Última atualização: 13/04/2018 - Fanfic finalizada

Capítulo 1

Green Forest, Arkansas. 30 de junho.

O vestido verde claro roçava na grama baixa, arrastando consigo algumas folhas que haviam caído das árvores. Os pés descalços pisavam com delicadeza, evitando fazer qualquer barulho. Ela sabia que estava sozinha, mas era sempre melhor ser cuidadosa. Não queria nenhuma surpresa. Da distância que se encontrava, já conseguia sentir o cheiro característico da brutalidade que havia acabado de acontecer. O nó em sua garganta se apertou e ela apertou com força o pingente do colar que usava. Não demorou muito e logo encontrava-se na clareira onde o crime havia acontecido.
Ela olhou ao redor, era um círculo perfeito, como todos os anteriores, a luz da lua iluminava o centro, onde o corpo jazia sem vida. Ela sabia a direção que o alvo havia seguido, mas não podia se dar ao trabalho de persegui-lo agora. Tinha que observar a cena antes que os outros chegassem. Aproximou-se com cautela do corpo. O vestido lilás estava posicionado como se a mulher sem vida estivesse simplesmente deitada para alguma sessão de fotos ou para ser pintada por um artista competente. Mas a expressão em seu rosto e a mancha de sangue ao redor entregava a realidade. Os olhos azuis claros, quase transparentes de tão claros, estava arregalados, a boca aberta em horror num último grito que nunca foi pronunciado. Seu corpo estava de lado, os braços posicionados ao lado, tão delicadamente e antagônico àquela realidade que ela quase vomitou. Contornou o corpo e olhou as costas nuas da mulher. Dois cortes que começavam nas omoplatas e terminavam próximos à cintura. O sangue, agora estancado, manchou a pele alva da mulher no seu percurso até a grama.
A mulher abaixou-se e colocou a mão na testa da outra, acariciando o cabelo loiro quase branco. Permitiu que uma lágrima escorresse, não percebendo que caía na bochecha da mulher sem vida.
- Que os Espíritos te levem, irmã. – Ela sussurrou. Fechando os olhos por um momento tão breve que parecia apenas uma piscada. Ao longe, ela conseguiu ouvir a movimentação que começava na fronteira da floresta. Não sabia como eles sabiam, como foram avisados, mas não importava. Precisava ir.
Levantou-se e olhou ao redor, conseguindo encontrar facilmente a trilha do culpado por aquele crime imperdoável. Enquanto conseguia ouvir os passos adentrando na floresta, ela logo sumiu, seguindo seu caminho. Adentrou a floresta escura, aquela parte não mais iluminada pela lua como a clareira que acabara de abandonar, mas isso não seria um problema para ela. Conhecia aquela floresta como a palma da própria mão. Assim como o homem que perseguia, aparentemente. Ela não sabia como aquilo era possível, como ele podia ter tanto conhecimento sobre tantas florestas diferentes. Mas ele conseguia, antes de matá-lo, talvez perguntasse como ele conseguia fazer aquilo. Se desse tempo, claro.
A trilha a levou por um caminho que fugia da trilha que os andarilhos costumavam seguir quando se aventuravam por ali. Ela pulou troncos de árvores caídos, sentindo alguns galhos prenderem no vestido que usava, mas aquilo nunca lhe incomodou. Aos poucos, percebeu que o caminho a levava para fora da floresta, de volta à civilização. Claro, ele deveria ter feito aquilo para despistar os outros, a menos que tivessem cachorros, eles não pensariam em seguir por aquele caminho. Ela parou na beirada da floresta, mais um passo e estaria na estrada. Suspirou frustrada, não havia mais trilha a seguir. Provavelmente ela possuía um carro esperando por ele.
Passou a mão nos cabelos ruivos e olhou ao redor, poderia seguir em frente, voltando para a cidade e para o local que havia “pegado emprestado” para fazer sua pesquisa, ou poderia voltar para a clareira, ficar escondida, ouvindo os outros avaliando a cena. Resolveu que era aquilo que faria, talvez conseguisse alguma pista nova, algum detalhe que havia deixado passar e que poderia ajudá-la agora.

Lebanon, Kansas. 01 de julho.

O bunker estava silencioso. Como costumava ficar sempre que seus residentes estavam ausentes, ou quando eles faziam suas pesquisas usuais, como agora. Fazia mais de uma semana que não saiam do local, apenas para reabastecer a dispensa e a geladeira com garrafas e mais garrafas de cerveja. Dean suspirou frustrado, fechando o notebook e passando a mão no rosto. Estava cansado de não fazer nada. Queria um caso, alguém para socar, atirar... Qualquer coisa. Nem mesmo os vídeos pornôs conseguiam afastar o tédio do homem.
- Nada. Não tem nada. – Ele disse, frustrado, para Sam que parecia ler algo em seu próprio notebook. Ele se levantou e seguiu para a ponta da mesa que ocupavam, tirando mais uma garrafa de cerveja do pacote que comprara naquele dia mais cedo. – Não me diga que você está fazendo alguma pesquisa qualquer sobre qualquer assunto nerd. – Ele disse, percebendo que Sam sequer havia reagido a sua frustração.
- Eu acho que temos algo. – O irmão mais novo disse. Dean arqueou as sobrancelhas e esperou por mais informações. – Não sei como você deixou passar, honestamente. Mas, enfim, cinco mulheres, cinco cidades diferentes, a última apareceu ontem em Green Forest. Todas encontradas no meio de alguma floresta, sem qualquer vestígio ou pista de um suspeito.
- E o que há de estranho?
- Exatamente, não há qualquer informação sobre. As mulheres sequer têm identificações, todas desconhecidas. – Sam disse. Digitou algumas coisas no notebook e ficou em silêncio por algum momento. – Os relatórios da polícia são idênticos, todas tiveram a mesma causa da morte: cortes profundos nas costas. Dois.
- Algum órgão faltando? – Dean perguntou, tomando um gole da cerveja.
- Nada que conste aqui, mas outra coisa sumiu. – Sam disse, lendo o resto do relatório policial, Dean olhou para o irmão, esperando o resto. – Os corpos, assim que o legista terminou a avaliação em cada um, eles sumiram. – Dean franziu o cenho. Ele clicou em alguma janela e observou o que apareceu, arregalando os olhos em surpresa. – Uau.
- O que? – Dean se aproximou do irmão. O mais novo havia aberto as fotos de todas as vítimas, todas possuíam uma beleza que Dean nunca havia visto antes. Sequer conseguia encontrar palavras para descrever. – Talvez seja algum serial killer.
- Talvez. Mas até serial killers deixam alguma pista. Algum objeto faltando, ou alguma assinatura característica além da causa da morte. Esse não tem nada. – Sam levantou o olhar para o irmão mais velho. Reconheceu com facilidade a expressão de descrença do outro e suspirou. – Olha, estamos sem nada há dias, ambos entediados. Já fomos atrás de casos por muito menos. Vale a pena dar uma olhada, talvez possa ser algo.
- Ou não. – Dean disse. Ele olhou as fotos, algo naquelas mulheres o intrigava, e sabia que Sam sentia a mesma coisa. Ele suspirou e olhou o relógio, era cedo ainda, pouco depois do meio-dia. A viagem até Green Forest durava sete horas, quase oito, mas com Dean dirigindo, o tempo diminuía consideravelmente. Se saíssem agora, poderiam chegar lá antes das oito horas da noite. – A gente sai em dez minutos. – Ele disse.

Green Forest, Arkansas. 01 de julho.

Caia uma garoa fina em Green Forest quando eles pararam no estacionamento da delegacia. Haviam feito uma parada em um hotel para deixar suas coisas e colocar os ternos para se passarem por agentes do FBI. A delegacia era pequena e pouco movimentada, especialmente naquele horário. Os dois seguiram para o balcão de informações, onde um policial os olhava atentamente.
- Boa noite, em que posso ajudá-los?
- Boa noite. – Sam disse, apresentando o distintivo falsificado ao mesmo tempo em que Dean. – Estamos aqui pelo caso das mulheres nas florestas. – Ele explicou, não conseguindo explicar o caso de outra forma. – O xerife está presente?
- Um minuto. – O policial disse, seguindo por um corredor ao lado do balcão, não demorando muito para voltar. – Me acompanhem, agentes.
Sam e Dean seguiram o policial pelo corredor até chegarem ao escritório do xerife. Era um homem grande, alguns poucos fios de cabelo enfeitavam a careca brilhante. Terminava de falar ao telefone quando os dois irmãos entraram na sala, agradecendo com um aceno da cabeça ao policial que os acompanhara até ali.
- Sim, sim, eu ligo quando tiver novidades. – O xerife disse, desligando o telefone e levantando-se para cumprimentar os agentes. – Senhores, xerife Hailey, em que posso ajudá-los?
- Xerife. – Dean disse. – Gostaríamos de mais informações sobre o caso mais recente, a moça encontrada na floresta.
- Ah, sim... Não sabia que o FBI já estava no caso. – O xerife disse, abrindo uma gaveta e puxando uma pasta com todas as informações do caso.
- Estamos acompanhando há um tempo. – Sam informou.
- Bem, agentes, não tem muito a dizer... É a quinta moça encontrada, sem identificação e com dois cortes nas costas. – Hailey disse, observando algumas informações na pasta. – Todas bem vestidas, e encontradas numa floresta, na mesma posição. Enfim, está tudo aqui. – O xerife disse, estendendo a pasta para Sam.
- E quanto ao sumiço dos corpos? – Dean perguntou.
- Sim, ainda há esse fator. – O xerife suspirou. – Achamos que fosse um mito, mas hoje tivemos a nossa chance de provar o contrário.
- A moça encontrada ontem, já sumiu? – Sam perguntou, passando as fotos que o legista havia tirado.
- O legista terminou o exame no fim da madrugada, trancou tudo e foi embora. – Hailey explicou. – Hoje pela manhã, não havia sinal dela. Sumiu da mesma forma que as demais, sem qualquer vestígio.
- E não há nada, nenhuma pista de um suspeito?
- Agentes, ele é um fantasma, é a única explicação que podemos ter. Não há qualquer pista em nenhuma cena dos crimes anteriores. Nenhuma pegada, nenhuma trilha, um fio de cabelo... Nada. – Sam e Dean se olharam, sabiam que não se tratava de um fantasma, mas tinha que ser alguma outra opção... Só não sabiam qual.
- E quanto a arma do crime? – Dean perguntou.
- Sabemos que os cortes foram feitos com algo bem afiado, uma faca provavelmente, mas não há nada que possa confirmar também.
- O senhor teria o registro dos outros casos? – Sam perguntou.
- Claro, um segundo. – Hailey disse, levantando-se e saindo da sala. Deixando os dois irmãos sozinhos.
- Então, o que temos? – Dean perguntou, olhando a foto da moça.
- Não faço ideia. Nada que conhecemos faz algo do tipo. – Sam comentou. – Até a parte dos cortes pode ser qualquer pessoa, mas o sumiço dos corpos... Algum ritual?
- Bruxas? – Dean perguntou.
- Pelo menos sabemos que é humano. – Sam disse. Era a única conclusão que poderiam chegar naquele momento.
Hailey não demorou a voltar com as demais pastas dos outros casos, entregando aos dois irmãos, que agradeceram e deixaram um cartão para que o xerife os contatasse caso tivesse alguma novidade.
Sam e Dean saíram da delegacia e seguiram para o carro, pararam no meio do caminho em uma lanchonete para pegar sanduíches, bebidas e um pedaço de torta para Dean, e depois voltaram para o hotel. A noite seria longa analisando aqueles arquivos e tentando encontrar alguma pista que os indicasse que aquilo era área deles.

~ * ~


A mulher estava em pé ao lado da janela que havia no escritório do xerife da delegacia. Ela ouvia toda a conversa entre o xerife Hailey e os outros dois homens, que haviam se identificado como agentes do FBI. Eles haviam acrescentado o sumiço dos corpos ao caso, como se uma coisa estivesse ligada a outra. Ela permitiu-se abrir um sorriso, eles não sabiam de nada mesmo.
A conversa se estendeu por um tempo, ela quase foi embora, cansada de ouvir as mesmas coisas. Achou que aqueles tais agentes trariam alguma novidade. Mas algo mudou quando Hailey saiu da sala para buscar os outros arquivos. Os dois começaram a conversar. Seus tons de vozes mudaram, ela pode perceber. Não era mais tão sério quanto o que adotavam com o xerife.
- Bruxas? – Ela ouviu um dos dois dizer e arregalou os olhos.
Afastou-se da janela e seguiu para o estacionamento, conseguindo sentir a presença dos dois facilmente e encontrando o carro que usavam. Ela contornou o Impala preto até o porta-malas. Passou a mão no carro e novamente arregalou os olhos. Não podia ser.
- Caçadores. – Disse para si mesma.
Não conseguia saber se aquilo era algo bom ou não. Diversas vezes ouvira histórias sobre caçadores, até mesmo conhecera alguém que havia cruzado com dois uma vez, que ajudaram-na a escapar. Mas eles estavam investigando aquele caso, talvez eles não fossem uma ameaça. Pensou ela.
Sentiu a presença dos dois aumentando e afastou-se do carro, escondendo-se com facilidade. Conseguiu ouvi-los conversando, algo sobre passar em algum lugar para comer e depois voltar para o hotel. Prestou bastante atenção nos dois, gravando o que pudesse deles para conseguir encontrá-los depois e acompanhá-los. Precisava saber de qual lado estavam.

A noite passou com lentidão, enquanto ela acompanhava os dois irmãos lendo e relendo as informações dos casos. Eles haviam espalhado as fotos das moças pela mesa redonda e algumas pelas camas do quarto que haviam alugado. Vez ou outra trocavam alguma informação na esperança de alguma luz, mas nada. Um dos irmãos, o mais alto, com cabelo mais escuro, largara os arquivos do caso e começara a procurar algo no notebook. Enquanto o outro ainda lia com atenção as informações.
- Hm... – O mais alto soltou, chamando a atenção do irmão, e dela.
- O que foi?
- Ao que parece, essa não é a primeira vez que isso acontece. – Ele exclamou. Ela fechou os olhos, esperando pelo resto. – Dez anos atrás, mais sete casos parecidos. Sete mulheres, sete florestas... Todas muito bonitas, bem vestidas, nas mesmas posições... Exatamente como agora.
- Dez anos? – O outro irmão perguntou. – Que criatura, ou o que quer que isso seja, age de dez em dez anos?
- Dean, ainda nem sabemos quais possíveis criaturas têm esse modo de agir. – O outro disse. – Tempo de espera é o último detalhe que podemos analisar.
- Mas é algo, Sam. – Dean disse. – No momento é o que temos.
Eles voltaram a ficar em silêncio, o mais alto, Sam, agora olhava as informações que tinha dos casos anteriores. Eles achavam que o culpado daquilo era uma criatura... Sequer suspeitavam que era o oposto. Ela suspirou, quanto tempo demoraria para que percebessem a verdade?
- Tem alguma coisa nessas mulheres que não faz sentido. – O que se chamava Dean comentou após um longo tempo em silêncio, analisando as fotos.
- Além do fato de nenhuma ter identidade? – Sam perguntou.
- Eu digo fisicamente. – Dean disse. – Quero dizer, olhe essas fotos... Quantas mulheres você pode dizer que possuem essa... Essa beleza, não sei. Não é humano isso. Nenhum defeito, nenhuma marca sequer. Nada.
- Qual é a sua teoria? – Sam perguntou. Ela aproximou-se um pouco mais, querendo ter certeza de que não perderia uma palavra. Talvez ali começassem a seguir o caminho correto.
- Não tenho nada. – Dean disse. – Mas essas mulheres, elas não são normais. Sequer parecem humanas se formos analisarmos bem. – Ele argumentou, largando as fotos. Sam pegou algumas, analisando, tentando encontrar o que o irmão apontava. – Digo, elas têm a forma... Mas...
- Você não acha que... – Sam começou, percebendo o que incomodava Dean. – Você acha que elas são algo... sobrenatural? E que estão sendo caçadas?
- Faz sentido, não? – Dean perguntou. – Você também vê agora, não vê? Onde você já viu isso antes?
- Senhor dos Anéis, talvez?
- Tão nerd. – Dean suspirou. Ela sorriu.
- Se for assim, - Sam comentou, ignorando o irmão – o que elas são, então?
Ela sorriu mais um pouco, pelo menos agora estavam no mesmo livro. Pensou em plantar alguma pista, algo que pudesse ajudá-los a perceber logo. Mas não sabia como poderia fazer. Sequer sabia se realmente poderia confiar neles, e se resolvessem que aquele trabalho não cabia a eles e deixassem de lado? Voltassem para qualquer outra coisa que costumavam fazer? Não, ela tinha que esperar. Manteria a vigília sobre eles. Se tinha uma certeza, era que tinham mais alguns dias até o próximo ataque, talvez eles a ajudassem a parar aquela matança a tempo. Afinal, estava na hora de reconhecer, após quase quarenta anos de caçada, precisava de ajuda.

Capítulo 2

Lebanon, Kansas. 03 de julho.

Sam e Dean haviam decidido voltar ao bunker, visto que não havia qualquer pista em Green Forest. Eles foram até a cena do crime a procura de leituras que pudessem indicar alguma criatura sobrenatural como fantasmas, ou sinal de enxofre, talvez algum demônio estivesse fazendo aquilo. E para tentar descobrir algo sobre as vítimas. Foram também ao necrotério para ver se havia alguma pista quanto ao sumiço, e conversar com o médico legista. Mas tudo isso não acrescentou nada às pesquisas deles. Então voltaram ao bunker para pesquisar nos arquivos dos Men of Letters algo que pudesse ajudá-los.
- Podemos excluir bruxas da jogada. – Sam comentou.
- As vítimas não são bruxas ou a criatura que as matou não é?
- Pelo menos as vítimas. – Sam disse. Ainda não havia excluído a possibilidade de algum ritual.
- Mas não encontramos nenhum saquinho, talvez nem sejam as culpadas. – Dean disse. Sam preferiu mantê-las na lista mais um pouco. – Fantasmas estão fora, vampiros, lobisomens e chupacabras também.
- Estávamos considerando chupacabras? – Sam perguntou.
- Eu não sei o que estou considerando. – Dean disse. – Não temos nada, sequer podemos confirmar que as vítimas não são vampiras que cruzaram com algum caçador que possui alguma forma de matá-las com cortes das costas. – Ele suspirou frustrado. – Sam, isso é um beco sem saída. Já era dez anos antes, voltou a ser agora. Não sabemos nem por onde começar a pesquisar aqui. – Ele apontou para a biblioteca dos Men of Letters.
Sam odiava ter que concordar com aquilo. Não estava feliz em deixar um caso em aberto, mas Dean estava certo. Normalmente havia algo que eles encontravam e isso os ajudava a diminuir as possibilidades, a lista de suspeitos. Mas ali, não havia nada além da beleza incomum das vítimas. Ele fechou o notebook e suspirou, olhando para todos aqueles arquivos. Era a pior sensação que podia sentir, o dever não cumprido não por falta de vontade, mas por falta de qualquer outra novidade.

Green Forest, Arkansas. 04 de julho.

A chuva pesada caía em cima dela sem piedade. Seu corpo inteiro estava gelado, e fraco. Havia sido injetada com algo que não conseguia reconhecer. Inicialmente apagara completamente, e só voltara a recobrar consciência dez minutos depois. Demorou um pouco a reconhecer o lugar que se encontrava, mas logo depois percebeu estar em uma clareira, não a mesma onde encontrara a vítima anterior, mas ainda deveria ser a mesma floresta, pois ela reconhecia alguns detalhes. Aos poucos começava a voltar a sentir os demais membros do seu corpo, conseguia ter uma resposta de seus pés e dos braços, as pernas ainda estavam um pouco lentas.
Os demais sentidos ainda estavam aguçados, entretanto, e ela conseguiu sentir a presença dele ali na borda da clareira, protegendo-se da chuva que a congelava. Se estivesse em suas condições normais, a chuva não alteraria nada além da condição de seu cabelo. Mas com o elemento desconhecido injetado em suas veias, ela sentia o frio a consumindo. Ele pareceu sentir também que ela estava acordada e recobrando os movimentos do corpo. Não poderia demorar, ou perderia a oportunidade.
Lentamente ele se aproximou dela. Ela olhou para o lado, só então percebendo que estava deitada no chão com a barriga para baixo. Claro. Fechou os olhos com força e forçou seu cérebro a cooperar com ela, precisava ser rápida. Era mais treinada que as demais vítimas, tinha que conseguir escapar daquela situação. E ainda precisava guardar um pouco de energia para conseguir sair dali e percorrer quase oitocentos quilômetros para ajuda.
Quando voltou a abrir os olhos, os pés dele estavam ao seu lado. Ela respirou fundo, conseguindo sentir melhor suas pernas. Mais um fator a seu favor. Ela também conseguiu sentir a adaga que escondia na perna, ele provavelmente não esperava por aquilo. Achava justo ele também cometer um erro, assim ficavam empatados. Ela não havia percebido ele se aproximando, o que causou em sua captura. E ele agora não descobrira sua adaga, provavelmente pensando que ela era igual às demais.
- Como está, querida? – A voz rouca e áspera dele falou próxima ao seu ouvido. Ela sentiu seu corpo se arrepiar, e não por causa da chuva. – Prometo que não vai demorar. – Ele sussurrou.
Ela engoliu em seco, pelo menos não estava amarrada como as outras estiveram. Viu o brilho da lâmina que ele puxara do cinto da calça, inconscientemente retesou as costas, como se aquilo fosse ajudar em algo. Conseguiu discernir com facilidade o gélido da chuva e o gélido da lâmina. Ele percorreu com a faca toda a extensão das costas, indo e voltando duas vezes. Sem qualquer anúncio, pressionou a ponta com mais força em sua omoplata esquerda. Ela mordeu o lábio inferior e reprimiu o grito de dor, enquanto sentia a lâmina ir descendo, fazendo uma linha perfeita. Ela sentiu a fraqueza mais forte agora. Precisava agir antes que fosse tarde demais, se ele fizesse aquilo mais uma vez, perderia qualquer chance.
Respirou fundo, forçando o cérebro a trabalhar e comandar seus membros. Contando com a concentração dele em suas costas, e com o fato dele estar agachado, sem muito apoio, ela jogou o braço direito para trás, afastando a faca, e depois voltou com o mesmo para empurrá-lo. Ele certamente não esperava por aquilo, ainda contando com o fato dela ser igual às demais e demorar mais para perder o efeito da droga que injetara. Ela virou-se, ficando com a barriga para cima, sentindo o corte nas costas arder. Respirou fundo, não deixando aquilo incomodá-la e levantou-se rapidamente, ele já se recuperava da surpresa e preparava-se para atacá-la, mas ela ainda conseguiu ser mais rápida e acertou um chute em seu estômago, derrubando-o novamente. As nuvens haviam deixado a lua completamente encoberta, fazendo com que a clareira ficasse na completa escuridão, mas ela conseguiu perceber alguns detalhes dele, o suficiente para ter alguma pista. Não ficou para tentar atacá-lo novamente, não teria forças para isso, infelizmente. Afastou-se dele o mais rápido que pôde, o suficiente para conseguir se concentrar sem interferência e poder usar o que restava de seu poder antes de sucumbir completamente à fraqueza que a atingia.
Fechou os olhos e respirou fundo novamente. Quando voltou a abri-los, encontrava-se em frente a uma construção alta, e aparentemente abandonada, mas ela sabia que não estava. Com dificuldade, e com a visão turva, ela encaminhou-se para a porta do local. Mal conseguia se manter em pé, levantar o braço direito e bater duas vezes com força na porta grossa e pesada foi o máximo que conseguiu antes de escorregar pela mesma, o sangue escorrendo e manchando ainda mais o vestido azul claro – àquela altura, já completamente sujo com lama e folhas da floresta.

