Última atualização: 19/07/2020

Capítulo 1


Erro. O meu maior erro e talvez o mais certo deles. Não foi planejado, definitivamente não foi planejado. Não imaginava que apenas uma noite seria capaz de mudar toda a minha vida. O que álcool demais, um cara lindo te dando moral, e um quarto não fazem. E claro, a falta de proteção. Era pra ser só uma noite como qualquer outra, em mais uma festa na casa das garotas fúteis da cidade. Mas não foi. Oi, eu tenho dezesseis anos e estou grávida.

- Hey, ‌? – reconheci a voz de Holly me chamando.
- Aqui! – avisei-a fracamente. Pouco depois ela abriu a cabine do banheiro onde eu estava. Me olhou com uma ar de tristeza e pena, não sei direito. Só sei que me doeu ver aquilo, e eu sabia que estava ferrada.
- Tá melhor? – ela perguntou docemente. Limpei alguns vestígios de lágrimas, que ainda tinham na minha bochecha e assenti devagar. – O que você pretende fazer?
- Eu não sei! – fui sincera. Ela se abaixou e segurou minhas mãos, fitando os meus olhos.
Tô aqui para o que der e vier, tá? – eu assenti, sentindo um mínimo alívio. – Você vai contar pra ele?
- Eu não sei. – repeti e suspirei alto em seguida. – Nós mal nos conhecemos, era pra ser só uma vez... E pronto. – funguei, sentindo meu rosto esquentar. – Eu-eu nem sei o sobrenome dele, eu só sei que ele se chama ‌. Só isso.
- Bom, já é algo. – ela disse fazendo uma careta. – E você disse que ele estuda aqui, não é?
- É, eu já vi ele aqui algumas vezes no intervalo. – falei, passando a mão no rosto. – Acho que ele é do terceiro, não sei.
- Tá, olha... Quando você estiver mais tranqüila, decidida o que quer fazer. Procura ele, você vai ter que contar isso alguma hora. – ela pediu segurando firmemente a minha mão. Eu assenti. – Ok, precisamos voltar pra aula.
- Não quero! – pedi, apertando o tecido do meu uniforme. Ela suspirou e assentiu. – Obrigada!
- Tá, mas só hoje, ‌. Você precisa enfrentar isso. – ela pediu séria. Mordi os lábios e concordei. – Certo, tô indo. Não fica aqui muito tempo, tá? – concordei com uma aceno e ela saiu. Viu? Essa é a minha melhor amiga, às vezes é mãe também. Sempre me dando conselhos, me dando broncas. Mas é pro meu bem, e eu sei reconhecer isso. Respirei fundo e sai de dentro daquela cabine, fui para em frente a pia e me encarei no espelho: Olhos vermelhos, a ponta do meu nariz também vermelha e rosto molhado. Ótimo. Enxaguei o rosto, tentando tirar aquela cara de choro, mas não funcionou muito. Sequei rapidamente, e andei devagar para fora do banheiro. Olhei para os dois lados, para ver se alguém – Diretor, coordenador. Estava do lado de fora, mas ninguém. Como não queria ir para a aula, fui direto para a cantina da escola. Não havia ninguém lá, nem ao menos as cozinheiras. Sentei-me à uma mesa da ponta, não queria mesmo ser notada. Abaixei minha cabeça na mesa e fiquei assim incontáveis minutos. Só me dei conta, quando ouvi o sinal tocar. Ouvi uma grande movimentação e tive certeza que a cantina estava se enchendo. Perfeito. As pessoas falavam sem parar, e isso estava me incomodando. Levantei-me rapidamente e com largas passadas andei para fora de lá, mas acabei me esbarrando em alguém.
- Opa! – alguém falou após chocar comigo. – Oh, hey! – e eu congelei. Não é possível, qual é a chance disso acontecer? Qual a chance de eu trombar justo com ele no corredor? Ah, é, tem aquele cara chamado “Murphy” que adora atrapalhar a minha vida.
- Hm, oi. – disse e sorri amarelo. Ele fez uma cara preocupada.
- Você tá bem? – ele perguntou tocando o meu ombro. Eu assenti. – Certo! – ele pareceu não acreditar muito.
- É, eu tenho que ir agora. – disse não querendo encará-lo. Era perigoso demais pra mim, sou muito transparente. Odeio isso.
- Espera! – ele pediu assim que eu ameacei sair. – Vai fazer alguma coisa nesse final de semana?
- Ahn, acho que não... – disse insegura. Ele sorriu. Ai, Deus!
- Quer sair comigo? – ele perguntou ainda com aquele sorriso de comercial de pasta de dente. – Digo, tomar um sorvete sei lá.
- Hm, ahn... – eu não sabia o que dizer, isso era fato. – Tá. – foi o que eu conseguir responder.
- Tá? Ok, combinado! - ele disse animado. – Sabe, rolou aquilo durante as férias e bem... – ele disse coçando a nuca sem jeito. – E eu ainda não tenho o seu telefone, você se importaria de me passar?
- Não, claro que não. – me apressei a dizer.
- Certo, aqui... Anota aí pra mim. – ele pediu me entregando seu celular, anotei rapidamente meu numero e devolvi a ele. – Valeu! Depois eu te ligo pra gente confirmar, tá? ‌, né?
- É. – disse somente. - ‌!
- ‌, okay! – ele sorriu e se aproximou de mim me dando um beijo na bochecha. – Até mais, ‌. – disse acenando e se afastando rapidamente da minha vista. Soltei todo o meu ar de uma vez, e eu queria chorar, queria correr e abraçar Holly mas não podia, não na frente de todo mundo. Contentei-me apenas em ir ao banheiro e repeti o que fiz a manhã toda. Chorar.



- Jura, ‌? Ele te convidou pra sair? - Holly perguntou animada. Assenti encarando minhas unhas. – E por que essa carinha? Isso é ruim?
- Eu não vou saber agir perto dele, eu posso dar bobeira, posso revelar que eu tô grávida. – disse ficando nervosa outra vez. Holly suspirou alto.
- Mas você tem que contar a ele, ‌. Sinto muito, mas ele tem direito de saber que vai ter um filho. – ela foi sincera. Eu não tive como negar, ela estava certa. – Não precisa ser agora, mas algum dia você terá que contar a ele.
- Eu sei que sim. Só é difícil, sabe? – mordi meus lábios. – Eu não planejei isso.
- Oh, amiga vem cá. – ela disse me puxando para um abraço. Aí, sim, eu chorei realmente. – Sabe, acho melhor vocês se conhecerem direito primeiro, e depois você contar o que está acontecendo.
- Tá. – eu concordei, me soltando dela e limpando meu rosto. – Eu vou fazer isso, eu vou sair com ele... Tentar conhecê-lo e depois contar a verdade e decidir o que vamos fazer.
- Logo! – ela pediu e eu assenti.
- Logo! – eu concordei. Ela sorriu orgulhosa. – Obrigada, por tudo, Holly, de verdade.
- Ah, que nada. Eu te amo, coisa sem juízo. Tô aqui sempre. – ela sorriu e segurou minhas mãos. – E agora, ‌, e sobre os seus pais?
- Ai, nem me lembre. – rolei os olhos e me joguei na cama. – Eles vão pirar, acho que vão até me expulsar de casa.
- Claro que não! – ela disse rápido. – Tudo bem, eles vão ficar em choque, mas acima de tudo ainda são seus pais. Vão te apoiar. – ela tentou me tranquilizar, mas não sei se fiquei tranquila. É, definitivamente não fiquei.
- Eu torço muito por isso. – sorri sem humor. Fitei o teto e ficamos caladas por minutos, até o meu celular tocar. – Ai, que droga! – me limitei a esticar o braço e pegar aquela coisinha, que tanto me irrita e atendi. – Oi?
- Ei, olá! – a pessoa do outro lado falou. Franzi a testa, não reconhecendo a voz.
- Err, quem tá falando? – perguntei enfim. A pessoa do outro lado riu. – Hm?
- Desculpa, sou eu, ‌. O ‌. – na mesma hora eu comecei a respirar rápido. – Tudo bem com você?
- Sim. – disse monossilabicamente. Eu tenho que aprender a falar direito quando estiver perto dele. – E você?
- Tudo bem. – ele suspirou. – Bom, ainda se lembra do convite? – ele perguntou em dúvida e eu assenti, concordando. – Então, continua de pé... Queria saber se você pode sair hoje.
- Sair hoje? – perguntei e direcionei o olhar para Holly, que sorriu assentindo. – Okay, posso sim.
- Legal! – ele sorriu. – No Domino's às sete?
- Okay, pode ser. – concordei, sorrindo sinceramente pela primeira vez. Talvez não fosse tão ruim assim.
- Até lá então, beijos. – ele se despediu e eu retribui, logo após desligando.
- E? - Holly perguntou curiosa. Mordi o lábio, nervosa.
- E eu vou sair com ele hoje. – disse me dando por vencida. Ela sorriu largamente. – Me deseje sorte.
- Sempre! – ela sorriu e se levantou da cama, se direcionando ao meu closet. – Bom, temos que arranjar roupas legais pra você sair hoje.
- Hm, não precisa muito. Não é como se eu fosse tentar conquistá-lo ou algo assim. – dei de ombros. Era verdade. – Qualquer coisa serve.
- De jeito nenhum, tá doida? Você vai arrasar nesse encontro. – ela sorriu e piscou pra mim. Sorri e balancei a cabeça. – Tá vamos ver o que você tem aqui. – ela começou a vasculhar as minhas roupas, e ficou assim por horas, sim, horas. Até optar por uma calça skinny escura, uma baby-look preta com o desenho do Mickey estampado e um all star clássico. Eu estava pronta, maquiagem feita, um pouco de perfume e pronto. Olhei no relógio do meu celular e marcava seis e quarenta e cinco. Na hora. Enfiei-o dentro do bolso e encarei minha amiga, apreensiva. – Você tá linda!
- Obrigada. – agradeci sinceramente. – Bom, tenho que ir.
- É, boa sorte. – ela me abraçou. – E fica calma, qualquer coisa me liga, tá?
- Tá bom! – concordei, me soltando dela. – Vem, vamos indo. – eu disse puxando-a pela mão. Avisei a minha mãe que iria sair com a Holly, é claro. Nos despedimos dela e seguimos andando até um ponto onde Holly seguiria para casa, e eu para a pizzaria.


- Você vai querer só isso mesmo? – ele perguntou enquanto eu terminava de tomar meu milkshake de chocolate. Assenti. – Okay, então. – e ele voltou a comer sua pizza. É por enquanto tudo estava indo bem. Eu estava menos nervosa, e ‌ era um cara muito legal. Conversamos bastante, e eu pude conhecê-lo um pouco melhor. Descobri que nossos gostos são muito parecidos e estranhos ao mesmo tempo. E ele parecia gostar de mim também. Bem, por enquanto... Só enquanto ele não sabe que vai ser pai.
- Você tá no terceiro né? – perguntei em dúvida. Ele assentiu e tomou um pouco de coca-cola.
- Tô sim, quase terminando, ainda bem. – ele sorriu. E eu sorri amarelo de volta. – E você no segundo, certo?
- Sim, ainda! – rolei os olhos. É, se dependesse do meu estado, ia demorar muito pra acabar a escola. Suspirei. – Pretende fazer alguma coisa? Se formar? – É se formar, em pai que tal?
- Ahn, não sei direito. – ele limpou a boca no guardanapo ao lado. – Tô pensando em sair da Inglaterra. Acho que vou tentar a Califórnia, quem sabe! – ele sorriu. E eu senti meu coração apertar. Meu filho não poderia viver sem pai. – E você?
- Hm, não sei ainda. – É, eu realmente não sabia o que fazer. – Tenho tempo para pensar.
- É verdade. – ele sorriu. E pareceu se lembrar de alguma coisa, sorrindo de lado.
- O que foi? – perguntei curiosa. Ele me fitou e sorriu largamente.
- Me lembrei da festa. – ele foi direto. E eu corei: vermelha, roxa, rosa choque. É fiquei de todas as cores. – Você tava linda, sabia?
- Hm, obrigada! – agradeci, abaixando meu olhar e colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
- Foi legal pra mim, não sei explicar o porquê e nem como, mas foi bem legal te conhecer lá. – ele foi sincero, procurou a minha mão em cima da mesa e entrelaçou a dele. – Ei, ‌, você tá tímida? – ele sorriu. – Não pareceu tão tímida na hora.
- ‌! – repreendi rápido. – Eu tava meio alterada, não vale, poxa.
- Você foi ótima! – ele sorriu se aproximando de mim. – E eu quero te beijar agora. – ele avisou sem rodeios. Olhei rapidamente pra ele.
- Você quer? – perguntei debilmente. O que tava acontecendo comigo? Ele balançou a cabeça assentindo e se aproximando cada vez mais. – Tá, bom! – consenti e fechei os olhos. Ele sorriu contra a minha boca e encostou devagar sua boca a minha. Sabe aqueles sininhos chatos que ficam tocando na sua cabeça enquanto, você beija aquele garoto especial? Pois é, essas coisinhas não parecem ser tão sutis, pois parecia mais um terremoto no meu corpo. Eu não sei explicar, foi perfeito demais. Não me deixei pensar naquele momento sobre gravidez, filho, dezesseis anos e nova vida. Fui egoísta e só pensei em mim. Em como eu estava gostando daquilo.



