Última atualização: 18/06/2020
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Capítulo 10- Dangerous Woman




Aviso: Esse capítulo foi baseado na música Dangerous Woman da rainha Ariana Grande.


Já parou para pensar como seria sua vida se acatasse a todos os seus impulsos?! Se a cada escolha que fizesse, não fossem levados em conta os julgamentos e preconceitos da sociedade?! Muito menos a opinião dos fofoqueiros de plantão, doidos para o surgimento de mais um rumor que lhes retire do tédio de suas próprias vidas desgovernadas?!
Pois então faça esse teste. Imagine como estaria sua vida, retornando a cada escolha, da mais simples a mais complexa, da mais fácil, a mais dura de tomar. E só então me responda: É mesmo aí que mais deseja estar? Acredita que atingiu seu máximo potencial de existência?
Não?
Foi o que pensei.
Nem eu.



“Eu acredito que tudo acontece por um motivo. As pessoas mudam para que você possa aprender a deixá-las, as coisas dão errado para que você possa dar valor a elas quando estiverem certas, você acredita em mentiras e eventualmente aprende a confiar em ninguém exceto você mesmo e as vezes coisas boas dão errado para que coisas melhores possam dar certo.” - Marilyn Monroe.


já odiava o Hospital de South Mills com todas as suas forças, tendo frequentado o local tanto em seus sonhos quanto na realidade muito mais do que gostaria naqueles últimos meses. Não iria aguentar mais uma semana de repouso, sob os olhares entediados e peculiares de seus pais, ainda mais sem Nicholas consigo.
Antes que partisse de volta para sua própria Universidade no Canadá, dera-lhe uma sugestão que a trouxera até ali, no alojamento de Vermont, em uma tarde ensolarada como aquela. Também não era como se seus pais fossem oferecer-lhe alguma objeção a isso, na realidade só faltou que dessem uma festa de despedida para sua menina.
Mas também, não é que se sentisse como uma estrangeira em sua própria casa, já estava até acostumada com a estranheza do local. Não fora isso que a impulsionara a tomar tal decisão. Na verdade, fora a pressão dos estudos e de mudar um pouco seus arredores. Precisava de um local diferente. Algum que não fosse tão marcado de lembranças em que não podia confiar.
Naquela mesma tarde de seu “segundo primeiro dia de aula”, carregou a caixa pesada com suas coisas para seu novo quarto e estabeleceu-se na cama vazia. Aparentemente tivera sorte de conseguir um lugar entre os dormitórios de luxo da faculdade, mesmo que com um ligeiro olhar pelo estabelecimento, tenha constatado que de luxo aquilo só tinha nome. A parede descascava pela aparente infiltração formava bolsões que distorciam a pintura do plano azul estéril, que a recordava de tempos no hospital dos quais não queria ser lembrada.
Perdida em seus pensamentos, a menina assustou-se com uma voz estridente ao pé de seu ouvido. Sua suposta nova companheira de dormitório? Ah, essa aí ela conhecia mais do que bem. Ou ao menos uma miragem do que aquela loira poderia ser.


- , não é? Fui avisada da sua chegada.
- Taylor Lausen. – Bufou , sem saber se estrangulava a mulher ou se dava-lhe um abraço de urso. Mas julgando por seus sonhos, provavelmente seguiria a primeira opção.
- Desculpe-me, nos conhece... – Indagou a recém-chegada, levantando uma sobrancelha desconfiada até perceber os traços indistinguíveis de sua antiga amiga do colegial. – ! – Riu, animada.
Mas a mulher já não estava mais ali, e sim seguindo o labirinto de sua memória até anos atrás.


Alguns anos antes do acidente...


Não há nada mais inesquecível do que o último baile de formatura do colegial. Adolescentes excitados pelo fim das aulas, animados para a possibilidade de encontrar a todos os que os acompanharam durante o tortuoso percurso do ensino médio, à procura de vestidos, trajes de gala e de companhia para a tão estigmatizada noite, de que todos diziam: vão se lembrar para o resto de suas vidas.
E somente há duas semanas para o tão sonhado grande dia, não era uma exceção à regra. Sua roupa já estava comprada há um par de semanas, seu par gatinho estava confirmado, suas amigas tinham combinado o ponto de encontro. Somente faltava... Passar pelas provas finais da South Mills Academy.
- Olha só quem resolveu dar o ar da graça... – Brincou Isabelle Kinkaid. – Achei que não viria mais, prima.
- Quem é vivo sempre aparece, não é assim que dizem? – Gargalhou, sem graça, abraçando a garota como pôde e entrando no carro.
- Obrigada novamente por concordar em me ajudar com biologia, sei o quanto você está atolada com física...
- Amiga, não esquenta. – Disse , já mexendo em trocentos botões do rádio tentando conectá-lo à sua radio preferida. Não descansou até do chiado emergir a famosa logo do canal: “RadioX!”.
- Deixe-me adivinhar... – Suspirou Belle, revirando os olhos, mas com uma pontinha de animação ao ouvir os primeiros acordes da música preferida da prima.


“Será que quero saber
Se esse sentimento é recíproco?
Triste por te ver partir
Eu meio que esperava que você ficasse

Berraram sem ligar para o encarar dos pedestres ao encostarem o carro nos sinais vermelhos. Alguns meninos do time de futebol do colégio que por acaso cruzaram com seu veículo até buzinaram para ambas. podia sentir falta de muitas coisas do Canadá, mas as experiências que vivera com a prima desde que se mudara... Era como se começasse a finalmente sentir-se jovem e livre.
Tudo no Canadá parecia ser mais complicado. As memórias das cicatrizes de seu passado estavam frescas como o dia. Logo , que após a tragédia de seu último amor, se fechara para qualquer relação mais envolvente, finalmente estava começando a pensar na possibilidade de amar de novo. Tão rápido quanto este pensamento, um par de olhos verdes assombraram sua mente, hipnotizando-a. E por uns segundos, ao fechar seus olhos, era como se fosse transportada novamente para a fonte de suas reviradas de olhos e de sorrisos desde seu primeiro dia na nova escola.
era seu nome. O garoto que conseguia perturbá-la e dar em seus nervos como nem mesmo seu irmão, Nicholas conseguira. Após seu esbarrão houveram mais outras diversas ocasiões que ambos discutiram feio. A mais marcante ainda fazia com que se arrepiasse toda de recordar...


“- Formem pares, turma. O objetivo é preencher o relatório com os resultados do experimento. – Dissera o professor, com um tom animado que não combinava tanto com a preguiça dos alunos de estarem ali no laboratório de Química em plenas sete da manhã de uma segunda feira.
- Vamos? – Perguntei para minha amiga do outro lado da bancada de pétri. Infelizmente Isabelle era de outra turma, mais avançada em termos de exatas, e não possuía as mesmas aulas que , mas esta conseguira formar uma ainda recente conexão com uma das meninas mais “sociáveis” da escola: Taylor Lausen.
- Lógico que... – Antes que pudesse terminar, o professor irritou-se com o burburinho, além da chegada de minha nova obsessão na sala e cortou-a.
- Ah, que bom que resolveu brindar-nos com nossa presença, senhor . – Suspirou. - Faça par com a senhorita , que está ali na ponta. O resto irá ficar com seu companheiro do lado esquerdo. E antes que reclamem e estraguem meu bom humor, o trabalho de aula é só o começo, ainda terão outra tarefa para casa que valerá metade dos créditos do semestre. Então sugiro que se lembrem muito bem de quem irá corrigir seus trabalhos.
- Babaca. – Sussurrou Taylor, revirando os olhos para mim, fazendo-me segurar o riso enquanto sentia a presença quente do recém chegado inebriando-me. Tentei ignorar sua presença e o roçar de suas longas pernas nas minhas.
- Tay, vamos almoçar juntas hoje, ou vai dar uma escapadinha com o Ronnie? – Levantei a sobrancelha para a menina, admirando e reprovando sua conduta simultaneamente.
- Ronnie e eu não somos mais um “item”. – Balançou a mão direita com descaso enquanto ajeitava seus cabelos loiros em um rabo de cavalo. – Já somos passado. Estou buscando outro bem a tempo para o baile.
- Wow, mas achava que estavam tão... – Comecei, surpresa com o abrupto término. Não que Taylor fosse muito namoradeira, ao menos a partir do que lhe contara quando a conhecera. Mas realmente pensara que a mulher fazia um belo casal com o menino. Tudo bem que ele parecia não gostar muito da Canadense, mas entendia que a vida amorosa da amiga não lhe dizia respeito.
- Vamos fazer isso ou não, ? – Cortou , passando a mão por seus cabelos da raiz até as pontas. A mulher estremeceu somente de observar o movimento de seus dedos robustos. Teria babado, não fosse Taylor chutando seu pé por debaixo da mesa e dando uma risadinha óbvia.
- Hum... – Limpou a garganta, ajeitando-se na banqueta. – Chega atrasado e ainda me apressa... Deixa de ser abusado . – Franzi o cenho, começando a preparar o experimento sem nem consulta-lo.
- Ouch! Boa, . – Gargalhou Freddie, o bobalhão da classe.
A mulher fez uma careta, odiando estar sendo admirada por um bully, mas encurralada entre agir como uma boba apaixonada ou continuar a retribuir as provocações do garoto a seu lado. Não que revelar sua paixonite fosse realmente uma opção. Os dois separados já eram fogo, juntos seriam o sol. E não estava preparada para lidar com algo dessa intensidade. Não depois de seu primeiro amor. Não depois de Joshua Baker.”


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- Boa tarde, tia Grace!
- ! Como está minha irmã e seu pai? Ainda muito atarefados? – Perguntou a mãe de Isabelle, abraçando-me apertado.
- Sabe como os dois são, tia. Agora estão com uma ideia de visitar as filiais todas dos escritórios da vovó para fortalecer a rede de apoio e incentivo ao atendimento pro bono.
- Não engulo isso, minha querida. – Balançou a cabeça, contrariada. – E sobre você?! Não entendo a Victoria, eu juro. Mamãe não nos criou dessa forma.
- Eu entendo, tia. Não tem muito o que fazer. – deu de ombros, fungando.
- Mãe, para de incomodar a . Ela já sabe de tudo isso. Agora se não se importa vamos estudar na sala de estar. – Disse a prima, dando um beijinho na bochecha de sua mãe e puxando antes que fosse causado mais estrago.
- Tudo bem? – Perguntou, quando estavam à sós. – Ela pode ser bem intensa, essa minha mãe. – Brincou, abraçando a prima de lado.
- Tudo, Isa. Fica tranquila, estou acostumada. Com o Nick tendo partido para a Universidade ficou um pouco mais difícil e solitário, mas estou trabalhando nisso.
- Então o que parece estar te incomodando? – Perguntou, com um olhar perdido.
- Ah, você sabe... O ... Esse trabalho... Vamos acabar nos matando, eu juro.
- Ou se pegando. – Gargalhou Isabelle. – Prima, você tem que fazer algo sobre isso. Por que não o convida para o baile?
- Você o conhece? Mesmo se ele estivesse interessado, o que é um grande se, não consigo imaginar em um baile. Simplesmente não combina. Imagina ele de terno! – Ri, nervosamente não querendo fazer transparecer o quanto eu já pensara naquela imagem deliciosa que seria.
- Você que sabe... Mas lembre-se de que ano que vem eu não estarei mais em South Mills para tirá-la da sua zona de conforto. Têm que viver mais prima. Sei que após o Josh... – Abaixou o olhar, com tristeza pela amiga. – Depois do que aconteceu entre vocês em Saskatchewan, é mais difícil... Mas tenta de vez em quando fazer algo fora da caixa, por mim.
- Ok. – Suspirou , revirando os olhos para a cara de gatinho do Shrek que sua prima fez.
- Promete?
- Prometo.
- Arg, agora me ensine biologia. – Falou, abrindo o livro na lição do dia.
- Bora. Depois me dá uma mão com física. – Replicou . – De onde você está com dúvida?
- Do início?! – Riu Isabelle nervosamente.
- Ooook então. – Sorriu , começando a leitura do capítulo. – Hipóteses indicam que as organelas originaram-se de células que ingeriram outras menores. Por exemplo, a que é especializada em conduzir a fotossíntese, o cloroplasto, poderia ter se originado de um procarioto fotossintético ingerido por um eucarioto maior...


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- , você ainda não tem par para o baile, certo? – Sem esperar uma resposta, a mulher continuou. – Me pegue às oito em ponto. Aqui está o endereço. – Piscou, ninguém menos do que Taylor, para o crush de .
Dizer que a semana do baile começara uma merda seria um grande eufemismo. A garota não podia acreditar que sua mais nova amiga tinha feito algo assim na sua cara. Seguiu-a pelo corredor até o banheiro, cruzando os braços e encarando-a enquanto colocava seu batom nos lábios perfeitos.
- Taylor.
- .
- O que está pensando? Como pôde fazer isso?
- Passar batom? Acha que essa cor não combina? – Indagou, analisando-se no espelho atentamente, mas sem aparentar estar nem um pouco insegura.
- Óbvio que não estou falando disso!
- Então o que... Ah, o ? Pensei que tinha superado esse crush. – Deu de ombros, passando por sem mais uma palavra.
- Não é um crush! – Repetiu para o nada, ou o que pensou ser o nada até ser surpreendida por uma menina recém-saída da cabine.
- Por que anda com essa metida? – Perguntou Rachel Hollis, lavando as mãos.
- Ela não é... Quer dizer, a Tay é difícil, mas... Mesmo sem parecer às vezes, ela se importa.
- Só se for beeeem lá no fundo mesmo. – Sorriu. – Se você diz...


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A grande noite finalmente chegara, e havia decidido atender ao baile junto com sua prima e as amigas dela, apesar de um menino que não conhecia muito bem tê-la convidado acreditou ser o melhor. Aquele crush nada inocente por já causara problemas suficientes. Não precisava jogar mais outro boy na mistura.
Tão logo as meninas chegaram à festa espalharam-se pelo espaço e resolveu procurar Taylor. E por extensão , mas claro que não era ele que ela mais queria encontrar. Óbvio que não...
- Viu a Tay? – Perguntou para um antigo amigo de Nick que tivera de repetir o ano.
- Pequena ! Acho que vi quando fui fumar nas arquibancadas. – Replicou sorrindo.
- Brigada, Trev. – Sorriu de volta com um mal pressentimento.
Aproximou-se do pequeno ginásio, ouvindo uma conversa baixinha detrás das arquibancadas. Manteve-se escondida, não muito orgulhosa de estar bisbilhotando a conversa privada, mas sem conseguir se segurar.
- Por que aceitou vir comigo?
- Eu não tenho certeza. Talvez sua amiga tenha um pouco a ver com isso. – Admitiu , com a voz abafada.
- ? Sabia que tinha algo por trás de toda essa implicância de vocês. Sabe o que dizem, o oposto de amor...
- Não é o ódio... Eu sei. Só não sei bem como lidar com isso, sabe.
- Sentimentos? Me poupe, , não é tão difícil. Só vai lá e fala para ela o que quer.
- Talvez seja simples assim, talvez não. Mas acredite em mim, Lausen. não quer ter nada comigo.
- Você é cego, ou o que? – Murmurou Taylor em um tom tão irritado que pôde sentir seu revirar de olhos.
- Por que você me chamou, então? – Replicou.
- Touché, . Touché.
- Acha mesmo que ela pode sentir algo por mim?
- Vai fundo. Só não entendo porquê está falando tudo isso para mim, enquanto com ela ergue mil muros.
- Não se sinta ofendida, mas acho que é porquê sei que não tem muito o que fazer com essa informação e além do mais... Não temos nada em comum, não me importo muito se me julga ou não. – Soltou uma risada sarcástica.
- Não me sinto ofendida. Mas já sabe. Se algum dia seu gosto mudar... – Piscou Taylor, caminhando para fora do recinto, deixando o menino perdido em pensamentos. Ah sim, ali estava a Lausen que todos conheciam e odiavam. Bem quando estava começando a pensar que realmente se preocupava com algo fora do alcance de seu próprio umbigo.
De seu esconderijo, tremia da cabeça aos pés. Como que ele podia gostar dela assim se nunca lhe ocorrera essa possibilidade? era um enigma. Um quebra-cabeças desenhado especialmente para se viciar em tentar montar. A cada peça que acreditava haver encaixado, seu link se demonstrava falho.

Mulher Perigosa
Não preciso de permissão
Tomei a decisão de testar meus limites


Pensou por uns minutos no que Isabelle dissera, no que prometera de tentar agir fora de sua zona de conforto. De tentar sair da caixa e fazer algo destemido que fosse além de escolhas acadêmicas. E nada mais corajoso do que expor seus sentimentos para alguém com quem se importava.
- O que está... A quanto tempo? – Perguntou o homem, sobressaltado com a menina que pareceu materializar-se à sua frente. – Quanto ouviu? Voc...
- Cala boca e me beija, . – Revirou os olhos, puxando o braço do menino, que envolveu-a com firmeza assim que ela grudou seus lábios em um.

Porque é da minha conta, Deus é minha testemunha

Tudo que você faz, pele com pele

Oh, meu Deus, não pare, garoto

Suas línguas acariciaram-se, movendo-se com uma harmonia incrível. Qualquer um acreditaria que eram um casal fazia tempo, ainda mais com a forma em que seus corpos se moviam. Era como se estivessem dançando um tango. a grudava na parede, ela trocava suas posições, ele descia suas mãos em sua cintura, a garota subia para aqueles cabelos que a enlouqueciam.

Algo em você

Me faz sentir como uma mulher perigosa

Poderiam ter ganhado diversas competições com aquele beijo. Nem poderia ser chamado de beijo por sua extensão e duração, estava mais próximo de uma “pegação”. E ambos aproveitaram cada segundo até pararem para respirar.

Algo em, algo em .... Algo em você

Me faz querer fazer coisas que eu não faria


sentia-se flutuando, fora de si pelo que fizera, mas ao mesmo tempo sentiu um sentimento indesejado começar a dominar seu peito. E antes que percebesse, esse já havia tomado conta de sua mente, sem chances de poder impedi-lo com sua rapidez em alastrar-se.
Era medo. O pavor em sua forma mais pura de ter que passar por mais um coração partido. De ter que reviver o que passara com Josh. Por mais que soubesse que seu coração estava tentando proteger-se de mais uma pancada, odiou-se por ser um remendo de menina, mesmo tão jovem. A culpa pelo ligeiro arrependimento de sua primeira experiência com o sexo oposto assumiu a direção, tirando-a da paralisia que o medo havia lhe imposto.
- Isso não vai dar certo. Desculpe. – Resmungou mecanicamente, correndo para fora dali antes que o menino pudesse protestar.
Guardou aqueles olhos verdes confusos em sua mente, agradecendo ao universo por já estar terminando a escola, e em breve não ter mais de estar na presença do menino, que planejara partir para uma faculdade na Califórnia. Para possivelmente nunca mais voltar a vê-la Ou ao menos era o que tinha pensado . Mas felizmente ou infelizmente, o destino tinha outros planos e trombou novamente com os olhos verdes no segundo ano de faculdade, quando este transferiu-se para Vermont.
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No dia seguinte ao baile, encontrou Lausen no shopping com a mesma animação que teria se estivesse indo fazer um exame de vista. Sabia que deveria ter se aberto mais sobre a seriedade de seus sentimentos para a melhor amiga, porém, agora já era tarde. Taylor tinha ido ao baile de formatura com o crush de desde o início do secundário, quando de fato entrara na South Mills Academy, ou Boulder para os íntimos.
O problema era que além de sua prima, Isabelle Kinkaid, Tay fora a primeira e única amiga próxima que conseguira formar. O colegial era complicado, e a Boulder já possuía seus diversos estratos e grupinhos formados desde muito antes de pôr os pés nos Estados Unidos.
Haviam dias que sentia tanta falta de Travis, Brianna e Josh, seu pequeno grupinho canadense, formado no campus da Escola Primrose, que lutava contra a urgência de simplesmente fugir para morar com seu irmão. Sendo um ano mais velho, Nicholas havia se formado no ano anterior, e decidira migrar para uma Universidade em sua terra natal mesmo.

— Meu Deus, você está viva! — Taylor comemorou falsamente, soltando seu olhar cheio de malicia para .
— Apenas viva, existindo ainda não. — Retirou os óculos, revelando suas olheiras que, mesmo em meio a pouca maquiagem, eram aparentes. Taylor fez um biquinho. Provavelmente acreditava serem de cansaço e não do choro que abatera durante toda a noite.
— Bem, ainda são 9:30 da manhã. Todo mundo nesse horário apenas está vivo e não existindo, e você sabe por quê? — negou, dando um suspiro. Sua cabeça doía no fundinho. — Foi o melhor baile do século, !
— É, parece que foi! — Murmurou, sorrindo de lado. A mulher tentou esconder sua mágoa da melhor amiga, mas quase que falhou nesta missão, ao entoar vagarosa e dolorosamente sua próxima pergunta. – Taylor, você e o , vocês... Quer dizer, vocês dois...
- Ficamos? – Franziu a loira. – Acho que não preciso te dizer o que aconteceu. – Deu de ombros, lançando à morena um olhar malicioso.
assentiu, abrindo um sorriso tão falso que fez seu rosto doer e arrumou uma desculpa qualquer para voltar para casa e retomar de onde suas lágrimas pararam. Embora tivesse alguma certeza de que nada realmente ocorrera entre ambos, ainda machucava muito a mulher a insensibilidade de Taylor.


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Tempos atuais, uma semana antes da mudança para o alojamento...
Consultório da Psicóloga



- E acredita que perdoou essa sua amiga, por completo ou guardou algum ressentimento?
- Eu queria deixar esse assunto para lá, mas posso ver porquê em meu “sonho” eu vi a Taylor como a mulher que queria tomar algo que eu valorizava. Pelo visto não superei tanto quanto me fiz acreditar. – Suspirou , desviando o olhar de sua psicóloga para a enorme janela do consultório. – E sobre a personalidade mais reservada de no sonho faz ainda mais sentido. – Deu de ombros.
- Pois bem, concordo contigo nesse primeiro ponto. Mas quanto ao senhor talvez seja algo um pouco mais complexo. Poderia me falar um pouco mais sobre esse... Joshua Baker?
congelou, calando-se instantaneamente pela boca seca.
- Eu creio que ainda não esteja pronta. – Replicou, desconversando logo depois. – Algo que ainda não entendo é porque e eram tão agressivos um com o outro em meu sonho. Na vida real se deram tão bem desde o início... Bem, talvez não desde o princípio, mas próximo o bastante.
- Um passo de cada vez, senhorita . Na próxima sessão podemos chegar ao senhor , e quem sabe também conseguirá se abrir sobre Joshua Baker.
- É só muito frustrante que a vida continue e eu não tenha tempo para digerir as situações e conectá-las com minhas memórias ao mesmo tempo que elas aconteçam.
- Paciência, querida. O mundo pode estar sempre querendo nos dizer que não temos tempo para nada, mas o segredo é que cada um é responsável por gerir o que tem em seu próprio ritmo.
- Obrigada. – Afirmou, despedindo-se da psicóloga e de sua assistente na recepção antes de voltar para casa e estudar para sua primeira prova do semestre.


Horas após a mudança para o alojamento...



- Camille, porque não consegue simplesmente dizer que não vai poder vir? Tem que me deixar esperando plantado aqui toda santa vez?
- Sinto muito, . A Julia e a Bree me arrastaram para esse convívio da Sigma-Tau depois da aula e...
teve de respirar fundo três vezes e tentar entender porque Cammie vinha lhe dando o bolo constantemente nas últimas semanas. Fazia ao menos quinze dias que vinham discutindo sobre pequenas coisas. Seus encontros pareciam ficar cada vez mais exaustivos emocionalmente e se fosse ser sincero consigo mesmo, estava começando a ter dificuldades de não deixar seu namoro interferir em seus estudos. Afinal, ao contrário de grande parte dos amigos, não poderia se dar ao luxo de falhar em uma única prova, senão perderia sua bolsa em Vermont.
- Está bem. – Cortou o tagarelar de desculpas da mulher, apertando a ponte de seu nariz.
- Você passa aqui na festa mais tarde? – Perguntou, com uma pontinha de esperança, mas já um pouco descrente. Ela sabia que não era lá um ser festeiro, e ela mesma não costumava ser até entrar para a irmandade das Delta-Phy e fazer amizade com as meninas que citara.
- Não sei, Cammie... – Suspirou. - Nos falamos depois.
- Eu te amo, . – Murmurou, mas com firmeza.
- Eu também. – Completou automaticamente, antes de desligar a ligação.

- Hey! – Disse uma voz feminina ao pé de seu ouvido. virou-se para mirar ninguém menos do que a própria . Sua “amiga” do ensino médio.
- ! – Levantou-se para cumprimenta-la.
- Achei que fosse você aqui... – Começou, piscando suas longas pestanas para o garoto. - Eu vim para estudar um pouco com minha nova companheira do alojamento. – Disse, apontando para uma menina debruçada sobre um caderno, com folhas espalhadas por toda mesa de uma das cabines.
- Está morando no alojamento? Porque voltou às aulas tão cedo?
- Sim, achei que uma mudança me faria bem considerando tudo. E você me conhece, eu não perderia mais aulas do que o necessário, .
- Não costumo vir muito aqui, mas me parece um bom lugar para estudar. – Sorriu o menino, mudando de assunto.
- O Waak? É sim.
Um silêncio se instalou enquanto encararam-se sem graça.
- Bem... Acho que vou voltar para lá. Se quiser se juntar a nós...
- Ah, acho que dessa vez vou passar, não estou com o material aqui. – Disse, pegando seu casaco da banqueta onde esperava e vestindo-o novamente. – Aliás, aquela é a Lausen?
- Sim! Foi uma história muito engraçada, na verdade. Uma grande coincidência... Tem certeza que não quer ir dar um oi? – Perguntou, com um rápido piscar.
- Passo. – Bufou, limpando a garganta logo depois e lembrando-se de não parecer um grosso. - Mas obrigado. – Completou.
- Para a próxima então. – Deu de ombros, sorrindo para o acenar do e colocando um cacho para detrás de sua orelha. Virou-se e retornou para a mesa.
saiu da cafeteria pensando nas matérias que ele mesmo teria de pôr em dia quando chegasse a casa. Só de imaginar em tentar dar sentido a Direito Comercial, já podia começar a sentir uma dor de cabeça começando. E estudar foi exatamente o que fez pelas próximas horas.
Mas como o ser humano tem limites, finalmente desistiu, pegando seu celular e sorrindo ao ver uma mensagem de em uma de suas pausas para checar as redes sociais e seu Instagram de fotografia. Estava começando a ganhar alguma notoriedade. Nada tão expressivo, mas ainda sim, já não era qualquer amador com poucas centenas de seguidores.
“Foi bom te encontrar, . Não desapareça.”

Dizia a mensagem.
Franziu a testa para o novo apelido.
?? Também achei bom vê-la, .”
“Hey, está sabendo de um Convívio da Sigma-Tau hoje? Taylor quer que eu vá, mas seria bom conhecer mais alguém que vá.”

- Mudou de assunto... – Murmurou para si mesmo, dando uma risada.
“Soube sim, mas não planejava ir...”
“Por favor...”
“Por favooor...”
“Por favooooor”

Recebeu em seguida com três apitos seguidos de notificação.
“Tudo bem, . Prédio de Políticas Públicas em uma hora?”




- Patrick, cadê a porra do meu carregador? Não consigo pedir mais pizza sem bateria. Os calouros vão morrer com esse consumo excessivo de álcool com estômago vazio. – Revirou os olhos.
- Qual é, ?! Acha que eu que peguei? E desde quando você é a mãe dos alcoolizados? Não deixe que Chad te ouça, ele pode querer começar uma revolução para te tirar da Sigma-Tau.
encarou-lhe cruzando os braços para conter-se de arrastá-lo da festa para o quintal e dar-lhe uma surra na frente de todos mesmo.
- Primeiro que Chad não é corajoso ou popular o suficiente para me destronar. – Suspirou balançando o dedo na frente das pupilas dilatadas do amigo.
- E segundo?
- Carregador. – Respondeu , rangendo seus dentes de impaciência.
- Está na minha cômoda. – Replicou Patrick com um sorriso amarelo que obrigou a segurar um riso de pena.
- Você é um ridículo. – Balançou a cabeça, abrindo caminho na multidão até o quarto do retardado do seu melhor amigo.
Abriu a porta de qualquer forma, assustando-se com uma menina ao celular.
- Desculpe, eu... Estava barulhento, e precisava fazer uma ligação.
- Sem problem... Espere, você é Camille, não é? A namorada do .
- Sim. E você é , claro. – Sorriu, ajeitando seu cabelo channel.
- Mas achei que não viria.
- Era com ele que eu estava falando mesmo. – Suspirou a menina. – Acho que não vem apesar de minhas súplicas.
- Hey... Não esquenta, muitos já tentaram, mas vai chover no dia que vir para uma das festas da Sigma-Tau.
- Tem razão. Não acredito que ninguém conseguisse convencer o cabeça dura. – Riu, acenando para e saindo para reencontrar suas amigas.


O homem acenou de volta, não tardando a encontrar seu carregador e a plugar seu celular em uma tomada ali mesmo, no quarto do amigo. ainda ficou um tempo parado pensando no nada, não sabia porque aquela conversa havia, de repente, dirigido sua mente a imaginar entrando pela porta de sua fraternidade. Só de pensar o garoto ofegou.
A primeira vez que a vira... Nunca poderia imaginar que aquela mulher viraria sua melhor amiga, ao menos não de primeira. Não, o primeiro pensamento que cruzou sua mente foi um pouco mais perigoso, e a razão de muita merda que acontecera nos últimos meses.
No dia em que se conheceram, caminhara até a mansão da Sigma-Tau propositadamente para encontrar o garoto que sua avó tanto lhe enchia nas últimas semanas.
s e s têm uma tendência a se cruzarem em uma geração ou outra...”
“Vovó, assim eu me sinto uma ervilha a ser cruzada para obter outra linhagem.”
“O que ensinam nessas escolas americanas...” Murmurou a avó com desgosto. “Se eu não conhecesse o renome de Vermont, iria até aí sequestra-la de seus pais malucos. Onde já se viu, mudar-se de Saskatchewan onde eu posso ajuda-los no que precisarem!”
“Acho que esse é justamente o ponto, vó”. Replicara, para ouvir mais meia hora de sermões direcionados não a si, mas a decisões de outra autoria: seus pais.
A questão é que desde o primeiro segundo que vira a menina toda irritada por estar naquele encontro com ele. Tão fofa em suas observações brincalhonas sobre cada pequeno defeito que encontrava, mesmo na paisagem, ou por onde passassem. Ele não pode evitar pensar: Algum dia eu quero me casar com ela.
Talvez até um pouco antes, quando a conhecera de verdade na rua e depois encontrando-a para um café no Waak. Era muito estranho como o acaso os reunira pouco antes de serem apresentados por suas respectivas famílias.
Mas o pensamento veio e foi com uma rapidez tão grande que nem se questionou sobre sua magnitude para um encontro tão rápido. nunca tinha esses pensamentos. Ou não costumava ter, não antes de .
Com um suspiro profundo e até um tanto doloroso para seus pulmões, chacoalhou a cabeça e deu continuidade as suas passadas até o tumulto de pessoas que ele mesmo havia convidado. Ele gostava disso. De ver pessoas rindo, se divertindo, se distraindo. De certa forma encarar tudo aquilo lhe trazia uma paz interior inespecífica. Sabia que em parte era por sua vida regrada dentro de casa, sobre imaginar que cada jovem bêbado por ali, rindo e beijando pessoas aleatórias, provavelmente apenas descontava sua frustração diária num copo de bebida. Não era também como se achasse que isso de alguma forma ajudaria, ‘’isso’’ de se embriagar para esquecer os problemas; no entanto conseguia entender.
Àquela altura todos poderiam apostar que odiaria mais festas como aquela após o ocorrido com ... Só o que sentia era culpa, não pela festa, mas por ter finalmente declarado, e, como seu ponto forte, da maneira mais errada possível e digamos que não era a melhor das entendedoras quando perecia de raiva.



- Taylor não vinha?
- Já deve estar morta aí dentro. – Respondeu , olhando para o garoto de soslaio. - Não acredito que eu estou, realmente, caminhando para uma festa de fraternidade. – ouviu um resmungo de ao seu lado enquanto ambos caminhavam em direção as luzes piscantes de uma casa enorme, vozes arrastadas e um tumulto diante de um vasto jardim. –
- Como pode saber se é ruim se nunca foi em uma?
- Eu não preciso comer cocô pra saber que é horrível, .
- Meu Deus, , que merda de comparação foi essa!? – vaiou o rapaz gargalhando em seguida;
Deu-se ao trabalho de olhá-lo de soslaio, reparando no pequeno sorrisinho que surgira de seus lábios. Por um segundo o ‘’sonho’’ pareceu retornar forte dentro de si, seu coração apertou, sua respiração ofegou e bem, seus olhos travaram no rosto dele, o suficiente para fazê-lo notar seus olhos fixos no sorriso que gradativamente foi sumindo, até que ele a olhou, entortando a cabeça. Sua expressão serena causou uma pequena vontade de chorar na menina.
sentia tanto.
Ainda era um tratamento constante saber separar o que era sonho e o que era realidade, e em parte, sua adaptação fora diagnosticada como proeminente para os meses que ficou afastada, porém aquela em si, de todas as formas que envolviam , á fazia querer gritar que em uma ‘’outra dimensão’’ os dois eram os opostos mais bem sucedidos que alguém já havia visto. Era inadmissível em parte que aquele beijo fosse um projeto de sua mente, ou aquela noite? E todo o resto...
Mas nem precisava ir tão longe, bastava olhar para seu passado recém desenrolado em sua memória. Somente bastava recordar-se do beijo arrasador ao qual se entregara anos antes, sem conseguir, porém, ter qualquer continuidade àquilo que mais queria. E isso tudo por medo de repetir experiências passadas.


