anna. No que precisarem, podem contar comigo.
Ela sorriu em gratidão e Patrick fez o mesmo, ambos com semblantes cansados e dirigindo-se com pressa para o trabalho que os ocuparia durante o dia inteiro. Enquanto isso, eu mexia alguns pauzinhos para tentar organizar uma forma de bancar integralmente o tratamento da pequena. Encaminhei-me para o quarto de Zoe com pressa, entrando no exato momento em que ela começava a acordar.
– Tia ? – Ela disse sonolenta. – Já é quarta de novo?
– Não, minha querida. – Eu disse, ficando ao lado dela na cama e acariciando seu braço, já que ela não possuía mais nenhum fio de cabelo. – Eu vou ficar com você aqui agora durante os dias e seu papai e sua mamãe virão de noite.
Ela sorriu e fechou os olhos. A fraqueza estava evidente nela. Constatar isso causou uma pontada de dor no coração, o que já era comum nos dias que eu passava ali no hospital. No mesmo instante, ela adormeceu novamente. E era assim quase todos os dias.
Zoe não tinha mais energia para sair e brincar com as outras crianças. Aua vida era em cima da cama. Um fisioterapeuta aparecia todo dia para realizar alguns exercícios com ela, que dormia durante grande parte da sessão. Todo dia, eu via que a doença a estava levando para cada vez mais longe desse mundo.
Era segunda. O sol havia desaparecido. O dia parecia prever o que estava para acontecer. Brook entrou ofegante no quarto.
– Vamos prepará-la pra cirurgia. O pai é um doador compatível. Não temos tempo. Estamos levando a Zoe agora pra fazer o transplante de medula.
Zoe abriu os olhinhos com dificuldade.
– Você escutou? Eles vão te curar. Você vai ficar bem, Zoe. Escutou isso?
Ela sorriu, coisa que não fazia há muito tempo. Sua mão procurou a minha e ela a apertou levemente. Nós já havíamos conversado sobre como seria esse dia. Eu havia dito que não poderia estar com ela durante a cirurgia, mas que estaria assistindo e seria a primeira pessoa que ela veria quando acordasse. Tinha prometido isso para ela.
– Eu vou ficar te esperando, ok?
Fui para a janela do quarto e liguei para Anna, avisando que iam operá-la, mesmo que fosse claro que aquilo já seria do conhecimento dela. Ela pediu, chorando de felicidade, que eu lhe enviasse notícias assim que possível porque não conseguiria folga do trabalho. Desliguei com pressa e corri para a sala de observação acima do centro cirúrgico, de onde poderia assistir a cirurgia. Meu coração batia forte. Eu estava confiante. Em semanas, Zoe estaria bem, eu a levaria para conhecer minha casa e veria a pequena correr por aí como uma criança, como havia dito que faria.
se sentou ao meu lado e segurou na minha mão, sorrindo e transmitindo mais confiança ainda. Eu apertei sua mão e sorri também.
– Vai dar tudo certo, .
– Vai sim, meu amor. – Ele disse e abraçou o meu corpo.
– Ei... Me desculpa por não estar te dando tanta atenção ultimamente. É que...
– Eu entendo, ok? – Ele sorriu. – Temos coisas mais importantes agora.
apontou para a maca entrando com Zoe, já devidamente anestesiada. Patrick entrou logo depois, também dopado. Os segundos pareciam nunca acabar. Cada procedimento levava séculos para ser realizado. Percebi que estava suando frio. Por alguns instantes, eu me imaginei ali. Talvez não fosse Medicina Veterinária o meu sonho. Talvez fosse Medicina humana. Eu ia amar salvar vidas humanas. Claro que as vidas dos animais para mim tinham o mesmo valor. Mas, naquele momento, eu só conseguia imaginar que podia ser eu, ali, salvando a vida da pequena Zoe.
De repente, a movimentação entre os médicos e enfermeiros se tornou mais intensa. Olhei preocupada, procurando algum sinal de que algo estava dando errado. Quando vi a mesa do desfibrilador sendo empurrada para perto de Zoe, meu coração disparou feito louco. Eu achei que ia ter um infarto. O monitor que era usado para indicar os sinais vitais dela deixava claro que, naquele momento, seu coração não batia. Eu levantei imediatamente, as pernas travadas, indecisas entre ficar ali ou correr até lá.
O pequeno corpo de Zoe pulava na mesa cirúrgica enquanto os médicos tentavam fazer de tudo. Vinte minutos já haviam passado. Eu não precisava fazer faculdade nenhuma para saber que era tempo demais. Brook olhou lá de baixo para mim e eu li seu olhar, confirmando o meu medo.
Abri a porta da sala de observação e desci as escadas correndo. Mesmo sabendo que não estava devidamente pronta para estar em um centro cirúrgico, entrei correndo. Brook me segurou perto da porta, enquanto eu lutava para me aproximar de Zoe.
, saia daqui, você não tá devidamente preparada para estar aqui dentro!
– Eu preciso salvar ela, Brook.
– Não dá, . Olha pra mim. Olha nos meus olhos. Eu tentei. Eu fiz o possível. Todo mundo sabia que era arriscado demais. Ela não resistiu. A chance existia, com o organismo fraco que tinha. , ela descansou.
Eu me afastei de costas lentamente até a porta de entrada, olhando ainda para o monitor com esperanças de que tudo aquilo fosse um pesadelo. Assim que entrei no corredor, caí no chão e deixei um grito alto escapar de dentro de mim. Zoe tinha perdido a luta para a leucemia. Eu não a veria acordar, não a levaria para conhecer minha casa, não poderia cumprir nenhuma das promessas que tinha feito a ela.
Junto com Zoe, parte de mim também se foi.


And it hurts 'cause I know you won't be mine tonight.

