Love will tear us apart

Última atualização: 25/05/2018

Capítulo 1

7 am, pátio, Montclair High School

- CONSEGUIMOS! – comemorou assim que chegou ao centro do pátio.
- Eu não consigo acreditar que vamos estudar todos na mesma sala. - eu falei, enquanto admirava as nossas programações. – Bom, pelo menos em duas aulas.
- Finalmente! - disse com um sorriso de orelha a orelha enquanto me abraçava pelo ombro. - Vai ser o melhor ano das nossas vidas.
- Último ano do colegial, aí vamos nós! - exclamou com pose de super herói, fazendo todos rirem.
Tudo começou no aniversário do pai do .
- Vamos, filha. Você vai gostar. - senti meu pai puxando o meu cobertor e acendendo as luzes do meu quarto.
- Eu não quero. - afundei meu rosto no meu travesseiro na esperança de que meu pai fosse me deixar em casa.
- Eu ouvi dizer que algumas crianças vão. Você vai poder brincar com eles. - meu pai sentou ao meu lado na cama e começou a fazer carinho em meus cabelos.
- Eles não vão gostar de mim. - virei de lado e olhei para ele.
- Isso é impossível. - vi um sorriso se formar no rosto dele e sorri junto. - Agora vai, toma um banho e se arrume. Estaremos te esperando lá embaixo.
Me aprontei e ouvi um barulho do que me parecia ser um embrulho de presente ao descer.
- Bom dia, querida. - minha mãe olhou para mim e depois de volta para seu notebook.
- Filha, coma alguma fruta porque vamos sair daqui 10 minutos, tudo bem? - vi meu pai dizer com um olhar concentrado, tentando entender como fazer um laço bonito. Ou pelo menos não tão horrível.
- Tudo bem. - peguei uma maçã do cesto de frutas. - Quantos anos as crianças têm?
- 7 anos, você vai se dar bem com elas. São todas da sua idade. - meu pai olhou pra mim sorrindo e deu um beijo no topo da minha cabeça. - Não se preocupe.
10 minutos depois e lá estávamos nós, batendo à porta da casa logo em frente à nossa.
- Jake, Anne, vocês vieram. - uma mulher de cabelos castanhos abriu a porta com um sorriso. - Você deve ser a . Eu sou Lisa. É um prazer finalmente conhecê-la. Acredito que uma garotinha vai ficar muito feliz ao te ver aqui. - eu sorri e olhei para meus pés. - Bom, podem entrar. Estão todos nos fundos. Fiquem à vontade. - a mulher gentil deu um passo para o lado e todos nós entramos.
- A alegria da festa chegou! - um homem de cabelos escuros e barba por fazer se levantou assim que chegamos no jardim dos fundos da casa e abriu os braços, abraçando meu pai. - Anne, é muito bom te ver. - ele sorriu e abraçou minha mãe também.
- É muito bom te ver também, Sean. - ouvi minha mãe dizer enquanto retribuía o abraço.
- A idade chega para todos, meu amigo. - meu pai deu dois tapinhas no ombro de Sean, rindo.
Os dois começaram a conversar e minha mãe perguntou se eu queria ir junto com ela para a roda de mulheres sentadas ali perto, me levando logo assim que eu aceitei.
- Anne, essa garotinha não parou de perguntar sobre desde que chegamos aqui. - uma moça loira disse, rindo e apertando as bochechas da menininha sentada ao meu lado.
- A só aceitou vir quando Jake disse que ela conheceria novos amigos. - minha mãe riu, alisando meus cabelos.
- Oi. - ouvi a voz da garota pela primeira vez e olhei para ela. - Meu nome é , qual o seu?
- Eu sou . - sorri e olhei para minhas mãos.
- Você quer brincar? - ela perguntou e apontou para uma árvore onde existiam vários brinquedos espalhados. - O e o devem estar ali.
Eu assenti e nós fomos em direção ao lugar que disse.
- Essa festa estava um saco só com os meninos. Eles são muito chatos. – bufou, pegando uma boneca e trocando sua roupa.
- Eles não brincam com você? - eu perguntei girando as rodas de um pequeno carrinho e olhando para ela.
- Não. Eles dizem que meninas são chatas. - imitou o jeito dos meninos falando, me fazendo rir.
- Vamos subir? - apontei para a casa na árvore. assentiu e nós subimos.
Abrimos a porta da casa e encontramos alguns brinquedos empilhados ao lado de uma mesa. sentou na poltrona que havia ali e eu sentei perto da porta da casa e começamos a brincar.
- Ei, desce daí! - ouvi uma voz se aproximando e quando olhei para trás vi dois meninos parados na frente da porta. - Vocês não podem ficar aqui.
- E por que não? – levantou e colocou as duas mãos na cintura.
- Porque aqui não é lugar de menina. - o segundo menino respondeu.
- Vocês são muito chatos. Nós não vamos sair daqui. - bateu o pé e cruzou os braços.
- , o que está acontecendo aí em cima? - Lisa perguntou, com um tom bravo em sua voz.
- Eu e o queremos brincar na casa e elas não querem sair. – virou e olhou para sua mãe.
- Vocês não vão descer daí até se resolverem e brincarem juntos. Onde já se viu? Seja mais educado com as visitas, .
- Parece que teremos que brincar juntos. - rolou os olhos e entrou na casa, sendo seguido por . - Qual é o seu nome?
- . Eu moro aqui na frente. - tirei os olhos do brinquedo em minhas mãos e olhei para o garoto.
Dez minutos depois, já estávamos brincando todos juntos e rindo como se nos conhecêssemos a anos. Ao anoitecer, Lisa nos chamou para comer o bolo e logo depois meus pais disseram que estávamos indo embora.
- Pai, eles podem ir brincar comigo em casa amanhã? - perguntei, olhando para cima com a melhor expressão de súplica que pude fazer.
- Claro. - meu pai riu e se despediu dos pais de que estavam na porta.
- Tchau. - sorri e abracei todos. - Meu pai deixou vocês irem lá em casa amanhã. - comemorou com pulinhos, fazendo com que nós rissemos.

As coisas nem sempre davam certo e eu sabia que sempre podia contar com eles.
- Você está agindo sem pensar, Anne. - ouvi meu pai dizer no andar debaixo.
- Eu pensei muito, Jake. Não parei de pensar nisso. Isso, isso tudo, não é o que eu quero. Eu preciso de um tempo. - minha mãe falou, em um tom de voz mais alto.
- A vai sofrer muito. Pensa nela uma vez na vida, Ann. - meu pai falou um pouco mais alto e eu senti as lágrimas descendo pelo meu rosto.
- Eu perdi 10 anos da minha vida pensando nela. E somente nela. Eu preciso me colocar em primeiro lugar e não consigo fazer isso aqui. - ouvi o barulho de chaves e passos.
- Anne, não faz isso. Por favor. Eu te amo. Não vá embora. - ouvi meu pai dizer com uma voz chorosa e senti minha cabeça doer de tanto chorar.
- Eu preciso ir.
Depois disso eu só ouvi o barulho da porta se fechando. Foi assim que minha mãe saiu da minha vida. Sem um aviso prévio, uma despedida ou uma justificativa. Simplesmente uma saída, sem passagem de volta. Desci as escadas e encontrei meu pai sentado no sofá, com a cabeça apoiada em seus braços.
- Pai?
- Oi, meu amor. - meu pai limpou as lágrimas e deu um sorriso triste. - Vem cá. - sentei ao lado do meu pai, o abraçando. - Somos só nós dois agora.
Ficamos apenas sentados em silêncio por alguns minutos, sem saber expressar o que estávamos sentindo.
- Você deveria ir descansar um pouco. Eu vou ficar bem. - forcei um sorriso, meu pai deu um beijo no topo da minha cabeça e anunciou que estava subindo.
Olhei em volta e tudo parecia vazio. Como algo pode mudar tão repentinamente? Nós éramos uma família feliz. Me levantei e voltei para meu quarto. Tudo parecia diferente agora, vazio. Fui até a janela e vi um porta retrato que estava sobre o criado mudo. Um porta retrato de nós três, provavelmente rindo de alguma palhaçada que meu pai havia falado. Sorri e não pude conter minhas lágrimas. Eu precisava de alguém.
- ? - vi a porta se abrir e só então percebi que eu tinha ido até a casa de . - O que aconteceu? Você está bem?
- E-eu... - gaguejei e tentei parar de chorar pelo menos por alguns segundos. Uma tentativa falha. - A minha mãe... Ela, ela foi embora.
Senti os braços de ao meu redor e mais lágrimas desceram pelos meus olhos.
- Vem, vamos entrar. – fechou a porta assim que entramos e eu me sentei no sofá. - Eu vou pegar alguma coisa para você beber e tentar se acalmar.
- Não. - respirei fundo antes de continuar. - Eu só preciso que você fique aqui.
- Tudo bem. – sentou ao meu lado e eu apoiei minha cabeça em seu ombro. - Você não quer deitar? – colocou uma almofada sobre suas pernas e começou a passar a mão pelos meus cabelos assim que eu me deitei. - Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui.

Depois daquele dia nós quatro nos tornamos ainda mais próximos e as visitas à casa de cada um, ainda mais frequentes. Nós passamos por várias experiências juntos. Experiências incríveis.
Estávamos os quatro sentados no sofá da casa de , assistindo a um filme, quando a mãe dele anunciou que iria dormir.
- Agora começou a diversão! – sussurrou cinco minutos depois, levantando do chão e desviando das almofadas que estavam ali.
- O que você está fazendo? – sussurrou de volta, se esticando no sofá para tentar ver onde o garoto estava. - E por que estamos sussurrando?
- Estamos sussurando porque não queremos que meus pais nos vejam fazendo isso. - voltou com uma garrafa de vodca em suas mãos e um sorriso de quem estava prestes a fazer algo errado no rosto.
- Eles não iam gostar nada disso. - riu, pegando a garrafa da mão do amigo e abrindo.
- Gente, eles podem acordar. - eu cochichei, olhando para a escada e de volta para eles.
- É só a gente não fazer barulho. – piscou para mim, dando o primeiro gole na bebida e passando para .
- Aqui, sua vez. - estendeu a garrafa para mim, que olhei para ele meio incerta.
- Eu nunca bebi.
- Nós também não. Antes tarde do que nunca. - ele balançou a garrafa e eu tomei-a em minhas mãos. Olhei de novo para , que riu. - Não é tão errado quanto você pensa. Relaxa.
Bebi um pequeno gole da bebida e senti todo o trajeto feito por ela queimar. Eu devo ter feito uma careta horrível já que os outros três riram e passou a mão pelos meus cabelos.
- Não ri de mim, idiota. Quero ver o que você vai achar disso. - passei a garrafa para , que riu e bebeu um pouco.
- Não é tão ruim assim. - a garota disse, limpando a boca com as costas da sua mão. - O gosto que fica depois é.
Não sei dizer por quanto tempo ficamos ali, bebendo e rindo um do outro, sem realmente prestar atenção no filme que estava passando.
- Isso já está na metade. – olhou para a garrafa com uma expressão engraçada. Ou não tão engraçada assim, eu não estava em boas condições para julgar, tudo parecia hilário.
- Cara, como você vai explicar para o seu pai se ele encontrar isso? - virou lentamente para , que passou a mão pelos cabelos.
- Eu vou encher com água. Ele não vai perceber. - o garoto pegou a garrafa das mãos de e foi em direção à cozinha. Eu levantei do chão e sentei no sofá, ao lado de .
- Arrependida? - olhou para mim, com um sorriso convencido.
- Ok, eu admito: não foi uma péssima ideia. - olhei para ele, que começou a falar coisas como 'eu disse' e dei um soquinho no ombro dele.
- Deixei tudo como estava antes. – voltou para a sala e suspirou aliviado.
- Podemos dormir agora? Eu não me aguento em pé. - disse, com a cabeça encostada na almofada do sofá e de olhos fechados.
- Vamos.
Todos nós subimos para o quarto de na ponta dos pés, tentando manter a casa o mais silenciosa possível. E isso estava dando certo, até o momento em que tropeçou no próprio pé e derrubou alguns livros que estavam na escrivaninha de .
- Shhhh. - a garota colocou o indicador sobre os lábios, olhando para os livros que estavam ao lado do seu pé. - Não podemos acordar os pais dele.
- , você está falando com os livros? - sussurrou, tentando segurar a risada. O que não funcionou, nem mesmo para mim.
- Eles fizeram muito barulho. Vão acabar com nosso disfarce. - ela dizia enquanto caminhava até a cama do garoto. - Boa noite.
Todos nos olhamos sem entender como alguém poderia ficar naquele estado com apenas alguns goles e rimos da situação. A noite acabou rápido depois daquilo, eu dormi ao lado da na cama de e os meninos dividiram o colchão. No dia seguinte, acordamos já no horário do almoço e nos aprontamos para ir embora. Descemos as escadas e tentamos agir o mais natural possível, esquecendo do que parecia um martelo impiedoso dentro da minha cabeça.
- Nós vamos para a casa da . Volto mais tarde. - anunciou, enquanto nós cumprimentávamos os pais dele e girou a maçaneta da porta da casa assim que todos havíamos nos despedido.
- , você sabe porquê essa vodca está aguada? - olhamos de volta para Jeremy e o vimos provando um drink, que provavelmente havia feito para o almoço. Era isso, eu poderia dar tchau para nossa amizade e para a minha liberdade. Digamos que meu pai não reagiria muito bem ao saber que sua filhinha de 16 anos havia provado bebida alcoólica pela primeira vez na casa de um dos seus melhores amigos.
- Ué, pai, não sei. Se você que bebeu não lembra, não é de se espantar que tenha água aí dentro. Eu já vou. - ouvimos a risada da mãe de antes de sairmos pela porta o mais rápido possível.
- Essa foi a pior desculpa que eu já ouvi. - comentou, revirando os olhos.
- Mas parece que ele acreditou. - sorriu, dando dois tapinhas no ombro do amigo.
Eu espero.

