500 days in London
What they didn’t know about us

por Gi Castro
Última atualização: 20/07/2020

Prólogo

Novembro 2014

Abracei o mais apertado que consegui pela terceira vez em um espaço de meia hora. O embarque para meu voo de volta para o Brasil estava liberado, mas como sempre, eu não queria me despedir do meu pedacinho londrino em forma de melhor amiga e nem do país que tinha me dado tantas alegrias, amores e desamores. Ir para Londres era sempre um misto de angústia e expectativa, e aquela eterna ansiedade em não saber se eu me encontraria com ele ou não. Felizmente, fazia o impossível para manter minha sanidade em dia e, principalmente, manter meu ex bem longe de mim.
– Me avisa assim que chegar no aeroporto de Ga, Gurua... Como é?
– Guarulhos. – Eu sorri enquanto apertava suas bochechas. – É lindo ver você tentando falar português, amiga.
– Faz parte do meu jeitinho tentar fazer parte do seu mundo brasileiro, já que você faz totalmente parte do meu mundinho inglês. – Ela respondeu manhosa com aquele típico sotaque de Bolton e os olhos brilhando de quem está segurando as lágrimas. – Eu prometo que vou tentar te visitar dessa vez.
– As portas da casa dos meus pais estão sempre abertas – sorri –, e em breve espero ter o meu próprio apartamento para receber você e o .
– Ele pode ir também? – arregalou os olhos. – Mas só ele? E os outros...
, eu abro minha casa para meu casal favorito, os outros que se virem. – Suspirei e passei a mão pelos meus cabelos, coçando o topo de minha cabeça tentando disfarçar o nervoso. – Hoje eu só tenho contato com vocês dois, então é meio óbvio que quero receber apenas vocês.
– Hm, ok. – Ela sorriu com os lábios fechados. – Bom, antes de ir, preciso te dar uma coisa. Encontrei isso em uma das nossas caixas em Stanton, eu juro que não abri, juro mesmo.
– O que é?
Ela me entregou um pacote roxo em formato de caderno. Pensei que pudesse ser uma agenda minha de anotações do curso, o que honestamente seria de grande ajuda já que eu estava começando a me esquecer de uns pontos cruciais que Olivia nos havia ensinado.
– Seu diário de 2012. – Ela riu baixinho. – Deve ter alguma coisa aí que te faça lembrar dos bons tempos.
– A-amiga! – Solucei quando tentei pegar ar e minhas mãos falharam ao segurar o diário com mais força entre meus dedos. – Eu-eu nem lembrava disso.
– Sei que não, e você se lembra de absolutamente tudo. Quanto tempo é seu voo até o Brasil?
– Catorze horas.
– Você vai ter uma ótima companhia para suas próximas horas – ela veio e me abraçou de novo, dessa vez com menos força, e eu mal consegui retribuir –, lembre-se como era bom ter dezessete anos e ser apaixonada por , e principalmente, lembre-se como ele era bom, .
– Eu nunca duvidei disso, . – Funguei e me afastei de minha amiga. – É só que...
– Sei, a vida fez com que vocês se afastassem, blábláblá. Não vou ser a pessoa que vai lembrar tudo o que vocês passaram e nem aquela que adoraria ver meu casal junto mais uma vez. – riu. – Porque você sabe que todo mundo quer vocês juntos de novo.
– Todo mundo quem, criatura? Nem nós dois sabemos se queremos alguma coisa de novo.
– Sim, óbvio – ela rolou os olhos –, e agora eu também vou fingir que ele não pergunta de você para o , mesmo sabendo que você estava aqui em Londres por uma semana.
– Eu sei que ele pergunta de mim para o seu namorado e, pior ainda, o responde.
– Os dois trabalham juntos, quer que meu pumpkin minta em seu nome?
não precisa falar que eu estou tomando banho, precisa? Eu já o ouvi falando isso e juro que até pude escutar a risada do do outro lado da linha.
– Ele riu mesmo, ele sempre ri quando fala de você.
, limites. – Foi a minha vez de rolar os olhos, fingindo indiferença ao imaginar rindo ao falar de mim. – Obrigada pelo diário. Não prometo que vou lê-lo na viagem, mas vou dar uma olhadinha de leve em algumas páginas.
– Eu sei que você vai ler tudo, .
– Nem eu sei...
Eu sei. – Ela riu com gosto. – Olha, não querendo ser chata de novo, mas daqui umas semanas vai ser o lançamento do último álbum, não sei se está familiarizada com a banda do meu namorado...
– Vá direto ao assunto.
– Seria legal se você pudesse mandar uma mensagem para ele, sabe? De incentivo, sei lá. Vai ser o primeiro álbum sem você, amiga.
– Mandar uma mensagem para o seu namorado?
– O seu ex namorado, ! Não se faça de tonta comigo.
– Ok, desculpa – comecei a rir. – Mas, só uma coisinha, eu não estava vividamente presente em Midnight Memories.
– Mas eles fizeram a tour no Brasil e você foi.
– E ainda brigaram comigo porque eu não sabia todas as músicas, lembra?
, por favor? – pediu de forma dengosa, com aquela voz que me irritava e manipulava ao mesmo tempo. – Só uma coisinha de nada, falando “boa sorte”, qualquer coisa.
– Qual o nome do álbum?
– Você não-não sabe o nome... Ah, não tenho tempo para discutir isso com você. – Vi minha amiga entortar os lábios em sinal de desgosto, e eu comecei a rir. – É FOUR!
– FOUR, tá bom. – Sorri. – Alguma música específica que eu deva ouvir?
– Todas – ela já falava com aquele tom de fã amargurada, não era mais no tom amigável de antes. Eu sempre achei engraçado essa tripla personalidade: fã da One Direction, namorada do e, quando sobrava um tempo, minha amiga. – Mas há pelo menos uma que deve ter sido feita para você, acho eu.
– Para mim? Desde quando eles têm liberdade para escreverem as próprias músicas?
– Pois é, viu como as coisas mudaram? Se você não fosse tão teimosa a ponto de arrancar todo mundo da sua vida!
– Qual música, ? – a interrompi sabendo muito que bem que ela ia me dar um sermão.
Spaces – ela respondeu rápido – e talvez Where do broken hearts go.
– Nomes sugestivos.
Fiz uma careta involuntária. Imaginei escrevendo alguma coisa sobre o espaço entre nós dois, ele ou eu de corações quebrados não sabendo para onde ir e talvez imaginando com quem passávamos nosso tempo. Eu nem precisava pensar muito, era só abrir qualquer mídia social e lá estava ele sorrindo com alguma pessoa, ou algumas pessoas. E geralmente associado a um possível namoro com a it girl do mês.
Nós decidimos não nos vermos mais, foi um acordo mútuo que nenhum dos nossos amigos concordou. Nenhum! Apesar do rompimento, eu não me sentia na obrigação de me afastar da única amiga que fiz em Londres, por isso eu e continuamos próximas, mesmo com ela namorando . O combinado era muito simples: eu a visitava quando dava, quando conseguia até mesmo algum trabalho com uma agência por aqui, ficava no apartamento dela, via e conversava com o e só. Parava por aqui qualquer conexão com a One Direction. sabia, óbvio, porque eu saía com e e geralmente postávamos umas fotos em nossas redes sociais. Havia até boatos de que eu tentava uma reaproximação com meu ex através da minha amiga, e esse era também um dos motivos que me empurrava para mais longe dele. Eu não queria mais nenhuma conexão, pelo menos não agora.
Imaginar escrevendo músicas sobre mim, sobre nós, fez eu entrar em contato com um sentimento que dormia em sono leve. Qualquer ruído o despertava, era ridículo o quão sensível eu era com ele, com , com esse amor adolescente que não teve oportunidade de amadurecer. Talvez fosse bom eu ler esse diário, entender o que aconteceu, como acabou, quando acabou. 2012 foi meu primeiro e único ano completo em Londres ao lado da pessoa que eu mais amei, e nós descobrimos coisas demais juntos. Será que foi por isso que não deu certo? Por que éramos jovens demais?
– Você ficou quieta de repente, .
– Fica tranquila – balancei a cabeça, recobrando a consciência –, eu vou mandar uma mensagem para o .
– VAI? – gritou e colocou a mão na boca em seguida. – Ah, meu Deus, obrigada, muito obrigada, sério! Amiga, ai que bom, eu fico tão feliz. Você ainda tem o número dele? Eu tenho, eu te passo.
– Vou mandar no Instagram, .
– INSTAGRAM? DESDE QUANDO VOCÊ MANDA MENSAGEM PARA ELE NO INSTAGRAM?
– Não grita, caralho. – Fui até ela e coloquei a mão em cima de sua boca. – Me escuta, eu não sou mais amiga dele, nós não nos falamos há seis meses! Não vou aparecer do nada no celular dele desejando boa sorte com um álbum que eu nem sabia que ia existir se não fosse por você. – Me afastei e a vi com um olhar perplexo. – Instagram, amiga.
– Ele recebe uma tonelada de mensagens por dia, !
– Então acho que você pode avisar seu namorado para ele avisar o amigo dele que eu vou mandar uma mensagem e que é obrigação dele ficar mais atento.
– Por que vocês dois complicam nossas vidas?
– Só faça isso. – Tentei sorrir e fui em sua direção dar um abraço. – De verdade, eu preciso ir embora, amiga.
– Tudo bem, vai lá de volta ao seu país. Eu fico aqui segurando essa bomba que vai estourar na minha cabeça. – Ela fez bico. – Eu te amo, amiga, só quero seu bem.
– Sei disso, eu também te amo.
– Não esquece de nós, por favor. – disse com a voz embargada.
– Impossível.


