Última atualização: 30/04/2017

"– Ms. Third ward, your first question:
What is your aspiration in life?
– Oh! My aspiration in life would be

to be happy."


1.

  Noite da chegada
  Mama said, "you're a pretty girl". What's in your head, it doesn't matter.
  (Beyoncé - Pretty Hurts)

Era um início de noite de sábado qualquer em Las Vegas. O lobby do hotel estava fervoroso, mas a clientela não era a de costume. Os grandes jogadores e apostadores foram substituídos por diversas meninas, que andavam de um lado para o outro, exibindo suas belas faixas e coroas de miss, fazendo com que qualquer outra hóspede quisesse morrer ao olhar seus corpos praticamente perfeitos. Ao longo daquela semana, o “Sexagésimo Terceiro Concurso Miss América” seria realizado naquele hotel. As candidatas estavam chegando junto aos seus acompanhantes, e se aglomeravam pela entrada, a fim de conseguir chamar um pouco de atenção para si mesmas. Nunca sabiam até que ponto os jurados as observavam. Era uma mistura de sotaques e costumes, todas sempre usando ao máximo a maior característica de seu estado, para tentar ser lembrada mais tarde. Como a Miss Texas, com seus longos cabelos castanhos, suas botas de montaria e a grande fivela presa ao short. Ou a Miss Havaí, com seus cabelos claros e desbotados de sol, a pele fortemente bronzeada e a marca do biquíni aparecendo de uma forma estrategicamente despretensiosa.
As portas se abriram novamente, e Lauren Wells passou pelas mesmas, carregando sua mala ao lado. A mulher em questão era bem conhecida no mundo dos concursos. Antes de engravidar e dar adeus às competições, ela era figurinha certa em todas as competições possíveis e com isso, conseguiu reunir uma quantidade considerável de prêmios. Mas nada que ela pudesse se orgulhar muito - a maioria em seu estado natal ou no pequeno eixo do qual ele estava localizado. Depois que se afastou dos concursos, e enquanto sua filha era pequena demais para eles, Lauren trabalhou como “preparadora de Miss”. Andava pelas ruas da cidade de Portland, observando possíveis candidatas; meninas que possuíam alguma característica que pudesse chamar atenção. Foi assim que conseguiu transformar garotas normais, em vencedoras de concursos e algumas até mesmo em modelos. Mas o que ela sempre quis, sempre almejou, nunca foi possível. Seu sonho sempre foi representar seu estado num concurso a nível nacional, e, então estar aqui, no concurso de “Miss América”, era como se seu sonho estivesse se realizando. Por mais que fosse com a sua filha, Lauren olhou para trás e deu uma olhada nela, que terminava de retirar as bagagens do táxi e explicava algo para o empregado do hotel, que se apresentou para ajudá-la. Com um sorriso de arrebatar, ela agradeceu o rapaz, que ficou visivelmente corado. Ajeitando sua faixa e erguendo seu queixo, a garota adentrou o local, chamando a atenção temporariamente para si mesma. As demais competidoras cochichavam algumas coisas entre si, mas ela não se abalava e manteve o sorriso no rosto enquanto tentava reconhecer algumas meninas. Aquele mundo não era perfeito e honesto como poderia parecer, todas as competidoras estavam à espreita, esperando o primeiro passo em falso para dar o bote. Qualquer falta de atenção de uma delas, poderia significar uma eliminação prematura, antes mesmo da parte televisionada. E Lauren não poderia aceitar isso. Não com sua filha.
Ela foi até onde a menina havia parado, fazendo com que ela ajeitasse a postura e sorrisse de uma forma menos forçada. Olhou ao redor, tentando procurar algum rosto conhecido de sua época, talvez algum jurado amigo ou patrocinador. Se uma candidata conseguisse o apoio de um deles, é certo seu lugar entre as finalistas. E Lauren se cercaria de oportunidades para que isso acontecesse. Afinal, os últimos vinte de anos de sua vida foram dedicados a isso: trazer até a disputa do “Miss América” e, se fosse possível, levá-la ao “Miss Universo”. Uma vida de dedicação não poderia ser jogada no lixo, então, cada segundo dessa semana seria precioso.

– Querida, fique mais reta, queixo erguido, olhe sempre para o horizonte e sorria – Lauren murmurou, sem mexer muito seus lábios. – Faça o dinheiro de seu último clareamento valer a pena.
– Claro, mãe – respondeu, alargando seu sorriso, mas não sem antes complementar. – Afinal, você não pode ter vendido o carro à toa, certo?

Dizendo isso, a garota pôs-se a caminhar em direção ao pequeno bar que havia no saguão. Algumas meninas se aglomeravam em volta da pequena meia lua de mármore, rindo alto e esbanjando simpatia, enquanto faziam uma dança quase sincronizada de seus guarda-chuvas coloridos. empurrou gentilmente uma ruiva, sorrindo em seguida para não causar conflito, porém a outra a olhou de cima a baixo e jogou os cabelos avermelhados em sua direção, antes de se afastar. Não se importando com isso, pegou o pequeno cardápio, procurando algo que pudesse agradá-la, mas eram tantas opções que ficou perdida. O barman notou sua dúvida e, gentilmente, tirou o pequeno livreto de suas mãos e o substituiu por um copo alongado, com um líquido, cujo tom variava entre amarelo e vermelho, um canudo rosa e um pequeno guarda-chuva verde. Ela olhou ao redor, vendo que era praticamente o mesmo drink que todas as meninas tomavam. resolveu ignorar a ação um tanto quanto abusada do barman e experimentou um pouco da bebida. O gosto do suco de laranja se sobressaiu e ela sentiu como se bebesse apenas suco. Deu de ombros, largando o copo pelo balcão e voltando até onde sua mãe estava. Avistou Lauren de longe, conversando com um senhor de cabelos grisalhos. Quando tentava dar meia volta para fugir, o olhar de sua mãe a capturou e fez com que ela caminhasse até lá.

, querida, este é o senhor Dukan, representante da empresa de joias patrocinadora do concurso – disse Lauren, colocando a mão nas costas de e fazendo com que a menina se aproximasse mais do homem mais velho.
– É um prazer conhecê-lo – sorriu abertamente, segurando a mão que lhe foi estendida.
– O prazer é todo meu – o olhar que recebeu não teve o menor pudor, tanto que sentiu-se quase nua naquele saguão. – Não é todo dia que eu me vejo acompanhado de belas tão jovens, ainda mais quando tenho o deleite de ser apresentado a uma delas.
– Não diga isso – a menina tentou desconversar, puxando sua mão, colocando atrás do corpo, e recuando um passo. Ela olhou um pouco mais atentamente para ele, prestando mais atenção em seus cabelos grisalhos; a calvície aparente na parte da frente de sua cabeça, nas marcas de expressão, que gritavam por todo o seu rosto, e pensou que seria mais ou menos assim que seu avô pareceria se ainda estivesse vivo. Mas, com toda certeza, ele não daria em cima dela. – Tenho certeza que todas as concorrentes adorariam conhecê-lo.
– Sim, mas tive a sorte de ser apresentado para a mais linda de todas logo de início – a distância foi encurtada mais uma vez e limpou a garganta, encarando a mãe pelo canto dos olhos. Lauren olhava para o outro lado, acenando para alguém que passava por lá. – Quem sabe não podemos sair para jantar nessa semana – as mãos ágeis do mais velho tocaram-lhe no rosto e engoliu em seco, desviando-se.
– Claro, será uma honra – sorriu de lado, meio sem jeito. – Mas, se o senhor me permite, creio que estão reunindo as candidatas no salão de eventos.

E sem dar tempo para uma resposta, a menina caminhou rapidamente, sumindo por um dos corredores laterais. Deu a volta, procurando um caminho que lhe levasse até a recepção e, depois de andar um pouco, conseguiu chegar ao outro lado do salão. Viu a sala que as meninas estavam entrando e as seguiu, se colocando entre elas e fugindo dos olhares. se deparou com um enorme salão de convenções, com um palco mais elevado que ocupava a parte do fundo do ambiente e tinham duas fileiras longas de cadeiras brancas, um pequeno púlpito e uma pequena mesa disposta mais à frente das cadeiras. As paredes eram brancas e, em alguns lugares, pequenos pilares em forma de colunas gregas ganhavam a parede. Na parte de cima dele, alguns frisos mais detalhados estavam cobertos por tinta dourada. A garota pensou que aquela era uma péssima representação de um templo grego, mas resolveu guardar para si mesma. Mais a frente, perto do palco, alguns membros da organização indicavam que as candidatas deveriam subir e ocupar o lugar demarcado pelo seu estado de origem. seguiu até seu lugar, no final da primeira fileira, sentando-se numa cadeira entre as candidatas de Maryland e de Louisiana. Ela olhou para suas concorrentes vizinhas, tentando examiná-las da forma como sempre fora, mas logo viu que não conseguia. Quando as olhava, ela via apenas duas garotas; não conseguia se forçar a enxergar defeitos, procurar onde elas poderiam melhorar. Talvez a candidata da Louisiana pudesse melhorar esse penteado ou apenas deixar os cabelos soltos, porque aquele coque estilo bailarina não havia caído muito bem nela. Mas não conseguiria citar isso numa conversa casual apenas para atingir a menina. Se ela falasse seria numa boa, como um pequeno conselho. Mas sua mãe sempre disse que ela não deveria tentar ajudar quem estivesse ali para derrotá-la. não deveria ser culpada pela sua própria eliminação e se caso alguém já estivesse no chão, ela não deveria ajudar a levantar e sim, chutar mais um pouco. Aquilo tudo sempre pareceu malvado, psicótico demais para . Como se os concursos não fossem de beleza e sim, uma luta armada até a morte. Ela não conseguia se enxergar fazendo nada daquilo, então se mantinha calada, não criando situações favoráveis ou desfavoráveis para si mesma, não ajudava e nem atrapalhava. Continuava impassível, com um sorriso montado no rosto e entediada, como sempre.
Depois que todas as meninas tomaram seus lugares, a apresentadora do concurso subiu ao palco, sendo recebido por uma salva de palmas. Pela primeira vez, ela prestou atenção no que estava acontecendo. A parte destinada à plateia tinha uma quantidade razoável de pessoas e alguns repórteres, que estavam focados em registrarem todos os momentos daquela apresentação. Giuliana Rancic¹, apresentadora do E! News e do concurso, posicionou-se no púlpito e pediu a palavra.

– Boa noite, senhoras e senhores. Nós temos o orgulho de anunciar o início do “Sexagésimo Terceiro Concurso Miss América”. Temos reunidas aqui as 50 mulheres mais bonita do nosso país e durante essa semana, nós trabalharemos duro para eleger a mais bela, que será aquela que nos representará no “Miss Universo” deste mesmo ano. Para compor a nossa mesa, eu gostaria de convidar ao palco os cinco jurados da fase eliminatória: Fred Nelson, Presidente e produtor executivo do People's Choice Award; Kristin Boehm, Jornalista da People Digital; Kristin Prouty, Diretora de relações públicas da WWE; Nick Light, empresário artístico e Rob Goldstone, Ex-jornalista e empresário artístico² – conforme ela dizia os nomes, eles levantavam e seguiam para os seus lugares, sendo acompanhados por palmas. parecia meio aérea, até que avistou sua mãe mais ao fundo, gesticulando discretamente que ela deveria sorrir. Segundos depois, ela reparou que aquele senhor Dukan continuava ao seu lado e seu estômago revirou. Respirando fundo e recolocando o sorriso nos lábios, ela tentou prestar atenção no que acontecia.
– Ao longo desta semana, – a apresentadora continuou sua fala – teremos uma série de etapas preliminares, que nos levarão ao número de vinte candidatas que comporão o grupo da fase final, que será televisionada no próximo sábado. Teremos dois dias de preparação intensa, e no terceiro dia, teremos o desfile de trajes típicos, onde dez candidatas serão dispensadas. No dia seguinte, o primeiro desfile eliminatório de traje de banho, onde mais dez candidatas serão eliminadas. No quinto dia, as apresentações das habilidades, onde mais dez meninas serão eliminadas. Na véspera do concurso, as vinte finalistas terão um dia para preparação e descanso, para chegarem lindas à nossa final televisionada. Gostaria de agradecer a presença de todos vocês nesta noite e desejar uma ótima semana. E, meninas – ela olhou em nossa direção, com um sorriso nos lábios. – Independente do que aconteça nos próximos dias, tenham em mente que estão entre as cinquenta mulheres mais bonitas do país. Isso deve significar alguma coisa, não? – Giuliana brincou, fazendo a plateia rir, mas não havia nada de engraçado naquela frase para . Ser bonita, ser apenas bonita, não significava nada para ela. Não era como se todas nesse palco fossem naturalmente bonitas, todas haviam modificado algo em seu corpo; uma pequena, ou grande, parte que não as agradassem. Até mesmo já havia feito algumas intervenções – nariz, seios, cintura, dentes – por mais que fosse contra todas elas. Mas sua mãe sempre a forçava e a convencia, dizendo que não seria possível ganhar nada se jogassem limpo. Então parece que ser natural era jogar limpo demais, logo, não servia. E se nenhuma delas nasceu daquela forma, como podem afirmar que são bonitas? Elas se tornaram bonitas, foram montadas para isso. E quando algo é forjado, meio que perde o valor.
Foi pedido para que todas ficassem de pé e se juntassem para uma foto em grupo. Lauren ficou alerta lá no fundo, gesticulando para que ficasse mais ereta, erguesse mais a cabeça e sorrisse de uma forma mais bonita. E sabia que não podia ignorá-la, ou então aquele começo de semana, seria o início do próprio inferno da Terra. Então, fez tudo de acordo com o que sua mãe pedia, até que ela ficasse satisfeita o bastante para voltar a se sentar.
Depois da foto em grupo, as candidatas foram separadas em pequenos subgrupos para as fotos individuais. foi deslocada para outra sala, junto com mais nove meninas, onde elas foram preparadas. Mais maquiagem foi colocada em seu rosto, seu cabelo foi arrumado novamente, colocaram um maiô azul e vermelho em suas mãos, apontando o banheiro para ela. A menina respirou fundo algumas vezes, antes de girar a maçaneta e entrar, mas quando o fez, deparou-se com um camarim e não com o banheiro que esperava. Algumas meninas já trocavam as roupas, e outras estavam meio acanhadas, encostadas na parede, assim como . A respiração dela ficou mais pesada, a ponto de quase arfar, mas não queria chamar atenção para si mesma. Ela caminhou até um banheiro mais ao fundo do camarim e trancou-se lá para se trocar. Começou a tirar suas roupas, enquanto respirava fundo para se acalmar. Para ela, essa era a pior parte. Ela não se sentia confortável em ficar de traje de banho na frente de pessoas desconhecidas, mas isso era algo cotidiano para quem participava de concursos, mas nunca seria para . Ela ficava tão nervosa, que seu estômago revirava e uma ânsia de vômito a dominava, mas ela não poderia deixar isso a vencer. Não de novo. Afinal, era só uma sessão de fotos. Qualquer gordurinha fora do lugar poderia ser consertada no Photoshop. Bem, era isso que ela esperava.
Depois que terminou de se vestir, se cobriu com o roupão e o apertou bem em sua cintura. Uma das meninas levantou-se da poltrona que estava e correu para ocupá-la. Pouco a pouco, as meninas eram chamadas para as fotos, e depois de um tempo, ela ficou sozinha no camarim. Levantou-se e parou na frente do espelho, deixando o roupão cair aos seus pés. Ela enxergava seu próprio corpo de uma forma completamente irreal, como se ela fosse uma pessoa aos olhos das pessoas, e outra totalmente diferente aos seus. Ela se enxergava gorda, como se aquele maiô não servisse nela, como se marcasse todas as partes do seu corpo imenso. Pelo menos era isso que se passava em sua mente. Quando esses pensamentos estavam quase a dominando, a ponto de vencê-la mais uma vez, alguém bateu na porta e fez com que eles sumissem. Temporariamente.
Quando a sessão de fotos acabou, saiu pelo corredor, encontrando sua mãe e o senhor Dukan sentados no lobby. Pensou em tentar passar sem ser notada, mas não conseguiu, pois sua mãe logo a enxergou e sinalizou para que ela se aproximasse. E ela o fez, muito a contra gosto. Forçou um sorriso quando chegou, vendo os dois se levantarem.

– Estávamos te esperando para jantar – Lauren comentou, enquanto a menina fazia uma careta.
– Mãe, não vou jantar, no máximo um chá – ela sorriu de lado. – Tão perto de uma competição, eu não posso me dar ao luxo de engordar.
– Então me deixe te acompanhar – o mais velho disse, dando um passo a frente e ficando bem próximo à garota. – Assim, quem sabe, eu posso te ajudar a relaxar um pouco antes de tudo – engoliu a seco, quando sentiu os dedos do homem roçarem em seu colo, na região onde sua blusa não cobria, e subindo até o seu rosto. Sua respiração acelerou e a ânsia de vômito voltou. A vontade era de despejar tudo naquele homem nojento, mas ela sabia que não podia se desentender com um dos patrocinadores, pois isso poderia significar sua eliminação direta. Só que ela não podia apenas aceitar suas investidas, porque esse tipo de coisa não passava pela sua cabeça. Ela nunca dormiria com alguém - por mais poderoso que fosse - apenas para conseguir alguma coisa. Se a sua mãe quisesse, ela mesma que dormisse.
– Desculpe-me, mas eu preciso ir para o quarto, preciso dormir para estar bem disposta amanhã – e sem esperar por uma resposta, mais uma vez, saiu rapidamente, deixando os outros dois sozinhos no lobby.

Da forma mais educada e calma que conseguia, pediu o cartão de seu quarto. A recepcionista, muito atenciosa, estendeu-lhe um pequeno retângulo dourado e lhe disse que suas malas já estavam lá. A menina sorriu e, sem dar atenção à sua mãe, caminhou até um dos elevadores e pediu que a levassem ao décimo andar. entrou apressadamente em seu quarto, jogou seus pertences em algum canto e correu até o banheiro, abrindo uma torneira e deixando que a água tirasse o cheiro daquele homem. Tudo nele a enojava. Desde a forma como a olhava - passando pelo jeito atrevido que ousava lhe tocar, e chegando ao cheiro forte e enjoativo de cigarro. Colocou as mãos em concha debaixo da torneira e jogou um pouco de água no rosto, tentando tirar a expressão incomoda que ali se instalara. Mas não adiantava, então tirou toda sua roupa e se enfiou debaixo do chuveiro, deixando que a água morna tentasse lhe acalmar. Só que não era tão fácil assim. Água não faria nenhum tipo de milagre, não curaria anos e anos de dor e ressentimento. apoiou as costas no box e deixou que seu corpo escorregasse até o chão. Sentada, ela abraçou os joelhos, apoiou o rosto neles e chorou. Um choro sentido, contido e cheio de mágoa. E então ela gritou. Um grito seco, grave e quase desesperado, sem se importar se alguém estava ouvindo. Um grito que demonstrava, mais do que nunca, como ela precisava de ajuda. E só enaltecia o fato de que ela não tinha ninguém para ajudá-la. Ela odiava aquilo tudo. Odiava aquele ambiente aparentemente perfeito, onde todos se amam, mas que basta olhar para o lado, que alguém já está a postos para lhe atacar. Odiava a atmosfera que dominava aquele concurso, como se aquele título fosse a coisa mais importante do mundo. Odiava a forma como as pessoas se tratavam, com um desprezo e superioridade desnecessários. E acima de tudo, odiava sua mãe, por obrigá-la a conviver com tudo isso.


¹ Giuliana Rancic foi apresentadora do Miss USA 2013, ao lado de Nick Jonas, do Jonas Brothers.
² Esses foram alguns dos jurados da etapa preliminar do Miss USA 2013.




2.

  Primeiro dia
  Brush your hair, fix your teeth.
  What you wear is all that matters.