E depois da primeira vez provando algo alcóolico, veio a nossa primeira festa. No final do penúltimo ano do colegial.
Dizer que nós passamos a última semana inteira falando sobre essa festa seria pouco para expressar como estávamos ansiosos para o evento. A festa foi organizada pelas pessoas mais populares da escola e nos surpreendeu muito saber que fomos convidados. Nunca nos encaixamos no grupo dos que se destacam em termos de popularidade. Sempre fomos nós, os quatro, um pelo outro e só. Bom, talvez o fato de e fazerem parte do time de futebol americano tenha influenciado um pouco na decisão.
- Eu não acredito que nossa grande estreia vai ser na festa mais esperada do ano. - sorriu e bateu palminhas empolgadas.
- Eu espero que seja uma "grande estreia" mesmo. - desviei o meu foco da missão impossível que era não borrar o batom líquido e olhei para , fazendo aspas com as mãos.
- E vai ser. – se apoiou em seu cotovelo e nos encarou da cama.
- Vocês estão preparados para a festa? - chegou, carregando um sorriso no rosto e uma garrafa de bebida em suas mãos.
- Como você entrou com isso aqui? - perguntei, largando tudo que estava fazendo e puxando ele para dentro do quarto, fechando a porta em seguida. - Meu pai te viu?
- Claro que não. Eu sou um ninja, esqueceu? - portou sua melhor pose de convencido e ameaçou abrir a garrafa, até que eu coloquei a mão sobre a dele.
- Aqui não. Espera a gente chegar lá. - olhei para ele, que assentiu e eu pude terminar de me maquiar.
- Eu nunca gostei tanto do fato de vocês serem do time de futebol como agora. - girou e deitou ao lado de .
- Você não gostava por ciúmes, não é? Todas aquelas líderes de torcida ao nosso redor. – fechou os olhos, com uma expressão feliz e maliciosa ao mesmo tempo.
- Só se for nos seus sonhos. - revirou os olhos e empurrou o garoto, que caiu da cama, fazendo com que gargalhasse. - Um dia essa sua mania de sonhar acordado vai acabar te machucando, .
- Você vai acabar me machucando, você quis dizer. - o garoto falou, esfregando o topo da cabeça.
- Aí, casal. Vamos? - falou da porta, comigo ao seu lado. Nós estávamos ali há algum tempo, apenas esperando os dois terminarem de discutir. - Temos que chegar em uma festa, lembram?
- Claro que não. Eles estavam muito ocupados se amando. – e reviraram os olhos, vindo em nossa direção. - , esconde isso no seu casaco.
Entreguei a garrafa em suas mãos e nós descemos assim que conseguimos camuflá-la. Chegamos na sala e encontramos meu pai concentrado em um filme de ação.
- Já vão? - ele disse, sem tirar os olhos da tela.
- Sim. O vai dirigindo. Mas, não se preocupe, a festa não é tão longe daqui. Não correremos perigo mesmo com ele no volante.
- Ei! Eu sei dirigir. - fez uma cara emburrada.
- Claro que sabe. Assim como você é mestre em manter o equilíbrio. - bagunçou os cabelos do garoto, como se falasse com uma criança.
- Bom, tomem cuidado. Qualquer coisa me liguem e eu posso buscar vocês. - meu pai olhou para mim e riu da expressão triste que fez.
- Pode deixar. - pisquei para ele, todos nos despedimos e saímos porta afora, entrando no carro de .
O trajeto até a casa de Amber era realmente curto e chegamos lá em cinco minutos. Durante o caminho, nós demos alguns goles na bebida. Menos , claro. Ele seria nosso motorista e não beberia nada alcóolico.
- Cara, essa casa é gigante. - disse, olhando em volta assim que entramos.
- Nem parece real. - comentei, reparando no lustre enorme que iluminava o centro da sala de estar.
- Eu nem sabia que tinha tanta gente assim na escola. - disse, desviando de algumas pessoas que esbarravam nela.
- Eu acho que não tem só gente da nossa escola aqui. - comentou assim que viu alguns rostos familiares de jogos em escolas distantes da sua.
- Vocês vieram! Fiquem a vontade e aproveitem a festa do ano. - Amber sorriu, piscou para , que deu um sorriso tímido, e voltou para a roda das suas amigas.
- Parece que alguém tem uma quedinha. - apertou as bochechas de .
- Pelo que me parece, é uma via de duas mãos. - eu ri das tentativas falhas de de tirar as mãos da de seu rosto.
- Quem não tem uma queda pela Amber? - olhou para , que soltou as bochechas de e riu.
- Nós estamos em pé aqui há mais de três minutos e não estou vendo um copo em minhas mãos. - olhou para suas mãos vazias, fingindo estar procurando algo.
- Precisamos resolver isso então. - estendi o braço para ela, que entrelaçou o seu ao meu e nós fomos até a mesa com todas as bebidas.
- Por que eu não sou como a Amber? - deixou escapar, olhando para seu copo. - Quero dizer, olha essa casa. Ela tem todos os garotos da escola aos seus pés. E aquele corpo. Sério.
- Porque você é a , a garota que consegue ser linda até com suas manias e jeitinhos esquisitos. - apertei o nariz dela e sorri, tentando confortá-la. - E um dia, o melhor garoto da escola vai perceber o que está perdendo. Ou um dos melhores.
- Se estiver entre os dez melhores eu já fico feliz. – entrou na brincadeira, mexendo nos cabelos.
- Agora, isso é uma festa. Nós precisamos nos divertir e não ficar pensando nisso. - eu pisquei, despejando uma das bebidas dali no copo dela e erguendo o meu para um brinde.
- Vocês vieram buscar a bebida ou ficar conversando? - chegou atrás de mim, rindo do susto que eu levei. - Vamos lá para a piscina, o está nos esperando.
Nós saímos da cozinha e caminhamos em direção à área da piscina, que estava cheia de gente assim como todos os outros cômodos da casa. Encontramos sentado em uma parte um pouco isolada e nos juntamos a ele.
- Eu vi tanta coisa que não queria ver só nesse tempo que fiquei sozinho aqui. - disse com cara de nojo, olhando para um casal que se atracava a uns dois metros dali.
- Você só está assim porque não tem ninguém para fazer isso. - disse e tomou um gole da sua bebida, também observando os dois ali.
- Não fere os sentimentos do meu melhor amigo desse jeito. - disse com uma voz sentida e abraçou (lê-se quase esmagou o garoto, espremendo a cabeça dele contra seu peito).
- Cara, me solta. - conseguiu se livrar dos braços de e arrumou sua roupa e cabelo. - Eu sabia que não deveria ter aceitado ser o motorista. Vocês são insuportáveis bêbados.
- Ninguém te obrigou. - eu levantei a sobrancelha e bebi um pouco. - Essa festa não está tão incrível quanto eu imaginava.
- Ainda. - encheu meu copo de novo, com a nossa bebida. - Daqui a pouco alguém passa uma vergonha e nós teremos do que rir.
Ficamos o que me pareceu uma eternidade ali, bebendo e às vezes andando pela casa e vendo uma série de vexames. Ok, estava certo. Acho que nos distraímos tanto que nem lembramos que estávamos bebendo e o movimento se tornou automático, fazendo com que nós ficássemos alterados bem rápido. Depois daquele momento, eu só lembro de ter ido para o jardim da frente com , deixando e na sala de estar da casa. Depois, lembro de voltarmos correndo para dentro da casa, ver receber um soco de Nick e sermos expulsos da festa logo depois de ter conseguido separar os dois. Tanta coisa para uma noite só. Acho que o estresse me fez ficar mais sóbria.
- O que aconteceu? - passei a mão pela cintura de e ele colocou o braço em meu ombro, se apoiando e limpando o sangue em seu nariz com a outra mão. - Ele quebrou o seu nariz?
- Acho que não. - respondeu, suspirando.
- Onde está doendo? Você quer que a gente vá pro hospital? - perguntou, colocando a mão no ombro do garoto assim que ele sentou no banco traseiro do carro. - A gente pode pedir um táxi e alguém fica aqui com o carro. Ou nós pedimos para o pai da buscar o carro enquanto estamos lá.
- Não, eu estou bem. Relaxa. - sorriu e levantou, indo até o banco do motorista.
- Você consegue dirigir? - perguntou para o amigo.
- Claro que consigo. Foi só uma briga, gente. Eu vou ficar bem. - girou a chave assim que todos entraram no carro, depois que eu me livrei da garrafa de bebida e voltamos para a minha casa.
Entramos e os três foram direto para o meu quarto, agradecendo por meu pai não estar na sala ou teríamos que dar uma boa explicação do porquê tinha sangue no seu rosto. Eu fiquei para trás e busquei garrafas de água, remédio para dor de cabeça e uma bolsa de gelo e subi.
- Aqui, coloca no seu nariz. - estendi a bolsa de gelo para , que colocou cuidadosamente sobre seus machucados. - Isso que dá fingir ser herói.
- Eu sou um herói. - riu.
- Com certeza. - disse ironicamente e deitou no colchão.
- Eu durmo na cama. - e disseram ao mesmo tempo. Regra era regra, quem diz primeiro, fica com a cama. Foi uma coisa que inventamos quando criança para que fosse sempre justo.
- Droga. Eu não consigo dormir na cama nem na minha casa. - eu peguei meu travesseiro e coloquei ao lado do de , que já havia capotado.
Me aprontei para dormir, apaguei a luz e deitei no colchão. Virei de lado e já senti o sono chegando.
- Obrigada. - foi a última coisa que ouvi dizer antes de dormir.

Essa é a história de ascensão e queda de .


