Última atualização: 15/03/2018

01 - Farewell

Narrando:

Aeroporto Internacional John F. Kennedy, NYC

Era uma vez... Um garoto e uma garota vivendo em uma cidadezinha pacata do sul dos Estados Unidos. Eles tinham se conhecido da forma mais clichê e infalível de todos os tempos. A princípio, se estranharam, depois começaram a se odiar e só depois a se gostar. Por fim, começaram a se amar.
Foi um típico colegial, para nenhuma produção hollywoodiana colocar defeito. Líderes de torcida, esportes, amizade, festas em plena terça feira à noite, muita confusão, brigas, sexo, drama, conflitos da puberdade, viagens infinitas de apenas um dia e muito mais.
Um baile também aconteceu, obviamente.
E então, tudo acabou.
Eu gostaria muito que tal narrativa pertencesse a história de qualquer outra pessoa no mundo, mas, infelizmente – ou felizmente –, aquela história era minha. Minha e de .
Estava inquieta na poltrona do saguão, observando de maneira absorta a infinidade de pessoas de diversos países e costumes que transitavam de um lado para o outro do aeroporto. Minhas mãos estavam geladas, e aos poucos meu coração ia sendo forçado a se adaptar a temperatura semelhante. O tempo passou rápido, em um piscar de olhos nada mais era como costumava ser. Terminar o colegial era como ser conduzida até a beira de um precipício, não tendo outra escolha senão pular. Por mais contraditório que soe, havia uma espécie de arrependimento injusto vagando pela minha consciência. Eu poderia ir para Oxford com , sim, eu realmente poderia.
Não tinha sido surpresa nenhuma quando sua internacional e prestigiosa carta de aprovação chegou. Sonhos seriam realizados daquele momento em diante.
Um deles era meu.
Mas, se eu estava mesmo prestes a realizar um sonho, por que não conseguia sorrir?
Consegui me lembrar vagamente do primeiro festival onde arrisquei compartilhar minha voz com várias outras pessoas. Desde então, as oportunidades surgiram em cada esquina. Fiz apresentações em pequenos bares e cafés da cidade, assim como em regiões próximas; me apresentei em alguns festivais musicais da cidade, também. Conquistei o carinho e, arrisco dizer, alguma admiração dos habitantes de Wilmington, na Carolina do Norte.
Sim, o lugar onde a série One Tree Hill foi gravada.
Foi durante uma dessas apresentações que o inesperado ocorreu. Uma espécie de caça talentos de uma grande gravadora havia se infiltrado no último festival que participei, e não demorou para que ele decidisse entrar em contato comigo. Segundo ele, Richard Stevens, eu tinha talento demais para permanecer enfurnada em uma cidadezinha no sul dos Estados Unidos. Digo, é estranho quando algo que foi seu objeto de maior sonho durante anos se torna realidade. De repente, você não sabe mais se o deseja tanto assim. É claro que havia uma correnteza de calafrios percorrendo todo o meu corpo; meu estômago estava tão agitado que mal consegui engolir o café da manhã daquele dia, juntamente com minha família que ainda fazia as malas, ansiosa para se mudar para Nova York. Aquela era mais uma das diversas mudanças em minha vida.
Papai tinha sido convidado a ser cardiocirurgião em um notável hospital da região. E como não aceitar oferta tão tentadora, certo? O mundo nunca tinha se mostrado tão acessível.
Tão... Assustador.
Columbia Records. Era esse o nome da gravadora que me teria como uma de seus artistas. E tudo graças a Richard, aquele que teve audácia o bastante para conseguir persuadir a mesma a aceitar uma de minhas demos, garantindo que não iriam se arrepender. E não se arrependeram. Eu, , estava prestes a assinar um contrato que mudaria minha vida – possivelmente – para sempre.
Meu rosto ainda era desconhecido em meio a multidão, mas por quanto tempo isso duraria?
Suspirei, sofrendo de um espasmo de bipolaridade no instante em que senti os cantos dos meus lábios se erguerem em um sorriso entusiasmado.
Não demorei a constatar alguém se sentando ao meu lado, e não me dei ao luxo de virar o rosto para encará-lo. Estávamos silenciosos um com o outro naquela manhã, algo tão errado e nada rotineiro em nossa relação. esfregava uma mão a outra, fingindo que não queria gritar tamanho o pânico que sentia.
Talvez eu estivesse sentindo mais medo de ficar sem ele do que da fama em si.
- As coisas já estão diferentes. – murmurei em claro tom de resmungo, colocando algumas mechas de cabelo para trás. Uma ardência instantânea percorreu meus globos oculares, e não demorou para que um fungar escapasse juntamente com minha respiração entrecortada.
- Não estão, não! – foi rápido ao negar, me puxando carinhoso para que eu conseguisse acalentar minha cabeça em seu peito.
- Se não estão, então por que você não consegue dizer nada além de meia duzia de palavras vazias? – lamentei, erguendo o rosto para limpar uma lágrima que escorria livre por ali.
- O que você quer que eu diga além do que já foi dito? – seus dedos astutos e ainda assim delicados seguraram meu queixo, convidando meu rosto a se erguer para ficar alinhado ao seu. Com o fim do colegial, era como se tivesse conseguido ficar ainda mais bonito. Os fios de cabelo tinham crescido um pouco, dando a ele um ar ainda mais sedutor – se é que isso seria possível. – Não está pensando em quebrar promessas, está, namorada? A distância não é nada comparada a nós.
Tive forças apenas para juntar nossos lábios e envolver seus ombros com meus braços aflitos por contato, o abraçando por segundos que ganhavam o aspecto de horas a fio.
- Vamos, amasse todo o carro do Luke, seja aquele bad boy encrenqueiro, eu... – pedi durante um lapso, arrancando uma risada confusa de sua parte. Lembranças. – Eu sinto tanta falta dessa época das nossas vidas.
- Você parece uma criança birrenta agarrada assim em mim, sabia? – comentou divertido, embrenhando seus dedos em meus cabelos. Mudei de posição, voltando a fitá-lo com o cenho franzido.
- Eu estou com medo. Você não está com medo? – notando minha necessidade por uma resposta, o garoto tomou uma de minhas mãos para si e apenas a beijou docemente.
- Como eu posso ter medo, sendo que tenho alguém como você? Esqueci o que é a palavra medo quando te conheci, . – sorri involuntariamente, por mais que não fosse um dos meus maiores sorrisos. – E é como meu avô ou qualquer um com mais idade costuma dizer: sentir medo é uma prova de que arriscar pode valer a pena.
Separei nossos corpos, voltando a relaxar o meu sobre a poltrona. Chequei meu relógio dezenas de vezes, temendo pelo momento em que os ponteiros registrariam nove horas da manhã. Um voo para Londres decolaria nesse horário, levando meu para longe.
Estaríamos separados não apenas por um oceano, mas também pelo preço de nossos sonhos.
O medo de que nada nunca mais fosse como antes quase teve o poder de me paralisar.
- Eu te amo, . – soprei com extrema vulnerabilidade, não apreciando de forma alguma o buraco que parecia atingir proporções cada vez maiores em meu peito. Meu ser era vítima de uma oscilação entre a alegria profunda e a tristeza sem fim. Toquei minha mão sobre a sua, esta posta sobre sua coxa esquerda. – Estou tão orgulhosa, tão feliz por saber que você vai realizar o seu maior sonho, vai se tornar o meu Doutor sexy. – sorrimos em sintonia, porém nossos olhares eram perdidos. – Ainda parece que tudo isso é uma ilusão boa demais para ser verdade.
- Em uma ilusão boa demais para ser verdade, não existiriam distâncias no mundo. – e desistindo de manter sua postura tranquila diante nossa atual realidade, sua máscara de autocontrole desmoronou. – Nós nunca tentamos sexo em um aeroporto, . – escolheu mudar abruptamente de assunto, erguendo os cantos de seus lábios em um sorriso enviesado que sempre eletrizava minha pele. – E como eu vou passar meses sem você? - abaixei o olhar, sendo incapaz de conter um impulso de minha mão, que agarrou a sua com força. – Como nós vamos passar meses sem você?
Comecei a rir, negando com a cabeça quando, rapidamente, pude identificar a quem, ou melhor, a que parte do seu corpo ele se referia.
- Quando nós duas descobrirmos como passar semanas sem vocês dois, eu conto.
Não pude aguentar mais, deixei que as lágrimas me consumissem, uma a uma, abundantes e em pouco tempo.
- Você prometeu que não ia chorar, mulher! – agora parecia alarmado, e a melancolia semelhante a de um romance dramático com final agridoce se extendia por cada piso branco e lustroso daquele imenso aeroporto.
Oito e cinquenta e dois.
Uma promessa havia sido quebrada. Digo, a mais trivial delas, mas não deixava de ser uma promessa.
- Não seja insensível, . – bradei, tornando a abraçá-lo como se fosse a última vez que o veria em toda a minha vida.
- Ou eu banco o insensível, ou vou chorar também. – sua voz parecera muito mais frágil ao confidenciar, me olhando com olhos parecidos aos de um garotinho assustado. As duas íris constituíam aos poucos um brilho excessivo, algo que só poderia ser proveniente de lágrimas.
- Você é um excelente ator, então, porque eu não consigo te olhar sem sentir que tem algo esmagando o meu coração. – solucei, inconformada com a forma como estava lidando com tudo aquilo, feito uma medrosa. Imaginei que nossa despedida seria dolorosa, mas aquilo era quase um exagero.
- Pois é, quem sabe eu me torne um grande ator um dia. – não resistiu em simples ser charmoso ao especular, mesmo em meio a todo o clima gélido que nos rodeava.
- Eu acho que...

Atenção senhores passageiros do voo 103 com destino a Londres, embarque imediato pelo portão 5.

- Acho que é isso. – concluiu com um pesar notável, se separando aos poucos de mim, como se quisesse prolongar o repentino e fugaz calor reconfortante entre nós.
- Agora seria um bom momento para você me pedir em casamento, sabia? – soltei sem me dar conta do peso das palavras, arregalando os olhos em seguida. Meu namorado, agora de pé, pareceu deixar o planeta Terra por segundos, logo retornando.
- Talvez seja mais doloroso estar longe de uma esposa do que de uma namorada. – gracejou, me induzindo a ficar de pé para que pudesse abraçar minha cintura e grudar os lábios em minha testa. – E quando você se tornar a minha esposa, não vou te deixar ficar longe de mim. Então acho que não é hora para isso, .
- Tem razão, não é. – respondi resignada, hesitante a respeito de permitir que ele me beijasse como ensaiava fazer. – Até porque eu quero me casar com um médico formado, não com um mero estudante de medicina. – brinquei com um bico proposital, arrancando dele uma risada deliciosa de se ouvir.
- Isso é tão aquele episódio de Friends que a Rachel está indo para Paris e... – antes de finalizar meu desabafo, pude ver rolar os olhos, impaciente.
- Meu amor, eu estou indo viver do outro lado do oceano, não é hora para Friends. – concordei com um bico entristecido, o fazendo rir. – Mas já comprei o box com as dez temporadas e vou assistir sempre, porque vai fazer com que eu me sinta mais próximo de você.
Meus olhos brilharam de emoção e de tristeza. Não existe nada mais paradoxal do que amar alguém. Você anseia apenas pelas conquistas deste, mas se qualquer uma delas o leve a ficar longe de você, não parece mais algo tão incrível.
Quer saber? Meu egoísmo que fosse para o inferno! Tudo aquilo era incrível, sim. Meu namorado finalmente realizaria seu sonho. Fim da história.
Aproveitando meu momento de distração seguinte, ele não demorou a segurar meu rosto com ambas as mãos e unir nossos lábios naquele que seria o beijo responsável por selar diversas promessas feitas. E diante tantas promessas feitas diariamente pelo mundo, só me restava rezar para que nenhuma das nossas estivesse na lista das que sempre se quebram.
Correspondi ao beijo com toda a força restante em meu ser, com todo o amor que cabia em meu coração, e mesmo assim foi como se nem mesmo tivéssemos relado nossos lábios, pois a saudade doía como nunca. Segurei uma de suas mãos com força, uma tentativa falha de pedir para que ele não se afastasse.

Última chamada para o voo 103 com destino a Londres, embarque imediato pelo portão 5.

- Você é a mulher da minha vida, . Nada nesse mundo e em qualquer outro vai ser capaz de mudar isso. – o desespero fazia suas pupilas dilatarem, suas mãos apertando as minhas suavam frio. Em um impulso doloroso, conseguiu romper o contato, se posicionando atrás do carrinho que continha suas malas, pronto para seguir seu destino.
- Vá salvar o mundo, , eu vou estar te esperando. – estimulei sorridente enquanto me livrava de qualquer resquício de lágrimas, as limpando com pressa, temendo que se fixassem ao meu rosto e nunca mais permitissem que eu sorrisse por inteiro.
- E eu vou estar assistindo a minha garota conquistar o mundo. Ah, eu vou sim. – um sorriso esfuziante e repleto de uma jovialidade contagiante foi mais uma vez direcionado a mim. – Só não fique convencida demais, porque o ego inflado aqui pertence a mim.
- Quando você me ouvir cantando... – encontrei forças para dizer, de repente mais calma. – Saiba que cada palavra, cada mínima palavra foi escrita pensando em você. – demonstrando minha absoluta falta de controle, busquei pelo que passou a ser nosso terceiro abraço necessitado, assistindo a região de seu pescoço arrepiar graças a minha respiração ofegante por ali. Com um longo suspiro, ele tentou me dizer que precisava ir. – Você é a inspiração das minhas músicas, assim como é a inspiração da minha vida, certo? Nunca se esqueça disso. Eu proíbo você, !
Nos soltamos com relutância, e teve apenas tempo de medir meu corpo de cima a baixo, subindo o olhar e se demorando mais em meu rosto, como se pretendesse registrar uma fotografia minha em sua mente.
Acenei por uma última vez, o vendo dar as costas para mim e caminhar com pressa em direção ao portão de embarque.
Não demorei a avistar o rosto de papai e o de Winston Scriff, meu mais novo advogado, responsável por me instruir durante a reunião com a Columbia Records, que aconteceria em exatamente três horas.
E, exatamente em três horas, nada nunca mais seria como antes.

Narrando:

Oxford, Inglaterra

Tempos depois...

É mesmo verdade o que dizem, uma vez que você prova da real perfeição, todo o resto simplesmente perde a graça.
Meio absurdo – e até um pouco blasfêmico – um calouro de medicina estar se comportando feito uma estátua deprimida em um pub local de Londres. Digo, olhando ao meu redor, todos pareciam sedentos por uma chance de perder o controle. Sem compromissos, sem obrigações, sem promessas. As festas eram tantas, e as mulheres então... Intermináveis. Meus recém-amigos se fartavam com tantas novidades, insistindo que eu também deveria me deixar levar pelos prazeres universitários.
Quantas vezes mais eu teria que dizer que tudo aquilo era pura besteira para mim? Eu não queria flertes que não fossem os de . Não queria toques que não fossem os de . Não queria beijos que não fossem os de . Não queria sexo que não fosse o de . Não queria ninguém além dela. E você pode até tentar contrariar minhas atitudes com o paradigma estúpido de que homens são seres sexuais, carnais demais, só sabem pensar com a cabeça de baixo. Pode dizer que eu não vou aguentar muito tempo em total abstinência sexual, e às vezes eu até acredito em tal hipótese, mas então sou nocauteado por imagens de momentos que e eu vivenciamos juntos e tudo se torna mais fácil.
Tinha cansado de ser um homem comum. Há pouco mais de um ano eu tinha me conformado em ser um homem loucamente apaixonado. Sem volta.
Isso, é claro, não me impedia de manter uma relação calorosa com o whisky, cujo minha garganta ainda tentava se familiarizar, pedindo mais uma dose ou duas. No entanto, aquela não era uma noite apropriada para encher a cara, visto que eu ainda tinha algo importante a fazer. Finalizei minha bebida, colocando o copo sobre o balcão do pub e ficando de pé, atraindo os olhares abismados dos meus amigos, que começaram a protestar e tentar me convercer a ficar ali.
- Deixa de ser virgem! – Jason, provavelmente o mais imaturo, jogou o restante do conteúdo de seu copo em mim, bradando com aquele sotaque britânico de merda.
Era sério quando eu dizia que resistiria ao máximo para não acabar falando como aqueles ingleses.
- Virgem? Nem sei mais o que isso quer dizer, Jay. – gracejei, adquirindo um semblante presunçoso que relatava meu vasto histórico sexual. Certo, o que eu havia dito mesmo sobre desprezar a classificação de "Homem comum que não sabe usar a cabeça de cima"? – E eu preciso ir, seu babaca, tenho um encontro com a minha namorada! – relembrei, sorrindo animadamente.
Pena que a realidade gostava de ser amarga nas horas vagas e meu encontro com contaria com a participação especial de uma vadia: a distância. Mataríamos um pouco da saudade um do outro através da tela de um computador.
Jason começou a gargalhar, visivelmente bêbado, negando com um menear decepcionado de cabeça.
- Porra, ! Sua namorada? Cara, um computador não pode ser a sua namorada, vê se entende isso. – ele tinha se aproximado, passando um braço ao redor de meu ombro e soprando aquele hálito nojento de cerveja em minha direção. Ótimo, tudo que eu precisava na vida era receber conselhos inexperientes de um bêbado. – A menos que você seja um cabo USB, ai é outra história. – todos começaram a gargalhar, glorificando a piada maldita de Jason.
- Se eu fosse você, pulava fora dessa. – Anthony, um de meus outros amigos – se bem que era um tanto duvidoso um complô como aquele ser definido como amizade – alertou severamente, por mais que também estivesse bêbado. – Qual é? Ela é famosa! Pode ter qualquer galã de Hollywood aos seus pés. E quem te garante que já não teve, ? – recebi diversos olhares desafiadores, bufando antes de mandá-los para um lugar não muito agradável.
- Vão a merda! – me limitei a resposta rude, sumindo daquele pub de uma vez por todas.
A minha garota me esperava.
Feito um garoto correndo em direção a seu tão esperado presente de Natal, me lancei em direção a cama, trazendo meu notebook para mais perto. Tinha muito a estudar, tinha todas as funções do corpo humano para aprender, mas isso definitivamente podia ficar para depois. Não demorei a chamá-la no Skype, sorrindo extasiado ao avistar seu figura do outro lado da tela. Estava incrivelmente linda, apesar de seu cabelo estar repleto de bobes, o que me fez franzir o cenho e começar a rir de imediato.
- Muito engraçado, . – ralhou, comprimindo os lábios em um pequeno bico. Bico este que eu sempre sentia a necessidade absurda de morder. – Oh-oh... Você sempre fica uma delícia com jaquetas de couro. Deveria andar com um alerta de "Perigo". – ela disse com a voz arrastada, um olhar desejoso fixo em mim. faria seu primeiro grande show naquela noite. Por mais que ela tentasse esconder, eu sabia que ela estava em pânico. Ela sempre acreditava não ser capaz de algumas coisas, até que surpreendia a si mesma e fazia o que lhe tinha sido proposto com aquele jeito só seu de ser.
- O que você está vestindo por baixo desse roupão? Por favor, diga "nada"! – pedi empolgado, a divertindo. – É terrível olhar para essa boca e não poder beijá-la, sabia? – confessei com o olhar vidrado em seus lábios, mordiscando o meu lábio inferior em uma tentativa de refrear os impulsos de desejo que acometiam meu ser.
- É terrível olhar para você, por inteiro, e não poder te beijar todinho... – tentava se conter, mas a tarefa acabava se mostrando impossível. Eu não sabia definir qual de nós dois estava sentindo mais saudade. Não tínhamos a oportunidade de tocar um ao outro há três malditos meses. Pois é, eu não sabia mesmo como ainda estava vivo. – Mas me conta, como estão as coisas por ai, meu futuro Doutor sexy? – sorri instantaneamente, recordando alguns fatos assustadores e mesmo assim incríveis ocorridos naquela mesma semana.
- Às vezes eu quero fugir, mas... Depois percebo que esse é exatamente o meu lugar. – respondi sem receios, por mais que não estivesse plenamente feliz. Faltava algo para que eu pudesse me considerar um homem plenamente feliz. – E você, grande estrela? Pronta para fazer metade de uma cidade se apaixonar por ? – torceu suas feições em uma careta de pleno desconforto, desviando o olhar por um instante.
- Estou aterrorizada. Nunca fiz um show tão grande. E se não gostarem, ?! – e lá estava sua fragilidade exposta, algo que ela não se permitia compartilhar com qualquer um. Mas eu conseguia ver através dela, conseguia sentir que a circunstância atual de sua carreira a deixava com os nervos a flor da pele. Quem me dera poder estar em Los Angeles naquele exato momento, a acalmando como tinha aprendido tão bem a fazer.
- Eu ando pelado pelo campus hoje à noite se não gostarem do seu show.
Ao contrário do que previ, começou a chorar, tentando esconder isso de seja lá quem estivesse ali com ela. Provavelmente sua equipe ou coisa assim.
- Droga! – ela vociferou, mais para si mesma que para mim.
- Não, ... Por favor, não chora. – tentei, sentindo meu peito doer com a visão das lágrimas que acentuavam o brilho dos seus olhos. – Ei, meu amor, o que foi?
- Eu te amo! – ela proferiu um pouco alto demais, mas não se mostrou arrependida. – Eu te amo tanto... E essa saudade está doendo demais, . Não sei por quanto tempo mais vou aguentar. Você não sente que vai explodir a qualquer momento? – investigou, aproximando ainda mais seu rosto da tela, prestes a me fazer perder a sanidade de vez e beijar a porra da tela de um notebook.
Deus, eu precisava dela comigo!
- Só cinco vezes por minuto, mas um de nós precisa ser forte pelo outro, certo? – menti, disposto a esconder em meu interior que estava um caco, vivendo pela metade há meses.
- Eu quero tudo aquilo de volta, sabe? Passar tardes chuvosas comendo porcarias e vendo filmes com você, ou até mesmo sair pela chuva e ficar resfriada depois, mas sem arrependimentos porque o seu beijo é ainda melhor na chuva. – voltei a sorrir largo, levando o olhar por reflexo até a pequena caixa posta sobre a minha cama. Um calafrio contornou minha espinha, e considerei a possibilidade de cometer uma loucura muito tentadora. – E quando nós dois inventávamos de cozinhar juntos? Céus, que bagunça...
- E que sexo na bancada! – completei, adquirindo um semblante lascivamente sonhador. Ela teria estapeado meu braço se estivesse por perto. ria de meu sorriso enviesado e habilidade em ser tão indiscreto a qualquer momento.
- As nossas viagens para a praia, as noites de fogueira com os nossos amigos... A simples certeza que eu poderia olhar nos seus olhos na hora que bem entendesse. Perder o controle até mesmo em locais públicos e transar muito com você... – oh, lá estava outra centena de arrepios. Aquela mulher sabia como me deixar desconcertado. Meu corpo implorava desgovernado por ela.
Olhei mais uma vez para a caixa da Tiffany & Co. que guardava um anel de noivado. E então, a vontade de acabar com todo aquele sofrimento se mostrou tão cristalina e acessível...
Bastava uma ação e algumas poucas palavras.
- A falta de tudo isso está me matando, amor. – cedi a fraqueza que a saudade despertava, fechando os olhos com força por um instante, evidenciando com um suspiro que não era forte merda nenhuma. Era forte quando a tinha perto de mim. – E eu desisto de ser o forte, porque, depois disso... Droga, o que foi que você fez com a minha vida? – fingi estar desolado, percebendo que isso apenas agravava o brilho em seus olhos. – Ela não tem sentido algum sem você me acordando cedo demais, reclamando que eu sou desafinado, me provocando como ninguém mais conseguiu... – eu sorria feito um babaca durante aquelas lembranças, mesmo que doesse. – Rindo alto demais em horas inapropriadas, roubando a minha comida, sendo a garota mais sensacional que eu já conheci e vou conhecer.
- Vem me buscar, por favor... – soluçou, enxugando as próprias lágrimas com rapidez. – Não estou preparada para tudo isso.
- Mas é claro que está, você é e nasceu preparada para qualquer coisa, mesmo que não acredite. – assegurei, sem qualquer sombra de dúvida.
- Eu quero você, comigo, todos os dias, todas as noites, sempre. Sempre. Quando eu finalmente te ter ao meu alcance, ... – ela interrompeu a fala para respirar com profundidade. – Deus, se prepare para perder dias com os meus braços ao seu redor, sem intervalos. Não vou te largar nem por um segundo! – ri da sua intensidade incontrolável e irresistível, sentindo meu corpo esquentar, mesmo que estivesse congelando do lado de fora do apartamento. Maldito inverno infinito que se apossava de Oxford.
- Perder dias? Eu já não mencionei que com você eu só tenho a ganhar, namorada? – tratei de relembrá-la, sendo até mesmo capaz de sentir o amor dela por mim atingindo meu corpo, como uma espécie de tranquilizante. – Você é o que eu tenho de mais importante na vida.
- Cala a boca, você é perfeito demais e isso só piora tudo. – gargalhei do seu novo bico entristecido, fingindo que não desmoronava aos poucos por dentro.
A saudade fazia isso com meros mortais como eu.
Então, minha visão voltou a se deparar com a caixa azul – ou seria verde? Afinal, que merda de cor era aquela? –, o anel de noivado comprado em Nova York há vários meses. Se tinha louco o bastante para comprá-lo, talvez também fosse louco o bastante para dá-lo a .
E pedi-la em casamento.
- Quer saber? Eu não vou calar a boca, não! Muito pelo contrário. ... – estiquei meu braço na tentativa de alcançar a pequena caixa, a deixando com um semblante confuso do outro lado. A vida é feita de impulsos. O mundo é de quem não tem medo de se arriscar. – Você quer...
Uma voz alta sobressaiu o início do meu pedido, fazendo com que olhasse aflita para algo que estava apenas em seu campo de visão. Seus olhos tristonhos retornaram a mim posteriormente, mas eu sabia que nossa breve despedida estava prestes a acontecer.
- Puta merda, estão me chamando! Está na hora! Agora tenho que me vestir e arrumar o cabelo... Deus! – abanava o próprio rosto, como se estivesse perdendo o fôlego. – Meu amor, eu preciso ir, mas, por favor, me promete que nós vamos nos ver logo, é sério. – ela praticamente suplicou, prestes a ficar de pé e encerrar nossa conversa.
Suspirei derrotado, com aquelas estúpidas palavras ainda enroscadas em seu peito.
- Prometo, . Nem que eu tenha que lutar contra o mundo, mas eu vou te ter nos meus braços em breve. – piegas em demasia, foi tudo que consegui pronunciar, vendo sua imagem desaparecer aos poucos, ficando apenas com uma tela preta e a sensação de que o destino me considerava um inimigo mortal. – Você quer... Se casar comigo?
Completei tarde demais, abrindo a caixa e fitando o brilhante e caro anel, me perguntando quando teria uma verdadeira chance de colocá-lo no dedo de .
Oh, é claro: ela foi brilhante durante todo o show, como havia duvidado. Da exata forma que eu tinha absoluta certeza que seria, ou talvez ainda mais.