Lebanon, Kansas. 04 de julho.

Era madrugada, mas Dean ainda estava acordado. Nunca realmente conseguia dormir uma noite completa, eram raras as vezes. Estava acostumado a dormir só quando o sol estava prestes a nascer, quando seu corpo já não aguentava mais. Naquela noite havia decidido organizar o arsenal de armas que ele e Sam costumavam carregar no carro, fazia um tempo que não fazia aquilo, geralmente só conferia o grosso e deixava o resto. As diversas armas estavam espalhadas pela mesa, algumas desmontadas, outras esperando sua vez.
Terminava de limpar uma das armas quando ouviu a primeira batida. A princípio achou que fosse um trovão, pois a chuva que assolava Lebanon estava intensa, mas poucos segundos depois ouviu novamente. Ele franziu o cenho e levantou-se da cadeira, pegando sua arma de sempre, sabendo que aquela estava em perfeitas condições.
- Sam? – Ele chamou, sabendo que o irmão estava acordado.
Sem esperar o mais alto responder, Dean seguiu em direção à escada que levava a porta de saída. Sam chegou correndo, e observou o irmão com atenção. Aproximando-se da mesa e pegando uma arma que aparentava estar em condições de uso. Dean subiu com cuidado as escadas, Sam o seguiu, ficando um pouco distante. Ali em cima, a chuva podia ser ouvida com mais força, afinal, estava próximo à saída do bunker. Mantendo a arma em posição, ele colocou a mão na maçaneta, e olhou para Sam, que acenou positivamente, também reforçando a posição da arma. A atenção redobrada era devido à impossibilidade de alguém surgir no bunker àquela hora. Pouquíssimas pessoas sabiam chegar até ali, e geralmente ligavam avisando. Com rapidez, Dean girou a maçaneta e puxou a porta, abrindo-a com força.
Para a surpresa dos dois irmãos, ninguém os esperava para atacá-los, ao contrário. Assim que a porta foi aberta, um corpo caiu aos pés de Dean. Sangue, água da chuva e lama se misturaram no chão ao redor da mulher desmaiada. Guardou a arma no cós da calça e abaixou-se, conferiu se ela ainda respirava e ficou aliviado ao sentir o pulso. Mas ela estava mal, muito mal. Não sabia quem era, mas não pensou duas vezes antes de passar os braços por baixo dela e erguê-la, deixando para Sam a tarefa de fechar a porta.
Dean desceu a escada com a mulher no colo, deixando uma trilha de sangue para trás. Ele sentia o líquido quente escorrendo por seu braço, não sabia exatamente o que fazer, então depositou com cuidado o corpo da desconhecida na grande mesa que havia no meio da sala. Ele e Sam nunca usavam aquela mesa mesmo. Sam desceu a escada um tempo depois, após se certificar de que não haveria mais nenhuma surpresa e ter fechado a porta. Quando se aproximou da mesa, viu Dean afastando os fios de cabelo ruivos que estavam grudados no rosto da moça.
- Ela está congelando! – Dean comentou, colocando os dedos no pulso da mulher para procurar pelo pulso novamente.
- Eu vou pegar o kit e uns cobertores. – Sam disse, enquanto Dean olhava com atenção para procurar mais algum machucado além do que havia nas costas, a fonte do sangue que continuava a escorrer e manchava a mesa. Ele resolveu esperar o irmão voltar para virar a moça. A todo o momento as mesmas perguntas voltavam à sua mente: quem era ela e como havia encontrado o bunker?
Sam voltou e ajudou Dean a virar a moça com cuidado. Assim que ela estava de costas, e os dois viram o corte que havia em suas costas, as perguntas sumiram. Os dois se olharam e suspiraram. Se há um dia se encontravam em um beco sem saída, ali estava sua alternativa. Era cruel pensar em usar a moça como uma pista enquanto ela estava naquele estado, sabiam disso. Mas não puderam impedir o pensamento.
Ela usava um vestido igual ao das mulheres anteriores, apenas com a cor diferente, esse parecia ser azul – apesar de estar manchado com sangue e terra –, e tinha um decote em “V” nas costas. O corte era idêntico aos anteriores, começando na omoplata esquerda e terminando na altura da cintura, mas havia apenas um e não parecia ser tão profundo quanto ao das outras moças. Dean pegou uma das toalhas que Sam havia trazido e começou a limpar o corte, tirando a terra, as folhas e alguns galhos, o sangue continuava a jorrar, o que só causava estranhamento no homem, pois àquela altura, já era para o fluxo ter diminuído um pouco pelo menos. Enquanto ele limpava, Sam aproveitou para cobrir o corpo da moça, deixando apenas as costas livres. Ele pegou uma toalha e a dobrou, colocando sob a cabeça dela.
Os dois fizeram tudo em completo silêncio, não precisavam conversar, pois sabiam que tinham as mesmas opiniões quanto àquilo. Quando o corte estava consideravelmente limpo, e o sangue finalmente havia começado a diminuir o fluxo, Dean notou que o corte não estava tão profundo quanto parecia, então poderia fazer pontos falsos e isso deveria bastar, desde que ela não se mexesse muito. Mas a julgar pela completa inconsciência dela, ele sabia que ela não acordaria tão cedo. Sam ajudou-o a fazer os pontos falsos e depois a cobrir o curativo. Ele colocou outro cobertor em cima dela, agora em suas costas. Feliz em constatar que ela já estava bem menos gelada do que quando chegou.
Ao terminarem, os dois irmãos se olharam, sem saber o que deveriam fazer agora. Como proceder? Havia tantas perguntas que queriam fazer, mas sabiam que não adiantaria perguntar ao outro, pois a única pessoa que tinha as respostas estava desacordada. Talvez pudessem chamar Castiel, o anjo poderia ajudar de alguma forma, mas talvez não fosse sábio chamar alguém desconhecido sem antes saberem com o que estavam lidando.
Os dois limparam a bagunça na mesa o máximo que conseguiram. Provavelmente deveriam levar a moça a um dos tantos quartos que havia no bunker, mas podiam romper os pontos e talvez piorar sua condição, talvez ela tivesse algum osso quebrado, não saberiam dizer. O melhor a fazer seria esperar que ela acordasse. E tentar conseguir algumas respostas. Aproveitaram para limpar o sangue que havia pingado no chão também, tinham certeza que não conseguiriam dormir tão cedo. Não enquanto não conseguissem suas respostas.

Lebanon, Kansas. 09 de julho.

A última coisa que ela se lembrava era da porta grossa e das duas batidas que conseguira dar para chamar quem estivesse dentro daquele lugar estranho. Logo depois, a escuridão a envolveu e ela se deixou levar. Seu corpo congelava por fora, e ela sentia suas forças esvaindo mais rápido que o normal, algum efeito da droga e do que o homem havia feito com ela, além do enorme esforço que ela havia feito para chegar até ali. Não havia nada que pudesse fazer, apenas cair na inconsciência e deixar seu corpo se recuperar. Aquilo havia acontecido com ela apenas uma vez havia muitos anos, quando ainda era uma novata naquela carreira. Havia sido descuidada e quase morrera, felizmente estava sendo observada de perto pelo seu treinador, e ele a ajudara. Mas dessa vez parecera pior. Quem a havia atacado sabia bem o que estava fazendo. Sabia mais do que era saudável para qualquer um de sua espécie. Agora ela entendia ainda mais o temor que todos tinham dele. Ele sabia segredos que apenas elas deveriam saber. E isso era incrivelmente perigoso.
Na última vez, ela levara dois dias para se recuperar, indo e voltando em sua inconsciência. Dessa vez, foram cinco dias completamente no escuro. Quando voltou a recobrar os sentidos, estava deitada em algo macio com a barriga para baixo. Sentia uma leve ardência nas costas, no lugar onde fora mutilada. Seus sentidos ainda estavam falhos, assim como sua movimentação. Mas ela sabia que não estava em perigo. Sentia que havia alguém presente no ambiente, e esse alguém mexia no local onde a lâmina a cortara. Ela se mexeu, ainda que sem querer, quando a pessoa apertou algum ponto especialmente colorido. Logo depois sentiu a pessoa hesitar. Talvez não esperando que ela estivesse responsiva. Percebeu quando algo cobriu suas costas e quando a pessoa se retirou do ambiente. Ao longe conseguia ouvir vozes, mas com seus sentidos fracos, não conseguia ouvir o que conversavam. Não tentou abrir os olhos, ao contrário, permaneceu com eles fechados, sentindo que voltava à inconsciência.

Quando voltou a acordar, parecia melhor. Sentia que ainda era o mesmo dia e que não estava sozinha novamente. Seus sentidos estavam melhores. Ela conseguia ouvir melhor, e sentir mais sobre o local em que se encontrava. Um dos rapazes estava ali, mas não conseguia discernir qual era. Não importava, continuava sabendo que não estava em perigo. Ela respirou fundo e se remexeu, sentindo o incômodo nas costas. O rapaz se moveu.
- Eu não me mexeria se fosse você. – Ela ouviu a voz dele, ainda não conseguindo discernir qual dos dois falava. – Seu corte está melhor, mas nós o pioramos um pouco quando te trouxemos para o quarto, então tome cuidado. – A voz dele era reconfortante, um pouco rouca.
Ela mexeu os dedos e o braço um pouco, feliz por saber que seus movimentos estavam plenos novamente. Não se sentia completamente curada, não estaria enquanto o corte em suas costas não fechasse, o que não deveria demorar a acontecer, dois dias no máximo, assim ela esperava. Mas só em ter seus movimentos e seus sentidos de volta, e estar segura, já lhe era suficiente. Respirou fundo e arriscou abrir os olhos. Agradeceu pelo quarto não estar completamente iluminado. A luz presente provinha de dois abajures que ficavam em uma prateleira acima da cabeceira da cama. Para o lado que seu rosto estava virado, ela podia ver uma cadeira e seu ocupante. Se sua memória ainda estava boa, e ela sabia que estava, aquele que a ocupava era Dean, o irmão mais velho.
Os olhos verdes do homem a observavam com atenção, não havia temor ali, apenas preocupação e curiosidade. Ela podia apostar que a cabeça do homem fervilhava com diversas perguntas que só ela teria as respostas. Mas ele não as faria agora, ela podia perceber isso, sabia que ele esperaria até que ela estivesse bem o suficiente para conseguir ficar deitada com a barriga para cima pelo menos. Ele se mexeu com cautela, como se temesse assustá-la. Mas pôde ver nos olhos dela que ela não tinha medo, de alguma forma, parecia conhecê-lo.
- Como está se sentindo? – Ele perguntou. Mantinha o tom de voz baixo, provavelmente para poupá-la de algum incômodo. Havia se adiantado para frente, apoiado os antebraços nos joelhos. Mantendo os olhos atentos em cada movimento que ela fazia.
- Aquecida. – Ela disse, constatando que não sentia mais como se estivesse congelando. Arriscou uma risada, fazendo-o sorrir um pouco. – Estou bem. – Completou.
Dean sentia-se levemente hipnotizado pela voz da mulher, não sabia o que esperar, mas definitivamente não esperava aquele tom de voz rouco e suave. Ele a observava atentamente, preocupado que ela fizesse algum movimento brusco que pudesse piorar seu machucado. Ele e Sam haviam, no dia anterior, decidido finalmente tirá-la da mesa no meio da sala, confiando que o machucado em suas costas já estava estabilizado e fora de risco. Mas o menor dos movimentos fez os pontos se abrirem e a ferida voltara a sangrar um pouco – bem menos do que quando ela havia chegado ali, pelo menos. Durante todos aqueles dias o único indício que ela estava viva era o movimento de sua respiração, porque, fora isso, ela não emitira qualquer som e sequer mexera os dedos.
- Eu sei que você precisa descansar. – Ele disse, ela o olhava com curiosidade. – Mas precisamos pelo menos saber seu nome. – Ele optou pela informação mais básica, era difícil ter que ficar se referindo a ela como “mulher misteriosa” quando conversava com Sam sobre o estado dela. Quando ela estivesse completamente bem, então arriscariam as demais perguntas.
- Vocês devem ter milhares de perguntas e você opta pela mais banal de todas. – Ela disse, fechando os olhos enquanto sorria.
- Preferimos guardar as outras para quando você estiver melhor. – Dean disse. Não conseguindo deixar de se perguntar como ela sabia que eles eram um plural e não havia só ele ali.
- . – Ela respondeu, suspirando em seguida. Queria se mexer, mas não queria causar mais trabalho, conseguia sentir que seu ferimento estava muito sensível ainda. – Meu nome é .
- Você deveria voltar a descansar... . – Dean disse, percebendo o incômodo dela. – Você está segura aqui.
- Eu sei. – Ela disse, tão baixo que ele mal conseguiu ouvir. Voltou a fechar os olhos e logo estava inconsciente de novo. Queria ter feito isso desde que voltara e percebera que havia recobrado seus sentimentos, mas resolveu confirmar que estava com quem achava estar.

Dean saiu do quarto, fechando a porta atrás de si e seguiu para a biblioteca, onde Sam estava, há dias, pesquisando e tentando achar as respostas para as milhares de perguntas que eles tinham. Parou apenas no meio do caminho para passar na cozinha e pegar uma cerveja, abrindo-a e jogando a tampinha no lixo, pegou também uma rosquinha que o irmão trouxera naquela manhã.
- Ela acordou. – Informou, encontrando Sam procurando algo em uma das gavetas cheias de arquivos que eles possuíam.
- E ai?
- Já apagou de novo. – Dean deu de ombros, dando uma mordida na rosquinha e depois tomando um gole da cerveja.
- Descobriu alguma coisa?
- O nome dela. – Comentou, sentando-se na cadeira em frente ao seu notebook. – .
- Algo mais?
- Bem, de alguma forma ela sabe que eu não sou a única pessoa aqui. – Dean disse, olhando rapidamente para a expressão confusa que o irmão fazia. – Eu sei, também não estou entendendo nada. A única coisa que podemos fazer é esperar até ela acordar de novo, e dessa vez que ela esteja melhor.
- Pelo menos temos um nome para buscar nas pessoas desaparecidas. – Sam disse. Dean acenou positivamente com a cabeça e começou a procurar, mas teve tanta sorte quanto o irmão estava tendo com as pesquisas. Nenhuma.
Os irmãos já tinham revirado aquela biblioteca inteira a procura de qualquer pista que pudesse ajudar a entendê-los o que estava acontecendo, mas não havia nada. Ou talvez houvesse e eles não saberiam reconhecer – o que Dean considerava ser uma grande possibilidade. Também já haviam discutido a possibilidade de contatar Castiel, mas decidiram esperar ter certeza para conseguirem fazer as perguntas certas.