- Ei, tá tudo bem? – segurou-a pelos braços, procurando seus olhos. Foi quando mais uma vez precisou voltar á realidade. –
- Eu acho que eu só... Sabe, né? – Murmurou encarando a casa. A festa era uma boa desculpa, afinal, foi em uma que descobriu que universos paralelos existiam e, havia . –
- Se quiser podemos ir embora agora mesmo, . – Disse firme parando os passos brutamente. foi mais gentil, virou-se de frente para ele e de costas para a casa, a silhueta dela fez perder um tanto o foco, juntamente com o sorriso. Tá, ele não podia mentir que de certa forma ainda mexia com ele. –
- Não vamos embora, . Vamos ficar, estamos aqui, e nenhum trauma meu vale te ver numa primeira festa de fraternidade. – Ela sorriu estendendo a mão. –
- Eu ainda não sei porque somos amigos. No colegial só faltávamos nos estrangular. – Riu, sem graça.
- Quem disse que somos amigos? – arqueou a sobrancelha brincalhona, puxando-o entre as escadarias. –
- Eu devo, suspostamente, me sentir triste com essa declaração? – O garoto parou de frente a ela, colocando as mãos nos bolsos da calça, sua posição prepotente fez rolar os olhos. –
- Espera... – Entortou a cabeça. – , supostamente, tem um coração para sentir, que seja, tristeza?


cerrou os olhos cedido, digamos que o que os prendia um no outro, ele poderia apostar que eram aquelas discussões intermináveis enquanto nenhum dos dois dava o braço a torcer. Nenhum dos dois aceitava não terminar com a última palavra, ou provocação, ou indagação. Era o que mais os motivava a ficar juntos no ensino médio. e sua mania de sempre ter o que falar, sempre dar a última martelada, uma divina aura de juíza, diria ele.
observando tudo aquilo precisou ser o cara que iria discutir com ela. sempre fora a sua conquista, não por vias amorosas – ou não a princípio, mas sim por seu intenso fetiche de sentir que, estar perto de , era um jogo de xadrez constante – ele amava xadrez. – Esperando para ser o último para dar o xeque mate.
A música alta de repente tomou conta do vácuo que aquele milésimo de pensamentos causou, e, de uma hora para outra eles já estavam dentro da fraternidade, se esgueirando pelo meio das pessoas. o puxava pela mão como sempre, sabendo exatamente para onde ia – mesmo ele sabendo que ela não fazia ideia – e se deixou ser levado. Tinha algo em que o fazia ceder, e isso era um saco.


- ! – Ouviram. tornou num sorrisinho de canto tentando achar de onde vinha aquela voz. – ? – Continuou, só que mais próximo e naquele momento, visível a ambos.
Era Benji.
- Uau Benji, sua animação ao me ver me contagiou, sério! – sorriu forçado, mas ainda assim, tinha algo errado com o olhar do amigo. – Que foi, cara, é só uma festa!
- Eu sei, é que...
- Não é uma ótima maneira de estar de volta? – se intrometeu batendo uma palma. O olhar de Benji permaneceu. – Fala sério, Benji!
- Vamos lá fora, está muito abafado aqui, sem falar na música. – Benji propôs, sua fala rápida fez e trocarem olhares desconfiados. –
- Eu vou buscar uma bebida... – O rapaz fez sinal com as mãos. – Um refrigerante?
- Aceito.
- , eu queria dizer que...
- ?

Era claro. No mesmo momento, fechou os olhos pesarosos e sem entender muito bem por qual motivo a decepção veio à tona na feição do rapaz, tornou para identificar de onde vinha aquela voz. Seu meio sorriso se extinguiu por completo ao encarar Camille atrás de e até aquele momento, de si mesma; tinha ciência de quem era ela, de que estava num relacionamento, no entanto não havia parado para pensar no que faria ou como reagiria quando a visse ou em quando tocaria no assunto, muito menos com , e muito menos ainda numa festa de , com ao lado.
.
Seu coração parou de funcionar por segundos ao notar a presença do rapaz logo atrás de Camille, se posicionando tão confuso quanto ela, perdido num olhar de também surpresa. Era muita coisa para estar acontecendo em menos de meia hora de festa.


- Camille. – tombou a cabeça. – Não sabia que estava aqui.
- Talvez soubesse se olhasse seu celular. – A menina cruzou os braços. Seu cabelo Chanel em conjunto com seu vestido florido foi algo que observou de soslaio. Camille era, digamos que, a ‘’cara’’ de . – Você disse que não viria, .
- Eu disse, mas resolvi de última hora Cammie. – Gesticulou. –
- Ok. Acho que temos muito o que conversar. – Benji tomou a dianteira puxando a mão de para ele. – Se me dão licença, tenho que atualizar essa gata. – Piscou, parecendo Patrick por uns segundos. Ou talvez não, visto que este já se encontrava desmaiado na boia da piscina da casa. –
- É bom te ver aqui, nerd. – aproveitou a deixa, sinalizando a que acenou positivamente. – Eu vou checar com os meninos sobre as bebidas...
- Certo.
- Nerd? – sibilou confusa, sendo puxada por Benji em seguida. –


deixou-se ser arrastada, ainda perdida encarando a olhando naquela conexão profunda e usual que ambos tinham, nitidamente sufocado de coisas pra falar, mas surpreso demais para balbuciar algo. Com um plus one de, ainda não conseguir decifrar o que era realmente sua amizade com Benji, e deixar de estranhar que não havia simplesmente rolado os olhos e insultado ...
Sua cabeça estava a mil, mas tudo o que ela conseguia pensar era que: tinha rejeitado ir a festa com Camile, embora tivesse aceitado seu convite implorando algumas horas antes. Até onde ela tinha fantasiado tudo, mesmo?


Se valer de consolo, eu tampouco atingi meu auge, o máximo que posso ser. Eu sei disso agora. Talvez eu sempre tivesse sabido. Mas somente meu coma – com toda a realidade criada por minha mente, como em um sonho - pôde trazer à tona um pensamento devastador: a única que pode mudar isso sou eu mesma. E o farei, rememorando impacto a impacto até que só sobre minha nova velha realidade.



Capítulo 11- Primeiro Impacto


- Senhorita ...
manteve seu olhar fixado na grande janela do consultório, mirando a vista de trabalhadores erguendo um prédio a serviço de uma construtora. Cada estaca de ferro, cada amostra de rejunte e cimento suportariam mais tarde uma hiperestrutura por onde passariam milhares de pessoas. Aquilo até poderia ser relacionado aos sentimentos de insegurança da mulher, na forma como parecia que havia perdido suas bases, o fundamento que a mantinha erguida. Porém, nada do que olhava realmente chegava a ser registrado em sua mente perdida.
- Senhorita !
- Não posso... – Suspirou, colocando a cabeça entre as mãos.
- Sei que é difícil, mas por favor, tente... – Replicou, não em um tom suplicante, mas tampouco insistente.
- Eu quero, mas simplesmente não consigo. Não ainda... Não hoje.
- Vamos tentar de uma forma diferente então. – Propôs a psicóloga, depositando seu óculos no alto de sua cabeça. – A senhorita mencionou que assiste o seriado Sherlock, certo?!
A mulher assentiu, um pouco surpresa com a boa memória da médica. Aquilo deveria lhe vir a calhar com a quantidade de casos de seus pacientes. Mas também, uma série como aquela, em que se fala tanto sobre o cérebro deveria mesmo intrigar a psicóloga, sendo a mente seu próprio objeto de estudo. Para , simplesmente bastava o desafio de tentar ser astuta o suficiente para entender os raciocínios de Sherlock Holmes e seu assistente John Watson.
- Feche os olhos... – Continuou. - Imagine que está em seu palácio mental. O lugar onde guarda todas as suas memórias e lembranças. Cada porta, cada armário, cada gaveta tem seu significado único. Cada corredor e cada passo a levam a uma seção diferente de sua mente. Foque em acessar seu conhecimento dos fatos que já confirmamos como dessa realidade e onde se encontram.
Novamente, assentiu, mas com os olhos apertados ao tentar visualizar a grandiosidade de tudo aquilo. No início da terapia provavelmente não faria tanto esforço para seguir as recomendações da terapeuta, mas com o tempo, os métodos da orientadora de sua mente foram funcionando ao serem postos em prática. Inclusive, naquela altura, a mulher provavelmente tentaria qualquer coisa para acessar as memórias que a deixavam cega de metade de sua vida.
- Agora, o quê lhe parece mais correto? Ter conhecido Aaron em um esbarrão já na Universidade ou ainda em seu ensino médio?
A mulher começou a analisar as duas lembranças a procura de erros, diferenças, qualquer coisa que lhe pudesse dar qualquer pista.
correu para sua classe no quarto andar, quase chorando ao ver que o elevador estava quebrado, de novo! Quando finalmente chegou, ofegante graças ao lance de escadas, acabou esbarrando em uma figura masculina alta e loira que saía da sala ao lado da sua. Era o suficiente para ter se estatelado no chão, se a mesma pessoa não houvesse a segurado pelos braços, colocando-a de pé novamente.
— Obrigada... Me desculpa, eu ‘tô realmente...
— Tudo bem. Eu errei minha sala, o erro foi meu.”



- Não sei, eu... – Começou, retornando ao consultório e quase desistindo antes de perceber um detalhe no qual havia lhe passado despercebido anteriormente. – Espera... Eu sei. – Completou abrindo os olhos.
- Diga-me. – Pediu-lhe, buscando seu caderninho de anotações e recolocando os óculos de grau.
- Eu sempre senti que sabia mais do do que o normal. Será que ele teria sido alguém tão importante e central para mim em meu sonho se eu o houvesse acabado de conhecer? Acredito que não.
- Bom... Mas ainda não é decisivo. O ideal seria encontrar um aspecto que tornasse inegável e indubitável qual a peça correta do quebra cabeça e a distinguisse de uma mera ilusão do coma.
- Ainda tem o fato da Taylor também ter perseguido o Aaron em minha ilusão. Isso somente espelhou algo que eu imaginei ter ocorrido no ensino médio, quando ela o convidou para o baile de formatura.
- Ainda sim, está se baseando na premissa de que sua primeira descoberta está correta. Pense, , o que mais pode fazer com que sem dúvidas saiba que os conheceu no Ensino Médio e não durante a faculdade?
- Joshua Baker. – Replicou, olhando para a mais velha e começando a entender de onde sua intuição partira para suas especulações. – Porque a do sonho é uma versão mais corajosa de mim. Ela é uma evolução minha. Nesse cenário todo eu não tenho o trauma do que aconteceu com Josh pairando sobre minha cabeça. Por isso eu sou a Rainha de Vermont, por isso eu consigo expressar meus sentimentos e me aventurar a ter um triângulo amoroso. Porque na ilusão, assim como o que aconteceu com Aaron e Taylor, minha mente criativa inventou uma situação em que o conheci mais tarde do que realmente aconteceu. Nela, tive o prazer de conhecer uma versão dele como sempre sonhei que teria se transformado, como teria sido mais velho. Isso se tivesse so...sobrevivido. – Limpou uma lágrima, solitária assim como ela se sentia.
- Muito bem, minha querida. Parece que esse menino é uma questão muito importante para você. Precisamos desbravar esse território alguma hora, o quanto antes sentir-se preparada para fazê-lo, me avise. Olha, sei que disse que ainda nã...
- Estou pronta. – Falou, com um tom tão baixo que teve de repetir. – Eu estou pronta.
E foi então que revelou seu passado de criança, ponto a ponto, até o primeiro impacto que marcou todo o seu percurso até aquele momento. Nunca mais seria a mesma, e já não poderia mais voltar atrás...


“A residência dos sempre foi considerada a de maior sobriedade por todo o bairro que estava localizada. Isso tanto significava que nunca havia um resquício de poeira ou pintura mal feita por toda a construção, o que era um aspecto positivo. Porém, igualmente conferia à varanda de trás um vazio de simplicidade, produto de um espaço com somente grama milimetricamente cortada.
e seu irmão, acabaram por esse motivo, por desenvolver uma inveja intensa relacionada à casa da árvore de seu novo vizinho. Assim que Joshua e os Bakers haviam se mudado para a casa ao lado, puderam ver da janela de seus quartos enquanto o patriarca realizava a construção, junto à sua mulher e filho.
Ou melhor, podiam ouvir o martelar frequente e somente especular, inicialmente, que diabos seus novos vizinhos aprontavam. Suas mentes criativas e tremendamente dadas a traquinagens imaginavam coisas incríveis. Um pedaço de fita crepe e um elástico de cabelo já poderiam servir para uma brincadeira de uma tarde inteira.
Mas quando finalmente estava pronta, Nicholas não pôde esperar para ser convidado, e cometeu a gafe de ligar para Josh, no mesmo segundo que o viu subindo na estrutura montada. observava dando risinhos, e somente aguardando que o irmão recebesse um “não” para poder zombar dele. Devia cumprir seu dever implicante de irmã mais nova, ao qual a menina sempre levara muito a sério.
Contudo, para a surpresa da pequena, não só Nicholas foi convidado, como Joshua também mandara trazê-la. O garotinho sempre a fazia sentir-se incluída nas atividades que Nicholas emburrava-se em insistir que eram de “gente mais velha”. Sendo que Nick tinha SOMENTE um ano a mais que ela, como ela gostava de replicar com muita ênfase.
Além do mais, Josh tinha a mesma idade que a dela, e sempre entendia as piadinhas sem graça do Nicholas. Mas devia ser coisa de garotos chatos mesmo. escutara sua mãe dizer um dia a seu pai que não eram coisas de garotinhos mas sim coisas de crianças bobas e revoltadas.
Mais tarde, lá estavam os três, no alto de seu refúgio, contemplando o pôr do sol enquanto Nicholas, que era o que sabia ler mais corretamente do trio, narrava histórias fantásticas.
- Era uma vez, um pirata chamado Jack Bootstrap.
- Que nome curioso! – Observou , querendo demonstrar seu novo e rebuscado vocabulário.
- Deixa ele falar, . – Pediu Nick, revirando os olhos para a irmã.
- Jack tinha um barco. Não, ele tinha um GRANDE barco! – Continuou Josh, gesticulando de forma a fazer a menina dar risadinhas. – Ele o levava para grandes... Grandes navegagões, que... Não, navegações! Navegações que chegavam a ilhas sem ninguém onde procurava tesouros e a lugares muito lotados de gente! E nesses lugares ele e os outros piratas roubavam todo o ouro das pessoas!
- A mamãe falou que é feio pegar as coisas dos amiguinhos. – Objetou .
- Mas , eles são piratas... – Começou Josh.
- Eles não podem ser piratas do bem? – Suplicou, mordendo sua unha do dedão.
- Não! – Replicou Nicholas antes que Josh pudesse responder. - Só fica quieta!
- Calma, Nick! – Assustou-se Josh. – Não tem problem...
- Cansei da história. Vou brincar no mastro do refúgio.
- O que é refufugio?
- O que essa casinha é para a gente, . – Sorriu Josh sentando do lado da menina, quando Nick saiu pisando duro.
- Ah! – Começou a mexer no carrinho que Josh lhe passara para brincarem de corrida.
- Não liga para o Nick. – Comentou Josh, após certo tempo.
- Eu não ligo. – Mentiu. – Mas eu sei que é ciúmes que ele tem de mim com você.
- Deve ser mesmo! – Replicou, surpreso com a sagacidade da menina.
não revelou que fora seu pai que havia lhe dito aquilo. Gostava como os olhos dele brilhavam para ela quando dizia algo diferente. Mas também de forma ainda mais importante, ela mesma gostava de adquirir conhecimento e externa-lo quando tivesse oportunidade. Seu professor lhe explicara uma vez que era a forma mais fácil de fixar o conhecimento.
A infância dos três fora muito impactada por aquela casinha. Ali, naquele seu cantinho especial, poderiam ser qualquer coisa, desde um pirata destemido até um cavaleiro errante ou um herói de quadrinhos. Poderiam, inclusive, sonhar com qualquer futuro possível ou impossível, através de estórias de outros mundos e realidades distantes, alienígenas nojentos e caubóis vampiros. Tudo era possível na ficção que os envolvia.
Aquele foi um momento decisivo que despertou o gosto de , Nick e Josh para a leitura, que mais tarde, levaria a ir transmutando seu gosto para os filósofos como Rawls, Platão e Wolff, e Nicholas para os livros de neurociência e anatomia humana.
Anos mais tarde, teve a certeza de que se Josh tivesse a chance, teria descoberto sua paixão pela música e pela ciência política, porém, para a tristeza da mulher, não foi esse caminho que foi a ele destinado.


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Um tempo depois...

Josh costumava frequentar a casa dos mais do que Tom, o pai de , poderia gostar. O homem olhou desde o início com certa desconfiança para o rapaz da casa ao lado que parecia cativar a sua filha de uma forma especial.
Tudo bem, talvez não desde o princípio, quando e o pequeno Josh conheceram-se na pré-escola e se tornaram amigos. Nessa época, ainda era cedo para dizer que o menino tentaria qualquer coisa com , afinal, eram só meras crianças.
Porém, o passar do tempo foi endurecendo o coração do velho para o melhor amigo da filha. E ficava ainda mais irritado com o desdém de Nicholas em proteger a irmãzinha dos impulsos do menino. Que tipo de irmão mais velho era afinal, se não para atrapalhar a vida amorosa da irmã?! Inicialmente ele sentia um ciúme profundo de Josh com , mas com o tempo o menino crescera para se acostumar com o fato de que a proximidade não era algo que somente teria com o melhor amigo, mas sim uma amizade alimentada entre os três.
É fácil julgar um homem como Tom, que é produto de outros tempos, muito mais simples em sua opinião, mas nada justos com os direitos das mulheres. Ele era muito protetor sim, mas seu pecado não era ter pensamentos arcaicos, e sim não parecer ter o menor interesse em se arriscar trazendo sua mente para o século XXI e suas revelações incontestáveis.
- , venha aqui! – Resmungou, da mesa da sala de jantar, onde fingia ler um jornal.
- Sim, papai. – Correu até ele de onde assistia a um filme na sala de estar com seu irmão e Josh.
- O que estão fazendo?
- Assistindo um filme, ué. – Replicou o óbvio.
- E por que está tão próxima do Joshua? Se está com frio busque um cobertor lá em cima!
- Papai, você não tem trabalho? – Perguntou, resistindo a revirar os olhos. Ela também crescera para ser resistente aos disparates dos pais. – Vai ficar a tarde toda nos assistindo assistir o filme? Não está enganando ninguém. – Replicou com a perspicácia que já tinha em seus quatorze anos.
- Eu estou lendo o jornal. – Pigarreou, levantando uma sobrancelha e cedendo com um suspiro. – Só não fique tão próxima dele, ok?
- Calma pai, ele é só um amigo. – Gargalhou, dando de ombros.
Voltou para a sala para encontrar Nicholas e Joshua brincando de pausar em cenas em que os atores estivessem fazendo alguma careta. Gargalhavam até quase o ponto de chorar, faziam comentários e continuavam o filme. Ah, tá. Até parece que iria ter algo de romântico com o bobão do Josh. Pensou, se jogando entre os meninos e roubando o controle para o protesto de ambos e para sua alegria.


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Alguns anos depois...

Os quase todos os pré-adolescentes da sala de Letty Graham haviam sido convidados para sua festa de aniversário. pensara ter sido um erro sequer ter recebido um convite, já que a menina a odiava, mas ao perceber que todo mundo fora chamado para comparecer, especulou que a mãe de Letty havia forçado a mão ao exigir que não houvesse exclusões na lista de convidados.
Por ordem da aniversariante todos sentaram-se à mesa e começaram um jogo de verdade ou consequência.
- Desafio você a dançar que nem uma galinha para todos nós. – Disse Jenny quando Louis, o nerd, escolheu consequência.
O menino cedeu, gerando umas risadas no grupo e girando a garrafa mais uma vez. Era a hora de Sally Higgins escolher, e esta escolheu verdade, tendo de revelar algo pessoal. Por sua vez, girou até cair em Brittany, que teve de berrar alguma frase humilhante que não gostaria nem de repetir. Finalmente, Brit girou a garrafa que oscilou até parar em Joshua. O coração de se aquietou em seu peito, sabendo que não seria a sua vez.
- Verdade ou consequência, Josh?! – Perguntou a aniversariante cochichando no ouvido de Brittany.
- Verdade. – Replicou, sem sombra de dúvidas, mas parecendo se arrepender, logo depois de ouvir a pergunta entoada.
- É verdade que você gosta da ?
- Tá brincando?! – Rosnou , quase cuspindo seu refrigerante na mesa. Remexeu-se em seu assento, tremendamente desconfortável e fuzilando Brittany com o olhar.
- Err... – Começou o menino, franzindo a testa e lançando um olhar nervoso e avaliador para . – Lógico que não, ela é minha amiga, a gente não tem nem terá nada mais que isso. – Riu nervosamente.
virou-se, então, para ele, mais magoada do que esperava. Na verdade nem era mágoa, mas seu ego estava ferido de uma forma que só um melhor amigo poderia ferir. Ele era alguém que ela confiava demais e mesmo concordando que não tinham nada romântico até ali, fechar completamente a porta para isso a machucara e muito.
Levantou-se com um estrondo e saiu da sala, pisando duro, até a varanda da casa. Suspirou com o ar fresco, sentando na espreguiçadeira e sentindo lágrimas pinicando em seus olhos.
Dentro da casa, Nicholas encarava suas mãos sem entender como lidar com aquela situação. Não sabia o que fazer ou como interpretar a reação da melhor amiga. Só dissera o que pensara que ela gostaria de ouvir. Aquilo significava que ela gostava dele, ou será que ele gostava dela? Aqueles questionamentos todos eram novos em sua mente e como invasores em um hospedeiro foram tomando conta de si.
E naquele momento que não parecia decisivo em sua vida como um todo, mas somente um calombo ao qual superaria, tomou uma decisão que definiu o tipo de homem que se tornaria. Aquele que não foge de seus sentimentos, aquele que não magoa alguém e deixa que o tempo cicatrize lentamente a ferida, à sua própria forma.
- ... Está chorando? – Perguntou, surpreso. Caminhou até ela e a envolveu em seus braços sem muita resistência. Ela já não soluçava, somente limpava as lágrimas que insistiam em escorrer por seu rosto.
- Eu... Desculpa, você não fez nada de errado.
- Fiz sim! Claro que fiz. Você está chorando.
- Eu nem sei direito o porque! – Replicou, olhando nos olhos do menino.
- Algo me diz que sabe sim. – Analisou-a com cuidado.
- Só não estou acostumada com pensar em você como qualquer coisa que não seja um amigo, entende?
- Compreendo, sinto-me da mesma forma. Só falei o que pensei que você ia preferir que eu dissesse, mas sinceramente, não sei como me sinto quanto a isso.
A menina olhou-o aliviada. E com essas palavras, sentiu-se tranquila novamente. Eles não precisavam descobrir nada naquele momento. O tempo se encarregaria de desenvolver qualquer interesse mais a fundo, se fosse como ditava o destino. Mas a sina tem linhas mais tortas do que poderia prever.


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Mais uns meses mais tarde...

Ir ao cinema no aniversário de amizade de , Nicholas e Joshua sempre foi uma tradição que pareceu ter sentido. Os três costumavam se amontoar no cinema, cheios de doces, pipocas e bebidas em seus braços e passar horas vendo alguma comédia ou qualquer outro filme de terror ou aventura.
Desde quando tinham idade para irem desacompanhados ao local, os três combinavam um filme na semana anterior e o assistiam na data. Fosse durante a semana escolar ou não, era o único dia que sem falta, tinham a permissão de quebrar um pouco as regras.
Com o passar do tempo, Nicholas começou a andar com novos grupos, e como sempre era uma incógnita se apareceria, passou a ser uma tradição própria de e de Josh. E isso nunca fora objeto de estranhamento pelos dois, ao menos até aquela noite.
- Hey, . – Acenou o menino, já da “fila da comida”.
- Josh! – Berrou, abraçando-lhe apertado.
— Gata, você está... durona. — falou, absorvendo a total extensão da jaqueta de couro e suas botas do mesmo material. Com aquele visual, certamente ninguém ousaria levantar um dedo contra a .
— Valeu, Josh. Você também não está nada mal. – Gargalhou, tentando disfarçar o nervosismo que sentia. O sentimento lhe era algo novo, não explorado, e a mulher estava morrendo de vontade de descobrir sua intensidade e extensão.
— Eu faço o que posso. – Replicou, finalmente, coçando sua nuca como se estivesse envergonhado. Mas a menina o conhecia melhor.
- O que você quer? – Perguntou, com seu melhor tom superior, cruzando os braços. Avançaram um pouco na fila.
- O que lhe faz pensar que eu quero algo de você? – Arregalou os olhos, recebendo uma encarada mortal da melhor amiga. - — Ok... não discutir com uma mulher em seus trajes de guerra, já entendi. – Cedeu, finalmente. – Eu estava pensando se você não queria tentar algo diferente hoje à noite. Depois daqui, no lugar do jantar no dinner de sempre podíamos visitar o mirante.
- Ah... – Suspirou surpresa. – Claro. É bom que dá para ir andando para casa depois. – Sorriu.
- Essa é a ideia. – Ele sorriu de volta antes de avançarem novamente para sua vez no caixa.
Como sempre, o garoto pediu uma tonelada de coisas que foram carregadas até a sala com muito custo e manobras de ambos. Mas finalmente chegaram a seus lugares e o filme começou.
Apesar do nervosismo dos dois, nada habitual, mas constante, o filme passou de forma tranquila, e ao ponto de seu fim já estavam estufados e em busca de uma boa caminhada e do gelado ar noturno para tranquiliza-los.
- Três melhores países no mundo. – Pediu ele.
- Canadá, Irlanda e Itália. – Replicou a mulher, enumerando em seus dedos enquanto caminhava. – Duas bebidas preferidas.
- Água e Ginger Ale.
- Água, Josh?! Sério mesmo? – Gargalhou.
- É uma necessidade básica do ser humano, ué. – Protestou, fazendo um bico.
- Isso, meu amor, é algo que todos sabem, mas ninguém escolhe. – Piscou, girando em sua frente e trocando de lado.
- Ok então, “meu amor” – Debochou, fazendo aspas no ar até levar um soco no braço.
- OUCH! Isso doeu.
- Você mereceu!
- Mereci SÓ um soquinho, . Tipo aqueles de filme romântico em que a garota tem um crush no garoto. Mas não um murro, né. – Brincou.
A menina acelerou o passo com o exemplo do garoto, acompanhando o aumento da frequência das batidas de seu próprio coração, quase pulando um pulso.
- Onde vai, garota ?! – Correu atrás dela, fazendo com que esta realmente começasse a correr até o mirante, já a frente.
- Vou fugir de você, garoto Baker. – Berrou, sem olhar para trás, só parando ao ter a vasta cidade toda sob seu mirar.
- Linda. – Sussurrou o garoto em seu ouvido, sobressaltando-a. Sua voz sem fôlego só parecia mais rouca e atraente.
- A vista daqui é maravilhosa. – Falou , assentindo, mas mantendo uma poker face.
- Eu não me referi à vista. – Piscou, virando-se para ela.
- Josh... – Suspirou, aproximando sua boca da do garoto ao mesmo tempo que ele o fez. E pela primeira vez naquela noite, não sentiu um frio em sua barriga. Tudo parecia certo e em um encaixe perfeito. Quase como tudo aquilo fosse predestinado.
Separaram-se, tomando fôlego e sentaram na escadaria que dava para a esplendorosa visão de mil pontinhos de luz da cidade. Era quase um reflexo das estrelas brilhando no céu, só menos vultosas do que a própria lua cheia.
- Três melhores amigos no mundo. – Disse Josh.
- Nicholas, Audrey e.... Hmmm, deixe-me pensar... – Fez um doce, sob a carranca do menino. – Você, seu bobo. – Revirou os olhos. - Duas coisas que não poderia viver sem.
- Com certeza, pizza e você. – Respondeu, olhando fundo nos olhos de .
- Eu não quero perder você. – Soltou, passando a mão pela face do garoto. – Nunca.
- , eu... – Animou-se, pousando suas mãos sobre as dela.
- Não podemos nos beijar de novo, você não entende? – Replicou, afastando-se.
– Mas se nós tentarmos algo...
- Não podemos, Joshua! Sua amizade para mim... Não tem preço.
- Como quiser então, desde que tenha pensado bastante em sua escolha e não seja só um impulso porque está com medo. – Replicou, friamente, atingindo-a bem onde esta não esperava.
A garota balançou a cabeça e começou a andar de volta para casa. Sabia que ele a seguiria. Que se certificaria que estava segura dentro de sua casa antes que fosse para sua própria ao lado. pôde sentir durante todo o percurso o olhar do garoto em suas costas. Um olhar inquisidor demais, indagador demais. E ela certamente não tinha as respostas para o enigma que era a presença de Josh em sua vida.
Nem nunca teria. Já que, no dia seguinte, descobriu que durante aquela mesma noite o menino havia falecido. Que o corpo de seu melhor amigo sucumbira ao deslocamento de um coágulo que ninguém sabia que existia, como uma bomba relógio em seu corpo, aguardando o toque final de um timer para sair destruindo tudo em sua volta.”


- Aquela foi a minha primeira experiência amorosa. – Explicou, limpando uma lágrima. – Essa foi uma memória capaz de influenciar minha personalidade de forma definitiva.
- Esse foi seu primeiro impacto. – Assentiu a psicóloga, olhando-a longamente antes de dispensá-la da sessão.



Capítulo 12- Segundo Impacto


- Em meio a dificuldade, emerge a oportunidade.
- É uma frase bonita, quem a disse? – Questionou , acostumada com os aforismos ditos pela psicóloga.
- Albert Einstein. Já pensou em que isso implica?
- Que tudo acontece por um motivo?
- Quase. – Gesticulou, mordendo o lábio. – Significa, ao menos a meu ver, que em todos os momentos temos uma escolha. Mesmo aqueles em que parece que estamos encurralados, sempre podemos nos determinar de forma a nos aproximarmos mais ou menos do sucesso, ou da derrota.
- Difícil acreditar nisto por completo, contudo. É difícil saber o certo e o errado com os fatos da vida sendo volúveis como são.
- O que você sente sobre mudanças? – Perguntou a psicóloga, observando sua paciente mergulhar seu olhar na paisagem da janela de seu consultório como de costume.
- Odeio. – replicou automaticamente para sua própria surpresa. – Quer dizer...
- Ódio é um sentimento bem forte. – Assentiu, recostando-se em sua poltrona. – Presumo que haja uma história por trás disso.
- Sim. – Respondeu , simplesmente. – Meus pais acabaram trazendo uma instabilidade para mim e pro Nick quando pequenos com a quantidade de mudanças que fazíamos de cidade a cidade canadense.
- Mas suponho que haja algo mais específico que a tenha marcado?! – Perguntou a psicóloga, perspicaz.
A mulher assentiu, já um pouco esgotada mentalmente, antes de deitar sua cabeça no encosto do sofá e começar a contar mais uma parte de sua história.


“Saskatchewan, Canadá – Algumas semanas após a morte de Joshua Baker
Dia de mudança.

Caixas enfileiravam-se pelo corredor na casa dos , ou melhor, no antigo lar dessa família, tornando árdua a tarefa de trafegar por ali. A menina apressou-se em direção à cozinha para tentar voltar despercebida para seu quarto logo depois. E quase foi bem sucedida em seu intento, não fosse um vislumbre de seu irmão pouco antes de bater sua porta em um forte baque.
Há dias a garota não saía de seu quarto sem ser para ir ao banheiro ou para assaltar a geladeira. Fizera de seu quarto uma espécie de bunker com tudo o que uma adolescente de 15 anos poderia pensar ser necessário para a sobrevivência: doces e livros.
E com muitas balas e muitas obras de ficção à sua volta, aguentou por boas 28 horas de protesto contra a mudança anunciada por seus pais de última hora – como sempre. Porém, desta vez, não só mudariam de cidade, mas também de país. A pequena já havia passado por muita coisa até ali e não iria admitir que jogassem mais essa bomba nela. Ou ao menos não sem um pouco de resistência.
- Hey, . – Murmurou Nicholas, entrando por sua janela.
O irmão adquirira o irritante e perigoso hábito de escalar de sua varanda para a dela. Mas quem é que mandou os pais o matricularem para o parkour?! Parecia que pediam por situações do tipo, sinceramente.
- Nicholas, some do meu quarto! – Berrou, escondendo seu doce preferido debaixo do travesseiro, discretamente. Rezou para não sujar a manta de açúcar. Valorizava sua vida, estava muito jovem para ser assassinada pela mãe.
- Você não me deu outra escolha, maninha. – Deu de ombros, comendo de sua pipoca. – Papai e mamãe querem saber o porquê do seu comportamento.
- Então mande eles pastarem, até parece que se interessam de verdad...
- Eu concordo com eles dessa vez! O que está acontecendo?
- O papai e a mamãe pensando de novo só neles. – Revirou os olhos. – O que acha Nick? E logo depois do que aconteceu com...
- Josh... – Replicou. – Eu sei, . Não foi fácil, aliás, não tá sendo. Mas pensa que uma mudança de cenário pode te fazer bem! Frequentar uma nova escola, com outro ambiente que não te recorde dele toda a hora, conhecer novos amigos...
- Ninguém vai ser ele. Nunca vão conseguir chegar aos pés de Joshua Baker. – Suspirou, sendo abraçada pelo irmão.
– Não se preocupe, ursinha. O tempo cuida de sarar as feridas. – Olhou em seus olhos pronunciando a última parte vagarosamente. – Mesmo as tão profundas que parecem que a vão consumir.
- Tudo bem... – Suspirou, relutante, após uns minutos em silêncio. - Diga a eles que eu vou cooperar. – Fechou os olhos, balançando a cabeça, que doía.
- Muito bem. Não precisa se preocupar. – Sorriu Nicholas, soltando seu abraço. – Afinal, estarei lá contigo, certo?!
- Ai não, Nicholas, tinha esquecido que você também vai. Assim não dá, você é o prego que preguei na cruz, hein?! – Ironizou, empurrando o irmão para a porta com leveza.
- Irmãzinha, eu estou extremamente ofendido, sabia?! – Pôs a mão sobre o peito, teatralmente. – Mas um prego reconhece outro prego, bebê. – Piscou, saindo do quarto pouco antes que jogasse um travesseiro em sua face.
Seu irmão podia ser muito irritante, mas ele tinha um ponto. Ela tinha sorte de tê-lo junto a si. Ficara tão imersa em sua própria dor que mal pensara que Nick também deveria estar sofrendo imensamente com a morte de um de seus melhores amigos. Além de que ele tinha laços profundos na escola Primrose, ainda mais do que , e mesmo assim, dedicava seu tempo a olhar por ela e cuidar que não ficasse tão mal.
Agora que ele era mesmo um prego, isso ela não tinha dúvidas. Podia não saber o que esperar dos Estados Unidos, mas ao menos ele sempre estaria consigo. Ou ao menos esse era o plano, a princípio...


