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Última atualização: 25/01/2021

#1

Não é sobre reciprocidade, é apenas sobre mim
(The Sound - The 1975)


Você sabe o que é um foca? Não, não estamos falando do animal fofinho, preguiçoso, porém animado. No mundo animal, pode ser. Mas, na selva que chamamos de redação jornalística, são os jornalistas recém-formados. Eu era uma foca.
Durante meus tempos de universitária, sempre imaginei como seria finalmente poder colocar meus pés em uma redação de verdade, com o barulho dos teclados, conversas altas ao telefone, o cheiro de café impregnado no ambiente e os muitos pares de olhos vidrados nas palavras que apareciam nas telas de computadores. Agora, de frente para aquela realidade, todos os dias, ela se tornava cada vez mais assustadora.
Não se parecia em nada com o meu último estágio, que tinha um ritmo bem menos acelerado e com pessoas que pareciam bem mais distantes do limite da loucura.
Formada há quase quatro meses, consegui um emprego como assistente de edição no Repeat Daily, um renomado portal de notícias sobre o mundo da música. Diferente do que pensei que faria, por ser uma mera foca, eu estava condicionada a atualizar o portal todos os dias da minha existência lá dentro. Vez ou outra, me deixavam produzir notícias e pequenas reportagens, mas nada de muito importante. Normalmente, eu apenas recebia o material produzido por todos os outros colegas mais experientes pelo e-mail e os disponibilizava no site. Todos os dias. Durante seis horas diárias. Seis dias por semana.
Obviamente que, como todo o estudante sonhador, imaginava que meu editor-chefe em algum momento me deixaria produzir algo que ele gostaria tanto que seria obrigado a me realocar de função. E é claro que em dois meses de trabalho isso ainda não tinha acontecido. Josh Sullivan era um homem de 51 anos. Desse valor total, 22 anos eram apenas no exercício do jornalismo. Em toda a sua carreira, trabalhou nas mais variadas áreas, desde jornalismo esportivo até político, porém escolhendo criar raízes no jornalismo cultural, mais precisamente, falando sobre música.
Quando era adolescente, Josh tinha uma banda com seus melhores amigos. Não deu muito certo, pois seus pais queriam que o filho fosse para a faculdade e tivesse uma carreira mais estável do que ser “um palhaço drogado e tatuado”. Pesquisando algo que poderia abarcar sua paixão pela música, achou no jornalismo uma solução. Mal sabia ele que só conseguiria de fato investir nessa área quase 16 anos depois de formado.
Aos 45 anos, Josh, com ajuda de um amigo crítico musical, fundou o Repeat Daily, que começara apenas como um pequeno blog de críticas musicais e, pouco a pouco, crescera a ponto de se tornar um dos portais de notícias mais importantes da Europa. Dentre seus maiores desejos, estava o de deixar de ser um veículo nativo da internet e, finalmente, possuir uma revista mensal impressa, indo na contramão da maioria das empresas, que, dado os custos de produção de impressos, estavam fechando as portas de suas redações que produziam materiais físicos.
Era esperado que até o final do ano, Josh escolhesse quem seriam os repórteres que estariam habilitados a produzir grandes reportagens especiais para a revista impressa. Somente os melhores o fariam. E eu queria muito estar entre eles. Entretanto, isso não seria possível se eu continuasse só postando o que meus colegas escreviam.
Josh não acreditava em talento. Muito menos eu. Todavia, era por não acreditar nisso que ele era cético o suficiente para acreditar que uma recém-formada não estava apta a assinar seus próprios textos. O homem acreditava que somente após muitos anos de observância sobre o trabalho dos colegas mais experientes que uma iniciante como eu seria capaz de entregar materiais a altura dos padrões de qualidade do Repeat.
Eu tinha certeza de que não o decepcionaria se tivesse a oportunidade.
Sullivan nem mesmo sabia quem eu era.
― E aí, bonitona? Quer um café? ― tirei os olhos da tela do computador para olhar não muito acima dela a pequena mulher sorridente com os braços apoiados na divisória entre nossas “cabines de trabalho”.
era dois anos mais velha que eu e já trabalhava no Repeat há um ano. Conhecida como a versão Repeat Daily da Gossip Girl, era ela quem atualizava todo mundo sobre a vida dos músicos famosos: quem namorava quem, quem tinha ido para a rehab no último ano, quem estava grávida e quem tinha sido chifrado. Todas as notícias consideradas fúteis eram produzidas por ela.
Completamente oposta a mim, estava contente com suas atribuições. Adorava falar sobre amenidades e alienar pessoas com notícias que não mudariam em nada o seu dia se você não soubesse delas.
― Tomei a segunda xícara agora. Será que se eu tomar mais uma vou começar a tremer? ― questionei, relaxando as costas contra o encosto de minha cadeira.
― Geralmente, pra mim, os tremores começam depois da quarta, mas eu tenho uma boa tolerância. ― deu de ombros, franzindo os lábios para baixo, demonstrando indiferença.
― De qualquer forma, já tá na hora de eu comer algo. ― bloqueei o computador, peguei minha caneca de bichinhos e saí de minha cabine.
fez o mesmo e nos encaminhamos lado a lado para a copa da redação, que ficava no andar inferior.
― Como vai o portal? ― tentou puxar assunto enquanto servia café em nossas canecas.
― Um saco, né? Postei uns três textos da Judy sobre coisas aleatórias, mas amei seu giro da semana. ― sorri.
― Não saiu nenhuma crítica essa semana?
― Não. Por quê? Esperando alguma em especial?
― Saiu o segundo álbum de uma banda que eu acompanho e como Michael fez uma crítica muito boa do debut deles, acho que o segundo também vai ser bom. Quer dizer, eu daria uma boa nota. ― deu uma piscadela, fazendo-me rir.
― Mas cadê o jornalismo imparcial?
― Junto com o terraplanismo na caixinha de coisas que não existem. ― rimos. ― E aí? Planejando falar com Sullivan sobre te deixar escrever mais?
― A última vez que fiz isso fui enxotada da sala dele, tal qual uma mosca. ― franzi o rosto.
― Todo mundo que foi movido de função alguma vez aqui dentro teve que insistir muito até conseguir. Sem contar que Sullivan tem que se impressionar com o que você tem a mostrar pra ele, senão meio que seus planos vão por água abaixo.
Bebi meu café refletindo em suas palavras.
No fundo, eu sabia que era boa, por isso, fui contratada, entretanto, não sabia se o que eu tinha a oferecer seria o suficiente para Sullivan. O cara tinha um pouco menos que a minha idade em experiência de trabalho, sendo assim, não era a pessoa mais impressionável do mundo.
. ― ouvi uma voz grossa dentro do recinto.
Virei-me para ver quem era e vi um Sullivan sério, com apenas metade do corpo para dentro do recinto, olhando-me.
― Sim? ― respondi, tentando disfarçar meus olhos que queriam se arregalar. Como ele sabia onde eu estava?
― Pode vir até à minha sala? Estou conversando com todos os focas hoje. ― deu um meio sorriso. Quer dizer, se parecia com uma tentativa de sorriso.
― Claro. Se importa se eu… ― deixei a frase morrer, mostrando minha caneca cheia para ele, indicando que estava bebendo.
― Ah, não. Pode trazer junto com você. ― e saiu.
― O que ele quer comigo? ― sussurrei para .
― Provável que você faça uma avaliação sobre como tem sido trabalhar aqui. ― respondeu, no mesmo tom de voz que eu. ― Todos nós passamos por isso. Essa é a sua chance de falar com ele sobre sua insatisfação. ― sorriu. ― Respire fundo. Agora vai. ― acenou para que eu saísse.
Caminhei um pouco mais rápido que o normal para não parecer que fiquei para trás para fofocar sobre meu chefe. Cheguei à sala de Josh quando o mesmo estava prestes a se sentar em sua belíssima cadeira de ícone jornalístico.
― Como você está, ? ― sentei-me à sua frente.
― Bem. E você? ― ele sorriu com a pergunta. Acho que é ponto pra mim, certo?
― Muito bem. , você foi uma das últimas focas que contratamos, certo? ― assenti. ― E como tem sido a sua estadia aqui? Está gostando, os colegas estão sendo legais com você?
― Bom, eu adoro trabalhar aqui. São todos legais, a localização e o horário de trabalho são ótimos. Sem contar que sou apaixonada por música desde muito pequena, então, meio que esse era o meu sonho. ― sorri.
― Seus pais eram músicos? ― relaxou as costas no grande e confortável encosto de sua cadeira.
― Na verdade, não. Meus pais são historiadores.
― Eles ficaram desapontados por terem uma filha jornalista? ― caso você esteja se perguntando por que isso faz algum sentido, bem, historiadores não gostam de jornalistas, pois dizem que somos manipuladores da verdade, que não contamos a história como ela realmente aconteceu. Pode até ser meio verdade, mas eu duvido muito que eles nunca tenham manipulado nem um pouquinho os fatos.
― É, mais ou menos. Hoje em dia eles não ligam mais, acho que, no fim das contas, é bom poder fazer chacota de alguém nas festas de família. ― rimos.
― Você gosta das atividades que está executando aqui?
― Gosto porque me mantenho atualizada de tudo o que está acontecendo, uma vez que tudo passa pelas minhas mãos antes de estar disponível na web, mas eu meio que esperava poder produzir mais.
― Tipo o quê? ― inclinou-se em minha direção, colocando os braços cruzados sobre a mesa à sua frente.
― Bom, queria poder escrever algumas matérias. Sei que você preza muito pela qualidade do material, mas acredito que eu conseguiria aprender muito mais se estivesse praticando.
― Se você precisa de ajuda, pode pedir a qualquer um dos seus colegas.
― Não é disso que eu falo. ― disfarcei um suspiro, soltando a respiração lenta e tranquilamente pelas narinas. ― Quero colocar a mão na massa, escrever algo que eu mesma apurei, com uma pauta que eu mesma fiz. Quero estar por dentro dos bastidores.
― Sabe que é muito trabalho para uma foca fazer, né? ― semicerrou os olhos, encarando-me com uma feição que explicitamente me dizia que Sullivan não estava gostando da minha audácia.
― Mas eu já fiz isso e sei que consigo fazer.
, uma redação é como um corpo humano. Todos os órgãos têm funções predefinidas. Se um dos órgãos para de funcionar devidamente, os outros irão sofrer as consequências. É assim que trabalhamos aqui. ― seus olhos fitavam os meus, não de forma intimidante ou autoritária, mas receosa. ― Sabe por que eu nunca deixo pessoas com menos de um ano de trabalho na empresa escreverem ou apurarem matérias? Porque temos um nome a zelar. Construímos essa reputação com muito esforço, respeitando nossas fontes, os fatos e com profissionais completamente dedicados, que entendem que tudo tem seu tempo. Eu realmente acredito que você seja uma profissional competente. Leio pelo menos uma matéria escrita de cada jovem jornalista que entra por aquela porta e é contratado para trabalhar aqui. Todavia, não acho que seja hora de te colocar na rua. Falo isso pelo seu próprio bem. Quero que seja treinada, tenha preparo para lidar com todas as situações, que seja sensível, mas que também saiba ser neutra quando necessário. ― pausou por alguns instantes antes de retomar: ― Tudo isso leva tempo e quero que aprenda a fazer do jeito certo.
― Sullivan, eu…
― Sem mais. ― seu tom agora era inflexível e não parecia o mesmo Josh de alguns minutos atrás.
Levantei-me do assento, ainda segurando firme minha caneca na mão. Teria que jogar meu café fora, pois já estava frio.
― Posso voltar ao trabalho?
― Fique à vontade. ― gesticulou, indicando a porta para que eu saísse.
Dirigi-me para a porta e a fechei assim que saí. Fui até a copa limpar minha xícara e pegar um novo café.
Ao voltar para minha mesa, não demorou para novamente apoiar o corpo sobre a divisória atrás da tela do meu computador, encarando-me antes de finalmente perguntar:
― Como foi lá?
― Péssimo, né? Josh disse que preciso ser treinada porque ‘todos precisam aprender a fazer direito antes de fazerem’. ― imitei seu tom de voz.
― Até que ele pegou leve. Foi melhor do que eu imaginava.
― Se você sabia que seria ruim, por que me incentivou? ― tinha certeza de que a olhava com um olhar fulminante, mesmo tentando disfarçar que tinha ficado realmente puta.
― Porque todos que pediram para serem trocados de função tiveram que insistir muito. Eu mesma tive que pedir durante um mês inteirinho e mostrar a ele que eu poderia ser a própria personificação da imprensa marrom. ― jogou os cabelos por sobre os ombros e segurei o riso para mostrar que ainda estava brava.
― Bom, se ele quer que eu insista, eu o farei. Não sei bem como, mas farei.
― Você tem textos seus prontos no formato que você quer que ele te coloque pra escrever?
― Alguns. Por quê?
― Pode começar enviando eles todos os dias para ele. Intercale isso com matérias que você pode produzir no dia-a-dia, imprimir e colocar embaixo da porta dele. Josh gosta que o provoquem, que chamem a atenção dele porque um bom jornalista não é apenas respeitoso…
― É também ousado. ― completei a frase que o ouvia dizer em quase todas as reuniões que participei onde ele aconselhava a todos os presentes na redação sobre o que deveria ou não ser feito.
― Que bom que você aprendeu rápido porque, se você quer mesmo isso, de agora em diante, vai ter que se desdobrar para conseguir.
Quando estava prestes a sair de onde estava e voltar ao trabalho, questionei-a:
― Por que você quis ir pras fofocas dos famosos? Quer dizer, você escreve muito bem e ninguém quer ser o paparazzi.
― Porque eu tenho um talento natural para fofoca. Toda vez que eu cismo com algo, eu descubro. ― sorriu. ― E outra: a vida real já é muito difícil, por que não dar às pessoas algo com que se distrair? ― podia parecer a lógica mais idiota do mundo, entretanto, estava certa. Por que não ser a pessoa que você quer ser?
Depois disso, não voltou a se pendurar atrás de minha tela até o final do turno.
Às 20h, após postar a última matéria no site, peguei minha bolsa, meu casaco e saí. Tinha prometido que iria tomar uma cerveja com após o expediente, no entanto, preferi cancelar, visto que queria colocar meu plano de infernizar Josh até que ele decidisse que de fato eu merecia mais do que ser a menina que posta conteúdo no site.

- x x x -


Ao chegar em casa, larguei a bolsa e o casaco no cabideiro, tirei os sapatos e os deixei ao lado da porta. Fui até a geladeira, peguei uma cerveja que estava mais gelada do que eu deveria tomar, me joguei no sofá, mexendo no celular.
Morava sozinha há três anos, mas este era o primeiro mês que minhas contas, como aluguel e luz, não eram mais bancadas pelos meus pais. E somente agora eu conseguia verbalizar com toda a certeza do mundo que aquela era a minha casa.
Bebendo pequenos goles da bebida, comecei a olhar meu portfólio e todas as 20 contas de nuvem onde eu guardava tudo que já havia produzido durante minha curta carreira como jornalista. Achei coisas interessantes, como as fotos que fiz de casais aleatórios na rua, nas mais variadas faixas etárias ou a grande reportagem que fiz acompanhando o dia-a-dia de pais de crianças autistas. As coisas ruins estavam guardadas em pastas separadas, geralmente com o nome de “nunca mais usar” e elas não me interessavam. Precisava encontrar apenas as melhores.
Naquela noite, fiquei até às 04h manhã imprimindo reportagens antigas e pautas que montei, porém nunca tivera a oportunidade de apurar. Quando menos esperasse, Josh seria bombardeado por todas elas, todos os dias. Satisfeita com o pensamento, fui me deitar para acordar quatro horas depois e começar minha rotina diária.

- x x x -


Chegando na redação, como sempre, meu primeiro ato foi ligar o computador e abrir minha caixa de e-mails. Todavia, diferente dos outros dias, não olhei quais eram as matérias que deveriam ser postadas dentro dos próximos 30 minutos e, sim, escrevi um e-mail para Sullivan à respeito da reportagem que estava lhe enviando em anexo.

“Olá, Sullivan, tudo bem? Seguindo o seu conselho, desejo muito aprender tudo o que você tem a me ensinar, então, no anexo deste e-mail, envio um perfil que produzi a respeito de um senhor de 76 anos que trabalha como luthier há mais de 50 anos. Espero que goste.
Atenciosamente,


Após esta mensagem, me permiti começar a trabalhar, afinal, era sexta-feira, também conhecido como o dia em que todas as redações jornalísticas pegam fogo, seja pelas festinhas dos famosos ou pelo prazo de entrega de grandes reportagens que iriam ao ar no início da semana seguinte. Este foi um dos poucos dias que trabalhei empolgada e com afinco.
No dia seguinte, além de mandar em anexo fotos que fiz em um show de uma banda local, coloquei embaixo da porta a versão impressa de uma entrevista que fiz com os mesmos.
No terceiro dia, enviei um dos episódios de uma série de podcasts que havia criado nos tempos de faculdade enquanto era estudante de radiojornalismo. No episódio em questão, discuti com alguns sociólogos a importância que figuras grandiosas como Michael Jackson tinham na formação do pensamento crítico social. Ao final da tarde, mandei três pautas que havia elaborado e nunca tinha conseguido apurá-las, todas falando sobre música.
No quarto dia, enquanto colocava uma grande reportagem de 15 páginas na fresta da porta do escritório de Sullivan, vi-a se abrir antes que eu conseguisse terminar de colocar o envelope por inteiro para dentro.
― Acho melhor você entrar. ― disse em um tom soturno olhando-me agachada em frente à sua porta.
Levantei-me, tentando manter o pouco de convicção e dignidade que me restava após aquele olhar. Tinha quase certeza absoluta de que o resultado daquilo não seria nem um pouco bom.
― Pode me explicar exatamente o que você tem feito nos últimos dias? ― sentou-se em sua cadeira, encarando-me sério.
― Como eu disse, se é tão importante assim que eu aprenda a fazer do jeito certo, quero aprender. ― respondi, parada, em pé de frente para sua mesa.
― Você foi uma das pessoas mais inconvenientes que já conheci nos últimos dias.
― Desculpe, eu só estava…
― Tentando provar que eu estava errado e que devo te trocar de função? ― interrompeu-me e eu não soube o que fazer. Poderia confirmar o que acabara de dizer e me desculpar ou poderia fazer cara de paisagem e seguir em frente negando. ― Você sabia que não é a primeira a tentar algo do gênero, né? Assim como tenho certeza de não será a última. A diferença é que a maioria espera um pouco mais de tempo para começar a me importunar. ― respirou fundo. ― De qualquer forma, não posso permitir que essa atitude passe despercebida. ― passou uma das mãos pelo rosto, provavelmente, decidindo o que fazer comigo.
― Vou ser demitida? ― perguntei baixinho, temendo que estivesse dando ideia para ele.
Sua resposta veio quase um minuto depois de puro e extremo silêncio:
― Não. ― por pouco não suspirei alto de alívio. ― Vou fazer melhor que isso. ― o homem começou a mexer no computador a sua frente, digitando várias palavras que eu não conseguiria formar em minha cabeça nem que ele começasse a catar milhos no teclado. ― Agendamos uma apuração de uma semana para fazer uma reportagem perfil com o vocalista do The 1975, Matthew Healy. Ainda não havia indicado o nome de ninguém, mas já que você quer tanto me provar que consegue… ― deixou no ar.
― Eu consigo. ― rebati, mais confiante que anteriormente.
― Ótimo. Estou te mandando por e-mail todas as informações. ― voltou-se para mim. ― Quero você grudada nesse garoto desde a hora que ele acorda até quando vai dormir. Se ele tiver insônia, você vai ter também, entendido?
― Sim. ― respondi automaticamente como um soldadinho. ― É isso?
― É, sim. ― encaminhei-me para a saída. ― ?
― Sim? ― voltei a olhá-lo.
― Pega leve com o garoto. Ele é meio estrelinha, mas você consegue. E lembre-se: um bom jornalista não é apenas respeitoso… ― deu uma pausa para que eu completasse.
― É também ousado. ― assenti e me retirei.
De volta à minha cabine, se dependurou novamente em nossa divisória enquanto eu continuava atônita com o ocorrido na sala de nosso editor-chefe.
― Nossa, você tá meio pálida. O que aconteceu?
― Sullivan quer que eu escreva um perfil.
― Uau, isso é incrível. De quem?
― Do vocalista de uma banda que eu nunca ouvi falar.
― Você não sabe o nome?
― Espera. ― acessei meu e-mail, clicando no último que aparecia na lista de recebidos. ― Aqui diz que é um cara chamado Matthew Healy, de uma tal de The 1975.
― MENTIRA?! ― elevou o tom de voz, fazendo-me arregalar os olhos com seu quase grito.
― Sinto que falei algo que te deixou emocionada.
, era dessa banda que eu tava esperando que saísse uma crítica essa semana.
― Sério? Eles são bons?
― Eles são incríveis! ― a excitação em sua voz estava começando a me deixar irritada, pois fazia com que nossa conversa fosse unilateral. ― Como assim você não os conhece? ― dei de ombros. ― Se você vai entrevistá-lo, acho que vai precisar conhecê-los. ― seus olhos brilhavam.
― E acho que já sei quem pode me ajudar, né? ― dei um meio sorriso, desejando que aquele assunto acabasse logo.

- x x x -


Naquela noite, foi dormir na minha casa. Se tinha uma coisa na qual ela era boa, era falar sobre os outros. Não era a toa que a chamavam de Gossip Girl. sabia o nome de todas as ex-namoradas, quais eram as marcas de vinho preferida, o nome de todas as músicas, o lançamento de todos os EPs e álbuns, além de ter decorado todas as tatuagens de todos eles.
― Como você consegue memorizar tudo isso? ― perguntei, não conseguindo evitar franzir o cenho ao olhar para ela.
― É tipo um super poder. ― bebeu um gole da cerveja que segurava nas mãos. ― Se eu gosto, eu memorizo. ― deu de ombros.
― Acho que você deveria fazer esse perfil. Você sabe mais do cara do que ele mesmo.
― Errado. Eu sou apenas uma grande que fã que também é jornalista. As duas coisas se complementam. Sem contar que eu provavelmente surtaria e desmaiaria se os encontrasse por aí.
Suspirei e bebi minha cerveja.
― Talvez eu deva desistir. Quer dizer, eu não os conheço e muito menos conheço esse cara. Não sei nada sobre ele.
― Você é jornalista. Geralmente, você interage com gente que não conhece, lembra?
― É, mas não durante uma semana inteira investigando a vida inteira de uma pessoa pra contar pra outras pessoas.
― Talvez você deva começar pelo básico, tipo ouvindo algum álbum deles.
― Uau, eu não tinha pensando nisso. Obrigada, capitã óbvio. ― ironizei, amarga.
― Vou ignorar a sua grosseria. ― disse, mexendo no celular.
Instantes depois, uma música começou a soar na minha sala. Era uma baladinha oitentista qualquer, nada de muito impressionante, porém não poderia dizer que era ruim.
― São eles?
― Sim. É uma das músicas do último CD. Sei que você gosta de música mais tranquila, então, pensei que essa poderia ser a melhor opção pra começar.
― Não é ruim. ― balançava a cabeça no ritmo da música.
Cerca de meia hora depois, enquanto ainda ouvíamos a voz do homem que eu perseguiria durante a semana seguinte inteira, me contava fatos que eram importantes de ter ao alcance das mãos e eu os anotava em minha agenda de trabalho.
Pelo menos, saberia de onde partir, não seria um completo tiro no escuro.

- x x x -


Na terça-feira seguinte, cheguei cerca de meia hora antes do combinado, por isso, decidi que faria a jornalista amigável e comprei café para meu entrevistado e eu. Dizem que precisamos construir uma relação de confiança com nossas fontes e, como já fora avisada, talvez Matthew Healy não fosse ser a pessoa mais fácil de lidar.
Não sabendo exatamente qual era seu tipo de café preferido, pedi dois puros sem açúcar, assim seria mais fácil de consertar caso ele não gostasse. Após pagar pelos pedidos, me encaminhei para o alto edifício ao lado. O Sparkle Building não poderia ser considerado um hotel de luxo, mas, ainda assim, estava bem acima da média. Era muito mais do que eu poderia pagar, por exemplo.
Ao chegar na recepção, informei meu nome, mostrei meu crachá e a recepcionista autorizou minha entrada, visto que já haviam deixado avisado sobre a minha vinda, instruindo-me que quem eu procurava estava no nono andar, ao final do corredor.
Segui suas orientações e, ao encontrar a porta que procurava, toquei a campainha.
Bebi um gole do meu café enquanto esperava e quase queimei minha garganta quando a porta foi aberta.
― Parece que alguém é bem pontual. ― disse, dando um sorriso que quase me fez cair dura para traz. ― Você deve ser , a jornalista. ― apenas consegui assentir e continuei olhando-o.
Ao mesmo tempo que seu sorriso parecia simpático, nunca estive na presença de alguém mais intimidador na vida.
― Sou Matthew Healy e você já deve saber disso. Entre. ― deu espaço para que eu passasse e eu já não tinha mais certeza se gostaria de fazer isso.


#2

Você vai dizer a verdade pra que eu não tenha que mentir?
(Are You Bored Yet? - Wallows ft. Clairo)


― Você vai continuar parada aí? ― abriu mais um daqueles sorrisinhos cínicos, que ainda me deixavam pouco confortável em sua presença.
― Ah, com licença. ― passei por ele, adentrando no quarto. Assim como a fachada ou o hall de entrada do hotel, não era nada luxuoso, no entanto, oferecia o tipo de comodidade pelo qual o meu salário de jornalista não poderia pagar.
A cama parecia extremamente confortável, sua mala estava no canto próximo ao frigobar. Algumas de suas roupas jogadas sobre uma das poltronas e o ar tinha uma mistura de hortelã e cigarros.
― Eu trouxe pra você. ― estendi o copo em sua direção, bebendo mais um gole do meu café.
― Muita gentileza sua. ― sorriu, pegando e tomando um gole pequeno. ― E não é que você acertou?
― Que bom. ― dei um meio sorriso, tentando aliviar a tensão sobre meus ombros.
― Você trabalha pro Josh Sullivan? ― assenti. ― Responsabilidade, hein?
― Pois é.
― Quanto tempo faz que você nos conhece?
― Bem, eu… não colocaria…
― Espera, você não nos conhece? ― sua voz tinha um misto de surpresa e deboche. ― Então, você também não me conhece… ― concluiu, sorrindo. ― Interessante.
Bebi mais um pouco de café, tentando disfarçar meu nervosismo.
― Você se hospedou no hotel?
― Eu moro a cerca de uma hora daqui.
― Hmmmm. ― com o celular em mãos, bebeu um gole de seu café enquanto digitava algo com uma mão. ― Só um minuto. ― com o celular na orelha, começou a falar com alguém que eu não tinha ideia de quem poderia ser: ― A jornalista do Sullivan chegou. Queria te pedir um favor, você já tá a caminho? Ok, eu espero. ― desligou. ― O que você costuma fazer no seu tempo livre?
― Ultimamente, não tenho muito tempo livre.
― Não é possível que não tenha tempo pra sair com uma amiga, ficar com seu namorado ou visitar seus pais.
― Impressão minha ou você está tentando descobrir algo sobre mim? ― arqueei uma das sobrancelhas. Não saberia dizer de onde saiu a coragem para fazer tal questionamento, todavia, ouvindo minha própria voz, até parecia que eu estava flertando com ele.
― A confiança é a base de uma relação fonte-jornalista, não? ― um sorriso surgiu em um dos cantos de seus lábios. ― Espero que goste de festas, temos quatro marcadas só pra essa semana. ― levou o copo à boca novamente, dando mais um gole no café. ― Eu já te agradeci por isso? ― gesticulou apontando para o copo. ― Eu realmente precisava.
― Dormiu pouco?
― Não dormi. Eu não durmo.
― Tipo, nunca? ― tentei não transparecer o quão chocada eu estava.
― Às vezes. Zolpidem tá aí pra isso, né? ― ergueu o copo de café na minha direção, como se fosse brindar e bebeu um longo gole. Em seguida, jogou o copo em uma lixeira próxima à porta, tateou os bolsos da calça, tirando um maço de cigarros e um isqueiro. Estendeu a caixa na minha direção, oferecendo um cigarro e eu apenas neguei. ― Uma jornalista que não fuma?
― Muito estranho?
― Incomum. ― sentou-se na cama, pondo um tabaco entre os lábios e acendendo-o. ― Você devia se sentar, vai ter uma semana inteira pra ficar de pé, andando por aí atrás de mim.
Ouvi alguém bater na porta.
Quando pensei em abri-la, Matthew falou um sonoro “entra”. A porta se abriu, revelando um homem alto, cabelos ralos e loiros, de olhos claros. Usava um óculos de armação meio arredondada preta, uma camisa social branca, com as mangas dobradas até a metade do antebraço e uma calça jeans preta. Revirando minhas memórias, tive quase certeza de que se tratava de Jamie Oborne, empresário da banda.
― Matty, meu garoto. ― apontou para o homem na cama, sorrindo. ― E você deve ser , né? ― estendeu a mão para mim. Apertei-a, cumprimentando-o com um sorriso.
― Muito prazer.
― O prazer é todo meu. Você está hospedada aqui?
― Ah, não. Minha casa é relativamente perto.
― Bom, considerando que você vai passar uma semana inteira atrás deste homem ― apontou para Matthew, que tragava seu cigarro sem tirar os olhos de nós e com ar de quem iria começar a rir a qualquer momento. ―, talvez ter que fazer duas horas de viagem de trem todos os dias não seja a sua melhor opção. Não se preocupe, vou até a recepção cuidar disso.
― O quarto aqui na frente tá vago. ― falou para o mais velho e minha atenção quicava entre os dois como uma bolinha em uma partida de ping-pong.
― Ótimo. Temos uma sessão de fotos marcada pras 13h, então, hoje vocês vão almoçar às 11h. Depois, uma pequena entrevista pra uma rádio local e aí vocês vão estar livres para se arrumarem pra festa hoje. ― Jamie voltou a olhar pra mim. ― Pra você não ter que voltar para a sua casa para se arrumar, preciso que me dê seu endereço. Mando um dos garotos ir buscar suas coisas antes que você se hospede no quarto. Aliás, espero que goste de festas. Temos algumas essa semana.
A verdade era que eu odiava festas com todas as minhas forças, porém não poderia faltar a nenhuma que Matthew resolvesse bater cartão. Portanto, tudo o que disse foi:
― Vai ser divertido. ― dei um sorriso amarelo.
― Vejo vocês dois lá daqui a pouco. E, Matthew, por favor, se controle, ok? O dia tá um pouco cheio demais pra você sabe o que. ― lançou-lhe um olhar rígido, que entendi como uma repreensão a algo que eu já havia sido preparada por : Matthew e maconha.
― Não tenho a menor ideia do que você está falando, Jamie. ― debochou com mais um daqueles sorrisos carregados de cinismo.
O homem de meia idade saiu sem olhar novamente para seu pupilo. Talvez eles tivessem uma relação complicada fora dos holofotes, afinal.
― E então, senhora jornalista, quer conversar sobre algo? ― sentei na poltrona desocupada, um pouco mais afastada dele. Poderia ter me sentado ao seu lado na cama, mas me sentia pouco à vontade de me sentar lá ao seu lado, visto que parecia ainda haver uma grande muralha entre nós dois.
― Por que se hospedar em um hotel se vocês moram aqui perto?
― Não moramos no centro da cidade e a maioria dos nossos compromissos são aqui. Ross e George tem um problema sério com chegar no horário marcado, por isso, Jamie prefere que fiquemos sempre juntos e próximos dos nossos compromissos. Além do mais, depois dessa semana, vou passar cinco dias com a minha mãe e meu irmão, em Manchester, e saio em turnê pelos próximos seis meses.
― Como é a relação com a sua mãe?
― Não acha que tá um pouco cedo pra perguntas tão pessoais? ― colocou o cigarro entre os lábios, inspirando a fumaça lentamente, fitando a janela aberta à sua frente.
― Temos que começar de algum lugar, né? Sem contar que você escreveu uma música falando sobre ela, achei que não fosse um problema.
― Lembra da construção de confiança com a fonte?
― Você vai mesmo tentar me ensinar a fazer meu trabalho? ― indaguei.
Apesar de me sentir acuada na presença daquele homem desconhecido, estava começando a ficar irritada com ele. Só queria fazer meu trabalho e não iria deixar que nenhum estrelinha impedisse que eu produzisse o melhor material possível.
― Considerando que nunca vi sua cara antes, tenho certeza de que você começou a trabalhar com Sullivan há um ou dois meses, no máximo. Mesmo não tendo me dito sua idade, você tem muito cara de quem acabou de sair da faculdade, ou seja, se está aqui, é porque deve ter transformado os dias do Josh em um inferno pra provar o seu valor. ― apagou o cigarro em um pequeno cinzeiro sobre a mesinha de cabeceira, deixando a bituca lá. Como ele sabia disso? ― Então, é, estou tentando te ensinar como se faz seu trabalho porque aparentemente você não sabe muito bem o que está fazendo. ― bufei.
Queria poder me levantar e ir embora, sem olhar para trás.
― Mais um coisa: se você começar a perder a paciência agora, não quero nem ver como você vai estar ao final desta semana. ― ironizou. ― Não é nada pessoal, , só não quero cometer os mesmos erros do passado.
Durante um breve instante, imaginei o que aquela frase poderia significar. Anotei-a mentalmente, sabendo que, se eu tirasse minha caderneta de dentro da bolsa agora, seria vítima do escárnio novamente.

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Após algumas perguntas relacionadas a música, como quais as influências que ele tinha, quando foi que descobriu que queria ser músico e outros derivados de perguntas genéricas, descemos até o restaurante do hotel, que, até então, se mostrou a parte mais surpreendente de todas que tinha visto até aquele momento. Era amplo, com mesas não muito grandes, com uma boa iluminação, bem arejado e decorado com lustres que pareciam caros demais.
Encontramo-nos com Jamie e o resto da banda na entrada do restaurante. Apresentei-me a todos eles e, diferente de Matthew, todos pareciam tímidos. Simpáticos, porém tímidos.
Sentamos em uma mesa e, enquanto comiam, Jamie passava todas as instruções do dia para eles. Aproveitei a breve desatenção de todos sobre a minha presença para fazer algumas anotações em minha caderneta, como a frase que Matthew dissera sobre seus erros do passado e algumas respostas vagas que me dera em outras perguntas que eu voltaria a fazer antes que nosso tempo juntos acabasse.
Sem muito tempo para uma digestão longa, Jamie procurou pelo motorista da van que os levaria até a tal sessão de fotos. Dentro do carro, ao invés de me sentar ao lado de Matthew, preferi sentar atrás de todos eles e observá-lo na presença de seus amigos e colegas de banda. A melhor maneira de começar a conhecê-lo, já que ele não fazia muita questão de me responder sobre assuntos muito íntimos, era me aproximar aos poucos, inclusive, de seus amigos.
Dentre os quatro, Ross era o mais quieto de todos, vez ou outra ria de algum comentário. Adam não tirava os olhos do celular. Matthew não parava de tagarelar aleatoriedades e o único que parecia prestar atenção e rir das coisas que ele dizia por achá-las engraçadas era George.
Bem mais alto, com uma feição mais séria e cansada do que os outros, George Daniel parecia ser a pessoa preferida de Matthew. Os dois riam e conversavam sobre pessoas que eu nunca tinha ouvido falar na vida sem se importar se mais gente estava prestando atenção. Até onde eu sabia, ambos eram extremamente próximos, tanto que moravam juntos. Por isso, já sabia exatamente de quem me aproximar quando Matthew não estivesse olhando.

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Por ser uma sessão de fotos para material de divulgação do álbum novo, o conceito se parecia muito com tudo que eu já tinha visto sobre eles nos últimos dias. Todos os quatro eram extremamente fotogênicos e mal conseguia tirar meus olhos de cada movimento deles. Aliás, nunca havia conhecido um grupo que tivesse tanta sintonia quanto aqueles quatro. Sabiam quais poses fazerem, conversavam o tempo todo, além de estarem sempre juntos.
Meu celular vibrou em meu bolso. Tirei-o e não me surpreendi ao ver uma notificação de mensagem de :

“Espero que esteja correndo tudo bem :)”

“Você só quer saber se o Healy é bonito ao vivo”

“Isso também, me conte tudo”

“É, ele é, mas também é um idiota e eu quero socar a cara dele”

“Eu te avisei que ele não seria fácil de lidar”

“É, mas ninguém avisou que ele iria querer fazer o meu trabalho por mim”

“Não desista, você vai conseguir”

“Me diz como”

“Talvez você tenha abordado da forma errada. Matty é muito ativo nas redes sociais e adora memes, então, comece por coisas simples”


Meu instinto me dizia que alguém estava se aproximando, por isso, bloqueei o celular e olhei para frente, bem a tempo de ver George se aproximando de mim.
― Vamos fazer uma pausa para o café, quer vir junto?
― Claro. Obrigada. ― segui-o até chegarmos a uma mesa cheia de frutas, pequenos lanches e bebidas do lado de fora do estúdio em estávamos. ― Se importa se eu fumar perto de você? ― mostrou o cigarro para mim e neguei.
Por mais que odiasse cheiro de cigarro, George talvez fosse a solução que estava procurando para resolver meus problemas de aproximação com Healy.
― Você e o Matthew se conhecem desde quando?
― Quase que a vida inteira. Eu devia ter uns 12 anos quando começamos a sair. Depois disso, nunca mais paramos de andar juntos.
― Vocês dois são muito unidos, né? Tipo, até fazem a maior parte das músicas juntos.
― Isso é pra ser uma entrevista? ― deu um meio sorriso.
― Se você quiser e autorizar, sim.
― Achei que você estivesse aqui por causa dele.
― Bom, quando precisamos fazer uma reportagem perfil, isso inclui falar com as pessoas ao redor do entrevistado, afinal, são elas que dão o contraponto da visão romantizada que a pessoa tem de si. ― Daniel tragou seu cigarro, ainda com o fantasma de um sorriso lhe aparecendo nos lábios.
― Entendi. E não me importo se for uma entrevista. ― quando George terminou a frase, saquei o celular, acionando o gravador de voz em seguida. Precisava registrar tudo que eu conseguisse.
― Vocês parecem ser muito mais próximos entre si do que dos outros membros.
― Matty e eu tivemos aquele tipo de conexão que temos poucas vezes na vida. Gostamos das mesmas coisas, quando produzimos juntos, nossos pensamentos se complementam. ― sorveu um pequeno gole de café antes de continuar: ― Matty é uma das minhas pessoas preferidas no mundo.
― Você parece ser a dele também. ― dei um meio sorriso.
― Ele pode ser uma pessoa extremamente irritante quando quer. É egocêntrico e, às vezes, tão narcisista que eu só quero que ele suma da minha frente, mas é inegável que ele é a melhor pessoa que já conheci. É honesto, independente do quanto isso doa nele ou nos outros, e muito leal às pessoas que ama. ― deu algumas tragadas seguidas, em silêncio enquanto eu o observava, absorvendo suas palavras e formulando novas perguntas.
― Você acha que esse comportamento dele atrapalha você ou a banda em algo?
― Às vezes, Matty fala demais e convenhamos que ele não é a pessoa com mais filtro que você conhece. Já o alertamos algumas vezes sobre o quão necessário é que ele pense antes de twittar sobre certos assuntos porque isso nos custa muito. Ele concorda, mas só até a próxima vez que logar em sua conta. ― não contive uma risadinha, fazendo George me acompanhar. ― E, provavelmente, o fato de ele estar te evitando por agora é justamente por isso: medo de falar o que não deve de novo. ― apontou para mim com a mão em quem segurava o cigarro. ― Por algum motivo, eu acho que se alguém pode conseguir fazer ele abrir a boca sem medo, esse alguém é você.
Ao fundo, alguém gritou o nome de George, avisando-o que iriam retomar a sessão, o mesmo fez um sinal pedindo para que esperassem por ele. Deu uma última tragada em seu cigarro antes de apagá-lo e pôr no cinzeiro.
― Por que tem tanta confiança que eu consigo?
― Não sei. Gostei de você. Parece ser sincera no que está fazendo. ― deu de ombros, sorrindo antes de começar a se afastar, andando de costas. ― Comece com coisas mais simples, não tão pessoais e lembre-se: Matty gosta de falar de si mesmo, você só precisa acertar sobre o que ele quer falar naquele momento.
― E como eu vou saber?
― Não é muito difícil. Você vai saber quando estiver no assunto certo. ― virou-se, encerrando nosso diálogo e encaminhando-se para o grupo maior de pessoas que esperava por ele.
Matthew estava junto dos outros integrantes conversando, mas seu olhar estava fixo em mim e, como se estivessem magnetizados, meus olhos estavam presos nos dele. Não saber o que se passava em sua mente enquanto sustentava nosso contato visual fez um arrepio correr minha espinha. Tinha tantas coisas que queria perguntar, porém nenhuma me pareceu apropriada para iniciar uma conversa.
Com a mão sobre o ombro do amigo, Daniel, com os olhos, percorreu a trajetória para onde Healy olhava. Ao perceber que se tratava de mim, acenou e eu repeti seu gesto, tentando ser simpática com meu mais novo aliado.
De fato, ele não estava nem um pouco a fim de me ajudar a terminar meu trabalho o mais rápido possível.

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A entrevista na rádio não me ajudou em nada. Não houveram grandes revelações, muito menos perguntas que pudessem ser refeitas para quando Healy estivesse disposto a me responder. Fiquei o tempo do lado de fora do estúdio isolado, onde acontecia a entrevista, ao lado de Oborne, que mantinha olhos encarnados sobre sua galinha dos ovos de ouro.
Menos de uma hora depois, estávamos de volta ao hotel. Quando abri a porta do meu quarto, duas malas grandes estavam sobre a cama e nem precisei abri-las pra saber que se tratavam das minhas roupas e sapatos que Jamie pedira para alguém da equipe buscar. Ao mesmo tempo em que fiquei contente por poder me hospedar em um local tão confortável e não ter que ficar acordando cedo para encontrar o criador do cinismo, pensar que teria que arrumar tudo aquilo de volta no armário quando voltasse para casa me deixava exausta e brava.
Eram por volta de 19h e eu precisava escolher uma roupa para acompanhá-los na festa da gravadora. Não podia ser nada chamativo nem social demais, por isso, escolhi uma saia de jeans preto, uma camiseta também preta, coturno e minha mini mochila, onde eu levava apenas o que precisaria em caso de cobertura, prisão ou de Matthew Healy resolver abrir a boca: fones de ouvido com microfone, celular, carregadores portáteis para não ficar sem bateria no meio da festa, caderneta, caneta e remédios para enxaqueca.
Não sabia muito bem o que esperar de uma festa com eles. me falara sobre o álcool e as drogas, entretanto, esta era uma festa de trabalho, talvez não fosse ser assim.
Quando terminei de me arrumar, fui até o hall para encontrar os outros. Aproximando-me dos estofados da recepção, avistei apenas Matthew distraído, mexendo em seu celular.
― Onde estão todos? ― questionei, em pé à sua frente, vendo-o bloquear o aparelho, guardá-lo no bolso da calça depois de se levantar, ficando mais próximo de mim do que eu gostaria.
― Eles já foram. Jamie falou que seria uma boa se fôssemos juntos. ― encarou-me sério, como se estivesse irritado com algo.
― Pela sua cara, não sei se você acha o mesmo. ― tentei não parecer irônica demais, todavia, não podia perder a oportunidade de debochar pelo menos um pouco dele.
― Te dar essa entrevista e andar com você no meu encalço por aí é meu trabalho. Me entrevistar é o seu, então, se cada um fizer sua parte, tudo vai dar certo e essa semana passa mais rápido. ― rebateu.
― Essa era a minha proposta desde o início. ― mesmo que eu estivesse fazendo força para não dar um sorrisinho vitorioso, via o desgosto e a derrota estampados em seu rosto.
― Vamos. ― começou a caminhar em direção a saída do hotel e o segui.
Do lado de fora, o manobrista entregou-lhe a chave e nós adentramos no veículo.
― Você tem habilitação? ― assenti.
― Por quê?
― É sempre bom saber se estou acompanhado de alguém que tem capacidade de me trazer de volta. ― ligou o carro enquanto eu colocava o cinto de segurança.
Quando voltei a olhá-lo, vi que um tabaco já se encontrava aceso e preso entre seus lábios antes mesmo de terminar de prender o cinto de segurança. O cheiro e a fumaça não deixavam dúvidas.
― Espera. Você vai fumar maconha e vai dirigir?! ― queria que minha voz não tivesse soado tão desesperada, mas infelizmente não se pode ter tudo nessa vida.
― Não é como se fosse a primeira vez. E onde vamos é perto, até bater já estamos lá. ― deu uma piscadela, sorrindo para mim. Minha feição deveria ser de puro pavor, uma vez que o homem riu de forma anasalada baixinho.
Durante o trajeto, mantive as mãos presas ao banco, segurando-me. Mesmo tendo se mostrado um condutor habilidoso e cuidadoso, não conseguia excluir o fato de que ele tinha fumado quase toda a maconha que bolara na seda.
― O que o álbum novo de vocês tem de diferente do primeiro e dos EPs?
― Por que essa pergunta agora? ― não tirou os olhos da estrada.
― Fiquei aqui analisando algumas coisas e queria que, se possível, você me respondesse essa.
― Você notou algo de diferente? ― de novo, ele invertia nossos papéis, porém tive certeza de que só conseguiria tirar algo dele se entrasse em seu jogo. Apagou o cigarro no cinzeiro do carro, colocando o que sobrara no bolso da camisa.
― As composições parecem mais maduras e me pareceu que você parou de romantizar o abuso de drogas.
― Eu não romantizava o uso de drogas. ― franziu as sobrancelhas.
Tirei meu celular do bolso, pesquisando no google algumas letras das antigas músicas para exemplificar, deixando-as abertas em abas separadas, começando a lê-las em voz alta para ele:
“She says the bleeding's incidental 'cause she's so cool, she says ‘I'm no fun if I've only a bottle of wine’”; ― fechei a página abrindo a seguinte, lendo a frase: ― “Drink slow to feed the nose, you know he likes to get blown”; ― abri a nova guia. ― Ah, é, parece que eu errei porque no álbum novo você também romantiza: “You're a walking overdose in a great coat” e “I caught her picking her nose, as the crowd cheered for an overdose”. ― bloqueei a tela do meu celular, colocando dentro do bolso frontal da mochila. ― O que me diz sobre isso?
― Que você andou estudando bastante sobre a gente hoje, hein? ― deu uma rápida conferida em mim, com um sorriso irônico preenchendo os lábios. ― Nenhumas dessas músicas foi pra romantizar nada. Concordo que ela podem soar erradas, mas é só a minha forma de expor minha relação com as drogas, entende? ― assenti, contendo um sorriso de satisfação que finalmente ele tinha me respondido algo que eu havia perguntado.
O carro parou e Matthew se livrou do cinto de segurança.
― Como eu tenho certeza de que Jamie não te falou nada, essa é uma festa de comemoração dos últimos contratos fechados da gravadora. Não é uma festa grande, mas é cheio dos amiguinhos importantes que investem grana aqui e vários artistas contratados. ― explicou, olhando-me.
― Você se importa se eu colocar meu crachá? ― perguntei, abrindo a mochila em busca dele.
― Acha que precisa?
― Estou aqui a trabalho, não por diversão.
― Eu também, mas quem disse que o trabalho não pode ser divertido? ― tirou um par de óculos escuros de dentro do bolso da camisa preta de mangas curtas que usava, colocando-os no rosto.
Antes mesmo que me desse conta, ri baixinho.
Descemos do veículo, caminhando em direção a entrada do evento.
Matthew cumprimentou os seguranças e lhes disse que eu o estava acompanhando para que pudesse entrar no evento.
Do lado de dentro, haviam muito mais pessoas do que imaginei, todavia, pelo menos, elas não estavam de roupa social. Isso certamente seria muito mais vergonhoso.
― Relaxa. Você vai sobreviver. ― Matthew pegou duas taças de champanhe da bandeja de um garçom, oferecendo uma para mim. Recusei. ― Vai dizer que você também não bebe?
― Como eu disse, estou aqui a trabalho.
― Como eu disse, eu também. ― insistiu e eu cedi, pegando a taça de sua mão e dando um pequeno gole.
― Eu só vou beber essa. Lembra que eu sou a pessoa que vai te levar pra casa?
― Verdade. Você tá certa. ― segurou o riso, virando a taça encostada nos lábios para beber. Provavelmente, a erva estava começando a fazer efeito.
Não demorou até que os outros rapazes nos encontrassem e começassem a conversar. George me olhava como se questionasse algo. Silenciosamente, fiz um sinal de positivo com o dedão para indicar que eu estava tudo bem. O homem sorriu. Correspondi-o com um sorriso.
Jamie, acompanhado de outros homens de meia idade que pareciam muito ser as pessoas que Matthew havia citado, aproximaram-se de nós. Apresentando-os como a aposta mais certeira da Dirty Hit, Oborne contou um pouco sobre a banda e os números que estavam alcançando com o recém-lançado álbum. Alguns minutos depois, saíram para caminhar mais um pouco pelo salão em busca das próximas vítimas que ficariam os minutos seguintes sendo apresentados como discos novos em uma estante empoeirada.
― É sempre assim? ― questionei baixo, próxima do rosto de Matthew.
― O que? ― encerrou sua taça de champanhe, parando outro garçom para pôr a vazia e pegar uma cheia.
― Ele sempre fala os números de vendagem, etc?
― Pra uma gravadora, isso é o mais importante, não? ― sorveu um gole grande e rápido da bebida. ― Se a sua primeira impressão é de que Jamie é um babaca, está incorreta. Ele não é sempre assim. Por incrível que pareça, Jamie nos contratou porque acredita no que fazemos. Nem tudo é sobre dinheiro. ― bebeu o resto de sua taça, largando-a em uma mesa próxima a nós. ― Preciso de um cigarro. Vem comigo?
― Você não precisa perguntar. Estou aqui pra isso. ― ajeitei a mochila nas costas após pegar meu celular lá dentro.
Segui-o para uma das portas que levava para um beco sem saída, na lateral do local. Do lado de fora, o vi acender um cigarro já posto entre os lábios.
― Quantos cigarros você fuma por dia?
― Isso vai entrar na sua matéria? ― debochou.
― Não. É só curiosidade mesmo.
― Depende da quantidade de ataques de ansiedade que eu estiver prestes a ter. Geralmente, uma e meia.
― Como você ainda canta?
― Nunca ouviu sua mãe dizer que vaso ruim demora mais a quebrar? ― riu.
― Não. Você se importa se eu… ― apontei para o celular.
― Tirar fotos de mim? Não, eu aguento. ― debochou de novo, fazendo-me revirar os olhos.
― Gravar nossas conversas.
― Pode também. ― deu de ombros, tragando longamente, antes de soltar a fumaça para direção contrária a minha.
― Por que me falou mais cedo sobre não falar coisas das quais se arrependa?
― Porque eu já fiz muito isso e já ofendi algumas pessoas assim, como em todas as vezes que falei sobre religião e coisas do tipo. ― a mão um pouco trêmula, segurava o tabaco entre os dedos e, vez ou outra, levava-o até a boca para fumar. ― De tempos em tempos, algumas pessoas me mandam mensagem me relembrando os motivos pelos quais já fui cancelado e vejo que eles estavam certos em me cancelar. Apesar de não saber como funciona essa coisa de cancelar. Quer dizer, eu ainda existo, né? Ainda falo com pessoas, trabalho, vou ao mercado, fumo meus cigarros, ando de trem… então, no que isso me afeta?
― Mas você não acha que essa reação das pessoas seja como um pedido pra que você se reveja enquanto ser humano?
― E eu faço isso. Como eu disse, estou exercitando o pensar antes de sair falando e ofendendo as pessoas, mesmo que essa não tenha sido a minha intenção. ― tragou longamente antes de apagar o cigarro e jogá-lo no lixo ao nosso lado. ― Podemos voltar?
― Sim. ― interrompi a gravação.
Olhando-o passar na minha frente e caminhar de volta para o evento, conclui que era isso que Daniel quis dizer com “só precisa acertar sobre o que ele quer falar naquele momento”. Matthew era um livro aberto, só precisava achar em que página ele estava.


