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Última atualização: 26/12/2020

14.

ALERTA GATILHO PRA RELACIONAMENTO ABUSIVO. Esse capítulo mostra discussões e reflexões entre e sobre duas pessoas que mantiveram um relacionamento abusivo por muito tempo. Se este é um tópico que você não se sente confortável lendo sobre, que te traz memórias ruins ou que pode te provocar algum tipo de crise, não leia. Sinta-se a vontade para deixar um comentário e eu posso te explicar o que acontece no capítulo de maneira geral, sem entrar nas especificidades, para que não haja prejuízo na leitura dos próximos. Ou, caso você leia e se identifique com algum dos padrões descritos, procure ajuda profissional. Sinalize alguém de confiança. Converse sobre isso <3

piscou algumas vezes, sem reação, a expressão de completo desespero estampada em seu rosto ao travar, impotente, recostada a porta. A boca entreaberta e o olhar surpreso.
Era a primeira vez que se viam desde o fatídico dia.
Travis tinha olheiras ao redor dos olhos que eram disfarçadas pelos óculos arredondados em estampa de tartaruga. Como quem não dorme por dias a fio, seu rosto estava empalidecido, o maxilar demarcado, mais magro. O cabelo castanho jogado pro lado tinha o brilho de sempre, mas tinha certeza que não era pelo cuidado. Sua postura, sempre perfeita, agora, se mostrava exausta e retraída. Ele engoliu em seco, olhando-a de cima a baixo e abrindo a boca para dizer alguma coisa, mas nada saía. Parecia tão inerte quanto .
Alguns segundos se passaram em que um observava a fisionomia do outro tentando encontrar resquícios das informações que perderam por três meses. sentiu seu coração acelerar de nervoso e encontrou-se confusa sobre o que deveria fazer. Era Travis. Ali, bem na sua frente, o seu namorado, o seu melhor amigo por tantos anos. A pessoa com quem compartilhou algumas de suas memórias mais bonitas. Os seus sentimentos mais profundos. Ele tinha a mesma boca fininha, a barba cheia que arranhava e os olhos sempre observadores. Tinha o mesmo cabelo jogado pro lado. A camiseta de flanela xadrez que ela adorava e os óculos que ela roubava pra si só para irritá-lo, porque mal conseguia enxergar um palmo à sua frente sem eles.
Era Travis. Uma série de flashes passou por sua cabeça como um filme empurrado, rápido e nostálgico, que a brasileira não pode conter. e Travis dançando pelados e ridículos pelo seu apartamento quando saía. Travis com uma expressão de puro desespero, a postura tensa e as mãos fincadas no banco do passageiro enquanto ria de nervoso ao tentar aprender a fazer uma curva com o carro numa das vezes em que ele tentou ajudá-la a melhorar suas habilidades de direção. Travis a observando com um sorriso apaixonado num jantar à luz de velas enquanto lia uma das cartas que ele a escrevia todos os dias dezesseis de todos os meses que passaram juntos. Os dois sentados sob a macieira que ficava ao lado do Centro Acadêmico de Teatro da UCLA em um dos infinitos piqueniques que faziam nos intervalos no meio da tarde. Travis abrindo a porta do quarto com um sorriso esperto e compassivo ao segurar uma xícara de chá quando ela estava muitíssimo gripada e envolta por mil cobertores, fanha e manhosa. Alguns dos inúmeros e turbulentos jantares de família em que Travis buscou sua mão por conforto debaixo da mesa enquanto os pais dele gritavam um com o outro. Travis envolto por lençóis e levantando a cabeça que estava posicionada entre suas pernas ao terminar de chupar a sua boceta. O prazer que a fazia sentir. Compras e mais compras com Willa, enquanto Travis, apesar de contrariado, levava sua irmã mais nova feliz e animada no seu passeio preferido: ir ao shopping e tomar sorvete. sentando no colo de Travis e abraçando seu pescoço enquanto ele continuava a escrever sua tese de mestrado no notebook e buscava sua boca para um selinho, eventualmente, enquanto ela lia um livro qualquer.
Travis. O cara que ela tinha encontrado beijando outra mulher em um pub em Venice ao ir num happy hour com todos os seus colegas de trabalho.
Parecendo cair em si, , de repente, passou de nostálgica à enfurecida num estalar de dedos.
- Vai embora daqui, Travis.
tentou fechar a porta, mas ele segurou com a mão, se colocando entre o vão.
- , por favor, eu juro que não vou tomar muito do seu tempo...
- Como você sabia que eu ia estar em casa agora?
- Eu encontrei com a Janice no médico esses dias. Ela me disse que você saiu da Kapplan. Eu... sinto muito. Você gostava de trabalhar lá.
- Não era o que eu queria pra mim.
Assentiu. Pareceu buscar coragem pra dizer:
- Eu... Eu preciso conversar com você, . Só um pouco.
- Foda-se o que você precisa, Travis. Você me pegou num péssimo dia.
observou o rapaz a sua frente morder o lábio e expirar fundo, olhando pra cima, profundamente frustrado, só para virar o olhar pra ela de novo depois.
- Me deixa falar com você. Você não sabe o quanto eu preciso disso.
, sem mais forças pra discutir, resolveu deixá-lo entrar de novo. O clima não era estranho ou desconfortável, afinal, eram duas pessoas que se conheciam até demais, mas era diferente e incômodo. Tinha algo diferente sobre aquele momento. Eles estavam diferentes. Apenas três meses se passaram, mas eles estavam completamente diferentes. Eles eram diferentes. Não sabiam muito bem como agir.
Primeiro, Travis parecia observar cada detalhe do apartamento – como se não o tivesse visto por séculos, como se entrasse no Louvre pela primeira vez. Mas não estava nos seus dias de maior paciência.
- E aí – perguntou de braços cruzados, em pé, no meio de sua sala de estar. Travis, à sua frente, balançou a cabeça, incomodado, as mãos trêmulas, como se procurasse as palavras certas.
- Eu não sei – ele começou, passando as mãos pelo rosto e expirando. – Eu não sei o que dizer. Eu não sei o que estou fazendo aqui, , mas eu precisava te ver – abriu os braços e encolheu os ombros ao continuar. Gesticulava lentamente ao falar, com toda a didática e eloquência de um academicista. – Eu precisava olhar pra você.
Ela não sabia o que responder. Continuou evitando seu olhar. A expressão de completa indiferença quase perfeitamente montada.
- E sei que eu não mereço. Eu sei que eu nunca mereceria você, em um milhão de anos, principalmente depois do que eu fiz. Mas se não viesse aqui, e se não visse você eu... Eu estava à ponto de enlouquecer de vez...
- Eu não ligo. – ela disse, apenas. Mas ela sabia que Travis sabia que era uma grande mentira.
- Eu estou perdido, , completamente desorganizado. Eu não durmo. Eu não consigo mais produzir... Eu não consigo escrever, eu não consigo fazer anotações sobre os meus pacientes. Eu só consigo pensar em você. E no que você está fazendo. E que eu perdi você. Eu só consigo pensar que eu fui o cara mais imbecil do mundo por ter tido você e te perdido. Eu só consigo pensar que você era tudo que eu tinha e agora eu não tenho mais nada.
virou o rosto de lado e expirou com pesar, molhando os lábios, sentindo o peso de um mundo inteiro em seus ombros. Sentia-se num muro de bombardeio com uma espingarda apontada para a maçã em sua cabeça.
Não tinham realmente conversado depois do que aconteceu, mas ela sabia. sabia de tudo. No apartamento dele, depois de alguns gritos e pedidos de desculpas, pegou suas coisas e nunca mais voltou. Ainda recebia algumas mensagens e ligações aleatórias – nunca as atendia, no entanto.
- E tudo bem se perder você fosse perder qualquer outra pessoa, mas você, , olha só pra você... – de repente, o rapaz se inclinou um pouco para frente e colocou a mão no rosto de , os olhos vermelhos queimavam escondidos atrás do óculos. queria chorar de novo. Seu coração estava pesado e o seu corpo todo doía. Olhava para ele com os olhos marejados, as sobrancelhas juntas, a expressão de raiva e tristeza e dor e desconfiança estampada do seu rosto ante ao toque. – Tão linda... Você é um pedaço de mim. É como se alguém arrancasse a minha perna... O meu braço. Você é uma parte de mim, .
logo tratou de afastar a mão dele e limpar o seu rosto com as suas próprias mãos.
- Por quê? Por que, então, Travis?
Perguntou, finalmente, o que estava engasgado por meses bem no fundo de sua garganta. A resposta que ela nunca procurou ter.
- Porque eu... – e ele pausou, olhando para baixo e dando um meio sorriso mórbido. – Eu te amava mais.
quis gritar.
- Você não pode fazer isso.
- Eu precisava provar que não precisava mais de você do que você precisava de mim.
- Você não pode fazer isso!
- Foi tudo muito sem pensar direito... O meu analista diz que-
- Foda-se o seu analista, Travis!
- Eu já tinha te perdido muito antes – constatou, continuando o seu discurso, dando um passo à frente. – Eu tinha te perdido muito antes daquele dia... quando eu te prendi, quando eu desejei ser pra você o que você era mim.
Uma pausa. não disse nada. Ela não sabia o que dizer. Tantas coisas se passavam por sua cabeça, todas emaranhadas como um fone de ouvido numa gaveta velha, e ela se poupou de fazer qualquer esforço. Liam o rosto um do outro. Um livro aberto. – Você... O espírito mais livre que eu já conheci. E eu queria a garantia de que você ficaria comigo pra sempre. Eu... Eu não podia te perder. Porque eu acabaria exatamente assim. Com a cabeça fodida, desnorteado, tomando remédio pra dormir...
- Eu não quero saber disso, Travis.
- Eu sabia que você não olhava mais pra mim do mesmo jeito. – ele continuou, mesmo assim. – Eu não soube lidar com isso... E eu perdi tudo.
Alguns segundos de silêncio em que se sentia violada. Por que as inseguranças dele pesavam tanto sobre seus ombros? Por que é que ela se sentia culpada em vê-lo sofrer?
- Você não pode fazer isso, Travis. Você não pode fazer isso. – colocou novamente, exasperada, ao passar as mãos pelo rosto com um desespero urgente, querendo mais que tudo sair correndo dali e não ter que lidar mais com aquilo. Não queria mais ouvir. Fechou os olhos com força, esperando que ele entendesse nas entrelinhas o apelo que ela não conseguia verbalizar, esperando que ele lesse a sua mente. Eu não suporto mais ouvir a sua voz. As suas justificativas me atravessam. Você faz com que eu me sinta mal sobre mim mesma. Sobre as minhas escolhas. A sua presença me suga. Olhar pra você dói.
- Não, não, ... Eu não fazia ideia do que eu estava fazendo – justificou, com o rosto cheio de remorso, o discurso arrastado e os olhos pedintes. Deu mais um passo para frente, curvando-se, tentando alcançar a altura do seu rosto. – Eu me arrependo todos os dias e eu... Eu não sei o que aconteceu com a minha cabeça... Eu fiquei com tanto, tanto medo de te perder, ...
Eu confiava tanto em você, Travis. Você era a pessoa que eu mais confiava no mundo. Você não só me enganou por um mês inteiro. Você mudou tudo o que o nosso relacionamento significava.
- Pára. – ela pediu.
Por que você fez isso? Por que você fez isso e diz essas coisas? Por que é que não foi suficiente? Eu fiz tudo o que eu podia. Até quando eu não queria. Até quando eu não te queria por perto. Eu realmente não te queria mais, Travis. Mas eu fiquei. E você me fodeu.
- E aí eu te perdi...
Ele tentava se aproximar. Ela se afastava. Os olhos ainda não se desgrudavam.
- Pára.
não conseguia dizer nada além disso. Parecia que nenhuma outra palavra era foneticamente acessível. Sua cabeça borbulhava, gritava, doía, seus olhos queimavam e o seu coração estava apertado demais. Apesar disso, nada além daquela palavra conseguia sair da sua boca.
- Nada no mundo pode doer tanto quanto te perder.
- Pára! PÁRA!
O seu discurso é agonizante. A sua presença é desconfortável. Você desperta sentimentos ruins em mim, Travis. Eu não consigo te perdoar.
- Eu só preciso que você entenda que eu amo você. Eu ainda amo você do mesmo jeito, , eu amo você, e eu amo a sua casa, e eu amo a sua família, e eu amo ouvir você falando por vários e vários minutos sobre os filmes que eu sempre odiei ver, e eu amo o seu cheiro...
Você não me ama, Travis, você ama uma que não existe. Você ama a que você moldou.
- Pára! Pára!
- E eu amo que você me deixou entrar mesmo quando eu não merecia porque você é a melhor pessoa que eu conheço, eu amo as músicas brasileiras que você me fazia ouvir, eu amo reler as tuas cartas sempre rasuradas porque você tem preguiça de reescrever...
Por que você não para? Eu tô te pedindo pra parar! Por que você precisa me ver chegar ao limite? Por que é que você me viola?
- PÁRA, TRAVIS! – gritou, por fim, empurrando ele e segurando com força na gola da sua camisa, olhando bem nos olhos dele com uma agonia explícita e um coração que parecia passar por um processo cirúrgico sem anestesia. O bisturi que a dissecava sem dó. O rosto vermelho e os olhos que saltavam. Virou de costas, com as mãos no rosto. Respirou fundo. – Pelo amor de Deus, pára. Eu não aguento mais. Eu não aguento mais ouvir.
- Me perdoa, , mas eu precisava que você soubesse. Eu precisava colocar isso pra fora porque...
- Não. Não tem desculpa. Você fodeu tudo. Você mentiu pra mim, VOCÊ me traiu, você jogou no lixo tudo que a gente tinha juntos! VOCÊ fez isso, VOCÊ que acabou com a gente, não fui eu, não fui eu! Não fui eu! – gritou, por fim, quase como quem tenta convencer a si mesma, virando-se para ele dessa vez e olhando bem nos fundo das íris castanhas ao vomitar coisas aparentemente desconexas sem pensar. estava, sem sombra de dúvidas, sem nenhum controle e apontava o dedo para ele; as palavras saíam de sua boca sem que ela nem ao menos percebesse. Começou a se aproximar do rapaz, gesticulando com as mãos em cada palavra que dizia: – Você tinha essa ideia doentia de que eu era sua, você fala... fala que você me perdeu como se eu fosse, sei lá, o seu bicho de estimação, o seu troféu de pódio, uma das conquistas da sua vida, como ser laureado na faculdade! Eu NÃO sou sua! – , num último suspiro, então, vestiu uma expressão de completo desprezo. Respirava, ofegante, o seu busto subia e descia, enquanto se encaravam como se rasgassem um ao outro. Travis usava uma expressão impassível no rosto quando voltou a empurrá-lo. – Isso é o MÍNIMO que você merece! Eu quero que você se foda! Eu quero que você se FODA! Você me ouviu? Eu quero que você se FODA!
Gritou, mas nada parecia fazer com que a dor saísse. Gritou, colocou pra fora, rasgou a sua voz, mas a sensação que tinha era de que poderia passar o resto da vida gritando, e gritando, e gritando. Não parecia resolver. Nenhuma daquelas palavras parecia elaborar a sua verdadeira dor. A sua boca estava molhada, o seu rosto vermelho, os olhos marejavam e queimavam, mas ela jamais deixaria as lágrimas caírem na frente dele de novo. Travis a segurou pelos braços com certa força e ela foi parando aos poucos. Soltou-se dele com asco quando trocaram alguns segundos de silêncio. Por fim, Travis virou a cabeça para o lado. Molhou os lábios antes de dizer:
- Faz tempo que você tá vendo esse cara?
Perguntou, com a voz baixa e falha, ignorando tudo o que tinha acabado de falar. Ela travou, piscando algumas vezes, dividida entre estar incrédula pela pergunta e nervosa por ele, teoricamente, saber.
- Vendo... que? Do que você tá falando?
- Eu reconheci você, . Na notícia. O seu vestido. A porra do parque de diversão que você tanto ama. Na foto, de longe, seu cabelo cobre o rosto, mas eu sei que é você.
Por que é que é tudo sobre você e o que você sente, Travis? Por que é que você não presta atenção em nada do que eu falo?
engoliu em seco com os olhos arregalados. Negou com a cabeça. Não podia ser verdade. Não podia ser verdade.
- Eu não acredito.
- Eu te reconheceria a quilômetros de distância, . Eu sei que é você. Só não sei o que você tá fazendo com esse cara.
- Foi por isso que você veio aqui? Pra saber se eu já tinha te superado? Foi pra saber se eu já tava fodendo com outra pessoa?
- Não, é claro que não! Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e eu me preocupo com você, , esse cara só quer-
- Cala a boca! Cala a boca! – o interrompeu, gritando de novo, e à esse ponto, tinha perdido todos os limites. – Você não sabe nada sobre isso! Eu não devo mais nenhuma satisfação da minha vida pra você! Pare com essa merda de que você se preocupa comigo!
- É claro que eu me preocupo. Você é a pessoa que eu mais amei no mundo, !
- Travis, PÁRA de falar! Eu não suporto mais ouvir! Você não entende? Eu não suporto mais ouvir! – colocou as mãos na cabeça ao falar. Abaixou o olhar, respirando fundo. Engoliu a saliva com a respiração que ainda ofegava. – Você tá aqui só pra fazer eu me sentir culpada porque você tá mal. Eu não sou a culpada.
- ...
- Acabou. Já chega. É isso. – disse, por fim, soltando os ombros e virando o rosto a porta numa clara incitação. Ele assentiu, parecendo entender.
- Tudo bem. Acho que a gente falou o que a gente precisava falar. Eu... Entendo que você se sinta assim. Eu não espero que você me perdoe. Mas eu espero que a gente fique bem algum dia porque eu não consigo imaginar a minha vida sem você. É como se... Não fosse eu.
Eu tentei te falar o que eu precisava, Travis, mas você não me escutou.
- É. Quem sabe.
- Eu só vim aqui porque eu não podia deixar que você achasse que eu não te amava ou que você não era a coisa mais importante do mundo pra mim. Porque eu amo, . E você é uma das pessoas que mais me importa no mundo. Os quase três anos que a gente passou juntos foram os melhores da minha vida. Eu precisava muito que você soubesse disso.
Você só ama a si mesmo, Travis.
assentiu, os lábios torcidos, sem olhar pra ele e sem saber o que responder também. O movimento de seus dedos era desconfortável.
- E por você ter sido tão importante assim pra mim e pra minha família, eu acho que é justo que você saiba... – Ele, então, mordeu o lábio antes de dizer. – A Nanna... Descansou ontem de madrugada. O velório vai ser hoje às quatro.
O coração de despencou. A sua guarda baixou, os seus lábios secaram e tudo ao seu redor pareceu girar por um momento. De repente, todas as outras coisas pareceram perder a importância.
- Travis, eu não sei nem o que dizer...
- Ela já estava... Internada de novo desde a semana passada...
Travis parou de falar quando , sem pensar, o abraçou. Abraçou-o tão forte que poderia juntar todos os seus pedaços num só de novo se durasse tempo suficiente – mas não haveria tempo suficiente no mundo. Foi como se tivesse esquecido (ou escolhido esquecer, mais uma vez) a fúria que a dominava alguns segundos atrás e estivesse pronta para cuidar da dor que ele sentia. De novo. Inspirou o perfume característico e conhecido. Fechou os olhos e sentiu também seus olhos marejarem. A avó de Travis, a matriarca dos Foster, era também um ponto de segurança e conforto para a conjuntura disfuncional e abusiva que a família dele apresentava – a qual conheceu de perto. Estava lutando contra problemas respiratórios faziam alguns anos, mas sempre mantinha o bom humor e o carinho que os pais de Travis jamais demonstrariam. sentiu o peso do mundo das costas ao saber que Travis havia perdido alguém tão importante, alguém que ela conhecia bem e sabia que ele amava tanto, e que ela também passou a sentir carinho nos momentos de convivência. Odiou-se por tudo o que dissera. Um aperto no coração tão grande que nem se podia dimensionar – a vida que não voltava e as palavras ditas, que também não voltavam.
Tão específicas. Eu quero que você se foda, ela se lembrou, é o mínimo que você merece, quase querendo pedir desculpas.
De repente, estava confusa de novo. Será mesmo que precisava ser tão dura? Será que Travis não tinha suas próprias questões?
Permaneceram desse jeito por um tempo, até que ela o afastou e segurou seu rosto com as mãos:
- Ela está em paz agora, Trav...
Travis, com as lágrimas que caíam, encolheu os ombros.
- Eu não sei o que fazer, . Eu não sei o que vai ser...
- Eu sei...
- Ela era a minha pessoa favorita.
- Eu sei.
Abraçou-o de novo, sentindo as lágrimas molharem seu pescoço, se perguntando o que estava acontecendo, se perguntando o que estava fazendo, pensando que aquele era o cara que ela costumava amar e não amava mais, pensando que aquele era o cara que tinha traído sua confiança, desmontado o seu orgulho, e ao mesmo tempo, como, por que não conseguia mandá-lo embora e lidar com seus problemas sozinho? Por que tinha que estar ali, abraçando ele, curando sua dor e engolindo a sua própria quando ele foi quem lhe causou tanta no início de tudo?
O que fazia permanecer naquele ciclo? O que fazia gritar todas aquelas coisas para alguém? Empurrá-lo daquele jeito?
O que fazia sentir tanta raiva e, logo depois, tanta pena, e por fim, tanta apatia?
Com o passar dos segundos, ela notou, o abraçava, mas não sentia nada por ele. O abraçava porque ele precisava.
Mas do que precisava?



Golden as I open my eyes
Holding focus, hoping, take me back to the light
I knew you were way too bright for me
I’m hopeless, broken, as you wait for me in the sky…


E nada mais saía. não conseguia colocar mais nada na música. Essa parte simplesmente não saía da sua cabeça. Repetia em looping. You’re so golden. You’re so golden. não sabia mais como continuar a música porque ele não conseguia parar de pensar no fato de que provavelmente havia visto aquela porra de notícia e era exatamente por isso que não o respondia desde o dia anterior. Checava o celular de cinco em cinco minutos. Já eram quase sete horas da noite e nenhuma notícia dela. Ela nunca havia passado tanto tempo assim sem respondê-lo ou sem contá-lo alguma coisa sobre o seu dia. E em menos de dois meses, já era a segunda música que escrevia para ela. A garota que ele atropelou.
- , você sabe da ? – perguntou como quem não quer nada, resolvendo largar o caderno na mesa e ir pegar uma cerveja no minifreezer porque estava realmente meio ansioso. Não só por causa da . Mas também por causa da , era o que tentava se convencer. E se tivesse ficado chateada por que ele disse que eram amigos? E se ela esperasse por mais? O que ele deveria ter dito? Será que queria ser mais que amigos com ? Definitivamente. Mas o que era isso? O que ele queria ser? Estava pronto para namorar de novo? estava pronta para namorar de novo? Namorar? Quem falou em namoro? Será que era justo?
deu um sorrisinho sacana ao respondê-lo:
- Olha só... Todo preocupadinho.
- Fala sério, porra.
Sentiu o conforto do gosto da Heineken geladíssima descer pela sua garganta e isso fez seus ombros relaxarem.
- Deixa eu ver aqui, então, para o senhor Zangado... – revirou os olhos com um sorrisinho mínimo para a piadinha que referenciava a história da Disney e esperou enquanto ele abria o celular. – Não. Ela real sumiu pelo dia e nem chegou a visualizar nenhuma mensagem no grupo com a , onde a gente sempre dá notícias etc. Que estranho. Só a vi de manhã, umas oito... Antes de vir pra cá.
- Porra. Cadê a ?
- É tão importante assim?
Era. Era importante demais. Era a coisa mais importante sobre o seu dia.
- Não. Só... Vai que aconteceu alguma coisa. Sei lá. Você não acha estranho?
cruzou os braços e deu de ombros, sem comprar o que o amigo falava. Seu sorriso era esperto e a expressão de divertimento.
- A não é boba, ok? Ela não vai se deixar levar por uma notícia de site sensacionalista. Fica tranquilo.
o encarou, surpreso. Talvez fosse meio óbvio que isso o estivesse incomodando, mas não achou que teria coragem de comentar qualquer coisa. As pessoas nunca tinham. Sempre pisavam em ovos com . Era engraçado como sentia que agora, muito mais que um colega de profissão, estava se desligando da ponte de e se tornando seu próprio amigo aos poucos. E gostava da ideia de ter um novo amigo nesse momento.
- Eu só não queria que ela tivesse que passar por isso...
- É uma escolha que ela tem que fazer, ué. Não você.
- Você é meio sábio às vezes, sabia ? – elogiou, levantando a cerveja num brinde ao amigo. – Nem parece que tava colocando hashi no nariz algumas horas atrás.



- Obrigado, . Você não sabe o quanto isso foi importante pra mim.
- Tá tudo bem.
Tinham acabado de chegar do velório. Estavam na frente do prédio de . O rapaz não precisou de muito para convencê-la a acompanhá-la durante a cerimônia, que mais se pareceram horas de tortura para a brasileira. Observou uma parte de Travis ser enterrada por completo naquele dia, e apesar da dor que a família sentia, havia também o fechamento de um ciclo. A única parte que a fez sentir melhor foi ver Willa, sua ex-cunhada geniosa e petulante novamente e prestá-la sua comoção, do jeito que podia: um sorriso compassivo e um abraço reconfortante. Esteve lá para Travis em todos os momentos. Mais uma vez, apesar de não querer. A sensação que tinha era a de que precisava sair de lá o mais rápido possível. E quando finalmente puderam ir embora, voltaram num silêncio reflexivo durante todo o caminho de carro. Sentia os olhares eventuais de Travis vez ou outra sobre si, mas fingia não notar, olhando pela janela enquanto o A Rush Of Blood To The Head tocava no som embutido.
- Eu... Posso te ligar? Outro dia?
- Não, Travis. Acho que a gente fica por aqui.
- Eu não sei como te agradecer... Eu realmente senti muito sua falta.
Mas ela já tinha dito coisas ruins suficientes por um dia. Ele segurou a mão dela com força. Ela olhou para o encontro de dedos, suspirou e delicadamente os separou.
- Você é forte. Vai superar.
- Eu não quero desistir de você ainda.
E sem mais forças pra discutir, , exausta demais e confusa demais, pensou “foda-se essa merda, lido com isso depois”, e encolheu os ombros, entrando no prédio sem olhar pra trás. Limpou as mãos no vestido durante todo o caminho.

X

- Pet, você tá bem?
- Eu tô bem sim – respondeu, meio desconfiada, sem levantar os olhos do celular. Rolava o Instagram sem ao menos prestar atenção no que via. Não era o tipo de pergunta que fazia normalmente: só engatava um assunto na lata, contava uma coisa aleatória que tinha acontecido ou perguntava coisas específicas sobre o que ela tinha feito, tipo, se tinha ou não pagado a taxa do condomínio ou se tinha notícias de alguns dos currículos que estava deixando. Mas naquele dia em específico o semblante de era quase maternal e aquilo, com certeza, era o que deixava mais irritada. – E você? – perguntou, desinteressada.
- O que você fez hoje? – não respondeu, soando casual, sentada na mesa de jantar, comendo um pouco do seu macarrão com queijo. apenas mexia na comida, sentindo o olhar da amiga sobre si; conhecia o tom. Conhecia o olhar. Estavam prestes a ter uma conversa de família.
Não tinham muitas dessas. Aprenderam a conviver perfeitamente com o passar dos anos, inclusive com . Eles realmente agiam como uma família; a família que eles tinham escolhido já que as suas – muitas vezes distantes, disfuncionais ou desinteressadas – não pareciam cumprir o papel de maneira saudável. As discussões, que aconteciam vez ou outra, eram raras e facilmente resolvidas, como em qualquer relacionamento com convivência frequente.
Tinha acabado de chegar do velório e no quarto quando passou pela porta, indo direto tomar um banho demorado – esfregou com força suas mãos, esfregou com força seu rosto, esfregou com força seus braços, esfregou com força seus ombros e pescoço, esfregou com força a sua boceta, esfregou com força o seu cabelo, esfregou com força suas pernas, mas o sabonete não parecia ter a substância necessária para fazer sentir-se limpa de novo.
Com seu pijama de flanelas mais confortável, meias e pantufas, sentou-se de frente para a rommate na mesa de jantar, onde a salada e a massa estavam postos. Estava mentalmente e fisicamente e emocionalmente exausta e sabia que era esperta o suficiente para notar que ela não queria conversa – a amiga costumava respeitar esses momentos. Apreciaria a presença silenciosa e aconchegante de ao comer. Era só o que precisava. Mas naquele dia específico, a amiga não estava tão disposta assim à deixar o silêncio tomar espaço e continuou: – Digo, além de ter quebrado o seu espelho com um jarro de flor.
Ignorou o comentário sarcástico porque não estava nem um pouco disposta a ceder.
Contaria para outro dia sobre todo o fator Travis e ligações e família e velórios etc. Tudo que não queria naquele momento era uma conversa profunda e desgastante e na qual iria sorrateira e quase imperceptivelmente fazer pensar sobre o assunto.
Não precisava pensar sobre o assunto. Precisava esquecê-lo.
- Nada demais. Fui correr, dei uma volta na praia.
- E encontrou o Travis no meio do caminho? – perguntou, insistente, e jogou o garfo no prato, já estarrecida. Maldito dia. Devia ter tomado uma carrada de Rivotril e esperado o próximo. Quem sabe tivesse mais sorte.
Era insuportável o quanto a conhecia. Era insuportável que não deixasse as coisas para lá.
- E como diabos você sabe disso?
- Olha pra você, . Eu moro com você há cinco anos. Eu te conheci antes e depois do Travis. Acompanhei todos os anos de relacionamento de vocês. Eu sei quando alguma coisa tá acontecendo com você. Eu sei o que ele é capaz de fazer com a sua cabeça. Eu sei o porquê daquele buraquinho na parede, ó – Ela apontou para uma mínima rachadura entre dois cartazes de filmes na parede da sala. – Exatamente pelo jarro que você jogou, dois meses atrás. Exatamente quando o Travis fez o favor de ficar te ligando sem parar.
- E você poderia, por favor, me dizer como é que eu estou, já que você sabe disso tão melhor do que eu? – nesse momento, se levantou da cadeira, usando o tom irritado. permaneceu sentada, mas virou-se para a brasileira, que andou até o meio da sala cruzando os braços.
Outra coisa que estava quase no topo da lista de “coisas que irritam muitíssimo a ” era a capacidade de de manter-se perfeitamente estável durante uma discussão, usando de toda a sua áurea de psicóloga, como se nada pudesse alterar o equilíbrio dos seus chakras.
- Murcha. Deprimida. Exausta. Drenada. Sem energia. Sem vida, ! Você é a pessoa mais enérgica que eu conheço!
- Não posso apenas ter tido um dia ruim?
- É claro que teve um dia ruim. Você estava com ele! É isso que eu estou falando!
- Você não sabe de porra nenhuma, ! Mas você tem essa mania absurda e irritante de querer dizer o que é melhor pra todo mundo!
respirou fundo, com paciência, dando de ombros.
- O que é que aconteceu então, ?
- Nada demais, ele veio aqui em casa e me falou umas coisas...
- Você deixou que ele viesse aqui em casa? – nesse momento, quem levantou, mostrando-se incrédula e profundamente irritada. nem podia acreditar que havia realmente entrado naquele tópico naquele momento. Jamais, em um milhão de anos, conseguiria explicar para em palavras a dimensão do dia que havia tido.
- Sim, não é como se eu tivesse muita opção quando ele está parado na porta me esperando!
- Você poderia mandá-lo embora, por exemplo. – retrucou, sarcástica, e revirou os olhos. – Você deixou claro que não queria vê-lo, . Vir aqui em casa é invasivo demais!
- Eu tentei, tá certo? – abriu os braços, gesticulando em rendição, numa postura defensiva de primeira. Molhou os lábios, exausta e baixou um pouco a guarda ao continuar: - Mas não dá, ele não me escuta, fica insistindo demais, aparece do nada...
- Porque você não diz não pra ele, você não faz o corte! explicou, pacientemente, colocando o dedo na cabeça, como se estivesse deixando algo óbvio passar. – Você se anula pra suprir as demandas dele, ! Você não consegue ver isso? Que ele te exige o que você não pode dar? Que ele te responsabiliza por isso, te fazendo acreditar que é você que está querendo isso, quando é ele?
Era isso. havia finalmente conseguido o que queria. estava prestes a explodir de novo. Como encostar uma agulha na bexiga.
- Pare de me cobrar sobre isso como se eu fosse a porra de uma marionete, ! E pare de usar essa MERDA de vocabulário psicanalítico comigo! Você está sendo exatamente igual ao Travis!
, exaltada, usando um tom de voz agressivo, encarava com olhos enfurecidos. Fazer o corte. Maternar. Suprir demandas emocionais. Se anular. Mentalmente desorganizado. Desejo recalcado. Elaborar a angústia. Era exatamente o tipo de coisa que Travis falava numa discussão. As palavras pareciam ecoar na cabeça dela, deixando-a ainda mais furiosa, as lágrimas que já queriam sair de novo, mas as conteve. Fechou-os com força só quando era seguro, tentando se livrar das lembranças.
- Ei, ei... O que tá acontecendo? – , então, entrou no apartamento de repente, interrompendo a conversa com as mãos levantadas, já rendido. – Dava pra ouvir do corredor...
Pronto, pensou, revirando os olhos, fodeu, a família buscapé estava completa.

não parecia nem um pouco abalada pelas palavras de e isso também entrava para a listinha. Muito pelo contrário – era quase como se tentasse mostrá-la alguma coisa que ela não enxergava, mas assumiu uma postura mais dura ao contar para o que estava acontecendo ali. O clima era pesado e ele, sempre com a áurea pacificadora good vibes e inabalável, não parecia estar balançado com isso. Pelo contrário. era necessário. Eles três tinham o equilíbrio perfeito. Funcionava assim para qualquer uma das variáveis. Os laços que haviam criado e escolhido já eram firmes demais para que algum deles faltasse.
Mas naquele momento... Naquele momento em especial, só queria que ambos explodissem.
- O Foster tá rondando a e ela tá putinha porque eu to falando o que ela não quer ouvir. Mas eu não ligo, , me desculpa. A gente tá há três meses tentando conversar com você sobre isso, porque é óbvio que terminar um relacionamento abusivo de anos afetaria qualquer pessoa, mas você sempre dá uma de durona e que não quer conversar. Você sempre foge. Eu aposto que ele tava te mandando mensagens, não tava?
- E se estivesse? Isso não é da conta de vocês! Isso sou eu quem resolve! Parem de se meter na minha vida!
- Tacar um jarro no espelho e sumir não é resolver, ! – gesticulou, quase suplicando com as mãos, como se tivessem uma dificuldade de comunicação, mimicando como se falassem línguas diferentes. O tom ainda estava controlado, mas a entonação intensa na voz demonstrava a aflição que tentava conter. Os olhos de marejavam e ela, a manteiga derretida do grupo, estava prestes a chorar. Mas os não eram olhos de pena. Eram olhos de cuidado. – Eu só to preocupada com você! Você tá empurrando com a barriga!
- , você jogou um jarro no espelho? – ouviu perguntar num tom também preocupado e virou-se para ele com uma expressão de quem está entediada. Cruzou os braços. Ele estava em pé entre as duas, perpendicular, e a encarava com olhos curiosos e em alerta.
- Sim, caralho, e daí? Eu não posso pegar a porra do meu jarro e jogar na porra do meu espelho dentro da porra do meu quarto ou isso quer dizer que eu sou louca? Eu não posso sumir pelo dia porque é um absurdo?
- , eu não to dizendo que você é louca. Mas esse não é um comportamento saudável, se permitir entrar de novo nesse ciclo vicioso não é saudável! Isso é um sinal de que você tá guardando muita coisa, tentando lidar com tudo sozinha... Tá tudo bem contar com seus amigos... – suspirou. – A gente só quer que você converse sobre essa angústia, ...
- E que você, puta merda, pare de ver esse cara! Ele te faz mal. Ele te traiu, ! Ele fodeu sua cabeça!
observou repreender com o olhar pela escolha de palavras e o modo ácido que as soltou e bufou, fazendo um barulho com a boca. Ela era forte o suficiente para lidar com a sua própria merda. Não precisava ser envolta em plástico bolha para não ser atingida pela vida. Não precisava que e a protegessem do mundo.
- Como se você nunca tivesse sido um macho escroto antes, .
Ambos pareceram ignorar a sua afirmação. porque não era facilmente atingível e que parecia mais interessada em outro tópico.
- Isso não é sobre o , . Você precisa parar de se culpar pelas coisas que o Travis fez, independente de como as coisas aconteceram antes, de acreditar nas coisas que ele te fala...
- , PÁRA de me analisar!
- Eu não tô te analisando, , eu tô constatando o óbvio! Você consegue facilmente dizer “não” pra todo mundo, mas pra ele você não consegue, porque ele te manipula, ele consegue entrar na sua cabeça!
- Tá, chega disso, a gente só vai brigar e não vai chegar em lugar nenhum – colocou as duas mãos pra frente, expirando de maneira pesada, olhando nos olhos de cada uma, uma de cada vez, como se quisesse acalmá-las. – , a gente não vai conseguir nada agora, assim. Acho melhor dar um espaço pra ela...
- Ah, agora você é sensato, senhor , se comunique com ela, a já passou por muita merda esse ano”. – exasperou, parecendo irritada e fazendo uma voz masculina ridícula ao imitar o amigo, que fechou os olhos com força e demonstrou arrepender-se imediatamente do momento em que contou isso para . Depois, arregalou-os pra ela como quem repreende e deu de ombros com um sorriso sarcástico. – Foda-se. Não vem dar uma de homem racional acalmando as mulheres emocionais demais pra cima de mim. Você se meteu primeiro.
revirou os olhos, dando de ombros. Mais uma vez não pareceu se importar muito. Tinham coisas mais importantes para resolver.
- O quê? – quase gritou, esganiçada, com a boca escancarada, colocando a mão no rosto e sentindo seu estômago despencar. Quando pensou que não podia piorar. – Você falou isso pra ele?
- Em minha defesa, eu estava bêbado e extasiado pela presença icônica de na minha frente pela primeira vez.
- Naquele dia? No primeiro dia? Vocês passam de TODOS OS LIMITES! – gritou com o rosto vermelho de raiva, as mãos trêmulas e os olhos que, finalmente, decidiram se deixar levar. E em uma das poucas vezes da vida, ela não se importou. As lágrimas caíam livres e desimpedidas por seus olhos. – Eu simplesmente não acredito que você fez isso, ! Você não tinha o direito! – ela se virou, então, para , gesticulando intensamente com as mãos. – E vocês, , fala TANTO sobre eu querer ser inconscientemente ou o cacete da mãe do Travis, olha só, VOCÊ tentando me “maternar*” – ela fez as aspas com as mãos, o veneno que quase escorria enquanto ela usava o termo científico. – e faz isso com todo mundo ao seu redor! Se eu não digo não pro Travis, você não diz não pra NINGUÉM, porra! Tá feliz? Tá satisfeita? E eu não sou a porra da pet de vocês!
- Então pare de agir como uma criança que precisa da porra dos seus pais – ele disse, simplesmente, num tom baixo, áspero e eficaz, dando de ombros. – Não atacar a só porque ela tá te mandando a real seria um bom começo. Contar pra gente que o Travis tá te rondando também! Esse cara precisa te deixar em paz! Você não tem que resolver tudo sozinha, !
O silêncio que se fez foi absoluto por um segundo inteiro em que encarou com tudo que ela ainda não tinha demonstrado para nenhum deles.
Dor.
Paternidade era um assunto delicado para . Apesar de Mark fazer um bom trabalho como substituto, não era algo que ela, também, costumasse conversar. Todos eles sabiam disso, mas não parecia arrependido. Sua postura era impassível e o olhar, diferente de suas palavras, desafiador de maneira carinhosa. engoliu em seco, expirando fundo, passou as mãos pelo rosto e pelo cabelo, apertando o rabo de cavalo, e então, disse:
- A gente só tá preocupado, , é só isso. A gente te ama e quer te ajudar, mas você não conversa com a gente. É difícil demais te ver assim de novo. Faz três meses que a gente faz piada disso como se não te afetasse esperando que, em algum momento, você fosse falar. Mas você não fala, .
- Vocês querem que eu fale, não é? – , nesse momento, começou a juntar suas coisas numa bolsa. Chave do carro, documentos, dinheiro, óculos e celular. Pegou o seu sobretudo no cabideiro e deu o sorriso mais satírico que conseguiu, com os olhos e o rosto vermelhos e inchados, parando a frente da porta e saudou teatralmente: – Eu quero que vocês, e , e Freud e Lacan, e o Travis e o , e todos os homens e todos os psicanalistas que existem, e também o Donald Trump e toda a família Bolsonaro, vão todos juntos pra puta que vos pariu! E aí, quando vocês chegarem lá, espero que vocês tomem bem no meio do cu! Eu não volto pra casa hoje!
E bateu a porta atrás de si.

Oi 9h21pm
Vc ta ai 9h21pm
Vamo transar 9h21pm


15.

As ruas de Santa Mônica pareciam pequenas para que se arrependeu instantaneamente da mensagem que havia mandado para Nate, e por isso, ignorou a sua resposta quase imediata.
As luzes da cidade sempre a acalmaram. Era o que gostava de fazer quando precisava espairecer: abria as janelas do carro, colocava uma musiquinha gostosa e dava umas voltas pelo bairro, talvez parar na Ben and Jerry’s e tomar um sorvete, respirar fundo, cantar Jack Johnson, encarar as ruas silenciosas e pouco movimentadas de fim de noite. Era o que imaginava que faria: passear pela cidade, refletir, voltar renovada após um tempo sozinha de introspecção e jornada espiritual. Ou de uma foda gostosa. Nenhuma dessas foi a cena em que ela se encontrou, no fim das contas.
- Hoje é você que está sofrendo amor, hoje sou eu quem não te quer, de pijama, com o rosto molhado pelas lágrimas que caíam insistentemente de seus olhos e a boca melada de glacê – visto que não havia parado de chorar desde que pisou o pé fora de seu apartamento –, cantava um dos clássicos de Raça Negra enquanto comia compulsivamente uma das rosquinhas de morango da sua caixa de donuts. Lembrou-se muito bem das palavras de Vó Luma numa de suas conversas de fim de tarde na casa de praia: “Não tem nada que não possa ser curado com uma boa panela de brigadeiro e Raça Negra”. Talvez a falta de eficácia na teoria fosse a troca do brigadeiro pelas rosquinhas, pensou, porque não se sentia nem um pouco curada. Mas se já foi humilhante o suficiente entrar na Duffin’s Donuts descabelada e de pijama no meio da noite, imaginou que seu showzinho mequetrefe teria um efeito bem menos dramático se tivesse que ir na cozinha terminar de mexer um brigadeiro de panela antes de bater a porta de casa com seus amigos dentro. – O meu coração já tem um novo amor... Você pode fazer o que quiser gritava, de boca cheia, em meio aos soluços, dirigindo sem rumo e sem muito cuidado pelas ruas de Los Angeles, frustrada, chorosa e descabelada, com as janelas abertas e o vento no rosto. Parou no sinal vermelho, recostando a cabeça no banco e fechando os olhos com força. – Você jogou fora o amor que eu te dei, o sonho que sonhei, isso não se faz…
Nesse momento, nem sabia mais pelo que estava chorando. Se era por Travis, se era a avó dele que tinha morrido, se era a briga com e , se era por si mesma e sua situação deplorável... Mas chorava copiosamente e nada parecia aliviar sua angústia.
Quando desceu do apartamento teve alguns minutos de choro compulsório e turbulento dentro do seu carro na garagem do prédio, com a cabeça recostada no volante, sem conseguir muito bem discernir o que fazer ou pra onde ir. Nathan havia respondido sua mensagem prontamente perguntando onde ela estava, disponível e divertido, como sempre. E apesar de saber que ele seria efetivo no que ela conscientemente queria – gozar, basicamente, e suprir seu vazio existencial com um sexo prazeroso porém sem significado nenhum –, também sabia que não era de Nathan que ela precisava. Nem o que realmente queria.
queria ver . Queria o conforto específico e avassalador que a presença dele trazia para o seu corpo e para sua mente e para o seu coração, aparentemente. Queria o entorpecente caótico que sua pele exalava ao entrar em contato com a dela. Só não queria que ele a visse – não no seu atual estado.
Tinha, sim, ficado confusa e mexida com a tal notícia, mas agora que a poeira e o pico de ansiedade tinham baixado, decidiu que talvez nem fosse tão importante assim. A probabilidade de ser mais uma fake news de site de fofoca sensacionalista era grande o suficiente e conheceu esse meio em todos esses anos como publicitária. Naquele momento, parecia o último de seus problemas – se é que realmente era um problema. Naquele momento, ela só queria chorar e comer muitas coisas muito gostosas e não ter que conversar sobre absolutamente nada do que havia acontecido, nem naquele dia, nem três meses antes, nem anos antes, nem depois e nem nunca. E foi por isso que decidiu ignorar as mensagens que ele havia mandado também e todas as outras mensagens desde então.
Pôde seguir seu destino e comprar rosquinhas depois de algum tempo, ao se acalmar, pensando em como não sabia mais para onde ir depois daquilo.
Com certeza deveria ser a pior pessoa do mundo. Conseguiu, além de tudo, magoar as únicas pessoas que ainda insistiam em tê-la por perto –o paradoxo de sentir raiva de seus melhores amigos e estar tão arrependida de todas as coisas que lhes havia dito, tão arrependida de tê-los tratado da maneira que havia tratado. Sabia que tinha ido longe demais. Sabia que tinha ultrapassado todos os limites. As frases que havia gritado para Travis também ressoavam no fundo de sua cabeça logo antes de ele ter a oportunidade de contá-la que sua avó havia morrido.
Você é um merda. Isso é o mínimo que você merece. Eu quero que você se foda.
Suas próprias palavras balançavam por sua mente como um pêndulo de tortura.
Você está agindo exatamente igual a ele, ! Se não consigo dizer não pra ele, você não consegue dizer não para ninguém!
Queria bater a cabeça no volante até sangrar.
Como se você nunca tivesse sido um macho escroto antes, .
- É tarde demais... Que pena, que pena, amor… cantava soluçando, se martirizando e comendo suas rosquinhas, quando a música no carro foi interrompida pelo toque do celular no próprio alto falante. Revirou os olhos, pronta para ignorar quem quer que fosse ao pegar o aparelho com as mãos sujas, mas surpreendeu-se ao ver o nome no visor. Arregalou os olhos.
tinha essas coisas, sim, de fazer umas ligações aleatórias e sempre acabava atendendo porque gostava quando ele fazia ligações aleatórias, apesar de odiar falar no telefone. Talvez não fosse o momento ideal e não queria que ele soubesse que ela estava mal e... Ah, por favor. Era óbvio que atenderia. Sabia que o som da voz dele era o antídoto perfeito para o aperto que sentia no peito. Um efeito sanativo sobre as coisas quebradas que rodeavam . Atendeu no terceiro toque ao ligar o pisca alerta, recostando no canto da via.
- Oi, sumida – ele usou o tom de voz habitual, carismático demais, carinhoso demais, e quase quis esmurrá-lo por conseguir fazê-la dar um mínimo sorriso no canto do lábio depois de um dia como o que ela teve apenas com duas palavras. – Quer dizer que hoje você tá difícil? Nem pra responder uma mensagenzinha…
Ah, ... Se ao menos você soubesse no que está se metendo...
- Você não tem ideia – respondeu, apenas, e deixou que ele guiasse a conversa – o que ele sempre fazia muito bem, tentando ao máximo disfarçar a voz embargada de um choro longo. Estaria satisfeita, apenas, com uma conversa boba de alguns minutos que com certeza já faria com que se sentisse melhor. Depois, quando fosse tarde o suficiente para estar dormindo, voltaria para casa. Ou dormiria no Nate. Ou viraria a noite no Puzzle com Carlito e uma garrafa inteira de tequila. Ou qualquer coisa dessas.
- Ei, ei. Que vozinha é essa, ?
colocou a mão na boca e pigarreou baixinho com uma careta, reprovando a si mesma ao mimicar xingamentos inaudíveis.
- Minha voz, ué, já esqueceu? – perguntou, a diversão era clara na entonação, mesmo que ainda um pouco fanha.
deu uma risadinha gostosa, mas ainda assim o tom da conversa parecia ter mudado. mordia o lábio, olhando pro som embutido do carro, que repassava as palavras do cantor através do viva voz.
- Você tá muito mal criada, . Vou te ensinar a me responder direitinho. Onde você tá?
- Você me ligou pra fazer questionário? Quer saber a capital da República Tcheca? – insinuou, rindo pelo nariz, e poderia desenhar ali mesmo a expressão que tinha certeza que tinha feito a sua resposta: impaciência.
- Eu te liguei porque vou pra Londres amanhã e queria te ver antes, boquinha esperta. E é Praga, obviamente.
O coração de se derreteu, bem ali, no meio de uma rua deserta que ela nem sabia o nome, sentindo seus ombros relaxarem e suas pernas se esparramarem no banco do carro. Expirou com força. Era sua deixa. Estava condenada.
- Eu não sei onde eu tô, ...
Respondeu, honesta, a voz já começava a embargar de novo e queria que a resposta fosse somente metafórica, porque também era – porém, mais que isso, era real: havia parado numa rua que ela nem mesmo sabia como tinha chegado.
- Como assim, ? – A sua voz, agora, soava preocupada. Quase se arrependeu de ter atendido a ligação com o aperto no peito e a sensação de que poderia voltar a chorar a qualquer momento. – Olha só, vai pra um ponto movimentado mais próximo e me manda a localização. Eu tô chegando o mais rápido possível, ok? Me espera. Eu tô chegando.
- Ok.