Capítulo 2

Ouvimos o sinal tocar, anunciando o início do primeiro período e caminhamos pelo corredor cheio de pessoas até a nossa sala.
- Eu juro que ele olhou para mim e piscou. - exclamou, me contando pela quinta vez a história do show ao qual ela foi alguns dias atrás.
- Conta outra, . – riu junto com .
- Vocês nunca me levam a sério.
- Talvez se você aparecer namorando o vocalista, a gente pode pensar em começar a acreditar nas suas histórias. - apertou a bochecha da garota, que desviou o rosto.
- Eu acredito que isso aconteceu e também acredito no namoro. - disse, olhando primeiro para e depois para . - Você não devia implicar tanto com ela, coitada.
- Pelo menos alguém tem piedade de mim aqui. - juntou as mãos como se fosse rezar e começou a agradecer aos céus, me fazendo rir.
- Nós podíamos fazer alguma coisa depois da aula hoje, o que vocês acham? - perguntei já que não teria nada para fazer naquela tarde.
- Eu e o temos treino de futebol hoje. - entortou a boca em descontentamento.
- É o primeiro dia de aula. O treinador nunca dá uma folga para vocês? - colocou sua bolsa sobre a mesa assim que chegamos em nossos lugares na sala.
- Foi um milagre ele não nos chamar no meio das férias. Mas ele deixou bem claro que já teríamos que voltar ao campo assim que pisássemos na escola para "não perdermos o ritmo". Não é um treino fechado, se vocês quiserem ir. - deu de ombros e sentou atrás do .
- Por mim, tudo bem. - olhei para trás a fim de ver se concordava com a ideia e ela assentiu.
- Podem contar com a nossa ilustre presença na arquibancada. - jogou os cabelos para o lado, fazendo pose.
- Eu sabia que não deveria ter convidado. Já ficou se sentindo. - revirou os olhos para , que deu a língua em resposta.
- Eles nunca vão parar de implicar um com o outro. - eu ri, olhando para ao meu lado, que revirou os olhos e soltou uma risadinha.
- Eles não têm jeito.
O segundo sinal tocou, o que queria dizer que o tempo de tolerância havia acabado e a aula iria começar. A professora Lee entrou na sala junto com o nosso diretor, que sempre fazia uma visita nas salas de aula no nosso primeiro dia.
- Bom dia, alunos. - o senhor Roberts finalmente se pronunciou, depois de alguns segundos falando com a professora. - Senhor Brad, sente-se direito, por favor. - o diretor lançou um olhar fuzilante para o garoto sentado na última carteira.
- Está declarado o fim das férias. - Brad caçoou dele, fazendo com que todos os seus amigos rissem e tirou o pé de cima da mesa, continuando sentado largado na cadeira.
- Certo. - senhor Roberts respirou fundo antes de colocar um sorriso no rosto e continuar seu discurso. - Espero que os senhores tenham aproveitado muito seu período de recesso e que estejam preparados para o que será seu último ano no ensino médio. Bom, espero que para todos. Não pretendo ver alguns de vocês tão cedo depois de Junho.- olhei para trás e os amigos de Brad agora riam e bagunçavam o cabelo do garoto, que tentava esquivar. - Esse ano será marcado por muita responsabilidade, pressão e exige muito comprometimento, espero que estejam preparados para isto.
- Eu também espero. - ouvi suspirar atrás de mim e ri baixo, imaginando se seria possível ela ter lido meus pensamentos.
- Mas é claro que não será só isso. Temos os seus últimos jogos de futebol americano e a primeira temporada tem início no próximo mês, em Setembro. Sei que o treinador já está os colocando para praticar e espero que façam bonito contra as outras escolas. - ouvi a comemoração dos garotos do fundo. Eles viram animais quando o assunto é esporte. - O que significa que as líderes de torcida já devem se preparar para animarem e darem força para os nossos jogadores prediletos. - olhei para o lado e vi as meninas sorrirem olhando uma para a outra. - E o nosso evento para fechar o ano, em Maio, o baile de formatura. - dessa vez a comemoração foi da classe inteira.
Não era nenhum mistério que o baile de formatura era o evento mais esperado do ano. Todos passaram 12 anos de sua vida sonhando com esse momento. O fechamento de um ciclo. O certificado de que estaríamos fora daquele lugar para sempre. E, não me leve a mal, eu não odiava a escola. Só achava que existia muito mais na vida do que 12 anos em algum lugar com gente que não vai com a sua cara.
- Senhor Roberts. - olhei na direção da voz e vi a menina de cabelos loiros perfeitos, Haley, com a mão levantada, esperando a permissão para falar, que foi concedida. - Quando as inscrições para o comitê de organização do baile começarão?
- Bom, posso esperar as inscrições finalizadas até sexta na minha mesa.
- Eu posso me encarregar disso, se o senhor preferir. - a garota sorriu.
- Claro. Quem quiser participar da organização do baile, trate de comunicar Haley. Espero que estejam todos acomodados e prontos para o primeiro dia de aula. Obrigado. - o diretor assentiu, sorrindo e olhou para a senhora Lee uma última vez antes de sair da sala.
Algumas aulas depois daquilo foram "vagas", apenas com discussões sobre as férias e sobre o futuro, dirigidas pelos professores, os primeiros períodos passaram voando e quando vi já estávamos no horário de almoço, na cafeteria da escola.
- Eu espero que não escolham um tema brega para nosso baile. - comentou, colocando uma caixinha de suco em sua bandeja e saindo da fila, ficando ao nosso lado.
- Por que você não entra para o comitê? - perguntei, olhando para ela e pegando um legume do meu prato e mastigando, caminhando com eles, procurando por uma mesa vazia.
- Que viagem! - riu e balançou a cabeça, negando.
- Ué, qual o problema? - se pronunciou, olhando para .
- O problema é que aquilo é um império. Só o grupo da Amber poderá participar. - a garota revirou os olhos e sentou na primeira mesa vaga dali.
- Vamos fazer um protesto. - sentou e bateu com os talheres na mesa, os segurando com o punho fechado. - Não é como se elas comandassem a escola.
- Hm, na verdade, é sim. - comentei depois de engolir a comida e tomei um pouco do suco. - Elas possuem um legado aqui dentro.
- Que nunca poderá ser quebrado. Ela conseguiu ser rainha de todos os bailes da escola, até sem ser do último ano. – disse, concentrada em cortar sua carne.
- Vocês levam isso muito a sério. - abriu sua caixinha de suco e olhou para todos na mesa. - O importante é a gente se divertir na noite do baile e fazer tudo certo.
- Claro. Mas não doeria não ser invisível uma vez na vida. - riu e revirou os olhos.
- Você não é invisível. Para de se subestimar assim. Você é incrível. - ele falou, olhando para seu prato e um silêncio se instalou. Era a primeira vez que realmente elogiava sem depois fazer uma piadinha. ficou petrificada, olhando para boquiaberta e eu decidi quebrar o gelo.
- Bom, com certeza aproveitaremos a noite. Não se preocupe. - disse depois de limpar a garganta, atraindo a atenção de todos e empurrei o ombro de com o meu, fazendo ele rir.
Não passamos por mais momentos de silêncio constrangedor no almoço e logo estávamos de volta à sala para os nossos dois últimos períodos antes da libertação do dia. Nossas aulas foram de história mundial e álgebra, as únicas aulas do dia em que realmente tivemos de nos esforçar já que os professores passaram exercícios e não nos deixaram descansar.
- Nós vamos direto para o vestiário. Encontramos vocês na arquibancada? - perguntou, fechando o zíper depois de recolher seus materiais.
- Tudo bem, vamos para o campo então. - assentiu, pegando todos os livros no braço e eu fiz o mesmo. - Só preciso passar no meu armário antes, ok?
- Claro. Eu vou deixar alguns livros por lá também, já que não temos dever de casa de todas as matérias. - dei de ombros e vi os meninos saindo da sala com pressa, não podiam chegar atrasados ou o treinador os faria dar centenas de voltas pelo campo, como punição.
Saímos da sala e fomos direto para nossos armários, que eram um de frente para o outro. Guardamos nossos materiais e logo seguimos para o campo e nos sentamos na arquibancada. Uma parte do campo era ocupada por garotas em suas roupas de ginástica praticando o número das líderes de torcida, que abririam os jogos da temporada inteira. A maior parte do time era composta por meninas do último ano, mais precisamente Amber e seu esquadrão e algumas meninas do segundo e terceiro ano também.
- Ok, eu não ia falar sobre isso mas eu preciso. - virei para assim que vi os garotos saindo do vestiário e indo até o meio do campo. - O que foi aquilo no almoço?
- O que? - a garota olhou para as suas unhas e depois de volta para mim, que arqueei a sobrancelha e esperei por outra resposta já que ela sabia muito bem do que eu estava falando e a vi soltar todo o ar preso dentro de seus pulmões de uma vez só antes de continuar. - Olha, eu também não entendi.
- Acho que foi a primeira vez que eu vi esboçar algum sentimento por alguém sem fugir ou rir para quebrar a tensão. - ri e olhei para o campo.
- Uou, uou, uou. - gesticulou com as suas mãos, virando completamente para mim. - Quem está falando de sentimentos aqui?
- Não se faça de desentendida. - revirei os olhos e olhei para ela. - Tudo bem, é estranho falar sobre sentimentos quando se trata de . Ele sempre foi muito fechado.
- E sempre me odiou, até onde eu sei.
- Bom, sempre disseram que amor e ódio andam juntos. - levantei a sobrancelha e ri, empurrando seu ombro com o meu, a provocando.
- Para de ser boba. É óbvio que ele não sente nada por mim. Ele só deve ter cansado de me ouvir lamentando sobre tudo sempre. - revirou os olhos e olhou para o garoto, que estava concentrado nas instruções do seu treinador.
- E você? - olhei pra ela, que virou para mim de novo após alguns segundos e fez uma cara de confusa. - Sente alguma coisa por ele?
- Você está mais louca do que o normal hoje. - vi minha amiga rir debochada e colocar a mochila em seu colo, focando seu olhar no campo novamente.
- Talvez você esteja negando o que sempre esteve aí dentro. olhou incrédula para mim e soltou um barulho de indignação.
- Eu não vou mais falar sobre isso com você. - a vi virar para frente e balançar a cabeça.
- Um dia você percebe. - cochichei e ouvi uma risada anasalada como resposta.
Passamos a hora seguinte rindo dos tombos dos garotos no treino, analisando os movimentos das meninas e comentando sobre cada detalhe que podíamos observar.
- Vocês estão dormindo? - ouvi o apito do treinador, indicando o fim do treino e desci até o campo junto com . - Nós temos um mês para fazer essa coreografia ficar perfeita e do jeito que vocês estão, nem um ano seria o suficiente. - vi uma garota descer do topo da pirâmide e passar a mão pelo rosto. - O ensaio acabou por hoje, mas eu espero que vocês prestem mais atenção amanhã. Não quero ter que tomar medidas drásticas. - Amber virou de costas, pegando sua bolsa e a garrafa de água na mão. - Ah, Samantha, mantenha a dieta restrita até o dia da estreia, por favor. Não queremos espantar os jogadores e sim apoiá-los. - a loira piscou e saiu do campo.
- Ela consegue ser má quando quer. - comentou, olhando para a garota que saía rebolando pelo campo até o aglomerado de garotos do time.
- Ela consegue acabar com alguém quando quer, você quer dizer. - olhei para Samantha, que estava sentada no banco com o rosto entre as mãos, sendo consolada pela sua amiga.
- E aí, já começaram a organizar o encontro de fã clube para os próximos Tom Brady's que sairão de Montclair? - tirou o capacete e jogou os cabelos para trás.
- Oh, meu Deus! São e , será que vocês poderiam assinar a minha camiseta? - fiz a minha melhor expressão de animação e coloquei as mãos no rosto, surpresa, fazendo com que eles rissem.
- Tudo que você quiser. - piscou para mim, encarnando o galã jogador de futebol dentro de si e me abraçou, fazendo com que eu tentasse ao máximo sair dali já que ele estava pingando de suor.
- Para! - gritei tentando me desvencilhar de seus braços e olhei para e assim que finalmente consegui sair. Os dois se encaravam e depois encaravam o chão, com uma mão no bolso da calça e a outra segurando a alça da mochila e com seu capacete debaixo do braço e a outra mão na nuca.
- Eles estão estranhos. – sussurrou, também observando os dois e eu assenti. - Bom, vamos nos trocar? - ele falou mais alto, tentando tirar os dois do transe, o que levou alguns segundos mas eles finalmente voltaram à realidade.
- Isso. Vamos. - respondeu, chacoalhando a cabeça e olhando para mais uma vez, que olhava para um ponto fixo ao seu lado direito, ainda perdida.
- Nós esperamos vocês aqui. - fiz uma expressão confusa e os vi concordar, indo em direção ao vestiário. - Você está bem?
- Claro. Só estava pensando. - olhou para mim e deu um sorriso. Estranho, por sinal.
- Hm. Ok. - levantei uma sobrancelha e ouvi a risada dela, mandando o dedo do meio para mim. - Um dia você vai ter que me contar o que está acontecendo por aqui.
- Quem sabe um dia. - ela deu de ombros, olhando para o céu.
- Então você admite que tem alguma coisa acontecendo? - falei. Quero dizer, quase gritei, com a mão no peito sem acreditar no que passava pela minha mente.
- Cala a boca, . - olhou para os lados e de volta para mim, me fuzilando com os olhos já que todos ao nosso redor nos olhavam com expressões do tipo "por que essas doidas estão fazendo um escândalo aqui?"
- Eu não acredito que você não vai me contar agora. Você é uma ingrata. - cruzei os braços e olhei para ela, esperando que ela confessasse.
- Os garotos já estão voltando. - desviou o olhar e virou de costas, caminhando na frente em direção à saída.
- Isso está muito esquisito. - cochichei para mim mesma e segui seus passos, sentindo o braço de passar pelos meus ombros e vindo logo ao seu lado.
Caminhamos os dez minutos até nossas casas e nos separamos uma quadra antes da minha, onde e seguiam para algumas ruas acima da minha e de .
- Conseguiu tirar alguma coisa de sobre esse comportamento deles? - perguntei assim que ficamos à sós.
- Ele não quis me contar nada. Mas não negou também. E você?
- O mesmo. - revirei os olhos e suspirei.
- Bom, depois da festa da Amber eles começaram a se comportar de um jeito meio... diferente?! - olhou para mim com uma expressão confusa.
- Eu não consigo lembrar de nada dessa festa depois do momento que começamos a beber na piscina. - tentei buscar lembranças na minha mente mas nada vinha. - Eu espero que ela me conte logo.
- E eu espero que ele pare de fazer doce e me fale. - riu e eu o acompanhei. Paramos no meio da rua e nos despedimos, nos separando e indo cada um para sua casa.
Abri a porta de casa e a tranquei assim que entrei. Coloquei as chaves no aparador ao lado da porta e subi direto para o meu quarto, deixando minha mochila lá e tirando apenas o livro de álgebra, já que tinha um dever para fazer. Coloquei o livro em cima da escrivaninha e troquei de roupa, colocando shorts confortáveis e uma camiseta antiga. Prendi meu cabelo em um coque e comecei a fazer minha tarefa. Como era o primeiro dia de aula, o professor decidiu não pegar tão pesado e nos deu apenas alguns exercícios de revisão da matéria do ano anterior para que conseguissemos voltar aos eixos. Terminei a lista alguns minutos depois, guardei o livro de volta na mochila e desci para a sala. Liguei a televisão e coloquei em um programa qualquer para não me sentir tão sozinha enquanto cozinhava o jantar. Essa era normalmente a minha rotina todos os dias quando não estava de férias.
- Boa noite, filha. - ouvi meu pai me cumprimentar assim que abriu a porta e virei para ele, sorrindo. Já passava das 19h e eu me encontrava jogada no sofá, passando os canais da TV.
- Boa noite. Como foi o trabalho hoje? - tirei os pés da mesa de centro.
- Foi diferente. Como a empresa foi comprada semana passada, agora ela está ocupada por novos rostos. Mais jovens até. Me sinto um idoso. - meu pai fez uma cara de tristeza e eu ri de sua expressão.
- São anos de experiência. - pisquei para ele e levantei, indo até a bancada da cozinha e colocando o macarrão que eu havia cozinhado na mesa de jantar.
- E na escola, como foi? - ele perguntou enquanto tirava dois pratos do armário e trazia os talheres junto.
- Normal. Quer dizer, não tanto. - sentei à mesa e me servi, recebendo um olhar confuso dele, como se pedisse para eu continuar a história. - A e o andam meio estranhos.
- Como assim?
- Parece que tem algo acontecendo entre os dois. - dei de ombros quando terminei de me servir. - Não sei exatamente o que. Ela não quis me contar.
- O não conseguiu tirar algo do ? Uma pista? - ele colocou uma garfada do macarrão na boca.
- A mesma coisa. Os dois insistem no segredo.
- Um dia vocês descobrem. Talvez eles estejam tendo um caso e estejam com medo de contar para vocês, não sei. - meu pai deu de ombros listando as possibilidades e eu assenti. - O estranho é que eles sempre implicaram um com o outro.
- Tough love. - eu falei, fazendo meu pai rir da expressão e continuamos nosso jantar normalmente.
Ele retirou os pratos assim que terminamos e eu guardei o que restou da comida na geladeira, colocando um pouco de suco em um copo e bebendo enquanto meu pai lavava as louças. Depois que minha mãe foi embora as coisas complicaram um pouco. Tivemos de nos adaptar à uma vida um pouco mais reclusa e meu pai teve de se empenhar muito mais no trabalho para conseguir sustentar a nossa casa e os gastos como antes, apenas com um salário. Eu fazia alguns trabalhos como babá quando conseguia, cuidando de filhos dos amigos dos meus pais ou da vizinhança, mas era pouco. Com a compra da empresa dele nós ficamos mais esperançosos de que as coisas iriam melhorar, já que meu pai recebeu uma promoção no trabalho quando o seu antigo chefe falou muito bem dele para o novo comprador.
- Eu vou tomar um banho e deitar. Durma bem. - meu pai deu um beijo no topo da minha cabeça e começou a recolher seus pertences da sala.
- Você também. Bom trabalho amanhã. - sorri e apaguei a luz da sala de jantar.
- Boa aula. Tente arrancar algo daqueles dois. - meu pai riu e subiu para seu quarto com seus sapatos e o paletó em seus braços.


Capítulo 3

- Então, vocês têm uma semana para me entregarem o trabalho pronto e apresentarem aqui na frente. O tema vai ser ‘os maiores romances da literatura’. Vocês podem optar por um teatro e atuarem algum trecho do livro para a sala ou uma apresentação formal. – a professora Johnson anotou o dia da apresentação na lousa e virou para a sala. – Caprichem.
O sinal soou e nós arrumamos nossos materiais e deixamos a sala. A semana passou rápido e já era sexta-feira, dia que nós normalmente nos reuníamos para fazer alguma coisa e dessa vez seria um trabalho escolar.
- Onde vamos fazer esse trabalho? – perguntei, já no corredor caminhando ao lados dos outros três.
- Na minha casa não dá. Aquela reforma ainda está acontecendo. – bufou.
- Pode ser na minha. – se pronunciou. – Se vocês quiserem podemos começar hoje mesmo.
- Por mim tudo bem. – falou e todos assentimos.
Saímos da escola e chegamos na casa de dez minutos depois. Entramos, colocamos nossas mochilas em cima do sofá e sentamos no tapete da sala, colocando os cadernos sobre a mesa de centro.
- Aparentemente nós podemos escolher qualquer livro, não é? – perguntou.
- Acho que sim. Vocês têm alguma ideia do que a gente pode fazer? – olhei para todo mundo ao meu redor, encontrei várias expressões confusas e ri. – Tudo bem, talvez isso demore um pouco.
- Vocês preferem fazer uma apresentação normal ou teatro? – perguntou, com o lápis na sua mão direita.
- Por mim, tanto faz. – respondi, dando de ombros. – Acho que teatro deve ser mais legal.
- Eu também voto em teatro. – falou balançando a cabeça.
- Meu voto vai para qualquer coisa. – encostou as costas no sofá e jogou a cabeça para trás.
- Bom, então parece que vai ser teatro. – anotou alguma coisa em uma folha limpa do caderno e depois olhou de novo para a gente. - Acho que precisamos começar a pesquisar algum livro para apresentar então.
- Eu pego o notebook. – levantei a mão e subi a escada, indo até o quarto de . Fui até a sua escrivaninha e me agachei, alcançando a tomada e desconectando o computador. Enrolei todos os fios e segurei o computador com os dois braços, olhando para trás para ver se não esqueci nada enquanto ia até a porta do quarto. – Ai.
Exclamei quando esbarrei em alguma coisa na porta do quarto e olhei para frente, vendo rindo de mim.
- Sai da frente. – ri e tentei desviar, mas ele não me deixava passar. – O que foi?
- Vamos deixar os pombinhos se resolverem. – ele finalmente saiu do caminho, entrando no quarto e se jogando na cama.
- Do que você está falando? – virei para ele sem entender.
- A e o . – ele levantou a cabeça depois de perceber meu silêncio, viu minha expressão confusa e levou à mão até sua testa. – Eu esqueci de te contar, não é?
- Me contar o que, garoto? – fui em passos apressados até a cama, sentando ao seu lado e colocando o notebook ao meu lado, o olhando curiosa.
- Bom, depois que fomos para casa ontem, eu estava sentado assistindo à TV e o me ligou, do nada. Ele começou a falar umas coisas sem sentido sobre uma briga que ele teve com alguém e eu pedi para ele me contar a história direito e...
Flashback on – ’s POV
- Vou pegar mais uma bebida. – ouvi a voz de ao meu lado e logo depois a vi caminhar até a cozinha.
Olhei em volta e reconheci vários rostos na multidão. Eu sempre ouvia todos dizerem que as festas da Amber eram as mais badaladas da cidade mas nunca pensei que isso fosse verdade. Virei para a porta de entrada e vi e sentados na grama, rindo e sorri, balançando a cabeça.
- Aquela jogada nos últimos segundos do jogo final da temporada foi incrível, cara. Você salvou nossa pele. – senti Trevor dar um soquinho no meu ombro.
- Valeu, cara. Foi sorte. – sorri e ouvi sua risada. Estávamos conversando há uns dez minutos e ele estava bem mais bêbado do que o aceitável, tanto é que me confundiu com , já que ele foi quem fez o último ponto naquele jogo.
- Você quer um gole? – Jason me ofereceu o seu copo e eu neguei.
- Vou dirigir. – balancei a cabeça e olhei para os lados, procurando por que ainda não havia voltado.
- E aí, cara. Tá de olho em que gatinha? – Trevor perguntou com a sobrancelha arqueada, olhando para a bunda de uma garota que havia acabado de passar.
- Eu? – respondi depois de ficar um tempo em silêncio. – Não, eu não estou de olho em ninguém. – ri sem graça e dei de ombros.
- Quem vem para uma festa e não fica de olho em ninguém ou bebe? – Jason riu.
- Bom, aparentemente só eu. – olhei na direção da cozinha e tentei achar , sem sucesso. Já fazia uns cinco minutos que ela havia saído e não tinha dado sinal de vida depois disso, então decidi ir atrás dela. – Já volto.
Dei dois tapinhas no ombro de Jason e virei de costas, indo em direção à cozinha. Chegando lá presenciei uma cena nem um pouco agradável. estava encostada na bancada da cozinha, ao lado da geladeira e Nick a encurralava, com os dois braços no armário atrás dela enquanto ela tentava se desvencilhar dele, balançando a cabeça em negação. Assim que me viu, me olhou com os olhos arregalados e eu fui até ela sem pensar duas vezes.
- Solta ela, cara. – falei, atrás de Nick, que só olhou para mim sobre seu ombro e riu.
- Por que? Você é o namoradinho dela? Que eu saiba, ela está solteira.
- O que importa é que ela não quer. – coloquei minha mão sobre seu ombro e o puxei, fazendo ele virar para mim. Assim que conseguiu, saiu dali e deu a volta na cozinha, ficando ao meu lado.
- Para de se intrometer, cara. Deixa a garota se divertir. – Nick puxou o braço de , fazendo o corpo da garota colar no seu de novo. Empurei Nick para trás, o que fez ele soltar a garota e cambalear um pouco, já que devia estar bêbado.
Olhei ao redor e vi algumas pessoas se aglomerando, provavelmente esperando uma briga. Quando virei para frente, recebi um soco no lado direito do meu rosto e não consegui controlar meu corpo, devolvendo no rosto de Nick. As pessoas ao nosso redor começaram a gritar coisas como ‘briga’ e ‘acaba com ele, Nick’ e eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. O garoto deu um soco no meu nariz e um no meu estômago, o que fez com que eu me encolhesse um pouco. Vi chegar assim que me abaixei e ele segurou Nick, o levando até a sala.
- O que aconteceu? – passou a mão pela minha cintura e eu coloquei o braço em seu ombro, me apoiando e limpando o sangue em meu nariz com a outra mão. - Ele quebrou o seu nariz?
- Acho que não. – suspirei.
- Onde está doendo? Você quer que a gente vá pro hospital? - perguntou, colocando a mão no meu ombro quando sentei no banco do carro com as pernas para fora. - A gente pode pedir um táxi e alguém fica aqui com o carro. Ou nós pedimos para o pai da buscar o carro enquanto estamos lá.
- Não, eu estou bem. Relaxa. – eu sorri tentando deixa-la mais calma e fui até o banco do motorista.
- Você consegue dirigir? - me perguntou quando chegou no carro.
- Claro que consigo. Foi só uma briga, gente. Eu vou ficar bem. – liguei o carro e esperei todos entrarem para dar a partida.
Quando chegamos na casa da , entramos e fomos direto para seu quarto e eu sentei na sua cama.
- Aqui, coloca no seu roxo. – ela estendeu a bolsa de gelo para mim e eu coloquei sobre meu olho. - Isso que dá fingir ser herói.
- Eu sou um herói. – ri.
- Com certeza. - disse ironicamente e deitou no colchão.
- Eu durmo na cama. – eu e dissemos ao mesmo tempo, depois de ficarmos todos em silêncio.
- Droga. Eu não consigo dormir na cama nem na minha casa. – pegou o travesseiro e colocou ao lado do de , que já havia capotado.
Assim que ela apagou a luz, tirei meus sapatos e deitei de costas para , do lado que não estava dolorido.
- Obrigada. – senti a mão de no meu ombro e virei para ela, olhando para seus olhos iluminados apenas pela luz da rua.
- Tudo bem. Foi bom para o meu ego. – brinquei e a vi sorrir pela primeira vez depois da briga, suspirei aliviado.
- Você está todo machucado por minha culpa. – colocou a mão na testa e suspirou. – Desculpa.
- Relaxa. – tirei uma mecha de cabelo do seu rosto e vi seus olhos subirem para os meus. – Não está doendo tanto assim. - senti seus dedos passarem levemente sobre o meu olho e olhei para ela. Dei um beijo na palma da sua mão a fazendo sorrir e retribuí.
Não sei o que me deu naquele momento, mas eu me aproximei lentamente dela e senti nossos narizes se tocarem alguns segundos depois. Aquilo parecia certo. Depois de dez anos de pura implicância, tudo fazia sentido. Alternei meu olhar entre seus olhos e boca, a vendo fazer o mesmo e quebrar a distância restante.
Fechei os olhos automaticamente e encaixei minha mão na curva de sua cintura, sentindo a sua ir até a minha nuca enquanto nossos lábios permaneciam colados. Seus dedos fizeram uma pressão maior ali e eu entendi isso como um sinal para que eu aprofundasse o beijo. Senti sua respiração batendo em meu rosto e suspirei, apertando um pouco sua cintura e ela levou a mão até meus cabelos, os bagunçando um pouco.
- Isso é... – sussurrou, de olhos fechados, assim que quebrou o beijo
- Não acaba com o clima. – eu ri abafado e dei um selinho nela, que sorriu.
Flashback off

