Nights of a Hunter III

Última atualização: 22/03/2018

Palace of Illusion

Perry, Tennessee.
Um mês depois.

– E aí, Sam? Quanto tempo. – disse pelo telefone.
Estava numa lanchonete com a irmã.
Oi, . Eu sei, me desculpe por não ter ligado antes, a gente tava meio ocupado aqui.
– Tá tudo bem?
O de sempre e vocês?
– Tudo bem, estamos a caminho de casa, vamos tirar uns dias de folga.
Que bom.
– Ei, vocês estão ocupados agora?
Não, a gente tá de folga também, tô ligando pra saber se a gente pode se encontrar.
– Era exatamente isso que eu ia sugerir agora. Vocês podem ir pra Owensboro, e passar uns dias com a gente, o que acha?
Sua irmã não vai achar ruim?
– Vai nada.
Sei...
Ela riu.
– Eu dou um jeito nela. E aí?
Bom, eu acho que o Dean não vai querer passar uns dias na casa de vocês, mas a gente pode se hospedar num hotel aí perto, não tem problema.
– Vocês quem sabe. Onde estão agora?
Kansas.
– Nossa, que longe, a gente tá em Perry, Tennessee. Hoje à noite, a gente volta pra casa e encontra vocês amanhã à noite quando chegarem, pode ser?
Tudo bem, eu vou ver com o Dean.
– Ok, mas vão, por favor.
Vou tentar.
– Obrigada, não vejo a hora de poder te ver.
Eu também.
– Preciso desligar.
Tudo bem, até mais.
– Até. – e desligou.
– Com quem você tava falando? – perguntou se sentando de frente para a irmã.
– Com o Sam. Pedi pra eles nos encontrarem em Owensboro, os convidei pra passar alguns dias com a gente.
– Você o quê?
– Ah, ...
– Ah, , me poupe, né?
– Qual o problema?
– O problema é que você os trata como se eles não tivessem feito nada com a gente.
– Olha, eu sei que eles fizeram, mas já faz meses, . E outra, só você e o Dean não se falam, eu e o Sam estamos bem e eu não o vejo há um mês.
balançou a cabeça.
– Olha, eu não vou desfazer o convite por sua causa.
– Tudo bem, mas não reclame depois.
– Isso é uma ameaça?
– Não, é um aviso. Que horas a gente vai ao bar?
– Acho que umas oito horas, que é quando tá mais movimentado.

Wichita, Kansas.

– A gente vai o quê? – Dean perguntou confuso.
– Qual é Dean, você me ouviu.
– Sam, você quer passar uns dias na casa delas? Quer que aconteça um homicídio, né?
– Dean, não exagere.
– A me odeia pro resto da vida agora Sam, duvido que ela vá me deixar entrar na casa dela.
– Ela disse que tá tudo bem.
– Como é?
– É. A confirmou que ela disse que tudo bem, desde que você não a provoque.
– Tá mentindo.
– O quê? Eu não...
– Sam, você não sabe mentir.
Sam suspirou e rolou os olhos.
– Tudo bem, a não sabe que a convidou, mas a vai falar com ela.
– Nossa, porque a impõe alguma coisa a irmã dela. Sam, ela não vai querer a gente debaixo do mesmo teto que ela.
– Tudo bem, a gente fica num hotel. Qual é Dean, faz um mês que eu não vejo a .
Dean balançou a cabeça. O que ele não faria pelo irmão?
– Tá, mas se rolar confusão, a culpa é toda de vocês.

No dia seguinte.

Era começo da noite quando os dois chegaram à cidade natal das irmãs. Sam ligou para , mas a mesma não atendeu. Deixou uma mensagem, e esperaram no motel até que ela retornasse. A moça não retornou, nem a irmã.
– O que acha que elas estão fazendo de tão importante agora pra não atenderem? – Dean perguntou ao irmão.
Ambos estavam jantando no quarto.
– Eu não sei, era pra elas terem chegado aqui antes da gente.
– Será que estão trabalhando num caso?
– Elas teriam ligado pra avisar.
– A não te deu o endereço da casa dela?
– Não. – ele suspirou e ligou para ela mais uma vez. – Tô começando a achar que algo aconteceu.
– Você pode estar se preocupando a toa.
– Dean, quando um caçador demora a atender, é porque aconteceu alguma coisa.
– Ou está ocupado.
– Da ultima vez que ninguém atendeu as ligações, as duas estavam num hospital.
Dean meneou a cabeça.
– Quer ir até Perry?
– Talvez seja melhor.
Dean assentiu.
Assim que terminaram de comer, os dois arrumaram as malas e partiram para Perry.
No dia seguinte, assim que acordaram, Sam ligou mais uma vez para as duas, e como era de esperar, nenhuma das duas atendeu.
– Ninguém atende. – Sam reclamou, desligando o celular.
– Ficar ligando toda hora não vai adiantar nada. Já estamos aqui, vamos dar uma pesquisada, ver se tem algum caso por aqui, é o máximo que podemos fazer no momento.
Mesmo contra vontade, Sam concordou. Os dois partiram para uma lanchonete, e enquanto tomavam café da manhã, o caçula pesquisava sobre algum caso pela cidade, mas não encontrou nada de incomum rolando.
– Agora você pode se preocupar. – Dean disse ao irmão.
Sam bufou irritado e baixou a tela do laptop.
– Eu tô tentando não pensar no pior, mas só passa coisas ruins pela minha cabeça.
– Então é melhor não pensar em nada, né?
– Dean, primeiro demônios possuem as duas, e agora elas somem. Eles querem de qualquer jeito o meu sim e a sua cabeça.
– Acha que demônios podem estar por trás disso?
– Quem mais poderia?
– Eu não sei, a lista é grande. E aqui não teve presságio nenhum nas últimas semanas, você mesmo acabou de pesquisar.
– Tá, mas vai ver eu deixei escapar alguma coisa.
– Mas se fosse os demônios, você não acha que eles teriam entrado em contato com a gente?
Sam meneou a cabeça. Realmente, se havia demônios por trás de tudo, de alguma forma, eles já saberiam.
– O que a gente faz então?
Deu de ombros.
– A gente roda a cidade, rastreia o celular delas, vai à delegacia. São muitas opções.
– Eu vou rastrear os celulares. – voltou a pegar o laptop.
Não demorou muito para Sam conseguir rastrear o celular de , a moça sempre deixava o GPS ligado, por precaução.
– Elas estão aqui. – ele disse olhando atentamente a tela. – Não é muito longe daqui.
– Então vamos lá.
Os dois saíram da lanchonete, e seguiram o GPS. Acabaram avistando o Challenger de estacionado na rua.
Dean estacionou o carro mais a frente e os dois seguiram em direção ao carro da moça, que estava trancado.
– Algum palpite de onde elas possam ter ido? – Dean perguntou olhando ao redor.
Sam também olhou e deu de ombros. Havia lojas, bares e restaurantes naquele lado da calçada.
– Vamos ter que perguntar.
Os dois adentraram uma loja de artigos de decoração e falaram com um funcionário do local. Sam mostrou ao homem uma foto de que ele tinha no celular, mas o cara nunca havia a visto antes.
Depois, ambos seguiram para uma lanchonete. Nada também.
– Se você tivesse uma foto da , ajudaria muito. – Sam comentou com o irmão, conforme os dois se aproximavam de um bar.
– Cara, a gente vivia junto praticamente 24 horas por dia, pra quê eu ia ter uma foto dela no celular?
– Pra caso fosse necessário, como é agora. Você não descreve muito bem as pessoas e eu mesmo tenho minhas duvidas que você esteja descrevendo mesmo a .
– Ah, dá um tempo, e me processe por não ter milhões de fotos dela.
Sam só balançou a cabeça. Os dois adentraram o bar, que ainda não funcionava. Um homem limpava o balcão, e parou quando percebeu que não estava mais sozinho.
– Posso ajudar?
– Espero que sim. – Sam respondeu e mostrou a foto de . – Por acaso essa moça esteve aqui ontem?
O homem olhou atentamente a foto por alguns segundos.
– Eu não tenho certeza, tem mais alguma?
Sam assentiu e mostrou outras fotos de . Ele estava esperançoso, afinal, aquela foi a primeira pessoa a duvidar se viu ou não .
O homem foi assentindo devagar.
– Eu tenho quase certeza que servi uma taça de vinho a ela acho que ontem.
– Sério? E ela tava acompanhada?
O homem deu de ombros.
– Isso eu não sei te dizer.
– Tudo bem... Ela parecia estranha? Bêbada, falava coisas desconexas pra você?
– Quem são vocês?
Os dois tiraram seus distintivos e mostraram. O homem assentiu e respondeu:
– Olha, aqui as pessoas geralmente ficam bêbadas e falam besteiras. Eu atendi muita gente ontem, não sei te responder.
– E tem alguém aqui que saiba? – Dean perguntou.
– Bom, agora tem a Mandy, ela tá lá dentro.
– Pode chama-la, por favor?
O homem pediu licença e foi para os fundos do bar. Minutos depois, uma moça sozinha apareceu.
– Olá, desculpe a demora. Posso ajudar, agentes?
– Talvez sim. Você viu essa moça por aqui esses dias?
A mulher analisou a foto de e então assentiu.
– Sim. Atendi ela algumas vezes ontem.
– Estava acompanhada? – Dean perguntou.
– Estava com outra moça.
– Pode descrevê-la?
A mulher deu de ombros e descreveu com poucos detalhes, mas com mais precisão que Dean.
– As duas estavam normais pra você? – Sam perguntou.
– Sim. Conversavam, bebiam e riam a maior parte do tempo.
– Tem alguma chance de você ter visto a que horas saíram?
– Sim, eu mesma deixei uma delas num táxi. Algumas clientes disseram que ela estava passando mal no banheiro, e ela achou melhor ir embora. Eu perguntei se ela queria ir a um hospital, mas ela garantiu que não seria necessário, e que só precisava descansar.
– E a outra? – Dean perguntou.
– A moça da foto. Antes de eu colocar a outra no táxi, eu a procurei pra avisar da amiga, mas ela já tinha fechado a conta e ido embora.
– Ela foi embora e deixou a outra pra trás? – Sam perguntou.
– É, eu achei estranho, mas o que eu podia fazer?
– A que horas você a deixou no táxi? – Dean perguntou.
– Esperei que ela melhorasse um pouco. Cerca de dez minutos, então se eu não me engano, por cerca da uma e quinze da manhã.
Os irmãos se entreolharam. Aquilo estava muito estranho.
– Tem certeza que era essa moça da foto que você viu? – Dean perguntou.
– Tenho, e eu ainda achei que ela voltaria aqui hoje.
– Por quê?
– Ela esqueceu o celular dela aqui.
– Pode nos entregar? – Sam pediu. A mulher ficou meio receosa. – Tudo bem, faz parte da investigação.
– Por quê? Aconteceu alguma coisa com elas?
– É o que queremos descobrir.
– Tudo bem, só um segundo. – e a mulher voltou para os fundos da loja.
– Você entendeu alguma coisa? – Dean perguntou.
– Só que alguma coisa muito errada tá acontecendo.
Ele assentiu. Segundos depois, a mulher voltou com o celular de em mãos.
– Aqui. – o entregou a Sam.
– Obrigado. Antes de irmos, me responde uma coisa, você viu alguém falando om elas?
– Não, desculpe.
– Tudo bem, obrigado.
A mulher assentiu e os dois saíram do bar. Pararam ao lado do Challenger, enquanto Sam mexia no celular de , já que ele sabia a senha.
– Alguma coisa? – Dean perguntou.
– Só as minhas ligações perdidas.
– Tá, o que pode estar acontecendo?
– Não tenho ideia. É muito estranho a ter ido embora e deixado a irmã passando mal para trás e não ter vindo buscar o celular. Sem dizer que a deixou o carro dela aqui.
– Concordo. Se a tivesse ido a um hospital, seria mais fácil acha-la.
– É, mas sabemos que ela tá com o celular.
– Mas ela não atende.
– Vamos pedir pra ligarem o GPS dela também.
– Não vai rolar, eu não sei o CPF dela.
Sam olhou incrédulo para o irmão, mas resolveu não falar nada.
– Como vamos acha-las?
Dean deu de ombros e olhou para o Challenger estacionado. Olhou para o irmão e depois foi até o Impala. Sam assistiu o irmão voltar com algo em mãos e arrombar a porta do motorista. Dean entrou no carro e destrancou a porta do passageiro para que Sam entrasse.
– O que tá fazendo? – o mais novo perguntou.
– Procurando qualquer coisa que nos ajude. – abriu o quebra-sol e pegou alguns papeis, enquanto Sam abria o porta-luvas.
– Uma guilhotina? – Sam disse estranhando, mostrando ao irmão uma guilhotina de charuto. – Pra que elas têm isso?
Dean pegou a guilhotina e a analisou. Deu de ombros e depois colocou o objeto no bolso. Sam continuou olhando o porta-luvas e encontrou os outros celulares que elas usavam, inclusive o pessoal de .
– A tá sem o celular. – ele disse para o irmão, ligando a tela do aparelho e vendo o monte de ligações perdidas, e depois o guardando novamente no porta-luvas.
– Ah, que ótimo. – Dean reclamou e continuou olhando os papeis, encontrando assim o recibo de um motel da cidade.
– Elas estavam hospedadas aqui. – ele disse, entregando o recibo para Sam.
Os dois desceram do carro e voltaram para o Impala. Foram até o motel que e a irmã estavam hospedadas. Falaram com a recepcionista, que disse que não via as irmãs desde o dia anterior. Ambos puderam entrar no quarto graças a seus distintivos falsos.
O quarto estava normal. Uma cama bagunçada, que provavelmente era de , e a outra arrumadinha. Algumas roupas estavam espelhadas, as de , e não havia nada diferente.
Os dois deram uma boa olhada pelo local. Sam se sentou a mesa, onde estava o laptop branco de , e o ligou. Dean encontrou o laptop de em cima da cama e também o ligou.
– A trocou a senha. – Dean observou. – Você sabe a senha nova?
Sam olhou para o irmão com cara de paisagem.
– Eu não sei nem a da .
Dean bufou e baixou a tela do laptop, se levantando a seguir.
– Não tem nada aqui.
Sam suspirou e assim que baixou a tela do laptop de , assentiu.
– Eu não tenho a menor ideia do que pode ter acontecido. – o irmão disse se aproximando e se sentando a mesa.
– Nem eu. O que a gente faz agora?
Deu de ombros.
– Procuramos.
– Vamos rodar a cidade sem rumo?
– Tem ideia melhor? Provavelmente as duas estão por aí.
– É sério?
– O quê?
– As duas desaparecem há um dia do nada, e você acha que provavelmente estão na rua?
– Ô Sam, eu sei que esse seria o menor dos problemas, mas você quer que eu fale em alto e bom tom as coisas que imaginamos que tenha acontecido a elas?
Sam não respondeu. Os dois ficaram alguns segundos em silencio, e então Sam soltou um muxoxo e se levantou.
– Vamos.
Os dois voltaram para o carro e começaram a rodar pela cidade, não saindo muito fora do perímetro do motel e do bar. Quando resolveram sair um pouco daquela área da cidade, começaram a duvidar se não teria sido melhor os dois se separarem.
Estavam num semáforo quando Sam avistou numa cafeteria sentada a uma mesa na janela, tomando café.
– É ela. – disse abrindo a porta.
– Ei, Sam! – mal Dean terminou de falar que o semáforo abriu e Sam caminhou em disparada para a cafeteria.
O rapaz adentrou a cafeteria e foi até .
? O que aconteceu? – ele perguntou já se sentando de frente para a moça, que o olhou com uma sobrancelha erguida. – Tá tudo bem?
pendeu a cabeça e pousou a caneca sobre a mesa.
– Oi, é... Desculpe, mas quem é você?
Sam pendeu a cabeça e arqueou uma sobrancelha.
– O quê? – soltou um riso. Quando arqueou as sobrancelhas esperando uma resposta, ele franziu o cenho e ficou sério. – Sou eu, o Sam.
Então ela fez uma expressão de que tinha se lembrado.
– Ah, me desculpe. Eu esqueci completamente da entrevista.
– Entrevista?
– É, me desculpe, eu tive uma reunião agora há pouco. A Lucy te disse que eu estava aqui?
– Não, do que você tá falando?
– Ah, não, tudo bem, não tem problema ela ter te falado. Que bom que veio, na verdade. Eu tava desesperada pra achar alguém e parece que você tá desesperado pelo emprego, tanto que veio atrás de mim. Que bom, ganhou alguns pontos. Ah, me desculpe, eu tô falando demais, não é? Vamos começar... Desculpe, eu esqueci seu sobrenome, mas você pode começar por aí.
Sam a encarou por alguns segundos, sem entender nada. o incentivou a falar, com um sorriso.
– Ah... Só um segundo. – ele se levantou e saiu às pressas da cafeteria, encontrando o irmão na calçada.
– Encontrou a ?
– Sim, não, mais ou menos... Eu não sei. – respondeu meio pensativo e confuso.
Dean o olhou estranho.
– Foi uma pergunta tão difícil assim pra você?
– Não. – respondeu imediatamente, e depois disse meneando a cabeça: – Eu encontrei a , é a , mas ela não é ela.
– Quê?
Sam suspirou impaciente.
– Eu não sei, acho que ela não se lembra de mim.
– Como assim?
– Eu, eu não sei. Ela veio com um papo de entrevista de emprego e acha que eu quero ser contratado. Não tenho ideia do que ela tá falando.
– Tá... Deixa eu ver se entendi. Você encontrou a , mas ela não te reconheceu e quer te contratar?
– É, acho que sim.
– Te contratar pra quê? Pra caçar com ela?
– Não, acho que não, ela falou alguma coisa sobre uma reunião, caçadores não fazem reuniões.
– Tá, definitivamente tá acontecendo alguma coisa.
– O quê, exatamente?
– Não sei não, mas não vamos descobrir nada se ficarmos aqui criando teorias. Vai lá e faz essa entrevista.
– O quê? Eu não vou... Eu nem sei sobre o que é.
– Dá um jeito. E tente descobrir o que rolou ontem.
Sam pensou por alguns instantes e assentiu. Voltou à cafeteria e notou que se levantava e falava ao celular, e parecia nervosa. A moça se aproximou do caçador e baixou o celular.
– Será que podemos remarcar a entrevista? Você pode falar com a Lucy, e ela vê na minha agenda, tudo bem?
– Ah... Claro, claro. Será que pode me dar um cartão? Eu acabei perdendo o que tinha.
– Claro. – ela remexeu na bolsa que usava e Sam reparou na moça.
Era , mas não parecia em nada com ela. Usava roupas visivelmente caras, sapatos de salto e acessórios que ele duvidava ser meras bijuterias. A bolsa que a moça usava provavelmente pagava dois salários de qualquer funcionário daquela cafeteria.
– Aqui está. – ela disse entregando um cartão para Sam. – Até mais. – desviou e foi embora.
Sam leu o cartão e viu o nome Smith. Robinson e Smith, arquitetura e design.” O número de telefone vinha a seguir.
Cara, eu acabei de dar de cara com a e adivinha? Ela me ignorou completamente. E aquele visual? Ela ganhou na loteria foi? – Dean disse ao se aproximar do irmão, que parecia nem ter dado atenção. – Sam?
Sam o olhou e deu o cartão à Dean que após ler, disse:
– A é sócia de uma empresa? Isso é possível acontecer de um dia pro outro?
– Sim, se acontecer com a gente.
Os dois voltaram para o motel e então começaram a investigar. Sam estava com o laptop à mesa e Dean estava deitado na cama, com um bloco de anotações e uma caneta na mão.
– Tudo bem, temos bruxa, Brincalhão, deuses de diversas culturas e um monte de nada.
Sam estalou a língua e apoiou os cotovelos na mesa, tentando pensar em alguma coisa.
– A gente pode ver se tem algum saquinho de bruxa no quarto delas.
– Sim, mas a gente já deu uma olhada, não tem nada.
– Vamos olhar direito.
– Ok, mas se caso for uma bruxa, como vamos saber quem é ela e reverter o feitiço? Não sei se percebeu, mas não temos muita sorte com bruxas.
– É, se a gente for pensar assim, é desanimador. – respondeu bem desanimado.
– E se for um Brincalhão, ele tá pregando uma peça nelas ou na gente?
– E tem diferença? – perguntou sem ânimo.
Deu de ombros.
– Acha que é o Gabriel?
– Eu não tenho ideia, mas acho que ele não seria tão óbvio.
– Bem, então a gente ainda tá na mesma, como vamos saber qual das opções é a certa?
Dean deu de ombros e se sentou.
– Você vai à entrevista, consegue o emprego e depois descobre se há algum saquinho de bruxa no escritório ou na casa dela, sei lá onde ela fica.
– Dean, como é que eu vou conseguir um emprego que eu nem sei qual é e qual a chance de ela me dizer onde mora?
– Eu sei lá, só sei que é nossa única opção.
– Encontrar a também é uma opção.
– Talvez você a encontre, mas eu vou dar uma volta por aí, quem sabe eu não dou a mesma sorte que você?
Sam pensou por uns instantes. O irmão estava certo, não havia muito que fazer a não ser conseguir aquele emprego e ficar perto de até descobrir alguma coisa.
– Ok, eu vou marcar a entrevista.

...

Os dois passaram o dia no quarto. Enquanto Dean pesquisava feitiços de esquecimento e distorção de realidade, Sam preparava seu currículo falso e tentava saber o máximo que podia sobre arquitetura e design. Segundo Lucy, a vaga era para assistente, e se ele queria aquele emprego, teria que se esforçar.
– Como é que tá indo aí? – Dean perguntou se aproximando.
Sam suspirou.
– Difícil, é meio impossível aprender uma profissão em 19 horas.
– Ah, relaxa, você é um rapaz inteligente, vai se dar bem.
– Eu adoraria trocar de lugar com você.
– Dispenso.
– E as pesquisas?
– É... – se sentou de frente para o irmão e suspirou. – Bruxas têm o poder de distorcer a realidade e fazer alguém esquecer algo por tempo determinado ou de vez.
– Mas...
– Mas são feitiços avançados, não é qualquer bruxa que consegue fazer algo assim.
– E?
– E pra nós acabarmos com uma bruxa de fundo de quintal já é difícil, imagina uma bruxa de verdade.
Sam suspirou.
– Deveríamos pedir ajuda pro Bobby.
– Concordo, mas precisamos saber primeiro se se trata de uma bruxa ou de outra coisa, então vamos focar na entrevista primeiro, ok?
– Você vai me ajudar?
– Pode crer. – respondeu com um sorriso convencido.
– Você alguma vez fez uma entrevista de emprego que não tenha sido pra manutenção de um circo, ou de dedetizador ou de qualquer outra coisa que o máximo exigido seja que o candidato saiba ler?
– Agora você pegou pesado. Relaxa, vai ser mais fácil do que você imagina.
– Vai haver outras pessoas além de mim lá, Dean. Pessoas experientes.
– Mas a mesma disse que tá desesperada e que você ganhou pontos por ter ido atrás dela. – ele apoiou os cotovelos na mesa. – E você vai se destacar se souber o momento certo de ganhar o interesse dela.
– Sabe que é de uma entrevista de emprego que estamos falando né? – Sam perguntou num tom obviamente duvidoso.
– Sei. – se levantou e foi até a geladeira. – Olha, sua entrevista vai ser na parte da tarde, até lá a já entrevistou a maior parte dos candidatos. Ela vai estar cansada de ouvir as mesmas coisas chatas de gente chata que vai dizer o quão capacitado e merecedor ele é, aí vem sua vantagem. – voltou a mesa com duas garrafas de cerveja.
– Você pode explicar, por favor?
– Simples. – entregou uma garrafa para o irmão e continuou: – Independente de tudo, ela ainda é a , você a conhece, sabe os gostos dela. E outra, ela é mulher, por mais diferente que elas sejam, o principio da conquista é o mesmo. Seja sutil, conduza uma conversa que desperte o interesse dela, conquiste a feição dela e então você tem cinquenta por cento garantido. Os outros cinquenta vai depender dos conhecimentos que você adquirir agora. – finalizou tomando um gole da bebida.
Sam assentiu devagar e comprimiu os lábios.
– Nossa, você é muito bom em enganar as mulheres.
– Anos de prática, meu irmão. E outra vantagem: quem sabe não rola um deja vú e isso acaba retrocedendo o feitiço?
– Acha possível?
Dean deu de ombros.
– Feitiços levam um tempo pra funcionarem cem por cento, não é? Quem sabe não dá certo.
– Caso seja uma bruxa, pode ser. – Sam tomou um gole de cerveja e Dean assentiu.
– Bom, eu vou comprar o jantar, já volto. – se levantou e saiu.

...

No dia seguinte, enquanto Dean buscava o carro de , Sam foi à entrevista. Havia outros três candidatos na sua frente, e ele esperou cerca de duas horas para finalmente ser entrevistado.
Adentrou a sala de e encontrou a moça olhando atentamente para a tela do laptop, e alternando olhares para outro computador, enquanto fazia anotações em um caderno.
– Com licença. – Sam disse após um pigarreio.
o olhou e então se acomodou na grande cadeira de couro preta.
– Sente-se.
Ele se sentou numa das cadeiras da mesa.
– Como vai? – ela perguntou com um olhar desconfiado.
– Eu vou bem, e você?
– Bem. – e começou a girar a cadeira sutilmente, de um lado para o outro. Analisou Sam por alguns segundos e disse: – Sabe. Eu achei que estava falando com Samuel Fletcher ontem, mas você não é ele. Quem é você, Samuel Winchester?
Sam engoliu em seco. Sabia que aquela pergunta viria, afinal, o verdadeiro Samuel Fletcher havia sido entrevistado antes dele.
– Eu sou o outro Sam. – ele disse simpático, com um riso no final da frase.
assentiu sorrindo.
– Mas eu chequei agora a pouco, e o único Sam que poderia me encontrar naquela cafeteria pra entrevista, era Samuel Fletcher.
– Ah... Eu soube da vaga de assistente e te reconheci na cafeteria depois de ver sua entrevista na revista de planejamento e construção.
– Então você já me conhecia? – perguntou com um sorriso já se formando.
– Ah, sim, eu posso dizer que sou fã do seu trabalho, seus projetos são incríveis e é o sonho de qualquer arquiteto ou designer em ascensão tentar a sorte numa empresa como essa.
assentiu mais uma vez, mas seu sorriso foi desmanchando, tornando seu semblante sério, quase tediado.
– Trouxe seu currículo?
– Ah, claro. – Sam pegou seu currículo falso e o entregou.
deu uma olhada por cima, e então perguntou:
– Você é de Lawrence? Por que tá em Perry?
– É, eu nasci em Lawrence, mas já morei em outras cidades. Por problemas de família, eu e meu irmão nos mudamos pra cá.
– Ah, é? E há quanto tempo mora aqui?
– Há mais ou menos um mês.
– Um mês? – perguntou impressionada. – E como está se adaptando? Gostando da cidade?
– Sim, claro, é uma cidade bem receptiva. Você é daqui?
– Não, sou de Owensboro. Mora muito longe daqui?
– O motel fica a uns vinte minutos de carro.
– Desculpe, motel?
– É. – respondeu sem jeito. – Nós não achamos uma casa ainda e motéis são mais baratos que hotéis, não podemos gastar muito, viemos às cegas.
– É, eu sei como é. Vim pra cá às cegas também, levei um tempo pra me encontrar. Enfim, você estudou arquitetura na LTU? É uma grande faculdade.
– É, eu consegui uma bolsa e me formei há quase um ano. Pretendo fazer um curso de Design, mas preciso me estabelecer aqui antes.
– Aham, você também tentou Direito em Stanford?
– É, eu acabei largando o curso por problemas na família, aí quando voltei a estudar, decidi mudar pra Arquitetura.
– Hm... E por que Arquitetura?
Sam então se preparou para responder.

...

A entrevista correu bem. Pelo menos era o que Sam achava, já que ficou mais tempo na sala que outros candidatos.
– E aí, como foi? – Dean perguntou assim que o irmão adentrou o quarto. Estava assistindo TV e bebendo cerveja.
– Bom, mais tarde eles vão entrar em contato caso eu consiga a vaga. Ela parece meio desesperada mesmo, vai decidir hoje.
– E acha que vai conseguir?
Sam afrouxou a gravata e se jogou em sua cama.
– Acho que sim. Ela gostou do meu currículo, e eu parecia mesmo um arquiteto e nós conversamos sobre algumas coisas. Ainda não tive tempo de contar indiretamente sobre algumas coisas que vivenciamos, mas as coisas reais que deixei no meu currículo podem ter servido de alguma coisa, mas não acho que tenha rolado algum deja vú.
– Ainda.
– É. – respondeu e mudou de assunto: – O que o carro da tá fazendo lá fora?
– Eu trouxe pra cá, se ele fosse rebocado ela teria problemas.
– Por um segundo achei que ela tivesse aqui.
– Que nada. Dei uma volta pela cidade e não encontrei nem sinal dela. Voltei pro motel que estavam hospedadas, procurei por feitiços, nada.
– Pode estar com elas.
– Sim.
Eles fizeram uma pausa e Sam logo depois, disse:
– Cara, é muito estranho.
– É, eu sei. – Dean fez uma pausa e logo emendou: – Eu tava pensando, já que a virou arquiteta – que era o objetivo dela depois do Design –, existe a chance da estar em alguma faculdade, terminando o curso de Historia?
– É uma possibilidade. – respondeu assentindo e então, depois de uma breve pausa, disse num sorriso contido: – Ou ela pode ter pulado fases como a e agora ser uma arqueóloga no Egito.
– Então ela pode ficar por lá, porque eu não vou buscar ninguém no Egito.
Sam deu risada e balançou a cabeça.
– Relaxa, isso é impossível até pra uma bruxa, eu acho. Mas o lance da faculdade pode ser verdade.
– Sabe se tem alguma faculdade por aqui?
– Acho que não, a cidade é muito pequena. Mas nas cidades vizinhas, talvez. Por que você não pesquisa enquanto eu vou tomar banho? – disse se levantando e indo ao banheiro.
Cerca de duas horas depois, os irmãos estavam jantando. Dean já havia marcado o endereço de duas faculdades de cidades vizinhas, e Sam esperava a ligação, que veio da própria , o chamando para ir até lá.
Sam foi, mas não estava mais lá. Assim que as papeladas foram acertadas, ele voltou para o motel, e no dia seguinte pela manhã, ele começaria seu primeiro dia de trabalho.

Assim que tomou café, Sam pegou o carro do irmão e dirigiu até a empresa. Era um prédio de três andares, num bairro de classe alta. Subiu até o terceiro andar, e foi até a assistente de Ethan Robinson, o outro sócio da empresa.
A assistente, Lucy, apresentou a empresa a Sam, e depois o levou à sua mesa, que ficava de frente para a sala de . Duas horas se passaram e nada de aparecer. Sam não fez nada além de esperar pacientemente para que seu plano desse inicio. Não sabia se daria certo, mas o irmão tinha razão, a única opção que tinham , era ficar perto de e investigar qualquer vestígio que pudesse ajuda-los em alguma coisa.
Ele particularmente duvidava muito que se tratasse de um Brincalhão, então caso fosse uma bruxa, a sensação de deja vú poderia acarretar fragmentos de memória e assim, levar a uma recuperação de memória, quebrando assim o feitiço.
Claro que ele não tinha certeza, mas tinha esperança.
Estava perdido em pensamentos quando ouviu o elevador apitar. e um homem saíram do elevador aos risos e trocando olhares cumplices até cada um ir para o seu lado.
Sam se levantou no mesmo instante que ela se aproximou.
– Bom dia, novato, pode vir aqui, por favor?
– Claro.
Sam a seguiu para o escritório e fechou a porta. deixou a bolsa em cima da mesa e se sentou, mexendo nas gavetas da mesa.
– Parabéns mais uma vez por ter conseguido a vaga, novato.
– Obrigado.
– Eu não posso dizer que será fácil, mas você se acostuma com a correria, tudo bem?
– Sem problemas.
– A Lucy te deu as instruções e a minha agenda?
– Deu sim.
– Tudo bem, mas antes de começar, eu preciso que você me socorra. Eu acabei não dormindo em casa ontem – que isso não saia daqui, novato – e não passei na minha lanchonete favorita e eu não tenho um bom dia se não tomar meu café, e eu preciso do meu café. Pode buscar pra mim? O endereço você pode pegar com a Lucy e como eu gosto do café também. – ela finalizou pegando o celular e fazendo sinal com a mão para que Sam saísse.
– Com licença. – ele disse e saiu levemente decepcionado.
Foi até Lucy, pegou o endereço da lanchonete e o tipo de café que costumava tomar. Assim que terminou de anotar tudo, Lucy lhe entregou o papel e disse:
– Vai se acostumando e tenha paciência.
Ele ergueu uma sobrancelha e agradeceu.
O endereço ficava praticamente do outro lado da cidade. Depois de quarenta minutos com a marcha lenta e um transito de arrancar os cabelos, ele chegou à lanchonete sem morrer de desgosto e estresse.
Adentrou a lanchonete vegana e seguiu para o balcão. Depois de ter pegado o café e pagado a conta, ele caminhou até a saída, e já estava na calçada quanto ouviu uma voz conhecida. Olhou para trás de relance e viu . Seus olhos se arregalaram na mesma hora e ele fez que ia entrar novamente no local, mas seu celular começou a tocar e acabou indo para os fundos do estabelecimento.
– Alô?
Novato! Onde está? – Era .
– Na lanchonete.
Ainda? Já era pra estar voltando!
– Tudo bem, eu tô indo.
Ok, não demore. – e desligou.
Sam voltou para o carro, e enquanto dirigia, ligou para o irmão, que atendeu sonolento.
– Dean, sou eu. Acabei de ver a .
Como é? Onde?
– Numa lanchonete vegana. Ela trabalha como garçonete.
Falou com ela?
– Não, preciso voltar pro escritório, eu vou te passar o endereço e você vem falar com ela.
Beleza.
– E já vou avisando, ela não parece em nada com a que a gente tá acostumado.
– Por quê?
– Prefiro que você veja com seus próprios olhos. Vou desligar agora, até.
Tá. – e desligou.
Quase uma hora depois, Sam voltou para o escritório. Havia recebido várias ligações de , mas não atendeu nenhuma.
– Oi, ... – disse adentrando a sala da moça.
– Por que não atendeu as ligações? – perguntou imediatamente.
– Eu estava dirigindo, desculpe.
– E você precisa de tanta atenção assim pra dirigir? Quando tirou sua carteira, ontem?
– Ah...
– Esquece, volte ao trabalho.
Sam assentiu, torcendo mentalmente para que a verdadeira voltasse porque aquilo deixava bem claro que aquela era um pé no saco.
– Seu café. – ele deixou o copo em sua mesa.
pegou o café sem tirar os olhos da tela do computador, e Sam se retirou. Sentou-se a sua mesa sem ter ideia do que fazer e então ouviu uma indignada e impaciente o chamar. Novamente, ele se levantou e foi até a sala dela, que o fulminava com os olhos.
– Você levou duas horas pra me trazer um café frio?
Ele a encarou por alguns segundos, imaginando se era uma pergunta retórica ou não. suspirou indignada e lhe ergueu o copo.
– Se livra disso.
– Não quer que eu esquente na co...
– Eu não tomo café requentado. Se livra disso.
E então Sam ficou indignado. Ninguém que não fosse o Flash conseguiria entregar um café ainda quente depois de quase uma hora de viagem.
Pegou o café e foi até a copa, que ficava do outro lado do escritório. Enquanto jogava o café na pia, ouviu alguém falar com ele:
– Tá aguentando firme? – era Lucy.
– Ah, é, tô meio surpreso.
– E ainda são dez da manhã.
Sam se virou para ela, que estava se servindo de café e perguntou:
– Ela é sempre assim?
Lucy meneou a cabeça.
– Trabalho aqui há dois anos e nunca foi diferente. – Sam arqueou as sobrancelhas. Dois anos? – Mas ela tem dias melhores.
– Você trabalha aqui há dois anos?
– É. Sou assistente do Ethan há mais tempo que qualquer assistente da . Não quero te preocupar não, mas muitos de seus assistentes pediram demissão. A outra parte foi mandada embora. A maior parte porque trazia o café frio.
– Mas ela sabe que é praticamente impossível manter o café quente, né?
– Ela é um pouco... Deixa quieto. Mas é geralmente quando ela não dorme em casa que ela pede isso. É meio difícil acontecer.
– Sei... – ele fez uma pausa e pigarreou. – E a relação dela com o Ethan? Como é?
– Os dois discutem sobre alguns projetos de vez em quando. Ethan tem como objetivo ganhar dinheiro, a prefere agradar os clientes. Aí os projetos dela demoram mais pra ficarem prontos e o Ethan acaba passando na frente. Eles discutiram muitas vezes no meio desse escritório. É bem empolgante, se quer saber. – Sam assentiu. – Mas no final eles acabam se perdoando, saem juntos pra almoçar quando dá, até jantam juntos aqui no escritório quando ficam até tarde. É aquela coisa de amor e guerra, você viu os dois chegando mais cedo, estavam sorridentes.
– Eles se... sabe...
– Não, o Ethan é casado, tem filhos e tudo.
– E ela?
– Ela teve alguém há mais ou menos um ano. Ouvi boatos de que os dois mal se viam, porque ele vivia na estrada. Era Samuel alguma coisa o nome dele.
– Samuel?
– É, por isso que ela te chama de novato, não gosta nem um pouco de citar esse nome. – Sam assentiu pensativo. – É, eu sei, é muita informação pro primeiro dia.
– É.
– Bom, vamos voltar ao trabalho. – ela disse e saiu.
Sam voltou para sua mesa, mas antes mesmo de se sentar na cadeira, o chamou.
– Eu vou precisar da sua ajuda. Tenho que entregar uma maquete amanhã e estamos bem atrasados. Hoje meu dia é corrido, então eu vou deixar você dar continuidade, ok?
– Tá.
– Vem comigo. – ela se levantou e Sam a seguiu até uma sala de reuniões, onde havia uma maquete em cima da mesa. – Como um arquiteto, você sabe que ainda não tá pronto. Eu preciso terminar o esboço de um cliente e visitar uma obra depois de uma reunião, enquanto isso, você vai fazendo o paisagismo, ok?
Sam engoliu em seco.
– O... O paisagismo?
– É, você já fez uma maquete antes, não é? Pelo menos na faculdade.
– Ah, sim, sim. Fiz algumas maquetes, sim.
Ela sorriu aliviada.
– Ah, que bom, já virei a noite aqui por conta de assistentes que não sabiam fazer uma maquete decente. – olhou para o relógio no pulso. – Eu vou terminar o esboço agora, não quero interrupções, entendeu? – perguntou já saindo da sala. Sam a acompanhava.
– Sim.
– Ligações externas, você marca o número e o assunto, pra eu retornar depois. Ligações internas, pede pra ligarem depois ou falarem comigo pessoalmente daqui uma hora.
– Ok.
Os dois pararam diante da mesa de Sam, e disse:
– Nas gavetas devem ter os materiais que você vai precisar. Se não, o supply chain fica no segundo andar, fale com o Julian, ele arruma tudo pra você.
– Ok.
foi para sua sala e então Sam tirou de suas gavetas algumas arvores para maquete e a grama. Ele não tinha a menor ideia do que fazer com aqueles materiais, então resolveu pesquisar técnicas de paisagismo na internet, sem que ninguém visse e começou a trabalhar na maquete.