Recomeçar, recomeçar, recomeçar. Essa palavra ecoava insistentemente na minha cabeça. Desde que meu pai tinha se tornado presidente, tudo que eu escolhia fazer ou era proibido por meus pais ou dava errado. E sim, estava dentro desse “tudo que eu escolhia fazer”, afinal de contas, estar em um relacionamento sério era um dos itens da minha lista de coisas que eu queria fazer antes de morrer. Para a filha do presidente dos Estados Unidos, não era tão simples assim.
, você nem tocou na comida. – Minha mãe falou quando eu levantei da mesa.
– É, eu sei.
– Isso é pra você se encontrar com o segurança mais cedo?
– Mãe! Primeiro: se fosse, o problema era meu. Segundo: o nome dele é . Se quiser, você pode até chamar ele de . Mas não. Você me conhece por quase vinte anos e deveria saber que eu, sendo do jeito que sou, não deixaria de comer por um garoto.
– Você tem deixado seus pais de lado por causa do . – Ela disse o nome dele com claro desgosto.
– Não, eu não tenho feito isso mesmo! Se você não olha mais na minha cara só porque eu to namorando o “segurança”, – Eu disse, fazendo as aspas no ar com os dedos. – o problema não é meu, mãe. É só perguntar pro meu pai, porque ele não tem agido como criança. Quer saber? Cansei! Vou sair.
– Volte aqui, mocinha. Você não pode falar comigo assim.
Empurrei a cadeira de qualquer jeito e ela caiu no chão. Não me preocupei em voltar e ajeitá-la no devido local. estava subindo quando eu comecei a descer as escadas em alta velocidade. Fiz com que ele se virasse e voltasse a descer. Logo atrás, minha mãe nos seguia, gritando.
Quando cheguei ao primeiro andar, cruzei o hall principal e saí pela porta, pronta para pegar o primeiro carro disponível e ir para longe de casa. Foi tudo muito rápido, eu mal pude pensar no momento. se jogou na minha frente e eu fui derrubada. Em algum lugar na minha mente, eu recordava de ter ouvido um estouro. Olhei para meu ombro e vi sangue. Será que tinha causado um machucado tão grave assim? Mas eu não sentia nenhuma dor. Talvez fosse porque o sangue ainda estava quente.
Sentei no chão mesmo, tentando colocar as coisas em ordem. Minha cabeça girou levemente enquanto eu respirava fundo.
– Merda, acho que bati com a cabeça... , por que você fez aquilo? – Perguntei com os olhos fechados e a cabeça entre os joelhos, fazendo de tudo para melhorar.
Recebi um silêncio como resposta.
– Ei, , você me escutou?
Ao elevar minha voz, minha cabeça girou com mais força, então simplesmente abri os olhos de forma calma e virei a cabeça bem devagar. Quando meus olhos fitaram , ele ainda estava no chão, deitado de bruço, e uma poça de sangue começava a aumentar em volta do tronco dele. Outros seguranças corriam na nossa direção. Minha mãe, ainda na porta, olhava para nós dois, imóvel. Minha reação imediata foi lançar o meu corpo por cima do dele, virando-o de barriga para cima. Seus lábios e olhos cerrados diziam o quanto ele estava sofrendo. No seu peito esquerdo, uma bala havia causado um estrago e era de lá que todo aquele sangue estava saindo.
– O que você fez? – Perguntei assustada com as mãos no seu rosto.
– Se não fosse eu, era você. – Ele disse com extrema dificuldade.
– Mas que merda, ! Você não precisava ter entrado na frente!
– Precisava sim.
Lágrimas começavam a aparecer nos meus olhos enquanto eu ficava consciente de que um grupo grande de pessoas estava à nossa volta.
– Você morreria por mim? – Perguntei com a voz falhando.
– Claro. – Ele sussurrou de volta. – É o meu trabalho.
– Tragam uma ambulância para cá agora! – Tracy, uma das poucas mulheres na equipe de segurança da casa, gritou no rádio em seu ombro.
O vento estava frio, mas tirei meu casado e coloquei em cima da ferida, fazendo pressão para que o sangue não continuasse saindo. Minha mãe ficou ao meu lado, sem reação nenhuma, apenas observando enquanto eu me desesperava cada vez mais. Ele não estava conseguindo mais manter os olhos abertos e meu coração bateu mais forte.
– Ei, fica comigo, .
O peito dele já não subia mais com tanta frequência, sua respiração estava enfraquecendo mais e mais. Tirei uma das mãos de cima do ferimento e alisei a lateral de seu rosto.
– Amor, olha pra mim. Fica acordado, fica olhando pra mim. Não tira os olhos de mim, amor, por favor, eu te imploro. Não fecha esses olhos. Por favor, amor. – Eu falei com a voz suplicante.
Ele apertou os olhos e deu um sorriso fraco mas sincero, sussurrando alguma coisa que eu não consegui entender.
– O que você disse?
– Eu te amo.
Aquelas três palavras só serviram para aumentar ainda mais o aperto que eu já sentia no meu coração.
– Não aja como se estivesse se despedindo, . Para com isso! Você é enorme. Esse sangue que saiu de você... Tem muito mais dele aí dentro. Vamos, , você vai ver que não é nada. Você consegue. – Eu tentava animá-lo a todo custo.
– Se eu não voltar... – Ele disse bem baixinho.
– “Não voltar”? Você enlouqueceu? É claro que você vai voltar!
– Se eu não voltar, – Ele disse com um pouco mais de força, o que exigiu um grande esforço de sua parte. – fique sabendo que não foi só porque é meu trabalho. Eu prefiro morrer mil vezes a perder você, minha . Eu te amo.
O resto de suas forças se esvaiu lentamente de seu corpo. Eu estava certa de que estava morrendo na minha frente e eu não podia fazer nada. Quando a ambulância chegou, o paramédico colocou os dedos no pescoço dele.
– Sem pulso, traga o desfibrilador. – Ele disse para o outro paramédico que estava mais perto do carro.
Eu vi a cena da morte de Zoe repetindo-se na minha frente. Eu faria vinte anos de idade no domingo daquela semana e estava passando por problemas demais para alguém da minha idade. Meu pai, que estava numa reunião importante, largou tudo para voltar para casa. Ele chegou no exato momento em que tentavam ressuscitar . Senti seus braços envolvendo-me e todo meu desespero foi libertado na forma de um choro angustiante.
– Temos pulso! – O mesmo que tinha pedido o desfibrilador gritou.
Por um segundo, eu senti o ar faltando. Ele colocou o dedo novamente no pescoço dele.
– Ele está vivo, mas não está fora de risco. Vamos levá-lo pro hospital agora.
– Eu vou junto. – Disse, imediatamente libertando-me do abraço do meu pai e limpando as lágrimas que rolavam pelo meu rosto.
Minha mãe olhou para mim, repreendendo-me silenciosamente.
– Não importa o que digam, eu vou junto. – Repeti.
Todos os olhares pairaram em mim. Respirei fundo e mantive uma postura ereta, tentando parecer forte em todos os sentidos. Depois de segundos de silêncio, os paramédicos se movimentaram, quebrando a tensão do momento, e foram pegar a maca para colocar dentro da ambulância. Eu entrei logo atrás dele, segurando sua mão, incerta sobre ele estar consciente de que eu estava ali.
Enquanto ele passava nove horas na mesa de cirurgia, eu ficava andando de um lado para o outro na sala de espera. Não me importava que ele fosse “apenas” o segurança. Ele era meu namorado. Eu tinha me envolvido emocionalmente com ele. Precisava que ele ficasse bem, principalmente depois de não ter respondido a tempo o “eu te amo” dele. Se eu o amava? Bem, talvez não. Mas o que eu sentia chegava bem perto.
Quando o médico apareceu, senti todo meu sangue parando de circular. Depois de levantar rapidamente, não consegui mais pensar ou me mover.
– Senhorita . – Ele disse ao se aproximar, cumprimentando-me com um aceno de cabeça.
– Doutor, por favor, diz que ele tá bem.
– Bem... A situação dele é estável e ele não corre risco de vida...
– Graças a Deus.
– ... mas temos um problema.
Meus olhos ficaram mais abertos que o normal enquanto eu encarava assustada o médico que tinha operado .
– A bala perfurou o corpo do senhor na diagonal, da esquerda para a direita. Ela passou muito rente ao coração mas, felizmente, não o atingiu.
– Isso é um bom sinal, não é? Isso não pode ser um problema!
– Senhorita , a bala atingiu a coluna vertebral do senhor . Seu segurança não poderá mais exercer a sua profissão.
– Por quê?
– Senhorita , o senhor perdeu o movimento das pernas.
Meu mundo girou rapidamente. Caí na cadeira, a respiração falhando. Uma dor no meu peito começava a formar-se gradualmente. O médico se abaixou à minha frente, demonstrando-se atencioso ao colocar as mãos nos meus joelhos com cuidado.
– Nós tentamos de tudo. Existe uma pequena possibilidade de esse quadro ser reversível, mas acreditamos que qualquer procedimento urgente pode trazer risco à vida do senhor . É uma região arriscada demais pra se trabalhar.
Levei alguns minutos, com certeza, para assimilar tudo aquilo. Mas o doutor foi paciente e aguardou que eu me recuperasse da notícia.
– Quando eu vou poder vê-lo? – Perguntei com dificuldade.
– Ele está dopado, ainda sob efeito da anestesia. Vai ficar em observação por quarenta e oito horas na Unidade de Tratamento Intensivo e, logo depois, irá para o quarto. Se quiser, volte pra casa. Assim que ele estiver pronto para ser levado para o quarto, eu lhe informarei.
Assenti com a cabeça. Ele olhou para mim mais uma vez antes de sair pela porta que levava para a recepção do hospital. Joguei a cabeça para trás, encostando-a na parede, respirando fundo e tentando manter a calma. Eu sabia que aquela bala era para mim.
Dois dias depois, vi quando chegou ao quarto desacordado mas, mesmo assim, eu me coloquei de pé ao seu lado. A cena me lembrava muito o que eu tinha passado com Zoe. Tratei de afastar aqueles pensamentos da minha mente no mesmo instante em que eles chegaram. estava bem. Ele ia ficar bem, apenas não voltaria a andar. Apenas.
Era manhã do outro dia quando ele finalmente acordou. Seus olhos se abriram lentamente e, por mais que fosse claro que ele estava em um quarto de hospital, ele sorriu.
– Oi. – Ele disse bem baixinho, lembrando a voz que ele tinha usado no outro dia, quando eu quase assisti sua morte.
– Oi. – Eu disse, tentando sorrir o máximo possível. – Como você tá? – Perguntei, segurando sua mão com carinho.
– To achando que eu morri e fui pro céu. – Ele brincou. – O que aconteceu?
– Você levou um tiro. No meu lugar.
– Sim, dessa parte, eu me lembro. E então? Eu to vivo mesmo?
– Tá sim, meu amor. Os médicos conseguiram retirar a bala e...
Toda circulação fugiu do meu rosto. Senti que estava empalidecendo e o olhar de cauteloso sobre mim me alertava de que deveria agir o mais normalmente possível.
– O que houve, ?
– N-nada. – Eu gaguejei. – Enfim, você vai ficar bem.
Tentei sorrir, mas sabia que tinha fracassado.
– Eu não to sentindo nada da barriga pra baixo. Isso é normal?
As palavras dele me atingiram como a bala que ele levou por mim. Dentro da minha mente, eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém teria que contar para ele, mas preferi esconder. Era emoção demais para alguém que estava saindo de uma cirurgia. Então escolhi mentir.
– O médico falou que você ia sentir isso. É temporário.
E durante todos os dias, por uma semana, eu me mantive ali, ao seu lado, insistindo em não contar nem permitir que alguém contasse para o que realmente tinha acontecido. Passei meu aniversário inteiro lá, ao seu lado, pagando uma parcela extremamente mínima da dívida eterna que eu tinha com ele. Eu devia tudo a ele. A culpa era minha de estar naquela situação. Eu tinha deixado meu namorado sem poder andar.
No sétimo dia no hospital, meu pai providenciou uma equipe para que fossem tratá-lo em nossa casa. Ele estava mais preocupado comigo do que com em si, mas aceitei. Assim, ele teria o máximo de conforto possível e eu poderia começar a prepará-lo para receber a notícia.
Noite de terça. O frio em Washington, como sempre, estava acabando com todas as minhas energias. Eu estava deitada ao lado de , acariciando seus cabelos, que estavam mais compridos que o normal. Ele estava lindo daquele jeito. Enquanto eu o apreciava, adormecido como um anjo, meu pai entrou no quarto silenciosamente, apontando com a cabeça para a porta. Saí da cama com cuidado para que ele não acordasse e retirei-me do quarto, fechando a porta lentamente para não fazer barulho.
– Precisamos conversar. – Meu pai disse. – Queriam vir falar o que eu tenho pra te dizer, mas eu acho melhor você escutar isso de mim. Até porque parte do que eu tenho pra dizer envolve uma decisão minha.
– Pode dizer.
– Bem... Nessa situação em que o se encontra, é óbvio que ele não vai mais poder trabalhar como segurança pra ninguém.
Assenti com a cabeça. Meu corpo inteiro parecia pressentir que algo de ruim estava para acontecer.
– Seu namorado foi dispensado, filha. É claro que vocês vão poder continuar se vendo. Eu não vou impedir nada. Acho até saudável que você tenha um relacionamento como o que tem com o , mas tem um problema.
– Qual?
– Ele não pode ficar aqui. , você não come mais. Você parou sua vida pra não sair nenhum instante do lado dele. E vocês não estão em um relacionamento tão sério assim que já o permita morar com você. Eu vou continuar bancando o tratamento dele, mas ele não pode ficar aqui. Aluguei uma ótima casa pros pais dele aqui perto. Eles ficarão lá até que... Bem, até quando quiserem.
Decidi não questionar. Depois, podia até reclamar mas, naquele exato momento, não tinha forças para brigar. Nem era isso que eu queria.
– E ele tem que saber, filha. Eu entendo que você quer que seja você a revelar isso pra ele, mas já passou da hora. Você precisa tomar coragem. Sua mãe quer que você vá almoçar. Ela está te esperando na sala de jantar.
– Mas, pai, se o acordar...
– Eu fico aqui por enquanto. Apenas vá.
Respirei fundo e movi minhas pernas de forma extremamente mecânica para a sala de jantar. Minha mãe estava sentada na ponta. Um prato foi posto para mim ao seu lado, mas comi sem falar nada. Voltei para o quarto com passos largos e rápidos, ansiosa para vê-lo de novo. A cena que encontrei não me agradou nem um pouco. Uma cadeira de rodas foi posta ao lado da cama e um dos enfermeiros ajudava a vestir-se. Olhei confusa para o conjunto de acontecimentos.
– O que...? – Comecei a falar baixo.
olhou para trás, os olhos marejados.
– O que tá acontecendo?
– Eu to indo embora.
– Como assim?
– Eu não vou ficar com alguém só porque esse alguém sente pena de mim.
– Quem te disse que eu sinto pena de você, ?
– Por que você não me contou? – Ele gritou, eu me assustei.
, e-eu... Eu não sinto pena de você. Eu só não queria que você passasse por estresse depois da cirurgia.
– Já se passou mais de um mês. Não acha que tava na hora?
, não tem justificativa isso que você tá fazendo.
– Claro que tem. Você não disse que me amava também no dia. Você não fez questão de responder, mesmo sabendo que eu podia ter morrido.
– Eu tava desesperada. Você ia morrer nos meus braços. Queria que eu pensasse nisso naquela hora? Amor, me desculpa, mas não deu. Eu achei que ia te perder!
– Eu não sirvo mais pra você, ok?
– Quem te disse isso?
– Só me deixa ir embora, ok?
Os enfermeiros empurraram para fora do quarto na sua cadeira de rodas, ignorando totalmente a minha presença, algo com o qual eu não estava acostumada. Eu os segui pela casa.
– Você não pode ir, ! – Gritei quando eles alcançaram a porta de saída, a mesma onde tinha ocorrido o incidente da bala.
– Claro que posso. Até onde eu sei, você era minha namorada.
Era?
, eu não posso mais satisfazer você, ok? Entende isso? Aquela loucura toda na qual nosso relacionamento era baseado... Eu não posso mais. Minha presença aqui não é mais necessária pra você.
Começaram a colocá-lo dentro de um carro grande preto que eu desconhecia. A minha primeira reação foi praticamente cair em cima dele.
– Você não pode ir!
– Você já disse isso e eu já respondi.
Como se sentisse nojo de mim, retirou minhas mãos dele e terminou de ser colocado dentro do carro. Ele partiu e eu fiquei ali, caída no chão, achando que talvez tivesse sido melhor que ele tivesse morrido naquele dia. Não queria acreditar no que tinha acabado de acontecer.
– Senhorita ... – Um dos seguranças me chamou.
Eu estava entorpecida. Todos os sentimentos que eu sentia por tinham sido jogados no chão junto comigo. Jogados no chão por ele. Eu o amava, é claro que o amava. Ele sabia disso, com certeza. Se não, por qual outro motivo teria me dedicado tanto a ele nos últimos dias? Pena que não era sentimento suficiente para que não acontecesse algo daquele tipo.
Levantei sem a ajuda que o segurança tinha oferecido. Bati minhas mãos e ajeitei minha roupa. Respirei fundo e ignorei totalmente a dor da perda dentro do meu peito. Fiquei firme. Um deslize e eu não aguentaria, cairia no chão e choraria ali pelo resto da semana, no mínimo. Mas eu me mantive forte, principalmente quando meu pai apareceu correndo para me ver.
– Foi você, não foi? – Eu gritei, avançando na sua direção.
Ele segurou meus pulsos com facilidade, impedindo-me de acertar um tapa na sua cara.
– Ele precisava saber, .
– Vá se foder! Caralho! Que ódio de você! Eu te odeio, entende isso? Eu te odeio! Aquela bala tinha que ter atingido você! – Gritei enquanto eu me debatia.
– Você tá falando isso no calor do momento. Daqui a uns dias, você nem vai se lembrar dele. Entre, tome um banho e vá dormir, relaxar, ler, seja lá o que quiser. Se ele foi, é porque não te amava.
Meu pai não estava certo. Ele não podia estar certo. Repetia isso na minha cabeça como um mantra.
– E outra. Você devia estar mais preocupada consigo mesma. Aquele tiro foi pra você e... Bem, depois daquele incidente, algumas coisas estranhas andam acontecendo.
– Tipo o quê? – Perguntei, demonstrando uma curiosidade que eu queria esconder.
– Coisas que eu prefiro que você não saiba, mas que se referem a você. Eu te amo e não quero ver você correndo risco algum. Então se proteja. E isso não é um pedido, é uma ordem.


But I know in my heart you're not a constant star.