#3

Você pode me contar um segredo?
(Feel Something - Bea Miller)


Voltamos ao hotel por volta de 04h da manhã. Ross e Adam eram os únicos que não pareciam nem minimamente eufóricos devido ao excesso de álcool. George estava risonho e Matthew embolava as palavras, além de não parar de falar, o que já era uma característica natural dele, independente de estar alterado ou não. Jamie despediu-se de nós na saída da festa, visto que esta ainda não havia acabado.
Iludida, pensei que ao chegarmos, Healy cairia na cama e dormiria. Ledo engano. Parecia mais elétrico do que quando saímos e, ao vê-lo ligar o computador ao entrar no quarto, tive certeza de que não dormiria naquela noite. Minhas costas gritavam de dor, porém eu precisava aguentar, pelo bem da minha renda mensal.
Enquanto o homem à minha frente acendia o resto do cigarro de maconha que não fumara mais cedo, sentei-me na poltrona que sentara anteriormente, começando no bloco de notas do celular um esboço do parágrafo de abertura do texto da reportagem. Ainda não havia nenhuma fala dele que fosse impactante o suficiente para usar como primeira frase, o que me deixava nervosa. Um dia inteiro havia se passado e eu não tinha conseguido quase nada. Se os dias seguintes forem cópias deste, Sullivan vai estar certo, no final da contas.
― Você tá quieta. ― resmungou sem me olhar, o cigarro pendendo na boca.
― Eu sou quieta. ― tentei não deixar a frustração e a raiva transparecerem em minha voz.
― Não é. Sabe que se estiver muito cansada pode dormir, né? ― parou de digitar, tirando do cigarro da boca e olhando-me. As palavras já não se embolavam tanto quando falava por estar falando mais devagar. ― Não estou cansada.
― Sim, você tá. ― soltou a fumaça.
― Posso abrir a janela? ― o quarto estava começando a feder maconha e, em breve, eu também estaria fedendo e zonza.
Matthew assentiu. Levantei-me e abri duas das grandes janelas que ficavam na lateral de sua cama para que a fumaça saísse antes que chegasse até mim.
― Você tá realmente incomodada de estar aqui, né?
― Esse é o meu trabalho e, na maioria das vezes, nos sentimos incomodados de estar em determinados lugares, com determinadas pessoas. ― virei em sua direção, encostando o quadril no parapeito da janela, cruzando os braços. ― Mas já que vamos ser honestos, sabe o que mais me incomoda? ― apontou o queixo levemente em minha direção para que eu prosseguisse, largando o notebook de lado e tragando o cigarro demoradamente. ― Mesmo que eu tenha pesquisado tudo o que pude sobre você e visto um milhão de entrevistas em que você solta a língua como se não houvesse amanhã, você ainda acha que não é o momento para responder minhas perguntas ou as responde de forma vaga. ― os olhos fixos em meu rosto, os dedos novamente tirando o tabaco de sua boca e um silêncio profundo caracterizavam a figura de Healy, sentado com as pernas cruzadas em cima da cama.
― Se você já pesquisou tanto sobre mim, não resta nada pra eu te dizer. ― deu de ombros. ― Por que todo mundo espera que tenhamos tanto a dizer? E se eu não tiver?
― Eu duvido muito que você não tenha absolutamente nada a dizer. Você é Matthew Healy, o dono de todas as palavras do mundo. Você sempre tem algo a dizer. ― ironizei.
― Não, não tenho.
― Achei que já tínhamos superado essa fase mais cedo.
― Que fase?
― A que eu pergunto e você finge que não estou falando com você. ― deu uma risada silenciosa que chacoalhava seus ombros.
Levantou-se da cama, indo até o frigobar e pegando uma cerveja. Ofereceu-me uma lata e eu aceitei porque não queria continuar passando raiva tão sóbria.
― O que você quer que eu diga? ― entregou-me a lata, sentando-se na beirada da cama.
― Qualquer coisa. Quem é Matthew Healy? Ou quem você acha que é? As coisas que gosta de fazer, suas memórias de criança… literalmente, qualquer coisa. ― abri a lata e sorvi um gole da bebida, que amargou minha boca. Desejei que aquela fosse a única coisa amarga daquele dia.
― Sempre gostei muito de cachorros, mas, quando era criança, minha mãe nunca deixou que eu tivesse um. ― bebeu um gole de sua cerveja. Esperei pela continuação da história, mas ela não existia.
― É só isso? ― franzi as sobrancelhas.
― Você disse qualquer coisa. Foi o que eu te dei. ― debochou.
― Você é inacreditável mesmo. ― revirei os olhos e bebi um gole grande da lata.
― Ok, então vamos fazer assim. Se colocarmos na balança, você sabe muito mais de mim do que eu de você e essa pode ser uma relação perigosa. Então, você pergunta algo sobre mim e eu pergunto algo sobre você. Se for algo muito pessoal, não há obrigação nenhuma em responder. O que me diz? ― estendeu a mão e eu a apertei.
― Feito. ― bebi mais um gole da cerveja antes de arrastar uma poltrona para sentar de frente para o homem. ― Quando você descobriu que ter uma banda talvez fosse uma boa ideia?
― Sei lá. Não era para ser algo profissional. Nós só nos juntávamos na garagem da minha casa e fazíamos alguns barulhos. Por fim, começamos a aprender tocar os instrumentos, depois viramos uma banda. E foi só. ― deu de ombros. ― Por que escolheu ser jornalista?
― É a profissão que faz minhas pupilas dilatarem. Conheço muitas pessoas, ouço suas histórias e, se elas me permitirem, posso contá-las a outras pessoas. É uma troca. Sem contar que eu não levo jeito pra música, mas eu amo, então, é uma forma de juntar duas coisas essenciais pra mim: dinheiro pra sobreviver e música. ― trocamos um sorriso.
― Tenho certeza de que você não imaginava que Sullivan iria dificultar as coisas pra você.
― Inferno, não. Mas, mesmo que eu volte a ser só a menina do site, não trocaria meu emprego por nada. ― bebi o restinho do conteúdo da lata e botei-a de lado. ― Você não se importa se eu gravar, né?
― Você tem uma coisa com gravações, né?
― É a forma que eu tenho de provar que você realmente disse algo, caso você alegue que não. ― estiquei o braço para pegar minha mochila no chão e procurar pelo meu celular. Quando o encontrei, rapidamente, acionei o gravador de voz.
― Eu nunca vou fazer isso. ― inclinou-se para frente, apoiando os braços sobre as coxas.
― Como pode ter tanta certeza?
― Nesses anos de estrada e observando meus ídolos, descobri algo que foi importante pra me moldar enquanto uma pessoa pública. Quando te perguntam ou vaza algo sobre você, só existem três opções: você pode se silenciar e não dizer absolutamente nada; pode negar tudo sempre ou pode dizer a verdade. ― passou a mão pelos cabelos que lhe caíam sobre os olhos, colocando-os para trás. ― Silenciar, pra mim, nunca foi uma opção porque aí eu sou obrigada a aceitar as suposições que as pessoas fizerem sobre mim. Negar é perigoso demais, afinal, se alguém descobrir, pode ser que você nunca consiga consertar os danos. Sendo assim, falar a verdade sempre foi minha opção.
― Por quê?
― Sei que tudo o que eu falar vai me gerar consequências e acho que consigo lidar com elas. Obviamente, não falo tudo sobre mim, pois gosto de separar minha vida pessoal da profissional. Minhas músicas, às vezes, já me expõem o suficiente. ― deu um meio sorriso. ― E é meio assustador ver as pessoas cantando nos shows coisas tão pessoais minhas. Enfim, a questão é falo a verdade, apesar de saber das consequências que isso pode me gerar, não me importo muito em ter que bancá-las.
― Então, você é sincerão o tempo todo, hein?
― Chame como quiser. ― deu de ombros, finalmente apagando aquele cigarro fedorento no cinzeiro ao lado da cama. ― Você namora?
― É a segunda vez que você fala sobre isso hoje.
― E tudo bem se não quiser responder.
― Mas por que o interesse? ― franzi as sobrancelhas.
― Só curiosidade. Tipo, quando você me perguntou quantas carteiras de cigarro eu fumo por dia. ― franziu os lábios para baixo, demonstrando indiferença. Dei uma risada desacreditada.
― Não, eu não namoro.
― Você faz o tipo durona?
― Uma pergunta de cada vez, Healy. ― repreendi, fazendo-o sorrir ironicamente. ― Você e o seu irmão tem uma diferença de idade bem grande, como é a relação de vocês?
― Muito boa, apesar de tudo. Eu queria ter mais tempo para ficar com ele, sabe? É meio difícil quando se mora em uma cidade diferente e passa meses viajando pra lugares que você não conhece. Claro, Louis é compreensivo porque são coisas que acontecem com meus pais desde antes de eu nascer e agora comigo. E também tem toda uma questão de não saber se sou uma boa influência a longo prazo para o meu irmão. ― pigarreou, cruzando os braços em frente ao peito. ― Sua vez. Você faz o tipo durona?
― Meu Deus, Healy. ― ri, nervosa.
― Como eu disse, se não quiser, não precisa responder. ― arqueou a sobrancelha em tom desafiador.
― Eu só não sou o tipo de pessoa que sai com o primeiro cara com um cabelo maneiro e papinho bacana que me der bola. ― dei de ombros. ― Como é a sua relação com seu pai?
― Boa, eu acho. Não convivemos tanto assim. Às vezes, acho que deveria tentar me aproximar mais, porém não consigo simplesmente fingir que as coisas que ele fez enquanto casado com a minha mãe não existiram.
― Quer falar mais sobre isso?
― Não banque a espertinha comigo, . Uma pergunta de cada vez. ― não contive uma risadinha de quem tinha sido pega no ato. ― Por que aceitou fazer entrevista com uma pessoa que você não conhecia o mínimo?
― Não conheço a maioria das minhas fontes. É isso que configura um bom trabalho jornalístico.
― Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. ― dei um meio sorriso, desviando o olhar para as minhas mãos.
― Você não facilita mesmo, né?
― A sugestão era que a gente se conhecesse e eu de fato quero que isso aconteça. ― cruzou as pernas, pondo as mãos sobre seus joelhos.
― Por quê?
― Porque eu quero te provar que não sou tão ruim quanto você acha que eu sou. ― ficamos em silêncio por alguns segundos. Matthew levou uma das mãos ao cabelo, jogando-o novamente para trás.
O maior problema de não conhecê-lo o suficiente era não conseguir decifrar tudo o que ele dizia.
― Na universidade, passei boa parte do tempo tentando provar aos professores e aos meus colegas que eu conseguia fazer as coisas, que podia ser humana, ter uma vida social e produzir bons conteúdos ao mesmo tempo. ― passei a língua pelos lábios antes de prosseguir. ― Quando comecei a trabalhar no Repeat Daily, achei que seria mais fácil evoluir de cargo porque sei que estou pronta, que consigo fazer pelo menos o mínimo, porém, por ordens do Sullivan, nenhum foca pode alçar voos maiores antes de passar por todas as etapas de aprendizagem. E, por um lado, ele está certo. ― relaxei os ombros, antes tensos. ― Mas quero provar a ele que eu posso, sim, sair dessa função chata que ele me colocou. Por isso, aceitei estar aqui.
Assentindo, Matthew levantou-se, indo em direção ao frigobar, pegando mais duas latas de cerveja, estendendo uma para mim quando voltou. Eu não deveria aceitar, pois finalmente estava conseguindo fazê-lo falar e precisava estar sóbria para que isso acontecesse. Porém, antes que pudesse sequer refletir sobre minhas ações, meu braço se esticou para pegar a latinha, abri-a e dei o primeiro gole ainda na espuma.
Depositando sua lata aberta sobre a mesinha de cabeceira, Matthew acendeu um cigarro, dando os primeiros tragos antes de beber um gole da bebida.
― Você gosta de mim? ― questionou de repente, fazendo com que minhas sobrancelhas se franzissem automaticamente.
― Acho que você muito bom no que faz. Claro, conheci seu trabalho há apenas alguns dias, mas certamente foi um dos melhores álbuns que ouvi nos últimos meses. ― levei a lata à boca novamente, tentando me esquivar do fato de não ter respondido à sua pergunta da forma que ele esperava.
Isso só ficou ainda mais nítido quando vi uma expressão de descontentamento se formar em seu rosto.
― Não é isso que tô te perguntando. Você gosta de mim como pessoa? ― sorvi alguns goles da bebida que gelava minhas mãos, ainda sem saber o que responder.
Por via das dúvidas, escolhi a sinceridade.
― Olha, a verdade é que eu não te conheço para te dizer isso. Seria um pouco equivocado falar se gosto ou não de você enquanto pessoa, sendo que nos conhecemos hoje. ― dei de ombros. ― Mas, se eu fosse te julgar pelas coisas que me disse hoje mais cedo e a forma como agiu, eu diria que você é egocêntrico e machista. ― riu baixinho, colocando o tabaco entre os lábios aspirando a fumaça e soltando-a rapidamente depois.
― Pode parecer uma pergunta estranha, mas, pra mim, é importante saber. Ninguém é obrigado a gostar da minha música ou da minha banda, mas eu quero que as pessoas gostem de mim. Eu me importo com o que dizem de mim porque, às vezes, tenho uma visão distorcida de mim mesmo e acho que estou fazendo tudo certo, quando, na realidade, não estou, entende? ― assenti. ― E eu sinto muito se fui machista com você mais cedo. Não foi minha intenção tentar subjulgar seu conhecimento ou qualquer coisa do tipo. Quer dizer, você que é a jornalista aqui, né? ― deu um meio sorriso. ― Aliás, eu tenho que tomar cuidado com as coisas que digo, vai que você decide se vingar. ― bebeu alguns goles de sua lata, antes de voltar a me olhar.
― Não faço o tipo vingativa. Acredito que, apesar de tudo, a função social da minha profissão ainda é nobre. Não devo usá-la como se fosse uma arma ou coisa que o valha.
― Você é uma pessoa rara, . ― observei seus movimentos já tão conhecidos: levar o cigarro a boca, tragar, soprar a fumaça, ajeitar os cabelos, beber mais um pouco.

- x x x -


Na manhã seguinte, fui acordada pela forte luz do sol entrando pela janela. Como se tivesse derretido, meu corpo estava esparramado na mesma poltrona em que eu sentara na noite anterior enquanto conversava com Matthew. A diferença era que havia uma fina coberta sobre meu corpo. Parado no batente da porta do banheiro, Healy, sem camisa, escovava os dentes, observando-me acordar.
― Bomdia. ― balbuciou com a boca cheia de saliva, espuma e sem parar de mexer a escova de dentes.
― Que horas são? ― perguntei, estralando as costas e coçando meus olhos.
― 9h41. ― respondeu, olhando a tela de seu celular.
Sua figura desapareceu da porta.
Levantei-me, percebendo minha saia estava completamente desengonçada e agradeci por estar coberta e não ficar pagando calcinha ao longo da noite toda, o que me levava ao pensamento de: se fora ele quem me cobrira na noite anterior, talvez eu estivesse… Balancei a cabeça para afastar o pensamento, dobrei o cobertor, colocando-o de volta sobre o cama.
― Qual vai ser a programação de hoje? ― questionei ao constatar que meu celular estava com a bateria zerada.
― Temos participação em dois programas de rádio, sendo que um vai ter transmissão ao vivo em vídeo. Eu tenho uma entrevista para uma revista, que vai acontecer aqui mesmo, e, depois, vou para a reunião de gravação do nosso próximo clipe. Depois de tudo isso, estamos completamente e finalmente livres para fazer o que quisermos.
― E você tem planos pra depois disso? ― juntei minha mochila do chão ao mesmo tempo em que o homem colocava a cabeça para fora do banheiro.
― Tenho um encontro marcado com o meu cara e, depois, se você quiser, podemos sair para jantar.
― Seu cara? ― tive a leve impressão de saber o que isso significava.
― Digamos que o meu estoque de chocolate acabou. ― custosamente, meus neurônios começaram a trabalhar e consegui entender do que ele estava falando. Óbvio que era de maconha.
― Ah… ― soltei baixo, fazendo-o rir da minha cara. ― E você quer me levar pra jantar? ― fiz uma careta, achando graça no convite.
― Você precisa que coisas aconteçam pra poder escrever, assim como eu preciso que coisas aconteçam pra fazer música. Mas isso, claro, se estiver tudo bem pra você… ― deixou no ar.
― Tudo bem.
― Se bem que poderíamos levar toda a banda, caso queiram.
― Eu adoraria. ― dei um meio sorriso, sabendo que seria extremamente produtivo se toda a banda aparecesse.
― Ótimo. ― saiu do banheiro, ainda sem camisa, porém, desta vez, com os cabelos arrumados.
― Preciso ir ao meu quarto, tomar banho e trocar de roupa. Você vai descer agora?
― Meu dia ainda nem começou. ― disse, indicando o cigarro que tirou de dentro do maço.
Meneei a cabeça, com um sorriso desacreditado no rosto e saí.
Ao entrar no quarto, do outro lado do corredor, coloquei o celular para carregar e, como um foguete, peguei a primeira roupa que vi, correndo para debaixo do chuveiro. A água quente escorrendo pelo meu corpo me deu a sensação de relaxamento que meus músculos precisavam, já que dormir em uma poltrona não havia sido nem de perto a melhor das ideias.
Cuidando para não molhar meu cabelo, fiquei repassando algumas coisas que Healy havia contado na noite anterior e como de alguma forma parecia empenhado em construir a tão citada por ele "relação de confiança" entre fonte e jornalista.
Quando me dei conta, parecia que havia se passado uma eternidade que estava embaixo do chuveiro, por isso, desliguei-o, secando-me o mais rápido que pude e começando a me vestir. Depois, vesti uma camiseta e uma jardineira com bolsos o bastante para não ter que levar minha mochila junto comigo.
Devidamente vestida e pronta para partir, bati a porta de Matthew. Não havendo resposta entrei, encontrando-o ainda sem camisa, fumando um cigarro na janela enquanto bebia um copo de café.
― Você ainda não está pronto?
― Ninguém está. Jamie nem mesmo chegou. ― bateu as cinzas no cinzeiro que segurava com uma das mãos. ― Você toma banho bem rápido.
― É uma habilidade adquirida junto com o diploma de jornalista. ― riu.
― Entendo.
De costas para mim, observava o movimento nas ruas muito abaixo de nós pela janela. Queria me sentar, mas o mais próximo de mim era sua cama e acho que ainda não tínhamos intimidade suficiente para isso.
― Você se arrepende das decisões que toma? ― a voz inalteradamente calma questionou segundos antes de ser silenciada por uma baforada de fumaça.
― Tipo, quais?
― Não sei, qualquer coisa. ― virou-se para mim, apoiando o quadril no parapeito metálico da janela.
― Às vezes, mas evito me culpar quando as coisas não saem como o esperado. Acho que tudo é aprendizado e, se eu não errar, não vou aprender.
― Palavras de sabedoria a essa hora da manhã, ? ― brincou e eu sorri. ― Você nem dormiu tanto assim pra conseguir formular pensamentos tão profundos.
― Não costumo dormir muitas horas. ― coloquei o peso do meu corpo todo em uma perna. ― Aconteceu alguma coisa?
― Lembra que eu te falei que temos a reunião pra conversar sobre um clipe?
― Sim.
― Vamos finalizar os ensaios da coreografia e a gravação de alguns takes amanhã.
― E você não quer? Digo, é o seu trabalho, que você gosta de fazer, não é?
― Não é por isso. É que… é uma música escrita para alguém.
― Todas as suas músicas são para alguém, mesmo que esse alguém seja você mesmo. ― riu anasalado. ― É a sua ex-namorada? ― me odiei por não ter bateria suficiente no celular para gravar aquilo.
― Você pesquisou sobre ela também? ― franziu as sobrancelhas.
― Caso eu ainda não tenha te contado, minha amiga e colega de trabalho, , é uma das suas maiores fãs, ou seja, saber tudo e mais um pouco sobre cada integrante da banda, sendo assim, descobrir várias coisas não foi a tarefa mais difícil que fiz na minha vida. ― sorri. ― Gemma, não é?
― Você sabe até o nome? ― pôs o cigarro entre os lábios, dando uma vagarosa tragada.
― Nada que dar um google não resolva em cinco minutos. ― dei uma piscadinha, fazendo-o chacoalhar os ombros em uma risada silenciosa. ― Que música é?
A change of heart. ― não consegui evitar a feição surpresa que se formou em meu rosto. ― O que foi?
― Foi a primeira música de vocês que eu ouvi.
― E gostou? ― inclinou a cabeça para o lado, observando-me.
― É uma das que eu mais gostei. ― vi um sorriso se formar no canto de seus lábio e acabei sorrindo também. ― Mas o que tem de errado com essa música?
― Nada. Ela só me lembra que, no fim, não fui a pessoa mais legal com a Gemma. ― deu uma última tragada no cigarro antes de apagá-lo, deixando-o no cinzeiro.
― O término de vocês foi ruim assim?
― Bom, digamos que não foi tão amigável. Ela disse coisas horríveis, eu disse coisas horríveis… ― a porta do quarto se abriu atrás de mim.
― Hora de ir, cara. ― a voz de Ross ressoou dentro do cômodo.
Virei-me cumprimentando-o com um sorriso e um aceno de cabeça.
― Desculpe interromper, mas Jamie chegou atrasado e sabe como o velho fica quando está atrasado. ― trocaram um risinho cúmplice.
― Vou só vestir uma camisa e já vou. ― Ross assentiu, fechando a porta ao sair.
Revirando as roupas em cima de uma das poltronas, Matthew achou uma camisa florida, a qual vestiu, abotoando-a até a metade.
― Matthew… ― percebi que, aparentemente, ele ainda não havia trocado as calças que usava no dia anterior.
― Sim?
― Você não está… esquecendo algo? ― por mais que imaginasse que pudesse ser puro esquecimento, não queria ser o tipo de pessoa que tem esse tipo de intimidade.
― Tipo, o que? ― sua feição só demonstrava que ele nem mesmo desconfiava do que eu estava falando.
Cocei o braço, embaraçada de ter que falar que talvez, só talvez ele estivesse se esquecendo de trocar as calças. Sem querer pronunciar as palavras, apontei para seu corpo com queixo, olhando seus membros inferiores. Seu olhar seguiu o meu, rindo ao entender.
― Não, não são as mesmas de ontem.
― Não?
― Tenho 11 pares de calças exatamente iguais. ― arregalei os olhos.
E, mais uma vez, ele me deixou sem palavras. Não era a primeira e nem seria a última vez.

- x x x -


No primeiro programa de rádio, a banda concedeu entrevista logo após incluírem seu último single na programação. Todos estavam presentes, porém, na maior parte do tempo, Matthew era o homem das palavras. Todas as respostas estavam na ponta de sua língua. Para não dizer que ele não era solidário para dividir os holofotes, pedia a confirmação de George ou Adam. Ross, como sempre, permanecia silencioso. Já Jamie, constantemente conferia as horas no relógio, impaciente, provavelmente cronometrando cada segundo da participação para que não ficassem mais que o necessário.
Mais uma vez, nenhuma pergunta proveitosa havia sido feita e eu gostaria muito de questionar a cada um daqueles jornalistas onde eles haviam aprendido a fazer entrevistas tão ruins e rasas.
Na segunda rádio pela qual passamos, finalmente, alguém que soubesse perguntar as coisas que deviam ser perguntadas a um músico famoso e problemático que não sabia os limites de sua vida pessoal e profissional:
― Em uma das últimas faixas, você aborda de maneira muito cirúrgica como sua mãe lidou e ainda lida com a depressão pós-parto.
― Sim. É difícil falar sobre isso. ― coçou a nuca, pensativo. ― She Lays Down é sobre a minha mãe. É algo pessoal, mas acho que ela não vai se importar se eu falar sobre isso aqui e agora. ― seus olhos estavam perdidos, rodando por toda a sala, sem se fixarem em ninguém, sem encontrar nenhum outro olhar que o confortasse ou encorajasse. ― Quando eu tinha 17 anos, ela me contou sobre a depressão pós-parto depois que nasci. Ela costumava se deitar no chão do meu quarto, tentando e implorando pra me amar. ― silêncio. Todos no estúdio estavam acometidos pelo mais profundo silêncio e eu agradeci por isso, pois assim, meu gravador, que funcionava a todo vapor durante o dia todo, captava tudo que ele não quisera me contar.
Novamente, seus olhos viajavam por todo ambiente. Até que, desta vez, encontraram os meus. E permaneceram.
― O quão brutal é isso? É brutal pra cacete. ― seu olhar não desgrudava do meu e pude entender que, naquele momento, Matthew estava me contando todos aqueles detalhes para mim. ― Ainda mais se considerarmos que eu e ela somos extremamente próximos. Enfim, esse álbum inteiro é muito pessoal, acho que é isso que agrega algum propósito, certo? ― desviou o olhar, voltando-se para o entrevistador à sua frente.
Considerando a atmosfera sombria que se formou durante sua fala, o entrevistador apenas pediu que eles tocassem She Lays Down para encerrar sua participação.
No meu canto, anotei no bloco de notas do celular que, assim que possível, voltar a questionar sobre a relação com sua mãe.
Uma notificação surgiu na tela, mostrando uma nova mensagem de :

“Como estão as coisas por aí?”

“Melhorando”

“Conseguiu fazê-lo falar?”

“Algumas coisas. Estamos agora em um entrevista e ele falou sobre a música que escreveu para a mãe!”

“Essa música é muito bonita. Vocês estão se dando bem?”

“Estamos chegando lá. Acho que ele não é tão ruim, no fim das contas”

“Por favor, fiquem amigos pra ganharmos ingressos pros shows :)”

...”

“Por favorzinho!!!!!!”

“Só se você me disser coisas pessoais que posso perguntar a ele”

“Como eu sei que você tem medo que sua matéria se transforme em fofoca, provavelmente, ainda não perguntou sobre ele e a ex, Gemma Janes, né?”

“Começamos muito brevemente a falar sobre isso, mas fomos interrompidos”

“Pergunte casualmente o que aconteceu porque até hoje ninguém sabe. E, por favor, se você tiver a oportunidade, mesmo que em
off, pergunte se ele teve um caso com a Halsey. Eu morreria por essa informação!!!!!”

“Por que eu perguntaria algo que não posso divulgar?”

“Porque de onde saiu essas perguntas saem muito mais rs”
Minha vontade foi de digitar um “VAGABUNDA” em caixa alta, mas eu era educada o suficiente para não o fazê-lo. Meu celular vibrou uma última vez: “Boa sorte :DD”

Bloqueei o celular, guardando-o no bolso frontal de minha jardineira a tempo de ver os apresentadores do programa se despedindo deles antes de chamarem um intervalo comercial. Após cumprimentarem todos, foram se retirando em fila de dentro do estúdio. Healy, antes de sair, segurou meu braço, aproximando seu rosto do meu ouvido, cochichando:
― Espero que tenha gravado tudo. ― tirou sua mão de mim, voltando a caminhar para fora.
Segui a última pessoa da fila para fora.
Dentro do elevador, um silêncio um pouco constrangedor se instaurou. Provável que todos já estivessem acostumados com o frontman que tinham, por isso, evitavam comentar algo que já havia ganhado muitos contornos em poucos minutos de conversa com um total desconhecido.
Do lado de fora, Healy e Daniel acenderam cigarros.
Mesmo a alguns passos de distância deles, conseguia ouvir o mais alto parabenizando o amigo pela coragem de ter contado algo tão pessoal. Virando brevemente para trás, olhando-me de soslaio Matthew respondeu:
― Algumas coisas precisam de resposta. Não importa o quanto isso doa. ― dei um meio sorriso em agradecimento.

- x x x -


Era hora do almoço e nem mesmo neste momento eu tinha paz para poder sentar e almoçar. Meu estômago roncava, porém a jornalista que faria entrevista com o vocalista havia acabado de chegar e não perderia isso por nada, portanto, sentei em uma das poltronas do outro lado do quarto, aproveitando para carregar meu celular por completo e tentar fazer novos esboços do início do texto.
A outra jornalista parecia incomodada com a minha presença, visto que estávamos no quarto de sua fonte e, supostamente, este deveria ser um momento intimista durante a entrevista, onde o homem à sua frente se sentiria à vontade para responder todas as perguntas que ela estivesse disposta a fazer. No entanto, mal sabia ela que, independente da minha presença, aquele era o tipo de pessoa que só responderia aquilo que quisesse ou que achasse que deveria. Caso contrário, ele ficaria tão em quieto quanto ficava comigo.
― Você está incomodada com algo, Jill? ― Healy questionou a jornalista à sua frente, que, vez ou outra, desviava o olhar para dar uma conferida em mim.
― Ah, não. ― meneou a cabeça enquanto falava.
― Ótimo, então, podemos continuar? Eu ainda tenho que almoçar. ― conferiu a hora no celular, fingindo impaciência. ― segurei um riso baixinho que se formou na minha garganta.
Nenhuma das perguntas que Jill fizera me foram úteis. Eram informações que eu já tinha ou que poderiam se facilmente encontradas com uma busca pela internet.
Depois de mais duas perguntas, a mulher se levantou, agradecendo a Matthew com um sorriso e um aperto de mão, informando-o sobre o dia em que a matéria seria publicada. O mesmo agradeceu a presença e a disponibilidade, acompanhando-a até a saída do quarto.
― Graças a Deus, ela foi embora. ― ergueu as mãos aos céus, ironicamente.
― Você odeia jornalistas tanto assim?
― Eu odeio quem vem aqui e se incomoda se tem ou não outra pessoa e não tá nem ligando pro que eu estou falando.
― Não seja tão narcisista. Ela gravou toda a conversa, vai ter bastante tempo pra te ouvir tagarelar sobre o que você já repetiu mil vezes em outras mil entrevistas. ― sua feição se fechou, como se tivesse se ofendido com o que eu havia dito. Em função disso, resolvi não falar mais nada.
Nos minutos seguintes, saímos do quarto em direção ao restaurante do hotel, ainda sem trocar mais nenhuma palavra. Ótimo, tudo o que tínhamos construído até então, parecia ter ruído em questão de segundos e algumas palavras trocadas.
Sentado à minha frente, com o olhar fixo em seu prato de comida, Matthew continuava silencioso, comendo.
― É sério? ― soltei, cansada de remexer meu almoço.
― O que? ― questionou antes de dar uma nova garfada.
― Que você vai continuar me ignorando pelo que eu disse.
― Não estou te ignorando.
― E como você explica os últimos ― conferi a hora no relógio em meu pulso. ― 26 minutos de silêncio? Você não consegue ficar tudo isso sem falar nada! ― soltou os talheres no prato.
― Sabe, , por um momento, te dei um voto de confiança porque achei que você merecia, que estávamos construindo algo de maneira mútua. Mas, no fim, percebi que você só tá interessada no máximo de informações privilegiadas que vai conseguir se andar atrás de mim durante o dia todo.
― Como eu disse a você desde que cheguei aqui, este é o meu trabalho. E eu só quero conseguir finalizá-lo.
― Espero que consiga com o que já tem. ― levantou-se, largando o guardanapo sobre a mesa e saindo.
Respirei fundo, com os olhos fechados, tentando controlar a raiva que ameaçava explodir e escorrer por todos os poros do meu corpo.
Vai dar tudo certo, ele só está agindo como a estrelinha mimada que é. Tentei internalizar, mesmo sabendo que esta era a maior mentira que estava contando para mim mesma.


#4

Tire uma foto das minhas falhas ou você gravar um vídeo no seu celular
(Narcissist - No Rome ft. The 1975)