- Bom, chegamos... É aqui que eu moro. – sorri, parando em frente a minha casa. Ele fitou-a por alguns segundos e sorriu pra mim.
- Bela casa! – ele disse, e eu sorri, agradecida. – Então... Te vejo amanhã na escola?
- Se você quiser, sim. – confirmei sorrindo. Ele sorriu e segurou minha cintura.
- Quero sim. – disse, me dando um selinho demorado. – Muito. – e me beijou de verdade. Tá, eu sei que isso tá sendo um sonho agora. Mas depois vai ser um pesadelo, um grande pesadelo. Ele vai me odiar pra sempre, tenho certeza e não vou poder culpá-lo.
- Tenho que entrar. – disse, fazendo uma careta e me soltando dele. – Depois a gente se vê.
- Okay, ‌. – um selinho demorado aqui. – Até amanhã. – e outro ali.
- Até. – me despedi e finalmente entrei em casa. Meu pai estava trancado no escritório como sempre, minha mãe no mínimo estava pendurada no telefone fofocando com alguma amiga. Melhor assim, não queria perguntas pra cima de mim agora. Não, agora. Assim que fui para o meu quarto, tentei ir dormir. Haviam dias que eu não dormia direito. Então me acomodei na minha confortável cama, suspirei encarando o teto e finalmente me deixando pensar em como seria minha vida dali em diante. Inconscientemente toquei minha barriga e suspirei fechando os olhos. Não eram só nove meses e pronto. Era uma vida inteira, era uma nova pessoa, ensinar, educar, alimentar, cuidar e amar. Ai, ‌ como você pode ter deixado isso acontecer?




Capítulo 2


Na manhã seguinte, eu acordei mais bem disposta e talvez mais segura. ‌ era um cara legal e parecia ser muito responsável. Me arrumei sem pressa para ir para o colégio e fui a pé. Assim que cheguei à escola, eu senti como se todos estivessem olhando pra mim, eu devo estar ficando louca. Abaixei a cabeça e apressei meus passos, fui direto para a minha sala. E lá encontrei meu conforto. Holly.
- ‌! – ela disse animada, assim que me viu – Me conta, t-u-d-o.
- Não há muito o que contar, Holly. – falei largando minha mochila na carteira, e me sentando em seguida. – Foi... Hm, normal. – dei de ombros, e ela esperou mais. – Só conversamos, nos beijamos e depois ele me levou em casa, só isso.
- Como? Vocês se beijaram? – eu assenti. – Aw, que legal. – ela sorriu feliz. – Tá se sentindo melhor agora?
- Não completamente, porque eu ainda não contei tudo a ele. – suspirei exausta. – E tá meio difícil de isso acontecer, ele tem planos, Holly... Ele quer sair da Inglaterra, quer um futuro pra ele, entende?
- Entendo, amiga, mas você também quer um futuro. E desculpa, mas ninguém faz um filho, sozinha. – ela fez uma careta. – Mas eu não vou te pressionar, por enquanto. – falou depressa. – Hoje a senhorita vai prestar atenção na aula e não vai se trancar no banheiro e começar a chorar, okay?
- Okay, mãe! – ironizei, rolando os olhos. Ela riu.
- Tá, filhinha, agora me dá seu caderno aí que eu vou te passar as matérias que você perdeu. – ela pediu, e eu rapidamente entreguei. Como sempre as aulas correram chatas e monótonas. Eu tenho que confessar que estava contando os minutos para que a hora do intervalo chegasse. E não só para me livrar desses professores chatos, como para ver certo alguém. – Vem, vamos sentar lá no pátio. - Holly me puxou para lá, sentamos na grama mesmo, embaixo de uma árvore e ficamos vendo o movimento de alunos para lá e para cá. – Ôu-ôu vejo um certo pai se aproximando.
- Holly, cala boca, não fala isso perto dele. – eu disse entre dentes enquanto avistava ‌ se aproximar, sorrindo. Sempre sorrindo. E eu não acredito que vai ser eu que vá apagar esse belo sorriso. Oh, vida!
- Olá, meninas. – ele disse, animado. – Posso? – pediu, apontando para um lugar ao meu lado, assenti. – Oi, ‌. – ele disse e me deu um selinho. Mordi o lábio inferior. Não esperava que ele fizesse isso aqui na frente de todo mundo. – Tava te procurando.
- Estava? Foi mal! – pedi sem jeito, fazendo uma careta. - Holly me arrastou pra cá.
- Sim, eu a arrastei. – ela se intrometeu. – Prazer, Holly. – estendeu a mão para ele.
- ‌! – ele apertou a mão dela e logo após soltou, sorrindo docemente. Hm, ‌, gostei do sobrenome. Algumas garotas passaram por nós e me olharam com repreensão. Ah, claro já sei. ‌ é o popularzinho da escola. Bem que eu desconfiei. Uma das garotas usava um perfume forte e doce e aquilo fez meu estômago embrulhar e querer colocar pra fora tudo o que eu não tinha comida naquela manhã. Tentei me segurar, mas a ânsia era maior. - ‌? Você tá bem? Ficou pálida de repente.
- Eu preciso ir ao banheiro, só isso. – informei, me levantando praticamente correndo e fui para o banheiro. Ouvi passos atrás de mim e constatei ser de Holly. Assim que entrei no banheiro, fui ao sanitário mais próximo de mim e despejei tudo.
- Oh, ‌… Ainda com enjoos, né? – ela disse se aproximando de mim e segurando meu cabelo, enquanto eu me apoiava na parede da cabine.
- Infelizmente! – disse com dificuldade. Respirei fundo e fui até a pia lavar minha boca. Ela se encostou ao meu lado e cruzou os braços.
- Você vai ter que contar logo, ‌. – ela me avisou. – Você ainda tá enjoando, ele não é bobo vai notar isso.
- Que note, pelo menos eu não vou precisar contar nada. – dei de ombros, me secando. – Me sentirei menos culpada.
- ‌, já disse que você não é a única culpada aqui, okay? O ‌ teve sua parcela de culpa também. E ele poderia estar te ajudando agora, se você contasse pra ele que está grávida. – ela disse alto, suspirei prendendo o choro. – E não chora!
- É difícil, poxa, eu não sei mais o que fazer. – disse, deixando cair os meus ombros. – Eu tenho medo da reação dele, não quero contar agora.
- Você que sabe, mas eu te dou pouco tempo. Se não eu mesma vou contar. – ela me alertou. Me deu vontade de pedir para que ela não se metesse na minha vida, mas não podia. Ela tava certa. – Agora vamos voltar, porque já deve ter professor na sala.
- Tudo bem! – concordei e saímos do banheiro rapidamente. O que eu não sabia e só descobriria mais tarde é que Lindsay, a garota mais fofoqueira da escola, estava no banheiro, naquele exato momento em que Holly disse: ‌ e grávida.



***



Quando o sinal tocou para o final das aulas, juntei meus materiais e joguei de qualquer jeito na minha mochila. Esperei Holly e seguimos para fora da sala, e dessa vez não foi impressão minha. Todos estavam realmente olhando pra mim. E o pior, ficavam cochichando entre si. Odeio isso. Decidi ignorar e comecei andar mais depressa para fora daquele lugar e Holly estava no meu encalço. Odeio essas pessoas que te olham, riem e depois apontam. Odeio, odeio. Mas não havia como algum deles saberem. Não mesmo, preciso ficar relaxada eles não sabem de nada. É, é isso, não sabem. Diminui a velocidade dos meus passos e tentei respirar normalmente, mas foi inútil quando vi a figura de ‌ parado em frente ao portão, ela voltou a acelerar.
- ‌, eu preciso conversar com você. – ele pediu. Eu engoli o seco, ele me chamou de ‌ e está com o tom sério. Boa coisa não é. Consenti e pedi para que Holly não me esperasse. Fomos para fora do colégio, para algum lugar distante daqueles olhares acusadores. Assim que paramos, eu fitava o chão com muito interesse. - ‌, eu fiquei sabendo de uma história e não sei se é verdade, por isso eu preciso te perguntar.
- O quê? – perguntei finalmente o fitando-o. Ele coçou o cabelo e soltou um estalo com a boca, nervoso.
- A Lindsay veio até mim com uma história de que ouviu você dizer no banheiro que está grávida e o filho é meu. – ele soltou enfim. Eu abri a boca, mas não consegui emitir som algum. Surpresa. Era essa a minha cara. – É verdade?
- Ahn, hm... – suspirei, não tinha como voltar atrás. Ele descobriu. – Sim!

Capítulo 3


- Então é verdade? – ele perguntou surpreso. Eu assenti, sentindo meu rosto esquentar. – Porra, e você não ia me contar?
- Eu ia, claro que ia. – disse rapidamente. – Só não sabia como. – funguei alto.
- Que tal: ‌, eu estou grávida e o filho é seu? – ele ironizou. Ah, se fosse fácil assim. – Cara, você devia ter me contado antes. – ele disse começando a andar de um lado para o outro. – Quanto tempo já?
- Acho que quatro semanas, eu não tenho certeza. – disse baixo. Senti minha bochecha molhada e percebi que já estava chorando.
- Tá, e você foi vomitar aquela hora? Quando me deixou sozinho no pátio? – eu assenti. – Nossa, que droga! – ele deu um murro na parede ao lado. E eu dei um passo pra trás, me assustando. – Você não tava pensando em tirar essa criança, né?
- Não! – eu disse rápido. – Claro que não.
- Ah, que bom... Porque isso a gente precisa decidir juntos. – ele falou nervoso. Começou a estralar os dedos, impaciente. E isso só me deixou mais nervosa.
- O que a gente vai fazer? – perguntei enfim. – Você vai assumir?
- É claro, ‌! – ele foi firme. E eu me senti aliviada por ouvir isso. – Eu não sou irresponsável. Bom, não há esse ponto! – ele se virou para mim e percebeu que eu estava chorando. – Você está chorando?
- Não se preocupe, eu tô bem. – pedi, mas não adiantou, ele se aproximou de mim e segurou minhas mãos.
- ‌, olha, eu tô muito assustado com isso tanto quanto você, pode ter certeza. – ele suspirou colocando uma mão na minha bochecha e fazendo carinho na mesma. – Mas já que a burrada já foi feita... Não podemos fazer nada. A não ser tentar ser bons pais. – suspirei assentindo. – E sabe, se é pra ser assim tudo tão rápido... Que bom que foi você. – ele sorriu. Oh, meu Deus, ele sorriu. – Vem cá, linda. – e ele me abraçou. Me surpreendendo de novo. Um abraço realmente aconchegante. Só aumentou a minha vontade de chorar, mas não fiz isso. Apenas inalei o seu perfume inebriante e que, de alguma forma, me acalmou.


- A escola toda agora já sabe, sinto muito. – pedi baixo, enquanto estávamos sentados em um banco de uma praça já há algum tempo. Ele suspirou.
- Tudo bem, eles iam acabar descobrindo mesmo. – ele deu de ombros, derrotado – Já falou com os seus pais?
- Ainda não, eu queria conversar com você primeiro e decidir o que iríamos fazer... Pois bem, aqui estamos. – disse, largando meus ombros de uma vez. Fitei-o, e ele tinha o olhar perdido – O que você pretende fazer?
- Sinceramente? – eu assenti – Eu não tenho idéia.
- Ah! – Soltei desanimada.
- Temos que pensar muito, não estamos prontos pra isso. – ele passou a mão no cabelo, nervoso – Não estamos prontos para sermos pais. – ele encarou as mãos – Vou ter que adiar minha viagem!
- Que viagem? – perguntei rápido.
- Pra Califórnia! – ele disse baixo – Eu havia combinado de ir com alguns amigos meus. – deu de ombros – Eu desmarco, sem problemas.
- Ai, ‌… Desculpa, eu não queria que isso estivesse acontecendo. – disse, encarando meus sapatos. Suspirei alto.
- Tudo bem, nós dois erramos. – ele enfiou a mão na mochila e sacou o celular discando alguns números rapidamente. Fiquei apenas observando. – Fala, cara! – uma pausa e uma risada vinda dele. – Tô indo, cadê aqueles malucos? – outra pausa e o sorriso dele desapareceu. – Ah, ok. Olha, é sobre isso mesmo que eu queria falar com vocês. Me encontra na casa do ‌ daqui a... – ele olhou o relógio no pulso. – a quinze minutos, tá? E avisa os outros. Não, , eu só vou falar quando todos estiverem reunidos. Beleza, até. – e desligou. Ele suspirou e me fitou. – Quer ir a um lugar comigo?