Capítulo 3

Lebanon, Kansas. 11 de julho.
demorou mais dois dias para voltar a acordar. Quando o fez, encontrava-se sozinha no quarto. Mas conseguia sentir os irmãos pelo local, não muito distantes de onde ela estava. Arriscou se mexer e sorriu satisfeita ao perceber que o machucado em suas costas já estava melhor. Ela conseguiu se virar na cama, olhou ao redor. O quarto em que se encontrava era bem rústico, não havia decoração alguma. Apenas umas estantes com alguns livros, uma pia e um espelho na parede próxima a porta. A cama não era muito confortável, mas dava para viver. Ela arriscou se sentar, e sorriu quando conseguiu fazê-lo. Olhou para baixo e constatou que ainda usava o vestido azul claro, que àquela altura tinha pouquíssimo resquício da cor original, estando predominantemente marrom e marrom-avermelhado.
Levantou-se da cama, sentindo seu corpo protestar um pouco, não fazia ideia de quanto tempo estava deitada naquela mesma posição. Ela conseguiu perceber que aquele quarto não era usado, talvez fosse a primeira hóspede, mas havia uma muda de roupa na poltrona que, no outro dia, era ocupada por Dean. Ela se perguntou se aquilo era para ela, mas resolveu arriscar. Retirou o vestido e o jogou em um canto afastado, depois se preocuparia em jogá-lo no lixo. Aproximou-se do espelho e virou-se de costas, analisando o corte. Eles haviam feito pontos falsos nela, o que era um bom sinal, indicando que o corte não era profundo. Não estava completamente cicatrizado, mas não havia mais perigo de abrir novamente, a menos que ela lutasse contra alguém. Mesmo sabendo que não havia perigo, ela aproximou a mão do local com cuidado, sabia que mesmo após cicatrizado, ficaria uma marca. Saiu de perto do espelho, e aproximou-se da poltrona ao lado da cama, observando a muda de roupa que havia ali. A roupa consistia em uma camisa de flanela e uma calça, mas esta ficara grande demais nela, caindo a todo o momento, então ela ficou apenas com a camisa, que ia até metade de suas coxas. No gancho atrás da porta havia um roupão cinza que ela usou por cima, amarrando-o na cintura. No pé da cama havia um par de chinelos, que ela calçou.
Abriu a porta e olhou ao redor. Encontrava-se em um corredor com portas idênticas àquela do seu quarto. Para a esquerda, o corredor seguia com mais portas fechadas, e para a direita ela conseguia ouvir a movimentação dos irmãos. Encostou a porta atrás de si, não querendo quebrar o padrão das portas fechadas, mas querendo identificar depois qual era a “sua”, e seguiu para a direita, olhando tudo ao seu redor com atenção. Não fazia ideia do que era aquela instalação, sabia que havia uma força poderosa que a protegia e não fosse a conexão que estabelecera com os irmãos naquela vez que os vigiara, nunca teria conseguido chegar até ali. Talvez fosse aquela uma das razões por ter se desgastado tanto, nunca tivera que usar tanto de seu poder de uma vez.
O corredor a levou até uma sala ampla, cheia de estantes com livros e vários arquivos com diversas gavetas. Os irmãos estavam sentados a uma mesa, cada um com um notebook aberto a sua frente. Dean foi o primeiro a vê-la, pois estava sentado de frente para ela. Mas Sam logo percebeu a movimentação do irmão e virou-se para ela. preferia que não o tivesse feito, pois de repente estava completamente sem graça, sem saber o que falar e como agir.
- Ei, você acordou. – Dean quebrou o silêncio, apontando o óbvio. sorriu um pouco sem graça.
- Sim... – Ela alisou o roupão que usava. – Espero que não se importem eu estar usando isso, estava no quarto.
- Não... Nós colocamos lá para você. – Sam disse, sorrindo gentilmente.
- Ah, obrigada. – disse. – E, obrigada, de novo, por cuidarem de mim. Sinto muito por qualquer inconveniente e problema que posso ter causado. – Ela completou. Sabia que aquele lugar não era tão fortemente protegido à toa. Ela provavelmente nem deveria estar ali.
- Só fizemos nossa obrigação. – Sam disse. Ele se levantou e se aproximou dela. – Você está com fome? Quer comer algo? Beber algo?
- Sam, devagar. – Dean avisou. olhou para os dois e sorriu.
- Não, está tudo bem. – Ela disse para Dean. Depois se voltou para Sam. – Eu não quero atrapalhar, mas não recusaria comida. E água, talvez?
- Sente-se, fique à vontade, eu já volto. – O mais alto disse, contornando a moça e sumindo em uma curva do corredor.
- Algo me diz que vocês não estão muito acostumados a receber visitas. – Ela comentou, ocupando uma das cadeiras livres.
- Realmente, não é muito comum recebermos visitas. Geralmente somos só nós dois e Castiel.
- Cas... tiel? – franziu o cenho. – Nome incomum.
- Combina com ele. – Dean deu de ombros. Eles ficaram em silêncio por um tempo. – Como está o corte?
- Ficará uma cicatriz. – Ela comentou, não parecendo feliz com aquilo. – Mas pelo menos não morri.
- Pelo menos isso. – Foi Sam quem comentou, voltando com uma bandeja, a qual depositou na mesa, em frente à . Havia um prato com um sanduíche, uma xícara com um líquido marrom que, pelo cheiro, ela julgou ser chocolate quente e um copo com água.
- Obrigada. – Ela agradeceu, olhando o mais alto e sorrindo. Bebeu a água primeiro, já havia percebido desde que acordara que tinha sede, aceitaria mais, mas depois pensaria nisso. Seu estômago finalmente dera sinais de vida. Ela pegou o sanduíche e deu uma mordida. Percebia que os irmãos revezavam os olhares entre elas e eles próprios. Ela quase riu, não tivesse com a boca cheia. – Vocês têm perguntas... Muitas delas.
- Nós podemos esperar você terminar. – Dean disse, provavelmente o oposto do que Sam esperava. O irmão mais novo parecia ser mais curioso. Enquanto o mais velho parecia mais preocupado com ela. deu mais uma mordida grande no lanche, fazendo Dean arregalar os olhos um pouco, ele só vira uma pessoa dar uma mordida daquele tamanho em um lanche. Ele próprio. Após mastigar e engolir, tomou um gole do chocolate quente e voltou-se para os irmãos.
- Podem perguntar. Posso fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo. – Ela apontou.
Sam e Dean se olharam. Naqueles dias, haviam conversado diversas vezes sobre as inúmeras perguntas que tinham para a hóspede. Sam havia até mesmo cogitado a possibilidade de anotar as perguntas para conseguirem se organizar melhor. Dean havia informado que, em qualquer situação, eles deveriam começar pelo mais simples. Não sabiam qual era o tamanho do dano que o acontecido havia causado em , então era melhor adotar a cautela. Não precisavam descobrir tudo em um dia só. Em todas as discussões que tiveram sobre o assunto, os irmãos concordaram que pelo menos uma questão deveria ser eliminada de vez, e foi Dean quem perguntou.
- Como você chegou aqui? – Ela havia aproveitado a troca de olhares dos irmãos para tomar mais um gole da bebida quente e dar uma mordida no lanche. Terminava de mastigar quando Dean se pronunciou.
- Eu segui vocês. – Ela optou pela resposta mais simples. Não era uma mentira exatamente. Era meia verdade. Sabia que podia confiar neles, mas antes de contar toda a verdade, precisaria sondá-los um pouco, descobrir o que eles sabiam. – Quando foram a Green Forest, eu ouvi a conversa de vocês com o xerife.
- Você é uma caçadora? – Sam perguntou.
- Sim. – Mais uma que não era mentira. – Quando descobri que vocês também eram, resolvi acompanhá-los. Ver se vocês tinham mais sucesso que eu.
Os três ficaram em silêncio. Os Winchester sabiam o que deveria vir a seguir, mas nenhum dos dois queria se pronunciar. aproveitou para finalizar o lanche e tomar mais um gole da bebida, mantendo a xícara entre as mãos para esquentá-las. Ela sorriu, percebendo novamente a troca de olhares entre os dois.
- Vocês querem saber o que aconteceu comigo. – Ela disse. – Não precisam ter... Medo. Podem perguntar o que quiserem, eu responderei o que precisam saber. – Ela comunicou. Respirou fundo, tomando mais um gole do chocolate quente. – Estou seguindo esse homem há um tempo. – Ela falava calmamente, pensando com cuidado em cada informação que entregava aos meninos. – Vocês encontraram os casos antigos, as sete mulheres, certo?
- Sim. – Sam confirmou.
- Pois bem, aquela não foi a primeira vez dele. – Ela disse. – Esses assassinatos começaram há quarenta anos. Sete mulheres a cada dez. – Explicou, largando a xícara, agora vazia, na mesa e apoiando as mãos na superfície, entrelaçando-as. – Ele é praticamente um fantasma, não fossem os corpos mutilados, ninguém sequer saberia que ele existia. Durante todo esse tempo ninguém teve uma pista dele. Vinte e oito casos encerrados por falta de pistas.
- Vinte e oito? – Dean perguntou.
- Já temos cinco vítimas. Como consegui escapar, faltam mais duas. A menos que consigamos encontrá-lo agora, teremos vinte e oito casos em breve. – Ela informou.
- Em todos esses anos, todas essas mulheres... Nenhuma tinha identificação? – Sam perguntou.
- Não. – disse, aquele assunto era delicado, esperava que eles não se aprofundassem demais. – Todas completas desconhecidas, a polícia nunca conseguiu identificar, e o fato delas sumirem logo depois que os registros eram finalizados, não ajudava.
- Sobre isso, alguma pista?
- Nada. – Ela disse. Talvez devesse revelar alguma coisa. – Mas não é ele quem some com os corpos, se foi isso que vocês pensaram. – Pela troca de olhares entre os irmãos, ela confirmou que fora exatamente aquilo que eles haviam pensado. – Eu sempre acompanhei a polícia e os corpos, desde que comecei a acompanhar o caso, eu teria notado se ele estivesse por perto. – Ela disse.
- E todas as mulheres tinham as mesmas características?
- Sim, tudo igual. Bonitas, deitadas na mesma posição no meio de uma clareira, usando um vestido delicado, os cortes nas costas. Nada nunca mudou. Com exceção de características como cor do cabelo e olhos.
olhou para os dois irmãos. Parecia que havia acrescentado mais mil dúvidas a cada pergunta que respondia. Ela podia quase ouvir a mente dos dois funcionando, e a conversa muda que ocorria entre eles. Eles tinham perguntas, mas não sabiam como fazê-las. E ela não queria dar respostas sem que fosse pedido, corria mais perigo de falar mais do que deveria se assim o fizesse. Foi então que percebeu um detalhe interessante. Eles ainda não haviam falado seus nomes para ela. Bem, sabia o nome dos dois, mas eles não sabiam disso. Só sabia oficialmente o de Sam, pois Dean havia usado para chamar a atenção do irmão mais novo quando este lhe enchera de perguntas.
- Eu, hm, não quero interromper essa discussão, que obviamente é importante. – Ela começou, voltando-se para Dean. – Mas eu ainda não sei seu nome. Sei que ele é Sam porque você o chamou assim, mas você...
- Dean. – Ele comunicou. – Sam e Dean Winchester.
- Ah, prazer. – Ela disse. – Estão nessa... Vida há muito tempo? – Arriscou perguntar. Talvez se desviassem um pouco do assunto, conseguiriam voltar a organizar os pensamentos. Pelo menos era isso que fazia quando sua cabeça estava muito cheia. Distraía-se com outras coisas.
- Desde crianças. – Sam disse.
- E durante todo esse tempo, nunca encontraram nada assim?
- Fica difícil definirmos com o que estamos lidando se não temos respostas. – Dean comentou. – Chegamos a considerar que as vítimas sejam criaturas sobrenaturais, mas não conseguimos determinar o que. Já que não há corpo, não há nada para analisarmos e conferirmos as características. – Completou.
- O que nos traz a você... Como você escapou? O que aconteceu? Como você se tornou o alvo dele? – Sam perguntou.
- Eu não sei. Talvez eu seja um pouco parecida com as demais. Em todo o caso, eu fui descuidada. – confessou. – Acho que fiquei tão aliviada por ver mais pessoas trabalhando nesse caso que não percebi quando ele se aproximou. Ele me drogou e me levou para uma clareira, acredito que ainda estava em Green Forest, a floresta parecia bem similar com a moça anterior. – Ela explicou. – Mas, hm, o que quer que ele tenha injetado em mim, talvez ele tenha ficado descuidado também, achou que comigo seria mais fácil e não pegou tão pesado. Enfim, o que ele injetou em mim começou a perder efeito rapidamente. Consegui pegá-lo de surpresa quando ele se preparava para me cortar novamente, por cima do que já tinha feito. – Ela disse. – Eu o derrubei e me levantei. Estava congelando e com dificuldades para me concentrar por causa do que ele injetou em mim, e pela dor nas costas. Mas consegui golpeá-lo novamente, o suficiente para fugir.
- Você o viu? – Sam perguntou.
- Sim. Estava escuro, muito escuro, mas consegui prestar atenção em alguns detalhes. – Ela disse. Fechando os olhos e tentando resgatar sua memória de dias atrás, com sorte não teria se esquecido da noite na clareira. – Ele era alto e largo... Não chegava a ser gordo, mas era forte. – Ela começou a dizer, os olhos fechados com força, enquanto sua mente trazia aos poucos a memória. Sua cabeça protestou um pouco, mas ela ignorou a dor. Sam pegou um bloco de anotações e uma caneta para anotar o que ela dizia. – Eu me levantei e virei para ele. – Ela narrou, fechou a mão direita em punho, sentindo as unhas perfurarem a pele de leve. Sua memória ia e voltava, ela só tinha lapsos. Precisava se lembrar. – Ele tem a voz rouca e áspera, não sei como isso ajuda.
- Talvez você deva ir devagar. – Dean disse, tocando-a pela primeira vez em dois dias, colocando a mão por cima da dela que estava fechada em punho. Pareceu fazer efeito, pois ela relaxou e abriu os olhos, decepção estampava as íris âmbar.
- Não, eu preciso lembrar. É a primeira vez em anos que existe alguma pista.
- Apenas tente não se machucar mais. – Ele disse, olhando para a marca profunda das unhas na palma da mão dela. sorriu e assentiu, voltando a fechar os olhos. Dean não largou sua mão. Ela respirou fundo e relaxou, estava fazendo aquilo errado. Aos poucos voltou à noite na clareira, sentiu a chuva em sua pele e viu a escuridão do local. Lembrou-se dos passos dele em sua direção, da voz rouca sussurrando algo em seu ouvido. A lâmina em suas costas. Voltou a apertar a mão em punho. O aperto delicado de Dean fez com que ela mudasse o foco. Então estava em pé, com dificuldade, mas estava em pé, a chuva gelava seu corpo pouco a pouco. Ela olhou para seu possível assassino, que se recuperava do ataque inesperado. Ele levantou o olhar para ela. A escuridão tornava as coisas difíceis, mas duas características ela conseguiu perceber.
- Cicatriz. – Ela disse, os olhos ainda fechados, mas a mão mais relaxada. – Ele tem uma cicatriz que vai da têmpora até o maxilar, é bem profunda, acho que só por isso eu consegui ver. – respirou fundo, focando no outro detalhe. – Cabelo loiro e comprido, até o ombro, talvez maior. – Respirou fundo novamente e abriu os olhos, voltando ao bunker. Dean a olhava sem esconder a preocupação. Por ele, ela não estaria se desgastando tanto, poderiam esperar mais alguns dias. Não houvera qualquer ocorrência de outra mulher desconhecida assassinada, então talvez poderiam se dar ao luxo da espera. – Enquanto ele se recuperava para me prender de novo, eu consegui dar um chute em seu estômago. Ele caiu, eu pensei em fazer mais alguma coisa, mas sabia que não ia conseguir resistir. Então eu fugi e vim até vocês.
Com cuidado, ela soltou sua mão de Dean e a levou até sua têmpora, acompanhando a esquerda, massageando a região lentamente. Sua cabeça doía, ela sabia que havia abusado demais. Eles ficaram em silêncio enquanto Sam terminava de escrever o que ela havia acabado de narrar. Ele parecia ser meticuloso, anotara as últimas falas de e depois fizera alguns tópicos com palavras-chave, como as características do suspeito. Então, enquanto revisava o que a mulher havia acabado de contar, algo chamou sua atenção. Ele largou a caneta em cima do bloco de papel que usava e voltou-se para .
- Espera, você veio de Green Forest até aqui a pé? – Ele perguntou. – São oito horas de viagem até aqui.
engoliu em seco. Sabia que mais cedo ou mais tarde aquilo viria a acontecer. Ela havia notado antes seu deslize ao comunicar que estava na floresta de Green Forest. Havia até mesmo desviado o assunto um pouco, focado no ataque e no suspeito, para ver se eles conseguiam esquecer esse detalhe, mas pelo visto havia subestimado os irmãos. Agora Dean também a olhava com atenção, esperando uma resposta dela. Não havia mais como esconder, mais cedo ou mais tarde eles também procurariam o porquê dos cortes nas costas. Já se perguntavam sobre as vítimas, o que elas tinham em comum. Talvez estivesse na hora de revelar o que, afinal, ela havia em comum com as demais. Ela respirou fundo, passou a mão nos cabelos ruivos, que estavam um desastre, ela havia notado só agora. E olhou de Sam para Dean.
- Bem, sua resposta final... O que todas as moças anteriores têm em comum, o que eu tenho em comum com elas. E o porquê dos cortes nas costas. – disse. Aquilo era difícil. Teoricamente ela nem deveria fazer aquilo. Era contra as regras, a menos que fosse extremamente necessário, o último caso de vida ou morte. – Elas são fadas. Os cortes são feitos para arrancarem suas asas.
A tensão que se instalou foi tão intensa que era quase palpável. Os dois irmãos a olharam incrédulos e depois se olharam. Sam passou a mão no cabelo, Dean esfregou os olhos. Os dois se olharam novamente, e voltaram a olhar para ela. Suas bocas se abriam e fechavam. Ela quase riu, não fosse a situação tão trágica. Resolveu encerrar a tortura deles e sanar suas dúvidas.
- Sim. Eu sou uma fada.

Capítulo 4

Lebanon, Kansas. 11 de julho.
observava os dois irmãos com atenção. Após revelar sua verdadeira natureza, Dean havia se levantado e andava de um lado para o outro. Sam a olhava e depois olhava para frente, sem qualquer ponto fixo. Novamente, ela poderia rir se a situação não fosse tão trágica. Pensou que poderia complementar informações, explicar a eles um pouco mais sobre ela, mas achou melhor esperar eles se recuperarem do primeiro baque. Felizmente não demorou muito. Sam foi o primeiro a se recuperar do choque, voltando-se para ela e preparando-se para fazer suas perguntas.
- Uma fada? – Ele perguntou, arqueando uma das sobrancelhas. – Nós já lidamos com fadas, elas não são assim.
- Bem, não necessariamente... – Dean comentou. – Lembra quando a Charlie encontrou uma naquele jogo de RPG?
- Ah, sim... Mas, ainda assim... – Sam disse. Parecia completamente perdido ainda. – Vocês não vivem em uma própria dimensão? Sei lá como isso funciona.
- Podemos dizer isso, sim. – disse. – A minha espécie, somos protetores. Geralmente protetores da natureza. Algumas são protetoras dos seres humanos. E outras bem poucas protegem a própria espécie e as demais, como é o meu caso. Sou uma fada caçadora.
- Caçando o que, exatamente? – Dean finalmente se pronunciou.
- No momento? Esse cara que há quarenta anos mata minhas irmãs. – disse, dessa vez não controlando a raiva em sua voz. Eles já sabiam o que precisavam mesmo, ela não precisava mais esconder os verdadeiros sentimentos.
- Então você tem mais informações sobre ele? Estava apenas escondendo?
- Não. – disse. – Eu contei a vocês tudo o que eu sei sobre esse caso. A única coisa que escondi foi a natureza das vítimas, e a minha. Mas isso só porque, teoricamente, vocês não deveriam saber de nossa existência. – Ela explicou. – Os humanos são encorajados a acreditarem em fadas, mas não a confirmar que elas realmente existem.
- Mas ele sabe. – Sam apontou.
- Sim. Sabe mais do que deveria. – confessou. – Ele sabe exatamente o que nos incapacita, como conseguir a substância para injetar em nós. E sabe nossa maior fraqueza. Nossas asas.
Sam e Dean trocaram olhares de novo. suspirou. Os dois tinham respostas, sabiam por onde começar. Mas parecia que isso não ajudava. Não sabiam agora como começar. E ainda tinham mais infinitas dúvidas. Ela voltava a se sentir cansada, como se já tivesse extrapolado naquele dia. Queria poder voltar para o quarto, tomar um banho e voltar a se deitar. Precisava descansar, mas sabia que eles não permitiram, não agora que tinham a possibilidade de seguir em frente naquele caso. Porém, estava enganada. Percebeu uma mudança no comportamento de Dean, ele parara de andar de um lado para o outro, agora voltara a se sentar e olhava para ela. Percebendo que ela estava esgotada.
- Você precisa ir descansar. – Ele disse. A atitude de Sam também mudou, ela sentiu. Apesar de curioso, o irmão mais novo também começava a perceber o cansaço dela.
- Não, eu...
- Sem discussão. Você precisa voltar para o quarto. – Dean a cortou. Ele se levantou e contornou a mesa, estendendo a mão para ela. – Eu te acompanho.
percebeu que não adiantaria discutir, se tentasse, provavelmente Sam se levantaria e ajudaria o irmão a levá-la até o quarto. Ela suspirou resignada e segurou a mão de Dean, levantando-se. Sua cabeça rodou um pouco e ela pendeu para o lado, sentindo o braço de Dean segurá-la, apoiando-se em sua cintura. fechou os olhos por um tempo, apoiando-se nele até se recuperar o suficiente. Quando se sentiu melhor, acenou positivamente com a cabeça e começou a andar em direção ao quarto. Lembrou-se no último momento que precisava de um banho, talvez isso já ajudasse um pouco.
- Sabe, eu, hm, adoraria tomar um banho. – Ela comentou, quando já estavam na porta de seu quarto.
- Claro... Eu te mostro o banheiro, acredito que tenha alguma toalha limpa em algum canto. – Dean comentou. Eles realmente não estavam acostumados a receber visitas. Talvez a tal Charlie e o outro... Castiel fossem os únicos.
O banheiro não ficava muito distante de seu quarto, porém, fez com que ela percebesse ainda mais como o local era grande. Dean a deixou na porta do banheiro, comunicando que iria trazer uma roupa limpa para ela, apesar de ter contestado dizendo que a que estava usando seria o suficiente. Mas o rapaz pontuou que ela precisava de um pijama pelo menos.
- Humanos. – Ela disse para si mesma enquanto entrava no banheiro.
O cômodo não era muito grande, havia um chuveiro em um box largo, uma toalha com um espelho maior e mais limpo do que havia no quarto em que ela estava, um vaso sanitário e um armário na parede ao lado da porta. Lá, ela encontrou toalhas limpas, pegando uma para si. Pela primeira vez em dias, se olhou no espelho e reparou a bagunça que estava seu cabelo. A única coisa da mitologia que os humanos compartilhavam sobre elas que gostaria de ter era sempre estar impecável. Mas ali, se olhando no espelho, sabia que desapontaria muitas crianças. Fuçou o gabinete abaixo da pia e encontrou uma escova de cabelo, passando então a desembaraçar os fios vermelhos, tarefa mais complicada do que imaginava. Havia galhos e algumas folhas no meio dos fios, e os nós, provavelmente causados de quando ainda estava desacordada na floresta, só dificultavam a tarefa. Estava quase desistindo quando Dean retornou com seu pijama.
- Uau, parece que um passarinho fez um ninho em seu cabelo. – O caçador comentou, não conseguindo esconder o riso. suspirou, mas sorriu divertida.
- Fez um ninho e uma festa de inauguração. – Ela completou. – Não conte a ninguém que fadas também podem ficar completamente descabeladas.
- Seu segredo está salvo comigo. – Ele disse, aproximando-se sem que ela pedisse e tirando um galho que estava entre os fios e que seria impossível da mulher enxergar, colocando-o na pia junto com os demais.
- Obrigada. – Ela disse. – Acho que será mais fácil simplesmente lavar e depois tentar de novo. – Observou.
- Talvez. – Dean ponderou. – Aliás, aqui está seu pijama.
- Obrigada. – sorriu e olhou para o caçador, esperando que ele percebesse que ela precisava de um pouco de privacidade. O que não demorou muito a acontecer.
- Então... Eu, hm... Se precisar de algo, só chamar. – Ele disse. Não parecia ser do feitio de Dean ficar envergonhado em alguma situação, mas ali o homem parecia claramente sem saber o que fazer.
- Obrigada de novo. – Aos poucos, de costas para a porta e de frente para ela, ele foi se retirando do banheiro.
viu a porta se fechando e virou-se de costas para a mesma, retirando o roupão que usava, pendurando-o em um suporte na parede, e começando a desabotoar a camisa que havia pegado emprestado com Dean. No último minuto, antes de fechar completamente a porta, o caçador lembrou-se de algo que deveria falar à moça, porém as palavras morreram no minuto que viu sua figura de costas para ele, usando apenas sua camisa de flanela. A peça caia pelo corpo da fada até a metade das coxas. Ele não podia ver muito da parte de cima, mas a parte de baixo, suas pernas longas e finas lhe agradaram. Percebeu que ela olhava para baixo, provavelmente desabotoando a camisa, a fim de tirá-la. Ele sabia que deveria fechar a porta e dar privacidade, mas se viu impedido de completar a ação quando ela afastou a camisa e fez com que a peça escorregasse por seus braços, revelando as costas mutiladas dela. Dean engoliu em seco ao contemplar o longo corte que desenhava as costas da fada. Ele sabia que em breve seria descoberto, então chacoalhou a cabeça e fechou a porta silenciosamente. A imagem do corte ainda vívida em sua mente. Como alguém podia fazer algo tão cruel com alguém tão, aparentemente, puro?

