Última atualização: 31/08/2020

Capítulo 1

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- ? - acordei no pulo, sentando na cama imediatamente completamente assustada.
- O que foi? - ele murmurou preguiçoso.
- Nada! - respondi incrédula, olhando rápido no relógio em cima da pequena cômoda de canto ao meu lado da cama, que marcava dez da manhã - São dez da manhã, Alaia não está chorando e está tudo bem! - eu expliquei chocada.
Eu levantei feito um furacão, com meu coração já quase saindo pela boca.
- , você tá maluca? - chamou minha atenção rindo escandalosamente enquanto se sentava na cama ainda cheio de preguiça - Alaia tá com a sua mãe desde ontem! - sua risada ficou ainda mais alta - Você bebeu muito mesmo ontem, né?
Precisei de alguns segundos pra me acalmar e lembrar que de fato, Alaia estava com a minha mãe. Comecei a rir sozinha, andando novamente até a cama, me jogando na mesma.
- Meu Deus, eu jurava que hoje era segunda-feira! - revelei com ansiedade na voz, me permitindo rir mais ainda.
- Hoje é domingo, babe. Aliás, ontem foi incrível. Não acredito que...
- Finalmente saímos, né? - arregalei os olhos e abri a boca em uma surpresa chocante bem humorada.
- Exato. - riu - Éramos mais legais, . - ele suspirou derrotado.
- Eu sei. Agora a gente toma chá pra poder relaxar e dormir melhor. - comentei também derrotada, lembrando que anos atrás isso parecia ser uma ideia completamente distante. Não especificamente o chá, mas em como tudo da nossa rotina havia mudado.
- Meu Deus!
- Mas ontem realmente foi incrível. Não acredito que Glenn conseguiu fazer um álbum melhor que o Prelude! - voltei ao assunto com animação.
- Mas ele fez! - disse perplexo - Sério, Interlude tá incrível! E daqui algumas semanas lança o segundo álbum dela também! Tá tudo indo tão bem pra eles, tô feliz por isso!
- Eu também estou. - sorri feliz - Agora... - puxei as duas cobertas de volta pra mim, me aproximando do meu noivo e me aninhando pertinho dele - Vou dormir mais um pouco. Tô cansada há dois anos e mereço mais uma horinha de sono enquanto Alaia faz minha mãe de gato e sapato.
Eu sempre tive a mente muito aberta em relação à maternidade e sei que muitas mulheres simplesmente não querer ser mães e tudo bem. Eu mesma não queria ser assim tão cedo, mas aconteceu. Pessoas podem apenas respeitar crianças e ter a ideia de que elas devem ficar com pessoas que as queiram, com o maior respeito do mundo e tudo bem, de verdade mesmo, mas no meu caso... Meu Deus, eu já não sabia mais o que fazer com tanto amor.
É incrível como Alaia me salvou de todos os dias chatos e entediantes. Eu não gosto muito de dizer que não era nada até minha filha chegar, porque não consigo esquecer da mulher que eu era antes e nunca vou, mas sem sombra de dúvidas, essa é a minha melhor versão e eu nem mesmo consigo acreditar que um dia fui outra coisa a não ser "mamãe" - que a propósito, foi a primeira palavra de Alaia.
Nossa vida estava sendo um... Como posso dizer?! Talvez um conto de fadas.
Ok, não tão bom assim, a vida de ninguém é perfeita a esse ponto, mas estava tudo bem.
Éramos nós três, nosso apartamento e nossos trabalhos. Simples e completos.

——


- Cadê o bebê da mamãe??? - eu questionei alto assim que minha mãe abriu a porta e Alaia, que estava no colo do avô dando altas gargalhadas, olhou pra trás no mesmo segundo, descendo daquele colinho que deduzi estar confortável e correu toda desengonçada até mim.
- Oi mamãe! - minha filha me abraçou forte, mas logo que viu o pai atrás de mim, forçou o corpo pra frente e abriu os braços, doidinha pelo colo do pai.
agora tinha duas garotas perdidamente apaixonadas por ele. Desconfio até que Alaia o ama mais do que eu o amo, mas isso é segredo.
Minha mãe havia feito uma comida gostosa que estava cheirando de longe. Jantamos juntos e óbvio que não perdeu a oportunidade de contar o que ocorreu de manhã. Meus pais riram, dizendo que deveríamos sair mais e que era sempre um prazer ficar com Alaia. Bem... concordamos. Claro que a rotina mudou e consequentemente mudamos também, mas Alaia estava sempre inclusa na nossa nova rotina, planos e passeios. Nos envolvemos em projetos novos e até plantamos algumas árvores nesses últimos dois anos. Acampamos juntos com todo o pessoal uma vez - , Glenn, Shyla, Cohen, Scott, Landon e Lydia - e o mais importante é que continuamos firmes frequentando o abrigo de cachorros que me levou no meu aniversário de 20 anos. Ainda queremos muito um cachorro, mas nunca parece a hora certa, então dedicamos alguns dos nossos fins de semana pra passar o dia lá brincando com os cachorros e em feiras de adoção. Alaia provavelmente gosta mais do que a gente sem sombra de dúvidas.
- Ok, agora vai lá dar um beijinho na vovó... - pedi rindo, vendo Alaia correr até minha mãe, que estava agachada pra ficar da sua altura e dar um beijinho gostoso em sua bochecha - E agora um no vovô! - ela soltou uma gargalhada engraçada e foi até o avô, que a pegou no colo com animação.
A propósito, era sempre engraçado estar na sala em que eu literalmente tive a minha filha. Caminhamos até a porta, onde pegou nossa filha no colo e nos despedimos, indo direto pro carro. Embora tínhamos curtido a preguiça de domingo, eu ainda estava exausta e quase cochilando, mas passar por aquelas ruas sempre me despertavam memórias.
- Você lembra no comecinho que Alaia só dormia bem a noite quando estava no carro? - comentei animada.
- Ô se lembro! - me lançou um olhar engraçado carregado de memórias - E a gente saía de carro durante a madrugada do mesmo jeito que a gente fazia quando trabalhava junto.
- E às vezes a gente parava e conversava com Leon quando ele ainda estava acordado, lembra? Era tão... Engraçado. Aí a gente voltava pro carro, comíamos nos lugares que ainda estavam abertos e depois voltávamos pra casa. Eu amava, mesmo estando completamente exausta.
- Eu gostava da sensação. Eu, você e Alaia pequenininha, só nós enquanto a maioria dormia. Tudo era tão calmo e parecia estar tudo salvo.
- É... Eu acho que só conheci tudo mesmo dessas ruas depois disso tudo. A gente dirigia devagar, observava tudo... Antes a nossa visão dessas ruas era uma coisa maluca. Lembra das vezes que nos perseguiram? - eu arqueei as sobrancelhas rindo e assentiu cheio de humor - E depois a nossa visão eram ruas calmas. As coisas realmente mudaram depois que Paul morreu.
- , preciso te falar uma coisa. - a feição triste tinha tomado conta de - É o Bob, ele está muito mal mesmo. Decidiram sacrificá-lo amanhã.
Aquilo doeu no fundo do meu ser. Bob já estava velho e com inúmeros problemas de saúde. Passamos os últimos meses sendo praticamente pais dele e até mesmo saímos com ele por aí pra passear mesmo sabendo da sua condição, mas ele merecia atenção.
- Amanhã é sua folga, , podemos estar lá com ele então. - eu disse firme mas meu queixo trêmulo denunciou a minha vontade imensa de chorar.
- Eu ia te pedir isso mesmo, babe. - ele sorriu triste.

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- Lai Lai, tem como você ficar parada? - pedi com carinho depois de respirar fundo pela décima vez. Cortar unha de criança requer muita paciência.
Levou alguns minutos até conseguir, mas deu tudo certo. Descemos juntos e colocou o colar de âmbar no pescoço da nossa filha enquanto descíamos no elevador. estava mais calada que um mudo e eu sabia o porque. O caminho até a creche foi silencioso e ficou pior depois de deixarmos Alaia e ficarmos a sós. Olhei pra minha noiva com um olhar significativo e entrelacei nossas mãos enquanto o farol estava fechado.
- Tá muito cedo pra algo tão ruim acontecer. - resmungou baixinho num tom completamente triste, com o rosto virado pra rua.
- Eu também acho, . - concordei triste, disposto a deixar o assunto morrer durante o trajeto.

Bob teve uma vida boa. O dono dele morreu há um ano e não tinha ninguém pra ficar com ele e mais ninguém quis o adotar por já estar velho. Ele teve uma vida boa e teria um bom fim.
- Vocês fizeram muito por ele. A coisa que ele sempre mais amou fazer era passear no parque e vocês fizeram isso por ele várias vezes. - Jane, a veterinária, estava fazendo de tudo pra nos confortar.
- O dono dele teria feito o mesmo, tenho certeza. Ele ia querer que Bob tivesse um final de vida feliz fazendo o que mais ama. - abriu um sorriso fraco devastado, tentando engolir o choro. Passei meu braço pelos seus ombros, trazendo ela pra perto e dando um beijo na sua bochecha.
- Olha, ele está mal, mas se vocês quiserem... - Jane deu os ombros de leve, deixando a ideia no ar.
- Não! Não vou ser egoísta com Bob e fazer ele ficar mais tempo aqui só pra me fazer bem. Ele merece ir embora em paz. Eu tô triste mas conformada. - respondeu segura.
- Tudo bem. Vou começar o processo. - ela sorriu, e estava claro que aquilo era o melhor a se fazer com o pobre cachorro.
- Vai em paz, amigão. - abracei Bob com força e fez o mesmo.
De longe, o momento mais triste pra nós em meses, mas Bob merecia ir em paz e sem dor, e o mais importante, ele merecia ter alguém ali com ele nesse momento tão difícil de dor e paz.

——


Recolhi todos os papéis importantes com anotações sobre a próxima aula que eu daria pra minha turma antes que Alaia os puxasse achando que eram papéis para desenhar. tinha acabado de dar banho nela e estava preparando a mamadeira que ela tomava pra dormir, e como sempre ela tagarelava sobre o passo a passo como se Alaia quisesse aprender.
- Prontinho, vamos lá? - minha noiva a chamou com as mãos, e Alaia foi no mesmo segundo, jogando o corpo pra frente e se agarrando no colo da mãe.
- , deixa que eu coloco ela pra dormir. Você tá cansada, ainda nem tomou banho, e eu sei que hoje é um daqueles dias que você precisa de um banho longo. - destaquei bem com um tom óbvio sobre o que eu estava falando e nem mesmo tentou disfarçar, então nem mesmo precisei ser persistente.
- Você me conhece tão bem. - ela bufou numa falsa frustração mas logo em seguida riu, me entregando Alaia com cuidado e em seguida a mamadeira.
Minha filha tinha uma rotina bem pontuada todos os dias, então não era tão difícil pra ela dormir e sinceramente, era um dos meus momentos favoritos com ela. Observar o quão pequenininha, dependente e inocente ela é às vezes me faz pensar alto e são nesses momentos que eu fico vidrado pensando em como eu sou sortudo por amar tanto uma pessoa tão pequena.
Me sentei na cama, deitando minha filha no meu colo e entregando a mamadeira pra ela. Não, ela não aceita mais que eu ou segure a mamadeira porque ela mesma já faz isso sozinha. Ela é uma pequena independente.
- Papai? - Alaia tirou a boca do bico da mamadeira ainda quando faltava metade do leite.
- Sim?
- Eu vou mimi. - ela falou sonolenta mas enfiou a mamadeira na boca novamente e continuou tomando, mas logo seus olhos se fecharam.
Eu ri fraco. Ela sempre avisava tudo o que podia. Quando ia comer, tomar banho, tirar o sapato... E eu sempre babava. Minha filha me mudou muito. Eu era - ainda sou - um cara angustiado com as coisas que os novos tempos me trouxe. Essa busca infinita por algo que nem sabemos o que é. Porém faz dois anos que eu venho notando uma coisa: o tempo passa muito rápido. Alaia é o melhor medidor de tempo possível pra me mostrar o quanto tempo à toa estou perdendo. Não é a vida que tá passando muito rápido, é a gente que vive sem foco e disperso. Minha filha me ajuda a ver o mundo de uma maneira diferente. Às vezes cruel demais, as vezes bom demais, mas no fim, todos os meus pensamentos são resumidos em como deixar tudo melhor pra ela.
E claro, pra minha noiva também.


Capítulo 2

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Eu pensava: "Ah, já tenho um bebê em casa, consigo dar aula pra adolescentes". E eu consigo, mas às vezes tenho vontade de gritar de tanto nervoso. Do mesmo jeito que eu não sabia direito trocar fraldas, não sabia como acalmar minha filha e ensiná-la direito a fazer as coisas, eu tive que aprender com meus alunos também. Ser pai e ser professor é algo que anda lado a lado pra mim agora. Os dois fazem parte do "não saber". Há muitos questionamentos e medos, mas no fim, você só precisa ir se ajustando e fazer com que se ajustem a você também. Tudo isso me mudou pra caralho e me fez mudar em coisas que eu achei que seriam tarde pra mudar. A arrogância ficou de lado e a paciência e a humildade tomaram conta.
- Bom dia, pessoal! - entrei na sala animado - Oliver, vai pro seu lugar! - pedi alto com bom humor, observando de canto o rapaz que estava de pé no fundo da sala, se sentar no próprio lugar com rapidez.
Eu não colocava medo deles, muito pelo contrário. Eu até tentei no começo, afinal, eu costumava ser bom nisso, mas os conheci melhor e vi que a última coisa que eles precisavam era de mais um professor durão e por sorte essa foi a melhor decisão que tomei. Segundo fofocas dos corredores e até mesmo da sala dos professores, eu era considerado um dos mais legais, e claro, bonitos.
Não estou mentindo. Eu sou mesmo os dois.
Beleza, sou considerado um professor engraçado. Eu e meus alunos construímos uma certa intimidade que só nós sabíamos como era. Kylie duas semanas atrás estava arrasada pela avó doente que foi internada às pressas, ela ficou três dias sem ir pro colégio e quando voltou eu fiz questão de conversar com ela e depois trouxe empatia e solidariedade como temas pra se discutir em alguns fins de aulas. A avó dela ainda segue internada, mas Kylie parece mais confortável em saber que tem uma certa rede de apoio.
E é assim. Construímos uma relação muito boa e eu provavelmente - ou obviamente - esteja mais animado do que eles para o restante do semestre.
- Professor, vi suas fotos naquela festa do lançamento do álbum do Glenn Travis! - Millie comentou alto enquanto eu escrevia no quadro e gargalhar alto foi inevitável. Fui me virando aos poucos, encarando a menina com diversão no olhar - Foi legal? - ela arqueou as sobrancelhas e rolou os olhos junto com um sorrisinho sem mostrar os dentes e de repente aquilo pareceu ser mais importante do que a aula para os meus alunos.
No começo eu tentava manter minha vida pessoal bem privada, mas não por ser amigo de pessoas famosas, mas sim porque eu queria mesmo. No começo eu tinha medo de não conseguir colocar limite nisso, mas porra, cada um me conquistou demais e conseguimos estabelecer limites claros com o passar do tempo. Eu até mesmo tinha meus alunos nas redes sociais sem problema nenhum e alguns até faziam graça comentando nas poucas fotos que eu postava sozinho ou com a minha família. Eles são, de fato, um barato.
- Eu estava bem vestido ou você tem alguma denúncia fashion a fazer, Millie? - questionei numa falsa seriedade que fez alguns rirem. Millie queria entrar pra faculdade de moda e sempre que eu podia cutucava algo relacionado ao assunto e ela adorava.
- Bem... - ela fez uma pausa dramática, semicerrando os olhos como se estivesse analisando a situação - Estava tudo ok, professor.
Tratei de focar de volta à aula depois de ouvir mais alguns comentários sobre fotos que outros alunos também tinham visto e aproveitei pra brincar e pedir pra eles ouvirem o Interlude. Recapitulei assuntos sobre a aula passada e passei exercícios para eles fazerem em casa. A semana tinha que começar com tudo.
O sinal tocou e todos se apressaram pra sair.
- Alonda e Levi! - chamei as duas bem alto pra não correr o risco de não ser ouvido e as duas se viraram com feições nada boas - Vocês já sabem sobre o que eu vou falar, não é? - questionei sério, me aproximando das duas adolescentes que estavam visivelmente cansadas e com olheiras.
- Sim. - elas responderam em coro.
- Estou terminando de corrigir os trabalhos que pedi semana passada e você, Levi... - me direcionei pra garota branca feito neve que tinha estava com o cabelo preso da maneira mais bagunçada e preguiçosa - Nem mesmo me entregou o trabalho e eu te dei outra chance!
- Eu ia te entregar ontem. - ela sussurrou mas pareceu brava por ter sido cobrada.
- Levi, você sabe muito bem que eu não venho de segunda feira!
- Ok, eu entrego amanhã! - ela deu os ombros, bufando e rolando os olhos feito uma criança irritada.
- Não, o seu prazo acabou! - respondi firme, me direcionando pra Alondra, que estava com os braços cruzados e com a cabeça tombada, quase dormindo em pé dentro do seu moletom preto gigante - E você, Alondra, eu não sei o que aconteceu, mas puta que pariu, você estava indo tão bem e...
- Eu sei, meu trabalho ficou uma porcaria, mas é porque eu estou me mudando de casa e foi corrido pra mim. - minha aluna nem mesmo tentou disfarçar o tédio, continuou na mesma pose preguiçosa e usou um tom mais preguiçoso ainda, claramente desinteressada e só se justificando pra tentar escapar da bronca.
- Não é só isso, você tem faltado muito também. Qual é, meninas, vocês são melhores amigas, porque não se juntam pra estudar e voltarem a ser as alunas incríveis que vocês são? E qualquer problema que vocês tiverem, sabem que...
- Podemos contar com você, ok, já sabemos. - Alondra rolou os olhos, completando minha frase num tom lotado de um sarcasmo preguiçoso e deu as costas, saindo da sala como um raio.
Encarei Levi, que apenas deu os ombros e se virou também, saindo da sala. Tinha algo muito errado com as duas.

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- Eles estão sempre terríveis, mas alguns realmente melhoraram. Crystal, Grace, Logan, Bryan... Agora Alondra, Levi, Taylor, Ashton e mais alguns estão regredindo e eu quero entender o que tá rolando. - Irina comentou enquanto fechava a pasta com os testes surpresa de matemática que tinha acabado de dar.
- São adolescentes, Irina, é isso que tá rolando. - Dave respondeu descontraído, soltando uma risada fraca.
Bom, ele tinha um ponto, e falo por mim mesmo. Ensino médio é complicado, último ano então...
- Comigo eles estão indo muito bem, mas Alondra está faltando demais e anda desleixada demais com trabalhos e lições enquanto Levi nem mesmo os tenta fazer. - comentei incomodado.
- É, Alondra realmente está faltando muito e Levi... É, tá complicado. - Irina suspirou pensativa - E com você, Dave, como elas estão?
- Por incrível que pareça, comigo elas estão indo bem. Tá claro que elas preferem biologia. - ele se gabou - Acho que Alondra está matando muito os horários de vocês, porque comigo tá tudo ok, e Levi... - ele abriu o arquivo dos alunos que estava dentro da sua bolsa - Ela decaiu um pouquinho mas nada alarmante por enquanto.
- Bem, Alondra não pode pular as aulas de inglês e matemática o resto do ano e eu fiquei sabendo que Levi se mudou de casa, acho que isso deve ter atrapalhado ela nessas últimas duas semanas. - Irina colocou sua bolsa no ombro e pegou as suas pastas que estavam na mesa - Até amanhã, queridos. - ela soprou um beijo no ar e foi embora, me deixando sozinho com Dave na sala de professores.
Eu adorava Dave, principalmente seu humor, mas ele não dava muita abertura pra uma amizade maior do que a que tínhamos profissionalmente. Ele era assim com todo mundo pra falar a verdade. Mas tinha Irina e Vince, professor de educação física. Cara, como a gente se diverte. Os dois foram os que mais me acolheram e fizeram de tudo pra me incluir em tudo da Harkerside. Hoje a gente conhece até a família um do outro. Vince é casado há dez anos e tem um filho de cinco e diz que ele e a mulher não pretendem ter outro filho nem em outra vida porque dá trabalho demais. E realmente dá e agora eu entendo. Irina está num relacionamento seríssimo há um ano e recentemente foi pedida em casamento e desde então eu ouço piadas sobre isso. Diz ela que eu estou enrolando demais e que dois anos de noivado é muita coisa e eu já expliquei dramaticamente milhares de vezes que passamos os últimos dois anos nos desdobrando e organizando nossa vida com a nossa filha, que a propósito não foi nada fácil mas só agora finalmente tínhamos conseguido de fato parar pra pensar no casamento.

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Alaia dormia tranquilamente ao meu lado enquanto eu terminava de responder alguns e-mails. Me levantei de fininho, colocando o notebook em cima da cômoda e saindo do quarto com passos longos até a cozinha, mais especificamente a geladeira, e tirando o resto da torta de chocolate de dentro dela. Me sentei no balcão, pegando pedacinhos minúsculos da torta e aproveitando cada segundinho do sabor.
Meu pensamento foi longe. Observei cada cantinho da nossa cozinha. Conquistamos tanto nos últimos dois anos e tudo ainda parecia um sonho. Foi trabalhoso e ainda é, não tomamos nada como garantido, mas estávamos indo bem. Bem o suficiente pra eu finalmente começar a pensar e planejar mesmo o meu casamento. Montei até uma pasta no Pinterest só de decorações e modelos de vestidos de noiva.
Ri sozinha ao lembrar da faculdade. Por Deus, três meses na faculdade de tecnologia me deixaram mais estressada do que ter uma filha de quatro meses em casa. O negócio é: eu detestei. Eu sempre achei que aquilo seria pra mim mas simplesmente não era. Aguentar três meses foi até muito, mas eu me senti mal por não me identificar tanto quanto eu achei que me identificaria e tentei empurrar com a barriga e me forçar a gostar da coisa o máximo que pude. Um dia cheguei em casa, olhei bem pra Alaia no berço e pensei o quão tapada estava sendo comigo mesma. Qual é?! Uma mulher que cresceu, brigou com pessoas de gangues, acompanhou de perto uma guerra contra os Ghosts - que a propósito agora quando lembram do antigo nome fazem piada, o que me faz pensar que talvez Paul se contorça no inferno de tanto ódio - que sofreu, que suportou e passou por cima de um monte de coisa, que descobriu que o pai biológico era um filho da puta e que no fim o verdadeiro pai mesmo é na verdade o tio, que gerou uma vida e pariu na sala de casa uma garotinha linda, saudável e cabeluda simplesmente não podia se deixar levar dessa maneira. Eu precisava pensar no que era melhor pra mim pra poder continuar dando o meu melhor de maneira genuína.
Minha filha me deu forças pra realidade me atingir de outra maneira. Me libertei da cobrança desnecessária que eu tinha comigo mesma só de lembrar tudo o que já tinha passado. Alaia me trazia a sensação de estar cheia, viva, cansada e completa. Óbvio que só o que minha filha me faz sentir não coloca comida na mesa, mas me ajudou muito a buscar coisas novas e foi o que eu fiz. Primeiro eu juntei as coisas que estavam próximas e mais práticas pra mim. O café da minha mãe com tia Ellie estava até indo bem mas as coisas estavam desorganizadas então foquei nisso. Fiz um curso rápido de apenas alguns meses pra saber como investir melhor e tocar o negócio da maneira correta e deu certo - tão certo que tínhamos acabado de inaugurar um segundo café, numa localidade muito melhor e mais movimentada.
A princípio, depois de sair dos The Lions - mesmo eles ainda frequentando o lugar mensalmente ou até mesmo semanalmente até hoje - meu pai e Holt arranjaram empregos como funcionários em uma oficina pequena de conserto de carros, mas meses depois eles abriram um negócio próprio e tinham a própria oficina especializada em consertos em geral. Eu também pude ajudar um pouquinho no negócio. Estava tudo bem pra todo mundo e até melhorou depois de algum tempinho. A carreira de alavancou e chegaram as pessoas importantes, lugares importantes, lançamento de álbum, uma turnê e a coisa toda. Ela queria que eu trabalhasse com ela de alguma maneira mas eu não arrisquei, aliás, merecia uma equipe realmente responsável e focada na sua carreira, então isso ficou de lado, mas ainda assim consegui algo. Ganhei um curso de marketing de um dos amigos da minha melhor amiga e de Glenn. O Connor sabia que eu estava ajudando meus pais com o negócio e quis me ajudar ainda mais.
Oh, calma... A melhor parte disso tudo foi me pedir pra participar de um dos seus clipes e eu aceitei. Levou muito tempo pra conseguirmos gravar porque não parávamos de rir no set de filmagem mas deu certo e todo mundo se divertiu. Foi incrível ter e Alaia ali nos bastidores também, todo mundo os adorou.
E depois disso eu nem sei direito o que aconteceu, mas passei a ser convidada pra participar de alguns photoshoots e campanhas relacionadas à e até mesmo um comercial nós gravamos juntas. A maior reviravolta da minha vida.
Essa "fama" não me tirou os pés do chão, muito pelo contrário. Tudo se encaixou. Foi o que nos ajudou financeiramente até agora, mas eu ainda estava em busca de algo fixo, algo que eu realmente me identifique.
No final, o que é um guerreiro se não é uma mulher?
- Comendo escondido, mamãe? - saiu do banheiro só de boxer, de banho recém tomado. O cheirinho gostoso do sabonete o acompanhava.
- Jamais! - enfiei uma garfada gulosa na minha boca, rindo sem mostrar os dentes pro meu noivo.
se aproximou com um olhar malicioso e eu abri as pernas de maneira convidativa. Meu noivo se enfiou ali, tirando a torta da minha mão e a colocando de lado. Suas mãos foram até a minha cintura, me puxando de leve pra mais perto dele.
- Que tal darmos à esse balcão mais uma história pra contar? - ele grudou nossas testas, logo juntando nossos lábios num selinho rápido e numa mordida de leve no meu lábio inferior.
Meu Deus, o sexo! Eu não sabia que daria pra melhorar o que já era incrível.
E sim, o balcão realmente tem muita história pra contar. Aliás, todos os cantos do nosso apartamento tem.

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- Pelo amor de Deus, tava no balcão da cozinha! - gritei do quarto enquanto procurava a chave do carro até debaixo dos nossos travesseiros - Como uma chave some assim?
- ACHEI!!! - gritou animada e eu corri até o som da sua voz. Ela estava sentada no sofá com a mochila da creche de Alaia aberta, olhando pra mim segurando o riso enquanto tirava a chave de dentro dali e direcionou o olhar pra nossa filha, que a olhava desconfiada - Lai Lai, o que você tem contra a chave do carro? - ela acabou rindo de vez, jogando a chave pra mim, fechando o zíper da bolsa e pegando nossa filha no colo com pressa.
Da primeira vez Alaia tinha jogado a chave dentro da privada. As outras duas vezes a chave estava no cantinho dos brinquedos dela e e eu discutimos até concordarmos em nunca esquecer a chave no painel da televisão da sala, que era baixo e fácil de Alaia pegar qualquer coisa. Passamos a deixar a chave no balcão da cozinha, mas uma criança de dois anos nunca para de surpreender.
Deixamos Alaia na creche e foi o mais rápido que podia até chegarmos no colégio. Tenho que admitir que ela estava dirigindo melhor até do que eu. No meio do caminho vi Alondra em um dos pontos de ônibus mas não ofereci carona, afinal, limites. Talvez ela até mesmo estava querendo chegar atrasada de propósito.
- Obrigada, amor. Te amo. - dei um selinho rápido na minha noiva e pulei do carro.
Dividimos o carro de acordo com os nossos horários e necessidades do dia e funcionava bem assim. Estávamos pensando em comprar pelo menos uma moto pra não nos apertarmos muito com outro carro, mas ainda estava em discussão. A vida adulta realmente é complicada.
Por sorte eu não tinha aula no primeiro horário mas ainda assim detestava chegar em cima da hora. Assim que entrei na sala já passei alguns exercícios pra os alunos fazerem enquanto distribuía os trabalhos com as notas pra cada um. Ri nervoso pra mim mesmo ao passar pelo lugar de Alondra e não ver a menina ali presente. Ela nem mesmo tinha se esforçado pra chegar.
O sinal tocou enquanto corrigíamos a metade do terceiro exercício juntos.
- Até amanhã, se cuidem!
Óbvio que eles saíram feito furacões, exceto Levi, que permaneceu sentada em seu lugar e só levantou quando todos já tinham saído. Eu conhecia muito bem o olhar que ela estava me lançando. O olhar pidão de quem estava arrependida por não ter feito o trabalho. A garota se levantou lentamente e eu observava seus passos pela minha visão periférica, enquanto guardava meu material na minha bolsa.
- Professor? - ela me chamou carinhosa e eu ergui o olhar.
- Sim, Levi?
- Olha, eu sei que o prazo já passou e eu deveria...
- Levi, se for pra falar sobre o trabalho, já foi, já passou. Você pode se esforçar novamente e voltar a ser a aluna incrível que você era, simples assim. - dei os ombros um pouco impaciente, mas não por ela, e sim porque estava com pressa. Queria conversar rápido com Vince sobre alguns alunos.
- Professor, tem alguns testes na próxima semana e...
- Melhor estudar então, mocinha. - segurei o riso ao interromper a garota que estava decidida a tentar me convencer e dava pra perceber em seu olhar, mas o riso frouxo que tinha nos meus lábios se fechou rapidamente.
Levi abriu o zíper da jaqueta jeans, revelando um cropped decotado que se fazia justo no corpo dela com um nó amarrado. Numa ação bizarra em uma provocação clara feito água, Levi levou uma de suas mãos até dentro do seio esquerdo, fingindo o ajustar dentro da peça.
- É, vou fazer isso agora mesmo. - ela lançou um sorriso inocente, como se tivesse girado uma chavinha e sua personalidade tivesse mudado em um único segundo.
Ela fechou o zíper da jaqueta novamente com o olhar impregnado no meu enquanto o fazia, se virando e saindo da sala como se nada tivesse acontecido.

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- Cara, e você nem comentou com a sobre isso? - Cohen deu mais um gole na garrafa de cerveja ao terminar, com a testa completamente franzida de tanta indignação.
- Não consegui. Eu pensei em falar logo mas também pensei em esperar pra ter certeza que aquilo não foi loucura da minha cabeça. Isso já tem dois dias e nesses dois dias a garota agiu normal como se nada, literalmente nada tivesse acontecido, como se ela não tivesse enfiado a mão no peito e o ajustado com o olhar mais abusado do mundo. Olha, sério, eu nem sei o que pensar!
- Não é você que vivia se achando por ser o bonitão? Agora aguenta, filhão. - Scott ergueu a garrafa em suas mãos e deu os ombros, rindo em seguida.
O filho da puta sabia como quebrar um clima tenso mesmo.
- Fica esperto, só isso. - Cohen aconselhou - E a gente precisa sair um dia desses e chamar o Vince, o cara é foda demais. - ele riu sozinho, provavelmente lembrando da última vez que saímos todos juntos e posso garantir que foi algo histórico pelo simples fato de termos nos divertido pra caralho sem precisar beber muito. Exceto Scott, que bebeu até cair e é o motivo das piadas até hoje.
A porta foi aberta, revelando , Alaia e Shyla. Minha filha correu em minha direção e a peguei no colo. e Shyla colocaram as caixas de pizza na mesa. Bem, melhor do que encontrar os amigos no final de semana é os encontrar durante a semana também. Nossa amizade continuava firme, mais forte e eu sentia que às vezes estava num filme clichê.
Quando foi que a vida ficou tão boa assim?

Capítulo 3

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Puta que pariu. Respirei fundo mil vezes antes de entrar na sala de detenção. Levi e Ashton estavam de brincadeira com a minha cara.
- Escuta... - os dois ergueram os olhares assim que notaram minha presença - O que foi que aconteceu? Caramba, gente, a prova nem tava difícil! Qual a necessidade de tentar colar dessa forma? - questionei puto da vida.
- Olha...
- Não tava fácil e alunos colam. - Levi interrompeu Ashton com grosseria, cruzando os braços nervosa.
Apertei os olhos, respirando fundo de novo.
- Então agora vão estudar toda a matéria que caiu na prova! - anunciei bravo, me virando e pronto pra começar a escrever no quadro, mas a porta foi aberta.
A diretora me chamou baixo, dizendo que Ashton sairia porque já tinha o avisado que se ocorresse mais algum problema com ele, chamaria seus pais e o suspenderia. Meu coração quebrou pelo garoto. Ele não era terrível quanto julgavam, mas em alguns momentos ele realmente abusava da sorte e passava de alguns limites. Eu realmente não podia fazer nada pra limpar sua barra e só me restou o liberar da detenção.
Me virei novamente, voltando pra frente do quadro mas não consegui escrever nada. Olhei pra trás, observando o olhar confuso de Levi de quem esperava que eu lotasse o quadro com questões sobre o livro que lemos nas últimas semanas, mas não o fiz. Dei passos rápidos até me sentar ao lado da garota.
- Levi, preciso saber o que está acontecendo. De verdade. Você é uma ótima aluna e simplesmente da noite pro dia você...
- Não tem nada acontecendo, professor. - ela me interrompeu, dando um suspiro incomodado e relaxou na cadeira de um jeito preguiçoso.
- Levi...
- Ok, sabe o que aconteceu? É que eu estou solteira agora. - ela respondeu sério, olhando no fundo dos meus olhos.
- Eu nem sabia que você namorava. - não que eu soubesse exatamente da vida de todos os alunos da escola, mas a vida de Levi sempre foi muito falada e eu nunca ouvi nada sobre um possível namorado em todos esses meses.
- Ele não estuda aqui, mas foi algo rápido, nem chegou a ser um namoro de verdade, afinal, homem é homem, não é? - ela me lançou um olhar bravo e cheio de força, o suficiente pra me causar um arrepio.
- Você tá frustrada na sua vida amorosa e isso tá refletindo na sua vida escolar, entendi. - conclui pensativo - Não vale a pena, Levi. Você é nova, amores nessa idade vem e vão o tempo todo. - usei meu tom mais suave, tentando passar tranquilidade pra garota. Ensino médio não é fácil e ter um coração partido torna tudo ainda mais difícil.
- Professor... - a garota ajeitou sua postura lentamente, levando seu corpo mais pra frente de leve, ficando mais próxima a mim - Você nunca pensou em ficar com alguma aluna?
- O que? - eu levei um susto, fazendo força com meu corpo e a cadeira arranhou no chão e fez um barulho por ter ido tão depressa pra longe da garota.
- Qual é... - a garota rolou os olhos debochada.
- Levi, eu sou noivo! - me levantei bruscamente, estranhando completamente a mudança de assunto e torci pra santos e céus pra que Levi estivesse só fazendo uma brincadeira de mal gosto. Me sentei na minha própria mesa e apertei os olhos, mas os abri rapidamente ao ouvir os passos da garota em minha direção - Volta pro seu lugar e faça todos os exercícios da página quarenta e três. - demandei autoritário, mas a garota não me obedeceu.
- Tem certeza? - ela sorriu cheia de malícia, se abaixando e apoiando os cotovelos na minha mesa, mas os forçando na região dos seios, os apertando e os colocando em evidência na camiseta levemente decotada.
- Escuta aqui!!! - me levantei bravo, dando um susto na menina - Eu não vou admitir esse comportamento! É uma falta de respeito, eu sou seu professor! Que diabos tá acontecendo com você? Te conheço há meses e você nunca agiu assim, Levi! É constrangedor, caramba, eu tenho família e você também!
- Me libera dessa merda de detenção agora e a gente finge que isso nunca aconteceu. - ela praticamente mandou, num tom de voz assustado mas também super mandão e sem vergonha nenhuma, com o olhar firme no meu.
Eu nunca pensei que fosse obedecer uma aluna tão rápido feito um cachorrinho, mas foi o que fiz. Eu estava atordoado. Levi saiu da sala feito um furacão e eu demorei mais alguns minutos até me recuperar completamente do que tinha acabado de acontecer. Esbarrei com Vince no corredor.
- Caralho, que cara é essa? - meu amigo me analisou por inteiro, fazendo uma careta ao olhar pra minha cara de quem tinha acabado de passar pelo momento mais confuso de toda a vida.
- Vince, preciso te contar algo.