.

- Anda, vai pro lado de lá.
- Por quê? É o meu carro.
- Porque eu tô falando. Vai logo, , desfila com esse lookinho pro lado de lá.
Quando chegou com o simpático Tim, seu motorista, onde estava – eficientemente pouquíssimo tempo após ter recebido uma mensagem com sua localização, dispensou-o pela noite, nem um pouco disposto a deixar que ela voltasse a dirigir naquele estado. Encontrou com ela em West Hollywood, não era tão longe assim de Santa Mônica, mas ao ouvir sua voz pelo celular já sabia que tinha alguma coisa errada. Teve medo que isso tivesse qualquer coisa a ver com os rumores que tinham saído logo pela manhã. Sentiu a boca do estômago apertar ao pensar na possibilidade de ser a pessoa que traria qualquer tipo de angústia a – tentava manter o discurso de em mente e evitar o pensamento que perturbou seu juízo algumas vezes durante o dia. Mas sabia, por experiência própria, que ela nem mesmo teria atendido o telefone se fosse essa a questão; era cabeça dura demais para deixar algo assim passar batido. Preferiu deixar o espaço aberto para que ela comentasse quando se sentisse confortável. Ou que ele mesmo trouxesse à tona quando fosse o momento certo.
Observou enquanto ela saía do carro a contragosto, batendo a porta e indo pro lado do passageiro, segurando com afinco sua caixa de donuts e vestindo uma expressão emburrada no caminho até o outro lado. Com um pijama gigantesco de flanela quadriculado, pantufas, meias, óculos e um sobretudo.
nunca tinha visto de óculos pessoalmente antes. Achou que combinava perfeitamente com o seu rostinho meio avermelhado e inchado e melado de açúcar ao observá-la dar a volta no carro. O cabelo preso por num coque mal feito. quis rir, mas também quis dar um sermão nela por estar sozinha no meio de uma rua aleatória àquela hora da noite. Sentou-se no banco do motorista e virou-se para . Sem avisar, aproximou-se do seu rosto. Colocou a mão no seu pescoço para sustentar. Ela, meio parada e surpresa, deixou que limpasse com beijos todo o glacê ao redor da sua boca, fechou os olhos e espremeu as maçãs, meio desconsertada, tentando não sorrir. finalizou com um selinho demorado. Passou o dedo por seus lábios com um sorrisinho, limpando de verdade dessa vez. E por fim, encararam-se, meio sérios. A conexão que dispensava palavras. Os rostos ainda próximos demais.
- Eu não sabia que você usava óculos.
- Só pra ler e dirigir e assistir coisas.
- Então, você vai se explicar ou...?
- Ou a gente pode foder, bem aqui, no banco de trás do meu carro – se inclinou um pouco, apresentando o banco com a mão como se fosse um aposento, usando um sorriso canalha no rosto acompanhado de uma piscadela. Ok. Provavelmente não tinha nada a ver com ele. Quis bater a cabeça numa parede por ser um egocêntrico filho da puta.
não pôde deixar de dar uma risadinha, negando com a cabeça, enquanto engatava o garro e fazia o caminho até sua própria casa. Engoliu em seco. Nem ele mesmo saberia como resistir.
Já pensava em ligar para ela quando mandou uma mensagem perguntando se estava com ele. Mas ao saber que nem mesmo tinha ideia do paradeiro dela, resolveu tentar por si só. Deu certo. Já passava das onze quando o respondeu que sim, sã e salva, e que a devolveria pela manhã. Se fosse para ser sincero, os planos dele para a noite eram completamente diferentes antes de, finalmente, encontrar com – mas não se importou muito em mudá-los. E se tinha a sensação de que alguma coisa estava errada com a sua voz ao ouvi-la pelo telefone, teve certeza ao observar a expressão do seu rosto; os olhos marcados e as maçãs avermelhadas não deixavam enganar. Muito menos as roupas. Todo o composto.
Não que não continuasse tão bonita quanto nos outros dias, não mesmo, mas agora ela não usava de sua pose imponente e orgulhosa de sempre. Era uma ... acessível. Legível. Quase vulnerável. Uma das facetas que não havia conhecido ainda. Sentiu uma vontade absurda de abraçá-la, mas apenas continuou a dirigir.
- Por mais que a proposta me seja absolutamente tentadora, , você sabe, esse seu corpinho é uma delícia – respondeu, com uma pequena olhada pro lado e um sorrisinho sacana que foi retribuído com um assentir de cabeça em concordância. – Hoje não vai rolar.
- E eu posso saber o por quê?
- Porque hoje a gente vai fofocar e dormir de conchinha.
- Como bons amigos?
O sarcasmo na frase foi quase cortante e pegou a referência claramente, mas decidiu ignorar e pagar de sonso. Não era de sexo que precisava naquela noite.
Naquela noite, precisava, sim, que fosse seu amigo. Então ele seria. Ele era.
- Como ótimos amigos!
- É o que veremos, meu caro cantor famoso – deu de ombros. – Nós dois sabemos que você não vai resistir.
- , só tem uma pessoa irresistível nesse carro – virou o rosto pra ela, inclinando a cabeça de lado e espelhando o movimento que havia feito. – E essa pessoa sou eu.
- Eu sabia que devia ter ido no Nathan... – resmungou como quem não diz nada, ao usar um tom sugestivo e virar a cabeça para a janela, mordendo o lábio inferior. abriu a boca num círculo perfeito, desviando o olhar de para a rua e da rua para várias vezes ao fingir estar profundamente ofendido. Ouvir a risadinha deliciosa da mulher ao seu lado quase fez valer a pena a facada que sentiu no peito. Até levou na esportiva, mas sua cabeça passou a borbulhar um pouco com as possibilidades. De novo com essa de história de Nathan. Quem caralho é Nathan?
- Repete, .
- Ué. É verdade. O Nate ia me comer gostoso demais aqui nesse carro, no meio da rua, pra todo mundo ver.
O sorriso desafiador voltou pro rosto de , o ar de superioridade, o flerte estampado na entonação de sua voz e sabia que ela queria provocar – mas não cairia tão fácil assim. Parou o carro no meio da rua, puxando o freio de mão e ligando o pisca alerta. arregalou os olhos, sendo impulsionada pra trás com certa força pelo impacto, a mudança de um sorriso desafiador para um outro desconfiado e o encarou confusa.
- O que você tá fazendo?
- Retire o que disse, ué.
riu desacreditada, negando com a cabeça. parecia tranquilo e nem um pouco disposto a ceder, apoiando o braço na porta do carro e olhando para com toda a paciência do mundo. A paciência de quem já havia ganhado a batalha. O sorrisinho debochado não deixava enganar. Ela sabia que só queria irritá-la, mas mesmo assim, não queria admitir.
- Sério? Você quer voltar pra fase do atropelamento?
- Eu não tô vendo nenhum carro por aqui – olhou teatralmente em volta pela janela. A rua estava mesmo vazia. O cinismo na voz era lúcido e o sorrisinho provocante pairava nos seus lábios.
- Eu não vou retirar nada! Vai logo! A gente tá literalmente no meio da rua!
- É só você retirar o que disse.
- Tudo bem, eu e o Nate iríamos apenas dar uma volta pela cidade e tomar sorvete! Anda logo!
- Muito bem. Agora confessa que eu sou a melhor e mais gostosa foda da sua vida. Usando o meu nome.
cruzou os braços com uma expressão de puro escárnio. devolvia com um sorriso largo, parecendo apreciar cada minuto que se passava ali, enquanto se encaravam num delicioso embate bem no meio da avenida que não tinha movimento. O carro convencional de tinha o cheirinho gostoso do seu perfume.
- Eu não vou mentir pra você assim, na cara dura.
- Eu não tô com pressa, . Tô achando bem divertido. Gosto muito da sua companhia, sabe? As luzes da cidade me encantam sob a escuridão de uma noite em Los Angeles...
- , pelo amor de Deus! – esperneou, quase gritando, esticando o braço e a colocando a cabeça para fora da janela, sentindo seu cabelo voar com o vento e a risada quase escapar. Mas segurava.
- As verdades precisam ser estabelecidas aqui, . Eu tenho um compromisso com elas – deu de ombros mais uma vez, molhando os lábios.
- Você, , é a melhor e mais gostosa foda da minha vida. – disse, num tom entediado e fazendo questão de revirar os olhos, mas no canto da boca mal podia disfarçar o divertimento. – Pode, por favor, prosseguir com o carro agora? Ao contrário de você, eu não tenho uns quarenta e sete pra substituir. É só um mesmo.
- A gente pode treinar um pouco mais a sua entonação. Foi bem medíocre. Mas vou me dar como satisfeito por agora – alargou ainda mais o sorriso, engatando o carro e voltando a dirigir em direção a sua própria casa. Sorrateiramente buscou a mão de com a sua que estava livre – e ela observou o movimento com atenção, vendo-o dar ali, nas costas de sua mão, um beijo estalado. Manteve-a ali, segura consigo, entrelaçadas e recostadas em sua perna, enquanto podia dirigir o carro apenas com a outra no caminho reto. – Vou mostrar para minha deusa que ela fez a escolha certa.
observou tudo com certo humor e mordeu o lábio ao rir pelo nariz, balançando a cabeça de um lado pro outro pela escolha ridícula de palavras.
- A sua deusa?
- É. Minha deusa do amor – ele assentiu com a cabeça, olhando de cima abaixo em aprovação, e sentiu seu coração se aquecer ao vê-la dar uma risada doce e verdadeira pela primeira vez na noite, jogando a cabeça para trás, enquanto mantinha a mão ali, entrelaçada na dele. – Ah, oh... Ah, oh… – tentou cantar o resto da música em português, ouvindo o som da sua risada aumentar, e quis não estar dirigindo para poder manter os olhos somente nela e na dinâmica que ela apresentava. Não só os olhos. Mas as mãos, os braços, as pernas, o torso, o pescoço. Quis estar completamente entrelaçado nela com aquele pijama ridículo e enorme de flanelas.
As pantufas, o óculos, as mãos grudadas, o rosto mais empalidecido e frágil, mas ainda sim tão bonito... O som saía na sua risada, o fato de ele ter sido a pessoa a fazê-la rir quando ela parecia querer chorar. Fez um carinho em sua mão com o polegar enquanto ela tentava ensinar para ele as palavras da música em português e ele falhava miseravelmente, às vezes até de propósito, só para que pudesse ouvi-la rir de novo. Só para que ela pudesse esquecer sua dor por um tempinho.


.

- Ok. E se eu te contar alguma coisa? Você me explica o que aconteceu? É uma troca justa.
- A gente pode negociar isso depois de você contar a sua coisa.
- Eu tenho muito mais em jogo do que você, .
- Eu poderia ter te jogado nos tabloides muito antes, ... Não posso arriscar ter uma review sobre a minha vida pessoal na Rolling Stone da semana que vem. Tenho muita coisa a se perder. Por exemplo, uma carreira que ainda não comecei.
- É, porque eles estão bem interessados numa edição falida – retrucou, dando de ombros, a ironia sempre casual em seu tom de voz, tomando um gole da sua cerveja e recebendo um empurrãozinho de lado como resposta. Estavam novamente no terraço da sua casa – um lugar que acabara por se tornar meio especial pros dois, sentados no sofá imenso, de frente um pro outro, conversando sobre a vida e observando toda Los Angeles com a pouca luz do ambiente.
Quer dizer, fingia observar Los Angeles. Na verdade mesmo, seus olhos estavam mais atentos no rapaz ao seu lado, em suas expressões, pequenos sorrisos e olhares que lhe soltava vez ou outra. Se pegava encarando pijama de flanelas listrado que ele tinha colocado só para que combinassem assim que haviam chegado em casa e sentia vontade de rir.
Por que é que tudo parecia melhor só por que ela estava ali?
Deu-lhe um tapinha de leve. – Tá bom. O que você sabe?
- Sei que você participava de uma banda chamada One Direction – ela começou, enumerando. As suas pernas entrelaçadas nas dele. O pé se enroscava em sua panturrilha por cima do pijama. – Sei que você não gosta de montanhas russas. Sei que você guarda seus ternos num freezer, que gosta de cozinhar e sei que o nome da sua mãe é Florence.
piscou os olhos, meio incrédulo com as constatações aleatórias visto que sabia de muitas outras coisas mais consistentes, mas assentiu, revirando os olhos com um sorriso para que ela continuasse.
- Vamos lá, . Tô aqui, aberto. Te conto o que você quiser, nesse exato momento. É só você perguntar.
encarou-o por alguns segundos antes de decidir mencionar o elefante na sala.
- Sei, também, que tem uma certa modelo francesa envolvida e que eu sou a sua amante misteriosa riu, dando de ombros. – Por que não me contou que já namorou com a Camille? Eu a conheço, sabia?
, então, um pouquinho mais sério, acariciou a sua bochecha com o polegar.
- Sabe o dia que eu vomitei no seu banheiro? – ele começou e ela assentiu, olhando pra ele com olhinhos curiosos. – A gente já tinha terminado antes. Mas nesse dia a gente terminou de vez.
- E aí o meu banheiro pagou o pato...
- É.
- Então era só mais um site de fofoca querendo causar?
- Sim, , e me desculpa por isso, eu nunca quis te colocar nessa posição...
- Tá tudo bem, , fica tranquilo, não precisa se preocupar. E eu sinto muito? – , apesar de mais aliviada, não soube o que responder. A notícia, no fim do dia, pareceu-lhe mais uma mera bobagem. Era incrível o que um pico de ansiedade poderia fazer com a mente de uma pessoa.
Lembrou-se da conversa que tiveram na sua própria cama naquele dia, antes de passar uns vinte minutos procurando por comédias românticas na Netflix e rindo da falta de consenso ao comentar sobre os filmes. O olhar grato que ele lhe direcionou só por estar lá. acreditava que era o mesmo que lançava para ele naquele momento. Grata por apenas estar ali. – Como foi isso?
passou a mão na nuca, ajeitando o cabelo e limpando a garganta. Apesar de manter sua expressão indiferente, era boa demais lendo as pessoas: sabia que ele estava desconfortável. Sabia que era um tópico delicado.
- A Camille... – ele olhou em volta, tomando um gole de sua cerveja e encolhendo os ombros, parecendo tentar escolher as palavras cautelosamente ao mencionar a ex-namorada. Quase como quem não quer falar sobre. Quase como quem tem cuidado demais. – Eu a conheci num dos melhores momentos da minha vida, na verdade. Já fazia algum tempo que a banda tinha entrado em hiatus então eu já estava mais superado, eu tinha acabado de participar de um filme foda e estava produzindo meu primeiro álbum. Acho que estava sendo o contrário pra ela, na verdade. – Eu não sei se você sabe do Cole...
- Definitivamente não.
- Eu achei que não – assentiu, empurrando-a um pouco de lado com o ombro, tentando fazer o assunto parecer um pouco mais leve. – O ex dela... Morreu pouco antes de a gente se conhecer. Eles se amavam muito.
- Porra... Eu nem sei o que dizer.
- É. Acho que ela nunca superou isso tudo totalmente, o que é totalmente compreensível, mas ela não demonstrava e eu só notei depois. Todos os dias com Camille eram uma aventura. Até eu notar que ela estava sempre bêbada, chapada ou drogada e isso passar a me incomodar um pouco. Era o tempo todo.
- Foi por isso que vocês terminaram?
torceu o lábio, engolindo em seco. Seus olhos fixos em algum ponto da vista, enquanto estava totalmente reclinada para ele. Respirou fundo antes de responder.
- Acho que sim. Ela tinha uma alimentação louca de modelo, cheirava muito pó e até tinha uns amigos legais, mas outros bem bizarros. A gente tinha picos. Quando a gente estava bem, a gente estava muito bem, eu nunca achei que uma pessoa pudesse sentir tantas coisas contava com o que parecia ser mais um desabafo. Escutava atentamente, assentindo com a cabeça em atenção, desejando conhecer mais sobre ele e tragando seu Malboro. Vez ou outra fazia uma careta interna, se perguntando como diabos iria competir com uma modelo francesa metida a angel da Victoria’s Secret.
Logo ignorou o pensamento. Sem rivalidade feminina aqui, . Honre suas ancestrais. Elas não queimaram sutiãs para você ficar dando chilique. – Mas quando a gente estava mal... A gente tinha umas brigas muito feias e frequentes. Eu comecei a ficar meio inseguro, ela também. No fim das contas, ela decidiu abrir o relacionamento e não me avisou.
- Peraí. Calma. Você também foi corno? O ? – , então, colocou a mão na boca, quase querendo rir. arregalou os olhos, apontando pra ela, engolindo a cerveja e parou para rir também.
- EI! Isso é uma informação! Você foi corna?
fez uma careta.
- Caralho, essa palavra não te dói no peito? Corno. Chifrudo. Trouxa.
nem ligava mais para suas próprias frustrações. tinha deixado alguma coisa escapar!
- Foi por isso? Foi o que te deixou mal? Você teve uma recaída? Você descobriu uma traição que não sabia?
- Você é muito espertinho, , mas já te dei mais informações do que deveria por hoje.
- Tudo bem, – deu-se por vencido, por fim, colocando a garrafa de cerveja vazia na mesinha e virando o seu rosto para ela. – Me diga, então, em que mais eu posso te servir pela noite?
- Você podia me comer de quatro bem ali na sua cama king size.
- ...
Repreendeu, com um sorriso controverso. revirou os olhos, bufando.
- Por que você não pega seu violão e toca uma música gospel? Já que hoje a gente tá de voto de castidade.
riu, colocando a língua para fora durante a risada, espelhando o tom de deboche.
- Você prefere violão ou piano?
- Você toca piano?
- Eu tenho aprendido – respondeu, dando de ombros como se não fosse muita coisa, mas cruzou os braços, surpresa, encantada. Aproximou-se dele com olhos que quase falavam, imploravam, e torceu o rosto para o lado, rendido, grunhindo em contradição. Sentia-se impelido a cumprir com todas as vontades dela com uma urgência desgraçada que lhe tirava a paz.
Mas rendeu-se. Estava começando a ler o comportamento de com mais facilidade. Levantou-se, um sorrisinho de lado e puxou-a pela mão, abraçando-a pela cintura e cochichando coisas aleatórias que a fizeram rir um pouquinho ao levá-la até o piano de calda que ficava em uma das salas de ambientação do segundo andar.
Sentaram-se lado a lado no banquinho longo. sentia um nervosinho na boca do estômago com a expectativa do que se procederia. Já , a observava com a curiosidade corriqueira que tinha sobre todo e qualquer mínimo movimento que ela fazia.
- O que você quer ouvir?
- Algo que eu nunca ouvi antes – respondeu, na lata, virando-se para ele e arqueando as sobrancelhas como se tivesse acabado de ter uma ideia incrível. , virado para ela também, fez uma careta, parecendo ficar sem reação por um momento. mordeu o lábio inferior com os olhos espertos e o sorrisinho pedinte, prensando seus lábios um contra o outro com a tensão do momento. Inclinou a cabeça para o lado. Decidiu roubar-lhe um selinho molhado e demorado.
E depois distribuiu os beijos rápidos e gentis em seu queixo, o canto de seu lábio, sua bochecha, seu nariz, o olho fechado, a testa, e logo pôde ouvir a risada rouca soar enquanto brincava com o rosto dele.
- Você me ganha fácil demais – ouviu sua confissão quando, por fim, segurou seu rosto com as mãos. Estacionaram os olhares irremediavelmente atentos e inflamados um no outro. As expressões que não enganavam. Perto demais. O sangue que correu rápido por todo seu corpo quando seu coração acelerou com o contato. – Ok. Ninguém ouviu isso ainda. Não tá pronta, falta retocar alguns detalhes, acrescentar um monte de coisa e...
Assim que abaixou o olhar, envolveu os pulsos dele com seus dedos. Tirou as mãos de de seu rosto com delicadeza e posicionou-as sutilmente sobre as teclas. Voltou os olhos para elas, grandes e largas, e então, subiu o olhar novamente. O encontro das íris que queimavam com a mínima presença um do outro. deixou suas próprias mãos sobre as dele por um breve momento e, dando espaço para que ele começasse a tocar, tirou-as logo depois, apoiando-as novamente no banquinho.
- Eu não me importo. Eu quero ouvir porque é sua.
piscou algumas vezes antes de assentir meio desnorteado, e por fim, começou a tocar uma introdução. observava seus longos e grossos dedos se espalharem pelas teclas afinadas, doces e sonoramente limpas do piano de maneira graciosa e envoltória. Algo que ela realmente nunca tinha ouvido. Até que ele começou a cantar, bem ao seu lado, bem baixinho. E aí, sim. Aí sim tudo fez sentido. Nesse momento, a Orquestra Sinfônica de Nova Iorque parecia ficar em segundo plano diante da magnitude da voz limpa de apenas suspensa sobre as notas do instrumento.

I’m in my bed, you’re not here
And there’s no one to blame but the drink in my wandering hands
Forget what I said, was not what I meant
And I can’t take it back
I can’t unpack de baggage you left


, com o coração batendo forte e pesado, levantou os olhos para o rosto do cantor ao seu lado, sentindo cada palavra daquela música. Ouviu limpar sua própria garganta e, de olhos fechados, continuar:

What am I now? What am I now?
What if I’m someone I don’t want around?
I’m falling again, I’m falling again, I’m falling


Seus olhos se encheram de lágrimas ao ouvir a voz, tão rouca, tão limpa, tão característica, tão milimetricamente controlada e ao mesmo tempo tão natural, cantar as palavras que ela poderia facilmente ter escrito. Porque sentia, mais do que nunca, dentro de si, cada uma delas. Porque era como se elas tivessem acessado partes de que ela nem sabia que existiam. Como se ele houvesse a compreendido sem que ela precisasse se explicar.

What if I’m down?
What if I’m out?
What if I’m someone you won’t talk about?
I’m falling again, I’m falling again,
I’m falling


E ele fez um outro solo no piano antes de terminar a música junto ao seu último grito, mas já estava preparada. Com as lágrimas nos olhos, profundamente emocionada e dessa vez, pela primeira vez, sem nenhuma vergonha, o tomou pelo rosto com a mão e o beijou. Não um beijo como os outros. Era um beijo completamente diferente. Era um beijo com significado. Um beijo que mudaria todos os outros beijos que dariam depois disso.
beijou-o porque era a sua forma de mostrá-lo que poderia sentir dentro de si cada palavra que ele cantava. beijou-o porque, finalmente, descobriu que alguém entendia o que se passava na sua mente turbulenta e desorganizada que ela não conseguia elaborar. beijou-o porque precisava sentir-se tão próxima dele fisicamente como, no momento, se sentia por dentro. De alguma maneira, ele não disse nada, mas havia cantado o que ela precisava falar, e aquela havia sido a sua forma de agradecer.
O beijo foi surpreso e diferente dos outros; antes, regados à desejo, luxúria, volúpia, tesão, expectativa. Esse não. Era como se, de alguma forma, e estivessem sintonizados.
Encaixados. Conectados. Uma onda forte de um sentimento ainda não nomeado invadiu ao encontrar-se com . O beijo que lhe trazia afeto. Carinho. Conforto.
Ele deu um último selinho, terminando o beijo, invadindo-a com as íris verdes e limpando com o polegar as lágrimas que caíam por seu rosto. Encostou suas testas, assentindo, porque ele tinha entendido, tinha entendido tudo, e ela assentiu também, agradecendo. , então, tomou-a pela cintura e envolveu os braços ao seu redor, abraçou-a forte e aconchegante como quem quer proteger, e , de repente, tornou-se intocável, imbatível, impenetrável, nada poderia atingi-la. O seu peito parecia menos apertado. O alívio que se espalhava como pequenas ondas por todo seu corpo. Deixou-se chorar ali, calma, lenta, com as lágrimas silenciosas que não pediam licença, mas que não doíam mais tanto assim. Elas caíam porque estavam guardadas havia muito tempo. Não era mais o choro compulsório, gritante, enraivecido e carregado de soluços que ela chorava antes.
Era, finalmente, o choro que lavava. O choro que entregava. O choro que prendeu por três meses.
lançou suas armas e escudos no chão e estendeu as mãos para cima, finalmente se rendendo. Enquanto , um que mantinha no rosto um meio sorriso que exalava segurança e conforto, apreciava cada momento em que poderia sentir-se mais próximo de , porque era só o que queria.




Estavam deitados na cama de e olhavam pro teto. , com as costas no travesseiro, abraçava , que tinha o rosto afundado no seu peito e não planejava deixá-la sair dali tão cedo. Tinha a sensação de que ali ela estava segura e era exatamente assim que queria que ela se sentisse.
Quando notou que havia parado de chorar ainda estavam na sala. Afagou o seu cabelo, julgando este ser um bom momento para que ela descansasse – mesmo diante da curiosidade infame e a preocupação latente em descobrir o que havia se passado, era mais importante que ela se sentisse confortável e processasse tudo o que havia acontecido no seu próprio tempo.
Vê-la chorando despertou em coisas que ele ainda não sabia que sentia. De repente, naquele momento, ela era realmente o sol em que todas as outras coisas orbitavam ao redor – de repente, encontrou-se arrebatado por um instinto de proteção e cuidado que não se lembrava de ter sentido antes. Como se o mundo não a merecesse. Como se, de alguma forma, emergisse de dentro dele uma necessidade urgente de tornar as coisas melhores pra ela. Não era mais sobre sua própria fuga.
Era sobre ela. Era tudo sobre ela.
- ?
- Oi, .
- Me desculpa. Acho que não era o que você tinha planejado pela noite.
Levantou o rosto dela com o dedo no queixo para que pudessem se olhar. Deu um beijo demorado em sua testa. fechou os olhos com o contato e o abraçou mais forte.
- O que eu tinha planejado era ficar com você, minha deusa – respondeu, com honestidade e humor, e sabia que ela tinha dado um sorrisinho despretensioso com a mais nova piadinha. – Não queria estar em nenhum outro lugar. Com nenhuma outra pessoa.
- Mas eu tô uma chata choraminguenta.
- É, mas eu sempre te acho interessante demais – confessou, o sorriso esperto pendendo no canto do lábio. se levantou um pouco, meio desconfiada, os lábios torcidos, mas parecia querer sorrir um pouco também. Seus olhos não estavam mais tão inchados mas seu rosto parecia um pouco empalidecido, o cabelo meio despenteado e havia tirado os óculos para dormir. nunca havia visto tão claramente como naquele momento.
Parecia transparente. Parecia desarmada. Encarava-o com curiosidade, os lábios se moviam com uma frequência maior, apoiou-se no cotovelo, reclinou a cabeça na mão, de lado, mas virada para ele. O cabelo todo jogado pro lado. Virou os olhos para a parede, para o teto, para outra parede, e depois voltou a olhar pra ele. se ajeitou na cama de maneira que pudesse ficar virado pra ela também.
Agora estavam um de frente pro outro. suspirou fundo.
- Ok. Você pode me fazer perguntas.
- Ok. Qual é o nome da sua mãe? – ouviu a risada meio incrédula de uma com uma expressão surpresa soar pelo quarto pouco iluminado. – Ué, você sabe o nome da minha. E parece meio aficionada por isso.
- O nome dela é Patrícia . Agora faça a pergunta que você realmente quer fazer.
- Você toparia um ménage?
E riu de novo. Ele poderia passar a noite toda fazendo isso. jamais seria capaz de juntar notas ou equalizar uma frequência tão bonita quanto as cordas vocais de naturalmente emitiam com o som da sua risada.
- ... Tá tudo bem.
Trocaram um olhar íntimo por alguns segundos em que ele tentou ler se realmente queria contar o que tinha acontecido e não sabia como começar ou se apenas se sentia impelida a falar alguma coisa que não se sentia confortável ainda por uma obrigação que não existia, mas que ela poderia sentir.
- ... O que aconteceu?
- Você já assistiu Clube da Luta? – perguntou, recostando sua cabeça no travesseiro, ainda virada para ele. Observou enquanto alguns de seus dedos se enroscavam na fronha tentando expelir a tensão que parecia sentir ao mencionar o tópico, mesmo que simbolicamente. Ele assentiu, encolhendo os ombros. – Você se lembra da cena final, ? – Assentiu mais uma vez. – No fim de tudo, quando o narrador e a Marla estão em frente a uma janela de vidro, está de noite, e todos os prédios ao redor parecem explodir e desabar, um de cada vez. Daí ele olha pra ela e diz...
- “Você me encontrou num momento muito esquisito da minha vida” completou. As nuances da pouca luz no seu rosto enquanto ela assentia.
, então, resolveu sentar-se. Dobrou as pernas uma por cima da outra e respirou fundo. Ficou de frente para ele. continuava recostado ao suporte da cama, seguindo com os olhos cada mínimo movimento seu, esperando com paciência o tempo que precisasse tomar para se abrir. Tinha entendido o que ela quis dizer. Não precisava mais se explicar. Levantou os olhos aos dela, numa troca cúmplice e íntima e segura e buscou a sua mão. Por fim, entrelaçou seus dedos, pois era exatamente como ele se sentia, também.


16.



Já fazia algum tempo que tinha saído pela porta. também já havia mandado uma mensagem confirmando que estava com ele e que estava tudo bem, mas nada parecia aquecer o coração de .
E por tabela, o de .
Decidiram ficar no apartamento dele por aquela noite em que não queria dormir sozinha. O clima por lá parecia mais ameno. O ambiente era bem mais bagunçado, as paredes de cimento batido, os mil e um instrumentos espalhados pela casa e pendurados nas paredes, garrafas de cerveja na mesa de centro que ele sempre se esquecia de tirar e também um cinzeiro com várias e várias bitucas. O apartamento de tinha o mesmo tamanho que o que as meninas dividiam, exceto pelo fato de que ele havia construído uma espécie de mini estúdio no segundo quarto, onde aconteciam seus processos de criação. Ainda, de quebra, o Mocca – o Pit Bull chocolate que os fazia companhia. estava sentado meio esparramado no sofá com deitada com a cabeça no seu colo. Os cabelos de tamanho mediano espalhados por suas pernas dobradas e os olhos que pareciam observar um ponto específico no alto do seu apartamento com tanto interesse que pareciam estar na Capela Cistina, enquanto analisava os traços do seu rosto com certo cuidado e preocupação. Mocca deitava paralelo à , recostado no sofá, com a cabecinha entre as patas.
havia chorado um pouco logo depois de bater a porta e sair. Ela sempre chorava um pouco depois de qualquer briga, com qualquer pessoa que fosse – ainda mais , sua pessoa no mundo. , nesses momentos, conseguia enxergar melhor a consistência que a amizade deles tinha, por isso, não estava muito preocupado. Sabia que ela voltaria para casa no outro dia e teriam um momento de reconciliação e desculpas para resolver as coisas. Já , parecia sentir cada segundo do pós-briga com uma sensibilidade que chegava a admirar. Admirar e sentir uma vontade inconsciente de sanar.
Não tinha muita paciência para discussões. Mal sabia lidar com elas, afinal, durante a maior parte da sua vida nem teve com quem brigar. Se aparecesse ali, naquele momento, agindo como se nada tivesse acontecido, ele seria o primeiro a embarcar na onda. Foda-se qualquer coisa que ela tinha falado. a conhecia. Ele sabia que ela só tinha explodido e que não realmente queria dizer todas aquelas coisas. Sabia que não era vasta a possibilidade de situações nesse mundo que seriam capazes de realmente abalar a relação que eles tinham construído. Sabia exatamente o que pensava sobre ele, independente do que tinha dito. E esperava que soubesse, também. Mais do que isso, acreditava que soubesse – jamais teria a intenção de magoá-la com qualquer coisa que tenha dito e sentia muito por tê-lo feito.
No momento da discussão, tudo que conseguia pensar era que precisava encontrar um jeito de fazê-la entender que Travis a fazia mal. Precisava fazê-la entender que merecia mais que aquilo que estava recebendo. Que estava melhor sem ele.
Algum tempo depois, tudo que conseguia pensar era que o timing foi completamente errado e que aquela abordagem jamais seria efetiva. Era de que estavam falando. Deveriam saber.
Sendo filho único, depois do divórcio de seus pais – que aconteceu lá por volta de seus três ou quatro anos –, sua mãe não levou muito tempo para se mudar para a Espanha com um novo marido. Depois disso, passou a receber suas ligações nos feriados e aniversários (quando se lembrava). Já seu pai, empresário de uma multinacional de referência (que eventualmente demonstrava a frustração de ter um único filho que decidiu ser músico ao invés de prolongar e multiplicar o império), sempre viajou demais, implantando filiais pelos Estados Unidos e alguns outros lugares. Casou-se outra vez também, eventualmente, com uma família de comercial de margarina e dois novos filhos com futuros perfeitamente calculados, traçados e promissores, que não tinha quase nenhum contato a não ser uma curtida ou outra em fotos do Instagram. Com o tempo e com a vida, seu pai passou a viajar mais ainda – e viajou tanto que nem sentiu tanta diferença assim na convivência ao se mudar de Manhattan para Los Angeles para fazer faculdade. Falavam-se vez ou outra, numa troca de mensagens aleatória e sem substância alguma em que ele muitas vezes respondia por obrigação. foi criado pelos avós maternos, violinistas da Orquestra Filarmônica de Nova Iorque, que o ensinaram tudo o que sabia – mas que infelizmente já tinham descansado, um após o outro, havia algum tempo. Desses, sim, sentiu falta. Desses sim, continuaria sentindo pelo resto de seus dias.
parecia mais calma ao passar a mão na cabeça de Mocca e respirar fundo.
- Você acha que a gente forçou a barra?
- É claro que sim.
- ... – escondeu o rosto com as mãos, fechando os olhos com força. Ele deu uma risadinha mórbida, observando-a. – Você deveria dizer que não.
- Ok, . Então não.
bateu nele de lado, desviando o olhar para o seu rosto com uma expressão meio irritadiça, e ele não pôde deixar de encolher os ombros como quem não entende.
- A gente não deveria ter forçado a barra.
Voltou a olhar para o teto.
- Eu sei. Foi tudo meio intenso e rápido demais e tal.
- Eu fiquei meio desesperada. Cheguei em casa antes dela e achava que ela estava no quarto. Quando vi, só tinha o vaso e o espelho quebrado e ela nem dava sinal de vida o dia todo. Eu sabia que era o Travis. Fiquei com o coração apertado de ter acontecido algo mais sério... Eu não confio nele.
- Ela te falou alguma coisa do que aconteceu?
- Não muita. Só que ele surgiu lá em casa do nada como a Fênix e provavelmente ficou insistindo pra voltarem... Nem falou como resolveu as coisas, também. O foco da conversa foi mudando e depois você chegou.
- Foram uns meses meio fodidos pra ela, , sei lá... Você mesma que fala que cada um tem seu jeito de lidar com as coisas, né? Talvez quebrar coisas seja o jeito dela de botar pra fora.
- Você lembra da outra vez que ela quebrou o vaso na sala? – suspirou fundo, virando novamente os olhos para os seus. Gesticulava aleatoriamente enquanto falava. – É tão difícil ver tudo isso rolando com ela e só aceitar.
- Eu sei...
- Mas não é nossa decisão.
- Não.
- Mas irrita.
- Sim.
- Quem é que não surtaria, se você parar pra pensar?
- O seu surto, com certeza, ia ser mil vezes pior com esse seu cabeção de nós todos que parece estar conectado na tomada 24h por dia.
- Tipo quando eu quis dar em cima de você... Surtos em LA. Em minha defesa, eu não sabia que você era você, no caso.
- , não tem ninguém por perto, você pode só confessar, ok?
Sorriu, sarcástico, e piscou pra ela, que revirou os olhos com um sorrisinho debochado e esticou-se para puxar uma mecha do seu cabelo, fazendo-o rir um pouco.
- É só que... parece que nunca chega o momento em que ela vai realmente entender que passar por tudo isso sozinha é pesado demais. Todo mundo precisa de suporte, , de um jeito ou de outro.
- Mas cada pessoa tem seu tempo de se abrir... Você quem diz isso também, .
- A gente tinha que ter respeitado o da .
- É.
- Não foi muito o que a gente fez hoje...
- É.
Ficaram em silêncio por alguns segundos enquanto chegavam a suas próprias conclusões.
- Mas ao mesmo tempo... Quando é o momento certo? Como é que a gente sabe o que é que se deve fazer?
- Acho que a gente descobriu como não fazer – respondeu, deu uma risadinha pelo nariz. – Não sei se é só sobre o tempo, . Talvez seja o modo, também. Talvez ela tenha se sentido meio encurralada. É a , afinal de contas. A gente deveria saber.
, naquele momento, piscou os olhos com certo espanto ao notar que tinha dito exatamente a mesma coisa que tinha passado por sua mente momentos antes. Mas não disse nada. Observou enquanto ela dava um sorriso chocho e culpado e suspirou, virando um pouco de lado e ajustando a posição da cabeça em sua perna, como quem quer se aninhar. Falava, então, com o olhar descansado em algum ponto de sua camiseta. sorriu pra ela de volta, sem mostrar os dentes. não viu.
- Tá todo mundo aprendendo, .
- Acho que quando é alguma coisa relacionada a você ou a eu meio que esqueço essas coisas todas – expirou fundo, torcendo o lábio. Fechou os olhos com força antes de continuar: – Obrigada por me lembrar, .
- A sabe que não foi por mal. Amanhã ela vai voltar mais calma, a gente vai conversar, se resolver e vai ficar tudo bem.
- Às vezes eu fico pensando, sabe – ela comentou, ao esticar o braço para fazer carinho em Mocca, que recebia pronta e felizmente se enroscando na mão dela. – Se eu não tivesse levando o Travis pro Puzzle aquele dia. Se eu tivesse dito “é isso, acabou o seminário, tchau, a gente não precisa nunca mais se falar”. Eles não teriam se conhecido. Nada disso teria acontecido.
- , tira esse mundo inteiro das costas – , de maneira súbita e inesperada, pegou-a pelos ombros e chacoalhou, rindo um pouco. riu também, tentando se desvencilhar. – Você não pode poupar as pessoas de passar pelo que elas têm que passar. O Travis foi um merda com a , mas é a vida, né? Ele parecia legal no começo mesmo. E ele é exatamente o tipo da . Não tinha muito o que fazer.
- Ok, é isso, acho que já chega de lamentos por hoje. Vamo pegar uma garrafa de Gin e falar mal das pessoas da faculdade?
riu, concordando.
- Quer ir no Puzzle? O Carlito com certeza consegue te distrair com uma das mil histórias que ele tem pra contar. Hoje é dia dele.
- Não... Acho que hoje eu só quero ficar aqui com você.
assentiu, meio espantado mais uma vez, e de novo, não disse nada. Recostou a cabeça no sofá e ficaram em silêncio por mais algum tempo, perdidos em seus próprios pensamentos.
- ?
- Oi.
- Você não é uma péssima amiga.
Ela sorriu. Era quase como se ele soubesse o que ela estava pensando.
- Você... Você só se preocupa demais com tudo, e a tá inclusa nesse tudo porque a é a sua pessoa e tal. E eu tô incluso nesse tudo também porque você me ama tanto que sufoca... Acho que essa deveria ser a discussão aqui, na verdade, . O tanto que você me ama incondicionalmente.
deu uma risada. Uma daquelas verdadeiras dessa vez, espontâneas, que saem naturalmente sem a gente nem perceber. Logo depois, respirou fundo.
- Eu entendo o porquê de o bêbado ter falado com o . Você é fofinho às vezes, sabia? – sorriu de lado, orgulhosa, ignorando as suas constatações e esticando os braços a ponto de apertar a bochecha do rapaz, que fez uma careta instantaneamente, tentando afastar sua mão. – Você dá uma de – e, nesse momento, começou a fazer uma imitação de voz masculina de porte duvidoso, como sempre fazia: – “eu não ligo pra nada nunca, sou um espírito livre, blábláblá, na natureza selvagem”, mas você se importa com a gente por trás de todas essas barreiras de proteção e problemas de confiança e apatia seletiva. Eu consigo ver isso. Você é tipo um... Damon Salvatore surfista e bem menos bonito. E com sacadas bem menos inteligentes. Quer dizer, esquece, você não chega aos pés do Damon, não tem como.
- Eu aturo vocês, , é diferente – e então, ele apertou a bochecha dela também, e ambos começaram a rir ao tentar ver quem apertava mais forte, numa briguinha ridícula em que acabou desistindo e reclamando, bufando pelo nariz e afagando as próprias bochechas. – E trago juízo pro grupo, vez ou outra, por pura solidariedade. Por exemplo, você acabou de juntar “vampiro” e “surfista” numa frase só. Não pode estar bem da cabeça.
- Aham, ... Vou fingir que acredito.
E , dessa vez, quem puxou uma mecha do cabelo de .
- Você lembra daquele dia que a gente começou a chamar ela de pet? – ele perguntou, dando uma risada. – Eu nem lembro direito como começou. Foi quando a gente levou o Mocca no parque, né?
- Sim, e ela disse que queria adotar um gato.
- E você falou que ter a de pet já dava trabalho demais. E aí a se fodeu porque ficou pra sempre.
- Você acha que ela realmente fica puta com isso?
expirou, negando com a cabeça, quase arrependido de ter começado tópico. Por dentro, e meio inconscientemente, ele queria acalmar cada dúvida que se passava na cabeça de relacionada à briga, mesmo sabendo que se resolveriam em algumas horas. Não entendia muito bem a dificuldade que tinha em simplesmente esperar a noite passar e resolver as coisas pela manhã, mas tinha consciência que sempre ficava angustiada quando acontecia esse tipo de coisa e não queria que ela se sentisse assim.
Principalmente quando brigava com os pais por telefone, que era algo que costumava acontecer, eventualmente. Ou quando os visitava por alguns dias e voltava meio drenada. Por isso, com toda paciência que ele não parecia ter com mais ninguém no mundo, respondeu:
- Ela só estava com raiva, . , na real, sabe que é só e apenas uma brincadeira. Mas você pode perguntar quando ela chegar.
- A questão é que a partir do momento que a gente para pra pensar mais a fundo no discurso dela de que-
- , amor da minha vida, entenda – a interrompeu. Segurou seu rosto com as duas mãos. – A explodiu e você sabe que ela é desbocada. Saiu falando tudo que vinha na cabeça na hora. Ela ainda te ama e te quer por perto. Amanhã ela vai voltar pra casa e a gente vai voltar a ser a família feliz e pacífica e respeitadora de espaços de sempre. Foi só um lapso. Pessoas brigam. Tá tudo bem.
Estacionaram os olhares um no outro por um tempo, em que tentava fazer com que entendesse o seu ponto e ela parecia recebê-lo com certa surpresa. Soltou seu rosto e sorriu sem mostrar os dentes, mas ela não desviou o olhar, como ele esperava.
- .
- Que?
- Eu não sei o que eu faria sem você.
- , então, deixa eu te preparar pra quando acontecer: você teria que lidar com um vazio existencial consumidor na fase de negação, e os anos e anos de choro, frustração pela perda, pra só depois chegar na fase em que-
- Não, cala a boca, sem piada – e ela se levantou, virando-se de lado e olhando bem nos olhos castanhos do rapaz a sua frente que, subitamente, ficou um pouco sem jeito, passando a tentar evitar os olhos pesados dela que nunca tinham se mostrado tão incisivos. Mas ela não deixou. – Você é importante pra mim. Eu realmente me importo com você. Você é a minha pessoa também, .
E então abraçou-o, daqueles abraços fortes mesmo, que alcançam a alma, que atravessam a gente e chegam lá no fundo. O rapaz, meio surpreso, meio chocado, nem soube como responder. Envolveu os braços ao redor dela também, sentindo o cheirinho de morango que seu cabelo exalava e o calor reconfortante espalhar por todo seu corpo.
- , eu... -
Shh... Cala a boca, . Eu amo você. Eu amo você, . Me deixa te amar um pouco.


.