  (Beyoncé - Pretty Hurts)

Quando abriu os olhos, viu que tudo não era apenas um sonho. A cama confortável, o tom pastel das paredes e o ar estranho lhe mostraram que ela estava longe do seu quarto simples no Maine. Ela encarou o relógio da cabeceira e viu que este marcava 05h37 da manhã. O céu ainda estava um pouco escuro, mostrando a ela que poderia dormir mais um pouco, porém, ela se sentia desperta demais para voltar a dormir. Levantou da cama, deixando os pés tocarem o tapete felpudo e macio que cobria a área ao redor. Caminhou lentamente e pegou o roupão que tinha deixado numa poltrona perto da janela. Colocando-o, ela se dirigiu até a pequena sacada, deixando o vento gelado lhe mostrar que ainda estava viva. Respirando fundo algumas vezes, ela se pôs a observar a cidade a sua frente. As luzes deixavam tudo mais alegre, mais movimentado, como se ninguém dormisse naquele lugar, como se as pessoas vivessem como se não houvesse amanhã. E admirava isso. Ela também queria se sentir livre para experimentar, para curtir intensamente e viver a sua juventude. Pra ela, era como se não tivesse vivido nenhum dos seus vinte e um anos, como se aquela vida fosse de outra pessoa, como se ela fosse um acréscimo de sua mãe e fosse obrigada a viver tudo o que a sua mãe quisesse. Isso a deixava louca, mas não era algo com o que ela pudesse lutar, estava presa a isso, da mesma forma que estava presa a sua mãe. Ela tinha o controle de tudo. Como poderia jogar tudo para o alto e ganhar o mundo sem nenhum dinheiro? Sua mãe nunca aceitaria sua rebeldia. tinha certeza de que, a partir do momento que falasse que não participaria mais de concursos e tomaria o controle de sua vida, Lauren falaria algo do tipo: “Quer ser dona do seu nariz? Então saia da minha casa, arrume um emprego e passe a se sustentar.” sabia que poderia fazer isso, mas não agora. Talvez depois desse concurso, caso ganhasse algum dinheiro. Mas ela teria que ter garra e força o bastante para tirar a parte que lhe cabia, do bolso de sua mãe, ou então Lauren inventaria de aplicar tudo em mais uma loucura ou em mais uma cirurgia plástica. Mas, como uma menina que nunca pôde fazer o que quis, nunca pôde se expressar da forma que gostaria, conseguiria se libertar das amarras da mãe? De alguma forma, se sentia meio acomodada nessa história toda, porque, bem ou mal, ela tinha o que precisava sempre. Sua mãe até lhe fazia alguns agrados, mas somente se ela agisse e falasse o que ela pedisse. Sempre se sentiu muito coagida e manipulada pela mãe, mas como mudar tudo depois de tanto tempo? É claro que ela precisaria dar o primeiro passo na direção dessa mudança, mas ela teria coragem o bastante? Ela seria forte o bastante? Tudo isso passou a tumultuar sua mente desde o dia em que ela mesma percebeu que, aquele ambiente, não era pra ela, que ela não pertencia e nem queria pertencer àquilo. balançou a cabeça e respirou fundo, tentando tirar tudo isso de sua cabeça por um instante, mas era quase impossível – tudo isso, toda essa confusão, essa bagunça generalizada, era o que ela chamava de vida.
Ela se apoiou no guarda-corpo e voltou seu olhar para baixo, assustando-se um pouco com a altura. Do alto dos dez andares que a separavam do chão, era fácil pensar em formas variadas de acabar com todo aquele tormento, mas ela sabia que não poderia deixar as coisas chegarem nesse nível. Tentando clarear a mente e pensar em outras coisas não suicidas, ela olhou para a esquerda, vendo um rapaz na sacada, dois andares abaixo. Ele estava sem camisa e fumava um cigarro. A fumaça rodopiava no ar, fazendo uns movimentos engraçados ao entrar em contato com o vento gelado que batia. O rapaz caminhou até o guarda-corpo, deu uma tragada mais longa e jogou o que restou do cigarro na rua, debruçando-se em seguida e vendo o caminho que o mesmo percorria até ser perdido de vista. Ele passou a mão no cabelo, bagunçando-o, e olhou para cima, como se percebesse que estava sendo observado. deu um longo passo para trás, tentando se proteger de ser vista. Não queria se conhecida como a Miss que ficava observando os hóspedes no meio da madrugada. Mas, antes que ela pudesse se esconder por completo, o rapaz conseguiu ter um breve deslumbre de seu rosto. Ele sorriu de lado e voltou para dentro do seu quarto.
entrou no banheiro quando o relógio marcou exatamente 08h00 da manhã. Ligou o chuveiro e deixou que a fumaça da água quente enchesse o lugar, a ponto de embaçar um pouco o espelho. Pegou sua mala de mão e abriu, tirando seus produtos de higiene lá de dentro. Shampoo, condicionador, sabonete, hidratante e tudo o que poderia ser necessário – ou não – para manter sua boa aparência. Quando já estava vazia, ela puxou um pequeno zíper que estava escondido e o abriu, revelando um fundo falso. Ali ela guardava o que ela realmente precisava naquele momento, o necessário para relaxar e aguentar o restante do dia. Ela pegou a pequena garrafa de whisky e a apertou firmemente, era tão pequena que quase cabia perfeitamente em sua mão fechada. Respirou fundo algumas vezes, tentando provar para si mesma que não precisava daquilo, que a bebida não era a melhor solução, que só complicaria as coisas. Só que como se houvesse um anjinho de um lado, havia um diabinho para contrapor do outro e ele gritava em seu ouvido que aquela era a única forma de aguentar tudo aquilo, todas aquelas pessoas. Sua cabeça parecia a ponto de explodir. Além de ter que lidar com todos esses problemas, ela tinha que lidar com inúmeros problemas internos, problemas que ninguém imaginava que existia, nem mesmo sua mãe. Se essa descobrisse, falaria que era besteira, que ela tinha que parar com isso de uma vez, antes que atrapalhasse algo importante. Como se fosse tão fácil assim.
Não que fosse alcoólatra, talvez ela estivesse caminhando para isso no futuro. O grande problema é que ela trocava suas refeições por doses de bebida alcoólica. Num concurso que participou, logo que completou 18 anos, ela se deparou com uma concorrente bebendo cerca de três garrafinhas de vodka antes da competição. Claro que ela ficou estarrecida e sem saber o que falar, se deveria falar com a organização ou algo tipo. Mas ela não falou, achou melhor ficar longe de problemas. Horas depois, a menina estava passando um pouco mal e ficou alguns minutos trancada no banheiro. Como era a única que sabia realmente o que estava acontecendo, foi até ela para ver se estava tudo bem. Foi quando descobriu o real motivo da menina ter bebido. Segundo ela, o excesso de bebida tirava-lhe o apetite, ela ficava enjoada por algum tempo, sem ter vontade de comer nada, e depois colocava tudo pra fora. O mal estar continuava, impedindo-a de ingerir qualquer coisa que não fosse água. Era assim que ela perdia peso para as competições, substituindo suas refeições por bebida.
Talvez pelo fato de ser jovem e altamente influenciável, resolveu experimentar isso uma vez. E ela não aguentou nem mesmo uma única garrafa sem passar mal, mas surtiu efeito – ela não conseguiu comer nada durante o dia todo, só tomar alguns goles de água. Ela sabia que isso poderia lhe fazer muito mal, mas ela não tinha muita escolha, sua mãe ficava em seu ouvido, dizendo: “Você precisa perder peso, afinar essa cintura. Se você conseguiu chegar ao manequim 36, você consegue chegar ao 34.” Só que não era isso que queria. Ela não queria se tornar magérrima, ser como as garotas que via na revista, aquelas que aparentavam que iriam se quebrar a qualquer instante. Isso não parecia saudável pra ela. E muito menos sua dieta a base de vodka barata. Só que na sua cabeça, seu corpo saudável estava num nível de importância abaixo de sua mente saudável. E a mente só estaria bem, se sua mãe não estivesse falando initerruptamente em seu ouvido. Era como aquele ditado:
“Se você não pode com seu inimigo, junte-se a ele.”
E foi assim que ela assumiu esse hábito terrível de beber intensamente nos períodos de competições e nos dias que antecediam. Assim ela perdia peso rapidamente e se enquadrava no padrão Lauren de beleza, fazendo de sua mãe a pessoa mais feliz do mundo. Só que com o passar do tempo, foi percebendo que a bebida lhe ajudava em outros assuntos também. Ela lhe deixava mais solta, mais desinibida, mais propensa a – falsas – amizades e até mesmo mais simpática. Seus problemas pareciam inexistentes e a vida fácil de se levar. Com essas adições, ficou muito difícil tirar a bebida do seu cotidiano e por isso, somente por isso, faltou um pouco mais de força de vontade, ou coragem, para guardar a garrafa. abriu a tampa, levando-a à boca e deixando que o líquido marrom descesse pela sua garganta. A queimação era tão conhecida, que nem incomodava mais. Ela fechou os olhos e respirou fundo, frustrada por não ter controle sobre si mesma.

Minutos depois, ela estava cercada de gente. As meninas surgiam de todos os lados, juntando-se em grandes mesas para tomar café e conversar um pouco. Era fácil sentir uma união sendo formada por candidatas de locais próximos ou onde havia coisas em comum. Mas não estava interessada nisso, fazer amigos ali era algo que estava no final da sua lista. Então ela se manteve numa mesa para apenas duas pessoas, esperando que apenas sua mãe se juntasse a ela e não aquele senhor intragável que costumava acompanhá-la ultimamente. Encarou a xícara de chá a sua frente e sentiu o estômago embrulhar – a garrafinha que tinha bebido antes de descer, já estava lhe fazendo um pouco mal. Sua cabeça doía um pouco e a visão estava turva, mas ela tentava manter o foco e as aparências. Um garçom se aproximou, dando-lhe um pequeno informativo. Ela sorriu, agradecendo, e logo o viu se afastando na direção da próxima mesa. Começando a ler o papel, viu que era uma espécie de programa para o dia. Às dez da manhã, elas se encontrariam com a figurinista, para a primeira prova de roupas. Do meio dia e meia às duas da tarde, era uma pausa para o almoço, e em seguida, o ensaio para o primeiro dia de competição. Tinha algo que chamou sua atenção no programa. Lá estava marcado que, por volta das cinco da tarde, seriam as primeiras sessões de acompanhamento. Que tipo de acompanhamento? Nunca tinha visto nada parecido com isso antes, mas não estava muito disposta a tentar descobrir o que era. Ela resolveu esperar até o horário marcado para saber.

estava se sentindo incomodada naquela sala. O espaço não era pequeno, mas não era o recomendado para cinquenta meninas e mais o pessoal da organização. Ela se mantinha num canto e rezava para que tudo aquilo acabasse de uma vez. Ela estava feliz pelo fato de não ter cruzado com a mãe ainda, isso fazia o seu dia ser, pelo menos, 30% menos pior do que poderia ser. E se Lauren ainda estivesse com aquele velho ao seu lado, isso significava uma melhora de mais de 80%. Ela, realmente, não havia ido com a cara daquele senhor. Sua postura superior, seus gestos abusados e a forma com que ele a olhava, tinham feito com que ela criasse uma ojeriza por ele. E imaginar o que sua mãe poderia ter combinado com ele, fazia com que ela tivesse vontade de morrer. Porque ela preferia se matar, a deixar com que aqueles dedos a tocassem mais uma vez. Meio alheia ao que se passava ao seu redor, precisou que chamassem seu nome três vezes para que ela pudesse, enfim, se dirigir até os organizadores. Eles pediram que ela levantasse os braços, para que pudesse tirar as suas medidas. Ela respirou fundo – odiava que as pessoas ficassem sabendo seu peso ou suas medidas. Sua mãe havia lhe transformado numa pessoa altamente complexada com esse tipo de coisa. Não importava o que lhe falassem, ela sempre se acharia acima do peso. Como se ao olhar sua imagem no espelho, ela visse algo completamente diferente do que as outras pessoas viam. Fechando os olhos com força, ela deixou que todas as medidas fossem tiradas. Mas o pior, pra ela, foi quando pediram que ela subisse na balança. Parecia que seu sangue havia congelado em suas veias. Ela tremia bastante e encarava os olhares que recebia como puramente julgadores. Mantendo seus olhos no chão, longe do que a balança marcaria e de como a organização reagiria a isso, ela esperou (im)pacientemente até que falassem que ela estava liberada. E, como se toda a sua insegurança estivesse estampada em seu rosto, ela encarou todas as outras quarenta e nove meninas que ali estavam. sentia-se a pessoa mais frágil do mundo, como se apenas o olhar delas pudesse a derrubar. Por mais que parte da sua mente gritasse para ela levantar a cabeça e seguir em frente, a maior parte fazia com que ela se sentisse mais diminuída a cada olhar diferente que ela percebia. Ela não conseguiria se manter ali por mais muito tempo. quase correu na direção oposta, abrindo a porta de forma repentina e chamando mais atenção ainda. Meio sem controle, ela procurou um lugar que pudesse ficar sozinha e se controlar, mas sabia que se fosse para o seu quarto, ela não sairia mais de lá. Passando pelo restaurante do hotel, ela avistou um banheiro e caminhou em sua direção, trancando-se em uma das cabines logo que entrou. Deixou seu corpo tombar para frente; a testa atingindo a porta de madeira, e ficou nessa posição por alguns segundos, até conseguir controlar sua respiração. Só que ela sabia muito bem que não seria dessa forma que ela se acalmaria. O choro ficou preso em sua garganta. Ela o segurou, junto com outras vontades – necessidades – que vieram a seguir. Sua válvula de escape, que mais a prejudicava do que ajudava. Mas ela não se deixaria perder o controle dessa forma por apenas uma pesagem. Ela não era assim. Não deveria ser assim e não se deixaria ser assim. Pelo menos era o que ela queria, mas também sabia que não conseguiria. Essa era uma batalha perdida para ela mesma.

lavou a boca muitas vezes, assim como o seu rosto. Ao mesmo tempo em que se sentia envergonhada por perder o controle mais uma vez, sentia-se mais calma, como se tivesse se livrado de parte da pressão que estava sobre seus ombros. Ela encarou seu reflexo no espelho e não via do que pudesse se orgulhar. As sombras escuras debaixo dos olhos, por exemplo, denunciavam sua dificuldade para dormir. Os milhões de pensamentos que a atormentavam diariamente, também não a deixavam dormir. E, por mais que tentasse, ela não conseguiria esconder suas olheiras. Por mais maquiagem que passasse, ainda eram as primeiras coisas que ela enxergava em si mesma. Logo em seguida vinham seus olhos, pálidos e meio sem vida. Fiel retrato da forma que se sentia. E o pior era não poder transparecer tudo isso. No final das contas, ela teria que colocar o sorriso falso e forçado nos lábios e agir como se tudo aquilo fosse o que ela mais queria no mundo.

O dia passou arrastado, como se o ponteiro se movesse uma vez para frente, e cinco para trás. Ela agradeceu aos céus no minuto em que colocou os pés em seu quarto, tratando de seguir para o banheiro e tomar um longo banho. Pelos minutos que ela se mantinha debaixo da água morna, era como se parte dos seus problemas descessem ralo abaixo também. tentava se manter o máximo de tempo possível ali, mas nunca parecia o suficiente. Talvez seus demônios fossem muitos para tão pouca água no mundo. Ou aquela água não fazia mágica. Talvez se fosse água benta...
Perto das cinco da tarde, ela saiu do banho e se aprontou para o tal “acompanhamento” que estava no informativo. Não sabia se deveria ir a algum lugar, se deveria esperar no quarto. E, como a preguiça e falta de vontade falaram mais alto, ela ficou deitada na cama, encarando o teto, esperando algum sinal de fumaça, ligação ou algo tipo. Até que batidas na porta a assustaram; pensou logo que era sua mãe. Ela não estava disposta a aturar seus longos discursos sobre as competições, a forma como ela deveria se portar, falar, andar ou viver. As batidas continuaram até perceber que a pessoa não ia embora, então ela levantou, caminhou até a porta e a abriu, com uma expressão nada convidativa. Mas ela logo se arrependeu. Um rapaz, que não aparentava ser muito velho, estava parado na porta, com um braço apoiado na parede, fazendo seu corpo ficar levemente curvado em sua direção. Percebendo o susto da menina, ele se ajeitou, passando a mão rapidamente pelos cabelos e sorriu de lado. Levou apenas alguns segundos para ela reconhecê-lo. Era o hóspede que ela havia visto hoje mais cedo na sacada. O mesmo que quase a viu o espionando. Ela prendeu a respiração e rezou para que ele não tivesse a visto mais cedo.
– Senhorita Wells? – ele perguntou, e sua voz a pegou desprevenida. Era firme, rouca e, ao mesmo tempo, suave e melodiosa. sentiu como se pudesse passar o restante da vida ouvindo aquela voz, que não enjoaria. Nem por um segundo sequer. Sem saber como reagir, ela afirmou com a cabeça, vendo-o olhar algo nos papéis que carregava. – Sou , um dos psicólogos da organização. Fui designado para fazer seu acompanhamento durante o concurso. Posso entrar para conversarmos um pouco?
– Claro – ela murmurou, dando um passo para o lado, abrindo espaço para que ele passasse. Depois que fechou a porta, ela se encarou no espelho que tinha na parede do lado oposto ao seu. Um som de reprovação saiu dos seus lábios ao reparar na forma que estava vestida e como seu cabelo estava num estado além de crítico. Derrotada, ela virou seu corpo na direção do rapaz, que continuava em pé no centro do quarto, olhando em sua direção. – Você pode sentar, se quiser – disse, apontando uma das poltronas que ocupavam a parte do fundo do quarto.
– Obrigado – disse, caminhando até uma delas, sentando e fazendo um gesto para que o acompanhasse. E assim ela o fez. Demorou um pouco para que ela conseguisse encontrar uma posição que ficasse confortável, visto que o rapaz acompanhava todos os seus movimentos com os belos olhos que possuía. – Eu tenho alguns dados seus aqui, só gostaria de confirmar, okay? – a menina afirmou com a cabeça. – Nome completo?
Anne Wells.
– Idade?
– Vinte e um anos.
– Data de nascimento?
– 21 de agosto de 1993.
– Estado civil?
– Solteira.
– Okay. Acabou o interrogatório – ele sorriu de lado mais uma vez. – Não pense nisso como uma terapia, nós vamos apenas conversar sobre a sua experiência aqui, a forma como você enxerga essa oportunidade, sua relação com todo esse universo. Nada muito complexo... – ele disse a última palavra e tudo isso quase se transformou numa piada pra . Tudo era complexo, com significados demais e todos diferentes do que a maioria achava. Não era apenas um concurso de beleza, era, praticamente, uma guerra psicológica. Guerra que já havia perdido antes mesmo de começar. Então ela apenas sorriu, para que ele não percebesse todos os seus problemas de uma vez só. – Como você está se adaptando a essa mudança na sua rotina? Sei que você não está aqui não tem nem um dia inteiro ainda, mas talvez já tenha sentido alguma diferença.
– Estar aqui em Las Vegas tem sido como um sonho – respondeu baixo, sorrindo de lado. – Não tenho do que reclamar. Tá tudo tão perfeito – ela estava usando todas as suas habilidades para tentar driblá-lo e esconder seus reais sentimentos. Se ele soubesse tudo o que se passava em sua cabeça naquele momento, era possível até mesmo que ele quisesse interná-la. Então, enquanto seu interior gritava que esse concurso, esse hotel e até mesmo a sua própria vida eram seu pedaço particular do inferno, seu exterior mantinha um sorriso nos lábios e uma expressão relaxada.
– Hmm... – ele murmurou, anotando alguma coisa num dos papéis que carregava. A menina tentou espiar o que ele havia escrito, mas era difícil devido à distância e a falta de uma grafia legível do rapaz. – Que bom – disse, sorrindo mais uma vez. A menina se sentia estranha cada vez que ele sorria. Como se algo dentro dela se alegrasse. O que era absolutamente controverso, já que seu interior era completamente triste, pelo menos na maioria do tempo. Sua vontade era de agir como uma menina da sua idade: ficar sonhando acordada e imaginando como seria se aqueles dedos tocassem sua pele, ou tentando adivinhar como seria o sabor dos seus lábios, ou até mesmo rezar para que ele a chamasse para sair. Mas essa parte dela estava adormecida, não era como se ela tivesse mil encontros enquanto não estava envolvida nas loucuras de sua mãe. Até mesmo na época da escola era difícil, porque Lauren a fazia praticar para os pequenos concursos da redondeza. Mesmo estudar era difícil. Lauren nunca foi uma boa mãe, ela colocava seus interesses a frente, até mesmo, dos estudos da filha.
agia de uma forma controladamente natural, fazendo tudo o que fosse possível para passar uma imagem relaxada. Talvez tanto esforço estivesse fazendo com que tudo saísse ao contrário do planejado, porque observava atentamente a forma que a menina reagia a tudo: como mordia o canto dos dedos, passava a mão pelos cabelos e balançava as pernas. Atitudes claras de alguém que não estava confortável com a situação. Nem um pouquinho sequer.
– Você tem se relacionado com as outras candidatas? – o rapaz perguntou e mordeu o lábio inferior. Esse era um terreno perigoso. Ela nunca foi do tipo que cultivava amizades, e nesse meio, era mais difícil ainda. E tudo piorava quando a pessoa não se sentia como se pertencesse, como se devesse estar ali.
– Acredito que todas as meninas são maravilhosas, todas merecem estar aqui, assim como merecem conquistar o título. Só que eu ainda não tive chance de conversar com todas, mas tenho certeza que levarei grandes amigas desse concurso – só a ideia de manter contato com as candidatas, já fazia a menina tremer. Tudo bem, ela não sabia se todas eram absurdamente detestáveis como pareciam, mas ela deveria se deixar levar pela maioria. E ter outra pessoa como Lauren em sua vida não estava em seus planos.
– Acho que você tem uma vantagem em cima das suas concorrentes – ele comentou, fechando seu caderninho e encarando mais uma vez.
– Qual? – a menina estranhou, juntando as sobrancelhas num claro gesto de confusão.
– Lauren Wells é sua preparadora, e também é sua mãe. Deve ser bom ter alguém tão acostumado com esses concursos na família. Aposto que ela sempre te deu dicas – a menina sentiu que vacilaria nesse momento. Ela nunca tinha controle sobre si quando o assunto era sua mãe. A postura opressora e manipuladora de Lauren fazia com que sua própria filha se sentisse acuada diante dela. Não era um relacionamento saudável, nunca foi. E aparentemente nunca seria. Se tivesse escolha, ela estaria longe, mas essa não era uma opção. Não agora.
– É, Lauren vem me preparando para esse momento desde que descobriu que estava grávida de uma menina – ela comentou e o rapaz sorriu, mas algo na expressão dela fez com que ele sentisse que aquela não era a reação adequada. Pelo menos não a que ela esperava. Havia algo escondido em sua resposta. Algo sutil e que não conseguiu captar completamente. Seu tom não era alegre, não era a forma que as pessoas costumam usar quando falam de suas mães. Era quase ressentido, magoado. E isso ficou registrado em sua mente, até mesmo depois de sair do quarto de .

Quando chegou ao seu, colocou-se a pensar ainda mais sobre isso. Talvez a menina escondesse algo muito bem dentro de si mesma. Algo que a incomodava de verdade, mas que ela não demonstrava. E se tina algo que ele já havia aprendido durante seus primeiros e poucos anos atuando no campo da psicologia, era que ela não se abriria tão facilmente, ainda mais para um cara que ela havia acabado de conhecer. Por mais que ele já estivesse a acompanhando há um tempo, observando-a desde os primeiros concursos eliminatórios lá no Maine, esse havia sido apenas o primeiro contato direto dos dois. Ele já sentia como se a conhecesse, mas a recíproca não era verdadeira. E durante essa semana, ele não teria tempo o bastante para fazer com que confiasse nele o suficiente. Só que ele tinha enxergado algo nela, uma coisa que ia além do que ela tentava transparecer. Ao mesmo tempo em que estava escondido por detrás de suas palavras, estava estampado em seu rosto limpo de maquiagem. Ele havia visto uma que ela tentava esconder, ou que nem mesmo sabia que existia. E ele estava disposto a fazê-la se abrir e ganhar o mundo. Pelo menos alguém para ajudar ela já tinha: ele.


3.

