Última atualização: 21/05/2018

"– Ms. Third ward, your first question:
What is your aspiration in life?
– Oh! My aspiration in life would be

to be happy."


1.

  Noite da chegada
  Mama said, "you're a pretty girl". What's in your head, it doesn't matter.
  (Beyoncé - Pretty Hurts)

Era um início de noite de sábado qualquer em Las Vegas. O lobby do hotel estava fervoroso, mas a clientela não era a de costume. Os grandes jogadores e apostadores foram substituídos por diversas meninas, que andavam de um lado para o outro, exibindo suas belas faixas e coroas de miss, fazendo com que qualquer outra hóspede quisesse morrer ao olhar seus corpos praticamente perfeitos. Ao longo daquela semana, o “Sexagésimo Terceiro Concurso Miss América” seria realizado naquele hotel. As candidatas estavam chegando junto aos seus acompanhantes, e se aglomeravam pela entrada, a fim de conseguir chamar um pouco de atenção para si mesmas. Nunca sabiam até que ponto os jurados as observavam. Era uma mistura de sotaques e costumes, todas sempre usando ao máximo a maior característica de seu estado, para tentar ser lembrada mais tarde. Como a Miss Texas, com seus longos cabelos castanhos, suas botas de montaria e a grande fivela presa ao short. Ou a Miss Havaí, com seus cabelos claros e desbotados de sol, a pele fortemente bronzeada e a marca do biquíni aparecendo de uma forma estrategicamente despretensiosa.
As portas se abriram novamente, e Lauren Pierce passou pelas mesmas, carregando sua mala ao lado. A mulher em questão era bem conhecida no mundo dos concursos. Antes de engravidar e dar adeus às disputas, ela era figurinha certa em todas as competições possíveis e com isso conseguiu reunir uma quantidade considerável de prêmios. Mas nada que ela pudesse se orgulhar muito - a maioria em seu estado natal ou no pequeno eixo do qual ele estava localizado. Depois que se afastou dos concursos, e enquanto sua filha era pequena demais para eles, Lauren trabalhou como “preparadora de Miss”. Andava pelas ruas da cidade de Portland, observando possíveis candidatas; meninas que possuíam alguma característica que pudesse chamar atenção. Foi assim que conseguiu transformar garotas normais, em vencedoras de concursos e algumas até mesmo em modelos. Mas o que ela sempre quis, sempre almejou, nunca foi possível: representar seu estado num concurso a nível nacional. Então estar aqui, no concurso de “Miss América”, era como se seu sonho estivesse se realizando, por mais que fosse com a sua filha. Lauren olhou para trás e deu uma olhada nela, que terminava de retirar as bagagens do táxi e explicava algo para o empregado do hotel, que se apresentou para ajudá-la. Com um sorriso de arrebatar, ela agradeceu o rapaz, que ficou visivelmente corado. Ajeitando sua faixa e erguendo seu queixo, a garota adentrou o local, chamando a atenção temporariamente para si mesma. As demais competidoras cochichavam algumas coisas entre si, mas ela não se abalava e manteve o sorriso no rosto, enquanto tentava reconhecer algumas meninas. Aquele mundo não era perfeito e honesto como poderia parecer, todas as competidoras estavam à espreita, esperando o primeiro passo em falso para dar o bote. Qualquer falta de atenção de uma delas, poderia significar uma eliminação prematura, antes mesmo da parte televisionada. E Lauren não poderia aceitar isso. Não com sua filha.
Ela foi até onde a menina havia parado, fazendo com que ela ajeitasse a postura e sorrisse de uma forma menos forçada. Olhou ao redor, tentando procurar algum rosto conhecido de sua época, talvez algum jurado amigo ou patrocinador. Se uma candidata conseguisse o apoio de um deles, é certo seu lugar entre as finalistas. E Lauren se cercaria de oportunidades para que isso acontecesse. Afinal, os últimos vinte de anos de sua vida foram dedicados a isso: trazer até a disputa do “Miss América” e, se fosse possível, levá-la ao “Miss Universo”. Uma vida de dedicação não poderia ser jogada no lixo, então cada segundo dessa semana seria precioso.

– Querida, fique mais reta, queixo erguido, olhe sempre para o horizonte e sorria – Lauren murmurou, sem mexer muito seus lábios. – Faça o dinheiro de seu último clareamento valer a pena.
– Claro, mãe – respondeu, alargando seu sorriso, mas não sem antes complementar. – Afinal, você não pode ter vendido o carro à toa, certo?

Dizendo isso, a garota pôs-se a caminhar em direção ao pequeno bar que havia no saguão. Algumas meninas se aglomeravam em volta da pequena meia lua de mármore, rindo alto e esbanjando simpatia, enquanto faziam uma dança quase sincronizada de seus guarda-chuvas coloridos. empurrou gentilmente uma ruiva, sorrindo em seguida para não causar conflito, porém a outra a olhou de cima a baixo e jogou os cabelos avermelhados em sua direção, antes de se afastar. Não se importando com isso, pegou o pequeno cardápio, procurando algo que pudesse agradá-la, mas eram tantas opções que ficou perdida. O barman notou sua dúvida e, gentilmente, tirou o pequeno livreto de suas mãos e o substituiu por um copo alongado, com um líquido, cujo tom variava entre amarelo e vermelho, um canudo rosa e um pequeno guarda-chuva verde. Ela olhou ao redor, vendo que era praticamente o mesmo drink que todas as meninas tomavam. resolveu ignorar a ação um tanto quanto abusada do barman e experimentou um pouco da bebida. O gosto do suco de laranja se sobressaiu e ela sentiu como se bebesse apenas suco. Deu de ombros, largando o copo pelo balcão e voltando até onde sua mãe estava. Avistou Lauren de longe, conversando com um senhor de cabelos grisalhos. Quando tentava dar meia volta para fugir, o olhar de sua mãe a capturou e fez com que ela caminhasse até lá.