Capítulo 1 – Golden

I know that you’re scared because I’m so open


6 de outubro de 2012

– Nós ainda não temos as datas para a turnê, mas vocês vão saber muito em breve. UK está na lista de nossas prioridades. – respondeu com um sorriso cativante, porém visivelmente cansado. Ainda bem que estavam em uma rádio.
– Há alguma surpresa que as fãs podem esperar? – O radialista indagou, já sabendo que era uma pergunta de praxe sem resposta.
– Podem esperar mais interação com o público, um cenário bem diferente e alguns covers. – disse.
– Vamos continuar respondendo às perguntas que vocês nos mandam no Twitter, então não parem! – afirmou.
e eu estávamos no cantinho do estúdio, um pouco cansadas de um vai e vem para lá e para cá entre programas de TV, de rádio, entrevistas para revistas britânicas e americanas, passagens de som para shows de divulgação e interação o tempo todo com as fãs (como elas sabiam onde eles estavam? Às vezes ficávamos sabendo em cima da hora para onde íamos, e de repente elas já estavam lá!), mas nós prometemos aos devidos namorados e amigos que essa primeira parte de divulgação do novo álbum teria nosso total apoio. Eu tinha terminado grande parte dos trabalhos do curso, copiou a maioria, Lucas ficou responsável por nos ajudar nos últimos e até mesmo o Tom – o Fletcher mesmo – se colocou a nossa disposição para nos ajudar com as fotos urbanas que eram necessárias para nosso portfólio número 6 do mês. Ele disse que não precisava de pagamento. Nas palavras dele: “McFly deu para a One Direction duas músicas, é mais do que justo ajudarmos as namoradas de dois integrantes a fecharem as notas do semestre.” Sem palavras, eu o amo (às vezes, mais que o ).
– Huh, há uns bons meses. – A voz de , seguida de sua risada rouca, chamaram minha atenção. Ergui a cabeça do cantinho que eu estava e olhei para a mesa da rádio.
– Há quanto tempo ele está falando? – cutuquei , que parecia tão adormecida e molenga quanto eu.
– Não sei, amiga, só sei que é de novo sobre namoros e relacionamentos.
– Me ajuda, nós fomos apresentadas como namoradas ou amigas próximas da banda?
– Amigas próximas. – bocejou. – Nós estamos na Radio One, nunca poderíamos aparecer aqui como namoradas deles.
– Entendi. – Rolei os olhos e peguei meu celular para checar as horas. – Falta muito para terminar? Entrevistas em rádio me matam de tédio.
– Amiga, você tem noção de quem está entrevistando os meninos?
Cocei os olhos e olhei para eles e para o tal entrevistador/radialista. Não era a primeira vez que nos encontrávamos e nem a primeira vez que ele me ignorava e não fazia questão de me cumprimentar direito. Na primeira vez eu fiquei horrorizada, chocada e particularmente ofendida, quase levando para o lado pessoal e encarando aquela atitude como xenofóbica por eu ser brasileira e ele um britânico babaca esnobe. Depois eu percebi que ele não gostava de mim por eu ser próxima demais do . Por último, na terceira vez ao final da turnê Up All Night, cheguei à conclusão de que Nick Grimshaw não gostava de mim porque eu namorava , e na cabecinha desse imbecil, o amigo dele precisava de alguém melhor do que eu. Eu acho estranho o fato de Nick ser dez anos mais velho que e mesmo assim insistir em uma amizade que, para mim, beira ao cinismo.
– O engomadinho Nick Grimshaw. – Dei de ombros. – Eu não o suporto.
– Nem eu, embora ele nunca tenha sido escroto comigo da mesma forma que é com você.
– Você é britânica, . – Suspirei. – Mais alta, mais magra...
– Ok, ok, . – colocou as mãos nas têmporas. – Nem tudo as vezes é sobre aparência física, mas não vou entrar nesse assunto com você, ainda mais agora.
– Quando você tiver meu corpo, coisa que eu não desejo à sua pessoa, a gente conversa.
– Ah, tá bom.
Eu sei que não era por mal.
Eu sei que na maior parte do dia eu guardava essas opiniões para mim, especialmente porque ninguém tem a obrigação de ficar me ouvindo reclamar do meu corpo, do que eu como, do que deixo de comer, da minha roupa, das minhas coisas, da minha vida amorosa. Porém, escapou. Eu sei que o amigo do não gosta de mim única e exclusivamente porque eu não sou a pessoa padrão que ele imaginava como namorada do ídolo teen do momento. Por mais que as pessoas, minha melhor amiga inclusa, digam que não, eu sei no meu íntimo que sim. Só eu sei, mais ninguém.
Porque quem é padrão não entende como é não ser padrão.
– Taylor Swift, senhoras e senhores! – Ouvi Nick dar uma risada alta após soltar um áudio de uma entrevista da Taylor aqui na rádio, afirmando que ela gosta de One Direction e que tem um favorito. Todos os olhares foram diretamente a . E o olhar dele, diretamente a mim. – Alguém tem alguma aposta de quem seja o favorito do nosso sonho americano? , , quem acham que é?
– Hã, honestamente não sei. – respondeu sem graça.
– Acho que devemos esperar ela falar alguma coisa, seria mais cavalheiro. – disse.
– Ah, por favor, é só uma brincadeira entre nós. Quem é? , alguma sugestão?
– Concordo com os outros caras, isso quem tem que responder é ela, não nós.
– Todo mundo sabe que é o . – Cochichei e fiz menção em me levantar do chão. Sim, nós estávamos sentadas no chão, nem para ter um sofá decente para descansar nossas bundas! – Será que se eu sair vai fazer muito barulho?
– Não me deixa sozinha aqui, sua doida. – segurou meu braço. – E vai aonde? Vai ficar trancada no banheiro de novo? – Ok, ela tinha o mínimo de noção que nas últimas semanas eu passava tempo demais no banheiro. – Fica aqui, já está acabando.
– Claro, vou ficar aqui ouvindo meu namorado ser disputado pelo sonho americano chamado Taylor Swift, quem não quer isso, não é mesmo?
, por favor. Se você sair, o vai ficar mais desconcertado que já está, não percebeu não?
– Percebi. – Bufei e olhei para ele, que não tirava os olhos de mim.
! – Nick chamou a atenção dele, e a minha também. – E se for você o escolhido, o que me diz?
– Obrigado? – respondeu sarcástico e soltou uma risada ao final.
– Ah, consegue mais que isso, estamos falando de Taylor Swift....
– De verdade, agradeço a preferência. – finalizou.
– Se estiver solteiro, podemos esperar alguma música em sua homenagem no próximo álbum dela...
– Eu não estou solteiro, todo mundo sabe disso. – Ele riu em deboche e os meninos o acompanharam. – Acabei de responder que estou com uma pessoa há uns bons meses, Nick. Você precisa prestar mais atenção no que seus convidados respondem.
, , ... – Vi Nick tentando disfarçar o descontentamento. – Quantos anos tem agora? Dezoito? Dezenove? Cara, você ainda vai ter muito tempo para namorar, conhecer outras garotas, relaxa. Não estou falando que agora você vai namorar a Taylor, mas quem sabe mais para frente, tudo pode acontecer.
– Tudo pode acontecer, inclusive mudarmos de assunto! O que acham? – desesperadamente falou mais alto, forçou uma risada escandalosa e virou o rosto para mim.
Obrigada, .