Eu passei os dias que seguiram-se após término do meu namoro com vivendo a rebeldia tardia com mais intensidade do que antes. Não sabia se tinha raiva dele por ter ido sem me deixar falar nada, se tinha raiva do meu pai por ter me ocupado para que pudesse contar para o que estava acontecendo ou se tinha raiva de mim, por não ter dito antes as consequências do acidente. Talvez eu sentisse os três. E essas três possibilidades me faziam passar dias e dias trancada no meu quarto, solitária, sem ninguém por perto, apenas imaginando como poderia ser diferente.
O dia lá fora apresentava um céu negro, algo de certa forma normal em Washington. Eu olhei pela janela. No meu celular, havia chegado uma mensagem de texto de uma prima, dizendo que ela estava em Washington e queria encontrar comigo a fim de sairmos para almoçar. Não queria aceitar pelo simples fato de que, durante nosso almoço, seria outra pessoa que ficaria ao meu lado a todo instante e não . Eu o amava. Depois de tudo o que aconteceu, eu tinha certeza absoluta de que o amava.
Respirei fundo e peguei meu celular. Passei minutos ponderando sobre o que responder. Decidi que precisava superar. Precisava esquecer , e urgentemente. Então eu iria. Aproveitei e mandei uma mensagem de texto para meu pai também, avisando que ia sair. Coloquei uma roupa reforçada para o frio e saí do meu quarto. Carlson, um segurança tão ridículo que nem nos permitia chamá-lo pelo primeiro nome, estava parado, de braços cruzados, ao lado da porta. Fiz uma anotação mental de pedir para alguém ou forçá-lo a mudar aquele humor metido dele ou tirá-lo do posto de meu segurança pessoal.
– Eu quero um carro. Agora. – Disse com rispidez, algo que eu fazia de propósito para irritá-lo e, com sorte, fazê-lo pedir demissão.
– Para onde?
– Para o Loews Madison Hotel. E eu quero agora.
– Ok, a senhorita já disse isso.
– Só pra confirmar que você vai fazer seu trabalho direitinho, não é?
Ele prendeu a respiração e eu pude ver a raiva transbordando de seus olhos. Estar ali, fazendo aquilo, certamente não era o que ele queria.
Elizabeth me abraçou com força quando eu cheguei.
– Eu estava com tantas saudades, senhorita !
– Ah, para! Você também não! Chega disso!
Ela riu, o que fez com que eu lembrasse de tempos antigos, quando nós nos reuníamos em nossas casas com a família toda.
– Eles têm mesmo que ficar aqui? – Ela sussurrou, apontando discretamente para os seis homens de preto atrás de mim.
Olhei para trás de forma arrogante e fiz um gesto para que eles se afastassem.
– Vão dar um passeio! Dispersem-se!
O restaurante do hotel estava vazio. Claro que a equipe de segurança da Casa Branca tinha dado um jeito de criar aquela situação que devia estar dando prejuízo para o hotel. Mas a filha do presidente podia tudo. Bem... Quase tudo.
– E então... – Ela começou quando nos sentamos. – Como você tá, prima?
Lizzie esticou as mãos por cima da mesa, segurando as minhas. Conversávamos com extrema frequência pelo telefone e ela já estava a par da minha situação emocional.
– Não quero falar sobre isso, ok?
Ela me olhou por um tempo demorado. Então sorriu e largou minhas mãos.
– Isso o quê? Não estávamos falando sobre nada!
Eu ri espontaneamente, com vontade, e eu me senti bem com isso. Conversamos sobre tudo que não envolvesse garotos ou meus pais, e passei três horas agradáveis sentindo como se nada de mal tivesse acontecido comigo recentemente. Estava animada na conversa, até que meu telefone vibrou.
– Pai?
, onde você está?
– Estou com a Lizzie no Loews Madison. Mandei uma mensagem avisando.
– Ah, sim! De qualquer jeito, eu quero que você vá pra casa agora e arrume suas malas.
– Isso é sério?
– É. Um carro vai estar te esperando às 18h. Já mandei fecharem a rodovia.
– Sabe que eu acho isso ridículo, não sabe? Você não precisa fazer um estrago no mundo todo só porque eu vou pegar a estrada.
– É claro que preciso. É pro seu bem e...
– Ok, pai, já ouvi esse discurso antes. Agora me diga: por qual motivo maravilhoso eu deveria seguir suas ordens?
– Porque amanhã de noite haverá uma festa pra homenagear um projeto da sua mãe e seria muito importante pra ela se você comparecesse.
– Seria muito importante pra mim se ela tivesse apoiado meu relacionamento com a tempo, mas ela não apoiou, não é mesmo? Ela não se preocupou se isso era importante pra mim ou não, não é?
, você não vai querer voltar nesse assunto agora, vai?
– Na verdade, pai, eu tenho tentado voltar nesse assunto todos os dias desde que aconteceu.
Podia escutar meu pai bufando do outro lado da linha.
– Quer saber? Eu não vou insistir. Você já tem vinte anos. Faça suas decisões. – E desligou.
Joguei meu celular dentro da bolsa com raiva.
– O que foi? – Lizzie perguntou com sua voz calma, como sempre.
– Meu pai quer que eu vá até onde ele tá pra uma festa que vai ter amanhã pra minha mãe.
– E por que você não vai?
– Porque não! Eu não quero ser a filha do presidente! Não quero!
– Eu acho que você deveria ir.
Não respondi.
– Sabe, lá vai estar cheio de gente importante, e filhos de gente importante, pessoas que tem dinheiro, e ter dinheiro pode significar ter uma beleza relativamente admirável. Isso seria bom pra você, ok? Vai lá, se joga pro primeiro cara bonito que te der mole e tenta esquecer tudo.
Elizabeth era só dois anos mais velha que eu, mas sempre falava com uma sabedoria de quem tinha lá seus setenta anos.
– Quer saber? Tive uma ideia! Você. Vem. Comigo.
Ela olhou para mim fazendo-se de indignada de forma bem falsa, o que arrancou uma gargalhada. Lizzie se levantou e esticou a mão para mim. Eu segurei nela e olhei para trás, para pegar minha bolsa. Foi quando eu o vi. Do outro lado da rua, olhando para mim como se olhasse para uma obra de Leonardo Da Vinci. Meu coração parou por um momento enquanto nossos olhos se encontraram.
A reação que eu tive não teve como ser tomada racionalmente. Eu simplesmente fui. Larguei a bolsa no chão e corri o mais rápido que pude, ignorando todo o alvoroço que podia causar. Quando cheguei à calçada, do lado de fora do hotel, estava sendo colocado dentro do mesmo carro preto no qual eu o tinha visto partir da minha casa. Gritei por ele, mas o carro saiu cantando pneu e eu me senti, mais uma vez, abandonada.
– O que foi? – Perguntou Lizzie atrás de mim, ofegante.
Meus olhos ainda estavam fixados no carro que desaparecia na distância. Por pouco, não tomei a decisão irracional de correr atrás do carro. Mas quem pensava que era? Eu era a filha do presidente. Se eu quisesse sentar em uma sala sozinha com ele para tirar a limpo toda aquela história, eu conseguiria.
– Nada, vamos. – Falei, encaminhando-me para o carro que já estava estacionado na frente do hotel.
– Tenho que pegar minhas malas.
– Eu mando pegarem. Só vem logo.
– Era ele, não era? – Ela perguntou ao entrar e eu não me dei o trabalho de responder. – No que você tá pensando?
– Vou fazer caçarem ele até o fim do mundo. Ele precisa me dar umas justificativas. Não pode ficar assim.
– Mas a gente não vai viajar agora?
– Eu deixo isso pra depois da viagem.
Coloquei apenas um vestido de gala dentro da mala de emergência que eu sempre tinha pronta, para o caso de viagens feitas em cima da hora como aquela. Ajeitei todas as outras coisas que eu podia precisar e fui trocar minha roupa. A viagem de carro até Nova Iorque, onde meus pais estavam, foi tranquila demais, como todas as outras sempre eram. Tudo parava uma hora antes de colocarmos o pé na estrada. Havia polícia e homens de preto do Serviço Secreto para todos os lados. Eu achava aquilo tudo muito desnecessário.
A viagem durou apenas incríveis duas horas até o Plaza, hotel no qual meu pai estava hospedado com alguns líderes de Estado e outras pessoas muito importantes, e no qual eu me hospedaria também. O hotel todo estava tomado por seguranças, é claro. Chegamos à recepção para pegar as chaves dos nossos quartos. A morena pálida que sentava-se atrás do balcão nos olhou assustada.
– Senhorita , me perdoem, me informaram que a senhorita viria sozinha. Só temos uma suíte plaza disponível. Os outros quartos que temos são inferiores.
– Da última vez que eu fiquei aqui, a suíte plaza tinha dois quartos. Ainda é assim?
– Sim, senhorita.
– Então ela pode ficar comigo, não tem problema.
Senti a tensão saindo do seu corpo quando eu não criei problema com aquilo. Outra pessoa certamente abriria a boca para falar alguma maldade para a pobre menina que devia ter a minha idade, talvez até menos. Sorri agradecida quando ela me entregou a chave e dirigi-me ao elevador, sendo seguida fielmente pelos meus seguranças. As pessoas que estavam no saguão principal do hotel me olhavam estranho, fosse pelo fato de eu ser a filha do presidente ou pelo fato de eu estar carregando a minha própria mala. Eu precisava falar em público pelo menos uma vez na vida para criticar o jeito mesquinho com o qual as pessoas que tinham “poder” agiam.
A primeira coisa que fiz ao entrar na minha suíte foi me largar no sofá da sala de estar, jogando a cabeça para trás. Lizzie fez o mesmo, ficando ao meu lado. Ambas encaramos o teto da suíte.
– E então...
– E então o quê, Lizzie?
– Quando a gente vai colocar em ação aquela história que eu disse sobre achar os riquinhos bonitos? Eu to solteira também, querida!
Nós começamos a rir. Por um segundo, tínhamos quinze anos de novo.
– Eu tava pensando... Aqui tem o Caudalíe.
– E isso seria o quê?
– É um spa que tem aqui. Eles são especialistas em vinoterapia. Mas quer saber? Acho melhor a gente ir pra lá amanhã cedo. Passamos o dia lá e, à noite, vamos pra festa. Hoje, eu só quero entrar no meu quarto, deitar na banheira e esquecer que estou no mesmo hotel que... – Fui interrompida por três batidas na porta. – ... meus pais. – Terminei a frase revirando os olhos e fui atender a porta.


I try to forgive you but I struggle 'cause I don't know how.