Depois da ligação do irmão (e depois de finalmente ter acordado), Dean partiu para a lanchonete que supostamente trabalhava. Era num bairro chique de Perry, e ficava bem longe de onde estava hospedado, cerca de uma hora e vinte de carro.
A estrutura do lugar era interessante, mas granfino demais e totalmente diferente do seu estilo de vida. Não era uma simples lanchonete, como Sam deu a entender, era basicamente um centro eco-cultural, que contava com estúdio de dança e tudo mais. Teatro e yoga eram duas das coisas que eles ofereciam ali.
A lanchonete ficava no centro de tudo, estava cheio e se chamava “Espaço Annapurna”. Era completamente decorado com estátuas de deuses indianos e muito colorido.
Se perguntando o que estava fazendo ali, Dean se sentou ao balcão. Procurou por pelo espaço, mas não a encontrou, até que percebeu alguém se aproximar do outro lado do balcão e dizer:
– Namastê.
E instantaneamente, Dean se virou para ela e sentiu vontade de rir, tamanha sua incredulidade. estava com o cabelo todo despenteado, usava um headband com penas nas pontas, colares enormes no pescoço e um cropped ombro a ombro, branco e de crochê.
– Bem vindo ao Espaço Annapurna. Já sabe o que vai querer?
Dean ficou sem palavras por alguns segundos, enquanto o fitava com as sobrancelhas erguidas, esperando uma resposta. Ele pigarreou rapidamente e desviou o olhar.
– Não, será que você pode me dar o cardápio?
Ela assentiu e se abaixou por alguns instantes. Depois se levantou e o entregou o cardápio do local.
– Obrigado.
– Tranquilo, qualquer coisa é só chamar. – e se afastou.
Dean a seguiu com o olhar e conforme a moça ia atender uma mesa, deixava à mostra a saia longa de estampa étnica e a sandália rasteirinha que aparecia conforme ela andava.
Aparentemente, ela era uma verdadeira hippie. Ele deu uma olhada no cardápio, e fez uma cara confusa. A comida era estranha, cara e o pior de tudo para ele: saudável. Definitivamente ele não comeria ali.
Continuou dando uma olhada no cardápio até que viu se aproximar do balcão e servir café para um cara.
– Já decidiu? – ela perguntou se aproximando.
– Eu vou querer um café.
Enquanto ela servia o café, Dean a observava sutilmente. Seria cômico se não fosse preocupante vê-la daquele jeito, enquanto a irmã era uma empresária de sucesso.
– Alguma coisa pra acompanhar o café? – ela perguntou. Até seu tom de voz sofreu alterações, estava mais sereno, calmo e ela falava lentamente.
– Não, obrigado.
Ela sorriu e depois de pedir licença, se afastou.
O plano seria o mesmo que o do irmão, mas naquele momento, parecia impossível. Ele não poderia ficar o dia todo naquela lanchonete e mesmo que ficasse, não o dava a atenção necessária para poderem conversar.
Tomou um gole do café e então ouviu um estrondo. Olhou para trás, assim como a maioria das pessoas sentadas ao balcão e viu uma toda lambuzada de suco. Uma bandeja estava no chão, assim como os cacos de vidro da jarra. Uma moça pedia desculpas à garçonete, que como reação, disse que “desculpas não era necessário e acidentes acontecem aos montes.”. Tudo isso com um sorriso calmo. Uma reação completamente contraria da que Dean esperava dela.
Tentar fazê-la voltar ao normal seria mais difícil que ele imaginava.

Assim que terminou o desenho, ela e Sam seguiram no carro da moça até a reunião, que seria durante o almoço num restaurante. Normalmente, os assistentes não participavam das reuniões, mas achava que aquela seria uma ótima maneira de introduzir Sam nos negócios. Para Sam, aquilo significava que de alguma maneira, sentiu – quem sabe – vontade de mantê-lo por perto. Parecia bobagem, mas ele precisava acreditar em alguma coisa.
Assim que a reunião acabou, os dois voltaram para o escritório. saiu para visitar uma obra e Sam continuou seu trabalho árduo na maquete. A principio, ele achou que seria fácil, mas conforme ele tentava deixar o paisagismo mais coerente, mais desconexo e feio ficava. Lucy até deu algumas dicas, mas era mais forte do que ele, que automaticamente deixava tudo pior do que antes. E o pior era que o projeto de estava muito bonito. Era um prédio grande, com um design contemporâneo e muito bem trabalhado. Mesmo que o paisagismo não fosse o primordial no projeto, ele também contava, e tudo o que Sam não queria era que não conseguisse o trabalho.
Soltou um riso divertido. Aquilo tudo era falso, nada ao seu redor era real, mas mesmo assim ele não queria que se sentisse mal por não conseguir o projeto. E de maneira nenhuma ele poderia permitir que ficasse com raiva ou decepcionada com ele por não conseguir fazer o paisagismo, afinal, aquilo poderia causar um afastamento que poderia atrapalhar seu verdadeiro trabalho. E por falar em trabalho, ele precisava trabalhar de verdade, precisava checar o escritório à procura de qualquer sinal de feitiço para então começar a considerar o fato de ser um Brincalhão (mesmo que duvidasse) ou Gabriel (que também duvidava), por que não?
Ele queria aproveitar que não estava lá e dar uma checada em sua sala, mas não seria muito inteligente de sua parte fazer isso enquanto havia tanta gente naquele escritório. O plano era esperar o fim do expediente – que acabaria dali algumas horas –, e então checar não só a sala de , mas todo o escritório.
É, estava decidido.
Pegou o celular e ligou para o irmão, que atendeu no segundo toque.
– Dean, você foi à lanchonete?
Tô saindo agora. Cara, o que que é isso? A é hippie.
Sam soltou um riso discreto.
– É, é uma surpresa. Falou com ela?
Não consegui, ela acabou saindo pra atender.
– E por que você tá saindo daí?
Eu não tenho por que ficar aqui o dia todo, pelo amor de Deus, Sam, é uma lanchonete vegana, cheio de gente hippie, que fica falando namastê toda hora.
– Bom, mas o plano é descobrir o que tá acontecendo.
Eu sei, eu vou ficar aqui e esperar, uma hora ela sai. Agora me diga que você tá conseguindo alguma coisa.
– Ah, é, eu, eu... Ainda não.
Ô Sam, você tá há horas aí num escritório atrás da e não conseguiu nada?
– Ela não para um segundo e não e dá abertura.
É, estamos muito bem.
– Mas eu tenho uma chance mais tarde.
Ok, não a desperdice.
– Eu vou tentar. Preciso desligar agora.
Beleza.
Sam desligou o celular e voltou ao trabalho, enquanto o irmão esperava por do lado de fora.

Não demorou muito para sair da lanchonete. Estava carregando uma bolsa de franjas, o que significava que ela estava saindo do trabalho. Dean riu pelo estilo dela, e a seguiu a pé por alguns minutos até um parque, mais precisamente, até uma feirinha de artesanato que um grupo de hippies fazia.
De longe, ele viu a moça cumprimentar cada um com um namastê e então se aproximar de alguns quadros e tintas. Ela se preparou e então começou a pintar. Ele não conseguia ver o que era, mas pela expressão que a moça fazia, ela parecia atenta e estar se divertindo. Mais uma coisa que fez Dean rir, mesmo sendo preocupante.
Se aproximou da feirinha e então começou a ouvir um pequeno aglomerado tocando violão e cantando A Day In The Life, do The Beatles. se balançava no ritmo da musica e pincelava o quadro sem nenhuma técnica.
Caminhou por entre as barraquinhas e parou na de pintura, onde havia vários quadros de diferentes tamanhos, desenhos e cores. Se pintou todos, então ela tinha um dom.
– Se interessou por algum? – ela perguntou sem tirar os olhos da tela.
Dean olhou para os lados. Não havia muita gente ao seu redor, então era obvio que ela falava com ele.
– Ah, não exatamente, mas são bem interessantes. Você fez todos eles?
– A maioria.
Ele assentiu.
– Você tem talento.
– Já me disseram isso. Por que tá me seguindo?
Ele arqueou as sobrancelhas. o olhou por alguns segundos e sorriu ao notar sua expressão de surpresa.
– Eu notei que você era um cliente novo e o vi me seguindo desde que saí da lanchonete.
Dean deu um meio sorriso. Ela percebia com facilidade quando era seguida, e aquilo não mudara.
– Você é muito esperta.
Ela deu de ombros e voltou a pintar.
– Eu não sou lesada, sei quando tem alguém me seguindo. Agora por quê? Por acaso é um daqueles alunos de sociologia que quando veem um hippie, quer estuda-lo fazer um enorme relatório pra ganhar prestigio?
Dean meneou a cabeça. Ele até pensou em contar a verdade, mas Sam disse que seria melhor ir com calma. Não pensou em nada para ficar perto dela e sua teoria até que poderia o ajudar.
– É, acertou, tirando a parte do prestígio. Me desculpe incomodar.
Ela deu de ombros.
– Não é a primeira vez que um sociólogo metido a besta vem nos estudar como se fôssemos animais, então tudo bem. O que vai ser? Uma entrevista, um relatório ou alguma coisa nova?
– Um relatório, tudo bem se eu passar alguns dias com vocês?
Ela sorriu.
– A última vez que um sociólogo ficou alguns dias com a gente, as coisas acabaram mudando de rumo.
– O que aconteceu?
– Veja você mesmo. Aí, Toby! – ela chamou alguém em tom alto. Logo, um homem alto, magro e de cabelos e barba compridos se aproximou com um violão. – E aí, tudo na paz?
– A mais perfeita e absoluta.
assentiu e se virou para Dean.
– Ele veio até a gente pra fazer um relatório pra faculdade há alguns meses, e a partir daí não saiu mais de perto, fala aí, Toby.
O rapaz descalço e de roupas largas abriu um sorriso.
– É, eu posso dizer que foi a melhor experiência da minha vida. É muito bom viver com pessoas que vivem na simplicidade e desapegada do mundo material, com o espirito livre da culpa e da prisão de valores e virtudes imposta pela sociedade.
– Ah, que interessante. – Dean respondeu com um sorriso falso.
– Se prepare, vai ser uma viagem. – o rapaz disse, e antes de se afastar, emendou: – Namastê.
– Namastê. – respondeu e voltou a pintar. – Tá preparado?
– Ah, eu tô bem preparado. Animação total.
– Que bom. Qual o seu nome?
– Dean.
E então ele notou que se desestabilizou por alguns segundos, mas se recompôs logo depois.
– O que foi?
Ela deu de ombros.
– Seu nome me traz algumas lembranças.
E então a coisa começou a ficar boa para Dean.
– Lembranças boas ou ruins?
– Depende do ponto de vista.
Dean assentiu. Percebeu que ela não daria mais detalhes, mas quem sabe depois de alguma insistência ela falasse alguma coisa.

Sam estava muito longe de terminar o trabalho. Já era para ele estar na reta final, mas conforme avançava, ele recebia olhares receosos de seus colegas. Até mesmo de Lucy, que de vez em quando dava alguns olhares sutis para sua obra de arte. Olhares esses que ele percebia e que estavam o irritando.
– Tudo bem. – ele disse num suspiro e se apoiando na mesa. – Pode falar, está tão ruim assim?
Lucy soltou um riso pelo nariz e se levantou. Foi até a mesa de Sam e deu uma boa olhada na maquete.
– Não pra um adolescente de quinze anos.
Sam suspirou derrotado.
– Eu desisto, já refiz isso umas trezentas vezes.
– Eu reparei. – ela cruzou os braços. – Olha, não tá tão ruim assim, mas é que a consegue ser mais perfeccionista que qualquer virginiano e eu não sei se ela ficaria feliz de ver isso. – e com mais um suspiro de Sam, Lucy continuou: – Você precisa esfriar um pouco a cabeça. Hoje é o aniversário do Matthew, um dos arquitetos da empresa, e a gente tem o costume comemorar. Eu tava indo comprar o bolo dele enquanto ele tá fora, mas se você quiser ir...
Sam meneou a cabeça.
– A tá meio atrasada com o projeto e...
– Eu sei, faz tempo que ela tá enrolando com essa maquete, mas ela vai entregar isso só amanhã, e você ainda tem o resto do dia e amanhã cedo pra terminar.
– Eu acho melhor não.
– Sam, do que adianta você ficar aqui e refazer isso toda hora? Você tá na estaca zero do mesmo jeito. Vai, ande logo ou eu vou.
Sam suspirou em desistência.
– Ok. – se levantou.
Lucy entregou o dinheiro e Sam saiu com o carro até um mercado. Levou poucos minutos para pegar um bolo qualquer de aniversário. Estava no caixa quando recebeu uma ligação de Lucy o lembrando de comprar o refrigerante e as velinhas. E lá foi Sam novamente, dar um passeio pelo mercado.
Estava pegando a segunda garrafa de refrigerante quando seu celular tocou. Dessa vez era .
Onde você está, novato? – perguntou levemente alterada.
– No mercad...
Por quê?!
– Ah, hoje é aniversário do Matthew e a Lucy me pediu que viesse comprar o bolo.
Ah... É mesmo, já estava me esquecendo. Tudo bem, eu preciso de você.
– Pode falar.
Assim que você sair do mercado, precisa ir com urgência até o pet-shop no centro da cidade, pegar a Tiffany.
– Tiffany?
É, eu não falei sobre ela com você. Uma vizinha minha levou ela pro pet-shop a meu pedido, mas pelo horário eu não vou conseguir pegá-la. Pode ir pra mim?
– Tá, tudo bem, pode me dar o endereço?
Ok.
Assim que deu o endereço e Sam saiu do mercado, o mesmo foi até o pet-shop. Aguardou alguns segundos e logo, um rapaz brincando com um Crista Chinês no colo apareceu.
– Aqui está.
Sam pegou o cachorro meio sem-jeito, já que o mesmo pareceu inquieto. O rapaz sorriu se divertindo e disse:
– Tiffany não é de agir assim com estranhos, pode levar um tempo pra ela se acostumar com você. Deixe-a no chão até lá.
E foi o que Sam fez. Pegou a guia que o rapaz havia entregado e a colocou na coleira da cachorrinha, a deixando no chão. Em nenhum segundo a Crista Chinês parou de latir para ele.
– Obrigado. – Sam agradeceu e saiu com o cachorro.
Que Dean o perdoasse, mas Tiffany teria que entrar no Impala.
Dirigiu de volta para o escritório a pedido de , que disse que a cachorrinha poderia ficar lá sem problemas.
Sam estacionou o carro e logo viu se aproximar. Pelo visto, ambos haviam chegado praticamente na mesma hora.
– Novato, bem a tempo.
Sam deu um meio sorriso e desceu do carro. Latidos raivosos de Tiffany para o caçador foram ouvidos conforme ele se aproximava da porta traseira do carro.
Ele abriu a porta, e saiu em disparada para pegar o animalzinho.
– Oh, meu Deus, Tiff! A mamãe sentiu tanto a sua falta! – ela disse abraçada ao cachorro, que arfava feliz.
Sam assistia conversar com o animal, e até que achou bonitinho. Não teve como conter o sorriso, que foi visto pela moça assim que a mesma se virou para ele.
– Zombando de mim, novato?
– Ah, não, eu achei... Fofo você conversando com a Tiffany.
Ela sorriu.
– Gosta de animais?
– Quem não gosta?
Ela assentiu sorrindo. Os dois ficaram em silencio, olhando um para o outro por alguns segundos, o que os deixou constrangidos.
pigarreou e disse:
– Comprou o bolo?
Sam então voltou para a porta do motorista num pulo.
– Sim. – abriu a porta e pegou um bolo redondo coberto por chantilly e raspas de chocolate. – Eu não sei se todos gostam de chocolate, mas...
– Ah, não tem problema. – ela disse imediatamente, olhando para o bolo e mordendo o lábio, chiando logo depois. – Eu adoro chocolate, e você vai precisar me controlar senão minha dieta vai pro espaço.
Sam assentiu e sorriu sem graça. continuou:
– Você consegue levar o bolo e os refrigerantes sozinho?
– Ah, sim.
– Ok, então vamos.
esperou Sam pegar o resto das coisas analisando o Impala.
– É um lindo carro.
– Obrigado, era do meu pai.
– Hm, herança de família. Que ano?
– 67.
deu uma ultima olhada para o carro e se afastou com Sam para o elevador.
– Eu o vi hoje mais cedo antes de sair, e me perguntei quem tinha tamanho bom gosto. Parabéns.
– Obrigado, o meu irmão ficaria feliz de ouvir isso, o carro é dele, na verdade.
– Hm, você não tem carro?
– Até agora eu não preciso, passo a maior parte do tempo com ele.
– Mas ele pode acabar precisando, talvez seja melhor você comprar um depois de se estabilizar aqui.
– É, quem sabe.
Os dois ficaram alguns segundos em silencio até ela dizer:
– Mas o carro vai ser seu quando seu irmão morrer.
Sam a olhou com uma sobrancelha erguida por alguns instantes, fazendo perceber a besteira que falou.
– Ah, me desculpe, eu não quis dizer isso. Eu não... Eu não quero que o seu irmão morra, me desculpe.
Sam soltou um riso pelo nariz.
– Tudo bem, eu entendi.
– Ai, que insensível da minha parte, vou calar a boca agora.
Ele riu.
– Não, tudo bem. A Tiffany no seu colo te deu um ar mais sensível.
Ela riu.
– Ah, que bom, obrigada.
Ele assentiu. Os dois saíram do elevador e caminharam até a copa.
– Ah, você já comentou do seu irmão tantas vezes, eu nem perguntei. Qual o nome dele?
– Dean.
– Ah. – disse pensativa, claro que Sam percebeu.
– Tudo bem?
– Tudo, mas é que esse nome é bem familiar.
– Bom, é um nome bem comum.
– Eu sei... Termina aí e me encontra na minha sala. – disse se retirando.
Sam assentiu, pensando que as coisas começaram a dar sinal de mudança.
Caminhou até a sala de e bateu antes de entrar, assim que o liberou, Sam adentrou a sala, a encontrando sentada sobre a mesa e lendo alguns arquivos.
– Novato, eu não sei por que vou confiar em você, mas sinto que posso fazer isso. – ela disse deixando os papéis na mesa e pegando um papel sobre a mesma. – Nós vamos receber um cliente agora e eu preciso que você tire a Tiffany daqui. – entregou o papel. – Aqui tá o endereço do meu apartamento. Sandy, a vizinha da frente cuida da Tiffany pra mim, deixe-a com ela, ok?
– Claro. – ele respondeu rapidamente, aquela era uma grande oportunidade para ele dar uma olhada na casa da moça. – Precisa de mais alguma coisa?
– Não, diga a Sandy que se ela precisar de qualquer coisa pra Tiff, ela pode usar a chave reserva que eu deixei com ela.
– Tudo bem.
entregou a cachorrinha para Sam, que partiu para o endereço indicado. O apartamento da moça ficava duas quadras depois de onde trabalhava, ou seja, ele levou cerca de uma hora e meia para chegar.
O prédio era de luxo e enorme. havia falado com a segurança sobre Sam, então sua entrada não foi dificultada.
Adentrou o elevador já impaciente com os latidos sem-fim de Tiffany, que ainda não havia ganhado sua afeição, e subiu até o décimo andar, onde morava.
Havia dois apartamentos por andar, então não foi difícil de achar o de Sandy. Bateu duas vezes na porta e então uma adolescente, que aparentemente tinha por volta de quinze anos atendeu.
– Sandy?
– Sim. – ela respondeu e olhou para Tiffany, sorrindo.
Sam se prontificou de entregar a guia da cachorrinha e dizer:
– A disse que se você precisar de qualquer coisa pra Tiffany, pode pegar a chave reserva do apartamento dela.
– Tudo bem, obrigada.
– De nada.
Sandy entrou com Tiffany e fechou a porta. Sam fez que ia para o elevador e esperou alguns segundos. Depois foi até a porta de e se abaixou.
Não demorou muito para conseguir abrir a porta. Adentrou no mesmo instante e então se deparou com um apartamento bem arrumado, de classe e muito diferente de sua realidade e a de .

Dean e estavam conversando há algumas horas, mas não a sós, já que havia outros três hippies participando da conversa, que no momento se concentrava na influência da música sobre contracultura dos anos 60. Ele não entendia muita coisa, mas fingia estar por dentro do assunto e até arriscava dizer alguma coisa.
Ficaram nessa conversa por um bom tempo, até Dean perguntar se só havia eles (e mais alguns que haviam ido embora) de hippies.
– Não – Toby respondeu. – Não estão todos aqui.
– E é muita gente?
Ele deu de ombros.
– Umas trinta pessoas.
– Trinta? Nossa, é bastante gente, né. Vocês vivem aonde?
– Num casarão no interior, não fica muito longe daqui.
– Todos juntos?
– É, cara, é uma comunidade.
Então Dean se pegou por um momento imaginando como seria dividir uma casa com outras vinte e nove pessoas. Ele ficaria louco, e se estivesse com seu estado mental perfeito, ela também ficaria louca, assim como qualquer pessoa normal.
– Ih, o cara ficou grilado. – Marshall, um dos pintores disse sorrindo.
Dean sorriu sem graça.
– É que tudo isso é meio novo pra mim.
– Não deveria, você estuda sociologia, devia entender mais que qualquer um. – disse num tom calmo. – Você deveria vir com a gente, o que acha?
– Na casa de vocês?
– É, é a melhor maneira de você nos conhecer. Tudo bem pra você?
Deu de ombros.
– Por mim tudo bem.
– Então fechou. – Toby disse. – Hoje é seu dia de sorte, vamos ter um sarau mais tarde, com muita música, comida e outras paradas. Vai ser o maior barato.
– É mesmo, irmão. – disse Zac, que também estava com o violão, para Toby. – Temos que ensaiar com a banda.
Toby assentiu e pegou seu violão do chão.
– Arruma suas coisas aí, . Eu vou buscar o carro. – Marshall disse se afastando com Zac.
– Beleza. – a moça respondeu guardando as tintas.
Toby deixou novamente o violão no chão e começou a ajudar a moça a recolher os cinco quadros que estavam expostos.
Logo, uma pick up F-100 dos anos 70, azul e caindo aos pedaços apareceu buzinando.
Toby pegou o violão e alguns quadros, se afastando a seguir. pegou o resto dos quadros e seu tripé, Dean ofereceu ajuda e conforme os dois se aproximavam do carro, disse:
– Não cabe todo mundo nesse carro.
– Claro que cabe, nós vamos atrás.
– Na caçamba?
– É. – respondeu simplesmente. – Tá com medo, é?
– Não, mas é que eu deixei meu carro na lanchonete e é bem mais confortável.
abriu um sorriso.
– Você tá com medo... Tudo bem, vamos até a lanchonete, eu guio você até o casarão.
Dean assentiu. Os dois deixaram as coisas na caçamba da pick-up, avisou que iria com Dean e que os encontraria lá. Os três se despediram e Zac arrancou com o carro, cantando pneus e fazendo um breve ziguezague. Dean não pode deixar de se sentir aliviado por não estar naquela caçamba com .
Os dois fizeram o caminho inverso, e como estavam a sós e mais a vontade um com o outro, Dean começou a fazer perguntas mais diretas, mas ainda assim, com certa sutileza.
– Você é hippie há muito tempo?
– Não. Eu não sei te dizer precisamente há quanto tempo, pra mim foi como se tivesse acontecido do dia pra noite.
Dean assentiu, na verdade, aquela resposta era mais do que esperada.
– Você conhece aquela galera desde o começo?
– Sim, eles sempre fizeram parte dessa minha fase, foi como se tivessem caído do céu. Sabe o que isso significa, não sabe?
– O quê?
– Destino. Eu não fiz absolutamente nada pra estar aqui hoje, tudo aconteceu naturalmente.
– Sei...
– Eu posso me considerar sortuda. Geralmente as pessoas sofrem para trilhar um caminho, o meu veio até mim e eu ando por ele livremente, sem pressões e sem me importar com a oposição.
– Viva o espirito livre.
– É. Você é um espirito livre, Dean?
– Menos do que me considero e gostaria.
– Senti uma ponta de dor no seu tom de voz. Qual o problema?
– O quê? Nenhum, eu tô ótimo.
– Tem certeza?
– Claro.
– Eu não tenho tanta certeza.
– E por quê?
Ela deu de ombros.
– Eu tenho mania de observar os outros. Observei você enquanto conversávamos. Você tem algo negro dentro de você.
Dean ergueu uma sobrancelha e mascarou o riso debochado que queria aparecer, e deixou que ela continuasse:
– Não é algo do mal, de longe eu vi que você é uma boa pessoa, mas tem algo aí dentro que te persegue. É como um fardo.
– Hm, você é bem espiritualista.
– Ah, você diz isso porque não conhece nosso guru.
– Vocês têm um guru, é?
– É. – respondeu animada. – A gente sempre se junta em busca da elevação do espirito e paz interna quando achamos necessário. É muito bom.
– Muito legal.
– Com certeza.
Dean sorriu discretamente com a falta de sensibilidade de quando a mesma não percebeu seu sarcasmo nenhuma das vezes.
– Mas eu acertei?
– O quê?
– Você carrega um fardo obscuro aí dentro?
Ele meneou a cabeça. Se havia algo mais obscuro que ter a alma torturada por trinta anos no inferno e ainda sofrer a pressão dos anjos para ele dizer sim e ajudar numa batalha entre anjos e demônios, então ele não sabia o que era.
– Talvez.
– Você precisa deixar ir, irmão. Isso só te atrapalha no presente e no futuro. Seria bom se você falasse com nosso guru, Carl.
– Ah, obrigado, mas eu não me sinto a vontade falando com gente que eu não conheço.
– Você pode falar comigo, se quiser. Eu não sou tão boa em conselhos como o Carl, mas prometo fazer meu melhor.
– Tentador, mas aí você teria que fazer o mesmo.
– Eu? Mas eu não tenho nada que eu queira ou precise me libertar.
– Não mesmo?
– Não. – respondeu dando de ombros. – Eu não tenho nada escondido em mim, aprendi a me libertar de mim mesma, compartilhando minha vida com minha comunidade.
– Sua comunidade? Então vinte e nove pessoas sabem tudo sobre você?
– Sim, e eu sei da vida de cada uma. Assim é bem mais fácil, você entende as atitudes e o ponto de vista do outro com mais facilidade.
– Então elas sabem qual é a desse Dean que você conheceu um dia?
– Sabem.
– Então eu posso perguntar pra qualquer um se esse cara foi alguém bom ou ruim pra você?
– Você pode perguntar diretamente a mim, acho que é mais fácil.
– E então?
Ela deu de ombros e meneou a cabeça, soltando um suspiro.
– Depende do ponto de vista.
– Qual o seu ponto de vista?
– Você primeiro.
– Ah, isso é injusto.
– É minha única barganha, pelo que parece.
– Quem sabe outra hora eu não te conte.
Ela sorriu.
– Quando você quiser. Onde é que está seu carro? – perguntou quando chegaram à lanchonete.
– Bem ali.
Os dois caminharam até o Challenger, e fitou o carro por alguns segundos, até que abriu um sorriso largo, impressionado. Dean a fitou por alguns instantes e percebeu os traços da verdadeira. A moça fez a mesma cara quando viu seu carro pela primeira vez em Henderson. Mas foi por poucos segundos, já que logo depois, a moça se virou para ele, com uma expressão completamente diferente.
– Vamos?
Ele assentiu e os dois adentraram o carro.
– Eu adorei o seu carro, é muito bacana. – e então ela emendou quando o viu fazer uma ligação direta: – E ele não é exatamente seu, né?
– Não exatamente, mas eu não roubei, se quer saber.
– Ah, que bom. Por um momento eu achei que você fosse um foragido da policia que acha que se escondendo com os hippies, vai sair ileso.
– Nossa, isso já aconteceu antes?
– Já aconteceu tanta coisa, que você ficaria abismado.
– Pode ficar tranquila, eu não sou um foragido.
– Bom, se fosse seria por um bom motivo, sinto boas vibrações em você.
– Obrigado, eu acho.
Pelo visto, a noite seria longa.

Sam deu uma boa olhada pela cozinha, sala de jantar, sala de estar e de TV. Não encontrou nada de suspeito, mas não perdeu as esperanças, ainda havia os quartos e os banheiros.
Depois de investigar os lavabos e os dois quartos de hospedes, ele foi até o quarto principal. O cômodo estava impecável. A decoração era bem feita e as cores não passavam de branco, cinza e verde água.
Olhou pelos móveis e embaixo deles, inclusive da enorme cama Queen size.
Deu uma olhada no banheiro e no closet da moça, ambos estavam limpos. Sam chegou a uma conclusão: só poderia estar no escritório.
Ele então dirigiu de volta, encontrando se servindo de café na copa.
– Novato, que demora, onde esteve?
– Desculpe, o transito estava meio carregado.
– Sei. Vem aqui.
Sam se aproximou e disse num tom mais baixo:
– O expediente tá acabando, mas daqui a pouco vamos comemorar o aniversário do Matt, você pode ficar?
– Claro, posso sim.
– Tudo bem.
. – Lucy disse aparecendo na porta. – Eles chegaram.
– Ah, que ótimo. – ela disse animada, deixando a caneca em cima da pia. – Me deseje sorte, novato.
– Boa sorte.
Ela sorriu agradecida e saiu. Lucy adentrou a cozinha, se servindo de café.
– Por que eu tinha que desejar boa sorte? – ele perguntou.
Lucy recostou na mesa.
– Os clientes mais importantes, quando querem nossos serviços, ficam com a e o Ethan. Como eu já disse, os dois acabam por disputar o projeto, e hoje eles vão apresentar o esboço, aí o resto você já sabe.
– Por isso ela estava tão animada.
– Sim, mas o Ethan tá bem determinado, eu acho que vai ser meio difícil escolher entre os dois.
Ele assentiu. Os dois voltaram para seus lugares e então esperaram. Sam pode ouvir outros arquitetos apostando entre si quem seria o ganhador, e pelo que pode entender, Ethan ganhava a torcida, mas profissionalmente falando, achavam que levaria a melhor.
A reunião levou duas horas, uma para cada. No fim do expediente, todos assistiram sutilmente os clientes, e Ethan saírem sorridentes, conversando descontraidamente.
Sam se atentou aos detalhes e sentiu uma pontinha de decepção no tom de voz da moça, e apesar de sorrir e conversar descontraidamente, ele via seu olhar triste. Só alguém que a conhecesse bem saberia que ela não estava bem.
Assim que os clientes engravatados foram embora, ele viu cumprimentar Ethan com um aperto de mão e um sorriso amarelo. Ethan agradeceu e abraçou de lado, com um sorriso como se sentisse muito, mas nem tanto. Assim que se afastou dela, Ethan começou a comemorar a vitória, recebendo aplausos, assobios e apertos de mão de puxa-sacos que só queriam uma chance de participar do novo grande projeto.
Logo veio um trio cantando parabéns, a moça do meio carregava o bolo de aniversário, e logo o coro se fez. Os funcionários se levantaram e começaram a caminhar na direção da mesa do arquiteto, que estava de pé, rindo sem graça e batendo palmas.
Sam e Lucy se levantaram e se aproximaram do aglomerado. Assim que Matt apagou as velinhas azuis que Sam não havia se esquecido de comprar, todos cumprimentaram o aniversariante.
Minutos depois, ninguém mais trabalhava, todos ficaram conversando e dando risadas. Em meio a conversas, Sam descobriu que ali, ninguém trabalhava há mais de dois anos, o que o fez perceber que provavelmente, não era a única que havia sido enfeitiçada.
Olhou ao redor, a procura de e não a encontrou. Foi então até a sala da moça, bateu duas vezes e abriu a porta, encontrando fungando e pegando suas coisas com certa pressa.
– Novato! Precisa de alguma coisa? – ela perguntou disfarçando e evitando olhá-lo.
– Não, eu vi que você saiu de repente e te trouxe isso. – ele estendeu um prato com uma fatia de bolo, que havia pegado antes de ir à sala.
– Eu já comi, obrigada.
– Ah, mas você disse que adorava chocolate.
Ela sorriu.
– Eu pedi que você me ajudasse a controlar a boca.
Sam soltou um riso pelo nariz e a olhou preocupado.
– Tá tudo bem?
Ela assentiu rapidamente, voltando a disfarçar.
– Eu só tava pegando minha bolsa pra ir embora, pode ir também.
Ele assentiu. então caminhou em direção à porta, e Sam disse antes de ela ir embora:
– Sinto muito por não ter conseguido o projeto.
E então ela finalmente o olhou. Os olhos dela começaram a encher de lágrimas, e então ela piscou algumas vezes, voltando a disfarçar, e assentiu.
– Obrigada. – ela deu as costas e saiu.

Dean's P.O.V On

O sarau estava rolando há três horas. me apresentou para todo mundo e muitas vezes, eu tive que fingir interesse em assuntos que não me interessavam em nada. Eu só não havia ido embora ainda porque a festa era regada a cerveja e comida que apesar de estranha, não era tão ruim assim. Sem falar das músicas que a banda tocava. Hendrix, Joplin e até mesmo algumas do Zeppelin.
Do que eu poderia reclamar? Eu me perguntei nas primeiras duas horas.
A princípio as coisas iam bem, mas na última hora, eu ouvi boatos de orgias e gente fumando um baseado pelado no casarão. Eu sabia que essas coisas aconteciam aos montes, mas não há quem não fique surpreso.
O ponto alto nem foi esse também. Eu passei a maior parte do tempo com a versão paz e amor da . A gente conversou bem, eu poderia parabenizar a bruxa que fez o feitiço. dizia muita coisa sobre seu passado, apesar de rolar algumas controvérsias e confusões, mas eu não questionei. Até algumas coisas que aconteceram com nós quatro há alguns meses ela mencionou, claro que era totalmente readaptado.
E foi numa dessas conversas que Lydia, uma loira que andava descalça, se aproximou oferecendo brownies batizados. Obviamente eu não aceitei, e também não, o que na verdade, eu já esperava e até mesmo achei bom da parte dela. Mas então veio o ápice: ela pediu o baseado puro.
Como já era de imaginar, eu a olhei surpreso, e ela só riu, enquanto pegava o cigarro.
– Tem isqueiro? – ela me perguntou assim que Lydia saiu.
– Você vai fumar isso?
Ela pendeu a cabeça e me olhou com um olhar de duvida.
– Por que não? – ela esperou que eu respondesse e acho que minha cara de confusão já foi o suficiente para ela rir e continuar: – É só pra relaxar. Tem isqueiro?
– Não. – claro que menti, eu não ia sustentar vicio de ninguém.
Ela deu de ombros e cutucou uma moça que estava atrás dela. Pediu um isqueiro e poucos segundos depois, já estava tragando o baseado, e aquele cheiro de erva voltou a me incomodar. Eu já estava me acostumando com o cheiro, afinal, eu já estava ali há horas e já senti cheiros muito piores na minha vida, mas quando tem uma pessoa fumando um baseado bem na sua frente, o cheiro fica mais forte e é bem mais desagradável.
Levou longos minutos para ela perceber meu incomodo e dar o seu cigarro pela metade para alguém que passava por ali. Eu fiquei agradecido, até porque sinceramente, eu cogitei ir embora. Mas então começou a tocar Lucy in the Sky with Diamonds, fazendo imediatamente quase todo mundo se levantar em meio a comemorações e partir para mais próximo do palco improvisado, ao redor de uma lareira.
– O que tá acontecendo? – eu perguntei.
estava olhando estática para o chão, com um sorriso congelado no rosto. Na hora eu soube que podia ser o efeito do baseado.
– Ei. – eu esbarrei de leve em seu ombro. Ela me olhou automaticamente. – Tá tudo bem?
Ela assentiu e riu.
– Numa boa. – ela fez uma pausa e assim que ouviu a música, torceu o nariz e disse: – Agora vai começar a zona, é melhor sairmos daqui antes que você tenha uma má impressão e nos abandone. Você é novo aqui, não tem estrutura. – ela começou a se afastar do casarão e eu a segui sem entender o que estava acontecendo. Tinha como aquilo ficar pior?
– Por que você disse isso? – não pude deixar de perguntar.
Ela caiu na gargalhada e eu fiquei mais perdido que cego em tiroteio. se recompôs e continuamos andando. Quando disseram que moravam num casarão, eles não estavam brincando. Era praticamente uma fazenda. O espaço do quintal era imenso e a casa também, mas nem de longe acomodava trinta pessoas numa boa.
– Porque chegou a hora de Lucy in the Sky with Diamonds. – ela respondeu finalmente, eu havia até me esquecido que havia perguntado alguma coisa.
– Eu ainda não entendi o que isso quer dizer, pode explicar?
Ela suspirou e então parou, olhando estática para um denso matagal que não estava muito longe dali.
– Você viu isso?
Eu olhei pra mesma direção e dei de ombros.
– Viu o quê?
Ela continuou olhando para lá, e aos poucos, sua feição de curiosidade e confusão deu lugar para uma feição de medo e ansiedade. Aí quem ficou curioso e confuso fui eu, que não sabia se havia alguma coisa ali ou se ela só estava chapada. Talvez fosse a segunda opção, já que segundos depois ela começou a rir e voltou a caminhar, cantarolando a música que tocava de longe.
– Vamos lá, Dean, qual é a abreviação de Lucy in the Sky with Diamonds?
Eu voltei a focar no assunto e então respondi:
– LSD. – e então a ficha caiu.
– É, eles tocam essa música pra anunciar que a gente tem acido disponível. Você acredita naquele papo que o Lennon mandou, dizendo que fez essa música a partir de um desenho que seu filho fez? O cara tava chapado quando escreveu o hino, irmão, é óbvio, mas quem é que vai contradizer?
– E você também curte essa parada?
– Não, teve uma vez que eu queria experimentar, era minha primeira vez. Mas aí eu vi o Lerman, um irmãozinho que não tá mais entre nós, todo encolhido num canto, dizendo que ele era uma laranja e pra não tocarem nele senão ele explodiria e causaria uma enxurrada de suco de laranja. No dia seguinte ele foi encontrado morto. Depois desse dia eu não consegui nem chegar perto. Chegamos.
Paramos diante uma Kombi toda desenhada. Devido à escuridão, eu não conseguia ver as cores, mas eu tinha certeza que ela era bem discreta, toda colorida.
– É sua? – eu perguntei.
Ela só assentiu e abriu a porta lateral. Adentrou o veículo e então quando ela acendeu uma luz, eu pude ver que a traseira da Kombi não tinha bancos, mas era praticamente um quarto, havia colchão, várias almofadas coloridas, pôsteres e quadros pendurados, junto de outros objetos de decoração.
se jogou em cima de algumas almofadas e ficou fitando o teto, em silencio. Eu não tive muito convívio com gente chapada, então eu não entendia muito por que uma pessoa viaja e alucina, e alega que só está relaxando. Eu não via nexo e não tinha a menor vontade de passar para o outro lado pra tentar compreender a mente daquela gente.
E quando ela começou a rir novamente sozinha, eu balancei a cabeça e me sentei na porta, me perguntando qual era a graça, mas eu nunca entenderia, então resolvi ignorar e ligar para o Sam.
– E aí?
Ele suspirou.
A tá numa reunião, concorrendo num projeto contra o Ethan.
Eu não tinha a menor ideia do que ele estava falando.
– Cara, eu não quero saber do seu trabalho falso.
Eu não tenho muita coisa, Dean. – ele falava baixo, mal dava pra escutar. – Tenho só uma novidade, mas não posso falar agora.
– Alguma pista?
Não, quando eu chegar, a gente conversa.
Suspirei.
– Beleza.
E a ?
Olhei para atrás de mim, e ela ria e balançava a cabeça, estava longe.
– Viajando.
O quê?
– Bom, você pode imaginar o que alguém como ela faz pra relaxar.
Ele fez uma pausa e então disse:
Ela tá chapada?
– Pois é.
Sam não pode deixar de rir.
– Acha isso engraçado?
Bom, é engraçado né Dean, ainda mais sabendo como ela é de verdade.
– Falou com a , descobriu alguma coisa?
Sim e não. Acho melhor conversarmos pessoalmente.
– Concordo. A gente se fala.
Desliguei o celular e o guardei, balançando a cabeça e não acreditando no que estava acontecendo. É muito azar pra duas pessoas só.
– E aí, tá segurando a onda?
assentiu sorrindo e se virou para mim, apoiando a cabeça com o braço.
– Eu tô muito bem.
– Você curte tanto assim ficar desse jeito?
– É bom, faz parte daquele lance de deixar ir. É praticamente uma terapia, você deveria experimentar, foi o que aconteceu com o Toby.
– Ah, não, quem sabe outra hora.
– Cara, você não é daqui, né? De onde você vem?
– Eu já te disse isso.
– Eu esqueci. – ela riu. – Me diz aí.
– Eu não tenho lugar fixo, vivo na estrada, fazendo meu trabalho.
– Eu não sabia que sociólogos eram nômades. – ela disse lentamente, parecia até que estava cansada.
– Eu sou um tipo diferente de sociólogo.
– Sei. – ela assentiu. – Você tem família?
– Tenho um irmão de sangue, um velho ranzinza que é como um pai e outras duas que eu considerava da família.
– Não considera mais?
– Considero, mas agora é como se não fosse mais, parece que nós não falamos mais a mesma língua.
– Mas não precisam ser todos iguais pra serem da família.
– Eu concordo, mas não foi nesse contexto que eu disse.
– Pode me explicar?
– Eu poderia, mas você não entenderia.
– Hm... – ela fez uma cara pensativa. – Vocês brigaram e foi cada um pro seu lado?
– É, pode-se dizer que sim.
Ela soltou um muxoxo e se levantou num pulo, se sentando ao meu lado.
– Isso acontece na família de todo mundo, irmão.
– Na sua também?
– De vez em quando, sim. Mas aí a gente se resolve depois de uma conversa aberta e franca.
– Ah, é, esqueci que vocês são do tipo livro aberto.
– Você e sua família também deveriam.
Eu assenti pensativo. Eu concordava com ela. Talvez se eu e Sam conversássemos abertamente sobre tudo sem a intenção de julgar ou dar lição de moral, quem sabe ele não teria mascarado o principal e falado realmente tudo o que estava acontecendo com ele há algum tempo. Eu poderia tê-lo ajudado, nós poderíamos tê-lo ajudado a ver as coisas por outro ponto de vista e talvez ele tivesse voltado atrás quando ainda havia tempo. E assim todo mundo sairia feliz.
Mas não. Ele tinha que esconder tudo, tinha que ocultar a loucura que estava fazendo. E o pior é que ele fez eu me sentir culpado, já que era óbvio que ele não falou nada porque sabia que eu não concordaria. O que ele não entende é que eu poderia tentar compreender o lado dele e quem sabe até mesmo o apoiar... Ah, esquece. A quem eu tô tentando enganar?
– A gente também conversa, se quer saber. – respondi. – Não tanto quanto deveria, eu confesso. Mas é que eu acredito que há certas coisas que os outros não precisam saber... Mas nem por isso eu deixei de ser honesto com cada um deles. Mesmo que nem todos tenham sido honestos comigo.
Ela assentiu, e eu duvidava muito que ela tenha entendido uma palavra minha.
– É por isso que você tá sozinho agora?
– Figurativamente sim.
– E literalmente?
– Não, meu irmão tá na cidade.
– Ah, mas e os outros?
– Bom, o velho ranzinza tem uma vida pra cuidar e as outras duas... Estamos trabalhando nisso.
– O que isso significa?
– Que elas estão meio perdidas.
– E vocês estão tentando trazê-las de volta?
– É.
– Entendi... Que bonito, isso prova que apesar de vocês não falarem a mesma língua ou terem brigado, vocês ainda se importam com elas. Eu tenho certeza que elas também se importam com vocês.
E eu não pude conter o sorriso sutil que apareceu no meio da minha cara. Ela nem sabia que estava falando dela mesma e da irmã.
– Eu sei que sim, mas os problemas não param por aí.
– Se parassem seria um conto de fadas.
Assenti concordando e então ela continuou:
– Qual é a fita?
Eu soltei um riso pelo modo dela falar e então respondi:
– Bom, a gente acabou se afastando por causa de uma briga mesmo. Ainda nos falamos, mas não é a mesma coisa, sabe?
– Sei. Isso se chama rancor. Não seria mais fácil se vocês conversassem?
– Você realmente é adepta ao relacionamento aberto.
– Sou sim, isso sempre funciona.
– Pode ser, mas eu não sou muito fã de ficar falando.
– Eu percebi, mas como vocês vão se resolver então?
– Eu não sou muito fã, mas isso não significa que eu não converso com a pessoa. Mas uma conversa tem que fluir dos dois lados, e eu já fiz minha parte.
– Elas não querem saber. – presumiu.
– Não é isso exatamente. Uma delas não se apega muito ao que aconteceu, mas em compensação a irmã dela... Como eu posso dizer?
– É pra lá de russo, barra pesada, invocada?
– Não sei o que isso significa, não exatamente, e não sei se invocada seria o termo correto. Mas sim, ele é meio difícil de lidar.
– Talvez ela só queira que vocês compreendam o lado dela.
Eu assenti.
– Na verdade, eu acho que compreendo mais do que qualquer um.
– Hm, tem uma nuvem de culpa em cima de você. O que foi que você fez?
– Eu não fiz nada.
– Nossa, que mentira. Qual o lance?
Suspirei.
– Tá, talvez eu tenha minha parcela de culpa. Acabei tomando uma decisão que afetou muito o que tava rolando entre a gente.
– Rolando entre vo... Hm, estavam juntos?
– É, eu não posso dizer que era tudo maravilhoso, a gente passava a maior parte do tempo discutindo e se desentendendo, mas eu não posso reclamar dos poucos momentos de paz que tivemos.
– Então por que você acabou tudo?
Eu a olhei com uma sobrancelha erguida. Pelo tom de voz dela, parecia até que era ela mesma pedindo satisfação.
– Bom, pra ela estar com raiva de você, foi você quem acabou com tudo né? – ela perguntou.
Eu meneei a cabeça.
– É, não exatamente. Foi ela quem acabou com tudo por causa de umas decisões minhas, isso não vem ao caso agora.
– Isso faz muito tempo?
– Mais ou menos.
– E você quer voltar aos mesmos erros?
– Ah, não foi tão errado assim.
– Se fosse o certo, não teria acabado. Se ela tivesse tanta certeza quanto vocês dois, ela teria compreendido você do mesmo jeito que você a compreende agora. Vocês não teriam se afastado e estaria tudo bem. Ou se tudo tivesse acabado, seria por outros motivos, mas você não se culparia.
E então o que ela me disse me fez pensar. Eu não tinha duvidas do quanto ela queria que tudo desse certo entre nós, assim como eu. Mas ela querer uma coisa, não queria dizer que ela tinha que necessariamente acreditar que daria certo.
Tem coisas na vida que por mais que a gente goste, às vezes é mais fácil simplesmente deixar pra lá.
Será que estávamos tão mal assim a ponto de fazê-la pegar a saída mais fácil?
Eu não conseguia enxergar o erro.
– Bom, eu não sei te responder.
– Eu gostaria de poder ajudar, mas não conheço sua historia. Mas posso falar com propriedade que entendo melhor que qualquer um aqui esse lance.
– Ah, é? Por quê?
Ela deu de ombros e começou a pensar. Eu não sei se o baseado atrapalhou ou ajudou, mas ela levou mais tempo que uma pessoa em sã consciência levaria para criar uma linha de raciocínio.
– Isso foi há muito tempo. E como você já sabe, eu tive um Dean na minha vida.
Opa, agora a curiosidade aguçou.
– É? E como foi?
Ela deu de ombros.
– Depende do ponto de vista, oras... Não foi de todo ruim. É difícil de acreditar, até hoje eu não entendo como alguém como eu fui acabar gostando de uma pessoa tão insensível como ele. Qualquer um que nos via falava que a gente não dava certo juntos. Eu não queria ouvir nem acreditar.
– Hein?
– É, ele era o contrário de mim. Impaciente, bruto, e totalmente fechado pra comunicação. Era pra lá de russo.
– Ah, é? E por isso você o dispensou? – eu não tinha a menor ideia do que “pra lá de russo” significava.
Ela soltou um riso miserável.
– Muito pelo contrário. Ele era daquele jeito, mas eu gostava. Eu era uma masoquista abilolada, bem diferente dessa sua namoradinha aí, que acordou antes que fosse tarde demais.
– Você usou do seu próprio conselho e falou com ele?
– Eu tentei, mas ele não era muito de ouvir os outros. É complicado. – suspirou. – Mas aí, um dia ele acabou tudo, mas eu não fiquei tão surpresa. Com o tempo eu percebi que eu gostava mais dele que o contrário.
– Talvez ele gostasse mais do que era capaz de demonstrar.
– Pode ser, mas ele era bom demais ou egoísta demais pra se dedicar a uma vida a dois. Ele vivia o momento.
– E você não é assim agora?
– Sim, mas naquela época eu não pensava só no momento, eu era muito sonhadora. Acreditei até o final que tudo se encaixaria. Então você pode imaginar o quanto eu fiquei destruída quando ele deu as costas e foi embora. – e aos poucos ela foi abrindo um sorriso. – Eu acabei conhecendo o que chamo de família. Essas pessoas me acolheram e ajudaram de uma forma que ninguém mais poderia fazer. Aí eu percebi que o que me aconteceu no passado só foi uma forma de me fazer encontrar o meu caminho e chegar aqui. Aprendi a aceitar o que o destino tem pra mim, e agora eu vivo um dia de cada vez e eu me sinto mais feliz e realizada. Agora me diz aí, isso tudo é ou não o meu destino, ser feliz?
Eu não soube responder. Sinceramente, eu nem sabia se aquilo tudo era uma grande paranoia da cabeça dela ou era realmente ela falando, sem toda aquela guarda armada.