- Eu nem sei por onde começar.
- Tá. Como vocês se conheceram?
- Pela . Eles pagavam umas cadeiras juntos. Uma vez ela chamou o trouxa pra beber com a gente no fim do dia pra desopilar.
- E aí?
- Foi só isso que precisou. Ele é meio intenso, poético e é meio obcecado por essas idealizações das mulheres na literatura, então ele costumava dizer que foi “amor à primeira vista” – revirou os olhos fazendo aspas com as mãos. A ironia na voz era clara e intencional. – Meio Bentinho, sabe? Eu o encantei com meus olhos de cigana oblíqua e dissimulada.
- É um filme?
- É um livro. Dom Casmurro.
- O próximo da lista, então – sorriu. – E pra você? Como foi?
- Eu não sei, acho que eu só gostava do jeito que ele me olhava como se eu fosse a coisa mais impressionante do mundo – respondeu, sincera, e virou um pouco os olhos. – Nunca fui muito de me apaixonar. Ele foi meu primeiro namorado namorado. De resto, eu sempre acabava dando pra trás de última hora. Homens não são muito confiáveis, sabe?
- E o que te fez ficar dessa vez?
- Eu acabei me apaixonando por ele também, no fim das contas – confessou, parecendo um pouco envergonhada. Olhou para o lado.
Uma pequena pontada de alguma coisa que não conseguiu identificar muito bem acertou o seu peito quando usou a palavra apaixonando. Por outra pessoa. Mas ele não esboçou nenhuma reação, nem mesmo tinha esse direito; limpou a garganta, assentindo para que ela continuasse. – E de início foi de boas, sabe? Ele realmente fazia eu me sentir... sei lá, amada mesmo. A gente sempre conversava muito sobre todas as coisas e até se dava bem com e nessa época...
- Até que você descobriu que ele te traía?
- Até que ele me pediu em casamento, .
pareceu engolir em seco, expirando o ar com certo pesar e o rapaz ao seu lado arregalou os olhos sem saber muito bem o que deveria responder, visto que essa era a última coisa que ele esperava ouvir – o que só atiçou ainda mais a sua curiosidade. Levantou a cabeça do travesseiro em que estava recostado numa expressão surpresa.
continuava sentada ao seu lado, com as pernas dobradas, virada para ele enquanto contava a história. Linda. Crua, limpa e linda. Tão linda que poderia distraí-lo facilmente de tudo que estava falando, mas estava disposto e inclinado a prestar atenção.
- Em casamento?
- É. Em casamento. Acho que pouco mais de um ano atrás. Foi bem bonitinho, na verdade – deu um sorriso amarelo antes de esconder o rosto nas mãos. , portanto, negando com a cabeça e nem um pouco disposto a deixar que se rendesse ao constrangimento, segurou com delicadeza seu pulso e afastou de seu rosto para que ela pudesse continuar. Ela não precisava esconder-se. Esperou pacientemente com um mínimo sorriso enquanto ela se acostumava com a ideia de compartilhar seus pensamentos com ele, mantendo os olhos repousados e interessados nela (porque eles sempre estavam). – Mas eu sou tão... nova. Eu ainda vou fazer vinte e quatro anos esse ano! – Gesticulou com as mãos, como quem tenta se justificar. Parou por um momento, cruzando as mãos sobre as pernas e expirou fundo antes de continuar a falar: – A gente costumava fazer uns piqueniques debaixo de uma macieira na UCLA mesmo. Ele me levou lá e eu achava que era só mais um dia dezesseis em que a gente ia comemorar juntos o aniversário de namoro num lugar especial, quando, do nada, ele me aparece com uma caixinha e um anel. Eu nem consegui ouvir o discurso direito enquanto eu pensava “puta merda, fodeu, fodeu”.
- Puta merda, , fodeu – repetiu a frase fazendo dar uma risadinha mínima, até ajustou a postura. Olhou para ela com a expressão confusa de quem realmente não estava entendendo nada. Ela encolheu os ombros. – E você aceitou?
- Então... Não. Eu travei. Total. Fiquei em choque.
- Você travou como?
deu de ombros com uma expressão envergonhada e até um pouco culpada que não estava muito acostumado a contemplar, mas gravou essas imagens com fotografias mentais inesperadas porque, dentro dele, queria guardar cada mínima informação sobre seus gestos e a forma que seu corpo se movia. Sem nem perceber. Por isso, enquanto ela mexia em seus próprios dedos como forma de aliviar a tensão e girava o tornozelo movimentando o pé com certa velocidade, deduziu que era uma de suas formas de demonstrar desconforto. Decidiu ajudá-la a prosseguir com perguntas. – E vocês continuaram juntos? Mesmo depois disso?
Assentiu.
- Eu não fiquei nem comovida, só queria sair correndo dali o mais rápido que eu conseguisse. Teve uma hora que eu simplesmente parei de ouvir tudo o que ele estava falando e comecei a imaginar passar o resto da minha vida com ele. – Ela torceu os lábios, engolindo em seco. – E eu não parecia feliz.
E você continuou com ele mesmo assim?, quis perguntar. Estava louco para perguntar, na verdade. Mas deixou que ela prosseguisse por si só. – E aí falei que não, que não podia, que não dava, meio desesperada. Ele não entendeu nada porque algo me diz que ele tinha certeza que eu ia aceitar.
Piscou algumas vezes tentando entendê-los. Para , toda essa situação não fazia sentido nenhum. E ele achou que a sua história com Camille fosse complicada demais. Quer dizer, não que não fosse...
Não conseguia entender o tal pedido em casamento se ele iria acabar traindo no fim das contas. E ok, tudo bem que ele era meio intenso e ultrarromântico com essa síndrome de Romeu do século vinte um, mas casar? Aos vinte e poucos anos? – Eu noiei. Acho que fui um pouco rude até, mas foi sem querer. Eu acordava todo dia contendo a frustração por ter que trabalhar numa agência de publicidade, imagina se eu fosse uma pseudomarketeira casada aos 24 anos com o meu diploma de Cinema da UCLA guardado na gaveta? Eu ia me matar, , eu juro. Seria demais pra mim. Eu nem sei se quero casar... Eu prefiro, sei lá, fazer uma viagem pra Índia.
- Nada disso faz sentido! – exclamou, meio intenso, se inclinando para chacoalhar os ombros dela, fazendo com que ela risse um pouco ao concordar. – Exceto a parte de ir pra Índia, claro. Você amaria a Índia, .
riu pelo nariz e deu de ombros com os olhos brilhantes com a possibilidade antes de continuar:
- Daí a gente teve uma puta briga e ele me convenceu a continuarmos juntos na ilusão de que a gente conseguiria superar esse evento de novela mexicana – revirou os olhos. – Mas depois disso, do nada ele ficava meio mal e nunca queria conversar sobre. Todos os aniversários de namoro desde então se tornaram insuportáveis. Ele começou a ficar mais controlador que o normal, toda vez que a gente saía de casa era uma discussão diferente, toda vez a gente voltava pra essa briga... “Se você me ama, por que não quis casar comigo? O que a gente está fazendo? Para onde estamos indo?”.
- Sei lá, Travis, eu tenho vinte e três anos! – respondeu, incisivo na entonação e encolhendo os ombros, respondendo às perguntas como se fossem óbvias. assentiu veementemente com a cabeça com um sorrisinho. – Mas você não tinha que casar com ele só porque ele queria, . De onde ele tirou essa ideia?
- É, eu acho que sei disso, mas mesmo assim, soa como o tipo de coisa que você deveria aceitar... Não soa?
- Que bom que você não aceitou, então. Imagina perder a oportunidade de transar com ?
empurrou-o de lado com o cotovelo. Ele riu.
- Se quer saber, já vi maiores.
- Eu não vou cair na sua pilha, , aceita que não vai rolar hoje e continua a fofoca. Você quase casou!
- É meio surreal pensar nisso, sabia? Quando eu contei pra Janice, lá da Kapplan, ela ficou “você disse não? Para um pedido de casamento? Mas o Travis é perfeito”. Como se eu estivesse negando uma maleta com cem mil dólares.
- Você também fez isso.
- Você estava disposto a me dar cem mil dólares? Pra eu não gritar pro mundo que você mexe no celular no trânsito e atropela as pessoas?
- Foi só uma pessoa, – revirou os olhos. – E se você se acha mais barata do que isso, eu é que não vou discutir.
- Porra, eu devia ter me vendido! , sinto muito, mas vou ter que te dedurar pra internet!
constatou, num tom sério e teatral, voltando o olhar para os seu rosto e segurando sua mão como quem conta algo difícil. , então, devolveu o olhar meio desacreditado, passando a mão pelo rosto dela da testa ao queixo, só para irritá-la, só para que ela soubesse que ele não tinha dado crédito nenhum pro que ela falava. O que ele não contava é que no meio do caminho fosse morder o seu dedo indicador, mas o fez – e ele reclamou, balançando-o assim que foi solto com uma careta desgostosa e risonha no rosto.
- Ai, porra. A gente pode pular pra parte que você é a corna do ano logo? – perguntou, o tom divertido e leve, observando enquanto pegava o outro travesseiro para bater nele em resposta. Riu com a língua pra fora, e a partir desse momento, uma luta se instaurou: o rapaz passou a brincar com a pele da cintura dela, inclinando-se para frente ao fazer-lhe cócegas numa batalha boba em que ambos desataram a rir e se estapear levemente em cima da cama, quase entrelaçados. – Caralho, , desculpa, mas essa é a verdadeira fofoca aqui!
- Você também foi corno, bobo! – respondeu, tentando elaborar a frase entre as risadas desesperadas de um que se colocou por cima dela. tinha cócegas. Muitas. Incontroláveis, aparentemente. E esta tinha sido uma descoberta do qual ele iria usar como vantagem por muitas outras vezes.
Pareciam estar completamente absortos a qualquer coisa referente ao conteúdo específico do que conversavam, como se não importasse mais tanto assim. O que era importante, naquele momento, era o mini combate que estavam travando e nenhum dos dois parecia nem perto de estar disposto a levantar bandeira branca. Com por cima tentando contê-la apenas para que pudesse fazer ainda mais cócegas e uma que não parava de se chacoalhar ao tentar desvencilhar-se, riam sem esforço algum, sentindo em seus corpos a leveza e a autenticidade daquele momento que se tornaria uma memória gostosa e inesquecível para ambos. , pelo estímulo. E ... Completamente inclinado a memorizar cada reação que arrancava de . Não conseguia enxergar a possibilidade de ser ao menos indiferente à qualquer ínfima e espontânea iniciativa que o corpo dela tinha ao mover-se. Ali, aproveitando o momento em que ria de olhos fechados completamente desapercebida, com a gargalhada deliciosa e inebriante que ecoava pelo seu quarto, o cheirinho gostoso que o seu cabelo e a sua pele exalavam, o corpo envolto pelo pijama gigantesco que se contorcia ao seu toque... ali, bem ali, perguntou-se como alguém trocaria estar com por estar com qualquer outra pessoa.
Tudo nela parecia fazer brotar em seu âmago uma urgência crescente e incontrolável em tocá-la. Em senti-la perto. Em tê-la para si. Era muito mais que os traços belos e intrigantes que contornavam seu rosto, ou a silhueta desenhada por onde ele passava a mão... Era o jeito que fazia com que ele se sentisse. Com uma risada, apenas. Uma risada e tinha ganho a batalha. Uma risada e ganharia todas as outras.
- Eu estava num relacionamento aberto. É diferente!
- Mas você não sabia disso – apontou o dedo na cara dele tão perto que, em seu momento de lapso de observação, deixou o jogo virar quando ela segurou seus braços, alternando as posições dos corpos num impulso, e foi diminuindo o ritmo da risada aos poucos. A proximidade de seus rostos e os peitos ofegantes de uma por cima, sentada em seu torso, uma perna de cada lado. Ela mordeu os lábios, encarando-o com uma curiosidade palpável que parecia penetrar seus poros e perfurar sua pele.
Os olhos fixos nos lábios finos e rosados de sugestivamente. O coração que batia mais rápido e a tensão do que estava por vir parecia deixar o ambiente mais seco. Ele tinha as mãos presas e quase agradeceu por isso, pois estava a ponto de perder a sanidade e o controle. Como manter-se equilibrado quando se tinha tão perto?
Afastou os pensamentos ao sentir que seu sangue estava quase concentrando-se num lugar específico e arrumou forças o suficiente sabe-se lá de onde para revirar os olhos e por fim, desistindo de vez. Precisava manter o foco. Puxou-a para baixo pelo braço com um meio sorriso contrariado, o que fez com que ela se deitasse de novo ao seu lado. O pescoço apoiado no braço dele, um pouco mais baixa ao recostar a coluna. Os olhos voltados para a vista da varanda que estava aberta.
- A gente pode fazer um debate sobre quem ganha o título depois. Ok?
- Tudo bem. Acho justo.
- Continua.
- Eu... me sentia meio presa, eu acho. Como uma série de quases disse quando, ao pegá-lo de surpresa, puxou sua mão e passou a brincar com os dedos de na medida em que contava a história. Ele mal conseguiu desviar os olhos do movimento, ambos entretidos. , interessada demais em sua mão, como se seus dedos lhe contassem um segredo, como se dançassem juntos; , meio espantado e intrigado com o contato diferente e repentino, sentia um pequeno calorzinho de satisfação no peito mediante ao contato. Os dedos de eram macios e gentis e carinhosos em como se portavam. – Quase aceitei o seu pedido porque ele queria que eu aceitasse, várias outras vezes. Quase entendia que não deveria me sentir culpada. Quase terminei um milhão de vezes, mas nunca tinha coragem. Ele tinha umas crises de ansiedade, me ligava desesperado e eu largava tudo pra ir correndo socorrer ele. Teve época que eu dormia na casa dele tipo uns cinco dias seguidos porque ele sempre arrumava um jeito de me fazer ficar quando eu estava já na porta pra ir embora. E eu quase conseguia ir, mas sempre acabava voltando.
- Ele sabia exatamente como entrar na sua cabeça, né?
- Acho que sim. Era estranho. Eram coisas que eu não queria fazer, mas quando notava, eu já estava fazendo. Tipo quando ele quis que eu passasse o quatro de julho com a família dele em Bel-Air esse ano. Nossa, eu odiei aquele dia. A família dele é bem bizarra, na verdade, e eu já tinha tudo combinado com e de emendar o feriado em San Diego. E eu quase mandei o Travis se foder e fui com eles, mas acabei desmarcando de última hora.
- E por que você acha que você fazia essas coisas?
- Porque dizer não pra ele se tornou difícil demais – respondeu, apenas, e olhou pro rosto dela de cima, por estar mais alto. – Era como se eu, tantas vezes, estivesse chegando lá... Mas era sempre quase.
Ela parecia mais leve brincando com os seus dedos, mas sabia que ela queria evitar seus olhos. Sabia, também, que estava se esforçando muito para compartilhar aquelas coisas com ele... De repente, ao pensar nisso, uma onda de orgulho se apoderou de com um mini sorriso discreto nos lábios. Como se ele tivesse conquistado um quilômetro a mais da longa e tortuosa estrada até a confiança de .
- Dizer não é difícil às vezes.
- Eu nunca tive esse problema, você sabe – ela encolheu um pouco os ombros, dando uma risadinha pela referência. – Mas com ele...
- Isso não é muito saudável, .
- Eu sei que não. Mas eu... não percebia. Não queria perceber, na verdade. Eu ficava me lembrando do Travis do início como se aquele fosse o verdadeiro – respondeu, parando de brincar com os dedos dele, por fim. não confessou, mas acabou fazendo mais falta do que esperava. – Até que um dia um pub abriu em Venice e eu queria muito ir e saber como é, o tinha tocado lá e falou bem demais, mas o Travis sempre dava uma desculpa pra não ir lá. Dizia que já tinha ido lá e não valia à pena, que era muito démodé.
- Ai. Tô ficando nervoso.
- Escuta só, menina!
riu, deixando que ela continuasse.
“E eu até achava meio estranho mas não contrariava muito porque eu, depois de alguns meses, entrei num modo em que só queria evitar as brigas. Eu sei, parece um delírio coletivo, mas enfim... um determinado dia a galera da Kapplan ficou insistindo pra gente sair pra comemorar um dos comerciais que tinham batido um milhão de views no Youtube, e como eu quase nunca saía com eles, nesse dia, eu me deixei levar. Avisei pro Travis que ia sair com a galera da Kapplan e ele deve ter pensado que a gente ia pro bar de sempre, mas eu tive a brilhante ideia de convencer todo mundo a ir no bendito pub em Venice. Aproveitei a oportunidade na maior inocência só porque eu queria muito ir lá e ver como era. E fomos pra lá, eu e mais dezesseis pessoas da Kapplan, incluindo o William, o diretor da empresa, meu supervisor direto. O que me demitiu, no caso.”
colocou a outra mão no rosto, fechando os olhos com força ao sentir o que estava por vir.
- Quando a gente chegou lá estava tudo meio vazio ainda porque era cedo. Foi muito fácil achar o Travis estava sentado num banquinho de frente pra bancada do bar conversando com uma mulher mais velha, acho que tinha lá pelos seus trinta e poucos, que estava em pé do outro lado. Eu pensei que ela estivesse atendendo o traste e até aí tudo bem, por isso, fui andando até ele meio confusa meio sorrindo por vê-lo e toda inocente do porquê diabos ele estava lá. Aí, do nada, se inclinou pra frente na bancada e beijou a tal mulher. Ela era uma das sócias do pub, .
Uns cinco segundos de silêncio se passaram.
- Eu não faço ideia do que eu deveria te responder nesse momento aqui.
- Eu travei na hora, né. Fiquei em choque. E uma cambada de gente atrás de mim, todo mundo conhecia o Travis, tão travados quanto. Ninguém sabia o que fazer. Até que ele virou o rosto pelo bar e me encontrou.
- Qual foi a sua reação?
- Eu fui até ele e... taquei a cerveja que ele tava tomando na cara dele, bem Gabi Prado – revirou os olhos com o rosto torcido em vergonha, e então, olhou para cima para encontrar o rosto dele, encarando-o ao esperar por sua reação. já começou a abrir um sorrisinho porque não era muito do tipo que levava desaforo pra casa. E bom... Travis merecia. – Eu não me orgulho disso... Nem sei onde que eu estava com a cabeça, na verdade. Se eu pudesse voltar atrás, faria a egípcia como se nada estivesse acontecendo.
levantou a mão e eles bateram um high five controverso, enquanto ainda repreendia a si mesma pelo que tinha feito.
- O que é Gabi Prado? – perguntou, sua voz carregada com o sotaque e a dificuldade em pronunciar o nome. balançou a cabeça.
- De Férias Com o Ex Brasil. Esquece. Depois disso a gente teve uma puta briga no apartamento dele, eu peguei minhas coisas todas, fui embora e não voltei mais.
Ela não precisou explicar. O jeito com que abaixou o olhar e pareceu direcioná-lo ao outro lado do quarto foi o suficiente. , por fim, passou a contá-lo sobre como ele havia tentado contatá-la várias vezes nos últimos meses e ela tentava ignorá-lo. De como ela sentia que estava melhorando, conseguindo se desvencilhar das memórias e da vergonha, se sentir mais instigada a fazer coisas novas. De como toda a conjuntura da ligação dele e da possibilidade de se sentir tão exposta de novo fizeram surgir nela algo tão ruim e invasivo que não conseguiu conter. De como ele apareceu à surdina em sua casa e ela não conseguiu mandá-lo embora. Da discussão que tiveram e das coisas ruins que disse pra ele. Contou sobre como acabou indo ao velório e de como se sentia culpada pelas coisas que havia dito. Contou, por fim, da discussão com e e como foi parar no meio de uma rua deserta com um pijama dois números maiores que o seu e rosquinhas.
- Caralho, . Que dia. Explica muita coisa – respondeu, por fim, mas não parecia muito convencido. Não conseguia mensurar a quantidade de coisas que deveria estar pensando naquele momento depois de tudo que havia acontecido. Sentia-se mais próximo dela, de alguma forma. Sentia-se feliz por ela ter finalmente colocado para fora. – Eu sinto muito. De verdade. Mas se foi por isso que ele foi te ver, por que é que ele não te contou logo de cara?
- Como assim?
- Ele foi pra te contar sobre o que aconteceu com a avó dele, não foi? Por que você é próxima da família? – questionou. – Por que ele ficou falando toda essa baboseira antes?
- Talvez ele quisesse resolver as coisas, não sei. Ele falou coisas do tipo “você não podia deixar de saber essas coisas”.
- Ele sabia que te deixaria mais vulnerável, .
virou-se de lado totalmente, levantando os olhos para os dele, que estava deitado com o peito pra cima. Ele assentiu, assegurando. Mas ela abaixou os olhos novamente.
- Ele estava tão mal... É muito estranho. Parecem duas pessoas diferentes.
- É, e você estava conseguindo ir bem aos poucos, não estava? Vocês não são mais namorados, . Não é justo ele ir atrás de você e te pedir ajuda agora depois de tudo que aconteceu.
- Eu só... me senti uma pessoa horrível depois de tudo que eu disse pra ele. Acabou que eu paguei a língua.
- Ele te fez coisas ruins, . Você pediu pra ele parar. Ele não parou.
- Mas a avó dele morreu.
- Eu sinto muito por ela, , e eu sei que você também sente... Mas você não acha que ainda tá meio recente pra você se envolver nisso de novo? – opinou, por fim, levantando o queixo dela. – Ele traiu a sua confiança. Ele foi atrás de você. Ele te forçou a uma conversa que você não queria mais ter. Ele jogou um monte de coisa na sua cara que você não queria ouvir.
Algumas lágrimas voltaram a correr silenciosamente pelo rosto de que não conseguiu contê-las enquanto ela passava o braço por seu torso, envolvendo-o. as limpou, com calma e cuidado, usando a ponta do polegar.
- Não é culpa sua, .
- Às vezes parece que é – disse, por fim, enterrando o rosto no peito do rapaz ao seu lado. puxou o seu corpo pra perto, abraçando-a mais forte. Apoiou o queixo no seu cabelo.
- Porque você tá acreditando na versão dele. No jeito que ele te faz acreditar que as coisas aconteceram.
Respirou fundo quando ficaram em silêncio. Não havia desconforto. não estava assustado – talvez um pouco tenso. Um aperto no peito por ver chorando, sim, mas algo ali, em tudo que haviam dito, o modo como se tocavam, garantia-lhe a certeza de que estava no lugar certo, fazendo a coisa certa, com a pessoa certa. Parecia certo. Algo ali fazia seu coração aquecer em saber que o havia escolhido para compartilhar sua bagagem. Aqueles eram detalhes valiosos e cuidaria deles com toda gentileza e dedicação que pudesse.
Ali, para , era a pessoa mais corajosa do mundo. Se abrir era um ato de coragem. Se expor era um ato de coragem. Se colocar para fora, tão transparente, tão limpo, era um ato da mais pura coragem.
A que ele não havia tido suficiente na sua oportunidade de contá-la sobre a sua própria bagagem.
limpou o nariz e levantou, novamente, os olhos pra ele.
- Como você sabe todas essas coisas?
- Às vezes tenho que me lembrar disso também – respondeu, simplesmente, sem se prolongar o assunto. – Por que você não contou tudo isso pro e pra ?
- Porque eles me dariam o olhar.
- Que olhar?
- O olhar, sabe? – ela enroscou a perna na dele, passando a apoiar a cabeça em cima de sua própria mão, no peitoral dele, virando os olhos já mais secos levemente e direcionando-os para o seu rosto. – Quando eu cheguei na Kapplan, no outro dia, todo mundo me deu o olhar. A da Dior que pegou o namorado beijando outra mulher e tacou cerveja na cara dele logo depois pra todo mundo ver. Essa é a pior parte. Eu odeio esse olhar.
- De... pena?
- É. A sensação de que todo mundo sabe. suspirou. nunca pensou que pudesse entender tanto sobre o que ela estava falando. Talvez por motivos diferentes, mas ainda sim, sabia exatamente do que ela estava falando, poderia descrever de maneira exata a sensação. – Eu poderia ver o Travis beijando outra pessoa, um milhão de vezes, repetidas vezes e ia doer. Mas o olhar... O olhar é pior. O olhar dura mais. Eu sabia que eles estavam falando de mim. O tempo todo que eu estava por perto, e eles nem disfarçavam, continuavam a me olhar do mesmo jeito. Em tudo que faziam, todas as vezes que falavam comigo.
- E depois você fala que eu que sou o corno do ano...
riu, abaixando a cabeça na mão, e depois, levantou-a para encará-lo novamente, incrédula e admirada. Em algum momento de alguma das conversas da noite, havia notado ela se sentia mais confortável em falar sobre quando ele fazia piadinhas ridículas com o assunto ao invés de tentar soar compreensivo o tempo todo. Era só como funcionava.
- Eles me deram o olhar, sabe? Assim que chegaram no hospital – explicou, revirando os olhos. – E eles não fizeram por mal... Digo, a só é assim, extra compassiva. E o é expressivo demais... Fez uma careta assim que entrou pela porta.
- Aposto que foi tipo assim – e então, imitou perfeitamente numa expressão bizarra de estranhamento com o rosto torcido e o lábio superior levantado.
- Foi exatamente assim! – concordou, rindo ao tentar espelhar a careta que fazia. E quando pararam de rir, continuou: – Foi por isso, .
- O que?
- Que eu te contei. Você não me deu o olhar. No hospital, naquele dia, na primeira vez que você olhou pra mim.
arqueou as sobrancelhas, sorrindo internamente. Nem mesmo sabia disso, na verdade. Foi apenas a sua reação natural a , desde o começo.
- E você não me deu o olhar hoje também.
- Sentir dó de você? Você me dobra no meio, – puxou-a mais pra perto, com um sorriso satisfeito e largo. estava deitada por cima dele, agora. Completamente entrelaçados. – O Aaron até hoje treme só de ouvir o seu nome. Você é a mulher mais fodona que eu conheço. Um mulherão da porra.
deu um sorriso de lado, e logo depois, um selinho rápido e súbito. Eles se encararam por um tempinho em que fazia um carinho gostoso na bunda da mulher que estava enroscada em seu corpo. Era algo que passaram a fazer com certa frequência, por algum motivo: apenas olhar um para o outro. Como se pudessem, ali, naquela troca, se comunicar. Dizer tudo o que não foi dito. – Mulherões da porra também têm que pedir e aceitar desculpas, você sabe...
- O passou total dos limites, . Você não tinha nada a ver com nada. E eu nem vou começar a falar sobre o quão invasiva toda a discussão foi com ele e a .
- Mas eu tenho agora. Não tenho? – torceu o rosto pra ele em resposta, desconfiada, mas pareceu gostar do que ouviu pelo jeito que suas sobrancelhas relaxaram. Deu de ombros, com o risinho que quase pendia no canto do lábio. – Não foi nada demais, . Não me incomodou. Ele só estava bêbado e falou demais. Como todas as pessoas do mundo já fizeram na vida.
- Eu sabia que não devia deixar você se juntar com o . Essa brotheragem de vocês é insuportável.
deu uma risadinha, dando de ombros.
- Eles te amam muito, . Eles não vão te dar o olhar. Eles só estão preocupados e querem te ver bem. Eles merecem saber.
- Eu acho que peguei pesado, mesmo. Mas eu estava tão irritada... E foi tudo tão rápido e ao mesmo tempo...
- Você tinha o direito de ficar puta, sim, e de ter o seu espaço respeitado. Eles erraram nisso, mas você não precisava falar coisas tão duras também – constatou, colocando uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. – A gente tem que tratar as pessoas com gentileza, . Principalmente as que a gente ama.
- Pode ficar tranquilo, . Eu vou te tratar com muita gentileza...
A conotação do tom que tinha usado era explícita, mas ele se aconchegou melhor na cama, trazendo-a ainda mais para perto e dando um beijo na sua testa.
- Claro. Enquanto a gente dorme de conchinha.


17.

Abriu os olhos preguiçosos aos poucos e não se moveu. Não queria arriscar acordá-la. , deitada ao seu lado, dormia tranquilamente virada para ele. Os cabelos bagunçados caíam pelo rosto. Piscou algumas vezes, meio desnorteado, e engoliu em seco ao observar os seus traços demarcados.
Foi só o necessário. não precisava fazer mais nada. A presença silenciosa, turbulenta e monumental dela ao seu lado era suficiente para acordá-lo. A lembrança vívida da silhueta contornada e mística quase escondida por debaixo do seu lençol, bem ali, ao seu lado, ao alcance de seus dedos sem que ele concretizasse o ato, era de uma tortura injusta e dolorosa. Ele já estava acordado. Mais acordado que o necessário. Só de pensar nela. Só de olhar para ela.
E não conseguiu deixar de resvalar-se sobre essa tortura. Lembrou-se do contorno da sua cintura quando estava reclinada sobre o mármore da bancada. Lembrou-se da boceta molhada e da sensação extasiante e frenética de passar a língua pelo grelo inchado. Lembrou-se dos seios arrebitados que saltavam enquanto ela rebolava deliciosamente no seu pau latente e duro por ela no terraço de sua casa. Os gemidos que ecoavam e as palavras chulas que saíam de sua boca enquanto ele metia com força. apenas lembrou-se da cena e sua magnitude por um tempo, recostado na cama; expirou fundo, pensando no quão sortudo realmente poderia ser, no frenesi que trazia aos seus sentidos apenas com a possibilidade, e decidiu levantar-se com cuidado para não acordá-la.
Precisava urgentemente de um banho. Frio. Malditas fossem as memórias sexuais. Maldita era aquela mulher por ser tão gostosa à ponto de deixá-lo daquele jeito só com a expectativa. Maldita fosse a vontade de foder com ela até que ela fincasse as unhas nas suas costas gritando enlouquecida de tesão.
Entrou no banheiro da suíte com o cacete duro que doía e só uma ideia em mente. Deixou a porta aberta. Ligou o chuveiro no box que cortava o espaço amplo com finas paredes de vidro. Deixou a água rolar por seu corpo já despido e envolveu o membro saltado com a mão. Fechou os olhos. Um arrepio cresceu por sua espinha ao começar a movimentar a mão por toda a extensão, lentamente, e imaginou que fosse ali.
Que era mão dela que ele fodia enquanto ela apertava sua palma ao redor da curvatura e movimentava para cima e para baixo na velocidade certa, sussurrando no seu ouvido com a voz rouca e o palavreado chulo, enquanto se dividia entre arranhar as suas costas e entrelaçar o dedo em seu cabelo. Foi aumentando gradualmente a pressão e a velocidade, imaginando uma que se inclinava sobre ele, descia a língua por seu abdômen molhado e olhava bem nos seus olhos ao se abaixar de maneira lenta com um sorrisinho canalha e beijava a sua glande num prolongar excruciante. Seu coração passou a bater mais rápido enquanto ele apertava ainda mais os seus dedos em volta, até que, ao ouvir um mínimo barulho, abriu os olhos.
Era como a personificação de seus pensamentos mais sujos bem ali. Quase pensou que não poderia ser verdade. , completamente nua, reclinada contra a porta, molhando cada lábio com a língua. Os cabelos soltos quase cobriam os seios arrebitados de excitação e mordia o lábio com o sorriso cafajeste, parecendo satisfeita em observar o que ele fazia, espremendo as pernas uma contra a outra, discreta, ao tentar aliviar o desconforto. Ela passava a mão pelo próprio corpo enquanto o observava.
- Por que você parou, ? – perguntou, ao molhar os lábios lentamente. – Eu estava adorando te ver assim...
Surpreso. estava em choque. Engoliu em seco com a respiração quase ofegante enquanto acompanhava assiduamente a silhueta imponente e dominante em seus passos seguros e lentos em direção ao box em que ele estava. Completamente sem reação. Os olhos que não se desgrudavam. Ansioso para saber o que estava por vir, voltou a movimentar lentamente a própria mão sem perceber.
- Fiquei me perguntando no que você estava pensando... – , ao encará-lo com os olhos inflamados em luxúria, fechou a porta do box atrás de si, empurrando-o com força contra a parede. Colocou a mão sobre a sua no pau que agora batia no quadril dela e apertou com força. Grudou os seus corpos, fazendo com que seus seios recostassem sobre a pele dele. Expirou com força. – Me diga, , no que você estava pensando? – ao receber um tapinha na mão, afastou-a rapidamente, posicionando-a na polpa da bunda paradisíaca da mulher em sua frente. Apalpou. Desceu os dedos pela curvatura, passando as mãos sem pudor algum só pela sensação de tocá-la ali. Apalpou com mais força dessa vez.
Sentiu todo o seu corpo se arrepiar quando ela deslizou a unha sutilmente em um vai e vem leve e delirante pela extensão sensível do seu membro e fechou os olhos ao aproveitar a descarga elétrica a qual foi tomado. O contato. A presença de , finalmente, fisicamente, tão perto. Ela fincou a mão livre na sua nuca com força em repreensão. – Responde, porra. Eu quero ouvir você falar.
- Eu estava pensando em você, – e ela envolveu seu pau com a mão com um sorriso triunfante. Começou com uma pressão na glande e depois movimentou a mão até a base, indo e voltando. – Eu fiquei duro só de pensar na tua mão no meu pau. Eu estava pensando em foder a sua boca. Eu estava lembrando da tua boceta apertada enquanto eu metia os dedos com força. – expirou fundo, vendo a água escorrer pelo corpo delicioso de e aproveitou-se disso. Fincou as unhas na bunda dela, que batia com mais velocidade e pressão. Puta merda. Ele queria xingar todos os palavrões que conhecia naquele momento.
Passou a ter mais dificuldade em falar, mas continuou, ao notar que ela gostava de ouvir. Conteve a vontade que tinha em meter a mão naquela boceta deliciosa que já deveria estar molhada e deixou que ela ditasse as regras dessa vez. – Eu estava pensando na tua voz gritando o meu nome enquanto eu te chupava até você não aguentar... E aí eu te chupava mais.
envolveu com a mão livre o seu pescoço, fazendo força, enquanto aumentava e diminuía a velocidade da fricção à sua própria vontade, o que o levava numa montanha russa de excitação e frustração, toda vez que ela ficava mais lenta. Soltou um muxoxo quase frustrado. Era o perfeito paradoxo: precisava que ela terminasse; precisava que ela continuasse.
- Muito bem – sorriu em aprovação. sentia seu coração tão rápido e seu pau tão latente que ambos poderiam explodir a qualquer momento. Completamente rendidos. – Agora eu vou te chupar. Eu vou te chupar inteiro, ... Mas só um pouco.
- ... Eu tô quase lá.
Ela apertou mais a mão contra o pescoço dele, arqueando as sobrancelhas, quase como quem o repreende. mordeu o lábio com um sorrisinho bem no canto em apreciação absoluta a nova postura que ela tinha assumido, reclinado contra a parede, com a respiração ofegante que quase o fazia sucumbir. Desafiavam-se, os dois. Mas ambos sabiam quem estava no controle dessa vez.
- Ah, mas você vai aguentar. Você vai segurar tudo. Você vai segurar até eu decidir que é o momento de você foder a minha boceta.
- ...
- Só quando eu decidir.
E ele assentiu, expirando, ansioso, frenético, eufórico. desceu a mão arranhando toda a extensão do pescoço, peitoral, o abdômen, as entradas... Lambeu uma delas ao abaixar-se, trilhando o caminho até a virilha, ainda com os olhos presos nos dele. Ele poderia gozar ali mesmo, naquele momento. Só com o olhar que ela o direcionava.
Mas ela fazia questão de torturá-lo. Deu um beijo molhado bem na glande com um sorriso cafajeste enquanto Harold colocou uma das mãos no seu cabelo e puxou, inutilmente tentando guiá-la, que parecia querer seguir seu próprio caminho dessa vez. Subiu e desceu a língua molhada da cabeça até a base, desenhando cada curvatura, envolvendo cada centímetro e gemia obscenidades deliciosas. queria fechar os olhos, mas a cena diante dele era linda demais. Real demais. Gemia baixinho em plena aprovação, com o corpo inteiro inflamado com o contato.
Apoiou-se na parede com a outra mão quando abocanhou a estrutura com vontade e gula. Engoliu tudo. Bem fundo. E o ritmo do seu coração acelerava, sua respiração ofegante e descontrolada fazia seu peito subir e descer. Puxava o cabelo de descontando ali a sua tensão e mordia o lábio com força numa troca de olhares quase hipnótica. Precisou se concentrar. Fechou os olhos só por um segundo porque não iria aguentar mais. O pau pronto pra explodir bem na boca dela, molhada, quente, que chupava com gosto e meticulosidade, chupava até o fim, os lábios que envolviam a estrutura num movimento intercalado, rápido, profundo, arrebatador. A sensação de tê-la ali, ajoelhada em sua frente, chupando o seu cacete com tanto afinco era realmente impassível de descrever. Com uma mão ela segurava na sua bunda por apoio, com a outra arranhava o interior de suas pernas. – Porra, , sua boca é gostosa demais, mas eu quero te foder. Me deixa... meter nessa tua boceta. Eu sei que ela tá prontinha.
Desceu a boca até a glande, sugando com mais força ali, e beijou-o, por fim. sentiu o corpo estremecer. passou o dedo polegar ao redor dos lábios enquanto se levantava e ele pendia a mão que puxava o seu cabelo em seu pescoço.
- Achei que você nunca fosse pedir.
Não resistiu. Puxou-a para um beijo urgente e voraz que o fez fechar os olhos por alguns segundos – mas só por alguns segundos. Ao sentir que partia o beijo, com os olhares fixos um no outro, observou enquanto a mulher se inclinava pra frente e se apoiava na parede com a mão, deixando-o com a perfeita contemplação da sua bunda desenhada e o rosto virado pra ele. O cabelo úmido que caía de lado. O sorriso sacana estampado e sugestivo.
Era isso. achava que não podia ficar mais excitado. Mas ficou.
– e ele se perguntou como demorou tanto para perceber isso – com certeza, deveria estar na lista das sete maravilhas do mundo. Deixou-se contemplar por um momento a posição em que o corpo escultural se colocava, com os pingos de água que moldavam as curvas e desciam calmamente. Até que subiu o olhar para o seu rosto. A troca silenciosa durou alguns segundos em que ele, com o corpo sobre o dela, parecia completamente extasiado. Deslizou a mão desde os ombros tatuados em contorno fino pela linha da coluna até a cintura, e envolveu-as com posse e orgulho. A força nos dedos. Inclinou-se para beijar o seu pescoço com toda paciência do mundo e soprou ali, bem perto do ouvido. rompeu a troca silenciosa ao colocar a mão no seu pescoço e puxá-lo para perto da sua boca.
- Agora você vai se aproveitar da minha bunda do jeito que você sabe que eu gosto – sussurrou, os rostos próximos enquanto ela se empinava para trás, abrindo um pouco as pernas. – E depois você vai me foder por trás. Até o fim, .
Foi só o que precisou. posicionou uma mão na cintura de por apoio e levou a outra molhada até a bunda de num tapa estrondoso e ardente que a fez arfar num gemido sôfrego e jogar a cabeça pra trás. E depois outro. E alternou. E depois outro. Ela arfava e gemia com a voz melodiosa e alucinante.
- Filha da puta... Você não vale nada, . Olha só como você me deixa.
, arfante e debochada, abriu ainda mais o sorriso mais canalha que poderia e o desafiou com o olhar. puxou o seu cabelo e meteu uma vez só e ficou, impulsionando o corpo para baixo, arrancando dela um pequeno grito esganiçado que só aumentou o seu tesão. Segurou-a consigo, passando a penetrar mais forte e gradualmente mais rápido. Seus olhos se encontraram com o de – os olhos que ardiam, que inflamavam, trilhavam um caminho de fogo por onde passasse. A expressão no seu rosto de prazer e volúpia e contentamento que se juntavam aos seus traços desenhados num entrelaçar absurdamente belo. Mordia o lábio, perplexo, abrasado pela imagem e pelo som e pelo toque e pelo compilado cinestésico que ela o proporcionava ali, embaixo dele, e ainda sim ditando seus passos. Vibrava. Pulsava. As suas pernas começaram a tremer. E então, ao parar de repente, ouviu resmungar, estarrecida. Mas ele queria mais e sabia exatamente o que estava fazendo. Apertou o clítoris dela com o dedo, só para voltar a meter de novo.
Sentiu seus olhos revirarem com as paredes de tão apertadas ao seu redor. A fricção que, provavelmente, o enlouqueceria no fim das contas.
Os gemidos aumentavam de acordo com a velocidade com que estocava. Podia sentir contrair sua musculatura propositalmente no tempo certo e no lugar certo. Passou a brincar com seu próprio clítoris enquanto gritava palavras incompreensíveis e ele fodia com ela deliciosamente sentindo cada sinapse e corrente elétrica que percorria por seu corpo o arrebatarem. Quase lá. De novo. Mas só depois dela.
Deu um tapa forte e estalado na sua coxa e ela gritou de novo. Suas pernas fraquejaram e ele a sustentou com a mão na cintura. Aumentou ainda mais a velocidade. Quase lá. Não iria mais aguentar, ouvindo gemer cada vez mais alto, cada vez mais desesperada, ao puxá-lo para um beijo demorado e mais eufórico enquanto ele fodia com sua boceta sem dó.
- Vai. Vai. Caralho. Vai, . Eu vou morrer – arfou, por fim, e ele pode sentir seu corpo tremer por baixo e as contrações pélvicas involuntárias que o envolviam. E ele pode, finalmente, relaxar. Gozou logo depois dela: sua garganta queimou, o seu pau explodiu, os estímulos frenéticos que percorriam por suas veias. O orgasmo se espalhou por cada mínima extensão do seu corpo como ondas gigantescas e arrebatadoras. Partes que ele nem mesmo sabia que podia sentir, e por isso, ele quase falhou, mas deixou que uma mão os sustentasse na parede.
, embaixo de si, completamente sustentada por seu braço que envolvia a cintura. Respiravam forte, tentando se recuperar.
- Quem é que é irresistível agora, ? – ela debochou, dando um último selinho. – Você tá me saindo um péssimo jogador...
riu, debochado e irônico também, dando de ombros. Retirou-se dela e virou-a para frente. Juntou seus narizes. Expirou contra seu rosto e, finalmente, beijou-a, o quanto queria. E se beijaram por muito tempo, se beijaram, se beijaram e se beijaram. Enquanto estivessem assim, não se importaria em perder.


X (essa cena contém spoiler do filme Closer: Perto Demais).


I can’t take my eyes off of you
I can’t take my eyes off of you
I can’t take my eyes off of you
I can’t take my eyes…


estava deitado entre as pernas de no sofá gigantesco da sala de cinema, com a cabeça apoiada no colo dela (que tinha a coluna recostada no suporte do sofá), ambos virados para a televisão ouvindo a música terminava o filme. As mãos dele passeavam e desenhavam formatos inconscientes por suas pernas despidas, deslizavam de cima para baixo, enquanto parecia interessada demais em mexer no seu cabelo, algo que ela tinha chamado de cafuné – apesar de não tirar os olhos da televisão em que Natalie Portman andava pela calçada na última cena de Closer: Perto Demais.
- O que você mais gosta sobre esse filme? – perguntou, curioso, virando um pouco o rosto e levantando os olhos pra ela, que aproximou o seu rosto também. – O que faz dele um dos seus comfort movies*?
deu um sorrisinho óbvio.
- Chuta.
- Os diálogos – respondeu, na lata, e ela assentiu, abaixando o rosto para dá-lo um selinho demorado de recompensa. Deu um sorriso quase contido para ele, então, parecendo feliz que ele tinha acertado.
- Eles são cruéis e honestos, mas ao mesmo tempo, é tudo tão implícito – ela justificou. – É um filme sem jornada do herói típica. As conversas e os olhares e as relações moldam as cenas, como na vida, não os eventos.
- A Alice não é uma heroína pra você?
- A Alice é um enigma pra mim.
- Isso te incomoda?
- Me deixa curiosa – respondeu, dando de ombros, ainda brincando com mechas específicas do seu cabelo, entretida. – Mas esse não é um filme de respostas. É um filme de perguntas.
- Me faz uma, então.
- O que te garante que a Alice realmente transou com o Larry?
arqueou as sobrancelhas em estranhamento, confuso, voltando seus olhos para a tela da televisão, quase se sentindo enganado. , surpreendentemente, riu, dando-lhe um beijo no canto da boca. Ele continuou a perguntar, mesmo assim, ainda olhando para os créditos que passavam sem que eles pausassem.
- Você acha que não?
- Eu não posso te garantir.
- Mas eles disseram que sim.
- O filme não mostrou. Só mencionou – deu de ombros. – As pessoas mentem, . Talvez eles só quisessem irritar o Dan.
, agora, estava encucado. Tinha gostado muito do filme escolhido por – apesar de não ser o tipo de filme que assistisse normalmente. Um daqueles filmes que te deixam pensando e pensando e pensando sobre tudo que aconteceu, um daqueles filmes que te fazem refletir sobre suas próprias posições diante dos fatos expostos. Ainda estava tentando criar suas próprias conclusões sobre Alice.
Mas um enigma pareceu-lhe uma característica apropriada.
- Você já mentiu pra mim, ? – perguntou, num tom de brincadeira.
- Já.
Arregalou os olhos, voltando-os para o seu rosto, surpreso. Ela tinha um sorrisinho sapeca no rosto, inclinada para o seu.
- Quando?
- Que te confirmei que você foi a melhor e mais gostosa foda da minha vida.
riu, virando seu corpo para ficar de frente para ela, deitado de bruços e abraçando a sua cintura. Levantou a barra da camiseta e colocou as mãos por baixo, deslizando ali pelo puro prazer de estar em contato.
- Ah. Entendi. Então você está mentindo pra mim agora.
Apoiou a cabeça nos seus seios cobertos por uma camiseta amarela da Camel que ele havia emprestado. Encararam-se por um tempinho em que não retrucou como ele esperava, mas deu de ombros, olhando bem nos olhos ao perguntar:
- E você, ? Já mentiu pra mim?
- Quando eu disse que a gente era só amigo – respondeu por impulso, sem pensar, e procurou nos seus olhos algum vestígio de brincadeira, mas permaneceu surpresa, imóvel. , subitamente, sentiu-se nervoso ao esperar por sua reação; nem sabia o porquê de tê-lo dito tão descuidadamente e sabia que ela tinha entendido o recado. O que se seguiria a partir disso? Conversariam sobre? Definiriam o que quer que estivesse acontecendo? Nem ele mesmo saberia como ter essa conversa. Talvez não fosse o momento ainda... Tudo que sabia era que ele e estavam exatamente onde deveriam estar – e naquele momento, bem naquele momento, esse lugar era perto. E se essa fosse a única definição que precisassem naquele momento, ele estava satisfeito.
Não era bem uma mentira para e sabia que ela tinha entendido isso. Uma mentira para si mesmo, talvez. Para o mundo. jamais seria só uma amiga. Poderia ser uma amiga com benefícios, talvez. Mas talvez amiga não fosse a melhor palavra para defini-la, mesmo que não soubesse qual deveria usar. O que ele e tinham era algo que nem tinha sido nomeado na gramática ainda. Era... único. Era próprio. Era deles.
A boca do seu estômago gelou enquanto trocavam olhares, tentando se ler, tentando se entender. Os braços dela ainda envolviam o seu pescoço carinhosamente. deu um beijo no seu pulso, como quem quer reassegurar de que estava tudo bem. De repente, desviou o olhar, molhando os lábios e engoliu em seco. A música que ainda tocava de fundo. A expectativa que o consumia enquanto esperava pela reação.
- Sabia que tem uma versão dessa música em português?
Ela voltou os olhos para os seus de novo. Uma expressão leve e despreocupada moldava seu rosto, apesar de tê-lo deixado sem resposta. Não tinha problema. não precisava dizer que o amava. Ela não precisava dizer nada. Não precisava dizer que era sua.
Era como se, de alguma forma, os dois já soubessem o que precisavam saber.
- É? A letra é parecida?
- Sim, meio adaptada, mas o refrão diz basicamente a mesma coisa. Ela é cantada por um cara genial chamado Seu Jorge. Tem até um vídeo no Youtube dos dois cantando juntos, Damien e ele, a primeira parte em inglês com o violino e depois em português com uma gaita. É lindo.
- E como ela é?
- Me dá o controle. Tá aí do seu lado.
- Claro que não. Eu quero ouvir você.
deu uma risada, apertando o rosto dele com uma das mãos como quem faz um peixinho e balançando-a num “não” explícito.
- Você não vai me ouvir cantar em português. Completamente constrangedor.
- Eu gosto da sua voz, .
- Não.
- Mas é gostosinho de ouvir quando você usa o português...
- Pode desistir, – ela disse, negando com a cabeça, apoiando as mãos na cama, pronta para se desvencilhar e fugir. Mas , mais rápido e intencional, puxou seu corpo para baixo, colocando-se por cima dela. O olhar sério e o sorriso presente ao observar tão próximo, afastou com o dedo uma mecha de cabelo do seu rosto. Ela encarava-o de volta, sem desafio, sem mistério, sem muros, e ele permitiu-se gravar um desses momentos em que as guardas estavam baixas porque eram raros e significativos. A distância entre seus rostos era mínima. A mão no pescoço dela e os corpos quase grudados enquanto ele apoiava o braço na cama. Passou, então, a beijar o seu maxilar, descendo os beijos molhados até o seu pescoço. passou a se contorcer um pouco embaixo dele com uma risada nervosa pelo nariz. Deixou um chupão ali e a observava, que tinha os olhos fechados, apreciando o toque.
- ... – pediu, expelindo a respiração bem na curvinha.
Lambeu o lóbulo da orelha até que, subitamente, abriu os olhos. Empurrou-o pra frente com força e ele deixou que invertessem as posições, ansioso para saber o que ela faria. Ela, então, sentava no seu torso, com a bunda no seu quadril, totalmente reclinada sobre ele, que automaticamente envolveu sua cintura com as mãos. sentiu as mãos de se moverem lentas. Uma deslizava por seu rosto e a outra colocava o seu cabelo para trás num movimento contínuo, delicado e gentil. Os dedos polegares passaram por suas sobrancelhas mais de uma vez envolvendo seu rosto. Enquanto ele procurava pelos olhos dela, parecia estar mais interessada em resvalar suas íris por cada centímetro do seu rosto. Elas se moviam vagarosas pelo comprimento da sua face, medindo cada detalhe, quase como se tentasse memorizar com suas próprias lentes cada minuciosidade desenhada ali. Até que, finalmente, as dela se depararam com as suas. O corpo de parecia ter sido esculpido por um artesão, sim, mas seus olhos... Eles eram infinitos e tingidos por uma aquarela única e medida. Profundos demais. As cores que pareciam borbulhar, os pequenos traços que se movimentavam e as pupilas enormes que saltavam sempre que olhava de volta pra ele.
E toda vez que colidiam, o corpo de se acendia por inteiro.
- Eu não sei parar de te olhar – ela quase cantou, bem baixinho, em português dessa vez. A voz baixa, rouca e doce em uma frase curta quase falada, como a versão da música em inglês. A boca que se mexia lenta e o sotaque que soava lascivo e sensual. As palavras que ele não entendia, mas as recebia como ondas de um sentimento que ainda não tinha nome. O jeito que olhava para era a linguagem que eles precisavam. Como se tivessem uma língua própria. A que eles dois dividiam. – Eu não sei parar de te olhar – continuou, enquanto os dedos dela desenhavam o seu rosto e o polegar parou na sua boca. Ela brincou suavemente com seu lábio. – Eu não vou parar de te olhar... Eu não me canso de olhar – segurou, então, o rosto dele entre as mãos. – Eu não vou parar de te olhar.
E não resistiu. O seu coração batia forte e rápido demais. A carga do ambiente era intensa e inebriante e envolvente. O corpo de sobre o seu, os olhos de com os seus, a voz de cantando pra ele, o sotaque, a língua, a boca, a áurea, a essência... Deixou, por fim, que ela o beijasse, sentindo com isso as ondas de calor e êxtase que acompanhavam o ato, enquanto aproveitavam o tempo que ainda tinham juntos pelo dia.