À tarde, durante a reunião à respeito das gravações do clipe, Healy armou aquele circo. Pessoas sugeriam coisas, ele reclamava. Pessoas alteravam itens do roteiro, ele ironizava. Pessoas diziam que talvez uma coreografia não fosse a melhor escolha, ele batia na mesa e falava durante 20 minutos porque precisava de uma coreografia no clipe.
Não queria ser o tipo de jornalista que faz tudo por material sensacionalista e expõe suas fontes ao ridículo, porém ser espalhafatoso e escandaloso estava tão entranhado no DNA de Matthew quanto o fato de ele ter cabelos escuros e olhos claros.
Seus companheiros de banda apenas reviravam os olhos e se cutucavam longe de seu campo de visão. Jamie tentava a todo custo mediar a discussão, mostrando a Matthew que nem tudo poderia ser da forma que ele queria ao mesmo tempo que tentava convencer todos os outros presentes que talvez do jeito dele fosse melhor.
Mantendo minha postura de profissional permaneci atenta à tudo que acontecia. O excesso de gesticulações, os aumentos de vozes, as réplicas e tréplicas, as reviradas de olhos de Adam, que eu podia jurar que já conseguia ter um vislumbre do próprio cérebro a cada giro dos globo oculares. Queria rir da situação, mas não podia. Queria revirar meus olhos também, o que em nenhuma hipótese poderia fazer. Queria socar a cara de Healy por ser um idiota tão convencido de si mesmo e adivinhe só? Na lista de coisas que não poderia fazer, certamente agredir a fonte encabeçava os itens.
Depois de muita discussão, a reunião chegou ao fim, pois Matthew tinha que encontrar com a dançarina que faria seu par no clipe para o último ensaio geral. Ross e Adam preferiram ir embora mais cedo, deixando George encarregado de acompanhar o estrelinha no ensaio e eu fiquei porque era obrigada. Healy não me queria por perto e fazia questão de demonstrar isso evitando me olhar, não dirigindo a palavra a mim em nenhuma hipótese e fingindo que eu não existia.
Entrando na sala de prática, George sentou-se ao meu lado para assistir o amigo.
― Por que ele tá te ignorando? Vocês não eram, sei lá, super amigos até cinco segundos atrás?
― Digamos que eu feri seus sentimentos.
― Uuuuuuh. ― debochou. ― O que você disse?
― Ele ficou ofendido porque a jornalista que veio entrevistá-lo estava incomodada com a minha presença e não estava prestando tanta atenção ao que ele dizia. Mas ela gravou toda a conversa e eu disse a ele para não ser tão narcisista, pois ela teria muito tempo para ouvir tudo o que ele tinha tagarelado depois.
― Ouch! Eu nem tava lá, mas senti o soco no estômago que isso foi.
― Foi tão ruim assim? ― franzi o cenho com medo de ouvir a resposta.
― Se fosse uma pessoa que tem bom humor, eu diria que foi até bem engraçado, mas como foi com o Matty, acredito que sua escolha de palavras tenha sido um pouco mais do que ele pode suportar. ― passou a língua pelos lábios, umedecendo-os. ― Sabe o que vai curar o orgulho ferido dele? ― acenei para que ele prosseguisse. ― Um maço de cigarros, uma garrafa de vinho e maconha suficiente para o resto da semana. ― ri. ― E que, de preferência, você o leve pra jantar.
― Tá, agora me fala o que pode ajudar mesmo. ― continuei sorrindo, esperando pela resposta.
― É isso. ― deu de ombros.
― Sério? ― assentiu. ― Mas acho que a parte mais difícil vai ser fazer ele falar comigo.
― Posso cuidar disso. ― encarei-o por alguns segundos.
― Por que está sendo legal comigo?
― Porque eu sei que não tá sendo muito fácil pra você, então, não preciso piorar as coisas, não acha? ― franzi os lábios, concordando.
― Mas eu não sei como conseguir drogas. Quer dizer, primeiro que estou aqui à trabalho, segundo que não conheço nenhum traficante.
― Nós temos um cara, não se preocupa. ― respondeu, sacando o celular do bolso e começando a digitar.
Por aproximadamente dez minutos, George ficou em silêncio. Toda sua atenção voltada para o aparelho em suas mãos. Quando pareceu finalizar sua conversa, avisou que voltava em alguns minutos caso alguém sentisse sua falta. Assenti, passando a prestar atenção em Healy e na dançarina, que repetiam pela segunda vez a coreografia completa.
Eu não era dançarina, pelo menos, não do tipo de grava todos os passos de algo pronto e os executa, portanto, observando-os, podia dizer que estavam fazendo um milhão de vezes melhor do que eu seria capaz. Pelo espelho à sua frente, via as olhadelas que Matthew dava em minha direção, provavelmente, tentando descobrir o paradeiro do amigo.
Ao perceber que eu o tinha visto olhar, voltou a prestar atenção nos movimentos da parceira de dança e em seus próprios. O suor fazia seus cabelos começarem a grudar em seu rosto e suas bochechas estavam vermelhas. Não demorou até que resolvesse se desfazer da camisa, deixando-a pendurada na barra de metal a frente do espelho. Nem eu nem a coreógrafa havíamos nos surpreendido com seu ato de exibicionismo por ser algo que já esperávamos que fizesse a qualquer instante.
Parando de olhá-los, abri o bloco de notas no celular e comecei a descrever o que eu via no ensaio: os passos, a forma como eles conseguiam se comunicar sem verbalizar uma única palavra, como seus corpos suados se entrelaçavam e se dispersavam nas mais diversas direções em milésimos de segundos, construindo uma narrativa muito dolorosa, porém bonita. Era apenas um esqueleto, mas um bom parágrafo para se incluir em meio ao texto.
Quando menos esperava, George jogou-se na cadeira ao meu lado, fazendo-me sobressaltar de susto.
― Comprei a primeira parte do seu pedido de desculpas. ― cochichou, retirando uma ponta de um pacote plástico de dentro do bolso da calça, somente o suficiente para que eu visse do que se tratava. ― Na verdade, se foi você quem… comprou, deveria ser você a entregar. ― sugeriu.
― George? ― franzi o cenho.
― O que?
― Eu não posso andar por aí com um saco de maconha.
― Por quê? ― a resposta em minha mente me parecia bem óbvia, entretanto, para ele não.
― Dois motivos: sou jornalista, estou aqui a trabalho, e eu sou negra. ― sua boca formou um pequeno “o” finalmente entendendo ao que eu me referia.
― Ok, posso entregar, então.
― Obrigada.
Em poucos minutos, Healy e a coreógrafa, chamada Katie, bateram palmas sorrindo, satisfeitos com o trabalho do dia. Acertavam os detalhes do dia seguinte, que começaria bem cedo para ambos, que precisavam se caracterizar antes de iniciarem a gravação. Matthew pôs a camisa de volta, sem abotoa-la, direcionando-se para George e eu.
― Podíamos sair pra beber, né? ― George sugeriu animado.
Matthew intercalou o olhar entre mim e o amigo, como se tentasse descobrir se eu estava inclusa nos planos.
― Qual é, cara? É por minha conta. ― de braços abertos, a figura de George era simpática e convidativa. ― Aliás, tenho algo que vai te interessar. ― tirou um pacote contendo o equivalente a umas 50 gramas de erva de dentro do bolso, jogando no peito do amigo, que segurou-o com ambas as mãos. ― Financiado pela colega aqui. ― apontou com a cabeça para mim.
Dei um meio sorriso, sentindo-me um pouco mal pela mentira.
Healy me olhava aparentemente desconfiado.
― Ok, foda-se. Vamos. ― levantamos de nossos assentos. ― Tchau, Katie. ― acenou para a mulher, que arrumava sua bolsa.
― Tchauzinho. ― acenou de volta e fizemos o mesmo.
Seguimos o homem para fora do prédio.
Com um tabaco pendendo entre os lábios, bolava cigarros de maconha concentradíssimo, guardando-os no bolso da camisa.
Caminhando pela calçada, entramos no primeiro pub que surgiu em nosso campo de visão a duas quadras do local de onde saímos. Do lado de dentro, o ar estava aquecido e as luzes baixas davam um tom mais intimista para o ambiente. Havia a probabilidade de o preço de uma cerveja ser exorbitante, entretanto, depois de um dia estressante, me permiti não pensar sobre o quanto aquilo poderia pesar na fatura do meu cartão de crédito no fim do mês.
Antes de me juntar a eles na mesa que haviam escolhido bem ao fundo, longe de todos, parei no balcão, perguntando se havia Marlboro Red, respondendo que sim, pedi ao atendente que me desse dois maços e os registrasse em minha comanda. Encaminhei-me para a mesa, sentando-me de frente para os dois homens. Pus as caixas sobre a mesa, empurrando-as na direção de Healy.
― Tá tentando me comprar, ? ― questionou com os olhos semicerrados, acendendo o cigarro que ainda pendia de seus lábios. Estávamos sentados na zona de fumantes do estabelecimento.
― Entenda isso como uma oferta de paz. ― cruzei as mãos sobre o tampo da mesa, inclinando-me. ― Sei que um Parliament teria mais efeito, mas infelizmente não tenho toda essa grana.
― Você tá mesmo decidida a terminar sua matéria, né? ― tirou o tabaco da boca depois de uma vagarosa tragada, soprando a fumaça.
― Como você já bem deve saber, meu emprego depende disso.
― Olha, uma coisa eu tenho que admitir: você é insistente… e isso é muito bom. ― apontou para mim com um sorriso estampando os lábios, voltando a tragar. ― Depois que eu vi que você era repórter nova, jurava que você não ia durar um dia.
― E olhe só para nós. ― abri os braços, brincalhona. ― Aqui estamos.
― Por que você pega tanto no pé dela, hein? ― George se manifestou enquanto acenava para um garçom. Com o homem próximo à nossa mesa, pedimos três cervejas, assistindo-o se afastar depois de ter anotado o pedido em um pequeno bloco de papel.
chegou me perguntando coisas sobre a minha vida pessoal nos primeiros minutos em que estávamos juntos.
― Mas todo jornalista que te entrevista faz isso. ― franziu o cenho.
― E eu respondo porque vamos ficar poucos minutos na presença um do outro. ― fiquei fitando-os conversarem entre si como se eu não estivesse ali. ― No caso dela, essa máxima cai por terra uma vez que ela vai passar a semana toda atrás de mim. Então, deveríamos começar do começo, não acha? ― Daniel deu de ombros, colocando um cigarro entre os lábios, acendendo-o. Após uma longa tragada, pronunciou-se:
― Apesar de concordar com ela que não faz sentido que você não responda a perguntas que já respondeu antes em outras entrevistas ― deu mais uma tragada e soprou a fumaça aos poucos. ―, sua lógica também faz sentido.
― Obrigado. ― acenou.
O garçom voltou, descarregando as três garrafas no centro da mesa, abrindo-as e designando uma para cada um de nós.
― Tudo bem, então, vamos recomeçar tudo de novo. ― peguei o celular dentro do bolso, iniciei uma gravação de áudio e o pus sobre a mesa. ― Fala aí o nome da celebridade que você gostaria de conhecer.
― Agora, sim, vamos a algum lugar, não? ― ironizou. ― Conhecemos a Miley Cyrus em um festival, mas definitivamente eu queria muito conhecer a Ariana Grande.
― Por quê? ― franzi as sobrancelhas, dando um pequeno gole em minha bebida.
― Já ouviu a voz dela? Quem não iria querer conhecer a dona daquela voz? ― enquanto falava, Matthew gesticulava muito e seu rosto mudava 1001 vezes de expressão, assumindo ares de estranhamento, questionamento e surpresa em um piscar de olhos.
― Na verdade, ele só não admite que acha ela bonita, por isso gostaria de conhecê-la. ― Daniel rebateu rindo, recebendo um tapa no peito enquanto virava a garrafa para beber um gole de sua cerveja. Ri, voltando a molhar a garganta.
― Você já teve seu nome ligado ao de várias mulheres como seus possíveis affaires, qual foi o mais estranho até hoje?
― Rashida Jones, a atriz, filha do Quincy Jones.
― O que? ― franzi as sobrancelhas, segurando a risada.
― Sim. Ela é uma mulher deslumbrante e, convenhamos, ela é a Rashida Jones, nunca me daria bola, certo? Realmente, não sei de onde surgiu esse boato. ― riu, dando uma nova tragada em seu fumo e, após soltar a fumaça, sorveu mais um gole de cerveja.
― Qual foi a mensagem mais estranha ou desconfortável que alguém escreveu pra vocês em um cartaz durante os shows?
― Tem várias. Os piores sempre são os que pedem para fazer anal. Qual é? Onde tá a criatividade nisso?
― Talvez as pessoas não queiram ser criativas, apenas fazerem anal com você. ― George fez uma nova intervenção e todos nós rimos.
Sem lhe dar muita margem de tempo para refletir e desistir de responder minhas perguntas, prossegui:
― O que você acha sobre música pop?
― Como assim?
― Música popular, o que toca nos dias de hoje e faz artistas ganharem rios de dinheiro.
― Um buraco bem grande e cheio de nada. ― calada, esperei por um bom tempo que ele completasse. A resposta veio quase dois minutos depois: ― Um exemplo disso é o Imagine Dragons. Que significado tem uma música em que ele repete radioativo, radioativo oh oh oh? A arte não deve ser vazia em si, ela deve, sim, ter um significado, dizer algo para as pessoas, não? Me parece algo sem propósito, que não faz as pessoas refletirem. ― queria poder concordar com ele, no entanto, isso não fazia parte do meu trabalho. ― Não tô dizendo que a minha arte vale mais do que a deles, até porque eles fizeram milhões de dólares com músicas assim e quem sou eu perto deles, certo?
― E você se sente pressionado a começar a produzir como eles?
― De forma alguma. Pra mim, só faz sentido fazer algo em que eu possa me expressar e colocar para fora o que sinto, sem isso, pra que exatamente vou dedicar um ano ou mais da minha vida? Pra fazer mais dinheiro e encher meu cu de drogas caras? ― dei um meio sorriso satisfeito com sua resposta.
Lembrei-me das mensagens de , sugerindo que perguntasse sobre sua ex-namorada e coisas do tipo, todavia, não achei que o momento fosse apropriado, visto que falávamos mais sobre temas impessoais e não estávamos à sós. Talvez só devesse guardar estas para o dia seguinte, quando tivesse certeza de que estava tudo bem entre nós e ele não voltaria a atrapalhar meu fluxo de trabalho.
Seguimos bebendo e conversando sobre aleatoriedades por cerca de uma hora e meia, quando decidimos comprar cachorros quentes em uma lanchonete na esquina e ir comendo no caminho. Diferente de como achava que seria, não voltamos para casa de táxi e muito menos de van. Estendemos a caminhada até a estação de metrô mais próxima e partimos no primeiro horário que passava na estação mais próxima ao hotel.
Chegando ao grande prédio, entramos no elevador, despedindo-nos de George quando seu andar chegou e seguimos para o nosso. Permanecemos em silêncio até que as portas se abriram no corredor em que deveríamos descer, caminhando lado a lado pelo chão coberto de um carpê bege que aparentava mais caro que toda a mobília da sala da minha casa.
― Escuta, ... ― ouvi-o segundos antes de achar o cartão que abria minha porta.
― Sim? ― virei-me para ele, fitando uma feição um pouco confusa e cansada tomar conta de suas faces.
― Você tá com sono? ― meneei a cabeça, negativamente. ― Quer ir à um lugar comigo? ― ponderei por alguns segundos antes de responder. Considerando que nossa relação havia se abalado de manhã e, agora parecíamos bem, talvez fosse uma boa opção aceitar sua oferta.
― Claro.
― Ok, um segundo. ― abriu a porta de seu quarto e pude ouvir alguns barulhos de latas e plásticos.
Alguns minutos depois, o homem voltou com uma sacola cheia de latas de cerveja e outra com chocolates e pacotes de salgadinho.
― Vamos. ― acenou com a cabeça e eu o segui.
Dentro do elevador, Healy apertou o botão A, que ficava a poucos andares acima do nosso. Ao sairmos, bem em frente às portas, havia um lance de escadas, cujos quais subimos até chegarmos a uma portinhola de metal. Abrindo-a, percebi que estávamos no terraço do prédio.
― A gente pode estar aqui? ― questionei, olhando-o se sentar no chão, sob a noite estrelada.
― Não sei. Se você quiser, posso descer na recepção e perguntar. ― debochou.
Suspirei, sentando-me ao seu lado, fitando-o pegar um dos cigarros bolados em seu bolso, pondo entre os lábios e buscar pelo isqueiro nos outros bolsos restantes de sua roupa.
― Você só aceitou vir porque queria continuar me enchendo de perguntas, né? ― sorriu ao encontrar o que buscava no bolso traseiro da calça.
― Não só por isso. Eu realmente não estou com sono e, no fundo, te acho uma figura interessante. ― senti uma leve brisa soprar, fazendo-me ter um breve calafrio.
― O que você quer dizer com isso?
― Você tem ideias próprias e, mesmo que julgue estar se autopreservando quando dá determinadas opiniões, você ainda não tem medo de falar as coisas que pensa. Ao mesmo tempo em que isso é incrível, é um comportamento perigosíssimo.
― O que mais pode me acontecer além de ser cancelado toda semana? ― ironizou, acendendo o fumo.
― O que eu quero dizer é que você pode acabar se complicando com algo que depois você não tenha como explicar.
― Como eu disse pra você aquele dia, sei das consequências e, se houver alguma, eu as enfrento sem problema algum. Mas tenho uma proposta pra você. ― tirou o cigarro da boca, soprando uma quantidade pequena de fumaça na direção contrária à mim. ― Prometo responder todas as suas perguntas se você fumar comigo. ― estendeu o baseado para mim.
― Por quê?
― Você pergunta isso bastante, né? ― revirou os olhos. ― É um pouco absurdo uma jornalista que nunca tenha fumado nada. Sem contar que você parece tensa, como se estivesse esperando que eu me levantasse daqui, gritasse com você e me trancasse no quarto só para não colaborar com a sua reportagem. ― riu. ― Eu até poderia fazer isso, mas você me comprou cigarros. Tenho que reconhecer seu esforço.
― Então, por que eu deveria ficar chapada? Me dê um bom motivo e eu fumo esse baseado até o fim com você. ― cruzei os braços em frente ao peito.
― Porque eu sei que não foi você que comprou a maconha. ― deu um sorriso vitorioso, dando uma tragada lenta e soltou uma quantidade absurda de fumaça segundos depois. ― Ela se parece exatamente com a que eu compro com o meu cara. ― tentei sustentar um olhar confiante a fim de convencê-lo que estava errado, porém, ao vê-lo rir, cedi e ri junto.
― Ok, você venceu. Daniel comprou porque queria me ajudar.
― Eu sei. George tem coração mole. Ele gostou de você. ― passou o cigarro para mim.
Colocando-o entre os lábios, aspirei a fumaça, tentando copiá-lo, entretanto, tossi tanto que senti que vomitaria meus pulmões.
― Vai com calma. ― riu, tirando o fumo de minhas mãos, pondo-o na boca novamente.
― Definitivamente, não é algo pra mim. ― minha risada saía entrecortada pela tosse, que ainda não havia passado.
― Algum problema respiratório?
― Muitos. ― respirei fundo. ― Se importa se eu ficar só na cerveja de novo?
― Nem um pouco. ― abriu uma lata e me entregou.
Sorvi um gole para molhar a garganta irritada.
Busquei pelo meu celular no bolso, acionando pela segunda vez na noite o gravador de voz.
― Hoje mais cedo, começamos a falar sobre sua ex.
― É, Gemma. Certo. ― assentiu.
― Você disse que ambos disseram coisas horríveis um ao outro.
― Pois é. ― deu de ombros. ― Eu amava Gemma. Muito. Mas as coisas começaram a ficar chatas e não me orgulho nem um pouco de como achei que poderia resolver isso saindo com outras pessoas. ― deu mais uma de suas tragadas longas, o olhar perdido no horizonte. ― Ela descobriu as primeiras vezes e ficou de boa, disse que entendia totalmente porque eu estava fora o tempo todo. As coisas mudaram quando ela descobriu que existia alguém que era, digamos, recorrente. ― e pigarreou para disfarçar.
― Halsey? ― chutei baixinho.
― Nessa época, ela ainda era só Ashley. ― sorriu.
― Quanto tempo vocês ficaram juntos?
― Alguns meses. Cacete, eu acho que era apaixonado por ela. ― franziu o cenho, finalmente me olhando. ― Não digo que eu a amava, eu só… ela tinha aquela coisa que faz você desejá-la, sabe? Me senti mal quando acabou. Com as duas, no caso. A diferença é que Ashley despejou toda a raiva dela em músicas brilhantes, autênticas e tristes. Gemma só não olha mais na minha cara. ― riu amargamente.
Colors é sobre você?
― É a que dá pra saber que sou eu. ― ironizou e franzi as sobrancelhas, sem entender onde ele queria chegar. ― Room 93 é sobre nós. Foi o primeiro quarto em que nos encontramos, depois se tornou um ritual sempre nos encontrarmos em quartos com o mesmo número. Era nossa piada interna. ― deu de ombros.
― Você não se sente mal por ela ter falado de problemas tão pessoais, como a saúde mental da sua mãe?
― Quando estava com a música pronta, Ashley me ligou para mostrá-la às 2h da manhã. Mesmo que ela não tivesse dito, eu saberia que era pra mim, assim como várias outras pessoas também saberiam, mas ela queria pedir permissão para incluir no álbum. ― umedeceu os lábios com a língua, apagando o cigarro e guardando o resto dentro do bolso. ― Eu poderia muito bem dizer 'não' e ameaçar processá-la, mas a música era boa pra caralho, não podia impedi-la, certo? Sem contar que, a essa altura, todo mundo já sabia sobre nós, inclusive, Gemma.
― Você se arrepende?
― De ter feito isso com as duas? Com certeza. Como eu disse, não queria que as coisas tivessem acabado do jeito que acabaram.
― Mas, cá entre nós, pra Gemma ter te descoberto, você era meio descuidado, não?
― Digamos que é meio difícil esconder que você foi contagiado por uma IST que o seu parceiro, que supostamente é única pessoa com quem você transa, não tem. ― riu.
― Então é isso que significa aquele trecho que diz “you said I’m full of diseases”? ― arregalei os olhos, quase sentindo minha mente explodir quando conclui aquele pensamento.
― Exatamente. Você acabou de acertar a pergunta de um milhão! ― bateu palmas. ― Nossa, você é boa nisso.
― Eu sou paga pra ser uma pessoa observadora, questionadora e escritora. ― respondi em um ar convencido.
― Vou ligar pro Josh e avisar que ele precisa te dar essa vaga pela qual você tá brigando tanto.
― Você ainda nem viu como vai ficar o texto que vou entregar pra ele.
― Acho que, mesmo que você escolha falar todos os meus podres e como eu sou arrogante, ainda assim, vai ser um bom texto. ― abriu uma lata de cerveja para si, dando vários goles na bebida enquanto eu assistia sua glote subir e descer diversas vezes.
― Por que acha isso?
― Porque você tá preocupada em me conhecer e saber a minha versão dos fatos.
Ouvindo sua voz soar mais arrastada que minutos atrás, decidi não lhe perguntar mais nada naquela noite, uma vez que já tinha dividido assuntos extremamente pessoais comigo e a maconha começava a fazer efeito.
Com as pálpebras mais baixas que o normal, Healy começou um monólogo sobre como amava as redes sociais por mais nocivas que elas fossem.


#5

Um novo rosto, uma história diferente, a mesma bagunça de mim
(Colorblind - Movements)


Abri meu olhos na manhã seguinte e, ao tomar consciência da existência do meu corpo, senti meus músculos enrijecidos e doloridos. Havíamos dormido no chão do terraço. Abraçado a mim, Matthew ainda dormia com os cachos esvoaçando pelo rosto. Daquele jeito, ele até parecia uma pessoa tranquila e fácil de lidar. Ri e me espreguicei, vendo-o começar a se mexer também.
― Eu preciso parar de fumar maconha de madrugada em lugares que eu não planejo dormir. ― passou as mãos pelo rosto.
Levantei-me e estendi a mão para ajudá-lo a fazer o mesmo. De pé, espreguiçou-se e alongou as costas.
― Espero que suas costas estejam boas o suficiente pra dançar. ― franzi os cantos do lábios.
― Você, preocupada comigo? ― ironizou.
― Vamos descer antes que nos procurem, Healy. ― revirei os olhos dando as costas para ele e caminhando rumo à porta de metal.
Descendo as escadas, parei em frente às portas do elevador, chamando-o e esperando que chegasse até o andar em que estávamos. Segundos depois, o homem parou ao meu lado com uma sacola plástica em mãos, cheia de latas e embalagens de comida vazias. Com um pouco de dificuldade, fechou os botões da camisa até a metade e coçou os olhos.
Dentro do elevador, virou-se para mim, fitando-me.
― Fala logo. Odeio quando me olham demais. ― soltei, cruzando os braços sem olhá-lo.
― Medo que alguém veja o que você não quer mostrar? ― não respondi, apenas o olhei de soslaio. ― Às vezes, eu sinto isso. ― virou-se para frente, olhando a iluminação nos números dos andares acima das portas. ― E não era isso que eu queria dizer. Você já deve ter se dado conta, mas eu nunca falei sobre Ashley pra nenhum repórter. Sem contar que passamos anos nos esquivando disso, então, se você quiser incluir, preciso conversar com ela primeiro. ― as portas se abriram quando chegamos ao nosso destino.
Andamos para fora, percorrendo o corredor até os nossos devidos quartos.
― Quanto a isso, você não tem com o que se preocupar. Não tenho a menor intenção de que a matéria tenha esse viés de tabloide de fofoca. Só te perguntei sobre porque acredito que faz sentido entender determinados aspectos da sua vida, mas, sinceramente, nada do que me disse sobre elas é da minha ou da conta de qualquer outra pessoa.
― Você é uma pessoa engraçada, . ― sorriu. ― A cada dia que passa, fico mais curioso pra saber o que você vai escrever. ― “eu também”, pensei.
― A que horas eu encontro você de novo?
― Só vou tomar banho. Acredito que em 30 minutos. ― assenti e adentrei no meu quarto.
Joguei-me na cama e tive a sensação de que poderia ficar ali pelos próximos dois dias sem me levantar para absolutamente nada. Não havia nenhuma parte do meu corpo que não estivesse dolorida. Conferi a hora na tela do meu celular. Nem cinco minutos haviam se passado, porém era melhor que me levantasse antes que meu corpo estivesse completamente relaxado e pronto para mais uma soneca.
Abri minha mala no chão, procurei pela roupa mais confortável que poderia encontrar, pegando um vestido tubinho de alcinhas e uma camiseta branca. Fui tomar mais um dos meus banhos na velocidade da luz, aproveitando para já escovar os dentes no chuveiro. Vesti-me, calcei um par de tênis, arrumei minha mochila e saí.
Encontrei todos já sentados no hall de entrada e, ao que aparentava, agora que eu havia chegado, estavam apenas esperando por Healy.
Sentei-me ao lado de Adam, que mexia em suas redes sociais, como quase sempre quando nos cruzávamos pelos corredores. Todavia, diferente das outras vezes, bloqueou o celular e me olhou.
― Bom dia. ― sorriu.
― Bom dia. ― cumprimentei-o de volta também com um sorriso.
― Tá indo tudo bem com ele?
― Por incrível que pareça, tá. ― riu.
― Matty pode ser complicado no início, mas ele não é tão horrível quanto deixa transparecer. ― rimos.
― Pelo que pude perceber, ele é… intenso. E não se sente à vontade de dividir isso com quem não o compreenda. ― cruzei as mãos sobre o joelho. ― Adam, posso te fazer uma pergunta?
― Vai me entrevistar também? ― brincou.
― Só se você quiser. ― ri. ― Por que você e o Ross quase nunca se manifestam nas entrevistas?
― Matty é o nosso porta-voz oficial. ― seu tom de voz era brincalhão. ― Ele gosta de falar e nós não somos muito bons nisso, então, é melhor deixar quem tem mais facilidade fazer, né?
― E você não se importa que, às vezes, ele fale por vocês também? ― não queria ser o tipo de jornalista que tenta a todo tempo deixar seus entrevistados desconfortáveis ou colocá-los em maus lençóis, entretanto, não custava nada tentar uma confissão de algum deles. Talvez isso fosse me transformar em uma concorrente de enquanto representante da imprensa marrom, mas quem se importa?
― Bom, somos uma banda. Estamos juntos nessa. Acho que não existem muitas opiniões de Matty que não nos represente. ― deu de ombros. ― Sem contar que, sempre que ele vai falar algo que pode ser impopular ou acarretar algum tipo de crítica, nos deixa de fora.
― Vocês são muito unidos e isso é muito bonito. ― sorri.
― Não fazemos o que fazemos por grana. Antes de tudo, somos amigos que gostam de música e acharam que seria uma boa ideia fazer algo juntos.
― Já teve algum momento que você tenha pensado em desistir?
― Todas as vezes que eu olho a nossa agenda e percebo que vamos fazer literalmente 300 shows em um ano, que tem 365 dias. ― riu, cruzando os braços. ― Mas, ao mesmo tempo, fico muito grato de poder vivenciar todas essas coisas porque eu tô junto dos meus melhores amigos e as pessoas gostam do que fazemos, nós nos conectamos com elas em momentos únicos e especiais. Isso deve valer de alguma coisa, né?
― Você deveria repensar sua decisão sobre deixá-lo falar tudo durante as entrevistas. ― rimos.
― Falando no diabo… ― deixou no ar, apontando com o queixo na direção de Healy.
Quebrando sua tradição diária, Matthew não vestia roupas inteiramente pretas. Desta vez, usava uma camisa branca florida e tênis vermelhos, o que era relativamente surpreendente, apesar de a calça ser exatamente igual as outras que o vi usar nos dias anteriores.
Antes que chegasse até nós, todos se levantaram de seus assentos, encaminhando-se para fora do prédio. Ao que entendi, a van já os esperava na esquina.
O trajeto para o local onde aconteceria a primeira parte das gravações foi silencioso. Quase todos isolados em suas bolhas de redes sociais ou, no caso de Jamie, fazendo uma reunião de negócios por ligação, logo, não havia muito mais que eu pudesse fazer a não ser continuar a tentar ordenar meu texto no bloco de notas do celular. Aos poucos, estava começando a ganhar a forma que eu queria.
Era a primeira vez que eu escrevia um perfil de alguém que tinha uma imagem a zelar. Mesmo sabendo que Healy talvez não fosse o tipo de fonte que me ligaria só para me xingar por não ter gostado do que escrevi a seu respeito, ainda me sentia pisando em ovos em relação ao que deveria ou poderia ser incluído no texto. Além disso, não tinha muita certeza sobre qual era o tipo de imagem que o homem construía de si mesmo, pois ele não fazia muita questão de esconder aspectos de sua vida que poderiam ser considerados ruins ou negativos para o grande público.
Escrevi e reescrevi o primeiro parágrafo até que tivesse o exato tom de descontração e impessoalidade de Healy. Copiei e colei o texto em uma mensagem endereçada a . Precisava urgentemente de seus olhos atentos.

“Já começou a escrever?”

“O que você acha?”
Roí a unha do dedão enquanto esperava por sua resposta.

“Acho que você começou muito bem. Não tem mais nada pronto?”

“Não. Ele não dorme e aí eu não consigo ter tempo de transcrever as entrevistas!!!”

“Um vidro de rivotril num copo de leite morno e meia grama de maconha bem bolada :)”

“Eu tô começando a ficar desesperada”

“Amiga, não fique. Vai dar tudo certo, eu confio em você =D”

“Eu perguntei pra ele o que você tinha me dito”

“ E aí?????”

“Você tem razão. Halsey e ele tiveram um caso enquanto ele ainda namorava Gemma…”

“Eu sabia!!”

“Ele é o maior
fuck boy da Europa e você ainda tinha alguma dúvida sobre isso? rs”

“O mundo precisava dessa confirmação!! Por favor, me diga que você vai publicar isso”

“É claro que não”

“Como assim não? Mulher, você conseguiu a informação que ninguém mais conseguiu!!!”

, isso é sobre a vida pessoal dele”

“Assim como os problemas com os pais dele, a relação com o irmão ou aquele surto que ele teve durante um show em 2014”
Eu não sabia nada sobre o tal surto, por isso, favoritei a mensagem para me lembrar de pesquisar quando estivesse sozinha.

“É um perfil do cara, não uma matéria fofoca pra contar com quem ele andava fodendo por aí!!!!!!”

“Ok, você é quem sabe….”

“Sim, sou eu que estou escrevendo essa matéria!!”
Bloqueei o celular e o guardei no bolso. Não gostava quando e eu brigávamos, no entanto, era impossível ouvi-la sugerir que eu tivesse tais atitudes sendo que isso nem mesmo fazia parte do meu trabalho.

- x x x -


A locação do clipe era um parque de diversões, porém, pelo que eu tinha conseguido ler em uma cópia do roteiro que Matthew me pediu para segurar enquanto era maquiado, não me parecia com uma história feliz ou divertida. Katie, a dançarina, e ele interpretariam um casal de palhaços. No início, o romance entre ambos dava certo, mas, assim como na música, em determinado momento, ambos deixavam de se gostar e Matthew iria atrás de “amor na cidade”, acabando sozinho por não ter conseguido encontrar aquilo que pensou que seria fácil.
Aparentemente, para quem estava a par de seu término com Gemma Janes, ele estava falando muito abertamente sobre como as coisas terminaram.
― O que tá se passando nessa cabeça, ? ― me chacoalhei de leve para voltar a realidade, fazendo-o dar uma risadinha.
― Quê?
― Não sei. Você parece pensativa.
― Viajei um pouco. Ainda não tomei minhas duas xícaras de café matinal. ― dei um sorriso sem graça. Odiava que interrompessem minhas linhas raciocínio para perguntar o que eu estava pensando, ainda mais se a pessoa que pergunta é a pessoa sobre quem estou pensando.
― É a primeira vez que uso uma maquiagem que combina completamente com o papel que eu performo no meu dia-a-dia: a porra de um palhaço! ― debochou, fazendo a mim e a sua maquiadora rir.
― Um pouco mórbido, você não acha?
querida, a vida é mórbida. Nenhum de nós é muito feliz, mas vestimos nossas roupinhas de palhaço todos os dias e vamos pra rua, fingir que sim, achamos muito engraçada essa piada de mau gosto que é a vida que vivemos.
― Talvez te falte um pouco mais de otimismo, não acha?
― E pra que exatamente serve isso? Independente de eu estar triste ou feliz, pessoas vão continuar se suicidando, pessoas LGBT vão continuar sendo assassinadas, mulheres continuam sendo vítimas de misoginia e pessoas negras continuam a encher os presídios pelo mundo todo. Acho que é ilusão isso, não? ― dei de ombros.
― No fim, acho que não posso discordar de você.
― Obrigado.
― Matty, meu anjo, cale a boca por dois segundos, eu preciso finalizar a maquiagem. ― a mulher falou. Nós dois rimos e o homem se silenciou por alguns minutos.
― Parece que já passou tanto tempo que estou te acompanhando, mas só se passaram alguns dias.
― Eu vou buscar o outro pancake no camarim principal. Já volto. ― a maquiadora anunciou, retirando-se da sala.
― E você se arrepende de ter concordado em estar aqui? ― questionou, olhando-me pelo espelho à sua frente.
― No começo, é sempre tudo muito complicado porque nunca tinha feito isso e não nos conhecíamos, mas, agora, sinto que esse é o tipo de experiência que eu quero ter enquanto profissional.
― Isso, . Desafios. Nada que é bom é tão fácil de se alcançar.
― O que foi tão difícil pra você alcançar que te faz pensar isso?
― Me formar no ensino médio. Escolher um nome decente pra banda. Finalmente conseguirmos produzir algo que tinha a nossa cara e que venderia. ― sorri.
― Quando você fala assim, soa como alguém que não tem consciência dos próprios privilégios. ― na minha cabeça, a frase que eu queria realmente dizer era mais direta.
― Diga o que você realmente queria dizer. ― franzi as sobrancelhas, querendo me enrolar em papel alumínio para impedi-lo de ler meus pensamentos.
― Eu já disse.
― Não. Com as palavras que você queria usar. ― provocou.
― Por que isso importa?
― Porque quero que, assim como eu, você diga a verdade. Doa a quem doer. ― ajeitou sua postura na cadeira, dando um sorriso debochado.
― Pra você passar mais um dia inteiro me ignorando? ― ironizei.
― Anda logo, . Diga. ― suspirei, revirando os olhos.
― Você é só um garoto branco, cheio de privilégios desde que nasceu e acha que só porque precisa viajar o mundo cantando, com um monte de garotas brancas te parando na rua pra pedir foto tem uma vida difícil. ― ao término da frase, umedeci meus lábios sem muita certeza se deveria ter dito tudo isso.
― É isso, . ― riu. ― Você devia tentar ser sincera mais vezes. Sua voz fica bonita quando você fala umas verdades.
― Minha voz? ― fiz uma careta de incompreensão.
― Ela fica meio tom mais baixa e, consequentemente, mais encorpada. Diria que é até meio sexy. ― senti minhas bochechas queimarem e, pelo sorriso que Healy me deu, ele havia notado.
A maquiadora voltou e nosso assunto morreu. Mais 25 minutos se passaram até que a mulher o liberou para ir se trocar. Nenhum de nós dois dirigiu palavra alguma nesse meio tempo ao outro.

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Gravando principalmente as partes em dupla com a dançarina, Matthew tinha uma boa desenvoltura como dançarino e como ator. Nenhum dos presentes conseguia desviar os olhos de sua performance. Não era nada extraordinário, mas, certamente, era bem feito e bem trabalhado. Ele e Katie, a dançarina, tinham muita química entre si e isso se dava muito pelo fato de que ambos haviam dançado juntos por horas a fio durante muitos dias.
Os movimentos dos dois corpos eram muito assertivos e combinavam com a personalidade que cada um havia criado para seu personagem. Katie era romântica e delicada, os olhos de sua personagem brilhavam sob as luzes artificiais do local e, mesmo quando aparentemente brava, sua palhaça ainda tinha um ar suave. Matthew, de início, era romântico, tornando-se brincalhão demais, a ponto de irritar seu par e, ao fim, tristonho e solitário. Seu personagem se parecia muito com a sua personalidade real.
Healy era irônico e apático na mesma medida em que era triste e até um pouco carente. Talvez por isso sua interpretação soasse tão convincente aos meus olhos.
― Muito impressionada? ― George cochichou, aproximando-se com um copo de café fumegante em mãos.
― Ele é bom nisso, né? ― respondi no mesmo tom sem tirar os olhos do que acontecia.
― Por isso, deixamos que ele faça tudo. ― riu. ― Ele realmente é uma dessas pessoas que consegue se desdobrar em muitos e fazer muitas coisas.
― Deus dá muito pra alguns e tão pouco pra outros. ― rimos.
― Não diga isso perto dele ou seremos obrigados a ouvir um sermão sobre como Deus não existe e é apenas uma ideia criada pela igreja pra controlar a vida das pessoas.
― Anotado.
― Mais nenhum problema com ele nesses últimos dias?
― Agora acho que tá tudo sob controle. Como você disse, eu só precisava descobrir do que ele queria falar e entender que ele também tem um limite de respostas pras minhas perguntas diárias. Ele é uma ótima fonte, afinal.
― E você tá conseguindo escrever?
― É, eu estou chegando lá. ― fiz uma careta. ― Já sei como quero abordar as coisas, mas ainda não consegui sentar com calma e pensar em como colocá-las no papel.
― Você vai conseguir. ― sorriu.
― Eu tenho que conseguir.
― Não coloque pressão demais em si mesma. Nunca fica bom quando fazemos isso. ― bebeu um gole do café e ajeitou a postura. ― Escuta, não sei se Matty te falou, mas hoje é a festa de lançamento e comemoração de vendagem do álbum. Era para ter acontecido no dia em que lançamos, mas acabou que decidimos fazer na semana antes de os shows começarem.
― Eu sabia que teria uma festa hoje, só não tinha certeza do que era.
― Ia te pedir pra, se possível, você dar uma aliviada nas perguntas hoje. Esse tipo de evento costuma deixar ele ansioso e até um pouco aflito por ser algo promovido pela própria gravadora, enfim…
― Tudo bem. Não precisa se preocupar. Vou dar uma folga pra ele. ― dei um meio sorriso.
― Obrigado.
― Você já deve saber isso, mas é um ótimo amigo. Matty deve ser muito grato por ter te conhecido.
― Depois de tantos anos na estrada juntos, a gente aprende que o mais importante é cuidarmos uns dos outros. ― bebeu o último gole de seu café antes de ir jogar o copo na lixeira mais próxima, voltando para o meu lado alguns segundos depois.
Continuamos a ver a gravação em silêncio pela hora seguinte.

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Ao findar da tarde, ficou decidido que iriam encerrar as gravações, visto que o material estava mais do que suficiente e em ótima qualidade. Após abraçar Katie e cumprimentar boa parte da equipe que trabalhou na gravação, Matthew se encaminhou para o camarim a fim de tomar banho e trocar de roupas. Como de costume, o segui para esperá-lo sentada na ala comum. Durante todo o seu banho, digitei mais e mais palavras no bloco de notas do meu celular, contente com o resultado.
Segundos após ouvir o chuveiro desligar, ouvi a porta do banheiro ser destrancada, atraindo meu olhar para lá. Ao vê-la se abrir, quase tive um treco ao perceber que Healy estava só com a toalha de banho enrolada na cintura.
― Desculpa, esqueci minha roupa. ― franziu os cantos da boca de jeito zombeteiro.
Atravessando a sala rápido para não molhar o chão e com a mão segurando o local onde as pontas da toalha se encontravam, pegou a roupa e voltou para o banheiro. Mentalmente, me perguntei quantas de suas fãs matariam e morreriam para ter presenciado aquele momento enquanto tudo o que eu conseguia pensar era que aquilo tinha sido, no mínimo, constrangedor para nós dois.
― Você e George estavam conversando sobre a festa? ― ouvi sua voz abafada pela porta fechada.
― Ah, sim. Ele me disse que é a comemoração do lançamento do álbum, né?
― Sim. ― abriu a porta, fazendo o vapor sair de dentro do cômodo antes fechado. ― Se você não quiser ir, eu posso inventar uma desculpa e não ir com você.
― Por que eu faria isso?
― Porque eu sei que você não gosta de festas. Deu pra ver na sua cara na outra que fomos.
― Ainda assim, precisamos estar lá. É o lançamento do álbum de vocês e, como é algo da gravadora, imagino que você não tenha muita escolha, certo?
― A verdade é que eu também odeio esse tipo de evento. Só existe duas coisas capazes de me fazer sair de casa para ir em algo assim.
― O que?
― Bebida e droga. ― rimos.
― Imagino que drogas não seja algo que vá ter em um evento promovido pela empresa, certo?
― Mas tem álcool numa quantidade absurda, o que já faz valer a pena.
― Pra mim, não faz diferença. Como eu disse, estou aqui à trabalho, logo, não posso encher a cara.
― Não é que você não pode, você não quer. São duas coisas diferentes.
― Para de tentar me influenciar a fazer coisas ruins, Healy. Mesmo que estivesse de folga, eu não encheria a cara.
― Por que não?
― Você não vai querer me ver bêbada.
― Você sabe que se diz a uma pessoa que ela não vai querer te ver de determinada forma vai fazer ela querer te ver exatamente assim, né? ― brincou.
― Pra você não ficar pensando sobre isso, eu te conto. Geralmente, eu falo mais do que deveria.
― Mas você já não fala bastante?
― Mas, nesse caso, digamos que eu perco um pouco a noção do que é socialmente aceitável dizer para alguém.
― Ah… ― soltou com um ar debochado, compreendendo ao que eu me referia. ― Adoraria conhecer essa sua versão.
― Não. Eu passo. ― ri.
― Acho que deveríamos ir. Você quer passar no hotel?
― Ah, não, estou bem.
Encaminhamo-nos para a saída.
Uma dos fatos mais engraçados que eu havia observado em Matthew nestes dias era que, por mais que a visão de que ele era um homem narcisista e egocêntrico fosse unânime para todos, inclusive, para seus amigos, ninguém poderia acusá-lo de não ser simpático. Por onde passava, Healy cumprimentava a todos, chamava-os pelo primeiro nome, perguntava sobre a família, sobre os animais de estimação, distribuía sorrisos e apertos de mão. Sua figura era extremamente carismática e muito polida, além disso, ao que tudo indicava, pessoas que não tinham muita intimidade com ele o consideravam extremamente “agradável, apesar de pegar um pouco pesado nos vícios”, segundo a figurinista com quem eu havia trocado meia dúzia de palavras ao longo do dia.
Estando em sua companhia, assim como ele não se permitia passar despercebido, também não deixava que o fizessem comigo, apresentando-me a todas as pessoas que ainda não me conheciam ou não haviam me visto anteriormente. Em pensamentos, me perguntava se havia alguma necessidade real de que isso acontecesse, porém não o questionei, afinal, para ele, parecia importante que todos pudessem se dirigir a todos sem precisar de alguém que fosse o “pombo-correio” da conversa.

- x x x -


Dentro da van, desta vez, fui sentada ao seu lado. Tirando um cigarro de dentro do maço, abriu uma pequena fresta na janela e, instantes antes de acendê-lo, pareceu se lembrar de algo. Virando-se para mim brevemente, perguntou:
― Se importa se eu…? ― não finalizou, apenas indicando o tabaco e o isqueiro em suas mãos.
― Vá em frente. ― incentivei.
Observando-o colocá-lo entre os lábios e, protegendo a ponta contra a brisa que entrava pela janela com a mão em concha, acendeu-o, dando uma primeira tragada profunda.
― Você tá bem? ― perguntou ao me ver mexendo no celular.
Dei de ombros em resposta.
― Acho que só estou um pouco cansada. Vocês tem uma rotina um pouco mais intensa que a minha. ― dei um meio sorriso.
― A oferta ainda tá de pé.
― Ah, não. Tudo bem. ― no fundo, eu sabia que não era só cansaço. Estava me sentindo mal a respeito da minha conversa com . Repensando sobre como tinha falado com ela, senti um peso na consciência. Talvez tivesse sido dura e grosseira ao sugerir que o que ela fazia era menos do que o que eu estava fazendo.
― Tem certeza de que é só cansaço? ― inclinou a cabeça, como se procurasse pelo meu olhar.
Olhei-o nos olhos e, por alguns poucos segundos, me senti aquecida, como se tivesse sido enrolada em com um cobertor macio e aconchegante. Relaxando os ombros, sorri.
― Tá tudo bem mesmo. Obrigada. ― pus a mão sobre seu joelho e, quando me dei conta do que havia feito, tirei-o rapidamente, entrelaçando os dedos das mãos uns nos outros para me impedir de repetir o gesto sem perceber. Corei, mas Healy não parecia ter percebido.
Dando uma risadinha baixa, disse pouco antes de dar uma nova tragada:
― Vamos com calma, . ― com os olhos escurecidos devido a falta de luz, deu uma piscadela brincalhona para mim e soltei uma risadinha nervosa.
Como boa parte dos músicos que eu conhecia, Matthew estava acostumado a ser assediado. Entretanto, o que o diferia da maioria era que, mesmo quando brincava, mantinha uma postura cordial, tentando não ultrapassar nenhuma barreira do que seria admissível.
Chegando no espaço onde aconteceria a festa, não entramos com os outros. Ficamos um pouco afastados da porta principal, do lado de fora, pois, segundo Healy, ainda queria fumar mais um cigarro antes de entrar e ter que encarar todas aquelas pessoas durante horas a fio.
Com um novo tabaco aceso entre os dedos, o homem tirou uma cartela de comprimidos do bolso traseiro da calça.
― Você tem água? ― abri minha mochila em busca da garrafa que sempre carregava, entregando-a em suas mãos assim que a encontrei.
― O que é isso? ― semicerrei os olhos, tentando ler o nome na cartela. ― É Xanax? ― me ignorando, colocou o comprimido na boca e bebeu um gole de água em seguida, devolvendo-me a garrafa.
― Espero que dessa vez um só faça efeito suficiente pra eu não querer sair correndo e me trancar num quarto pelos próximos 30 anos. ― ironizou. ― Aliás, belas mãos, . ― franzi as sobrancelhas sem entender como esse tópico tinha algo a ver.
― Obrigada? ― respondi sem muita certeza.
― Você mesma que faz suas unhas? ― olhei-as, constatando que não havia nada demais nas minhas unhas que o fizesse notá-las.
― Hã… sim? Por quê?
― Queria saber pintar minhas unhas. ― pôs o cigarro entre os lábios, dando uma daquelas tragadas compridas, como quem respira fundo.
― Não é muito difícil, ainda mais pra você que tem uma boa coordenação motora nas duas mãos. ― Matthew riu e só percebi que a aquela frase soava estranha depois de dizê-la. ― Digo, você toca instrumentos com as duas mãos, então…
― Não precisa se explicar, . Eu entendi o que você quis dizer. ― me interrompeu. ― E você? Toca alguma coisa?
― Quê? ― arregalei os olhos, um pouco nervosa com o assunto.
― Instrumentos, , pelo amor de Deus. ― riu.
― Desculpa. ― dei um meio sorriso sem graça. ― Aprendi um pouco de guitarra, mas, como eu disse, não levo muito jeito. ― assentiu.
― Não leva mesmo ou você é quem acha isso? ― tragou novamente, encostando-se na parede atrás de si.
― Se eu fosse boa, não seria jornalista, certo? ― brinquei.
― É, você tem um ponto.
― Por que você não gosta de festas? Você é tipo o estereótipo do homem festeiro, o que não faz muito sentido.
― Eu gostava quando era adolescente, mas, conforme você cresce e faz escolhas na sua vida, você adquire algumas fobias e ansiedades sociais. Estar no meio de muita gente que, às vezes, eu nem lembro que conheço, mas que com certeza me conhece me deixa aflito porque geralmente elas querem conversar sobre fatos que nem sempre me lembro. Isso sem contar nas pessoas que acham que tem alguma intimidade pra me perguntar coisas pessoais. Se fôssemos íntimos, a pessoa não teria que me perguntar nada, pois eu diria a ela, certo? ― assenti.
Dando um último trago no cigarro, apagou-o, jogando no lixo.
― Devemos mesmo entrar? ― indagou, fazendo uma careta.
― Você é quem sabe.
― Se eu surtar, por favor, me salve. ― brincou.
― Vou manter os olhos em você. ― ri, seguindo-o para dentro do lugar.
Indo atrás de qualquer taça ou copo com álcool, o homem me deixou para trás. Passei os olhos por todo o ambiente, vendo que aquele poderia facilmente ser confundido com um baile escolar ou qualquer coisa do tipo, uma vez que haviam pessoas muito diversas, exatamente como nos corredores de uma escola. Desde pessoas vestida inteiramente de preto até os engomadinhos, tudo ali, preenchendo meu campo de visão.
A decoração da festa se parecia com algo organizado pela própria banda. Algumas flores como enfeite, um DJ que parecia ter feito uma playlist colaborativa para que todos sugerissem as músicas que desejam ouvir, nos cantos, alguns estofados de couro branco e muita, mas muita bebida.
Sentados em um canto próximo ao bar, encontrei o resto da banda, rindo de algo.
― Jamie estava procurando por vocês. ― Ross anunciou quando sentei ao lado de Adam.
― Onde ele tá?
― Acredito que logo passe por aqui de novo.
― Desistiu de andar atrás do seu amigo? ― George ironizou.
― Tô dando uma folga de mim pra ele. ― ri.
― Vocês querem alguma coisa? Vou pegar mais uma cerveja? ― Ross levantou-se.
― Pode me trazer uma, por favor? ― pedi, vendo-o assentir. Os outros não pediram nada e o vi ir até o bar.
Olhando o movimento à minha frente, sem focar no que diziam ao meu lado, acompanhei o exato momento em que Jamie me enxergou junto deles e fez seu caminho até mim com um daqueles sorrisos de velhos mercadores em busca do melhor negócio.
― Olá, , como você está? ― parou à minha frente, ajeitando os óculos no rosto.
― Bem. E você?
― Por aqui, vamos bem. Tudo correndo bem na sua semana com Matty?
― Ah, sim. Estamos nos entendendo. ― dei um meio sorriso.
― Ótimo, muito bom mesmo. Achei que fosse ser um pouco mais complicado colocá-lo na linha. ― deu uma risada anasalada e não soube exatamente como deveria interpretar aquilo.
― Jamie, você se importa em tirar um tempinho para conversarmos amanhã? Preciso fazer algumas perguntas que acho que você é a pessoa perfeita para responder.
― Oh, claro. Aqui. ― entregou-me um cartão de visitas. ― Este é meu número. Quando estiver disponível amanhã, me ligue ou me mande uma mensagem caso não consiga me encontrar pelo hotel.
― Obrigada.
― Até mais. ― acenou com a cabeça e saiu.
Oborne era uma daquelas pessoas que não havia me feito nada, no entanto, eu não conseguia simpatizar com sua figura. Algo nele me soava falso e corporativo, adjetivos que gostava de manter longe de mim a qualquer custo.

- x x x -


Não havia se passado três horas que estávamos na festa quando Matthew apareceu. Com uma feição sonolenta, sabia que ele não estava bêbado por estar conseguindo terminar todas as suas frases sem comer as sílabas ou determinadas letras.
, você vem comigo?
― Onde?
― Embora.
― Mas já? ― arqueei as sobrancelhas.
― Estourei o tempo que consigo ficar aqui sem ter um colapso nervoso e gritar com a próxima pessoa que vier falar comigo sobre minha mãe ou a morte da minha avó. ― levantei-me, colocando minha mochila nas costas.
Acenando para seus amigos, partimos.
― O remédio bateu um pouco demais? ― indaguei enquanto andávamos lado a lado na rua.
― Tô com cara de cansado?
― Um pouco. ― deu um meio sorriso.
― Você tem esmalte nas suas malas?
― Não. Por quê?
― Pensei em pedir serviço de quarto, ouvirmos música enquanto você me ensina a pintar as unhas. Se você quiser, claro. ― pôs as mãos nos bolsos da calça.
― Pra isso, precisamos comprar o esmalte.
― Não seja por isso. ― atravessou a rua correndo, deixando-me para trás.
Ao final da quadra, havia uma loja de conveniência. Esperando-o do lado de fora, conferi meu celular. Era pouco mais de 23h e não havia nenhuma notificação. Decidi enviar algo para , pois não conseguiria dormir sem fazê-lo.

“Desculpe por mais cedo. Não quero que pense que tentei subestimar o que você faz. Você o faz muito bem e adoro o jeito como você faz. Mas foi muito difícil conseguir fazê-lo começar a falar comigo e esse não é o meu lance. Quero que saiba que eu amo você, ok?”