Dean's P.O.V Off

...

– E aí? – Sam cumprimentou o irmão assim que adentrou o quarto com o jantar em mãos.
Dean, que estava sentado na cama, se levantou e foi até a mesa.
– Que bom que trouxe o rango. Como foi o primeiro dia de trabalho?
– Há-há. – ele tirou o paletó e o jogou na cama. Sentou-se e afrouxou a gravata. – Bom, eu não tive muito sucesso, mas posso afirmar com toda certeza que aquela não é a que a gente conhece. Conversei com algumas pessoas daquele escritório e todo mundo acha ela a megera do prédio. E olha que ninguém precisou dizer nada explicito pra eu chegar a essa conclusão. Hoje de manhã ela me fez rodar quase duas horas pra comprar o seu chocolate quente com leite de castanhas, canela e sem açúcar. E nem preciso dizer que ela me mandou jogar tudo fora quando notou que estava frio. – Dean riu com a boca cheia e Sam continuou: – É, e além disso, eu tive que buscar a Tiffany e depois leva-la até a casa dela.
– Tiffany?
– O Crista Chinês que a tem.
– Você colocou um cachorro no meu carro? – então ele ficou sério num piscar de olhos.
– Foi por uma boa causa, Dean.
– É um cachorro, Sam!
– Eu sei, mas ele tinha acabado de sair do pet-shop, relaxa, seu carro tá intacto.
– Ele tá cheirando a cachorro!
Sam tomou um gole de refrigerante e resolveu encerrar o assunto, continuando seu relato:
– Enfim, eu fui a casa dela e não encontrei nada que pudesse indicar que há uma bruxa entre nós.
– Isso é ruim.
– Não exatamente, ainda tem o escritório, e pensando bem, lá é o lugar mais lógico e estratégico pra ter algum feitiço. Acredite se quiser, mas muita gente naquela empresa está ali há mais tempo que a própria , mas ninguém se lembra exatamente quanto tempo ela tá lá. Acho que o feitiço serve não só pra ela, mas pra todo mundo ali.
– Pra que um feitiço pra apagar a memoria de todo mundo se é mais fácil fazer um de distorção de realidade?
– Eu não sei, mas é uma possibilidade. Acredita que a namorou um cara chamado Sam, mas os dois acabaram terminando? Isso me leva a crer que a memoria delas não foram totalmente apagadas, mas sim, modificadas. Mas eu preciso ter certeza antes de pesquisar qualquer coisa.
– Eu posso te dar essa certeza. Eu estava na casa da até agora há pouco. Ela também conheceu um cara chamado Dean, mas as coisas também não foram adiante.
– E ela também odeia esse cara? – perguntou para caçoar o irmão, que só rolou os olhos, mas acabou por responder:
– Não, ela o perdoou e seguiu em frente. Por isso virou hippie.
E não deu outra. Sam começou a rir, arrancando um olhar cético do irmão.
– A melhor parte do meu dia foi definitivamente ver ela vestida daquele jeito. Daria qualquer coisa pra vê-la chapada.
– Confesso que foi interessante, mas ela tá pirando, juro que tive que me controlar pra não chacoalhar o ombro dela até fazê-la se lembrar de tudo.
– Eu sei, eu também. Ainda mais depois de descobrir que a não passou a noite interior em casa e ter a visto trocar um sorriso muito duvidoso com o sócio, que é casado.
Dean chiou.
– Isso tá ficando interessante.
– Só pra você. E então, foi a casa dela e encontrou alguma coisa? Você trabalhou?
– Claro que trabalhei... Como podia. Ela compartilha uma casa com vinte e nove pessoas, cara, você não vai nem no banheiro sozinho, aquilo é um inferno, só tem gente dançando pelada, dividindo o baseado e ouvindo Lucy in the Sky with Diamonds enquanto rola a maior orgia.
Sam franziu o cenho.
– Isso aconteceu?
– Não nessa ordem e menos enfatizado.
– Isso é... Estranho. Como a fica num lugar desses?
– Cara, eu não sei, ela tá fora de si.
– Alguém lá se lembra de alguma coisa antes de tudo isso acontecer?
– Sam, todo mundo é doido ali, não dá pra levar a sério o que eles falam. E se for bruxaria, vai ser difícil encontrar alguma coisa por lá, não tem nem como a gente entrar lá e revirar tudo sem ser percebido. A não ser que eles estejam chapados.
– É, mas ainda assim vai ser difícil... Mas pode ser possível que tudo tenha acontecido lá, Dean. Muitos adeptos da subcultura curtem esse lance de ocultismo.
– Mas por que um deles faria isso com elas?
– Não sei.
– E, além disso, aquela gente pode não ter nenhuma relação com isso. Uma bruxa não deixaria tudo tão óbvio, né? Ela é poderosa e deve ser mais esperta que isso.
– É, pensando bem, ela seria mais sutil que isso.
– É.
Sam suspirou.
– Eu vou até o escritório mais tarde. Se não tiver nada lá também, só pode ser coisa de um Brincalhão, se não for o próprio Gabriel.
– Nem brinca com uma coisa dessas, ainda não superei os últimos contatos que tivemos com ele.
– Então torça pra que não seja ele.
– Mas pelo menos a gente vai saber como acabar com tudo, caso seja ele. Se for uma bruxa, além de termos mais trabalho pra saber quem ela é, vamos ter um trabalhão pra saber como acabar com o feitiço.
– Matá-la também acabaria com o feitiço.
– Você sabe matar uma bruxa? A gente já foi passado pra trás algumas vezes.
– O Bobby deve saber de alguma coisa.
– Enquanto você vai ao escritório eu vou dar uma pesquisada, antes de pedirmos ajuda a alguém.
– Beleza.

...

Sam adentrou o escritório com uma lanterna em mãos e sem nem um pouco de sutileza, afinal, ele estava sozinho.
Pelo menos era o que ele achava, porque logo depois, uma porta do outro lado do escritório se abriu, deixando um feixe de luz aparecer. Era .
– Quem é que tá aí? – ela perguntou, caminhando até um interruptor.
Sam engoliu em seco.
– Sou eu, o Sam. – ele soltou um riso nervoso no final.
acendeu a luz no mesmo instante que Sam escondeu a lanterna.
– Novato, o que faz aqui?
– Ah... E-eu, eu vim terminar a maquete.
– Hã?
– É, eu acabei não tendo tempo pra terminar e eu queria terminar ela antes que fosse tarde demais. Eu não queria dar a chance de você não conseguir o projeto final.
assentiu e então sorriu.
– Ah, que fofo da sua parte. Obrigada. A reunião será amanhã à noite, daria tempo de terminar no expediente.
– Eu não quis arriscar.
– Certo, gostei do seu profissionalismo. Posso te confessar uma coisa?
– Claro.
– Eu tava mexendo nela agora mesmo.
– Ah, é?
– É, me desculpe, mas eu não consegui deixar do jeito que estava, parece que foi feito por uma criança.
Ele sorriu sem graça.
– Vem. – o chamou.
Sam acabou indo, planejando terminar a maquete logo para poder ir embora e finalmente, ele poder dar uma olhada pelo escritório.
Mas nada foi como ele planejava.
Os dois foram terminando a maquete. Sam era responsável só pelo paisagismo, mas acabou acrescentando outros detalhes e em meio ao trabalho, ambos acabaram conversando. O tempo foi passando, a conversa foi fluindo e os dois acabaram sentados à mesa da cozinha, comendo o que sobrara do bolo, e tomando refrigerante.
No momento, quase chorava de tanto rir de uma das histórias de garoto que Sam contou. A narrativa era verídica, e contava com Dean, John e o Grand Canyon, e Sam só se lembrou depois de contar que havia ido para lá com uma colega da faculdade chamada .
Coincidência? Sam achava que não.
– Caramba. – ela acabou por dizer, secando o canto dos olhos. – Você teve uma infância e tanto, novato.
– É, eu não posso reclamar.
Ela assentiu e comeu um pedaço de bolo.
– Que bom que você tem essas lembranças pra matar as saudades que sente do seu pai.
– É, mas eu não posso dizer o mesmo da minha mãe.
– Bom, eu também não. E meu pai mal parava em casa, eu não tenho muitas lembranças dele.
– E você não tem irmãos?
– Não. Filha única e loba solitária desde que meu pai morreu.
– Você parece confortável falando da solidão.
– Ué, eu não posso reclamar, não mudaria nada. Além do mais, eu gosto de ficar sozinha. Você não precisa se preocupar com ninguém, não precisar avisar quando vai chegar tarde e tudo bem se você não quiser cozinhar o jantar. Você não precisa do consentimento de ninguém, nem mesmo precisa ficar falando sobre sua família pra alguém que acabou de conhecer.
– Ah, desculpe te incomodar.
– Não tá me incomodando não. Sinceramente, eu tô me sentindo bem confortável falando sobre minha família com você, e eu não costumo fazer isso.
– Isso é bom, pelo menos pra mim.
então sorriu de canto.
– Me diga, novato, você tem namorada?
Ele meneou a cabeça.
– Não exatamente. Eu conheci a melhor garota que eu poderia ter conhecido, ficamos juntos por quase dois anos, mas então acabou.
– Eu posso saber por quê?
– Porque eu acabei estragando tudo. Não pensei só em mim, mas acabei ferrando tudo por querer poupa-la. Você não vai entender, mas pra resumir, acabei ocultando coisas que não deveria.
– Você a traiu com a melhor amiga dela e ocultou tudo até que foi descoberto?
– Quê? Não, que imaginação você tem.
Ela riu.
– Eu sei, assisto a muitos filmes. Enfim, aí é que tá o erro dos homens. Vocês sempre ocultam coisas importantes com a desculpa de querer poupar a mulher, que conversa fiada. Nenhuma mulher quer ser poupada. A mulher quer se sentir importante para o homem a ponto de saber que ele compartilha seus problemas com ela, não com seus amigos numa mesa de bar. Somos mais fortes do que vocês pensam, novato. Não poupe os detalhes sórdidos.
– Eu só não queria preocupa-la ainda mais.
– As pessoas se preocupam com quem ama, é normal. Talvez você tenha vacilado, mas se você quer resolver tudo, talvez devesse ser sincero com ela.
– Nós já conversamos.
– E aí?
– Ela me perdoou, mas não quer voltar. Acha que devemos ir com calma.
– Ah, que bom. Eu fico feliz por vocês. Você realmente gosta dela, seus olhos não pararam de brilhar um segundo desde que falou dela.
Ele sorriu sem graça e baixou a cabeça.
– Relaxa, Sam. Se ela for realmente a mulher da sua vida, você vai sobreviver a isso... Que cara é essa?
– Você me chamou de Sam. É a primeira vez que me chama assim.
– Que isso, eu tenho certeza que te chamei assim naquela manhã na cafeteria e na entrevista.
– Mas parou de repente.
– Porque eu gostei de te chamar de novato. Mas posso te chamar de Winchester, se quiser.
– Por que não me chama de Sam? Meu nome é tão estranho assim?
– Não é isso... Eu não gosto muito de citar esse nome.
– Por quê? – Ela meneou a cabeça, o que o deixou ainda mais curioso. – Qual é, acabei de me abrir pra você, acho que a gente já passou da fase chefe e empregado, né?
– É, parece que sim, e é isso que me assusta, você trabalha aqui há um dia... Mas enfim, é... Eu não te chamo pelo nome porque eu já quebrei a cara com um Sam. Nós ficamos juntos por um tempo, e a gente se dava bem. Mas aí, nos últimos meses dessa relação, eu acabei descobrindo uma traição. Eu não pude simplesmente fechar meus olhos só porque gostava dele.
– Ele te traiu? – perguntou estranhando.
– É, não com outra mulher, mas como você sabe, existem outros tipos de traição. Ele mentiu pra mim por meses, e eu o dei várias chances de dizer a verdade, mas ele preferiu manter a mentira. Nenhum relacionamento sobrevive a isso.
Ele só assentiu. comeu o restante do bolo em seu prato e se levantou, deixando o seu prato e o de Sam na pia.
– Vou passar mais tempo que o programado na academia por sua causa, novato.
Sam soltou um riso e se levantou para guardar o bolo.
– Que isso, você tá ótima.
Ela sorriu e parou ao lado da geladeira, onde Sam estava.
– Obrigada, Sam. – então aos poucos ela foi fazendo uma cara confusa até dar risada. – Te chamei pelo nome de novo.
– Talvez seja porque não existe mais rancor entre você e o qualquer outro Sam.
– Pode ser.
voltou para a pia e começou a lavar os pratos, enquanto Sam se apoiava na mesa.
– Você acha que esse projeto será meu amanhã?
– Claro que sim. A maquete ficou ótima.
– E seu paisagismo não ficou tão ruim assim.
– Ah, obrigado pela parte que me toca.
– Por nada. Sabe, se eu ganhar esse projeto final, eu quero que você faça parte da equipe.
– Eu?
– É, assim você adquire conhecimento e quem sabe um dia, você lidera um projeto também?
– É, quem sabe. – ele esperava que as coisas não chegassem a esse ponto.
– Posso te falar uma coisa? Por favor, que não saia daqui.
– Pode falar.
secou as mãos e recostou na pia, de frente para Sam.
– Eu não entendo como aqueles idiotas preferiram o projeto do Ethan ao meu. Eu não quero ser arrogante nem nada, mas o meu estava muito mais interessante.
– Eu tenho certeza que sim.
– É, e eu tenho a leve impressão de que preferiram o dele porque além do Ethan ter sido colega de faculdade de um dos engomadinhos que vieram, ele também deu um baita desconto. Só porque ele é dono de metade disso aqui, você acha que ele tem direito de fazer isso?
– Na verdade, ele tem sim.
– É, pode ser, mas o filho da mãe sabia o quanto eu tava ansiosa pra conseguir esse projeto. Ele teve a coragem de olhar nos meus olhos e dizer que facilitaria pra mim, mas acabou me apunhalando pelas costas na última hora. E sabe por que ele fez isso?
– Não tenho ideia.
– Porque ele é egoísta e coloca o dinheiro acima de tudo. Ele finge que é seu amigo, te ajuda, te oferece apoio e depois puxa o tapete. E o pior é que ele é o maior cara de pau! Finge que nada aconteceu e ainda por cima vem com aquele papo de "eu sei que você fez o possível". Ah, que ódio. – finalizou balançando a cabeça inconformada.
– Olha, amanhã ninguém vai competir com você. É só apresentar sua maquete da forma que você acredita e pronto.
– Mas ainda assim eu posso acabar levando um não. E o pior é que não vou poder recomeçar o projeto, provavelmente eles vão cancelar o contrato, e adivinha quem vai estar lá pra satisfazer o cliente?
– O Ethan.
– Exato.
– Olha, você não pode ficar pensando nisso. Eu nunca vi você apresentar um projeto, mas eu já ouvi de gente daqui o quão talentosa você é.
– Isso é novidade. Todo mundo aqui me odeia.
– Não é verdade.
– É verdade sim.
– Eu não te odeio.
– Você começou ontem. Eu vou te enlouquecer em dois tempos.
– Eu sou muito paciente.
– Ah, que bom, você vai precisar de paciência... De qualquer maneira, você só fala essas coisas pra me agradar, e conseguiu. – suspirou e desencostou da pia. – Eu acho melhor a gente ir, novato. Amanhã o dia será longo.
Sam se desencostou da mesa e assim que pegou suas coisas, os dois saíram.
Sam esperou algum tempo até poder voltar ao escritório. Deu uma boa olhada pelo local, mas conforme não encontrava nada, ele torcia para que o irmão tivesse encontrado alguma coisa.
Chegando ao motel, Sam encontrou o irmão sentado à mesa, tomando café e com cara de sono, enquanto mexia no laptop.
– E aí?
Sam suspirou e se sentou de frente para o irmão.
– Não tem nada na casa, nem no escritório dela. Definitivamente não é uma bruxa.
– Concordo e ainda descarto o Brincalhão. Depois que de não ter achado nada no quarto delas, eu dei uma pesquisada sobre as coisas que rolaram nessa cidade, e eu não sei como você deixou isso passar. Peter Bangley foi internado mês passado, acordou de repente, alegando ser um cara chamado John Stuart, que por acaso morreu há cinquenta anos.
– Estranho.
– Sim. Lisa Watson tentou suicídio após perceber que sua vida não era mais a mesma e tudo perdeu o sentido. Agora ela tá fazendo companhia ao Peter. Isso aconteceu há duas semanas.
– Acha que tem a ver com o que aconteceu com elas?
– Eu diria que não, se não houvesse textos na internet relatando que houve uma epidemia na cidade vizinha nos anos vinte.
– Epidemia?
– Sim, pelo que parece, a cidade teve uma epidemia de amnésia, causando confusão em muitas famílias. Obvio que hoje não tem ninguém pra contar história, mas...
– A vida daquelas pessoas também foi alterada.
– É.
– Acha que hoje tá acontecendo isso aqui?
– Olha, pode ser, mas numa escala bem reduzida, não tem muitos casos de esquecimento.
– Bom, a cidade é pequena, se for uma divindade de milhares de anos, mudar a memoria de toda essa gente seria fácil.
– Acha que a cidade toda tá com problemas de memória?
– Por que não poderia?
Dean meneou a cabeça.
– É muita gente pra ajudar.

...

No dia seguinte.

Como no dia anterior, Sam chegou ao escritório antes de . A moça chegou minutos depois, e já estava tomando seu café especial da lanchonete vegana. Sorridente e com o olhar esperançoso, Sam gostou de vê-la daquela forma. Não que nunca tenha a visto daquele jeito antes, mas daquela vez, aquele semblante era por causas naturais, não por ter conseguido sobreviver a mais um dia de caçada.
Talvez esse fosse o único ponto positivo daquela vida que ela estava vivendo, a felicidade era verdadeira, e ele se sentia mal por ter que intervir, até um pouco egoísta, mas ele tinha certeza que se soubesse o que estava acontecendo, ela não pensaria duas vezes em buscar uma solução. Não era nem por causa dele ou porque a realidade era outra, mas sim por causa da irmã, afinal, ela tinha sim, uma família.
– Bom dia, novato. – ela disse simpática assim que se aproximou.
– Bom dia.
– Pode vir aqui um minutinho?
Sam assentiu e a seguiu até sua sala. se sentou em sua cadeira e Sam sentou-se de frente para ela, esperando que ela falasse.
Depois de tomar um gole de café e ligar os computadores, ela começou.
– Pode me passar a minha agenda, por favor? A que eu tenho aqui ficou uma bagunça e a Lucy não teve tempo de me passar.
– Claro, só um segundo. – ele saiu e pegou a agenda de . Voltou ao escritório e começou a passar os compromissos da moça para aquele dia. – E então, no fim do expediente você tem que apresentar a maquete.
– Ah, isso eu já sabia, mal dormi a noite pensando nisso.
– Você vai se sair bem.
– Tomara. – ela fez uma pausa e sorriu, depois tomou um gole de café e continuou: – Por falar em passar a noite acordada, eu tive a noite mais estranha da minha vida. Dormi pouco e acredita que toda vez que eu conseguia dormir, eu sonhava com você?
– Comigo?
– É – ela respondeu risonha. – E não foi coisas comuns, tipo eu te pedindo pra ir buscar a Tiffany ou te escravizando o dia todo e você fazendo voodoo pra se vingar. Foi umas coisas muito estranhas, tipo... – ela fez uma pausa e repensou. – Acho melhor deixar quieto.
– O quê? Por quê?
– Porque é estranho e ridículo, você vai achar que eu sou louca.
– Eu já vi e ouvi muita coisa estranha e ridícula na minha vida, vou superar. Pode falar.
repensou mais uma vez e soltou um riso antes de dizer.
– Ah, que se dane. Eu sonhei que a gente andava junto por aí no carro do seu irmão, e tinha outro cara e uma moça com a gente também. Em alguns sonhos, nós quatro estávamos em bares, conversando sobre filmes e em outros, escuta só, a gente era uma espécie de caça-fantasmas! – ela ergueu as mãos, como se aquele fosse o ápice do momento. – Acredita nisso?! Pode me chamar de louca agora.
Sam pendeu a cabeça. estava tendo fragmentos de memoria, não havia outra teoria, e aquilo era muito bom. Mas ainda assim ele não poderia simplesmente jogar toda a verdade no ventilador. Para , aquela era sua realidade, e se ele desmentisse tudo e a corrigisse, além de confundi-la, aquilo só a atrapalharia na recuperação da memoria.
Então ele só balançou a cabeça e riu sem graça.
– Não é tanta loucura assim, já ouvi coisas piores.
– Ah, qual é. Caça fantasmas? Sério? E outra, sonhar com alguém que você mal conhece e outras pessoas que nunca viu antes é meio louco.
– Mas possível.
– Não quando você sonha coisas diferentes com as mesmas pessoas. É muito ridículo. – Ele meneou a cabeça. riu e então balançou a cabeça. – Bom, vamos começar o trabalho, novato.
Sam assentiu e se levantou, saindo logo a seguir.

– Ela sonhou com a gente? Isso é bom, não é? – Dean perguntou ao irmão. Estavam ao telefone.
É, significa que as memorias estão voltando, então pode ser que ela se lembre de tudo de uma hora pra outra. Como tá indo aí na lanchonete?
– É, eu não tenho muita certeza, mas acho que as coisas estão começando a mudar aqui também. A tá me parecendo menos paz e amor e de vez em quando, ela lança um olhar cético pra um pessoal aqui. Mas não dá pra ter certeza.
Falou com ela?
– Falei, e ela disse um “namastê” meio rude.
Pode ser que esteja voltando ao normal. Se ela te contar que sonhou com você, significa que tá funcionando.
– Ou que ela tava chapada. – Sam soltou um riso pelo nariz. – De qualquer maneira, eu vou falar com ela.
Ok, eu preciso desligar.
– Tá querendo sua foto no mural do funcionário do mês, é?
Não enche.
Dean riu do irmão e desligou o celular. logo se aproximou para atender um cara que estava sentado ao seu lado.
Depois de servir o café para o estranho, ela se apoiou na frente de Dean.
– E aí, vai querer mais alguma coisa?
– Não, o café já tá bom, comida vegetariana não faz muito meu estilo.
– E você vai ficar aqui fazendo o quê?
– Na verdade, eu já tava de saída. Tá tudo bem? Parece estressada.
Ela suspirou cansada e balançou a cabeça.
– Eu tô bem, acordei num mal dia.
– Achei que não tivesse dias ruins.
– Eu também achei, mas acordei me sentindo diferente.
– Bom, ninguém é o mesmo sempre, nem acorda de bom humor todo dia.
– O problema não é o bom humor, eu só não sinto mais aquela coisa que eu sentia. – mais um suspiro de sofrimento. – Enfim, você vai à feira hoje?
– Algum problema se eu for?
– Não, eu gostaria quer você fosse, gosto da sua companhia.
– As pessoas geralmente acham um problema quando eu tô por perto.
– Talvez as pessoas que estejam perto de você sejam o problema. A comunidade toda gostou de você.
– Eles são legais.
– Eu já disse que percebo quando uma pessoa mente pra mim, Dean.
– Eu não tô mentindo. Eles são estranhos, mas não são tão ruins.
– Eu não disse que tava mentindo. Eu ia dizer que sabia que você ia gostar deles. A gente se vê mais tarde?
– Claro. – ele disse se levantando e deixando o dinheiro no balcão.

...

Mais tarde, depois de almoçar, Sam voltou para o escritório. O elevador mal tinha chegado ao andar, que ele ouviu gritarias. Eram duas pessoas discutindo e uma delas ele conhecia bem. .
Quando ele adentrou o escritório, teve certeza.
estava na copa com uma caneca de café nas mãos e Ethan estava do outro lado, próximo da janela, usando uma das impressoras. Todo mundo trabalhava, mas era obvio que prestavam atenção na discussão que estava pra lá de calorosa. Os dois se xingavam e trocavam palavras ofensivas, desmerecendo o trabalho do outro. Pelo que Sam entendeu, ambos discutiam porque Ethan conseguiu o último projeto de maneira mesquinha, e se sentiu traída. Ethan por outro lado falava que ela não servia para os negócios, que se importava mais com a estética sendo que poupar e ganhar dinheiro que importava.
– QUER SABER DE UMA COISA, ETHAN? – disse deixando a caneca em cima da pia e caminhando até Ethan. – EU QUERO QUE VOCÊ SE EXPLODA, SEU DESGRAÇADO. EU POSSO NÃO SER BOA NOS NEGOCIOS COMO VOCÊ DIZ, MAS PELO MENOS EU FAÇO MEU SERVIÇO DIREITO, NÃO ENTREGO QUALQUER PORCARIA VISANDO O LUCRO, COMO VOCÊ FAZ.
– E É EXATAMENTE POR ISSO QUE VOCÊ QUASE NÃO TEM PROJETO NENHUM. SABE ONDE ESTARÍAMOS AGORA SE NÃO FOSSE POR MIM E MINHA GANANCIA? ESSA EMPRESA NÃO EXISTIRIA, . VOCÊ TERIA ACABADO COM TUDO ANTES MESMO DE COMEÇARMOS.
– EU NÃO SEI ONDE QUE EU TAVA COM A CABEÇA QUANDO RESOLVI FAZER SOCIEDADE COM VOCÊ, ETHAN, VOCÊ ME DÁ NOJO!
– E VOCÊ É UMA LOUCA DESEQUILIBRADA!
– VAI PRO INFERNO! – ela disse caminhando furiosa pra sua sala e batendo a porta.
Ethan só balançou a cabeça em reprovação, com um sorriso discreto e debochado no rosto. Foi para sua sala calmamente e se isolou.
Sam foi para sua mesa e trocou olhares com Lucy, que só deu de ombros, como se dissesse “eu disse”. Após alguns segundos, ele se levantou e bateu duas vezes na porta, a abrindo a seguir, como sempre fazia.
estava de pé, virada para a janela e apoiada em um braço, assistindo a movimentação dos carros lá embaixo.
– Perdeu alguma coisa aqui, Novato? – ela perguntou seca.
– Não, eu só vim ver como está.
– Não somos da mesma família, nem amigos. Você é meu empregado e tem que fazer o que eu mandar, não dar uma de terapeuta.
E Sam achou que poderia dormir sem aquela. Naquele momento, vendo como estava, ele só queria se certificar que ela estava bem e poder ajudar o máximo possível, só para que ela não continuasse como estava no momento.
Mas pelo visto, foi um erro.
– Tem razão, me desculpe. Eu vou voltar pro meu lugar. – ele disse dando as costas.
Assim que Sam abriu a porta, ela disse:
– Não, tudo bem. Me desculpe, eu não devia ter falado assim com você. Senta aí.
Sam voltou a fechar a porta e se sentou. Observou por alguns segundos. A moça ainda estava de costas, como se tivesse viajando em seus pensamentos, ou simplesmente tentando decidir se falava ou não com ele.
Acabou por se virar e se sentar em sua cadeira. Evitava olhar para Sam, permanecia com a cabeça baixa, mas ainda assim, ele pode ver que ela estava com o nariz vermelho.
– Eu sei que é a primeira vez que você presencia isso, mas vai se acostumando porque coisas assim acontecem com frequência.
– Bom, o que acontece aqui não é da minha conta, eu não vou falar nada.
– Obrigada, eu sei que é impossível vocês não terem ouvido, mas desde que não saia daqui, tudo bem.
Ele assentiu. suspirou e continuou:
– E não precisa se preocupar, eu tô bem.
– Mesmo?
– É, eu já tô acostumada com o baixo nível do Ethan.
– Você não deveria levar em consideração o que ele fala, nada daquilo é verdade.
– Quer dizer então que eu não sou uma louca desequilibrada? – fez graça.
Sam meneou a cabeça, fingindo duvida, mas acabou por responder:
– Não.
– Eu sei que eu não sou flor que se cheire, mas não sou tão ruim assim.
– Eu sei que não. Olha, desculpe me intrometer, mas por que você continua trabalhando com ele se é meio óbvio que ele subestima você?
deu de ombros e pensou por alguns segundos.
– Eu não saberia pra onde ir. Faz tanto tempo que tô aqui que sinto que minha vida começou aqui. Temos os nossos dias ruins, mas também temos os bons.
– Eu creio que sim, mas você não precisa ficar ouvindo o que ele fala, nem permitir que ele jogue sujo pra conseguir um projeto.
– É, mas ele tá certo, eu não sou boa nos negócios, não teria conseguido se não fosse ele. E outra, antes de sócios, somos amigos, e a gente se resolve de um jeito ou de outro.
Sam só balançou a cabeça. Pelo jeito que falou, ele teve certeza que rolou alguma coisa entre ela e Ethan há dois dias.
– Tudo bem, mas se você quiser conversar comigo, eu tô aqui.
– Obrigada, Sam. Sabe, se você não tivesse uma namorada, acharia que você tá dando em cima de mim.
Sam deu um meio sorriso.
– Não, de jeito nenhum.
– É, você vem com esse seu jeito fofo e preocupado, falando sobre sua família e sua vida como seu a gente fosse intimo um do outro, ou se você quisesse que eu fizesse parte da sua vida.
– Ah, é só o meu jeito.
– Eu gosto do seu jeito. Sua namorada, qual o nome dela?
E então Sam gelou. Ele não pensou na possibilidade de perguntar o nome de sua namorada, e se ele dissesse que o nome dela também era , no mínimo ele seria tachado de mentiroso, porque nunca acharia que aquilo era uma coincidência.
Então ele acabou usando o nome do meio de :
– Elizabeth.
– Elizabeth? É meu nome do meio.
– É mesmo? Que legal.
– Pois é. A Elizabeth é uma garota de sorte.
– Eu acho que fui eu quem tirou a sorte grande.
assentiu e sorriu largamente.
– Ah, não! Eu não aguento tanto romantismo. Vai trabalhar, novato.
Sam sorriu e se levantou.