, querida, este é o senhor Dukan, representante da empresa de joias patrocinadora do concurso – disse Lauren, colocando a mão nas costas de e fazendo com que a menina se aproximasse do homem mais velho.
– É um prazer conhecê-lo – sorriu abertamente, segurando a mão que lhe foi estendida.
– O prazer é todo meu – o olhar que recebeu não teve o menor pudor, tanto que sentiu-se quase nua naquele saguão. – Não é todo dia que eu me vejo acompanhado de belas tão jovens, ainda mais quando tenho o deleite de ser apresentado a uma delas.
– Não diga isso – a menina tentou desconversar, puxando sua mão, colocando atrás do corpo, e recuando um passo. Ela olhou um pouco mais atentamente para ele, prestando mais atenção em seus cabelos grisalhos; a calvície aparente na parte da frente de sua cabeça, nas marcas de expressão, que gritavam por todo o seu rosto, e pensou que seria mais ou menos assim que seu avô pareceria se ainda estivesse vivo. Mas, com toda certeza, ele não daria em cima dela. – Tenho certeza que todas as concorrentes adorariam conhecê-lo.
– Sim, mas tive a sorte de ser apresentado para a mais linda de todas logo de início – a distância foi encurtada mais uma vez e limpou a garganta, encarando a mãe pelo canto dos olhos. Lauren olhava para o outro lado, acenando para alguém que passava por lá. – Quem sabe não podemos sair para jantar nessa semana – as mãos ágeis do mais velho tocaram-lhe no rosto e engoliu em seco, desviando-se.
– Claro, será uma honra – sorriu de lado, meio sem jeito. – Mas, se o senhor me permite, creio que estão reunindo as candidatas no salão de eventos.

E sem dar tempo para uma resposta, a menina caminhou rapidamente, sumindo por um dos corredores laterais. Deu a volta, procurando um caminho que lhe levasse até a recepção e, depois de andar um pouco, conseguiu chegar ao outro lado do salão. Viu a sala que as meninas estavam entrando e as seguiu, se colocando entre elas e fugindo dos olhares. se deparou com um enorme salão de convenções, com um palco mais elevado que ocupava a parte do fundo do ambiente e tinham duas fileiras longas de cadeiras brancas, um pequeno púlpito e uma pequena mesa disposta mais à frente das cadeiras. As paredes eram brancas e, em alguns lugares, pequenos pilares em forma de colunas gregas ganhavam a parede. Na parte de cima dele, alguns frisos mais detalhados estavam cobertos por tinta dourada. A garota pensou que aquela era uma péssima representação de um templo grego, mas resolveu guardar para si mesma. Mais a frente, perto do palco, alguns membros da organização indicavam que as candidatas deveriam subir e ocupar o lugar demarcado pelo seu estado de origem. seguiu até seu lugar, no final da primeira fileira, sentando-se numa cadeira entre as candidatas de Maryland e de Louisiana. Ela olhou para suas concorrentes vizinhas, tentando examiná-las da forma como sempre fora treinada: procurando defeitos e pontos fracos, mas logo viu que não conseguia. Quando as olhava, ela via apenas duas garotas, como ela. Talvez a candidata da Louisiana pudesse melhorar esse penteado ou apenas deixar os cabelos soltos, porque aquele coque estilo bailarina não havia caído muito bem nela. Mas não conseguiria citar isso numa conversa casual apenas para atingir a menina. Se ela falasse seria numa boa, como um pequeno conselho. Mas sua mãe sempre disse que ela não deveria tentar ajudar quem estivesse ali para derrotá-la. não deveria ser culpada pela sua própria eliminação e se caso alguém já estivesse no chão, ela não deveria ajudar a levantar e sim, chutar mais um pouco. Aquilo tudo sempre pareceu malvado, psicótico demais para . Como se os concursos não fossem de beleza e sim, uma luta armada até a morte. Ela não conseguia se enxergar fazendo nada daquilo, então se mantinha calada, não criando situações favoráveis ou desfavoráveis para si mesma, não ajudava e nem atrapalhava. Continuava impassível, com um sorriso montado no rosto e entediada, como sempre.
Depois que todas as meninas tomaram seus lugares, a apresentadora do concurso subiu ao palco, sendo recebida por uma salva de palmas. Pela primeira vez, ela prestou atenção no que estava acontecendo. A parte destinada à plateia tinha uma quantidade razoável de pessoas e alguns repórteres, que estavam focados em registrarem todos os momentos daquela apresentação. Giuliana Rancic¹, apresentadora do E! News e do concurso, posicionou-se no púlpito e pediu a palavra.

