Última atualização: 01/12/2017

Capítulo 1

Green Forest, Arkansas. 30 de junho.

O vestido verde claro roçava na grama baixa, arrastando consigo algumas folhas que haviam caído das árvores. Os pés descalços pisavam com delicadeza, evitando fazer qualquer barulho. Ela sabia que estava sozinha, mas era sempre melhor ser cuidadosa. Não queria nenhuma surpresa. Da distância que se encontrava, já conseguia sentir o cheiro característico da brutalidade que havia acabado de acontecer. O nó em sua garganta se apertou e ela apertou com força o pingente do colar que usava. Não demorou muito e logo encontrava-se na clareira onde o crime havia acontecido.
Ela olhou ao redor, era um círculo perfeito, como todos os anteriores, a luz da lua iluminava o centro, onde o corpo jazia sem vida. Ela sabia a direção que o alvo havia seguido, mas não podia se dar ao trabalho de persegui-lo agora. Tinha que observar a cena antes que os outros chegassem. Aproximou-se com cautela do corpo. O vestido lilás estava posicionado como se a mulher sem vida estivesse simplesmente deitada para alguma sessão de fotos ou para ser pintada por um artista competente. Mas a expressão em seu rosto e a mancha de sangue ao redor entregava a realidade. Os olhos azuis claros, quase transparentes de tão claros, estava arregalados, a boca aberta em horror num último grito que nunca foi pronunciado. Seu corpo estava de lado, os braços posicionados ao lado, tão delicadamente e antagônico àquela realidade que ela quase vomitou. Contornou o corpo e olhou as costas nuas da mulher. Dois cortes que começavam nas omoplatas e terminavam próximos à cintura. O sangue, agora estancado, manchou a pele alva da mulher no seu percurso até a grama.
A mulher abaixou-se e colocou a mão na testa da outra, acariciando o cabelo loiro quase branco. Permitiu que uma lágrima escorresse, não percebendo que caía na bochecha da mulher sem vida.
- Que os Espíritos te levem, irmã. – Ela sussurrou. Fechando os olhos por um momento tão breve que parecia apenas uma piscada. Ao longe, ela conseguiu ouvir a movimentação que começava na fronteira da floresta. Não sabia como eles sabiam, como foram avisados, mas não importava. Precisava ir.
Levantou-se e olhou ao redor, conseguindo encontrar facilmente a trilha do culpado por aquele crime imperdoável. Enquanto conseguia ouvir os passos adentrando na floresta, ela logo sumiu, seguindo seu caminho. Adentrou a floresta escura, aquela parte não mais iluminada pela lua como a clareira que acabara de abandonar, mas isso não seria um problema para ela. Conhecia aquela floresta como a palma da própria mão. Assim como o homem que perseguia, aparentemente. Ela não sabia como aquilo era possível, como ele podia ter tanto conhecimento sobre tantas florestas diferentes. Mas ele conseguia, antes de matá-lo, talvez perguntasse como ele conseguia fazer aquilo. Se desse tempo, claro.
A trilha a levou por um caminho que fugia da trilha que os andarilhos costumavam seguir quando se aventuravam por ali. Ela pulou troncos de árvores caídos, sentindo alguns galhos prenderem no vestido que usava, mas aquilo nunca lhe incomodou. Aos poucos, percebeu que o caminho a levava para fora da floresta, de volta à civilização. Claro, ele deveria ter feito aquilo para despistar os outros, a menos que tivessem cachorros, eles não pensariam em seguir por aquele caminho. Ela parou na beirada da floresta, mais um passo e estaria na estrada. Suspirou frustrada, não havia mais trilha a seguir. Provavelmente ela possuía um carro esperando por ele.
Passou a mão nos cabelos ruivos e olhou ao redor, poderia seguir em frente, voltando para a cidade e para o local que havia “pegado emprestado” para fazer sua pesquisa, ou poderia voltar para a clareira, ficar escondida, ouvindo os outros avaliando a cena. Resolveu que era aquilo que faria, talvez conseguisse alguma pista nova, algum detalhe que havia deixado passar e que poderia ajudá-la agora.

Lebanon, Kansas. 01 de julho.

O bunker estava silencioso. Como costumava ficar sempre que seus residentes estavam ausentes, ou quando eles faziam suas pesquisas usuais, como agora. Fazia mais de uma semana que não saiam do local, apenas para reabastecer a dispensa e a geladeira com garrafas e mais garrafas de cerveja. Dean suspirou frustrado, fechando o notebook e passando a mão no rosto. Estava cansado de não fazer nada. Queria um caso, alguém para socar, atirar... Qualquer coisa. Nem mesmo os vídeos pornôs conseguiam afastar o tédio do homem.
- Nada. Não tem nada. – Ele disse, frustrado, para Sam que parecia ler algo em seu próprio notebook. Ele se levantou e seguiu para a ponta da mesa que ocupavam, tirando mais uma garrafa de cerveja do pacote que comprara naquele dia mais cedo. – Não me diga que você está fazendo alguma pesquisa qualquer sobre qualquer assunto nerd. – Ele disse, percebendo que Sam sequer havia reagido a sua frustração.
- Eu acho que temos algo. – O irmão mais novo disse. Dean arqueou as sobrancelhas e esperou por mais informações. – Não sei como você deixou passar, honestamente. Mas, enfim, cinco mulheres, cinco cidades diferentes, a última apareceu ontem em Green Forest. Todas encontradas no meio de alguma floresta, sem qualquer vestígio ou pista de um suspeito.
- E o que há de estranho?
- Exatamente, não há qualquer informação sobre. As mulheres sequer têm identificações, todas desconhecidas. – Sam disse. Digitou algumas coisas no notebook e ficou em silêncio por algum momento. – Os relatórios da polícia são idênticos, todas tiveram a mesma causa da morte: cortes profundos nas costas. Dois.
- Algum órgão faltando? – Dean perguntou, tomando um gole da cerveja.
- Nada que conste aqui, mas outra coisa sumiu. – Sam disse, lendo o resto do relatório policial, Dean olhou para o irmão, esperando o resto. – Os corpos, assim que o legista terminou a avaliação em cada um, eles sumiram. – Dean franziu o cenho. Ele clicou em alguma janela e observou o que apareceu, arregalando os olhos em surpresa. – Uau.
- O que? – Dean se aproximou do irmão. O mais novo havia aberto as fotos de todas as vítimas, todas possuíam uma beleza que Dean nunca havia visto antes. Sequer conseguia encontrar palavras para descrever. – Talvez seja algum serial killer.
- Talvez. Mas até serial killers deixam alguma pista. Algum objeto faltando, ou alguma assinatura característica além da causa da morte. Esse não tem nada. – Sam levantou o olhar para o irmão mais velho. Reconheceu com facilidade a expressão de descrença do outro e suspirou. – Olha, estamos sem nada há dias, ambos entediados. Já fomos atrás de casos por muito menos. Vale a pena dar uma olhada, talvez possa ser algo.
- Ou não. – Dean disse. Ele olhou as fotos, algo naquelas mulheres o intrigava, e sabia que Sam sentia a mesma coisa. Ele suspirou e olhou o relógio, era cedo ainda, pouco depois do meio-dia. A viagem até Green Forest durava sete horas, quase oito, mas com Dean dirigindo, o tempo diminuía consideravelmente. Se saíssem agora, poderiam chegar lá antes das oito horas da noite. – A gente sai em dez minutos. – Ele disse.

Green Forest, Arkansas. 01 de julho.

Caia uma garoa fina em Green Forest quando eles pararam no estacionamento da delegacia. Haviam feito uma parada em um hotel para deixar suas coisas e colocar os ternos para se passarem por agentes do FBI. A delegacia era pequena e pouco movimentada, especialmente naquele horário. Os dois seguiram para o balcão de informações, onde um policial os olhava atentamente.
- Boa noite, em que posso ajudá-los?
- Boa noite. – Sam disse, apresentando o distintivo falsificado ao mesmo tempo em que Dean. – Estamos aqui pelo caso das mulheres nas florestas. – Ele explicou, não conseguindo explicar o caso de outra forma. – O xerife está presente?
- Um minuto. – O policial disse, seguindo por um corredor ao lado do balcão, não demorando muito para voltar. – Me acompanhem, agentes.
Sam e Dean seguiram o policial pelo corredor até chegarem ao escritório do xerife. Era um homem grande, alguns poucos fios de cabelo enfeitavam a careca brilhante. Terminava de falar ao telefone quando os dois irmãos entraram na sala, agradecendo com um aceno da cabeça ao policial que os acompanhara até ali.
- Sim, sim, eu ligo quando tiver novidades. – O xerife disse, desligando o telefone e levantando-se para cumprimentar os agentes. – Senhores, xerife Hailey, em que posso ajudá-los?
- Xerife. – Dean disse. – Gostaríamos de mais informações sobre o caso mais recente, a moça encontrada na floresta.
- Ah, sim... Não sabia que o FBI já estava no caso. – O xerife disse, abrindo uma gaveta e puxando uma pasta com todas as informações do caso.
- Estamos acompanhando há um tempo. – Sam informou.
- Bem, agentes, não tem muito a dizer... É a quinta moça encontrada, sem identificação e com dois cortes nas costas. – Hailey disse, observando algumas informações na pasta. – Todas bem vestidas, e encontradas numa floresta, na mesma posição. Enfim, está tudo aqui. – O xerife disse, estendendo a pasta para Sam.
- E quanto ao sumiço dos corpos? – Dean perguntou.
- Sim, ainda há esse fator. – O xerife suspirou. – Achamos que fosse um mito, mas hoje tivemos a nossa chance de provar o contrário.
- A moça encontrada ontem, já sumiu? – Sam perguntou, passando as fotos que o legista havia tirado.
- O legista terminou o exame no fim da madrugada, trancou tudo e foi embora. – Hailey explicou. – Hoje pela manhã, não havia sinal dela. Sumiu da mesma forma que as demais, sem qualquer vestígio.
- E não há nada, nenhuma pista de um suspeito?
- Agentes, ele é um fantasma, é a única explicação que podemos ter. Não há qualquer pista em nenhuma cena dos crimes anteriores. Nenhuma pegada, nenhuma trilha, um fio de cabelo... Nada. – Sam e Dean se olharam, sabiam que não se tratava de um fantasma, mas tinha que ser alguma outra opção... Só não sabiam qual.
- E quanto a arma do crime? – Dean perguntou.
- Sabemos que os cortes foram feitos com algo bem afiado, uma faca provavelmente, mas não há nada que possa confirmar também.
- O senhor teria o registro dos outros casos? – Sam perguntou.
- Claro, um segundo. – Hailey disse, levantando-se e saindo da sala. Deixando os dois irmãos sozinhos.
- Então, o que temos? – Dean perguntou, olhando a foto da moça.
- Não faço ideia. Nada que conhecemos faz algo do tipo. – Sam comentou. – Até a parte dos cortes pode ser qualquer pessoa, mas o sumiço dos corpos... Algum ritual?
- Bruxas? – Dean perguntou.
- Pelo menos sabemos que é humano. – Sam disse. Era a única conclusão que poderiam chegar naquele momento.
Hailey não demorou a voltar com as demais pastas dos outros casos, entregando aos dois irmãos, que agradeceram e deixaram um cartão para que o xerife os contatasse caso tivesse alguma novidade.
Sam e Dean saíram da delegacia e seguiram para o carro, pararam no meio do caminho em uma lanchonete para pegar sanduíches, bebidas e um pedaço de torta para Dean, e depois voltaram para o hotel. A noite seria longa analisando aqueles arquivos e tentando encontrar alguma pista que os indicasse que aquilo era área deles.

~ * ~


A mulher estava em pé ao lado da janela que havia no escritório do xerife da delegacia. Ela ouvia toda a conversa entre o xerife Hailey e os outros dois homens, que haviam se identificado como agentes do FBI. Eles haviam acrescentado o sumiço dos corpos ao caso, como se uma coisa estivesse ligada a outra. Ela permitiu-se abrir um sorriso, eles não sabiam de nada mesmo.
A conversa se estendeu por um tempo, ela quase foi embora, cansada de ouvir as mesmas coisas. Achou que aqueles tais agentes trariam alguma novidade. Mas algo mudou quando Hailey saiu da sala para buscar os outros arquivos. Os dois começaram a conversar. Seus tons de vozes mudaram, ela pode perceber. Não era mais tão sério quanto o que adotavam com o xerife.
- Bruxas? – Ela ouviu um dos dois dizer e arregalou os olhos.
Afastou-se da janela e seguiu para o estacionamento, conseguindo sentir a presença dos dois facilmente e encontrando o carro que usavam. Ela contornou o Impala preto até o porta-malas. Passou a mão no carro e novamente arregalou os olhos. Não podia ser.
- Caçadores. – Disse para si mesma.
Não conseguia saber se aquilo era algo bom ou não. Diversas vezes ouvira histórias sobre caçadores, até mesmo conhecera alguém que havia cruzado com dois uma vez, que ajudaram-na a escapar. Mas eles estavam investigando aquele caso, talvez eles não fossem uma ameaça. Pensou ela.
Sentiu a presença dos dois aumentando e afastou-se do carro, escondendo-se com facilidade. Conseguiu ouvi-los conversando, algo sobre passar em algum lugar para comer e depois voltar para o hotel. Prestou bastante atenção nos dois, gravando o que pudesse deles para conseguir encontrá-los depois e acompanhá-los. Precisava saber de qual lado estavam.