A orquestra tocava um lindo instrumental de My Way, do Frank Sinatra, quando entrei no salão de festas do Plaza. Olhei para os lados, fazendo minha primeira análise de como seria a noite. Certamente, haviam homens muito bonitos ali, mas todos eles estavam com os braços presos aos braços de suas respectivas mulheres. Poucos passeavam pelo salão sem uma mulher no seu encalço e, quando passeavam, aparentavam ter trinta anos, e nenhum homem com essa idade ia querer um romance proibido com alguém que, além de ser a filha única do presidente, era dez anos mais nova que ele, certo? Bem, eu esperava que não.
O dia no spa tinha descansado todo o meu corpo. A sensação de estar em um lugar cheio de classe e elegância realmente estava fazendo eu me sentir bem, em contraste com os últimos meses da minha vida. Um garçom passou por nós com uma bandeja e ofereceu uma taça de vinho para cada uma, o que aceitamos com um aceno de cabeça e um sorriso educado.
– Já decidiu quem vai ser a vítima da noite? – Minha prima perguntou sutilmente. – Porque eu já sei quem eu quero que você convite pra dançar comigo.
– Eu não vou chamar ninguém pra dançar com ninguém.
– Ah, vai sim! Tem um moreno exatamente agora conversando com seu pai e ele não tem nenhuma mulher por perto, nenhuma aliança nos dedos... Eu acho que você pode ir lá dar uma forcinha enquanto sua prima querida vai conversar um pouco com aquele loiro lindo ali pegando vinho – Ela disse, apontando. – pra descobrir se ele quer dar uma escapadinha com a filha do presidente.
– Se sua intenção é me fazer esquecer o , isso não vai funcionar.
– Ah, qual é! Eu to tentando...
– O problema não é a sua intenção, muito menos você tentar me ajudar. Eu aprecio isso, muito obrigado. Mas é meio complicado você querer me arranjar um homem igualzinho ao último que terminou comigo. – Disse com um sorriso forçado.
Lizzie balançou a cabeça rapidamente de um lado para o outro.
– Claro, desculpa.
De repente, seus olhos se encheram de um brilho que eu nunca tinha visto na minha vida. Tentei encontrar fosse lá o que Lizzie estivesse olhando, mas não consegui achar nada de especial.
– V-você... F-fica aqui, ok? E-eu já v-volto. – Ela gaguejou e saiu quase correndo.
Olhei em volta e terminei de virar o conteúdo da minha taça de vinho dentro da minha boca. Um garçom passou para recolhê-la na exata hora em que meu pai estava aproximando-se de mim.
– Já começou a beber, ?
– Já e continuarei até não poder mais, ok?
Comecei a ficar irritada com a presença dele ali. Não sabia o que Lizzie ia aprontar e não sabia se era algo que meu pai poderia ficar sabendo.
– O senhor pode ir cumprimentar quem você tem que cumprimentar, pai. Eu tenho assuntos a tratar no momento.
– Com quem?
– Com minha prima. Sua sobrinha. Aquela com quem eu estava almoçando antes de você me ligar ordenando que eu viesse pra cá.
– Eu só não permaneço aqui porque simplesmente não aguento mais essa sua crise existencial. – Ele disse e virou-se para ir embora.
– Só não se esqueça de que foi você quem começou essa guerra! – Eu gritei por cima da música alta.
Estávamos ao som de Crazy Little Thing Called Love. Alguns casais bem mais velhos que eu estavam unidos, dançando lentamente e de forma sincronizada. Cruzei meus braços e olhei em volta. Lizzie não estava no meu campo de visão e eu comecei a achar que talvez ela estivesse tentando fazer de mim uma otária quando eu a vi levantar-se do meio da multidão. Pela mão, ela trazia um homem mediano mas de bom porte físico.
– E ela já conseguiu um macho pra noite... – Sussurrei para mim mesma, segundos antes de que ela finalmente se aproximasse de mim com o homem.
, esse aqui é o Paul. Paul, essa é a . O Paul trabalha com um garoto muito bonito com quem eu vou conversar hoje, então vocês poderiam ficar juntos só pra ficarem afastados de nós? Obrigada, de nada.
Lizzie jogou um beijo para mim pelo ar e balançou as pontas dos dedos em um disfarçado gesto de “tchau” para Paul. Quando ela se virou, olhei para o moreno com um sorriso no rosto. Não pude deixar de reconhecer que suas feições eram bonitas.
– Eu acho que não fomos apresentados de forma correta. – Ele disse com sotaque do interior, mas seu tom de voz esbanjava autoridade. – Meu nome é Paul Maddison, sou um dos organizadores da festa.
– Espero que você não seja o Paul Maddison que eu acho que é.
– Sinto te informar que sou eu sim, .
Paul tinha sido meu primeiro namorado, só que tudo o que aconteceu foi parte de uma aposta. Nós frequentávamos a mesma igreja e pertencíamos ao mesmo grupo de amigos. Na época, eu era a garota que nunca tinha namorado e ele era o garoto magricela e feio que não tinha chances com ninguém. Eu ganhei 100 dólares por ficar com ele durante três meses. Estando ali, eu me senti profundamente arrependida. Abaixei a cabeça, arregalando meus olhos e deixando com que minha boca ficasse ligeiramente aberta de surpresa.
– V-você... Você mudou. Muito. E-eu nem te reconheci.
– Espero que tenha sido pra melhor. – Ele disse com um sorriso.
Um garçom passou com taças de vinho. Paul o parou e pegou duas taças, dando-me uma delas. No momento em que desviei meu olhar, vi entrando no local com roupa de gala e em cima da mesma cadeira de rodas com a qual eu o tinha visto no dia anterior. Minha reação foi totalmente instintiva. Puxei Paul pelo pescoço e eu o beijei. Senti que ele se assustou, mas depois passou a corresponder. Abri um pouco meus olhos apenas para certificar-me de que tinha visto a cena. Então, com delicadeza, eu me afastei de Paul, cheia de vergonha.
– Merda! Desculpa. Eu nem sei se você é casado, se tem alguém... Desculpa. Eu realmente sinto muito.
Ele riu.
– Eu to solteiro.
– Ah! Que bom! – Eu disse e, logo depois, percebi que tinha dito as palavras com entusiasmo além do necessário. – Não foi isso que eu quis dizer, sabe? Eu disse “que bom” porque, se você tivesse compromisso com alguém, estaria enrolado, entende? E eu...
– Você ainda se enrola com as palavras quando tá nervosa.
Olhei para ele e acenei com a cabeça.
– Eu adoro isso em você, sabia? E você tá... Magnífica. Dizer que você está linda seria um pecado. Estou muito feliz por ter te encontrado, principalmente em condições tão felizes quanto estas.
O inglês culto que ele usou me surpreendeu. E certamente não havia nada mais atraente do que um homem em um smoking falando bonito. Sorri tímida, mas não tive tempo de reagir. , quem eu não vi aproximar-se, me puxou pelo braço com força.
– Nós precisamos conversar. – Ele disse, firme.
– Dá licença! – Gritei. – Quando eu quis conversar com você, simplesmente não te achei. Agora, eu estou ocupada. Arrume outro momento.
– Nós precisamos conversar. Agora. , vem comigo.
Sua respiração estava pesada e seu olhar estava sombrio. Um arrepio percorreu minha espinha. Uma vozinha dentro da minha cabeça me dizia que o que ele queria falar não tinha nada a ver com “nós dois” e que era melhor obedecer. Respirei fundo. Perto de mim, dois dos meus seguranças estavam em posição de ataque. Acenei com a cabeça para que eles ficassem tranquilos e virei-me para Paul.
– Eu volto logo. Só vou resolver isso.
– Você não vai voltar logo. Você não volta aqui hoje. – disse de forma rude.
– Você não é meu pai, . – Bufei. – Vai querer que eu te empurre pra seja lá onde estivermos indo?
– Olha pra minha cara e vê se eu dependo de alguém pra me locomover.
Ele começou a se afastar em direção à saída do salão. Olhei novamente para Paul e despedi-me com um olhar e um sorriso forçado. Segui até a porta do elevador que levava para os andares dos quartos. Ele entrou e apertou o número quatro.
– Meu quarto é na cobertura.
– Eles já estão lá.
– Eles quem, ?
Ele ficou em silêncio e eu decidi ignorá-lo também. Logo, ele estava saindo do elevador e eu continuei lá dentro.
– Não vai me acompanhar?
– Não. Eu deixei alguém me esperando na festa e, se você não vai me dizer do que está falando, eu não tenho motivo para continuar aqui.
Apertei o botão para que as portas do elevador fechassem, mas imediatamente colocou a mão no sensor, o que fez com que elas voltassem a abrir.
, por favor. Confia em mim.
– Confiar em alguém que não confiou em mim quando eu precisei? É meio complicado, não acha?
, por favor. – Ele repetiu, estendendo a mão para mim.
No exato momento em que eu coloquei meus pés para fora do elevador, todas as luzes se apagaram. Meu coração acelerou quando ouvi a respiração característica de que dizia que algo estava errado. Alguns segundos depois, tudo voltou a acender. Sua expressão facial não era das melhores e eu estava começando a ficar com medo.
– Vem logo. – Ele sussurrou.
O quarto não era longe dali. Ele retirou a chave de dentro do bolso interno de seu terno e abriu a porta. Assim que eu entrei, ele a trancou e colocou a chave de volta no local. Sentei no sofá antes de tudo.
– Você tem trinta segundos pra me dizer quem são “eles” ou, então, eu volto pra festa.
– Tem um grupo de terroristas querendo prejudicar o governo do seu pai. “Eles” são homens que estão me ligando desde o dia em que comecei a trabalhar pra você, te fazendo ameaças. “Eles” são os homens que estão no seu quarto, esperando que você volte, pra fazer sabe-se lá o quê com você.
não brincava. Eu sabia que ele estava falando sério. O ar em meus pulmões começou a pesar. Fiquei presa no olhar desesperado de .
– M-meus pais, minha prima... – Minha voz saiu rouca.
– Eles estão seguros. É você quem eles querem.
– E por que você não falou isso pra minha equipe de seguranças?
– Porque eu já te salvei uma vez. Posso te salvar de novo.
As palavras dele me surpreenderam. De repente, todo o novo problema que tinha surgido parecia não existir.
– Por que você tá aqui, ?
– Pra te proteger.
– Você não é mais meu segurança.
Ele não respondeu. Em vez disso, arrastou-se para o quarto e eu o segui. Com seus braços fortes, ele se levantou da cadeira e colocou-se sentado na ponta da cama.
– Por que você fugiu de mim? – Eu fiz a pergunta de um milhão de dólares. – Não finge que não escutou, por favor.
– Eu não podia mais ser seu segurança.
– E daí? Eu gostava de você! Não queria que você fosse meu segurança. Queria que você fosse alguém com quem eu pudesse contar sempre. Mas, quando eu dei por mim, você não tava mais lá. Fugiu como um covarde.
– Eu sei, tá? Não precisa jogar na minha cara.
– Precisa sim, ! Você não tava lá pra ver o que eu passei por você.
– Me desculpa.
– Não, eu não te desculpo.
, você quer mesmo discutir nossa relação agora?
– Quero! Você não me deu outra oportunidade!
– Se vamos discutir, por que você não fica à minha altura pra eu poder olhar nos seus olhos?
Puxei uma cadeira e sentei de frente para ele, com o rosto fechado. De forma violenta, algo que eu testemunhara pouco com ele, puxou minha nuca e, então, ele me beijou. Por um segundo, eu tentei fugir. Mas não podia enganar a mim mesma. Eu queria aquilo. Queria com todas as minhas forças e nada nem ninguém me faria abrir mão daquele momento.
Com cuidado, levantei da cadeira e sentei em seu colo, sem estar muito certa sobre aquilo ser permitido. Suas mãos estavam um pouco acima da minha cintura e as minhas apertavam o seu cabelo, indicando o quanto tinha sentido falta do seu toque. Quebrando o momento, um estrondo nos separou. Eu me agarrei a com todas as forças que tinha e seus braços me envolveram. Quando um grupo de homens armados e encapuzados entrou no quarto, senti que o aperto de seus braços aumentou. Quis gritar, mas a voz faltou. Colocaram uma arma na minha cabeça.
– Larga a garota ou ela morre. – O homem falou com sotaque extremamente carregado, indicando que o inglês não era seu idioma oficial.
Eles começaram a gritar em uma língua que eu não entendia. Os braços de não cederam e eu não sabia se agradecia por aquilo ou se ficava mais desesperada. Outro homem se aproximou e deu uma coronhada na cabeça de . Ele tentou se virar para acertá-lo, mas fui tirada dele nesse momento. Minhas mãos escorregaram enquanto tentava segurar nele.
No meio da gritaria que eu não conseguia entender, derrubaram no chão enquanto eu era carregada para fora. Achei a voz e comecei a gritar. Não gritava pelos meus pais ou pelos meus seguranças. Gritava por . Queria que ele me tirasse dali como tinha dito que faria. Posso te salvar de novo... Não, ele não podia. Eu tentei sair daquela situação, mas não consegui. Ele já estava no chão, sendo espancado.
– Eu vou te salvar. – Eu o escutei dizer baixinho. – Eu te amo.
O aperto característico no meu coração começou a formar-se enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas.
– Eu também te amo.
Pelo menos, daquela vez tive a chance de responder.


Forget all we said that night, it doesn't even matter because we both got split in two.