Sam encontrava-se sentado na mesma cadeira que Dean o havia deixado, porém sua atenção agora estava voltada para uma das pastas que havia encontrado nos arquivos dos Men of Letters. Dean, que havia parado na cozinha para servir a ele e ao irmão uma xícara de café, aproximou-se, colocou a xícara próxima a Sam e contornou a mesa, ocupando a cadeira que sentara antes. Os dois irmãos trocaram olhares que pareciam dizer muito, mas aquilo não era o suficiente, precisavam colocar para fora o que pensavam sobre aquela situação.
- Então... – Sam começou, fechando a pasta e tomando um gole do café.
- Uma fada! Nós temos uma fada como hóspede. – Dean disse, claramente tendo dificuldades ainda para digerir a informação.
- Sim. – Sam concordou. – Protegendo uma fada e caçando um humano. – Ele completou, como se falar aquilo ajudasse a compreender melhor a situação.
- Cada ano que passa, essa vida fica mais complicada. – Os dois irmãos ficaram em silêncio por um tempo, havia muitas coisas mais que gostariam de falar, mas a maioria só teria algum sentido se estivesse entre eles, já que eram diversas perguntas. – Achou alguma coisa?
- Bem... Eu achei algo, não sei bem o que. – Sam disse, voltando a se concentrar na pasta que analisava antes. – Há um relato de um caso de vinte anos atrás, mas não sei se é relacionado a isso. – Ele leu as informações por um tempo. – Eles pareciam não ter muita certeza, como nós não tínhamos até...
- Sim, eu ainda não tenho. – Dean comentou, pegando a pasta que o irmão lhe estendia. – E encontrou algo relacionado a fadas?
- Nada além das lendas usuais. É como ela disse, somos apenas levados a acreditar que existem, mas não há muito.
- E como esse cara sabe tanto? – Dean perguntou, havia deixado de lado a pasta, afinal não havia nada interessante ali.
- Boa pergunta. – Sam disse. – Dean, só conseguiremos respostas com ela. O máximo que podemos fazer é ficar de olho para caso ele resolva agir novamente. Mas, infelizmente, isso significa ficarmos atentos para algum caso de uma desconhecida encontrada na floresta.
Dean passou a mão no rosto, claramente desconfortável com o que Sam havia acabado de falar. As imagens de quando havia chegado ao bunker retornaram com força à sua mente, juntando-se com o que havia visto há pouco no banheiro. Sentia-se impotente, havia alguém para bater, mas sequer sabia como persegui-lo. E sequer podia compará-lo a um fantasma, pois até esses ele conseguia encontrar e lidar. Infelizmente o irmão estava certo, teriam que esperar se recuperar mais, e torcer para nenhuma outra vítima aparecer.
- Vamos esperar que essa fuga dela tenha feito ele ficar mais cauteloso e desistir de completar seu objetivo. – Dean disse, não acreditando em uma palavra que havia dito. Sam também não confiara muito nas palavras do irmão.
- Eu vou pesquisar mais um pouco, ver se encontro alguma coisa nos arquivos dos Men of Letters, você deveria ir descansar, quando foi a última vez que dormiu? – Sam perguntou retoricamente, pois sabia perfeitamente a resposta.
- Se encontrar algo, você sabe onde estou. – Dean falou, levantando-se sem querer discutir.
Fazia realmente dias que não conseguia dormir, preocupado e curioso com a nova visita, e sentia que agora que tinha tantas informações, o sono não viria mesmo. Já havia lidado com muitos casos complicados desde que entrara na vida de caçador, mas nunca um havia tirado seu sono tanto quanto esse. Havia algo mais ali que o mantinha acordado, um instinto que parecia com o que tivera nas inúmeras vezes em que Sam ficara tão perto da morte. Algo que ele tentava ignorar, pois lhe parecia absurdo sentir algo tão intenso e forte por alguém que sequer conhecia.
De qualquer forma, quando percebeu, estava parado em frente à porta entreaberta do quarto da hóspede, olhando-a dormindo pacificamente. O corpo de lado, coberto pelo pijama que havia lhe emprestado e pela coberta. A luz do abajur que ficava na mesinha de cabeceira ao lado da cama, iluminava o quarto parcialmente. Ele sorriu, não conseguindo decidir se ela havia esquecido de apagar, ou se era medo do escuro. Não ficaria surpreso se fosse o último, afinal, a última vez em que ela estivera no escuro, estava em uma floresta, tendo as costas mutiladas. Ele cogitou a possibilidade de se aproximar, e observá-la, querer estar presente caso ela acordasse para confortá-la se fosse necessário. Mas sabia que se o fizesse, seria mais uma noite sem dormir, e ele precisava desesperadamente de pelo menos duas noites de sono, ou seria completamente inútil quando precisasse agir. Por isso, fechou a porta e seguiu para seu quarto, há apenas algumas portas de distância. Jogou-se na cama do jeito que estava e sequer percebeu quando caiu no sono.

Outside Green Forest, Arkansas. 12 de julho.
Dean abriu a porta da pequena cabana e olhou para todos os cantos a procura de alguma ameaça. O local estava completamente escuro, ele testou o interruptor, mas acreditava que a energia do local havia sido cortada há muito tempo. Ele tirou a lanterna do bolso e a acendeu, iluminando a cabana de apenas um cômodo. Em um canto havia uma cama de casal simples, apenas um dos lados bagunçados, mostrando que alguém a usara. No local que seria a cozinha, ele viu um fogão sujo, que provavelmente não funcionava mais, uma geladeira mais enferrujada que qualquer carro velho de um ferro-velho, uma mesa de madeira de quatro lugares, esta era ocupada por diversos papéis e recortes de jornal. Ele se aproximou, analisando a pesquisa que fizera durante aqueles anos todos. Havia uma caixa no chão, provavelmente onde ela guardava todas aquelas informações. O caçador suspirou, era para ela estar ali com ele, decidindo o que deveria levar para o bunker e o que poderia ficar.
Naquela manhã, quando ela acordou e apareceu na cozinha para o café da manhã com a mesma camisa de flanela que ele havia lhe dado no dia anterior, ele e Sam confirmaram que estava na hora de pegar roupas para ela, além de qualquer outro material que a fada poderia ter que os ajudasse na caça ao assassino das demais mulheres de sua espécie. Mas assim que foi abordada sobre onde havia se hospedado durante aqueles dias, a fada fora firme em se recusar a sair do local protegido. Sam questionou a mulher, mas Dean percebeu o medo estampado nos olhos âmbar da fada. Em questão de segundos ele já havia um endereço e explicações mais detalhadas sobre como chegar ao local. Além da gratidão que havia substituído o medo em seu olhar. Mas agora, parado ali em frente aquela mesa, ele entendia a necessidade de ali.
Respirou fundo e começou a colocar todo o conteúdo da mesa na caixa, tentou deixar organizado, mas ele não era a pessoa mais organizada do mundo. Deixou a caixa ao lado da porta, e seguiu para onde ficava a cama, havia falado que ali haveria uma bolsa com todos os seus pertences. Ele percebeu que, fora a bagunça na cama e na mesa, a mulher era bem organizada. Não havia uma peça de roupa ou produto de higiene pessoal espalhado pela cabana. E ele procurou.
A viagem até ali fora longa, ele parara pouquíssimas vezes para comprar comida e fazer suas próprias necessidades. Provavelmente deveria ficar ali na cidade aquela noite e voltar para Lebanon na manhã seguinte, mas sabia que havia assuntos mais importantes e urgentes que uma boa noite de sono. Sam e estavam fazendo inúmeras pesquisas enquanto ele fazia aquela viagem, e os dois não conseguiriam avançar muito se não tivessem o material que ele havia recuperado. Assim, ele pegou a bolsa de , a caixa com a pesquisa da fada e saiu da cabana. O Impala 67 estava estacionando em frente à pequena construção de madeira, Dean jogou a bolsa e a caixa no banco traseiro, entrou no carro e deu a partida, dando meia-volta e retomando o caminho que o levaria ao bunker.

Capítulo 5

Lebanon, Kansas. 13 de julho.
Sam não aguentava mais ver letras em sua frente. Ele e estavam acordados desde a manhã do dia anterior pesquisando. A fada acordara cedo, alegando estar bem melhor, apesar de depois assumir que ainda não estava completamente curada do atentado. Ainda podia sentir seus poderes um pouco fracos devido ao que o homem misterioso havia usado para apagá-la. Quando ele e Dean comentaram que agora ela podia ajudá-los com a pesquisa para tentar encontrar o assassino, ela disse que havia algumas coisas no local em que estava ficando no momento. Mas quando Dean informou que em dez minutos eles sairiam, a mulher ficou mais pálida do que antes, quando usara todo o seu poder para chegar ao bunker. Nem mesmo conseguia explicar que medo todo era aquele, talvez viesse do fato de que aquele homem sabia demais sobre ela e sua espécie, e ela não faria ideia de como reagir caso ele a atacasse de surpresa. Ficou combinado, então, que Dean iria até Green Forest pegar os pertences da fada e sua pesquisa, enquanto ela e Sam ficariam no bunker lendo os arquivos dos Men of Letters para ver se alguém havia tentado cuidar daquele caso em algum momento.
Eram muitos arquivos, Sam não se lembrava de algum dia ter lido tanto de uma única vez para uma pesquisa. Eles tinham os anos dos ataques e algumas localizações, o que ajudou em parte. Mas o mais novo dos Winchester logo percebeu que não desistiria tão fácil, afinal, ela já estava naquela caça há quarenta anos. E agora que havia se ajuda, ela não descansaria até conseguir pegar o responsável por aquilo, e não deixaria que eles descansassem também. Quando não conseguiram muitas informações nos arquivos específicos, a fada começou a olhar todos os outros que haviam ali. Entre uma pasta e outra, ela respondia às perguntas que Sam havia sobre sua espécie, qualquer detalhe que ela pudesse ceder, poderia ajudá-los a criar alguma espécie de filtro que os ajudasse a determinar um perfil do assassino.
Sam olhou o relógio, o dia 13 começava, fazia quase vinte e quatro horas que ele estava lendo sem parar, procurando qualquer coisa que pudesse ajudá-los. Olhou para o lado, estava sentada no chão, cercada por pastas e papéis, havia um lápis entre seus cabelos – estes presos em um coque – e outro preso entre seus dentes, enquanto ela revirava alguns papéis a procura de alguma coisa com a qual pudesse fazer uma ligação. Ela não parecia nada cansada, sequer parecia com fome, como ele. O homem levantou-se e espreguiçou-se, pegou o celular e se retirou da biblioteca, ligando para Dean enquanto andava.
- Estou quase chegando. – Dean disse assim que atendeu.
- Diga que você pegou comida. – Sam pediu.
- E torta. – O mais velho respondeu. – Como estão as pesquisas.
- Cara... É como tirar leite de pedra. Nós vimos todos os arquivos que eles tinham nos anos dos ataques, não encontramos nada. E agora ela está revirando todos os outros arquivos.
- E como ela está? – Dean perguntou. Sam percebeu que ele parecia preocupado, obviamente não se referia à dedicação da fada em relação à pesquisa, mas sim ao seu estado físico.
- Ela parece bem. – Sam disse. Era o máximo de sinceridade que podia se dar ao luxo, uma vez que não entendia como o organismo das fadas funcionava. – Respondeu todas as minhas perguntas, do resto ficou em silêncio, lendo tudo.
- Você perguntou o que o cara usou para apagá-la?
- Ainda não. – Sam respondeu. – Ela não parecia muito confortável em narrar o ataque de novo, acho que apesar de estar bem fisicamente, ela não deve ter se recuperado mentalmente. – Ele ouviu o irmão suspirar do outro lado da linha. – Você encontrou algo?
- A pesquisa dela. Vou dizer, ela é obcecada mesmo. Fico surpreso por ainda não ter encontrado esse cara. – Dean respondeu. – Estou levando tudo, talvez consigamos seguir daí.
- Quanto tempo até você chegar? – Sam perguntou, sentindo o estômago retorcer-se de forme.
- Dez minutos, quinze talvez. – Dean acrescentou a última parte após um momento de hesitação, Sam franziu o cenho.
- Algum problema?
- Espero que não. – O irmão respondeu. Desligando em seguida.
Quando Sam voltou à biblioteca, estava em pé. Havia encontrado um rolo de fita adesiva, tirado alguns quadros e utensílios de uma parede lisa e começara a colar alguns papéis na superfície. Ela não olhou para Sam quando ele entrou no cômodo, sequer parecia que havia notado a presença do homem.
- Dean já está voltando. – Ele comunicou. não alterou sua nova atividade.
- Ótimo. – Foi o que disse. Depois pareceu ter murmurado algo, mas o caçador não conseguiu ouvir.
- Você precisa de alguma coisa?
- Você tem mais fita em algum lugar? – Ela perguntou, sem olhar para ele. Sam olhou para o chão, se ela pretendia colar tudo aquilo na parede, aquele rolo não seria o suficiente mesmo. – E talvez alguma linha. – Ela acrescentou quando ele se virou para procurar o que ela havia pedido.
- Claro.

Dean olhou novamente pelo retrovisor após dar aquela última volta, encontrando apenas a estrada vazia, iluminada pela luz da manhã que começava a despontar. Sorriu para si mesmo, talvez tivesse sido apenas um falso alarme, mas ele preferiu se prevenir mesmo assim. Seguiu o resto do caminho até o bunker, a todo o momento olhando para seu retrovisor para confirmar que não havia mais nenhum par de faróis o seguindo. Mas o caminho fora solitário até chegar à edificação onde ficava a sede dos Men of Letter.
Saiu do carro, colocou a bolsa de em um ombro, colocou a comida em cima da caixa com os arquivos e fechou a porta do Impala 67. Deixou a caixa no chão enquanto abria a porta, novamente olhando para todos os lados antes de entrar no local e fechar a porta atrás de si, certificando-se de trancá-la muito bem. Havia aprendido há muito tempo a confiar em seus instintos, e eles pareciam muito incomodados. Talvez fosse pela privação de sono, ou por não conseguir se esquecer dos faróis que o seguiram desde que saíra de Green Forest.
Quando chegou à biblioteca, viu Sam sentado à mesa, observando andar de um lado para o outro, pegando papéis no chão e depois indo até a parede, onde os colava em alguma ordem que não fez sentido para o Winchester mais velho. Ele colocou a caixa em cima da mesa e jogou a bolsa em uma das cadeiras livres. Sam voltou a atenção para o irmão, levantando-se para ir até ele.
- O que está acontecendo? – Dean perguntou, percebendo que não parecia ter notado sua presença.
- Acho que ela encontrou alguma coisa. Estou olhando isso tudo desde que desliguei da ligação com você, mas não consegui entender nada. – Sam disse, pegando um dos copos com café que Dean havia trazido. Na mesma hora, enquanto voltava para pegar mais uma folha, olhou para os irmãos, focando os olhos âmbar em Dean.
- Você voltou. – Ela disse, abrindo um sorriso, olhou para a caixa em cima da mesa e esse sorriso expandiu. – Ótimo. – Comentou, largando a folha e seguindo até onde os irmãos estavam, tirou de cima da caixa a comida que Dean havia trazido, e a abriu, começando a tirar toda sua pesquisa de anos.
- , que tal comer algo primeiro? – Dean disse, sob os olhos atentos de Sam.
- Uhum, claro. – A fada disse, olhando um dos papéis que segurava.
Dean percebeu que a fada não pararia tão cedo a menos que alguém interferisse, e ele sabia que Sam não o faria. Com um olhar, o irmão mais novo se afastou para que ele se aproximasse da fada. Dean colocou as mãos sobre as dela, chamando sua atenção. levantou os olhos para ele, não precisaram falar nada. Demorou um pouco, mas enfim a fada desistiu e afrouxou o aperto nos papéis que segurava. Dean os retirou de sua mão, colocando-os de volta na caixa. Depois colocou as mãos nos ombros da fada e guiou-a para a cozinha, o local mais afastado da biblioteca que poderia pensar. Sam os seguiu, levando a comida que o irmão havia comprado.
- Muito bem, nós vamos comer. Vamos respirar um pouco, e depois voltamos para lá. – Dean disse, após sentar-se em uma das cadeiras. Ela não parecia muito feliz, mas ele não se importava. Sabia que, apesar de ser uma fada, ela ainda precisava se alimentar, mesmo que, talvez, em horários e quantidades diferentes dos humanos, mas isso não o impediria de fazê-la parar um pouco.
Eles se sentaram e começaram a comer. Fizeram tudo em completo silêncio. analisava a dinâmica entre os irmãos, sabia que havia ali uma ligação muito forte. Talvez um dia conseguiria descobrir a história deles. Quando tudo aquilo acabasse, claro. Enquanto comia o lanche que Dean havia trazido, a fada percebeu que o próprio mal havia tocado na torta que havia comprado para si. franziu o cenho, o irmão mais velho parecia preocupado, e não era com ela ou com Sam.
- Algo está te incomodando. – A fada comentou, fazendo Sam se sobressaltar um pouco, afinal estavam em silêncio há um bom tempo. – Algo que não incomodava antes. Aconteceu alguma coisa em Green Forest?
- O que? – Dean disse, olhando para a fada. – Não.
- Ele atacou de novo? – perguntou, largando o lanche que comia.
- Não, nada aconteceu. – Dean disse. Mas dessa vez desviou o olhar da fada. Ato que até mesmo Sam percebeu.
- Dean... – O irmão chamou. – Ela tem razão, você está preocupado com algo.
- Vocês estão cansados, todos nós estamos, não tem nada. – O mais velho insistiu. Sabia que não deveria estar escondendo, mas também sabia que não podia preocupá-los sem ter certeza de nada. finalmente parecia recuperada do ataque, apesar de estar obcecada ainda mais pelo caso, mas não queria fazê-la voltar à estaca zero.
não estava convencida, mas não queria insistir. Terminou seu lanche rapidamente, levantou-se e retomou sua pesquisa, aproveitando que agora tinha a original para complementar a nova que havia feito. Sam e Dean não se opuseram à saída da moça da cozinha.
- Então... – Sam começou, um tempo após a saída da fada. Com o silêncio do mais velho, ele suspirou. – Dean, você pode ter enganado a , mas eu não cai nessa. Você sabe disso. – Dean largou o garfo que vinha segurando, revirando a torta que havia comprado para si.
- Eu não queria preocupá-la ainda mais. – Dean disse, suspirando derrotado, passando a mão no rosto. – E, honestamente, talvez não tenha sido nada... Mas eu tenho quase certeza que fui seguido.
- O que? – Sam perguntou, completamente alarmado. – Você acha que foi ele?
- Eu não sei, Sam. Acho que consegui despistar no final, mas pode não ser nada também.
- Dean...
- Sim, Sam, eu acho que era ele. – Dean respondeu, visivelmente incomodado com aquilo. Seus instintos nunca erraram antes, e agora ele não conseguia mais esconder a preocupação. – Eu tranquei tudo, mas não sei... Se esse cara consegue matar fadas, deixá-las impotentes... Se ele tem tantas informações e nós não temos nada, o que uma porta poderá fazer contra ele?
- Ela está segura aqui, Dean. – Sam tentou acalmar o irmão. Dean respirou fundo, passou novamente a mão no rosto e se levantou.
- Só vou acreditar nisso quando pegarmos esse cara, então vamos até lá descobrir o que ela tem.

O caos fora instalado na biblioteca. abrira a caixa com sua pesquisa e agora ocupava outra parede, deixando de lado os arquivos anteriores e se preocupando em organizar o que ela tinha. Ela não se virou quando os rapazes entraram no local, e eles não interromperam o que ela fazia. Ao contrário, Sam ocupou-se em mostrar a Dean as informações que havia recolhido com a fada.
Ela havia contado um pouco sobre ela e onde vivia antes de vir ao mundo deles há quarenta anos. Havia descrito também os tipos de fadas que tinha conhecimento da existência, praticamente todos. Contara sobre sua fonte de poder: sua asa, e como aquilo funcionava. Sam mal conseguira acompanhar o raciocínio nessa parte, então anotara apenas algumas palavras-chave. Faltara apenas um detalhe que o Winchester mais novo não tivera coragem de perguntar: o que a enfraquecia. Durante o interrogatório, várias vezes comentara sobre como aquilo era errado. Os humanos não deveriam saber tanto sobre ela e sua espécie. Um já sabia e olha o tamanho do estrago, foram palavras da fada.
Sam havia criado alguma ligação com a fada, mas não chegava próximo ao que Dean havia construído, então sinalizara ao irmão que descobrir aquela informação seria tarefa dele. O mais velho não pareceu feliz, mas aceitou a tarefa. Enquanto os dois conversavam, terminava de organizar sua pesquisa. Os Winchester analisavam a fada, olhavam o que ela havia construído e tentavam encontrar algum padrão que pudesse auxiliá-los a entender aquela organização dela, mas falharam totalmente.
- Vocês parecem tão perdidos. – comentou quando terminou de colar o último pedaço de papel, um recorte de jornal da morte mais recente.
- Você tem uma forma curiosa de organizar informações. – Dean comentou. – Eu ainda espero que você nos dê uma aula sobre aquilo ali. – Ele apontou para a parede que ela trabalhava antes.
- Ah, ali não é relevante para esse caso. Foi só algo que eu resolvi me ocupar enquanto você não chegava com meus pertences. – disse. – Na verdade, talvez aquilo ajude vocês caso voltem a cruzar com alguma outra fada.
- Quer dizer que temos arquivos que falam sobre fadas? – Sam perguntou, levantando-se e se aproximando da parede.
- Bem... Sim. Se você usar as informações que te passei mais cedo e reler essas fichas, você perceberá alguns detalhes. – disse.
- Mas isso é algo para outro momento, não é mesmo? – Dean perguntou, chamando a atenção de Sam, que desviou o olhar da parede e fixou no irmão. – Temos outras coisas mais importantes agora.
- Ah, claro. – Sam disse, voltando a ocupar a cadeira ao lado do irmão. – Pode começar, .
- Na verdade, não tem muito para começar. – A fada disse, olhando a parede que acabara de organizar. – Essas são as vítimas, surrupiei algumas fotos dos exames que o médico legista fez após encontrarem os corpos. Não que eu precisasse, me lembro de todas as minhas irmãs, mas serviu para organizar melhor. – comentou, os irmãos notaram que ela não ficava olhando as fotos por muito tempo. – Junto com as fotos, temos os relatórios, todos iguais, cortes nas costas. Como vocês sabem, os cortes são feitos para arrancarem nossas asas, que são nossa maior fonte de poder... Eu disse que eram a nossa fonte de poder total, não é? – Ela perguntou, voltando-se para Sam. – Desculpa. Mas, bem, o resumo é: arranque nossas asas e morremos. – suspirou, passando a mão no cabelo, que agora havia se soltado do penteado que fizera antes e caía solto em uma cascata ruiva pelas costas. – Agora entra o detalhe que eu mais demorei para conseguir entender: como ele as capturava. Quero dizer, nós, fadas, somos muito inteligentes, conseguimos sentir diversas coisas ao nosso redor. Enquanto ainda estava inconsciente, em raros momentos eu conseguia sentir a presença de vocês aqui. Consigo sentir um movimento sutil que você faz, uma mudança na sua energia, sua aura se vocês quiserem simplificar. Mas entramos num campo aqui que para vocês é conhecido como física. Mas nós sentimos a aproximação de qualquer corpo, a presença dele... Foi sentindo vocês que consegui chegar aqui, não foi fácil, hoje eu entendo por que... A proteção desse lugar talvez seja o motivo de eu ter me desgastado tanto e ficado tão fraca por tantos dias.
- Eu sempre me perguntei como você chegou aqui. – Sam comentou.
- Não foi fácil. – confessou. – Eu já estava fraca, tive que concentrar todas as minhas forças em vocês. O objetivo era aparecer aqui dentro, mas o máximo que cheguei foi há alguns passos da porta.
- Foi mais do que qualquer outra criatura. – Dean observou.
- O caso é, com esse cara, eu não senti nada. Só senti quando ele já estava próximo demais, me segurando e injetando aquela solução em mim. – Ao mencionar a tal injeção, percebeu que os irmãos se ajeitaram nas cadeiras. – Eu sei que essa é a última pergunta de vocês. E a resposta é: eu não tenho certeza do que nos enfraquece. Sei que existem ervas que nos deixam desnorteadas por um tempo, mas são ervas que usamos com fins medicinais. O que me faz pensar que esse cara tem algum conhecimento botânico, porque nunca uma erva fez um estrago tão forte em nós como o que ele injetou em nós. O que me leva a outro ponto: nem ele mesmo sabia o que fazia efeito em nós no começo. – disse, ela apontou então para algumas fotos que haviam nos primeiros casos, não mostravam os rostos das fadas, mas seus pulsos e tornozelos. Sam e Dean tiveram que se aproximar para ver o que ela apontava. – Marcas. O que significa que elas foram amarradas após serem injetadas com o que quer que seja isso. Mesmo sem ter certeza, ele já sabia muito. E é isso que me preocupa.
Sam e Dean analisaram o mural que havia construído, a maioria dos papéis eram relatórios dos legistas e matérias nos jornais, nada muito substancial. A única coisa de valor eram as anotações recentes, que ela acrescentou embaixo do nome dela. Descrições do atacante e informações sobre como se sentiu ao ser drogada por ele. Ao terminarem de analisar, voltaram-se para a fada, que agora analisava o mural que havia construído antes.
- Essas são as informações que vocês têm sobre nós. – apontou. – São apenas relatos muito escassos, eles não tinham certeza sobre o que estavam lidando. Notavam mulheres bem vestidas, que pareciam ter uma aura em torno de si e que flutuavam. E sumiam na mesma rapidez que apareciam. Honestamente, apenas algumas aparições, provavelmente eram fadas da natureza, aparecendo para cuidar de algum acontecimento trágico. – comentou, resumindo todas as informações. – Bate com as datas. Mas a falta de informações só me faz confirmar que o acordo que temos continua: ninguém deve saber de nós.
- Então como ele conseguiu? – Dean perguntou, olhando preocupado para a fada.
- Eu não sei. – disse, e parecia tão irritada por ter que admitir isso. – Nós não temos registros de quem sabe de nossa existência porque isso é tão raro de acontecer. Meu palpite é que alguma vez ele cruzou com uma fada e a aprisionou, mas se fosse o caso, eu saberia.
massageou as têmporas, sua cabeça doía de tal forma que ela não conseguia mais ignorar. Ela sentou-se em uma das cadeiras e apoiou os cotovelos na mesa, deixando seu rosto enterrado nas mãos. Respirou fundo, fechando os olhos e concentrando-se em sua respiração. Normalmente aquilo funcionava, pois ela sabia que aquela dor não era resultado do atentado que sofrera dias atrás. Sentiu vagamente a presença de Dean ao seu lado, mas não se moveu para confirmar, bastou ele tocar em suas costas. Ela ficou tensa de repente, levantando a cabeça e afastando-se do irmão mais velho. Abriu a boca para falar algo, mas imediatamente a tosse subiu e ela não conseguiu proferir uma palavra, sua garganta fechou logo em seguida. agarrou os braços de Dean, que não precisou de mais sinais para gritar por Sam.
- Ele está aqui.