Dean se encontrou mais tarde com no parque. Àquela hora, a movimentação havia diminuído visualmente, e ela terminava de pintar o quadro do dia anterior, enquanto Toby e Zac tocavam e cantavam.
Os dois passaram a maior parte da tarde conversando, mas em nenhum momento, disse que havia tido sonhos estranhos com Dean, mas isso não o desanimou em nada. Na verdade, ele tinha certeza que estava voltando ao normal, porque conforme o tempo passava e a conversa fluía, ele percebia que ela falava menos como uma hippie e mais como uma pessoa normal, e até mesmo como a pessoa grossa que ela era, o que gerava até alguns comentários dos colegas e gerava certa estranheza no grupo. Esses momentos não eram frequentes, mas aconteciam. Ele percebia.
Os dois falavam sobre o interior do Texas com Jeremy, quando Paris, uma garota que vendia acessórios do outro lado do parque, se aproximou de com uma conversa o tanto quanto interessante para Dean.
– Namastê. – ela cumprimentou todo mundo e então olhou para sorrindo. – E aí, passou a briza?
a olhou com as sobrancelhas erguidas, como se pedisse para calar a boca.
– Qual o lance? – Jeremy perguntou.
Paris riu.
– A ontem na segunda onda. Ficou tão chapada que viajou geral.
– Você é muito ondeira, hein. – disse, fazendo Paris rir.
– O que foi que rolou? – Jeremy perguntou.
– A maninha aqui, contou umas histórias de quando ela e o Dean viajavam pelo país num Impala e caçavam monstros.
Então Jeremy olhou para e começou a rir. A moça rolou os olhos e balançou a cabeça, mas depois começou a rir. Dean olhou para com uma sobrancelha erguida. Pelo visto, as coisas estavam mesmo voltando ao normal.
– Conta aí pros caras como foi. – Paris disse.
deu de ombros.
– Eu nem lembro o que rolou, cara. Nem sabia que tava falando de você, Dean.
– Sério que você não lembra? – Jeremy perguntou. – Eu adoraria ouvir umas histórias.
– Eu não sei, mas a Paris deve saber, ela tá dando conta da minha vida até agora.
– Ah, eu...
Gente. – Lindsay, outra integrante do grupo se aproximou dos quatro. – Vocês souberam o que aconteceu agora há pouco?
– O quê? – Paris perguntou.
– A prefeitura mandou interditar o casarão.
– Como assim, cara? – Jeremy perguntou.
– Eu não sei, recebi uma ligação do Danny, e os caras estão tirando todo mundo de lá. Só não prenderam ninguém porque o Adam e ele fugiram com o estoque.
– Isso é um absurdo. – disse. – Onde a gente vai ficar agora?
– Eu não sei, vamos juntar a galera. – Jeremy disse se afastando e indo falar com os outros.
– Dean, você dá uma carona pra gente? – perguntou.
Ele deu de ombros e pendeu a cabeça.
– Tá.
Ele, , Paris e Lindsay adentraram o Challenger e então partiram para o casarão. Chegando lá, notaram que a casa estava mesmo fechada, e a policia tentava mandar todo mundo embora.
Depois de tentarem falar pacificamente com os policiais, o grupo resolveu se juntar próximo à Kombi de , dando a palavra para o guru, Carl, que disse que estava na hora de deixarem a cidade.
A grande maioria não concordou, argumentando que estava na hora de eles lutarem pelos seus direitos, já que a propriedade era dos avós falecidos de Edward, o baterista da banda.
Como todos ali viviam em consenso, todos resolveram fazer uma manifestação pacífica. Dean assistia tudo em silencio, mas acabou seguindo a Kombi de até o parque.
Todos levaram bons minutos para prepararem cartazes e seguirem para a prefeitura e não demorou muito para policiais cercarem o local, mas permitirem a manifestação, afinal, não estavam fazendo nada de mais.
Quando começou a anoitecer, a banda começou a tocar. Fizeram uma fogueira na praça de frente a prefeitura e até mesmo armaram barracas. Se não devolvessem a casa deles, bem, então ali seria seu novo lar.
Quando a noite chegou, as coisas começaram a perder o foco. Apesar de estarem mais comportados, eles acabaram iniciando outro sarau, e substituíram os cigarros por bolinhos e sanduíches batizados, na tentativa de mascarar o cheiro. E deu certo, não havia cheiro, mas o comportamento de uns deixava bem claro que estavam chapados.
por exemplo, comeu um sanduíche e um bolinho, e estava dançando sem ritmo nenhum e rindo por nada. Por incrível que pareça, Dean era o único que tinha juízo ali, e ele já tinha certeza que aquela manifestação não terminaria bem.
Ele só estava contando os minutos para tirar dali.
Por sorte, a moça logo se aproximou de um cara ao seu lado, reclamando de fome (mesmo que fizesse quase duas horas que havia comido), sede e sono.
– Mas eu preferia dormir primeiro. – ela finalizou para Marvin, um cara que não tinha condição nem de contar até dez sem pensar muito bem antes. – Você pode me deixar no meu carro? Eu não sei onde estacionei.
Marvin assentiu rindo, fazendo a moça rir também. O rapaz abraçou a moça pelo ombro, fazendo cambalear para trás e rir.
– Deixa que eu levo ela. – Dean disse puxando Marvin para seu lugar. – Eu acho melhor.
– Falou e disse, cara. – Marvin disse batendo lentamente em seu braço.
Dean o lançou um olhar de reprovação e puxou a moça pelo braço, que se despediu de Marvin e foi caminhando, tropeçando nos próprios pés.
– Você tá bem?
– Maravilha, é... É... – ela disse estralando os dedos, tentando se lembrar.
– Dean.
– Isso. – ela riu.
– Eu tô vendo que você tá ótima.
– Sabe, Dean, é sempre importante lutar pelos seus direitos.
– Mas funciona melhor quando você não tá chapado na frente da policia.
Ela riu.
– Essas coisas acontecem. Vamos comer mais tarde?
– Você quer deixar pra mais tarde? Podemos ir agora.
– Não, mais tarde. Quero um cheeseburguer bem grande, com muito bacon, acompanhado de batata-frita com cheddar e bastante ketchup... E um copão de Coca, não, Pepsi. Eu prefiro Pepsi.
– Achei que você comesse comida vegetariana.
– Que mané vegetariana, eu quero é carne, fritura descendo pela minha garganta.
– É, parece que os velhos hábitos estão voltando.
– Quê?
– Nada, chegamos.
Dean abriu a porta lateral da Kombi e praticamente se jogou no colchão. Ficou deitada de bruços e aos poucos, foi fechando os olhos. Dean acendeu a luz e se sentou na beirada. Em cima de uma das almofadas, viu uma coisa que reconheceu na mesma hora.
– Essa chave é sua? – era a chave do Challenger.
abriu os olhos e olhou o objeto nas mãos dele.
– Eu acordei um dia desses com ela no bolso. Acho que foi depois de uma farra, e alguém acabou esquecendo comigo.
– Sei.
Foi questão de minutos para os dois começarem a ouvir uma gritaria e até mesmo uns estrondos. A música que tocava de longe foi interrompida, fazendo-o se levantar e checar o que era.
De longe, ele viu alguns membros da comunidade correndo em sua direção.
– O que tá rolando? – ele perguntou a uma moça.
– Os caras estão prendendo geral.
– A policia?
– É. – um dos rapazes que a acompanhava respondeu, já de longe. – A manifestação deu ruim.
E então sumiram na escuridão. Dean se virou para e a acordou, puxando-a pelo braço.
– Hm, qual o lance? – ela perguntou sonolenta.
– Acho melhor a gente sair daqui.
Ela nem contestou mais, foi praticamente arrastada para dentro do Challenger e então, Dean dirigiu direto para o motel.

– Isso é ultrajante. – Melvin disse enquanto assistia pela TV o quebra-quebra que rolava em frente à prefeitura.
– Mas eles só estão reivindicando o lar. – Melinda disse.
– Uma ova, estão fazendo a maior baderna. Não basta matarem a si mesmos com a poluição sonora e as drogas, eles precisam prejudicar o transito. Eu não quero nem imaginar a hora que vou chegar em casa. Já fazia cerca de uma hora e meia que estava na reunião, apresentando sua maquete. Sam não pode deixar de conter a ansiedade e achar sua reação ridícula, já que nada daquilo era real.
Mas era de suma importância para .
Enquanto via o noticiário, já sabendo que o irmão e estavam lá, ele ouviu a porta da sala de reunião se abrir.
saiu de lá conversando com um dos engravatados. Quando ela o olhou, lançou um sorriso que deixava bem claro sua vitória. Sam fez um joinha, e conduziu os homens até o elevador. Quando voltou, deu a noticia para os colegas de trabalho, e como aconteceu com Ethan, todos aplaudiram.
– Bom, eu já tinha em mente a minha equipe formada, então eu não vou martirizar vocês com suspense. Jefferson, Peter, Melinda, Matthew e novato estão dentro.
Novamente, uma salva de palmas se fez.
– Muito obrigada gente, como vocês sabem, esse é o maior projeto do ano, e é uma grande vitória não só pra mim, mas pra vocês também, então que tal comemorar?
– A Lucy poderia preparar aquele ponche que ela fez no aniversário da empresa na semana passada. – Peter disse, recebendo apoio de outros colegas.
– Com certeza, o que acha, Lucy? – perguntou.
– Eu adoraria, mas não dá pra preparar um agora.
– Tudo bem, mas não se esqueça de trazer, é o melhor ponche que provei na minha vida.
– Pode deixar. Eu vou buscar o champanhe. – ela disse indo até a cozinha.
Depois de cumprimentar alguns colegas, ela se aproximou de Sam, sorrindo.
– Animado pra fazer parte da equipe?
– Eu não acreditei quando você disse que faria isso.
– Eu sempre cumpro o que eu falo, novato. E sinta-se honrado, nunca que eu colocaria um assistente num projeto. Não sei por que ainda fiz isso, mas eu sinto algo grande em você.
– Obrigado.
– Disponha. – ela se aproximou dos outros e então, após abrirem o champanhe, todos brindaram e voltaram ao trabalho a seguir.


...

O expediente já estava acabando. A maioria dos empregados já havia ido embora, só restando Sam, e alguns outros, que assistiam ao noticiário, esperando que o trânsito aliviasse.
O Winchester estava na cozinha, conversando com os outros para passar o tempo. Ele já havia acabado as tarefas do dia, mas só podia ir embora quando fosse, mas ela estava em sua sala, ao telefone.
– Acho que o transito tá melhorando. – Ted comentou com os colegas. Estava tomando champanhe com os outros.
– É, eu acho que já vou indo. – Melinda disse pegando suas coisas. – Até amanhã.
– Boa noite. – Sam e os outros disseram.
– Alguém aqui pediu pizza? – Melinda perguntou, voltando com um motoboy minutos depois.
– Eu. – Lucy disse, pegando a carteira e tirando o dinheiro.
Assim que pagou o motoboy, Melinda foi embora, e os que ficaram começaram a se servir.
– Sam, você pode levar uma fatia pra e o Ethan? – Lucy perguntou.
– Claro.
Sam pegou dois pratos com pizza e foi até o escritório. Primeiro, bateu na porta de Ethan, mas o mesmo não respondeu. Então, bateu na porta de e adentrou, se deparando com uma cena o tanto quanto comprometedora.
– Você me ouviu dizer que pode entrar, novato? – perguntou um tanto quanto irritada, enquanto se afastava rapidamente de Ethan, arrumando a blusa vinho que vestia. Ethan, que estava recostado na mesa da moça, se levantou em um salto e levou a mão a nuca, disfarçando algo que estava meio obvio para Sam.
– Desculpe, eu...
– Saia.
Sam a encarou por alguns segundos, mas acabou por sair. Segundos depois, Ethan saiu da sala, lançando um olhar de reprovação para Sam e indo para sua sala. Não demorou muito para o chamar.
– Novato, eu sei o que você acha ter visto, mas só pra deixar claro, você não viu nada. – ela disse categoricamente, assim que Sam se fechou a porta. – Então espero que o que você acha ter visto, fique só pra você.
Infelizmente, Sam não pode conter o incomodo.
– Eu não tenho por que sair contando pra todo mundo o que eu vi. E me desculpe, mas eu sei o que vi.
soltou um riso, mas depois que notou a expressão séria de Sam, ela também ficou.
– Tudo bem, então esqueça.
– Vai ser meio difícil, eu sei que não é da minha conta...
– Tem razão.
– Mas o cara é casado, .
– E o que você tem a ver com isso? – ela perguntou irritada, mas se recompondo depois. – Eu realmente acho que a gente não deveria conversar sobre isso. Por favor, cuide da sua vida.
Ao contrario de , Sam não pode se recompor.
– Não passou nem um dia que vocês dois estavam brigando no meio desse escritório, .
suspirou.
– Isso não é da sua conta.
– É da minha conta sim, porque eu vi o modo como ele trata você. , você não é assim.
– Tá, olha, você não me conhece novato, pode parar por aí.
– Eu te conheço melhor do que você mesma , você merece mais do que isso que você acha que é sua vida.
se aproximou de Sam furiosa.
– Primeiro, chega de sermão, você não é meu pai nem nada meu. Segundo, você não tem direito de falar nada aqui, não se esqueça que hoje é seu segundo dia, não tem moral nenhuma comigo e terceiro, você não me conhece nem um pouco, Sam. Não sabe nada sobre mim, não sabe o que me aconteceu pra chegar até aqui, então não me venha com esse papo furado de que eu mereço mais do que isso, porque eu não sou perfeitinha como sua namoradinha, eu não sou a melhor garota que alguém poderia ter conhecido, porque eu não sou assim.
, é você! – ele disse em tom alto, deixando com uma cara gigante de interrogação.
– O quê?!
Sam suspirou e balançou a cabeça.
– A Elizabeth é você.
o encarou por alguns segundos, então começou a rir. Sam balançou a cabeça impaciente e então continuou:
– Como você acha que eu sei que seu segundo nome é Elizabeth?
– Eu te disse, Sam.
– Mas eu já sabia antes disso. Seu nome é Elizabeth .
– Não, é Elizabeth Robinson.
– Não, não é, é . E você tem uma irmã, sabia? Uma irmã que até pouco tempo tava lá fora, numa manifestação.
arqueou uma sobrancelha, com um sorriso debochado no rosto.
– Se meu sobrenome fosse , e eu tivesse uma irmã hippie, eu me lembraria, não acha?
– Sim, mas nem você nem ela se lembram quem vocês são de verdade, foi como se tivesse feito uma lavagem cerebral em vocês e... – e então ele parou de falar quando voltou a gargalhar. – Tá, então me explica os sonhos que você teve.
– São sonhos, Sam, sonhos. Não dá pra se explicar um sonho.
– Não eram sonhos, eram flashbacks do seu passado. O cara e a moça que estavam com a gente era o Dean e a .
– Quem?
– Meu irmão e sua irmã.
– Tá, sei. – ela soltou um riso descrente.
– Eu sei que é difícil de acreditar, mas...
– Não é difícil, é impossível, você é louco sabia?
, eu não sou lou...
– Não me chame assim, eu não te dei liberdade.
– Era assim que eu te chamava.
– Nov...
– Sam. Você me chamava de Sam. E esse Sam que você tanto tem rancor, era eu.
– Ah, pelo amor de Deus!
– É verdade!
– Você precisa se tratar, você é louco. Meu Deus!
– Eu não sou louco, , eu...
– Não, você é louco, sim! Você tá usando coisas que eu te falei e falando coisas sem sentindo, tudo isso pra me enlouquecer! O que você quer, que eu me junte a você e depois saia por aí pra enlouquecer os outros?
– Meu Deus, vê se me escuta! Eu...
– NÃO, VOCÊ ME ESCUTA! – então ela perdeu a paciência de vez. – você não tá bem, novato. Precisa de ajuda. Cai fora daqui, e amanhã, quando chegar, vá direto pro R.H.
Sam suspirou. Ele não planejava que ela soubesse de tudo daquela maneira, mas já não havia mais volta.
...
– FORA DAQUI OU EU CHAMO A POLICIA.
Sam a encarou por alguns segundos e então assentiu devagar. Antes de sair, disse:
– Tudo bem, mas eu espero que você reflita um pouco no que tá acontecendo ao seu redor. Porque tudo que tá acontecendo agora não é real, e no fundo você sabe que alguma coisa tá errada.
Sam saiu, deixando uma furiosa, mas um tanto quanto pensativa.
Na verdade, ela teve mais sonhos estranhos na noite anterior. Ainda mais realistas e na verdade, quando ela acordou naquela manhã, sentiu até uma pontinha de vontade de continuar sonhando, porque de alguma forma, aquilo a reconfortava mais do que a própria realidade.

Sam chegou ao motel já sabendo que o irmão e estavam lá. Ele só não sabia o que estava acontecendo.
Adentrou o apartamento, encontrando uma jogada na cama, dormindo profundamente e o irmão comendo e mexendo no laptop.
– Pensei que você fosse fazer hora extra de novo. – Dean caçoou.
– Há-há-há... Eu fui demitido. – ele disse se sentando na cadeira. – A tá dormindo às oito da noite?
– Ela tá chapada. Comeu até não aguentar mais e capotou. Acredita que ela deu cem pratas pra um morador de rua enquanto eu comprava a comida? E ainda disse que ele era uma pessoa linda por dentro e que o Divino tava preparando um destino brilhante pra ele. – Sam riu pelo nariz e balançou a cabeça. – E tenho novidades. Eu ouvi que ontem pela madrugada durante a segunda onda, ela contava umas historias de quando eu e ela viajávamos o país caçando fantasmas.
– Segunda onda?
– Acho que é assim que eles chamam quando se juntam pra fumar um baseado pela segunda vez.
– Ah, mas isso é verdade?
– Eu não sei, foi o que uma doidinha lá disse.
– Então pode ser que ela tenha sonhado e então contou tudo depois. Ou o baseado fez ela se lembrar.
– Ou ela só tava chapada mesmo. – deu de ombros. – Eu disse que não dá pra confiar muito no que ela fala, não faz muito tempo que ela via gatos pelo quarto. – e mais uma vez, Sam riu pelo nariz. – E por que foi demitido?
– Ah, minha desconfiança sobre o Ethan e a tava certa. Os dois estavam se pegando na sala dela e eu os peguei no flagra.
– Opa, o quê?
– Não, eu não vi tanto quanto você pensa. Mas se houvesse menos gente naquele escritório e eu tivesse aparecido alguns minutos mais tarde, com certeza eu ficaria traumatizado.
Dean balançou a cabeça e disse com um meio sorriso convencido:
– Posso até adivinhar o que aconteceu. Você não conseguiu se segurar e acabou falando coisa que não devia, a achou que você era louco e te mandou embora.
Sam meneou a cabeça.
– Mais ou menos isso.
– Mais ou menos, sei. – soltou um riso. – Cara, o plano era ir com calma.
– Eu sei Dean, mas no calor do momento eu acabei falando. E já faz três dias também, talvez tenha sido melhor ter falado tudo de uma vez. A gente não tem estrutura pra ficar empurrando com a barriga o que tá acontecendo.
– Cara, você foi demitido no seu segundo dia de trabalho, tem uma hippie chapada dormindo na minha cama, concordo plenamente com você.
Sam assentiu.
– Então só falta falarmos com a .
– E convencer a .
– Vamos dar um tempo pra ela, né. Alguma pista sobre o que pode estar tirando a memoria das pessoas dessa cidade?
– Bom, eu pesquisei e tenho algumas teorias, mas não é nada claro, e é até preocupante, porque nunca lidamos com nada do tipo antes.
– Fala aí.
– Bom, apesar de termos descartado essa possibilidade, ainda pode ser uma bruxa muito poderosa, mas também podem ser duas deusas, uma delas é Meng Po, um tipo de deusa chinesa que tem a tarefa de preparar as almas pra entrarem no ciclo da reencarnação.
– Mas elas não estão mortas.
– Eu sei, também pensei nisso a princípio, mas a historia toda é uma lenda, e uma difere da outra. Só tem uma coisa que todas elas têm em comum: como ela faz esse lance. Ela prepara uma poção feita de ervas, e é conhecida como “os cinco sabores do esquecimento”. Ela oferece a bebida e a amnesia é instantânea.
– Mas se ela oferece, isso significa que boa parte da cidade aceitou uma poção de uma estranha, ninguém em bom estado mental faz isso, principalmente duas caçadoras.
– Sim, mas aí vem a segunda parte. Em alguns textos eu vi que se alguém se nega a tomar a poção, um par de ganchos sai do fundo do copo pra segurar seus pés e um tubo de aço perfura sua garganta, forçando o pobre coitado a beber a poção.
– Isso é possível?
– Eu não sei, mas tem outra teoria, e acho essa bem mais possível. Dizem que demônios obrigam pessoa a beber. E um demônio geralmente consegue o que quer.
– E por que um demônio aceitaria trabalhar pra uma deusa chinesa?
– Eu não sei, Sam, mas é mais possível do que ganchos saírem do fundo de um copo.
– E como se mata essa coisa?
– Só Deus sabe... Ou o Bobby.
– Tudo bem, mais alguma sugestão?
– Lethe, deusa grega. Resumindo, ela também causa esquecimento geral, dando de beber a água do rio Lethe, rio do esquecimento, que por acaso fica lá no Hades.
– Ainda assim, quem aceita bebida de estranhos?
– A menos que não seja exatamente assim que essa deusa trabalhe. Pelo que entendi, ela não oferece a bebida e a pessoa não precisa necessariamente beber, só de tocar na água ela já esquece.
– Bom, ela não pode estar adicionando a água do Hades no sistema de água da cidade, senão todo mundo estaria com problema de memoria.
– Sim, mas ela pode estar comercializando a água.
– Tá, mas por que uma deusa ia buscar rio do Hades pra colocar na bebida de pessoas aleatórias aqui em Perry?
– Talvez ela tenha um estoque da água por aqui e só esteja entediada.
– Falando assim parece até possível.
– Cara, o céu é o limite.
– Tá, e como a gente a mata?
– A resposta continua a mesma, só Deus sabe, mas a gente pode arriscar falar com o Bobby.
– E falar pra ele que a gente acha que tem uma bruxa ou uma deusa que pode ser tanto chinesa quanto grega aqui em Perry e que ela apaga a memoria dos locais, mas que a gente não sabe como acabar com nenhuma das opções?
– É, pra que mais a gente ligaria?
– Quer explicar isso pra ele?
– Eu acho que você explicaria melhor.
Sam suspirou e então ligou para Bobby, que a principio não entendeu nada do que estava acontecendo. Com toda a paciência do mundo, Sam explicou tudo e deu suas opções para o caçador, que por sua vez, ficou de ligar com para dar uma resposta.

...

Era por volta das uma e quinze da manhã quando Sam acordou com seu celular tocando. Ele se sentou na cama e no visor, viu que era .
?
Oi... Desculpe ligar agora, mas será que você pode me encontrar?
– Claro, eu tô indo.
Eu não tô em casa. Eu vou te passar o endereço por mensagem, ok?
– Tudo bem. Você tá bem?
Ela fez uma pausa misteriosa.
Mais ou menos. Espero você.
– Ok. – desligou.
Levantou-se, ligando a luz do abajur no criado-mudo ao seu lado e indo até o irmão, que estava dormindo largado num sofá minúsculo.
– Dean. – cutucou o braço do irmão.
Dean levantou num pulo, se sentando emburrado e coçando os olhos.
– A me ligou, quer que eu a encontre.
– Pra quê?
– Eu não sei, mas é no mesmo endereço do motel que estavam hospedadas, deve ter acontecido alguma coisa.
– Então vai lá. Quer que eu vá junto?
– Dean, eu não vou me encontrar com um estranho no shopping. Fique e se a acordar, conte a verdade.
– Ok. – respondeu se levantando e indo até a cama do irmão, se jogando na mesma a seguir.

...

Assim que Sam chegou ao endereço, bateu na porta do quarto. atendeu. Estava com uma cara mais séria e parecia um pouco perturbada.
– Entra. – deu espaço para Sam entrar.
Assim que o rapaz entrou, fechou a porta e os dois ficaram na cozinha num silencio constrangedor. Sam esperava a moça falar, e ela sabia disso, só não sabia como começar.
– Eu tive outros sonhos estranhos essa noite.
– Ah, é?
– Sim. – assentiu. – Eu não contei a você nem a ninguém, mas eu acordei um dia desses com isso no meu bolso. – disse pegando uma chave do bolso e mostrando a Sam, que na mesma hora reconheceu como sendo a chave daquele quarto. – Eu a guardei sem motivo e então hoje eu sonhei com ela. Eu sonhei com ela, com esse motel e esse quarto. E ele estava exatamente do mesmo jeito que tá agora. – ela dizia com lágrimas se formando em seus olhos. Estava assustada. – Eu estava aqui e tinha alguém comigo. Uma moça.
– A sua irmã.
foi assentindo aos poucos e se sentou a mesa, de frente para um laptop branco.
– Eu sabia até a senha desse computador. Mexi e encontrei isso. – ela virou o laptop para Sam, que se sentou e viu o que a moça queria mostrar, uma foto.
Ele se lembrou muito bem daquele dia. Era final de setembro, duas semanas antes de e Dean descobrirem sobre os encontros dele e Ruby, e conhecerem Anna.
Eles queriam comemorar o aniversário de , que completou 24 anos no começo do mês, e acabaram tirando uns dias para viajar até San Francisco, cidade turística mais próxima que estavam no momento.
– Eu me lembro desse dia. – Sam disse com um sorriso saudoso no rosto.

Flashback On
San Francisco, Califórnia.

Há um ano e dois meses.

– Cara, que legal. – comentou assim que chegaram ao parque. – Eu juro que tô com vontade de correr por aí com os braços abertos e cantando o tema de Full House.
– Por favor, nos poupe disso. – Dean disse.
Os quatro estavam no Álamo Square Park, o parque mais famoso de San Francisco. havia esticado uma toalha sobre a grama e os quatro estavam sentados no chão, e ficaram assistindo as crianças brincando e passeando com seus cachorros.
Era um dia ensolarado, estavam todos de óculos escuros, os irmãos se livraram das camisas de flanela e usavam camisetas de manga curta, enquanto as irmãs andavam de regatas e shorts.
, o que quer fazer pra comemorar seu aniversario? – perguntou.
– Meu aniversário foi dia primeiro, já se passou duas semanas, não tem o que comemorar.
– Ah, deixa de ser besta, fala aí.
fez uma cara pensativa.
– Passar o dia com vocês já está bom.
– Nossa, que porcaria.
– Dean! – chamou sua atenção.
– É verdade! , você passa o dia todo, todos os dias com a gente, qualquer coisa seria mais legal que isso.
– Eu achei bonitinho. – Sam comentou sorrindo, fazendo sorrir.
– Eu vou vomitar. – Dean disse, dando sua atenção para duas crianças que brincavam de frisbee com um Golden Retriever.
– Tô falando serio, gente. A gente vive trabalhando, ocupado demais preocupado com os outros. É nesses momentos de paz que a gente aprende a dar valor às pequenas coisas. Eu quero passar o dia com vocês, aproveitar a cidade, sem preocupações e passear como turistas normais.
– Por mim tudo bem. – disse.
– Por mim também. – Sam concordou.
Dean suspirou.
– É, hoje é seu dia, não posso me opor.
– Own, obrigada, gente. Sabem o que eu queria agora?
– O quê? – Sam perguntou.
– Uma foto desse momento.
sorriu na mesma hora e se levantou.
– Não, eu quero nós quatro aparecendo.
– Quem vai tirar a foto?
– Filha, olha o monte de gente nesse parque.
– Eu não vou deixar minha câmera de dois mil dólares na mão de um estranho, e se ele sair correndo com ela?
– A gente dá risada e graças a Deus por não precisar ficar posando pra foto toda hora, nem ficar parando o carro pra você tirar foto do pôr do sol. – Dean respondeu.
se limitou a lançar um olhar cético para ele.
– Usa o celular então. – disse.
voltou a se sentar e pegou o celular. Logo, se sentou entre as pernas de Dean e posicionou a câmera. e Sam vieram mais para frente. Sam ficou ao lado do irmão e , assim como , ficou na frente de Sam, tomando certa distância para se inclinar e deitar a cabeça no peito do rapaz. Sam a abraçou e então os quatro abriram um sorriso de comercial de creme dental.
A foto foi tirada.

Flashback Off

– A gente ficou alguns minutos ali, só conversando. tirou uma foto de nós dois de frente às casas vitorianas, dizendo que parecia que a gente estava em Full House, e então fomos embora. Passamos o dia todo passeando por San Francisco, visitamos o Golden Gate, o Píer 39, Chinatown e vários outros lugares, comemos o melhor burritos do mundo todos os três dias que passamos lá.
– Que legal.
– É sim. – Sam passou a foto. – Essa daqui foi você quem tirou. – ele virou o laptop para , que viu uma foto de Dean e .
Dean estava encostado no Impala e estava com a cabeça baixa, mexendo no celular. estava sentada no capô do carro, atrás de Dean e com uma perna de cada lado. Um braço estava ao redor do pescoço dele e o outro, apoiado em sua cintura. Seu queixo estava apoiado em seu ombro, e ela também olhava para o que ele fazia no aparelho.
– Você tinha alugado a câmera da sua irmã por um dia, aí quando a gente tava saindo pra almoçar, nos deparamos com essa cena e você quis deixar registrado.
sorriu involuntariamente. Não se lembrava de como Dean e eram, mas pela foto pareciam ter cumplicidade.
Passou algumas fotos até que parou em uma meio estranha. Era numa casa velha e mostrava ela e Sam de costas e com a cabeça baixa diante uma pia. No canto da foto, bem próximo, havia uma mão masculina segurando uma garrafa de cerveja. Pela posição da foto, a câmera estava em cima de uma mesa.
– E essa? – ela virou o laptop para Sam, que analisou as fotos por alguns segundos até responder.
– Foi dois dias depois de você tirar o gesso do braço.

Flashback On
Há um ano e cinco meses.

Os quatro estavam na casa de Bobby, e e Sam cozinhavam enquanto e Dean estavam sentados à mesa, bebendo cerveja e conversando.
– Eu quero só ver o que vai sair dessa cozinha. – Dean comentou.
– Vai sair a melhor comida que você já comeu em toda sua vida. – respondeu.
– Eu tô cheio de fome, que horas sai e esse almoço?
– Eu já te disse há cinco minutos, vai demorar.
olhou para Dean sorrindo e o rapaz balançou a cabeça.
– Eu disse que poderia ir buscar o almoço, mas vocês insistiram em comer comida caseira, que besteira.
– Relaxa Dean, você não vai morrer se esperar uma hora. – Sam respondeu indo até a geladeira.
Dean soltou um muxoxo e bebeu um gole de cerveja.
– E aí, quando sai esse almoço? – Bobby perguntou adentrando a cozinha e indo até a geladeira, assim que Sam saiu de lá.
– Vai demorar um pouquinho. – respondeu.
Bobby bufou e abriu a garrafa de cerveja que tinha acabado de pegar.
– Teria sido melhor ter ido buscar.
– Eu falei. – Dean disse.
– Vocês dois são muito resmungões. – disse. – Não vai demorar tanto assim, por que não vão lá pra fora fazer alguma coisa útil?
– Tipo o quê? – Dean perguntou.
– Tipo consertar o carro da . – respondeu enquanto brincava com os botões da câmera em cima da mesa. Logo, um disparo foi ouvido. – Opa, tava ligada. – ela disse pegando a câmera e vendo a foto tirada, desligando o aparelho logo depois.
– Precisamos de algumas peças ainda. – Dean respondeu.
– Precisamos nada, você que não quer trabalhar. – Bobby disse.
– Poxa Bobby, eu tava tentando te dar uma folga.
– Eu não preciso de folga. Vem, temos trabalho a fazer. – disse saindo. – E vocês, andem logo com essa comida.
– Ok. – Sam e responderam juntos.
Dean soltou um muxoxo mais uma vez e se levantou, lançando um olhar de fúria para .
– Você tinha que abrir a boca.
– Tá reclamando? Achei que consertar carros fosse um hobby.
– Quando eu não tô com fome, pode ser. – ele jogou uma indireta, mas tudo que os outros fizeram foi rir ironicamente.
Dean rolou os olhos e saiu.
– Vai lá, e faça bem feito pra não ter que fazer duas vezes. – disse em tom mais alto, os três puderam ouvir Dean bufar novamente. – Ai, ai, escravos...
– Escravos? E você acha que é o quê? A sinhazinha? Olha uma pilha de louça aqui pedindo pra ser lavada. – disse.
fez cara de tacho e soltou um muxoxo, se levantando para ajudar na cozinha.

Flashback Off

– Você tem uma memoria muito boa. – comentou pegando o laptop e passando algumas fotos.
– É, mas a gente cozinha poucas vezes, claro que eu me lembraria.
Ela assentiu e voltou a virar o laptop para Sam. A próxima foto era de Dean, que olhava para a estrada, enquanto dirigia.
– Essa eu não me lembro exatamente. Se não me engano, foi tirada enquanto íamos para Washington.

Flashback On
Há um ano e três meses.

Os quatro estavam a caminho de Concrete, Washington, para investigar um caso de um fantasma que aterrorizava as mulheres no banheiro de uma academia.
Era fim de tarde, o céu estava uma verdadeira aquarela de cores, graças ao bom tempo.
No carro, os quatro ouviam Black Sabbath, enquanto reclamava no banco de trás.
– É serio, Dean, a gente deveria fazer um rodizio musical aqui, cara. Ninguém aguenta ficar ouvindo as mesmas músicas sempre, você precisa se tratar.
– Mas não são as mesmas músicas, eu tô trocando direto a fita, pra diversificar.
– Mas eu não gosto dessas musicas. – ela disse exatamente como uma menina de sete anos faria se estivesse emburrada com alguma coisa.
Dean mantinha o tom tranquilo, até mesmo cínico.
– Ah, mas aí eu já não posso fazer nada.
– É, mas essas suas músicas enjoam.
– Quê? Enjoam nada.
soltou um ar cínico.
– O quê? Você acha que não? me diz aí, você gosta dessas músicas?
pensou um pouco.
– Olha, eu curto boa parte desse acervo.
Dean abriu um sorriso vitorioso, mas continuou:
– Mas eu concordo, Dean. Suas músicas enjoam.
– Ah, vocês não sabem o que falam, ficam ouvindo essas músicas bestas, que falam sobre um monte de nada, e tudo pra iludir bobonas como vocês.
– Ei! – protestou. – Mais respeito. Sam, ajude a gente.
Sam soltou um riso e suspirou.
– Olha, eu não quero me comprometer, mas existem tantos rocks ruins quanto pops bons, é uma questão de gosto.
– Você fala isso porque ouve N'sync com a . – Dean respondeu.
– Não, Dean, eu tô falando sério e eu gosto de muitas músicas que você tem aí, mas eu também concordo com elas, enjoa. Sempre a mesma coisa.
– Não é sempre a mesma coisa.
– Lógico que é. – respondeu. – E você tem a mania de aumentar o volume quando chega numa parte que você gosta, aí você começa a batucar o volante e balançar a cabeça. Parece até um robô programado, é sempre nas mesmas partes.
– Ah, que mentira. – respondeu levemente ofendido.
– Mentira nada, você faz isso sim. – disse. – O pior é que você aumenta sem se tocar que você já deixa o volume alto, parece até que tá surdo, a gente tem que gritar quando quer conversar.
– É. – Sam e concordaram.
Dean soltou um muxoxo. Sam riu e acrescentou:
– Isso sem mencionar quando você resolve cantar, aí deixa todo mundo louco.
– Ah, qual é, como se eu fosse o único que faz isso. Você mesma tava cantarolando há cinco minutos, .
– Eu cantarolo baixo.
– Uma ova, parece até que não se escuta.
– Verdade. – disse rindo. Ao receber um olhar de reprovação da irmã, ela emendou: – Ah, desculpe, mas é verdade. E você também tem mania de deixar o volume alto.
– Sem contar que fica trocando de música, não deixa o álbum rolar sozinho. – Dean acrescentou. – Isso quando não vicia em um único álbum e fica ouvindo o mesmo a viagem toda.
– E quando você ouve musica latina, seu corpo já começa a se remexer sozinho, é automático. – Sam disse, fazendo os outros rirem e assentirem.
– Não pode ouvir um Enrique Iglesias nem no mercado, que faz a gente passar vergonha. – disse.
– Ah, não é pra tanto, eu não me remexo tanto assim, são pequenos espasmos.
– Vai nessa.
– Ah, vão cuidar da vida de vocês.
– Não é bom falar de mim? – Dean perguntou.
– Mas foi a quem começou, fala dela.
– Falar o que de mim?
– Você e sua mania de colocar fones de ouvido no ultimo volume, a gente tem que matar cachorro a grito pra falar com você.
– É verdade. – Sam disse.
– Sam!
– Desculpe , mas eu já falei várias vezes isso com você.
soltou um muxoxo.
– E você também canta, . – Dean disse.
– Todo mundo canta.
– Mas você consegue cantar mais que qualquer um aqui, não consegue ficar de boca fechada.
– É, concordo. E quando a gente te manda calar a boca, você acha ruim e fica emburrada. – disse.
– E volta a cantar cinco minutos depois. – Sam completou.
– Que mentira!
– Mentira nada, você canta cochichando e quando vê, já tá em voz alta, irritando todo mundo. – Dean respondeu.
– Ah, mas ninguém é perfeito.
– O Sam é. – respondeu. – Esqueceram que ele é o senhor perfeitinho?
– Eu?
– Você mesmo. Vive abaixando o som quando alguém aumenta, e corrige quando a gente canta errado.
– Eu não faço isso.
– Faz sim. – disse. – E fica balançando a cabeça independente do ritmo da musica. Pode ser só o som dos grilos lá fora, você sempre balança a cabeça, no mesmo ritmo.
– Nossa, pensando bem, você faz isso mesmo, Sammy. – Dean concordou. – E você tem mania de batucar com a caneta enquanto pesquisa, e é sempre no mesmo ritmo.
– E faz a mesma coisa que a . – disse. – A gente pede pra parar, aí cinco minutos depois volta a batucar.
Dean riu e depois acrescentou:
– E quando não acha o que procura, você balança a cabeça e estala a língua várias vezes, cochichando um “não, não é isso”.
riu.
– É verdade, é tão engraçado.
– Vocês estão exagerando.
– Não estão. – disse. – Você faz isso sim, mas aí se a gente falar qualquer coisa enquanto você pesquisa, você fica bravo.
– Eu não fico bravo, eu só não consigo me concentrar, vocês ficam fazendo muito barulho, me irrita.
– Não é tanto barulho assim, você que se incomoda. – disse. – E às vezes a gente nem precisa necessariamente falar, só de olhar um pro outro você já nos lança um olhar cético, parece até uma premonição.
riu.
– É mesmo, é um dom, você sempre acerta quando a gente tá prestes a conversar.
– Ah, dá um tempo. – Sam respondeu. – O fato é que ninguém aguenta suas músicas, Dean.
Dean só balançou a cabeça.
– Se prepara galera, agora ele vai aumentar o volume e batucar o volante. – disse rindo.
Todos ficaram olhando para Dean, esperando sua reação previsível. Dean por outro lado se sentiu incomodado, com o olhar centrado na estrada e com uma vontade imensa de aumentar o volume, mas ele não o fez. Muito pelo contrário, ele acabou soltando um palavrão e desligando o rádio, fazendo e a irmã rirem.
– Ah, Dean qual é, ninguém ia te julgar. – disse, mas ele não respondeu.
Os quatro seguiram por mais alguns segundos em silencio, até que disse:
– Dean, diminui a velocidade.
– Pra quê?
– Achei uma foto perfeita, diminui. – ela disse preparando a câmera.
– Ah, , dá um tempo com essa câmera.
– Vai, vai, vai. – ela disse já posicionando a câmera.
Dean soltou um muxoxo e foi diminuindo a velocidade.
– Ah, que incrível, dessa mania de parar pra ficar tirando foto ninguém fala.
– Mas é uma lembrança, Dean. – disse.
– Isso vai acabar sendo uma coisa legal. – Sam disse. – E eu não tô me incomodando em nada com as fotos.
– Vocês são um bando de puxa saco. – Dean disse. – Posso continuar, ou você quer que eu pare o carro de vez?
– Pode ir. – ela disse com um sorriso debochado no rosto.
Dean aumentou a velocidade, estava agora estressado, olhando centrado pra estrada e não falava nada.
aproveitou e apontou a câmera para ele, tirando uma foto. Dean se virou para ela incomodado.
– Eu vou jogar essa porcaria pela janela.
Ela riu.
– Se você me devolver os dois mil dólares depois, tudo bem.
Dean rolou os olhos e voltou a prestar atenção na estrada. por outro lado, deu uma olhada na foto que acabara de tirar.
– O pôr do sol ficou ótimo aqui. Mas olha isso , veja como o Dean é sexy de perfil. – ela disse entregando a câmera para a irmã e se virando.
pegou a câmera e olhou a foto.
– Realmente, muito sexy. Parece que foi esculpido por um deus.
riu. Dean balançou a cabeça, e Sam segurou o riso.
– Cara, eu sei que sou bonitão, mas não precisa ficar me lembrando disso o tempo todo. – Dean disse voltando a ligar o rádio, agora aumentando mais que o normal.
Os outros três bufaram e afundaram no banco, fazendo Dean sorrir vitoriosamente.