Não era de hoje que as entrevistas traziam alguém do mundo artístico como possível futura namorada de algum dos meninos, muito menos de hoje que a mídia sabia que pelo menos dois deles estavam namorando. Como não éramos famosas, ninguém parecia se importar. Hoje, após a entrevista, fez questão de sair de mãos dadas comigo na direção da van que nos levaria para um hotel próximo a Tower Bridge. Embora as fãs clamassem por atenção, ele passou reto, me puxando com um pouco mais de força que o habitual, e ficou em completo silêncio o caminho todo. Até eu achei estranho. quieto?
No hotel, eu e ele ficamos no mesmo quarto. Passaríamos uma hora juntos e depois ele ia tomar banho, se arrumar e ir para outra entrevista, dessa vez um programa de TV que eu não era muito fã. Um apresentador que sempre dava um jeito de também fazer piadas impróprias e um pouco machistas envolvendo os meninos e as fãs, e esquecendo do detalhe principal: e namoravam. Confesso que eu ficava cansada de ser literalmente esquecida, imagino que começava a sentir o mesmo. Passava pela minha cabeça a ideia de dar um tempo, me afastar tanto para eu me concentrar no curso como para ele deixar o foco ser a banda, cem por cento a One Direction. Se ele quisesse sair com alguém, sairia, sem cobranças, sem ter que dar satisfação. Aposto que várias fãs queriam isso, uma chance de serem a próxima nos tabloides ao lado dele, do ou de qualquer um dos outros. Ensaiei a conversa várias vezes sozinha, mas nunca na realidade cogitei trazer isso à tona. Pelo olhar cansado dele ao deitar-se na cama e encarar o teto, achei que ainda não era o melhor momento. Pena que eu nunca penso antes de agir.
– Se não entendeu a indireta, eu gostaria que você se deitasse ao meu lado. – disse num tom brincalhão e cansado. O corpo todo esticado, com exceção ao seu braço direito que estava erguido e apontando onde eu devia estar. Eu estava de pé, formulando a frase “acho que a gente tem que dar um tempo”.
...? – Comecei. – Hm, podemos conversar?
– Claro, você pode conversar deitada aqui comigo? – Ele riu e se ergueu na cama usando os cotovelos. – O que foi? Eu estou um bagaço, mas você parece pior.
– Só pensando demais.
– Foi a entrevista? O negócio da Taylor? – suspirou. – Ah, babe, eu não tenho controle dessas coisas, o Nick é um idiota. Eu já pedi para ele não fazer esse tipo de coisa, já brigamos por causa disso, hoje eu fiquei muito puto com o quão constrangida você ficou. Eu também fiquei.
– Eu sei que ele não vai muito com a minha cara e...
Tive que parar o que falava no meio, pois mais uma vez me convidada para me deitar ao seu lado. Ele venceu. Sorri derrotada e me deitei na cama, sendo imediatamente agraciada por seu abraço e um selinho que demorou demais a ponto de eu perder o fio da meada. Eu tinha que falar alguma coisa, mas nesse momento não parecia relevante. Nós dois ali deitados um de frente para o outro, os braços dele envolvendo meu corpo por inteiro e eu com as mãos pousadas em seu rosto. Queria que o mundo explodisse e que Nick enfiasse o que ele achasse de mim no meio do...
– O que você ia falar? – perguntou. – Você pensa demais, gênio, e eu fico curioso com seus pensamentos. Não consigo ler suas expressões, isso me deixa agoniado.
– Não sou totalmente transparente? – Eu sorri. – Muitas pessoas falam isso de mim.
– Pois bem, mas eu sou seu namorado, eu preciso te conhecer muito bem.
– Se soubesse o que estou pensando não ia querer ficar aqui comigo. – Sorri e ergui as sobrancelhas.
– Por quê? Está pensando em terminar comigo ou algo assim?
Hm, digamos que algo assim?
Eu fiquei em silêncio, com as mãos ainda no rosto dele, mas devagar fui escorregando meus dedos até parar de tocá-lo de uma vez. Senti afrouxar o abraço e afastar o corpo, mantendo os olhos vidrados em mim e sua boca entreaberta. Mordi meus lábios e interrompi meu suspiro no meio, percebendo que qualquer movimento brusco o faria pular da cama como um gafanhoto. Pisquei algumas vezes, focando o rosto apavorado e surpreso dele, um misto de terror e tristeza e quase raiva. Quando abri a boca para colocar em palavras o que eu, de verdade pensava, , como premeditado por mim, pulou da cama tal qual um gafanhoto.
– Você NÃO ESTÁ falando sério, ! – O vi passar as duas mãos nos cabelos e puxar todos os fios para trás, virar o corpo para mim e cruzar os braços. – Que-que merda é essa? De onde surgiu essa ideia absurda, porque é ABSURDA! A gente não vai terminar, ponto final, de jeito nenhum. Eu te amo, , não faz isso comigo, por favor.
, ca-calma. – Fiquei de joelhos na cama e o encarei. – Babe, sério, eu não falei nada, você que concluiu sozinho.
– Concluí sozinho? Você ficou quieta e me olhando com essa cara de culpa. Você... Você quer terminar? – Ele juntou as duas mãos na frente da boca e vi seus ombros subirem e descerem rapidamente.
– Não... Sei? – Disse na dúvida e senti meus olhos enrugarem, assim como todo meu rosto se contorcer. – , isso já passou pela minha cabeça, não posso mentir.
– JÁ PASSOU? VOCÊ JÁ... Meu Deus, eu preciso me sentar.
– Ok, respira. – Ele se sentou na cama e eu, com receio, coloquei minhas mãos em seus ombros tensos. – Não sei se terminar, terminaaaaaar seria o jeito certo, mas talvez dar-um-tempo? – Soltei e senti seus ombros enrijecerem mais. – ?
– Você não pode estar falando sério. – Ele suspirou pesado e virou o rosto para me encarar. – Por quê? Qual a ideia mirabolante que está permeando sua cabeça agora, ?
– Não me trate como uma idiota, porque essa não é uma ideia idiota. – Me afastei, mas permaneci de joelhos na cama, vendo se levantar e ficar prostrado à minha frente.
– Não é idiota? Você acabar conosco não é idiota? Então eu devo ser, porque não consegui captar nenhum sinal seu indicando que estava de saco cheio do nosso relacionamento. O que eu fiz de errado?
– Você não fez nada...
– Não me venha com essa conversinha de que o problema é você, não eu. Sério, , você consegue ser mais inteligente e menos clichê que isso.
, quer parar de duvidar da minha inteligência e me deixar falar?
– Mas é exatamente o que estou fazendo, meu amor. Eu não duvido da sua inteligência, muito pelo contrário, eu a admiro! Mas se você vier com um papinho raso desse, eu chamo um exorcista porque não é a minha que está aqui, é outra pessoa.
– Deixa eu falar, inferno! – Ergui minimamente minha voz e ele cruzou os braços. Seus lábios estavam fechados em uma linha fina, os olhos petrificados e a respiração pesada. Ele estava puto, essa não era nem de perto uma conversa de término de namoro. E eu não estava terminando com ele, caralho! – Babe, às vezes eu tenho essa ideia comigo de que seria melhor a gente dar um tempo para você se concentrar mais na banda, curtir sua fama sem ter que se preocupar em dar satisfação para mim, entende? Tipo, o que aconteceu hoje, você tem a chance de ficar com a Taylor, talvez...
– Não quero, eu tenho você.
– Deixa. Eu. Terminar! – Falei entre os dentes. – Não estou te empurrando para ela, acredite, isso é a última coisa que eu quero! – Deixei escapar e vi seu lábio erguer minimamente em um sorriso. – Não é sobre ela, mas sobre oportunidades. A banda mal se formou e nós começamos a namorar. Uma nova etapa da One Direction vai começar, , e eu tenho certeza de que a Take me Home vai ser muito maior que a Up All Night. Eu já vi a agenda de shows, você vai passar meses fora com inúmeras oportunidades.