Capítulo 6

Lebanon, Kansas. 13 de julho.

A noite já havia começado a cair quando Sam saiu para conferir se havia alguém do lado de fora. Mas tanto ele quanto Dean sabiam que se o assassino estivesse ali, ele já havia encontrado uma forma de se infiltrar no bunker. havia caído desmaiada pouco tempo depois do ataque de tosse seguido da falta de ar. Dean havia ficado com a função de levá-la para algum lugar seguro, onde o assassino não conseguiria encontrá-la ainda que revirasse o local todo.
Um som atrás de si alarmou o Winchester mais novo. Sam virou-se a tempo de ver a porta de entrada do bunker fechando-se, logo depois ouviu o trinco da mesma se movendo, trancando-o do lado de fora. Ele não perdeu tempo amaldiçoando a si mesmo, correu até a porta e tentou socá-la, mesmo sabendo que aquilo seria inútil. Passou a mão pelo cabelo castanho e tentou pensar em alguma forma de voltar ao local, Dean não fazia ideia que estava trancado com o assassino, sabia que o irmão podia tomar conta de si mesmo, mas não conseguiria se proteger e proteger .
- A garagem! – Sam disse, correndo em direção à garagem. Apenas para chegar lá e encontrar a passagem trancada, provavelmente uma cortesia do novo visitante. Só restava a ele torcer para Dean perceber que estava sozinho e conseguir lidar com aquilo sozinho.

Dean concluiu que o melhor lugar para manter em segurança seria o local onde eles costumavam manter os demônios em cativeiro, era um lugar tão escondido que até ele e Sam demoraram a encontrar logo que chegaram ao bunker. Abriu a porta da sala e, após colocar sentada, apoiada a uma parede, afastou as estantes que escondiam o círculo da armadilha dos demônios. Voltou para pegar a fada e a depositou em cima da mesa que havia no círculo, vestígio da última visita que mantiveram ali. A fada estava pálida, mas já estava começando a recobrar a consciência e a normalizar a respiração. Aliás, Dean percebera que à medida que se afastava da biblioteca, a mulher começava a melhorar. Não tinha tempo no momento para descobrir se uma coisa estava relacionada à outra, achou melhor deixá-la ali, sozinha, voltando a juntar as estantes e fechando a porta atrás de si.
No momento que se preparava para retomar o caminho até a biblioteca, as luzes do bunker se apagaram, ficando acesas apenas as vermelhas de emergência, que eram fortes o suficiente para iluminar parcialmente o caminho que ele deveria fazer. Colocou a mão no cós de sua calça, em suas costas, sentindo o metal frio de sua arma ali. Não ousaria gritar para tentar encontrar Sam, provavelmente denunciaria sua posição e deixaria o assassino mais perto de .
A biblioteca estava vazia, exceto pela falta de luz, estava da mesma forma que deixaram. Ele ouviu uma pancada forte na porta, e um grito abafado. Uma voz muito parecida com a de Sam. Olhou ao redor com atenção, tentando captar algum movimento, mas não viu nada. Correu até a escada que levaria à porta de saída, encontrando-a trancada por dentro.
- Sam? – Gritou, Dean. Ouvindo a voz abafada do irmão do outro lado. – Filho da pu... – Ele resmungou, virando a chave para destrancar a porta.
- Cadê ele? – Sam perguntou assim que a porta foi aberta.
- Não faço ideia. – Dean respondeu, voltando a descer as escadas.
- ? – O mais novo sussurrou.
- A salvo. – Dean respondeu. Logo parando de andar, tentando aguçar a audição após pensar ter ouvido uma movimentação em um local próximo.
- Aqui. – Sam colocou algo frio em sua mão, Dean não demorou a reconhecer a forma da lanterna.
Mais uma vez os dois irmãos ouviram algo. Uma troca de olhar foi o suficiente para se entenderem e começarem a se movimentar. Dean seguiu para a direita, descendo os degraus para o corredor que ficava a cozinha, enquanto Sam ia para a esquerda, pelo caminho que levava à garagem. Era uma boa tática, pois em algum momento ambos os caminhos se cruzavam, dando a sensação de que os irmãos conseguiriam cercar o assassino quando fosse necessário. Estavam ali no bunker há muito tempo, conheciam o local como ninguém, não seria difícil encontrá-lo.
Apesar de ambos carregarem a lanterna, os dois irmãos evitaram acendê-la, deixando apenas as luzes de emergência guiarem seus passos. Não queriam correr o risco de perder o elemento da surpresa caso encontrassem o invasor. Enquanto seguia pelo seu corredor, Sam parou a caminhada após ouvir portas sendo fechadas não muito longe de sua posição. Ele esperou um tempo, até ouvir uma voz rouca resmungar algo que ele não conseguiu identificar o que era. O assassino estava seguindo para longe dele, abrindo as diversas portas dos inúmeros quartos que havia no bunker. Se agisse com cautela e silêncio, Sam conseguiria pegá-lo de surpresa, golpeá-lo por traz e nocauteá-lo até.
Com esse plano em mente, o mais novo seguiu em frente, um passo de cada vez, olhando para trás apenas por precaução. Havia chegado à dobra do corredor quando ouviu o primeiro som de um soco sendo dado. Aparentemente, Dean havia chegado antes dele e resolvera anunciar que o invasor havia sido descoberto. Sam dobrou o corredor e viu a luta livre que acontecia há poucos passos de distância. O invasor era alto e grande, mas desengonçado. Dean era mais habilidoso e ágil, conseguia desviar dos socos do outro com facilidade, e atacava com mais facilidade ainda. Seus movimentos eram gerados por algo que Sam, a princípio, não soube discernir o que era. Até que se aproximou dos dois e viu o olhar do irmão: raiva. Se lhe fosse dada a oportunidade, Dean mataria o invasor ali mesmo.
- Dean! – Sam gritou, ao perceber que o irmão apertava com mais força do que o aconselhável o pescoço do invasor. O rosto do homem havia sido tomado por um vermelho muito forte, que aos poucos começava a se tornar roxo. – Dean, você vai matá-lo!
- Ele merece. – Dean gritou de volta. Sam engoliu em seco, memórias de um Dean tomado pela marca de Cain, poucos meses atrás, retornando a sua memória.
- Não cabe a você decidir isso. – Sam disse, a voz voltando ao tom normal, esperando que o irmão entendesse o que ele queria dizer aquilo.
Pareceu funcionar, pois Dean afrouxou o aperto no pescoço do homem, que tossiu a procura de ar, mas logo o silêncio retornou, quando Dean lhe deu um soco, deixando-o inconsciente. O homem caiu ao chão com um baque alto. Os irmãos se olharam, Sam sabia que o mais velho não estava feliz pelo que acabara de abrir mão, mas sabia também que o irmão entendia a situação. Dean virou as costas e voltou pelo corredor, indo conferir como estava. Sam ocupou-se em carregar o corpo do homem e seguir Dean até a sala onde a fada estava.
Ao chegarem lá, a fada ainda se encontrava deitada, mas tinha os olhos abertos. Ela levantou a cabeça quando ouviu as estantes serem afastadas. Arregalando os olhos quando viu que Sam carregava algo grande e disforme, logo reconhecendo o homem que quase a matara. A fada abriu a boca para falar algo, mas novamente as tosses subiram e impediram que ela falasse. Dean a segurou e saiu da sala com ela, enquanto se afastavam, as tosses iam diminuindo. Os dois pararam no corredor até que voltasse ao normal, quando estava quase parando, Sam surgiu segurando algo.
- Olhem isso. – Ele estendeu a mão, mostrando uma pequena trouxinha, muito parecida com os sacos de feitiços que as bruxas costumavam fazer. A reação foi imediata, sentiu uma pontada forte na cabeça e logo sentiu o ar começando a faltar.
- Queime isso. – Ela conseguiu dizer, antes de novamente ser tomada pelas tosses.
Dean deu ao irmão o isqueiro que carregava sempre, e viu Sam queimar a trouxinha, o efeito foi instantâneo, gradualmente as tosses foram diminuindo, e permaneceu em silêncio o suficiente para normalizar sua respiração. Enquanto mantinha os olhos fechados e focava no ar que entrava e saia do corpo, uma lembrança voltou com força a sua mente. Ela encontrava-se perto da cabana em Green Forest, e sentia de novo aquela pontada na cabeça, logo sentia a garganta fechar. Fora parecido e diferente ao mesmo tempo, talvez porque logo em seguida o homem se aproximara e injetara algo nela que fez com que ela desmaiasse instantaneamente.
- Ele usou algo parecido comigo antes. – Ela disse aos rapazes, ainda de olhos fechados. – Era mais forte, mas teve praticamente os mesmos efeitos.
- Bruxaria? – Dean perguntou a Sam.
- Não, parecia diferente. – O mais novo disse. – E não acho que bruxaria funcione com fadas.
- Não funcionam. – disse. – Bem, funcionam, mas não é qualquer feitiço. Isso não era bruxaria, eu reconheceria. – A fada disse, finalmente arrumando sua postura e voltando a encarar os dois irmãos. – Como eu disse antes, é alguma mistura de ervas. E acredito que ele use algo para se tornar invisível para nós. Estamos perto e não consigo senti-lo. – Ela disse, parecendo extremamente frustrada. Havia uma marquinha entre suas sobrancelhas, que só agora Dean havia notado.
- O que fazemos? – Sam perguntou.
- Eu preciso falar com ele. – disse. – Mas não assim. – Ela olhou para baixo, ainda usava as roupas que os irmãos haviam emprestado a ela. – E precisamos de luzes. – A fada observou.
- Sam, você fica de olho nele. Tente ver se há mais alguma coisa daquela e queime. – Dean disse. – Vou reascender a luz e acompanhar até o quarto.
- Eu preciso da minha bolsa também. – A fada comentou.
Sam viu o irmão e a mulher se afastarem e voltou ao cômodo. Havia colocado o homem na cadeira e afivelado as algemas ao redor dos pulsos dele de qualquer jeito. Parara no meio da tarefa ao notar a trouxinha caída no chão. Ele ainda estava inconsciente, então Sam aproveitou para melhorar as amarras que o prendiam à cadeira, deixando mais firme as algemas e depois prendendo os tornozelos. Ele parecia ser forte, mas o Winchester sabia que aquelas algemas eram ainda mais fortes. Quando as luzes se acenderam, logo depois, o caçador começou a revirar os bolsos do invasor.
Encontrou um cordão ao redor do pescoço dele e outro em seu tornozelo, ambos com uma trouxinha amarrada na ponta. Sam as soltou e colocou-as em cima da mesa. Havia mais uma, parecia com a que ele havia queimado, no bolso interno da jaqueta. Sam aproveitou que provavelmente demoraria um pouco para voltar e abriu a trouxinha que antes estava amarrada ao pescoço do invasor. Como a fada havia dito, havia algumas ervas ali. Pelo menos seis tipos diferentes. Sam cheirou qualquer uma, mas não tinha muitos conhecimentos botânicos quanto gostaria.
- Achou algo? – Dean perguntou ao entrar na sala.
- Aqui. – Sam apontou. – Como ela disse, mistura de ervas. – O mais novo disse. – Essa e aquela estavam amarradas no corpo dele, uma no pescoço, a outra no tornozelo. E essa estava no bolso da jaqueta, provavelmente igual à que eu queimei. – Dean analisava de perto a que o irmão havia aberto. Cheirando as ervas e fazendo caretas com o cheiro forte de algumas. Então passou o dedo no tecido, franzindo o cenho.
- Há algo estranho nesse pano. Ele está... Úmido. – Dean apontou. Sam passou o dedo no tecido, sentindo o que o irmão havia apontado. – Acho que isso, o que quer que seja, misturado às ervas, dá o efeito.
- Se separarmos, talvez não seja afetada. – Sam comentou. Ainda passando o dedo no tecido. – Não parece água. – Ele puxou o tecido, colocando as ervas de lado, e cheirou. – E não tem o cheiro de nenhuma dessas ervas. Na verdade, é um cheiro um pouco doce... Parece familiar.
- Depois vemos isso, vamos desfazer todas. – Dean disse. – não demorará muito para voltar.

fechou a porta atrás de si e suspirou. Sua cabeça ainda doía, e sua garganta arranhava toda vez que ela engolia a saliva. Ela odiava aquela sensação. Aproximou-se da cama e colocou sua bolsa ali, abrindo-a em seguida. Fazia dias que ela estava incomodada com as roupas que usava. As fadas estavam habituadas a usarem vestidos que deixavam suas costas livres, e o faziam mesmo quando estavam entre os humanos, e suas asas ficavam invisíveis. Era um costume. As roupas fechadas não a atrapalhariam se ela precisasse usar as asas, mas não estava acostumada.
Com calma, ela olhou os vestidos que tinha na mala, optando por um longo branco de mangas compridas, que na altura dos cotovelos começavam a se abrir. O vestido possuía alguns detalhes em prata no decote canoa, que desciam pelo corpo até a cintura, quando começavam a ficar mais escassos. A maioria das referências dos ornamentos que as fadas usavam era em referência a natureza, ela, particularmente, gostava dos que se referiam a terra. Então os detalhes de seu vestido poderiam facilmente ser descritos como os galhos de uma planta rasteira, que vai se espalhando pela superfície. O vestido se estendia até seus pés, como a maioria dos que ela usava. Havia algumas opções de vestidos curtos, mas ela não se sentia confortável com eles.
A fada colocou o vestido estendido na cama e, então, começou a se despir. Novamente, olhou o corte em suas costas no espelho. A cicatriz era quase imperceptível. Quase. Mesmo que desaparecesse completamente, sempre conseguiria enxergá-la. Um atentado daquele, não seria esquecido tão facilmente. Após conferir sua cicatriz novamente, deu as costas ao espelho e pegou o vestido, vestindo-o logo em seguida. O tecido escorregou por seu corpo até alcançar o chão. A fada olhou-se no espelho, feliz com a escolha. Pegou uma escova de cabelo que havia na bolsa e passou nas madeixas ruivas, que contrastavam com o branco do tecido. Ela sempre gostara daqueles contrastes. Verde era outra cor que ela gostava muito de usar.
sabia que estava demorando ali mais do que seria aconselhável. Mas ela precisava mostrar a seu atacante que estava bem, que ele não a havia derrotado. Muito pelo contrário, ela o destruiria. Antes de sair do quarto, voltou a se olhar no espelho e respirou fundo. Em um piscar de olhos, uma luz fraca, quase imperceptível surgiu e ela logo pôde ver o brilho translúcido, levemente fúcsia, de suas asas. Ela sorriu, feliz por saber que aquela parte de si havia se recuperado integralmente. Após fazer as asas desaparecerem de novo, a fada abandonou os chinelos que havia usado durante aqueles dias, sentindo-se muito mais confortável descalça. Antes de sair do quarto, foi até sua mala e pegou a adaga de prata que havia ali. Havia ganhado aquilo de sua superiora, fora lhe dada a benção de usá-la exatamente para aquele fim. A adaga vinha em cinto de couro marrom que amarrou em sua cintura, mantendo a arma afiada escondida em suas costas. Após olhar-se uma última vez no espelho, fixando-se agora nos olhos âmbar, que não podiam mostrar qualquer hesitação, a fada saiu do quarto.
Àquela altura, ela já estava familiarizada com os corredores do bunker, além disso, possuía uma boa memória geográfica e conseguiu se lembrar facilmente do caminho que ela e Dean haviam feito momentos antes. Enquanto caminhava pelos corredores, a fada percebeu que havia algo diferente em seus sentidos. Ela ainda sentia a presença de Dean e Sam, mas havia algo mais. E só quando chegou à sala em que seu atacante estava foi que ela percebeu: agora podia sentir ele.
Os dois irmãos estavam apoiados nas estantes que se abriam para revelar o círculo que ela não fazia ideia de qual seria sua utilidade. Estavam um de frente para o outro. Ao fundo da sala, o homem estava sentado, a cabeça pendendo para frente. À frente dele, havia a mesa que ela ocupara antes. Em sua superfície, ela reconheceu as ervas que, daquela forma, não a afetavam mais.
Dean levantou a cabeça imediatamente ao perceber a movimentação na entrada da sala. Seus olhos não esconderam a admiração com o que viu. Era triste e injusto que as únicas versões de que ele havia era dela ensanguentada na mesa da biblioteca e, depois, ela ainda se recuperando, com uma calça grande demais para ela e sua camisa. Mas ainda que naquelas condições, o caçador não conseguira não notar a beleza que a mulher possuía, beleza essa que agora parecia ainda mais elevada naquele momento, se isso fosse possível. O vestido branco cobria seu corpo em um encaixe tão perfeito que ele sabia que nem o costureiro mais experiente conseguiria imitar. A cor ainda contrastava com o ruivo do cabelo da fada, que caía por suas costas e ombros até a cintura da mulher. Havia ainda algo mais nela que chamava sua atenção. Confiança, Dean notou logo. E determinação. Desde que entrara na sala, a fada não desviara os olhos do homem por mais de cinco segundos.
- Nós encontramos as outras trouxinhas. – Dean ouviu o irmão dizer. desviou o olhar do homem inconsciente para o Winchester mais novo. – E os desfizemos, acho que funcionou, não?
- Sim. – A mulher disse, sua voz soava diferente também.
- Talvez você possa reconhecer algumas das ervas. – Sam disse, desencostando-se da estante e se aproximando da mesa. o acompanhou. Dean preferiu ficar onde estava.
- Eu sei que você quer nomes, mas meus conhecimentos são tão escassos quanto os seus. – A fada assumiu. – Eu nunca fui boa com essa parte mais medicinal.
- Tem outra coisa. – Sam disse. – Os panos, eles estão todos úmidos, não conseguimos identificar o líquido.
aproximou-se da mesa mais um pouco, observou o conteúdo, as ervas usadas. Reconhecia algumas só de vista, por vê-las em diversos jardins em sua terra, mas nunca realmente soube suas utilidades. Muitas pessoas, fãs das fadas, se desapontariam com ela por isso. Com calma, passou a mão em um dos tecidos, então franziu o cenho e o pegou com cuidado. Aproximou-o de seu resto, cheirando-o. Passou os dedos e depois os aproximou de seu nariz.
- Não é possível. – Seu olhar havia mudado completamente. Sam assustou-se ao ver a expressão de nojo e raiva que tomou conta do rosto da fada.
- O que é?
- Eu... Pela Deusa! – disse, ainda olhando para o tecido. Dean aproximou-se.
- , está tudo bem? – O mais velho perguntou, contornando a fada para ver sua expressão.
- As primeiras fadas... – Ela começou a dizer. – As que foram amarradas. Não é possível... Agora eu entendo por que. – Ela levantou o olhar para os irmãos. – Isso é uma mistura de sangue de fada com a essência de nossas asas. – A fada disse.
- Essência da asa?
- Sim, nossas asas possuem essência. – A fada disse. – Não sei explicar como funciona, só sei que existe. É algo que nós, fadas, podemos acessar com facilidade, pois possui algumas propriedades medicinais, principalmente para os humanos. As usamos para depositar em algum líquido, como uma forma de ajudar. – Ela explicou. – Mas somente nós podemos retirar essa essência. Se qualquer outra espécie tentar, é como se estivéssemos sendo torturadas. – Sam e Dean olhavam a moça com atenção, ambos queriam perguntar como aquela mistura que vinha delas podia lhe fazer tão mal, mas sabiam que a resposta viria em breve. Mas algo lhes chamou a atenção, antes que pudesse concluir o pensamento, seu olhar desviou do pano embebido em sangue e essência e voltou-se para o homem sentado. – Ele está consciente.