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Cantina da nova escola, Estados Unidos da América - Meses depois.
- O que quer dizer?! – Indagou Isabelle, franzindo o cenho.
- A moral, querida Belle, é que não faz sentido hoje em dia comprar livros físicos se os virtuais são muito mais portáteis.
- Cara isso foi a maior besteira que eu já ouvi, Taylor. – Replicou Johnny, o namorado de Isabelle. – Não tem como montar uma biblioteca de Kindles.
- Ai, Johnny, para quê esse desperdício de espaço, se podemos ter tudo digital?! É só pensar a frente no futuro. Se liga!
- , o que acha? – Perguntou Belle.
- Ih, me tira dessa, prima. – Protestou a mulher, tomando um susto com uma mão sendo pousada em seu ombro logo depois.
- Sinto informar que minha irmãzinha é completamente contra isso, só não quer te contrariar, Taylor. – Sorriu Nicholas, sentando-se a seu lado na mesa.
- Olha só, não quero passar o almoço discutindo isso. – replicou, pousando o queixo entre suas mãos, avaliando a multidão de outros estudantes na cantina.
Mitchell desligou-se dos amigos a seu redor e vagou seu mirar pelos alunos até pousá-lo na carranca de um em específico, de braços cruzados, recostado a parede enquanto mexia em seu celular.
- Olha só, já volto. – Murmurou aos amigos distraída. Levantou-se com sua bandeja, jogando os restos no lixo e seguindo o garoto que agora caminhava em direção ao estádio de futebol do colégio.
foi se aproximando das arquibancadas, onde o garoto sentara, e só então percebeu que estava ao telefone. Deveria estar muito distraída antes, já que ele berrava com quem quer que estivesse na outra linha, mas que a mulher não tardaria a descobrir.
- Você pode me explicar que merda é essa de ameaçar sair de casa?! – Rugiu, furioso, sem notar que a mulher o escutava. – Não ligo para isso, Gordon, pode nos deixar ou não, mas dá para tomar a merda de uma decisão em vez de cada semana quebrar o coração da minha mãe de uma forma diferente?! – Falou, parando para escutar o outro lado da linha. – O QUE?! Não, não aguento mais isso. Você tem até sábado para escolher se vai ficar conosco ou não. Está me ouvindo?!
assustou-se, querendo fugir dali. Aquela não parecia a melhor hora para irritar , ele já parecia estar muito chateado com outras coisas de sua vida. Mas ao virar-se para ir embora, a mulher prendeu seu tênis no degrau e deu de cara com os patamares de madeira, fazendo um estrondo.
- ?! – Começou o garoto, com um tom preocupado. – Você está bem? – Indagou, aproximando-se da mulher e ajudando-a a se sentar.
- Desculpe, eu não queria escutar nada, só vim para falar do projeto de Química e ... – Calou-se, ao sentir os dedos do menino trilharem seu rosto com uma leveza que não parecia combinar consigo.
- Não tem problema. – Afirmou, olhando para a sobrancelha da mulher e arregalando seu olhar ao perceber que sangrava com um pequeno corte. – Oh deus, você está bem?
- Estou, só sinto uma picada em meu olho. – Replicou, levando a mão à testa mas sendo impedida pelo menino.
- Espera, não toca, vou te levar para a enfermaria. – Disse, estendendo a mão para que ela também se levantasse.
- Obrig... OUCH! – Gemeu com a dor que sentiu no tornozelo ao ficar de pé. – Hmmm acho que estou bem aqui...
- Só apoiar em mim, . – Suplicou, apertando os olhos. – Coloca esse lencinho aí para fazer pressão, enquanto isso.
- Eu não... Eu sei que estou parecendo uma criança, mas acho que é a primeira vez na vida que torço alguma coisa. Bem, fora o pulso, patinando, mas ainda sim, isso é bem pior.
O menino fez uma expressão pensativa e abriu um sorriso quando teve uma ideia. Em um impulso, pegou-a no colo e começou a caminhar de volta para a escola, sentindo tapinhas da mulher em seu ombro de protesto.
- , todos estão olhando, me desce já!
- Calma, , acredite, não tem nada que eu queira mais do que depositá-la em uma cadeira nesse momento.
- O que isso quer dizer? – Perguntou, com uma expressão ofendida que fez o coração do menino dar uma cambalhota.
- Não sou o tipo mais atlético, sabe. – Gargalhou, levantando uma sobrancelha como se fosse óbvio.
- Seu... – Começou, franzindo o cenho, mas parando por causa da dor.
- O quê?
- Obrigada, idiota. – Suspirou, derrotada, olhando para a enfermaria já a frente de ambos, com alívio.
- Prontinho. – Sorriu para a mulher, piscando. – Posso buscar o seu irmão se quiser... Ou sua prima.
- Não! Só...
- Ou posso ficar aqui. – Replicou, entendendo o olhar hesitante da mulher. – Temos... Hum... Temos umas coisas do projeto a discutir mesmo, não é?!
- Sim! – Suspirou, feliz de não ter que convencê-lo a ficar. – Do projeto...


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Uma semana depois, estava caminhando pela escola com o auxílio de muletas. A mulher parecia ter entrado em uma doce trégua com , e desejava que aquele descanso mental nunca terminasse.
Por mais estimulantes que fossem suas discussões, era bom ter uma paz como aquela. Era demasiado cansativo implicar com o menino por tudo somente para mascarar como se sentia. Nicholas queria dar na cara dela toda vez que avistava uma briga entre ambos. Ficava extremamente irritado e passava mais sermões para ela do que padre em dia de missa, mas bastava um olhar sentimental dela para amolecer o coração do garoto.
Nick podia querer trancar e sua irmã em uma sala até se entenderem, mas ao mesmo tempo entendia a hesitação dela. Ele também perdera Josh, mas de forma diferente de . Baker era seu melhor amigo, mas para ele era muito mais do que isso. Seu primeiro amor, que fora levado pela morte cedo demais. Antes mesmo que ela pudesse dizer o que sentia.
Aquela experiência deixara na mulher um trauma que ele não conseguia calcular a extensão, e o preocupava diariamente. Ao menos quando o homem não estava ocupado se preparando para os exames nacionais, os temidos SAT’s que batiam a sua porta com a chegada do fim do ensino médio. Nicholas não contara a ninguém que também aplicaria para uma universidade canadense. Nem mesmo a seus pais ou , o que lhe fizera surtar ainda mais com a pressão que lhe estava inserida.
- Maninho, estou bem, pode ir para a biblioteca estudar. – Replicou , revirando os olhos para o garoto, que insistira em levar-lhe para a sala, mas estava tentando equilibrar em seu outro braço um livro enorme de física.
- Não! Eu tenho que te levar. – Rebateu, parecendo ofendido, mas sem desviar os olhos do papel.
- Olhe! O ! – Suspirou , empurrando o irmão levemente e lançando um olhar suplicante a seu parceiro de laboratório de Química.
- , tudo certo?! – Perguntou com um olhar desconfiado.
- Sim, me leva pra sala, por favor, ou Nicholas vai nos levar ao chão com esse livro.
- Eu só queria ajudar. – Disse o irmão, com um biquinho.
- Eu sei, maninho. Mas eu tô bem.
- Eu levo ela, fica tranquilo. – Piscou , tomando seu lugar ao lado de .
- Obrigado cara! – Replicou Nicholas, balançando as sobrancelhas de forma maliciosa para a irmã assim que se distraiu. lhe mostrou o dedo do meio, antes de virar-se na direção oposta.
Mal deram dois passos, escondia o riso, olhando para longe da mulher.
— Por que você ri tanto disso?! — Perguntou ela, num gritinho irritado. O garoto riu mais gostoso.
— Eu já usei muletas. Você está fazendo isso errado — falou, enquanto ambos caminhavam. De supetão, a menina parou no meio do corredor com seu olhar raivoso.
— Tá me deixando sofrer e rindo da minha desgraça, ?
— Eu precisei aprender sozinho, ok? — Ele chegou mais perto, parando em frente a ela.
— É vingança?
— Dramática. — Rolou os olhos. — Vem cá. — puxou-a pela cintura sutilmente. Mitchell sentiu o corpo vibrar. — Se apoia em mim primeiro. — Ela o fez. O garoto ajeitou as muletas da maneira correta. — Agora você coloca uma aqui. — Encaixou-a de um lado. — E a outra aqui. — Fez o mesmo.
usava certo, porém de uma maneira desconfortável. Digamos que a maneira do rapaz não era a “correta” em si, contudo, a mais confortável.
, você é meu anjo. – Piscou, com um flerte debochado.
— Eu sei. — Replicou, sem um pingo de humildade, parecendo que merecia receber o nobel da paz. Ela riu, rolando os olhos.
- Querido, alguém já lhe disse o quanto é convencido?
- Não. – Bufou. – Mas como duvido que alguém tenha tido a coragem de lhe dizer o quanto é chatinha, eu acho que estamos igualmente mimados pelo mundo.
- Oh, , que coisa bonita de se dizer para a “manca” aqui. – Parou já em frente a sua sala. – Mais alguma palavra de inspiração antes que eu entre na aula?
- Sim. – Pensou um pouco, aproximando-se da mulher. – Acho bom esperar que eu a ajude no fim da aula, se não eu posso ficar tentado a te localizar e pegar no colo de novo. – Ameaçou.
- Você não se atreveria! – Protestou, indignada. Se pudesse, estaria cruzando os braços.
- Não? – Levantou uma sobrancelha, enigmático, partindo para sua própria aula. Seus horários não eram completamente compatíveis, e enquanto antes da trégua agradecia por isso a todos os deuses, agora ficou com uma expressão um pouco triste ao ver seu “anjo” diabólico caminhar para longe.
- Ai Josh, no que fui me meter... – Inspirou fundo, murmurando a seu velho amigo, onde quer que estivesse, e entrou no que seriam próximos minutos de muita distração na aula. Uma vez que sua mente se centrava no passado, era difícil sair de lá.


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Para a irritação de todos os seus amigos, não tardou para que e voltassem a sua velha rotina. Bastou a retirada da bota ortopédica e a curiosidade mórbida de , quanto aos problemas de família do garoto para que ele erguesse novos muros, ainda mais resistentes do que os anteriores.
- Olá, demônio. – cumprimentou , sentando-se na banqueta a seu lado do laboratório.
- Oi, chatinh... Hum, . – Corrigiu-se, fazendo a mulher olhá-lo com suspeita.
- Que bicho te mordeu? Aprendeu a ser gente? - Ela perguntou, com deboche.
- Eu não... Algo assim. – Engoliu em seco, virando-se para o professor.
E assim foi o dia inteiro, com segurando-se para não irritar a mulher, que o observava como se fosse louco, sem entender o porquê de estar sendo tão gentil com ela. Parecia que o homem sabia de algo que ela estava a anos de descobrir. Sua desconfiança somente aumentou quando encontrou Taylor no banheiro, em um dos intervalos e a mulher também agira diferente.
- , oi.
- Tay, tudo bem?
- Não importa, mas você está bem? – Lançou-lhe um olhar esquisito. – Tem conversado com Nicholas ultimamente?
- Não, ele tem estado muito ocupado estudando para os exames e... Espera, o que é isso aí? – Perguntou .
- O que? – Lausen olhou para baixo como se tivesse alguma ruga em sua roupa impecável.
- No seu rosto. – Apontou, franzindo o cenho. – Isso é preocupação? – Perguntou, antes que a amiga surtasse pensando ser uma espinha, ainda mais naquele dia que teria um encontro.
- Não viaja, . – Revirou os olhos, dando de ombros. – Sabe que não faço isso de preocupação. Não quero ter marcas de expressão.
- Hmm, sei. – Murmurou , assustando-se com o abraço súbito que recebeu da amiga, antes que ela saísse do banheiro.
- TAYLOR, isso foi um abraço?! – Berrou, para a porta se fechando. – Mas que merda está acontecendo hoje?! – Irritou-se, saindo atrás da mulher, mas sem a seguir.
Sabia que se havia algo que Taylor sabia fazer era guardar segredos. Já seu irmão... Nem tanto. Anos de viver com o garoto lhe fizeram saber exatamente como tirar uma confissão dele. Era isso, precisava perguntar a Nicholas o que diabos ele tinha a falar para ela.


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Mais tarde naquele mesmo dia, invadiu o quarto de Nicholas, sentando na cama do irmão e cruzando os braços, impaciente.
- , era bom bater, sabe? Sei lá o que podia estar fazendo. – Replicou o garoto, levantando-se do pufe ao lado da janela de onde estudava.
- Primeiramente, eca. – Entortou o nariz, entendendo o que seu irmão estava querendo implicar. – E segundo, desembucha.
- Sobre o que? Tá doida? – Perguntou, franzindo a testa.
- Nicholas, você não é escroto, então não escolha este momento para começar a ser. Sabe muito bem do que estou falando e vai me responder agora mesmo o que é que todos sabem que eu não sei.
- Desculpa, mas eu... – Coçou a nuca, suavizando o olhar. – Só quero ter certeza de que estamos pensando na mesma coisa.
- Que porcaria que você contou para o , e para a TAYLOR, que o fizeram agir estranho comigo a semana toda? Você falou algo com eles sobre o Josh? É isso?
- Claro que não, ! Esse não é meu segredo para contar. Nunca revelaria algo assim para eles sem sua permissão expressa. – Replicou, um pouco ofendido, pegando as mãos da garota entre as suas, e suspirando ao ver as lágrimas se acumulando nos olhos dela.
- Sei que não estou tendo a melhor das adaptações aqui, Nick. Nossa mudança foi muito difícil para mim, sinto falta do Canadá, de nossos costumes e amigos todos os dias. Mas, mesmo assim, não sou tão frágil a ponto de não aguentar qualquer que seja o segredo que tem mantido de mim.
- ... Eu realmente tenho que te contar isso. Me desculpa, fiquei com tanto nervoso da sua reação que escondi por mais tempo do que devia. Daí o sem querer descobriu, e depois a Taylor, e sabe como ela é fofoqueira, era questão de tempo até acabar revelando para você de uma forma bem errada.
- Só confia em mim, o que foi, maninho?
- Ursinha, sabe como tenho estudado que nem um condenado para passar nos exames nacionais, não sabe? – Indagou, usando o velho apelido que usava com ela.
- Sim, chatinho. Tenho certeza de que vai passar para Vermont! Não precisa se estressar tanto. – Assegurou ela.
- Essa é a questão... Eu já passei. – Deu uma pausa, apertando a mão dela e continuando a falar, antes que ela pudesse externar a empolgação que acumulara em um enorme sorriso. – Mas não para Vermont. Não tentei para nenhuma Universidade daqui. – Explicou.
- De Boston, então? Eu entendo se precisar morar um pouco mais longe, Nick. Mesmo que tenhamos combinado de irmos juntos para Vermont... Bem, eu um ano após você.
- Mas , era isso que queria lhe dizer, mas não sabia como... Eu não apliquei para nenhuma Universidade nos Estados Unidos. A que eu passei é no Canadá.
- Oh... – A mulher soluçou finalmente compreendendo. - Você vai embora, não vai?!
- Desculpa. – Suspirou ele, abraçando-a forte e beijando sua testa enquanto ela absorvia o peso da notícia. – Sempre fomos nós dois contra o mundo, mas o Canadá tem nossa infância, um programa melhor para mim de medicina, incluindo uma bolsa e lá tem...
- A Audrey. – Piscou , limpando os olhos. – Eu que devo pedir desculpas, maninho. Devíamos estar comemorando que está indo para onde pertence. O Josh... Não está mais lá por mim, mas eu esqueci-me que a sua paixão de infância está.
- Não quero que pense que estou te abandonando, mas... Eu tinha que escolher, e não seria feliz aqui, . Você não percebe ainda, mas se adaptou à américa muito melhor do que eu jamais poderia.
- Nicholas, isso é besteira.
- Eu não poderia ser feliz aqui, ursinha. Não por completo.
- Não importa se você vai ter que ir, Nick. Eu não consigo ficar feliz por você agora, mas eu juro que vou ficar. Sei que fez a melhor escolha para você, e não poderia esperar algo diferente disso. Se é seu sonho, te apoiarei. Sempre.
- Eu te amo, .
- Eu também, maninho. Eu também. – Sorriu, lançando-lhe um último olhar e saindo do quarto com o coração em sua mão.


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Mitchell sempre foi uma pessoa muito emotiva, ao menos antes de Josh. Qualquer coisa podia fazê-la chorar, desde uma foto de um animal fofinho até uma comédia romântica ou um problema sério em sua vida. Mas depois da perda de seu primeiro amor, aquela era somente a segunda vez que chorava, dando àquele momento uma melancolia ainda maior do que provavelmente deveria ter.
Estava sentada no chão, no pátio atrás da escola, com a cabeça entre as mãos. Ainda não podia acreditar que Nicholas realmente a deixaria. Ambos haviam sempre enfrentado tudo juntos, desde pequenos e pensar em seguir sem tê-lo a seu lado era extremamente doloroso.
Como poderia ficar sem seu irmão? Mas também como poderia dizer qualquer coisa que o impedisse de alcançar seu sonho? Ele sempre a incentivara, nunca decepcionando , estando lá quando ela precisava, não importa os sacrifícios que tenha feito. Ela tinha noção da quantidade de vezes que ele deixou de sair com seus amigos para ficar com ela em casa, assistindo Netflix e da quantidade de vezes que a colocara em primeiro lugar.
Era como se Nicholas Mitchell houvesse colocado em si todo o peso de preencher o rombo que se abrira no coração e na vida de quando Joshua se fora. E estava na hora dela retribuir, de se mostrar forte e incentivar o irmão a perseguir o que realmente queria. De ajuda-lo a convencer seus pais de que aquela era a melhor opção para ele.
Mas não era nada fácil ser a rocha da relação fraterna. Porque rochas sustentam. Porque rochas não sofrem. Rochas não choram, ao menos não na frente de quem suportam. E era por isso que estava ali escondida dos olhos de Nicholas no intervalo. Mas pelo visto não tão bem escondida, já que em poucos minutos, sentiu alguém sentar-se a seu lado.
Soube que era antes mesmo de abrir os olhos. Assim que ele envolveu-a com um braço e ela pode sentir seu aroma, e o calor de sua pele, ela já sabia. Abriu os olhos, não para confirma-lo, mas sim para encarar as belas íris do homem que sempre a hipnotizava.
- Hey... – Disse, estendendo um dos fones de ouvido para ela e olhando para o horizonte, que trovejava e chovia em um caos assim como a garota se sentia.
A mulher suspirou quando ele não a pressionou para falar, imaginando que já imaginasse o motivo de sua tristeza. Ficaram ouvindo a playlist do garoto por um bom tempo, matando boa parte das aulas do dia, as quais já não tinha energia para ir.
Somente aproveitou a presença do homem a seu lado, deixando a mente desligar-se com a música em suas melodias suaves enquanto lágrimas escorriam como um rio por sua face. Incontroláveis e revoltas, como o quebrar de sua rocha, que deveria se recompor antes de voltar para casa. Mas aproveitou aqueles poucos segundos que a suportava, deixando que ele a ajudasse no que sabia que não poderia passar sozinha.
E naquele momento, a mulher podia não saber, mas aceitar ajuda foi a coisa mais madura que poderia ter feito. Conseguiu recarregar suas baterias, e começar a aceitar que a ida de seu irmão não seria uma perda. Ele ainda estaria lá por ela, mas de outras formas, e eventualmente ela descobriria como sobreviver à saudade e à distância.
Se Nicholas tinha a coragem de perseguir seu sonho, ela teria a coragem de descobrir o que queria de seu futuro, saindo do estado aéreo e automático que viveu aquele ano inteiro após a mudança.

“ I wanna be older, I wanna be stronger... I don’t wanna fall at the start
I wanna be quicker, I wanna get closer… Don’t wanna feel worlds apart.”



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No início do ano seguinte...

- Eu te amo, Nicholas. – Murmurou , quando chegara o momento. Nicholas iria partir para a Universidade Canadense a qual havia sido aceito, e aprovado para cursar medicina naquele semestre.
- Eu também, maninha. Cuide-se bem, viu?
- Pode deixar, vou me comportar. Eu hein, parece que nem me conhece. – Riu.
- Conheço sim essa sua habilidade de entrar em problemas. – Revirou os olhos. – Ah, quase ia esquecendo. Fiz essa lista de instruções para você. – Replicou, batendo em sua testa e entregando a , que começou a ler no mesmo instante.
- “Comer”, “Dormir”, “Sair para passear”?! NICHOLAS MITCHELL, EU NÃO SOU UM CACHORRO, CARAMBA! – Berrou, levando um encarar mortal de sua mãe, que olhou a sua volta no aeroporto envergonhada com os gritos da filha.
- Não quis dizer isso, só que...
- Eu sei, bobão. Mas essa regra número cinco de “Não discutir com o ”, você sabe que é irrealista, certo?! Nunca vai rolar! – Replicou. – A culpa é inteiramente dele por ser tão irritante.
- AH, É?! Então enumere ao menos UMA atitude que ele toma para te provocar. – Desafiou, com os braços cruzados.
- Bem, ele... Ele... Faz muitas coisas, primeiro tem aquela expressão ridícula depreciativa dele, e toda aquela atitude debochada de “eu sou o senhor certinho”.
- Você acabou de se descrever, sabe disso, né? – Gargalhou incrédulo, abraçando-a. – Vou sentir falta de você, sua cega.
- Bem, eu não, Nicholas. – Revirou os olhos, emburrada.
- Ouch! Ok então. – Virou-se como se fosse partir.
- Não, esperaaa... – Suplicou, puxando o braço do garoto e abraçando-lhe de volta dessa vez.
- Adeus, maninha. – Sorriu, beijando sua testa. Despediu-se rapidamente dos pais.
- Vic, Tom. – Abraçou-lhes simultaneamente, irritando a ambos com o mau hábito de chama-los por esses apelidos.
- Estamos orgulhosos, filho. – Disse o pai, dando uma leve cotovelada em Victoria que parecia hesitante.

- Posso ter sido um pouco contra a ideia a princípio, mas... Eu só quero que fique bem, filho. – Sorriu, tenuamente, como raramente fazia.
- Obrigado pai... E mãe. – Nicholas disse por último, virando-se com o carrinho cheio de malas, indo para a área de embarque.
- Adeus, Nicholas. – Murmurou mais para si mesma, já que o garoto já estava longe demais para escutá-la. “


Consultório Médico

- E agora somente vejo Nick quando o idiota se digna a dar o ar da graça. – Explicou à psicóloga.
- Eu compreendo, querida. Creio que essa volta de seu irmão para o Canadá tenha sido seu segundo impacto. Somente mais uma das coisas que influenciaram seus sonhos no coma.
assentiu, esfregando sua testa, com nervosismo.
- Nossas sessões estão acabando e não estou nem perto de encaixar todo o meu passado, doutora.
- Paciência é das maiores virtudes, senhorita Mitchell. George S. Patton diz que pressão faz diamantes. Sinto que estamos chegando em um ponto muito importante. Basta ter paciência e continuar a fazer o que está fazendo.
- Vagar pela faculdade sem ter a mínima noção de nada?
- Persistindo na face da adversidade. Lembre das palavras de Einstein, querida, e até semana que vem.



Capítulo 13- Terceiro Impacto


- Está atrasada. – Reclamou a psicóloga, com uma careta para o relógio.
- Desculpe, esqueci-me de avisar que minha companheira do alojamento resolveu me usar de cobaia para praticar o que apresentaria para a irmandade que quer que entremos.
- A senhorita... – Olhou em suas anotações. – Taylor Lausen, correto?
- Sim, ela está bem animada com a semana de aplicações. Acho que também não tem se adaptado tanto com o alojamento em que estamos. Bem, nem eu gostei de lá, e olha que não sou nem de longe fresca como ela. – completou com uma careta.
- E a reconexão com ela tem sido tranquila? – Indagou, começando a teia de perguntas que sempre tecia nas suas sessões e a levavam a revelar mais coisas de seu passado verdadeiro.
- Para ser sincera, não tanto. Sempre que a época do colégio vem à tona, nós acabamos discutindo, sabe?
- Por que acha que isso ocorre?
- Hmm, talvez porque ainda não nos tenhamos perdoado. Afinal, ainda não conversamos sobre o que aconteceu no ensino médio.
- E como isso a faz se sentir?
- Às vezes sinto como se fingíssemos que nada está acontecendo. – Respondeu, mordendo seu lábio internamente.
- Conte-me um pouco sobre o que aconteceu de tão grave no colegial.
- Bem, já discutimos sobre a semana do meu baile de formatura, em que a Tay convidou o sabendo que eu gostava dele, e sem nem ao menos comentar isso comigo antes. Além de ter me exposto para minha prima sobre o que pensava ter acontecido entre mim e o .
- E a senhorita já tentou descobrir a razão para ela ter feito isso?
- Não sei... Acho que talvez realmente devêssemos conversar sobre isso. Principalmente antes das audições da Irmandade Theta-Phi, que ela está me arrastando.
- Pois então, pense um pouco mais sobre o assunto. É curioso estarem buscando uma Irmandade após a senhorita descobrir que a Alpha Kappa Phi foi obra de sua criatividade.
- Na realidade era Alpha Kappa Nu. – Corrigiu com um olhar triste. – Sinto falta de meninas que nunca conheci senão de vista, e de participar de algum coletivo como este.
- Compreensível. – Assentiu a psicóloga. – Mas voltando ao assunto Taylor Lausen e , o que exatamente aconteceu depois de toda a confusão do beijo no baile e depois de sua fuga?
- Nada agradável, receio eu. – Replicou , apertando sua testa e começando o princípio da trajetória que a faria entrar na Universidade como uma pessoa completamente diferente. – Mas a culpa na maior parte foi minha.


“Nas semanas que se seguiram ao beijo no baile de formatura, foi assombrada por suas próprias lembranças. Dos lábios de nos seus, de seus braços a sua volta como um casulo, dos olhos dele no fundo dos dela, tentando desvendar o que a mulher pensava daquilo tudo, mas sem ter pista alguma do que o olhar dela transmitia.


- O que está... A quanto tempo? – Perguntou o homem, sobressaltado com a menina que pareceu materializar-se à sua frente. – Quanto ouviu? Voc...
- Cala boca e me beija, . – Revirou os olhos, puxando o braço do menino, que envolveu-a com firmeza assim que ela grudou seus lábios em um.
Suas línguas acariciaram-se, movendo-se com uma harmonia incrível. Qualquer um acreditaria que eram um casal fazia tempo, ainda mais com a forma em que seus corpos se moviam. Era como se estivessem dançando um tango. a grudava na parede, ela trocava suas posições, ele descia suas mãos em sua cintura, a garota subia para aqueles cabelos que a enlouqueciam.
Poderiam ter ganhado diversas competições com aquele beijo. Nem poderia ser chamado de beijo por sua extensão e duração, estava mais próximo de uma “pegação”. E ambos aproveitaram cada segundo até pararem para respirar.




Após deixa-lo no baile, teve de assumir um papel diário de resistência a . Evitava o garoto de todas as formas, fosse desviando o olhar das amarras de suas lindas íris, fosse sentando-se longe do garoto na cantina e nas aulas.
O único momento que lhe dirigia a palavra, e mesmo assim, mal conseguindo trocar mais de duas sentenças, era no laboratório de química, já que os parceiros definidos seriam impassíveis de trocas, segundo o rígido e incorrigível professor. E mesmo isso ela tentara mudar, mas em vão.
- Ôu, não vai falar com sua prima não? – Reclamou Isabelle, ao ver sua prima passando quase como um robô por ela.
Os fones de rugiam em seus ouvidos, e seu rosto transmitia uma expressão aérea que assustou muito a Kinkaid. Se fosse somente um dia de tempestividade, Isabelle deixaria passar, todos tem seus tempos de fossa e chateação. Mas não era o caso, e já estava com uma postura derrotada fazia mais tempo do que o recomendado.
- Isabelle! – Forçou um meio sorriso, abraçando-a. – Desculpa, eu estava distraída.
- Tem estado muito distraída ultimamente... – Replicou, com o cenho franzido. – Algo aconteceu?
- Nada. – balançou a cabeça, mas plenamente consciente da sua inabilidade de mentir decentemente. Isabelle veria diretamente através de sua “poker face”.
- Quando quiser desabafar, já sabe, . – Suspirou, olhando seu relógio e puxando a mulher em um abraço como somente ela sabia dar.
- Obrigada, Belle. Só não quero falar sobre isso, ainda...
- Vou me segurar nesse “ainda”. Agora vamos que nossa mesa na cantina não se reserva sozinha.
assentiu, aceitando o braço da prima e caminhando com ela e o mar de gente em direção à cantina da escola. Ambas suspiraram ao passarem pelos garotos da equipe de natação. Isabelle sorriu pensando que talvez o problema da amiga não fosse tão ruim, mas interpretara mal o suspiro de , que ocorrera não por admiração dos corpos esculpidos dos meninos, mas sim por sua exaustão mental.
- Daí eu falei para o professor que não teria como entregar o trabalho no dia quatro, já que coincide com a prova de biologia. E você acredita que ele quis marcar a entrega para muito depois? Por isso que entreguei meu trabalho final hoje.
- Hmm...
- E sabe que é engraçado porque estamos na última semana de aulas, sabe. Depois do baile e do vestibular terem passado parece que já acabou de certa forma.
- Pois é... – Respondeu , limpando a garganta e pensando em algo mais elaborado a responder. – Mal posso esperar para tudo acabar de verdade e cada um de nós começar a próxima etapa.
- É lá que sua mente está? – Parou-a, sentando-se já à sua mesa habitual, sendo as primeiras a chegar.
- Onde?
- Na faculdade. – Replicou, prendendo seu cabelo e retirando seu cachecol.
- Ah, sim... Em certa medida.
- Sei que as cartas de aceitação só começam a chegar na próxima semana, mas tenho certeza de que passou para Vermont.
- E eu sei que já está garantida em Berkeley, Isabelle. – Sorriu de volta para a mulher. – Ainda não acredito que vai para um lugar tão distante daqui.
- Não sou a única que pensou em voar longe... – Comentou, levantando a sobrancelha para que encarava a ambas. – Qual é a sua com o , afinal?
- O que Nicholas te contou? – Rugiu , ignorando o arrepio em sua nuca por ser mirada com tanta intensidade.
- Nada demais, eu juro. – Balançou a cabeça, um pouco contrariada. – Nem consigo falar tão frequentemente com o Senhor “Estou Ocupado Aqui Na Faculdade De Medicina”. – Bufou, arrancando um meio sorriso da prima. Olhou novamente de relance para antes de continuar. - Só estou curiosa, . Vocês parecem amigos em uma hora, daí em outros momentos parecem que vão quebrar o pescoço um do outro.
- Temos nossos altos e baixos. – A mulher deu de ombros, abrindo o lanche que trouxera de casa, assim como Isabelle. – Você também tem amizades assim.
- Então ele é seu amigo? – quase engasgou. – Por que sinceramente, me preocupa mais a forma como estão agora. Ele parecendo que tem o ego ferido, dividido em querer vir aqui e te abraçar e em encará-la de longe, e você...
- O que tem eu?! – Apertou os olhos em desafio. - Não inventa, Isabelle!
- Eu nem disse nada... – Fez uma pausa dramática. - Ainda! – Completou, recebendo um bufar instantâneo da prima. - , você está dando um gelo nele. E é visível, cara.
- Não estou dando um... Gelo! Só estou dando um tempo de conversar com ele, de olhá-lo ou de sua presença.
- VULGO... – Abriu os braços em exasperação.
- Não é um gelo. – Repetiu, , começando a refletir se era isso que o menino pensava que ela estava fazendo.
- Só promete que vai conversar com ele e resolver isso antes dele partir para a Califórnia.
- Tudo bem... – Murmurou, revirando os olhos.
- Eu não ouvi.
- Jesus, Isabelle! Ok, ok. – Piscou, confirmando com um tom mais audível.
- Ótimo, porque sinceramente...
- Você viu a temporada nova de Love Island Australia?! – Interrompeu Taylor, recém chegada, dirigindo-se a como se Isabelle nem mesmo estivesse ali.
- Não. – Mentiu , ao mesmo tempo que sua prima reclamou da interrupção. realmente assistira a todos os episódios daquela série que em seu show de vaidade e leveza conseguiu fazê-la tirar a mente de “você sabe quem” por um bom tempo.