Minutos depois, ouvi a sineta da porta soar, anunciando a saída de Healy. Guardei o aparelho no bolso e seguimos caminhando até a estação de trem mais próxima. A linha que nos levaria até o hotel estava praticamente vazia naquele horário. Sentamos ao fundo do vagão lado a lado. Abri a mochila, tirando o fone de ouvido de lá, plugando-o ao meu celular, coloquei um dos lados e ofereci o outro a ele.
― Vai dividir comigo? ― sorriu.
― Não vou te deixar sozinho aí, né? Pega logo. ― colocou o lado que ofereci a ele no ouvido.
Deixando All of my friends, do LCD Soundsystem, preencher nossos ouvidos, seguimos viagem em silêncio, vez ou outra, um olhando para o outro. Quando chegou a hora de descermos, tiramos os fones e voltamos a caminhar pelas ruas da cidade até chegarmos ao tão conhecido hall do Sparkle Building.
No quarto de Healy, entramos em comum acordo de que nosso jantar seria espaguete com almôndegas e, na hora de escolher o que iríamos ouvir, o homem me deixou escolher. Acabei escolhendo para começar Letter by the water, de The Japanese House.
― Espera. Você conhece a Amber?
― Quê? Eu ouço. ― dei de ombros.
― E você não nos conhecia? ― franzi as sobrancelhas sem conseguir evitar o ar zombeteiro que meu rosto assumiu.
― Bom, não faz muito tempo que eu trabalho como jornalista cultural e, apesar de gostar muito de The Japanese House, não sou fã. Mas por que exatamente eu deveria conhecê-los?
― Porque George e eu produzimos esse EP. ― respondeu com um tom de obviedade na voz.
Cobri a boca com as mãos, não conseguindo evitar a demonstração de surpresa.
― Ok, agora você me pegou. ― rimos.
― Posso te perguntar uma coisa? ― sentou-se com as pernas cruzadas sobre a cama. Assenti, esperando sua pergunta.
― Por que você sempre senta nessa mesma poltrona? Até porque ela fica bem longe de onde tô sentado.
― É que você tá sentado na sua cama.
― E daí?
― Eu não sento na cama de pessoas com quem eu não tenho tanta intimidade.
― Você ainda acha que não temos intimidade? ― lançou-me um olhar curioso. ― Porque eu tenho uma visão completamente diferente dos fatos.
― Você me contou coisas sobre você que não contou a outras pessoas. Eu entendo. Mas você tem que levar em consideração que a minha curiosidade sobre determinados assuntos é estritamente profissional. Então, se você analisar por esse lado, eu ainda não posso me sentar na sua cama.
― Eu não sei se você se lembra, mas ontem à noite nós dormimos juntos no terraço. E, pelo que eu me lembro, nós acordamos abraçados. ― riu.
Touché. ― admiti minha derrota.
Lentamente, levantei-me da poltrona e sentei-me ao seu lado na cama.
― Seu colchão é macio. ― sorriu.
A campainha ressoou, anunciando que nosso jantar havia chegado. Matthew abriu a porta sorrindo, deu uma gorjeta ao funcionário do hotel, puxando o carrinho para dentro do quarto e fechando a porta atrás de si. Cada um de nós pegou um prato, sentando-se na cama outra vez. Ainda com a playlist que eu havia escolhido tocando uma música aleatória que nenhum de nós dois conhecíamos, jantamos.
― É engraçado como, no imaginário comum, pessoas famosas não comem, não dormem, não escovam os dentes ou fazem qualquer uma dessas coisas que pessoas comuns fazem. ― mastigando uma garfada grande, os cantos de seus lábios estavam sujos de molho. ― Se eu não tivesse aqui, vendo você se sujar com molho de macarrão, eu nunca conseguiria conceber essa imagem.
― Uma das coisas que um artista conhecido tem que se lembrar sempre é: independente de onde ele esteja, de quanta grana ele faça, de quanta visibilidade ele ganhe, ele ainda é humano. Mesmo que os outros não se lembrem disso, eu sou humano. ― limpando a boca com o guardanapo, prosseguiu: ― Às vezes, eu te respondo as coisas e não sei se isso faz parte da entrevista ou se estamos apenas conversando.
― Digamos que eu meio que fui avisada que eventos assim te deixam ansioso, então… te dei uma folga de mim. ― trocamos um sorriso. ― Não se preocupe, estamos só conversando mesmo. Se fosse uma entrevista, eu estaria gravando tudo. ― arqueei uma das sobrancelhas, fazendo-o rir. ― Se o meu eu de hoje dissesse pro meu eu de segunda-feira que era possível manter uma conversa civilizada com você sem nos alfinetarmos, eu não acreditaria.
― Eu também não acreditaria que saí da festa de lançamento do meu próprio álbum pra comer espaguete com você e ouvir The xx. ― ri.
Terminando de comer, colocamos os pratos sobre o carrinho e Healy o empurrou para fora, deixando-o posicionado ao lado da porta do quarto para que algum funcionário levasse embora quando visse.
Animado, tirou o vidrinho de esmalte de dentro do bolso, entregando-o para mim.
― Não precisa fazer todo aquele processo de manicure, só pinta mesmo. ― assenti.
Ajeitei-me, sentando de frente para ele e pegando uma de suas mãos para pintar suas unhas.
― Teve algum momento que você teve ou se sentia insegura sobre sua profissão enquanto era estudante?
― O início da minha vida acadêmica inteiro foi extremamente conturbado. Eu tinha tantos ataques de ansiedade que perdi as contas de quantas vezes fui para o hospital com suspeita de virose e não tinha absolutamente nada. ― contei cobrindo sua unha do dedo mínimo com a primeira camada de esmalte. ― Eu não tinha medo do que produzi ficar ruim. Tinha medo das pessoas não gostarem.
― E o que você fez?
― Comecei a perceber que a opinião dos outros sobre o que produzo não é mais importante que a minha. Primeiramente, sou eu quem tenho que ficar satisfeita com o resultado final, entende? ― parei por um segundo para olhá-lo e vê-lo concordar com um aceno de cabeça.
― Eu queria ter essa autoconfiança. ― encarei-o, segurando o riso. ― É sério. Eu sei que você e mais um monte de gente me acha egocêntrico, mas não consigo afirmar com 100% de certeza que algo que eu fiz ficou bom enquanto outras pessoas de fora não validarem aquilo como algo bom.
― É algo a ser trabalhado mentalmente. Isso é sobre o quanto você se importa com opiniões externas.
― Talvez eu não seja tão 'foda-se' quanto eu acho que sou. ― sorriu.
Concentrada em limpar os cantos sujos de esmalte preto, não falei mais nada, bem como Matthew também não questionou mais nada. Observou-me atentamente enquanto eu pincelava suas unhas, cantarolando uma música ou outra de vez em quando. Depois de passar uma segunda camada de esmalte, o homem elogiou o resultado e disse que tentaria fazer sozinho na próxima vez. Anunciei que iria me deitar, levantando-me da cama. Seguiu-me até a porta, abrindo-a para mim.
― Obrigada por hoje, . ― sorriu.
― Boa noite, Healy. ― sorri de volta.
― Boa noite, . ― dei as costas, atravessando o corredor, procurando o cartão que abria minha porta dentro da mochila.
Meu celular vibrou e, ao tirá-lo do bolso, vi a notificação que iluminava minha tela:

“Desculpe ter sido insistente. Te amo e me mantenha atualizada <3”

Aquela tinha sido uma boa noite.


#6

Me pergunte e eu vou te dizer como tenho estado
(Nervous - The Neighbourhood)


AVISO DE GATILHO: O capítulo a seguir aborda temáticas sensíveis referente a consumo e dependência de substâncias químicas e assédio.


Às 9h da manhã, encontrei com Jamie tomando seu café da manhã no restaurante do hotel. Tomando uma xícara de café e comendo um croissant, Oborne me contou como se tornou um empresário de artistas, como construiu a Dirty Hit ao lado de dois amigos e como foram os primeiros anos agenciando The 1975.
― E assim se passaram anos sem conseguirmos que uma mísera companhia nos desse uma chance. ― disse, bebericando seu café. ― Ah, não. Mas trocar de nome? Várias vezes. ― riu. ― Matty tinha uma ideia obsessiva na cabeça de que ainda não tinham encontrado a própria identidade.
― E você concorda?
― Talvez sim, talvez não. Prefiro acreditar que eles não estavam prontos para isso. Eu não estava pronto para isso.
― Por que você não assinou contrato com eles antes? Quer dizer, a Dirty Hit existe desde 2009, mas o contrato com eles veio só em 2012.
― Eu sempre soube que os garotos mereciam mais que uma pequena companhia que não tinha dinheiro para acompanhar a grandeza deles. A primeira vez que eu os ouvi tive certeza de que eles ganhariam o mundo com muita facilidade, mas pra isso é preciso muito mais que honestidade e acreditar naquilo que você está fazendo. É necessário grana, estrutura… coisas que não tínhamos na época. No fim, depois de tantos ‘nãos’, entramos em comum acordo na gravadora e fizemos uma proposta a eles, que aceitaram, sabendo que aquilo talvez não fosse significar sucesso.
― Vendo o que eles alcançaram depois dos primeiros EPs, imagino que as outras companhias tenham se arrependido, não?
― Ah, com certeza. Por saberem que o empresário deles era ligado à gravadora responsável pelo material que haviam produzido, algumas empresas entraram em contato diretamente com Matty. Algumas ofereceram até o dobro dos lucros do que eles estavam recebendo conosco, porém a banda decidiu que não era justo abandonar quem tinha acreditado neles. ― sorriu. ― Não nos oporíamos se eles quisessem ir para um lugar com mais infraestrutura para recebê-los, mas ficamos muito felizes que não o fizeram.
― Vocês estão construindo uma imagem e uma identidade acessível à jovens músicos que queiram ser profissionais. Pode adiantar alguns contatos que estejam fazendo para possíveis lançamentos?
― Ainda não porque eu não sei quando efetivamente algumas pessoas vão assinar ou quando o material de divulgação vai sair. O que eu posso dizer é que está vindo uma safra bem diversa. Acho que vai ser uma nova fase muito boa pra quem quer conhecer coisas novas.
Fiz algumas anotações em minha caderneta a respeito de procurar se havia algo na internet ou artistas que pudessem ser os novos contratados da Dirty Hit.
, eu sei que você não gosta muito de mim. Não sei por que, mas não acho que isso seja um problema, uma vez que ninguém é obrigada a gostar de ninguém. Porém, se for por achar que eu só me aproveito dos garotos, saiba que nossa relação não é estritamente profissional. ― deu um novo gole em sua xícara. ― Eu conheci esses meninos quando ainda eram adolescentes sonhadores e os vi se tornando adultos realizadores. Mas, mais do isso, eles abraçaram esse projeto de gravadora para jovens sonhadores e estão nos ajudando a tocar isso em frente. ― ajeitou os óculos no rosto. ― Eu decidi virar um agente porque acredito no que faço, acredito nos sonhos de garotas e garotos que me mandam e-mails semanalmente me pedindo uma reunião de apresentação. E tenho muita sorte de não ser o único a acreditar. ― sorriu.
Dei um meio sorriso, fechando minha caderneta com a caneta dentro e parando o gravador.
― Não tenho nada contra você, Jamie. Só acho que não nos conhecemos o suficiente para eu ter uma opinião sobre você.
― Eu te acho uma pessoa intrigante. Matty simpatizou com você. Ele não costuma fazer isso com qualquer pessoa. Então, você realmente é uma pessoa muito boa ou uma muito boa no que faz. ― deu um último gole no seu café com a sobrancelhas arqueada.
― Seja como for, nós acabamos por aqui. ― peguei meu celular de cima da mesa.
― Se precisar de mais alguma coisa, você tem meu número.
― Obrigada. Até mais. ― dei um meio sorriso e saí.

- x x x -


Usando um slip dress com fenda lateral e meu fiel escudeiro coturno, deixei os cabelos soltos após lavá-los e finalizá-los. Considerando a roupa sem bolsos, a mini mochila era o complemento que não poderia deixar de incluir. Normalmente, sabendo que é uma festa na casa de alguém, eu não me arrumaria tanto, todavia, Healy achou que era uma boa ideia me avisar que era a comemoração de encerramento do EP novo de The Japanese House duas horas antes, o que mudava tudo.
Eu não era uma grande fã, entretanto, não podia dizer que não gostaria de conhecê-la e bancar a tiete pelo máximo de tempo que o universo me permitisse.
Abrindo a porta do quarto, dei de cara com Matthew, que, por razões desconhecidas, arqueou as sobrancelhas. Tranquei a porta, guardando o cartão dentro do bolso frontal da mochila.
― Oi. ― escolhi não comentar sua feição, que parecia reprimir um sorriso.
― Oi.
― Pronto?
― É… acho que sim. ― olhou para si mesmo, vestido como quase sempre. A única peça que divergia de seu estilo diário era a camiseta preta no lugar de uma de suas camisas.
Lado a lado, fomos até o elevador e esperamos pela sua chegada em silêncio. Quando as portas se abriram, entramos no espaço juntos, ainda sem falar nada. Apertei o botão térreo e seguimos plenamente calados até chegarmos ao nosso destino. Sentia os olhos de Healy sobre mim vez ou outra, o que durou só até que encontrássemos os outros na entrada do hotel.
Cientes de que talvez aquele fosse o dia que não haveria um sóbrio para voltar para casa, Ross se encarregou de chamar dois táxis. Divididos em um grupo de três ― Adam, George e Ross ― e uma dupla ― Matthew e eu ―, adentramos nos carros e seguimos para o endereço indicado.
No trajeto, nenhuma palavra pronunciada. Seguíamos tão em silêncio quanto antes, o que era bem estranho. Healy sempre tinha tanto a dizer sobre tudo, mesmo que fosse qualquer besteira. Quando o carro estacionou do lado de fora de uma casa branca com um pequeno gramado à frente. Pagamos pela corrida e descemos do veículo, caminhando pela pequena faixa cimentada em meio ao gramado.
Batendo à porta, esperamos por alguns segundos até que uma garota loira e relativamente alta a abriu com sorriso caloroso, segurando uma garrafa de cerveja na mão.
― Oi. ― disse animada, abraçando o homem ao meu lado.
Ao vivo, Amber era muito bonita e não tinha aquele ar melancólico de quando cantava suas músicas.
― Senti sua falta, garotão. ― apertava-o com o braço envolvido em seu pescoço.
― Também senti sua falta, Amb. ― desvencilhou-se dela, sorrindo. ― Desta vez, eu trouxe uma amiga. , essa é a Amber. ― apontou de mim para ela.
― É uma prazer conhecê-la. ― sorri e senti o braço da mulher envolver meus ombros em um abraço apertado.
― O prazer é todo meu.
― Amb, é sua fã. ― fingiu cochichar quando nos soltamos uma da outra, dando uma piscada para a amiga.
― Suas músicas são ótimas. ― concordei um pouco envergonhada, cobrindo um dos meus cotovelos com a mão.
― Obrigada. Eu faço meu melhor. ― seu tom era tão radiante quanto sua expressão facial. ― Bom, entrem. Os outros já chegaram. ― deu-nos passagem pela porta, que ela fechou assim que entramos. ― Por favor, se sirvam. Estamos aqui pra comemorar e, até onde eu sei, é um pouco difícil fazer isso sóbrio. ― levou-nos até uma mesa cheia de garrafas de cerveja e destilados.
― Kirk tá por aí? ― o homem perguntou ao pegar uma garrafa de cerveja.
― Eu o vi há alguns minutos. Deve estar circulando pra ver se alguém precisa de algo. ― deu uma piscada discreta para o amigo.
― Vou cumprimentar uns amigos e já volto. ― anunciou para nós duas, olhando para algo além de nós. Contendo minha curiosidade de me virar e ver o que era tão interessante, assenti, abrindo uma garrafa de cerveja para mim.
, você por acaso é a… nova garota dele? ― questionou, dando um gole em sua bebida em seguida.
― Ah, não. ― ri. ― Eu sou jornalista do Repeat Daily. Estou encarregada de fazer uma matéria perfil dele, então, estamos passando a semana juntos.
― Ah, entendi. Desculpe. ― riu, sem graça. ― É que, como nunca tínhamos nos visto, pensei que… ― não completou sua frase.
― Tudo bem. Eu já sei da fama dele. ― mantive um sorriso irônico, fazendo-a rir de verdade.
― A fama precede o homem.
― Esse é o ponto. ― dei o primeiro gole na minha cerveja. ― Quando sai o EP?
― Final do ano. Outubro pra ser mais exata. Ansiosa?
― Sim. Queria tanto ouvir uma músiquinha que fosse. ― fingi uma cara de triste, fazendo-a rir novamente.
― Mais tarde, eu vou colocar pra tocar 30 segundos de cada uma delas. Não se preocupe.
― Você e Matthew se conhecem há muito tempo?
― Desde 2012. Uma amiga me apresentou pra ele. Ela disse que eu era compositora e ele me perguntou se poderíamos sair pra eu mostrar o que tinha pronto. Respondi que sou lésbica. ― rimos. ― Depois que ele me explicou que era interesse puramente profissional, dei meu número e disse que poderia me ligar quando estivesse na cidade de novo. E foi isso.
― Eu não sabia que ele e o George tinham produzido seu EP.
― A maioria das pessoas não olham ficha técnica, não se sinta culpada.
― Como é a experiência de trabalhar com eles?
― Ótima, na verdade. Acho que é confortável pra ambas as partes trabalhar com alguém que não tem interesse romântico. ― riu. ― Nós nos damos muito bem. Como tem sido passar tanto tempo com ele?
― No início, não foi a melhor experiência, confesso, mas tá funcionando. O que me conforta é que quase todo mundo tem essa mesma experiência, né?
― Bom, eu vou defender o meu amigo e dizer que talvez ele só seja incompreendido. ― sorriu. ― Acho que as pessoas se assustam porque não estão acostumadas com alguém que não tenha tantos filtros pra falar sobre si mesmo e sobre os próprios problemas, sabe? Nos demos bem desde o início, provavelmente, por esse motivo. Tenho problemas que se parecem muito com os dele e é sempre ótimo poder conversar com alguém que entende. ― deu de ombros.
Uma mulher loira, vestindo uma camisa listrada pôs um braço sobre os ombros de Amber, beijando sua bochecha.
― Oi, amor. ― Amber sorriu, abraçando-a pela cintura. ― , essa é Marika, minha namorada.
― Oi, é um prazer. ― estendi a mão para ela, que a apertou, sorrindo para mim.
― O prazer é meu.
― Hã… onde fica o banheiro? ― questionei, muito mais para deixar as duas à sós do que por querer de fato ir ao banheiro.
― Subindo as escadas, primeira porta à direita. Se estiver ocupado, pode usar o do meu quarto, do outro lado do corredor. ― agradeci e saí, rumo às escadas.
Parecendo que a mulher tinha previsto, o banheiro do corredor estava ocupado. Segui suas instruções, adentrando na porta da frente, que deveria ser seu quarto.
O cômodo era iluminado pela luz acesa do banheiro, que estava com a porta aberta. Lá, vi Healy inclinado sobre a pia, pressionando uma das narinas com a ponta do dedo e, na outra, aspirava algo com um canudo feito com dinheiro. Com o coração acelerando de nervosismo, dei os primeiros passos para trás para ir embora.
― Não precisa sair de fininho como se tivesse me visto com o pau na mão. ― debochou. Virei-me para ele, fechando a porta atrás de mim. ― Normalmente, não faço isso na frente dos outros, mas acho que você já sabe muitas coisas sobre mim que outras pessoas não sabem. ― passou as costas da mão pelo nariz, coçando-o com mais força que o habitual.
Caminhei até a porta o banheiro, encostando-me no batente, vendo-o sentar sobre o vaso sanitário.
― É um paradoxo engraçado, né? Eu não costumo usar na frente de outras pessoas, mas, nesses momentos, também não gosto de ficar sozinho.
― Por quê? ― minha voz saiu rouca e baixa. ― Você tem medo?
― É mais fácil descobrir do que eu não tenho medo. ― deu uma risada anasalada.
Com as pupilas dilatadas, Healy me encarava. Alguns fios de cabelo se grudavam nos cantos de seu rosto devido ao suor. Chacoalhava as pernas para cima e para baixo como se não houvesse amanhã e eu poderia jurar que teria um ataque de ansiedade se continuasse assistindo-o fazer aquilo.
― Amber não deu em cima de você? ― além das pernas, começou a mordiscar os lábios, arrancando as peles soltas.
― Por que ela faria isso? Ela namora. ― franzi as sobrancelhas.
― Porque você tá gostosa pra caralho! ― soltou com um sorriso safado estampando os lábios.
Revirei os olhos. Irritada, dei as costas para ele, decidida a deixá-lo sozinho. O homem fez menção de segurar meu pulso, no entanto, esquivei-me dele.
― Não. Por favor, não me toque. ― exprimi, tentando não soar agressiva, afinal, ele não estava sóbrio. ― Eu vou descer e ficar com os outros. Enquanto você não tiver voltado a si, não fale comigo.
Saí do quarto, encaminhando-me para o andar térreo.
Enxerguei George sentado sozinho no sofá da sala, fumando um cigarro. Sem muitas opções, decidi me juntar a ele.
― Você definitivamente decidiu não perseguir mais o Matty? ― brincou.
― Acho que ele tá curtindo um momento só dele agora. ― respondi, tentando usar palavras que atenuassem o que eu tinha visto.
― Vamos ter que levá-lo pra casa a força de novo? ― deu uma tragada curta, olhando para as pessoas em pé, conversando do outro lado da sala.
Não o respondi.
Daniel relaxou as costas no encosto do estofado, suspirando.
― Ele não fica agressivo nem nada, só mais insuportável que o normal e, geralmente, o efeito passa rápido. ― soltou, ao me olhar. ― Você não esperava que ele fosse fazer isso com você por perto, né? ― meneei a cabeça negativamente com os lábios franzidos.
Eu realmente tinha a ilusão de que não chegaria a presenciar essa situação.
― Os outros também sabem? ― apontei com o queixo na direção de Adam e Ross.
― Todos sabem, inclusive Jamie. Só esperamos que não seja como da última vez.
― O que aconteceu?
― Se você não se importar, prefiro que ele conte, se achar que deve fazê-lo, claro. ― assenti. ― Eu acho que vou checar como ele tá. Onde você o encontrou?
― No quarto da Amber.
― Obrigado. ― e saiu, deixando-me ali, na companhia apenas dos meus pensamentos.
Horas mais tarde, quando Amber tocou pequenos trechos de suas músicas novas, não consegui prestar atenção em nada, só no semblante esgotado e culposo de Healy fitando-me do outro lado do cômodo.

- x x x -


Na manhã seguinte, eu ainda não tinha dormido. Com o notebook aberto sobre o colo e esvaziando o terceiro copo de café, aproveitei o apagão generalizado da banda para efetivamente começar a escrever a versão final do texto, mesmo que os esqueletos fossem quase inexistentes.
Uma batida fraca na porta soou. Suspirando, levantei da cama, indo atender quem quer que achasse que tínhamos assuntos importantes a serem tratados às 8h30. Um pouco surpresa ao vê-lo parado à minha frente, não consegui evitar que minhas sobrancelhas arqueassem.
― Você tá muito ocupada? Eu te acordei? ― suas sobrancelhas estavam franzidas e tensas, agregando à sua aparência um ar preocupado.
― Não. Entra. ― dei espaço para que passasse pela porta, fechando-a atrás de mim. ― Senta. ― olhou ao ser redor, aparentemente procurando por uma cadeira ou algo do gênero. ― Pode ser na cama mesmo.
Sentei-me ao seu lado.
― Pra além de me desculpar por você ter me visto fazer aquilo, quero me desculpar pelo que fiz com você. ― franziu os lábios. ― Não devia ter falado com você daquela forma e quero que saiba que eu jamais diria aquilo se estivesse… você sabe…
― Sóbrio? ― completei.
― Isso. ― passou as mãos pelo rosto. ― Desculpa mesmo.
― Tudo bem. ― respondi, assentindo com um meio sorriso.
― Pra te compensar, se você tiver tempo, podemos falar sobre isso ou qualquer outro assunto que você quiser.
― Agora? ― assentiu. ― Você não tá muito cansado?
― Precisa ser agora enquanto eu ainda não fui completamente tomado pela ressaca moral e consigo falar abertamente sobre. ― deu uma risada sem humor. ― Espere que esteja com seu gravador.
― Sempre. ― respondi, jogando-me sobre a cama para alcançar meu celular que estava sobre a mesinha de cabeceira. ― Quando quiser. ― disse, ligando o gravador.
― Assim, no seco? Sem nenhuma pergunta introdutória? ― revirei os olhos.
― Ok, Healy. Quando foi a primeira vez que você usou cocaína?
― Eu devia ter uns 17 anos. No começo não era pra ser um viciado. Eu só achava legal, queria ser como, sei lá, o Jack Kerouac e a geração Beatnik. Eu achava que usar fazia parte de quem eu era. Falando em voz alta, parece uma coisa idiota.
― Você chegou a usar outras coisas mais pesadas?
― Ah, sim. Heroína. Mas eu nunca perdi… pra ela. Diferente da cocaína. Tentei parar sozinho algumas vezes, não deu certo. Quando percebi que tava começando a me atrapalhar, decidi me internar em uma clínica aqui em Londres.
― E como foi a experiência?
― Bom, funcionou. ― deu de ombros. ― Lembro que foi quando tivemos uma folga de umas semanas no final do ano. Jamie fez de tudo pra que eu conseguisse me internar, mas era pra ser segredo, então, não anunciamos pra ninguém. Só minha família e a banda sabiam. O segredo ficou guardado a sete chaves até o dia que eu saí. ― começou a rir. ― E aí aconteceu o que ninguém imaginava. Depois que eu saí pela porta da frente, fui parado por uma pessoa na rua, que literalmente disse ‘ei, você não é o Matt? Matt Healy, The 1975?’ ― ri ao imaginar a situação. ― Na minha cabeça, só conseguia pensar ‘fodeu’. Por fora, eu só confirmei. Ele não falou nada, mas olhou pra porta de onde eu saí e pra mim. Só pediu uma foto, um autógrafo e foi embora.
― E essa pessoa não espalhou nada?
― Eu nunca encontrei nada por aí.
― E por que você voltou a usar? Digo, eu sei que é difícil, mas teve algum motivo em específico?
― Uma vez que você se torne viciado em algo, algumas coisas mudam. Você não vê mais graça na vida sem um estímulo, sem algo que te faça levantar da cama e querer viver. ― umedeceu os lábios. ― Quando saímos em tour pela primeira vez, senti como se tivesse ganhado algum fôlego de vida, mas só isso não era suficiente. Depois de sair da reabilitação, senti que conseguiria ser eu com tanto que tivesse o apoio dos meus amigos e da minha família. E funcionou por um tempo. Aí começa tudo de novo.
Fiquei em silêncio, processando todas aquelas informações.
A verdade era que, na faculdade, tive muitos amigos que fumavam maconha desde a hora que acordavam até a hora de dormir, porém nenhum deles era como ele. Matthew tinha algo que soava como dor em sua voz enquanto contava as próprias experiências. Nunca tinha conversado com alguém que falasse tão francamente sobre o assunto, quem dirá uma pessoa viciada.
Seus olhos estavam opacos, seus cabelos precisavam ser lavados, as mãos um pouco trêmulas, talvez ainda não tivesse fumado naquele dia.
― Você precisa de um cigarro?
― Preciso, mas eu sei que você não gosta do cheiro, então, vou esperar a gente terminar pra eu fumar no meu quarto ou na rua. ― dei um meio sorriso.
― Sua família lida bem com sua dependência?
― Meu pai quase nunca toca no assunto. Minha mãe… bom, ela se sente culpada. Acha que por ser usuária, meu vício pode ter vindo dela ou algo assim. ― cruzou os braços em frente ao peito. ― Às vezes, me preocupo com meu irmão. Ele sabe de tudo isso e sabe que pode conversar comigo a respeito, mas não queria que ele fizesse as mesmas escolhas que fiz.
― Como você acha que vai se sentir se ele as fizer?
― Vou precisar acolher ele, né? Com apoio, já é complicado. Sem, imagino que seja impossível.
― Voltando a 2014, teve um show que você…
― Surtei? ― completou a frase que eu não sabia como fazê-lo. ― Tinha muitas coisas nesse dia. Gemma e eu estávamos por um fio; não conseguiria voltar pra casa a tempo de participar de uma apresentação que Louis faria na escola; e achei que usar uma dose de heroína algumas horas antes do show seria uma boa ideia, o que com certeza foi uma das piores ideias que tive em anos. ― deu outra risada sem humor. ― Foi depois dali que eu fui para a reabilitação.
― Como é a relação dos seus fãs com esse assunto? ― Alguns me aconselham, outros torcem por mim. Sem contar os que repostam vídeos em que não estou nos meus melhores dias com ‘pobrezinho’ na legenda. ― riu. ― Claro, eles não sabem de tudo porque ainda não me sinto completamente confortável para falar sobre tudo, mas, quando esse momento chegar… ― parei de gravar.
― Acho que podemos encerrar por aqui. ― interrompi-o.
― Por quê? Você já acabou? ― franziu as sobrancelhas.
― Um bom jornalista sabe onde termina a entrevista e começa uma conversa pessoal.
― Foi pelo que eu disse? Não se preocupe. Você tem meu total aceite para publicar cada vírgula do que eu disse.
― Uma relação jornalista-fonte é como um adulto e uma criança. Nessa relação, o jornalista é o adulto que precisa enxergar à frente, como isso vai soar pras outras pessoas, se vai causar problemas futuros e quais são os efeitos de uma forma geral a longo prazo. A fonte é a criança. Ela pode falar o que quiser e se sentir à vontade, mas nem sempre ela tem noção do peso das próprias palavras. ― suspirei. ― O que eu quero dizer é que, se um dia você quiser se desvencilhar de tudo isso, não quero que o que eu produzi sobre você seja algo que te impeça de fazer isso. Jamais... nunca na minha vida quero que o que eu fizer com meu cérebro e com as minhas mãos seja o motivo de alguém não conseguir se reinventar e seguir em frente. ― pus a mão sobre seu joelho. Vendo que seu olhar acompanhou toda a trajetória da minha mão, voltando-se para o meu rosto assim que a pousei em seu corpo.
Tirei-a rapidamente, pousando-a em meu colo.
― Desculpa. Eu preciso perder essa mania. ― dei uma risadinha nervosa.
― Sabe que eu não me importo, né? ― sorriu.
― É, mas algum dia alguém vai se importar. Preciso de verdade parar de fazer isso.
― De qualquer forma, você tem roupa de festa?
― Pelo que eu olhei, em uma das minhas malas, trouxeram um vestido que, inclusive, nunca usei. Por quê?
― É aniversário de um dos donos da gravadora. Brian. Ele gosta dessas coisas chiques e pomposas. Sem contar que todos os anos eles faz duas festas de aniversário. Uma onde ele convida todas as pessoas relacionadas a empresa e aproveita para fazer negócios. Na outra, ele apenas comemora com família e amigos.
― Em qual das duas nós vamos?
― Na primeira. ― fiz um “ah” com a boca sem sair som algum.
Eu não era o tipo de pessoa que sabe lidar com eventos extremamente elegantes, mas era bom saber que teria a oportunidade de treinar minha pose profissional antes de ir embora.
― Claro que se você não quiser ir…
― Eu vou, sim. É minha chance de usar o meu vestido intocado. ― rimos. ― Que horas vamos sair daqui?
― Acredito que umas 18h. Temos o dia livre hoje, então, pode dormir um pouco e se arrumar com calma.
― Como sabe que eu não…?
― Você tá cheirando a café. ― interrompeu-me com um sorriso brincalhão.
Franzi os lábios.
― Parecia um ótimo café. ― riu.
― Ok, ok. Eu vou dormir e você devia fazer o mesmo.
― Eu vou. ― levantou-se. ― Te vejo mais tarde? ― assenti, guiando-o até a saída.
Assim que o homem saiu, tranquei a porta e voltei para a cama. Poderia enlouquecidamente continuar escrevendo até a hora de começar a me arrumar ou desligar o computador e só me preocupar com isso no dia seguinte. Conferi a hora na tela do celular e ainda não eram 10h, portanto, programei o despertador para 15h, deslizei meu corpo para debaixo das cobertas e apaguei como não fazia desde que chegara ali na segunda-feira de manhã.


#7

O que em você me deixa tão empolgado?
(Love On Repeat - Pianos Become The Teeth)


Passei quase duas horas me arrumando. Odiava quando me avisavam muito em cima que seria algo “chique”. Mal dava tempo de dar uma hidratadinha e uma boa finalizada no cabelo. Fosse como fosse, alcancei o resultado que queria graças ao vestido de tule que eu nunca tinha usado e olhos pretos esfumados que demoraram quase 40 minutos para ficarem prontos. Entretanto, olhando-me no espelho, a impostora dentro da minha cabeça me dizia que eu não deveria ir tão arrumada, afinal, era só a jornalista acompanhando uma fonte, não uma verdadeira convidada. Então, qual era o ponto de vestir um vestido com um decote tão profundo, com mangas tão bufantes e com uma fenda tão alta em uma das pernas?
Olhei a hora e eu não teria tempo para me desmontar para vestir outra coisa mais simples. “Graças a Deus”, pensei tentando me justificar com a minha versão impostora.
Colocando o celular dentro da pochete “invisivel” presa à minha cintura do lado de dentro do vestido, saí do quarto, trancando a porta com o cartão e, bem próxima da porta para que ninguém visse parte do meu peito quando eu afastasse o tecido do meu corpo, o guardei junto do celular.
Virando para o corredor, meu corpo sobressaltou ao ver Matthew parado em frente à sua porta rindo.
― O que você tá fazendo?
― Podia ter avisado que tava aí, né? ― respondi com a mão no peito, respirando fundo para recuperar meus batimentos cardíacos do susto.
Com as mãos nos bolsos da calça social, sentia seus olhos me percorrem da cabeça aos pés, a feição congelada naquele sorriso que poderia significar tudo e nada. Franzindo as sobrancelhas, apontei com o dedão sobre meu ombro para o elevador.
― Vamos? ― convidei.
― Ah, claro. ― passou uma das mãos no rosto e, a passos lentos, me seguiu até o elevador, que estava com as portas abertas em nosso andar por algum tipo de milagre.
Igual ao dia anterior, não trocamos uma mísera palavra durante nossa descida ao térreo e muito menos quando entramos no carro, todavia, Matthew escolheu se sentar no banco frontal da van, acompanhado de Jamie, onde conversavam baixo sobre qualquer coisa. Já eu, sentei-me entre George e Ross, o que foi ótimo, pois ambos se encarregaram de me contar quem era o aniversariante. Brian Smith, um dos donos fundadores da Dirty Hit, era mais um homem de terno, com semblante sério e, nas poucas fotos em que sorria, exibia o mesmo sorriso de mercador viajante de Jamie. O que havia de errado com esses homens?
Devidamente atualizada, consegui evidenciar um pouco mais segurança ao cumprimentar o homem quando pisamos no salão de festas de uma das coberturas mais caras de Londres. Nunca tinha visto um lugar com tantas coisas douradas ou feitas de cristal e senti medo de expôr um espaço tão delicado a minha não tão rara falta de jeito.
Depois de fazer perguntas muito pontuais sobre meu local de trabalho e meu chefe, Smith saiu acompanhado de Jamie para ir cumprimentar seus possíveis clientes e investidores ali presentes.
Considerando a quantidade de vezes em que estive em um ambiente como aquele ― um total de zero vezes ―, não conseguia agir naturalmente. Os dedos dos meus pés, mesmo escondidos pela barra do longo vestido preto, estavam dormentes, as juntas dos meus dedos das mãos estavam ficando doloridas por estarem fechados em punho e uma queimação começava a se formar na base da minha nuca devido a tensão.
― Você tá ótima nesse vestido, mas precisa muito relaxar. ― George ofereceu uma taça de champagne para mim, que aceitei já dando um gole.
― Obrigada. Eu só… nunca estive em um lugar assim. ― confessei.
― Onde todo mundo tem essa pose almofadinha ou onde tudo parece feito para quebrar se você minimamente encostar um dedo? ― Healy soltou antes de bebericar sua bebida.
― Acho que é mais a segunda opção.
― George tá certo. Você tá ótima, não se preocupe. Além do mais, Brian parece ter simpatizado com você. Ele não costuma trocar mais de três frases com quem ele não tenha nenhum interesse. ― bebi um gole um pouco maior do meu champagne ao mesmo passo que a banda encarregada da trilha sonora da festa começou a tocar John Coltrane. [n/a: lança essa aqui] ― Eu amo essa música. Nós deveríamos dançar. ― sugeriu e eu franzi a testa, julgando aquela uma péssima ideia.
― Eu acho melhor não.
― Por que não? Qual é, ? É só uma música. ― estendeu a mão em minha direção, pronto para me guiar até o meio das outras pessoas que dançavam mais a frente. ― Aliás, é seu último dia e você precisa relaxar. ― deu piscadela para mim.
Respirei fundo, bebi o resto do meu champagne, deixando a taça no balcão atrás de mim. Segurei sua mão, permitindo que o homem me guiasse para o centro da pista de dança. Pondo sua taça sobre a bandeja de um garçom que passou por nós, Matthew pôs uma mão em minha lombar enquanto eu posicionava uma das minhas em seu antebraço.
― Você gosta de John Coltrane?
― Meu pai é apaixonado por ele, então, pode-se dizer que foi a trilha sonora da minha infância. ― ri.
― Sempre quis fazer uma música que soasse como a dele.
Dando-me conta de como meu tórax estava exposto pelo decote do vestido, fiquei feliz em perceber que nossos corpos não estavam colados. Isso seria embaraçoso. Movimentando-nos com passos curtos e ritmados da esquerda para a direita e vice-versa, o homem indagou:
― Será que se eu não fosse vocalista de uma banda ou se você não fosse jornalista nós iríamos nos conhecer mesmo assim? ― dei de ombros.
― Quem sabe? Talvez isso estivesse programado para acontecer independente de quem somos.
― O que é isso? A Matrix? ― rimos. ― Você acredita em destino?
― Acho a definição de destino uma coisa boba. Uma ilusão que revistas adolescentes vendem pra jovens mulheres se iludirem e evitarem a crueldade do mundo adulto por quanto tempo conseguirem.
― Uh, profundo.
― Mas eu acredito que existam forças superiores que nos levam para onde devemos estar.
― Tá falando de Deus?
― Não. Só acho que tudo tem um propósito.
― E se não houver propósito nenhum?
― Bem… pelo menos conheci alguém legal. ― trocamos um sorriso.
― Achei que você ainda me achasse um cuzão, principalmente depois de ontem.
― Assim como você me provou que não é tão ruim quanto todo mundo acha, quero que saiba que eu não julgo as pessoas pelas suas escolhas ou atitudes individuais. Apesar de tudo, é inegável que você é um cara legal.
― Uau, por essa, eu não esperava. ― ironizou.
― O que você esperava, então?
― Que você estivesse doida para ir embora e correr atrás da sua promoção.
― Quero fazer isso também, mas só quando nosso tempo juntos acabar. ― seus olhos estavam brilhosos como ainda não vira nos últimos dias. Havia algo neles que me magnetizavam, não deixando que eu desviasse os meus olhos.
Com um meio sorriso suave estampando os lábios, tão perto dele, ficava fácil entender porque tantas meninas e mulheres não resistiam a persegui-lo na rua até conseguiriem um fiapo de sua atenção. Sua áurea era atraente e encantadora. Mesmo que o contato de nossos corpos fosse mínimo, eu o sentia muito presente. Estávamos juntos em um momento particular, em uma redoma só nossa.
Meu corpo estava plenamente consciente de seu toque. Nas regiões onde suas mãos estavam pousadas, as sentia aquecidas, eletrizadas.
― Vou sentir falta de alguém para importunar. ― suas palavras vinham ornadas de um tom divertido e afetuoso.
― Você ainda tem seus amigos.
― Eles sabem quando eu faço de propósito. Não tem mais graça. ― rimos baixo.
― Você me odeia mesmo e não faz nem questão de disfarçar, né?
― Na verdade, de todas os jornalistas que conheci, você foi talvez a única que fez eu me sentir humano em todo o processo, o que é estranho. Geralmente, sou só o cara drogado e polêmico, sem filtro nenhum de uma banda britânica que ninguém entende muito bem por que faz sucesso. ― dei um meio sorriso. ― Eu sei que você tá aqui pra conseguir aquela vaga de emprego, mas quero que saiba que, mesmo que você não consiga, não significa que você não é uma profissional incrível e que vai alcançar muitas coisas. ― acostumada com a sensação nada incomum, fiquei sem palavras.
Sustentando nosso contato visual, aparentemente, haviam muitas coisas que Healy ainda gostaria de me dizer, porém, por alguma razão, sua escolha foi o silêncio.
A atmosfera entre nós estava completamente diferente de quando havíamos chegado. A falta de diálogo não era necessariamente uma falta. Não era como se precisássemos falar mais o que quer que fosse. Não era como quando entramos no elevador mais cedo e o constrangimento demandava que preenchêssemos o ar com palavras sem muito sentido só para que os minutos passassem mais rápido.
Na minha cabeça, me ocorreu que, em qualquer outra situação, essa seria a parte em que nos beijaríamos e descobriríamos se haviam motivos suficientes para que mantêssemos contato após o término da noite. Surpresa com o pensamento, como se aquele fosse um canal de TV no qual eu tinha perdido o interesse, zapeei no controle remoto até encontrar outro assunto que me desvencilhasse daquela bobagem.
― Eu nunca faço isso e talvez devesse continuar assim, mas, se você quiser, posso te enviar a versão finalizada do texto para aprovação antes de entregá-lo para o Sullivan na terça.
― Não. ― respondeu rápido e eu ri. ― Não precisa e eu não quero. Confio em você.
― Sério? ― arqueei uma das sobrancelhas.
― Tudo que eu te contei foram coisas que não há problema algum se você falar sobre. Tá mais que autorizada a usar tudo. E não existe nenhuma outra pessoa com quem eu gostaria de ter dividido. ― sorriu.
― Obrigada. ― sorri.
Tirando a mão da minha lombar e erguendo nossas mãos juntas, Matthew me rodopiou, retomando nossas posições iniciais em seguida.
― Você não me parece o tipo de cara que gosta de dança de salão.
― Mas minha mãe gosta e ela me ensinou pra eu poder dançar nos bailes da escola. ― rimos.
― Tá aí mais uma imagem que eu não consigo conceber nem no meu momento de imaginação mais fértil. Você foi em quantos bailes? ― a música findou e nós nos separamos.
― Em todos? ― respondeu.
― Você é mesmo incógnita, né? ― ri.
― Um homem tem que ter seus mistérios pra conseguir manter pessoas interessadas, certo? ― disse, pegando duas taças de champanhe da bandeja de um garçom, estendo uma para mim.
― Sei que vou soar repetitiva, mas você realmente não tem medo do que eu possa escrever sobre você? ― meneou a cabeça negativamente.
― Já falei. Eu confio em você. ― deu de ombros.
Sorri e bebi o primeiro gole da minha bebida.
Toda a noite na companhia de Matthew era uma surpresa. Às vezes agradável, às vezes nem tanto. E aquela estava sendo imprevisivelmente estável e boa.

- x x x -


De malas prontas para voltar para casa, Matthew me convidou para almoçarmos juntos pela última vez. Tentando entrar em comum acordo sobre o que iríamos comer, finalmente decidimos pedir uma lasanha, o único prato do cardápio que nós dois gostávamos.
Sentados bem longe da entrada do restaurante do hotel, o homem trocava mensagens com alguém e me contava sobre o quão ansioso estava para ver a mãe e o irmão na semana que se iniciaria. Fazia alguns meses que os tinha visto em uma ocasião que não envolvesse shows ou programas de TV.
Aquela conversa me fazia lembrar dos meus próprios pais e da última vez que eu visitara. Encontramo-nos no final do ano anterior para passarmos as festas de fim de ano juntos. Foi um dos anos mais divertidos, pois agora meus pais achavam que tinham ganhado a habilitação definitiva para zoar jornalistas e eu estava oficialmente livre da faculdade, com meu canudo em mãos.
― Você foi bem longe agora, né? ― soltou o celular sobre a mesa.
― Quê? ― me dei conta de que ele me fizera uma pergunta.
― Tava pensando no quê? ― inclinou-se na minha direção, apoiando o cotovelo sobre a mesa.
― Lembrei da minha família. Faz alguns meses que eu não os vejo também.
― A vida de jornalista é tão solitária quanto a de músico?
― Pode apostar que sim.
― Acho que essa é deixa perfeita para eu e pedir seu telefone com a desculpa que podemos ser menos solitários se mantivermos contato. ― um garçom com nossos pedidos se aproximou da mesa, pedindo licença para posicionar os pratos à nossa frente.
― Sei que você pode fazer melhor que isso. ― brinquei.
― Isso é um ‘não’?
― É um ‘talvez’. ― sorri desafiadora.
Dando a primeira garfada em meu almoço, senti meu celular vibrar no bolso. Desbloqueando-o pude ler a resposta de ao meu pedido de que ela me buscasse na estação de metrô às 16h.

“Conte comigo, gata ;*”

Bloqueei o aparelho, depositando-o sobre a mesa e continuando a comer. As refeições, quando se lembrava que elas existiam e precisavam ser feitas, eram um dos poucos momentos em que Healy ficava quieto sem que ninguém precisasse pedir ou que ele não estivesse se segurando para não dizer algo que não deveria.
Ao final do almoço, Matthew precisava fazer suas malas, entretanto, insistiu tanto para me levar até a estação de trem que acabei concordando. Passando pelos quartos de todos, despedi-me de um por um, inclusive de Jamie, agradecendo por terem me recebido e terem me dado as informações que pedi.
Na estação, o homem decidiu que ficaria comigo enquanto minha linha não chegasse. Conversamos pouco sobre nosso gosto em comum pelo transporte público e de como ele estava começando a evitá-lo devido às constantes intervenções de pessoas que queriam tirar fotos ou autógrafos, mesmo quando ele estava dormindo.
Segundos antes de meu trem estacionar e abrir as portas dos vagões, Healy me entregou a mala que ele carregara para mim e, tirando do bolso um pedaço de papel, entreguei-o em sua mão.
― O que é isso? ― olhou para a pequena folha dobrada.
― Meu número pessoal… caso você esteja se sentindo solitário. ― dei um meio sorriso.
Segurando as duas malas, entrei no vagão central, sentando-me bem ao lado da porta. Sinalizando o recebimento de uma nova mensagem, meu celular vibrou. Ao tirá-lo do bolso, exibia a seguinte notificação:

“Me manda aí um oi só pra eu checar se você deu seu número de verdade”

Sem conseguir conter o sorriso que se formou em meu rosto, respondi com uma única palavra:

“Bobo”

“Ok, já sei que é você mesmo”.


Ri e guardei o celular no bolso.
Era indiscutível que eu sentiria sua falta.


#8

Bem, eu acho que fiquei maluco, não é triste?
(The Ballad Of Me and My Brain - The 1975)


AVISO DE GATILHO: O capítulo a seguir aborda temáticas sensíveis referente a transtornos psicológicos.


Na segunda-feira de manhã, fiquei encarando a tela do meu computador na redação por 40 minutos seguidos antes de conseguir começar a trabalhar. Não haviam mais neurônios ativos na minha cabeça. Além da insegurança, é óbvio. Já na terça-feira, eu ainda não estava recuperada dos danos causados por duas noites seguidas sem dormir.
Pendurada sobre a divisória atrás da tela do meu computador, soltou:
― Você já enviou seu texto?
― Quê? ― respondi antes de meu cérebro assimilar e compreender suas palavras. ― Ah, não. Vou enviar agora. ― pressionei o botão no mouse sobre a tecla enviar na tela.
― Como é o título? ― apoiou o queixo sobre as mãos ainda pousadas na divisória.
― ‘Nada revelado, tudo negado’.
― Impactante. Mas o que significa?
― Quando você ler, vai entender.
― É um tipo de piada interna entre vocês? ― arqueou as sobrancelhas algumas vezes em um tom sugestivo.
― Não. ― ri. ― É por causa de uma fala dele nos primeiros dias em que estávamos juntos.
― Como eles são de um modo geral?
― Ross e Adam são legais, mas meio tímidos, nos falamos bem pouco, na verdade. Matthew fala pelos cotovelos e houveram dias que eu facilmente poderia ter sido presa por tê-lo enchido de porrada. George é o ponto de equilíbrio. Fala na medida certa e é bem solícito.
― Você odiou o Matthew tanto assim?
― No começo, sim. Depois, nos acostumamos um com o outro e até que foi uma experiência legal. ― dei de ombros.
― Não é possível que você só tenha isso pra me contar. ― “não, não é. Nós dois dançamos uma música lenta e eu cogitei a ideia de beijá-lo, além de ter dado a ele meu telefone”, pensei.
― Bom, a vida real não é tão emocionante quanto as fanfics, né? ― bufou.
― Mas deveria ser, sabe? Por isso, escolhi ser jornalista.
― Pelo menos, eu conheci Amber Bain.
The Japanese House?
― Em carne e osso.
― E como ela é?
― Não se parece nem um pouco com as músicas tristes dela. ― ri. ― Ela é simpática e bem engraçada. Quando ficamos sozinhas, me perguntou se eu era ‘a nova garota dele’. ― fiz aspas com os dedos.
― O que você disse? ― levantou a cabeça, atenta ao que eu dizia, como um filhote que ouve o dono pronunciar seu nome.
― A verdade. ― deu um soquinho na divisória. ― O que você queria que eu dissesse?
― Sei lá. Pelo menos tirasse uma com a cara dela.
, nós nem nos conhecemos direito. Como vou fazer isso? ― franzi a testa, vendo-a dar de ombros.
― Por que Deus dá boas oportunidades a quem não sabe aproveitar?
― Ok, bonitinha, será que posso começar a trabalhar?
― Já devia ter feito isso há muito tempo. ― ri, conferindo minha caixa de e-mails com as demandas do dia.
As seis horas de turno daquele dia não foram o acontecimento mais rápido que já presenciei em minha vida, mas boa parte disso se dava porque meu corpo estava implorando por 20 horas ininterruptas de sono profundo. Eu estava tão cansada que nem um ataque de ansiedade seria capaz de me dar insônia.