Capítulo 7

Lebanon, Kansas. 13 de julho.

Ao ouvir as palavras da fada, os irmãos se viraram para o novo prisioneiro. O homem ainda mantinha a cabeça abaixada, mas seus ombros sacudiam levemente. Talvez ele estivesse acordado a mais tempo do que imaginavam. contornou a mesa e aproximou-se dele, forçando o homem a levantar a cabeça. Havia um sorriso irônico em seu rosto. A fada sentiu arrepios percorrendo todo seu corpo.
- Por favor... – O homem se pronunciou pela primeira vez após um longo silêncio. Sua voz rouca preenchendo a sala. – Continue a aula de anatomia feérica.
O que veio a seguir foi tão rápido que nem ou Sam previram ou puderam fazer qualquer coisa para impedir. Em instantes, Dean cruzou a sala, contornou a mesa e desferiu um soco no rosto do homem. O filete de sangue logo escorria pelo canto da boca. O caçador preparava-se para dar outro soco, quando finalmente reagiu, parando na frente do homem.
- Dean, não. – A fada disse, colocando sua mão sob a dele, que estava fechada em punho.
- Mas ele...
- Já tivemos violência demais nesse caso. – disse, mantendo seus olhos âmbar fixos nos verdes de Dean. O caçador respirou fundo, o olhar da fada lhe transmitia calma, algo que aos poucos foi tomando conta dele. – Talvez você devesse esperar lá fora. – sugeriu.
- E deixar você sozinha com ele? – Dean perguntou, sentindo a calma ir embora em instantes.
- Sam estará comigo. – A fada disse. – Além disso, eu já estou bem, o que quer que fosse que estivesse bloqueando ele para mim já sumiu. Não há perigo algum.
Eles mantiveram aquele contato por um longo tempo antes de Dean abandonar a posição de ataque e parecer um pouco mais relaxado. soltou a mão dele lentamente, observando o homem se afastando, indo em direção à porta, parando apenas para trocar olhares com Sam, naquela típica conversa silenciosa que só os dois irmãos conseguiam entender. Somente após o mais novo acenar positivamente foi que Dean saiu e fechou a porta atrás de si, não sem antes dirigir o olhar para novamente. A fada transmitia uma calma que o caçador duvidava ser real. Ela tinha sede de vingança tanto quanto ele tinha raiva e ódio por aquele homem. Passara somente alguns dias na presença da fada, pouco tempo para realmente conhecê-la e sua espécie, mas sabia que nada justificaria as atrocidades que o homem havia feito.
Dean encostou-se à porta, deveria se afastar, ir para a biblioteca ou à cozinha, mas não conseguiu. A porta lhe permitiria ouvir a conversa, ainda que o som fosse abafado, seria o suficiente para ele.
- Muito bem. – disse, afastando, com certa repulsa, as ervas e os panos ainda úmidos para um canto da mesa que não lhe chamasse tanta atenção, e logo depois se sentando sobre a mesma. Ela olhou o homem a sua frente.
Na escuridão da floresta ele parecia muito mais assustador do que ali, amarrado àquela cadeira. O cabelo loiro estava preso na altura da nuca, e era muito maior do que a fada se lembrava, chegando quase até a cintura. Estava sujo, como se há muito não visse água. A cicatriz dele era ainda mais assustadora na claridade, e tornava seu rosto ainda mais ameaçador. Ela, somada aos olhos castanhos, tão escuros que ela quase considerou que fossem pretos, transmitiam a raiva que ele sentia. Raiva por ter sido pego? Ou pela fada? E se fosse por ela, seria por estar viva ou por ter escapado? Ou pelos dois motivos? Não fosse pelo descuido e pela expressão fechada, considerou que ele poderia ser um homem bonito.
- Que tal começarmos por um nome? – A fada se pronunciou novamente. O homem riu sem humor algum.
- O que é isso? Bom policial e mau policial? – Ele perguntou. – Que tal pularmos a parte em que você finge ser boazinha e me dá minha punição?
- Você não vai morrer. – disse. A mudança na postura dele denunciou que ele não esperava por aquela revelação. – Mas você achou que sim. Por quê?
- Vinte e seis. – Foi sua única resposta. não precisou de mais.
- Exatamente por isso você não morrerá. – A fada disse. – A morte seria uma pena muito... Leve para você. – Sam olhou para a ruiva, surpreso com o tom de ódio e raiva que ela havia adotado naquele momento. – Você nos torturou, nos fez sofrer por sabe-se lá quantas horas... Ah, não, você não terá uma saída tão fácil e rápida. – Era a primeira vez que a fada abandonava toda a calma que ele estava acostumado. Mesmo sem mudar a postura, continuar sentada na mesa, sua voz era o suficiente para assustar até mesmo ele, que sequer era seu alvo. Com certo prazer, ele viu o homem engolir em seco. – Agora que já esclarecemos esse ponto. Que tal você responder minha pergunta e falar seu nome. – Como se um interruptor tivesse sido acionado, o tom de voz de voltou ao anterior. Sem qualquer resquício da raiva. Sam estava fascinado, se Dean não estivesse tão no limite, o mais novo teria desejado que o irmão estivesse ali para presenciar aquilo. Os dois irmãos sempre perdiam a paciência em algum momento, e desde o princípio não conseguiam esconder suas emoções. Talvez após finalizar aquele caso, eles pudessem pensar em recrutar para ser parceira deles. A fada seria uma ótima adição e aliada.
- Elias. – O homem respondeu após um longo tempo.
- Elias... – repetiu. – Que tal tentarmos de novo? Dessa vez a verdade, por favor.
- Como você...? – O homem disse. Sam franziu o cenho. – Elias é meu segundo nome, eu não uso o primeiro.
- Por quê?
- Porque minha mãe o deu após o meu pai. – Elias disse. – Depois que ele... Morreu, eu comecei a usar o Elias.
- Certo. – disse. – Então... Elias, por que você matou seu pai?
- O que você...? Espere, fadas não leem mentes. – Ele disse.
- Não, mas certas coisas são óbvias, você não acha? – Pelo canto do olho, Sam percebeu que a porta do local se abrira um pouco, provavelmente Dean estivera ouvindo todo esse tempo e finalmente a curiosidade levara a melhor.
- Ele maltratava a gente.
- Você e sua mãe? Foi ele quem causou essa cicatriz?
- Sim. – Elias respondeu, claramente incomodado com aquele interrogatório. – Ele quebrou uma garrafa nela, quando eu avancei para defendê-la, ele me cortou com um pedaço do vidro.
O silêncio se estendeu, analisava o homem a sua frente, a dor das lembranças clara nos olhos do homem. Há quanto tempo aquele ódio o consumia? Se não fosse ele o autor dos assassinatos de suas irmãs, ela se permitiria sentir pena dele. Mas naquele momento, ela não sentia nada. Aquelas amenidades, na verdade, serviam apenas para ela se preparar melhor para as verdadeiras perguntas, as que realmente importavam. E ela sabia que não poderia enrolar mais, não tinha mais por onde fugir.
- Como nós nos encaixamos em seu passado conturbado? – A fada perguntou, percebendo a presença de Dean na sala. Ele estava afastado, próximo à porta, mas ela ainda conseguia sentir sua presença. Aquilo, de alguma forma, reconfortou-a. Inicialmente não queria que o caçador fosse embora, apesar de saber que Sam era tão capaz quanto o irmão de protegê-la se necessário fosse. Mas ter Dean ali, com toda aquela raiva, não a ajudaria a manter o foco e a calma.
- Fadas... – Elias deu uma risada seca. – Vocês não se encaixam, esse é o problema. – franziu o cenho. – Se tivessem se encaixado, talvez ainda estivessem vivas.
- Eu não...
- Eu tinha sete anos quando ele matou minha mãe. – Elias disse, cortando . – Durante sete anos, toda vez que ele nos agredia, minha mãe sempre me abraçava e, entre lágrimas, dizia para eu não me preocupar, que elas viriam nos ajudar. Sempre perguntei quem eram elas. E minha mãe dizia que um dia me contaria. – O silêncio na sala era quase ensurdecedor, conseguiriam ouvir um alfinete caindo. A tensão era palpável. Os dois irmãos observavam a cena com os braços cruzados. – Procure as fadas, elas cuidarão de você. – Ele disse e olhou para , o ódio estava de volta, dessa vez direcionada para ela. – Essas foram as últimas palavras da minha mãe para mim. Você sabe como é para um garoto de sete anos ver a mãe no próprio colo cuspindo sangue? Se afogando no próprio sangue? Morrendo?
- Sua mãe sabia sobre nós. – disse, a voz tão fraca, quase inaudível. – Como?
- Ela ajudou uma fada uma vez. Quando ela mais precisava, minha mãe a encontrou e a ajudou. Mas quando minha mãe precisou... Onde vocês estavam? – Ele gritou as últimas palavras, pela primeira vez fazendo se mover na mesa. A fada afastou-se um pouco, colocando a mão no coração. Sam e Dean avançaram um pouco, mas um movimento da fada fez com que eles parassem. – Por três anos eu esperei alguma de vocês virem até mim, para me tirar daquele inferno. Mas um dia não deu mais para esperar e eu mesmo dei um fim àquilo. Foi meu presente de aniversário para mim mesmo.
escorregou pela mesa até estar em pé novamente. Havia lágrimas em seus olhos, lágrimas que ela tentava a todo custo não derramar. Ela deu as costas a Elias e afastou-se do homem, saindo da sala. Sam e Dean a seguiram. Encontraram a fada encostada à parede, curvada para frente, respirando fundo. Os dois irmãos se olharam, não conseguindo entender o que estava acontecendo com a fada. Sam fez um sinal para que o irmão se aproximasse.
- ? – Dean chamou, aproximando-se da mulher. A fada respirou fundo e levantou o olhar para os irmãos.
- Desculpem. – Ela disse, passando a mão no cabelo. – Eu só precisava de um minuto.
- O que aconteceu? – O caçador tentou novamente.
- Eu apenas perdi o controle um pouco. Não é fácil, sabe? – disse. – Não é fácil para uma fada ouvir que uma criança dependeu tanto de nós e... E quando nós falhamos, ela se corrompeu.
- , isso não é sua culpa. – Sam disse, aproximando-se da fada.
- Talvez não, Sam, mas foi de alguma irmã minha. – disse.
- Isso não justifica o que ele fez. – A fada olhou para Dean e sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos.
- Vocês não entendem... – Ela disse, suspirando. – Temos que voltar para lá.
- Talvez você devesse ficar aqui fora um pouco, deixar eu e Dean cuidarmos dele. – Sam sugeriu.
- Eu não posso ficar aqui. – respondeu. – Mas agradeço se você fizer algumas perguntas. – Ela olhava para Sam, sabendo que ele seria mais capaz de se controlar e não atacar o homem. – Preciso que descubra como a mãe dele ajudou a fada.

Eles ainda demoraram mais um pouco para voltar. Os irmãos querendo se certificar de que estivesse bem o suficiente para encarar Elias novamente. Os dois nunca seriam capazes de entender completamente o que aquelas revelações significavam para a fada e como poderiam afetá-la tanto. Mas eles seguiriam as ordens de o máximo que fosse possível, afinal, o caso era dela. Elias tinha um sorriso irônico no rosto quando o trio voltou, obviamente ciente de que havia abalado a fada.
apoiou as costas em uma das estantes, ficando de costas para o homem, enquanto Sam e Dean avançaram um pouco mais, o mais velho ficando próximo à fada, enquanto Sam ocupava praticamente o mesmo lugar que a mulher ocupara momentos antes. O mais novo cruzou os braços e olhou para Elias, tentando pensar em uma forma de interrogá-lo e conseguir respostas da forma que estava conseguindo antes.
- Policial mau, agora, não é? – Elias perguntou. – Não demorou muito.
- Nós – Sam apontou para ele e o irmão – e sua mãe temos algo em comum, Elias. Nós ajudamos uma fada. – O mais novo disse.
- Você vai desejar nunca ter feito isso. – Elias disse.
- Como uma fada chegou até sua mãe? – Sam perguntou, ignorando, novamente, o homem.
- Por que isso é relevante?
- Porque eu estou perguntando. – Sam respondeu. Talvez ele e o irmão fossem mesmo os policiais maus daquela situação.
- Vocês vão me matar depois? – Elias perguntou.
- Seu crime não pertence a nossa jurisdição para nós o julgarmos. – Sam respondeu. – E ela já te disse que sua pena não será letal. – Elias engoliu em seco da mesma forma que havia feito antes. – Agora, como sua mãe ajudou uma fada?
- Eu não sei os detalhes, foi quando ela ainda estava grávida de mim. – Elias disse. – Só descobri o diário que minha mãe guardava após a morte dela, era antigo. E ela não narrava as coisas em muitos detalhes. – O homem disse. Dean ficou curioso para saber por que bastava falar que ele não morreria para que ele começasse a dar todas as respostas. Talvez esperasse que, ao colaborar, ele teria uma morte mais rápida? O caçador quase riu com o pensamento. – Mas em uma das entradas, por um mês na verdade, ela fala sobre essa moça que ela ajudou.
- O que aconteceu? – Dean perguntou.
- Qual parte da “falta de detalhes” você não entendeu? – Elias retrucou. – Ela só comenta sobre o estado da moça, se estava melhorando ou piorando, a última entrada fala que a moça havia revelado que era uma fada, e minha mãe diz que todas as crenças dela se tornaram realidade. Depois diz que a moça disse que quando minha mãe precisasse, a ajuda viria. – Elias disse.
- Tem algum nome? – Sam perguntou. – Qualquer característica?
- Mak... Alguma coisa. – Elias disse, após ficar em silêncio por um tempo. virou a cabeça, de repente alerta. – Apareceu uma vez só no diário. Eu não lembro, mas começava com Mak.
- Makeena? – A voz de se fez ouvir, ela olhava o homem. – Você é o Mack? – Imediatamente o homem arregalou os olhos. – Seu nome não é Elias. Você é Mackenzie. Sua mãe deu esse nome para você em homenagem a Makeena, não foi? Sua mãe também não estava muito bem, ela estava doente no final da sua gravidez e os médicos achavam que você não nasceria vivo. – Aos poucos ela se aproximava de Elias. As lágrimas haviam voltado para seus olhos – Então Makeena a ajudou como retribuição pelos cuidados.
- Não. Ela prometeu que viria ajudar minha mãe. – Elias gritou. – Ela nunca veio. Ela prometeu que nos protegeria. Onde ela estava quando minha mãe apanhava? Quando eu apanhava por tentar protegê-la? Você parece conhecê-la, então me diz... Onde ela estava?
- Ela morreu. – disse. Uma lágrima escapou e escorreu por seu rosto. – Ela gastou as energias dela curando sua mãe, para que vocês vivessem quando ela desce à luz. Teve energia o suficiente para voltar para casa. Ela nunca se recuperou, sempre que parecia melhorar, logo voltava a piorar. Até que um dia, sete anos depois, ela morreu. – As lágrimas escorriam pelo rosto da fada, e pelo de Elias, que a olhava incrédulo. Sam e Dean também olhavam para a mulher, ambos sem saber o que fazer.
- Como você sabe disso tudo? – Elias perguntou em um sussurro.
- Ela era minha mãe. – revelou, a voz levemente embargada. – Antes de eu dormir, ela costumava me contar histórias sobre os humanos que já havia ajudado. Ela sempre fingia estar doente para que pudesse conseguir se aproximar deles. A última história que ela me contou foi a dessa mulher grávida, que apanhava do marido e estava muito doente. Quando ela voltou do encontro com essa mulher, ela já estava muito fraca, dizia que havia muita energia ruim naquele lugar e que ela tentara ajudar mais do que a mulher e o filho que ela esperava. Mas depois eu entendi, ela havia cometido o erro que nós não podemos cometer: ela criou um laço com a mulher e o filho. – A fada sentia as mãos tremendo. Dean aproximou-se o suficiente para segurá-la caso ela desmaiasse de repente ou fraquejasse. – Aposto todos os meus poderes que todas as vezes que ela piorava, era porque você e sua mãe estavam apanhando.
- Você acha que me contando essa história, eu vou perdoar você e sua espécie? Por que ela nunca mandou ajuda?
- Ela não podia. – disse. – Por um tempo, uns dois meses, ela acreditou que o que ela tinha feito tinha dado certo. Mas logo depois ela entrou num coma profundo, nunca mais acordou.
O silêncio se instalou na sala. e Elias se olhavam, ambos com lágrimas escorrendo pelo rosto. Sam e Dean não sabiam o que fazer com aquela enxurrada de informações. Sabiam que não haviam ultrapassado nem a superfície do problema, ainda tinham muitas respostas que precisavam ser dadas. Mas ambos duvidavam que Elias ou estavam capazes de seguir com aquele interrogatório. Não que eles se importassem muito com o homem, mas a fada era a peça-chave daquela conversa. Só ela podia fazer todas as perguntas pertinentes.
Sem dizer nada, Dean aproximou-se mais de , passou o braço por sua cintura e puxando-a para fora da sala. A mulher não protestou, deixando-se levar. De repente, se sentindo mais cansada do que o normal. Sua cabeça doía, mas dessa vez não por estar ferida, por todas as emoções que sentia e não conseguia organizar ou controlar. Por anos ela abafou a dor da perda da mãe. Era o maior mistério que ela e sua família encararam em sua vida, nunca tiveram respostas para o estado que sua mãe estivera por aqueles anos. A única coisa que podiam fazer era olhar e acompanhar. Agora tudo fazia sentido, e ela não sabia o que fazer em relação a isso.
Dean levou-a para a biblioteca, tendo Sam seguindo-os de perto – após garantir que Elias estava bem amarrado e ter trancado a porta da sala. não dissera nada durante todo o trajeto, as lágrimas escorriam por seus olhos, mas ela não demonstrava qualquer sinal além desse de que estava chorando. O caçador sentou a fada em uma das cadeiras e abaixou-se na frente dela.
- , diga alguma coisa. – Ele pediu, preocupado com a mulher. finalmente focou seu olhar em algo, no rosto de Dean.
- Nós precisamos deixá-lo ir embora.

Capítulo 8

Lebanon, Kansas. 13 de julho.