Minha mente vagava em algum lugar próximo de e seu sorriso tranquilizador. Por um momento, tudo pareceu perfeito. Então eu me lembrei da situação na qual eu me encontrava e meu mundo pareceu cair novamente. Eu estava sentada e em movimento, era tudo o que eu podia discernir claramente. Um saco de pano havia sido colocado na minha cabeça. Tudo o que eu podia distinguir eram as luzes. E, naquele momento, eu me encontrava de olhos fechados, tentando fugir daquela realidade.
A memória de apanhando por mim, por não ter me largado, estava fresca na minha mente. Eu tive certeza de que, se houvesse um acordo, ele teria morrido simplesmente para que ninguém pusesse as mãos em mim. A culpa tomou conta dos meus pensamentos. Nós estávamos distantes e eu estava sofrendo por isso. Quando finalmente achei que íamos recomeçar, eu tive que despedir-me dele com um “eu te amo”, porque era o máximo que eu podia fazer.
Os homens ainda falavam em uma língua que eu não conseguia entender e aquilo só piorava o meu desespero. Balbuciei algumas palavras, mas tudo o que eu ouvi em resposta eram gritos ordenando que eu me calasse. O frio do cano de uma arma estava constante na região das minhas costas. Eu só queria saber qual era a intenção deles em tratar-me daquele jeito. Era claro que eu faria de tudo para colaborar, só queria ver mais uma vez.
Eu podia jurar que havia passado uma semana dentro de sabe-se lá que veículo mas, ao julgar pela oscilação entre claro e escuro, apenas um dia havia passado. Paramos em alguma área extremamente silenciosa e eu fui movida para fora do carro. De forma rude, eles me empurraram até uma escada, que eu subi sem hesitar, o medo tomando conta de mim a ponto de fazer-me obedecê-los instantaneamente. Fui conduzida até outra poltrona, de certa forma confortável. Então escutei um barulho um tanto familiar. Turbinas de um avião estavam sendo ligadas. Eu estava sendo levada para longe.
– Para onde estamos indo? – Perguntei e não obtive nada em resposta. – Eu sei que vocês falam a minha língua!
– Calada! – Um homem qualquer gritou.
Durante o voo inteiro, que durou uma eternidade, eu entrei em momentos curtos de inconsciência, tomada pela exaustão. Quando chegamos sabe-se lá onde, fui tirada do avião da mesma forma rude com a qual fui colocada lá dentro. Jogaram-me dentro de um veículo com cheiro de mofo. A sensação de estar perdida me tomou novamente. Sentia uma pessoa de cada lado, joelhos encostando nos meus conforme o veículo balançava. Respirei fundo e tentei manter a calma. Meus olhos ardiam de tanto chorar, minha garganta estava seca. Eu só queria que tudo aquilo acabasse o mais rápido possível.
Paramos em algum lugar que, estranhamente, parecia limpo. Comparado ao cheiro do veículo no qual eu estava, qualquer coisa seria considerada limpa. Mas eu respirei fundo e senti o ar puro invadindo meus pulmões. Houve mais gritaria e eu continuei perdida, mais desesperada ainda por não entender uma palavra do que estavam dizendo.
Fui forçada a caminhar uma boa distância. Em certo momento, fizeram com que eu parasse, e eu escutei o barulho de grades sendo abertas. Andamos mais – por um corredor, aparentemente. De surpresa, fui empurrada e caí no chão, por cima do meu braço. Soltei um urro de dor e ouvi duas gargalhadas distintas. Retiraram o saco da minha cabeça e a primeira coisa que eu fiz foi olhar em volta. Eu estava em um quarto extremamente pequeno, com apenas uma cama e uma cômoda. No canto, uma cadeira em estado de decomposição descansava. Olhei então para os dois homens com toucas ninjas que olhavam para mim, divertidos.
– É um prazer tê-la em nossos aposentos. – O homem mais alto disse, claramente sendo irônico. – O chefe vem, em breve, falar com você.
Os dois se posicionaram, um de cada lado da porta, com expressões sérias que lembravam meus próprios seguranças. Comecei a questionar-me sobre onde estariam eles quando eu precisei. Ah, claro, eu os dispensara antes de retirar-me do salão com . Mas por que diabos eles não me seguiram? Afinal de contas, era o trabalho deles, não era? Se eles tivessem exercido de forma correta o serviço pelo qual eram pagos, eu não me encontraria em nenhuma situação perigosa.
Fiquei na mesma posição até que outro homem, mais alto e mais corpulento, entrou no quarto. Em silêncio, ele puxou a cadeira até a minha frente.
– Sente-se. – Ele disse.
Eu não me movi nem um centímetro sequer, parte por teimosia.
– Eu mandei sentar. – Ele disse com um sorriso assustador nos lábios.
Com dificuldade para vencer o medo, levantei-me, cuidando para não encostar nele, que estava muito próximo. Sentei na cadeira com a cabeça baixa. Ele apertou meu queixo com força, provocando uma dor severa na minha mandíbula.
– Vou ser rápido e objetivo. Você vai fazer o que eu mandar e tudo vai ficar bem. Se seu pai realmente te amar, você sairá daqui em breve. Não te trouxemos pra cá pra te torturar. Você tem direito a tudo o que necessita para se manter viva. Alimentação, higiene e até entretenimento serão garantidos a você. Você tem cara de quem gosta de ler. Quais são seus livros preferidos?
Não respondi.
– Tudo bem, eu mando trazerem alguns aleatórios. E vou mandar instalar uma TV aqui. TV a cabo. Não seria uma coisa ótima? – Ele riu, irônico. – Só lhe darei um simples aviso, . Não tente nenhuma gracinha. Não me interessa ter você morta, pelo contrário. Não me interessa ter você machucada. Mas isso tudo pode acabar se você tentar se comunicar com alguém, estamos entendidos?
Continuei quieta, mantendo a mesma posição.
– Ótimo. Você terá sempre pelo menos um homem lhe fazendo companhia, se certificando de que está tudo bem. Se precisar de alguma coisa, é só falar com ele.
– Eu preciso de roupas. – Disse de forma rude. – Preciso de um banho e de ir ao banheiro. Preciso saber onde estou e quanto tempo tem desde que me tiraram do Plaza. Preciso de água e comida. E preciso saber o que vocês fizeram com o .
– Ah, seu amiguinho? Não se preocupe. Onde ele se encontra no momento, está melhor que todos nós. – Ele disse com um sorriso.
Minha respiração ficou rápida. Uma dor forte começou a surgir no fundo da minha barriga. Todo meu corpo tremeu enquanto eu recebia a notícia como se fosse um tapa na cara.
– O que você fez com ele, seu filho da puta? – Eu berrei, pulando em cima do homem, enchendo-o de socos que, provavelmente, não surtiram o menor efeito.
Fui empurrada violentamente de encontro com a cadeira, que cedeu, fazendo-me cair no chão mais uma vez. O homem disse alguma coisa no idioma dele para um outro, que saiu com ele, deixando-me apenas com o homem que tinha retirado o saco da minha cabeça.
Fiquei encolhida no chão, com as costas apoiadas na parede, abraçando minhas pernas enquanto derramava mais lágrimas. Uma dor forte tomou conta de todo meu corpo. Ele parecia verdadeiro o suficiente para fazer com que eu quisesse morrer no lugar de . Eu nunca mais poderia vê-lo, nunca mais poderia sentir o gosto dos seus lábios, nunca mais poderia sentir a segurança do seu abraço. estava morto e eu estava quase morrendo junto com ele.
Horas depois – eu não tinha certeza –, um homem que eu ainda não tinha visto entrou no quarto e jogou as roupas que usava em cima de mim. Eu chorei mais ao agarrar-me ao terno dele. Senti uma coisa dura no bolso interno e procurei saber o que era. Achei uma caixa de veludo, com uma aliança dentro. Na sua circunferência, estavam gravados nossos nomes. iria fazer o pedido? Ele tinha morrido antes de pedir a minha mão em casamento? O ar faltou e eu senti a consciência se esvaindo de mim.
Não tinha ideia de quanto tempo havia passado desacordada. O mundo à minha volta girava intensamente. Eu não conseguia abrir os olhos porque a claridade incomodava. Não conseguia mais chorar, não conseguia mais sentir dor. Todas as forças do meu corpo tinham ido embora. Eu só queria que aquilo acabasse logo.
Parecia haver uma organização entre os homens que ficavam dentro do quarto para fazer-me companhia. Eles não abriam a boca para falar meu idioma, apenas comunicavam-se com os outros quando abriam a porta, falando a língua que eu não conseguia entender.
– Ei, você! Você fala inglês?
Ele assentiu com a cabeça de forma arrogante.
– Onde nós estamos?
– No Paquistão. – Ele disse como quem diz que está no McDonald’s.
– O quê? – Eu deixei que minha voz ficasse alterada.
– Princesinha, você acha que nós somos o quê? Burros? Acha que ficaríamos no seu território ou que viríamos para o nosso?
– O que vocês querem comigo, porra?
– Não é o que queremos com você. – Ele se aproximou ameaçadoramente. – É o que queremos de você. Você vai ser a vingança perfeita pro nosso povo. Ou você acha justo seu papai mandar uma porrada de gente do exército pra cá que sai atirando pra tudo quanto é lado e mata qualquer um? Eu não acho.
Ele voltou para sua posição e eu soube que a conversa estava encerrada. Eu ainda não entendia o motivo pelo qual eu devia estar ali. Era apenas a filha do presidente, não tinha ligação nenhuma com o exército e o que eles faziam. Acabei percebendo que a pior parte de estar ali era realmente não fazer ideia do que estava acontecendo.


But, believe me, I'm not trying to deceive you.

Eu não aguentava mais aquilo. Era tortura psicológica. Eu estava lá por uma semana, fiquei sabendo pelas poucas palavras que trocara com o último “sentinela” que tinha estado comigo no quarto. Eu não tinha noção das horas, pois o quarto não possuía janelas. O lugar era refrescado por um ar condicionado ligado 24h por dia, a cama era confortável e a TV tinha acesso a todo tipo de canal – exceto o de notícias, para que eu não soubesse o que estava acontecendo lá fora e o que de fato havia motivado o meu sequestro.
Oitavo dia. Eu ia cometer suicídio se não me libertassem logo. Deitei na cama e enfiei o travesseiro na minha cara. Estava cansada de fazer nada e achei que o sono ia levar a minha consciência para longe. Com o travesseiro ali, talvez eu parasse de respirar durante o sono e morresse sem perceber. Para mim, isso valia mais que qualquer coisa.
Quando finalmente senti que estava apagando, uma mão tocou minha perna. Retirei o travesseiro da cara às pressas para ver um dos “mascarados” – apelido carinhoso – sentado ao meu lado, com um sorriso medonho no rosto. Eu me encolhi na cama, recuando para a outra ponta. Ele ameaçou avançar e eu me levantei imediatamente.
– Nem pense em tocar em mim de novo.
– Qual é, docinho? Vamos nos divertir. – Ele disse com o sotaque que eu aprendera a odiar em pouquíssimo tempo.
O pouco que via de seus olhos e sua boca, já que a máscara tampava o resto do rosto, me dava a impressão de que ele teria, no mínimo, cinquenta anos de idade. Tentei manter certa tranquilidade como nos outros momentos do meu cárcere, mas simplesmente era impossível. Comecei a ofegar antes mesmo que percebesse. Ele levantou da cama e veio até mim, prensando-me contra a parede. Gritei por socorro, mas algo me dizia que não adiantaria de nada. Ele passou sua língua suja pelo meu pescoço. Nesse momento, um outro homem abriu a porta e os dois começaram a discutir em sua língua natal até que – e eu agradeci silenciosamente por isso – o segundo tirou o outro de perto de mim violentamente.
O homem – que, poucos segundos antes, tentara cometer sabe Deus que ato contra mim – se retirou com expressão zangada enquanto o outro assumiu a posição dele ao lado da porta, sério e de braços cruzados, encarando o teto. Pude notar que ele era bem mais jovem que os outros. Também não tinha o mesmo porte físico que todos que eu havia visto até o momento tinham. Ele era magro e as roupas que ele usava estavam largas demais nele. Assustada, constatei que ele devia ter a minha idade, se não fosse um pouco mais.
– Você fala a minha língua? – Perguntei, já que ainda não o havia visto.
Não obtive resposta e ele também não se preocupou em demonstrar qualquer reação.
– Obrigada. – Eu disse.
Eu devia isso a ele, no mínimo. Não sabia se ele tentaria o mesmo enquanto estivesse ali, mas ele havia impedido e isso, naquele momento, significava muito.
Durante os próximos instantes, ele continuou ali. O único movimento que ele fez até ir embora foi encher e esvaziar os pulmões. Quando ele saiu, quase pedi que ficasse mais. Estava com medo do que viria a seguir. De certa forma, ele era meu herói e eu ainda estava interessada em como agradecê-lo do jeito certo. Era estranho sentir aquilo, mas talvez eu estivesse tentando sobreviver e, com isso, agarrando-me a qualquer ponto positivo minúsculo daquela vivência ali.
O homem que entrou era um que eu já tinha aprendido a reconhecer. Tudo o que ele falava era cheio de ironia mas, durante seu turno inteiro, ele se mantinha ao lado da porta – e não calava a boca nem um segundo. Eu simpatizava com ele pois, mesmo nas circunstâncias nas quais nós nos encontrávamos, ele era o mais próximo que eu teria de alguém para conversar.
– Senhorita... – Ele disse com um gesto de cabeça que serviu como cumprimento.
Bufei e olhei para ele, deixando claro que não estava querendo escutá-lo.
– Não sabe como esperei para lhe ver hoje.
Congelei. Achei que ele ia tentar a mesma coisa que o anterior ao homem misterioso havia tentado. Prendi a respiração enquanto encarava o chão, aterrorizada.
– Lá fora, a temperatura está matando todos de calor. Ficar aqui, nessa temperatura agradável, era tudo o que eu desejava.
Senti como se minha alma tivesse saído e retornado ao meu corpo em um segundo. Olhei para ele e vi que seu semblante estava cansado, fora do comum. Esperei que ele começasse a tagarelar como sempre, mas nada aconteceu.
– O que houve? – Perguntei.
– Hoje é aniversário da minha filha. Ela vai fazer 18 anos e o pai dela não passa de um terrorista. Minha própria filha quer que eu morra.
Encarei seu olhar derrotado por alguns segundos.
– Bem... Eu queria te consolar, mas é complicado, sabe...
– Posso confiar em você? – Ele sussurrou.
– Eu sou sua refém, você que sabe.
– Tem gente aqui que só está fazendo isso porque pegaram a família e estão ameaçando matá-los caso não colaboremos. São poucos, mas existem. Eu não tive a oportunidade de me despedir de nenhum deles. Fui proibido de contar o que estava acontecendo. Minha mulher e meus filhos apenas acham que eu me revoltei contra o governo do seu país e entrei para uma espécie de Al-Qaeda moderna.
– Eu... Sinto muito. Eu acho. – Disse sinceramente.
Seu olhar não mentia. Eu entendi que, ao contar aquilo para mim, ele confiou a própria vida a uma estranha que não tinha motivo para protegê-lo. Senti que não merecia aquilo. Comecei a imaginar quantas pessoas passavam por coisas parecidas enquanto eu vivia minha vidinha medíocre de filha do presidente. Ele ganhou meu respeito e confiança imediatamente.
– Por que estão fazendo isso comigo? – Perguntei pela milésima vez, já sabendo qual ia ser a resposta mas com esperança de que talvez ela mudasse.
– Não sei, eu honestamente não sei.
Abaixei a cabeça mais uma vez, sentindo-me derrotada por completo.
– Quem era o garoto que tava aqui antes de você?
Ele enrijeceu. Soube de imediato que não seria respondida.
– Ele fala a minha língua? – Insisti em saber sobre ele.
Continuei sem respostas e comecei a imaginar o pior. Rapidamente, elaborei uma pergunta que fosse cortar o assunto.
– Quanto tempo faz desde que eu estou aqui, afinal de contas?
– Quase nove dias.
A pergunta que fiz sobre o garoto o fez ficar quieto, algo que eu jamais havia presenciado. Fiquei nervosa. Se ele não me respondeu, era porque não havia boa coisa ali. Por um segundo, quis que ele não voltasse mais. Ele não tinha aparecido até aquele momento, quando ele me salvou, então não precisava mais aparecer – a não ser que eu precisasse ser salva de algo tão horrendo novamente.
Quando foi embora, não olhou para mim para despedir-se, como sempre fazia. Eu não sabia seu nome. Caso soubesse, eu o chamaria e pediria desculpas. Não sabia qual era a relação do garoto com toda a bagunça que envolvia-me, mas meu medo aumentou, junto com a minha curiosidade, o que era preocupante.
Dois turnos depois, porém, o garoto voltou. Mascarado, como sempre, e com os olhos denunciando um cansaço intenso. Decidi que, já que não tinha muita coisa para perder, ia tentar puxar assunto.
– Você fala a minha língua. – Em vez de perguntar como da primeira vez, afirmei, porque algo denunciava que ele entendia o que eu falava. – Eu quero beber água.
Era o mínimo que eu podia fazer para testá-lo. Em um segundo, o garoto se virou, abriu a porta, gritou algo no idioma nativo e fechou novamente a porta do quarto. Não demorou muito para levarem um copo de água. Eu bebi, estava realmente com sede.
– Então você entende o que eu digo. – Constatei em voz alta.
Ele continuou parado. Metade de mim me mandava calar a boca, mas a outra metade já estava tão irritada com a situação que queria irritá-lo até não poder mais.
– Você é mais jovem que os outros. O que tá fazendo aqui?
Obtive uma reação. Os músculos do bíceps, embora não muito grandes, se contraíram levemente. Havia algo de muito errado nele. Embora o homem com quem eu simpatizava carregasse a tristeza no olhar, ele possuía algo a mais. Eu me perguntei se ele era mais um cuja família estava sendo ameaçada. Senti vontade de questioná-lo até descobrir.
– Vocês me sequestram e ainda querem me privar de convivência humana sendo que estão comigo o tempo inteiro. Realmente... Vocês são os melhores sequestradores do mundo! – Disse com a voz elevada.
Por um segundo, vi os seus olhos ameaçando rolar. Ele me entendia. E queria responder. Então por que não respondia?
– Se quiser conversar... – Disse com a voz mais baixa, lembrando do que meu “amigo” havia contado mais cedo. – ... Eu posso te escutar. Sem compromissos. Eu to na merda mesmo. Pior que eu, só... Bem, acho que você deve entender.
Tentei parecer compreensiva. A contração de seu bíceps aumentou. Ele estava tentando segurar o quê dentro de si? Tive vontade de tirar a máscara, de decifrar seu rosto. O medo saiu e comecei a sentir insegurança. Sim, tinha algo de muito errado nele e estar ali era torturante para ele tanto quanto era para mim.
Sabia que ele não ia mais abrir a boca, então liguei a TV e sentei na cama. Fechei os olhos algumas vezes, tentando dormir, mas as tentativas foram em vão. Quando eu dormia, o tempo passava mais rápido – ou menos devagar – e era mais fácil manter minha lucidez.
O homem que tentou me violentar não voltou a aparecer. Eu já havia decorado uma espécie de cronograma que eles possuíam quanto aos turnos de quem ia ficar ao meu lado. Depois daquele dia, o garoto misterioso tomou o seu lugar, fazendo-me não querer sair dali enquanto não desvendasse o porquê de ele estar ali.
Tentei puxar assunto milhões de vezes. Voltei a perguntar para o outro sobre ele, mas a reação foi a mesma e não nos falávamos mais durante o turno depois da pergunta envolvendo o garoto.
A tortura de não saber nada sobre ele durou em torno de três semanas. Três longas semanas sem saber o que se passava lá fora, o que meu pai estava tentando fazer por mim e no que consistia a vida daquele garoto. Quis imaginar o que levaria alguém em seus vinte e poucos anos a participar de um grupo terrorista, mas não consegui achar motivo lógico. Bem... Eu estava sendo mantida em cárcere privado, a milhares de quilômetros de distância de casa e estava louca por saber mais sobre um dos meus sequestradores. Lógica não era algo permitido no meu mundo.