- Caralho, já tô indo. – ouvi um resmungo vindo de dentro da casa, mordi os lábios e fui para detrás de ‌. Ele sorriu e pouco depois alguém abriu a porta. – Porra, é você? Por que não entrou de uma vez?
- Olá pra você também, ‌! – ele revirou os olhos. – Os caras já chegaram?
- Já, estão todos aí dentro... Entra logo. – ele disse, puxando-o. Ajustei a alça da minha mochila e pigarreei. O tal ‌ finalmente me notou parada ali. – Oi, pra você que eu não conheço.
- Oi! – disse simplesmente e olhei para ‌ esperando uma reação.
- ‌, essa é a ‌… - ele enfiou uma mão dentro do bolso. – Uma amiga!
- Prazer, ‌! – ele foi gentil e sorriu. Retribui. – Bem, ‘bora entrar então. – e ele deu espaço para que fizéssemos isso. Me senti totalmente deslocada, mas apenas respirei fundo. Afinal ‌ havia me convidado dizendo ser algo sério. Ok, topei. Quando chegamos à sala, todos os olhares se direcionaram para mim. Roxa? Azul? Vermelho, essa é cor que eu fiquei. – Sentem-se!
- Senta aí, ‌! - ‌ pediu apontando um lugar no sofá ao lado de um outro garoto, que me olhava curioso. Eu assenti e me sentei. – Gente, olha a educação! Parem de encarar a garota desse jeito. Ela já deve estar com medo. – Bingo!
- Foi mal, aí. – outro garoto pediu, sorri dando de ombros. – Mas, cara, o que você quer com a gente? É algo sobre a viagem? – ai, meu coração. Então, eles são os amigos da viagem? Droga! ‌ suspirou e continuou em pé.
- Caras, vocês vão ter que ir sem mim. – ele soltou de uma vez. Houve burburinhos e eu me encolhi no sofá. – Calma! Eu explico... Eu acho. – falou baixo. - Então, fala, porra! – um garoto com um olhar totalmente fascinante falou. – Que houve?
- Hm, vocês sabem que são os meus melhores amigos, né? – ele começou, e eu senti meu coração apertar. E eu não podia o deixar fazer isso. – Eu não vou poder ir, porque eu...
- Porque ele não vai sozinho, é isso... – Me interferi. ‌ me olhou sem entender. E eu sorri amarelo, pedindo ajuda. – É, gente, é porque ele tava sem jeito de falar com vocês que ele ia me levar junto. – disse de uma vez, sem notar a besteira que estava fazendo. – Não é, ‌?
- É? – ele perguntou em dúvida. E eu assenti rapidamente. – Hm, então é!
- Você vai? – o tal do ‌ perguntou e eu assenti em dúvida. – Ah!
- Afinal, quem é você? – o garoto ao meu lado finalmente me perguntou. Mordi os lábios e fitei ‌.
- Ela é a ‌, uma prima. – ele disse sem jeito. ‌ levantou uma sobrancelha sem entender.
- Mas você me disse que ela era sua amiga. – ele falou coçando a cabeça não entendendo mais nada. – Não foi?
- Err, prima e amiga... Ela é os dois. – ele sorriu amarelo. – E a mãe dela vai viajar, né, ‌? – eu assenti em dúvida. – E ela pediu pra eu cuidar dela, enquanto isso. Entenderam?
- Sei! – o que estava ao meu lado falou, não acreditando muito. – Como você nunca nos falou dela?
- Ahn, porque... Porque não oras. – ele deu de ombros. – Não nos víamos há muito tempo, isso foi de última hora.
- Tá. – o outro soltou, não engolindo muito. – Então, prazer ‌, eu sou o ‌. – sorri em retribuição.
- É, e eu sou o ‌! – o que estava ao meu lado finalmente se apresentou.
- Oi, todo mundo. – disse meio sem graça. Nossa, como mentimos mal.
- É, e vamos para Califórnia! - ‌ falou de repente e me fitou. E sorriu. Ele sorriu? Ai, céus eu tô ferrada.



Capítulo 4


Me chamem de doida, idiota e totalmente sem noção. Pois é, eu sou. Como eu pude me meter assim na vida do ‌? Ok, estamos ligados querendo ou não. Mas isso não me dá o direito de me intrometer na vida dele assim. Nós não somos nada. Tipo: Nada mesmo. E como eu mesma me convido para ir à viagem com os amigos dele? Ah, meu Deus, eu sou muito idiota. Parei de andar de uma vez e ‌ me fitou sem entender.
- Algum problema? – ele perguntou, segurando meu ombro – Tá enjoada de novo?
- Não, não – respondi rapidamente. – É só que... Poxa, desculpa, eu não queria ter me intrometido na sua viagem assim. – falei, fazendo uma careta.
- Ah! – ele sorriu aliviado. – Sobre isso, sem problemas. – ele deu de ombros. – Vai ser bom para nos conhecermos melhor, certo?
- Certo! – concordei meio em dúvida. – Eu ainda não entendi bem o que vocês vão fazer lá, eu ouvi vocês dizendo algo sobre banda?
- É. Nós temos uma banda, chama-se Mcfly! – ele me respondeu com um sorriso e voltou a andar, eu o acompanhei. – Vamos para a Califórnia tentar um contrato, ou pelo menos algo do tipo. Vai ter um festival de bandas por lá, e não queremos perder essa oportunidade!
- Claro! Nossa, que legal... Mas vocês têm músicas próprias? – perguntei enquanto viramos a esquina da minha casa.
- Temos sim, algumas... Mas fazemos alguns covers também! – explicou somente – Um dia eu te mostro!
- Tá, ok. – respondi, mordendo o lábio inferior – Bom, eu tenho que convencer a minha mãe ainda! –rolei os olhos – Mas nada muito difícil, ela sempre sede. – nós rimos. – E se tudo der certo, quando chegarmos vou contar tudo a ela.
- Você quer que eu vá junto? – ele perguntou enfiando as mãos dentro do bolso.
- Hm, acho melhor eu contar sozinha... Depois ela com certeza vai querer conversar com você! – suspirei derrotada – E você? Vai contar aos seus pais?
- A minha mãe! – ele respondeu, não entendi bem e esperei que ele continuasse – Meus pais são divorciados, e eu quase não vejo o meu pai. – disse dando de ombros – Então...
- Ah, entendo! – falei, compreensiva, andamos alguns metros e logo estávamos em frente a minha casa. – Bom, eu fico por aqui!
- Ok. – ele se aproximou de mim e eu me surpreendi com o seu gesto. Ele me deu um selinho, mordi o lábio sem graça – Tchau ‌!
- Tchau ‌! – acenei brevemente. - Qualquer coisa me liga, ok? – eu assenti. – Até! – e ele saiu, suspirei alto e andei para dentro de casa.
- Mãe? – chamei-a, só pra ter certeza de que havia alguém em casa.
- Na cozinha, querida! – ela respondeu. Me encaminhei até lá, e ela estava preparando alguma coisa, eu não sabia bem o que era, mas que cheirava extremamente bem, isso sim eu tinha certeza. – Que bom que chegou, estou fazendo uma lasanha para nós!
- Hm, o cheiro está ótimo, mãe! – eu disse fechando os olhos e inalando aquele delicioso aroma. – Estou morrendo de fome mesmo!
- Certo, então vá tomar um banho e venha almoçar! – ela pediu, sorri assentindo e fui correndo para o meu quarto. Tomei um bom banho e logo estava descendo para a cozinha novamente. – Só mais alguns minutinhos, ‌!
- Sem pressa! – disse me sentando à mesa – Mãe, queria te pedir uma coisa.
- Ih, lá vem... O que é? – ela perguntou sem tirar a atenção do molho da lasanha.
- Ahn, alguns... Algumas amigas minhas vão viajar e me convidaram para ir junto – disse brincando com o saleiro em cima da mesa – Bem, elas vão pra Califórnia, apenas alguns dias. – disse incerta – E eu queria saber se você me deixa ir.
- Que amigas? – ela perguntou se virando pra mim, não tive coragem de encará-la.
- Ahn, a Holly vai estar lá. – disse por fim, ela fez um barulho com a boca e deu de ombros.
- Se a Holly vai, por mim pode ir. – ela voltou à atenção ao molho – Só tome cuidado, a Califórnia não é como aqui, está bem?
- Pode deixar, mãe! – sorri agradecida. – E quando sai esse almoço?
- Menina, não me apresse. Logo, logo! – ela disse rapidamente, e eu sorri. Ela era uma boa mãe, é... Quem sabe eu não seja como ela?


***


- Definitivamente, eu não quero pisar ali de novo. – disse baixo, enquanto Holly tentava me convencer a entrar no colégio.
- ‌, eu entendo. Deve ser difícil voltar aqui, depois que todos já estão sabendo. Mas... – ela suspirou cansada – Você não pode abandonar a escola, e isso não vai te fazer menos grávida, certo?
- A questão não é essa, Holly! – falei, encarando meus sapatos – Eu não quero passar por tudo isso sozinha, sabe? Não quero ser alvo de fofocas, não quero ser apontada, não quero me sentir mais excluída ainda. – mordi o lábio. – Eu só não queria ter ido à merda daquela festa.
- Tarde demais para chorar sobre o leite derramado, fofinha. – ela foi irônica. A fitei e fiz uma careta – Ok, presta à atenção! – ela pediu, segurando minhas mãos – Você vai entrar naquela escola de cabeça erguida, tá me escutando? – assenti – Não vai dar a mínima para que os outros pensam e falam sobre você. Hello! A vida é sua, ninguém tem nada a ver com ela, entendeu, senhorita ‌?
- Eu amo você, sabia? – sorri para ela, que rapidamente corou – Aw, vem cá. – a puxei para um abraço – Você é a melhor, sem dúvidas!
- Sou mesmo, pra te aguentar tem que ser a amiga, ok? – nós rimos. – Agora sério, amiga, vamos entrar?
- Hm... – suspirei derrotada – Ok. Não tenho muitas alternativas mesmo. – dei de ombros.
- Isso, vamos logo!
Assim que entramos na escola eu me senti acuada, observada e apontada. Ok, definitivamente eu não estava me sentindo bem.
- Podemos andar mais rápido? – pedi impaciente, ela consentiu e nossos passos se tornaram mais largos e apressados. Abaixei a cabeça enquanto andávamos para a sala de aula que parecia não chegar nunca. Ouvi risadinhas e ironias com o meu nome, mas fingi não escutar. Só queria que aquelas sete horas passassem rápido.
- Ei, não me conhece mais? – alguém atrás de mim falou. Franzi o cenho e me virei. Suspirei aliviada e sorri indo em sua direção.
- Desculpa, ‌, eu não te vi.
- E nem veria mesmo, estava andando com tanta pressa! – disse rindo. – Oi, Holly!
- Oi, ‌! – ela respondeu sem jeito. Ajeitou a alça da mochila e apontou para trás. - ‌, eu vou indo, ok? – assenti. – Tchau, pra vocês.
- Tchau, até. – disse baixo.
- Então... - ‌ começou – animada para viajar?
- Ahn, é... Um pouco! – respondi enfiando as mãos dentro do bolso da minha calça.
- ‌, tá tudo bem? – ele perguntou segurando meu queixo. Neguei, derrotada. – Que houve?
- Ah, eu só queria que tudo fosse como antes... Que as pessoas não olhassem torto pra mim e nem que rissem ou algum assim – respirei fundo. – Queria ser invisível!
- E você realmente se importa para o que eles vão pensar? Pô, fala sério, né? – ele riu sem humor. – Você é quem decide sua vida, não essas pessoas, ‌. Para com isso, aceita a realidade e esquece esses idiotas! – mordi meus lábios e o fitei. Ele tinha uma expressão séria e firme. Eu não sei o que me deu, eu não sei o que senti, só sei que no momento seguinte eu me atirei em seus braços, e o abracei tão forte que achei que nos fundiria. – Ei, tá tudo bem! – ele afagou meus cabelos. – Eu tô do seu lado, ok? E eu não vou sair daqui, a não ser que você me mande embora!
- Obrigada! – murmurei chorosa. O ouvi sorrir e depositar um beijo no topo da minha cabeça. Nosso abraço durou incontáveis minutos, e eu queria que durasse para sempre. Mas como tudo na vida não são rosas, - e eu sou a prova viva disso. Fomos cada um para a sua devida sala, aguentar aqueles professores chatos e carrancudos. – Outch! – resmunguei baixo quando senti uma bolinha de papel atingir minha cabeça. Olhei para trás e vi Holly gesticular algo, pedindo para que eu lesse o mesmo. Concordei e abri a bolinha:
“Tá melhor, amiga? Tô preocupada em deixar você ir viajar. Não sei se vou deixar você ir com esse bando de homens, ok? Sou ciumenta, babe! Ah, me espera no final da aula.
Sua amiga gostosa. Xx”

Ri sozinha e balancei a cabeça, negativamente. Só ela mesmo pra me fazer rir. Amassei novamente o papel e enfiei dentro da bolsa e voltei à atenção a aula. Ou pelo menos tentei.

***



- Nope! - Holly respondeu de imediato.
- Ah, e por que não? – insisti.
- Bebeu? É claro que eu não vou a essa viagem, minha filha! - disse voltando a andar rumo a minha casa. Bufei e a segui. – Além do mais, eu nem conheço esses garotos. Vão me chamar de intrometida e coisa e tal. Nem, nem!
- É óbvio que não, Holly! – rebati. – Eu também mal os conheço, esqueceu? Só os vi uma vez e, bem, vou viajar com eles. – dei de ombros – Escuta, eu preciso que você vá, ok? É como você disse, eu não tô muito legal e eu vou precisar de você lá. – parei na sua frente e fiz minha melhor cara de amiga-grávida-que-precisa-da-sua-melhor-amiga-em-uma-viagem. Ela rolou os olhos e colocou a mão na cintura de encarando. – Por favor?
- ‌, como você é chata! – disse balançando a cabeça – Ok, ok! Você venceu, chatice, eu vou com vocês, pronto! – soltei um gritinho histérico a fazendo rir. – Mas, ei? Avise todos eles, ok? Não quero chegar lá com cara de merda!
- Pode deixar, Hollyzinha! – pulei em seu pescoço e a abracei. – Te amo!
- Tá, tá, também! – disse de mau gosto. Eu ri e voltamos a caminhar de volta a minha casa.