.

- Você sabe que pode ficar mais um pouco, né? – resmungou com a cabeça recostada no encosto do banco do carro de , o qual, dessa vez, ela sentava no passageiro. Estavam na garagem da sua casa. Quase conseguiu conter o sorriso ao vê-lo entrar no carro com ela como se fosse embora também. – Eu só tenho que ir pegar o voo em duas horas.
- Se não fosse por mim, você nem teria arrumado a mala ainda, riu pelo nariz, desacreditada, com a cabeça virada pra ele também. Usava ainda a sua camisa da Camel, um shorts de corrida que dobrou para que ficasse na metade da coxa novamente e continuou com suas próprias pantufas. – Você procrastina demais.
- Olha aí. Mais um motivo pra você ficar. Sem contar a parte que eu vou passar três semanas fora e você vai morrer de saudade...
quase se deixou convencer ao ouvir sua última frase mais arrastada. Haviam se visto todas as semanas, às vezes até mais de uma vez, desde o fatídico dia no Puzzle. Algo dentro dela realmente não queria passar esse tempo todo sem vê-lo. Algo dentro dela gritava para ficar mais um pouco. Algo dentro dela queria passar mais tempo com ele. E esse algo era bem incisivo em suas vontades.
Mas também tinha receio em demonstrar isso. Também sabia que ele era e já tinha ocupado demais do seu tempo. Ele colocou o cinto, portanto, como quem se recusa a sair e olhou pra ela como se tivesse resolvido tudo, encolhendo os ombros e cruzando os braços como quem se recusa.
- Apesar de você ser muito bonitinho – passou a mão por seu rosto ao dizer, o deboche que mascarava o apertozinho no peito. – Acho que consigo superar por algumas semanas.
deu uma risadinha gostosa e esperta ao balançar a cabeça em negação.
- Você vai pagar a língua, como sempre.
- , sai logo do meu carro!
Apesar de usar um tom divertido e uma expressão de quem segura o riso, cruzou ainda mais os braços, tentando parecer ofendido, só que o sorrisinho que pendia no canto do seu lábio não o deixava enganar.
- Eu não tô acreditando que você tá me expulsando do seu carro!
- Você me atropelou com o seu – retrucou, cruzando os braços também, levantando as sobrancelhas como quem prova um ponto. O embate silencioso de expressões torcidas e olhares que sempre acabavam se sustentando por tempo demais no silêncio divertido. Ele, enfim, pareceu convencido, assentindo, como quem faz um acordo.
- Ok. Estamos quites, então?
riu, puxando o pescoço dele para um selinho demorado. Segurou o seu rosto com as duas mãos. Pode sentir na pele, naquele momento, qualquer blá blá blá sobre borboletas no estômago que os livros costumavam mencionar.
Não sabia que elas poderiam ser tão estabanadas.
- A gente nunca vai ficar quites, meu amor – e outro selinho demorado com lábios que tinham gosto de morango. E vários outros. – Agora sai daqui. Boa viagem. Se cuida, ok?
- Eu vou sair sim, . Mas só porque você me chamou de meu amor.
Desabotoou o cinto a contragosto ouvindo a risada de , abrindo a porta do carro e saindo. Quando fechou a porta e observava-a se distanciar, abriu a janela do banco passageiro, chamando sua atenção.
- ...
Viu quando ele se apoiou na janela aberta da porta com os braços, esperando com olhinhos ansiosos o que ela tinha a dizer. Ela sorriu honestamente com os lábios fechados.
- Oi, .
- Obrigada.
- Pelo que?
- Por ter me atropelado com o seu carro.
Ele deu um sorriso largo e surpreso diante de todas as coisas que aquela frase poderia significar.
- Sempre um prazer, meu amor.

X

estava no seu quarto, deitada na cama, assistindo Frances Ha pela milésima vez quando alguém bateu na sua porta. Tinha o rosto entre as frestas. O carinho explícito no olhar.
Não pensou duas vezes. Não estava mais nem aí para quem estava certo ou errado. Levantou-se e correu até ela, sentindo o conforto do abraço de ao pararem por alguns segundos, entrelaçadas, no meio do quarto.
- Me desculpa – pediu, com toda a honestidade do mundo. – Me desculpa, me desculpa, me desculpa.
Já faziam algumas horas que tinha chegado em casa, mas não estava lá. Tomou um banho, arrumou a bagunça do vaso quebrado e decidiu esperar que ela voltasse. Apareceu no fim da tarde.
E se entreolharam. Essa é a Sophie. Ela é a minha melhor amiga, Frances dizia ao fundo, já no fim do filme. Encostaram as testas, ainda abraçadas e a abraçou de novo. riu um pouco, parecendo mais aliviada ao se soltarem.
- Eu e o que temos que te pedir desculpas, . Nós fomos longe demais. Você tem todo direito de lidar com a situação no seu tempo. A gente não queria te desrespeitar. E eu falo isso por mim e pelo , porque eu sei que vocês vão apenas fingir que nada aconteceu e que vocês estão bem com isso porque vocês funcionam dessa maneira estranha, mas saiba que ele também se sentiu mal.
- Aposto que vocês passaram a noite toda falando mal de mim.
- Eu passei a noite toda falando mal de mim, , você nem é um tópico tão interessante assim de debater quanto minhas neuras autodepreciativas pós briga.
- E o te embebedou antes ou depois disso?
- Na verdade, fui eu que sugeri – riu, dando de ombros. – Ele acionou o Comediante e a gente fez uns drinks com coisas aleatórias que tinha na cozinha dele. Ficaram todos péssimos, inclusive. Mas foi engraçado.
- Eu... estava com o .
sorriu, enquanto sentavam-se na cama, de frente uma para a outra.
- E fez você se sentir melhor?
- Assustadoramente suspirou, jogando o corpo para trás. se jogou pra trás também, ao lado dela. As duas olhavam para o teto. – Agora ele vai viajar pra Londres por três semanas.
- Foi por isso que você veio com a camisa dele? Pra ficar abraçadinha enquanto ele tá longe? Pra cheirar antes de dormir? E antes de...
- Pelo amor de Deus, , você está passando tempo demais com o ! riu e deu uma cotovelada de lado na amiga, que revirou os olhos, mordendo o lábio, dando uma risadinha também.
- Você me deu um baita susto, .
- Eu sei. Foram muitas coisas ao mesmo tempo – se explicou, ao virar os olhos para o espelho quebrado. imitou o movimento. O espelho estraçalhado perpendicular a posição em que se encontravam. Como uma série de s e uma série de s estivessem no quarto junto com elas. – Podia ter sido na parede, né?
- Acho que você queria acertar o espelho, inconscientemente iniciou, sorrateira e com um meio sorriso de lado, evocando em uma careta. – Mas não vou dizer mais nada sobre isso, pode ficar tranquila.
- Me irrita que você me conheça tanto às vezes. Rouba um pouco da minha licença poética pra escolher a personalidade do dia.
deu uma risadinha e deu de ombros. Voltaram a olhar para o teto.
- ...
- Oi.
- Posso te fazer uma pergunta, então?
- Porra... – soou um pouco frustrada, cansada de conversas difíceis, mas decidiu ceder mesmo assim. – Tá.
- Você ainda ama o Travis?
- Tipo... De estar apaixonada?
- É.
- Não, acho que não. Acho que descobri isso quando ele fez o pedido, mas não queria muito acreditar. A ideia me parecia estranha.
- E como você se sente sobre ele agora? – perguntou, objetiva. Virou o rosto para , que continuava olhando para o teto.
Não se sentia desconfortável naquele momento, por incrível que parecesse. Talvez tivesse desmistificado o tópico um pouquinho que fosse em sua cabeça. Quis que soubesse como ela se sentia.
- Às vezes... Às vezes parece que eu devo alguma coisa a ele.
- Por não amá-lo mais quando ele ainda te amava? Por não poder dar pra ele o que ele queria?
ficou em silêncio por um momento.
- Só... parecia que eu deveria ter feito essas coisas.
- Fico feliz que você não tenha feito.
- Você estava certa, de um jeito ou de outro, . Eu realmente o deixei entrar de novo. Eu realmente fiz o que ele me pediu só porque ele precisava.
- É, mas você ainda tá aprendendo sobre os seus limites, . Você tá se descobrindo, decidindo por si mesma dessa vez. Tá ficando mais forte.
- Às vezes, acho que na maior parte das vezes, eu acredito nisso também. Eu realmente me sinto mais livre. Mas o espelho quebrado diz o contrário – ela virou o rosto para o espelho quebrado, então. – E nessas vezes... Nessas vezes parece que tem algo de errado comigo.
Alguns segundos de silêncio se passaram quando, de repente, levantou-se, puxando consigo pelo braço.
- Eu sei que você se sente desconfigurada, , mas é o espelho que tá quebrado – constatou ao virar-se para o lado, ficando de frente para . – Eu olho pra você e eu te vejo inteira. – , então, virou-a também pelo braço, que ficaram frente a frente. , que observava cada mínimo movimento com olhos surpresos e coração aquecido, pôde sentir enquanto apertava com as mãos seus pulsos, seus antebraços, as partes superiores, os ombros. Parou as mãos ali, apoiadas. – Você tá inteira, . Toda junta. Completa em si mesma. Você só tá se vendo pela lente errada.

.

- Brigadeiro de reconciliação? – ouviu dizer quando ambas entraram pelo apartamento de , segurando uma panela com o doce de chocolate e três colheres. Ele estava sentado no sofá com um violão na mão e um caderno do lado. Quase não pode conter a expressão aliviada no rosto por ver , mas percebeu.
sempre percebia.
- Isso é injusto, , eu estava te escrevendo uma música de desculpas, mas não tem como comparar com brigadeiro riu do sotaque carregado na última palavra, que também achava difícil demais de dizer. Era o que sempre fazia quando queria levantar a bandeira branca. Observou enquanto a amiga se sentava ao lado dele, dando um abraço e vários beijos na bochecha enquanto dizia para que o amava do seu próprio jeito, ou seja, xingando-o, e o rapaz forjava uma expressão de desconforto. – Eca. Eu já falei pra você escovar esses dentes...
E tudo estava bem de novo. Não precisavam de muita cerimônia.
- Como era a música?
E ele sorriu com orgulho, passando a tocar alguns acordes de maneira brusca no violão.
- ... você é chata pra caralho, mas eu gosto de você... Tente me entender... Oh, ... É tão difícil te agradar (Porra! Demais!), mas eu não vou deixar de tentar, oh ...
gargalhou, incrédula, balançando a cabeça em negação e deu uma cotovelada no amigo de lado. também o encarava desacreditada, mas por outro motivo.
- Não é possível que você não acrescentou nada nas duas horas que eu passei fora, !
- Isso nem rima, porra! , eu não acredito que você concordou com isso.
- Eu não vou discutir com um músico sobre música, , eu sei o meu lugar de fala.
- Essa música tá perfeita. Música é sobre verdade, sabe? Acho que estamos fazendo grandes avanços aqui. Só faltou falar do seu cu.
- Você é viciado em cu, .
se sentia aliviada ao ver sua família ali, e , sentados ao lado do outro e discutindo coisas inúteis, exatamente como deveria ser. Pegou uma colher do brigadeiro, sentindo seu coração aquecer e a sensação de alívio e pertencimento preencher seu corpo aos poucos.
Era fato que, talvez, coisas relacionadas aos dois a afetassem um pouco mais que o normal – o que poderia dizer em sua defesa? Todo mundo tinha um ponto fraco. Eles eram o dela, definitivamente.
Estavam longe de serem perfeitos, mas haviam construído realb. E por mais que soubesse disso no fundo, algumas vozes em sua cabeça, às vezes, faziam questão de tentar mostrá-la o contrário.
Se vocês não morassem tão perto vocês perderiam todo contato, .
Até a está cansando de você.
Como consegue ser tão substituível?

Vez ou outra, as palavras que seus pais insistiam em repetir durante os anos ressurgiam como uma enxurrada. A certeza de que ficaria sozinha no mundo e na cidade grande. Que não merecia ser amada por deixá-los para fazer faculdade tão longe. Que havia falhado com eles e falharia com todas as pessoas que amava eventualmente.
Com a terapia aprendeu a abanar esses pensamentos, sabendo que essas eram as mil e uma vozes da autossabotagem que ela não se deveria mais se prestar a escutar. Mas era difícil domá-las, vez ou outra. Cada vez menos, devia admitir. Tinha feito grandes progressos e sentia-se cada vez mais independente. Mas vez ou outra...
Ficou surpresa com a maturidade cirúrgica de na noite anterior. Eles já tinham tido momentos parecidos, sim, sempre tinham, e normalmente era quem intervia com a sensatez, mas dessa vez... Dessa vez, sozinha com , abraçados naquele mesmo sofá, daquele mesmo apartamento, sentiu-se segura e confortável e anestesiada como poucas outras vezes na vida. Talvez não tivesse uma real dimensão do significado que ele tinha pra ela. Pegou-se olhando para ele com uma íris observadora e investigativa enquanto ele conversava com sobre qualquer coisa que ela não estava mais nem ouvindo.
É claro que não. Era só o fato de que precisava de alguém ali e sempre estava lá. Sempre. Todas as vezes que precisava. Todas as vezes que queria. Sempre que chamava, ele estava lá.
Essa era sua sorte no mundo.
- A avó do Travis morreu? Por isso que você foi lá? – despertou de seu transe aleatório que havia passado despercebido ao ouvir o que ele tinha dito. – Caralho! , você devia ter contado!
piscou os olhos para ele, desacreditada. Ele revirou os olhos minimamente com um sorrisinho e o tom leve e brincalhão. – Quer dizer... Você poderia ter mencionado, se quisesse. É assim? Falei certo agora?
- Poderia tirar um pouco do deboche, na verdade. Mas não é como se você conseguisse falar duas palavras sem debochar.
- Eu aceito isso como um elogio, . E eu sinto muito pela avó do Travis.
, surpreendentemente, não se deixou abater pela notícia. Se havia algo nesse mundo que enxergava claramente era a habilidade de Travis em se aproveitar de .
- Eu também, . Só... cuidado, tudo bem?
- É, eu acho que sim – pareceu concordar, finalmente. – Eu não quero voltar a ficar do jeito que eu fiquei ontem...
- Então, por falar nisso, eu tenho uma sugestão... – soltou, como se nada, pegando uma colher do brigadeiro e comendo logo depois com uma expressão de plena satisfação. Temia a resposta de por não querer entrar numa outra discussão, mas não demonstrou, na intenção de deixar a opção corriqueira e em aberto. – Eu tenho um número, posso te dar. Mas você só marca a sessão se quiser ir. Por que é que esse negócio é tão bom?
- Sessão? – fez uma careta. – Sessão de que?
- De drenagem linfática – respondeu, dando de ombros como se fosse óbvio, e balançou a cabeça com o sarcasmo explícito no rosto, com o tom divertido de quem faz piada. – A é psicóloga e você jogou um vaso no espelho e sumiu de pijama, , do que você acha deve ser a sessão?
- Você fala como se não precisasse de terapia. Otário. Acho que a gente faz competição de quem é mais desgraçado da cabeça, na verdade.
- E isso é novidade pra quem, ? – deu de ombros. – Eu só disfarço melhor. E eu já fiz minha cota de terapia.
e puderam acompanhar o processo de luto quando o avô de morreu, alguns anos antes – foi a segunda pessoa realmente de sua família que perdeu, alguns anos depois de sua avó, esta que não acompanharam por ter acontecido antes que se conhecessem. Foi nessa época que deu uma oportunidade ao tratamento psicológico. Acabou largando com o tempo e com a melhora – não que devesse.
Mas estava tentando uma abordagem menos incisiva com os amigos dessa vez. Qualquer coisa sobre deixar sugestões no ar.
- Tipo aquela vez que você queimou um violão depois de ficar quebrando o coitado no chão bem no estilo Avril Lavigne low budget?
- Tipo aquela vez – ele concordou, rindo ao dar de ombros. riu também.
- Não existe uma cota de terapia, . Existe um trabalho que precisa ser terminado.
- Tá bem. Você me consegue um número no próximo violão que eu quebrar. Ou vaso, caso eu seja mais adepto a ideia da .
- Terapia não é só pra quem quebra as coisas, burro. Eu faço terapia e eu nunca quebrei nada.
- Você quebra várias coisas, .
- Não de propósito!
- Porra, de novo com o vaso, vocês querem que eu compre um novo, é isso, tinha valor sentimental pra vocês? – ela revirou os olhos e empurrou de lado, rindo. – E olha só, como é que você pensou tão rápido em drenagem linfática? Tá pensando em fazer?
- Gosto de manter as possibilidades em aberto, obrigado.
revirou os olhos. Expirou fundo com uma careta.
- Com quem?
- Foi uma indicação, . Eu não o conheço. Somos muito próximas.
- Ele vai usar termos psicanalíticos comigo?
- Sim, e vai te torturar com eletrochoque.
- Você pode só falar com ele e ver como é, . E ignorar o .
deu de ombros, assentindo com a cabeça. E para a surpresa dos amigos, respondeu:
- Tudo bem. Vou marcar.
- Foi o , né? Ele te hipnotizou? – perguntou, cruzando os braços, desconfiado. – É o pau dele? O sêmen dele contém a poção do sim? Até quando você vai ficar encantada?
- Sim, , e acho que você deveria tentar, porque aí eu ia sugerir que você enfiasse a cabeça na privada e você não ia conseguir negar.
riu, comendo seu brigadeiro, com o coração aliviado e um sorriso no rosto. Xingamentos, discussões inúteis, comidas gostosas, tocando músicas antigas – e novas, como a Canção da – no violão enquanto elas cantavam desafinadamente. Era só o que ela precisava no momento. E o teve sem mais eventos surpreendentes por algumas horas, tempo suficiente para que o celular de vibrasse na mesinha de centro com um número desconhecido. Observou a expressão da amiga tornar-se aflita ao cogitar as possibilidades, mas observou enquanto ela decidia atender mesmo assim.
- Alô? Oi, sim, sou eu. O que precisa?



A paleta do ambiente era amarronzada, as lâmpadas amareladas, com um letreiro clássico de “Treat People With Kindness” – o lema de sua família – em uma das paredes mais longas e uma bancada enorme na frente de uma estante interminável das mais diferentes bebidas, típica de bar. Várias mesas, nem todas ocupadas. , no entanto, sentava numa das cadeiras de madeira, com seu copo de cerveja cheio e a garrafa de cerveja bem do lado, o cotovelo recostado na mesa também amadeirada. Com o rosto sério, porém tranquilo, ouvia sua mãe cantar Girl Crush no pequeno palco rústico do outro lado do salão, com seu violão característico e uma vocalidade tão leve e natural que ele jamais seria capaz de acompanhar. Era noite. O movimento propício para um domingo num dos bairros mais calmos de Manchester, para onde se mudaram ao sair de Holmes Chapel. Montaram o bar que, apesar de ter crescido com o passar dos anos, não era tão grande assim. E eles gostavam disso. Os clientes fiéis e amigos – que estavam na faixa etária dos trinta pra cima.
Todos eram acostumados com a presença de ali e essa era a melhor parte. Poder aproveitar a companhia dos seus pais e de seus antigos conhecidos e amigos sem precisar se preocupar. Ali ele não era , o ex participante de uma boyband mundialmente conhecida que levou o terceiro lugar do X Factor. Ele era o filho de Florence e Alaric que costumava fazer pizza na cozinha improvisada atrás do balcão de bebidas.
Era bom estar em casa. A Inglaterra era bem diferente da costa oeste – mais fria, mais introspectiva, mais conhecida. Mais confortável. Só de ouvir o sotaque parecido o seu coração se aquecia. Enquanto ouvia sua mãe cantar, desejou ter Leslie ali, ao seu lado, tomando a cerveja que lhe foi liberada aos dezoito pelos pais. Fase que , infelizmente, não pôde acompanhar tão de perto por estar ocupado demais numa sequência interminável de viagens prolongadas e exaustivas em que as tours da One Direction lhe levavam. Mas agora ela estava terminando o curso de Moda na Saint Martins e não tinha todos os fins de semana livres – qualquer coisa sobre projetos e desfiles e produções que ele não entendeu muito bem.
- Estranhando estar na plateia? – ouviu a voz de Alaric soar ao seu lado, levantando os olhos até ele, que se sentou ao seu lado. – Bem sabemos que você ama ser o centro das atenções...
deu de ombros, ao sentir o braço do pai por trás de seu ombro num abraço de lado enquanto falava.
- Tenho a quem puxar nisso – respondeu, servindo o pai a cerveja no outro copo de vidro. – Da minha mãe, na música. De você, no sarcasmo. Juntou os dois e vim com o pacote completo.
Brindaram antes de beber e Alaric deu um meio sorriso retórico.
- Por que a surpresa? A Les podia ter se programado pra vir também.
- Foi de última hora. As coisas estavam meio... Turbulentas demais. Acho que precisava vir aqui, ouvir a voz de Dona Florence cantando umas músicas antigas e você fazer piada ruim.
Alaric riu, empurrando-o de lado com o braço, os olhos devotos em Florence que ela nem parecia perceber, mas vez ou outra retribuía com o sorriso pendido no canto do lábio em ter seu filho ali de novo, junto ao pai.
Viraram-se, então, um pro outro. A presença do seu pai fazia com que se sentisse em casa, em qualquer lugar do mundo. Fazia com que ele se sentisse mais próximo de quem realmente era.
A vida foi muito boa com , isso ele deveria admitir. Fora a profissão, era também um grande sortudo no quesito família. Alaric sempre foi um pai presente, calmo e apaixonado. Apaixonado pela vida, apaixonado pelo bar, apaixonado por seus filhos e definitivamente, apaixonado por Florence. Já Florence era uma mãe peculiar, se quisesse saber – apesar do espírito jovial nunca tê-la largado, soube dosar a dureza e o carinho, com o sexto sentido aguçado que mães sempre têm. Soltou-o no mundo com leveza e independência porque esses eram suas principais bandeiras. E Leslie, a caçula que ele jamais deixaria de irritar e proteger, havia crescido para se tornar uma mulher tão livre e excêntrica quanto sua mãe, que carregava também a paixão e intensidade de Alaric.
Juntos eram o time perfeito. Estar ali fazia com que se lembrasse disso.
- É bom te ter aqui. Jeremy e Lily dão conta das pizzas, mas as pessoas ainda perguntam pelas suas, vez ou outra.
- Às vezes dá vontade de largar tudo e me esconder naquela cozinha ali de novo.
- Eu te aceitaria de volta em dois tempos. O seu salário era bem mais baixo.
- Eu fiquei mais caro nos últimos anos. Você não soube?
Ric sorriu com um sorriso conformado.
- Fico impressionado com a sua capacidade de envelhecer e continuar o mesmo.
- Síndrome do ninho vazio, Ric? Eu sabia que você era sensível, mas não precisa chorar, cara...
- Vocês cresceram rápido demais. Olha só pra você, ! A barba que eu já tinha desistido de ver crescer depois que você passou dos vinte até chegou! Meio ralinha, mas dá pro gasto.
riu, revirando os olhos e dando um gole da sua bebida. Alaric expirou fundo. Seus olhos orgulhosos eram reconfortantes e asseguradores. Ficaram em silêncio por um tempinho em que apreciavam tanto a companhia, quanto a bebida.
- A sua mãe sempre soube. Eu que demorei mais pra aceitar – Ric continuou, subitamente. – Naquele dia do X Factor. Assim que você entrou no palco pra cantar a música que ela te ajudou a escolher e vocês ensaiaram incansavelmente até que a Leslie chorasse por não aguentar mais...
deu uma risada pelo nariz, balançando a cabeça.
- Isn’t She Lovely. Uma das preferidas da Dona Florence.
- Ela cantava pra vocês dormirem – Ric confirmou com a cabeça. O sorriso nostálgico e orgulhoso que nunca saía de seu rosto. – Assim que você pisou naquele palco, filho, você nem tinha sido aceito ainda... Eu estava nervoso demais, meu coração quase saindo pela boca.
- Eu imagino – interrompeu, debochado. Alaric conseguia ser mais coruja que Florence.
- Ela ouviu você cantar, me abraçou de lado e disse “Você sabe que ele não vai voltar, não sabe?”. – Encararam-se por um momento em que sabia exatamente o que o pai queria dizer. Deu de ombros, com um sorrisinho sapeca de quem não tem culpa. – Dito e feito. Mesmo quando você não foi aprovado de início. Ela tinha essa certeza de que aconteceria, uma hora ou outra.
- E você ficou chorando as pitangas.
Ric riu, dando de ombros.
- O que eu quero dizer, , é que você nasceu pra isso. Não importa o quão difícil seja. Depois de tudo que você passou... Olha só aonde você chegou. Olha só o quanto você contribuiu pro mundo.
assentiu, e sabia que, no fundo, concordava. Mas era diferente quando ouvia isso de seus pais. Era seguro. Era palpável.
Depois de tudo que passou com a Modest. Depois de tudo que passou com Camille. Depois de todas as mudanças que aconteceram na sua vida... Valia a pena. Sempre valia a pena.
Valia a pena quando ele via o disco pronto no final. Valia a pena quando ele estava no palco, então, podendo cantar suas próprias músicas. A troca que tinha com as pessoas que o acompanhavam. As pessoas que tinha conhecido, os lugares que tinha visitado, as experiências que tinha vivenciado... Valia a pena. Valia a pena, se significava que ele pudesse fazer parte da história de tantas pessoas. Se ele pudesse jogar no mundo todo o amor que recebeu de seus pais – e até os que não recebeu.
Valia a pena.
O sorriso foi crescendo em seus lábios na medida em que as coisas passaram a se reorganizar em sua mente.
- Vocês podem voltar a tentar. Eu gostaria de ter outro irmão. A Leslie era irritante demais para que eu pudesse aproveitar a fase boa.
- Desculpa dizer, , mas também tem a parte de a casa ser bem mais divertida sem vocês.
- Porra, pai! – riu, colocando uma das mãos no rosto. – Isso é exatamente algo que a minha mãe falaria. Vocês tão virando um só.
- Foi ela que me chamou atenção pra isso, mesmo – deu de ombros, e virou os olhos pra ela novamente.
pôde observar Florence piscar levemente para Alaric enquanto tocava o solo. E Alaric, discretamente encantado enquanto ela voltava a cantar, bebeu sua cerveja, sem desvencilhar os olhos do palco nem por um segundo.
- Mais de vinte e cinco anos pra conta e você continua olhando pra ela do mesmo jeito – comentou, meio orgulhoso. O amor que seus pais tinham era realmente algo a se invejar.
Era boa a sensação de ser um fruto disso. Era boa a sensação de pensar que algumas pessoas conseguem fazer dar certo.
- Não consigo pensar no dia em que vá ser diferente.
Ficaram em silêncio por mais um tempo. Dessa vez, observavam e ouviam Florence cantar Iris. sorriu, pois sabia que sua mãe amava essa música.

Sooner or later it’s over
I just don’t wanna miss you tonight
And I don’t want the world to see me
Cause I don’t think that they’ll understand
When everything is made to be broken
I just want you to know who I am


Lembrou-se de , de repente. Eu não sei parar de te olhar. Jamais se esqueceria dessas palavras, por mais que estivessem em português. Jamais se esqueceria da sonoridade da sua voz, baixa e rouca, da proximidade dos seus rostos naquele momento, das pupilas que se movimentavam com a troca íntima e paralisante. O coração que pulsava e a serotonina que corria em sinapses pelo seu corpo.
- Eu conheci uma pessoa, pai.
Ele disse. Do nada. Também se surpreendeu com as palavras que proferiu. Não esperava contar ainda sobre para os seus pais, mas talvez fosse a chance, talvez fosse o momento, talvez fosse o último encontro que tiveram, talvez fosse a própria vontade de, finalmente, contar isso pra alguém que não fosse o Mitch, seu melhor amigo e fiel escudeiro.
Alaric arregalou os olhos e virou-se para o filho, surpreso. Ele e tinham, sim, esse tipo de intimidade, conversavam sobre tudo. Mas haviam feito um pacto silencioso, desde o fatídico dia, desde que aquilo aconteceu com Camille, que esse não era um tópico a ser puxado.
notou o cuidado com que o pai manejava a conversa, deixando o espaço para que ele falasse o que precisava naquele momento.
Os detalhes... Os detalhes poderiam ficar para depois.
- E aí?
- Sabe... Aquela menina que eu atropelei? – disse, rindo um pouco. – É ela.
- Achei que ela fosse petulante e mal educada. Mas vejo que você mudou de ideia sobre ela.
Ric deu um sorrisinho sugestivo e deu de ombros.
- Eu também achei – expirou, preenchendo o copo de sua cerveja novamente, só para dar mais um gole. – Mas acabei me surpreendendo no final das contas.
- Ela é boa pra você?
- Ela é real, pai – respondeu, e sabia que Alaric sabia o significado do que ele dizia. – Ela me faz... sentir de novo. Sentir coisas boas. Coisas reais.
- Você já disse isso pra ela?
- Eu não sei até que ponto eu sou bom pra ela, pai.
suspirou. Alaric colocou a mão nas costas do filho, carinhosamente, reclinou um pouco a cabeça para o lado e disse:
- Eu pensava a mesma coisa sobre a sua mãe – Ric fez sua própria confissão com um meio sorriso. – As pessoas são únicas, . Eu jamais encontraria outra Florence no mundo.
deu uma risada, reclinando sua cabeça para o seu pai também, assentindo.
- A Dona Florence é bem única, mesmo.
- E jamais me perdoaria se deixasse a sua mãe passar – afirmou, por fim. – E se dessa vez é real como você diz... Não a deixe passar, .



*O conceito de comfort movie é um termo utilizado para quando você gosta tanto de um filme que o assiste repetidas vezes, principalmente nos momentos em que você quer ter a sensação de algo conhecido, algo que te faz bem. Também pode servir para música, por exemplo, uma comfort music é uma música que você escuta para sentir conforto, que significa alguma coisa pra você, que eventualmente você vai acabar ouvindo de novo, não importa quanto tempo passe, porque você se identifica com ela, entre outras coisas.


18.



Funcionava quase como a sala de um apartamento sem muitos móveis em cores claras e pastéis. Parecia ter saído do Pinterest. O espaço era amplo e soava aconchegante.
Poucas coisas. Uma estante alta com vários e incontáveis livros. Uma enorme janela de vidro dava a vista para a rua. A poltrona em que se sentou era confortável, mas ela manteve a postura reta e a bolsa no colo. O homem na faixa dos trinta anos sentado à sua frente. No rosto, olhos observadores cobertos por um óculos retangular, uma camisa social, a postura confortavelmente correta, o notebook na mesinha ao seu lado junto a uma espécie de prancheta. Já havia feito as apresentações ao entrar na sala, quando a recebeu com um sorriso mínimo e acolhedor, porém distante o suficiente. Um aceno ao abrir a porta para entrar no ambiente. Na conversa por telefone, trocou algumas poucas informações com ele. Elijah Hall. Seu tom era leve, apesar de formal. Estatura mediana. Usava um vans clássico preto, o que ela achou estranho. Talvez esperasse por um sapato social.
Ele a observava, mas não com um olhar julgador – muito menos parecia investigá-la. Pelo contrário. Seus olhos eram sutis e pacientes, esperando por sua iniciativa. De todo jeito, sentia-se desconfortável. Evitava o seu olhar como pouco fazia. Levou os olhos até a janela aberta e encarou-a por um tempo. As cortinas escancaradas faziam sentir-se exposta.
- Quer que eu feche?
assentiu, com uma expressão desconfiada, seguindo-o com os olhos enquanto ele se levantava para ir até as cortinas, fechando-as, e voltou ao seu lugar. O ambiente ficou um pouco mais escuro, mas deu a a segurança necessária para aquele momento.
- Como você...? – ela não terminou a frase de propósito, dando a deixa ao apontar com a cabeça para a janela.
- Depois de um tempo a gente aprende a notar quem gosta e quem não gosta das cortinas abertas. Deixo assim, aberta, para que saibam que é uma possibilidade.
- Não quis ser rude. Eu sei que é a sua sala e tal.
- Não se preocupe. Esse é o seu lugar, . É um lugar para você se sentir segura. Se as cortinas te incomodam, você realmente deve dizer.
- Mas é a primeira vez que venho.
- Sim.
- E eu não te conheço.
- Eu também não te conheço – ele rebateu, com um meio sorriso. – Mas a gente está aqui para falar sobre você. O que você quiser. Quando quiser.
- Como espera que eu confie em você se não sei nada sobre você?
- Eu não espero que você confie em mim, . Você pode confiar no meu trabalho, se você quiser. Mas essa é uma escolha sua.
pareceu ponderar por um tempo, relaxando a coluna no encosto da poltrona. Passou, então, a encará-lo em desafio: clássico da não querer baixar a guarda. Observava cada mínimo relance de sua expressão buscando por parcialidade. Algo que pudesse se segurar e rejeitar. Não encontrou. A postura de Elijah, com seus cabelos castanhos alinhados, permanecia a mesma. Pacientemente. Alguns segundos de silêncio que pareceram uma eternidade para ela não pareciam surtir muito efeito nele.
- Tudo bem.
- Por onde quer começar?
Não queria começar. Não sabia por onde começar. Ele era um completo estranho. Tudo sobre aquele momento era estranho, na verdade – que ideia era aquela de terapia? Parar para contar os seus detalhes mais sombrios para uma pessoa aleatória e ainda por cima pagar por isso? Freud só poderia ser um charlatão ao começar com essa história.
- Eu joguei um vaso no espelho num acesso de raiva. Meus amigos acham que eu sou louca e por isso a me aconselhou vir aqui.
Resumiu, no entanto. Elijah deu um mínimo sorriso.
- O que é ser louca, ?
Arqueou as sobrancelhas em uma careta, surpresa com a colocação e com a sua própria reação. Parecia completamente desconexo com o que ela estava falando. Não estava ali para contar para ele o motivo de suas noites de choro ou seus traumas de infância? Que tipo de pergunta era aquela? Ele era o psicólogo ali. Deveria saber muito melhor do que ela a resposta.
- Você quer os termos, é isso? A , que também é psicóloga, provavelmente usaria algo como mentalmente desorganizada.
- Não perguntei a opinião da . Perguntei a sua.
- Você é bem direto. – retrucou. As respostas eram rápidas. Deu uma risada sarcástica pelo nariz, sem tirar os olhos dele, num combate silencioso em que apenas ela disputava. Por que será, então, que se sentia tão atacada? Vulnerável demais por algum motivo. O rosto de Elijah permanecia acolhedor, seu tom era nobre e muito educado, apesar das palavras objetivas e cirúrgicas.
Mas no fim, era melhor que fosse assim, pensou. Era melhor que fosse direto. não tinha muita paciência para o afeto forçado que esperava que os psicólogos tivessem. Talvez pelo jeito que cuidava dela...
Mas não era sua psicóloga. era sua amiga.
- E você não respondeu a minha pergunta.
- Foi uma espécie de surto, eu acho – deu de ombros, tentando se esforçar um pouco para explicar. Benefício da dúvida. – Eu não pensei antes de fazer. Só fiz.
- Isso é ser louco? Ter um surto? Não pensar antes de fazer alguma coisa?
- Você quer discutir o conceito de loucura comigo agora? Podemos pegar um artigo de Foucault e debater – encolheu os ombros e expeliu o sarcasmo em seu tom e seu sorriso ao terminar a frase, sem conseguir conter o veneninho que escorria pelo canto da sua boca com a alfinetada. Nem mesmo ela conseguia entender o porquê de a postura defensiva estar tão presente. Elijah riu pelo nariz e assentiu em concordância.
- O que está em questão aqui não é o que eu quero, . Você me disse que seus amigos acham que você é louca, certo? Estou tentando entender o porquê. Eles te disseram isso?
Ponderou, levantando os olhos ao tentar repassar o discurso mentalmente.
- Não.
- Essa é uma percepção sua, então?
Parou por um segundo, levantando um pouco o lábio superior numa careta. De novo. Não gostava das perguntas que lhe fazia.
A sensação que tinha era a de estar respondendo um questionário inútil que ela poderia facilmente pesquisar na internet.
- Eles... deram a entender. – gesticulou um pouco com a mão e balançou com a cabeça enquanto explicava. Elijah assentiu em compreensão.
- Como?
- Quando disseram que não é normal jogar um vaso no espelho. Ou talvez eles tenham usado a palavra saudável. Bom... não foi a primeira vez. Eu também taquei outros jarros na parede da sala outra vezes que fiquei irritada.
- E o que você acha que significa ser normal, então?
revirou os olhos sutilmente ao abaixar a cabeça. Não fazia ideia do porquê ele parecia fazer todas as perguntas erradas sobre os assuntos que ela estava se dispondo a conversar. Parecia não se impressionar com o seu discurso. Ele deveria dar-lhe um diagnóstico, repreendê-la, ou dizê-la que a raiva que sentia era um problema e que precisava de inteligência emocional se quisesse viver em sociedade, que aquele não era um comportamento saudável, ou sugerir um jeito de canalizar a raiva... Qualquer coisa. Mas parecia estar mais disposto a debater conceitos pós-modernos de loucura. Era para esse tipo de conversa que estava pagando terapia? Podia ver um vídeo no Youtube se fosse a questão. Era mais barato. Um misto de desconforto e irritação rondavam sua mente quando tentou ser menos expressiva sobre como realmente estava se sentindo em relação à consulta.
Uma bela perda de tempo.
- Não jogar vasos na parede, pelo que eu entendi.
- Uma pessoa é responsável pelo que ela te diz, . Não pelo que você entende e absorve como verdade.
- Acho que as intenções da conversa foram meio óbvias, Dr. Elijah.
- E quais eram? Te fazer entender que você é louca e precisa de terapia? É por isso que está aqui? Por que só os loucos precisam de terapia?
expirou. A ironia no tom era palpável.
- Eles queriam... Me fazer conversar sobre coisas. E tem também toda a situação do meu ex, mas eu não quero falar disso agora.
- E você conversou com eles?
- Não exatamente...
Elijah assentiu novamente.
- Tem algum motivo pelo qual você não quis conversar com eles sobre? Soa como um dia difícil para qualquer pessoa. Não são tão próximos assim?
- Somos. A mora comigo e o quase isso. Estamos sempre juntos. Eu só não... gosto de conversar sobre esse tipo de coisa. Eu eventualmente deixo pra lá e sigo a vida.
- E você acha que eles estão errados em se preocupar com você...?
Sua frase foi quase uma pergunta. Tinha uma conotação implícita de uma suposição sutil e questionável.
expirou fundo novamente. Elijah ficou em silêncio por alguns segundos em que parecia processar as perguntas que lhe eram feitas com uma expressão de pouquíssimos amigos. A postura terna e paciente que ele usava continuava impecável. Deixou-a livre para suas reflexões enquanto uma enxurrada de informações e percepções novas pareciam rondar sua mente sobre o fato ocorrido.
- Mas eles foram invasivos!
- Eu entendo. Mas esse momento aqui não é sobre qualquer coisa que eles tenham feito. É sobre você. Como você responde ao que as pessoas fazem.
- Tudo bem. Não estão totalmente errados. Essa é a questão. O problema está comigo. Eu devo mesmo estar enlouquecendo.
Elijah sorriu novamente.
- E você acha que ser louco é uma coisa ruim? Um problema?
De novo. Pergunta errada.
- O espelho podia ter sido a cabeça de alguém, então sim, eu acho que deva ser uma coisa ruim.
- Por que você jogou o vaso no espelho, ?
- Porque eu estava com raiva. Porque eu iria explodir se não descontasse em alguma coisa. Porque eu queria ver quebrar. Teve uma sessão de gritos envolvida também.
Deu de ombros.
- Me soa como alguém que queria colocar alguma coisa para fora. Tem algo que você está guardando?
O tom de voz de Elijah era calmo e despreocupado. Já o de , quase embargou.
- Sim.
E não disse mais nada. Alguns segundos de silêncio.
- Raiva. Explosão. Desejo de ver um algo quebrado. Vontade de gritar. Não soa humano para você?
- Soa louco. Descontrolado.
- Loucura, então, seria perder o controle? Mesmo que um pouco, mesmo que vez ou outra? Você tem medo de perder o controle, ?
A frase não soou retórica dessa vez, parecia mesmo curioso – mas recebeu a sentença como um soco no estômago, um punhal em seu peito. Nunca se viu muito como uma pessoa controladora – pelo menos não em relação aos outros. Essa característica deixava para pessoas como Patrícia e .
Mas quando se tratava de si mesma, de suas próprias emoções, de sua vida profissional... Perder o controle não estava sendo das eventualidades mais fáceis de lidar – ela só não conseguia admitir isso em voz alta ainda.
No meio de suas reflexões, ouviu-o continuar:
- Você não acha que existe uma pessoa por de trás daquilo que você nomeou de loucura?
- Bom, a disse que eu queria acertar o espelho inconscientemente.
- E isso te incomoda?
- Não.
- Ok.
ficou aborrecida com o tom de voz. Parecia desacreditado. Revirou os olhos.
- Por que me incomodaria?
- Porque, de repente, pode ter algum significado... Não normal, louco. Descontrolado.
A ironia no seu tom de voz era sutil, mas notória. Encaravam-se prontamente.
- Um significado inconsciente?
- É você que está dizendo.
- Foi a .
- E aparentemente você não tira isso da cabeça. O vaso foi um assunto recorrente hoje.
- A porra do vaso é o ponto de tudo, não é?
- O ponto é mesmo esse, ? Pense um pouco... O que te levou até esse momento? Se existiam coisas que você precisava colocar para fora e não colocou, o seu corpo iria reagir de uma forma ou de outra. O vaso é só uma representação das coisas que você não fala.
- É só a porra de um vaso, pelo amor de Deus!
- Você se arrepende de ter jogado um vaso na parede ou que as pessoas saibam que você o fez? Você conversaria sobre qualquer coisa que está acontecendo dentro de você se isso não tivesse acontecido?
- Você acha que eu estou me escondendo atrás disso tudo, é isso que você quer dizer?
- Não importa o que eu acho, . Você é quem sabe o que você fez e o porquê. Não eu. Não a sua amiga, .
- O problema é ela achar que me conhece tanto assim. O suficiente para saber da minha tal loucura inconsciente.
- Ninguém conhece o outro tanto assim, . Só você sabe o que se passa aí dentro. Mas isso não quer dizer que a gente não deixe rastros disso que você chamou de loucura pelo caminho.
- Ok. Então você concorda que eu deixei rastros de loucura.
- Não, . Você disse que era loucura. Eu concordo que durante a vida nós fazemos escolhas e essas escolhas geram consequências. As pessoas que convivem conosco notam essas consequências.
- E o que você diria sobre isso?
- Como você disse, eu não te conheço. Nem sua própria amiga te conhece, não é mesmo?
expirou fundo, afundando na cadeira, frustrada e irritada.
- A é minha pessoa no mundo.
- E ela não te conhece?
- Por que você fica questionando as minhas colocações?
- Porque para ser amigo de alguém é necessário conhecer essa pessoa. Mas você disse que ela não te conhece tanto assim.
ficou em silêncio mais uma vez. Terapia era uma conversa com uma pessoa desconhecida que usava o seu discurso contra você. É isso? Terapia deveria ser um mundo cor de rosa em que se podia desabafar e colocar coisas para fora, não esse processo doloroso e intrínseco que mais se parecia com uma cirurgia sem anestesia.
- Teria algum problema em a te conhecer tanto assim? Ou qualquer outra pessoa?
colocou as mãos no rosto, impaciente, e puxou os cabelos para trás logo depois.
- Você está me deixando irritada com tantas perguntas. Se esse é o meu lugar seguro, eu não quero mais que você me faça perguntas.
Não se importou em soar infantil. Só não aguentava mais ter que pensar tanto.
- Tudo bem, , eu não levo pro lado pessoal. Pode seguir falando sem que eu te faça mais perguntas, se é o que você quer.
- Mas eu estou irritada com você. Não tem como você não levar isso pro lado pessoal.
- Pare e pense, . É de mim que você está com raiva?
Fez um barulho irreconhecível com a boca, colocando as mãos no rosto. Ele mantinha os olhos calmos e pacientes sobre enquanto ela havia desistido de sua batalha pessoal e levava os seus próprios olhos para a cortina fechada. Um silêncio absoluto e desconfortável que parecia sufocar – do qual Elijah parecia completamente desapercebido e continuava impecavelmente paradoxal: o acolhimento e o desafio se sobrepunham em seu rosto de maneira que nem mesmo conseguia manter seus próprios muros.
Não era dele que sentia raiva. Claro que não, mal o conhecia. Não faziam quarenta minutos que estavam juntos. Definitivamente. Sentia raiva de várias outras coisas. Do que sentia raiva? De quem sentia raiva? Como colocar essa raiva para fora?
- Acho que esperava que eles me dissessem que estava tudo bem – confessou, por fim. – Tudo bem quebrar o vaso. Tudo bem sumir e não dar notícias. Tudo bem ter ido ao velório da avó do ex com quem não falava por três meses porque ele me traiu por um mês inteiro.
Elijah assentiu novamente. O mínimo sorriso em seu rosto como se a consulta estivesse seguindo um bom caminho, o que não parecia entender. Em sua cabeça, estava descendo ladeira abaixo.
- Você acha que todas essas situações em que você se colocou foram boas pra você? Como você se sentiu depois delas?
- Não. Não fez eu me sentir melhor. Talvez por uns três segundos. Não valeu a pena o espelho quebrado. Não valeu à pena a experiência do velório, também. Eu não... queria nada disso.
Colocou, por fim. Os seus olhos marejaram um pouco. A guarda mais baixa. Um misto de sensações percorria por todo seu corpo. O confronto, a dor, a tristeza, a raiva, e a apatia.
Todas ao mesmo tempo.
- E por que você fez? – , nesse momento, virou o rosto para o lado. Os seus olhos marejaram ainda mais e agradeceu aos céus por sua capacidade adquirida ao longo da vida em segurá-las. Ela não responderia aquela pergunta.
Ao responder aquela pergunta novamente ela teria que começar a falar de Travis e talvez não estivesse preparada ainda para falar sobre isso de novo. Não na sua primeira sessão. Ficou em silêncio e respirou fundo, esperando que ele entendesse a deixa. – Tudo bem, vou mudar a pergunta. O que você faria se a sua amiga fizesse qualquer uma dessas coisas?
voltou seu rosto para ele com uma careta, apoiando o cotovelo no braço da poltrona e recostando o rosto, emburrada.
- Tentaria conversar com ela.
Elijah deu um mínimo sorriso. Haviam muitas coisas sobre o ambiente que faziam com que entendesse todas as coisas que Elijah não dizia, justamente porque ele não dizia nada. Era que estava construindo suas próprias conclusões. Alguns tijolos da enorme muralha que havia construído ao seu redor pareciam ter sido quebrados. Algumas frestas abertas. Ainda sentia muita raiva, mas ao mesmo tempo, era como se não quisesse que seu tempo ali acabasse. Por mais que tivesse acabado.
- Acho que temos um bom trabalho a fazer por aqui, .
- Eu sabia... Eu sou louca, né?
De certa forma, ela queria alguma confirmação. Queria apenas que alguém fosse honesto o suficiente para dizer isso na sua cara.
- E quem não é louco? – perguntou, por fim. – De perto mesmo, ninguém é normal. Normal não existe. Normal foi criado. É só um padrão.
- Você só está tentando fazer eu me sentir melhor com a minha loucura.
- Me responda, então. O que é ser normal? – perguntou, parecendo curioso com a resposta. – Ser hétero é ser normal? Ser branco é ser normal? Magro? Usar jaqueta jeans? Uma mulher que não quer ser mãe, então, é louca?
arregalou um pouco os olhos, espantada, piscando algumas vezes, sem saber muito bem o que responder. A resposta era óbvia para todas aquelas perguntas.
- Existe beleza na loucura, . Existe realidade no delírio. São coisas reais. São coisas humanas. Ser humano é ser real.
- Eu vim aqui procurando respostas e você só me faz perguntas.
- Eu não sou pago para te dar respostas, . Meu trabalho não é fazer você se sentir melhor. Essa sala é um lugar seguro, sim, mas isso não quer dizer que vai ser sempre confortável. Eu não tenho resposta nenhuma pra te dar. Só você tem as suas próprias respostas – Elijah respondeu, dando de ombros. – Por trás de tudo que é considerado loucura, existe um sujeito. Uma pessoa. Eu sou uma pessoa. Você é outra pessoa. Somos todos apenas pessoas diferentes.
- Não acho que você é do tipo que jogue vasos na parede.
- Reagimos de maneiras diferentes frente ao nosso sofrimento. Cabe a cada um lidar com a sua própria angústia. Conhecer mais sobre si mesmo, sobre os seus desejos...
- Sem termos psicanalíticos no meu lugar seguro, por favor.
- Tudo bem, . Vou ser mais direto, então. Você sabe o que você quer?