Flashback Off

Sam finalizou a narrativa dando risada, assim como , que também balançava a cabeça.
– Você acredita que eu ainda faço isso? Aumento o fone de ouvido no máximo e me desligo do mundo. Quando vejo, eu tô cantando igual uma louca.
Sam balançou a cabeça.
– Algumas coisas nunca mudam. – ele disse baixando a tela do laptop e depois olhando sério para .
O olhar da moça era confuso, assustado, curioso e até mesmo familiar, já que ela ria e parecia saudosa.
Sam suspirou.
– Agora você acredita em mim?
Ela deu de ombros e baixou a cabeça, assentindo.
– Como isso é possível?
– Eu já disse, um feitiço, eu acho. Pode ser uma bruxa ou uma deusa, ainda estamos trabalhando nisso.
– Então... A gente mata essas coisas?
Sam sorriu sem vontade quando a ouviu falar daquele jeito e assentiu.
– É.
– E por quê?
– Porque é a nossa vida, nós salvamos pessoas.
– Isso é loucura.
– Eu sei que é exigir muito pedir que você aceite isso, mas tenta.
Ela assentiu chocada demais para discordar.
– Nós dois... – foi tudo que ela conseguiu dizer.
Sam assentiu, fazendo-a baixar a cabeça novamente, sem graça.
– Então foi você quem me traiu.
– É, não, sim... mais ou menos. Você não vai entender agora.
– Eu entendo em outra realidade?
– Na única realidade? Sim. Eu não menti pra você quando disse que nós conversamos e você me perdoou.
– Então nós não voltamos?
– Não, mas estamos caminhando bem.
– Mas por quê? Você é um cara tão legal.
– Até os mais legais fazem besteira, .
Ela assentiu sorrindo.
– Então eu tenho uma irmã, um quase namorado, um amigo e viajo com todos eles pelo país pra combater monstros?
– É, mas se você falar assim e adicionar um cachorro, vai estar descrevendo Scooby-Doo.
riu e assentiu.
– Eu realmente sou uma garota de sorte. – ela ironizou.
– Ah, nossa vida não é tão ruim, conhecemos muitos lugares, como você pode ver pelas fotos.
– Mas eu não me lembro de nada.
– Eu prometo que vamos dar um jeito nisso... Se você quiser.
– Por que diz isso?
– Porque seu sonho era ser designer de interiores e depois arriscar na arquitetura. Seu sonho é uma realidade agora.
– Olha, eu vou confessar que é emocionante imaginar minha realidade como sendo Scooby-Doo, mas eu também gosto da minha vida assim, como está, falo do meu trabalho. Eu notei alguns projetos aqui nesse computador e agora que você disse isso, eu tenho certeza que isso tudo que tá acontecendo comigo, é a realização de um sonho.
– É, realmente é.
Ela sorriu fraco.
– Mas não é real. E eu confesso que desde o começo, sinto que tá faltando alguma coisa. Há um vazio dentro de mim que é preenchido cada vez que vejo essas fotos e bem, vendo essas imagens eu sinto que não estávamos juntos só por curtir a presença do outro, ou por trabalho, mas porque nos considerávamos uma família. E eu sinto falta de uma agora.
Sam não pode conter o sorriso, o que fez com que também sorrisse e ruborizasse.
– Eu queria sentir mais do que eu sinto por vocês aqui dentro. – disse levando a mão ao coração. – Mais do que eu sinto por você agora.
Então Sam a olhou com um olhar um tanto quanto esperançoso e uma vontade ainda maior de acabar com tudo aquilo que estava acontecendo.
o fitava sem jeito, esperando que ele fizesse qualquer coisa que a tirasse daquele constrangimento.
E ele fez.
Num impulso, Sam se inclinou para a moça e a beijou. a principio não soube como reagir, mas aos poucos foi se rendendo, e se entregando ao momento, sentindo algo diferente dentro de si, como um despertamento.
E assim, fragmentos de memoria invadiram a sua mente, tornando tudo aquilo mais real do que a realidade que achava viver.
Os dois se afastaram e olhou surpresa para Sam, que a olhou preocupado por sua expressão.
– Tá tudo bem?
foi assentindo devagar.
– Eu me lembro... Sam, eu me lembro! – ela se levantou num pulo, sendo acompanhada pelo rapaz. ria. – Eu me lembro! Eu acabei de me lembrar. – ela então o abraçou apertado.
Sam sentiu o alivio percorrer sua espinha, até que o empurrou e correu até o laptop da irmã.
– Eu me lembro. – ela disse mais séria.

acordou minutos após Sam sair. 
Sentou-se na cama, sentindo o corpo pesado. Sua mente estava lenta e seu estomago roncava de fome. Acendeu o abajur ao seu lado e viu Dean dormindo. Não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que não deveria estar ali. 
Levantou-se e foi até a cozinha. Acendeu a luz e viu uma embalagem de lanchonete em cima da mesa. Mexeu na sacola até que encontrou um hambúrguer embalado. Sentou-se e então começou a comer.
Não demorou muito para Dean se remexer incomodado com a luz e o barulho que a moça fazia, cantarolando uma musica qualquer conforme a mente despertava.
Olhou para a cama ao lado e quando notou que não havia ninguém sobre a mesma, sentou-se imediatamente. Quando viu a mesa, suspirou e olhou o relógio. Quase três da manhã. Levantou-se e foi até a cozinha.
– E aí, dormiu bem?
– Eu poderia ter dormido melhor se você deixasse a luz apagada e não cantarolasse. – ele disse com a voz embargada de sono.
– Desculpe, não gosto de comer no escuro, e eu não sabia que tava cantando tão alto assim.
– Bom, são três e meia da manhã, é possível ouvir até o pensamento de alguém a essa hora.
– Tá me zoando. – ela disse em tom brincalhão. – Onde eu tô?
– Num quarto de motel.
– Você tá hospedado aqui?
– Acho que sim, né.
– E o que eu tô fazendo aqui, posso saber?
– Você tava chapada, teve uma briga na manifestação e eu te tirei de lá.
E num piscar de olhos ela se levantou, deixando a comida na mesa.
– A manifestação! Eu tenho que voltar. – e começou a caminhar até a porta.
Dean se levantou e a segurou pelo braço.
– Não vai nada.
– Ei! – ela disse, puxando seu braço de volta. – Que isso, cara?
– Calma, senta aí, precisamos conversar.
Ela assentiu e se sentou novamente. Dean se sentou de frente para ela e então começou a contar.
– Isso que tá acontecendo não é real, sua memória foi distorcida, fizeram uma lavagem cerebral em você, e eu e meu irmão queremos ajudar você.
E houve um súbito silencio. olhava para cada traço do rosto de Dean, o que já estava o incomodando.
– Tá... Tudo bem.
– O quê? Tá falando sério? Você não tá surpresa nem nada?
– Por que eu estaria? Eu não posso contrariar uma pessoa chapada, pode ser perigoso.
– Hein? Olha, eu não tô chapado não, falou?
Ela pensou um pouco e então abriu um sorriso aos poucos.
– Então eu tô chapada, tudo bem... Mas como eu estaria tendo esse tipo de viagem? É tão estranho.
, me escuta! – ele disse fazendo uma pausa depois, tentando ter paciência. – Você não tá chapada, não tem ninguém chapado aqui. É o mundo real... Quase o mundo real.
Ela o olhou estranho e então cruzou os braços.
– Ok, sabichão, então por que alguém faria uma lavagem cerebral em mim e mais importante, quem faria isso?
– Não sei te responder por que, mas temos três opções pra última pergunta, e estamos apostando em uma de duas deusas.
– Aham. – ela assentiu, analisando a feição séria de Dean e se levantando novamente, com um sorriso sacana no rosto. – Quase me enganou, te vejo amanhã, Dean.
Dean rolou os olhos e se levantou novamente, indo até a porta e a fechando assim que a abriu.
A moça o olhou levemente incomodada.
– Tá legal, isso foi muito rude da sua parte, mas vou relevar se você abrir a porta agora mesmo.
– Não, você não vai embora.
Então ela foi ficando mais séria e até mesmo preocupada.
– Dean, me deixa sair.
– Não, espera aí, você precisa me ouvir.
– Eu acabei de ouvir, você tá pirando e me assustando muito agora, me deixa ir embora.
– Sinto muito, mas não posso deixar você ir.
– Pera aí, você tá me sequestrando?! Com...
– Eu não tô sequestrando ninguém, só tô tentando te fazer acordar.
– Quê?
Ele bufou impaciente.
– Só me escuta, senta aí.
o encarou por mais alguns segundos e se sentou na cama que estava dormindo antes. Dean pegou uma cadeira e a colocou próximo da cama, sentando-se a seguir.
– Olha, é estranho, eu entendo que você esteja achando que eu tô chapado ou que você tá chapada, mas tá todo mundo são aqui e o que eu disse é verdade, assim como as histórias que você contou pros seus amigos na segunda onda.
Ela soltou um riso.
– Cara, a gente fala muita besteira quando tá surfando.
– Eu sei, mas isso é verdade. A gente já se conhece há algum tempo e viajamos com nossos irmãos.
– Somos irmãos?
– Não, , mas eu tenho um irmão, Sam, e você uma irmã, .
– Ah, sim. Mas eu não tenho irmã nenhuma.
, pelo amor de Deus, não complica. Você tem uma irmã, mas as duas sofreram lavagem cerebral, ela também não se lembra de você, mas o Sam tá cuidando disso. De qualquer maneira... Nós quatro viajamos o país e a maior parte do tempo foi num Impala 67.
– Tá, mas eu vi você dirigindo um Dodge, não um Chevrolet.
– Aquele Challenger é seu, você não achou estranho eu ter que fazer ligação direta? É porque você tava com a chave dele, lembra-se daquela chave que apareceu do nada com você?
– Eu disse que alguém pode ter esquecido comigo.
– Mas não, ela é sua.
– Sei, olha, o papo tá muito bom, mas eu acho que é melhor eu ir, e eu acho que você já passou tempo suficiente nos estudando, então a gente não precisa se ver amanhã. – ela disse se levantando. – Mas foi um prazer te conhecer.
Dean também se levantou e a segurou pelo braço, o que fez com que a moça se irritasse e o puxasse de volta.
– Para de fazer isso.
– Tá, mas só me escuta.
– Eu já te escutei, você é um ótimo contador de historia, poderia ser roteirista, mas me deixa fora disso.
, tudo que eu te disse é real.
– Dean, tudo bem, eu posso até admitir que é muito estranho eu ter contado historias sobre nós e até mesmo ter aparecido uma chave misteriosa no meu bolso, mas querer que eu acredite que tudo isso é real, acho que é demais. Agora se você tiver uma prova, eu até poderia tentar te levar a sério, juro, eu tenho a mente bem aberta, mas cara, vo...
– Eu tenho provas.
– Você o quê?
– Eu posso te provar que eu tô certo, mas você vai precisar esperar um pouco.
– E por quê?
– Porque meu irmão não tá aqui, e levou meu carro.
– Ah, por favor, Dean, seu irmão e um carro não são prova de nada. Até onde eu sei, ele pode ser outro louco. – ela se virou novamente.
– Tá, olha, seu sobrenome é , e você nasceu dia 22 de março.
– Você viu meus documentos?
– Não caramba! Tá, olha, você tem uma tatuagem de pentagrama no lado direito da virilha.
o olhou com o cenho franzindo e então aos poucos foi arregalando os olhos e se afastando de Dean, até a porta.
– Você é um cretino aproveitador.
– O quê? Eu não... Espera aí, você não pode ir embora agora. – ele disse se colocando diante da porta.
– Me deixa ir embora, seu tarado!
– Não, você precisa se acalmar.
– Vai se danar. – ela se afastou e passou os olhos pelo quarto até encontrar a janela. Dean não pode deixar de sentir vontade de rir, já que ela estava apavorada, mas se fugisse, onde ele iria encontrá-la se ela não tinha uma casa mais?
, sai dessa janela. – ele disse avançando na janela e se posicionando na frente da mesma antes que a moça pensasse em sair.
fez que ia desviar até a porta, mas ele a seguiu.
– Me deixa sair ou eu vou gritar.
– Vai nada, não precisa disso, eu só quero ajudar.
– Ajudar? Você tá louco? Você viu minha tatuagem sem meu consentimento e me diz que quer ajudar?!
– Olha, eu não vi sua tatuagem... Eu já vi, mas você me deixou ver de livre e espontânea vontade.
– Eu não me lembro disso.
– É exatamente isso que eu tô tentando te explicar. Nós temos uma historia, mas você não se lembra de nada.
Dean fez um momento de silencio e pela expressão que fazia, ele percebeu que ela começou a dar indícios de que estava se rendendo.
– Acredite em mim.
olhava perplexa de um lado para o outro, e quando viu Dean se aproximar, ela deu alguns passos para trás, tropeçando na cama do rapaz e indo para o outro lado.
– A gente pode conversar agora? Eu sei que você deve estar cheia de perguntas, mas eu vou tentar responder. – disse se aproximando e fazendo sinal com as mãos, para que ela se acalmasse.
– Você acha que eu vou acreditar na sua historia? Não se aproxime! – ela disse pegando o travesseiro como sua única defesa e avistando assim, a faca de prata que Dean sempre deixava como precaução. Ela não pode deixar de esconder a surpresa. – Oh, meu Deus.
, calma.
Ela pegou a faca imediatamente e a apontou para Dean, que rolou os olhos.
, me dá essa faca, você vai se machucar.
– Você que vai se não me deixar sair.
– E o que você vai fazer, me matar? Você tá se tremendo toda, vai, anda, me dá essa faca. – disse esticando o braço.
– Eu vou ligar pra policia!
– Vai nada, você nem tem celular.
E nesse momento, a porta do quarto se abriu. Sam e adentraram o quarto e pararam quando se depararam com a cena.
, o que você tá fazendo? – perguntou.
– Quem é você?
– Espera aí, você lembra? – Dean perguntou.
assentiu e sorriu para ele, olhando para a irmã a seguir.
, tudo que ele falou é verdade.
– O quê? Não, is...
– Isso é impossível, eu sei, também achava antes de me lembrar de tudo. Olha, dá pra ver que você não consegue acreditar, mas eu trouxe provas.
– Olha, eu já tô farta de provas, não...
– Mas essas são provas concretas. – ela disse mostrando um laptop cinza. – Isso é seu, dê uma olhada.
a olhou por alguns segundos, depois fitou o objeto em suas mãos. O tom de voz de a confortou, mas mesmo assim, ela disse:
– Eu quero ir embora.
– Tudo bem, mas leva isso com você e olhe antes de tirar qualquer conclusão precipitada.
O quarto se fez silencio por alguns instantes e então deixou a faca em cima da cama, e receosa, se aproximou da irmã e pegou o laptop, saindo apressada a seguir.
Sam fechou a porta e balançou a cabeça.
– Acha que ela vai ver as fotos?
deu de ombros.
– Todo mundo é curioso, acho que sim. – suspirou. – Daqui a pouco ela volta. – se sentou na cadeira e olhou para Dean. – E aí, Dean? Tudo bem?
Ele meneou a cabeça.
– Tudo numa boa, e você? Tá se lembrando de tudo?
– Bom, as coisas estão voltando aos poucos, mas me lembro de vocês perfeitamente.
– Que bom, e como foi que vocês conseguiram?
Sam e se entreolharam segurando o riso.
– Você não acreditaria. – a moça respondeu.
– Até parece que não, conta logo.
Ela soltou um riso e então respondeu:
– Nós nos beijamos.
– Tem razão, eu não acredito.
– Mas é verdade, Dean. – Sam disse se sentando na cama. – Ela se lembrou de tudo.
– Tá me dizendo que aquele papo furado dos contos de fadas funcionou?
– Pelo que parece, sim.
– Isso é loucura, não tem como... Não, é ridículo até pra nós.
– É, concordo, mas nós temos uma teoria. Não foi exatamente o beijo que me fez recuperar a memoria, acho que foi mais a conexão e o sentimento que me prendia ao seu irmão que acabou me trazendo ciência do que era real. Em outras palavras, se eu tivesse continuado tendo mais sonhos reveladores e talvez tivesse visto você e a , em alguns dias eu acabaria me lembrando de tudo.
– E é isso que a gente acha que acontece com os locais que são atingidos pela falta de memoria e depois recuperam tudo. – Sam completou.
Dean foi assentindo devagar, era tudo uma loucura para ele, mas desde que tudo fizesse o mínimo de sentido, então tudo bem.
– Ok, mas e as pessoas que não conseguiram recuperar a memoria?
– Bom, talvez elas não tenham conseguido alcançar um estado de deja vú, impedindo que ela tenha sonhos ou qualquer outro tipo de revelações. – respondeu.
– E você sabe o que tá acontecendo por aqui?
– Sei. Eu e a acabamos descobrindo um possível caso a caminho de casa e paramos aqui pra resolver, enquanto vocês iam nos encontrar em Owensboro, mas como já sabemos, as coisas não saíram como o planejado.
– É, mas enfim, o que sabe?
– É a Lethe.
– A deusa grega? Eu sabia.
– Sim, você fez bem a lição de casa. Mas não completamente.
– O que quer dizer?
– Que assim como existe a deusa do esquecimento, também existe a deusa da memoria. Mnemosine, além de ser muito mais poderosa que Lethe, é mãe das nove musas, filhas de Zeus. As duas estão se divertindo pela cidade, provocando falta de memoria e confusão.
– E por quê?
– Sei lá, diversão talvez. Elas têm milhares de anos, qualquer coisa é válida pra se divertir. A questão é que Mnemosine não só implanta memorias falsas, como também as troca, por isso algumas vítimas acabaram indo pro hospital psiquiátrico, sendo acusadas de roubar a identidade dos outros. Pra ter ideia do que ela pode fazer, ela conseguiu distorcer a memoria de todo mundo na empresa que eu era sócia. E provavelmente elas monopolizaram a cidade toda, imagine quanta gente vive uma vida falsa por aqui.
– Isso é loucura, essa cidade tem uns oito mil habitantes.
Marionetes, você quis dizer.
– E vocês descobriram como matar?
– Não, a gente pretendia falar com o Bobby no dia seguinte, mas aí fomos pegas por Lethe.
– Sabe quem é ela?
– Claro, a garçonete do bar que vocês acharam meu celular.
– Aquela safada conseguiu me enganar direitinho.
– Não só a você. Ela batiza a bebida de quem ela quiser quando ela quiser. A entrou pelos fundos, enquanto eu vigiava os passos dela. Ela acabou vendo um armário que continha vários frasquinhos com a água do Hades. A gente conseguiu falar com ela quando o bar fechou, mas aí ela acabou pegando a gente de surpresa. Tomamos um banho de água e boom, nos separamos e eu acabei virando arquiteta e a , hippie.
– E agora? As duas já deixaram bem explicito que não são deusas de quinta, a gente tá muito ferrado.
– Bom, se isso te conforta, a gente já sabe quem é a Lethe. – Sam respondeu.
– Mas isso não ajuda muito. Talvez fosse melhor a gente só recuperar a memoria da sua irmã e sair.
– Dean, você tá querendo fugir?
– Não é fugir, mas pensa bem, a gente não sabe nenhuma fraqueza delas, somos meros mortais, com uma gotinha de água do Hades a gente esquece toda uma vida, e outra, mesmo que a gente consiga matar as duas e dê a água da memoria pra todo mundo dessa cidade, quem garante que eles vão levar numa boa como a tá levando agora? Eles vão surtar.
– E só por isso você acha que a gente deva dar as costas e deixar as duas controlarem uma cidade? – Sam perguntou.
– Bom, é um caso a se pensar.
– Dean, elas dominam uma cidade sabe-se lá por quanto tempo, quanto tempo mais você acha que vai levar pra elas dominarem o estado ou o país?
– É, a gente precisa levar isso em consideração também. – disse.
– Qual é gente, também não é assim, a gente tá no apocalipse, acha mesmo que elas vão ter tempo de dominar o mundo? De qualquer maneira tá todo mundo ferrado, Sam.
Sam desviou o olhar do irmão, irritado, afinal a culpa era dele.
– Tá, olha, também não precisa ser assim, tão radical. – disse. – O apocalipse vai acontecer? Vai, mas a gente não sabe quando e nem por isso a gente vai deixar uma cidade inteira na mão de deuses idiotas. Vamos esperar a ligação do Bobby e se não pudermos fazer nada, aí sim a gente vai embora e esquece esse assunto. Pode ser?
Os dois só balançaram a cabeça.

Assim que deixou o quarto, ela caminhou até um banco que havia próximo a recepção do motel. Sentou-se lá e ligou o laptop. A senha estava escrita num post-it, e assim que a área de trabalho se abriu, uma foto preta e branca do Johnny Depp segurando uma Polaroid fez ela sorrir involuntariamente.
Deu uma olhada nos documentos, encontrando uma pasta nomeada "casos". A abriu e encontrou outras duas, uma escrito "resolvidos" e outra escrito "em aberto." Abriu a primeira e deu uma boa olhada. Havia casos e casos de criaturas como demônios, fantasmas e lobisomens, que a deixaram impressionada.
Abriu a galeria e várias fotos apareceram. Ampliou uma delas e pode ver com clareza um Challenger laranja e um Impala preto. Um ao lado do outro, estacionado de frente para uma lanchonete.
A moça ergueu o olhar para o Challenger estacionado mais a frente e foi até o mesmo. Abriu a porta e se sentou no banco do carona. Deixou o laptop no banco do motorista e abriu o porta-luvas. Havia alguns CDs originais de musica pop, assim como CDs gravados com estilos musicais diferentes. Havia também uma caixinha redonda e metálica de balas de uva. Ela a abriu, e encontrou diversos cartões de memória. Sua curiosidade aguçou, mas ela não mexeu. Preferiu voltar para o laptop e então foi passando as fotos. A maioria era de paisagens e momentos descontraídos daquelas três pessoas que estavam no quarto, mais um velho que usava um boné velho e tinha cara de poucos amigos.
Sorriu e continuou olhando para a foto, até que aquele momento foi se formando em sua cabeça.

Flashback On
Há um ano e cinco meses, em Sioux Falls, dias após o acidente.

Era manhã. estava ansiosa e se levantou da cama num pulo, mas com certo cuidado, já que sua cabeça ainda rodava de vez em quando.
Durante um passeio em Sioux Falls no dia anterior, a moça acabou comprando o que há tempos ela dizia que queria comprar: Uma câmera fotográfica profissional.
O fato era que ela adorava fotografia e vivia na estrada. Qualidades perfeitas para um fotógrafo.
Assim que chegou a casa de Bobby, preparou a câmera para usa-la, mas o tempo foi passando, e Sam combinaram de fazer uma maratona, e no final, nada aconteceu como o previsto. Ela e Dean acabaram passando a noite no Impala e a maratona acabou ficando para outro dia.
Mas agora nada a impedia.
Ela se arrumou, pegou a câmera e desceu as escadas, ouvindo conversas na cozinha. Eram Sam, Dean, e... Bobby, pelo visto ele havia voltado da caçada.
Ela ligou a câmera e assim que parou na porta, tirou a foto. Bobby estava recostado na pia, com uma caneca de café na mão, e parecia cansado. Sam estava sentado ao lado de , e Dean estava de frente para o irmão, e os três estavam virados para Bobby, ouvindo sua narrativa sobre a caçada ao metamorfo.
– Bom dia pra você também. – Bobby disse assim que viu que havia sido fotografado.
sorriu baixou a câmera.
– Bom dia. Como foi a caçada, Bobby?
– Foi uma aventura, mas acabou comigo.
– Tô vendo, parece que nem dormiu, chegou agora? – perguntou deixando a câmera em cima da mesa e indo até o armário.
– Quase. Como está se sentindo?
– Ótima. – respondeu se servindo de café. – Fui ao neurologista ontem e fui liberada.
– Eu soube, que bom.
– É, eu sou dura na queda. – deu de ombros e recostou ao lado do caçador. – E ainda me comprei um presente. – apontou com o queixo a câmera, que agora estava na mão de . – Vamos ter vários álbuns de família.
– Tô bastante ansioso pra ser perseguido por uma câmera. – disse sarcástico.
riu e então fez sinal para tirar uma foto.
– Então se prepara. – ela disse abrindo um sorriso e colocando um braço por cima do ombro de Bobby, olhando para a câmera a seguir.
Sem entender nada, o caçador seguiu seu olhar e então a foto foi tirada.

Flashback Off

Bobby não parecia tão ranzinza quanto Dean tinha falado, ela pensou ao passar a foto. Estava curiosa para saber mais sobre um metamorfo, mas estava muito confusa. Aquilo tudo era impossível demais para ser verdade, mas ela tinha que continuar com a mente aberta, afinal, era obvio que aquilo fazia mais sentido que toda sua vida de hippie, porque na verdade, ela não conseguia se lembrar de como se tornara hippie, nem mesmo como conheceu sua comunidade, nem mesmo tinha muitas lembranças antes disso. As únicas lembranças que tinha, eram coisas vagas e uma dessas era o seu relacionamento com Dean. Primeiro porque na cabeça dela, só mesmo o nome era real. O resto, todo aquele sofrimento, ela não sabia dizer.
Ouviu uma movimentação no lado de fora e viu entrando no carro e sentando ao seu lado.
– Oi.
– Oi.
– Você tá bem?
deu de ombros.
– Tô surpresa.
– Mas não é uma surpresa ruim, é?
– Não.
– Eu sei, pra mim também foi uma surpresa.
– Mas não parece, você tá tão tranquila.
– Porque agora eu me lembro de tudo, mas quando soube...
– Você se lembra? Como?
– Bom, eu não me lembro exatamente de tudo, as coisas foram voltando aos poucos e ainda estão.
– É, eu ando tendo uns fragmentos de memoria, mas ainda assim eu não sinto que seja minha realidade, apesar de fazer muito mais sentido que agora... Eu sei que é real, sei que é verdade... Ai, eu não sei explicar.
– Eu entendo o que quer dizer. Bom, se tiver alguma coisa que eu possa ajudar.
– Bom, eu quero saber de tudo.
– Tudo é muita coisa. Nossa mãe morreu pouco tempo após você nascer, fomos criadas por nossos avós e pai. Nossos avós morreram num acidente de carro há uns dez anos, e nosso pai faleceu há quatro.
– Por quê?
– Trabalho. Tudo indica que tenha sido um vampiro, ela o que ele tinha ido caçar antes de morrer. mas não sabemos ao certo o que causou sua morte. – assentiu, parecia até que ela havia entendido, mas na verdade ela estava chocada. – A gente começou a caçar escondido do nosso pai e hoje, a gente não faz outra coisa.
– E o que mais? 
– Bom, ironicamente, você é muito amiga de uma vampiro, quase uma irmã.
– O quê? – perguntou com os olhos arregalados.
– É, mas ele é um cara do bem, não se preocupe.
– E aqueles dois?
– A gente conhece os Winchesters há pouco mais de três anos. No começo nem tudo eram flores, mas depois que Dean voltou do inferno, as coisas começaram a melhorar...
– Inferno?
– Sim. Ele acabou fazendo um pacto pra salvar o irmão e quando o prazo acabou, ele morreu. Voltou quatro meses depois.
– Isso é possível?
– É, por mais incrível que pareça, nós conhecemos um anjo, Castiel, foi ele quem tirou Dean do inferno... Enfim, acabamos nos juntando e trabalhamos juntos por alguns meses, até que aconteceram algumas coisas ruins, a gente se separou e agora aqui estamos.
– Foi tão ruim assim?
– É, eu poderia te chatear novamente com tudo, mas não vai valer a pena.
– Mas eu preciso saber se quero me lembrar.
– Você quer se lembrar?
– Por que não? É minha vida, eu preciso saber.
– Bom, mas essa separação foi realmente ruim pra gente, você ficou muito mal.
– Foi tão triste assim?
– Você não ficou triste, ficou muito fula da vida. A sua raiva pelo Dean trasbordava.
– Por quê?
– Foi sugestão dele de nos separarmos. Ele disse que precisava ficar sozinho, e você não gostou muito disso.
– Porque estávamos juntos.
– Sim, você se lembra?
– Eu tive uns fragmentos de memória que me fizeram chegar a essa conclusão, a gente era bem... Feliz, dado a nossa situação.
– A gente se dava bem. Bom, você e o Dean eram um problema quase sempre. Mesmo juntos viviam discutindo e se desentendendo.
– Ah, é?
– É. – sorriu. – Ficaram juntos por quase oito meses, mas viviam terminando e voltando, a gente até tinha se acostumado.
– Eu tenho mesmo a sensação de ter vivido um relacionamento ruim, mas depois que descobri a verdade, achei que fosse tudo mentira.
– Não exatamente, mas o relacionamento de vocês não era de todo ruim, é que vocês são brigões e acabam discutindo por qualquer besteira. Mas vocês tinham seus dias de paz e amor. – fez graça, só rolou os olhos.
– Eu ainda sou uma hippie.
– Eu sei, que estranho.
– Deixa eu te perguntar, eu gostava tanto assim desse Dean, pra ter ficado com tanta raiva?
– Gostava? Ainda gosta... Eu acho. Mas você não admite.
– Mas o que eu não entendo é por que. Tipo, você mesma disse que a gente vivia terminando e voltando, eu mesma percebi que ele é difícil de lidar há pouco tempo, e por mais que eu seja difícil, eu não acho que ficaria com uma pessoa assim.
– É, mas você tem a tendência de gostar de gente desse tipo, e a principio, você e o Dean se odiavam, viviam se provocando, mas as coisas foram mudando com o tempo, principalmente antes dele morrer. Depois vocês resolveram se render e aí veio aquele efeito boomerang.
– Foram tantas vezes assim?
– É, algumas vezes vocês terminavam por alguns dias, mas teve vezes que durava semanas. A última vez antes de nos separarmos foi a pior. Nós estávamos num bar, um dia depois do Dean nos revelar como foi sua estadia no inferno... E o Dean é o tipo de cara que chama atenção, não podemos negar. Nessa noite você viu ele e a bartender conversarem enquanto ele pegava as cervejas.

Flashback On
Há um ano.

– Que demora. – disse assim que Dean se sentou ao seu lado, segurando duas garrafas de cerveja em cada mão.
– A movimentação tá meio grande lá.
– Aham... Foi isso que eu pensei quando vi você e a bartender conversarem.
Dean olhou para ela e depois para Sam e . Os dois abriram suas garrafas e disfarçaram o sorriso.
– Você tava me espionando de novo? Eu achei que a gente tivesse conversado.
– Sim, conversamos, viramos a pagina e superamos, mas quem leva mais de cinco minutos pra pegar quatro garrafas de cerveja? Eu levei três, há vinte minutos. E aí, qual foi o papo dessa vez? Ela comentou sobre o movimento, sobre quanto seu trabalho era puxado, mas que valia a pena porque conseguia pagar o aluguel e bebia de graça, e finalizou comentando que daqui a pouco seu turno acaba e que gostaria de companhia pra mais tarde?
– Nossa, as bartenders são tão previsíveis assim?
– Não, mas as intenções que elas têm, sim.
– Bom, mas desde que tudo se resuma a uma simples intenção, tudo bem, né?
– Tudo, desde que você não tenha as mesmas intenções.
– Bom, eu não tenho.
– Então eu não sei por que age assim.
– Assim como?
– Assim, sendo tão gente boa, dando confiança.
– Eu dando confiança? Falando assim até parece que isso acontece.
– Acontece, mas você não vê.
– Difamação e calunia.
– Dean, eu não tô brincando.
Dean tomou um gole de cerveja e bufou.
– Tá, tudo bem, mas o que eu podia fazer? Ir embora sem nem dar atenção a ela? Isso seria rude da minha parte.
– Seria uma opção, mas me esqueci que você é um poço de educação.
– Ah, qual é, coloca uma viseira em mim logo de uma vez!
rolou os olhos.
– Esquece, não adianta falar com você.
E então os quatro ficaram alguns segundos em silencio, o clima ficara pesado. olhou para Sam e puxou assunto, para descontrair. No fim das contas, apenas os dois conversavam.
, é sério, não precisa ficar com essa cara também. – ele disse baixinho.
– Dean, eu não tô afim de conversar sobre isso.
– Ok, você quer me fazer sofrer com seu silencio pra depois jogar a bomba, eu entendi.
– Não é nada disso.
– Claro que é, você sempre faz isso.
– Dean, ontem mesmo, quando a gente tava de FBI na casa dos Warden, a Margot veio toda assanhadinha pra cima de você e o que você fez? Nada, só ficou com um sorriso idiota no rosto e levando tudo numa boa.
– A gente tava no meio de uma investigação, eu não poderia simplesmente parar tudo e ir embora por causa de ciuminho seu.
– Ciuminho? Então quer dizer que se um cara desse em cima de mim na sua frente e eu não fizesse nada, tudo bem pra você?
– Ei, eu não disse isso.
– Mas se eu tivesse ido pegar quatro cervejas e o bartender viesse cheio de segundas intenções, e eu ficasse lá por sete minutos conversando com ele, tudo certo?
– Eu não disse que acho certo...
– Mas estaria tudo bem, desde que eu não tivesse as mesmas intenções.
Dean então se sentiu entre a cruz e a espada. Se ele dissesse que não, além de ter contrariado a própria afirmação, ele perderia toda a razão, então acabou respondendo:
– Dependendo da ocasião e do jeito que ele tiver levando a conversa, eu não veria um problema.
– Ah, não? – ela perguntou sorrindo e depois olhando pra irmã, que parecia ter parado de conversar com Sam no mesmo instante. – Ouviu isso?
– Eu não queria me envolver não, mas ouvi sim. Dean, conta outra.
– Eu tô falando sério, qual é, um cara não pode conversar com uma mulher mais?
– Pode, mas é meio estranho quando um deles é comprometido e o outro dá em cima dele.
– Vai ser estranho se a pessoa tiver correspondendo, – coisa que eu não fiz, que fique claro –. E é uma coisa que você não faria, não é? – perguntou a .
Ela deu de ombros.
– Não, mas eu seria bem sorridente e não iria embora sem dar atenção, é meio rude.
Dean meneou a cabeça.
– Se tiver tudo bem pra você...
– Sério? – Sam perguntou.
– O quê?
– Que você vai continuar sustentando essa linha de pensamento em vez de admitir que agiu errado?
– Eu não agi errado.
– É, Sam, ele não agiu errado. – disse. – Por isso ele vai ser totalmente compreensivo quando acontecer algo do tipo comigo, não é?
– O que tá querendo dizer?
– Nada querido, bebe aí sua cerveja.
Ela lançou-o um último olhar de quem colocaria suas palavras à prova e deu o assunto por encerrado.

Flashback Off

– Sério que eu fiquei com ciúme de uma bartender?
– Ah, mas não é de todas, só das oferecidas. Se bem que o Dean é um cara liberal... Não sei se esse seria o termo correto, mas ele gosta de flertar, é automático dele que vivia fazendo isso antes de ficar com você. Velhos hábitos nunca morrem. Mas naquela noite depois daquela conversa, o Dean evitou ir ao balcão.
– Sei, mas o que aconteceu depois?
deu um meio sorriso.
– Aí os dias foram passando, a gente foi pra outra cidade, resolver um caso de um quadro assombrado. Numa noite, fomos a um bar pra comemorar, como a gente fazia sempre que possível e aí aconteceu.  A gente tava conversando, o clima tava bem descontraído, até você ir ao banheiro e na volta, parar pra conversar com um motoqueiro. Na verdade você me contou que foi ele quem te parou, e eu até que acredito.
– E por que não acreditaria?
– Porque desde que Dean falou aquilo, você queria provocar. Mas enfim, eu comentei com ele que você tava conversando com um cara, mas ele não gosta de admitir seus erros, então ele fingiu que não tava nem aí. Você voltou alguns minutos depois, eu te perguntei quem era o cara, você contou por cima o que descobriu sobre ele, e não ouviu nenhuma palavra vinda da boca do Dean, e você não se contentou com aquilo, porque sabia que ele só tava fazendo pose. Mais tarde, quando a gente tava indo embora, você foi a ultima a sair do bar. A gente já tava até esperando no carro quando viu você conversando de novo com o motoqueiro, que te mostrava sua Harley Davidson todo orgulhoso.

Flashback On
Há um ano.

– Sério mesmo que sua irmã tá atrasando a gente só pra me testar? – Dean perguntou.
– Sabe como ela é, Dean.
– Eu disse pra você se redimir quando ainda tinha tempo. – Sam comentou.
– Redimir por quê? Não fiz nada de mais.
– Na sua cabeça não, mas eu também não gostaria de ver o Sam trocando sorrisos simpáticos e flertes com toda mulher oferecida que ele encontra. Nem que fosse só pra se divertir.
– Mas eu não faço isso de propósito, é automático, eu nem percebo.
– A gente sabe, mas você tem que se esforçar também né.
– Ela que tem que entender e levar numa boa, quantos anos ela tem?
– Bom, se você queria uma pessoa mais madura, deveria ter fugido dela.
, nossa diferença de idade não é tão grande assim.
– Teoricamente sim, mas você tem mais experiência, é mais maduro.
– Maduro aonde? – Sam perguntou para caçoar o irmão. – Às vezes parece que não saiu do colegial ainda.
Dean só balançou a cabeça e continuou olhando para , que estava a todo sorrisos para o cara.
– Eu vou lá.
– Dean, ela só quer provocar, daqui a pouco ela volta.
– Eu só vou chamar ela.
– Isso é o que você diz.
– Relaxa. – Dean saiu do carro e caminhou até os dois.
e Sam assistiam tudo do carro.
– Parece que somos pais de dois adolescentes, Sam.
– Achei que já tivesse acostumada.
– Ah, eu tô, mas essa é nova pra mim, a passou um pouco do limite.
– Mas o Dean provocava, isso é fato. Ela até que foi bem paciente.
– Olha lá.
Os dois viram Dean se aproximar de e falar com ela. Não sabiam a expressão da moça, estava escuro demais para deduzir qualquer coisa, mas segundos depois, viram Dean puxá-la pelo braço, e o motoqueiro se levantando da moto no mesmo instante.
– Acho melhor... – e nem precisou terminar de falar, Dean soltou e se aproximou do cara, que era praticamente do tamanho de Sam, se não maior. Os dois pareciam trocar algumas farpas e tentava puxar Dean pelo braço, mas o mesmo nem saía do lugar.
– Eu vou lá. – Sam comentou já saindo do carro.
desceu logo a seguir e os dois se aproximaram, mas nem precisava. Dean logo deu as costas e os dois começaram a caminhar até o carro, até que ouviram o cara dizer claramente em alto e bom som: "Então segura essa vadia." Aí não deu outra, Dean se virou novamente e caminhou até o cara, o acertando um soco no rosto. tentou apartar, mas a confusão já estava feita. O cara também avançou em Dean, causando certo alvoroço entre os que estavam do lado de fora, que se aproximaram só pra assistir.
Sam logo correu e se juntou a na tentativa de separar os dois. puxou a irmã, que mais parecia uma criança assustada naquela briga de gigantes e então, outros caras que estavam dentro do bar saíram para apartar a briga, alguns deles, amigos do tal motoqueiro. Sam, que foi atingido sem ter feito nada, estava com o nariz sangrando e puxando o irmão, enquanto os outros seguravam o motoqueiro.
Dean acabou dando as costas furioso e foi até o carro, estava com a boca e o nariz sangrando.