Narrando:

LAX Airport, Los Angeles, Califórnia

Um ano depois...

A repentina tempestade de flashes me cegou por alguns segundos, até que senti as mãos firmes de Natalie Wickham, minha agente, se firmarem sobre meus ombros, me conduzindo até uma dos áreas reservadas do aeroporto, algo como uma saguão VIP, onde apenas famosos, figuras públicas ou políticos se concentravam. Felizmente meus olhos se mantinham protegidos pelos óculos escuros, que escondiam meu olhar ansioso que era dirigido a larga porta de vidro a minha frente. Não havia mais ninguém ali, exceto por Natalie, que insistiu em me acompanhar para evitar qualquer inconveniente.
- Cuidado com o que você vai fazer com esse rapaz em público. – apenas ouvi sua voz soar severa, optando por não erguer o rosto em sua direção. Natalie adorava fingir que era minha mãe. – Sabe muito bem como os tabloides adoram falar de você, e sempre acabam distorcendo tudo.
Ri com descrença, retirando os óculos e desistindo de folhear as páginas da revista posta sobre meu colo, apenas para respondê-la olhando nos olhos.
- Não há o que interpretar errado, Natalie! é o meu namorado e eu pouco me importo que algum paparazzi venda essa informação por ai.
A mulher mexeu nervosamente em seus cabelos curtos e loiros, checando algo em seu iPhone de cinco em cinco segundos.
Após meu primeiro CD lançado, não levou muito tempo para que tudo começasse a ganhar proporções nunca antes imaginadas. De um milhão, as visualização dos meus três primeiros videoclipes passaram a triplicar, semana após semana. Programas de TV, rádios, eventos, premiações musicais, parcerias com cantores famosos, entre várias outras coisas responsáveis por espalhar meu nome por cada canto.
Nem mesmo em meus sonhos mais altos eu seria capaz de prever que dividiria músicas com bandas como Maroon 5 e Coldplay.
Ainda era assustador, talvez nunca fosse deixar de ser. Minha primeira turnê mundial ocorreria em apenas três meses, e então, segundo Natalie e Richard, meu empresário, eu poderia me preparar para as diversas indicações ao Grammy que surgiriam, apenas uma mera consequência por estourar tão rápido nos charts da Billboard.
Às vezes era como se eles sonhassem mais alto do que eu.
Dispersei-me do mundo ao redor por alguns instantes, voltando minha atenção para a revista ligeiramente grossa em minhas mãos. Vasculhei aflita pelas páginas, até que meus olhos ávidos encontraram a informação almejada. Sorri involuntariamente, tentando me conter para não soltar um grito de empolgação quando tive a chance de visualizar, bem ali, o rosto de meu namorado. As duas páginas consistiam em uma Ad da renomada marca Burberry, em uma edição da Vanity Fair.
Para conseguir se sustentar devidamente, acabou por se tornar um modelo de meio período, trabalhando em algumas campanhas de marcas britânicas. Ele dizia fazer aquilo somente para conseguir se bancar na faculdade, mas cedo ou tarde precisaria concordar o quanto tinha jeito para a coisa.
As câmeras o adoravam.
A primeira fotografia se parecia muito com um cartaz promocional de um filme do James Bond, já a segunda, esta com uma modelo loira que segurava o colarinho tipicamente xadrez de sua camisa vermelha, evidenciava um olhar extremamente sedutor. E mesmo estando apenas estampado em uma simples revista, parecia impactar em mim de forma inquestionável.
Não nós víamos há quase três meses. E, acredite, conversas noturnas pelo Skype não mais conseguiam suprir nossas necessidades um do outro.
Levantei-me em um ímpeto ao constatar a presença de um de meus seguranças na área reservada, este sendo acompanhado por um ser de jaqueta de couro e olhar inquieto, que trazia consigo uma mala de rodinhas e um sorriso encantador. Ignorei os conselhos de Natalie e disparei a correr em sua direção, gargalhando ao sentir seus braços se fixaram em meu corpo com força, na tentativa de não cair no momento em que me atirei em seu colo, fechando minhas pernas ao redor de seus quadris e assistir o mundo girar deliciosamente ao meu redor.
Senti que éramos observados, mas não estava ligando nem um pouco para isso, só queria matar as saudades do meu .
Grudei meus lábios aos seus, o beijando diversas vezes seguidas, até fazê-lo rir. Estávamos longe do olhar perspicaz de qualquer paparazzi, então precisávamos aproveitar.
Natalie logo se intrometeu entre nós, alegando que não poderíamos ficar ali, utilizando da ajuda do segurança para nos conduzir até uma das várias saídas "secretas" do aeroporto, digamos assim.
Embora o trajeto estivesse sendo bem calmo, Natalie não demorou a se colocar na minha frente, como se prevesse a presença de um sagaz fotógrafo que surgiu como em um passe de mágica, registrando e eu de mãos dadas. Lancei-lhe um olhar cúmplice, assegurando que deveríamos ignorar, o puxando com mais pressa em direção a saída. Senti os movimentos de meu namorado cessarem, até que quase tropecei em meus próprios pés ao ter a mão puxada para trás, já sentindo o choque entre nossos lábios antes mesmo de ocorrer de fato. Porém, fui mais rápida ao barrá-lo, espalmando delicadamente as mãos em seu peitoral.
- Aqui não, . – sussurrei como se fosse um segredo de estado. – Tem paparazzi por todos os lados, posso sentir a presença deles. É como se eu tivesse uma visão de raio X. – comentei, vagando meu olhar pelos quatro cantos da região.
- Quer dizer que eu não posso beijar a minha namorada em público? – ele soou ultrajado, tornando a me puxar para si, me fazendo ser obrigada a afastá-lo novamente.
- Acredite em mim, meu amor, você não vai querer essa gente te perseguindo até mesmo em Oxford. Pois bem, vem aqui. – acariciei brevemente seu rosto, incomodada com o semblante fechado e aborrecido direcionado a mim, o chamando para seguirmos o caminho até o carro. – Vamos para um lugar mais reservado.
Quando eu estava prestes a adentrar o veículo blindado que havia sido alugado exclusivamente para despistar a atenção da mídia, ouvi vozes ofegantes e eufóricas me chamando, levando o olhar até um corredor apertado que logo revelou duas garotas que deveriam ter, no máximo, quinze anos.
Fãs são mais eficazes que o FBI quando se trata de encontrar alguém, e tenho dito.
Billy, um de meus seguranças, tentou impedi-las de se aproximar, mas não tardei a largar a mão de e me dirigir até ambas, sorridente. Pedi ao segurança que tentasse ser um pouco mais gentil e me dispus a assinar dois de meu CDs que foram estendidos em minha direção, já preparada para as lentes de suas câmeras.
- Você é incrível, ! Eu comprei meu ingresso para o seu show na noite que começaram a vender, não dormi nada! Mas valeu tão a pena! Ai, eu não acredito, você é demais! – elogios como aquele ainda me deixavam encabulada, sem saber o que responder, mas não hesitei antes de aproximar meu rosto de Claire, uma das garotas, para que tirássemos uma foto juntas.
- Quando você vai fazer outra parceria com o Adam Levine? Shippo demais vocês dois desde aquela apresentação lacradora no VMA! – Lucy, a outra, dizia em meio a lágrimas de emoção.
Ótimo, existiam pessoas que me shippavam com o Adam Levine. Ignorando, é claro, o fato de que ele era alguns bons anos mais velho que eu.
Notando suas mãos trêmulas, me ofereci para segurar o celular e tirar a foto, recebendo um abraço apertado em seguida. Sim, isso era muito gratificante.
Lembrando os conselhos de Natalie para não soltar informações nada-verídicas, eu apenas disse:
- Adam e todo o Maroon 5 são surreais, eu com certeza adoraria outra parceria! – explanei meio que roboticamente, me sentindo um tanto culpada.
- Quem é ele? – Claire arregalou os olhos, se referindo a um que me encarava com uma expressão engraçada, já dentro do carro, apenas com a cabeça para fora.
- Hm... Ele é meu... Um amigo. – soltei sem perceber, me afastando gradativamente, já me arrependendo da miserável escolha de palavras. De certo modo, era apenas para o bem de meu namorado, mas então por que meu coração havia apertado de forma quase insuportável? – Obrigada pelo carinho, garotas, vejo vocês no show! – concluí a despedida, entrando as pressas no carro quando alguns fotógrafos descobriram meu paradeiro.
O motorista não demorou a nos tirar dali, e então notei que não tirava o olhar curioso de mim.
- Um amigo, ? Você me usou durante todo esse tempo? – o tom brincalhão em sua voz fez as batidas do meu coração abrandarem, mas, mesmo assim, não parecia certo. – Acho que você deveria ter mostrado a minha foto na Vanity Fair ou alguma mais íntima do seu celular. Ou, sei lá, talvez fosse mais cômodo dizer que eu sou o seu namorado, quem sabe. – seu olhar adquiriu um brilho tristonho, fazendo Natalie respirar fundo no banco e rolar os olhos no banco da frente, virando o rosto para soltar algum dos seus típicos resmungos.
- Ela está te fazendo um favor, garoto! – respondeu seca, conquistando uma careta de meu namorado. – Aliás, , não se esqueça do seu ensaio para a Teen Vogue em Santa Mônica amanhã. E depois a visita ao hospital infantil, e depois o desfile da Victoria's Secret.
Oh, claro, a Teen Vogue. Eu precisava admitir que ainda era estranho e super surreal estar em capas de revistas. Com hospitais infantis eu já estava familiarizada, afinal, meu pai era médico. Quanto a comparecer ao desfile da Victoria's Secret... Estava eufórica e terrificada.
- Nossa, minha namorada é tão atarefada... – comentou impressionado, a voz oscilando entre alegre e nem tão alegre assim.
Movimentei meus lábios em um "Desculpe" nada sonoro, encostando minha cabeça em seu ombro, fechando os olhos e tentando me convencer de que estávamos bem. Lidamos durante todo um ano com situações semelhantes, não era como se não estivéssemos acostumados a esconder nossa relação.
Por mais que eu ainda não soubesse o grande propósito disso.

--

- Vamos, me conte tudo! – tranquei a porta do quarto de um hotel bem afastado do centro de Los Angeles, empurrando para que se sentasse comigo na cama. – Meu Doutor sexy está gostando da faculdade? Tem muitas piranhas dando em cima de você? Os professores são uns crápulas insensíveis ou...
Finalmente, seus lábios se colaram aos meus. Segurei seu rosto de forma necessitada com ambas as mãos, deixando que um impulso promovido pelo seu tronco induzisse todo o meu corpo a ceder, caindo deitado sobre a cama, tendo o seu por cima. Ofegante, ele partiu o beijou, apenas roçando os lábios por direções estratégicas do meu rosto, enquanto permitia que um olhar penetrante analisasse o meu com uma disposição impressionante.
- , você não faz ideia de como os meus dias são difíceis sem você. – seus braços envolveram minha cintura com mais pressão, evidenciando seu estado de carência total. – Deus... Essa situação me mata cada dia um pouco mais. E pensar que passou apenas um ano. Um mísero ano da faculdade. – exasperado, o garoto não tardou a cobrir meus lábios com os seus novamente, talvez em uma tentativa de abrandar a saudade que sentia. Distribuí carícias com minhas unhas por sua nuca, procurando por seus lábios novamente, permitindo que minha língua contornasse o seu lábio inferior antes de sugá-lo, aos poucos sentindo meu corpo ferver. Sua mão livre já se encontrava abaixo da minha blusa, encontrando uma maneira rápida e objetiva de se livrar do meu sutiã.
- Nós somos e , não há nada que possa nos deter, sabia? – assegurei com a voz repleta de uma convicção repentina, o observando se erguer de repente, ficando sentado ao meu lado. – O que foi?
- Nada, não é nada. - tentou, evasivo. - Eu só preciso de um tempo para me com a pessoa que você se tornou.
Estreitei meus olhos com descrença, me erguendo até ficar sentada como ele.
- A pessoa que eu me tornei? – repeti suas palavras, incrédula, não sendo capaz de ocultar minha exasperação quando fiquei de pé. Eu não estava acreditando que, depois de quase três meses separados, ele faria questão de perder tempo e se incomodar com algo tão... Injusto. Estávamos juntos tempo o suficiente para que situações como a de tempos antes no aeroporto não surtissem impacto algum.
Pelo menos deveria ser assim.
- Desculpe, , como sou descuidado! – lamentou, me deixando confusa. – Nesse um ano você deve ter se acostumado com todos sempre sendo o tapete por onde pisa e agora um simples comentário te aborrece.
Não, eu não estava escutando aquilo. Não podia estar!
- O que foi que você disse?! – senti meus olhos esbugalhados, estupefata o suficiente para não arriscar um mísero passo até ele.
- O que aconteceu com você, ? – ergueu o olhar em minha direção pela primeira vez depois de quase meio minuto de silêncio, soltando o ar com força quando constatou o que tinha acabado de dizer.
- O QUE FOI QUE ACONTECE COM VOCÊ?!, Essa é a pergunta certa! Está desperdiçando o pouco tempo que temos juntos insinuando que eu mudei! Que porcaria é essa?! – disparei a falar, erguendo meu tom de voz alguns – muitos, na verdade – oitavos, o suficiente para que hóspedes próximos pudessem ouvir.
Não sabia dizer qual era o problema com minhas emoções naquele dia.
- Não negue, você mudou. – ele analisou, mesmo que houvesse dor em sua voz. – Às vezes só se parece com alguém que eu costumava conhecer.
Ótimo, só faltava o Gotye surgir de algum canto estratégico do quarto para começar a cantar Somebody That I Used To Know.
Poderíamos até improvisar um dueto juntos.
- Adoro que sempre acabamos por ter coisas em comum. – ataquei de repente, sentindo meus olhos sendo acometidos por uma ardência que se intensificava com o passar dos segundos.
- Ok. Isso não está certo. – meu namorado ficou de pé, se dirigindo até a janela, arriscando observar a paisagem e fingir que eu não estava estagnada ali, esperando por um sinal, qualquer coisa que me fizesse acreditar que todo aquele incompreensível desentendimento não passava de uma brincadeira de muitíssimo mal gosto. – Eu não vou brigar com você. – murmurou mais para si mesmo do que para mim, e pude assistir a forma como ele cerrava os punhos.
- Eu sabia. – concluí, mordendo meu lábio inferior com força. Meu coração disparou, espalhando uma fraqueza por todo o meu corpo, me obrigando até a cair sentada sobre uma poltrona atrás de mim.
- Sabia do quê? – investigou simplesmente, virando apenas seu rosto retorcido em arrependimento em minha direção.
- Que as coisas nunca mais seriam as mesmas. – levei a mão até o rosto, erguendo o olhar na tentativa de aprisionar minhas lágrimas por mais tempo. – EU SABIA! – bradei, voltando a ficar de pé. saiu da janela de imediato, contornando a distância entre nós em tempo recorde.
- , para com isso! – suas mãos seguraram meus braços com uma força indolor, olhando tão fundo em meus olhos que foi capaz de fazer um filme sobre todo o tempo que passamos juntos ser exibido em velocidade progressiva por minha mente. Meus olhos marejados fugiram do contato com os seus, mas apenas por segundos, já que o garoto foi mais rápido ao segurar meu queixo, me induzindo a olhá-lo.
- A distância é uma merda, ela sempre faz isso! – prossegui com o meu lamento, notando que aos poucos seu aperto inofensivo perdia as forças. – Sempre enfraquece laços que antes pareciam tão perduráveis. Eu amo você... – levei a mão até o peito, como se pudesse amenizar a dor enclausurada ali. – Mas não quero que sejamos assim, esse casal ridículo que briga por qualquer coisa. Eu não quero perder a certeza de que tenho você na minha vida, nem que para isso... – fechei os olhos com força, indignada com uma ideia horrível e repentina que tomou conta dos meus pensamentos.
- O quê?! – pediu aflito, porém não mais me segurava.
Tomei ar, percebendo que não havia maneira fácil de dizer aquilo.
- Nem que para isso nós tenhamos que ser apenas amigos, pelo menos por agora.
disparou a rir. Sim, rir. Uma risada feita em incredulidade, algo que o fez se sentar sobre a poltrona e cobrir o rosto com as próprias mãos. A veia em sua testa permanecia alterada, evidente, fazendo questão de deixar claro o tamanho de sua infelicidade.
- Você enlouqueceu, mulher. Enlouqueceu! – suas palavras tiveram poder de me machucar, mas não o bastante para que eu me calasse.
- Tem razão, eu enlouqueci. Ter todo santo dia um bando de fotógrafos às quatro da manhã na porta do prédio onde eu moro, só para descobrir qual vai ser o meu "Look do dia", me enlouqueceu. Ter o rosto conhecido em cada canto do mundo me enlouqueceu. Não poder ter a mesma relação de sempre com o meu namorado me enlouqueceu. – soltei tudo de uma vez, me sentando sobre a cama, adquirindo uma distância segura de , este ainda preso em suas próprias divagações. Ele mal ousava me olhar.
- Então você quer... Quer terminar? – a pergunta soou mais como um sussurro esganiçado, tornando sua voz composta por uma fragilidade nada habitual.
Aquilo não podia estar acontecendo. Não éramos nós ali; eram dois completos estranhos que encontraram uma forma de dominar nossos corpos e arruinar a coisa mais importante que tínhamos. Nós.
- Eu só não quero te perder... – expressei com pressa, minha voz chorosa já impossível de modificar. – E pelo menos por agora acho que uma relação homem e mulher não vai dar certo. Então, sim... – respirei fundo. – Eu estou terminando com você.
- Isso é ridículo, . É a ideia mais ridícula que você já teve. – foi sincero, e só me restava agradecê-lo por me deixar ter conhecimento das barbaridades que minha mente cada vez mais enlouquecida poderia formular. – Não sei se eu posso ser só seu amigo. A simples ideia é insuportável. – ergui o rosto em um susto, o sentindo de repente tão próximo, tomando uma das minhas mãos para si. Finalmente. Um momento de lucidez depois de vários minutos da mais injusta insanidade. – Mas eu posso tentar, se for te fazer feliz, porque é só o que me interessa, te fazer feliz. E, se para não te perder, eu tenha que aceitar ser apenas o cara que conversa com você, que ouve como foi o seu dia e se conforma em não ter nada mais além disso... Tudo bem.
Então era isso? Desistiríamos do nosso amor sem uma mera luta?
Que merda era aquela?!
- Eu não sei...
- Eu te amo demais para colocar tudo em risco, . Posso esperar pelo tempo que for. Não estarmos juntos agora não quer dizer que nunca mais vamos poder estar, certo?
Certo.
- Não estarmos juntos não quer dizer que eu vou deixar de te amar. – completei sem hesitar. Engoli o choro, assim como soquei em meu peito a necessidade esbraseante de puxá-lo para os meus braços. – Certo, então, por um tempo... – deixei a informação implícita, apesar de bem clara, fortalecendo a esperança de que não era um fim definitivo. – Vamos começar a nos enganar e viver como se fôssemos dois atores, em um filme. Vivendo uma mentira. – notei sua relutância em concordar, mordendo o lábio inferior com força. Eu conseguia sentir, como se vagasse pela atmosfera e perfurasse meus poros, o esforço que fazia para não se aproximar e desistir de semelhante absurdo.
Atingimos a total insanidade, era uma certeza.
- Eu já mencionei que sou um ótimo ator? – ele relembrou com uma sobrancelha erguida, se permitindo ser sedutor por um frágil segundo.
- Azar o seu. E meu, também. – percebi, sorrindo sem muita vontade. Trocamos um olhar indecifrável, então, e meus poros eriçaram um a um quando seus olhos atrevidos começaram a despencar do meu rosto, percorrendo cada curva pelo meu corpo. – Sabe que amigos não fazem sexo, não sabe? – adverti, mal reconhecendo minha própria voz.
Em que mundo eu diria a para não me desejar? Seria como pedir ao sol que não nascesse mais.
- Sei, sim, mas acho que mereço uma despedida.
Tive apenas tempo de concordar, puxando inconscientemente a barra da minha blusa para cima, a tirando com habilidade o suficiente para, segundos mais tarde, avançar em sua direção, determinada a fazer o mesmo com a sua jaqueta e todo o resto. Ficamos de pé, e então me agarrou pela cintura, empurrando meu corpo até pressioná-lo contra uma das paredes, apenas para que eu tivesse a chance de empurrá-lo de volta, vendo seu corpo cair entregue sobre a cama, não demorando a me colocar por cima. Mesmo com corações doloridos, o clima cálido entre nós não demorou a ser estabelecido. E, talvez, apenas talvez, nossa despedida durasse por horas a fio. E nem assim seria o suficiente.
- Espera... – pediu ofegante, não satisfeito em ter uma das mãos sobre meu sutiã, levando a outra até a minha bunda. – Essa vai ser a nossa maneira de selar um acordo de apenas-amizade? – sorriu abertamente, revelando que jamais seria capaz de acreditar plenamente que conseguiríamos ser apenas amigos.
E quem acreditaria?
- Tem uma ideia melhor? Pacto de chiclete? – ambos adquirimos expressões enojadas, porém risonhas. – Pacto de sangue?
- Cala a boca, já tenho que ver sangue demais na faculdade. – arregalei os olhos, congelando meus movimentos de imediato. – Ei, o que foi? – percebeu meu estado, franzindo o cenho.
- Você me mandou calar a boca! – acusei boquiaberta, apesar de também querer muito rir.
Era isso ou chorar.
- Sou só um amigo agora, não sou? Eu posso te mandar calar a boca e tudo o mais. – explicou presunçoso, atacando meu pescoço sem esperar por qualquer protesto de minha parte.
- Seu filho da puta! – grunhi, fechando os olhos com força conforme nossas peles cada vez mais livres de roupas continuavam a se roçar.
- Wow, o que foi isso?! – pediu alarmado por entre um arquejo e outro.
- Sou só uma amiga agora, não sou? Eu posso te chamar de filho da puta e tudo o mais. – devolvi sorridente, aproveitando dos segundos de sanidade que ainda me restavam.
- Justo.

--

- Nós estamos quebrando várias promessas. – proferi baixinho, bastante exausta, encarando o teto branco, cujos raios solares provenientes de uma fresta da janela faziam questão de atingir. Permanecíamos deitados lado a lado em meio a lençóis amarrotados e a amarga sensação de que não faríamos aquilo novamente por algum tempo.
- Melhor do que todos os móveis desse quarto caríssimo de hotel, . E isso aconteceria cedo ou tarde se continuássemos com aquela briga... – tentou gracejar, mas se encontrava tão melancólico quanto eu. – Olha para mim. – pediu carinhoso, se virando para conseguir ficar com o rosto próximo do meu, sustentando seu queixo com uma mão, esta sustentada por seu cotovelo firme sobre a cama. – Não estamos quebrando promessa nenhuma, porque para isso teríamos que, sei lá, passar a odiar um ao outro e esquecer tudo que tivemos, deixar de valorizar isso. Desista, não vai acontecer.
- Acha mesmo que tudo isso é uma boa ideia? – compartilhei meu vergonhoso arrependimento, meio tímida, mantendo o lençol até a altura do meu pescoço. se aproximou para beijar minha testa, brincando com meus fios suados de cabelo em seguida.
- Eu já te disse, é a ideia mais ridícula, péssima, ultrajante e injusta que alguém já teve desde os primórdios da humanidade, mas também é a única coisa que pode nos salvar agora. Eu sei. - revelou confiança e eu apenas concordei com um aceno, o vendo umedecer os lábios e desviar o olhar. Depois voltamos a nos encarar o suficiente para relembrar os motivos que nos levaram a tomar tal decisão. Sim, era a única coisa que poderia nos salvar. A quem queríamos enganar? Estávamos envoltos por uma frieza teimosa e involuntária há meses. – Agora eu vou sair da sua cama, . – comunicou utilizando meu nome artístico, erguendo o tronco e se virando de costas para mim.
- Por quê? Nããão! – resmunguei com a voz manhosa, tentando sem sucesso alcançá-lo.
- Porque amigos não dormem na mesma cama, meu amor. Já te disse, eu sei atuar muito bem. – voltou a se gabar, me deixando atordoada com sua brilhante explicação. Depois, ele se afastou, seguindo em direção ao banheiro da suíte, sem se importar em se vestir antes.