, que não era nenhum Voldemort, passou seu final de semana ocupado empacotando suas coisas e deixando tudo preparado para sua mudança. Mas dizer que não pensara em seria não só um forte exagero como uma mentira descarada.
A frase que lhe dissera depois do beijo: “- Isso não vai dar certo. Desculpe.” não saía de sua mente. A mulher resmungara mecanicamente, parecendo outra pessoa, e não a que se conectara com ele em uma simbiose impressionante segundos antes. E o pior, fugira antes que o menino pudesse protestar ou começar a entender o que estava acontecendo.
Ademais, o menino era demasiado orgulhoso para simplesmente caminhar até a mulher e incitar uma conversa, quando ela se afastara dele como se o mesmo tivesse lepra. Não, ele não seria quem teria de puxá-la para ter aquela necessária discussão. Ou seria?
A mente do garoto fervilhava com questionamentos enquanto tentava mirar a mesa da mulher discretamente. Parecia ter falhado, contudo, ao captar o olhar da prima de . Agora, que Lausen se juntara ao grupo só lhe tirara ainda mais a vontade de caminhar até lá e externar suas dúvidas a .


De volta a mesa, o clima não andava nada amistoso, com a habitual troca de farpas entre Lausen e Kinkaid. Agora que Nicholas estava na Universidade do Canadá nem mesmo ele podia zoar a ambas equilibrando o jogo. Fora que ficara com toda a carga, e ultimamente não estava com paciência para ser árbitro nas disputas frívolas de seus amigos.
- “Oi, Isabelle, tudo bem? Tudo sim, e com você Taylor?” – Cantarolou Kinkaid sozinha, revirando os olhos.
- Não faz drama, Kinkaid. – Rebateu, jogando o cabelo para detrás do ombro.
- Não enche, Lausen. – Se endireitou Isabelle.
- Sobre o que estamos falando? – O namorado de Isabelle chegou, jogando sua mochila no chão a seu lado e piscando para a namorada.
- Sobre como a Taylor é mal educada. – Debochou Isabelle, recebendo uma careta de , que já tivera de apartar muitas discussões entre as duas, e naquele dia ter de fazê-lo novamente era a última coisa que precisava.
- Na verdade, estamos falando de Love Island Australia e sobre como a dona me traiu assistindo a temporada toda nesse final de semana. – Taylor apertou os olhos para a mulher.
- Me desculpe se eu tinha muitas coisas para pensar. O drama da Erin com o Eden me acalma por algum motivo. Eu consigo me desligar de raciocínio, sabe? – Disse, seriamente.
- Essa série realmente parece algo para gente sem cérebro. – Murmurou Belle, cantarolando, e recebendo uma cotovelada recriminadora.
- Não julgue sem ter assistido! Tem toda uma filosofia... – Começou, Taylor, ainda ofendida.
- Então quer dizer que é muito mais do que garotas de biquíni e caras sem camisa participando de jogos com apologia sexual? – Isabelle levantou a sobrancelha.
- Na verdade é basicamente isso. – Replicou com um biquinho. – Mas é muito bom, e ponto.
- Hmm, sei. – Assentiu Belle, tentando segurar o riso, e vendo Taylor revirar os olhos.
- Enfim, mas eu pensava que assistiríamos juntas, .
- Desculpa, só que eu tenho passado muito tempo em casa. Foi muita tentação para resistir. – Suspirou, olhando para sua bandeja, sem muita fome.
- Falando nisso, achava que você estaria engolindo a garganta do a uma hora dessas... – Franziu Lausen, recebendo um chute por debaixo da mesa. – EI!
- Ok, agora você tem que elaborar, se não vamos ficar aqui imaginando o que aconteceu entre vocês. – Disse o namorado de Isabelle.
- Nada demais, gente. Só que no baile nos beijamos e depois eu fui embora.- Simplificou , cruzando os braços em defesa.
- O QUÊ?! – Isabelle berrou, inclusive chamando a atenção do dito cujo, que finalmente pareceu decidido em caminhar em direção à mesa deles.
- Não foi nada demais, eu já disse. – Murmurou nervosamente e apressada.
- !
- Não é como se algo fosse acontecer entre mim e o...
- Hum, ... – Cortou a prima, ao mesmo tempo em que sentiu o aroma ao qual estava tentando se esquecer desde o baile.
Havia inalado o perfume no pescoço de , o que parecera um caminho sem volta. Taylor deu uma risadinha com a tensão que se instalou na mesa, pegando seu celular e começando a checar suas redes sociais.
- Posso falar com você? – O garoto proferiu, com uma face dura.
- Eu... – Olhou para o relógio, tentando encontrar uma desculpa para fugir, mas percebendo que ainda faltava muito para o sinal tocar.
- Ela pode sim. – Replicou Isabelle, empurrando a prima, que assentiu, encurralada e começou a andar com o garoto, mas não sem antes mostrar o dedo do meio à prima.
Caminharam até o local onde o garoto havia lhe consolado pela partida de Nicholas no ano anterior. E ao mesmo tempo que parecia que anos haviam se passado, também era como se parte de ambos ainda estivesse ali, escutando músicas de sua playlist e observando o horizonte chuvoso.
Mas agora o cenário era completamente diferente, não somente com o sol que brilhava no céu, apesar do vento frio que atingia e enlouquecia seus cabelos. Também estavam em outro lugar emocionalmente, haviam atingido um ponto do qual seria quase impossível retornar. Sua amizade maluca de altos e baixos não voltaria a sua simplicidade, não depois de provarem dos lábios um do outro. Não depois do garoto haver exposto seus sentimentos e ela ter fugido daquela forma.
Tudo bem, talvez nunca houvesse sido simples. Com todas as discussões e desentendimentos. Mas isso havia se tornado natural a eles, enquanto agora já não sabiam mais o que dizer ou como agir. Aquele era todo um novo território a ser explorado, que porém já não mais o seria.


- Eu não te trouxe aqui para discutir contigo. – Começou, sem olhar para ela. - Você deixou suas intenções bem claras...
- Mas eu não disse nada para você. – Balançou a cabeça.
- Suas ações falaram alto. – Finalmente seus olhos encontraram os dela. - Você foi embora, . Eu entendi. – Seu tom de voz foi fatalista.
- Eu fui... Eu fui porque não sabia como lidar com tudo... aquilo. – Tentou explicar.
- Meus sentimentos? – Testou. – Ou será que não sabia lidar com os seus?
- Nenhum dos dois! – Exclamou, confusa. - Ou os dois... - Mordeu o lábio, hesitante. - Não sei, . Eu tinha que me afastar da situação para conseguir pensar.
- E então? – Deu de ombros.
- Eu gosto de você... – Murmurou, vendo o garoto se aproximar sem hesitação e colocar uma de suas mãos na parede a seu lado.
- Quanto. – Sibilou em seu ouvido, fazendo-a se arrepiar toda.
- Muito. – Respondeu, levando os olhos da boca de para seus olhos.
Seus narizes se encostaram e seus lábios ficaram tão próximos que alguém olhando de longe pensaria que estavam selados um no outro. Aquela iminência foi o inferno para , já que não só teve de se segurar para não jogar sua mochila ao chão e agarrá-lo ali mesmo, como também teve de ver de perto o estrago que suas próximas palavras teriam naquela relação.
- Mas... – Começou ela, sentindo-o se retesar e olhá-la diretamente nos olhos.
- Mas o que?
- Não posso ficar com você, . Eu tenho uns esqueletos no meu passado que dificultam muito isso aqui. – Disse, gesticulando para ambos. – Além do que você vai para a Califórnia na semana que vem. Não faz sentido começar algo agora.
- Eu entendo. – Suspirou, apoiando a testa na dela. – Não gosto, mas entendo. Já que você não quer nada agora... Eu devo... Vou respeitar isso.
- Só não sinto que agora seja o momento. – Falou a mulher, buscando nos olhos do menino traços de compreensão.
- Eu vou deixa-la em paz, então. – Assentiu, afastando-se. – Mas me promete uma coisa.
- Prometo. – Disse ela, sem conseguir segurar-se.
- Por favor, - Sorriu - Prometa que se algum dia você sentir que esteja aberta para existir um “nós”, você vai me dizer. – Replicou.
- Mas e se... – Começou, sendo cortada logo depois.
- Não. Sem condições, sem “e se”. Só seja honesta comigo, seja qual for a situação. E eu o serei contigo.
- Ok. – Cedeu ela. – Justo. - O garoto assentiu. – Obrigada por ter compreendido. Significa muito.
- Eu não sei o que aconteceu com você, mas só toma cuidado para que isso não te impeça de viver.
simplesmente assentiu, roubando-lhe um selinho rápido antes de se despedir.
- Adeus, .
- Até mais, .”


finalmente voltou o olhar para a psicóloga, como que acordando novamente do seu passado. A mulher parecia cheia de perguntas, então simplesmente esperou que ela começasse.
- E não o viu desde então?
- Eu esbarrei com o na faculdade tantos anos depois, em algo parecido como em meu coma eu pensei o ter conhecido. Mas não ficamos muito próximos, afinal, ainda tinha muito sentimento acumulado, ao menos de minha parte.
- E ele e o senhor ?
- Ainda não sei bem como ficaram amigos, isso foi certamente pós-coma.
- Então antes de seu acidente não teve muito contato com ?
- Até aquela noite mantive-me bem longe dele. – Respondeu, assentindo em confirmação. – E por isso eu devo ter depositado tanta importância a ele em meu sonho.
- O que quer dizer? – Perguntou a psicóloga.
- Ele estava lá quando eu fui atropelada. Quer dizer, estava na festa.
- Entendi. Senhorita , me parece que teremos que encerrar por hoje. – Fez uma careta para o relógio. - Mas gostaria de tentar retornar a esse ponto na próxima sessão. Gostaria que nesse meio tempo trabalhasse em refletir sobre a noite de seu acidente, quanto ao que realmente aconteceu, e não foi obra de sua criatividade durante seu “sonho”.
- Certo. – Replicou , com uma careta. – Não vai ser fácil, mas posso tentar.
- Faça o que sempre lhe digo, vá seguindo as migalhas de pão, os fatos certos e correspondentes à realidade que com calma chegará onde quiser em sua memória.
- Obrigada. – Sorriu, assentindo. Depois da sua despedida do no colegial, a noite de seu acidente seria outro tema para uma sessão difícil de ter que se abrir com a psicóloga.



Capítulo 14- Último impacto


- Como está, senhorita ?
- Esta semana tem sido tranquila... – se remexeu na poltrona, dando um longo suspiro antes de continuar. – Então bem, eu acho?
- Isso é você quem tem que me responder, querida.
A psicóloga franziu o cenho, com desconfiança, encarando—a mais do que o normal, mas não notou, demasiado distraída com a vista que se tornara habitual para que encarasse durante as sessões, vagando por sua mente turbulenta. Distraída era seu estado mental constante desde que acordara.
Na verdade, era bem difícil distinguir o conceito do que era estar realmente bem, em seu estado atual. Não que estivesse ainda triste, ou qualquer coisa do gênero. só se sentia ‘’ela’’. A finalidade de conversar com a psicóloga era a recolocar nos eixos do que seria sua ‘’vida real’’, e não o que viveu em seu ‘’sonho’’; mas como ela podia sentir-se tão deslocada em sua realidade? sentia que era mais a mentira, do que a realidade que tinha que se forçar a entender.
Às vezes não queria acreditar que vivera mais de um mês dentro de sua própria cabeça. Como imaginara as coisas diferentes, mudadas, melhores. Como se imaginara mais confiante, mostrando para o mundo quem realmente era. não se preocupava com as consequências de ser ela mesma, ela vivia e dizia tudo como pensava e quem não gostasse que ficasse longe dela. Agora a menina que acordou, parecia uma concha habitada por outra alma. Uma muito mais medrosa, com inseguranças, humana.
Contudo, nada fora em vão, era com esse pensamento que se confortava.
Repetia em sua mente milhões de vezes ao dia e talvez por esse motivo andasse tão aérea naqueles dias. não era muito crédula de forças maiores, de Deuses ou coisas parecidas, embora tivesse suas dúvidas, no entanto, essas se tornaram frequentes após o acidente. Nada daquilo podia ter sido uma obra sem sentido. Algo terrível aconteceu para que ela pudesse descobrir quem realmente era, dentro de si mesma, o que lhe dava a sensação de que alguém além dela, sabia de um potencial que havia ali... Sim, era confuso. se perdia sempre nisso.
Mas havia algo que ninguém poderia tirar de dela. Um pequeno triunfo naquele mar de azar. Um presente que a do sonho lhe dera: conhecimento. Um autoconhecimento profundo de exatamente o que devia fazer para se tornar seu melhor. A receita para ser tão segura de si, se é que havia uma receita.
Por agora deveria se preocupar em curar as enfermidades de sua alma. Retirar todo aquele sofrimento ou ao menos aprender como conviver com tudo o que passara. Com o trauma de perder sua tia Kate e seu primeiro amor Josh, lidar com o alheamento de seus pais, a sua própria fragilidade e talvez para sempre o amargor de ter perdido a chance de ficar com .


- Essa semana é a decisiva, dos exames, certo?
- Sim! – espalmou as mãos nas coxas, dando um risinho de lado. – Mas com o estudo estou acostumada, nada que eu não consiga dar conta, e...
- E? – a mulher ergueu a sobrancelha. –
- E isolamento não me é estranho...
- Continue querida.
- Quando entrei na faculdade, com tudo o que aconteceu no final do colegial, acabei me enclausurando demais. Não fazia nada que não fosse estudar e assistir séries em casa. Não fiz amizades nem nenhuma relação semelhante, sabe?!
- E o que a fez sair dessa situação? – Indagou debruçando-se sobre os joelhos. – Digo, você mencionou um apelido...
- Rainha de Vermont. – Respondeu de prontidão, a sensação de lembrar a fez sorrir genuinamente. – Sim, eu evoluí de zumbi para rainha das festas em pouquíssimo tempo.
- E como isso aconteceu?
- . – Respondeu. O tom forte chamou a atenção da psicóloga que notou a pausa de alguns segundos, levando a acreditar que, em , um lapso de memória se desencadeou. – Ele foi muito importante para que eu me abrisse nessa fase, só caiu de paraquedas, mas...
- Mas?
- Nós éramos melhores amigos. – Soltou um suspiro, encarando os dedos das mãos. – Foram dias incríveis, claro que com alguns problemas... Mas foram ótimos pra nós dois eu acredito, até o dia do acidente. – Fungou, voltando a encarar a psicóloga a sua frente. –


Seu olhar estava carregado.
Foi a primeira constatação feita. não desviou o olhar dos olhos de sua psicóloga ali em frente, mesmo sabendo que a mesma lhe analisava minuciosamente; diferente de todas as outras consultas, era o que ela queria. Queria que no fundo pudesse de alguma forma transpassar que a noite do acidente, tinha sido de fato, seu pico, em dois extremos tão carregados que podia assemelhar ao big bang dentro de seu próprio universo. Que ali naquela noite a verdadeira foi concebida, e que ela estava ali em algum lugar dentro de si, prontinha pra renascer.
Ela não queria relembrar o que tinha sido, queria ser o que estava fadada a ser.


- E chegamos no tópico principal. – Assentiu a psicóloga, retirando os óculos após um período de silencio. – Conseguiu refletir sobre aquela noite?
- Eu tenho refletido desde que eu acordei, doutora. – Suspirou. – Digo, não é fácil... Algumas coisas ainda ficam bem confusas, mas eu acredito que consegui encaixar o principal.
- Está pronta para falar sobre isso?
- Sim.
- Então vamos começar com o período de clausura e, com calma chegaremos à noite de seu acidente, tudo bem? – Perguntou como quem ditava as regras á uma criança de quatro anos. –


assentiu, engolindo uma grande quantidade de saliva, rezando para que sua sanidade mental sobrevivesse ao fim daquela sessão, sem ter um colapso de seus dois mundos.


“ – VAI VANCOUVER CANUCKS! – Berrou , ouvindo Nicholas acompanhar seu tom do outro lado da linha.
- Saudades, maninha.
- OWNN... – Falou, toda derretida, através do fone do celular. – Sempre soube que me amava.
- Não exagera, pequena. É que sem você aqui não tem ninguém para quebrar os vidros daqui de casa.
- HÁ.HA. Nicholas, obrigada pela parte que me toca, mas não se preocupa não que eu sou plenamente consciente da minha beleza, ok?
- Eu não estava falando disso! – Gargalhou, incontrolavelmente. – , eu quis dizer vidro normal e não espelho.
- E como que esperava que eu interpretasse, idiota?
- Ué? Não é óbvio que com esses berros desafinados você iria perturbar a integridade dos artigos quebradiços?
- Aí está. – Riu, sem graça.
- Você sabia que estava vindo. – Replicou, fazendo-a visualizar seu dar de ombros como se ele estivesse ali a seu lado.
- Pior ainda né, NICHOLAS?! Retira o que disse agora mesmo! Sabe o quanto sou insegura quanto a cantar.
- Desculpa, bebê. Sabe que sou seu fã número um, sempre. Mesmo que você fosse uma foca engasgada. – Replicou, quase fazendo a mulher cuspir seu suco no computador de onde assistia o jogo da liga canadense de hóquei no gelo junto a seu irmão. - Mas não tem nada com que precise se preocupar com essa vozinha de sereia.
- Fico agradecida, parece até que você virou gente de repente. – Riu, remexendo-se de sua posição deitada na cama.
- De nada, ursinha. – Replicou o garoto, bem na hora que desequilibrou-se de sua posição ao contrário e deixou que o computador caísse bem em sua face.
- OUCH! – Berrou, mas dessa vez de dor e não de animação. – Nick, falamos depois.
- Tudo bem?
- Não, deixei a porcaria do notebook cair na minha cara. – Resmungou, desligando antes que ele pudesse começar a onda de provocações que a alcançariam eventualmente de qualquer forma.
A mulher pegou o kit de primeiros socorros em seu banheiro de casa e aplicou um curativo sozinha. Imaginou que seus pais não estivessem em casa, workaholics como eram, e decidiu esperar para ver se o pequeno corte que se abrira em sua bochecha pioraria no dia seguinte, e se fosse o caso decidiria ir ao médico de verdade.


--


- Merda. – Suspirou , caminhando pelo campus de Vermont, extremamente autoconsciente do band-aid do Bob Esponja em sua face. Sua ferida havia começado a cicatrizar, porém, ainda não estava bem o suficiente para ficar exposta e para sua alegria, somente tinha uma caixa antiga de curativos com temas de desenho animado.
- Ei! Menina! – Chamou uma voz, que a fez virar irritada e com suas barreiras de proteção erguidas.
- Olha só, garoto! – Começou, avaliando o belo espécime, com um físico típico de um jogador de futebol americano dos filmes adolescentes. Mas como Vermont não tinha um time como este, imaginou que fosse um idiota qualquer de fraternidade. – Eu ando como eu quiser por esse campus. Não me interessa qualquer observação que tenha sobre o meu curativo, entendeu?!
- Hey, calma! Eu só...
- Você só? – Replicou, com ênfase demais, estreitando os olhos. Devia estar parecendo uma louca.
- Queria dizer que você deixou cair sua agenda... – Completou, arregalando uma sobrancelha, com um sorriso divertido. –
- Ah... – Respondeu, desarmada e envergonhada.
- E pra ser sincero, ninguém notaria direito esse band-aid de bob esponja na sua bochecha...Na verdade eu achei uma graça. – Piscou, entregando-lhe a agenda, a piscadela que veio após aquilo poderia ter desmontado por completo, se, por outro lado, seu lado orgulhoso não existisse. Acima da vergonha, existia um orgulho .
- Na verdade eu não preciso que você ache nada . – Explicou, devolvendo o item a sua bolsa, voltando a sorrir sem mostrar os dentes. – Eu e meu band-aid do bob vamos nos retirar, e ir estudar para os exames.
ouviu o garoto gargalhar, deixando-a confusa, ato que lhe fez diminuir os passos ao passo que em que garoto chegou até ela facilmente.
- Tudo bem, posso acompanhar vocês? – ela deu de ombros continuando a andar. – Qual é seu curso?
- Direito, e o seu?
- Políticas Públicas. – Respondeu, com um sorriso ainda mais amplo. –
- Legal.
Ele deu um suspiro.
- Por que eu nunca te vi por aqui mesmo?
- A minha resposta faz realmente diferença? – respondeu irônica, parando em frente a sua sala. –
- Claro. – Ele deu de ombros. – Eu, você e o bob podíamos continuar essa conversa tomando um café?
- Não. – Entortou a cabeça e o garoto sorriu. Porque ele sorria tanto? estava sendo um porre e admitia isso. – Tenho aula, garoto das políticas públicas.
- Mas ninguém tem aula as 18:30pm, então... – Ele ergueu os braços e tombou a cabeça nos ombros. – O bob concordou com o café, acho que você vai ter que leva-lo até mim. – Deu de ombros. – Seis e meia no Waak! – Berrou, se juntando aos amigos e partindo antes mesmo que a menina pudesse lhe perguntar onde diabos ficava isto.


++++


- Então me diga, o que uma canadense faz aqui no interior de South Mills?
- Não sabia que uma cidade desse tamanho tinha interior. – Gargalhou, sugando o canudinho do milk-shake.
- Ah, imagino que vindo de Saskatchewan realmente essa cidade pareça um ovo em comparação.
- Aqui está. – Interrompeu o funcionário, depositando dois hambúrgueres gigantes inundados em uma piscina de batatas fritas à frente do casal. – Tenham um bom apetite.


Agradeceram rapidamente antes de devorarem a comida com os olhos e depois com suas bocas. Mal conversaram durante esse tempo, mas o tempo inteiro que passaram juntos havia sido muito agradável. Até que ir até lá não tinha sido uma má ideia, de jeito algum.
, então, que finalmente saíra de casa para algo que não fosse aulas ou compras domésticas, parecia estar nos céus com tudo aquilo. Por um segundo parou para pensar quando fora que caíra tão no fundo do poço que esbarrar em um menino aleatório se tornara a grande novidade de seu dia. Pois então, a culpa toda era do Netflix e suas viciantes séries novas. Claro que sua da solidão e isolamento por conta de experiências de relações sociais passadas não tinham nada a ver com isso.


- Hey, . – Chamou o garoto de fraternidade pouco depois de se despedirem e ela haver se virado para ir embora.
- O que foi ? – Replicou, também referindo ao nome completo do garoto.
- Apareça mais. Seria uma grande perda pro mundo se guardasse esse seu sorriso só pra você. – Piscou, tomando seu próprio caminho, rumo à sede da Sigma-Tau.


E aí já dava pra imaginar onde as coisas foram parar, não é?


--


- Quem fala é a senhora mentirosa? – Perguntou , falando através de seus fones de ouvido.
- Do que mesmo estou sendo acusada? – Replicou , do outro lado da linha telefônica, balançando a cabeça em repreensão.
- Zeta Zeta Ômega. Sábado. Meia noite. Desperta alguma lembrança em você? – Indagou, secamente.
- Hum. – Pigarreou a mulher, mordendo o lábio inferior. – Eu tive um compromisso inadiável. Sinto muito, .
- Você prometeu que ia! Patrick estava ansioso para conhece-la pessoalmente. Os caras da Sigma-Tau já acham que você é uma invenção da minha cabeça.
- Bem, desculpe, mas realmente não deu.
- Você acha que não te conheço, ? – Perguntou, se irritando levemente com o silêncio em resposta. – Ok, não responda isso. Eu sei o que “compromisso” “inadiável” significam. – Resmungou, fazendo-a sentir as aspas mesmo à distância.
- E o que é isso? – Riu.
- Netflix e pipoca, . – Revirou os olhos. – Me diz ao menos por qual série você me trocou.
- Dilema. – Falou, um pouco rápido demais. – É nova, dos mesmos criadores de Revenge.
- Traidora. – Replicou. – Eu sei que assistiu Homeland sem mim.
- Não se preocupe, . Como sei como me ama, fiz um vídeo com minhas reações para quando você for assistir não se sentir tão sozinho.
- Há. Há. – Disse, irônico, mas com um sorriso real no rosto, que fez com que Patrick começasse a fazer movimentos obscenos, piscando para ele.
- Mas foi mal mesmo, . Só não sei se essas festas de fraternidade são muito a minha praia.
- Bem, você só vai descobrir indo para uma. Me dê só uma chance, . Por favor. Se você não gostar eu nunca mais peço.
- Humm... – Resmungou, ouvindo uma certa luta do outro lado da linha. Só entendeu o que acontecia, ao ouvir a voz de Patrick falando do celular de .
- Ora ora, se não é , a rainha das séries e do meu coração. – Proferiu, com um tom sedutor.
- Olha se não é o Patrick Dawson, o rei das baladas e das cantadas de baixa qualidade. – Respondeu, com um tom brincalhão, fazendo ambos caírem na gargalhada minutos depois.
- Quando é que vai aparecer, gata? Estamos começando a achar que é uma assombração.
- Algum dia eu vou, paixão. – Manteve a brincadeira. – Mas tenho que dar um pouco de trabalho para nosso primeiro, certo?
- Só não tortura muito nosso menino, por favor, gatinha. – Pediu, com um tom um pouco mais sério do que a mulher esperava. – Ele parece realmente estar em volta do seu dedinho.
- Não se preocupe, só quero o bem do . Somos só bons amigos. – Ela falou, ouvindo uma discussão ao fundo, provavelmente tentando retomar o controle da ligação.
- Se ele sabe disso, então estamos entendidos. – Replicou, com um tom sorridente. – Agora preciso ir, gatinha. Já abusei demais da boa-vontade do reizinho da Sigma-Tau, não quero ser rebaixado do meu posto de seu fiel escudeiro.
- Tudo bem, Dawson. Vai lá. – Riu, virando de lado em sua cama e abrindo um sorriso.
- ? – Indagou . – Ainda está aí ou ficou surda com as besteiras que aquele ali disse?
- Tô aqui, reizinho da Sigma-Tau. – Debochou, esperando retaliação.
- Também vou ter que desligar, chatinha. Mas antes quero que prometa, e dessa vez pra valer, que vem na festa de sexta feira, aqui na Sigma-Tau.
- ...
- O tema vai ser festa do Blackout, então se quiser, traz uma lanterna ou alguma luzinha que tenha. – Ignorou. – Vai começar meia noite, não se atrase.
- Por deus! Tudo bem, eu juro que eu vou. Agora pode parar de falar de festas?
- Só acredito te vendo aqui na minha porta. – Resmungou, mas aceitando a promessa.
- Até mais, bobão.
- Até mais, futura rainha de Vermont.


--


- Ora ora, se não é a rainha do Netflix e do meu coração. – Disse Patrick, mal acreditando na mulher a sua frente.
- Achei que você prepararia uma nova quando me visse. – Replicou se fingindo decepcionada. Patrick sorriu largo. –
- Essa é toda exclusiva sua, gatinha. – Piscou. Os garotos dessa fraternidade tinham essa mania de piscar, chegou a cogitar que este era um requisito imprescindível para fazer parte do show, o que eu quero dizer, as piscadelas eram de fato, muito sedutoras. – Você veio, pequena! – Abraçou-a forte. –
- Sim, Dawson. – Controlou suas risadas, ajeitando seu vestido que havia levantado com o estardalhaço. – Vamos acabar logo com isso. – Inspirou fundo como se estivesse prestes a entrar em um campo de batalha.
- Gata, você não faz ideia. – Balançou a cabeça, envolvendo-a com um de seus braços e levantando com o outro, um copo que sabe se lá de onde tirara. Levantou em um brinde, berrando para o aglomerado de pessoas dançando, conversando e bebendo na festa. – Bebês, o papai está em casa!
corou violentamente, arrependendo-se de imediato de ter saído do conforto de sua casa. Talvez não fosse tarde demais para retornar para sua cama... Certo? nem sabia ainda de sua chegada, não ficaria assim tão decepcionado...


- ! OLHA QUEM VEIO! – Berrou Patrick em seguida, quebrando seus planos de fuga. Imediatamente se materializou à frente deles, absorvendo a imagem de ali, finalmente acatando suas súplicas.
- CARALHO, em uma festa de fraternidade?! Não consigo acreditar.
- Nem eu. – A menina balançou a cabeça, sendo envolvida por um abraço apertado de um ligeiramente alcoolizado.
- Agora sim a festa pode começar. – Balançou a cabeça, envolvendo-a pelo seu outro lado.
E foi assim, com Patrick de um lado e do outro, que foi apresentada a cinquenta pessoas aleatoriamente selecionadas. Muitos da fraternidade mesmo, outros meros conhecidos dos meninos, bêbados como gambás.
“Damien, cara! Saca só quem tá aqui!”, “Mary, você TÊM que conhecer a ! Vão ser advogatas juntas, mano!”, “ Hey, Thomas e Andy, eu disse que eu não tinha inventado a !”. Tudo isso fora só uma provinha das apresentações, até que resolvesse começar a beber. Se permitiria viver toda aquela experiência, afinal, não sobrara muita vergonha na cara com aqueles dois em seus flancos.
Não sabia exatamente como, mas fora provavelmente aí que a festa começara a tomar um novo rumo. A música que antes parecia alta demais, agora retumbava deliciosamente em seu peito. As luzinhas piscantes e irritantes inicialmente, agora pareciam pontinhos dançantes por todo o recinto. E por isso que a mesinha pareceu um ótimo lugar para a mulher subir e resolver animar um pouco mais a festa.
- EU DIGO SIGMA VOCÊS DIZEM TAU. - SIGMA
“TAU!”
- SIGMA.
“TAU!”
E berrou por mais uns minutos até a próxima música começar e reconhecer os acordes melódicos do Arctic Monkeys ecoando pela sala.
- PATRICK ESSA É MINHA MÚSICA!
- VEM DANÇAR RAINHA DE VERMONT! – Vibrou Patrick, ajudando-a a descer da mesa com toda a graça de uma bêbada. Mas assim que chegou ao chão, não foi Patrick que a envolveu com os braços. No lugar, ele a entregou nos de , que nunca havia deixado seu lado durante toda a festa.
E não é que a palavra tinha poder? tinha aderido o apelido de Rainha de Vermont, e estava se sentindo ótima com aquilo.
A mulher achou ter ouvido Patrick sussurrando algo como “boa sorte” no ouvido de , mas novamente, não estava tão clara nas ideias naquele momento. Por isso que quase derramou lágrimas em agradecimento quando ele lhe entregou um copo com água.


- Obrigada, . – Sorriu, engolindo tudo quase que em um só gole, e enrolando os braços no pescoço do garoto.
- De nada, princesa. – Piscou, balançando na pista com ela, na batida de “Do I Wanna Know”.
Em algumas partes da canção ele se aproximava para cantarolar levemente em seu ouvido. Porém durante todo o resto do tempo seus olhos se trancaram um no outro, possuídos por um feitiço magnético que os impedia de se afastarem por muito tempo.
- , sei que não está sóbria, também não estou tanto assim, mas... – Suspirou, com a música chegando ao fim.
- Eu sei, ... – Virou a cabeça para o lado enquanto ele enrolava uma mecha de seu cabelo. – Mas no momento eu não ligo.
- Tem certeza? – Arregalou as sobrancelhas, duvidoso.
- Só me beija, . – Assentiu, mas ela mesma avançando para encostar seus lábios juntos.
Beijaram-se por horas na pista de dança e depois no quarto do garoto até caírem no sono em um abraço apertado que durou até a manhã seguinte. Não foi naquela noite que sofreu o acidente. Mas foi aquele dia que provavelmente desencadeou o emaranhado de eventos que culminou em uma noite, parecida com aquela, mas com um fim muito mais preocupante.”


--


De volta ao consultório...
- Podemos dar mais esse passo, certo? – Indagou a doutora.
- ... - encarou suas mãos em silêncio por uns segundos antes de responder-lhe. - Sim. Não há sentido em adiar o inevitável, afinal.
- Se está confortável com isto, vamos falar da noite do acidente...

Capítulo 15- Noite do Acidente




20:00 hrs – Dinner Waak.



- Estou avisando que vai ser muito vacilo se você não for. – Suspirou , um pouco exaltado.
- Qual parte de “eu tenho que estudar” você não entende? – Perguntou , encarando seu namorado impacientemente. Era sempre a mesma discussão com e .
Ele somente não conseguia compreender que apesar de a ter tirado da concha de solidão que se havia se metido, não significava que sua personalidade havia completamente se transmutado para a tal “Rainha de Vermont” que Patrick e ele idolatravam.
- A prova é em duas semanas, ! – Exclamou, frustrado. – Sim, eu sei disso. – Revirou os olhos ao ver os da mulher se arregalando. - Tenho contatos em Direito.
- Ok, você quer sinceridade, certo? Eu não quero ir, . – Balançou a cabeça, buscando a mão do garoto na mesa. – Não tenho interesse nas festas de fraternidade como você. É isso que queria ouvir?
- Ah, me desculpa se eu só queria passar um tempo com a minha namorada! – Replicou. Pegou a mão da namorada e fez um biquinho que suavizou sua expressão.
Ela olhou para as mãos unidas e soltou um suspiro desanimado.
- E tem que ser numa festa de fraternidade? Onde todos querem um pedaço da sua atenção? - Perguntou num tom irônico. Libertou sua mão e o encarou seriamente.
Ele revirou os olhos e cruzou as próprias mãos em cima da mesa.
- Você sabe que tenho minhas responsabilidades como líder da Sigma-Tau. Patrick diz que um bom líder está ao lado dos seus na alegria e tristeza, mais do que justo ir à festa. - Deu de ombros e abriu um sorriso inocente para a namorada.
soltou um suspiro e massageou as têmporas, um gesto que evidenciava o seu cansaço. Discutiam sempre pelos mesmos motivos: as diferenças que tinham. A fase da paixão é como uma venda que lhe cobre os olhos, impedindo que enxerguem os defeitos e acreditem serem capazes de superá-los. Ou talvez, os apaixonados que não queriam ver a verdade. Verdadeiramente, acreditou ser capaz de lidar com as diferenças, mas estava sendo cada vez mais difícil.
- Eu preciso estudar. - Reforçou.
- Tá legal, . - Falou rispidamente. - Só não quero que você perca uma experiência foda de faculdade pra ficar em casa moscando.
- Primeiro que eu não fico em casa no tédio. – Enumerou, gesticulando com suas mãos e o olhar sério. – E segundo que eu gosto de programas tranquilos.
- Para de criar desculpas para ser antissocial. – Proferiu, cruzando os braços no peito inflado. Como se de alguma forma ele se achasse superior a ela. Ou ao menos foi o que pareceu para ela naquele momento. E estava cansada. Muito cansada daquela história para se importar se havia mal interpretado ou não o tom de .
- Já chega, . – Inspirou fundo, levantando-se. – Você sempre soube como minha personalidade funcionava, que eu nunca fiz o seu ‘’tipo’’, e que, mesmo assim, eu tenho me esforçado bastante pra gente dar certo, mesmo que você as vezes não entenda que eu prefiro ter os meus momentos. – Expirou, buscando sua bolsa e se levantando. – Se não está feliz com sua escolha, não deveríamos estar namorando.
- E você está feliz com a sua? – levantou o tom, chamando a atenção de alguns presentes ali. fechou os olhos por alguns segundos antes de responder.
- Boa pergunta, .