Flashback Off

– A gente não abriu a boca o caminho de volta inteiro. Você mesma ficava olhando pela janela, amuada. Dean fumegava de raiva e eu morria de dó de Sam, que tinha apanhado de graça.
– Nossa, eu fui uma tremenda de uma babaca.
sorriu.
– Foi, mas não quis admitir, e provavelmente, quando recuperar a memoria, você vai voltar atrás a achar que tinha razão.
– Eu sou um monstro.
riu.
– Bom, você é totalmente o oposto de uma hippie.
– E você sabe o que aconteceu entre nós?
– Sei o que você me contou e o que eu ouvi. Só sei que alguns minutos após termos chegado ao motel, eu e Sam ouvimos você e Dean discutirem no quarto ao lado, vocês não sabem falar baixo, é um defeito de fabrica. E então eu e o Sam resolvemos ligar a TV e fingir que nada estava acontecendo.
– Obrigada.
– Agradeça ao Sam, que é um lorde, eu queria ter ouvido tudo. Mas enfim, chegou um momento que nós dois não ouvimos mais nada. Eu realmente achei que vocês já tinham resolvido tudo, mas aí no dia seguinte, percebemos que um não falava com o outro e Dean tinha alugado um quarto pra ele... Ele ficou muito puto da vida com você, ficou duas semanas sem falar com você, e os dois viviam jogando indireta um pro outro. Foi depois de Castiel sequestrar Dean e o mesmo parar num hospital, depois de um demônio dar uma surra nele, que os dois resolveram voltar a se falar. Ficaram assim por um mês, e a gente tava prestes a entrar num caso envolvendo Chuck Shurley, um profeta, quando do dia pra noite, tudo voltou ao normal. Eu não sei o que rolou, mas você disse que era o de sempre, então eu presumo que os dois tenham conversado, bebido, passaram a noite juntos e tudo se resolveu.
balançou a cabeça impressionada.
– Inacreditável.
– Nem me fale, mas fazer o quê? Vocês são assim.
assentiu.
– Mas e da ultima vez?
suspirou.
– Foi quando resolvemos nos separar. Havia passado quase dois meses desde que vocês voltaram, e por isso você ficou uma fera quando ele quis separar todo mundo. Eu não sei o que houve, dessa vez você não quis falar comigo, o que me fez imaginar que foi mais sério que costumava ser, já que você não ficava brava, nem xingava ele. Ficava de boa, fingindo que tava tudo bem. Aí até hoje vocês estão assim.
– Faz quanto tempo?
– Oito meses. É um recorde, nunca passamos tanto tempo separados.
– Você e o Sam também?
– Sim, eu concordei. Também achava que precisávamos de um tempo, eu não me lembro com clareza por que, mas nós dois também terminamos, mas agora estamos juntos novamente. Não oficialmente, mas tudo bem.
– E estamos todos juntos agora?
– Não, continuamos separados. Ficamos seis meses sem nos ver, que dizer, sem vermos ou falarmos com o Dean, eu falava e via o Sam de vez em quando. Aí pintou um problema e eles precisaram da gente, de você especificamente, já que suas habilidades com o pôquer eram requeridas. A gente resolveu tudo, mas você ainda estava com raiva do Dean. Eu não sei o que houve, novamente você não me contou, mas as coisas não terminaram bem. Aí o tempo foi passando, a gente foi se vendo com mais frequência, mas você ainda estava magoada. E agora estamos aqui.
– Eu ainda tô com raiva dele?
– Provavelmente. 
assentiu e baixou a cabeça. Ela não tinha ideia do que havia acontecido, mas agora que sabia mais ou menos, ela se sentia mal. Uma porque sua personalidade não era tão pacifica quanto achava, e outra porque ela tinha certeza que apesar de Dean ter algo obscuro dentro de si – que agora deixava bem claro que era por causa do inferno –, ele era uma boa pessoa. Ela ainda sentia aquilo, então se sentiu na obrigação de resolver tudo, não compensava continuar com tanta raiva e rancor.
– Talvez esteja na hora de resolver isso.
a olhou e meneou a cabeça.
– É a irmã hippie quem tá falando ou é a irmã monstro?
– Acho que as duas.
– Que bom, realmente precisam resolver isso, empurrar com a barriga não tá fazendo bem a ninguém. Mas agora vamos focar no momento. Quer nos ajudar?
– O que eu posso fazer?
– Eu vou te contar o que tá acontecendo primeiro.
Depois de contar a irmã o que estava acontecendo, as duas voltaram para o quarto, encontrando os Winchesters sentados a mesa, falando ao telefone com Bobby.
Bom, antes fosse uma bruxa. Existe um feitiço que pode acabar com uma rapidinho.
– Pois é, mas descobrimos pela que não é uma bruxa, é Lethe.
A deusa grega? É, faz mais sentido que a deusa chinesa, e talvez seja nossa sorte.
– Por quê?
– Porque existe uma maneira de pará-la, mas isso não vai matá-la, vai manda-la de volta pro lugar de onde veio.
– Isso já é muito bom. – Dean disse.
Sim, mas vai ser meio difícil. Vocês vão precisar de sangue da cabeça de um carneiro branco e jovem, de preferencia, e uma estaca de pinheiro grego. Vocês já podem imaginar o que fazer depois.
– Temos que matar um animal? Isso é horrível. – disse.
– Bobby a chamou. – Você está bem?
– Ah, eu tô sim. – respondeu sem jeito.
Que bom, eu soube o que houve com você e sua irmã, vai ficar tudo bem.
– A gente vai voltar ao normal?
Bom, eu acho que as coisas vão voltar ao normal se impedirmos Lethe de fazer o que faz.
– Você acha? – Dean perguntou. – Bobby, a gente não pode trabalhar com base no achismo não. E se a gente mandar essas loucas pra terra delas e as duas e a cidade toda continuar com amnesia?
Bom, a memoria da tá voltando, pode ser que a de e a dos outros também volte.
– E se não voltar?
Bobby fez uma pausa e suspirou.
Olha, eu pesquisei, não sei o que fazer pra reverter isso. Só Mnemosine poderia devolver as memorias, mas ela não vai fazer isso se pedirem, e também não tem como fazer do jeito difícil, ela é imortal, filho.
– Ah, que ótimo, a solução de um problema é outro problema.
A gente pode enfrentar um de cada vez. É a única solução.
– Que não ajuda muito.
– Vamos matar um animal inocente pra fazer algo que talvez possa não nos ajudar? – perguntou. – Cadê a vantagem nisso?
Eu não sei, mas ainda assim, não sei se seria possível fazer esse sacrifício.
– Por quê? – Sam perguntou.
Porque vocês precisariam da estaca de um pinheiro grego, vocês não estão na Grécia, vai ser quase impossível achar alguma coisa importada de lá.
– Vai levar um tempo pra descobrirmos.
Sim. Mas não temos escolha.
– Eu não quero que um animal morra por minha causa.
, eu sei que sua consciência não permite, mas não se esqueça que essa não é você. – disse.
– Precisamos disso.
– Não, não precisamos. Qual é cara, uma cidade toda vive uma ilusão, não passa pela cabeça de vocês que talvez essa ilusão seja melhor que a realidade deles?
– Por quê? Sua vida tá melhor agora? – Dean perguntou.
– Cara, eu era caçadora de monstros, e tinha o espírito perturbado, agora não sou assim.
– Mas essa não é você.
– Talvez eu prefira ser assim.
– Mas a gente não prefere você assim.
– Mas é uma escolha minha. Olha, eu já sei a verdade, posso conviver com isso e ainda ser do jeito que sou agora. Eu sei que posso suportar.
– Mas isso não é suficiente pra deixarmos as duas mandarem na cidade. – Sam disse. – Não podemos permitir.
– Ok, mas é um animal.
Os três suspiraram.
– Olha, eu posso até ver se encontro alguma coisa, mas acho que estaríamos perdendo tempo.
– Deve haver alguma maneira menos sangrenta.
– Se alguém aqui tiver uma ideia, pode falar. – Dean disse.
– A gente pode tentar um dialogo. – disse, recebendo assim, olhares de Sam, e Dean. – Eu sei que é ridículo, mas talvez...
, não viaja. – Dean disse. – Olha o que elas fizeram com vocês e a cidade, elas não são do tipo que sentam e conversam.
– Pode ser, mas também não são do tipo que matam.
– Pessoas que não aguentaram os fragmentos de memoria verdadeiros, acabaram sendo internadas no hospital psiquiátrico, outras tentaram suicídio, tamanho a confusão, elas são muito pior que o tipo que matam.
Todos ficaram em silencio por alguns segundos, até ela dizer:
– O objetivo aqui é impedir que elas continuem tirando e modificando a memória dos outros, né? E se uma bebesse a água da outra?
Os três se entreolharam.
– Mnemosine se esqueceria que é capaz de mudar a memoria dos outros, e Lethe se lembraria do quê? – perguntou.
– Meio confuso. – Sam respondeu. 
– E se a gente fizesse o contrario? Se elas bebessem da própria água? – Dean perguntou.
– Seria como se provassem do próprio veneno.
– Mas funcionaria?
– Sim, mas talvez seja melhor dar a água do esquecimento pras duas. Assim nenhuma se lembraria de nada. Bom, de qualquer maneira, eu vou voltar às pesquisas, tomem cuidado e fiquem longe da água. Falo com vocês depois. – e desligou.
– Temos um plano? – perguntou.
– Temos, mas como vamos saber quem é Mnemosine? – Dean perguntou. – Digo, é possível que ela esteja no bar também, e que esteja escolhendo a vitima delas a dedo?
– Pode ser. – respondeu. – Mas eu tenho uma suspeita.
– Quem?
– Lucy.
– A Lucy? Por quê? – Sam perguntou.
– Porque ela me dizia umas coisas sobre o passado dela e me fazia perguntas sobre o meu, e acabava me fazendo pensar e me deixava confusa, porque as coisas não batiam.  E também tem aquele ponche delicioso dela, eu não me lembro de ter tomado, mas eu penso que sim, e foi pouco antes de eu entrar naquela empresa. Todo mundo ali me conhece.
– É, e a maioria trabalha ali há mais tempo que a própria dona, realmente faz sentido. Lucy acabou dando água da memoria pra todo mundo da empresa, fazendo todos eles se lembrarem de você.
– Exato.
– Ótimo, agora que temos nossos suspeitos, precisamos da agua do esquecimento. –Dean comentou.
– A me disse que eu sei onde fica, eu posso ir. – disse.
– Mas você se lembra?
– Não, mas eu posso ter uns fragmentos de memoria se tiver lá.
– Ok, eu vou com você. e Sam vão atrás de Mnemosine. Se a gente não chegar a tempo com a água do esquecimento, que a vadia então prove do próprio veneno e a gente vê no que dá.
Os dois assentiram.

...

De Impala, e Dean chegaram ao bar que estava fechado, mas com as luzes acesas. Os dois esperaram por alguns segundos, e viram o bartender do local e Lethe saírem conversando.
Esperaram os dois dobrarem a esquina e desceram do carro, indo diretamente para a porta dos fundos.
– Como vamos abrir? Tá trancada. – observou.
Dean nem respondeu. Arrombou a porta e acendeu a luz. Apesar de ter achado aquilo tudo meio rude da parte dele, o seguiu.
– E aí? Lembra-se de alguma coisa?
meneou a cabeça. Aquele lugar não era totalmente estranho para ela.
– Eu não tenho certeza. Vou ver lá embaixo. – ela disse se afastando.
Dean continuou procurando pelo tal armário, passando por alguns caixotes cheios de garrafas e pilhas de caixas.
Ouviu um barulho vindo da porta e pegou o revólver do cós da calça, mas não teve tempo de reagir.

andou pelo porão e não podia esconder que estava apavorada. A luz estava acesa, mas ainda assim ela sentia medo. O porão era uma bagunça só, cheio de caixas e teias de aranha, sem dizer que o cheiro era insuportável.
Continuou desviando de algumas caixas até que encontrou um armário encostado na parede. O abriu e viu algumas caixas, inclusive, uma de ferro, que estava trancada por um cadeado.
Era aquela, ela tinha certeza.
Pegou um grampo do cabelo e torceu para que se lembrasse na hora de como abrir um cadeado. Ouviu um estrondo vindo lá de cima e no mesmo instante, saiu às pressas e subiu as escadas, se deparando com Lethe, que a esperava com um sorriso no rosto.
– Olha só o que o gato trouxe pra casa.
E então veio a escuridão.

e Sam haviam ido para o escritório. No R.H, viram os documentos de Lucy e descobriram o endereço que ela morava.
Seguiram até lá com o Challenger, e pararam diante da casa. A rua estava quieta e só havia as luzes dos postes. Nenhum dos dois sabia onde encontrar a água da memória, então resolveram esperar pelos irmãos. Ficaram lá por cerca de quinze minutos e então ligaram para Dean, mas a ligação caiu na caixa-postal, assim como as outras.
– Deve ter acontecido alguma coisa. – Sam disse. – Vamos ter que entrar e depois, se tivermos sorte, temos que ir atrás dos dois.
assentiu, parecia preocupada.
– Tá tudo bem?
– Tá, mas é que eu não tenho a menor ideia do que fazer, não me lembro de muitos momentos de ação.
– Olha, não precisa se preocupar, você vai se sair bem e eu vou ficar bem do seu lado. Tudo que você precisa fazer agora é silencio e procurar a água, qualquer líquido que parecer estranho pra você, pode nos ajudar.
Ela assentiu e respirou fundo.
– Pronta?
– Pronta.
Os dois desceram do carro e seguiram para a casa. Sam abriu a porta sem nenhuma dificuldade, até porque a porta estava destrancada. Aquilo o deixou atento, porque havia a chance de ela saber que estavam lá.
Foram para a sala e depois caminharam até a sala de estar. Sam tinha acabado de passar pela porta quando o viu ser arremessado contra a parede.
Foi até o rapaz, que parecia colado na parede, e sentiu um impulso prensando-a ao seu lado. Logo, viu uma mulher usando um vestido esvoaçante lilás e com os cabelos soltos. Pulseiras e adornos na cabeça a enfeitavam, e tudo parecia ser ouro maciço.
– Lucy. – disse.
A mulher se aproximou mais e abriu um sorriso.
– Prefiro Mnemosine, mas pode me chamar assim se quiser.

abriu os olhos sentindo uma forte dor de cabeça. Via tudo embaçado a principio, mas logo depois, tudo foi ficando mais claro, inclusive a mulher de pele branca e cabelos loiros e cumpridos, que usava um longo vestido branco e adornos de ouro.
Balançou a cabeça e tentou se mexer. Estava com as mãos atadas com as de Dean, que também estava sentado, de costas para ela.
– Dean?
.
Lethe. – a loira disse, se aproximando a passos lentos até os dois. – Muito prazer... Aceitam alguma coisa? Querem alguma bebida?
– Eu adoraria, mas tô meio preso aqui. – Dean disse.
– É, me desculpe por isso. – ela disse se abaixando de frente para ele. – Mas não me restaram alternativas. – ela se levantou e ficou diante de , se abaixando a seguir. – Você é dura na queda, me descobriu e mesmo depois de ter perdido a memoria, voltou a vir atrás de mim. Preciso tomar mais cuidado com você e seus amigos. – se levantou e se afastou. – E falando neles, onde estão?
– Não é da sua conta. Vai se ferrar.
– Cadê a paz e o amor, querida? Você realmente tá voltando ao normal, devo agradecer aos Winchesters por isso?
– Vá direto ao ponto aí, faz o favor. – Dean disse.
– Onde estão os outros?
– Ela já respondeu.
– Estão indo atrás da tonta da Mnemosine, eu presumo.
– Você é muito boa.
– Eu sei, e do jeito que ela é idiota, é bem capaz de ter deixado os dois irem embora... Eu acho que vou fazer uma visitinha a ela agora. Depois eu cuido de vocês. – disse dando as costas. – Não saiam daí, preciso dar uma passadinha lá embaixo e já volto.
Os dois assistiram a mulher ir para os fundos do bar e a ouviram abrir a porta do porão.
– Algum plano? – perguntou.
– Eu sempre tenho um. No meu bolso tem um canivete, eu não consigo alcançar por sua causa, mas você pode se redimir tentando pegar.
– Tá, qual bolso?
– Esquerdo.
– Pera aí. Com licença.
– Divirta-se.
colocou a mão no bolso de Dean, e então começou a procurar o canivete.
– Eu acho que isso não é um canivete.
– Opa, me desculpe. – ela disse imediatamente.
– Fala a verdade, você tá bem que se aproveitando.
– Eu não, mas você ajudaria muito se pendesse um pouco pra direita.
Dean soltou um ar convencido e pendeu para a direita.
conseguiu alcançar o canivete e o passou para Dean, que o abriu e começou a cortar a corda com certa pressa.
Assim que a corda se rompeu, os dois se levantaram num pulo.
– Você achou a água?
– Achei, mas não consegui pegar.
– Ótimo, muito bom.
– Ei, desse jeito você faz eu me sentir culpada.
Dean pensou por alguns instantes e bufou.
– Você vai lá embaixo e pega a água.
– E você?
– Não se preocupe. Assim que ela sair lá do porão, você desce.
Ela assentiu.

, parece que você se encontrou. Que bom, fico feliz por você.
– Obrigada, mas não foi graças a você.
– Bom, de certo modo, foi sim. Eu poderia te deixar totalmente sem memorias.
– Eu deveria agradecer agora?
– Tecnicamente, sim.
– Assim como todo mundo naquela empresa que acha estar vivendo uma realidade? Corta essa.
– Por que esses olhares de julgamento? – ela perguntou se sentando de frente para os dois. – Eu ajudei aquelas pessoas, elas estavam perdidas, sem saber quem eram ou onde estavam.
– Muitas delas foram parar no hospital psiquiátrico e outras tentaram se matar porque achavam que sua vida perdeu o sentido. – Sam disse.
– A culpa não é minha, Lethe teve um surto e desmemoriou todo mundo, acha que é fácil pegar um de cada vez e voltar com suas memorias? Eles estão no lucro por terem alguma lembrança.
– Como é? Você estava ajudando essas pessoas?
– Eu não quero me gabar não, mas, sim. Eu fiz o possível. E tô fazendo. Aos poucos eu estou devolvendo as memorias verdadeiras dessas pessoas, mas eu não quero criar outro surto, como foi nos anos vinte, preciso ir com calma. Eu só quis te ajudar, .
– Eu não chamaria tanto assim de ajuda.
– Eu sei, mas é que eu preciso ser cautelosa. Dá muito trabalho arrumar as besteiras que Lethe faz.
– Por que ela faz isso? – Sam perguntou.
– Eu não sei. Lethe sempre foi difícil de lidar, quase impossível, não é a primeira vez que ela faz algo assim, já faz tempo que ela tá me arrancando os cabelos.
– E por que não a impede?
– Porque ela tem um papel a cumprir no nosso mundo. Acha que já não pensamos em prendê-la?
– E vocês pretendem deixá-la surtar assim?
– Estamos resolvendo o que fazer com ela. Enquanto isso eu preciso resolver os problemas que ela causa, mas o trabalho tá acumulando.
– Olha, precisamos acabar com isso antes que saia do controle.
– Eu sei, mas não posso fazer nada com ela sem as ordens de Hades.
– Ah, que ótimo, até porque bonzinho do jeito que ele é, ele nos ajudaria. – disse.
– Exato. Agora cabe a Zeus decidir, mas até agora ele não fez nada a respeito, ele tem problemas pra resolver.
– E acha que isso não é um problema? – Sam perguntou. – É praticamente de uma cidade inteira que estamos falando.
– Eu sei, mas o que eu posso fazer?
– Nos ajudar.
– Não acha que eu já estou fazendo o suficiente não?
– Não.
Ela os encarou por alguns segundos e então suspirou.
– O que querem que eu faça? Não posso tocar em Lethe.
– Nos ajude a dar da água do esquecimento a ela.
– É o quê? Vocês ficaram loucos?
– Isso pode nos ajudar?
Ela balançou a cabeça.
– Claro que sim, a água funciona com todos, mas isso vai ser impossível.
– Pra nós sim, pra você talvez não. – Sam disse. – Vai nos ajudar?

Dean e se separaram e se posicionaram. Ouviram a deusa subir novamente as escadas e adentrar o bar. Puderam ouvi-la soltar um riso quando percebeu que os dois haviam se soltado.
– Vocês querem brincar de pique-esconde? Tudo bem. – ela se virou e então foi surpreendida por Dean, que a acertou um soco no rosto.
aproveitou o momento de distração da mulher e desceu até o porão.
A mulher se recompôs e sorriu de canto. Revidou o soco, e o arremessou contra uma parede. Dean caiu próximo de uma mesa e se apoiou em um dos braços, conforme a deusa dava as costas, a procura de pelo bar.
– Vocês humanos são tão ridículos, sempre acham que podem contra a gente. Você não pode comigo, Winchester. – ela se virou e novamente foi pega de surpresa. Dean a atingiu com uma cadeira, que se quebrou no mesmo instante, mas que não pareceu ter surtido tanto efeito na deusa, que por sua vez, se recompôs e estendeu a mão, fazendo com que Dean batesse novamente contra uma parede, dessa vez ao lado de um extintor de incêndio, que ele pegou sem pensar duas vezes.
O acertou em cheio na mulher duas vezes, mas já sem muita paciência, Lethe o segurou pelo pescoço e o prensou contra parede, o erguendo a seguir.
Dean soltou o extintor e segurou o braço da mulher, tentando se soltar, mas parecia que ela apertava ainda mais forte, com um sorriso maligno no rosto.
– Eu estou aqui há milhares de anos. Achei que o ser humano evoluiria, mas mesmo com tanta evolução, a mente pequena de vocês os reduz a pó, mas ainda assim odeiam admitir que existem seres superiores a vocês, que merecem ser adorados, respeitados, mas o que vocês fazem? Querem tomar nosso lugar. Vocês nunca aprendem. – finalizou com certo rancor na voz.
Pendeu a cabeça quando sentiu algo molhado na cabeça. Soltou Dean e se virou, dando de cara com , que segurava um pequeno frasco de vidro aberto. Na outra mão, a rolha que o fechava.
– Sua infeliz! – Lethe vociferou e então ergueu sua mão, batendo com o dorso no rosto de , que caiu em cima de uma mesa.
Lethe se aproximou a passos rápidos da moça, e a segurou pelo pescoço, erguendo-a e fitando seus olhos.
– Eu vou... – ela disse com os olhos fumegando raiva, mas aos poucos, seus olhos foram perdendo expressão, ficando surpresos e então pensativos. – Eu, eu... – ela soltou , que caiu no chão tentando normalizar a respiração, e começou a olhar ao redor, sem ter ideia do que estava acontecendo. – Eu, eu... O que...
Então a porta do bar se abriu. Mnemosine, e Sam adentraram, parando assim que perceberam que o plano poderia ter dado certo.
. – disse se aproximando da irmã e a ajudando a se levantar.
– Me ajudem... Me ajudem... Eu, eu, quem, o que... – Lethe dizia, andando de um lado para o outro.
Mnemosine se aproximou dela e a segurou pelo braço.
– Vai ficar tudo bem. Eu vou te ajudar.
Lethe a olhou assustada, mas também aliviada.
– Obrigada.
Mnemosine deu um meio sorriso e se virou para Sam.
– Eu cuido daqui.
Sam assentiu.
– Mas e a cidade?
– Agora que ela não vai atrapalhar mais, as coisas vão voltar ao seu lugar mais rápido. Daqui a pouco ninguém mais vai se lembrar das memorias erradas.
– E a gente? – perguntou.
Mnemosine estendeu dois frascos roxos e estendeu para e .
– Bebam da água do esquecimento antes.
– Por quê? – perguntou.
– Porque assim vocês não vão se lembrar do que aconteceu nesses últimos dias.
– Não, a gente quer se lembrar. – disse. – Queremos saber o que aconteceu.
Ela assentiu.
– Então desfrutem. As memorias vão voltar e se encaixar aos poucos. No máximo até amanhecer as coisas voltam ao lugar.
– Obrigada. – disse.
Mnemosine assentiu. As irmãs se aproximaram dos Winchesters e os quatro saíram do bar, parando na calçada, ao lado do Challenger.
– Você tá bem? – Dean perguntou a .
– Tô, e você?
Ele assentiu. e Sam trocaram olhares discretos, sorrindo sutilmente com a preocupação que um ainda sentia pelo outro.
– E agora vocês podem me explicar o que acabou de acontecer? – Dean perguntou ao irmão.
– Mnemosine estava tentando ajudar aqueles que perderam a memoria.
– Sério?
– É, mas não foram todos que tiveram sua memoria recuperada totalmente, ela tá consertando aos poucos, por isso as duas acabaram vivendo uma vida totalmente diferente da que tiveram.
– Essa gente vai voltar ao normal, devemos confiar nela?
– Sim, eu acho que sim.
– Bom, o papo tá bom, mas eu preciso de um banho e roupas normais. – disse. – Como vocês me deixaram andar por aí vestida desse jeito?
riu.
– Parece que vai a uma festa de fantasia com esse lenço amarrado na cabeça e essa calça larga.
– Eu não quero nem imaginar quem é o dono verdadeiro dessas roupas.
soltou um riso pelo nariz.
– A gente se vê quando amanhecer, galera.
– Vocês vão ficar bem? – Sam perguntou.
– Vamos, assim que chegarmos ao motel, vamos tomar a água e descansar, mais tarde estaremos novinhas em folha.
Sam assentiu. As duas adentraram o Challenger, estava no lado do motorista. Quando a moça teve de fazer a ligação direta, os irmãos puderam ouvir xingar Dean. Os dois ergueram as sobrancelhas, e se entreolharam.
As coisas estavam mesmo se encaixando.

Flashback On
Há um ano.

e Dean adentraram o quarto em silencio.
estava receosa, afinal, havia comprado uma briga por nada. Dean estava furioso, e foi direto para o banheiro, batendo a porta. Ela se sentou na cama e esperou. Minutos depois, Dean voltou. Os machucados do nariz e da boca não sangravam mais, mas ainda assim havia marcas.
– Você tá bem? – ela ousou perguntar, após um tempo de silencio. Dean não respondeu, fazendo suspirar e se levantar, arrependida. – Dean, me desculpe, eu não queria que isso tivesse acontecido.
– Não, você não queria me provocar. – ele respondeu seco, se virando para ela. – Você não queria se vingar por uma idiotice que aconteceu há semanas.
– Idiotice? Pra você foi idiotice eu ter reclamado por você ter nos deixado te esperando pra ficar de conversa com uma desconhecida?
Dean bufou irritado.
– Eu não disse isso, tá vendo como você coloca palavras na boca dos outros? Isso me irrita, me deixa muito frustrado.
– O seu jeito também me deixa frustrada, mas eu não posso reclamar porque você não gosta, não dá atenção, acha tudo uma idiotice e depois fica com raiva quando eu resolvo usar a mesma medida!
, POR DEUS, VOCÊ NÃO PERCEBE O QUE ACABOU DE ACONTECER POR UMA INFANTILIDADE SUA?! – ele aumentou o tom de voz, o que fez igualar o tom:
– EU PERCEBO SIM, MAS EU SÓ QUERIA TE MOSTRAR O QUE É QUE VOCÊ FAZ SEM PERCEBER. DEAN, QUASE SEMPRE EU ME SINTO DO MESMO JEITO QUE VOCÊ SE SENTIU.
– EU JÁ FALEI PRA VOCÊ QUE EU NÃO PERCEBO, QUE É AUTOMÁTICO...
–... PARA DE JUSTIFICAR, É SEMPRE A MESMA DESCULPA...
–... NÃO É DESCULPA, É A VERDADE!
– MAS EU NÃO VEJO VOCÊ TRABALHANDO NISSO...
–... PORQUE É RIDÍCULO, EU NÃO VEJO NUNCA MAIS ESSAS MULHERES, EU MAL ME LEMBRO DO NOME DELAS NO FINAL DA NOITE.
– É BOM SABER QUE É RIDÍCULO, É RECONFORTANTE ALIAS. MAS AINDA ASSIM DEAN, POR QUE PRA VOCÊ NÃO TEM PROBLEMA NENHUM FAZER ISSO, MAS QUANDO É COMIGO VOCÊ ACHA RUIM? EU REALMENTE NÃO ENTENDO A DIFERENÇA...
–... A DIFERENÇA É QUE EU NÃO FAÇO DE PROPOSITO, VOCÊ SÓ FEZ PRA PROVOCAR, PRA TESTAR MINHA PACIÊNCIA E ME FAZER VOLTAR ATRÁS NO QUE DISSE.
– CLARO, VOCÊ DISSE QUE NÃO TEM NADA DEMAIS DUAS PESSOAS CONVERSAREM QUANDO UMA TÁ DELIBERADAMENTE DANDO EM CIMA DE VOCÊ.
– E NÃO TEM!
– DEAN, O QUE VOCÊ NÃO ENTENDE É QUE TUDO TEM UM LIMITE. ESTAMOS JUNTOS HÁ MESES, VOCÊ SABE QUAL É O NOSSO LIMITE, MAS VOCÊ FAZ QUESTÃO DE CHEGAR AO TOPO.
– E HOJE VOCÊ FEZ QUESTÃO DE ULTRAPASSAR!
– É A PRIMEIRA VEZ QUE ISSO ACONTECE E AINDA ASSIM FUI EU QUE PASSEI DO LIMITE.
– EU NÃO DISSE...
– DISSE SIM.
– TÁ, EU DISSE. MAS NÃO É VERDADE?
– E NÃO É VERDADE QUE VOCÊ PROCUROU TUDO ISSO?
Dean balançou a cabeça e se sentou na cama. bufou e deu as costas. Balançou a cabeça e se sentou do outro lado da cama.
Os dois ficaram alguns segundos em silencio até que ele disse:
– Chega, não adianta discutir, a gente nunca vai chegar a um acordo.
balançou a cabeça. Irritada novamente, ela se levantou.
– EU JÁ TENTEI UM ACORDO DE DIVERSAS FORMAS COM VOCÊ. MAS VOCÊ NÃO ACEITA DESDE QUE EU LEVE AS COISAS COMO VOCÊ LEVA.
– O quê?
– EU TENHO QUE ME SUJEITAR A TUDO QUE VOCÊ FAZ E VOCÊ É INCAPAZ DE RECONHECER UM ERRO. EU TÔ CANSADA DISSO.
– VOCÊ SEMPRE DIZ QUE TÁ CANSADA.
Ela soltou um riso miserável.
– PRA VOCÊ VER DESDE QUANDO EU TENHO AGUENTADO ISSO. PARECE QUE EU SOU A ÚNICA QUE QUER QUE ISSO FUNCIONE. EU TÔ CANSADA DE TRABALHAR NISSO SOZINHA.
– VOCÊ NÃO TÁ FAZENDO TUDO SOZINHA, VOCÊ SÓ NÃO PERCEBE O QUE EU FAÇO.
– E O QUE É QUE VOCÊ FAZ? – perguntou irritada. – EU SÓ POSSO SER CEGA PRA NÃO VER.
– EU PASSO A MAIOR PARTE DO TEMPO TENTANDO NÃO COLOCAR TUDO A PERDER. EU TENHO QUE PISAR EM OVOS E PRECISO PENSAR MIL VEZES ANTES DE FALAR QUALQUER COISA COM VOCÊ, ATÉ MESMO NO TRABALHO PORQUE PRA VOCÊ TUDO É MOTIVO DE BRIGA.
– DEAN, TUDO PRA VOCÊ É MOTIVO DE BRIGA TAMBÉM, E EU JÁ ME ACOSTUMEI COM ISSO E EU GOSTO DE VOCÊ DO JEITO QUE VOCÊ É...
– ENTÃO PARE DE JULGAR PORQUE ISSO TAMBÉM CANSA!
Os dois ficaram algum tempo no mais absoluto silencio. Dean voltou a se sentar e recostou na mesa, cruzou os braços e fitou o chão.
– Eu sei que isso também cansa você, mas eu não te julgo Dean, nem quero que você mude, eu disse que gosto de você do jeito que você é. – ela disse após longos minutos.
Dean demorou um pouco para responder. Suspirou e disse:
– Mas tá querendo que eu entre no seu regime,
, isso tá parecendo uma prisão.
– Isso é uma prisão pra você?
– Não, mas você faz parecer. – Ela balançou a cabeça. – Olha, você tem que entender que eu ainda não tô acostumado com isso. E sua cobrança, tantas idas e vindas me cansam mais ainda.
Ela assentiu.
– Você tá cansado de estar preso a alguém.
– Eu não disse isso.
– Eu não preciso ouvir da sua boca pra entender isso.
Os dois voltaram a ficar alguns minutos em silencio, até dizer:
– Talvez seja hora de deixar o cansaço vencer.
– O que quer dizer?
– Que os dois estão cansados, e um de nós não consegue se adaptar e quer abandonar o barco.
– Pera aí, você tá jogando a culpa em mim?
– Eu não tô jogando a culpa em ninguém, mas eu não aguento mais ter que continuar tapando os buracos que você abre.
– Você ainda tá me culpando.
– Interprete como quiser. De qualquer maneira, é melhor a gente acabar com esse relacionamento antes que ele acabe com a gente. – Dean balançou a cabeça soltando um riso debochado. – O que foi?
– Você sempre faz isso. Tentar continuar te cansa, mas terminar e voltar constantemente não?
– As duas coisas me cansam, mas a segunda dói menos.
Ele baixou a cabeça e assentiu. Alguns segundos depois ele suspirou.
– Beleza, mas depois não venha jogar a culpa em mim.
– Eu não...
, esquece, vamos parar por aqui. – ele disse pegando a carteira em cima da mesa e indo até a porta. – Isso vai cansar a gente ainda mais.
Dean saiu e suspirou. Seus olhos se encheram de lagrimas, e ela foi para o banheiro. Trancou-se lá e foi tomar banho.
Minutos depois, quando voltou para o quarto, notou que a mala de Dean não estava mais lá.
Definitivamente, tudo havia acabado.

Flashback Off

...

No começo da tarde, estava colocando algumas malas no porta-malas do seu carro, quando se aproximou com suas malas.
– E aí, pegou tudo?
assentiu e colocou as malas no porta-malas.
– Não vejo a hora de sair daqui.
– Nem eu. – respondeu fechando o porta-malas e recostando no mesmo. – Foi uma loucura né? Eu nem acredito no que aconteceu.
– Nem eu. Você consegue me imaginar como sócia de uma empresa de arquitetura e morando num apartamento chique?
– Ah, se a gente fosse normal, por que não? Mas por favor, tenha qualquer cachorro menos um Crista Chinês, aquele cachorro é de outro mundo, que coisa feia.
– Credo, não fala assim do bichinho.
– Sinto muito, mas é feio. E Tiffany? Você achava que era quem, a Paris Hilton?
– Ah, tá, me diz você, Hendrix, tem um baseado aí?
riu.
– Tá, tudo bem, minha vida não foi tão chique quanto a sua, mas foi muito mais emocionante. Me lembro de ter visto e ouvido cada historia daquele pessoal. Eu queria me despedir deles antes de partir, mas acho melhor deixar pra lá.
– Eles vão ficar se perguntando o que te aconteceu.
– Vão sim, mas fazer o que né? Acha que vai demorar muito pra Mnemosine consertar a memoria de todo mundo aqui?
– Vai levar um tempo, mas não tanto. Lethe não vai atrapalhar mais.
– Acha que ela vai dar a água da memoria pra ela?
– Enquanto a gente ia pro bar ontem ela disse que daria no tempo certo, e que controlaria tudo.
– Que bom.
– Vamos pra casa?
– Vamos assim que o cretino do Dean arrumar a fiação do carro.
– A chave tava com você, o que ele poderia fazer?
– Ele não devia nem ter pegado meu carro.
– Você queria que ele tivesse deixado na frente do bar pra ser rebocado ou roubado? Ele te fez um favor.
– Hum, defensora.
– Não tô defendendo, mas sabe, faz meses que você tá com raiva dele e evita a qualquer custo falar com ele, chega disso, né?
não respondeu, continuou:
– Independente do que tenha acontecido, é tarde demais pra você o tratar com indiferença. Esqueceu o que disse ontem? Que estava na hora de resolver isso? Eu concordo.
suspirou e balançou a cabeça, não aceitando o conselho. suspirou também.
– Faça o que quiser então.
As duas estavam voltando para o quarto quando ouviram o motor do Impala se aproximar. Pararam no meio do caminho e voltaram quando Dean encostou o carro.
– Bom dia. – disse.
– Bom dia, já estão indo embora? – Sam perguntou.
– Vamos depois que o cretino do Dean consertar a fiação do carro. – repetiu as palavras da irmã.
Dean soltou um riso pelo nariz e disse:
– Tem que ser agora? Eu tava pensando em me abastecer primeiro.
– Quando voltarem, sem problemas. – respondeu.
– Vocês querem vir com a gente? – Sam perguntou.
– Almoçar com vocês? – perguntou e depois olhou para a irmã, que fez uma cara meio indecifrável.
– Qual é, pra relembrar os bons tempos. – Dean disse. – Aquele lance de família feliz, vingadores, sabe?
e Sam olharam para , esperando uma resposta. rolou os olhos e bufou, abrindo a porta do carro.

Os quatro almoçaram numa lanchonete não muito longe dali. O clima não estava ruim como e Sam achavam que seria. conversava numa boa e até trocava algumas palavras com Dean, o que era uma evolução.
chegou a pensar que a irmã estava mesmo considerando a ideia de deixar a magoa para trás.
E era realmente isso. Ela passou seis meses sem ver ou falar com os Winchesters, cheia de rancor e raiva, esquecendo completamente das boas lembranças e deixando o ressentimento tomar conta, o que a fez fazer coisas que não deveria ter feito.
O último encontro que tiveram não foi dos melhores, mas ela também não pode deixar de sentir algo bom dentro de si quando viu Dean. E quando os quatro estavam reunidos, era como se a família tivesse completa novamente, e as coisas poderia ter melhorado com o tempo, se ela tivesse sido menos rancorosa e tivesse se acertado com Dean quando os dois tiveram seus momentos a sós. Por mais infantil que fosse ela ter evitado tudo, ela tinha que considerar que não estava preparada para uma conversa.
Mas agora tinha que admitir que já estava mais do que pronta pra encarar o que viesse, ainda mais depois do que aconteceu, depois de beber a água da memória, muitas coisas que foram esquecidas voltaram a tona, coisas que eram tão pequenas, mas que depois do que aconteceu, se tornaram vitais. Aquela era sua vida, aquelas eram suas lembranças e ela não podia simplesmente deixar que tudo aquilo enterrado por causa da raiva.
Se teve uma coisa que ela aprendeu com sua versão hippie, foi que ela precisava deixar ir. Guardar o sentimento ruim que o afastamento causara não só faria mal a ela, mas também a Sam e a irmã e até mesmo a Dean, por que não? Além do mais, aquilo atrapalharia seu futuro e seu presente, e no momento, o que aconteceu não tinha mais tanta importância.