A noite passou com lentidão, enquanto ela acompanhava os dois irmãos lendo e relendo as informações dos casos. Eles haviam espalhado as fotos das moças pela mesa redonda e algumas pelas camas do quarto que haviam alugado. Vez ou outra trocavam alguma informação na esperança de alguma luz, mas nada. Um dos irmãos, o mais alto, com cabelo mais escuro, largara os arquivos do caso e começara a procurar algo no notebook. Enquanto o outro ainda lia com atenção as informações.
- Hm... – O mais alto soltou, chamando a atenção do irmão, e dela.
- O que foi?
- Ao que parece, essa não é a primeira vez que isso acontece. – Ele exclamou. Ela fechou os olhos, esperando pelo resto. – Dez anos atrás, mais sete casos parecidos. Sete mulheres, sete florestas... Todas muito bonitas, bem vestidas, nas mesmas posições... Exatamente como agora.
- Dez anos? – O outro irmão perguntou. – Que criatura, ou o que quer que isso seja, age de dez em dez anos?
- Dean, ainda nem sabemos quais possíveis criaturas têm esse modo de agir. – O outro disse. – Tempo de espera é o último detalhe que podemos analisar.
- Mas é algo, Sam. – Dean disse. – No momento é o que temos.
Eles voltaram a ficar em silêncio, o mais alto, Sam, agora olhava as informações que tinha dos casos anteriores. Eles achavam que o culpado daquilo era uma criatura... Sequer suspeitavam que era o oposto. Ela suspirou, quanto tempo demoraria para que percebessem a verdade?
- Tem alguma coisa nessas mulheres que não faz sentido. – O que se chamava Dean comentou após um longo tempo em silêncio, analisando as fotos.
- Além do fato de nenhuma ter identidade? – Sam perguntou.
- Eu digo fisicamente. – Dean disse. – Quero dizer, olhe essas fotos... Quantas mulheres você pode dizer que possuem essa... Essa beleza, não sei. Não é humano isso. Nenhum defeito, nenhuma marca sequer. Nada.
- Qual é a sua teoria? – Sam perguntou. Ela aproximou-se um pouco mais, querendo ter certeza de que não perderia uma palavra. Talvez ali começassem a seguir o caminho correto.
- Não tenho nada. – Dean disse. – Mas essas mulheres, elas não são normais. Sequer parecem humanas se formos analisarmos bem. – Ele argumentou, largando as fotos. Sam pegou algumas, analisando, tentando encontrar o que o irmão apontava. – Digo, elas têm a forma... Mas...
- Você não acha que... – Sam começou, percebendo o que incomodava Dean. – Você acha que elas são algo... sobrenatural? E que estão sendo caçadas?
- Faz sentido, não? – Dean perguntou. – Você também vê agora, não vê? Onde você já viu isso antes?
- Senhor dos Anéis, talvez?
- Tão nerd. – Dean suspirou. Ela sorriu.
- Se for assim, - Sam comentou, ignorando o irmão – o que elas são, então?
Ela sorriu mais um pouco, pelo menos agora estavam no mesmo livro. Pensou em plantar alguma pista, algo que pudesse ajudá-los a perceber logo. Mas não sabia como poderia fazer. Sequer sabia se realmente poderia confiar neles, e se resolvessem que aquele trabalho não cabia a eles e deixassem de lado? Voltassem para qualquer outra coisa que costumavam fazer? Não, ela tinha que esperar. Manteria a vigília sobre eles. Se tinha uma certeza, era que tinham mais alguns dias até o próximo ataque, talvez eles a ajudassem a parar aquela matança a tempo. Afinal, estava na hora de reconhecer, após quase quarenta anos de caçada, precisava de ajuda.

Capítulo 2

Lebanon, Kansas. 03 de julho.

Sam e Dean haviam decidido voltar ao bunker, visto que não havia qualquer pista em Green Forest. Eles foram até a cena do crime a procura de leituras que pudessem indicar alguma criatura sobrenatural como fantasmas, ou sinal de enxofre, talvez algum demônio estivesse fazendo aquilo. E para tentar descobrir algo sobre as vítimas. Foram também ao necrotério para ver se havia alguma pista quanto ao sumiço, e conversar com o médico legista. Mas tudo isso não acrescentou nada às pesquisas deles. Então voltaram ao bunker para pesquisar nos arquivos dos Men of Letters algo que pudesse ajudá-los.
- Podemos excluir bruxas da jogada. – Sam comentou.
- As vítimas não são bruxas ou a criatura que as matou não é?
- Pelo menos as vítimas. – Sam disse. Ainda não havia excluído a possibilidade de algum ritual.
- Mas não encontramos nenhum saquinho, talvez nem sejam as culpadas. – Dean disse. Sam preferiu mantê-las na lista mais um pouco. – Fantasmas estão fora, vampiros, lobisomens e chupacabras também.
- Estávamos considerando chupacabras? – Sam perguntou.
- Eu não sei o que estou considerando. – Dean disse. – Não temos nada, sequer podemos confirmar que as vítimas não são vampiras que cruzaram com algum caçador que possui alguma forma de matá-las com cortes das costas. – Ele suspirou frustrado. – Sam, isso é um beco sem saída. Já era dez anos antes, voltou a ser agora. Não sabemos nem por onde começar a pesquisar aqui. – Ele apontou para a biblioteca dos Men of Letters.
Sam odiava ter que concordar com aquilo. Não estava feliz em deixar um caso em aberto, mas Dean estava certo. Normalmente havia algo que eles encontravam e isso os ajudava a diminuir as possibilidades, a lista de suspeitos. Mas ali, não havia nada além da beleza incomum das vítimas. Ele fechou o notebook e suspirou, olhando para todos aqueles arquivos. Era a pior sensação que podia sentir, o dever não cumprido não por falta de vontade, mas por falta de qualquer outra novidade.

Green Forest, Arkansas. 04 de julho.

A chuva pesada caía em cima dela sem piedade. Seu corpo inteiro estava gelado, e fraco. Havia sido injetada com algo que não conseguia reconhecer. Inicialmente apagara completamente, e só voltara a recobrar consciência dez minutos depois. Demorou um pouco a reconhecer o lugar que se encontrava, mas logo depois percebeu estar em uma clareira, não a mesma onde encontrara a vítima anterior, mas ainda deveria ser a mesma floresta, pois ela reconhecia alguns detalhes. Aos poucos começava a voltar a sentir os demais membros do seu corpo, conseguia ter uma resposta de seus pés e dos braços, as pernas ainda estavam um pouco lentas.
Os demais sentidos ainda estavam aguçados, entretanto, e ela conseguiu sentir a presença dele ali na borda da clareira, protegendo-se da chuva que a congelava. Se estivesse em suas condições normais, a chuva não alteraria nada além da condição de seu cabelo. Mas com o elemento desconhecido injetado em suas veias, ela sentia o frio a consumindo. Ele pareceu sentir também que ela estava acordada e recobrando os movimentos do corpo. Não poderia demorar, ou perderia a oportunidade.
Lentamente ele se aproximou dela. Ela olhou para o lado, só então percebendo que estava deitada no chão com a barriga para baixo. Claro. Fechou os olhos com força e forçou seu cérebro a cooperar com ela, precisava ser rápida. Era mais treinada que as demais vítimas, tinha que conseguir escapar daquela situação. E ainda precisava guardar um pouco de energia para conseguir sair dali e percorrer quase oitocentos quilômetros para ajuda.
Quando voltou a abrir os olhos, os pés dele estavam ao seu lado. Ela respirou fundo, conseguindo sentir melhor suas pernas. Mais um fator a seu favor. Ela também conseguiu sentir a adaga que escondia na perna, ele provavelmente não esperava por aquilo. Achava justo ele também cometer um erro, assim ficavam empatados. Ela não havia percebido ele se aproximando, o que causou em sua captura. E ele agora não descobrira sua adaga, provavelmente pensando que ela era igual às demais.
- Como está, querida? – A voz rouca e áspera dele falou próxima ao seu ouvido. Ela sentiu seu corpo se arrepiar, e não por causa da chuva. – Prometo que não vai demorar. – Ele sussurrou.
Ela engoliu em seco, pelo menos não estava amarrada como as outras estiveram. Viu o brilho da lâmina que ele puxara do cinto da calça, inconscientemente retesou as costas, como se aquilo fosse ajudar em algo. Conseguiu discernir com facilidade o gélido da chuva e o gélido da lâmina. Ele percorreu com a faca toda a extensão das costas, indo e voltando duas vezes. Sem qualquer anúncio, pressionou a ponta com mais força em sua omoplata esquerda. Ela mordeu o lábio inferior e reprimiu o grito de dor, enquanto sentia a lâmina ir descendo, fazendo uma linha perfeita. Ela sentiu a fraqueza mais forte agora. Precisava agir antes que fosse tarde demais, se ele fizesse aquilo mais uma vez, perderia qualquer chance.
Respirou fundo, forçando o cérebro a trabalhar e comandar seus membros. Contando com a concentração dele em suas costas, e com o fato dele estar agachado, sem muito apoio, ela jogou o braço direito para trás, afastando a faca, e depois voltou com o mesmo para empurrá-lo. Ele certamente não esperava por aquilo, ainda contando com o fato dela ser igual às demais e demorar mais para perder o efeito da droga que injetara. Ela virou-se, ficando com a barriga para cima, sentindo o corte nas costas arder. Respirou fundo, não deixando aquilo incomodá-la e levantou-se rapidamente, ele já se recuperava da surpresa e preparava-se para atacá-la, mas ela ainda conseguiu ser mais rápida e acertou um chute em seu estômago, derrubando-o novamente. As nuvens haviam deixado a lua completamente encoberta, fazendo com que a clareira ficasse na completa escuridão, mas ela conseguiu perceber alguns detalhes dele, o suficiente para ter alguma pista. Não ficou para tentar atacá-lo novamente, não teria forças para isso, infelizmente. Afastou-se dele o mais rápido que pôde, o suficiente para conseguir se concentrar sem interferência e poder usar o que restava de seu poder antes de sucumbir completamente à fraqueza que a atingia.
Fechou os olhos e respirou fundo novamente. Quando voltou a abri-los, encontrava-se em frente a uma construção alta, e aparentemente abandonada, mas ela sabia que não estava. Com dificuldade, e com a visão turva, ela encaminhou-se para a porta do local. Mal conseguia se manter em pé, levantar o braço direito e bater duas vezes com força na porta grossa e pesada foi o máximo que conseguiu antes de escorregar pela mesma, o sangue escorrendo e manchando ainda mais o vestido azul claro – àquela altura, já completamente sujo com lama e folhas da floresta.

Lebanon, Kansas. 04 de julho.

Era madrugada, mas Dean ainda estava acordado. Nunca realmente conseguia dormir uma noite completa, eram raras as vezes. Estava acostumado a dormir só quando o sol estava prestes a nascer, quando seu corpo já não aguentava mais. Naquela noite havia decidido organizar o arsenal de armas que ele e Sam costumavam carregar no carro, fazia um tempo que não fazia aquilo, geralmente só conferia o grosso e deixava o resto. As diversas armas estavam espalhadas pela mesa, algumas desmontadas, outras esperando sua vez.
Terminava de limpar uma das armas quando ouviu a primeira batida. A princípio achou que fosse um trovão, pois a chuva que assolava Lebanon estava intensa, mas poucos segundos depois ouviu novamente. Ele franziu o cenho e levantou-se da cadeira, pegando sua arma de sempre, sabendo que aquela estava em perfeitas condições.
- Sam? – Ele chamou, sabendo que o irmão estava acordado.
Sem esperar o mais alto responder, Dean seguiu em direção à escada que levava a porta de saída. Sam chegou correndo, e observou o irmão com atenção. Aproximando-se da mesa e pegando uma arma que aparentava estar em condições de uso. Dean subiu com cuidado as escadas, Sam o seguiu, ficando um pouco distante. Ali em cima, a chuva podia ser ouvida com mais força, afinal, estava próximo à saída do bunker. Mantendo a arma em posição, ele colocou a mão na maçaneta, e olhou para Sam, que acenou positivamente, também reforçando a posição da arma. A atenção redobrada era devido à impossibilidade de alguém surgir no bunker àquela hora. Pouquíssimas pessoas sabiam chegar até ali, e geralmente ligavam avisando. Com rapidez, Dean girou a maçaneta e puxou a porta, abrindo-a com força.
Para a surpresa dos dois irmãos, ninguém os esperava para atacá-los, ao contrário. Assim que a porta foi aberta, um corpo caiu aos pés de Dean. Sangue, água da chuva e lama se misturaram no chão ao redor da mulher desmaiada. Guardou a arma no cós da calça e abaixou-se, conferiu se ela ainda respirava e ficou aliviado ao sentir o pulso. Mas ela estava mal, muito mal. Não sabia quem era, mas não pensou duas vezes antes de passar os braços por baixo dela e erguê-la, deixando para Sam a tarefa de fechar a porta.
Dean desceu a escada com a mulher no colo, deixando uma trilha de sangue para trás. Ele sentia o líquido quente escorrendo por seu braço, não sabia exatamente o que fazer, então depositou com cuidado o corpo da desconhecida na grande mesa que havia no meio da sala. Ele e Sam nunca usavam aquela mesa mesmo. Sam desceu a escada um tempo depois, após se certificar de que não haveria mais nenhuma surpresa e ter fechado a porta. Quando se aproximou da mesa, viu Dean afastando os fios de cabelo ruivos que estavam grudados no rosto da moça.
- Ela está congelando! – Dean comentou, colocando os dedos no pulso da mulher para procurar pelo pulso novamente.
- Eu vou pegar o kit e uns cobertores. – Sam disse, enquanto Dean olhava com atenção para procurar mais algum machucado além do que havia nas costas, a fonte do sangue que continuava a escorrer e manchava a mesa. Ele resolveu esperar o irmão voltar para virar a moça. A todo o momento as mesmas perguntas voltavam à sua mente: quem era ela e como havia encontrado o bunker?
Sam voltou e ajudou Dean a virar a moça com cuidado. Assim que ela estava de costas, e os dois viram o corte que havia em suas costas, as perguntas sumiram. Os dois se olharam e suspiraram. Se há um dia se encontravam em um beco sem saída, ali estava sua alternativa. Era cruel pensar em usar a moça como uma pista enquanto ela estava naquele estado, sabiam disso. Mas não puderam impedir o pensamento.
Ela usava um vestido igual ao das mulheres anteriores, apenas com a cor diferente, esse parecia ser azul – apesar de estar manchado com sangue e terra –, e tinha um decote em “V” nas costas. O corte era idêntico aos anteriores, começando na omoplata esquerda e terminando na altura da cintura, mas havia apenas um e não parecia ser tão profundo quanto ao das outras moças. Dean pegou uma das toalhas que Sam havia trazido e começou a limpar o corte, tirando a terra, as folhas e alguns galhos, o sangue continuava a jorrar, o que só causava estranhamento no homem, pois àquela altura, já era para o fluxo ter diminuído um pouco pelo menos. Enquanto ele limpava, Sam aproveitou para cobrir o corpo da moça, deixando apenas as costas livres. Ele pegou uma toalha e a dobrou, colocando sob a cabeça dela.
Os dois fizeram tudo em completo silêncio, não precisavam conversar, pois sabiam que tinham as mesmas opiniões quanto àquilo. Quando o corte estava consideravelmente limpo, e o sangue finalmente havia começado a diminuir o fluxo, Dean notou que o corte não estava tão profundo quanto parecia, então poderia fazer pontos falsos e isso deveria bastar, desde que ela não se mexesse muito. Mas a julgar pela completa inconsciência dela, ele sabia que ela não acordaria tão cedo. Sam ajudou-o a fazer os pontos falsos e depois a cobrir o curativo. Ele colocou outro cobertor em cima dela, agora em suas costas. Feliz em constatar que ela já estava bem menos gelada do que quando chegou.
Ao terminarem, os dois irmãos se olharam, sem saber o que deveriam fazer agora. Como proceder? Havia tantas perguntas que queriam fazer, mas sabiam que não adiantaria perguntar ao outro, pois a única pessoa que tinha as respostas estava desacordada. Talvez pudessem chamar Castiel, o anjo poderia ajudar de alguma forma, mas talvez não fosse sábio chamar alguém desconhecido sem antes saberem com o que estavam lidando.
Os dois limparam a bagunça na mesa o máximo que conseguiram. Provavelmente deveriam levar a moça a um dos tantos quartos que havia no bunker, mas podiam romper os pontos e talvez piorar sua condição, talvez ela tivesse algum osso quebrado, não saberiam dizer. O melhor a fazer seria esperar que ela acordasse. E tentar conseguir algumas respostas. Aproveitaram para limpar o sangue que havia pingado no chão também, tinham certeza que não conseguiriam dormir tão cedo. Não enquanto não conseguissem suas respostas.