- Como é?
Dean levantou-se imediatamente. Encarando a fada a sua frente como se ela fosse uma criatura completamente estranha para ele. ficou em silêncio, observando os dois irmãos com toda a paciência que podia ter. Algumas lágrimas ainda escorriam por seu rosto, e sua cabeça ainda doía, mas ela não sairia dali até explicar tudo o que podia para eles.
- Dean, olha...
- , não. Você está louca? – Dean protestou, cortando a fada. – Eu entendo você não querer matá-lo, mas deixá-lo ir? Como se nada tivesse acontecido?
- Não é assim, Dean. – tentou se explicar. – É complicado.
- Então descomplique. Porque eu não vejo nenhum motivo plausível para liberarmos esse monstro. E aposto que o Sam também não vê. – Ele apontou para o irmão.
suspirou, passou a mão no cabelo e depois no rosto, enxugando o resto das lágrimas. Respirou fundo para que mais nenhuma voltasse a escorrer. Havia sido forte por tanto tempo, havia se conformado com a morte da mãe há muito tempo, entendido que perdas aconteceriam vez ou outra, mesmo entre sua espécie. Os momentos anteriores foram no calor do momento, ela fora pega de surpresa. Por toda sua existência, ela nunca conseguiria adivinhar que sua mãe morrera pelo maior erro que uma fada pode cometer.
- Eu tenho uma dívida com ele, Dean. – A fada começou, logo percebendo que não fora um bom começo.
- Que ele pagou matando vinte e seis... VINTE E SEIS, , fadas. Acho que, se formos fazer as contas, ele é quem está com a conta no vermelho, não acha?
- Você vai me deixar explicar? – A fada perguntou, assustando o homem pelo tom ácido que havia usado. A dor em sua cabeça parecia aumentar cada vez mais, e Dean não estava ajudando com todo aquele ataque. Ao contrário, só a deixava ainda mais nervosa. – Eu sei que é difícil para vocês entenderem, pois vocês não têm conhecimento algum sobre minha espécie, mas, ei, que tal aproveitar a oportunidade pra aprender algo? – Ela disse, soando mais ácida e nervosa do que realmente desejava, ou estava.
- Por favor, , explique. – Sam respondeu, achando melhor dar um tempo para o irmão se recuperar do ataque da fada.
- Eu te disse que existem várias de nós e cada uma cuida de algo, certo? – disse, olhando para o caçador mais novo. Sam assentiu. – Pois bem. Independente de nossas missões, nós temos uma única em comum... Uma espécie de lema, se quiserem chamar assim. Nós ajudamos os humanos. Algumas têm mais aptidão para isso do que outras. Minha mãe, todas as demais fadas que foram assassinadas... E elas estão sempre por perto, no mundo de vocês. Sempre prontas para aparecerem se for necessário. – explicou. – Nossos poderes, eles servem para nos proteger, mas também para nos guiar. Sentimos a energia dos seres a nossa volta, suas intenções. Não lemos mentes, mas podemos perceber se está mentindo, se está escondendo algo... Acho que nesses poucos dias vocês conseguiram perceber isso. Apesar de eu não estar na minha melhor forma.
- Por isso você soube que ele mentiu sobre o nome. – Sam apontou.
- Sim. – sorriu brevemente. – Como eu disse, algumas possuem uma aptidão maior para ajudar. Outras, como eu, nem tanto. Nós ficamos, então, responsáveis por cuidar de nossa espécie e nossos semelhantes. Ainda compartilhamos o mesmo lema, mas viajamos menos para o mundo de vocês, de forma que não temos tanto contato com os humanos.
- A menos que alguém comece a assassinar outras fadas. – Sam apontou.
- Exatamente. – assentiu. – Uma das primeiras coisas que aprendemos quando estamos crescendo e nos preparando para encarar o mundo de vocês, é que é de extrema importância que as crianças acreditem em nós. A energia de uma criança é a mais pura que existe, por isso ela é tão vital para nós. Eu não sei exatamente como funciona, mas sei que ela nos alimenta, de alguma forma. Nossos poderes, talvez. – A fada deu de ombros, nunca gostou muito da biologia feérica. – Por isso, uma das missões de algumas fadas é alimentar os folclores e as crenças, para que os pais continuem encorajando os filhos a acreditarem na magia. – explicou. Ela sentia que Dean estava menos tenso, prestando atenção em tudo o que ela falava. Talvez, afinal, ele já estivesse começando a entender onde ela queria chegar com tudo aquilo. – Quando uma criança que ainda está nessa fase deixa de acreditar, nós perdemos. Nós falhamos, e não importa quantos sucessos tivemos antes daquele momento, porque uma perda dessas é suficiente para enfraquecer milhares de fadas. Quando a criança perde essa crença de forma tão brusca, como o caso dele, é ainda pior. – suspirou. – E somada à quebra de uma promessa feita por uma fada tão poderosa como minha mãe era... Bem, vocês viram o resultado.
O silêncio se estendeu um longo tempo. Era possível ouvir o ponteiro dos relógios que os rapazes usavam se movimentando, indicando que aquele dia já estava quase chegando ao fim. E sentia-se tão exausta quanto no dia que chegara ali. Não fosse a missão que tinha para terminar, ela se deitaria e dormiria por longos dias até seu corpo e, mais importante, sua mente se recuperarem. A fada se levantou, sentindo que se continuasse sentada, sentiria o peso do cansaço ainda mais forte sobre si.
- Minha dívida com ele não é só minha, é de todas nós. – explicou. – Quando me deram esse caso, acreditem, a sentença dele era de morte. Eu disse que não antes apenas para assustá-lo, se ele conhece tanto sobre fadas como diz que conhece, ele sabe que temos formas piores de tortura, e que a morte é sua melhor amiga. Mas no momento que eu terminasse aqui e o levasse para as pessoas da minha espécie, ele morreria.
- E agora você não pode mais. – Sam disse.
- Não. – suspirou. – Vocês têm uma história que diz que quando alguém fala que não acredita em fadas, ou que elas não existem, elas morrem... Não é bem assim. Mas um estrago pode ser feito quando nós matamos alguém que perdeu a crença em nós de forma tão brutal. Ele já tem uma energia muito negativa em relação a nós, energia que nos afeta de forma que mal conseguimos sentir, pois já nos acostumamos. Se você mata o corpo que contém essa energia, não há nada mais para mantê-la presa.
- Ok, eu entendo. – Dean se pronunciou após mais um longo silêncio. – Mas você não pode simplesmente deixar o cara ir. Ele matou vinte e seis de vocês, . Vocês têm suas dívidas, tudo bem, eu entendo... Mas a dele é muito maior. Talvez vocês não o matem, mas você também não pode deixá-lo livre. – Os dois se olharam por um longo tempo. Dean via o quanto ela estava resistindo para não desabar ali mesmo, o cansaço dela era tão visível.
- Honestamente? Eu não sei o que fazer. – confessou. – Minhas ordens eram pegá-lo e levá-lo para os meus “superiores”. Mas com tudo isso... Eu não sei como agir.
Dean passou a mão no rosto. Causava-lhe um incômodo físico ver naquela situação. E piorava ainda mais por ele próprio não saber o que fazer para ajudá-la. Ele olhou para Sam, na esperança de que o irmão tivesse alguma ideia que pudesse ajudá-los, mas o mais novo parecia tão perdido quanto ele. Quando foi que a vida deles se tornara tão complicada? Costumava ser simples: matar os monstros. Sem perguntar motivos, ou pensar em dívidas. Se não estivesse envolvida, ele sabia que Elias já estaria morto e enterrado – ou provavelmente queimado para não correr o risco de voltar como um espírito vingativo. Dean suspirou e olhou para o relógio, cujos ponteiros acabaram de atingir meia-noite.
- Cara, eu to destruído. – Ele anunciou. – E você também. – Apontou para .
- Olhem, Elias está bem preso, a sala bem trancada. – Sam se pronunciou. – Eis uma sugestão: que tal irmos dormir, pelo menos você, . Você está no mesmo estado da noite em que chegou, ou pior até. E amanhã continuamos a discussão e pensamos no que podemos fazer.
- Não, eu não posso dormir. – A fada protestou. – Tenho que resolver isso.
- Você mesma acabou de dizer que não sabe o que fazer. – Sam apontou. – Descanse, amanhã decidimos o que fazer em relação a tudo isso.
- Posso pelo menos conversar com ele mais uma vez? – A fada perguntou. Os dois irmãos se olharam, nenhum parecia muito feliz com aquele pedido. Mas acabaram por concordar.

Elias continuava da mesma forma que eles deixaram. Apenas o sorriso irônico havia surgido quando ouviu a porta sendo destrancada e logo depois aberta, revelando a silhueta dos dois irmãos. estava encostada à parede ao lado. Tinha os olhos fechados e seus lábios se moviam, como se ela estivesse rezando. Sam e Dean deixaram-na sozinha, vigiando o prisioneiro – Dean tendo que se controlar muito para não terminar com a vida dele ali mesmo.
Sozinha, fazia uma pequena oração. Seu coração batia acelerado, e ela sentia o sangue correndo por seu corpo. Não fazia qualquer oração. Não. Elevara seus pensamentos a sua mãe, pedindo-lhe força e clareza, mas, acima de tudo, uma direção para aquele momento. Aos poucos ela percebia as palavras surgindo em sua mente, formando as sentenças que deveria dizer a Elias. Seria o momento da redenção, não só dela, mas como de sua mãe e, com muita sorte, de Elias. Era sua última arma de defesa antes de desistir completamente e entregá-lo a seus superiores, que certamente ficariam felizes e aliviados por poderem encerrar aquele caso.
Ela entrou na sala e percebeu a reação dos três homens ali presentes. Para não fazia diferença, pois para ela era normal, mas eles viam o brilho discreto que emanava de suas costas. Eram raros os momentos em que os humanos conseguiam ver as asas de uma fada, era algo tão íntimo para elas, que muitas vezes até entre a própria espécie, elas mantinham as asas escondidas. Sam, Dean e Elias não esconderam a surpresa, os dois caçadores completamente deslumbrados com a imagem.
Os irmãos já consideravam a fada extremamente linda, já percebiam a aura etérea que havia ao redor dela. Mas ali, com aquele brilho discreto, mas que na sala parcialmente escura, parecia clareá-la ainda mais, e com o leve movimento que as asas faziam em suas costas, aquela aura pareceu se intensificar mais. Era mais impressionante que a primeira vez que viram um anjo, tantos anos atrás. Parecia que, horas antes, ela havia escolhido o vestido branco propositalmente, como se soubesse que aquilo iria acontecer. A peça de roupa e seus cabelos ruivos brilhavam, e se movimentavam levemente, como se ela possuísse uma corrente de ar própria, que soprava somente para ela. Somente depois que ela passou por eles foi que Dean percebeu que seus pés não tocavam o chão, apesar de estarem muito próximos. Com de costas para eles, os dois irmãos conseguiram visualizar a forma das asas. Era como eles imaginaram que seria, da mesma forma que viam em desenhos de fadas nos mais diversos livros infantis que existiam por ai. Lembravam levemente as asas de uma borboleta, mas menos abertas. Movimentavam com tanta graciosidade e leveza que sequer parecia que elevavam a mulher.
Elias, por sua vez, não conseguiu ver tanta beleza na aparição da mulher. Ao contrário, engoliu em seco e arregalou os olhos enquanto ela se aproximava dele. De alguma forma, aquilo tudo lhe parecia mais assustador do que a versão anterior que vira da fada, enquanto ela o interrogava. Agora ele conseguia ver melhor a forma das asas, quando matara as fadas anteriores, as asas apareciam para ele após a retirada, mas sempre destruídas, mutiladas, efeito do que ele causara. Era lindo, ele não podia negar, mas na posição em que ele se encontrava, era um lindo assustador.
- Mackenzie – começou, até mesmo sua voz parecia diferente, mais leve e suave. – Após ouvir suas confissões e ponderar, eu percebo que falhei com você. Não somente eu, como minhas irmãs antes de mim. Como minha própria mãe. – Ela continuou. Sam e Dean apenas observavam, sequer saberiam o que falar ou fazer. – Nada justifica o erro que cometemos com você há tantos anos. Porém, ao mesmo tempo, nossa falha não justifica seus atos. Tínhamos, e temos, uma dívida com você, é verdade. Mas seus atos vingativos fizeram-no devedor também. – o olhava atentamente. Percebia o medo nos olhos dele, e o sentia também. Lentamente, seus pés descalços voltaram a pisar no chão frio da sala. Aquele era o momento que tinha que se aproximar mais dele, não tão fisicamente, mas estar no mesmo nível. – Minha dívida, a de minhas irmãs e minha mãe... Nossa falha, eu reconheço e assumo. E, por ela, peço perdão. Sei que pedi-lo não trará sua mãe de volta, ou reparará os atos que lhe ocorreram no passado, mas ainda o peço.
O sorriso que ele havia plantado no rosto quando a porta foi aberta, havia sumido há muito. Ele engolia em seco mais vezes do que o normal. estava atenta a todas as informações que recebia dele. Ele não precisava exatamente verbalizar o perdão, apenas senti-lo seria o suficiente para a fada. E ela sabia que ambos precisavam daquilo. Sabia que ele nunca faria o mesmo que ela, nunca pediria perdão pelos homicídios que causara, mas ali era um problema dele com a própria consciência. O ato da fada era mais abrangente, amenizava os efeitos causados nela e em suas irmãs que ainda viviam. Surpreendentemente, ela viu lágrimas surgindo nos olhos de Mackenzie. Ele abaixou a cabeça, mordeu o lábio inferior e depois voltou a olhar para a fada. Palavras não eram necessárias, ela logo sentiu a mudança ao redor dele. A tensão havia sumido, o ódio diminuído, não completamente, mas mais do que ela esperava e suficiente para amenizar os efeitos. Pouco depois ela percebeu que não era ódio, mas raiva, e agora não direcionado a ela e sua espécie.
- Eu sinto muito pelos danos que seu pai lhe causou. – Ela se viu dizendo, de repente. – Ele não foi uma falha nossa, se é isso que você está pensando. Independente de quem seja o culpado por aquela vida, você não deveria mais se sentir assim. Tudo o que você podia fazer, você o fez. Está na hora de seguir em frente. É o que sua mãe desejaria. Deixe-o no passado, enterre esses sentimentos e lembranças junto com ele.
- Você acha que é fácil... – Mackenzie disse.
- Bem, você terá bastante tempo para fazê-lo quando eu o levar amanhã. – disse. Ela deu as costas ao homem e se retirou da sala, sendo seguida por Sam e Dean. Quando já estavam distantes do local em que o homem estava preso, virou-se para os irmãos, que ainda a olhavam muito deslumbrados. – Acho que agora eu poss... O que foi? – Ela perguntou, finalmente notando as expressões que os dois tinham no rosto. Sam foi o primeiro a se recuperar.
- Desculpe, nós... Hm... Você...
- É linda. – Dean soltou. Sam pigarreou, pressionando os lábios com força, reprimindo o sorriso.
- Suas asas... Você ainda... – Sam apontou, diante o silêncio e a expressão de surpresa que havia tomado conta do rosto de . Ela piscou e olhou para o irmão mais novo.
- Ah, sim... – Ela disse. Fechou os olhos por um breve momento, e logo depois o brilho desvaneceu. Dean pareceu sair de um transe. Olhou de para o irmão e depois pigarreou, abaixando a cabeça. – Eu acho que vou, hm, seguir o conselho de vocês e descansar.
- , foi lindo o que você fez lá dentro. – Sam disse antes que a moça se afastasse deles. – Eu ainda não entendo muito bem, mas se você acha que foi o certo a fazer... Bem...
- Foi, sim. – A fada disse. – Existem certas coisas da minha espécie que não temos como explicar, Sam. Mas obrigada por reconhecer. – Ela sorriu. – Eu vou para meu quarto agora.
- Eu te acompanho. – Dean se pronunciou pela primeira vez. Os dois se afastaram de Sam, que virou as costas e seguiu para o lado oposto, resolvendo seguir o próprio conselho e dormir um pouco.
e Dean seguiram pelo curto caminho que levava ao quarto dela em completo silêncio. Nenhum dos dois fazia ideia do que dizer. Dean ainda estava completamente maravilhado com a imagem da fada que acabara de ver, e ela não tinha muitas habilidades sociais mesmo. Chegaram à porta do quarto e se encaram por um tempo, como se estivessem naqueles filmes de romance clichê, logo após o fim do primeiro encontro, sem saber o que dizer.
- Eu, ahn... Obrigada por me defender e proteger hoje. – começou. – Eu sei que não foi fácil.
- Claro, não foi nada. – Dean disse. Agora era a vez dele de dizer algo, mas nada surgia em sua mente. – Você deveria entrar e descansar... Nos vemos amanhã, então. Boa noite.
- Boa noite, Dean. – sorriu. No último segundo ela se adiantou e depositou um beijo no rosto do caçador. O ato foi rápido, mas a sensação dos lábios macios e leves da fada em seu rosto duraram por um longo tempo em Dean. Ela entrou no quarto logo em seguida, fechando a porta antes que ela ou ele resolvessem fazer algo mais.

Lebanon, Kansas. 14 de julho.

Já era bem tarde quando Sam acordou, passava do meio-dia, o homem constatou. Ele espreguiçou-se na cama e virou para o lado, tentando voltar a dormir mais um pouco, falhando miseravelmente. Espreguiçou-se mais uma vez e, por fim, levantou. Rumou para o banheiro, onde fez a higiene pessoal e lavou o rosto, umedecendo o cabelo castanho também. Pegou uma camiseta que estava jogada em um canto do quarto e a vestiu, saindo do cômodo logo em seguida.
O bunker estava completamente silencioso, provavelmente Dean e ainda dormiam. Ele foi para a cozinha, onde fez café e preparou um lanche para ele. Seu corpo parecia pesado ainda, como se ele tivesse dormido demais. No seu padrão de sono, era exatamente aquele o motivo para a sensação que espalhava pelo corpo. Não demorou muito e ele ouviu os passos arrastados de Dean levando-o até a cozinha.
-... Dia. – O mais velho falou quando entrou no cômodo, logo se servindo de uma xícara de café.
- Então... – Sam insinuou, querendo descobrir como fora a noite do irmão.
- Então o que? – Dean sentou-se a mesa, de frente para o mais novo.
- Você e ... Como foi?
- Foi o que? – Sam estava se cansando daquela brincadeira. Dean não era muito de esconder suas conquistas, o que o levava a crer que...
- Não acredito! – O mais novo exclamou. – Não aconteceu nada?
- Cara, do que você está falando? – Dean perguntou. Seu cérebro ainda dormia e dificultava o raciocínio. Ele também tinha a sensação de ter dormido mais que o normal para seu padrão.
- Não aconteceu nada entre você e a ? – Sam perguntou, por fim, Dean entendeu.
- Claro que não! – Ele exclamou, como se aquilo fosse o maior absurdo de todos.
- Mas eu achei que...
Dean nunca chegou a descobrir o que Sam achava, pois o mais novo foi interrompido pelo grito estridente que chegou até eles. Na mesma hora, em estado de alerta, os dois se levantaram e correram pelo bunker, seguindo o som que ouviram. Chegaram a rapidamente, encontrando a fada parada em frente à porta da sala onde Mackenzie ficara. A porta estava escancarada, se apoiava na parede a frente. Sam e Dean olharam para dentro da sala e ofegaram.
A cabeça de Mackenzie pendia para frente, e de seus pulsos ainda pingava sangue, acumulando-se na poça que havia se formado no chão, logo embaixo. havia escorregado na parede, encolhida, os dois irmãos entraram cautelosamente na sala, aproximando-se do homem com cuidado. Sam, que estava mais perto, estendeu a mão e colocou dois dedos no pescoço de Mackenzie, à procura de algum sinal de vida.
- Nada. – Ele disse, olhando para Dean. Os dois se voltaram para , que parecia tremer encolhida no chão. – Tire ela daqui. Depois resolvemos e limpamos isso aqui.
Dean aproximou-se da fada e ajudou-a a se levantar. Lágrimas rolavam pela face da mulher, que tremia nos braços do caçador. Eles seguiram para a cozinha, Sam fechou a porta da sala e seguiu o irmão e a fada. Na cozinha, Dean serviu um copo de água para – não tinha muita certeza se era aquilo que deveria servir a uma fada assustada com o que havia acabado de presenciar, mas foi o que pôde fazer de melhor. pareceu gostar, bebendo o líquido aos poucos, enquanto controlava as emoções.
Havia acordado há pouco tempo e sentira algo estranho no ar. Levantou-se e se vestiu, saindo do quarto logo em seguida. Algo a puxava para Mackenzie, era esse mesmo algo que a fazia sentir que tinha algo estranho. Ao abrir a porta, ela não demorou muito para compreender o que havia acontecido, o choque fora tão grande que o grito saíra antes que ela pudesse controlar. Não mentiria dizendo que não esperava aquilo, mas esperar por algo e ver acontecer são coisas completamente diferentes. Antes, ela ouvira apenas um relato de uma criança perdida que havia se matado após perdoar sua fada. O resto seguia com suas vidas, tornando-se serial-killers ou qualquer outro tipo de criminoso.
- O que devemos fazer? – Sam perguntou após um tempo.
- Enterrá-lo. – respondeu, surpreendendo os dois.
- Você não tem que levá-lo para seus superiores? – Dean questionou, ele estava sentado ao lado dela, atento a cada movimento que pudesse indicar que ela estivesse fraquejando.
- Deveria levá-lo vivo. – apontou. – Mas eu fiz o que deveria ter feito após descobrir o que descobrimos. Eles teriam feito o mesmo, o depois é que eu não sei. Nós o enterramos aqui mesmo, depois eu volto e dou o parecer para meus superiores.
- E eles simplesmente acreditarão? Não vão pensar que você o matou? – Dean perguntou, riu.
- Fadas não mentem, Dean. – Ela disse. – Nós podemos omitir algo, mas não mentimos.
- Podemos queimá-lo. – Sam sugeriu. – Ele se suicidou, talvez possa voltar como um espírito vingativo...
- Espírito vingativo? – perguntou.
- Uma das coisas que caçamos. – Dean explicou.
- Ah, sim... Bem, agora vocês são os especialistas, vocês cuidam disso, então. – disse.

Capítulo 9

Lebanon, Kansas. 14 de julho.

não entendia muito do processo de cremação que os meninos fariam em Mackenzie. Sam até tentou explicar algumas coisas, mas a fada preferiu fingir que havia entendido. Se ele tivesse lhe dado mais uns dias de descanso, talvez, assim, ela conseguiria absorver as informações sobre os fantasmas e o efeito que o sal tinha neles. Mas, enquanto almoçavam, tudo o que ela ouvia de Sam era barulho, um barulho desconexo que não encontrava sentido na cabeça dela.
Como eles eram os especialistas, ela deixou para eles a tarefa da preparação, enquanto ela se ocupava em limpar a sujeira que ficara na sala. Enquanto retiravam as amarras que mantinham Mackenzie preso à cadeira, eles descobriram como ele havia conseguido se matar. Aparentemente, durante o tempo que ficara sozinho, ele manteve o movimento repetido dos pulsos até conseguir cortá-los com a corda. Depois, enquanto limpava a cadeira, havia descoberto uma pontinha mínima de prego que ficara para fora da madeira, provavelmente a maior causadora do estrago naquele caso. Havia muito sangue, não imaginava que cortes no pulso podiam produzir tanto sangue.
Ela limpou a cadeira e o chão, enquanto Sam e Dean enrolavam o corpo do homem em faixas brancas. conseguia sentir o cheiro forte do líquido onde os irmãos haviam embebido as faixas, irritava o nariz da fada. Aquele produto somado ao que ela usava para limpar o chão e deixá-lo na mesma cor que o restante da sala, era forte demais para seu olfato. Ao terminar a tarefa, ela enrolou as cordas, provavelmente seria melhor jogá-las fora. Não que Dean e Sam parecessem se preocupar com o fato de enrolar em alguém uma corda embebida em sangue, mas ela se preocupava. Talvez usasse em alguma parte do corpo enrolado de Mackenzie, para queimar junto com o homem.