, você acha que eu não sei me controlar? Não, espera, você não confia em mim? Acha que eu vou pular na primeira garota que der em cima de mim?
– Eu confio em você, não é sobre isso que estou falando.
– Então o quê? Acha que por eu estar completamente apaixonado por você, vou perder a chance de ficar com outra garota? Eu não quero outra, eu quero você.
– Como sabe que não quer outra pessoa, ?
– Você quer?
– Eu queria o Tom, mas ele é casado.
– Fala sério comigo, . Você quer ficar com outra pessoa? Existe outro? – A voz dele baixou e, naquela conversa, foi a primeira vez que o tom de brincadeira deixou de existir.
não fazia o tipo ciumento.
Ok, ele sentiu ciúmes de mim com o , mas o gostava de mim, então até que fez sentido essa preocupação. Até hoje eu sei que ele fica incomodado, é meu melhor amigo na banda, sinto que posso conversar qualquer coisa com ele. Será que o acha que o sentimento é recíproco?
– Se está pensando no , por favor, não pense.
– Ele é o único que veio na minha cabeça, vocês dois continuam muito próximos e há coisas que ele sabe de você que eu não sei.
– Eu não o amo, ! – Respondi séria. – Não tem outra pessoa! Eu só conheço vocês e o McFly, meus amigos do curso são gays. Tecnicamente meu círculo social é péssimo, é um milagre eu ter achado um namorado em tão pouco tempo. Convenhamos, tudo estava contra mim.
– Então não tem outra pessoa?
– Não.
– Ok. – Ele apertou as têmporas e soltou um suspiro alto. – Do início, você está terminando nosso namoro por que...?
– Eu não estou terminando nada!
– Dando um tempo.
, não banaliza minhas ideias. Quer saber, a Giovanna disse que ela e o Tom terminaram uma vez, e que isso fez muito bem para o relacionamento deles. Ela ficou com outra pessoa, ele também ficou com outra pessoa, e depois perceberam que estava tudo errado e que na verdade eles se amavam e deviam ficar juntos. Mas o término foi essencial, e pelo menos o Tom pôde aproveitar um pouco da vida sem ter que dar satisfação pra Gio, entendeu?
, meu amor. – se ajoelhou na cama de frente para mim. – você acha que a gente tem que terminar para depois voltar?
– Eu não quero ser um peso para você, que você perca oportunidades por minha causa. Vai que você quer fazer alguma coisa e não faz? Então, esteja solteiro, mas só não me coloca chifres, por favor. A última coisa que quero ser nesse mundo é corna.
Esse era meu maior medo: sair uma fofoca do pegando qualquer outra pessoa. Eu não ia suportar o peso da traição. Pelo visto ele não compactuava do mesmo raciocínio, pois assim que eu disse isso, ele começou a rir. Abriu o maior sorriso e soltou uma risada quase alta, mas misturada de alívio. Colocou uma mão no próprio queixo, fechou os olhos e repetidamente balançava negativamente a cabeça.
– Você lembra da primeira vez que a One Direction foi para os Estados Unidos? Que eu te liguei para falar que tinha ficado com uma fã?
– Ugh, sim. – Reclamei. – Exato, esse é meu ponto...
sorriu e segurou meu rosto com as duas mãos, calando minhas ideias com um beijo entrecortado por sua risada frouxa. Coloquei uma das mãos em seu pescoço e o encarei, esperando que ele explicasse qual a razão do beijo inesperado após se lembrar de um dos únicos acontecimentos traumatizantes do nosso relacionamento. Nós não estávamos ainda namorando, mas considerei uma pequena traição.
– Lembra do que os meninos falaram? Logo que nos encontramos no aeroporto e você veio com a gente na van.
– Que você não tinha gostado de ficar com a fã, certo?
– Pois é, – ele soltou um gemido forçado e me beijou mais vez. – porque desde aquele dia eu não queria ficar com mais ninguém, só com você. Aquela noite eu cedi à pressão de ter que ficar com alguém porque queriam que eu fizesse isso, porque eu era um jovem popstar com vinte fãs do lado de fora do hotel querendo um pedaço de mim. Foi horrível, não deu certo, não foi bom.
– Eu fico muito feliz em ouvir isso, . – Sorri e o abracei pelo pescoço.
– Não quero mais ninguém, .
– Nem a Taylor?
– Nem um álbum inteiro para mim. Obrigado.
Sei que pode ter soado um pouco dramático, mas eu ainda pensava na opção de não estar com por um tempo. Quando conversei com a Gio sobre o relacionamento dela com Tom, ela deixou bem claro que o tempo que passaram separados foi horrível e ela não via a hora de voltar com ele. Ela não insinuou nada, que eu deveria fazer o mesmo com , mas fiquei com isso na cabeça. Sem querer me menosprezar, mas entendo que a tentação durante uma turnê é grande, especialmente nos Estados Unidos, e especialmente ficando mais lindo a cada dia. É horrível eu ainda querer uma confirmação que nosso amor é suficiente, mas o medo de perdê-lo não se compara ao medo que tenho de ele ser infeliz comigo. De ele estar infeliz.
– Você ficou quieta de novo. – Nós dois estávamos deitados novamente, eu de barriga para cima e ele com um dos braços e uma das pernas em cima de mim, seu rosto enterrado na curva do meu pescoço e de vez em quando eu sentia seus lábios roçarem de leve enquanto ele se ajeitava na cama. – Se ainda está pensando em terminar comigo, eu vou ser obrigado a te convencer do contrário.
– Hm – respirei e tentei editar o que ia dizer –, quando nós estamos juntos, eu não penso em nada, não penso em outro lugar ou outra pessoa que eu gostaria de estar. Mas, em público, minhas inseguranças surgem e eu entro em pânico por achar que nós não fazemos um casal legal, sabe?
– São as coisas que andam falando de você na internet? – Seu tom de preocupação fez meu estômago virar uma pedra de gelo. – Tem alguma coisa acontecendo de novo, ?
– Não, incrivelmente, não. Ou eu aprendi a passar por cima, entrar menos no Twitter, me proteger. – Me mexi na cama meio desconfortável por mentir. Eu ainda olhava, eu ainda era afetada, a diferença é que eu não expressava nada. – É só um medo irracional de você ficar entediado comigo, entendeu?
– Ente... Oi? – Ele ergueu o corpo e ficou com o rosto mais próximo ao meu. – Por que eu ficaria entediado? Nós não somos assim.
– Nós não, amor, eu.
, olha aqui. – Ele virou o corpo mais, a ponto de quase ficar em cima de mim por completo, e uma de suas mãos subiu para meu rosto, carinhosamente tocando desde meus olhos até meu queixo. – Eu sei que as vezes posso parecer, hm, empolgado demais em uma entrevista ou falo demais e isso pode parecer que eu sou sempre assim. Mas você me conhece, babe, sabe como sou literalmente entre quatro paredes. Honestamente, sou uma pessoa e artista muito melhor porque você está comigo, entenda isso, por favor.
– Você não sente falta de, sei lá, ficar com outras pessoas?
– Você tem essa necessidade? – ergueu uma sobrancelha discretamente.
– Eu não – respondi imediatamente –, mas eu não sou famosa, não há pessoas me bajulando o tempo inteiro e nem tenho uma lista de pretendentes.
– Posso ser famoso, mas isso não interfere em nada no que sinto por você. – Ele sorriu com os lábios fechados. – Os bajuladores fazem isso com interesse de ganhar alguma coisa, o que eu não me importo, não tenho nada a oferecer porque não tenho muito poder de decisão na minha parte artística, e eu sinto muito pela lista de pretendentes porque eu já estou inteiramente envolvido com a minha pessoa certa.