--

Deixei que a música me conduzisse, envolvendo meus braços ao redor do seu pescoço com mais afinco. Suas mãos permaneceram fixas sobre minha cintura e seus passos tentavam acompanhar os meus em uma dança lenta que marcaria o término e o início de algo.
Oh, era confuso demais para se entender.
Inspirei com dedicação o aroma que seu pescoço emanava, incapaz de manter os olhos abertos, vivendo em uma fantasia que funcionaria apenas enquanto minhas pálpebras continuassem daquela forma.
Estávamos na cobertura do prédio onde eu morava, tendo apenas a companhia de uma noite quente, tão típica da Califórnia. Meu corpo era coberto apenas por um vestido vermelho de cetim, e o de por uma camisa branca e uma calça escura, simples.
Ele partiria na manhã seguinte, mas decidimos que a nossa despedida acontecia bem ali, antes que o sol sequer pensasse em nascer.
Sorri quando o homem me fez rodopiar, girar em meu próprio eixo mais uma vez, voltando a pertencer aos seus braços em seguida.
- Ainda bem que eu aprendi a dançar por você no colegial. – comentou satisfeito com suas próprias habilidades adquiridas.
- Você vai ficar bem? – expus minha única preocupação, interrompendo nossa dança por um instante.
- Não, mas sei que você também não vai, então pelo menos não estou embarcando sozinho na tristeza. – mordisquei meu lábio ao ouvi-lo pesaroso, meneando negativamente com a cabeça.
- , você consegue seduzir até na mais plena amargura. – comentei admirada, voltando a movimentar meus quadris no ritmo lento que nos embalava.
- Uma vez sedutor, sempre sedutor. Nasci assim, vou morrer assim. E nós somos tão incríveis juntos que até mesmo um término sabemos fazer com qualidade. – garantiu sorridente durante gracejos, depositando um beijo cálido, porém rápido, sobre meu ombro. – Oh, antes que eu me esqueça. – aproximou os lábios do meu ouvido, tornando a tarefa de deixá-lo ir cada vez mais difícil. – Eu sou um terrível mentiroso e só ganharia prêmios Framboesa de Ouro.
Soltei um riso extasiado e melancólico ao mesmo tempo, beijando sua bochecha com carinho.
- Para de me olhar assim, senão vou exigir um segundo round para aquela despedida. – alertei sedutora, o deixando atônito.
Nos soltamos em seguida; o relógio já marcava quase meia noite.
- Segundo? Não seria sétimo? – fingia estar pensativo. – Porque nós, definitivamente, tivemos bem uns seis rounds de uma só vez. – rimos simultaneamente, caindo em um silêncio incomodo logo depois. – Te vejo em breve, melhor amiga? – perguntou quando já estava prestes a deixar meu apartamento, optando pela saída dos fundos para que não chamasse muita atenção.
- Vou visitar os seus sonhos todas as noites, melhor amigo, não se preocupe.
Assisti-lo ir embora foi, sem dúvidas, um dos momentos mais difíceis da minha vida. Eu não sabia mais o que aconteceria daquele momento em diante.
Com o passar do tempo, além de um sotaque estranhamente britânico, acabaria por adquirir novos hábitos, novas amizades, novas possibilidades.
Não tivemos coragem de mencionar uma determinada questão. Nos envolveríamos com outras pessoas?
Doía imaginar, mas talvez aquela fosse mais uma das questões que apenas o tempo teria o dom de responder.



02 - It's been a while...

Narrando:

Oxford, Inglaterra

Uma semana depois...

Fraqueza.
Sim, era essa a palavra mais apropriada para definir o impulso que me fazia continuar a caminhar pela chuva, vasculhando com olhos aflitos pela única visão que faria com que meu coração se acalmasse. Eu pouco me importava que as chances de adquirir um resfriado na manhã seguinte fossem imensas, tudo que meu corpo e alma queriam se resumia a um único ser humano.
Como pude ser tão estúpida?! Como pude me deixar influenciar pelo peso do mundo real e acreditar que meu relacionamento com precisava de uma pausa?
Estúpida, estúpida, estúpida!
Passei dias tentando convencer a mim mesma que era o melhor a se fazer, tentando me convencer que, eventualmente, aquela vontade excruciante de procurá-lo e desfazer toda aquela porcaria se dissiparia e com o tempo seria mais fácil aceitar.
Oh, como fui ingênua.
Eu não conseguia dormir, não conseguia comer, não conseguia respirar, não conseguia ser eu mesma sem ele.
Será que era tarde demais para voltar atrás?
Meu lado mais otimista e comandado pelo amor, o sentimento mais forte de todos, acreditava que sim. E então, lá estava eu, correndo pela chuva rumo a moradia universitária de Oxford. Apenas flashes se mantinham registrados em minha memória. Tudo que eu me lembrava era de terminar uma taça de vinho, sair às pressas da minha banheira, vestir uma roupa qualquer, mandar qualquer compromisso para o inferno e seguir para o apartamento, pegando o primeiro voo com destino a Inglaterra que encontrei.
Estava confiante que o encontraria logo, e talvez pudéssemos passar a noite juntos, fingindo que os últimos dias de nossas vidas simplesmente foram um sonho ruim, que havia acabado naquele momento.
Um aglomerado de pessoas com guarda-chuvas surgiu em meu campo de visão. Em meio a gargalhadas altas, eles seguiram até a área onde alguns pequenos prédios se amontoavam. Não demorei a reconhecer um daqueles rostos, sentindo meus lábios se moldarem em um sorriso fascinado.
Esperançoso.
Apertei ainda mais meus passos, gritando seu nome. Que loucura, não? O que ele pensaria quando visse meu estado? Eu mal conseguia manter os olhos totalmente abertos devido a intensidade da chuva.
Mas... Ninguém jamais poderia imaginar o que aconteceria em seguida.
Cessei meus passos bruscamente ao vê-la também cessar os seus, puxando uma garota que se mantinha ao seu lado para um beijo. As pessoas ao redor começaram a urrar em comemoração, conquistando sorrisos de ambos, mesmo durante o beijo.
E que beijo.
Quando os lábios de se separaram dos da garota, os dois sorriram um para o outro, satisfeitos. Senti como se meu coração estivesse se comprimindo em meu peito, causando uma dor lancinante, para então ser arrancado dali sem piedade alguma.
Então era isso? Ele tinha superado tudo que aconteceu entre nós tão rápido assim?
Ao contrário do que previ, não consegui girar em meus calcanhares e sair correndo enquanto me debulharia em lágrimas. Caminhei determinada até ele, esbravejando seu nome até que constatou minha presença, arregalando os olhos. Seus amigos questionaram sua reação, olhando em minha direção.
não sabia o que fazer, se mantinha estagnado bem ali, na chuva.
- ? – piscou algumas vezes, se esforçando para focar minha imagem devida a chuva. – O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?! – ele berrou, pois era a única alternativa de comunicação, graças a tempestade. – , eu...
- Uma semana. – proferi simplesmente, passando nervosamente as mãos pelo meu rosto encharcado. – Uma semana! O arrependimento e a saudade me consumindo durante a porcaria de uma semana e você... E você... – eu sabia que não aguentaria continuar, pois as lágrimas já ardiam meus olhos, se misturando com a água que escorria pelo meu rosto. – Você me esqueceu tão fácil...
- QUAL É A PORRA DO SEU PROBLEMA?! – vociferou, tão ou mais consternado que eu. Quando ele arriscou um passo, recuei outro. Seus amigos nos observavam abismados, porém de uma distância segura. – QUE ESCOLHA EU TIVE? O QUE VOCÊ QUERIA QUE EU FIZESSE? A culpa é sua, . Eu NÃO queria aquilo... – ele mordiscou o lábio inferior com força, claramente se segurando para não chorar. – Eu não queria acabar com o que nós tínhamos. Mas você praticamente me forçou a acreditar que era o melhor a se fazer. E eu faço tudo por você, não faço? Pois então! OLHA A MERDA QUE EU FIZ POR VOCÊ!
Ele estava tão perto que senti cada fibra do meu corpo estremecer. Talvez por frio, talvez por medo. Medo de ser um fim definitivo.
Um impulso de raiva me acometeu, fazendo com que eu avançasse em sua direção, o empurrando subitamente. Apesar de sustentar um olhar incrédulo, permanecia imóvel.
- POR QUE VOCÊ DEU OUVIDOS AO QUE EU DISSE, SEU IDIOTA?! – não me importava em estar chorando copiosamente, e também não me importava por estar parecendo uma maluca bem ali. – Eu queria que você lutasse por nós, que dissesse que tudo aquilo era a porra de um erro! Queria que você tivesse feito de tudo para tirar a ideia estúpida de acabar com o nosso namoro da minha cabeça... Nem que para isso tivesse que me amarrar. – diminuí o tom de minha voz até senti-la sumir ao constatar meu exagero, encarando o chão em um gesto de fraqueza.
Silêncio.
- Foi só um beijo. – , bem a minha frente, também desistiu de soar irracional, tentando se justificar. Talvez fosse mesmo só um beijo, mas eu estava cega pelo arrependimento. Pelo sentimento de plena culpa. É claro que tudo aquilo estava acontecendo por minha culpa. – E por que o único que tem que lutar aqui sou eu? – ergui o rosto em consequência de sua questão, controlando a vontade de simplesmente desmaiar a cada vez que suas íris me atingiam como choques insuportáveis.
- O que foi que eu fiz desde o dia que nos conhecemos? Eu lutei por você todos os dias, ! TODOS OS DIAS! – voltei a me exaltar, com a contraditória necessidade de ser envolvida por seus braços. Triste era perceber que a única coisa que podia me confortar naquele momento era o maior motivo do meu sofrimento. – Tudo que eu queria era que você fizesse o mesmo. EU SOU IMPULSIVA! – quando percebi, já estava atingindo seu peitoral com socos novamente, o fazendo recuar. – Por que deu ouvidos ao que eu disse? QUE MERDA!
- Você veio até aqui para isso? Para dizer que eu deveria ter pensado por nós dois e te forçado a continuar comigo? Não parece algo que eu faria, não acha? Você me conhece, sabe que eu jamais te obrigaria a algo, . – havia dor em sua voz, assim como em suas feições repuxadas em um misto de desconforto pela chuva e desconforto por estarmos brigando.
- Seus amigos me olham como se eu fosse patética... – notei, sorrindo falsamente. – O QUE ESTÃO OLHANDO, SEUS IDIOTAS?! – vociferei de repente, os pegando de surpresa. rapidamente se colocou a minha frente, impedindo que eu criasse algum desentendimento ainda maior.
- Que se dane o que eles pensam! – ele garantiu, arriscando se aproximar um pouco mais quando constatou que meu surto havia passado. Quando seus braços tentaram me alcançar, fiz de tudo para impedi-lo, negando energicamente com a cabeça.
- Quer saber? Volte para a sua faculdade, para as suas mulheres, para toda a curtição. Eu não vou te privar disso. – finalizei, passando os dedos trêmulos sobre o colar de três pequenos pingentes de pássaros que se mantinha em meu pescoço, prestes a tirá-lo.
- ... – não sabia como esconder o desespero. – Por favor, não... – seus olhos permaneciam fixos nos movimentos bruscos das minhas mãos, que rapidamente retiraram a joia do meu pescoço.
- Eu não me importo. Quer dizer, eu me importo muito, tanto que a dor agora é insuportável, mas vou fingir que não. Nós não podemos ficar juntos agora, no fundo eu estava certa. – tomei uma de suas mãos para mim, colocando o colar sobre sua palma estendida e a fechando com o auxílio de ambas as minhas. – Quando você me deu esse colar, disse que eu fazia com que você se sentisse livre... Como esses pássaros. – solucei, não acreditando no que estava prestes a proferir. – Bom, agora aproveite sua liberdade.
Quando pensei em me virar, sua voz firme me impediu de arriscar qualquer mísero passo.
- Se você ousar dar as costas para mim, acabou. Está me ouvindo, ? Se você se afastar e fugir feito uma covarde, acabou. – praticamente cuspiu as palavras, fechado em punho a mão que segurava o colar.
- Pensei que já estivesse acabado, amigo.
Dito isso, eu corri para longe, para bem longe dele, temendo e ao mesmo tempo rezando para que viesse atrás de mim.
Não aconteceu, é claro.
Estávamos cegos pela fúria de uma frustração mútua que, muito provavelmente, nos assombraria por algum tempo. E se tratando de nós dois, eu sabia que não era o fim.
e eu nunca estaria acabado, pelo menos não de verdade.
Ao contrário do que meus olhos embaçados por lágrimas insistiam em enxergar ao meu redor, talvez toda a situação fosse uma espécie de salvação de fato, mas demoraríamos um pouco a nos dar conta disso.
A vida precisava seguir.

--

Las Vegas

Meses depois...

Experimente ter vinte anos em meio a selvageria que o mundo da fama pode oferecer. Ou você enlouquece por vontade própria, ou vão te enlouquecer a força. Mas nada que algumas aulas de kickboxing, tequila e um bom “Que se foda!” não resolvam parcialmente.
Ah, uma pequena e inofensiva diversão entre amigos também ajuda.

I got this feeling on the summer day when you were gone
I crashed my car into the bridge. I watched, I let it burn
I threw your shit into a bag and pushed it down the stairs
I crashed my car into the bridge...


- I DON'T CARE, I LOVE IT! I DON'T CARE! – Magnolia e eu berrávamos conforme a música, pulando freneticamente sobre um dos sofás até que sua resistência começasse a reclamar. Eu não me importava em parecer maluca, tampouco em estar vestindo roupas provocantes como aquelas ou até mesmo por estar a um passo para a total embriaguez. Queria apenas celebrar o fato de estar viva.
E solteira.
Quer dizer, em que planeta eu consideraria comemorar por estar solteira? Definitivamente não no planeta Terra.
Certo, então poderia fingir que estava em Marte. Os homens são de Marte, não são?
Interessante.
Aliás, nossos movimentos eram acompanhados por diversos olhares masculinos. Estávamos em uma boate badalada de Las Vegas, onde ocorria uma típica festinha VIP, onde apenas celebridades e pseudo-celebridades eram convidadas. Com meus vinte anos recém completos, uma conta bancária já exorbitante e o título de “A grande promessa musical da atualidade”, não havia nada que pudesse me impedir de curtir aquela noite até que não aguentasse mais.
Enquanto jogava meus cabelos para um lado e depois para o outro, seguindo as batidas da música com meus quadris, fui pega de surpresa por um gesto inesperado de Mag, sentindo o toque dos seus lábios sobre os meus. Sem pensar muito, acabei correspondendo ao beijo em meio a risos, ouvindo os urros em comemoração da população masculina da boate.
Ah, a juventude.
Éramos todos iguais no escuro: uma verdade absoluta. Não existia grande diferença entre beijar um homem e uma mulher, exceto pela textura dos lábios e a consciência do se está fazendo.
Assim que nos soltamos, voltamos a dançar, sem receios ou arrependimentos. Éramos amigas e estávamos no século vinte e um, pelo amor de Deus!
Porém, é claro que algum paparazzi estava infiltrado em meio a toda a aglomeração, conseguindo um clique perfeito do momento do beijo. Seria apenas questão de minutos para que meu beijo com Magnolia Blossom, atriz de Hollywood, estivesse circulando pela internet.
Que todos explodissem.
Mag demonstrava estar muito mais empenhada do que eu em continuar com toda aquela demonstração de sensualidade, então desci do sofá e vasculhei por Sebastian, logo o encontrando sentado em uma mesa mais isolada, sozinho. O que diabos estava acontecendo com ele?
Sebastian Hoult jamais era visto sozinho!
- Eu adoro assistir mulheres se beijando. – Sebs comentou com um sorrisinho enviesado, me olhando com sua pose sempre maliciosa.
- Ok, beijei uma mulher de língua... Ohhh! Grande coisa! – me larguei sentada sobre a cadeira ao seu lado, bufando inconformada. – Posso transar com ela se eu quiser e vai continuar não sendo grande coisa. Esses tabloides são um pé no saco! – entornei uma bebida qualquer ao terminar meu protesto, de repente sem vontade alguma de celebrar. Seja lá o que eu estivesse celebrando antes. – O que acontece, Sebastian, é que eu sou tão sexy que a orientação sexual simplesmente deixa de existir e todos me querem. – elucidei toda cheia de pompa, provavelmente deixando que o álcool falasse por mim. Não, eu não tinha um ego tão inflado assim. – E mesmo que eu não seja lésbica, nem mesmo bi, tenho que admitir que a Mag é muito gostosa. Vai dizer que você nunca fantasiou com ela? – desafiei, lançando a ele um olhar inquisidor e atrevido.
- Já fantasiei com vocês duas juntas, comigo. – entreabri os lábios em total surpresa ao ouvi-lo, começando a gargalhar juntamente com meu amigo.
- WOW! Você é mesmo tão gay... – minha ironia fez questão de se juntar à nossa conversa, como sempre.
- Sabe, eu fico me perguntando... Qual é a graça de uma mulher transar com outra? Sexo oral, dedinhos brincalhões... - Sebs se mostrava confuso, adotando um semblante pensativo. Franzi o cenho, sem entender onde ele pretendia chegar. – Tudo bem, perfeito, mas e o resto? Não fica, sei lá, faltando algo... Lá no meio? – iniciei uma sequência meio bêbada de risos, ousando me aproximar o máximo possível dele para que pudesse elaborar uma explicação convincente.
- Querido, é para isso que existem vibradores e diversos outros brinquedinhos. Quer dizer, eu acho. Nunca tentei. – estreitei os olhos, notando que era a primeira vez desde sempre que eu havia beijado de verdade uma mulher. – Eu realmente aprecio a anatomia masculina. – confessei, meio fora de mim.
Sabe como é, o álcool entrava, a vergonha saía.
- Eu também, especialmente a minha. Narcisismo é a chave. – Sebastian finalizou erguendo seu copo, propondo um brinde sem grandes motivos.
- Cheers! – imitei seus movimentos, chocando nossos copos antes de voltar a beber. No entanto, quase engasguei com a bebida ao avistar aquele rosto surgindo por entre vários outros. – AI, CARAMBA! – fiquei de pé imediatamente, passando as mãos rapidamente pelos meus cabelos na intenção de arrumá-los.
- Quê? – meu amigo pediu sem muito interesse, tentando encontrar o motivo de todo o meu espanto.
- Falando em pênis... O Adam Levine! – apontei discretamente para a área onde o vocalista do Maroon 5 se dirigia, sempre com aquele arzinho sedutor que fazia com que qualquer mulher da face da Terra tivesse um princípio de orgasmo. – Acho que essa noite vou conhecer os moves like Jagger dele. – anunciei melodiosamente, mordiscando o lábio inferior assim que seu olhar se encontrou com o meu e ele não demorou a sorrir todo trabalho no flerte, a praticamente me convidar para uma segunda transa. Somente com o olhar.
Sério.
Sim, a primeira já tinha acontecido.
Adam e eu tínhamos, de certo modo, uma história. Primeiro, apenas algo profissional.
Depois, começamos a nos aproximar mais, devido ao fato de que eu abria os shows da banda.
Algum tempo depois, durante a época em que gravamos uma canção juntos, ele disse que estava interessado em mim; nada romântico, é claro, apenas coisa carnal, mas apenas nos beijamos e seguimos com nossas vidas.
Até o último VMA em que ambos de nós fomos cotados para apresentar um dos prêmios e realizar uma performance conjunta. Seus olhos insinuantes voltaram a me perseguir, e eu sabia que não teria outra chance como aquela.
Nós transamos depois da after-party daquele VMA.
Quantas mulheres teriam a chance de ouvir Adam Levine sussurrando uma das letras mais românticas da banda em seu ouvido?
Senti que o destino me puniria severamente se eu não me aproveitasse de tal situação.
De novo.
E eu não faria isso apenas por mim, faria também por milhões de garotas que morreriam para estar no meu lugar.
- Boa sorte, e me mande fotos! – Sebastian pediu empolgado e lascivo, o que me motivou a responder com um dedo do meio, contornando todas as pessoas que surgiam em meu caminho até ficar frente a frente com Adam Levine.
- Ei, . – ainda sustentando o sorriso de antes, Levine arriscou meu apelido. – Que tal cairmos fora daqui?
Estava na hora de seguir em frente, não estava?

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Hotel Bellagio, Las Vegas

Praguejei a claridade repentina que me despertou a contragosto para a realidade, tentando esconder meu rosto por entre os travesseiros.
- Eu vou te matar, sua vadia! - vociferei para Magnolia, que cantarolava pelo quarto, como se também não estivesse desfrutando de uma bela ressaca.
Oh, céus, eu não costumava ter uma boca tão suja, muito menos hábitos miseráveis como aquele, mas tinha percebido recentemente que a perfeição não combinava com ninguém. Aquela era uma época de total desordem pela qual eu teria que passar.
E sobreviver para contar a história, é claro.
- Como foi com o Adam, Bunny?! – Mag saltou sobre a cama, dando um tapa em minha bunda e impedindo com que eu me livrasse das cobertas.
- Foi... – lutei para conseguir ficar de olhos abertos. – Foi legal. – rolei para o outro lado após uma resposta tão vaga, arriscando erguer meu tronco. Oh, minha cabeça estava prestes a estourar. Felizmente havia uma bandeja com café da manhã extremamente próxima.
Não demorei a atacá-la.
- Você transou com o Adam Levine e classificou como “legal”? – Magnolia estava incrédula, prestes a me bater com um dos travesseiros.
- É, legal. Normal, entende? – ergui as sobrancelhas, tentando engolir um pouco de suco de laranja. – Ele tem um pênis, prepúcio, testículos e, sabe, todo o pacote. – citei o óbvio enquanto mastigava uma das minhas torradas.
Boas maneiras não importavam naquele momento.
- Você é deprimente, ! – Mag bufou, se largando deitada ao meu lado, mas não sem antes roubar um dos meus morangos.
- O problema é que eu não consigo deixar de pensar no quando estou com outro homem. – criei coragem para despejar o que me atormentava depois de alguns minutos demarcados pelo silêncio, vendo minha amiga erguer o corpo imediatamente.
- Olha, eu entendo, ok? Ele foi o seu primeiro, te apresentou o que realmente é o sexo, mas... Você precisa se libertar disso, Bunny. – suspirei ao sentir seu toque amigo em um do meus ombros. – O mundo é muito grande, tem vários outros pênis por ai.
Era tão típico dela arruinar um momento fofo com a palavra “pênis”.
- Cala a boca! – bradei, porém ríamos simultaneamente. – E não é só porque eu perdi minha virgindade com ele, é porque acho que ninguém vai conseguir superá-lo. – reconheci pensativa, e no fundo estava torcendo para que fosse mesmo verdade.
Acho que eu não queria que alguém superasse .
- Não posso concordar nem discordar, nunca transei com ele. – minha amiga lamentou, enrolando as pontas dos seus cabelos ruivos com os dedos.
- Nem tente. – alertei em plena calmaria, pois sabia quais eram as suas reais intenções com tal comentário.
- Uuuh, ciúmes! Chegamos onde eu queria. Qual é o tamanho do amiguinho do ? Será que é grande? Fiquei curiosa agora.
Incapaz de me conter, peguei um travesseiro e a ataquei, recebendo outra travesseirada em troca.
Quanta maturidade.
- Magnolia! – ofereci uma trégua ao largar minha arma, digo, meu travesseiro, sobre o chão. – Você não vai provar nada me deixando com ciúmes! E não se refira ao pênis do por “amiguinho”. O uso do diminutivo é uma ofensa. – concluí com um sorrisinho de canto, a deixando boquiaberta.
- Wow, que conversa mais produtiva! – notou Mag, enquanto eu tentava levantar da cama e continuar com a minha vida.
- Quer saber? Vamos chamar o Sebastian e ir vadiar por Vegas – determinei, já escolhendo o que vestir.
- Vegas, baby!
Sobre Adam Levine, bom...
Poucos meses depois, o Maroon 5 lançou um single um tanto quanto sugestivo. Meus amigos insistiam que a música tinha sido feita para mim, inspirada em nosso pequeno caso. Se é que aquilo poderia ser chamado de caso.
E quantos casos mais eu viria a ter?
Confesso que era um pouco assustador pensar no futuro. O que seria de minha vida dali em diante, sem e com toda aquela fama me devorando feito eu devorava uma barra de chocolate na TPM?
Será que eu me tornaria apenas mais uma história de sucesso e altos e baixos em Hollywood?

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Narrando:

Oxford, Inglaterra

Três anos e alguns meses depois...

Praguejei o despertador e seu maldito toque estridente, praticamente saltando para fora da cama quando percebi que já estava atrasado. Tomei banho, escovei os dentes, calcei os tênis, tomei café. Certo, era possível afirmar que eu havia conseguido fazer tudo aquilo parcialmente de uma só vez. Vesti a calça jeans com uma rapidez desajeitada, correndo pelo apartamento na tentativa de encontrar meu jaleco.
Não tinha tempo a perder, não tinha tempo para iniciar uma nova busca e encontrar uma camisa decente para vestir. Havia acabado de tomar banho, estava limpo e cheiroso, ninguém reclamaria – quer dizer, reclamariam sim, afinal, eu sabia que era um ato condenável.
Vesti o jaleco sem ter nada por baixo, fechando os botões até cobrir totalmente meu abdômen nu, disparando a correr até o elevador, descendo até o estacionamento e desrespeitando pelo menos três regras de trânsito durante o caminho, devido à alta velocidade.