Lebanon, Kansas. 09 de julho.

A última coisa que ela se lembrava era da porta grossa e das duas batidas que conseguira dar para chamar quem estivesse dentro daquele lugar estranho. Logo depois, a escuridão a envolveu e ela se deixou levar. Seu corpo congelava por fora, e ela sentia suas forças esvaindo mais rápido que o normal, algum efeito da droga e do que o homem havia feito com ela, além do enorme esforço que ela havia feito para chegar até ali. Não havia nada que pudesse fazer, apenas cair na inconsciência e deixar seu corpo se recuperar. Aquilo havia acontecido com ela apenas uma vez havia muitos anos, quando ainda era uma novata naquela carreira. Havia sido descuidada e quase morrera, felizmente estava sendo observada de perto pelo seu treinador, e ele a ajudara. Mas dessa vez parecera pior. Quem a havia atacado sabia bem o que estava fazendo. Sabia mais do que era saudável para qualquer um de sua espécie. Agora ela entendia ainda mais o temor que todos tinham dele. Ele sabia segredos que apenas elas deveriam saber. E isso era incrivelmente perigoso.
Na última vez, ela levara dois dias para se recuperar, indo e voltando em sua inconsciência. Dessa vez, foram cinco dias completamente no escuro. Quando voltou a recobrar os sentidos, estava deitada em algo macio com a barriga para baixo. Sentia uma leve ardência nas costas, no lugar onde fora mutilada. Seus sentidos ainda estavam falhos, assim como sua movimentação. Mas ela sabia que não estava em perigo. Sentia que havia alguém presente no ambiente, e esse alguém mexia no local onde a lâmina a cortara. Ela se mexeu, ainda que sem querer, quando a pessoa apertou algum ponto especialmente colorido. Logo depois sentiu a pessoa hesitar. Talvez não esperando que ela estivesse responsiva. Percebeu quando algo cobriu suas costas e quando a pessoa se retirou do ambiente. Ao longe conseguia ouvir vozes, mas com seus sentidos fracos, não conseguia ouvir o que conversavam. Não tentou abrir os olhos, ao contrário, permaneceu com eles fechados, sentindo que voltava à inconsciência.

Quando voltou a acordar, parecia melhor. Sentia que ainda era o mesmo dia e que não estava sozinha novamente. Seus sentidos estavam melhores. Ela conseguia ouvir melhor, e sentir mais sobre o local em que se encontrava. Um dos rapazes estava ali, mas não conseguia discernir qual era. Não importava, continuava sabendo que não estava em perigo. Ela respirou fundo e se remexeu, sentindo o incômodo nas costas. O rapaz se moveu.
- Eu não me mexeria se fosse você. – Ela ouviu a voz dele, ainda não conseguindo discernir qual dos dois falava. – Seu corte está melhor, mas nós o pioramos um pouco quando te trouxemos para o quarto, então tome cuidado. – A voz dele era reconfortante, um pouco rouca.
Ela mexeu os dedos e o braço um pouco, feliz por saber que seus movimentos estavam plenos novamente. Não se sentia completamente curada, não estaria enquanto o corte em suas costas não fechasse, o que não deveria demorar a acontecer, dois dias no máximo, assim ela esperava. Mas só em ter seus movimentos e seus sentidos de volta, e estar segura, já lhe era suficiente. Respirou fundo e arriscou abrir os olhos. Agradeceu pelo quarto não estar completamente iluminado. A luz presente provinha de dois abajures que ficavam em uma prateleira acima da cabeceira da cama. Para o lado que seu rosto estava virado, ela podia ver uma cadeira e seu ocupante. Se sua memória ainda estava boa, e ela sabia que estava, aquele que a ocupava era Dean, o irmão mais velho.
Os olhos verdes do homem a observavam com atenção, não havia temor ali, apenas preocupação e curiosidade. Ela podia apostar que a cabeça do homem fervilhava com diversas perguntas que só ela teria as respostas. Mas ele não as faria agora, ela podia perceber isso, sabia que ele esperaria até que ela estivesse bem o suficiente para conseguir ficar deitada com a barriga para cima pelo menos. Ele se mexeu com cautela, como se temesse assustá-la. Mas pôde ver nos olhos dela que ela não tinha medo, de alguma forma, parecia conhecê-lo.
- Como está se sentindo? – Ele perguntou. Mantinha o tom de voz baixo, provavelmente para poupá-la de algum incômodo. Havia se adiantado para frente, apoiado os antebraços nos joelhos. Mantendo os olhos atentos em cada movimento que ela fazia.
- Aquecida. – Ela disse, constatando que não sentia mais como se estivesse congelando. Arriscou uma risada, fazendo-o sorrir um pouco. – Estou bem. – Completou.
Dean sentia-se levemente hipnotizado pela voz da mulher, não sabia o que esperar, mas definitivamente não esperava aquele tom de voz rouco e suave. Ele a observava atentamente, preocupado que ela fizesse algum movimento brusco que pudesse piorar seu machucado. Ele e Sam haviam, no dia anterior, decidido finalmente tirá-la da mesa no meio da sala, confiando que o machucado em suas costas já estava estabilizado e fora de risco. Mas o menor dos movimentos fez os pontos se abrirem e a ferida voltara a sangrar um pouco – bem menos do que quando ela havia chegado ali, pelo menos. Durante todos aqueles dias o único indício que ela estava viva era o movimento de sua respiração, porque, fora isso, ela não emitira qualquer som e sequer mexera os dedos.
- Eu sei que você precisa descansar. – Ele disse, ela o olhava com curiosidade. – Mas precisamos pelo menos saber seu nome. – Ele optou pela informação mais básica, era difícil ter que ficar se referindo a ela como “mulher misteriosa” quando conversava com Sam sobre o estado dela. Quando ela estivesse completamente bem, então arriscariam as demais perguntas.
- Vocês devem ter milhares de perguntas e você opta pela mais banal de todas. – Ela disse, fechando os olhos enquanto sorria.
- Preferimos guardar as outras para quando você estiver melhor. – Dean disse. Não conseguindo deixar de se perguntar como ela sabia que eles eram um plural e não havia só ele ali.
- . – Ela respondeu, suspirando em seguida. Queria se mexer, mas não queria causar mais trabalho, conseguia sentir que seu ferimento estava muito sensível ainda. – Meu nome é .
- Você deveria voltar a descansar... . – Dean disse, percebendo o incômodo dela. – Você está segura aqui.
- Eu sei. – Ela disse, tão baixo que ele mal conseguiu ouvir. Voltou a fechar os olhos e logo estava inconsciente de novo. Queria ter feito isso desde que voltara e percebera que havia recobrado seus sentimentos, mas resolveu confirmar que estava com quem achava estar.

Dean saiu do quarto, fechando a porta atrás de si e seguiu para a biblioteca, onde Sam estava, há dias, pesquisando e tentando achar as respostas para as milhares de perguntas que eles tinham. Parou apenas no meio do caminho para passar na cozinha e pegar uma cerveja, abrindo-a e jogando a tampinha no lixo, pegou também uma rosquinha que o irmão trouxera naquela manhã.
- Ela acordou. – Informou, encontrando Sam procurando algo em uma das gavetas cheias de arquivos que eles possuíam.
- E ai?
- Já apagou de novo. – Dean deu de ombros, dando uma mordida na rosquinha e depois tomando um gole da cerveja.
- Descobriu alguma coisa?
- O nome dela. – Comentou, sentando-se na cadeira em frente ao seu notebook. – .
- Algo mais?
- Bem, de alguma forma ela sabe que eu não sou a única pessoa aqui. – Dean disse, olhando rapidamente para a expressão confusa que o irmão fazia. – Eu sei, também não estou entendendo nada. A única coisa que podemos fazer é esperar até ela acordar de novo, e dessa vez que ela esteja melhor.
- Pelo menos temos um nome para buscar nas pessoas desaparecidas. – Sam disse. Dean acenou positivamente com a cabeça e começou a procurar, mas teve tanta sorte quanto o irmão estava tendo com as pesquisas. Nenhuma.
Os irmãos já tinham revirado aquela biblioteca inteira a procura de qualquer pista que pudesse ajudar a entendê-los o que estava acontecendo, mas não havia nada. Ou talvez houvesse e eles não saberiam reconhecer – o que Dean considerava ser uma grande possibilidade. Também já haviam discutido a possibilidade de contatar Castiel, mas decidiram esperar ter certeza para conseguirem fazer as perguntas certas.