// //


Estava tudo lindo. Feels Right era um dos melhores clipes de Glenn e não falo isso só porque está no clipe ou porque a música é sobre ela, e sim por ele ser muito talentoso. Os dois juntos eram mais que incríveis. Todo mundo presente aplaudiu e gritou de animação de alegria quando o clipe chegou ao fim. Tinha ficado lindo de verdade e estávamos todos juntos numa pequena comemoração. Glenn tinha montado um estúdio dentro da própria casa e a maioria das reuniões rolavam por aqui mesmo.
Queria que tivesse assistindo o clipe junto com nós mas ele ainda estava em horário de aula e eu ainda tinha alguns minutos pra socializar antes de buscar Alaia na creche.
- Ei! - um rapaz se aproximou, me lançando um sorriso de canto - Sou o Adam!
- ! - ergui a mão, cumprimentando o rapaz - Você é novo por aqui, não é? - questionei curiosa, nunca tinha o visto junto com a equipe.
- Eu dirigi o clipe. - ele revelou, rindo fraco mas orgulhoso - Foi a primeira vez que trabalhei com eles e adorei. Glenn é incrível e muito talentosa. Um baita casal!
- Isso é verdade. - ri.
- Você vai fazer algo agora? Poderíamos sair, beber alguma coisa, que tal?
Eu tombei a cabeça pro lado com um pouquinho de dó. Adam parecia um homem muito gentil e simpático, mas estava clara a sua intenção por trás do convite e eu estava mais do que comprometida.
- Não posso. - ergui a mão esquerda, balançando meu anelar e soltando um riso sem graça - Aliás, preciso buscar minha filha na escola.
- Perdão, eu não vi! - ele foi sincero no pedido e eu sorri simpática, indicando que estava tudo bem.
Me despedi do pessoal e saí dali.

- Vamos ver o tio Leon? - perguntei animada e minha filha riu animada.
- Vamos!!!
Tirei minha filha da cadeirinha e a peguei no colo, dando um beijinho em seu rosto. Travei o carro e comecei a andar até a entrada do local, mas franzindo a testa do meio do caminho até o portão. Virei o rosto discretamente, tendo a certeza do que estava vendo. Me aproximei com pressa, e antes mesmo da menina se virar pra ir embora, ela me olhou também e levou um susto.
- Alondra! - chamei sua atenção baixinho e surpresa, caindo com o olhar até sua mão, que segurava dois pacotinhos com um pó branco neles.
Dan, o rapaz que estava encarregado pelas vendas do dia nos encarou confusa e Alondra se virou de uma vez com passos longos e apressados. Chamei a garota várias e várias vezes.
- Olha, não é pra mim, é pra um amigo, ok? - ela parou abruptamente, se justificando rápido e com a respiração explicitamente descompassada - Ela é muito linda! - sua feição se desmanchou em amores pela fofura que estava no meu colo e eu estava feliz por ela lembrar de mim e de Alaia e preocupada pelo o que tinha acabado de ver.
Ok, ela é só uma adolescente de dezessete anos. Ela não precisa de um sermão da noiva do professor de inglês.
- Obrigada pelo elogio, Alondra, mas... - respirei fundo, encarando novamente a sua mão que se encontrava completamente fechada, tentando de maneira falha esconder o que eu já tinha visto - Quer conversar sobre isso? - respirei fundo, esperando de verdade que minha pergunta servisse de algo. Ela merecia saber que eu respeitava seu espaço e que também estava preocupada.
- Por que você tá aqui? Veio comprar também? - ela retrucou com outras perguntas e até tentou ser grossa mas não conseguiu.
- Eu sou a dona disso tudo! - brinquei, rindo fraco pra quebrar a tensão e por um segundo funcionou porque a garota se permitiu a rir também - Alondra, eu sei como funcionam as coisas nessa idade e...
- Você vai contar pra ele, não vai? - ela me interrompeu nervosa de medo. Ela claramente estava se referindo à .
- Ele se preocupa com todos vocês de verdade! - respondi sincera porque realmente era verdade.
- Bom, ele não pode fazer nada. Estou fora da escola e o que eu faço aqui não diz respeito à ele. Acho melhor eu... - a garota apertou os olhos e deu um suspiro longo, provavelmente tentando controlar o que ela mesma dizia, já que parecia uma metralhadora que quase se embolava nas próprias palavras - Tchau! - ela se despediu seca, se virando de vez e andando rápido até sumir da minha vista.

——


- Ele disse que não viu? - arregalou os olhos e começou a rir alto.
- Ahhhh para, vai! - embarquei junto na risada, olhando de canto rapidamente pra Alaia, que estava focada em seus brinquedos no chão da sala.
- Como ele não viu um anel desse tamanho? - continuou, com a voz carregada de ironia e pegando na minha mão, encarando o anel de noivado.
Não era nada escandaloso ou gigante, era um anel de noivado simplesinho, mas muito especial. Eu diria "sim" com ou sem anel.
Conversamos sobre diversos assuntos mas eu sabia que queria mesmo era falar sobre Alondra e sobre o que eu tinha o contato.
- , o que você vai fazer com ela? - perguntei séria e meu noivo já sabia sobre quem eu estava me referindo.
- Vou tentar conversar. Alguma coisa aconteceu, , eu tenho certeza! Ela é uma aluna incrível e Levi... - algo parece ter apavorado , seus olhos se arregalaram de forma absurda e ele pareceu ter engasgado sozinho por um segundo - Elas são melhores amigas e estão estranhas. - ele disparou rápido, se desencostando do balcão e saindo da cozinha, anunciando que tomaria um banho pra relaxar.
tem seus motivos pra estar estressado às vezes. Ser professor é uma responsabilidade gigante, de adolescentes então...
Alaia resmungou e começou a bater um brinquedo no outro. Talvez o estresse do pai tinha passado um pouco pra ela. Me sentei no chão com a minha filha e comecei a brincar junto, mexendo as bonecas e fazendo vozes engraçadas, arrancando algumas gargalhadas dela. Eu amava nossos momentos juntos com todo o meu coração.
Depois de alguns minutos a porta do banheiro foi aberta, revelando só de toalha. Anos com esse homem mas eu não me acostumo com a sua beleza de jeito nenhum.
- Meu Deus, como eu sou sortuda! - falei alto, babando mesmo, e , que já estava caminhando pro quarto, se virou no mesmo segundo com um sorriso safado nos lábios.
- E eu digo o mesmo!
Alaia estava focada nos brinquedos e aproveitei o momento. Levantei com pressa, indo em direção ao meu noivo e entrelacei meus braços em seu pescoço, encostando nossos lábios de uma vez com urgência. As mãos de agarraram minha cintura com força, me deixando louca com o fato de que ele só tinha uma toalha na cintura enquanto eu estava com todas as minhas roupas. Ele fez questão de encostar bem os nossos corpos, começando a provocação barata que adorávamos. Sorri entre o beijo, dando um selinho demorado e descendo com uma mão traiçoeira até seu pênis, o apertando por cima da toalha mesmo. soltou um gemido baixo abafado, me lançando um olhar cheio de fogo que eu sabia onde ia parar. O olhar que era capaz de fazer minhas roupas voarem do corpo.
Ele me agarrou mais forte ainda, dando início a outro beijo ainda mais fogoso, quase me fazendo perder o juízo.
- Espera... - resmunguei entre o beijo mesmo não querendo parar - Vou fazer Alaia dormir.
Quero dizer... Eu sou mesmo muito sortuda.

// //


Foi um alívio gigantesco poder contar tudo pra Vince, que ficou maluco de tanta indignação mas o lembrei seriamente de que nada podia ser falado ou feito. Estava me tirando o sono não conseguir contar pra sobre o que estava acontecendo com Levi, mas eu simplesmente não conseguia. Queria poder entender, controlar e depois contar.
Fui até a biblioteca pra usar a impressora, a da sala dos professores vivia ocupada e eu estava com pressa. Faltava pouco menos de vinte minutos pra aplicar a prova pra os meus alunos que tinham tirado notas baixíssimas na primeira ou nem mesmo tinham feito, que foi o caso de Ashton e Levi, que tiveram a prova zerada pela tentativa de cola.
Precisei estreitar os olhos pra ter certeza do que estava vendo. Alondra estava dormindo em uma das poltronas da biblioteca feito uma criança, toda encolhida. Busquei na minha mente rapidamente algumas informações e o último lugar que ela poderia estar era ali, principalmente dormindo.
- Alondra? - a chamei baixo, me aproximando aos poucos e a menina pulou de susto.
- Porra, professor!
- A boca, mocinha!
- Até parece que você não fala palavrão! - ela resmungou com a cara feia, se ajeitando na poltrona rapidamente.
- O que você tá fazendo aqui dormindo? Até onde eu sei, você deveria estar na aula de biologia. - meu olhar de advertência provavelmente estava apavorando a garota, que ficou desconcertada no mesmo segundo.
- Ele está dando as provas de recuperação e eu não preciso. Pedi pra ir no banheiro e... Aqui estou eu. - ela deu os ombros, em seguida se encolhendo na poltrona novamente.
- Você é maluca? A diretora poderia te ver aqui!
- Aquela sonsa não perceberia nem se eu estivesse dormindo na sala dela! - Alondra rolou os olhos, num tom mais agressivo e debochado, me fazendo soltar uma risada que fui obrigado a conter, mesmo querendo rir.
- Alondra!!!
- Mas ela é sonsa, professor, e até pior, mas não vou xingar por respeito à você. - a garota riu de mim, mas sei tom de voz era sério e firme.
- De onde vem todo esse ódio? - questionei curioso.
- Não é ódio, só não gosto muito dela. - minha aluna deu os ombros novamente, bufando de leve. Seu olhar perdido me trazia informações suspeitas.
- Alo, tá tudo bem?
- Se você perguntar se eu estou bem mais uma vez, você é que não vai ficar! Eu tô cansada de esperar que os outros façam por mim o que eu faria por eles e me decepcionar duas vezes, primeiro por perceber que sou sempre a pessoa que dá o primeiro passo, e segundo por perceber que para os outros eu não tô valendo muito a pena o esforço. - ela bufou nervosa - Era isso o que você queria? Vai me ajudar como? Me dando um dez na prova daqui a pouco? - Alondra levantou furiosa, puxando a bolsa que estava jogada no chão com raiva, deixando um cantil de bolso cair no chão.
Aquilo paralisou a garota por completo e eu dei os passos necessários até conseguir pegar o cantil, abrindo o mesmo - que já estava pela metade - e sentindo o cheiro forte de vodka. Foi a minha vez de paralisar por alguns segundos, me sentindo mil vezes mais preocupado.
- Alondra, álcool não resolve problemas, só faz esquecer eles. E falando nisso...
- Sua noiva te contou, não foi? Olha, você é só o meu professor, não pode me...
- Acabei de te pegar dormindo enquanto mata aula e com bebida alcoólica no colégio. Eu posso sim fazer alguma coisa, Alondra, e eu quero poder te ajudar, mesmo que pra isso seja necessário chamar seus pais aqui! - elevei um pouco mais o tom pela grosseria da garota, que intercalava o olhar furioso entre o cantil e eu. Alondra estava errada e ferrada e sabia disso, mas não abandonou a pose nervosa e irritada que a dominou.
- Você não...
- Dormindo enquanto mata aula e com bebida alcoólica. Nem termina essa frase, porque você sabe que eu posso. - ela tentou justificar mas fui mais rápido. Ela jogou a cabeça pra trás e grunhiu, pegando o cantil da minha mão sem delicadeza nenhuma e saiu da biblioteca com passos fortes e firmes feito um furacão.

Eu andava de um lado pro outro observando as duas. Todo o restante já havia terminado a prova - antes mesmo do tempo terminar - e ido embora.
- 1 minuto, meninas. - anunciei. Alondra suspirou nervosa e passou a escrever o mais rápido que pôde enquanto Levi nem mesmo tentava disfarçar o tédio.
Caminhei até a mesa de Alondra, sorrindo com o olhar pra menina que estava tensa até demais. Ela realmente pareceu ter dado o melhor de si na prova. Levi esticou o braço, me entregando o papel sem muita vontade. As duas levantaram juntas mas nem mesmo olharam pra cara uma da outra, o que foi, de longe, bizarro.
- Até amanhã, professor. - Alondra me deu um sorriso visivelmente triste e estava prestes a sair da sala.
- O que aconteceu com vocês duas? - as garotas olharam pra mim imediatamente confusas e só aí se olharam, mas sem muita significância - Vocês são melhores amigas, o que tá acontecendo?
- Não aconteceu nada, só...
- Só não estamos mais tão grudadas como antes. - Levi interrompeu Alondra com tédio na voz.
Alondra deu os ombros, saindo de vez da sala e não se importando em bater forte a porta. Apertei os olhos, criando coragem pra olhar pra garota que tinha restado na sala.
- Você já pode sair também, Levi.
- Bom, preciso falar com você antes, . - ela frisou bem meu nome, o mesmo que ela nunca usava, enquanto caminhava em minha direção com aquele olhar que eu infelizmente conhecia.
- LEVI, CHEGA! - eu gritei sem medo, fazendo a garota parar com os olhos arregalados pelo susto.
- Eu nem fiz nada!
- Eu não sei que merda tá acontecendo com você mas eu tô cansado desse joguinho. Eu tenho família, pelo amor de Deus! - eu exclamei desesperado, sentindo meu coração quase saindo pela boca de tanto nervoso.
- E você vai fazer o que? Me denunciar na direção? - aquele tom irônico com uma expressão fingida de inocente me tirou do sério completamente.
- Você tá brincando com a minha cara? - eu sentia minha pele arder de tanta raiva pelo o que a garota estava fazendo comigo e tudo piorava por conta da sua expressão toda debochada que não abandonava seu rosto de jeito nenhum.
- Olha, é bem simples... Eu não estudei pra essa prova e provavelmente não vou estudar pra nenhuma outra, então eu preciso que você me dê notas bem generosas daqui pra frente. - ela começou a explicar com calma e eu estava pronto pra retrucar tamanho absurdo, mas ela ergueu um dedo em riste - Ou eu vou até a direção e digo sobre às vezes que você me olhou demais e até chegou a me tocar demais... Você não quer isso, né professor? Afinal, você tem família. - e assim ela jogou mais uma bomba na minha cabeça, completamente sã, firme e forte em cada palavra. Meu estômago revirou de tanto nervoso. Eu tentei buscar qualquer sinal de emoção na garota, algo que pudesse me indicar que aquilo era uma brincadeira de mal gosto ou algo similar, mas não, eu não conseguia ter acesso à nada.
- Por que você tá fazendo isso? Levi, você não é assim!
- Puta que pariu, que merda você sabe sobre mim, inferno? - a garota rolou os olhos e se enfureceu de vez, dando passos rápidos até a porta, batendo a mesma com uma força estrondosa.
Todo o meu ar sumiu e eu perdi todos os sentidos e demorou um tempão pra eu me recuperar. A angústia e a raiva estavam transbordando. Arrumei meu material de qualquer jeito na bolsa e saí da sala com raiva. Meu humor já tinha ido pra casa do chapéu e eu nem mesmo iria me esforçar pra dar tchau pra quem estivesse na sala dos professores. Continuei seguindo até a saída de cabeça baixa, me corroendo de indignação por tudo o que estava acontecendo. Que porra uma menina de dezessete anos que sempre foi uma aluna excelente e agiu normal comigo quer agora com esse joguinho sujo?
- ??? - o barulho alto do salto batendo no chão foi ficando mais próximo e eu quase caí pra trás ao ver Sienna vindo em minha direção com um sorriso gigante no rosto.
- Meu Deus? - ri nervoso, com os olhos arregalados. Por um segundo a gente se encarou e um clima bizarro pairou, mas ao mesmo tempo abrimos os braços e nos abraçamos rápido de um jeito completamente estabanado - O que você tá fazendo aqui? - perguntei rindo enquanto nossos corpos se afastavam.
- Riley West precisa de mim. Hoje é só uma consulta, ela disse que não está tendo muito tempo livre pra encontros e eu disse que viria até ela sem problemas. - Sienna respondeu radiante, gargalhando de leve.
- Então Riley West, professora de química da Harkerside, minha colega de trabalho, precisa justamente de Sienna Murphy? - arqueei as sobrancelhas em surpresa.
- O mundo é pequeno, . Um primo dela já me conhecia e me indicou. Não tem muito tempo que voltei pra cá e vou ficar em Londres por algum tempo. - ela explicou calma mas olhando pro relógio prata em seu pulso esquerdo, subindo o olhar pra mim novamente e me analisando por alguns segundos - Tudo se encaixou e Sienna Muphy tem uma reunião com Riley West, e se eu não andar logo, vou me atrasar! - ela riu, ainda me encarando e demorando um pouco pra voltar à realidade, como se estivesse tentando caçar alguma coisa em mim.
- Boa sorte. - foi só o que saiu da minha boca enquanto eu também analisava a mulher em minha frente, com uma roupa social que a deixou elegante e um perfume suave que eu já conhecia. Sienna detestava experimentar perfumes novos e usava o mesmo há anos e anos.
- Foi bom te ver, .

// //


Depois de todo esse tempo morando junto, um noivado e uma filha, eu acho que não seria justo comigo mesma ficar doida de ciúmes, mesmo sabendo que isso tudo não é garantia de nada, mas que a notícia mexeu um pouquinho comigo... Óbvio que mexeu. Sienna também foi um dos amores de e não tem como apagar isso.
- Você não sentiu nada? - questionei baixinho e sem jeito.
- , claro que não! Eu levei um susto, óbvio, e... - ele me olhou completamente sentido pela minha pergunta - Eu quis ser honesto. Não significou nada mas eu quis te contar. Nunca imaginei que fosse ver ela de novo, mas não quero que isso te traga algum tipo de insegurança ou...
- , você não dá motivos pra eu me sentir insegura, muito pelo contrário... Eu amo a sua honestidade, de verdade, mas não dá pra apagar tudo o que vocês viveram, né? Eu não me sinto ameaçada ou nada do tipo, afinal, vocês se encontraram totalmente por acaso, mas não é bizarro você se relacionar com alguém por tanto tempo e depois... Puft, acabou? E aí vocês se encontram anos depois e... É esquisito demais!
- É, isso é. - ele concordou pensativo mas logo despertou com um olhar energizante - Mas não importa, eu tenho você, nossa filha, nossa vida e isso é tudo o que me importa.
- Ok, agora precisamos mesmo conversar sobre aquele assunto. - mordi o lábio um pouco aflita - Babe, eu acho que ela tá mais que pronta pra ter uma cama. - soltei um suspiro dramático ao finalizar, com a mão no peito e tudo.
- Você é tão dramática às vezes, . - gargalhou gostoso - Mas sim, ela tá mesmo pronta pra uma cama.
Willa veio até nossa mesa, entregando os chás que tínhamos pedido e logo em seguida minha mãe veio também, com uma xícara nas mãos, e o cheiro denunciava o café forte, do jeito que ela gostava. Olhei ao redor e pelo menos quase todas as mesas estavam cheias e pelo tanto de gente que tinha subido pra o andar de cima com seus pedidos, deduzi que também estivesse quase cheio.
- Bom, pelo menos não vou precisar fazer o jantar hoje. Estou acabada de cansaço! - minha mãe suspirou preguiçosa e aliviada, bebericando sua bebida em seguida.
Meu pai tinha buscado Alaia na creche e disse que cozinharia pra nós hoje. e eu aproveitamos a brechinha e viemos tomar um chá juntos, até porque ele disse que queria me contar algo e eu já senti um leve desespero. No final, era sobre Sienna.
- Vamos comprar uma cama pra Alaia! - anunciou com animação e minha mãe riu.
Entramos num papo leve e descontraído e momentos assim ainda me custam a acreditar que essa é a minha vida. Essas são as pessoas que eu tenho. Digo, é muita sorte.
- ??? - uma mulher exalando elegância parou em frente à nossa mesa, segurando firme sua Chanel nas mãos e encarando meu noivo desacreditada, mas logo um sorriso desabrochou assim que ele a reconheceu, com uma expressão também surpresa.
- Dorothy? Meu Deus! - riu sem jeito, se levantando e cumprimentando a mulher com um abraço mais rápido que uma piscada de olhos.
- Como você está? Meu Deus, como você tá diferente e... - a tal Dorothy finalmente pareceu notar que ele estava com companhia e apenas acenou de leve pra mim e pra minha mãe, que apenas arqueou as sobrancelhas e me encarou completamente perdida - Você teve uma filha, não teve? - ela perguntou curiosa.
- Tive sim, mas ela tá com o avô dela nesse momento. Inclusive, essa é a , minha noiva, e essa é a Leah, minha sogra! - nos apresentou e a mulher nos olhou de cima a baixo com uma expressão indiferente.
- Muito prazer, eu sou a Dorothy, mãe da Sienna, ex namorada do !

Capítulo 4

// //


- Vince, eu não aguento mais! - exclamei exausto.
- , calma! Olha, ela também tá indo mal nas minhas aulas, até mesmo nos aquecimentos antes de jogar vôlei, sabe? Algo está acontecendo e ela tá indo mal em tudo. - meu amigo tentou me acalmar, mas seu olhar cheio de pena denunciava o tamanho da sua preocupação e nervosismo com a minha situação.
- E só por isso ela se acha no direito de me chantagear? Qual é, Vince, se ela está indo mal em tudo então ela vai fazer isso com todos os professores? Tem algum motivo pra ela estar fazendo isso comigo e eu preciso saber, mas por enquanto eu simplesmente tenho que fazer o que ela mandou... Hoje eu entrego as notas das provas e vou dar uma nota alta sendo que ela respondeu quase tudo errado.
- ...
- Não posso correr o risco, Vince. Vou dar o que ela quer por agora mas vou ter uma conversa muito séria sobre isso tudo e se não adiantar nada, eu vou ter que contar tudo pra direção. - suspirei derrotado - Cara, tava tudo indo tão bem!
- Vai dar tudo certo! Se ela não parar com essa palhaçada eu mesmo converso com ela, tá legal? A gente pode se juntar e tentar descobrir o que tá acontecendo!
- Aí ela vai falar que você tá assediando ela também. - suspirei mais derrotado ainda - Isso é um assunto sério demais pra Levi fazer um jogo sujo desses. Tem que ter algo por trás disso!
- A gente vai descobrir, relaxa! - eu sabia que Vince estava do meu lado, que acreditava em mim e estava disposto a me ajudar, mas nada me tirava o peso horroroso que parecia estar nas minhas costas como se eu realmente tivesse culpa de algo.

——


Me doeu na alma entregar as provas uma por uma sabendo que eu não estava sendo honesto. O que os meus alunos pensariam de mim se descobrissem que eu estava favorecendo uma pessoa? E o que pensariam se soubessem o motivo do favoritismo? Em quem acreditariam?
Sinceramente, se não fosse comigo e se não fosse uma tremenda injustiça, logo no mundo em que a gente vive, eu não tiraria a razão de quem ficasse do lado de Levi, afinal, isso infelizmente acontece de verdade em escolas, dentro de casa, no trabalho... Mulheres são assediadas e eu como homem não posso fechar meus olhos pra esse fato, mas eu sou inocente de verdade. Eu jamais encostaria em um fio de cabelo de nenhuma mulher, ainda mais uma menor de idade!
Eu tentei ao máximo me focar no meu trabalho e dar uma aula normal, mas em alguns momentos realmente pareceu impossível e insuportável. Evitei olhar pra todos, carregando uma culpa que nem mesmo era minha. Toda a situação estava me sufocando de verdade.
O sinal tocou.
Meu coração foi se acelerando de ansiedade, Eu arrumava minhas coisas com pressa e queria sair da sala mais rápido que os alunos.
- Ei. - a voz baixa de Levi me chamou e eu apertei os olhos completamente perturbado.
- Levi, eu te dei um oito sendo que você merecia um dois! Eu não sei porque você está fazendo isso mas eu vou descobrir! - eu praticamente sussurrei, tentando não transparecer um pingo de raiva enquanto observava os dois últimos alunos saírem da sala.
- Eu ia te agradecer. - a garota estava com a testa franzida, me olhando de maneira estranha como se fosse errado por já estar me defendendo. Em todos esses meses eu nunca tinha notado um rastro sequer dessa Levi cínica, antipatica e má.
- Você poderia simplesmente ter estudado, conseguido uma nota boa sozinha e...
- Olha, eu estou sendo boa, eu vim te agradecer. - ela me interrompeu num tom mais alto, balançando a cabeça negativamente em indignação e mais uma vez o meu coração disparou em desespero.
- Levi, isso não tem cabimento! Você tá me agradecendo por estar obedecendo à sua ameaça suja? - murmurei indignado, recebendo uma erguida de queixo da garota e uma sobrancelha arqueada, mas pela primeira vez eu pude enxergar em seu olhar que aquilo podia ser algum tipo de armadura, um muro que ela mesma estava levantando pra me impedir de acessar a verdade. Eu passei a encarar a garota profundamente, a ponto de deixá-la levemente desconfortável.
- Está vendo? Eu estou sendo legal e você não está nem se importando, professor. Eu... Olha... - ela pareceu ter se perdido nas próprias palavras, sacudindo a cabeça e respirando fundo de maneira raivosa - E é por isso que homens não merecem nada de bom mesmo!
Ela saiu da sala marchando e eu finalmente pude respirar fundo, como se o oxigênio tivesse voltado pra mim depois de minutos sem respirar. Eu precisava arranjar uma maneira de sair disso e precisava principalmente conversar com a minha noiva sobre o que estava acontecendo. merece a verdade.
Meu celular apitou, indicando uma nova mensagem dela mesma, .

"Vou chegar um pouquinho mais tarde, estou ajudando em algumas coisas. Te amo."


Talvez fosse um sinal. Talvez consiga me ajudar com essa maluquice toda de alguma maneira.
Andei apressado, saindo da sala e respirando levemente aliviado. realmente me dava forças em tantos dias e nem mesmo faz ideia de como pensar nela muda tanto as coisas pra mim. É completamente diferente saber que tem alguém ali pra você o tempo inteiro.
O grito de Matty no corredor foi o que me fez parar de andar no mesmo segundo. Virei pra trás, olhando pra o corredor que se fechava rapidamente enquanto Levi empurrava Alondra com força, mas a menina devolveu na mesma moeda. Uma discussão impossível de ouvir começou e todos gritavam, alguns incentivando e alguns gritando pra parar, mas uma foi pra cima da outra feito animais selvagens. Não pensei mais que um segundo e corri imediatamente até elas, passando pela barreira de alunos que estavam até escolhendo lados na confusão. Eu puxei Alondra com cuidado, que estava com as unhas praticamente cravadas no braço de Levi, enquanto Vince surgiu na mesma rapidez e puxou Levi, que tentava chutar a até então melhor amiga.
- O QUE É ISSO AQUI? - Morgan, a diretora, apareceu aos berros, fazendo todo mundo se calar.
Não tinha como tentar limpar a barra das duas, seria impossível, todos tinham visto. Não teve outra alternativa senão as duas irem direto pra diretoria e eu fui feito doido atrás, enquanto alguns alunos nos seguiam também.
- Alguém sabe o que aconteceu? - parei de andar abruptamente, fazendo o bando que andava atrás de mim quase esbarrar um no outro ao parar também.
- Você não sabia? Elas estão há semanas meio brigadas, desde a festa do Steve. - Joline foi a primeira a responder e por incrível que pareça ela respondeu com animação. Olhei confuso pra ela, deixando óbvio que não fazia ideia do que ela estava falando - O Steve é irmão mais velho do Drew, ele estudava aqui mas decidiu abandonar a escola e ele vive dando umas festas malucas e a gente obviamente vai e dizem que Levi e Alondra brigaram lá mas ninguém sabe o motivo.
- Meu Deus, vocês adolescentes...
- Ué, você já foi um, não foi? E sua filha vai ser também... - Matty deu os ombros, me encarando com diversão no olhar.
- É, e nas festas do Steve tem tudo. Bebida, briga, choro, polícia... - Joline continuou, soltando uma risada leve.
- Vou me certificar que minha filha não conheça nenhum Steve. - brinquei com humor, arrancando algumas risadas a mais - Agora saiam daqui, vou entrar e ver como está a situação das garotas.
Entrei na sala de Morgan, encontrando Vince e Dave lá dentro também. O sermão estava rolando e não tinha como evitar, mas dava pra tentar. As garotas estremeceram com Morgan dizendo que ligaria pra os pais de cada uma porque as duas passaram dos limites.
- Morgan, por favor, enquanto você liga pra os pais das garotas, podemos falar com elas? - pedi corajoso, vendo as duas meninas praticamente sem respirar de tanto nervoso enquanto Morgan me lançou um olhar irritado sobre o ombro enquanto pegava o telefone. Meus ombros caíram em derrota, já esperando receber um "não" bem claro, mas surpreendentemente a mulher pareceu relaxar um pouco e se permitiu desfazer a cara feia que tomava conta do seu rosto.
- Tudo bem.
Saímos todos e fomos pra sala do lado, a sala dos professores. Ninguém quis se sentar. Levi estava com a cara mais que emburrada enquanto Alondra fungava e tremia. Dave ofereceu um copo d'água pra menina, que chorou mais ainda mas aceitou, tomando tudo em um segundo.
- O que foi que aconteceu? - Vince questionou curioso, bravo, indignado e decepcionado.
- Será que eu posso falar só com você, professor? - a cabeça de Alondra estava baixa, mas ela ergueu a mesma minimamente, só o suficiente pra me olhar.
- Alondra! - Levi chamou a atenção da amiga com um tom de repreensão, deixando todo mundo confuso. Dave encarou Vince, que me encarou com a testa franzida.
- Cala a boca! Eu falo o que quiser! - Alondra retrucou nervosa.
- Meninas? - Vince tentou acalmar os ânimos das duas.
- Só com o professor , por favor! - Alondra pediu com a voz baixinha, quase derrotada e com uma expressão quase óbvia de que estava exausta mentalmente.
Vince foi o primeiro a sair, mas com um olhar confuso. Dave demorou um pouco mais, olhando para as duas adolescentes e tentando adivinhar o que rolaria ali e só depois de longos segundos ele saiu.
- Pronto, estamos sozinhos, o que houve, Alondra? - questionei ansioso no mesmo segundo em que a porta se fechou.
- Eu não quero você aqui, Levi! - Alondra revirou os olhos, cruzando os braços emburrada com a garota ao seu lado.
- Alo, não precisa...
- Está bem, foda-se! - Alondra rolou os olhos com braveza, interrompendo Levi - Eu sei que Levi não está indo bem nas aulas e é impossível ela ter tirado um oito na prova! Tem alguma coisa muito errada aqui!
Minha respiração sumiu. Eu nem mesmo sentia meus pés no chão. Senti meu corpo gelar.
- Alondra, eu já te disse que não é nada! Eu sei que você acha que eu sou uma burra mas eu estudei e consegui uma nota boa! Para de ser maluca e para de ficar caçando problema na vida dos outros! - Levi se defendeu com firmeza, sem me olhar por nenhum segundo e talvez fosse por vergonha ou algo do tipo. Seu joguinho estava fugindo do seu controle e eu poderia ser seriamente prejudicado por isso.
- Se eu descobrir algu...
- Não tem nada pra descobrir, Alondra! - foi a minha vez de falar. Me defendi com a voz quase não saindo e o coração na mão. A tensão era demais. As garotas se encaravam com raiva - O que aconteceu? Vocês são melhores amigas e acabaram de brigar feio! - encontrei uma brecha pra mudar de assunto.
- Ela veio encher meu saco por causa da minha nota, eu respondi, ela achou ruim, como se por acaso eu devesse alguma satisfação pra ela e então ela me disse pra...
- Tomar no cu e ir atrás do namoradinho dela. - Alondra completou o que Levi dizia, soltando um riso fraco totalmente sem humor - Só que ela não tem mais namorado porque ele traiu ela. Uma pena, não? - o deboche gigante quase não coube em uma pessoa só, rendendo mais um olhar mortal de Levi, que ainda estava ao seu lado.
- Meu Deus, vocês não podem se tratar assim! - eu fiquei horrorizado com tais atitudes. As duas sempre foram tão educadas, tão amigas e tão simpáticas que simplesmente parecia que eram duas desconhecidas na minha frente.
- Não ligo. - Levi deu os ombros, fingindo não estar atingida com o que tinha ouvido e eu estava pronto pra termos uma conversa mais intensa e séria.
A porta foi aberta, revelando Morgan com uma cara nada boa mas liberando Levi pra ir embora e dizendo pra Alondra ir pra sua sala porque seus pais já estavam chegando. As duas garotas saíram da sala sem se olhar e sem emitir nenhum som.
- Cadê os pais da Levi? - perguntei.
- Não podem vir agora. O pai dela disse que vai ligar pra marcar uma pequena reunião na semana que vem ou na seguinte. Você sabe, os pais dela são muito ocupados e quase nunca podem vir quando a gente chama. - Morgan explicou sem vontade - Mas vamos, quero que você converse com os pais da Alondra pelo menos.
É triste. Desde quando cheguei pra dar aula aqui me contaram que em todos esses anos os pais de Levi eram os mais complicados. Nunca vinham no dia que eram chamados, nunca vinham nas reuniões mas sempre exigiam muito. A filha, infelizmente, não parecia ser prioridade.

// //


A real é que quando pede minha ajuda em algo, a gente perde mais tempo fofocando e fazendo palhaçada do que de fato fazendo o que deveríamos fazer. Glenn também tinha muita culpa nisso e o resto da equipe também. Nunca vi uma reunião pra escolha nova do merch da ser tão engraçada. Minha barriga já estava doendo de tanto rir quando meu celular tocou e eu atendi de uma vez.
- Alô?
- ? - a voz de Susan, secretária da creche de Alaia me fez franzir a testa. Murmurei, indicando que estava ouvindo - É que já passamos do horário normal e até dos vinte minutos de tolerância, mas ninguém apareceu ainda e...
- O que???
- , sua filha ainda está aqui. Ninguém veio buscá-la ainda.
- Mas... - meu coração gelou, pensando no que poderia ter acontecido com - Me desculpa, já estou indo buscá-la, não vou demorar!
Eu me levantei feito um furacão, pedindo o carro de emprestado e mal me despedindo das pessoas presentes. Liguei pra quatro vezes, mas só na última tentativa ele atendeu.
- Babe, oi!
- Meu Deus, você tá bem??? - perguntei angustiada, com um nó na garganta.
- Sim, eu estou bem. O que foi, aconteceu alguma coisa? - sua voz cheia de confusão me deixou sem chão pela segunda vez com poucos minutos de diferença. simplesmente tinha esquecido nossa filha!

Alaia apontou para os cookies de chocolate e Willa riu, pegando três e colocando no saquinho de papel e me entregando.
- Ai, ela de novo! - Willa comentou baixo com a outra funcionária, que olhou discretamente pra frente, em direção à entrada do café e disfarçou novamente, resmungando alguma coisa que não consegui ouvir.
Me virei de leve, vendo a imagem chique de Dorothy abrindo a porta com delicadeza e entrando com sua pose firme e uma Chanel diferente no ombro.
- O que ela fez? - peguei minha filha no colo e me aproximei um pouco mais do balcão pra ouvir melhor, aliviada por não ter nenhum cliente atrás de mim pra interromper.
- Ela vem aqui todo dia agora e todo dia é uma exigência diferente. Um dia ela quer o café mais forte, depois mais fraco, depois com leite, depois descafeinado, aí ela quer um tipo de salgado que não tem e fica fazendo mil sugestões e bla bla bla. Eu sei que ela está pagando, mas tudo o que ela fala é carregado de um ar esnobe, sabe? Ela é uma típica madame chata! - Willa cochichava disfarçadamente enquanto fingia passar um pano no balcão, mas não perdendo a oportunidade de rolar os olhos.
- Ela é mãe da ex namorada do ! - revelei junto à uma careta, fazendo Willa abrir a boca em surpresa.
- Tá brincando?!
- Tô não. Agora boa sorte pra vocês porque eu vou embora!
Me virei com pressa, caminhando até a saída e tentando não pensar em todas as maneiras que eu já tinha pensado em como mataria meu noivo por ter esquecido nossa filha. Por sinal, ele tinha lembrado depois que eu já tinha pego ela da creche, já que não parou de me ligar nem um segundo.
- ? - eu já estava prestes a sair do café quando o barulho do salto e a voz de Dorothy me seguiram.
- Sim? - me virei com um sorrisinho forçado no rosto, sendo alvo de mais um olhar de cima a baixo da mulher, que até tentou disfarçar mas não conseguiu, e até mesmo ousou chegar um pouco mais perto, olhando pra Alaia e sorrindo.
- Meu Deus, essa é a filha do ?
- E minha. - ri fraco, tentando segurar um riso maior ao ver a expressão confusa e logo em seguida levemente incomodada da mulher, que mexeu em um mecha do cabelo e voltou a sorrir, mantendo a pose elegante.
- Ela é linda! - ela elogiou minha filha e eu já não sabia muito bem se deveria apenas agradecer e ir embora o mais rápido possível ou se dava mais corda pra ver até onde Dorothy iria. Ela nos olhou por alguns instantes e seu olhar parou fixamente na minha mão - Esse é o seu anel de noivado? - ela questionou animada e numa atitude rápida de receio e desconforto, troquei Alaia pro meu outro braço, a segurando com força e colocando a mão direita pra cobrir a esquerda, tapando a visão do anel.
- É, por que? - questionei confusa.
- Por nada, . - ela deu uma espécie de sorrisinho vitorioso, como se a minha resposta tivesse servido pra algo útil e eu me arrepiei no mesmo instante, desistindo da ideia de ver até onde a mulher poderia chegar.
- Preciso ir. Tchau, Dorothy!