- O QUE? – eu gritei, não acreditando no que ouvi, fazendo rir e fazer um sinal para que eu falasse mais baixo. – O que?
- Pois é. Eu também não acreditei. – concordou com a cabeça e eu continuei boquiaberta.
- Tudo bem que eu achava que tinha algo rolando entre os dois, mas... – eu o olhei incrédula. – Uou.
- Por isso os dois estão estranhos desse jeito. – vi assentir e ri.
Ouvimos o barulho da porta vindo do andar de baixo e nos entreolhamos, pegando o computador e descendo, encontrando apenas sentado na sala com a mão no rosto e a cabeça pendendo para trás, no sofá.
- Cadê a ? – perguntei assim que cheguei ao lado do sofá, o vendo suspirar.
- Ela saiu. – olhou para a porta e riu, balançando a cabeça.
- O que você fez dessa vez? – eu sentei ao seu lado e coloquei o notebook na mesa de centro.
- Ela é louca. Só isso. – riu irônico e eu dei um soquinho no seu ombro. – É sério.
- Eu já contei para ela, cara. – colocou as mãos para cima em sinal de rendição quando viu a expressão de , que o fuzilava com os olhos. – Não é como se vocês estivessem escondendo tão bem.
- Bom, eu não sei o que acontece na cabeça dela. – suspirou e sentou direito no sofá, olhando para mim. – Tudo aquilo aconteceu na festa da Amber e eu pensei que os dois estivessem pensando do mesmo jeito, sentindo as mesmas coisas. Mas agora ela me disse que acha que foi um erro, considerando que sempre fomos amigos e que não poderia se repetir.
- Do jeito que eu conheço a , ela só quer ter certeza. – passei a mão nas costas de , que me olhou confuso. – Certeza do que você sente por ela. E de que ela não vai se machucar com você.
- Acho que eu falei as coisas erradas então. – o garoto colocou a mão na testa, se xingando.
- Como assim? – sentou na frente de .
- Talvez eu tenha falado de outra garota quando ela me pediu para esperar até ela saber o que era o certo. – balançou a cabeça em negação, largando o seu corpo no encosto do sofá e suspirou. – Eu sou um merda.
- Calma, você não é um merda. – disse e levantou a cabeça, o olhando com uma expressão séria. – Ok, talvez um pouco.
- Dá um tempo para ela. Eu vou tentar conversar com ela depois. Agora ela deve querer ficar sozinha. – eu pisquei e sentei no chão, abrindo o computador e pesquisando sobre alguns livros. Olhei para , que ainda ria da cara do amigo e balancei a cabeça, olhando para que continuava observando o teto da sala em silêncio.
O resto da tarde passou rápido e eu fui para minha casa umas oito horas da noite, acompanhada de .
- Você vai querer entrar? – perguntei para ele, apontando para minha casa, o vendo assentir.
- Filha, você chegou. – meu pai levantou a cabeça no sofá e nos viu entrar. – , você também veio.
- Claro, não poderia deixar de ver um clássico ao seu lado. – disse olhando para a TV e cumprimentou meu pai com um abraço. Eu fui logo atrás e fui para a cozinha depois de dar oi para ele.
- Acho que podíamos pedir uma pizza, não é? – eu perguntei, olhando para os dois que estavam sentados no sofá lado a lado, vidrados no futebol americano.
- Eu topo. – levantou o braço, olhando para mim e sorriu.
- Eu também. – meu pai bebeu um pouco da cerveja na sua frente e eu busquei o telefone, discando o número da pizzaria e pedindo uma de pepperoni e outra de calabresa.
Me apoiei na bancada e mandei uma mensagem para a , checando se ela estava bem e ela me respondeu como faria normalmente, o que fez eu perceber que ela não queria tocar no assunto de mais cedo. Trocamos mensagens por alguns minutos, até a pizza chegar, quando eu, meu pai e nos sentamos no sofá e assistimos atentos ao futebol.
- Eu não entendo como vocês conseguem ver isso tantas vezes sem se cansarem. – revirei os olhos e escutei a risada abafada de ao meu lado.
- Devemos apreciar a arte. – piscou para mim e meu pai riu, concentrado demais no jogo para se pronunciar. A partida finalmente terminou e todos levamos nossos pratos para a cozinha.
- Acho que já vou para casa. – vi se espreguiçar, encostado na bancada ao lado da pia enquanto eu estava sentada em outra perto da geladeira.
- Até que enfim, se tocou. – estendi as mãos para cima, agradecendo.
- Se quiser dormir aí, a casa é sua. – meu pai riu para ele, que olhou divertido para mim.
- Parece que eu vou te atormentar por mais algumas horinhas. – ele piscou, se aproximando de mim com cara de quem estava prestes a...
- NÃO! – levantei rapidamente da bancada e desviei de seus braços correndo até a sala. – Cócegas não! – comecei a rir e pulei a mesa de centro.
- Você sabe que eu corro mais que você. – ele riu, contornando o sofá e chegando muito próximo de mim, que subi as escadas e entrei no meu quarto.
- Isso é injusto. – falei enquanto empurrava a porta com o meu corpo e tentava recuperar o fôlego.
- Ninguém mandou fugir. – conseguiu abrir a porta e eu tentei correr até o banheiro, derrubando algumas coisas no percurso, mas ele conseguiu me alcançar antes de eu chegar à porta.
- AH! – gritei assim que senti suas mãos nas minhas costelas e não consegui conter a gargalhada, enquanto tentava me desvencilhar de seus braços.
- Diz que eu sou o cara mais maravilhoso desse mundo que eu te solto. – ele riu, ainda fazendo cócegas em mim e eu tentei recuperar o ar, relutando para dizer o que ele pediu.
- VOCÊ É O CARA MAIS MARAVILHOSO DESSE MUNDO. – falei quando percebi que ele não ia desistir e suspirei aliviada assim que ele me soltou. – Idiota.
- Você me ama. – ele disse, convencido e eu revirei os olhos, sorrindo. – Ei, o que é isso? – ele caminhou até uma caixa que eu havia derrubado no desespero e se agachou, pegando uma foto em suas mãos.
- É a foto do dia em que a gente se conheceu. – fui até ele e sentei no chão, sorrindo e analisando a foto em suas mãos.
- Quem diria que eu te aguentaria todo esse tempo. – ele olhou para mim sorrindo e eu ri, bagunçando os cabelos dele.
- Você me ama. – roubei sua frase de segundos atrás e ele riu, sentando direito ao meu lado.
- Onde você achou essas coisas? – ele perguntou enquanto olhava todas as fotos espalhadas no chão.
- Meu pai tirou essa caixa do porão outro dia, quando estava procurando alguma coisa lá embaixo. – dei de ombros e ri olhando uma foto nossa fazendo caretas atrás de , enquanto ele sorria, sem saber o que estava acontecendo.
- Como a gente cresceu tão rápido? – perguntou sorrindo e apontando para outra foto, dessa vez só tinha nós dois. – É muito estranho pensei que isso aconteceu há dez anos.
- Nem me fale. Nós éramos tão felizes com pouca coisa. – eu ri, olhando para ele. – Quando perdemos isso?
- Ei, isso já está ficando deprimente. – ele falou rindo anasalado depois de ficarmos um tempo em silêncio.
- Nós devíamos dormir. – ri colocando todas as fotos dentro da caixa e pondo a mesma sobre minha escrivaninha.
Nos arrumamos e dormimos eu em minha cama e num colchão ao lado dela, depois de jogar conversa fora por alguns minutos. Acordei com a luz vinda da janela e me xinguei mentalmente por não ter fechado as cortinas na noite anterior. Olhei para o lado e ainda dormia, então deixei o quarto e fui para a cozinha fazer algo para comer.
- Bom dia, filha. – ouvi uma voz quando estava na escada e me assustei, olhando para os fundos da casa e vendo meu pai rindo. – Desculpa.
- Bom dia. Hoje é sábado. – fiz uma expressão confusa já que ele nunca acordava cedo em finais de semana e busquei uma xícara de café na cozinha para depois voltar para a porta dos fundos, me encostando no batente e olhando meu pai fazer algum trabalho de jardinagem ali.
- Ah, sim. Não consegui dormir muito bem hoje. Acho que estou nervoso. – meu pai coçou a cabeça e depois olhou para mim sorrindo.
- Nervoso? Algum grande evento prestes a acontecer do qual eu não saiba? – perguntei rindo e rolei os olhos.
- Pode-se dizer que sim? – me olhou com a sobrancelha arqueada e respirou fundo antes de continuar. – Eu tenho um encontro. À noite.
- Oh.
Essa foi a única coisa que eu consegui dizer. A ideia de uma nova pessoa tomando o lugar da minha mãe era, no mínimo, estranha. Quero dizer, eu sei que já é tempo de seguir em frente, achar alguém novo e se apaixonar de novo. Isso não deveria me incomodar, certo?
- Bom dia, família. – nos cumprimentou animado assim que chegou na sala e me tirou do meu transe. – Hm, tudo bem?
- Claro. – respondi sorrindo amarelo e voltei para a cozinha, deixando a visão do meu pai e me seguiu, olhando para trás.
- Quer conversar? – ele sussurrou, percebendo que eu não estava normal.
- Meu pai tem um encontro. – olhei para ele, que assentiu.
- Uma hora isso iria acontecer. Você sabe, né? – ele cochichou pegando uma xícara de café e olhou de novo para mim.
- Eu sei e também entendo que eu não deveria estar preocupada. Só que pensar em ter uma madrasta é... diferente. – dei de ombros e ele me abraçou.
- Veja pelo lado bom, se ela for uma megera, você será a Cinderela. – piscou assim que nos separamos, me fazendo rir e revirar os olhos.
- E qual é o lado bom nisso?
- Bom, você perde seu sapato e conhece, magicamente, um príncipe no final. – ele juntou as mãos do lado do rosto e suspirou, fazendo um teatro e eu ri.
Ouvi a campainha tocar e fui atender a porta.
- Eu sei que está cedo, mas eu não consegui dormir direito pensando nisso e finalmente quero conversar sobre. – entrou sem olhar para os lados e depois virou para mim, que estava parada com a porta aberta ainda. – O que foi?
- Bom dia para você também. – ri e fechei a porta, voltando para a cozinha.
- , você está aqui. – sorriu nervosamente e sentou num dos bancos da cozinha. – Bom dia.
- Sobre o que você quer conversar? – me apoiei na bancada na frente dela, que apontou com a cabeça para o e eu ri. – , é o .
- Mas não quero que ele me ouça falar sobre o seu melhor amigo. – falou entre dentes, me fazendo gargalhar.
- Se serve de consolo, eu já sei de toda a história. – falou, levantando o biscoito em sua mão como se fosse um brinde e rindo.
- Eu também sei. – concordei com a cabeça e ficou boquiaberta. – Parece que você esqueceu os amigos que tem. não consegue ficar de boca fechada.
- Droga. Ok, então, aparentemente, os dois podem me ajudar. – revirou os olhos e respirou fundo. – O que eu faço?
- Como assim o que você faz? - eu perguntei depois de roubar um biscoito de .
- Eu não sei como agir depois da festa da Amber, acho que vocês conseguiram perceber isso. – suspirou e nos mostrou o dedo do meio quando assentimos juntos. – E eu definitivamente não quero estragar nossa amizade. O que eu acho que estou fazendo no momento.
- Olha, vocês dois estão estranhos um com o outro. Eu nunca estive na sua posição, mas eu acho que os dois querem a mesma coisa. - dei de ombros. – Vocês só estão com medo.
- Por que isso é tão complicado? – jogou a cabeça sobre os dois braços em cima da bancada e suspirou. – Talvez eu só devesse mudar de identidade. Fingir que sou outra pessoa.
- Ou você e o poderiam conversar. Não sei. Só uma ideia. – olhou para o nada como se estivesse pensativo e eu ri.
- Amiga, escuta. – toquei seus braços a fazendo levantar a cabeça e olhar para mim de novo. – O é atrapalhado e é bem provável que ele fale umas coisas sem pensar. Ele sempre foi assim. E agora que existem chances de que ele goste de alguém, finalmente, ele sabe reagir tanto quanto você. Dê tempo ao tempo e só deixa as coisas acontecerem como elas têm de acontecer. Eu sei que é difícil, mas vai dar certo. Se for para vocês ficarem juntos, vocês ficam juntos. Se for para vocês ficarem mais implicantes um com o outro do que já são, vocês vão fazer isso. Honestamente, eu torço pela primeira opção. Não sei se conseguiria aguentar vocês dois piores do que isso. – riu e assentiu.
- A segunda opção é mais possível na minha mente, então se preparem. – suspirou.
- , você está aqui também. – meu pai voltou para a sala sujo de terra e cumprimentou . – Bom, eu vou tomar um banho. – ele apontou para a escada e cruzou os pés antes de virar, como se fosse um passo de dança, subindo para o segundo andar.
- Ok, eu acho que vou voltar para casa. Meu dilema foi resolvido. – parou por um momento, analisando sua situação. – Na realidade, continuo confusa, mas tudo bem. – deu de ombros e jogou um beijo no ar para enquanto eu a acompanhava até a porta.
- Não faça besteiras. – arqueei a sobrancelha a fazendo rir.
- Pode deixar, mãe. – rolou os olhos e me abraçou antes de ir embora.
Fechei a porta e voltei para a sala, encontrando deitado de bruços no sofá e eu sentei nas suas costas, ouvindo suas reclamações e ri.
- Ele parece feliz. – virou a cabeça para o lado e falou, tentando olhar para mim.
- Acho que sim. – olhei para ele e sorri de lado, me levantando.
O resto da manhã passou voando, nós assistimos à TV e ficamos conversando por bastante tempo, até às 7 horas da noite, quando meu pai desceu pela quadragésima vez para ouvir opiniões sobre sua roupa.
- Pai, essa roupa está ótima. – eu ri e fui até ele, fazendo uma massagem em seus ombros. – Relaxa.
- Vai dar tudo certo, Jake. – fez um sinal de positivo com a mão e sorriu, fazendo meu pai rir e suspirar.
- Eu não faço isso há muito tempo. – ele foi até o espelho ao lado da porta de entrada e conferiu todos os botões de sua camisa.
- É normal estar nervoso. – me apoiei na parede ali perto e cruzei os braços.
- E você? – ele olhou para mim e eu fiz uma expressão confusa. – Tudo bem? Se você achar que não está, eu posso cancelar e...
- Pai, está tudo bem. – ele arqueou a sobrancelha e eu ri. – Eu sei que eu reagi de um jeito estranho mais cedo, mas é uma coisa nova. Novidades assustam no começo. Eu tenho completa noção de que um dia isso ia acontecer e acho que é o mais normal. Você merece ser feliz de novo. – ele suspirou aliviado e me abraçou.
- Não é como se eu estivesse prestes a namorá-la ou algo assim, mas obrigado pelo apoio, filha. – eu sorri e ele pegou as chaves do carro. – Tudo certo? O casaco não é um pouco demais?
- Você está lindo, fica tranquilo. Arrasa. – ri e o vi cumprimentar antes de sair de casa. Sentei na poltrona da sala e olhei para ele.
- A mais nova Cinderela. – ele piscou para mim e eu ri, dando um tapinha no seu ombro e roubando o balde de pipoca das suas mãos.