Capítulo 3

Lebanon, Kansas. 11 de julho.
demorou mais dois dias para voltar a acordar. Quando o fez, encontrava-se sozinha no quarto. Mas conseguia sentir os irmãos pelo local, não muito distantes de onde ela estava. Arriscou se mexer e sorriu satisfeita ao perceber que o machucado em suas costas já estava melhor. Ela conseguiu se virar na cama, olhou ao redor. O quarto em que se encontrava era bem rústico, não havia decoração alguma. Apenas umas estantes com alguns livros, uma pia e um espelho na parede próxima a porta. A cama não era muito confortável, mas dava para viver. Ela arriscou se sentar, e sorriu quando conseguiu fazê-lo. Olhou para baixo e constatou que ainda usava o vestido azul claro, que àquela altura tinha pouquíssimo resquício da cor original, estando predominantemente marrom e marrom-avermelhado.
Levantou-se da cama, sentindo seu corpo protestar um pouco, não fazia ideia de quanto tempo estava deitada naquela mesma posição. Ela conseguiu perceber que aquele quarto não era usado, talvez fosse a primeira hóspede, mas havia uma muda de roupa na poltrona que, no outro dia, era ocupada por Dean. Ela se perguntou se aquilo era para ela, mas resolveu arriscar. Retirou o vestido e o jogou em um canto afastado, depois se preocuparia em jogá-lo no lixo. Aproximou-se do espelho e virou-se de costas, analisando o corte. Eles haviam feito pontos falsos nela, o que era um bom sinal, indicando que o corte não era profundo. Não estava completamente cicatrizado, mas não havia mais perigo de abrir novamente, a menos que ela lutasse contra alguém. Mesmo sabendo que não havia perigo, ela aproximou a mão do local com cuidado, sabia que mesmo após cicatrizado, ficaria uma marca. Saiu de perto do espelho, e aproximou-se da poltrona ao lado da cama, observando a muda de roupa que havia ali. A roupa consistia em uma camisa de flanela e uma calça, mas esta ficara grande demais nela, caindo a todo o momento, então ela ficou apenas com a camisa, que ia até metade de suas coxas. No gancho atrás da porta havia um roupão cinza que ela usou por cima, amarrando-o na cintura. No pé da cama havia um par de chinelos, que ela calçou.
Abriu a porta e olhou ao redor. Encontrava-se em um corredor com portas idênticas àquela do seu quarto. Para a esquerda, o corredor seguia com mais portas fechadas, e para a direita ela conseguia ouvir a movimentação dos irmãos. Encostou a porta atrás de si, não querendo quebrar o padrão das portas fechadas, mas querendo identificar depois qual era a “sua”, e seguiu para a direita, olhando tudo ao seu redor com atenção. Não fazia ideia do que era aquela instalação, sabia que havia uma força poderosa que a protegia e não fosse a conexão que estabelecera com os irmãos naquela vez que os vigiara, nunca teria conseguido chegar até ali. Talvez fosse aquela uma das razões por ter se desgastado tanto, nunca tivera que usar tanto de seu poder de uma vez.
O corredor a levou até uma sala ampla, cheia de estantes com livros e vários arquivos com diversas gavetas. Os irmãos estavam sentados a uma mesa, cada um com um notebook aberto a sua frente. Dean foi o primeiro a vê-la, pois estava sentado de frente para ela. Mas Sam logo percebeu a movimentação do irmão e virou-se para ela. preferia que não o tivesse feito, pois de repente estava completamente sem graça, sem saber o que falar e como agir.
- Ei, você acordou. – Dean quebrou o silêncio, apontando o óbvio. sorriu um pouco sem graça.
- Sim... – Ela alisou o roupão que usava. – Espero que não se importem eu estar usando isso, estava no quarto.
- Não... Nós colocamos lá para você. – Sam disse, sorrindo gentilmente.
- Ah, obrigada. – disse. – E, obrigada, de novo, por cuidarem de mim. Sinto muito por qualquer inconveniente e problema que posso ter causado. – Ela completou. Sabia que aquele lugar não era tão fortemente protegido à toa. Ela provavelmente nem deveria estar ali.
- Só fizemos nossa obrigação. – Sam disse. Ele se levantou e se aproximou dela. – Você está com fome? Quer comer algo? Beber algo?
- Sam, devagar. – Dean avisou. olhou para os dois e sorriu.
- Não, está tudo bem. – Ela disse para Dean. Depois se voltou para Sam. – Eu não quero atrapalhar, mas não recusaria comida. E água, talvez?
- Sente-se, fique à vontade, eu já volto. – O mais alto disse, contornando a moça e sumindo em uma curva do corredor.
- Algo me diz que vocês não estão muito acostumados a receber visitas. – Ela comentou, ocupando uma das cadeiras livres.
- Realmente, não é muito comum recebermos visitas. Geralmente somos só nós dois e Castiel.
- Cas... tiel? – franziu o cenho. – Nome incomum.
- Combina com ele. – Dean deu de ombros. Eles ficaram em silêncio por um tempo. – Como está o corte?
- Ficará uma cicatriz. – Ela comentou, não parecendo feliz com aquilo. – Mas pelo menos não morri.
- Pelo menos isso. – Foi Sam quem comentou, voltando com uma bandeja, a qual depositou na mesa, em frente à . Havia um prato com um sanduíche, uma xícara com um líquido marrom que, pelo cheiro, ela julgou ser chocolate quente e um copo com água.
- Obrigada. – Ela agradeceu, olhando o mais alto e sorrindo. Bebeu a água primeiro, já havia percebido desde que acordara que tinha sede, aceitaria mais, mas depois pensaria nisso. Seu estômago finalmente dera sinais de vida. Ela pegou o sanduíche e deu uma mordida. Percebia que os irmãos revezavam os olhares entre elas e eles próprios. Ela quase riu, não tivesse com a boca cheia. – Vocês têm perguntas... Muitas delas.
- Nós podemos esperar você terminar. – Dean disse, provavelmente o oposto do que Sam esperava. O irmão mais novo parecia ser mais curioso. Enquanto o mais velho parecia mais preocupado com ela. deu mais uma mordida grande no lanche, fazendo Dean arregalar os olhos um pouco, ele só vira uma pessoa dar uma mordida daquele tamanho em um lanche. Ele próprio. Após mastigar e engolir, tomou um gole do chocolate quente e voltou-se para os irmãos.
- Podem perguntar. Posso fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo. – Ela apontou.
Sam e Dean se olharam. Naqueles dias, haviam conversado diversas vezes sobre as inúmeras perguntas que tinham para a hóspede. Sam havia até mesmo cogitado a possibilidade de anotar as perguntas para conseguirem se organizar melhor. Dean havia informado que, em qualquer situação, eles deveriam começar pelo mais simples. Não sabiam qual era o tamanho do dano que o acontecido havia causado em , então era melhor adotar a cautela. Não precisavam descobrir tudo em um dia só. Em todas as discussões que tiveram sobre o assunto, os irmãos concordaram que pelo menos uma questão deveria ser eliminada de vez, e foi Dean quem perguntou.
- Como você chegou aqui? – Ela havia aproveitado a troca de olhares dos irmãos para tomar mais um gole da bebida quente e dar uma mordida no lanche. Terminava de mastigar quando Dean se pronunciou.
- Eu segui vocês. – Ela optou pela resposta mais simples. Não era uma mentira exatamente. Era meia verdade. Sabia que podia confiar neles, mas antes de contar toda a verdade, precisaria sondá-los um pouco, descobrir o que eles sabiam. – Quando foram a Green Forest, eu ouvi a conversa de vocês com o xerife.
- Você é uma caçadora? – Sam perguntou.
- Sim. – Mais uma que não era mentira. – Quando descobri que vocês também eram, resolvi acompanhá-los. Ver se vocês tinham mais sucesso que eu.
Os três ficaram em silêncio. Os Winchester sabiam o que deveria vir a seguir, mas nenhum dos dois queria se pronunciar. aproveitou para finalizar o lanche e tomar mais um gole da bebida, mantendo a xícara entre as mãos para esquentá-las. Ela sorriu, percebendo novamente a troca de olhares entre os dois.
- Vocês querem saber o que aconteceu comigo. – Ela disse. – Não precisam ter... Medo. Podem perguntar o que quiserem, eu responderei o que precisam saber. – Ela comunicou. Respirou fundo, tomando mais um gole do chocolate quente. – Estou seguindo esse homem há um tempo. – Ela falava calmamente, pensando com cuidado em cada informação que entregava aos meninos. – Vocês encontraram os casos antigos, as sete mulheres, certo?
- Sim. – Sam confirmou.
- Pois bem, aquela não foi a primeira vez dele. – Ela disse. – Esses assassinatos começaram há quarenta anos. Sete mulheres a cada dez. – Explicou, largando a xícara, agora vazia, na mesa e apoiando as mãos na superfície, entrelaçando-as. – Ele é praticamente um fantasma, não fossem os corpos mutilados, ninguém sequer saberia que ele existia. Durante todo esse tempo ninguém teve uma pista dele. Vinte e oito casos encerrados por falta de pistas.
- Vinte e oito? – Dean perguntou.
- Já temos cinco vítimas. Como consegui escapar, faltam mais duas. A menos que consigamos encontrá-lo agora, teremos vinte e oito casos em breve. – Ela informou.
- Em todos esses anos, todas essas mulheres... Nenhuma tinha identificação? – Sam perguntou.
- Não. – disse, aquele assunto era delicado, esperava que eles não se aprofundassem demais. – Todas completas desconhecidas, a polícia nunca conseguiu identificar, e o fato delas sumirem logo depois que os registros eram finalizados, não ajudava.
- Sobre isso, alguma pista?
- Nada. – Ela disse. Talvez devesse revelar alguma coisa. – Mas não é ele quem some com os corpos, se foi isso que vocês pensaram. – Pela troca de olhares entre os irmãos, ela confirmou que fora exatamente aquilo que eles haviam pensado. – Eu sempre acompanhei a polícia e os corpos, desde que comecei a acompanhar o caso, eu teria notado se ele estivesse por perto. – Ela disse.
- E todas as mulheres tinham as mesmas características?
- Sim, tudo igual. Bonitas, deitadas na mesma posição no meio de uma clareira, usando um vestido delicado, os cortes nas costas. Nada nunca mudou. Com exceção de características como cor do cabelo e olhos.
olhou para os dois irmãos. Parecia que havia acrescentado mais mil dúvidas a cada pergunta que respondia. Ela podia quase ouvir a mente dos dois funcionando, e a conversa muda que ocorria entre eles. Eles tinham perguntas, mas não sabiam como fazê-las. E ela não queria dar respostas sem que fosse pedido, corria mais perigo de falar mais do que deveria se assim o fizesse. Foi então que percebeu um detalhe interessante. Eles ainda não haviam falado seus nomes para ela. Bem, sabia o nome dos dois, mas eles não sabiam disso. Só sabia oficialmente o de Sam, pois Dean havia usado para chamar a atenção do irmão mais novo quando este lhe enchera de perguntas.
- Eu, hm, não quero interromper essa discussão, que obviamente é importante. – Ela começou, voltando-se para Dean. – Mas eu ainda não sei seu nome. Sei que ele é Sam porque você o chamou assim, mas você...
- Dean. – Ele comunicou. – Sam e Dean Winchester.
- Ah, prazer. – Ela disse. – Estão nessa... Vida há muito tempo? – Arriscou perguntar. Talvez se desviassem um pouco do assunto, conseguiriam voltar a organizar os pensamentos. Pelo menos era isso que fazia quando sua cabeça estava muito cheia. Distraía-se com outras coisas.
- Desde crianças. – Sam disse.
- E durante todo esse tempo, nunca encontraram nada assim?
- Fica difícil definirmos com o que estamos lidando se não temos respostas. – Dean comentou. – Chegamos a considerar que as vítimas sejam criaturas sobrenaturais, mas não conseguimos determinar o que. Já que não há corpo, não há nada para analisarmos e conferirmos as características. – Completou.
- O que nos traz a você... Como você escapou? O que aconteceu? Como você se tornou o alvo dele? – Sam perguntou.
- Eu não sei. Talvez eu seja um pouco parecida com as demais. Em todo o caso, eu fui descuidada. – confessou. – Acho que fiquei tão aliviada por ver mais pessoas trabalhando nesse caso que não percebi quando ele se aproximou. Ele me drogou e me levou para uma clareira, acredito que ainda estava em Green Forest, a floresta parecia bem similar com a moça anterior. – Ela explicou. – Mas, hm, o que quer que ele tenha injetado em mim, talvez ele tenha ficado descuidado também, achou que comigo seria mais fácil e não pegou tão pesado. Enfim, o que ele injetou em mim começou a perder efeito rapidamente. Consegui pegá-lo de surpresa quando ele se preparava para me cortar novamente, por cima do que já tinha feito. – Ela disse. – Eu o derrubei e me levantei. Estava congelando e com dificuldades para me concentrar por causa do que ele injetou em mim, e pela dor nas costas. Mas consegui golpeá-lo novamente, o suficiente para fugir.
- Você o viu? – Sam perguntou.
- Sim. Estava escuro, muito escuro, mas consegui prestar atenção em alguns detalhes. – Ela disse. Fechando os olhos e tentando resgatar sua memória de dias atrás, com sorte não teria se esquecido da noite na clareira. – Ele era alto e largo... Não chegava a ser gordo, mas era forte. – Ela começou a dizer, os olhos fechados com força, enquanto sua mente trazia aos poucos a memória. Sua cabeça protestou um pouco, mas ela ignorou a dor. Sam pegou um bloco de anotações e uma caneta para anotar o que ela dizia. – Eu me levantei e virei para ele. – Ela narrou, fechou a mão direita em punho, sentindo as unhas perfurarem a pele de leve. Sua memória ia e voltava, ela só tinha lapsos. Precisava se lembrar. – Ele tem a voz rouca e áspera, não sei como isso ajuda.
- Talvez você deva ir devagar. – Dean disse, tocando-a pela primeira vez em dois dias, colocando a mão por cima da dela que estava fechada em punho. Pareceu fazer efeito, pois ela relaxou e abriu os olhos, decepção estampava as íris âmbar.
- Não, eu preciso lembrar. É a primeira vez em anos que existe alguma pista.
- Apenas tente não se machucar mais. – Ele disse, olhando para a marca profunda das unhas na palma da mão dela. sorriu e assentiu, voltando a fechar os olhos. Dean não largou sua mão. Ela respirou fundo e relaxou, estava fazendo aquilo errado. Aos poucos voltou à noite na clareira, sentiu a chuva em sua pele e viu a escuridão do local. Lembrou-se dos passos dele em sua direção, da voz rouca sussurrando algo em seu ouvido. A lâmina em suas costas. Voltou a apertar a mão em punho. O aperto delicado de Dean fez com que ela mudasse o foco. Então estava em pé, com dificuldade, mas estava em pé, a chuva gelava seu corpo pouco a pouco. Ela olhou para seu possível assassino, que se recuperava do ataque inesperado. Ele levantou o olhar para ela. A escuridão tornava as coisas difíceis, mas duas características ela conseguiu perceber.
- Cicatriz. – Ela disse, os olhos ainda fechados, mas a mão mais relaxada. – Ele tem uma cicatriz que vai da têmpora até o maxilar, é bem profunda, acho que só por isso eu consegui ver. – respirou fundo, focando no outro detalhe. – Cabelo loiro e comprido, até o ombro, talvez maior. – Respirou fundo novamente e abriu os olhos, voltando ao bunker. Dean a olhava sem esconder a preocupação. Por ele, ela não estaria se desgastando tanto, poderiam esperar mais alguns dias. Não houvera qualquer ocorrência de outra mulher desconhecida assassinada, então talvez poderiam se dar ao luxo da espera. – Enquanto ele se recuperava para me prender de novo, eu consegui dar um chute em seu estômago. Ele caiu, eu pensei em fazer mais alguma coisa, mas sabia que não ia conseguir resistir. Então eu fugi e vim até vocês.
Com cuidado, ela soltou sua mão de Dean e a levou até sua têmpora, acompanhando a esquerda, massageando a região lentamente. Sua cabeça doía, ela sabia que havia abusado demais. Eles ficaram em silêncio enquanto Sam terminava de escrever o que ela havia acabado de narrar. Ele parecia ser meticuloso, anotara as últimas falas de e depois fizera alguns tópicos com palavras-chave, como as características do suspeito. Então, enquanto revisava o que a mulher havia acabado de contar, algo chamou sua atenção. Ele largou a caneta em cima do bloco de papel que usava e voltou-se para .
- Espera, você veio de Green Forest até aqui a pé? – Ele perguntou. – São oito horas de viagem até aqui.
engoliu em seco. Sabia que mais cedo ou mais tarde aquilo viria a acontecer. Ela havia notado antes seu deslize ao comunicar que estava na floresta de Green Forest. Havia até mesmo desviado o assunto um pouco, focado no ataque e no suspeito, para ver se eles conseguiam esquecer esse detalhe, mas pelo visto havia subestimado os irmãos. Agora Dean também a olhava com atenção, esperando uma resposta dela. Não havia mais como esconder, mais cedo ou mais tarde eles também procurariam o porquê dos cortes nas costas. Já se perguntavam sobre as vítimas, o que elas tinham em comum. Talvez estivesse na hora de revelar o que, afinal, ela havia em comum com as demais. Ela respirou fundo, passou a mão nos cabelos ruivos, que estavam um desastre, ela havia notado só agora. E olhou de Sam para Dean.
- Bem, sua resposta final... O que todas as moças anteriores têm em comum, o que eu tenho em comum com elas. E o porquê dos cortes nas costas. – disse. Aquilo era difícil. Teoricamente ela nem deveria fazer aquilo. Era contra as regras, a menos que fosse extremamente necessário, o último caso de vida ou morte. – Elas são fadas. Os cortes são feitos para arrancarem suas asas.
A tensão que se instalou foi tão intensa que era quase palpável. Os dois irmãos a olharam incrédulos e depois se olharam. Sam passou a mão no cabelo, Dean esfregou os olhos. Os dois se olharam novamente, e voltaram a olhar para ela. Suas bocas se abriam e fechavam. Ela quase riu, não fosse a situação tão trágica. Resolveu encerrar a tortura deles e sanar suas dúvidas.
- Sim. Eu sou uma fada.