- x x x -


Na quarta-feira, meu corpo já se encontrava um pouco melhor do cansaço, entretanto, sentia como se a ansiedade fosse me comer viva, de dentro para fora. Minhas mãos estavam trêmulas e meu coração batia tão forte em minha caixa toráxica que, em determinados momentos, pensei que iria infartar a qualquer instante.
Vi Josh circular de um lado para o outro durante boa parte do dia. Queria interceptá-lo e questionar quando ele pretendia dar o resultado de quem seriam os novos repórteres especiais. Isso certamente acabaria com as minhas chances de me tornar uma, então, apenas me segurei.
Não tinha consumido nem uma gota de cafeína e sentia como se minha cabeça fosse explodir de tanto trabalhar. Para melhorar, tinha esquecido meu ansiolítico em casa. Sim, era um ótimo dia para ser eu.
A demanda de material para ser postado no site estava mais alta do que na semana retrasada. Eu daria tudo para beber um golinho que fosse de café, todavia, se o fizesse iria colapsar muito em breve.
Quando o horário do almoço chegou, não consegui comer absolutamente nada. Acabei escolhendo beber um chá de camomila para acalmar meus nervos e meu estômago, que tinha começado a doer e tinha certeza que eram os efeitos colaterais de ser uma mulher ansiosa que havia esquecido de tomar seu remédio antes de sair de casa.
Porém, foi por volta das 15h que Sullivan apareceu na redação chamando a todos para ouvirem seu comunicado a respeito dos resultados. Considerando a situação que meu estômago se encontrava ― mais embrulhado que pacote de presente ―, só queria que aquela palhaçada acabasse logo para eu preparar algum outro chá que desse um jeito naquela sensação ruim.
― Vou ser breve, pois sei que a demanda de hoje está grande. Como vocês já sabem, eu vou apontar os repórteres especiais que, inicialmente, vão cuidar das matérias produzidos para a nossa revista, que começa a ser publicada no próximo mês. ― uma queimação tomava conta da boca do meu estômago, fazendo com que o mal-estar se estendesse para o meu esôfago. ― Os nomes que eu disser a seguir serão as pessoas que creio que tem o que é preciso para realizarem esta tarefa tão importante para o nosso veículo. ― comecei a sentir o gosto da minha bile na boca. ― Então, vamos lá. ― abriu um envelope.
À medida que Josh lia o nome e sobrenome dos meus colegas, eu suava frio. Como se fossem gravetos finos suportam mais peso do que o possível, minhas mãos tremiam. Meu estômago era como uma bomba-relógio, prestes a explodir.
― … Patricia Monroe e . ― finalizou, dobrando a folha ao meio.
Paralisada de surpresa, senti como se todo o sangue da minha cabeça tivesse se esvaído.
passou uma das mãos pelos meus ombros, sorrindo e falando algo que não conseguia distinguir. Sua voz soava muito longe para mim. E, subitamente, o grand finale da ansiedade aconteceu: de uma só vez, queimando meu esôfago e minha garganta, involuntariamente, meu corpo se curvou para frente, fazendo com que eu vomitasse tudo que não tinha comido naquele dia.
O silêncio imperou no ambiente. Todos os olhos estavam postos sobre mim, assustados com o acontecido.
― Vou levá-la a enfermaria. ― anunciou, tirando a todos do transe que a situação os havia posto. ― Vem, amiga.
Minhas faces queimavam de vergonha e agradeci por ter sido tirada do centro das atenções, mesmo que só por alguns minutos.
Quando chegamos a enfermaria, no andar térreo do prédio, a enfermeira me pediu para sentar na maca para que pudesse me examinar.
― Você está bem pálida. O que está sentindo? ― perguntou pondo as mãos na minha testa e pescoço para sentir a temperatura. Em seguida, me entregou o termômetro para colocá-lo embaixo do braço.
― Meu estômago estava doendo bastante. Tomei alguns chás e não melhorei.
― Além disso, sentiu mais alguma coisa? ― meneei a cabeça negativamente. ― O que você comeu?
― No café da manhã, ovos mexidos e torrada com suco de morango. No almoço, não consegui comer, mas isso não me impediu de vomitar.
― Você toma algum remédio regularmente além de contraceptivos?
― Ansiolítico. Alprazolam de 0,5 miligramas.
― Toma quantas vezes ao dia?
― Três. Mas hoje eu esqueci de tomar a primeira dose e esqueci minha bolsinha de remédios em casa, então, só vou tomar uma.
― Quais outros sintomas além do mal-estar você teve?
― Sudorese, nervosismo excessivo, um princípio de dor de cabeça, taquicardia. ― o termômetro apitou e a mulher o tirou de mim, conferindo o resultado, anotou-o em sua prancheta.
Apertando a braçadeira o máximo que pode no meu braço e colocando parte do estetoscópio sobre a junta com meu braço, checou minha pressão arterial e a anotou também. Ligando a lanterninha em forma de caneta no meu rosto, pediu que eu tapasse um olho e com o outro seguisse a luz e vice-versa.
― Você está bem. Provavelmente foi só um ataque de ansiedade provocado pela falta do medicamento misturado com as suas funções de trabalho. ― foi até o armário atrás de sua mesa, tirou uma cartela de comprimidos de dentro de uma caixa, encheu um copo com água e entregou ambos os itens para mim. ― Pegue um. Vai fazer você se sentir melhor em breve.
Destaquei um dos comprimidos, pondo-o na boca e bebendo a água em seguida.
― Se em duas horas ele não fizer efeito, volte aqui e eu te encaminho para o hospital, ok? ― assenti, descendo da maca. ― E você ― apontou para . ―, fique de olho nela. ― minha amiga fez um sinal positivo com o dedão, levando-me de volta para a redação.
Todos já tinham voltado aos seus postos de trabalho e digitavam tão enlouquecidos quanto antes do pronunciamento de Sullivan.
Ao chegar à minha mesa, vi um post-it colado na minha tela, informando-me que, se estivesse melhor, deveria ir conversar com meu chefe. Eu só queria que o efeito do remédio fosse mais rápido para não sentir uma nova onda de aflição começar a se formar dentro do meu cérebro e se espalhar pelo meu corpo através da minha corrente sanguínea.
A passos trêmulos, rumei para a sala de Josh sem muita certeza do conteúdo de nossa conversa. Podia ser que ele quisesse me demitir, me dispensar pra casa, me mandar reescrever toda a matéria, escolher outro título, outras fotos… a lista de catástrofes era interminável.
Bati duas vezes com as juntas dos dedos em sua porta e o ouvi me mandar entrar.
― Você queria me ver? ― era a pergunta mais idiota do mundo, mas precisava que ele começasse a falar logo antes que eu tivesse um piripaque.
― Ah, sim. Sente-se. ― apontou para a cadeira à sua frente, onde me sentei. ― Está tudo bem com você?
― Não foi nada demais. Esqueci minha medicação hoje de manhã e bum! ― fiz um gesto imitando uma explosão em minha cabeça, rindo nervosamente. ― Mas tá tudo bem.
― Ótimo, ótimo. Te chamei para falarmos sobre a sua matéria. Como eu disse, você vai ser promovida a repórter especial e tudo isso graças ao material que você produziu. ― pôs a reportagem impressa sobre a mesa à sua frente. ― O seu título é excelente e você tratou o assunto com maestria. Vocês se deram bem? ― dei de ombros.
― Depois dos primeiros dias, sim.
― Pois parece que vocês ficaram super próximos.
― Não tínhamos muita escolha, né? ― cocei a parte traseira da minha orelha. ― Acho que nos acostumamos com a presença um do outro.
― Se eu te deixar responsável por fazer as reportagens perfis, você acha que dá conta? ― arqueei as sobrancelhas.
Seria uma responsabilidade absurda em cima de mim, mas esta poderia ser uma das minhas únicas chances.
― Tá. Pode ser.
― Muito bom. Você não vai poder ficar uma semana com todas as pessoas. Com algumas será apenas um dia inteiro, mas acho que você dá conta.
― E qual o deadline pra essas matérias?
― A revista vai ser mensal, então, vamos combinar 5 dias depois do término da apuração?
― Nossa, perfeito. ― meu maior medo era que ele dissesse dois a três dias. Cinco dias era um sonho.
― Bom ― começou a digitar algo no computador. ―, a reportagem de Matthew vai para o site porque esse tinha sido o combinado com ele, porém sua próxima irá para a revista, ok? ― assenti. ― Sinta-se livre para postá-la a hora que quiser no site. E obrigado por me importunar. Às vezes, eu preciso desse empurrãozinho para ver os cérebros de ouro que estão aqui dentro. ― sorriu.
― Eu que agradeço pela oportunidade. ― sorri de volta, levantando-me da cadeira e saindo.
― Ah, se você ainda estiver mal, pode tirar o resto do dia de folga. ― disse enquanto eu abria a porta.
― Estou bem. Obrigada. ― e saí.
De volta a minha mesa, após uma hora de reportagem postada no site, já haviam chovido comentários. Metade xingando Healy, a outra metade o idolatrando. Realmente, o mundo era polarizado quando se tratava de Matthew Healy e companhia limitada.
Ao final do meu turno de trabalho, queria a todo custo passar a noite comigo. Recusei seu autoconvite veementemente, pois precisava muito, após tanta pressão autoinfligida, tomar um calmante e dormir cerca de 10 horas seguidas. Claro que para me deixar ficar sozinha foi necessário deixá-la me levar até a porta de casa e prometer que ligaria se passasse mal de novo. Ao mesmo tempo que esse lado preocupado e protetor de fosse chato, era reconfortante saber que havia alguém a quem eu poderia recorrer.
A primeira coisa que fiz ao botar os pés em casa foi tomar banho. Não havia nada de ruim no meu dia que não pudesse ser curado com um bom banho quente, seguido de alguns episódios de Simpsons enquanto jantava. Não pude tomar uma cerveja durante minha refeição, pois, dentro de alguns minutos, teria de tomar outra dose de ansiolítico, o que foi relativamente triste já que, nesta noite, havia algo a ser comemorado.
Sem sono, decidi que me deitaria e ficaria vendo memes e fofocas que me mandara por mensagem ao longo do dia. Em posição fetal, coberta pela minha manta, quase duas horas haviam se passado. O relógio já marcava 1h12 da madrugada e o sono não parecia nem perto de me arrebatar.
Uma notificação brotou no alto da tela o aparelho capturando minha atenção:

“Você tá acordada?”

“Quem é?”
Respondi ao não reconhecer o número.

Vibrando em minhas mãos, meu celular apontava uma ligação do mesmo número, atendi e quase sobressaltei ao ouvir a voz do outro lado da linha.
― Eu não acredito que você não salvou meu número, . ― aquele mesmo tom debochado de quem estava prestes a rir preencheu meus ouvidos.
― Só porque uma pessoa está acordada não significa que você possa ligar pra ela, Healy. ― respondi, tentando não parecer afetada.
― Desculpe, mas eu não queria escrever pra você. Acho que é melhor quando podemos ouvir a voz da outra pessoa sempre que possível. E não conseguiria aguentar até amanhã pra falar com você. ― sorri.
― Então diga. O que é tão urgente que não pode esperar?
― Te liguei para dizer que eu adorei a sua matéria. ― ficou mudo por alguns segundos e tive que prender um grito de surpresa na garganta. ― A melhor parte dela com certeza foi que você deu material para quem me odeia continuar me odiando e quem me ama continuar me amando. Acho isso essencial na manutenção do meu reinado. ― riu.
― Se vocês gostou tanto assim, qual a sua parte preferida? ― questionei, desafiando-o. Normalmente, eu não faria isso, entretanto, queria saber se ele realmente estava falando a verdade ou se estava cumprindo com algum tipo de trato ou obrigação que alguém lhe impusera.
‘Mesmo com as bolsas da noite não-dormida embaixo dos olhos, Healy tem energia de sobra para conversar comigo, para fazer os amigos rirem e para comprar briga em uma reunião de planejamento. Aliás, um dos poucos momentos do dia em que é possível presenciá-lo em total e completo silêncio é enquanto faz suas refeições, quase sempre isolado dos outros, observando a tudo e a todos ao seu redor com olhares inquietos e pensativos’. ― leu. ― Como Sullivan pode ter cogitado não te deixar escrever mais? ― ri.
― Ele não está errado sobre o que diz e o que faz. Nossa profissão é muito delicada, não pode ser exercida por um amador qualquer. Uma vírgula fora do lugar e você pode destruir a vida de alguém.
― Enquanto eu lia, me lembrei de cada momento que você descreve e quase consegui me ver de fora, como se eu fosse apenas um observador.
― Essa era a intenção. Se você conseguiu, significa que eu consegui. ― respondi, vitoriosa.
― Tem mais uma coisa que eu queria dizer. Vamos nos apresentar em Londres na sexta, queria saber se você quer ir.
― Você quer que eu vá como jornalista ou como…
― Como minha amiga. ― interrompeu-me, assumindo um tom de voz ultrajado. ― A não ser que você não me considere seu amigo.
― Não é isso. ― ri. ― É que nosso contato foi bem profissional, então pensei que…
― Pensou errado. ― interrompeu-me de novo. ― Aceita?
― Eu posso levar uma pessoa? É a minha amiga, . Ela adoraria conhecer vocês.
― Claro. Vou incluir o nome dela nas credenciais.
― Obrigada. ― sorri. ― Você está visitando sua mãe?
― Ah, sim, mas agora ela e meu irmão já estão dormindo.
― Como estão as coisas?
― Exatamente como da última vez em que vim. Eles estão bem e estou feliz que pudemos nos ver de novo antes de eu passar uns meses longe.
― Fico contente por você. ― alguns segundos de silêncio se materializaram em nossa ligação.
Até o som de sua respiração me soava confortável.
― Vou te deixar dormir porque sei que amanhã você acorda cedo de novo. Te vejo na sexta?
― Pode apostar que sim.
― Ótimo. Boa noite, .
― Boa noite, Healy. ― sorri e desliguei.
Como se fosse aquela ligação que me faltava para conseguir relaxar, peguei no sono minutos após largar o celular sobre a mesa de cabeceira.


#9

Respire e tente pensar direito porque há tanta pressão no meu cérebro
(god save me, but don’t drown me out - YUNGBLUD)


Havíamos combinado de chegar no local do show às 18h. Como fizemos troca de expediente, nem mesmo foi para casa. Equipada com uma mochila que, com toda a certeza, continha mais de uma muda de roupas e um par de sapatos, estava pronta para dormir na minha casa. E, se não saíssemos o mais cedo possível, a cabeça de minha amiga explodiria sobre seus ombros.
Após chegarmos à minha casa, gastei quase toda a hora seguinte olhando meu guarda-roupa. Fazia muito tempo que não escolhia uma roupa para sair, pois todos os meus passeios estavam consistindo basicamente em ir à um bar próximo ao trabalho depois do expediente com , o que era meio triste se considerarmos que eu era uma jovem adulta de 25 anos.
O dia havia amanhecido nublado e um pouco frio. Checando a previsão do tempo, havia possibilidade de chuva na parte da noite, portanto, acabei optando por uma calça de alfaiataria xadrez, os já tão conhecidos coturnos preto, um cardigan de lã mais grossa e dois números maiores que o meu. Não queria parecer ter gasto muito tempo me arrumando, então, no fim, conseguiria me misturar no meio de jovens indies que comparecessem ao show tranquilamente.
Sendo uma das pessoas mais sedentárias que eu conheci na vida, insistiu para que pegássemos um táxi até a estação de trem. De lá, seguimos até a estação mais próxima ao local do show. Diferente do que achei que seria, trocamos poucas palavras até chegarmos ao nosso destino final. Talvez ela só estivesse nervosa de conhecer os ídolos.
Do lado de fora, na bilheteria, apresentamos nossos documentos para que nossa entrada fosse autorizada. Um dos seguranças, nos guiou até uma portinhola lateral, onde Jamie nos esperava com seu sorriso de mercador.
― Olá, . ― apertou minha mão em um cumprimento. ― E você deve ser a , isso?
― Só . ― cumprimentou com um aperto de mão também.
― Ok, . Como estão?
― Bem. ― respondemos em uníssono.
― Ótimo. ― deu espaço para nós. ― Vamos, entrem. Eles estão esperando vocês no camarim principal. ― adentramos e ele fechou a porta. O corredor à nossa frente era longo, tinha baixa iluminação e estreito. ― Eles vão começar a passagem de som em alguns minutos. Quiseram esperar por vocês.
― Somos importantes assim? ― brinquei.
― Bom, vocês são as convidadas VIP da banda, então, acredito que sim. Continuem andando. É a porta no final do corredor. ― nos guiou, visto que estava atrás de nós duas.
Ao final do corredor, o homem passou a nossa frente, abrindo a porta branca com uma placa de escrita “camarim principal” pendurada.
― As convidadas de vocês chegaram. ― abriu a porta por completo para que entrássemos.
― Muito bom te ver de novo, . ― por ser o que estava mais próximo da porta, Adam foi o primeiro a me cumprimentar.
― É bom ver você de novo também, Adam. O mesmo pra vocês. ― sorri para todos, que devolveram o gesto. ― Essa aqui é minha amiga, . , esses são… bem, você sabe quem eles são. ― me interrompi ao lembrar que ela é quem era fã e todos riram. ― é uma grande fã de vocês.
― Desde quando? ― Healy se pronunciou pela primeira vez.
― Eu fui no primeiro show que vocês fizeram aqui sob a alcunha de The 1975 e os achei incrível. Depois fui em todos que vocês fizeram na cidade e na região.
― Uau. Você deve ter tipo uma coleção de ingressos. ― Ross deduziu.
― É, eu tenho. ― riu, envergonhada.
― Isso precisa muito ser celebrado. Jamie, peça a Britany que, quando terminar, traga uma tamanho P pra gente.
― Claro. Vou lá ver se o pessoal da montagem precisa de algo. Garotas, fiquem à vontade enquanto estiverem aqui. ― deu leves tapinhas em nossos ombros e se retirou.
― E nós estávamos só esperando vocês chegarem para irmos passar som. ― George disse, largando o copo que segurava em mãos sobre uma mesa. ― Vocês vem com a gente? ― me olhou com uma carinha de cachorra que caiu do caminhão de mudança.
― Amiga, você pode ir. ― falei baixinho pra ela. ― Eu quero dar uma descansada antes do show.
― A gente se vê depois, então? ― respondeu sorridente, seguindo os homens que saíam em fila do camarim.
Matthew e eu ficamos a sós no espaço.
― Você vai passar som depois?
― Já passei. Sempre antes deles. ― começou a pegar cabides com suas roupas penduradas. ― Fique à vontade. Se estiver com fome, a comida tá ali. ― apontou para o outro lado do cômodo, onde havia uma mesa com lanches e bebidas. ― Eu preciso tomar um banho. ― assenti, sentando em uma das poltronas.
― Eu vou descansar. ― dei dois tapinhas nos braços do estofado de courino, vendo-o dar uma meio sorriso e dirigir-se ao banheiro.
Mexendo no celular, comecei a rolar minhas linhas do tempo de todas as redes sociais de forma intercalada. havia enchido seu instagram de stories de vídeos e fotos da passagem de som. Não consegui conter um sorriso. Era bom saber que estava conseguindo recompensá-la pelos últimos dias ou talvez meses de preocupação de alguma forma.
Ouvindo meu estômago começar a roncar, decidi que era uma boa ideia dar uma conferida em quais eram as comidas que me esperavam sobre a mesa do outro lado do camarim. Levantei-me e rumei para lá, capturando um sanduíche, preparei um café puro em um dos copos de plástico que estavam ao lado.
Ainda de pé e comendo, continuei a olhar minhas redes sociais, como se alguma bomba ou coisa do gênero pudesse ter caído no momento em que bloqueei a tela há cinco minutos.
Sem muita noção de quanto tempo havia se passado que eu estava ali, tive uma sensação estranha de estar sendo observada, que, logo, deixou de ser apenas a sensação, materializando-se na forma de um braço passando ao meu lado. Sobressaltei, derramando café quente na minha blusa e derrubando o celular sobre a mesa.
― Porra! ― exclamei em um tom de voz preso em minha garganta.
Virei-me a tempo de ver Matthew com os olhos arregalados. Nervoso, ofereceu-me a toalha molhada que segurava.
― Meu Deus, você precisa parar de fazer isso! ― peguei a toalha de sua mão e, mentalmente, agradeci que ela estava úmida, pois aliviou o calor que me queimava através da blusa.
― Sinto muito, , eu não… ― pegou vários guardanapos, limpando as gotículas de café de meu pescoço e colo. ― Desculpa mesmo. Eu só queria pegar meus cigarros.
― Podia começar a fazer barulho quando abre portas ou se aproxima. O que acha? Eu acho uma ótima ideia. ― ironizei.
Inclinando-se sobre mim, afastei meu rosto dele, franzindo a testa em incompreensão.
― Fica tranquila, . ― com a mão cheia de guardanapos novos, balançou-os para mim. ― Só quero ajudar a consertar a cagada que eu fiz. ― ofereceu-os para mim.
Completamente descolada da realidade, notei que sua camisa estava aberta e as pontas de seu cinto pendiam de sua calça, como se não tivesse tido tempo suficiente para terminar de se vestir antes de sair do banheiro.
Seu corpo estava próximo do meu. Muito próximo do meu…
― Você precisa trocar de blusa.
― Quê? Aqui?! ― perguntei assustada. ― Eu não tenho…
― Não se preocupe. Eu tenho um monte de camisas aqui, posso te emprestar uma. ― encaminhou-se para uma arara que ficava ao lado da penteadeira, pegando uma de suas muitas camisa pretas. ― Toma. Se quiser tomar banho, você pode.
― Acho que não precisa. Só vou… ― apontei para a porta do banheiro ao pegar a peça de sua mão.
― Como quiser. ― assenti. ― Preciso fumar um cigarro. Volto em alguns minutos. Tranque a porta do banheiro se não quiser que alguém veja… você sabe, enquanto você se troca. ― gesticulou em frente ao próprio peito para simbolizar o meu.
Entrando no banheiro, girei a chave na maçaneta. Apoiando as mãos sobre a pia, deixei minha cabeça pender para frente e suspirei. Não era possível que, depois de tudo, eu estava começando a ficar nervosa em sua presença como no primeiro dia em que nos encontramos.
O mais engraçado era que, em questão de segundos, esqueci que ele quase havia queimado os meus peitos instantes antes.
Tirando a camiseta completamente molhada, umedeci uma de minhas mãos com água e um pouco de sabão líquido, espalhando pela área onde eu cheirava café. Pelo menos naquele dia em específico, não saíra de casa usando sutiã. Uma peça a menos para precisar limpar. Depois de tirar o excesso de sabão, sequei-me com papéis toalha e vesti a camisa, abotoando-a e colocando parte dela dentro de minhas calças. O tecido da peça tinha exatamente o cheiro de Healy: amaciante, perfume e cigarros.
Dei um último suspiro antes de sair do banheiro. E, como se tivéssemos combinado, ao mesmo tempo que abri a porta do banheiro, vi-o abrir a porta de entrada do camarim. Com um meio sorriso, olhou para o meu tórax e, em seguida, para o meu rosto.
― Já voltou?
― Esqueci meu isqueiro. Aliás, fica muito melhor em você do que em mim. ― suas piscadas sempre pareciam estar em câmera lenta toda vez que o ouvia me elogiar ou ser cordial comigo. ― Sendo assim, acho melhor você nem me devolver.
Sem ter muitas opções de resposta disponíveis, escolhi a que parecia se encaixar na maior parte das situações com Matthew: o silêncio.
Outra vez, fui para perto da mesa de lanches, pronta para pegar uma maçã. O homem fez o mesmo e nossas mãos quase se tocaram para pegar a fruta.
― Pode pegar. ― incentivei-o encolhendo minha mão tal qual um caracol que se recolhe dentro de sua casca.
― Não, pega pra você. Quem não conseguiu tomar o café inteiro foi você, lembra? ― dei um meio sorriso sem graça, escolhendo preparar um novo copo com café para mim. ― Sinto muito mesmo, tá? Não queria que…
― Tá tudo bem, Healy. ― dei um sorriso mais aberto. ― Foi um acidente e eu estou bem. ― beberiquei meu café.
Nossos quadris estavam encostados na mesa, logo, estávamos muito perto um do outro. Ainda conseguia sentir o calor do seu corpo e, consequentemente, me fazia sentir o ardor crescente. Conseguia sentir minhas bochechas queimarem e isso só se intensificou quando, assim como na festa de aniversário de Brian, me ocorreu como seria se nos beijássemos. O constrangimento só aumentou à medida que me dei conta de que vestia sua camisa e a forma como estava me encarando.
― Que foi? ― questionei, tentando disfarçar a voz de quem havia sido pega em flagrante.
― Acho muito engraçado quando você viaja assim. Quando você volta, é sempre como se tivesse pensado algo que não deveria. ― riu. ― Tava pensando em putaria, né?
― Quê? ― franzi as sobrancelhas. ― Não! Tá ficando maluco? ― ri nervosa.
― Pois parece que tava. ― riu mais ainda, desencostou-se da mesa, ficando de frente para mim. ― E tá tudo bem se estiver, ok? ― inclinou-se pra frente, deixando nossos olhos na altura um do outro.
― Não seja infantil. Tava aqui me perguntando se desliguei o ferro da tomada. ― menti esperando que ele não notasse.
― Ah, claro, porque qualquer pessoa normal fica vidrada assim só pela possibilidade de não ter desligado algo da tomada.
― Bom, se você não é milionário e o apartamento em que mora não é seu, é um motivo de preocupação constante.
― Ok, . ― seu rosto ficou ainda mais perto do meu e, por instinto, prendi a respiração.
Queria muito me afastar dele o mais rápido possível, porém não queria ser a pessoa que foge ou que se assusta com pouco. Essa nunca foi minha postura e não era agora que eu iria assumi-la. Ao ver seus olhos descerem para a minha boca e permanecerem por algum tempo ali, senti que estávamos no limite de fazer o que não deveria acontecer e só isso já deveria ser motivo suficiente para que me afastasse fisicamente dele. Entretanto, havia um abismo entre pensar e fazer. Esse abismo ficou muito evidente para mim quando meu corpo não seguiu o que meu cérebro sugeriu que seria o seguro e correto a ser feito.
Vi, quase que em câmera lenta, seu rosto se aproximar do meu. Sua respiração batendo contra a região central do meu rosto. Seus olhos semicerrados fixos em meus lábios até que a sensação de sua boca cobrindo a minha se tornou real.
Minha consciência gritava para que eu não prosseguisse com aquilo, afinal, era loucura. Já meu corpo resolveu por si só que o melhor era corresponder.
Envolvi os braços ao redor de seu pescoço e senti suas mãos em minha cintura, colando nossos corpos um no outro. Por dentro, eu estava borbulhando. O que eu sentia não era mais apenas calor. Era tesão acumulado.
A verdade era que eu não saía com ninguém há alguns meses e Matthew era o tipo de cara por quem, em situações comuns, eu me atrairia. Sendo assim, juntando os dois fatores, ficava bem simples de compreender porque cedi com tanta facilidade em sua primeira investida. Claro que, caso me perguntasse, jamais admitiria isso em voz alta.
Tirando uma das mãos de minha cintura, colocou-a em minha nuca, passando a me pressionar contra seu corpo em dois pontos diferentes. Todas as vezes que sua língua roçava na minha faziam com que eu ficasse mais excitada. Além disso, pensar que poderíamos ser pegos por alguém da equipe, da banda ou por me deixava a beira de desfalecer, fosse de nervoso, fosse de tesão.
Desvencilhando-se de mim lentamente, vi o momento em que seus olhos se abriram e se encontraram com os meus. O homem nada disse. Segurou minha cabeça entre suas mãos, dando um meio sorriso, como se estivesse satisfeito.
Copiando seu silêncio, tirei os braços de seu pescoço e tentei agir naturalmente, como se aquilo tivesse sido um acontecimento corriqueiro ou, melhor, que nem havia acontecido.
Percebendo o que eu fazia, Matthew deu uma risadinha baixa, passando as mãos pelo rosto e se encaminhando para fora.
― Você vem? ― franzi as sobrancelhas. ― O show ainda vai rolar. ― riu.
― Ah, tá. Já está na hora?
― Quase. ― segui-o para fora. ― Mas você pode procurar um bom lugar pra ficar com sua amiga. ― assenti, arqueando uma das sobrancelhas, fingindo que estava tudo normal e que a central de controle do meu cérebro não estava em chamas ao tentar processar todos os ocorridos dos últimos minutos.
Andando atrás do homem pelo corredor estreito, subimos alguns lances de escadas, de vez em quando, sendo parados por pessoas que estavam trabalhando na produção, uns só para trocar meia dúzia de palavras com Matthew, outros para informá-lo sobre algo a respeito do equipamento e coisas do tipo. Sua forma de agir era completamente natural, como se não houvesse acontecido nada durante nossa estada juntos no camarim. Queria muito ser esse tipo de pessoa que não precisa se esforçar para omitir.
Ser ansiosa me tornava uma péssima mentirosa, o que era horrível.
Perto da coxia, avistei conversando animadamente com Adam. Nunca o tinha visto rindo tanto na vida. É, parece que alguém tinha conseguido atingir novos níveis.
― Garota, eu achei que você não fosse mais aparecer. ― soltou ao me ver chegando.
― Eu aproveitei pra… ― como se algo estivesse preso na minha garganta, pigarreei antes prosseguir: ― comer alguma coisa. ― franziu as sobrancelhas.
― Você tá bem? ― pôs a mão em meu ombro.
― Ah, sim. 100%. ― fiz um “ok” com os dedos. ― Devia só ter tomado uma água. Algo parece estar entalado na minha garganta. ― consegui identificar um lampejo de preocupação na feição de minha amiga, silenciosamente me fazendo uma pergunta. ― Não é nada. Sério. ― ela devia achar que eu teria um ataque de ansiedade.
― Preciso ir me arrumar. ― Adam interveio em nosso momento. ― Nos vemos depois? ― apontou para , que acenou com a cabeça.
Se ela tivesse aberto a boca, teria latido sem sombra de dúvidas.
― Você tá bem mesmo? ― retomou o assunto.
― Sim, . Agora, por favor, aproveite a sua noite, ok? ― segurei-a pelos ombros. ― Parece que você fez um amigo, hã?
― Nossa, ele é muito legal.
― Feliz de descobrir que seu ídolo não é um babaca? ― ri.
― Muito. A sensação é ótima. ― olhando para meu tronco, semicerrou os olhos. ― Espera. Você já tava com essa blusa antes? Ou melhor, essa blusa é sua? ― deu um sorriso sugestivo.
― Não é nada demais, ok? Matthew derrubou café na minha camiseta e eu peguei a dele emprestada.
― Hm. Sei. ― respondeu como quem não acreditou muito.
Dei um empurrãozinho de leve em seu ombro, fazendo-a rir.
Uma mulher que aparentava ter, em média, nossa idade nos ofereceu cadeiras para sentarmos onde estávamos. O show estava prestes a começar. As luzes haviam se apagado e os quatro homens estavam posicionados em fila na coxia ao lado da nossa. À medida que foram subindo ao palco, os gritos da plateia foram ficando mais e mais estridentes. As luzes reacenderam e eles começaram a primeira música.
Minhas sinapses já não trabalhavam mais como antes. Apesar de conseguir interagir com e, por vezes, cantar algumas músicas com ela, não conseguia curtir o momento. Era como se a última vez que meu cérebro tivesse produzido alguma serotonina tivesse sido há muitos e muitos anos. Naquela hora de show, só conseguia me transportar para o momento em que estávamos apenas eu e ele no camarim. E se alguém nos viu? E se ele contasse para alguém? E se alguém notasse que eu estou estranha? O que ele queria com aquilo? Por que aquilo aconteceu? O que havia de errado comigo? E se ele não tivesse gostado do beijo? Mas por que isso fazia diferença? Preciso contar para a ... mas não posso! Ninguém pode saber. Mas e se ela perceber? Odiava ficar obsessiva com fatos que estavam totalmente fora do meu controle, pois não havia nada que pudesse fazer para não ficar obsessiva, muito menos que pudesse consertar o que havia de errado.

- x x x -


Ao findar do show, os quatro se despediram do público e vieram até nós.
― Venham. ― George nos chamou.
Seguindo-os até o camarim principal, ao chegarem lá, cada um deles pegou seus pertences para ir tomar banho nos camarins individuais.
― Podíamos ir jantar, né? ― Ross sugeriu. ― Eu tô com fome, não é possível que mais ninguém aqui esteja.
― Eu concordo 100%. ― Adam respondeu.
― Também estou dentro. ― George se manifestou.
Por algum motivo, todos, inclusive eu e , olhamos para Healy.
― É, pode ser. ― deu de ombros.
― Vocês vão também, né? ― Adam indagou antes de sair para seu banho.
e eu trocamos um olhar e assentimos juntas, parecia até que tínhamos ensaiado. Nossa confirmação foi o suficiente para fazê-los se encaminharem para seus respectivos banhos enquanto os esperávamos ali mesmo, sentadas.
Quando todos voltaram, resolvemos que não havia um que não mataria por tacos, por isso, nos encaminhamos para o restaurante de comida mexicana mais próximo.
Durante todo o trajeto e jantar, não consegui me envolver nas conversas e piadas que surgiam na roda. monopolizava boa parte da atenção, o que era ótimo, assim ninguém me notava e eu podia deixar meus neurônios torrarem por mais algumas horas antes de começar a ficar obsessiva com a ideia de que aquilo não era saudável.
Por sua vez, Matthew, como sempre, falou mais que todos, riu de várias piadas dos amigos e de e, em nome de todos, deu à sua tão fiel fã uma camiseta autografada pela banda. Nesse momento, achei que ela fosse chorar, mas não foi o que aconteceu. Apenas olhou durante longos segundos para a peça com um sorriso nos lábios, finalmente, os agradecendo por a terem recebido e pelo presente.
Em meio às suas longas anedotas, Healy olhava para mim e quase conseguia ouvi-lo na minha cabeça me perguntando por que eu estava tão quieta.
Quando todos anunciaram que já tinham acabado de jantar, dois fatos me levaram do alívio a um breve instante de pânico: 1) “Vamos pagar a conta e dar no pé”; 2) “John nos chamou para ir em uma festa, o que acham? Vocês querem ir também?” queria muito ir, podia ler isso em sua testa, no entanto, eu não tinha a menor condição de fazê-lo.
― Você pode ir, se quiser. Eu realmente tô esgotada. ― passei uma das mãos pelo rosto.
― Mas você vai voltar pra casa sozinha? Nada disso! ― quase protestou. ― Se você vai pra casa, eu também vou.
― Mas você quer ir na festa. Não estrague sua noite pela idosa aqui. Eu vou ficar bem.
― Bem, eu não planejo ir pra festa nenhuma. Se o problema é ela não ter companhia para casa, eu posso levá-la. ― Healy se pronunciou, dando de ombros, como se não fosse nada.
Nós duas o olhamos com as sobrancelhas franzidas.
― Que foi? Eu concordo com a . Você não deve voltar pra casa sozinha, tá muito tarde.
― Ele tá certo. ― concordou.
― Ótimo. Um complô. ― ironizei. ― Se esse é o preço que eu pago para conseguir ter um encontro com a minha cama antes das 04h da madrugada, eu aceito. ― me abraçou.
― Me manda uma mensagem quando chegar em casa, ok? ― cochichou e eu assenti.
Matthew se despediu dos amigos e de .
Tomamos a direção contrária a deles para irmos à estação de trem mais próxima. Calados, apenas caminhamos lado a lado evitando até mesmo olhar um para o outro. Essa era uma das razões que me fizeram gostar dele: sabia captar e respeitar quando a outra pessoa não estava no clima para manter uma conversa animada e descontraída sobre o que quer que fosse.
Dentro do trem que nos levaria à estação localizada a poucas quadras da minha casa, tirei os fones de ouvido da mochila, plugando-o ao celular e oferecendo um dos lados ao homem. Com um meio sorriso, aceitou, pondo-o em sua orelha. Pus Dendron, do The Hotelier para tocar em nosso caminho para casa.
Ao chegarmos em minha estação, descemos do vagão e voltamos a andar lado a lado quietos pelas ruas da cidade, o que não durou muito.
― Você tá bem? ― pôs as mãos dentro dos bolsos frontais da calça jeans.
― Eu ouvi essa bastante hoje. ― dei um sorriso sem graça.
― É que você tá quieta, então… ― deixou no ar.
― Às vezes, minha cabeça me leva pra lugares que eu não queria ir.
― E por acaso isso tem algo a ver com o que aconteceu mais cedo? ― arriscou.
― Não quero que me entenda mal, mas eu não acho que deveríamos… o que eu quero dizer é que talvez ninguém deva saber sobre isso. ― sorriu.
― Não se preocupe, , seus segredos estão a salvo comigo. ― brincou. ― Fora isso, tá tudo bem mesmo? Sua cabeça não foi pra nenhum lugar ruim, né?
Parei em frente a escadaria que levava para a portaria do meu prédio.
Como nos dias em que tivemos aquelas longas conversas sobre seus vícios, sua família e seus amigos seus olhos carregavam aquele brilho afetuoso e tranquilo. Sua feição inteira tinha um ar compassivo que me fez dar um meio sorriso.
― Chegamos. E, não, minha cabeça não foi pra nenhum limbo maligno. ― rimos.
Estendi a mão em sua direção.
― Obrigada por ter me acompanhado. ― olhando para a minha mão estendida, deu uma risada baixa, finalmente segurando-a.
Desprevenida, senti-o me puxar pela mão, segurando-me pela cintura com um dos braços.
― Você sabia que, se vamos fingir que um beijo não existiu, podemos fingir que dois não existiram, né? ― arqueei as sobrancelhas surpresa. ― A não ser que você que não queira que um segundo exista… ― sugeriu.
Era a primeira vez naquela noite que minha mente estava absolutamente em silêncio. Não haviam vozes, suposições, conselhos… nem mesmo a impostora deu as caras para me dizer algo terrivelmente desmotivador!
Intercalando o olhar entre seus olhos e sua boca, via-o inteiramente concentrado na minha.
― Foda-se. ― murmurei mais para mim do que para ele, envolvendo seu pescoço em meus braços, beijando-o.
É, se alguém ficasse sabendo eu estaria bem fodida.


#10

Me deixe ocupar a sua mente
(jawbreaker - Machine Gun Kelly)


Assim como na semana anterior, todas as bombas do mundo pareciam ter atingido nossa redação na segunda-feira. O site estava pipocando das mais variadas notícias e eu, além das postagens, estava estudando tudo o que podia sobre meu próximo entrevistado: Joe Mulherin, mais conhecido como nothing,nowhere., um cantor e compositor que havia lançado seu primeiro álbum no Bandcamp e que estava ganhando um certo nome na cena independente.
estava tão atolada quanto eu. As fofocas a serem apuradas não paravam de brotar em seu e-mail, portanto, ainda não havia se pendurado nem uma vez sequer em nossa divisória. Na nossa pausa, fomos pegar café na copa juntas e acabamos combinando de que, após o fim do nosso expediente, iríamos jantar.
Obviamente que, como nem tudo são flores, eu ainda não havia contado a sobre o(s) beijo(s) com Matthew na madrugada de sábado e nem sabia se queria dividir isso com ela. A possibilidade de fazê-lo me deixava ansiosa a respeito de sua reação. Não fazê-lo me deixava ansiosa com a possibilidade de que ela descobrisse por si só. No fim, nenhuma me parecia uma boa opção.
Às 20h, esperei-a fazer sua última postagem do dia para, enfim, irmos jantar.
Enquanto caminhávamos para o restaurante mais próximo, me convenceu que deveríamos comer hambúrgueres, anéis de cebola à milanesa e milkshakes. Só de calcular o quanto de colesterol e glicose entraria no meu corpo, conseguia ouvir os gritos de socorro da minha versão mais saudável dentro da minha mente. Entretanto, não protestei tampouco recusei sua oferta. Estava me sentindo uma péssima amiga e queria agradá-la uma única vez que fosse.
Após 25 minutos sentadas em uma mesa da lanchonete, nossos pedidos chegaram. Já nas primeiras mordidas que dei em meu lanche, percebi a forma como aparentava me analisar. Atenta a todos os meus movimentos, parecia uma bióloga observando um animal exótico. Antes que me perguntasse se eu estava bem ou se algo havia acontecido, resolvi dar início ao assunto que a manteria falando por bastante tempo:
― Como foi a festa?
― Foi… Uau! ― sorriu.
― Isso significa ‘boa’, certo? ― brinquei.
― Sim. ― riu. ― Nunca imaginei que os conheceria tão de perto, quem dirá que iria pra uma festa com eles. Aliás, todos são bem mais legais pessoalmente. E, sobre o que você disse a respeito do Adam e do Ross serem tímidos, acho que foi precipitado.
― Bom, essa foi a minha visão baseada em uma experiência pessoal. E nossas abordagens interpessoais são bem diferentes uma da outra.
― Que seja. ― deu de ombros. ― Adam e eu conversamos muito. Agora tenho um motivo para ele ser meu preferido.
― Por favor, me diga que você foi esperta o suficiente pra dar seu número a ele.
― Ele pediu e eu dei. ― respondeu como se aquela fosse uma informação irrelevante.
― Ótimo. ― mordi um anel de cebola sorrindo.
― Você e o Matty, hã? ― soltou em um tom sugestivo.
― O que tem a gente? ― tentei conter o pânico na minha voz. Chegamos a esse assunto mais cedo do que eu havia calculado.
― Não sei. Vocês parecem tão próximos.
― Ele me contou coisas bem pessoais enquanto eu o entrevistava, acho que isso é o suficiente para termos um pouco mais de intimidade, não?
― Não era disso que eu tava falando. Vocês parecem próximos, tipo como se estivessem atraídos um pelo outro.
― Pelo amor de Deus, , essa é a coisa mais ridícula que eu já ouvi na minha vida. ― minha cabeça era um misto de caos, terror e pânico.
― Por quê?
― De onde você tirou que um cara como ele se interessaria por uma mulher como eu?
― Defina ‘uma mulher como você’.
― Sem estabilidade financeira e muito menos emocional, que, ainda por cima, é jornalista.
― Eu acho totalmente possível e ainda ouso perguntar por que não. Você é ótima no que faz, escreveu uma matéria belíssima sobre ele. É inteligente e bonita na mesma proporção. Sem contar que é a maior gostosa que eu conheço. A pergunta a ser feita é: que cara não se interessaria?
― Será que dá pra gente parar de falar sobre a fanfic que você criou sobre nós na sua cabeça?
― Amiga, mas qual o problema se ele estiver interessado? ― revirou os olhos e deu uma mordida em seu lanche.
― Mas ele não está! ― rebati entre dentes.
― E como você explica a forma como ele tava te olhando?
― Chega, ! ― tirei uma nota de 20 libras de dentro da mochila e a pus sobre a mesa.
― Onde você vai? ― questionou de boca cheia.
― Embora. ― levantei-me.
― Mas você nem terminou de comer.
― Perdi a fome. ― ajeitei a mochila sobre os ombros e saí rumo à minha casa sem olhar para trás.

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Três dias haviam se passado desde a última vez que e eu tínhamos nos falado. Aquilo estava começando a me afetar. Sabia que tinha sido infantil da minha parte ter feito de sua curiosidade um grande caso, todavia, não conseguia ignorar o fato de que ela não teve o mínimo de sensibilidade de perceber que aquele não era um assunto que eu gostaria de tratar.
Nos dias subsequentes, trocamos olhares dos mais variados. Desde “pelo amor de Deus me diz ‘oi’” até “garota, para de me olhar!” Óbvio que nenhuma de nós se aproximou de fato da outra. Éramos duas mulheres adultas e orgulhosas agindo como adolescentes brigadas por uma blusa de liquidação.
Devido aos frequentes ataques de ansiedade, tive que voltar a fazer terapia semanalmente. E a última sessão inteira foi dedicada a minha amiga. Por mais que tenha sido categórica ao me dizer que não poderia cobrar que minha amiga percebesse meu desconforto sobre o assunto que ela tanto queria conversar, também deveria me preocupar em me manter mentalmente saudável, logo, deveria repensar se nossa amizade valia o esforço e o desgaste. Depois de ouvir esse conselho, fiquei remoendo isso nos dias que se seguiram até criar coragem para decidir fazer a respeito.
Na noite de sexta-feira, esperei-a do lado de fora do prédio para falarmos com mais calma. Quando a vi sair pela porta, fui para perto.
― Oi. Será que a gente pode conversar um minuto? ― a abordei.
Assentiu e demos alguns passos para o lado a fim de não obstruir a passagem dos outros.
― Olha, , me desculpe por aquele dia. A forma como eu agi foi completamente infantil e sei que cobrar de você algo que eu nem te contei o que estava acontecendo... não foi justo o jeito que reagi e tudo o mais.
― Você me levou pra terapia, né? ― semicerrou os olhos.
― Como sabe?
― Você tá falando exatamente o que uma psicóloga diria ao te apontar o que tem de errado no seu comportamento. ― dei um sorriso amarelo.
― Mas eu juro que tudo que estou falando é porque acho que devo e é de coração.
Passado alguns segundos, com um meio sorriso se formando nos lábios, acariciou meu braço.
― Eu sei, amiga. ― abracei-a. ― Também sinto muito. Não queria que você se sentisse desconfortável. Eu devia ter percebido que você não estava a fim de falar sobre aquilo. ― desvencilhou-se de mim, segurando-me pelos ombros. ― Mas aconteceu alguma coisa em relação a ele? Você ficou tão nervosa que eu fiquei pensando se ele havia, sei lá, feito algo com você.
― Não, não. Não é nada disso. É só que eu realmente não quero ser vista como o interesse romântico de um cara famoso. Nós dois ficamos amigos e é só. ― assentiu.
― Promete que se sentir desconfortável com algo vai me dizer? ― assenti e ela me abraçou novamente. ― Posso ir dormir na sua casa hoje? As minhas coisas ainda estão lá. ― rimos.
― Pode, sim. Vamos. ― ofereci meu braço para que ela envolvesse o seu. Seguimos assim até a minha casa.