Capítulo 4

- Eu não acredito que você veio mais cedo para evitar o . – fechei a porta do carro e coloquei minha mochila no banco de trás, olhando para , que ria.
- É claro que não foi por isso. – eu arqueei a sobrancelha e ela revirou os olhos. – Eu tenho que estudar antes do primeiro período.
- Ah, claro. – ri e virei para frente. – Você sabe que vai ter que encarar a realidade assim que eles chegarem, não sabe?
- Mas eu estou encarando a realidade.
- Se você chama me fazer informar os dois que você precisava chegar mais cedo na escola e não conseguiria dar carona para os meninos de encarar a realidade, você realmente está.
- Eu só estava com preguiça. – ela deu de ombros e eu a olhei sem acreditar.
- Espero que essa “preguiça” não dure o dia todo. Não gostei de ser o pombo correio de vocês. – fiz aspas com a mão e encostei a cabeça no banco, fechando os olhos.
Chegamos à escola em poucos minutos, já que morávamos relativamente perto e fomos direto para a sala.
- Você resolveu não conversar com ele? – perguntei, colocando a mochila em cima da carteira e olhando para , que estava na minha frente.
- Eu ainda não sei. Vou tentar conversar com o depois da escola. Até lá eu crio coragem. – estufou o peito e assentiu, me fazendo rir.
Ficamos jogando conversa fora até o primeiro sinal bater, anunciando o início da nossa aula. A professora fechou a porta da sala e sorriu, indo até a lousa e escrevendo o assunto do dia.
- Bom dia, alunos. Hoje nós vamos falar sobre a revolução industrial e... – a aula foi interrompida por e abrindo a porta em desespero.
- Hm. Bom dia, senhora Lee. – coçou a nuca e sorriu sem graça, sendo motivo de risada para a sala toda. – Nós podemos entrar?
- Parece que alguém perdeu a hora. – a professora riu e olhou em seu relógio. – Podem entrar, mas tentem chegar no horário a partir de hoje.
- Claro, obrigado. – assentiu e entrou atrás de , sentando ao meu lado.
- Não viram a minha mensagem? – cochichei rindo e olhando para , que me fuzilou com os olhos.
- Por que vocês vieram mais cedo, afinal? – ele perguntou enquanto tirava um caderno de sua mochila e eu apontei para com a cabeça. – Oh, entendi.
- Pois é. – virei para frente antes que a senhora Lee brigasse comigo e observei , com o olhar perdido e ainda mais aérea, olhando para a janela do lado oposto.
- Nós temos treino hoje, não vamos com vocês, ok? – disse olhando diretamente para mim.
- Bom, eu não dou a carona. – dei de ombros e ri quando ele me xingou, percebendo minha intenção, e virou para frente. – Se prepare para lidar com os dois por si só. – sussurrei olhando para , que jogou a cabeça sobre os braços na mesa e suspirou.
O primeiro período passou bem rápido depois daquilo e a contagem de interações entre e continuava nula. Entrei em outra sala para a segunda aula do dia, fotografia. Olhei ao redor e vi apenas uma carteira vaga, ao lado de alguém que eu não conhecia. Era a segunda semana de aula e digamos que eu seja um pouco tímida quando o assunto é começar novas amizades. Sentei no lugar disponível e peguei um caderno para as anotações que fazia naquele período.
- Você deve ser a única pessoa que anota alguma coisa nessa aula.
Ouvi uma voz e olhei para o lado, com a caneta na mão. O garoto tinha os cabelos escuros, jogados para o lado, os olhos esverdeados, a pele morena e vestia um sorriso impressionantemente confortante.
- Eu sou do tipo que só consegue lembrar das coisas quando as escreve. – sorri de volta e balancei a caneta, dando de ombros.
- Meu nome é Luke, a propósito. – ele estendeu a mão e eu juntei as sobrancelhas, confusa antes de cumprimenta-lo.
- Formal. Eu me chamo . – ri e o garoto sorriu, olhando para baixo.
- O meu melhor amigo faltou e eu percebi que você está sempre sozinha nessa aula, então juntei o útil ao agradável hoje. – ele justificou a aproximação repentina e eu assenti.
- Você só está falando comigo por desespero, então. – arqueei a sobrancelha entrando na brincadeira e ele riu, falando mais baixo.
- Eu queria uma companhia e você me pareceu o alvo mais fácil. – deu de ombros, sorrindo em seguida e eu coloquei a mão no peito, fingindo estar ofendida.
- Senhorita . – ouvi a voz rouca do professor e voltei minha atenção a ele, assentindo. – Vejo que fez uma nova amizade com o senhor Andrews, convenientemente em uma ótima hora. No fim deste semestre, os senhores me apresentarão um trabalho. O tema é livre, fica a seu critério. Minha única exigência é que seja em dupla e, claro, que envolva fotografias.
Passamos alguns minutos da aula discutindo sobre o trabalho, depois começamos um novo assunto e eu e Luke trocamos poucas palavras.
- Já tem alguma ideia para o incrível projeto que teremos de apresentar? – Luke perguntou andando ao meu lado assim que eu guardei todo o meu material e saímos da sala.
- Ainda não. Sabe, não trabalho bem sob pressão. – ri e ele levantou as mãos em sinal de rendição.
- Está indo para qual aula agora?
- Hm... Inglês. E você? – ainda não havia memorizado meu horário perfeitamente então demorei alguns segundos para lembrar.
- Álgebra. – ele colocou as mãos na testa e suspirou, me fazendo rir.
- Boa sorte. – dei dois tapinhas em seu ombro e avistei , e alguns passos à frente. – Oh, minha carona chegou. – brinquei e acenei para ele, antes de seguir até os três.
- Ooooh, quem é ele? – olhou para Luke com um sorriso malicioso e a sobrancelha arqueada e eu empurrei seu ombro, rindo.
- O nome dele é Luke, fazemos fotografia juntos. – olhei para trás para me certificar de que ele não estava perto o suficiente para escutar aquela conversa e suspirei aliviada.
- Sei bem que tipo de fotografia ele quer fazer com você. – sorriu malicioso e eu revirei os olhos.
- Você é nojento, . – continuei caminhando até a sala, onde ficaríamos apenas eu e . – Prometem não se matar no próximo período? – perguntei olhando para e , que bufaram.
- É só ele ficar longe de mim que estamos bem. – deu meia volta e continuou seu caminho sem esperar pelo amigo, que suspirou e foi atrás, cabisbaixo.
- Acho que os encontraremos inteiros. – ri e olhei para , que não disse uma palavra, apenas sentou em uma carteira e eu repeti seu movimento, olhando-o preocupada. – Hm, você está bem? Não disse nada até agora.
- Ah, não. Eu estou bem. – ele balançou a cabeça e deu um sorriso um pouco diferente.
- A tortura da aula anterior foi demais? – perguntei sorrindo e ele riu anasalado, assentindo.
- Isso. Foi isso. – ele olhou para mim e sorriu ao mesmo tempo em que o sinal tocou.
As aulas seguintes passaram rápido e logo estávamos saindo da escola, às 15h.
- Eu tenho que pegar um livro com o antes de irmos, tudo bem? – perguntei para , lembrando desse detalhe depois que vi os dois garotos saindo pela porta e correndo para o treino. – Você falou alguma coisa com o hoje?
- Quase nada. – deu de ombros, fingindo indiferença enquanto caminhávamos até o campo.
- Eu me lembro bem de você dizendo que ia conversar com ele.
- E eu me lembro de dizer que conversaria depois da aula. – ela olhou para mim com a sobrancelha arqueada e eu ri, balançando a cabeça.
- Vocês são complicados demais.
- É porque não acontece com você. Quão estranho seria beijar o do nada? – olhei para ela e pensei sobre a situação.
- Não sei. Realmente deve ser estranho. – ela sorriu vitoriosa e eu dei a língua, enquanto caminhava pelo campo até , que estava sentado no banco.
- Ei, vieram assistir ao treino de novo? – ele perguntou sorrindo e espremendo os olhos para conseguir nos enxergar, já que o sol estava extremamente forte naquele dia.
- Não, na verdade. Vim pegar aquele livro de álgebra com você, lembra?
- Ah, é mesmo. Eu deixei minha mochila no vestiário, vocês podem ir lá pegar? Se eu sair daqui o treinador me mata. – ele olhou para o lado, onde o treinador brigava com um dos alunos e eu ri, o vendo fazer uma expressão horrorizada.
- Tudo bem. Reze para não ter alunos pelados lá, eu sinceramente não quero ver isso. – jogou um beijo no ar enquanto andava em direção ao vestiário e eu ri, vendo gargalhar e caminhei um pouco mais rápido até alcança-la.
- Não vai entrar? – perguntei quando vi que havia ficado para trás assim que passei pela porta do vestiário.
- Eu estava falando sério sobre os alunos pelados. Não, obrigada. – ela virou, encostando na parede ao lado da porta e eu entrei, procurando pela mochila de .
- Ahá, achei. – encontrei-a em cima de um dos bancos entre os armários e peguei o livro de matemática que precisava, colocando em minha mochila e voltando para o lado de fora. – Vamos? – olhei para e ela tinha o olhar perdido em algum lugar ali perto. – ?
Tentei achar o que ela tanto olhava e encontrei um pouco mais a frente no corredor, com o braço apoiado na parede, encurralando uma garota que parecia ser Samantha, mas eu não tinha certeza. Olhei de novo para a minha amiga e ela tinha os olhos um pouco marejados.
- É melhor a gente ir, certo? – toquei seu braço e ela sorriu para mim, olhando de novo para .
Dessa vez, ele olhou de volta para ela e abaixou o braço automaticamente, assim que percebeu que se tratava de . Ela balançou a cabeça em negação e saiu em disparada até o estacionamento, comigo em seu encalço.
- , espera. – nos alcançou assim que chegamos no carro, entrou no lado do motorista e eu entrei do outro lado. – Eu posso explicar.
- Você não me deve satisfação alguma, . – ela colocou a chave no carro e olhou para ele.
- Eu sei que não, mas... Eu não sei. – o garoto balançou a cabeça e passou a mão pelos cabelos. – Você me confunde.
- Agora a culpa é minha? – a voz dela saiu um pouco mais aguda e eu mal podia imaginar tamanha raiva que ela devia estar sentindo naquele momento. – Bom, , me desculpe se você não consegue controlar o seu querido amiguinho nas suas calças.
- O que? – ele apoiou as duas mãos na janela do carro e levantou um pouco o tom de voz. – Eu também não sei como lidar com as coisas desde a festa da Amber, mas eu estou pelo menos tentando, porra. Tudo o que você faz é me tratar como lixo o dia todo.
- Eu não sei como lidar e não quero lidar com isso, entende? É claro que não, você está muito ocupado lambendo os pés da Samantha para se preocupar com isso. – ela apertou as mãos no volante e suspirou. – Você devia estar no seu treino, .
- É. Talvez eu devesse mesmo. – ele bateu a mão na porta, frustrado e riu sem graça. – Você é inacreditável.
balançou a cabeça em negação e virou, caminhando de volta para o campo. suspirou e encostou a testa no volante, com as mãos no painel do carro.
- Por que é tão difícil fazer dar certo? – ouvi a voz abafada de e seu suspiro, antes de vê-la levantar e enxugar o rosto com as costas da mão.
- Eu sei que é quase impossível acreditar nisso, mas: vai dar tudo certo. – coloquei a mão no ombro dela e tentei confortá-la. – Talvez não agora ou daqui uma semana, mas vai. Vocês só têm que entender que a situação é um pouco mais complicada do que o normal. Existe uma amizade de quase uma década em jogo, não é só uma questão de querer ou não, sabe?
- E como eu resolvo isso? – ela olhou para mim e eu pude ver a tristeza pairando em seus olhos. – Eu vim determinada a me acertar com ele hoje e, de alguma maneira, estraguei tudo. Eu sempre estrago tudo.
- Os dois têm sua porcentagem de culpa no mal entendido, não se machuca assim. Eu não sei se existe uma receita preparada para resolver o seu caso, só acho que você devia dar tempo ao tempo.
sugou todo o ar que conseguiu e olhou para mim com um sorriso fraco no rosto, girando a chave e saindo do estacionamento da escola. Passamos o caminho todo em silêncio, já que eu achei que ela precisava tentar assimilar tudo dentro da sua cabeça e não de uma opinião naquele momento.
- Você não quer entrar? – perguntei assim que ela parou o carro na frente da minha casa, a vendo negar com a cabeça.
- Acho melhor eu ir para casa. Preciso pensar um pouco. – passou a mão na franja, colocando atrás da orelha e sorriu amarelo.
- Se precisar de uma companhia para comer coisas nem um pouco saudáveis e assistir à comédias românticas, é só me ligar. – pisquei e sorri, fazendo ela soltar uma risada anasalada e assentir.
Entrei em casa e deixei a mochila no sofá, pegando meu celular e mandando uma mensagem para .
“- Estão no treino?”
Sua resposta veio alguns segundos depois.
“- 5 minutos de descanso. Aconteceu alguma coisa?
- O e a meio que discutiram. Ele está bem?
- Ele parece meio desligado de tudo. O treinador já brigou com ele várias vezes. E a ?
- Está meio mal também, mas preferiu ficar sozinha. Espero que eles consigam resolver isso logo.”
Todo esse rolo entre a e o com certeza me fizeram pensar sobre a nossa amizade como um todo. Sempre fomos nós quatro, os desajeitados que não tinham uma vida social completamente arruinada e nem eram a nata da escola. Éramos apenas a gente e eu não conseguia imaginar sobreviver à escola de outra forma. Coisas assim não têm que atrapalhar a nossa amizade, mas é definitivamente difícil de lidar com elas.