  Segundo Dia
  With my wide eyes, I've seen worlds that don't belong
  My mouth is dry with words I cannot verbalize
  Tell me why we live like this

  (Paramore – We Are Broken)

cinco, seis, sete, oito...
Aquelas marcações já estavam a deixando nervosa. já havia decorado aqueles passos há três horas, mas por algum motivo que ela desconhecia, as pessoas continuavam a fazendo repetir exaustivamente. Ensaiavam desde às nove da manhã, e já se aproximava do meio dia; ela não aguentava mais nem um minuto daquela música chata que escolheram. Ela tentava fingir que estava adorando aquilo tudo, que estava sendo extremamente divertido – mas, não estava. Nem um pouco, na verdade. Enquanto as outras candidatas ousavam, tentando um passo arriscado de dança nos intervalos, sentava nos degraus do palco e esperava ansiosamente que fosse liberada. Olhando para o lado, ela viu, no canto oposto do palco, outra candidata que não apresentava o mesmo pique das meninas. Olhou a sua faixa e viu que se tratava da candidata de Delaware. sorriu brevemente em sua direção, tentando lhe passar o recado de que estavam na mesma situação, mas logo percebeu que havia algo errado. Ela levantou rapidamente, caminhando na direção da outra garota. De perto, sua palidez era aparente, o que fez se perguntar como não haviam reparado antes, mas ela logo lembrou que nesse ambiente, as pessoas se preocupam apenas com elas mesmas. Abaixou-se para ficar à altura da menina e levantou um pouco seu rosto.
– Tudo bem com você? – perguntou, logo se sentindo idiota. Claro que não estava nada bem. A menina se limitou a balançar a cabeça levemente, como se negasse. – Okay. Tenta se levantar, vou te levar lá fora pra respirar um pouco – passou o braço da garota pelos seus ombros e fez força para levantá-la. Caminhando com dificuldade, as duas saíram da sala de ensaios, sendo observadas por outras concorrentes. As pessoas da organização não estavam no local, então resolveu não pedir ajuda para mais ninguém, já que nenhuma daquelas garotas parecia disposta a isso.
Ela colocou a jovem sentada no lobby do hotel e pediu para algum funcionário que trouxesse água e um pouco de sal. Não sabia muito bem o que fazer nesse caso, mas a menina parecia estar com a pressão baixa e esse problema está sempre relacionado a sal. Minutos depois, um rapaz chegou trazendo uma garrafa de água e um saleiro, ele disse que não podia fazer muita coisa, pois não trabalhava na parte dos alimentos, mas que ele poderia chamar os médicos do concurso. agradeceu e pediu que ele fizesse isso. Após a ingestão do sal, a menina teve uma leve melhora, mas ainda aparentava estar muito mal. O pior de tudo, é que sabia o real motivo daquele mal estar, ela mesma já teve algumas crises dessas. E tudo piorava quando ficava muito tempo sem ingerir nenhum tipo de comida.
– Você tá melhor? – perguntou, vendo a menina assentir. – Qual o seu nome?
– Alana – respondeu, num sussurro. – Obrigada por fazer isso por mim, não sei se aguentaria sair sozinha daquela sala. Qual o seu nome?
– disse, sorrindo de lado. Observou as marcas escuras ao redor dos olhos da menina e a forma que seu rosto parecia fino, mas de um jeito que ela aparentava estar doente, e não magra. – Alana, qual foi sua última refeição? – a menina travou após sua pergunta, e levou mais tempo do que o necessário para responder.
– O café da manhã, claro – ela falou, tentando se fazer firme, mas era bem evidente a sua fraqueza e a falta de convicção em sua voz.
– Alana, seja sincera comigo: quando foi a última vez que você ingeriu algo sólido? Comida mesmo, não quero saber de água, chá ou suco – foi bem firme, sentando-se ao lado da menina, para que elas não chamassem atenção dos outros. Por um segundo, quando o olhar da menina cruzou com o seu, ela viu naquelas íris verdes um pedido mudo de socorro. E se viu em Alana. Por mais que pudesse ser a mais nova das duas, ela já havia passado por aquela situação muitas vezes e sabia muito bem como a menina estava se sentindo.
– Desde quando eu cheguei aqui meu treinador não me deixa comer, só posso beber água. Suco ou leite só quando eu sentir que vou passar mal ou desmaiar – fechei os olhos, tocando as têmporas com os dedos. Aquilo estava totalmente errado. Por mais que eu não tivesse me alimentado mais do que Alana, eu não conseguia aceitar toda essa situação.
– Eu sei exatamente o que você está passando, Alana. Sei como é difícil ter que conviver com as dores no estômago e na cabeça, as tonturas e as fraquezas. Sei que seu treinador vai enlouquecer, mas você precisa comer alguma coisa, pelo seu próprio bem.
, o concurso começa amanhã, não posso me dar ao luxo de me alimentar bem hoje. O Heitor vai me matar se eu engordar uma grama, já não consegui bater a meta na semana passada – ela disse, com sua voz baixa e fraca. Seu olhar era apavorado, como se apenas pensar em comer alguma coisa pudesse ser sua sentença de morte.
– Não é como se você tivesse muita escolha, os médicos do concurso estão vindo te examinar e eles vão te obrigar a comer ou, pelo menos, vão te colocar no soro – ela abaixou a cabeça, talvez a mesma coisa tenha passado pela cabeça dela nesse momento: o concurso começava amanhã e ela poderia não estar bem o bastante para participar, o que, provavelmente, significaria sua desclassificação. Um suspiro escapou pelos seus lábios e ela jogou a cabeça para trás, apoiando na parede. Uma expressão derrotada tomou conta dela e uma lágrima solitária escorreu pelo rosto.
– Obrigada – ela murmurou segundos depois, fazendo com que ela olhasse em sua direção. – As outras meninas nem olhavam pra mim e você saiu lá do outro lado para me ajudar. Eu nunca espero muita coisa das outras candidatas, mas você foi totalmente diferente que a grande maioria. Não sei dizer se eu faria o que você fez por mim, você deve tá perdendo o ensaio agora, com certeza eles repararam na nossa ausência e isso pode te prejudicar. Quer dizer, eu estou vendo que você é diferente. E isso é bom.
– Você tá me agradecendo por ser, sei lá, humana? – perguntei, fazendo com que ela sorrisse.
– Exatamente, você é o único ser humano no meio desses robôs – ela murmurou, vendo duas pessoas da equipe médica se aproximarem. se afastou um pouco para dar espaço a eles, que fizeram um pequeno exame inicial; checaram suas pupilas, a pressão arterial e os batimentos cardíacos. E logo ouviram um deles falando em hospital. Então era mesmo algo sério e Alana, provavelmente, não participaria do concurso amanhã à tarde. Sua expressão se tornou mais derrotada nesse instante e um membro da equipe médica se aproximou, trazendo consigo uma cadeira de rodas. Eles a ajudaram a se levantar e a sentaram, com um cuidado. Antes que eles a levassem, Alana virou na direção de e disse:
– Não vire um robô. Não deixem que elas te transformem num robô.

As últimas palavras que Alana disse tumultuaram tanto a mente da garota, que ela ficou pensando nelas o restante do dia. Pois foi uma ótima comparação. As meninas realmente se parecem com robôs – perfeitamente montadas, programadas para sorrir e acenar, fora a capacidade de manter uma imagem, como se nada daquilo demandasse de muito, muito sofrimento mesmo. O problema da Alana mexeu com de uma forma, que a garota mal conseguiu manter sua “rotina”, apenas o cheiro da bebida fez seu estômago revirar e ela decidiu fazer uma pausa naquela loucura, pelo menos até saber que Alana estava bem. Por mais que tivesse sido a primeira vez que se encontraram, havia algo que as conectara, como se as duas tivessem conseguido compartilhar pequenos e doloridos segredos em apenas uma troca mais intensa de olhar. Há coisas que não precisam ser ditas para serem sentidas. E a dor que ambas sentiam era uma delas. O coração de batia pesado no peito e ela decidiu procurar alguma notícia da antiga concorrente, mas cada pessoa da organização que ela parava e perguntava, não sabia informar nada. Não era como se eles estivessem escondendo as notícias, eram mais como se eles não se importassem de verdade.
Todos ficaram no escuro até o meio da tarde, que foi quando eles reuniram todas as participantes e deram a notícia: Alana estava com uma grave desidratação e uma pequena obstrução no trato intestinal, por isso ela ficaria internada no hospital da região e estava fora da competição. A obstrução que foi detectada era, possivelmente, originada da ingestão de coisas impróprias e não aconselháveis, como pequenos pedaços de algodão embebido em suco. Algumas meninas faziam isso porque diziam que diminuía o apetite e davam uma sensação mais prolongada de que estavam saciadas. Pura loucura, como muitas outras dietas utilizadas, até mesmo o “regime” alcoólico de . Ela temeu momentaneamente por sua saúde, mas logo se sentiu um pouco egoísta, pensando em si própria, enquanto Alana estava no hospital. Mas não havia nada que ela pudesse fazer, a não ser rezar e esperar que ela ficasse bem logo. Ela viu e ouviu algumas meninas murmurarem, outras até mesmo sorriram. Como se a internação de uma concorrente fosse apenas um aumento nas suas chances de vitória. E aquilo a enojava de tal maneira, que ela não conseguiu ficar dentro na sala com aqueles robôs. Sua cabeça estava a mil e doía intensamente, mas não havia remédio no mundo que pudesse fazer aquela dor diminuir. Alana estava no hospital por causa desse concurso e das pessoas horríveis que ajudam a transformar isso num inferno.

Sem muita ideia do que fazer, sem querer voltar para o quarto ou ser importunada por sua mãe, caminhou meio sem rumo pelo grande hotel e acabou na parte da piscina. Ela sentou em uma mesa afastada e tentou relaxar um pouco. Pensando na vida e como tudo estava uma tremenda bagunça, ela imaginou tudo o que gostaria de falar para a mãe, criou um discurso imenso, que a deixou muito orgulhosa de si mesma. Só que ela sabia que aquelas palavras nunca seriam ditas, ficariam presas na garganta algumas milhares de vezes, mas Lauren nunca ouviria aquele duro pensamento. Quando o barulho de uma cadeira sendo arrastada interrompeu seu duelo interno, já imaginava que era sua mãe lhe perturbando sobre estar aqui sem fazer nada, enquanto as outras concorrentes estavam distribuindo sorrisos pelo salão, ou iria voltar com o assunto daquele velho asqueroso. Então sua expressão logo se transformou numa careta, antes mesmo de abrir os olhos e ver sua companhia.
– Bem, se eu for atrapalhar, posso ir embora – a voz lhe sobressaltou e fez seu coração bater mais forte. Ela abriu os olhos e avistou sentado à sua frente, com um sorriso fraco nos lábios. Sua expressão era meio ansiosa, como se esperasse uma resposta dela.
– Não, imagina. Você não atrapalha – ela balançou a cabeça, tentando soar agradável, ao menos.
– Estou com a agenda meio livre, perdi uma das minhas candidatas – ele comentou, soando meio chateado. virou o corpo rapidamente em sua direção, visivelmente interessada.
– Você era o psicólogo da Alana?
– Sim, eu sou responsável pelos estados da costa leste – ele deu de ombros, passando a mão pelos cabelos. – Não sabia que vocês eram amigas.
– E não somos, eu só a ajudei a sair da sala, vi que ela não estava bem – comentou, encarando o chão. Ela não sabia a razão, mas não se sentia muito confortável olhando para ele. não era uma pessoa intimidante, longe disso, ele parecia ser uma pessoa confiável e absurdamente cativante. Ela estava com medo de se aproximar muito dele e acabar confundindo as coisas. Ele era psicólogo dela e nada mais. Qualquer aproximação, pergunta ou algo do tipo, era apenas parte do seu trabalho. Não significava que ele estava realmente interessado em manter uma conversa com ela.
– ele chamou sua atenção e ela olhou em sua direção mais uma vez. – Eu te fiz uma pergunta.
– Ah, me desculpe, estou meio dispersa depois dos acontecimentos.
– Totalmente compreensível – sorriu de lado. – Só perguntei se você estava perto dela, se ela desmaiou ou algo assim. Soube que é uma desidratação bem severa.
– Não, eu estava do outro lado da sala, mas percebi que ela não estava bem e então fui ajudá-la – respondeu rápido, mexendo muito as mãos e os dedos, deixando claro o seu nervosismo.
– Então você foi tipo uma heroína – exclamou um pouco alto demais, chamando atenção das pessoas ao seu redor.
– Não, nada disso. Só fiz o que qualquer um faria nessas situações. Poderia ser eu.
– Bem, pelo o que você disse, você estava do outro lado da sala e, provavelmente, tinham várias meninas perto da Alana, mas você se preocupou em ajudá-la. Não tire o seu mérito, você agiu de uma forma diferente da que é esperada por aqui – sentiu uma ponta de rancor em suas palavras e algo dentro dela se despertou. Era como se tivesse encontrado mais uma pessoa que pensava como ela, que tinha raiva, ojeriza e nojo de todo esse universo. Mas a animação logo se abrandou, porque ela pensou: “Se ele não concordava com as formas que esse concurso era conduzido, por que ele fazia parte do mesmo?”. Era uma questão que estava deixando seus pensamentos confusos. Um misto de encantamento e confusão.
– Você não é fã de concursos de beleza? – perguntou, sendo corajosa.
– Não muito, mas é meu campo de pesquisa e estar aqui me ajuda a colher informações e tópicos bem interessantes. Mas não pense que vocês são meus objetos de estudo – ele tratou logo de se explicar. – Eu estou aqui mais para entender como é a vida de vocês – logo imaginou que se ele soubesse como era sua vida, ele pensaria duas vezes antes de tentar entender. Era complicado demais até mesmo para ela mesma. – Eu estava pensando que poderíamos conversar um pouco mais depois, assim, mais informalmente. Não leve para outro lado e não me entenda errado, é totalmente profissional. Eu vejo que você pode me ajudar bastante nas minhas pesquisas, sei um pouco da sua história e também da história da sua mãe. E ouvir de alguém que já nasceu nesse universo seria perfeito – ele sorriu, dificultando, e muito, que negasse o pedido, mas ela não poderia aceitar, sem chances. Não conseguia se imaginar passando algum tempo com , por mais que não fosse um encontro de verdade. Para ela acabaria sendo e assim, sua decisão de não se deixar envolver e criar mil ilusões iria para o ralo. Só que antes que pudesse responder, viu sua mãe surgir na entrada e acenar para ela, tendo o intragável do sr. Dukan ao seu lado. Estava fugindo o dia todo, mas sabia que uma hora ou outra seria encontrada.
– Querida, aí está você. Sr. Dukan se ofereceu para pagar o jantar como forma de lhe desejar boa sorte – Lauren sorriu de forma incisiva, como se soubesse que não havia deixado brecha para a filha recusar.
– Infelizmente, mãe, eu já tenho um compromisso para essa noite. me convidou para jantar pelo mesmo motivo - lançou um olhar de socorro para e rezou para que ele entendesse o recado.
– Sim, eu estava aqui perguntando isso a ela nesse exato momento – ele complementou, fazendo respirar aliviada.
– Bem, talvez possamos jantar todos juntos, seria uma ótima oportunidade para conhecê-lo e descobrir de onde conhece minha filhinha, senhor ...?
. . E será um prazer – ele sorriu, encarando pelo canto dos olhos. Sua expressão derrotada o preocupou, assim como a postura alarmada que ela adotou depois que sua mãe e o outro senhor se aproximaram. Ele conseguiu sentir que havia algo muito errado nessa história e que, talvez, precisasse de ajuda.
– Ótimo, nos encontramos às sete em ponto no restaurante do hotel.

Na hora marcada, se arrastava pelos corredores até chegar ao restaurante, tentava demorar o maior tempo possível para chegar lá, porque não queria passar nenhum segundo da sua vida ao lado do sr. Dukan. Mas quando avistou de longe, sentiu seus passos acelerarem, juntamente com o seu coração. Ele já ocupava uma mesa para quatro pessoas e bebericava um pouco de água. O rapaz sorriu assim que ela entrou em seu campo de visão, levantando de forma gentil, para ajudá-la a se sentar.

– Obrigada – ela disse, colocando o guardanapo em seu colo. Suas mãos estavam suando de nervoso e ela tentava disfarçar, mas sem muito sucesso, já que já havia notado.
– Tá tudo bem? – perguntou baixo, apenas para que ela escutasse. Sua mão tocou o braço da menina, que sentiu seus pelos se arrepiarem pelo corpo todo.
– Claro, só estou nervosa com o dia de amanhã – sorriu amarelo, esperando que ele acreditasse nela. E por alguns segundos ele acreditou, mas logo voltou a duvidar, pois quando Lauren e o homem surgiram na entrada do restaurante, agarrou o braço de com tanta força, que ela nem percebeu seu gesto repentino. Mas ele sim. Aquela era uma atitude clara de medo, então uma daquelas duas pessoas poderiam estar fazendo algo de errado com ela, ou pelo menos planejando. E já que Lauren era mãe dela, concluiu que o problema era o homem.
disse de forma bem firme, fazendo com que ela a olhasse. – Se você tiver um problema, qualquer problema – ele enfatizou, olhando rapidamente para frente, na direção do velho. – Não hesite em me procurar – a menina sentiu uma onda de segurança tomar o seu corpo como nunca havia sentido antes. As palavras de tiveram um efeito quase imediato e ela se sentia um pouco menos vulnerável, como se tivesse com quem contar num momento de dificuldade. Mas antes que pudesse responder, os outros dois componentes da mesa chegaram, tomando seus assentos. Lauren não tirou os olhos dos dois, achando muito estranha a proximidade e intimidade da filha com alguém que ela mal conhecia.
– Então, , como conheceu minha filha? – Lauren perguntou, chamando toda a atenção da mesa para si.
– Eu sou psicólogo dela aqui no concurso – ele respondeu, sem dar muitos detalhes.
– Psicólogo? – ela perguntou, estranhando. – Na minha época não tínhamos nada disso, sem esses luxos.
– Talvez seja porque a senhora não participa de um grande concurso há bastante tempo. O último foi a pouco mais de vinte anos, certo? – ele sorriu abertamente, tentando amenizar o que havia dito, mas não surtiu efeito. mordeu o lábio inferior e olhou para o lado, tentando não rir, mas foi bem difícil. Uma curta risada escapou e Lauren olhou feio em sua direção. – É que eu venho acompanhando seu trabalho junto a sua filha, pelos diversos concursos da Costa Leste, basicamente desde os anos finais da minha graduação, mais ou menos uns cinco anos. Então sei que o concurso Miss Maine do ano passado foi sua segunda maior conquista, já que eu creio que a mais importante tenha sido a edição que senhora mesma venceu.
– Então temos um estudioso de concursos de beleza aqui – Lauren comentou, tentando manter a classe.
– Não exatamente, eu estudo a forma que esses concursos podem mexer com a vida das concorrentes, seja para o lado bom ou para o ruim. Já me deparei com casos de depressão de algumas candidatas ou casos graves de anorexia e bulimia. Quem olha de fora, pensa que esse universo é algo perfeito, mas quando nos aproximamos um pouco, vemos o inverso – conforme falava, se mostrava cada vez mais encantada com o rapaz. A forma que ele conseguia se impor, sem deixar que Lauren o engolisse em sua aura de manipulação.
– Então minha filha é um objeto de estudo pra você? Não se importa com isso, querida? – Lauren perguntou para , fazendo com que ela a encarasse por alguns segundos. A menina não sabia o que falar, não por não ter uma resposta, e sim por não saber como dá-la. A verdade é que ela não se importava com o fato de ser um “objeto de estudo” para , ela estava até um pouco contente por ser algo para ele. Pela forma que ela estava encantada, ela aceitaria ser qualquer coisa para ele.
– Eu não me importo – falou baixo, encarando o prato a sua frente. Lauren a olhou pelo canto dos olhos, deixando sua frustração estampada em seus olhos. Por um tempo, a mãe realmente pensou no quanto sua própria filha era imprestável. Mas logo lembrou-se do concurso e dos comentários que surgiam pelos bastidores. Alguns jurados haviam gostado bastante de e isso estava contando alguns pontos a seu favor. Se os planos que tinha para a filha e o sr. Dukan dessem certo, Lauren poderia afirmar que a coroa já estava na cabeça de .
– Que seja, então – Lauren disse, fazendo um movimento com a mão, como se não se importasse.

O jantar passou e se esforçou para comer uma leve salada. Sentia todos os olhos em si, então evitava levantar os próprios, mantendo-os fixos em seu prato. Ela sabia que eram três tipos diferentes de olhares: o repulsivo do sr. Dukan, parecia despi-la a todo tempo; o acusatório de Lauren, que ela sabia que ouviria muitas reclamações sobre o ; e o do próprio , que parecia mais preocupado do que qualquer outra coisa. A conta chegou e o rapaz se apressou logo para pegá-la, dizendo que o jantar era por conta dele. Lauren não reclamou ou fez nenhum gesto contrário a isso, pelo contrário, deve ter sido o único momento em que aprovou algo vindo dele.