– Boa noite, senhoras e senhores. Nós temos o orgulho de anunciar o início do “Sexagésimo Terceiro Concurso Miss América”. Temos reunidas aqui as 50 mulheres mais bonita do nosso país e durante essa semana, nós trabalharemos duro para eleger a mais bela, que será aquela que nos representará no “Miss Universo” deste mesmo ano. Para compor a nossa mesa, eu gostaria de convidar ao palco os cinco jurados da fase eliminatória: Fred Nelson, Presidente e produtor executivo do People's Choice Award; Kristin Boehm, Jornalista da People Digital; Kristin Prouty, Diretora de relações públicas da WWE; Nick Light, empresário artístico e Rob Goldstone, Ex-jornalista e empresário artístico² – conforme ela dizia os nomes, eles levantavam e seguiam para os seus lugares, sendo acompanhados por palmas. parecia meio aérea, até que avistou sua mãe mais ao fundo, gesticulando discretamente que ela deveria sorrir. Segundos depois, ela reparou que aquele senhor Dukan continuava ao seu lado e seu estômago revirou. Respirando fundo e recolocando o sorriso nos lábios, ela tentou prestar atenção no que acontecia.
– Ao longo desta semana, – a apresentadora continuou sua fala – teremos uma série de etapas preliminares, que nos levarão ao número de vinte candidatas que participarão da fase final no próximo sábado, que será televisionada. Teremos dois dias de preparação intensa, e no terceiro dia, teremos o desfile de trajes típicos, onde dez candidatas serão dispensadas. No dia seguinte, o primeiro desfile eliminatório de traje de banho, onde mais dez candidatas serão eliminadas. No quinto dia, as apresentações das habilidades, onde mais dez meninas serão eliminadas. Na véspera do concurso, as vinte finalistas terão um dia para preparação e descanso, para chegarem lindas à nossa final televisionada. Gostaria de agradecer a presença de todos vocês nesta noite e desejar uma ótima semana. E, meninas – ela olhou em nossa direção, com um sorriso nos lábios. – Independente do que aconteça nos próximos dias, tenham em mente que estão entre as cinquenta mulheres mais bonitas do país. Isso deve significar alguma coisa, não? – Giuliana brincou, fazendo a plateia rir, mas não havia nada de engraçado naquela frase para . Ser bonita, ser apenas bonita, não significava nada para ela. Não era como se todas nesse palco fossem naturalmente bonitas, todas haviam modificado algo em seu corpo; uma pequena, ou grande, parte que não as agradassem. Então parece que ser natural era jogar limpo demais, logo, não servia.
Pediram para que todas ficassem de pé e se juntassem para uma foto em grupo. Lauren ficou alerta lá no fundo, gesticulando para que ficasse mais ereta, erguesse mais a cabeça e sorrisse de uma forma mais bonita. E sabia que não podia ignorá-la, ou então aquele começo de semana, seria o início do próprio inferno da Terra. Então, fez tudo de acordo com o que sua mãe pedia, até que ela ficasse satisfeita o bastante para voltar a se sentar.
Depois da foto em grupo, as candidatas foram separadas em pequenos subgrupos para as fotos individuais. foi deslocada para outra sala, junto com mais nove meninas, onde elas foram preparadas. Mais maquiagem foi colocada em seu rosto, seu cabelo foi arrumado novamente, colocaram um maiô azul e vermelho em suas mãos, apontando o banheiro para ela. A menina respirou fundo algumas vezes, antes de girar a maçaneta e entrar, mas quando o fez, deparou-se com um camarim e não com o banheiro que esperava. Algumas meninas já trocavam as roupas, e outras estavam meio acanhadas, encostadas na parede, assim como . A respiração dela ficou mais pesada, a ponto de quase arfar, mas não queria chamar atenção para si mesma. Ela caminhou até um banheiro mais ao fundo do camarim e trancou-se lá para se trocar. Começou a tirar suas roupas, enquanto respirava fundo para se acalmar. Para ela, essa era a pior parte. Ela não se sentia confortável em ficar de traje de banho na frente de pessoas desconhecidas, mas isso era algo cotidiano para quem participava de concursos, mas nunca seria para . Ela ficava tão nervosa, que seu estômago revirava e uma ânsia de vômito a dominava, mas ela não poderia deixar isso a vencer. Não de novo. Afinal, era só uma sessão de fotos. Qualquer gordurinha fora do lugar poderia ser consertada no Photoshop. Bem, era isso que ela esperava.
Depois que terminou de se vestir, se cobriu com o roupão e o apertou bem em sua cintura. Uma das meninas levantou-se da poltrona que estava e correu para ocupá-la. Pouco a pouco, as meninas eram chamadas para as fotos, e depois de um tempo, ela ficou sozinha no camarim. Levantou-se e parou na frente do espelho, deixando o roupão cair aos seus pés. Ela enxergava seu próprio corpo de uma forma completamente irreal, como se ela fosse uma aos olhos das pessoas, e outra totalmente diferente aos seus. Ela se enxergava gorda, como se aquele maiô não servisse nela, como se marcasse todas as partes do seu corpo imenso. Pelo menos era isso que se passava em sua mente. Quando esses pensamentos estavam quase a dominando, a ponto de vencê-la mais uma vez, alguém bateu na porta e fez com que eles sumissem.
Temporariamente.
Quando a sessão de fotos acabou, saiu pelo corredor, encontrando sua mãe e o senhor Dukan sentados no lobby. Pensou em tentar passar sem ser notada, mas não conseguiu, pois sua mãe logo a enxergou e sinalizou para que ela se aproximasse. E ela o fez, muito a contra gosto. Forçou um sorriso quando chegou, vendo os dois se levantarem.

– Estávamos te esperando para jantar – Lauren comentou, enquanto a menina fazia uma careta.
– Mãe, não vou jantar, no máximo um chá – ela sorriu de lado. – Tão perto de uma competição, eu não posso me dar ao luxo de engordar.
– Então me deixe te acompanhar – o mais velho disse, dando um passo a frente e ficando bem próximo à garota. – Assim, quem sabe, eu posso te ajudar a relaxar um pouco antes de tudo – engoliu a seco, quando sentiu os dedos do homem roçarem em seu colo, na região onde sua blusa não cobria, e subindo até o seu rosto. Sua respiração acelerou e a ânsia de vômito voltou. A vontade era de despejar tudo naquele homem nojento, mas ela sabia que não podia se desentender com um dos patrocinadores, pois isso poderia significar sua eliminação direta. Só que ela não podia apenas aceitar suas investidas, porque esse tipo de coisa não passava pela sua cabeça. Ela nunca dormiria com alguém - por mais poderoso que fosse - apenas para conseguir alguma coisa. Se a sua mãe quisesse, ela mesma que dormisse.
– Desculpe-me, mas eu preciso ir para o quarto, preciso dormir para estar bem disposta amanhã – e sem esperar por uma resposta, mais uma vez, saiu rapidamente, deixando os outros dois sozinhos no lobby.