Respirei fundo, girando a chave e abrindo a porta, vendo praticamente voar até mim.
- , me desculpa, eu...
- Esqueceu? Eu percebi! - coloquei Alaia no chão e joguei a chave no balcão, jogando nossas bolsas no sofá e tirando meu casaco enquanto ia pra cozinha preparar seu lanche, mas já estava tudo pronto em cima do balcão.
- Levi e Alondra brigaram e a Morgan chamou os pais delas mas só os pais da Alondra apareceram e eu precisei conversar com eles! Me desculpa de verdade, eu realmente perdi a noção total do tempo. Desculpa mesmo! - o desespero de apertou meu coração mas ao mesmo tempo me fez querer apertar ele de raiva. Óbvio que o trabalho era importante, mas a ponto de te fazer esquecer sua própria filha?
- A gente precisa de um carro novo. - foi a única coisa que eu disse sem nem olhar pra ele enquanto pegava o prato com o lanche de Alaia junto com o suco, colocando na cadeira de alimentação dela.
- ... - me olhou triste, pegando Alaia e a colocando sentada na cadeira e ela imediatamente pegou o pão rapidamente e enfiou na boca numa grande mordida.
Alaia é um bebê independente. Ela nem mesmo me deixa ajudá-la a comer mais, quer fazer tudo sozinha, principalmente comer.
- , eu tive que pegar o carro da e felizmente consegui chegar rápido, mas e se eu estivesse longe? - coloquei a mão na cintura, claramente brava - Você esqueceu nossa filha na creche, tem noção do que é isso? E pior, eu passei no café da minha mãe e encontrei com a Dorothy. O meu dia foi de legal e divertido pra péssimo. - resmunguei tudo de uma vez, virando as costas e indo até a geladeira, tirando um iogurte de mel da mesma.
- Ela fez alguma coisa? - me seguiu, encostando no balcão bem curioso.
- Conversou comigo, me olhou daquele jeitinho com aquele ar superior e... - encarei , que esperava mais, como se fosse uma fofoca das boas e eu fechei a cara no mesmo instante, tentando voltar pra raiva que eu estava sentindo há segundos atrás - A gente precisa de outro carro!
- Babe... - meu noivo se aproximou de uma vez, ficando na minha frente por completo - Me perdoa! Tem algo errado com as meninas e eu deveria ter prestado atenção no horário. Eu errei e errei feio, esquecer da Alaia foi horrível mas eu juro que nunca mais vai acontecer!
Ele estava arrependido e dava pra ver e sentir. Claro que estava. é um pai incrível e claramente isso vai o corroer por dias e dias e eu não posso contribuir pra isso. Foi um erro mas ele não merece ser condenado por isso e não vale a pena estender uma briga que não vai mudar mais nada.
- Tudo bem, . - dei um longo suspiro - Mas ainda acho que precisamos de outro carro! - resmunguei pela terceira vez sobre a mesma coisa, fazendo ele rir.
- , não quero abusar mas tenho que perguntar... Por acaso a Dorothy... Sei lá, como foi a conversa? - perguntou sem jeito.
- Por que você tá tão interessado?
- Porque ela é o cão, , e eu já te falei! Ela nunca gostou de mim de verdade, só me engolia porque Sienna implorava pra ela me tratar com o mínimo de educação e mesmo assim era difícil. Eu não gosto da ideia dela perto de você porque soa meio... Sei lá, falso. Eu sei que fazem anos mas ainda assim não quero ela perto de nós. - ele deu uma boa justificativa, e eu sabia que ele estava sendo sincero.
- Eu já não gostei dela desde a primeira vez, ela fez questão de se apresentar como mãe da sua ex namorada. - usei um tom irônico e enojado - Ela parece ser estranha. Ela consegue ser educada e inconveniente também. Hoje ela perguntou sobre o meu anel de noivado, ela é maluca!

DIAS DEPOIS…


Eu e fomos ao cinema e dormimos em 5 minutos. Acordei com ele do meu lado dormindo feito um bebê e já no fim do filme. Passamos na casa dos meus pais pra buscar Alaia e o caminho de volta pra casa foi cheio de risos abafados porque nossa filha já tinha pegado no sono.
Nossa vida era gostosa. A ideia do cinema foi minha porque eu já sabia que iria ficar balançado depois de ter esquecido Alaia na creche e realmente aconteceu. Nos últimos dias ele que a buscou, deu comida, deu banho e a colocou pra dormir sem reclamar de nadinha. Óbvio que esquecer sua filha na creche é algo ruim, mas não apaga o pai incrível que ele é e não fica por cima de tudo de bom que ele faz por ela. Fiz questão de lembrá-lo disso durante esses dias e um cinema parecia uma boa ideia pra nos distrairmos de vez, e bem... Pelo menos tínhamos descansado um pouco.
Alaia já estava em seu berço - a cama estava prevista pra chegar nos próximos dias - e eu estava fuçando em minhas redes sociais em frente à cama, concentrada em pentear o cabelo enquanto observava as coisas que rolavam pela tela do meu celular. O cheiro do meu sabonete favorito me acalmava e um banho fresco era a melhor coisa que eu fazia por mim mesma antes de deitar.
- Você é mesmo linda de todos os ângulos, . Tem noção do quanto você é bonita até de costas? - a voz de invadiu o quarto e eu virei pra trás no mesmo segundo já com um sorriso nos lábios.
- E você... - analisei bem aquele peitoral que me arrancava suspiros toda vez e logo em seguida a toalha que estava em sua cintura pelo banho recém tomado - Com certeza fica melhor sem essa toalha aí. - sorri convidativa, mordendo meu lábio inferior.
Foi como jogar gasolina no fogo. se aproximou de um jeito quase que grosseiro, me abraçando rápido por trás mas virando meu corpo rapidamente e encostando nossas bocas num beijo intenso que já me fazia ter noção de onde a noite ia parar. Uma das minhas mãos estava em sua nuca e a outra foi bem atrevida até a toalha, fazendo a mesma cair de propósito e sorrimos no meio do beijo por isso. foi mais atrevido ainda, tirando uma de suas mãos da minha cintura e pegou na minha que tinha acabado de se desfazer da sua toalha, me fazendo segurar em seu pênis já animado de maneira mais que maliciosa. Ele mesmo comandava o movimento da minha mão para cima e para baixo, e embora o beijo tivesse sido interrompido por um gemido gostoso saindo do fundo da sua garganta, eu sorri satisfeita. foi rápido em tirar minha camisola do meu corpo sem gentileza nenhuma e me empurrou pra sentar na cama. Eu ri fraco, observando aquele olhar safado e traiçoeiro que me dizia exatamente o que queria que eu fizesse.
Eu mal conseguia conter o sorriso malicioso que me tomou e imediatamente segurei seu membro duro em minha mão e passeei com ela por toda a extensão, como se fosse um lugar novo a ser conhecido e eu sabia que esse joguinho torturava meu noivo, mas decidi não ser tão cruel. Depositei um beijinho gentil na glande olhando diretamente nos olhos do meu homem. Ele apertou os olhos, mordendo os próprios lábios. Sem delongas, minha boca se encheu com seu pênis de uma vez só, indo o mais fundo que eu aguentava e sugando com força.
- Porra, ! - gemeu abafado, ainda apertando os olhos de prazer mas ousava me olhar de leve com aqueles olhos que atravessavam minha alma.
- Você gosta que eu...
- Chupa logo, ! - motivado por uma onda gigante de tesão e sem paciência pra provocação, meu noivo me interrompeu segurando em meu cabelo e me forçando a o engolir mais fundo ainda.
Eu o sugava com vontade enquanto minhas mãos o masturbavam também, fazendo ele entrelaçar meus cabelos em seus dedos ainda mais de tanto prazer. Eu estava realmente dedicada ali, mas ele me afastou e me puxou pra cima com rapidez.
- ... - murmurei manhosa enquanto ele me empurrou sem qualquer delicadeza na cama.
- Pensei que já tínhamos passado dessa fase de provocações, babe, mas acho que não...
Da maneira mais cafajeste do mundo, tirou minha calcinha de uma vez com um sorriso mais que malicioso nos lábios, e sem nenhum carinho pelo meu corpo antes, ele desceu o dedão esquerdo contra o meu clitóris sem vergonha nenhuma. Minhas costas se arquearam de leve na cama e ele continuou, e ainda mais abusado e mais rápido ainda, enfiou dois dedos direto na minha intimidade. Como sempre, sem atrito nenhum, eu sempre estava molhada por ele e pra ele.
Seus dedos me fodiam por todo lado. Ele sabia trabalhar com maestria. Seu dedão fazia movimentos circulares em meu clitóris e eu já estava no céu. Porra, eu tenho um noivo gostoso pra caralho! Estremeci, delirei, gemi alto enquanto ele acabava comigo. Eu queria sempre mais.
- ... - gemi sem forças, sentindo algo muito maior quase tomar conta de mim quando parou todos os movimentos, me encarando sério e logo se fazendo mais confortável em cima de mim, me beijando novamente.
Suas mãos passeavam pelo meu corpo todo até chegar em meus seios, onde ele brincava descaradamente e logo o beijo se quebrou pra ele colocar meu seio esquerdo em sua boca. Eu já nem mesmo tinha forças e a brincadeira já tinha me levado aos céus.
- Você e esse seu corpo ainda vão me matar, ! - ele alertou assim que sua boca ficou livre, mas seu dedo brincava com o bico do meu peito com uma malícia absurda.
- Me fode logo, ! Me faz gozar logo, por favor!
Seu sorriso sem vergonha foi o suficiente pra me mostrar que meu pedido seria atendido.
- Você sabe como eu gosto, babe. - deu uma piscadela e eu sabia o que ele queria dizer.
Fiquei de quatro rapidamente, e sem demora, finalmente veio a pressão gostosa da penetração me fodendo. nem mesmo se roçou na minha intimidade antes, foi entrando com tudo. Duro. cruel, gostoso e prazeroso. Ele começou levemente devagar, mas o seu jeito mesmo era mais forte. Seu pau se apertava cada vez mais dentro de mim enquanto eu mesma brincava com meus próprios seios e gemendo seu nome.
- Mais rápido, ! Anda!
E claro que ele me obedeceu, mesmo quando eu mesma achava impossível ele ir mais rápido, ele foi. Todo o prazer que era socado dentro de mim me arrancavam gemidos abafados e alguns escandalosos e quem sofria eram os lençóis da cama que eram judiados pelas minhas mãos que os agarravam com força de tanto prazer.
Nossa conexão, paixão, posição, ritmo... A gente se satisfazia demais. segurava em minha cintura com força, me forçando nele mesmo por alguns segundos. Senti o baixo do meu ventre começar a formigar. metia fundo com uma habilidade sem igual.
Ele pareceu ter adivinhado que meu orgasmo estava próximo e como um golpe fatal, se arqueou mais pra frente o suficiente pra chegar com sua mão abusada em minha intimidade, com movimentos rápidos em meu clitóris. Me derramei nele, sentindo os espasmos involuntários das minhas pernas enquanto resmungava de maneira incoerente de tanto prazer.
- Eu amo quando você goza assim em mim, sabia, babe? - balbuciou em meio aos seus próprios gemidos, mas não perdia o tom extremamente safado.
foi um pouco mais delicado nos movimentos, considerando que meu corpo já estava acabado de prazer, mas ainda faltava o seu orgasmo. Olhei pra trás rapidamente, observando seu olhar cheio de prazer que me levava a acreditar que seu limite estava chegando. Ele voltou a me penetrar tão forte e rápido que era certeza que seu gozo estava perto.
De maneira delirante, senti seu líquido fervente me invadir.
Somos tão bons nisso.

// //


Eu estava mais que decidido e já tinha até passado da hora. Eu devia isso à , devia isso à mulher que mudou minha vida e que gerou a nossa filha. Eu tenho que entregar tudo o que posso, principalmente a verdade.
Algumas batidas foram dados na porta. Eu era o único ali, estava esperando o sinal pra minha próxima aula.
- Sienna? - minha cara quase foi no chão.
- Finalmente! Tive que perguntar pra um aluno que encontrei no corredor perguntando por você. Ele disse que sua próxima aula é daqui uns quinze minutos então provavelmente estaria aqui ou na biblioteca. Fui na biblioteca e nada...
- Aconteceu alguma coisa? - interrompi ela com um choque passando pelo meu corpo, temendo que algo sério tivesse acontecido.
- Olha, eu sei que não é da minha conta mas eu vim conversar com a Riley novamente só que ela está numa reunião de emergência com a diretora e ela disse pra eu ficar à vontade e conhecer a escola e foi o que eu fiz... Andei aqui e ali até parar na sala de teatro e encontrar uma menina lá dormindo. - Sienna me olhou sem graça, sem saber ao certo se fez bem ou não.
- Puta merda, eles não param!
- Mas não é só isso, . Ela tá com uma garrafinha de bebida, sabe? Um cantil. Eu pensei em acordar ela antes que alguém do colégio a visse mas fiquei com medo dela se assustar e achei melhor te chamar, talvez seja uma aluna sua!
- Eu acho que já sei quem é.
Eu levantei feito um louco, praticamente correndo até a sala de teatro e ouvindo o barulho do salto atrás de mim. Alondra dormia tranquilamente enquanto um de seus cadernos estava aberto e o cantil no chão, sem nenhuma gota dentro.
- Alondra? - chamei seu nome baixinho, segurando em sua mão. A garota acordou num pulo, mais assustada ainda com um rosto desconhecido como o da Sienna.
- Quem é ela? - a garota me olhou com medo e o hálito forte de vodka a entregava de longe.
- Essa é a Sienna. Ela te viu aqui e foi me chamar pra podermos te acordar. Você deveria estar na aula, Alo! Você deveria...
- Eu sei! - a garota passou a mão pelo rosto, um tanto quanto sonolenta ainda e tentando guardar o caderno, mas o mesmo caiu no chão e eu peguei, observando as poucas anotações que tinham ali e entregando rápido pra garota.
- Meu Deus, Alondra, bebendo de novo? - passei a mão pelos cabelos, incerto do que fazer e tentando não dar um sermão na garota porque era a última coisa que ela precisava - Se alguém te ver assim...
- Eu estou bem. Não estou bêbada. - a garota se ofendeu de imediato.
- Eu diria pra ela pegar um Uber, mas... - Sienna me encarou, deixando a fase incompleta porém óbvia.
- Ela bebeu e alguém pode querer se aproveitar disso, então não. - completei a frase de vez.
- Eu não estou bêbada, professor! A garrafinha não estava cheia, só tinha metade! Eu estou bem, eu só estava cansada, bebi e dormi. - a garota tentou se justificar mais uma vez.
- Alondra, você está cheirando a vodka. Não posso te deixar ir pra aula assim. Eu deveria ligar pro seu pai e...
- NÃO! POR FAVOR, NÃO!
- Alo...
- Eu juro que não estou bêbada! Eu posso ir embora agora sozinha sem ninguém perceber! Eu... Meu Deus, que vergonha! Eu nem preciso de álcool, sou completamente capaz de me humilhar sóbria, olha só pra isso! - a garota resmungou com a voz chorosa.
- Calma, tá tudo bem! Não vou ligar pro seu pai, calma!
- Você mora muito longe? Eu posso te levar! Posso dizer pra pessoa que eu tenho um compromisso marcado esperar um pouco. - Sienna se ofereceu sem pensar, logo me encarando sem graça pelo feito. Não teve como não dar um sorriso mínimo de canto. Óbvio que ela queria ajudar e foi lindo.
Alondra me encarou perdida e desconfiada, buscando uma resposta em mim.
- A Sienna é uma colega de muitos anos, Alondra. Ela é advogada e veio aqui no colégio atender uma cliente e por sorte te viu aqui. Ela é de confiança, vai te levar inteira pra sua casa, o que você acha?

——


- , ela foi essencial hoje, estava no momento certo e na hora certa. O que ela fez foi muito incrível! - elogiou a atitude de Sienna e meu coração já quis pular pra fora do peito. Onde foi que eu arranjei uma mulher incrível dessas mesmo?
- Foi doido, , e tem algo muito errado com Alondra, tem alguma coisa acontecendo... Ninguém fica tão estranha assim do nada. Preciso fazer alguma coisa pra ajudar!
me ouvia com atenção enquanto Alaia comia um cookie de chocolate no colo dela. O café estava cheio como sempre e nem Leah ou Ellie tinham parado ainda pra sentar e bater papo com a gente como sempre faziam.
- Talvez seja algum problema em casa, babe. - minha noiva deduziu, pegando um pequeno pedaço do cookie e colocando na própria boca.
- O suco, papai! - minha filha apontou pro copo rosa que estava ao meu lado, com suco de melancia dentro, seu favorito.
- Quer que o papai te dê? - ofereci com animação, já abrindo as mãos e oferecendo meu colo.
- Não. - ela respondeu séria, ainda apontando pro copo e não aguentei, caí na risada. Alaia era independente e definitivamente tinha chegado na sua fase do "não", já que era essa sua resposta pra tudo.
Empurrei o copo até ficar próximo o suficiente pra ela mesma pegar e também ria. Observei bem a cena e definitivamente essa é a minha maior e melhor realização. Um arrepio tomou conta de mim, como se fosse um empurrão pra eu fazer o que já deveria ter feito há dias. Minha família merecia minha honestidade sempre.
- , eu tenho que...
- ! - a voz animada de Dorothy bem atrás de mim chegou como um raio.
olhava pra cima chocada, e assim que virei, lá estavam elas: Dorothy e Sienna.
Puta que pariu, o destino é bem cafajeste às vezes.
- Oi Dorothy! - respondi baixo, sem nem me levantar, enquanto prestava atenção total em Alaia, provavelmente torcendo pra o momento acabar logo.
- Oi , oi... . - Sienna disse baixo, um pouco acanhada mas simpática. levantou o olhar novamente, dando um sorriso sem mostrar os dentes.
- Oi Sienna!
- Olha filha, ela não é a cara do ? - Dorothy dizia pra Sienna enquanto olhava pra Alaia.
- Mãe... Vamos! - Sienna pediu sem jeito, levemente envergonhada pela mãe, que continuava ali parada do nosso lado.
- É sério, olha só...
- Mãe! - Sienna falou um pouco mais alto, calando a mãe, que respirou fundo e deu um sorriso azedo, acenando com a mão e andando em direção ao balcão - Desculpa gente, é que... Ela é parecida com os dois! - Sienna exclamou sem jeito porém sincera, sem maldade nenhuma em sua voz e arregalou os olhos minimamente ao ouvir tal coisa.
- Não! - Alaia disse alto, olhando pra Sienna de maneira séria mas gargalhando no final.
- Desculpa, ela tá na fase de dizer não pra absolutamente tudo. - explicou em meio aos risos junto com a nossa filha.
- Tudo bem... - Sienna respondeu com um sorriso nos lábios que logo se desfez ao ver a mãe com uma cara nada boa de longe - Bem, já vou indo. Boa noite!
me encarava com uma expressão engraçada e eu sabia que ela queria falar algo.
- Ok, fala logo o que você tá pensando, mocinha.
- O tatuador que você foi é realmente bom! Os olhos dela são completamente idênticos à tatuagem que tinha no seu peitoral! - ela respondeu com um olhar sapeca de como se fosse uma criança aprontando.
- !
- Mas é sério! - ela ainda ria, parando aos poucos - Mas então, o que você queria me falar antes da Dorothy chegar?
Minha garganta secou no mesmo segundo e com certeza a maior cara de cu estava estampada na minha cara e eu tentei disfarçar o mais rápido possível. Olhei rápido pra frente, vendo Sienna mexer no celular e algo se acendeu na minha cabeça como uma luz.
- Eu queria te mostrar algumas camas que vi pra Alaia na internet, só isso. - respondi animado, me forçando a tentar esquecer o assunto e me dedicar às minhas garotas.

Capítulo 5

// //


A gente cresceu muito nos últimos dois anos. Sinto que envelhecemos dez anos nesses dois. A nossa vida é leve até onde dá pra ser. Não é perfeita porque a de ninguém é, mas acho que é porque tem amor. Às vezes me pego pensando no e meu Deus, eu sou tão feliz por amá-lo. Toda a nossa intimidade, nossos momentos, nossa ligação, nossa vida toda... Eu posso amar ele pro resto da minha vida sem problema nenhum. Se possível, quero amar ele em outras vidas também.
- , você gostou da ideia? - a voz de Adam ficou mais alta, me tirando daquele transe emocional, e assim que o encarei já estava óbvio que aquela não era a primeira vez que ele tinha me perguntado algo, mas eu estava ocupada demais na minha própria cabeça e na minha própria bolha de amor.
- Do que? - questionei perdida, balançando a cabeça.
- Da ideia do clipe novo da . Ela criou todo um conceito e acabamos de falar sobre isso na reunião. - ele riu bem humorado mas logo em seguida se repreendeu e isso me deu dó. Adam se sentiu inseguro ao brincar comigo por talvez não termos intimidade o suficiente ou porque eu poderia levar pra um lado mais pessoal, mas não sou ranzinza desse jeito e ele é um cara legal.
Nos últimos dias eu vi Adam duas vezes. fazia questão de me ter por perto e eu me sentia abençoada por poder estar perto pra acompanhar seu processo pro lançamento do álbum novo. Decidimos coisas sobre o merch juntas, algumas fotos, até mesmo roupas pra futuros vídeos e programas de divulgação e entrevista. Éramos sortudas juntas. Toda a equipe era incrível e tratavam com muito respeito e me tratavam como família por sempre estar perto também.
- Sinceramente? Achei um saco! - rolei os olhos e dei os ombros, fingindo insatisfação e Adam gargalhou.
- Eu também. - ele sussurrou ainda rindo e eu também.
A casa de Glenn foi esvaziando aos poucos e na minha cabeça alguma coisa martelava em alerta e me levou alguns segundos pra me lembrar do que se tratava.
- Adam, posso pedir sua opinião em uma coisinha? - pedi sem graça e o rapaz se mostrou atento, assentindo positivamente com a cabeça. Peguei meu celular do bolso e coloquei em uma montagem com duas opções de design de cardápio - Qual dos dois você acha melhor?
- A primeira opção! - ele respondeu sem hesitar - É o café da sua mãe e da mãe da , não é?
- Isso mesmo!
- , não está na hora de buscar minha sobrinha na creche antes que aquele bocó do esqueça ela de novo? - tentava segurar a risada enquanto levantava uma garrafa de cerveja.
Ok, o acontecimento agora tinha virado piada. Eu mesma me permitia rir e brincar com a situação, embora tenha sido horrível e não desejo passar por aquilo nunca mais.
- Seu noivo esqueceu...
- Esqueceu! - interrompeu Adam com um sussurro enquanto o homem ficou incrédulo mas logo em seguida explodiu em risadas.
- Bom, já está no meu horário pra buscar a minha filha na creche também. - Adam pegou fechou seu notebook e o colocou dentro da sua mochila, dando pequenos passos até a porta mas se virou numa pausa dramática - Não, espera... Não tenho filha!
Filho da mãe engraçadinho! Rimos juntos e ele saiu de vez, indo embora de verdade enquanto Glenn ia pro segundo andar da casa.
- Adam é tão bom. Não sei porque demoramos tanto pra trabalhar com ele, sério! - se jogou no sofá ainda com a garrafa de cerveja na mão.
- Ele é engraçado. - comentei.
- Ele é! - confirmou - Mas e você, , como está? Anda pensando em faculdade, em ter outro bebê, em deixar Alaia ir pra estrada comigo na próxima turnê...? - óbvio que ela não perdeu a oportunidade de fazer graça.
- Toda vez que eu lembro da dor das contrações eu me pergunto como uma mãe tem coragem de engravidar de novo, mas aí eu lembro que eu mesma quero no mínimo um bilhão de filhos. - ri cheia de humor - Mas não agora, ainda quero ajeitar minha vida e me certificar que você não vai sequestrar minha filha e levar ela na mala pra próxima turnê!
- Sabe , eu sei que a minha vida mudou completamente e que é tudo uma loucura sem tamanho agora, mas não quero uma vida em que não posso curtir o aniversário de um amigo porque fiquei a noite toda trabalhando sem parar no estúdio ou algo do tipo. Quando eu tiver um filho, quero ver ele andar pela primeira vez. Não quero esse tipo de família que quando um chega, o outro já está dormindo e quando sai, o marido ou o filho ainda não acordaram. Quero ter controle do meu próprio tempo assim como você e o tem. Vocês são um baita exemplo pra mim e eu fico feliz em ver que mesmo tendo tudo bonitinho, você não cansa em procurar melhorar por você e pra sua família. - desabafou toda sentimental. Nossos sorrisos e olhares se comunicaram mais do que qualquer outra resposta verbal. Suspirei aliviada, lembrando do quanto a gente se ensina diariamente.

// //


- Foi bizarro! - Irina se manifestou com um tom chateado.
Todos estavam chateados na verdade. A briga de Alondra e Levi era assunto há dias.
- Eu sei que adolescentes brigam demais nessa idade mas elas eram melhores amigas! - Vince também se manifestou.
- É difícil, mas nem sempre essas questões podem ser resolvidas por nós. Adolescentes são fechados demais e... Bom, contando que elas mantenham as boas notas, está tudo parcialmente bem. - Dave foi o último a falar.
- Mas elas não estão indo bem. Pelo menos não nas minhas aulas. Elas estão decaindo muito. Não prestam atenção, dormem e parecem contar os segundos pra aula acabar. - a voz de Riley veio depois de alguns segundos, quando todos acharam que ninguém ia falar mais nada.
- Elas estão normais comigo, gente! Olhem só... - Dave abriu a pasta com o diário do aluno, que mostrava nenhuma falta e nenhuma nota baixa em nenhuma atividade ou prova das duas até então.
A porta foi aberta e todos olharam pra Morgan no mesmo segundo.
- , o pai da aluna Levi Warren está aqui e quer conversar com você.
Todos me olhavam aflitos e eu me levantei rápido. O pai de Levi, Asher Warren era ninguém menos que um dos melhores amigos do prefeito da cidade e por isso muitos tinham medo dele. Bom, não só por isso, e sim por ele também ser um mala. Eu ouvi isso desde quando cheguei aqui.
- Senhor Warren! - o cumprimentei com um aperto de mão e sentindo um arrepio ao fazer. Escondi meu receio em algum lugar dentro de mim mesmo.
- Oi, professor ! Em primeiro lugar eu peço desculpas pelo comportamento da minha filha, essa briga foi algo que até me pegou de surpresa mas eu vou conversar com ela, tudo bem?
- Tudo bem, senhor Warren, essa fase pra Levi deve estar sendo muito estressante. Último ano, estudos, amizades... Nessa idade é tudo muito intenso. Ela sempre foi uma boa aluna e muito educada, creio que não vai mesmo acontecer nada similar de novo. - fui simpático e sincero, me permitindo respirar feito um ser humano normal e adquirindo um pouquinho de confiança no homem.
- Olha, eu sei que os alunos tem diversas matérias, mas tem como você passar alguns trabalhos extras pra minha filha? - ele pareceu sem jeito no primeiro instante, mas logo um sorriso vitorioso invadiu seu rosto de quem já sabia a resposta da sua pergunta.
Claro. Engoli em seco. Eu deveria dizer "sim" pra qualquer coisa que Asher Warren me pedisse e isso já tinha sido me falado desde sempre também. Infelizmente por ser uma pessoa conhecida e com uma puta condição financeira isso o dava passe livre pra pedir o que quisesse que faríamos, mas não por escolha própria, e sim porque a Morgan sempre concordou com tudo o que Asher pediu até aqui. Não tenho poder nenhum pra dizer não.
- O senhor vai pedir isso pra todos os professores ou...
- Não, não! - Asher riu simpático, me interrompendo - Só da sua matéria já está de bom tamanho!
- Desculpa senhor Warren, será que eu posso perguntar o porquê? - juntei a confiança o suficiente pra perguntar de uma vez, curioso de verdade e disposto a conseguir uma resposta da maneira que fosse.
- ... É a língua materna dela! O mínimo que ela precisa é ir bem nessa matéria não só na escola como na vida. Sei que todas as matérias são importantes, mas... Você me entende, certo? - ele lançou um sorrisinho fraco, mas eu sabia muito bem que era um riso que escondia a impaciência e a má vontade em explicar. O motivo de Asher era no mínimo ridículo mas estava longe de mim querer discutir com o homem por isso. Seu ar ignorante já era o suficiente pra me dar uma noção de como lidar com ele.
- Claro!
- Bom, preciso ir agora. Obrigada pelo seu tempo, !
- Eu que agradeço! - o caralho que eu agradecia, mas falei mesmo assim, fingindo ao extremo.
Nem meio segundo depois que Asher saiu da sala, Morgan entrou com Levi ao seu lado, que demonstrava mil coisas ao mesmo tempo. Parecia estar nervosa mas também com raiva.
- E então? - Morgan questionou baixo porém séria.
- Levi, seu pai me pediu pra passar algumas atividades extras pra você. Não vai ser nada pesado, eu juro, só vou fazer o que ele me pediu, ok? - a garota definitivamente estava com raiva. Ela tentou disfarçar e talvez a Morgan nem mesmo tenha percebido, mas eu sim. Aquilo poderia ser o começo de mais um grande desastre. Cruzei o olhar com a diretora e ela provavelmente já sabia o que eu estava prestes a pedir. Eu era conhecido por ser um dos professores que mais tentava dialogar com os alunos e honestamente não acho que isso seja um defeito - Morgan, posso conversar com a aluna por um instante?
Ela assentiu compreensiva e saiu da própria sala, nos deixando a sós.
- Olha, eu não sei o que você quer, mas dane-se! Você sabe como funciona, você vai passar a merda dessas atividades extras e com as respostas junto, tá legal? Eu...
- Levi, pelo amor de Deus, se ouve! Eu não consigo entender! - interrompi a garota antes dela continuar a falar barbaridades.
- O que você não entende não me interessa! Eu não quero conversar, eu só quero que isso tudo acabe logo! - a garota abaixou o olhar, e por um instante eu pude ver um rastro de culpa ali, mas o que mais me chamou atenção foi seu tom triste e desesperado. Em poucas palavras, Levi tinha desabafado.
- Isso tudo o que?
A garota abriu a boca pra falar mas nada saiu. Ela mais uma vez guardou a cara de brava e saiu da sala como se tudo estivesse bem. Eu tinha que fazer algo.

——


Vince foi mais que um parceiro. Dois dias atrás, depois de Asher Warren passar por aqui e Levi surtar comigo, eu contei tudo pra Vince. Ele me perguntou o que eu precisava e com um aperto mais que gigante no peito, eu optei pela última pessoa que achei que fosse precisar. Me doeu de verdade, principalmente por ainda não ter contado nada pra . Eu não sei explicar, é algo tão pesado e tão absurdo que dá até vergonha de compartilhar, mesmo sendo inocente. Me doeu ter que ligar pra Sienna e pedir pra ela vir até o colégio pra podermos conversar. Aliás, Vince que conseguiu o número dela pra mim com Riley.
Porra... Por que tanto medo? Há dias eu vivo me questionando até que ponto um medo meu pode ser egoísmo ou se realmente existe algo a temer. Uma adolescente estava acabando comigo e a única solução que encontrei foi chamar minha ex pra me ajudar.
É patético.
- ? - a voz de Sienna me trouxe a sensação de cair no chão de um lugar bem alto. Meus pensamentos já estavam me comendo vivo.
Andei pelo corredor largo e vazio até chegar nela, que vestia uma roupa social preta.
- Obrigada por ter vindo, Sienna.
- Não precisa agradecer, . Quero te ajudar. O que aconteceu? - seu olhar era carregado de preocupação.
- Eu tenho uns quarenta minutos até minha próxima aula. Tem um jardim enorme aqui e a gente pode conversar lá. É sobre algo muito sério, Sienna, eu juro. - eu já estava quase me afogando em minhas próprias palavras. O assunto me trazia um nervosismo que eu nunca tinha sentido em toda minha vida. Há dias eu estava bloqueando meus pensamentos pra tentar viver com o mínimo de paz possível, mas estava na hora de desencadear meus pensamentos.
- , calma, eu vim pra te ajudar, ok? Fica calmo!
Começamos a andar em silêncio e eu pensei que as coisas não podiam ficar mais complicadas, mas assim que vi o moletom azul bebê e o cabelo enrolado num coque mal feito saindo da sala de teatro eu respirei fundo. Alondra nem mesmo notou eu e Sienna no corredor, ela saiu da sala de teatro de fininho e sem olhar pra trás, mas eu limpei a garganta alto o suficiente pra ela notar minha presença ali. A garota congelou, virando o corpo pra trás aos poucos.
- Ah caramba, é só você! - Alondra resmungou com a mão no peito de susto.
- Eu sou seu professor, mocinha, e pelo horário e pelo dia... - busquei a informação na minha cabeça - Você deveria estar na aula de biologia ou de história!
- Biologia. - ela confirmou sem jeito - Olha professor, eu sei que não é a primeira vez que você me vê matando aula, mas... Eu estou exausta. Mal dormi essa noite e eu não seria produtiva na sala de aula desse jeito. Eu estava dormindo na sala de teatro, vou admitir, mas eu juro que iria participar da próxima aula! - ela não estava nervosa por ter sido pega, dava pra perceber de longe. O problema de Alondra estava longe de ser eu dando uma possível bronca.
- Alondra, tem certeza que é só isso? - perguntei esperançoso, torcendo mentalmente pra garota confiar em mim e me contar a verdade.
- Professor... - Alondra jogou a cabeça pro lado, me provando que eu estava certo. Realmente tinha algo acontecendo. Só faltava mais um pouco...
- Eu estou aqui pra você!
- Eu sei. - ela suspirou sentimental, dava pra enxergar o carinho em seu olhar - Obrigada por isso. E obrigada de novo por ter me levado pra casa naquele dia, Sienna. Vocês são pessoas incríveis de verdade! - ela olhou com carinho pra Sienna, que no primeiro instante estranhou por ser pega de surpresa, mas logo um sorriso sincero surgiu.
- Não precisa agradecer, Alondra! - Sienna disse num tom suave.
- Eu sei, mas... Me perdoa, tá bem? - minha aluna coçou a cabeça de modo inquieto, assim como suas pernas que começaram a andar de um lado pro outro.
- Alo, já passou! Não precisa ficar se martirizando por isso! - respondi sincero.
- Eu sei, mas... Meu Deus, me perdoa! - ela pediu meio receosa, mas não era só isso. Seu olhar cheio de informações que me remetiam a uma grande agonia foi como um soco no meu estômago. Alondra não estava conseguindo guardar aquilo pra si mesma.
Olhei pra Sienna com um olhar significativo. Ela se afastou o bastante pra Alondra talvez se sentir mais confortável pra contar o que estava realmente acontecendo e o porquê dela ter ficado tão chateada assim.
- Alondra, o que aconteceu? Por que você está assim?
- Professor, desde aquele dia eu soube que você seria incapaz de fazer qualquer coisa com qualquer mulher. Você se preocupou comigo e disse que talvez o motorista do uber que eu pegasse tentaria se aproveitar de mim por estar um pouco bêbada e aquilo foi muito importante pra mim. Você é uma pessoa boa e eu sei que você quer ajudar, mas... Me perdoa, por favor! - ela estava prestes a chorar. Afogada em sua própria agonia que eu mal estava conseguindo analisar de tanta confusão.
- Alondra, não precisa disso! Não tem problema, eu juro, já passou! - reforcei, me aproximando com pequenos passos pra tentar pelo menos dar um abraço significativo na garota, mas ela não parava quieta, continuava se mexendo pra lá e pra cá.
- Não passou, você não entende! Eu só quero que você me perdoe, por favor! - era mais que agonia. Era um pedido completamente sem cabimento considerando que Alondra não me fez nada, mas era o que ela precisava. Alguma coisa séria estava rolando e eu precisava descobrir, mas por ora, precisava dar o máximo de alívio e conforto pra ela.
- Ok, ok... Eu te perdôo!