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No dia seguinte, Sullivan me chamou em sua sala novamente. Já estava se tornando rotineiro e eu não estava gostando disso. Como sempre, bati na porta e o esperei dizer que poderia entrar. Lá, sentei-me na cadeira à frente de sua mesa.
― E então, ? Como estamos?
― Em relação ao perfil do nothing,nowhere.? ― assentiu. ― Bem, eu acho. Comecei uma pré-apuração e já começamos a trocar algumas mensagens. Achei que seria interessante estabelecer esse tipo de contato até para facilitar uma possível retirada de dúvidas e coisas mais simples.
― Ótimo. Segunda-feira é o dia que você está agendada com ele, certo? ― assenti. ― Lembre-se: ele vem para cá resolver algumas questões pessoais, você tem no máximo quatro horas para entrevistá-lo, ok? Não precisa fazer algo tão extenso ou tão detalhado como no caso do Matthew, apenas foque em algo que te parece uma boa ideia para desenvolver, certo? ― anotei aquilo em um pequeno pedaço de papel, que peguei da sua mesa enquanto, acenava com a cabeça. ― Outra coisa: preciso que você encontre sua mais nova banda preferida de novo para fazer uma matéria em vídeo no show que eles vão fazer em Reading.
― Vídeo?! ― controlei minha voz para não gritar, entretanto, como esperado, saiu esganiçada.
― Isso. Algum problema?
― É que… bom, eu sou mais de texto, mas o que exatamente você precisa?
― Não se preocupe. Vou mandar Zack junto com você e ele vai te ajudar com todas as suas dúvidas. É para ser uma reportagem sobre como é um dia de show para a banda e para a equipe. Vocês vão acompanhar a montagem do local, as últimas vendas de ingresso na bilheteria, conversar com a equipe técnica e, claro, com a banda.
― Você disse minha banda preferida? ― semicerrei os olhos sem entender nada.
― É. Seus novos amigos do The 1975. ― queria abrir um buraco embaixo dos meus pés e ser sugada pela terra. ― Tudo bem para você, né? Acredito que seja até mais fácil para ambos os lados, uma vez que você já passou uma semana inteira com eles.
― Ah, sim. Claro.
― Muito bom. O show vai ser na quarta da semana que vem. Pra não te atrapalhar, caso você precise de um prazo a mais para terminar a matéria sobre o nothing,nowhere. podemos negociar depois, ok?
― Tudo bem. Posso ir?
― À vontade. ― sorriu. ― Obrigado.
― Não por isso. ― saí da sala, voltando à minha mesa.
Pela forma como as sobrancelhas de se arquearam ao me ver, sabia que ela conseguia visualizar o que algo estava acontecendo.
― O que o Josh inventou agora?
― Me colocou para fazer uma reportagem em vídeo, acredita?
― Quê? Por quê?
― Segundo ele, é mais fácil para ambos os lados já que nos conhecemos. ― imitei seu tom de voz ironicamente.
― Ambos os lados? Que lados? Não me diga que ele vai te mandar entrevistar…
― Sim, vai. ― interrompi-a. ― O fontismo descarado acontecendo aqui, meu Deus.
― Você vai ficar bem? Quer dizer, eu sei que vídeo não é a sua praia.
― Vou tentar ao máximo não aparecer em frente à câmera. Seja o que Deus quiser.
― Vai dar tudo certo. Usa uma saia no dia, te deixa mais confortável e alonga sua silhueta.
― Por acaso, você é jornalista ou consultora de moda? ― franzi o cenho.
― Também não sou muito boa com vídeo, mas sempre me saía melhor quando vestia algo que me deixasse mais confortável ou que me fizesse sentir confiante. Sei que você ama vestir saias e vestidos. ― apontou com o queixo para mim, que usava uma saia de cotelê.
― Se na prática vai funcionar mesmo, eu não sei, mas não custa nada tentar.
― Esse é o espírito. ― quase ri de nervoso.

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Encontrei com Joe Mulherin em uma lanchonete na manhã de segunda-feira. Hospedado em Londres apenas naquele dia, veio para resolver questões a respeito de sua saúde e de uma futura turnê que planejava com seu empresário.
Relativamente alto, seus olhos eram bem claros e profundos, os cabelos bem penteados estavam mantidos no lugar com a ajuda de gel. Em uma das mãos, a mesma que ele usara para me cumprimentar quando cheguei, tinha uma tatuagem de flor no dorso. Seus lábios eram finos e sua feição, na maior parte do tempo, migrou entre tímida e simpática. Tinha ouvido algumas de suas músicas dias antes de nos encontrarmos. Era exatamente o tipo de coisa que eu esperava achar durante meus momentos mais sombrios enquanto fuçava na internet.
― Talvez esta seja uma das perguntas que você mais vai responder na sua vida, mas de onde vem todas as suas músicas? Que lugar é esse na sua cabeça? ― questionei.
― Um lugar que até então era bem íntimo. São emoções bem difíceis de assimilar e colocá-las em palavras, por isso, pensei que se escrevesse sobre elas, acabaria ficando mais fácil com o tempo. ― seu olhar passeava pelo local, como se tivesse medo de me olhar nos olhos.
― Tem muita raiva, angústia e dor nelas. E emoções muito bem sintetizadas ao longo de três ou quatro minutos. Você acha que ganhou público porque as pessoas conseguem relacionar isso às próprias vivências?
― É, acho que sim. Todo mundo deseja verbalizar as coisas que sente, mas tem vezes que é muito difícil, ainda mais quando você não tem muita certeza do que está sentindo. ― pondo as mãos sobre a mesa, inclinou-se levemente em minha direção, finalmente olhando para mim, não exatamente nos olhos, todavia, já era um avanço. ― Eu tenho ansiedade social desde que eu tinha, sei lá, 8 ou 9 anos. Claro que naquela época eu não tinha nenhum diagnóstico e não sabia que era algo que se podia ter.
― E você tem se tratado a respeito?
― Estou me cuidando na medida do possível. Considerando que a visibilidade que tenho ganhado nos últimos tempos é bem grande e eu não esperava receber tanta atenção por umas músicas que soltei na internet, a ansiedade é algo com que tenho que lidar diariamente. Toda vez que termino um show e deito na minha cama, é algo que preciso encarar. Um monte de gente cantou as minhas músicas, sobre os meus problemas, os meus medos, as minhas insegurança, olhando pra mim… o que pode ser mais aterrorizante que isso? ― deu um sorriso nervoso. Suspirando, prosseguiu: ― Ao mesmo tempo em que fico muito feliz que as pessoas gostem do meu trabalho, também sinto que isso vai ser o motivo de eu ter um futuro colapso. ― riu.
― E você já considerou tirar umas férias do seu trabalho? ― parei de gravar. Seus olhos acompanharam o movimento que fiz com a mão para pausar a gravação. ― Escuta, talvez a última coisa que você queira é conselho de uma jornalista que tem quase a sua idade e nem é tão bem sucedida quanto você, mas pegar leve às vezes é o que você precisa. ― relaxando as mãos sobre a mesa, tentei sustentar nosso contato visual, uma vez que consegui fazê-lo me olhar nos olhos. ― Sei que é muito difícil se desligar, mas nós enquanto pessoas ansiosas precisamos respeitar os nossos limites. Eu mesma me cobro muito o tempo todo e, semana passada, por exemplo, vomitei na frente de todo mundo quando meu chefe me promoveu. ― seus olhos se arregalaram, assustados. Eu apenas ri. ― Era algo que eu queria muito e não sabia se iria conseguir ou se merecia ter conseguido. Mas aconteceu e eu só… surtei. Meu corpo não aguentou.
― Como você faz isso? Tipo, se desligar?
― Atualmente, não tô conseguindo fazer, mas, pelo menos, consigo me manter focada em outras coisas pra além do que me sinto obsessiva no dia-a-dia. Sem contar que eu comecei a correr todas as manhãs e me alimentar melhor. Aliás, invista em terapia. É o que vai te ajudar nesse processo de entender quem é você no meio de tudo isso. Além disso, não usar drogas ou beber demais também ajuda manter um pouco de controle sobre si mesmo.
― Eu não bebo nem uso drogas. Muito menos fumo. ― deu de ombros.
― Sério? ― tentei não parecer tão surpresa, vendo-o assentir.
― Não combina com a minha aparência de bad boy?
― Não é isso. É só que… sei lá. ― riu.
― Tudo bem. De qualquer forma, achei que você ia vir com um discurso pronto daqueles bem motivadores. ― rimos.
― Quem passa por isso recebe esses conselhos de orientação escolar o tempo todo e não deseja isso pra ninguém. Gosto de falar sobre minhas experiências só quando sei que vai ajudar em algo. Se não vai, fico em silêncio. ― cruzei os braços sobre a mesa. ― Óbvio que as minhas experiências não são universais, mas pode ser que algumas coisas funcionem pra outras pessoas também.
― Quando me preparei pra vir pra entrevista, não achei que seria assim. ― sorriu. ― Obrigado por isso.
― Não tem de que. ― sorri também. ― Se importa se voltarmos? Juro que já estou acabando.
― Sem problemas. ― dito isso, voltei a gravar.
A entrevista seguiu pelo caminho em que estávamos. Joe me contou um pouco mais sobre como foi a sua infância e sobre ser um adolescente ansioso com pouca ou nenhuma noção do que isso significava. Conseguia me transpor em cada uma de suas experiências. Toda pessoa com algum transtorno psicológico sabe que não é a única no mundo, porém é impossível não se sentir um pouco melhor ao conversar com alguém que vivenciou ocorridos parecidos com os seus.
Ao finalizarmos, parei a gravação e guardei o celular dentro da mochila.
― Joe, muito obrigada pelo seu tempo. E, falando como ouvinte, não mais como jornalista, te desejo muito sucesso. Sua música é muito boa. ― cumprimentei-o com um aperto de mão.
― Eu que agradeço pela conversa. Fiquei com medo de conversar com alguém que não entendesse. ― sorriu. ― Aliás, se precisar de mais alguma coisa, você tem meu número. ― assenti.
― Até. ― acenei e saí. Precisava voltar para a redação e começar a escrever o quanto antes, já que teria que cumprir com as loucuras de meu chefe ainda naquela semana.

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Às 9h da manhã, o dia estava nublado. Parecia que era um pré-requisito para um show do The 1975 acontecer: chuva acompanhada de uma temperatura amena. Zack, antes que começássemos a entrevistar as pessoas que tínhamos em mente, deu uma volta pelo local fazendo imagens móveis de corte para preencher lacunas do vídeo. Ajudei-o a posicionar uma câmera fixa sobre um tripé para fazermos uma imagem acelerada de todo o processo de montagem da estrutura.
Conversando com um dos técnicos de som, fui apresentada a outras pessoas da equipe de montagem e produção que poderiam dar entrevista sobre como era um dia de show para eles. Todos ficaram animados com a ideia de falarem sobre o que faziam, pois quase ninguém sabia o que cada uma das funções significava, muito menos quanto trabalho dava montar o local onde um show ocorreria.
Zack me passou as coordenadas de como me posicionar com os entrevistados, além de me ajudar a escrever os textos narrativos, os não tão terríveis off, que seriam inseridos no meio do vídeo. Às 14h, já tínhamos entrevistado seis pessoas e gravado as minhas partes. Como a banda só chegaria por volta de 16h, fomos almoçar em um restaurante à esquina do local.
Em nossa redação, Zack era um veterano, trabalhando lá há quase 5 anos. Aquela era uma das primeiras vezes que conversávamos e tudo o que poderia dizer a seu respeito é que que seu jeito me lembrava o de : receptivo, caloroso e solícito. Ele não era tão bom de fofoca, mas quem precisa disso quando se tem a personificação da Gossip Girl em pessoa? Pelo menos, ele era muito bom em jogar conversa fora.
Às 15h38, resolvemos que era hora de voltarmos para a arena e terminar nossas entrevistas.
Cruzando o espaço onde ficaria a plateia, a primeira coisa que avistei em cima do palco foi a banda se preparando para iniciar a passagem de som.
― Olhem lá se não é a nossa adorável . ― Matthew falou ao microfone, acenando na minha direção.
Os outros também acenaram para mim, sorridentes.
Aproximando-nos do palco, subimos os degraus móveis postos à frente da estrutura. Abraçando-os, cumprimentei um por um.
― Gente, este é o Zack, meu colega de trabalho de hoje. Zack, estes são Ross, George, Matthew e Adam. ― apontei um por um. Com apertos de mão, Zack cumprimentou a todos. ― Nem deu tempo de sentirem minha falta. ― brinquei.
― Não vou negar, fiquei aliviado de saber que seria você de novo. ― Geroge soltou fazendo a todos, incluindo a mim, rirem.
― Obrigada. Significa muito pra mim saber que minhas fontes não me odeiam.
― A entrevista vai ser antes ou depois da passagem de som? ― Ross questionou, segurando seu baixo, prestes a pôr a correia sobre o ombro.
― O que ficar melhor para vocês. ― conversando entre si, a banda decidiu que gostaria de fazer a passagem de som primeiro.
Nos minutos em que ajustavam os instrumentos, Zack e eu aproveitamos para fazer as entrevistas que faltavam com outros técnicos. Ao total, tínhamos separado o nome de oito pessoas e, graças ao nosso esforço prematuro ao chegarmos, só faltavam mais duas. Pós-entrevistas, nos permitimos assistir um pedaço da passagem de som. Zack registrou uma boa parte em vídeo.
― Eles são bons mesmo. ― disse ao desligar a câmera.
― Você nunca os tinha ouvido?
― Já, mas é bem diferente quando é ao vivo.
― Concordo.
Quase uma hora depois, George fez sinal para que os seguíssemos até o camarim principal.
O espaço era bem maior que o do anterior que eu visitara. Havia um sofá grande em um dos cantos, a costumeira mesa cheia de comidas e bebidas, uma penteadeira bem grande e iluminada, além de araras cheias de roupas.
― Dessa vez é só um camarim? ― perguntei adentrando no ambiente com Zack em meu encalço gravando tudo.
― Esse é o principal, onde guardamos nossas coisas. Sempre gostamos de ter um onde todas as coisas ficam juntas, mas cada um tem direito a um espacinho particular para se vestir, fumar uns cigarros, comer algo e coisas do tipo. ― George explicou.
― Vocês se importam de sentarem todos juntos no sofá para conversarmos? ― pedi.
Lado a lado, os homens se sentaram.
Puxei dois bancos para a frente deles, um para mim e outro para Zack.
― Vocês chegaram aqui às 16h. O que fizeram antes disso?
― Um dia de show não é um dia vazio. Hoje gravamos um programa de TV, um de rádio, demos entrevista para uma revista e para um canal no Youtube. ― Healy, como sempre, tomou a frente.
― E o dia de vocês só tem 24h igual o das outras pessoas? ― brinquei.
― Pois é. Claro que, ao final do dia, tudo o que você quer é morrer, mas acho que essa não é a questão.
― Quais são os rituais de vocês antes de o show começar?
― Nós passamos som, conversamos com algumas pessoas, fumamos uns cigarros, bebemos vinho, trocamos de roupa. Esse tipo de coisa. Às vezes, trocar de roupa é uma coisa que não dá tempo, saibam disso. ― apontou para a câmera.
― Muitas pessoas não sabem o quanto é trabalhoso montar um show e que ele começa bem antes de a banda subir ao palco. Como vocês vêem o trabalho das pessoas que fazem os preparativos para que tudo corra bem?
― Eles são essenciais. Sem eles não há muito que possamos fazer. No início de nossa carreira, éramos apenas nós que levávamos nossos instrumentos, montávamos tudo, mas em uma proporção muito menor. Acho que por isso fazemos tanta questão de manter contato constante com todos eles, sabe? É como você. Se estivermos sempre em contato, a chance de dar errado é mínima.
― Espera. O que exatamente isso deveria significar? ― semicerrei os olhos desconfiada.
― Digamos que você não está aqui por acaso. ― franzi as sobrancelhas. ― Sullivan ligou pro Jamie pedindo para agendarmos esse encontro. Nós quatro discutimos enquanto banda e decidimos que só aceitaríamos se fosse com uma pessoa de confiança. No caso, você.
Meu cérebro demorou alguns longos segundos para processar o que aquilo significava. E, então, tudo fez sentido. Era óbvio que Josh não tinha ficado louco. Havia um propósito nisso, afinal.
― Vocês sabem que poderiam ter me complicado, né? Na verdade, já me complicaram porque eu nem mesmo trabalho nessa área. ― falei a última frase em um tom mais baixo, fazendo todos se remexerem ou se entreolharem desconfortáveis. ― Enfim, vamos continuar. Pela cara do George, já sei que ele tá morrendo de vontade de fumar um cigarrinho. ― dei uma risadinha nervosa para disfarçar a torta de climão que eu acabara de colocar no forno.
Agradeci ao meu eu do passado por se preocupar em fazer um roteiro de perguntas, pois já não conseguia mais desvencilhar minha mente da crescente raiva de Matthew que se formava dentro de mim. Tinha absoluta certeza que aquela havia sido uma ideia inteiramente sua e que ele havia perturbado a todos para comprarem aquela loucura.
Quando terminamos, Zack e George decidiram sair para fumar; Adam iria começar a se preparar para o show; Ross iria sorrateiramente até um bar vizinho à arena para dar uma espiada em como estava o jogo de hóquei de seu time.
Prestes a inventar uma desculpa para sair junto de Ross, Matthew pôs a mão em meu ombro.
― Posso falar com você um minuto?
― É melhor que seja importante. ― quase esbravejei.
― O quão puta você tá pelo que eu fiz? ― sabia!
― Você não tem nem dimensão do que fez, né? Matthew, eu não trabalho com telejornalismo. Eu sei escrever, sei fotografar, roteirizar, locutar, mas aparecer em frente à câmera é um pouco demais pra mim. Sem contar que o Sullivan pode achar que existe algum motivo a mais para eu ser escolhida a dedo dessa forma.
― E tem mesmo. ― deu de ombros com um ar de obviedade.
― Quê? Que motivo? ― cruzei os braços em frente ao peito com as sobrancelhas franzidas.
― Eu queria te ver. ― quando assimilei suas palavras, meus braços e expressões faciais se afrouxaram, como se ele me desarmasse.
Deu alguns passos em minha direção. Estávamos muito mais próximos do que era uma distância segura. As correntes de ar que conseguiam atravessar nosso meio eram mínimas. Discretamente, dei um pequeno passo para trás, porém meu quadril se chocou contra a penteadeira. Meu coração estava acelerado, mas não como quando me apaixonei. Era de excitação, de nervosismo. Eu sabia o que acontecia quando duas pessoas ficavam tão perto uma da outra e se olhavam assim como fazíamos porque já havíamos feito isso antes.
Tinha medo de onde todos esses sentidos poderiam me levar, entretanto, era tentador demais para que eu apenas ignorasse.
Prendendo os dedos em gancho nos passantes de cinto da minha saia, puxou-me para mais perto, grudando meu corpo no seu, que parecia estar em chamas. Meus braços estavam moles e pendiam ao lado do meu corpo. Não saberia o que fazer ou se deveria fazer algo com eles.
― Tá se decidindo? ― deu um meio sorriso convencido. Ele sabia muito bem o que estava fazendo. ― Me diz que você não quer e eu te solto.
Meus pensamentos estavam tão bagunçados que não conseguia me concentrar. Queria conseguir lhe dizer todos os problemas que nos envolvermos poderiam causar, principalmente na minha carreira, mas suas mãos subindo pela minha lombar não me deixavam formular nenhuma frase inteligível.
Seu corpo tinha um cheiro inebriante de cigarros e perfume almiscarado. Se eu não estivesse constantemente repassando a sensação de seus lábios nos meus na minha cabeça, talvez beijá-lo novamente nem seria uma opção.
Olhando para sua boca, vi o exato momento em que ela começou a se aproximar da minha. Quando senti seus lábios nos meus, me permiti fechar os olhos. Era tarde demais para voltar atrás. Sentindo sua língua se chocando com a minha pela primeira vez, um arrepio percorreu minha espinha. Não sabia dizer o que ele tinha de tão especial que nem mesmo precisava insistir muito para eu me render daquela forma. Só sentir as pontas de seus dedos fazendo leves pressões em minhas costas me deixava excitada.
Como se ganhassem vida própria, minhas mãos se emaranharam nos caracóis escuros que eram seus cabelos. Os fios faziam cócegas entre meus dedos e, ao sentir sua língua roçar no céu da minha boca, deixei um suspiro acompanhado de uma tentativa de sorriso escapar.
Dando um passo em minha direção, outra vez, meu corpo se chocou contra a penteadeira atrás de mim. Parando de me beijar, afastou seu rosto alguns centímetros do meu, olhando-me nos olhos. Seus pupilas pareciam dilatadas e suas íris mais escuras que o normal. Um meio sorriso luxurioso se formou em seus lábios à medida que suas mãos escorregavam de minhas costas paras minhas costelas, subindo, subindo, subindo… quase chegando aos meus seios. Continuou me encarando por alguns poucos segundos, passando a selar nossos lábios. Aumentando a durabilidade de cada selinho, iniciou um beijo, não tão calmo quanto da outra vez, posicionando uma das mãos em meu pescoço.
Sentia meu corpo inteiro arder, como se fosse uma brasa acesa. Seu toque me fazia muito consciente do que era ter um corpo e eu gostava dessa sensação. Era como descobrir que estava viva. Se era assim que estar viva se parecia, queria mais daquilo.
A mão que permanecera em minhas costas percorreu um trajeto lento até meu quadril. Ao alcançar a barra da minha saia, senti seus dedos levemente adentrarem por baixo do tecido, deslizando as pontas por cima da minha calcinha vagarosamente. Perdendo um pouco da coordenação motora, meus dedos se apertaram entre seus cabelos e todo o ar se desprendeu dos meus pulmões em um suspiro.
Meu coração estava tão acelerado que o ouvia bater em meus ouvidos. Por mais que quisesse pedir, lhe implorar se preciso fosse, para que fizesse o que tinha que fazer mais rápido e mais forte do que estava fazendo naquele momento, queria sentir tudo que ele tinha a me proporcionar. Abrindo os olhos, vi-o me encarar com um olhar quente adornado por aqueles cílios escuros e longos. Seus olhos brilhavam de tesão e não duvidava nada que os meus também estivessem assim.
Afastando um dos lados da minha calcinha, um calafrio percorreu minhas costas até minha espinha no instante em que passou a massagear meu clitóris bem devagar. As pontas de dois de seus dedos faziam movimentos circulares sobre meu ponto mais sensível. Mordendo o lábio inferior, segurei o máximo que pude o ar que saía em grandes quantidades dos meus pulmões.
Com uma sensação de estar trêmula e desestabilizada por dentro, apoiei minhas mãos na penteadeira atrás de mim, derrubando alguns objetos, como escova de cabelo e caixa de grampos no chão. Não demos muita importância. Suas mãos não saíram de mim, bem como meus olhos não saíram dos dele.
Minha garganta estava seca e eu sentia muito calor. Umedecendo os lábios com a língua, minha respiração parecia pesar uma tonelada. Quase como se pudesse visualizar a minha corrente sanguínea espalhando serotonina por todo o meu corpo, comecei a sorrir à medida que o prazer crescia em meu ventre.
Aumentando a velocidade de seus movimentos, meus músculos começaram a se retesar e meus joelhos falharam. Não fossem as mãos apoiadas no móvel, provavelmente teríamos caído juntos. Perdendo o controle do meu próprio corpo, tranquei a respiração sem nem ao menos querer. Alguns espasmos anunciavam que eu estava próxima de um orgasmo e, quando eles se tornaram mais frequentes, Matthew tirou seus dedos de mim, ajeitando minha roupa íntima no lugar.
Ainda sem conseguir pronunciar uma única palavra devido a respiração entrecortada, encarei-o com as sobrancelhas franzidas. Limpando os dedos em uma toalha que estava sobre uma das poltronas do camarim, ajeitou os cabelos e a camisa.
― Onde você vai? ― finalmente consegui proferir.
― Eu ainda tenho um show pra fazer, lembra? ― deu uma risadinha abafada, aproximando-se de mim. ― Sabe porque eu não te deixei gozar? ― sussurrou ao pé do meu ouvido. ― Porque eu quero que, quando você quiser e estiver pronta, peça por isso.
― Você vai ficar esperando porque eu não vou pedir. ― cruzei os braços, arqueando uma das sobrancelhas em tom desafiador.
Alguns centímetros mais distante de mim, riu e completou:
― Veremos. ― deu um beijo na minha bochecha e saiu do local.


#11

Sempre tenho que fingir; eu não preciso de um amigo falso
(fake friend - nothing,nowhere.)


A primeira edição da revista tinha saído e já estávamos finalizando a segunda. A contar pelo número de e-mails que recebemos elogiando o conteúdo que havíamos posto para rodar, acho que poderíamos considerar aquela nova empreitada um sucesso.
Joe Mulherin me mandou uma mensagem assim que recebeu a edição da revista que enviamos para ele. Nela, agradecia pelos meus conselhos e pela conversa que tivemos. Em suas palavras, “tinha dado o incentivo que faltava para que decidisse se submeter a um tratamento mais intensivo”.
Olhando para a tela do meu computador, abri um novo e-mail elogiando meu trabalho. Entretanto, a pessoa não estava falando sobre a reportagem com Mulherin, que era o único texto que assinei naquela edição, e, sim, sobre a matéria com Healy.
Matthew Healy.
Visualizar a grafia de seu nome me fez lembrar de sua figura, consequentemente, do jeito casual que vestia camisas, do seu cabelo desarrumado caindo sobre o rosto, do cheiro, do seu corpo quente contra o meu…
Fechei os olhos bem apertados, tampando o rosto com as mãos. Era a trigésima vez que as memórias do que ocorrera quando nos encontramos vinham a minha mente em um momento completamente aleatório, me fazendo ficar molhada quando não deveria. E tudo isso era, no mínimo, rídiculo, pois aquele tinha sido o último dia que havíamos nos falado.
― Você tá bem?
― Puta que pariu! ― sobressaltei na cadeira ao ouvir a voz de soar de cima da tela do meu computador.
― Desculpa. ― falou mais baixo.
― Não, tudo bem. ― tirei as mãos do rosto.
― Nossa, você tá bem vermelha. Tá tudo bem? ― franziu a testa.
― Tá. Tá, sim. ― bebi um gole de água da garrafa que eu carregava para todos os cantos comigo.
― Como estão as respostas aos e-mails? Hoje é a sua vez, né?
― Tudo normal. Recebi alguns elogiando meu trabalho. A sensação é boa. ― trocamos um sorriso.
― Você merece.
Meu celular começou a vibrar sobre a mesa. Tanto os olhos de quanto os meus foram direto para o visor. Sentindo meu rosto queimar novamente, peguei o aparelho e atendi.
― Por que está me ligando no meu horário de trabalho?
― Por que está atendendo uma ligação no seu horário de trabalho, ? ― revirei os olhos.
― O que você quer? ― não sabia dizer por que eu estava irritada com Matthew. Talvez ele tivesse se tornado o motivo da minha frustração sexual.
― Tivemos um fim de semana inteiro de shows cancelados na Irlanda. O país está passando por uma tempestade ou coisa assim. Então, decidimos que vamos ficar até a madrugada de domingo para segunda.
― E você me ligou para dizer isso? ― debochei quando ficou em silêncio por mais de um segundo.
― Não. Te liguei para perguntar se você quer sair comigo amanhã. Sei que aos sábados você trabalha de manhã.
― Não sei se é uma boa ideia.
― Não se preocupe. Não tem segundas intenções. Só como amigos. Juro. ― suspirei.
― Te encontro onde?
― No Lion’s Cave. Sabe onde é?
― Sei, sim.
― Então, até amanhã.
― Tchau. ― desliguei.
Ao largar o aparelho sobre a mesa, vi que vira e ouvira toda a ligação. Sua feição era sugestiva.
― O que ele queria? ― sua voz era pura excitação.
― A camisa dele de volta. ― menti. ― Pedi que me avisasse quando estivesse de volta à cidade para eu entregar.
― Nossa, mas você é muito sem graça mesmo, né?
, por favor, não comece. Como eu disse, nós nos damos bem, mas é só isso. Não tem nada rolando e nem vai rolar.
― Ok, ok. Não está mais aqui quem falou. ― ergueu as mãos em sinal de rendição. ― Já que minha amiga não quer viver um romance, vou continuar minhas fofoquinhas de hoje. ― saiu de cima da divisória, voltando à sua ilha.
― Obrigada. ― respondi um pouco mais alto para que me ouvisse.
À noite, ao chegar em casa, não conseguia parar de pensar no que me levara a concordar em sair com ele. Eu de fato acreditava que éramos amigos? Nós estávamos construindo um relacionamento assim? Ele tinha segundas intenções comigo? Eu só estava querendo que a gente transasse? Nem eu sabia dizer e tinha muito medo da resposta.

- x x x -


Enxerguei Matthew parado em frente ao local onde havíamos combinado de nos encontrar. Eu estava a cerca de 15 metros de distância dele e, ao me avistar, começou a sorrir e acenar para mim daquele jeito espalhafatoso que fazia às vezes.
― Por um segundo, achei que você não fosse mais vir.
― Perdi o primeiro trem que vinha para cá. ― assentiu.
― Vamos. ― abriu a porta para mim, entrando em seguida.
O ambiente estava praticamente vazio, não fosse por um casal de meia idade próximo à porta e um cara sentado em frente ao balcão. Ainda assim, escolhemos uma mesa bem afastada de todos. Com nossos pedidos feitos, nos acomodamos sentando de frente um para o outro.
Abri a mochila, tirando sua camisa de lá, pondo-a sobre a mesa.
― O que é isso? ― apontou com o queixo.
― Sua camisa.
― Não precisa. Eu disse que podia ficar com ela. Até porque ficou bem mais bonita em você do que em mim.
― O que é isso, hein? Digo, por que quis sair comigo? Você podia ter aproveitado o dia pra descansar, ver sua família, sei lá.
― Como eu disse, te considero minha amiga e é isso que amigos fazem. ― deu de ombros.
― Mas por quê?
― Eu dividi coisas com você, . Detalhes que nem meus melhores amigos sabem sobre mim.
― Tudo bem, mas isso faz parte do meu trabalho: te fazer falar e ouvir. O que eu tô perguntando é o que te faz querer ser meu amigo.
― Você é inteligente, criativa, sensível, tem um excelente gosto musical e se veste muito bem. Sem contar que você é profissionalmente brilhante.
― Obrigada. ― dei um meio sorriso.
― Pelo quê? Por ter dito a verdade? ― ri.
Meu burrito e seu cheeseburger chegaram à nossa mesa. Nas primeiras mordidas que dei, me senti mais ativa, como um personagem de RPG que acaba de cair dentro de um balde cheio de maná. Já Healy, havia assumido aquela postura contemplativa. Em momentos como aquele é que eu gostava de observá-lo.
Ornados por bolsas que até o final do ano estariam mais escuras, seus olhos pareciam cansados. Alguns cachos caíam em seu rosto. Quando largou seu lanche no prato e limpou os dedos para pegar seu copo de refrigerante, notei que suas mãos estavam trêmulas.
― Que foi? ― indagou, limpando a boca com um guardanapo.
― É que, quando você come, é um dos raros momentos em que você fica em silêncio.
― Mas eu consigo ficar em silêncio em outros momentos também. ― franziu a testa.
― Duvido.
― Eu só não quero.
― O seu não querer já demonstra descontrole.
― Pelo amor de Deus, . ― riu.
― Eu menti? ― meneando a cabeça como quem desacredita de algo, continuou sorrindo e voltou a comer.
Ao terminarmos, resolvemos apenas caminhar para espairecer. Aliás, fazia muito tempo que eu não fazia isso.
Pagamos nossas comandas e saímos do estabelecimento. Do lado de fora, o sol brilhava, porém a temperatura estava agradável.
― Depois desse fim de semana, vocês vão para onde?
― América do Norte. Voltamos para a Europa em três meses.
― Vai ficar bastante tempo longe de casa, hein?
― A gente se acostuma depois de um tempo. ― deu de ombros, pondo uma mão dentro de um dos bolsos frontais da calça jeans. ― Você já fez isso? Tipo, ficar muito tempo longe de casa? ― meneei a cabeça negativamente.
― Espero não ter que fazer tão cedo. Odeio a sensação de estar em um lugar provisório, onde não tenho acesso às minhas coisas na hora que eu quero ou preciso. ― mal terminei minha frase e algumas garotas apareceram de sei lá onde pedindo autógrafos e fotos.
Duas delas fizeram selfies e as últimas três me pediram para fotografá-los. Enquanto Matthew autografava camisetas, capas de álbuns e pedaços de corpos, as garotas relatavam como haviam conhecido a banda, mostravam as tatuagens que tinham feito do logotipo, com as silhuetas dos integrantes e até com as letras das músicas. O que era mais engraçado era o fato do homem incentivá-las a fazê-lo, dizendo o quanto tinha gostado das ilustrações, convidando-as para irem nos próximos shows e coisas do gênero.
― Você é sempre simpático assim com seus fãs? ― perguntei assim que as garotas foram embora.
― Bom, eles são bem simpáticos comigo também, né? Gostam do meu trabalho, aparecem nos meus shows, me ajudam a divulgar as coisas que lanço. Acho que isso é mínimo que posso fazer, certo? ― concordei com um aceno de cabeça. ― Você já pensou como seria se as pessoas te reconhecessem na rua também?
― Claustrofóbico. ― rimos. ― Eu gosto que reconheçam meu trabalho, mas não quando vem de pessoas que nunca vi na vida. Acho que jamais me acostumaria em ser parada por um monte de gente. Por isso, ser jornalista sempre me pareceu uma boa ideia. As pessoas gostam do que produzo, me elogiam por e-mail e existe uma distância segura entre nós. Eu nunca as vi e elas, no máximo, viram a minha foto em algum lugar por aí na internet. ― passei a andar de costas para conseguir olhá-lo. ― Você já passou por alguma situação doida, tipo, alguém tentando rasgar sua roupa, arrancar seu cabelo?
― Não que eu me lembre. Mas as pessoas falam coisas que talvez não teriam coragem de falar, sei lá, para os pais ou amigos delas. ― sorriu.
― Tipo naquele show que você perguntou para a garota se a mãe dela sabia que ela fazia aqueles gestos?
― Esse show foi muito bom. ― riu. ― Você andou jogando nossos nomes no youtube? ― arqueou as sobrancelhas de um jeito sugestivo.
― Precisei pesquisar muito pra conseguir escrever algo decente sobre você, né?
― Sua reportagem ficou tão boa que tive que mandar pros meus pais.
― Nossa, obrigada por ter colocado esse peso nas minhas costas.
― Peso? ― fez uma cara surpresa, seguida de uma expressão sapeca.
― Imagina só se seus pais acham que peguei pesado com você ou que tentei expor o filho precioso deles. ― expliquei.
― De todas as pessoas no mundo, os meus pais são os que mais concordam com você. Eles gostam de mim, mas sabem que eu não presto. ― sorriu e mais um grupo de fãs nos interceptou.
Vendo-o atender uma a uma das pessoas que o cercavam, não pude evitar a surpresa quando o vi dar um selinho em uma das mulheres presentes. A mulher ficou tão empolgada que dava pulinhos de alegria.
Revirei os olhos discretamente. Não era como se estivesse com ciúmes, é só que… elas pareciam se contentar com tão pouco. Uma migalha de sua atenção era suficiente para fazê-las quase terem um AVC em praça pública. Sem contar que as vozes na minha cabeça ficavam me dizendo que aquilo não era nada perto do que tínhamos feito há pouco mais de um mês.
Pensar naquilo fez a boca do meu estômago se apertar de um jeito desagradável.
Precisava tocar naquele assunto com ele, dizer que não podíamos em hipótese alguma voltar a fazer aquilo. Nós dois tínhamos muito a perder com isso. Muito mais eu do que ele, afinal, Matthew Healy continuaria sendo rico e famoso; eu, provavelmente, ficaria desempregada, pois não havia nada mais antiético do que se envolver com uma fonte, fosse sexual ou romanticamente.
Além disso, mentalmente, eu não estava em um bom lugar para começar algo com alguém. Neste momento, deveria estar me preocupando em ficar estável para, então, conseguir pensar em estruturar outras áreas da minha vida.
Na minha mente, a minha voz da razão era completamente contraditória. Meus desejos internos só sabiam me cutucar, dizendo o quão burra estava sendo por querer ignorar a vontade que estava sentindo de dar para ele. Era tanto barulho que essas duas vozes opostas estavam fazendo que acabei decidindo não tocar no assunto naquele dia, pois provavelmente não conseguiria concluir uma única frase que fizesse sentido.
Quando voltamos a ficar a sós, retomamos nossa caminhada lado a lado.
― Você está de folga amanhã?
― Vai me chamar pra sair de novo?
― Não sei. Depende da sua resposta.
― Amanhã é meu dia de plantão. Pelo menos um domingo do mês, dois jornalistas dão plantão na redação. Só pro caso de, você sabe, o avião de algum músico cair no triângulo das bermudas ou alguém mostrar as genitálias em algum show. ― riu. ― Antes que você faça o convite, já vou recusar.
― Tudo bem. Acho que eu aguento. ― descemos as escadas que levavam à estação de trem no subsolo.
Repetindo aquilo que já estava virando um ritual entre nós, pluguei o fone de ouvido ao celular e lhe entreguei um dos lados, colocando Dancing with myself, do Billy Idol.
― Essa música é ótima. ― comentou com um sorriso.
― Comemorei minha entrada na universidade cantando ela em um karaokê. ― ri.
― Sério?
― Sim. Foi uma das únicas vezes na minha vida que fiquei muito bêbada.
― Você bêbada deve ser o acontecimento do ano.
― Inclua um ‘catastrófico’ na frase e vamos estar falando da mesma coisa. ― rimos.
Dez minutos depois, chegamos à minha estação. Parando a música e guardando os fones de ouvido dentro da mochila, descemos do vagão e rumamos para a minha casa.
Em frente ao meu prédio, ficamos parados por alguns segundos, apenas nos encarando. O céu estava escurecendo e o ar um pouco mais gelado do que quando nos encontramos.
― Desculpe pelas vezes que tive que atender o pessoal. Sei que gastei um bom tempo fazendo isso e nem todo mundo fica ok quando isso acontece.
― Ah, não. Tudo bem. Fiquei feliz de saber que você não é um babaca com seus fãs. ― sorriu.
― Já fui, mas tô tentando melhorar. ― outra vez, ficamos em silêncio por alguns instantes até ele decidir voltar a falar: ― Bem, acho que por hoje é só, né? Boa noite, . ― andando de costas, acenou para mim.
― Boa noite, Matthew. ― acenei também, vendo-o dar as costas para mim e sumir no horizonte alguns minutos depois.

- x x x -


No domingo, Patricia e eu estávamos encarregados do plantão. Nada de interessante aconteceu naquele dia, chocando um total de zero pessoas. Sozinhas dentro do prédio na companhia apenas do segurança que estava de guarda na entrada, passamos boa parte de nosso dia conversando, ouvindo música e adiantando tarefas de outros dias. Além do mais, todo o estoque de café do expediente era nosso.
Ao fim do nosso turno, desligamos todos os computadores, as luzes, trancamos a porta da redação e entregamos a chave na saída para o segurança, que nos desejou uma boa noite.
Do lado de fora, ao me despedir de Patricia e prestes a atravessar a rua, olhei assustada para meu lado esquerdo ao ouvir meu nome.
― O que você… ou melhor, o que vocês estão fazendo aqui? ― franzi as sobrancelhas, vendo George e Matthew se aproximando.
― Viemos te levar pra jantar na nossa casa. ― Matthew respondeu todo sorridente.
― Mas eu já tinha dito que não…
― Que não ia sair comigo, não que não precisaria jantar. ― interrompeu-me, fazendo a última afirmação como se fosse algo óbvio.
― Eu não posso. Amanhã, eu acordo cedo e…
― Ah, qual é, ? É só um jantar com seus amigos. Nem mesmo vamos a um lugar. Vai ser na nossa casa. ― George insistiu.
― Prometemos que até às 23h você já vai estar livre de nós e, se for preciso, a gente te leva pra casa. ― com as mãos juntas em frente ao rosto, como se implorasse, Healy completou.
Revirei os olhos.
― Ai, tá bom. Vamos antes que eu me arrependa. ― revirei os olhos outra vez ao sentir ambos me abraçarem ao mesmo tempo e me guiarem até o carro.