Capítulo 4

Lebanon, Kansas. 11 de julho.
observava os dois irmãos com atenção. Após revelar sua verdadeira natureza, Dean havia se levantado e andava de um lado para o outro. Sam a olhava e depois olhava para frente, sem qualquer ponto fixo. Novamente, ela poderia rir se a situação não fosse tão trágica. Pensou que poderia complementar informações, explicar a eles um pouco mais sobre ela, mas achou melhor esperar eles se recuperarem do primeiro baque. Felizmente não demorou muito. Sam foi o primeiro a se recuperar do choque, voltando-se para ela e preparando-se para fazer suas perguntas.
- Uma fada? – Ele perguntou, arqueando uma das sobrancelhas. – Nós já lidamos com fadas, elas não são assim.
- Bem, não necessariamente... – Dean comentou. – Lembra quando a Charlie encontrou uma naquele jogo de RPG?
- Ah, sim... Mas, ainda assim... – Sam disse. Parecia completamente perdido ainda. – Vocês não vivem em uma própria dimensão? Sei lá como isso funciona.
- Podemos dizer isso, sim. – disse. – A minha espécie, somos protetores. Geralmente protetores da natureza. Algumas são protetoras dos seres humanos. E outras bem poucas protegem a própria espécie e as demais, como é o meu caso. Sou uma fada caçadora.
- Caçando o que, exatamente? – Dean finalmente se pronunciou.
- No momento? Esse cara que há quarenta anos mata minhas irmãs. – disse, dessa vez não controlando a raiva em sua voz. Eles já sabiam o que precisavam mesmo, ela não precisava mais esconder os verdadeiros sentimentos.
- Então você tem mais informações sobre ele? Estava apenas escondendo?
- Não. – disse. – Eu contei a vocês tudo o que eu sei sobre esse caso. A única coisa que escondi foi a natureza das vítimas, e a minha. Mas isso só porque, teoricamente, vocês não deveriam saber de nossa existência. – Ela explicou. – Os humanos são encorajados a acreditarem em fadas, mas não a confirmar que elas realmente existem.
- Mas ele sabe. – Sam apontou.
- Sim. Sabe mais do que deveria. – confessou. – Ele sabe exatamente o que nos incapacita, como conseguir a substância para injetar em nós. E sabe nossa maior fraqueza. Nossas asas.
Sam e Dean trocaram olhares de novo. suspirou. Os dois tinham respostas, sabiam por onde começar. Mas parecia que isso não ajudava. Não sabiam agora como começar. E ainda tinham mais infinitas dúvidas. Ela voltava a se sentir cansada, como se já tivesse extrapolado naquele dia. Queria poder voltar para o quarto, tomar um banho e voltar a se deitar. Precisava descansar, mas sabia que eles não permitiram, não agora que tinham a possibilidade de seguir em frente naquele caso. Porém, estava enganada. Percebeu uma mudança no comportamento de Dean, ele parara de andar de um lado para o outro, agora voltara a se sentar e olhava para ela. Percebendo que ela estava esgotada.
- Você precisa ir descansar. – Ele disse. A atitude de Sam também mudou, ela sentiu. Apesar de curioso, o irmão mais novo também começava a perceber o cansaço dela.
- Não, eu...
- Sem discussão. Você precisa voltar para o quarto. – Dean a cortou. Ele se levantou e contornou a mesa, estendendo a mão para ela. – Eu te acompanho.
percebeu que não adiantaria discutir, se tentasse, provavelmente Sam se levantaria e ajudaria o irmão a levá-la até o quarto. Ela suspirou resignada e segurou a mão de Dean, levantando-se. Sua cabeça rodou um pouco e ela pendeu para o lado, sentindo o braço de Dean segurá-la, apoiando-se em sua cintura. fechou os olhos por um tempo, apoiando-se nele até se recuperar o suficiente. Quando se sentiu melhor, acenou positivamente com a cabeça e começou a andar em direção ao quarto. Lembrou-se no último momento que precisava de um banho, talvez isso já ajudasse um pouco.
- Sabe, eu, hm, adoraria tomar um banho. – Ela comentou, quando já estavam na porta de seu quarto.
- Claro... Eu te mostro o banheiro, acredito que tenha alguma toalha limpa em algum canto. – Dean comentou. Eles realmente não estavam acostumados a receber visitas. Talvez a tal Charlie e o outro... Castiel fossem os únicos.
O banheiro não ficava muito distante de seu quarto, porém, fez com que ela percebesse ainda mais como o local era grande. Dean a deixou na porta do banheiro, comunicando que iria trazer uma roupa limpa para ela, apesar de ter contestado dizendo que a que estava usando seria o suficiente. Mas o rapaz pontuou que ela precisava de um pijama pelo menos.
- Humanos. – Ela disse para si mesma enquanto entrava no banheiro.
O cômodo não era muito grande, havia um chuveiro em um box largo, uma toalha com um espelho maior e mais limpo do que havia no quarto em que ela estava, um vaso sanitário e um armário na parede ao lado da porta. Lá, ela encontrou toalhas limpas, pegando uma para si. Pela primeira vez em dias, se olhou no espelho e reparou a bagunça que estava seu cabelo. A única coisa da mitologia que os humanos compartilhavam sobre elas que gostaria de ter era sempre estar impecável. Mas ali, se olhando no espelho, sabia que desapontaria muitas crianças. Fuçou o gabinete abaixo da pia e encontrou uma escova de cabelo, passando então a desembaraçar os fios vermelhos, tarefa mais complicada do que imaginava. Havia galhos e algumas folhas no meio dos fios, e os nós, provavelmente causados de quando ainda estava desacordada na floresta, só dificultavam a tarefa. Estava quase desistindo quando Dean retornou com seu pijama.
- Uau, parece que um passarinho fez um ninho em seu cabelo. – O caçador comentou, não conseguindo esconder o riso. suspirou, mas sorriu divertida.
- Fez um ninho e uma festa de inauguração. – Ela completou. – Não conte a ninguém que fadas também podem ficar completamente descabeladas.
- Seu segredo está salvo comigo. – Ele disse, aproximando-se sem que ela pedisse e tirando um galho que estava entre os fios e que seria impossível da mulher enxergar, colocando-o na pia junto com os demais.
- Obrigada. – Ela disse. – Acho que será mais fácil simplesmente lavar e depois tentar de novo. – Observou.
- Talvez. – Dean ponderou. – Aliás, aqui está seu pijama.
- Obrigada. – sorriu e olhou para o caçador, esperando que ele percebesse que ela precisava de um pouco de privacidade. O que não demorou muito a acontecer.
- Então... Eu, hm... Se precisar de algo, só chamar. – Ele disse. Não parecia ser do feitio de Dean ficar envergonhado em alguma situação, mas ali o homem parecia claramente sem saber o que fazer.
- Obrigada de novo. – Aos poucos, de costas para a porta e de frente para ela, ele foi se retirando do banheiro.
viu a porta se fechando e virou-se de costas para a mesma, retirando o roupão que usava, pendurando-o em um suporte na parede, e começando a desabotoar a camisa que havia pegado emprestado com Dean. No último minuto, antes de fechar completamente a porta, o caçador lembrou-se de algo que deveria falar à moça, porém as palavras morreram no minuto que viu sua figura de costas para ele, usando apenas sua camisa de flanela. A peça caia pelo corpo da fada até a metade das coxas. Ele não podia ver muito da parte de cima, mas a parte de baixo, suas pernas longas e finas lhe agradaram. Percebeu que ela olhava para baixo, provavelmente desabotoando a camisa, a fim de tirá-la. Ele sabia que deveria fechar a porta e dar privacidade, mas se viu impedido de completar a ação quando ela afastou a camisa e fez com que a peça escorregasse por seus braços, revelando as costas mutiladas dela. Dean engoliu em seco ao contemplar o longo corte que desenhava as costas da fada. Ele sabia que em breve seria descoberto, então chacoalhou a cabeça e fechou a porta silenciosamente. A imagem do corte ainda vívida em sua mente. Como alguém podia fazer algo tão cruel com alguém tão, aparentemente, puro?

Sam encontrava-se sentado na mesma cadeira que Dean o havia deixado, porém sua atenção agora estava voltada para uma das pastas que havia encontrado nos arquivos dos Men of Letters. Dean, que havia parado na cozinha para servir a ele e ao irmão uma xícara de café, aproximou-se, colocou a xícara próxima a Sam e contornou a mesa, ocupando a cadeira que sentara antes. Os dois irmãos trocaram olhares que pareciam dizer muito, mas aquilo não era o suficiente, precisavam colocar para fora o que pensavam sobre aquela situação.
- Então... – Sam começou, fechando a pasta e tomando um gole do café.
- Uma fada! Nós temos uma fada como hóspede. – Dean disse, claramente tendo dificuldades ainda para digerir a informação.
- Sim. – Sam concordou. – Protegendo uma fada e caçando um humano. – Ele completou, como se falar aquilo ajudasse a compreender melhor a situação.
- Cada ano que passa, essa vida fica mais complicada. – Os dois irmãos ficaram em silêncio por um tempo, havia muitas coisas mais que gostariam de falar, mas a maioria só teria algum sentido se estivesse entre eles, já que eram diversas perguntas. – Achou alguma coisa?
- Bem... Eu achei algo, não sei bem o que. – Sam disse, voltando a se concentrar na pasta que analisava antes. – Há um relato de um caso de vinte anos atrás, mas não sei se é relacionado a isso. – Ele leu as informações por um tempo. – Eles pareciam não ter muita certeza, como nós não tínhamos até...
- Sim, eu ainda não tenho. – Dean comentou, pegando a pasta que o irmão lhe estendia. – E encontrou algo relacionado a fadas?
- Nada além das lendas usuais. É como ela disse, somos apenas levados a acreditar que existem, mas não há muito.
- E como esse cara sabe tanto? – Dean perguntou, havia deixado de lado a pasta, afinal não havia nada interessante ali.
- Boa pergunta. – Sam disse. – Dean, só conseguiremos respostas com ela. O máximo que podemos fazer é ficar de olho para caso ele resolva agir novamente. Mas, infelizmente, isso significa ficarmos atentos para algum caso de uma desconhecida encontrada na floresta.
Dean passou a mão no rosto, claramente desconfortável com o que Sam havia acabado de falar. As imagens de quando havia chegado ao bunker retornaram com força à sua mente, juntando-se com o que havia visto há pouco no banheiro. Sentia-se impotente, havia alguém para bater, mas sequer sabia como persegui-lo. E sequer podia compará-lo a um fantasma, pois até esses ele conseguia encontrar e lidar. Infelizmente o irmão estava certo, teriam que esperar se recuperar mais, e torcer para nenhuma outra vítima aparecer.
- Vamos esperar que essa fuga dela tenha feito ele ficar mais cauteloso e desistir de completar seu objetivo. – Dean disse, não acreditando em uma palavra que havia dito. Sam também não confiara muito nas palavras do irmão.
- Eu vou pesquisar mais um pouco, ver se encontro alguma coisa nos arquivos dos Men of Letters, você deveria ir descansar, quando foi a última vez que dormiu? – Sam perguntou retoricamente, pois sabia perfeitamente a resposta.
- Se encontrar algo, você sabe onde estou. – Dean falou, levantando-se sem querer discutir.
Fazia realmente dias que não conseguia dormir, preocupado e curioso com a nova visita, e sentia que agora que tinha tantas informações, o sono não viria mesmo. Já havia lidado com muitos casos complicados desde que entrara na vida de caçador, mas nunca um havia tirado seu sono tanto quanto esse. Havia algo mais ali que o mantinha acordado, um instinto que parecia com o que tivera nas inúmeras vezes em que Sam ficara tão perto da morte. Algo que ele tentava ignorar, pois lhe parecia absurdo sentir algo tão intenso e forte por alguém que sequer conhecia.
De qualquer forma, quando percebeu, estava parado em frente à porta entreaberta do quarto da hóspede, olhando-a dormindo pacificamente. O corpo de lado, coberto pelo pijama que havia lhe emprestado e pela coberta. A luz do abajur que ficava na mesinha de cabeceira ao lado da cama, iluminava o quarto parcialmente. Ele sorriu, não conseguindo decidir se ela havia esquecido de apagar, ou se era medo do escuro. Não ficaria surpreso se fosse o último, afinal, a última vez em que ela estivera no escuro, estava em uma floresta, tendo as costas mutiladas. Ele cogitou a possibilidade de se aproximar, e observá-la, querer estar presente caso ela acordasse para confortá-la se fosse necessário. Mas sabia que se o fizesse, seria mais uma noite sem dormir, e ele precisava desesperadamente de pelo menos duas noites de sono, ou seria completamente inútil quando precisasse agir. Por isso, fechou a porta e seguiu para seu quarto, há apenas algumas portas de distância. Jogou-se na cama do jeito que estava e sequer percebeu quando caiu no sono.