// //


nem mesmo estava prestando atenção no que eu falava. Ele estava com o notebook aberto mas sua atenção estava toda em seu celular. Eu estava há minutos tentando falar sobre algumas mudanças que eu queria fazer no café da minha mãe e da tia Ellie mas ele simplesmente murmurava concordando com tudo sem nem prestar atenção.
- E estou pensando também em te afogar na banheira mais tarde. O que você acha? - perguntei a primeira baboseira que veio em minha mente, só pra confirmar sua falta de atenção.
- Aham. - ele respondeu rapidamente, ainda prestando atenção em seu celular. Eu ri de nervoso.
- !!! - chamei sua atenção alto o bastante pra ele finalmente olhar pra mim - O que está acontecendo?
- Nada, é só que... Me desculpa, amor, mesmo.
- , é sério, o que está acontecendo? - arqueei as sobrancelhas, cobrando uma resposta de modo sério.
Oh... A paciência que esse homem me fez ter... E pra completar, Alaia me trouxe uma paciência que eu jamais pensei que teria. Me tornei mais paciente. Eles me tornaram. Desde sempre tentei respeitar ao máximo a privacidade de , seus limites... Somos melhores amigos, mas até melhores amigos às vezes precisam de um tempo pra se sentirem confortáveis o suficiente pra contarem algo. Há dias estava um pouco estranho, distraído demais e pensativo demais. Algo estava acontecendo.
- ... - meu noivo suspirou, olhando pra trás rapidamente onde nossa filha estava, brincando no seu cantinho da sala e em seguida seu olhar retornou pra mim - Tem uma coisa acontecendo.
- O que? Você está me traindo? - resolvi brincar pra descontrair, mas isso só resultou em engasgando sozinho.
- Meu Deus, não!!! Tá maluca, mulher?
- Brincadeirinha. - joguei as mãos pro alto, me rendendo e rindo - Mas então o que é?
- Algo no trabalho.
- Ok, e...?
- Alguns problemas estão rolando com certos alunos e é muito delicado. - respondeu sério. Completamente sério, de maneira que nem uma piadinha idiota pudesse quebrar o clima tenso que invadiu o momento no mesmo segundo. Mas não era só isso e eu sabia, conhecia muito bem seu olhar de quem não tinha contado tudo.
- Por que eu tenho a sensação de que você não está me contando tudo? - semicerrei os olhos de leve, calma e disposta a conversarmos bem devagar até ele se sentir mais seguro pra me contar o que estava, de fato, acontecendo.
- Porque eu não estou. Porque não posso. Não ainda. Eu confio em você, , você sabe, mas não me sinto nada confortável pra falar sobre isso ainda. Você entende?
A paciência, a compreensão... Esse é o sentimento que tenho buscado minha vida inteira, desde sempre. Me sentir segura em minha própria cabeça.
- Tudo bem, . Espero que tudo melhore.
Meu noivo sorriu, fechando o notebook e colocando o celular do lado, finalmente largando o aparelho. foi brincar com Alaia, e digo brincar mesmo. Sentar, pegar as bonecas ou as peças das casinhas que ela tem e brincar, afinando a voz e tudo. É claro, minha cabecinha pensou rápido. Por que não acalmar meu noivo com mais uma pegadinha?
Entrei na cozinha rapidamente, tirando meu anel de noivado e guardando no bolso do meu jeans. Liguei a torneira, lavando alguns copos que estavam na pia e logo em seguida berrei num falso desespero.
- ? - a voz de ainda estava distante.
- MEU DEUS!!! EU NÃO ACREDITO, MEU DEUS! - desliguei a torneira rapidamente e veio deslizando pelo chão por conta das meias em seus pés.
- O que aconteceu???
- Meu anel caiu! Ele caiu no ralo, ! - eu gritei desesperada, numa atuação digna de oscar.
- O que? Por que você tava lavando a louça com o seu anel? - os olhos arregalados e o tom indignado de quase me fizeram rir.
- Meu Deus, ele caiu!
Eu continuei choramingando enquanto tentava enxergar algo pelo cano da pia e eu andei de fininho até a mesa onde nossos celulares estavam, afinal, eu precisava gravar esse momento. Peguei meu celular e estava pronta pra começar a gravar, até o celular de se acender.

Vai ficar tudo bem, . Confia em mim.


Era de Sienna. estava trocando mensagens com Sienna.

// //


O amor é paciente. O amor é gentil.
O sinal tocou e como sempre todos saíram feito malucos pra fora da sala, menos Levi. Eu já sabia o que estava por vir e não estava afim. Soquei tudo de uma vez na minha bolsa, pronto pra sair dali o mais rápido possível e até mesmo comecei a andar até a porta, fingindo que a garota não estava ali, mas ela me acompanhou rápido feito um raio.
- Professor...
- Sim? - respirei bem fundo, parando de andar de imediato, faltando apenas alguns centímetros até a porta.
- Você tem alguma previsão de quando vai me passar as atividades extras? - ela perguntou baixinho, quase sem graça, mas eu sabia onde aquilo iria parar.
- Levi, eu não tenho tempo pra isso, então vou ser bem direto, ok? - passei a mão pelo meu rosto sem paciência - Eu sou seu professor e seu amigo. Pelo menos era. Eu não sei o que aconteceu, não sei porque você tá fazendo isso comigo, mas eu sei que você sabe que não é certo e muito menos justo. Eu sou homem e me sinto envergonhado por ter que estar falando disso porque é algo sério demais pra se brincar assim. Você é mulher, Levi, só você sabe o quanto sofre só por ser mulher e o quanto a luta de vocês é grande em relação à assédio. Você não pode brincar com isso! Eu não quero te assustar, não quero te intimidar, mas não vou aceitar mais esse seu comportamento. Já conversei com uma advogada sobre esse assunto e você não vai querer saber o que ela me falou, ou vai?
- Prof...
- Levi, eu sou seu amigo antes de tudo. Eu sinto raiva dessa situação, óbvio, mas não sinto raiva de você. Eu sei que tem um motivo pra isso, então a sinceridade e honestidade precisa ser a chave principal pra mudarmos essa situação horrorosa entre nós. Me diz, o que está acontecendo? - eu nunca fui tão sério na minha vida. Caralho, por um momento eu me assustei comigo mesmo. Não fui violento ou falei alto demais pra assustar a garota, mas óbvio que ela tinha entrado em choque. Desde a palavra "advogada", Levi pareceu travar de desespero.
- Professor, eu... Meu Deus... Eu... Eu sou horrível! - ela passou a gaguejar, completamente perdida.
- Bem, você claramente está chocada com a minha reação porque isso chegou até seu coração, isso significa que você ainda tem um, o que é um bom começo. - encarei a garota por longos segundos e algo aconteceu. Rolou de verdade. Ela estava mais do que chocada ou possivelmente amedrontada. A ficha dela finalmente tinha caído.
- Eu fui horrível com você. Com a Alondra. Com o Archie... - sua respiração passou a ficar completamente descompassada em questão de segundos. Ela me olhava com os olhos arregalados e as mãos nervosas passando pelos cabelos.
- Levi, calma!
- Você falou com uma advogada! - sua voz saiu num sussurro e seus olhos começaram a se encher.
- Levi, calma, eu não vou fazer nada, ok? Eu só quero entender. Quero que você pare de me chantagear. Eu quero te ajudar! - quem começou a se desesperar foi eu. A garota parecia estar tendo um ataque de pânico.
- Não tem como me ajudar e por isso eu fiz o que fiz. Eu sei, foi um erro, foi horrível, mas eu... Meu Deus, eu errei com todo mundo!
- Levi, você ainda tem como ajeitar as coisas, ok? Eu posso te ajudar. Eu não sei quem é Archie mas se você me contar a gente pode tentar resolver, assim como podemos tentar resolver as coisas com Alondra. Só fica calma, tá bem? Tá tudo certo. Eu sei que é difícil dar segundas chances e é ainda mais difícil pedir por elas, mas eu posso te ajudar.
- Não, professor, você não pode!

——


Pensar tanto no que tava acontecendo estava quase me deixando maluco.
- Talvez a gente deva só dar a festa, sabe? Sem aquilo tudo de igreja e a demora da noiva em chegar. - massageava o creme em seus braços, já de camisola sentada ao meu lado.
- Mas você não quer casar na igreja. Quer um casamento ao ar livre igual da sua mãe, não é? - questionei confuso.
Discutir sobre o casamento sempre rendia novas confusões hilárias e decisões tomadas pela metade.
- É, mas sei lá... Se Glenn pedisse em noivado a gente poderia ter um casamento duplo também, o que você acha? - ela me encarou sério por um segundo mas logo em seguida explodiu em risadas e eu também.
- Nem fudendo!
A gente continuou rindo e puxei minha noiva pra mim, a fazendo sentar no meu colo. tem isso, tem esse poder de me acalmar e me ajudar mesmo sem saber. Seu senso de humor me salva de qualquer tipo de tédio. Eu realmente sou sortudo.

DIA SEGUINTE...


Acho que Morgan nunca tinha falado comigo tão sério. Ela simplesmente me chamou até sua sala e eu passei a acompanhá-la sem dar um pio, como se estivesse evitando de ganhar um castigo da minha mãe ou algo assim. A mulher tinha sido séria mesmo, grossa até. Ela abriu a porta e entrou primeiro e eu quase caí pra trás quando vi Levi sentada em uma das cadeiras.
Puta. Que. Pariu.
A garota tinha feito algo. Caralho.
- Professor , se sente, por favor. - Morgan pediu, se sentando também. Levi me encarou com o olhar nada satisfatório ou de quem estava se sentindo vitoriosa com aquilo, muito pelo contrário. Seu olhar pedia socorro e mais uma porrada de coisas. Morgan limpou a garganta, dando um longo suspiro - Olha, eu vou ser direta. Pra ser sincera, eu nem mesmo consigo cogitar a possibilidade disso ser verdade, mas não posso fingir que não recebi uma ligação anônima dizendo que você, , anda tendo atitudes de um belo cafajeste como estar assediando a aluna Levi Warren.
Fodeu. Simplesmente fodeu. Meu corpo gelou.
- O QUE? - eu gritei indignado, assustado, sentindo tudo de ruim ao mesmo tempo e minha alma com certeza já tinha ido embora no primeiro segundo.
- Meu Deus do céu, o que??? Diretora, isso é ridículo! - Levi se levantou completamente indignada, me chocando mais ainda. Aquilo não era uma armação dela - O professor nunca fez nada comigo! Puta que pariu, como alguém tem a coragem de fazer isso envolvendo o nome de um professor que faz de tudo pelos alunos?
- Levi, calma! - Morgan pediu levemente nervosa com a situação - Então você está me dizendo que isso tudo não passa de uma invenção?
- ÓBVIO! - nós dois respondemos em coro.
- Morgan, eu não sei o que a pessoa que fez essa ligação anônima quer, mas eu posso te garantir que eu nunca faria nada sujo com qualquer aluna minha ou qualquer outra pessoa! Eu não sou esse tipo de homem e eu sei que hoje em dia é muito importante acreditar em mulheres nesse tipo de caso, mas eu não fiz nada disso! - eu fui sério e claro. Honesto acima de tudo. O assunto mais delicado e a situação mais estreita da minha vida e parecia que algo estava sendo jogado em cima de mim, mas eu estava sendo honesto.
- Não mesmo! Diretora, eu juro, nada nunca aconteceu, sempre foi um professor muito profissional e ao mesmo tempo sempre tentou ser um amigo pra todos os alunos, mas nunca passou disso! Nunca! Eu não sou uma vítima! Quem fez essa ligação simplesmente enlouqueceu! - Levi continuou esbravejando num tom indignado e aquilo apertava meu peito ainda mais. Era confuso mas estava claro ao mesmo tempo o que estava acontecendo: ela não tinha feito aquilo mas alguém fez.
- Eu já entendi! - Morgan suspirou - Meu Deus, que loucura... Bem, eu queria falar com vocês dois primeiro pra ter respostas sobre essa ligação horrível e eu posso estar errada, afinal, uma pessoa que comete esse tipo de abuso não tem uma confissão escrita na testa, mas eu realmente acredito em vocês dois. Em primeiro lugar eu tinha pensado em chamar os pais da aluna primeiro, mas eu preferi falar com vocês antes de tudo. Eu não quero que essa conversa se espalhe por aí de jeito nenhum, estão me ouvindo bem? Não falei sobre isso com ninguém e se eu ouvir qualquer boato sobre esse assunto pelos corredores, todo mundo aqui vai sair prejudicado, estão me entendendo?
- Sim, claro, só que mais uma vez eu quero dizer que não fiz nada disso! Eu não sei porque alguém quis ferrar tanto comigo e com uma aluna que sempre foi boa aqui, mas eu nunca cruzei nenhuma linha aqui. Eu tenho uma família, sei me colocar no meu lugar e sei estabelecer limites. Nada nunca aconteceu, Morgan. Uma acusação dessa é algo muito sério! - me manifestei novamente, mais sério ainda. Não dei brecha pra uma possível desconfiança. Eu estava nervoso, óbvio, mas eu não podia depender só da defesa de uma adolescente. Porra, eu realmente não fiz nada!
- Eu sei, , eu sei. Talvez tenha sido um trote, uma pegadinha... Esse lugar testa minha paciência e meus limites todos os dias. Estou confiando em vocês e vou ficar de olho. Levi, se qualquer coisa...
- Morgan, pelo amor de Deus, eu não sou uma vítima! nunca me fez nada! - Levi a interrompeu ainda nervosa. A garota escondia as mãos mas elas estavam tremendo. Ela evitava o contato visual comigo mas em sua voz estava tudo o que eu precisava pra ter certeza que algo muito errado estava acontecendo.
A minha cabeça pesou em gerar um alarme grande, vermelho e barulhento em volta de dois nomes: Vince e Sienna.

// //


- , estou indo pro hospital, te encontro lá... Eu acho.
Deixei uma mensagem na caixa postal mesmo sabendo que ele nunca ouve. Mandei um milhão de mensagens e em seguida pisei no acelerador o mais rápido possível.
Recebi uma ligação quarenta minutos antes do horário de saída de Alaia da creche, a secretária disse que ela passou a sentir febre e vomitar de repente e meu coração quase parou. Pra piorar, estava com o carro, ou seja, mais uma vez eu estava com o carro de .
Retirei minha filha com cuidado da cadeirinha, a abraçando com delicadeza enquanto entrávamos na recepção.

DUAS HORAS DEPOIS...


Ele havia sumido. Eu já estava prestes a arrancar todos os cabelos da minha cabeça de tanto nervoso. Deu tempo de passarmos com o pediatra - que diagnosticou como virose - e voltarmos pra casa e nada de . Depois de um banho fresquinho e uma comida leve, me partiu o coração ter que sair novamente com Alaia, mas eu precisava saber onde estava. Ninguém some assim por duas horas. Não ele.
Passei em frente à Harkerside e nada, o estacionamento estava vazio. Leon não tinha o visto e meu pai também não. Agradeci aos céus por ter uma vaga na rua mesmo e em frente ao café da minha mãe e da minha tia e estacionei, saindo com pressa também. Alaia é apaixonada por rua, ou seja, mesmo doente ela aproveita cada saidinha.
Entrei com pressa e derrotada, me sentando no primeiro lugar vazio que encontrei. Mandei mais umas trinta mensagens pra e nenhuma delas foi respondida. Bufei de nervoso, entregando o ursinho rosa que Alaia carregava pra todo canto junto com a chupeta que ela mal usava, inclusive, estava até mordendo o bico da mesma.
- ! - Willa apareceu simpática ao lado da mesa - Leah e Ellie estão numa reunião no escritório com um fornecedor. - ela avisou cheia de carinho porque sabia que minha mãe quase sempre arranjava um tempinho pra conversar comigo quando eu ia até o café - Mas você vai querer alguma coisa? Acho que eles não vão demorar muito.
- Cookie!!! - Alaia se manifestou rápido, com uma carinha sapeca e eu neguei com a cabeça de imediato.
- Nada disso, mocinha! Não vou te dar uma besteira dessa sendo que tem duas horas que o doutor disse que você pegou uma virose!
- , isso é sério? - Willa perguntou preocupada.
- É sim, Willa, e... Meu Deus, por acaso o passou por aqui? Eu tô procurando ele feito uma maluca!
- Ele não passou por aqui, .
- Oi, boa noite! - a voz de Dorothy veio se aproximando e eu quis sumir de vez. Eu já estava nervosa o suficiente.
- Boa noite, senhora, deseja alguma coisa? - Willa perguntou com uma falsa animação.
- Só um chá de maçã bem forte, por favor. - Dorothy pediu plena, observando os passos de Willa até a garota ficar longe o bastante e se virar novamente pra mim - , tá tudo bem? Me perdoa, mas acabei ouvindo o que você disse e ... Sumiu?
- Dorothy, me desculpa, mas não estou com muita cabeça pra conversa e...
- Eu sei, eu imagino, mas... - ela se sentou sem nem mesmo ser convidada, se fazendo muito confortável na cadeira - Me desculpa, eu não quero criar um caso, mas acho que talvez Sienna possa saber onde ele está.
- O que? - franzi a testa imediatamente em confusão.
- , você não sabe? - ela teve a mesma reação: testa franzida e uma confusão real em sua voz.
- Do que?
- Olha, Sienna não me explicou muito bem, mas parece que a procurou pra resolver algumas questões e eles tem se falado bastante esses dias e... Você não sabia? - Dorothy reforçou a pergunta, surpresa de verdade por ver que eu não fazia ideia do que ela estava falando.
- Dorothy, eu sei que você não gosta do , então não precisa fazer isso. - comecei a balançar a cabeça negativamente, entrando em estado de negação porque aquilo poderia facilmente ser uma forma da mulher de tentar ferrar .
- , calma! Eu jamais faria isso! Você tem razão, eu não gostava muito do , mas muito tempo se passou e não tem porque eu não gostar dele agora. Só estou comentando com você o que minha filha comentou comigo. Me desculpa, eu não queria passar essa impressão de que...
- Você sabe o que eles conversaram? - ok, foda-se, eu estava entregue àquilo. Já tinha entrado na minha mente e eu estava convencida. Se for mentira, Dorothy é uma baita atriz.
- Me desculpa, eu não sei. Mas olha, posso ligar pra Sienna agora mesmo e perguntar se ela sabe de algo, pode ser?
- Pode.
Eu me rendi. Eu senti minhas pernas bambas e por um segundo pensei que fosse deixar Alaia deslizar do meu colo.
- Alô? Filha, tudo bem? Você está em casa? - a cara de paisagem de Dorothy me levou ao extremo do nervoso pela milésima vez no dia mas me controlei - Mas está sozinha? - aquela pergunta me embrulhou o estômago, como se algo realmente pudesse chegar e me destruir. A resposta nem tinha chegado e eu já estava suando frio.
- E aí? - verbalizei sem som, apressando a mulher de uma vez, que estava com a boca levemente aberta e foi aí que meu coração quase parou de vez pela segunda vez no dia. Dorothy tirou o aparelho do ouvido e apertou na opção do viva voz.
- Sienna, minha filha, desculpa, a ligação cortou. Você tá sozinha? - seu olhar deixava óbvio que aquilo era só uma desculpa pra filha repetir o que tinha dito.
- estava aqui, mas já foi embora. Não faz muito tempo. - Sienna respondeu.
E foi tudo pra puta que pariu. Meu coração já tinha descido três órgãos pra baixo, eu já nem sabia como se respirava mais e minha filha era a única coisa que continuava firme em mim.
- Ok, eu só queria saber. Acho que vou passar aí daqui a pouco pra jantarmos juntas, pode ser?
Eu me levantei com raiva, ajeitando minha filha no meu colo e observando a mulher ainda sentada com uma expressão inexplicável.
- Meu Deus. - foi só o que eu consegui dizer, completamente chocada.
- De nada, . Agora o resto é com você. - Dorothy não foi cínica ou algo do tipo, ela só foi... A Dorothy.
nunca me deu motivos pra que eu me sentisse insegura ou nada do tipo, mas certas coisas mudarem justo agora que Sienna apareceu? Por Deus. Ele sabe que eu passei a vida inteira tentando manter essa parte de mim afastada. Essa parte insegura, que abraça culpas e dores que não são minhas. Mas agora é real. O que mais estaria fazendo com Sienna?
Talvez esse meu lado tenha envenenado tudo.
costumava acelerar o carro quando estava nervoso. Lembro de todas as vezes que precisei pedir pra ele parar enquanto trabalhávamos juntos. Eu sou o contrário. Acho que nunca dirigi tão devagar na minha vida e talvez alguém tenha me xingado durante o trajeto mas nem mesmo percebi, minha cabeça estava ocupada demais. Assim que entrei no elevador com a minha filha pra subirmos para o nosso apartamento, foram minhas últimas chances pra pensar em como agir.
Se eu chegar irritada, batendo tudo e assustando a minha própria filha, vou ser histérica. Se chegar emocionada - na força da raiva - vou ser fraca. Se chegar gritando, serei uma estúpida.
Respirei fundo, abrindo a porta e entrando normalmente, sem berrar, destruir ou chutar nada. apareceu rapidamente.
- Meu Deus, me desculpa! O que ela tem? - ele estendeu os braços rapidamente, pegando Alaia no colo e com um olhar tenso e o tom de voz cheio de desespero.
- Virose. - respondi seca, pegando Alaia do colo de sem disfarçar minha chateação. Seria demais ter que ignorar até isso.
- ... Me perdoa de verdade. Eu não ouvi o celular tocando e nem vi nenhuma mensagem, eu... Me perdoa!
Respirei fundo. Bem fundo mesmo. Andei até o cercadinho de brinquedos de Alaia e a coloquei sentada ali, sabendo que a distração era garantida e eu teria bons minutos pra saber que merda tinha acontecido.
- , tudo bem. - fingi, engolindo minha raiva por certo tempo pra ver até onde aquilo iria.
- , é sério!
- Eu sei.
- Eu só... Meu Deus, tem tanta coisa acontecendo e... Eu tô sendo péssimo em tudo. Me perdoa! - a sessão de desculpas havia começado.
Eu já estava quase esmurrando ele de verdade. Minha vontade era de esganar ele inteirinho. Eu estava dando corda pra ele se enforcar e já tinha obtido todas as minhas respostas. Ele só estava pedindo perdão mas ainda se recusava a dizer onde estava, com quem estava e o que estava fazendo.
- Eu só vou te perdoar se você me contar que merda você estava fazendo na casa da Sienna. - me virei com toda a fúria do mundo, vendo a expressão de ir à um desespero imediato.
- , olha...
- Você poderia ter dito isso no primeiro segundo em que eu entrei por aquela porta, mas não, você só está aí pedindo perdão sem parar e me fazendo de idiota. Nossa filha tava no hospital e você não atendeu a porra do celular porque tava com a sua ex! Não tem motivo nenhum no mundo que justifique isso, . Há quanto tempo você tá mentindo pra mim, hein? - eu já nem tinha mais controle do meu tom de voz. Eu estava praticamente gritando de tanta raiva.
- Eu não menti pra você, por Deus, eu...
- Você só esqueceu de me avisar, não é? - retruquei irônica.
- , não é assim que a gente resolve as coisas. Você é melhor do que isso, você me ensinou a ser melhor do que isso! Por favor, me deixa explicar tudo direito, não é o que você tá pensando, eu não estava te traindo com a Sienna, eu só...
- Vai pro inferno, ! Seja qual for o motivo, você escondeu de mim. Você estava com ela, não comigo. Se você não estava me traindo, estava fazendo o que de tão importante que não podia nem mesmo me contar que estava trocando mensagens com ela de novo e tendo encontros? Traição não é só beijo e sexo, ! - continuei respondendo num tom alto e cheio de raiva, enquanto ele tentava se aproximar. Um lado mais racional meu tentava ganhar força, mas minha indignação não me dava chances de levar a conversa de um jeito menos maluco.
- Eu precisei de ajuda! - respondeu mais alto ainda, praticamente berrando e me olhando assustado, como se estivesse se esforçando pra acompanhar o meu pensamento energizado e cheio de raiva pra tentar arranjar alguma forma de ganhar espaço pra falar.
- Viu só?! - mais uma vez, retruquei indignada e cheia de ironia.
- Ajuda profissional, . Precisei dos trabalhos dela como advogada!
Aquilo arrancou todo o ar do meu peito. Tudo pareceu ter ido pro chão.
- O que? - minha voz saiu num sussurro.
- Eu não te traí. Eu só... Me perdoa. Eu estava muito envergonhado pra contar e... - a voz de saiu raspando e aquilo foi o ápice pra mim. Todas as minhas inseguranças, raiva, más lembranças de quando ainda tínhamos uma péssima comunicação e confiança pareciam estar me dando uma surra.
- Chega! Eu vou sair daqui. Vou dormir na casa dos meus pais. - me virei em direção ao quarto, entrando no mesmo furiosa.
- , não! - foi rápido em se colocar na frente da cômoda de roupas que eu estava prestes a abrir. Nos encaramos nervosos por longos segundos.
- Ou eu saio ou você sai! Eu não estou aguentando olhar pra sua cara, , então por favor, não me faça te bater, porque isso é tudo o que eu quero agora! - eu apertei meus olhos, torcendo mentalmente pra que tudo não passasse de um pesadelo quando os abrisse, mas não aconteceu, porque era real. Estava tudo borbulhando de tanta tensão, raiva e gritos e eu precisava passar por isso. Era real.
- Tudo bem, eu entendo, eu vou! Por favor, esfria a cabeça pra gente poder conversar amanhã, pode ser? - ele pediu com a voz fraca, como se tivesse perdido uma coisa maior. Aquilo me doeu em todos os sentidos.
- Você é a pessoa que odeia falta de comunicação, . Eu quero sentir a raiva que eu estou sentindo em paz. Eu quero que você suma logo da minha frente pra eu poder ficar furiosa em paz.

Capítulo 6

// //


A sala do andar de cima da casa de Glenn era muito confortável. Bem espaçosa, com uma decoração simples porém bem a cara dele e uns toques da também.
- E como você tá se sentindo com isso? Digo, vocês são praticamente casados e o que aconteceu foi... Bem, foi a primeira vez que você expulsou ele de casa, não foi? - Adam tentava encontrar as palavras certas e quase riu.
Bizarro e doloroso, mas eu tinha pessoas incríveis ao meu lado que sabiam balancear o momento. Eu não imaginei estar contando tudo pro Adam, mas também não imaginei que minha relação com capotasse desse jeito, então apenas contei, ele estava aqui quando cheguei com Alaia e eu jamais pediria pra ele se afastar ou ir pra outro cômodo só pra conversar com .
- Sim, foi a primeira vez. - me permiti rir. Olhei pra trás, vendo Glenn sentado no piano com Alaia, que batia no mesmo, causando sons que assustariam o bairro inteiro.
- Ok, preciso dizer algo. - deu um longo suspiro, se ajeitando no sofá - está chegando aqui. Eu sei, você precisa do seu tempo e ele também sabe disso, mas ele está literalmente desesperado e... ... - ela jogou a cabeça pro lado, um pouquinho insegura porém me dando um olhar óbvio.
Eu entendia. Claro que entendia. Ela sempre ajudaria o também.
- Eu sei, , eu entendo. - dei um suspiro longo também, me esparramando um pouco no sofá.
Minha melhor amiga olhou pro celular e se levantou, encarando Adam até ele entender e fazer o mesmo. Glenn se levantou também de frente do piano com Alaia no colo, dizendo que desceria com ela pra deixar nós dois mais à vontade. Meu coração acelerou de uma maneira diferente, como se eu fosse ver pela primeira vez de novo e como se estivéssemos há anos separados, mas não. Apenas dois dias se passaram. Os dois dias mais confusos da nossa relação.
Todos desceram e meu coração quase parou de vez assim que o vi.
- O que aconteceu com você??? - eu praticamente voei até ele, ainda no último degrau da escada, analisando seu rosto e confirmando o que eu tinha visto de longe. Havia um pequeno machucado perto da sua sobrancelha esquerda e um hematoma avermelhado um pouco mais pra baixo, perto do olho. Oficialmente o rosto de quem havia brigado.
- Briga de bar. - respondeu sem emoção, sem conseguir me encarar.
- O quê? - questionei chocada, segurando delicadamente em seu rosto mas ele apenas subiu o último degrau e deu pequenos passos pela sala, me afastando de leve de maneira envergonhada. - Eu sei, é ridículo, mas sim, eu fui pra um bar pra tentar não enlouquecer com tudo o que aconteceu e... Aconteceu uma briga, . - ele respondeu com a voz cheia de informação. Tristeza, raiva, ansiedade. Eu o conhecia.
- , tudo bem, eu entendo... - o encarei por alguns segundos e respirei fundo. Todos os meus músculos queriam se mover pra abraçar ele e encher sua boca de beijos. Dois dias parecia muito tempo.
- E eu que comecei a briga. - ele revelou de repente, me olhando sério.
Eu abri a boca algumas vezes mas nada saiu. Foi como levar uma paulada na cabeça: veio com tudo. Digo, a informação. O olhar dele, a voz... Não é a primeira vez que ele faz isso.
- Nós realmente mudamos? Ainda somos as pessoas inseguras e até burras que éramos quando fazíamos parte da gangue? É o que parece! - apertei os olhos enquanto disparava num estresse contido, afinal, eu não queria parecer uma maluca, mas aquilo doeu na minha alma.
- ... - ele quem tentou se aproximar e eu quem dei um passo pra trás, indignada pra caralho.
- Você tem uma família! Você tem uma filha que precisa de você! Precisava mesmo brigar em um bar pra se punir?
- , eu penso na Alaia todo dia, em tudo o que faço. Eu me tornei um homem apavorado desde o dia em que ela nasceu porque porra, eu sou pai, eu sou responsável pela educação e aprendizagem de uma pessoa! Me desculpa, eu realmente fiz uma coisa estúpida sem pensar, mas era o que eu precisava no momento, assim como eu precisava desesperadamente falar com você agora. Tem dois dias, ! Somos melhores que isso, pelo amor de Deus! - era notável há quilômetros de distância a dor na voz de .
- Você vai me contar toda a verdade agora porque chegamos nessa situação, . - aquilo saiu da minha boca da maneira mais dolorosa possível. Infelizmente era verdade.
- É, e eu deveria ter contado antes, mas não posso voltar no tempo. - ele suspirou - , eu quis te contar sobre isso todos os dias. Não foi falta de confiança nem nada, eu só... Puta que pariu! - me abraçou sem aviso prévio. O abraço mais desesperado, emocionado e sofrido.
Estávamos prestes a desmoronar?

// //


Dois dias atrás, fui furioso até a casa do Vince e ele foi completamente sensato e coerente. Não tinha como ser ele. Então eu surtei com Sienna, afinal, só restava ela, mas não, também não. E então me chutou pra fora de casa.
Dois dias sem ter nenhuma resposta que faça sentido mas a verdade foi dita. Finalmente.
chorou de um jeito que eu nunca tinha visto. Ela tentou juntar palavras e formar uma frase inteira, mas não conseguiu. Me pediu mais um tempo, desceu as escadas, pegou nossa filha e foi embora.
Eu podia culpar alguém além de mim mesmo? Podia até mesmo tentar culpar Dorothy? Não, claro que não. Claro, o que ela fez foi fodido demais - mesmo depois de ter surtado com ela, Sienna me mandou mensagem explicando o que a mãe tinha feito - mas não foi inteiramente culpa dela. A falta de comunicação veio de mim primeiro e óbvio que a bendita usaria a informação pra tentar me queimar. Enfim, foda-se, essa é a minha última preocupação no momento.
Eu estava chegando no hotel, não tive coragem de pedir pra ficar na casa de algum amigo porque a situação já era triste e humilhante o bastante e dormir no sofá de alguém poderia me deixar pior. Meu celular vibrou com uma nova mensagem.

Acho que sei quem fez a ligação anônima. Se puder, passe aqui em casa ou podemos conversar no colégio amanhã. Você decide.


Era Sienna. Eu não falava com ela há dois dias desde quando surtei com ela, mas ainda assim ela me mandou mensagem pra avisar sobre o que Dorothy tinha feito e agora sobre isso.
Meu coração apertou. Não queria sentir a sensação de estar escondendo algo de de novo mas agora as coisas estavam mais sérias. Talvez Sienna realmente possa me ajudar com isso apesar de tudo. Ou não. Talvez eu deva simplesmente parar com isso tudo e me virar sozinho sem ela. Talvez. Sim ou não?
Foda-se. Já está tudo fodido.
Acelerei até o apartamento de Sienna. Minha entrada foi liberada e eu subi, tocando sua campainha.
- Ei! - Sienna abriu a porta com uma animação que de imediato eu achei estranha pra caralho mas a coisa ficou um pouco mais clara assim que notei a taça de vinho em suas mãos. Um taça lotada de vinho. O cabelo um pouco bagunçado e um pijama engraçado deixou a coisa levemente descontraída mas ainda assim era estranho vê-la nesse estado pra falar de algo tão sério - Olha, eu pensei em tentar marcar um encontro porque não quero causar mais problemas, mas eu pensei muito e cheguei à conclusão que...
- Sienna, você está bem? - interrompi sua fala com os olhos cerrados. Eu ainda estava pra fora do seu apartamento enquanto ela se encostava na porta, deixando óbvio que a conversa seria rápida a ponto de nem precisar entrar, mesmo sendo um assunto sério.
- Sim. É que comecei a beber e seria muito irresponsável marcar um encontro fora porque eu provavelmente bateria o carro, não é? E bem, só estou sentindo pena de mim mesma enquanto bebo sozinha e eu precisava te falar isso porque eu pensei muito esses dias e eu não queria deixar pra amanhã porque provavelmente não vou querer ver ou ouvir ninguém, então... - ela deu um longo gole no vinho - Eu acho que foi Alondra, a sua aluna!
- O que?
- É, ! Naquele dia no corredor ela estava desesperada te pedindo desculpas por algo e...
- E naquele mesmo momento ela disse que tinha percebido que eu nunca faria nada contra uma mulher. Não pode ter sido ela, Sienna! - interrompi ela completamente assustado em ver até onde ela tinha pensado até acusar uma aluna minha que também tem dezessete anos.
- Ok, mas ela contou pra alguém então! - Sienna defendeu seu argumento com firmeza, ou pelo menos tentou. Já estava um pouco bêbada.
- Mas ela não sabia o que estava acontecendo. Levi não deve ter contado pra ela, as duas estão brigadas! Não tem sentido, Sienna! - minha testa franzida denunciava minha indignação e negação.
- , aquelas desculpas vieram de algum lugar! - ela respondeu convicta, e embora a voz estivesse levemente embargada pelo álcool, ela conseguiu ser firme no que disse em cada palavrinha. Ela acreditava naquilo mesmo e não era o álcool falando.
- Eu vou descobrir quem foi! - dei um longo suspiro pesado, me sentindo exausto pela conversa. Minha mente parecia estar brigando consigo mesma. Sienna me encarava com um olhar de pena, e deu mais um super gole no vinho antes de falar.
- Se você precisar de ajuda, estou aqui. Não sei como você tá ou como reagiu, mas se você precisar de qualquer coisa, estou aqui.
- Se cuida, Sienna. Bebe esse vinho no seu quarto pra qualquer coisa você só deitar na sua cama e pronto. Vai ser muito desconfortável se você beber a ponto de dormir no chão da sala ou sei lá. - aconselhei carinhoso. Ela queria ajudar, eu sabia que sim. Sienna encostou o rosto da porta de modo cansado mas com o olhar atento, o olhar de quem me dizia que sentiu o carinho das minhas palavras.
- Vou fazer isso.
- Obrigada por ainda querer me ajudar, Sienna. Boa noite! - sorri fraco, dando as costas, pronto pra pegar o elevador novamente.
- ! - ela me chamou com a voz falha e eu virei no mesmo instante, encontrando ela me olhando de maneira diferente. Com carinho, muito carinho mesmo - Eu não sei exatamente como foi pra você, mas quando a gente terminou, eu fiquei muito perdida. Eu nunca pensei que pudesse te encontrar de novo sem meu coração doer. Eu nunca quis que você pensasse que nosso relacionamento era algo morno que só estava se arrastando por algo que não era. Acho que fui muito dura com você.
- Por que você tá falando sobre isso agora? - eu refiz todos os meus passos de volta pra ela. Não era um jogo, eu sabia que não, mas parecia irreal.
- Porque estou um pouco bêbada e porque eu precisava falar disso uma hora ou outra. E porque eu realmente fiquei chocada de um jeito bom em ver como você está bem com essa vida nova que você tem aqui com e Alaia.
- Sienna...
- Eu não sinto mais nada por você em um sentido romântico, só pra deixar claro. - ela gargalhou fraco - E nem fiquei pensando no "e se..." porque isso é martírio e eu não me odeio a esse ponto - ela riu de novo - Mas... Sei lá... Eu acho que fiquei com um pouquinho de inveja. Queria ter tido essa sorte. - a voz da mulher se tremeu um pouco e eu arregalei os olhos, apavorado assim que notei que aquilo era o provável começo de um choro.
- Mas...
- Vou entrar, . Tenho mais umas duas garrafas de vinho pra beber. Boa noite!