John Radcliffe Hospital, Headington

Fiz uma pequena pausa em minha correria para admirar a fachada daquele hospital mais uma vez. Era incrível, nunca perdia a graça!
Por vezes eu não conseguia acreditar que havia conseguido. Estava no penúltimo ano do internato! Teria a satisfação de me formar em Medicina em pouco mais de um ano.
Sorri sozinho, voltando a correr quando lembrei que a cada segundo ficava mais e mais atrasado.
Assim que cheguei ao andar onde Keira, a supervisora dos internos, trabalhava, troquei de jaleco e procurei avidamente por algum rosto conhecido. Jason e Mia deveriam estar por ali em algum lugar.
A baixinha e rechonchuda que intimidaria até um lutador de MMA, mais conhecida por Doutora Keira Peterson, se aproximou com os braços cruzados, pronta para sua enxurrada matinal de puxões de orelha. Ainda bem que não era no sentido literal.
- Bom dia! – soei confiante, abrindo um largo e falso sorriso.
- Bom dia uma ova! Você está atrasado de novo, . – a mulher disparou a andar, me obrigando a seguir em seu encalço. Não demorei a me deparar com Jay, que aparentava um semblante todo feito em ressaca.
- Noite difícil? – tentei, dando um tapinha amigo em seu ombro.
- Se sair com a residente mais gata, mais gostosa e mais depravada do hospital for considerado difícil, então me deixe longe da felicidade, ! – concordei risonho, mas não tive tempo para parabenizá-lo, pois logo ouvi a voz aguda e estridente de Keira nos chamar histérica.
Corremos até a sala de emergência, encontrando um homem gritando de dor e com várias enfermeiras em volta. Enquanto elas se afastavam uma a uma, arregalei os olhos, não acreditando no que tinha acabado de enxergar. Jason pareceu se livrar abruptamente de sua ressaca, me encarando como se pedisse socorro.
Keira apenas ergueu as sobrancelhas, se aproximando do pobre rapaz.
- Fratura peniana, eu suponho. – disse com a voz comedida, ignorando os urros de dor do indivíduo. – Fique quieto, homem, pelo amor de Deus! Eu preciso examinar você. Aqui é a doutora Keira Peterson, preciso do urologista na emergência do sétimo andar, agora mesmo! – ela acionou imediatamente, continuando com a análise que fazia.
- Fico imaginando qual é o tipo de mulher com quem esse cara sai. – Jay murmurou, e então franzi o cenho, optando por não imaginar nada.
- , leia o prontuário do paciente para mim. – voltei a órbita ao ouvir meu nome, procurando afobado pelo prontuário.
Era só o que me faltava.
- Christopher Brown, vinte e oito anos, fratura peniana. – Jay ria do outro lado, tornando a tarefa de lutar para não acompanhá-lo quase insuportável. – Ocorreu durante uma relação sexual... Obviamente. – adicionei um comentário de minha autoria, recebendo um olhar maligno de minha supervisora.
- Procedimento mais recomendado? – ela investigou, me olhando com interesse.
- Tratamento cirúrgico! – esforcei meu cérebro para funcionar rápido. – Onde será realizada a drenagem do hematoma, o controle da hemorragia e, se necessário, a sutura da ruptura dos corpos cavernosos. Ah, e da uretra.
- Você entende de fraturas penianas... Quantas já teve? – Jason caçoou longe da vista de Keira, não me dando outra saída senão empurrá-lo com o ombro para que saísse do meu caminho.
- ALGUÉM FAÇA ALGUMA COISA! ESSA PORRA ESTÁ DOENDO! – o tal Christopher berrava, conquistando um olhar apreensivo de Jay e eu.
- Deveria ter pensado nisso antes de enfiá-lo em uma máquina de lavar. – ralhei sem pensar, deixando a sala rapidamente na intenção de encontrar qualquer coisa para fazer que não consistisse em ter que assistir aquela coisa toda... Torta?
Que seja.
- Onde pensa que vai, ?! Vocês vão monitorar o paciente até que o urologista apareça!
Bufei derrotado, girando em meus calcanhares. Até que uma luz oriental – mais conhecida por Mia Wen – surgiu naquele túnel.
- Mia, Mia! – corri em sua direção, reconhecendo que aquela rotina hospitalar me fazia correr mais que um maratonista. – Preciso da sua ajuda.
- Bom dia para você também, . – ela resmungou sonolenta, entrando em uma das salas de plantonistas, apenas para se sentar em um dos sofás e dormir por mais cinco minutos.
Infelizmente isso não aconteceria.
- Eu faço o que você quiser, mas, por favor, me ajuda! – continuei a soar irritante e desesperado, conquistando eventualmente sua atenção.
- Tem um cara com o pênis quebrado na emergência e eu... Eu não consigo olhar para aquela coisa!
Minha amiga – vinda dos Estados Unidos, vale ressaltar – começou a gargalhar, incomodando minha audição com seu timbre fino e duradouro de voz.
- Qual é o problema em examinar ele, seu doutor-canastrão? Toca no seu pênis todo dia, é quase a mesma coisa. – despreocupada, ela saiu da sala impaciente, ainda comigo em seu encalço.
- Não, Mia, não é. – afirmei perplexo, segurando seu braço e tentando levá-la até a emergência.
- Asshole! – xingou, porém jamais conseguiria me afetar. Apenas sorri, satisfeito por ter conseguido convencê-la. – Só não vou recusar isso porque sempre quis ver uma fratura peniana ao vivo! – seus olhos estreitos se arregalaram e um sorriso assustador me fez dar um passo para trás.
- Não sei quem é mais complacente nesse hospital. – concluí com um suspiro. - Onde estão os grandes casos, sabe? Eu quero salvar vidas! – comecei, um pouco decepcionado.
Já estávamos nos encaminhando para o término da faculdade e sequer tivemos a chance de realmente – ressalto: realmente – participar de uma grande cirurgia.
- Está no lugar errado, então. – Mia soou extremamente pessimista, quase cruel com os meus sonhos. – Vire ator e consiga uma partipaçãozinha em Grey’s Anatomy, porque em um hospital de verdade... – apontou para a lugar onde o cara do pênis permanecia. – Pois é.
- Se esse cara não sabe fazer sexo, o problema é dele. Eu já fiz sexo selvagem muitas vezes e meu pênis nunca quebrou. Como diabos alguém quebra um pênis?
- Olá, como vai? – Mia puxou uma das cortinas da enfermaria, ignorando minha pergunta bizarra para dedicar toda a sua atenção ao cara que não sabia manusear suas partes.
- Muito bem, radiante como o sol, poderia até te convidar para um bom chá entusiástico, exceto pelo fato de que... O MEU PÊNIS ESTÁ QUEBRADO, PORRA! – Christopher ergueu a voz o suficiente para que todos que circulavam pelo corredor o ouvissem.
- Ah, eu adoro o sarcasmo britânico. – minha amiga comentou bem disposta, colocando suas luvas como se estivesse pronta para salvar o mundo. Jason permanecia do outro lado da sala, consternado por ter recebido ordens bem concretas de Keira para permanecer no recinto.
Disparei a rir alguns minutos mais tarde, quando encontramos uma deixa para sair por algum tempo da emergência, me virando para que ninguém por ali pudesse testemunhar minha grande falta de profissionalismo. Ah, qual é?
O cara tinha conseguido a façanha de quebrar o próprio pênis! Será que não havia tido tempo o suficiente para aprender como o brinquedo funcionava?
- Um médico não pode rir do quadro clínico dos pacientes, seu idiota! – Mia ralhava impaciente, caminhando de um lado para o outro.
Engoli o riso assim que constatei a presença de Keira, não conseguindo me controlar por muito tempo. Enquanto nossa supervisora lia algo que consumia toda a sua atenção, senti que morreria sem ar se continuasse prendendo aquela gargalhada.
Olhei embasbacado para Mia ao receber uma cotovelada.
- Dá próxima vez vai ser mais embaixo, e ai teremos dois pacientes com pênis quebrados. Eu sou baixinha, não é difícil alcançar seu amiguinho. – seu tom de ameaça sussurrada me fez rir ainda mais, conquistando um olhar feio de Keira.
- Eu não contaria com isso, porque para ocorrer uma fratura peniana, tem que existir uma ereção. E depois do que eu vi hoje, minha querida Mia Wen, é impossível ter uma ereção pelas próximas horas do dia. Esse cara está preguiçoso e traumatizado. – apontei para baixo, evidenciando meu pênis.
Mia me olhou com seu típico semblante de nojo, acabando por rir também.
- Preguiçoso e traumatizado ou sentindo falta de alguma coisa? De uma determinada pessoa? – uni as sobrancelhas, sentindo aquela sensação estúpida em meu peito quando pude constatar a quem ela se referia.
- Territórios proibidos, Mia, territórios proibidos! – resmunguei, a vendo sorrir vitoriosa. – Você não tinha um pênis quebrado para cuidar? – relembrei, roubando seu sorriso de vitória ao ouvi-la bufar e sair andando como uma criança birrenta.
Ótimo, eu ficaria com aquilo na cabeça pelo restante do mês.
Quando retornei ao andar de antes, ouvi Keira me chamar – não sabia explicar como ela havia conseguido retornar ao andar tão rápido, acho que algum tipo de poder especial – checando algo em alguns dos prontuários que segurava.
- Vá para a ginecologia e obstetrícia! – ela ordenou, fazendo com que um sorriso triunfante automaticamente brotasse em meu rosto.
- Oh, legal! Obrigado! – soei empolgado em excesso, acenando para meus amigos em tom de deboche.
- Por que ele pode ver as vaginas e eu tenho que ficar aqui vendo um pênis? – Jay ralhava indignado, lançando um olhar impaciente para uma senhora que pedia para ir urinar de cinco em cinco minutos.
Ela era velhinha, mas continuava sendo uma mulher com vagina, certo? Jason havia se esquecido de tal detalhe.
- Por que a Keira provavelmente deduziu do que cada um de nós gosta, mate. – gracejei, já rumando até o elevador.
- Vá a merda, “mate” – tive apenas tempo de rir, seguindo em busca de um pouco de aventura por ali.

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Dei de cara com um ambiente completamente diferente do que estava antes, agradecendo mentalmente por ter sido mandado para aquela área do hospital. Procurei pela atendente responsável por todo o andar, a vendo correr ao lado de uma maca com o auxílio de alguns enfermeiros. Sobre a maca, havia uma mulher grávida chorando copiosamente. Travei meus lábios em uma linha reta ao me deparar com todo aquele sangue.
- Você! – Doutora Dianna Spencer olhou aflita para mim. – Vá para a sala de desinfecção e me encontre no centro cirúrgico 2!
Não tendo muita escolha, fiz o que me foi designado, saindo alguns poucos minutos depois da sala já com avental, luvas, touca, protetor para os pés e máscara devidamente posicionados, adentrando a sala de cirurgia mencionada.
Eu ainda não sabia dizer se tinha a pretensão de me tornar cirurgião, mas a atmosfera daquela área em específico me fazia ter contrações ventriculares prematuras.
Quer dizer, meu coração acelerava.
A paciente seria submetida a uma cesariana, pois não apresentava dilatação o suficiente e sofria de pré-eclâmpsia. Sua pressão arterial estava alta demais para que fosse seguro tentar induzir um parto normal.
Realmente não sei o que fazia dentro daquela sala, mas tive a chance de ver um pequeno ser humano ganhando vida, mais uma vez.
- Vou ter um desses um dia. – falei sozinho, recebendo um olhar repreensivo da enfermeira ao meu lado.
Minha empolgação se desfez quando constatei o tamanho do bebê, semelhante ao de um recém-nascido prematuro. O pequeno não chorava, mal se movia. Doutora Dianna se adiantou a realizar os procedimentos necessários para limpar suas vias respiratórias, entregando o bebê para uma enfermeira assim que notou que o mesmo precisaria ser levado para a UTI neonatal.
Tentei seguir a mesma, preocupado com a situação em um todo.
Felizmente minha entrada na UTI neonatal não foi barrada, e logo encontrei o bebê que procurava, notando que se tratava de uma menina.
Cheguei perto de sua incubadora, então, ntristecido pela quantidade de equipamentos utilizados para mantê-la viva. Seus pulmões não estavam funcionando devidamente.
Devo ter passado quase meia hora ali, apenas encarando a menina e esperando por algum sinal que ressaltasse sua melhora.
- Manhã difícil, ? – ouvi a voz de Keira soar baixa, vendo a mulher se colocar ao meu lado logo após.
- Sim, a mãe dessa garotinha tinha um mioma submucoso de quase oito centímetros que impediu que o bebê se desenvolvesse como deveria. É raro mulheres nessas condição conseguirem engravidar, não é? – questionei, sorrindo ao captar um movimento breve da pequena mão ainda fechada.
- Deus pouco se importa com o que a ciência afirma, garoto. – Keira garantiu, pousando sua mão sobre o meu ombro. Ela sabia o quanto casos como aquele me deixavam aborrecido. – Falei com a Doutora Dianna e ela disse que a mãe da bebê teve uma hemorragia grave, não sabe se vão conseguir salvá-la. – ouvi sua explicação com pesar, respirando fundo.
Até que pude me recordar de algo valioso demais para que permanecesse apenas nos meus pensamentos.
- Doutora Peterson, eu li uma matéria que dizia que bebês prematuros precisam de calor humano. Já reparou como gêmeos prematuros são colocados juntos? – ela concordou, esperando ansiosa pelo restante. – E se alguém ficar segurando esse bebê? Parece que há uma posição chamada “Canguru”, ou algo assim, que pode ajudar. – finalizei esperançoso, retirando minha máscara.
- Claro, já ouvi falar, mas não tenho tempo para ficar segurando um bebê, .
- Eu tenho! – garanti, a observando rir até se dar conta de que eu falava sério.
- É arriscado, não sei se posso permitir. – alertou, encarando o bebê indefeso e que lutava pela vida ao nosso lado. Meu peito estava cada vez mais apertado.
- Deixá-lo nessa caixa claustrofóbica também é. – adicionei à minha tentativa de convencê-la, talvez me comportando como uma criança insistente.
- Vou pensar a respeito disso, fazer umas pesquisas. Não toque nesse bebê até eu voltar.
Concordei com um aceno, saindo dali apenas para que pudesse comer alguma coisa.

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Patético. Simplesmente patético!
Mais do que patético eu estar checando aquela porcaria de Just Jared pela quinta vez em menos de vinte e quatro horas.
E lá estavam as fotos e notícias sobre ela, revelando momentos cotidianos e outros grandiosos de sua vida agora tão abarrotada de celebridade.
havia se tornado o que se podia chamar de “Queridinha da América”.

é o novo rosto da MAC!


O anúncio seguia com uma foto que revelava apenas o rosto de , seus lábios destacados por um notável batom vermelho.
Falo sério quando digo que nenhuma outra mulher no mundo conseguia transbordar tamanha sedução quando usava batom vermelho.

deixando estúdio de Yoga em Beverly Hills na companhia da amiga – e também atriz, prestes a estrelar seu primeiro longa – Magnolia Blossom. Clique para ver as fotos!"


Sim, ela continuava sendo muito flexível.

" recebe três indicações ao People's Choice Awards, incluindo “melhor artista feminina” e “melhor música”. A premiação ocorrerá no próximo sábado."


Aquela a minha garota!
Ou nem tão minha assim...
Dei zoom em uma das fotos, sentindo falta dos tempos em que podia acariciar aquele rosto delicado e lindo a qualquer hora do dia, vê-lo tão sereno enquanto ela dormia. Seu cabelo já havia atingido o comprimento de quando namorávamos, porém parecia estar mais claro que antes. Segundo Mia, o efeito era um tal de “ombré hair”.
Por sorte, alguém parou repentinamente ao meu lado, me fazendo engolir o restante da carne assada e parar de babar nas fotos de de uma vez.
- Tire a camisa e me acompanhe. – Keira exigiu, sempre com sua pose de superior.
Franzi o cenho.
- Doutora Peterson, eu me sinto honrado, mas acho que nós dois não... – a mulher ergueu apenas um dedo, pedindo que eu calasse a boca.
- Calado, tire a camisa e me acompanhe! Vamos salvar aquele bebê.
Não tive outra opção senão atender seu pedido, abrindo os botões do meu jaleco e revelando meu peitoral nu. Doutora Peterson encarou o mesmo e ergueu o olhar até meu rosto em seguida, exigindo explicações.
- Longa história.


03 - Spotlight

Narrando:

- Cuidado. Não se mova, não respire. – Keira sussurrava, retirando com toda a cautela adquirida em sua profissão o bebê de dentro da incubadora.
- Se eu não respirar, vou morrer. Se eu morrer, meu corpo não vai mais ter calor nenhum em poucas horas. Serei um inútil. E morto! – expliquei de uma vez, percebendo que não havia necessidade alguma. A mulher apenas rolou os olhos, se posicionando a minha frente para colocar o bebê no meu colo.
- Você entendeu o que eu quis dizer! – após ouvir isso, não tive tempo de pensar em mais nada, apenas no fato de que aquela garotinha tinha chances de se recuperar e contaria com a minha ajuda para isso. Rescom afeto, porém seguindo as ordens de Keira e mal permitindo que meu corpo se movesse.
- Garotas sempre gostam de homens que fazem exercícios, está vendo? – gracejei, aninhando o bebê para que ficasse mais confortável. Depois, o segurei na tal posição Canguru, levando meus olhos até o painel que monitorava sua frequência cardíaca e temperatura, atento a qualquer mudança.
- Posso confiar que você vai buscar apenas o melhor para esse bebê? – Doutora Peterson continuou com seus sussurros, vasculhando por um voto de confiança nas minhas feições feitas em um sorriso, simplesmente porque estava segurando um recém nascido.
Para mim soava para lá de sensacional.
Fazia a minha vontade de ser pai crescer loucamente.
Logo a pequena e eu estávamos ali sozinhos, o silêncio confortável abriu espaço para que minha mente se encaminhasse – sem permissão – até territórios que eu vinha tentando evitar, por mais que fosse capaz de assumir que jamais conseguiria. Quatro anos tinham se passado, mas parecia ter ocorrido no dia anterior. Isso nunca mudaria. Eu ainda não acreditava em como tínhamos sido estúpidos, como tínhamos lançado mais de um ano de namoro para o alto, com o intuito de proteger a nossa relação. Não fazia o menor sentido, fazia?
Eu me sentia diferente desde então, como se uma parte de mim estivesse faltando. O quão desesperador era acordar em uma manhã qualquer e não se reconhecer mais? Viver em função de tentar juntar os fragmentos do que você foi um dia na intenção de conseguir recuperar essa versão?
Enquanto isso, tentávamos levar aquela amizade em diante, sempre mantendo o contato, mesmo que fosse com o auxílio das telas de computadores. Eu sempre me perguntava onde estaríamos se não fosse a estúpida ideia de , se tivéssemos escolhido lutar pelo amor que sentíamos. Aliás, já não sabia mais como empregar o tal "amor" em um frase quando se tratando de e eu, porque sabia que ainda a amava e sempre vou amaria, mesmo que conhecesse outras mulheres, mesmo que terminasse a noite na cama de outras... Sempre, sempre seria ser ela.
Mas será que a reciprocidade de permaneceria inabalável?
Ela esteve com outros homens nos últimos anos que tinham transcorrido, teve alguns namoros e affairs, como diziam as revistas. Ao contrário de mim, que tinha desenvolvido uma espécie de repulsa pela palavra "namoro", acabando por me tornar o típico canalha-mulherengo-sem-coração-que-só-se-interessa-por-sexo-sem-compromisso.
Me lembrava com clareza de quando a ficha de que não estávamos mais juntos tinha caído de uma vez por todas.

Flashback
*Ei, é o , não posso atender agora porque provavelmente estou ocupado tentando entender como o sistema digestório funciona. Quando puder, retorno!*
Minha cabeça estouraria a qualquer momento, em parte pela bebida, em parte pelo longo dia na faculdade. Não me importei em atender o telefone, que começou a tocar estridente assim que adentrei meu apartamento, optando por largar meu corpo exausto sobre o sofá e esperar pelo recado que o responsável pela ligação provavelmente deixaria.
- Oi, , sou eu. Escute... – me lancei bruscamente em direção ao telefone, reconhecendo imediatamente aquela voz. Meu coração disparou, tornando a situação mais do que deprimente. – Não acredite no que acabou de sair no TMZ. Eu não estou tendo um "romance de verão" com o Chris Evans!
Juro que pensei em ignorá-la e cair de cara na minha cama pelas próximas doze horas, mas a necessidade por ter, pelo menos, um mísero diálogo com falou mais alto; logo me vi retirando o telefone da base para que pudesse eliminar de uma vez por todas aquela sensação esquisita no meu peito.
Por que fazia tanta questão de se explicar, afinal?
Ela ainda se importava!
Quer dizer, não pensei que se importasse, visto o último desentendimento que tivemos, quando ela surgiu sem mais nem menos em Oxford e me viu beijando April, uma caloura de Medicina que só Deus sabia onde estava naquele momento. Porque, sim eu tinha falado sério ao explicar que era só um beijo.
E mesmo que não parecesse possível, nós tínhamos conseguido fazer "as pazes" alguns meses depois. Quer dizer, como amigos.
- Chris Evans? Interesssante! – escolhi soar divertido, a ouvindo rir nervosamente do outro lado da linha.
- Pensei que você não fosse me atender, . – seu tom de voz era autoritário, como sempre. Ah, aquela mandona...
- Acabei de chegar. – expliquei, esticando minhas pernas sobre o sofá. – Mas então, ... – trouxe o notebook para mais perto, digitando com a mão livre o nome "Chris Evans" na pesquisa do Google. Já fui me deparando com diversas imagens do ator, sentindo uma pontada certeira no meu orgulho. – Bonitão, carimástico... Esse cara é definitivamente o seu tipo, então por que não está saindo com ele?
É claro que captou o que eu tinha acabado de fazer.
E, puta que pariu, como eu estava me sentindo patético.
- Cala a boca! – ela resmungou, apesar de risonha, e pude imaginá-la perfeitamente bem sorrindo do outro lado da linha. – E, por Deus, , o que a Inglaterra fez com você?
- Me deu um sotaque esquisito e um ar sedutor que você não resistiria nem se quisesse. – arrisquei, mesmo sabendo que tentar jogar meu charme para ela conseguiria acarretar apenas um silêncio esquisito. Fechei os olhos com força, controlando a vontade instintiva de dizer que deveríamos parar naquele exato momento com as brincadeiras estúpidas. Eu não queria ser a porra de um simples amigo! – Você não me deve explicações, . Saia com o Chris Evans, se quiser. E depois me conte como o sexo com ele foi ruim, como o pau dele é pequeno e...
Ela desligou.
Talvez fosse algum problema na linha telefônica, mas eu não era idiota, não acreditaria em tal hipótese. Concluí que, ao incentivá-la a se envolver com outros homens, por mais que não estivesse nem de longe falando sério, eu estava implicitamente a aconselhando a deixar o que sentia por mim de lado. Com isso, devo ter feito pensar que eu pouco me importava com o fato dela dormir com outros.
Bom, digamos que senti vontade de chocar minha cabeça contra a parede consecutivas vezes, sentindo minhas mãos tremerem de ódio com a simples possibilidade de me esquecer de fato e encontrar tudo que eu já tinha sido capaz de oferecer nos braços de outro.
Não tive outra saída senão apagar logo em seguida, esquecer que o mundo real existia por algumas horas. O erro foi tão grande que tive certeza que nunca mais conseguiria viver plenamente.
Sabe quando você sente que estragou tudo, de vez? Quando teme que nada mais vai ser capaz de lhe trazer de volta o que era bom?
Pois bem...
E quer saber também a pior parte? Ela não teve um romance de verão com Chris Evans. Acabou acontecendo algo ainda pior.
teve um romance de inverno com Chris Evans.
Fim do flashback.