– Posso te acompanhar até o seu quarto? – disse baixo, mas ainda assim chamando atenção de Lauren. ponderou por alguns instantes, até olhar para a mãe, que a encarava de volta com cara de poucos amigos. Ela sabia que Lauren odiaria vê-la saindo do restaurante com o e não com o sr. Dukan. Sabia que isso poderia custar horas e mais horas de reclamações em seus ouvidos. Mas nenhuma dessas certezas a impediu de aceitar a proposta do rapaz.
– Eu adoraria – ela respondeu, vendo-o levantar de sua cadeira e puxar a sua suavemente, ajudando-a a levantar. – Boa noite, mãe. E boa noite, sr. Dukan, foi novamente um prazer – ela se esforçou para cuspir as palavras da melhor forma que conseguiu. E tendo um vislumbre da expressão irritadiça da mãe e da careta de reprovação do velho, caminhou ao lado de para fora do restaurante. Cada passo que dava para longe deles, deixava-a mais leve. Ela tinha uma ligeira impressão que essa sensação de leveza vinha de seu acompanhante, mas lutava consigo mesma para tirar isso de sua cabeça. Esses pensamentos tolos não ajudariam em nada.
Ficaram se encarando em silêncio, enquanto esperavam o elevador, mas nenhum dos dois parecia se importar com a falta de palavras, eles pareciam até bem a vontade sem elas. O barulho do elevador soou e as portas abriram, , gentilmente, segurou-a para , indicando para que passasse na frente. Quando estas se fecharam, a menina percebeu que estar sozinha com ele, a alarmava de uma forma estranha: suas mãos suavam além do normal, o coração acelerava e parecia que sairia pela boca a qualquer momento. E ela se sentia absurdamente ridícula com todas essas sensações. Ele era apenas o seu psicólogo e nada mais do que isso. Mas não conseguia conter o sorriso bobo que teimava em surgir em seus lábios. não sabia, mas havia feito muito por ela nessas últimas horas. A forma com que ele falava com Lauren, sem nenhum tipo de medo ou receio. Ela queria ter esse poder, essa coragem, mas sabia que a reação da mãe seria diferente. Lauren não tinha como fazer algo contra o rapaz, mas podia descontar tudo nela e já estava se cansando de ser uma marionete da mãe. Precisava mudar isso, mas antes de tudo, precisava de coragem.
Chegaram ao andar da menina e repetiu o gesto, sinalizando para que ela saísse primeiro. Continuaram andando lado a lado em silêncio, até pararem em frente ao quarto dela. se preparou para dizer boa noite e entrar, mas antes de ela pudesse dizer qualquer coisa, ele falou:
– Eu queria que você confiasse em mim. Queria que você pensasse em mim como alguém com quem você pode contar. Então qualquer problema que você tenha, qualquer problema mesmo, você pode me procurar – ele parou por um instante, passando a mão pelo cabelo e depois apoiando a mesma na parede, se aproximando da menina. – Eu sei que tem algo errado com senhor que jantou com gente, mas não posso fazer acusações falsas. Ou seja, não posso tomar nenhuma providência se você não me disser nada. Tudo isso pode acabar hoje, basta você me dizer, só isso que eu preciso – por alguns segundos, considerou contar tudo para . Tudo mesmo, desde os seus problemas com sua mãe, passando pelos seus próprios, até chegar à tentativa asquerosa do sr. Dukan no outra noite. Só que ao mesmo que sentia que podia confiar nele, ela também sentia que deveria manter aquilo só para ela. Deveria manter seus demônios presos em seu peito. Além do mais, o que poderia fazer? Uma conversa não mudaria uma vida toda e também não impediria que sua mãe continuasse a agir da mesma forma. Por mais que sua vida fosse complicada, sentia que o maior problema dela era sua própria mãe. E como falar para um desconhecido, que todos os seus problemas são gerados por aquela que te pôs no mundo e cuida de você desde então? E logo após de medir os prós e contras, a menina se limitou a dizer:
– Não tem nada errado.
Ela sentia e via no olhar de que ele não havia acreditado nela, mas que também não iria forçar. E ali, naquele momento, ela viu que ele não a forçaria a nada, respeitaria seu tempo, seu espaço. Então, com apenas um olhar sincero, fez o coração de bater descompassado mais uma vez e ela não tinha mais controle disso. Pensou então, que se ele soubesse de tudo, qualquer mínima chance que tivesse, desapareceria, porque nenhum cara em sã consciência se interessaria por uma pessoa tão complicada quanto ela. Era difícil aceitar isso, mas o que já não havia aceitado na vida?
– Tudo bem, então – ele sorriu de lado, parecendo mais uma careta de preocupação do que um sorriso de verdade. – Nos vemos amanhã – ela assentiu, pegando a chave do quarto na bolsa e abrindo a porta. começou a andar em direção aos elevadores, parando no meio do caminho e voltando-se para a menina mais uma vez. – Já ia me esquecendo, boa sorte amanhã. Eu deveria ser imparcial, mas não consigo. Estarei torcendo por você – ele deu de ombros, e dessa vez ele sorriu de verdade, de forma encantadora, fazendo suspirar levemente.
Ela entrou no quarto e encarou seu próprio reflexo no espelho. Havia algo em seu rosto magro, algo compondo o visual junto com a pesada maquiagem, contrapondo o excesso de corretivo nas olheiras ou o batom leve nos lábios. Havia algo natural ali, um tom rosado em suas bochechas normalmente pálidas. Havia algo como vida. E isso tinha um nome. Na verdade, tinha até sobrenome. Nome, sobrenome e um belo par de olhos .


4.

  Terceiro Dia
  Oh, I’m a mess right now, inside out
  Searching for a sweet surrender but this is not the end
  I can’t work it out. How?

  (Ed Sheeran – I’m a Mess)

gastou grande parte da sua noite lembrando e relembrando o comportamento estranho de durante o jantar. Sua postura denunciava que havia algo muito errado e a forma que ela reagiu quando os outros dois convidados apareceram o intrigou. Era como se ela temesse um deles, ou até mesmo ambos. Mas não era um simples temor, era que algo que a aterrorizava de verdade, porque ele sentiu em sua própria pele a tensão que emanava da menina, porque seus dedos se agarraram ao seu braço como se fosse sua única esperança de salvação. Sendo Lauren sua mãe, a grande carga do problema caia sobre o senhor que os acompanhou, Dukan, como a mais velha o chamou. Seu sobrenome não soava estranho, então decidiu fazer uma pequena pesquisa, mas logo que olhou um panfleto do concurso em sua mesa de cabeceira, percebeu que não precisaria usar a internet. O homem em questão era Craig Dukan, vice–presidente da Brandon’s Jewelry, a empresa de joias que patrocinava o concurso. Sua fama nos bastidores não era das melhores, todos comentavam que ele costumava assediar as participantes em troca de um lugar na final televisionada. E a forma com que ele estava sempre acompanhado de Lauren, fez com que tivesse alguns pensamentos altamente desagradáveis. Será que Lauren era capaz de usar desses artifícios com a própria filha? Já ouvi casos de treinadores que praticamente vendiam suas participantes para algum patrocinador por toda a semana, assim conseguiam até mesmo uma colocação entre as cinco finalistas. Mas nenhum deles era parente direto da candidata e sendo mãe, Lauren parecia quase indefesa aos olhos de . Quase. A forma descarada com que ela tentava enaltecer qualidades do Dukan e sempre tentando ter a atenção de nesse aspecto eram estranhas demais para não ter algo mais envolvido. Além do mais, Lauren não tinha um histórico dos melhores como treinadora e também como concorrente, estando envolvida em diversos escândalos, inclusive um que parecia muito com esse, sendo que ela era a candidata e diziam que a ideia tinha partido dela mesma. Tendo tudo isso em mente, começou a pensar na forma defensiva com que sempre falava da mãe, sem muitos comentários, apenas frases curtas, sem ter muita emoção ou sentimentos envolvidos, assim como o fato dela evitar olhar diretamente para a mãe ou para o Dukan no jantar. Juntando poucas peças desse quebra–cabeça doentio, um cenário bárbaro se formava em sua mente e ele precisava saber se era real. Se fosse, e ele torcia muito para que estivesse errado, precisava mais de sua ajuda do que ele imaginava.

Assim que o dia amanheceu e a hora se tornou conveniente para começar a bater na porta do quatro de outras pessoas, ele se apressou para falar com Janine, uma das outras psicólogas do concurso e quem o colocou nesse trabalho. Por mais que ele soubesse que ela não iria contar o que suas candidatas falavam, ele precisava deixar mais alguém sobre aviso, caso algo ruim acabasse acontecendo. Janine pareceu entender imediatamente sobre o que ele falava e sua expressão denunciava que aquilo era comum pra ela. “Esse é um assunto comum pelos bastidores da competição, mas ninguém nunca surgiu com algo concreto. E algumas cabeças rolaram quando tentaram”, ela disse. sabia o vespeiro em que estava se metendo, mesmo sem saber se suas desconfianças eram reais. Só que ele não costumava se enganar e os sinais estavam tão claros, que quanto mais tentava esconder, mais aparente ficava pra ele. Ela estava protegendo a mãe e, consequentemente, se protegendo também. Só que você não pode encobrir algo assim, ainda mais vindo de quem deveria ser a pessoa que mais te ama no mundo. Quando alguém não pode confiar nem mesmo em sua própria mãe, como confiar num desconhecido? Ele sabia que não tinha tempo suficiente para conquista a confiança de e agir da forma correta, mas ele também sabia que não poderia se manter calado e parado em relação a isso. Todas as reações da menina eram como gritos mudos de socorro, que somente ele havia escutado e não poderia ignorar. Não algo vindo dela. Depois de ouvir tudo o que Janine sabia a respeito dessas histórias, chegou à conclusão que não ficaria quieto e buscaria a confiança de de qualquer forma, para tentar salvá–la na armadilha que era criada para ela. “Não se envolva com isso, você vai acabar queimado também”, Janine alertou. Mas quem disse que ele se importava?

Toda vez que se olhava no espelho, se sentia ridícula. O traje reaproveitado de sua mãe parecia não caber direito nela. Estava largo em algumas partes do corpo, denunciando logo que não era dela. Mas o dinheiro que ela poderia ter usado para fazer outro, do carro que venderam, por exemplo, fora aplicado no último branqueamento de seus dentes e na aplicação de botox que Lauren cismou que precisava, porque não podia parecer em público com tantas marcas de expressão. A filha tentou argumentar que ela não precisava de preenchimento nenhum, mas a mãe foi firme, dizendo que não era a única que deveria ter direito a procedimentos estéticos. Na realidade, a menina não se importava com nada disso, a mãe poderia fazer todos em si mesma. Dando outra espiada no espelho à sua frente, mordeu o lábio inferior para não rir de si mesma. O traje de lagosta era comum entre as concorrentes do Maine, mas ela nunca concordou muito com essa escolha. Poderiam usar um vestido verde e algumas aplicações, assim ela homenagearia os pinheiros que eram comuns em seu estado. Lauren era enfática ao afirmar que nenhuma concorrente que não utilizou o traje de lagosta chegou a final do concurso. Talvez se vestir de forma ridícula era uma questão importante por lá.
O longo vestido vermelho caia até seus pés, ele era preso em apenas um dos ombros, se onde saia uma série de bordados com pedrarias nas cores branca, laranja e, também, vermelha. Na parte da frente havia uma série de babados, que iam desde a cintura até a barra do vestido. Já a parte de trás se dobrava de forma que se desenhasse a cauda “ondulada” de uma lagosta. Tudo parecia muito confuso pra ela, na verdade. A temática do seu traje era a lagosta, que aparecia em sua forma unicamente num adereço para o cabelo, que prendia os fios de um lado de sua cabeça e deixava os outros presos por uma trança do outro lado. O restante compunha apenas um “ambiente” marítimo, trazendo algumas aplicações de estrelas do mar, conchas e peixes. A única peça que fora comprada especialmente para esse concurso, tinha sido o sapato, que era composto por cerca de quinze mil pequenos cristais multicoloridos, que foram postos de forma que dessem a impressão do tom da areia e também do mar. Assim as aplicações de conchas e peixes dariam uma impressão quase que tridimensional. Esse sapato era uma coisa absurda. Coisa pela qual Lauren vinha se vangloriando, dizendo que chamaria a atenção de todos. De fato, todos que se aproximavam, ficavam loucos por ele, fazendo mil elogios. sorria e acenava com a cabeça, mostrando sua clara falta de entusiasmo.

– Você está a alguns minutos de entrar, não estrague tudo. Coloque um sorriso nesse rosto, pelo menos. – Lauren disse, fazendo com que a filha se sentasse na cadeira, para que sua maquiagem pudesse ser retocada. Pensando nos prós e contras de contrariar a mãe nesse momento, chegou à conclusão de que não valia a pena o esforço, o máximo que conseguiria seria uma cena aqui no camarim. E só pensar nos olhares que receberia depois, fez com que ela desistisse. Respirando fundo, ela torceu os lábios no que poderia parecer um sorriso visto de longe, mas que, pra ela, era como uma careta.

Então resolveu pensar em algo bom pra ela, tirar tudo isso de sua mente por alguns segundos. E sem que ela pudesse controlar, a imagem de surgiu em seus pensamentos e o sorriso que se seguiu era verdadeiro. Só de pensar nele, ela conseguia sentir seu coração acelerar, as mãos suarem e o rosto esquentar. Ela não entendia essa confusão de sentimentos, era algo novo em sua vida. Quando se interessou pelos meninos na escola, nada chegou perto da forma que faz com que ela se sinta. Parece que acontece uma espécie de explosão em seu coração e um calor começa a tomar conta do seu corpo. Mas a sensação não é ruim, longe disso, é maravilhosa. Seu rosto ganha cor e ela ganha vida. Mesmo que ela fosse embora no final da semana e nunca mais o visse, sabia que algo já tinha sido modificado e ela não seria mais a mesma garota de sempre. havia despertado um lado de si que nunca havia conhecido, uma parte que faz com que ela necessite de muito mais do que imaginava. Ela quer ser tocada. Descobrir como é a sensação de ser beijada, sem que isso tenha sido motivado por nada mais do que puro desejo. Talvez essa necessidade fosse mais de atenção do que de amor, mas não sabia diferenciar muito bem. Nunca havia se apaixonado, então como saber se o que estava sentindo era algo mais especial. Seu maior medo era se envolver com além do que deveria e depois ter seu coração partido, sem nem ao menos ter tido uma chance de tentar descobrir o que sentia. E, se por um milagre dos céus, era correspondido. Só que, aparentemente, seu maior medo já havia se concretizado. Ela estava completamente envolvida.

As candidatas eram chamadas ao palco por ordem alfabética dos estados. Eles estavam lá pela letra C, tinham chamado a representante da Califórnia há poucos segundos. Mas não era algo que demorava, então já estavam formando uma pequena fila para não atrasar o andamento do desfile. Lauren havia se despedido da filha e desejado por boa sorte uns cinco minutos antes de ir para a fila. Dessa forma, a menina estava sozinha nos bastidores, ocasião perfeita para que o medo e a insegurança tomasse conta dela. Sentia o suor se formar em seu rosto e temia que a maquiagem ficasse manchada. Ela não poderia deixar que algo desse errado agora, ou então Lauren a culparia pelo resto de sua vida. Cada pensamento como esse só a deixava ainda mais nervosa. Ela sentia como se fosse desabar assim que pisasse no palco. não conseguia fazer seu coração bater num ritmo mais lento, mesmo respirando fundo repetidas vezes. Suas mãos estavam trêmulas, as pernas bambas e ela suava um pouco mais que o normal. Talvez estivesse tendo uma crise de ansiedade ou de pânico, ou até mesmo os dois juntos. Essa não era como os pequenos concursos que havia participado. Lá no Maine, ela desfilava para um público de, no máximo, trinta pessoas, isso contando com os jurados. Se pensarmos apenas nos treinadores, já teríamos por volta de cinquenta pessoas, fora os membros da organização, os jurados e os patrocinadores. Pensar nisso tudo só a deixava mais e mais nervosa. E só havia uma coisa no mundo que poderia acalmá–la agora.

A mente de voltou a ser tomada pela imagem de e, quase que de forma automática, ela se sentiu muito mais tranquila. Como se aquela onda de calmaria que emanava dele estivesse chegando até ela, mesmo que ele não estivesse por perto. Depois de alguns segundos respirando fundo e tendo apenas o sorriso de em sua cabeça, já sentia como se pudesse sobreviver a todo aquele dia sem muitas dificuldades. Talvez ele tivesse se transformado no seu “porto seguro” particular, ou até mesmo numa fonte de paz. Independente da denominação, já tinha se tornado alguém importante para ela, mesmo eles tendo se conhecido há apenas dois dias. Era algo como aquela velha frase clichê: “como se eles já se conhecessem de outra vida” ou algo do tipo. Só mesmo isso para explicar o nível de conexão que ela sentiu ao vê–lo pela primeira vez. Lá mesmo na sua sacada, enquanto se imaginava pulando de sua sacada, há dez andares de distância do chão. Foi ele que chamou sua atenção e a fez mudar de foco. De repente ela não pensava mais em se matar e sim em saber quem ele era. Talvez esse tipo de pensamento, quase que juvenil, que passava pela sua cabeça agora tivesse salvado sua vida, pelo menos naquele instante. Quando sua mente focava na imagem de , as coisas pareciam mais fáceis de lidar. Talvez ele fosse a coisa boa que todo esse tormento lhe deu, afinal tudo não poderia ser apenas um inferno, sempre há um lado bom.

A fila diminuiu e era a próxima a entrar. Ela quase não se aguentava em pé de tanto que tremia, sua respiração estava acelerada, assim como seu coração. Ela tentava lidar com aquilo como se fosse um concurso qualquer, mas não era. Para todos os lugares que olha, algo gritava de volta “Miss América 2014”. Era uma pressão enorme, tão grande, que seus poucos anos de idade e sua capacidade de lidar com tudo não fossem o bastante. Então a cortina se abriu e ela viu a Miss Luisiana sair do palco. Era a sua vez e ela não estava preparada.
Disposta a lidar com aquilo como se não fosse nada muito importante, se limitou a pensar e mover seus pés, um após o outro, até entrar no palco e ter todos os olhares do público em sua direção. Ela continuava se sentindo ridícula vestida de lagosta, mas algo parecia ter chamado atenção dos jurados, que balançavam a cabeça, de forma afirmativa, e comentavam entre si, provavelmente falando dela e de sua vestimenta. Por alguns segundos ela se sentiu bem, até ter um vislumbre de sua mãe na plateia. Lauren não sorria ou fazia algo para motivá–la, sua expressão era altamente crítica, como se a filha não estivesse fazendo nada direito. E aquilo foi como um balde de água fria para , que perdeu o pouco de ânimo que havia conseguido reunir. Só que chegando ao meio da passarela, ela avistou em pé, lá no fundo do teatro. Mesmo distante, ela conseguia ver que ele sorria e isso fez seu coração acelerar de novo, mas de outra forma, como uma descarga de adrenalina. Uma onda de confiança fez com que driblasse seu nervosismo anterior e conseguisse desfilar com a graça e animação necessárias para que ela pudesse continuar na competição. Ela sabia que tudo isso tinha sido causado e despertado por , ela devia muito a ele, não só pela confiança que ele faz crescer dentro dela só com um olhar, mas por ser uma das melhores pessoas que ela já havia conhecido na vida. E, sim, havia descoberto tudo isso em três dias e ficava imaginando o que não descobriria numa vida toda. Chegando ao final da passarela, ela se viu mais próxima dele, mas não queria dar as costas e voltar para o backstage, queria continuar caminhando até chegar nele, queria estar perto, tocá–lo, ouvir sua voz. Com apenas um sorriso, conseguiu trazer uma onda de paz para , que ela não sabia explicar, seus tremores cessaram, sua respiração se normalizou, mas o coração ainda estava acelerado, mas isso também era culpa de , algo que ele sempre causava nela. Contra sua própria vontade, ela deu meia volta e retornou para o camarim, deixando o palco para a próxima candidata. Seu nervosismo foi substituído por uma ansiedade sem fim. Ela queria que o tempo passasse e que a hora de seu acompanhamento chegasse logo, os poucos minutos que tinha com ele diariamente eram a melhor parte do seu dia.

Todas as candidatas estavam de volta ao palco, enfileiradas e organizadas de acordo com o estado que representavam. Era a primeira eliminação do concurso e a atmosfera não era a das melhores. A tensão aumentava a cada segundo que se passava e a cada nome chamado. Quem ia ficando para trás, lidava com a possibilidade de ser eliminada no primeiro dia de atividades efetivas, e dava adeus ao sonho de representar seu país no Miss Universo. estava meio alheia ao que acontecia, pois tinha sua atenção voltada para . Ela queria sorrir, mas não sabia se devia, então mordeu o lábio inferior e ficou olhando na direção do rapaz, que não tirava os olhos dela. Eles continuaram assim, se olhando, até que outra coisa chamou atenção de : seu nome ser chamado. “ Anne Wells” soou pelas caixas de som do local, fazendo alargar seu sorriso e Lauren, finalmente, esboçar alguma reação. Ela se levantou e aplaudiu a filha, chamando um pouco mais de atenção do que deveria. Como sempre. a aplaudiu com vontade, fazendo com que a menina corasse um pouco. se juntou às outras que já haviam sido chamadas e conseguiu respirar um pouco mais aliviada. Após todas as aprovadas serem chamadas, dez meninas ficaram suas posições e, consequentemente, estavam eliminadas. As candidatas de Montana, Dakota do Sul, Carolina do Norte, Idaho, Novo México, Delaware, Iowa, Kansas, Kentucky e Nova Hampshire deram adeus à competição e voltariam para seus estados no dia seguinte. Após o anúncio e o término do primeiro desfile, tentou despistar sua mãe, mas não conseguiu. Ficou grata pelo fato do Sr. Dukan não estar presente como sempre, mas, ainda assim, a conversa não era das mais agradáveis. Lauren quase nunca tinha palavras doces ou de parabenização para dar, normalmente eram apenas críticas, coisas que ela deveria ter feito, mas não fez. Isso deixava enlouquecida, porque ela só estava nessa competição, se prestando a esse papel, por ela, pela sua mãe, que nem um “parabéns” era capaz de lhe dar. Cansada de ouvir a ladainha de sempre, murmurou um “posso ir agora?” e voltou para o backstage para tirar o figurino e a maquiagem, ou seja, voltar a ser ela mesma.
O clima entre as concorrentes que continuavam e as que haviam sido eliminadas não era dos melhores. Algumas não tinham lidado bem com o fato de não passarem e estavam lamentando e questionando a escolha do júri, usando como critério suas próprias observações que levavam em conta, claro, suas opiniões pessoais sobre as candidatas. achava que tudo soava um pouco como inveja e despeito, mas não queria se envolver com aquilo mais do que deveria, então tratou de tirar a roupa e a maquiagem e voltar para o seu quarto, antes que o seu nome fosse lembrado e ela acabasse ouvindo coisas que não queria.
Fugindo das comemorações das outras aprovadas, seguiu para o seu quarto, onde queria ter um pouco de paz. E também para esperar pela visita de , que ela rezava para que aparecesse. E ela se surpreendeu por suas preces serem atendidas em tão pouco tempo. estava parado na porta de seu quarto, como se a esperasse. não conseguiu conter o sorriso ao vê–lo e imitou seu gesto, sendo até mais intenso do que deveria, já que sua relação com ela deveria ser unicamente profissional.