. – Reclamei meio manhosa, não intencionalmente. Ele riu e ergueu seu corpo, me puxando pela cintura junto com ele e me fazendo quase me sentar em seu colo.
– Babe, eu entendo que você tenha suas considerações comigo, com nosso relacionamento. Porém, de novo, eu vou tentar ser o mais claro: você é minha fonte de energia. Quando tivemos a chance de formar a banda, mesmo não ganhando o X Factor, eu já tinha desenhado um futuro para mim, e parecia muito com isso tudo o que você está pensando.
– Garotas e tal. – Desviei o olhar do dele, mas ele me puxou de volta pelo queixo.
– Sim, eu esperava isso, eu sabia disso. Quando eu cheguei em você na London Eye, eu esperava que fosse ser mais uma conquista, eu usando a minha pouca fama da época para conseguir alguma coisa.
– Ah, então eu não estava totalmente errada quando te coloquei na friendzone por achar que eu era só a garota da vez. – Disse debochada e comecei a rir. – Eu te li certinho, .
– Sim, parabéns para você, nessa parte você está certa. – Ele sorriu, deixando a boca entreaberta e apoiando a língua no canto dos lábios, visivelmente embaraçado por ter admitido algo que eu já sabia, porém ele continuava a negar. – No dia da van tudo mudou...
– Você me chamou aquele dia com o propósito de me pegar.
– Sim, mas deu tudo errado, porque você não agiu como todo mundo costumava agir e eu fiquei sem saber o que fazer.
Novamente, eu estava certa, mas decidi guardar essa vitória só para mim.
– Fomos nos conhecendo melhor e eu vi que você era demais para mim, era muito além da minha capacidade. Eu não entendia o que você estudava, ainda tenho minhas dúvidas, você sempre estava ocupada com alguma novidade, descobrindo algo, fazendo algo! Houve uns momentos que eu perdi a esperança de te conquistar, parecia um sonho impossível. Você estava em um patamar alto, e eu meio que decidi que meu papel era te admirar, esperar que talvez um dia você sentisse o mesmo por mim.
, isso beira ao absurdo. – falei com a voz baixa, ainda tentando captar o conteúdo do discurso.
, eu tinha total certeza de que um dos motivos para você não ficar comigo era o seu medo de se machucar, porque, pelo pouco que te conheci nas semanas antes de começarmos a namorar, eu vi sua insegurança. O que não mudou muito desde que decidimos ficar juntos, olha o nível da nossa conversa hoje.
– Desculpa? – Ergui os ombros, assumindo uma culpa que eu percebia ser ridícula.
– Eu te amo, nunca duvide do que eu sinto por você. O meu medo é perder você, eu não sei e não quero aprender a ficar sozinho. Sei que esse mundo te assusta, que ficar comigo pode ser aterrorizante, mas o maior cagão e fraco desse relacionamento sou eu.
– Nunca imaginei que você pensasse isso de nós, nem que se visse como um cagão. Acho que nunca ouvi você falar essa palavra antes, . – Começamos a rir, de repente senti meu corpo ficar mais relaxado e leve.
admitiu ser um cagão por mim.
Ele continuou com suas declarações e optei por acreditar em todas. Esse era o jeito dele de me acalmar; talvez tivesse alguma mentira ali no meio (é muito difícil, para mim, acreditar que ele tenha ficado em algum momento intimidado pela minha pessoa), mas ele não mentiu sobre me amar, me querer bem, e ter aceitado ficar comigo apesar de todo esse estrago emocional que carrego.
– Dúvidas? – Ele perguntou por fim e eu sorri, abraçando-o pelo pescoço e ficando totalmente em seu colo. entrelaçou nossos corpos em um forte abraço e distribuiu beijos leves pelo meu pescoço e ombros. – Não termina de novo comigo, por favor.
– Eu nem cheguei a terminar. – Falei, a voz um pouco abafada já que eu tinha o rosto enterrado no ombro dele. – Disse que ia dar um tempo.
– Você sabe a merda que aconteceu quando Ross e Rachel deram um tempo? Nós precisamos ser muito específicos na nossa fala, .
– Há alguma garota do xerox que é a fim de você, ? – Ergui meu rosto a tempo de vê-lo com um sorriso largo e sarcástico.
– Não, e devo dizer que todas as cantadas que eu recebo são péssimas.
– Então o senhor recebe cantadas, a-há! – Dei dois tapas de leve em seus ombros e tentei me afastar, mas ele permaneceu me segurando firme. – Quem mandou? O que falava?
– Era ridículo, . – Ele fechou os olhos e começou a rir, talvez se lembrando das coisas péssimas que recebeu. – Coisas do tipo “me chama de asma que eu te deixo ser ar” ou “, se você fosse um fogão, eu beijava todas as suas bocas”.
– QUE HORROR! – Arregalei os olhos e coloquei umas das mãos em cima da minha boca. – Recebeu pelo Twitter?
– Às vezes por lá, às vezes quando saímos de uma rádio elas me entregam um papel com algo escrito. São ruins, muito ruins.
– Que bom, analisando essas cantadas, acho que não vou perder você tão cedo.
– Você nunca me deu uma cantada, . NUNCA!
– Nunca? – Comecei a rir. – Faz sentido, eu sou péssima nessas coisas.
– Em alguma coisa você precisa ser ruim, não dá para ser a namorada perfeita em todos os aspectos.
– Ahhh, para!
Ia protestar por esse comentário vergonhoso e mimizento, mas fui calada pelos lábios de em cima dos meus, com um beijo mais devagar e profundo do que os selinhos que estávamos dando desde que chegamos ao quarto do hotel. Provavelmente tínhamos pouco tempo livre, mas isso não o impediu de me deitar novamente na cama e ficar por cima, colocando uma de suas mãos por dentro de minha camiseta e deslizando os dedos rapidamente pela minha cintura até chegar às minhas costas, fazendo meu corpo arquear e ele se encaixar entre minhas pernas. Me arrumei melhor na cama, sentindo todo seu peso em mim e deixando meu corpo responder aos instintos, mesmo sabendo que não teríamos tempo para terminar qualquer coisa que começássemos. Desci uma de minhas mãos até a barra de sua camiseta e tamborilei meus dedos indecisos, não sabendo se a tirava ou ficaríamos nessa provocação até o momento em que alguém batesse na porta indicando que ele tinha que se arrumar para o tal programa.
... – Quebrei o beijo e, com minha mão livre, acariciei seu rosto. – Babe, a gente pode continuar isso depois.
– Por quê? – Ele beijou minha mão e continuou a acariciar a lateral do meu corpo e, devagar, abaixou o rosto encostando a testa na minha. – Quanto tempo temos?
– Pouco, e definitivamente isso aqui não vai acabar em cinco minutos. – Selei seus lábios rapidamente e indiquei que era para ele se levantar. – Sério, você precisa se arrumar para seu próximo compromisso.
– Uhhhh – ele reclamou e rolou o corpo para o outro lado da cama –, hoje você vai dormir onde? Stanton ou comigo? – Ele levantou uma sobrancelha e, ao mesmo tempo, um sorriso de soslaio brotou em seus lábios, automaticamente meu rosto respondeu sorrindo junto.
– A pergunta certa seria “você quer dormir comigo hoje, ?”. – respondi e o vi abrir mais os olhos e o sorriso. – Que foi?
– Você não costuma falar essas coisas.
– Que quero dormir com meu namorado?
– Exato. – ele apoiou o corpo nos cotovelos, umedeceu os lábios e sorriu. – Pois bem, você quer dormir comigo hoje, ?
– Hm – abaixei-me para beijar nos lábios e depois no rosto. Passei meus dedos pelo seu perfil e acariciei seus cabelos –, quero dormir com você hoje e sempre.