.

tinha passado o dia com Aaron resolvendo coisas da Gucci. Teria, ainda, uma outra sessão de fotos naquela semana, fora as provas de figurino. Inúmeras e entediantes reuniões em que ele mantinha o eterno sorriso no rosto típico de , mas por dentro odiava toda a parte corporativa e burocrática do processo.
Na última semana que esteve em Londres, dividiu-se entre as campanhas, passar tempo com seus pais e no estúdio com Jeffrey, Sarah e Mitch, que tinham o acompanhado na ida a terra da Rainha. Estavam produzindo bastante, inclusive, várias novas ideias se misturavam e encontravam um caminho excitante quando a mente genial de Azoff entrava em jogo. Gostava de trabalhar com Azoff tanto quanto gostava de trabalhar com Aaron – apesar de estar acostumado e se sentir instigado com a pressão de Aaron, Azoff fazia com que as coisas soassem mais menos pesadas e talvez fosse o que ele precisava naquele momento. Não ficaria em paz até que esse álbum estivesse completo. Todas as suas energias estavam focadas no processo de desenvolvimento de um álbum que ele ainda nem havia nomeado.
Mas era bom voltar para Londres. E tudo pareceu ainda melhor quando, ao abrir a porta da casa dos seus pais para o que ele achava que seria um simples jantar, Leslie soltou uma bombinha de confete e todos os presentes gritaram. riu, balançando a cabeça com o pequeno susto e limpando os confetes que caíram no seu sobretudo.
- Não achou que fosse se livrar de mim tão fácil, né, feioso? – Leslie disse ao abraçá-lo com toda a força do mundo. – Quem vê não pensa que estava morrendo de saudades.
Separou-se um pouco dela, ainda abraçados, para olhar para o rosto da irmã mais nova com um sorriso surpreso que ele não conseguia tirar do rosto.
Fazia alguns meses que não se viam pessoalmente – apesar de toda a família fazer um Facetime por semana. Era estranho ver o quanto Leslie havia crescido. Era exatamente como uma versão mais nova de sua mãe, só que um pouco mais excêntrica – o cabelo pintado em um rosa pastel, os olhos esverdeados e a estatura mediana. Apertou suas bochechas para irritá-la.
- Eu passei a aceitar que não me livraria de você tão fácil quando tive que dividir um quarto de beliche com você por dois anos inteiros.
- Nenhuma saudade da antiga casa – Leslie tirou as mãos dele de seu rosto com um tapa. – Difícil dormir na cama de cima quando você mais parece um trator de canavial balançando a beliche com a perna enquanto não pega no sono. Seu TDAH me rendeu grandes problemas...
- Garanto que não é pior que ter que ouvir você tagarelando com suas amigas no telefone como se eu não pudesse escutar.
Ambos riram. A presença de Leslie era como a de um furacão. Tê-la por perto era sempre uma coisa grande. Desde pequena, virava a casa abaixo com suas ideias mirabolantes e energia inesgotável. Entrava no seu quarto, roubava suas coisas, saía escondida pela janela, sempre disposta a pôr sua vida em risco escalando árvores com troncos altos e duvidosos e pegando camisetas de Alaric para recortar e fazer novas roupas. Dessa vez não seria diferente.
A sala da casa de seus pais estava cheia. Algumas pessoas da família, alguns amigos antigos, muita comida e bebida. Mitch, Sarah e Jeff também estavam lá. Seria a noite do Karaokê, um clássico da sua família, que acontecia todas as vezes que se juntavam. E sentiu seu coração aquecer ao estar em contato de novo com tantas pessoas que ele amava. Florence sempre acabava bêbada com Leslie tomando conta dos microfones enquanto as pessoas iam embora aos poucos sem que ele percebesse, Mitch e Sarah, os seus melhores amigos, sempre sendo alguns dos últimos.
Já no fim da noite, estavam Ric, Sarah e sentados no sofá, observando Leslie interpretar o Lionel Richie e Florence a Diana Ross. E elas faziam todos os solos – até inventavam solos inexistentes para aproveitar a oportunidade de gritar.
Florence, perfeitamente. Leslie... Leslie definitivamente não tinha herdado os genes musicais da família.
- Oh... And love I’ll be a fool for you, I’m sure – Cantaram juntas, em pé, de maneira intensa e incisiva, declarando a letra uma para a outra e rindo eventualmente. – You know I don’t mind...
- Yeah, you know I don’t mind! – Leslie gritou, com o dedo para cima, interpretando teatral e exagerada um solo que ela claramente não conseguia alcançar, arrancando as risadas das outras pessoas – já meio altas – na sala.
- Pelo amor de Deus, Les, se você não sabe cantar, apenas não cante – reclamou, gritando e pondo uma mão no ouvido, enquanto a outra segurava a bebida. Mais risadas foram arrancadas.
A verdade é que, naquela família, a disputa pelo centro da atenção rolava forte. – And yes, you’ll be the only one.... Cause no one can deny this love I have inside!
- Cale a boca, , a Leslie é o ícone que você nunca vai alcançar. Invejoso! – uma Sarah alegre demais se inclinou no sofá para empurrá-lo com o ombro, sendo abraçada por Mitch, que também riu pelo nariz, sentado entre eles. Leslie abanou a mão como quem não se importa com o que o irmão diz, sem interromper a sua performance.
- You know I found in you... my endless love! – gritaram juntas, por fim, se abraçando e rindo no final. Leslie, mais uma vez, continuou gritando um solo que não existia, prolongando a última frase da música. fazia uma careta de puro escárnio e desconforto fazendo questão de irritar a irmã.
- Finalmente! Deus existe e ouviu minha oração.
- , nunca diga a uma mulher o que ela deve ou não fazer – Florence se virou, por fim, apontando o dedo para ele, gerando mais risadas e gritinhos de apoio por toda a sala. E então, voltou-se de para a mais nova. – Les, você é ótima interpretando. Da próxima vez a gente pode tentar uma dublagem no estilo maior Rupaul’s Drag Race.
Elas se sentaram, por fim, dando por encerrada a parte de karaokê da noite em meio a risadas.
- Poxa, mãe. Achava que você estava do meu lado!
Florence estava ao lado de Ric que a abraçou de lado com um sorriso orgulhoso no rosto. Deram um selinho demorado e risonho. Leslie se sentou ao lado de , empurrando-o de lado e recebendo um empurrão de volta.
- Você os ofusca, Les. É só medo da competição... – Alaric piscou para a filha que o fez uma reverência em resposta, esparramando-se no sofá.
- Eu sempre soube, pai. Obrigada.
- Até quando vai continuar iludindo a menina, Ric? – perguntou, balançando a cabeça em negação. Bebeu mais um pouco da sua cerveja, dando de ombros. – Começou com aquela história de que ela era boa em futebol...
- Com licença? Eu sou muito boa em futebol!
- Ignora, Les. A fama subiu à cabeça desse daqui. Não sabe dividir a atenção – Sarah apontou pra ele. Até responderia a altura se seu celular não tivesse começado a tocar. Segurou o telefone em sua frente, sem saber muito bem como reagir.
Kendall. Olhou para o horário. Meia noite e uns quebrados. Já fazia algum tempo que não se falavam, apesar de manterem uma relação tranquila e trocarem algumas mensagens, eventualmente. Olhou para o celular, estranhando a ligação.
- Eita. Por falar em fama que subiu à cabeça, olha só – Mitch quem soltou o comentário sarcástico e debochado ao ver o nome que piscava no seu celular, fazendo com que Sarah soltasse uma risadinha. Não era sempre que Mitch opinava, e normalmente ele ficaria calado, mas adorava fazer intervenções aleatórias quando estava bêbado. Não se bateram muito das duas ou três vezes que se encontraram.
Eram poucas as pessoas que realmente apoiavam a relação amigável que ainda mantinha com Kendall. Ou qualquer tipo de relação que eles tenham tido na vida, na verdade. respondeu com um sorrisinho tão sarcástico quanto antes de atender.
- E aí, Kenny. Estou bêbado.
- Adivinha quem também está em Londres?

X

- Eu não estou acreditando que eu estou aqui – resmungou. – Eu deveria estar muito bêbado quando te atendi.
Kendall riu, também meio alta, com o braço jogado no ombro dele. Estavam na mansão gigantesca da Cara Delevigne, outra ex de quem gostava bastante e com quem mantinha bons termos. Era o seu aniversário e ele não soube muito bem como fugir do evento – por isso, logo depois de despedir-se de Sarah e Mitch, encontrou-se com Kendall quase uma da manhã. A casa estava lotada, a música alta demais, todos os ambientes pareciam abarrotados de pessoas e ele se divertiu bem mais do que esperava ao devidamente cumprimentar a aniversariante e passar um tempinho conversando com ela e Kendall. Conversaram, beberam, contaram algumas histórias novas, relembraram as antigas e tiraram umas fotos no parapeito da escada como a tradição mandava, até que Cara foi fumar no jardim com outros amigos e ele seguiu para um lugar mais confortável com Kendall. O tipo de rolê aleatório que ele nem mesmo lembrava de como havia chegado. Algumas pessoas famosas e influentes por ali que não se sentia muito interessado em interagir, mas sorria e respondia educadamente toda vez que alguém lhe direcionava a palavra. Como vai a produção do novo álbum, , depois do sucesso que foi o primeiro? Tenho certeza que está foda, não preciso nem ouvir! Você vai me chamar para a festa de lançamento, não vai? Sabe que eu sempre fui seu fã, desde a One Direction, sabia que você ia ser o que deu certo. Sabe? Como o Timberlake. Os outros caras não eram tão bons assim...
E o acúmulo de discursos que se repetia com pessoas aleatórias que pareciam esforçar-se para deixá-lo entediado. Principalmente quando mencionavam seus antigos colegas de trabalho – por quem sempre teria o máximo respeito. A cada festa, a cada social, a cada evento, se sentia mais distante daquele mundo onde as pessoas eram sempre intencionais demais e, naqueles momentos, desejava ardentemente não ter uma vida pública. Não ser famoso. As relações frágeis e inconsistentes e a sensação de que tinha um papel a manter até mesmo nos momentos em que deveria estar apenas se divertindo era de um cansaço terrível e de um esforço desgastante. Aprendeu o suficiente durante seu relacionamento com Camille a identificar as pessoas que em que poderia confiar e as que deveria manter distância – independentemente do quão divertidas e atraentes e exuberantes e autênticas fossem. Um dos limites que jamais passaria de novo.
Esse era um dos motivos pelo qual gostava tanto de Kendall, no fim das contas – ele sabia exatamente quem ela era. Sua personalidade poderia não agradar muitas pessoas, realmente, mas ela sustentava sua versão até o fim, mesmo com todos os seus inúmeros defeitos. Kendall não bajulava para conseguir o que queria. Kendall não mudava para agradar as pessoas. Kendall não fingia gostar de alguém por interesse.
Estavam apoiados numa bancada ao lado de uma mesa onde tinham vários tipos de comidas e bebidas diferentes enquanto observavam o ambiente de luz vermelha.
- Ah, qual é. Quando foi que você virou tão ranzinza? É uma festa! É pra gente se divertir. A gente sempre se diverte! – Kendall empurrou-o com o ombro, levantando seu drink com a outra mão numa manha que se prolongou na última frase. – Faz séculos que você não arruma um tempinho pra mim. Tive que vir pra Londres pra conseguir te ver!
- É, eu tô meio ocupado nos últimos meses – deu de ombros, dando uma desculpa. A verdade é que não estava com muita paciência para esse tipo de evento com Kendall nos últimos tempos, por mais que se dessem bem e ele realmente acabasse se divertindo, no fim das contas. Talvez estivesse numa vibe mais reservada. Gostava de Kendall, sim, mas todo o resto que vinha no pacote fazia com que sentisse uma preguiça absurda. – Esse álbum tem que sair logo. É só o que eu consigo pensar.
- Algo me diz que seus pensamentos estão ocupados com outra coisa também...
- Me stalkeando, Kenny? – piscou esperto para ela, que deu de ombros, piscando de volta em um gesto exagerado e um sorriso debochado. – É. Tem isso também.
- Então é real? Você tá mesmo namorando de novo? – Kendall pareceu chocada, tomando mais um pouco do seu drink e virando-se de lado para ele. – Não sobra um intervalo pra gente se pegar!
deu uma risada confortável, abraçando-a de lado por um momento.
- Eu não tô namorando. Não sei também o que tá acontecendo, na verdade, mas tem alguma coisa ali... Meio metafísica?
- Metafísica? Você usa essas palavras agora? – Kendall fez uma careta, virando o drink de vez. não se dispôs a explicar, encolhendo os ombros. – Então o que é isso? Sem falar sobre metafísica, por favor, eu tô bêbada demais pra isso.
- Tô tentando descobrir também – encolheu os ombros, pegando mais uma cerveja do grande vaso de vidro com gelo. Destampou antes de beber. – Até então, a gente é tipo amigo. Mas não só amigo?
E de novo ele caía nessa conversa. Lembrou-se de conversar com Mitch sobre isso. Lembrou-se da vez que ele mesmo tinha dito que eram apenas amigos na sala de cinema de sua casa. Lembrou-se de arrepender-se logo depois porque não era verdade. nunca poderia ser só a sua amiga. Lembrou-se de ter mencionado o tópico no mesmo lugar, num momento diferente, e não ter recebido resposta alguma – e arrepender-se tanto quanto da outra vez, mas só porque ela não estava preparada ainda. Suspirou. De novo pensando naquela mulher maldita gostosa dos infernos.
Não sabia muito bem o que sentia por – mais do que isso, não sabia muito bem o que fazer com o que sentia por . Tudo o que sabia era que ela estava por lá rondando seus pensamentos, todos os dias: sabia que ela estava por lá quando precisava se inspirar, sabia que ela estava por lá quando se perguntava o que ela estava fazendo, sabia que ela estava por lá quando algo aleatório acontecia como ver um cara na rua caindo da bicicleta e ele pensava em contar para alguém – era sempre . Desde o dia em que a conheceu. Era sempre . Como se o seu rosto estivesse tatuado em algum lugar do seu cérebro.
Mas não era algo que precisasse resolver naquele momento.
- Ou seja: passe livre! – Kendall comemorou, abraçando-o de volta e riu pelo nariz também. – Mas não se ache tanto. Você foi o estepe. Eu levei um bolo.
- Eu fui o estepe? – fingiu estar ofendido, afastando-se dela, mas o tom era divertido. – Não acredito que você me fez sair de casa pós meia noite para uma festa barulhenta depois de ter que aturar a Leslie cantando por duas horas num karaokê pra você me fazer de estepe!
Kendall riu. Mantinha uma boa relação com Leslie nas poucas vezes que se encontraram pelo interesse em comum por moda. Florence, porém, não parecia ter a mesma motivação.
- Eu levei um bolo! Você deveria ter mais compaixão comigo!
- Porra. Eu gostava da ideia de ser a única pessoa no mundo a dar um bolo na Kendall Jenner.
- Ai, , de novo com isso? Todo mundo sabe que fui eu que acabei contigo!
riu, negando com o rosto.
- Com “todo mundo” você quis dizer as vozes da sua cabeça?
Kendall bateu em seu torso com o cotovelo, respondendo-o com uma careta.
- Foi o Devin. Ele viria comigo e me deixou na mão. Por isso me dê essa noite de consolo, ok?
- Kendall Jenner me implorando sexo por solidariedade! Ninguém tá ouvindo isso? É sério?
olhou em volta ao dizer, num tom divertido. Kendall deu um tapa no braço dele, rindo, mas logo depois o riso foi baixando e o olhar se assentou. Encararam-se por alguns segundos com a nostalgia de momentos já conhecidos. Ela se aproximou, recostando seu corpo no dele com um sorrisinho sacana no rosto. não se moveu, mas sorriu de volta, divertido.
- Então, o que me diz? Vale night?
- Eu não tô namorando, Kenny, dá um tempo.... – respondeu com o rosto franzido e recostou a cerveja gelada no ombro dela, que reclamou com uma careta. – Já você tá tentando se vingar do tal Devin com o meu corpinho. Não vou deixar você me usar pra sua vingança fajuta.
Ele apoiou a cerveja, dessa vez, no próprio peito. Kendall encarou-o, revirando os olhos e balançando a cabeça de um lado para o outro.
- Com quem é que você aprendeu a ser sonso assim?
- Com você – ele deu um sorrisinho sarcástico que logo foi espelhado pela modelo, que cruzou os braços, afastando-se. O clima entre eles era divertido e leve, mas a tensão do flerte já havia passado. colocou o braço em volta de seus ombros, direcionando-a até a estante de bebidas. – Vem cá, eu vou te fazer um drink pra afogar as mágoas... Boatos que Gin e a minha companhia são o antídoto perfeito para um coração partido.
- Você é inacreditável…

e Kendall se divertiram pela noite – que foi intensa e sorridente, como sempre era quando estavam juntos: conversaram, dançaram, compartilharam histórias e riram bastante. Cara reaparecia e sumia, tentando dar atenção a todos da festa, e outros antigos amigos também surgiam e bebiam com eles. O tempo passava rápido quando estavam juntos.
Já era de manhã quando deixaram a festa. Abraçaram-se ao sair da casa, olharam com carinho um para o outro e combinaram de se ver quando voltasse à Los Angeles. Depois disso, Kendall foi para o hotel em que estava hospedada e foi para sua casa, cansado, mas em paz com as escolhas que tinha feito.
Mesmo que não tivesse assumido para si mesmo o porquê de tê-las escolhido.

.

Uma semana havia se passado desde a maldita ligação.
O prazo para retorno completamente estourado. Era agora ou nunca e a pressão fazia com que ela explodisse por dentro e se corroesse em ansiedade. Sabia o que tinha que fazer, só não tinha coragem. Parecia loucura.
havia pensado bastante durante aquela semana. Pensou em todas as possibilidades diante das decisões que poderia tomar. O tópico mal saía de sua cabeça no tempo livre – afinal, em sua incessante busca por produtividade, estudava, lia, desenhava, fazia cursos online e trabalhava com alguns freelas de marketing e edição enquanto não assinava a carteira de novo. E por todos os dias daquela semana pensava se realmente não seria melhor apenas aproveitar a oportunidade e ter um trabalho foda – por mais que não fosse aquele que ela sonhava, aquele que realmente queria.
Mas principalmente, e em especial num momento específico, ela pensava sobre a instigante sensação de novidade e excitação que correu pelo seu corpo ao chegar em Los Angeles. Afinal, foi justamente por isso que escolheu a UCLA: estava na cidade dos anjos, pertinho de Hollywood, o cenário de maior influência nacional e internacional do Cinema. A emancipação, a independência, o fazer uma escolha grande e arcar com ela – e durante todos esses anos, com a ajuda de e , mas principalmente, contando consigo mesma, conseguiu dar conta de suas próprias responsabilidades fossem elas financeiras ou não. Sentia orgulho disso. tinha feito coisas importantes. Conquistado muitos objetivos que acabaram se modificando com o tempo.
Pensava, também, nos anos em que perdeu essa sensação. Nos anos em que passou presa sem nem mesmo perceber. Nos anos em que se conformou com escolhas passadas porque elas pareciam fazer sentido, porque elas eram estáveis. Porque elas eram o que se deveria querer. não era das mais fiéis. Não tinha muita conexão com deuses, mesmo que apelasse a um cristianismo superficial nos momentos de tensão. Conversava sobre signos mais pela piada e não se importava muito com misticismo e o esoterismo – estava ali, estava vivendo, era o que podia ter certeza, e apesar de todas brincadeiras com o universo, não encontrava nele uma força maior que impunha goela abaixo suas leis.
Mas se pensasse na possibilidade... se o universo e a vida realmente fossem entidades que se preocupavam com o regimento de seus critérios, precisava de um manual de instruções. Urgentemente.
Chegava a ser tragicamente cômico assumir em voz alta a situação em que se encontrava. O embate moral entre desejo intrínseco por liberdade e inclinação humana por segurança.
, quando segura, não era feliz.
, quando livre, viu-se perdida.
Estava feliz por se ver livre de Travis. Estava feliz por se ver livre da Kapplan. Mas também se sentia perdida – não ter mais um emprego doía bem mais profundamente do que não ter mais um namorado. Pouco se importava com a solteirice.
preocupava-se mesmo em estar atrasada demais para o início de uma carreira nova, principalmente em sua área. Tentava lembrar-se das palavras de , sabia que estava aprendendo a se encontrar. Sabia que tinha todo o tempo do mundo. Mas quando o faria, finalmente?
Naquele momento, notou, não era sobre o tempo perdido, mas sobre paciência. Paciência com seus temidos surtos, seus processos, seus demônios, suas loucuras. Paciência com as escolhas que não podia mais mudar. Paciência com as coisas que tinham lhe acontecido e que não eram sua culpa.
Outra coisa que notou é que não era uma pessoa paciente. Nunca foi, nunca seria. Talvez essa também fosse uma das coisas que ela precisaria aprender, afinal.
Não tirava a sessão que tivera com Elijah da cabeça. Repassava seus questionamentos e processava suas próprias respostas. Quando Elijah perguntou sobre o que ela queria, a sua resposta foi quase imediata, específica demais para uma pergunta tão genérica diante de todas as coisas que ela poderia querer no mundo. Eu quero trabalhar com direção cinematográfica. Ele pareceu surpreso com a resposta. Ela também. Nem mesmo havia falado qualquer coisa sobre trabalho ou Cinema durante toda a sessão.
Da varanda de sua casa, sentada numa cadeira com os pés no parapeito, tragou o seu cigarro e passava os olhos pelo dia ensolarado em Santa Mônica. Morava pertinho da praia – conseguia vê-la de longe. Observava o Puzzle fechado e o movimento da rua. Lembrou-se de vomitando bem ali, num ponto específico após a porta, ao lado poste, e respirou fundo, rindo com a lembrança e virando os olhos levemente. era algo em que se pegava pensando também, vez ou outra. A cada semana que se passava o maldito encontrava mais espaço em sua mente.
Falavam-se com frequência. As eventuais e sorrateiras ligações de estavam se tornando mais constantes agora que ele estava em Londres, apesar do fuso horário. E , que sempre odiou falar no telefone, pegou-se com uma vontadezinha gritante de ligar para ele naquela tarde. Queria contá-lo. Quis contá-lo durante toda a semana, na verdade, mas precisava tomar a decisão por si mesma antes de qualquer coisa e tinha consciência disso. E o fez.
Deviam ser pelas oito e pouca da noite onde ele estava e ela fez uma careta ao pensar que talvez o atrapalhasse, já que ele estava sempre tão ocupado. E ao dar o último trago do seu cigarro e jogá-lo no cinzeiro, juntou cada mínima célula de coragem que conseguia acumular, pegou o celular e clicou no contato dele sem pensar, colocando-o no ouvido. Ouviu o primeiro toque. O segundo.
E então... A voz. O sotaque. Os lábios de espontaneamente se espalharam por seu rosto.
- Boa noite, minha deusa deu uma risada contida pela menção. Algumas vozes por trás se faziam presentes.
- Oi – quase soou tímida.
- Quer dizer que agora nós chegamos num ponto da relação em que você me faz ligações? Eu estou lisonjeado.
- E eu estou quase arrependida.
Ele deu uma risada esperta. imaginou que ele tivesse colocado a língua para fora e isso fez com que ela revirasse os olhos para si mesma ao notar as reações que estava tendo numa pífia ligação com um cara.
-Posso adivinhar?
- Vai lá.
- Te atropelaram de novo, quem foi dessa vez? A Zendaya? Você adoraria ser atropelada por ela que eu sei. Pera, já sei, você realmente topou a ideia do ménage e está fazendo uma surpresa pra mim quando eu voltar! Pode ser a Zendaya?
fechou os olhos, com a cabeça reclinada para trás, tentando conter o sorrisinho que quase saltava de seu rosto e falava por si só. Ele só estava sendo um perfeito idiota, como sempre. E o pior de tudo é que ela poderia escutá-lo tagarelar suas tolices por horas sem nem mesmo ver o tempo passar.
Talvez estivesse pisando num plano perigoso demais.
- Eu não posso só querer ouvir a sua belíssima voz?
- Nah... Você não é tão romântica assim. Tem que ser algo importante. Ainda voto no ménage.
- Só se você conseguir o John Mayer. Ou a Zendaya, na verdade.
- Tá maluca, ? Você não ia nem lembrar que eu existo. Tem que ser com alguém com quem eu possa pelo menos competir.
- Você só tá dizendo isso porque você não ia lembrar que eu existo com o John Mayer do lado.
Ele riu.
- Me pegou no flagra, . Eu só não consigo resistir.
As risadas se assentaram aos poucos e eles passaram alguns segundos em um silêncio confortável.
não sabia o que se passava na cabeça de por aqueles segundos silenciosos, mas tudo que ela conseguia pensar era em como gostaria que ele estivesse ali, com ela, na varanda da sua casa tendo aquela conversa.
- Eu... Sei lá, , eu não sei porque eu te liguei. Foi bobo e impulsivo.
estava irritada por soar tão insegura. Era só uma ligação, pelo amor de Deus. Por que é que estava se debatendo tanto? Ele já havia feito isso inúmeras vezes e nunca pareceu se importar.
- Eu achei lindo.
mordeu o lábio pelo tom que ele usava e o sotaque que se ascendia e a escolha de palavras que parecia soar mais bonita na voz dele.
- Você não tá ocupado?
- Não pra você.
- Eu... eu sei que você tá fazendo mil coisas e tal...
- , vamo fazer assim: daqui até o fim das nossas vidas você nunca me incomoda. Tudo bem?
riu com o exagero.
- Você vai ser arrepender TANTO disso...
- Cala a boca, é sério. Você pode me ligar ou me mandar mensagem sempre que quiser. Se eu não puder atender na hora, eu te retorno assim que puder. Ok?
- Ok.
- E aí qualquer coisa eu te aviso se eu mudar de ideia. Pode se sentir privilegiada. Ninguém tem o passe tão livre assim. Só a Dona Florence.
- Deus, eu devo ser muito sortuda! – ironizou, balançando a cabeça em negação.
Nesse momento, sentiu seu telefone vibrar com a notificação de que ele tentava encaixar o vídeo na chamada. Puta merda, completamente inesperado. Será que ele entendia que nem todo mundo estava tão bonito o tempo todo sem calhar de esforço como ele? Tinha certeza que não passava por esse tipo de situação. estava com um top preto de academia, cacete!
Com a cabeça recostada na porta de vidro que fechava a varandinha, deu uma ajeitadinha no cabelo antes de aceitar. A luz do sol era uma amiga, pelo menos. Mas quando aceitou... não se importou com mais nada.
segurava o telefone com um sorrisinho convencido. Parecia estar num lugar escuro em que ela não conseguia ver muita coisa por trás além do seu rosto, suéter de gola redonda, cabelo meio bagunçado e o fone de ouvido. Não fazia muito tempo que o havia visto pela última vez, mas sempre causava um friozinho na boca do estômago e o sorriso que queria escapar.
- Agora sim você é sortuda. E eu também, porque eu posso olhar pros seus peitos. Eu gosto muito deles, eles são belíssimos. Ah, não, ... abaixa esse celular de novo!
Ele reclamou enquanto levantava a câmera meio desajeitada, rindo e arregalando os olhos, meio pega de surpresa.
- Só quando você merecer.
- Tudo bem, eu espero por você. Você pode por favor agora falar o motivo de ter me ligado?
Ele parecia curioso, então, as linhas de expressão cavadas na testa enquanto ele aproximava um pouco o rosto do celular.
- Eu... Recebi uma proposta de emprego.
soltou, com a voz quase falha e mordendo o lábio. Primeiro, ele pareceu sorrir, orgulhoso. Sabia que como a situação toda de ter sido demitida (injustamente, inclusive) e a falta de oportunidades em sua área estava sendo incômoda para ela. E depois, arqueou as sobrancelhas novamente, como se soubesse exatamente o que está acontecendo.
- Conta mais, ! Que proposta é essa? É no que você quer fazer?
- É uma proposta quase irrecusável, na verdade – respirou fundo, desviando o olhar para a rua por um momento antes de continuar. – A Dior me contatou na semana passada. Sentem falta do meu trabalho e querem que eu assuma uma equipe pra eles... Eu faria basicamente a mesma coisa que eu fazia na Kapplan, só que numa escala maior, com meu próprio time. Do meu próprio jeito.
Ele assentiu. Os olhos eram orgulhosos e um sorrisinho pendia no canto do lábio, mas ele não parecia surpreso.
- Caralho, , você é muito foda! Isso é de um reconhecimento muito grande! Você aceitou?
- Eles me deram uma semana de deadline. Eu tenho que respondê-los antes do anoitecer.
- Você já decidiu? Tá em dúvida?
fez uma careta e expirou fundo.
- Eu acho que é uma oportunidade única... De fazer o que eu sempre fiz.
sorriu. Dessa vez, ele realmente parecia orgulhoso.
- Eu me senti um pouco assim quando eu estava deixando a One Direction para seguir carreira solo.
- Eu não quero mais ser desempregada, reclamou. – Eu tô cansada. Eu quero ser explorada pelo capitalismo americano de novo!
sorriu ao observar a risada deliciosa de pela lente do celular.
Quis que sua tela fosse maior.
Quis ter um botão de teletransporte.
Quis abraçar o celular só pra ter a ilusão de estar mais próxima dele.
- , tanta coisa aconteceu com você nos últimos meses... Você não acha que foi bom pra você tirar um tempinho pra processar?
- Estou cansada de processar. E estou cansada de escrever mil esboços de roteiros que eu sempre acabo odiando no final. Talvez essa coisa de Cinema não seja mesmo pra mim.
- Quem foi o filho da puta que te disse isso, ? – ele soou meio irritado, cortando-a rapidamente, como se apenas a ideia lhe parecesse incabível. Travis, ela quase respondeu. Mas deu de ombros ao invés disso. – Você pode fazer o que você quiser no mundo. Você é genial, . Só escolheu um ramo difícil. Você tem dado tudo o que pode e é tão foda no que faz... A oportunidade certa chega quando a gente menos espera. Eu que o diga.
- Você daria um ótimo audiobook de autoajuda, sabia?
Ele apenas a ignorou, virando os olhos levemente.
- Se é o que você realmente quer, , você tem todo meu apoio. É realmente uma oportunidade única e eu tô orgulhoso de você, de verdade. Eu não vou dizer o que você tem que fazer... Mas você já sabe.
Ela sabia. Ela já tinha decidido. Mas queria saber o que ele tinha a dizer sobre. Queria saber se ele diria a coisa certa de novo – uma vontade aleatória e esquisita de compartilhar com ele novamente algo que era importante para ela. Esse ímpeto meio pitoresco se fundamentava toda vez que ela pensava que queria sim compartilhar com ele porque era uma parte da sua vida e ele aparentemente também era uma parte de sua vida agora – esperava ter a sensação de conforto a qual foi acometida na última vez que se permitiu mostrar para ele.
Mas não foi a mesma. Foi melhor. Foi mais madura. Foi mais conhecida. Foi aquecedora.
- Parece errado. Como se eu estivesse desperdiçando alguma coisa...
- Não, . Você tá decidindo. E eu sei que parece assustador e novo e incerto. Mas não desiste. Tenho certeza que você dominaria o mundo facilmente se quisesse.
sorriu, sem mostrar os dentes e inclinou um pouco a cabeça pro lado. Continuaram a conversar por mais um tempo. Jamais admitiria, mas pela primeira vez em muitíssimo tempo, teve a certeza de que era sim, de alguma forma muito maluca, o Universo estava do seu lado. O Universo esteve do seu lado o tempo todo. Era realmente muito sortuda.
Fez uma careta ao reclamar, subitamente, sem que ele soubesse de qualquer coisa que estava pensando.
- Porra, ...
- O que foi?
- Você é bonitinho demais. Vou ter que te mostrar meus peitos.

.

- Última coisa.
- Fala, .
- Eu... te liguei porque você faz falta, .
Lembrou-se da última frase que ela disse antes de desligar e a reproduziu mais um milhão de vezes em sua própria cabeça como um disco arranhado toca. Como uma música chiclete que fica o dia inteiro na cabeça. Ele nem mesmo teve a chance de responder.
Direcionou seu olhar para Florence enquanto descia as escadas – estava sentada no sofá de frente para a televisão e virou o rosto para ele com um sorrisinho de quem já havia sacado tudo enquanto revirava os olhos, sem conseguir conter o sorriso que escapava entre os lábios também.
Estava na cozinha da casa de seus pais quando ligou. Observou o telefone por alguns segundos, surpreso, porque nem mesmo se lembrava se isso já havia acontecido alguma vez. Ela o mandava mensagens, sim, mas era sempre ele quem ligava. Leslie e Florence rapidamente o fizeram um batalhão de perguntas, curiosas e intencionais, tentando descobrir quem era a tal pessoa misteriosa que estava ligando para enquanto ele saía correndo para a sacada do quarto de hóspedes e fechava a porta atrás de si para atendê-la.
Conversaram por muito tempo e pouco demais. Não parecia suficiente para – na verdade, ele acabou se perguntando se algum dia seria.
Sentou-se ao seu lado no sofá, deitou a cabeça no colo da mãe e cruzou os braços, encolhido, deixando que ela passasse os dedos por seus cabelos. Aquele, com certeza, era o lugar mais confortável do mundo.
- Vai me contar quem é?
- Eu aposto que o meu pai já fofocou pra você. Florence riu, dando um beijo carinhoso em sua cabeça.
- Ele não consegue esconder nada de mim, , você sabe... Mas pelo menos ele se esforçou.
- Vocês são dois traidores.
sabia que Alaric acabava sendo rendido demais a Florence para negar-lhe qualquer coisa. Não estava bravo.
Mas sim, havia ficado um pouco pensativo. Por outros motivos. Expirou fundo, fechando os olhos, pensando no quanto estar perto de sua família o fazia bem. O fazia voltar para si. Pensando que queria ficar ali por mais tempo do que poderia. A sua família era o lugar mais seguro que já havia encontrado e mal poderia agradecer o suficiente por isso.
- O que é que está te incomodando, ?
- Ela merece saber, mãe. É importante.
- Sobre o que aconteceu? Com…?
Florence observou os traços de seu rosto com carinho enquanto ele assentia, encolhido em seu colo.
- Eu queria que não tivesse acontecido…
Deu um beijo em sua testa.
- Quando você estiver pronto, meu amor. Quando você estiver pronto, ela vai saber.

.

tinha o rosto emburrado e virou o resto de vinho que tinha na taça com uma careta pela falta de costume com o sabor dos vinhos de transição – estavam tentando passar a tomar vinhos mais secos e refinados como bons jovens adultos que passaram a se interessar pelo verdadeiro sabor dos vinhos. tinha engasgado com o conteúdo que engoliu errado de tanto rir. E ... Bom, observava seus amigos com a taça numa mão, o queijo na outra e um sorrisinho sacana no rosto. Era mais uma quarta do vinho e eles já estavam bem mais pra lá do que pra cá – sentados no sofá do apartamento tão conhecido e amado, eles compartilhavam suas opiniões com a língua embolada e conversavam despreocupadamente sobre as aleatoriedades da vida. No caso, relembravam o dia em que , enquanto esperava os alunos da faculdade comunitária em que lecionava terminarem um relatório em plena sala de aula, caiu no gemidão ao não conseguir colocar o telefone no ouvido a tempo de conter o alto falante.
Aparentemente aquela foi uma febre entre os brasileiros por um tempo. E , é claro, fez questão de trazê-la para os Estados Unidos, levando consigo a dignidade de .
Ela ainda conseguia se lembrar dos rostos infinitos encarando-a, mordendo os lábios e prendendo o riso, até que ela bufou, deu de ombros e disse “Tá tudo bem, podem rir”.
Eles riram por mais tempo do que ela esperava.
- A culpa não é minha de você abrir áudio na sala de aula, !
- Claro que não! A culpa é do que mandou uma mensagem logo embaixo “, abre esse áudio, é muito importante”!
e bateram um high five e continuaram rindo, enquanto fazia uma careta e repondo a sua própria taça.
- Eu daria tudo pra ter vivido esse momento, sabe – retrucou, suspirando. concordou com a cabeça. – Brasileiros são engraçados! Eu vi um vídeo essa semana de uma menina dançando uma música do Akon numa versão que eu nunca tinha visto antes.
riu, empolgando-se. Até ajustou a postura, animada. Sempre ficava feliz demais quando os amigos se interessavam por coisas referentes ao Brasil.
- É funk? É pagode? É brega? É forró? É BREGA FUNK?
fez uma careta e encolheu os ombros.
- Como é que eu vou saber, porra? Me dá aí o controle pra eu tentar procurar.
Mas assim que abriram o aplicativo do Youtube, sabia que havia se arrependido. Nem precisava olhar para ele para ter certeza da careta que fazia com o rosto torcido e os olhos apertados, quase como quem não quer ver. Maldito fosse o filho da puta do algoritmo que tudo ouvia e tudo sabia. Maldita fosse a internet e sua fluidez e saturação de conteúdo.
O terceiro vídeo recomendado tinha fotos aparentemente recentes do seu com Kendall Jenner. Estavam na escada de um ambiente fechado e amplo do que parecia mais uma mansão, a decoração por trás era vintage e as luzes baixas e avermelhadas – na primeira, estão os dois, bem vestidos, sérios e apoiados um no outro, em que a envolvia pelo braço e mantinha a mão em sua cintura, com os corpos mais próximos do que gostaria de ver. Na outra, continuam grudados, mas tinha o rosto virado para a modelo, próximos demais, e ria animadamente, como se ela fosse a pessoa mais bonita e mais engraçada e mais interessante do mundo, acompanhado pela própria Cara Delevingne – quem tinha postado as fotos nos stories, visto que o nome da sua conta no Instagram aparecia em cima dos prints. Os três conversavam entre si, com as suas atenções voltadas para a Jenner. E então, fotos que pareciam ser mais antigas, dos dois abraçados na espreguiçadeira de uma lancha, e outra em que estão ambos sentados num sofá com a perna de Kendall por cima da dele. O sangue de esquentou enquanto ela se levantava do sofá e apertava a taça com força em sua mão.
- ...
- Clica no vídeo, .
- Você não acha melhor...
- Anda, !
E por fim... O título do vídeo. O título do vídeo lhe deu o golpe final enquanto ele começava a ser exibido. A respiração intensa, os olhos arregalados, o coração acelerado, as sobrancelhas juntas e os lábios prensados em uma clara exposição de seu intrínseco desconforto. mal conseguia absorver as palavras da menina que se apresentava antes de expor as informações, quase como se apresentasse seu próprio programa de fofoca.
Mas era muito mais que isso. não estava só desconfortável. estava fervorosamente puta.
O veneno do ódio parecia correr por suas veias e a vontade de quebrar aquele rostinho demarcado e desenhado e sorridente no meio fazia suas mãos se movimentarem inquietas e irritadas. queria tacar a taça que segurava na televisão. Cara Delevigne postou essas e outras fotos de alguns de seus convidados mais próximos na festa em que comemorou o seu aniversário no último sábado. Os boatos correm que Kendall e passaram a noite inteira juntos enquanto...
E não conseguia ouvir mais nada. Ela só observava a proximidade deles e o modo com que segurava a cintura dela rente e próximo ao seu corpo e borbulhava. O jeito que olhava para Kendall. O jeito que sorria para Kendall. grunhiu. Também foram vistos trocando carícias do lado de fora da casa, logo após a comemoração.
Poderia socar alguém naquele momento – mais que isso, gostaria, adoraria, fundaria seu próprio Clube da Luta. Tinha até mesmo um nome específico em mente. Seu coração estraçalhado em mil pedaços enquanto ainda continha o ímpeto de tacar a taça de vidro na televisão, mas decidiu virar todo o vinho mais amargo que o habitual pela sua garganta numa golada só. Será que seria sempre assim? Saberia de fatos sobre a vida de por pessoas desconhecidas e aleatórias que pareciam saber mais sobre ele do que ela mesma? Teria notícias dele através do algoritmo do Google e booms de fofoca eventuais e não por sua própria vontade de compartilhar a vida com ela?
E o que porra ele estava fazendo sorrindo para a mini Kardashian daquele jeito?
Leu novamente o título do vídeo pegando palavras soltas do discurso que ela não conseguia mais ouvir.
e Kendall Jenner voltaram ou nunca terminaram?”.


19.1

.


? Me atende 07h45am
, me fala o que tá rolando. Por que você não me responde? 07h45am
Eu tô contando os dias 07h45am
Me diz o que fazer 10h12am


quis não ter aberto as mensagens ao acordar, mas bloqueou junto com o celular qualquer uma das oportunidades de pensar mais profundamente no tópico.
Não queria pensar sobre. Não precisava pensar sobre. Ela só precisava convencer a si mesma de que nada realmente havia acontecido até que não tivesse mais tanta importância assim – ou, pelo menos, na maior parte do tempo –, como sempre fez, como sempre fazia com qualquer outra coisa. Foi assim que superou Travis, foi assim que superou todos os seus ex casinhos, foi assim que superou o fato de não ter conhecido seu pai, foi assim que superou a demissão na Kapplan, foi assim que superou a dor de ter que deixar o Brasil… era mestre em deixar as coisas para lá. Não ligo o suficiente. Tanto faz, foda-se. Era isso que repetia para si mesma toda vez que algo ameaçava eclodir em sua mente, como o fantasminha de que tentava insistentemente ressurgir em seus pensamentos com qualquer mínimo estímulo aleatório que o ambiente trazia. Já faziam alguns dias em que lhe mandava mensagens e o ignorava sem dó. Não conseguia se lembrar, desde o fatídico momento em que ele lhe fez aquela aposta amaldiçoada dos infernos, de um dia só que não tivessem se falado. Você me dá as próximas horas e a gente vê no que dá. Respirou fundo ao lembrar das palavras que mudaram seus últimos meses por completo – e talvez não só as palavras, mas a estrutura, o cheiro, as sensações, o sorrisinho de lado, os olhos verdes e atentos, as conversas intermináveis… Puta merda, não era possível continuasse intoxicada por . Balançou a cabeça, colocando o celular de volta na cabeceira e virando-se de lado, deparando-se com a mulher também já acordada e rolando o dedo em seu próprio celular. sorriu esperta e deixou para trás qualquer outro pensamento sobre um certo músico estrela do pop, porque a mulher que estava bem ao seu lado era interessante demais para se deixar passar.
Alexis estava distraída ao passear pelo Instagram, sem notar que havia acordado, com o corpo parcialmente coberto pelo lençol – mas que deixava suas pernas à pronta vista.
Nunca imaginou que o Tinder fosse, finalmente, se redimir com ela o suficiente para lhe render um encontro como o da noite anterior — em menos de dois dias de conversa decidiram se ver. Foi fácil encontrá-la no bar em que propuseram lá em Downtown LA: tinha cabelos curtos acima dos ombros, era alta, usava um vestido com manguinhas preto e tênis. Conversaram muito. Conversaram a noite toda e mais um pouco. Alexis era muito mais que só bonita: era excêntrica, irônica, tinha um humor esquisito e era muito inteligente, parecia ter vivido muito mais que os seus poucos trinta anos. mal se lembrou dos outros eventos em sua vida enquanto riam de suas próprias desgraças e debatiam o interesse mútuo por tópicos aleatórios, como novelas mexicanas e podcasts com casos inconclusivos de teorias da conspiração. Facilmente terminaram a noite na casa de Lexie sem desculpas e sem arrependimentos, ambas certas do que aconteceria; e aconteceu, logo no sofá, sentadas uma de frente para a outra, enquanto Alexis comentava qualquer coisa sobre as eleições, mal esperou que terminasse. Beijou com uma excitação atraente a mulher que lhe rendeu uns orgasmos deliciosos na noite anterior.
Não precisou dizer nada. Quando Alexis notou que ela também estava acordada e sorriu com lábios intencionais, já estava com o rosto bem no meio de suas pernas.