#12

Eu também estou ficando louco por você, pensando nas coisas que poderíamos fazer só eu e você
(WYA - iann dior)


Fazendo a direção mais tranquila e responsável de sua vida, Matthew era o motorista da noite e me surpreendia o fato de que nem ele nem George estarem com os braços para fora da janela com cigarros acesos. Não toquei no assunto porque não queria dar ideia, vai que só tinham esquecido, não é?
Parados em um sinal vermelho, o carro era o mais pleno silêncio. Entretanto, com sua voz grave, Daniel anunciou:
― Acho que vocês vão ter que prosseguir com os planos sem mim.
Automaticamente, Healy e eu o olhamos sem entender absolutamente nada.
― Por quê? ― a voz meio instável denunciou que Matthew havia ficado tão surpreso quanto eu.
― Surgiu algo. ― respondeu. ― Pode estacionar ali na frente, por favor?
― Você não perde a oportunidade de trocar seu melhor amigo por boceta, né? ― debochou, acelerando o suficiente para estacionar o carro alguns metros a frente quando o semáforo abriu.
― Não seja dramático. E não fale assim na frente da . ― sua voz assumiu um tom paternal.
― Por favor, George. sabe muito bem o que é uma boceta! ― no fundo, eu estava segurando uma risada. Não achava apropriado rir uma vez que ambos pareciam realmente estar brigando.
, foi um prazer te rever. Uma pena que não vai rolar dessa vez. ― deu um beijo em minha bochecha e eu sorri.
― Tudo bem. Sempre há uma próxima vez. ― disse, observando o homem descer do veículo com um breve aceno para o amigo. ― Matthew, acho que, sendo assim, os planos de vocês meio que morrem, né? ― com a testa franzida, olhou para trás.
― Por quê? Só o George não vai poder vir. Eu e você ainda estamos aqui.
― É, mas eu já não queria estar aqui, lembra?
― Vai me abandonar também? ― seu semblante agora soava triste.
Suspirei.
― Tá bom. Vamos. Só me deixa passar para o banco da frente primeiro. ― desci do banco traseiro para sentar ao seu lado, no carona.
Assim que ajeitei o cinto de segurança, o homem acelerou naquela velocidade segura que estava anteriormente, me fazendo agradecer por não ter que me segurar no assento como da última vez que andei sob sua direção em um veículo motorizado.
Estacionando o carro em uma garagem ampla, porém cheia de entulhos, saímos e adentramos na casa por uma porta lateral, cuja saída era na cozinha. Apesar do cheiro de nicotina com leves notas de maconha, o ambiente era organizado e limpo, como não imaginava que seria.
― É só vocês dois que moram aqui? ― olhei ao meu redor, curiosa.
― Sim.
― E é legal dividir a casa com alguém?
― George e eu já moramos sozinhos, com a banda e, por fim, agora, moramos juntos. Sempre tem alguém pra conversar, pra comer junto, pra jogar algo. É um pouco ruim quando você precisa de privacidade, mas não é nada demais. Não sei por quanto tempo vai continuar assim, pois, como você bem viu mais cedo, o rolo dele parece estar ficando sério. Você nunca morou com ninguém? ― meneei a cabeça negativamente.
― Saí da casa dos meus pais e fui morar sozinha.
― Garota independente. ― dei de ombros.
― Eu tento.
― Vem comigo. ― demos a volta ao redor da ilha na cozinha, encaminhando-nos para o sofá na sala.
Tirei a mochila do ombro, deixando-a no chão, próxima ao sofá.
― Acho que, antes de qualquer coisa, podemos decidir o que vamos comer, né? ― disse, tirando o celular do bolso da calça.
― Eu te imploro que não envolva fritura.
― Tá de dieta?
― Na real, só tentando controlar meu colesterol.
― O que acha de ravioli? ― ofereceu.
― Ótima ideia. Obrigada por isso. ― brinquei com as mãos unidas em frente ao rosto, como em uma prece.
― O restaurante que eu sempre peço é um pouco distante. Acha que pode aguentar esperar por uma hora e meia?
― Tranquilo.
― Quer beber algo? ― levantou-se, indo até a cozinha.
― Se você for beber, quero o mesmo.
Dois minutos depois, voltou com uma garrafa de vinho e duas taças em mãos.
― Você tem uma coisa com vinho, né?
― Eu gosto. ― entregou-me uma das taças, servindo doses iguais em ambas. ― Você não?
― Como a boa ex-universitária que sou, meu rolê é cerveja, não importa qual. Mas, na maioria das vezes, aceito qualquer coisa que tenha álcool. ― dei um gole na bebida, ouvindo-o rir baixinho.
― Então, jogamos no time do “qualquer coisa que faça eu me sentir menos triste”. ― bateu de leve com sua taça na minha, brindando.
― Matthew?
― Hm? ― resmungou com a taça na boca, bebendo.
― Acho que precisamos conversar. ― por fora, minha voz e expressão facial eram pura convicção; por dentro, meu coração batia tão forte contra minha caixa torácica que podia jurar que o homem à minha frente ouvia tudo.
― Sobre o quê? ― virou-se para mim, pondo metade de uma das pernas em cima do estofado, apoiando os cotovelos na coxa e segurando a taça com as duas mãos.
― Sobre… você sabe. ― desviei o olhar para minha taça. Odiava quando me olhavam de maneira tão incisiva como ele fazia.
― Não, eu não sei. E, se você não me falar, vou continuar não sabendo. ― sua voz estava carregada daquele tom meio debochado meio sério. Ele sabe exatamente do que eu estou falando.
― O que aconteceu entre a gente… ― deixei no ar.
― Seja mais clara, . Aconteceram muitas coisas desde que nos conhecemos. Te contei várias coisas, você tentou fumar maconha comigo, dormimos no terraço, você escreveu sobre mim, nós nos beijamos e até nos divertimos um pouquinho aquele dia no camarim, lembra? Bons tempos. ― sorriu e bebeu por inteiro o conteúdo de sua taça em um único gole.
― É sobre isso que precisamos falar.
― Continua vaga demais. ― largou a taça no chão, perto do sofá. ― Mas eu vou te ajudar: é sobre algum dos três beijos ou sobre o orgasmo que eu te prometi? ― deu um sorrisinho safado e eu queria socá-lo.
― A gente não pode levar isso adiante. Eu sou repórter e você é a minha fonte. O que vão dizer sobre nós se descobrirem?
― Acho que você tá paranóica. Ninguém vai descobrir se não contarmos. Além do mais, acho que você precisa… sabe, relaxar. ― recostou-se no encosto do estofado.
― Caralho, Healy, você não consegue falar sério um minuto? ― levantei-me, depositando minha taça sobre o mármore da ilha.
Passei uma das mãos pelo rosto, tentando desanuviar as ideias antes de continuar.
― Minha carreira significa muito pra mim e eu posso perdê-la por isso. ― olhando-me sério, Matthew parecia pensativo. Talvez ainda não tivesse parado para refletir sobre o assunto.
Levantando-se do sofá, caminhou em minha direção, parando a menos de um passo de mim. Pôs uma das mãos na lateral do meu pescoço, fazendo-me arrepiar ao sentir seu dedão acariciando meu maxilar.
― Nesse caso, a gente tem duas opções: eu cumpro minha promessa com você, depois fingimos que nada disso aconteceu ou podemos esquecer tudo isso e fingir que não tá rolando nada aqui. Você escolhe. ― fiz uma força descomunal para não fechar os olhos ou suspirar quando, com as pontas dos dedos, colocou uma pequena mecha do meu cabelo atrás da orelha, mesmo que ela não tenha permanecido nem dois segundos lá, e acariciou meus lábios com o dedão.
Não importava como estivesse o tempo do lado externo da casa, perto dele, me sentia quente, quase como se estivesse com insolação. Seus dedos deixavam sinais de fogo onde quer que me tocassem.
Com o resto de racionalidade que meu cérebro ainda conseguia produzir, pesei na minha balança imaginária o quanto eu queria aquilo e o quanto me arrependeria se continuasse sendo movida somente pela minha razão. Em qualquer um dos dois cenários, acabaria insatisfeita ou me sentindo culpada por algo. A diferença era que em um deles eu não voltava para casa tensa e irritada por ter ficado excitada com a ideia de algo que não aconteceu.
― Eu ainda tô esperando pela sua resposta, . ― disse com aquele tom baixo e aveludado.
― Você tem uma cara de quem vai foder com a minha vida. ― umedeci os lábios, mordendo o inferior.
― Fica tranquila que, por enquanto, eu só quero foder com você mesmo. ― respondeu segundos antes de colar sua boca na minha.
Se algum dia fui civilizada, não tinha mais lembranças disso.
Seus lábios eram ferozes sobre os meus e tínhamos pouco ou nenhum controle dos nossos movimentos, tanto que, sem querer, dei uma cotovelada na taça sobre a ilha atrás de mim, que se estilhaçou em mil cacos no chão, além do vinho que sujou boa parte do piso.
Assustada, olhei com os olhos arregalados para ver o tamanho do estrago. Já Matthew alternou o olhar entre o chão e eu, dizendo:
― Não foi nada. Depois eu limpo. ― e, assim, voltou a me beijar como se não tivesse acontecido.
Sem nos desgrudar, guiei-o novamente para o sofá, empurrando-o de leve, fazendo-o cair sentado sobre o estofado. Tirei meus sapatos e, erguendo a barra do vestido até a altura do quadril, pus uma perna de cada lado do seu corpo, sentando em seu colo. Com as mãos em seu pescoço, comecei a beijá-lo mais lentamente.
Suas mãos foram da minha cintura até minha nuca, arrastando os dedos de leve no trajeto, fazendo minha pele inteira se arrepiar. Sentindo sua ereção sob suas calças, fiz alguns movimentos de vai e vem vagarosos, perpassando-o sobre o tecido já úmido da minha calcinha.
Deslizando as mãos pelos meus ombros e braços, depositou-as em minhas coxas, cravando as pontas dos dedos ali, fazendo-me suspirar. Desvencilhando minha boca da sua, segurei meu vestido pela barra, puxando-o para cima a fim de tirá-lo, jogando-o do outro lado do sofá. Mentalmente, agradeci por ter desistido da ideia de sair de casa de calça naquela manhã. A vida era muito mais fácil quando se usava roupas abertas no meio das pernas.
Vestida somente com a calcinha, vi seus olhos percorrendo meu corpo de maneira faminta, como se fosse me devorar. Gostava do fato de, mesmo em um momento como aquele, Healy era totalmente transparente. Eu o conhecia o suficiente para saber que sua falta de palavras só podia significar que ele talvez estivesse gostando daquilo até mais do eu.
Arrastando as mãos pelas minhas coxas, colocou-as na minha bunda, apertando-a e tentando trazer meu quadril para mais perto do seu. Sua boca desceu até meu pescoço, intercalando entre beijos e chupões que roubavam todo o ar de meus pulmões.
Involuntariamente, meu quadril passou a se mover sobre o seu de novo. O homem soltou um gemido rouco contra a pele do meu pescoço. Sorri satisfeita, mexendo-me com um pouco mais de força, porém em intervalos mais espaçados.
Apertando ainda mais seus dedos na minha bunda, senti meu peito se projetar na direção do seu rosto. Meus mamilos estavam sobressaltados e endurecidos. Segundos depois, uma de suas mãos saiu da minha nádega, voltando a tocá-la em forma de um tapa no local.
Puxando sua camiseta para cima, Matthew me soltou por alguns segundos apenas para que eu pudesse tirar a peça de seu corpo. Admirada, contornei algumas de suas tatuagens com os dedos. Não era como se nunca o tivesse visto sem camisa, porém nunca estivemos tão próximos. Nem nos meus sonhos mais loucos conseguia conceber a sensação de sua pele tocando, roçando, aquecendo a minha.
Procurando pelos meus olhos, segurou meu rosto entre suas mãos e trocamos um sorriso caloroso.
Foi ali que percebi que aquela tinha sido uma decisão acertada. O que havia entre nós não era só tesão. De maneira muito singela e rápida, havíamos construído um relacionamento de confiança mútua. E, mesmo que nos conhecêssemos há menos de dois meses, ao olhar em seus olhos sentia que o conhecia de muitos e muitos anos.
Esticando-me para o lado, abri o zíper da mochila para pegar minha necessaire. De dentro, tirei um dos pacotes de camisinha que estavam ali aguardando pelo glorioso momento em que seriam finalmente usados. Antes de abri-lo, levantei-me de seu colo para que pudesse abaixar as calças e a cueca até metade das pernas. Enquanto isso, livrei-me da minha calcinha, deixando-a perto do vestido para que não a perdesse na hora de ir embora. Era a única que eu tinha ali.
Abrindo a embalagem, tirei o conteúdo de dentro, sentando-me sobre suas coxas. Deslizei o preservativo pela extensão de seu pênis e, assim que terminei, entrelaçou seus dedos das mãos nos meus, puxando-me para mais perto de si, iniciando um beijo lento e intenso.
Separando nossos lábios e soltando uma de minhas mãos, segurei seu membro para posicioná-lo em minha entrada. Encarando-o, introduzi-o por inteiro em mim de uma vez só, vendo-o fechar os olhos e suspirar. Sorri com a imagem. A ideia de estar no controle sempre me deixava mais excitada.
Rebolando vagarosamente, soltei minha outra mão, emaranhando as duas nos cabelos de sua nuca. Trazendo meu tórax para mais perto de seu rosto com uma das mãos espalmadas em minhas costas, senti todo o ar se esvair dos meus pulmões quando sua boca quente cobriu um dos meus mamilos ao mesmo tempo que seus dedos apertavam o outro. Sua língua fazia calafrios percorrerem meu corpo inteiro, embora estivesse começando a suar.
Iniciando uma trajetória de beijos do vão dos meus seios até meu pescoço e, por fim, minha boca, não o deixei me beijar. Com nossos corpos colados, podia ouvir sua respiração ofegante bem próxima do meu ouvido e, como fizera antes, intensifiquei a força com que me mexia sobre seu pau em intervalos mais longos. Logo, sua respiração se transformou em gemidos baixos.
Afastando-se centímetros de mim, envolveu meu pescoço em uma de suas mãos, apertando a outra ao redor da minha coxa. Suspirei alto, tentando me concentrar em não parar.
Sem quebrar nosso contato visual por um segundo sequer, percebi que seus olhos pareciam mais escuros, como se mudassem de cor de acordo com seu humor. Carregavam em si aquele brilho luxurioso que eu já vira antes, entretanto, naquele momento, de forma mais intensa.
Minhas pernas estavam adormecendo pela posição, todavia, não iria sair dali até terminar o que tinha começado. Portanto, passei a me movimentar mais rápido, subindo e descendo… eu estava tão molhada que seu pau entrava e saía com muita facilidade. E tudo me deixava ainda mais excitada: o jeito como piscava devagar, sua respiração pesada, seus gemidos baixos, as juntas de seus dedos perdendo a coloração por apertarem minha coxa, a pressão de sua outra mão ao redor do meu pescoço, o barulho de nossos corpos se chocando um contra o outro…
Cada pequeno detalhe me deixava à beira da loucura.
Tentando controlar os espasmos do meu corpo, não havia mais muita coordenação em meus movimentos. Seus dedos também começavam a se afrouxar, por isso, passei a massagear meu clitóris. Retirando a outra mão de seus cabelos, usei-a para me segurar no encosto do sofá.
Sentindo um tremor percorrer meu corpo, acelerei os movimentos de meus dedos sobre meu clitóris.
Quando gozei, continuei a subir e descer em seu pau até que ele também gozasse. Depois disso, tirei-o de dentro de mim. Ainda sentada em seu colo, permiti que meu corpo amolecesse a ponto de me recostar em seu ombro. O homem envolveu seus braços ao redor da minha cintura, depositando um beijo demorado e carinhoso sobre meu ombro, fazendo-me sorrir.
Minutos depois, ouvimos a campainha tocar e foi o suficiente para nos levantarmos correndo, cada um para um canto, em busca das próprias roupas. Vestindo-as do jeito que estavam, Healy foi para a porta e quase suspirei de alívio ao ouvi-lo conversar com o entregador de comida. Por mais que tivesse transado com ele no mais pleno uso das minhas faculdades mentais, não sabia se estava pronta para encarar alguém logo depois do ato. Se fosse George ou qualquer um dos outros caras, certamente ficaria tentando procurar o buraco de minhoca mais próximo para me esconder lá até o século seguinte.
Encaminhando-me para a cozinha a fim de limpar o vinho e a taça quebrada, pisei em um caco de vidro grande, sentindo-o perfurar e adentrar na minha pele. Gritei e, quase que instantaneamente, Matthew se materializou ao meu lado, tentando compreender o que tinha acontecido. Vendo o sangue na mão que eu usava para segurar o pé, o homem me amparou com um braço, ajudando-me a sentar em uma banqueta próxima à ilha.
― Espera aqui. Eu vou pegar a caixa de primeiros socorros. ― e saiu corredor adentro, voltando após alguns minutos com uma caixinha branca em mãos.
Agachando-se a minha frente, segurou meu pé, olhando-o.
― Ele é um pouco grande. Vou tirar de uma vez só, tá? ― fiz uma careta. A verdade era que estava me segurando para não chorar de dor. ― Vou contar até três. Se quiser, pode me apertar, trancar a respiração ou puxar o meu cabelo, ok? ― assenti. ― Um… ― falou e, em seguida, puxou o caco.
― Ai, cacete! ― gritei. ― Você falou no três.
― Todo mundo fala isso, mas se eu fizesse isso, você ia ficar tensa e ia doer mais. ― tirou uma gaze e soro fisiológico de dentro da caixinha, limpando o ferimento.
O ardor fazia meu pé se mexer e Healy tentava controlá-lo a todo custo.
― Mulher, deixe esse pé quieto. Assim eu não consigo limpar. ― reclamou.
― Mas tá doendo. ― resmunguei.
― Eu sei, mas eu preciso fazer isso. ― enquanto falava, colocava as gazes usadas e sujas de sangue no chão ao seu lado. ― Péssima ideia andar descalça em um chão cheio de cacos, hã?
― Eu achei que não tinha onde pisei.
― Pois é… tinha. ― riu. ― Não foi fundo, não vai precisar de ponto, eu acho.
― Doutor Matthew Healy? ― brinquei.
― Ao seu dispor. ― abriu uma nova embalagem de gaze, prendendo duas com esparadrapo sobre o ferimento. ― Vem. ― levantou-se, me oferecendo a mão.
Mancando, fui até o sofá, onde me sentei. Juntou tudo, jogando as gazes sujas no lixeiro, depositou a caixinha sobre a ilha e saiu. Ao voltar, tinha um pano e jornais em mãos. Enrolou os cacos nas folhas acinzentadas e, em seguida, limpou a mancha de vinho com um pano aparentemente úmido. Ao se livrar de tudo, pegou em um dos armários aéreos, dois pratos e uma nova taça. Em duas gavetas sob a pia, pegou talheres e uma colher maior, provavelmente, para pegar a comida.
Sentando-se ao meu lado, puxou a mesa de centro da sala para mais perto de nós e abriu a embalagem do restaurante. Ainda fumegante, um cheiro delicioso de molho se alastrou pelo ambiente, fazendo com que me desse conta que estava morrendo de fome. Serviu uma porção em um prato, oferecendo-me com os talheres, entregando-me uma taça com vinho logo após. Fez o mesmo para si mesmo e comemos calados por alguns minutos.
Sentindo seus olhos me queimando por um bom tempo, observando cada pequeno gesto meu, olhei-o e dei um meio sorriso.
― Que foi?
― Nada. ― franziu os lábios para baixo.
― Então, por que tá assim? Tá emocionado ainda? ― brinquei.
Passou a língua pelos lábios, umedecendo-os.
― Nada, só… fiquei um pouco surpreso. ― deu de ombros, bebendo um gole de sua bebida.
― Por quê? ― franzi as sobrancelhas.
― Você é sempre tão séria e mantém certa distância das pessoas, não achei que… ― deixou a frase morrer.
― Não achou que o que, Healy? ― arqueei as sobrancelhas, também umedecendo meus lábios. ― Agora, eu estou curiosa.
― Nada, esquece. ― voltou a comer.
― Fala. Lembra o que você me disse sobre falar o que pensa? Esse é o seu momento. ― rebati com uma voz desafiadora.
― Você tá me testando pra ver se eu falo alguma bosta? ― semicerrou os olhos. ― Ia dizer que você não parece o tipo que gosta de ser enforcada e toda essa merda.
― E você tinha desistido de falar pra eu ficar curiosa ou por que achou que isso ia me intimidar? ― largando meu prato sobre a mesa de centro, inclinei-me em sua direção.
― Era só curiosidade. ― deu de ombros.
― Ok, então, me pergunte o que quiser.
― É sério? ― deu um sorriso safado.
― É. Se você quer perguntar putaria, pergunte. Acho que agora não faz mais muito sentido bancar a tímida.
― O que mais você gosta?
― Além de ser enforcada? ― assentiu. ― Não tem muita coisa que eu não goste. A única coisa que fico um pouco receosa, apesar de gostar muito, é quando pegam no meu cabelo porque aí eu preciso tomar banho pra desembaraçar.
― Tapa?
― Na cara ou no corpo? Porque eu gosto dos dois. ― segurou uma risadinha. ― Que foi? Você quem perguntou, só estou te dando o que você pediu. ― sorri satisfeita. ― O que mais você quer saber? Com quantos anos eu perdi a virgindade, pra quantos caras eu dei, se já transei com outra mulher, qual minha posição preferida… ― sorriu de um jeito nervoso.
― Eu acho melhor a gente encerrar esse assunto.
― Eu te deixo nervoso assim? ― debochei.
Beberiquei meu vinho, pondo a taça sobre o tampo da mesa e assumindo uma postura mais séria.
― Como eu disse antes, isso não vai voltar acontecer. Foi divertido, mas isso precisa parar antes que prejudique um de nós.
― Queria saber se tem algum tipo alavanca no seu cérebro em que você troca de personalidade sempre que quer. ― revirei os olhos.
― Alguém tem que ter um pouco de juízo, né?
― Ah, mas falando sério, foi tão ruim assim que você não queira repetir?
― Puta que pariu! ― quase gritei. ― Você ouviu uma palavra do que eu disse?
― Eu não falei que tinha que ser em outro dia. ― arqueou as sobrancelhas com um sorriso sugestivo.
Demorei alguns milésimos de segundo para entender.
― Ah, não… Você não tá sugerindo que… ― sua feição estava imutável. ― E se o George chegar?
― Eu não disse pra ser na sala. Além do mais, não ia ser a primeira vez que o George vê uma mulher pelada e ele não falou nada de voltar hoje.
Dentro de mim, algo se agitava e dizia para concordar com ele. A minha razão continuava a dizer que iria me arrepender e eu tinha certeza que sim.
― Meu pé tá machucado. ― argumentei baixinho, daquele jeito que não é preciso muito para convencer.
― Você não precisa fazer nada. Eu cuido de você. ― passou a mão pelo meu rosto. Largou seu prato sobre a mesa de centro, ficou em pé, passando um braço pelas minhas costas e outro por trás dos meus joelhos.
― Vamos que eu tô com fome.
― Você mal encostou na sua… ― deixei a frase morrer ao notar o olhar malicioso que ele me lançara.
Quando chegamos em seu quarto, o homem me colocou deitada sobre sua cama com cuidado. Os lençóis eram branquíssimos e macios, além de completamente esticados, como se alguém tivesse passado o ferro para ficar liso daquele jeito.
Erguendo meu tronco, apoiei-me nos cotovelos para olhá-lo despindo-se.
Se eu morresse naquele momento, certamente estaria realizada.
Inclinando-se sobre mim, com uma mão de cada lado do meu corpo, iniciou um beijo lento e suave, do jeito que jamais imaginaria alguém como ele fazendo. Colocando a mão em meu pescoço, acariciou meu maxilar com seu dedão e senti como se o mundo todo coubesse dentro daquele cômodo abafado onde só nós dois importávamos.

- x x x -


Abri os olhos no meio da noite. O quarto estava totalmente escuro como anteriormente e sentia uma presença aquecendo minhas costas nuas. Virei-me de lado e acabei me assustando ao vê-lo.
― Calma. ― riu.
― Não tô acostumada a ter alguém dormindo comigo, lembra?
― Você não tem animais de estimação?
― Não. Sou alérgica e, como moro sozinho, o bichinho não teria companhia o dia todo.
― Consciente. ― deu um meio sorriso.
― Posso te fazer uma pergunta?
― Você me respondeu que gosta de tapas na cara. Acho que não estou em posição de te dizer ‘não’ depois disso, né? ― ri.
― Por que ontem e hoje você não tá com cheiro de cigarro? Digo, sua casa tem cheiro de cigarro, mas você não tá com um cheiro tão forte.
― Porque eu não fumei. Sabia que ia encontrar você.
― E daí?
― Bom, você não gosta do cheiro, então… ― deu de ombros e eu dei um sorriso tímido. ― Eu gosto que as pessoas gostem de mim, isso inclui você. ― deitou-se com o rosto mais próximo do meu no travesseiro. ― E eu posso te fazer uma pergunta?
― Você não fez quase nenhuma quando eu disse que podia, então, vou abrir uma exceção.
― Você já namorou?
― O quê? Que pergunta é essa? ― franzi o cenho.
― Jura que não vai se ofender com o que eu disser.
― Não vou jurar nada porque, se me ofender, eu te soco aqui e agora.
― Nossa, acho que vou fazer de propósito. Meu sonho é apanhar de mulher bonita. ― rimos. ― Você não parece o tipo de mulher que transa com qualquer cara só porque deu vontade.
― Eu não pareço um monte de coisas.
― E você não respondeu minha pergunta. ― suspirei.
― Matthew, eu tenho 25 anos, é óbvio que eu já namorei.
― Quando foi o último?
― Terminamos no início do ano passado.
― Quanto tempo durou?
― Que interrogatório é esse?
― Viu como me senti quando você metia uma atrás da outra? ― revirei os olhos.
― Dois anos. Terminei porque era meu ano de formatura e não precisava que alguém ficasse me dizendo o quanto eu era intelectualmente incapaz ou que minhas crises de ansiedade eram puro drama, que eu era uma pessoa fraca. ― confessei e o vi franzir os lábios.
― Sinto muito por isso. ― acariciou minha bochecha com o dedão.
― E aí foi quando descobri que é bom ser solteira. Eu gosto, pelo menos. Posso sair com quem eu quiser, a hora que quiser e tá tudo bem. ― dei de ombros. ― Sem contar que tenho duas mãos, não preciso de homem. ― mostrei as palmas para ele e nós dois rimos. ― Eu menti?
― Jamais. Dona da verdade.
― Que horas são?
― 1h20 da manhã. ― respondeu, virando-se brevemente para o lado e olhando seu relógio na cabeceira.
― Que horas você vai embora?
― Saio daqui umas 4h30.
― E você não vai dormir?
― Insônia. Tomar calmante não é uma opção porque vou apagar e perder o horário. Então, é o que tem.
― Posso te pedir uma coisa?
― Depois de hoje, quantas quiser. ― sorri.
― A gente pode dormir abraçados? Ser solteira tem lá suas desvantagens. ― envolveu-me em seus braços, aproximando seu corpo que, mesmo nu, estava plenamente aquecido. ― E você pode me acordar quando for a hora de você ir embora? Acho que vou pra casa nesse horário e quero me despedir também. Tô cansada. ― murmurei.
― É?
― É. Tomei um chá hoje que me deixou assim. ― brinquei, fazendo-o rir outra vez.
― Tudo bem. ― deu um beijo no alto da minha cabeça. ― Boa noite, .
― Boa noite, Healy. ― sorri, encostando a cabeça em seu peito para sentir o aroma que emanava do seu corpo.
Sem muita cerimônia, adormeci.
Ao acordar, muitas horas depois, o outro lado da cama estava vazio, porém havia um bilhete sobre a mesa de cabeceira.

“Seu sono é muito pesado e você fica linda dormindo, acho que é porque você realmente descansa. Enfim, preferi não te acordar, mas estou deixando esse bilhete como despedida. Avisei minha mãe e meu irmão que ia deixar as chaves da minha casa com você, então, se precisar de algo, você pode entrar quando quiser. Volto em alguns meses, espero que possamos nos encontrar.

Com amor,
Matty”


Sua caligrafia era horrível e difícil de entender, mas não pude evitar sorrir ao ler a mensagem, ouvindo sua voz em minha cabeça pronunciando cada uma daquelas palavras.


#13

Não contei nem para os meus amigos mais próximos, ninguém sabe
(why are you here - Machine Gun Kelly)


Os dias tinham se passado. Na semana pós-noite na casa de Matthew, comecei a montar uma planilha de entrevistas para as edições dos meses seguintes, pois precisava que as agendas dos nomes que Sullivan havia sugerido em nossa reunião de pauta batessem com as datas que planejávamos apurar, produzir e publicar as matérias. Portanto, para não ficar pensando no quanto aquela noite tinha sido boa o suficiente para me fazer desejar mais, acabei me afundando no máximo de tarefas que podia durante meu horário de trabalho e em casa. Queria esquecer que aquilo tinha acontecido de verdade.
Todavia, a cada dois dias, Healy me mandava mensagens perguntando se eu estava bem, como tinha sido meu dia. Acho que só estava tentando “marcar território”. Ou, na pior das hipóteses, me testando para ver se rolava um sexting ou coisa do tipo.
estava sorrateira, como se tivesse algo a dizer e medo de colocar em palavras, o que só podia significar que queria perguntar algo relacionado à Matthew. Apenas fingi que não percebia seu esforço, afinal, quanto mais eu evitasse falar seu nome em voz alta, melhor. Entretanto, era óbvio que, a qualquer instante, a bomba iria estourar. E aconteceu no final da tarde de quarta-feira.
Desta vez, minha amiga não se contentou em se pendurar na divisória entre nós. Veio até minha ilha, com o celular em mãos e uma cara de quem estava de olho na fofoca do momento.
Porém, antes de tudo, com uma expressão de confusão, semicerrou os olhos ao me olhar.
― Você não… tá com calor? ― fez um gesto para indicar o lenço que eu usava ao redor do pescoço.
Sim, estava morrendo de calor, mas meu pescoço estava cheio dos dedos e dos chupões de Healy. Mesmo que já estivessem desaparecendo, eles ainda eram visíveis e eu não podia arriscar ter que responder perguntas a respeito.
― Ah, isso? ― pus a mão no acessório. ― Estou um pouco ruim da garganta essa semana, então, achei que era melhor protegê-la. ― menti.
― Quer um cházinho, uma pastilha? Tenho na bolsa. ― apontou sobre o ombro.
― Tá tudo bem. Já estou me medicando. Mas fala. Que foi? ― era melhor ouvir suas suposições do que deixá-la fazer mais algumas sobre por que eu estava usando roupas compridas em um dia que estava beirando os 25 graus.
― Posso te perguntar uma coisa? Nesse momento, eu acho que você é uma das melhores fontes que tenho.
― Fala logo. ― apressei-a.
― Você sabe se o Matty está saindo com alguém?
― Por que eu saberia disso? ― fiz uma força sem precedentes na história da humanidade para minha voz soar normal e não fazer careta.
― É que ele postou uma foto e eu pensei que talvez tivesse comentado algo com você.
― Nossa, o que tem nessa foto pra você ter ficado assim? ― tentei soar brincalhona.
― Olha. ― estendeu o celular em minha direção.
Custei um pouco a entender o que tinha de agravante na imagem.
Era uma selfie como qualquer outra em frente ao espelho.
― Ao que parece, é no quarto dele. ― ainda procurava o que havia de errado quando o detalhe simplesmente pareceu berrar em frente aos meus olhos.
Era um pé.
Mas não era qualquer pé.
Era o meu pé.
Porra, caralho, filha da puta, cacete, inferno, puta que pariu, boceta…
― Ah, , não deve ser nada. ― dei uma risadinha nervosa.
Senti o sangue se esvaindo aos poucos da minha cabeça.
― Como não?
― Como você pode ter tanta certeza que essa é a casa dele ou que ela é realmente um affair? ― sim, eu estava a todo custo tentando despistá-la.
― Primeiro: ele tem outras fotos neste mesmo lugar; segundo: você acha mesmo que ele leva amiguinhas pra dormir na cama dele?
― Não sei. ― dei de ombros. ― Pode ser alguém que estivesse precisando de ajuda, de um apoio ou então que estivesse com saudades.
― Pelo amor de Deus, ! Foi você mesma quem disse que ele é o maior fuckboy da história da Inglaterra. ― suspirou furiosamente. ― Não sei por que eu tô perdendo tempo discutindo com você. Preciso apurar isso aqui. ― voltou para sua ilha.
― Onde exatamente você pretende apurar? ― perguntei como quem não quer nada.
― Ué, nos lugares de sempre. ― deu de ombros. ― Fanpages no instagram e facebook, reddit e alguns grupos nos quais eu estou.
― Mas o que eles sabem que você não?
― Muita coisa. ― olhou novamente a foto. ― Se for na casa dele mesmo, calculo que essa foto tenha acontecido há um mês ou um pouco mais que isso, né? ― errado, porém não seria eu a dizer isso.
― É, deve ser. ― dei de ombros e me sentei em minha cadeira.
Que a verdade seja dita: estava me cagando de medo que ela descobrisse. E eu sabia que ia. sempre descobria tudo o que queria.
Apreensiva. Foi assim que me senti pelo resto do dia.
Faltando somente uma hora para o fim do expediente, como se o universo já não tivesse me castigado o suficiente por um único dia, ao abrir o site, me deparei com uma das notícias em destaque na área de fofocas:

“Matty Healy tem um novo affair?”

Nunca quis tanto na minha vida estrangular uma pessoa como queria estrangular naquele instante. A raiva que me tomou era tanta que quebrei o lápis que segurava nas mãos. Um nó na minha garganta se formou e era a única coisa que me impedia de soltar um urro de ódio.
Percebendo que o lápis havia se transformado em dois, joguei ambas as partes no lixo, cobri o rosto com as mãos e respirei fundo algumas vezes. Calma, ela não sabe que é você. Na verdade, ninguém sabe que é você. Mas, se continuar agindo assim, todos vão saber. Levantando a cabeça, bebi quase um litro de algo em menos de um minuto.
A parte mais cansativa de esconder algo era ter que, ao olhar para , fingir que nada estava acontecendo e que, de fato, eu não sabia de nada.
Quando o expediente acabou, evitei ao máximo ficar conversando com ela, como sempre fazíamos. Inventei que precisava passar no mercado e na farmácia para comprar meus remédios. Eram as desculpas que nunca falhavam e que nunca se oferecia para me acompanhar, pois ela odiava supermercado.
Chegando em casa, como já era meu ritual, larguei a mochila em cima do sofá, tirei os sapatos e fui para o banho. O dia tinha sido estressante o suficiente para eu ter a determinação de encher a banheira, coisa que quase nunca fazia por pura preguiça ou pressa.
Com os cabelos amarrados, uma garrafa de cerveja aberta e meu celular por perto, entrei na banheira quente e com espuma, deixando meu corpo submerso quase que por inteiro, não fosse minha cabeça e meus braços.
O nome de Matthew começou a se iluminar na minha tela, anunciando uma ligação sua. Declinei, voltando a rolar meu feed do instagram. Outra vez, seu nome preencheu a tela do celular. Recusei de novo, bufando. Segundos depois, o telefone começou a tocar novamente e resolvi atender.
― Eu não tenho direito a um minuto de paz?
― Se está recusando minhas ligações é porque está com ele nas mãos, certo?
― Mas e se eu não quiser atender?
― O que você tá fazendo de tão importante que não pode atender uma ligação urgente?
― Tomando banho.
― Pra você entender o nível de urgência dessa ligação, eu não vou nem fazer comentários sobre o fato de você estar nua e falando comigo. ― revirei os olhos, dando um gole na minha cerveja.
― Então, fala o que é.
― Você contou à sua amiga sobre nós?
― Claro que não. ― ah, isso.
― Como ela sabe?
― A culpa é sua, você sabe disso, né?
― Minha? ― rebateu como se não entendesse o ponto.
― Foi você quem postou aquela foto, Healy. Aliás, gostaria de te lembrar que eu só consenti em transar com você porque ninguém ia saber. ― ironizei quase rosnando.
― Era a porra de um pé, .
― E você achou mesmo que as suas milhares de fãs não iriam entender isso como um ‘meu Deus, ele tá namorando de novo ou comendo a cidade toda?’ Por favor. Ou você é muito burro ou muito ingênuo. ― bebi um gole grande da cerveja. ― Sabe o que é pior? Nem adianta você apagar porque elas, assim como , já tiraram print, salvaram, enviaram para todos os grupos e páginas possíveis.
― Você vai colocar a culpa só em mim, então? É isso?
― Sim. ― debochei. ― Se você me dá licença, eu estou no meu momento de relaxar e tomar banho.
― Você vai desligar?
― Você espera que eu faça o que? Sexting?
― Não é uma má ideia.
― Caralho, não sei nem por que eu ainda pergunto se já sei a resposta. ― bufei. ― Boa noite, Healy.
...
― Boa noite. ― fui mais incisiva, desligando o telefone e pondo-o em modo avião.
Eu realmente não estava com paciência para lidar com aquele assunto.
Larguei a garrafa de cerveja no pequeno espaço revestido de azulejos ao lado da banheira, fechando os olhos para descansar por alguns minutos. No entanto, como uma televisão que troca de canal quando você senta em cima do controle e não consegue encontrá-lo, Matthew e sua voz aveludada invadiram meus pensamentos.
Em uma memória muito vívida, lembrava-me da sensação de seus dedos me tocando, dos arrepios em minha pele, dos gemidos roucos ao pé do meu ouvido. Ao mesmo tempo em que essas recordações aqueciam meu corpo de excitação, não conseguia evitar ficar tensa. Não queria pensar nele ou em nós dessa forma, mas era quase impossível.
Uma vozinha no fundo da minha cabeça sugeria que talvez eu devesse aproveitar aquele breve momento de excitação e me masturbar, quem sabe assim conseguisse me esvair da tensão como queria e precisava.
Deslizei uma das mãos para o meio das minhas coxas, passando a massagear meu clitóris. A única coisa com a qual eu não contava era que estava tão tensa com a situação toda que simplesmente não conseguia relaxar. Não importava quantas vezes eu trocasse de posição, se aumentasse ou diminuísse a pressão e velocidade dos meus movimentos. Meu corpo continuava tão duro e inflexível que decidi que era hora de encerrar o banho.
Maldito Healy.
Implantou uma tensão sexual tão violenta que provavelmente estava condicionada a me lembrar de como era transar com ele e nem mesmo conseguir me satisfazer sozinha.

- x x x -


Na sexta-feira, no início do expediente, Sullivan me chamou em sua sala. Fui até lá tranquila, achando que discutiríamos somente questões relacionadas a pautas e possíveis entrevistados, caso os nomes que já tínhamos levantado não estivessem disponíveis em nenhuma das datas que sugeríssemos.
, vou te fazer uma pergunta e preciso que você seja sincera em sua resposta, ok? ― franzi as sobrancelhas enquanto me sentava à sua frente.
― Ok… ― respondi um pouco desconfiada.
Pôs uma foto sobre a mesa e a empurrou na minha direção.
No papel luminoso, Matthew e eu estávamos impressos e sorridentes, lado a lado na rua. Era de sábado, mas como não vimos ninguém por perto nos fotografando?
― Onde conseguiu isso? ― voltei a encará-lo.
― Do mesmo lugar onde sempre consigo fotos. Mas a questão não é essa. ― cruzou os dedos das mãos sobre a mesa. ― Tem algo que você queira me dizer?
― O que você está insinuando, Sullivan?
― Qual a natureza do relacionamento de vocês? ― dei um sorriso irônico.
― Por favor, Josh. Somos amigos. Nós nos conhecemos mesmo, eu escrevi sobre, ele gostou e é isso. ― dei de ombros. ― Me encontrei com ele no sábado porque, quando e eu fomos no show deles no início da turnê, me sujei com café e ele me emprestou uma camisa. Eu precisava devolvê-la e é só.
― Tem certeza?
― Josh, olhe pra mim. Eu dei muito duro pra conseguir que você me desse essa chance. Acha mesmo eu desperdiçaria por causa de um homem? ― na verdade, eu estava tentando convencer a mim mesma disso.
Ainda me analisando, Sullivan bebeu um gole de água do copo que ele sempre deixava ao lado de uma pilha de papéis.
, você sabe o que acontece com a carreira de jornalistas que se envolvem com fontes, certo? Pior, você sabe o que acontece com o nome do veículo onde esse jornalista trabalha, né? ― respirou fundo. ― Olhe, isso não é uma ameaça nem nada, até porque eu acho que seria um desperdício tremendo perder uma profissional como você, mas te peço que, se realmente estiver acontecendo algo entre vocês, por favor, me comunique. ― ajeitou sua postura na cadeira. ― Um conselho que te dou, não como seu chefe, mas como um amigo, um colega de profissão é: não se deixe envolver, não vale a pena.
Tive a impressão de ter visto algo parecido com tristeza em seus olhos, como se tivesse revirado uma caixa de lembranças dentro da própria cabeça, todavia, não questionei.
― Não quero que você ache que estou te censurando até porque isso vai totalmente contra a política que quero que este ambiente de trabalho tenha, mas quero que saiba que, assim como nosso trabalho tem que ser transparente, nós também temos, ok? ― assenti.
Senti uma queimação no estômago. Tinha algo errado em todo o discurso de Josh, eu não sabia identificar o que era. Também não saberia dizer se esse pressentimento estava sendo produzido pela culpa que estava sentindo por não estar sendo totalmente honesta.
― De qualquer forma, como essa foto já deve estar pipocando na internet, vou pedir a que escreva uma matéria sobre e dê a ela uma fala confirmando que vocês são só amigos, certo? ― concordei. ― Até mais.
― Até. ― e voltei para minha ilha.
já estava pendurada sobre a divisória.
― Sim, , já sei sobre a foto. Sullivan fez questão de me mostrar e me perguntar se eu estava saindo com Matthew. ― respondi antes mesmo que ela formulasse a pergunta.
― O que você disse?
― Confirmei que éramos amigos porque essa é a verdade. ― dei de ombros.
― E tudo bem se eu soltar a matéria?
― Claro que sim, né? Provavelmente, há essas horas, já estão dizendo que aquele pé é meu. ― e não estão errados…
― Me responde com suas palavras, então. ― acionou o gravador do celular e o pôs perto de mim. ― Qual sua relação com Matty Healy?
― Há dois meses, mais ou menos, o acompanhei durante uma semana para escrever uma reportagem perfil para o veículo em que trabalho. Nós tivemos conversas muito intensas e íntimas sobre sua família, seus problemas com drogas, seus relacionamentos e outros tópicos que cabiam naquele momento. Acabamos nos tornando amigos e mantemos contato sempre que possível.
― Mas vocês já tiveram algo que ultrapassasse a amizade?
― Nunca. Minha relação com ele começou como algo estritamente profissional e seguiu assim até que eu finalizasse a reportagem. Ultrapassar esses limites jamais foi uma opção. ― menti.
― E você sabe quem pode ser a dona do pé na foto? ― fiz uma cara de desacreditada no que estava ouvindo.
― Não tenho a menor ideia. Acredito que isso seja de ordem privada da vida dele e, quando ele se sentir à vontade, virá a público se pronunciar sobre. ― desligou a gravação. ― Pra quê, sabe?
― Eu não podia perder a oportunidade. ― riu. ― Já que vocês são amigos, nada melhor que uma declaração sua.
Balancei a cabeça em desaprovação.
― Bom, lá vou eu salvar sua pele, né? ― saiu da divisória, sentando-se em sua cadeira. ― Não há de quê, amiga. ― respondeu quando não ouviu meu agradecimento.

- x x x -


Pouco mais de uma hora tinha se passado desde que soltou a notícia. Por algum motivo, meu instagram pessoal estava cheio de solicitações de pessoas estranhas para me seguir.
Meu ramal telefônico tocou.
― Olá, , tudo bem? Aqui é o Jamie Oborne.
― Oi, Jamie. Tudo bem e você?
― Bem, bem.
― A que devo a honra da sua ligação?
― Vi, assim como todo mundo, aquela foto sua com Matty que vazou hoje. Vocês lançaram uma notícia sobre isso, certo?
― Sim. E? ― deixei no ar para que ele completasse seu raciocínio.
, sei que você não gosta de mim, mas quero que entenda que tudo o que faço é pensando no bem de todos. ― suspirou baixo. ― Não sei se você realmente os vê apenas como amigos ou se você mentiu para disfarçar uma possível aproximação entre vocês dois, também não faço nenhuma questão de saber, pois acredito que isso diga muito mais respeito à sua vida pessoal do que de qualquer outra pessoa. Porém, Matty não te vê assim. Ele não assume, mas o conheço tempo suficiente para saber como se sente. ― pausou. Um suspiro cansado soou na linha pouco antes de prosseguir: ― Te liguei para te dar um conselho, afinal, não me sentiria bem se não o fizesse. Matty é um ótimo garoto. É gentil, bem-humorado e sincero, entretanto, conviver com ele requer muita energia e paciência. Sei que, quando está na sua companhia, ele se esforça para ser alguém melhor, mais sóbrio. Mas nós já passamos por isso várias e várias vezes. Logo vem a abstinência, a agressividade, o autoisolamento e a depressão. E, confie em mim, você não vai querer ser sugada pelo furacão sem um aviso prévio. ― no fundo, mesmo que suas palavras soassem honestas, não sabia se podia confiar nele ou não. ― Não quero que pense que estou te dizendo essas coisas porque acho que você não o merece ou que não estão no mesmo nível. Muito pelo contrário. Você é uma boa garota, , se tivéssemos que apontar alguém que talvez não mereça, seria ele. O que quero dizer é que você é jovem, esperta e indiscutivelmente muito bonita. Estou apenas te alertando porque acho que você tem o direito de saber onde está se metendo, ok?
― Obrigada, Jamie. Era só isso? ― tentei não soar grossa, mas eram coisas demais para absorver em poucos minutos.
― Sim. Não quero continuar te atrapalhando, sei que você está no trabalho. Obrigada pelo seu tempo.
― Digo o mesmo. Até mais. ― desliguei assim que obtive sua despedida.
No fim, talvez Healy e eu fôssemos mais parecidos do imaginávamos. Incapazes de fingir ou de esconder nossos mal-estares, as pessoas sempre achariam árduo demais criar laços duradouros conosco, pois éramos pessoas quebradas, sem conserto e indignos de afeto.


#14

Você não pode ficar brava pra sempre
(Hiding - Pianos Become The Teeth)


Eu devia ter perdido a cabeça. Completamente louca, insana. Toda vez que acessava algum daqueles perfis falsos que havia criado, me sentia como se tivesse 13 anos e nenhuma vergonha na cara de novo. Mas eu precisava saber. Precisava ver com meus próprios olhos se ainda continuavam repostando aquelas fotos, falando meu nome como se me conhecessem.
Sentia-me envergonhada por ter criado tantos perfis só para me infiltrar em grupos, fanpages e fóruns despercebida. Tudo isso para sentir meu ego inflar e ser estourado segundos depois de acordo com os comentários dos fãs de Matthew a meu respeito. Alguns declaravam apoio incondicional caso realmente estivéssemos tendo algo; outros diziam que ele não deveria namorar “uma jornalista aproveitadora que só estava atrás de um furo e fama”; e ainda haviam os audaciosos que o tratavam como um cristal intocado que deveria se envolver com uma garota mais bonita ou do mesmo ramo.
Às vezes, eu ria de nervoso. Às vezes, sentia meu rosto queimar de raiva ― no último mês, havia quebrado mais dois lápis e a tela do meu celular em acessos de raiva dos quais não me orgulhava nem um pouco. Às vezes, chorava antes de dormir. As pessoas eram muito maldosas em seus comentários e pouco se importavam se eu poderia ou não ler o que escreviam sobre mim. Estas geralmente eram as mesmas pessoas que em seus perfis pessoais clamavam por empatia, respeito e amor ao próximo. Eram todos um bando de hipócritas do caralho.
Gradativamente, conforme o decorrer do mês, os posts sobre mim foram se tornando menos frequentes. Meu nome estava deixando de ser associado ao de Healy. Eram poucas as pessoas que ainda insistiam nessa história e, boa parte das que ainda me citavam em locais dedicados a banda, passaram a divulgar meu trabalho, indicando aos outros que lessem outras reportagens de minha autoria, pois “eu tinha jeito com as palavras e parecia sincera no que escrevia”. Essa parte era legal. Inclusive, os acessos a trechos de reportagens minhas que costumávamos postar no site para instigar os leitores a comprarem a revista aumentaram muito graças a isso.
Na noite de quinta-feira, como de costume, esperei que terminasse suas atividades para que fôssemos juntas até a estação de trem. A noite estava abafada e, provavelmente, muito em breve choveria, por isso, mesmo odiando andar rápido, sugeri que o fizéssemos a fim de evitar nos molharmos.
Minhas bochechas queimavam de calor e precisaria lavar meus cabelos quando chegasse em casa devido ao suor.
― Sabe, , tem uma coisa que eu não consigo tirar da minha cabeça.
― Sobre o que?
― Aquela foto do Matty com o pé na cama. Desde o dia da publicação, eu tinha a sensação de não estar vendo algo que estava na minha cara. Perdi as contas de quantas vezes olhei para aquela foto em busca de algo, uma pista sequer.
― Não acha que está obsessiva com essa história? ― brinquei, dando uma risadinha nervosa.
― Não, espera. Eu ainda não cheguei na melhor parte. Bom, depois de um tempo observando todos os elementos dentro da foto pra ver o que encontrava, fiquei pensando que ainda tinha algo que eu não estava vendo. E aí me veio a sensação de que já tinha visto aquele pé em algum lugar. Então… ― pegou o celular do bolso, dando alguns toques na tela e me mostrando em seguida. ― Tcharam!
― Dois pés? ― arqueei as sobrancelhas, ironizando. A verdade é que eu sabia que ela sabia. Era um recorte de uma foto que havíamos tirado em minha casa, onde mostrava apenas meu pé ao lado do pé que Healy havia fotografado por engano ao fundo de sua selfie.
― Vai me dizer que você não reconhece esse pé? ― franziu a testa, a voz assumindo um timbre desafiador. ― Ok, então vamos ver se você reconhece isso. ― deu mais alguns toques na tela, mostrando-a para mim novamente. Era um zoom bem na beirada da imagem que mostrava não muito explicitamente a estampa florida do vestido que usei no dia que fui à casa de Matthew.
Parando de andar, suspirei, passando a mão pela testa.
― Ok, ok, você venceu. Esse pé é meu e o vestido também.
― Por que você não me disse nada? ― cruzou os braços, as feições se relaxando por alguns segundos.
No entanto, isso durante apenas este tempo: segundos. Quando minha resposta não veio, parece ter descoberto a resposta quase que imediatamente. Ali, bem diante dos meus olhos, suas feições se alteraram outra vez, como se tivessem ganhado mais 10 anos.
― Você não achou que eu iria publicar isso como furo, achou?
Mordi o canto do meu lábio inferior, calculando medindo quais palavras usar.
...
, desculpe. Eu não queria…
― O que? O que você não queria? Confiar em mim? ― rebateu.
― Não. Não é isso. ― respondi baixinho.
― Então o que era? Porque, sinceramente, eu não tô entendendo.
― Não queria que ninguém soubesse.
― Mas eu não sou ninguém, porra! ― sua voz saiu esganiçada, como se tentasse não gritar. ― Eu sou sua amiga, . Ou, pelo menos, achava que era. Como você pôde achar que eu faria isso com você? ― sentindo meus olhos marejando e minha garganta arder, agradeci aos céus quando a chuva começou a nos molhar, assim, nenhuma de nós saberia identificar o que eram as gotas que caíam do céu e o que eram minhas lágrimas.
― Eu sinto muito. ― minha voz era um fio, quase um sussurro.
Lançando-me um último olhar de decepção, me deu as costas e partiu sem mim.
E eu fiquei lá, parada na chuva, olhando-a ir embora.