Conhecia mais do que ele mesmo. Naquele tempo que haviam passado juntos, ele havia sido até que um bom namorado para ela. Apesar da equivocada fama de galinha do , que parecia circular toda a faculdade, com a surpresa de todos ao descobrirem que estavam juntos.
Pouco tempo após a noite que haviam dormido juntos (no sentido literal da palavra), ele a chamara para sair. Eram bem diferentes, viviam em mundos completamente distintos, e encontravam-se de forma pouco frequente, mas periódica. E essas diferenças estavam pesando. Nem sempre o gostar é suficiente para fazer um relacionamento dar certo e infelizmente, por mais que ela gostasse do garoto, as diferenças estavam dificultando ainda mais as coisas entre eles.
Talvez por não nutrir de sentimentos tão intensos por , a mulher conseguira se abrir como não conseguira fazer com . Talvez estivesse tão esgotada daquela relação justamente por frustração. Finalmente quando se permitira levar por sentimentos após o Josh, caíra em um relacionamento tão cheio de rachaduras. era diferente, por mais que não quisesse admitir para si mesma e apesar de gostar muito dele como um amigo colorido, sabia que qualquer relação maior que isto estaria fadada ao fracasso.
conhecia apenas uma parte dela. Sentia-se no dever de salvar a quota introvertida de sua personalidade trazendo-a para a extroversão. Não parecia compreender que nem tudo que aparentemente o fazia feliz, seu estilo de vida, seria adequado a qualquer pessoa. Não parecia entrar em sua cabeça que as pessoas podiam ser mais de uma coisa. Ela podia ser a “nerd número um” da turma de segunda a quinta e ainda sim ser a Rainha das Baladas de Vermont de sexta a domingo. Ele sofria da síndrome de herói, queria resgatá-la das garras do anonimato e levá-la para uma vida “feliz”. Assistiu muita comédia romântica para acreditar que o relacionamento entre o popular e uma anônima daria certo, e o mais triste de tudo, ela também acreditou nisso.
No fundo, possuía a teoria de que perdia tanto tempo preocupado com o que deveria estar fazendo, que acabava esquecendo-se de que sim, tinha uma escolha. E somente criaria asas quando se descobrisse dono de seu próprio nariz.




23:00 – Residência dos Kinkaid



- Está me dizendo que você deu um fora no gostosão do seu namorado para ficar em casa assistindo Netflix comigo? – Perguntou Isabelle, estreitando os olhos para a prima como se ela fosse louca. Realmente parecia uma ideia um pouco equivocada.
- Lógico que sim, Belle. Você está doente e precisava de companhia. – Deu de ombros, entregando um lencinho à Isabelle que parecia a ponto de espirrar novamente.
- Eu voltei de Berkley pelas férias de verão e planejei passar parte desse tempo contigo, . Mas não põe em mim o peso do que você fez. – Tossiu, reduzindo o som da TV.
- Já disse o quanto invejo que suas férias cheguem tão mais cedo que as minhas? – fez biquinho. – Minha última prova é só daqui a duas semanas.
- Não é tanto tempo, boba. – Rechaçou Belle, mas com um meio sorriso de alívio por seu período ter acabado.
- Ah, é sim. – Riu enquanto a mulher a seu lado assoava o nariz. – Mas então... – parou, ficando mais séria. Isabelle sabia o que a mulher iria perguntar, não esperando que a pergunta fosse feita para lhe responder.
- Eu precisava falar disto contigo, . Tem algo que eu não soube muito bem como te falar... Bem, ele me fez prometer que não te contaria, mas logo você vai ficar sabendo, então...
- Desembucha, Isabelle. O está bem?
- Ele está sim! Só que não vai mais estudar em Berkley.
- O QUE? Como assim? Por que? Deu algum problema na bolsa? Não tem solução?
- , respira. Não é nada disso. Ele só se transferiu... Para Vermont, .


já tivera sua quota de reações a notícias surpreendentes em sua vida. Já explodira no choro, quando ruins, caíra na gargalhada, quando boas, ficara histérica... Mas aquela era a primeira vez que congelara. Nenhum pensamento coerente se formava em sua cabeça. A princípio não foi capaz de formar uma só frase coerente.
- Ele... o que? – Foi a única coisa que saiu de sua boca. -
- Eu sei que é uma notícia meio chocante. Finalmente você estava saindo mais e se abrindo e por isso eu sou super time , sabe. Mas com o entrando na jogada... Eu sei que com ele é diferente. Posso ver o impacto somente ao olhar seu rosto, e...
- Belle, isso é... – Seu coração parecia bater na boca do estômago. –
- Você não vai desmaiar nem nada, né?
- Cala a boca. – riu baixinho, fechando os olhos por alguns segundos. – Existe algum motivo específico pra isso?
- Não, ele só... Quis se mudar pra Vermont. – Deu de ombros, encarando . No fundo de seus olhos Belle parecia guardar um segredo, no entanto, ainda estava petrificada demais para criar teorias sobre ele.
- Assim do nada? – Murmurou, quase que para si.
- No fundo, acredito que ele teve vários motivos, mas nenhum que fosse compartilhar comigo, por óbvio. – Replicou, mas sem olhar a prima nos olhos. Não que esta fosse notar, com os pensamentos a mil por hora.
- Eu preciso ir. – Finalmente disse , virando-se atônita para sua prima confusa.
- Pra onde, sua doida?!
- Eu tenho um pressentimento, Belle. – Falou, colocando seu All Star novamente. –
- Desde quando você tem pressentimentos, ? – Belle arqueou a sobrancelha vendo a prima juntar suas coisas rapidamente. –
- Não sei. Acho que agora?
- Eu sabia que o tinha essa... Coisa, só não sabia que era tão forte assim. Eu hein. – Murmurou confusa. –
- Depois eu te explico! Melhoras! – Berrou dando uma risadinha em resposta ao murmúrio de Belle, enfiando o celular no bolso e correndo para a porta. A festa começaria meia noite, e como estava no outro lado da cidade, e de bicicleta, teria de correr se quisesse chegar com tempo para se arrumar.
A cada pedalada em sua bicicleta, só conseguia pensar que a qualquer momento poderia esbarrar em e talvez, dessa vez, estivesse preparada. Antes, precisava resolver as coisas com o .




01:30 – Casa da Sigma-Tau



- Maaano, finalmente você chegou! – Exclamou Brenda, abrindo os braços em cumprimento, ao penetrarem a habitual residência do festejo e da decadência.
- Sabia que estaria aqui. – Gargalhou , aliviada por ter contatado a amiga que conhecera através de Patrick. Ela era como a versão feminina de , então sua relação se resumia a festejarem juntas como melhores amigas. No dia seguinte, cada uma seguiria seu caminho até a próxima grande noitada. Sem ressentimentos, sem complicações. Bem, talvez não fosse tão parecida com sua relação com , afinal.
- O que vai beber? O DJ de hoje é diferente, mas estou curtindo o estilo. Dá para dançar bastante. – Sorriu, enquanto passavam por entre pessoas bêbadas conversando e se beijando nos corredores até a cozinha.
- Me prepara aquele drink que você criou para mim? – Piscou , em súplica.
- O que quiser, princesa. – Replicou, já sacando ingredientes das gavetas como se a casa fosse sua. – Dois “Rainhas de Vermont” saindo! – Exclamou, enquanto ia preparando a bebida. – E o que te traz a mais uma festa de Fraternidade? Não era para sua cara metade estar aqui te convencendo a ficar?
- Eu senti que tinha que vir. – Respondeu vagamente, sentando-se na bancada. Como diria que viera até a festa da fraternidade do seu mais recente ex-namorado pois sentira que a sua paixão do colégio estaria presente nela? Nem para si mesma conseguia admitir tal perversidade. Então mentiu para si, e resolveu acreditar em cada palavra que saiu da sua boca dali em diante.
- Conta outra, amiga. Você odeia tudo isso que eu sei. – Estreitou os olhos por uns segundos. – Mas vou fingir que eu acredito.
- E tem mais uma coisa. – Suspirou , sem jeito. – Eu e meio que terminamos mais cedo no Waak.
- O que ele fez? – Perguntou Brenda, fazendo dar risadas de nervoso.
- É irônico, mas brigamos justamente porque eu não estaria nesta festa.
- Ouch! – Brenda exclamou, entregando-lhe o drink e subindo a seu lado na bancada.
- O que foi? – olhou-a confusa enquanto sugava um gole da bebida deliciosa.
- Você ... Estou impressionada. – Replicou, com um olhar sábio. – Não só deu rasteira nele e como também veio para mostrar que vai curtir uma festa quando e como quiser. – Explicou.
- Como...?
- Todos com ouvidos e frequentadores destas festas sabem o tema das discussões do casal de ouro da faculdade, .
Mal a mulher o pronunciara, um garoto passou correndo por elas com uma fantasia de panda, sendo perseguido por uma menina só de biquini berrando “Vem me esquentar!”. As meninas gargalharam, capturando uma foto com seus drinks antes de deixar o recinto - já calibradas no álcool - em direção à pista de dança. Somente mais uma festa doida da Sigma-Tau.
Não foi até a terceira música que sentiu um dedo cutucando seu braço. Congelou até se virar e perceber que se tratava de Patrick e não de .
- ... Posso falar contigo um minuto? – Perguntou, fazendo a menina estremecer. Patrick Dawson não parecia ele mesmo sem dizer “Rainha de Vermont” ou berrar alguma obscenidade para fazê-la corar. Algo estava muito errado, e não precisaria de muitas pistas para saber o que era.
- Claro. – Replicou, ficando o mais séria possível para alguém levemente embriagada. Quase negou, mas desistiu ao perceber Brenda beijando um indivíduo que desconhecia assim que se virara. Indivíduo, pois do jeito que estava escuro e se fundiram, não se sabia gênero, idade ou aparência.
Caminharam para o pequeno terraço privativo em silêncio. O bastante para a mulher ficar na defensiva antes mesmo que ele abrisse a boca.
- Olha só, eu sei que quer falar de . – Começou, observando parte da festa rolando abaixo deles no jardim.
- Claro que sim.
- Sei que ele é seu amigo, mas realmente não quero nem devo discutir detalhes do nosso relacionamento contigo. Você não deve me julg...
- Hey, hey. – Estendeu as mãos em um gesto calmante. – Eu só queria te perguntar se está bem após tudo que aconteceu. – Explicou, desarmando-a com sua sensatez e gentileza.
- Eu... – Soluçou, rachando pela primeira vez desde o término como não fizera nem mesmo na frente de sua prima.
- Eu sei... – Inspirou, envolvendo-a em um abraço de urso. - Posso conhecer o a mais tempo, mas você também é minha amiga. – Replicou, fazendo-a sorrir.
- A melhor de todas? – Perguntou, com os olhos brilhantes, ao senti-lo beijar o topo de sua cabeça antes de soltá-la.
- Nah, tem muita competição por um pedaço do meu coração. – Brincou, gargalhando ao ser empurrado para longe. – Garanto que está no top cinquenta.
- OH! Nenhuma regalia para a realeza? – Mexeu suas sobrancelhas e limpou as gotinhas do canto de seus olhos.
- Vou pensar no seu caso, Rainha de Vermont. – Debochou, envolvendo-a com um braço e retornando à festa. – Só te dou um conselho, não espere muito tempo antes de falar com o para deixar o clima mais tranquilo.
- Não vou esperar, na verdade esse foi um dos motivos pelos quais eu vim. De hoje não passa, senão perco a coragem. – Explicou. – Afinal, onde é que ele está? – Perguntou, com o cenho franzido.
- Relaxa, hoje ele só deve aparecer tarde. Tinha algum jantar de caridade com os pais...
- O jantar da Fundação Weissman! – Exclamou, sentindo-se culpada. – Eu havia prometido ir com ele. Espero que os não piorem a situação.
- E quando é que não fazem isso? – Suspirou, parando para cumprimentar alguém no caminho de volta para a pista.
- , conhece a Amy? – Sussurrou em seu ouvido, apontando para a loira aparentemente simpática, sentada no sofá com um grupo a seu redor.
- Não, quem é?
- Acho que vai gostar dela, também faz Direito, mas está um ano ou dois mais avançada. – Respondeu, acenando e de alguma forma, arrumando para que sentasse ao lado da recém apresentada.
- Falem sobre mim, queridas. – Dawson mandou um beijo, puxando o homem da Sigma-Tau que antes sentava-se ao lado de Amy para longe. o conhecia de outras festas, Devon, era como se chamava.
- O Patrick não consegue se conter, não é?! – Gargalhou Amy, puxando para um meio abraço. – Muito prazer, querida. Ouvi falar muito de você.
- Espero que bem... – Brincou , piscando.
- Oh, não se preocupe. Só ouvi coisas boas, apesar de que pessoalmente você parece ainda mais simpática do que me descreveram. – Sorriu. – Mas me deixe apresentar, estes são Gary e Cole da Zeta Zeta Theta e da Ominikron.
acenou para os caras que as observavam tranquilamente enquanto sorviam de um copo gigante de cerveja.
- Você é de alguma Irmandade? – Perguntou Cole, dando um soco em Gary que acabara de soltar um arroto.
- Na verdade, não. – Replicou. – Ainda não me decidi se vou ou não entrar para uma.
- Dê uma chance! Talvez acabe gostando. – Interrompeu Amy.
- Não sei se faz muito meu tipo... – Explicou, recebendo um olhar reprovador.
- Não quero dizer que todos amam esta experiência, mas existe uma variedade gigante de fraternidades no Campus, . Ainda mais para estudantes de Direito. Se pesquisar bem, quem sabe não encontra alguma mais adequada a seu perfil? – Disse Amy, observando a mudança na face de .
- Nunca tinha pensado desta forma. As mais famosas parecem reinar tanto que nunca considerei avaliar outras menos conhecidas. – Desenvolveu, sendo sincera. – Obrigada pelo conselho, de qualquer forma. – Sorriu.
- De nada, querida. Eu sou das Beta-Phi, se algum dia tiver interesse ou precisar de qualquer coisa, fale conosco, está bem?
somente pôde assentir de volta ao avistar uma silhueta conhecida passando em direção ao jardim. Mal despediu-se dos novos conhecidos e partiu atrás dele silenciosamente. Por isso o surpreendeu quando finalmente começou a falar à suas costas.
- !


--


sabia que estava destinado a encontrar uma hora ou outra. Porém, não esperava que fosse tão cedo, em uma festa como aquela, a qual ele sempre odiara. Se não fosse seu amigo de infância, Benji a convencê-lo, nem mesmo teria comparecido à festa de despedida das fraternidades do campus. O fim do semestre de fato se aproximava, mas não era como se não fossem arranjar outros motivos para colocar música alta e consumirem cerveja barata até estragar seus fígados.
Aquele ambiente era tão atípico para o garoto que provavelmente acabaria esquecido em uma gaveta em sua mente para preservar a feliz constatação de que nunca fora nem iria a uma festa de fraternidade.
- . – observou-a de cima abaixo como se não acreditasse em seus olhos. Mas era verdade. Ela estava ali a sua frente. – O que faz aqui? – Perguntou idiotamente.
- Eu que pergunto, bobo! Eu estudo aqui. – Sorriu divertida e cruzou os braços, olhando-o atentamente. As batidas de seu coração estavam agitadas por estarem, frente a frente.
- Não consegui manter-me longe de casa por muito tempo. – Deu de ombros. - Minha mãe diz que está tudo bem, mas acredito que esteja se matando de trabalhar no hospital.
- E você vai cuidar dela. – Completou ela, assentindo e sua expressão relaxou. Aquilo era algo tão típico do garoto que não estranhou e comoveu a doçura que tratava a própria mãe.
- Sim, daí transferi-me para cá. Também cansei do sol da Califórnia. – Disse sério.
- Você é louco! – Riu , revirando os olhos. Outra coisa tão típica do “modo de ser”.
- Enfim, mas fui convencido a vir pelo meu padrinho do sistema de acompanhamento da Universidade que me inscrevi. – Mudou de assunto, não tão sutilmente. Olhou por cima do ombro da mulher, acenando. – E olha ele aí. – Apontou.
seguiu com o olhar a direção que ele apontou e gelou no lugar.
- ?! – Exclamou, tensa e sem acreditar naquilo tudo. Não sabia se ria ou chorava, por isso sua expressão ficou paralisada em uma careta dividida entre o riso e desespero. Quais as chances de algo assim acontecer? O passado e presente colidindo, feito um trem desgovernado. Prestes a deixá-la em uma situação ferrada sem chance de escapatória.
- O que faz aqui, ? - perguntou num tom irritado, encarando-a seriamente. Estava vestindo uma camisa social branca com os primeiros botões abertos, a gravata afrouxada. Tomou um gole de sua cerveja e continuou olhando-a, aguardando uma resposta.
- Claro que já se conhecem. – revirou os olhos. – Acho que o conhece o Campus inteiro.
ignorou o comentário do rapaz enquanto mantinha o foco na ex-namorada.
- ? - Insistiu tomando mais um gole.
Ela soltou um suspiro derrotado e deu de ombros, desistindo de escapar da verdade.
- Vim conversar com você.
- E tem que ser numa festa de fraternidade? Onde todos querem um pedaço da minha atenção? - Repetiu ironicamente, o que a ex havia dito mais cedo.
- Não precisa ser assim, . - Ela falou num tom seco, começando a se arrepender de ter ido até ali.
observou ambos atentamente e como uma chave que virou em sua cabeça, fez um clique e as peças encaixaram.
- Ele é seu namorado? - Perguntou num tom entristecido, mesmo que sua expressão estivesse séria.
olhou-o atentamente, após ouvir e identificar o desapontamento no tom do rapaz.
- E qual o problema nisso? - Soltou seco. Olhou para e depois, para o outro e pareceu perceber algo óbvio. - Mas hey, aparentemente eu não sou o único que conhece a . Aliás, como é isso?


Ambos tornaram seus olhares para ela subitamente. respirou fundo, querendo se enterrar em um buraco e nunca mais sair. O que poderia sair daquele diálogo?
- Eu e o … Estudamos juntos. - Sorriu nervosamente.
- Tsk. - estalou, fez um gesto de afirmação com a cabeça e parecia ter aceito de boa a situação. Mudou totalmente de assunto. - Como que você não está bebendo nada, ? -
- Estou be… - Começou , mas já havia sumido dentro da casa.
Ambos acompanharam a partida do outro com o olhar e soltaram um suspiro. forçou um leve sorriso, olhou ao redor e voltou a atenção, quando o rapaz de pronunciou.
- Então, você e … - Piscou, avaliando as reações da mulher.
- Amigos. - Soltou subitamente, arrependendo-se logo depois. - Já fomos mais, mas enfim. - Deu de ombros como se seu coração não estivesse como louco em seu peito.
retornou com uma cerveja sem álcool e uma mensagem para , de que Brenda a procurava. Relutou muito em deixar dois homens com quem fora tão íntima sozinhos. Mas não teve escolha, ao ouvir dizer que parecia urgente. Voltou para dentro da festa xingando até a quarta geração do pai de Brenda.
- Aí está ela! - Berrou a amiga, puxando-a para um abraço. - Preciso conversar contigo urgentemente!
- Qual é a emergência, galinha? - Falou mal humorada.
- Ih, melhora esse rostinho, princesa. - Enrolou a língua, puxando pela mão. Percebendo que a noite da amiga acabara por ali, acenou freneticamente para Patrick que conversava no corredor ao lado.
- O que foi? - Ele perguntou, subindo com elas para o andar de seu quarto.
- O usual. - Suspirou , olhando para Brenda, que murmurava sozinha observações incompreensíveis. A cada tropeço, um dos dois a amparava até chegarem ao quarto de Patrick.
- Sempre soube que me queria, Patrick Dawson. - Brincou Brenda, apontando para a boca do garoto e gargalhando do próprio deboche.
- Te quero um tiquinho mais sóbria, Brenda Parker. - Riu, entregando para ela uma água e abrindo sua porta. - Mas meu quarto é seu, vai descansar, vai. - Enxotou, estendendo o braço para .
- chegou, .
- Eu vi. - Ela suspirou. - E está falando com o .
- Ah, já conheceu o nosso prospecto futuro membro da fraternidade?
- Conhecendo o , ele nunca entraria para nenhuma fraternidade. - Bufou. - Boa sorte com isso.


-—


voltou nervosa para onde e conversavam calorosamente. Os dois em um mesmo recinto era uma loucura que sua mente ainda não conseguira assimilar.
- Então meninos... - Começou com suavidade.
- Como não me contou que o aqui e você estudaram juntos, ? - Indagou , com um meio sorriso. - Ele teve muitas histórias para me contar.
- Histórias? - entrou em pânico internamente, olhando com um mirar assassino para .
- Sim. Faltou contar a ele como nos conhecemos. - Sorriu , cruzando os braços.
- Bem, acho que foi através de meus avós, e também nos esbarramos na faculdade antes mesmo de sermos apresentados ao vivo, certo?
- Você e aquele seu band aid do bob esponja. - Gargalhou , sem perceber o olhar curioso de pulando de um para o outro. - Sabia que iria acabar me apaixonando por você em algum momento. - Deu de ombros, fazendo suspirar e fechar os olhos apertados.
- Namoramos por um tempo. - virou-se pra com um sorriso forçado.
- Fico feliz por vocês. - assentiu engolindo a bebida com uma expressão um pouco mais amarga, mas ainda sim sincera.
- Sim, mas não deu certo. - A mulher continuou. - Somos melhores como amigos, estava fadado desde o princípio. - Pronunciou , sem perceber o quanto as palavras poderiam soar mal para .
- Bom saber que pensa assim. - sorriu friamente e afastou-se com um murmúrio. - Vou buscar mais cerveja no vizinho.
- Eu... - olhou para que analisava sua face, com desconforto. - Tenho que ir.
- . - Chamou, encostando em seu braço levemente quando fez menção de sair. - Depois vamos conversar. - Pronunciou com um olhar enigmático.

Não conseguiu fazer mais do que acenar e engolir em seco, virando-se para atravessar a calçada e a rua atrás de onde vira sumir. No escuro da rua mal iluminada por uma lâmpada piscante, tateou os bolsos ao passar pela faixa. Amaldiçoou-se ao notar que devia ter deixado o celular dentro da Casa que agora rugia com um hip hop pesado e ensurdecedor. Já ao meio da rua virou-se para retornar, sem perceber e ver os faróis ou ouvir o rugido de pneus e a buzina até ser tarde demais.
Berros e claustrofobia de pessoas a rodeando a envolveram em sua consciência tênue. Sentiu um gosto de sangue em seus dentes e boca, mas não conseguia dizer se estava muito ou pouco machucada no resto do corpo com a pancada de adrenalina. Vozes indistintas chamavam por seu nome, mas somente uma face familiar veio a sua frente antes que perdesse a consciência. A de um , que não sabia de onde saíra, completamente atemorizado.
- Não dorme, amor. - Foi a última coisa que ouviu antes de perder a consciência.
O escuro do descanso e da ausência de preocupações envolveu a por um bom tempo. Parecia mesmo um daqueles desmaios que tiravam o corpo por completo de suas sensações, com o cérebro desempenhando somente o necessário para que não sucumbisse a morte. Lá era em paz, confortável e sem dor.
Não tinha noção do tempo, mas quando enfim voltou a si foi como o acordar dentro de um sonho. Mas não estava verdadeiramente consciente, nem mesmo estava no hospital! Onde estaria? Sua mente vagou para preencher os vazios de suas memórias. E assim que sua criatividade entrou em ação, não se sabia o que era real. Não se diferenciavam as sutilezas do imaginário com o concreto.
O costume das ilusões se desdobraram até que criasse seu próprio mundo e trocasse suas próprias reminiscências. Imagine um mundo em que pode escolher como vive, quem é e o que as pessoas que o rodeiam fazem. Não trocaria aquela sua relação conflituosa com sua família e a faria ser algo mais simples? Não apagaria o trauma de perder uma amizade próxima? Não arrumaria pessoas para pôr a culpa de suas insatisfações pessoais?
teve a oportunidade de criar seu próprio mundo dentro dos sonhos. Mas o problema deste mundo das ilusões é que quanto mais se pensa que o controla, menos poder realmente possui. Eventualmente todos acordamos de nossas mentiras, não era exceção, apesar de seu cérebro ter necessitado deste tempo para fazê-la sobreviver. E quando acordasse, suas insatisfações estariam ali para encará-la, estando pronta ou não.



Capítulo 16- Velhos Amores




O som das ondas tranquilizava enquanto encarava uma face tempestuosa a sua frente. Os cabelos castanhos de Josh voavam com o vento. Seus olhos brilhantes e bem abertos não se separavam dos dela. Uma lágrima escorreu pelo rosto do garoto, fazendo com que como em espelho, o mesmo ocorresse no de . E algumas inspirações depois o homem afastou-se em direção ao mar límpido. Como um sonho em que enfim possuísse um adeus de seu primeiro amor.


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O desabrochar das flores dos mais diversos fenótipos com o tardar do inverno, foi colorindo a paisagem de South Mills com sua paleta vibrante, trazendo aos estudantes tanto alívio quanto ansiedade. O início da primavera significava novos começos, e ninguém o desejava mais do que . Porém, também simbolizava o desenrolar de uma maratona de estudos que desembocaria no fim das provas e nas tão desejadas férias de verão.
Ao contrário de muitos de seus colegas, a mulher não conseguia vislumbrar a linha de chegada, quanto mais saber o que faria quando estivesse lá.
Taylor anunciara para todos que pudessem ouvir o período de intercâmbio que faria no Canadá, logo após as férias. Nicholas anunciara que passaria um tempo em South Mills com a irmã, mas trazendo sua nova namorada. normalmente ficaria irritada com o irmão por trazer mais alguém que pudesse prejudicar o pouco tempo que tinha com ela, mas Audrey não era uma estranha. Ambas haviam estudado juntas na pré-escola e no início do colegial, antes dos irmãos se mudarem para os Estados Unidos. até diria que já era tarde, visto que era óbvio o quanto ambos se gostavam já no princípio e quando Nicholas informara estarem estudando na mesma universidade... Bem, até parecera destino. Isso se ainda acreditasse em sina e qualquer coisa do tipo. Seu acidente a levara de crédula para total intolerante ao assunto.
Qual poderia ser o sentido de passar por tanta dor se quando finalmente havia sentido que o trauma quanto a Josh havia lhe deixado para valer, - por quem ela ainda estava apaixonada - estava comprometido com alguém? E pior, quando a única pessoa que deveria tê-la superado e seu melhor amigo, parecia estar ainda mais apaixonado por ela do que antes?!
Ao menos conseguira reconciliar-se com Taylor e seus pais. Aquela fora uma missão dada pela psicóloga que tardara mas não falhara em cumprir. Havendo se mudado de volta para o Campus, tivera uma grande conversa com seus pais sobre suas expectativas quanto a eles. Sua família podia ser disfuncional, mas era sua. Cada um a amparara à sua própria forma e em seu próprio tempo. Nicholas sempre estivera mais presente, nem que fosse através das ligações de vídeo de lá do Canadá. Victoria e Tom já demonstravam seu amor pela filha de uma forma completamente diferente. A mulher o fazia através da implicância, era como a advogada do diabo questionando desde cedo cada decisão de . Isto a princípio incomodava profundamente a menina, fazendo parecer que sua mãe estava contra ela. Porém, sem alguém para desafiá-la, talvez não fosse desenvolver a mesma ambição e decisão sobre o que queria do futuro. Já o pai podia estar sempre viajando a trabalho, mas fazia questão de por tradição, tomar café com na
padaria ao lado de casa. Contava para a menina de todos seus casos e o que fizera em suas andanças. Tais hábitos, não, rotinas religiosamente cumpridas podiam parecer pouco. Contudo, eram as formas peculiares que seus velhos tinham de moldá-la.
Com Taylor fora outra história. A nova companheira de quarto e ela tiveram de ter uma longa conversa sobre o passado. Muitas farpas foram retiradas para que enfim conseguissem começar a cicatrizar-se. Mas chegara o momento de deixarem aquilo tudo para trás e seguirem em frente. Em seu sonho, pudera ver o que seria ter a amiga a seu lado de novo e era o que queria. Não lhe importava tudo o que a Taylor do sonho havia feito para lhe trair, aquilo tudo era reflexo de seus sentimentos conturbados quanto ao passado de ambas. Mas já não era a mesma jovem cheia de cicatrizes expostas. A ocasião de quase perder a vida e de, de fato, sentir-se a viver em outro mundo, impulsionara seu processo de remendo, até que acordasse. Saíra de seus dois meses de terapia pronta para recomeçar.


- Tem certeza sobre isso? – olhou a sua volta para os calouros que apinhavam o auditório da Faculdade de Direito. Somente começariam suas aulas após as férias de verão, mas aqueles que já sabiam ter conseguido uma vaga em Vermont podiam ter uma sessão informativa prévia sobre as atividades extracurriculares da Universidade.
- Quando eu não tenho? – Taylor piscou, chupando seu pirulito e levantando os óculos escuros. seguiu o gesto e analisou sua unha recentemente polida como se estivesse entediada. A pose de ambas era um contraste direto com a postura nervosa das novatas em Vermont.
- Boa noite, calouros e veteranos. – Falou a pessoa ao microfone, fazendo com que a maioria dos presentes fizesse silêncio. – Iremos começar agora com a apresentação das fraternidades masculinas, depois das irmandades femininas e por fim dos grupos mistos. – Finalizou a diretora do núcleo de estudantes, suspirando com as vaias para os últimos mencionados. Por serem novos e extremamente distantes dos valores comuns do trote tradicional da Universidade de South Mills, grupos mistos eram muito reduzidos e desencorajados pela generalidade da Comissão de Práticas Acadêmicas. Era ela que estabelecia as diretrizes a serem seguidas pelas associações de estudantes, dispostas em um Código Acadêmico.
- A primeira Fraternidade é a Delta-Zeta-Ominikron. – Pronunciou, entregando o microfone para Benji, um antigo amigo de .


O garoto fez um pequeno discurso, junto a companheiros de sua fraternidade, que teve algum sucesso, ainda mais considerando sua aparente baixa popularidade no Campus. viajava em sua mente, observando através das janelas do auditório, até receber um cutucão de Taylor.


- Já viu quem está ali embaixo? – Perguntou, apontando.
- , imagino que sim. – deu de ombros, jogando o cabelo para trás do ombro como se estivesse inabalada.
- Não! – Taylor sorriu maliciosamente, virando seu queixo para espaço logo a frente do palco, onde um conhecido de cabelos cor de areia tirava fotos do evento.
- ... – Inspirou , derretendo-se em seu assento, mesmo estando tão distante. – Merda, Taylor, porque insistiu para sentarmos aqui em cima?
- Por causa dela. – Taylor fechou a cara, ao ver Camille. – A fofa não deixa de rondar o boy desde a festinha da Sigma-Tau.
- E me lembre, qual festa foi essa mesmo? – Riu , sabendo muito bem do que Tay falava.
- Aquela que a senhorita levou o namorado dela, quando nem mesmo Camille havia conseguido convencê-lo a comparecer. – Esclareceu, balançando a cabeça em reprovação.
- Ah essa... – mordeu o lábio com uma pontada de esperança.
- Para com isso. – Cantarolou Tay, estendendo-se na poltrona do auditório, sem desviar os olhos da outra fraternidade que agora apresentava-se no palco.
- O que? – fez uma careta inocente.
- Tudo isso. – Gesticulou para a face da mulher. – Vou te dar um único conselho sobre essa história toda. Se você sabe que gosta dele e está pronta enfim para algo, cumpra a promessa que fez a ele e diga logo. é um cego e está claro que nunca te superou, mas não vai tomar nenhuma atitude sem que você antes se exponha como ele fez para você anos atrás.
- Yoda? – perguntou, com os olhos arregalados para a amiga pelo tapa na cara de sabedoria que recebera. – Você tem razão?! – Murmurou para si mesma confusa.
- Tenho meus momentos. – A amiga virou-se novamente para o palco, enrolando os cabelos no dedo.
- Eu sei o que tenho que fazer. – Suspirou . – Só me falta a coragem e vergonha na cara.
- Você é , por favor, não me venha com essa desculpa. Eu a conheço melhor do que isso.
- ... E agora, a última fraternidade, a que muitos de vocês aguardavam, a Sigma-Tau! – Pronunciou a diretora, passando o microfone para Patrick.
- Bem-vindos aos melhores anos de suas vidas, novatas! – Patrick piscou e deu um tchauzinho para uma das calouras da primeira fila. Muitos gargalharam, conhecendo a personalidade do vice-presidente da fraternidade mais popular do campus. – Sem mais delongas, apresento a vocês o presidente da melhor e maior fraternidade da Universidade de South Mills: o parte-corações, campeão de beer pong e das festas de boas vindas, !