– Oi. – disse, parando perto da porta e se enrolando para encontrar a chave.
– Oi. – respondeu, tentando soar natural. Só que ele não conseguia conter a sua ansiedade, ele queria logo colocar as cartas na mesa e descobrir de uma vez por todas o problema existente entre a garota, sua mãe e o Dukan. Ele sabia que havia grandes chances de ela negar tudo e falar que eram coisas da cabeça dele, mas não costumava se enganar sobre esse tipo de assunto. – A gente pode conversar um pouco?
– Casual ou profissionalmente? – perguntou, sentindo o coração acelerar novamente, algo já característico quando se tratava dele.
– Um pouco dos dois. – ele sorriu de lado, vendo–a assentir e abrir a porta.
– Senta. – falou, indicando uma poltrona pra ele e se sentando na que estava logo ao lado. pensou em como começar o assunto, mas nenhuma palavra soava correta o bastante. Era algo tão difícil e íntimo, que ele sabia que a menina não falaria tão abertamente com alguém que ela mal conhecia.
– Eu estive pensando bastante depois do nosso jantar de ontem, porque percebi umas coisas estranhas, principalmente entre você e sua mãe. – gelou, ela pôde sentir o sangue fugir do seu rosto e poderia jurar que estava branca como um papel. Era esse o momento, então. veio até ela para lhe dizer que sua vida era complicada demais para ele se envolver, mesmo que fosse apenas como médico. – Aquele senhor, o Dukan, também entre nessa questão, mas a relação que você tem com a sua mãe é bem diferente do que eu imaginava.
, eu não sei do que você tá falando. – ela comentou, tentando disfarçar, mas seu incomodo era visível até mesmo para olhos não treinados, então naquele instante, ela era como um livro aberto para .
, eu queria muito que você confiasse em mim, não só como médico, mas também como amigo, se é que eu possa me denominar assim pra você. Independente da nomenclatura, peço que confie em mim e me deixe te ajudar, por favor.
... – ela começou, mas ele a interrompeu, visivelmente nervoso.
– Eu vi como você se sente desconfortável na presença daquele homem e isso é um sinal claro. Também percebi como a sua relação com a Lauren é deficiente, você não consegue olhar nos olhos dela, pelo menos não da forma que você olha nos meus, por exemplo e isso é um sinal claro de insegurança. Me deixa te ajudar a lidar com isso, por favor. Eu sei o que fazer, eu posso te ajudar, me deixe fazer isso.
– Eu realmente não sei do que você está falando. – disse, fazendo uso de uma tentativa frustrada de fingir que estava tudo bem. Ela estava soando ridícula para si mesma.
– Ok, então eu serei claro e objetivo: eu sei que a sua mãe está tentando comprar um lugar na final e está te usando como moeda de troca. – despejou suas suspeitas e viu que estava certo só de olhar nos olhos da menina.
– Não sei de nada disso. – ela gaguejou, sentindo um nós se formar em sua garganta. Era nojento o bastante ela imaginar que sua mãe estava fazendo isso, mas era mil vezes pior ouvir de outra pessoa. Ela se sentia um lixo, como se não valesse de nada. O olhar que lançou para era o pedido de socorro que ele precisava ouvir, ou até mesmo apenas ver. No olhar sofrido e envergonhado de , ele enxergou toda a humilhação que aquela situação trazia para a menina e o quão indefesa ela se sentia. As lágrimas que se formaram nos olhos dela, foram a confirmação final que ele precisava. Ele a puxou para um abraço e deixou que parte de sua vergonha e frustração saíssem naquele momento, mesmo que isso significasse ensopar a blusa do rapaz.
– Você não precisa mais guardar tudo isso pra você, eu estou aqui pra te ajudar. – murmurou, enquanto a menina ainda se debulhava em lágrimas. – Você vai ver como é mais fácil passar por uma dificuldade quando se tem alguém ao seu lado. Alguém que se importa com você. E eu, bem, eu me importo muito com você. – ao ouvir isso, por mais que estivesse chorando como nunca na vida, sentiu uma fagulha de esperança se acender em seu coração. No fim das contas, ela não estava sozinha.
– Por que você está fazendo isso? – ela perguntou, baixo, ainda com o rosto pressionado contra o peito de . – Por que você se importa? – a pergunta dela o pegou desprevenido. Nem mesmo ele sabia por que se importava tanto com ela. O sentimento ultrapassava o limite da preocupação de vínculo médico – paciente, era algo que também o preocupava e o deixava intrigado.
– Eu não sei. – ele respondeu, sendo sincero. – Me desculpa, eu não ainda tenho essa resposta.
– Tudo bem. – disse, conseguindo controlar o choro. – Eu não me importo. Contanto que você continue por perto. – não respondeu sua pergunta e eles continuaram em silêncio pelos minutos que se seguiram. Então resolveu levar o ditado ao pé da letra. Se quem cala, consente, ele ficaria. E isso era a única coisa que importava.

*Só vou deixar as imagens que inspiraram o roupa que a principal usou. É de uma candidata do Maine mesmo, parece que esse tipo de fantasia é comum, é só clicar aqui
para ver.


5.

  Quarto Dia
   Because maybe
   You're gonna be the one that saves me
   And after all
   You're my wonderwall
  (Oasis – Wonderwall)

sentiu o sangue gelar só de colocar o biquíni, não conseguia nem imaginar como seria desfilar para os jurados. O desespero era mais forte que ela, quase incontrolável. O pavor ia além do problema com seu próprio corpo. Por mais que não se sentisse segura consigo mesma, havia mais do que vergonha com o excesso de peso, que insistia que tinha. Pra ela, deveria ser proibido fazer qualquer pessoa passar por uma situação como essa. Era uma humilhação. Sentia-se como um objeto em exposição, como um pedaço de carne sendo avaliado, tendo seu corpo percorrido por olhos alheios em busca de imperfeições. Porque é isso que os jurados buscam. Não só eles, mas todo mundo. Sempre dizem que buscam e almejam a perfeição, mas o que eles querem mesmo é que alguém tenha um defeito, pelo menos um, pois assim eles podem criticar, usar aquilo que deveria ser normal, contra a própria pessoa. E lá estava , olhando-se no espelho e usando os defeitos que enxergava contra si mesma. Ela tentava, se esforçava de todas as formas, admirar a imagem que estava refletida à frente, mas ela não conseguia. Era como se não conseguisse se enxergar naquele corpo, naquelas roupas, naquelas condições. Cada dia que se passava a deixava mais ciente que não pertencia àquele mundo. Era tudo tão duro, errado e malvado, que a menina se sentia como um cordeiro deixado em meio aos lobos, pronto para o abate. Será que ela deveria desistir assim tão fácil? Aceitar a derrota sem lutar? Mas havia luta e estava sendo travada no momento. E não era em outro lugar a não ser dentro dela mesma. Era como se um lado gritasse que ela era capaz, sim. Que ela conseguiria passar tudo aquilo, que conseguiria lutar por si mesma, para conseguir o que quer. Mas o outro lado indagava incessantemente:
“E o que você quer?” , “O que você quer?”, “Me diga, , que você quer?”...
E ela não sabia.
Ou nunca soube.
Talvez nunca tivesse pensado em si mesma dessa forma, como dona de sua vida, da sua história, do seu destino. Sempre tinha seguido a vida da forma passiva que sua mãe impunha. Sem poder de escolha, sem tomar nenhuma decisão.
“Talvez esse seja o momento!”, gritou o lado ansioso por uma transformação.
”Mas que mudança?”, perguntou o outro, totalmente descrente de qualquer mudança.
A menina se sentiu momentaneamente louca, como se sua cabeça estivesse no meio de uma guerra, em que ambos os lados eram formados dela mesma. sabia que sua saúde mental nunca tinha sido a melhor do mundo, mas ela teve certeza que estava a ponto de surtar. E ela tinha duas opções para se libertar tudo aquilo que a atormentava: uma que ela estava tentando evitar a todo custo, porque ela poderia passar o dia inteiro no banheiro colocando a comida para fora, que o real problema ainda continuaria dentro dela. Então lhe restou a segunda opção, mais segura e mais correta. Ela precisava de ajuda, precisava de alguém que a ouvisse, que a entendesse, e sabia exatamente quem procurar.

Amarrando um roupão em sua cintura, a menina viu que tinha cerca de meia hora antes do início do desfile de roupa de banho. Tinha trinta minutos para localizar e despejar tudo que estava em sua mente, antes de enlouquecer. E ela sabia que iria enlouquecer de verdade. Parada no meio do hall de entrada do hotel, lembrou que não sabia qual era o quarto dele. Não podia sair gritando seu nome por todos os corredores, até porque não tinha tempo pra isso. Tinha cerca de vinte minutos para achá-lo, desabafar e tentar não surtar. Mas por onde começar?
Ela viu algumas pessoas da organização paradas perto da porta de entrada dos camarins, mas assim que se aproximou para pedir uma informação, foi avisava que não deveria estar circulando pelo hotel e sim se preparando para a etapa que começaria em poucos minutos. Mesmo dizendo que era uma questão de vida ou morte, ninguém parecia muito disposto a ajudar. Ela realmente cogitou passar em todos os andares gritando por , mas parando para pensar melhor, viu que não tinha tempo o suficiente pra isso. Uma moça saiu do camarim e estava se encaminhando para os elevadores, pensou já ter visto aquela mulher junto de e que talvez ela soubesse dele. Correndo em sua direção, a menina a alcançou, e parando em sua frente, impediu que ela continuasse seu caminho.

- Você sabe onde eu posso encontrar o ? Eu preciso muito falar com ele. – disse, meio embolada e um tanto quanto desesperada. A moça a olhou, como se a analisasse, suas vestimentas logo a denunciavam, mas ela não se importava.
- Você não deveria estar junto com as outras candidatas agora?
- Eu sei onde deveria estar, mas eu preciso muito falar com o . É muito importante, muito mesmo. – a mais velha deve ter notado algo em seu tom de voz, porque assumiu uma postura mais preocupada.
- Tá tudo bem? – perguntou, colocando uma das mãos sobre o ombro da menina e a levando para o canto do salão.
- Não e pode ficar muito pior, por isso que eu preciso do .
- Eu não posso te ajudar? Meu nome é Janine e eu também sou psicóloga do concurso, podemos conversar um pouco...
- Não me leve a mal, por favor – pediu, a interrompendo – Mas eu prefiro conversar com ele.
- Você criou um vínculo, não é? – a psicóloga perguntou e afirmou, com um gesto com a cabeça. – Ele deve tá no quarto, porque as candidatas estão reunidas no salão. Ou então na piscina, não sei. Eu não o vejo desde o café da manhã.
- Pode me dizer qual é o quarto? Eu estou sem tempo, o show vai começar em minutos. – a menina pediu, rezando que a mulher lhe dissesse logo.
- Quarto 817. – disse por fim e saiu apressada na direção dos elevadores, sem o menos de despedir ou agradecer, deixando Janine para trás e um pouco preocupada. Ela pegou o telefone e ligou para , que atendeu no terceiro toque.

sentia que estava a ponto de explodir e o pior, não tinha muita noção do motivo. Eram tantas coisas rondando sua mente, que era impossível escolher uma só. O elevador parecia não colaborar e se movimentava devagar demais. A menina respirava fundo e quase saltou para fora quando as portas se abriram. Mas para a sua surpresa, a esperava encostado à parede, em frente ao elevador. Seu primeiro pensamento foi se jogar no rapaz, queria se sentir protegida, acolhida de alguma forma, mas achou que não seria de bom fazer isso no meio do corredor. Talvez o olhar que ela lançou para o ele tenha dito tudo o que não conseguiu, porque ele segurou uma de suas mãos e a guiou até seu quarto. Uma vez lá dentro, ela se sentiu mais livre e se permitiu relaxar, como se os problemas estivessem todos trancados do lado de fora. a olhou por um instante, depois a colocou sentada numa cadeira e agachou-se à sua frente.

- Será que você pode me dizer o que está acontecendo? – pediu, com delicadeza.
- Eu acho que estou ficando louca. – ela murmurou, com a voz fraca e meio sem vida.
- O que fez com que você ficasse assim. – ele perguntou, com a voz baixa e suave.
- Tudo isso, . É esse concurso que me faz ficar assim. Olha pra mim – ela pediu – Olha bem pra mim e diga se isso reflete quem eu sou. Essa maquiagem, esse biquíni. Toda essa situação. Eu não sou nada disso. – ele fez o que ela pediu e olhou bem pra ela, observando cada detalhe. E ela estava mais do que certa, não era nada daquilo. Toda aquela pintura ou o biquíni vermelho provocante só serviam para encobrir toda a real beleza que ela possuía. Era algo puro, leve e quase inocente. E sentia seu coração apertar enquanto a olhava, porque ele sabia que ela não se via dessa maneira. Havia tanto que não sabia sobre si mesma e ele queria ajudar. Mais do que queria, ele devia ajudar.
- Levanta, por favor. – ele pediu, estendendo uma das mãos e a ajudando a ficar de pé. Depois a levou na direção do espelho, fez com que ela parasse e se olhasse – O que você vê? – perguntou, parando atrás da menina e olhando para o espelho da mesma forma – O que você vê por trás de tudo isso?
- Esse é exatamente o problema, eu não vejo nada.
- Como não vê nada? Deve ter algo errado aí, porque eu vejo muita coisa. – comentou, apoiando as mãos no ombro de , fazendo com que ela sorrisse de lado de forma discreta – Vejo uma menina forte, muito forte mesmo, ou então não aguentaria o peso que é colocado sobre ela, injustamente, é claro. Vejo uma menina pura, que mesmo depois de muito tempo em contato com as sujeiras desse mundo, continua com o caráter intacto. Também vejo uma menina corajosa, que está descobrindo formas de combater aquilo que não a faz bem e com isso está num processo lindo de autoconhecimento. E além de tudo isso, vejo uma menina linda, que mesmo coberta de tudo isso, consegue brilhar mais do que qualquer coisa e qualquer um. – fechou os olhos, visivelmente envergonhada. Ouvir essas palavras saírem dos lábios de era mais do que o ela poderia aguentar. Seu coração fraco já estava completamente entregue. Parecia até loucura, mas tinha sido a melhor coisa que tinha acontecido em sua vida nos últimos anos. Só que como o medo dominava todas as esferas de sua vida, ela sabia que qualquer coisa que sentisse ficaria aprisionada em seu peito, sem chance alguma de sair.
- Acho que você tá vendo coisa demais. – ela comentou, balançando a cabeça e encarando o chão. fez com que ela se olhasse novamente, ele queria que ela se enxergasse de verdade por, pelo menos, alguns segundo. Que ela visse a menina que ele sempre vê.
- Acho é que você tá vendo coisa de menos. – ele respondeu – Você precisa acreditar um pouco mais em você mesma, ter mais coragem, parar de sofrer por antecipação. Deixar de fazer as coisas por medo das consequências, você é tão jovem pra agir assim. Seja impulsiva, faça o que você realmente quer pelo menos uma vez. – o rapaz tentou encorajá-la, sem saber como aquelas palavras a atingiram. Era como se ele tivesse dado a brecha que ela precisava. disse que ela precisava ser impulsiva, fazer o que quisesse, sem medo, certo? Então, sem temer qualquer tipo consequência ou reação adversa, girou o corpo, ficando frente a frente com ele e, antes que ele pudesse se dar conta do que estava acontecendo, a menina o beijou de forma tensa e intensa.

Num primeiro momento, o rapaz ficou imóvel, sem entender como as coisas chegaram àquilo, mas assim que compreendeu o que estava se passando, suas mãos desceram pelas costas da menina, trazendo-a para mais perto do que ela nunca esteve. levou as mãos aos cabelos dele, embrenhando seus dedos por entre os fios, tentando deixá-lo ainda mais próximo. Ela queria que ele conseguisse sentir seu coração bater, porque ele nunca estive tão disparado. A menina se sentia viva, verdadeiramente viva. Como se o sol estivesse dentro de seu próprio peito. Seu corpo estava quente, suas mãos molhadas de suor e sentia como se pudesse brilhar. Eles se afastaram e seus olhos se encontraram. Naquele curto espaço de tempo, os dois puderam sentir tudo o que desejavam e que tentavam esconder, de forma inútil, um do outro e até de si mesmos. Os olhos de brilhavam mais do que qualquer coisa. Ela levou sua mão até os lábios dele, que sorriu também. Mas a expressão da menina mudou rapidamente quando se deu conta do que tinha feito. Ela sabia que tinha ultrapassado todos os limites aceitáveis e que isso poderia ter arruinado a relação médico/paciente que eles deveriam ter. Na cabeça dela, tinha estragado a única relação saudável que tinha e agora poderia acabar sozinha novamente, tendo que lidar com seus problemas da forma fraca que sempre foi. Ela não podia perder , não agora que ele tinha lhe mostrado como ela poderia ser se decidisse se tornar dona de si mesma. Ela não poderia correr esse risco por culpa de uma paixonite absurda. Era mais do que errado.

- Me desculpe, eu não deveria ter feito isso. – disse, se afastando do rapaz e tentando se recompor. Ele ainda estava a encarando com uma expressão indecifrável – Eu vou embora. – a menina falou, girando o corpo e caminhando na direção da porta.
- Não, não vai. Espera, vamos conversar. – pediu, segurando a menina pelos braços – Por favor, não sai daqui assim, não depois disso.
- Eu tenho que ir para o concurso, vai começar a qualquer momento. – ela murmurou, desviando seu olhar do rapaz. Ela estava morta de vergonha.
- A gente precisa conversar sobre o que aconteceu, . – falou, fazendo com que ela levantasse o olhar.
- Não há nada para conversarmos, , foi um erro, uma atitude inconsequente de quem leva os conselhos alheios ao pé da letra. – se justificou, tentando se desvencilhar do rapaz.
- Eu... – começou a dizer, mas parou, pensando em como continuar sem soar atrevido – Eu não acho que tenha sido um erro. – ele se aproximou novamente dela, tocando seu rosto com a ponta de seus dedos – Pelo menos não da forma que você deve estar pensando.
- Eu preciso ir. – pediu, com a voz baixa, quase suplicante – Conversamos mais tarde, eu prometo. Sobre isso e sobre tudo mais que você queira saber, só me deixe ir agora, por favor. – soltou seu braço e deixou que suas mãos caíssem ao lado de seu próprio corpo. Ele parecia completamente anestesiado e sem reação, tanto que não conseguiu impedir que a menina deixasse seu quarto.

Dizer que tinha sido pego desprevenido era o mínimo que poderia fazer, mas isso não significava que tinha ficado desconfortável com a situação. Muito pelo contrário. O rapaz ainda conseguia sentir o corpo de junto ao seu e o gosto do seu beijo, mesmo que tenha sido por tão pouco tempo. Ele vinha lutando pelo que sentia desde o começo da semana, mas teve a certeza que após aquele beijo, ele não seria capaz de vestir o manto do profissionalismo e se tornar apenas psicólogo dela. Ele só pensaria nela, de como se os seus lábios tivessem se moldado perfeitamente aos dele, de forma que eles deveriam permanecer lá para sempre. Como controlar esse desejo louco depois de, finalmente, saber como é? Quando era apenas uma fantasia, um sonho, era fácil manter em segredo. Ele fingia que estava tudo bem e que era apenas mais uma paciente. Sem maiores envolvimentos. Só que depois do beijo que ela tinha dado nele, tudo caiu por terra, porque ele percebeu que o envolvimento era uma via de mão dupla. Era recíproco e seu coração parecia que ia explodir a qualquer momento. Ele sabia que a menina estava se sentindo mortalmente culpada nesse momento, como se aquele beijo fosse o maior pecado que ela pudesse cometer. Mas se um beijo fosse pecado, estava condenado a passar a eternidade no inferno, porque, em seu pensamento, ele já havia beijado milhares de vezes. E não se sentia culpado por isso. Nem mesmo um pouco. O inferno pareceria o paraíso.

Por mais que devesse se sentir culpada, não conseguia se sentir assim, não longe dele, sem aqueles olhos repletos de possíveis julgamentos. A culpa ocupava a menor parte de seus pensamentos agora. Sentia como se uma descarga de coragem e adrenalina tivesse sido liberada em seu corpo, era capaz de voltar até o rapaz e beijá-lo novamente. Uma, duas, dez ou mil vezes. Ela queria apenas senti-lo perto. Numa distância que seus braços pudessem vencer facilmente. Perto o bastante para sentir seu coração bater próximo ao dela. Perto o bastante para suas mãos se embrenhassem no cabelo do rapaz, e que ela pudesse deixá-lo ali em seus braços por toda a eternidade. Queria estar num espaço/tempo diferente, onde só houvesse distâncias fáceis de serem vencidas, nada de sentimentos não-correspondidos ou paixonites infantis e impossíveis. Ela o queria tanto, que nem sabia do que seria capaz. Sentia-se tola, boba, infantil e absurdamente apaixonada. Apaixonada, sim. Após um simples beijo, sim. Não era assim que os amores mais puros nasciam? Era como se uma felicidade tivesse dominado o seu corpo e agora longe dos olhos de , ela poderia libertar o que estava sentindo de verdade. Poderia brilhar. Naquele momento chegou à conclusão que ela não era o sol. era o sol e ela era a sua lua, refletindo toda a luz produzida por ele. Luz essa, que pra ela, significava algo como a vida.

Teria esquecido completamente da competição caso não tivesse sido encontrada por uma das organizadoras e encaminhada diretamente para o camarim. O show estava prestes a começar e só faltava ela. A menina nem reclamou quando a colocaram sentada na cadeira de maquiagem e voltaram a cobrir seu rosto de maquiagem. Ela queria que tudo acabasse, para que ela pudesse estar com mais uma vez. Morreria de vergonha? Provavelmente. Seria capaz de fingir que nada aconteceu? Dificilmente. Mas mesmo ciente de todas as consequências do seu ato, ela queria muito estar com ele. Porque, pra ela, apenas isso bastava. Precisava de para ter forças para continuar, para conseguir seguir na competição. Sem ele, era apenas um pequeno cordeiro pronto para o abate. Odiava pensar em si mesma como fraca, mas era a única forma que conseguia se enxergar. A autoestima era uma das coisas que precisava trabalhar e urgentemente. Quando levantou e se olhou no espelho novamente, viu outra pessoa. Ainda se via como um pedaço de carne dentro daquele biquíni, mas estava se achando... bonita. Não estava como uma boneca de cera, pálida e sem vida. Seu rosto tinha cor, os olhos estavam iluminados e o sorriso era verdadeiro. A beleza que ela enxergava não se resumia apenas à aparência física, enxergou algo dentro de si e gostou do que viu.
Esperando na fila pela sua vez, a menina se pegou pensando se estaria lá fora esperando pela vez dela, como no dia anterior. Lembrou-se de como a presença dele foi importante. Gostava de chamar isso de “efeito ”, porque ninguém mais no mundo tinha esse poder de fazê-la se sentir feliz com apenas um olhar. Esse era um poder que só ele tinha e ela não poderia perder isso. Não queria se permitir pensar em como aquele beijo pode ter estragado tudo, preferia acreditar que ele não levaria para o lado ruim e tomaria o ato como um impulso corajoso da parte dela, uma atitude impensada e despreocupada, como ele mesmo tinha pedido. Precisava de por perto, fosse apenas como amigo, como médico ou como qualquer outra coisa.