Virei apenas o rosto em direção a saída da UTI, encontrando uma Mia que sorria debilmente encostada ao batente, me olhando como se não acreditasse na visão que seus olhos tinham. Eu já tinha me sentado em uma poltrona cedida pelo andar, ainda com o bebê nos meus braços. Sua frequência cardíaca aumentava aos poucos, assim como sua temperatura que não demoraria muito a normalizar.
- Ela é tão pequena, me sinto um gigante do Harry Potter. – eu disse meio bobo, acariciando a pequena mão fechada com a ponta do meu dedo indicador.
- Iiih, coitadinha. – minha amiga riu, se aproximando. – Ei, pode descansar um pouco se quiser, Doutor , o cara do pênis quebrado já está sendo operado e eu não tenho nada de bom para fazer. Posso segurar ela.
- Não! Ela gosta de mim, não vou a lugar algum. – neguei energicamente, enlaçando com mais precisão meus braços ao redor do bebê.
- Você tem jeito com bebês. Já pensou em seguir Ginecologia e Obstetrícia ou Pediatria? Ou, talvez... Já pensou em ter filhos? – encarei Mia com o cenho franzido, não muito certo de que resposta daria. A verdade era que eu ainda não tinha pensado muito bem em que área gostaria de seguir, e muito menos na paternidade.
– Sobre áreas: não faço a menor ideia, mas é claro que espero ser pai um dia. – confidenciei, a vendo sorrir compreensiva. – Costumava pensar muito nisso quando era mais novo, ela queria muito ter filhos. Até disse que eu seria o pai deles e...
- Certo, por acaso tenho cara de psicóloga agora? – Mia fora objetiva ao me cortar, se arrependendo por ter feito um "shhh" alto demais, algo que poderia incomodar o bebê.
Rimos simultaneamente, mas logo ela voltou atrás, alegando que não se importaria de ouvir minhas lamúrias.
- Eu gostaria de ser esse bebê. – comecei, meio distraído. – Digo, não necessariamente esse bebê, mas qualquer outro ser humano que acabou de nascer. Você não imagina como eu faria tantas, tantas coisas de forma diferente.
- Nossa, , falando assim você faz parecer que já está velho o bastante para não poder correr atrás do que quer. – Mia retrucou, cruzando os braços e adotando uma pose típica de uma mãe repreendendo um filho. – Sabe que eu odeio quando você fica melancólico.
- Sou melancólico desde o segundo ano, Mia. – relembrei sorridente.
- Mas era um melancólico mulherengo que amenizava a melancolia em camas alheias. – fiz uma careta de desconforto, nada feliz em ter que me lembrar da terrível fase que tive quando o primeiro namoro de foi anunciado por todos os tabloides existentes.
Exatamente, ela estava namorando o Chris Evans.
Graças a mim.
- Prefiro fingir que aquela época nem existiu. – soei evasivo, voltando minha atenção para a pequena vida nos meus braços.
- O Jay me disse que existe uma tatuagem que nunca vai te deixar esquecer aquela época. – Mia murmurou, temendo a feição estupefata que eu adquiri após ouvi-la.
- Eu vou matar aquele fofoqueiro de merda! – resmunguei sussurrando, a fazendo rir.
- Não diga palavras feias perto do bebê! E, é sério... Que tatuagem é essa? – ela insistiu, o que me fez bufar.
- Esquece. Nem eu olho para ela, ninguém mais vai olhar. Foi um erro, só um... Erro! – finalizei, demonstrando com a cabeça baixa que não queria mais falar sobre aquilo.
Mia e eu passamos um tempo em silêncio, enquanto ela lia algum artigo novo sobre células tronco. Eu já estava me sentindo o pai do ano, mesmo que aquele bebê não tivesse parte alguma da minha carga genética. Já conseguia notar, até mesmo através da coloração da sua pele, uma melhora significativa.
De repente, Mia começou a murmurar uma música.
Meus músculos retesaram e minha espinha gelou ao ouvir minha amiga cantarolando aquela música, justamente aquela música. Arrisquei apenas erguer o olhar, a vendo se dar conta do que tinha feito. Com um sorriso amarelo, Wen se desculpou, mas não deixou de me olhar como se planejasse arrancar algo de mim.
- Nunca mais cante isso perto de mim. – alertei categórico, evidenciando minha possível dor de cotovelo ou qualquer coisa parecida.
- Sabe por que essa música te incomoda tanto? – dei de ombros, não muito confiante a respeito do que ouviria. – Porque você sabe que foi feita para você.
- Eu não quero a merda de uma música, eu quero ela! Quero ela como costumava ter, todos os dias, de todos os jeitos... Você não entende, Mia. Sinto como se estivesse morto, tão morto que nem consigo mais me importar quando vejo notícias dela saindo por ai com o namorado, porque parece que não há mais o que fazer quanto a isso. – quando percebi, já tinha despejado todo um desabafo sem calcular as consequências.
Em oposição a todo o meu martírio, Mia sorriu, quase que diabolicamente, esfregando uma mão a outra como se um plano que mudaria a humanidade estivesse sendo arquitetado por sua mente maluca naquele exato momento.
- É muito bom ouvir isso, meu querido amigo, porque uma garota linda, esperta, médica recém formada em alguns poucos meses e super, super foda conseguiu isso aqui. – uma das suas mãos fora enfiada dentro de um dos bolsos do seu jaleco branco, revelando dois pedaços retangulares de papel. – Como você é tão antenado em tabloides e fofocas... – rolei os olhos, repreendendo seu comentário infeliz, apesar de estar sentindo meu sangue fervilhar por minhas veias. Um pouco eufórico, admito. – Deve saber que a nossa querida vai fazer um, apenas um show em Londres no próximo mês! – tentei me conter para não arregalar os olhos, até porque ainda havia um bebê nos meus braços e qualquer movimento brusco poderia ser fatal. – Adivinha quem conseguiu dois ingressos de camarote e, veja só, vai trazer o inferno a Terra se for necessário para conseguir entrar no camarim? Sim, sim, me agradeça mais tarde.
- Mia, eu não... – tentei, sem saber como reagir.
- Não estrague o meu momento, . – ela ordenou, me assustando. – Digo, o seu momento. Enfim, não estrague nada dessa vez

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Narrando:

Los Angeles, CA
Vamos a algumas pequenas considerações essenciais:
1. Não, ser famosa não era tão extraordinário e fácil assim.
2. Ser famosa, apesar de ter suas vantagens, era desgastante e custava horas – muitas horas – de sono perdido.
3. Finalmente eu sou capaz de entender o motivo de tantos famosos acabarem na tal Rehab, não mais sendo como a Amy Winehouse que dizia "No, no, no".
4. Estava dirigindo pela Hollywood Blvd em uma velocidade não muito confiável enquanto cantava – lê-se: berrava – Crazy In Love da Beyoncé.
5. Aquilo era o som de uma sirene de polícia?
6. Merda!
7. TMZ, ai vou eu. Breaking News!
8. "Termine logo de mastigar essa pizza, . Anda, engole!", ralhei para mim mesma.

Pressionei minhas costas contra o confortável couro do banco do meu carro, o conduzindo até o acostamento. Por um dos retrovisores, pude avistar o carro de polícia que se mantinha estacionado atrás do meu. Matiguei rápido e me livrei da fatia de pizza que comia, colocando o resto dentro de uma caixa de papelão com as outras fatias, que Sebastian provavelmente roubaria para si assim que eu chegasse em Venice Beach.
- Documentos. – o policial de quase dois metros de altura pediu secamente ao se aproximar do meu carro, me lançando um olhar assertivo. – E não, senhorita, eu não dou a mínima que você seja ou a Madonna ou qualquer outra cantora famosa. Há um limite de velocidade por aqui e você estava o desrespeitando.
Respirei fundo antes de entregar os devidos documentos a ele, adotando meu melhor sorrisinho plástico.
- Senhor policial, eu estou atrasada para a gravação do meu novo clipe em Venice Beach. – tentei justificar, por mais que considerasse melhor ter ficado quieta. – Tudo está bem, como pode ver. Eu não atropelei ninguém, não matei ninguém e nunca pretendo fazer algo assim. – levei a mão até meu peito, como se estivesse fazendo uma promessa.
- Dirigindo e comendo pizza? – o homem se inclinou para conseguir enxergar o que havia posto sobre o banco do passageiro.
- O que você esperava? Salada orgânica? – indaguei, estupefata. - Senhor policial, com todo o respeito: só porque eu sou famosa quer dizer que não posso abusar das gordices? Está me chamando de quê? Maníaca por pizza? Por acaso está insinuando que eu não posso comer pizza? Por acaso virou meu nutricionista? Posso te processar, sabia? – arregalei os olhos ao ter noção de tudo que tinha acabado de dizer, mordendo a própria língua e murchando os ombros antes erguidos. – Desculpe! Por favor, não me prenda. – decidi deixar o veículo, ficando de frente para o policial. Logo paparazzi surgiriam até mesmos dos bueiros e a situação ficaria ainda pior. – Sabe, eu passei uma noite inteira em uma delegacia por uma besteira que fiz no colegial e fico horrível naqueles mugshots. Orange is the new black só combina no seriado, não na vida real.
Qual é o meu problema, por Deus?! Que besteiras eram aquelas que estava dizendo a um policial?!
Ele pareceu refletir sobre algo por alguns segundos que se mostraram intermináveis, rabiscando algo em uma simples folha de papel e a entregando a mim. Não parecia ser nada tão grave.
- Não vou complicar a sua vida se você facilitar a minha. É o seguinte: minha filha te adora, mas nunca conseguiu ir em um dos seus shows. – o homem explicou de repente, contribuindo para que um sorriso largo brotasse no meu rosto. – Pode autografar essa folha para mim? – pediu com a voz baixa, como se tentasse manter aquilo em sigilo. Ergui as sobrancelhas, descobrindo que o pedaço de papel antes entregue a mim era para um autógrafo.
Rapidamente assinei a folha, a entregando ao policial.
- Aqui! E... – adentrei o carro, puxando minha bolsa e retirando um pequeno pedacinho de papel dali de dentro. – Dois ingressos para o festival em Venice que vai acontecer semana que vem. Eu sempre carrego alguns comigo. Espero que ela goste! – suspirei aliviava ao ser liberada, vendo o homem se afastar meio desconfiado, até que adentrou a viatura e sumiu do meu campo de visão.
E lá estavam os paparazzi, existindo apenas para fotografar minha existência. Por sorte eu estava de óculos escuros; por sorte ainda havia uma pizza dentro de meu carro.
Não demorei a pegar a caixa e levá-la até os fotógrafos, que me encaravam com suas câmeras estáticas, sem compreender absolutamente nada.
- Sei que o trabalho de vocês é cansativo, então, bom apetite! – dizendo isso, saí andando rumo ao meu carro novamente, me afastando dali o mais rápido possível.
Quer dizer, o mais rápido que a lei permitiria.

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Venice Beach

O que diabos eu fazia com aquele par de patins que parecia ter sido roubado do closet da Barbie Malibu?
E aquele biquíni colorido que só costumava ficar bem em modelos da Victoria's Secret?
Estava filmando meu mais novo clipe de Endless Summer e as filmagens tinham apenas começado. O clipe teria cenas gravadas na Califórnia e outras em Coney Island, em Nova York.
Sentada sobre uma cadeira semelhante àquelas hollywood chairs, esperei até que o retoque de maquiagem fosse feito. Um set improvisado tinha sido montado bem ali, frente a praia, tendo a bela Venice como plano de fundo. Alguns curiosos de plantão e fãs se aglomeravam, por mais que não pudessem chegar muito perto graças ao isolamento da área e dos seguranças.
Sebastian se mantinha compenetrado em delinear um dos meus olhos, rindo vez ou outra conforme percebia minha expressão de pouquíssimos amigos.
- Vamos pegar minhas pranchas do TCA e ir surfar no Havaí. Eu preciso de férias! – resmunguei quando já estava pronta, ficando de pé e olhando ao redor, tentando encontrar em meu interior algum resquício de vitalidade para exibir durante as filmagens.
- Isso mesmo, , continue se exibindo com as suas pranchas do Teen Choice Awards. – ele brincava, evidenciando que pouco se importava com meu acesso de ego inflado.
- Cala a boca, e se continuar reclamando vou me exibir com minhas estatuetas do Grammy! Quantas são mesmo? Ah, é claro... Dezoito! Seis conquistadas em uma única premiação. – ralhei, tentando soar convencida, por mais que eu estivesse mais para conformada do que orgulhosa de tais conquistas. – Estou tão cansada de todo mundo me tratando feito a princesinha casta de Hollywood. Será que as pessoas vão se sentir mais ameaçadas e vão parar de me condenar por sair tarde da noite de uma boate se eu gravar e deixar vazar "acidentalmente" uma sex tape? – continuei com os protestos, relembrando do ocorrido de duas semanas antes. Fui fotografada saindo de uma boate em Miami e apenas aquilo tinha sido o suficiente para que um total alarde fosse feito ao meu redor. – Ou se eu bater em um paparazzi com um guarda-chuva? Céus, eu deveria ter furado a camisinha do Chris Evans antes de terminarmos! – acabei por rir das minhas próprias insanidades verbais, recebendo um semblante cômido e terrificado ao mesmo tempo do meu amigo. – A parte de furar a camisinha foi brincadeira, eu juro.
Quando se era nova no mundo dos famosos, era fácil se deixar levar, agir inconsequentemente e acabar sendo um pouco imatura e rebelde. Mas, depois que conseguisse se manter cinco anos consecutivos nas paradas de sucesso e sendo reconhecida até mesmo nas cidades mais pacatas do sul dos Estados Unidos, não havia muito o que fazer a não ser amadurecer e evitar ao máximo chamar a atenção por qualquer besteira.
- Por acaso batizaram seu milk-shake? – Sebs apontou para o mesmo, desconfiado. Encarei a bebida, imaginando se aquela poderia ser a explicação do meu surto, mas dei de ombros e voltei a tomá-la. – Ou você está desesperada por uma pontinha em Keeping Up with the Kardashians? – investigou Sebastian, se divertindo com meu momento miserável.
Antes de pensar em respondê-lo, avistei uma banca de jornal, pegando meu roupão, o colocando e começando a movimentar minhas pernas em um ritmo rápido, na tentativa de chegar até a mesma sem tropeçar pelo caminho graças aos patins.
Com um exemplar fresquinho da GQ em mãos, rindo do dono da banca por ter me pedido um autógrafo, retornei ao núcleo do ensaio, me sentando sobre uma cadeira e começando a folhear ferozmente a revista, ignorando tudo ao meu redor.
Lá estava, uma Ad Campaign da Calvin Klein, toda cheia de sensualidade e óleo corporal.
posava apenas de boxer – branca, vale ressaltar – ao lado de uma modelo loira que estava prestes a devorá-lo com os olhos. Meu sangue ferveu no mesmo instante, por mais que eu não tivesse direito algum de ferver. Quando percebi, já estava amassando a revista, arrancando aquela página de uma vez e a transformando em uma adorável bolinha de papel.
Talvez um dia eu fosse capaz de aprender a superar.
Olhei aborrecida para Sebastian, que surgiru do nada com seu iPhone, fotografando mais uma das minhas recaídas.
- Ok, vejamos... – ele sorriu diabolicamente, procurando por algo em seu celular. – #nofilter, #selfiedavergonha, #pobreJulian #traindocomumarevista e #nuncavousuperaromodelogostosão. – estreitei os olhos em consequência a toda aquela audácia, não acreditando que ele estava mesmo prestes a postar aquilo no Instagram.
E ainda tinha proferido em voz alta todas as hashtags que usaria!
- Que tal #sevocêpostaressafotoeuvouteatropelarcomosmeuspatins? E, claro... #nofilter. – sugeri extremamente sorridente, me levantando e colocando a bolinha de papel dentro da sua boca quando Seb tentou protestar, recebendo um chamado do direitor do clipe para começarmos.
Assim que o claquete fosse acionado, estaria na hora de sorrir para as câmeras... E fingir que por dentro não eram as lágrimas de pura saudade que predominavam.

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" entrega pizza a uma equipe de paparazzi que a acompanhava pela Hollywood Boulevard, os deixando surpresos, porém com estômagos satisfeitos." – Just Jared
Gargalhei ao me deparar com a notícia e as fotos, me perguntando se aquelas pessoas não tinham mais o que fazer da vida.
Exausta, dirigi até Burbank, onde encontraria Julian. Ele estava focado em filmar mais um dos seus grandes, grandes filmes, contando com um estúdio independente para isso. Quem sabe depois de encontrá-lo eu poderia finalmente voltar para o meu apartamento e dormir até o dia seguinte, fingir que aquele dia simplesmente não tinha acontecido.
Fingir que eu não me importava com e sua maldita boxer branca da Calvin Klein.
Fingir que a vontade de arrancá-la não era grande, tampouco existia.
Certo, foco.
Cheguei a um dos sets de gravação, caminhando por entre várias pessoas com headsets e semblantes afobados, avistando meu namorado aos fundos, aparentemente dando algumas orientações a uma mulher que o olhava com uma mescla de tédio e falta de paciência. Assim que me avistou, Julian desistiu do seu trabalho por um instante e veio na minha direção, colocando as mãos sobre meus ombros e cobrindo meus lábios com os seus em um singelo selinho.
Julian Turner, trinta e três anos – oh, sim, meu primeiro namorado consideravelmente mais velho que eu –, diretor de cinema e meu namorado há apenas dois meses.
- Pensei que fôssemos jantar. – relembrei, aborrecida com a quase certeza de que ele daria alguma desculpa para arruinar nossos planos.
De novo.
- Eu sei, , mas ocorreram alguns imprevistos. A Kelsey não está conseguindo se concentrar e dizer as falas corretas. – elucidou meu namorado, convencido de que aquela justificativa faria com que eu compreendesse. Na verdade, eu estava cansada de tentar compreender que seu trabalho era mais importante que nosso relacionamento.
E também cansada de fingir que isso me importava.
- Uma atriz que não consegue dizer suas falas? – mordisquei o lábio inferior, meneando negativamente com a cabeça em seguida. – Isso é o mesmo que um Chef italiano não conseguir fazer um mero spaghetti. Lamentável. – eu bem que tentei refrear aquela comparação ligeiramente maldosa, mas já estava dito. Logo a tal Kelsey estava parado ao lado de Julian.
E falando em spaghetti, ela olhava para ele como se estivesse faminta e o homem fosse uma bela de uma massa italiana.
Na minha frente.
- É sério, Julian, eu só preciso me concentrar. Você vai me ajudar com isso, não vai? – a atriz pediu com direito a beicinho e uma carícia pelo ombro do meu namorado, fingindo que eu estava usando a capa de invisibilidade do Harry Potter. Engoli a vontade de mandá-la para um lugar nada bonito e voltei a roubar a atenção de Julian para mim, observando o suposto parceiro de cena de Kelsey, que se mostrava irritadiço com a falta de profissionalismo da companheira.
- O que ela não está conseguindo dizer? – tomei o suposto script das mãos da garota, perpassando os olhos pelas linhas rapidamente. Logo entreguei o papel novamente a Kelsey, trocando um olhar conciso com Julian e caminhando em direção ao ator, sugerindo com um simples olhar que iríamos ensaiar.
Meio nervoso, engolindo em seco, o tal Brandon Cooper concordou prontamente.
- Eu não quero pagar um preço tão alto para ter um sonho realizado, Steven. – comecei, olhando para o moreno a minha frente com um semblante entristecido. – Posso abrir mão da minha carreira, é claro que posso. Só não quero abrir mão de tudo que tivemos, não posso viver sem a parte mais importante de mim. – minha voz ia se tornando esganiçada aos poucos. Por algum motivo oculto, eu tinha aquela estranha habilidade de conseguir liberar lágrimas com facilidade, sempre que queria.
Irônico era o fato de que aquela fala condizia muito com a minha atual realidade.
- E temos outra alternativa, Candace? – Brandon prosseguiu com o diálogo, igualmente envolvido ao segurar minhas duas mãos. Eu estava louca para virar o rosto e ver a cara de Kelsey Parrish, mas sabia me dedicar aos meus objetivos principais.
- Vamos fugir! – dei um passo brusco a frente, ficando extremamente próxima de Cooper, o olhando firmemente em seus olhos. – Vamos fugir para bem longe, onde ninguém queira saber o nosso nome, nem quem somos, de onde viemos e para onde vamos! – quando percebi, já tinha entrelaçado minhas mãos sobre os seus ombros fortes, sentindo as suas encontrarem minha cintura em um aperto sugestivo, como a cena exigia. – Que se dane o que vão dizer, que se dane que nos considerem rebeldes dignos de punição, eu quero ficar com você! Só com você!
Uma lágrima falsa escorreu pela minha bochecha.
- Quem sabe um dia a humanidade amadureça o suficiente para entender que é pelo amor que temos que lutar e viver. – Brandon complementou, sorrindo copiosamente, prestes a unir nossos lábios. O filme se passava nos anos sessenta, vale ressaltar. Os atores ensaiavam sem o figurino apropriado, para depois se entregarem melhor ao papel.
- Eu te amo, Steven. – proferi com intensidade, acariciando seu rosto e olhando fundo nos seus olhos.
Passei a desconfiar que, para o ator, aquilo estava se tornando mais quem um simples ensaio.
- Eu te amo, minha Candace.
E então, nos beijamos. Uma coisa meio estranha, é claro, sem língua e apenas um vão entre nossas bocas se movimentando coladas. O tal beijo técnico.
Sorri vitoriosa ao ouvir alguns aplausos que me ladeavam, lançando uma piscadela a Brandon, que também aplaudia – visivelmente atônito com nosso beijo –, impressionando com minha habilidade em improvisar.
Enxugando as lágrimas de mentirinha, voltei para onde Julian e Kelsey permaneciam estagnados e cruzei os braços. Meu namorado se mostrava maravilhado, já a fajuta atriz... Possessa.
- Espero que tenha sido educativo para você, sweetie. – eu disse simplesmente, a vendo bufar e se dirigir até onde Brandon permanecia, me olhando como se dissesse "Eu quero você, não ela!". Apenas dei de ombros, me virando para Julian. – Então é isso? – cruzei os braços feito uma criança. – Vou ter que jantar sozinha? De novo?
- Desculpa, . Prometo que te recompenso depois, precisamos muito terminar essas filmagens, estou sentindo que vou ganhar um Oscar com esse filme! – ele praticamente suplicava para que eu o entendesse, soando sempre tão teatral e exagerado. Fechei os olhos por um instante, meneando positiviamente com a cabeça e aproximando meu rosto do seu, pronta para selar nossos lábios em despedida. No entanto, ao invés disso, apoiei minhas mãos sobre os seus ombros e apenas sussurrei em seu ouvido:
- Então, quando você quiser sexo, vá pedir para a Academia.
Saí andando sem olhar para trás, ignorando seus pedidos para que eu não fosse tão maldosa. A verdade é que eu estava cansada de tentar agradar a todos e conseguir apenas mais obrigações em troca.

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" surpreende ao passear por Toluca Lake usando um pretinho básico da ASOS.com! Parece que além de se preocupar com diversas questões, a cantora de 23 anos também se mostra humilde o suficiente para vestir marcas com preços bastante acessíveis.." – TooFab.com

Como se fizesse alguma imensurável diferença para o mundo o fato de eu ter me encantado por um vestido que custava pouco mais de trinta dólares.
Desisti de checar notícias ao meu respeito que despontavam por uma infinidade de sites, ainda conseguindo me incomodar com uma mentira ou outra. Eu sabia que não tinha direito algum de exigir privacidade, mas algumas informações eram para lá de prescindíveis e até mesmo falsas.
Suspirei, tentando me manter imóvel para que Sebastian não acabasse acertando meu olho em cheio com aquele pincel. Uma penteadeira branca e extensa oferecia a ele um acervo de cosméticos fornecidos pela MAC, apenas uma pequena cortesia por ter cedido meu rosto para a marca.
– Cadê a porcaria do flat definer? – Sebs esbravejava, caçando o pincel sem muita paciência.
Eu não teria capacidade alguma se sobreviver no meio da mídia – lê-se: selva – se Sebastian e Magnolia não estivessem comigo. Me lembrava de quando tinha conhecido Mag, assim que pisei em Los Angeles. Ela também estava começando sua carreira e nós duas tínhamos a mesma agente. Começamos uma conversa despretensiosa sobre o vocalista da banda que se apresentaria na boate onde estávamos e, dias depois, Magnolia já se achava até mesmo no direito de assaltar a minha geladeira e meu closet de sapatos.
Com Sebastian, as coisas começaram um pouco depois. Tinha sido selecionado para trabalhar no meu time de profissionais responsáveis por minha imagem. Foi a mim que procurou quando teve uma grande briga com seu avô a respeito de sua sexualidade. Naquele mesmo dia, eu o convidei a ir a um Coachella comigo e tínhamos nos tornado inseparáveis desde então.
O homem de cabelos loiros e beleza europeia que era o melhor maquiador do mundo e meu parceiro inigualável de Acro Yoga.
Melhor amigo, também.
- Por que essa cara de puppy abandonado na quinta avenida, meu bem? – voltei a órbita ao ouvi-lo soar afetuoso de repente, o vendo selecionar em uma paleta de cores a sombra que melhor combinaria com o esfumado delicado nos meus olhos. Sorri simplesmente, fingindo que não havia algo incomodando muito um dos meus olhos; provavelmente o delineador em excesso.
Celebridades não sentiam, elas apenas respiravam fundo e brilhavam.
Triste, eu sei.
- Estou exausta, Sebs. – resmunguei, sentindo meu corpo inteiro amolecer em pura preguiça ao recordar a agenda abarrotada que me esperava nos próximos dias e meses.
*VMA naquela noite;
*Gravação para o Fashion Police na semana seguinte;
*Ensaio para a Elle UK;
*Show em Londres no mês seguinte;
Era um pouco triste perceber que eu tinha passado a viver em função da minha carreira. O tempo tinha se tornado tão precário que eu conseguia ver minha família e amigos apenas no Natal ou feriados mais importantes, e mesmo assim mal tinha tempo para matar a saudade como gostaria.
Calafrios perpassavam pela minha espinha quando eu lembrava que logo estaria em Londres.
Tão, tão perto dele.
Não trocávamos um simples "Olá" há tortuosos seis meses, o que me fazia questionar internamente se algum dia voltaríamos a ser como antes, realmente levar ao pé da letra toda aquela ideia necessitada de não nos distanciarmos por nada.
- Voilà! – Sebs proferiu todo cheio de si, finalizando meu penteado lateral com um pouco de fixador, parando ao meu lado apenas para sorrir. Observei meu cabelo, recebendo a justificava de meu amigo de que não existia nada mais glamouroso e classy que aquilo. Agradeci e retribuí o gesto, o puxando para um abraço rápido. – Agora vá, Cinderela, seu vestido te aguarda.
Se eu era a Cinderela, existia uma significativa chance de todo o meu esforço em não parecer exausta ruir à meia noite.
Não que eu estivesse sendo forçada a qualquer coisa; amava com todo o meu coração servir de inspiração, ter fãs, pessoas que mal conheciam meu lado pessoal e mesmo assim demonstravam todo um amor difícil de acreditar. Eu me sentia vivendo em um universo mágico quando subia no palco, quando recebia fãs após os shows e tinha a gratificante chance de observar um brilho mais do que satisfeito em seus olhares.
Eu só precisava de... Férias.
Levantei rapidamente da cadeira, desfazendo o laço do meu roupão enquanto observava minha personal stylist selecionar quais dos vestidos pendurados em cabides eu poderia usar. Meus olhos brilhavam mais que as pedrarias que formavam a saia de um deles, e foi exatamente o que Agnes – minha personal stylist – retirou do cabide, o exibindo sorridente. Um Elie Saab azul marinho, que me remetia a um céu estrelado devido a todo o brilho. Tão típico de mim, diziam os tabloides. Não me bastava o título de "Queridinha da Califórnia" – América, consequentemente –, e então também passou a existir o "Queridinha do Elie Saab".
No entanto, eu estava começando a pensar traí-lo com o Zuhair Murad, só para variar.
Terminei de moldar o belo vestido em meu corpo com o auxílio de Agnes, seguindo para uma fileira interminável de sapatos, optando por um singelo – porém elegante – Jimmy Choo com tiras douradas e pequenos detalhes. Contei também com seu auxílio para colocar os brincos BVLGARI e pulseiras delicadas, conferindo minha produção por uma última vez no espelho. Certo, eu já estava atrasada.
Primeiro aconteceria o Red Carpet - posar para infinitas fotos. Em seguida, a premiação.
Me despedi de Sebs, mandando beijos no ar antes de passar feito um furacão pela área espaçosa do apartamento exclusivo para as minhas produções, uma espécie de camarim particular.
Meus seguranças já se encontravam parados de forma imponente na portaria, de onde já pude ver uma pequena movimentação. Será que não poderiam esperar até que eu chegasse ao local do evento, pelo menos?
Segui para o carro, sem me importar com possíveis flashes que disparavam ao meu redor, me aconchegando dentro do veículo cujos vidros contavam com uma película protetora, essa capaz de fornecer o máximo de privacidade possível.
Me vi sozinha ali dentro, apenas com meu motorista, um simpático senhor que sempre dizia que suas filhas adoravam as minhas músicas. Quase podia ouvir "Lucky" da Britney Spears tocando ao fundo, como trilha sonora. Remoí a momentânea solidão que me circundava, abraçando meus próprios ombros e por um instante perdendo toda a capacidade de me portar como alguém que estava há mais de cinco anos recebendo toda aquela atenção. Nem mesmo meu namorado, Julian Turner, diretor de cinema, estava ali, afinal, era sempre deveras ocupado e já se preparava para as gravações do pilot de uma série.
Um homem tão jovem que estava conquistando tanto. Talentoso, obviamente. Merecedor de tudo aquilo.
Pena que eu não tinha capacidade alguma de amá-lo.