——


A escola era um dos meus lugares favoritos e agora parece ser só mais um lugar que me sufoca de todas as maneiras. O último sinal tocado me permitiu respirar novamente. Alondra e Levi estavam matando as minhas aulas há três dias. Cheguei a ver as duas conversando no corredor mais cedo e eu ainda estou incerto se isso é bom ou ruim.
Simplesmente fodido da cabeça.
Arrumei minhas coisas com pressa e saí com a mesma pressa dos alunos. Eu só não contava com na saída da Harkerside, mais especificamente no estacionamento. Minha alma saiu do corpo por um momento. Ela observava a multidão com atenção e eu fiquei ali parado, sem saber o que sentir, até que eu senti até demais. Um pânico enorme.
foi em direção à Levi assim que a encontrou no meio de toda aquela gente.
Com passos longos e rápidos, andei até elas. tinha acabado de entregar um pedaço de papel pra garota, que parecia chocada. Alondra veio se aproximando com pressa também, ficando ao lado de Levi.
- ... É... Ele não fez nada! Ele nunca fez. Meu Deus, eu sou horrível por fazer você achar que está se humilhando e ainda tentando me ajudar, mas nem nem ninguém fez nada comigo. Eu só tive essa ideia estúpida e nojenta e... Me perdoa, tá bom? - Levi mal conseguia dialogar de tão nervosa.
- O que está acontecendo? - perguntei desesperado.
- Eu só... Eu não queria parecer uma dessas mulheres que só acredita no marido porque ela jura que conhece ele, e... meu Deus... - virou o olhar pra mim - , eu acreditei em você, eu juro que acreditei, mas eu não podia deixar de pensar que talvez eu não devesse, entende? Eu sou mulher, temos uma filha mulher e vemos casos assim quase todo dia e... Eu só queria estar do lado certo! - a voz da minha noiva foi enfraquecendo e por um momento pensei que ela fosse desmaiar ou sei lá, mas ela se manteve firme. Ela engoliu o próprio choro e continuou a encarar as duas meninas completamente sem jeito, mas ao mesmo tempo era como se ela quisesse passar alguma mensagem pelo olhar.
- Não tem lado pra escolher. não fez nada. Meu Deus, eu... - Levi olhava pra Alondra desesperada, claramente buscando alguém pra se apoiar. A garota gaguejava totalmente sem jeito.
- Ei, melhor a gente ir, . - eu sugeri baixinho e assentiu positivamente no mesmo segundo com um olhar de desespero, como se me pedisse socorro pra sair dali.
As duas garotas seguiram a direção oposta da nossa. Guiei com a mão em sua cintura até nosso carro, mas ela ainda parecia estar em estado de choque.
- Eu vim com o carro da .
- Você não parece muito bem pra dirigir agora, .
- ... - ela disse meu nome com a voz chorosa, prestes a desabar. Segurei em suas mãos, destravando o carro e ajudando ela a entrar no mesmo.
- Calma, tá tudo bem!
- Eu dei o meu número pra ela! Eu tava tão desesperada e eu simplesmente só queria que ela se sentisse confortável pra me contar a verdade mas eu não sabia como fazer isso sem parecer uma maluca. Eu nem pensei, só vim aqui, anotei meu número num papel, entreguei pra ela enquanto tagarelava loucamente sobre como eu sei que é importante mulheres apoiarem mulheres e...
- ...
- Eu sei que ela disse a verdade, eu senti no fundo do meu coração, mas... Como a gente passa por isso, ? Isso foi... Destruidor! - ela começou a chorar de vez.

——


me pediu pra voltar pra casa. Alaia estava com e Glenn e eu tentei deixar o clima menos tenso, mas nada parecia bom o bastante. Não parecia certo irmos pra casa dos meus sogros, não parecia certo irmos comer onde costumávamos comer quando ainda fazíamos as rondas juntos. Nada parecia certo, então apenas buscamos nossa filha e fomos pra casa.
E doeu. Parece que alguma coisa foi tirada de nós e eu sabia que sentia o mesmo.
- Preciso te contar uma coisa. - falei de uma vez, sem pensar muito. Tínhamos acabado de entrar no apartamento e já tinha parado de chorar, mas o nariz inchado e avermelhado continuava ali.
- Essa coisa vai me fazer morrer do coração? Porque eu juro que tô quase! - bem, ali estava ela! Eu sorri de imediato só de ouvir sua voz num humor mais elevado do que estava há minutos atrás. Chorar sempre deixava menos pior.
- É sobre a Sienna.
- Chama a ambulância! - ela colocou a mão no peito de modo dramático e Alaia, que estava andando pela sala sem parar, riu da mãe. A gargalhada mais gostosa de toda a vida.
- ! - fingi chamar sua atenção de modo sério. Alaia continuou andando de um canto pra o outro enquanto chutava um ursinho pelo chão.
- Ok, fala.
- Ela me pediu pra ir no apartamento dela ontem e quando cheguei lá ela explicou que só pediu pra eu ir lá porque ela estava bebendo. E estava mesmo, sabe, tava um pouquinho bêbada e queria falar logo antes de ficar louca pelo álcool. Eu achei um pouco engraçado porque foi honesto. Ela disse que pensou e pensou e que acha que quem fez a tal ligação anônima foi a Alondra.
- Que? - teve exatamente a mesma reação que eu tive.
- Porque um dia ela estava na escola e enquanto andávamos pelo corredor vimos Alondra saindo de fininho, ela estava matando aula como sempre, e assim que comecei a conversar com ela, a garota foi pirando. Começou a me pedir desculpas descontroladamente e Sienna viu tudo e acha que pode ter sido ela, mas... Sei lá, Levi e Alondra estavam brigadas e...
- , nada nessa história toda faz muito sentido e eu sei que parece absurdo duvidar de uma pessoa que nem mesmo tinha muito envolvimento com a história, mas não acho que dá pra descartar as chances assim tão fácil. Alguém quis te prejudicar. - foi cautelosa nas palavras. Me doeu ver aquela pontinha de humor dela ir embora por conta do assunto sério, mas eu não queria mais nenhum segredo entre nós.
- Meu Deus, que porra tá acontecendo? Eu não entendo! - xinguei puto da vida, porque de fato, que porra tá acontecendo?
- Eu também não, mas... - o celular da começou a tocar e ela o atendeu rapidamente - Alô?
As expressões de foram como uma montanha russa.
- Quem é? - sussurrei curioso enquanto a testa dela se franzia e se movia a cada palavra que aparentemente ela ouvia. Ela afastou o telefone do ouvido e sussurrou mais confusa que nunca:
- Levi e Alondra. Elas querem... Vir aqui.

// //


Acho que nunca ficamos tão sem jeito com visitas como ficamos assim que as garotas entraram. Simplesmente estranho pra caramba. Simplesmente do nada.
Ok, eu passei meu número, mas não pensei que receberia de fato uma ligação e tão rápido assim, e ainda mais pedindo pra nos encontrar.
- Oi gente. - Levi parecia estar num campo minado quando entrou. A garota nem mesmo disfarçou, observou cada cantinho da nossa sala e Alondra deu uma cotovelada de leve na amiga.
Amiga? Elas ainda são amigas mesmo? Elas estavam brigadas e... Pelo amor de Deus!
- É... Sentem, fiquem à vontade! - tentou quebrar o clima bizarro que pairava no ar e as meninas se sentaram rapidamente.
- Meu Deus, ela é muito fofa! - Alondra sussurrou olhando pra Alaia, que ainda estava na saga de chutar o ursinho enquanto agora pegava algumas bonecas e carrinhos também da sua caixa de brinquedos, mas agora ela estava dentro do seu cercadinho.
- Você quer... Segurar ela ou sei lá? - ofereci apreensiva, totalmente incerta. A garota pareceu ter se iluminado, dando um sorriso genuíno ao me ouvir, balançando a cabeça positivamente de imediato.
Busquei Alaia no seu cercadinho de brinquedos - trazendo o ursinho junto, óbvio - e a entreguei pra Alondra. Alaia é uma criança completamente sociável e se da bem com todo mundo. Ela pareceu ter se encantado com o colar em formato de lua que a garota usava de imediato.
- É a lua? - minha filha perguntou com a sua voz adorável.
- É sim, olha só! - Alondra tirou o colar, o colocando na mão de Alaia, que sorriu largo pra garota.
Levi observava a cena assim como , mas suas mãos tremiam. E eu sei, eu deveria estar furiosa com essa garota que mentiu e ainda por cima está na minha casa, mas não. Talvez grande parte de mim ainda esteja em estado de choque por toda a confusão. Talvez no fundo eu esteja sim furiosa com a garota mas ainda não acessei essa fúria. Talvez... A gente vive bastante em torno dessa palavra.
Chacoalhei minha cabeça tentando me livrar dos pensamentos e me concentrar no momento. Algo estava acontecendo ou estava prestes a acontecer, afinal, elas estão aqui, no meu sofá, na minha casa, por algum motivo.
- É... Como vocês estão? - questionou, tentando parecer espontâneo mas não se saiu muito bem. Óbvio que ele já tinha sacado também que alguma coisa estava rolando.
- Algum de nós está bem? - usei uma pitadinha de humor, mas não pareceu funcionar muito bem também. Suspirei, me sentando ao lado de , ficando de frente para as duas garotas, mas não pra intimidar e sim pra tentar entender o que realmente estava acontecendo. Alaia escorregou do colo de Alondra e veio para o meu, onde se sentou e continuou a observar o colar em formato de lua que ainda estava em sua mão.
- Pra ser sincera, estou melhor do que mereço.- Alondra respondeu junto à um suspiro pesado.
- Ok, vamos lá. Garotas, isso aqui não é incômodo nenhum, de verdade, mas... O que está acontecendo? Vocês vieram aqui porque algo aconteceu, não é? - questionei sem pensar muito. Saiu. Foi.
- Eu sei que isso tudo é estranho e... Meu Deus, eu nem sei por onde começar, mas... Eu tentei fazer pelo menos uma coisa certa, fui atrás da Alondra e tentei recuperar nossa amizade. - Levi começou, completamente perdida em suas próprias palavras mas seu esforço era real. De longe se notava que aquilo era algo difícil, mas ela estava tentando.
- E funcionou? - perguntou com as sobrancelhas arqueadas, encarando as duas.
- É complicado. - Levi se encolheu de leve, claramente sem jeito, enquanto Alondra a olhou com carinho, mas ainda faltava algo. Aparentemente elas estavam tentando mas ainda tinha algo no meio.
- Ok, vamos lá, vocês querem ouvir algo incrivelmente triste? - tive um pequeno surto de falta de paciência. Aquilo já estava intenso e estávamos numa possível estrada pra revelações mais intensas ainda, mas meu estômago já estava se revirando de tanta ansiedade.
- Quem diz sim pra isso? - Levi franziu a testa bem confusa e até indignada.
- Vocês estão aqui buscando algo ou querendo nos dar algo. Levi, se eu fosse uma maluca, com certeza já tinha te jogado da sacada. Você ameaçou com uma coisa muito baixa e suja, algo que atormenta tantas mulheres e... Olha, eu não quero te deixar mal, não quero que você se sinta culpada, mas vocês precisam me dizer o que está acontecendo, ok?
- ! - chamou minha atenção completamente chocado, com os olhos arregalados e a expressão congelada.
- Eu já tive dezessete anos! Foi uma porcaria, eu não via a hora de sair da escola também! E... Eu sempre senti essa coisinha, essa dor. E a dor chega em todas as formas possíveis, independente do que você esteja passando. Uma dorzinha aguda que realmente te incomoda a ponto de até virar uma dor física de tão devastada que você fica. Também tem a dor que convivemos todos os dias por conta do mundo fodido que a gente vive e também tem o tipo de dor que não se consegue ignorar. Eu acho que se não for dor, é no mínimo uma agonia muito gritante que trouxe vocês aqui. - continuei disparando tudo de uma vez, sem pausa. Um breve alívio tomou conta de mim, mas durou apenas alguns segundos. Talvez uma parte de mim estivesse mesmo surtando e juntando toda a dor, confusão e fúria. Talvez.
- É que... - Levi suspirou derrotada, passando a mão pelo rosto de modo apreensivo - Eu tenho passado por alguns problemas e sei lá, eu fiz tudo errado. Eu terminei com o único cara que conseguiu ser decente comigo, briguei feio com Alondra porque na minha cabeça só eu tinha problemas, só eu estava sofrendo e... Eu precisava das notas. Eu preciso, na verdade. É... Poxa, é vergonhoso demais, mas eu preciso ser a filha perfeita que o meu pai jura que eu sou porque se não é outra pessoa quem sofre no meu lugar. Eu errei muito, muito mesmo, eu me desesperei e tomei a pior das atitudes, chantageei o professor e deu tudo errado. Na minha cabeça, no meio de todo aquele desespero, parecia que era a solução. Então... Me perdoem. Eu sou uma porcaria de ser humano, mas eu espero que vocês consigam me perdoar. - a voz de Levi foi ficando mais sensível e fraca a cada palavra, mas ainda assim, seu discurso veio com muita força.
Muita força mesmo, a ponto de parecer que eu tinha acabado de levar um soco na boca do estômago. Eu olhei pra garota, que se mostrava completamente frágil, errada e arrependida. Sem esforço nenhum em tentar esconder, seu olhar revelava uma dor gritante que não poderia ser a justificativa pra uma coisa tão baixa, mas no fim e na real, infelizmente é.
Uma parte de mim quis surtar de novo e xingar tudo. Quis não ter sido tocada por tais palavras. Seria mais fácil ficar com raiva e condenar seu erro sujo até isso me trazer um pouco de conforto, mas não. Eu fui completamente impedida de sentir qualquer uma dessas coisas assim que ouvi o choro sofrido de Alondra, que segurava a mão da amiga de forma firme, como se tudo dependesse daquele toque.
- Garotas... Calma, pelo amor de Deus! - pediu desesperado, me encarando confuso e nervoso, sem saber o que fazer.
- Vocês não precisam me perdoar, mas...
- Como não vamos te perdoar, Levi? Você acha que a gente iria te punir e levar isso até onde e quando? Você errou e errou muito feio e isso saiu do controle, alguém fez uma ligação anônima que poderia ter te ferrado muito também, mas você está aqui arrependida. Foi algo sujo, desonesto e muito grave, mas eu não tenho o direito de te punir por isso. Eu sei que a vida é extremamente difícil, ainda mais aos dezessete, e pra ser honesta, eu mesma acho que fiquei me sentindo presa à essa confusão por muitos e muitos anos, mas as coisas melhoram. Não tenho a vida perfeita, mas as coisas se ajeitaram. - interrompi Levi, falando tudo de uma vez sem nem respirar direito. Tinha uma onda de desespero que sufocava a todos nós, mas eu fui sincera de verdade. foi incapaz de falar algo de imediato, mas eu sabia que ele concordava com cada palavra minha.
Alaia resolveu sair do meu colo, indo novamente pro seu cercadinho com seus brinquedos e eu me aliviei por isso, mas só por isso mesmo.
- Meu Deus, como você consegue? Eu com certeza já teria me jogado da sacada se fosse você! - Levi ainda tinha a voz fraquinha e trêmula, enquanto Alondra tratou de engolir o choro rapidamente.
- Você não é a única que está sofrendo no mundo, mas isso não significa que a sua dor é menor ou tem que ser ignorada, Levi. O que te levou a fazer tudo isso de verdade? Você pode nos contar melhor sobre isso? - tentou levar a situação pra algo ainda mais sério. Ele olhava para as alunas com compaixão, num tom de voz amigo.
Não estávamos lidando com inimigas. As garotas estavam ali por algo, pela verdade, e não eram pessoas friamente inabaláveis, então pegou em minha mão, a entrelaçando, sabendo que algo maior poderia vir caso Levi respondesse.
E ela respondeu.
- Meu pai.
Ela mencionou o pai novamente, e óbvio que aquilo estava sendo doloroso e desconfortável, mas ela respirou fundo como se estivesse buscando as forças restantes pra continuar.
- Levi, eles vão entender... - Alondra também continuava de mãos dadas com a amiga, fazendo um carinho rápido na mesma como se estivesse dando força pra amiga e a lembrando que ela não estava sozinha.
- Você conheceu ele, professor. Viu que ele pediu trabalhos extras. Ele é... inacreditável em todos os sentidos. Ele... Ele faz questão de tentar me transformar nesse projeto dele, como se eu fosse unicamente filha dele. Ele despreza a minha mãe de todos os jeitos possíveis e... Ela queria ser professora de inglês, mas acontece que ele nunca apoiou ela em nada, nunca deixou ela fazer nada porque sempre pareceu mais prazeroso simplesmente humilhar ela e me usar pra humilhar ela também. Ele tenta me controlar tanto e eu só estava cansada. Eu estou cansada. - Levi, eu... - tentou falar após a enxurrada de novas informações. Um relato completamente doloroso de uma garota de apenas dezessete anos.
- E quando eu falho, ele bate nela. Ele culpa ela. Simplesmente... Ele é podre no pior sentido da palavra! - Levi finalizou num tom quase inaudível, de cabeça baixa e totalmente vulnerável.
Estávamos petrificados. Meu coração batia forte.
- Filho da puta! - passou a mão pelo cabelo de maneira furiosa. Ele teve que se conter pra não xingar ainda mais.
- Levi, eu sinto tanto por isso. - lamentei chocada, enojada e completamente mexida pela história da garota.
- Eu também. - ela soltou um riso fraco completamente sem humor, e assim que nossos olhos marejados se encontraram, eu senti como se fosse um choque.
- Eu não sei nem o que te dizer. Eu não sei se devo te dizer palavras de conforto ou se eu devo xingar seu pai até... Eu não sei. Meu Deus, Levi, eu sinto muito mesmo! - lamentou ainda chocado.
- Isso por acaso um dia passa? Isso melhora quando você vai ficando mais velho? Melhora quando você tem sua própria família e faz por eles o que nunca fizeram por você? - Levi derrubou algumas lágrimas, num tom desesperado por esperança e expectativa de uma vida melhor.
- Há beleza no mundo. Eu sempre ouvi isso. Eu não sabia como apreciar a beleza no mundo porque minha vida estava uma porcaria. Eu conheci quando minha mãe estava presa e eu não tinha mais ninguém, só o meu padrasto. Passei minha vida toda achando que meu pai biológico tinha fugido, mas na verdade ele estava morto, e pra piorar, ele tinha machucado minha mãe. Eu me senti tão culpada. Por dias eu senti minha alma flutuando fora do meu corpo e eu não conseguia respirar. E aí eu descobri que o meu padrasto na verdade é o meu tio. Foi... Um caos. E aí eu vi a beleza ali, no homem que valeu por padrasto, tio e um pai de verdade. - comecei a falar - Não é um relato parecido com o seu, mas eu sou prova viva de que sim, as coisas melhoram, mas no seu caso, Levi, não é algo que depende do destino, do tempo ou sei lá. O que acontece na sua família é algo muito grave!
- Infelizmente não tem chance daquele filho da puta não ser o meu pai. - a garota disse derrotada, tentando controlar o choro.
- Você fez uma coisa péssima por conta do seu pai, mas você agora está aqui. Não te garanto que aqui vai ser o lugar que você vai ver a beleza no caos, mas é aqui que vamos te ajudar, ok? Com o que você precisar, de verdade mesmo! Vocês duas! - foi bem genuíno em suas palavras, e mesmo sabendo que aquilo não era o suficiente, já era um começo.
- Não existe um jeito de pular isso tudo e ir direto pra onde tudo fica bem? - Levi questionou, esperando por uma resposta milagrosa, mesmo sabendo que não era assim que funcionava. A garota estava desesperada por esperança e expectativa de uma vida melhor.
-Eu me perguntava isso o tempo inteiro, sabia? Às vezes ainda me pergunto. Eu queria que tivesse como fazer isso. - compartilhei a mesma frustração.
- É... Como vocês acham que podem ajudar Levi? - Alondra questionou baixinho.
Encarei de imediato e com certeza estávamos pensando na mesma coisa. Um homem rico se achando poderoso e tendo um pouco de fama por conta das amizades. Seria um prato cheio pra os The Lions, mas é muito delicado. Meu Deus, estávamos por dentro da vida de uma adolescente que é aluna de .
Não somos super heróis. Não podemos dar nenhuma garantia.
- A gente não conhece sua mãe, Levi, mas o ideal seria denunciá-lo, sair da casa onde vocês vivem...
- Ela tem medo. - a garota interrompeu com frustração, como se já tivesse repetido aquilo outras mil vezes.
- Claro que tem. - infelizmente concordou chateado.
- Podemos conversar amanhã? Meu pai acha que estou na casa de outra pessoa estudando e tenho um horário pra voltar... - Levi fungou, tentando apagar qualquer rastro de choro. Ela estava obviamente triste, mas aquilo pareceu algo muito importante pra se lembrar e estava mais do que claro o quanto o seu pai tinha poder sobre a sua vida.
Eu não queria que fosse uma despedida. É claro que o assunto não era nada feliz e completamente revoltante, mas eu só queria deixá-las ali dentro conosco, onde nada desse tipo as afetaria.
- Se vocês quiserem, podem voltar aqui amanhã, e óbvio, ninguém da escola pode saber disso aqui ou eu vou ser demitido. - arriscou um tom mais humorado e finalmente pareceu funcionar, arrancando risadinhas fracas porém verdadeiras das duas garotas.
- Não vamos contar pra ninguém. - Alondra garantiu.
Nos abraçamos numa despedida que envolvia incontáveis sentimentos e sensações. O mundo pareceu ter parado por um momento no meio dos nossos abraços e o que me trouxe de volta à verdadeira realidade foi Alaia grudando em minha perna e pedindo colo.
- Tchau!!! - minha filha se despediu das garotas acenando com a mão.
As garotas caminharam até o elevador juntas, mas Alondra olhou pra trás com uma carinha de dúvida.
- Sua mãe foi presa e você conheceu o professor onde?
- Aquele lugar que te vi comprando drogas uma vez, você sabe o que é, não sabe? - arqueei uma sobrancelha e um sorrisinho maroto se formou em meus lábios.
- Vocês... Tá brincando, né? Vocês fizeram parte dos The Lions? - a garota estava com a boca aberta em surpresa.
- Sim.
- Isso é... Muito legal! - Levi comentou chocada com a informação, tomando um leve susto com a porta do elevador se abrindo - Alo, vem, vamos!
- É... Minha mãe está grávida. Não sabemos se é menino ou menina ainda, mas espero que seja uma criança amável como Alaia. - Alondra revelou um pouco sem graça porém cheia de carinho.
Senti meus olhos se encherem enquanto via a garota entrar no elevador de vez. Doeu tanto e ainda dói. Eu não acho que algum dia vamos ter um mundo completamente perfeito e livre de crimes, injustiças e dor, mas aquilo mexeu comigo. Levi não merecia. E porra, e eu sentimos que algo tinha tido tirado de nós e agora isso faz mais sentido ainda. Eu consigo sentir essa dor de verdade, mas agora me sinto mais forte pra conseguir ajudar. A de dezenove e vinte anos completamente desesperada e consumida pela dor, com certeza se orgulharia um pouco de mim.
Mas essa dor, essa perda, essa sensação de que algo foi tirado de nós... Não foi o fim.

Capítulo 7

// //


Sangue não faz uma família, e sim, o amor. Era só nisso que eu pensava, em Levi e Alondra também. Inclusive, me mandou uma mensagem dizendo que as duas não apareceram na aula e isso me preocupou.
- Chegamos, Lai Lai! - disse animada enquanto abria a porta de trás e tirava Alaia da cadeirinha.
Ela estava melhor, mas eu ainda estava com dó de mandá-la pra creche, e como tinha o dia livre, decidimos visitar o pessoal dos The Lions.
Estávamos prestes a passar pelo portão quando ouvi as vozes que não saíam da minha cabeça. Virei pra trás no mesmo momento, vendo Levi e Alondra juntas prestes a comprar algo.
- Meninas? - desfiz meus passos enquanto entrava junto com Alaia. As duas garotas arregalaram os olhos no mesmo segundo.
- De novo? - Alondra tentou segurar o riso mas acabou rindo e eu fui no embalo. A última vez que nos encontramos aqui não foi tão simpático assim, mas agora ela inclusive sabia que eu já fiz parte da gangue e que foi aqui que conheci .
- Eu tenho mais motivos pra estar aqui do que você, mocinha! - coloquei as mãos na cintura num falso teatro como se fosse sua mãe lhe dando uma bronca - O que vocês vieram comprar, hein? me mandou mensagem dizendo que vocês não foram pra aula hoje! Ele ficou preocupado! - revelei num tom sereno.
- Só maconha, . - Levi respondeu rapidamente.
- É que... Estávamos cansadas. Sei lá, as coisas ainda estão um pouco confusas e ir pra aula não parecia uma boa ideia. - Alondra se defendeu rapidamente.
- Tá tudo bem, ele só ficou preocupado... - respondi no mesmo tom tranquilo, não queria de jeito nenhum deixar as garotas desconfortáveis.
- Vocês querem entrar pra conhecer? - apareceu novamente no portão, chamando Levi e Alondra, que visivelmente ficaram chocadas em vê-la.
- Meu Deus! - as duas disseram em coro e riu, ainda com Alaia no colo.
- É claro! - Levi respondeu eufórica e Alondra ainda parecia estar em choque.
- Já sei, vocês gostam da música da , não é? - deduzi bobinha e orgulhosa, já sabendo a resposta.
- Eu não quero surtar ou gritar porque não quero parecer maluca mas é óbvio que a gente gosta da música dela! - Alondra finalmente conseguiu falar enquanto caminhávamos aos risos até a primeira mesinha que encontramos.
deu um abraço gostoso nas duas com Alaia no colo mesmo, que gargalhava alegre.
- Eu já pensei várias e várias vezes em pedir pro professor me arranjar alguma coisa sua, um autógrafo, um vídeo, sei lá, mas nunca tive coragem. - Levi revelou risonha, completamente encantada com em frente aos seus olhos.
Nos sentamos e começamos a bater um papo gostoso. Contei sobre como eu era bobinha por Khalid e até mesmo como me pediu em namoro. Às vezes eu me empolgo e saio contando um monte de coisa mesmo. contou sobre algumas músicas e algumas inspirações e as garotas prestavam muita atenção em cada palavra. Estava sendo um momento e tanto.
- Eu não acredito que vocês já fizeram parte disso aqui! - Alondra comentou levemente chocada, observando cada cantinho do lugar.
começou a contar algumas histórias e aproveitei pra mandar uma mensagem pra .

Estou com as garotas. Encontrei as bonitas enquanto tentavam comprar maconha. Será que Alaia vai tentar fazer isso um dia?


Eu ri comigo mesma por um segundo. Não vejo problema nenhum em maconha, até porque né... Mas bem, ser mãe me faz pensar longe. Quero que minha filha confie em mim o suficiente pra poder conversarmos sobre isso.

, o pai da Levi apareceu aqui. O filho da puta veio conversar com Morgan pra tentar enfiar a palestra de um amigo aqui no colégio e perguntou sobre Levi e descobriu que ela não veio pra aula hoje. Ele saiu daqui puto pra caralho.


Meu coração disparou, doeu, despencou.
Vou contar pra ela pra tentarmos arranjar uma desculpa plausível pra isso.


Respondi e travei o celular novamente.
- Levi... - chamei a garota com o coração na mão e ela me olhou no mesmo instante, me esperando falar mais alguma coisa - me disse que seu pai foi no colégio e descobriu que você não foi pra aula. Isso vai ser um problema muito grande pra você? - toda a animação da garota pareceu ser sugada.
- Se ele perguntar sobre isso você diz que foi comigo pra casa porque eu passei muito mal. - Alondra tentou dar uma solução rápida pra amiga, que jogou a cabeça pra trás e bufou completamente derrotada e emburrada.
- Será que alguém aqui dessa gangue aceita matar o meu pai? Eu tenho um dinheirinho guardado e...
- Menina! - interrompeu a garota com uma risada alta entre tristeza e choque. Aquela típica risada que damos quando algo é tão sofrido que até rimos porque se não a outra opção é chorar, ainda mais porque eu já tinha contado tudo o que tinha acontecido pra .
- Por acaso tem opção melhor? Ele nunca vai mudar, e mesmo se mudasse já seria tarde demais porque ele já fodeu toda a vida da minha mãe e a minha também e se ele fosse preso por tudo isso também não faria diferença. A cadeia não recupera ninguém, quem recupera as pessoas são elas mesmas e ele nunca pareceu interessado em querer ser uma pessoa melhor, então... - Levi suspirou pesado, olhando séria pra , que a ouvia atentamente e com uma expressão triste - já te contou sobre isso?
- Já sim. - respondeu sem hesitar - Eu não quero ser clichê e dizer que você é muito forte por aguentar isso e bla bla bla porque em primeiro lugar você nem deveria estar passando por isso. Ter uma pessoa abusiva e violenta na família é injusto demais e eu sei que o seu problema maior no momento é sua família e que você sempre acha que se ela mudar tudo vai ficar bem, e claro, isso já mudaria muito a sua vida, mas você não pode contar só com isso, porque talvez eles nunca mudem e isso não pode significar que você nunca vai mudar também. Não quero derrubar suas esperanças, mas se dê um pouquinho de crédito também. Você é sim, de fato, muito forte por aguentar isso, mas nem tudo está nas suas mãos pra mudar. Claro que se você pudesse, seu pai já tinha ido pra puta que pariu, não é? E pra ser honesta, se fosse comigo, eu também esperaria e torceria por isso.
- O pessoal da gangue não pode fazer nada por mim? Nem dar uma surra nele? - Levi tentou mais uma vez, fazendo rir de leve.
- É complicado, Levi. Com certeza adorariam bater no agressor de merda que o seu pai é, mas geralmente quando fazem isso, eles tentam ter a certeza de que as pessoas que estão sendo agredidas estejam seguras e longe do agressor pra que ele não possa se vingar. - explicou visivelmente chateada.

——


Alaia gargalhava sem parar enquanto fingia estar prestes a morder seus pés. A bagunça na cama antes de dormir fazia parte da rotina. Me encostei na porta, apenas observando a cena. Alaia fica mais feliz perto do pai e completamente protegida pelo seu coração. Os dois tem uma relação tão pura e genuína que às vezes tudo o que eu queria é exatamente isso: assisti-los por horas.
Alaia não poderia ter escolhido um pai melhor e me dói muito ver que nem todo mundo tem essa sorte. Todo mundo merece uma infância que não precise ser curada mais tarde.
- Eu amo vocês, sabia? - me desencostei da porta com a mamadeira de Alaia nas mãos e a entreguei pra , que respirava cansado por toda a brincadeira.
- Sabia! - Alaia respondeu com um sorrisinho gostoso, logo erguendo as mãos assim que olhou pra mamadeira.
a deitou em seu colo com carinho pra ela ficar confortável enquanto bebia seu leite e não demorou pra ela terminar de beber tudo e cair no sono em seguida. a deitou na cama com cuidado e a cobriu.
A cama dela já tinha chegado mas ainda não tínhamos começado a montar e esses dias ela estava dormindo com a gente na cama. Depois de toda a confusão e o fato de que eu fiz sair de casa, ter Alaia conosco na cama era uma forma de tentarmos recuperar o tempinho que ficamos longe e naquele clima péssimo e doloroso.
- Você acha que ele brigou com ela? - questionei angustiada assim que saímos do quarto. sabia que eu estava falando sobre Levi e seu pai.
- Ela disse que mandaria mensagem caso algo acontecesse, não é?
- É, e ela não mandou nada, mas mesmo assim... É horrível essa sensação de não poder fazer nada. Ela é só uma garota, ! Hoje ela comentou sobre querer que ele morra porque ele é basicamente um caso perdido e ela não acredita que se ele fosse preso mudaria algo. - meu coração se apertou ao falar.
- Bom, olhando por um lado, ela tem razão. Não é nada transformador mandar um homem que comete violência contra mulher pra um lugar que reforça e produz ainda mais violência como a prisão.
- Isso é... Podre. Meu Deus, o mundo é podre demais!
- E o pior é que essa violência é normalizada desde sempre. Alguns crescem vendo o pai batendo na mãe, na tia, na irmã e a violência contra a mulher é naturalizada. Eu não sei o que leva aquele verme do pai da Levi a bater na mãe dela e nem quero saber, mas é tão fodido porque nada deveria levar nenhum homem a fazer isso. Nada mesmo. - falava com um tom pesado e revoltado.
- Isso é exaustivo. Ser mulher é exaustivo. - por um segundo, me senti derrotada por Levi e por todas as outras barreiras que uma mulher enfrenta por ser mulher.
- Sinto muito, . - ele suspirou - Se tivermos um filho um dia, eu juro que vou ensinar o certo pra ele. Vai ser um homem podre a menos no mundo, eu juro de verdade. - encostou as duas mãos em meu rosto, fazendo um carinho gostoso com os polegares em minhas bochechas.
Meu corpo se relaxou no mesmo segundo que as mãos de desceram pra minha cintura e me empurraram de leve até o balcão da cozinha. Dei um pequeno impulso e me sentei ali, entrelaçando minhas pernas ao redor do meu noivo e o trazendo pra mim, iniciando um beijo calmo, intenso e muito carinhoso. sabia ser extremamente gentil e eu estava sentindo isso em cada toque e em cada segundo do nosso beijo. Uma de suas mãos foi pra minha nuca, onde ele iniciou um carinho confortável enquanto mordia meu lábio inferior com gentileza. Seus olhos incomparáveis me encararam por alguns segundos e eu quase me derreti. Meus órgãos dançavam por conta de seus olhares toda vez porque eu conseguia ver tanta coisa linda ali. Esse homem é, de fato, a coisa mais preciosa que eu tenho nessa vida e o nosso amor me alimenta de sentimentos lindos e cheios de luz todos os dias.