.

Escalou a pequena escada de incêndio com os degraus pregados na parede cilíndrica que dava para a cobertura do prédio – que não deveria ser habitada – e atravessou pelo vão da janela só para dar de cara, como esperava, com sentada no chão de cimento batido. Tinha as pernas dobradas e ouvia numa caixinha de som alguma música em português que ele jamais poderia conceber o significado, mas quase poderia tocar na sensação nostálgica e profunda que a melodia trazia. O sol estava se pondo no céu rosado e limpo de Santa Mônica e refletia a luz em seu melhor horário por entre os prédios. Sentou-se ao seu lado, cumprimentando-a com o cotovelo.
— Sabia que você tava aqui — virou apenas seu rosto para ela, que virou apenas o seu rosto para ele também, recostando a cabeça nos braços. — Faz tempo que a gente não vem pra cá, né?
— Eu sempre vinha aqui pra fugir do Travis. O sinal de celular é ruim.
— E de quem é que você tá fugindo agora, pet? — perguntou, com o sorrisinho debochado. fez uma careta com os lábios franzidos e não respondeu, voltando seus olhos para os prédios.
Não precisava. Ele já sabia a resposta. Tirou o baseado de dentro de uma pequena caixinha de metal no bolso e acendeu com o isqueiro. Expirou a fumaça, sentindo os ombros relaxarem e passou-o para .
Passaram-se alguns minutos em silêncio, ouvindo a música que ele não conhecia mas se interessava, aproveitando a presença reconfortante um do outro e deixando que a erva fizesse efeito enquanto passavam o cigarro vez por vez.
A melhor parte sobre a amizade de e , quando ele parava para pensar, era que nenhum dos dois precisava de muitas explicações – o que não poderia ser dito de . De alguma forma, entendiam muito bem os não ditos um do outro: o silêncio, o olhar, o que não era exposto, mas estava ali e era visto — só não precisava ter linguagem. Entendiam mais ainda quando não o queriam fazer, o que poderia acontecer com certa frequência quando passavam por momentos difíceis. Conversavam muito e sempre, mas também estavam confortáveis em não fazê-lo. o trazia uma velha e constante sensação de estar em casa. Do conhecido e do familiar.
— Você lembra quando a gente veio aqui na primeira vez? — riu pelo nariz, escondendo o rosto entre os braços, envergonhada. — A gente estava tão bêbado...
— Já fazem quantos anos? Quatro, cinco?
— Uns cinco.
— Você quase caiu pra trás na escada de incêndio, eu tinha certeza que você ia quebrar a bunda — lembrou, balançando a cabeça de um lado pro outro em uma vergonha alheia divertida. — Icônico! Eu devia ter deixado...
— Você era legal demais comigo nessa época pra fazer isso. Acho que a gente se conhecia pelo que? Dois meses?
— É, acho que sim.
— E ficava olhando o tempo todo pra saber se o porteiro estava vindo atrás como se a gente tivesse quinze anos e nossos pais fossem descobrir — completou, logo depois de sugar o último trago, apagar e guardar o baseado de volta na caixinha de metal. Ele já podia observar os olhos caídos e a expressão mais leve pelo efeito, com o sorrisinho pendido como sempre ficava quando estava chapada. — Eu nem lembro como a gente chegou aqui...
— Você e suas ideias de gente maluca — respondeu, revirando os olhos, mas riu no final. — A gente mal se conhecia. Até hoje me pergunto como é que você aceitou ir no Puzzle comigo se você é tão antissocial.
— Ué, eu precisava de carona pra faculdade, tinha que fazer aquela média contigo enquanto não tinha um carro — piscou, esperta, mas sorriu logo depois. — Gostava mais de você nessa época. “Ei, tem esse bar aqui na frente do nosso prédio que é muito legal e eu vou tocar lá. Você não quer ver como é?” — ela imitou, gesticulando com a voz mais grossa e rindo logo depois. — Eu jurava que você era um cavalheiro.
— Eu sou. Só não gasto meu cavalheirismo com você.
— Claro, você gasta é a minha paciência. Merecia um prêmio por te aturar!
só riu, feliz por ver que parecia estar se distraindo. O silêncio se fez presente de novo enquanto eles, com a visão um pouco alterada, observavam o céu escurecer aos poucos.
Te conhecer foi uma das coisas mais legais que me aconteceu, sabia, ? Pensou, mas não disse. Só deu um peteleco fraquinho no braço dela em resposta, que sorriu, controversa, e apertou os braços contra seu próprio corpo.
— Já se sentiu perdido, ? — perguntou-lhe, encolhendo os ombros. Repousou a cabeça em suas pernas dobradas, ficando de frente para o amigo. — Completamente aleatório... Parece que tá todo mundo seguindo em frente e você tá lá. No mesmo lugar.
— Acho que todo mundo se sente meio perdido às vezes, .
— É estranho — ela revirou os olhos. — Como se tudo o que você se segurasse antes tivesse ido embora. E é bom... Mas assustador.
— Eu nunca me segurei a nada que não fosse música ou meus avós — confessou, num momento de vulnerabilidade. , por um breve segundo, colocou a mão no rosto dele com um sorriso num gesto de carinho. Ela sempre era mais carinhosa quando os mencionava — e ele sorriu sem mostrar os dentes ao perceber isso.
— Seus avós eram as pessoas mais incríveis do mundo inteiro.
— Eles eram. Às vezes parece meio injusto que eles tiveram que ir embora... Sinto que queria ter aproveitado mais. Eu passei a minha vida inteira com eles, mas eu queria mais.
assentiu, compassiva.
— A gente pode fazer um brigadeiro mais tarde, se você quiser. — E assentiu de volta, porque essa era a forma dela de dizer que estaria ali. A vida não era tão injusta assim, no fim das contas.
não estava sozinho.
— Será que esse brigadeiro é pra mim ou pra você?
revirou os olhos com um risinho chocho, voltando o rosto para os prédios em sua frente.
— Eu tô bem, . Não é como se eu fosse apaixonada por ele.
— Ah, tá.
— Vai tomar no cu, ... — riu, colocando as mãos no rosto por um momento e virando de lado para que pudesse manter os olhos nele novamente. – Por favor, só vá se foder.
— Eu só tô dizendo que eu vi a fúria nos seus olhos quando a foto com a Kendall apareceu na televisão, — E ele riu ao se lembrar. — Eu achei que você fosse esmagar a taça com seus dedos de Fiona.
— Meus dedos são macios, bobo, olha só — e deu um soquinho no seu braço, que riu, afagando o lugar. Quando os risos se assentaram, ela perguntou. — Será que vai ser sempre assim, ?
— Assim como?
— Estar perto de alguém que é famoso. Será que ele vai estar em todo lugar, na rádio, no Youtube, nos anúncios? Será que eu sempre vou ter que descobrir coisas dele através das redes sociais e não por ele mesmo? — ela suspirou. — Será que eu vou ser obrigada a vê-lo feliz com as próximas namoradas quando abrir o Twitter caso a gente termine? Ele vai estar sempre lá, , em todo lugar, em toda pessoa que mencionar o nome dele sem nem mesmo saber o que aconteceu. Eu nunca vou poder fugir dele. Não posso passar o resto da vida no telhado do prédio.
— Pera. Então vocês estão mesmo juntos? — ele perguntou, só pra provocar, e apertou os olhos pra ele com raiva. Mas riu logo depois. — Desculpa, porra, olha o que você tá falando. A piada veio pronta!
— Eu não quero ter que passar por isso num futuro hipotético explicou, virando os olhos levemente. — Eu só sei superar qualquer coisa fingindo que ela não existe. E com o ... simplesmente eu não vou conseguir fazer isso, caso aconteça. O filho da puta tá em todo lugar.
— Por que você está falando de superar uma coisa que acabou de começar? Que você ainda nem sabe no que vai dar?
— Justamente por isso, — ela levantou as mãos como se fosse óbvio. – Porque ele está saindo com a Kendall Jenner, porra! Porque se eu me deixar entrar nisso... Não tem volta. E eu não posso me foder de novo.
— Você nem quer conversar com ele sobre o que rolou, . Pode ter sido um mal entendido...
— Eu não posso levar chifres de duas pessoas diferentes no mesmo ano, , eu já perdi minha dignidade o suficiente. Quem sabe no ano que vem?
riu, revirando os olhos.
— Isso nem pode ser considerado chifre, .
— Estou falando de um chifre hipotético — quase riu ao explicar. — Não muda o fato de que eu descobri pela internet, , e isso também é foda — deu de ombros, por fim. Ficaram em silêncio por alguns instantes em que processavam tudo o que havia sido dito na conversa.
— Conversa com ele, .
— Eu não quero. Eu não quero falar com ele. Ele está... ocupado o suficiente.
, primeiro, mordeu o lábio ao tentar prender o riso. o encarou, entediada, preparada pro que estava por vir e balançando a cabeça em negação com os lábios torcidos.
Ela sempre foi meio ciumenta com pessoas específicas, sabia, por mais que nunca demonstrasse e nem fizesse muito caso. Sua mãe era uma delas. era uma delas. Ele e Travis nunca foram.
Mas aparentemente era, também. era engraçada porque, na sua determinação em manter o orgulho intacto, apenas quem a conhecia muito bem conseguia notar os seus pequenos deslizes. Por exemplo, naquele momento, seus olhos baixinhos e avermelhados tinham um tom apático e quase desinteressado, sua testa relaxada e a postura solta, mas seu maxilar estava travado. O pé quieto, mas os dedos das mãos brincavam sorrateiros numa forma de aliviar a tensão discretamente. expirou levemente pelo nariz num descontentamento breve, desviou os olhos e ele começou a rir. Desesperadamente. Talvez fosse o efeito da erva, talvez fosse o fato de que amava ver irritadiça, mas a amiga havia se tornado hilária aos seus olhos naquele momento.
— Você tá com tanto ciúme dele! — Ele batia a mão na perna ao rir, com os olhos fechados, sem nem mesmo disfarçar. , de braços cruzados, o encarava incrédula e com olhos irritados. — E vocês nem namoram! Você sabe que já se fodeu, né?
— Eu não tô com ciúme, merda.
— Ele vai ficar tão feliz quando eu contar pra ele!
, eu juro, eu juro, que eu arranco seu pau pequeno fora.
— Quer saber? — empurrou-a de lado, limpando os olhos quando as risadas cessaram. — Eu tenho uma teoria.
encarou-o, disfarçando a curiosidade com uma expressão de deboche.
— Ah, pronto.
— Eu acho que você tem essa obsessão estranha por diálogos chatos de filme chato etc porque neles as pessoas tem coragem de dizer as coisas e você não tem.
Ela fez uma expressão de discordância com as sobrancelhas franzidas.
— Eu sempre falo o que eu penso, .
— Mas você nunca fala o que você sente.

.

How many nights does it take to count the stars? Thats the time that it takes to fix my heart... Oh, baby, I was there for you, all I ever wanted was the truth...
segurava sua garrafa de vinho branco com os braços levantados, gritando na sala de estar de sua casa e sentindo explodir em seu peito cada palavra entoada, com a televisão ligada num vídeo em que a One Direction cantava uma versão ao vivo de Infinity na BBC. Era a quinta vez que escutava a música naquele dia, o suficiente para aprender as letras do refrão. O vídeo tinha uns quatro anos, tinha cabelos longos e usava uma camisa roxa com alguns botões abertos, estampada com pequenas estrelinhas. Lindo.
Puta merda, onde é que ela estava quando aquele homem estava andando por aí com o tão estimado long hair e aquela cara de puto e ela nem se lembrava de sua existência? Quis espernear. Era tão injusto... — How many nights have you wished someone would stay? Lie awake only hoping they’re okay… — ela bebeu mais um gole, depois de cantar mais baixo dessa vez, sem muitas forças, e sentia os seus olhos se enchendo de lágrimas novamente, mas não deixava nenhuma cair. Estava fodida. Amargurada, irritada, bêbada e fodida.
E eram só duas da tarde naquele sábado. — If I tried I know it would feel like infinity...
Que ideia foi essa de se envolver com um famoso, ? Ela se questionou, jogando-se de volta no sofá ao observar aquele mais novo e tão atraente quanto repetir o refrão. Ao som dos violinos, com seus colegas de banda que ela nem mesmo lembrava o nome, passou a sentir uma simpatia por eles que não tinha antes ao dar mais um gole do vinho. Talvez depois de ter passado a manhã inteira vendo todos os clipes que eles tinham produzido em toda a trajetória de banda até chegar no atual.
havia desistido de tentar contatá-la depois de alguns dias. Era o segundo ou terceiro que não tinha notícias dele, nem se lembrava mais. Culpava a TPM, culpava a facilidade, culpava o capitalismo, culpava a globalização e a Internet, mas de alguma forma, em um impulso irresistível de curiosidade e autossabotagem, fez a única coisa que havia prometido a si mesma que não faria: pesquisou o nome de no Google pela primeira vez.
Encontrou várias fotos e inúmeras matérias. Algumas sobre o seu término com Camille, algumas sobre o fim da One Direction, algumas sobre o seu primeiro álbum, algumas dos seus antigos colegas de banda falando sobre ele, algumas que o vinculavam a Gucci... A mais recente era uma entrevista que havia dado sobre o álbum que estava produzindo. “Até então, esse álbum tem sido sobre transar e se sentir triste.” Ele comentou e riu pelo nariz. “Teve essa vez em que a gente usou uns cogumelos, se deitou na grama, ouviu Paul McCartney com os alto falantes virados pro jardim. A gente tá tendo uns momentos muito legais desenvolvendo o álbum”.
sorriu ao ler, genuinamente feliz em poder conhecer o que existia por trás do álbum, feliz por conhecer essa história antes que ela saísse em uma revista, feliz que também estava podendo participar disso e realizar um sonho. Feliz por conhecê-lo.
Não podia negar que conhecer havia sido uma experiência e tanto. Era quase como se ele não soubesse como passar por alguém sem deixar seus rastros – era impossível estar diante dele, era impossível entrar em contato com ele e não se render. Não só a sua beleza óbvia, não só sua voz, não só ao seu charme inegável, mas a sua presença como um todo: conseguia conquistar cada pessoa do ambiente quase como se soprasse um pó mágico ao falar. E depois dos últimos meses convivendo com ele, não tinha como negar: ele merecia tudo o que havia conquistado até então. Pensando sobre essas coisas, continuou a ler a matéria, em que ele falava um pouco sobre a sua experiência com a One Direction: “Sempre achei que, em algum momento, fosse fazer carreira solo, mas não é como se eu odiasse o que eu estava vivendo naquele momento. Só não queria ser aquele que ia estragar tudo”, explicou. E nisso, uma curiosidade latente ascendeu-se em sobre a tal boyband. Por algum motivo, quis saber mais sobre a história deles – deles, todos, em geral. Não era por nem nada.
Afundou-se completamente no limbo da Internet – e foi nesse momento que tudo desandou. Pegou uma garrafa de vinho, encontrou alguns vídeos de sua audição no X Factor, as apresentações, o momento em que não venceram o programa. Estava obcecada. Era engraçado e estranho ter tantas informações gravadas e acessíveis de uma pessoa que conhecia pessoalmente. Uns memes, uns videoclipes, até chegar em Infinity. E quando notou que estava, provavelmente, sendo uma puta de uma stalker do cara que ela nem mesmo respondia as mensagens, balançou a cabeça em uma negação desesperada ao desligar a televisão e jogar o controle longe. Se ela não estava louca, o seu terapeuta estava, com certeza, mas apostava mais no contrário: ele só não havia conversado com ela o suficiente para estabelecer o diagnóstico. Respirou fundo, sentindo-se patética. Pelo menos não tinha jogado nada na parede dessa vez. Precisava de uma garrafa de outra vinho. Estava falhando miseravelmente em sua própria estratégia de fingir que não havia nada acontecendo.
Ao mesmo tempo, não conseguia parar de pensar sobre o quão esquisito era observá-lo pelas lentes da televisão, como se ele fosse só mais uma pessoa pública, como uma distância constituída pelas fronteiras da fama que ainda não haviam se estabelecido. De repente, encontrou-se de fora desse mundo: um mundo onde as pessoas comentavam sobre ele como se soubessem a sua opinião sobre as coisas, um mundo em que suas intimidades eram expostas sem critérios, um mundo que acompanhou seu crescimento e que mantinha uma relação com ele tão íntima, e ao mesmo tempo, tão distante. Era confuso finalmente perceber que havia uma parte dele que sempre teria que lidar com isso, o tempo todo, todos os dias. E qual lugar ocupava ali? Como se encaixava? O que, realmente, estava acontecendo entre eles?
Uma parte dela não queria admitir, mas talvez, aquele fosse um momento definitivo: aceitaria fazer parte da vida dele – e com isso, abraçaria sua bagagem – ou se deixaria ir embora enquanto havia tempo, antes que os danos se tornassem irreparáveis?
Cansada de gritar, cansada de ver vídeos antigos, cansada de sentir pena de si mesma, resolveu fazer a única coisa que pensou ser sensata naquele dia: ligar para Nathan. E ele não demorou a atender.
Diga, minha linda, como eu posso te ajudar?
— Você tá livre hoje, né? — ela disse, direta, e deu de ombros. — Porque a gente vai foder.

X

— É por isso que eu sou louca por você, Nate — sorriu, alegre e alta, ao abraçar o amigo, que riu de volta.
Já estava de noite no Camp Flog Gnaw Carnival, o festival de música alternativa curado por Tyler, The Creator que acontecia num enorme estádio de Baseball. O ambiente verde do gramado era tomado por uma multidão de pessoas autênticas e animadas. O jogo de luzes expostos pelos refletores em todos os lugares tornava o ambiente ainda mais caloroso com a estética carnavalesca e as linhas refletidas, coloridas e underground. A roda gigante iluminava com louvor a noite escura de Los Angeles e refletia suas cores pelo rosto de Nate, para quem olhava genuinamente agradecida. As pessoas dançavam e conversavam livres durante o intervalo entre os shows de HER e do próprio Tyler.
Não sabia se era o papel, o show daquela mulher maravilhosa, o fato de que ele era seu amigo há tanto tempo, o ambiente cheio de gente que vivia seu próprio momento ali, mas o coração de parecia dilatado. Expandido. Queria abraçar pessoas, queria contato, queria o encontro da pele de novo. Nathan a envolveu pelo braço e cheirou o seu pescoço, o que fez com que ela se contorcesse pro lado, ainda sorrindo.
— Me conta, , por que é que você é louca por mim? Eu gosto de ouvir.
— Porque eu te chamo pra uma rapidinha honesta e você me traz num festival com o Daniel Caesar! — ela continuou abraçada com ele, na ponta dos pés, gostando da sensação de tê-lo ali, fisicamente, enquanto ele a balançava de um lado pro outro numa espécie de dança desengonçada. Os braços de Nathan eram ótimos substitutos e pareciam convencer minimamente o corpo de de que era aquele o calor que ela desejava pelo dia.
Já a mente... Vez ou outra, a mente de vagava por um outro lugar. Um lugar que ela não se deixava permear. – Vamo na fila da cerveja? Eu quero experimentar outra.
— Você já experimentou umas sete, — Nathan a afastou pela cintura com um sorrisinho, mantendo as mãos ali ao virá-la de costas e dar um tapa em sua bunda. – Tá na hora de comer. Vem, que que cê acha de uma pizza?
— Não, acho que prefiro hambúrguer artesanal. Você sabe onde se meteram o e a ?
Perguntou, enquanto andavam até a barraca. Nate deu de ombros.
— Devem estar se pegando no outro palco.
— Porra, Nathaniel, quer me foder? — , com o rosto franzido e uma expressão enojada, perguntou. Ele deu uma risada esperta e safada.
— Todo mundo sabe que sim, — ele respondeu, puxando-a pra perto de novo pelo cós do short e encaixando-a de frente pra ele. Permaneceram assim, grudados, durante toda a fila e até fazer o pedido, porque essa era a dinâmica de Nate e : tinham toda a liberdade do mundo um com o outro e era gostosa a sensação nostálgica e enérgica que emergia toda vez que passavam tempo juntos. Era divertido, químico, sexual, e ao mesmo tempo, comum e desapegado. Fácil. Dois amigos conversando sem se importar em expor o carinho que tinham um pelo outro, mesmo no meio de um festival. Não se importavam com quem o outro estaria no outro dia. Completamente seguro.
Era certo, pensou enquanto comiam. Olhava para Nathan, suas roupas comuns mas tão características, o rosto bonito e conhecido, o charme natural e as piadas sujas. Olhava para Nathan, o modo que tirava fotos de tudo – inclusive dela –, o jeito despreocupado e o ar de aventura que trazia a qualquer ambiente. A barba preenchida que arranhava, os olhos dispersos e o cabelo bagunçado. Sabia exatamente até onde ir, sabia exatamente até onde ele iria, conhecia suas posições e entendia suas entrelinhas. Diante de todas as qualidades e benefícios que vinham com o pacote de Nathan Harris, a melhor parte de todos esses era, com certeza: eram explicitamente bem resolvidos. O toque que não confundia, o beijo que não gerava expectativa, a troca que era recíproca, honesta e conhecida. Não precisava que durasse mais do que duraria. Não precisavam se importar com quem estava olhando.
Com o rosto apoiado na mão e o cotovelo sustentado na mesa, um sorriso no rosto e um Nate empolgado, fingia ouvir seu discurso sobre a experiência visual do setting do festival, enquanto pensava que jamais poderia ter um dia como aquele com .

.

É foda estar em outro país 3h20pm
Eu só queria aparecer na sua casa 3h20pm
Pra perguntar que porra tá acontecendo 3h20pm


Fora a última mensagem que havia mandado para , alguns dias antes, ainda sem nenhuma resposta. Faziam, exatamente, doze dias que não respondia . Sim, ele estava contando. A última mensagem que ela havia mandado pra ele fora um “Tava ouvindo Green Eyes e lembrei de você.”
E agora ele estava perdido, ouvindo a porra da música sem parar durante aqueles dias e se torturando com as infinitas possibilidades do porquê parecia estar tão decidida em mantê-lo fora de sua vida tão bruscamente quando tudo parecia ir muito mais que bem – logo depois de mandá-lo uma música de Coldplay. De Coldplay, porra! Quem é que manda uma música de Coldplay e some? Principalmente sendo uma das que eles haviam escutado juntos durante a viagem pra praia, uma que os dois sabiam a letra porque já gostavam muito antes de se conhecer. Uma que pareceu ter se tornado ainda mais bela ao ser vinculada a – porque, realmente, existia algo sobre ela que deixava as coisas mais bonitas. Expirou fundo, colocando apoiando o rosto na mão e se deixando aventurar por uma de suas memórias favoritas no mundo:
Estavam os dois, sentados um ao lado do outro, de frente pra praia de Malibu. usava o boné pra trás e tinha no cabelo um bucket hat enquanto eles cantavam alegremente no violão. O clima era aquecedor e leve – aquelas palavras ainda não tinham tanto significado assim na época, mas ali, naquele ambiente, era quase como se algo cármico acontecesse longe de suas vistas, mas bem em sua frente. Um encontro, uma conexão que se aprofundava, uma explosão de partículas atômicas que davam início à um outro universo – e enquanto , distraído, cantava, o encarava com as pernas cruzadas e os olhinhos de bituca admirados. O sorriso se alargou em seus lábios ao se deixar ser observado por ela.

Green eyes, you’re the one that I wanted to find
And anyone who tries to deny you must be out of their mind


E nesse momento, começou a cantar com ele, bem baixinho. O sorrisinho pendido no rosto enquanto se balançava com o vento, suas pernas expostas pelo biquíni e os cabelos batiam levemente em suas costas. Malibu era linda, sim, mas jamais seria tão gentil aos olhos quanto .

‘Cause I came here with a load, but it feels so much lighter since I met you
And honey, you should know
That I could never go on without you... Green eyes...


Balançou a cabeça, dando um tapinha em seu próprio rosto. O que estava acontecendo com ele? Por que diabos não conseguia pensar em outra coisa? Tinha uma sensação corrosiva de que algo faltava em seu dia e ele tinha plena certeza do que era. Um aperto no peito de saudade que parecia saltar de dentro de sua pele ao perceber que tinha a possibilidade de perdê-la – perder o seu toque, perder o gosto do beijo, perder a liberdade em passar a mão no seu cabelo macio...
Poderia descrever, facilmente, cada minúcia do corpo de com uma assertividade invejável – sabia onde estava seus sinais, suas tatuagens, os seus pontos de prazer. Lembrava-se vividamente do contorno dos seus braços, dos dedos das mãos, a onda no pescoço. Como ela se encaixava perfeitamente dentro dele – e como ele se encaixava perfeitamente dentro dela. Porra, não era possível que só ele estivesse daquele jeito – porque muito além de seu rosto, muito além de seu toque ou do seu corpo, sentia genuína falta de conversar com . De saber sobre o seu dia, de ouvir suas histórias, de contar as suas próprias. De saber que podia contar com ela. De saber que, não importava o quão o fodido havia sido o seu dia, conseguiria arrancar uma risada dela com uma piadinha boba. Ou uma resposta ácida. Um xingamento, um murro na cara, naquele momento, nem se importava mais. Só queria a atenção de novamente.
Era irritante o quão teimosa e diligente ela era quando decidia ser cabeça dura. Tirava-o do sério. Perdia a cabeça ao perceber que ela não daria o braço a torcer – além do soco em seu egocentrismo escondido em nem mesmo acreditar que estava realmente passando por uma situação como aquela. Que o chamassem de arrogante, de filho da puta, mas que porra, não tinha direito de fazer aquilo com ele. Expirou fundo, entediado, sentado no balcão do bar de seus pais enquanto esperava Jeffrey para um evento.
A pior parte era não ter a resposta. Ele havia tentado contatá-la pelo Instagram, por mensagem, por Whatsapp, sem contar as inúmeras ligações – e depois do sexto ou sétimo dia sem retorno, ele se lembrou que era .
Ela só o responderia quando quisesse, não importava o quanto insistisse. Por mais que quisesse continuar insistindo. Por mais que quisesse pegar o próximo avião para Los Angeles e sacodir seus ombros até que o respondesse, mas ainda tinha algumas obrigações em Londres que precisava cumprir. Será que não podia comprar uma passagem para ela? Qual a probabilidade de ela aceitar uma viagem pra Londres? Riu debochado de sua própria ideia idiota.
Decidiu que mandaria mais um áudio e aquela seria a última mensagem. A última. Não mandaria mais nada até chegar em Los Angeles. Era a última mensagem. A última!

Oi, . Eu acho que você não vai ouvir mas foda-se, eu quero falar. Tô aqui no bar dos meus pais, coloquei Green Eyes pra tocar e ficar me torturando porque essa foi a última mensagem que você me mandou e eu tô me agarrando nela esses últimos dias sem você. E eu sei que é uma puta música deprê pra se colocar no bar, mas é que eu fiquei pensando que você ia amar aqui. Queria que você conhecesse.

E mandou.

Acho que tô fazendo isso só pela sensação de falar contigo. Tô bem patético aqui abrindo a sua foto e perguntando pro sobre você, e eu até ameacei demitir ele e tudo, mas ele não diz nada pra você não ficar brava. E acho que eu faria a mesma coisa se tivesse no lugar dele, porque essa é a segunda vez que você fica brava comigo e acho que eu tô odiando ainda mais que a outra.

E enviou de novo.

Só que da outra vez eu entendo porque eu te atropelei e agora eu não faço ideia do que eu fiz e... Você tá chateada comigo de novo porque eu te atropelei? Me desculpa por ter te atropelado. Quer dizer, mais ou menos, porque eu acho que te atropelar foi a melhor coisa que aconteceu comigo esse ano. Tipo, não por te atropelar nem nada, mas você me entendeu. Porra. Não fica brava comigo porque eu gostei de ter te atropelado.

E enviou novamente com uma careta.

... Mas é porque pode ter sido de um jeito bem doido, mas acho que o universo juntou a gente, . A gente tinha que se conhecer nessa vida. E eu sei que você provavelmente nem vai ouvir tudo isso, e eu sei que deve ter um motivo justo pra você estar brava comigo, então por favor, só me desculpa. Me desculpa e me responde. Me desculpa e me manda uma nude, meu deus, me desculpa por te pedir uma nude enquanto você tá brava comigo, você sabe que eu faço piada quando eu tô nervoso. E eu tô meio desesperado e eu não sei mais o que eu tô falando então eu vou só... Vou só esperar você me responder, porque eu não aguento mais ficar nessa dúvida, .

Mandou.

Beijo. Eu... Eu...

Mas não conseguia dizer o que realmente queria. Revirou os olhos, tentando achar um complemento para a frase que não fosse tão humilhante assim, mas que era tão verdadeiro quanto:

Eu tô com saudade de verdade, .


19.2

.


— Puta merda, . — E caiu pra trás na cama, ofegante, exausto, mas com um sorriso surpreso no rosto. , que estava por cima, soltou uma piscadela. — O que aconteceu com você desde a última vez que a gente se viu?
— Ué? Vai dizer que não foi bom?
— Foi absurdo, — ele concordou e bateram um high-five. — Mas você... Você sabe, tá diferente. Normalmente você é bem menos...
— Menos...
— Não finja que não sabe do que eu tô falando.
olhou pra ele com o canto do olho e encolheu os ombros, despreocupada. Sim, às vezes, gostava de assumir uma postura mais dominante e ninguém tinha reclamado até então. Ele mesmo tinha acabado de dizer que tinha gostado. Qual era o problema?
— Não sei — esperou que ele concluísse o que tinha pra dizer, com a sobrancelha arqueada e braços cruzados.
— Você fica assim quando tá muito afim de alguém.
Ela arregalou um pouco os olhos, espantada, cobrindo o corpo com o lençol ao sair do colo dele. Pega completamente desprevenida.
— Com licença? Assim como?
— Assim... Mandona — retrucou, dando uma cotovelada de lado. — Vai, conta pro Nate. Quem é? Não vem me dizer que eu finalmente consegui fazer você se apaixonar por mim, ... Eu vou ser o cara mais feliz do mundo, claro, mas vou ter que te dar um fora depois.
— Da onde você tirou isso, Nathan? — engoliu em seco, sentindo-se exposta de repente, e decidiu que era um bom momento para aproveitar o banheiro da suíte e fazer xixi para evitar infecção. Levantou-se, nua, e não fechou a porta ao entrar no banheiro. Riu, sentada no assento ao parar pra pensar no que ele tinha dito. — Que porra você tá falando? Qual é a ligação? — perguntou, com o tom de voz mais alto por estar longe e o rosto franzido em confusão.
Limpou-se com o chuveirinho e voltou para a cama, sentando-se ao lado de Nate, que estava deitado recostado no travesseiro com o rosto virado para ela. Ele parecia cético, quase debochado, dizendo com os olhos que já sabia de tudo.
— Qual é, . Eu estive com você bem no meio de todos os seus casinhos — encolheu os ombros. — Antes e depois da Paola, do Travis... É sempre assim, a gente fica até você eventualmente começar a levar alguém a sério.
— E o que é que tem?
— Que eu te conheço, minha gata. Você fica meio... Controladora. Sabe? Quando tá chegando nessa fase. As últimas vezes são sempre assim. Não que eu esteja reclamando, porque eu acho uma delícia, mas você normalmente gosta de ser mandada e... — Nathan começou a rir. — Eu queria muito que você conseguisse ver a sua cara agora.
o encarava com a mais profunda surpresa. Piscava algumas vezes, com a boca entreaberta. Colocou as mãos no rosto.
— Eu não tô acreditando — pareceu passar por um momento epifânico ao ouvi-lo dizer. Não chegou a sentir-se envergonhada, afinal de contas, era Nathan, mas porra. Será que os sinais estavam todos ali e ela só não queria enxergar? Como é que nunca tinha percebido isso antes? — E você, sei lá, notou isso…?
— Porra, , a gente se conhece, né — ele a puxou pelo braço, de forma que ela ficasse apoiada sobre ele. — A gente fica faz séculos, por mais que a gente também passe um tempão sem ficar quando você tá de namorico por aí. Você sabe do que eu gosto, eu sei do que você gosta... É meio natural perceber essas coisas.
— Você se acha o rei do sexo, né? — perguntou enquanto mexia na barba dele e deu um tapinha de leve de brincadeira. Ele riu. — Isso meio que aconteceu nas últimas vezes que eu transei, mesmo.
— Isso tudo é pra não dizer que gosta dele, ?
— Isso tudo é por que você me deu o seu cu, Harris?
Ele gargalhou.
— Não. Eu até gostei.
aconchegou a cabeça em seu peito com um sorrisinho sacana que logo foi se fechando aos poucos.
— Eu só não posso me foder de novo — resmungou. Enterrou o rosto no peito dele antes de continuar: — É tudo muito diferente... Muito burocrático, muito intenso, e parece que todo mundo se sente no direito de meter o bedelho só porque ele é uma pessoa pública. Coisas podem acontecer que eu meio que não tenho como conter. Esses dias eu encontrei sem querer um vídeo de uma mulher falando dele e do relacionamento dele com a Kendall Jenner! — disse, soando quase espantada com as feições expressivas demais. — Entende como parece surreal? Você conhece alguém que pegou a Kendall Jenner? E se algum dia descobrirem que a gente fica, sei lá? Tudo muda, Nate.
, foda-se o que os outros pensam, você nunca ligou pra isso! Eu sei que todo o rolê com o Travis foi...
— Nate.
— Ok, assunto proibido.
deixava os olhos repousados em qualquer lugar onde desenhava linhas espontâneas em seu peito. Balançou a cabeça.
— Você acredita que ele está por aí alimentando peixes? — soltou, sem pensar, batendo com a mão na testa ao fechar os olhos em repreensão. Balançou o rosto de um lado pro outro.
— Isso... é... ruim...? — Nathan perguntou, confuso. — Alimentando peixes? O Travis?
— Não, o — ela corrigiu com uma careta. — Você acredita? O carro dele quebrou, um cara o acolheu, a filha desse cara era uma fã que não tava em casa e aí ele deixou um recado pra menina escrito a mão e alimentou o peixe dela.
— Uau... E além de tudo é Greenpeacer.
— É sério — ela riu ao tapar o rosto com as mãos. — É só... Difícil odiar ele às vezes. Enfim, chega desse assunto. Você é a última pessoa que pode me dar sermão.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Por que?
— Você nem se deixa gostar de ninguém depois da Mona, Nate, e eu sei que você era completamente apaixonado por ela.
— Eu me apaixonei por quase todas as mulheres que eu saí, minha gata, até mesmo você. A diferença é que só durou pela noite.
Revirou os olhos com um sorrisinho.
— Cara de pau — negou com a cabeça. — Por onde ela anda? Já a viu desde que voltou?
Nesse momento, Nathan desviou os olhos para a parede, enquanto brincava com os dedos de que estavam repousados no seu peito.
— Ela tá noiva, . Vai casar com um médico aí.
arregalou os olhos e engoliu em seco, levantando-se subitamente. Nate deu de ombros ao observar a mulher em sua frente se movimentar numa expressão surpresa e compassiva. não sabia o que dizer — ela nunca sabia o que dizer nesses momentos.
Não que Nate tenha sido o melhor cara do mundo com Mona, afinal, era o Nate, ele não sabia namorar — imaturo demais na época, queriam coisas diferentes e não conseguiram se ajustar. Havia certo arrependimento em sua feição, algo como uma melancolia disfarçada de desinteresse que fez o coração de apertar levemente em consideração ao amigo. Sem saber muito bem o que dizer, abraçou-o.
— Boquete de consolação?
Ele riu.
— Sempre — e beijou o seu pescoço antes que ela voltasse a se sentar ao seu lado com as pernas cruzadas. — Nunca ia dar certo, .
— Você nem tentou, Nate.
— Olha só... — Sorriu, sarcástico, numa clara referência ao tópico anterior. só abanou a mão em resposta. — Mas vamo falar de outra coisa. O que deu naquele rolê da Dior que você comentou?
Fez uma careta.
— Eu recusei... Quase me joguei da janela depois, mas recusei.
— Correta. — Ele assentiu e sorriu sem mostrar os dentes. — Porque eu tenho uma outra proposta pra te fazer. Você tá livre na próxima quinta-feira?
— Depende. Se for pra transar, sim. Se for um freela, talvez eu passe. Não sei como você aguenta essa vida de freelancer. Cliente sempre é insuportável.
— Que freela, minha gata. Eu tenho uma entrevista pra você!
ajustou a postura ao encará-lo, desconfiada. Nathan soava feliz demais. Mordeu o lábio e arqueou as sobrancelhas.
— Que entrevista?
— Pro processo seletivo de uma das novas minisséries da Hulu! — ele se levantou um pouco também enquanto piscava lentamente com os lábios entreabertos ao tentar processar a informação. — A primeira temporada tá pra ter uns doze episódios. O orçamento não é dos mais altos, mas um dos meus professores em Praga está trabalhando na produção e me contatou esses dias me oferecendo a oportunidade. Quando ele comentou que também estão precisando de assistentes de direção, eu te indiquei logo. Não é um processo aberto, tem pelo menos quatro fases e não é nada glamuroso, mas pelo menos não é publicidade.
— Nathaniel. Eu tô passando mal.
Ele riu quando se jogou novamente no seu colo num abraço desengonçado e caloroso. Ela sentia o coração acelerar e o sorriso que crescia nos seus lábios era verdadeiro e genuíno ao se dar conta que havia, finalmente, ganhado uma oportunidade de fazer algo que realmente acreditava. A esperança crescia no seu peito com a mínima oportunidade e ela mal podia conter a felicidade que lhe abarcava. — Obrigada, obrigada, obrigada!
— Tenho certeza que eles vão se apaixonar por você, . Mais do que por uma noite, dessa vez.

.

O clima levemente frio do outono em Londres não os impediu de usar a piscina aquecida naquele domingo de folga em que a luz do sol saía em pequenas frestas no céu acinzentado — quase que por milagre.
Era um de seus últimos dias em casa e já sentia o peito apertar em nostalgia. Por mais que Los Angeles também houvesse conquistado seu coração, a Inglaterra tinha gostinho de casa de vó: aquecedor, acolhedor, quase carinhoso. Como costumava dizer, a vida em LA era como estar de férias; em Londres, era quando encontrava o verdadeiro lar. Ele voltava a si mesmo, se reconectava com a sua família e ganhava forças para passar mais um tempo fora. Era sempre meio difícil ir embora, de fato, mas era o que ele sempre fazia.
Conversavam animadamente sobre as possibilidades de opções de almoço que Florence e Alaric cozinhariam — os almoços de domingo eram famosos e movimentados na família . torcia por uma lasanha vegetariana enquanto Leslie tentava convencer Mitch e Sarah de que a torta de batatas era ainda mais gostosa.
Estava recostado na borda da piscina e balançava o rosto em contradição ao ouvir o discurso da irmã com Mitch e Sarah, que riam abraçados ao seu lado ao ouvir Leslie tagarelar da espreguiçadeira.
— Só aceita que você perdeu, cara. Mamãe vai fazer torta de batatas. — Disse, com o tom provocativo e os óculos escuros. — Eu sou a preferida.
— É claro que vai, porque senão você chora e bate o pé — ele sorriu sarcástico e piscou para a irmã mais nova, que deu de ombros. Voltou a nadar pela piscina, mas mantinha-se perto para continuar com a conversa. — Eu sou um cara maduro, não me importo com essas coisas.
Nesse momento, Sarah riu.
— O importante é que eu ganhei de você. Não ligo muito pra como.
— Quando você crescer e se tornar uma adulta como eu — ele começou, e Mitch e Sarah riram, desacreditados. Leslie riu também, enquanto tentava manter os lábios sérios. — vai aprender a escolher suas batalhas, Les. Minhas opiniões vão para tópicos mais relevantes, que exigem sabedoria.
Sarah balançou a cabeça, saindo da piscina logo depois de dar um selinho em Mitch.
— Você é muito pedante, pelo amor de Deus — riu ao se envolver na toalha e sentar-se na espreguiçadeira que estava ao lado de Leslie. — Tenho certeza que a torta de batatas é melhor, Les.
— Eu fico com a lasanha do — Nesse momento, passou o braço pelo ombro de Mitch, que sorriram cúmplices para elas..
— Claro que fica. O patriarcado é uma instituição muito bem construída — Leslie revirou os olhos teatralmente para Mitch e deu um sorriso debochado ao ouvir a risada de Sarah crescer ao seu lado. Continuaram a conversar enquanto se dispersou pela piscina, sem prestar muito mais atenção. Perdeu-se em pensamentos sobre as últimas programações que ainda teria em Londres antes de voltar para Los Angeles em dois dias e suspirou pesadamente. Amava o seu trabalho, com toda certeza do mundo, mas também amava os dias em que podia apenas não fazer nada como aquele em que estava vivenciando. Esses dias eram mais raros e com frequência se pegava com dificuldades em desligar a mente do trabalho.
A música estava em todo lugar, o tempo todo. Nos pequenos efeitos sonoros, nos mínimos ruídos inconscientes. Com o corpo rente a água, os braços abertos, as pernas esticadas e os olhos fechados, tentou concentrar sua atenção dispersa no som que escutava ao submergir os ouvidos levemente. Era quase pacífico, mas havia uma melodia que não saía de sua cabeça. Um refrão com graves pesados e uma queda brusca. Pensava nos arranjos enquanto balançava os braços. La, la, la, la, la, la, la, la. Só precisava de mais uma palavra.
Enquanto tentava compreender os impulsos espontâneos de sua psyché que emergiam em horários impróprios, foi interrompido de seu momento de inspiração súbita ao ouvir a menção de um nome inesperado.
— Essa aqui do lado dele é a tal ? — Mitch perguntou, esticando-se da piscina para alcançar o celular nas mãos de Sarah. levantou-se num movimento brusco e direcionou seus olhos para ela.
— O nome dela tá marcado — Sarah deu de ombros. — Ela, o e mais duas pessoas.
— A minha ? — soltou em voz alta, aproximando-se da borda novamente, parando ao lado de Mitch e pendurando o corpo nos braços. Balançou a cabeça ao repreender-se no uso de palavras impensadas quando ouviu a risada da sua irmã ressoar divertida. — O que tem ela?
— Acho que a sua é de um tal de Nathan, na verdade — Leslie implicou, ainda olhando para o celular, usando os dois dedos para aproximar a foto na tela. — Eles parecem bem íntimos na foto.
— Gente, ele falou minha . A coisa ficou séria.
— A é dela mesma, , não seja possessivo — ouviu a sua irmã dizer em uma repreensão divertida.
— Com o Nathan?, que já tinha pés inquietos, tomou um impulso com os braços na borda e, ao ignorar as duas, levantou o corpo para fora da piscina de uma vez só. O nome de Nathan parecia gritar em placas coloridas e maximalistas demais em sua mente para que pudesse prestar atenção em qualquer outra coisa. Completamente ensopado, andou rápido até Sarah, o primeiro celular que viu na frente. — Me deixa ver direito.
— Gente, socorro, agora ele até saiu da piscina, vocês não tão vendo isso? — Leslie narrou, com os olhos bem abertos, parecendo rir de verdade agora. Sarah, ao vê-lo se aproximar, levantou-se da espreguiçadeira e escondeu o celular atrás do corpo ao dar a volta pela piscina. Ele revirou os olhos, emputecido. — O que aconteceu, ? Tá com ciuminho?
— Cala a boca, pirralha. Me deixa ver, Sarah!
— É, cala a boca, Leslie, ele tá sofrendo, tadinho!
— Anda, Sarah! — ela ainda ria ao se defender de , que tentava pegar o celular de sua mão num desencontro irritante e proposital quando ela finalmente decidiu mostrar pra ele. Mitch observava a interação da piscina com olhos ternos e um sorriso esperto, mas não entrou na provocação delas.
, então, viu a foto que havia sido postada no story de . Estavam ele, , e o tal Nathan numa espécie de festival. O ambiente era verde, eles estavam bem arrumados e o efeito aplicado parecia o de uma foto analógica, bem do jeito que adorava editar. Alguém tirava a foto deles de um ponto enquadrado. estava no canto da foto ao lado de e fazia um hangloose com uma das mãos; , posicionada ao lado de , sorria sem mostrar os dentes com os cabelos trançados e um vestido longo estampado com cortes na cintura. , no entanto…
Os lábios de secaram no momento em que ele observou a estatura de , que parecia tão feliz, com a língua pra fora, os olhos baixos e o braço ao redor do pescoço do rapaz ao seu lado que mantinha o braço ao redor de sua cintura. Os corpos estavam próximos, na ponta dos pés, Nathan a puxava pra perto com os ombros largos e olhava para a foto com um meio sorriso. Apertou os olhos. Quis espremer o celular com os dedos, mas pigarreou, contendo-se. — Ah, é só esse cara. Achei que fosse alguém importante — retrucou, dando de ombros ao devolver o celular para Sarah e pegando uma toalha que estava em cima da mesinha, bem como o seu celular, e sentou-se na espreguiçadeira que ficava ao lado da que Leslie estava.
abriu o Instagram em seu próprio celular, com a toalha por cima da cabeça, indo até o bendito story de novamente só para se torturar mais um pouco. Mordeu a bochecha.
Apesar disso, parou para observar o quão bonita e autêntica ela estava naquele dia. O modo com que se vestia, o cabelo solto e sempre meio bagunçado, os olhos demarcados e honestos demais, a expressão leve e vívida, o tecido que demarcava os lugares certos de seu corpo e o fato de que ele sabia que havia sido um dia fantástico só porque ela estava lá. Era essa a energia que trazia para qualquer ambiente.
A forma com que Nathan envolvia o corpo de com o braço e a proximidade que eles pareciam ter. O fato de que aquele era o seu lugar, de que ele estava bem onde deveria estar, eclodia de um ponto profundo em seu âmago e subia até a sua garganta em um desconforto evidente e impossível de ignorar. Será que era por isso que não o respondia? Que porra?
Sentia-se irritado, queria bufar pelo nariz e reclamar até dizer chega, argumentar que estava certo, ligar pra ela e obrigá-la a ouvir suas queixas, pegar o próximo avião para Los Angeles e sacudi-la pelos ombros até que entendesse, mas resolveu manter a compostura porque as piadinhas de Leslie estavam realmente enchendo o saco.
— Que carinha é essa, ? — Leslie tentou alcançá-lo com a mão e apertar suas bochechas, mas ele a interrompeu no meio do caminho. — Tá bravinho? Tá com medo da competição?
— Não tem competição, Leslie.
— É, não tem mesmo, porque esse tal Nathan é muito gato. Olha essa foto aqui — Sarah sentou-se ao lado de Leslie na espreguiçadeira e supôs que mostrava para a amiga o Instagram do rapaz. Virou os olhos.
— Ele não tem nada demais, por favor...
— Até o cabelo dele é hidratado, .
— Calma — Mitch, finalmente, se pronunciou, recebendo a atenção de todos. Era sempre assim quando ele dizia alguma coisa. — Você não saiu com a Kendall esses dias? Por que tá tão preocupado assim?
não pode conter um balbucio frustrado.
— Porra, Mitchell, até você? Eu não tô preocupado — afastou os olhos do celular por um segundo, negando com a cabeça e tentando soar o mais desinteressado possível. — Eu e a Kendall somos só amigos.
— Você e a também, aparentemente.
desistiu de dar atenção às piadinhas de Leslie e Sarah enquanto deixava que Mitch o defendesse e voltou seu foco para o celular, clicando no perfil de que estava marcado no story. E quando o fez… Desgrudou as costas do encosto da espreguiçadeira com os olhos quase arregalados.
havia postado uma foto também, ele só não tinha visto. Deu zoom na foto com os dedos e custou a acreditar no que estava vendo.
Era uma foto de suas pernas, basicamente, e parte de seu tronco. Seu rosto não aparecia. Ela estava sentada em seus ombros enquanto ele a sustentava com as mãos e sorria para a lente da câmera numa espécie de selfie. A legenda dizia que ela tinha o melhor lugar para assistir o show e qualquer outra coisa em português que ele não conseguia entender.
estava embasbacado. Puto, irritado, inflamado, todas essas palavras pareciam poucas diante da quantidade de informações e suposições mirabolantes que sua mente desenvolvia e, em reação, seu corpo respondia de maneira abrupta. Queria arrancar aquelas mãos da sua . Sentia uma vontade emergente e pulsátil de mostrar para ele e para o mundo todo com quem ela realmente deveria estar. Uma necessidade de provar e garantir que era sim, dele.
Num ato impulsivo, curtiu a foto, só de birra. Travou o celular, ainda bravo, cruzou os braços e manteve os olhos num ponto fixo e distante que ele ao menos conseguia reconhecer. Sabia que era egoísta, sabia que era infantil, mas não queria mais ver com ele. Não queria nunca mais ver com ele. Sua imaginação floreava cenas de todas as coisas que poderiam ter acontecido sem dó de suas reservas... Mas ali, naquele momento, esperava que ela o imaginasse, também. Esperava que ela se lembrasse, ou mais, que ela pudesse ver a forma dele enquanto Nathan a tocava. Expirou. Sempre terminava no mesmo lugar: era , afinal de contas, era o que repetia para si mesmo, e ela parecia satisfeita em fazer explodir de dentro dele todas aquelas reações. Precisava limpar sua mente e dar linguagem às ideias. Calma, calma. Pegou o celular de novo, disposto a anotar a enxurrada de impressões que se misturavam em sua mente atordoada.