Da forma mais educada e calma que conseguia, pediu o cartão de seu quarto. A recepcionista, muito atenciosa, estendeu-lhe um pequeno retângulo dourado e lhe disse que suas malas já estavam lá. A menina sorriu e, sem dar atenção à sua mãe, caminhou até um dos elevadores e pediu que a levassem ao décimo andar. entrou apressadamente em seu quarto, jogou seus pertences em algum canto e correu até o banheiro, abrindo uma torneira e deixando que a água tirasse o cheiro daquele homem. Tudo nele a enojava. Desde a forma como a olhava - passando pelo jeito atrevido que ousava lhe tocar, e chegando ao cheiro forte e enjoativo de cigarro. Colocou as mãos em concha debaixo da torneira e jogou um pouco de água no rosto, tentando tirar a expressão incomoda que ali se instalara. Mas não adiantava, então tirou toda sua roupa e se enfiou debaixo do chuveiro, deixando que a água morna tentasse lhe acalmar. Só que não era tão fácil assim. Água não faria nenhum tipo de milagre, não curaria anos e anos de dor e ressentimento. apoiou as costas no box e deixou que seu corpo escorregasse até o chão. Sentada, ela abraçou os joelhos, apoiou o rosto neles e chorou. Um choro sentido, contido e cheio de mágoa. E então ela gritou. Um grito seco, grave e quase desesperado, sem se importar se alguém estava ouvindo. Um grito que demonstrava, mais do que nunca, como ela precisava de ajuda. E só enaltecia o fato de que ela não tinha ninguém para ajudá-la. Ela odiava aquilo tudo. Odiava aquele ambiente aparentemente perfeito, onde todos se amam, mas que basta olhar para o lado, que alguém já está a postos para lhe atacar. Odiava a atmosfera que dominava aquele concurso, como se aquele título fosse a coisa mais importante do mundo. Odiava a forma como as pessoas se tratavam, com um desprezo e superioridade desnecessários. E acima de tudo, odiava sua mãe, por obrigá-la a conviver com tudo isso.


¹ Giuliana Rancic foi apresentadora do Miss USA 2013, ao lado de Nick Jonas, do Jonas Brothers.
² Esses foram alguns dos jurados da etapa preliminar do Miss USA 2013.




2.

  Primeiro dia
  Brush your hair, fix your teeth.
  What you wear is all that matters.

  (Beyoncé - Pretty Hurts)