// //


O dia começou logo com Alaia me maquiando com as maquiagens da mãe. E não, não foi sem querer, estava gravando tudo enquanto ria até a barriga doer.
O colégio não parecia mais um lugar que me sufocava. Tudo estava bem até onde podia estar. A situação de Levi ainda me deixava maluco e fodido de raiva.
Irina estava animada, tagarelando sobre várias coisas ao mesmo tempo enquanto Vince ria dela. O humor de Dave e Irina batiam certinho e ele sempre deixava qualquer coisa mais engraçada. Éramos um bom grupo juntos.
- ? - Morgan abriu a porta da sala dos professores com calma, num tom baixinho e eu apenas assenti - Asher Warren quer falar com você.
Beleza, algo tinha acontecido. Só faltava o velho agressor filho da puta querer me culpar pela filha não ter aparecido na escola ontem ou sei lá. Meu coração acelerou de raiva e preocupação por Levi.
Caminhei até a sala de Morgan com certa pressa e por um lado eu estava aliviado em ver Levi inteira, completamente perfeita por fora, porém também ainda mais preocupado porque o olhar de seu pai não era nada agradável.
- Bom dia, professor . - ele disse seco, continuando a falar rapidamente sem nem me dar tempo de responder - Não sei se você já sabe, mas minha filha matou aula ontem. Embora tenha dito algo sobre ajudar uma amiga que está passando mal, não acho que seja verdade, afinal, adolescentes, não é mesmo? - ele riu sozinho mas sem humor nenhum, olhando pra Levi com o pior dos olhares e nem mesmo tentou disfarçar - Eu prezo muito pela educação da minha filha e acho que vai ser bom se você der mais alguns trabalhos extras pra ela. - Asher finalizou num tom autoritário, como se nem mesmo estivesse me dando a opção de debater o assunto e se via de longe que Levi mal conseguia respirar de tanta raiva enquanto meu corpo queimava de ódio.
- Senhor Warren, sua filha é uma ótima aluna, uma das melhores. Eu nem mesmo tenho o que passar pra ela, porque ela já sabe de tudo. Não acho que seja necessário mais trabalhos extras. - fui mais educado do que o filho da puta merecia mas ainda assim sua expressão surpresa foi impagável.
- ! - Morgan chamou minha atenção com um olhar repreensivo e por um mísero segundo eu me senti bem por ver que tinha causado certo desconforto nela também, porque Asher Warren só agia daquele jeito no colégio porque ela sempre permitiu.
- Dessa vez estou pensando em pedir isso pra todos os professores, , e você não deveria discutir comigo sobre isso. Sou o pai de Levi e sei do que ela precisa. Uma aluna que mata aula com certeza não é boa aluna. - Asher aumentou o tom de voz, não escondendo sua grosseria e indignação. Levi parecia chocada mas eu pude ver um breve sorriso em seus lábios e isso me esquentou o coração.
- Quem sabe disso sou eu, porque eu sou o professor dela. Eu sei do que ela precisa em relação à matéria e ela definitivamente não precisa de nenhum trabalho extra. - respondi à altura, num tom mais elevado também.
- !!! - Morgan me encarava apavorada.
- Eu pago o seu salário! - Asher deu um passo à frente, deixando uma distância mínima entre nós que me fez esquentar o sangue até demais. Ele estava jurando que iria me intimidar, mas não ia nem fodendo.
- Mas eu não dependo só do senhor pra receber o meu salário e nem trabalho exclusivamente pra você pra ter que elaborar trabalhos extras pra sua filha que claramente não precisa. Não farei isso dessa vez, Warren.
- Seu filho da... - Asher deu um longo passo pra frente com o punho fechado, pronto pra me dar um soco, mas Levi o empurrou no mesmo segundo, fazendo o próprio pai cambalear, já que não esperava tal atitude da filha.
- CHEGA! - Levi gritou com a respiração completamente descompassada.
- Você acha que pode me desafiar ou opinar sobre a minha filha? - Asher gritou, tentando se aproximar novamente, mas dessa vez quem veio voando pra o impedir foi Morgan.
- Aqui ela é minha aluna!
- Gente, chega, já chega! - Morgan tentou acalmar os nossos ânimos mas na verdade eu mesmo já estava de punho fechado pronto pra dar um soco na cara do filho da puta que quase rosnava em minha frente.
- Eu vou te tirar desse colégio, seu professor dos infernos! - Asher continuou gritando.
- Então você vai ter que se esforçar muito, porque eu sou um dos melhores professores daqui! - tem jeito melhor de provocar do que ser um filho da puta irônico? Pelo jeito não, porque funcionou e o velho só faltou explodir de tão vermelho que estava por conta do nervoso.
- Eu poderia te tirar daqui agora mesmo, e você, poderia fazer o que? Me processar? Tentar algo contra mim? Você acha que pode me prejudicar? Conheço todos os juízes desta cidade e todos me devem favores. Você não é nada perto de mim, ! - ele entrou na onda e usou justamente os argumentos que um babaca filho da puta usaria só pelo dinheiro, amizades e influências.
- Warren, fora da minha sala já! - Morgan pediu aos berros também, completamente chocada com tudo o que estava vendo e ouvindo.
O filho da puta saiu rindo. Levi permanecia petrificada e com a expressão chocada. Encostei uma das cadeiras mais perto da garota e a auxiliei a sentar. A porta foi batida com força e Morgan me encarou com todas as expressões possíveis e variadas.
- Me desculpa por isso, eu... - Levi começou, perdida e sem saber o que dizer.
- Não, de jeito nenhum, nada disso foi sua culpa, Levi!
- Eu... Vou pra aula. - a garota se levantou atordoada e não me deu nem tempo de impedi-la.
Eu dei um longo suspiro exausto e ao mesmo tempo raivoso. O que tinha acabado de acontecer? Asher Warren é um cuzão completamente desequilibrado.
- , pelo amor de Deus, o que foi isso? - a voz de Morgan me trouxe pra realidade.
- Morgan, você viu tudo! Eu não estou errado e nem vou admitir isso se é o que você espera. Se você pudesse olhar para essas situações a partir da posição que eu ocupo, ver essas crianças perdidas e solitárias por conta desses comportamentos cruéis que os pais têm... Todo o potencial desperdiçado... É cruel, Morgan, muito cruel, e você infelizmente deu liberdade pra esse homem achar que pode chegar aqui e mandar na educação da filha sendo que ele não é o professor dela.
- ...
- Morgan, eu posso até ser demitido depois disso, mas eu não vou deixar esse tipo de crueldade acontecer na frente dos meus olhos e não fazer nada. Eu não sou assim.
- Você pode sair agora. - ela disse dando um suspiro cansado em seguida. Não estava mais brava, horrorizada ou tentando me repreender.
Eu saí da sala com a cabeça quase explodindo. Porra, eu não errei, não sinto que errei em nada. Eu sei que precisamos colocar as diferenças de lado com muitos pais pra podermos entrar num consenso sobre o que é melhor pra os seus filhos, mas esse não é o caso. Asher Warren só queria mais uma tortura pra própria filha e eu jamais participaria disso sabendo do que sei.
- Cara, o que aconteceu? - Dave perguntou confuso assim que me viu entrar na sala dos professores novamente e me sentar. Ele estava em pé na frente da cafeteira e eu comecei a prestar atenção brevemente em seu diário do aluno que possuía várias e várias anotações.
- Lidar com aluno é difícil, mas lidar com o responsável por ele é muito pior às vezes. - respondi resmungão, com a cabeça baixa e ainda pilhado enquanto lia as anotações pra tentar esfriar a cabeça pelo menos um pouco.
Provas, atividades, faltas, alunos que eu conhecia e outros que eu não dava aula mas Dave sim. Ah, notas também.
- É, isso é um fato. Essa profissão pode te deixar exausto de verdade às vezes. - ele se expressou tranquilo.
- Porra, e como!
Dei longos suspiros enquanto tentava recuperar minha sanidade mental pra me preparar pra aula. Eu e Dave não tínhamos aula no primeiro horário então tínhamos a sala toda pra nós e eu precisava me concentrar.
- Você já marcou a data do seu próximo teste? Não quero ser duro com os alunos dessa vez e não quero deixar no mesmo dia que o seu teste pra não ficarem tão nervosos.
- Logo você sendo bonzinho em relação à isso? O que aconteceu? - questionei numa falsa ironia.
- Não quero que eles saiam do colégio me odiando tanto assim. - ele riu fraco, pegando a caneca e bebericando seu café.
Minha testa se franziu quando bati o olho em algumas informações anotadas ali.
- Cara, tá dormindo enquanto dá as presenças e faltas dos alunos? Alondra não veio ontem e aqui você deu presença! - avisei de imediato assim que notei o erro.
Eu continuei olhando suas anotações e estava prestes a virar a folha, mas Dave se aproximou rapidamente e puxou o diário, o levando pra si, rindo fraco e agradecendo pelo lembrete.

// //


me mandou mensagem dizendo que iria se encontrar com Scott e Cohen direto do trabalho. Eu estava pronta pra ir pra casa de junto com Alaia quando meu celular começou a tocar.
- Alô?
- , você pode falar? Está ocupada? - era a voz de Alondra.
- Oi, Alondra! Não estou ocupada não. Você precisa de alguma coisa?
- É que eu queria saber se posso ir pra sua casa. Aqui em casa está tudo uma bagunça porque estão reformando e eu só... Sei lá. Me desculpa por isso, eu sei que você deve ter trabalho pra fazer e ainda cuidar da Alaia, então...
- Não, claro que não! Eu estou livre, mas não estou em casa agora. Você conhece o Flame Coffee? - era o café da minha mãe e o melhor lugar que eu conhecia pra podermos nos encontrar.
- Claro!
- Podemos nos encontrar lá, pegarmos algo pra comer e irmos pra casa da , o que você acha? - sugeri animada, podendo visualizar na minha mente o sorriso lindo que a garota tinha ao ouvir o nome de .
- Meu Deus, é claro!
- Combinado, estou indo pra lá!
Mandei mensagem pra avisando sobre a minha ideia repentina em levar Alondra pra lá. Claro que ele não acharia ruim, afinal, ama de verdade qualquer interação com os admiradores de sua música, ainda mais quando a pessoa é tão tranquila como Alondra e Levi também. Não são fãs malucas que colocam num pedestal como se ela fosse um anjo de outro planeta, e sim, a tratam como uma pessoa normal.
Voltei a dirigir em direção ao café da minha mãe e da minha tia. O cheirinho gostoso ia longe e já da calçada eu sentia minha boca implorar por um donut e um café expresso. Alaia amava o chocolate quente dali mais do que tudo. Assim que entrei, Willa me recebeu com todo o amor de sempre e me sentei numa mesinha de canto. Eu sorri de longe assim que vi o rostinho de Alondra entrando no café.
- Desculpa te incomodar, mas Levi provavelmente está de castigo porque não respondeu minhas mensagens desde quando saímos do colégio e eu até pensei em ir na sua casa, mas... Sei lá. - a garota já chegou se explicando, se sentando de maneira um pouco insegura, mas deu um sorrisinho pra tentar disfarçar. Ela acenou pra Alaia, que sorriu toda dengosa.
- Alo, você não está me incomodando! - assegurei.
- Eu só não queria ficar sozinha hoje. Lá em casa tá uma bagunça. - ela praticamente sussurrou.
- Tudo bem, sério mesmo! Eu fico feliz que você lembrou de mim.
- Não é um pouco deprimente eu ter que ligar pra esposa do meu professor de inglês porque a minha única amiga provavelmente está tendo que aguentar o pai filho da puta dela fazendo alguma merda? - Alondra trouxe a questão com um tom confuso, humorado e triste também.
- Eu sei que é horrível a sensação de não podermos fazer nada no momento.
- Totalmente.
- me ligou durante a tarde e me contou o show que o Asher deu com ele hoje no colégio. Ele é... inacreditável. Num péssimo sentido. - bufei.
- Levi me contou também. Ela ficou o dia todo um lixo por causa disso.
- Juro que se eu pudesse, já tinha pegado ela e a mãe e colocado pra morar comigo e com . Ninguém merece passar por isso! - afirmei séria, vendo a garota se aprofundar o olhar no além e ficar em silêncio por longos segundos e até mesmo Alaia parecia esperar ela sair daquele transe.
- Eu te olho e ainda não acredito que você é a esposa do meu professor que fazia parte de uma gangue e que conheceu ele lá. Parece até um filme! - Alondra finalmente falou, soltando uma gargalhada gostosa que me fez rir também.
- Um filme de ação, eu diria.
- Como era? - ela colocou as mãos no queixo e apoiou os cotovelos na mesa como se estivesse esperando uma boa história.
- Maluco. Tinha confusão toda semana e era um saco quando eu o conheci. Marrento, tava sempre metido em alguma confusão e enchia o meu saco quando tentava me ensinar a dirigir. Às vezes eu fico boba em ver como a gente conseguiu dar certo. - respondi bobinha, rindo fraco, tentando não mostrar o quão apaixonada eu era pela nossa história porque se não dispararia a falar e não seria capaz de parar.
- Vocês planejaram ter a Alaia? - ela perguntou sorrindo pra minha filha, que estava quietinha em meu colo.
- Nem um pouco! Eu quase enlouqueci quando engravidei e eu e não estávamos bem. No fim deu tudo certo. Inclusive, sua mãe já descobriu o sexo do bebê? - perguntei animada, mas a pergunta pareceu ter tombado o humor da garota por completo. Deu pra sentir de verdade a sua energia indo lá pro chão.
- Ainda não.
- Você...
O celular de Alondra começou a tocar e ela recusou no mesmo segundo e colocou o celular no modo vibra. Ela abriu a boca pra falar, mas o celular tocou novamente, vibrando em cima da mesa. Alondra não apareceu nada feliz com aquilo, muito pelo contrário, ela ficou furiosa.
- Já venho! - ela saiu marchando com o celular em mãos.
Tia Ellie apareceu toda risonha, pegando Alaia no colo e dizendo que a levaria pra comer uma torta especial no escritório. Óbvio que ela estava toda animada e sorridente, Alaia é um saco furado quando se trata de comida. E claro que eu sorria de orelha a orelha ao ver o quão feliz minha filha era com todo mundo. Ela me faz esquecer às vezes de como o mundo é cruel e frustrante.
Alguns bons minutos já tinham se passado e nada de Alondra voltar. Me levantei e segui até a saída, levemente preocupada com o que poderia ter acontecido já que a ligação provavelmente não era de uma pessoa muito querida.
Meu corpo se chocou com outro assim que abri a porta pra sair.
- Me desculpa! - era Sienna, com seu celular em mãos, provavelmente distraída pelo mesmo.
- Tá tudo bem! - respondi com um sorriso sem graça, vendo de pertinho cada detalhe dela mas disfarçando rapidamente e procurando Alondra com o olhar. Ela estava falando no celular indo de um lado pro outro na calçada mesmo sem se preocupar com quem passava.
- Você está com ela? - Sienna questionou, seguindo o meu olhar, se referindo à Alondra.
- Sim.
- Você conhece algum Dave? Ela meio que gritou o nome dele umas duas vezes e não foi nada amigável. Ela nem mesmo me notou passando pela calçada de tão nervosa que está com essa ligação. - ela questionou e revelou intrigada, me chocando no primeiro segundo.
- Dave? Tem certeza? - meus olhos se arregalaram de leve.
- Sim. - ela respondeu séria e por alguns segundos nos encaramos. Meu corpo se arrepiou por inteiro. Ela parecia buscar alguma coisa em mim. Não foi desconfortável, mas foi no mínimo estranho e ela pareceu se tocar que estava sendo estranho. Sienna abriu a porta do café novamente, prestes a entrar.
- Sienna! - chamei seu nome que quase sumiu pela minha garganta. Ela se virou de imediato - Obrigada por pensar em e ajudá-lo.
- Não precisa agradecer, .

——


Já estávamos em casa e não tinha parado de falar um segundo sequer desde a hora em que passamos pela porta. Ele estava revoltado. Puto da vida de verdade.
Alondra foi embora do café depois da ligação. Ela se despediu tentando disfarçar ao máximo o quão irritada estava mas eu tinha visto com os meus próprios olhos o quanto a ligação tinha mexido com ela.
- Aquele velho do caralho ainda tentou me bater! Quem ele pensa que é?
- ... - tentei chamar sua atenção.
- Vamos conversar com Levi e vamos nos encontrar com a mãe dela pra resolvermos isso. Não vou deixar que ela more com aquele filho da puta nem mais um dia! Nós vamos nos encontrar, conversar, podemos arranjar um trailer pra elas por enquanto ou elas podem ficar aqui mesmo, mas chega, elas não vão mais morar com aquele verme! - ele não tinha habilidade alguma em esconder seu ódio pelo homem e eu entendia de verdade, mas outro assunto estava martelando minha cabeça de verdade a ponto de me dar dor de cabeça e eu precisava falar logo.
- ! - o chamei de novo, ainda mais alto, mas ele continuou falando.
- Aí os The Lions podem resolver o resto pra gente. A justiça nunca é mais rápida do que o criminoso.
- , me escuta!!! - eu gritei e me repreendi no mesmo segundo ao lembrar que Alaia estava dormindo, mas pelo menos tinha funcionado e tinha se calado - Eu sei que você está revoltado e eu concordo com cada palavra que você disse, de verdade mesmo! Amanhã podemos sim falar com Levi sobre isso e tentarmos ajudá-la o mais rápido possível, mas... Olha, eu não quero tirar o foco da Levi, eu sei que isso é um assunto muito importante mesmo que merece toda a nossa atenção, mas preciso te contar uma coisa que aconteceu hoje.
- O que foi?
- Saí com Alondra agora à noite. Só nós. Fomos ao café e estava tudo bem até alguém ligar pra ela e a ligação deixou ela irritada, ela até foi atender fora do café, e como estava demorando demais, fui ver o que estava acontecendo e aí Sienna apareceu. Ela disse que Alondra tinha gritado o nome Dave umas duas vezes e... Sei lá, , você...
- DAVE? - gritou, se repreendendo em seguida também e soltando um palavrão baixinho por lembrar que Alaia estava dormindo.
-Sim, você...
- , você sabe do Dave, professor de biologia da Harkerside, não sabe? - ele se transformou. Ele estava completamente bravo ao falar de Asher, mas agora ele estava completamente sério, como se estivesse analisando informações de forma muito rápida em sua mente.
- O que...
- Meu Deus... ... Tem alguma coisa errada! Caralho, agora faz sentido... O diário do aluno dele tinham várias anotações erradas sobre Alondra e... Caralho! - passava as mãos pelo rosto e cabelo de maneira desesperada, como se alguma informação tivesse o atingido da pior forma possível.
- Mas o que você acha que isso significa? - fui calma ao perguntar, tentando segurar em sua mão, mas ele já estava andando de um lado para o outro de modo ansioso.
- Tem alguma coisa acontecendo! Definitivamente tem!
- Mas ... - fui interrompida pelo toque do meu celular e meus olhos se arregalaram ao ver o nome de Alondra na tela - É a Alondra! - o olhar arregalado de me deu um frio na barriga e ele fez gestos com a mão para que eu atendesse logo e foi o que eu fiz - Alô?
- ! - a voz de choro da garota era inconfundível.
- O QUE ACONTECEU?
- Calma, comigo nada! Mas... O pai da Levi morreu!

Capítulo 8

// //

A casa de Levi estava lotada. O enterro seria às onze e já era nove e quarenta.
A noite foi difícil. Desde a hora em que recebemos a notícia, parecia que o mundo tinha capotado. Asher Warren morreu num acidente de carro. Nem mesmo deu tempo de ser socorrido, morreu na hora.
- Ela não vai, não adianta! - Alondra desceu as escadas com uma expressão derrotada.
Levi nem mesmo queria sair do quarto e tampouco ir ao enterro. Kelsea, sua mãe, tinha pedido pra Alondra conversar com ela, mas não tinha funcionado muito.
Oh… Kelsea… Chegamos aqui bem cedinho, por volta das sete e meia a pedido da própria. Tinha nos ligado do celular de Levi, e quando nos recebeu, nos deu um abraço tão carinhoso e agradeceu. De primeira não tínhamos entendido o que aquilo tinha significado, mas ela deixou claro que Levi tinha contado tudo pra ela sobre o quão próxima da gente tinha ficado nos últimos tempos e Kelsea nos agradeceu por estarmos ali pela sua filha.
Meu coração quase doeu. Ela disse tais coisas de modo triste, como se tivesse se sentido incapaz de estar presente pra própria filha porém grata por saber que alguém estava ali por ela, a escutando.
- Deixa, eu vou falar com ela. - Kelsea suspirou cansada, subindo as escadas mas parando na metade, olhando pra trás e nos encarando - Vocês podem vir junto? - ela pediu levemente sem graça e atendemos seu pedido de imediato.
Levi estava de pijama, deitada e coberta até a cabeça. Kelsea se sentou ao seu lado, tirando a coberta o suficiente pra o seu rosto aparecer.
- Mãe… Por favor… Eu sei que nem você quer ir! - Levi murmurou preguiçosa, nos olhando rapidamente.
- Você sabe que…
- Não sinto a necessidade de enterrar alguém que tá morto pra mim há anos. Ele não era um bom marido, um bom pai ou um bom ser humano. Ele antes de morrer te ligou te ameaçando, dizendo que você iria pagar por ter me criado não mal. Ele morreu com a vontade de machucar alguém dentro do peito porque era só isso que ele sabia fazer. Não vou sair daqui pra fingir que sinto muito pelo o que aconteceu porque eu não sinto, ele teve o que merecia e você sabe! - Alondra disparou - Mãe, ele tá morto, você não precisa fingir mais nada, acabou! - ela estava sentada na cama, olhando pra mãe de modo sério mas também com carinho, na esperança de que ela a entendesse. Kelsea deu um longo suspiro, jogou a cabeça pra trás e apertou os olhos bem forte e em seguida se levantou.
- Você tem razão! Vou terminar de acabar com isso! - Kelsea praticamente saiu marchando do quarto e Levi pulou da cama com os olhos arregalados. O largo e longo corredor nos dava chance de andar ao lado de Kelsea, que de repente estava completamente tomada por uma grande onda de adrenalina e coragem - Filho da puta… Depois de todo o tipo de violência, desde moral, psicológica e patrimonial até física, esse infeliz teve o que merecia! - ela resmungou com razão e com certa raiva, mas também aliviada. A mulher estava no topo da escada e bateu três palmas pra chamar atenção de todos, que a olhavam com atenção - Alguns de vocês já sabiam e sinto muito em chocar quem não sabia, mas Asher Warren era um lixo de homem. Não, não é o luto falando, até porque não estou de luto, estou aliviada. Aquele monstro me agrediu de todas as maneiras possíveis por anos enquanto fingia ser um bom homem por aí. Esse acidente foi o preço que ele pagou por ser tão ruim. Quem quiser, fique a vontade pra ir nesse enterro, porque nem eu e nem minha filha iremos, mas saibam que ele não merecia absolutamente ninguém ao lado dele enquanto estava vivo e agora muito menos já que está morto.

3 DIAS DEPOIS.


Eu estava com o carro e passei no colégio pra buscar . Não cheguei a entrar, mas deu pra ver Irina e Vince no estacionamento mesmo e nos cumprimentamos. Alaia estava já nos braços de , olhando pra multidão de alunos que saíam dali.
- Ela está tão distante. Não prestou atenção em nada hoje. - comentou enquanto seguia Alondra com os olhos.
Estávamos de volta ao assunto Alondra x Dave há dias. disse que o colega de trabalho estava aparentemente normal, mas não o deixou olhar seu diário do aluno quando ele pediu ontem. Inventou uma desculpa e saiu da sala dos professores rapidamente.
Bizarro. Tudo estava uma bagunça. Levi e sua mãe decidiram mudar de casa no dia seguinte do enterro de Asher. até mesmo mandou alguns contatos de colegas que poderiam ajudá-las com isso e aparentemente Levi estava lidando bem com a morte do pai. De primeira eu até pensei que talvez ela pudesse se culpar ou achar que poderia ter salvado ele de alguma maneira, mas não, a garota estava firme e forte seguindo sua vida, assim como a mãe.
- Talvez algo esteja acontecendo na casa dela, .
Levi nos encontrou com o olhar e veio em nossa direção. Ela sorriu e deu um cheirinho perto do ouvido de Alaia, que gargalhou gostoso pra garota.
- Por favor, , convença a ser bem bonzinho com a gente na próxima prova, por favor! - ela fez um biquinho dramático e riu. a olhou com falsa desconfiança e riu também.
- Bom, eu posso tentar. - sussurrei, fingindo que nem estava ali.
- E como você está? - perguntou.
- Você sabe que eu tô bem, professor. De verdade, tô mesmo! Claro que eu não sou tão sem coração a ponto de ficar o tempo todo comemorando a morte dele ou sei lá, mas não tinha jeito, ele nunca mudaria, então… Meu Deus, eu sei que é bizarro dizer isso, mas foi melhor assim, vocês sabem. - ela encolheu os ombros e deu um riso sem jeito.
- Se precisar de alguma coisa, pode me ligar, ok?
- Obrigada, . - ela respondeu com um tom carinhoso.
- É… Levi… Você por acaso sabe qual a matéria Alondra tem mais dificuldade? - perguntou tentando disfarçar e eu me segurei pra não arregalar os olhos. O que ele estava tentando fazer?
- Hmm… Com certeza biologia e matemática. - a garota respondeu com humor.
- Biologia? - questionou.
- Uhum!
- E você lembra quando foi a última atividade valendo nota que vocês fizeram pro Dave? - perguntou mas especificamente e eu evitei o olhar pra não gerar alguma desconfiança em Levi.
- Espera aí… - a garota destravou o celular, procurando algo ali - Foi dia treze do mês passado. Eu sempre anoto tudo porque se não eu esqueço de verdade, minha memória é uma porcaria, mas foi isso, dia treze, por que? - a cabeça dela tombou pro lado de curiosidade. Ficou até fofa a sua carinha curiosa.
- Por nada, só precisava lembrar desse dia, mas enfim…
- Você sabe se a reforma da casa de Alondra já terminou? Da última vez que me encontrei com ela, disse que não queria ficar muito em casa por conta da reforma e eu estava pensando em chamar vocês duas pra irem lá pra casa mais tarde comer uma pizza, o que acha? - mudei de assunto drasticamente e me olhou de maneira agradecida.
- A casa da Alo não está em reforma. Fui lá semana passada e está tudo normal. - Levi me olhou confusa.
Eu encarei de imediato, que arqueou as sobrancelhas no mesmo segundo.
- É… Bem, o que você acha da ideia da pizza? - mudei de assunto novamente, tentando organizar a confusão em minha mente.
- Ótima! - Levi concordou mas nos olhava desconfiada, tentando achar alguma coisas em nossos olhares - Tá tudo bem com Alondra? Aconteceu algo que eu não saiba?
- Não, não aconteceu nada, sério! - respondeu de imediato, bem defensivo. Óbvio que a garota tinha notado algo estranho, não era nada burra ou ingênua, até abriu a boca algumas vezes pra falar algo mas não o fez, decidiu abandonar o assunto e só se despediu com um beijinho no ar.

——


- Dia treze foi o dia em que ela estava bebendo na escola e Sienna a levou pra casa. Ela não participou da aula do Dave! Eu me lembro bem, , as anotações dele tinha a presença dela em todas as aulas e notas muito boas! - reconheci o tom de preocupação e revolta em sua voz.
- , eu não quero pensar o pior disso tudo, mas…
- Eu também não, mas não posso fechar os olhos pra isso! Agora tudo parece estar um pouco mais claro e definitivamente tem algo errado! Peguei Alondra matando aula de biologia várias e várias vezes. É impossível ela não ter nenhuma falta!
- Isso… - fui interrompida com o interfone tocando e o atendi rapidamente, franzindo a testa completamente ouvindo o porteiro dizer que Alondra estava sentada nos esperando há quase uma hora - Claro, pode liberar a entrada dela sim!
- Levi já chegou? - perguntou enquanto dava um pedacinho pequeno de pão com geleia pra Alaia.
- Não, é a Alondra! O porteiro disse que ela estava esperando lá embaixo há quase uma hora!
- O que? - me olhou desacreditado.
Não demorou muito pra nossa campainha tocar. Alondra estava com a mesma roupa que a vi saindo do colégio e com a mochila também. Seu rosto estava levemente inchado, o que denunciava explicitamente um choro recente.
- Oi, Alo! Aconteceu alguma coisa? - dei um passo à frente, me aproximando da garota que segurava as alças da mochila com força.
- É… Eu precisava te contar. É um menino! Minha mãe vai ter um menino! - sua voz embargou e ela tentou lutar muito contra isso, mas não conseguiu. Me aproximei pra um abraço, mas a garota foi pra trás - Eu tenho que ir agora!
- Não!!! - dei longos passos até ela, colocando a mão em frente aos botões que chamavam o elevador antes dela os tocar. Fiquei frente a frente com a garota, que limpou uma lágrima rapidamente - O que aconteceu? Você precisa de alguma coisa? - questionei com o coração dolorido por sentir que algo estava errado com ela.
- Não é nada!
- Alondra, por favor, você pode confiar em nós! - a figura de na porta com Alaia no colo se fizeram presentes.
- Eu só… Precisava ficar fora de casa. Só isso. - ela se lamentou ainda com a voz fraca.
- O que aconteceu? Você quer falar sobre isso?
Do corredor mesmo deu pra ouvir o interfone do nosso apartamento tocar. entrou junto com Alaia rapidamente enquanto eu continuava encarando a garota na esperança de ter alguma resposta.
- Não é nada, é besteira, eu juro! - eu não aguentei, a abracei forte como um urso. Um abraço cheio de carinho. Minhas mãos acariciavam seu cabelo e as lágrimas da garota começaram a rolar sem parar.
- Vamos entrar, por favor. Quero que você fique confortável e se acalme. Estamos aqui pra você. - sussurrei no ouvido da garota, que lentamente foi controlando os soluços do choro e se soltava do meu abraço lentamente.
Entramos novamente e Alondra se sentou no sofá, onde a ofereceu um copo d’água de imediato. Ela aceitou, bebendo todo o líquido rapidamente.
- Alondra, seja lá o que for, estamos aqui pra te ouvir, ok? - tinha um olhar inseguro, mas foi sincero com a garota no que disse. Eu o conhecia, sabia que em sua cabeça já se passavam mil e uma teorias sobre o que tinha de errado com sua aluna.
- Eu só não queria ir pra casa. Não quero, na verdade. Não posso vê-la nesse estado. - ela fungou, passando a manga do moletom pelo rosto pra limpar as lágrimas.
- Quem? - perguntei.
- Minha avó.
A campainha tocou e o olhar de Alondra se ergueu em um susto. atendeu a porta, revelando Levi, que também levou um susto ao ver a amiga naquele estado.
- O que aconteceu???
- Eu… É que… Ela tem câncer. Minha avó. Ela começou a quimioterapia e voltou pra casa hoje mas eu simplesmente não posso ver ela, não assim. Eu não quero ser egoísta, mas eu me sinto invisível ali. Óbvio que a prioridade é ela e minha mãe que está grávida, mas… Eu não sei. Eu não quero vê-la, não quero ir pra casa, não quero sentir o que estou sentindo e não quero imaginar um mundo sem ela.
- Wendy está com câncer? Alo, por que não me contou? - Levi estava chocada, se sentando ao lado da melhor amiga e a abraçando de um jeito desengonçado.
- Câncer não é uma sentença de morte, Alondra. Óbvio que não sei o que você está sentindo, só você sabe, mas...
- Mas é câncer, não tem como melhorar ou romantizar a situação dizendo coisas bonitas ou que ela é forte pra passar por isso e bla bla bla. Eu sei, talvez tudo realmente aconteça por uma razão, mas não quero achar que um câncer é sobre isso. Se por acaso existe um Deus ou seja lá o que for, quero a mesma justiça que o Asher teve. Minha avó não merece essa doença, então quem vai tirar isso dela? Afinal, por que isso veio justo pra ela? - o desespero, a negação e a revolta eram aceitáveis. Alondra estava sofrendo.
Claro que Levi ainda se arrepende de tudo o que fez com , eu sinto isso e ele também mesmo sem ela precisar falar nada. Claro que às vezes ela deve olhar pra trás e ver que um erro gigante foi cometido. Talvez ela se arrependa de uma maneira que faça o peito sentir aquela dor aguda que te atormenta, porque agora ela sabe que se ela tivesse usado melhor seu discernimento, jamais faria o que fez, mas também não estaríamos aqui.
Claro que eu preferia que tudo tivesse sido diferente. Foram dias horríveis que nunca vamos nos esquecer, mas estamos aqui. Talvez não estivéssemos se tudo isso não tivesse acontecido. De qualquer maneira… Meu coração dói por Alondra. Claro que dói. A garota chorava sem parar no ombro da melhor amiga e eu tenho certeza que todos nós sentimos no ar o tamanho da sua dor, mas ao mesmo tempo me sinto aliviada por estar com ela. Me sinto aliviada por ver que a garota, embora revoltada e sem esperança nenhuma, confiou em nós. Não somos os melhores ser humanos do mundo e com certeza não podemos fazer uma mágica pra fazer essa dor sumir do seu peito, mas estamos aqui por ela. Isso é importante. Adolescentes terem adultos ao seu lado é importante.

// //


- Alondra, sua vez! - alertei animado, mesmo a garota praticamente se arrastando pra levantar de sua cadeira pra poder ir para o meio da sala.
Na minha última aula, pedi para os meus alunos trazerem seus poemas ou citações de séries e filmes favoritos. Felizmente parece ter sido a melhor coisa que pedi em todo esse tempo. Os alunos estavam animados.
- Bem, não é nada tão conceitual assim, mas eu gosto desse poema e gosto dessa cantora pra caramba também. É da Taylor Swift. Esse poema me faz sentir como se uma possível Alondra do futuro pudesse citá-lo de corpo e alma e… Sei lá. - a garota deu os ombros e gargalhou pra si mesma e alguns alunos riram também.
Ela não era tímida pra isso. Alondra sempre se deu bem com apresentações, falar em voz alta e sempre se deu muito bem com os colegas de classe.
A garota deu um longo suspiro e me olhou antes de se mergulhar no papel em suas mãos com o tal poema. Nem mesmo parecia a garota de dois dias atrás que estava chorando em meu sofá. Alondra é forte.
Quando ela caiu, ela desmoronou.
Quebrou os ossos no chão que decorou um dia quando criança com giz colorido.
Quando ela colidiu, suas roupas se desintegraram e voaram com os ventos que levaram embora todos os que se diziam seus amigos.
Quando ela olhou em volta, sua pele estava suja de tinta formando as palavras ditas a mil vozes.
Ecos que ela ouvia mesmo durante o sono:
“O que quer que diga, não é certo.”
“O que quer que faça, não é suficiente.”
“Sua gentileza é falsa.”
“Sua dor é manipulativa.”
Quando ela ficou ali no chão, sonhou com máquinas do tempo e vingança e um amor que fosse realmente algo, e não apenas a ideia de algo.
Quando ela finalmente se levantou, foi devagar, evitando lugares aonde eles vão e fugindo de moedas brilhantes.
Desconfiada de ligações e promessas, dos charmosos, dos elegantes e dos esquemas que prometem amor rápido.
Quando ela ficou de pé, foi com uma sabedoria desolada. Andando com dificuldade no oceano escuro e inquieto na altura de seu pescoço, banhada em sua derrota, rezou para agradecer cada fenda na armadura de que ela nunca soube que precisava.
Em pé ao seu lado com os ombros largos estava um amor que é realmente algo, não apenas a ideia de algo.
Quando se virou para ir para casa, ela ouviu os ecos de novas palavras
“Que seu coração sempre seja capaz de se partir de novo mas nunca duas vezes pela mesma mão”
E mais alto:
“Sem seu passado, você nunca poderia ter chegado — tão maravilhosamente e brutalmente, de propósito ou por alguma exótica e violenta coincidência… aqui.”


Falar constantemente não significa estar se comunicando e a prova mais pura disso foi Alondra recitando esse poema. Todos aplaudiram com fervor. Eu olhei pra garota completamente orgulhoso e intrigado. Ela nunca se comunicou tanto quanto tinha acabado de fazer e isso fez minha mente girar. Esse poema era algo que uma possível Alondra do futuro poderia citá-lo. Mas… Do futuro?
O resto dos meus alunos recitaram seus poemas e citações favoritas até o sinal tocar. Juro que tentei prestar atenção em todos, mas o poema de Alondra - da Taylor Swift, na verdade - estava impregnado na minha cabeça.
- Você citou mesmo o “Why She Disappeared”! - Levi exclamou animada enquanto juntava o resto do seu material e Alondra fazia o mesmo. Só restava mais alguns alunos na sala, que saíam rapidamente.
- Fiquei impressionado, Alo, foi bem forte. - me manifestei alto o suficiente pra ela ouvir.
- O que você falou antes de citar o poema… É sobre a sua avó? Você acha que se ela melhorar, você vai sentir que essa fase, esse futuro passado, vai te fazer se sentir forte? - Levi questionou e eu agradecia mentalmente por isso. Sua pergunta era algo que eu mesmo queria fazer mas não precisei. Enrolei ao arrumar meu material só pra poder ouvir o resto da conversa.
- É… Sei lá, acho que sim. - Alondra respondeu sem jeito, prendendo seu lábio inferior com os dentes em um gesto de nervosismo, completamente sem graça e nem mesmo conseguiu disfarçar.
As duas saíram da sala, mas minha cabeça continuava a pensar.

DIA SEGUINTE.


Irina ria alto enquanto comentava sobre alguns alunos que tentaram colar no seu teste surpresa e falharam miseravelmente. Pra ser honesto, acho que ninguém nessa vida já conseguiu passar Irina pra trás, porque ela é completamente atenta a tudo e parece ter um sensor de quando algo errado estava acontecendo, principalmente em seus testes e provas.
Nossas conversas sempre envolviam alguma história engraçada. Nossos alunos aprontam cada uma… A cara de pau na adolescência é única e impagável.
O sinal estava prestes a tocar e nos levantamos. Era minha última aula do dia e de Vince também, até combinamos de sair juntos pra tomar uma cerveja.
Cada um foi passando pela porta, até que o celular de Dave, que estava na minha frente, tocou. Ele o tirou do bolso e com isso, uma folha caiu. Me abaixei, pegando a folha branca que estava dobrada de qualquer maneira e a abri. Eu simplesmente abri, sem nem me preocupar se era algo pessoal ou não, eu só abri.
Era o poema que Alondra tinha citado na aula ontem. Exatamente a mesma folha, com a sua própria letra.
- EI! - Dave puxou a folha da minha mão com tudo, chegando a rasgá-la um pouco - O que é isso, ? - Dave questionou minha atitude com raiva.
Isso, raiva!
Dave nunca tinha ficado bravo, não comigo, e não por causa de uma folha.
E nesse momento eu tive mais que a certeza de que algo estava acontecendo e não era nada bom.