Capítulo 2 – Adore You

Just let me adore you, it’s the only thing I’ll ever do


27 de julho de 2012

Óbvio, eu estava atrasada, e a culpa não era minha.
Talvez fosse, talvez eu tenha ficado um tempinho a mais no curso sem necessidade. Olivia disse que minha média em Fotografia Moderna tinha sido boa, mas que eu podia melhorar, afinal, era uma das minhas matérias favoritas. Só de ela falar a palavra “melhorar” eu já senti meu sangue ir parar nos pés e quase comecei a chorar ali, na frente dela e de alguns alunos. , óbvio, escutou um amargo “sua média foi 7,5” e saiu feliz da vida por ter atingido a nota mínima. Como consegue ser assim?
Revi minha prova umas cinco vezes, pergunta por pergunta, resposta por resposta, vírgula por vírgula. Não duvidava da correção da Olivia, só queria entender como eu consegui ser tão burra e errar questões patéticas. Eu passei a madrugada inteira estudando; a nem em casa ficava mais, vivia para acompanhar a agenda doida do . E eu aqui, uma ridícula que não conseguiu gabaritar uma prova fácil da minha matéria favorita.
Eu tirei 8,5.
Era para ser DEZ!
Encostei a cabeça na janela do metrô. O combinado era acompanhar a gravação dos meninos em algum programa de entretenimento inglês; eles iam falar sobre o sucesso da turnê Up All Night e a participação na cerimônia de encerramento das Olimpíadas. Era impossível acreditar que uma banda recém formada ia fazer parte do maior evento esportivo do mundo e que eu, , não ia participar de nada porque não tive a nota mínima em duas matérias para ser uma das escolhidas que ia fotografar as cerimônias de abertura e encerramento. Não que a One Direction não mereça, mas eu também merecia alguma coisa. Acho que meu ego está abalado hoje.
No metrô, sentadinha naquela quase confortável cadeira, vi um grupo de cinco garotas, mais ou menos da minha idade, conversando animadamente sobre a One Direction. Cada uma tinha um favorito, cada uma vestia a camiseta do favorito. Foi aí que percebi que elas também estavam a caminho da gravação do programa, pois uma delas disse em alto e bom som (e forte sotaque nortenho) que dessa vez ela ia fazer de tudo para colocar a mão no cabelo do . Escutei e fiz careta, abaixando meu rosto quase imediatamente e jogando meu cabelo longo para frente a fim de me esconder em meu mundinho. Três delas tinham o corpo típico britânico: branquinhas, magrinhas, sem bunda nem peito; as outras duas eram mais curvilíneas, mas magras. Cada uma delas segurava um copo de café nas mãos, quase não bebericavam, aquele café era um status de que elas eram jovens super descoladas e estavam na moda de beber café descafeinado sem açúcar e com leite sem lactose. Ouvi uma dizer que tinha perdido 2kg na última semana por pular uma das refeições, acho que foi a janta – ainda confundo supper e dinner – e que ela fez isso para impressionar o , já que ele gostava de meninas pequenas e magras que pudessem ser abraçadas por trás. O famoso “bigger spoon”. Uma outra a parabenizou enquanto contava que comia só iogurte e queijo de manhã e que o número de sua calça caiu para o 34; tudo para impressionar , já que ele comentou que gostava de como suas roupas ficavam grandes e largas em suas namoradas. As cinco riram e compararam o tamanho de seus pulsos. Todas conseguiam tocar o polegar e o dedo indicador ao fechá-los no pulso, um dedo ficando por cima do outro inclusive.
No meu infeliz caso, meus dedos não se tocavam. Se eu fizesse um esforço com meus dedos, conseguia com que as pontas se tocassem de leve, mas não facilmente. Cruzei as pernas e tentei me isolar mais, para que ninguém me notasse, como se eu não existisse. Uma única vez eu vesti uma camiseta do (voltei da escola para a casa deles, nesse dia chovia muito. Eu e ainda não estávamos juntos, por isso acabei pegando emprestado a roupa de outro) e, bem... Ela serviu. Não de um jeito largo, engraçado, desajeitadamente masculino em um corpo feminino. Não, ela simplesmente SERVIU! Como se eu e tivéssemos a mesma numeração para roupas, e eu tenho peitos! não disse nada, nem reparei se ele ficou medindo meu corpo ou algo assim, mas eu me medi. Eu sabia como aquela camiseta do X-Men ficou em mim, como ela era visivelmente quase apertada e em um corpo mais magro vestiria muito melhor. Honestamente, eu nunca tinha parado para pensar nessas coisas, nem quando assistia filmes românticos onde a personagem acorda de manhã e coloca a roupa do cara com quem ela passou a noite. Primeiro que eu nem imagino acordar numa manhã pós sexo (ainda), segundo que se esse dia acontecer, vou levar minha própria roupa. Se for com o , eu estou muito, muito ferrada, ele é mais magro que eu.
Mais magro que EU!
Isso é meio errado, não é? O certo não é o cara ser mais encorpado e a mocinha mais magrinha? Menor que ele?
, você está quinze minutos atrasada! Os meninos já saíram do camarim e estão a caminho do estúdio! Onde você está?
Olhei de relance as notificações do meu celular, e lá brilhava uma mensagem, até que bem educada, de . Fiquei tanto tempo imersa em minhas paranoias que não percebi que as meninas já tinham saído do metrô e eu perdi a estação certa. Honestamente? Fiquei aliviada. De repente eu não queria mais ir ao programa, ver a gravação, conversar com ninguém, muito menos ter que aturar a pressão de ver com as meninas. Elas estavam impecáveis, perfeitas, como se desenhadas por alguém meticulosamente detalhista. Tudo no lugar, ridiculamente TUDO!
Quem me desenhou estava bêbado.
, me desculpa, mas não vou conseguir chegar a tempo. Me atrasei no curso, metrô estava lotado e eu acabei dormindo dentro do vagão. Acho que vou direto para casa, nos vemos mais tarde.
Provavelmente eu devia avisar também, mas tenho quase certeza de que ele esqueceu o celular no camarim, ou seja, não vai ver a mensagem agora. Se bem que, se o conheço bem, ele vai fazer bico e irritar com perguntas como “Por que ela mandou mensagem só para você?” ou “Por que ela não falou comigo?”. Ok, então, vou mandar mensagem para ele também.
“Oi, . Hm, não vou conseguir chegar a tempo para te ver, o dia foi corrido e acabei perdendo a hora. Vou direto pra Stanton, nos falamos depois, tá bom?”
Fria demais?
Acabei descendo em Camden Town, um dos meus bairros favoritos em Londres, onde eu tinha total liberdade de ser estranha e fechada e ninguém ia me julgar. Eu não tinha nada em especial para fazer, a não ser vagar pelas ruas peculiares cheias de lojas de antiguidades, souvenires e cafeterias. O verão chegava a castigar, era abafado e grudento, do tipo que te envolve em uma estufa e dificulta sua respiração. Camden era tão movimentada de noite quanto de dia, a única diferença era a brisa refrescante que dançava entre os espaços vazios de uma pessoa para a outra.
Antes de continuar minha caminhada, comprei um café gelado na The Coffee Jar (muito melhor que café da Starbucks, lembre-se disso da próxima vez que for pagar 6 libras em um café ruim! Aqui você paga 3 e ainda ganha uma calda de caramelo por cima) e chequei meu celular rapidamente. Três mensagens de e uma ligação da mesma. Respirei fundo, certeza que ela estava possessa de raiva. Guardei-o no bolso da calça jeans, puxei o cabelo para cima, o prendendo em um rabo de cavalo alto, refrescando minha nuca melequenta de suor. Por alguns minutos me permiti ficar parada de pé em uma esquina, apenas observando o movimento das pessoas e tirando fotos mentais, amaldiçoando-me por não ter trazido nenhuma câmera fotográfica. Se bem que eu tinha a do celular, e eu podia comprar uma descartável também. Mas, o dinheiro do mês está de novo bem contadinho e não posso me dar ao luxo de gastar com uma câmera digital, lembre-se que você, (eu mesma, no caso; eu conversando comigo mesma loucamente), acabou de comprar um café de 3 libras porque precisa economizar.
Peguei o celular a fim de abrir o aplicativo de meu banco e conferir minha situação calamitosa. Tantos livros precisariam ser comprados nesse semestre, tantos materiais, tanta COISA! Eu não parei para colocar isso na ponta do lápis quando fiz os planos de estudar aqui. Na minha cabeça (oca), eu não ia pagar nem pelos estudos, nem pela minha residência, e o dinheiro da poupança e do meu pai seriam mais do que suficientes. Doce engano. Pelas minhas contas eu vou ter que viver de água e torradas até novembro, ou eu não vou comprar os materiais necessários e há uma imensa possibilidade de ser reprovada em quatro das seis matérias principais. Pelo menos, se eu não comer, emagreço. Minha produtividade vai cair muito, pois vou estar fraca, meu cabelo vai cair também, afinal todo o meu emocional é concentrado na minha cabeleira. Vou ficar careca, magra, burra, sem estudos e ah, com certeza sem . Essa visão está acabando comigo.
Fim de mês e meu saldo mostrava uma miséria: £35,27. Se converter para Real, alguém pode comentar “nossa, mas isso para mim dá para umas duas semanas”, pois bem, aqui na Inglaterra, NÃO! Mal vai dar para o resto da semana, isso contando que eu pule uma das refeições e coma na Universidade. A comida lá não é das melhores, mas engana o estômago. Meu pai costuma dizer “não precisa ser gostoso se vai te deixar de pé, o principal é encher o bucho.” Tá bom, pai. Olhei para o café em minha mão e quase quis devolvê-lo, podia inventar qualquer desculpa; “oi, então, achei um cabelo no café. Não, não quero outro, só quero meu dinheiro de volta.” Sacanagem? Sim, ainda mais com os britânicos, que são extremamente educados. Capaz de eu ganhar cinco cafés como pedido de desculpas e um vale free coffee pelo resto do mês. Hmmm...