Quando abriu os olhos, viu que tudo não era apenas um sonho. A cama confortável, o tom pastel das paredes e o ar estranho lhe mostraram que ela estava longe do seu quarto simples no Maine. Ela encarou o relógio da cabeceira e viu que este marcava 05h37 da manhã. O céu ainda estava um pouco escuro, mostrando a ela que poderia dormir mais um pouco, porém, ela se sentia desperta demais para voltar a dormir. Levantou da cama, deixando os pés tocarem o tapete felpudo e macio que cobria a área ao redor. Caminhou lentamente e pegou o roupão que tinha deixado numa poltrona perto da janela. Colocando-o, ela se dirigiu até a pequena sacada, deixando o vento gelado lhe mostrar que ainda estava viva. Respirando fundo algumas vezes, ela se pôs a observar a cidade à sua frente. As luzes deixavam tudo mais alegre, mais movimentado, como se ninguém dormisse naquele lugar, como se as pessoas vivessem como se não houvesse amanhã. E admirava isso. Ela também queria se sentir livre para experimentar, para curtir intensamente e viver a sua juventude. Pra ela, era como se não tivesse vivido nenhum dos seus vinte e um anos, como se aquela vida fosse de outra pessoa, como se ela fosse um acréscimo de sua mãe e fosse obrigada a viver tudo o que ela quisesse e escolhesse. Isso a deixava louca, mas não era algo com o que ela pudesse lutar, estava presa a isso, da mesma forma que estava presa a sua mãe. Era como se não fosse uma pessoa, fosse uma extensão de Lauren. Sem desejos e vontade própria. Lauren tinha o controle de tudo. Como poderia jogar tudo para o alto e ganhar o mundo sem nenhum dinheiro? Sua mãe nunca aceitaria sua rebeldia. tinha certeza de que, a partir do momento que falasse que não participaria mais de concursos e tomaria o controle de sua vida, Lauren falaria algo do tipo: “Quer ser dona do seu nariz? Então saia da minha casa, arrume um emprego e passe a se sustentar.” sabia que poderia fazer isso, mas não agora. Talvez depois desse concurso, caso ganhasse algum dinheiro. Mas ela teria que ter garra e força o bastante para tirar a parte que lhe cabia, do bolso de sua mãe, ou então Lauren inventaria de aplicar tudo em mais uma loucura ou em mais uma cirurgia plástica. Mas, como uma menina que nunca pôde fazer o que quis, nunca pôde se expressar da forma que gostaria, conseguiria se libertar das amarras da mãe? De alguma forma, se sentia meio acomodada nessa história toda, porque, bem ou mal, ela tinha o que precisava sempre. Sua mãe até lhe fazia alguns agrados, mas somente se ela agisse e falasse o que ela pedisse. Sempre se sentiu muito coagida e manipulada pela mãe, mas como mudar tudo depois de tanto tempo? É claro que ela precisaria dar o primeiro passo na direção dessa mudança, mas ela teria coragem? Ela seria forte o bastante? Tudo isso passou a tumultuar sua mente desde o dia em que ela mesma percebeu que, aquele ambiente, não era pra ela, que ela não pertencia e nem queria pertencer àquilo. balançou a cabeça e respirou fundo, tentando tirar tudo isso de sua cabeça por um instante, mas era quase impossível – tudo isso, toda essa confusão, essa bagunça generalizada, era o que ela chamava de vida.
Ela se apoiou no guarda-corpo e voltou seu olhar para baixo, assustando-se um pouco com a altura. Do alto dos dez andares que a separavam do chão, era fácil pensar em formas variadas de acabar com todo aquele tormento, mas ela sabia que não poderia deixar as coisas chegarem nesse nível. Tentando clarear a mente e pensar em outras coisas não suicidas, ela olhou para a esquerda, vendo um rapaz na sacada, dois andares abaixo. Ele estava sem camisa e fumava um cigarro. A fumaça rodopiava no ar, fazendo uns movimentos engraçados ao entrar em contato com o vento gelado que batia. O rapaz caminhou até o guarda-corpo, deu uma tragada mais longa e jogou o que restou do cigarro na rua, debruçando-se em seguida e vendo o caminho que o mesmo percorria até ser perdido de vista. Ele passou a mão no cabelo, bagunçando-o, e olhou para cima, como se percebesse que estava sendo observado. deu um longo passo para trás, tentando se proteger de ser vista. Não queria se conhecida como "aquela que ficava observando os hóspedes no meio da madrugada". Mas, antes que ela pudesse se esconder por completo, o rapaz conseguiu ter um breve deslumbre de seu rosto. Ele sorriu de lado e voltou para dentro do seu quarto.
entrou no banheiro quando o relógio marcou exatamente 08h00 da manhã. Ligou o chuveiro e deixou que a fumaça da água quente enchesse o lugar, a ponto de embaçar um pouco o espelho. Pegou sua mala de mão e abriu, tirando seus produtos de higiene lá de dentro. Shampoo, condicionador, sabonete, hidratante e tudo o que poderia ser necessário – ou não – para manter sua boa aparência. Quando já estava vazia, ela puxou um pequeno zíper que estava escondido e o abriu, revelando um fundo falso. Ali ela guardava o que ela realmente precisava naquele momento, o necessário para relaxar e aguentar o restante do dia. Ela pegou a pequena garrafa de whisky e a apertou firmemente, era tão pequena que quase cabia perfeitamente em sua mão fechada. Respirou fundo algumas vezes, tentando provar para si mesma que não precisava daquilo, que a bebida não era a melhor solução, que só complicaria as coisas. Só que como se houvesse um anjinho de um lado, havia um diabinho para contrapor do outro e ele gritava em seu ouvido que aquela era a única forma de aguentar tudo aquilo, todas aquelas pessoas. Sua cabeça parecia a ponto de explodir. Além de ter que lidar com todos esses problemas, ela tinha que lidar com inúmeros problemas internos, problemas que ninguém imaginava que existia, nem mesmo sua mãe. Se essa descobrisse, falaria que era besteira, que ela tinha que parar com isso de uma vez, antes que atrapalhasse algo importante. Como se fosse tão fácil assim.
Não que fosse alcoólatra, talvez ela estivesse caminhando para isso no futuro. O grande problema é que ela trocava suas refeições por doses de bebida. Num concurso que participou, logo que completou 18 anos, ela se deparou com uma concorrente bebendo cerca de três garrafinhas de vodka antes da competição. Claro que ela ficou estarrecida e sem saber o que falar, se deveria falar com a organização ou algo tipo. Mas ela não falou, achou melhor ficar longe de problemas. Horas depois, a menina estava passando um pouco mal e ficou alguns minutos trancada no banheiro. Como era a única que sabia realmente o que estava acontecendo, foi até ela para ver se estava tudo bem. Foi quando descobriu o real motivo da menina ter bebido. Segundo ela, o excesso de bebida tirava-lhe o apetite, ela ficava enjoada por algum tempo, sem ter vontade de comer nada, e depois colocava tudo pra fora. O mal estar continuava, impedindo-a de ingerir qualquer coisa que não fosse água. Era assim que ela perdia peso para as competições, substituindo suas refeições por bebida.
Talvez pelo fato de ser jovem e altamente influenciável, resolveu experimentar isso uma vez. E ela não aguentou nem mesmo uma única garrafa sem passar mal, mas surtiu efeito – ela não conseguiu comer nada durante o dia todo, só tomar alguns goles de água. Ela sabia que isso poderia lhe fazer muito mal, mas ela não tinha muita escolha, sua mãe ficava em seu ouvido, dizendo: “Você precisa perder peso, afinar essa cintura. Se você conseguiu chegar ao manequim 36, você consegue chegar ao 34.” Só que não era isso que queria. Ela não queria se tornar magérrima, ser como as garotas que via na revista, aquelas que aparentavam que iriam se quebrar a qualquer instante. Isso não parecia saudável. E muito menos sua dieta a base de bebida barata. Só que na sua cabeça, seu corpo saudável estava num nível de importância abaixo de sua mente saudável. E a mente só estaria bem, se sua mãe não estivesse falando initerruptamente em seu ouvido. Era como aquele ditado:
“Se você não pode com seu inimigo, junte-se a ele.”
E foi assim que ela assumiu esse hábito terrível de beber intensamente nos períodos de competições e nos dias que antecediam. Assim ela perdia peso rapidamente e se enquadrava no padrão Lauren de beleza, fazendo de sua mãe a pessoa mais feliz do mundo. Só que com o passar do tempo, foi percebendo que a bebida lhe ajudava em outros assuntos também. Ela lhe deixava mais solta, mais desinibida, mais propensa a – falsas – amizades e até mesmo mais simpática. Seus problemas pareciam inexistentes e a vida fácil de se levar. Com essas adições, ficou muito difícil tirar a bebida do seu cotidiano e por isso, somente por isso, faltou um pouco mais de força de vontade, ou coragem, para guardar a garrafa. abriu a tampa, levando-a à boca e deixando que o líquido marrom descesse pela sua garganta. A queimação era tão conhecida, que nem incomodava mais. Ela fechou os olhos e respirou fundo, frustrada por não ter controle sobre si mesma.