// //


disse com todas as letras o que achava. Por todos os pontos que ele tinha ligado em sua cabeça, Dave estava usando Alondra pra alguma coisa. Todas as aulas de biologia que ela matou, o problema com álcool, as mentiras, o fato de Dave sempre ser o mais quieto entre todos os colegas de trabalho e a folha com o poema estar com ele fez abrir a mente de que algo ruim poderia estar acontecendo de verdade.
Com isso, chamei Alondra pra vir aqui em casa. saiu com Alaia, a fim de nos dar mais conforto pra termos essa conversa. Poderia não ser nada, mas poderia ser algo também. Adolescentes são fechados e conversas sérias demandam paciência e carinho. Eu sou mãe de uma garotinha de dois anos e quero que ela confie em mim a ponto de não precisarmos chegar num ponto onde ter uma conversa com ela me deixe tão nervosa do jeito que estou.
A campainha tocou e meu coração acelerou. Alondra felizmente estava nos dando espaço mesmo depois de sabermos sobre sua avó. A princípio pensei que ela fosse se fechar de vez, afinal, as atitudes dela não foram pensadas, ela só apareceu aqui dizendo que queria me contar sobre sua mãe estar esperando um menininho e acabou desabando e contando sobre a avó. Não estava nos planos dela. Felizmente, até aqui, estávamos bem.
Ela entrou e se sentou. Eu amava ver como ela se sentia cada vez mais confortável. Ofereci comida, mas ela tinha acabado de comer. Perguntou de e Alaia e eu disse que estavam na casa dos meus pais - e estavam mesmo.
- Alondra… - a chamei com a voz suave. Ela estava sentada na ponta do sofá e eu me sentei ao seu lado. Ela me olhou esquisito, como se já estivesse esperando uma conversa diferente.
- Sim?
- Eu sou mãe. Já fui adolescente. Já tive vários e vários problemas pra chegar aqui. Ainda tenho, os problemas não somem, você só vai aprendendo a lidar melhor com eles, mas eu… - dei uma pausa, respirando fundo - saiu com Alaia pra me deixar mais confortável pra ter essa conversa. Ele anda preocupado com você.
- Comigo? Por que?
- No dia que nos encontramos no café, você saiu pra atender o celular e nem mesmo percebeu Sienna passando na calçada. Ela me disse que você gritava nervosa o nome de um homem chamado Dave. Quando contei isso pra , ele achou estranho e ficou chocado, porque de maneira estranha, o Dave, seu professor de biologia, tinha feito anotações erradas no diário do aluno. Te deu presença em aulas que você faltou, te deu nota em atividades que você não fez, e por fim, encontrou a folha com o poema da Taylor Swift que você citou na aula no chão, porque Dave deixou cair.
- O que você… O que é isso? - Alondra vociferou, se levantando de imediato em um choque completo e um modo de defesa automático.
- Alondra, tem alguma coisa acontecendo? Eu estou aqui pra você, eu prometo!
- Isso é… Meu Deus! Como vocês… ! - ela estava completamente perdida. Parecia que alguém tinha tirado algo dela da pior maneira possível. Sabe esses sonhos estranhos onde você está nua enquanto todo mundo te olha? Alondra parecia estar em um desses sonhos. Quer dizer, pesadelos.
- Ei, calma! - me levantei com calma, tentando me aproximar da garota, mas isso só fazia ela se afastar ainda mais.
- Me perdoa! Por favor, me perdoa!!! - Alondra pedia com desespero, andando de um lado para o outro em meio a uma suposta crise de identidade, pânico, ansiedade e mais um trilhão de coisas.
- O que?
- Me perdoa!
- Do que você tá falando?
- Fui eu, foi culpa minha! Ele… Ele torrou a minha paciência até eu contar e eu estava tão estressada e… Desculpa, eu desconfiei mesmo de e eu acabei falando e… Aquele filho da puta usou isso pra fazer aquela maldita ligação anônima! - ela chorava desesperada mas nem mesmo parecia perceber que estava chorando - Foi culpa minha!
- Alondra, calma, você precisa se acalmar! Tá tudo bem, já tá tudo bem, eu estou bem, está bem, você não precisa pedir perdão e nós não precisamos te perdoar por nada, ok? Se acalma e me conta o que está acontecendo! Respira fundo… - eu forcei a aproximação que eu queria e segurei em seus braços com certa força até ela perceber que eu só queria que ela me acompanhasse em um exercício rápido de respiração onde ela voltou a respirar feito um ser humano normal. Ela me encarava completamente assustada e por um segundo eu nem mesmo a reconheci. Parecia ser outra Alondra, completamente atormentada da maneira mais triste e preocupante possível.
- Eu só… Não quero explorar isso mas também não quero ignorar. Não quero continuar fazendo isso, , eu não sou assim, eu sei que eu tenho força pra isso, mas…
- Sim, você tem, você é forte, Alondra! Você é uma garota iluminada e eu sinto isso desde a primeira vez que te vi, eu juro!
- Eu não sei como falar! - sua voz falhou.
- Dave, o seu professor de biologia… Ele anda te fazendo mal? Ele anda te perseguindo, é isso? - aquilo me doeu e o olhar amedrontado da garota me trouxe um arrepio dos pés à cabeça. Permaneci séria, esperando a verdade e nada confortável com que estava por vir.
- Foi tão… estranho! Tão de repente… Eu não sei como aconteceu. Eu não sei quando foi que eu dei essa abertura. Eu não sei quando eu perdi o controle. Eu não tinha feito um trabalho e ele decidiu ser legal comigo mesmo assim e me deu uma nota alta, e isso continuou com outras atividades e eu não entendia, até o dia em que estávamos no laboratório e ele me pediu pra esperar porque precisava falar comigo e… Ele me abraçou. E em todas as aulas ele dava um jeito de ficar sozinho comigo ou me chamar em outros horários dizendo que precisava resolver algo sobre algum trabalho meu que estava incompleto e… Ele conseguiu meu número. Eu não sei como, , eu juro! Ele me…
- Eu sinto muito!
Meu coração estava pesado.
Alondra estava sendo assediada e perseguida pelo próprio professor.

Capítulo 9

Quando exposto a um trauma, o corpo implanta seu próprio sistema de defesa. Desde o primeiro segundo em que o cérebro recebe o sinal de que uma catástrofe aconteceu, o sangue corre para os órgãos que precisam de mais ajuda. Há um dilúvio de sangue nos músculos. Nos pulmões. No coração. No cérebro. O cérebro toma uma decisão pelo resto do corpo. Encarar o perigo ou fugir. É um mecanismo designado para proteger o corpo de danos, de saber que o que aconteceu pode ser irreparável. Nós chamamos isso de choque. Quando o choque acaba, quando o corpo pode aceitar que um trauma aconteceu, quando pode abaixar suas defesas, é um momento assustador. É vulnerável. O choque nos protegeu e pode ter nos salvado.

// //


Alondra havia me dado permissão pra chamar pra participar da conversa. Ele deixou nossa filha com os meus pais e assim que chegou, quase desmoronou de tão chocado. Eu sabia que ali tinha muita coisa, principalmente raiva, afinal, Dave era seu colega de trabalho, mas não foi isso que ele deixou transparecer. foi completamente amigo e ouvia cada palavra da garota com atenção e deixava claro que sentia muito por ela estar passando por isso.
- Eu sei que isso é errado, eu sei que ele está errado. Eu sempre soube. Eu tenho informação, eu sei o que é isso que ele faz, mas… Eu nunca imaginei que aconteceria comigo. Eu sempre via isso na internet ou pessoas por aí falando sobre isso, mas comigo? Eu nunca nem tive pesadelos que isso poderia me acontecer. E é… sufocante. Eu me sinto tão mais leve por poder falar sobre isso agora e por principalmente ter a segurança em falar. Sei que muitas meninas não tem isso. Eu consigo falar. Eu finalmente consigo! - nem mesmo a própria Alondra parecia acreditar no que estava falando. Dava pra ver que ela estava aliviada de verdade, aquilo era um passo enorme a se dar, mas não deixou o clima menos tenso e fúnebre.
- Ninguém deveria fazer disso um segredo. Nenhuma mulher deveria pensar que precisa. Você não precisa ter vergonha disso, mas ele sim. - comentou com os olhos fechados, completamente tomado por uma raiva que eu sabia que ele sentia. Ele mal respirava.
- Eu não sei o que fazer! - Alondra disse baixinho, como se outra realidade tivesse a atingido.
- Podemos chamar Sienna, ela é advogada, vai saber como te orientar em tudo e…
- O que? - a garota me interrompeu de imediato, se levantando do sofá com os olhos arregalados.
- Alondra, eu imagino que seja difícil, mas isso é mais do que sério. Isso é um crime, uma violência, precisa acabar! Estamos aqui pra você no que você precisar, mas também precisamos falar com seus pais. Eles são essenciais nisso. - tentou, mas isso pareceu aterrorizar a garota ainda mais.
- NÃO!
- Alondra…
- NÃO!!! Eu não quero fazer nada! Nada nunca funciona, vocês sabem! A justiça é falha. Ele não vai ser preso, não vai pagar por nada, e ainda vou ser cobrada de provas, como se fosse possível, e vou ter que ouvir pessoas duvidando de mim! Eu não vou me submeter a isso! Eu sei como funciona!
- Aconteceu uma coisa horrível com você, Alo, e isso…
- Coisas horríveis acontecem todos os dias. Eu não vou mexer com a vida da minha família desse jeito, ainda mais com a minha mãe grávida e minha avó doente! Eu não posso! - ela interrompeu mais uma vez, completamente alterada.
- Você foi atacada na sua própria escola! A menos que seus pais sejam monstros, eles vão te ajudar e te apoiar nessa luta! - eu tentei me aproximar, mas ela ia cada vez mais pra trás. Alaia estava brincando sozinha em seu cercadinho como sempre e eu olhei de longe ela em pé nos encarando, provavelmente por conta do barulho. Ela não chorou, na verdade, voltou a brincar, mas a situação de Alondra fazia meu coração acelerar no pior dos sentidos.
- Eles não são monstros. Eles são anjos, de verdade, eles são incríveis, mas nesse caso, eu sou o monstro. Eu sempre fiz tudo errado, eu sempre fui estranha, sempre pareceu que eu nunca me encaixava na família e… Eu não posso fazer isso com eles! - era uma crise. Alondra parecia soar. Eu queria poder abraçá-la, mas nem mesmo sabia o que fazer. parecia tão perdido quanto eu.
- Você não vai estar fazendo nada com eles, Alondra! - eu sussurrei tentando segurar o choro. Eu me sentia acabada e parecia até egoísmo sentir algo num momento assim, mas eu me sentia derrotada.
- Olha… - Alondra se virou pra porta e virou a chave que já estava na maçaneta e a abriu. Dei um longo passo pra frente pra poder me aproximar, mas me segurou pelo braço. Ele balançou a cabeça e suspirou pesado, como se quisesse que eu a deixasse ir, e afinal, era o que ela queria também - Eu vou resolver isso tudo, ok? Vocês vão ver! - ela disse com a voz fraca, nos olhando com os olhos cheios.

Eu me senti despedaçada. Eu tenho uma filha que vai crescer, mas desde nova eu vou precisar ensinar sobre assédio. Vou precisar ensinar sobre a importância da comunicação. Vou precisar ensinar coisas que não deveriam ser explicadas, mas o mundo é cruel demais. As pessoas são cruéis.
Eu queria matar Dave. Eu facilmente o mataria com as minhas próprias mãos, sem exagero, mas ainda assim, ainda com toda essa raiva, me sinto despedaçada.
Ser mãe dói e eu só conseguia pensar na mãe de Alondra e na própria Alondra. Ser mãe dói desde o segundo em que o bebê chora de noite e não se sabe bem como acalmá-lo, mas aí você aprende a interpretar cada choro pra entender seu bebê. Alondra é forte e sua mãe também precisa ser caso ela decida contar sobre essa infelicidade sem tamanho. Alondra é forte e todos ao seu redor precisarão ser.
Ser mãe é uma missão que dói a vida inteira, assim como ser uma filha, amiga, amante da vida e dos aprendizados. Tudo é cruel.
- … - entrou no quarto com Alaia no colo, que segurava sua mamadeira com certa preguiça por já estar quase dormindo. Ele se sentou e eu só conseguia olhar pra nossa filha. Tão pequena, tão frágil.
- Podemos ligar pra Sienna. Ela é muito boa, , ela tinha te falado que desconfiava de Alondra mesmo sem nem ter pista nenhuma. Ela vai saber como ajudar ela, eu sei que vai. - sugeri um pouco incerta, mas não por não gostar de Sienna ou da ideia de ter ela por perto, mas sim, por esse pontinho de confusão que a minha própria ideia me trazia. O jeito que o mundo junta certas pessoas é realmente maluco.
- Precisamos saber como lidar com Alondra, babe. É uma situação extremamente delicada e temos que agir com cuidado. - falou baixinho, me pedindo com o olhar pra ajeitar o travesseiro da nossa filha.
- O pior é que ela não errou no que disse, . Ela só tem dezessete anos e já sabe que pessoas podem desconfiar dela mesmo sendo algo verídico e nojento. Ele mexeu tanto com a cabeça dela, que ela passou a desconfiar de você e Levi, que ironicamente estava te ameaçando com falsas acusações de assédio enquanto a melhor amiga estava, de fato, sendo assediada. É maluco, , maluco!
- E pensar que ele a observa tanto a ponto de saber coisas em relação ao seu humor e viu que ela estava chateada com alguém e esse alguém era eu. Ela achava que eu estava fazendo algo com Levi. Sua desconfiança fez ela pirar ainda mais e com razão. Tudo o que ela enxerga agora é crueldade e Dave sabe, ele encheu a paciência dela até contar o que era, e ela contou. Eu jamais a culparia por isso, mesmo ele tendo feito aquela ligação ridícula. Não tem nem sentido! - grunhiu baixo, contendo a própria raiva por ainda estar com a nossa filha no colo. Peguei a mamadeira vazia de suas pequenas mãos e a deitou na nossa cama. Ela dormia feito um anjo.
- Você precisa tomar cuidado com ele, . Ele fez isso por algum motivo!
- Eu nem sei como vou conseguir encarar esse filho da puta de agora em diante.
Alaia estava coberta de modo gostoso e confortável, mas não parava de ajustar a pequena coberta na nossa garotinha. Parecia que ele queria cobrir ela de toda a ruindade do mundo. Me levantei com a mão erguida, o convidando a pegá-la. Ele me olhou um pouco confuso mas entrelaçou nossas mãos e se levantou cuidadoso.
- Vem, está na hora de montarmos a cama da nossa filha.

// //


Eu sou pai e cuido de filhos de outros pais. Alaia vai crescer, vou protegê-la o máximo que puder, mas ela vai pra rua e vai ter contato com incontáveis pessoas. Minha obrigação é mostrar o que ela deve ou não aceitar, e isso infelizmente inclui a parte de que dona do corpo dela, é só ela mesma. Ninguém, nenhuma mulher, merece sofrer essa invasão.
Eu senti todos os meus órgãos sendo amassados assim que pisei no colégio. O nervosismo tomou conta de mim e não foi de uma maneira bonita. Eu já estava com os pulsos fechados e apertados, pronto pra dar um soco em Dave, até saber que ele não tinha ido trabalhar. Ligou dizendo que tinha acontecido um grande imprevisto.
Alondra faltou.
Meu dia foi resumido em uma agonia que não parecia ter fim. Eu queria berrar em cada canto daquele colégio que agora parecia me sufocar.
Mandei várias e várias mensagens pra Sienna, que só respondeu quase no fim do horário da minha última aula do dia. Marcamos um encontro no café e expliquei brevemente que era sério e que estaria junto. Me senti numa realidade paralela. Eu me sentia sujo só de estar na sala dos professores e lembrar que até ontem, Dave também estava aqui. Saí da sala atordoado, observando os corredores vazios e doido pra ir embora logo.
- Professor? - era a voz de Levi. A garota estava no primeiro degrau da escada. Eu mesmo franzi minha testa, estranhando o fato de nem mesmo ter ouvido um passo sequer da garota descendo, afinal, estava tudo vazio. Menos a minha mente.
- Você estava aí o tempo todo ou tá matando aula? - questionei com humor, vestindo de imediato essa outra capa que precisava ser vestida pra continuar vivendo ser deixar óbvio que algo muito errado estava acontecendo no colégio, na vida e no mundo.
- Ah, você sabe. - a cabeça dela tombou pro lado junto com um sorrisinho sapeca.
- Olha, eu sei que sou legal e provavelmente o melhor professor que você já teve, mas você não pode ficar matando aulas desse jeito, Levi!
- Eu sei, eu sei, mas é que… - a garota se aproximou enquanto ajustava a mochila em suas costas - É que eu estou tentando viver minha vida. Me adaptar, na verdade. Eu sei que você tem mais coisas pra fazer do que ouvir uma adolescente que fez algo horrível pra você, mas você e a me ajudaram muito, professor. Eu sei que o meu pai morreu, mas se não tivesse morrido, vocês estariam tentando me ajudar até hoje, tenho certeza. Vocês são pessoas incríveis e eu na verdade estou morrendo de vergonha de falar isso, mas faz parte da minha adaptação. Quero ser mais aberta, falar mais e ouvir mais.
- Isso é incrível, Levi. Muito obrigado, de verdade mesmo! - um sorriso largo surgiu ao ouvir a forma como ela estava sendo sincera e delicada. Por um momento, me senti completamente satisfeito, como se meu trabalho tivesse sido cumprido.
- Eu procurei o Archie, meu ex namorado. Eu surtei e terminei com ele porque meu pai me fazia ter medo de qualquer outro homem e eu pensava que no fim, Archie seria como ele. Eu não quero voltar com ele, mas quero ser sincera e pedir desculpas, afinal, tenho certeza que não foi fácil me aguentar pelo tempo que ele me aguentou. - ela gargalhou fraco.
- Isso é muito bonito, Levi. Sua honestidade é admirável, de verdade mesmo, muitos adultos não tem isso! Tenho certeza que Archie vai se sentir aliviado em fechar essa porta de maneira menos dolorosa. Tenho certeza que ele gostou muito de você.
- Claro que gostou, quem não gostaria? - ela zombou como se fosse óbvio e isso genuinamente me arrancou uma gargalhada - Meu pai costumava dizer que tinha apanhado muito do pai quando era pequeno e não morreu por isso. Isso sempre ficou gravado na minha cabeça porque o que ele fazia comigo era pior do que a violência física em si. Ele dizia que não tinha morrido por apanhar, mas sempre enfrentou problemas em relacionamentos. Até mesmo os amigos mais próximos não o aguentava em certos tempos porque ele era muito ignorante.
Eu não aguentei, abracei a garota de uma vez. Era o abraço que eu queria dar em muita gente agora. Um abraço cheio de admiração. Uma garota de dezessete anos que viu o pai agredir a mãe como uma forma de punição e manipulação com ela, e ainda assim, ela está aqui, pronta pra se reinventar.
Eu, um homem que ouviu de vários outros homens que chorar é errado e é sinal de fraqueza, queria chorar.

// //


Eu conheci um quebrado, um que ainda sofria por Sienna. Em uma época, anos atrás, o coração dele doía por alguém que ele jurou jamais esquecer ou parar de amar. Até que ele a esqueceu e parou de amá-la. Aquelas portas foram fechadas e ele achou que não conseguiria fechar, e francamente, em algum momento, nem eu.
Mas aqui estamos nós. Os três. Quatro, contando com Alaia, mas ela estava no escritório com a minha mãe.
Eu nem mesmo conseguia comer, mas pediu um chá e Sienna um suco e um donut.
Tudo estava terminado mas nada acabou de verdade. Eu deveria estar mais confiante. Nós três passamos por situações complicadas onde nossos corações se apertaram e doeram, e ironicamente a vida nos colocou juntos pra resolvermos - ou tentarmos - algo maior do que os nossos corações partidos de anos atrás. Mas eu não sinto essa confiança. Não porque não confio em ou Sienna ou até mesmo em Alondra pra conseguir enxergar que só queremos ajudar, mas sim, porque isso me trouxe de volta a de dezenove anos que eu sempre tentei enterrar. Uma que se engole no próprio pessimismo. E isso não é sobre mim, e sim, sobre Alondra, portanto, eu estava o dia inteiro tentando amassar essa e a engolir de volta e guardá-la em algum lugar dentro de mim novamente.
- Você estava certa. - começou, assim que os pedidos chegaram e Willa se afastou. Sienna o encarou confusa, esperando que ele continuasse e esclarecesse aquilo - Na verdade, mas ou menos certa. A ligação anônima foi feita por Dave, mas por causa de Alondra.
- O que? - ela franziu a testa - Quem é Dave?
- Professor de biologia da Harkerside. - eu quem respondi, tentando não me fazer tão invisível e inútil.
- Como assim? O que aconteceu? O que a garota tem a ver com isso?
- Ele tem… Ele… Porra, é difícil mesmo de dizer! - lutava com as palavras - Ele não deixa ela em paz. Assédio sexual, Sienna. Ele tá fazendo isso dentro do próprio local de trabalho, com uma aluna!
- Meu Deus! - Sienna largou o copo de suco no mesmo segundo.
Explicar tudo foi doloroso e eu só conseguia pensar no quando a cabeça de Alondra devia estar confusa. Ela não nos respondia mais e isso nos deixava ainda mais preocupados. Me doía lembrar que ela já sabe que a palavra de uma mulher nunca tem tanta potência quanto a de um homem, principalmente em denúncias de abuso. Tudo é questionado, como se cobrassem um tipo de protocolo ou padrão de comportamento que vítimas de assédio seguem ou devem seguir depois de serem assediadas. Me doía pensar na possibilidade de ter que ouvir alguém duvidando de Alondra.
No fim, obviamente Sienna estava completamente disposta a ajudar no que fosse preciso. esperava conseguir contato com Alondra o mais rápido possível e poder mostrar as opções que ela tinha e lembrar que ela não está sozinha nessa.
- Vou buscar Alaia. - anunciei enquanto já me levantava e Sienna fazia o mesmo, dizendo que iria ao banheiro.
Entrei no escritório e minha mãe me olhava confusa, curiosa e surpresa. Claro que ela queria entender que porra nós três estávamos fazendo juntos.
- O que é isso? Não me fala que é um desses relacionamentos modernos que três pessoas estão juntas ao mesmo tempo?! - ela questionou cheia de humor e malícia enquanto me entregava Alaia no colo e eu revirei os olhos mas acabei rindo. Tinha como não rir de uma palhaçada dessas?
- Ainda não enlouqueci a esse ponto, mãe. - me despedi com um abraço gostoso e ela nem sabia, mas foi um abraço que pareceu ter recarregado minhas energias.
Fechei a porta do escritório e fui andando até , que me esperava perto da saída, até que o corpo de Sienna trombou no meu ao sair do banheiro, derrubando seu celular e um batom da Maybelline no chão.
- Meu Deus, perdão, ! - Sienna pediu de imediato enquanto pegava suas coisas do chão. Ela olhava assustada pra Alaia, que apenas… riu.
- Tá tudo bem! Não quebrou, né? - perguntei olhando especificamente pro celular e ela riu fraco, virando a tela do mesmo pra mim e por sorte não tinha acontecido nada.
- É… - ela me olhou de maneira diferente e logo seu olhar foi pra Alaia - Acho que ela parece mais com você do que com o . - ela sorriu e não parecia ser nada forçado. Ela não me passava uma sensação pesada, pelo contrário. Por mais que em alguns momentos meu coração e minha cabeça fossem pra outros lugares e quando voltam, trazem pitadinhas de insegurança e confusão, Sienna não parecia ser uma pessoa ruim e muito menos não merecia ser tratada de maneira rude só pelo seu passado com .
- Bom, eu amo ouvir isso. - respondi devolvendo o sorriso.
- Vocês pretendem ter outro? - ela perguntou tranquila mas meio segundo depois pareceu que ela tinha feito a pior pergunta do mundo - É, desculpa, eu sei que é pessoal, mas eu não quero que exista nenhum clima entre nós e…
- Sienna, tá tudo bem! - ri fraco, começando a andar em direção à saída - Por enquanto estamos bem só com essa pequenininha aqui. Eu não esperei Alaia, não fiz nada maluco pra engravidar, muito pelo contrário, não precisei me preocupar em engravidar ou não, só aconteceu. - um sentimento nostálgico me atingiu. Quando descobri foi um inferno, mas dei sorte porque no fim deu tudo certo. Sienna me olhava de maneira encantada, como se ouvir aquilo fosse música para os seus ouvidos. Eu poderia achar estranho, mas na verdade era gostoso ver que ela estava de fato feliz por ver numa nova vida.
- Já estão fofocando? - brincou num tom irônico assim que nos viu saindo do café. Ele me esperava encostado no carro de , que praticamente estava sendo nosso.

// //


Dave não tinha aula no primeiro horário, mas eu sim. Entrar na Harkerside parecia andar num campo minado agora. Entrei na sala e quase travei ao ver Alondra ali. Fui a pessoa que mais torceu pra aula acabar logo, até mais que os próprios alunos.
O sinal tocando liberou todo o nervosismo do mundo no meu corpo. Eu via Alondra arrumando suas coisas rapidamente, mas pedi pra ela vir até minha mesa em voz alta mesmo, e claro, ela veio, afinal, por que não viria? Ninguém sabia do que eu sabia e ela não tinha porque não obedecer o pedido do seu professor.
Pelo menos era o que os poucos alunos que ainda restavam na sala poderiam pensar.
- O que é?
- Pelo amor de Deus, estamos preocupados com você! Tá tudo bem? Eu não te vejo em canto nenhum!
- Eu já disse que vou resolver essa situação, vou dar meu jeito! Aliás, já tenho uma ideia, preciso que vocês me deixem em paz, preciso de concentração! - ela sussurrava enquanto olhava pra todos os cantos, se certificando que ninguém estivesse ouvindo.
- Ou você pode contar e podemos te ajudar nisso!
- Não! Que inferno, eu já disse que não! Por favor, me deixa tentar sozinha, eu prometo que vai dar certo!
Ela saiu da sala esbarrando em algumas mesas.
Eu não tinha coragem pra entrar na sala dos professores. Eu estava com medo. Medo por Dave, no caso. Eu o quebraria assim que o visse.
Até que eu o vi. Ele estava saindo da sala dos professores e esbarrou em meu ombro de propósito.
- Cuidado, ! - seu tom debochado e cínico demais me tirou dos eixos por um longo segundo.
Eu não pensei. Ou talvez pensei demais. Na minha cabeça, em milésimos de segundos, eu fantasiei grudando minhas mãos de imediato na gola da sua camisa, o empurrando de volta pra dentro da sala dos professores e o quebrando inteiro de tanta porrada, mas não o fiz. Alondra não merecia esse desrespeito e eu não podia arriscar que uma briga com o meu até então colega de trabalho trouxesse a verdade a tona sem a permissão dela. Seria mais uma invasão.
- Cuidado você também, Dave. - respondi no mesmo tom.
Ele sabia. Óbvio que ele já sabia que eu tinha descoberto sobre toda a sua nojeira. Dave nunca sequer esbarrou em mim sem querer ou foi debochado pra provocar. O filho da puta provavelmente já tinha notado algumas coisas ou infernizou Alondra mais uma vez até ela dizer que tinha contado tudo pra mim.
- Sou cuidadoso, , não é à toa que sou o melhor professor desse colégio, não é? - ele tinha um sorriso diferente nos lábios. Ou talvez, agora eu realmente o enxergava como ele era.
- Você anda sonhando muito, Dave.
- Ah cara, para de criar justificativas para o seu fracasso. A ligação anônima que Morgan recebeu tinha o seu nome, não o meu, não é? - seu corpo estava bem próximo ao meu e ele me empurrou contra a parede, com um sorriso nojento nos lábios e uma expressão de tranquilidade, como se aquilo fosse completamente normal. Meus punhos estavam fechados e eu só queria poder reagir e acabar com ele. Como eu queria!
- Filho da puta! - foi a única coisa que eu disse antes dele mesmo se dar por satisfeito e se afastar.

// //


Busquei Alaia na creche - ainda com o carro de - e passei no café da minha mãe. e eu tínhamos acabado de desligar de uma ligação onde ele me contou sobre o que aconteceu com Dave durante a manhã. O cara simplesmente é um doente, nojento, filho da puta e cínico!
- ! - a voz de Dorothy me pegou de surpresa assim que saí do café com minha filha ao meu lado.
- Oi, Dorothy! - me forcei a ter ânimo pra responder enquanto a mulher se aproximava rapidamente pra me dar um beijo no rosto.
- Já está de saída? - ela perguntou sem mais nem menos, sem vergonha alguma.
- Sim, vou pra casa de uma amiga. - e ia mesmo. Combinei com de me encontrar na casa de .
- Posso te pedir um favor? - ela não parecia sem graça por isso, muito pelo contrário, mas tudo bem, porque eu já estava ciente do quão cara de pau a mulher conseguia ser.
- Bom, depende, o que é?
- Você pode me dar uma carona até o banco? Meu carro quebrou ontem.
- Você não ia entrar no café agora? - questionei confusa, franzindo a testa.
- Sim, mas agora que te vi, acho melhor aproveitar pra ir no banco antes que fique mais tarde do que já é. Claro, se você me der a carona.
- Claro, vamos!
O banco não era longe e na verdade era parte do caminho até a casa de . Eu jamais negaria algo assim pra ninguém, nem mesmo pra Dorothy, mesmo ela me passando essa sensação estranha de caráter duvidoso.
- Você e estão num caso com Sienna? - a mulher perguntou curiosa assim que paramos no primeiro farol vermelho. Eu me virei, a encarando por alguns segundos até o sinal ficar verde de novo - É que ela não quis comentar nada comigo. É algo muito sério?
- É sim, por isso não podemos falar. - respondi seca, olhando fixamente pra rua.
- Perdão. - pela primeira vez, ela pareceu ter ficado sem graça. O clima já não era dos melhores e pareceu ter piorado. Dorothy não era a mulher mais simpática do mundo, mas não significava que eu também tinha que ser tão inconveniente e antipática como ela.
- Olha, meu pai entende de carros, se você quiser ele pode dar uma olhada no seu. - falei numa boa.
- Oh querida, muito obrigada, mas ele já está no conserto. Mesmo assim, depois eu pego o contato dele com você, pra caso aconteça alguma outra coisa no futuro, pode ser?
- Claro! - sorri enquanto ela tirava o cinto de segurança.
- Muito obrigada, ! Tchau, Alaia!!! - ela acenou com um sorriso largo pra nós duas e bateu a porta do carro, indo em direção a entrada do banco.

DIA SEGUINTE.


Glenn está me traindo.


A mensagem de me fez praticamente pular do sofá.

O que???


Não é possível que seja tão azarada no amor assim!

Achei um batom no carro hoje.


Eu estava nervosa a ponto de prender minha própria respiração.
- , vou lá na . - anunciei já entrando no quarto e abrindo o guarda roupa atrás de uma jaqueta.
- Aconteceu alguma coisa? - ele perguntou estranhando meu comportamento. Ele estava na cama com Alaia assistindo desenho.
- Glenn traiu a ! - respondi chocada - Dá pra acreditar?
- O QUE? - ele arregalou os olhos, se levantando da cama no mesmo segundo - Caramba, também vou com você!
Foi uma correria danada. dirigia em silêncio porque sabia que minha cabeça já estava longe. Ontem devolvi o carro pra e nesse pouco tempo o Glenn saiu pra traí-la? Pelo amor, porra!
Assim que entramos, estava na sala com uma garrafa de vinho em mãos.
- Ei! - me aproximei aos poucos, a abraçando forte e ela desabou de chorar.
- Que merda, , eu nasci pra tomar chifre, é isso? - ela choramingou. a abraçou em seguida e Alaia já estava fuçando na decoração que tinha na grande estante da sala.
- Mas… Meu Deus, onde você achou esse batom exatamente? Tava no banco? Ele foi burro desse jeito? - questionou curioso e indignado. - Estava caído no chão do carro, na parte do passageiro. Olha só! - ela andou até a cozinha e voltou com o tal batom em mãos - Óbvio que ele negou tudo, mas , esse batom não é meu, nunca o usei e nem você porque sei que você detesta essa cor, então…
A embalagem do tal batom era tipo prateada. Ela ergueu a mão, me entregando ele e eu o abri, subindo o batom e encontrando a tal cor que eu realmente não gostava, mas já tinha visto.
Nos lábios de Sienna.
Eu olhava pro batom com a testa franzida enquanto ouvia a voz de e como se estivessem longe, completamente desligada do momento. Pensei comigo mesma e repensei. Poderia ser loucura, mas minha cabeça trouxe outra pessoa pro meio de tudo: Dorothy.
A carona que dei pra ela ontem.
O batom.
Será?
- Eu já volto!!! - eu avisei, já saindo da sala e indo pro jardim, esperando que ninguém me seguisse, e felizmente não seguiram.
Eu tinha o número de Sienna pra caso algo novo sobre Alondra surgisse. Encarei meu celular com um nervosismo de fazer a barriga revirar, mas apertei pra iniciar a ligação. Parte de mim queria que minha teoria maluca estivesse certa porque aí provaria que Glenn na verdade não tinha feito nada. Por outro lado… A coisa ficaria feia.
- Alo? , aconteceu algo?
- Oi Sienna, boa noite! Não aconteceu nada não, me desculpa por ligar assim, mas é que… Isso vai ser bizarro e estupidamente estranho, mas sabe aquele batom que você deixou cair no chão lá no café? Eu gostei muito da cor dele e eu estou aqui no shopping e pensei em comprar um igual, adorei a cor! Você pode me falar a marca e a cor? - pousei minha mão em cima do meu peito esquerdo, sentindo meu coração completamente disparado. Aquilo era bizarro e eu provavelmente estava passando uma péssima impressão, mas foi a solução mais rápida que encontrei pra tirar minha dúvida.
- Você não vai acreditar! - ela fez um pequeno suspense - Aquele batom sumiu! Acho que devo ter perdido por aí, mesmo ele só ficando na minha bolsa. Deve ter caído enquanto eu procurava alguma coisa. Eu não lembro da cor exatamente, mas era da Maybelline, te ajuda em algo? - ela não parecia desconfiar de alguma coisa, pelo contrário, foi muito simpática, mas meu coração estava quase parando e só piorou quando ouvi a voz de Dorothy no fundo, perguntando pra Sienna onde estava o abridor de garrafas.
- Claro. É… Sua mãe… Ela está aí com você? - continuei forçando meu tom mais simpático e descontraído que podia.
- Está sim!
- É… Muito obrigada então, Sienna! Boa noite pra você e pra Dorothy também!
Eu entrei novamente feito um furacão, completamente tomada pela raiva que me atingiu de imediato.
Aquela filha da puta tinha jogado o batom de Sienna dentro do carro!
- , o que foi??? - perguntou confuso, estranhando meu humor.
- Não foi Glenn, foi a Dorothy!
- Que? - possuía a expressão mais confusa do mundo, me olhando como se eu fosse doida.
- Eu dei uma carona pra ela ontem, te contei, né?! - olhei rapidamente, que concordou com a cabeça - E eu tenho certeza que foi ela que jogou o batom lá no carro! Ela… Meu Deus, ela achou que o carro era nosso, por isso jogou o batom lá, na intenção de causar uma intriga entre nós e… Porra, essa mulher é louca!
- Calma! Como você sabe que esse batom é da Sienna? - continuava confusa, indo em direção a Alaia e tirando uma pequena decoração de vidro da sua mão e colocando no alto.
- Eu acabei de ligar pra ela pedindo o nome do batom, eu disse que estava no shopping e queria um igual, e adivinhem? Ela perdeu o batom!!! - respondi energizada - Eu desconfiei assim que vi esse batom porque ela deixou ele cair no chão quando esbarrou comigo no café anteontem e é exatamente a cor que ela estava usando!
- , mas…
- Dorothy acha que o carro é nosso! Ela colocou o batom da Sienna lá pra criar uma cena. Ela… É ridícula! - respondi com raiva, completamente chocada com o nível da mulher.
- Puta que pariu! - suspirou, tentando se conter, mas óbvio que já não era mais possível. Ela estava com tanta raiva quanto eu.
- Vamos lá agora! Ela vai ter que se explicar! - anunciei ansiosa e nervosa, pegando Alaia no colo de uma vez, que resmungou por querer pegar uma das caixinhas que estavam ali mas não foi possível.
-
- Só pode ter sido isso, ! - eu o interrompi nervosa. Algo nele parecia estar atrasado, como se as informações não tivessem chegado em sua cabeça ainda. Talvez fosse o choque ou a indignação se formando aos poucos pra explodir de vez.
Eles me encaravam completamente chocados, até mesmo Alaia, mas ninguém se negou ou pediu pra eu me acalmar, muito pelo contrário. estava ainda mais nervosa com toda a reviravolta e eu sabia que no fundo estava bravo também, afinal, surdo ele não é. O que Dorothy estava fazendo não tinha palavras.
Fomos todos no mesmo carro e embora detestasse que eu dirigisse nervosa, fiz questão, afinal, ele também estava nervoso. Ele me explicava o caminho com a voz exaltada pela ansiedade. O porteiro do prédio de Sienna era simpático e os momentos mais tensos foram os que tivemos que esperar até nossa entrada ser liberada. Com certeza ela estava mais confusa do que tudo. Pegar o elevador então… Meus órgãos tinham virado geleia de tanto nervoso. tocou a campainha com raiva e poderia facilmente quebrar a mesma de tanta agressividade.
- Oi gente! - a figura insegura e confusa de Sienna abriu a porta e no mesmo segundo eu pude ver Dorothy por trás, se sentando no sofá da sala.
- Isso é seu? - eu tirei o batom do bolso de trás do meu jeans e entreguei pra ela, que me olhou completamente amedrontada de tanta confusão - Olha, o batom já está gasto mais da metade. O seu estava assim?
- Sim. Gente… O que está acontecendo? - ela afastou alguns fios de cabelo que estavam na frente do seu rosto com nervosismo.
- Oi Sienna, eu sou a , muito prazer! Eu sei que não é nada legal nos conhecermos assim, mas uma coisa grave aconteceu. - tentava se conter o máximo que podia, mas eu a conhecia e sabia que tudo o que ela mais queria era entrar ali e jogar Dorothy da janela.
- Gente, o que foi? Vocês estão é me assustando!
- Eu dei carona pra sua mãe ontem, Sienna! O carro que eu estava é da , não meu. O devolvi ontem pra ela e hoje ela encontrou esse batom lá e isso causou uma confusão do caralho porque achou que o namorado dela a traiu. Eu vi o batom e… Sei lá, eu não sei explicar, mas eu lembrei de você, lembrei que foi esse batom que caiu da sua mão quando nos esbarramos no café anteontem e é da mesma cor. Eu lembrei da sua mãe, Sienna, e… Ela jogou esse batom no carro na intenção de me fazer brigar com porque ela achou que o carro era meu!
- Estou ouvindo falarem de mim? - o corpo de Dorothy foi se aproximando da porta e sua voz foi ficando mais alta.
- Sua filha da… - deu um longo passo pra frente mas a segurou e Alaia achava que era uma brincadeira.
- Mãe, isso é sério? - Sienna parecia envergonhada e questionou baixinho, olhando sério pra própria mãe.
- Eu peguei o batom emprestado, filha! Devo ter deixado cair no carro, ! - o cinismo da mulher parecia ser inabalável.
- Você não me engana não! - retruquei furiosa.
- Mãe, por favor!!! - Sienna tentou arrancar a verdade da mãe ainda com um sussurro e a mulher pareceu ter se ofendido. Quer dizer, fingiu bem, quase que perfeitamente.
- Meu Deus, o batom caiu, eu já disse!
- Sua ordinária do caralho, você jogou o batom de propósito! Tem noção que me fez desconfiar do meu próprio namorado por conta dessa merda? Você é louca? - se aproximou mais um pouco e dessa vez quem se mexeu foi Sienna, colocando o corpo inteiro na frente da porta, a impedindo de chegar mais perto de Dorothy, que ficou atrás da filha.
- Eu já disse que deixei o batom cair!
- Dorothy, que inferno, você nunca gostou de mim enquanto eu estava com Sienna e eu entendo, mas querer ferrar o meu relacionamento com outra pessoa? Qual é o seu problema? Tá na cara que você fez isso de propósito! - finalmente falou. Ele fazia carinho nas costas da nossa filha na intenção de não deixá-la com medo daquilo, mas eu sabia que ele queria explodir, estava estampado na sua cara.
- Como você ousa falar assim comigo? - Dorothy elevou seu tom de voz, olhando feio pro meu noivo.
Alaia fez um bico do tamanho do mundo e começou a chorar em seguida.
- Mamãe!!! - ela ergueu os braços pra mim enquanto chorava.
- Chega! Eu… Que inferno, meu Deus! Quando você vai mudar e parar de se intrometer na minha vida? Olha o que você está fazendo!!! - Sienna continuou a falar baixo e ainda com mais cuidado, com os olhos levemente arregalados pelo susto causado pelo choro de Alaia. Ela olhava pra Dorothy de modo decepcionado.
- Sienna, eu sou a sua mãe!
- E como minha mãe você deveria saber que eu odeio isso, odeio essas atitudes ridículas, invasivas e sem noção que você tem! Por Deus, eu e já acabamos, para com isso! - ela parecia estar se contendo pra não explodir também. Aparentemente as coisas entre as duas não estavam indo tão bem.
- Ele é melhor do que aquele fracassado do Timothy! - ela esbravejou alto, com raiva, e causando um tipo de paralisia em Sienna, que só conseguiu arregalar os olhos.
Aquilo estava intenso. Mais intenso e tenso do que eu imaginei que pudesse ser. Sienna estava enfurecida.
- Viu só? Mais uma vez se metendo na minha vida! Não tem mais e não tem mais Timothy! Sinto muito que você não goste do fato de que estamos nos aproximando novamente, mas isso não te dá o direito de armar uma cena ridícula dessas achando que o vai voltar comigo! Você é louca! - ela perdeu a paciência. Alaia já estava mais calma mas acabou levando um susto pelo tom alto repentino que Sienna passou a usar.
- Puta que pariu… - balançava a cabeça negativamente, se recusando a acreditar que aquela baixaria estava mesmo acontecendo.
- Eu sou louca mas eu sempre estive do seu lado, Sienna! Lembra quando você engravidou do ? Pois é, eu lembro, eu que te ajudei porque eu fui a única que soube, mas que tal você esclarecer tudo agora já que estamos sendo todos honestos?!