Let's have another toast to the girl almighty.


Algum filho da puta bateu a porta justamente quando eu estava começando a pegar no sono. Quando olhei, pronta para xingar, encontrei o garoto que alimentava a minha curiosidade. Ele parou ao lado da porta, adotando sua postura habitual. A vontade de xingá-lo por ter interrompido meu sono não passou, então simplesmente continuei deitada, com a cabeça enfiada no travesseiro. Meu propósito de arrancar uma palavra em inglês da boca dele ainda estava firme e forte, mas senti que não era a hora.
Eu dormi por um bom tempo e acordei com o toque rude de uma mão nas minhas costas. Dei um salto e esbarrei no misterioso, fazendo com que ele se desequilibrasse e quase fosse ao chão. Depois de recompor sua postura, ele me estendeu um prato de comida que provavelmente tinham levado enquanto eu dormia. É claro que ele não respeitaria meu sono.
Peguei o prato e sentei na cama, começando a comer devagar, numa tentativa falha de que a fome fosse embora mais cedo. Eu podia não dar a mínima para estética física do meu corpo, mas ficava ali o dia inteiro e, se comesse todas as refeições que levavam, ia aumentar meu peso e não sabia se aquilo traria consequências ruins para a minha saúde. O risco não valia a pena e, por isso, comia o necessário apenas para manter-me viva.
Coloquei o prato de qualquer jeito na cama. Quando ele se aproximou para pegar, balancei de propósito, fazendo com que o prato de plástico caísse no chão, espalhando toda a comida que ainda restava. Fingi que não vi e, com elegância exagerada, levantei e fui até a portinha no canto do quarto que dava no banheiro minúsculo que eu usava para me manter higienizada, algo que não parecia muito necessário por ali, visto a aparência dos homens que faziam minha “segurança”. Minutos mais tarde, repeti a cena com um copo de água que havia pedido. Depois, falei que estava com fome e queria comer uma fruta. Levaram uma manga descascada para mim. Eu gostava demais da fruta, mas decidi usar ela no meu jogo. Coloquei um pedaço na boca e, depois de mastigar bem e encher de saliva, cuspi bem no meio da blusa dele.
– Vocês me sequestram e ainda só trazem merda pra mim!
De novo, o bíceps se contraiu. Sempre que eu falava sobre eu estar ali, ele fazia aquilo. Ficou bem óbvio que aquilo era um estressor. Uma luz se acendeu sobre a minha cabeça. Então aquele era seu ponto fraco. Eu usaria isso a meu favor.
– Sabe... É um saco ficar aqui o dia inteiro! Eu não fiz nada pra ninguém e sou eu que estou presa aqui. Vocês tão fazendo um mal a mim e são vocês que têm liberdade de ir e vir. São uns completos babacas mesmo.
O músculo ficou mais contraído. Era só eu continuar naquele caminho e conseguiria arrancar uma palavra dele, tinha certeza.
– Quero dizer... Qual é a porra do problema mental que vocês, terroristas, têm?
Vi as veias dos seus braços e do seu pescoço saltarem. Faltava pouco.
– Eu duvido que tenham te perguntado no jardim de infância o que você queria ser quando crescesse e você respondeu “terrorista, professora”.
– Eu não sou um deles! – Ele gritou.
Meu coração disparou. Ele bufava como um touro na minha frente. Minha respiração estava no mesmo ritmo que a dele, mas carregada de medo. Tentei recompor a postura rapidamente. Precisava assumir a liderança. Eu sabia que isso era impossível mas, ainda assim, era esse pensamento que eu devia colocar na minha mente.
– Eu sabia que você falava a minha língua, terrorista.
– Já disse que não sou um deles. – Ele rosnou.
– Então o que tá fazendo aqui, me mantendo trancafiada como todos os outros?
Ele se encostou de novo na parede ao lado da porta.
– O terrorista voltou a se calar então?
– Já disse! Eu não sou um deles!
– A única diferença que eu vi entre você e os outros é o tamanho. Apenas.
– Isso não significa que eu seja um deles. Você é a filha do presidente do país mais poderoso do mundo. Deveria ser inteligente o suficiente pra saber que as aparências enganam.
Fiquei na sua frente, na ponta dos pés, até que fosse possível forçá-lo a olhar nos meus olhos.
– Quando eu te chamo de terrorista, não é raiva que você sente. É tristeza.
No fundo dos olhos castanhos, pude notar que eu estava certa. Eu não disse mais nada. Apenas voltei ao meu lugar, sentada na cama. Liguei a TV, mas não conseguia focar no que estava passando. A tristeza no olhar daquele garoto me incomodava ao extremo.
Parecia ensaiado. Segundos depois, alguém abriu a porta e colocou-se no lugar dele, que saiu com pressa. Olhei, tentando identificar quem era. O homem que estava ali era calado. Não falava uma palavra e, ao julgar pela expressão que ele fazia quando eu lhe dirigia a palavra, ele não entendia inglês. Pelo que ficara sabendo, ele ficava durante o período da noite, que era quando eu estava dormindo e, tecnicamente, não precisaria de nada.
No outro dia, o garoto não apareceu no seu horário habitual. Um homem que já tinha feito seu turno pela manhã, grandão e com jeito de idiota, ficou durante o período que achei que passaria com ele. Dois dias se passaram e aquilo se repetiu. Comecei a estranhar, mas talvez fosse bom. Achei que ocupar minha mente com o mistério aparentemente sem solução do garoto não fosse tão saudável e esquecê-lo seria a melhor opção.
No dia em que completei um mês e meio presa, estava ouvindo Rashad – descobri que esse era o nome do homem tagarela com quem eu simpatizava – reclamar mais uma vez sobre a temperatura alta do lado de fora quando decidi que talvez fosse a hora de voltar no assunto sobre o garoto.
– ... porque eu não sei o que Alá tem contra nós...
– Ei, Rashad, me desculpa, mas... Eu queria te perguntar uma coisa.
– Claro, .
– E também peço desculpas anteriormente pelo que vou perguntar. Acho que não é um assunto muito agradável pra você.
Ele fez que sim com a cabeça e eu respirei fundo antes de continuar.
– Aquele garoto sobre qual eu falei uma vez...
, não. Isso, eu não posso dizer. É arriscado demais.
– Por quê? – Perguntei, sedenta por informação.
– É justamente isso. , prometa-me que irá esquecer esse assunto, pro seu próprio bem e pro bem de todo mundo aqui.
Mil coisas passaram pela minha cabeça no instante em que ele me disse aquelas palavras, mas não quis insistir. Estava nervosa, como um drogado em crise de abstinência.
– Ok, eu nem lembro mais do que eu tava falando. O que você estava dizendo sobre Alá e o calor?
Rashad voltou a tagarelar, mas é claro que eu não tirei o garoto da minha cabeça. Minutos depois de histórias da infância dele, a porta se abriu e lá estava ele. Rashad olhou para mim preocupado e despedindo-se ao mesmo tempo. O garoto entrou e posicionou-se ao lado da porta. Olhei para ele, assustada de certa forma. Depois de respirar fundo algumas vezes, decidi que não queria ficar em silêncio.
– Me desculpa pela última vez.
Ele assentiu com a cabeça e eu me encolhi. Mais uma vez, eu não era a única com problemas no mundo e não sabia reconhecer isso. O almoço chegou. Ele colocou o prato com cuidado do meu lado.
– Espero que você não faça um show dessa vez. – Ele disse com a voz menos tensa.
Meu rosto se iluminou. Olhei para ele e, no reflexo de seus olhos, vi que os meus brilhavam.
– Isso foi uma risada? – Perguntei, sorrindo pela primeira vez depois de ter sido trancafiada ali.
– Só impressão sua. Terroristas não riem. – Ele disse com o mesmo tom de voz.
Ele estava fazendo uma piada. Ótimo. Tinha ganhado sua confiança. Coloquei o prato no colo e decidi que valia a pena investir em uma conversa. Estiquei o prato na sua direção.
– Quer um pouco? Me desculpe mas, pela sua aparência, acho que você passa fome.
O garoto arregalou os olhos. Por um instante, achei que tinha dito besteira e ultrapassado uma barreira que não devia ser nem tocada. Ele se aproximou lentamente. Eu prendi a respiração quando ele esticou a mão na minha direção, pegando um pedaço de frango e colocando na boca. Sua expressão parecia divertida.
– Estava com medo de mim?
Não respondi.
– Sim, você estava.
Ele tomou seu lugar de sempre mas, dessa vez, sua postura não estava tão rígida. Terminei de comer mais leve. Ainda estava presa ali, porém encontrava-me um pouco mais tranquila. Fiquei feliz por ter trocado palavras com ele como se fossemos amigos – que belo tipo de amigo, hein? Ele deixou claro com suas ações e palavras que não pertencia àquele mundo e eu apreciei isso. Quando ele foi embora, despediu-se com uma imitação fajuta de um sorriso, fechando a cara imediatamente para que ninguém visse. Entendi o recado silencioso que dizia para não deixar ninguém saber que estávamos trocando palavras.
– Você precisa de algo? – O homem que tomou o lugar do garoto perguntou, o que respondi com um sinal negativo. – Ótimo.
Ele foi até a cadeira, puxou-a até encostar na parede e sentou, jogando a cabeça para trás. Deitei na cama, certa de que dormiria ao mesmo tempo que ele.
Sonhei com o garoto. Nós estávamos no jardim de casa, ele com aquela touca que impedia-me de ver seu rosto. Eu precisava de um amigo, alguém com quem eu pudesse conversar para não enlouquecer, e achei que podia confiar nele para tal função. Nós observávamos um pássaro beija-flor pousando nas flores. De repente, notei que estávamos de mãos dadas. Não questionei porque gostei da sensação. Estávamos praticamente no paraíso. Eu me virei para olhar em seus olhos. A curiosidade me corroeu por dentro e eu levantei as mãos até seu pescoço, começando a subir a máscara. Ultrapassei o limite de sua boca enquanto sentia-o rígido sob o meu toque.
– Ei, , acorde, seu café da manhã vai esfriar.
Acordei com Rashad me balançando delicadamente, como se eu fosse uma peça de porcelana. Eu o odiei momentaneamente por impedir-me de ver o rosto do garoto misterioso, mas não podia ficar irritada com a primeira pessoa que fez do meu sequestro algo menos torturante. Levantei com um sorriso fraco no rosto e fui comer. Esperei ansiosamente para vê-lo novamente.