Capítulo 5

’s POV
As semanas seguintes passaram voando e o dia do primeiro jogo da temporada havia chegado.
- Você quer dormir lá em casa hoje? – virei para trás e perguntei para , que estava concentrada em fazer uma dobradura com o papel do seu caderno. – ?
- Oi? – ela olhou para mim e riu, passando a mão na testa. – Claro.
- Nós podemos nos arrumar lá, depois da escola. – dei de ombros e ela riu. – Não quero chegar ao jogo sozinha.
- Eu já imaginava. – revirou os olhos, apertando minhas bochechas e sorriu. – Pode deixar, serei seu escudo.
Algumas horas depois nossa aula já havia acabado e nós fomos direto para a minha casa, já que os meninos ficariam para treinar um pouco mais antes do grande jogo e depois voltariam para a casa deles sozinhos, pouco tempo antes do jogo, que seria às 19h.
- Oi, meninas. – minha mãe nos cumprimentou assim que entramos em casa, com um sorriso no rosto. – Como foi o dia? - Foi bom, senhora . – ouvi a voz da atrás de mim e minha mãe suspirou.
- Nos conhecemos há dez anos, você pode me chamar de Christine, por favor.
- Pode deixar, Christine. – sorriu e minha mãe me deu um beijo na bochecha, antes de anunciar que ia se arrumar para o trabalho.
- E aí, o que vamos fazer até o horário do jogo? – perguntei olhando para , que estava jogada no sofá agora e olhava de mim para a TV.
- Eu voto em comédia romântica. – ela levantou a mão e eu ri, procurando algum filme que ainda não tínhamos visto ou que era bom o suficiente para vermos pela milésima vez. Ficamos com a segunda opção e assistimos a Meninas Malvadas.
- Queria poder dizer que não conhecemos uma Regina George na escola. – olhei para , que riu e empurrou meu ombro de leve, me fazendo rir também. - O que? É a verdade.
Fizemos alguns comentários durante o filme, repetimos as falas que já havíamos decorado ao longo de todas as milhares de vezes que assistimos e rimos juntas. Depois que o filme acabou, comemos alguma coisa e começamos a nos arrumar para o jogo, que seria em uma hora.
- Vou tomar banho, ok? – levantou da cama assim que eu terminei de me vestir e saí do banheiro e eu assenti, penteando os cabelos na frente do espelho. Fiz uma maquiagem leve e escutei a campainha tocar assim que terminei de tocar o rímel.
- Amiga, vou atender a porta, tá? – falei perto da entrada do banheiro, ouvi um murmúrio de concordância vindo de dentro dele e desci as escadas.
Abri a porta e me deparei com um com os cabelos molhados e a respiração pesada, carregando o capacete de futebol e uma bolsa, provavelmente com seu uniforme.
- O que aconteceu? - olhei para ele e ele sorriu de lado, balançando a cabeça em negação.
- Eu não consigo mais treinar em paz. Eu não durmo direito à noite. – ele passou a mão livre pelos cabelos e umedeceu os lábios, olhando em meus olhos e suspirou antes de continuar. – Eu não consigo pensar em mais nada. Desde aquele dia no campo.
- , do que você está falando? – olhei para ele com os braços cruzados e ele riu.
- Eu preciso que você tome uma decisão. Eu preciso que você decida o que você quer de mim, porra.
- , eu...
- Você não sai da minha cabeça depois da festa da Amber. Eu tentei te esquecer. Eu juro que tentei. Mas eu não consigo nem cumprimentar outra garota sem pensar em você, . Eu entendo como a nossa situação é mais complicada do que o normal, mas eu espero que você entenda que é só você dizer, e eu tento deixa-la mais fácil. E se você me pedir para parar de tentar, eu paro. Só, por favor, me fala alguma coisa.
Continuei encarando seus olhos, ainda incrédula com o que havia acabado de ouvir e abri a boca, tentando formular uma frase completa. Sem sucesso.
- Qualquer coisa. – olhou nos meus olhos uma última vez antes de virar e ir de volta para sua casa, entrando no carro antes de dar a partida.
Fechei a porta depois de alguns segundos e sentei no sofá, processando tudo o que ele disse e pensando sobre uma possível resposta.
- Vamos? – desceu as escadas e olhou para mim, assustada. – Hm, tudo bem?
- Era o . – ela sentou ao meu lado e continuou a me observar, atenta. – Ele disse que eu preciso me decidir quanto à nossa situação. E que ele não conseguia parar de pensar em mim.
- AI MEU DEUS, , EU TE AMO. – começou a dar pulinhos de alegria no meio da sala e eu ri, me jogando no sofá. – E você?
- Eu? Eu fiquei parada feito boba na frente dele. – suspirei e a vi sorrir.
- Você já tem uma decisão?
- Não. – olhei para ela, que assentiu e sorriu, tentando me confortar.
- Bom, independentemente do que você decidir, eu vou estar aqui. – ela piscou para mim e levantou, pegando sua jaqueta no sofá. – Agora vamos, temos um jogo para comparecer.
Peguei as chaves perto da porta de entrada e caminhamos até o carro. Passei todo o caminho até a escola escutando algumas músicas e cantando junto com , tentando não pensar tanto no que havia acabado de acontecer. Ok, eu não achei que fosse funcionar. Chegamos à escola em 15 minutos e fomos direto para o campo, seguindo a multidão até lá. Subimos até a quinta fileira da arquibancada, equilibrando os pacotes e copos em nossos braços e sentamos na ponta, perto da escada.
- Eu estou muito mais nervosa que o normal. – riu balançando as mãos, tentando deixar o nervosismo de lado.
- Eu também. Deve ser porque é o primeiro jogo da temporada. – dei de ombros e ela riu, balançando a cabeça.
- Ou porque seu futuro talvez namorado se declarou há alguns minutos e você ainda não sabe o que fazer. – cantarolou e olhou para o céu, fingindo indiferença e inocência.
- Ainda não sei porque eu te conto as coisas. – revirei os olhos e bebi um pouco do meu refrigerante, focalizando no campo à minha frente quando ouvi as palmas atrás de mim e enxerguei as líderes de torcida dos dois times saindo do vestiário, pulando e sorrindo.
Uma música animada começou a tocar e as garotas da nossa escola se alinharam, começando a coreografia e recebendo gritos de aprovação em resposta. A dança inteira estava bem sincronizada e todas as meninas pareciam felizes em estar ali.
- Deve ser demais. – pensei alto e me olhou confusa, como se perguntasse do que eu estava falando. – Ser líder de torcida deve ser demais.
- Você deveria tentar. – ela piscou e sorriu quando eu revirei os olhos. – Tentar parar de se subestimar e também tentar ser uma delas.
- Com vocês, os jogadores da Morristown High. – ouvimos a voz do treinador Phill anunciando a entrada dos jogadores do time adversário e batemos palma assim que eles entraram no campo, se posicionando no centro.
- E agora, os Monties. – aplaudimos de pé assim que vimos os garotos da escola entrando em campo.
- GO MONTIES! - ouvi um grito do fundo da arquibancada seguido de risadas, dos jogadores e das líderes de torcida.
e entraram logo atrás de Brad, o capitão do time. Acompanhei a tão conhecida camisa 13 caminhando pelo gramado e gritei junto com , torcendo pela nossa escola. Vi virar para a arquibancada, procurando de onde saíam os gritos, rindo assim que nos encontrou com o olhar e cutucando , que virou e sorriu, balançando a cabeça em negação.
Nós acenamos assim que eles olharam para a arquibancada pela primeira vez e contorceu seu rosto e eu pude ouvir o barulho do seu “urro” de longe, apenas pela sua expressão com seus dois riscos azuis feitos de tinta em suas bochechas. começou a exibir os músculos de seus braços junto com , fazendo com que nós rissemos de quão estúpidos eles eram. Ok, talvez nós quatro fôssemos patéticos.
- Espero que seu namorado marque um ponto para você. – falou ao meu lado e riu da minha expressão enquanto eu empurrava o ombro dela.
- Eu não tenho um namorado, besta. – ela deu de ombros e sorriu.
- diria o contrário. – a ouvi sussurrar e abri a boca, surpresa.
- Eu ouvi. – ela riu da minha expressão e nós sentamos assim que os times começaram a se organizar no meio do campo e o jogo estava prestes a começar. – Eu espero que eles ganhem.
- Eles vão ganhar. – assentiu e esfregou suas mãos em um gesto nervoso.
A partida começou com jogando a bola para trás e tentando bloquear a passagem do time adversário, enquanto corria no campo, a fim de pegar a bola e marcar um ponto. Trevor jogou a bola para , que segurou, mas foi derrubado por três jogadores do outro time. O juiz apitou e todos voltaram para a formação, dessa vez com o nosso time na defesa.

*****

- EU NÃO ACREDITO! – gritou assim que um ponto foi marcado no último segundo de jogo, nos dando a vitória.
Toda a torcida foi à loucura e os jogadores se aglomeraram, comemorando. Alguns segundos depois todos os torcedores começaram a descer da arquibancada, se juntando à comemoração e é óbvio que eu e não ficamos para trás.
- Vocês foram demais. – abracei sem ligar para seu suor e ele sorriu, agradecendo e indo cumprimentar .
- EU SABIA QUE VOCÊS GANHARIAM. – se jogou nos braços de , que a girou no ar e os dois caíram na risada.
Olhei ao meu redor e só vi rostos conhecidos da escola, todos sorrindo e se abraçando. Mais à frente, achei um rosto muito conhecido com uma expressão de confusão, olhando para o longe e não conseguindo focalizar em nada.
- Me procurando? – falei assim que me posicionei exatamente atrás dele e ele virou, rindo.
- Não seja tão pretenciosa. – revirou os olhos e colocou as mãos atrás de seu corpo.
- É apenas a realidade. – dei de ombros e ajeitei meu cabelo. – Vocês foram incríveis.
- Eu fui maravilhoso, não fui?
- Depois eu que sou a pretenciosa. – revirei os olhos fazendo com que ele risse e nós ficamos nos encarando por alguns segundos.
- Sobre o que eu falei na sua casa... Olha, não se sinta pressionada a tomar qualquer decisão. Eu sei que eu pareci muito firme na minha proposta aquela hora mas eu não quero te apressar.
- Oh. Eu meio que esperava que você ainda tivesse certeza sobre aquilo. – olhei para os meus pés e sorri de lado.
- Por quê? – ele perguntou com um sorriso no rosto e eu olhei em seus olhos.
- Para isso.
Dei um passo até ficar a uma distância mínima de seu corpo, o que foi rapidamente resolvido quando ele passou seus braços pela minha cintura e eu entrelacei os meus atrás de seu pescoço. Nossas testas se tocaram e eu o encarei uma última vez antes de fechar os olhos e me entregar àquele momento.
- Quem diria que um dia eu participaria de um grande clichê? – disse assim que nos afastamos e eu ri, ouvindo algumas palmas e assovios dos nossos colegas de classe.
- Definitivamente não eu. – ouvi a voz de ao nosso lado e escondi meu rosto no pescoço de , morrendo de vergonha.
- Por que você tinha que estragar o grande momento deles? – deu um tapinha no ombro de e encostou sua cabeça no ombro dele, com seus braços entrelaçados em um dele. – Vocês querem que eu pegue uma garrafa d’água e jogue um pouco em vocês para parecer chuva? Quer dizer... Eu poderia facilmente fazer isso por esse casal.
- Para de ser boba, . – revirei os olhos e fui até ela, a abraçando de lado.
- “Eu não tenho um namorado, besta”, foi o que ela disse. – fez uma péssima tentativa de imitação da minha voz e eu ri, balançando a cabeça sentindo o braço de passar ao redor do meu ombro enquanto andávamos até a saída do campo.
End of ’s POV