Deram o sinal e ganhou o palco, desfilando como nunca tinha feito, com uma desenvoltura incrível, uma postura mais confiante e com a felicidade estampada nos lábios. Sorrindo para o jurados, ela os conquistou, estavam todos na palma de sua mão, assim como a plateia, que gritava ensandecidamente pela menina. Lauren assistia a tudo quase que maravilhada, nunca tinha visto a filha tão poderosa na vida. Era como se tudo que a mulher sempre esperou de , estivesse se tornando realidade bem diante de seus olhos e ela mal podia acreditar. Uma sensação diferente tomou conta do seu corpo. Parecia difícil de aceitar, mas ela estava muito orgulhosa de sua filha. A mesma menina, que sempre pareceu não se importar com os planos da mãe, estava tendo seu momento de triunfo e glória no palco do Miss América. Em sua cabeça, , milagrosamente, tinha entendido como tudo aquilo era importante para o seu próprio futuro e estava levando a sério, como sempre deveria ter levado. Não se passava pela cabeça dela que houvesse outra pessoa responsável pelo sucesso da jovem além dela. Lauren dedicou sua vida toda para aquele momento e ela não deixaria que tirassem isso dela.

Só que mais ao fundo, quase que escondido, assistia a tudo aquilo de outra perspectiva. Era como se ele soubesse que tinha sido responsável por aquela mudança drástica de comportamento da menina. Era até estranho e complicado de entender como uma pessoa poderia ir de um quase surto, de uma crise de ansiedade eminente, para uma postura vitoriosa e confiante. Por alguns segundos mal conseguiu acreditar que aquela menina no palco era a , que era a sua menina. Talvez não fosse certo pensar dessa forma, mas as cartas já estavam todas na mesa, só não via quem não queria. , provavelmente, ainda não tinha entendido o que se passava na cabeça e no coração dele, mas estava disposto a fazê-la entender tudo naquela noite. Não poderia mais deixar para depois. Aquele beijo foi o marco de uma mudança brusca no relacionamento deles, ele não poderia assumir a postura profissional e fingir que não estava envolvido. Ele não poderia sentar para ter uma conversa séria, enquanto seu único desejo era tê-la em seus braços pelo restante da noite, da semana ou da vida. Riu de si mesmo ao perceber que quem estava prestes a ter um surto era ele mesmo e dessa forma não seria capaz de ajudar em nada, nem mesmo ser sincero a respeito do que sentia. Parecia que tinha quinze anos novamente, muito diferente dos vinte e sete que realmente tinha. Sentia-se um adolescente vivendo a primeira paixão, sem saber como agir, o que falar. Será que deveria ir direto ao ponto ou seria melhor procurar maneiras mais brandas de aproximação. Deveria ousar num novo beijo ou deixar que a iniciativa fosse dela novamente. Ele acreditava que não teria coragem de tentar algo mais uma vez, então agora seria a vez dele.

correu os olhos pela plateia, tentando encontrar de novo, mas não conseguiu dessa vez. Sentiu sua felicidade murchar um pouco, então deu meia volta e retornou para os bastidores, ou então era capaz de estragar toda a boa impressão que tinha causado. Ainda se sentia viva, mas parecia que tudo era como uma longa colcha de lã, onde tudo se desfazia, pouco a pouco, apenas puxando um fio. Era engraçado pensar em metáforas assim, porque essa era a definição de sua vida: se desfazer, pouco a pouco. Encarou-se no espelho pela terceira vez naquele dia e enxergou-se diferente mais uma vez, totalmente diferente da pessoa sem vida que viu no começo dia, mas também distante da mulher poderosa que a encarou de volta minutos antes. Ela estava num limiar interessante, quase num meio termo, onde ela poderia manter-se sem muitos problemas. Não tão inerte perante a vida, mas também não tão disposta a encantar tudo e a todos. Assim como uma pessoa normal deveria ser, com seus medos e anseios, momentos de confiança e insegurança. queria ser assim: normal. E rezava a Deus todos os dias para conseguir isso.
As candidatas foram chamadas de volta ao palco e ninguém se espantou quando o nome de foi o primeiro a ser chamado. Aquele havia sido o momento de glória da menina, onde todos aprenderam seu nome e perceberam que ela era, sim, uma candidata forte e de respeito. Os olhos de Lauren brilhavam e ela mal podia esperar para encontrar-se com a filha e falar sobre todas as propostas que foram feitas. havia conseguido chamar atenção de todos, exatamente o que a mãe queria desde o início. Após o final dessa rodada, as candidatas Arkansas, Mississipi, Missouri, Oregon, Pensilvânia, Virgínia Ocidental, Washington, Illinois, Massachusetts e Michigan foram eliminadas e deixaram a competição.

Assim que saiu do camarim, foi cercada por um monte de pessoas que não conhecia e se assustou. Procurou por um rosto conhecido e o único que avisou foi o de sua mãe, que caminhava rapidamente em sua direção. Lauren tinha um sorriso gigantesco nos lábios e a menina sentiu-se até mesmo feliz de ver a mãe a olhando daquela forma tão amorosa. A mais velha passou os braços ao redor do corpo da filha, a puxando para um abraço, ao mesmo tempo em que a afastava da mini confusão que tinha começado no meio do saguão. Ela murmurava sobre convites para fotos e comerciais, assim como algumas propostas de patrocínio. não parecia muito interessada em saber de qualquer coisa, mas vendo a animação da mãe, ela apenas deixou que ela falasse e balançava a cabeça, afirmando, quando lhe perguntava algo. Ela queria mesmo encontrar com , mesmo que isso significasse morrer de vergonha. Mas a menina queria, e esperava ter coragem, falar com ele e se desculpar pelo seu comportamento inapropriado. queria muito acreditar que não tinha posto tudo a perder e almejava que o rapaz pudesse entender e perdoar seu abuso. Ela mesma não estava arrependida de ter feito o que fez, porque sabia que não poderia viver com o sentimento de “como deveria ser” a respeito do beijo dele. Que, aliás, tinha sido maravilhosamente perfeito para ela, mesmo tendo sido rápido. Foi breve e inesquecível.

Já em seu quarto e longe de qualquer pessoa, a menina se pôs a pensar em e se perguntava se deveria retornar até o quarto dele, para dar um fim à sensação estranha que lhe dominava e fazia com que ela se sentisse como se o seu coração estivesse sendo apertado a ponto de deixá-la sem ar. Decidida a deixar tudo esclarecido, ela vestiu-se de qualquer maneira e caminhou para fora do quarto. Mas assim que abriu a porta, assustou-se, porque estava parado no corredor, bem em frente ao seu quarto. Sua expressão se tornou confusa e ela encarou o rapaz como se perguntasse po’rque ele estava ali parado.

Coloque, caso queira, essa música para tocar.

- O que você tá fazendo aqui? – ela perguntou, vendo passar a mão pelos cabelos, visivelmente sem graça.
- Eu estava tomando coragem para bater na porta. – confessou, vendo a menina franzir a testa, ainda sem entender – A gente pode conversar agora? – sentiu o sangue gelar e percebeu que não estava pronta para tal conversa, mas também se viu sem escapatória.
- Claro, entra. – respondeu, dando passos para trás e deixando espaço para que o rapaz passasse.
- Não sei bem como começar a falar. – sorriu de lado, parando bem no meio do cômodo e encarando a menina. Seus olhos estavam brilhando e ele rezava para que eles pudessem dizer o que ele não conseguia, porque as palavras faltavam.
- Então eu falo. – disse, fechando a porta e respirando fundo – Preciso te pedir desculpas por hoje mais cedo. – balançou a cabeça lentamente, como se negasse o pedido de desculpas dela, mas não era isso. Ele não queria que ela se desculpasse por algo que ele mesmo queria fazer – Acho que levei seu conselho muito ao pé da letra. Talvez até demais mesmo. Então vou entender se você não quiser manter contato comigo, assim profissionalmente. Vai ser difícil, mas eu terei que aceitar. – ele fechou os olhos com força, tentando se controlar, mas era difícil demais vê-la naquela situação, mortalmente culpada por nada. Provavelmente ela tenha se martirizado o dia todo, esperando que ele a deixasse sozinha no fim do dia. Será que ele parecia assim tão desumano no olhar dela? – Creio que ultrapassei todas barreiras que deveriam existir entre nós dois, extrapolei todos os limites e... – não deixou que ela terminasse a frase, porque ele eliminou a distância que existia entre eles e juntou seus lábios da forma que todo o desejo, que ele havia acumulado durante todo esse tempo, pedia. O rapaz fez com que ela caminhasse para trás, até que a menina sentisse a parede contra as suas costas. Suas mãos seguraram ambos os lados do rosto de e ele sentia como que toda a tensão que ela tinha em seu corpo dissipasse. Com a tensão e o medo esvaindo, pode, enfim, aproveitar aquele momento único em sua vida. Suas mãos subiram pelas costas do rapaz, como se quisessem ter certeza de que ele estava ali de verdade, que aquele beijo não era fruto de sua mente e que dessa vez ela não era a culpada. Ele tinha tomado a iniciativa e isso, com certeza, significava alguma coisa.

I don't believe that anybody
Não acredito que alguém
Feels the way I do about you now
Sinta o mesmo que eu sinto por você agora


tentava a todo custo fazer com que ela entendesse tudo o que ele sentia através daquele beijo. Queria que , finalmente, compreendesse o que ele sentia e que parasse se culpar sem motivo. Pois, caso ela não tivesse tomado a iniciativa antes, ele tomaria em algum momento. Porque ele já estava chegando ao seu limite e não conseguiria manter a postura profissional por muito tempo. O que sentia por ela era algo tão diferente, que até mesmo ele não conseguia explicar com facilidade. Ele queria protegê-la, mantê-la por perto, a salvo de qualquer pessoa que pudesse e quisesse fazer mal. Queria tê-la em seus braços, beijá-la e amá-la da forma que ela merecia de verdade e não como ela achava que merecia.
estava em estado de graça. Não havia outra palavra que pudesse definir como ela se sentia naquele momento. O coração parecia que saltaria do peito, o ar não parecia suficiente em seus pulmões, mas ela nem sequer cogitava a ideia de separar seus lábios dos de . Ela queria que eles ficassem ali, presos, para sempre. Que o tempo parasse e os braços dele fossem sua morada eterna. Queria sentir as mãos dele em seu corpo. Queria que ele sentisse como que sua pele quase fervia, como o corpo dela regia ao contato dele. Ela queria mais dele, muito mais. Nada nunca seria o suficiente.

- Pare... de se desculpar. – o rapaz sussurrou, com os lábios ainda juntos ao . Suas respirações aceleradas estavam em sincronia e seus olhos estavam presos ao do outro – Pare de se culpar por fazer algo que eu desejava há tanto tempo.
- Você... – ela tentou responder, mas não encontrava palavras para isso. Ele a desejava também e há muito tempo, por sinal – Você e eu, não faz sentido. Olhe pra mim, .
- Eu estou olhando. Estou olhando e encantado pelo que vejo. Você precisa entender, precisa enxergar o quão maravilhosa é. Assim, ao natural, sem maquiagem, roupas finas ou qualquer outra coisa. – colocou uma das mãos no rosto da menina, fazendo com ela o olhasse – Você é a pessoa mais linda que eu conheço. Bonita de tantas formas, que eu não me sinto merecedor de estar aqui com você. – o sorriso que ela deu em resposta foi indescritível. parecia não conseguir se conter dentro de si mesma, sentia como se fosse explodir. Explodir de felicidade. Ela não conseguiu pensar em nenhuma resposta que fosse suficiente para ele, a não ser puxá-lo para mais um beijo. Ela queria que isso dissesse todas as palavras que lhe faltavam. Queria seu corpo respondesse por ela. Queria que seu sentimento falasse mais alto. E queria, mais que tudo, que aquele dia não acabasse nunca. E que continuasse em seus braços pelo restante da vida.

Because maybe, you're gonna be the one that saves me
Porque, talvez, você será aquele que me salvará
And after all, you're my wonderwall
E depois de tudo, você é meu protetor



6.

  Quinto Dia
   Did all the things that you said that I wouldn't
   I told you that I would never be forgotten
   I know that's part of you
   You took it out, but I'm still breathing
   I'm alive
  (Sia - Alive)

- Não, não, não. Isso tá horrível. – Lauren disse, fazendo com que parasse no meio do movimento. – Você não está leve o bastante, seus movimentos estão muito presos. – a menina rolou os olhos, colocando as mãos na cintura. – Como espera fazer o salto se o seu corpo não está alongado?
- Desde quando você é bailarina profissional, mãe? – perguntou, impaciente. – Eu não danço balé há muito tempo, isso não vai dar certo.
- E o que você quer fazer na prova de talentos? Vai ficar lá em cima do palco reclamando? Porque essa tem sido uma de suas maiores habilidades.
- Se a senhora não tivesse me tirado das aulas anos atrás, eu não estaria com dificuldades agora.
- Não me faça falar sobre isso agora, você sabe muito bem os motivos, não se faça de boba. – olhou para a mãe, encarando-a sem lhe dar a devida atenção. Sua mente estava longe, mais precisamente no oitavo andar do prédio. provavelmente ainda estava dormindo, já que eram apenas seis da manhã, mas Lauren fez com que ela acordasse as cinco, só para praticarem até quase a exaustão.
- Mãe, será que podemos tomar café agora? Eu estou faminta. – disse, vendo a sombra de um sorriso surgir nos lábios de Lauren.
- Café da manhã? A essa altura do campeonato? Aposto que quer se entupir de carboidratos e açúcar. – o sorriso se alargou, tornando-se meio debochado. – Tá com fome, beba água. Se achar que vai desmaiar, coma um pedaço de queijo. Não entendo como você ainda não aprendeu essas coisas básicas.
- Eu aprendi todas essas “coisas básicas”, como você fala, mas não quero ter que lidar com as dores de estômago que esses regimes forçados me dão. – a voz da menina saiu tão firme, que fez com que a mãe virasse o corpo para lhe olhar nos olhos.
- Você não quer? – perguntou, num tom descrente. – E desde quando você acha que manda em alguma coisa? Enquanto você viver debaixo do meu teto, comer a comida que compro e eu pagar as suas contas, você vai me obedecer. – Lauren se aproximou da filha, dirigindo a ela um olhar cheio de raiva. Esperou que a menina se intimidasse, mas isso não aconteceu. continuou a encará-la, sustentando seu olhar a mesma intensidade.
- Acontece que o dinheiro que você usa para pagar as minhas contas, como disse, tecnicamente, é meu. Eu ganhei cada centavo que você gastou nos últimos três anos. Então não tente aplicar esse golpe do “eu te sustento”, porque nós duas sabemos quem leva o dinheiro pra casa. – Lauren sentiu o peso das palavras da filha e seu sangue ferveu. – O que foi, mãe, vai me bater? – perguntou, vendo a mão direita da mais velha erguida. – Não se esqueça que eu preciso parecer deslumbrante em algumas horas ou então não teremos dinheiro para comida nos próximos meses. – Lauren abaixou sua mão e virou as costas, caminhando na direção da porta. E sem olhar para trás, disse:
- Se vire sozinha agora. – e saiu, batendo a porta, deixando sozinha no estúdio improvisado, encarando a parede e querendo desaparecer.

A menina caminhou e sentou-se contra a parede, apoiando seu corpo e deixando a cabeça bater contra a superfície dura. O peso de suas próprias palavras desabou sobre si, fazendo que ela caísse num exame profundo de consciência. Primeiro, ela queria saber de onde veio aquela força que fez com que ela respondesse a mãe como fez. Durante tantos anos, ela ouvia tudo o que Lauren tinha a dizer e nunca se manifestava, mesmo quando ela estava gritando palavras horríveis por dentro, sua expressão continuava impassível. tinha aprendido a lidar com as coisas assim, sem brigar, somente aceitando o que a mãe impunha. Mas hoje alguma coisa tinha mudado dentro dela, parecia que as amarras estavam se soltando, uma a uma, começando pela que prendia sua língua. Ela se sentia tão em paz consigo mesma, que chegou a conclusão que não conseguiria mais se submeter às ordens absurdas de Lauren. Ela estava livre. E uma vez livre, ela não seria enclausurada novamente.

caminhou até o restaurante, segura que deveria, e merecia, um bom café da manhã. Não aguentaria passar mais um dia das fortes dores estomacais que o jejum forçado lhe causava. Serviu-se de um copo de suco de laranja, algumas frutas e até ousou num pedaço de bolo de chocolate. Observou os olhares acusatórios das outras candidatas, mas nada atrapalharia aquele momento. O gosto de chocolate a fez mais feliz do que ela imaginava. Ela riu de si mesma, sentindo-se boba o bastante para que um simples bolo pudesse deixá-la feliz.
Notou alguém se aproximar e sentiu que era antes mesmo que ele pudesse se sentar. Ela alargou o sorriso e olhou na direção do rapaz, recebendo o mesmo gesto em troca. Ele se acomodou ao seu lado, mas parecia um pouco sem jeito. também achava que ficaria envergonhada ao lado dele, depois do que tinha acontecido na outra noite, mas até estranhou o fato de não querer correr dele imediatamente. Na verdade, ela queria correr para ele. Tocar seu rosto, beijar seus lábios e sentir o corpo dele junto ao seu. Mas sabia que deveria se controlar, porque, para todas as outras pessoas, eles eram apenas psicólogo e paciente. não sabia bem o que eles tinham, mas tinha certeza que já estavam um passo além disso.

- Tomando café sozinha? – a voz de soou calma e reconfortante. – Cadê sua mãe?
- Nós tivemos um pequeno desentendimento e eu não faço ideia de onde ela está. – a menina deu de ombros, quase agradecida pelos momentos de paz.
- Desentendimento? Algo muito ruim?
- Digamos que eu tive coragem para rebater um comentário maldoso pela primeira vez na vida. – respondeu, convencida, antes de colocar mais um pedaço de bolo na boca.
- Wow. Isso é grande, isso é muito importante. Quer me falar mais sobre isso? – perguntou, extremamente interessado.
- Bem, depende. É o psicólogo ou o que está interessado nesse momento?
- Os dois. – ele riu, passando a mão pelo cabelo. – Não consigo negar minha natureza.

Eles se sentaram na beira da piscina, com a água molhando grande parte de suas pernas. O vento estava fresco e bagunçava todo o cabelo de . Ela respirava tranquilamente, numa sensação maravilhosa de paz. Não sabia muito bem o porquê estava se sentindo assim, mas ela gostava. Olhou para o rapaz ao seu lado e sentiu ainda melhor. lhe fazia tão bem, que ela não conseguia imaginar como seria ter que lidar com tudo quando a competição terminasse. Ainda que estivesse mais confiante, sabia que seria difícil conviver com Lauren e suas eternas cobranças. Ela não aguentava mais a pressão que sua mãe fazia, mas não enxergava nenhuma forma de se libertar. O que faria da sua vida? Precisava, ao menos, do teto que Lauren colocava sobre sua cabeça.