Won't you stay until the A.M.?


– No primeiro dia em que eu estive aqui... O cara que disseram ser o chefe disse que eu teria tudo o que precisaria para ficar viva aqui, ou algo do tipo, não sei, nem lembro. Ele falou alguma coisa sobre lucidez? Porque, caso ninguém tenha reparado, eu estou presa aqui por... Quanto tempo mesmo?
– 3 meses.
– Então... Estou presa aqui por três meses e tudo o que eu vi são vocês, todos mascarados, com as mesmas roupas sempre, a TV e esse quarto nojento que nem janela tem. Eu to enlouquecendo.
Ele deixou um riso escapar e rolou os olhos.
– Do jeito que você tá falando hoje, eu não duvido.
– É sério! Eu nem sei como tenho conseguido dormir ainda, nem me pergunte. Eu to enlouquecendo de verdade.
Mais um riso, mais uma revirada de olhos. Eu não aguentei e comecei a rir também.
– O que foi?
– Nada, nada. – Ele disse e fechou a cara. – Não é nada.
– Não parece.
Levantei da cama e peguei o controle da TV. Nessa hora, abriram a porta. Eu sabia que era hora do garoto ir embora, ele já devia estar lá dentro por um bom tempo – eu não tinha como imaginar, minha noção de tempo estava altamente prejudicada. Mas, ao invés de ele ir embora, apenas colocaram dois pratos cheios de macarrão instantâneo para dentro do quarto. Falaram alguma coisa, mas nem me esforcei em escutar pois sabia que não entenderia.
– O que foi? – Perguntei ao voltarem a fechar a porta.
– Sua janta. – Ele disse,esticando um dos pratos.
– Já? Você não tava aqui no almoço?
– T-tava. É que... É que...
Ele ficou em silêncio. Eu não tive coragem para questioná-lo novamente e não soube o porquê. Respirei fundo enquanto deixava meu olhar ficar preso no dele de forma intensa. Um outro mascarado abrindo a porta interrompeu o momento. Ele gritou algo no idioma dele e veio até mim, puxando-me pelo braço. Tentei resistir, olhando desesperada para o garoto, mas tudo o que ele me devolveu foi um olhar parecido com o meu. Ele ainda chegou a esticar um pouco a mão na minha direção mas, depois, deteve-se.
Tudo o que eu vi quando saí do quarto foi um corredor sombrio. Colocaram um saco na minha cabeça e empurraram-me violentamente por um caminho que eu não conhecia. Só voltei a ver a luz quando fui colocada sentada em uma cadeira fria de alumínio no meio de um cômodo que parecia uma cozinha industrial. Fui amarrada e notei a câmera sobre um tripé posta à minha frente.
– Então nos encontramos de novo...
Pelo porte físico diferenciado dos outros que eu tinha encontrado, acreditei que aquele fosse o homem que falou comigo assim que cheguei àquele quarto estranho. O calor realmente estava infernal. Lembrei-me de como Rashad reclamava comigo e podia entender seu sofrimento.
– Isso – Ele disse, tirando um lenço do bolso com uma lentidão exagerada. – vai ser pra eu não ter que aturar seus gritos de forma tão intensa.
A voz na minha cabeça dizia para eu começar a reagir e justamente essa voz me assustava também, a ponto de deixar-me imóvel. Enquanto isso, o homem deu a volta por trás de mim e colocou a mordaça improvisada com força no lugar.
– Agora, se você me permite, – Ele disse e, dessa vez, tirou um objeto metálico pequeno de dentro do mesmo bolso. – eu vou dar ao seu pai um motivo para que ele acelere a retirada das tropas dele do meu território.
Ele ergueu a mão e deixou a lâmina do pequeno canivete à mostra.
– Não se preocupe. Eu fiz a esterilização pessoalmente. Não quero perder você. Seria péssimo para a minha situação. Você gosta de tatuagens? Porque eu estou prestes a te fazer uma, permanente e de graça. Se você for realmente patriota, vai amá-la.
Eu me mexi – ou melhor, tentei –, mas tudo estava muito apertado. Consegui desviar milímetros da lâmina ao chegar para o outro lado, mas nada suficiente para impedir o contado dela com minha pele. De primeira, a dor foi insuportável. Senti a lâmina rasgando minha pele na área próxima ao ombro e gritei, barulho abafado pelo pano em minha boca. O sangue quente escorrendo pelo meu braço fez a sensação piorar. Depois do que eu senti ser uma curva, a lâmina foi retirada da minha pele. Tentei xingá-lo, até porque nada tem maior poder de aliviar a dor do que um palavrão bem usado, mas não consegui. As lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto.
– Ah, , não chore. A imagem que seu pai vai receber não vai ficar boa. Você podia sorrir. Acredito que ele vai adorar vê-la sorrir mesmo tão longe de casa. – Ele disse com a voz mergulhada no sarcasmo.
A lâmina penetrou minha pele novamente e a dor voltou mais intensamente.
– Vou fazer essa bem rapidinho pra gente terminar logo. Não gosto de ver sangue.
Ele a arrastou rapidamente, fazendo o que senti serem duas curvas. Fechei os olhos e deixei um barulho mais alto escapar da minha garganta. Mais sangue escorreu e eu senti que estava desmaiando. Meu corpo começou a ficar mole. Então ele tirou uma seringa do bolso da camisa e balançou na minha frente como se fosse um troféu.
– Você vai ver tudo, querida. Ou acha que eu deixaria você perder o momento? E, respondendo a pergunta que eu tenho certeza de que você está fazendo para si mesma dentro da sua mente... Isso é uma droga que estamos desenvolvendo, na falta de um termo mais apropriado. Ela tem capacidade de manter a pessoa acordada ou impedí-la de dormir, classifique como quiser. E agora, minha cara, você vai ser premiada. Você será a primeira pessoa que usará a droga sem ser apenas um teste.
Ele localizou minha veia e colocou a agulha lá, o que não causou nenhuma dor, obviamente, pois eu tinha um problema maior. Realmente, a sensação do desmaio foi embora e nunca me senti tão viva na vida. A dor aumentou e o tom do meu grito ficou mais histérico ainda. Mais uma vez, a lâmina tocou em mim, fazendo uma nova curva na minha pele. Eu gritei mais e mais, parando apenas para respirar. Parecia nunca acabar e eu comecei a balançar meu corpo com força, mas de nada adiantou.
– Só mais um pouquinho e...
O contato com a lâmina foi rápido. Pelo que senti, foi apenas um corte simples, provavelmente em linha reta. Gritei mais.
– ... Pronto!
Não sabia se agradecia ou não. Queria continuar sangrando rapidamente, para morrer o mais rápido possível. Aguentar aquela dor era a pior coisa pela qual havia passado na vida. Ele devolveu o saco de pano para a minha cabeça e começou a desamarrar as cordas. O cheiro de sangue estava forte e comecei a ficar enjoada. Assim que ele me libertou, caí no chão e, após liberar um grito gutural, vomitei.
– Levante-se! – Ele gritou. – Deve achar que está em um hotel cinco estrelas, mas não está. Você vai voltar andando pro seu quarto e vai fazer isso exatamente agora.
Foi difícil ficar de pé. Parecia que a dor me partiria no meio a qualquer momento. Fui empurrada pelo braço machucado, o que piorou a sensação. Quando cheguei ao meu quarto, fui jogada de qualquer jeito lá dentro. Ele ainda estava lá. Assim que a porta foi fechada, aproximou-se com as mãos no meu rosto.
– O que eles fizeram com você? – Ele sussurrou, totalmente desesperado.
– Como tá o meu braço? – Perguntei de volta.
Ele o analisou e pude ver o terror tomando conta do seu rosto.
– Meu Deus...
– O que foi?
– Eu não...
– Me fala!
O rapaz respirou fundo, parecia capaz de ficar mais nervoso que eu.
– Escreveram USA nele. ... Eu não faço parte disso. Você sabe que, se dependesse de mim, isso nunca teria acontecido.
Sua respiração estava tão ofegante quanto a minha. Ele se estendeu para a cama, pegou o travesseiro e colocou sob a minha cabeça.
– Espera só um pouco.
Observei enquanto ele se levantava para ir até a porta, abrindo-a e gritando coisas no idioma dele. Ele se manteve lá, olhando para mim a todo instante. Depois de um tempo longo, ele voltou, fechando a porta e carregando na mão uma muda de roupas e uma caixa que, pela ilustração na tampa, era de primeiros socorros. Ele colocou as roupas em cima da cama e abriu a caixa, pegando um algodão e um frasco contendo um líquido.
– Vai arder. – Ele sussurrou.
Ao embebedar o algodão com o líquido, vi seu olhar ficar mais calmo. Ele o passou com delicadeza sobre o machucado. Não ardeu tanto quanto o machucado em si tinha doído, então suportei com certa facilidade. Ele deixou o algodão cheio de sangue de lado e fez o mesmo por mais três vezes até parecer satisfeito com seu trabalho. Depois, pegou algumas gazes e cobriu o machucado, fixando-as com esparadrapo. Então ele enrolou a parte superior do meu braço com uma tala simples. Com cuidado, pegou o meu corpo no colo e foi para o banheiro, colocando-se sentada no vaso sanitário.
– O que você vai fazer? – Disse com a fala arrastada, sentindo que, finalmente, a droga estava perdendo seu efeito.
– Vou te dar banho. Você está toda suja de sangue e de algo indefinido.
– Eu não quero que você me veja... Eu não...
– Se você não quiser, tá tudo bem. Só acho que você não tem condição de tomar banho sozinha agora. Quer que eu te leve de volta pro quarto?
Pensei bem. Eu precisava daquilo e não podia recusar tal generosidade. Fiz que sim com a cabeça e observei enquanto ele começava a tirar a minha roupa, deixando-me apenas com o sutiã e a calcinha. Segurando na minha cintura, ele me ajudou a ficar em pé enquanto tirava o sangue e o vômito do meu cabelo. Quando sua mão passou pela primeira vez no topo das minhas costas, um arrepio percorreu meu corpo inteiro e meus pelos se eriçaram. Torci para que ele não tivesse percebido, mas achei impossível.
Ao secar a minha pele, ele tomou todo cuidado do mundo para não invadir minha privacidade, não tocando em nenhum lugar que pudesse ser ofensivo. Ele me entregou a toalha para que eu terminasse de secar o que faltava com o pouco de força que ainda restava em mim. Senti seus olhos queimando a minha pele, o que acarretou em um forte rubor. Com apenas um olhar, consegui mostrar que queria que ele se virasse. Retirei a calcinha e sutiã molhados ao ver que havia outro par na muda de roupas novas. Coloquei-os com dificuldade por poder usar apenas uma mão por conta da dor que irradiava do outro braço, mas eu o fiz da forma mais rápida que pude.
– Se você pudesse me ajudar... – Eu sussurrei, ainda afetada pela proximidade que tinha compartilhado com ele embaixo do chuveiro.
– É claro. Do que você precisa?
– Preciso que você me ajude a vestir a calça e a camiseta.
Ele se virou e tentou disfarçar o olhar que direcionou para mim. Ao aproximar-se, tomou a calça na mão e abaixou-se na minha frente, encaixando as pernas da calça nos meus pés. Sentir suas mãos deslizando a calça para cima das minhas pernas causou um novo arrepio que ele, com certeza, notou ao ficar com a cabeça na direção da minha barriga. Deixando um sorriso escapar, ele pegou a camisa e colocou em mim com cuidado ao escorregar meu braço machucado pelo buraco no tecido. Quando terminou, pareceu observar o resultado final como um artista que aprecia sua obra prima.
– Obrigada. – Eu disse, quebrando o silêncio.
– Não há de quê.
Olhei para o chão, procurando codificar de forma correta as palavras que formavam-se na minha mente.
– Por que você tá fazendo isso? – Perguntei.
– Isso o quê?
– Você tá sendo legal, simpático, me tratando como se eu fosse importante...
Ele abaixou a cabeça em um gesto claro de vergonha.
– Talvez seja porque você merece ser tratada como alguém que é importante. – Ele sussurrou.
As palavras fizeram com que meu corpo se arrepiasse mais uma vez. Que maldita mania ele tinha de fazer com que eu me arrepiasse daquele jeito? Mas eu não podia reclamar, porque sabia que estava gostando daquela sensação.
– Obrigado pelo elogio.
Ele levantou a cabeça. Achei que veria seu sorriso de sempre mas, ao invés disso, ele se aproximou, ficando extremamente próximo de mim. Foi algo que mal pude perceber que estava acontecendo. A máscara causou um incômodo quando seus lábios tocaram os meus. Nós nos beijamos de forma calma, tranquila, algo que causou certo estranhamento a princípio e, posteriormente, dezenas e dezenas de questionamentos na minha cabeça.
O que era aquilo? Qual era o significado daquela ação? Por que eu estava sentindo que podia ficar tranquila na presença dele? Como eu havia permitido que chegássemos àquele ponto? Era sinal de que eu definitivamente estava enlouquecendo? E se eu estava enlouquecendo... Eu deveria ceder à loucura de uma vez por todas? Foi então que eu pensei... Quer saber? Foda-se! Se isso é capaz de fazer com que esse sequestro chegue a um fim, vale o risco.