Capítulo 10

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Foi como sentir que o tapete estivesse sendo puxado, me causando o pior dos tombos. Doeu tudo. Ouvir aquilo não me chocou, me trouxe dor. Sienna sim estava chocada e mais raivosa do que nunca, e ... Eu não fiquei pra saber.
Fui andando pra trás cambaleando, como se minhas forças estivessem acabando. me ajudou, afinal, eu estava com Alaia, e ... Ele ficou.
Sienna e passaram por muito e eu já ouvi a frase "Os opostos se atraem, mas ninguém nunca disse que eles dão certo" várias vezes e isso parecia se encaixar bastante neles, mas agora eu não sei e nem quero saber. Voltamos pra casa de , que tentava conversar comigo de todas as maneiras.
- ... Às vezes uma revelação pode parecer muito com um colapso. Talvez seja mentira ou... Não sei. Fala comigo! - ela pediu com carinho na voz, me entregando um copo de água com uma mão e segurando Alaia firme no outro braço.
- Eu não quero falar nada ou pensar em nada. Não quero sofrer por isso ou deixar minha mente ir pra longe pra buscar esse sofrimento, entende? Eu só... Sei lá, queria arrancar minha cabeça até voltar e me contar. - suspirei - Eu deveria ter ficado lá! Por que eu quis ir embora? Por que você deixou eu ir embora?
- Você não merece mais esse problema, . Fica tranquila porque vai tirar essa história a limpo, chegar e te contar tudo! Não precisa pensar mil e uma coisas porque isso não vai mudar nada, ok? Vocês vão continuar sendo o melhor casal do mundo! - ela se sentou do meu lado e colocou Alaia no chão, que correu pro meio da sala pra brincar com o que tinha ali.
- Glenn não te traiu! - foi o único suspiro de alívio que eu dei, a coisa boa que eu estava tentando me agarrar.
- Meu Deus, eu nem sei onde enfiar minha cara depois do tanto que eu discuti com ele! Puta que pariu, sério!
- Ele vai entender, .
- Eu também não quero começar a sofrer desde já caso eu não consiga explicar tudo isso, mas... Meu Deus, , ele é tudo o que eu nunca achei que precisava! Ele sempre me surpreendeu tanto e até hoje surpreende e é maluco porque eu não quero perder isso e eu surtei por causa da porra de um batom!
- ...
- Você sabe como é, . Aquilo de esperar tanto alguém que entenda e fale a mesma língua que você pra não ter que ficar a vida toda explicando seu espírito. Glenn é assim. Eu não posso perder isso. - sua voz trêmula veio seguida de um choro abafado. Segurei em uma de suas mãos, entrelaçando com a minha. A cabeça da minha melhor amiga se deitou no meu ombro.

// //


- Anda, fala logo! - eu já tava doido, completamente angustiado e nervoso. Dorothy tinha feito questão de vazar assim que colocou fogo no circo. Estávamos dentro de apartamento de Sienna.
- , calma...
- Sienna, puta que pariu! - eu já estava exausto dela me pedir calma.
- Ok, calma, tudo bem... Eu... Eu descobri depois que um mês que a gente terminou. Eu queria te contar, eu juro, mas eu estava perdida.
- Sienna! - meus olhos estavam arregalados.
- Eu perdi! Eu perdi o bebê com quatro meses. Eu juro que quis te contar todos os dias e óbvio que eu te contaria, mas...
- QUATRO MESES, SIENNA?
- , me perdoa!
- Você não tem noção do quanto eu sofri, Sienna. Você não tem noção do quanto eu me senti um bosta por ser tão ruim com você e agora... Porra, quatro meses, Sienna? Quando você ia me contar? O que você tem na cabeça? Era meu filho também!
- , me perdoa! Eu estava completamente confusa e sofrendo também! Eu te amava demais, eu juro! Eu queria te contar, mas de alguma maneira... Eu não sei. Não parecia certo. No fundo, parecia que eu sabia que não iria pra frente. Eu sofri muito, mas eu já estava torcendo muito por você. Não achei justo te arruinar mais ainda. Eu consegui seguir minha vida, conheci Timothy e minha mãe o odeia desde sempre só porque ele trabalha com arte e ela diz que eu mereço mais. Desde quando chegamos aqui e nos encontramos, ela começou com essa história ridícula de falar o tempo todo sobre você e sobre o nosso passado mas ela me prometeu que nunca falaria nada sobre a gravidez. Você não merecia esse sofrimento, . Você está bem, você tem amor, você tem uma família agora!
- E você não tem nada! Talvez a razão pela qual você não encontre o amor ou não dê certo com ninguém seja porque você não o merece!
- ! - Sienna parecia... machucada.
- Um filho, Sienna! Você me escondeu um filho! Não é um detalhe pequeno, não era algo que atrapalharia minha vida ou sei lá, era um filho!
- Mas você disse que me amava, . Você me amou, eu mereci o seu amor! - ela sussurrou. Sienna parecia ter sido massacrada da forma mais cruel. E talvez tenha sido. Talvez eu tenha pegado pesado demais, mas eu não conseguia parar. Eu estava sentindo muitas coisas ao mesmo tempo, mal conseguia raciocinar.
- E agora estou dizendo que não amo mais! Não te amo mais há anos, Sienna, mas eu teria sido um ótimo pai durante os quatro meses que o bebê esteve na sua barriga. Você deveria ter me contado.
- , por favor...
- Não temos mais nada pra conversar, Sienna. Espero não ter mais que ver a cara da sua mãe por aí também, ela já encheu a minha paciência anos atrás e vejo que ela não mudou bosta nenhuma. Pra mim já deu.

——


Passei metade da noite com Cohen e Scott e a outra metade num bar. Sem brigas dessa vez e poucas bebidas.
Eu tenho uma família agora e elas são a parte mais importante da minha vida, mas Sienna engravidou. Por meses, se eu soubesse, também teria sido pai e planejado uma outra vida. Óbvio que o bebê não nos faria voltar - ou talvez sim - mas eu teria tido outra vida. Teria tido outra pequena família.
Eu não deveria me apegar tanto nisso, afinal, a gravidez não foi pra frente e eu segui minha vida, tenho e Alaia e isso deveria ficar acima de tudo, mas o fato de Sienna ter escondido isso de mim fazia meu peito doer.
Eu saí do bar com a cabeça doendo um pouco por tantos pensamentos e pelo cansaço. Dirigi pelo caminho mais longo. Passei pelas mesmas ruas que eu e passávamos quando fazíamos as rondas do bairro juntos, anos atrás. Passei em onde moramos por meses e me lembrei que dias atrás Leon estava nervoso porque tava rolando uma briga das fodidas com outras gangues. Oxicodona ruim nas ruas e nenhuma pista sólida. Honestamente, não acho que nada vai ser tão grandioso quanto The Lions e Ghosts mas Leon tem as próprias aventuras agora. Eu e tivemos os momentos das nossas vidas na gangue. O jeito que minha vida mudou e me trouxe pra cá foi um completo divisor de águas. Uma gangue, uma guerra, segredos, confusões, corações quebrados, brigas pra caralho e uma gravidez que foi pra frente. Eu me tornei pai. realmente me fez ser pai. Alaia nasceu pequenininha, literalmente um pacotinho de amor. Nunca vou me esquecer como foi segurá-la pela primeira vez. O primeiro dentinho, as primeiras palavras, os primeiros passos...
Eu tive tudo isso. me deu tudo isso.
Meu coração doeu de saudades. Estacionei o carro com pressa e por sorte o elevador veio rápido, afinal, já era cinco e meia da manhã. Abri a porta com cuidado, fazendo o mínimo de barulho que consegui. Joguei a jaqueta no sofá da sala e fui rápido pro quarto, observando e Alaia na cama dormindo feito dois anjos. Meu coração se acalmou de imediato e soltei um suspiro aliviado.
- ? - resmungou sonolenta, se mexendo na cama de modo preguiçoso e me olhando em seguida. O quarto tinha uma iluminação mínima por conta da cortina que não tinha fechado toda a janela, mas só dormia assim, detestava dormir num quarto completamente escuro.
- Continua dormindo! - pedi sussurrando.
- Que horas são?
- Cinco e meia.
- Meu Deus.
- Pode dormir, .
- Bem, eu sei quando você está perto porque eu conheço o som do seu coração. - murmurou deitada e com os olhos fechados mas logo começou a gargalhar baixo e eu também. Tivemos que nos conter muito pra não se tornar uma risada escandalosa.
vivia fazendo esse tipo de gracinha, usando frases de músicas pra se comunicar. The Sound, da The 1975 foi a escolha da vez. A gente sempre morria de rir com essas palhaçadas.
- Você é foda, viu. - eu ainda estava rindo enquanto em silêncio se segurava pra não deixar sua risada de golfinho com dor de barriga tomar som.
Ela se levantou devagar e me abraçou. Um abraço cheio de amor e apertado. Óbvio que ela estava esperando respostas também. O jeito que ela se mandou do apartamento de Sienna foi mais pra uma fuga. pareceu estar fugindo de algo.
- Te amo, babe.
- Também te amo muito. Fiquei preocupada, mas sabia que talvez você precisasse de um tempo pra colocar a cabeça no lugar.
Segurei em sua mão e a levei até a sacada, onde tinha um sofá super confortável que honestamente nos fazia ter vontade de dormir ali todos os dias. Aquele era o nosso cantinho, talvez o mais especial do apartamento.
- ...
- Sim?
- Ela descobriu a gravidez um mês depois que terminamos. Ela sofreu um aborto no quarto mês e não quis me contar porque não queria que eu sofresse.
- Sinto muito, . - pareceu buscar as palavras certas em primeiro lugar mas foi só isso o que saiu. Ela não parecia triste, e sim, de alguma forma, aliviada.
- Fiquei muito nervoso. Acho que fui duro demais também. Claro que fiquei chocado e chateado, mas... Eu não sei. Temos tanta coisa pra resolver agora. Não quero gastar minha energia em coisas do passado, mas... Foi uma gravidez, . Ela deveria ter me contado. - me ouviu com atenção. Seu semblante sério parecia buscar o que faltava em meu olhar.
- Deveria, mas não contou. Eu sei que você está chateado e tem o direito de estar, mas isso não pode anular tudo o que Sienna anda fazendo pra te ajudar. Ela não é uma pessoa ruim, , e você sabe disso. Ela deve ter ficado muito confusa e eu sei que isso não deveria ser uma justificativa, mas talvez, quem sabe, tenha sido melhor assim, não é? - ela arriscou dizer tais palavras, e era notável o quanto seu corpo respondeu àquilo também. se ajustou no sofá de começou a balançar a perna de nervoso. Eu me surpreendi de uma boa maneira, até sorri bobo. tem um coração generoso demais.
- Você tem razão.
Ficamos em silêncio por longos minutos, até se levantar e voltar com uma garrafa de vinho e uma tigela de torradinhas amanteigadas. Bebemos no gargalo mesmo. Acho que tudo o que precisávamos há semanas era isso: nossa companhia, um vinho, nosso lugar e um silêncio que se comunicava perfeitamente. Eu sempre gostei de manhãs, de ver o dia começar, mas assistir o sol nascendo com a pessoa que você ama é poderoso. O mundo parecia estar dormindo e me senti um adolescente de novo descobrindo sensações pela primeira vez. Enquanto os carros não passavam pelas ruas freneticamente e os celulares não começaram a tocar, eu estava aproveitando a companhia que faz eu me sentir em casa em qualquer situação.

// //


O fim de semana foi completamente meu e de . Minha mãe amava levar Alaia pra dormir na casa dela pelo menos um final de semana no mês e isso nos deu um tempinho só pra nós. Infelizmente o tempo voou e acabou rápido demais, mas felizmente foi o tempo que e Glenn se dedicaram pra eles também. Os dois conseguiram se resolver.
O fim de semana foi como uma bolha. Claro que mesmo assim tentamos contato com Alondra, que continuava nos ignorando, mas foi como uma bolha só nossa, onde mais nada importava. Eu estava tendo sérios problemas em aceitar que já acabou.
Deixamos Alaia na creche e deixei no colégio porque o carro estaria comigo hoje, eu precisava resolver algumas coisas, até me ligar e pedir a pasta com as últimas atividades do alunos que esqueceu em casa. Acelerei o máximo que pude e quando cheguei no colégio faltava pouco menos de dez minutos pra aula de com a turma das atividades da pasta começar. Minha entrada foi liberada e eu andava pelos corredores observando os detalhes. Era um colégio e tanto!
- Puta que pariu! - o susto de Alondra quase a fez se desequilibrar enquanto descia os últimos degraus da escada. Ela parecia cansada, como se tivesse fugindo de alguma coisa. A mochila nas costas denunciava a aula que ela provavelmente estava matando.
- Alo!!! - me aproximei rapidamente, abraçando a garota de uma vez, que não retribuiu - Por favor, não me afasta de você desse jeito, eu me preocupo de verdade! Como você está???
- Eu to bem, , eu só...
- Eu respeito o seu tempo, de verdade, eu imagino que não seja nada fácil, mas eu estou aqui, ok? Mesmo se você não quiser se identificar, podemos...
- , por favor, para! Eu só... Eu não sei, eu estou perdida! Eu tô em uma fase da minha vida onde não consigo ter prazer em absolutamente nada. Não consigo fazer nada. Não consigo sentir nada. Eu não estou triste nem deprimida, mas eu tô tão agoniada com esse sentimento neutro. Eu não sinto nada! Isso tá me matando!
- Alondra, você está sentindo tanto que parece que transbordou, parece que você não é mais capaz de sentir nada porque você está sentindo muitas coisas ao mesmo tempo. Pelo menos disso eu sei, já me senti assim.
- ...
- Eu quero te ajudar, só isso, seja do jeito que você quiser!
- , por favor, cala a boca!
Eu fiquei em silêncio. Passos rápidos desciam a escada e meu corpo se petrificou inteiro assim que vi a figura de Dave ficando cada vez mais perto conforme descia as escadas. Foi como encontrar o diabo. Quer dizer, acho que se eu encontrasse o diabo seria menos horrível. Esse não é o diabo, é Dave, um abusador nojento e ordinário sem a máscara de bom professor e colega de trabalho.
Ele nos olhou firme por alguns instantes, como se quisesse nos intimidar. Me mantive firme, afinal, o que eu mais encontrei nessa vida foram homens podres como ele. Um olhar não me intimidaria. Ele passou justamente do lado de Alondra, sem esconder um sorrisinho nojento, sem nem se dar ao trabalho de esconder.
E então o sinal tocou.
——


Glenn segurava Alaia no colo, que gargalhava com as palhaçadas dele. Acho que Glenn deve ser a pessoa favorita de Alaia, sem exagero. havia parado por alguns minutos pra tirar fotos com alguns fãs que a viram na calçada do café. Tínhamos comido algo e conversamos por um tempão pra nos despedirmos, já que Glenn e iriam viajar por alguns dias pra novas gravações.
Vi a figura de Sienna de longe, atravessando a rua sem perceber que eu estava ali. Meu coração acelerou. Eu não sentia nada ruim por ela, de verdade, mas o nervoso em saber tudo o que aconteceu, principalmente a gravidez, me trazia sensações indescritíveis.
Ela foi ficando cada vez mais perto e só então que ela percebeu minha presença ali. Por um segundo, ela parecia chocada também mas tentou disfarçar. Eu não sabia como agir e ela também não. Seu corpo foi direto pra entrada do café, mas ela desfez seus passos antes de entrar por completo no estabelecimento. Meus olhos se arregalaram de leve mas não tive muito tempo pra prestar atenção nas minhas emoções: ali estava ela, na minha frente.
- . - ela disse meu nome firme, porém sem graça.
- Oi Sienna.
- Olha, eu... - ela observou que estava por perto também - Quero pedir perdão por tudo o que a minha mãe fez. Eu deveria ter te procurado antes, eu sei, mas eu também precisei de um tempo pra processar tudo o que aconteceu e... - ela foi falando cada vez mais baixo e como se quisesse evitar tal assunto, mas parecia inevitável. Sienna estava muito incomodada.
- Sienna, tá tudo bem. Você não tem culpa das atitudes da sua mãe.
- Eles se resolveram? - ela olhava firme pra e pra Glenn que se aproximou cada vez mais da rodinha de fãs, onde pareciam conversar sobre algo incrível, já que os sorrisos não saiam de seus rostos.
- Sim. Como eu disse, tá tudo bem.
- , eu...
- Sienna, não precisa falar sobre isso, sério.
- Eu não quero que você pense que eu sou uma pessoa ruim ou que você me odeie. Eu não tenho nenhuma intenção de competir com você, eu jamais faria isso. Vocês tem uma família linda e fico feliz por ele ter te encontrado. Você deu tudo o que ele sempre quis e mereceu. Vocês ainda podem contar comigo pra o que precisarem em relação à Alondra, ok? Ou se quiserem, posso indicar alguém de confiança pra ajudar vocês nisso. - ela sugeriu quase que desesperada, mas se lamentando. Sienna estava carregando uma culpa tão grande e aquilo estava me deixando completamente angustiada.
- Sienna, eu nunca ficaria brava ou odiaria alguém que amou o . É o ! - ri fraco - Um relacionamento passado não define quem você é. Se sua mãe não consegue respeitar seu espaço e suas decisões, é lamentável, mas não significa que eu também não vou. Só você sabe o que passou e sentiu. - eu concluí sincera, esperando de verdade que minhas palavras servissem de algo.
E serviram. Sienna me abraçou com tudo, com vontade, bem confortável, como se o abraço significasse algum tipo de conclusão final sobre o assunto.
- Muito obrigada, .
Ela entrou no café com os olhos levemente marejados. Fiquei observando de longe o quão feliz e Glenn eram ao redor de pessoas que apreciavam seus talentos e arte. Alaia prestava atenção como se entendesse tudo e eu fiquei feito boba querendo congelar aquele momento.
Eu me sentia aliviada.
Eu jamais seria capaz de odiar Sienna. Eu seria hipócrita demais em ficar remoendo um relacionamento que nem existe mais. Aconteceu tudo o que tinha que acontecer.
Agora Dorothy... Eu poderia facilmente ficar horas e horas dizendo o quão sem caráter ela é.

// //


Dave já tinha faltado duas vezes nos últimos três dias mas hoje ele parecia estar diferente. Tenso. Sei lá. Eu tentava ao máximo não ficar no mesmo lugar que ele pra não me descontrolar. Levi parecia estar bem numa nova vida sem o pai que tanto a torturava. Alondra parecia um fantasma. Onde eu estava, ela fazia questão de sumir. Continuava não respondendo minhas mensagens e nem as de .
Havia uma palestra pra todos os alunos da escola na sala de teatro. Deixei minhas coisas na sala dos professores e xinguei alto quando vi Sienna no corredor.
- Que susto, porra!
- Desculpa. Riley me pediu pra vir aqui pra resolvermos algumas coisinhas. - ela disse sem graça.
- Tudo bem.
- Alondra está bem? - Sienna pareceu mais sem graça ainda em puxar assunto e aquilo me surpreendeu de verdade. Depois de tudo o que falei, ela ainda estava ali, tentando.
- Fisicamente sim. Ela não conversa mais comigo. - fui sincero, num tom leve.
- ... - e ali estava: a agonia que transbordou. O semblante agoniado e triste de Sienna dominou e ela parecia desesperada pra falar.
- Sienna, você quer mesmo falar sobre isso agora? Eu sei que te devo um pedido de desculpas porque fui extremamente grosso, mas não acho que aqui seja o lugar ideal. - usei meu melhor tom carinhoso. Sim, carinhoso, eu devia isso à ela.
- Concordo. Só quero te dizer que não ficar com você foi a coisa mais difícil que eu já fiz. Acho que nunca tivemos de fato um fim digno mas tivemos que seguir nossas vidas mesmo assim. Você foi muito especial, , mas eu fico muito feliz em ver que você está bem e conseguiu tudo o que sempre quis. Sua família é linda. - concluiu tristemente, como se nada do que ela falasse fosse ajudar em algo.
- Eu costumava sentir falta do que eu achava que poderíamos ser. Eu toquei minha vida, tenho uma família, mas isso não significa que você tenha ficado pra trás. Não sei exatamente quem foi o Timothy na sua vida, mas se ele é especial pra você, talvez dê certo.
- Bom, estávamos nos aproximando de novo e minha mãe surtou, como você viu. Ele é um cara incrível, mas acho que não pra mim. Acho que ainda não tenho a mesma sorte que você. - sua voz embargada me deu um nó na garganta. Ela me olhava no fundo dos meus olhos, angustiada e desesperada para encontrar algum vislumbre de algo que pudesse aliviar a dor que estava sentindo.
- Para com isso, Sienna. O cara que te conquistar vai ser um baita sortudo, te garanto. - eu não sabia muito bem o que fazer, mas acabei com a distância entre nós e a abracei. Foi o sentimento mais misto que havia sentido em meses.
- Estou orgulhosa de você. - ela sussurrou em meu ouvido enquanto suas mãos macias ainda estavam entrelaçadas em meu pescoço.

Riley e Sienna aproveitaram a sala dos professores pra finalizarem o que precisavam. A palestra quase me fez dormir e aos alunos também.

Consegui.


Era uma mensagem de Alondra. A procurei pelos assentos do teatro e não a encontrei. Nem Levi.

O que?


Meu coração já nem sabia como bater direito de tanto nervoso. Me levantei às pressas, saindo da sala de teatro e parando no corredor, onde tudo aconteceu num piscar de olhos. Dave desceu as escadas quase tropeçando de tão rápido. Ele não falou nada, só me olhou e correu como se sua vida dependesse daquilo. Eu pensei em ir atrás, mas em seguida veio Alondra e Levi descendo as escadas na mesma velocidade.
- Merda, deu quase tudo certo! - Alondra desceu resmungando com lágrimas nos olhos.
- O que foi que aconteceu??? - perguntei apavorado.
- Ele fugiu. Que merda, agora ele pode desaparecer de verdade e... Que merda! Deu quase tudo certo! - Levi se lamentou nervosa, passando as mãos pelos cabelos.
- Gente, o que tá acontecendo? - Sienna apareceu no corredor. Aquilo parecia um filme.
- Estou esperando me explicarem também!
- Levi me ajudou a gravar um vídeo. Temos um vídeo! É uma prova e tanto, não é? - Alondra questionou chocada e aquilo só fortaleceu a minha curiosidade e a de Sienna, mas não demorou pra sabermos do que se tratava. As feições confusas e surpresas de Sienna fizeram meu coração acelerar mais ainda.
- Você passou todo esse tempo planejando isso, Alondra? - questionei com o coração na mão.
- Sim! Eu não posso simplesmente denunciar sem nenhuma prova. Eu sei que mesmo com esse vídeo vão ter chances de duvidarem de mim, mas... Eu tenho um vídeo, professor! - Alondra respondeu eufórica. Por alguns segundos, ela parecia ter esquecido o que tinha acontecido mais uma vez. A violência que tinha sofrido. Ela lutou por uma prova.
- Ele percebeu e fugiu. Não tem como você pedir pra o pessoal da gangue impedir que ele fuja pra muito longe? A gente conseguiu o endereço da casa dele. Se ele pensar em ir embora, deve tentar passar em casa antes pra pegar as coisas, não é? - Levi falou tudo de uma vez, quase se embaraçando na sua própria dicção de tão rápido que falava.
- Meu Deus, vocês duas fizeram tudo isso? E você contou pra Levi e... Meu Deus! - Sienna estava chocada.
Pedi pra todos irem pra sala dos professores, que estava completamente vazia. Liguei pra Leon num nervosismo extremo porém com uma euforia bizarra também. As duas amigas se uniram pra conseguir algo grande desse tipo. Alondra enfrentou seu próprio medo, contou pra Levi sobre o que estava acontecendo e pediu ajuda.
- Ok, e agora? Eu só vou na polícia ou...
Eu estava chocado em estar ouvindo aquilo. Alondra era mais forte do que eu pensava.
Tanta conversa, tanto nervosismo. Alondra segurava firme o celular que estava a filmagem, como se tivesse que proteger aquilo a todo custo. Nossas vozes se calaram assim que Morgan apareceu praticamente arrombando a porta de tão forte que ela abriu a mesma, com a respiração totalmente descompassada.
- SAI DE PERTO DELAS! - Morgan berrou, se aproximando de Levi e Alondra como uma leoa protegendo seus filhos.
- O que você tá fazendo? - Levi se levantou confusa e retirando o braço da mulher que a envolvia pelo ombro.
- Você tá demitido e eu vou fazer de tudo pra você ser preso! Vai embora do meu colégio agora! - Morgan gritava histérica enquanto apontava o dedo firme pra mim.
- Morgan, o que foi? - perguntei confuso pra caralho.
- A mãe de Alondra acabou de me ligar! Ela recebeu uma ligação de alguém dizendo que tem um vídeo seu assediando a garota! Sai daqui, eu já mandei!
- O QUE? - Alondra berrou.
- Gente, calma! Por que ele ligaria pra mãe de Alondra sabendo que no vídeo tem ele? Qual o sentido? - Levi perguntou perdida.
- , eu já mandei voc...
- Meu Deus, Morgan, cala a boca um segundo! não fez nada comigo! A minha mãe... Ela te ligou quando? - Alondra estava mais do que estressada.
- Tem poucos minutos! Saí da sala de teatro feito uma doida procurando vocês pelo colégio inteiro e...
- Ele quer ganhar tempo. Tem alguma coisa acontecendo. - Sienna falou baixo.
- O que está acontecendo? - Morgan pareceu ter se acalmado pra ouvir o que estava acontecendo. O problema é que não sabíamos o que estava acontecendo.
Tudo parecia ter perdido o sentido. Dave era maluco, mas não burro.

// //


Alaia ama carros, ama observar a vista com seus olhinhos pela janela. Um dos meus momentos favoritos era buscá-la na creche, entrar no carro com ela e comer um lanchinho com ela no café. Nossa rotina era gostosa. Me sinto poderosa com minha filha pertinho de mim.
- Mamãe! - minha filha sorriu largo assim que me viu na porta de sua sala. Ela correu pra mim, me dando o melhor abraço do mundo que sempre me dava quando eu ia buscá-la.
Nos despedimos da professora e fui carregando meu grande bebê no colo, a enchendo de beijos até onde o carro estava estacionado.
- Como foi seu dia? Brincou muito? - questionei animada. Adorava ouvir as coisas embaralhadas que ela falava toda vez que eu fazia essa pergunta.
- Brinquei sim, mamãe. Delilah... Caiu. Ela chorou e depois comemos um biscoito de choco...
- Olá, . - aquela voz quase me fez pular de susto.
Eu já estava com a porta do carro aberta, pronta pra colocar Alaia na cadeirinha, até a figura de Dave aparecer do outro lado do carro. Dei um longo passo pra trás, tomando um susto do caralho e apertando o corpo da minha filha contra o meu com força.
- Puta que pariu! - eu sussurrei nervosa pelo susto, olhando pra trás e pronta pra desfazer todos os meus passos e entrar na creche novamente. Esse maluco vir atrás de mim não era por acaso.
- Bom, não era pra ser assim, mas... - ele deu a volta, se aproximando sem vergonha nenhuma e eu continuei dando passos pra trás e pronta pra voltar pra creche de vez, mas ele foi mais rápido. Dave subiu a blusa de manga cumprida de leve, o suficiente pra me permitir ver o que tinha ali em sua cintura. Uma arma. E eu conhecia armas e era uma de verdade. Meu coração quase pulou pra fora e eu coloquei a mão na cabeça de Alaia na intenção de fazer deitá-la no meu ombro e ela obedeceu sem reclamar - Entra no carro agora. Você vai dirigir.
Eu tentei pensar numa outra saída mas não podia por minha filha em risco. Eu senti toda a minha força sendo sugada e por um segundo pensei que fosse desmaiar. Dave abriu a porta de trás novamente e balançou a cabeça pra eu colocar Alaia na cadeirinha logo e eu obedeci. Ela o olhava com a pior das expressões.
- Anda logo, porra. - ele esbravejou atrás de mim com pressa e nervosismo. Eu tentava disfarçar e deixar as coisas mais lentas pra poder pensar em algo, mas nada passava pela minha cabeça.
Me virei, engolindo meu próprio pavor e tentando não olhar pra Dave. Fechei a porta do carro com o coração na mão e ele prensou meu corpo na mesma, deixando uma distância mínima entre nós.
- O que voc...
- Me dá a chave do carro. - ele pediu sério e eu tive certa dificuldade em pegar a chave do meu bolso, já que ele estava forçando meu corpo ali. Ele puxou a chave da minha mão com brutalidade e se afastou - Agora entra.
Fiz o que ele mandou. Eu olhava pra Alaia com desespero e ele entrou no carro segundos depois, no banco do passageiro, com a arma em mãos. Eu o olhei por um segundo e meu olhar desceu, se fixando na arma.
- Dave, por favor, minha filha está aqui. Eu não sei o que você quer, mas ela não tem nada a ver com isso. Por fav...
- Liga esse carro e dirige, . - ele me interrompeu grosseiro, com um tom alto e nervoso.
Eu me encolhi no banco e Alaia começou a chorar. Dave bufava impaciente e me pedia pra acelerar o tempo todo. Eu sentia meu sangue borbulhando de nervoso. Pensei em bater o carro de propósito, mas Alaia estava conosco. Pensei no que poderia ter acontecido pra Dave estar fazendo isso mas na verdade não importava, porque isso é só ele sendo quem é: um monstro.
- Dave, por favor...
- Para no café da sua mãe e entrega essa menina logo. - ele nem me deixou terminar mas acho que o choro alto de Alaia o irritou, e se ele tinha algum plano que a envolvia, tinha sido cancelado agora.
Eu respirei aliviada. Tudo o que importava era Alaia. Ao mesmo tempo, um pavor sem tamanho me atingiu. Dave sabia até do café da minha mãe.
Não demorou pra chegarmos. Nunca dirigi tão rápido na vida. Dave saiu do carro primeiro, observando cada respiro que eu dava.
- Vem, Lai Lai. - ela já estava cansadinha de tanto que chorou e assim que a tirei da cadeirinha, ela se apertou em mim, deitando a cabeça no meu ombro. Eu quis morrer de chorar. Eu não queria deixá-la e não queria morrer nas mãos do desgraçado do Dave.
- Vamos entrar juntos e você vai deixar essa menina com o primeiro que aparecer na sua frente, está me ouvindo? Se você tentar qualquer gracinha, eu mato vocês duas, está me ouvindo bem? - Dave me ameaçou sério, como se tudo dependesse daquilo, e dependia mesmo. Eu jamais duvidaria da sua capacidade e jamais colocaria minha filha em risco.
Começamos a andar lentamente até a entrada do café e eu tentava miseravelmente esconder meu olhar desesperado.
- !!! - Dorothy chegou como um furacão. Ela era um porre, mas era elegante. Seu perfume a seguia em todo canto e tudo chegou junto: sua elegância, seu perfume e uma animação de quem parece ter esquecido o que fez pra e pra própria filha, mas eu me senti aliviada em vê-la.
- Anda logo, . - Dave sussurrou nervoso bem próximo ao meu ouvido.
- Você pode entregar Alaia pra minha mãe? Por favor, é que... - por um segundo perdi o raciocínio - Estou com pressa. - meus olhos se encheram e eu me apavorei. Dorothy me olhou com a testa franzida mas abriu os braços pra pegar Alaia, que não queria ir de jeito nenhum e voltou a chorar.
- , tá tudo...
Dave me puxou pelo braço antes mesmo dela terminar de falar. A última coisa que vi foi minha filha chorando nos braços da mulher que queria me separar do pai dela, mas que eu torci, do fundo do meu coração, que ela tivesse notado que algo errado estava acontecendo.


CONTINUA...



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