Minutos depois, ela estava cercada de gente. As meninas surgiam de todos os lados, juntando-se em grandes mesas para tomar café e conversar um pouco. Era fácil sentir uma união sendo formada por candidatas de locais próximos ou onde havia coisas em comum. Mas não estava interessada nisso, fazer amigos ali era algo que estava no final da sua lista. Então ela se manteve numa mesa para apenas duas pessoas, esperando que apenas sua mãe se juntasse a ela e não aquele senhor intragável que costumava acompanhá-la ultimamente. Encarou a xícara de chá a sua frente e sentiu o estômago embrulhar – a garrafinha que tinha bebido antes de descer, já estava lhe fazendo um pouco mal. Sua cabeça doía um pouco e a visão estava turva, mas ela tentava manter o foco e as aparências. Um garçom se aproximou, dando-lhe um pequeno informativo. Ela sorriu, agradecendo, e logo o viu se afastando na direção da próxima mesa. Começando a ler o papel, viu que era uma espécie de programa para o dia. Às dez da manhã, elas se encontrariam com a figurinista, para a primeira prova de roupas. Do meio dia e meia às duas da tarde, era uma pausa para o almoço, e em seguida, o ensaio para o primeiro dia de competição. Tinha algo que chamou sua atenção no programa. Lá estava marcado que, por volta das cinco da tarde, seriam as primeiras sessões de acompanhamento. Que tipo de acompanhamento? Nunca tinha visto nada parecido com isso antes, mas não estava muito disposta a tentar descobrir o que era. Ela resolveu esperar até o horário marcado para saber.

estava se sentindo incomodada naquela sala. O espaço não era pequeno, mas não era o recomendado para cinquenta meninas e mais o pessoal da organização. Ela se mantinha num canto e rezava para que tudo aquilo acabasse de uma vez. Ela estava feliz pelo fato de não ter cruzado com a mãe ainda, isso fazia o seu dia ser, pelo menos, 30% menos pior do que poderia ser. E se Lauren ainda estivesse com aquele velho ao seu lado, isso significava uma melhora de mais de 99%. Ela, realmente, não havia ido com a cara daquele senhor. Sua postura superior, seus gestos abusados e a forma com que ele a olhava, tinham feito com que ela criasse uma ojeriza por ele. E imaginar o que sua mãe poderia ter combinado com ele, fazia com que ela tivesse vontade de morrer. Porque ela preferia se matar, a deixar com que aqueles dedos a tocassem mais uma vez. Meio alheia ao que se passava ao seu redor, precisou que chamassem seu nome três vezes para que ela pudesse, enfim, se dirigir até os organizadores. Eles pediram que ela levantasse os braços, para que pudesse tirar as suas medidas. Ela respirou fundo – odiava que as pessoas ficassem sabendo seu peso ou suas medidas. Sua mãe havia lhe transformado numa pessoa altamente complexada com esse tipo de coisa. Não importava o que lhe falassem, ela sempre se acharia acima do peso. Como se ao olhar sua imagem no espelho, ela visse algo completamente diferente do que as outras pessoas viam. Fechando os olhos com força, ela deixou que todas as medidas fossem tiradas. Mas o pior, pra ela, foi quando pediram que ela subisse na balança. Parecia que seu sangue havia congelado em suas veias. Ela tremia bastante e encarava os olhares que recebia como puramente julgadores. Mantendo seus olhos no chão, longe do que a balança marcaria e de como a organização reagiria a isso, ela esperou (im)pacientemente até que falassem que ela estava liberada. E, como se toda a sua insegurança estivesse estampada em seu rosto, ela encarou todas as outras quarenta e nove meninas que ali estavam. sentia-se a pessoa mais frágil do mundo, como se apenas o olhar delas pudesse a derrubar. Por mais que parte da sua mente gritasse para ela levantar a cabeça e seguir em frente, a maior parte fazia com que ela se sentisse mais diminuída a cada olhar diferente que ela percebia. Ela não conseguiria se manter ali por mais muito tempo. quase correu na direção oposta, abrindo a porta de forma repentina e chamando mais atenção ainda. Meio sem controle, ela procurou um lugar que pudesse ficar sozinha e se controlar, mas sabia que se fosse para o seu quarto, ela não sairia mais de lá. Passando pelo restaurante do hotel, ela avistou um banheiro e caminhou em sua direção, trancando-se em uma das cabines logo que entrou. Deixou seu corpo tombar para frente; a testa atingindo a porta de madeira, e ficou nessa posição por alguns segundos, até conseguir controlar sua respiração. Só que ela sabia muito bem que não seria dessa forma que ela se acalmaria. O choro ficou preso em sua garganta. Ela o segurou, junto com outras vontades – necessidades – que vieram a seguir. Sua válvula de escape, que mais a prejudicava do que ajudava. Mas ela não se deixaria perder o controle dessa forma por apenas uma pesagem. Ela não era assim. Não deveria ser assim e não se deixaria ser assim. Pelo menos era o que ela queria, mas também sabia que não conseguiria. Essa era uma batalha perdida para ela mesma.