I figured it out, saw the mistakes of up and down.


Quando ele chegava, meu dia ficava mais alegre. Deixei isso escapar uma vez e ele riu de mim. Minha estadia ali estava ‘menos pior’. Quando eu não estava com Rashad, rindo das piadas que ele contava, estava com ele, encarando os lábios que pensava ser a minha saída daquele lugar. Não havia explicação lógica para o que eu estava sentindo. Provavelmente, estava enlouquecendo mesmo e pronto mas, àquela altura, não fazia muita diferença enlouquecer ou não.
Era hora da troca de turno. Quando ele colocou o pé dentro do quarto, contive o sorriso enquanto estávamos na presença de um terceiro. Assim que a porta fechou, eu me levantei e fui até ele, que continuou encostado na mesma, prendendo-a até que eu chegasse perto o suficiente para depositar um beijo rápido nos seus lábios.
– Oi. – Ele disse com um sorriso.
– Oi. – Respondi de forma rápida e animada.
Observando sua linguagem corporal, notei que ele estava um pouco mais rígido do que de costume, mais parecido com os outros homens que ficavam fazendo a minha “segurança”.
– O que houve?
– Nada.
– Não parece nada.
– Não é nada, é que eu fiz uma bobagem só, mas acho que... Não sei, é melhor deixar pra lá mesmo.
– Eu quero saber! – Gritei, batendo o pé no chão com força.
Ele riu da minha pirraça, mas continuava rígido.
– Acho que fiz besteira.
– Mas eu quero saber, por favor.
– Só se você jurar que não vai me odiar depois disso.
Foi minha vez de rir. Olhei para a cara dele, tentando parecer o mais sincera possível.
– Eu acredito que não seria possível. Seria injusto com essa sua cara de medo.
– Deixa pra lá, você não vai gostar.
Quando ele recuou, eu fui junto.
– Eu quero saber. Já disse isso. Por favor, me mostra.
Minhas palavras fizeram com que seu olhar fixo derretesse. Ele fechou os olhos ao aproximar mais o rosto. Seus lábios roçaram nos meus e eu fechei meus olhos lentamente, ficando anestesiada pela sensação. Seu hálito escapou por entre seus lábios quando ele deu uma risada.
– Não quer saber qual é a surpresa?
Afastei meu corpo, mantendo as mãos em seus ombros. Por alguns segundos, senti os músculos de seus braços escondidos sob a roupa larga e deixei um suspiro escapar. Recuperando meus sentidos, balancei e ergui a cabeça, olhando em seus olhos.
– Quero.
– Então sente-se. – Ele disse, apontando com a cabeça para a cama.
Obedeci sem questionar, a curiosidade saindo pelos meus poros. Ele travou a maçaneta da porta com a cadeira nova que tinham levado para o quarto logo depois do tal chefe me usar para quebrar a antiga. Eu esperei que ele viesse na minha direção como um leão vai até sua caça e beijasse-me violentamente. Em algum lugar da minha mente, eu esperava realmente isso. Mas ele simplesmente sentou ao meu lado, com um sorriso leve, escondido pelo buraco da máscara que não era grande o suficiente para o sorriso.
– Sabe que dia é hoje?
– Me desculpas, mas... É sério que você tá me perguntando o dia?
Ele riu.
– Ok. É... Bem... Eu...
Tentei conter a risada.
– Hoje faz um mês que... Que...
– Pode falar, não tenha medo. – Eu o encorajei.
– Faz um mês que a gente se beijou da primeira vez.
Aquelas últimas palavras me pegaram desprevenida. Era surpreendente escutar aquilo vindo de um garoto, ainda mais na situação em que nós nos encontrávamos. Senti como se eu fosse adolescente de novo e meus sentidos disparassem muito mais facilmente. Ele se lembrava do nosso primeiro beijo. Ele tinha contado os dias. Tudo aquilo provocou um reboliço dentro da minha mente que só serviu pra me deixar mais confusa do que eu realmente já estava.
– Fala alguma coisa. Você tá me deixando nervoso.
Olhei para o chão, como se lá estivessem escritas as palavras que eu desejava usar para respondê-lo.
– De qualquer jeito, eu trouxe isso. Achei que você ia gostar, sei lá. – Ele disse com uma voz claramente desanimada e eu senti que ele tinha jogado alguma coisa na cama.
Quando olhei para o objeto, eu me deparei com uma embalagem de presente completamente amassada. Tomei o pacote nas mãos e desamarrei o laço enorme na frente dela. Ao retirar completamente o papel, constatei que eu segurava na mão uma cópia de Água para Elefantes.
– Eu li em algum lugar que esse era seu livro preferido. – Ele disse, acanhado.
Eu sorri ao deixar os dedos deslizarem pela capa do livro. Percebi que ele estava observando, então virei para ele e sorri mais ainda.
– Obrigado.
– Mas não é esse seu presente.
Devo ter ficado com o rosto claramente confuso e o fiz rir da situação.
– Abra o livro.
Com certo receio, escorreguei meus dedos até a borda da capa e puxei. Ele tinha substituído todas as páginas do livro por páginas de jornais. Eu folheei rapidamente e pude reconhecer alguns deles. The New York Times, The Guardian, The People’s Daily, International Herald Tribune, entre outros. Todas aquelas folhas tinham algo em comum. Em palavras diferentes, todas elas apresentavam notícias informando sobre como os Estados Unidos estava em crise, pois o presidente estava dedicando todo o seu tempo e o seu poder para recuperar a filha que havia sido sequestrada. Meu coração se apertou quando parei em uma manchete do The Independent, que apresentava uma foto minha e do meu pai na minha formatura do colegial. Deixei algumas poucas lágrimas escaparem dos meus olhos que ele fez questão de secar com os dedos.
– Eu não tenho como agradecer... Eu nem sei seu nome! – Constatei.
E eu realmente não sabia. Nunca o tratava pelo nome e, às vezes, ficava enrolada para terminar uma frase. Ele nunca se preocupou em apresentar-se e eu achava estranho. Era como se ele me conhecesse e, ao mesmo tempo, eu nunca tivesse o visto.
– Eu não sei se seria bom te contar.
– Por que não seria?
– Porque...
Ele não terminou a frase.
– Porque...? – Eu incentivei.
– Porque eu não quero te envolver muito nessa história. Você vai sair daqui e nós vamos seguir caminhos diferentes na vida. Não vale a pena você lembrar de mim de um jeito que...
Não aguentei e estiquei-me para beijá-lo. Fui extremamente rápida e acredito que eu o peguei de surpresa. Se tinha um momento para arrancar uma informação boa, era aquele. E por quê não um beijo para estimular? Ele não apresentou nenhuma reação de primeira mas, depois, segurou minhas mãos com carinho. Quando eu me afastei, ele se manteve de olhos fechados e lábios entreabertos.
, eu não quero que você se apegue.
– Eu quero saber seu nome.
Ele suspirou, deixando um ar de derrotado escapar por entre seus lábios.
– Meu nome é Zayn.
– Prazer, Zayn.
– O prazer é todo meu, .
– Seu nome é lindo.
– Fico feliz que tenha gostado.
Ele se virou para frente, ignorando-me totalmente por alguns segundos. Enquanto isso, a sua voz ecoava pela minha mente. Zayn... Tinha sido a voz dele ou o nome realmente era lindo? Eu sentia todas as letras produzindo uma música deliciosa nos meus ouvidos. Sorri involuntariamente, e ele percebeu.
– O que foi?
– Me beija, Zayn?
Seus olhos procuraram os meus, como se o que eu havia dito não fosse normal. Na verdade, não era. Eu nunca havia pedido que ele me beijasse. As coisas simplesmente aconteciam e eu deixava porque sentia que ele podia ser a minha chave para fora dali, mas algo mudou em mim naquele dia. Não sabia que efeito teria meu pedido, mas quis tentar. Talvez desse certo. Eu não fazia ideia.
Quando Zayn se aproximou, senti todos os músculos do meu corpo enrijecendo. Respirei fundo. Esperei que seus lábios tocassem os meus, mas não foi isso que aconteceu. Eu estava de olhos fechados e delirei quando seus lábios tocaram a ponta do meu queixo. Sentia falta desse tipo de contato, então soube de primeira que eu me entregaria completamente a ele. Suas mãos seguraram minha cintura com firmeza pela primeira vez. Seus dedos, ligeiramente rudes, me deixaram extasiada.
Seus lábios foram descendo na direção do meu pescoço e os meus pelos eriçaram. Respirei fundo e deixei um suspiro pesado demais escapar da minha garganta. Minhas mãos subiram lentamente pelos seus braços até chegarem à sua cabeça e apertarem seu cabelo, forçando sua cabeça contra a minha pele. As suas, que estavam na minha cintura, começaram a descer em um ritmo torturante e lento para meus quadris. Ergui meu corpo na sua direção, pedindo por um contato físico mais intenso. Zayn ameaçou jogar seu corpo para cima do meu mas deteve-se rapidamente, levantando para recompor a sua postura.
Meu coração disparou, tanto pela intensidade dos movimentos anteriores quanto pela separação inesperada. Ele retirou a cadeira rapidamente da porta e colocou de lado, sentando nela no exato momento que abriram a porta. Rashad falou alguma coisa com Zayn, que saiu logo depois, despedindo-se com um sorriso travesso no rosto. Olhei pelo canto do olho para o livro que, felizmente, estava fechado sobre a cama.
– Seus olhos estão brilhando. – Rashad disse.
– É o livro que eu to lendo. Me fez chorar.
– É, eu imagino...
Ele sabia. Mesmo que eu estivesse tentando esconder, ele sabia que havia alguma coisa entre eu e Zayn. Zayn... O nome que, com certeza, enlouqueceria meus pensamentos – pelos motivos certos e errados. Eu respirei fundo e coloquei o livro no meu colo. Abri na primeira página, a manchete do The New York Times. Li rapidamente sobre como meu pai tinha perdido nove compromissos em apenas uma semana pois havia largado tudo para dedicar-se à operação que envolvia o meu rapto. Deixei que sorrisos involuntários e lágrimas rebeldes escapassem.
Zayn não voltou naquele dia, o que fez com que eu ficasse mais ansiosa ainda para nosso próximo encontro. Ainda estava curiosa sobre como ele tinha adivinhado que Rashad apareceria para substituir seu turno. Ia perguntar quando ele aparecesse da próxima vez. Fui dormir sorrindo, lembrando de cada palavra que li sobre meu pai. Tentei esconder, mas não consegui. Estava feliz demais. Abracei o livro e peguei no sono, mais louca do que nunca para encontrá-lo novamente e cavar mais ainda sobre o que estava acontecendo no mundo lá fora.


Continua...



Nota da autora: Apenas um gostinho do que vem por aí! Espero que possa agradar a quem quer que seja e que nos vejamos em breve!







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