- Eu não deveria estar aqui com você. – confessou, segurando um sorriso. – Deveria estar lá dentro, praticando para a prova de habilidades. Mas, aparentemente, você está criando um monstro irresponsável. – riu, com os olhos brilhando.
- E o que você vai fazer? Qual é o seu talento?
- Eu danço, ou melhor, tento dançar balé. Estudei por muito tempo, mas tem uns seis anos que eu não pratico com a frequência que deveria. Sempre que minha mãe me inscreve num concurso, eu entro num processo de treinos intensivos e quando o concurso passa, eu deixo de lado.
- Por que você parou, não gostava? – perguntou, visivelmente interessado.
- Não, eu sempre amei. O problema foi com a minha mãe e... com o meu pai. – levantou a cabeça, prestando mais atenção. nunca tinha falado sobre o pai antes.
- Eles brigaram?
- Antes fosse só isso. – comentou, balançando as pernas e jogando um pouco da água da piscina pro alto. – Eles não se suportam. Não conseguem ficar no mesmo ambiente por mais que dois minutos sem começarem a gritar se xingarem. Ainda não sei como conseguiram ficar casados por sete anos.
- É por isso que você nunca fala do seu pai? Vocês também são brigados?
- Não, eu amo meu pai e tenho certeza de que ele me ama também. O problema é que ele nunca aceitou a forma com que minha mãe tentava conduzir a minha vida. Ele tentou interferir, mas o máximo que conseguia era causar uma confusão enorme. – ela parou por alguns segundos, como se pensasse no que falar a seguir. – Acho que minha mãe o culpa por tudo que deu errado na vida dela. Ela iria participar do Miss América, que era o seu grande sonho, mas engravidou no ano que conseguiu se classificar. Então ela sempre jogou o peso dos seus sonhos frustrados no meu pai e tudo acabou sendo ricocheteado em mim. – deu ombros, como se quisesse tirar o peso daqueles sonhos que não eram seus, mas que foram jogados em cima dela.
- Você já tentou conversar com a sua mãe sobre isso? – perguntei, recebendo um olhar descrente em resposta.
- Você tá tentou conversar com a minha mãe sobre qualquer coisa? – rebateu a menina, sem deixar muita abertura para que pudesse respondê-la. – Minha mãe é uma pessoa muito difícil, ela acredita que tudo deve ser feito da forma que ela quer e não aceita um não como resposta. Foi por isso que eles se separaram e que ela sempre dificultou que eu me encontrasse com o meu pai, o que leva diretamente ao meu afastamento do balé. A dança era uma coisa nossa, sabe? Ele sempre me levava, sempre ficava me assistindo, com aquele olhar de pai babão. – ela sorriu de lado, mas não era um sorriso de felicidade, era um gesto saudoso, quase triste. – Acho que tem uns três anos que eu não o vejo, a gente se fala pelo telefone, mas ele se mudou e minha mãe nunca me deixou visitá-lo. – a menina o olhou pelo canto dos olhos e mordeu os lábios – É essa a hora que você sai correndo?
- Eu não vou sair correndo. – disse, passando as mãos pela própria perna e deixando que uma, (des)propositalmente, esbarrasse na de . A menina sentiu seu toque, mas não fez nenhuma menção de se afastar. Ela tinha perdido totalmente o medo do contato na noite anterior. A barreira tinha sido rompida, afinal. Eles ainda não tinham conversado sobre os beijos que trocaram, mas era bem nítido que ainda pensavam, e muito, nisso. – E eu acho que precisamos conversar. – sentiu o sangue gelar um pouco. Aquelas palavras combinadas numa frase nunca significavam algo bom. Ela respirou fundo e olhou para , observando seus olhos se misturando aos raios do sol. Ele era lindo demais. Mais do que ela podia sequer pensar em ter na vida.
- Não vai nem esperar o concurso acabar para me dispensar? – ela perguntou, colocando uma das mãos acima dos olhos, cobrindo-os do sol. O rapaz sorriu de lado, balançando a cabeça lentamente. Ele pegou a mão que ela usava para cobrir o rosto e colocou entre as suas e começou a acariciar delicadamente.
- Quando eu disse que não vou sair correndo, eu realmente quis dizer isso, em todos os aspectos. – uma de suas mãos subiu pelo rosto da menina, tocando sua bochecha e fazendo-a olhar em seus olhos. – Não pense que aqueles beijos de ontem não significaram nada. Agora mesmo, eu estou me segurando bastante para não te beijar novamente, mas isso custaria meu emprego. Já estou colocando-o em risco só por essa proximidade. – ele suspirou, se afastando um pouco e mantendo uma distância mais aceitável. – Por isso precisamos conversar, não posso ceder a tentação de te beijar toda vez que te vejo, assim como não sei se consigo manter nossa relação apenas profissional.
- , não, por favor...
- Eu preciso ter um afastamento do paciente e com você eu já estou mais do que envolvido, não consigo manter as coisas num limite tolerável.
- E eu não consigo me abrir com outra pessoa. – disse, interrompendo-o bruscamente. – Tudo o que eu te falei sobre a minha mãe, eu nunca disse pra mais ninguém, nem mesmo para o meu pai. Se você me deixar agora, eu não vou ter mais ninguém pra me ouvir e há grandes chances de que eu enlouqueça. Eu não sei o porquê, mas tem alguma coisa em você que me passa confiança e eu preciso disso para continuar aqui, pra continuar sã. Então não se afaste dessa maneira, se for necessário, nós esquecemos os beijos e...
- Você consegue? – sorriu de lado, vendo a resposta estampada no rosto da garota.
- É claro que não, mas posso tentar. Falharei vergonhosamente, mas posso tentar. – deu de ombros, vendo o rapaz ao seu lado alargar o sorriso.
- Podemos fazer assim: nós vamos tentar, ao máximo, fingir que não aconteceu nada, então eu poderei te ajudar nos problemas com a sua mãe. E sempre que a gente sentir que não dá mais pra fingir, eu deixo de ser o psicólogo, você deixa de ser minha paciente. Você passa a ser a e eu serei o . – ela o encarou pelo canto dos olhos, mordendo o lábio inferior. Um sorriso travesso surgiu em seus lábios antes que ela pudesse falar:
- E quem é você agora? – o rapaz alcançou seu estado de espírito, olhando rapidamente para os lados antes de levantar e estender uma das mãos para a menina.
- , com muito prazer.

Os poucos minutos que ficou com na segurança do quarto dele foram primordiais para . Agora estava tão mais disposta, feliz e concentrada. Talvez não ter Lauren gritando no seu ouvido também fosse um diferencial muito importante. Ela conseguiu ensaiar mais um pouco, não ficando totalmente satisfeita com a coreografia, sabendo que era o máximo que poderia fazer como tempo que estava afastada das aulas. Em meio a piruetas e plies, ainda conseguia sentir as marcas do rapaz em sua pele, o leve deslizar de sua barbar por fazer, o toque macio dos lábios contra os seus e o gosto doce do seu beijo. Ela se sentia nas nuvens, como se pudesse flutuar. E precisava se prender a realidade para não sair voando por aí em seus pensamentos. Tinha que se concentrar para prova de hoje e conseguir organizar uma coreografia por si mesma, com poucas horas para a apresentação. Lauren ainda estava sumida e a menina dava graças por isso. Era bom ter que lidar apenas consigo mesma. Resolver seus próprios problemas, ela sabia que era capaz. E enquanto estava no camarim terminando de se arrumar, fechou os olhos e se lembro da única coisa que realmente importava quando ela pensava em balé: Robert, seu pai.
Ela conseguia até mesmo ouvir sua voz, a risada gostosa que ele dava, sempre que a menina tentava uma pirueta e acabava errando. Ele ria, mas sempre a incentivava a tentar novamente. Ele era uma das melhores pessoas do mundo todo e Lauren não deixava que eles se encontrassem. Não era culpa dela se eles tinham brigado. Não era culpa dela se o casamento tinha acabado. Não era culpa dela se Robert tinha uma nova família agora. Ele sempre falou que tinha espaço para se ela quisesse, mas a menina sempre ficou pensando se a nova mulher dele iria mesmo aceitar uma garota já crescida, filha de outro casamento, morando junto com eles. Não que ela tivesse sido maltratada, elas nem mesmo se conheciam, mas sofria demais por antecedência, um sofrimento muitas vezes desnecessário. Ela podia muito bem deixar Lauren para trás, tentar viver com Robert e sua nova mulher. Ela poderia ter uma nova vida, ela poderia ser feliz. Mas será que ela seria capaz?

A menina amarrou a sapatilha de ponta em seus pés e se olhou no espelho. Por alguns segundos se viu novamente com oito anos de idade e se sentiu pequenina como tal. Piscou algumas vezes para que aquela imagem sumisse de sua frente, mas a menininha continuava a lhe encarar. Parecia que ela queria lhe dizer alguma coisa, mas não entendia. Pensou logo estar ficando louca novamente, mas lhe ocorreu que talvez aquele pudesse ser um sinal. Um bom sinal, para variar um pouco. Ajeitou o tutu branco, ainda sendo observada e tendo todo e qualquer gesto repetido pela menininha no espelho. Balançou a cabeça, desistindo de entender a si mesma. Respirou fundo e seguiu um dos rapazes da organização, parando nos bastidores, logo atrás da cortina. De lá, pode ouvir a candidata que se apresentava antes dela, que tentava cantar uma versão bem ruim de The Way You Look Tonight do Fred Astaire e, de repente, ela não estava mais preocupada em ser a pior do dia. Mas a quantidade de palmas que seguiam a apresentação da candidata da Luisiana fez com que questionasse a sua capacidade de julgamento. Ou talvez as outras tenham sido ainda piores.
A menina lembrou-se da música que costumava se apresentar, mas ela não estava mais no espírito de dançar um pedaço de uma sinfonia qualquer de Beethoven ou qualquer coisa do tipo. Ela queria assumir o controle de algumas coisas de sua vida, nem que tivesse que começar pelas pequenas. E então correu até os bastidores, chamando atenção de todos ao seu redor. Vasculhou sua bolsa atrás de um pendrive que deveria estar ali em algum lugar. O encontrou embolado junto ao seu casaco, respirando aliviada. Ela tinha colocado uma música ali, que estava esperando um momento para mostrar para a mãe, mas nunca encontrou a hora certa. Mas estava cansada de esperar. Respirou fundo e voltou, apressada, atrás do responsável pelas músicas que seriam apresentadas. Quando chegou aos bastidores, encontrou um rapaz desesperado a sua procura e pediu, fervorosamente, para que ele alterasse sua música. Disse que era a única que estava salva no pendrive, não tinha erro. Viu que o homem estava meio incerto, então lançou um de seus melhores sorrisos, seguido de um “por favor”. Aquilo fez a guardar o rapaz abaixar e ele acenou com a cabeça, desaparecendo pelo corredor em seguida. Sentiu-se horrível por usar daquele artifício, mas era a única coisa que poderia fazer. Preparou-se mentalmente para o que viria a seguir, mesmo sabendo que todo e qualquer preparo nunca seria o bastante. Olhou para o grande espelho que tinha ao seu lado esquerdo, ainda enxergando a menininha em si mesma. Sorriu pra ela, vendo aquele sorriso espelhado acender uma pequena fagulha em seu coração. Ela não estava sozinha. Seu nome foi chamado e ela entrou no palco, parando bem ao centro. Ouviu as palmas, alguns gritos, mas estava tão concentrada, que nem lembrou mesmo de levantar a cabeça. Elevou uma das mãos, seu pé esquerdo ficou em ponta, enquanto o direito repousava, juntamente com o braço. As luzes diminuíram e a luz do refletor brilhou sobre ela, que respirou fundo e olhou para frente. Seu sangue gelou e ela sentiu como se fosse cair. Seu coração batia tão acelerado, que parecia eu ele sairia pela boca a qualquer momento. não estava acreditando no que estava vendo.

Coloque, caso queira, essa música para tocar quando a letra aparecer.

Piscou algumas vezes, revezando seu olhar confuso entre a multidão e a única pessoa que parecia olhar verdadeiramente pra ela. O sorriso ainda parecia ser o mesmo, com as ruguinhas se formando entre as sobrancelhas e as covinhas nas bochechas. A menina encontrou o olhar de Lauren na multidão e queria gritar, perguntando se ela também não estava vendo Robert ali. Era ele, era o seu pai. Ele estava ali para vê-la, para ajudá-la. Mas quando a mulher olhou para trás, sua expressão deixou claro que ela não estava vendo nada. Mas estava e bem claramente. Voltando seu olhar pra frente, ela enxergou o pai ainda mais perto, como se pudesse tocar em seu rosto. Ele ainda sorria, da mesma forma encorajadora de sempre. E de forma alta e clara, a menina pode ouvir sua voz soar em seus ouvidos:
“Dance pra mim, minha filha.”
E ela não tinha outra alternativa a não ser atender seu pedido.

Party girls don't get hurt
Garotas festeiras não se magoam
Can't feel anything when will I learn
Não sentem nada, quando vou aprender
I push it down, I push it down
Vou desmoronar, vou desmoronar


A menina percebeu que ainda estava parada e que a música já tinha começado. Todos a encaravam de forma estranha e ela sentiu como se tivesse tudo perdido. Então ela dançaria para Robert. Dançaria como seu pai gostaria que ela fizesse. Ela o deixaria orgulhoso, onde quer que ele estivesse. E conforme essa certeza e vontade tomavam conta do seu corpo, ela se sentia cada vez mais livre. Livre das amarras, livre dos medos, livre de todas as preocupações. Ela sentia como se pudesse voar. Então todo e qualquer salto, pirueta que dava, era como ela estivesse leve o suficiente para tocar o céu. Ela sabia que seus movimentos estavam longe de serem aqueles de uma apresentação perfeitamente técnica que o balé clássico pede. Mas, naquele momento, ela estava dançando com o coração.

I'm gonna live like tomorrow doesn't exist
Vou viver como se não houvesse amanhã
I'm gonna fly like a bird through the night
Vou voar como um pássaro pela noite
Feel my tears as they dry
Sentir minhas lágrimas enquanto elas secam


O misto de emoções que a invadia era assombroso, precisava se concentrar. Fechou os olhos e começou a imaginar que estava sozinha ali, apenas ela. A melodia invadiu suavemente, tranquilizando-a quase que instantaneamente. Seus braços ganharam vida e a imagem do seu pai segurando suas mãos, sorrindo e dançando com ela pela sala de sua antiga casa, invadiu seus pensamentos. A menina lembrou-se claramente de um conselho que Robert lhe deu quando tinha seis anos e estava em seu quarto, ensaiando para a sua primeira apresentação na escola. Ele entrou, chamando a atenção da filha, e ela o encarou com os olhos medrosos e ao mesmo tempo ansiosos. O mais velho sorriu, segurando suas mãos e disse que quando ela estivesse com medo, que era pra eu imaginar que estava dançando em frente ao espelho, apenas com o seu reflexo. E era isso que estava fazendo agora. Era isso que ela estava vendo o dia todo. Vendo o reflexo da pequena de oito anos de idade. nunca esteve sozinha, Robert sempre esteve com ela de alguma forma, a menina só não tinha percebido.

But I'm holding on for dear life
E estou aguentando firme pela vida
Won't look down, won't open my eyes
Não vou olhar para baixo, não vou abrir os meus olhos


Ela girou o corpo diversas vezes, sem ter medo de perder o equilíbrio ou algo do tipo. Ela estava segura. Os movimentos pareciam fluir de seu corpo, como se ela não precisasse faze nenhum esforço para executá-los. A confiança que demonstrava em si mesma era tamanha, que ela se sentiu confortável para arriscar e ousar na coreografia, para tentar alguns passos que não fazia há anos. Mas sua sequência de giros foi perfeitas e ela emendou com um grand jetés quando estava no centro do palco, com o salto mais alto que já conseguiu dar na vida. Um sorriso brotou em seus lábios e ela conseguia sentir o sangue correr em suas veias, mostrando que estava viva e algo dentro dela gritava que era assim que ela deveria se sentir sempre. Quando a música acabou, percebeu que estava no chão, como se acordasse de uma espécie de transe. Abriu seus olhos lentamente, vendo que todos a encaravam ainda boquiabertos. E enquanto se levantava, já se preparando para sair do palco, ela se surpreendeu com a quantidade de aplausos que seguiram. Era um barulho meio ensurdecedor e ela estava até sem jeito. foi ovacionada de pé por todo o teatro. Seu olhar buscou por Robert, mas o encontrou apenas em sua cabeça, sussurrando um “bom trabalho” em seu ouvido.

I'm just holding on for tonight
Eu só estou aguentando firme essa noite

Não parecia surpresa para ninguém quando foi a primeira a ser chamada após todas as apresentações. As candidatas restantes ocupavam o palco, lado a lado, e a menina, timidamente, caminhou até o centro dele após seu nome ser dito por um membro da organização. Com isso ela tinha conseguido uma vaga na fase televisionada da competição, para delírio de Lauren. A mais velha mal conseguia conter a excitação, conversando animadamente com alguns homens na plateia, enquanto a menina encarava o chão, em cima do palco, evitando o olhar de todos. No fim daquele dia, as candidatas da Carolina do Sul, Colorado, Connecticut, Dakota do Norte, Alabama, Arizona, Wisconsin, Wyoming, Vermont e Virgínia deram adeus a competição. As vinte classificadas fizeram uma pequena formação no palco, recebendo uma chuva de flashes. Sorrisos enormes eram evidentes, mas uma expressão chamava atenção em meio a todas. estava meio impassível, um pouco aérea, quase alheia a toda aquela situação que a cercava. Era como se ela não tivesse se dado conta do que estava acontecendo. Sua mente estava em outro lugar, com outra pessoa... Ela precisava ver seu pai.

caminhou animadamente na direção da menina, carregando o celular em sua mão. Ainda não acreditava no que tinha visto e nem se lembrava de quantas vezes tinha revisto a gravação que fez. estava espetacular naquele palco. Ele não fazia ideia o quanto ela era talentosa, o quanto ela sabia dançar, como ela era capaz de transmitir tanto sentimento através do seu próprio corpo. E ele tentava, inutilmente, buscar palavras para dizer o quão maravilhado ele estava, mas ao mesmo tempo em que mil vinham à sua mente, nenhuma parecia boa o bastante. havia sido majestosa demais para que palavras pudessem descrever. E agora ela estava cercada de pessoas que nem pareciam se importar com a maravilha que ela tinha acabado de fazer e sim com a real possibilidade de sua vitória. Porque após o desfile deslumbrante e essa apresentação incrível, ela tinha despontado como uma das principais candidatas a coroa, então todos queriam criar laços, contatos e assim conseguir qualquer coisinha com a sua vitória.
Lauren estava em êxtase, mal conseguia conter o sorriso que rasgava seu rosto de orelha a orelha. Andava pelo salão ao lado da filha, segurando-a pelo braço como se ela fosse sua joia mais preciosa. E ela era. Mas não naquele sentido. Ela fez questão de fingir que tinha esquecido o desentendimento que haviam tido na manhã do mesmo dia, até mesmo tinha dito que havia sido uma excelente ideia a mudança da música, porque segundo “algo mais atual é mais apelativo”. Claramente Lauren não havia entendido nada da música, nem sequer tinha prestado atenção na letra. Mas se mantinha ao seu lado, caminhando de um lado ao outro, como se não tivesse nada mais importante a fazer. Mas não era bem isso que a menina estava fazendo, ela corria os olhos pelo lugar, procurando por certo par de olhos , cujo dono faz seu coração bater mais forte, suas mãos suarem e sua respiração falhar só olhando em sua direção. E ela o encontrou parado no meio do caminho onde estava com a mãe, como se decidisse se devia ir até ela ou não. Decidiu então fazer essa escolha por ele. Não se deu o trabalho de pedir licença ou algo do tipo, Lauren não estava preocupada com ela, sua conversa com o homem de terno marrom parecia mais interessante.
Os olhos dos dois se encontraram e sorriu, indicando a área da piscina com a cabeça. Ela caminhou até a parte externa, sentindo a brisa fresca em sua pele e, logo em seguida, o toque macio e quente de . Suas mãos se entrelaçaram e ele a puxou para um canto mais afastado, onde eles teriam mais privacidade. E assim que estavam protegidos dos olhares curiosos, seus lábios se encontraram, sem indícios de intenção de se deixarem. Ela tocava o rosto do rapaz, embrenhando seus dedos nos fios de cabelo de sua nuca, enquanto ele a puxava pela cintura, deixando seus corpos mais próximos. Com as respirações compassadas e sorrisos inexplicáveis nos lábios, eles se olharam, mas não falaram nada. Ficaram apenas se encarando no escuro, com o brilho de seus olhos sendo, praticamente, a única referência de luz que tinham.

- Você estava maravilhosa. – sussurrou, vendo a menina fechar os olhos e balançar a cabeça, negando. – Eu não sabia que você era tão talentosa.
- Para com isso. – ela pediu, colocando um dedo sobre os lábios dele. – Não precisa falar essas coisas para me agradar.
- , você já se viu dançando? Ou melhor, você já dançou como hoje algum dia da sua vida?
- , acho que eu tô ficando louca de verdade. – ela confidenciou, mordendo o lábio inferior, sem saber como explicar as coisas que tinha visto. – Hoje eu vi o meu pai, quando eu entrei no palco. Ele estava lá na plateia, no fundo do teatro, por isso que eu travei no início da coreografia. Depois eu pisquei e ele apareceu bem na minha frente. Eu ouvi a voz dele claramente. Fora que toda vez que eu me olhava no espelho, eu via o reflexo de mim mesma com oito anos de idade. – ela riu de nervoso, passando a mão pelo cabelo. segurou uma de suas mãos e colocou em seu peito, respirando fundo. – Eu estou completamente louca.
- Você não está louca. – disse, com a voz baixa e tranquila. Ele levantou a mão que segurava da menina, dando um beijo em cada dobrinha dos dedos, vendo sua expressão suavizar aos poucos. – Você disse que o balé era algo seu e do seu pai, então é normal que você lembre enquanto dança. Ainda mais quando vocês não se veem há tanto tempo. Deve ser alguma coisa dentro de você dizendo que está sentindo falta dele, o que é absurdamente normal. São mais de dez anos, talvez você queira vê-lo. E quanto a você se ver com oito anos, bem, há uma menininha bem forte aí dentro pronta pra te ajudar quando você precisar...
- É sério, . – ela falou, balançando a cabeça novamente. – Eu estava me vendo com oito anos de idade, o que isso pode significar?
- Não sei, pode significar muita coisa, na verdade. Talvez, no fundo, você ainda se veja como uma menina de oito anos. Talvez, naquele momento, alguma coisa tenha ativado alguma memória afetiva daquela época. Talvez você não quisesse ter que lidar com aquilo e usou a menininha no seu lugar. Pode ser tanta coisa... – ele deu de ombros.
- Tanta coisa ruim. Tanta coisa significando que eu sou louca... – ela riu, fazendo uma careta.
- Você não é louca, só teve uma infância muito ruim. É difícil imaginar como deve ter sido crescer com a sua mãe, então não se cobre tanto, por favor. – pediu, colocando uma mão de cada lado do rosto da menina e fazendo com que ela o olhasse. – O importante é você se libertar, aprender a andar com as próprias pernas e parar de se preocupar com o passado. Passou, já foi. Olha pro futuro agora, para o que você quer construir. – ele pegou o celular e colocou o vídeo que gravou da menina se apresentando. – Aproveita e veja do que você é capaz, assim você pode começar a pensar em algumas possibilidades para o futuro, quem sabe? – ele deu de ombros. olhou para e sorriu, agradecendo a quem quer que tenha o colocado em seu caminho, porque tudo mudou depois que ele apareceu. Ela era outra pessoa. Ela tinha outra vida. Ela queria outra vida. E com o nela, se fosse possível.


7.

  Sexto Dia – Dia
   And your heart’s against my chest
   Your lips pressed to my neck
   I’m falling for your eyes but they don’t know me yet
   And with a feeling I’ll forget, I’m in love now
  (Ed Sheeran – Kiss Me)

Coloque, caso queira, essa música para tocar quando aparecer a letra.

Era o dia de folga. Depois de tantas horas de ensaios, desfiles e sorrisos falsos, as candidatas poderiam, enfim, descansar na parte do dia, porque à noite teriam uma festa com os patrocinadores do concurso. Então era o dia para acordar mais tarde, tirar o sono de beleza e despertar sem olheiras. Mas não para . Ela sentia como se não tivesse pregado os olhos durante a noite toda, mas sabia que desde que o sol tinha aparecido no céu nessa manha, ela não tinha conseguido mais dormir. Sua mente voltava constantemente aos momentos em que ela viu o pai no dia anterior. Foi tudo tão real, que ela via e revia tudo seguidamente. Sua cabeça parecia presa num filme de terror louco, onde os únicos personagens eram ela, ela mesma com seis anos e o pai. Ele tinha as mesmas feições de quinze anos antes, o que ela julgava impossível, mas não tinha nenhum parâmetro de como ele estava hoje. Já fazia tanto tempo que eles não se viam, que percebeu que mal se lembrava de como seu próprio pai era. Forçou a memória e tentou lembrar se ele era exatamente como apareceu em seu devaneio ou se era fruto de uma confusão entre passado e presente.
O celular tocou e ela viu que tinha uma nova mensagem. Viu a hora: 9:22. E percebeu que estava imersa em seus pensamentos há mais tempo que imaginava. A mensagem era de e só de ver o nome no visor, um sorriso surgiu em seu rosto e uma paz tomou conta de seu coração.