Capítulo 5



- Eu estava pensando em adoção! – disse de repente. Holly se virou um pouco de lado, e me fitou não acreditando.
- Como? Tá brincando, né? – pediu. Neguei e voltei a me encostar a árvore do pátio da escola. Suspirei alto e apoiei a cabeça nos joelhos, abraçando minhas pernas.
- Talvez seja melhor assim, sabe? Acho que não estou pronta pra ser mãe. – disse enfim. – Eu não quero ser uma péssima mãe!
- E por que diabos você acha isso? – perguntou já perdendo a paciência.
- Eu vejo muito isso, Holly! – disse obvia. Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, e a fitei. – Eu quero que meu filho seja feliz, ok? E comigo talvez não seja! – mordi meu lábio inferior. – Quantas mulheres querem ter filhos, mas simplesmente não podem? E quantas podem e abortam? Eu não quero uma criança triste e muito menos revoltada!
- ‌, você está se ouvindo? Tá ouvindo as sandices que você tá falando? – disse com um olhar triste e talvez... Decepcionado? Balançou a cabeça negativamente, e voltou a fitar as pessoas que passavam pelo pátio.
- Eu só estou cogitando a possibilidade, não é um fato. – expliquei também observando aquelas pessoas aparentemente sem problemas. Bom, não como os meus.
- Você tem que pensar no ‌ também, afinal, ele tem direitos – avisou. Concordei baixo e suspirei.
- O ‌ já tinha toda uma vida programada, um futuro brilhante pela frente. – gesticulei com as mãos. – E o que eu fiz? Fui lá e estraguei tudo!
- Ai, que droga, ‌! - Holly vociferou se levantando. Olhei em volta e algumas pessoas estavam prestando a atenção na nossa conversa. – Quantas vezes eu tenho que te dizer que não se faz um filho sozinho, droga? Vocês que foram irresponsáveis! Sim, os dois!
- Holly, para, tá todo mundo olhando – pedi suplicante. Ela revirou os olhos.
- Fodam-se os curiosos! – disse alto. Algumas pessoas cochichavam e riam, outras ficaram com medo e apenas saíram de lá. – Quando você vai largar de ser idiota, ‌?
- Holly eu…
- Quando, ‌? – insistiu. Engoli o seco e abaixei a cabeça, sentindo as malditas lágrimas salgadas. – Você me decepciona!
- O que está acontecendo aqui? - ‌ veio correndo ao nosso encontro. – Estou ouvindo os seus gritos lá do corredor, Holly!
- Fala pra essa aí, que a pior forma de se tornar um mau exemplo, ou uma má pessoa e pensando como ela pensa – advertiu. – Tô decepcionada, ‌. Decepcionada! – disse alto e saiu batendo o pé. As pessoas me olharam assustada e eu funguei alto, sem saber o que fazer. - ‌, o que houve? Por que ela falou aquilo? - ‌ perguntou se agachando a minha frente. Balancei a cabeça negativamente e meu choro tomou mais intensidade.
- Me tira daqui! – implorei. Ele ia abrir a boca para questionar, mas eu continuei – Por favor!
- Anda, vem comigo! – ele me puxou pela mão e me arrastou para longe dali. Ele poderia me levar para a lua, ou melhor, para o inferno! Opa, espera, eu já estava nele.


- Agora você pode me explicar o que foi aquilo? - ‌ perguntou depois de um tempo, assim que chegamos ao ginásio da escola. Neguei silenciosamente. Ele suspirou. – Tudo bem!
- Eu não quero falar sobre isso ainda, desculpe – pedi fungando baixo.
- Tá tudo bem, não precisa falar se não quiser – respirou fundo e passou a mão nos cabelos, bagunçando-o ainda mais. – Então... – começou. – Ainda vai querer ir à Califórnia?
- Claro, aliás, você ainda quer que eu vá? – perguntei incerta.
- É obvio, ‌! – sorriu. – Essa é uma boa oportunidade de nos conhecermos melhor, não acha? Afinal, seremos pais e eu nem ao menos sei a sua cor preferida.
- Ahn... – corei. – Nós fomos meio apressadinhos mesmo, né?
- Normal! – deu de ombros. – Somos adolescentes. Um pouco inconsequentes, confesso. Mas isso não é nada anormal, nada que possam nos criticar tanto, certo?
- Hm, certo – concordei. – Você não acha estranho essa situação toda? Digo, a gente mal se conhece, e poxa, vamos ter um filho juntos. – gesticulei com as mãos. – É algo realmente grande, entende? Não é algo que podemos descartar depois.
- Eu sei – suspirou. – Eu acho estranho às vezes quando paro para pensar, mas sei que é o certo. Nada é por acaso, não é? Então, era pra ser.
- Mas eu tenho certeza que você não queria ser pai agora, e muito menos que eu fosse a mãe – rolei os olhos.
- Ei, pode parar com isso, ok? Você acha que eu teria ficado com você, se você não fosse boa o bastante pra mim? Não é como se eu ficasse com a primeira garota que se oferecesse pra mim. – eu ia protestar, mas ele continuou. – Ok, algumas se jogam e eu as pego. Mas isso não acontece sempre, eu sou chato com garotas. Qual é? Você é linda e legal. – sorri sem graça. – E é sincera, é tão dificil achar garotas que não sejam mentirosas e fúteis. – respirou fundo e me fitou. – O que eu tô tentando dizer, é que você é diferente de todas. E de alguma forma, me conquistou.
- Obrigada, erm... Eu acho! – agradeci, e abaixei a cabeça. Definitivamente ele sabia como me deixar corada e sabe, eu acho que estava gostando daquilo.
- Eu quero que você vá comigo quando eu contar a minha mãe, tudo bem? – perguntou de repente. Me surpreendi, mas concordei. – Sabe, acho que ela irá gostar bastante de você!
- Você acha? – perguntei incerta, mordendo os lábios.
- Certeza! – sorriu, mostrando todos os dentes brancos e alinhados. Sorri bestamente junto e em um impulso me joguei em seus braços. – Hey!
- Eu acho que você também é diferente – disse baixo. Senti a respiração calma dele no meu pescoço e fechei os olhos.
- Você está me fazendo diferente!

***



- Alô?
- Oi, Holly! – disse baixo. Ela suspirou alto do outro lado da linha. – Me desculpa?
- Esquece isso! – disse fraco. – Esquece tudo isso. Tudo que envolve adoção e aborto, ok? – concordei baixo. – Eu só quero o melhor pra você, ‌!
- Eu sei disso. – me joguei na cama, fitando o teto. – Eu só estou muito confusa, sabe? E parece que as coisas só dão errado na minha vida.
- Eu não vou te julgar, até porque eu não sei como é passar por isso. – foi óbvia. – Mas pensar positivo nesse momento, sem dúvidas é a melhor coisa a se fazer.
- É. – disse somente. O fato é: eu não consigo pensar muito positivo nessa situação. É muita pressão em cima de mim. Poxa, eu só tenho dezesseis anos e não queria ser mãe agora. – Mas você vai viajar comigo amanhã, certo?
- Sim, sua chatinha! – sorriu finalmente, me fazendo sorrir junto. – Já falei com a minha mãe, e tá tudo certo. Só espero que estejamos fazendo a coisa certa.
- Acho que sim. Afinal, são só alguns dias e bom, eu também quero ficar mais perto do ‌ - confessei enfim.
- Hm, safada! – comentou rindo. - ‌, posso te fazer uma pergunta?
- Claro, Holly!
- Você tá gostando mesmo dele, né? – perguntou por fim. Me garganta travou na hora. Boa pergunta, eu estava?
- Eu... Eu não sei – fui sincera. – Ele é uma ótima pessoa, sabe? E eu fico feliz por ele ser tão responsável. Ele me faz sorrir e é gentil e fofo – suspirei. – Bom, talvez eu goste. – dei de ombros. – É cedo pra saber direito. Pode ser os hormônios.
- Hm, ok. – concordou sem acreditar muito.
- Bom, tenho que desligar... A gente se vê amanhã, ok? Te amo! – me despedi e ouvi-a responder, e depois desliguei o celular. Me sentei na cama e fitei minha mala pronta perto do closet. E pensar que assim que eu voltasse teria que contar tudo a minha mãe e ver a cara de decepcionada dela. Ah, isso seria a pior coisa. Me levantei e fui trocar de roupa para finalmente ir dormir. Afinal, eu teria uma longa viagem amanhã e que talvez mudasse toda a minha vida. Enquanto me vestia em frente ao espelho, não pude deixar de olhar meu corpo. Ainda não havia mudanças visíveis, mas eu sentia que meu corpo estava mudando. Acho que isso mexe muito com o psicológico das pessoas, porque eu já me sentia mais frágil e inchada. Ou talvez eu estivesse pirando de vez. Balancei a cabeça espantando esses pensamentos, e fui me deitar. E por incrível que pareça, dormi como um bebê, acordando somente no outro dia. Claro, com a minha mãe me acordando e dizendo que se eu não levantasse logo perderia o voo. E foi o que eu fiz, me levantei preguiçosamente e fiz toda aquela coisa de escovar os dentes; vestir uma roupa confortável, tomar café e finalmente ir para a casa da Holly. E em pouco tempo estávamos todos no aeroporto, incluindo os amigos de ‌. Que eu ainda acho que não gostaram de mim e que não engoliram nossa mentira. Tanto faz, o ‌ vai contar tudo nessa viagem mesmo.
- Preparados? - ‌ perguntou sorridente.
- Nervosa! – confessei e ri sem graça.
- Ah, fica de boa! - ‌ tentou me tranquilizar. – A maioria dos aviões não cai.
- Ah, obrigada me sinto bem melhor – ironizei.
- Faz o seguinte, se você sentir medo é só segurar a minha mão, ok?
-‌ pediu, e eu concordei. – Beleza, então vamos logo!
- Ei, como é seu nome mesmo? - ‌ perguntou a Holly.
- Holly! – respondeu sorrindo.
- Ah, claro! Bem-vinda, Holly - foi cordial.
- Obrigada – respondeu sem graça.
- Andem logo, seus molengas – gritou ‌ já bem a frente. Rimos e apressamos os nossos passos. Já dentro do avião, ‌ se sentou ao meu lado, e sem pedir e nem nada entrelaçou os dedos aos meus. O olhei sem entender, mas com um sorrisinho nos lábios. Ele sorriu torto e apertou nossas mãos.
- Só pra garantir que você não vai ter medo. – disse e piscou maroto. Sorri verdadeiramente e finalmente, depois de dias me senti confortável novamente.




Capítulo 6


Ponto de vista do

As últimas notas de Too Close For Comfort soou e finalmente estava terminado mais um ensaio. Depois de duas horas e meia ensaiando sem parar, estávamos realmente muito cansados. ‌ deixou seu instrumento de lado e se jogou no sofá ao meu lado.
- Tô acabado! – resmungou alto. Concordei derrotado e fiz o mesmo.
- Nós ensaiamos demais hoje – disse suspirando. – Mas valerá cada nota tocada.
- É assim que se fala, ‌! - ‌ veio até mim e nós fizemos um toquinho de mãos.
- Isso! - ‌ concordou. – Vamos arrasar aquele festival sábado!
- É, mas para eu poder ficar em pé precisarei de comida – ‌ sorriu culpado. – Preciso de um rango bem caprichado!
- Beleza, eu também tô com fome – disse me levantando. – Vamos nos encontrar com as meninas, aí a gente sai pra comer alguma coisa.
- ‌, posso te fazer uma pergunta? - ‌ se pronunciou, e com uma cara bem estranha diga-se de passagem.
- Fala! – pedi, enquanto guardava meu instrumento. Ele pigarreou e coçou o cabelo, sem jeito.
- O que rola entre você e a ‌? – perguntou direto. Me virei rapidamente para encará-lo com uma cara surpresa, e ele riu. – Qual é, todo mundo aqui já sacou que vocês não são parentes. – cruzou os braços. – Por que você a trouxe?
- Vocês me conhecem mesmo, né? – ri irônico e voltei a me jogar no sofá. – É uma história muito complicada, pessoal.
- Temos o tempo que precisar. - ‌ sorriu amigável. E foi aí que eu me senti o cara mais sortudo do mundo por ter eles ao meu lado.
- Valeu, caras! – dei um tapinha na perna de ‌. Respirei fundo e encarei meus amigos que estavam visivelmente curiosos. – A ‌ tá grávida!
- Puta que pariu! - ‌ exclamou alto. A sala caiu num silêncio desconfortável até ‌ se pronunciar.
- Espera aí! – pediu. – Ela tá grávida, certo? – assenti. – Mas, o filho é seu? – assenti novamente. – Ah, tá. – confirmou. – Então, puta que pariu mesmo.
- É, eu sei – baguncei os cabelos. – Eu nem sei direito o que eu vou fazer.
- Não deve ser fácil pra vocês, sinto muito, cara - ‌ disse com pesar. – Mas ela parece ser uma pessoa legal.
- É, ela é gata, cara! - ‌ riu malicioso. – Bem gostosa!
- Ei! – o empurrei de leve, rindo. – Olha como fala da mãe do meu filho!
- Já falou com a tua mãe? - ‌ perguntou.
- Ahn, ainda não – fiz uma careta. – Mas eu vou falar assim que chegar. Vou esperar ela falar com a mãe dela, sabe? Minha mãe vai querer conhecer a ‌ e tudo o mais.
- Boa sorte, cara! Estamos aqui para o que precisar. – disseram quase juntos, e eu sorri aliviado. Eu já disse que amo os meus amigos?