lavou a boca muitas vezes, como se tentasse tirar um gosto que parecia entranhado e que dificilmente sairía. Aquele gosto, além de desagradável como era para todas as pessoas, também era como frustração e derrota para a menina. Só mostrava como todos os dias era uma batalha perdida dela, contra ela mesma. Só que ao mesmo tempo em que se sentia envergonhada por perder o controle mais uma vez, sentia-se mais calma, como se tivesse se livrado de parte da pressão que estava sobre seus ombros. Ela encarou seu reflexo no espelho e não via do que pudesse se orgulhar. As sombras escuras debaixo dos olhos, por exemplo, denunciavam sua dificuldade para dormir. Os milhões de pensamentos que a atormentavam diariamente, também não a deixavam dormir. E, por mais que tentasse, ela não conseguiria esconder suas olheiras. Por mais maquiagem que passasse, ainda eram as primeiras coisas que ela enxergava em si mesma. Logo em seguida vinham seus olhos, pálidos e meio sem vida. Retrato fiel da forma que se sentia. E o pior era não poder transparecer tudo isso. No final das contas, ela teria que colocar o sorriso falso e forçado nos lábios e agir como se tudo aquilo fosse o que ela mais queria no mundo.

O dia passou arrastado, como se o ponteiro se movesse uma vez para frente, e cinco para trás. Ela agradeceu aos céus no minuto em que colocou os pés em seu quarto, tratando de seguir para o banheiro e tomar um longo banho. Pelos minutos que ela se mantinha debaixo da água morna, era como se parte dos seus problemas descessem ralo abaixo também. tentava se manter o máximo de tempo possível ali, mas nunca parecia o suficiente. Talvez seus demônios fossem muitos para tão pouca água no mundo. Ou aquela água não fazia mágica. Talvez se fosse água benta...
Perto das cinco da tarde, ela saiu do banho e se aprontou para o tal “acompanhamento” que estava no informativo. Não sabia se deveria ir a algum lugar, se deveria esperar no quarto. E, como a preguiça e falta de vontade falaram mais alto, ela ficou deitada na cama, encarando o teto, esperando algum sinal de fumaça, ligação ou algo tipo. Até que batidas na porta a assustaram; pensou logo que era sua mãe. Ela não estava disposta a aturar seus longos discursos sobre as competições, a forma como ela deveria se portar, falar, andar ou viver. As batidas continuaram até perceber que a pessoa não ia embora, então ela levantou, caminhou até a porta e a abriu, com uma expressão nada convidativa. Mas ela logo se arrependeu. Um rapaz, que não aparentava ser muito velho, estava parado na porta, com um braço apoiado na parede, fazendo seu corpo ficar levemente curvado em sua direção. Percebendo o susto da menina, ele se ajeitou, passando a mão rapidamente pelos cabelos e sorriu de lado. Levou apenas alguns segundos para ela reconhecê-lo. Era o hóspede que ela havia visto hoje mais cedo na sacada. O mesmo que quase a viu o espionando. Ela prendeu a respiração e rezou para que ele não tivesse a visto mais cedo.
– Senhorita Pierce? – ele perguntou, e sua voz a pegou desprevenida. Era firme, rouca e, ao mesmo tempo, suave e melodiosa. sentiu como se pudesse passar o restante da vida ouvindo aquela voz, que não enjoaria. Nem por um segundo sequer. Sem saber como reagir, ela afirmou com a cabeça, vendo-o olhar algo nos papéis que carregava. – Sou , um dos psicólogos da organização. Fui designado para fazer seu acompanhamento durante o concurso. Posso entrar para conversarmos um pouco?
– Claro – ela murmurou, dando um passo para o lado, abrindo espaço para que ele passasse. Depois que fechou a porta, ela se encarou no espelho que tinha na parede do lado oposto ao seu. Um som de reprovação saiu dos seus lábios ao reparar na forma que estava vestida e como seu cabelo estava num estado além de crítico. Derrotada, ela virou seu corpo na direção do rapaz, que continuava em pé no centro do quarto, olhando em sua direção. – Você pode sentar, se quiser – disse, apontando uma das poltronas que ocupavam a parte do fundo do quarto.
– Obrigado – disse, caminhando até uma delas, sentando e fazendo um gesto para que o acompanhasse. E assim ela o fez. Demorou um pouco para que ela conseguisse encontrar uma posição que ficasse confortável, visto que o rapaz acompanhava todos os seus movimentos com os belos olhos que possuía. – Eu tenho alguns dados seus aqui, só gostaria de confirmar, tudo bem? – a menina afirmou com a cabeça. – Nome completo?
Anne Pierce.
– Idade?
– Vinte e um anos.
– Data de nascimento?
– 21 de agosto de 1993.
– Estado civil?
– Solteira.
– Ok. Acabou o interrogatório – ele sorriu de lado mais uma vez. – Não pense nisso como uma terapia, nós vamos apenas conversar sobre a sua experiência aqui, a forma como você enxerga essa oportunidade, sua relação com todo esse universo. Nada muito complexo... – ele disse a última palavra e tudo isso quase se transformou numa piada pra . Tudo era complexo, com significados demais e todos diferentes do que a maioria achava. Não era apenas um concurso de beleza, era, praticamente, uma guerra psicológica. Guerra que já havia perdido antes mesmo de começar. Então ela apenas sorriu, para que ele não percebesse todos os seus problemas de uma vez só. – Como você está se adaptando a essa mudança na sua rotina? Sei que você não está aqui não tem nem um dia inteiro ainda, mas talvez já tenha sentido alguma diferença.
– Estar aqui em Las Vegas tem sido como um sonho – respondeu baixo, sorrindo de lado. – Não tenho do que reclamar. Tá tudo tão perfeito – ela estava usando todas as suas habilidades para tentar driblá-lo e esconder seus reais sentimentos. Se ele soubesse tudo o que se passava em sua cabeça naquele momento, era possível até mesmo que ele quisesse interná-la. Então, enquanto seu interior gritava que esse concurso, esse hotel e até mesmo a sua própria vida eram seu pedaço particular do inferno, seu exterior mantinha um sorriso nos lábios e uma expressão relaxada.
– Hmm... – ele murmurou, anotando alguma coisa num dos papéis que carregava. A menina tentou espiar o que ele havia escrito, mas era difícil devido à distância e a falta de uma grafia legível do rapaz. – Que bom – disse, sorrindo mais uma vez. A menina se sentia estranha cada vez que ele sorria. Como se algo dentro dela se alegrasse. O que era absolutamente controverso, já que seu interior era completamente triste, pelo menos na maioria do tempo. Sua vontade era de agir como uma menina da sua idade: ficar sonhando acordada e imaginando como seria se aqueles dedos tocassem sua pele, ou tentando adivinhar como seria o sabor dos seus lábios, ou até mesmo rezar para que ele a chamasse para sair. Mas essa parte dela estava adormecida, não era como se ela tivesse mil encontros enquanto não estava envolvida nas loucuras de sua mãe. Até mesmo na época da escola era difícil, porque Lauren a fazia praticar para os pequenos concursos da redondeza. Mesmo estudar era difícil. Lauren nunca foi uma boa mãe, ela colocava seus interesses a frente, até mesmo, dos estudos da filha.
agia de uma forma controladamente natural, fazendo tudo o que fosse possível para passar uma imagem relaxada. Talvez tanto esforço estivesse fazendo com que tudo saísse ao contrário do planejado, porque observava atentamente a forma que a menina reagia a tudo: como mordia o canto dos dedos, passava a mão pelos cabelos e balançava as pernas. Atitudes claras de alguém que não estava confortável com a situação. Nem um pouquinho sequer.
– Você tem se relacionado com as outras candidatas? – o rapaz perguntou e mordeu o lábio inferior. Esse era um terreno perigoso. Ela nunca foi do tipo que cultivava amizades, e nesse meio, era mais difícil ainda. E tudo piorava quando a pessoa não se sentia como se pertencesse, como se devesse estar ali.
– Acredito que todas as meninas são maravilhosas, todas merecem estar aqui, assim como merecem conquistar o título. Só que eu ainda não tive chance de conversar com todas, mas tenho certeza que levarei grandes amigas desse concurso – só a ideia de manter contato com as candidatas, já fazia a menina tremer. Tudo bem, ela não sabia se todas eram absurdamente detestáveis como pareciam, mas ela deveria se deixar levar pela maioria. E ter outra pessoa como Lauren em sua vida não estava em seus planos.
– Acho que você tem uma vantagem em cima das suas concorrentes – ele comentou, fechando seu caderninho e encarando mais uma vez.
– Qual? – a menina estranhou, juntando as sobrancelhas num claro gesto de confusão.
– Lauren Pierce é sua preparadora, e também é sua mãe. Deve ser bom ter alguém tão acostumado com esses concursos na família. Aposto que ela sempre te deu dicas – a menina sentiu que vacilaria nesse momento. Ela nunca tinha controle sobre si quando o assunto era sua mãe. A postura opressora e manipuladora de Lauren fazia com que sua própria filha se sentisse acuada diante dela. Não era um relacionamento saudável, nunca foi. E aparentemente nunca seria. Se tivesse escolha, ela estaria longe, mas essa não era uma opção. Não agora.
– É, Lauren vem me preparando para esse momento desde que descobriu que estava grávida de uma menina – ela comentou e o rapaz sorriu, mas algo na expressão dela fez com que ele sentisse que aquela não era a reação adequada. Pelo menos não a que ela esperava. Havia algo escondido em sua resposta. Algo sutil e que não conseguiu captar completamente. Seu tom não era alegre, não era a forma que as pessoas costumam usar quando falam de suas mães. Era quase ressentido, magoado. E isso ficou registrado em sua mente, até mesmo depois de sair do quarto de .