Outside Green Forest, Arkansas. 12 de julho.
Dean abriu a porta da pequena cabana e olhou para todos os cantos a procura de alguma ameaça. O local estava completamente escuro, ele testou o interruptor, mas acreditava que a energia do local havia sido cortada há muito tempo. Ele tirou a lanterna do bolso e a acendeu, iluminando a cabana de apenas um cômodo. Em um canto havia uma cama de casal simples, apenas um dos lados bagunçados, mostrando que alguém a usara. No local que seria a cozinha, ele viu um fogão sujo, que provavelmente não funcionava mais, uma geladeira mais enferrujada que qualquer carro velho de um ferro-velho, uma mesa de madeira de quatro lugares, esta era ocupada por diversos papéis e recortes de jornal. Ele se aproximou, analisando a pesquisa que fizera durante aqueles anos todos. Havia uma caixa no chão, provavelmente onde ela guardava todas aquelas informações. O caçador suspirou, era para ela estar ali com ele, decidindo o que deveria levar para o bunker e o que poderia ficar.
Naquela manhã, quando ela acordou e apareceu na cozinha para o café da manhã com a mesma camisa de flanela que ele havia lhe dado no dia anterior, ele e Sam confirmaram que estava na hora de pegar roupas para ela, além de qualquer outro material que a fada poderia ter que os ajudasse na caça ao assassino das demais mulheres de sua espécie. Mas assim que foi abordada sobre onde havia se hospedado durante aqueles dias, a fada fora firme em se recusar a sair do local protegido. Sam questionou a mulher, mas Dean percebeu o medo estampado nos olhos âmbar da fada. Em questão de segundos ele já havia um endereço e explicações mais detalhadas sobre como chegar ao local. Além da gratidão que havia substituído o medo em seu olhar. Mas agora, parado ali em frente aquela mesa, ele entendia a necessidade de ali.
Respirou fundo e começou a colocar todo o conteúdo da mesa na caixa, tentou deixar organizado, mas ele não era a pessoa mais organizada do mundo. Deixou a caixa ao lado da porta, e seguiu para onde ficava a cama, havia falado que ali haveria uma bolsa com todos os seus pertences. Ele percebeu que, fora a bagunça na cama e na mesa, a mulher era bem organizada. Não havia uma peça de roupa ou produto de higiene pessoal espalhado pela cabana. E ele procurou.
A viagem até ali fora longa, ele parara pouquíssimas vezes para comprar comida e fazer suas próprias necessidades. Provavelmente deveria ficar ali na cidade aquela noite e voltar para Lebanon na manhã seguinte, mas sabia que havia assuntos mais importantes e urgentes que uma boa noite de sono. Sam e estavam fazendo inúmeras pesquisas enquanto ele fazia aquela viagem, e os dois não conseguiriam avançar muito se não tivessem o material que ele havia recuperado. Assim, ele pegou a bolsa de , a caixa com a pesquisa da fada e saiu da cabana. O Impala 67 estava estacionando em frente à pequena construção de madeira, Dean jogou a bolsa e a caixa no banco traseiro, entrou no carro e deu a partida, dando meia-volta e retomando o caminho que o levaria ao bunker.

Capítulo 5

Lebanon, Kansas. 13 de julho.
Sam não aguentava mais ver letras em sua frente. Ele e estavam acordados desde a manhã do dia anterior pesquisando. A fada acordara cedo, alegando estar bem melhor, apesar de depois assumir que ainda não estava completamente curada do atentado. Ainda podia sentir seus poderes um pouco fracos devido ao que o homem misterioso havia usado para apagá-la. Quando ele e Dean comentaram que agora ela podia ajudá-los com a pesquisa para tentar encontrar o assassino, ela disse que havia algumas coisas no local em que estava ficando no momento. Mas quando Dean informou que em dez minutos eles sairiam, a mulher ficou mais pálida do que antes, quando usara todo o seu poder para chegar ao bunker. Nem mesmo conseguia explicar que medo todo era aquele, talvez viesse do fato de que aquele homem sabia demais sobre ela e sua espécie, e ela não faria ideia de como reagir caso ele a atacasse de surpresa. Ficou combinado, então, que Dean iria até Green Forest pegar os pertences da fada e sua pesquisa, enquanto ela e Sam ficariam no bunker lendo os arquivos dos Men of Letters para ver se alguém havia tentado cuidar daquele caso em algum momento.
Eram muitos arquivos, Sam não se lembrava de algum dia ter lido tanto de uma única vez para uma pesquisa. Eles tinham os anos dos ataques e algumas localizações, o que ajudou em parte. Mas o mais novo dos Winchester logo percebeu que não desistiria tão fácil, afinal, ela já estava naquela caça há quarenta anos. E agora que havia se ajuda, ela não descansaria até conseguir pegar o responsável por aquilo, e não deixaria que eles descansassem também. Quando não conseguiram muitas informações nos arquivos específicos, a fada começou a olhar todos os outros que haviam ali. Entre uma pasta e outra, ela respondia às perguntas que Sam havia sobre sua espécie, qualquer detalhe que ela pudesse ceder, poderia ajudá-los a criar alguma espécie de filtro que os ajudasse a determinar um perfil do assassino.
Sam olhou o relógio, o dia 13 começava, fazia quase vinte e quatro horas que ele estava lendo sem parar, procurando qualquer coisa que pudesse ajudá-los. Olhou para o lado, estava sentada no chão, cercada por pastas e papéis, havia um lápis entre seus cabelos – estes presos em um coque – e outro preso entre seus dentes, enquanto ela revirava alguns papéis a procura de alguma coisa com a qual pudesse fazer uma ligação. Ela não parecia nada cansada, sequer parecia com fome, como ele. O homem levantou-se e espreguiçou-se, pegou o celular e se retirou da biblioteca, ligando para Dean enquanto andava.
- Estou quase chegando. – Dean disse assim que atendeu.
- Diga que você pegou comida. – Sam pediu.
- E torta. – O mais velho respondeu. – Como estão as pesquisas.
- Cara... É como tirar leite de pedra. Nós vimos todos os arquivos que eles tinham nos anos dos ataques, não encontramos nada. E agora ela está revirando todos os outros arquivos.
- E como ela está? – Dean perguntou. Sam percebeu que ele parecia preocupado, obviamente não se referia à dedicação da fada em relação à pesquisa, mas sim ao seu estado físico.
- Ela parece bem. – Sam disse. Era o máximo de sinceridade que podia se dar ao luxo, uma vez que não entendia como o organismo das fadas funcionava. – Respondeu todas as minhas perguntas, do resto ficou em silêncio, lendo tudo.
- Você perguntou o que o cara usou para apagá-la?
- Ainda não. – Sam respondeu. – Ela não parecia muito confortável em narrar o ataque de novo, acho que apesar de estar bem fisicamente, ela não deve ter se recuperado mentalmente. – Ele ouviu o irmão suspirar do outro lado da linha. – Você encontrou algo?
- A pesquisa dela. Vou dizer, ela é obcecada mesmo. Fico surpreso por ainda não ter encontrado esse cara. – Dean respondeu. – Estou levando tudo, talvez consigamos seguir daí.
- Quanto tempo até você chegar? – Sam perguntou, sentindo o estômago retorcer-se de forme.
- Dez minutos, quinze talvez. – Dean acrescentou a última parte após um momento de hesitação, Sam franziu o cenho.
- Algum problema?
- Espero que não. – O irmão respondeu. Desligando em seguida.
Quando Sam voltou à biblioteca, estava em pé. Havia encontrado um rolo de fita adesiva, tirado alguns quadros e utensílios de uma parede lisa e começara a colar alguns papéis na superfície. Ela não olhou para Sam quando ele entrou no cômodo, sequer parecia que havia notado a presença do homem.
- Dean já está voltando. – Ele comunicou. não alterou sua nova atividade.
- Ótimo. – Foi o que disse. Depois pareceu ter murmurado algo, mas o caçador não conseguiu ouvir.
- Você precisa de alguma coisa?
- Você tem mais fita em algum lugar? – Ela perguntou, sem olhar para ele. Sam olhou para o chão, se ela pretendia colar tudo aquilo na parede, aquele rolo não seria o suficiente mesmo. – E talvez alguma linha. – Ela acrescentou quando ele se virou para procurar o que ela havia pedido.
- Claro.

Dean olhou novamente pelo retrovisor após dar aquela última volta, encontrando apenas a estrada vazia, iluminada pela luz da manhã que começava a despontar. Sorriu para si mesmo, talvez tivesse sido apenas um falso alarme, mas ele preferiu se prevenir mesmo assim. Seguiu o resto do caminho até o bunker, a todo o momento olhando para seu retrovisor para confirmar que não havia mais nenhum par de faróis o seguindo. Mas o caminho fora solitário até chegar à edificação onde ficava a sede dos Men of Letter.
Saiu do carro, colocou a bolsa de em um ombro, colocou a comida em cima da caixa com os arquivos e fechou a porta do Impala 67. Deixou a caixa no chão enquanto abria a porta, novamente olhando para todos os lados antes de entrar no local e fechar a porta atrás de si, certificando-se de trancá-la muito bem. Havia aprendido há muito tempo a confiar em seus instintos, e eles pareciam muito incomodados. Talvez fosse pela privação de sono, ou por não conseguir se esquecer dos faróis que o seguiram desde que saíra de Green Forest.
Quando chegou à biblioteca, viu Sam sentado à mesa, observando andar de um lado para o outro, pegando papéis no chão e depois indo até a parede, onde os colava em alguma ordem que não fez sentido para o Winchester mais velho. Ele colocou a caixa em cima da mesa e jogou a bolsa em uma das cadeiras livres. Sam voltou a atenção para o irmão, levantando-se para ir até ele.
- O que está acontecendo? – Dean perguntou, percebendo que não parecia ter notado sua presença.
- Acho que ela encontrou alguma coisa. Estou olhando isso tudo desde que desliguei da ligação com você, mas não consegui entender nada. – Sam disse, pegando um dos copos com café que Dean havia trazido. Na mesma hora, enquanto voltava para pegar mais uma folha, olhou para os irmãos, focando os olhos âmbar em Dean.
- Você voltou. – Ela disse, abrindo um sorriso, olhou para a caixa em cima da mesa e esse sorriso expandiu. – Ótimo. – Comentou, largando a folha e seguindo até onde os irmãos estavam, tirou de cima da caixa a comida que Dean havia trazido, e a abriu, começando a tirar toda sua pesquisa de anos.
- , que tal comer algo primeiro? – Dean disse, sob os olhos atentos de Sam.
- Uhum, claro. – A fada disse, olhando um dos papéis que segurava.
Dean percebeu que a fada não pararia tão cedo a menos que alguém interferisse, e ele sabia que Sam não o faria. Com um olhar, o irmão mais novo se afastou para que ele se aproximasse da fada. Dean colocou as mãos sobre as dela, chamando sua atenção. levantou os olhos para ele, não precisaram falar nada. Demorou um pouco, mas enfim a fada desistiu e afrouxou o aperto nos papéis que segurava. Dean os retirou de sua mão, colocando-os de volta na caixa. Depois colocou as mãos nos ombros da fada e guiou-a para a cozinha, o local mais afastado da biblioteca que poderia pensar. Sam os seguiu, levando a comida que o irmão havia comprado.
- Muito bem, nós vamos comer. Vamos respirar um pouco, e depois voltamos para lá. – Dean disse, após sentar-se em uma das cadeiras. Ela não parecia muito feliz, mas ele não se importava. Sabia que, apesar de ser uma fada, ela ainda precisava se alimentar, mesmo que, talvez, em horários e quantidades diferentes dos humanos, mas isso não o impediria de fazê-la parar um pouco.
Eles se sentaram e começaram a comer. Fizeram tudo em completo silêncio. analisava a dinâmica entre os irmãos, sabia que havia ali uma ligação muito forte. Talvez um dia conseguiria descobrir a história deles. Quando tudo aquilo acabasse, claro. Enquanto comia o lanche que Dean havia trazido, a fada percebeu que o próprio mal havia tocado na torta que havia comprado para si. franziu o cenho, o irmão mais velho parecia preocupado, e não era com ela ou com Sam.
- Algo está te incomodando. – A fada comentou, fazendo Sam se sobressaltar um pouco, afinal estavam em silêncio há um bom tempo. – Algo que não incomodava antes. Aconteceu alguma coisa em Green Forest?
- O que? – Dean disse, olhando para a fada. – Não.
- Ele atacou de novo? – perguntou, largando o lanche que comia.
- Não, nada aconteceu. – Dean disse. Mas dessa vez desviou o olhar da fada. Ato que até mesmo Sam percebeu.
- Dean... – O irmão chamou. – Ela tem razão, você está preocupado com algo.
- Vocês estão cansados, todos nós estamos, não tem nada. – O mais velho insistiu. Sabia que não deveria estar escondendo, mas também sabia que não podia preocupá-los sem ter certeza de nada. finalmente parecia recuperada do ataque, apesar de estar obcecada ainda mais pelo caso, mas não queria fazê-la voltar à estaca zero.
não estava convencida, mas não queria insistir. Terminou seu lanche rapidamente, levantou-se e retomou sua pesquisa, aproveitando que agora tinha a original para complementar a nova que havia feito. Sam e Dean não se opuseram à saída da moça da cozinha.
- Então... – Sam começou, um tempo após a saída da fada. Com o silêncio do mais velho, ele suspirou. – Dean, você pode ter enganado a , mas eu não cai nessa. Você sabe disso. – Dean largou o garfo que vinha segurando, revirando a torta que havia comprado para si.
- Eu não queria preocupá-la ainda mais. – Dean disse, suspirando derrotado, passando a mão no rosto. – E, honestamente, talvez não tenha sido nada... Mas eu tenho quase certeza que fui seguido.
- O que? – Sam perguntou, completamente alarmado. – Você acha que foi ele?
- Eu não sei, Sam. Acho que consegui despistar no final, mas pode não ser nada também.
- Dean...
- Sim, Sam, eu acho que era ele. – Dean respondeu, visivelmente incomodado com aquilo. Seus instintos nunca erraram antes, e agora ele não conseguia mais esconder a preocupação. – Eu tranquei tudo, mas não sei... Se esse cara consegue matar fadas, deixá-las impotentes... Se ele tem tantas informações e nós não temos nada, o que uma porta poderá fazer contra ele?
- Ela está segura aqui, Dean. – Sam tentou acalmar o irmão. Dean respirou fundo, passou novamente a mão no rosto e se levantou.
- Só vou acreditar nisso quando pegarmos esse cara, então vamos até lá descobrir o que ela tem.