- Oi, meninos! - ‌ nos cumprimentou assim que nos aproximamos da mesa da lanchonete.
- Oi, ‌! – disse me aproximando dela e lhe dando um beijo na bochecha. Os outros repetiram o meu gesto, e se sentaram à mesa. – Oi, Holly!
- Ei, ‌! – sorriu simpática.
- Então, já pediram? - ‌ perguntou, brincando com um canudinho.
- Não, estávamos esperando vocês - ‌ disse e me lançou um sorrisinho tímido. Sério, cara, eu tive vontade de agarrar ela naquela hora. – Que foi?
- Hãn? – perguntei sem entender.
- Você tá me encarando de um jeito estranho! – riu, corando levemente.
- Ahn, desculpe – pedi sem graça e desviei o olhar. – Erm, o que vai ser então?
- Quero um dogão! - ‌ avisou, olhando no cardápio. – E um copo gigante de coca.
- Vai ficar gordinho, ‌! - Holly disse rindo e fazendo todos a mesa rirem juntos.
- Eu sou gostoso é diferente, querida Holly! – piscou pra ela, e ela riu dando de ombros.
- Hm, ‌? – a chamei baixo. Ela sorriu e virou o rosto para mim. – Posso falar com você?
- Ué, o que você está fazendo agora? – riu ironizando. Rolei os olhos, rindo também. – Ok, pode sim. – ela se levantou e ajeitou o vestido que ela usava. É, agora entendo que com simples atos você conquista uma pessoa. – Já voltamos! – avisou, e se voltou para mim. Sorri, e peguei sua mão nos guiando para fora de lá. – Então, o que foi? – perguntou com aquele seu jeito doce de falar, e com um jeito meigo no olhar. Sorri involuntariamente e ela franziu o cenho. Eu estou ficando patético, pode falar.
- Você é linda! – disse enfim. Ela abriu a boca, mas apenas sorriu agradecida.
- ‌! – pediu sem graça.
- Ok, eu quero falar algo sério com você. – comecei a falar, e me encostei na parede ao lado da porta de entrada e impulsivamente a puxei para perto de mim ainda segurando a sua mão. ‌ mordeu os lábios insegura, e esperou eu terminar. – Os caras já sabem sobre o bebê! – disse por fim. Ela apenas sorriu. Cara, como assim? Achei que ela fosse me bater. – Tá tudo bem?
- Tudo ótimo! – continuou sorrindo. – Eu estava falando sobre isso com a Holly hoje, sabia? Acho que a gente tinha que contar mesmo. – suspirou. – Mas como foi à reação deles?
- Como diria o ‌: puta que pariu! – rimos. – Eles ficaram surpresos, é claro. Mas nos apoiaram e nos desejaram toda a sorte.
- São uns fofos! – sorriu meiga. Mordi meu lábio inferior e acariciei sua bochecha rosada. ‌ abaixou o olhar tímida e eu sorri a envolvendo pela cintura. Ela me fitou surpresa e sem pensar duas vezes eu a beijei. E sem dúvidas foi a melhor coisa que eu fiz. Não só o beijo, óbvio, mas ter conhecido ela. Assim que partimos o beijo, colei nossas testas e sorri a olhando nos olhos. – O que foi isso?
- Um beijo? – rimos.
- Eu sei, idiota! – me estapeou rindo. – Eu estou falando sobre o porquê você fez isso?
- Porque eu queria te beijar, oras! – sorri de lado. – Fiz mal?
- Não, claro que não! – colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Só me pegou de surpresa e... – ela olhou para dentro da lanchonete, e sorriu sem graça. – E seus amigos acabaram de ver isso.
- É? – olhei também, Holly sorriu e acenou, ‌ fez uma cara maliciosa e ‌ tentava bater em ‌ por algum motivo. A fitei novamente. – São loucos! – rimos. – Hm, tá com fome?
- Um pouco! – fez uma careta. Sorri e lhe dei um selinho.
- Certo, vamos comer então! – entrelacei nossos dedos e voltamos para a mesa, onde só tinha bagunça. Depois de finalmente comermos alguma coisa, decidimos ir à Sunset Beach ver o pôr-do-sol.
- Uau! - Holly disse deslumbrada. – Aqui é lindo.
- Muito! - ‌ concordou. – Quando poderíamos ver isso em Londres? Nunca.
- Vem, vamos procurar um local bom pra gente ver o pôr-do-sol. – pedi, e descemos do carro alugado. As meninas tiraram as sandálias e carregaram nas mãos mesmo. Abracei ‌ pelos ombros e ela a minha cintura e andamos alguns minutos procurando um lugar. Assim que encontramos um bom lugar, nos sentamos na areia mesmo e em silêncio vimos aquele milagre natural. Aquele céu laranja, misturado com um pouco de rosa e com detalhes em azul era simplesmente perfeito. Suspirei baixo e fitei meus sapatos. Quem diria, ‌ sentado a beira de uma praia na Califórnia, ao lado de seus melhores amigos e da mãe do seu filho. Filho. Uau, é isso mesmo, não é? Eu vou ser pai. Sorri involuntariamente e ‌ notou isso.
- Qual é a graça? – sussurrou, encostando a cabeça ao meu ombro. Envolvi seus ombros e entrelacei nossos dedos.
- Nada! – disse baixo, e continuei a fitar o horizonte à nossa frente. Tá legal, o que são esses frissons todos? O que são esses arrepios constantes e mãos geladas? Esses momentos de pura filosofia? Ei, esse não é o ‌ que eu conheço. Fala sério!
- ‌? - ‌ me chamou baixo.
- Fala, ‌?! – pedi.
- Me promete que nunca vai abandonar o nosso filho? – pediu, e virou o rosto para me fitar. A olhei com um sorriso terno e apenas pressionei meus lábios aos dela longamente.
- Linda, eu jamais faria isso! – disse enfim. ‌ mordeu o lábio inferior e assentiu voltando a olhar para frente. Mas eu a escutei suspirar aliviada e soltar um “graças a Deus, por isso!” baixinho. Não, ‌. Eu agradeço a você, por me dar a chance de ser um exemplo para uma futura criança. Um exemplo de pai. Exemplo que eu não pude ter.