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MTV Video Music Awards (VMA) - The Forum. Inglewood, CA

Sorri mais uma vez, tentando aparentar indiferença diante dos flashes das câmeras que me cegavam por segundos. Permaneci imóvel e sorridente, esperando com certa impaciência que terminassem de registrar minha imagem – considerada deslumbrante –, me vendo sem rumo por alguns segundos. Mesmo tendo todas as atenções voltadas para mim, era como se eu nunca tivesse me sentido tão abraçada pela solidão.
O Red Carpet do VMA fervia em flashes, burburinhos e diversos rostos conhecidíssimos e famosos surgiam. Por um instante, me senti totalmente desorientada.
Sim, às vezes eu me esquecia que era famosa, acabando por me comportar como a garota de dezessete anos que mal conseguia se conter, que sentia saudades do carinho dos seus pais, do abraço e dos beijos apaixonados do seu namorado do colegial, das loucuras com os amigos e não acreditava que estava dentro de um legítimo Elie Saab.
Ninguém nunca percebeu, claro.

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Meu coração disparou assim que meus ouvidos captaram os aplausos incessantes que sucederam meu caminhar cauteloso até o palco, especialmente ao chegar nas malditas escadinhas que eram o terror de atrizes, cantoras e qualquer mulher famosa que se arriscava a usar vestidos longos.
Jennifer Lawrence me entenderia.
Vídeo do Ano, Melhor Vídeo Feminino e Melhor Colaboração.
E lá estava eu. Mais prêmios. Durante meu agradecimento, pensei se estaria assistindo, pensei em mencionar seu nome, mas a insegurança tingindo sentimentos antes tão fortes com o tom escuro da incerteza me forçou a soar longe de qualquer originalidade, como sempre, agradecer ao carinho dos fãs e sustentando o enorme sorriso de sempre.
Fui encaminhada ao backstage para que pudesse guardar o prêmio e em seguida retornar para a plateia durante um intervalo. De repente tudo que eu queria passou a ser largar o corpo em minha cama quentinha e sonhar, sonhar, sonhar. Sonhar com o já tinha sido meu um dia.
A saudade estava cada dia mais cortante e insuportável, impactando em minhas decisões, em meus pensamentos, em toda a minha vida. Senti que não faltava muito para chegar a mais plena loucura e desistir de encontrar alguma lucidez, algum grande propósito em tudo aquilo. Julian, apesar de um tremendo workaholic, era um cara legal, não merecia estar sendo tão traído em pensamento nos últimos dias... E semanas.
E meses.
De que adiantava ter o mundo aos meus pés, se o amor da minha vida, o ser mais fascinante e único de todo o sistema solar, não estava ao meu lado?
Aos poucos percebi que nada daquilo, fama, prêmios, dinheiro e notoriedade importava sem ele. Eu era apenas mais uma estrela na imensa galáxia denominada Hollywood onde várias outras se encontravam.
Estrelas queimam, perdem o seu brilho. E se fosse somente aquilo que as esperasse no futuro? E se fosse somente que me esperava no futuro?
Preferia queimar de uma vez. Preferia cair no esquecimento do que no mais pleno abismo de um coração quebrado.
Concluí, durante uma apresentação do One Direction, que realmente deveria estar em meu apartamento compondo músicas dramáticas, que fariam todas aquelas pessoas me admirarem ainda mais, imaginando que eu havia composto letras tão cheias de sentimentos apenas por estar sendo muito bem paga para isso.
Oh, se elas soubessem...
Um coração quebrado sempre seria a receita ideal para músicas de sucesso.

--

"Em mais uma parceria de sucesso, temos e Hunter Madden cantando Almost Is Never Enough!"
Escuridão.
Se eu fechasse os olhos com força, poderia imaginar estar em qualquer lugar do mundo.
Os primeiros acordes de um piano deram início a uma agitação sem igual por todo o meu interior. A sensação jamais deixaria de ser aquela. O coração acelerado, o estômago em plenas cambalhotas, as mãos suando frio. Minha audição se mantinha atenta às escalas, e então, aos poucos, pontos estratégicos de luz foram sendo demarcados por toda a extensão do recinto, revelando uma plateia imóvel a minha frente. Me relevando a essa plateia.
Por mais assustada que estivesse por dentro, ninguém jamais saberia por fora. Por fora eu era a ilustre , uma cantora soprano, carinhosamente apelidada pelos críticos da indústria de "cordas vocais de diamante"; que não tinha medo de nada, que abraçava a fama com todas as suas forças e estava chegando cada vez mais longe.
Por dentro eu era apenas uma garotinha com medo de vacilar e tropeçar. De errar.
Permaneci sentada sobre o piano que era magistralmente manipulado pelo pianista, sorrindo com cada resquício de euforia presente no meu corpo ao finalmente ser totalmente revelada a uma plateia repleta de rostos conhecidos por todo o mundo, sentindo uma corrente de arrepios moldar todo o meu corpo conforme os aplausos atingiam uma frequência e altura absurdas.
Era como se todo o palco do VMA estivesse brilhando, assim como meu vestido. Firmei meus dedos ao redor do microfone, pedindo aos céus que minha voz não falhasse. Playback jamais seria uma opção.

I'd like to say we gave it a try
I'd like to blame it all on life
Maybe we just weren't right, but that's a lie, that's a lie

And we can deny it as much as we want
But in time our feelings will show

'Cause sooner or later
We'll wonder why we gave up
The truth is everyone knows...


Aquele era um dos poucos momentos onde eu não precisava fingir. Simplesmente fechava os olhos e permitia que minha voz saísse, que a mágica fosse feita. Não podia deixar de me sentir enlevada, reconhecendo em meu íntimo que era mesmo boa no que fazia.
Durante um lapso, fixei meu olhar ao centro da plateia, fingindo que não tinha acabado de praticar um velho hábito.
Eu tinha aquela estúpida mania de procurá-lo, sempre. Em cada plateia que me contemplava atenta, eu nutria a esperança de encontrá-lo. Mas sempre em vão.

Almost, almost is never enough
So close to being in love
If I would have known that you wanted me
The way I wanted you
Then maybe we wouldn't be two worlds apart
But right here in each other's arms

And we almost, we almost knew what love was
But almost is never enough.


Hunter surgiu em meio a parcial escuridão do outro lado do palco, se aproximando do piano enquanto me lançava um olhar confiante e amigo, estendendo sua mão para que pudesse segurar a minha. Rapidamente atendi ao seu pedido, sentindo o calor que circulava dos seus dedos para os meus, descendo com calma e destreza do piano, o acompanhando até o centro do palco, onde ficamos frente a frente e ele começou a cantar.
Tínhamos um entrosamento perfeito.

If I could change the world overnight
There'd be no such thing as goodbye
You'd be standing right where you were
And we'd get the chance we deserve

Try to deny it as much as you want
But in time our feelings will show

'Cause sooner or later
We'll wonder why we gave up
The truth is everyone knows


Ele tinha aquele adorável jeito de ser, uma voz de causar arrepios e derreter o mais gelado dos corações. Tinha a habilidade de quase sorrir enquanto cantava, encantando a todos, até mesmo a mim, seu par durante a apresentação. Hunter e eu nos conhecíamos há alguns anos, acabando por realizar algumas gravações juntos. O cantor era tão famoso – talvez mais – quanto eu, mas aquilo nunca o intimidou ou tirou seus pés do chão.
Talvez fosse insensatez minha continuar a insistir em determinado fato, mas nada conseguiria tirar da minha cabeça a semelhança que ele tinha com . Digo, não era algo físico – apesar da cor do cabelo e dos olhos ser muito semelhante –, mas sim a forma de sorrir, de rir e de me olhar. Hunter era o que eu tinha de mais próximo relacionado a , e talvez fosse mesmo um fruto inconsolável e insistente da minha pobre imaginação.
Sem medo, permiti que minha voz chegasse ao seu máximo, a forçando em agudos potentes o suficiente para arrepiarem minha própria pele.

Almost, almost is never enough (is never enough, babe)
We were so close to being in love (so close)
If I would have known that you wanted me the way I wanted you, babe
Then maybe we wouldn't be two worlds apart
But right here in each other's arms

And we almost, we almost knew what love was
But almost is never enough.


Hunter levou uma das suas mãos quentes até meu rosto enquanto cantávamos simultaneamente, ousando acariciar a pele e sorrir brevemente.
Correspondi o sorriso, fazendo certo charme ao retirar sua mão dali e caminhar para longe, o vendo me seguir e voltar a unir nossas mãos, para que pudéssemos finalizar a música, concentrados no som agora mais suave do piano e nas luzes que nos seguiam. Levei minha mão até seu queixo, o segurando antes de ameaçar tocar seus lábios, provocativa, sorrindo abertamente ao final da canção, quando os aplausos tornaram a ser o único som que realmente importava, deixando Hunter e eu maravilhados.
Agradecemos brevemente e nos retiramos do palco, pois ainda havia metade da premiação pela frente.
Ao contrário do que todos estavam imaginando, não, nós não transaríamos no backstage.


04 - And... CUT!

Narrando:

Horas mais tarde...

"Who do you think about when I'm not with you? Does somebody hold you when you let me go? You can't hide, you can't lie..."

- Olha só, nosso clipe está passando na MTV! – Hunter disse animado ao ligar a televisão, jamais deixando de se empolgar quando via a si mesmo em alguma tela, qualquer que fisse. – Fiquei gostoso para cacete nessa cena, você não acha?
Confirmei risonha, observando minha imagem sedutora e confiante.
- Nós somos gostosos. – concluí, o deixando ainda mais cheio de si.
Ignorei o clipe que tínhamos gravado há alguns meses, voltando a centrar minhas atenções em algo mais proveitoso no momento. Álcool.
Uma taça de vinho, manchas de batom sobre uma camisa branca e...
Não, o terceiro item não era sexo. Acho que se tratava de um possível alívio.
Digo, a ideia realmente era aquela. Sentir uma mescla de satisfação com arrependimento após amarrotar lençóis, mas não foi o que aconteceu. Sim, eu estava na cama de Hunter, mas meu vestido sequer deixou meu corpo, por qualquer mero segundo. Nós apenas permanecíamos jogados ali, fingindo que tínhamos feito o mais quente dos sexos.
Bom, era o que todos pensavam que tínhamos feito de fato.
Então, nós nos entreolhamos. Éramos amigos o suficiente para permitir que situações como aquela não se tornassem embaraçosas. Por alguma razão, eu jamais me sentia envergonhada perto dele, mesmo depois de quase tê-lo deixado tirar minha calcinha. Quase. Sabia do seu respeito e afeição por mim, sabia que estava segura em seus braços. Sabia que ele não me machucaria.
Afinal, ele não me amava. Eu também não o amava. Nós não nos amávamos. Quer dizer, nem de longe, por favor.
Pois bem, parecia que beijos e alguns provocações seriam o cardápio da noite. Era relativamente triste quando uma mulher romântica como eu costumava perceber que o sexo casual realmente existia. E como existia!
Tive tantas chances de consegui-lo, de poder desfrutá-lo sem restrições, mas... Oh, claro, eu era uma fraca. Uma garotinha assustada que ainda se portava como se fosse virgem. Apesar disso, Hunter nunca reclamou dos meus "baldes de água fria" no meio da nossa pegação, se divertindo com meu jeito de ser. Éramos uma espécie insossa de "amigos com benefícios".
Os benefícios nunca se concretizaram, na verdade.
Arrisco dizer que tinha um relacionamento mais sério com o vinho do que com meu amigo cantor.
- Estou apaixonado. – o homem de cabelos bagunçados e voz sonolenta soprou sem aviso prévio enquanto abria alguns botões da sua camisa – supus que estava sentindo calor –, me pegando de surpresa.
- Não, Hunter! – exclamei, temerosa a respeito de estar interpretando tudo errado. – O que foi que eu te disse quando nós começamos a nos envolver?! Não se apaixone por mim! Não se apaixone, caramba! Eu não sou um ser apaixonável. – exagerei meio exasperada, abraçando meu próprio corpo que implorava para que eu me livrasse de uma vez do vestido e dormisse com ele.
Pois é, até meu próprio corpo tinha perdido o respeito por mim.
Hunter gargalhou, me deixando sem entender nada.
- Não estou apaixonado por você, garota. Se toca! – ele gracejou, apoiando a cabeça sobre as duas mãos colocadas sobre o travesseiro. – Quer dizer, eu poderia me apaixonar por você... Todos poderiam se apaixonar por você, mas fique tranquila. Aliás, sabe de quem estou falando, a Mellanie. – explicou Hunter em meio a um suspiro que julguei por ser apaixonado. Ergui uma sobrancelha, concordando aliviada. – Você deveria se apaixonar também. - sugeriu ele, levando seu olhar distraído até mim.
Um clima estranho se juntou à nós sobre a cama, me fazendo quebrar o contato e procurar com afinco por minha taça de vinho, a finalizando em um só gole.
- Nunca deixei de estar. – murmurei meio evasiva, sem olhá-lo.
- Não estou falando do Julian, . – seu tom de voz entregava que ele considerava uma piada o fato de algum dia eu conseguir amar Julian.
- Nem eu. – revelei, o pegando de surpresa. – Mas não quero falar de sentimentos agora! - resmunguei, me deitando novamente sobre o colchão.
- Sem sentimentos! – Hunter prometeu, se aproximando para que pudesse ficar enrolando uma mecha do meu cabelo por entre seus dedos. – Essa cama não foi feita para sentimentos. E nem para sexo, arrisco dizer. – garantiu aos risos, me contagiando com seu bom humor inabalável.
Éramos adultos o suficiente para considerar engraçado o fato de que estávamos morrendo de tesão, mas não transaríamos de forma alguma.
Grande, grande exemplo de maturidade.
- Eu quase trai meu namorado, de novo. – percebi, encarando compenetrada o teto branco. – Então esse é o caminho para se tornar uma vadia? - investiguei com um sorrisinho de canto nada arrependido. – Legal!
- Não vai ser uma vadia até realmente transar comigo. É ai que você vai saber como uma vadia se sente. – voltei a rir ao ouvi-lo, estapeando sua mão que tentou encontrar minha cintura de forma marota.
Sim, eu teria que encerrar aquelas brincadeiras perigosas eventualmente. Hunter era um homem e... Logo a falta de ação o cansaria.
- Você não presta, Hunter! – eu disse, mas pouco me importava com isso.
- E você merece ser feliz. – ele rebateu, capturando toda a minha atenção. Meio confuso, sustentei nosso contato visual, erguendo um pouco o tronco.
- E eu não sou feliz? – meu amigo se limitou a erguer duvidosamente uma sobrancelha. – Olha só até onde cheguei. Uma das cantoras mais famosas da atualidade. Sou conhecida nos quatro cantos do mundo, tenho milhões e milhões de cópias de CDs vendidos e...
- Espera, vai com calma! – Hunter me interrompeu, negando com um aceno contrariado. – O quê?! Você acha mesmo que isso pode ser classificado como felicidade? Pelo amor de Deus, !
- Sei que não. – admiti, fechando os olhos firmemente. – Mas eu posso fingir.
Fingir sempre seria uma opção verossímil.
- Você adora fingir... – notou Hunter, arqueando uma sobrancelha. – Espero honestamente que não seja do tipo que finge orgasmos.
- Você nunca saberá. – provoquei, gargalhando posteriormente do seu semblante aborrecido, digno de um cãozinho abandonado.
- Dinheiro e fama não são a saída, . Pare de se esconder nessas duas coisas enquanto você pode. Não deixe de perseguir o que realmente te faz feliz.
Processei o que ouvi, mas não tinha vontade alguma de refletir a respeito. Pelo menos não ali, pensando que história contaria para as minhas amigas a respeito de como Hunter era bom de cama, ignorando o fato de que tinha um namorado e lutando com todas as forças para tirar da cabeça.
Eu seria mesmo a vadia perfeita, não seria? Oh, Deus!
- Por que você não pega todas essas palavras e escreve uma música, seu mais novo sucesso? – fiz com que a sugestão soasse agradável, unindo as palmas das minhas mãos.
- Anda, vem aqui. – ele chamou, me puxando para que pudesse passar seus braços ao meu redor. Abraços, eu gostava de abraços. Abraços jamais comprometeriam o meu orgulho, nem me fariam acordar arrependida no dia seguinte. – Me promete que vai dar um jeito em tudo isso. Eu adoro fingir que sou seu parceiro de cama, de verdade, é sempre divertido quando os paparazzi me param por ai e perguntam sobre nós dois. – franzi o cenho, cansada só de ouvir a palavra "paparazzi". – Mas estou disposto a parar com isso se for para que você seja feliz de verdade, com quem ama. – ele assegurou, e não havia nada além de sinceridade em suas palavras.
- Então prepare o Kamasutra, meu caro, porque eu tenho muito medo de não ter mais qualquer mísera chance com o . E se minhas teorias estiverem corretas, nós vamos acabar transando de verdade. – doía admitir, mas que outra saída eu tinha?
Estávamos tão distantes... Distantes a ponto do medo das coisas nunca mais mudarem ser quase insuportável, palpável.
- Vamos fazer uma aposta?
Fui rápido ao me desvencilhar do seu abraço, bufando e indo para o outro lado da cama.
- Não começa com isso, por favor! Você e essas apostas... Tenho medo. – brinquei, recebendo um empurrão carinhoso em resposta.
- Daqui a seis meses, você vai estar onde sempre quis estar. E, não, não estou me referindo a qualquer tipo de palco. – por algum motivo oculto, eu queria continuar ouvindo sua proposta. – Se eu estiver certo, nós vamos gravar e lançar aquela antiga demo que gravamos quando estávamos bêbados. Se eu não estiver certo... Vou ficar me sentindo um merda e isso já é punição o suficiente. Então... Apostado? – propôs meu amigo, me olhando sedutoramente.
Suspirei derrotada.
- Se você estiver errado, eu vou desistir de procurar o amor. Para sempre. Apostado! – confirmei, estendendo a mão para que pudéssemos reforçar a aposta. Não parecia seguro apostar minha felicidade, mas não era como se, por enquanto, eu tivesse algo a perder.
Nós dois permanecemos deitados ali, até que Hunter adormeceu e eu passei a noite convivendo com boas lembranças.
Porque, depois de música e dramas, viver no passado era o que eu sabia fazer de melhor.

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Dias depois...

Despertei a contragosto, ouvindo minha própria voz soando ritmada e melodiosa. Abri apenas um dos meus olhos, concluindo que o sol já tinha nascido e havia um peso extra sobre minha cama.
Pelo amor de todas as divindades, que não fosse o Chris Evans!
Eu não podia lidar com uma recaída com um ex naquele momento.
- Olha só quem está tendo sua própria maratona de clipes no VH1. – respirei com imenso alívio ao ouvir a voz de Magnolia, que estava praticamente largada sobre o espaço vago da minha cama grande demais para apenas um corpo repousar. Me mexi desconfortável, tentando privar minha audição de ouvir aquela cantoria em volume alto. Mag precisava parar de se desentender com seu namorado – um integrante de uma boyband com nome engraçado – e aparecer no meio da noite em meu apartamento.
- Nós não transamos, transamos? – verifiquei, já sabendo a resposta.
- Bem que você gostaria. – ela rebateu presunçosa.
- Desliga isso, pelo amor de Deus! – supliquei, com a cabeça localizada em baixo do travesseiro. – Eu odeio essa garota, a voz e as músicas dela, também. – gracejei, ainda de olhos fechados.
Mag se mexeu, ficando exatamente ao meu lado, me sacudindo e fazendo de tudo para impedir que eu voltasse a dormir. Bufei, desfazendo a posição de bruços para encarar a televisão presa a parede, observando minha própria fígura.
Tinha um apresso imenso por aquele clipe e música. Ele retratava exatamente a vida de uma artista famosa que não acreditava tanto assim que estava "Vivendo o sonho".
As filmagens foram divertidas, ocorreram em Nova York e os cenários, figurino e comportamento foram todos inspirados nos anos cinquenta.
- Ewww, eu esqueci que você dorme pelada! – Magnolia saltou para longe de mim, rindo enquanto lançava uma peça de roupa qualquer antes jogada sobre o chão.
- I woke up like this... Flawless! – brinquei cheia de pompa, recebendo uma careta de sua parte, mas também notando como seu rosto tinha corado de repente. No entanto, preferi deixar isso para lá. – É saudável, Mag! – justifiquei sorridente, saindo preguiçosamente da cama e já vestindo meu robe perolado.
- Você é saudável o bastante para fazer uns agudos doidos que deixam a Christina Aguilera chorando no cantinho, é saudável o bastante para praticar yoga infinitas vezes na semana, saudável o bastante para deixar sua vagina pegar um ar durante a noite... – a olhei com o cenho franzido, rindo sem nem mesmo perceber. – Mas não é saudável o bastante para esconder melhor os rastros de uma fossa noturna.
- Do que está falando? – indaguei distraída, finalmente mudando de canal, optando por deixar na BBC.
Maldito – e delicioso – sotaque britânico. Eu estremecia toda vez que me recordava de um importantíssimo fato: tinha um daqueles.
- Achei um pote de sorvete derretido pela metade e algumas fotos daquele gatão de Oxford na mesa da cozinha. – Magnolia elucidou, me fazendo arregalar os olhos e correr em disparada até a cozinha, encontrando bem ali as evidências do meu possível crime. Como pude esquecer?
Será que existia ressaca de sorvete?
- Gatão de Oxford? – fingi indiferença. – Que gracinha. Vou mandar estamparem isso em um moleton e mandar para ele usar lá.
- Não se faz de tonta. – Mag rebateu, cruzando os braços.
Suspirei.
- Não sei o que houve, Mag, mas todo aquele turbilhão de sentimentos voltou, mais forte do que nunca. – expliquei ao voltar cabisbaixa para o quarto, abraçando com força um dos travesseiros sobre minha cama. Por mais incrível que pudesse parecer, às vezes ainda parecia ter o perfume dele impregnado ali.
Sim, eu tinha um travesseiro que costumava ser de .
Não, ele não sabia.
- Anime-se, ladra de travesseiros. – minha amiga zombou, tornando óbvia a certeza de que eu não deveria ter contado a ela sobre meu pequeno furto na última vez em que nos vimos. – Temos yoga hoje, e mais tarde você vai encarnar a boa moça e visitar aquelas criancinhas no hospital, não vai?
- Obrigada por iluminar o meu dia! – me lancei em direção a Mag, a abraçando antes de seguir para o chuveiro. – Pelo menos vou me sentir útil e colocar um sorriso no rosto de quem realmente merece!
Percebi que aquele dia, em especial, não seria tão nublado assim.
Saí às pressas do banheiro, vasculhando por roupas normais para usar. Apenas uma calça jeans, alguma blusa simples e um par de tênis.
- Gatíssima. – Mag elogiou, apontando para mim.
- O que você vai fazer hoje? – investiguei, estranhando toda aquela preguiça. Fui até a penteadeira após me vestir, passando uma escova pelo comprimento dos meus cabelos.
- Ah, sei lá, um coque frouxo, depois minha higiene matinal e depois vou para a Starbucks esbarrar no amor da minha vida de abdômen esculpido pelos Deuses.
Voltei a rir, não precisando de muito esforço para reconhecer que aqueles planos eram brincadeira.
- O que foi que eu disse sobre ler fanfics, Mag? – adverti risonha, me recordando de quando descobri que algumas garotas escreviam fics onde eu fazia par romântico com diversos – sério, diversos – atores e cantores.
Inclusive com Magnolia!
- Essas meninas são tão criativas. Ontem eu fugi do FBI com o Justin Bieber, depois nós nos mudamos para uma ilha deserta e fizemos sexo em todos os outros capítulos. Sem camisinha! E eu não engravidei! Mesmo sem estar tomando anticoncepcional! Quero tanto essa vida fácil... – ela suspirou. – E você sabe como eu amo o Justin Bieber... Nossas línguas duelavam durante os beijos e tudo o mais. Incrível! – minha amiga relatava atônita, se levantando. – Depois de comer alface e beber água de coco com pepino e couve a semana toda, lá vou eu encarar o início das gravações desse filme em Tóquio. Por favor, guarde um pouco de sorvete para mim. – ela pediu com um bico e eu concordei com um aceno bem disposto, me divertindo com sua indisposição. – Sabe que eu vou sentir muito a sua falta, não sabe? – concordei com um suspiro entristecido, sendo forçada a lembrar que Mag passaria longos meses no Japão e nós provavelmente não nos veríamos por muito tempo.
Então, seríamos apenas Sebastian e eu contra o mundo.
Quer dizer, contra Hollywood.
- Prometa que você não vai sumir das suas sociais, vai me enviar presentes, que vai me ligar sempre e que vai ser uma boa garota. – exigi, abrindo meus braços para propor um abraço pidão.
- Prometo. Prometo. Prometo. Não prometo. – Mag riu maliciosamente, me abraçando com força.
E depois me deu um selinho.
Ri do seu gesto, a vendo dar de ombros e se afastar.
Tendo conhecimento dos nossos dias abarrotados, logo deixamos meu apartamento. Saí pelos fundos, tendo o prazer de dirigir meu próprio carro, sem sinal de paparazzi por hora.
Felizmente o hospital ficava bastante distante do centro e não teria qualquer aglomeração que me barrasse.