O caos fora instalado na biblioteca. abrira a caixa com sua pesquisa e agora ocupava outra parede, deixando de lado os arquivos anteriores e se preocupando em organizar o que ela tinha. Ela não se virou quando os rapazes entraram no local, e eles não interromperam o que ela fazia. Ao contrário, Sam ocupou-se em mostrar a Dean as informações que havia recolhido com a fada.
Ela havia contado um pouco sobre ela e onde vivia antes de vir ao mundo deles há quarenta anos. Havia descrito também os tipos de fadas que tinha conhecimento da existência, praticamente todos. Contara sobre sua fonte de poder: sua asa, e como aquilo funcionava. Sam mal conseguira acompanhar o raciocínio nessa parte, então anotara apenas algumas palavras-chave. Faltara apenas um detalhe que o Winchester mais novo não tivera coragem de perguntar: o que a enfraquecia. Durante o interrogatório, várias vezes comentara sobre como aquilo era errado. Os humanos não deveriam saber tanto sobre ela e sua espécie. Um já sabia e olha o tamanho do estrago, foram palavras da fada.
Sam havia criado alguma ligação com a fada, mas não chegava próximo ao que Dean havia construído, então sinalizara ao irmão que descobrir aquela informação seria tarefa dele. O mais velho não pareceu feliz, mas aceitou a tarefa. Enquanto os dois conversavam, terminava de organizar sua pesquisa. Os Winchester analisavam a fada, olhavam o que ela havia construído e tentavam encontrar algum padrão que pudesse auxiliá-los a entender aquela organização dela, mas falharam totalmente.
- Vocês parecem tão perdidos. – comentou quando terminou de colar o último pedaço de papel, um recorte de jornal da morte mais recente.
- Você tem uma forma curiosa de organizar informações. – Dean comentou. – Eu ainda espero que você nos dê uma aula sobre aquilo ali. – Ele apontou para a parede que ela trabalhava antes.
- Ah, ali não é relevante para esse caso. Foi só algo que eu resolvi me ocupar enquanto você não chegava com meus pertences. – disse. – Na verdade, talvez aquilo ajude vocês caso voltem a cruzar com alguma outra fada.
- Quer dizer que temos arquivos que falam sobre fadas? – Sam perguntou, levantando-se e se aproximando da parede.
- Bem... Sim. Se você usar as informações que te passei mais cedo e reler essas fichas, você perceberá alguns detalhes. – disse.
- Mas isso é algo para outro momento, não é mesmo? – Dean perguntou, chamando a atenção de Sam, que desviou o olhar da parede e fixou no irmão. – Temos outras coisas mais importantes agora.
- Ah, claro. – Sam disse, voltando a ocupar a cadeira ao lado do irmão. – Pode começar, .
- Na verdade, não tem muito para começar. – A fada disse, olhando a parede que acabara de organizar. – Essas são as vítimas, surrupiei algumas fotos dos exames que o médico legista fez após encontrarem os corpos. Não que eu precisasse, me lembro de todas as minhas irmãs, mas serviu para organizar melhor. – comentou, os irmãos notaram que ela não ficava olhando as fotos por muito tempo. – Junto com as fotos, temos os relatórios, todos iguais, cortes nas costas. Como vocês sabem, os cortes são feitos para arrancarem nossas asas, que são nossa maior fonte de poder... Eu disse que eram a nossa fonte de poder total, não é? – Ela perguntou, voltando-se para Sam. – Desculpa. Mas, bem, o resumo é: arranque nossas asas e morremos. – suspirou, passando a mão no cabelo, que agora havia se soltado do penteado que fizera antes e caía solto em uma cascata ruiva pelas costas. – Agora entra o detalhe que eu mais demorei para conseguir entender: como ele as capturava. Quero dizer, nós, fadas, somos muito inteligentes, conseguimos sentir diversas coisas ao nosso redor. Enquanto ainda estava inconsciente, em raros momentos eu conseguia sentir a presença de vocês aqui. Consigo sentir um movimento sutil que você faz, uma mudança na sua energia, sua aura se vocês quiserem simplificar. Mas entramos num campo aqui que para vocês é conhecido como física. Mas nós sentimos a aproximação de qualquer corpo, a presença dele... Foi sentindo vocês que consegui chegar aqui, não foi fácil, hoje eu entendo por que... A proteção desse lugar talvez seja o motivo de eu ter me desgastado tanto e ficado tão fraca por tantos dias.
- Eu sempre me perguntei como você chegou aqui. – Sam comentou.
- Não foi fácil. – confessou. – Eu já estava fraca, tive que concentrar todas as minhas forças em vocês. O objetivo era aparecer aqui dentro, mas o máximo que cheguei foi há alguns passos da porta.
- Foi mais do que qualquer outra criatura. – Dean observou.
- O caso é, com esse cara, eu não senti nada. Só senti quando ele já estava próximo demais, me segurando e injetando aquela solução em mim. – Ao mencionar a tal injeção, percebeu que os irmãos se ajeitaram nas cadeiras. – Eu sei que essa é a última pergunta de vocês. E a resposta é: eu não tenho certeza do que nos enfraquece. Sei que existem ervas que nos deixam desnorteadas por um tempo, mas são ervas que usamos com fins medicinais. O que me faz pensar que esse cara tem algum conhecimento botânico, porque nunca uma erva fez um estrago tão forte em nós como o que ele injetou em nós. O que me leva a outro ponto: nem ele mesmo sabia o que fazia efeito em nós no começo. – disse, ela apontou então para algumas fotos que haviam nos primeiros casos, não mostravam os rostos das fadas, mas seus pulsos e tornozelos. Sam e Dean tiveram que se aproximar para ver o que ela apontava. – Marcas. O que significa que elas foram amarradas após serem injetadas com o que quer que seja isso. Mesmo sem ter certeza, ele já sabia muito. E é isso que me preocupa.
Sam e Dean analisaram o mural que havia construído, a maioria dos papéis eram relatórios dos legistas e matérias nos jornais, nada muito substancial. A única coisa de valor eram as anotações recentes, que ela acrescentou embaixo do nome dela. Descrições do atacante e informações sobre como se sentiu ao ser drogada por ele. Ao terminarem de analisar, voltaram-se para a fada, que agora analisava o mural que havia construído antes.
- Essas são as informações que vocês têm sobre nós. – apontou. – São apenas relatos muito escassos, eles não tinham certeza sobre o que estavam lidando. Notavam mulheres bem vestidas, que pareciam ter uma aura em torno de si e que flutuavam. E sumiam na mesma rapidez que apareciam. Honestamente, apenas algumas aparições, provavelmente eram fadas da natureza, aparecendo para cuidar de algum acontecimento trágico. – comentou, resumindo todas as informações. – Bate com as datas. Mas a falta de informações só me faz confirmar que o acordo que temos continua: ninguém deve saber de nós.
- Então como ele conseguiu? – Dean perguntou, olhando preocupado para a fada.
- Eu não sei. – disse, e parecia tão irritada por ter que admitir isso. – Nós não temos registros de quem sabe de nossa existência porque isso é tão raro de acontecer. Meu palpite é que alguma vez ele cruzou com uma fada e a aprisionou, mas se fosse o caso, eu saberia.
massageou as têmporas, sua cabeça doía de tal forma que ela não conseguia mais ignorar. Ela sentou-se em uma das cadeiras e apoiou os cotovelos na mesa, deixando seu rosto enterrado nas mãos. Respirou fundo, fechando os olhos e concentrando-se em sua respiração. Normalmente aquilo funcionava, pois ela sabia que aquela dor não era resultado do atentado que sofrera dias atrás. Sentiu vagamente a presença de Dean ao seu lado, mas não se moveu para confirmar, bastou ele tocar em suas costas. Ela ficou tensa de repente, levantando a cabeça e afastando-se do irmão mais velho. Abriu a boca para falar algo, mas imediatamente a tosse subiu e ela não conseguiu proferir uma palavra, sua garganta fechou logo em seguida. agarrou os braços de Dean, que não precisou de mais sinais para gritar por Sam.
- Ele está aqui.

Capítulo 6

Lebanon, Kansas. 13 de julho.

A noite já havia começado a cair quando Sam saiu para conferir se havia alguém do lado de fora. Mas tanto ele quanto Dean sabiam que se o assassino estivesse ali, ele já havia encontrado uma forma de se infiltrar no bunker. havia caído desmaiada pouco tempo depois do ataque de tosse seguido da falta de ar. Dean havia ficado com a função de levá-la para algum lugar seguro, onde o assassino não conseguiria encontrá-la ainda que revirasse o local todo.
Um som atrás de si alarmou o Winchester mais novo. Sam virou-se a tempo de ver a porta de entrada do bunker fechando-se, logo depois ouviu o trinco da mesma se movendo, trancando-o do lado de fora. Ele não perdeu tempo amaldiçoando a si mesmo, correu até a porta e tentou socá-la, mesmo sabendo que aquilo seria inútil. Passou a mão pelo cabelo castanho e tentou pensar em alguma forma de voltar ao local, Dean não fazia ideia que estava trancado com o assassino, sabia que o irmão podia tomar conta de si mesmo, mas não conseguiria se proteger e proteger .
- A garagem! – Sam disse, correndo em direção à garagem. Apenas para chegar lá e encontrar a passagem trancada, provavelmente uma cortesia do novo visitante. Só restava a ele torcer para Dean perceber que estava sozinho e conseguir lidar com aquilo sozinho.