Fim do ponto de vista do




Capítulo 7



Ajeite-me a cama, mas sem tirar os olhos do caderno que segurava. Eu estava no quarto de ‌ no hotel, deitada sobre a cama. E antes de qualquer coisa, era totalmente inocente aquilo, Ok? Tudo bem, não vou mentir que tivemos bons amasso ali, mas não passou disso. ‌ agora estava tomando banho no banheiro ao lado e deixou seu caderno de músicas comigo. Pediu fofamente que eu desse uma olhada nas músicas deles e dissesse minha opinião. E bom, elas eram perfeitas! Acho que nunca vi tanto sentimento em apenas algumas letras. Sabe quando aquelas músicas parecem ser escritas pra você? Que se encaixam exatamente naquele momento que você está vivendo? Era isso, as letras deles diziam tudo. Quando estava terminando de ler uma dessas músicas, outra músiquinha bem agonizante começou a tocar. Olhei para o meu lado e, bingo! O celular de ‌ “gritava” loucamente para ser atendido. É, mas não serei eu que farei isso, querido. Mordi meu lábio inferior e olhei de soslaio para o visor do celular. Catherine. Piscava na bina. Hm, é eu não ia atender mesmo. Assim que optei por ignorar completamente, ele parou de tocar. Ótimo. O som do chuveiro cessou após alguns minutos, e instintivamente eu fitei a porta. Mais minutos se passaram, até ‌ abrir a porta e sair de lá já totalmente vestido. Ah, peninha. Ok, abstrai isso. Ele sorriu se aproximando e quanto mais ele avançava na minha direção, mais eu podia sentir seu cheiro de sabonete misturado a algum perfume masculino.
- Ei, e aí? Leu alguma música? – perguntou animado. Concordei com um aceno de cabeça, e ele voltou a perguntar. – Então...?
- São perfeitas! – fui sincera. – Juro, são muito lindas. Vocês estão de parabéns!
- Poxa, obrigado – sorriu aliviado. – Acha que os juízes vão gostar? – perguntou e antes que eu pudesse responder, seu celular começou a tocar novamente. Ele sorriu de lado e foi para o outro lado da cama se deitando na mesma e atendendo o celular. – Fala, mãe! – disse feliz. Sorri apenas por ouvir a animação em sua voz. – Eu tô bem sim, não se preocupe. Você está bem? Ah, ok. – uma pausa. – Não, na verdade é amanhã... É, se não der certo pegamos o avião amanhã mesmo. – outra pausa, e um suspiro alto vindo dele. Fitei minhas unhas azuis, e percebi que havia lascado uma. Droga! Eu não deveria estar ouvindo a conversa dele, certo? Certo. Quando fiz menção de me levantar, ‌ percebeu e segurou minha cintura. O fitei surpreso e ele apenas ignorou minha cara confusa e continuou a falar com a mãe. – Tá bom, dona Catherine. Pode deixar que eu sei me cuidar, beijos. – e desligou. Virou-me de lado, e fitou meus olhos. – Estava fugindo?
- Ahn, não exatamente. – sorri sem graça. – Eu só queria dar um pouco de privacidade para você poder conversar com a sua mãe.
- E qual o problema de vocês estar do lado? – levantou uma sobrancelha, confuso. – Ela vai te conhecer de qualquer maneira, ‌!
- Hm, desculpe. – fiz uma careta e ele riu. ‌ firmou sua mão na minha cintura e a outra apoiou sobre o meu rosto. Busquei um pouco de ar sentindo minha respiração falhar. - ‌, eu... – não pude completar a frase, já que ele mordeu levemente o lóbulo da minha orelha. Arrepiei-me fortemente, ah, se ele soubesse que eu tinha odaxelagnia, não faria isso.
- Hm? – sussurrou com os lábios encostados ao meu pescoço. Malditos arrepios. Fechei meus olhos fortemente e apertei meus lábios. ‌ desceu os beijos para o meu colo e se fixou por ali. Era a primeira vez depois de tudo o que tinha acontecido que nós tínhamos momentos mais íntimos. Mas não durou muito, já que no momento em que ele ia me beijar houve um chamado do outro lado da porta.
-‌?! – ouvimos a voz de ‌ ecoar pelo quarto. – Abre a porta, caramba! - ‌ resmungou alguma coisa incompreensível, e eu voltei a fitá-lo.
- Acho melhor eu voltar para o meu quarto. – disse incerta. Ele nada respondeu, respirou fundo e depositou um beijo doce nos meus lábios.
- Eu vou matar o ‌, escreve isso. – disse enquanto se levantava. Neguei rindo e me levantei também.
- Não seja exagerado, ‌! Esse também é o quarto dele, se lembra? – fui óbvia. Ele revirou os olhos e se deu por vencido concordando. – E bom, eu tenho que ir mesmo. – dei de ombros, e andei até a porta. – A gente se vê depois! – quando abri demos de cara com ‌ com uma expressão de um misto de felicidade e desespero. Vai saber.
- Ah, oi ‌! – disse sem graça. – Desculpe, achei que o ‌ estivesse sozinho.
- Ah, tudo bem! – abanei o ar. – Eu já estava saindo mesmo. – menti na cara dura e ‌ bufou atrás de mim, prendi um riso baixo. – Bom, tchau garotos! – acenei brevemente e andei de volta ao quarto onde estava dividindo com Holly. Quando entrei vi uma cena um tanto quanto, diferente? Holly estava jogando todas as roupas da mala em cima da cama, de uma forma apressada. – Ei, o que você tá fazendo?
- ‌! – disse alto assim que me viu. Sorriu largamente e foi até mim, puxando-me até sua mala – ou o que tinha sobrado dela.
- Ok, desembucha, o que houve? – fui direta. Ela suspirou e corou levemente. Abri a boca sem emitir nenhum som, mas logo acabei por fazer isso. - Deus! O que aconteceu? Anda, fala logo!
- Calma, oras! – riu nervosa, e eu fiquei ainda mais curiosa. – Hm, ahn, bom... Acontece que o‌mechamouprasair. – disse rápido, e eu confesso, ainda estava sobre os efeitos de ‌, porque não entendi nada.
- Hãn? – fiz uma cara confusa. Holly rolou os olhos e respirou fundo e repetiu:
- O ‌ me chamou pra sair. – disse mais calma.
- Não?! – disse alto.
- Sim! – disse no mesmo tom.
- Não?! – repeti e ela riu.
- Sim! – disse novamente.
- Sim! – a imitei, e sorri. – Certo, quando isso aconteceu?
- Ah, sei lá! Há uns quinze minutos, acho. – deu de ombros. – Me ajuda a escolher uma roupa?
- É claro, mas aonde vocês vão? – perguntei me sentando na cama, e jogando algumas blusas para o lado.
- Hm, pizzaria! – disse voltando a bagunçar a mala, se é que era possível. – Quero algo simples, porém, muito cool, entende?
- Acho que sim! – comecei a imaginar as roupas dela em minha cabeça, porque sim, eu conhecia todas de cor e salteado. – O que você acha de um short jeans claro, uma regata branca e tênis? É simples, mas charmoso.
- ‌, eu te amo! – e beijou fortemente minha bochecha. Rimos, e eu rolei os olhos abanando o ar.
- Eu sei, eu sei – disse em um tom convencido. – Eu sou foda! Obrigada.
- É, e super humilde também! – dei de ombros, derrotada. – Certo, eu vou me arrumar, ok?
- Rapidinho, não deixe seu possível bofe esperando! – incentivei rindo e ela riu concordando. Holly foi para o banheiro e eu para a minha cama, peguei o livro que estava sobre esta e fui terminar de ler. Fiquei tão entretida com o livro, que só me dei conta disso quando Holly me avisava que já estava de saída. Desejei boa sorte, e ela saiu enfim. Preguiçosamente tomei um banho, coloquei meu pijama e me joguei na cama disposta a dormir. Mas isso não aconteceu, minutos depois de ter me ajeitado na cama alguém bate a porta. Respirei fundo e lentamente, e me levantei indo atender. Confesso que quando abri a surpresa não foi tanta. Encostei-me ao batente da porta, e sorri de lado. – Boa noite, ‌!
- Boa noite, ‌! – me imitou.
- Que devo a honra da sua visita? – ironizei. ‌ fingiu pensar, e depois olhou rapidamente para o seu relógio de pulso, - diga-se de passagem que eu acho muito sexy isso. – e disse:
- Achei que já estivesse na hora de eu te ver! – sorriu fofo. Franzi o cenho, confusa.
- Na hora de me ver? Eu não me lembro de termos marcado algo, marcamos? – fiz uma careta, culpada. ‌ sorriu negando.
- Não, não marcamos nada. – assenti, esperando ele continuar. – Mas ainda dá tempo de sairmos, o que acha?
- Sério? – pedi baixo. Ele sorriu confirmando. – Claro, eu adoraria! – sorri largamente e sinceramente. – Mas onde iremos?
- Podemos só dar uma volta? Decidimos no caminho, pode ser? – concordei com um aceno de cabeça.
- Tudo bem. Ahn, eu só preciso me trocar, ok? Dê-me cinco minutos! – pedi, e ele confirmou com um sorriso. O fiz esperar lá fora, enquanto eu vestia um short jeans e uma bata qualquer. Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo e passei pouca maquiagem, e voilà! Estava pronta. – Certo, estou pronta.
- Uau! Tá gata! – disse em um tom malicioso e eu ri rolando os olhos.
- Bobo! – o empurrei de leve. – Ahn, vamos, né?
- Claro! – concordou entrelaçando os dedos aos meus. Mais um ato que não me surpreendeu. Acho que estava me acostumando a isso. Andamos para fora do pequeno hotel em que estávamos hospedados, e continuamos sem rumo. Enquanto andávamos avistei uma sorveteria, e uma enorme vontade de tomar sorvete de chocolate com marshmallow se apossou de mim. Usando meu poder de persuasão, convenci ‌ a parar lá para devorarmos alguns. Enquanto aguardávamos, resolvi perguntar algo que já havia algum tempo que eu estava curiosa em saber.
- Hm, ‌? – o chamei baixo. Ele murmurou um ‘fala!’ em resposta, e eu continuei. – Onde está seu pai? – assim que terminei de perguntar, me arrependi logo em seguida. Senti ‌ se enrijecer ao meu lado e apertar os lábios fortemente. – Desculpe, se não quiser responder não precisa.
- Não, tudo bem. – sorriu amarelo. – Ahn, meu pai mora em Harrow. E bom, já faz algum tempo que não o vejo. Meus pais se separaram quando eu tinha nove anos, e desde então, eu não o vejo com tanta frequência.
- Sinto muito. – fui sincera. Toquei sua mão sobre a mesa e ele as apertou fortemente.
- Tudo bem, nós não dávamos muito certo mesmo, sabe? Vamos dizer que ele não era um exemplo de pai. – sorriu sem humor. – Aliás, ele é um exemplo de pai que eu jamais quero seguir.
- Você é uma ótima pessoa e, consequentemente, será um bom pai. – sorri verdadeiramente.
- Obrigado. – beijou meu dedos, brevemente. Pouco depois nossos sorvetes chegaram e eu agradeci mentalmente por isso. Eu não devia ter tocado naquele assunto.
- Que horas começa o festival amanhã? – perguntei, comendo uma colherada do meu sorvete.
- Às 19h! – respondeu, repetindo o meu ato. – Pode não parecer, mas eu estou realmente nervoso com isso.
- Não fique, vai dar tudo certo! – toquei seu rosto com a minha mão livre. Ele sorriu de lado e aproximou o rosto do meu, rapidamente selando nossos lábios. O beijo foi rápido, porém, doce. Realmente doce e gelado. – O seu sorvete é de uva?
- Vinho! – corrigiu rindo. Fiz uma careta e dei de ombros. - ‌, você sabe quando o bebê, erm, nasce?
- Hm, depois do natal, por quê? – perguntei curiosa.
- Nada, eu só fiquei curioso em saber. – deu de ombros. – Então, se nasce depois do natal você está...?
- Estou de sete semanas! – respondi. – Eu fui ao médico assim que descobri, então, eu sei por isso. – expliquei antes que ele perguntasse. - A conta do seguro deve chegar a qualquer momento na minha casa. - fiz uma careta.
- Certo! – concordou balançando a cabeça. – E quando você precisa voltar ao médico, novamente?
- Bom, só quando eu fizer dois meses. – disse calmamente, e me sentindo feliz por perceber que ele estava interessado em saber sobre a saúde do bebê.
- Eu vou com você, ok? Só para garantir que vai estar tudo bem. – pediu de um jeito fofo. Fiz um bico manhoso e assenti. E pela primeira vez, pude presenciar as bochechas de ‌ ficarem extremamente vermelhas.
- Você tá com vergonha, ‌? – perguntei rindo e ele ficou ainda mais vermelho. – Aw, que fofo!
- Para, ‌! – pediu rindo.
- Ok, parei. – levantei as mãos me dando por vencida. – Mas se sinta à vontade para me acompanhar aonde quiser, ok? Eu fico muito feliz em saber que você se preocupa com a saúde do nosso bebê.
- Não só com o bebê, ‌. É claro que eu me preocupo com você também. – mordi o lábio inferior após ouvi-lo. Era realmente sério, não era? Era isso mesmo? Eu vou ter um filho e o pai é o cara mais fofo do universo? Finalmente alguma escolha sensata, ‌!

Capítulo 8



Pessoas dormindo ao meu redor. Pessoas sorrindo ao meu redor. Pessoas, aparentemente, sem problemas naquele exato momento. Que inveja, oh céus, que inveja delas agora. Estar em um avião voltando para a casa, não era exatamente o que eu queria para hoje. Ainda mais, sabendo que, a sua mãe vai estar te esperando para você explicar a ela sobre esse tal “boato” da sua querida filha estar “supostamente” grávida. É, surpresinha, mãe. E que droga, não poderei assistir a apresentação dos meninos, aliás, eles nem ao menos sabem que não estou mais lá. Mas, afinal, eu não tive tempo, certo? Quando voltei ao hotel havia várias chamadas não atendidas no meu celular e uma mensagem dizendo: “Volte para a casa imediatamente.” E depois logo outra. “Grávida, ‌? Grávida? Precisamos conversar.” E, bom, aqui estou eu voando de volta para a casa. Acho que mais ansiosa impossível. Assim que aterrissamos, meu medo aumentou e, sinceramente, eu não sei o que diria a minha mãe. Eu andava no automático, não tinha ideia do que estava fazendo. Mas a realidade caiu pra mim, assim que avistei mamãe parada, de braços cruzados e com uma cara de poucos amigos. O-ôu, estou ferrada!
- Oi, mãe.
- Vamos pra casa! – respondeu secamente. Apenas acenei com a cabeça e fomos para o carro. Durante o trajeto achei que teríamos alguma conversa, discussão ou similares. Mas não, não tivemos. Fiquei em alerta. Mamãe era uma ótima pessoa, mas nunca tinha pisado no seu calo... Até então. Quando chegamos em casa, ela voou para a sala e sentou no sofá. Respirei fundo e fiz o mesmo e, então, ela começou.
- Quando você começou a sair com alguns rapazes, sair para festas, ficar até mais tarde na rua eu não me preocupava, sabe? Porque eu pensava estar sendo uma boa mãe. Eu sempre te aconselhei, ‌. Você não pode reclamar que nós nunca conversamos sobre sexo seguro, que eu nunca te alertei. Mas, também, você não é boba, sabia das consequências. Eu estou com raiva, não vou mentir. Eu não sei o que fazer direito, eu estou envergonhada, sabe? A primeira coisa que vão pensar quando olharem para a sua barriga, quando estiver grande será: “Oh, pobre menina!”. E quando olharem para mim, dirão: “Como você deixou isso acontecer?” – ela fungou alto, e eu soube que iríamos chorar.
- Sinto muito. – disse baixo.
- Pensei que estava fazendo tudo certo e me senti traída por você. – vi algumas lágrimas percorrem seu rosto, e senti algumas percorrendo o meu. – Mas agora que o bebê está aí, eu não posso fazer nada. – limpou o rosto. – Vou segurar sua mão e vamos passar por isso em família.
- Mãe, eu... – tentei falar, mas ela me interrompeu.
- Eu não vou te mandar embora, não seria nada coerente da minha parte. – continuou. – Mas eu quero saber de tudo, principalmente quem é o pai.
- Eu não sei direito o que dizer e nem como dizer. – suspirei alto. – A gente tem que conversar muito ainda, eu sei, mas também sei que ter o seu apoio é muito importante.
- Estou desapontada, confesso, mas eu sou sua mãe, ‌! – foi óbvia. – Eu só quero o melhor pra você, filha.
- Eu sei, mas eu tive tanto medo. – e as benditas lágrimas voltaram a escorrer. Mamãe se levantou e me puxou para um abraço forte e seguro. Talvez o qual eu estive esperando por tanto tempo, desde a descoberta da minha gravidez. As coisas podiam ter sido tão mais fáceis.
- Tudo bem, eu estou aqui. – beijou minha testa. – Vamos tentar resolver tudo isso, ok? Eu quero que você me explique tudo o que aconteceu, e quem é o pai dessa criança.
- Ok. – concordei me sentindo mais leve. Afinal, eu podia contar com ela. Sempre. Por que eu ainda duvidava disso?


Ponto de vista do


- Puta merda! - ‌ falou alto. – Tá cheio lá fora.
- Ah, agora tô mais nervoso. - ‌ confessou, andando de um lado para o outro.
- Relaxem, galera! – tentei acalmá-los, mas por dentro estava do mesmo jeito ou pior. – Eu ainda não vi as meninas, vocês as viram?
- Não, cara. - ‌ disse, fazendo uma careta.
- Epa, a Holly acabou de me mandar uma mensagem. - ‌ avisou, enquanto fitava o celular. – Ela pediu pra eu a encontrar e não... – ele se interrompeu. ‌ olhou pra mim e depois para os resto dos caras.
- E não...? – pedi.
- Erm, já volto! – sorriu amarelo e saiu correndo. Franzi o cenho, não entendendo.
- O que será que aconteceu? - ‌ questionou. Dei de ombros, tão confuso quanto ele.
- Alguém deveria ir atrás, hein?! - ‌ alertou. Baguncei meus cabelos e fiz uma careta.
- De boa, eu vou atrás dele. – avisei, e eles concordaram.
- Cara, não demora, beleza? A nossa banda é a próxima! - ‌ avisou e eu concordei.
- Beleza, eu vou ver o que tá acontecendo! – disse e saí procurando ‌, ou pelo menos tentando procurar. E, uau, a praia tava realmente cheia. A banda que vinha antes da nossa já estava no palco. Droga, eu tenho que ser rápido, mas onde esse maluco se meteu? Enquanto eu o procurava, tentava também encontrar ‌ e Holly, afinal, já eram pra elas estarem aqui. Um tempo depois de andar muito, avistei uma garota com as características de Holly, sorri aliviado e corri até ela. Assim que me aproximei, pude a ouvir dizer:
- E agora ela tá com a mãe dela! – ouvi assim que cheguei perto o suficiente. Franzi o cenho, não entendendo. Vi ‌ logo a sua frente, e este fez uma cara de “puta que pariu” olhando pra mim. – O que foi?
- Erm, oi, ‌! – sorriu amarelo.
- Hãn? - Holly disse alto, e se virou dando de cara comigo. – Ops!
- Alguém pode me explicar o que tá acontecendo? – pedi suplicante. ‌ fitou Holly e esta suspirou alto, me encarando. – Cadê a ‌?
- Hmm, em casa. – respondeu, sorrindo amarelo.
- Como assim? Ela ficou no hotel? Ela vai se atrasar ou o quê? – perguntei aflito.
- Não, ‌... – ela desviou o olhar de mim, e fitou os sapatos. – Ela voltou para Londres.
- O QUÊ? – gritei – Por quê?