- x x x -


Duas semanas depois, ainda não falava comigo. Na verdade, ela nem mesmo me olhava mais. Entrava e saía da redação calada. Tenho certeza de que se pudesse, também pediria para trocar seus objetos pessoais de mesa, a fim de trabalhar longe de mim.
Naquele dia, algo que dificilmente acontecia, ocorreu. Josh havia chamado em sua sala. Saindo de lá cerca de 40 minutos depois, suas expressões faciais denunciavam que algo não muito bom. Após isso, não postou mais nenhuma fofoca sob seu nome. O mesmo ocorreu nos dois dias seguintes.
Na realidade, era o nome de Patricia que aparecia no cabeçalho de todas as fofocas postadas no site. Confusa e com um pouco mais de coragem do que nos dias anteriores, levantei-me de minha ilha, indo até a de .
? ― chamei-a.
A mesma olhou-me depressa, voltando aos seus afazeres em seguida.
― O quê?
― Por que… ― senti um aperto na boca do estômago, respirei fundo. ― Por que você não está publicando suas notícias apuradas no site?
― Primeiro de tudo: não são notícias, são apenas conteúdo de pouca relevância e credibilidade. Segundo: eu fui removida da função.
― O quê? Por quê? ― suspirou, virando-se para mim.
― Por sua causa. Porque, mesmo depois de você ter praticamente assumido que não me contou nada por me achar traíra, não consegui te entregar pro Sullivan. Espero que esteja contente.
― Contente? Eu? , eu jamais ficaria contente com isso. Essa é a sua posição, você a ama. Não pode desistir dela por mim.
Virou-se na cadeira novamente para mim.
― E você aguentaria ser perseguida e sofrer bullying de gente que nem te conhece de graça? ― não consegui responder. ― Foi o que imaginei. ― voltou aos seus afazeres.
, por favor, converse comigo. Eu sei que errei com você. Nunca devia ter desconfiado de você. ― passei as mãos pelo rosto. ― Você foi minha primeira amiga aqui, quem me recebeu, me ensinou tudo. É você que sempre cuida de mim e se preocupa comigo. Jamais vou me perdoar se você não o fizer.
― E por que eu deveria? ― desta vez, minimizou a tela onde digitava, rodando na cadeira outra vez e cruzando os braços, encarando-me bem nos olhos. ― Me dê um único motivo plausível para isso.
Contendo a mim mesma exatamente como quando era criança, segurei o choro. Por mais que minha garganta se fechasse e meu rosto inteiro queimasse pela vontade de chorar, aquilo poderia esperar. Precisava que me entendesse.
― Eu sei que tenho sido uma péssima amiga pra você, que sou egoísta e fui uma filha da puta com você. Não deveria ter escondido isso de você. Pelo menos, não sob o pretexto de que você publicaria. Fiquei tão assustada com a possibilidade do que poderia acontecer caso alguém descobrisse que… não consigo nem mesmo falar sobre isso em voz alta. ― abaixando-me para ficar mais próxima dela e descansar um pouco minhas pernas, comecei a falar mais baixo. ― Pra você ter uma ideia de como essa história me deixou paranóica, eu nem consigo mais me masturbar! ― confessei e, como se tivesse contado a piada mais engraçada do mundo, explodiu em gargalhadas, fazendo todos ao nosso redor nos olharem.
À medida que tentava se controlar, me deixei contagiar por sua risada, juntando-me a ela. Meus ombros se relaxaram e minhas bochechas ficaram um pouco doloridas depois de algum tempo.
― Tipo, isso é sério mesmo? Nem um pouquinho? ― secou as lágrimas que se formaram em seus olhos.
― Nada. ― cochichei.
― Pra te deixar assim, ele deve ser muito bom, hein? ― meu rosto inteiro continuava a queimar, porém, desta vez, era de vergonha.
― A gente pode deixar pra conversar sobre esses detalhes em uma noite das garotas? ― pedi, desviando o olhar dos seus.
?
― Sim?
― Por favor, não deduza mais coisas que você não tem certeza, ok? ― pôs a mão sobre meu ombro. ― Quero que saiba que não fiquei brava por você não ter me contato, mas por achar que eu a exporia a uma situação que sei que você não está pronta e não quer lidar. ― franzi os lábios.
― De novo, eu sinto muito.
― É, eu sei. Mas ainda bem que eu fiquei brava, os refrescos que essa história me trouxeram são os melhores que já recebi na minha vida. ― rimos.
― Estamos bem, então?
― É, estamos. ― deu de ombros e eu a abracei.
― Mas o que você vai fazer sobre… você sabe, sua remoção das fofocas?
― Eu vou sobreviver. Sem contar que é temporário. Logo o Josh esquece essa história e vai perceber que Patricia não leva o menor jeito como fofoqueira profissional. ― ri.
― Tem certeza? ― assentiu, fechando os olhos suavemente no ato.
Dando um beijo no alto da minha cabeça, voltou a trabalhar e eu voltei para minha ilha um pouco mais tranquila.

- x x x -


À noite, sentada em minha cama, comendo uma quantidade não saudável de batatas chips com refrigerante e assistindo Meninas Malvadas pela centésima vez, meu celular tocou sobre meu colo, fazendo-me pausar o filme para atendê-lo sem nem ao menos conferir o nome ou número que aparecia na tela.
― Oi, . ― sua voz soou de um jeito preguiçoso e rouco.
― Uau, lembrou da minha humilde existência. ― fingi estar afetada. Fazia mais de um mês que nosso contato havia se tornado escassas mensagens com apenas “oi, tudo bem?”
― Você também poderia me ligar pra, sei lá, me dizer como foi seu dia, como estão as coisas, que está com saudades.
― Mas eu não estou com saudades e a minha vida continua praticamente a mesma de quando você saiu daqui.
― Ok, então, acho que talvez eu devesse desligar.
― Ok. ― dei de ombros. Geralmente eu gesticulava ao falar ao telefone, mesmo que a outra pessoa não pudesse me ver.
― Você sabe que não vou fazê-lo, né? ― riu. ― Como foi seu dia?
― Bem.
― Impressão minha ou você está mais evasiva que o normal?
― O que isso deveria significar, Healy?
― Que você tá me evitando ou evitando algo. O que aconteceu? ― suspirei.
― Você não deveria perguntar se aconteceu alguma coisa primeiro?
― Não porque eu sei que algo aconteceu. Então, quero saber o que foi.
descobriu sobre nós.
― Ela ainda não sabia? ― sua voz continha certo estranhamento.
― Não. ― bebi um gole de refrigerante. ― Ela ficou obsessiva com o pé da foto e só parou quando o comparou com o meu pé em uma foto nossa.
― Nossa, ela é boa mesmo.
― Sim, ela é. ― dei um meio sorriso. ― O problema é que algo rolou e Josh percebeu que talvez ela soubesse mais do que estava divulgando. Ela se recusou a contar e agora é a garota do boletim informativo.
― Ela deve estar chateada.
― Ela tá fingindo que não tá só pra eu não me sentir mal. E a verdade é que eu tô me sentindo um lixo por isso. Sou uma péssima amiga.
― Ei, ei, ei, . Não é sua culpa, lembra? A culpa é minha. Eu pus aquela foto e nada disso estaria acontecendo se…
― Se eu tivesse dito ‘não’. ― interrompi-o. ― Me deixe assumir minha parcela de culpa nisso porque, convenhamos, se eu não tivesse consentido, nada disso estaria acontecendo.
― E ainda estaríamos em um estado deplorável de tensão sexual. ― debochou. ― , por favor, se tiver que culpar alguém, culpe a mim. E quer saber? Eu vou resolver isso.
― Como? Me desculpa, mas você tem muita autoconfiança de que consegue fazer coisas totalmente fora do seu alcance.
― Você é uma mulher de muito pouca fé, .
― Sabe, às vezes, eu não tenho a menor ideia do que estamos conversando. ― ri.
― Você precisa se libertar da sua vibe garota certinha, tentar algo mais caótico.
― Ah, é? E o que você me sugere?
― Algo tipo o que eu vi e ouvi na minha casa. Aquela, sim, é uma energia que combina com você.
― Garota safada dá pra cara famoso?
― Não. Mulher assume as rédeas da situação e transforma homem em seu refém. ― evitando fazer barulhos que entregassem minhas reações, segurei uma risada. ― Eu sei que você muito provavelmente não vai querer que a gente reviva aqueles momentos de glória, mas, por favor, se existir alguma mínima possibilidade de acontecer, você pode me avisar só pra eu poder me encher de esperança?
― Healy, você precisa seguir em frente.
― E juro que tô fazendo isso, mas, de vez em quando é meio difícil. Às vezes, tenho umas lembranças sexuais que são impossíveis de ignorar.
― Como você faz isso?
― Isso o quê?
― Fala tão aberta e tranquilamente sobre isso como se fosse um assunto corriqueiro.
― Bom, nós transamos. Se eu não puder falar sobre isso com você, não sei com quem vai ser. Tá querendo me dizer alguma coisa e não tá conseguindo, ? ― sua voz assumiu aquele tom brincalhão.
― Cala a boca. ― senti minhas bochechas queimarem.
― Você também tem pensado sobre mim, né?
― Se você não mudar de assunto agora, eu vou desligar.
― Não, não desliga. ― sua voz soou levemente alterada.
― Por que toda vez que eu ameaço desligar você fica assim?
― Porque eu gosto de conversar com você… de ouvir sua voz.
― Por quê?
― Sua voz é muito expressiva. Sei quando você tá animada, triste, cansada…
― Como?
― Por exemplo, quando você fala alguma putaria, ela fica meio tom mais baixa, a entonação das palavras muda e sua respiração fica mais audível. Além disso, gosto de te ouvir falar porque, quando fecho os olhos, consigo imaginar o seu rosto, me lembro do seu cheiro, as curvas que seus lábios fazem ao sorrir. Sua voz me deixa mais calmo também.
― De novo: por quê? O que é isso? ― não consegui formular uma frase que melhor descrevesse ao que eu me referia.
― Sinceramente, eu não sei. ― silêncio.
Não estava gostando dos rumos daquela conversa.
― Bom, amanhã eu preciso acordar cedo e acredito que você tá no seu horário de descanso, né?
― Estou na companhia de Lindsay Lohan, Rachel McAdams, Lacey Chabert e Amanda Seyfried.
Meninas malvadas?
― É.
― Clássico do cinema thrash.
― Pode apostar que sim.
― Enfim, acho que isso é um boa noite, .
― Boa noite, Matthew.
― Espera. Por que você nunca me chama pelo meu apelido?
― Nunca achei que tivéssemos esse tipo de intimidade até porque você também não me chama por nenhum apelido.
― Mas seu nome já é ridiculamente curto.
― Que seja. Boa noite… Matty. ― soltei após uma pausa dramática.
― Boa noite, .
De manhã, ao acordar, a primeira notificação que vi foi de uma mensagem de .

“Isis, você é incrível mesmo, né? Muito obrigada!!!! Eu te amo <3”

E, como de costume em quase todas as situações da minha vida, não entendi absolutamente nada.

#15

Eu não sei por que estou surpreso
(Guys - The 1975)


― Eu deveria entender o contexto disso? ― mostrei a mensagem na tela do meu celular para .
― Boa tarde, . Tô bem e você? ― ironizou com um sorriso brincalhão.
― Desculpa, . Oi. Mas, sério, eu deveria?
― É, eu acho que sim. É sobre o emprego. ― minha expressão facial devia ainda aparentar confusa, pois ela completou: ― Como assessora.
― Ah. Certo. ― concordei, mesmo que ainda não fizesse a menor ideia do que ela falava.
― Jamie me mandou mensagem ontem à noite e pediu para me ligar hoje de manhã. Ele quer uma entrevista comigo à noite.
― Tenho certeza de que você vai se sair muito bem. ― pus a mão em seu ombro sorrindo.
― A mensagem era pra te agradecer. Sei que tem seu dedo nisso. ― lembrei-me da conversa com Matthew no dia anterior como em um flash e tudo se encaixou.
― Faça o que você sabe fazer de melhor e já vai ter me agradecido. ― sorriu.
Ao longo do dia, discretamente me enviou mensagens perguntando a respeito de Jamie e dos outros donos-fundadores da gravadora a fim de entender como eles eram e se havia algo que não estava disponível online que ela deveria saber. Respondi suas perguntas uma a uma, mantendo sempre como nota mental que, assim que fosse possível, deveria agradecer a Matthew pela ajuda.
Além disso, por mais que tentasse enganar a mim mesma, estava ansiosa pelo seu retorno. Os três meses, que antes pareciam distantes, estavam chegando ao fim. Não que tivesse alguma ilusão de que algo acontecesse entre nós, porém só a promessa de poder revê-lo com olhos que brilhavam intensamente, ouvir sua voz seguida de um sorriso com dentes levemente desalinhados já fazia a espera valer a pena.
Preocupada em como pensar nele estava se tornando parte da minha rotina diária, inclui-o como pauta da minha última sessão de terapia. Maureen, minha psicóloga, questionou se eu estava me apaixonando por Matthew. Não sabendo como respondê-la, resolvi apenas descrever como me sentia em relação à ele: física e sexualmente atraída por alguém que, às vezes, soava tão emocionalmente imaturo e psicologicamente despedaçado quanto eu. Após essa confissão, Maureen me alertou sobre a necessidade de ficar atenta a sinais de dependência emocional de ambas as partes, também expressou sua preocupação sobre como um relacionamento poderia acabar afetando negativamente meu já tão frágil processo de recuperação.
Claro que para ela era muito fácil dizer todas essas coisas. Não era na cabeça dela que havia um sem número de lembranças luxuriosas carimbadas e que a atacavam várias vezes ao dia.
É, mesmo que não quisesse admitir, talvez, muito remotamente dentro de mim, eu estivesse com saudades dele.

- x x x -


No início da tarde seguinte, não apareceu para trabalhar, portanto, enviei uma mensagem de texto questionando seu paradeiro e se estava tudo bem.

“Amiga, eu tô mais que bem. Jamie me contratou e agora tô com ele no prédio da Dirty Hit

, isso é incrível! Parabéns <3”

“Caraca, esse lugar é maior do que imaginei que seria”

“Você começa a trabalhar aí quando?”

“Oficialmente, amanhã. Ainda preciso pedir demissão do
Repeat Daily

“Josh ainda não sabe?”

“Não quis contar enquanto não fosse nada certo”

“Fez bem”

“Se tiver novidades, te conto mais tarde”

“Ok <3”

“:) <3”


Obviamente que “mais tarde” para significava exatos 12 minutos depois, quando me mandou uma foto segurando seu novo crachá. Seu sorriso estava mais radiante que nunca.
Cerca de uma hora e meia após isso, Sullivan apareceu ao lado da minha mesa, com o celular em mãos.
― Você sabe me explicar o que é isso? ― desviando o olhar de seu rosto, olhei para a tela do aparelho, que estampava a figura de Jamie Oborne com um braço sobre os ombros de . Aos pés de ambos, havia um bloco de texto escrito “bem-vinda, ”.
― Acho que é algo que só a será capaz de te explicar. ― tentei despistá-lo.
― Você não faz a menor ideia? Mesmo?
― Não tenho nada a ver com isso, Sullivan, mas ao que parece, você está prestes a perder uma de suas jornalistas mais competentes. ― tive que me esforçar muito para não imprimir em meus lábios a sensação de vitória que preenchia meu peito.
― Por que ela faria isso? ― pôs a mão no queixo com um semblante pensativo.
“Porque você foi um cuzão” era o que eu desejava dizer, mas me contentei com:
― Você desperdiçou as habilidades da assim que a colocou para cuidar de boletins.
― Era apenas uma medida provisória.
― Josh, nós somos seus funcionários, não seus filhos para sermos colocados de castigo. Você poderia ter só dado uma advertência. ― dei de ombros. ― Quer dizer, é isso que se faz quando seu empregado faz algo que foge às normas da empresa, certo? Aliás, até onde eu sei, ela não fez nada de errado.
― Ela se recusou a publicar uma informação. ― franziu as sobrancelhas.
― Se foi algo que conseguiu em off, tem todo o direito de escolher não divulgar.
― Espera. ― inclinou a cabeça para o lado levemente. ― Você sabe de algo. ― não foi uma pergunta.
― Isso foi uma pergunta? ― me fiz de boba.
― Não. Foi uma afirmação. O que você sabe que eu não sei, ?
― Eu nem mesmo sei do que você tá falando, Josh. ― dei um sorriso irônico.
Com os olhos semicerrados, o homem me avaliou por alguns segundos e tive medo que talvez aquele fosse ser meu último dia empregada.
― Acredite em mim. O que quer que você ache que eu sei, realmente não faço ideia o que seja. Apenas defendi porque acho que, se vamos nos autointitular defensores da imprensa livre, temos que ser livres para exercermos nossos direitos.
Dando um passo em minha direção, Sullivan umedeceu os lábios, olhando-me nos olhos.
― Sabe, , você fez seu dever de casa. ― deu um meio sorriso. ― Um bom jornalista não é só respeitoso… ― deixou no ar.
― É também ousado. ― dei um meio sorriso.
― Pode voltar ao trabalho. ― ouvir aquela frase sair de sua boca quase me fez soltar um suspiro de alívio mais sonoro do que seria socialmente aceitável.
Virando a cadeira de frente para a mesa, retomei minhas atividades.
Olhando a seção do site que costumava ser de , vi que Patricia estava postando um apanhadão geral sobre como havia sido o mês de maio das celebridades e é claro que o Met Gala da Vogue não poderia deixar de ser citado. Cliquei no link que redirecionava para a matéria publicada no início do mês por . Por mais que aquele fosse o tipo de matéria que não era bem visto pela maioria dos jornalistas e, até mesmo, para os pseudo-intelectuais que se intitulavam melhores que os outros por não consumirem tal conteúdo, eu adorava. Aliás, não perdia uma premiação que tivesse transmissão ao vivo quando coincidia com meu tempo livre.
Rolando a página, acabei clicando na parte que redirecionava para a galeria de fotos, afinal, um baile da Vogue devia ser focado nas roupas, certo? Fui passando uma a uma, dando uma boa olhada nos looks. Até parecia que eu estava completamente desocupada com o tempo que estava dedicando àquilo.
Acabei parando de clicar na seta que mudava de imagem quando chegou em uma artista em específico: Halsey. Seu figurino estava impecável, assim como sua aparência física. Os cabelos escuros bem penteados contrastavam bem com a roupa inteiramente branca, que, ao que estava descrito, era inspirada em Blade Runner.
Ela era tão bonita. Sem contar que era uma ótima cantora. Não foram poucas as vezes que cantarolei suas músicas no chuveiro, principalmente aquelas que haviam sido compostas para Healy e eu nem mesmo sabia disso.
Meu Deus, eles já tinham ficado!
Passei as mãos pelo rosto.
― Pelo amor de Deus, , se controle. Vocês transaram duas vezes. No próximo verão, ele não vai nem lembrar seu nome. ― sussurrei para mim mesma.
Ao tirar as mãos do rosto e voltá-las ao teclado, algo me ocorreu. Era bem provável que me arrependesse futuramente, entretanto, em um piscar de olhos, Halsey estava inclusa em minha planilha de possíveis fontes.
É, eu parecia uma adolescente obcecada pelo ídolo.

- x x x -


Durante o resto da semana, mal conseguia trabalhar sem me sentir observada. Era como se ao meu redor, todos, de maneira furtiva, estivessem testemunhando todos os meus movimentos em busca de algo, uma pista, um deslize, o que quer que fosse. Poderia ser só meu cérebro e sua mania de perseguição trabalhando, no entanto, tinha a sensação de que era algo além disso.
Poderia ser Sullivan querendo deixar claro que ainda não tínhamos encerrado determinados assuntos.
Pós-expediente no sábado à noite, enterrada em meu sofá, com um pote de sorvete, assisti tantos episódios de Keeping up with the Kardashians fosse possível uma proletária exausta assistir. Sim, eu era fútil nesse nível, podem me julgar. Vibrando, meu celular anunciava uma chamada de vídeo da minha mãe.
― Jantando sorvete? ― acusou com uma cara desapontada ao me ver colocar uma colher cheia na boca.
― É a sobremesa. ― menti. Realmente estava jantando sorvete.
― Podia ser uma fruta. ― franziu os lábios.
― É sorvete de morango, deve contar como fruta, certo? ― brinquei.
― Além da visível péssima alimentação, como você está?
― Bem.
― Tudo bem no trabalho? Tá gostando?
― É ótimo. Tô adorando minha nova nem tão nova função assim. ― sorri.
― Oi, querida. ― meu pai sentou-se ao lado dela. ― Você está bem?
― Se alimentando de sorvete. ― minha mãe respondeu por mim.
Semicerrei os olhos de forma ameaçadora em sua direção.
― Traidora. ― falei baixinho, fazendo-os rir.
― Sua mãe tá certa. Você não vai morrer se comer uma fruta de vez em quando.
― Chega de falar de mim, né? E vocês? Já começaram a planejar a comemoração de aniversário de casamento?
― Nem fale disso, filha. ― meu pai fez uma careta. ― Tínhamos pensado em fazer um cruzeiro com nossos amigos. Até pagamos por ele, mas ainda não tinha data definida. Agora que divulgaram, estamos tentando o estorno do valor.
― Por quê?
― Porque teríamos que embarcar no fim de semana do seu aniversário.
― E daí?
― Já tínhamos combinado que você viria para casa, lembra?
― Tá, mas é o aniversário de vocês. Não sou mais criança e nem vou morrer se não comemorarmos meu aniversário juntos esse ano. ― dei de ombros. ― Por favor, eu insisto. Não se prendam a mim. ― ambos se entreolharam.
― Tem certeza? ― a voz da minha mãe soava hesitante.
― Claro. Se vocês fazem tanta questão, posso dormir aí de sábado para domingo no fim de semana anterior, mas no domingo à noite preciso voltar por causa do trabalho. O que acham?
― Me parece uma boa sugestão. Assim também não deixamos você na mão. ― sorri.
Ouvi uma batida abafada na porta. Aguardei alguns instantes para ver se aconteceria novamente, pois não estava esperando por ninguém. Quando o barulho voltou a soar, pedi que meus pais aguardassem um momento para que eu pudesse atender a porta. Ao abri-la, quase não consegui conter a surpresa em meu rosto.
― Mãe, pai, a gente pode conversar amanhã?
― Aconteceu alguma coisa? ― minha mãe questionou baixinho, a voz em estado de alerta.
― Ah, não. acabou de chegar aqui. Hoje é noite das garotas. ― menti com um sorriso para a câmera enquanto o homem parado na soleira da porta balançava a cabeça negativamente com um semblante debochado.
― Tudo bem. Amamos você. Boa noite, querida. ― meu pai respondeu e ambos me jogaram beijos no ar.
― Também amo vocês. Boa noite. ― desliguei.
― Mentindo para seus pais descaradamente, ? ― ajeitou os cabelos. ― Eles não sabem que você costuma receber visitinhas masculinas na sua casa?
― O que você tá fazendo aqui?
― Te trouxe cerveja artesanal canadense e não ganho nem um ‘oi’? ― revirei os olhos. ― Posso entrar? ― suspirei, fechando os olhos brevemente.
― Entra. ― dei espaço para que Matthew passasse pela porta.
Aquela ia ser uma noite longa… muito longa…


#16

Besteira, você sentiu minha falta pra caralho
(Your Graduation - Modern Baseball)


― Então é assim que seu covil se parece? ― as orbes esverdeadas e tão iluminadas quanto o normal de Matthew olhavam ao redor na sala de estar?
― Covil? Por acaso eu sou algum tipo de vilão? ― debochei.
― Era assim que George e eu chamávamos nossas casas quando éramos adolescentes. ― explicou.
― Pelo amor de Deus, Healy, síndrome de Peter Pan na minha casa não! ― repreendi em um tom brincalhão.
― Não seja sem graça, .
― Senta. ― indiquei o sofá com um aceno de cabeça. ― E essa cerveja?
― Ah, presente. Podemos abrir agora? ― ri.
― Achei que fosse meu presente.
― E é. Por isso que eu perguntei antes de sair abrindo uma. ― deu de ombros.
― Como isso faz algum sentido na sua cabeça? ― semicerrei os olhos. ― Abre duas. ― peguei meu pote de sorvete, comendo uma colherada.
― O que estava fazendo antes de falar com seus pais e eu chegar?
― Coisas de garota gostosa. ― apontei o pote de sorvete e para a televisão.
― É aquele reality com as Kardashians? ― assenti. ― Achei que você não fizesse o tipo de assiste isso.
― Você sempre acha um monte de coisas sobre mim, né?
― Eu tenho uma imaginação fértil. ― deu um sorriso sapeca.
― Ah, é? E o que mais você imagina comigo? ― seu sorriso ficou ainda maior. Balançando a cabeça negativamente, desviou o olhar.
Além de ser muito engraçado deixá-lo encabulado, ele ficava muito bonito. Seu semblante ficava imperceptivelmente ruborizado, às vezes, cobria alguma parte do rosto, passava as mãos pelos cabelos, porém, quase sempre, balançava a cabeça negativamente com um sorriso. Se Matthew soubesse o quão charmoso ficava daquela forma, provavelmente, passaria uma boa parcela do tempo daquele jeito.
― Tá me olhando assim por quê? ― indagou passando a língua pelo lábio inferior, entregando-me uma garrafa de cerveja aberta.
― Nada. ― franzi os lábios e dei um gole na bebida. Devia ter ficado com cara de trouxa para fazê-lo perguntar.
― Tá calculando na sua mente como me contar que tá caidinha por mim? ― ri.
― Puta merda, você se acha a última garrafa de champanhe no mercado em véspera de fim de ano, né?
― Bela analogia. Gostei. ― ironizou. ― Você sentiu minha falta?
― Não. ― sim, todos os dias.
― Você é muito desalmada, .
― Não é como se você já não esperasse por isso. ― dei de ombros. ― Você sentiu minha falta?
― Sim. ― arqueei as sobrancelhas. Não esperava que ele admitisse com tanta facilidade. ― Por isso te liguei tantas vezes, te mandei mensagem quase todos os dias… como eu disse, sua voz me acalma. ― dei um meio sorriso.
Dei um gole um pouco mais longo na minha bebida, sentindo-o me fitar. Seus olhos não se desviavam um segundo sequer. Se fosse qualquer outra pessoa, eu pediria que parasse imediatamente, pois era uma sensação incômoda. Contudo, quando se tratava de Matthew Healy, vez ou outra, sentia que seria capaz de chorar caso ele não o fizesse.
O jeito que acompanhava cada uma das minhas ações me aquecia física e emocionalmente, pois ali estava uma pessoa que verdadeiramente estava me vendo. Talvez ele visse a que nem eu mesma era capaz de enxergar.
― Você foi pra bem longe, né? ― deu um daqueles sorrisos reconfortantes.
― É, parece que sim. ― bebi outro gole.
― O que acha de jogarmos aquele jogo de perguntas? A diferença é: quem não quiser responder vai ter que beber.
― Pode ser. ― dei de ombros.
― Então, eu começo. Por que não falou a verdade para os seus pais?
― Porque eu sou uma mulher que mora sozinha. Eles ficam preocupados.
― Sim, mas você poderia ter dito que eu era um amigo. Aliás, é o que eu sou, né?
― Sim, é o que você é. Mas os pais não entendem que filhas adultas recebem amigos homens em casa em um sábado à noite sem segundas intenções. Além do mais, gosto de evitar constrangimentos.
― De que tipo?
― Healy, não é mais a sua vez.
― Pois então faça sua pergunta.
― Você ficou com ciúmes do George naquele dia que ele saiu com a garota ao invés de com a gente?
― Óbvio que sim. Ele é um dos meus melhores amigos. Mas, pelo menos assim, ele não fica dando em cima de outras pessoas. ― disse a última frase mais para si do que pra mim.
― O que disse?
― Nada do seu interesse.
― Você acha que o George dava em cima de mim?
― Não acho. Tenho certeza. ― inclinou a cabeça de leve. ― Ele teria uma chance com você?
― Se tivesse deixado claro no início, antes de você, sim. Por que não?
― Mas e agora?
― Eu não costumo ficar com amigos ou parentes de alguém que já fiquei. Gosto de cortar os vínculos ao máximo.
― Então por que a gente continua se vendo? ― questionou em um tom desafiador.
Porque eu ainda quero dar pra você. Mordi o interior da bochecha, franzindo os lábios. Sem uma resposta que não o deixasse totalmente cheio de si, bebi um gole grande de cerveja, fazendo-o dar uma risadinha baixa.
― Ok, entendi. ― umedeceu os lábios, contendo um sorriso.
― Aliás, como você sabia o meu apartamento? E como passou pelo porteiro? ― franzi as sobrancelhas.
― O porteiro não estava quando cheguei e sua caixa de correio é a única que tem as suas iniciais.
― Esperto.
Seus olhos estavam fixos em mim outra vez, me analisando. Tentando ter algum controle da situação e fingindo que não me intimidava quando fazia aquilo, estabeleci contato visual, esperando que o homem dissesse algo ou se manifestasse. Todavia, o que veio em seguida foi somente um suspiro e uma golada de cerveja.
― O que é?
― Por que você faz isso? Digo, nunca assume o que sente.
Desviei o olhar, deixei que minhas costas pesassem e se recostassem no estofado.
― E o que você espera que eu diga? Estabilidade emocional nunca foi o meu forte. ― debochei.
― Nem o meu. ― riu. ― Mas é engraçado como temos tantas coisas ruins e maus hábitos em comum.
― Pelo menos, eu não fumo.
― É, mas, às vezes, bebe igual a um caminhoneiro velho.
― É você que tá me influenciando. Eu tinha conseguido beber menos, mas aí conheci você e tudo desandou. ― brinquei. ― Enfim, só pra você não dizer que sou vaga demais e não te respondo, a verdade é que nem eu entendo o que estou sentindo. Às vezes, é como se estivesse em uma experiência extracorpórea, onde vejo toda a minha vida acontecer de um lugar em que eu não sou eu, que não estou vivenciando essas coisas. E sabe por que continuo aceitando te ver? Porque gosto disso, dessa sensação de dúvida sobre o que vem depois, essa aura de perigo em que a qualquer momento podemos ser pegos. Faz com que eu sinta que a vida vale a pena, entende? ― assentiu. ― Desculpa.
― Pelo que?
― Do jeito que eu falei, parece que eu tô te usando.
― Se você tá me usando ou não, eu não sei, mas eu realmente não me importo. ― sorri.
Inclinando o tronco na minha direção, com o cotovelo apoiado na coxa, pôs o rosto sobre a mão, observando-me. Seus olhos eram ternos e calmos. Ao vê-los tão próximos de mim, não conseguia desviar o olhar nem parar de sorrir. É, eu parecia uma adolescente.
Diferente das outras vezes, não estava nervosa, bem como não fazia nenhuma questão de me afastar. Ele tinha vindo me ver, pois sentiu minha falta e teve coragem de admitir isso na minha cara. O mínimo que eu podia fazer era parar de maquinar na minha cabeça motivos para me convencer de que não queria nada daquilo.
Bebendo o resto da cerveja na garrafa, coloquei-a no chão, levantando-me do sofá.
― Vem. ― chamei-o.
― Pra onde?
― Até parece que você não sabe onde, né, inocente? ― dei um sorriso safado, sendo correspondida da mesma forma.
― Achei que você tivesse dito que aquela era a última vez. ― fazendo o mesmo com sua garrafa, levantou-se, ficando a apenas um passo de distância de mim.
― Acabei de mudar de ideia. ― na verdade, há meses, eu só consigo pensar nisso.
Peguei-o pela mão, guiando-o pelo curto corredor até meu quarto.
― Você se incomoda com a janela aberta? ― perguntei ao ver que a cortina esvoaçava de leve pelo quarto.
― Plateia? ― arqueou as sobrancelhas.
― Na verdade, depois de uns 30 minutos, você vai me agradecer por isso. ― vi-o dando alguns passos a mais para ficar mais perto de mim.
Depositou a mão em meu rosto, acariciando minha bochecha com o dedão.
― Naquele dia, você pareceu tão incisiva nas suas palavras que achei que não tivesse a menor chance de acontecer de novo mesmo. ― ri.
― E aqui estamos nós. ― com as mãos em sua cintura, colei nossos corpos. ― Ninguém precisa saber, certo? ― vendo um sorriso se formar em seus lábios, passei a língua pelos meus. Sentia-me como uma criança na manhã de Natal.
― Certo. ― inclinando-se sobre mim, nossos lábios se tocaram.
Com a boca entreaberta, dei passagem para que sua língua encontrasse a minha. Beijá-lo novamente depois de meses era como andar de bicicleta após muito tempo sem nem sair de casa: como se nunca tivesse deixado de fazê-lo, acompanhado de uma sensação de liberdade magnífica.
Ao mesmo tempo que gostaria de aproveitar e fazer tudo com calma, era como se sentisse uma fome insaciável crescendo dentro de mim. Meus dedos rapidamente correram para os botões de sua camisa, desabotoando um a um de forma meio desajeitada, fazendo-o rir contra minha boca enquanto me ajudava com os últimos.
Parando de beijá-lo por alguns instantes, logo após terminar com os botões, me concentrei em seu cinto.
― Pelo amor de Deus, Healy, pra que usar roupas tão difíceis de tirar quando vem me ver? ― rindo da situação, o homem abriu os braços despretensiosamente, deixando o caminho livre para que eu abrisse sua calça e abaixasse. ― Isso não é nem um pedido, é uma ordem: não apareça mais na minha casa com peças que demorem mais de cinco segundos para serem tiradas do corpo. Se fizer isso, você não passa nem da porta. ― intimei-o assim que nossos olhares se cruzaram novamente.
― Entendido, capitã. ― terminou de tirar as calças.
Deitando-nos na cama, sua boca se encontrou com a minha de novo, não se demorando muito ali, logo descendo para o meu pescoço, beijando-o tão ferozmente quanto o fizera da primeira vez.
― Se você puder fazer... o favor de não me deixar marcada em... locais visíveis, eu agradeço. ― sussurrei de maneira entrecortada por um suspiro que se desprendeu de minha garganta em meio à minha frase. ― Não sei se você se… lembra que, supostamente, não tô saindo com ninguém... e não tenho como dar um chupão no meu próprio pescoço. ― ironizei.
― O que você fez pra esconder da outra vez? ― encarou-me com um sorriso maroto.
― Só maquiagem não resolvia o estrago que você fez, né? Tive que andar de lenço quase a semana toda, dizendo que tava com dor de garganta. ― rimos.
― Mas pelo menos valeu a pena, né?
― Cada segundo. ― sussurrei sorrindo.
Posicionando seu corpo entre minhas coxas, voltou a me beijar.
Envolvi seu quadril com uma de minhas pernas, sentindo as pontas de seus dedos deslizarem na direção da minha coxa, apertando-a a poucos centímetros de distância da minha bunda.
Com a perna, pressionei seu corpo contra o meu, fazendo seu pau roçar em minha vagina. Por impulso, cravei as unhas roídas em suas costas, sentindo um arrepio percorrer meu corpo e um novo suspiro sair da minha boca para a sua.
Mordendo meu lábio inferior, teceu um caminho de beijos pelo meu pescoço, passando pelo vão entre meus seios por cima da camiseta que eu vestia, parando em meu abdômen, onde deslizou o tecido para cima.
― Alguém já disse que você tem peitos muito bonitos? ― perguntou sem desviar os olhos do meu peito completamente exposto.
― Praticamente, todos os caras com quem transei. Mas obrigada mesmo assim. Ajuda muito a manter minha autoestima elevada. ― brinquei.
Com um sorriso, senti uma de suas mãos alcançar minha intimidade, fazendo-me fechar os olhos automaticamente. Seus dedos faziam movimentos que alternavam entre circulares, para cima e para baixo sobre o tecido encharcado da minha calcinha.
Apertando meu ombro com sua mão livre, beijou meu colo, chupou um dos meus mamilos, mordiscando a pele em volta de leve. Vagarosamente, sua boca foi descendo até alcançar o cós da minha calcinha, onde afastou-se brevemente. Segurando-a pelas laterais, Matthew tirou minha roupa íntima devagar, arrastando-a pelas minhas pernas afora, como se apreciasse o momento.
Apoiando-me em meus cotovelos, ergui o tronco para ver cada uma de suas ações. Visualizar a cena me deixava tão excitada quanto apenas imaginar e sentir.
Seu rosto sumiu entre minhas pernas e, logo, passei a sentir sua boca úmida na minha virilha, nos meus grandes lábios e, quando finalmente sua língua tal qual uma cobra furtiva rastejou sobre meu clitóris, minha cabeça pendeu para trás. Sem querer gemi alto, algo que sempre me segurava para não fazer.
Entendendo aquilo como um recado, apertou os dedos em minhas coxas.
Sustentando o peso do meu tórax com um dos braços, emaranhei os dedos da mão livre em seus cabelos.
Sua boca se encarregou de cobrir cada pequena parte da minha vagina, passando com cada vez mais frequência sobre meu clitóris. Em todas as oportunidades, senti meus músculos se retesarem, minhas pernas tremerem e um gemido alto ser produzido pela minha garganta. Deus queira que os vizinhos não estejam em casa ou que não ouçam isso.
O prazer fazia meu corpo inteiro formigar, como se minha consciência estivesse deixando-o para trás.
Sobrecarregado com meu peso, o braço em que eu me apoiava tremia. Portanto, deitei e relaxei as costas. Tirando a mão de seus cabelos, as juntas dos meus dedos pareciam gritar de dor e pelo amortecimento. Entretanto, não conseguia relaxar meus membros inferiores nem controlar os espasmos frequentes que deles tomavam conta.
Saindo do meio das minhas pernas, ficou em pé.
― Eu já até sei o que você vai falar e tá aqui. ― bati com o pé sobre a mesinha de cabeceira.
― É impressão ou você sempre tem camisinha ao alcance das mãos?
― Eu não quero ter um filho ao alcance das mãos, então, sim. ― debochei, fazendo-o rir.
Aproveitei o momento para tirar a camiseta de uma vez, pois estava agoniada com ela amarrotada perto do meu pescoço. Já ele, abriu a gaveta, pegou o que queria, abriu o pacote e vestiu-se antes de deitar sobre mim. Sem perder muito tempo, me penetrou, iniciando movimentos lentos.
Cada vez que seu quadril se chocava contra o meu, aumentava a minha vontade de gemer e eu sabia que não era a pessoa mais silenciosa do mundo. Por isso, mordi os lábios e cravei os dedos em partes alcançáveis de seu corpo para evitar possíveis multas condominiais.
A sensação térmica do quarto seria facilmente taxada acima de 40 graus não fosse pelo vento que entrava pela janela. Minhas costas, braços e couro cabeludo estavam tão suados que sentia o lençol grudado em mim. Healy não ficava muito atrás. Suas mãos ferviam e aparentavam estar coladas ao meu corpo. O suor em sua testa fez alguns fios de cabelo se aglutinarem nos cantos. Nós dois precisaríamos de um banho emergencial.
Segurando meus braços ao lado da minha cabeça, prendendo-me a cama, aumentou a velocidade das estocadas e minha coordenação motora mal me permitia respirar, que dirá ter qualquer outra reação que não envolvesse revirar os olhos.
Novamente, prendendo seu quadril com uma das pernas, aproximei-o mais mim. Meus músculos inferiores estavam endurecidos e podia sentir a sensação de alegria preenchendo meu baixo ventre. Minha intimidade estava prestes a entrar em combustão espontânea.
Um gemido crescente saía por entre meus lábios e se misturava aos dele, formando uma cacofonia. Mordi seu ombro para abafar meus gemidos e passei a ouvir apenas os sons solitários e baixos que saíam de sua boca. Quanto mais próxima ficava de ter um orgasmo, mais forte apertava os dentes em sua pele. Healy parecia não se incomodar, afinal, não se desvencilhou nem mesmo me pediu para parar.
Com um pouco menos de um minuto de diferença, nós dois gozamos.
Deitando-se ao meu lado, ficamos encarando o teto, semi-mortos, por longos minutos, normalizando nossas respirações.
Eu não conseguia parar de sorrir. Nada me deixava mais feliz que um orgasmo. Nem mesmo promoção de cerveja.
? ― sua voz ainda era um sussurro.
― Quê? ― virei a cabeça para olhá-lo.
― Eu morri? ― ri, voltando a olhar para o teto.
― Você tá bem vivo. No máximo, tomou um chá do bom. ― riu. ― Eu preciso de um banho. ― sentei na cama.
― Eu posso ir junto?
― É só um banho. ― avisei-o.
― Só um banho. ― sentou-se também. ― Eu morri mesmo porque nem joguei isso fora. ― tirou a camisinha e deu um nó na ponta.
― Eu vou pegar as toalhas. O banheiro é na primeira porta à esquerda. ― fui até o guarda-roupa, pegando as toalhas e indo para o banheiro também.
Dentro do box, o homem já se molhava na água fria.
Vendo-me entrar, deu espaço para que pudesse me molhar também. Após isso, procurei pelo shampoo, aplicando-o nos meus cabelos.
― Posso lavar o seu? ― Matthew arqueou as sobrancelhas. ― Por favor? ― implorei.
― Ok. ― deu de ombros.
Pondo shampoo em seus cabelos, comecei a massagear seu couro cabeludo com as pontas dos dedos.
― Você tem, tipo, fetiche com cabelo?
― Não, mas eu gosto. E seu cabelo é lindo, só precisa de uma boa lavada e uma boa hidratação.
― O que você quiser fazer. ― sorri.
― Você conhece a palavra do creme para finalizar o cabelo cacheado? Se não, deveria.
? ― me encarava enquanto eu continuava a esfregar sua cabeça.
― O que?
― Quando é seu aniversário?
― Quer saber se nossos signos combinam? ― brinquei.
― Eu não entendo nada de astrologia. Só sei que sou áries.
― Eu sou seu paraíso astral, então? ― franzi as sobrancelhas.
― Ah, é? O que isso significa?
― Que nos damos bem. ― franziu os lábios para baixo, concordando. ― Cabeça embaixo do chuveiro, olhos fechados. ― fez o que pedi para que pudesse tirar a espuma de seu cabelo.
― Mas, sério, que dia é?
― 22 de julho, por quê?
― Acho que cai em um dos poucos dias que temos furo de agenda. Que dia da semana vai ser?
― Numa sexta-feira.
― Se eu te mandasse a passagem, você viria comemorar seu aniversário onde quer que a gente esteja? ― tirei as mãos de seus cabelos, encarando-o.
― Por quê?
― Porque eu tô pedindo. Porque quero comemorar com você, mas provavelmente não vou estar aqui. ― sorriu.
― Posso pensar?
― Claro. ― seu sorriso diminuiu.
― Desculpa. Eu não gosto de tomar decisões por impulso.
― Eu entendo. Sério. ― saiu debaixo do chuveiro para que eu pudesse enxaguar meus cabelos.
Em seguida, apliquei condicionador nos meus e nos dele. Terminamos de tomar banho e saímos, cada um se enrolando em uma toalha. Abrindo uma das gavetas do armário, peguei uma escova de dentes nova, ainda lacrada e entreguei a Matthew.
― Você tem escovas de dentes reserva?
― Tenho, ué. Eu troca a cada três meses. ― franzi as sobrancelhas. ― E a geralmente esquece de trazer ou aparece aqui sem planejar, então, tenho um monte de coisas reserva, tipo calcinhas, sutiãs, escovas de dentes… ― franziu os lábios para baixo em concordância.
Algo escuro começou a escorrer de seu nariz.
Sangue.
― Que foi? ― franziu as sobrancelhas.
― Seu… ― fiz um gesto abaixo do meu nariz.
― Merda. ― apertou as narinas entre os dedos, jogando a cabeça levemente para trás. ― Pode…? ― apontou para o papel higiênico.
― Claro. ― pegando o rolo, tirei algumas folhas, dobrando-as e lhe entregando.
Sentando-se sobre o vaso sanitário, limpou o sangue e segurou o papel higiênico por algum tempo abaixo de uma das narinas.
― Não precisa se preocupar. Não é nada. ― era provável que eu estivesse com aquela cara de quem está constantemente perguntando se está tudo bem mesmo. ― Acontece com mais frequência do que você imagina.
Em silêncio, assenti e esperei até que conseguisse estancar o sangramento.
Por fim, escovamos os dentes e fomos para o quarto. Lá, vesti minha camiseta de pijama e uma nova calcinha. Para não vestir a cueca que veio, Healy aceitou uma de minhas bermudinhas de ficar em casa e, por sorte, meu quadril era bem mais largo que o dele.
Enrolando uma toalha seca no cabelo molhado, deitei ao seu lado, com nossos ombros se encostando.
― Matty? ― chamei-o, encarando o teto.
― Oi?
― O que é… isso? ― virou-se para mim, o cotovelo sobre o travesseiro, apoiando o rosto na mão.
― Isso o quê? ― Isso. ― gesticulei indicando nós dois.
Deu de ombros desajeitadamente.
― Sendo sincera, eu não quero um relacionamento e sei que você sabe das minhas preocupações a respeito de algo entre nós dois , mas preciso saber o que tá rolando.
― Não me importo com o nome que queira dar a isso, mas concordo que é bom saber o que é. E o que você quiser, pra mim, é ótimo. Você não quer um relacionamento? Ok. Você quer só sexo? Tudo bem. Se você quiser só um amigo também, você tem um. ― sorri.
― Eu nunca achei que você fosse esse tipo de cara.
― Você acha muitas coisas sobre mim.
Touché.
― Mas a jaqueta de couro engana, né? ― ri.
― Você até que é convincente no papel de bad boy. ― virei-me para ele. ― Que horas você precisa ir embora amanhã?
― Meu voo é ao meio-dia.
― Vai dar tempo de descansar um pouco, então. ― rastejando pela cama, abracei-o pela cintura, escondendo meu rosto em seu peito, que cheirava ao meu sabonete de lavanda.
― Matty? ― murmurei.
― Sim? ― ajeitou sua posição para abraçar meus ombros com um dos braços.
― Eu menti pra você. Sobre não sentir sua falta.
― Eu sei. ― mesmo sem ver seu rosto, sabia que ele estava sorrindo.
― Como?
― Você jamais teria feito sexo comigo de novo se não estivesse com saudades. ― deu um beijo no alto da minha cabeça. ― Você é durona demais pra ceder a pressão externa. ― escondi ainda mais meu rosto para que não me visse sorrindo abertamente. ― Enfim, acho que deveríamos dormir. ― assenti, aconchegando-me em seu corpo.
Não demorei a pegar no sono, visto que parecia haver uma espécie de sonífero na atmosfera quando estávamos juntos .
Naquela noite, ao abrir os olhos no meio da madrugada e me deparar com seu rosto adormecido, como em uma epifania tive a confirmação: estava fodidamente apaixonada por aquele homem magricelo, de olhos caídos, cabelos divinamente enrolados e dentes desalinhados.
Porra.




Continua...



Nota da autora: E agora, será que a pp fala ou não fala que tá apaixonada? Esse certamente é um dos meus capítulos preferidos da história (ao total, eles são 6 capítulos preferidos kkkkkk). Não sei, o jeito que meus personagens me iludem é diferente, sabe?
Essa att saiu antes porque não me aguentei, tive que mandar o quanto antes rs
Pra atualizar vocês de como estamos em termos de escrita: a fanfic já tá inteiramente roteirizada e vai ter 30 capítulos ao total. Se não tivermos mais nenhuma att dupla ou erros no percurso, ela está programada pra acabar no início de maio. Sim, falta bastante, mas tô bem triste ;-; Quando eu teminar de escrevê-la, o que também não tá nem um pouco longe de acontecer, eu aviso também.
Enfim, me sigam nas redes, ouçam a playlist da fic e vamo que vamo que a partir de agora é só ladeira abaixo.....
bjbj ;*



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06. I Don't Love You


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