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Narrando:

Londres, Inglaterra.

- Mais uma! Perfeito! Emma, aproxime os lábios do pescoço dele, por favor. Isso mesmo! Sexy!
Se me perguntassem a respeito, eu diria com veemência que estava me sentindo em um sonho bizarro em que invadia Hogwarts, seduzia Hermione Granger e a levava para o centro de Londres comigo.
Quem iria acreditar que aquele rotineiro ensaio contava com a agradável presença de Emma Watson? Pois bem, ainda bem eu teria rolos e mais rolos de filme fotográficos para provar.
Emma era sempre muito requisitada pela Burberry, e eu, sendo um dos modelos principais, acabei por ter o privilégio de ser seu par em mais uma campanha. Aliás, campanha essa que contava também com um short film para divulgar o novo perfume da marca.
Os ventiladores continuavam a fazer o cabelo da atriz esvoaçar, enquanto ela permanecia agarrada a mim, mantendo expressões sedutoras em seu rosto alvo e fingindo que nunca teve fama alguma de boa moça. Eu não poderia deixar de me divertir, é claro, me sentindo como se pudesse ser confundido com um vocalista de uma banda de rock devido a jaqueta de couro, a forma displicente como pentearam meu cabelo e toda aquela pose de bad-boy-que-não-se-importa-com-nada que o fotógrafo tinha me instruído a sustentar.
Tive que ocultar minha exaustão, fingir que não estava quase ficando louco devido ao internato médico, onde tive que permanecer duas noites seguidas de plantão naquela mesma semana, sofrendo de uma cruel privação de sono.
Nunca pensei em toda a minha vida que diria aquilo, mas aquele tal de corretivo facial que a maquiadora havia espalhado por todo o meu rosto conseguia fazer milagres.
Maquiagem masculina.
Que som era aquele? Todos os meus espermatozoides morrendo?
Já passava das seis da tarde e eu ainda teria que pegar um trem de volta a Oxford naquela noite. Mas, por alguma razão, não queria que o momento chegasse tão cedo.
Pierre, o fotógrafo, concluiu o ensaio, então, prestes a saltitar pelo estúdio preparado no terraço de um prédio com vista panorâmica para Londres, não deixando de nos parabenizar pelo excepcional trabalho.
Então, Emma parecia tímida, se afastando de mim e indo receber um simples copo de água oferecido por uma mulher que provavelmente era sua ajudante ou coisa assim. Me permiti admirar suas pernas magras, por mais que me sentisse um pouco intimidado.
Digo, ela não era uma garota qualquer da faculdade, era uma atriz conhecida mundialmente.
Soava familiar, entretanto, quando se tratava de , eu não me sentia nem um pouco intimidado.
Nós jamais precisaríamos disso.
Sorri para John, meu booker, recebendo um tapa no ombro por ter, como ele diria, "me comportado bem". Isso se dava ao fato de que, por duas ou três vezes, cheguei ao estúdio com o nível de álcool elevado em meu sangue. Ou, após uma briga com meses antes, um simples olhar direcionado a mim dava direito a um belo soco na cara.
Acabei conquistando uma fama de garoto-problema sem esforço algum, tanto é que, na maioria das vezes, era selecionado para participar de campanhas que exigiam um clima mais rústico e rebelado, com cigarros, rock n' roll e bebida. Como quando precisei fingir que os seios quase totalmente expostos de Candice Swanepoel não me deixavam desconfortável dentro das minhas próprias calças. De couro.
E só Deus sabia como tinha sido difícil tirar aquelas calças depois.
Jurei a mim mesmo que nunca mais as usaria.
E jurei também que, nem sob ameaça de ser enforcado em praça pública, colocaria um cigarro na boca outra vez.
Oh, sempre seria daquele jeito. Eu jamais deixaria de me sentir mal por estar – ou desejar, olhar, fantasiar – com outras garotas. Me lembrava com amargura do fim de semana anterior àquele, quando convidei uma estudante de Ciências Políticas de Oxford para jantar, já imaginando que acabaríamos na cama. Tudo estava ocorrendo muito bem, ela era o meu "padrão de encontro" desde que eu havia me tornado um mulherengo. Não falava muito, não reclamava demais. Usava decote e ria das minhas piadas.
Seguimos para o seu dormitório na faculdade, onde, acredite, ela pretendia que transássemos. Até ai, qualquer sinal de uma possível ereção se mantinha nulo. Mesmo com suas carícias e beijos no pescoço, eu permanecia na mesma. Resultado? Absolutamente nada.
Dei a ela uma desculpa esfarrapada de que precisava correr para o hospital e que terminaríamos aquilo outro dia, tudo para não permitir que ela tivesse conhecimento de como meu pênis estava... Cabisbaixo.
Pois é, e nunca mais nos vimos.
só podia ter feito algum feitiço e o lançado sobre mim, pois sempre que eu via ou lia algo ao seu respeito, não conseguia ter absolutamente nada com qualquer outra mulher, por mais gostosa que fosse. Sim. controlava a minha ereção. Aposto que deveria estar dizendo naquele exato instante "Sem ereção para ele hoje!".
E então, veja só, não havia mesmo ereção alguma para mim.
Encarando Emma Watson bem ali, a pouquíssimos metros de distância e totalmente vulnerável ao charme que a jaqueta de couro me proporcionava, cheguei a triste conclusão do dia.
E, pela vigésima nona vez apenas naquele ano, eu repeti para mim mesmo: ela não era a .

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Quanto voltei a raciocinar direito, percebi que Emma tinha deixado algo cair, arriscando me abaixar para recuperar seu celular espatifado no chão. O estendi em sua direção com um sorriso carismático, mal aparentando ser um completo idiota que não conseguia esquecer os dias que não voltavam mais.
- Você é muito gentil. Obrigada! – a moça agradeceu com seu carregado sotaque.
- Que bom que você me acha gentil, Emma... – comecei, mantendo meu inevitável e semelhante sotaque. Com a dirença que o dela era muito mais legítimo que o meu, somado a um coração quebrado que fingia não se importar. Minha vida tinha se tornado, parcialmente, uma mentira. – Acho que isso já aumenta a probabilidade de aceitar jantar comigo algum dia. De preferência... Sei lá, hoje? – convidei em um impulso maldito que sempre me acometia quando alguma garota bonita estava por perto.
- Uau, ele vai direto ao ponto! – Emma notou, ajeitando os cabelos e sorrindo de forma moderada. Tudo naquela garota era moderado. Apesar de ser muito bonita, temi que seu sexo também fosse moderado.
Oh-oh, lá vamos nós de novo.
Nossa diferença de idade não era tão grande. Sim, poderia dar certo.
- Sempre. – fui curto e grosso, não desfazendo por nada meu sorriso enviesado. Parecia seguro afirmar que a atriz estava impressionada por ser tratada de forma tão casual, como o mero mortal que realmente era.
Bom, eu nunca tinha sido tão fã assim de Harry Potter.
Emma Watson pensou por segundos, erguendo as sobrancelhas.
- Eu aceito, . Só me dê tempo de trocar de roupa e resolver alguns assuntos com a minha agente. Quanto ao lugar onde vamos jantar... Me surpreenda!
- Claro que vou surpreender, e nem preciso de magia para isso.
Ela riu. Riu com gosto da minha piada idiota e nada, nada original.
Ron Weasley que me perdoasse, mas por aquela noite a Hermione seria minha!

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Então, era isso. Eu estava prestes a beijar Emma Watson.
Nosso jantar tinha sido... Interessante. Comum, mas divertido. Ela não era tão boa moça assim e se divertia me contando algumas das suas loucuras que ninguém jamais imaginaria. Tratei de levá-la a um renomado restaurante localizado no centro de Londres, pouco me importando que alguém nos fotografasse juntos. Ela também parecia não se importar.
Tendo consciência de que precisaria estar em Oxford antes das onze, decidi ser sincero e explicar a ela quais eram as minhas obrigações, recebendo uma resposta para lá de compreensiva. Aliás, ela tinha gostado tanto da minha companhia que escondeu toda a timidez ao perguntar quando poderíamos nos ver de novo. Fui evasivo, dando a desculpa de que ligaria para ela no dia seguinte.
O desfecho daquela pequena história já era óbvio o suficiente .
Segurei seu queixo com o auxílio dos meus dedos polegar e indicador, arriscando abrir apenas um olho para verificar se éramos observados bem ali, abaixo da cobertura do restaurante. Voltei a beijá-la com calma, não tendo tempo de aprofundar o contato, já que, feito um maldito passe de mágica, paparazzi surgiram disparando falashes na nossa direção.
Não tive nem tempo de processar tudo devidamente, e então a atriz se despediu de mim com um mísero olhar de lamento, disparando a correr até um carro que a aguardava do outro lado da rua.
Bom, era uma pena.

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Meu avô – o cara mais legal do mundo – sempre havia tido uma preferência indiscutível por Dalmore 18 anos. Jack Daniels era para os perdedores. Blue Label pesaria em minha conta bancaria mais tarde.
Eu tinha mais facilidade em lembrar nomes de whisky do que a composição da circulação coronária, ou quais eram as funções do anabolismo e catabolismo – ambas fases do metabolismo.
Nunca tinha me sentido tão parecido com aquele velho reclamão.
Em todo o caso, não me importei. Antes de seguir para a estação de Paddington, decidi fazer uma parada em um pub da cidade, pedir algo para beber e também uma garra inteira para levar.
A moça loira e com sorriso depravado que trabalhava como bartender estranhou um pouco a princípio, mas não precisou de muito tempo para que ela aceitasse me vender a garrafa que pedi.
Sorri agradecido – e também um pouco interesseiro, admito – antes de deixar o local e seguir para a estação de trem, completamente exausto. Graças ao seu gesto educado de colocar a garrafa dentro de uma sacola, ninguém jamais precisaria saber que eu curava mágoas com o bom e velho álcool.

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Já acomodado em um dos vagões que seguiam para a estação central de Oxford, massageei minhas têmporas, tentando processar todos os acontecimentos daquele dia.
Tinha feito um grande e demorado ensaio para a Burberry. E tinha tido um pseudo-encontro-arruinado com Emma Watson.
Deduzi que minha vida poderia ser tudo, menos entediante. E, muito provavelmente, eu ainda teria que lidar com fraturas expostas e moedas presas em sistemas digestórios naquela madrugada.
Sensacional.
O que não tinha me matado, não tinha me deixado mais forte. Apenas não tinha me matado e fm da questão, sem mais mudanças a acrescentar.
Não resisti a curiosidade abundante de ligar o notebook, o apoiando sobre a mesa do vagão onde cafés eram servidos. Devido ao horário, o número de passageiros era quase nulo. Tomei outro gole do líquido fumegante antes de digitar um dos mesmos endereços de busca de sempre, me deparando com algo inesperado. Em notícias destaque, havia uma foto de Emma Watson e um sujeito chegando a um restaurante.

"Emma Watson chegando em badalado restaurante londrinho acompanhada por modelo da marca Burberry." – The Hollywood Gossip

Quase cuspi meu café, precisando ler o título mais duas ou três vezes para assimilar os fatos. Por um instante, senti uma satisfação bizarra ao me dar conta de que meu pequeno encontro com Emma tinha se tornado algo de conhecimento mundial.
A simples hipótese de estar ciente de tal acontecimento fazia com que uma estranha sensação de dever cumprido tomasse conta de mim.
Vergonhoso, é claro. Contudo, aquela era a minha vida. Tentar chamar a sua atenção, descobrir se existia algum resquício de ciúmes em seu interior. Sem sucesso. Pelo menos até aquele momento. Tudo bem que meu nome nem tinha sido mencionado, mas não seria necessário.
Eu sabia que me reconheceria em qualquer lugar.

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Praguejei a baixa temperatura que me obrigou a colocar luvas e um sobretudo preto durante o caminho até a área de moradia da universidade após receber uma mensagem de Jay, me dizendo que não teríamos plantão naquela noite.
Alívio.
Permaneci distraído com minha respiração visível pelo ar, me esforçando para não perder minha mochila e uma pequena mala de mão pelo caminho. Especialmente as garrafa de whisky.
Encontrando a mais plena escuridão, joguei meus pertences em qualquer lugar e vaguei pela extensão escura do apartamento, ligando a televisão enquanto me dirigia até a cozinha e verificava se ainda existia algo comestível na geladeira. Retirei dali uma pizza congelada e a coloquei no micro-ondas, me largando sobre o sofá. Não me importei em ligar a luz, retirar os tênis ou qualquer outra coisa. Quando estava prestes a pegar no sono – o que resultaria em uma pizza queimada e grudada pelo interior do micro-ondas –, ergui meu tronco com rapidez e abri bem os olhos ao avistar aquele rosto em minha televisão.
O programa transmitido lembrava uma daquelas premiações cheias de frescuras, e estava subindo ao palco enquanto o som de aplausos a fazia alargar o sorriso.
Resistente a respeito de desgrudar meus olhos da imagem da mulher que conseguia eliminar todo o meu fôlego sem nem mesmo estar próxima, decidi que estava na hora de ceder a inconsequência que somente um bom whisky poderia proporcionar. Sem me importar com a pizza, segui até onde havia deixado a garrafa.
Entornei um copo, dois... Aos poucos, não parecia mais tão difícil pensar nela. Estava se tornando até que divertido e muito irresistível.
Aos poucos, minha sobriedade ia embora.
Avistei meu violão apoiado sobre um suporte em uma das paredes, já arrancando minhas luvas e o sobretudo, seguindo até o instrumento para pegá-lo. Assim que também retirei minha jaqueta o peguei pelo braço, voltando a deixar meu apartamento e rumando até o campus que deveria estar sendo assombrado pelos fantasmas dos fundadores àquela hora da noite.
Bêbado demais para sentir que congelaria a qualquer momento, larguei o violão sobre o gramado e admirei toda a bela construção ao meu redor, não acreditando na sorte que tinha por estar ali. Apesar das minhas pernas não responderem meus comandos como o esperado e minha visão estar parcialmente turva, tive reflexos o suficiente para abaixar o zíper da minha calça, a tirando com tanta dificuldade que acabei caindo sentado no chão, rindo feito um idiota.
Ouvi meu nome ser chamado, mas não me virei para checar, pois poderia ser uma alma penada.
Após conseguir ficar de pé novamente, mantendo uma espécie de monólogo débil a respeito de como eu odiava sentir frio e odiava ainda mais meu autocontrole inferior a nada, abaixei minha boxer, rindo da sensação proveniente do ar congelante que atingiu a região.
- SUAS BOLAS VÃO CONGELAR E CAIR, SEU BABACA! SAI DAI! – reconheci a voz de Jason, o mandando um dedo do meio e depois que fosse à merda antes de me abaixar para pegar meu violão, o posicionando de modo que consegui esconder que estava pelado.
Comecei a dedilhar sem perceber, esforçando minha audição embriagada para conseguir ouvir a melodia formada. Sorri, olhando para o céu nublado acima da minha cabeça, sem qualquer mínima estrela.
Era uma péssima noite para ser romântico, aliás.
- ESSA MÚSICA É PARA VOCÊ! – berrei, apontando para o céu como se, dessa forma, pudesse me ouvir. – EU TE AMO, MULHER! EU TE AMO TANTO QUE ARRANQUEI AS MINHAS ROUPAS POR VOCÊ, VEJA SÓ! – a probabilidade de acordar toda a região se tornava mais provável a cada segundo.
Não me importei.
Continuei andando de um lado para o outro, ignorando o frio em regiões indevidas.
- NÃO SEI QUAL É A PORRA DO SEU PROBLEMA, PORQUE ESSA MERDA DE SERMOS AMIGOS ESTÁ DESTRUINDO A MINHA VIDA HÁ, SUA MALUCA! – ergui ainda mais o meu tom de voz, rindo durante um desabafo ou outro. – MAS APESAR DE SER ASSIM TÃO MALUCA, MANDONA, PETULANTE E CRUEL COM O MEU CORAÇÃO, APESAR DE TER DIAS EM QUE EU SÓ CONSIGO TE ODIAR, SEMPRE LEMBRO DE TUDO QUE VOCÊ ME FEZ SENTIR E... – fiz uma pausa, negando energicamente com a cabeça, incrédulo com minha própria realidade. – EU TE AMO! PUTA QUE PARIU, COMO EU TE AMO! Eu te amo... – choraminguei, fechando os olhos por um instante de plena fraqueza.
Ouvi quando alguém mandou eu ir me foder e tacou alguma coisa na minha região, mas continuei não me importando.
- ME DIZ COMO EU DEVO CONTINUAR COM ISSO, POR FAVOR. Por que... – neguei com a cabeça. – Eu não sei mais, . Juro que não sei. – respirei fundo, já ofegante.
Olhei ao redor, sem conseguir enxergar o que estava a mais de um metro de distância da minha visão. Então, voltei a produzir uma melodia qualquer com as cordas do violão.
- E se eu perder os meus testículos por causa do frio hoje à noite... Saiba que a culpa foi toda sua, ! Toda sua! E azar o seu. – uma corrente de ar ainda mais gélida me fez engolir em seco, mas sem desistir da única loucura que pareceria um pouco sensata. – E meu, também.
- There's something in your eyes, is everything alright? You look up to the sky, you long for something more, darling... – comecei a cantar, sorrindo enquanto conseguia me recordar dos bons momentos com a letra cantada.
Poderia estar bêbado e nu, mas ninguém poderia dizer que aquilo não era romântico. Eu tinha meus defeitos, vários deles, mas se existia uma coisa que eu sabia fazer como ninguém mais... Era me deixar levar pelo que sentia.
E minha voz só se tornava estranhamente aceitável para cantar quando eu estava bêbado, então... Por que não aproveitar a chance?
- Give me your right hand, I think I understand. Follow me and you will never have to wish again... – um filme do meu relacionamento com continuava a ser exibido em minha mente, um lembrete do valor do que costumávamos ter. Um lembrete do valor que aquela garota de risada engraçada e olhar ardiloso tinha para mim. Maior que qualquer outra coisa no mundo. – I know that after tonight, you don't have to look up at the stars. No, no, no, no. – prossegui com ainda mais empenho, realmente me portando como se estivesse me apresentando em uma espécie de show liberal o bastante para que o uso de roupas não fosse obrigatório.
Em uma espécie de lamentação, finalizei minha loucura, abrindo os braços e explicitando todo o meu corpo ao inverno europeu, como se quisesse agradecer – e também morrer de pneumonia no dia seguinte.
Então, meus joelhos cederam, fazendo com que eu caísse sobre a relva, me sentindo como se já estivesse voltando para a realidade aos poucos.
Sem acreditar.
- E... CORTA! – ouvi alguém berrar, mas pouco me importei em tentar compreender o sentido daquela sentença e continuei travando meu maxilar para impedir que meus lábios tremessem de frio.
Não demorou muito para que minha vida se transformasse em borrões coloridos que se movimentavam rápido, me deixando desnorteado.
Eu sabia que já estava vestido de novo, mas não sabia como ou quem me conduzia de volta até o apartamento.
A última coisa que consegui lembrar antes de apagar instantaneamente tinha relação com a certeza de que meu corpo estava sendo jogado contra uma superfície confortável, provavelmente uma cama.
Implorei aos céus que fosse a minha cama.
Ou a dela, na melhor das hipóteses.


05 - The Naked Truth

Narrando:

O apocalipse se aproximava veloz. E de fato seu ponto de partida era dentro da minha cabeça.
De todos os clichês do mundo, aquele estava sendo um dos piores. Sentir falta de uma garota. Beber até cair. Ressaca. E depois o processo se repetia, de novo e de novo.
Levantei da cama com um esforço sobrehumano, não sabendo se me arrastava até o chuveiro ou se ficava por ali mesmo, largado em algum canto do recinto, usufruindo de toda a minha fraqueza pessoal. Nunca fui fraco com bebida, mas era muito, muito fraco com ressacas.
Identifiquei o som da televisão, caminhando até a sala e dando de cara com Jason deitado no meu sofá, mudando despreocupadamente de canais. A bolsa cheia de frescuras de Mia também estava ali, o que evidenciava que, pelo menos, eu tinha amigos prestativos. Ou eles só estavam se aproveitando da minha TV à cabo, mesmo.
- Sem chance. Não vou te falar a senha dos canais privados. – resmunguei, me largando sobre um espaço vago no outro sofá.
- Não precisa falar, eu descubro sozinho. Vamos ver... – meu amigo sorria presunçoso enquanto apertava os botões e soletrava aquele maldito nome, o nome "", fazendo com que eu me esforçasse para ficar de pé e tomasse o controle remoto das suas mãos com certa violência. Senti como se metade dos meus neurônios tivesse acabado de explodir durante o feito. E, não, a senha não era "", porque um pouco de bom senso ainda me restava. Era "Todasaquelasquenuncaserãoela". – Ok, seu egoísta, vou lembrar disso da próxima vez que você encher a cara.
- Você dormiu aqui? – perguntei distraído, mantendo os olhos fechados, massageando minhas têmporas esporadicamente.
- Dormi o caralho, você ficou vomitando durante a madrugada feita uma grávida com hiperêmese gravídica! – Jay ralhava feito uma senhora durante a menopausa, gesticulando com as mãos enquanto relatava o quão puto da vida estava comigo.
- E você ficou segurando a minha cabeça, Jay? – gracejei, me arrependendo quando constatei que rir fazia meu crânio latejar.
- Da próxima vez vai morrer engasgado com o próprio vômito, seu otário! O que diabos tem na cabeça para fazer uma serenata para o nada?! E PELADO?
Franzi o cenho, não sendo capaz de duvidar das suas palavras. Sabia que eu era impulsivo e idiota o suficiente para ter atitude semelhante.
- Fiz isso? Wow, eu me supero. – concluí, um pouco resignado, ficando de pé na intenção de dar um jeito em minha situação deplorável.
- Sem contar a hora que você voltou a querer ficar pelado, subiu naquela mesa ali e começou a cantar Candy Shop. – ele riu. – I got dat magic stick, I'm the Love Doctor... – Jay fazia uma imitação bizarra do 50 Cent, se divertindo com a minha desgraça.
Eu teria rido também se minha cabeça não estivesse prestes a explodir.
- Se fode, Jay. – praguejei.
- Se eu fosse você, ficaria longe da internet hoje. – Jason aconselhou um tempo depois, dando de ombros e fingindo que não era nada de mais.
- Por que eu deveria ficar longe da internet? – investiguei, colocando apenas minha cabeça para fora da porta do banheiro.
- Ah, sabe como é... Tem muita nudez na internet.
Não dei atenção àquela explicação, supondo que Jay estava apenas fazendo suas piadas rotineiras.
Após finalizar meu banho, segui apenas com uma toalha enrolada na cintura até meu armário, na intenção de encontrar algo para vestir.
Sem vestígio algum dos meus amigos, suspirei e tentei recordar o que tinha acontecido na noite anterior assim que cheguei a Oxford.
Nada.
Era como ter um blackout mental por algumas horas. Bom, considerando o fato de que não havia uma garota nua na minha cama – ou duas –, eu provavelmente não tinha extrapolado tanto assim.
Talvez tivesse sido apenas uma dose atrás da outra, um pouco de memórias agridoces, um pouco de choro – bêbados choram –, e, enfim, apaguei.
Vesti os jeans e uma camiseta preta, agradecendo pela manhã que teríamos de folga. Preparei um café bem forte após escovar os dentes cerca de três vezes e tomar dois comprimidos para a dor, ignorando os conselhos de Jason a respeito de ficar longe da internet.
" recebe homenagem inusitada de suposto fã. Clique aqui para ver o vídeo completo e tire suas próprias conclusões..."
Ergui uma sobrancelha, não aprovando de forma alguma o gesto do indivíduo até então desconhecido. Seja lá quem fosse, eu o odiava. Sim, costumo ter a idade reduzida para cinco anos durante a manhã. Especialmente quando estava de ressaca.
Sem hesitar, cliquei para ver o vídeo postado no Youtube, meneando de forma negativa com a cabeça ao constatar a quantidade de visualizações. Quase cem mil visualizações.
Em seguida, li o título, não sabendo mais se ria ou se ia procurar algo mais produtivo para fazer com a minha vida.