“E a seguir, McFLY!”

- Cara, é a gente! - ‌ avisou, como se ninguém tivesse ouvido. - ‌?
- Por que, Holly? Por que ela voltou para Londres? Me responde, porra! – pedi nervoso. Ela se assustou e deu um passo pra trás.
- Caralho, calma aí, ‌! - ‌ vociferou a favor dela. Respirei fundo passando a mão no cabelo.
- Desculpe. – pedi baixo. – Mas dá pra me explicar o porquê ela voltou, por favor?
- Hmm, a mãe dela descobriu sobre a gravidez. - Holly disse com pesar.
- Ai, droga! – resmunguei alto. – Que droga! Quando ela foi?
- Hm, já tem algum tempo. Ela já tá na casa dela e tudo o mais. – me avisou. – Mas não se preocupe, ok? Eu falei com ela há pouco tempo, e ela me garantiu que está tudo bem. Ela e mãe conversaram muito e estão se entendendo.
- Cara, eu deveria ter ido. – suspirei. – Aliás, ela deveria ter me avisado!
- Não deu tempo de nada, ‌! – ela me alertou. – Foi tudo muito rápido, quando ela conseguiu digerir tudo já estava dentro do avião. Então, tenha calma, ok?

“E agora, McFLY!”

- ‌, vai lá! - Holly pediu, e eu não me movi.
- Cara, não tem mais nada a se fazer agora em relação a ela. – ‌ disse como se fosse óbvio. – É a nossa chance, cara, vamos lá! – continuei sem me mover. Fitei meus dois amigos e eles estavam claramente esperando uma reação. – E aí?
- Vamos logo com isso! – disse impaciente. ‌ sorriu largamente e beijou a bochecha de Holly.
- A gente se vê depois, gatinha. – disse já correndo, e eu o segui. – Tô orgulhoso! - sorriu amigável. – Mas agora, pelo amor de Deus, vamos logo!
- CORRE! – gritei e nos pusemos a correr até o palco, onde o cara que nos anunciou estava confuso sem saber onde estava o resto da banda. Chegamos ofegantes até lá e os caras nos olharam assustados.
- Porra, achei que vocês tivessem fugidos juntos! - ‌ vociferou.
- Foi mal, cara. Longa história, depois a gente conta tudo, mas agora vamos arrasar! - ‌ se animou.


***


“Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagem e estará sujeita à cobrança após o si...”
Desliguei após ouvir pela milésima vez aquela voz insuportável daquela mulherzinha. Suspirei, e ajeitei a mochila nas minhas costas.
- ‌, conseguiu falar com ela? - ‌ perguntou preocupado. Fiz uma careta e neguei. – Bom, já estamos aqui, fica mais fácil.
- ‌! – ouvi a voz de Holly me chamar e me virei para encontrá-la. – Eu tô indo... Hm, sinto muito, meninos. – disse com pesar. – Mas não desistam, a banda de vocês é ótima. Não que eu valha alguma coisa falando, mas eu posso garantir que vocês sabem o que fazem!
- Valeu, Holly! - ‌ sorriu, agradecido.
- E ‌, eu vou tentar falar com a ‌, ok? Qualquer coisa eu entro em contato com você. Mas tente não se afligir tanto, ela teve as suas razões, não faça nada precipitado. – apertou os lábios. – Bom, tchau, a gente se vê! – abraçou cada um de nós e logo entrou num táxi, partindo enfim. E nós fizemos o mesmo, cada um seguindo um caminho diferente, ‌ tentou me convencer a ir pra casa dele, mas eu precisava ficar sozinho. Precisava pensar em como eu tocaria minha vida dali pra frente. Tantas responsabilidades. Será que eu estava realmente pronto pra isso? Cheguei em casa e não havia ninguém. Ótimo. Subi para o meu quarto e joguei minhas coisas em qualquer lugar, me jogando na cama em seguida. Peguei meu celular e tentei novamente. Chamou uma, duas, três...
- Alô? - ... e ela finalmente atendeu.
- ‌! – disse rápido, me sentando na cama – Cara, finalmente você atendeu!
- Hm, oi, ‌. - disse sem muita animação.
- Como você tá? Tá em casa? Como sua mãe reagiu? Como tá nosso filho? – ouvi um suspiro do outro lado da linha. - ‌?
- ‌, eu não tô com cabeça pra falar sobre isso agora, desculpe. – outro suspiro. – E por telefone não é o melhor jeito. Hm, será que você podia me encontrar naquele parque, amanhã, sei lá, às noves horas?
- Tudo bem. – passei a mão no cabelo e me joguei na cama novamente. – Tudo bem. – repeti. – Mas, tirando isso, tá tudo bem com você?
- Tá sim, não se preocupe. Eu só estou cansada, só isso. – silêncio. - ‌, eu preciso desligar agora, a gente se vê amanhã.
- Ok, tchau, se cui... – desligou. - ...da. – joguei o celular na cama, e fechei os olhos, sentindo minha cabeça quase explodir de dor. ‌, ‌…


Fim do ponto de vista do


“Tá chateada comigo por algum motivo? xx, ‌.”



Li no visor do meu celular. Suspirei.
- Óbvio que não. – falei sozinha. – É só a droga desses hormônios!


“Desculpe se estou te incomodando, mas eu só estou preocupado. Eu não sei o que realmente aconteceu, só quero tentar ajudar. xx, ‌”



Emendou outra mensagem. Céus, não era justo fazer isso com ele, estava tão preocupado comigo, e eu descontrolada com esses hormônios que me deixam sensível. Mordi meu lábio inferior e fitei a mensagem. Ligo ou não ligo? Mando mensagem?


“Sinto muito te deixar preocupado, não tinha intenção. Acho que estou muito sensível devido a gravidez e com tudo que vem acontecendo, desculpe. xx, ‌”



Enviei, e não sabia se ficava tensa esperando alguma resposta, ou se nem ansiava por isso.


“Ok, tudo bem.”



Respondeu apenas. Respirei fundo, colocando a unha na boca. É, eu estava nervosa. Logo vi uma cartinha dançar na tela do meu celular, avisando que outra mensagem havia chegado.


“Sinto sua falta. Queria te ver.”



Senti minha respiração acelerar, assim que li aquela mensagem. Eu também sentia a falta dele, e queria vê-lo, mas mamãe certamente iria querer conversar com ele. A não ser que...


“Tá em casa agora? Se puder e se quiser, pode vir aqui em casa às 23h, ok? Minha mãe já vai estar dormindo, então...”



Respondi e deixei morrer ali. Ok, agora eu estava realmente ansiosa pela resposta dele. Por que quando ansiamos por algo, parece que aquilo nunca quer chegar? Pareceram séculos até eu receber aquela resposta.


“Te vejo daqui a pouco! xx, ‌.”



Sorri sozinha e me levantei, indo tomar um banho. Tomei um banho relativamente rápido e vesti meu pijama – calça e blusa de mangas compridas -, enquanto me vestia, visualizei meu reflexo no espelho e me aproximei do mesmo. Toquei meu ventre e me virei de lado, levantei a blusa até a altura dos seios e pude notar que já estava perdendo a forma da cintura. Mordi meus lábios e acariciei minha barriga e sem perceber, um sorriso brotou em meus lábios.
- Vamos ver o papai?



“Tô na porta. xx, ‌.”


Foi o que eu li antes de descer e ir ao encontro dele. Confesso, estava bem nervosa, não sabia qual seria sua reação depois de tudo. Mas tudo isso se esvaiu, quando abri a porta e o encontrei parado lá, com as mãos dentro dos bolsos da calça, me olhando com um sorriso sincero e fofo no rosto.
- Ei! – disse andando até ele.
- Oi, ‌. - sorriu ainda mais, não tive como não sorrir junto. ‌ passou uma mão no cabelo e se aproximou de mim. Me puxou pela mão e eu encarei nossas mãos juntas, quando dei por mim, ele já estava me abraçando. Apenas respirei fundo e aliviada, me aconchegando em seus braços. – Vai dar tudo certo. – sussurrou no meu ouvido, depositando um beijo na minha bochecha logo em seguida.
- Promete? – pedi, levantando a cabeça e fitando seus olhos. Ele suspirou e balançou a cabeça positivamente.
- Eu prometo. – respondeu enfim.
- Desculpe por ter fugido de você, eu estava muito confusa. – suspirei. – Eu não sabia como ia ser o encontro com a minha mãe e...
- Shh! – ele me interrompeu. – Tudo bem, ‌, não precisa se explicar. – me apertou em seus braços. – Isso também vai acontecer comigo... Amanhã.
- Como? – pedi, não entendendo.
- Vou contar a minha mãe amanhã, quero que ela saiba por mim. – respondeu sério. Concordei. – Hm, e eu ainda quero que você vá comigo, claro se você quiser. – se apressou em dizer. – Mas seria importante pra mim.
- Ok. – concordei.
- Ok? – perguntou surpreso, e eu assenti e ele sorriu. Sorri junto. – Isso é bom!
- Uhum. – disse apenas, fechando meus olhos e me deixando intoxicar por seu perfume. – Agora, por favor, apenas me abrace... – suspirei – E não me solte nunca mais.



Capítulo 9




- Ei, e o festival? - Lembrei-me de repente. Levantei o olhar para o rosto de ‌, me soltando um pouco de seu abraço. ‌ suspirou baixo e beijou o topo da minha cabeça.
- Não foi dessa vez. - deu de ombros. Eu ia dizer algo, mas ele me interrompeu. - Tá tudo bem, ‌. Não era pra ser, foi melhor... - sorriu fraco. - Eu tenho uma nova vida pela frente, de qualquer maneira. - deu uma piscadinha, sorrindo. Retribuí o sorriso, meio sem jeito. Claro que estava triste por eles não conseguirem, mas o meu lado egoísta estava aliviado por saber que ‌ não ia nos abandonar. Mordi o lábio, escondendo o rosto em seu peito.
- Tô nervosa! - disse baixo.
- Por que, linda? - perguntou, preocupado. Suspirei alto.
- E se a sua mãe não gostar de mim? - confessei, me apertando mais em seus braços. ‌ riu. Idiota! - Não tem graça!
- Claro que não! - concordou, segurando o riso.
- ‌! - repreendi, me afastando dele.
- Ah, ‌, para com isso, vai?! - me puxou de volta para si. - Minha mãe vai adorar você, assim como eu. - sorriu, me passando tranquilidade.
- Hmm... - murmurei, fazendo manha. - Sei não.
- Agora dá aquele sorriso lindo, dá? - me pediu, segurando meu rosto entre suas mãos. Desviei o olhar, segurando o riso. - Vamos, ‌! Sorriso pro ‌? - levantou as sobrancelhas com um sorriso brincando em seus lábios. Apertei os meus, querendo não rir. Ele percebeu e riu. - ‌! - mostrei meus dentes pra ele de uma forma assustadora e ele fez uma careta. - Ok, isso tá me assustando! - e então eu ri, não aguentando. - Ha! Você riu!
- Já disse que você é uma mala sem alça? – falei, dando-me por vencida, entrelaçando minhas mãos em seu pescoço. ‌ envolveu suas mãos em minha cintura, apertando-a delicadamente.
- Acho que ouvi algo assim antes. - fingiu pensar. - Mas no fundo você me adora.
- É talvez eu tenha algum sentimento por você, mas só talvez. - rimos.
- Vem cá! - sussurrou, antes de grudar nossos lábios. Ah, como eu adorava aquele turbilhão de emoções que invadia meu corpo quando ele me beijava. Era como se nada mais importasse, tudo sumia ao meu redor. ‌ subiu uma de suas mãos para a minha nuca, entrelaçando seus dedos em meu cabelo, puxando-o um pouco. Ri durante o beijo, descendo os dedos pelo seu peito, apertando sua camisa entre minhas mãos. O beijo tomou mais intensidade e eu não tinha mais fôlego, mas quem disse que isso importava? Ar? Pff, coisa boba! Senti os dedos gelados de ‌ tocar minha barriga e contraí a mesma. O beijo foi perdendo velocidade até virar apenas selinhos. Nos soltamos e ‌ encostou a testa a minha, tentando regularizar a respiração. - Isso foi... - sua respiração era falha.
- É, eu sei. - mordi meu lábio inferior, fechando os olhos. - Acho melhor eu entrar, já tá tarde. - avisei, mas não querendo me mover dali.
- É, você tem razão... - concordou, sem me soltar. - Então, até amanhã.
- Até! - disse, fitando seu olhos. Silêncio. - ‌?
- Oi, linda? - perguntou.
- Se você não me soltar não tem como eu ir. - falei, rindo. ‌ ficou visivelmente sem graça, me soltou, passou a mão no cabelo, bagunçando ainda mais e sorriu, enfiando as mãos dentro do bolso.
- Erm, foi mal! - mordeu os lábios.
- Tudo bem, seu bobo! - sorri, me aproximando dele, roubando um selinho demorado. - Boa noite!
- Boa noite, ‌! - sorriu, acenei, me virei e finalmente voltei para a casa. A noite ia ser longa.