Uma salva de aplausos e assovios ressoou por todo o auditório, vários alunos, inclusive e Taylor berraram mensagens de encorajamento, e algumas obcenas. não se estendeu nas atividades de sua fraternidade, se limitou a dizer o básico dos requisitos para ser um membro de seu grupo e convidou a todos para a festa de boas vindas daquela noite.


- Não seria a Sigma-Tau sem querer embebedar os novatos antes mesmo de começarem as aulas deles. – revirou os olhos.
- E claro que nós iremos, certo? – Tay piscou. – E não comece com “trabalho de Finanças...”
- Tenho um trabalho de Finanças Públicas e você sabe muito bem disso, Taylor. – gargalhou.
- Eu soube que Isabelle estará lá... – Murmurou Taylor, olhando para atrás de onde sentavam.
- Me engana que eu gosto. – Desfez , cruzando os braços.
- E também. – Terminou, com um biquinho presunçoso.
- Humpf – Bufou , cedendo. – Que horas chegamos?
- Então quer dizer que por mim você não vai, mas pelo sim? – Perguntou Isabelle, aparecendo atrás da prima, assustando-a.
- Porra, Belle, o que tá fazendo aqui, amore? – sorriu, abraçando a mulher quando deu a volta e sentou-se a seu lado.
- Um passarinho me contou que hoje você iria precisar de um girl power a seu favor. – Sorriu, acenando para Taylor.
- Desde quando vocês se comunicam sem ser por berros? – brincou.
- Desde que temos uma amiga em comum. O cessar fogo é sua culpa e do seu crush lerdo. – Replicou Tay. – Então Isabelle vai ficar conosco por uns dias e depois vai voltar para o galinheiro.
- Amei seu nariz pós-plástica, Taylor, só te reconheci por sua falta de estilo. – Isabelle mordiscou. esteve a ponto de chamar os bombeiros para apartar a briga, mas ambas olharam para ela e cruzaram os braços a seu lado.
- Vai ser uma longa semana. – Murmurou para si.
- E agora serão as apresentações das Irmandades do campus. – Falou a diretora ao microfone.
- Como faremos? Tomo notas das que mais nos interessarem? – perguntou a Taylor que parecia distraída.
- Ignore tudo. Só vale a pena escutar uma Irmandade neste Campus.
- Beta-Phi. – Suspirou , ao ver Amy subir ao palco. Inspirou fundo relembrando-se da festa da noite de seu acidente. – Patrick nos apresentou antes...
- Você a conhece? – Sibilou Tay, apertando seu braço. – Isto é perfeito, ela é da Irmandade mais popular do Campus.
Depois da Alpha Kappa Nu. pensou com irritação. Ouviu a cada apresentação com atenção, ignorando o conselho de Taylor, mas nenhuma lhe fizera sentir um bom pressentimento como tivera em seu sonho com a Alpha Kappa Nu. Foi então que lhe veio um pensamento louco. O que seria preciso para se criar uma nova irmandade? Olhou discretamente para a empolgação de Taylor sobre a Beta-Phi e deixou a ideia no fundo de uma gaveta em sua mente. Por mais que Isabelle nunca fosse admitir para Taylor, até mesmo ela parecia interessada nas atividades e empreendimentos das Betas, sobre as quais Amy professava com paixão. A Assembleia Geral voou e logo já estavam de volta ao alojamento, também horas mais tarde após um intervalo de tempo de estudo, já começavam a se aprontar para a festa da Sigma-Tau.


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- Rainha de Vermont! Agora sim a festa está completa. – Disse Patrick, com palavras enroladas, provavelmente da quantidade de álcool que até aquele momento já havia ingerido.
- Patrick, como é que sempre que eu venho é você a atender a porta? – Piscou , desconfiada.
- Amor, o resto nem toca a campainha, por isso sei quando é você. – Gargalhou o garoto, abraçando-a de lado e guiando as meninas para dentro. – E a realeza merece ser recebida pelo melhor.
- Menos, Patrick. – Riu Taylor, revirando os olhos. –
- Ah, nem te vi aí, loirinha. – Deu de língua. Somente mais uma pessoa que Taylor nutria uma relação arisca. Nada de novo até aí.
- O seu ego deve ter te cegado. – Replicou, colocando a bolsa no peito do homem. – Vou arranjar um drink. – Berrou antes de partir para a bagunça da festa.
- Ok então... Patrick, essa aqui é minha prima, a Isabelle.
- Bella? – Gritou, espantado. já ia corrigi-lo quando algo pareceu estalar na cabeça de sua prima.
- Patch? – Isabelle abriu um sorriso amplo, pulando nos braços de Patrick.


O queixo de quase cavou um buraco no chão quando viu ambos se beijarem profundamente bem a sua frente. Sabia que sua prima havia terminado com Johnny, seu namorado do colegial fazia dois anos, mas nada do que suas retinas registravam naquele momento fazia sentido. Teve de dar uns pigarros até que o que parecia um casal apaixonado se separasse.


- Alguém me explica? Se não eu juro que vou desmaiar. – dramatizou. – Parece que tô numa realidade alternativa.
- Prima, lembra que eu sempre te falei do menino que namorei no primário, mas que mudou de bairro e de escola e eu perdi contato?
- Então você é o crush de infância da Isabelle?
Patrick assentiu, girando a nos braços.
- Tinha que ser você, Rainha de Vermont. – Gargalhou, feliz.
- , eu sei que temos uma missão hoje, mas... – Isabelle olhou para Patrick rapidamente e de volta para .
- Não, claro! Vão recuperar o tempo perdido. – riu, feliz pela prima e o amigo, porém nervosa sobre a perspectiva de ter de encarar aquela festa sozinha. Começou a procurar Taylor pela casa, mas sem sucesso. Finalmente desistiu indo buscar um drink na cozinha. Suspirou de alívio ao ver a pessoa que preparava drinks, cantarolando.
- Brenda! – exclamou, abraçando a amiga das festas da Sigma-Tau.
- Princesa! Imaginei que estivesse aqui, quando vi a Taylor Lausen perambulando por aí. –
- É sim! Sabe onde ela está? –
- Na última vez que a vi, estava com Travis...
- Deixe-me adivinhar... – suspirou.
- Discutindo, como sempre. Aqueles dois vão e voltam mais rápido que bolinha de pingue-pongue.
assentiu desanimada de ter perdido suas duas companheiras de balada, mas não era como se fosse a única ali a ter uma vida amorosa. No caso, na verdade parecia que era a única com a ausência dela.
- Noite difícil, ? – ouviu uma voz pronunciar atrás de si.
- . – Pontuou, virando-se para o homem. Analisou-o de cima abaixo desarmando seu olhar maldoso pela postura aparentemente humilde do garoto.
- Vou deixa-los a sós. – Murmurou Brenda, saindo de fininho.
- Não esquenta, não estou aqui para discutir. – Coçou a nuca, nervosamente. – Muito pelo contrário, queria pedir desculpas.
- Ah bom... Também não tenho te tratado da melhor forma. – A mulher assentiu.
- Não vou pedir para ser seu amigo, porque como sabe, ainda sinto algo por você, .
- Então o que está me pedindo?
- Uma trégua. – O homem apertou os olhos, cansado. – Temos um mundo de amizades em comum, de meios que temos que conviver. Não está cansada de se forçar a me odiar sempre? – Perguntou, passando a mão em seu cabelo. Um gesto que em outros tempos, achava adoravelmente sexy. Tudo bem, podia ainda acha-lo, somente sem muitos mais efeitos em seu coração como antes do retorno de .
- Hmm... – olhou nos olhos de tentando ver se estava sendo sincero. Pensou, fazendo um biquinho, mas enfim cedeu, assentindo. – Tudo bem, .
- Maravilha. – Os olhos do garoto brilharam ao ouvir a música que mudava no salão.
- Ah não, !
- Vamos, por favor?! Precisamos selar a trégua com uma dança, .
- Aaarg... – Rugiu, puxando a mão do homem para a sala. – Só porque eu amo essa música. – Replicou, caindo no abraço de como há muito não fazia. Balançaram por um tempo unidos por aquela canção e a seu fim separaram-se com um sorriso a meio caminho de fraterno. Nenhum dos dois havia chegado àquele ponto ainda, após tudo o que haviam passado. Mas se tinham esperança de algum dia chegar lá, pensava que aquele era o caminho certo.
Um tempo e alguns drinks depois, subiu para aguardar no corredor pela fila do banheiro. Ela e a menina a sua frente conversavam sobre amenidades, como de costume quando jovens bebiam e faziam amizade com qualquer um que vissem pela frente e com um objetivo comum. Só naquelas festas da Sigma-Tau, conhecera metade da Faculdade nas mais variadas situações. Daí talvez se esvaísse parte do mistério da popularidade de .
- ! – ouviu a voz de Camille berrar do quarto mais a frente no corredor. Seu rosto começou a pegar fogo de humilhação, até que viu saindo do quarto e batendo a porta com uma expressão de revolta. Aparentemente não fora o tipo de berro que pensava.
- ? – Foi a vez de chamar quando ele passou por ela como um tornado.
- Agora não. – Pronunciou friamente, e continuando a andar para longe da festa. congelou no lugar com a mágoa contida naquelas palavras. Camille finalmente saiu do quarto com a maquiagem retocada e os olhos inchados. Caminhou lentamente pelo corredor como um zumbi. Parou somente para olhar para por segundos enervantes. O silêncio entre ambas pareceu eterno pelo grau de desconforto que causou principalmente em . Finalmente se quebrou, quando Camille foi embora sem dizer qualquer palavra.


Eles terminaram. Pensou . Não estava feliz com aquilo, diferentemente de como pensava, na verdade estava triste pelos dois e pela separação dolorosa que passariam. Ela podia ser diretamente interessada na questão do término, mas não conseguia se colocar mais positiva do que o pontinho de esperança a mais que se desenvolveu em seu peito. De resto, secou uma lágrima pela mágoa que acabara de presenciar e mandou uma mensagem para avisar a Tay e a sua prima de que assim como o ex-casal, a noite acabara para ela.



Capítulo 17- Promessas, promessas...




Se a cromologia tem algo de curioso, é que até onde sabia, nesta ciência peculiar, se partiria de uma base mental comum entre pessoas de personalidades distintas. Assim como o tal ideal do homem médio - de decisões e ações que se esperaria de uma pessoa mediana - a qual aprendera em suas aulas de teoria do direito. Na ciência das cores, as reações aos tons são estudadas e avaliadas para depois serem usadas, como estratégia de marketing. Não sendo surpresa que após a generalização do uso desse tipo de estudos, hospitais passaram a ter azul em suas paredes, para tranquilidade dos enfermos, redes de comida passaram a usar laranja apelando à fome dos consumidores. Vermelho pode chamar atenção, ser amor, paixão ou até inspirar o maior dos poetas sensitivos a escreverem a emoção das lentes pela qual enxergam o mundo. Preto é a cor do luto, da seriedade, ou - dependendo do contexto - da própria elegância. Cada uma dessas cores são ditas de terem diferentes significados e conhecidas por despertarem diferentes emoções em quem as visualiza.
Por isso mesmo, era cômico que ao sair daquele campo de paintball, com a roupa manchada de diversas rajadas de tinta impregnando igualmente suas roupas e seus cabelos, estivesse uma confusão de sentimentos. Mas também, quem poderia culpá-la por isso?
Quer dizer, havia azul de tranquilidade, laranja de intensidade, vermelho de paixão e preto de seriedade todos ao misturados simultaneamente em seu corpo. Parte da tinta já estava seca, e outra parte ainda escorria por seu braço em uma cascata disforme. Contudo, sua aparência abalada não era a maior das suas preocupações, e sim em que pé estava em relação a si. Era, de fato, um de seus defeitos, preocupar-se mais em descobrir como os outros se sentiam do que somente confiar onde seus próprios sentimentos a levariam.
saíra da partida com a mente igualmente turbulenta. Era para ser um dia divertido, passado jogando paintball com seus amigos, o que havia sido afinal sua ideia para passar o dia de seu aniversário. Porém, a presença de tanto - sua antiga paixão do colegial, como Olsen - sua recente ex namorada lhe trazia um climão, que ele repetia para si mesmo (ainda que não muito convicto) de que não se tratava de nada mais do que uma invenção de sua cabeça.
Estava incerto de que os planos se manteriam com as recentes rachaduras no grupo. Não era somente que tivera relações abaladas. Também e ainda não haviam resolvido a série de desentendimentos que tinham emergido. Pior do que o fato de que estes dois teriam de partilhar o mesmo meio de transporte com todos os demais, fora a notícia de que Camille apareceria apesar de não haver trocado uma palavra com o aniversariante desde o término. Já haviam se passado duas semanas do término e a ferida que estava mostrando sinais de cicatrizar ainda estava frágil, não querendo que um cutucão qualquer pudesse deixá-la exposta novamente. O homem observou-a com cautela, enquanto esta se aproximava da van que haviam alugado para transportá-los até o Campo de Paintball de East Mills, a cidade vizinha a South Mills. só pôde se limitar a dar um aceno de cabeça junto a um sorriso amarelo sem graça. Aquela certamente seria uma tarde interessante.





Naquele mesmo dia, logo cedo, recebera uma chamada inesperada para aquela hora da manhã. Se já não houvesse sido acordada por Taylor para participar do dia de inscrições para Irmandades no campus, ela teria matado seu interlocutor após desligar a ligação no momento em que se certificasse que não era algo urgente.


- Eu sei que tínhamos combinado faz um tempo, mas… - A voz de pareceu falhar.
- É claro que ainda vou, . Fica tranquilo. - repetiu mais uma vez, sorrindo para o revirar de olhos de Taylor, que bebia seu café a sua frente já no lounge do alojamento.
- Esqueci da sua essência de não quebrar promessas.
- Não foi uma promessa. – Respondeu devagar. – Mas eu vou porque quero.
- Ham… Claro que também tem isso... – tossiu meio forçado. sorriu de lado, ainda que soubesse que as coisas ficariam estranhas, não imaginou que fosse incomodar tanto seu bem estar. – Fechado entã... - inclinou-se para ouvir mais atentamente à conversa paralela do outro lado da linha. parecia em uma discussão intensa com Patrick até berrar “fala com ela você!” e passar a ligação ao amigo.
- Oi, !
- Patrick…
- A Isa está aí? - Mal ele perguntou, o telefone foi arrancado da mão de e sua prima; que havia ido visitá-la na nova moradia; baniu-a de entrar no próprio quarto para falar com o novo ficante com alguma privacidade.


aproveitou para fazer uma visita bem necessária à sala de estudos, mas não muito frutífera. Afinal, estava demasiado distraída para absorver alguma palavra de seu livro de Finanças Públicas. As variáveis de cálculo do Orçamento de Estado pareciam bem menos interessantes do que a mancha de café antiga da longa mesa que ocupava.
Estava ansiosa para a pequena viagem que seu grupo de amigos faria até East Mills. Iriam visitar um campo de paintball e descarregar o nervosismo das temidas provas que estavam por passar. Além de obviamente ser a oportunidade perfeita para comemorar o aniversário de .
Encarou seu livro com mais afinco após colocar seus fones de ouvido e playlist de estudo. Apesar de haver começado a lê-lo sem muita vontade ou foco para estudar, até que obteve algum progresso. Mas sua fatiga persistiu um pouco, lhe fazendo estar a ler o mesmo trecho repetidamente de tempos em tempos. Finalmente, minutos depois desistiu e retornou para seu quarto com o objetivo de arrumar-se.


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Chegando ao ponto de encontro do grupo atrasada, não teve muito tempo de resenha com os amigos antes de entrar no microônibus que haviam alugado. passou a viagem conversando com Lisa sobre amenidades da faculdade. Na verdade, após sua semana de provas, “amenidades” talvez fosse eufemismo, com as críticas e reclamações das meninas sendo ouvidas e complementadas por parte de seus amigos da mesma Universidade. De todos os que contribuíram para o diálogo, a mais monossilábica era Camille Olsen, se limitando a assentir ou não às afirmativas. Se aquela conversa fosse uma prova de Vermont, ela com certeza falharia. Cinco páginas de resposta em um exame escrito era o mínimo exigido, e o tempo para cumpri-lo não era nada encorajador aos alunos.
Mas a menina não podia evitar ficar silenciosa quando havia comparecido à viagem de aniversário de seu mais recente ex namorado. Seu raciocínio não tinha ido muito além de terem sido amigos, em primeiro - portanto ela não perderia seu aniversário -, e que havia sido mesmo Camille a fazer arranjos com o campo de paintball - então talvez fosse realmente necessário que comparecesse. Todavia, a realidade é mais complexa, e não contara com o silêncio constrangedor entre ela e . Não que fosse intencional da parte de ambos, mas o término havia sido a última conversa que haviam tido.
Consolou-se, portanto, em ter sentado em um banco de janela e pela música de uma playlist de bom gosto tocando ao fundo e imergiu-se na paisagem até chegarem a seu destino.





- Quer ajuda com esse colete, aniversariante? - sorriu para enquanto este já no Campo, tentava se aparamentar sem muito sucesso a seu lado.
- Não, obrigado. - Replicou com o cenho franzido em concentração.
- Orgulho não leva a nada, . – Olhou-o de lado. limitou-se a encará-la. Já estava sendo difícil o suficiente tê-la por perto e ao mesmo tempo conseguir ainda pensar no respeito que precisava ter sobre Camille pelo tempo de rompimento. –
- Não é orgulho. – Murmurou. – É só que...
- Não tem nada tão difícil que não consiga realizar?


Foi cedido um sorriso entre ambos antes que ele tentasse mais algumas vezes.
Um por um os integrantes do grupo foram saindo do vestiário. se manteve encostada em um dos armários observando os esforços do garoto com um lábio torcido presunçosamente. Passaram minutos antes que este cedesse, largando os braços ao lado do corpo e fazendo uma cara de gato do Shrek.
- Ok. Talvez isso seja um pouco demais pro . –
- Ah, mas agora quero ver o senhor Independência conseguir sozinho. - Riu, mordendo o lábio inferior em diversão. Não pode evitar de torturá-lo um pouco.
- Eu não vou implorar, – Cruzou os braços sorrindo de lado. A feição já tinha o poder de persuadir , prova disso foi como seu coração bateu diferente só de vê-lo sorrir daquela forma. – e além do mais, é meu aniversário.
- Você não é desses que pensa dessa forma… - A mulher se aproximou, descruzando os braços.
- Sou a favor da meritocracia nesse caso. – Replicou, fazendo sorrir. –
- Tanto quanto eu. – A mulher mordeu a isca.. –
- O que você quer em troca? - Ele torceu os lábios.
suspirou teatralmente, fingindo resistência.
- Oh magnânima futura vossa excelência, será que pode me ajudar logo? - Insistiu ele. Logo rolou os olhos tentando esconder seu coração acelerando-se com esse clima brincalhão entre ambos.


Era uma boa mudança de ritmo após o clima competitivo na escola após se conhecerem e depois, o drama antes da separação para faculdade. Parecia que sempre havia algo mal resolvido entre eles, mas finalmente as peças pareciam estar se encaixando para os dois e por mais que odiasse admitir, passara a ansiar por aqueles pequenos momentos com a mulher ainda mais desde que terminara com Camille. Não que antes a presença de não lhe afetasse, mas tudo ficava reprimido na gaveta em que guardara seus sentimentos. Contudo naquelas duas últimas semanas após o término fora se deixando sentir esperança novamente. Contatara a mulher uma semana após o término, desculpando-se por sua grosseria na festa e explicando tudo. Mas sua conversa fluíra tanto que passaram a ir ao Waak todos os dias na mesma hora para se esbarrarem e continuarem os encontros casuais. Agora haviam arrumado um ritmo gostoso que esperavam que nunca acabasse.


- Prontinho, . Deu um tapinha no peito do homem, olhando em seus olhos. Agora está pronto para perder.
- Competitiva, han? Quer tornar isso mais interessante? - Ele arqueou uma sobrancelha em desafio.
- Tá bem, , o funeral é seu. - Deu de ombros e mordeu o lábio em diversão. - Se eu ganhar… Você terá que carregar meus livros pela faculdade por duas semanas. - Pontuou, com o indicador no peito dele.
- Quando eu ganhar, … - Começou, colocando o cabelo dela para detrás da orelha e aproximando seus lábios de seu ouvido. - Vou querer um encontro.


arregalou os olhos, com os pelos da nuca todos arrepiados. Não acreditava como o homem ficara ainda mais atrevido com o tempo. Quase a fazia querer perder. Quase. Mas era demasiado competitiva para deixá-lo vencer.


- Fechado, . – Apertou sua mão.
Foi a única vez em sua vida que cogitou muito, mas muito seriamente em perder uma batalha.




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- OK. - gargalhou nervosamente, horas mais tarde. - Vocês venceram. - Deu de ombros, percebendo que as cargas de sua arma haviam acabado.


Só então se juntou ao grupo que assistia à batalha final dos sobreviventes. De um lado havia Camille e Patrick e do outro, e . Ambos os grupos pareciam levar paintball mais a sério do que reconhecia ser competitivo ou saudável. Seus instintos quase que os convenciam de que aquilo não se tratava de um jogo, mas sim que estavam em uma espécie de campo de batalha, em que sua vida dependeria de uma vitória sobre o time oponente. Sendo estes últimos seus inimigos mortais, ou algo do tipo.


- , para quem está torcendo? - Questionou Benji, sorrindo sugestivamente. Já estando consciente de todo o passado de seu amigo com , assim como a recente confusão com Camille, a ironia de cada uma estar de um lado do campo não pareceu lhe escapar.
- Para o . - replicou, sem olhar o amigo nos olhos.
- Para , você quer dizer? Pensei mesmo que diria isso.
- Eu não disse, na verdade.
- Eu te conheço, . Talvez até mais do que você mesmo. Não adianta tentar enganar um amigo de infância.
- Não estou tentando enganar ninguém, não me enche o saco no meu aniversário, Benji.
- Então quer me dizer que está torcendo para o, em suas palavras, “ barulhento”? - Fez aspas no ar com os dedos.
- Eu só o chamei assim uma vez. Mas sim, ele foi meu guia da faculdade, afinal.
- Sei...- Benji se interrompeu, com uns berros de quem assistia a partida. - Olha, e Patrick se abateram, vai manter essa sua ideia de que está torcendo para o ?
- Me abstenho de opinar.
- Compreensível, quer dizer, ambas têm em comum o pé que deram na sua bunda..
- Ha ha, já acabou de tentar estragar meu humor? -
- Isso não é uma tentativa de puxá-lo para baixo, só queria que tentasse fazer algo da situação que se meteu. Faz anos que todo o rolo com deu errado, porque não expõe como se sente por ela de vez e acaba com isto? Está na cara de que ela sente o mesmo!
- Não está na hora certa. - limitou-se a suspirar, observando tentar atirar tinta em Camille com um balão que encontrara no campo.
- Por que é que você sempre complica a porra das cois…? Espera! Você não negou… - Benji sussurrou com um meio sorriso. - Isso é bom.
- Ah, tenha dó, Benji! Eu acabei de terminar com a Cam tem poucas semanas. E olha que ela era perfeita para mim, você mesmo sempre disse isso. Se não deu certo com ela… Não sei. e eu somos muito diferentes.
- Talvez isso que você vê como problema seja a solução. A prova é que serem pessoas distintas não os impediu de se apaixonarem no colegial. Aliás, se está procurando um traço em comum, você sabe que é tão cabeça dura quanto ela.
- Pouco antes de nos despedirmos, antes de eu ir para Berkley, fiz com que ela prometesse me dizer se algum dia estivesse pronta para ter uma relação comigo. - olhou para o céu rapidamente, inclinando-se para trás no assento. - Hoje penso que talvez nunca esteja. O melhor para mim é seguir em frente.
- A escolha é sua então, amigo. - Lançou Benjamin, desistindo. - Pode continuar esperando que ela vá atrás de você, ou pode ao menos dar a entender que apesar do término recente, nunca esqueceu dos sentimentos de anos atrás. - Mirou o aniversariante, lhe indicando que não estava para brincadeiras.
- Vamos, parece que elas acabaram. - Acenou para a imagem de duas meninas empapadas em tinta por morte dupla. Nenhuma de duas ganhou aquela batalha, mas se perguntava se alguma delas algum dia venceria as defesas ao redor de seu coração.


Eu a desafiei para um encontro. Queria contar a seu amigo. Mas lhe parecia sem motivo dizê-lo, já que havia perdido sua aposta. Além disso, não queria pôr mais pressão na relação frágil que estavam forjando do que o necessário. Dessa vez, ele faria de tudo para dar certo. Não recuaria de estar com ela enquanto ela mesma não lhe pedisse explicitamente o contrário.



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Saindo do Campo para o Mc Donalds do outro lado da rua após o jogo intenso, fez questão de localizar o aniversariante e puxá-lo para uma conversa ali fora mesmo.
- E nossa aposta, ?
- Ambos perdemos. - virou a cabeça tentando entende-la.
- Ou ambos ganhamos… - sorriu, sentindo-se subitamente tímida. Apesar de mais cedo ter participado das provocações, uma coisa era flertar no calor do momento, outra era tomar uma iniciativa com intenções tão claras.
- Gosto do jeito como pensa, . - Ele sorriu de volta. —
- Isso é um... – Ela balançou a cabeça aguardando a resposta explícita. A forma como às vezes parecia tão vulnerável perto de si, deixava com o coração na boca. Ela não era assim, o que lhe fazia acreditar que o que Benji tinha dito havia pelo menos 70% de razão. –
- Sim. Claro. – Segurou-a pelos ombros antes de puxá-la para um abraço. – Até porque eu não aceito uma aposta para perder.
- Foi o que eu imaginei. – Ambos sorriram antes de entrarem no restaurante juntos. –


sabia que não era uma boa ideia demonstrar tanto afeto na frente de seu ex namorado, mas não encontrou em si a força de afastar quando estava tão próximo.
Ao entrarem, pôde sentir o olhar de queimando sobre ambos. Tentou ignorá-lo, mas resolveu dar um fim àquilo ali mesmo. Por isso, assim que terminaram de comer, chamou-lhe para uma conversa. Não foi fácil andar com lado a lado, para fora do restaurante onde quase sempre comiam e pensar no que era certo a se dizer sobre os dois, ou o fim dos dois... A realidade é que o coração de estava tão dolorido com a resposta quanto sabia que o de ficaria.
Era o que achou que nunca sentiria por : Amá-lo, mas ter deixado de gostar.





-, sinto muito. – Parou de andar subitamente, sua cabeça estava girando para tentar as palavras certas e tudo o que sentia era mais atordoamento. – Mas...
- Não dá mais? – Ele continuou a frase, parando com menos brutalidade que ela. Seu meio sorriso tristonho cortou o coração da menina. –
- Eu não preciso dizer muita coisa, não é? – chegou mais perto com o olhar caído. sentiu uma mínima pontada de raiva dentro de si. Como assim não precisava? –
- Na verdade as coisas parecem bem claras agora, . – Sua voz engrossou de leve, o timbre causou um arrepio esquisito na espinha da menina. Houve um silêncio antes que ele continuasse – Eu só não consigo entender o porquê, Sabe? – Encarou os pés. – Eu podia sentir o quanto gostava de mim. Estávamos muito próximos antes de toda essa confusão.
- Eu sei, e nada foi mentira! Eu realmente estava .
- Estava… – O menino engoliu em seco, mordendo os lábios em seguida. –
- Sim. Eu te amei, . – segurou um de seus braços que agora tinham se cruzado. O olhar de estava mais cortante do que o sentimento quebrado que havia dentro dele, era visível. – Amei mais do que amigo, não tenha dúvidas disso, sempre fomos bons um pro outro, compartilhamos coisas incríveis, mas momentos passam e eu estou...
- Apaixonada por ele. - Terminou a frase dela antes mesmo que ela tivesse a chance.-
Houve um silêncio de pelo menos cinco segundos até que proviesse alguma onda sonora de ou .
- Eu... eu queria não estar. - Murmurou um tanto chorosa. – Eu queria sentir algo por você nesse momento que ultrapassasse um amor fraternal. Mas não sinto, . Simplesmente não sinto. Não posso forçar.
- Eu entendo. - Suspirou, derrotado. – Só não pode dizer pra mim que o sentiu foi amor. – A repreendeu severo. –
- É claro que amei. – Rebateu firme, porém triste. – Mas, momentos como esse passam… Querendo ou não, ...
- Amor não é um momento. – Afirmou duro. – Já que estamos aqui, seja sincera comigo.
- Não. Amor não é um momento mesmo. – tombou a cabeça. – Na verdade talvez eu não tenha te amado da forma que você queria, , como você fez comigo. Eu te amei, e ainda te amo, mas não da forma como você quer. – Com a testa franzida, pareceu indignado. –
- Oi? – Entortou a cabeça dessa vez imitando sua ação. não só parecia estar fora de si, como estava de fato. Seus possuíam uma coloração esquisita. Mas cogitou que os dela não estivessem tão diferentes dos dele. – Você simplesmente joga na minha cara que tudo isso de amor era um fingimento da sua parte, porque sim , foram muitos “eu te amo’’ durante esse tempo, diz que essa merda de tempo todo me amou como “amigo’’, e EU, eu, , te amei de uma forma que não deveria? – Seu dedo indicador apertava seu próprio peito, era possível vê-lo arfar, sem a habilidade de conceber a ideia. Era de fato, extremamente doloroso para ele assimilar.
- Você amou a idealização de mim que criou em sua cabeça! – cuspiu as palavras assim como ele. – Você amava essa imagem de uma festeira, que te acompanha nas suas viagens malucas. Da mocinha introvertida que você conseguiu trazer pra sua vida doida – Gesticulou abrindo os braços. – Desse conto de fadas que você criou de que me “salvou’’ de um mundo chatinho, como você mesmo sempre disse. – A feição do menino era indecifrável, o coração de ambos batia numa intensidade grande. chegara a sentir falta de ar por alguns instantes. –
- Conto de fadas que EU criei? – Exclamou incrédulo. – Sim, você tem essa essência toda... – perdeu as palavras. – Mas eu te amei por esse exato motivo, ! Você é que não pareceu se importar de sair comigo! Aliás, pareceu não, né? – Sorriu com escárnio. – Parecia que estava se divertindo, que estava feliz... Mas pra quem conseguiu dizer que me amava sem me amar, sinceramente, essa nova declaração não está me surpreendendo.
- Para de se fazer de coitado, . – entortou a cabeça. – Talvez você nem tenha percebido que amava um “holograma’’ que sua mente inventou. Mas, para pra pensar. – deu um giro no calcanhar, era isso ou surtar completamente. – Era ir com você ou brigar por não estar junto ou fazer parte do mural das outras fraternidades que você sempre tinha uma foto pendurada… Nós, realmente, éramos bons no que fazíamos – A menina fungou. – Só que isso não é um trabalho. Distinguir um sentimento de outro é complicado mesmo, nos tornamos amigos e...
- E você esqueceu de me dizer isso esse tempo todo? – Grunhiu abrindo os braços. – Tudo isso você se esqueceu de dizer o tempo todo, só pra você achar que eu te amava como... – as palavras se perderam novamente. –
- Eu errei, de fato. – Assentiu engolindo em seco. – Deveria ter conversado, mas... Tudo isso é, era... tão novo pra mim! – explicou. – , uma coisa que precisa colocar nessa sua cabeça é que eu nem sempre vou ser “A Rainha de Vermont”! Eu também sou um pouco nerd, também gosto de uma noite tranquila com netflix, de ir às aulas e ter uma rotina!
- Eu sei disso. Sempre soube disso. Mas você simplesmente supôs que eu não gostava por inteiro, isso me tira do sério!
- Então por que você simplesmente não me deixava ser assim? – Indagou, pode notar as veias de seu pescoço engrossarem. –
- Porque se eu não fizesse isso você ficava trancada em casa! Não se lembra de como estava na época, ?! Você nunca saía! Estava completamente deprimida e...
- Eu não estava deprimida.
- É deprimente!
- E lá vamos nós! – grunhiu. – Aí está, ! Você nem de longe consegue entender o que eu sou, e se você não consegue fazer isso...
- Eu estou tentando.
- Não. – o interrompeu, chegando mais perto. – Você está tentando me moldar, conforme seus princípios, tentando me fazer “enxergar’’ que ser como eu sou é ser deprimente, mas você não vai me convencer disso, , porque eu sou feliz assim também!
- Você fica com essa pira doida de que eu quero te moldar. – ele deu um giro no calcanhar. – Eu te mostrei quem você pode ser, e você pode ser mais do que já é, se não ficar se limitando...
- Chega , eu cansei de tentar me encaixar nisso, sabia que não devia ter acreditado nesse papo de trégua. Eu nunca superei o , ok? Mas sobre nós dois, me dê um toque se decidir começar a ser meu amigo. Porque isso aí… - Apontou em volta. - Se algum dia foi amor, já não é, mas sim fixação ou posse. - Deu um passo para frente com um olhar intenso. - E eu não sou uma propriedade!


partiu caminhando pelas ruas, deixando sem nem mesmo olhar para trás. Precisava de ar para assimilar o que tinha acabado de acontecer e por esse motivo, ela sabia que uma caminhada faria bem para seu cérebro.
Lembrou-se de Josh naquele momento. Sempre que tinha seu nível de estresse elevado, ou alguma briga, qualquer discussãozinha que fosse, Josh a orientava a caminhar, sentir o vento bater no rosto, ou que fosse encarar novos horizontes – sabendo que não eram novos ali em South Mills. Era sempre bom espairecer, como ele mesmo dizia. Josh a ensinou a não ruminar problemas; tudo tinha uma solução e se não tinha, já estava resolvido, a premissa era básica e quase todo mundo que era bom na positividade detinha isso como um mantra, mas a realidade é que ouvir de Josh era mil vezes mais confortante do que qualquer outra pessoa.
O coração da menina apertou no peito a ponto de fazê-la sentir os olhos arderem de leve, não havia motivo para chorar, já tinha trabalhado bem essa questão, mas... Tudo estava parecendo se fundir naquele momento. e até mesmo ela e suas palavras mal ditas... Ou ela deveria dizer, mal recebidas?
sempre teve aquele problema constante ao longo da vida de distinguir o que sentia de verdade, para algumas pessoas era um tantinho mais fácil entender o que era amor, o que era paixão, amor de amigo… Mas na realidade, ela quis de verdade, amar como algo mais. Quis tanto que acreditou que houvesse conseguido. Ouviu dizer que quanto mais contasse uma mentira, mais fácil seria de acreditar nela; imaginou que fosse isso, até perceber que naquele instante a mentira do amor mal sentido era construído num castelo de areia; instável, desequilibrado... Propenso a desmoronar a qualquer momento.
Se relacionar não é fácil em forma alguma, sabia. Se falando de pessoas tão mais cheias de peculiaridades quanto nós mesmos, como ela, sendo uma , não poderia ter sacado isso antes? A única explicação plausível era que o universo, mais uma vez, havia permitido a demência de para que ela aprendesse perpetuamente mais uma lição.
Quando parou de andar após uma longa caminhada pela Green Street, localizou um bar bem-apessoado logo ao seu lado. Não havia muitas pessoas dentro dele, as luzes cor de rosa nas paredes deixavam-no mais convidativo para entrar e tomar um drink. Havia algo de psicodélico e alternativo sobre o pub que lhe traziam alguma calma. Dentro de si imaginou que era o que precisava para finalizar a noite: tomar algumas doses de álcool e seguir para mais alguns dias de batalha de estudos. Ainda, a mulher pensava que faria bem para seu fígado. De alguma forma imaginava que seus sentimentos e fígado ultimamente pareciam interligados. Além do mais, nada como o álcool para fazê-la dormir gostoso após toda aquela chuva de confusões.
Dessa forma, empurrando a porta do bar, entrou tão sozinha como chegou, arrumou um assento e pediu uma cerveja. É claro, depois dela vieram outras, as cervejas se multiplicaram como lebres e algumas doses variadas entraram na mistura. Tudo vindo fazer parte do estado um tanto depreciativo da menina enquanto qualquer líquido que possuísse álcool e pudesse ser vendido adentrava em seu corpo.
De repente sua língua parecia mais desenvolta, assim como seu corpo mais leve e seus pensamentos em consonância, também voaram à coisas mais leves do que sua recente discussão com .
De repente nada parecia muito difícil ou impossível. O que se impunha entre ela e o que queria mesmo? Tudo parecia ser uma boa ideia, na verdade, inclusive a vontade tão adiada de se declarar para , talvez? Dizer a ele que naquele exato dia em questão, estava pronta para amá-lo como nunca havia amado alguém na vida antes… podia ser um exagero? franziu o nariz em resposta, estava conversando consigo mesma. Poderia mandar uma mensagem de texto? Ou de voz? Ligar seria uma boa ideia... Ou, claro, como toda alcoolizada, pensou em algo ainda mais mirabolante. Poderia simplesmente ir até a casa dele, e dizer o que viesse em sua mente.
E foi por esta última que ela optou.