Para, ! Meu Deus.
Guardando o celular de volta em meu bolso, beberiquei umas duas vezes meu café e resolvi me perder pelo mar de pessoas à minha frente. Caminhando literalmente sem rumo, mesmo sabendo que meus passos me levariam ao píer, local que mais amo em Camden, especialmente ao final da tarde. As pessoas despreocupadas à minha frente me davam paz. Cada uma delas carregava algum problema não resolvido, uma história, um sonho, uma inquietude. De repente, todas as minhas paranoias pareciam um capricho de uma adolescente privilegiada e mimada. Eu estava, literalmente, no lugar dos meus sonhos, vivendo fantasias que eu construí desde os meus onze anos, quando li Agatha Christie pela primeira vez. E mesmo assim, um espírito zombeteiro me atormentava todos os dias desde que eu e nos encontramos na London Eye. A sensação de que eu não era boa o suficiente, bonita, magra, interessante, legítima de ser a escolhida para caminhar ao seu lado. Com tanta coisa acontecendo, por que eu me importava com isso? me deu provas de que gostava de mim, eu literalmente carregava isso em meu pescoço (uma bússola pesadíssima, não pelo material dela, mas pelo que ela significava). E não era só o objeto, mas tudo o que ele fazia e faz por mim. A sensação de calmaria que me dá quando estou em seus braços, quando ele beija meus cabelos e ao mesmo tempo, despretensiosamente, desliza os dedos pelas minhas costas e para em minha cintura. Ele conhece meus limites, sabe parte de minhas inseguranças e, ainda assim, não desistiu de mim. Eu ainda me via presa naqueles trinta minutos da van, achando que não seria nada além de um passatempo jovial de começo de carreira para ele, porém todos os dias ele me traz a certeza que não é isso. É muito mais, é algo nosso e inexplicável.
Por que eu ainda tinha dúvidas? Não das intenções dele, mas das minhas. Eu duvidava de mim, da minha imagem, do que eu era. Como ele me via? Como as pessoas me viam ao lado dele?
Nós vamos falar de garotas, eu necessito saber dessa parte!
A voz estridente de Alan Carr chamou minha atenção.
Uma televisão de mais ou menos 35 polegadas estava do lado de fora de um pub irlandês, estranho demais e frequentado por pessoas brancas e ruivas e com muitas tatuagens. O cheiro forte de cerveja misturado com sufocante aroma de cigarro era perceptível de onde eu estava, mais ou menos um metro de distância. A TV em volume alto parecia não incomodar aqueles seres humanos embriagados em sua própria felicidade. Quem ali ia se interessar por uma entrevista com One Direction? Uma das pessoas, um rapaz de aparentemente vinte e alguns anos, apontou para a televisão e disse algo como “Aqueles são os novos garotos do Simon”, com um fortíssimo sotaque irlandês. Eu acho que ele disse isso, não tenho certeza. Sotaques me confundem.
Nós gostamos de garotas, se é isso que quer saber. – respondeu com um sorriso brincalhão e já tendencioso, querendo cortar o possível assunto clichê.
– Mas há alguma garota que manda no coração de vocês? Alguém já tentou caminhar pela “One Direction”?
A piadinha infame e com conotação sexual fez eu encolher meus ombros de vergonha. Acho que os entrevistadores esquecem que os garotos AINDA são garotos, e alguns deles não possuem maioridade para beber nos Estados Unidos, por exemplo. Nem eu tenho! Pedi licença para um grupo de cinco pessoas que conversavam alto e não se importavam com a entrevista e me aproximei mais da televisão. Era para eu estar ali na plateia, ou no camarim com . Talvez nesse momento eu e ela nos entreolharíamos de novo com a sensação de vergonha alheia. Era insuportável vermos nossos namorados respondendo pergunta como “então, vocês namoram?”, dava uma sensação de que nós não éramos nada. Tinha foto minha no Instagram do , isso já não era suficiente?
Fotografia. – Ouvi dizer e agucei meus ouvidos. Ou era de mim ou era de que ele falava – Muito mais inteligente e esperta do que eu, com certeza.
É prepotência eu ter certeza que ele falava de mim?
Sorri com os lábios fechados.
. – disse meu nome, fechou os olhos e começou a rir.
Meu nome.
– É a primeira vez que digo o nome dela na televisão, saiu sem querer.
– Era segredo? Ninguém sabia? – Alan Carr provocou e fez uma cara de culpa.
– Huh, eles sabem. – olhou para os outros meninos e todos gargalharam.
– E há quanto tempo estão juntos? Como é o namoro? Onde se conheceram?
As perguntas pipocavam uma atrás da outra e eu observava ficar mais constrangido a cada uma delas. Ele ria, mas era uma resposta ansiosa e nervosa, não um riso alegre e solto como alguém que está totalmente à vontade com a situação. Nós não falávamos de nós para o mundo, e nem precisava. O pouco compartilhado já era suficiente para grande parte das directioners me odiarem, então nós dois chegamos a um acordo que muita coisa seria apenas nossa. Nosso mundo, nosso relacionamento.
CASAR? – disse bem alto, apoiou as mãos no sofá onde estava sentado e se levantou, gargalhando forçadamente a ponto de apoiar o peso do corpo nos joelhos.
, você é um cavalheiro, acredito eu. Vai enrolar a senhorita até quando? Queremos um casamento!
– Nós, literalmente, acabamos de começar... Ah! – suspirou no meio da frase e puxou pelas calças, deixando-o cair ao seu lado no sofá. – Muito cedo, muito cedo.
– E o que ela pensa disso? Ela quer casar?
– Eu não sei! – , muito agoniado e envergonhado, respondeu a pergunta cretina de Alan e em seguida escondeu o rosto nas mãos.
Que tortura!
Alguém salva eles dessa entrevista, por favor.
Neste exato momento meu celular vibrou em meu bolso, eu sabia muito bem quem era.
...
, honestamente, mais uma entrevista que você não está aqui! Onde você está? Tem ideia do que esse babaca do Alan perguntou para o seu namorado? C-A-S-A-M-E-N-T-O! Ele perguntou se vocês vão casar, CASAR! Amiga, você nem transou com ele ainda... Hm, se bem que, você quer casar virgem? Aí é uma decisão sua e eu não tenho nada contra, mas namorar e segurar o fogo no...
MEU DEUS, PARA DE FALAR! – Respondi alto, mas para todos ao meu redor, minha voz parecia estar no tom normal. – Amiga, estou assistindo a entrevista.
Está? Em casa?
Não fui para casa, estou em Camden.
O QUÊ?
Tive que afastar o celular por breves segundos do meu ouvido.
disparou a falar um trilhão de coisas que eu sabia o que eram. Rolei os olhos e esperei o surto passar.
– Terminou? – Perguntei num tom brincalhão e recebi uma bufada como resposta – Escuta, aconteceu uma coisa no caminho, entendeu? Sei lá, me senti mal, vi umas fãs dos meninos e isso mexeu comigo, talvez um começo de pânico, ansiedade, não sei definir. Nunca senti isso, mas parece que desde que ele entrou na minha vida, entrei num looping de pânico violento, ansiedade aguda e breves momentos pacíficos.
O que aconteceu?
O de sempre, meninas lindas que gostam deles e eu me sentindo um saco de batata congelado. Sabe aqueles que a gente vê no TESCO? Amassados e sujos porque todo mundo coloca a mão, mas ninguém leva para casa?
Por que você ia se sentir assim? Você é limpa e ninguém fica passando a mão em você e te descartando depois.
Metáfora, ... – Ri baixo – Ok, elas eram as batatinhas do McDonald’s e eu sou a batata do KFC, sabe? Murcha e sem graça e que sempre vem sem sal.
Consegui imaginar melhor agora, embora não concorde com isso. Você é uma batata Burger King, muito mais gostosa que a do McDonald’s.
Há quem prefira a do McDonald’s.
prefere do Burger King. – Ela riu e eu podia ver mente o seu sorriso triunfante.
– Ele não come batatas.
Ele comeria a sua batata, .
SÉRIO? – A repreendi e nós duas gargalhamos.
Honestamente, eu acho que ele não vê a hora de comer sua batata.
Pois vai ter que esperar, porque essa batata aqui nem tá descascada.
Ele descasca, vai fazer questão.
, por favor! – Fechei os olhos e por um segundo vi me “descascando”.
Puta que pariu, que pânico.
Deixando as batatas de lado, tem como você vir para cá? A entrevista vai acabar daqui a pouco e, já que está em Cadmen, deve demorar uns quinze minutos para chegar ao estúdio. Não sei se tem que trocar de linha.
Tenho que descer na Angel?
Ai, espera um pouco que eu te passo o endereço certinho. – Houve um minuto de silêncio, eu tinha certeza que ela estava digitando o endereço – Hm, você vem, então?
Acho que sim, minhas aventuras por aqui terminaram. As ruas estão lotadas, vai demorar demais até eu conseguir chegar ao píer.
Comeu alguma coisa?
Comprei um café, só isso. – Olhei para o copo com mais gelo derretido do que café e caramelo. – Que, hm, praticamente desapareceu e virou um líquido estranho sem gosto.
A gente pede uma pizza quando chegar em casa, eu também não comi nada, só uns petiscos no camarim. – Podia sentir pela sua voz que ela mentia.
, você não come carboidratos depois das 18h.
Mas estou com vontade hoje, ora. Sei lá, pedimos uma pequena e você fica com a maior parte, assim eu não cometo um pecado tão grande.
Não precisa pedir pizza por minha causa, na verdade eu nem posso comprar uma pizza...
Eu pago, ou seu namorado paga! AH, JÁ SEI, vamos para a casa deles! Sempre tem comida por lá, e eu sei que o não comeu nada o dia inteiro.
Por que ele ficou sem comer?
Não sei, acho que ele te esperou para comerem juntos e como você não apareceu, ele não comeu.
Nossa, que horror. – Culpa, muita culpa!
Ele tá todo grudadinho e dependente de você, amiga, então se você não faz uma coisa ele também não fará.
Mas ele tá com fome? Ele não precisa ficar sem comer por minha causa.