"The Naked Truth (, essa é para você!)"

Assim que apertei "play", tentei forçar meu cérebro a processar a sequência de imagens que meus olhos abismados enxergavam.
Aquele era o campus de Oxford?
Senti meus olhos prestes a saltarem das órbitas, segurando a caneca de café com tamanha força que logo acabaria a quebrando por entre meus próprios dedos.
Porra! Aquela era a minha bunda?!
E como tiveram a petulância de me chamar de "suposto fã"?
Uma a uma, lembranças da noite anterior começaram a surgir feito estalos pela minha mente. Proferindo todos os palavrões que conhecia – e alguns que devo ter criado na hora –, choquei a caneca contra a mesa, sentindo minha respiração acelerar conforme eu ficava de pé e seguia inconscientemente em direção a porta do apartamento.
Não me importei em ver todo o vídeo, não fiz questão de ser ainda mais exposto ao ridículo.
Tudo que eu sabia era que cometeria um assassinato naquela ensolarada e maldita manhã.

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- Me dá um bisturi, Mia! – esbravejei, percorrendo os olhos por todos os cantos inimagináveis onde um mortal bisturi poderia estar. Por mais que Mia não guardasse bisturis em sua gaveta de talheres.
Senti que explodiria a qualquer momento e meu rosto deveria estar tão vermelho quanto o sangue fervendo que corria frenético pelas minhas veias.
- , calma, eu posso explicar... – Jason ia recuando passos, suas gargalhadas cresciam conforme o mesmo acontecia com a minha ira.
Tentei alcançá-lo, quase grunhindo de tanta fúria ao vê-la se colocar atrás de uma mesa, impedindo que seu rosto fosse atingido por um dos meus socos.
- EU VOU COLOCAR O SEU CÉREBRO NO LUGAR DO SEU PINTO E O SEU PINTO NO LUGAR DO SEU CÉREBRO, SEU INFELIZ, DESGRAÇADO, FILHO DE UMA...
- Ok, espera ai. – Mia se intrometeu com uma calma impressionante, checando algo no notebook. – Você já tem fãs! Olha só esses comentários...
Após trocar um olhar alerta com Jay, desisti do meu massacre por um instante, caminhando sem vontade até minha amiga. Encarei a tela do computador, fechando os olhos com força ao me dar conta do tanto de visualizações que aquela porcaria conguia com o passar dos segundos.
O vídeo tinha se tornado algo viral.
Mia desceu a página, então, me mostrando alguns dos comentários.

"Queria que alguém fizesse algo assim para mim LOL"
"Meu Deus, que lindo! <3"
"Lindo de morrer e ainda tem todo esse senso de humor... Tem certeza que você existe, cara?"
"Uau, que corpinho. hihi"
"Romântico! é uma garota sortuda :)"
"Oh my, que traseiro ;))))"
"O FORNINHO CAIU! #soubrasileiramesmoseviremgringosbj"
"Coloquem esse cara na televisão! Ou na minha cama! hahahahah #justsaying"

Certo, aquilo não podia estar acontecendo.
Levei os dedos trêmulos até meu couro cabeludo, os fixando ali como se com isso pudesse arrancar alguma solução do meu cérebro que trabalhava em excesso, dolorosamente. Eu poderia tentar levar na brincadeira, poderia ignorar e esperar pelas consequências que eventualmente desapareceriam, mas não conseguia fingir. Não conseguia fingir que a enorme possibilidade de ter conhecimento de toda aquela declaração embriagada de amor – de toda aquela palhaçada! – me deixava apavorado.
Não menti em momento algum, mas eram verdades que eu não sabia ao certo se queria tornar do seu conhecimento, pelo menos não de forma tão ridícula.
- Pensei que tinha amigos nessa porra de universidade! – bradei, ameaçando deixar o apartamento de Mia, mas senti as mãos de Jason me puxarem pelos braços.
Movimentei ambos com força na tentativa de me desvencilhar dele, fechando os olhos com força.
- Poderia ter sido pior... – Mia começou, conquistando um olhar incrédulo da minha parte. – O Jay cortou a parte em que o seu pênis aparece por inteiro. Onde dá para ver a inicial do nome dela tatuada em uma das suas entradinhas e... – a garota não conseguiu terminar, foi acometida por uma crise de risos que só fez meu sangue ferver ainda mais. Se é que era possível. – Sério, ?! Vejamos... – fingiu estar pensativa. – Você tatuou a letra inicial do nome dala? Fez mesmo essa homenagem para a ?!
- Sim, a porcaria da tatuagem é a inicial do nome dela e eu fiz quando, pasmem, estava bêbado. Estão satisfeitos? Ótimo, porque eu não estou! – abri a porta com força, cessando meus movimentos ao ouvir ambos pedirem que eu não fosse tão cruel, alegando que, na verdade, estavam me fazendo um favor.
Insinuando que eu vinha sendo um belo de um covarde nos últimos anos e que estava na hora de deixar – e todo o mundo – saber o que eu sentia a respeito de nós dois. Apesar de encontrar um fundo de verdade ali, não tive paciência para reatar qualquer conversa, deixando o local e retornando para o meu prédio.
Por sorte, ninguém por ali parecia estar ciente da minha nova realidade: estar famoso no Youtube.
Por enquanto, é claro.

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Meus olhos por trás das lentes dos óculos de leitura tentavam se manter concentrados em diversos artigos que prometiam um futuro ainda mais inovador para a Medicina, mas minha cabeça parecia estar em outro lugar. Um lugar muito distante da Inglaterra, aliás. Não tive coragem de abrir qualquer tabloide naquele início de tarde, pois sabia que me arrependeria amargamente.
Respirei devagar, mordendo minha boca até senti-la formigar.
Larguei o notebook por um instante, sentando sobre uma das beiradas da cama e apoiando meus cotovelos nos meus joelhos, refletindo sobre quais eram as decisões plausíveis a se tomar.
O silêncio relaxante que preenchia todo o quarto não demorou a ser rompido pelo som característico vindo do notebook, indicando que havia um pedido para uma chamada em vídeo, fazendo com que meu coração fizesse uma viagem vertiginosa até a minha garganta.
Temendo quem poderia ser – na verdade, eu já sabia –, puxei o notebook para perto um pouco hesitante, ensaiando mil e uma explicações antes de clicar em "aceitar".
Seis meses.
Seis malditos meses que não nos falávamos e agora deveria estar me odiando. Expus sua imagem ao ridículo, provavelmente a fiz ser alvo de diversos sites, de paparazzi inconvenientes e todo o resto. E o principal: devo ter sido o responsável por uma briga e tanto entre ela e o namorado.
Bom, talvez não estivesse arrependido daquilo.
Encarei a tela a minha frente, que logo revelou a imagem da mulher com os cabelos, uma blusa vermelha com decote misterioso e um sorriso calmo demais para as atuais circunstâncias. Calmo demais para quem via meu rosto depois de meses.
Bom, talvez eu já não lhe causasse mais tanto efeito assim.
Sem saída, imitei seu sorriso, fingindo que tudo estava pacífica e tediosamente bem, como sempre.
- Oi, . – ela começou, a voz branda. Tentei esconder a felicidade que senti por ouvi-la dizer meu nome, pois sempre soava tentador demais. Engolindo em seco, passei os dedos sobre os meus cabelos curtos, mordiscando o interior da minha bochecha.
- Oi... Oi, . – balbuciei, olhando ao redor do meu quarto na tentativa de disfarçar meu nervosismo. Pensei em dizer o quanto ela estava linda, mas conhecia aquela mulher o suficiente para saber que elogios fáceis não a derretiam. – Como você está? - perguntei sorridente, a vendo confirmar com um menear de cabeça.
Porra, eu estava tão fodido!
- Ótima, não poderia estar melhor. – estranhei sua veemência ao afirmar, reconhecendo a ironia em sua voz. Claro, ela sempre era assim. Irônica demais quando brava. – E você? Como se sente agora que mostrou a bunda, não apenas para todo mundo, como também para TODO O MUNDO? – arregalei os olhos, tentando falar, mas ela, mesmo que estivesse atrás da tela de um computador, ergueu um dedo, me impedindo. Nem tínhamos mais uma relação, mas continuava a se comportar como o "homem" da mesma – longe da cama, claro.
Eu, sem mais escolhas, fiquei quieto.
Odiava admitir até mesmo para os germes presentes no ar, mas, mesmo depois de anos não sendo mais seu namorado, ainda permanecia totalmente de quatro por ela.
Checava seu twitter de hora em hora, apenas para descobrir como estava sendo seu dia e remoer memórias graças as fotos pessoais que ela postava.
Recebia olhares atravessados dos donos de bancas de jornais quando chegava em uma delas e perguntava se a última edição da Marie Claire, Women's Health, Cosmopolitan ou InStyle já estava disponível, pois era quem estampava a atual capa.
- COMO SE SENTE AGORA QUE PROVOU PARA O MUNDO INTEIRO QUE NÃO É MAL DOTADO? Feliz? Arrependido? Talvez... Realizado?
Incrível como meu pênis sempre acabava surgindo na conversa.
Espera ai. estava brigando comigo porque fiquei pelado?
Ela não estava brigando comigo por ter tido seu nome mencionado durante o meu... Show?
- Você ouviu o que eu disse ao seu respeito? – arrisquei com o cenho franzido, temendo o pior.
- Não, porque eu estava ocupada demais olhando para o seu pênis que, por cinco segundos, ficou exposto quando você levantou o violão para agradecer! – ela bradava sincera, pouco se importando com o volume alto de sua voz. Suas bochechas enrubesciam aos poucos, e seus cabelos feitos em ondas seguiam os movimentos nada delicados do seu tronco. Sexy. – É claro que ouvi, . – decidiu revelar, cabisbaixa, agora me medindo como se eu fosse um cachorrinho sem lar.
- Não preciso desse olhar de pena, . Você sabe que não preciso. – devo ter soado mais rude que o esperado, mas ainda estava com raiva.
Ainda estava amaldiçoando meus lapsos de bom senso e falta de coragem para olhar em seus olhos, bem ali, e repetir tudo.
Com roupas dessa vez.
Sabia que não deveria ter feito o que fiz, mas tinha sido bem mais forte do que eu.
Abri um sorriso triunfante ao continuar recebendo apenas seu silêncio, cruzando meus braços a altura do peito. Pouco me importava que a comunicação entre nós tivesse sido precária nos últimos meses. Era com que eu falava... E nós nunca seríamos um assunto encerrado, se é que me entende.
- Bom saber que você sente falta do meu pênis, a propósito. E ciúmes dele, também. – comentei presunçoso, satisfeito por fazê-la bufar e se preparar para me xingar de todos os nomes possíveis.
- Não adianta ter ciúmes do seu pênis, até porque você já deve ter mostrado ele para toda a população feminina de Oxford, mas... – sua voz falhou, e, por um segundo, pude jurar ter visto seu olhar de mulher-super-confiante-e-fatal se esconder, inseguro. Triste. Me senti um lixo. – Quer saber? O problema é seu. Esquece que eu te chamei aqui, vá continuar o seu show, quem sabe sem violão dessa vez. Não me importo. – pude jurar ter enxergado um vislumbre de bico infantil se formar pelos seus lábios comprimidos, exatamente como ela costumava fazer quando namorávamos e eu me recusava a assistir a comédia romântica do momento.
Ou a pintar as suas unhas dos pés.
Ou acordar logo nas manhãs de sábado.
- Não mesmo? – desafiei, a vendo mordiscar o lábio inferior. – Se você me pedir com jeitinho, eu paro de mostrar ele para qualquer uma. Mas só se puder mostrá-lo só para você. – sim, eu estava sendo mais depravado do que costumava ser. A culpa sempre seria dela, por me deixar louco com a sua simples visão.
- Qual é o seu problema, ?! Eu tenho namorado! – alfinetou boquiaberta, os olhos permaneciam um pouco esbugalhados. Ri com gosto, relaxando mais meu corpo sobre a cama, de maneira que pude encostar minhas costas na cabeceira.
- Devo zelar pela nossa amizade e fingir que me importo? Você tinha namorado há seis meses e não teve problema algum em aceitar receber um oral. Meu.
- Você não imagina como estou te odiando agora, . – apesar do tom colérico de voz, notei que se esforçava para não rir.
- Isso sempre deixa o sexo mais selvagem. Já testamos, lembra? – reforcei meu sem-vergonhismo, a deixando mais estupefata a cada segundo. – E desde quando você é assim tão... Comportada e casta? Um pouco tarde para isso, não acha?
Seus olhos flamejaram, talvez mais do que nunca antes tive o prazer de presenciar. De repente, não existia mais qualquer resquício de uma inocência forçada que só Deus sabia o motivo de sustentar.
- Vou te mostrar quem é comportada e casta.
Chamada encerrada.
O que ela faria? Correria nua por Venice Beach? Pelo píer de Santa Monica?
Eletrizado. Eu estava totalmente eletrizado. Sentia que tinha acabado de... Brincar com fogo.
E sabia muito bem que aquilo não estava terminado. Nós dois nunca estaria terminado.
Então, esperei ansioso para as chamas começarem a me atingir.

Narrando:

Los Angeles, CA.

Quando percebi, já tinha atirado rumo à parede o travesseiro que costumava ser de .
Quando percebi, estava deitada sobre a cama, processando as informações de forma lenta, caso contrário meu cérebro entraria em pane.
Não era ódio que eu estava sentindo, mas também não poderia classificar minhas reações com nada semelhante a alegria.
Primeiro as notícias do seu encontro com Emma Watson.
Depois... Aquele vídeo.
Parte de mim ainda queria rir. Outra queria gritar de euforia. E a outra... Bom, a outra estava furiosa.
Principalmente devido a nossa última conversa.
Eu sabia muito bem que "polido" não seria uma boa definição para em seus anos de universidade, mas ter conhecimento da sua falta de vergonha na cara em publicar um vídeo onde aparecia pelado e cantando uma música romântica com direito a violão e tudo...
Céus, tinha sido a gota d'água.
Ao observar seu rosto ligeiramente lívido e imóvel do outro lado da tela, os motivos que me fizeram xingá-lo mentalmente por algumas frações incômodas de segundo não existiam mais. Tudo que eu conseguia pensar era no fato de como os anos, aqueles poucos anos que transcorreram tão rápido, o fizeram bem, por mais que sempre afirmasse o contrário.

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Agradeci aos céus por – ao desistir do conforto de minha cama para encarar mais um dia repleto de compromissos – encontrar Sebastian despreocupadamente atrás da bancada da minha cozinha, preparando smoothies de manga e morango para nós.
Estava vestido de forma casual, dando a entender que, após o café da manhã, iríamos passear pelas ruas de Beverly Hills, como se não tivéssemos preocupação alguma na mente.
De repente, concluí que lhe presentear com uma cópia da chave do meu apartamento – feito o mesmo com Mag – tinha sido uma das minhas melhores ideias.
Estendi os braços como se algo sensacional me aguardasse, mas tudo que eu queria consistia naquela bebida gelada que não faria um milagre em minha mente, mas pelo menos faria no meu estômago.
- Calma, garota, não tem álcool no smoothie. – Sebs alertou despreocupado, comendo um morango enquanto se aproximava para me abraçar.
Aproveitei um ombro amigo para acomodar minha cabeça, finalizando a bebida em seguida.
- Você acha que eu sou boa moça demais? Muito certinha? Muito irritante? – investiguei, o olhando com curiosidade. Depois de encarar o pijama não muito sexy que eu vestia, meu amigo riu, dando de ombros e se afastando em direção ao meu closet, como sempre costumava fazer.
Segui em seu encalço, ainda esperançosa por uma resposta.
- É ridículo como até esse pijama de ursinhos sem graça consegue te forever. – ele resmungava sorrindo enquanto observava um dos meus vestidos não tão sofiscados, ideal para coquetéis ou entrevistas. – Conta para mim o que aconteceu, vai. – demonstrando preocupação com as rugas de inquietação formadas pela minha testa, Sebastian desprendeu a atenção dos vestidos e se aproximou, tomando uma mecha do meu cabelo com os dedos para enrolá-la, sorrindo um dos seus sorrisos mais reconfortantes, um que fazia com que eu me sentisse como se estivesse de frente para um verdadeiro irmão mais velho.
Quer dizer, ele era algo ainda melhor que isso.
Meu melhor amigo.
- Não acredito que você não sabe! – exclamei abismada, realmente estranhando o fato de que Sebs não havia comentado nada sobre o vídeo de . – Há quanto tempo não usa a internet, Sebastian?
- Internet é para fãs, desocupados, fofoqueiros e solteirões. Eu estava em um encontro ontem, detalhes mais tarde. – fez charme ao confidenciar, me fazendo rir e esquecer dos meus problemas por um instante.
- O tal Troy? – demonstrei interesse, postando minhas mãos sobre um dos seus ombros.
- O tal Troy que é realmente "O tal".
Voltei a rir com as aspas sugestivas feitas pelos seus dedos, o puxando pelo braço para que saíssemos do meu closet e eu pudesse contar todo o ocorrido.
Sebs se largou sobre o sofá, tão sedento por informações que quase tive medo dos seus olhos esbugalhados na minha direção.
Sem me importar com sua crítica a respeito do meu pijama, continuei com o mesmo, alterando apenas meus cabelos, que agora estavam presos em um rabo de cavalo.
E contei tudo, absolutamente tudo ao meu amigo.
- Foi isso. Eu ainda não acredito, ainda acho que estou sonhando. – finalizei, precisando balançar minha mão espalmada no ar para verificar se Sebs continuava na mesma órbita que eu.
A sua boca entreaberta e as mãos que aos poucos conquistavam movimentos frenéticos me fizeram relaxar o corpo sobre o encosto do sofá, sugando o máximo de ar que consegui.
- PELADO? TOTALMENTE PELADO? CADÊ ESSE VÍDEO, PELO AMOR DE DEUS?! – ele tentou ficar de pé, mas fui mais rápida ao lançar com violência uma almofada na sua direção.
- VOCÊ NÃO ESTÁ ME AJUDANDO! – resmunguei, cruzando os braços a altura de meu peito. – Daqui a pouco a Natalie vai me ligar surtando, os tabloides vão descobrir quem é o homem do vídeo e... – suspirei. – Mas que merda... – levei as mãos até o meu rosto, o cobrindo por segundos.
Senti as mãos carinhosas de Sebastian sobre meus ombros, então, tentando me tranquilizar.
- Relaxa, vamos dar uma volta por ai. Você precisa espairecer um pouco. – ele não demorou a ficar de pé e me puxar para fazer o mesmo, me levando até o closet novamente e escolhendo o que eu deveria vestir no dia.
Sem objeções, fui tomar um banho rápido e logo estava pronta.

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", o que diz a respeito dos rumores de que você conhece o rapaz do vídeo The Naked Truth? É verdade? Ele é um ex namorado ou o seu amante?"
"O que seu namorado achou daquela declaração? Isso vai afetar o relacionamento de vocês?"
"Você pretende "responder" ao vídeo The Naked Truth?"

Ignorei a aglomeração dos paparazzi, ajeitando meus óculos escuros e fingindo que não era comigo.
Cheguei mais cedo que o recomendado ao estúdio local da GQ, mas minha pontualidade excessiva acabou por ser uma vantagem. Eu teria tempo para conversar com os fotógrafos e toda a equipe envolvida a respeito de como desejava que o ensaio fosse feito. Sim, se eles queriam a minha imagem em sua revista, teria que ser da minha maneira.
tinha razão em afirmar o quão mandona eu era. E sempre seria, era algo que simplesmente fazia parte de mim.
Sem sinal de intrometidos de plantão, adentrei o prédio com rapidez; vestia apenas um jeans justo, botas sem salto e um moleton preto com os dizeres "I Woke Up Like This", retirando os óculos escuros enquanto aguardava Natalie, que no momento deveria estar presa em algum engarrafamento.
Um dos responsáveis por toda a edição da revista surgiu sorridente, me cumprimentando com uma disposição exagerada, evidenciando o quanto minha presença tinha sido requisitada por ali. Sorridente, eu o segui até o andar designado para o ensaio, sendo apresentada a ninguém mais, ninguém menos, que Brandon Cooper – sim, o ator bonitinho que estava participando do filme mais recente de Julian, que tinha demonstrado preferir muito mais concentracenar comigo do que com a tal Kelsey Parrish.
Seu olhar adquiriu um aspecto estatelado assim que o ator notou minha presença, estendendo a mão trêmula na minha direção.
- Fique tranquilo, eu sou de carne e osso, assim como você. – garanti a ele pouco antes de ouvir as instruções do responsável pelo ensaio para que eu seguisse até a área de maquiagem e figurino.
- Mas você é muito linda, eu não consigo... Aquele dia, quando ensaiamos juntos no set, foi incrível e...
Levei meu dedo indicador até os seus lábios, impedindo que terminasse. Com um sorriso gentil, apenas me afastei, o deixando estagnado em algum ponto atrás das câmeras.
Retirei meu roupão dentro de uma espécie de camarim, onde estava sozinho, encarando meu corpo nu através do reflexo do espelho, retirando o celular da minha bolsa e, sem pensar nas consequências, comecei a me fotografar.
Sorri, me sentindo sexy. E imaginando a cara de ao receber aquelas fotos.
Verdadeiras nudes.
Depois de um ensaio repleto de roupas de grife e poses ousadas com Brandon – que não conseguia parar de babar –, respondi a diversas perguntas para a entrevista.
Ao finalizá-la, percebi o ator me encarando interessado de um dos cantos do estúdio, caminhando com um sorriso arteiro na sua direção. Ainda usando as enormes botas de latex e uma lingerie perigosamente sexy.
- Tchau, Brandon, foi um prazer trabalhar com você! De novo. – dei um beijo estalado no seu rosto. – Nos vemos em uma próxima? – não deixei de soar feliz ao acenar em despedida, o ouvindo titubear para tentar me responder.
Caminhei para longe, provavelmente o deixando imóvel no mesmo ponto de antes.
Dirigi-me até o laboratório onde as fotos seriam tratadas e selecionadas, mas não pensei duas vezes antes de exigir um CD com todas elas, pois tinha uma sequência de mais planos ligeiramente pecaminosos.
Assim que concluímos o ensaio e eu voltei a vestir minhas roupas normais, peguei um elevador e bufei ao receber uma mensagem de Natalie, pedindo que eu fosse encontrá-la no seu escritório. Como o engarrafamento de Los Angeles a tinha impedido de chegar ao estúdio, ela tinha decidido retornar e me contatar mais tarde.

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Recebi a permissão de sua secretária para adentrar seu escritório, constatando que Natalie não estava ali, mas seu telefone tocava e, segundos mais tarde, caiu na caixa postal.

"Senhorita Wickham, estou ligando para confirmar sua consulta com o Doutor Hannigan amanhã, na clínica Hannigan de Psiquiatria. Por favor, entre em contato assim que puder."

Congelei qualquer movimentando e franzi o cenho, quase pulando de susto quando, segundos mais tarde, minha agente surgiu no recinto em um rompante furioso.
- Você sabe me explicar o que foi aquela palhaçada que já teve quase meio milhão de visualizações no Youtube?! – sua voz branda não me enganaria nem mesmo em um milhão de anos. A expressão "Depois de tempestade, sempre vai a calmaria" funcionava de forma oposta com Natalie. – Você não tinha terminado com aquele rapaz? POR QUE DIABOS ELE FEZ AQUILO, ?!
Fechei os olhos por um instante, prendendo o ar nos meus pulmões e o soltando durante os dez segundos que contei mentalmente até dez.
Estava chegando a um limite que não rendaria qualquer mísero tipo de alegria a ninguém. Estava me sentindo tão sufocada que, por um instante, senti que perderia os sentidos.
- Natalie, me deixa respirar. – murmurei, ainda sem encará-la. – Me deixe respirar como um ser humano comum por cinco segundos! E pare de gritar! – encontrei coragem para erguer o tom da minha voz, ficando a sua frente. A mulher permanecia imóvel, me encarando sem expressão. – Eu pago a porcaria do seu salário, então acho que, só dessa vez, tenho o direito de te mandar calar a boca, pelo amor de Deus!
Ela bateu os cílios, tentando processar tudo que tinha acabado de ouvir.
- Não se esqueça que é hoje a gravação para o programa da Ellen e... – ergui apenas um dedo antes de adentrar de me dirigir até a porta, decidindo que não mais a deixaria comandar até mesmo minha respiração.
- Vou falar como e sobre quem eu quiser falar, estamos combinadas? Não sou uma menina de quinze anos que precisa de instruções sobre como se comportar em público. – garanti, inabalável. – Não tenho vergonha da minha vida pessoal, não tenho vergonha do cara que aparece naquele vídeo. Se tudo isso te incomoda, o que ainda faz aqui, no meu mundo, trabalhando para mim?! – finalizei a sentença já com a porta aberta, voltando a colocar meus óculos e fones de ouvido para eliminar qualquer probabilidade da mulher iniciar alguma conversa paralela.
Detestava perder as estribeiras com qualquer um, mas também precisava aceitar que não era feita de pedra.
- Me desculpe, . – Natalie pediu, mas soava extremamente falsa. Ousando até um sorrisinho que beirava a uma espécie irritante de provocação. – Não vai acontecer de novo.
- Não mesmo, porque você está demitida.
Dito isso, saí pela porta sem olhar para trás, pouco me importando que tinha acabado de ganhar uma possível inimiga chamada Natalie Wickham.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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