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Dois toques tímidos na porta da casa dos bastaram para despertar o jovem de sonhos que fugiram de sua mente tão logo abriu seus olhos. Seu sono nem sempre fora tão leve, mas crescendo com pais médicos em casa, os quais por vezes ele ansiava pela chegada do trabalho à tardes horas fizera com que desenvolvesse uma sensibilidade especial a barulhos durante a noite.
não falava muito de seu pai. Não sabia tanto sobre ele, mas não por culpa de sua mãe, Calliope. Na verdade, a mulher insistia que o jovem soubesse mais sobre suas raízes. Era mesmo que evitava o assunto a todo o custo e teimosamente repetia seu mantra de que sabia o suficiente sobre seu velho. O homem se chamava Peter e deixara a sua esposa e filho quando este tinha somente dez anos. O suficiente para conhecê-lo bem e querer tomar responsabilidade por Callie, mas também jovem o bastante para sentir sua falta profundamente em seu coração de menino.
Por isso se tornara de certa forma uma alma anciã. Sempre um pouco a frente de seus colegas de classe e depois faculdade, sem paciência para frivolidades de popularidade e fofocas. De certa forma o brilho da magia da infância e da inocência se apagara de seus olhos quando tomara por si a responsabilidade de auxiliar sua mãe a cuidar de si mesmo. E também, é claro, cuidando dela na medida em que um menino de dez anos poderia.
Certa vez Calliope retornara à sua casa após um longo plantão no Hospital de South Mills para um piso todo ensaboado e úmido. O pequeno com um pano à mão e ajoelhado em meio a um monte de espuma de sabão lhe explicara que tentara lavar as roupas de escola, mas que a máquina não cooperara. A mulher não encontrou em seu coração um único instinto de castigá-lo, mesmo sendo recorrentes suas tentativas fracassadas de ajudá-la.
Eventualmente, o jovem pegara o jeito das tarefas domésticas e tão logo ficou velho o suficiente, arrumou um emprego em uma livraria local. Foi então que sua amizade com Benjamin floresceu, em meio a livros de Game of Thrones e Comics da Marvel.
Abriu a porta, bocejando, com os olhos semi-abertos. Estava tão cego que em princípio acreditou que a mulher encharcada de chuva à sua frente fosse sua mãe.


- ? Está tudo bem? - Segurou a mulher quando ela tropeçou ao dar um passo a frente. - Por que não avisou para ninguém que estava indo voltando? Ficamos preocupados, até Taylor mandar mensagem que você tinha dito que voltaria de uber. - O homem tagarelou, encaminhando-a para o sofá da sala.
- Me deixxa falar, . - Enrolou o apelido com risinhos surpresos. Gostara de como era sonoro e doce o som entre seus lábios. - . Maack. - Repetiu, absorta em si por uns segundos até virar-se para a face preocupada do garoto. Tracejou a linha do maxilar de sentindo-lhe suspirar e fechar os olhos por segundos mais do que qualquer piscada.
- Por que está assim? - Ele suavizou o tom, como raramente havia se direcionado a ela, diferente demais de suas maneiras habituais, um pouco brutas demais.
- É que eu não tava… - Engoliu em seco. - Pronta eu nãoo… - Esfregou a testa, tentando fazer mais sentido. - É só que teve o J-Josh...- Começou, pausando para ver se o homem acompanhava.
- Na escola, você diz? - Ele perguntou, acariciando seu braço que não percebera estar tremendo.
- S-sim, eu só que antes teve ele e eu só…
- Não estava pronta depois do que aconteceu com ele por algum motivo. - especulou, levantando o queixo da mulher para encará-lo. - Seja o que for, eu entendo, não precisa me dizer em palavras porque estou vendo como o que quer que tenha acontecido te afetou.
- Quero tentar. - Balançou a cabeça. - Josh foi meu ‘best’, meu melhor amigo. - Engoliu em seco, após assentir. - Também meu primeiro amor. - Completou, soluçando.
- E algo ruim aconteceu? - Perguntou o garoto, ao ver a transformação no rosto da mulher para uma careta de tristeza.
- E-ele… foi atropelado. Era cedo demais. - Engoliu em seco. - E depois que o perdi, nunca pensei que pudesse de novo, você sabe…
- Gostar de alguém?
- Não, a outra coisa.
- Amar? - Suspirou, , observando-a assentir.
- Eu ia quebrar, . Na minha cabeça se eu ficasse com alguém que me deixasse assim de novo. Ferrou, sabe? - Suspirou, tendo um momento gélido de sobriedade. Falar sobre aquele assunto com alguém que não fosse a psicóloga ou Nicholas era algo grande para ela. E percebeu que sentiu isso em suas palavras.
- Sinto muito, . - Abraçou-a com um olhar simpatético, que parecia querer protegê-la impossivelmente de uma dor que escorreria por entre seus dedos se tentasse contê-la. - Eu entendo um pouco melhor agora. Obrigado por me contar.
- Difícil, foi, mas com o rolo com , o acidente, as conversas com a doutora Carlan…
- A sua psicóloga do hospital?
- Sim. Com isso tudo… Eu acho, não, eu sei - corrigiu-se - Que estou pronta para ter algo verdadeiro de novo. Quando tentei não me machucar, eu machuquei a mim e a outros muito mais do que se só escolhesse me arriscar.
- Isso é muito corajoso da sua parte, . - O homem olhou-a admirado e, não que fosse admitir ainda, mas com uma pontinha de esperança.
- Se lembra da promessa que eu te fiz?
- Vo-cê quer dizer… - Foi a vez dele gaguejar, maravilhado e com a memória tão fresca em sua mente que era doloroso tentar não criar expectativas.


“- Só não sinto que agora seja o momento. – Falou a mulher, buscando nos olhos do menino traços de compreensão.
- Eu vou deixa-la em paz, então. – Assentiu, afastando-se. – Mas me promete uma coisa.
- Prometo. – Disse ela, sem conseguir segurar-se.
- Por favor, - Sorriu - Prometa que se algum dia você sentir que esteja aberta para existir um “nós”, você vai me dizer. – Replicou.
- Mas e se... – Começou, sendo cortada logo depois.
- Não. Sem condições, sem “e se”. Só seja honesta comigo, seja qual for a situação. E eu o serei contigo.
- Ok. – Cedeu ela. – Justo.”



- Você quer dizer… - O homem parou, não querendo se arriscar a pronunciar seu desejo em voz alta como se isto pudesse impedi-lo de se realizar.
- Não só estou pronta, como você é a pessoa com quem quero me arriscar. - avaliou o olhar do garoto, perdido em pensamentos. - Não precisa responder ainda, só pensa nisso, . - Aproximou seu rosto do dele e roubou-lhe um selinho. Depois, como se não houvesse acabado de jogar uma bomba nele, aninhou-se em seu peito no sofá e deslizou para o mundo dos sonhos.





acordou com uma leve dor de cabeça, aninhada em um travesseiro que não era seu e fora de sua casa. As circunstâncias conspiravam para que estivesse confusa ou desorientada. Mas os acontecimentos da noite anterior haviam sido tão marcantes para si, que ainda estavam frescos em sua mente como se houvessem acabado de acontecer.
- Bom dia, . - pronunciou, trazendo-lhe uma água e um remédio.
- Obrigada. - Agradeceu, engolindo a pílula e matando sua sede. - Bom dia, . - Avaliou a face do garoto, com interesse. O olhar do homem parecia não querer encontrar o seu por uns segundos.
- Sobre ontem… O que exatamente você se lembra?
- Bem, só que eu tive um dia complicado, acabei bebendo em um bar e de alguma forma vim parar aqui com você. Por que? - Ela fez-se de confusa, provocando o homem ao saber exatamente o que ele lhe estava a perguntar.
- Não se lembra de mais nada? - Arqueou a sobrancelha, pensativo e com os lábios levemente retorcidos para baixo.
- Tipo o quê? - Ela olhou nos olhos dele, tentando esconder a diversão.
- , ontem tivemos uma conversa e… - O rapaz seguiu embaralhando suas palavras por minutos até que ela decidiu alivia-lo.
- Ahh você quer dizer da parte que eu te disse que gostava de você e estava pronta pra ter uma relação contigo? - Indagou, com um biquinho e olhar divertido.
- Sua… - O homem gargalhou, abraçando-a no processo. A mulher se juntou ao seu riso, balançando tão forte que caíram do sofá ao tapete. Ele rolou para debaixo dela, para que sentisse menos o impacto.
- Complete sua sentença, . - Desafiou.
- Sua … Linda. - Beijou sua testa. - Inteligente. - Mordiscou seu ouvido. – Incrivelmente teimosa. - Lambeu a pontinha de seu nariz brincalhão, fazendo-a se encolher com um enorme sorriso.
- Nossa, o que falta nessa longa lista de complementos? - Fez um biquinho, tentando se fazer de séria.
- Adorável. - Ele sorriu, indo para sua boca e sendo encontrado por ela a meia distância.
O beijo não durou muito, era tudo muito novo e as sensações sobrecarregavam ambos com uma energia que parecia que os iria consumir. Contudo, ainda sim serviu para deixá-los sem fôlego com sua intensidade. Foram transportados para a noite de seu primeiro beijo, no baile do colegial. Era a mesma paixão envolvida, mas não eram mais o mesmo garoto ou a mesma garota. Aqueles dois não estavam preparados para algo tão precioso como a conexão que tinham, e provavelmente acabariam não lhe dando o devido valor. Agora a e o do agora? Ambos haviam passado por outras experiências e relacionamentos. Ambos haviam amadurecido e crescido para se tornar donos de si próprios, pessoas independentes, para então, aí sim, aprenderem a se complementarem. Não como partes de um todo, mas sim como universos distintos que ao se chocarem criassem uma realidade ainda mais complexa.
Por isso tudo, pararam para ter uma longa conversa sobre o que aquilo significava. O mais importante é que não queriam desperdiçar mais tempo separados. Era como dizia o velho ditado : a ausência faz crescer a paixão. E se isso era mesmo verdade, ali estava a prova.



Capítulo 18 - O coração de uma Alpha



- Bom dia, iniciantes. Hoje será um longo dia para vocês. As calouras devem ir com minha amiga Cassidy e as demais candidatas venham comigo. - Amy proferiu, encaminhando a Lausen e para o interior do alto edifício da irmandade.
Quando chegaram em um gazebo cheio de cartazes, empilhados do chão a quase o teto, lançou um olhar acusador para sua amiga.
- A quantos eventos destes precisaremos ir? - suspirou, dando um leve aperto no braço de Taylor.
- A quantos for necessário para sermos aceitas, ssshhh! - Pediu silêncio com um olhar irredutível.


Taylor estava feliz em realizar qualquer tarefa que uma integrante da irmandade lhes encarregasse de fazer. A última vez que vira a amiga tão ansiosa com qualquer coisa fora ao decidir qual curso iria escolher para seu futuro. Mas agora era diferente, participar de uma Irmandade era tão Taylor Lausen que o estranho é ela já não ter aplicado para alguma previamente. A própria dizia que estava só a espera de uma companheira como , mas algo lhe dizia que tinha a ver com a saúde frágil da avó de Taylor enquanto esta estava começando a Faculdade. Praticamente havia feito seu primeiro ano pela forma não presencial, o que havia negociado com a reitora, com uma larga doação à Universidade de South Mills. Naturalmente, não foi nenhum choque que e ela não tenham se cruzado até serem colocadas no mesmo alojamento.


- Como aplicantes mais velhas na faculdade, terão uma tarefa mais voltada para um trabalho que será comum para a Beta Phi. A maior divulgação de nossos eventos ocorre através desses cartazes, então queremos ver sua capacidade e criatividade ao espalhá-los pelo campus. Hoje serão avaliadas por sua organização em grupo e trabalho conjunto.
revirou os olhos para Taylor e engoliu seu descontentamento goela abaixo, abrindo um sorriso falso. Lausen a arrastara para mais um dia de processo seletivo da Beta Phi, ao qual ambas até ali haviam passado com facilidade. Fosse por conhecer a vice presidente Amy, que lhe fora apresentada por Patrick há muito tempo atrás, fosse por Taylor ter vontade o suficiente para atropelar qualquer um que ficasse entre as duas e a Irmandade.
Não era que fosse contra a ideia de participar de uma irmandade. Mas sim que não queria ser uma Beta quando sabia como era ser uma Alpha. Beta é só a segunda letra do alfabeto grego, originada do alfabeto fenício, na letra Beth, que significa casa. Mesmo com a evolução de dois séculos, se manteve o significado em hebraico e acadiano. Alguns acreditam que mesmo de antes disso possa ter evoluído do hieróglifo egípcio para a palavra casa.
Todavia, não sentia que ali era ou algum dia seria a sua. Em seu coração já tinha uma Irmandade, uma a qual ainda amava sem mesmo existir. E estar ali como que cortejando qualquer outra a fazia se sentir uma espécie de traidora. Pior ainda que fosse com a tal “irmandade mais popular do campus”, de uma realidade paralela em que a Alpha Kappa Nu não existia.





- Estou esgotada, ! - choramingou, assim que o homem abriu a porta de sua casa. Ela simplesmente roubou-lhe um selinho e passou para dentro da casa do garoto como costume desde que haviam se acertado há uma semana. Jogou-se no sofá, deixando sua mochila no chão a seu lado.
- “Oi , como você está?” - Brincou o garoto, mais para si mesmo indo sentar-se ao lado da mulher.
- Desculpa, . - Ela endireitou-se no sofá, abraçando-lhe assim que ele sentou-se a seu lado. - Como foi o seu dia? - Perguntou de forma genuína.
- Você primeiro, depois falamos de mim. - Ele sorriu, balançando a cabeça, sabendo que ela não protestaria. A mulher era assim desde o colegial, se tinha algo a perturbando não conseguiria pensar em nada mais até resolvê-lo.
- Você me conhece tão bem. - Inspirou, mordendo o lábio.
- Ainda não acredito... - Disse ele, inspirando o aroma doce do cabelo de .
- Eu também não. - sorriu, encostando sua testa na dele.
Não precisou de explicações. Ela se sentia tão em êxtase quanto ele de que os desenganos que haviam sofrido haviam resultado no seu reaproximamento. Às vezes o que precisamos é dar tempo ao tempo que tudo se resolve. Era o que seu pai dizia quando era pequenina e por mais que sempre duvidasse, sempre era provada errada pelo universo. Mas algo fácil de ser falado por vezes é muito difícil de ser praticado.
Quando lia seus romances preferidos, vivia pelos saltos ao futuro, quando o livro teria o famoso “Dois anos depois” escrito e magicamente todos os desafios do enredo pareceriam fazer sentido. Mas quando se tratava de sua vida mesmo, a mulher sempre quis tudo com rapidez, sempre quis que a cena pulasse para o próximo grande acontecimento, sem perceber que todo acontecimento é grande e significativo e carrega grandes ensinamentos.
Qual seria a graça de Orgulho e Preconceito se Elizabeth e Darcy houvessem logrado em se juntarem desde o primeiro momento? Se Lizzie não o houvesse julgado mal e o feito rever suas atitudes, o desafiando… Se assim fosse, será que sequer teriam se apaixonado de forma tão profunda? Os sentimentos verdadeiros resistem ao tempo e as lamúrias, resistem aos desafios e interferências e sobrevivem mesmo a um maior dos obstáculos do ser humano: a morte. Porque não se é apenas carne, mas também se tem uma alma, e é esta que ama, que sonha ou anseia.
Ao jantar, enquanto os jovens conversavam, sentiam-se pela primeira vez no lugar e tempo certos para se permitirem sentir. Não no ensino médio quando ainda não estava pronta e não havia deixado Josh ir, nem após a transferência de quando ele ainda não conhecia as novas facetas da mulher que haviam despertado com sua relação com . Tampouco era a hora quando ela acordara de seu acidente confusa com tudo, e com convencido que enterrar o que sentia era a melhor solução. O melhor lugar do mundo para eles era o aqui e o agora, conversando à mesa sobre amenidades da juventude.
- Não é que eu seja contra irmandades.. - esperou, enquanto pousava o vidro com a batata frita.
- O que eu não julgaria se fosse o caso… - Murmurou baixinho, dando uma garfada em seu bife.
- Mas é que eu não estou me identificando com as Betas, e não sei como contar isso a Taylor.
- É só você fazer com que elas neguem sua admissão. - Sugeriu, catando uma batata.
- Seria ótimo se a Amy não houvesse já praticamente dito que estou dentro. - Revirou os olhos, salgando sua salada. - É um saco ser eu! - Bufou, pousando o queixo entre as mãos teatralmente.
- Isso que dá ser bem sucedida em tudo. - Gargalhou ele, recebendo uma batatada na sua face.
- De qualquer forma… - A mulher limpou a garganta, meio constrangida e meio orgulhosa. - Essa não é uma opção. - Proferiu, cortando sua carne.
- Querida, se o problema é que você não se identifica com nenhuma Irmandade do campus, porque então não cria a sua própria? Pode mandar do jeito que eu sei que você curte e estampar seu rosto na casa inteira para reverenciarem…. - O menino brincou, parando ao perceber o olhar intrigado da mulher que parou a meia garfada quando ouvira a ideia.
- Você é… - Começou, pousando seus talheres e levantando-se. esperava fins terríveis para aquela sentença, mas foi surpreendido. - Um gênio!
- Pera, o quê? , era brinca... - Começou, terminando a frase para a mesa vazia. - deira…
Terminou de comer, limpando os lábios com guardanapo e lavou a louça, ouvindo barulhos vindos de seu quarto. A curiosidade lhe venceu, se apressando para penetrar o recinto onde a mulher havia tomado conta. Alguém poderia achar invasivo como ela andava por sua casa quando Callie não estava em casa, mas não. Ele gostava. Era como uma demonstração de afeto para ele. À sua maneira era como uma declaração da mulher de que se sentia confortável junto a . Que com ele se sentia em casa.
- O que está fazendo, doidinha? - Perguntou, beijando o topo da cabeça da mulher.
- Espera um pouquinho. - Sorriu, sem tirar atenção do que quer que estivesse desenhando em sua mesa de estudo.
aproveitou para continuar a ler seu livro na cama enquanto a mulher trabalhava. Colocou uma música agradável em sua caixinha de som, tão tranquila, que levou um susto quando a menina finalmente chamou sua atenção.
- Prontinho. O que acha? - Perguntou, com expectativa, entregando-lhe uma pilha de papéis. No primeiro podia ver o desenho de três letras gregas na fachada de uma grande residência. Abaixo havia uma lista de objetivos e nas páginas a seguir ideias para eventos e projetos a serem realizados.
- Por que Alpha Kappa Nu? - perguntou, com um meio sorriso para a engenhosidade da mulher de trabalhar tudo aquilo em uma noite.
- Só um sonho que eu tive uma vez… - Murmurou com um sorriso contido. entendeu que aquilo seria uma história para ser contada em outro dia. - Você gostou?
- Está brincando? - Perguntou , puxando a cadeira de rodinhas para perto de onde estava sentado à cama. - Você simplesmente redigiu uma proposta de Irmandade em duas horas. Eu tinha dito como brincadeira, mas tenho que admitir que aqui tem muito potencial, ! Algumas Irmandades só se preocupam com festas e popularidade, mas você fez ser sobre retribuir com trabalho voluntário e recepcionar as calouras e integrantes ajudando mesmo na parte acadêmica.. E essa ideia do Santa Lovers Day… minha mãe vai adorar ajudar a agitá-la com o hospital.
- Jura mesmo? - Ela disse, com um grande brilho nos olhos. Sentia profundamente que aquela seria a decisão certa. Mas seu enorme sorriso, que resistiu a um selinho de , se afrouxou quando lembrou de uma variável importante. - Mas como diabos vou convencer a Taylor disso?
- Isso é um projeto seu, . Ela não tem que aprovar ou não.
- Eu sei, mas… Sinto que não vai ser certo fazer isso sem ela. Ela é meu braço direito, e entende muito das regras de irmandades no campus. Seria muito mais fácil e também melhor para mim fazer isso com ela.
- Boa sorte com isso. - gargalhou, puxando-a para a cama a seu lado.
- Te odeio. - Disse ela, com um biquinho, deitada a sua frente.
- Eu também te amo, . - Proferiu, de forma mais não calculada, mas que sabia dentro de si ser verdadeira.
- Amo você, . - Sorriu amplamente, colando seus lábios em um selinho. Mas afastando-se um segundo depois, após os protestos do homem. - E já que você disse primeiro, eu vou tomar a liberdade de eu mesma perguntar a você.
- O que seria isso? - Ele sorriu, cruzando os braços deitado.
- , quer se dar a honra de aceitar ter uma namorada espetacular como eu?
- Acho que a pergunta não é bem essa. - Gargalharam tanto que seus estômagos doeram. - Mas sim, , eu aceito. Agora vem me dar um beijo, namorada.
- Só um, namorado? - Moveu as sobrancelhas diabolicamente e voltou para o lado do garoto, sentindo-se em paz.





- Você viu meu sutiã em algum lugar? - Taylor perguntou para Benjamin, jogando para ele a camisa que estava a seu lado na cama.
O garoto, que se recompunha encontrando peças de roupa espalhadas pelo quarto, apontou para o abajur ao lado da mulher de onde pendia o pedaço de tecido azul marinho. Ele e Taylor ficavam em segredo faziam algumas semanas, o que ficara mais fácil com as constantes dormidas de na casa de , deixando o dormitório só para os dois.
Nenhum deles queria que os amigos soubessem do que estava acontecendo. Não precisavam da pressão de seus amigos para entenderem o que acontecia entre os dois. Ainda mais antes de e haverem se acertado, não queriam distraí-los de se resolverem de uma vez por todas.
E depois… Só continuaram daquela forma por costume, e também por ser mais excitante tentarem esconder seu envolvimento do ter de lidar com os julgamentos dos outros. Ambos estavam focados demais em suas próprias vidas naquele momento para desejar algo mais forte do que seu envolvimento sexual. Aquilo bastava por enquanto, e aproveitariam-se disso até que não estivessem mais satisfeitos com o status quo.
- Me manda mensagem quando souber se a vai dormir fora de novo. - Piscou para Taylor, curtindo a expressão nervosa que ela ficava sempre que terminavam de ficar.
- Se te descobrirem aqui eu me ferro com o pessoal do dormitório. - Relembrou, com a cara dura. - E não se esquece de trazer comida da próxima vez. Eu não me alimento de sexo, por mais delicioso que seja. - Riu, mordendo o lábio, incerta.
- Eu não me esqueci das regras, Taylor. Nós não estamos fazendo nada errado, relaxa.
- Mas e se eu…
- Estamos conversando constantemente para não haver desentendimentos, não é? - Sentou-se na cama e deu-lhe um último selinho antes de ir. - Vamos ficar bem se continuarmos com essa cumplicidade que tivemos desde o início.
- Tá bem. - Expirou a mulher, remexendo-se na cama. - Agora vai logo, eu te mando mensagem mais tarde. - Voltou para seu estado ditatorial habitual.
Mal a mulher deslizara para ter algumas horinhas de sono, a companheira de quarto entrara no recinto, carregando uma mochila que jogou em sua própria cama. Assim que a luz foi acesa, gemeu levando o cobertor para cobrir sua face.
- Quem foi o da vez? - perguntou, com um sorriso, puxando as cobertas. - Conta tudo.
- Você não conhece, é do time de Lacrosse da Faculdade do Desporto. - Replicou Taylor, com agilidade e uma ponta de tristeza de não contar a verdade para a amiga.
- Hum… - sentiu que a mulher não queria falar sobre e desconversou. - Advinha quem está namorando nesse quarto?
- Só pode ser você. - Lausen riu, revirando os olhos. - Já estava em tempo, você e são uns lerdos.
- Na verdade, acho que é muito romântico como fazemos tudo no tempo certo e no nosso próprio ritmo. - Explicou, sabendo que Taylor ignoraria o que disse.
- Tartaruguinhas vocês. Não adianta negar, . - Replicou Taylor, recebendo um travesseiro na cara.
- Mas sério, tenho que falar contigo sobre algo complicado.
- Olha só, se o está com problemas de performance eu já te disse, ele deve procurar um médico especialista…
- Eu já disse que não é isso. Nunca foi esse o problema, Taylor. - A mulher replicou, corada.
- É só uma brincadeira, . - Riu Lausen. - Mas desembuxa, vai.
- Então… Sobre a Beta Phi…
- Merda! Temos uma atividade mais tarde, eu tinha esquecido! - Taylor berrou, correndo para seu armário e checando o relógio de pulso da .
- Quem é esse garoto que te faz esquecer das… - começou, confusa com as atitudes recentes de Lausen. Não era a cara dela se esquecer de um compromisso. Ainda mais com a Irmandade que estava mais do que determinada a entrar.
- , me ajuda. - Lausen a segurou pelos ombros, apontando para o armário.
- Vai com aquela calça social, não sabemos se vão nos obrigar a fazer algo físico.
- Ok, vou com meu vestido amarelo! - Taylor assentiu, fazendo rolar os olhos.
- Você pode me dar um minuto de atenção aqui? - Lausen parou, vendo a expressão séria da amiga.
- Sessenta segundos, fala.
- Olha, eu planejava tentar fazer isso com mais calma, mas se eu não te disser logo, sinto que vou explodir. - Bufou, virando de costas para Lausen enquanto tentava criar coragem para o que precisava dizer. - Eu não me identifico com a Beta, Tay. Eu não quero ser uma Beta. - Parou para espiar a expressão da amiga, que parecia em choque.
- Participar de uma Irmandade…
- Escuta, eu não sou contra participar de uma Irmandade. Já ouvi seu discurso mil vezes e concordo, Taylor! Mas eu quero participar de uma que eu me identifique de verdade. Uma que eu possa sentir que estou fazendo algum bem para a comunidade e em que não haja tanta rivalidade feminina e preocupe-se só em ser a irmandade mais festeira.
- Nenhuma irmandade do Campus tem mais prestígio que a Beta.
- Nenhuma que já exista. - Explicou, vendo que Taylor finalmente começara a entender suas intenções.
- Você está louca? Criar uma irmandade do zero? Sabe quantas regras vai precisar contornar, quanto de financiamento vai precisar angariar? Sem contar da defesa perante todo o conselho de irmandades e da reitora.
- Não sei disso tudo. Por isso eu preciso de você ao meu lado! Como vou concretizar o projeto que estou pensando sem minha melhor amiga?
- Não. - Replicou seca. - Não posso te ajudar com isso. - Fechou a cara e pegou sua bolsa, caminhando até a porta do quarto.
- Eu vou tentar de qualquer forma, eu preciso, sonhei com tudo... Por favor, me entenda. - Suplicou, com dor de cabeça.
- Boa sorte com isso. - Foi a última coisa que Lausen disse antes de deixar a sós com seus pensamentos turbulentos.


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Não fora fácil conseguir uma audiência com o Conselho de Integração Acadêmica e com a Reitoria, mas com a ajuda de sua mãe, conseguira apresentar um pedido formal de criação da Alpha Kappa Nu. Envolver as mulheres de sua família fora inevitável. Às vezes era preciso pedir ajuda e apesar de todos os altos e baixos com a matriarca, sabia que custasse o que custasse, sua mãe estaria lá por ela se ela realmente precisasse.
- Vai dar tudo certo, , se acalma. - Isabelle envolveu-a com um braço, tentando tranquilizá-la.
- E se tivermos nos esquecido de algo, Izzy? Eram tantas coisas para resolver… - olhou a sua volta, preocupada.
- Ordem nesta reunião do Conselho de Integração Acadêmica. - Disse a reitora, batendo seu martelo. - Hoje vamos analisar o caso da adição da Irmandade ‘Alpha Kappa Nu’ ao corpo de grupos universitários. Procede com o desejo de seu pedido, senhorita ? - virou-se encontrando o olhar de nas cadeiras mais para os fundos do auditório e respirou fundo. Era agora ou nunca.
- Sim, senhora Reitora.
- Pois então, por favor, apresente seu caso.
- Senhores jurados e corpo estudantil, obrigada por me receberem. Me chamo e desejo fundar a Irmandade Alpha Kappa Nu. Os requisitos de espaço no Campus foram discutidos com um velho proprietário de uma grande casa próxima a Vermont.
- Quanto aos fundos…
- Consegui dois principais financiadores e creio que com mais tempo, será possível conquistar outros. O investimento na reforma das instalações e marketing poderiam se iniciar assim que meu pedido fosse deferido.
- Muito bem, o projeto foi analisado pela administração da Universidade e aprovado. Quanto ao programa de objetivos da Irmandade, a senhorita trouxe consigo?
- Sim, senhora Reitora. Tenho aqui um contrato promessa de Calliope , referente ao projeto beneficente Santa Lover’s Day no Hospital de South Mills a ser implementado. Também possuo um convênio com o Dinner Waak para sediar pequenos eventos e uma série de contatos de escritórios e empresas interessadas em colaborações futuras com as integrantes da Irmandade.
- Confesso que estou impressionada, senhorita . Contudo, estou inclinada a considerar a objeção de certas Irmandades pré-existentes. Estamos em um tempo em que há uma proliferação muito intensa de grupos de integração. O que se não for bem acompanhado pode levar ao efeito contrário do desejado e muito seccionamento do corpo estudantil.
- Não compreendo.
- Minha pergunta é o que sua Irmandade teria a adicionar à nossa Universidade que as outras já não possuam.
Pela primeira vez se viu muda. Tudo devia estar parecendo muito idealista para a reitora, quer dizer, que mentiras já não haviam sido contadas pelas outras fraternidades que depois só se preocupavam com qual seria mais popular ou promoveria as melhores festas. Como poderia convencer ao júri que seu caso era diferente se ninguém ali havia, como ela mesma, vivido por meses dentro de sua própria mente, enquanto dirigia aquela Irmandade? Porque para , cada parte daquele projeto era realidade e não somente um ideal.
- Está na hora de haver uma Irmandade envolvida com o sucesso acadêmico e não só com as atividades extracurriculares. - Foi dito, porém, não pela boca de , mas sim de ninguém menos do que Taylor Lausen.
- Senhorita Lausen, não vejo seu nome neste pedido, como está envolvida neste projeto?
- Sou uma apoiadora, e se tudo der certo, vice-presidente da Alpha Kappa Nu. Peço desculpas pelo atraso, estava justamente conseguindo o documento que creio que será decisivo para que o pedido seja deferido.
- Isso é correto, senhorita ? - A reitora arregalou os olhos, incrédula.
- Taylor… - Murmurou baixinho, acolhendo a amiga com um meio abraço e deixando-a se sentar do lado oposto a sua prima.
- !
- Sim, é verdade. Peço que levem em consideração a proposta que Taylor Lausen vai consignar a meu pedido. - Replicou, com mais confiança.
- Exponha seu ponto, senhorita Lausen. - Gesticulou a reitora, tomando notas.
- Tenho comigo relatos de professores sobre o desempenho acadêmico de e suas intenções de futuramente solicitarem tutorias das integrantes da irmandade. Tenho um contrato com a biblioteca para abrir uma nova sala com espaço exclusivo para suas integrantes. E sei que tem projetos e mais projetos beneficentes para que se devolva um pouco à comunidade. O meu ponto, senhora Reitora, é que nenhuma Irmandade pré-existente nasceu com essa vontade de ir além da integração do corpo estudantil. Na Alpha Kappa Nu receberemos mulheres com intenção de se tornarem futuras líderes. Teremos incentivos constantes para que nossas iniciadas tenham vontade de serem as melhores estudantes dessa faculdade e melhores pessoas.
- Esse projeto já me mudou, já me fez refletir sobre como eu somente focava em estudo antes de meu acidente. - emendou ao emocionante discurso de Taylor. - Me fez perceber que me unindo a pessoas com objetivos comuns, me integrando mais à comunidade acadêmica, eu também irei melhorar à mim mesma e superar aquele individualismo que me envolvia. Suplico que ponderem sobre esse pedido com as possibilidades que ele implica de estender essa transformação a mais pessoas e de poder inspirar a todas as nossas futuras integrantes.
O público que ali estava vibrou por uns segundos até que o Conselho pedisse uns minutos para discutir sua decisão. , Isabelle e Taylor não conseguiam falar de nervosismo, mas estava tudo bem, pois seus olhares trocados transmitiam tudo. Lausen podia ter resistido à princípio, mas como sempre, quando achava que a havia deixado na mão, Taylor aparecia com a solução mágica para seus problemas. Era irritante, mas era a dinâmica que sua amizade tinha evoluído. No fundo, era uma boa amiga, somente odiaria admitir isso para que qualquer um visse através de sua carapuça de indiferença.
- Senhorita , apesar de suas ideias não ortodoxas e das objeções de parte do conselho, a maioria concordou que é necessária uma mudança de ares nos projetos das Irmandades. Esperando que mais pessoas sejam inspiradas pelo seu projeto, eu declaro seu pedido de incorporação da Alpha Kappa Nu, deferido e admitido até segunda ordem. - Pronunciou a reitora, batendo seu martelo. - Parabéns. - Terminou, piscando para as meninas e dispensando o júri.
- Isso é real? - Isabelle pulou, abraçando a prima e a sua amiga.
- Temo que sim. - Taylor fez biquinho. - Não sei como pensou em fazer algo assim sem mim.
- Obrigada por ter vindo no final. - sorriu. - Mas aquilo de Vice-Presidente, vou pensar no seu caso. - Provocou, recebendo um soquinho de Taylor.
- … - A mulher virou-se ao ouvir seu apelido pronunciado pelo namorado. Envolveu-o com os braços, tremendo de animação. Ali, rodeada por seus amigos, sentiu-se um passo mais perto de estar completa pela primeira vez desde o acidente.