Depois do almoço, os quatro voltaram ao motel que as irmãs estavam hospedadas. Dean estava consertando a fiação do Challenger, o acompanhava, enquanto Sam e conversavam no quarto.
Os dois, quer dizer, apenas desfrutava Up All Night, que tocava no rádio. A música do momento era Everything About You e o volume não estava tão alto como gostaria, mas ela estava de pé, apoiada na porta do passageiro e conseguia ouvir bem a música, tanto que até balançava a cabeça no ritmo.
– Esse CD não acaba nunca? – ela ouviu Dean perguntar.
Ele estava do outro lado, a porta estava aberta e ele estava abaixado do lado de fora e mexendo na fiação abaixo do volante.
– Faltam muitas ainda.
– Ah, que ótimo.
– Esse CD é praticamente um clássico, ok?
– Eu tenho certeza que daqui uns cem anos pode ser que sim. Você já tá meio grandinha pra continuar ouvindo isso, né?
– Pelo visto não pude amadurecer ainda. – ela disse automaticamente, e só foi perceber que tinha falado demais quando percebeu que Dean ficou mudo de repente. – Desculpe, eu não queria ter falado isso.
– Queria sim. – Dean se levantou e a encarou. – Claro que queria, você não é do tipo que deixa as coisas pra lá.
– Tem razão.
– Olha, não dá pra seguir em frente se não conversarmos sobre o que aconteceu.
– Tentamos da última vez. E não deu certo.
E então Same Mistakes começou a tocar. não respondeu. Desviou o olhar e deu as costas. Apesar de querer mandar ele se ferrar e ir embora, ela estava determinada a tentar uma conversa, e aquilo era motivo o suficiente para deixar o orgulho e a raiva de lado, pelo menos por enquanto e tentar por um ponto final em tudo aquilo que a atormentava.
Mas na teoria era muito mais fácil que na pratica.
Dean continuou a olhando por alguns instantes, esperando uma resposta. Mas ela não ter simplesmente mandado ele pro inferno e ter saído, já era meio que um sinal que ela também estava disposta a conversar. Então era uma chance a se aproveitar.
– Olha, quando eu disse que precisava de um tempo, eu não quis te magoar, não foi a minha intenção.
E mais uma vez não respondeu. Se sentiu impotente por não conseguir controlar sua raiva e uma onda de arrependimento tomou conta dela.
– Dean, deixa isso pra lá. – ela disse finalmente, dando alguns passos para sair dali. Definitivamente, ela não estava pronta para tentar uma conversa pacifica.
Dean suspirou e então deu a volta no carro e se aproximou dela, a segurando pelo braço e pensando nas palavras certas para dizer e não fazê-la sair correndo.
– Não, não posso. Eu sei que é isso que tá te incomodando.
– É, tá mesmo. – disse exaltada, puxando seu braço de volta.
– Não dá pra ficar assim pra sempre, . Temos que conversar como adultos, e tentar agir como tal.
– Que droga Dean, a gente tava bem, apesar do que aconteceu e o que tava acontecendo, isso não era motivo pra fazer o que você fez.
– Mas era pra mim, e pro seu bem, pro nosso bem!
– Bem? Dean tudo o que você fez foi afastar todo mundo, no momento em que devíamos permanecer juntos. Como você acha que eu me senti? Eu queria poder ter te apoiado e ter ajudado o Sam também.
– Isso você poderia ter feito pelo telefone. – Disse em tom normal.
– É serio mesmo? – ela perguntou cética. – Telefone? ... Dean, você vem aqui dizendo querer conversar como adultos, mas isso é praticamente impossível com você. Sinceramente, eu acho melhor eu esfriar a cabeça. – ela disse dando as costas.
...
Então quando ela começou a caminhar, ele a puxou pelo braço.
– DEAN, ME DEIXA!
– SABE POR QUE EU NÃO QUIS QUE VOCÊS FICASSEM? PORQUE EU SABIA QUE A COISA IA FICAR PRETA, E AQUELA ERA A CHANCE PERFEITA PRA VOCÊS DEIXAREM ESSA VIDA DE LADO, MAS PELO VISTO NÃO FUNCIONOU, OK?
puxou o braço de volta e os dois ficaram uns instantes em silencio. Estavam no meio do estacionamento e chamar atenção era o que eles menos queriam. Então resolveram se acalmar. aproveitou para contar até dez e tentar enfrentar mais uma vez aquela conversa.
– Dean, pelo menos uma vez na vida seja sincero consigo mesmo. – ela finalmente quebrou o silencio.
– Quer que eu seja mais sincero? Eu preferi que você fosse embora porque eu não queria ver você correndo risco de vida, eu não queria ver você correndo risco nenhum.
balançou a cabeça, e depois de vários suspiros, mais calma continuou:
– Dean, eu já te disse uma vez pra parar de carregar todo o peso do mundo em suas costas. Eu e a sabemos nos cuidar, fazíamos isso antes mesmo de vocês aparecerem. Você não tem que tomar conta de nós.
– Olha, o que aconteceu ont...
– Ontem foi uma exceção e eu agradeço por você e seu irmão terem vindo atrás da gente e nos ajudado.
Ele assentiu.
– Olha, o que aconteceu me fez perceber que eu não vou parar de me preocupar com vocês, e vocês nunca vão deixar de se meter em encrenca...
–... Dean...
–… Eu não posso dizer que me arrependo de ter separado todo mundo, mas eu também não posso deixar de dizer que eu não quero continuar assim. Por favor, não me deixe fora do seu mundo, eu quero estar por perto e...
–… Dean...
, eu sou louco por você.
Os seus olhos encontraram os dele, e ela sabia que aquele seria mais um dos raros momentos que Dean permitia se mostrar mais sensível. Ele não era o tipo de cara que deixava os seus sentimentos transparecer daquele jeito, a não ser raiva. E aquilo a comoveu.
Ele se aproximou e a puxou pela cintura, e ali o tempo parou para os dois. Então ele a beijou e ela retribuiu. Mesmo com raiva, ela mal podia esperar por aquilo. Ela pode sentir que parou de respirar por um momento e o seu coração estava quase saindo pela boca.
Ali palavras não eram necessárias, bastava apenas como os dois se sentiam. E o que ela sentia no momento era muito confuso, mas ela não conseguia tentar organizar.
O beijo cessou quando os dois pararam para recuperar o folego. Ficaram algum tempo em silencio, e tentava processar o que havia acabado de acontecer.
– E agora? – a voz de Dean a despertou.
No mesmo instante, ela o empurrou levemente e deu alguns passos para trás.
– E agora...
– O que vamos fazer?
– Dean... Vamos continuar com o que estávamos fazendo, caçar e...
– Eu quero que vocês continuem com a gente.
Ela o olhou por alguns instantes, estava confusa e por mais que quisesse dizer sim, o tempo que passou afastada deles e refletindo, ela prometeu a si mesma que não voltaria ao mesmo erro.
– Dean, eu... Eu... Eu... Não posso.
– O quê? Por quê?
– O que me garante que não vai acontecer de novo o que aconteceu com a gente?
– Eu garanto!
– Garante? – ela perguntou e então soltou um riso. – Como das outras vezes que a gente esteve nesse mesmo dilema? Dean, passamos seis meses sem nos ver ou nos falar. A gente tá se vendo agora depois de um mês... Nas outras vezes as coisas eram mais fáceis, agora não.
– Eu sei que às vezes eu sou difícil de lidar, mas esse é meu jeito.
– Eu sei, você só se sente confortável se ficar no controle de tudo, mas sinto muito te informar que as coisas nem sempre saem do jeito que queremos.
, eu...
– Dean, não precisa dizer mais nada. Eu sei como você é, e mesmo assim permiti tudo o que aconteceu entre a gente, e... Isso que acabou de acontecer não significa que as coisas voltarão a ser como eram.
– O quê? Por quê?
Como era possível Dean tornar as coisas mais difíceis com todas aquelas perguntas?
suspirou e fez uma pequena pausa, até dizer:
– Você se lembra daquela vez que você se meteu numa briga com um motoqueiro e...
– Foi por sua culpa, só pra te lembrar.
– Que seja... A gente brigou feio e terminou. Dois meses depois nós reatamos, você lembra? – ela fez uma pausa dramática. – Eu já levei mais tempo pra escovar os dentes do que pra voltar com você. E tudo isso por quê? Porque tinha uma cama esperando pela gente bem na nossa frente. Depois dessa última vez, antes mesmo de eu sair da casa do Bobby, eu prometi a mim mesma que não seria mais uma bobinha apaixonada, que se renderia após a conversa fiada do bonitão...
– Não é conversa fiada, .
– E é isso que eu vou fazer. – ela falou por cima, em tom mais alto. – E olha, o destino foi bem generoso comigo, nos separou por meses pra eu poder me desintoxicar de você, e parece que eu consegui. Pelo menos eu acho que sim.
, eu...
– Deixa eu terminar. – fez uma pausa e continuou. – Eu não quero correr o risco de quebrar a cara de novo.
Dean abaixou a cabeça. Os dois voltaram a ficar em silencio e não pode deixar de sentir certo alívio, apesar de sentir seu coração apertado por ter dito aquelas coisas, mas ela precisava se manter firme.
– Então é isso?
– Dean, eu realmente gosto muito de você, mas entenda o meu lado, caramba. Toda a vez que ficamos juntos, no final eu acabo me dando mal... Eu não quero dar um passo maior que a perna.
... – ele fez uma pausa dramática e suspirou. – Eu entendo.
– O quê? – perguntou não acreditando no que acabou de ouvir.
– Eu sei, você tem razão, um de nós sempre acaba sofrendo no final, senão os dois. Eu não quero que continue assim.
Ela assentiu.
– Eu sei... E é por isso que eu não quero arriscar.
Os dois se olharam.
– Você tá certa. – Disse e ficou boba. Ele concordou com ela duas vezes seguidas. – Mas isso não significa que devemos nos tratar como cães e gatos. – Dean apenas sorriu. – O que você acha?
– É. Seria uma boa te dar um descanso.
Os dois sorriram e depois de alguns segundos em silencio, Dean voltou ao serviço que estava fazendo, deixando com a maior duvida do mundo. Aquilo foi o certo a se fazer, ou mais tarde ela se arrependeria e tentaria voltar atrás?
Na verdade aquela era duas perguntas que naquele momento ela não sabia como responder.

...

– Acho que as coisas não terminaram como a gente queria. – comentou fechando a cortina.
Depois de terem ouvido e Dean discutirem no estacionamento, os dois, ou melhor, foi espiar.
– Mas acabou melhor que a gente esperava. – Sam respondeu. Estava apoiado na mesa e puxou , que ficou de frente para ele e o abraçou pela cintura.
– Mas eles me pegaram de surpresa, eu não sabia que iriam conversar.
– Nem eu, o Dean não comentou nada.
– É uma pena as coisas terminarem assim.
– Mas como eu disse, foi melhor do que a gente esperava.
– Acha que os dois vão voltar?
– Eu não sei, o tempo passou, as coisas mudam.
– Bom, eu garanto que ela continua gostando dele, mesmo que não admita. Ela mal dá atenção pros caras que param pra falar com a gente por aí.
– Como é?
segurou o riso e pendeu a cabeça.
– O quê?
– Que papo é esse de caras que param pra falar com vocês por aí?
– Ah, vai me dizer que você não sabia disso.
– Eu imagino que vocês sejam cercadas, mas eu espero que você faça como sua irmã.
– Eu não faço não.
– O quê?
– Eu disse que ela mal dá atenção aos caras, eu já ignoro completamente, pego meu celular e fico olhando pra sua foto.
Ele soltou um riso.
– Como você é falsa.
riu.
– Claro que eu dou atenção, né Sam, eu sou uma moça solteira, jovem, tenho que curtir. – ela disse arrumando a gola da camisa dele.
– Solteira sim, mas desimpedida, não.
Ela sorriu.
– Eu sei. Você também sabe disso, né?
– Claro que eu sei.
– Ah, que bom. Ou você acha que eu não sei que um monte de mulher oferecida dá em cima de você, novato?
Sam jogou a cabeça para trás e soltou um riso.
– Ai, eu achei que nunca mais ouviria você me chamar assim.
– Por quê? Eu gostei de te chamar assim.
– Eu não sei se gostei de ser chamado assim, não sei também se seu gostei muito dos últimos dias.
– Ah, nem me fale. A única parte boa foi que eu brinquei de arquiteta.
– Gostou de ter um caso extraconjugal com o sócio?
riu envergonhada.
– Daria uma novela mexicana legal, eu confesso, mas não. Talvez Mnemosine passou um pouco dos limites me colocando como amante do cara.
– Ah, você acha?
– Eu acho. Você foi bem controlado, Sam. Achei que partiria pra cima dele ou algo assim.
– Vontade não me faltou, mas eu sabia que você não estava em sã consciência.
– Não mesmo. – ela sorriu. – Mas um caso as escondidas no escritório é bem excitante, não acha?
– O Dean poderia te responder essa pergunta, com certeza ele deve ter algum filme pornô sobre isso. Eu nunca experimentei nada do tipo, mas pode ser.
riu e o deu um selinho.
– Se caso vocês não tivessem resolvido o caso e eu ficasse presa pra sempre nessa fantasia, você continuaria aqui, tentando me trazer de volta?
Sam pendeu a cabeça e deu um meio sorriso.
– Eu sei que você estaria vivendo um sonho, mas eu não desistiria de você, pode me chamar de egoísta se quiser.
sorriu.
– Mas se não houvesse saída pra mim nem pra minha irmã?
– Bom, eu faria a mesma coisa que fiz, atravessaria a cidade pra pegar o seu café especial todos os dias, buscaria a Tiffany no pet-shop sempre que você me mandasse e destruiria quantas maquetes fosse preciso.
riu.
– Seu paisagismo não ficou tão ruim assim.
– Ficou uma porcaria.
Ela riu e foi assentindo devagar, voltando a ficar séria.
– Sabe, se eu não me lembrasse de você como você é de verdade, eu acabaria me apaixonando por você da mesma forma que antes. Você é um cara e tanto, Sam. Mesmo naquele escritório, ocupada o dia inteiro e mandando em você o tempo todo, eu perceberia que você é especial.
Sam sorriu sincero.
– E eu continuaria apaixonado por você da mesma forma que antes. Mesmo que você fosse uma megera.
Ela riu.
– Obrigada, eu acho.
Sam sorriu e a beijou. passou uma das mãos pelos cabelos de Sam, massageando-os e segurando-os quando o beijo avançou. Sam se levantou e deu alguns passos para frente, segurando pela cintura até prensá-la contra a parede. parou o beijo e o fitou, recuperando o fôlego. Levantou as pernas, envolvendo a cintura de Sam, roçando seus lábios nos dele. De olhos fechados, ela disse baixinho:
– Surpreenda-me, novato.
Sam soltou um riso pelo nariz e não perdeu tempo, mordeu o lábio inferior dela, dando inicio a outro beijo. Estavam tão próximos que podiam sentir os batimentos cardíacos do outro. As mãos dele desceram até as coxas da moça, que partiu o beijo e atacou seu pescoço. Voltou a beijá-lo nos lábios e então o celular de Sam começou a tocar.
Os dois pararam imediatamente e Sam resmungou qualquer coisa, enquanto pegava o celular no bolso, franzindo o cenho quando viu de quem era a mensagem.
– Quem é? – perguntou.
– O Chuck.
apoiou os pés no chão e Sam se afastou, abrindo a mensagem.
– E o que ele quer?
Sam leu a mensagem.
– Ele me mandou um endereço, disse que é caso de vida ou morte.
pendeu a cabeça.
– Será que ele tá sabendo de alguma coisa?
– Eu não sei. – respondeu pensativo. – Vou avisar o Dean.
Os dois saíram do quarto e se aproximaram do Challenger, Dean e conversavam descontraidamente.
– Dean, o Chuck entrou em contato.
O irmão o olhou no mesmo instante, interessado.
– Como é? Por quê?
– Eu não sei, ele disse que é caso de vida ou morte.
– Ele viu alguma coisa? – perguntou.
– Eu não sei.
– Onde é que ele tá? – Dean perguntou.
– Ohio.
– Acho melhor pegarmos a estrada.
Sam assentiu.
– Querem que a gente vá? – perguntou.
Dean e se olharam, e então Dean respondeu:
– Não, a gente se vira.
Ela assentiu.
– Espero que façam uma boa viagem. – Disse .
– Obrigado. Espero vê-las novamente. – Disse Sam.
– Pode deixar, a gente se vê.
– Vocês vão pra onde? – Dean perguntou.
– Pra casa, e acho melhor a gente ir também, né? – perguntou a irmã, que assentiu. – Tchau, Sam, obrigado pela ajuda, foi bom te ver. – ela desencostou do carro e o abraçou.
Sam retribuiu o abraço e se afastou com .
– Tome cuidado, Sam. E cuide do seu irmão, ok?
Sam sorriu e assentiu.
– E você também. E por favor, não desapareça por tanto tempo.
– Farei o possível pra não deixar isso acontecer... Vou sentir a sua falta.
– Eu também.
sorriu e o abraçou apertado, beijando-o antes de se afastar.

Assim que a irmã se afastou, abriu a porta do motorista e antes de entrar, olhou para Dean.
– Se cuidem – ele disse.
assentiu com um sorriso sem graça.
– Vocês também, a gente se vê.
– Espero que não leve um mês pra acontecer.
– Você não terá tanto tempo pra sentir saudade. – Respondeu rindo.
– Assim espero.
olhou para trás e viu e Sam se beijando. Desviou o olhar e disfarçou, assim como Dean.
Por um lado ela estava feliz pela irmã, mas pelo outro ela sentia mal. Era uma pena a sua história não ter um final tão feliz, mas estava satisfeita que por um momento ela e Dean se entenderam.
– Vamos? – Disse , segundos depois, se aproximando.
– Vamos. Tchau pra vocês. – ela disse para os irmãos e entrando no carro, dando partida e deixando que Take Me Home tocasse, dessa vez, era Back For You.
– Tchau – os dois responderam.
– Até breve, Dean. – disse sorrindo e o abraçando.
– Até, se cuida. – Disse sorrindo.
– Vocês também.
entrou no carro após dar um último selinho em Sam e os dois se afastaram do carro, dando espaço suficiente para manobrar.
sorriu para a irmã, que estava visivelmente feliz e aumentou um pouco o volume.
Nenhum deles sabia quanto tempo iria levar, mas sabiam que algum dia o destino daria um jeito de unir os caminhos novamente.

“Baby, you don't have to worry, I'll be coming back for you
Back for you, Back for you, you
Lately, I've been going crazy, so I'm coming back for you
Back for you, back for you, you…



Abandon All Hope

Duas semanas se passaram desde o último encontro dos Winchesters com as irmãs. Os quatro mantinham contato pelo telefone, se falavam sempre que possível e enquanto eles estavam empenhados na procura pelo Colt, elas caçavam pelo país.
As coisas entre eles não estavam perfeitas, mas estavam melhores do que há alguns meses, tempo do qual apenas e Sam mantinham contato. estava aliviada por ter resolvido pelo menos superficialmente as coisas com Dean, e apesar de sentir que ela podia ir mais fundo, não queria arriscar e acabar com a trégua que conquistaram. Mas não podia negar que apesar de toda magoa, ela sentia falta.
! – entrou na recepção e chamou a irmã, que estava prestes a terminar o registro no hotel que estavam. – Nem pense em continuar esse registro.
– Por quê? O que foi?
A recepcionista as olhava sem entender.
– O Dean ligou. – ela respondeu e depois olhou para a mulher e a encarou.  A mulher sorriu sem graça a se afastou um pouco. se aproximou da irmã.  – Eles acharam o Colt e amanhã estão partindo pra Cartago, pra enfrentar Lúcifer. – sussurrou. – Temos que ir pra Sioux Falls o quanto antes.
– Eita! Vamos logo. – disse e pegou seus documentos em cima do balcão.
As duas então voltaram para o Challenger e partiram para Sioux Falls.

...

Sioux Falls, Dakota do Sul.

– Tudo bem, rapaz. Vai. – Ellen falou para Castiel assim que tomou uma dose de seu shots de tequila.
Castiel então pegou um dos seus shots e o virou, fazendo o mesmo com a dose seguida e assim sucessivamente até acabar com seus shots por completo.
– Tô começando a me sentir estranho. – comentou com os olhos arregalados.
Jo, que assistia a mãe e o anjo beber, ficou boquiaberta. Era noite e todos estavam reunidos na casa de Bobby, aguardando o dia seguinte.
– Vai ser uma cilada, não vai? – Sam perguntou para o irmão.
Os dois estavam isolados no escritório. Dean encarou Sam e riu.
– Sam Winchester desconfia do demônio. Antes tarde do que nunca.
– E obrigado pelo seu apoio constante. – Sam ergueu a garrafa de cerveja.
– De nada. – os dois brindaram e tomaram um gole da bebida. – Cilada ou não, é uma chance mínima, mas temos que aceitar.
– É... – Sam deu de ombros. – Eu acho que sim.
– Eu não sei se é cilada. – Dean comentou mexendo na mesa e pegando um papel. – Olha só... Cartago parece uma árvore de Natal. Enfeitada com presságios. E... – ele pegou outro papel. – Revelações. – ele deu o papel para Sam. – Seis pessoas dadas como desaparecidas lá, desde domingo... Eu acho que o diabo tá lá.
Sam olhou para os papéis e suspirou.
– Então tá.
Dean também suspirou.
– Pensando bem, você não pode vir.
– Dean.
– Olha, se eu encarar o Satã e perder... Tudo bem. Nós perdemos só uma peça do jogo, beleza. Mas se você estiver lá, nós vamos entregar a casca do demônio pra ele. Não é sensato.
– E desde quando nós fazemos alguma coisa sensata?
– Tô falando sério, Sam.
– Eu também... Será que a gente não aprendeu nada? Se temos que fazer isso, vamos fazer juntos.
Dean encarou o irmão e suspirou.
– Tá... Mas é uma ideia idiota. – ele pegou a garrafa e deu um gole.
Que droga, bebe logo! Pare com isso. – Ellen falava para Castiel.
Eu não sei se devo...
Beba!
Os dois olharam para a cozinha e viram Castiel e Ellen bebendo, e Jo indo para a geladeira.
– Olha lá, – Sam se virou para Dean. – falando em ideia idiota.
– Shhh... – Dean o repreendeu e se levantou, indo para a cozinha.
Sam assistiu o irmão se retirar e entendeu por que Dean se retirou quando viu Jo debruçada na frente da geladeira. Ele rolou os olhos e voltou a beber sua cerveja.
Dean se aproximou de Jo, que se assustou quando fechou a geladeira, se virou e o viu.
– E aí?
– Oi. – ela sorriu.
– Missão... – ele se apoiou no balcão. – Perigosa amanhã...
– Hm.
– Tá na hora de comer, beber e... Brincar.
– Vai me dizer que é a nossa última noite na Terra.
– Como é que é?
– O quê?
– Não. – Dean riu. – Não. – Jo também riu, e Dean ficou sério de repente, perguntando com as sobrancelhas erguidas: – E se eu dissesse, ia funcionar?
– Bom, antes de eu te responder, me responde uma coisa. E o seu lance com a , o que foi que aconteceu?
Ele deu de ombros e meneou a cabeça.
– Não deu certo. Percebemos que não somos bons o suficiente um pro outro. Somos melhores como bons amigos.
– Você tá convencido disso?
– Eu já respondi sua pergunta. Agora é a sua vez.
– Tem razão. – ela sorriu e colocou sua cerveja em cima do balcão. Se aproximou de Dean e acariciou o seu rosto, aproximando seu rosto do dele lentamente. – Não... – ela se afastou um pouco. – Querido, se esta for nossa última noite na Terra, eu quero passá-la com uma coisinha que eu chamo de amor próprio. – ela riu e se afastou de Dean.
– Se você gosta dessas coisas... – respondeu enquanto a assistia se afastar, tomando um gole de cerveja depois.
– TODO MUNDO AQUI! – gritou Bobby da sala. – ESTÁ NA HORA DA FOTO. – Sam então se levantou e Ellen entrou na sala. – Suspeitos habituais ali atrás. – ele apontou para um canto na sala.
– Ah, qual é, Bobby? Ninguém vai querer tirar foto. – Ellen reclamou e Bobby ignorou, arrumando a câmera no tripé.
– Escutem... – Sam entrou no assunto.
– Calado. Essa cerveja é minha. – Bobby respondeu.
Castiel, Jo e Dean entraram na sala. Bobby se afastou e com a cadeira de rodas, foi para perto dos caçadores, que já estavam prontos para tirarem a foto.
Ei, ei, ei! – Todos olharam para o lado e viram entrar na casa. vinha logo atrás. – Vocês estão tirando fotos sem a gente? É isso mesmo? Como ousam? – ela parou na frente da câmera, que disparou.
– Valeu por estragar a foto. – Bobby respondeu.
– Bobby, por que você tá numa cadeira de rodas? – perguntou olhando para Bobby, curiosa.
– Eu acabei quebrando a perna ajudando o Rufus... Não posso tocar o chão por alguns meses.
– Que pena... Mas enfim... – ela bateu uma palma. – Quero estar nessa foto.
– Então vem. – Sam sorriu.
– Deixa eu ir pro lado da minha filha. – Ellen falou saindo do lado de Sam e indo até Jo. abraçou Sam pela cintura e sorriu.
– Eu arrumo a câmera. – comentou se virando pra câmera e arrumando o temporizador dela novamente. – Aliás, por que a foto, hein?
– Eu preciso de alguma coisa pra lembrar da fuça de vocês. – Bobby respondeu.
– Que bom, um amigo otimista. – Ellen comentou irônica enquanto ia até o grupo e se sentava no chão, ao lado de Bobby.
– Senta aqui, Castiel. – disse dando tapinhas no chão.
Castiel a olhou e se aproximou, sentando-se a seguir.
– Bobby tem razão. – ele comentou sério e impassível, olhando para a câmera. – Amanhã caçamos o diabo. – todos sorriram e assentiram. – Essa é a nossa última noite na Terra.
E o semblante de todos mudou de um sorriso forçado para uma cara de preocupação e tristeza. 
E assim a foto foi tirada: abraçada com Sam com os lábios serrados e o cenho franzido. Sam com a testa franzida e Dean ao seu lado com as sobrancelhas erguidas. Jo estava ao lado de Dean com cara de poucos amigos e Ellen estava com o mesmo semblante que a filha. Bobby olhava sério para a câmera e ao seu lado, estava , olhando para Castiel. Com a cara que ela fazia, estava claro que ela pensava: “poxa Castiel, você precisava estragar esse momento?” e enquanto isso, o anjo estava olhando para a câmera sem expressão alguma.
A provável primeira e última foto do grupo estava um fiasco.
Assim que tiraram a foto, todos voltaram a fazer o que antes faziam. Ellen e Castiel voltaram a beber, Bobby continuou a mexer numa de suas bagunças que ninguém tinha coragem de chegar e perguntar o que era, e Sam e Dean voltaram a conversar no escritório.
– Ei, Bobby, quando a gente vai pra Cartago? – perguntou se aproximando do caçador e entregando uma cerveja.
Bobby deixou um livro empoeirado dentro da caixa e pegou a garrafa.
– Assim que a nossa reuniãozinha acabar.
Ela assentiu e tomou um gole da bebida, se sentando numa cadeira que tinha por ali.
– Você não vai poder ir, né?
Depois de tomar um gole da bebida, ele deu de ombros.
– Eu seria mais útil aqui.
Ela deu um meio sorriso.
– E quanto tempo você tem que ficar nessa cadeira?
– O médico disse que a recuperação seria de até seis meses.
– Poxa, que droga, justo agora você vai quebrar as pernas. Quanto mais gente pra nos ajudar, melhor.
– Eu sei, mas o que eu posso fazer, enfrentar o capeta com alguém empurrando minha cadeira?
Ela soltou um riso e bebeu mais um gole.
– E o Rufus? Não pode ajudar?
– Ele tem os problemas dele. A gente tem que se virar com o que tem.
– Tem razão. Acha que a gente ganha essa, ou é o nosso último dia na Terra?
Ele a lançou um olhar cético, mas depois duvidoso, com um fundo de esperança.
– Bom, a gente tem que viver todos os dias como se fosse o último.
Ela assentiu, não sabendo se aquilo era uma resposta positiva ou negativa.

– E aí, bocós, estão preparados pra mais uma aventura? – perguntou segurando três garrafas de cerveja e entrando no escritório.
– Não tanto quanto você. – Dean respondeu. – De onde vem essa animação?
colocou uma garrafa diante cada um e se sentou ao lado de Sam, que estava sentado a escrivaninha com o irmão.
– Da cozinha. É hilário ver o Castiel bebendo tequila. Como a gente não pensou nisso antes?
– Cada um se diverte como pode.
– Onde estavam? – Sam perguntou.
– A umas três horas daqui. Depois das últimas ligações, a gente resolveu se manter por perto, caso algo assim acontecesse. E olha no que deu. Já prepararam tudo?
– O possível. – Sam respondeu.
– Bom, a gente sabe que só o Colt e a faca podem garantir resultado, mas qualquer coisa que pode nos ajudar é bem-vinda. – ela fez uma pausa, bebeu um gole de cerveja e emendou: – Isso não se compara a nada que a gente já tenha enfrentado antes.
– É, pode-se dizer que é um desafio e tanto. Uma loucura até pra gente. – Dean respondeu.  – E um anjo bêbado é a nossa única garantia de sairmos vivos de lá, caso as armas não adiantem... Pensando bem, acho que tem gente demais se arriscando aqui.
– Então ainda bem que são todos maiores de idade e não são sua responsabilidade.
– Ah, é, bem lembrado. – Sam disse. – Dean, vamos cuidar uns dos outros, mas cada um sabe se cuidar, ok?
– É, eu realmente espero que esse tempo separados tenha valido alguma coisa além de mágoas.
Os dois soltaram um riso pelo nariz e balançaram a cabeça, enquanto Dean tomava um gole de sua bebida.
– Sam, eu queria falar em particular com você, pode ser? – perguntou.
Sam olhou para o irmão e assentiu, se levantando. logo se levantou e os dois passaram pela cozinha e foram até a varanda.
– Tá tudo bem? – Sam perguntou assim que fechou a porta atrás de si.
Ela assentiu com um sorriso não muito esperançoso, que no final acabou sendo um sorriso triste.
– Tem certeza? – Sam perguntou.
torceu o nariz e meneou a cabeça.
– Pra falar a verdade, eu fiquei bem animada ao saber que temos uma chance, mas depois do que o Castiel disse, eu...
– Ei, não, chega. – ele pediu educado. – O Castiel não tem muito filtro, ele falou aquilo, mas não foi por mal.
– Eu sei, mas a gente sabe que também é verdade. E por isso, eu queria falar uma coisa pra você.
– O quê?
Ela desviou o olhar, tentando encontrar as palavras certas.
– Que nada de ruim que tenha acontecido com a gente tem valor agora. Assim como as mágoas que foram criadas através do tempo.
, eu...
– Calma. – ela pediu com um sorriso simpático no rosto, fazendo Sam retribuir o sorriso. – E que se restou alguma pendencia entre nós dois, então que tudo seja resolvido agora. Acha que temos alguma pendencia?
Ele pendeu a cabeça por alguns segundos, refletindo.
– Acho que o que a gente tinha pra resolver, foi resolvido. E você?
Ela deu de ombros.
– Eu costumava achar que sim, mas estava errada. Esse tempo separados valeu de alguma coisa pra nós dois porque agora eu tenho certeza do que eu sinto por você.
Ele deu um meio sorriso.
– Por que, antes você não tinha?
Ela riu sem graça.
– Eu sabia, mas agora eu sei mais.
– Antes você sabia menos?
– Ah, que droga, Sam, meu discurso todo bonitinho foi por água abaixo por sua causa. – ela reclamou, fazendo Sam rir e a abraçar pela cintura.
– Não foi nada, continuou bonitinho. Você faz bons discursos.
– Ah, que horror, você não sabe nem mentir.
– Não, é sério, e vai ficar ainda mais bonitinho se você disser o que sente por mim agora com certeza.
Ela soltou um riso envergonhado e rolou os olhos.
– Ah, tenha piedade. – ela disse divertida e colando seus lábios aos dele, beijando-o com carinho.
Ouviram alguém pigarrear e se afastaram, quando olharam para trás, viram uma com um sorriso cínico de quem sabia que havia estragado um momento.
– Atrapalho?
Os dois se afastaram.
– Não, você nunca atrapalha. – respondeu. – O que foi?
– Estamos indo. Podem entrar?
Os dois assentiram e adentraram a casa, onde encontraram todos reunidos na cozinha. , pegou dois shots vazios de tequila em cima da pia e entregou um para cada. A seguir, pegou uma garrafa e de Sam, seguiu em sentido horário, enchendo os shots vazios de cada um, proferindo as seguintes palavras:
– Bom, gente, vamos propor um último brinde. Não sabemos se amanhã será nosso último dia na Terra, mas como Bobby mesmo disse, temos que viver cada dia como se fosse o último. E se esse for o nosso último brinde, então que seja feito em grande estilo. – assim que encheu seu próprio shot, ela ficou ao lado de Sam, fazendo assim com que todos ficassem num círculo. – Quero dizer que a cada dia nós criamos nossa historia. Cada caminho que a gente toma, cada página que a gente escreve, a gente deixa nosso legado. Cada soldado morre em sua glória, toda lenda fala sobre conquista e liberdade. Todo herói sonha com a cavalaria e amanhã caros amigos, amanhã seremos nossos próprios heróis e nossa própria cavalaria. Vamos trazer uma nova esperança ao mundo e vamos harmonizar tudo ao nosso redor porque cada um aqui – ela fez uma pausa dramática. – está destinado à história. – ela finalizou o discurso com a voz firme, olhando para cada um, que a olhava com a sobrancelha erguida, tentando entender o que ela tinha acabado de falar.
– Isso foi lindo. – Castiel disse após alguns segundos de silencio. – Não sabia que tinha tanta sensibilidade à poesia.
– E ela não tem, ela só estilizou o refrão de HIStory, do Michael Jackson. – respondeu. – Mas você mandou bem, tá todo mundo emocionado aqui.
– Com certeza. – Sam concordou.
riu e balançou a cabeça.
– Tudo bem, . Já que você é a dona dos discursos bonitinhos, pode pegar a garrafa da palavra. – disse entregando a garrafa para ela, que a olhou boquiaberta e ficando envergonhada.
– Você ouviu tudo?
– Todo mundo ouviu, vocês estavam bem atrás da porta.
olhou para cada um, que deixava bem claro que ouviram e então balançou a cabeça, deixando a garrafa de tequila atrás de si, na pia e pigarreando.
– Tudo bem... As nossas conquistas até aqui nos tornaram quem somos, não sabemos para onde vamos, e só Deus sabe onde estivemos, somos como velas, vamos onde o vento nos levar... Eu não sei vocês, mas se amanhã for o nosso último dia na Terra, eu quero morrer como uma guerreira, encarando a bala, opondo minha última resistência. – finalizou, lançando um olhar orgulhoso para , que a olhou com desdém e disse:
– Você achou que ninguém ia reconhecer a letra de Bon Jovi? Pelo amor de Deus, né.
riu.
– Tá, olha, será que alguém pode falar alguma coisa aqui que ninguém cante no chuveiro? – perguntou olhando para todos os que não haviam falado ainda, recebendo olhares estranhos em troca. – Qual é, digam alguma coisa. Proponham um brinde, sei lá.
Todos ficaram em silencio por algum tempo, até que Castiel disse:
– Nós vamos lutar e...
– Que seja algo positivo, Castiel. – disse antes que fosse tarde demais.
O anjo assentiu e continuou:
– Nós vamos lutar e se formos morrer amanhã, que seja por isso.
Todos o olharam impressionados, fazendo o anjo logo emendar:
– Me desculpem, eu não queria dizer isso.
– Não, Castiel, isso foi muito bom. – Sam respondeu, arrancando um sorriso discreto de contentamento do anjo, que logo depois voltou a ser o mesmo de sempre. – Bem, eu concordo com o Castiel. Um brinde ao nosso ato heroico, louco e suicida.
Todos se entreolharam e então Ellen pensou um pouco até dizer:
– Um brinde ao Bar da Estrada e aos amigos que deixamos pra trás... E também aos discursos bem elaborados em filmes, que são totalmente o oposto do que eu ouvi aqui. – disse a última parte rindo e dando a deixa para o próximo.
– Um brinde a Bon Jovi, Michael Jackson e a todos aqueles pobres coitados de quem clonamos cartões de crédito. Se não fossem por eles, não teríamos litros e litros de cerveja e nem mesmo um hotel sujo e mofado pra passar a noite. – disse, fazendo todos assentirem sorrindo.
– Um brinde a dupla Depp e Burton, a saga de Velozes e Furiosos e a todos os péssimos jogadores de pôquer que já encontrei nessa longa estrada da vida. – disse.
– Um brinde a nossa vida nada superestimada, por eu ter presenciado um anjo virar meia garrafa de tequila como se fosse água e por eu não ter entendido absolutamente nada do que a disse até agora. – Jo emendou, dando a deixa para Dean, que estava ao seu lado.
Dean suspirou e estufou o peito, tomando ar e fazendo pose. Olhou para cada um e começou seu discurso:
– Eu sou Dean Winchester, e estou vendo um exercito de meus conterrâneos, aqui, desafiando a tirania...
– Ah, não, mais um. – Jo disse baixinho, baixando a cabeça e coçando a testa.
Dean não contendo o meio sorriso, continuou como se não tivesse ouvido, entrando no circulo e andando de um lado para o outro, fazendo Sam segurar o riso, assim como e :
–... Vamos lutar como homens livres, e homens livres vocês são. O que farão sem liberdade? Lutareis? – ele fez uma pausa, mas ninguém respondeu. – Gente, é pra responder.
– Sim. – Castiel respondeu, fazendo Dean o olhar com cara de paisagem.
– Não, Cass, a gente tem que responder “Não! Fugiremos pra sobreviver.”. – explicou.
– E por que eu diria isso? Temos que enfrentar e lutar.
– Não, Cass, o Dean é nosso William Wallace. – ela explicou, tentando ser compreensiva.
– Eu não... entendi a referencia.
– Coração Valente, Castiel. – respondeu rápido e cética.
– Ah, vão embora daqui logo. – Bobby disse já virando a cadeira de rodas.
– Não, espera aí, Bobby. – Ellen disse, puxando sua cadeira de volta. – Deixa o Dean terminar. – ela olhou para Dean e fez um sinal com a cabeça, para ele continuar.
Dean balançou a cabeça inconformado por alguns segundos, até que voltou a pose e continuou, andando de um lado para o outro:
– Sim, lutem e talvez morram. Fujam, e viverão. Pelo menos por enquanto. E morrendo em suas camas, daqui até o fim dos tempos que está muito próximo, alias. ­– mudou o repertório, mas logo continuou: – Mas vocês desejarão trocar todos esses dias daqui em diante, por uma chance, uma única chance de voltar e dizer aos nossos inimigos que eles podem tirar nossas vidas, mas jamais tirarão nossa liberdade. – finalizou.
Todos ficaram em silencio, assentindo e refletindo.
– A gente tem que sair correndo e gritando com nossos cavalos agora? – Bobby perguntou.
– A gente teria que pintar a cara antes. – respondeu bem humorada.
– E temos cavalos de aço lá fora, estão nos esperando. – emendou.
– Ai, lá vem ela com Bon Jovi de novo. – reclamou. – Tem mais alguma coisa pra dizer, Dean?
Ele suspirou com a falta de sensibilidade daquelas pessoas diante um discurso como aquele e voltou ao seu lugar, erguendo o shot.
– De qualquer maneira, um brinde a Samuel Colt, que nos deu essa oportunidade de acabar com o Satã e um brinde ao Mel Gibson e aos filmes do Clint Eastwood.
Todos assentiram e olharam para Bobby, já que ele foi o único que ainda não havia falado nada.
– O que é? Eu não conheço nenhuma música do Bon Jovi ou do Michael Jackson pra fazer um discurso.
– Então proponha um brinde. – disse.
Bobby balançou a cabeça, incomodado e suspirou.
– Um brinde a nós e que a força esteja com vocês. – ele disse fazendo uma pausa e então deu um meio sorriso, com o olhar atônito de todos sobre ele. – O que é? Acham que eu não conheço uma boa frase de efeito?
olhou para a irmã e começou a rir com a mesma, conforme os outros sorriam com a frase do caçador mais velho.
Bobby foi fechando o circulo conforme se aproximava do centro, erguendo o shot e fazendo com que os outros se aproximassem e Castiel seguisse o fluxo. E sem saber direito o que deveria fazer, o anjo brindou com os caçadores, e todos viraram o shot goela abaixo.
Depois de uma pequena discussão entre , e Jo para chegarem a um acordo sobre qual carro ir, Ellen deu o veredito. Todas iam com ela no carro dela e sem reclamar.
Depois, todos se despediram de Bobby e partiram para Cartago.

– Acho que eu deveria ter tentado falar com o Benji. – comentou do nada com a irmã, que estava sentada ao lado de Ellen, que dirigia.
Estavam há algumas horas na estrada e dali a pouco, eles fariam uma parada e assumiria o volante.
– Ele não tá no Canada?
– Tá, mas talvez ele chegasse a tempo.
– Só se ele tivesse uma máquina de teletransporte.
– A gente só ia saber se eu ligasse. Com o Bobby e o Rufus de fora, vai ficar mais difícil, não sabemos o que vamos enfrentar, mas eu duvido que Lúcifer esteja sozinho lá. Somos um número beeem menor, com certeza.
– Mas independente do número, só temos duas armas contra demônios e apenas uma é segura e forte suficiente pra matar o demônio. De qualquer forma estamos em desvantagem. – Ellen respondeu.
– É, você tem razão. A gente não tem um pingo de amor à vida.
– Se a gente não fizesse o trabalho sujo, quem faria? – ela fez uma pergunta retórica, que fez com que todas refletissem por alguns segundos.
– Quem é Benji? – Jo perguntou do nada.
– Benjamin. – respondeu prontamente, educada. Não gostava quando outra pessoa chamava seu amigo de Benji. – Um amigo caçador que a gente tem.
– A gente? – perguntou e olhou para trás de relance, só para provocar, porque ela já havia perdoado o vampiro mais amado do mundo.
só fez um muxoxo, irritado, o que fez sorrir discretamente.
– Parece que é só meu amigo, então.
abriu o sorriso, com as sobrancelhas erguidas. Mesmo vendo a moça apenas de perfil, Jo percebeu.
– Só amigo? – Jo perguntou, a cara que sua irmã fez agora foi meio estranha.
– Ela fez essa cara porque é idiota. – respondeu fuzilando a irmã pelas costas.
– Mas você não respondeu minha pergunta. – Jo disse após alguns segundos de silencio, dando um sorriso de canto.
– Joanna Beth, isso não é da sua conta. – Ellen disse em tom de reprovação.
– O que, mãe? É só uma pergunta.
– É, Ellen, relaxa. – emendou.
– É só um amigo, Jo, com toda certeza. – respondeu calmamente, mas cheia de convicção.
– É bonito?
– Jo!
– Mãe!
– É. – respondeu. – Moreno dos olhos azuis. Mais velho, mas tem uma carinha... Só que não vale nada, já vou falando.
– Por isso ele não é seu amigo? Ele te fez alguma coisa?
– Joanna Beth, chega.
riu.
– Relaxa, Ellen. E não Jo, não é por isso que ele não é meu amigo, eu só tava irritando a esquentadinha aí atrás. Eu só digo que ele não vale nada porque eu o conheço bem, antes mesmo de conhecer os Winchesters. Tem o jeitinho do Dean, se você reparar.
– Ah, entendi. – ela respondeu com um sorriso e depois olhou para . – Ele é exatamente o tipo de cara que você gosta e nunca rolou nada entre vocês?
– Joan... – Ellen parou de falar quando começou a rir e se virou para trás, querendo ver a reação da irmã, que olhava para Jo com as sobrancelhas erguidas. – Vocês são terríveis.
– É mesmo, . É uma boa pergunta, Jo.
– Ah, , dá um tempo, você sabe mais do que ninguém como eu sou com o Ben.
– Eu sei e conhecendo o histórico dos dois, acho que você deveria responder. Seja franca.
a olhou levemente ofendida. Já havia passado meses e ainda remoía o que aconteceu entre ela e Benjamin no passado.
E ao pensar no passado, o remorso subiu a mente da moça.
E por esse remorso, ela não queria contar à irmã o que aconteceu. Porque sabia que a julgaria (e com razão) e ela não queria mais motivos para se odiar. Mas também não queria mentir, então tudo o que disse foi:
– Somos melhores como amigos.
Jo olhou para , com as sobrancelhas erguidas e a boca aberta num sorriso discreto. retribuiu o olhar com o cenho franzido e depois olhou para a irmã, que olhava a janela com tanta fixação que nem piscava.
Balançou a cabeça, tentando imaginar se aquela resposta era vaga de propósito, só para provocá-la ou se realmente havia alguma coisa por trás.
– Isso quer dizer que rolou e não deu certo? – Jo perguntou.
Enquanto voltava a sua posição inicial, trocou olhares com Ellen, que olhou discretamente pelo retrovisor e disse:
– Jo, chega desse assunto.
– Não rolou nada. – respondeu, acabou optando por mentir. Olhou para Jo e abriu um sorriso fingido, mas convincente. – Eu só disse pra provocar a preocupadinha ali. – deu um tapinha no ombro da irmã, que soltou um riso pelo nariz e se virou novamente.
– Confesso que você quase me pegou, pilantra.
riu pelo nariz e se acomodou no banco.
– Você respondeu a mesma coisa que o Dean quando eu perguntei de vocês dois.
– Ah, é? Que coincidência.
– É. E é verdade?
Ellen suspirou, cansada de tanto chamar atenção da filha em vão.
– É sim. – respondeu tranquila. – Eu falei pra sua mãe há alguns meses que a gente tava deixando rolar e foi no dia seguinte, na casa do Bobby que tudo acabou. Acredita, Ellen?
Ellen a olhou discretamente pelo retrovisor e pode perceber que deu a entender que foi pelo que Ellen falou sobre Dean e a filha que a fez acabar com tudo. Coitada, não sabia de nada.
– Mas não foi por nenhum motivo em particular, se é o que vocês estão querendo saber.
– Na verdade foi só porque um não concordou com a ideia do outro. – logo emendou, sem dar muitos detalhes. – É por motivos fúteis assim que duas pessoas orgulhosas jogam um monte de coisa boa no lixo.
, esses argumentos seus não me fizeram voltar atrás há meses, não vai me fazer voltar agora, que tá tudo bem.
– Não é possível que esteja tudo bem. Como pode?
Ela deu de ombros.
– Estando. Agora só porque a gente não tá do jeito que você gostaria, tá tudo errado? Que nada, estamos bem. – ela afirmou novamente, olhando para Jo, que respondeu:
– Legal, isso é bom. Adultos agindo com sabedoria.
Ela riu, assentindo.
– Viu, , só você não aceita.
fez um muxoxo, voltando a se ajeitar no banco, e deixando e Jo conversarem em paz. Pouco mais de três horas depois, eles pararam para abastecer e esticar as pernas, quando voltaram para os carros, Castiel se juntou as moças, que aí então não pararam mais de falar.