Acordei na manhã seguinte me sentindo mais leve, demorei um pouco a dormir, mas assim que o fiz, dormi a noite toda. Me espreguicei lentamente, cocei meus olhos e encarei o relógio sobre o criado-mudo. Marcavam 09h47, fiz uma careta. Queria ter dormido mais. Mexi meus olhos até meu celular e o peguei, vendo que havia novas mensagens: duas mensagens. Li a primeira, era de Holly.

"Bom dia, amiga! Como você está? A gente precisa se encontrar, né? Me liga quando puder. xx"


Sorri e voltei a próxima mensagem, depois eu ligaria para ela. A outra mensagem era de ‌, sorri lendo-a.

"Bom dia, gordinha! Ei, dormiu bem? Adorei te ver ontem, tava com saudades já. Me avisa que horas fica melhor pra você vir aqui em casa, tá bom? Se cuida, linda. xx"


Suspirei e mordi meus lábios. Era hoje, havia até me esquecido por um momento. Bufei, largando o celular e me levantando, rumando para o banheiro e fazendo minha higiene. Continuei de pijamas e desci para a cozinha, dando de cara com meu pai, ele finalmente havia chegado de viagem e estava sentado à mesa, segurando a cabeça entre as mãos enquanto mamãe estava de pé, segurando uma xícara de café com a expressão cansada. Seu olhar encontrou com o meu e ela forçou um sorriso.
- Bom dia, filha! - disse se movendo até a bancada. - Quer comer alguma coisa?
- Hm, acho que não. - disse incerta. Papai moveu seu olhar até mim e depois desviou.
- Sue, pode nos deixar sozinhos? - pediu, sem olhar para nenhuma de nós. Mamãe concordou baixo, andou até mim e beijou minha testa.
- Seja paciente com ele, está bem? - pediu baixo. Concordei com um aceno de cabeça e ela saiu. Suspirei e andei até onde ele estava.
- Senta aí, ‌. - pediu seco. Apenas fiz o que ele mandou, tudo em silêncio. - Sabe, quando sua mãe me contou que estava grávida de você, foi o dia mais feliz da minha vida. - ele sorriu, como se lembrasse de algo. - Eu mal podia me conter! Comemoramos o dia todo, chamamos os amigos e fizemos uma pequena festa, seus avós amaram a notícia também... - continuou.
- Pai... - disse, mas ele me ignorou.
- Sabe por que ficamos tão feliz? - era retórica a pergunta, então deixei que ele continuasse. - Porque era certo aquilo tudo. Nós queríamos um filho, planejamos isso. Estávamos prontos para cuidar de uma criança, a idade certa, estávamos juntos e casados, nos amávamos muito. - ergueu seu olhar, finalmente, até mim. E eu pude ver o quão vermelho seus olhos estavam, como se tivesse chorado por muito tempo. Senti minha respiração falhar e meu coração acelerar quando vi aquilo. - Nós sabíamos que poderíamos amar aquela criança com todas as nossas forças, sabíamos que nada ia faltar pra ela e sempre estaríamos lá pra quando ela precisasse. - papai procurou meus olhos e fixou-se ali, me olhando profundamente. Estremeci. - E aí, ‌, eu te pergunto: você tá pronta pra fazer escolhas? Se sacrificar por alguém? Tá pronta pra ficar acordada a noite toda? Educar, sustentar e amar? Levantar no meio da noite quando ele estiver doente, largar a escola pra cuidar dessa criança? Pronta pra ver seus amigos se divertindo enquanto você cuida de uma criança que provavelmente vai chorar a noite toda por cólica, dor de ouvido e tudo mais? - soltou, enfim. Abri a boca sem saber o que responder, sendo pega de surpresa. - Me responde, ‌! - alterou o tom de voz.
- Não sei... - fui honesta. Abaixei a cabeça, encarando minhas mãos sobre a mesa.
- É, eu sabia que não... - suspirou alto. - Você não tem estrutura pra isso. Você me decepcionou muito, me magoou. Achei que nos dávamos bem, ‌...
- E nos damos! - disse rápido. - É só que eu não achei que fosse acontecer...
- Ah, não? - riu sem humor. - Você me envergonha! - se levantou. - Eu não achei que você fosse como todas essas garotas, achei que tinha te educado direito...
- Não fala assim! - pedi, sentindo meus olhos arderem e encherem de água.
- Não falo. Aliás, não vou falar mais nada. - deu alguns passos.
- Cadê a parte que você falou, hein? - me levantei também, encarando suas costas. - De estar comigo sempre que eu precisasse?
- Eu prometi isso a minha filha... A minha ‌... - abaixou a cabeça. - Eu não conheço essa que está aqui, eu não sei mais quem você é. - falou, limpando seu rosto e saindo de lá rapidamente.
- Não... - murmurei, deixando as lágrimas caírem por toda a minha face, sentindo um gosto salgado em meus lábios. Cai de joelhos no chão gelado, sem querer acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. Ouvi passos rápidos entrarem na cozinha, mas não me movi. Apenas senti os braços de alguém me abraçando fortemente, enquanto sussurrava um "vai ficar tudo bem, meu amor. Mamãe tá aqui, shh!" e soube que era minha mãe. A cozinha caiu no silêncio e só se ouvia o nosso choro ecoar por ali. E estava doendo, dói muito saber que, talvez, eu tinha perdido meu pai. Pra sempre!


***



Perdi a noção de tempo enquanto fitava o teto do meu quarto, acordei do meu transe quando ouvi batidas na porta. Fiquei quieta. Não queria falar com ninguém agora. Fechei meus olhos e me encolhi na cama. Mais batidas.
- Vai embora! - mandei. Ouvi um suspiro do outro lado da porta e pensei que a pessoa tinha desistido.
- ‌, abre! Sou eu, Holly. - avisou, e eu arregalei os olhos. Me levantei e corri para abrir a porta, dando de cara com ela. Holly sorriu fraco.
- Como você... O que... - tropeçava nas palavras.
- Sua mãe me ligou e pediu que eu viesse. - explicou, andando até mim e me abraçando forte. - Ela me contou que você conversou com o seu pai.
- Foi horrível! - retribuí o abraço, deixando algumas lágrimas escaparem. Ela nos empurrou um pouco pra frente e fechou a porta atrás de nós. - Eu me sinto um... um lixo.
- Claro que não, ‌! - me soltou e segurou minhas mãos. - Ele só está nervoso agora, alguma hora ele irá entender.
- Acho que não, Holly. - suspirei, me soltando e indo sentar na minha cama. - Você não viu o olhar de decepção dele... Me doeu tanto! - abracei meus joelhos. Holly se juntou a mim e me fitou.
- Eu sei que você tá se sentindo mal agora, mas você tem que ser forte, amiga. - pediu, quase que suplicante. - Vai doer um tempo, mas você tem que seguir em frente. Sua mãe me disse que você não quis se alimentar hoje... - abaixei a cabeça. - ‌, você precisa comer alguma coisa! Não seja egoísta! Tem um serzinho aí que precisa de você agora, você tem que pensar nele... Se você fica mal, ele também fica.
- Eu sei. - sussurrei, encarando meus pés.
- Sabe e não faz nada pra melhorar? - se levantou. - Anda, levanta! Vamos procurar algo pra você comer. - eu ia falar algo, mas ela não deixou. - E nem adianta questionar, mocinha!
- Você tá parecendo a minha mãe! - bufei, me levantando e me dando por vencida. O celular em cima da cama começou a tocar, ignorei.
- Não vai atender? - Holly perguntou, levantando as sobrancelhas. Neguei. - Por que não? - foi até lá e pegou o celular. - É o ‌, ‌!
- Eu sei, ele tá me ligando há horas. - confessei, mordendo os lábios, só esperando a Holly explodir.
- Você tá louca? - não disse? - Eu entendo que tá difícil, mas você não pode ignorar ele assim. Ele deve estar preocupado com você, poxa!
- A gente tinha combinado de ir falar com a mãe dele hoje. - falei, sentindo que a qualquer momento Holly voaria no meu pescoço. Ela era uma pessoa muito doce e compreensível, mas não aceitava injustiça... E eu a amava por isso.
- ‌, atende esse celular agora. - alterou o tom de voz, estendendo o aparelho pra mim. - Fala com ele, pelo menos explica o que aconteceu...
- Eu não sei se consigo, Holly. - suspirei, desviando meu olhar dela.
- Se você não atender, eu atendo. - ameaçou, levantando a sobrancelha. - Vai atender?
- Arght! - me dei por vencida, pegando o celular de sua mão. Ela sorriu, satisfeita.
- Hm, oi. - atendi, passando a mão no cabelo, nervosa.
- Ah, meu Deus! ‌, finalmente! - ‌ respondeu, desesperado. - O que foi que houve? Por que você não me atendia? Aconteceu alguma coisa? Você tá bem? - despejou, respirando ao final.
- Desculpa, ‌! - pedi baixo. - Aconteceram algumas coisas por aqui e eu não me senti muito bem, e não quis falar com ninguém...
- Nem comigo? - perguntou triste. - Achei que você confiasse em mim.
- Eu confio! - me apressei a falar. - Confio mesmo, muito.
- Não é o que parece, ‌! - suspirou, e eu suspirei junto, fitando Holly que me olhava apreensiva. - Eu contei pra minha mãe, sabe? Como você não veio e nem deu sinal de vida...
- Ah, me desculpa, me desculpa... - pedia rapidamente. - Por favor, eu sinto muito! - ele não disse nada, só ouvia sua respiração do outro lado. - ‌?
- Você acha que sempre que tiver um problema vai poder me ignorar? Acha que me ignorando vai fazer tudo se resolver? - soltou de uma vez.
- Não, eu sei que não. Mas eu fico nervosa e quero sumir, não quero falar com ninguém... - senti meus olhos arderem. - Dói tanto quando vocês dizem isso! - ele fez um barulho com a boca, como se não estivesse entendendo o "vocês". Mas Holly me olhou, compreendendo tudo. - Dói porque eu sei que estão certos, e não quero admitir que preciso de ajuda... A ajuda de vocês. - funguei alto. - Eu sinto muito, ‌.
- Tudo bem, ‌. Eu te entendo, mas eu preciso que você prometa que não vai fazer mais isso, ok? Eu preciso que você confie em mim e me deixe participar da sua vida - pediu, calmo.
- Eu... Eu prometo! - concordei. - Eu não faço mais isso, eu juro!
- Que bom! Agora, onde você está? Pode me explicar o que aconteceu? - pediu.
- Eu tô em casa. - fitei Holly, ela estava fazendo um sinal pra eu entregar o celular pra ela. Fiz uma cara confusa. E ela rolou os olhos, tomando o celular de mim. - Ei!
- ‌? É a Holly, seguinte, a dona ‌ ainda não comeu nada hoje e se você não se importar de ligar depois, eu tenho que fazer essa mocinha comer, tudo bem? - avisou com aquele tom de "mãe", sorri agradecida. Ela sorriu durante um tempo, de certo ouvindo a resposta dele e depois mordeu o lábio, fazendo uma careta. - ‌, o ‌ quer saber se pode vir aqui te ver.
- Ahmm... - disse, dando de ombros. - Tudo bem, pode vir. - consenti, afinal eu não podia mais adiar esse encontro entre ‌ e mamãe.
- Tudo certo, ‌. Pode vir! - sorriu e pouco depois desligou. - Ele vem mais tarde. - informou. - Agora, por favor, vamos tentar comer, tá? - juntou as mãos, em forma de apelo. Sorri, concordando.
- Tá bom, tá bom! - rolei os olhos.
- E depois tomar um banho, né? Porque você tá fedendo, ‌! Eww! - fez cara de nojo, e eu estapeei seu braço. - Ouch! Violenta!
- Chatinha! - entrelacei nossos braços. - Te amo, amiga!
- Sem afeto agora, estou sem tempo para emoções. - se fez de indiferente, mas logo depois beijando minha bochecha. - Também te amo, ‌!
- Hm, acho que me deu fome! - comentei, ao ouvir meu estômago roncar. Nos entreolhamos e rimos, seguindo para a cozinha.




Continua...



Nota da autora: MAIS TRÊS CAPÍTULOS PRA VOCÊS! Muito obrigada as pessoas que estão lendo e comentando. Isso ajuda muito, faz a total diferença para uma autora, obrigada de verdade. <3 OBS: TITIA LUANA VIROU ESCRITORA REAL OFICIAL!!!!! Lancei meu segundo livro, inclusive, já está a venda. Tem tudo sobre ele no meu perfil do instagram caso queiram saber mais: @luhfmagalhes ALERTA DE CLICHÊ: a mocinha se apaixona por um cantor de pop. <3 HAHAHA





Outras Fanfics:

Long/Finalizada: HER
Long/Finalizada: Johnny
Short: Lovin' Arms
Short Especial Behind The Scenes: The One About 2006


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