Dean concluiu que o melhor lugar para manter em segurança seria o local onde eles costumavam manter os demônios em cativeiro, era um lugar tão escondido que até ele e Sam demoraram a encontrar logo que chegaram ao bunker. Abriu a porta da sala e, após colocar sentada, apoiada a uma parede, afastou as estantes que escondiam o círculo da armadilha dos demônios. Voltou para pegar a fada e a depositou em cima da mesa que havia no círculo, vestígio da última visita que mantiveram ali. A fada estava pálida, mas já estava começando a recobrar a consciência e a normalizar a respiração. Aliás, Dean percebera que à medida que se afastava da biblioteca, a mulher começava a melhorar. Não tinha tempo no momento para descobrir se uma coisa estava relacionada à outra, achou melhor deixá-la ali, sozinha, voltando a juntar as estantes e fechando a porta atrás de si.
No momento que se preparava para retomar o caminho até a biblioteca, as luzes do bunker se apagaram, ficando acesas apenas as vermelhas de emergência, que eram fortes o suficiente para iluminar parcialmente o caminho que ele deveria fazer. Colocou a mão no cós de sua calça, em suas costas, sentindo o metal frio de sua arma ali. Não ousaria gritar para tentar encontrar Sam, provavelmente denunciaria sua posição e deixaria o assassino mais perto de .
A biblioteca estava vazia, exceto pela falta de luz, estava da mesma forma que deixaram. Ele ouviu uma pancada forte na porta, e um grito abafado. Uma voz muito parecida com a de Sam. Olhou ao redor com atenção, tentando captar algum movimento, mas não viu nada. Correu até a escada que levaria à porta de saída, encontrando-a trancada por dentro.
- Sam? – Gritou, Dean. Ouvindo a voz abafada do irmão do outro lado. – Filho da pu... – Ele resmungou, virando a chave para destrancar a porta.
- Cadê ele? – Sam perguntou assim que a porta foi aberta.
- Não faço ideia. – Dean respondeu, voltando a descer as escadas.
- ? – O mais novo sussurrou.
- A salvo. – Dean respondeu. Logo parando de andar, tentando aguçar a audição após pensar ter ouvido uma movimentação em um local próximo.
- Aqui. – Sam colocou algo frio em sua mão, Dean não demorou a reconhecer a forma da lanterna.
Mais uma vez os dois irmãos ouviram algo. Uma troca de olhar foi o suficiente para se entenderem e começarem a se movimentar. Dean seguiu para a direita, descendo os degraus para o corredor que ficava a cozinha, enquanto Sam ia para a esquerda, pelo caminho que levava à garagem. Era uma boa tática, pois em algum momento ambos os caminhos se cruzavam, dando a sensação de que os irmãos conseguiriam cercar o assassino quando fosse necessário. Estavam ali no bunker há muito tempo, conheciam o local como ninguém, não seria difícil encontrá-lo.
Apesar de ambos carregarem a lanterna, os dois irmãos evitaram acendê-la, deixando apenas as luzes de emergência guiarem seus passos. Não queriam correr o risco de perder o elemento da surpresa caso encontrassem o invasor. Enquanto seguia pelo seu corredor, Sam parou a caminhada após ouvir portas sendo fechadas não muito longe de sua posição. Ele esperou um tempo, até ouvir uma voz rouca resmungar algo que ele não conseguiu identificar o que era. O assassino estava seguindo para longe dele, abrindo as diversas portas dos inúmeros quartos que havia no bunker. Se agisse com cautela e silêncio, Sam conseguiria pegá-lo de surpresa, golpeá-lo por traz e nocauteá-lo até.
Com esse plano em mente, o mais novo seguiu em frente, um passo de cada vez, olhando para trás apenas por precaução. Havia chegado à dobra do corredor quando ouviu o primeiro som de um soco sendo dado. Aparentemente, Dean havia chegado antes dele e resolvera anunciar que o invasor havia sido descoberto. Sam dobrou o corredor e viu a luta livre que acontecia há poucos passos de distância. O invasor era alto e grande, mas desengonçado. Dean era mais habilidoso e ágil, conseguia desviar dos socos do outro com facilidade, e atacava com mais facilidade ainda. Seus movimentos eram gerados por algo que Sam, a princípio, não soube discernir o que era. Até que se aproximou dos dois e viu o olhar do irmão: raiva. Se lhe fosse dada a oportunidade, Dean mataria o invasor ali mesmo.
- Dean! – Sam gritou, ao perceber que o irmão apertava com mais força do que o aconselhável o pescoço do invasor. O rosto do homem havia sido tomado por um vermelho muito forte, que aos poucos começava a se tornar roxo. – Dean, você vai matá-lo!
- Ele merece. – Dean gritou de volta. Sam engoliu em seco, memórias de um Dean tomado pela marca de Cain, poucos meses atrás, retornando a sua memória.
- Não cabe a você decidir isso. – Sam disse, a voz voltando ao tom normal, esperando que o irmão entendesse o que ele queria dizer aquilo.
Pareceu funcionar, pois Dean afrouxou o aperto no pescoço do homem, que tossiu a procura de ar, mas logo o silêncio retornou, quando Dean lhe deu um soco, deixando-o inconsciente. O homem caiu ao chão com um baque alto. Os irmãos se olharam, Sam sabia que o mais velho não estava feliz pelo que acabara de abrir mão, mas sabia também que o irmão entendia a situação. Dean virou as costas e voltou pelo corredor, indo conferir como estava. Sam ocupou-se em carregar o corpo do homem e seguir Dean até a sala onde a fada estava.
Ao chegarem lá, a fada ainda se encontrava deitada, mas tinha os olhos abertos. Ela levantou a cabeça quando ouviu as estantes serem afastadas. Arregalando os olhos quando viu que Sam carregava algo grande e disforme, logo reconhecendo o homem que quase a matara. A fada abriu a boca para falar algo, mas novamente as tosses subiram e impediram que ela falasse. Dean a segurou e saiu da sala com ela, enquanto se afastavam, as tosses iam diminuindo. Os dois pararam no corredor até que voltasse ao normal, quando estava quase parando, Sam surgiu segurando algo.
- Olhem isso. – Ele estendeu a mão, mostrando uma pequena trouxinha, muito parecida com os sacos de feitiços que as bruxas costumavam fazer. A reação foi imediata, sentiu uma pontada forte na cabeça e logo sentiu o ar começando a faltar.
- Queime isso. – Ela conseguiu dizer, antes de novamente ser tomada pelas tosses.
Dean deu ao irmão o isqueiro que carregava sempre, e viu Sam queimar a trouxinha, o efeito foi instantâneo, gradualmente as tosses foram diminuindo, e permaneceu em silêncio o suficiente para normalizar sua respiração. Enquanto mantinha os olhos fechados e focava no ar que entrava e saia do corpo, uma lembrança voltou com força a sua mente. Ela encontrava-se perto da cabana em Green Forest, e sentia de novo aquela pontada na cabeça, logo sentia a garganta fechar. Fora parecido e diferente ao mesmo tempo, talvez porque logo em seguida o homem se aproximara e injetara algo nela que fez com que ela desmaiasse instantaneamente.
- Ele usou algo parecido comigo antes. – Ela disse aos rapazes, ainda de olhos fechados. – Era mais forte, mas teve praticamente os mesmos efeitos.
- Bruxaria? – Dean perguntou a Sam.
- Não, parecia diferente. – O mais novo disse. – E não acho que bruxaria funcione com fadas.
- Não funcionam. – disse. – Bem, funcionam, mas não é qualquer feitiço. Isso não era bruxaria, eu reconheceria. – A fada disse, finalmente arrumando sua postura e voltando a encarar os dois irmãos. – Como eu disse antes, é alguma mistura de ervas. E acredito que ele use algo para se tornar invisível para nós. Estamos perto e não consigo senti-lo. – Ela disse, parecendo extremamente frustrada. Havia uma marquinha entre suas sobrancelhas, que só agora Dean havia notado.
- O que fazemos? – Sam perguntou.
- Eu preciso falar com ele. – disse. – Mas não assim. – Ela olhou para baixo, ainda usava as roupas que os irmãos haviam emprestado a ela. – E precisamos de luzes. – A fada observou.
- Sam, você fica de olho nele. Tente ver se há mais alguma coisa daquela e queime. – Dean disse. – Vou reascender a luz e acompanhar até o quarto.
- Eu preciso da minha bolsa também. – A fada comentou.
Sam viu o irmão e a mulher se afastarem e voltou ao cômodo. Havia colocado o homem na cadeira e afivelado as algemas ao redor dos pulsos dele de qualquer jeito. Parara no meio da tarefa ao notar a trouxinha caída no chão. Ele ainda estava inconsciente, então Sam aproveitou para melhorar as amarras que o prendiam à cadeira, deixando mais firme as algemas e depois prendendo os tornozelos. Ele parecia ser forte, mas o Winchester sabia que aquelas algemas eram ainda mais fortes. Quando as luzes se acenderam, logo depois, o caçador começou a revirar os bolsos do invasor.
Encontrou um cordão ao redor do pescoço dele e outro em seu tornozelo, ambos com uma trouxinha amarrada na ponta. Sam as soltou e colocou-as em cima da mesa. Havia mais uma, parecia com a que ele havia queimado, no bolso interno da jaqueta. Sam aproveitou que provavelmente demoraria um pouco para voltar e abriu a trouxinha que antes estava amarrada ao pescoço do invasor. Como a fada havia dito, havia algumas ervas ali. Pelo menos seis tipos diferentes. Sam cheirou qualquer uma, mas não tinha muitos conhecimentos botânicos quanto gostaria.
- Achou algo? – Dean perguntou ao entrar na sala.
- Aqui. – Sam apontou. – Como ela disse, mistura de ervas. – O mais novo disse. – Essa e aquela estavam amarradas no corpo dele, uma no pescoço, a outra no tornozelo. E essa estava no bolso da jaqueta, provavelmente igual à que eu queimei. – Dean analisava de perto a que o irmão havia aberto. Cheirando as ervas e fazendo caretas com o cheiro forte de algumas. Então passou o dedo no tecido, franzindo o cenho.
- Há algo estranho nesse pano. Ele está... Úmido. – Dean apontou. Sam passou o dedo no tecido, sentindo o que o irmão havia apontado. – Acho que isso, o que quer que seja, misturado às ervas, dá o efeito.
- Se separarmos, talvez não seja afetada. – Sam comentou. Ainda passando o dedo no tecido. – Não parece água. – Ele puxou o tecido, colocando as ervas de lado, e cheirou. – E não tem o cheiro de nenhuma dessas ervas. Na verdade, é um cheiro um pouco doce... Parece familiar.
- Depois vemos isso, vamos desfazer todas. – Dean disse. – não demorará muito para voltar.

fechou a porta atrás de si e suspirou. Sua cabeça ainda doía, e sua garganta arranhava toda vez que ela engolia a saliva. Ela odiava aquela sensação. Aproximou-se da cama e colocou sua bolsa ali, abrindo-a em seguida. Fazia dias que ela estava incomodada com as roupas que usava. As fadas estavam habituadas a usarem vestidos que deixavam suas costas livres, e o faziam mesmo quando estavam entre os humanos, e suas asas ficavam invisíveis. Era um costume. As roupas fechadas não a atrapalhariam se ela precisasse usar as asas, mas não estava acostumada.
Com calma, ela olhou os vestidos que tinha na mala, optando por um longo branco de mangas compridas, que na altura dos cotovelos começavam a se abrir. O vestido possuía alguns detalhes em prata no decote canoa, que desciam pelo corpo até a cintura, quando começavam a ficar mais escassos. A maioria das referências dos ornamentos que as fadas usavam era em referência a natureza, ela, particularmente, gostava dos que se referiam a terra. Então os detalhes de seu vestido poderiam facilmente ser descritos como os galhos de uma planta rasteira, que vai se espalhando pela superfície. O vestido se estendia até seus pés, como a maioria dos que ela usava. Havia algumas opções de vestidos curtos, mas ela não se sentia confortável com eles.
A fada colocou o vestido estendido na cama e, então, começou a se despir. Novamente, olhou o corte em suas costas no espelho. A cicatriz era quase imperceptível. Quase. Mesmo que desaparecesse completamente, sempre conseguiria enxergá-la. Um atentado daquele, não seria esquecido tão facilmente. Após conferir sua cicatriz novamente, deu as costas ao espelho e pegou o vestido, vestindo-o logo em seguida. O tecido escorregou por seu corpo até alcançar o chão. A fada olhou-se no espelho, feliz com a escolha. Pegou uma escova de cabelo que havia na bolsa e passou nas madeixas ruivas, que contrastavam com o branco do tecido. Ela sempre gostara daqueles contrastes. Verde era outra cor que ela gostava muito de usar.
sabia que estava demorando ali mais do que seria aconselhável. Mas ela precisava mostrar a seu atacante que estava bem, que ele não a havia derrotado. Muito pelo contrário, ela o destruiria. Antes de sair do quarto, voltou a se olhar no espelho e respirou fundo. Em um piscar de olhos, uma luz fraca, quase imperceptível surgiu e ela logo pôde ver o brilho translúcido, levemente fúcsia, de suas asas. Ela sorriu, feliz por saber que aquela parte de si havia se recuperado integralmente. Após fazer as asas desaparecerem de novo, a fada abandonou os chinelos que havia usado durante aqueles dias, sentindo-se muito mais confortável descalça. Antes de sair do quarto, foi até sua mala e pegou a adaga de prata que havia ali. Havia ganhado aquilo de sua superiora, fora lhe dada a benção de usá-la exatamente para aquele fim. A adaga vinha em cinto de couro marrom que amarrou em sua cintura, mantendo a arma afiada escondida em suas costas. Após olhar-se uma última vez no espelho, fixando-se agora nos olhos âmbar, que não podiam mostrar qualquer hesitação, a fada saiu do quarto.
Àquela altura, ela já estava familiarizada com os corredores do bunker, além disso, possuía uma boa memória geográfica e conseguiu se lembrar facilmente do caminho que ela e Dean haviam feito momentos antes. Enquanto caminhava pelos corredores, a fada percebeu que havia algo diferente em seus sentidos. Ela ainda sentia a presença de Dean e Sam, mas havia algo mais. E só quando chegou à sala em que seu atacante estava foi que ela percebeu: agora podia sentir ele.
Os dois irmãos estavam apoiados nas estantes que se abriam para revelar o círculo que ela não fazia ideia de qual seria sua utilidade. Estavam um de frente para o outro. Ao fundo da sala, o homem estava sentado, a cabeça pendendo para frente. À frente dele, havia a mesa que ela ocupara antes. Em sua superfície, ela reconheceu as ervas que, daquela forma, não a afetavam mais.
Dean levantou a cabeça imediatamente ao perceber a movimentação na entrada da sala. Seus olhos não esconderam a admiração com o que viu. Era triste e injusto que as únicas versões de que ele havia era dela ensanguentada na mesa da biblioteca e, depois, ela ainda se recuperando, com uma calça grande demais para ela e sua camisa. Mas ainda que naquelas condições, o caçador não conseguira não notar a beleza que a mulher possuía, beleza essa que agora parecia ainda mais elevada naquele momento, se isso fosse possível. O vestido branco cobria seu corpo em um encaixe tão perfeito que ele sabia que nem o costureiro mais experiente conseguiria imitar. A cor ainda contrastava com o ruivo do cabelo da fada, que caía por suas costas e ombros até a cintura da mulher. Havia ainda algo mais nela que chamava sua atenção. Confiança, Dean notou logo. E determinação. Desde que entrara na sala, a fada não desviara os olhos do homem por mais de cinco segundos.
- Nós encontramos as outras trouxinhas. – Dean ouviu o irmão dizer. desviou o olhar do homem inconsciente para o Winchester mais novo. – E os desfizemos, acho que funcionou, não?
- Sim. – A mulher disse, sua voz soava diferente também.
- Talvez você possa reconhecer algumas das ervas. – Sam disse, desencostando-se da estante e se aproximando da mesa. o acompanhou. Dean preferiu ficar onde estava.
- Eu sei que você quer nomes, mas meus conhecimentos são tão escassos quanto os seus. – A fada assumiu. – Eu nunca fui boa com essa parte mais medicinal.
- Tem outra coisa. – Sam disse. – Os panos, eles estão todos úmidos, não conseguimos identificar o líquido.
aproximou-se da mesa mais um pouco, observou o conteúdo, as ervas usadas. Reconhecia algumas só de vista, por vê-las em diversos jardins em sua terra, mas nunca realmente soube suas utilidades. Muitas pessoas, fãs das fadas, se desapontariam com ela por isso. Com calma, passou a mão em um dos tecidos, então franziu o cenho e o pegou com cuidado. Aproximou-o de seu resto, cheirando-o. Passou os dedos e depois os aproximou de seu nariz.
- Não é possível. – Seu olhar havia mudado completamente. Sam assustou-se ao ver a expressão de nojo e raiva que tomou conta do rosto da fada.
- O que é?
- Eu... Pela Deusa! – disse, ainda olhando para o tecido. Dean aproximou-se.
- , está tudo bem? – O mais velho perguntou, contornando a fada para ver sua expressão.
- As primeiras fadas... – Ela começou a dizer. – As que foram amarradas. Não é possível... Agora eu entendo por que. – Ela levantou o olhar para os irmãos. – Isso é uma mistura de sangue de fada com a essência de nossas asas. – A fada disse.
- Essência da asa?
- Sim, nossas asas possuem essência. – A fada disse. – Não sei explicar como funciona, só sei que existe. É algo que nós, fadas, podemos acessar com facilidade, pois possui algumas propriedades medicinais, principalmente para os humanos. As usamos para depositar em algum líquido, como uma forma de ajudar. – Ela explicou. – Mas somente nós podemos retirar essa essência. Se qualquer outra espécie tentar, é como se estivéssemos sendo torturadas. – Sam e Dean olhavam a moça com atenção, ambos queriam perguntar como aquela mistura que vinha delas podia lhe fazer tão mal, mas sabiam que a resposta viria em breve. Mas algo lhes chamou a atenção, antes que pudesse concluir o pensamento, seu olhar desviou do pano embebido em sangue e essência e voltou-se para o homem sentado. – Ele está consciente.



Continua...



Nota da autora: E O PARAÉNS! PARABÉNS PRA VOCÊ, NESTA DATA QUERIDA, MUITAS FELICIDADES, MUITOS ANOS DE VIDA! FFOBS tá ficando velho e eu não poderia estar mais feliz por mais um ano estar comemorando essa data fazendo parte dessa equipe maravilhosa!

Falando da att, estamos chegando na reta final, e ai, vocês têm alguma teoria sobre quem é esse cara e o que ele tem contra nossas fadinhas maravilhosas?

Não esqueçam de, por favor, deixarem um comentário ai embaixo dizendo o que acharam desse capítulo ;)



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