Tá acordada?
« 09:22 a.m.

Tô sim
» 09:23 a.m.

Estou pensando em te sequestrar pelo restante do dia, você topa?
« 09:23 a.m.

Mal posso esperar
» 09:24 a.m.

Me encontre no restaurante em meia hora, tomamos café e depois nós vamos. Vista algo confortável.
« 09:22 a.m.

Posso ficar com medo?
» 09:23 a.m.

Deve.
« 09:22 a.m.

Sorriu abertamente, encarando o aparelho. De repente ela tinha uma motivação para sair da cama naquele dia. Levantou num pulo e correu até a mala, procurando algo para vestir e depois seguiu até o banheiro. Após um banho rápido, ela vestiu um short e uma blusa branca de botões, prendeu o cabelo num rabo de cavalo alto e calçou seu tênis velho. Ela se sentia verdadeiramente confortável. Desceu até o térreo e seu olhar encontrou assim que ela se aproximou da entrada do restaurante. Ele estava com uma blusa polo azul, bermuda jeans clara e um tênis branco. Sentiu que não estava tão desarrumada como pensou. Sem conter o sorriso, ela se aproximou da mesa e levantou para recebê-la. Eles evitaram um contato mais intenso, deixando tudo restrito a troca de olhares que somente eles entenderiam.

- Aonde vamos? – perguntou, apressada e curiosa, sem nem responder o rapaz.
- Aguarde e você verá. – respondeu, sem dar muitos detalhes.
- Sério que você vai fazer suspense?
- Não é suspense, só não quero estragar a surpresa. Afinal, é nosso primeiro encontro oficial, não é mesmo? – ele riu de lado e ela corou. não tinha pensado nisso, se tivesse, talvez tinha se arrumado um pouco mais.
- Eu não pensei por esse lado, acho que estou mal vestida para um encontro, ainda mais com você. – ela disse, olhando seu próprio corpo.
- Você está linda, não se preocupe com isso. Sabe que não ligo pra essas coisas. – o encarou por um tempo, sem saber muito bem o que responder. Pensou algumas vezes, mas não conseguia pronunciar as palavras.
O fato era que era muito bom com ela. Bom até demais em certos momentos. E não sabia lidar com isso. Ele falava coisas que ela não esperava ouvir, ainda mais no ambiente estava. Parecia que ele sempre sabia o que ela precisava e queria ouvir, como se conseguisse ler seus pensamentos e saber seus desejos mais ocultos. O que poderia ser uma péssima ideia, já que tomaria conhecimento de tudo que a menina se imaginava fazendo com ele: olhando fundo em seus olhos, tocando sua pele, embrenhando os dedos pelo seu cabelo e, por último, beijando-o intensamente. Ela queria estar longe dali, queria desesperadamente. Queria estar onde ela pudesse tocá-lo, beijá-lo sem nenhuma restrição ou medo de serem pegos. Ela queria conhecê-lo melhor, saber de sua vida, descobrir seus sonhos, enfim, ter o mesmo nível de conhecimento que ele tem de sua vida. tinha lhe contado todos os seus segredos, falado sobre cada um dos monstros que a perseguem, e sentia como se não o conhecesse no mesmo nível, por mais que parecesse que o conhecia há anos e não dias. Era tudo uma loucura e ela sabia. Seis dias que o conhecera, mas sentia como se fosse uma vida.
- Você sabe que eu fico sem jeito quando você me diz essas coisas. – falou por fim, sendo muito mais sucinta do que o tanto que sua cabeça gritava.
- Não tenho porque mentir. – deu de ombros, bebendo um pouco de suco. – Agora vá buscar seu café ou vamos nos atrasar.
- Atrasar? Então temos horário marcado em algum lugar?
- Não necessariamente, mas é mais de uma hora de viagem até onde vamos.
- Isso tudo? – perguntou, com a voz carregada de curiosidade. a olhou pelo canto dos olhos e sentiu que ele já tinha falado mais que queria. Ela foi até o buffet, pegou algumas frutas, um pedacinho de pão, duas fatias de frios e um copo de suco de laranja. Se eles iriam para longe, ela deveria se alimentar.
- Será que sua mãe sentirá sua falta? – perguntou, quando ela já estava de volta.
- Acho difícil, não temos nada para fazer durante o dia, então ela não virá atrás de mim. Provavelmente passará o dia atrás de algum empresário ou coisa assim. Contanto que eu esteja de volta a tempo de me arrumar para festa, estamos livres. – ela sorriu e a acompanhou.
Terminaram de comer depois de alguns minutos, com o silêncio sendo preenchido em alguns momentos. Em outros ele esteve presente, mas não era desagradável, longe disso. Eles se sentiam bem o bastante um com o outro, para permanecerem em silêncio sem que se sentissem desconfortáveis.

fez questão de deixar o celular no quarto, não queria que sua mãe acabasse por sentir sua falta durante o dia e a ligasse, atrapalhando a tarde maravilhosa que tinha pela frente ao lado de . Ele foi na frente e pediu que ela o encontrasse na calçada do hotel em dez minutos. sentou-se no lobby e ficou olhando o movimento, enquanto esperava o tempo passar. Só que quanto mais ela observava as coisas ao seu redor, mais ela sabia que não pertencia àquele ambiente. As meninas excessivamente maquiadas para aquele horário demostravam o quanto ela estava deslocada, sem ao menos um batom nos lábios. Só que ela não se importava em ser diferente, na verdade ela até gostava. Essa era apenas uma das provas que tinha que aquele universo de concursos de beleza não era o seu lugar e que precisava fazer algo a respeito. Só não sabia como e o que.
Assim que viu que os dez minutos que pediu tinham se passado, saiu pela grande porta de entrada do hotel, enxergando encostado numa caminhonete, que estava parada junto ao meio fio. Ela caminhou apressadamente até ele, que abriu a porta para que ela entrasse, indo para o lado do motorista logo em seguida. Não demorando muito, o carro ganhou movimento e logo eles estavam seguindo por uma das ruas movimentadas de Las Vegas. sorria animadamente, olhando pela janela, sentindo-se uma criança. esticou uma das mãos em sua direção, tocando seus dedos. Ela os entrelaçou aos dela e então ele não aguentou, parando o carro depois de um cruzamento e juntando seus lábios num beijo intenso e saudoso. sentia como se o seu coração fosse explodir de tanta felicidade, era como se ele estivesse batendo tão rápido como asas de uma borboleta. Por um momento a menina esqueceu como se respirava e precisou se afastar para recuperar o fôlego.

- Me desculpa, mas é que eu estava me segurando desde o momento em que eu te vi hoje. E quando me dei conta que estávamos sozinhos e longe de olhares curiosos, eu não resisti. - riu, passando a mão pelo cabelo.
- Pelo o que me lembre, eu não reclamei. – a menina abriu um sorriso largo, puxando o rapaz para mais um beijo longo e intenso. Minutos depois, eles já estavam em movimento de novo, com revezando seu olhar com os outros carros e a garota ao seu lado.
- Nós vamos seguir pelo centro durante alguns minutos e depois chegaremos ao deserto, mas não se preocupe, eu sei o caminho. Mesmo que em alguns momentos pareça que estamos perdidos, não estaremos. – comentou, vendo-a assentir com a cabeça, afirmando. – Eu fui duas vezes a esse lugar e ele já se tornou um dos meus preferidos no mundo todo, então achei que deveria compartilhá-lo com você.
- , você poderia me levar a qualquer lugar, até mesmo na, não sei, pracinha que tem perto da minha casa e eu ainda acharia incrível. – confessou, olhando rapidamente na direção do rapaz.
- Então espero que nosso destino seja realmente surpreendente pra você. – falou, sorrindo na direção dela. Ele ligou o rádio e os dois seguiram pela estrada, cantarolando algumas músicas e conversando sobre qualquer coisa.
De repente eles entraram no deserto e ficou maravilhada, era uma profusão de esculturas naturais de pedra e mais ainda com a imensidão a sua frente. Para onde quer que ela olhasse, só via o deserto. Imenso e silencioso. Ela abriu mais a janela e respirou fundo, inalando o ar mais puro que já sentiu na vida. nem mesmo as partículas de poeira que voavam ao seu redor o deixavam ruim. se sentiu tão bem, tão livre, que sua vontade era correr, sair do carro e correr por todo o deserto, até que todo o aperto presente em seu peito se desfizesse, até que todos os seus problemas se transformasse em poeira, como as partículas que voavam pelo ar.
E então ela olhou para e viu que não precisava correr, tudo o que ela precisava para esquecer seu problemas estava bem ao seu lado. Ele sempre sorria quando olhava pra ela, nenhuma palavra dura saia dos seus lábios. Ele era sempre doce e compreensível. não pensava que teria alguém assim ao seu lado em tão pouco tempo. Menos de uma semana, apenas seis dias bastaram para mudar tudo em sua vida. Por dentro e por fora. Ela sabia que estava diferente. Um pouco mais a cada dia. As batalhas que ainda tem para lutar parecem diminuir de tamanho e importância conforme o tempo passava. Era incrível o poder que exercia sobre ela, que nem pensava como seria quando eles tivessem que, irremediavelmente, se separarem após o concurso. Nada disso tinha passado pela cabeça dela, ainda.

- . - depois de quase cinquenta minutos na estrada, chamou a atenção da menina. – preste bem atenção na paisagem no meu lado depois que passarmos desse túnel. – o carro entrou num túnel escavado na pedra e segundo depois, os olhos da menina foram inundados pela visão do Mead Lake. Um enorme lago que contrastava fortemente com o chão seco e rochoso que o cercava. Eles estavam acima do nível do lago, numa pequena subida, então a visão era ainda mais abrangente e majestosa. Ela debruçou sobre o braço dele, tentando ver mais de perto, mas logo entraram em outro túnel. – Calma, vamos ter muito tempo para apreciar a vista em alguns minutos, já estamos chegando.
- Meu Deus, , é lindo demais. – comentou, boquiaberta.
- Espere até chegar ao lugar que eu mais gosto. – disse, piscando em seguida. Mais alguns metros à frente, saiu da estrada, descendo por uma pequena estradinha. A paisagem agora estava toda na frente do carro, deixando ainda mais deslumbrada. O rapaz parou a caminhonete de costas para o lago, abrindo a pequena porta da caçamba. E puxando uma sacola e uma caixa térmica de lá. – Trouxe o almoço. – ele sorriu.
Sentaram na parte traseira da caminhonete, de frente para o lago. Eles estavam lado a lado, com suas mãos unidas. O silêncio perdurou durante alguns minutos, mas não era desconfortável. Eles olhavam o movimento do lago à frente, as pequenas ondas que o vento formava conforme soprava. estava em paz, seu coração estava tão leve, que o sorriso não saia dos seus lábios. Ela queria ficar ali pra sempre. Gozar daquela paz, daquela tranquilidade. Era como se não houvesse nenhum problema no mundo. Nem mesmo o próprio mundo. Eram eles dois e só.
- Você gostou? – perguntou, fazendo a menina tirar os olhos do horizonte a sua frente pela primeira vez em muitos minutos.
- Eu amei esse lugar. Nunca me senti tão em paz. – sorriu de lado, apertando levemente sua mão junto a dele. girou o corpo de frente para ela e a puxou ao seu encontro, juntando seus lábios num beijo calmo e profundo. Ele a queria tanto, que sentia como se o seu coração doesse só de estar ao lado dela e não tê-la em seus braços. Suas mãos subiram pelos braços da menina, chegando aos seus ombros, passou uma das mãos pelo rosto dela, fazendo um carinho leve em sua bochecha. Ela pousou sua mão na nuca do rapaz e o puxava para si, tentando deixá-lo mais perto do que já estava. queria que pudesse sentir seu coração batendo. Queria que ele soubesse que era a única pessoa que fazia com que ele batesse rápido daquela maneira. E quando se afastaram minutos depois, com suas respirações entrecortadas, eles se olharam por alguns instantes. E sentiram como se enxergassem exatamente o que queriam.

- Preciso te confessar uma coisa. – disse. estava deitada em seu colo, olhando para o céu azul e sem nuvens que o dia havia proporcionado. Eles haviam comido os sanduiches que tinha trago e agora descansavam em frente ao lado.
- O que? – ela perguntou, meio desconfiada. Ele molhou os lábios e sorriu, meio travesso.
- A primeira vez que eu te vi não foi no concurso. Eu já te conhecia há muito tempo.
- Como assim? – falou, sentando-se de frente pra ele.
- A primeira vez que eu te vi, foi seis meses atrás, na seletiva de South Portland. Eu já conhecia sua mãe, tinha ouvido falar dela muitas vezes, tinha feito uma pesquisa usando o trabalho dela como base, mas nunca tinha a visto pessoalmente. Até que eu consegui o emprego no concurso e comecei a fazer as pesquisas de campo, acompanhando as seletivas da Costa Leste de perto. – ele levantou os olhos, olhando dentro dos dela. – Você estava tão linda naquele vestido azul, parecia irreal no meio de toda aquela gente. Lembro exatamente de colocar os olhos em você e sentir que nada mais fazia sentido, porque eu não te tinha perto de mim. E provavelmente nunca teria. – juntou suas mãos, entrelaçando seus dedos. Ela estava tão profundamente mexida com as palavras de , que ela mesma não tinha nada para lhe dizer. Ela o olhava com uma expressão que misturava incredulidade e surpresa; seu coração estava acelerado e seus olhos marejados.
- , eu... – ela respirou fundo, abaixando os olhos por alguns segundos para tentar clarear a mente. – Eu lembro exatamente a primeira vez que eu te vi. Eu estava na sacada do meu quarto lá no hotel, observando a vista e vendo como era alto. Confesso que pensei como seria fácil acabar com tudo o que me incomodava tanto. Bastariam alguns segundos e pronto, tudo estaria acabado. Só outra coisa chamou minha atenção: era você, dois andares abaixo, também na sacada. Você estava fumando e a fumaça fazia movimentos engraçados no ar. Eu não sei por que, mas apenas a imagem de você lá parado, fazendo algo totalmente relevante, tirou todo e qualquer pensamento errado da minha mente por tempo o suficiente para eu estar segura. Isso só mostra que você vem me ajudando muito antes do que imaginava, mesmo sem saber.
- Eu lembro disso. Eu olhei em sua direção e você correu para longe. – ele sorriu abertamente.
- Não é muito correto ficar encarando pessoas desconhecidas, ainda mais quando elas aparecem no seu quarto horas mais tarde. – deu de ombros.
- Ainda mais quando é seu psicólogo.
- Pior ainda é roubar um beijo quando ele menos espera. – ela sorriu abertamente, fazendo uma careta logo em seguida.
- Mas nada se compara a se apaixonar por ela. – disse, pegando desprevenida. – Sei que eu não deveria fazer isso e nem falar nada disso, mas eu não estou aqui como um psicólogo. Eu estou aqui como um homem apaixonado. Eu estou apaixonado por você, . Meu coração enlouquece cada vez que você está por perto. – ele tomou uma das mãos da menina entre as suas e colocou próximo ao seu coração. – Só você faz com que ele bata dessa forma, como se pudesse pular do meu peito. Sei que não tenho o direito de te querer, mas eu quero, e quero com todas as minhas forças. Em dois dias o concurso acaba e eu não sei como será, o que vai acontecer com nós dois, não queria que isso acabasse assim. Não sei quais são os seus planos, mas eu espero, encarecidamente, que tenha um espaço pra mim na sua vida e que os seus planos possam me incluir de alguma forma. Porque eu, agora, não sei como seria ficar sem você.
- ... – ela não conseguiu terminar sua frase, porque os lábios do rapaz se juntaram aos dela e dessa vez não estavam tão suaves. As mãos dele percorriam seu corpo e o puxaram contra o dele. sentia seu corpo quente e um arrepio subindo desde os dedos do seu pé, até o último fio de cabelo. mantinha suas mãos grandes apertando o corpo dela, fazendo-a querer se derreter por dentro. Eles se olharam por alguns segundos, tentando, cada um, ler o que se passava na mente do outro. E talvez tenham conseguido. beijou suavemente os lábios da menina e ajudou a sentar novamente. – Vamos voltar pro hotel. – disse, querendo que entendesse o que tinha por trás desse pedido.

Ele não disse nada, só a ajudou a descer do carro e depois abriu a porta para que ela entrasse. Seguiram pela estrada em silêncio, com seus dedos se esbarrando algumas vezes e revelando toda a tensão que havia dentro daquele carro, era quase tátil de tão grande que era. Foram longos minutos, ainda mais depois que chegaram e a menina o aguardou no lobby, perto dos elevadores. Entram os dois, sozinhos, em um deles e quando ele iria apertar o botão do décimo andar, ela afastou a mão dele e apertou o botão do oitavo, olhando em seus olhos por alguns segundos. Quando chegaram ao andar e as portas se abriram, seguiu pelo corredor, parando em frente ao seu quarto, esperando que ele abrisse a porta. Ele se atrapalhou um pouco, devido ao nervosismo que já aparentava, mas conseguiu algumas tentativas depois.

Settle down with me
Fique comigo
Cover me up, cuddle me in
Me proteja, me abrace carinhosamente
Lay down with me, yeah
Se deite ao meu lado
And hold me in your arms
E me envolva em seus braços


deixou que entrasse primeiro e depois fechou a porta atrás de si. O silêncio se instaurou e o barulho da porta sendo trancada fez a menina se arrepiar. Ela fechou os olhos e quando menos esperava, sentiu os lábios de tocarem, gentilmente, a pele exposta de sua nuca. Ela tremeu e suspirou pesadamente. O rapaz fez com que ela ficasse de frente pra ele e a olhou nos olhos. Sua expressão estava meio apreensiva e suas mãos trêmulas. tocou seu rosto e sorriu de lado, juntando seus lábios. O beijo começou calmo e suave, mas logo eles estavam na mesma intensidade de mais cedo. As mãos de desceram pelo lado do corpo da menina, parando perto da barra de blusa. Eles se afastaram e ele a olhou como se pedisse permissão. acenou com a cabeça e ele abriu cada botão lentamente, deixando a roupa pelo chão. Ela fechou os olhos, envergonhada, mas ele beijou seu ombro, descendo o trajeto até sua mão. levou as mãos até as costas da menina, abrindo seu sutiã, deixando que ele caísse aos seus pés, e depois retirou a própria camisa. Juntando seus corpos num abraço, ele pode, enfim, sentir todo o calor que emanava dela, além de deixar, por alguns instantes, seus corações batendo juntos. deixou seus lábios tocarem o pescoço de e o sentiu reagir ao seu contato, percebendo seu corpo tremer e se arrepiar todo junto ao seu. Ela pousou a mão na nuca do rapaz e levou sua boca ao encontro da dele, tirando o pouco do ar que ainda lhe restava.

My heart’s against your chest
Meu coração encostado em seu peito
Your lips pressed to my neck
Seus lábios pressionados ao meu pescoço
I’m falling for your eyes but they don’t know me yet
Estou me apaixonando pelos seus olhos, mas eles ainda não me conhecem
And with this feeling I’ll forget, I’m in love now
E com esse pressentimento de que esquecerei, agora estou apaixonado


O vento que vinha da janela fazia tremer ainda mais, mas ela sabia que nenhum daqueles tremores era de frio. Tendo sobre ela, estava perto de um paraíso onde nunca esteve. O rapaz beijava-lhe os lábios, o rosto, o pescoço. Ele queria beijá-la por completo. Queria que compreendesse o quanto ele a queria, o quanto ele a amava e queria que ela sentisse aquele amor. Cada vez que ele investia sobre ela, uma nova corrente elétrica percorria seu corpo, fazendo com que sua respiração falhasse. Ela não conseguia falar uma só palavra. Mas ela queria muito. Queria dizer a que ela também não queria ficar longe dele, que não havia ninguém no mundo que fizesse feliz como ele faz, como se fosse capaz de tudo, como se não precisasse temer nada e nem ninguém. Era como se ela o conhecesse se toda a vida e como se ela estivesse destinada a conhecê-lo. E agora que ela o teve em sua vida, não saberia como conseguiria deixá-lo, simplesmente, ir. Não era apenas uma questão de escolha, de deixar ir ou ficar. Ela precisava dele, mais do que ela tinha sequer imaginado. E no meio daquele turbilhão de sensações, sentia o coração se aquecer e acelerar, ela encarava o rapaz ali, tão perto, tocava seu corpo, beijava seus lábios e estava cada vez mais certa do que sentia. Sim, ela estava apaixonada.

Yeah I’ve been feeling everything
Sim, eu tenho sentindo de tudo
From hate to love, from love to lust, from lust to truth
Do ódio ao amor, do amor à luxúria, da luxúria à verdade
I guess that’s how I know you
E acho que foi assim que eu te conheci
So hold you close to help you give it up
Então eu te abraço apertado para te ajudar a se entregar


Enquanto estava deitada sobre o peito de , ouvindo seu coração bater, conseguiu colocar seus pensamentos em ordem. Ela levantou os olhos e encarou o rapaz, mais certa do que falar agora. Esticou os braços, tocando o rosto dele, fazendo um leve carinho.
- Eu não sei o que vai acontecer amanhã, depois, daqui a um mês ou um ano. Eu nem mesmo sei o que vai acontecer com a minha vida. Eu não tenho certeza de nada agora. Mas tem uma coisa, uma única coisa, que eu seria grata se não mudasse e se eu pudesse levar comigo para onde eu for: você. Eu não sei como a vida te trouxe pra mim, não sei o que eu fiz pra isso, mas eu quero que você fique comigo, porque, , eu estou completa e enlouquecidamente apaixonada por você.
Ele a puxou para um beijo, um daqueles leves e suaves, que você troca com a pessoa que ama, quando não há pressa, não há mais dúvidas. Há só amor.

So kiss me like you wanna be loved
Então me beije como se quisesse ser amada
You wanna be loved, you wanna be loved
Quisesse ser amada, quisesse ser amada
This feels like falling in love
É como se eu estivesse me apaixonando
Falling in love, we're falling in love
Me apaixonando, nós estamos nos apaixonando





Continua...



Nota da autora:
Esse capítulo foi amor, mas o próximo é bomba, já aviso logo.
Até a próxima.
Beijo da That.



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