Capítulo 6

Um mês havia se passado desde o dia do grande jogo de abertura da temporada, na nossa escola. As coisas entre e continuavam como no dia do jogo, os dois não se desgrudavam.
- Vocês podiam diminuir a melação quando eu estou com vocês. – revirei os olhos depois de fechar o armário da escola, virando para os dois ao meu lado, se beijando. – É deprimente.
- Ok, desculpe. – ria enquanto falava e tentava se esquivar de , que sorria e tentava beijá-la. – !
- O que? Não posso fazer nada se a é mal-amada. – deu de ombros e eu abri a boca, surpresa, e o empurrei pelo ombro. – Ai! É brincadeira, você é muito amada. Amada demais. – mudou o tom de voz e riu.
- Esse relacionamento de vocês está afetando seus cérebros. – avistei de longe caminhando até nós e levantei as mãos, agradecendo aos céus. – Obrigada por ouvir minhas preces.
- O que está rolando aqui? – perguntou enquanto arrumava a mochila em suas costas.
- Estamos falando como a é imensamente amada por todos. Todos do mundo. – abriu os braços e deu uma volta dramática, me fazendo rolar os olhos e virar, começando a andar pelo corredor com os três em meu encalço.
- Ela é a garota mais amada desse mundo. Mais amada que a rainha. Você deveria ter um cargo especial nessa escola. E um período dedicado apenas para nós, meros mortais, demonstrarmos como você é incrível. – entrou na brincadeira e passou um braço pelo meu pescoço, encostando seu queixo em meu ombro e eu tentei sair de seus braços. – É a verdade. Lide com isso. Com o amor de todos os seus seguidores.
- Por que eu fui arranjar amigos tão doidos. – balancei a cabeça em negação, enquanto ria e foi para o meu lado, deixando o braço em meu ombro. – O que aconteceu para você não vir com a gente, garotinho? Me deixou sozinha com o casal 20.
- Desculpa por isso. – riu, olhando para o casal ao nosso lado, que continuava no mundo da lua. – Fui dormir tarde e acabei me atrasando.
- Mas está tudo bem? – olhei para ele, que sorriu e deu de ombros.
- Só uma briga em casa. Nada demais.
Assenti quando percebi que ele não queria falar sobre aquilo, pelo menos não naquele momento e nós chegamos na sala da senhora Lee, sentando nos nossos lugares de sempre. Cumprimentei Luke com um aceno, que estava sentado duas fileiras atrás de mim, e recebi um sorriso em resposta. Nós descobrimos que fazíamos algumas aulas juntos, além da aula de Fotografia e a nossa convivência passou de nos falarmos apenas quando o melhor amigo dele faltava para nos falarmos sempre que nos víamos.
- Eu ouvi dizer que vai ter uma festa na casa da Lily sábado. Vocês estão a fim de ir? – perguntou com um sorriso sapeca no rosto, me fazendo rir.
- Eu topo. – levantei a mão animada para a festa que seria daqui dois dias, fazia um bom tempo que não íamos para esse tipo de evento.
- Eu também, mas não quero ser o motorista da rodada. – balançou a cabeça e deu dois tapinhas no ombro do amigo.
- Eu voto na como a motorista. – se pronunciou e todos, menos , assentiram. – Qual é? Eu já sofri na primeira vez.
- Você sabe que isso não é argumento, não sabe? – fuzilou com os olhos e o garoto riu, levantando os braços em sinal de rendição. – Tudo bem, eu dirijo dessa vez.
- É por isso que te amamos. – pisquei para ela e me respondeu com o dedo do meio.
Os dois dias seguintes passaram voando e logo era sábado. Acordei tarde naquele dia e fiquei horas vendo filmes e fazendo o que fazia de melhor, dormir. Quando vi já era hora de começar a me arrumar para a festa e foi o que fiz.
- Oi, amiga. – segurei o celular entre meu ombro e minha orelha enquanto colocava os sapatos, arrumando o cabelo logo em frente ao espelho. – Já chegaram? – ouvi gritinhos animados do outro lado da linha e ri. – Já estou descendo.
- Vai dormir fora hoje, filha? – meu pai perguntou, se ajeitando no sofá assim que eu desci as escadas.
- Não sei, talvez eu durma na . Mas eu volto tarde de qualquer forma, tudo bem? – perguntei com a maior expressão de súplica que consegui fazer e meu pai riu, balançando a cabeça em negação.
- Tudo bem. Comporte-se mocinha. – ele arqueou a sobrancelha e eu ri, lhe dando um beijo na bochecha e indo em direção à porta.
- Você sabe que eu vou.
- Você está um arraso, garota! – ouvi a voz animada da motorista assim que entrei no carro e sorri, pegando a garrafa de bebida das mãos de , tomando um gole.
- Olha quem fala. – revirei os olhos e ela riu, jogando um beijo para mim pelo retrovisor do carro e dando partida.
- Por que nós não recebemos um elogio assim? – reclamou olhando para , que concordou fazendo bico.
- Você está com a garota mais gata da festa, já é elogio suficiente. – ouvi um “awn” do banco da frente e sorriu, colocando a mão sobre a coxa de .
- Isso é verdade. – ele piscou para mim e cruzou os braços, resmungando.
- Eu continuo sem o meu. – olhei para ele e ri, jogando os meus braços em volta de seu pescoço, distribuindo beijos pela sua bochecha.
- Você é melhor amigo da garota mais gata da festa. – piscou pelo retrovisor, apontando para mim e riu, dando de ombros.
- Vou aceitar isso como um elogio. – riu, me dando um beijo na bochecha.
Nós seguimos até a casa da Lily, que ficava há uns 15 minutos da minha casa e pode-se dizer que já estávamos bem animados quando chegamos lá. Passamos pelo pequeno jardim na frente da casa, encontrando a porta da frente aberta entramos, encontrando a casa lotada. Na entrada tinha um grande corredor que dava na sala com um conceito aberto, com apenas algumas colunas delimitando os dois cômodos e uma escada na parede direita da casa, bem de frente à porta. Andamos um pouco até a ligação entre a cozinha e a sala, onde estava uma mesa com bebidas, algumas frutas e copos.
- Sintam-se em casa. – uma Lily extremamente alterada passou ao nosso lado, com os braços entrelaçados no pescoço do namorado dela, um garoto que eu não conseguia lembrar o nome agora e que estava muito ocupado tentando evitar que a menina caísse.
- Eu acho que vi uma mesa de beer pong ali. – tentou enxergar o lado de fora, se esticando e riu, confirmando.
- Só deixando claro que eu não vou conseguir carregar três pessoas sozinha. – olhou para nós três como se fosse uma mãe dando bronca em seus filhos e eu assenti talvez muito animadamente. – , é sério.
- Relaxa, não vou dar trabalho. – pisquei para ela e comecei a andar em direção à mesa de beer pong com os outros ao meu encalço.
- Cara, você chegou! – um dos Monties cumprimentou com um copo nas mãos. – Vão querer jogar?
- Você quer dizer vamos querer acabar com vocês. – sorriu de lado e o garoto levantou os braços em rendição, rindo e chamando um amigo dele, provavelmente para ser sua dupla.
- Isso eu quero ver. – o garoto piscou para , que olhou para trás para chamar , que estava ocupado demais se agarrando com para prestar atenção na conversa. – Perdeu seu parceiro?
- Ganhei uma parceira. – virou para mim e eu neguei com a cabeça.
- Eu nunca joguei.- falei e vi George, um dos nossos oponentes, revirar os olhos e rir junto com o amigo.
- Confio no seu potencial. – piscou e eu ri, balançando a cabeça mas seguindo ele até o outro lado da mesa, me posicionando ao seu lado. – É só acertar mais copos do que eles.
Nick surgiu com uma caixa de som para o lado de fora da casa, já que só havia uma do lado de dentro, e colocou alguma música que eu não consegui identificar. A batida era muito animada e eu sorri, sentindo a bebida começar a fazer efeito e me deixar pronta para qualquer desafio. A primeira jogada foi de , que acertou um copo e Trevor, um dos garotos, virou o copo e deixou no canto da mesa, olhando para com um sorriso intimidador e acertando um copo logo de cara.
- Achei que você estivesse com sede, . – o garoto fez um gesto para que virasse o conteúdo do copo e ele o fez, me passando uma bolinha logo depois.
- Sua vez. – peguei a bolinha de pingue-pongue de sua mão e ele sorriu, me encorajando.
Olhei para todos os copos enfileirados e depois para George, o garoto que era meu oponente direto, e fechei um dos olhos, tentando mirar no copo da ponta, mais próximo a mim. A bola fez uma volta na borda do copo e logo depois entrou no mesmo, me fazendo comemorar levantando as mãos para cima. gargalhou e me abraçou, me tirando do chão e eu entrelacei meus braços em seu pescoço, rindo. George bebeu a contragosto, adquirindo uma pose concentrada e tentando se vingar de mim, sem obter sucesso quando a bola pingou na mesa e foi parar no chão ao lado de . A partida durou alguns minutos depois disso, sendo finalizada com a nossa vitória.
- Sorte de principiante. – Trevor argumentou, rindo e dando um soquinho no ombro de , olhando para mim logo depois.
- Acredite no que quiser para se sentir melhor. – dei de ombros e Trev olhou para mim boquiaberto, rindo e balançando a cabeça em negação.
- Eu criei um monstro. – colocou uma das mãos em seu peito, olhando para mim e eu ri, gesticulando com as mãos como se dissesse “o que posso fazer?”.
Começamos a andar até o interior da casa, tentando achar e que haviam sumido quando estávamos jogando sem que nós víssemos, foi para um lado e eu fui para o outro, nos encontraríamos na cozinha assim que achássemos os dois pombinhos e eu acabei trombando em alguém sem querer na procura.
- Desculpe. – falei automaticamente e olhei para o lado.
- Você? – ouvi uma voz conhecida e olhei de novo para a pessoa, reconhecendo Luke, da aula de fotografia. – Não sabia que era o tipo de adolescente que frequentava esses lugares.
- Parece que você não sabe muita coisa sobre mim. – dei de ombros sorrindo e Luke riu, coçando a nuca.
- Está perdida?
- Procurando duas pessoas. – olhei ao redor e não vi sinal algum dos dois. – Veio sozinho?
- Não, eu estou perdido, na verdade. – eu gargalhei e balancei a cabeça em negação. – Mas pelo que conheço dos meus amigos, eles provavelmente estão enchendo a cara ou passando vergonha na piscina.
- Ou os dois. – Luke adquiriu uma expressão de quem acabara de descobrir um mistério e eu ri, empurrando um de seus ombros o fazendo rir. – Acho que eu deveria ir para a cozinha. Você vai continuar na sua busca ou quer me acompanhar na minha?
- Acho que eles vão sobreviver alguns minutos sem mim. – Luke deu de ombros e eu assenti, seguindo até a cozinha tentando desviar das pessoas.
Chegamos na cozinha e eu vi e abraçados ao lado de , os três rindo de alguma coisa.
- Você achou eles! – comentei animada demais por causa da bebida e senti Luke passar para o meu lado, chegando mais perto dos meus amigos.
- Eu te conheço. – estreitou os olhos como se tentasse lembrar de algo e riu.
- Ele é o amigo da . – me deu um olhar significante que continha segundas intenções e eu balancei a cabeça, rindo. – Luke, certo?
- Isso. Nós temos algumas aulas juntos também. – Luke assentiu e gesticulou como se finalmente tivesse se tocado de quem se tratava o garoto ao meu lado.
- Eu sou a . Esse tapado é o e esse é . – apontou para cada um dos garotos ao seu lado por vez e o cumprimentou apenas com um aceno de cabeça. Ouvi o início da música ‘Shots’ e nós quatro nos entreolhamos, sorrindo.
- Deveríamos honrar essa música. – comentou, tirando a mão da cintura de e procurando os copos e pegando uma garrafa de vodca.
- Vai se juntar à gente? – perguntei olhando para Luke com a sobrancelha arqueada, o garoto riu e deu de ombros.
- Temos de honrar a música. – ele repetiu a expressão usada por e eu assenti, pegando um copo da mão de e assistindo ao líquido o enchendo.
A letra da música começou e nós cinco brindamos, acabou se juntando a todos levando em consideração que seria apenas uma dose e ainda demoraríamos para sair. O líquido desceu quente pela minha garganta e eu reprimi uma careta, olhando para que riu de mim e pegou a garrafa de novo, enchendo seu copo. Ele olhou para mim com a sobrancelha arqueada e eu sorri de lado, estendendo meu copo para ele e só nós dois brindamos dessa vez, bebendo mais uma dose.
- Cara, nós te procuramos por toda a casa. – ouvi alguém falar um pouco alto demais e virei para trás, encontrando um garoto do colégio se escorando em Luke, que riu e segurou-lhe. – Preciso que você faça um esquema com aquela sua amiga da aula de Álgebra para mim.
- Dude, você não sabe viver sem mim, não é? – o garoto riu e Luke olhou para mim, que sorri. – Vou ajudar esse idiota. A gente se encontra por aí? – assenti e vi os dois caminhando até a sala, provavelmente onde a garota deveria estar.
- Eu quero dançar. – ouvi falar em um tom mais alto e se jogar nos braços do namorado, que riu e passou os dele ao redor da cintura de . Coincidência ou não, uma música muito conhecida por nós começou a tocar e eu e começamos a caminhar até a sala, onde o som estava mais alto e os meninos vieram atrás.
O primeiro diálogo de ‘Promiscuous’ de Nelly Furtado e Timbaland terminou e nós começamos a cantar enquanto mexíamos o corpo no ritmo da música.
Promiscuous girl, wherever you are I'm all alone and it's you that I want Promiscuous boy, you already know That I'm all yours, what you waiting for? Promiscuous girl, you're teasing me You know what I want and I got what you need Promiscuous boy, let's get to the point Cuz we're on a roll You ready? se aproximou de e começou a cantar apontando um dedo para o peito do garoto. Eu ri, apenas observando a cena e cheguei mais perto de , recitando os versos de Nelly. riu, fazendo os olhos dele se fecharem e eu sorri, levantando os braços e fazendo qualquer movimento com meu corpo. Não estava em condições de decidir o que ele fazia, praticamente tinha vida própria. Quando meus braços cansaram, apoiei os dois nos ombros de e nos aproximamos um pouco. Senti as duas mãos dele descansarem na minha cintura e continuamos nos movimentando no ritmo da música.
- Os dois não param de se atracar. – falou no meu ouvido e eu olhei para o lado, sem entender. Mas a visão de e se beijando pelo que parecia ser a vigésima vez só nos últimos dez minutos me fez sacar o que ele dizia e eu ri, olhando de volta para ele.
- É a emoção. – dei de ombros e ele riu.
Ficamos nos encarando por alguns segundos até que eu percebi que minhas mãos estavam um pouco mais para trás de onde eu havia colocado a princípio e nós havíamos nos aproximado um pouco. Sorri de lado confusa com o misto de sensações que circulavam pelo meu corpo e senti os braços de se entrelaçarem nas minhas costas, deixando o espaço entre nossos corpos quase inexistente. Examinei seu rosto e passei uma das minhas mãos pelo seu cabelo, vendo o garoto fechar os olhos com um sorrisinho discreto em seus lábios, que me chamou a atenção. Segundos depois ele abriu os olhos de novo e alternou seu olhar entre os meus e a minha boca, eu sorri e passei os dedos pela sua nuca suavemente, sentindo ele fazer uma pressão maior no lado do meu corpo e nossos narizes encostaram. Ele me lançou um sorriso lindo e eu tentei retribuir. Nossos lábios estavam quase colados quando eu ouvi a voz de Nick de algum lugar da casa.
- GERAL PARA FORA, A POLÍCIA ESTÁ AQUI! – o garoto gritou e nós nos separamos bruscamente, coçando a nuca e olhando desesperado para mim, e eu fiquei alguns segundos desnorteada antes de sentir a mão de me puxando com na sua frente e eu peguei no braço de para que não nos perdêssemos.
Fomos até a porta da frente e fomos correndo até o carro, que não estava estacionado tão longe dali. deu partida assim que nós colocamos o cinto e nós saímos dali.
- Eu definitivamente não posso ir para casa assim. – eu comentei, jogando a cabeça no encosto do banco e fechando os olhos, tentando fazer com que meu estado melhorasse. O que não funcionou, óbvio.
- Nós podemos ficar lá em casa até vocês melhorarem. – olhou para mim por meio segundo e eu assenti. – E vocês vão beber muita água.
- Sim, senhora. – soou entediado e eu ri com os olhos fechados.
Chegamos à sua casa e entramos tentando fazer pouco barulho para que sua mãe não acordasse. Sentamos nos bancos da cozinha e começamos a nos encher de água. O efeito do álcool começou a passar e tudo finalmente parou de girar tão rápido. Olhei para que tinha a cabeça apoiado na bancada, provavelmente dormindo e balançou a cabeça em negação.
- Me ajuda a levar ele lá para cima? – olhou para que assentiu e levantou, passando um braço pela cintura de e colocando o dele sobre seu ombro, subindo as escadas com atrás dele.
Comecei a lembrar de tudo o que havia acontecido e logo cheguei no fim da festa, momentos depois de eu e quase nos beijarmos. Talvez não fosse acontecer realmente, mas parecia. Passei o dedo pela borda do copo d’água e fiquei pensando como poderíamos ter chegado àquilo, tão de repente. Ouvi um barulho na escada e olhei para trás, vendo os dois descendo juntos.
- Eu vou levar vocês correndo para não deixar o sozinho. – pegou as chaves do carro e abriu a porta.
- Não precisa nos levar, já está tudo bem. – revirei os olhos e levantei.
- E deixar vocês dois bêbados na rua? Não, obrigada. Vamos. – me empurrou até a porta e veio logo atrás, fechando a porta da casa e nós entramos no carro.
O trajeto durou o que pareceram dois minutos e logo estava na porta da minha casa. Saí do carro examinando meus bolsos à procura da minha chave e já estava começando a ficar desesperada por não a encontrar em lugar nenhum. Procurei pela quarta vez e percebi que realmente não estava louca, eu havia perdido ela em algum lugar. Provavelmente na casa da , mas já era tarde demais porque ela tinha ido embora.
Mordi o lábio nervosamente e toquei a campainha, olhando para o chão tentando encarnar a melhor sóbria que conseguia ser. Ouvi a porta destrancando e respirei fundo, olhando para cima assim que ela abriu e meu rosto adquiriu uma expressão confusa ao me deparar com uma figura feminina na minha frente. Pela primeira vez em anos.