I hope you can see the shape i’ve been in while he’s touching your skin
This thing upon me howls like a beast
But you flower, you feast


Inferno de mulher. Por que tinha que deixar as coisas tão mais difíceis? Não queria admitir o ciúme que o corroía por dentro, não queria dar o braço a torcer de que o fazia perder a cabeça em mínimas situações, não queria ceder quanto ao fato de que sim, ela havia sido o motivo pelo qual não havia ficado com Kendall — de que não havia ficado com mais ninguém, na verdade. Porque não queria mais ninguém. , finalmente, entendeu que queria . Caiu na realidade de que não desejava outra pessoa. Era isso. Estava profundamente estragado por ela.
Ele queria ali, com seus amigos e a sua irmã, tomando um banho de piscina num domingo à tarde. Queria no seu almoço de família ouvindo as histórias dos seus pais. Queria o corpo de pra dormir juntinho e queria enfiar o nariz no cabelo dela pra sentir o cheiro quando bem entendesse. Queria a voz divertida que ela usava ao atender suas ligações, queria ouvi-la falar sobre música brasileira e queria brigar com ela pra assistir um filme, só pra irritar, porque no final ela sempre escolhia. Queria que ela fosse a primeira coisa que veria ao acordar de manhã.
Puta merda, como sentia sua falta. Sentia-se bobo, sentia-se esquisito, e a raiva que antes eferverscia em seu sangue acabou se transformando numa intrínseca frustração em não tê-la por perto. De novo. Pela milésima vez nas últimas semanas. Batia o pé contra a espreguiçadeira, lembrando-se do arranjo que nascia quase sozinho — e já era a quarta música que escrevia para , contou, ao reclamar com um estalo de língua característico. Era irritante que ele estivesse pensando em escrever mais uma música pra ela enquanto ela estava se divertindo com outro cara — mais do que isso, era patético. Puta merda, pensou ao balançar a cabeça, tentando focar na melodia que insistia em nascer. Não podia esquecer, precisava conversar com Mitch sobre. Definitivamente um teclado como base.
Que palavra ele poderia colocar? A voz de Leslie estava passando a irritá-lo enquanto tentava se concentrar.
Pegou o celular novamente. I told you but I know you never listen. E saiu do bloco de notas.
Vagou pelos aplicativos até chegar em suas fotos, subindo até chegar em uns meses atrás.
Encontrou a foto que tirou do mural do quarto de , em que ela estava rindo com a cabeça e o braço pra fora da janela de um carro, de óculos escuros, cabelo preso num coque e um girassol preso na orelha. Sorriu levemente ao observar a foto e lembrar-se daquele dia.
Precisava fazer alguma coisa. Estava decidido a fazer alguma coisa para conseguir aquela mulher de volta.
E naquele momento, o estalo: Woman.


.

— Eu só quero transar. O tempo todo — confessou. E a parte mais engraçada: não estava envergonhada. Soava meio assustada.
Aquela era sua quarta sessão com Elijah. De uma forma ou de outra, estava aprendendo a lidar melhor com toda essa coisa de fazer terapia. Secretamente, durante a manhã, enquanto cumpria com suas obrigações, desejava que o tempo passasse rápido para que pudesse chegar à sessão.
Não que soubesse muito bem o que falar. Não que já tivesse contado para o terapeuta os pontos que realmente deveria ter contado. Apesar disso, algo dentro de parecia acontecer – e ela estava passando a perceber isso.
— E por que você quer transar, ?
— Por que qualquer pessoa transa...? — deu de ombros com a obviedade.
Elijah arqueou as sobrancelhas, quase divertido.
— Você é muito boa em alterar o foco das respostas.
deu uma risada pelo nariz. Definitivamente sentia-se mais confortável ali, apesar de entrar em confronto com todas as coisas que insistia em fugir. Às vezes olhava o ambiente ao redor e pensava estar segura para falar o que realmente deveria: suas questões familiares, seu antigo relacionamento, a autossabotagem... E quando estava prestes a fazê-lo, por mais que repentinamente emergisse de dentro dela uma vontade absurda de compartilhar coisas específicas, desviava o assunto.
— Ah, sei lá, pelo prazer, eu acho? Pelo orgasmo, né.
— E você sente desejo de transar com uma pessoa específica?
Sim.
Não. Eu poderia transar até mesmo com você agora — revirou os olhos, jogando-se para trás na cadeira ao dar de ombros. — Sem ofensas.
Elijah não se sentiu constrangido, apenas assentiu novamente, impassível.
— Não me ofendi, mas não vai acontecer.
— Não custava tentar — Ele assentiu ao sorrir sem mostrar os dentes. — Foi só uma piadoca, não se preocupe.
— É o seu mecanismo de defesa?
— Aparentemente. Mas acho que todo mundo tem um mecanismo de defesa.
— Com certeza sim — concordou. Observou-a por alguns segundos. — Por que o querer transar te preocupa?
— Porque eu tenho pensado... Sabe... Sobre o que você falou da última vez — pigarreou, um pouco constrangida por estar admitindo levar a terapia a sério. — Sobre os padrões.
— E o que você tem pensado sobre isso?
— Que eu resolvo tudo com sexo — confessou, gesticulando. — Se eu estou triste, eu quero transar. Se eu estou irritada, eu quero transar. Se eu estou frustrada, eu quero transar... Se eu estou feliz, quero transar...
— Você se arrepende de ter transado com alguém específico?
— Acho que ultimamente, não. Foram boas resoluções momentâneas — ela deu uma risadinha. — Mas aí passa...
— Vou te perguntar de novo, . Por que você transa? É mesmo pelo orgasmo?
— Porra, eu achava que era, mas agora eu tô achando que não — ela encolheu os ombros e olhou pro teto, reflexiva. — Será que não tem um manual de instrução da minha cabeça? Eu estou precisando de umas respostas e é um saco que você ache que eu tenha, porque eu não tenho.
— É pra isso que a gente tá aqui. Pra você encontrar — Elijah pontuou. — Agora pensa mais um pouco... O que te vem à mente?
— Eu gosto da sensação de sentir que estou dando prazer pra outra pessoa também. Às vezes sinto que faço isso bem, que sou ativa nisso. É bom ver outra pessoa te desejando. Te dá uma sensação de...
Mas não soube como completar a frase.
— Poder? Controle?
— Você ama sugerir que eu sou controladora.
Elijah riu pelo nariz.
— Todo mundo quer um pouco de controle, . Traz segurança. Principalmente ao passar por uma fase de mudanças tão marcantes como a que você está passando
— Isso é loucura, né? Digo... Não pode ser tão impregnado assim. É só sexo. Não pode ser tão — pigarreou — profundo.
— Se fosse só sexo, você não teria trazido pra terapia. — Argumentou. — A sexualidade diz muito sobre os nossos desejos, . Sobre a nossa falta... Como tentamos suprir essa falta.
— É que eu não penso muito, é só instintivo. Eu não planejei agir dessa forma mais dominante nas últimas vezes que eu transei, foi só algo que eu senti vontade na hora. Algumas vezes... Desde que eu comecei a ter essa vontade louca de transar.
— E você sente que isso se intensificou desde...
— Quando eu terminei com meu ex — limpou a garganta, começando o raciocínio e engolindo em seco. — Eu já não gozava com ele fazia algum tempo. Talvez uns dois meses, mas a gente continuava transando. Deve ter sido a última vez que me vi nessa fase de transar, transar, transar. Era comum a gente transar, e depois brigar, e depois transar de novo... Até que a gente terminou, e eu saí com umas duas pessoas e foi meio péssimo.
— Certo. E depois?
— Depois eu passei um tempo sem sentir muita falta, talvez uns dois ou três meses. Tive os meus momentos, claro, mas era mais eventual. Aí eu conheci um cara, e era bem legal, e depois encontrei com um antigo amigo, foi bem legal também... Tava tudo ok. E aí eu fiquei assim.
— E você não consegue pensar em nada que tenha virado essa chave?
— Foram semanas meio complicadas — ela começou a explicar. — Depois de tudo que rolou nos últimos meses, teve aquela proposta que eu recusei. Tem o fato de que acordar desempregada e sem perspectiva todo dia me deixa frustrada. E teve... Bom, eu e esse primeiro cara paramos de nos ver. Foi meio chato porque a gente tava naquela fase em que tá tudo dando tão certo e você não se preocupa com nada, mas acho que tô lidando bem com a situação.
— O que é lidar bem com a situação?
— Não jogar coisas na parede? Não gritar com gente que não tem nada a ver com a história? Temos progressos aqui, Elijah, exijo que você reconheça.
Ele deu uma risada pelo nariz e balançou a cabeça em afirmação.
— Você já notou que, todas as vezes que você fala sobre sentir coisas, você fala como se isso fosse errado? — Ele pontuou. — Vamos lá, . Você conheceu um rapaz, se interessou por ele, vocês se davam bem, passavam tempo juntos e agora não mais. Por que seria errado se sentir chateada com isso?
— Porque ele... Ele... Eu tenho a sensação de que em algum momento ele vai me foder — ela retrucou. — Em algum momento eu vou descobrir alguma coisa que eu não sabia por muito tempo e aí eu vou me sentir uma otária de novo. Às vezes eu fico com medo de não... ser... real.
— E isso já aconteceu antes? Você descobriu alguma coisa que não gostaria depois de muito tempo?
— Eu vou te falar coisas mas eu não quero que você pergunte sobre elas.
— Tudo bem.
— O meu pai biológico — ela começou antes de respirar fundo. Vai, . Não foge dessa vez. — conheceu a minha mãe numa festa, passaram uma noite juntos e aí eu vim ao mundo por um erro mal calculado do Universo — revirou os olhos com um sorrisinho. — Mas ele era casado. A minha mãe soube algumas semanas depois, quando descobriu que estava grávida, tentou contatá-lo e ele sumiu. Eu nunca o conheci. Acho que nem reconheceria seu rosto se o visse na rua.
Elijah assentiu.
— Eu não sinto falta dele, antes que você pense qualquer coisa, nem ódio, nem repulsa. Ele só... Meio que não existe pra mim — ela fez uma careta. — Eu tenho o meu avô, Antônio. E quando eu tinha uns treze anos, minha mãe se casou com o Mark e ele é o cara mais legal de todos. Eu não tenho daddy issues ou sei lá.
— Não pensei que você tivesse. Não precisa se defender.
Vai se foder, ela pensou, mas deu uma risada genuína em uma expressão de quem aceita a derrota. A ironia que ele utilizava deixava irritada, às vezes, mas sempre admirada.
— Só que... eu sei que a minha mãe se culpa um pouco por isso. Eu sei que ela ficou mal. Eu sei que doeu nela, por mais que ela quase nunca tenha demonstrado.
desviou os olhos para a janela fechada.
— Eu namorei por três anos com um cara. Descobri que ele me traiu com uma mulher mais velha por um mês inteiro e peguei ele no flagra com outras quinze pessoas do meu trabalho que o conheciam.
Ela hesitou por um momento, suspirando. — Eu não achava que era o melhor relacionamento do mundo, às vezes eu... Às vezes eu acho que foi bom ter visto. Eu precisava abrir os olhos, sabe?
Elijah assentiu em concordância.
— Eu nunca quero ter que precisar abrir os olhos de novo. Saber que as pessoas tinham pena de mim... Me deixava com raiva. Com ódio. Imagino que seja assim que minha mãe se sentia.
A única diferença é que, com , não são só as quinze pessoas do trabalho que me olhariam desse jeito. Seria o mundo inteiro. Milhões e milhões e milhões de pessoas pensando na otária que se deixou levar pela lábia de quando ele realmente estava interessado em super modelos, pensou, mas não disse.
— Foi você quem fez isso, ?
— O que? Trair?
— É. Trair, mentir, enganar. É com você que está preocupada?
— Não, ué.
— Certo.
E ficou em silêncio por alguns segundos. fez uma careta, quase como se pedisse silenciosamente que se explicasse, apesar de saber exatamente o que ele gostaria de dizer.
— Foi o tal rapaz quem fez isso com você?
— Não necessariamente.
E ficou em silêncio de novo.
— Você agiria dessa mesma forma?
— Não.
— Mas você assume que o tal rapaz vai fazer isso.
— Eu não assumo que ele vai fazer, mas também não descarto a possibilidade.
— E você vai passar o resto da vida culpando uma pessoa pelo erro de outra?
— Eu não estou culpando...
— É ele quem está sofrendo as consequências, não é?
bufou, sentindo-se, mais uma vez, derrotada. Não tinha como argumentar. Apoiou o rosto na mão e outra na barriga, quase como se tivesse levado um soco no estômago.
— Você pode admitir sentir coisas, . Não tem problema se identificar com alguém. Ter ficado chateada não quer dizer que você está apaixonada por ele, não é mesmo?
— É. É isso! Tá vendo? Muito obrigada, Elijah, eu acredito que te pagar finalmente fez valer a pena. Isso não quer dizer que eu esteja apaixonada por ele!
Elijah sorriu.
— Só você pode dizer com certeza se realmente está ou não está apaixonada por ele, . Mas se você estiver e mentir para si mesma ao dizer que não está, não estará fazendo muito diferente do que aquilo que você tem mais medo que aconteça: ser enganada.

x

Ao chegar em casa, foi direto para o seu banheiro sem prestar muita atenção no ambiente porque precisava urgentemente de um banho quente. Sentia os ombros tensos e um incômodozinho no peito de quem não queria admitir que havia, sim, algo de errado. De quem não conseguia parar de pensar em tudo que fora dito na terapia. Com o robe e os cabelos úmidos, olhou pro celular em mãos que deixava visível uma notificação de ligação de algum tempo antes e suspirou. Precisaria lidar com isso, uma hora ou outra. Que horas eram em Londres? Uma da manhã?
Deu de ombros ao sair do banheiro mas parou em seu próprio lugar e arregalou os olhos ao notar que, em sua escrivaninha, havia um enorme vaso de vidro com um girassol dentro. Estava de frente para a sua janela, onde recebia luz direta do sol que aos poucos se assentava pelo fim de tarde em Santa Mônica. Ela piscou algumas vezes, confusa e com um sorrisinho nervoso no rosto, sentindo um friozinho na barriga acompanhá-la enquanto caminhava até ele.
, em todo seu carinho pela espécie de flor, quase quis abraçá-la ao perceber o sorriso se alargar em seu rosto. Umedeceu os lábios ao tocar as pequenas pétalas com cuidado no vaso novo e espaçoso. E logo depois de seu momento de encanto, com dedos ansiosos e curiosos, abriu o pequeno envelope que estava ao lado.
Reconhecia a letra. Era a caligrafia de . A caligrafia em letras garrafais e meio garranchadas num envelope amarelo e em caneta preta de tinta. Mal pôde conter o coração que acelerava enquanto lia as palavras escritas.

“Oi, minha deusa.
Eu espero que você esteja bem.
Não quero fazer você se sentir mal, mas eu tenho tentado muito não falar com você.
Acho que falhei um pouco.
Eu não sei o que está acontecendo, então... Nesse caso, vou te deixar com esse girassol na esperança que você me mantenha doce em sua memória. É que eles são as minhas favoritas, também.
Com todo amor,
H.
Ps. Tente não jogar esse na parede. Eu te desafio.”


Com uma risada terna e cheia de saudade, abraçou o papel ao seu peito e fechou os olhos ao espremer o rosto, sem saber o que deveria sentir, sem conseguir conter o que já sentia. Suspirou. Num impulso, pegou o celular e mandou uma mensagem para ele. Ok, o girassol foi golpe baixo. Pronto pra lavar roupa suja?
Era agora ou nunca.
abriu a mensagem instantaneamente. Esperava ansiosa ao segurar o celular com afinco que ele começasse a digitar – mas era lógico que não era isso que ele faria. O celular de vibrou com o nome de mais alto no visor e dois botõezinhos embaixo, um vermelho e um verde. Engoliu em seco, depois de olhar de um pro outro, no botão que aceitava a ligação.
? — ele começou. Tinha certo barulho ao seu redor, provavelmente não estava em casa, o sotaque britânico ainda mais evidente pela convivência e a lentidão em dizer seu nome sempre presente por conta do seu jeito de falar.
Puta merda. Era só o seu nome. Era só a forma com que dizia o seu nome e ela estava derretida de novo.
— Er... Oi. — E não sabia mais o que dizer. Torceu o rosto em vergonha e ansiedade pelo que ele diria, sibilando alguns xingamentos quanto a sua fala pouco consistente, querendo ouvir mais da sua voz, querendo não querer tanto fingir que nada tinha acontecido e só ouvir sobre o seu dia.
Você tá aí? — perguntou. O seu discurso estava um pouco mais lento que o habitual e a língua parecia um pouco embolada. Ele pigarreou.
— Tô...? — respondeu, mas não soava brava, talvez um pouco confusa. Era meio óbvio que estava ali, tinha acabado de aceitar a ligação, mas preferiu deixar que ele falasse qualquer coisa que tivesse para falar. Afinal, era um claro desastre para conduzir esse tipo de conversa, e ... Bom, ela se perguntava se havia qualquer coisa em que ele não fosse extraordinário.
Ok. Então fica aí, porque agora você vai me escutar.
mordeu o lábio inferior e conteve o impulso de rir ao ouvir tom bravo que se mesclava com a voz embargada e letárgica. Tentou imaginar seu rosto enquanto o falava, pensando em olhos verdes profundos que a perfuravam com uma fúria gentil e um maxilar travado e sério que ele havia vestido pouquíssimas vezes ao estarem juntos, mas ela se lembrava bem. Pensou no cabelo jogado para trás com a testa fincada... Espremeu o rosto. Precisava focar na conversa.
— Ok. — Não fez nenhuma objeção, realmente curiosa em descobrir o que tanto ele gostaria de dizer.
Você não pode me afastar assim desse jeito! — ele usou o tom grave e um pouco mais alto do que reproduzia anteriormente, soando realmente chateado. assentiu com o rosto, como se ele pudesse lhe ver, e esperou que ele continuasse o seu discurso. Mas não o fez. Ao invés disso, emitia pequenos e quase insonoros balbucios de quem estava prestes a dizer alguma coisa, mas nunca dizia. Alguns segundos de silêncio se passaram em que realmente tentava não rir.
— Isso é tudo que você ia dizer? — tentou não soar debochada ao perguntar, porque a pergunta era realmente honesta. Estava quase preparada para um monólogo lento e provavelmente bêbado quando ele exigiu que o escutasse. Olhava pro girassol em sua frente e segurou um sorriso.
Não, — ele respondeu, o tom de voz irônico. Imaginou-o virando os olhos. — Na verdade, eu tinha um monte pra te falar. Mas eu não achava que você ia atender só que aí você realmente atendeu e eu meio que esqueci o que eu ia dizer — ele constatou, meio emburrado, meio irritado, meio lento, depois rápido demais. Ela expirou fundo, jogando-se para trás na cama. — Eu sei que você tá quase rindo. Não é pra rir. Eu tô puto.
, eu...
Pera, esquece, já lembrei. Eu tô puto, . Eu tô bem puto. — Ele repetiu, tentando soar sério e talvez até um pouco rude, mas não conseguia. só conseguia achar divertido e minimamente curioso que ele estivesse lhe fazendo ligações enquanto bêbado. — Eu tô puto porque nada parece tão interessante assim do que só ouvir você tagarelar sobre qualquer coisa aleatória que você se interessa e pesquisa obsessivamente sobre só pra poder palestrar depois. Eu tô puto porque eu fico repassando os dias e as nossas conversas, tentando encontrar o que foi que eu fiz de errado pra você me enxotar da sua vida desse jeito e eu... não consigo, eu não consigo entender. Eu sei que eu sou muito bom em foder com as coisas, mas dessa vez, só dessa vez, eu tentei tanto não fazer isso.
— Eu qu...
E eu tô puto porque, mesmo agora, eu tô falando contigo e eu não consigo mais nem ficar puto direito.
— Achei que você estivesse bem puto.
Eu tô. Puto. imaginou que ele tivesse revirado os olhos. — Mas acho que tô mais com saudade do que puto.
E pronto. Lá estava. Era só o que precisava.
Naquele momento ali, nem mesmo se lembrava o motivo de ter se afastado. Ela apertou o braço contra si mesma, tentando se abraçar e suspirou.
— Eu precisava de um tempo pra organizar minha cabeça... É tudo meio demais — foi o que ela conseguiu explicar. — Eu também fiquei... Você sabe.
Não sei. Fala.
riu um pouco com o tom provocativo.
— Com saudade, . Eu também fiquei com saudade de você. Naquele momento, ali, bêbado, ligando pra ela de madrugada depois de quase três semanas sem se falar, não pareceu um bom momento para cobrá-lo qualquer coisa sobre uma super modelo famosa quando eles nem mesmo tinham um relacionamento, e ele também não pediu nenhuma explicação. Talvez fosse melhor que conversassem pessoalmente. Quando ele falava daquele jeito, com aquela voz e aquele sotaque, as palavras e a flor, a insistência exigente de tê-la em sua vida, tudo que sentia dentro do peito era uma pulsão grandiosa e incandescente de se deixar levar por e ir com ele por onde quer que ele a conduzisse.
Tudo bem. Você pode ter toooodo tempo do mundo. Só não... Não faz assim de novo — ele expirou. O tom de voz, então, alterou-se para um que soava mais carregado de sentimentalismo e entonações longas que demonstravam uma birra inconsciente que adorou ouvir. — Não sem me dizer o que aconteceu.
— É. Eu sei. Não queria te deixar puto. — Ela repetiu a palavra da noite com um tom amistoso e irônico e expirou, grunhindo.
É claro que você queria — ele constatou e riu, porque sim, talvez quisesse mesmo. Com um rosto torcido e uma tensão gostosa no peito, decidiu que era o momento de dar o braço a torcer, também.
— Eu... Eu sinto muito.
pensou que ia vomitar ao finalmente dizer. O seu coração acelerado com a frase que ela mal podia acreditar que estava realmente saindo de seus lábios.
O que? Assim, fácil? Nem uma briguinha? Nenhum xingamento? – perguntou, confuso, a entonação mais estridente e intensa que o normal, e deu uma risada. – E sobre o mundo não girar ao meu redor e eu ter sido péssimo em Dunkirk etc? Anda, , briga comigo! Eu quero ouvir seus gritos! Eu quero gritar de volta!
se deixou rir com um sorrisinho aquecido no rosto.
— Eu até queria, real mesmo, mas eu nem tenho o que falar de você. Até da sua banda antiga eu passei a gostar. Aquela música com o nome da , bem boa. Provavelmente vai aparecer na minha retrospectiva do Spotify.
Ele riu, desacreditado.
Para, ! Você não pode dizer que sente muito agora. Eu tenho que continuar puto com você!
— Você não tá fazendo sentido nenhum!
E você tá muito longe.
Ela suspirou. Alguns segundos de silêncio em que se perdeu em seus próprios sentimentos, tentando mais que tudo guardá-los para si.
sempre foi mais aberto. Sua linguagem sempre foi mais explícita. Parecia dizer sobre as coisas que sentia como se elas não carregassem um significado intrínseco, como se fosse fácil, como se fosse comum. Ele fazia os sentimentos e as palavras que costumava odiar debruçar-se sobre tornarem-se belos aos seus olhos – e aos seus ouvidos, e aos seus lábios, e todos os outros sentidos.
Apenas escutavam a respiração um do outro, além do barulho ambiente no fundo da ligação. Quis perguntar onde ele estava, só por curiosidade, só para que pudessem voltar às interações bobas e os comentários ácidos, só para que pudessem matar a saudade que apertava o seu peito em, apenas, conversar com ele, mas não se sentiu no direito.
Não era desconfortável ou constrangedor. Talvez ambos estivessem, naquele momento, processando o momento que compartilhavam – e talvez conversassem melhor pessoalmente, talvez não, mas ali, naquele momento, não parecia caber. Estavam imersos demais em seus corações acelerados para se preocupar com qualquer bobagem anterior: , bêbado, em sua consistente audácia em colocar-se para fora. , confusa, tentando entender o que se passava lá dentro.
É só que... Eu fiquei ok sem você. E eu sei que você tá ok também porque você é tipo imbatível na vida, mas é que eu não quero, sabe? — Ele continuou. — Eu não quero, . Agora que eu te encontrei, e puta merda como foi bom te encontrar, eu não quero ficar mais sem você. Eu tô ok, mas com você eu fico… melhor.
levantou-se rapidamente num impulso, apoiando os cotovelos na cama e com os olhos arregalados. Abriu a boca várias vezes, sem saber o que dizer, se forçando a responder, mas tudo que conseguiu sair da sua boca foi um:
— Você tá bem bêbado, .
E riu, a risada gostosa inundou os seus ouvidos em pequenas ondas sonoras de prazer e contentamento. Talvez ele a conhecesse o suficiente para saber que ela não saberia como responder nada melhor que isso diante de todas as coisas que ele tinha dito.
Eu não tô bêbado, . Eu tô puto. E levemente tonto…
— Achei que a gente já tinha passado da fase do “puto”.
Eu gosto de pensar que estou no controle da situação pela primeira vez, então vou permanecer puto por mais algum tempo.
— Você nunca vai estar no controle, meu amor. Eu só vou deixar você pensar que está no controle, entende?
E riu de novo, conformado, alcoolizado, a língua que enrolava quando ele falava certas palavras e as frases ditas sem pensar.
Sabe, , acho que eu já te disse isso, mas você pode conseguir o que você quiser toda vez que você me chamar de “meu amor”. Eu não vou nem ligar.
... — Ela riu, quase ficando sem jeito. — Você tomou a poção da verdade hoje?
Se ela se chamar Tequila, meu amor, eu tomei sim.
— Foi só modo de dizer... — bateu com a mão no rosto, referindo-se ao vocativo. A esse ponto, ela sabia que ele só queria deixá-la desconfortável.
Era o passatempo preferido dele.
Ah, qual é, . Todo mundo sabe que você é muito afim de mim. Para de negar.

.
— E aí? Se resolveram? Podemos mudar de assunto agora depois de duas horas de indagações do “por que será que a não está falando comigo?”.
Mitch perguntou, sentado na mesa do pub com Sarah ao seu lado, que dava uma risadinha ao balançar a cabeça em negação.
, que antes tinha um sorrisinho no rosto, voltou a sentar-se com uma careta ao notar que os amigos adoravam vê-lo naquela situação. era o mais alterado dos amigos, com certeza, que instigaram as ligações enquanto conversavam abertamente pela primeira vez sobre .
Era sua última noite em Londres. Ele estava indo bem em lidar com tudo sozinho e fazer perguntas ocasionais para sobre como ela estava, mas naquele dia em específico, depois de tudo o que havia visto, embriagado e solitário, não conseguiu segurar a língua.
— Também teve o “Será que ela recebeu a flor que eu mandei pelo ?” — Sarah completou, rindo, e o rapaz virou os olhos.
— E o “é que eu só queria entender o que aconteceu”.
— Parem de encher o saco. Não foi tanto assim.
, você ligou bêbado pra ela três vezes. Só aceita, cara — Mitch deu de ombros, com o braço por trás de Sarah, que segurava sua mão. estava de frente pra eles e voltava a beber sua cerveja, contrariado.
— É, . Ninguém aqui tá te culpando. A gente te abraça, sabe? Mesmo você sendo um puta gado! — Sarah levantou a sua cerveja num brinde, alegre, e Mitch riu, dando um beijo rápido na namorada.
— Eu estou profundamente arrependido de ter contado qualquer coisa pra vocês — constatou, com um sorrisinho controverso. E depois uma gargalhada com os olhos fechados e a cabeça girando um pouco. — Foda-se... Não tô não. Eu gosto de falar da , é um assunto interessante. E eu sou o líder da banda, então vocês são obrigados a me ouvir.
— Todo mundo sabe que a verdadeira líder da banda é a Sarah, — Mitch rebateu. — Mas a gente te abraça mesmo. A parece ser legal.
— Conquistou o coração do nosso boybander rápido demais — Sarah concordou, se inclinando pra frente para apertar uma de suas bochechas e lhe respondeu com um mini tapinha na mão para afastá-la. — Fora que ela colocou você e o Aaron no chinelo e essa é a coisa mais engraçada que qualquer pessoa pode fazer. Com todo respeito. A você, no caso, porque o Aaron me irrita um pouco.
— Um pouco? — Mitch perguntou, sarcástico, com uma entonação caricata.
— Quem não te irrita, Sarah?
— O meu lindo — ela respondeu, esmagando seu rosto com o dele.
— Mas ele é quem mais te irrita — retrucou, rindo.
Mitch e Sarah, com certeza, haviam entrado na lista de pessoas preferidas de nos últimos anos. Um lugar seguro para se estar em LA. Montar uma banda nova com pessoas que ele ainda não conhecia, pra fazer algo completamente diferente do que fazia antes – que ele nem mesmo ainda sabia o que era – fora, com certeza, um desafio. Mas um desafio que havia pagado muito bem ao lhe render dois de seus melhores amigos na vida. Acompanhou enquanto se conheciam aos poucos, estava lá quando eles começaram a se apaixonar, incentivou o início do relacionamento e era bom demais para ser verdade poder trabalhar junto e viajar o mundo com seus melhores amigos.
Mas realmente tinha muita sorte nessa vida, ele pensava. Era ele mesmo quem complicava as coisas.
— A Camille não te irritava tanto assim, o que é estranho.
— Ah, ela é legal, Mitch, não é uma pessoa ruim. Só... Aleatória, meio perdidona. Você que é observador demais e acaba notando que as coisas vão dar errado antes de todo mundo.
— Por que é que a gente entrou na Camille mesmo?
— Porque você nunca falou com detalhes do que aconteceu! — Sarah questionou. — Vamo lá, não pode ter sido do nada...
inspirou fundo, remexendo-se desconfortável na cadeira. Não havia contado para ninguém, realmente, nada muito a fundo sobre o que tinha acontecido com Camille no início do ano – apenas Florence e Alaric sabiam. Tudo o que Mitch e Sarah sabiam era que Camille e haviam discutido e terminado. Lembrar-se do evento, lembrar-se do dia, lembrar-se das palavras, do choque, do espanto, de tudo que se procedeu depois, fazia com que o estômago de se revirasse em seu abdômen. Engoliu em seco. Não fazia ideia de como colocar em palavras.
— Não tem muito o que contar... — ele deu de ombros, dando um grande gole em sua cerveja gelada ao tentar parecer tranquilo ao falar sobre o assunto que mexia com suas entranhas. — Depois daquele dia, nós nos encontramos algumas vezes, talvez uma ou duas.
— Sexo pós término é uma merda — Sarah fez uma careta, compassiva.
— Mas a gente perdeu o feeling, eu acho. Meio que não... — e nesse momento, gesticulou com as duas mãos. — Encaixava mais, sabe? Daí a gente decidiu terminar de vez.
E não estava mentindo quando disse isso. e Camille, realmente, não se encaixavam já fazia bastante tempo — quem sabe, em sua culpa, tivesse dificuldade em aceitar que não havia mais nada que pudesse fazer para reverter ou mudar o que havia acontecido. Já Camille, em sua dor, o punia.
— Já faz alguns meses desde que a gente se viu a última vez e acho que ambos estamos melhor assim. Ela, definitivamente, está em seu melhor momento — deu de ombros ao terminar.
Algumas vezes, em seu egocentrismo, bem no comecinho, secretamente desejou que ela tivesse ficado tão mal quanto ele ficou na época. E nem era mal por ainda estar apaixonado por ela, não era porque ele esperava que voltassem – por Deus, que não voltassem nunca mais, definitivamente não foram feitos para estar juntos –, mas não compreendia como Camille parecia ter lidado tão bem com tudo que aconteceu. Naquele momento, no entanto, estava feliz que Camille havia deixado o passado para trás e estava saindo com outras pessoas.
Deu de ombros. No fim de tudo, o relacionamento mais conturbado de sua vida havia passado e, apesar das perdas irreparáveis, havia lhe rendido algumas boas músicas para o álbum.
Sarah pareceu satisfeita com a informação, sorrindo orgulhosa do amigo que parecia mais maduro ao debater sobre o assunto.
Mas Mitch... Quando o olhar de se cruzou com o do melhor amigo enquanto dava um gole de sua longneck, ele soube que não havia se saído tão bem assim em sua trajetória misteriosa de carregar o fardo do seu segredo sozinho.
Mitch o olhava como quem sabia que havia algo de errado, apesar de não ter dito nada.


20

.

Naquele dia, estava especificamente hiperativo. Seus pés batucavam o chão num ritmo compassado que às vezes se tornava cansativo de manter. , mais sociável do que ele jamais esperou que ela pudesse ser, conversava animadamente com os seus amigos como se os conhecesse de outros carnavais, sentada no sofá de seu rooftop com Charlie, , Adam e Sarah.
Deveria admitir que estava meio assustado com o interesse que ela estava demonstrando em interagir com todo mundo. O problema era com ele, então? Porque, se bem lembrava, não costumava ser tão aberta assim para novas pessoas. Pelo contrário, aliás.
Bebeu um gole de cerveja ao encarar o grupo sentado nos sofás, rindo, enquanto ele fazia Piña Collada para e Adam. Charlie, e Sarah decidiram manter as cervejas.
Havia chegado em Los Angeles naquele mesmo dia pela tarde e deixado a parte da noite vazia para descansar — mas ficou entediado muito rápido. Depois de chamar os amigos mais próximos para passar um tempo juntos e colocar o papo em dia, pensou que era uma boa oportunidade de ver , também, visto que iria de toda forma. Não tinha nada a ver com o fato de que ele estava ansioso para vê-la de novo depois de três semanas.
Segurava a coqueteleira e observava de longe enquanto nem mesmo parecia lembrar que ele existia com as pernas cruzadas e os cabelos jogados para um lado só.

Quando abriu a porta da frente e deu de cara com ela e seu sorrisinho meio tímido acompanhado de olhos imponentes, quase sentiu vontade de mandar todo mundo embora e se enfiar com ela dentro do quarto. Era impressionante, diria até louco, o jeito com que se acendia por inteiro numa mínima troca de olhares com . Era um misto de reações vibráteis e explosivas que ele se esforçava para conter.
O clima estava meio tenso entre eles enquanto eles tentavam ler um ao outro naqueles primeiros segundos de contato. Mesmo com e ao seu lado, não conseguia prestar atenção em muitas outras coisas. Cumprimentaram-se, sorriram honestos em uma consensual alegria em finalmente estar perto, pôde envolver a sua cintura com os braços por um momento e sentir o cheirinho entorpecente do seu pescoço quando se encaixaram num abraço mais longo que o necessário. Fechou os olhos. Prestou atenção em cada parte do corpo dela que se encontrava com o seu. E então, tão rápida quanto chegou, afastou-se e assentiu. Depois desse momento, as interações não foram tantas assim — não diretamente, pelo menos.
Durante as apresentações iniciais, precisou ignorar Mitch e Sarah e seus sorrisinhos curiosos e perversos. Mas não precisou de muito tempo para que todos passassem a parecer um grupo só. A noite seguia divertida, todo mundo se dava muito bem. Explicaram toda a história do atropelamento para os que não estavam completamente inteirados da versão de e as risadas foram garantidas com as adesões de à história enquanto tentava evitar que os dois passassem tanta vergonha assim nas discussões bobas — alguém precisava lembrá-los que nem todos estavam acostumados com a dinâmica diferenciada que os dois mal conseguiam evitar ao estar juntos. Acostumaram-se rapidamente, no entanto, as risadas deixavam claro — as implicâncias fraternas de Pat e Isa exploravam sua criatividade em fazer piadas de cunho duvidoso um com o outro sempre que encontravam oportunidade.

Por algum motivo, esperava um outro tratamento de . Esperava que ela retribuísse os seus olhares, que ela investisse em conversar diretamente com ele, esperava que ela sentasse ao seu lado e demonstrasse intenção em recuperar o tempo perdido ao perguntar sobre sua viagem ou sobre as semanas que não se falaram.
não estava fazendo nada disso. Havia encontrado o equilíbrio perfeito numa atenção generalizada que ele era obrigado a dividir com todas as outras pessoas presentes. Vez ou outra, só quando ele não estava olhando, notava que o encarava — mas desviava antes que ele pudesse retribuir. Perguntou-se como ela conseguia. mal desviava os olhos dela durante a noite — nem fazia questão de disfarçar, na verdade. Só queria que os seus estivessem lá quando os dela chegassem. Não tinha nada melhor no mundo do que só olhar para e se deixar olhar por ela. Carregava algo de muito enigmático e, ao mesmo tempo, explícito em seus olhos. Contavam-lhe uma história que ele tanto tentava entender, demonstravam o carinho que ela tanto se esforçava para guardar, brilhavam com admiração à sombra das coisas que ela mais gostava… Os olhos de em todas as suas cores era, com certeza, uma das imagens que ele guardaria com um afeto aconchegante em sua memória.
— Você sabe que pra fazer o drink tem que mexer a coqueteleira, né? — perguntou ao colocar o braço ao redor de seu ombro e fez uma careta. — Carlito ficaria decepcionado.
Mitch deu uma risada mínima ao se posicionar em seu outro lado. Todos olhavam para o grupo em questão.
— Nem adianta mais. Com certeza o gelo derreteu enquanto ele encarava a . Vai ter que fazer outro.
olhou para a coqueteleira em mãos com as pequenas e inúmeras gotículas que caíam pelo copo pela diferença de temperatura enquanto o gelo derretia dentro do recipiente.
— A culpa não é minha de ela ser tão bonita assim, porra — resmungou, jogando o conteúdo na pia próxima e passando uma água na coqueteleira, disposto a refazer o drink. — E simpática. Por que a está sendo simpática?
deu dois tapinhas no ombro do amigo e balançou a cabeça em negação.
— Ok, simpática é exagero. A não sabe ser simpática.
— Eu achei que ela é bem legal.
balançou a cabeça, confuso.
— Eu não tô entendendo nada.
— Você tem muito a aprender sobre a nossa querida brasileirinha, meu amigo.
Mitch riu.
— Eu tô meio assustado, . Olha ali, ela e a Charlie com segredinho! Elas se conheceram hoje! Sabe quanto tempo demorou pra falar comigo? Sei lá, um mês? Uma intervenção da ? A queda de um cometa?
— A Charlie não passou com o carro em cima dela, né — Mitch rebateu com uma risada enquanto colocava os ingredientes no copo e começou a mexer o drink. também riu em concordância.
— Você é muito idiota.
— Eu vou ter que concordar com o dessa vez, . Você tá bobeando.
— Bobeando por que? A não liga pra interagir. Você não a conhece, Mitch. Ela tá te enganando!
— Mas ela liga pra você, otário — expirou e balançou a cabeça em negação. — É claro que ela quer conhecer os seus amigos. A é chata e antissocial, sim, mas não é boba nem nada. Se é importante pra alguém que ela se importa, é importante pra ela também.
arregalou um pouco os olhos ao colocar o conteúdo nos copos com canudinhos prateados de inox.
Aquela era uma possibilidade que não havia passado por sua cabeça. Conteve um sorrisinho ao pensar que estava se esforçando para fazer algo que ele nem ao menos havia pedido que ela fizesse. De todo jeito, queria que ela esquecesse deles só por um pouquinho…
Mas o seu ego massageado estava de volta no lugar enquanto o sorriso convencido voltava para o seu rosto. A sua perspectiva sobre a noite havia mudado completamente. Mitch, então, deu uma risada frouxa.
— E você, , tem muito a aprender sobre o nosso amigo britânico. Não se pode falar essas coisas pra ele. Alimenta o narcisismo.
Riu sem ao menos se preocupar em negar enquanto dividiam-se para pegar os copos e as bebidas e levar de volta para o grupo que ainda conversava animadamente.
Sentado de frente para que os observava voltar aos sofás com as bebidas, a expressão no rosto dele não era mais curiosa e confusa; era confiante, arriscava até um pinguinho de arrogância. Arqueou a sobrancelha notando a súbita mudança em sua feição e levantou a bebida para ele num cumprimento distante. O sorrisinho pendido em seus lábios tão imponentes e espertos quanto já sabiam de suas intenções.


.

A havia sido incumbida a missão de fazer caipirinhas para todo mundo. Sarah e Mitch, aparentemente, estavam com saudade da bebida que experimentaram ao visitar o Rio de Janeiro na última tour e ela havia gostado demais deles para negar. Mitch tinha uma vibe misteriosa que a atraía — todas as outras pessoas ali eram extrovertidas demais, animadas demais, dispersas, intensas, enquanto Mitch guardava suas opiniões para momentos específicos que se pegava esperando ansiosamente para que chegassem. Era interessante tentar descobrir o que ele estava pensando, visto que a sua voz era a menos escutada, apesar de ser também a mais esperada.
Sarah, no entanto, tinha um humor ácido e caloroso que se unia com o de . Tinham muitas coisas em comum, mas principalmente, o desejo quase inconsciente de cortar as asinhas de bem no meio. A cada piadinha que Sarah fazia, mal podia deixar de rir num companheirismo imediato. Adam, o mais velho, não pôde ficar muito e teve que voltar para casa para ficar com os filhos. E Charlie era doce, aconchegante e tinha a voz melodiosa que fazia colocar a mão no rosto e sorrir levemente, disposta a ouvi-la por horas a fio. Estava de olho nos olhares que ela lançava para , vez ou outra, secretamente bolando planos para juntá-los.
A verdadeira incógnita da noite, então, tinha nome, sobrenome e uma covinha irritantemente gostosa bem rente ao sorriso convencido e charmoso que insistia em esbaldar desde que voltou do pequeno bar pertinho da Jacuzzi. Do nada. Mas era muito esperta. A mudança de perspectiva havia sido mínima, porém não o suficiente para que ela deixasse passar despercebida. Era algo no jeito que a observava, na sua postura, na segurança que se inflou rapidamente.
Por dentro, estava nervosa. Seu estômago revirava na barriga antes encontrá-lo, apesar de ser boa em disfarçar. Se deixou levar por um momento, quando seus olhos se encontraram pela primeira vez na porta de sua casa. Ele a trouxe para perto de novo depois de algum — muito — tempo e quase pediu para que ficassem ali, grudados, pelo resto da noite. Sentiu o perfume, os braços firmes ao seu redor, a camisa mais casual e o cabelo recém lavado. Quis suspirar com o corpo que se aquecia por inteiro e a saudade que parecia se estender mesmo que estivessem frente a frente.
Mas o seu orgulho gritava, de alguma forma, implorando por atenção. Cuidado, . Sua mente alertava. E por mais que seu corpo resmungasse a cada centímetro que se distanciava, resolveu ser racional. E foi racional pelo resto da noite, não importava o quanto aqueles olhos verdes estúpidos faziam questão de perfurá-la toda vez que se direcionava para ela — que diligentemente fingia não perceber. Não por nada. Só por não dar o braço a torcer. Estava, sim, dando menos atenção para ele do que normalmente daria. Estava, sim, tentando se conectar com seus amigos de banda, porque queria que eles gostassem dela. Não que conseguisse discernir muito bem o motivo.
Apesar disso, se achava que teria o que quisesse e quando quisesse, estava muito enganado. , mais uma vez, estava determinada a ir de encontro com o ciclo interminável de suas conquistas fáceis e entregues. Não por ele — mas por ela. Precisava mostrar para si mesma que ainda estava no controle de suas próprias escolhas. Além do fato, é claro, de que ainda se perguntava qual era o seu nível de envolvimento com a modelo super famosa. Por algum motivo, não gostava da ideia de compartilhá-lo com outras pessoas — e era frustrante não poder dizer isso em voz alta sem parecer uma adolescente boba e imatura que não sabe lidar com os prazeres soltos e desgarrados da vida adulta em relacionamentos descompromissados. Perguntava-se como era tão fácil com Nate e tão… Tão… Intenso com . Qual era a diferença? Balançou a cabeça, decidindo finalmente respondê-los.
— Eu só preciso de limões, açúcar e vodka porque eu duvido que você tenha cachaça aqui.
Catch… o que?
molhou os lábios lentamente, tentando prender o sorriso ao se encararem. Ah, aquela porra de sotaque…
— Tem limões no bar? Açúcar? — perguntou, meio impaciente. Precisava sair dali. Precisava respirar fundo por um tempo e não interagir com ninguém, precisava se desintoxicar da presença emergente que convocava por alguns minutos.
— Não, só lá embaixo.
Esperou que ele se pronunciasse para ir lá buscar. sabia onde ficavam os limões, mas não sabia até que ponto estava livre para demonstrar a intimidade que compartilhavam quando estavam sozinhos ali — também estava tentando descobrir em que pé estavam, como deveriam agir quando tinham outras pessoas por perto, por isso decidiu ficar na sua. Respirou fundo, reprimindo uma careta, enquanto o cantinho de seu lábio pendia esperto. Fez menção em se levantar.
— Você vai lá ou…?
— Você sabe onde ficam as coisas, .
Ela quase corou, desprevenida. Engoliu em seco.
— Mas a casa é sua, ué.
— Eu…
— Pshhh — puxou para trás, tapando sua boca assim que ela tentou se predispor a ir buscar os ingredientes, atento às intenções do amigo.
e se encararam por um momento. Um reles segundo em que a tensão se construía e parecia ter seu núcleo na mesa de centro entre os sofás que ficavam de frente um para o outro.
— Ok.
E desceu, sozinha, até a conhecida cozinha que lhe despertava algumas memórias específicas ao olhar ao redor. Memórias vívidas demais. Memórias que pareciam tomar forma própria enquanto ela observava o ambiente e saltavam de dentro de sua pele.
Respirou fundo, fechou os olhos com força por um momento ao se apoiar na bancada e balançou os ombros numa tentativa de sentir-se menos tensa com o clima que havia se instalado entre eles. Era como se ambos esperassem pelo momento em que um deles iria abrir uma pequena fresta que fosse para que o outro pudesse entrar. secretamente ansiava por esse momento, um momento específico, um momento em que ela nem mesmo sabia qual era. Perguntava-se o que queria que acontecesse. Perguntava-se o que esperava que ele fizesse. Desejou que ele pudesse ler sua mente ao lembrar de uma conversa em especial.
Eu sempre falo o que eu penso, .
Mas você nunca fala o que sente.