Quando chegou ao seu, colocou-se a pensar ainda mais sobre isso. Talvez a menina escondesse algo muito bem dentro de si mesma. Algo que a incomodava de verdade, mas que ela não demonstrava. E se tinha algo que ele já havia aprendido durante seus primeiros e poucos anos atuando no campo da psicologia, era que ela não se abriria tão facilmente, ainda mais para um cara que ela havia acabado de conhecer. Por mais que ele já estivesse a acompanhando há um tempo, observando-a desde os primeiros concursos eliminatórios lá no Maine, esse havia sido apenas o primeiro contato direto dos dois. Ele já sentia como se a conhecesse, mas a recíproca não era verdadeira. E durante essa semana, ele não teria tempo o bastante para fazer com que confiasse nele o suficiente. Só que ele tinha enxergado algo nela, uma coisa que ia além do que ela tentava transparecer. Ao mesmo tempo em que estava escondido por detrás de suas palavras, estava estampado em seu rosto limpo de maquiagem. Ele havia visto uma que ela tentava esconder, ou que nem mesmo sabia que existia. E ele estava disposto a fazê-la se abrir e ganhar o mundo. Pelo menos alguém para ajudar ela já tinha: ele.




Continua...



Nota da autora:
Reescrevendo a fic para finalmente finalizá-la e ficar tudo lindo, se a deusa me ajudar.
Mantive as datas da fic em 2013 para todo mundo ver a minha vergonha, sim.
Até a próxima.
Beijo da That.



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