Capítulo 7

- Hm... – olhei confusa ao redor, me certificando de que estava na casa certa.
- Oh, você deve ser a . – a mulher colocou a mão na testa, como se tivesse ligado os pontos e finalmente entendido de quem me tratava. – Eu sou Monica, muito prazer.
- Prazer. – não consegui tirar a expressão de confusão de meu rosto e vi a figura do meu pai surgir atrás da mulher.
- Filha, você chegou cedo! – meu pai coçou a nuca e sorriu nervosamente, ficando na frente de Monica, que deu alguns passos para trás me dando espaço para entrar.
- Bom, eu... vou dormir, então. – apontei para a escada e meu pai assentiu. – Boa noite. – cumprimentei os dois com um aceno, recebendo um sorriso da mulher e subi direto para o meu quarto, ainda tentando assimilar a cena anterior.
Coloquei meu celular na mesa de cabeceira e me aprontei para dormir, tirando a maquiagem e escovando os dentes. Vesti uma roupa confortável e finalmente me enfiei debaixo das cobertas, sentindo tudo girar, inclusive meus pensamentos. Estava tudo confuso demais para uma só noite e eu pretendia ficar debaixo das cobertas até segunda-feira.
- Alô? – falei com a voz mais sonolenta do universo, esfregando o olho e tentando adivinhar que horas eram.
- AMIGA, bom dia. – ouvi a voz animada da do outro lado da linha e presumi que ela fosse a única disposta a falar naquele tom depois da noite anterior. – Quero dizer, bom dia não. Boa tarde.
- Que horas são? – indaguei mais para mim mesma do que para , tirando o celular da orelha e encarando o horário. 15h.
- Hora de você levantar e se arrumar para vir para cá. – virei de bruços na cama e afundei meu rosto no travesseiro, ouvindo uma reclamação. – Não adianta fazer a morta, meu amor.
- Eu realmente não estou com vontade de levantar da cama até amanhã. – levantei a cabeça e tirei o cabelo do rosto, afastando a cortina um pouco, a fim de olhar a rua pela janela.
- Vai ser legal, eu prometo. – fez uma voz de súplica.
- Tudo bem. – rolei os olhos quando ouvi uma comemoração do outro lado e ri, deitando novamente, de barriga para cima desta vez. – Que horas tenho que estar aí?
- A hora que você estiver pronta. – assenti com a cabeça e depois lembrei que ela não conseguia me ver.
- Ok. Até mais tarde. – desliguei o telefone assim que ouvi se despedindo e mandei uma mensagem para .
“Você vai para a hoje?”
A resposta chegou em alguns segundos.
“Vou e você?”
Coloquei as pernas para fora da cama, sentando e prendendo o cabelo em um coque desajeitado.
“Eu vou mais tarde. Passo aí?”
Me espreguicei e me joguei novamente na cama.
“Ok.”
Aceitei aquela como sendo a última mensagem da nossa conversa e finalmente levantei da cama, deixando o celular por ali e indo até o banheiro, trancando a porta do mesmo. Olhei no espelho e me surpreendi por não estar tão acabada quanto imaginava, considerando a noite anterior. Lavei o rosto e escovei os dentes, logo me despindo e entrando na banheira. Os flashes da noite anterior começaram a surgir na minha mente. O momento em que eu e estávamos próximos demais fisicamente. Era aquilo que eu queria? Quero dizer, eu e sempre fomos muito amigos, mas nada além disso. Nunca cruzamos essa linha e não achava que pretendíamos até ontem. Na verdade, acho que ainda não pretendemos. Talvez tenha sido apenas o efeito do álcool. Isso, foi o álcool.
Fiquei o que eu julguei tempo demais na água, logo me enrolando na toalha e pisando no tapete fofinho que ficava na frente da banheira, começando a pentear meu cabelo. Me curvei para abrir o ralo e deixei o pente em cima da pia antes de deixar o cômodo, voltando para o quarto. Vesti a primeira calça preta que encontrei no armário, coloquei um moletom bege com alguns detalhes estampados em cores escuras no capuz e calcei meus tênis pretos de sempre. Peguei meu celular e minha carteira, guardando tudo nos bolsos e arrumei minha cama antes de deixar o quarto, descendo as escadas e indo até a porta.
- Já vai sair? – ouvi a voz do meu pai assim que peguei as suas chaves e virei para ele.
- Vou à casa da . Volto mais tarde. – dei um meio sorriso e virei novamente para a porta, colocando a chave na fechadura.
- Eu pensei que nós pudéssemos... conversar. Sobre ontem. – sua fala saiu pausada, como se tivesse medo de pronunciar tais palavras e eu finalmente girei a maçaneta. – Eu sei que pode ser estranho e...
- Não. – deixei escapar sem pensar e sacudi a cabeça antes de corrigir minha fala. – Quero dizer, talvez mais tarde? Eu estou atrasada.
- Oh. Tudo bem. – vi meu pai assentir quando eu já estava do lado de fora da casa, prestes a fechar a porta. – Divirta-se.
Assenti e fechei a porta. Caminhei até o outro lado da rua e toquei a campainha, sendo recepcionada por Lisa.
- Oi Lisa, o já saiu?
- Oi . Não, ainda não. – Lisa deu um sorriso confortante e eu assenti sorrindo. – Quer entrar e comer alguma coisa?
- Não, não precisa. – balancei a cabeça em negação e ela adquiriu uma expressão completamente maternal, tentando insistir para que eu comesse. desceu as escadas nessa hora e parou ao lado da sua mãe.
- Tentando convencer a comer? – riu e deu um beijo no topo da cabeça de Lisa, que balançou a cabeça e sorriu.
- Se cuidem. – ela lançou o olhar diretamente a , que bateu continência, me fazendo rir do tapa no ombro que recebeu de sua mãe.
- Outch. – ele esfregou o braço e nos despedimos, caminhando para a calçada. – Como você está?
- Confusa? – o vi se endireitar e sobressaltar um pouco e imaginei que ele pensasse que eu fosse falar sobre o que ‘quase’ aconteceu na noite anterior. Definitivamente eu não iria ser a primeira a tocar no assunto. – O meu pai, ele está saindo com uma mulher.
- Mas já sabíamos disso, não? – ele colocou as mãos no bolso da blusa, olhando para mim enquanto caminhávamos.
- Ah, sim. É que ontem eu perdi minhas chaves, aparentemente na casa da Tha, e quem abriu a porta não foi o meu pai. Foi ela. – olhei para meus pés e fez um barulho de concordância.
- E você se sentiu estranha? – perguntou e eu assenti, olhando para ele. – Acho que isso deve ser normal.
- Acho que sim. – sorri amarelo e me abraçou de lado, me fazendo rir de verdade.
- Vamos mudar de assunto para você não ficar deprimida. – piscou e eu assenti animadamente.
- Ficou sabendo se todo mundo conseguiu sair da casa ontem?
- Não, na verdade. Mas acho que sim. Ou todos saberíamos de alguém que foi detido ou algo assim. – ele deu de ombros e eu balancei a cabeça em negação.
- Adolescência.
- E você, a senhora certinha, faz parte dela. – ele apertou as minhas bochechas e eu tirei suas mãos dali, dando um tapinha em seu ombro.
- Eu não sou a senhora certinha. Já fiz tantas coisas quanto você. – arqueei a sobrancelha e ele colocou as mãos na cintura.
- Disso eu duvido. – ele me desafiou e eu ri.
- Você sabe que eu sei tudo sobre você, não é? – ele desmontou de sua pose de superioridade e assentiu com a cabeça, com um bico.
- FINALMENTE! – ouvi a voz da do outro lado da rua e continuou andando quando chegamos na casa dela. – Não finja que não me conhece, palhaço.
saiu correndo da porta de sua casa até a calçada, perseguindo e pulando em suas costas assim que chegou perto o suficiente, me fazendo rir e balançar a cabeça em negação. Olhei para a entrada da casa e estava de pé com um sorriso bobo.
- Até o ar que você expira tem partículas de paixão. – comentei quando cheguei perto dele e ele riu, me abraçando como um cumprimento.
- Acho que eu escondi por muito tempo. – deu de ombros e eu sorri.
- Vocês são fofos demais.
- Agora só falta... – assisti aos dois voltando da calçada e olhei para quando ele parou de falar.
- O que?
- Nada. – ele riu e balançou a cabeça em negação, passando o braço pelo ombro de e entrando na casa.
- Ué.
- O que foi? – perguntou quando chegou ao meu lado e eu dei de ombros.
- Não faço ideia.
Quando chegamos havia um balde de pipoca na mesa de centro e alguns DVDs ao lado, provavelmente para que escolhêssemos algo para ver. Ouvi e anunciarem que iam até a cozinha e sentei no chão, entre os dois sofás, tirando o sapato, colocando os pés para cima e deitando meu tronco no tapete.
- O que vamos ver? – perguntei de olhos fechados assim que ouvi passos chegando e olhei para o lado quando eles pararam de soar contra a madeira.
- Você não pode ser normal. – riu e eu revirei os olhos.
- Aparentemente eu não sou uma adolescente rebelde e nem normal. O que sou para você ? – fiz um drama teatral ao falar a última frase e se ajoelhou ao meu lado.
- Você é a vizinha louca que eu aturo há anos. – deu de ombros e eu abri a boca, chocada com a declaração e virei de costas para ele, ainda deitada.
- Eu me recuso a falar com você. – cruzei os braços e ouvi uma risada baixinha. – Não ria de mim.
- Você é a minha melhor amiga mais maravilhosa desse mundo. Satisfeita? – virei a cabeça um pouco para o lado, enxergando com um sorriso ladino, deitado ao meu lado do mesmo jeito estranho que eu estava, e sorri também.
- Ok, eu te perdoo. – virei de frente para o teto novamente e olhei para ele. – Mas só dessa vez.
- Não é como se eu fosse um monstro. – deu de ombros olhando nos meus olhos e a sensação da noite anterior voltou ao meu corpo, me fazendo estremecer por dentro e ficar sem entender aquela reação.
- Depois eu que sou a louca. – ouvi a voz de de algum lugar perto da TV e me estiquei para enxerga-la com dois copos de refrigerante em suas mãos e carregando o mesmo. – Parem de agir como animais e sentem no sofá, bestas.
- Tudo bem, mãe. – frisou a última palavra revirando os olhos e levantou, sentando no meio do sofá maior. Levantei logo em seguida e sentei no canto, deixando o sofá menor para os pombinhos usufruírem. Não desse jeito, óbvio. Não éramos tão íntimos assim e eu honestamente esperava que não fôssemos um dia.
Começamos a assistir a um filme qualquer de terror, que eu estava com medo demais para ligar para o nome e ao invés de assisti-lo, me escondia atrás de uma das almofadas do sofá, com as pernas encolhidas. ria dos meus eventuais sobressaltos quando qualquer barulho levemente mais alto saía da televisão e eu o acertava com a almofada. Olhei para o sofá ao lado, onde e assistiam ao filme abraçados. Se eu voltasse no tempo e contasse a eles que um dia eles se encontrariam agarrados de tal forma, como o casal que agora eram, eles me enviariam a um médico porque eu provavelmente não seria vista como uma pessoa sã. A relação dos dois sempre foi muito estranha. Sempre se “bicando”, implicando um com o outro eternamente e sem dó. Foi no mínimo estranho assistir à essa mudança tão repentina e tão rápida acontecendo. Eu estava realmente feliz pelos dois, parecia que eles finalmente haviam encontrado o que lhes faltava.
- O que vocês querem fazer agora? – levantou, se espreguiçando e logo a puxou de volta para o sofá, deitando em seu colo e a garota riu, fazendo carinho em seus cabelos.
- Acho que vocês são o casal mais fofo de toda Montclair. – coloquei as duas mãos ao lado do rosto e sorri, fazendo os três ali presentes rirem. Vi jogar a cabeça para trás ao meu lado e olhei para ele. – Cansado?
- Morto. – virou para mim e eu fiquei alguns segundos pensando, antes de bater duas vezes nas minhas pernas.
- Deita aqui. Eu faço essa gentileza. – sorri e se deitou, rindo.
- Não faz mais do que a sua obrigação, . – comentou com os olhos já fechados e sorrindo de lado. Eu ameacei me levantar em resposta e senti seus braços me impedindo e logo sua mão direcionou a minha até seus cabelos, onde comecei a movimentá-las. Poucos minutos depois comecei a sentir que ele foi despejando o peso em minhas pernas, sinal de que ele já estava quase totalmente adormecido.
- A gente merece. – sussurrei para quando esta olhou para mim, rindo. – Como foi ontem aqui? – fiz uma cara maliciosa e revirou os olhos, sorrindo de lado. – Ai meu Deus, esse sorriso quer dizer alguma coisa.
- Nada do que você está pensando. – esclareceu e eu semicerrei os olhos, duvidando da veracidade daquela informação. – Bom, nós não estávamos oficialmente namorando até hoje. Assim que acordamos, ele começou a fazer um discurso meloso maravilhoso com aquela carinha amassada linda e me pediu em namoro.
- Vocês são como o sonho de todo ser humano romântico. – comentei e sorriu ainda mais abertamente. – Mas, rolou alguma coisa?
- Não, na verdade. Depois de deixar vocês em casa, subi direto para o quarto e o encontrei sentado na cama parecendo uma criança, se balançando. O obriguei a levantar e tomar um banho gelado para acabar um pouco com o efeito da bebida e ele conseguiu fazer isso sozinho, ainda bem. Não sei onde enfiaria minha cara caso tivesse que dar banho no garoto. Mas fiquei checando de 2 em 2 minutos para ter certeza de que ele não havia escorregado na ducha. Quando ele terminou, nós deitamos e dormimos, só. – deu de ombros e eu assenti.
- Mas teria acontecido? – questionei e pareceu pensar um pouco antes de responder.
- Talvez? Não sei. É tudo muito novo e você sabe que para mim é ainda mais chocante. O máximo que fiz foi chegar perto da concretização desse momento mas nada além disso. Mas eu acho que deve ser com ele.
- Conto de fadas. – eu suspirei com uma expressão sonhadora e se esticou, pegando uma almofada dos pés do e jogando em mim. Como ela era péssima de mira, o pouso aconteceu no rosto de , que se remexeu em meu colo e virou para o outro lado. – Boa, garota.
- E você? – perguntou depois de algum tempo em silêncio e eu olhei para ela confusa. – Interessada em alguém?
- No momento a minha vida amorosa é inexistente.
- O gatinho do Luke diria o contrário. – repetiu a frase dita por mim no dia do jogo e eu revirei os olhos.
- Nós somos apenas amigos. – falei com voz firme e riu.
- Você sabe que seu conto de fadas preferido nasceu de uma amizade, não sabe? – arqueou a sobrancelha e eu bufei.
- Você sabe que deveria ser menos chata, não sabe? – tentei imitar sua voz e ela riu.
- Negue o quanto quiser. – deu de ombros e eu assenti, jogando a cabeça para trás. – Eu apoio o casal.
- Você me apoia com qualquer pessoa, me poupe. – olhei para ela com a sobrancelha arqueada e a ouvir gargalhar, balançando a cabeça em negação.
- Que tipo de amiga eu seria? – eu ri e olhei para , que se mexeu em meu colo. – O é lindo também.
- Temos os amigos mais gatos do mundo. – dei de ombros e fez uma cara de surpresa.
- A-HÁ! Você admitiu que Luke é gato.
- Ei! Eu disse “temos”, no plural. Você não é amiga do Luke. – ela bufou e virou para o lado, revirei os olhos e continuei. – Tudo bem, o Luke é bonito. O e o também, o que não quer dizer que eu vou casar com eles.
- Acho bom. – ela olhou para o garoto em seu colo e de volta para mim, me fazendo rir.
- Não me diga que virou uma daquelas pessoas ciumentas loucas. – ela negou, rindo.
- É brincadeira. Mas prefiro que não se case com meu namorado. – eu assenti. – Você tem duas opções sobrando, só escolher um e pronto. Ou revezar.
- Você tem um parafuso solto. – balancei a cabeça em negação e me arrumei no sofá, ficando mais confortável e senti a mão de pegar a minha e a colocar sobre seu cabelo, me obrigando a fazer cafuné, de novo.
Coloquei minha cabeça no encosto do sofá e senti meus olhos pesarem. Só notei que havia dormido quando acordei, ironicamente. Olhei ao meu redor e a sala estava quase completamente escura, com a iluminação vinda dos postes de luz do lado de fora deixando alguns rastros de luz no cômodo. e estavam abraçados agora, de conchinha no sofá, e continuava no meu colo. Desencostei do sofá e sentei de forma ereta no sofá, olhando para que parecia despertar.
- Oi. – sorri quando ele olhou para mim com um olho fechado e o outro aberto, com um sorriso meio de lado. – Acho que dormimos demais.
- Parece que eu dormi por dois anos seguidos. – se espreguiçou e virou de lado, indo dormir novamente.
- Não, senhor. Eu preciso ir embora. – ele levantou com os olhos fechados e os cabelos bagunçados, me fazendo rir. – Vamos?
- Amiga, ontem você deixou a sua chave aqui. Está no aparador perto da porta. – ouvi a voz sonolenta da e assenti, mesmo que ela não conseguisse me ver fazê-lo por estar de olhos fechados.
- Tchau, casal. – se despediu dos dois de longe, sem receber resposta alguma e eu ri, apontando para a porta com a cabeça. Nós saímos da casa da e conversamos sobre coisas bobas e insignificantes no caminho, apenas para passar o tempo.
Cheguei em casa e abri a porta tentando ser a mais silenciosa possível. Não sabia se meu pai estava dormindo ou não, então preferi tomar cuidado para não acordá-lo caso a resposta fosse sim.
- Ficou bastante tempo na casa da hoje. – ouvi sua voz soar da cozinha e virei para trás, no pé da escada.
- Ah, sim. Nós acabamos perdendo a noção do tempo. – dei de ombros e comprimi os lábios em um leve sorriso.
- Sobre ontem... – meu pai começou a falar e eu olhei para a escada e depois de volta para ele.
- Eu sei que disse que podíamos conversar sobre isso quando eu voltasse, mas eu estou realmente cansada. Talvez outro dia? – dei de ombros, dando a primeira desculpa que consegui pensar e meu pai suspirou, assentindo.
- Tudo bem. Boa noite, durma bem, filha.
- Boa noite.
Subi as escadas e fui direito para o meu quarto, fechando a porta assim que entrei. Coloquei meu celular em cima da cama e me joguei na mesma em seguida. Olhei para o teto e comecei a refletir sobre tudo. Por que eu estava agindo daquela forma com meu pai? Quero dizer, ele faria aquilo algum dia e não há nada de errado nisso. Então por que estava sendo tão difícil aceitar essa mudança?


Continua...



Nota da autora: Dessa vez a att só trouxe um novo capítulo, mas eu prometo que assim que eu conseguir escrever mais eu libero dois ou três novos capítulos para vocês. A pp começou a lidar com algumas batalhas internas e eu espero que vocês acompanhem o desenrolar dessa história. Obrigada por lerem :)





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