O corpo de Mackenzie ocupava a mesma mesa que ela ocupara quando chegara ali dias antes. Sam e Dean estavam sentados mais afastados, cada um bebendo uma cerveja. Os dois levantaram o olhar quando viram a fada se aproximar. Ela tinha o vestido azul pálido com alguns respingos vermelhos na barra, próximo aos pés. O cabelo ruivo estava preso em um coque que já estava se desmanchando, e algumas gotículas de suor escorriam de suas têmporas. Dean pegou uma garrafa de cerveja que havia próximo a ele e estendeu para a fada.
- Fadas bebem?
- Não sei se bebidas humanas nos afetam ou nos faz bem, mas nós temos nossa versão de bebidas alcoólicas. – sorriu, e fez um sinal negando a bebida. – Eu prefiro não arriscar. Mas obrigada.
- O que é isso? – Sam apontou para a corda que ela segurava.
- A corda que vocês usaram para prendê-lo. Está coberta com o sangue dele, achei que seria mais apropriado queimar com ele. – Ela disse.
- Coloque ali em cima, na hora colocamos junto. – Dean disse, apontando para o corpo. O mais velho notou que constantemente ela coçava o nariz, e seus olhos pareciam irritados com algo. – Você está bem?
- Sim, por quê? – o olhou após depositar a corda onde deveria.
- Seus olhos.
- Ah, isso. – Ela suspirou, aproximando-se do menino e sentando em outra cadeira vaga. – O cheiro dos produtos, não estou acostumada.
- Logo acaba. – Sam a reconfortou.
- Sim, eu sei. – Ela parecia estar bem distante, algo fazia Sam pensar que ela não se referia somente ao cheiro.
- Então, após queimarmos o corpo, você vai embora? – O mais novo perguntou.
- Sim, preciso. – disse, suspirando. – Preciso encerrar esse caso. Infelizmente não traremos nossas irmãs de volta, mas pelo menos podemos mandar as próximas ao mundo de vocês com mais tranquilidade.
- Você volta? – A pergunta veio de Dean. mordeu o lábio inferior.
- Não sei. – Confessou. – Talvez sim, talvez não. – Ela passou a mão no cabelo, soltando as mechas. – Claro, podemos ir e vir quando quisermos, mas fadas como eu, nós geralmente ficamos em nosso mundo até sermos necessárias aqui.
- Talvez você possa nos ajudar em algum caso.
- E me tornar uma caçadora? – Ela riu. – Eu mais atrapalharia do que ajudaria vocês, Dean.
- Eu duvido.
- Vocês têm anos de experiência com essas criaturas. A única coisa que eu conheço são as criaturas do meu mundo. – explicou. – Vocês não precisam de uma caçadora em treinamento ficando no meio do caminho de vocês.
O mais velho não pareceu muito feliz com a explicação dela, mas se calou. Não conseguia entender muito porque estava insistindo tanto na permanência da fada. Ele sabia que ela não pertencia àquele mundo, desde o princípio ela deixara claro que deveria voltar ao seu mundo. Há quanto tempo ela estava longe de seu povo, ele sabia como era ficar longe da família, não deveria tentar convencer alguém a ficar na mesma situação. Principalmente se eles não forem forçados a isso, como ele e Sam foram.
- Acho que devemos ir, esse corpo está me incomodando. – Sam disse, dando um último gole em sua garrafa.
- Ainda temos que montar a pira. – Dean comentou, respirando fundo, como se a tarefa fosse muito desagradável.
- Nisso eu posso ajudar. – disse, levantando-se imediatamente.
Os três saíram do bunker, Sam e Dean levaram o corpo de Mackenzie, e os seguiu. Lá fora, o dia já dava lugar à noite. Um vento frio fez se encolher, e envolver a si mesma com os braços. Nesse momento, ela se arrependeu por decidir voltar a usar suas próprias roupas. Em seu mundo não costumava fazer tanto frio, ela não estava preparada para aquilo. Dean retirou a jaqueta que usava, revelando uma camisa de manga cumprida por baixo, e estendeu à fada, que o agradeceu com um sorriso, vestindo a jaqueta logo em seguida.
Eles se dividiram, buscando madeira para construir a pira que sustentaria e queimaria o corpo de Mackenzie. Nessa tarefa, se mostrou muito habilidosa. Ela conseguia identificar com facilidade as madeiras que estavam boas para queimar facilmente. Ao final, os irmãos haviam desistido de procurar madeira, deixando para trazer tudo, enquanto eles preparavam o local para o corpo.
A lua já estava bem no alto quando terminaram de montar a pira. Novamente, Sam e Dean carregaram o corpo e posicionaram-no no centro da pira. , então, aproximou-se e colocou as mãos nas faixas que cobriam o corpo de Mackenzie. Fechou os olhos e ficou em silêncio por um tempo. Ele não era uma criatura feérica, mas criara uma conexão com ela e sua espécie, merecia uma reza à altura. Não era igual a que ela e seu povo costumavam fazer quando alguém morria, mas era parecida. Ao terminar, ela abriu os olhos e percebeu que a corda havia caído enquanto os meninos o carregavam. Ela foi até a corda e colocou-a em cima do corpo de Mackenzie. Ao se afastar, ela percebeu como parecia cruel queimar o instrumento de tortura e de sua morte junto com ele, mas parecia certo também.
Sam e Dean, que haviam se afastado para dar privacidade à fada, se aproximaram, jogaram mais um pouco do líquido que haviam usado para embeber as faixas, e, depois, cada um acendeu quatro fósforos de uma vez, jogando em cima do corpo. Jogaram mais alguns nas madeiras ao redor, não demorou muito e toda a pira estava em chamas. Os irmãos se afastaram, unindo-se a , que observava tudo com as mãos nos bolsos das jaquetas. O calor das chamas atingia a eles, aquecendo-os naquela noite fria.
Então aconteceu, do corpo subiu uma fumaça branca, levemente iluminada. Elevou-se acima das chamas, e depois pareceu estourar como um fogo de artifício, mas sem o barulho, caindo por cima das chamas, mudando as cores delas para azul. Não durou muito, logo voltou ao normal, mas eles notaram que a corda que havia colocado no corpo de Mackenzie havia sumido. Os dois irmãos se olharam brevemente, sorriu, percebendo a troca de olhares. Mais uma das inúmeras coisas referente a fadas que ela não conseguiria explicar a eles como acontecia.
Logo, sentia-se cansada novamente. Ela ainda não havia se recuperado de tudo o que havia acontecido. Comunicou aos irmãos que voltaria ao bunker, eles assentiram, Sam explicando que ficariam mais um pouco, para poderem apagar o fogo para que esse não causasse nenhum acidente. Ela entrou no local, pela primeira vez observando cada detalhe. Não havia saído desde que chegara ali, quinze dias antes. A estrutura do local era toda igual, não mudava muita coisa... As mudanças estavam nos detalhes, nos equipamentos antigos espalhados nas primeiras salas. Ela observou tudo com atenção, sentiria falta daquele lugar. Fizera com que ela se sentisse segura, o mais próximo que se sentiu em casa desde que abandonara a sua, anos atrás, para caçar Mackenzie. Ela poderia ter voltado, mas seus instintitos lhe diziam que aquele caso não havia terminado ainda, e que não seria justo voltar sem fechá-lo. Talvez, se pudesse voltar no tempo sabendo que teria esse desfecho, ela faria as coisas diferentes.
- Bobagem. – Disse a si mesma.
Caminhou até a biblioteca, o local estava da mesma forma que haviam deixado. Em uma parede, toda sua pesquisa daquele caso. Na outra e no chão, as pouquíssimas informações que os Men of Letters tinham sobre fadas. sorriu. Retirou a jaqueta de Dean, colocando-a em uma cadeira, e aproximou-se da parede com a pesquisa do caso. Pouco a pouco começou a tirar tudo da parede e jogar em uma caixa que havia encontrado. Deixaria para os meninos decidirem o que fazer com aquilo. Ao terminar, como eles não haviam voltado. Ela foi até uma gaveta, retirou uma pasta vazia, pegou um bloco de notas e caneta, sentou-se em uma cadeira e começou a escrever.

Sam e Dean olhavam a pira em chamas, nenhum dos dois falava algo. Era uma parte da vida deles que não gostavam muito, ainda que naquele caso fosse um bom final, sempre trazia memórias de tantos outros caçadores que tiveram o mesmo destino. E sempre era um processo demorado, eles tinham que ficar até o fim para se certificarem que tudo havia queimado, e que não haveria nenhum incêndio depois que saíssem. Graças ao calor que emanava da pira, Dean não sentia muito frio, apesar de sentir o vento da noite lhe atingir sem piedade. Colocou as mãos nos bolsos da calça e suspirou, chamando a atenção de Sam, que interpretou errado o suspiro do irmão.
- Então... – O mais novo começou. – Ela vai embora.
- Hm?
- ... Ela está indo embora. – Sam disse.
- Sim, é o que parece. – O outro respondeu.
- Qual é, cara! – Sam exclamou, virando-se totalmente para o irmão, ignorando a pira.
- O que?
- Está na sua cara que você está afim dela. – Sam apontou.
- Não fale o que não sabe.
- Dean... Você realmente vai tentar fingir que não sente nada? – O mais novo perguntou. O irmão não respondeu, olhando brevemente para Sam e depois voltando a se concentrar na pira. – Eu sabia! Você está louco por ela.
- Sam, cale a boca. – Dean retrucou.
- Só estou dizendo... Ela vai embora. Sabe-se lá quando voltará. – Sam comentou. – Eu estou doido para sair desse bunker, ir beber algo num bar... Voltar só amanhã, talvez.
- Você é patético. – Dean disse, mas não conseguiu conter o sorriso de lado que surgiu.
- Eu sabia! – Sam disse, sorrindo para o irmão. – Só preciso das chaves.
Dean suspirou, Sam realmente estava certo? Era aquilo, então, que ele vinha sentindo em relação a durante todos aqueles dias? Mas ela era uma fada, ele sequer sabia como aquilo funcionaria. De alguma forma, parecia errado desejar uma fada. Se sentir atraído por ela. Ele passou a mão no rosto e respirou fundo. Olhou para a pira e depois para a construção do bunker. Ela estava lá dentro, sozinha. Provavelmente havia ido dormir, ela ainda parecia exausta. E seria mais errado aproveitar-se dessa situação.
- Precisamos apagar a pira já. – Ele apontou. Sam franziu o cenho, não entendendo como o irmão poderia recusar a oferta que havia acabado de fazer. Antes que pudesse questioná-lo, Dean afastou-se para pegar algo para apagar o fogo.
Quando voltaram a entrar no bunker, após conferirem que tudo havia queimado e não havia mais nada que pudesse trazer o espírito de Mackenzie para continuar sua vendetta, ainda estava na biblioteca, agora terminando de organizar a bagunça que havia feito antes ao reunir as informações que eles possuíam sobre as fadas. Ela levantou o olhar quando viu os meninos e franziu o nariz, sentindo o cheiro de fumaça que emanava deles.
- Vocês deveriam tomar um banho. – Ela comentou, enquanto colocava um dos papéis que havia em sua mão em uma pasta.
- Está tão ruim assim? – Sam perguntou. A fada sorriu e assentiu. – O que está fazendo?
- Organizando a bagunça que eu fiz, e algumas coisas mais... Conto depois que vocês tomarem banho. – Ela disse.
Os irmãos não discutiram. Dean sequer pensara em falar qualquer coisa, a conversa com Sam e o que pensara depois ainda predominando sua mente. Talvez ele devesse pelo menos conversar com , parecia errado não falar nada. Sam percebeu o distanciamento do irmão, sentindo-se levemente culpado pela expressão que havia tomado conta do rosto de Dean, não era tristeza, mas era algo próximo, decepção talvez. Pelo que, exatamente, Sam nunca saberia ou entenderia.
Cada um foi para seu quarto, tomaram banho e se vestiram, logo reunindo-se a na biblioteca novamente. Ela havia terminado de organizar a bagunça, agora lia algo em uma pasta. Olhou para os dois quando eles voltaram ao cômodo e sorriu, fechando a pasta e colocando-a na mesa.
- Bem melhor. – Comentou. Sam sentou-se em uma das cadeiras, Dean, ainda parecendo distante, imitou o irmão. franziu o cenho, perguntando-se o que havia acontecido.
- , quando você vai embora? – Sam perguntou.
- Já deveria ter ido, na verdade, mas resolvi esperar vocês voltarem. – Ela disse. – E depois resolvi organizar as coisas um pouco. Aqui. – Ela jogou a pasta para Sam, fazendo-a deslizar pelo tampo da mesa. – Um pequeno presente de agradecimento. – Sam abriu a pasta e analisou as informações por um tempo.
- O que é isso?
- Tudo o que vocês deveriam saber sobre as fadas e mais um pouco, caso cruzem com alguma em algum momento. – disse. – Coloquei até algumas coisas que podem nos enfraquecer. Não são nada comparado com o que Mackenzie usava, mas são coisas que podem ajudá-los, talvez. Há algumas poções medicinais que podem ajudar tanto nós quanto vocês. Temos poderes, claro, mas usamos muitas poções também. – Ela comentou. – Arquivei também o caso do Mackenzie, caso vocês precisem consultá-lo em algum momento no futuro.
- Você não precisava fazer isso. – Sam disse, fechando a pasta, ainda que quisesse ler tudo, e olhando para a fada.
- Precisava. – Ela disse, sorrindo para o caçador. – Vocês me ajudaram, sem vocês eu não estaria viva e nunca teria encontrado quem matou minhas irmãs. É o mínimo que posso fazer para agradecê-los. – aproximou-se de Sam quando o viu se levantar. Os dois se abraçaram, a fada fechou os olhos, sentindo algumas lágrimas se formarem. Ela odiava despedidas. – Obrigada. – Ela disse quando se afastaram. – Também há um feitiço para que vocês consigam me chamar caso precisem. Deixei alguns ingredientes para ajudá-los. Basta fazerem e eu apareço.
- Simples assim? – Sam brincou, olhando rapidamente para Dean, que parecia não ouvir a conversa entre ele e a fada.
- Sim. – disse, notando a mesma coisa que Sam. – Ele está bem?
- Eu acho que vocês precisam conversar. – Sam disse, olhando do irmão para a fada. – Se eu não vê-la novamente, muito obrigado também pela ajuda, e pelas informações.
- Espero te ver de novo, Sam.
- Igualmente. – Os dois se abraçaram mais uma vez, depois Sam saiu da biblioteca.
esperou até ter certeza que estavam sozinhos e não seriam ouvidos para se aproximar de Dean, que se assustou ao sentir o toque da fada em sua mão. o olhava como se pedisse uma explicação, ele engoliu em seco, olhando ao redor, notando que estavam sozinhos.
- Onde está Sam?
- Foi dormir. – respondeu. Ela sentou-se sobre a mesa, olhando para Dean, sentado na cadeira. – Você está bem? E saiba que eu saberei se você estiver mentindo. – Dean inclinou a cabeça para olhar para ela, não havia pensado em mentir.
- Não sei. – Respondeu, era a verdade. o olhou, curiosa. – Achei que estivesse, apesar de estar muito confuso nos últimos dias, eu achei que estivesse bem. Então Sam me fez ver o que eu estive ignorando.
- E o que era?
- Você. – Ele respondeu.
- O que tem eu?
- A forma como você me faz sentir. – Dean confessou, não via sentido em mentir, ela saberia. – E eu sequer sei se isso é certo ou não. Você é uma fada, a mais pura das criaturas... Parece errado pensar em você da forma que tenho pensado.
- Dean... – sorriu, inclinou-se um pouco para frente e estendeu a mão, acariciando o rosto do caçador. – Nós somos fadas e não mentimos, é verdade. Nós alimentamos a imaginação das crianças, é verdade. Nós temos asas e praticamos o bem, também verdade. Mas isso não quer dizer que não temos desejos também. Uma coisa não exclui a outra.
- Quer dizer que você...
- Sim. – confessou, abrindo um sorriso discreto, quase tímido. – Você não está sozinho nessa tempestade.
- Então... – Dean levantou e se aproximou de , um sorriso surgindo em seu rosto.
- Mas... – A fada colocou as mãos no peito do caçador. Mordeu o lábio inferior e suspirou. – É errado, Dean.
- Como?
- Você me ouviu antes. Uma fada criar um vínculo com um humano, é errado... Nos enfraquece. – disse, levantando o olhar para encontrar os olhos de Dean. – Cada vez que você sofresse, eu sofreria. Cada machucado, eu sentiria. – Ela via a dor que ela sentia refletida nos olhos dele. – Eu sei que você pensa que será apenas um ato carnal, sem nenhuma ligação, mas nós dois sabemos, ainda que lá no fundo do inconsciente, que é mais que isso. Nós criaríamos essa ligação e os dois sofreriam. Não é certo, Dean.
Dean engoliu em seco, sentindo o coração acelerado diminuir rapidamente ao sentir as palavras de fazendo efeito. Ela estava certa, não era justo, ainda mais após ouvir o que ela havia narrado. Ela sofreria ainda mais que ele. E Dean não suportaria saber que estava causando dor à fada. Ele segurou as mãos dela, que ainda estava em seu peito, e beijou cada uma, logo depois soltando-as para abraçar a fada. Ele sentiu sua camisa umedecendo ao mesmo tempo em que o corpo de tremia, quase imperceptivelmente. Dean depositou um beijo nos cabelos de e apertou ainda mais o abraço.
- Está tudo bem. – Ele sussurrou, sentindo-a assentir, apertando os braços finos ao redor dele.
- Eu sinto muito.
E então, quando ele menos esperava, ele se viu abraçando apenas o ar. havia sumido, deixando para trás somente a lembrança de seu cheiro, que Dean sentira quando a abraçara. Era cheiro de floresta após uma chuva. Não havia sinal dela em qualquer lugar.
Ela havia partido.

Epílogo

Green Forest, Arkansas. 31 de outubro.

Aquele costumava ser o dia em que Dean e Sam mais temiam que tivesse casos. Já haviam perdido as contas de quantos acontecimentos já haviam presenciado devido ao folclore que o dia carregava. Era Dia das Bruxas, e muitos rituais costumavam ser feitos ou encerrados naquele dia. Mas naquele ano, tanto Sam e Dean se assustaram quando não encontraram nada. Os irmãos haviam procurado, mas nenhuma morte incomum surgiu no radar deles. Deveria ser o fim dos tempos.
Aproveitando o dia de folga, Dean resolveu sair do bunker. Desde que haviam descoberto o local, era raro ele e Sam saírem de lá se não fosse para um caso ou para comprar comida e bebida. Vez ou outra, claro, algum dos dois estendia a estadia na cidade em que estavam, mas na maior parte do tempo, era ali que eles ficavam mesmo. O Winchester mais velho entrou no Impala, ligou o carro e o toca-fitas, sem prestar muita atenção no que tocava. Ele só queria dirigir e ver onde iria parar.
Foi só quando passou pela placa que o recebia em Green Forest foi que ele pareceu perceber o que estava acontecendo. Pressionou o pedal do freio com força, ouvindo os pneus cantarem com a parada repentina. Colocou a marcha ré no carro e voltou até a placa de boas vindas. Não, não fora impressão errada ou uma brincadeira de sua mente. Ele realmente estava em Green Forest. Dean engoliu em seco. Suas mãos apertaram o volante com força. Ele não deveria ter feito aquilo. Há meses que tanto ele quanto Sam evitavam sequer falar sobre o local, o caso que os levara até ali. Ele para evitar as lembranças, e Sam para respeitar a sanidade do irmão.
Como um feitiço, a imagem de foi conjurada a sua mente e ele lembrou cada detalhe da fada que havia cruzado seu caminho três meses atrás. Após sua partida, Sam mostrara a ele o arquivo que havia deixado para eles com as informações e, mais importante, o feitiço que a chamava. Ao descobrir aquilo, o primeiro instinto de Dean foi realizar o feitiço imediatamente, usaria uma desculpa qualquer para justificar aquilo. Havia até mesmo preparado tudo, faltava apenas queimar as ervas e recitar as palavras. Ele estava sozinho, Sam havia saído e voltaria só no dia seguinte. Mas Dean não seguiu adiante. Dobrou o papel com o feitiço, guardou as ervas e as coisas e nunca mais voltara a esse impulso. Ele havia, entretanto, colocado todos os componentes do feitiço em um saquinho e o guardado em sua mala, e carregava também sempre o papel. Justificava para si mesmo que um dia poderia realmente precisar da fada.
O caçador suspirou, fechou os olhos e passou a mão no rosto. Já estava tarde e ele esgotado, só agora parecendo começar a perceber que havia dirigido por muito tempo sem fazer uma pausa qualquer. Respirou fundo algumas vezes até que a imagem de sumisse de sua mente, demorou, mas aconteceu. Resolveu que, já que estava ali, o melhor seria passar a noite em algum hotel e voltaria para o bunker na manhã seguinte. Ele mudou a marcha do Impala e voltou a se mover, entrando em Green Forest. Dirigiu até o mesmo hotel que ele e Sam haviam ficado três meses antes.
Entrou no quarto, jogando a mala em um canto e acendendo as luzes. Apesar de cansado, não sentia sono. Sabia que se deitasse na cama, ficaria rolando por horas. A vontade que ele tinha de beber também havia sumido. Ainda assim, jogou-se na cama e encarou o teto. Foi instantâneo, lá estava ela de novo. O cabelo ruivo movendo-se de acordo com o vento, a chama da pira iluminando seu rosto, seu corpo esguio encolhido na jaqueta dele, que ficava enorme nela. E então ele voltou, o impulso. Dean levantou-se, jogou no chão as coisas que estavam na mesa do quarto, depois foi até sua mala jogada no chão e procurou pelo saquinho com as coisas do feitiço. Ela provavelmente exigiria uma explicação para aquele chamado, e depois ele se preocuparia com isso. Naquele momento, ele só queria acabar com aquela sensação de caso não terminado.
Dean organizou tudo como explicado no papel. Pegou a caixinha de fósforo, respirou fundo. Último momento para desistir. Mas ele não voltaria atrás. Disse as palavras, acendeu o fósforo e jogou-o na tigela com as ervas. A chama tornou-se azul e logo se apagou, consumindo tudo o que estava na tigela. Dean olhou ao redor, nada havia mudado no quarto, tudo estava da mesma forma que ele havia deixado. Não havia nenhum sinal de . Ele suspirou e olhou no papel, tentando entender o que havia feito de errado. Releu todos os ingredientes, confirmando que havia usado tudo o que precisava. Então foi para as palavras do feitiço, ele havia recitado tudo.
- Talvez um problema de pronúncia? – Ele se perguntou. – Mas isso nunca foi um problema.
Dean respirou fundo, talvez aquele fosse o sinal que precisava para confirmar que realmente aquilo era errado. Ele e não foram feitos para ficarem juntos mesmo. Mas por que havia vindo para Green Forest? Perguntou-se. Concluiu que ali deveria concluir aquele ciclo, despedir-se da imagem que ainda mantinha da fada e deixar para trás. Já havia feito aquilo antes, seria fácil fazer de novo. Ele dobrou o papel, pegou o saquinho onde manteve as ervas por tanto tempo e guardou na mala, conformado com o fato de que havia alguma informação errada ali, e que talvez aquilo tenha sido proposital. Talvez tivesse voltado depois e apagado alguma informação para que eles não conseguissem chamá-la. Quando Dean terminou de fechar a mala e a jogou no canto da parede, ele ouviu a batida na porta do quarto. Olhou para o local e franziu o cenho, mal havia chegado e já estava em problemas? Foi até a porta e a abriu.
Ela estava ofegante e o cabelo ruivo levemente bagunçado, as bochechas coradas e os olhos tinham um brilho que ele acreditava ser igual o que havia em seus olhos. Enquanto Dean ainda pensava no que fazer, ela sorriu, e fingindo impaciência, perguntou:
- Por que demorou tanto?



Fim



Nota da autora: Tô nem acreditando que esse dia chegou e eu finalizei meu baby Obrigada, de coração, a quem acompanhou a história e deixou um comentário. Sei que não é a história de SPN mais emocionante e cheia dos mistérios e com a storyline mais complexa que já existiu, mas eu me diverti muito criando esse mundinho e essa fadinha maravilhosa.

Não esqueçam de, por favor, deixarem um comentário ai embaixo dizendo o que acharam desse capítulo/da fic/do fim ;)

Grande beijo e até a próxima!



Outras Fanfics: Clica no ícone ali em cima do "ffobs" escrito ;)


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