A ironia desse comentário me fez engolir um riso.
Eu estava ficando sem comer por causa do , e não o oposto.
Olhei na direção da TV e vi que a entrevista chegava ao fim. Não ia dar tempo de ir até a estação, pegar o metrô, descer na estação correta... Enfim, não ia dar tempo. falava algumas coisas ainda, mas eu tive que interromper. Os meninos saíram do palco, em minutos estariam no camarim.
– Amiga, a entrevista acabou, não vou conseguir ir ao estúdio.
Mas já? Achei que ia demorar mais uns dez minutos.
Vê aí o que aconteceu, mas eles saíram do palco, devem ir para o camarim daqui a pouco...
Não tão daqui a pouco – ela riu. – Oi, rapazes.
– Tá falando com quem? –
reconheci a voz de .
Com a . foi sarcástica, ela queria provocar os meninos, especialmente .
Ah, aquela traidora que não assiste mais as nossas entrevistas? O que ela está fazendo? Foi para casa estudar? Porque é só isso o que ela faz, OS AMIGOS, MESMO, ELA ESNOBA!
A voz dele ficou mais alta e próxima do celular.
Balancei a cabeça negativamente e andei na direção de uma cadeira antiga que estava na frente de uma loja de ourives. Pedi permissão para a senhorinha que cuidava da loja se eu podia me sentar ali, e ela assentiu com preguiça.
, ainda está aí?
Não.
Decididamente não era ela, nem .
Nem os outros três membros que faltavam.
Era um outro específico e que, pelo tom da voz, estava puto.
? – Disse seu nome entre caretas e encolhi minhas pernas, numa tentativa infantil de querer me esconder.
Oi.
Hm, oi. – Mordi os lábios com mais força que o habitual e apoiei meus cotovelos em meus joelhos. – Hm, a entrevista foi boa?
Por que você não veio, ?
Eu-bom-eu-eu meio que demorei tempo demais na faculdade e acabei perdendo a noção. Te mandei mensagem avisando que não ia dar tempo de chegar.
Eu sempre deixo meu celular no camarim antes de uma entrevista, você sabe disso. Como eu ia ver?
É, eu sei. Desculpa.
Não pode ser só isso – senti o tom de sua voz baixar, como se ele se afastasse mais das pessoas e fosse para um canto conversar baixo comigo –, não é a primeira vez que você diz que vem e, de repente, não vem mais. A não ser quando tem que trabalhar e isso calha de ser uma de nossas entrevistas, do contrário...
, me desculpa, por favor. – Suspirei. – Foi um dia ruim, só isso, e eu não estou, hm, eu não estava com cabeça para ir até o estúdio e acompanhar vocês.
Aconteceu alguma coisa? Fala comigo, fala para mim! – Sua voz beirava a súplica. – É horrível ter essa conversa com você por telefone, não consigo olhar nos seus olhos e saber exatamente o que está pensando ou se me diz a verdade.
Eu não minto para você. – Respondi levemente ofendida. E levemente, porque, em partes, às vezes eu mentia, sim.
Você oculta as coisas, o que para mim dá no mesmo. – Ele suspirou – , você não precisa dizer nada específico, só seja honesta. Eu imagino que o curso deve estar mais puxado, mais difícil, mas eu estou aqui e você pode contar comigo para o que precisar. Conta comigo, conversa comigo, me avisa se não puder comparecer a uma entrevista sendo que eu avisei todo o estúdio que minha namorada estaria aqui hoje.
Vo-você o quê?
Eu sei que você gosta de suco de melancia e pão com geleia e pasta de amendoim, então pedi para eles fazerem isso para você. Mas agora tá tudo aqui e ninguém comeu, só você gosta de melancia. Tem ideia de que a melancia aqui é muito menor que a que vende no Brasil? Eu tive que pesquisar...
! – Falei com voz melosa e melancólica. Me senti idiota, muito idiota. – Eu vi um grupo de meninas no metrô... – As palavras saíram sem eu titubear – elas eram lindas.
Hm. E?
Elas foram até o estúdio, umas delas tinha você como favorito.
E?
Elas eram lindas, .
E?
Eu já sei que você entendeu meu ponto, não me faça ser mais óbvia.
Bonitas como? Duas pernas, dois braços, uma cabeça?
Duas pernas finas, dois braços magros e uma cabeça muito bem feita.
Então... Duas pernas, dois braços e uma cabeça, eram assim?
, francamente.
Você tem duas pernas, dois braços e uma cabeça. Ou me enganou esse tempo todo? , algum membro seu não é de verdade? Você tem uma perna de pau? Ou um braço mecânico?
, presta atenção no que eu estou falando, por favor?
Você não respondeu a minha pergunta, algum membro seu é falso? Nada contra, só é bom me falar para eu não levar um susto se a gente for para a praia, por exemplo.
Tudo em mim é real, babaca!
Ah, ufa, que alívio. – Sua voz ficou mais brincalhona – , pela informação dada creio que você e as meninas do metrô tinham muitas coisas em comum. Acompanha meu raciocínio: vocês todas estão com todos os membros, possuem cabeças e, como bônus, me têm como favorito.
Nem todas elas tinham você como favorito.
Que seja, uma delas tinha e, voilá, eu sou o seu favorito. Eu sou, certo? Às vezes acho que é o ...
Elas eram LINDAS, ! Lindas num nível que eu não sou, entendeu?
Ora, ora... – ouvia a respiração dele do outro lado da linha e eu tinha certeza que ele sorria. O ódio, meu Deus! – Esses dias você dormiu no sofá de casa, lembra? Acho que foi no domingo à tarde, um pouco depois do almoço. Você não quis almoçar muito, terminou primeiro que todos nós e depois se jogou no sofá, a disse que era fadiga da semana, muitas provas e tal.
– Onde quer chegar?
Nesse dia eu me sentei na poltrona ao lado do sofá onde você estava. Sabia que os raios de sol refletiam nas hastes dos seus óculos de leitura? Posso estar enganado ou ser um bobo apaixonado, mas eu juro que a luz refletia as cores do arco-íris e a capa branca do seu livro que estava na mesa ficou toda colorida. Você dorme com a boca entreaberta, deve saber disso, mas ela não fica seca. Sua boca fica vermelha viva, mais relaxada. Você não para de falar o dia inteiro, né , então acho que quando você dorme sua boca deve pensar “Graças a Deus vou ter um descanso e ficar quieta!” aí ela relaxa e fica numa cor muito convidativa. Ah – ele continuou, percebendo que eu respirei alto, querendo o interromper –, teus olhos também não se fecham por completo, as vezes você parecia estar acordada e eu fiquei um tempão perdido olhando neles e com muito medo de você acordar do nada e se assustar comigo.
– Ninguém nunca disse que eu durmo assim, .
Ninguém te adora como eu, .
Ele não precisava falar mais nada, e preferencialmente eu queria que a deção de amor terminasse bem ali. Agradeci por termos essa conversa pelo telefone; diferente dele, eu não sei lidar com elogios cara a cara.
Se não entendeu, quis dizer que você é linda.
Eu entendi.
Mesmo se não tivesse uma perna, ia continuar sendo linda.
Eu tenho as duas pernas.
Isso te deixa MAIS linda ainda!
Compreendi seu ponto de vista, , obrigada.
Obrigada por esclarecer o óbvio?
Às vezes não é tão óbvio para mim. É tudo muito novo, eu ainda...
Eu sei, babe, eu sei.
Enfim, já terminaram a entrevista e vão fazer mais alguma coisa?
Não, nós vamos para casa. Acho que amanhã temos o dia de folga, preciso confirmar com os meninos, eu nunca lembro muito bem da nossa agenda.
Fim de semana geralmente é folga para vocês, a não ser que tenham algum show.
Tem o novo álbum, amor, e os ensaios para as Olimpíadas também. A gente nem sabe direito como vai ser, quantas músicas vão ser.
Ah, claro.
Você vai no encerramento das Olimpíadas, né?
Como sua convidada, eu posso ir...
Convidada? Como minha namorada, ! Francamente.
Tá, me desculpa. – Eu ri baixo – Faz a pergunta de novo, por favor.
, você quer ir comigo na festa de encerramento das Olimpíadas 2012 em Londres?
Com certeza eu vou, namorado.
Muito melhor – nós dois rimos –, não precisamos ser como a e o , mas eu gosto desses momentos fofos, só entre nós.
Já disse que não vamos ter apelidos, .
Nós ainda vamos conversar sobre isso, .
Entre frases soltas amorosas, melosas e nada típicas de nós dois, disse que precisava ir embora e me lembrou que usava o celular de (ela estava bem impaciente com a demora da conversa). Ao final, ficou decidido que sim, eu ia para a casa deles e que entre nós dois estava tudo bem.
Tudo entre nós dois terminava sempre muito bem.
Até quando?
Se quiser, desce em Wimbledon e a gente te pega lá.
Pode ser, eu ligo quando chegar na estação. – Disse enquanto caminhava na direção oposta das pessoas, em direção ao metrô.
Quer que eu leve o suco de melancia e os sanduíches de pasta de amendoim?
– Sim – eu ri –, fiquei com vontade e você fez isso com tanto carinho.
Eu não fiz, pedi para fazerem. – Ele riu, meio culpado – Nos vemos em casa, ok?
Tá bom.
E, hey... Te adoro.


Continua...


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Nota da autora (14/09/2020): Olá leitoras LINDAS! Eis que estou aqui mais uma vez, apesar do aniversário da 1D já ter passado. Queria ter terminado esse especial inteiro, mas infelizmente não consegui. Quero agradecer o carinho IMENSO que recebi com a publicação desse especial, após quase 6 anos sem publicar nada de 500dil, levei um susto com a quantidade de comentários e tanto carinho que recebi de vocês. Obrigada por ainda se lembrarem da fanfic, por terem comentado, dado esse apoio que é tão importante pra nós, autoras. Eu prometo que vou tentar terminar esse especial o mais rápido possível, acho que teremos novidades em breve *cof cof*. Enfim, fiquem em paz, fiquem em casa (se possível), usem máscara, usem álcool em gel e, como diz nosso reizinho Styles, treat people with kindness. Vejo vocês em breve, beijos.

N/B: Erros? Enviem para mim por email, não usem a caixa de comentários, por favor. Lembrando que esse email NÃO é da autora. xx Abby



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