...

Cartago, Missouri.

A manhã estava chuvosa e não tinha um ser sequer nas ruas da cidade. Os únicos carros em movimento naquele lugar era o Impala e o carro de Ellen logo atrás. Dean e Sam estavam com o braço para o lado de fora, para checar se lá o celular deles tinha sinal.
– Conseguiu sinal? – Sam perguntou.
– Não, nada. – Dean desligou o celular. – Que estranho. – ele passou o carro para outra pista e fez sinal para , que emparelhou com o Impala.
– O lugar não tá vazio demais? – ela perguntou.
– Nós vamos olhar o distrito. Vocês ficam aqui e vejam se tem alguém.
– Tá. – respondeu e esperou Dean sair com o carro. Logo em seguida, ela encostou o carro e ela, , Jo e Ellen desceram, deixando Castiel lá dentro.
– Nunca ouviu falar de maçaneta não? – Jo perguntou batendo no vidro.
– É claro que já. – Castiel respondeu atrás da menina.
Jo o olhou assustada.
– O que foi, Cass? – perguntou olhando a expressão assustada do anjo.
– A cidade não está vazia.
– Como assim? – perguntou olhando para os lados e não vendo ninguém.
– Ceifeiros.
– Ceifeiros? – Ellen perguntou se aproximando. – Tem mais de um?
– Eles só se reúnem assim em tempos de grande catástrofe... O incêndio de Chicago, o tremor de San Francisco, Pompeia... Tenho que descobrir o que está acontecendo aqui. – ele falou se afastando.
Jo, , e Ellen se entreolharam.

Castiel andou pela rua até encontrar em uma janela, um homem vestido de preto. Ele se teletransportou para o apartamento e caminhou até um corredor, que tinha uma porta entreaberta. Entrou no quarto e não viu ninguém.
Oi, irmão.
Foi tudo o que Castiel ouviu até um clarão invadir o lugar.

– O Distrito tá vazio. – Dean comentou com assim que ela parou o carro ao lado dos irmãos, que já as esperavam.
– Tudo tá vazio. – Jo comentou do banco de trás.
– Viram o Castiel? – perguntou.
– Como? Ele ficou com vocês. – Sam respondeu.
– Não. Ele foi atrás de ceifeiros.
– Ceifeiros? – Dean perguntou. – Onde ele viu ceifeiros?
– Por toda parte. – respondeu. – Eu acho.
Dean e Sam se entreolharam. A coisa não estava boa.

Quando Castiel abriu os olhos, percebeu que estava preso no fogo sagrado no que parecia ser um porão. Ele olhou ao redor e encontrou um homem o espreitando.
– Lúcifer. – Castiel se virou totalmente para o homem.
– Então você veio aqui com os Winchesters? – Lúcifer perguntou o rodeando.
– Eu vim sozinho.
Lúcifer parou na frente de Castiel.
– Lealdade... Hm... Que bela qualidade nos dias de hoje... Castiel, não é? – Cass assentiu e Lúcifer voltou a rodeá-lo. – Castiel, eu soube que você chegou aqui de automóvel. – ele parou novamente.
– É. – Castiel, que o acompanhava, parou.
– E como é?
– Hã... Lento e apertado.
– Que coisa peculiar você é.
Castiel olhou bem para o rosto do homem, que estava descascando.
– O que houve com a sua casca?
– É... Nick tá se esgarçando, infelizmente. Ele não pode me conter pra sempre.
– Você... – Castiel se aproximou de Lúcifer, mas parou quando lembrou que não podia tocar no fogo. – Você não vai levar Sam Winchester. Eu não vou deixar.
– Castiel... – ele voltou a rodeá-lo. – Eu não entendo por que você tá contra mim, entre todos os anjos.
– Ainda precisa perguntar? – Castiel respondeu o acompanhando.
– É muito simples... Eu me rebelei e fui expulso. Você se rebelou e foi expulso... Quase todos no céu querem me ver morto. Se conseguirem, veja só... Você passa a ser o inimigo numero um deles... Nós estamos do mesmo lado, então por que você não pensa nos seus interesses que nesse caso, são iguais aos meus? – Lúcifer parou.
– Eu prefiro morrer. – Castiel também parou e os dois se encaram por algum tempo.
– Eu suponho que sim... – e Lúcifer se retirou, deixando Castiel sozinho.

– Que beleza, estamos na cidade há 20 minutos e já perdemos o nosso anjo da guarda. – Dean comentou.
Os seis andavam armados pelas ruas, a procura de Castiel.
– E aí, acha que o Lúcifer o pegou? – Sam perguntou.
– Eu nem sei mais o que pensar.
Achei vocês...
Os seis ouviram uma voz feminina e olharam para trás, prontos para atacar.
– Meg? – Sam chutou.
– Não deviam ter vindo aqui. – ela respondeu sorrindo.
– Eu podia dizer o mesmo a você. – Dean se aproximou da mulher com o Colt em mãos.
– Eu não vim sozinha... Dino! – ela chamou e um cachorro rosnou.
– Ai não. – sussurrou.
– Não me diga que... – começou a falar, mas parou quando outros cães rosnaram ao redor deles.
– Cães do Inferno. – Dean os alertou.
– É, Dean. Seus favoritos. – Meg sorriu. – Venham comigo, meu pai quer ver vocês.
– Eu dispenso, obrigado. – Sam respondeu indo para perto de .
– Você que sabe... Pode facilitar ou pode dificultar muito mesmo.
Dean olhou para trás e olhou para Sam e Ellen, que assentiu.
– Quem refresca rabo de pato é lagoa, querida. – Dean respondeu voltando sua atenção para Meg, apontando o Colt.
Meg sorriu e então Dean mirou para onde achava que um dos cães estava e atirou. Por sorte, ele acertou.
– CORRAM! – Sam gritou e puxou .
puxou Ellen e as duas saíram correndo. Jo e Dean os seguiam mais atrás. Ao som dos latidos, eles correram mais rápido, porém, como Dean era o desafortunado do momento, um dos cães o alcançou, agarrando-lhe as pernas. Dean caiu no chão e jogou o Colt para longe.
– DEAN! – Jo gritou, se virando e destravando a arma.
– ANDA SAM! – gritou para Sam, que tentava arrombar a porta de uma loja de materiais de construção.
– JO, CORRE! – Dean gritou, mas a menina ignorou.
Ela atirou se aproximando do que achava ser um cão, e por sorte, ela acertou. Porém, foi atacada por outro cão que a jogou no chão.
– NÃO! – Ellen gritou e correu até a filha, que gritava.
Sam e deram cobertura para Ellen e Dean, que se aproximavam da menina da forma que podiam.
correu até a loja de materiais de construção, e tentou de alguma maneira abri-la, porém não conseguiu. A única solução seria atirar na fechadura, e então ela mirou. Mas, poucos segundos antes de atirar, um homem de boné abriu a porta.
– ANDEM LOGO! – ele gritou.
correu até Dean e pegou as armas e as bolsas que estavam no chão enquanto Dean pegava Jo no colo e corria para a loja, enquanto os outros três ainda davam cobertura.
Sam e , que foram os últimos a entrar, tentavam fechar a porta, enquanto Dean carregava Jo para dentro da loja. Ellen e largaram as armas e foram até eles. O homem as acompanhava.
– Tudo bem. – Ellen disse, tentando acalmar a filha, que estava agonizando. – Respira, respira.
– Coloque-a aqui. – o homem apontou para o balcão.
Dean então colocou Jo no chão e a encostou no balcão. Depois, ele voltou sua atenção para o homem.
– Por que você não abriu antes? Isso poderia ter sido evitado! – ele disse nervoso.
– Você queria que eu abrisse a porta pra estranhos no meio de uma cidade enfestada de demônios? Você faria isso? – o homem perguntou calmo e baixo, olhando para Jo. – Eu só fui notar que vocês são humanos quando ela foi atacada.
Dean pensou por alguns segundos e se sentiu na obrigação de deixar o assunto de lado, já que na verdade ele teria feito a mesma coisa.
– Obrigado. – ele respondeu.
O homem apenas balançou a cabeça e se retirou para os fundos da loja.
, PEGA ALI. – Sam apontava e gritava, tentando segurar a porta, encostando-se nela.
assentiu e pegou uma corrente grossa que estava à venda no local. Sam se virou e tentou segurar a porta com as mãos, para impedir que os cães que latiam e forçavam a porta com muita força entrassem, enquanto passava a corrente pelo puxador.
– Segura aí. – ela comentou com Sam enquanto abria um cadeado que pegara junto com a corrente, e o usou para segurar a corrente na porta. – Pronto.
Sam suspirou e se escorou aliviado na porta.
O homem desconhecido então voltou dos fundos da loja com pacotes de sal que tinha estocado ali e entregou um para . Ela o pegou e correu até Sam e , colocando o sal na porta, enquanto ele colocava nas janelas.
– AJUDEM AQUI! – Ellen gritou. Os quatro se aproximaram e olharam para Jo, preocupados. A menina jorrava sangue. e a irmã se olharam. Dificilmente, Jo sairia viva daquela. – Você vai ficar bem. – Ellen tentava acalmar a filha. então foi para os fundos da loja, pegou uma bacia, a encheu com água e a entregou a Ellen. – Obrigada.
Sam e Dean foram para os fundos da loja, na sala da administração.
– As linhas de sal estão firmes. – Sam comentou com o irmão, que estava mexendo em um rádio.
– Seguros, por enquanto.
– Seguros como ratos numa ratoeira.
– Você ouviu a Meg. – Dean parou o que estava fazendo e olhou para Sam. – O pai dela tá aqui. É a nossa última chance, Sammy. É pegar de qualquer jeito. – Dean voltou a mexer no rádio e Sam olhou o vazio, pensativo.

– Meninas, me ajudem aqui. – Ellen pediu. – Eu preciso de mais água.
olhou para , pegou a bacia de água e se afastou. se abaixou e ficou ao lado de Ellen, sem saber o que fazer.
foi até a cozinha nos fundos da loja, jogou a água suja na pia e encheu a bacia com água limpa. Enquanto isso, ela observava o homem que os ajudara a poucos minutos, olhando pela janela, apreensivo.
– Precisa de alguma coisa? – ele perguntou ainda olhando pela janela. De alguma forma, ele percebeu que ela o olhava. E ela morreu de vergonha por isso.
– Ah, não! – ela voltou a olhar para a bacia. – Eu só queria agradecer pelo que você fez. A gente teria mais pessoas feridas se você não tivesse ajudado.
– Não tem problema. – o homem se virou para , que o olhou e o analisou por alguns segundos, jurando que já o viu alguma vez. – O que foi?
– Hã? Nada!... Eu vou levar isso aqui pra Ellen. – ela pegou a bacia e foi até a loja, deixando o homem sozinho.

Sioux Falls, Dakota do Sul.

“Aqui é KC5 Faca Dado Oscar, chamando... Por favor, responda.”.
Bobby ouviu alguém falar no rádio. Ele então se aproximou do objeto e respondeu:
– KC5 Faca Dado Oscar, prossiga.
Bobby, é o Dean. Temos problemas.
– Tudo bem, cara. – Bobby suspirou, dando graças a Deus por estarem vivos. – Pra isso estou aqui. Estão todos bem?

Cartago, Missouri.

Dean olhou para Sam e suspirou desesperado.
– Não... É... É a Jo. Bobby, ela tá muito mal.
Bobby suspirou e torceu para que não fosse nada grave.
Tudo bem, copiei. Agora vamos ver o que podemos fazer.
– Bobby, eu acho que ela não... – Dean parou de falar, nervoso e sem saber o que fazer.
Eu disse, vamos ver o que fazer, cara.
Dean olhou para Sam e suspirou novamente.
– Tá... Tudo bem.
Agora, diga o que está havendo.
Então Dean contou o que tinha acontecido com eles até o momento. E Bobby, ouviu com atenção.
Antes de sumir, Cass viu quantos ceifeiros?
– Eu não sei. Ele disse que eram muitos. O número faz diferença?
O diabo está nos detalhes, Dean.
Dean parou e pensou por alguns segundos. Ele olhou assustado para o lado, quando cutucou o seu braço e apontou para o rádio. Ele então passou o rádio para ela.
– Bobby, aqui é a ... O Castiel olhava pra todos os lados. Havia muitos mesmo.
Eu não estou gostando disso.
– Ninguém tá gostando, Bobby. – Dean respondeu nervoso, pegando o rádio de . – Mas o que isso parece?
Parece que é a morte, filho... Eu acho que Satã está na cidade pra fazer um ritual. Ele planeja liberar a Morte.
– Como é que a Jo está? – Sam perguntou sussurrando para .
– De mal a pior.
Os dois se encararam.
– Eu acho que vou lá. – Sam deu de ombros, triste.
assentiu e olhou para Dean conversando com Bobby.
É a Morte, o cavaleiro. O cavalgante em pessoa.
– Liberar? Mas a Morte já não galopa por toda parte? Até eu já morri várias vezes.
Não esse cara... Esse é o Anjo da Morte. O ceifeiro do papai. O cara fica acorrentado nas profundezas. Da ultima vez que foi solto, Noé estava fazendo a arca... Por isso o lugar está cheio de ceifeiros. Estão esperando o chefão chegar.
Dean suspirou.
– Tem outra boa notícia?
Pode-se dizer que sim... Eu ando pesquisando Cartago desde que vocês partiram pra tentar descobrir o que o diabo quer aí... Você fez a última peça encaixar no lugar... O Anjo da Morte deve chegar ao mundo à meia-noite em meio à carnificina. Durante a Guerra Civil houve uma batalha em Cartago. Uma batalha tão intensa que foi chamada de o Buraco do Inferno.
– E onde o massacre aconteceu?
Nas terras da fazenda de William Jasper.
e Dean se olharam.
– Como ela tá indo? – o homem se aproximou de , que olhava de longe Sam, Ellen e Jo.
– Eu acho que ela não sai daqui. – suspirou.
– O que foi aquilo lá fora? Cães do inferno? – ele esperou responder, e quando ela assentiu, ele continuou: – Eu achei que seria um problema simples de desaparecimento de pessoas. Não algo desse porte... A cidade tá vazia.
– Por que você veio pra cá?
– Como eu disse, achei que fosse coisa simples. Notei alguns presságios e vim pra cá com alguns amigos.
– E onde estão? – ela o olhou curiosa. O homem se limitou apenas em olhar para ela e balançar a cabeça. – Sinto muito.
– Essa coisa, seja lá o que for, é bem mais perigosa que a gente pensa.
– Você não tem ideia... – respondeu pensativa.
O homem a olhou.
– Você sabe o que tá acontecendo? O que é?
– Eu não posso falar.
– O que foi? Eu não sou confiável? – o homem perguntou, mas não respondeu. – Tudo bem, eu entendo... Mas pode confiar em mim. – o homem levantou a manga da camisa xadrez azul que vestia e mostrou sua tatuagem com o símbolo de anti-possessão no antebraço. – Eu não sou um demônio.
olhou para a tatuagem, para o homem e depois para Sam, que se aproximava.
– Oi, hã... Obrigado por deixar a gente entrar. – Sam viu a tatuagem. – Você é caçador?
– Sou sim. – ele abaixou a manga da blusa e esticou a mão para Sam. – Meu nome é Jean-Luc.
– Sam Winchester. – Sam o cumprimentou.
– Sam Winchester?... Foi você que trouxe o apocalipse? – Sam encarou o homem e depois olhou para . – Olha cara, eu não vou te matar... Cada um com seus problemas. – o homem deu de ombros. – E então? O que estamos caçando?
– Lúcifer. – Sam respondeu após alguns segundos de silencio.
O homem olhou para ele sem acreditar.
– Não é po...
– Possível? É sim... Lúcifer em carne e osso está nessa cidade.
– E como?... Como a gente o mata? Se é que isso é possível.
– Nós temos uma arma e bem, não temos medo de usá-la. – respondeu.

– Os Winchesters estão na minha mão. – Meg comentou sorrindo quando chegou perto de Lúcifer e Castiel. – O que eu faço com eles?
– Deixa eles em paz.
– Desculpe... Tem certeza? Não seria melhor...
– Confia em mim, filha. – Lúcifer se aproximou de Meg. – Tudo acontece por uma razão.
Castiel ouvia a conversa analisando o local, esperando encontrar algo que pudesse o tirar dali. Foi quando ele notou o encanamento de água, que não funcionava mais.
– Castiel. Você ainda tem algum tempo pra mudar de ideia. Castiel encarou Lúcifer. Então ele tinha algum tempo para escapar.

– Agora nós sabemos onde o diabo vai estar. – Dean comentou com os três depois que conversara com Bobby. também estava no grupo. – Sabemos quando e temos o Colt.
– Ah... Só precisamos passar por uns oito cães do inferno. – Sam respondeu sarcástico. – E chegar à fazenda antes da meia-noite.
– E tudo isso depois de tirarmos a Jo e a Ellen da cidade. – comentou.
– E vocês também. – Dean respondeu.
– Por quê? – perguntou.
– Olha pra ela. – Dean apontou para Jo agonizando. – O que você acha que pode acontecer com vocês?
– A gente veio sabendo que isso podia acontecer, Dean. – respondeu. – E nós não vamos ir embora. E não vamos discutir isso agora.
– Não vai ser fácil tirá-la daqui. – Sam voltou ao assunto.
– Maca? – Dean perguntou, ignorando o comentário de e olhando para Jean-Luc.
– Não. Mas podemos improvisar uma. – ele respondeu dando as costas para os três.
Parem. – Jo pediu, conseguiu ouvir a conversa toda. – Gente. Podemos ser mais realistas, por favor? – Os cinco se aproximaram da moça. – Eu não consigo mexer as pernas... Não posso ser transportada. As minhas tripas estão sendo seguras por uma bandagem... Nós temos que pensar nas prioridades aqui. – todos se olharam. – Pra começar, eu não vou a lugar nenhum.
– Joanna Beth, pode parar de falar assim. – Ellen respondeu.
– Mãe! Eu não posso lutar. Não posso andar. Mas eu posso fazer uma coisa... Nós temos aqui propano, arame, sal grosso e pregos. Tudo que precisamos.
– Tudo que precisamos? – perguntou sem entender.
– Pra fazer uma bomba, . – Michelle respondeu.
, Dean e Ellen olham assustadas para Jo. e Sam se olharam preocupados.
– Não. Jo, não. – Dean respondeu.
– Você tem outro plano?... São os cães do inferno lá fora, Dean. Eles já nos farejaram. Eles nunca vão parar de caçar vocês... Deixamos os cães entrarem, vocês vão para o telhado, pulam para o prédio vizinho e enquanto isso eu espero aqui com o dedo no botão... Detono os cães ou pelo menos dou algum tempo de vantagem pra vocês.
– Não. – Ellen respondeu com os olhos cheios de lágrimas. – Eu não vou deixar.
– É pra isso que a gente tá aqui, né?... Se pudermos acertar uma no diabo... Se alguém tiver que morrer, que seja por isso, lembra? Dean, nós temos que tentar.
– Não. – Ellen olhou desesperada para Dean. – Não é...
– Mãe... Essa pode ser literalmente a sua última chance de me tratar como adulta... Acho melhor pegar.
Ellen começou a chorar, e consentiu algum tempo depois com o plano da filha.
– Vocês ouviram... Ao trabalho.
Os cinco se olharam e se espalharam pela loja. pegou baldes, pegou pregos, Sam pegou o propano e Dean pegou o que mais poderia ser útil no local. Enquanto isso, Ellen e Jean-Luc preparavam o arame ao lado de Jo.
Enquanto Dean e Sam preparavam os explosivos, e enchiam os baldes de sal e pregos e depois, demarcaram os lugares que as bombas seriam postas. Todos agiam rápido, pois o tempo era curto e Jo poderia morrer a qualquer momento.
Com tudo posto em seus devidos lugares, e se despediram de Jo, dando espaço logo depois para Sam se despedir. Assim que o fez, ele se juntou à Ellen, Jean-Luc e as meninas, perto da escada que levava para o segundo andar. E depois que Dean terminou de arrumar os explosivos, ele se aproximou e se abaixou ao lado de Jo, colocando na mão dela, o detonador.
– É isso... – Dean comentou sussurrando para Jo. – A gente se vê do outro lado... Antes cedo do que tarde.
– Que seja tarde. – Jo sorriu.
Dean se aproximou da moça e deu um beijo em sua testa. Depois, os dois se olharam por alguns instantes e ele beijou a moça na boca. Um selinho de despedida.
– Não deveria ter feito isso. – ela reprovou, com um sorriso triste no rosto.
Dean se limitou a dar um sorriso sem vontade e se levantar.
– Tudo bem... – ele sussurrou depois que se afastou dela e saiu, indo até o grupo.
Ellen então se aproximou da filha. As duas se olharam por alguns instantes e começaram a chorar.
– Mãe... Não!
– Alguém tem que abrir a porta e você disse que não pode se mexer... Você tem a mim, Jo. – Na hora Sam e Dean se olharam sem saber o que fazer. – E tem razão: isso é importante. Eu não vou deixar você sozinha.
– Dean. – Sam o chamou.
Eles tinham de arranjar um jeito de salvar pelo menos uma das duas.
– Podem ir, todos vocês. – Ellen disse.
– Ellen...
– Eu disse pra irem. – Os cinco se olharam e começaram a subir as escadas, mesmo sem querer. – E Dean, – Ellen o chamou antes de ele sair. – atire pra matar... Não erre.
Dean assentiu e subiu o resto das escadas.
Os cinco foram para o lado de fora, desceram as escadas de emergência com rapidez e correram para longe do prédio, olhando para trás apenas quando ouviram a explosão.

Os cinco correram até a fazenda por alguns minutos, sem parar nem para respirar.
– Tá, agora vocês precisam ficar aqui. – Sam comentou assim que chegaram.
– Como assim? – perguntou se irritando.
– Só temos uma arma e não podemos nos arriscar. Eu e o Dean vamos e vocês ficam aqui... E caso a gente não volte, vão embora.
– Mas, Sam...
– Não, ... Por favor, digam que vocês farão isso? – Sam a olhou nos olhos. – Por favor... Eu não quero perder mais ninguém por hoje.
e se olharam. Não queria discutir aquilo agora, não podiam bater de frente sendo que eles tinham razão, as duas não eram necessárias.
– Se vocês não voltarem em uma hora, a gente vai atrás de vocês. – respondeu.
Sam assentiu aliviado.
– Vai ser rápido. Até mais tarde. – ele se aproximou e beijou com vontade, sem nem se importar se havia pessoas ali, observando.
Jean-Luc deu as costas, envergonhado e se afastou, fingindo ter encontrado algo superinteressante quando todos sabiam que eles mal enxergavam nada, de tão escuro que estava o local.
Dean e se afastaram um pouco também, mas não por vergonha, mas sim porque pelo menos uma vez, eles tinham que respeitar a privacidade dos irmãos.
finalizou o beijo calmo, se sentindo sem ar. Ainda de olhos fechados, e com a cabeça erguida, sentiu que Sam se abaixou levemente, encostando sua teta na dela.
Involuntariamente, seus olhos se umedecerem além do necessário.
Aquilo não era uma despedida para uma viajem separados, era algo que talvez fosse definitivo, ela não sabia.
E só de imaginar que há menos de uma hora e meia, Jo e Ellen estavam com eles e agora elas simplesmente não existiam mais, deixava bem claro o quanto aquilo estava sendo perigoso, e aumentava ainda mais o medo que ela sentia de perdê-lo.
– Você promete que vai voltar? – ela perguntou sem coragem, sentindo sua garganta se fechar.
Sam automaticamente levantou a cabeça e abriu os olhos, assim como a moça.
, eu não posso prometer isso.”, ele pensou em responder, sincero. Mas ele via através dos olhos da moça, a necessidade de se agarrar a qualquer coisa que a trouxesse um fio de esperança, algo que uma mentira do bem fazia perfeitamente.
Ele assentiu devagar, secando as lágrimas da moça com os polegares.
– Eu prometo.
deu indícios de um sorriso doloroso, Sam a acompanhou e selou seus lábios aos dela, sem a menor pressa e urgência.

Dean e ficaram em silencio e levemente sem jeito, já que eles também poderiam estar se despedindo daquela maneira, mas não podiam, ainda mais quando alguém ali beijou outro alguém antes desse último alguém morrer tragicamente.
Claro que ela não falaria nada... Por enquanto.
– Boa sorte lá. – ela disse do nada.
Dean olhou para ela, e sorriu sem vontade, assentindo. também deu o mesmo sorriso, que aos poucos foi se curvando para baixo, dando lugar a ardência nos olhos e preocupação.
Ela não queria se despedir daquela maneira, nem de maneira nenhuma. simplesmente não conseguiria se despedir tão friamente dele sabendo que ele corria risco, porque da última vez que se despediu dele “pra valer”, Dean não voltou mais.
E aquilo apertava seu peito e doía até mais do que da primeira vez.
– Ei, tá tudo bem? – Dean perguntou preocupado, pegando no braço da moça, que já deixava algumas lágrimas cair.
fez que não e o abraçou no mesmo instante. Dean retribuiu o abraço, sabendo exatamente o que passava pela cabeça da moça e sentindo preocupação não só por ele, mas por Sam também, sem deixar de sentir o alivio de poder senti-la em seus braços, mesmo não sendo como ambos gostariam. Era estanho, mas ele mesmo não saberia explicar o que sentia.
Ouviram alguém, ou melhor, dois seres pigarreando ao lado e então se afastaram, permitindo que e Sam se aproximassem.
– Tá pronto? – Dean perguntou ao irmão, que assentiu.
– A gente se vê, . – Dean a cumprimentou rapidamente, enquanto Sam fazia o mesmo com , e então os dois se afastaram.
Jean-Luc, ao perceber que as moças estavam sozinhas, voltou a se aproximar.
– Ah! – Sam se virou de repente para os três, já estava a certa distancia, mas podia ver a silhueta deles. – Você, – ele apontou para Jean-Luc. – de olho nelas até a gente voltar.
Jean-Luc assentiu e os dois foram embora.
...
– Eu sei, ... – ela olhou para a irmã, preocupada. – A chance de eles voltarem é mínima. Mas vamos torcer pro Castiel dar o ar da graça e tirar a gente daqui antes que seja tarde demais.

– Você confia nesse cara? – Dean perguntou enquanto andavam pela fazenda.
– Eu não. Mas é necessário acreditar que as duas sabem se cuidar.
– Se eu soubesse que seria assim, não teria chamado elas... Elas não deviam ter vindo.
– Mas vieram. Agora não tem mais jei... – Sam parou de falar assim que ouviu barulhos. Ele bateu no braço do irmão e apontou para uma direção.
Os dois andaram com cautela até lá e viram um monte de gente olhando paralisadas para Lúcifer, que cavava uma cova.
– Acho que já sabemos o que houve com o povo da cidade. – Dean comentou.
– Tudo bem... – Sam suspirou.
– Tudo bem.
– Últimas palavras?
Dean olhou para o irmão e depois voltou a olhar pra movimentação.
– Eu tô bem assim.
– É... Eu também.
Dean olhou para Sam e destravou o Colt. Uma chuva fina começou a cair.
– Agora não tem mais jeito.
Os dois se separam e partiram para o plano.

– EI! – Sam gritou se aproximando de Lúcifer, que parou o que estava fazendo e olhou para trás. – VOCÊ QUERIA ME VER?
– Sam, não precisa de arma aqui. – ele apontou para a arma que Sam segurava. – Eu jamais o magoaria... Jamais.
– É? – Dean apareceu cautelosamente ao lado de Lúcifer, o apontando o Colt. – Mas eu magoaria. – Lúcifer olhou assustado para Dean. – Volta pro inferno. – e atirou.
Lúcifer então caiu no chão e Dean olhou para Sam aliviado. Sam sorriu nervoso, porém, seu sorriso desapareceu quando ele viu que Lúcifer acordava aos poucos. Dean o olhou sem entender.
– Onde você conseguiu isso? – ele perguntou se levantando e colocando a mão na testa marcada pelo tiro. Dean o olhou apavorado e sem saber o que responder. Lúcifer então o bateu, jogando-o contra uma árvore no meio do mato. – E agora? – ele perguntou para Sam, que estava apavorado. – Como ficamos?... Não fique assim, Sam. Só tem cinco coisas na criação que essa arma não pode matar. E acontece que eu sou um deles... Mas se me der um minuto, eu tô quase pronto. – Lúcifer voltou a cavar o chão.
Sam olhou preocupado para Dean, tentando controlar a respiração descontrolada. Ele foi até o irmão, que estava desacordado e checou os seus pulsos, suspirando aliviado por ele estar vivo.
– Olha... – Lúcifer se apoiou na pá e olhou para Sam. – Eu não acho que você vai dizer um sim logo de cara, né? E acabar com essa discussão boba. É loucura, né?
– Isso nunca vai acontecer. – Sam o encarou e se levantou.
– Ah, eu não sei, Sam. – ele voltou a cavar. – Eu acho que vai, hein... Vai acontecer logo. Daqui uns três meses. E eu acho que vai ser em Detroit.
– Escuta aqui, seu filho da mãe... Eu vou matar você pessoalmente, entende? – Sam falava nervoso. – Eu vou arrancar o seu coração.
– Maravilha, Sam. Pode ir atiçando esse fogo interno e toda essa fúria contida. Eu vou precisar.
Sam olhou para as pessoas, que não se mexiam. Apenas olhavam para Lúcifer.
– O que você fez? O que fez com essa cidade?
– Eu fui muito generoso com a cidade... Um demônio para cada homem inteiro.
– E o resto deles?
Lúcifer riu e parou de cavar.
– Aqui, ó. – ele apontou para a cova. Sam o olhou assustado. – Eu sei que é terrível. Mas os cavaleiros são exigentes. – ele voltou a cavar. – Então, mulheres e crianças primeiro. Eu sei o que pensa de mim, Sam. Mas eu preciso fazer isso... Você mais do que ninguém deveria entender.
– O que você quer dizer com isso?
Lúcifer o encarou e jogou a pá no chão.
– Eu fui filho e eu fui irmão, como você. – ele se aproximou. – Um irmão caçula. E eu tinha um irmão mais velho que eu amava. Eu o idolatrava... Aí um dia eu implorei a ele que ficasse do meu lado... Aí sabe o que aconteceu? O Miguel me deu as costas. Me chamou de monstro. E sabe o que mais? Ele me bateu. Só porque eu era diferente. Porque eu tinha ideias próprias... Me diz uma coisa, Sam... Isso não lhe parece familiar? – ele esperou Sam responder, mas ele não o fez. – Enfim, você precisa me dar licença. Meia-noite tá chegando e eu tenho um ritual pra terminar... Não vá embora, hein. Não que possa, mesmo querendo. – ele deu as costas para Sam, que se abaixou para Dean e observou Lúcifer terminar o ritual, sem saber o que fazer.
Dean então acordou e se sentou atordoado, olhando para o ritual sem entender.
De repente, as pessoas que estavam lá começaram a cair desmaiadas. Sam então olhou assustado e com os olhos arregalados para Lúcifer.
– O que foi? – Lúcifer perguntou dando de ombros. – São só demônios. – ele voltou a olhar para as pessoas caídas.

Castiel olhava atentamente para o cano de água, usando seus poderes atentamente com cautela, para rompê-lo.
– Você parece contente. – ele comentou com Meg, que parecia não notar o seu plano e ria.
– Nós vamos vencer. – ela parou na frente de Castiel. – Não sente isso? Vocês anjos idiotas perderam a droga do universo... Lúcifer vai tomar o céu. – Castiel a encarou tentando se concentrar no cano. – Nós vamos pro céu, Clarence. – ela riu.
– Estranho. Eu ouvi uma teoria diferente de um demônio chamado Crowley.
– Você não conhece Crowley. – Meg falou séria.
– Ele acredita que Lúcifer está usando demônios pra atingir um fim. – Castiel se aproximou de Meg, e quando ouviu um dos parafusos que segurava o cano cair no chão, ele continuou a falar, para abafar o som: – E que, quando o fizer, vai destruir vocês todos.
– Tá errado. – Meg ficou de frente para Castiel. – Lúcifer é o pai de nossa raça. Nosso criador, nosso Deus. O seu Deus pode estar quase morto, mas o meu ainda anda pela terra.
Castiel a encarou e quando terminou de desparafusar o cano, ele bateu em Meg, que entrou no fogo sagrado sem querer. Castiel então agiu rápido e agarrou a mulher para matá-la, mas não conseguiu, já que seus poderes estavam limitados.
Meg então riu.
– Você não pode matar demônios, não é? Tá fora do seu escritório e não tem mais poder. E agora? O que você pode fazer, seu impotente?
– Eu posso fazer isso. – Castiel então a jogou no chão, bem em cima do fogo sagrado. Fatalmente o circulo foi quebrado e Castiel conseguiu passar por cima de Meg e fugir.

– Vocês ouviram isso? – perguntou assim que ouviu o tiro.
– Sim. – e Jean-Luc responderam.
– Será que conseguiram?
– Eu vou lá. – respondeu se afastando.
– Não. – Jean-Luc a segurou pelo braço.
– Você é louca, ? E se não for o que a gente pensa? – perguntou.
– Se não for, – puxou seu braço com certa ignorância e lançou um olhar furioso para o rapaz. – ou o Sam ou o Dean estão com problemas. A gente precisa ir até lá. – e voltou a andar, mas parou quando o chão começou a tremer. – O que é isso?
– Eu não sei. – Jean-Luc respondeu. – Acho melhor a gente sair daqui.
– A gente não pode... – e foi interrompida por Castiel, que apareceu. – Ai que bom, Castiel! Onde você se meteu?
– Eu preciso tirar vocês daqui. – o anjo se aproximou.
– Mas e o Sam e o Dean? – perguntou.
– Eles não estão aqui. – Castiel respondeu e as tocou, tocando em Jean-Luc a seguir.

...

Sioux Falls, Dakota do Sul.

“Acabamos de receber a noticia de que o governador acabou de decretar o estado de emergência no Condado de Paulding. Incluindo as cidades de Marion, Fetterville e Cartago... A tempestade foi responsável pelo grande número de tornados na área...”. – Era o que , e Jean-Luc ouviam na televisão sentados no sofá de Bobby. – “O numero de mortes ainda não foi apurado. Mas as autoridades acreditam que as perdas de vidas e de propriedades são imensas.”.
desligou a televisão e olhou para a irmã e depois para Jean-Luc.
– A coisa não podia ficar pior.
Os dois assentiram. Ficaram alguns segundos em silencio, até o homem suspirar e se levantar.
– Eu acho que vou embora.
– Espera! – se levantou num pulo. – Qual é o seu nome?
– Você não me reconheceu, não é? – ele perguntou sorrindo.
olhou para , que deu de ombros e depois olhou para o homem.
– E deveria?
Jean-Luc riu e tirou o boné que estava usando, arrumando o cabelo bagunçado.
– A gente se conheceu em Alliance há alguns meses.
o olhou por alguns segundos e depois arregalou os olhos.
– O enfermeiro! – ela sorriu sem graça. – Ai meu Deus! Me desculpe.
– Por você ter dado em cima de mim ou por não ter se lembrado de mim?
franziu a testa e mordeu o lábio, se lembrando do momento que o conheceu. Ela e a irmã estavam no hospital investigando o caso do cara que perdeu os dentes para a Fada do Dente.
– Os dois... Nossa, eu sou ótima com fisionomia, mas não te reconheci com essa barba e esse boné. – ela sorriu. – E ainda assim, eu não sei o seu nome.
– Ah, meu nome é Jean-Luc Bilodeau. – ele estendeu a mão.
– Ah, o nome francês! Esse é o nome que você usou no hospital. – ela o cumprimentou.
– Nome de verdade, profissão de mentira.
– Ah, sim... O meu nome é e essa é minha irmã, ... Muito prazer.
– O prazer é todo meu. – ele disse cumprimentando .
– Ah, e me desculpe pelo modo que me comportei no hospital, eu não sabia que você era caçador... – ela deu de ombros.
– Pois é, eu tava trabalhando. Eu também achava que você era do FBI, então...
– Surpresa! – ela respondeu, rindo sem graça.
– É... Eu fui embora assim que os casos daquelas pessoas voltaram ao normal.
– Ah, sim. A gente deu um jeito nisso. Acho que fomos mais rápidas que você.
– Vocês são uma caixinha de surpresa. São caçadoras, rápidas e ainda por cima conhecem um anjo... É muito pra um dia só.
– Eu sei. – ela concordou.
– Mas enfim, eu vou indo... Obrigado pela hospitalidade. – ele caminhou até a porta.
– Não tem problema. – ela o acompanhou. – Obrigada você por nos ter ajudado. – ela abriu a porta e o homem saiu com um sorriso no rosto. – Você precisa de carona pra algum lugar?
– Não. Eu me viro... Até mais.
– Até. – sorriu e assistiu o homem se afastar aos poucos da casa. Ela fechou a porta e olhou para a irmã, que a encarava com um sorriso no rosto.
– Que vergonha.
rolou os olhos.
– Nem me fale... – ela parou ao lado de . – Eu acharia cômico se não fosse trágico.
– O quê?
não respondeu. Apenas apontou para o escritório de Bobby, onde o próprio, Sam e Dean estavam de frente para a lareira com cara de poucos amigos.
As duas foram até lá e viram Bobby segurando a foto de dois dias atrás em sua mão. Ele a fitava pensativo.
Apesar de não conhecerem Jo e Ellen a ponto de chorarem pelo luto, elas estavam muito tristes e comovidas com o ocorrido. Então apenas ficaram lá até Bobby jogar a foto na lareira, triste.








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