Capítulo 19 - O começo do fim





Inverno



Sentado à mesa da sala de chá da mansão dos , suor se acumulava na camiseta de , o incomodando profundamente. Não pelo pinicar do tecido, aquele importado das melhores marcas europeias, mas sim pela demonstração de fraqueza que a reação física implicava. Nada fugia ao escrutínio dos olhos do casal que o criara, mesmo um fio fora do lugar causaria uma escandalosa impressão nos políticos. Sempre era assim com seus pais, um guerra e paz quase infinito travado mentalmente na tentativa de medir maiores forças. Infelizmente o cessar fogo só ocorria quando tinham visitas e aquela não era uma daquelas tardes. Quando namorava a mulher conseguia com maestria apaziguá-los, mas sem ela, sentia-se novamente perdido.
- … não sabe seu lugar… trabalhar com seu pai… sangue dessa família… anos de esforço para política… - A matriarca pronunciava seu eloquente discurso, quase que ensaiado. A política corria no sangue tanto de Ellie Jenner como de Peter , mas algo na combinação das duas famílias parecia haver se anulado mutuamente, culminando em… bem, em .
não gostava de política. não queria fazer nada relacionado a política. Mas os pais de não se interessavam em saber o que lhe apetecia ou não. Não tinham um pingo de respeito por sua vontade. O patriarca parecia mais introspectivo, contudo, quando se pronunciava, o fazia de forma tão precisa e cirúrgica que seu oponente em debates parecia nem sentir o ataque até já estar derrotado. E assim como no exercício de sua profissão, agora fazia pequenas intervenções para concordar com a esposa em seu discurso, sorrindo vez ou outra para Ellie com sua expressão facial sedutora mais adequada.
Enquanto Jenner atacava em quantidade e persistencia, o mais velho investia nas palavras mais idôneas e na persuasão.
- Isto já está se tornando insustentável, ! E estas festas com o filho dos Dawson, são uma má influência para aquele bom garoto… - Há! forçou-se a não gargalhar com aquela afirmação absurda. Como se ele fosse uma má influência para o “rei das baladas e das cantadas de baixa qualidade” como sua ex-namorada apelidara carinhosamente a Patrick.
- A Sigma-Tau já foi uma fraternidade de mais honra, não consigo acreditar na bagunça que se transformou sob sua direção. - Peter, deu um tapa na mesa, contrariado.
- Peter, cuidado com a louça! - Ellie lançou um olhar assassino ao mais velho, que lhe deu um sorriso apologético. - Mas de fato, não gosto da ideia de meu filho como chefe de uma fraternidade de beberrões como a dos filmes. Ah, me dói só de pensar. - A mulher abanou-se dramaticamente.
- Não somente é irresponsável como perdeu a oportunidade de desposar uma boa garota para ter a seu lado. - E por falar do diabo…. Pensou ao escutar as palavras duras de seu pai. - Aquela pequena tem visão. Seus pais se desviaram um pouco do eixo, mas ela têm a cabeça no lugar como seus avós. - Peter pronunciou, com palavras docemente tóxicas. A lábia que tinha era como uma naja dançante, enrolando-se sensualmente no pescoço de pouco antes de sufocá-lo. E a insensibilidade de trazer o assunto da ex-namorada foi para ele foi a gota d’água.
- Sim, uma pena. Posso ir, agora? - Pronunciou fortemente, apertando com força seus punhos por debaixo da mesa. - Tenho aulas daqui a pouco. - Limpou sua garganta.
- Ah, agora lembrou de que estas existem? Certo, filho. - Ellie tomou um gole de seu chá e abanou com a mão em desistência.


A mulher não precisou dizê-lo duas vezes, e em vinte minutos, já chegava à residência de sua fraternidade. Suspirou, virando a chave e penetrando o ambiente impecavelmente limpo pela equipe financiada em grande parte por seu pai. Ele era um dos maiores investidores da Sigma-Tau e junto aos pais de Patrick e de mais dois integrantes, formavam um pequeno Conselho. Seus membros adoravam lembrar o quanto tinham controle sobre o que acontecia naquela casa, mas fingiam-se de cegos para as festas enormes de seus filhos. Por isso mesmo, logo cedo, após cada um desses eventos, a casa era posta novamente em condições. Sendo varrida de cima abaixo. Nem mesmo precisavam pedir, nada parecia fugir ao conhecimento dos mais velhos, mesmo àquilo que fingiam ignorar.
- Quão mal foi? - Perguntou Patrick, entrando em seu quarto, minutos depois.
- O que você acha? - revirou os olhos, jogando sua bola de futebol americano para cima, deitado em sua cama.
- Julgando pelo barulhão que fez ao entrar e bater a porta, eu consigo imaginar. - Dawson jogou-se no pufe ao lado da janela. - Por que você não enfrenta logo eles e vê no que dá? Vai para sempre ficar como o boneco de moldar deles?
- Se eu ignoro sem reclamar, evito muita dor de cabeça.
- Algumas dores de cabeça são necessárias de serem sentidas. - Dawson apontou para sua testa. - Às vezes brigar é a única forma de se manter são e menos no controle deles.
- AH e advinha só, agora eu sou “má influência” para você. - , sentou, atirando a bola para Patrick, com um bico.
- Sabia que meus pais lançariam essa para os seus, sinto muito se eles pensam que eu sou um anjo encarnado. - Patrick gargalhou, tapeando por pouco o objeto que ia atingi-lo em cheio e levantando-se. - Não sei que erva fumaram para dizerem iss...
- Florzinhas, vão para a aula? - Drew apareceu à porta, carregando um livro.
- Nah, estou bem, obrigado. - Patrick replicou com uma piscadela. - Mas eu aceito suas anotações, meu caro Drew. - Continuou, curvando-se em reverência.
- E mesmo assim, da última vez conseguiu ir melhor do que eu. - Drew pareceu murmurar para si mesmo, balançando a cabeça em negação.
- Ei, espera, vou ter que ir também... - resmungou, buscando seu notebook e continuando após os olhares de espanto que recebeu. - ...só para meus pais saírem da minha cola.
- Woah, tem primeira vez para tudo. - Drew gargalhou, saindo do quarto com os garotos.
- Vejo vocês em três horas então. - Patrick deu de ombros e jogou-se no sofá em frente a televisão da sala. Algumas pessoas nunca iriam mudar. E Patrick Dawson não frequentar a aula e ainda sim passar estudando de véspera era uma delas. Sim, ele era uma daquelas pessoas irritantes.


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Verão



- Uma moeda por seus pensamentos. - murmurou, desviando os olhos só por uns segundos para o namorado e voltando a apreciar a vista das nuvens se deslocando pacificamente no céu.
Estavam deitados em uma toalha posta no gramado do pequeno parque verde à beira do rio que atravessava a cidade. Não era a primeira vez que aderiam àquele programa naquelas férias. Na verdade, nem mesmo haviam esperado o verão chegar. Mesmo durante aquele semestre de estudos intensos, haviam conseguido tempo para ficarem próximos ao seu pedacinho de natureza. Nem que fosse um pouco, era a única atividade que parecia aliviar o estresse dos exames finais, do trabalho com a fotografia, para e do trabalho de construir a Irmandade para .
Contudo, o verão já chegara e com ele o sol irradiava um calor relaxante bem como necessitavam. Este era contrabalanceado pelo vento refrescante que parecia varrer todas as complicações anteriores para debaixo do tapete. Ao menos até o início do semestre seguinte. Naquela estação, novas possibilidades pareciam florescer e com a liberdade que tinham… A grama nunca parecera tão verde deste lado da cerca. Mas mesmo quando se está no topo, sempre se vê o que melhorar.
- Estou pensando em dar uma nova chance para meu pai. - enfim murmurou, brincando com suas mãos entrelaçadas, nervosamente. - Eu já lhe contei o quanto ele era péssimo com minha mãe e nos deixou quando eu era mais jovem?
- Sim. - virou-se, deitando-se de lado para encará-lo. - Mas ninguém vai julgá-lo por ainda sim querer ter contato com seu pai, . - Afirmou com firmeza. - Na verdade, eu acho que se é algo que você sente faltar em sua vida, você deve fazer. Sei que é uma situação complicada, mas se há uma chance que ele tenha mudado...
- Eu sei… - Ele inspirou, virando-se como ela. - Eu sei que muitos não têm nem essa oportunidade. - Fez uma careta de tristeza. - Benjamin perdeu sua mãe tão cedo…
- É tão triste. - prendeu a respiração por uns segundos. - Graças a deus por Callie o ter acolhido.
- Isso cimentou nossa amizade. - disse, ajeitando uma mecha do cabelo de . - O pai do Benji também cumpriu em muitos momentos um papel que não era seu, na ausência de meu pai.
- E agora você tem a oportunidade de se reconectar com ele. Mas não é obrigado a aceitá-lo em sua vida, mesmo que vá conhecê-lo novamente. Sabe disso, não sabe? Aceitar encontrá-lo não significa lhe dar um passe livre.
- Eu sei… - Repetiu , com um meio sorriso. - Mas e o que se passa em sua cabecinha hoje? Precisam de dois para haver silêncio.
- Só em como a vida é engraçada. - Riu para si mesma. - Há quase três anos partimos caminhos, mas ainda sim eu e você acabamos juntos na mesma cidade pequena. Quais as chances?
- Realmente rende uma boa história para nosso romance, mas para mim a narrativa sempre será outra.
- E o que o cético pensa que pode ter sido? Há algo mais romântico do que a noção de destino? Pensar que há algo que o Universo reservou para nós quando o tempo fosse o certo?!
- Eu posso não acreditar em sina ou predeterminação por alguma força maior, mas eu acredito em nós dois. Creio que cada pequena escolha que tomamos desde que nos separamos nos trouxe um centímetro de volta. A mente humana é capaz de grandes coisas, muito mais do que a própria ciência conhece. Quando meu cérebro registrou meus sentimentos, mesmo inconscientemente eu sofria do seu Magnetismo, . Desde que a conheci, foi você para mim. Só você.
A mulher observou a face pacífica do homem. Falava sério. podia não ser dos mais melosos pares românticos, mas quando resolvia expressar o que sentia, o fazia da forma mais bela humanamente possível aos olhos de . E novamente, esta não pode evitar senão selar suas bocas em um beijo um pouco mais ardente do que o recomendado para aquelas partes. Mas não ligava, pois pela primeira vez em um ano estava feliz e em paz. E nada mais lhe importava do que manter aquela paz de espírito.


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Outono

- Começaremos este semestre pelas palestras das Irmandades do Campus. Por ordem de sorteio, a primeira será a Beta-Phi. - Disse a diretora, ao microfone.
- Sorteio, sei… - Taylor bufou, murmurando para . A mulher sorriu para a lealdade da amiga. Difícil acreditar que já duvidara nos cantos mais obscuros de sua mente que Lausen ficaria do seu lado. Assim que aceitara ser co-fundadora da Alpha Kappa Nu, parecia que nunca havia sequer cogitado entrar para a Betha-Phi. Sua missão era fazer as Alphas serem as melhores e mais procuradas, e estava de bem com essa ideia.
A Assembleia se seguiu com apresentações de outras irmandades até que finalmente, a Alpha Kappa Nu fosse anunciada. Taylor subiu ao palco com , confiante como se serem as últimas fosse parte de seu plano o tempo todo.
- A Alpha Kappa Nu é uma Irmandade com novos ideais. Ela transcende o tradicionalismo enraizado de vários dos grupos de integração. Nosso objetivo é muito mais do que curtição. Somos uma sociedade para alunos com potencial e que queiram um empurrãozinho para chegarem tão longe quanto suas imaginações possam voar.
- Exatamente. - continuou. - Garantimos contatos com futuras entidades empregadoras, projetos amplos de trabalho voluntário, uma sala de estudo vinte e quatro horas na residência renovada que servirá como nossa sede. Acesso a uma biblioteca exclusiva com materiais cedidos de diversas Universidades pelo mundo. Contatos são tudo nos dias de hoje. Vocês sabem disso, eu sei disso.
- E claro, a vida social não irá faltar. Com disciplina, temos a chance de maximizar seu potencial, então escolham ser uma Alpha e se tiverem sorte, talvez as Alphas também escolham você. - Taylor tornou a dizer.
- Como prova de nossas palavras, hoje teremos uma festa em conjunto com os irmãos da Sigma-Tau. - Com essas palavras o público foi à loucura, como a dupla sabia que iria ser. Estavam vendendo uma sociedade exclusiva muito voltada para a área acadêmica, mas não podiam esquecer o que aquelas jovens meninas mais ansiavam na faculdade, que seria aquela experiência social completamente diferente do que haviam vivido na escola.
- Fisgados. - Taylor sussurrou para a parceira, descendo do palco. concordou, feliz e sorriu em agradecimento para do outro lado do auditório. Este lhe deu um aceno sincero, logo virando para balançar a cabeça para Patrick a seu lado. Felizmente e estavam bem e aquela constante guerra entre eles havia cessado. Talvez algum dia voltassem a ser amigos tão próximos quanto já haviam sido, mas não havia pressa. Agora sentia ter todo o tempo do mundo, como todo jovem deveria.
- Hum… - Taylor limpou a garganta, chamando a atenção da amiga para a cena a sua frente. Lausen segurava a mão de Benji, mordendo o lábio, com hesitação. , que o acompanhava engasgou em sua bebida, olhando fixamente como a namorada para as mãos dadas das pessoas mais improváveis possíveis. Ou talvez nem tanto assim.
- Benjamin e… - abriu a boca em O.
- Taylor? - completou, incrédula. Não fosse a festa com a Sigma-Tau de mais tarde, diria que aquele dia não podia mesmo ficar mais louco.


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Chegada a hora, batia à porta de uma bela casa na periferia de South Mills. Tremeu momentaneamente com o latido de um cachorro ansioso. A residência não era tão mal, mas também não se tratava de nenhuma mansão. Tudo condizia com o que seu pai lhe detalhara na carta que recebera meses atrás. Alguns trechos haviam sido difíceis de ler com seu ceticismo natural. Mas se permitira admitir que havia coisas que simplesmente precisava fazer. E sabia que precisava saber se seu pai realmente havia mudado.


Querido,
Filho… Não sei como passar para o papel tudo o que gostaria de lhe dizer. Mas não me perdoaria se não fizesse uma tentativa de contatá-lo, de me reconectar com você após finalmente ter conseguido colocar minha vida em ordem.
Há pessoas que têm desde cedo seus pés firmes ao chão e amadurecem como seres humanos desde cedo. Sua mãe é assim, . Sempre admirei Calliope com todo o coração, e nunca deixarei de ser grato por ela ser desse jeito.
Porque seu velho pai… Eu nunca fui equilibrado, . Sempre fazendo besteiras, curtindo minha juventude das piores formas e até mais tarde do que devia. E como o mal vem sempre acompanhado, ainda tinha que me equilibrar entre o vício na bebida e no jogo.
Sei que isto ainda não parece como um pedido de desculpas. Mas eu peço desculpas. Por tudo o que perdi, por tudo o que sua mãe perdeu tendo o fardo de carregar dois papéis em suas costas e por eu não ter sido o pai que você merecia.
Não estou tentando me justificar ou me eximir de meu erro, somente estou tentando explicar de forma que possa compreender e talvez algum dia me perdoar por minhas faltas. Estou sóbrio há cinco anos e sem jogar há seis. E é por sentir enfim alguma estabilidade em minha vida que eu estou lhe escrevendo. Tenho agora uma pequena casa no subúrbio. Até mesmo me responsabilizei por um cachorro, o Teddy, tem oito anos.
Sei que não é justo que eu peça a você o que irei pedir. Mas é algo que preciso fazer. Venha me ver, .
Por favor.
- Seu Pai.”



Foram meses para processar o conteúdo daquela carta, mas enfim criara coragem e decidira o que queria fazer. E fora assim que naquela tarde de outono se encaminhara para a porta da residência anotada no remetente. Sentiu-se profundamente nervoso por todo o caminho, mas assim que a porta se abriu e viu a figura sorridente de seu pai, com um aspecto saudável como nunca havia o visto, expirou pondo para fora toda a tensão acumulada. Não seria naquele mesmo dia, nem mesmo no mesmo ano, mas a relação entre pai e filho se repararia e reconstruiria. Das cinzas, nasceria algo que nunca admitiu precisar ou faltar em sua vida.


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Dois anos depois…


- . - Pronunciou o diretor da Universidade, observando entre a multidão de formandos e seus familiares até que o garoto fosse buscar seu diploma. - Meus parabéns, filho. - Cumprimentou, apertando a mão de brevemente e passando para o próximo aluno da lista.
caminhou diretamente para onde seus pais se encontravam, na primeira fila. As vozes de amizades dizendo-lhe para enfrentar seus pais o muniam como uma arma. Cada passo era uma diferente, transmitindo-lhe o sentimento de que sabia o que devia fazer. Era como um homem em uma missão. Cansado do controle excessivo de outros que não ele mesmo sobre sua vida. Seus pais olharam sua expressão, com sorrisos contidos, provavelmente prevendo algum escândalo.
- Por que não parabenizamos nosso filho no jardim, Peter? - Sorriu Ellie, já se erguendo e cravando sua mão no braço do filho para arrastá-lo até a saída.
- É um momento de muita emoção. - Peter piscou para os pais de Patrick que os observavam com falsos sorrisos simpáticos. sabia que qualquer sinal de escândalo e todo o Country Clube saberia em minutos se Kate e Jack Dawson estivessem presentes.
Finalmente no Jardim da faculdade, cruzou os braços e inspirou fundo antes de dizer o que vinha reprimindo há tempo demais.
- Aqui está o diploma que vocês tanto desejaram. - Empurrou o bastão no peito de seu pai, deixando-lhe segura-lo. - Ele não significa nada para mim. Nunca desejei trabalhar no ramo da família. - Grunhiu, coçando os olhos vermelhos de emoção. - Passei tempo demais da minha vida seguindo o que vocês desejam, mas agora, é a hora de buscar descobrir quem eu realmente sou.
- … Filho… Isso é brincadeira, certo? - Ellie começou a se abanar com seu leque, com nervosismo. - Peter, fale com ele. - Olhou para seu marido, com determinação.
- Deixe que vá. - O homem falou, após alguns segundos a observar o filho. - Mas só espere nossa ajuda quando voltar.
- Dou um mês ao máximo para essa palhaçada acabar. Onde irá ficar? O que irá fazer? Nunca nem mesmo teve responsabilidade com suas coisas. - A mãe, concordou, engolindo em seco.
- Tenho contatos com alguém no Canadá. Talvez uma oferta de emprego como atendente por lá. Não sei detalhes, realmente. Mas isso não importa, porque pela primeira vez eu tenho um plano que seja verdadeiramente meu. - Falou, com segurança. - Esperei tanto tempo por isso que não pude deixar de planejar meu futuro. E são tantas possibilidades! Não é isso que um pai deveria querer dar a um filho no lugar da prisão que vocês impuseram a mim?
Jenner e fizeram uma careta desgostosa. Não ouviriam mais uma palavra do filho a seus olhos insubordinado.
- Adeus, mãe e pai. - Sussurrou ele ao vento, quando eles já o haviam deixado só.





Capítulo 20 - Epílogo


Uma vez mencionara uma receita para ser mais segura de si. Confiar nos seus instintos e não superanalisar suas escolhas, confiar em si também é confiar no universo. Isso era algo que a do sono lhe ensinara e que ninguém poderia retirar dela. Pois então, após toda a terapia e superação, finalmente a mulher o pusera em prática.
Muitos dizem para temermos nossos defeitos. Para reprimi-los em um lugar profundamente dentro de nós, onde ninguém poderia ver. Tacitamente aceitamos essa premissa. Lutamos diariamente com essa parte de nós. Aquela parte considerada imperfeita, quebrada, inútil. Jogamos fora um pedaço de nossa personalidade que nos faz ser quem somos.
Agora quando o lobo dentro de nós luta para sair, não temos nada a fazer além de nos recolher ante nossa própria miséria. Envergonhados por nossa essência humana. Pois faz parte do humano ser imperfeito. Tão certo como a premissa maior e geral do método dialético.
Buscamos a remediação diária de nossos impulsos interiores. Aqueles que devem ser escondidos a todo o custo. Pois quem poderia gostar de alguém que não se envergonha de suas falhas? Se assim o é, talvez Hobbes estivesse certo e o Homem é de fato o lobo do Homem. Nossa implicância com outras pessoas que não conhecemos? Como poderia ser explicada? Vemos o outro externando aquilo que mais tememos transparecer em nós. E contra essa essência que lutamos, tornando intolerável qualquer um que baixe a guarda e revele suas próprias gangrenas.
Tampouco se deve acreditar no bom selvagem de Rousseau. Mentir para nós mesmos que o homem é o bom selvagem e que a sociedade que o corrompe não muda a verdade do que existe em nosso self. Colocar a culpa em um ente abstrato “a sociedade”, impondo-lhe uma penalidade de arcar com todos os males da humanidade é um pouco fora da realidade.
Então qual é precisamente o ponto? O homem é mal por natureza? Ou é bom?


- Alguém mais tem algo para compartilhar com o grupo? - Perguntou o líder da sessão, assentindo ao ver uma mão tímida levada ao ar. - Muito bem, vá em frente, senhorita.
- Olá pessoal. Boa noite, meu nome é .
- Olá, . - Ouviu-se um coro.
- Como alguns de vocês sabem, esta não é minha primeira vez frequentando o grupo. - Ela começou, sorrindo para algumas faces familiares concordantes. - Há um ano atrás sofri um acidente que me deixou em estado comatoso. Minha confusão de memórias quanto ao que havia acontecido em minha vida antes disto me levou a buscar auxílio psicológico e foi a Doutora Carlan que me indicou este grupo de apoio ao fim de nossas sessões.
“- Grupo de apoio para pessoas que perderam entes queridos? Por que não só continuar nossas sessões? - virou o folheto, com uma careta confusa.
- Vai descobrir que em um grupo, poderá aprender mais do que espera sobre si mesma através das histórias de outros. - Doutora Carlan replicara, piscando.”



Olhou em volta do círculo de cadeiras e inspirou fundo ao continuar.
- Eu perdi meu melhor amigo quando tinha quatorze anos. Ele se chamava Joshua Backer e era o ser humano mais autêntico e excêntrico que eu já conheci. - Fez uma pausa para engolir em seco. - Ele e meu irmão Nicholas também eram bons amigos, nós éramos como um trio desde que Josh se mudara para Saskatchewan. Mas para mim, Josh foi também meu primeiro amor. - Apertou os olhos, expelindo uma pequena lágrima.


“- Duas coisas que não poderia viver sem. - Sugestionou .
- Com certeza, pizza e você. – Respondeu Josh, olhando fundo nos olhos de .
- Eu não quero perder você. – Soltou, passando a mão pela face do garoto. – Nunca.”



- Por muito tempo neguei que a perda houvesse me mudado, mas levou um acidente que poderia ter me matado, e longas conversas com a psicóloga para admitir para mim mesma que sentir falta dele não é uma fraqueza. Eu não havia percebido o quanto o falecimento de Josh havia me marcado para além da dor da saudade e do luto. Fechei-me em uma concha para o mundo, lá nada poderia me atingir, mas no lugar de estar blindada de sentimentos ruins, somente consegui me privar de amores e machucar quem quer que tentasse penetrar minha zona de conforto. - visualizou a , seus pais e Taylor como se estivessem a sua frente. E por fim a uma versão mais jovem de quando ainda estavam na escola.


“- Não posso ficar com você, . Eu tenho uns esqueletos no meu passado que dificultam muito isso aqui.”


- Tranquila. - O líder da sessão estendeu-lhe um copo de água.
- Mas estar aqui, ouvir as histórias de todos vocês… Tudo foi muito importante para que eu percebesse que não posso me curar sozinha de tudo. Que às vezes podemos aprender muito mais no contato com o outro do que na bolha de nossa própria mente. Já tiveram dias que vim para aqui chateada, frustrada e outros que vim esperançosa e finalmente feliz. Após meses aqui, tive um sonho, e nele Josh me deixava ir. Eu o deixava descansar, porque sei que se houvesse alguma possibilidade de alguma parte dele haver permanecido para cuidar de mim ele o faria. Meu deus, como era teimoso! - Riu em meio a emoção.


“- OUCH! Isso doeu. - Reclamara Josh.
- Você mereceu!
- Mereci SÓ um soquinho, . Tipo aqueles de filme romântico em que a garota tem um crush no garoto. Mas não um murro, né. – Brincou.”



- Então hoje eu gostaria de agradecer a todos vocês pelo apoio. Perder um amigo, um familiar, alguém importante em nossa vida é algo muito difícil. Mas põe em perspectiva como temos que valorizar a todos que estão de fato presentes para nos apoiar. Sempre. Então hoje estou muito mais próxima de minha família do que já estive. Eles nunca foram dos mais presentes, mas eu nunca havia feito algum esforço para remediar a situação.


“- Mãe, pai, preciso da ajuda de vocês. - Dissera durante o café da manhã da família .
- O que precisa, filhota? - Sua mãe sorrira amplamente, pousando seu chá. Até mesmo seu pai abaixara o jornal com uma expressão curiosa.”



- Hoje tenho amor em minha vida. Alguém que me deixa louca e todos os dias me ensina o significado da palavra convivência. Para estar com o outro precisamos mutuamente fazer pequenas concessões, e isto não precisa ser algo negativo.


“- Não acredito que você me fez assistir a série completa de Game of Thrones. - balançou a cabeça, contrariada.
- Bem, não é como se eu não tenha tido que assistir a todos os filmes da Jane Austen contigo, não é? - Gargalhou , beijando sua testa.
- Não sei mais o que te dizer, senão que conhece-los te dá um bom insight sobre o que se passa na minha cabeça.”



- Finalmente, tenho amigos muito leais que me apoiam em meus empreendimentos. E sei que são reais, pois foram estes que me apoiaram nos piores ou mais difíceis momentos de minha vida.


“- Está na hora de haver uma Irmandade envolvida com o sucesso acadêmico e não só com as atividades extracurriculares. - Foi dito, porém, não pela boca de , mas sim de ninguém menos do que Taylor Lausen.
- Senhorita Lausen, não vejo seu nome neste pedido, como está envolvida neste projeto?
- Sou uma apoiadora, e se tudo der certo, vice-presidente da Alpha Kappa Nu.”



- Não quero dizer que não tenho mais como evoluir como pessoa, mas sim que finalmente posso respirar e viver plenamente enquanto aprendo com a vida. - O grupo de apoio observava a mulher falar com tanta atenção que assim que a voz de fez uma parada a sala caíu em um completo silêncio. - E agora sei que o que sempre desejei para minha vida e me foi revelado ao acordar de meu coma não tem de ser só mais um sonho. - Terminou, sorrindo e sentando-se novamente.
- Estamos aqui por você, . - O grupo replicou em conjunto uma última vez.


Respondendo à pergunta acerca da natureza humana, alguns dizem que escolhemos entre os dois lados diariamente. O bem e o mal. Que ou somos um ou o outro em cada ação que tomamos. Mas a vida não é tão preto e branco. A realidade é muito mais que isso. Tem seus tons de cinza, sua palheta infinita de cores combinadas reciprocamente levando a distintos múltiplos e incalculáveis resultados. Não devemos cometer o erro de simplificar algo tão complexo quanto nossa natureza a uma dicotomia entre o mal e o bem. Isso seria igual a enxergar o mundo através de óculos bidimensionais.
Não podemos esquecer que embora opostos, esses elementos são duas faces da mesma moeda. Feita do mesmo material. Composta de um mesmo objeto. Mas distintamente da moeda e de tudo o que comumente pensamos ser necessário, a solução não é escolher um lado e lança-la para o alto, esperando que parte de nós reagirá.
Abraçando nossos defeitos, tendo em conta suas consequências e buscando somente mantê-los fora do bem estar dos outros, podemos ter muito mais sucesso. Afinal, não só mal nos trazem nossas imperfeições. Já pensou o quanto seu egoísmo pode ser determinante em sua personalidade? Sem nenhuma gota de egoísmo, caímos em uma demasiada abnegação. Não conseguiríamos renunciar a nada nem ninguém para buscar nossos objetivos. Sem nenhuma pitada de arrogância acabamos por rebaixar-nos à incapacidade completa. Assim, não seria possível acreditar que podemos o impossível. Não acreditaríamos que podemos conseguir o que ninguém jamais conseguiu, ou chegar onde ninguém jamais chegou. Os avanços científicos, as grandes descobertas e criações não existiriam se cada um se conformasse com sua própria mediocridade. Sem a covardia, caímos no destemor completo. Sem isso não temos autopreservação necessária à sobrevivência.
Logicamente tampouco seria benéfico deixar essa parte de nós nos dominar. Afinal, tudo em exagero faz mal. Mas se aceitarmos nossos defeitos meramente como traços emaranhados em nossa personalidade, podemos chegar a um entendimento muito maior de nós mesmos. Assim, quando alguém chamar a outra pessoa de egoísta, isto não será um xingamento. Isto não causará machucados. Pois então que esta replicará “Sim, eu tenho egoísmo dentro de mim, e isto só me faz mais forte!”.
aceitou sua essência. Aceitou sua arrogância, seu próprio egoísmo, sua agressividade e sua covardia. E não reprimindo, mas abraçando essa parte de si, entendendo como ela a influencia em suas decisões, tomou mais controle de si do que jamais teve. Só assim conseguiu amar-se por completo e ficar de bem com suas falhas.
Foi um longo percurso que teve de percorrer até ali. Mas chegara a realizações tão acima de suas expectativas que valerá a pena todo o trauma que vivera. Em seus erros estavam os maiores aprendizados e analisando cada um deles, finalmente evoluíra até onde sempre deveu estar. Com a Alpha Kappa Nu e as amizades que viriam dela, ao lado de , reconciliada com , Taylor e de bem com sua família. E foi assim que aprendeu que o limite de nossas ações, são o alcance de nossos sonhos. Dali pra frente, não se impediria de ter algo imprescindível para seu êxito, por puro medo de não ser capaz de alcança-lo. Afinal, todo o pesadelo pelo qual passara havia sido somente mais um sonho.





Fim.



Nota da autora: Hey Dreamers! É com muita emoção que eu digo que finalmente chegamos ao fim. Foram três anos me divertindo, sofrendo e amando com todos os personagens de OMD. Gostaria primeiramente a agradecer a minha maravilhosa mentora e parceira de escrita, Gabriela Martin. Você foi essencial Gabi! E obrigada a vocês que tem acompanhado por todo esse tempo, entrado no grupo do face e comentado me incentivando a continuar <3! Beijinhos de luz e até a próxima fic!
Para entrar para nossa família no face, segue o link abaixo.





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