Como se todas as nuances ali fossem demasiadamente delicadas, tinha medo de tocar e quebrar, tinha receio de entender as coisas errado e acabar metendo os pés pelas mãos — afinal, era fácil quando estavam sozinhos, era fácil quando ninguém sabia. Era fácil quando os encontros eram casuais e ele não ligava bêbado, quando ele não lhe dava flores, e ao mesmo tempo, aparecia aleatoriamente com a Kendall Jenner.
Colocou a mão no rosto por um momento. Que caralho, . Por que porra não conseguia esquecer a tal Kendall Jenner? Aquele nome maldito e as fotos malditas ficavam ressurgindo em sua mente despretensiosamente numa tortura infinda e as cenas que se repetiam num looping doloroso… Um bolo se formava bem na boca do seu estômago ao lembrar do contato e da proximidade que demonstravam ter ao estar perto. Não deveriam estar tão perto assim. Frustrada, grunhiu, pensando estar sozinha.
De repente, um pigarro. Quando virou os olhos quase arregalados para a porta, estava recostado na quina com as sobrancelhas arqueadas e os braços cruzados. Umedeceu os lábios. recobrou a postura e sorriu sem mostrar os dentes, franzindo o rosto assim que ficou de costas ao se direcionar à fruteira.
— Você demorou.
Ela pegou os limões um por um e colocou-os na bancada, procurando o açúcar com os olhos.
— Precisava de um tempinho. Acho que foi a cerveja.
— Tava pensando em quê?
— Lembrei de umas coisas.
Sorriu, convencido, sabendo exatamente do que ela estava falando.
— Eu também — concordou ao andar em sua direção.
Tudo parecia se mover em câmera lenta quando ele se posicionou atrás de . Quadril com quadril, o peito dele com suas costas, a sua cabeça apoiada na curva do ombro dela, a respiração pesada que soprava em seu pescoço a arrepiava por inteiro e a tensão que seus ombros ganharam ao tê-lo tão perto de novo depois de algum tempo. Os braços envolviam o torso e entravam em contato com a parte exposta de sua cintura… O indicador deslizou suavemente por seu abdômen e os calafrios o perseguiram. O queimor que sentia quando as mãos de lhe tocavam parecia deixar marcas. A vontade urgente de juntar seus corpos num só e finalmente matar aquela saudade parecia consumi-la naquele momento e em inúmeros outros. A sensibilidade aguçada, a mente em alerta, os olhos esperavam em expectativa.
As mãos dele, num impulso, giraram-na e empurraram seu corpo contra a bancada. Os narizes recostaram. As respirações descompassadas nos lábios entreabertos e os olhos dele que encararam seus lábios por um longo momento.
O cheiro que corrompia o ambiente era composto pelo seu perfume característico. sentia seu coração saltar pela garganta. Poucas coisas eram tão gostosas no mundo quanto o corpo de pressionando-a firme e incisivo contra uma bancada qualquer que fosse. Principalmente aquela. — Eu vim aqui te ajudar com os limões.
Encarou-o, sem saber como responder. Eram estímulos demais para que pudesse se concentrar. Mal conseguia pensar direito entorpecida por todas aquelas sensações das quais sentiu tanta falta... Mas precisava manter-se firme. Enquanto encarava seus lábios num martírio interno conflitante, de dentro do seu âmago a raiva acabou ressurgindo ao lembrar-se de um dos motivos pelo qual não grudava seus lábios com os dele num imediato e ansioso encontro.
Kendall Jenner.
recostou o cotovelo na bancada e afastou um pouco o rosto, colocando-se um pouco para trás.
— É por isso que está me pressionando contra a bancada?
Mas sua voz saiu um pouquinho mais irônica do que o planejado. Ele riu contra o seu rosto e um pequeno desconforto piscou entre suas pernas.
— Não. Isso eu tô fazendo porque você tá gostosa pra caralho hoje e eu não consegui resistir, por mais que tenha tentado.
— Tente mais um pouco.
— Acho que eu prefiro tentar outra coisa — ele sussurrou, aproximando-se novamente. Os lábios chegaram a se encostar, estavam perto demais para ser seguro. E quando estava prestes a fechar os olhos, foi mais rápida e virou-se de costas. Ele riu pelo nariz. — Mas você está me evitando.
Em qualquer outro momento teria deixado que a beijasse como ela também tanto desejava. Mas no fim das contas, preferiu preservar sua sanidade — pelo amor de Deus, mais alguns segundos naquela mesma posição e ela teria jogado no lixo uma noite inteira de esforços. Por isso, decidiu inclinar-se para frente na ponta dos pés ao tentar alcançar o açúcar, mantendo a bunda empinada para trás que roçou contra o seu corpo.
— Por que eu faria isso...?
… — quase repreendeu, com a voz falha, uma das mãos em sua cintura e a outra sustentava na bancada para apoiar o corpo.
se deixou provocar mais um pouco com um sorrisinho devasso ao deslizar contra o seu quadril desnecessariamente enquanto trazia o potinho para perto.
— Os limões, — sussurrou num tom de voz supostamente despretensioso e virou-se para ele novamente. — Você leva?
O semblante dele estava tenso. O maxilar travado e os olhos intencionais passeavam pelo seu rosto parecendo ciente das intenções de . umedeceu os lábios devagar, quase desacreditado, numa contradição sôfrega. Expirou contra a boca ainda próxima dele só mais uma vez antes de afastar com a cintura o braço que estava apoiado na bancada. Ele assentiu, meio desnorteado, ao observá-la andar até a porta.
— Levo — assegurou, antes de continuar: — ?
— Oi.
— Não vai embora... Fica hoje.


.

Passinho? — Mitch perguntou, cheio de sotaque na palavra. — Eu não lembro disso.
— Acho que não estava tão popularizado assim quando vocês foram lá…Ele chegou com o crescimento do Brega Funk. Mais especificamente na minha cidade. De nada.
— Porra, esse é o meu preferido — riu, levantando-se, ao tentar performar de maneira desengonçada os movimentos da dança tipicamente pernambucana, o que trouxe risadas em todos os presentes na roda. balançou a cabeça em vergonha alheia.
— Eu tenho certeza que não é assim — Charlie zombou, rindo, enquanto Sarah parava ao lado dele na intenção de imitá-lo. — , por favor, ajuda esses dois…
tentou, até, levantar, mas alta pela bebida, não conseguia parar de rir dos passos duros e performáticos de , enquanto algo que ela chamou de Hit Contagiante tocava nas caixinhas de som do rooftop de . Ele observava tudo com um sorriso debochado no rosto, enquanto ela ria com a cabeça recostada no ombro de .
Puta merda — disse, em português, sem conseguir se conter. — Olha isso, .
— Ele é nojento...
— Vem cá se você faz tão melhor assim, .
— Eu reconheço o meu lugar de gringa, . Apesar de que a Sarah tá fazendo um trabalho incrível.
— Tô me esforçando, amiga, mas é muito difícil! — Sarah reclamou, confundindo-se um pouco com os movimentos das mãos e do quadril, enquanto Pat se dispunha a continuar a mostrá-la. , finalmente, levantou-se e tomou sua posição de frente para os dois.
— Eu não faço ideia do que eles estão falando, mas eu tô com a sensação que essa música não vai sair da minha cabeça por um tempão — Charlie disse, parecendo prestar atenção na música enquanto olhava para cima. — Essa combinação… É uma coisa estranhamente fenomenal.
— Eu quero tentar também!
saiu do sofá e parou ao lado de que não conseguiu conter um sorrisinho discreto quase bobo para ele. Ele retribuiu, sorrateiro. Sabia o quanto ela ficava empolgada em espalhar a cultura brasileira por aí, sabia que ela sentia falta do seu país e que se sentia mais perto dele quando as pessoas se demonstravam interessadas em ouvir e aprender sobre. O que não era esforço nenhum, na verdade. Realmente tinha no Brasil um de seus lugares favoritos no mundo. A tatuagem em sua perna garantia isso.
— Tá, vamo lá. Você não precisa jogar o seu corpo todo pra frente. Impulsiona o quadril e bate com a mão, nessa posição aqui — demonstrou devagar. — Escuta a batidinha da música, não precisa ser tão rápido. São cinco vezes, ó. Um, dois, um, dois, três. E recomeça.
E apresentou passo a passo, empolgada, enquanto Mitch, Charlie e riam e cochichavam sobre as performances apresentadas. Os outros três pareciam tão empolgados tanto ao tentar imitá-la e permaneceram por um tempo em suas tentativas. Isa ria do jeito desengonçado que dançava, insistindo em fazê-lo aprender, mas os esforços eram inúteis. Claramente não tinha muito jeito. Era britânico demais.
mostrou mais uma série de passos antes que a música terminasse e cedesse lugar para uma outra música brasileira com uma batida impactante quanto.
— Essa não cabe o passinho — Pat reclamou ao cruzar os braços. — Quem foi o ser genial que inventou isso? Eu queria que eles pudessem se apresentar em So You Think You Can Dance.
— É porque esse é Funk mesmo, . São outros movimentos.
— Tipo aquele que você parece uma centopeia de duas patas?
empurrou-o de lado e virou os olhos ao ouvir as risadas.
— Desse eu lembro! Não é um que você se curva pra frente e faz meio assim? — Sarah perguntou, apoiando as mãos nos joelhos e movimentando o quadril para frente e para trás numa tentativa minimamente vitoriosa de fazer um quadradinho. bateu palma, rindo, enquanto a elogiava e tentava imitar, falhando miseravelmente.
— Você realmente consegue movimentar a bunda nesse ritmo, ? Eu já tô cansada só de olhar — Charlie reclamou, esparramando-se para trás no sofá e rindo. riu também.
— O que? A bunda da parece que se movimenta sozinha — rebateu ao tomar a sua caipirinha. — Tem vida própria ou sei lá.
— Vem, Sarah, me acompanha — se empolgou, novamente, puxando-a pelo antebraço e parando ao lado dela ao se curvar para frente. Quando chegou no refrão de Combatchy, rebolou a bunda súbita e abruptamente no ritmo da música e teve que engolir em seco, surpreso, embasbacado. Precisou respirar fundo e se concentrar para evitar certos constrangimentos ao ficar parado, em pé, sem reação, com as mãos na cintura.
Mas era quase impossível. Parecia insustentável manter-se são e inerte ao observar rebolar daquele jeito tão solto e despercebido bem ali na sua frente. Num mínimo segundo em que seus olhos se encontraram enquanto ela dançava, o coração de disparou. sustentou o olhar místico ao manter um sorrisinho canalha no rosto e continuar a movimentar-se no ritmo da música como se fosse fácil e natural. Mas quase tão rápido quanto chegou, seu olhar também se foi.
Sarah e até tentavam acompanhá-la, mas a música era rápida demais e o quadril de também. Eles riam e se divertiam nas falhas investidas em reproduzir seus movimentos, mas também admiravam a capacidade da brasileira que descia até o chão com a bunda que tremia e quicava quando ela se agachava na coreografia compassada.
, eu sou a sua fã! — Sarah, de repente, parou para observá-la, dando uns tapinhas na bunda dela. — Faz aquele agora!
Ela riu, concedendo ao pedido,e quebrou o quadril de maneira a desenhar um quadrado com o corpo. Rápido, consistente, repetido e arrebatadoramente sensual, os pensamentos que surgiam na mente de se tornavam mais e mais específicos. Sabia onde ela rebolava tão bem quanto. Sabia onde ele queria que ela fizesse aqueles movimentos.
Cada vez que o corpo de dançava daquela forma, por mais divertido e despreocupado que soasse, ficava mais e mais hipnotizado. Não conseguia desviar os olhos nem por um segundo. Ela abria e fechava as pernas ao se apoiar nos joelhos e descer com a bunda em um movimento mais lento que ondulava em seu corpo e se destacava na calça apertada.
— Faz comigo, Sarah!
— É impossíveeeeeel! Agora eu entendo porque é que o nosso amigo ali gamou… Olha esse bumbum!
E as duas riram, juntas, quando parou ao ouvir a frase. meio constrangida, sem saber o que dizer, deu uma piscadela e entrou na brincadeira. , ao tentar se recuperar do baque que era poder observar dançando e quase reclamando por Sarah tê-la feito parar, virou os olhos levemente.
— Chega de caipirinhas para a Sarah hoje — ele respondeu, logo depois de pigarrear.
Mas já era tarde demais e, ao sentar, teve que cobrir o colo com uma almofada por mais algum tempo antes que os outros fossem embora.
, no entanto, ficou.

...


Ela bebia sua própria caipirinha mantendo a boca ao redor do canudo prateado com um olhar defensivo, em pé, recostada ao pequeno bar quando voltou e parou bem na sua frente, recostando-se também. Havia levado os outros convidados até a porta ao despedir-se.
Estavam rente à bancada e de frente um pro outro. Encararam-se por alguns segundos em que o silêncio meio tenso meio engraçado se fazia presente, com os reconhecidos sorrisinhos espremidos de canto de lábio que mal conseguiam conter.
, como sempre, em sua postura imponente; já perguntava-se o que se passava na mente dela em todas aquelas inúmeras nuances que demonstrava. Por fim, riram um para o outro. Ele abaixou os olhos por um momento. A covinha apareceu e se encontrou a ponto de desistir de tudo e puxá-lo pelo pescoço para um beijo.
A dualidade que fazia emergir em suas vontades a enlouquecia pouco a pouco.
— Seus amigos são legais — ela decidiu quebrar o silêncio ao dar de ombros e voltar a envolver o canudo com os lábios rapidamente. assentiu, concordando.
— Eu notei que eles te conquistaram rápido. Você pareceu gostar mais deles do que de mim.
deu uma risada pelo nariz e franziu o cenho por um momento.
— Mas é porque eu realmente gostei.
Ele cruzou os braços, desacreditado.
— Eu duvido, — respondeu. — A gente pode conversar agora ou você vai continuar com charme?
Observou quando ela arregalou levemente os olhos e pressionou ainda mais os lábios ao redor do canudo, parecendo ter dificuldade em engolir o conteúdo. Ele quase quis rir do nervosismo que ela tentava conter ao se deparar com a famosa conversa.
— A gente já está conversando, né?
— Então tá. O que aconteceu? — perguntou, direto, e segurou um longo suspiro sem saber o que responder. Tanta coisa, , tanta coisa.
Pôs a caipirinha na bancada e jogou o cabelo para o lado, meio nervosa, meio desnorteada. Se tinha uma coisa no mundo que odiava fazer, essa coisa era a tal da discussão de relacionamento. Ela não sabia como fazer isso. Era péssima nesse tipo de conversa. Nunca conseguia dizer o que realmente queria, no fim das contas a outra pessoa entendia errado, terminava irritada e sumia, depois voltava e fingia que nada havia acontecido. Era o ciclo infindável de suas relações e permaneciam na sua vida as pessoas que conseguiam lidar com ele.
Mas agora reconhecia seus padrões. Havia feito um compromisso consigo mesma de lutar contra eles. Poderia escolher se abrir, mas parecia tão errado… Em contrapartida, como sempre, não parecia assustado com a indiferença que se esforçava tanto para demonstrar — pelo contrário. Estava disposto a confrontá-la, desafiá-la de volta. Sem saber o que dizer, sem saber o que fazer, num pico de desespero interno, olhou para o lado e disse a primeira coisa que lhe vinha a cabeça para ganhar tempo:
— Vamo pra jacuzzi?
desviou os olhos do rosto dela para a banheira de hidromassagem e depois voltou como se ela não fizesse sentido nenhum. Então, deu uma risada confusa e meio irônica.
— Você ouviu o que eu disse?
— Eu… ouvi.
— Se eu não te conhecesse tão bem, meu amor, eu iria pensar que você está tentando dar um jeitinho de fugir.
portou um sorriso amarelo ao cogitar cavar um buraco e enfiar a cabeça ali mesmo por ser pega no flagra. Mas ela nunca abaixava a cabeça.
— Que nada. Eu faço terapia agora e tudo mais.
balançou o rosto em contradição, meio desacreditado, andando até a banheira que ficava ali perto para ligar os jatos e checar a temperatura. Foi no armário e pegou duas toalhas. A banheira preencheu-se, então, com a água azul cristalina e uma luz esbranquiçada que parecia movimentar-se com a fumaça. Nesse meio tempo, tentava colocar sua mente meio alterada pelo álcool no lugar sem muito sucesso. entrou primeiro ao ficar só de boxer e sentar-se, por fim, e observou sem disfarçar os olhos bem atentos enquanto também se despia para entrar junto com ele, ficando de lingerie, mas mantendo a camiseta longa que antes estava amarrada.
Pensava sobre o que deveria dizer. Uma parte dela sabia que, por mais que tivesse se encontrado com Kendall Jenner, eles não estavam num relacionamento fechado; gostava de pensar que o conhecia o suficiente para saber que ele não faria isso, principalmente depois de tudo que compartilhou sobre suas experiências anteriores. Mas a outra parte o odiava por não mencionar nada. Quer dizer, ele tinha mesmo que mencionar?
De todo jeito, também pensava conhecer Travis na palma de sua mão..
Havia também uma terceira parte. A parte que queria deixar tudo isso de lado, transar com ele por uma última vez e depois sumir. Parecia mais fácil do que dizer qualquer coisa. Como explicar para ele se nem mesmo entendia o que se passava dentro dela?
sorriu com os lábios fechados, sentando-se perto dele, ainda que numa distância segura. Prendeu os cabelos num coque.
Se entreolharam por alguns segundos em que ela esperava que qualquer coisa saísse magicamente de sua boca e resolvesse as coisas de maneira independente. Ela até abriu os lábios levemente disposta a começar.
Queria começar. Tentava começar. Dispunha-se a dizer várias coisas e nada saía. Bufou, frustrada, e colocou as mãos no rosto. Não deveria ser tão difícil.
… — ele chamou, soando tão carinhoso que quase cedeu. — Não importa o que seja. Você pode me falar.
assentiu ao tentar facilitar as coisas. era, realmente, um mistério a se resolver, um enigma que seu cérebro não conseguia decifrar. E por mais confuso que estivesse, não conseguia deixar de apenas estar feliz porque estava ali com ela de novo. — É só que… Às vezes parece… Surreal. Eu não sei explicar.
— De um jeito ruim?
— De um jeito… Diferente, — ela suspirou, parando por um momento em que só se podiam ouvir os ruídos da água que borbulhava com os jatos da banheira. — Eu não sei explicar… Isso.
apontou o dedo entre eles num movimento contínuo ao gesticular. Se embolava com as palavras ao colocá-las para fora enquanto franzia o cenho. Por que as coisas que dizia pareciam melhores em sua cabeça?
— E por que você não consegue entender muito bem ainda quer dizer que não foi real? — perguntou, e se não fosse tão desconfiada, acreditaria que ele havia soado magoado ao entoar o questionamento. Encarava-a com olhos atentos e demorava a piscar, com a atenção focada no seu rosto e a testa fincada. — Não teve significado nenhum pra você?
— Não! — ela rebateu imediatamente ao abrir os olhos mais que o necessário num súbito receio em que ele entendesse errado. Era exatamente por isso que sempre optava pela alternativa em que não precisasse falar nada. — Quer dizer, sim! Calma… Ai, merda.
Boba. Quis bater a cabeça na quina da banheira por várias vezes por soar tão boba. Mal conseguia disfarçar o quanto essas conversas despertavam um profundo desconforto que se predispunha a crescer de dentro pra fora em seu corpo. Com toda sua costumeira postura eloquente, nariz empinado, palavras foneticamente corretas e orgulho intocável, se debatia internamente pela forma com que se perdia ao explicá-lo o fundamento de suas escolhas.
— Foi real pra mim, . Cada momento que a gente teve. Tudo que aconteceu entre a gente foi real pra porra.
Foi a coisa mais real que me aconteceu no último ano, ele pensou, esperando que ela respondesse, ansiando que ela correspondesse suas expectativas e sentisse o mesmo.
, só conseguia discorrer sobre como era desonesta e injusta a facilidade que ele possuía em colocar-se para fora. Engoliu em seco. Provavelmente estava mais alta do que pensava para aquela conversa.
— Eu não sei o que é. Eu não sei lidar com toda essa situação… Eu não sei como reagir quando alguém menciona aleatoriamente o seu nome. Eu posso dizer que te conheço? Eu não sei como eu devo me portar com os seus amigos… Eu não sei até que ponto eu devo ir… Eu tenho… Medo dos rumores. Eu não quero te causar problemas, eu não quero… Ser… A nova garota que o está pegando.
Falar tudo isso, para , mesmo que de maneira meio confusa, foi como tirar um peso de suas costas. Já para , ouvir tudo isso foi quase como um soco no estômago, uma pontada no seu peito. Não demonstrou, apenas assentiu, compreensivo. Esse era mais um dos momentos em que desejava que a fama simplesmente se dissipasse como um grito no vácuo. nunca havia demonstrado se incomodar com isso até então, mas pensar que aquele pudesse ser um problema entre eles mudava tudo. Ia além de seu controle. Não tinha o que ele pudesse fazer para evitar.
— Você pode só ser você mesma, , como você faria com qualquer pessoa. Eu tô aqui, você me conhece, a gente faz parte da vida um do outro. Não precisa fingir que não. Não precisa se preocupar comigo.
— É que parece tão delicado… Você não acha? — ela suspirou. — Eu... me assustei um pouco, . Eu não tinha processado de verdade o quanto tudo isso influencia em todas as outras coisas e eu…
— Você quer que eu me afaste? Porque eu não posso mentir pra você, Isa. Eventualmente a bomba estoura e não tem muita coisa que eu possa fazer.
— Não — respondeu, por fim, direta e segura. Eu não quero mais ficar longe de você, quis completar, mas não o fez. — A gente… Dá um jeito nisso.
E ele sorriu, largo e aliviado, colocando a mão no peito e sentindo seus ombros relaxarem um pouco. estava ali, com ele, depois de tantas semanas. Estava se esforçando. Parecia disposta.
Naquele momento, não precisava de mais do que aquilo.
— Eu posso finalmente te beijar agora?
— Ainda não — decidiu que aquele era um ótimo momento para trazer um outro tópico à tona. — O que você tem com a Kendall Jenner?
Ele riu, puxando a cabeça um pouco para trás numa confusão explícita.
— Que porra…?
— É, a Kendall Jenner, essa mesmo que você está pensando. Você está namorando com a Kendall Jenner ou só beijando pelos cantos?
Foi mais direta dessa vez. Sua voz possuía um tom mais firme e objetivo, assim como o jeito que olhava para ele. Apesar disso, repreendeu-se. , pare de falar tantas vezes o nome da Kendall Jenner!
Fechou os olhos rapidamente ao tentar se recuperar logo após espichar as palavras de maneira rápida e incongruente. Por Deus. Estava obcecada por uma Kardashian?
, por que você tá falando que eu tô namorando com a Kenny? — perguntou com o rosto franzido. arqueou a sobrancelha ao ouvir o apelido, sarcástica, mas esperou que ele continuasse. — Você sabe que eu não tô namorando com ninguém, não tenho nada com a Kendall. Eu queria namorar com você, na real, mas você mal atende uma ligação minha…
arregalou os olhos para . Não sabia como reagir. Uma explosão eufórica e efervescente se espalhou por seu corpo em um jato feroz e arrebatador ao tentar processar as informações. não era um filho da puta. Ele não era o Travis. Não estava enganando ninguém. Estava tudo bem.... Ela podia olhar pro rostinho dele e continuar pensando no quão sortuda era em tê-lo por perto, por mais que ainda não soubesse como definir as coisas.
, foi brincadeira, fica tranquila, não precisa sair correndo. Eu não vou te pedir em namoro. Pelo menos não hoje.
Ela respondeu a piadinha infâme com um sorrisinho debochado e desacreditado, aproximando-se de seu corpo de maneira lenta e quase imperceptível — mas tinha seu hiperfoco muito bem estabelecido em . Não havia nada que ela fizesse ali que ele fosse deixar passar. Seus corpos recostavam agora e mantinham o rosto de frente um pro outro.
— Pera, deixa eu tentar entender. Você e a Kenny… — e não disfarçou o veneno ao usar o apelido num tom de voz irônico. — Nada?
se deixou rir, sentindo a abertura que estava dando para que pudesse se aproximar com o braço ao redor de seu ombro. O seu coração se aqueceu ao tê-la tão perto de novo. Puta merda, quantas semanas faziam?
Sentiu uma vontade pulsátil e estarrecedora de abraçá-la bem forte, bem junto, com os corpos bem grudados. Tê-la perto, aninhá-la consigo e tirar aquela camiseta que cobria o seu corpo. Um impulso por deixá-la saber o quanto sentiu sua falta e ouvir que ela havia sentido sua falta também.
Contudo, tinha consciência de que precisava ir aos poucos. Precisava ser paciente.
— Isso tudo é ciúme, ?
— Não é ciúme, . É uma coleta de informações. Estou medindo o seu caráter. Supera.
— Ah, você não ficou com ciúme, então? Nadica de nada?
— Claro que não. Ciúme implicaria dizer que eu tenho certos sentimentos por você, o que eu certamente não tenho.
Mas em sua expressão deixava bem claro que não acreditava no que ela dizia.
— Isso é só sexo, então?
— Sim. Sexo e um golpe do baú.
Ele deu uma risada alta e sonora, puxando-a para o seu colo, que colocou uma perna de cada lado do seu corpo e envolveu seu pescoço com os braços. As mãos dele deslizavam pela parte mais baixa de suas costas até a sua bunda num deslizar lento que queimava.
— Entendi. Por isso que você não falou comigo nas últimas duas semanas?
Ela deu de ombros. Não adiantava mais negar. Passou a deslizar um dos dedos pelas tatuagens hipnotizantes do seu peitoral, concentrando ali sua atenção por um longo momento.
— Isso também. E pare de me olhar assim, você se acha demais.
— Calma, vamo dar um jeito nisso aqui antes — , então, pegou a barra da camiseta de e levantou-a, ajudando a passar por seu pescoço. Deu de cara com os seios semi cobertos pelo sutiã de renda transparente e umedeceu os lábios, encarando-os lasciva e desejosamente. Passou um dos dedos pela alça do sutiã e desceu pela renda até a sustentação, num olhar atencioso à cada gotícula de água que escorria por entre o vale.
Só isso. Só isso e estava pronta. — Porra, … Você ainda vai acabar comigo. — suspirou pesado. — Ok. Então só pra eu saber...
Abriu lentamente um sorriso sacana e apertou as mãos ao redor de seu quadril com firmeza. — Não te incomoda nem um pouco que eu a tenha beijado aqui? — logo depois de dizer, grudou os lábios em seu pescoço numa trilha molhada e vagarosa que descia até o seu peito. inclinou a cabeça para o lado e fechou os olhos, curvando-se um pouco para trás, inebriada pela sensação, irritada pela possibilidade. — Que eu a tenha tocado bem aqui? — Apertou as mãos em sua bunda e trouxe-a para frente com força. expirou num impulso. Seus rostos estavam tão próximos que seus lábios quase recostavam. Eles não paravam de se encarar.
— Vai se foder.
Ele riu, mordendo seu lábio inferior.
— Nada aconteceu, . A gente passou uma noite juntos como amigos. Era o aniversário da Cara, tinha um monte de gente. Você tem que aprender a não acreditar em tudo que vê por aí.
— Nada de nada?
— Nada de nada.
— Eu não acredito.
— Pra que eu mentiria pra você? — perguntou ao exibir uma falsa inocência. — É só sexo, né?
Mas ele não soava ofendido. Pelo contrário. O seu tom era divertido, carregado de flerte. Quase como se não acreditasse que aquele era o motivo para todo aquele sumiço.
, no entanto, tentava não parecer envergonhada. Mas estava.
— Por que nada aconteceu?
— Porque eu não conseguia parar de pensar em você, — virou os olhos. — Mesmo com esse seu plano ridículo de engravidar e ficar com todo meu dinheiro no final.
não respondeu, ela só sorriu com o canto do lábio, enfiou a mão pelos seus cachinhos aparados e o beijou. Lento, embriagante, longo, o sabor que a boca de possuía era substancialmente viciante — ela sempre parecia querer mais e mais e mais. O beijo que fez seu coração disparar e a saudade que apertava dissipar-se aos poucos, transformando-se em uma onda eufônica de satisfação. Expirava forte e tão excitada pelas mãos que deslizavam por seu corpo com destreza, ansiando pelo momento em que apalpasse os seus seios e retirasse aquela boxer insuportável para que eles pudessem fazer o que faziam de melhor: estar intrinsecamente, indiscutivelmente, inseparavelmente juntos. — Pera. A gente tem outro assunto pra debater.
Falou, entre beijo, e quase quis chorar de frustração. Afastou um pouco o rosto para olhar para ela que grunhiu em reclamação.
— Tem que ser agora? — perguntou, repousando a cabeça em seu pescoço. Beijou suavemente ali, perto da sua nuca, enquanto ele voltava a falar.
— É, . Eu te contei sobre a Kendall, mas você não comentou nada sobre quem é esse tal de Nathan — arregalou os olhos ao ouvir.
Puta que pariu, pensou. Pigarreou.
— O que tem ele? — Ela perguntou ao senti-lo puxar seu rosto com a mão para que pudessem se olhar. Engoliu em seco, uma mínima pontada de culpa que ela não sabia de onde vinha se fez presente. Não que ela tivesse feito algo de errado, mas ao mesmo tempo, por que não parecia certo?
— Você que tem que dizer, . Afinal, ele é o melhor lugar para se assistir o Camp Flog Gnaw.
mordeu o lábio com o rosto torcido ao ouvir a provocação irônica da foto que ele tinha curtido. Teve a sensação de que era sim, por birra, mas agora era palpável.
— A gente fica às vezes. Casualmente. Ele é meu amigo da faculdade.
— Vocês ficam desde a época da faculdade?
— É…
— Ah. Legal. Nas últimas semanas também?
— É.
— Legal.
— Teve uma outra pessoa também, a Alexis. Mas com ela eu não mantive mais contato, foi só um encontro.
— Ah.
— Tudo bem?
— Tudo bem.
— Você tá bravo?
— Não.
Mas o tom de voz dele nas respostas rápidas e automáticas não soava tão desapegado quanto ele esperava. Afinal, o que poderia dizer? estava, teoricamente, solteira. Ele não podia cobrar muita coisa. Sabia que ela não estava disposta a entrar num relacionamento naquele momento, sabia que ele tinha feito suas próprias escolhas em não ficar com Kendall por livre e espontânea vontade, sabia que o menor resquício de uma cobrança invasiva afastaria . Não podia dizer o que realmente sentia tão abruptamente quando estavam quase se resolvendo de vez. Respirou fundo, com o maxilar travado, sem conseguir evitar a sensação oxidante de imaginar a sua com ele, ou com ela, ou com qualquer outra pessoa. Fechou os lábios numa expressão inconsciente de desconforto. A sua testa estava fincada e desviou os olhos, passando a encarar um ponto específico da parede. Os seus pés mexiam-se, inquietos.
Meu amor? — Isa chamou, tentando apaziguar o clima que tornou-se um pouco mais tenso de repente. Beijou seu maxilar, mantendo a boca ali por mais tempo que necessário.
— Você é muito espertinha, . Nem vem.
Ela deu uma risadinha, impulsionando-se para frente e puxando seu rosto com a mão para que ele olhasse nos seus olhos.
sentiu-se extremamente confuso de repente. Sabia que tinha certo envolvimento com o tal Nathan, mas ouvir de sua boca era doloroso demais. Será que ela pensava que era fácil ser do tipo ciumento?
Não queria cobrar. Não queria soar bravo. Não queria deixá-la desconfortável. Sabia que ela não tinha feito nada de errado e nem precisava se explicar. Mas como conter o aperto que esmagava seu peito ao pensar que talvez estivesse mais envolvido nesse emaranhado que eles costuraram do que ela estava? A dúvida que martelava insistente em sua mente de que talvez não o correspondesse? A angústia em saber que ele não estava sendo suficiente para ela como ela já era para ele?
Não era possível, não era compreensível, não era decifrável que só ele estivesse sentindo tudo aquilo. Não poderia ser. Pensava no calor que se espalhava e corria por suas vias ao tê-la ali, a monumental estrutura da mulher de seus sonhos sentada no seu colo, beijando seu pescoço com os dedos em seus cabelos. Pensava no jeito que se olhavam e no gosto que sua boca tinha. Pensava sobre o prazer que sentia em estar dentro dela e pensava na forma que seu coração escapava uma batida na menção do seu nome.
Era injusto que só ele estivesse sentindo todas essas coisas — principalmente depois de tanto tempo sem sentir nada.
A conversa tinha ido de uma dose cavalar de esperança a uma facada profunda no seu ego. Além, é claro, da eterna dúvida quanto aos sentimentos inconstantes de .
— Com o Nate... A gente é só e apenas amigos. De verdade.
— Amigos que nem a gente?
Perguntou. Mas tinha certa ofensa e ironia na voz, referenciando tópicos anteriores, por mais doce e cautelosa que soasse.
— Não — ela respondeu, por fim. — Com ele, sempre foi... realmente... só sexo.
Ele a encarou. O olhar de tentava expressar o que ela não conseguia colocar em palavras. Ele desviou o olhar novamente sem saber o que responder. Deveria se sentir melhor? Com o maxilar ainda travado, tentando ficar tranquilo e voltar ao climinha gostoso que eles estavam e aproveitar o contato que trocavam, respirou fundo e manteve as sobrancelhas arqueadas enquanto continuava a deslizar o dedo por suas tatuagens.
— A gente, ... Eu e você… A gente é diferente. Quando você tá aqui e antes de tudo isso ter rolado eu… — ela começou, embolando-se um pouco com as palavras com os olhos fixos em onde dedilhava. , nesse momento, direcionou os olhos para ela novamente numa expectativa ressurgente que ela terminasse a frase. Levantou seu queixo com o indicador, curioso. — Por favor, não me pede pra explicar…
Assentiu, de certa forma, aliviado. Era diferente, ao menos. Podia se apegar nisso por enquanto.
Estava decidido a esperar por o tempo que fosse necessário.
— Então com o Nathan não tem golpe do baú? — perguntou, num tom mais suave, desabotoando o sutiã dela sem mesmo avisar. sorriu com os lábios cheios de segundas intenções ao deixar que o sutiã saísse por seus braços.
— Não, meu amor. Só com você.
A água quente da banheira não chegava perto da temperatura com que o corpo deles já se aquecia por dentro mediante à posição. A imagem de com as pernas abertas e o sexo tão próximo ao dele era suficiente para fazê-lo endurecer. abocanhou um dos peitos de e fez com um dedo movimentos circulares na auréola do outro, enquanto se deixava resvalar sobre o volume alto ainda preso na boxer numa fricção entorpecente. A renda da calcinha contra o seu clítoris era gostosa, a boca dele chupando seu peito, a estrutura dura que roçava na sua e fechou os olhos com as sensações que explodiam por todas as partes de seu corpo. Levantou-se com a bunda empinada, tirou a calcinha encharcada lentamente e, sem desgrudar os olhos dos dele, jogou-a longe. Sentou na borda da banheira e abriu as pernas, sugestiva, umedecendo os lábios em expectativa.
imediatamente entendeu o recado e aproximou-se com cuidado, posicionando-se bem no meio. Olhou para a sua parte mais íntima com um pulsante e saudoso desejo, ansiando encharcar-se de e do seu gosto. Passou as mãos firmes por suas coxas ao separá-las ainda mais e apertou com força. Colocou cada uma das pernas em seus ombros enquanto ela apoiava-se para trás com os cotovelos, puxou seu corpo pra perto pela bunda e enfiou-se ali, finalmente. Finalmente.
foi diligente, astuto e calmo, sempre no lugar certo. Sempre do jeito certo. Parecia conhecer cada um de seus principais pontos de prazer e investia neles com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo. , com a respiração já perdendo o compasso, se deliciava com o caminho que a língua dele percorria em seus pequenos lábios. Enfiou uma das mãos no seu cabelo, puxando com força, enquanto as ondas de prazer já começavam a se mostrar vívidas e intencionais. Chupou o seu grelo com uma dedicação devota que se intensificava em um arrematante e estrondoso efeito dominó que seria sua ruína. Duvidava que existisse um momento melhor que aquele. E então, parou. Lambeu, beijou, torturou, chupou os lábios, deslizou a língua lentamente por toda a extensão, chupou de novo, e de novo, e mais um pouco, chupou mais forte, chupou mais intenso, e voltou sua atenção pro pontinho inchado bem no topo. Sugou. pensou estar delirando — não podia ser real. Era , ali, novamente, olhando para ela com os olhos sedentos e voluptuosos enquanto desenhava seu mais polvoroso prazer com a língua, vestindo o sorriso cafajeste de quem tem certeza de que mais ninguém no mundo fazia se sentir daquele jeito. E estava certo. O coração de iria explodir, ela tinha certeza, se continuasse naquele ritmo, ela se desintegraria em tesão.
Gemeu o nome dele. Gemeu o nome dele incontáveis vezes porque mal podia controlar seus impulsos em chamá-lo. Em convocá-lo. Guardava seu mais intenso orgasmo na ponta da língua e em um lugar mais embaixo.
Pensando nisso, puxou sua cabeça para trás, desvencilhando as pernas com a respiração ofegante.
— Vem. Eu quero agora.
Ele deu uma risada pelo nariz.
— Você já foi mais obediente, .
— Para de enrolar e me fode logo — riu, puxando-o pela cintura e se inclinou para trás, apoiando-se. , de pé, pegou o preservativo que estava no bolso da calça e vestiu. Com uma das mãos segurando a coxa enlaçada em sua cintura e a outra ganhando suporte na borda, esfregou a glande por toda a extensão da boceta encharcada de — que virou os olhos, ensandecida. Reclamou, remexendo o quadril para intensificar o contato, mas ele colocou só um pouquinho. puxou-o para perto, impaciente, que se inclinou sobre ela numa risada satisfeita e, ao enfiar-se de vez, beijou-a também. Por alguns segundos ali, juntos, com os sentidos saltados e as emoções vibráteis, só se beijaram. E era gostoso, eufórico, alucinante, beijaram-se porque queriam apenas sentir um ao outro. Não era mais pelo orgasmo, definitivamente. Não era só pelo prazer. Era sobre estar junto. Sentir-se próximo. O mais próximo que conseguissem.
apertou mais a perna ao seu redor e voltou a colocar. Penetrou, inicialmente, com um cuidado terno e uma paciência invejável que ela não partilhava — mas ele segurou firme ao dar um tapa estalado em sua coxa como quem repreende. deu um grito surpreso e excitado ao sentir o queimor. O ritmo era compassado e as paredes de apertavam ao seu redor num envolver maquiavélico. E aí o ritmo foi aumentando. Aumentando. Aumentando. A velocidade passou a ser rápida e intencional. ia até o fim e metia com força.
Era absurda a redenção que o corpo de mostrava tão inconscientemente. Parecia sentir a descarga elétrica de cada uma de suas terminações nervosas numa intensidade exponencial. A mão que antes se apoiava na borda agora resvalava por seu corpo minuciosamente ao fazer questão de apalpar cada pedacinho de sua pele. Parou no pescoço, como sabia que ela gostava. Apertou e ela arqueou a coluna. Ao levantar-se um pouco, alterando minimamente a posição, sentiu-o roçar com seu clítoris e arregalou os olhos com o contato. — Porra. , puta merda. Continua.
E ele o fez. Aumentou a pressão e penetrou em ouvindo-a gemer alto e gostoso. Quando sentiu sua musculatura pélvica contrair-se involuntariamente num grito baixo e sôfrego, soube que ela tinha gozado. Investiu mais algumas vezes e, completamente extasiado pela sensação de ter ao seu redor, de tê-la consigo, explodiu em um orgasmo excruciante logo depois.
Encaravam-se ao tentar se recuperar enquanto tirava o preservativo e deixou que ela se recuperasse ao beijar toda a extensão de sua clavícula e seios, passando a mão por sua perna que dava pequenos espasmos. Sorriu safado ao perceber que ainda tinha a respiração completamente descompassada e sustentou-a pela cintura, trazendo-a de volta para a banheira em que ela se deitou sobre ele na água.
mantinha a mão na sua bunda e fazia um carinho com o polegar quando recostava a cabeça na curvatura do seu pescoço, dando pequenos beijinhos, eventualmente, quando voltaram a conversar. Conversaram a noite toda. Riram até a barriga doer e não se desgrudaram nem por um minuto. contou-lhe sobre a entrevista que teria naquela mesma semana, ele contou sobre a sua estadia em Londres e suas pequenas viagens pela Europa. foi tomada por uma alegria genuína ao observar a reação empolgada e tão esperançosa que demonstrou quando contou-lhe sua novidade. Transaram outra vez e dormiram juntos.
Além de todo o momento, da noite, dos amigos e das caipirinhas, compartilharam também a sensação de que estavam no lugar certo.


.

— O nome do álbum vai ser Fine Line — decidiu, finalmente, ao dar aquele dia como terminado no estúdio. Havia finalizado durante a tarde a música que tinha começado em Londres com Mitch e Harpoon. — Gosto da sensação de fechamento que a música traz no final com os instrumentos de sopro.
— Ficou muito bom mesmo, — Jeff assentiu, satisfeito. — Ótima ideia.
— O me ajudou bastante nessa parte. Ele gosta muito de orquestras.
— Ele é bom.
— É, ele tem alguma coisa de diferente, mesmo. Notei desde o dia que cantei com ele no bar.
Conversava com Jeff, empolgado, satisfeito. Ainda faltava uma boa parte da produção do álbum, algumas músicas a serem escolhidas e masterizadas, mas sentia que percorria o caminho correto.
Foi difícil despedir-se de logo pela manhã. Ao deixá-la em casa antes de ir para o estúdio, guardava no peito a sensação de que queria mais. Mais tempo, mais contato, mais conversas intermináveis, mais risadas, mais do calor que ela trazia. Conteve a vontade de encontrar-se com ela de novo ao sair para jantar com Jeffrey.
— Ótimo, então, porque aí a gente já pode passar pra outra fase dessa produção — Jeffrey sorriu, seguro. — O que acha de um documentário?
— Um documentário? — perguntou, animado com a ideia, porém, preocupado. — Mas a gente já tá na metade do álbum. E já teve o Behind The Album, também. Não vai ficar repetitivo?
— O Fine Line... — Jeff começou, mas logo parou para pensar um pouco. — Gostei desse nome, .
— Eu sou um gênio — gabou-se com uma risada, que rendeu a Jeff um balançar de cabeça, controverso.
— Bom, o seu novo disco, gênio, é completamente diferente do anterior. Agora que o desenvolvimento tá saindo mais natural é o momento perfeito pra conversar sobre o bloqueio anterior, os insights das músicas, mostrar um pouco da gravação. A gente pode passar uns dias numa casa em Malibu, bem distantes de tudo, terminar as composições… Focar numas músicas específicas, falar sobre elas. Acho que seria um material foda! Um show de abertura… Um teaser do documentário pode ser feito nesse show.
— A gente pode chamar de One Night Only — respondeu, considerando a ideia.
A melhor parte de trabalhar com Jeffrey, com certeza, era a leveza e a liberdade que sentia para tomar decisões. Aaron, que ficava com a parte midiática e burocrática, era sempre mais criterioso.
não havia pensado num documentário sobre o tal Fine Line, se fosse para ser honesto. Parecia um trabalho mais pessoal, íntimo, e compartilhar todo esse processo era mesmo meio assustador. Mas ao mesmo tempo sentia que, pela primeira vez, conseguia ser plenamente ele mesmo ao construir um álbum com suas músicas mais ousadas. O Fine Line, definitivamente, merecia um documentário.
Sorriu largo para Jeffrey que, além de seu verdadeiro empresário, era um grande amigo de longa data.
— Então é isso. O Fine Line vai ter um documentário!
— Eu já tenho conversado com algumas pessoas sobre isso, , uns projetos de roteiro. Analisamos tudo amanhã para que a gente já possa ter tudo definido ainda essa semana! Vou levar todo o material de portfólio pra gente decidir. Com sorte, semana que vem as gravações começam.
— Você é louco, Jeff — riu ao balançar a cabeça. — Mas é por isso que você é foda! O Mitchell tem que saber disso. Ele vai ficar todo sem jeito.
— Capaz de ele sair correndo — concordou com uma risada. — Mas a gente já pode pensar nos nomes… Por Trás do Segundo Álbum? Documentário do Fine Line?
fez uma careta enquanto mastigava.
— Você pode deixar o nome comigo, Jeff. É melhor.


Continua...



Nota da autora: FELIZ ANO NOVO SUAS SAFADASSSS!!!!! hahahahah <3 e aí, o que acharam? pelo amor de deus COMENTEM CARALHO HAHAHAHA eu tô muito ansiosa pra saber o que vocês acharam! finalmente o harry e a isabellinha se encontraram de novo e eu tô muito feliz que a gente vai fechar o ano assim, com eles juntinhos (mesmo que desse jeito doido deles hahahaha). TEM DE TUDO! tem piña collada, provocação na cozinha, emaranhado de grupo, tem harry fazendo passinho, isabella dançando funk, tem kardashian, tem dr, tem secso e tem documentário! HAHAHAHAHA fechando 2020 feliz por essa história, feliz por ter conhecido tanta gente massa por aqui, feliz que esses personagens existem e acalentaram meu coração nesse ano doido e incerto. vocês foram muito importantes pra mim! real stuff tá aqui até hoje por causa de vocês. e de todas as meninas que me apoiam todos os dias, vocês sabem quem são. eu amo todas vocês! espero que tenham gostado do capítulo, que vocês tenham um fim de ano MASSA e que 2021 seja um ano cheio de esperança pra todos nós. treat people with kindness, amigas. a gente se encontra de novo ano que vem <3


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